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authorRoger Frank <rfrank@pglaf.org>2025-10-15 04:52:49 -0700
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@@ -0,0 +1,8757 @@
+The Project Gutenberg eBook of A Cidade e as Serras, by Eça Queirós
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and
+most other parts of the world at no cost and with almost no restrictions
+whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms
+of the Project Gutenberg License included with this eBook or online at
+www.gutenberg.org. If you are not located in the United States, you
+will have to check the laws of the country where you are located before
+using this eBook.
+
+Title: A Cidade e as Serras
+
+Author: Eça Queirós
+
+Release Date: April 21, 2006 [eBook #18220]
+[Most recently updated: December 8, 2022]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: UTF-8
+
+Produced by: Rita Farinha and the Online Distributed Proofreading Team
+
+*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK A CIDADE E AS SERRAS ***
+
+
+
+
+EÇA DE QUEIROZ
+
+A CIDADE E AS SERRAS
+
+
+PORTO
+
+LIVRARIA CHARDRON
+
+De Lello & Irmão, editores
+
+1901
+
+Todos os direitos reservados
+
+
+
+
+EÇA DE QUEIROZ
+
+A CIDADE E AS SERRAS
+
+
+PORTO
+
+LIVRARIA CHARDRON
+
+De Lello & Irmão, editores
+
+1901
+
+Todos os direitos reservados
+
+
+
+
+Pertence no Brazil o direito de propriedade d'esta obra ao cidadão
+Francisco Alves, livreiro editor no Rio de Janeiro, que, para a garantia
+que lhe offerece a lei n.^o 496 de 1 d'Agosto de 1898, fez o competente
+deposito na Bibliotheca nacional, segundo a determinação do art. 13.^o
+da mesma Lei.
+
+
+_Porto--Imprensa Moderna_
+
+
+
+
+[Figura de Eça de Queirós]
+
+
+
+
+A CIDADE E AS SERRAS
+
+
+
+
+Obras do mesmo auctor:
+
+
+*Revista de Portugal.* 4 grossos volumes 12$000
+
+*As minas de Salomão.* 1 volume $600
+
+*Os Maias.* 2 grossos volumes 2$000
+
+*O crime do padre Amaro.* Terceira edição inteiramente refundida,
+recomposta, e differente na fórma e na acção da edição primitiva. 1 grosso
+volume 1$200
+
+*O primo Bazilio.* Quarta edição. 1 grosso volume 1$000
+
+*A Reliquia.* 1 grosso volume 1$000
+
+*O Mandarim.* Quarta edição. 1 volume $500
+
+*Correspondencia de Fradique Mendes.* 1 volume $600
+
+*A illustre casa de Ramires.* 1 volume 1$000
+
+
+
+
+A CIDADE E AS SERRAS
+
+
+
+
+I
+
+
+O meu amigo Jacintho nasceu n'um palacio, com cento e nove contos de
+renda em terras de semeadura, de vinhedo, de cortiça e d'olival.
+
+No Alemtejo, pela Extremadura, atravez das duas Beiras, densas sebes
+ondulando por collina e valle, muros altos de boa pedra, ribeiras,
+estradas, delimitavam os campos d'esta velha familia agricola que já
+entulhava grão e plantava cepa em tempos d'el-rei D. Diniz. A sua quinta
+e casa senhorial de Tormes, no Baixo Douro, cobriam uma serra. Entre o
+Tua e o Tinhela, por cinco fartas legoas, todo o torrão lhe pagava fôro.
+E cerrados pinheiraes seus negrejavam desde Arga até ao mar d'Ancora.
+Mas o palacio onde Jacintho nascêra, e onde sempre habitára, era em
+Paris, nos Campos Elyseos, n.^o 202.
+
+Seu avô, aquelle gordissimo e riquissimo Jacintho a quem chamavam em
+Lisboa o _D. Galião_, descendo uma tarde pela travessa da Trabuqueta,
+rente d'um muro de quintal que uma parreira toldava, escorregou n'uma
+casca de laranja e desabou no lagedo. Da portinha da horta sahia n'esse
+momento um homem moreno, escanhoado, de grosso casaco de baetão verde e
+botas altas de picador, que, galhofando e com uma força facil, levantou
+o enorme Jacintho--até lhe apanhou a bengala de castão d'ouro que rolára
+para o lixo. Depois, demorando n'elle os olhos pestanudos e pretos:
+
+--Oh Jacintho Galião, que andas tu aqui, a estas horas, a rebolar pelas
+pedras?
+
+E Jacintho, aturdido e deslumbrado, reconheceu o snr. Infante D. Miguel!
+
+Desde essa tarde amou aquelle bom Infante como nunca amára, apesar de
+tão guloso, o seu ventre, e apesar de tão devoto o seu Deus! Na sala
+nobre da sua casa (á Pampulha) pendurou sobre os damascos o retrato do
+«seu Salvador», enfeitado de palmitos como um retabulo, e por baixo a
+bengala que as magnanimas mãos reaes tinham erguido do lixo. Emquanto o
+adoravel, desejado Infante penou no desterro de Vienna, o barrigudo
+senhor corria, sacudido na sua sege amarella, do botequim do Zé-Maria em
+Belem á botica do Placido nos Algibebes, a gemer as saudades do
+_anginho_, a tramar o regresso do _anginho_. No dia, entre todos
+bemdito, em que a _Perola_ appareceu á barra com o Messias, engrinaldou
+a Pampulha, ergueu no Caneiro um monumento de papelão e lona onde D.
+Miguel, tornado S. Miguel, branco, d'aureola e azas de Archanjo, furava
+de cima do seu corcel d'Alter o Dragão do Liberalismo, que se estorcia
+vomitando a Carta. Durante a guerra com o «outro, com o pedreiro livre»
+mandava recoveiros a Santo Thyrso, a S. Gens, levar ao Rei fiambres,
+caixas de dôce, garrafas do seu vinho de Tarrafal, e bolsas de retroz
+atochadas de peças que elle ensaboava para lhes avivar o ouro. E quando
+soube que o snr. D. Miguel, com dois velhos bahus amarrados sobre um
+macho, tomára o caminho de Sines e do final desterro--Jacintho _Galião_
+correu pela casa, fechou todas as janellas como n'um luto, berrando
+furiosamente:
+
+--Tambem cá não fico! tambem cá não fico!
+
+Não, não queria ficar na terra perversa d'onde partia, esbulhado e
+escorraçado, aquelle Rei de Portugal que levantava na rua os Jacinthos!
+Embarcou para França com a mulher, a snr.^a D. Angelina Fafes (da tão
+fallada casa dos Fafes da Avellan); com o filho, o 'Cinthinho, menino
+amarellinho, mollesinho, coberto de caróços e leicenços; com a aia e com
+o moleque. Nas costas da Cantabria o paquete encontrou tão rijos mares
+que a snr.^a D. Angelina, esguedelhada, de joelhos na enxerga do
+beliche, prometteu ao Senhor dos Passos d'Alcantara uma corôa
+d'espinhos, de ouro, com as gottas de sangue em rubis do Pegu. Em
+Bayonna, onde arribaram, 'Cinthinho teve ithericia. Na estrada
+d'Orleans, n'uma noite agreste, o eixo da berlinda em que jornadeavam
+partiu, e o nedio senhor, a delicada senhora da casa da Avellan, o
+menino, marcharam tres horas na chuva e na lama do exilio até uma
+aldeia, onde, depois de baterem como mendigos a portas mudas, dormiram
+nos bancos d'uma taberna. No «Hotel dos Santos Padres», em Paris,
+soffreram os terrores d'um fogo que rebentára na cavalhariça, sob o
+quarto de _D. Galião_, e o digno fidalgo, rebolando pelas escadas em
+camisa, até ao pateo, enterrou o pé nú numa lasca de vidro. Então ergueu
+amargamente ao céo o punho cabelludo, e rugiu:
+
+--Irra! É de mais!
+
+Logo n'essa semana, sem escolher, Jacintho _Galião_ comprou a um
+Principe polaco, que depois da tomada de Varsovia se mettera frade
+cartuxo, aquelle palacete dos Campos Elyseos, n.^o 202. E sob o pesado
+ouro dos seus estuques, entre as suas ramalhudas sedas se enconchou,
+descançando de tantas agitações, n'uma vida de pachorra e de boa mesa,
+com alguns companheiros d'emigração (o desembargador Nuno Velho, o conde
+de Rabacena, outros menores), até que morreu de indigestão, d'uma
+lampreia d'escabeche que lhe mandára o seu procurador em Monte-mór. Os
+amigos pensavam que a snr.^a D. Angelina Fafes voltaria ao reino. Mas a
+boa senhora temia a jornada, os mares, as caleças que racham. E não se
+queria separar do seu Confessor, nem do seu Medico, que tão bem lhe
+comprehendiam os escrupulos e a asthma.
+
+--Eu, por mim, aqui fico no 202 (declarára ella), ainda que me faz falta
+a boa agua d'Alcolena... O 'Cinthinho, esse, em crescendo, que decida.
+
+O 'Cinthinho crescèra. Era um moço mais esguio e livido que um cirio, de
+longos cabellos corredios, narigudo, silencioso, encafuado em roupas
+pretas, muito largas e bambas; de noite, sem dormir, por causa da tosse
+e de suffocações, errava em camisa com uma lamparina atravez do 202; e
+os creados na copa sempre lhe chamavam a _Sombra_. N'essa sua mudez e
+indecisão de sombra surdira, ao fim do luto do papá, o gosto muito vivo
+de tornear madeiras ao torno: depois, mais tarde, com a melada flôr dos
+seus vinte annos, brotou n'elle outro sentimento, de desejo e de pasmo,
+pela filha do desembargador Velho, uma menina redondinha como uma rôla,
+educada n'um convento de Paris, e tão habilidosa que esmaltava, dourava,
+concertava relogios e fabricava chapéos de feltro. No outomno de 1851,
+quando já se desfolhavam os castanheiros dos Campos Elyseos, o
+'Cinthinho cuspilhou sangue. O medico, acarinhando o queixo e com uma
+ruga seria na testa immensa, aconselhou que o menino abalasse para o
+golfo Juan ou para as tepidas areias d'Arcachon.
+
+'Cinthinho porém, no seu afèrro de sombra, não se quiz arredar da
+Therezinha Velho, de quem se tornára, atravez de Paris, a muda, tardônha
+sombra. Como uma sombra, casou; deu mais algumas voltas ao torno; cuspiu
+um resto de sangue; e passou, como uma sombra.
+
+Tres mezes e tres dias depois do seu enterro o meu Jacintho nasceu.
+
+ * * * * *
+
+Desde o berço, onde a avó espalhava funcho e ambar para afugentar a
+_Sorte-Ruim_, Jacintho medrou com a segurança, a rijeza, a seiva rica
+d'um pinheiro das dunas.
+
+Não teve sarampo e não teve lombrigas. As Letras, a Taboada, o Latim
+entraram por elle tão facilmente como o sol por uma vidraça. Entre os
+camaradas, nos pateos dos collegios, erguendo a sua espada de lata e
+lançando um brado de commando, foi logo o vencedor, o Rei que se adula,
+e a quem se cede a fructa das merendas. Na edade em que se lê Balzac e
+Musset nunca atravessou os tormentos da sensibilidade;--nem crepusculos
+quentes o retiveram na solidão d'uma janella, padecendo d'um desejo sem
+fórma e sem nome. Todos os seus amigos (eramos tres, contando o seu
+velho escudeiro preto, o Grillo) lhe conservaram sempre amizades puras e
+certas--sem que jámais a participação do seu luxo as avivasse ou fossem
+desanimadas pelas evidencias do seu egoismo. Sem coração bastante forte
+para conceber um amor forte, e contente com esta incapacidade que o
+libertava, do amor só experimentou o mel--esse mel que o amor reserva
+aos que o recolhem, á maneira das abelhas, com ligeireza, mobilidade e
+cantando. Rijo, rico, indifferente ao Estado e ao Governo dos Homens,
+nunca lhe conhecemos outra ambição além de comprehender bem as Ideias
+Geraes; e a sua intelligencia, nos annos alegres de escólas e
+controversias, círculava dentro das Philosophias mais densas como enguia
+lustrosa na agua limpa d'um tanque. O seu valor, genuino, de fino
+quilate, nunca foi desconhecido, nem desapreciado; e toda a opinião, ou
+mera facecia que lançasse, logo encontrava uma aragem de sympathia e
+concordancia que a erguia, a mantinha emballada e rebrilhando nas
+alturas. Era servido pelas cousas com docilidade e carinho;--e não
+recordo que jamais lhe estalasse um botão da camisa, ou que um papel
+maliciosamente se escondesse dos seus olhos, ou que ante a sua
+vivacidade e pressa uma gaveta perfida emperrasse. Quando um dia, rindo
+com descrido riso da Fortuna e da sua Roda, comprou a um sachristão
+hespanhol um Decimo de Loteria, logo a Fortuna, ligeira e ridente sobre
+a sua Roda, correu n'um fulgor, para lhe trazer quatro centas mil
+pesetas. E no ceu as Nuvens, pejadas e lentas, se avistavam Jacintho sem
+guarda chuva, retinham com reverencia as suas aguas até que elle
+passasse... Ah! o ambar e o funcho da snr.^a D. Angelina tinham
+escorraçado do seu destino, bem triumphalmente e para sempre, a
+_Sorte-Ruim_! A amoravel avó (que eu conheci obesa, com barba) costumava
+citar um soneto natalicio do desembargador Nunes Velho contendo um verso
+de boa lição:
+
+ Sabei, senhora, que esta Vida é um rio...
+
+Pois um rio de verão, manso, translucido, harmoniosamente estendido
+sobre uma areia macia e alva, por entre arvoredos fragrantes e ditosas
+aldeias, não offereceria áquelle que o descesse n'um barco de cedro, bem
+toldado e bem almofadado, com fructas e Champagne a refrescar em gelo,
+um Anjo governando ao leme, outros Anjos puxando á sirga, mais segurança
+e doçura do que a Vida offerecia ao meu amigo Jacintho.
+
+Por isso nós lhe chamavamos «o Principe da Gran-Ventura»!
+
+ * * * * *
+
+Jacintho e eu, José Fernandes, ambos nos encontramos e acamaradamos em
+Paris, nas Escólas do Bairro Latino--para onde me mandára meu bom tio
+Affonso Fernandes Lorena de Noronha e Sande, quando aquelles malvados me
+riscaram da Universidade por eu ter esborrachado, n'uma tarde de
+procissão, na Sophia, a cara sordida do dr. Paes Pitta.
+
+Ora n'esse tempo Jacintho concebêra uma Ideia... Este Principe concebêra
+a Ideia de que «o homem só é superiormente feliz quando é superiormente
+civilisado». E por homem civilisado o meu camarada entendia aquelle que,
+robustecendo a sua força pensante com todas as noções adquiridas desde
+Aristoteles, e multiplicando a potencia corporal dos seus orgãos com
+todos os mechanismos inventados desde Theramenes, creador da roda, se
+torna um magnifico Adão, quasí omnipotente, quasí omnisciente, e apto
+portanto a recolher dentro d'uma sociedade e nos limites do Progresso
+(tal como elle se comportava em 1875) todos os gozos e todos os
+proveitos que resultam de Saber e de Poder... Pelo menos assim Jacintho
+formulava copiosamente a sua Ideia, quando conversavamos de fins e
+destinos humanos, sorvendo bocks poeirentos, sob o toldo das cervejarias
+philosophicas, no Boulevard Saint-Michel.
+
+Este conceito de Jacintho impressionára os nossos camaradas de cenaculo,
+que tendo surgido para a vida intellectual, de 1866 a 1875, entre a
+batalha de Sadowa e a batalha de Sedan, e ouvindo constantemente, desde
+então, aos technicos e aos philosophos, que fôra a Espingarda-de-agulha
+que vencêra em Sadowa e fôra o Mestre-de-escóla quem vencêra em Sedan,
+estavam largamente preparados a acreditar que a felicidade dos
+individuos, como a das nações, se realisa pelo illimitado
+desenvolvimento da Mechanica e da Erudição. Um d'esses moços mesmo, o
+nosso inventivo Jorge Carlande, reduzíra a theoria de Jacintho, para lhe
+facilitar a circulação e lhe condensar o brilho, a uma fórma algebrica:
+
+Summa sciencia}
+ X }= Summa felicidade
+Summa potencia}
+
+E durante dias, do Odeon á Sorbonna, foi louvada pela mocidade positiva
+a _Equação Metaphysica de Jacintho_.
+
+Para Jacintho, porém, o seu conceito não era meramente metaphysico e
+lançado pelo gozo elegante de exercer a razão especulativa:--mas
+constituia uma regra, toda de realidade e de utilidade, determinando a
+conducta, modalisando a vida. E já a esse tempo, em concordancia com o
+seu preceito--elle se surtira da _Pequena Encyclopedia dos Conhecimentos
+Universaes_ em setenta e cinco volumes e installára, sobre os telhados
+do 202, n'um mirante envidraçado, um telescopio. Justamente com esse
+telescopio me tornou elle palpavel a sua ideia, n'uma noite de agosto,
+de molle e dormente calor. Nos céos remotos lampejavam relampagos
+languidos. Pela Avenida dos Campos Elyseos, os fiacres rolavam para as
+frescuras do Bosque, lentos, abertos, cançados, transbordando de
+vestidos claros.
+
+--Aqui tens tu, Zé Fernandes, (começou Jacintho, encostado á janella do
+mirante) a theoria que me governa, bem comprovada. Com estes olhos que
+recebemos da Madre natureza, lestos e sãos, nós podemos apenas
+distinguir além, atravez da Avenida, n'aquella loja, uma vidraça
+alumiada. Mais nada! Se eu porém aos meus olhos juntar os dois vidros
+simples d'um binoculo de corridas, percebo, por traz da vidraça,
+presuntos, queijos, boiões de gelêa e caixas de ameixa sêcca. Concluo
+portanto que é uma mercearia. Obtive uma noção; tenho sobre ti, que com
+os olhos desarmados vês só o luzir da vidraça, uma vantagem positiva. Se
+agora, em vez d'estes vidros simples, eu usasse os do meu telescopio, de
+composição mais scientifica, poderia avistar além, no planeta Marte, os
+mares, as neves, os canaes, o recorte dos golphos, toda a geographia
+d'um astro que circula a milhares de leguas dos Campos Elyseos. É outra
+noção, e tremenda! Tens aqui pois o olho primitivo, o da Natureza,
+elevado pela Civilisação á sua maxima potencia de visão. E desde já,
+pelo lado do olho portanto, eu, civilisado, sou mais feliz que o
+incivilisado, porque descubro realidades do Universo que elle não
+suspeita e de que está privado. Applica esta prova a todos os orgãos e
+comprehendes o meu principio. Emquanto á intelligencia, e á felicidade
+que d'ella se tira pela incançavel accumulação das noções, só te peco
+que compares Renan e o Grillo... Claro é portanto que nos devemos cercar
+de Civilisação nas maximas proporções para gosar nas maximas proporções
+a vantagem de viver. Agora concordas, Zé Fernandes?
+
+Não me parecia irrecusavelmente certo que Renan fosse mais feliz que o
+Grillo; nem eu percebia que vantagem espiritual ou temporal se côlha em
+distinguir atravez do espaço manchas n'um astro, ou atravez da Avenida
+dos Campos Elyseos presuntos n'uma vidraça. Mas concordei, porque sou
+bom, e nunca desalojarei um espirito do conceito onde elle encontra
+segurança, disciplina e motivo de energia. Desabotoei o collete, e
+lançando um gesto para o lado dos cafés e das luzes:
+
+--Vamos então beber, nas maximas proporções, _brandy and soda_, com
+gelo!
+
+Por uma conclusão bem natural, a ideia de Civilisação, para Jacintho,
+não se separava da imagem de Cidade, d'uma enorme Cidade, com todos os
+seus vastos orgãos funccionando poderosamente. Nem este meu
+super-civilisado amigo comprehendia que longe de Armazens servidos por
+tres mil caixeiros; e de Mercados onde se despejam os vergeis e lezirias
+de trinta provincias; e de Bancos em que retine o ouro universal; e de
+Fabricas fumegando com ancia, inventando com ancia; e de Bibliothecas
+abarrotadas, a estalar, com a papelada dos seculos; e de fundas milhas
+de ruas, cortadas, por baixo e por cima, de fios de telegraphos, de fios
+de telephones, de canos de gazes, de canos de fezes; e da fila atroante
+dos omnibus, tramways, carroças, velocipedes, calhambeques, parelhas de
+luxo; e de dois milhões d'uma vaga humanidade, fervilhando, a offegar,
+atravez da Policia, na busca dura do pão ou sob a illusão do gozo--o
+homem do seculo XIX podesse saborear, plenamente, a delicia de viver!
+
+Quando Jacintho, no seu quarto do 202, com as varandas abertas sobre os
+lilazes, me desenrolava estas imagens, todo elle crescia, illuminado.
+Que creação augusta, a da Cidade! Só por ella, Zé-Fernandes, só por
+ella, póde o homem soberbamente affirmar a sua alma!...
+
+--Oh Jacintho, e a religião? Pois a religião não prova a alma?
+
+Elle encolhia os hombros. A religião! A religião é o desenvolvimento
+sumptuoso de um instincto rudimentar, commum a todos os brutos, o
+terror. Um cão lambendo a mão do dono, de quem lhe vem o osso ou o
+chicote, já constitue toscamente um devoto, o consciente devoto,
+prostrado em rezas ante o Deus que distribue o céo ou o inferno!... Mas
+o telephone! o phonographo!
+
+--Ahi tens tu, o phonographo!... Só o phonographo, Zé Fernandes, me faz
+verdadeiramente sentir a minha superioridade de sêr pensante e me separa
+do bicho. Acredita, não ha senão a Cidade, Zé Fernandes, não ha senão a
+Cidade!
+
+E depois (accrescentava) só a Cidade lhe dava a sensação, tão necessaria
+á vida como o calor, da solidariedade humana. E no 202, quando
+considerava em redor, nas densas massas do casario de Paris, dois
+milhões de sêres arquejando na obra da Civilisação (para manter na
+natureza o dominio dos Jacinthos!) sentia um socego, um conchego, só
+comparaveis ao do peregrino, que, ao atravessar o deserto, se ergue no
+seu dromedario, e avista a longa fila da caravana marchando, cheia de
+lumes e de armas...
+
+Eu murmurava, impressionado:
+
+--Caramba!
+
+Ao contrario no campo, entre a inconsciencia e a impassibilidade da
+Natureza, elle tremia com o terror da sua fragilidade e da sua solidão.
+Estava ahi como perdido n'um mundo que lhe não fosse fraternal; nenhum
+silvado encolheria os espinhos para que elle passasse; se gemesse com
+fome nenhuma arvore, por mais carregada, lhe estenderia o seu fructo na
+ponta compassiva d'um ramo. Depois, em meio da Natureza, elle assistia á
+subita e humilhante inutilisação de todas as suas faculdades superiores.
+De que servia, entre plantas e bichos--ser um Genio ou ser um Santo? As
+searas não comprehendem as _Georgicas_; e fôra necessario o socorro
+ancioso de Deus, e a inversão de todas as leis naturaes, e um violento
+milagre para que o lobo de Agubio não devorasse S. Francisco d'Assis,
+que lhe sorria e lhe estendia os braços e lhe chamava «meu irmão lobo»!
+Toda a intellectualidade, nos campos, se esterilisa, e só resta a
+bestialidade. N'esses reinos crassos do Vegetal e do Animal duas unicas
+funcções se mantêm vivas, a nutritiva e a procreadora. Isolada, sem
+occupação, entre focinhos e raizes que não cessam de sugar e de pastar,
+suffocando no calido bafo da universal fecundação, a sua pobre alma toda
+se engelhava, se reduzia a uma migalha d'alma, uma fagulhasinha
+espiritual a tremeluzir, como morta, sobre um naco de materia; e n'essa
+materia dois instinctos surdiam, imperiosos e pungentes, o de devorar e
+o de gerar. Ao cabo de uma semana rural, de todo o seu sêr tão
+nobremente composto só restava um estomago e por baixo um phallus! A
+alma? Sumida sob a besta. E necessitava correr, reentrar na Cidade,
+mergulhar nas ondas lustraes da Civilisação, para largar n'ellas a
+crosta vegetativa, e resurgir re-humanisado, de novo espiritual e
+Jacinthico!
+
+E estas requintadas metaphoras do meu amigo exprimiam sentimentos
+reaes--que eu testemunhei, que muito me divertiram, no unico passeio que
+fizemos ao campo, á bem amavel e bem sociavel floresta de Montmorency.
+Oh delicias d'entremez, Jacintho entre a Natureza! Logo que se afastava
+dos pavimentos de madeira, do macadam, qualquer chão que os seus pés
+calcassem o enchia de desconfiança e terror. Toda a relva, por mais
+crestada, lhe parecia reçumar uma humidade mortal. De sob cada torrão,
+da sombra de cada pedra, receava o assalto de lacraus, de viboras, de
+fórmas rastejantes e viscosas. No silencio do bosque sentia um lugubre
+despovoamento do Universo. Não tolerava a familiaridade dos galhos que
+lhe roçassem a manga ou a face. Saltar uma sebe era para elle um acto
+degradante que o retrogradava ao macaco inicial. Todas as flôres que não
+tivesse já encontrado em jardins, domesticadas por longos seculos de
+servidão ornamental, o inquietavam como venenosas. E considerava d'uma
+melancolia funambulesca certos modos e fórmas do Sêr inanimado, a pressa
+esperta e vã dos regatinhos, a careca dos rochedos, todas as contorsões
+do arvoredo e o seu resmungar solemne e tonto.
+
+Depois d'uma hora, n'aquelle honesto bosque de Montmorency, o meu pobre
+amigo abafava, apavorado, experimentando já esse lento mingoar e sumir
+d'alma que o tornava como um bicho entre bichos. Só desannuviou quando
+penetramos no lagêdo e no gaz de Paris--e a nossa vittoria quasi se
+despedaçou contra um omnibus retumbante, atulhado de cidadãos. Mandou
+descer pelos Boulevards, para dissipar, na sua grossa sociabilidade,
+aquella materialisação em que sentia a cabeça pesada e vaga como a d'um
+boi. E reclamou que eu o acompanhasse ao theatro das Variedades para
+sacudir, com os estribilhos da _Femme à Papa_, o rumor importuno que lhe
+ficára dos melros cantando nos choupos altos.
+
+Este delicioso Jacintho fizera então vinte e tres annos, e era um
+soberbo moço em quem reapparecêra a força dos velhos Jacinthos ruraes.
+Só pelo nariz, afilado, com narinas quasi transparentes, d'uma
+mobilidade inquieta, como se andasse fariscando perfumes, pertencia ás
+delicadezas do seculo XIX. O cabello ainda se conservava, ao modo das
+éras rudes, crespo e quasi lanigero: e o bigode, como o d'um Celta,
+cahia em fios sedosos, que elle necessitava aparar e frizar. Todo o seu
+fato, as espessas gravatas de setim escuro que uma perola prendia, as
+luvas de anta branca, o verniz das botas, vinham de Londres em caixotes
+de cedro; e usava sempre ao peito uma flôr, não natural, mas composta
+destramente pela sua ramalheteira com petalas de flôres dessemelhantes,
+cravo, azalea, orchidea ou tulipa, fundidas na mesma haste entre uma
+leve folhagem de funcho.
+
+ * * * * *
+
+Em 1880, em Fevereiro, n'uma cinzenta e arripiada manhã de chuva, recebi
+uma carta de meu bom tio Affonso Fernandes, em que, depois de
+lamentações sobre os seus setenta annos, os seus males hemorroidaes, e a
+pesada gerencia dos seus bens «que pedia homem mais novo, com pernas
+mais rijas»--me ordenava que recolhesse á nossa casa de Guiães, no
+Douro! Encostado ao marmore partido do fogão, onde na véspera a minha
+Nini deixára um espartilho embrulhado no _Jornal dos Debates_, censurei
+severamente meu tio que assim cortava em botão, antes de desabrochar, a
+flôr do meu Saber Juridico. Depois n'um Post-Scriptum elle
+accrescentava--«O tempo aqui está lindo, o que se póde chamar de rosas,
+e tua santa tia muito se recommenda, que anda lá pela cozinha, porque
+vai hoje em trinta e seis annos que casámos, temos cá o abbade e o
+Quintaes a jantar, e ella quiz fazer uma sopa dourada».
+
+Deitando uma acha ao lume, pensei como devia estar boa a sopa dourada da
+tia Vicencia. Ha quantos annos não a provava, nem o leitão assado, nem o
+arroz de fôrno da nossa casa! Com o tempo assim tão lindo, já as mimosas
+do nosso pateo vergariam sob os seus grandes cachos amarellos. Um pedaço
+de céo azul, do azul de Guiães, que outro não ha tão lustroso e macio,
+entrou pelo quarto, alumiou, sobre a poida tristeza do tapete, relvas,
+ribeirinhos, malmequeres e flôres de trevo de que meus olhos andavam
+agoados. E, por entre as bambinellas de sarja, passou um ar fino e forte
+e cheiroso de serra e de pinheiral.
+
+Assobiando um _fado_ meigo tirei debaixo da cama a minha velha mala, e
+metti solicitamente entre calças e piugas um Tratado de Direito Civil,
+para aprender emfim, nos vagares da aldeia, estendido sob a faia, as
+leis que regem os homens. Depois, n'essa tarde, annunciei a Jacintho que
+partia para Guiães. O meu camarada recuou com um surdo gemido de espanto
+e piedade:
+
+--Para Guiães!... Oh Zé Fernandes, que horror!
+
+E toda essa semana me lembrou solicitamente confortos de que eu me
+deveria prover para que pudesse conservar, nos ermos silvestres, tão
+longe da Cidade, uma pouca d'alma dentro d'um pouco de corpo. «Leva uma
+poltrona! Leva a _Encyclopedia Geral_! Leva caixas de aspargos!...»
+
+Mas para o meu Jacintho, desde que assim me arrancavam da Cidade, eu era
+arbusto desarraigado que não reviverá. A magoa com que me acompanhou ao
+comboio conviria excellentemente ao meu funeral. E quando fechou sobre
+mim a portinhola, gravemente, supremamente, como se cerra uma grade de
+sepultura, eu quasi solucei--com saudades minhas.
+
+Cheguei a Guiães. Ainda restavam flôres nas mimosas do nosso pateo; comi
+com delicias a sopa dourada da tia Vicencia; de tamancos nos pés assisti
+á ceifa dos milhos. E assim de colheitas a lavras, crestando ao sol das
+eiras, caçando a perdiz nos matos geados, rachando a melancia fresca na
+poeira dos arraiaes, arranchando a magustos, serandando á candeia,
+atiçando fogueiras de S. João, enfeitando presepios de Natal, por alli
+me passaram docemente sete annos, tão atarefados que nunca logrei abrir
+o Tratado de Direito Civil, e tão singelos que apenas me recordo quando,
+em vésperas de S. Nicolau, o abbade cahiu da egua á porta do Braz das
+Córtes. De Jacintho só recebia raramente algumas linhas, escrevinhadas á
+pressa por entre o tumulto da Civilisação. Depois, n'um Setembro muito
+quente, ao lidar da vindima, meu bom tio Affonso Fernandes morreu, tão
+quietamente, Deus seja louvado por esta graça, como se cala um
+passarinho ao fim do seu bem cantado e bem voado dia. Acabei pela aldeia
+a roupa do luto. A minha afilhada Joanninha casou na matança do porco.
+Andaram obras no nosso telhado. Voltei a Paris.
+
+
+
+
+II
+
+
+Era de novo Fevereiro, e um fim de tarde arripiado e cinzento, quando eu
+desci os Campos Elyseos em demanda do 202. Adiante de mim caminhava,
+levemente curvado, um homem que, desde as botas rebrilhantes até ás abas
+recurvas do chapéo d'onde fugiam anneis d'um cabello crespo, reçumava
+elegancia e a familiaridade das coisas finas. Nas mãos, cruzadas atraz
+das costas, calçadas d'anta branca, sustentava uma bengala grossa com
+castão de crystal. E só quando elle parou ao portão do 202 reconheci o
+nariz afilado, os fios do bigode corredios e sedosos.
+
+--Oh Jacintho!
+
+--Oh Zé Fernandes!
+
+O abraço que nos enlaçou foi tão alvoroçado que o meu chapéo rolou na
+lama. E ambos murmuravamos, commovidos, entrando a grade:
+
+--Ha sete annos!...
+
+--Ha sete annos!...
+
+E, todavia, nada mudára durante esses sete annos no jardim do 202! Ainda
+entre as duas aleas bem areadas se arredondava uma relva, mais lisa e
+varrida que a lã d'um tapete. No meio o vaso corinthico esperava Abril
+para resplandecer com tulipas e depois Junho para transbordar de
+margaridas. E ao lado das escadas limiares, que uma vidraçaria toldava,
+as duas magras Deusas de pedra, do tempo de D. Galião, sustentavam as
+antigas lampadas de globos foscos, onde já silvava o gaz.
+
+Mas dentro, no peristillo, logo me surprehendeu um elevador installado
+por Jacintho--apesar do 202 ter sómente dois andares, e ligados por uma
+escadaria tão doce que nunca offendêra a asthma da snr.^a D. Angelina!
+Espaçoso, tapetado, elle offerecia, para aquella jornada de sete
+segundos, confortos numerosos, um divan, uma pelle d'urso, um roteiro
+das ruas de Paris, prateleiras gradeadas com charutos e livros. Na
+antecamara, onde desembarcamos, encontrei a temperatura macia e tepida
+d'uma tarde de Maio, em Guiães. Um creado, mais attento ao thermometro
+que um piloto á agulha, regulava destramente a bocca dourada do
+calorifero. E perfumadores entre palmeiras, como n'um terrasso santo de
+Benares, esparziam um vapor, aromatisando e salutarmente humedecendo
+aquelle ar delicado e superfino.
+
+Eu murmurei, nas profundidades do meu assombrado sêr:
+
+--Eis a civilisação!
+
+Jacintho empurrou uma porta, penetramos n'uma nave cheia de magestade e
+sombra, onde reconheci a Bibliotheca por tropeçar n'uma pilha monstruosa
+de livros novos. O meu amigo roçou de leve o dedo na parede: e uma corôa
+de lumes electricos, refulgindo entre os lavores do tecto, alumiou as
+estantes monumentaes, todas d'ebano. N'ellas repousavam mais de trinta
+mil volumes, encadernados em branco, em escarlate, em negro, com
+retoques d'ouro, hirtos na sua pompa e na sua auctoridade como doutores
+n'um concilio.
+
+Não contive a minha admiração:
+
+--Oh Jacintho! Que deposito!
+
+Elle murmurou, n'um sorriso descorado:
+
+--Ha que lêr, ha que lêr...
+
+Reparei então que o meu amigo emmagrecera: e que o nariz se lhe afilára
+mais entre duas rugas muito fundas, como as d'um comediante cançado. Os
+anneis do seu cabello lanigero rareavam sobre a testa, que perdera a
+antiga serenidade de marmore bem polido. Não frisava agora o bigode
+murcho, cahido em fios pensativos. Tambem notei que corcovava.
+
+Elle erguêra uma tapeçaria--entramos no seu gabinete de trabalho, que me
+inquietou. Sobre a espessura dos tapetes sombrios os nossos passos
+perderam logo o som, e como a realidade. O damasco das paredes, os
+divans, as madeiras, eram verdes, d'um verde profundo de folha de louro.
+Sêdas verdes envolviam as luzes electricas, dispersas em lampadas tão
+baixas que lembravam estrellas cahidas por cima das mesas, acabando de
+arrefecer e morrer: só uma rebrilhava, núa e clara, no alto d'uma
+estante quadrada, esguia, solitaria como uma torre n'uma planicie, e de
+que o lume parecia ser o pharol melancolico. Um biombo de laca verde,
+fresco verde de relva, resguardava a chaminé de marmore verde, verde de
+mar sombrio, onde esmoreciam as brazas d'uma lenha aromatica. E entre
+aquelles verdes reluzia, por sobre peanhas e pedestaes, toda uma
+Mechanica sumptuosa, apparelhos, laminas, rodas, tubos, engrenagens,
+hastes, friezas, rigidezas de metaes...
+
+Mas Jacintho batia nas almofadas do divan, onde se enterrára com um modo
+cançado que eu não lhe conhecia:
+
+--Para aqui, Zé Fernandes, para aqui! É necessario reatarmos estas
+nossas vidas, tão apartadas ha sete annos!... Em Guiães, sete annos! Que
+fizeste tu?
+
+--E tu, que tens feito, Jacintho?
+
+O meu amigo encolheu mollemente os hombros. Vivêra--cumprira com
+serenidade todas as funcções, as que pertencem á materia e as que
+pertencem ao espirito...
+
+--E accumulaste civilisação, Jacintho! Santo Deus... Está tremendo, o
+202!
+
+Elle espalhou em torno um olhar onde já não faiscava a antiga
+vivacidade:
+
+--Sim, ha confortos... Mas falta muito! A humanidade ainda está mal
+apetrechada, Zé Fernandes... E a vida conserva resistencias.
+
+Subitamente, a um canto, repicou a campainha do telephone. E emquanto o
+meu amigo, curvado sobre a placa, murmurava impaciente «_Está lá?--Está
+lá?_», examinei curiosamente, sobre a sua immensa mesa de trabalho, uma
+estranha e miuda legião de instrumentosinhos de nickel, d'aço, de cobre,
+de ferro, com gumes, com argolas, com tenazes, com ganchos, com dentes,
+expressivos todos, de utilidades misteriosas. Tomei um que tentei
+manejar--e logo uma ponta malevola me picou um dedo. N'esse instante
+rompeu d'outro canto um «tic-tic-tic» açodado, quasi ancioso. Jacintho
+acudiu, com a face no telephone:
+
+--Vê ahi o telegrapho!... Ao pé do divan. Uma tira de papel que deve
+estar a correr.
+
+E, com effeito, d'uma redôma de vidro posta n'uma columna, e contendo um
+apparelho esperto e diligente, escorria para o tapete, como uma tenia, a
+longa tira de papel com caracteres impressos, que eu, homem das serras,
+apanhei, maravilhado. A linha, traçada em azul, annunciava ao meu amigo
+Jacintho que a fragata russa _Azoff_ entrára em Marselha com avaria!
+
+Já elle abandonára o telephone. Desejei saber, inquieto, se o
+prejudicava directamente aquella avaria da _Azoff_.
+
+--Da _Azoff_?... A avaria? A mim?... Não! É uma noticia.
+
+Depois, consultando um relogio monumental que, ao fundo da Bibliotheca,
+marcava a hora de todas as Capitaes e o curso de todos os Planetas:
+
+--Eu preciso escrever uma carta, seis linhas... Tu esperas, não, Zé
+Fernandes? Tens ahi os jornaes de Paris, da noite; e os de Londres,
+d'esta manhã. As Illustrações além, n'aquella pasta de couro com
+ferragens.
+
+Mas eu preferi inventariar o gabinete, que dava á minha profanidade
+serrana todos os gostos d'uma iniciação. Aos lados da cadeira de
+Jacintho pendiam gordos tubos acusticos, por onde elle decerto soprava
+as suas ordens através do 202. Dos pés da mesa cordões tumidos e molles,
+colleando sobre o tapete, corriam para os recantos de sombra á maneira
+de cobras assustadas. Sobre uma banquinha, e reflectida no seu verniz
+como na agua d'um poço, pousava uma Machina-de-escrever: e adiante era
+uma immensa Machina-de-calcular, com fileiras de buracos d'onde
+espreitavam, esperando, numeros rigidos e de ferro. Depois parei em
+frente da estante que me preoccupava, assim solitaria, á maneira d'uma
+torre n'uma planicie, com o seu alto pharol. Toda uma das suas faces
+estava repleta de Diccionarios; a outra de Manuaes; a outra de Atlas; a
+ultima de Guias, e entre elles, abrindo um folio, encontrei o Guia das
+ruas de Samarkande. Que macissa torre de informação! Sobre prateleiras
+admirei apparelhos que não comprehendia:--um composto de laminas de
+gelatina, onde desmaiavam, meio-chupadas, as linhas d'uma carta, talvez
+amorosa; outro, que erguia sobre um pobre livro brochado, como para o
+decepar, um cutello funesto; outro avançando a bocca d'uma tuba, toda
+aberta para as vozes do invisivel. Cingidos aos umbraes, liados ás
+cimalhas, luziam arames, que fugiam através do tecto, para o espaço.
+Todos mergulhavam em forças universaes, todos transmittiam forças
+universaes. A Natureza convergia disciplinada ao serviço do meu amigo e
+entrára na sua domesticidade!...
+
+Jacintho atirou uma exclamação impaciente:
+
+--Oh, estas pennas electricas!... Que secca!
+
+Amarrotára com colera a carta começada--eu escapei, respirando, para a
+Bibliotheca. Que magestoso armazem dos productos do Raciocinio e da
+Imaginação! Alli jaziam mais de trinta mil volumes, e todos decerto
+essenciaes a uma cultura humana. Logo á entrada notei, em ouro n'uma
+lombada verde, o nome de Adam Smith. Era pois a região dos Economistas.
+Avancei--e percorri, espantado, oito metros de Economia Politica. Depois
+avistei os Philosophos e os seus commentadores, que revestiam toda uma
+parede, desde as escólas Pre-socraticas até ás escólas Neo-pessimistas.
+N'aquellas pranchas se acastellavam mais de dois mil systemas--e que
+todos se contradiziam. Pelas encadernações logo se deduziam as
+doutrinas: Hobbes, em baixo, era pesado, de couro negro; Platão, em
+cima, resplandecia, n'uma pellica pura e alva. Para diante começavam as
+Historias Universaes. Mas ahi uma immensa pilha de livros brochados,
+cheirando a tinta nova e a documentos novos, subia contra a estante,
+como fresca terra d'alluvião tapando uma riba secular. Contornei essa
+collina, mergulhei na secção das Sciencias Naturaes, peregrinando, n'um
+assombro crescente, da Orographia para a Paleontologia, e da Morphologia
+para a Crystallographia. Essa estante rematava junto d'uma janella
+rasgada sobre os Campos Elyseos. Apartei as cortinas de velludo--e por
+traz descobri outra portentosa rima de volumes, todos de Historia
+Religiosa, de Exegese Religiosa, que trepavam montanhosamente até aos
+ultimos vidros, vedando, nas manhãs mais candidas, o ar e a luz do
+Senhor.
+
+Mas depois rebrilhava, em marroquins claros, a estante amavel dos
+Poetas. Como um repouso para o espirito esfalfado de todo aquelle saber
+positivo, Jacintho aconchegára ahi um recanto, com um divan e uma mesa
+de limoeiro, mais lustrosa que um fino esmalte, coberta de charutos, de
+cigarros d'Oriente, de tabaqueiras do seculo XVIII. Sobre um cofre de
+madeira lisa pousava ainda, esquecido, um prato de damascos seccos do
+Japão. Cedi á seducção das almofadas; trinquei um damasco, abri um
+volume; e senti estranhamente, ao lado, um zumbido, como de um insecto
+de azas harmoniosas. Sorri á idéa que fossem abelhas, compondo o seu mel
+n'aquelle massiço de versos em flôr. Depois percebi que o susurro remoto
+e dormente vinha do cofre de mogne, de parecer tão discreto. Arredei uma
+_Gazeta de França_; e descornitei um cordão que emergia de um orificio,
+escavado no cofre, e rematava n'um funil de marfim. Com curiosidade,
+encostei o funil a esta minha confiada orelha, afeita á singeleza dos
+rumores da serra. E logo uma Voz, muito mansa, mas muito dicidida,
+aproveitando a minha curiosidade para me invadir e se apoderar do meu
+entendimento, susurrou capciosamente:
+
+--...«E assim, pela disposição dos cubos diabolicos, eu chego a
+verificar os espaços hypermagicos!...»
+
+Pulei, com um berro.
+
+--Oh Jacintho, aqui ha um homem! Está aqui um homem a fallar dentro
+d'uma caixa!
+
+O meu camarada, habituado aos prodigios, não se alvoroçou:
+
+--É o Conferençophone... Exactamente como o Theatrophone; sómente
+applicado ás escólas e ás conferencias. Muito commodo!... Que diz o
+homem, Zé Fernandes?
+
+Eu considerava o cofre, ainda esgazeado:
+
+--Eu sei! Cubos diabolicos, espaços magicos, toda a sorte de horrores...
+
+Senti dentro o sorriso superior de Jacintho:
+
+--Ah, é o coronel Dorchas... Lições de Metaphysica Positiva sobre a
+Quarta Dimensão... Conjecturas, uma massada! Ouve lá, tu hoje jantas
+commigo e com uns amigos, Zé Fernandes?
+
+--Não, Jacintho... Estou ainda enfardelado pelo alfaiate da serra!
+
+E voltei ao gabinete mostrar ao meu camarada o jaquetão de flanella
+grossa, a gravata de pintinhas escarlates, com que ao domingo, em
+Guiães, visitava o Senhor. Mas Jacintho affirmou que esta simplicidade
+montesina interessaria os seus convidados, que eram dois artistas...
+Quem? O auctor do _Coração Triplo_, um Psychologo Feminista, d'agudeza
+transcendente, Mestre muito experimentado e muito consultado em
+Sciencias Sentimentaes; e Vorcan, um pintor mythico, que interpretára
+ethereamente, havia um anno, a symbolia rapsodica do cerco de Troia,
+n'uma vasta composição, _Helena Devastadora_...
+
+Eu coçava a barba:
+
+--Não, Jacintho, não... Eu venho de Guiães, das serras; preciso entrar
+em toda esta civilisacão, lentamente, com cautella, senão rebento. Logo
+na mesma tarde a electricidade, e o conferençophone, e os espaços
+hypermagicos e o feminista, e o ethereo, e a symbolia devastadora, é
+excessivo! Volto ámanhã.
+
+Jacintho dobrava vagarosamente a sua carta, onde mettera sem rebuço
+(como convinha á nossa fraternidade) duas violetas brancas tiradas do
+ramo que lhe floria o peito.
+
+--Ámanhã, Zé Fernandes, tu vens antes d'almoço, com as tuas malas dentro
+d'um fiacre, para te installares no 202, no teu quarto. No Hotel são
+embaraços, privações. Aqui tens o telephone, o teatrophone, livros...
+
+Acceitei logo, com simplicidade. E Jacintho, embocando um tubo acustico,
+murmurou:
+
+--Grillo!
+
+Da parede, recoberta de damasco, que subitamente e sem rumor se fendeu,
+surdio o seu velho escudeiro (aquelle moleque que viera com _D.
+Gallião_), que eu me alegrei de encontrar tão rijo, mais negro,
+reluzente e veneravel na sua tesa gravata, no seu collete branco de
+botões de ouro. Elle tambem estimou vêr de novo «o siô Fernandes». E,
+quando soube que eu occuparia o quarto do avô Jacintho, teve um claro
+sorriso de preto, em que envolveu o seu senhor, no contentamento de o
+sentir emfim reprovido d'uma familia.
+
+--Grillo, dizia Jacintho, esta carta a Madame de Oriol... Escuta!
+Telephona para casa dos Trèves que os espiritistas só estão livres no
+domingo... Escuta! Eu tomo uma douche antes de jantar, tepida, a 17.
+Fricção com malva-rosa.
+
+E cahindo pesadamente para cima do divan, com um bocejo arrastado e
+vago:
+
+--Pois é verdade, meu Zé Fernandes, aqui estamos, como ha sete annos,
+n'este velho Paris...
+
+Mas eu não me arredava da mesa, no desejo de completar a minha
+iniciação:
+
+--Oh Jacintho, para que servem todos estes instrumentosinhos? Houve já
+ahi um desavergonhado que me picou. Parecem perversos... São uteis?
+
+Jacintho esboçou, com languidez, um gesto que os
+sublimava.--Providenciaes, meu filho, absolutamente providenciaes, pela
+simplificação que dão ao trabalho! Assim... E apontou. Este arrancava as
+pennas velhas; o outro numerava rapidamente as paginas d'um manuscripto;
+aquell'outro, além, raspava emendas... E ainda os havia para collar
+estampilhas, imprimir datas, derreter lacres, cintar documentos...
+
+--Mas com effeito, accrescentou, é uma sécca. Com as molas, com os
+bicos, ás vezes magoam, ferem... Já me succedeu inutilisar cartas por as
+ter sujado com dedadas de sangue. É uma massada!
+
+Então, como o meu amigo espreitára novamente o relogio monumental, não
+lhe quiz retardar a consolação da douche e da malva-rosa.
+
+--Bem, Jacintho, já te revi, já me contentei... Agora até ámanhã, com as
+malas.
+
+--Que diabo, Zé Fernandes, espera um momento... Vamos pela sala de
+jantar. Talvez te tentes!
+
+E, através da Bibliotheca, penetramos na sala de jantar,--que me
+encantou pelo seu luxo sereno e fresco. Uma madeira branca, laccada,
+mais lustrosa e macia que setim, revestia as paredes, encaixilhando
+medalhões de damasco côr de morango, de morango muito maduro e esmagado:
+os aparadores, discretamente lavrados em florões e rocalhas,
+resplandeciam com a mesma lacca nevada: e damascos amorangados estofavam
+tambem as cadeiras, brancas, muito amplas, feitas para a lentidão de
+gulas delicadas, de gulas intellectuaes.
+
+--Viva o meu Principe! Sim senhor... Eis aqui um comedoiro muito
+comprehensivel e muito repousante, Jacintho!
+
+--Então janta, homem!
+
+Mas já eu me começava a inquietar, reparando que a cada talher
+correspondiam seis garfos, e todos de feitios astuciosos. E mais me
+impressionei quando Jacintho me desvendou que um era para as ostras,
+outro para o peixe, outro para as carnes, outro para os legumes, outro
+para as fructas, outro para o queijo! Simultaneamente, com uma
+sobriedade que louvaria Salomão, só dois copos, para dois vinhos:--um
+Bordeus rosado em infusas de crystal, e Champagne gelando dentro de
+baldes de prata. Todo um aparador porém vergava, sob o luxo redundante,
+quasi assustador d'aguas--aguas oxigenadas, aguas carbonatadas, aguas
+phosphatadas, aguas esterilisadas, aguas de saes, outras ainda, em
+garrafas bojudas, com tratados therapeuticos impressos em rotulos.
+
+--Santissimo nome de Deus, Jacintho! Então és ainda o mesmo tremendo
+bebedor d'agua, hein?... _Un aquatico_! como dizia o nosso poeta
+chileno, que andava a traduzir Klopstock.
+
+Elle derramou, por sobre toda aquella garrafaria encarapuçada em metal,
+um olhar desconsolado:
+
+--Não... É por causa das aguas da Cidade, contaminadas, atulhadas de
+microbios... Mas ainda não encontrei uma bôa agua que me convenha, que
+me satisfaça... Até soffro sêde.
+
+Desejei então conhecer o jantar do Psychologo e do Symbolista--traçado,
+ao lado dos talheres, em tinta vermelha, sobre laminas de marfim.
+Começava honradamente por ostras classicas, de Marennes. Depois
+apparecia uma sopa d'alcachofras e ovas de carpa...
+
+--É bom?
+
+Jacintho encolheu desinteressadamente os hombros:
+
+--Sim... Eu não tenho nunca appetite, já ha tempos... Já ha annos.
+
+Do outro prato só comprehendi que continha frangos e tubaras. Depois
+saboreariam aquelles senhores um filete de veado, macerado em Xerez, com
+gelêa de noz. E por sobremeza simplesmente laranjas geladas em ether.
+
+--Em ether, Jacintho?
+
+O meu amigo hesitou, esboçou com os dedos a ondulação d'um aroma que
+s'evola.
+
+--É novo... Parece que o ether desenvolve, faz afflorar a alma das
+fructas...
+
+Curvei a cabeça ignara, murmurei nas minhas profundidades:
+
+--Eis a Civilisação!
+
+E, descendo os Campos Elyseos, encolhido no paletot, a cogitar n'este
+prato symbolico, considerava a rudeza e atolado atrazo da minha Guiães,
+onde desde seculos a alma das laranjas permanece ignorada e
+desaproveitada dentro dos gomos sumarentos, por todos aquelles pomares
+que ensombram e perfumam o valle, da Roqueirinha a Sandofim! Agora
+porém, bemdito Deus, na convivencia de um tão grande iniciado como
+Jacintho, eu comprehenderia todas as finuras e todos os poderes da
+Civilisação.
+
+E, (melhor ainda para a minha ternura!) contemplaria a raridade d'um
+homem que, concebendo uma idéa da Vida, a realisa--e através d'ella e
+por ella recolhe a felicidade perfeita.
+
+Bem se affirmára este Jacintho, na verdade, como Principe da
+Gran-Ventura!
+
+
+
+
+III
+
+
+No 202, todas as manhãs, ás nove horas, depois do meu chocolate e ainda
+em chinelas, penetrava no quarto de Jacintho. Encontrava o meu amigo
+banhado, barbeado, friccionado, envolto n'um roupão branco de pello de
+cabra do Thibet, diante da sua mesa de toilette, toda de crystal, (por
+causa dos microbios) e atulhada com esses utensilios de tartaruga,
+marfim, prata, aço e madreperola que o homem do seculo XIX necessita
+para não desfeiar o conjuncto sumptuario da Civilisação e manter n'ella
+o seu Typo. As escovas sobretudo renovavam, cada dia, o meu regalo e o
+meu espanto--porque as havia largas como a roda massiça d'um carro
+sabino; estreitas e mais recurvas que o alfange d'um mouro; concavas, em
+fórma de telha aldeã; ponteagudas em feitio de folha de hera; rijas que
+nem cerdas de javali; macias que nem pennugem de rôla! De todas,
+fielmente, como amo que não desdenha nenhum servo, se utilisava o meu
+Jacintho. E assim, em face ao espelho emmoldurado de folhedos de prata,
+permanecia este Principe passando pellos sobre o seu pello durante
+quatorze minutos.
+
+No emtanto o Grillo e outro escudeiro, por traz dos biombos de Kioto, de
+sedas lavradas, manobravam, com pericia e vigor, os apparelhos do
+lavatorio--que era apenas um resumo das machinas monumentaes da Sala de
+Banho, a mais estremada maravilha do 202. N'estes marmores simplificados
+existiam unicamente dois jactos graduados desde _zero_ até _cem_; as
+duas duchas, fina e grossa, para a cabeça; a fonte esterilisada para os
+dentes; o repuxo borbulhante para a barba; e ainda botões discretos,
+que, roçados, desencadeavam esguichos, cascatas cantantes, ou um leve
+orvalho estival. D'esse recanto temeroso, onde delgados tubos mantinham
+em disciplina e servidão tantas aguas ferventes, tantas aguas violentas,
+sahia emfim o meu Jacintho enxugando as mãos a uma toalha de felpo, a
+uma toalha de linho, a outra de corda entrançada para restabelecer a
+circulação, a outra de sêda frouxa para repolir a pelle. Depois d'este
+rito derradeiro que lhe arrancava ora um suspiro, ora um bocejo,
+Jacintho, estendido n'um divan, folheava uma Agenda, onde se arrolavam,
+inscriptas pelo Grillo ou por elle, as occupações do seu dia, tão
+numerosas por vezes que cobriam duas laudas.
+
+Todas ellas se prendiam á sua sociabilidade, á sua civilisação muito
+complexa, ou a interesses que o meu Principe, n'esses sete annos, creára
+para viver em mais consciente communhão com todas as funcções da Cidade.
+(Jacintho com effeito era presidente do Club da _Espada e Alvo_;
+commanditario do Jornal o _Boulevard_; director da _Companhia dos
+Telephones de Constantinopla_; socio dos _Bazares unidos da Arte
+Espiritualista_; membro do _Comité de Iniciação das Religiões
+Esotericas_, etc.) Nenhuma d'estas occupações parecia porém aprazivel ao
+meu amigo--porque, apesar da mansidão e harmonia dos seus modos,
+frequentemente arremessava para o tapete, n'uma rebellião de homem
+livre, aquella Agenda que o escravisava. E n'uma d'essas manhãs (de
+vento e neve), apanhando eu o livro oppressivo, encadernado em pellica,
+de um carinhoso tom de rosa murcha--descobri que o meu Jacintho devia
+depois do almoço fazer uma visita na rua da Universidade, outra no
+Parque Monceau, outra entre os arvoredos remotos da Muette; assistir por
+fidelidade a uma votação no Club; acompanhar Madame d'Oriol a uma
+exposição de leques; escolher um presente de noivado para a sobrinha dos
+Trèves; comparecer no funeral do velho conde de Malville; presidir um
+tribunal de honra n'uma questão de roubalheira, entre cavalheiros, ao
+ecarté... E ainda se acavallavam outras indicações, escrivinhadas por
+Jacintho a lapis:--«Carroceiro--Five-oclock dos Ephrains--A pequena das
+_Variedades_--Levar a nota ao jornal...» Considerei o meu Principe.
+Estirado no divan, d'olhos miserrimamente cerrados, bocejava, n'um
+bocejo immenso e mudo.
+
+Mas os affazeres de Jacintho começavam logo no 202, cedo, depois do
+banho. Desde as oito horas a campainha do telephone repicava por elle,
+com impaciencia, quasi com colera, como por um escravo tardio. E mal
+enxugado, dentro do seu roupão de pello de cabra do Thibet ou de grossas
+pyjamas de pelucia côr d'ouro-velho, constantemente sahia ao corredor a
+cochichar com sujeitos tão apressados, que conservavam na mão o
+guarda-chuva pingando sobre o tapete. Um d'esses, sempre presente (e que
+pertencia decerto aos _Telephones de Constantinopla_), era
+temeroso--todo elle chupado, tisnado, com maus dentes, sobraçando uma
+enorme pasta sebenta, e dardejando, d'entre a alta gola d'uma pelissa
+poida, como da abertura d'um covil, dous olhinhos tôrvos e de rapina.
+Sem cessar, inexoravelmente, um escudeiro apparecia, com bilhetes n'uma
+salva... Depois eram fornecedores d'Industria e d'Arte; negociantes de
+cavallos, rubicundos e de paletot branco; inventores com grossos rolos
+de papel; alfarrabistas trazendo na algibeira uma edição «unica», quasi
+inverosimil, de Ulrich Zell ou do _Lapidanus_. Jacintho circulava
+estonteado pelo 202, rabiscando a carteira, repicando o telephone,
+desatando nervosamente pacotes, sacudindo ao passar algum embuscado que
+surdia das sombras da antecamara, estendia como um trabuco o seu
+memorial ou o seu catalogo!
+
+Ao meio dia, um tam-tam argentino e melancholico ressoava, chamando ao
+almoço. Com o _Figaro_ ou as _Novidades_ abertas sobre o prato, eu
+esperava sempre meia hora pelo meu Principe, que entrava n'uma rajada,
+consultando o relogio, exhalando com a face moída o seu queixume eterno:
+
+--Que massada! E depois uma noite abominavel, enrodilhada em sonhos...
+Tomei sulforal, chamei o Grillo para me esfregar com therebentina... Uma
+sécca!
+
+Espalhava pela mesa um olhar já farto. Nenhum prato, por mais engenhoso,
+o seduzia;--e, como através do seu tumulto matinal fumava incontaveis
+cigarretes que o resequiam, começava por se encharcar com um immenso
+copo d'agua oxygenada, ou carbonatada, ou gazoza, misturada d'um cognac
+raro, muito caro, horrendamente adocicado, de moscatel de Syracusa.
+Depois, á pressa, sem gosto, com a ponta incerta do garfo, picava aqui e
+além uma lasca de fiambre, uma febra de lagosta;--e reclamava
+impacientemente o café, um café de Moka, mandado cada mez por um feitor
+do Dedjah, fervido á turca, muito espesso, que elle remexia com um pau
+de canella!
+
+--E tu, Zé Fernandes, que vaes tu fazer?
+
+--Eu?
+
+Recostado na cadeira, com delicias, os dedos mettidos nas cavas do
+collete:
+
+--Vou vadiar, regaladamente, como um cão natural!
+
+O meu sollicito amigo, remexendo o café com o pau de canella, rebuscava
+através da numerosa Civilisação da Cidade uma occupação que me
+encantasse. Mas apenas suggeria uma Exposição, ou uma Conferencia, ou
+monumentos, ou passeios, logo encolhia os hombros desconsolados:
+
+--Por fim nem vale a pena, é uma sécca!
+
+Accendia outra das cigarretes russas, onde rebrilhava o seu nome,
+impresso a ouro na mortalha. Torcendo, n'uma pressa nervosa, os fios do
+bigode, ainda escutava, á porta da Bibliotheca, o seu procurador, o
+nedio e magestoso Laporte. E emfim, seguido d'um criado, que sobraçava
+um maço tremendo de jornaes para lhe abastecer o coupé, o Principe da
+Gran-Ventura mergulhava na Cidade.
+
+ * * * * *
+
+Quando o dia social de Jacintho se apresentava mais desafogado, e o céo
+de Março nos concedia caridosamente um pouco de azul agoado, sahiamos
+depois d'almoço, a pé, através de Paris. Estes lentos e errantes
+passeios eram outr'ora, na nossa edade de Estudantes, um gozo muito
+querido de Jacintho--porque n'elles mais intensamente e mais
+minuciosamente saboreava a Cidade. Agora porém, apesar da minha
+companhia, só lhe davam uma impaciencia e uma fadiga que desoladoramente
+destoava do antigo, illuminado extasi. Com espanto (mesmo com dôr,
+porque sou bom, e sempre me entristece o desmoronar d'uma crença)
+descobri eu, na primeira tarde em que descemos aos Boulevards, que o
+denso formigueiro humano sobre o asphalto, e a torrente sombria dos
+trens sobre o macadam, affligiam o meu amigo pela brutalidade da sua
+pressa, do seu egoismo, e do seu estridor. Encostado e como refugiado no
+meu braço, este Jacintho novo começou a lamentar que as ruas, na nossa
+Civilisação, não fossem calçadas de gutta-percha! E a gutta-percha
+claramente representava, para o meu amigo, a substancia discreta que
+amortece o choque e a rudeza das cousas. Oh maravilha! Jacintho querendo
+borracha, a borracha isoladora, entre a sua sensibilidade e as funcções
+da Cidade! Depois, nem me permittiu pasmar diante d'aquellas dourejadas
+e espelhadas lojas que elle outr'ora considerava como os «preciosos
+museus do seculo XIX»...
+
+--Não vale a pena, Zé Fernandes. Ha uma immensa pobreza e seccura
+d'invenção! Sempre os mesmos florões Luiz XV, sempre as mesmas
+pelucias... Não vale a pena!
+
+Eu arregalava os olhos para este transformado Jacintho. E sobretudo me
+impressionava o seu horror pela Multidão--por certos effeitos da
+Multidão, só para elle sensiveis, e a que chamava os «sulcos».
+
+--Tu não os sentes, Zé Fernandes. Vens das serras... Pois constituem o
+rijo inconveniente das Cidades, estes sulcos! É um perfume muito agudo e
+petulante que uma mulher larga ao passar, e se installa no olfacto, e
+estraga para todo o dia o ar respiravel. É um dito que se surprehende
+n'um grupo, que revela um mundo de velhacaria, ou de pedantismo, ou de
+estupidez, e que nos fica collado á alma, como um salpico, lembrando a
+immensidade da lama a atravessar. Ou então, meu filho, é uma figura
+intoleravel pela pretenção, ou pelo mau-gosto, ou pela impertinencia, ou
+pela rellice, ou pela dureza, e de que se não póde sacudir mais a visão
+repulsiva... Um pavor, estes sulcos, Zé Fernandes! De resto, que diabo,
+são as pequeninas miserias d'uma Civilisação deliciosa!
+
+Tudo isto era especioso, talvez pueril--mas para mim revelava, n'aquelle
+chamejante devoto da Cidade, o arrefecimento da devoção. N'essa mesma
+tarde, se bem recordo, sob uma luz macia e fina, penetramos nos centros
+de Paris, nas ruas longas, nas milhas de casario, todo de caliça parda,
+erriçado de chaminés de lata negra, com as janellas sempre fechadas, as
+cortininhas sempre corridas, abafando, escondendo a vida. Só tijolo, só
+ferro, só argamassa, só estuque: linhas hirtas, angulos asperos: tudo
+secco, tudo rigido. E dos chãos aos telhados, por toda a fachada,
+tapando as varandas, comendo os muros, Taboletas, Taboletas...
+
+--Oh, este Paris, Jacintho, este teu Paris! Que enorme, que grosseiro
+bazar!
+
+E, mais para sondar o meu Principe do que por persuasão, insisti na
+fealdade e tristeza d'estes predios, duros armazens, cujos andares são
+prateleiras onde se apilha humanidade! E uma humanidade impiedosamente
+catalogada e arrumada! A mais vistosa e de luxo nas prateleiras baixas,
+bem envernisadas. A relles e de trabalho nos altos, nos desvãos, sobre
+pranchas de pinho nú, entre o pó e a traça...
+
+Jacintho murmurou, com a face arripiada:
+
+--É feio, é muito feio!
+
+E accudiu logo, sacudindo no ar a luva de anta:
+
+--Mas que maravilhoso organismo, Zé Fernandes! Que solidez! Que
+producção!
+
+Onde Jacintho me parecia mais renegado era na sua antiga e quasi
+religiosa affeição pelo Bosque de Bolonha. Quando moço, elle construira
+sobre o Bosque theorias complicadas e consideraveis. E sustentava, com
+olhos rutilantes de fanatico, que no Bosque a Cidade cada tarde ia
+retemperar salutarmente a sua força, recebendo, pela presença das suas
+Duquezas, das suas Cortezãs, dos seus Politicos, dos seus Financeiros,
+dos seus Generaes, dos seus Academicos, dos seus Artistas, dos seus
+Clubistas, dos seus Judeus, a certeza consoladora de que todo o seu
+pessoal se mantinha em numero, em vitalidade, em funcção, e que nenhum
+elemento da sua grandeza desapparecera ou deperecera! «Ir ao Bois»
+constituia então para o meu Principe um acto de consciencia. E voltava
+sempre confirmando com orgulho que a Cidade possuia todos os seus
+astros, garantindo a eternidade da sua luz!
+
+Agora, porém, era sem fervor, arrastadamente, que elle me levava ao
+Bosque, onde eu, aproveitando a clemencia d'Abril, tentava enganar a
+minha saudade d'arvoredos. Emquanto subiamos, ao trote nobre das suas
+egoas lustrosas, a Avenida dos Campos-Elyseos e a do Bosque,
+rejuvenescidas pelas relvas tenras e fresco verdejar dos rebentos,
+Jacintho, soprando o fumo da cigarrete pelas vidraças abertas do coupé,
+permanecia o bom camarada, de veia amavel, com quem era doce philosophar
+através de Paris. Mas logo que passavamos as grades douradas do Bosque,
+e penetravamos na Avenida das Acacias, e enfiavamos na lenta fila dos
+trens de luxo e de praça, sob o silencio decoroso, apenas cortado pelo
+tilintar dos freios e pelas rodas vagarosas esmagando a areia,--o meu
+Principe emmudecia, mollemente engilhado no fundo das almofadas, d'onde
+só despegava a face para escancarar bocejos de fartura. Pelo antigo
+habito de verificar a presença confortadora do «pessoal, dos astros»,
+ainda, por vezes, apontava para algum coupé ou vittoria rodando com
+rodar rangente n'outra arrastada fila--e murmurava um nome. E assim fui
+conhecendo a encaracolada barba hebraica do banqueiro Ephraim; e o longo
+nariz patricio de Madame de Trèves abrigando um sorriso perenne; e as
+bochechas flacidas do poeta neo-platonico Dornan, sempre espapado no
+fundo de fiacres; e os longos bandòs pre-raphaelitas e negros de Madame
+Verghane; e o monoculo defumado do director do _Boulevard_; e o
+bigodinho vencedor do Duque de Marizac, reinando de cima do seu phaeton
+de guerra; e ainda outros sorrisos immoveis, e barbichas á Renascença, e
+palpebras amortecidas, e olhos farejantes, e pelles empoadas d'arroz,
+que eram todas illustres e da intimidade do meu Principe. Mas, do topo
+da Avenida das Acacias, recomeçavamos a descer, em passo sopeado,
+esmagando lentamente a areia; na fila vagarosa que subia, calhambeque
+atraz de landau, vittoria atraz de fiacre, fatalmente reviamos o
+binoculo sombrio do homem do _Boulevard_, e os bandòs furiosamente
+negros de Madame Verghane, e o ventre espapado do neo-platonico, e a
+barba talmudica, e todas aquellas figuras, d'uma immobilidade de cera,
+super-conhecidas do meu camarada, recruzadas cada tarde através de
+revividos annos, sempre com os mesmos sorrisos, sob o mesmo pó d'arroz,
+na mesma immobilidade de cera; então Jacintho não se continha, gritava
+ao cocheiro:
+
+--Para casa, depressa!
+
+E era pela Avenida do Bosque, pelos Campos-Elyseos, uma fuga ardente das
+egoas a quem a lentidão sopeada, n'um roer de freios, entre outras egoas
+tambem d'ellas super-conhecidas, lançavam n'uma exasperação comparavel á
+de Jacintho.
+
+Para o sondar eu denegria o Bosque:
+
+--Já não é tão divertido, perdeu o brilho!...
+
+Elle acudia, timidamente:
+
+--Não, é agradavel, não ha nada mais agradavel; mas...
+
+E accusava a friagem das tardes ou o despotismo dos seus affazeres.
+Recolhiamos então ao 202, onde, com effeito, em breve embrulhado no seu
+roupão branco, diante da mesa de crystal, entre a legião das escovas,
+com toda a electricidade refulgindo, o meu Principe se começava a
+adornar para o serviço social da noite.
+
+E foi justamente numa d'essas noites (um sabado) que nós passamos,
+n'aquelle quarto tão civilisado e protegido, por um d'esses brutos e
+revoltos terrores como só os produz a ferocidade dos Elementos. Já
+tarde, á pressa (jantavamos com Marizac no Club para o acompanhar depois
+ao _Lohengrin_ na Opera) Jacintho arrocheava o nó da gravata
+branca--quando no lavatorio, ou porque se rompesse o tubo, ou se
+dessoldasse a torneira, o jacto d'agua a ferver rebentou furiosamente,
+fumegando e silvando. Uma nevoa densa de vapor quente abafou as
+luzes--e, perdidos n'ella, sentiamos, por entre os gritos do escudeiro e
+do Grillo, o jorro devastador batendo os muros, esparrinhando uma chuva
+que escaldava. Sob os pés o tapete ensopado era uma lama ardente. E como
+se todas as forças da natureza, submettidas ao serviço de Jacintho, se
+agitassem, animadas por aquella rebellião da agua--ouvimos roncos surdos
+no interior das paredes, e pelos fios dos lumes electricos sulcaram
+faiscas ameaçadoras! Eu fugira para o corredor, onde se alargava a nevoa
+grossa. Por todo o 202 ia um tumulto de desastre. Diante do portão,
+attrahidas pela fumarada que se escapava das janellas, estacionava
+policia, uma multidão. E na escada esbarrei com um reporter, de chapéo
+para a nuca, a carteira aberta, gritando sofregamente «se havia mortos?»
+
+Domada a agua, clareada a bruma, vim encontrar Jacintho no meio do
+quarto, em ceroulas, livido:
+
+--Oh Zé Fernandes, esta nossa industria!... Que impotencia, que
+impotencia! Pela segunda vez, este desastre! E agora, apparelhos
+perfeitos, um processo novo...
+
+--E eu encharcado por esse processo novo! E sem outra casaca!
+
+Em redor, as nobres sêdas bordadas, os brocateis Luiz XIII, cobertos de
+manchas negras, fumegavam. O meu Principe, enfiado, enchugava uma
+photographia de Madame d'Oriol, d'hombros decotados, que o jorro bruto
+maculára d'empolas. E eu, com rancor, pensava que na minha Guiães a agua
+aquecia em seguras panellas--e subia ao meu lavatorio, pela mão forte da
+Catharina, em seguras infusas! Não jantamos com o duque de Marizac, no
+Club. E, na Opera, nem saboreei Lohengrin e a sua branca alma e o seu
+branco cysne e as suas brancas armas--entallado, aperreado, cortado nos
+sovacos pela casaca que Jacintho me emprestára e que rescendia
+estonteadoramente a flores de Nessari.
+
+ * * * * *
+
+No domingo, muito cedo, o Grillo, que na véspera escaldára as mãos e as
+trazia embrulhadas em sêda, penetrou no meu quarto, descerrou as
+cortinas, e á beira do leito, com o seu radiante sorriso de preto:
+
+--Vem no _Figaro_!
+
+Desdobrou triumphalmente o jornal. Eram, nos _Echos_, doze linhas, onde
+as nossas aguas rugiam e espadavam, com tanta magnificencia e tanta
+publicidade, que tambem sorrí, deleitado.
+
+--E toda a manhã, o telephone, siô Fernandes! exclamava o Grillo,
+rebrilhando em ebano. A quererem saber, a quererem saber... «Está lá?
+Está escaldado?» Paris afflicto, siô Fernandes!
+
+O telephone, com effeito, repicava, insaciavel. E quando desci para o
+almoço, a toalha desapparecia sob uma camada de telegrammas, que o meu
+Principe fendia com a faca, enrugado, rosnando contra a «massada». Só
+desannuviou, ao ler um d'esses papeis azues, que atirou para cima do meu
+prato, com o mesmo sorriso agradado com que de manhã sorriramos, o
+Grillo e eu:
+
+--É do Gran-Duque Casimiro... Ratão amavel! Coitado!
+
+Saboreei, através dos ovos, o telegramma de S. Alteza. «O que! o meu
+Jacintho inundado! Muito chic, nos Campos-Elyseos! Não volto ao 202 sem
+boia de salvação! Compassivo abraço! Casimiro...» Murmurei tambem com
+deferencia:--«Amavel! Coitado!» Depois, revolvendo lentamente o montão
+de telegrammas que se alastrava até ao meu copo:
+
+--Oh Jacintho! Quem é esta Diana que incessantemente te escreve, te
+telephona, te telegrapha, te...?
+
+--Diana?... Diana de Lorge. É uma cocotte. É uma grande cocotte!
+
+--Tua?
+
+--Minha, minha... Não! tenho um bocado.
+
+E como eu lamentava que o meu Principe, senhor tão rico e de tão fino
+orgulho, por economia d'uma gamella propria chafurdasse com outros n'uma
+gamella publica--Jacintho levantou os hombros, com um camarão espetado
+no garfo:
+
+--Tu vens das serras... Uma cidade como Paris, Zé Fernandes, precisa ter
+cortezãs de grande pompa e grande fausto. Ora para montar em Paris,
+n'esta tremenda carestia de Paris, uma cocotte com os seus vestidos, os
+seus diamantes, os seus cavallos, os seus lacaios, os seus camarotes, as
+suas festas, o seu palacete, a sua publicidade, a sua insolencia, é
+necessario que se aggremiem umas poucas de fortunas, se forme um
+syndicato! Somos uns sete, no Club. Eu pago um bocado... Mas meramente
+por Civismo, para dotar a cidade com uma cocotte monumental. De resto
+não chafurdo. Pobre Diana!... Dos hombros para baixo nem sei se tem a
+pelle côr de neve ou côr de limão.
+
+Arregalei um olho divertido:
+
+--Dos hombros para baixo?... E para cima?
+
+--Oh para cima tem pó d'arroz!... Mas é uma sécca! Sempre bilhetes,
+sempre telephones, sempre telegrammas. E tres mil francos por mez, além
+das flores... Uma massada!
+
+E as duas rugas do meu Principe, aos lados do seu afilado nariz, curvado
+sobre a salada, eram como dous valles muito tristes, ao entardecer.
+
+Acabavamos o almoço, quando um escudeiro, muito discretamente, n'um
+murmurio, annunciou Madame d'Oriol. Jacintho pousou com tranquillidade o
+charuto; eu quasi me engasguei, n'um sorvo alvoroçado de café. Entre os
+reposteiros de damasco côr de morango ella appareceu, toda de negro,
+d'um negro liso e austero de Semana Santa, lançando com o regalo um
+lindo gesto para nos socegar. E immediatamente, n'uma volubilidade
+docemente chalrada:
+
+--É um momento, nem se levantem! Passei, ia para a Magdalena, não me
+contive, quiz vêr os estragos... Uma inundação em Paris, nos
+Campos-Elyseos! Não ha senão este Jacintho. E vem no _Figaro!_ O que eu
+estava assustada, quando telephonei! Imaginem! Agua a ferver, como no
+Vesuvio... Mas é d'uma novidade! E os estofos perdidos, naturalmente, os
+tapetes... Estou morrendo por admirar as ruinas!
+
+Jacintho, que não me pareceu commovido, nem agradecido com aquelle
+interesse, retomára risonhamente o charuto:
+
+--Está tudo secco, minha querida senhora, tudo secco! A belleza foi
+hontem, quando a agua fumegava e rugia! Ora que pena não ter ao menos
+cahido uma parede!
+
+Mas ella insistia. Nem todos os dias se gozavam em Paris os destroços
+d'uma inundação. O _Figaro_ contára... E era uma aventura deliciosa, uma
+casa escaldada nos Campos-Elyseos!
+
+Toda a sua pessoa, desde as plumasinhas que frisavam no chapéo até á
+ponta reluzente das botinas de verniz, se agitava, vibrava, como um ramo
+tenro sob o boliço do passaro a chalrar. Só o sorriso, por traz do véo
+espesso, conservava um brilho immovel. E já no ar se espalhára um aroma,
+uma doçura, emanadas de toda a sua mobilidade e de toda a sua graça.
+
+Jacintho no emtanto cedera, alegremente: e pelo corredor Madame d'Oriol
+ainda louvava o _Figaro_ amavel, e confessava quanto tremera... Eu
+voltei ao meu café, felicitando mentalmente o Principe da Gran-Ventura
+por aquella perfeita flôr de Civilisação que lhe perfumava a vida.
+Pensei então na apurada harmonia em que se movia essa flôr. E corri
+vivamente á ante-camara, verificar diante do espelho o meu penteado e o
+nó da minha gravata. Depois recolhi á sala de jantar, e junto da
+janella, folheando languidamente a _Revista do Seculo XIX_, tomei uma
+attitude de elegancia e d'alta cultura. Quasi immediatamente elles
+reappareceram: e Madame d'Oriol, que, sempre sorrindo, se proclamava
+espoliada, nada encontrára que recordasse as agoas furiosas, roçou pela
+mesa, onde Jacintho procurava, para lhe offerecer, tangerinas de Malta,
+ou castanhas geladas, ou um biscouto molhado em vinho de Tokai.
+
+Ella recusava com as mãos guardadas no regalo. Não era alta, nem
+forte--mas cada prega do vestido, ou curva da capa, cahia e ondulava
+harmoniosamente, como perfeições recobrindo perfeições. Sob o véo
+cerrado, apenas percebi a brancura da face empoada, e a escuridão dos
+olhos largos. E com aquellas sêdas e velludos negros, e um pouco do
+cabello louro, d'um louro quente, torcido fortemente sobre as pelles
+negras que lhe orlavam o pescoço, toda ella derramava uma sensação de
+macio e de fino. Eu teimosamente a considerava como uma flôr de
+Civilisação:--e pensava no secular trabalho e na cultura superior que
+necessitára o terreno onde ella tão delicadamente brotára, já
+desabrochada, em pleno perfume, mais graciosa por ser flôr d'esforço e
+d'estufa, e trazendo nas suas pétalas um não sei quê de desbotado e de
+ante-murcho.
+
+No emtanto, com a sua volubilidade de passaro, chalrando para mim,
+chalrando para Jacintho, ella mostrava o seu lindo espanto por aquelle
+montão de telegrammas sobre a toalha.
+
+--Tudo esta manhã, por causa da inundação?... Ah, Jacintho é hoje o
+homem, o unico homem de Paris! Muitas mulheres n'esses telegrammas?
+
+Languidamente, com o charuto a fumegar, o meu Principe empurrou para a
+sua amiga o telegramma do Gran-duque. Então Madame d'Oriol teve um _ah!_
+muito grave e muito sentido. Releu profundamente o papel de S. A. que os
+seus dedos acariciavam com uma reverencia gulosa. E sempre grave, sempre
+séria:
+
+--É brilhante!
+
+Oh, certamente! n'aquelle desastre tudo se passára com muito brilho,
+n'um tom muito Parisiense. E a deliciosa creatura não se podia demorar,
+porque fizera marcar um logar na egreja da Magdalena para o sermão!
+
+Jacintho exclamou com innocencia:
+
+--Sermão?... É já a estação dos sermões?
+
+Madame d'Oriol teve um movimento de carinhoso escandalo e dôr. O quê!
+pois nem na austera casa dos Trèves dera pela entrada da quaresma? De
+resto não se admirava--Jacintho era um turco! E, immediatamente celebrou
+o prégador, um frade dominicano, o Père Granon! Oh d'uma eloquencia!
+d'uma violencia! No derradeiro sermão prégara sobre o amor, a
+fragilidade dos amores mundanos! E tivera coisas d'uma inspiração, d'uma
+brutalidade! Depois que gesto, um gesto terrivel que esmagava, em que se
+lhe arregaçava toda a manga, mostrando o braço nú, um braço soberbo,
+muito branco, muito forte!
+
+O seu sorriso permanecia claro sob o olhar que negrejára dentro do véo
+negro. E Jacintho, rindo:
+
+--Um bom braço de director espiritual, hein? Para vergar, espancar
+almas...
+
+Ella acudiu:
+
+--Não! infelizmente o Père Granon não confessa!
+
+E de repente reconsiderou--aceitava um biscouto, um cálice de Tokai. Era
+necessario um cordial para affrontar as emoções do Père Granon! Ambos
+nos precipitáramos, um arrebatando a garrafa, outro offerecendo o prato
+de bonbons. Franzio o véo para os olhos, chupou á pressa um bolo que
+ensopára no Tokai. E como Jacintho, reparando casualmente no chapéo que
+ella trazia, se curvára com curiosidade, impressionado, Madame d'Oriol
+apagou o sorriso, toda seria, ante uma cousa seria:
+
+--Elegante, não é verdade?... É uma creação inteiramente nova de Madame
+Vial. Muito respeitoso, e muito suggestivo, agora na Quaresma.
+
+O seu olhar, que me envolvera, tambem me convidava a admirar. Approximei
+o meu focinho de homem das serras para contemplar essa creação suprema
+do luxo de Quaresma. E era maravilhoso! Sobre o velludo, na sombra das
+plumas frizadas, aninhada entre rendas, fixada por um prégo, pousava
+delicadamente, feita de azeviche, uma Corôa de Espinhos!
+
+Ambos nos extasiamos. E Madame d'Oriol, n'um movimento e n'um sorriso
+que derramou mais aroma e mais claridade, abalou para a Magdalena.
+
+O meu Principe arrastou pelo tapete alguns passos pensativos e molles. E
+bruscamente, levantando os hombros com uma determinação immensa, como se
+deslocasse um mundo:
+
+--Oh Zé Fernandes, vamos passar este Domingo n'alguma cousa simples e
+natural...
+
+--Em quê?
+
+Jacintho circumgirou os olhares muito abertos, como se, atravez da Vida
+Universal, procurasse anciosamente uma cousa natural e simples. Depois,
+descançando sobre mim os mesmos largos olhos que voltavam de muito
+longe, cançados e com pouca esperança:
+
+--Vamos ao Jardim das Plantas, vêr a girafa!
+
+
+
+
+IV
+
+
+N'essa fecunda semana, uma noite, recolhiamos ambos da Opera, quando
+Jacintho, bocejando, me annunciou uma festa no 202.
+
+--Uma festa?...
+
+--Por causa do Gran-Duque, coitado, que me vai mandar um peixe delicioso
+e muito raro que se pesca na Dalmacia. Eu queria um almoço curto. O
+Gran-Duque reclamou uma ceia. É um barbaro, besuntado com litteratura do
+seculo XVIII, que ainda acredita em ceias, em Paris! Reuno no domingo
+tres ou quatro mulheres, e uns dez homens bem typicos, para o divertir.
+Tambem aproveitas. Folheias Paris n'um resumo... Mas é uma massada
+amarga!
+
+Sem interesse pela sua festa, Jacintho não se affadigou em a compôr com
+relevo ou brilho. Encommendou apenas uma orchestra de Tziganes (os
+Tziganes, as suas jalecas escarlates, a melancolia aspera das Czardas
+ainda n'esses tempos remotos emocionavam Paris): e mandou, na
+Bibliotheca, ligar o Theatrophone com a Opera, com a Comedia-Franceza,
+com o Alcazar e com os Buffos, prevendo todos os gostos desde o tragico
+até ao picaro. Depois no domingo, ao entardecer, ambos visitamos a mesa
+da ceia, que resplandecia com as velhas baixellas de D. Galião. E a
+faustosa profusão de orchideas, em longas sylvas por sobre a toalha
+bordada a sêda, enroladas aos fructeiros de Saxe, trasbordando de
+crystaes lavrados e filagranados d'ouro, espalhava uma tão fina sensação
+de luxo e gosto, que eu murmurei:--«Caramba, bemdito, seja o dinheiro!»
+Pela primeira vez, tambem, admirei a copa e a sua installação abundante
+e minuciosa--sobretudo os dois ascensores que rolavam das profundidades
+da cozinha, um para os peixes e carnes aquecido por tubos d'agua
+fervente, o outro para as saladas e gelados revestido de placas
+frigorificas. Oh, este 202!
+
+Ás nove horas, porém, descendo eu ao gabinete de Jacintho para escrever
+a minha boa tia Vicencia, em quanto elle ficára no toucador com o
+manícuro que lhe polia as unhas, passamos n'esse delicioso palacio,
+florido e em gala, por bem corriqueiro susto! Todos os lumes electricos,
+subitamente, em todo o 202, se apagaram! Na minha immensa desconfiança
+d'aquellas forças universaes, pulei logo para a porta, tropeçando nas
+trevas, ganindo um _Aqui d'Elrei_! que tresandava a Guiães. Jacintho em
+cima berrava, com o manícuro agarrado ás pyjamas. E de novo, como serva
+ralassa que recolhe arrastando as chinellas, a luz resurgiu com
+lentidão. Mas o meu Principe, que descera, enfiado, mandou buscar um
+engenheiro á Companhia Central da Electricidade Domestica. Por precaução
+outro creado correu á mercearia comprar pacotes de velas. E o Grillo
+desenterrava já dos armarios os candelabros abandonados, os pesados
+castiçaes archaicos dos tempos inscientificos de D. Galião: era uma
+reserva de veteranos fortes, para o caso pavoroso em que mais tarde, á
+ceia, falhassem perfidamente as forças bisonhas da Civilisação. O
+Electricista, que acudira esbaforido, afiançou porém que a Electricidade
+se conservaria fiel, sem outro amuo. Eu, cautelosamente, soneguei na
+algibeira dous côtos de estearina.
+
+A Electricidade permaneceu fiel, sem amuos. E quando desci do meu
+quarto, tarde (porque perdera o collete de baile e só depois d'uma busca
+furiosa e praguejada o encontrei cahido por traz da cama!), todo o 202
+refulgia, e os Tziganes, na antecamara, sacudindo as guedelhas, atiravam
+as arcadas d'uma valsa tão arrastadora que, pelas paredes, os immensos
+Personagens das tapeçarias, Priamo, Nestor, o engenhoso Ulysses,
+arfavam, boliam com os pés venerandos!
+
+Timidamente, sem rumor, puxando os punhos, penetrei no gabinete de
+Jacintho. E fui logo acolhido pelo sorriso da condessa de Treves, que,
+acompanhada pelo illustre historiador Danjon (da Academia Franceza),
+percorria maravilhada os Apparelhos, os Instrumentos, toda a sumptuosa
+Mechanica do meu super-civilisado Principe. Nunca ella me parecera mais
+magestosa do que n'aquellas sêdas côr de açafrão, com rendas cruzadas no
+peito á Maria-Antonietta, o cabello crespo e ruivo levantado em rolo
+sobre a testa dominadora, e o curvo nariz patricio, abrigando o sorriso
+sempre luzidio, sempre corrente, como um arco abriga o correr e o luzir
+d'um regato. Direita como n'um solio, a longa luneta de tartaruga
+acercada dos olhos miudos e turvamente azulados, ella escutava deante do
+Graphophono, depois deante do Microphono, como melodias superiores, os
+commentarios que o meu Jacintho ia atabalhoando com uma amabilidade
+penosa. E ante cada roda, cada mola, eram pasmos, louvores finamente
+torneados, em que attribuia a Jacintho, com astuta candura, todas
+aquellas invenções do Saber! Os utensilios misteriosos que atulhavam a
+mesa d'ebano foram para ella uma iniciação que a enlevou. Oh, o
+«numerador de paginas»! oh, o «collador d'estampilhas»! A caricia
+demorada dos seus dedos seccos aquecia os metaes. E supplicava os
+endereços dos fabricantes para se prover de todas aquellas utilidades
+adoraveis! Como a vida, assim apetrechada, se tornava escorregadia e
+facil! Mas era necessario o talento, o gosto de Jacintho, para escolher,
+para «crear!» E não só ao meu amigo (que o recebia com resignação) ella
+offertava o fino mel. Affagando com o cabo da luneta o Telegrapho, achou
+a possibilidade de recordar a eloquencia do Historiador. Mesmo para mim
+(de quem ignorava o nome) arranjou junto do Phonographo, e ácerca de
+«vozes d'amigos que é doce colleccionar», uma lisonjasinha redondinha e
+lustrosa, que eu chupei como um rebuçado celeste. Boa casaleira que vae
+atirando o grão aos frangos famintos, a cada passo, maternalmente, ella
+nutria uma vaidade. Sofrego d'outro rebuçado, acompanhei a sua cauda
+sussurrante e côr d'açafrão. Ella parára deante da Machina-de-contar, de
+que Jacintho já lhe fornecera pacientemente uma explicação sapiente. E
+de novo roçou os buracos d'onde espreitam os numeros negros, e com o seu
+enlevado sorriso murmurou:--«Prodigiosa, esta prensa electrica!...»
+
+Jacintho accudiu:
+
+--Não! Não! Esta é...
+
+Mas ella sorria, seguia... Madame de Treves não comprehendera nenhum
+apparelho do meu Principe! Madame de Treves não attendera a nenhuma
+dissertação do meu Principe! N'aquelle gabinete de sumptuosa Mechanica
+ella sómente se occupára em exercer, com proveito e com perfeição, a
+Arte de Agradar. Toda ella era uma sublime falsidade. Não escondi a
+Danjon a admiração que me penetrava.
+
+O facundo Academico revirou os olhos bogalhudos:
+
+--Oh! e um gôsto, uma intelligencia, uma seducção!... E depois como se
+janta bem em casa d'ella! Que café!... Mulher superior, meu caro senhor,
+verdadeiramente superior!
+
+Deslisei para a bibliotheca. Logo á entrada da erudita nave, junto da
+estante dos Padres da Egreja onde alguns cavalheiros conversavam, parei
+a saudar o director do _Boulevard_ e o Psychologo-feminista, o auctor do
+_Coração Triple_, com quem na véspera me familiarisára ao almoço, no
+202. O seu acolhimento foi paternal: e, como se necessitasse a minha
+presença, reteve na sua mão illustre, rutilante de anneis, com força e
+com gula, a minha grossa palma serrana. Todos aquelles senhores, com
+effeito, celebravam o seu Romance, a _Couraça_, lançado n'essa semana
+entre gritinhos de gôzo e um quente rumor de saias alvoroçadas. Um
+sobretudo, com uma vasta cabeça arranjada á Van Dick e que parecia
+postiça, proclamava, alçado na ponta das botas, que nunca penetrára tão
+fundamente, na velha alma humana, a ponta da Psychologia Experimental!
+Todos concordavam, se apertavam contra o Psychologo, o tratavam por
+«mestre». Eu mesmo, que nem sequer entrevira a capa amarella da
+_Couraça_, mas para quem elle voltava os olhos pedinchões e famintos de
+mais mel, murmurei com um leve assobio:--«uma delicia!»
+
+E o Psychologo, reluzindo, com o labio humido, entalado n'um alto
+collarinho onde se enroscava uma gravata á 1830, confessava modestamente
+que dissecára todas aquellas almas da _Couraça_ com «algum cuidado»,
+sobre documentos, sobre pedaços de vida ainda quentes, ainda a
+sangrar... E foi então que Marizac, o duque de Marizac, notou, com um
+sorriso mais afiado que um lampejo de navalha, e sem tirar as mãos dos
+bolsos:
+
+--No emtanto, meu caro, n'esse livro tão profundamente estudado ha um
+erro bem estranho, bem curioso!...
+
+O Psychologo, vivamente, atirára a cabeça para traz:
+
+--Um erro?
+
+Oh, sim, um erro! E bem inesperado n'um mestre tão experiente!... Era
+attribuir á esplendida amorosa da _Couraça_, uma duqueza, e do gosto
+mais puro,--_um collete de setim preto_! Esse collete, assim preto, de
+setim, apparecia na bella pagina de analyse e paixão em que ella se
+despia no quarto de Ruy d'Alize. E Marizac, sempre com as mãos nos
+bolsos, mais grave, appellava para aquelles senhores. Pois era
+verosimil, n'uma mulher como a duqueza, esthetica, pre-raphaelitica, que
+se vestia no Doucet, no Paquin, nos costureiros intellectuaes, um
+collete de setim preto?
+
+O Psychologo emmudecera, colhido, trespassado! Marizac era uma tão
+suprema auctoridade sobre a roupa intima das duquezas, que á tarde, em
+quartos de rapazes, por impulsos idealistas e anceios d'alma
+dolorida--se põem em collete e saia branca!... De resto o director do
+_Boulevard_ condemnára logo sem piedade, com uma experiencia firme,
+aquelle collete, só possivel n'alguma mercieira atrazada que ainda
+procurasse effeitos de carne nedia sobre setim negro. E eu, para que me
+não julgassem alheio ás coisas dos adulterios ducaes e do luxo, acudi,
+mettendo os dedos pelo cabello:
+
+--Realmente, preto, só se estivesse de lucto pesado, pelo pae!
+
+O pobre mestre da _Couraça_ succumbira. Era a sua gloria de Doutor em
+Elegancias-Femininas desmantelada--e Paris suppondo que elle nunca vira
+uma duqueza desatacar o collete na sua alcova de Psychologo! Então,
+passando o lenço sobre os labios que a angustia ressequira, confessou o
+erro, e contrictamente o attribuiu a uma improvisação tumultuosa:
+
+--Foi um tom falso, um tom perfeitamente falso que me escapou!... Com
+effeito! é absurdo, um collete preto!... Mesmo por harmonia com o estado
+da alma da duqueza devia ser lilaz, talvez côr de reseda muito
+desmaiada, com um frouxo de rendas antigas de Malines... É prodigioso
+como me escapou! Pois tenho o meu caderno de entrevistas bem annotadas,
+bem documentadas!...
+
+Na sua amargura, terminou por supplicar a Marizac que espalhasse por
+toda a parte, no Club, nas salas, a sua confissão. Fôra um engano de
+artista, que trabalha na febre, vasculhando as almas, perdido nas
+profundidades negras das almas! Não reparára no collete, confundira os
+tons... E gritou, com os braços estendidos para o director do
+_Boulevard_:
+
+--Estou prompto a fazer uma rectificação, n'uma _interview_, meu caro
+mestre! Mande um dos seus redactores... Ámanhã, ás dez horas! Fazemos
+uma _interview_, fixamos a côr. Evidentemente é lilaz... Mande um dos
+seus homens, meu caro mestre! É tambem uma occasião para eu confessar,
+bem alto, os serviços que o _Boulevard_ tem feito ás sciencias
+psychologicas e feministas!
+
+Assim elle supplicava, encostado á estante, ás lombadas dos Santos
+Padres. E eu abalei, vendo ao fundo da Bibliotheca Jacintho que se
+debatia e se recusava entre dous homens.
+
+Eram os dois homens de Madame de Treves--o marido, conde de Treves,
+descendente dos reis de Candia, e o amante, o terrivel banqueiro judeu,
+David Ephraim. E tão enfronhadamente assaltavam o meu Principe que nem
+me reconheceram, ambos n'um aperto de mão molle e vago me trataram por
+«caro conde»! N'um relance, rebuscando charutos sobre a mesa de
+limoeiro, comprehendi que se tramava a _Companhia das Esmeraldas da
+Birmania_, medonha empreza em que scintillavam milhões, e para que os
+dous confederados de bolsa e d'alcôva, desde o começo do anno, pediam o
+nome, a influencia, o dinheiro de Jacintho. Elle resistira, n'um enfado
+dos negocios, desconfiado d'aquellas esmeraldas soterradas n'um valle da
+Asia. E agora o conde de Treves, um homem esgrouviado, de face
+rechupada, erriçada de barba rala, sob uma fronte rotunda e amarella
+como um melão, assegurava ao meu pobre Principe que no Prospecto já
+preparado, demonstrando a grandeza do negocio, perpassava um fulgôr das
+_Mil e Uma noites_. Mas sobretudo aquella excavação de esmeraldas
+convidava todo o espirito culto pela sua acção civilisadora. Era uma
+corrente de idéas occidentaes, invadindo, educando a Birmania. Elle
+acceitára a direcção por patriotismo...
+
+--De resto é um negocio de joias, de arte, de progresso, que deve ser
+feito, n'um mundo superior, entre amigos...
+
+E do outro lado o terrivel Ephraim, passando a mão curta e gorda sobre a
+sua bella barba, mais frisada e negra que a d'um Rei Assyrio, affiançava
+o triumpho da empreza pelas grossas forças que n'ella entravam, os
+Nagayers, os Bolsans, os Saccart...
+
+Jacintho franzia o nariz, enervado:
+
+--Mas, ao menos, estão feitos os estudos? Já se provou que ha
+esmeraldas?
+
+Tanta ingenuidade exasperou Ephraim:
+
+--Esmeraldas! Está claro que ha esmeraldas!... Ha sempre esmeraldas
+desde que haja accionistas!
+
+E eu admirava a grandeza d'aquella maxima--quando appareceu, esbaforido,
+desdobrando o lenço muito perfumado, um dos familiares do 202, Todelle
+(Antonio de Todelle), moço já calvo, d'infinitas prendas, que conduzia
+Cotillons, imitava cantores de Café Concerto, temperava saladas raras,
+conhecia todos os enredos de Paris.
+
+--Já veio?... Já cá está o Gran-Duque?
+
+Não, S. Alteza ainda não chegára. E Madame de Todelle?
+
+--Não poude... No sophá... Esfolou uma perna.
+
+--Oh!
+
+--Quasi nada... Cahiu do velocipede!
+
+Jacintho, logo interessado:
+
+--Ah! Madame de Todelle anda já de velocipede?
+
+--Aprende. Nem tem velocipede!... Agora, na quaresma, é que se applicou
+mais, no velocipede do padre Ernesto, do cura de S. José! Mas hontem, no
+Bosque, zás, terra!... Perna esfolada. Aqui.
+
+E na sua propria côxa, com a unha, vivamente, desenhou o esfolão.
+Ephraim, brutal e serio, murmurou:--«Diabo! é no melhor sitio!» Mas
+Todelle nem o escutára, correndo para o director do _Boulevard_, que se
+avançava, lento e barrigudo, com o seu monoculo negro semelhante a um
+pacho. Ambos se collaram contra uma estante, n'um cochichar profundo.
+
+Jacintho e eu entramos então no bilhar, forrado de velhos couros de
+Cordova, onde se fumava. Ao canto d'um divan, o grande Dornan, o poeta
+neo-platonico e mystico, o Mestre subtil de todos os rithmos, espapado
+nas almofadas, com um dos pés sob a côxa gorda, como um Deus indio, dois
+botões do collete desabotoados, a papeira cahida sobre o largo decote do
+collarinho, mamava magestosamente um immenso charuto. Ao pé d'elle,
+também sentado, um velho que eu nunca encontrára no 202, esbelto, de
+cabellos brancos em anneis passados por traz das orelhas, a face coberta
+de pó de arroz, um bigodinho muito negro e arrebitado, findára
+certamente alguma historia de bom e grosso sal--porque deante do divan,
+de pé, Joban, o suprèmo Critico de Theatro, ria com a calva escarlate de
+gôso, e um moço muito ruivo (descendente de Colygny), de perfil de
+periquito, sacudia os braços curtos como azas, e gania: «delicioso!
+divino!» Só o poeta idealista permanecera impassivel, na sua magestade
+obesa. Mas, quando nos acercamos, esse Mestre do rythmo perfeito, depois
+de soprar uma farta fumarada e me saudar com um pesado mover das
+palpebras, começou n'uma voz de rico e sonoro metal:
+
+--Ha melhor, ha infinitamente melhor... Todos aqui conhecem Madame
+Noredal. Madame Noredal tem umas immensas nadegas...
+
+Desgraçadamente para o meu regalo Todelle invadiu o bilhar, reclamando
+Jacintho com alarido. Eram as senhoras que desejavam ouvir no
+Phonographo uma aria da Patti! O meu amigo sacudiu logo os hombros,
+n'uma surda irritação:
+
+--Aria da Patti... Eu sei lá! Todos esses rolos estão em confusão. Além
+d'isso o Phonographo trabalha mal. Nem trabalha! Tenho tres. Nenhum
+trabalha!
+
+--Bem! exclamou alegremente Todelle. Canto eu a _Pauvre fille_... É mais
+de ceia! _Oh, la pauv', pauv', pauv'_...
+
+Travou do meu braço, e arrastou a minha timidez serrana para o salão côr
+de rosa murcha, onde, como Deusas n'um circulo escolhido do Olympo,
+resplandeciam Madame d'Oriol, Madame Verghane, a princeza de Carman, o
+uma outra loura, com grandes brilhantes nas grandes farripas, e
+d'hombros tão nús, e braços tão nús, e peitos tão nús, que o seu vestido
+branco com bordados d'ouro pallido parecia uma camisa, a escorregar.
+Impressionado, ainda retive Todelle, rugi baixinho:--«Quem é?» Mas já o
+festivo homem correra para Madame d'Oriol, com quem riam, n'uma
+familiaridade superior e facil, Marizac (o duque de Marizac) e um moço
+de barba côr de milho e mais leve que uma penugem, que se balouçava
+gracilmente sobre os pés, como uma espiga ao vento. E eu, encalhado
+contra o piano, esfregava lentamente as mãos, amassando o meu embaraço,
+quando Madame Verghane se ergueu do sophá onde conversava com um velho
+(que tinha a Gran-Cruz de Santo André), e avançou, deslizou no tapete,
+pequena e nedia, na sua copiosa cauda de velludo verde-negro. Tão fina
+era a cinta, entre os encontros fecundos e a vastidão do peito, todo nú
+e côr de nacar, que eu receava que ella partisse pelo meio, no seu lento
+ondular. Os seus famosos bandós negros, d'um negro furioso, inteiramente
+lhe tapavam as orelhas; e, no grande aro d'ouro que os circumdava,
+reluzia uma estrella de brilhantes, como na fronte dos anjos de
+Boticelli. Conhecendo sem dúvida a minha auctoridade no 202, ella
+despediu sobre mim ao passar, como raio benefico, um sorriso que lhe
+liquescia mais os olhos liquidos, e murmurou:
+
+--O Gran-Duque vem, com certeza?
+
+--Oh com certeza, minha senhora, para o peixe!
+
+--P'ra o peixe?...
+
+Mas justamente, na antecamara, rompeu, em rufos e arcadas triumphaes, a
+marcha de Rakoczy. Era elle! Na Bibliotheca, o nosso retumbante mordomo
+annunciava:
+
+--S. Alteza o Gran-Duque Casimiro!
+
+Madame de Verghane, com um curto suspiro d'emoção, alteou o peito, como
+para lhe expôr melhor a magnificencia eburnea. E o homem do _Boulevard_,
+o velho da Gran-Cruz, Ephraim, quasi me empurraram, investindo para a
+porta, na immensa sofreguidão de Pessoa Real.
+
+Precedido por Jacintho, o Gran-Duque surgiu. Era um possante homem, de
+barba em bico, já grisalha, um pouco calvo. Durante um momento hesitou,
+com um balanço lento sobre os pés pequeninos, calçados de sapatos rasos,
+quasi sumidos sob as pantalonas muito largas. Depois, pesado e risonho,
+veio apertar a mão ás senhoras que mergulhavam nos velludos e sêdas, em
+mesuras de Côrte. E immediatamente, batendo com carinhosa jovialidade no
+hombro de Jacintho:
+
+--E o peixe?... Preparado pela receita que mandei, hein?
+
+Um murmurio de Jacintho tranquillisou S. Alteza.
+
+--Ainda bem, ainda bem! exclamou elle, no seu vozeirão de commando. Que
+eu não jantei, absolutamente não jantei! É que se está jantando
+deploravelmente em casa do Joseph. Mas porque se vai jantar ainda ao
+Joseph? Sempre que chego a Paris, pergunto: «Onde é que se janta agora?»
+Em casa do Joseph!... Qual! não se janta! Hoje, por exemplo,
+gallinholas... Uma peste! Não tem, não tem a noção da gallinhola!
+
+Os seus olhos azulados, d'um azul sujo, rebrilhavam, alargados pela
+indignação:
+
+--Paris está perdendo todas as suas superioridades. Já se não janta, em
+Paris!
+
+Então, em redor, aquelles senhores concordaram, desolados. O conde de
+Treves defendeu o Bignon, onde se conservavam nobres tradições. E o
+director do _Boulevard_, que se empurrava todo para S. Alteza, attribuia
+a decadencia da cozinha, em França, á Republica, ao gosto democratico e
+torpe pelo barato.
+
+--No Paillard, todavia...--começou o Ephraim.
+
+--No Paillard! gritou logo o Gran-Duque. Mas os Borgonhas são tão maus!
+os Borgonhas são tão maus!...
+
+Deixára pender os braços, os hombros, descorçoado. Depois, com o seu
+lento andar balançado como o d'um velho piloto, atirando um pouco para
+traz as lapellas da casaca, foi saudar Madame d'Oriol, que toda ella
+faiscou, no sorriso, nos olhos, nas joias, em cada préga das suas sêdas
+côr de salmão. Mas apenas a clara e macia creatura, batendo o leque como
+uma aza alegre, começára a chalrar, S. Alteza reparou no apparelho do
+Theatrophone, pousado sobre uma mesa entre flôres, e chamou Jacintho:
+
+--Em communicação com o Alcazar?... O Theatrophone?
+
+--Certamente, meu senhor.
+
+Excellente! Muito chic! Elle ficára com pena de não ouvir a Gilberte
+n'uma cançoneta nova, as _Casquettes_. Onze e meia! Era justamente a
+essa hora que ella cantava, no ultimo acto da _Revista
+Electrica_...--Collou ás orelhas os dous «receptores» do Theatrophone, e
+quedou embebido, com uma ruga séria na testa dura. De repente, n'um
+commando forte:
+
+--É ella! Chut! Venham ouvir!... É ella! Venham todos! Princeza de
+Carman, para aqui! Todos! É ella! Chut...
+
+Então, como Jacintho installára prodigamente dois Theatrophones, cada um
+provido de doze fios, as senhoras, todos aquelles cavalheiros, se
+apressaram a acercar submissamente um receptor do ouvido, e a permanecer
+immoveis para saborear _Les Casquettes_. E no salão côr de rosa murcha,
+na nave da Bibliotheca, onde se espalhára um silencio augusto, só eu
+fiquei desligado do Theatrophone, com as mãos nas algibeiras e ocioso.
+
+No relogio monumental, que marcava a hora de todas as Capitaes e o
+movimento de todos os Planetas, o ponteiro rendilhado adormeceu. Sobre a
+mudez e a immobilidade pensativa d'aquelles dorsos, d'aquelles decotes,
+a Electricidade refulgia com uma tristeza de sol regelado. E de cada
+orelha attenta, que a mão tapava, pendia um fio negro, como uma tripa.
+Dornan, esbroado sobre a mesa, cerrára as palpebras, n'uma meditação de
+monge obeso. O historiador dos Duques d'Anjou, com o «receptor» na ponta
+delicada dos dedos, erguendo o nariz agudo e triste, gravemente cumpria
+um dever palaciano. Madame d'Oriol sorria, toda languida, como se o fio
+lhe murmurasse doçuras. Para desentorpecer arrisquei um passo timido.
+Mas cahiu logo sobre mim um _chut_ severo do Gran-Duque! Recuei para
+entre as cortinas da janella, a abrigar a minha ociosidade. O Philologo
+da _Couraça_, distante da mesa, com o seu comprido fio esticado, mordia
+o beiço, n'um esforço de penetração. A beatitude de S. Alteza, enterrado
+n'uma vasta poltrona, era perfeita. Ao lado o collo de Madame Verghane
+arfava como uma onda de leite. E o meu pobre Jacintho, n'uma applicação
+conscienciosa, pendia sobre o Theatrophone tão tristemente como sobre
+uma sepultura.
+
+Então, ante aquelles seres de superior civilisação, sorvendo n'um
+silencio devoto as obscenidades que a Gilberte lhes gania, por debaixo
+do solo de Paris, atravez de fios mergulhados nos esgotos, cingidos aos
+canos das fezes,--pensei na minha aldeia adormecida. O crescente de lua,
+que, seguido d'uma estrellinha, corria entre nuvens sobre os telhados e
+as chaminés negras dos Campos-Elyseos, tambem andava lá fugindo, mais
+lustrosa e mais dôce, por cima dos pinheiraes. As rãs coaxavam ao longe
+no Pego da Dona. A ermidinha de S. Joaquim branquejava no cabeço,
+nuasinha e candida...
+
+Uma das senhoras murmurou:
+
+--Mas, não é a Gilberte!...
+
+E um dos homens:
+
+--Parece um cornetim...
+
+--Agora são palmas...
+
+--Não, é o Paulin!
+
+O Gran-Duque lançou um _chut_ feroz... No pateo da nossa casa ladravam
+os cães. D'além do ribeiro respondiam os cães do João Saranda. Como me
+encontrei descendo por uma quelha, sob as ramadas, com o meu varapau ao
+hombro? E sentia, entre a sêda das cortinas, n'um fino ar macio, o
+cheiro das pinhas estalando nas lareiras, o calor dos curraes atravez
+das sebes altas, e o susurro dormente das levadas...
+
+Despertei a um brado que não sahia nem dos eidos, nem das sombras. Era o
+Gran-Duque que se erguera, encolhia furiosamente os hombros:
+
+--Não se ouve nada!... Só guinchos! E um zumbido! Que massada!... Pois é
+uma belleza, a cançoneta:
+
+Oh les casquettes,
+Oh les casque-e-e-tes!...
+
+Todos largaram os fios--proclamavam a Gilberte deliciosa. E o mordomo
+bemdito, abrindo largamente os dous batentes, annunciou:
+
+--_Monseigneur est servi_!
+
+Na mesa, que pelo esplendor das orchideas mereceu os louvores ruidosos
+de S. Alteza, fiquei entre o ethereo poeta Dornan e aquelle moço de
+pennugem loura que balouçava como uma espiga ao vento. Depois de
+desdobrar o guardanapo, de o accomodar regaladamente sobre os joelhos,
+Dornan desenvencilhou da corrente do relogio uma enorme luneta para
+percorrer o _menu_--que approvou. E inclinando para mim a sua face de
+Apostolo obeso:
+
+--Este Porto de 1834, aqui era casa do Jacintho, deve ser authentico...
+Hein?
+
+Assegurei ao Mestre dos Rythmos que o «Porto» envelhecêra nas adegas
+classicas do avô Galião. Elle afastou, n'uma preparação methodica, os
+longos, densos fios do bigode que lhe cobriam a bocca grossa. Os
+escudeiros serviram um consommé frio com trufas. E o moço côr de milho,
+que espalhára pela mesa o seu olhar azul e dôce, murmurou, com uma
+desconsolação risonha:
+
+--Que pena!... Só falta aqui um general e um bispo!
+
+Com effeito! Todas as Classes Dominantes comiam n'esse momento as trufas
+do meu Jacintho... Mas defronte Madame d'Oriol lançára um riso mais
+cantado que um gorgeio. O Gran-Duque, n'uma silva de orchideas que
+orlava o seu talher, notára uma, sombriamente horrenda, semelhante a um
+lacrau esverdinhado, de azas lustrosas, gordo e tumido de veneno: e
+muito delicadamente offertára a flôr monstruosa a Madame d'Oriol, que,
+com trinado riso, solemnemente, a collocou no seio. Collado áquella
+carne macia, d'uma brancura de nata fina, o lacrau inchára, mais verde,
+com as azas frementes. Todos os olhos se accendiam, se cravavam no lindo
+peito, a que a flôr disforme, de côr venenosa, apimentava o sabor. Ella
+reluzia, triumphava. Para ageitar melhor a orchidea os seus dedos
+alargaram o decote, aclararam bellezas, guiando aquellas curiosidades
+flammejantes que a despiam. A face vincada de Jacintho pendia para o
+prato vasio. E o alto lyrico do _Crepusculo Mystico_, passando a mão
+pelas barbas, rosnou com desdem:
+
+--Bella mulher... Mas ancas seccas, e aposto que não tem nadegas!
+
+No emtanto o moço de loura pennugem voltára á sua estranha mágoa. Não
+possuirmos um general com a sua espada, e um bispo com seu baculo!...
+
+--Para que, meu caro senhor?
+
+Elle atirou um gesto suave em que todos os seus anneis faiscaram:
+
+--Para uma bomba de dynamite... Temos aqui um explendido ramalhete de
+flôres de Civilisacão, com um Gran-Duque no meio. Imagine uma bomba de
+dynamite, atirada da porta!... Que bello fim de ceia, n'um fim de
+seculo!
+
+E como eu o considerava assombrado, elle, bebendo golos de
+Chateau-Yquem, declarou que hoje a unica emoção, verdadeiramente fina,
+seria aniquillar a Civilisação. Nem a sciencia, nem as artes, nem o
+dinheiro, nem o amor, podiam já dar um gosto intenso e real ás nossas
+almas saciadas. Todo o prazer que se extrahíra de _crear_ estava
+esgotado. Só restava, agora, o divino prazer de _destruir_!
+
+Desenrolou ainda outras enormidades, com um riso claro nos olhos claros.
+Mas eu não attendia o gentil pedante, colhido por outro
+cuidado--reparando que em torno, subitamente, todo o serviço estacára
+como no conto do Palacio Petrificado. E o prato agora devido era o peixe
+famoso da Dalmacia, o peixe de S. Alteza, o peixe inspirador da festa!
+Jacintho, nervoso, esmagava entre os dedos uma flôr. E todos os
+escudeiros sumidos!
+
+Felizmente o Gran-Duque contava a historia d'uma caçada, nas coutadas de
+Sarvan, em que uma senhora, mulher de um banqueiro, saltára bruscamente
+do cavallo, n'um descampado, sem arvores. Elle e todos os caçadores
+param--e a galante senhora, livida, com a amazona arregaçada, corre para
+traz d'uma pedra... Mas nunca soubemos em que se occupava a banqueira,
+n'esse descampado, agachada atraz da pedra--porque justamente o mordomo
+appareceu, relusente de suor, e balbuciou uma confidencia a Jacintho,
+que mordeu o beiço, trespassado. O Gran-Duque emmudecera. Todos se
+entre-olhavam, n'uma anciedade alegre. Então o meu Principe, com
+paciencia, com heroicidade, forçando pallidamente o sorriso:
+
+--Meus amigos, ha uma desgraça...
+
+Dornan pulou na cadeira:
+
+--Fogo?
+
+Não, não era fogo. Fôra o elevador dos pratos, que inesperadamente, ao
+subir o peixe de S. Alteza, se desarranjára, e não se movia, encalhado!
+
+O Gran-Duque arremessou o guardanapo. Toda a sua polidez estalava como
+um esmalte mal posto:
+
+--Essa é forte!... Pois um peixe que me deu tanto trabalho! Para que
+estamos nós aqui então a cear? Que estupidez! E porque o não trouxeram á
+mão, simplesmente? Encalhado... Quero vêr! Onde é a copa?
+
+E, furiosamente, investiu para a copa, conduzido pelo mordomo que
+tropeçava, vergava os hombros, ante esta esmagadora colera de Principe.
+Jacintho seguiu, como uma sombra, levado na rajada de S. Alteza. E eu
+não me contive, tambem me atirei para a copa, a contemplar o desastre,
+emquanto Dornan, batendo na côxa, clamava que se ceasse sem peixe!
+
+O Gran-Duque lá estava, debruçado sobre o poço escuro do elevador, onde
+mergulhára uma vela que lhe avermelhava mais a face esbraseada.
+Espreitei, por sobre o seu hombro real. Em baixo, na treva, sobre uma
+larga prancha, o peixe precioso alvejava, deitado na travessa, ainda
+fumegando, entre rodellas de limão. Jacintho, branco como a gravata,
+torturava desesperadamente a mola complicada do ascensor. Depois foi o
+Gran-Duque que, com os pulsos cabelludos, atirou um empuxão tremendo aos
+cabos em que elle rolava. Debalde! O apparelho enrijára n'uma inercia de
+bronze eterno.
+
+Sêdas roçagaram á entrada da copa. Era Madame d'Oriol, e atraz Madame
+Verghane, com os olhos a faiscar, na curiosidade d'aquelle lance em que
+o Principe soltára tanta paixão. Marizac, nosso intimo, surgiu tambem,
+risonho, propondo uma descida ao poço com escadas. Depois foi o
+Psychologo, que se abeirou, psychologou, attribuindo intenções sagazes
+ao peixe que assim se recusava. E a cada um o Gran-Duque, escarlate,
+mostrava com dedo tragico, no fundo da cova, o seu peixe! Todos
+afundavam a face, murmuravam: «lá está!» Todelle, na sua precipitação,
+quasi se despenhou. O periquito descendente de Colygny batia as azas,
+ganindo:--«Que cheiro elle deita, que delicia!» Na copa atulhada os
+decotes das senhoras roçavam a farda dos lacaios. O velho caiado de pó
+d'arroz metteu o pé n'um balde de gelo, com um berro ferino. E o
+Historiador dos Duques d'Anjou movia por cima de todos o seu nariz
+bicudo e triste.
+
+De repente, Todelle teve uma idéa!
+
+--É muito simples... É pescar o peixe!
+
+O Gran-Duque bateu na côxa uma palmada triumphal. Está claro! Pescar o
+peixe! E no gozo d'aquella facecia, tão rara e tão nova, toda a sua
+colera se sumíra, de novo se tornára o Principe amavel, de magnifica
+polidez, desejando que as senhoras se sentassem para assistir á pesca
+miraculosa! Elle mesmo seria o pescador! Nem se necessitava, para a
+divertida façanha, mais que uma bengala, uma guita e um gancho.
+Immediatamente Madame d'Oriol, excitada, offereceu um dos seus ganchos.
+Apinhados em volta d'ella, sentindo o seu perfume, o calor da sua pelle,
+todos exaltamos a amoravel dedicação. E o Psychologo proclamou que nunca
+se pescára com tão divino anzol!
+
+Quando dois escudeiros estonteados voltaram, trazendo uma bengala e um
+cordel, já o Gran-Duque, radiante, vergára o gancho em anzol. Jacintho,
+com uma paciencia livida, erguia uma lampada sobre a escuridão do poço
+fundo. E os senhores mais graves, o Historiador, o director do
+_Boulevard_, o Conde de Treves, o homem de cabeça á Van-Dick, sorriam,
+amontoados á porta, n'um interesse reverente pela phantasia de S.
+Alteza. Madame de Treves, essa, examinava serenamente, com a sua nobre
+luneta, a installação da copa. Só Dornan não se erguera da mesa, com os
+punhos cerrados sobre a toalha, o gordo pescoço encovado, no tedio
+sombrio de fera a quem arrancaram a posta.
+
+No emtanto S. Alteza pescava com fervor! Mas debalde! O gancho, pouco
+agudo, sem presa, bamboleando na extremidade da guita frouxa, não
+fisgava.
+
+--Oh Jacintho, erga essa luz! gritava elle, inchado e suado. Mais!...
+Agora! Agora! É na guelra! Só na guelra é que o gancho o póde prender.
+Agora... Qual! Que diabo! Não vae!
+
+Tirou a face do poço, resfolgando e affrontado. Não era possivel! Só
+carpinteiros, com alavancas!... E todos, anciosamente, bradamos que se
+abandonasse o peixe!
+
+O Principe, risonho, sacudindo as mãos, concordava que por fim «fôra
+mais divertido pescal-o do que comêl-o!» E o elegante bando refluiu
+sofregamente para a mesa, ao som d'uma valsa de Strauss, que os Tziganes
+arremeçaram em arcadas de languido ardôr. Só Madame de Treves se demorou
+ainda, retendo o meu pobre Jacintho, para lhe assegurar quanto admirava
+o arranjo da sua copa... Oh perfeita! Que comprehensão da vida, que fina
+intelligencia do conforto!
+
+S. Alteza, encalmado pelo esforço, esvasiou poderosamente dous copos de
+Chateau-Lagrange. Todos o acclamavam como um pescador genial. E os
+escudeiros serviram o _Barão de Pauillac_, cordeiro das lezirias
+marinhas, que, preparado com ritos quasi sagrados, toma este grande nome
+sonoro e entra no Nobiliario de França.
+
+Eu comi com o appetite d'um heroe de Homero. Sobre o meu copo e o de
+Dornan o Champagne scintillou e jorrou ininterrompidamente como uma
+fonte de inverno. Quando se serviram ortolans gelados, que se derretiam
+na bocca, o divino poeta murmurou, para meu regalo, o seu soneto sublime
+a «Santa Clara». E como, do outro lado, o moço de pennugem loura
+insistia pela destruição do velho mundo, tambem concordei, e, sorvendo o
+Champagne coalhado em sorvete, maldissemos o Seculo, a Civilisação,
+todos os orgulhos da Sciencia! Através das flôres e das luzes, no
+emtanto, eu seguia as ondas arfantes do vasto peito de Madame Verghane,
+que ria como uma bacchante. E nem me apiedava de Jacintho que, com a
+doçura de S. Jacintho sobre o cêpo, esperava o fim do seu martyrio e da
+sua festa.
+
+Ella findou. Ainda recordo, ás tres horas da noite, o Gran-Duque na
+antecamara, muito vermelho, mal firme nos pés pequeninos, sem acertar
+com as mangas da pelissa que Jacintho e eu lhe ajudamos a
+enfiar--convidando o meu amigo, n'uma effusão carinhosa, a ir caçar ás
+suas terras da Dalmacia...
+
+--Devo ao meu Jacintho uma bella pesca, quero que elle me deva uma bella
+caçada!
+
+E emquanto o acompanhavamos, entre as alas dos escudeiros, pela vasta
+escada onde o mordomo o precedia erguendo um candelabro de tres lumes,
+S. Alteza repisava, pegajoso:
+
+--Uma bella caçada... E tambem vae Fernandes! Bom Fernandes, Zé
+Fernandes! Ceia superior, meu Jacintho! O _Barão de Pauillac_,
+divino!... Creio que o devemos nomear Duque... O Senhor Duque de
+Pauillac! Mais um bocado da perna do Senhor Duque de Pauillac. Ah!
+Ah!... Não venham fóra! Não se constipem!
+
+E do fundo do coupé, ao rodar, ainda bradou:
+
+--O peixe, Jacintho, desencalha o peixe! Excellente, ao almoço, frio,
+com môlho verde!
+
+Trepando cançadamente os degraus, n'uma molleza de Champagne e somno em
+que os olhos se me cerravam, murmurei para o meu Principe:
+
+--Foi divertido, Jacintho! Sumptuosa mulher, a Verghane! Grande pena, o
+elevador...
+
+E Jacintho, n'um som cavo que era bocejo e rugido:
+
+--Uma massada! E tudo falha!
+
+ * * * * *
+
+Tres dias depois d'esta festa no 202 recebeu o meu Principe
+inesperadamente, de Portugal, uma nova consideravel. Sobre a sua quinta
+e solar de Tormes, por toda a serra, passára uma tormenta devastadora de
+vento, corisco e agua. Com as grossas chuvas, «ou por outras causas que
+os peritos dirão» (como exclamava na sua carta angustiada o procurador
+Silverio), um pedaço de monte, que se avançava em socalco sobre o valle
+da Carriça, desabára, arrastando a velha egreja, uma egrejinha rustica
+do seculo XVI, onde jaziam sepultados os avós de Jacintho desde os
+tempos de el-rei D. Manoel. Os ossos veneraveis d'esses Jacinthos jaziam
+agora soterrados sob um montão informe de terra e pedra. O Silverio já
+começára com os moços da quinta a desatulhar dos «preciosos restos». Mas
+esperava anciosamente as ordens de sua exc.^a...
+
+Jacintho empallidecêra, impressionado. Esse velho solo serrano, tão rijo
+e firme desde os Godos, que de repente ruia! Esses jazigos de paz
+piedosa, precipitados com fragor, na borrasca e na treva, para um negro
+fundo de valle! Essas ossadas, que todas conservavam um nome, uma data,
+uma historia, confundidas n'um lixo de ruina!
+
+--Coisa estranha, coisa estranha!...
+
+E toda a noite me interrogou ácerca da serra e de Tormes, que eu
+conhecia desde pequeno, por que o velho solar, com a sua nobre alameda
+de faias seculares, se erguia a duas legoas da nossa casa, no antigo
+caminho de Guiães á estação e ao rio. O caseiro de Tormes, o bom
+Melchior, era cunhado do nosso feitor da Roqueirinha:--e muitas vezes,
+depois da minha intimidade com Jacintho, eu entrára no robusto casarão
+de granito, e avaliára o grão espalhado pelas salas sonoras, e provára o
+vinho novo nas adegas immensas...
+
+--E a egreja, Zé Fernandes?... Entraste na egreja?
+
+--Nunca... Mas era pittoresca, com uma torresinha quadrada, toda negra,
+onde ha muitos annos vivia uma familia de cegonhas... Terrivel
+transtorno para as cegonhas!
+
+--Coisa estranha! murmurava ainda o meu Principe, agourado.
+
+E telegraphou ao Silverio que desatulhasse o valle, recolhesse as
+ossadas, reedificasse a Egreja, e, para esta obra de piedade e
+reverencia, gastasse o dinheiro, sem contar, como a agua d'um rio largo.
+
+
+
+
+V
+
+
+No emtanto Jacintho, desesperado com tantos desastres humilhadores--as
+torneiras que dessoldavam, os elevadores que emperravam, o Vapor que se
+encolhia, a Electricidade que se sumia, decidiu valorosamente vencer as
+resistencias finaes da Materia e da Força por novas e mais poderosas
+accumulacões de Mechanismos. E n'essas semanas de Abril, emquanto as
+rosas desabrochavam, a nossa agitada casa, entre aquellas quietas casas
+dos Campos-Elyseos que preguiçavam ao sol, incessantemente tremeu,
+envolta n'um pó de caliça e d'empreitada, com o bruto picar de pedra, o
+retininte martelar de ferro. Nos silenciosos corredores, onde me era
+dôce fumar antes do almoço um pensativo cigarro, circulavam agora, desde
+madrugada, ranchos d'operarios, de blusas brancas, assobiando o
+_Petît-Bleu_, e intimidando os meus passos quando eu atravessava em
+fralda e chinellas para o banho ou para outros retiros. Apenas se varava
+com pericia algum andaime obstruindo as portas--logo se esbarrava com
+uma pilha de taboas, uma ceira de farramentas ou um balde enorme
+d'argamassa. E os pedaços de soalho levantado mostravam tristemente,
+como n'um cadaver aberto, todos os interiores do 202, a ossatura, os
+sensiveis nervos d'arame, os negros intestinos de ferro fundido.
+
+Cada dia estacava deante do portão alguma lenta carroça, d'onde os
+creados, em mangas de camisa, descarregavam caixotes de madeira, fardos
+de lona, que se despregavam e se descosiam n'uma sala asphaltada, ao
+fundo do jardim, por traz da sebe de lilazes. E eu descia, reclamado
+pelo meu Principe, para admirar uma nova Machina que nos tornaria a vida
+mais facil, estabelecendo d'um modo mais seguro o nosso dominio sobre a
+Substancia. Durante os calores, que apertaram depois da Ascenção,
+ensaiamos esperançadamente, para refrescar as aguas mineraes, a
+Soda-Water e os Medocs ligeiros, tres geleiras, que se amontoaram na
+copa successivamente desprestigiadas. Com os morangos novos appareceu um
+instrumentosinho astuto, para lhes arrancar os pés, delicadamente.
+Depois recebemos outro, prodigioso, de prata e crystal, para remexer
+phreneticamente as saladas; e, na primeira vez que o experimentei, todo
+o vinagre esparrinhou sobre os olhos do meu Principe, que fugiu aos
+uivos! Mas elle teimava... Nos actos mais elementares, para alliviar ou
+apressar o esforço, se soccorria Jacintho da Dynamica. E agora era por
+intervenção d'uma machina que abotoava as ceroulas.
+
+E simultaneamente, ou em obediencia á sua Idéa, ou governado pelo
+despotismo do habito, não cessava, ao lado da Mechanica accumulada, de
+accumular Erudição. Oh, a invasão dos livros no 202! Solitarios, aos
+pares, em pacotes, dentro de caixas, franzinos, gordos e repletos de
+auctoridade, envoltos em plebeia capa amarella ou revestidos de
+marroquim e ouro, perpetuamente, torrencialmente, invadiam por todas as
+largas portas a Bibliotheca, onde se estiravam sobre o tapete, se
+repimpavam nas cadeiras macias, se enthronisavam em cima das mesas
+robustas, e sobretudo trepavam contra as janellas, em sofregas pilhas,
+como se, suffocados pela sua propria multidão, procurassem com ancia
+espaço e ar! Na erudita nave, onde apenas alguns vidros mais altos
+restavam descobertos, sem tapume de livros, perennemente se adensava um
+pensativo crepusculo de outono emquanto fóra Junho refulgia. A
+Bibliotheca transbordára através de todo o 202! Não se abria um armario
+sem que de dentro se despenhasse, desamparada, uma pilha de livros! Não
+se franzia uma cortina sem que de traz surgisse, hirta, uma ruma de
+livros! E immensa foi a minha indignação quando uma manhã, correndo
+urgentemente, de mãos nas alças, encontrei, vedada por uma tremenda
+collecção de Estudos Sociaes, a porta do Water-Closet!
+
+Mais amargamente porém me lembro da noite historica em que, no meu
+quarto, moido e molle d'um passeio a Versalhes, com as palpebras
+poeirentas e meio adormecidas, tive de desalojar do meu leito,
+praguejando, um pavoroso Diccionario de Industria em trinta e sete
+volumes! Senti então a suprema fartura do livro. Ageitando, com murros,
+os travesseiros, maldisse a Imprensa, a Facundia humana... E já me
+estirára, adormecia, quando topei, quasi parti a preciosa rotula do
+joelho, contra a lombada d'um tomo que velhacamente se aninhára entre a
+parede e os colchões. Com furor e um berro empolguei, arremessei o tomo
+affrontoso--que entornou o jarro, inundou um tapete rico de Daghestan. E
+nem sei se depois adormeci--porque os meus pés, a que não sentia nem o
+pisar nem o rumor, como se um vento brando me levasse, continuaram a
+tropeçar em livros no corredor apagado, depois na areia do jardim que o
+luar branqueava, depois na Avenida dos Campos-Elyseos, povoada e ruidosa
+como n'uma festa civica. E, oh portento! todas as casas aos lados eram
+construidas com livros. Nos ramos dos castanheiros ramalhavam folhas de
+livros. E os homens, as finas damas, vestidos de papel impresso, com
+titulos nos dorsos, mostravam em vez de rosto um livro aberto, a que a
+brisa lenta virava docemente as folhas. Ao fundo, na Praça da Concordia,
+avistei uma escarpada montanha de livros, a que tentei trepar,
+arquejante, ora enterrando a perna em flacidas camadas de versos, ora
+batendo contra a lombada, dura como calhau, de tomos de Exegese e
+Critica. A tão vastas alturas subi, para além da terra, para além das
+nuvens, que me encontrei, maravilhado, entre os astros. Elles rolavam
+serenamente, enormes e mudos, recobertos por espessas crostas de livros,
+d'onde surdia, aqui e além, por alguma fenda, entre dois volumes mal
+juntos, um raiosinho de luz suffocada e anciada. E assim ascendi ao
+Paraiso. Decerto era o Paraiso--porque com meus olhos de mortal argila
+avistei o Ancião da Eternidade, aquelle que não tem Manhã nem Tarde.
+N'uma claridade que d'elle irradiava mais clara que todas as claridades,
+entre fundas estantes d'ouro abarrotadas de codices, sentado em
+vetustissimos folios, com os flocos das infinitas barbas espalhados por
+sobre resmas de folhetos, brochuras, gazetas e catalogos--o Altissimo
+lia. A fronte super-divina que concebera o Mundo pousava sobre a mão
+super-forte que o Mundo creára--e o Creador lia e sorria. Ousei,
+arrepiado de sagrado horror, espreitar por cima do seu hombro
+coruscante. O livro era brochado, de tres francos... O Eterno lia
+Voltaire, n'uma edição barata, e sorria.
+
+Uma porta faiscou e rangeu, como se alguem penetrasse no Paraiso. Pensei
+que um Santo novo chegára da Terra. Era Jacintho, com o charuto em
+braza, um molho de cravos na lapella, sobraçando tres livros amarellos
+que a Princeza de Carman lhe emprestára para lêr!
+
+ * * * * *
+
+N'uma d'essas activas semanas, porém, a minha attenção subitamente se
+despegou d'este interessante Jacintho. Hospede do 202, conservava no 202
+a minha mala e a minha roupa: e, acostado á bandeira do meu Principe,
+ainda occasionalmente comia do seu caldeirão sumptuoso. Mas a minha
+alma, a minha embrutecida alma, e o meu corpo, o meu embrutecido corpo,
+habitavam então na rua do Helder, n.^o 16, quarto andar, porta á
+esquerda.
+
+Descia eu uma tarde, n'uma leda paz de idéas e sensações, o Boulevard da
+Magdalena, quando avistei, deante da Estação dos Omnibus, rondando no
+asphalto, n'um passo lento e felino, uma creatura secca, muito morena,
+quasi tisnada, com dous fundos olhos taciturnos e tristes, e uma matta
+de cabellos amarellados, toda crespa e rebelde, sob o chapéo velho de
+plumas negras. Parei, como colhido por um repuxão nas entranhas. A
+creatura passou--no seu magro rondar de gata negra, sobre um beiral de
+telhado, ao luar de Janeiro. Dous poços fundos não luzem mais negra e
+taciturnamente do que luziam os seus olhos taciturnos e negros. Não
+recordo (Deus louvado!) como rocei o seu vestido de sêda, lustroso e
+encebado nas pregas; nem como lhe rosnei uma súpplica por entre os
+dentes que rangiam; nem como subimos ambos, morosamente e mais
+silenciosos que condemnnados, para um gabinete do Café Durand, safado e
+môrno. Deante do espelho, a creatura, com a lentidão d'um rito triste,
+tirou o chapéo e a romeira salpicada de vidrilhos. A sêda poida do
+corpete esgarçava nos cotovellos agudos. E os seus cabellos eram
+immensos, d'uma dureza e espessura de juba brava, em dous tons
+amarellos, uns mais dourados, outros mais crestados, como a côdea de uma
+torta ao sahir quente do forno.
+
+Com um riso tremulo, agarrei os seus dedos compridos e frios:
+
+--E o nomesinho, hein?
+
+Ella séria, quasi grave:
+
+--Madame Colombe, 16, rua do Helder, quarto andar, porta á esquerda.
+
+E eu (miseravel Zé Fernandes!) tambem me senti muito sério, trespassado
+por uma emoção grave, como se nos envolvesse, n'aquella alcôva de Café,
+a magestade d'um Sacramento. Á porta, empurrada levemente, o creado
+avançou a face nedia. Ordenei uma lagosta, pato com pimentões, e
+Borgonha. E foi sómente ao findarmos o pato que me ergui, amarfanhando
+convulsamente o guardanapo, e a tremer lhe beijei a bocca, todo a
+tremer, n'um beijo profundo e terrivel, em que deixei a alma, entre
+saliva e gôsto de pimentão! Depois, n'uma tipoia aberta, sob um bafo
+molle de leste e de trovoada, subimos a Avenida dos Campos-Elyseos. Em
+frente á grade do 202 murmurei, para a deslumbrar com o meu luxo:--«Móro
+alli, todo o anno!...» E como ao mirar o Palacete, debruçada, ella
+roçára a matta fulva do pello crespo pela minha barba--berrei
+desesperadamente ao cocheiro; que galopasse para a rua do Helder, n.^o
+16, quarto andar, porta á esquerda!
+
+Amei aquella creatura. Amei aquella creatura com Amor, com todos os
+Amores que estão no Amor, o Amor divino, o Amor humano, o Amor bestial,
+como Santo Antonino amava a Virgem, como Romeu amava Julietta, como um
+bode ama uma cabra. Era estupida, era triste. Eu deliciosamente apagava
+a minha alegria na cinza da sua tristeza; e com ineffavel gôsto afundava
+a minha razão na densidade da sua estupidez. Durante sete furiosas
+semanas perdi a consciencia da minha personalidade de Zé
+Fernandes--Fernandes de Noronha e Sande, de Guiães! Ora se me affigurava
+ser um pedaço de cêra que se derretia, com horrenda delicia, n'um forno
+rubro e rugidor: ora me parecia ser uma faminta fogueira onde
+flammejava, estalava e se consumia um mólho de galhos seccos. D'esses
+dias de sublime sordidez só conservo a impressão d'uma alcôva forrada de
+cretones sujos, d'uma bata de lã côr de lilaz com sotaches negros, de
+vagas garrafas de cerveja no marmore d'um lavatorio, e d'um corpo
+tisnado que rangia e tinha cabellos no peito. E tambem me resta a
+sensação de incessantemente e com arrobado deleite me despojar,
+arremessar para um regaço, que se cavava entre um ventre sumido e uns
+joelhos agudos, o meu relogio, os meus berloques, os meus anneis, os
+meus botões de punho de saphira, e as cento e noventa e sete libras em
+ouro que eu trouxera de Guiães n'uma cinta de camurça. Do solido,
+decoroso, bem fornecido Zé Fernandes, só restava uma carcassa errando
+atravéz d'um sonho, com as gambias molles e a baba a escorrer.
+
+Depois, uma tarde, trepando com a costumada gula a escada da rua do
+Helder, encontrei a porta fechada--e arrancado da hombreira aquelle
+cartão de _Madame Colombe_ que eu lia sempre tão devotamente e que era a
+sua taboleta... Tudo no meu ser tremeu como se o chão de Paris tremesse!
+Aquella era a porta do Mundo que ante mim se fechára! Para além estavam
+as gentes, as cidades, a vida, Deus e Ella. E eu ficára sósinho,
+n'aquelle patamar do Não-ser, fóra da porta que se fechára, unico ser
+fóra do Mundo! Rolei pelos degraus, com o fragor e a incoherencia d'uma
+pedra, até ao cubiculo da porteira e do seu homem que jogavam as cartas
+em ditosa pachorra, como se tão pavoroso abalo não tivesse desmantelado
+o Universo!
+
+--Madame Colombe?
+
+A barbuda comadre recolheu lentamente a vaza:
+
+--Ja não mora... Abalou esta manhã, para outra terra, com outra porca!
+
+Para outra terra! com outra porca!... Vasio, negramente vasio de todo o
+pensar, de todo o sentir, de todo o querer--boiei aos tombos, como um
+tonel vasio, na corrente açodada do Boulevard, até que encalhei n'um
+banco da Praça da Magdalena, onde tapei com as mãos, a que não sentia a
+febre, os olhos a que não sentia o pranto! Tarde, muito tarde, quando já
+se cerravam com estrondo as cortinas de ferro das lojas, surdiu, d'entre
+todas estas confusas ruinas do meu ser, a eterna sobrevivente de todas
+as ruinas--a ideia de jantar. Penetrei no Durand, com os passos
+entorpecidos d'um resuscitado. E, n'uma recordação que m'escaldava a
+alma, encommendei a lagosta, o pato, o Borgonha! Mas ao alargar o
+collarinho, ensopado pelo ardor d'aquella tarde de Julho, entre a poeira
+da Magdalena, pensei com desconfôrto:--«Santissimo Nome de Deus! Que
+immensa sêde me fez esta desgraça!...» De manso acenei ao moço:--«Antes
+do Borgonha, uma garrafa de Champagne, com muito gêlo, e um grande
+copo!...» Creio que aquelle Champagne se engarrafára no Ceu onde corre
+perennemente a fresca fonte da Consolação, e que na garrafa bemdita que
+me coube penetrára, antes d'arrolhada, um jorro largo d'essa fonte
+inneffavel. Jesus! que transcendente regalo, o d'aquelle nobre copo,
+embaciado, nevado, a espumar, a picar, n'um brilho d'ouro! E depois,
+garrafa de Borgonha! E depois, garrafa de Cognac! E depois
+Hortelã-Pimenta granitada em gêlo! E depois um desejo arquejante de
+espancar, com o meu rijo marmelleiro de Guiães, a porca que fugira com
+outra porca! Dentro da tipoia fechada, que me transportou n'um galope ao
+202, não suffoquei este santo impulso, e com os meus punhos serranos
+atirei murros retumbantes contra as almofadas, onde _via_, furiosamente
+_via_ a matta immensa de pello amarello, em que a minha alma uma tarde
+se perdera, e tres mezes se debatera, e para sempre se emporcalhára!
+Quando o fiacre estacou no 202 ainda eu espancava tão desesperadamente a
+besta ingrata, que, aos berros do cocheiro, dous moços accudiram e me
+sustiveram, recebendo pelos hombros, sobre as nucas servis, os restos
+cançados da minha colera.
+
+Em cima, repelli a sollicitude do Grillo que tentava impôr ao _siô_ Zé
+Fernandes, a Zé Fernandes de Guiães, a immensa indignidade d'um chá de
+macella! E estirado no leito de D. Galião, com as botas sobre o
+travesseiro, o chapéo alto sobre os olhos, ri, n'um doloroso riso,
+d'este Mundo burlesco e sordido de Jacinthos e de Colombes! E de repente
+senti uma angustia horrenda. Era Ella! Era a Madame Colombe, que
+esfuziára da chamma da vela, e saltára sobre o meu leito, e desabotoára
+o meu collete, e arrombára as minhas costellas, e toda ella, com as
+saias sujas, mergulhára dentro do meu peito, e abocára o meu coração, e
+chupava a sorvos lentos, como na rua do Helder, o sangue do meu coração!
+Então, certo da Morte, ganindo pela tia Vicencia, pendi do leito para
+mergulhar na minha sepultura, que, através da nevoa final, eu distinguia
+sobre o tapete--redondinha, vidrada, de porcelana e com aza. E, sobre a
+minha sepultura, que tão irreverentemente se assimilhava ao meu vaso,
+vomitei o Borgonha, vomitei o pato, vomitei a lagosta. Depois, n'um
+esforço ultra-humano, com um rugido, sentindo que, não sómente toda a
+entranha, mas a alma se esvasiava toda, vomitei Madame Colombe! Recahi
+sobre o leito de D. Galião... Recarreguei o chapéo sobre os olhos para
+não sentir os raios do sol. Era um sol novo, um sol espiritual, que se
+erguia sobre a minha vida. E adormeci, como uma creancinha docemente
+embalada n'um berço de verga pelo Anjo da Guarda.
+
+De manhã, lavei a pelle n'um banho profundo, perfumado com todos os
+aromas do 202, desde folhas de limonete da India até essencia de jasmin
+de França: e lavei a alma com uma rica carta da Tia Vicencia, em letra
+farta, contando da nossa casa, e da linda promessa das vinhas, e da
+compota de ginja que nunca lhe sahíra tão fina, e da alegre fogueira do
+pateo em noite de S. João, e da menininha muito gorda e cabelluda que
+viéra do ceu para a minha afilhada Joanninha. Depois, á janella, bem
+limpo de alma e de corpo, n'uma quinzena de sedinha branca, tomando chá
+de Naïpò, respirando os rosaes do jardim revividos pela chuva da
+madrugada, considerei, em divertido pasmo, que, durante sete semanas, me
+emporcalhára, na rua do Helder, com um estardalho muito magro e muito
+tisnado! E conclui que padecera d'uma longa sezão, sezão da carne, sezão
+da imaginação, apanhada n'um charco de Paris--n'esses charcos que se
+formam através da Cidade com as aguas mortas, os limos, os lixos, os
+tortulhos e os vermes d'uma Civilisação que apodrece.
+
+ * * * * *
+
+Então, curado, todo o meu espirito, como uma agulha para o Norte, se
+virou logo para o meu complicado Principe, que, nas derradeiras semanas
+da minha infecção sentimental, eu entrevira sempre descahido por cima de
+sophás, ou vagueando através da Bibliotheca entre os seus trinta mil
+volumes, com arrastados bocejos de inercia e de vacuidade. Eu, na minha
+pressa indigna, só lhe lançava um distrahido--«que é isso?» Elle, no seu
+moroso desalento, só murmurava um sêcco--«é calor!»
+
+E, n'essa manhã da minha libertação, ao penetrar antes d'almoço no seu
+quarto, no sophá o encontrei enterrado, com o _Figaro_ aberto sobre a
+barriga, a Agenda cahida sobre o tapete, toda a face envolta em sombra,
+e os pés abandonados, n'uma soberana tristeza, ao pedicuro que lhe polia
+as unhas. Decerto o meu olhar reallumiado e repurificado, a brancura das
+minhas flanellas reproduzindo a quietação das minhas sensações, e a
+segura harmonia em que todo o meu ser visivelmente se movia,
+impressionaram o meu Principe--a quem a melancolia nunca embotava a
+agudeza. Ergueu mollemente um braço molle:
+
+--Então esse capricho?
+
+Derramei, sobre elle todo o fulgor d'um riso victorioso:
+
+--Morto! E, como o Snr. de Malbrouck, «morto e bem enterrado.» Jaz! Ou
+antes, rola! Com effeito deve andar agora rolando por dentro do cano do
+esgoto!
+
+Jacintho bocejou, murmurou:
+
+--Este Zé Fernandes de Noronha e Sande!...
+
+E, no meu nome, no meu digno nome assim embrulhado n'um bocejo com
+desprendida ironia, se resumiu todo o interesse d'aquelle Principe pela
+suja tormenta em que se debatera o meu coração! Mas não me melindrou
+esse consummado egoismo... Claramente percebia eu que o meu Jacintho
+atravessava uma densa nevoa de tedio, tão densa, e elle tão afundado na
+sua molle densidade, que as glorias ou os tormentos d'um camarada não o
+commoviam, como muito remotas, intangiveis, separadas da sua
+sensibilidade por immensas camadas de algodão. Pobre Principe da
+Gran-Ventura, tombado para o sophá de inercia, com os pés no regaço do
+pedicuro! Em que lodoso fastio cahira, depois de renovar tão bravamente
+todo o recheio mechanico e erudito do 202, na sua lucta contra a Força e
+a Materia!--E esse fastio não o escondeu mais do seu velho Zé Fernandes
+quando recomeçou entre nós a communhão de vida e de alma a que eu tão
+torpemente me arrancára, uma tarde, deante da Estação dos Omnibus, no
+charco da Magdalena.
+
+Não eram certamente confissões enunciadas. O elegante e reservado
+Jacintho não torcia os braços, gemendo--«Oh vida maldita!» Eram apenas
+expressões saciadas; um gesto de repellir com rancôr a importunidade das
+coisas; por vezes uma immobilidade determinada, de protesto, no fundo
+d'um divan, d'onde se não desenterrava, como para um repouso que
+desejasse eterno; depois os bocejos, os ôcos bocejos com que sublinhava
+cada passo, continuado por fraqueza ou por dever inilludivel; e
+sobretudo aquelle murmurar que se tornára perenne e natural--«Para
+que?»--«Não vale a pena!»--«Que massada!...»
+
+Uma noite no meu quarto, descalçando as botas, consultei o Grillo:
+
+--Jacintho anda tão mucho, tão corcunda... Que será, Grillo?
+
+O venerando preto declarou com uma certeza immensa:
+
+--S. Exc.^a soffre de fartura.
+
+Era fartura! O meu Principe sentia abafadamente a fartura de Paris:--e
+na Cidade, na symbolica Cidade, fóra de cuja vida culta e forte (como
+elle outr'ora gritava, illuminado) o homem do seculo XIX nunca poderia
+saborear plenamente a «delicia de viver», elle não encontrava agora
+fórma de vida, espiritual ou social, que o interessasse, lhe valesse o
+esfôrço d'uma corrida curta n'uma tipoia facil. Pobre Jacintho! Um
+jornal velho, setenta vezes relido desde a Chronica até aos Annuncios,
+com a tinta delida, as dobras roídas, não enfastiaria mais o Solitario,
+que só possuisse na sua Solidão esse alimento intellectual, do que o
+Parisianismo enfastiava o meu doce camarada! Se eu n'esse verão
+capciosamente o arrastava a um Café-Concerto, ou ao festivo Pavilhão
+d'Armenonville, o meu bom Jacintho, collado pesadamente á cadeira com um
+maravilhoso ramo de orchideas na casaca, as finas mãos abatidas sobre o
+castão da bengala, conservava toda a noite uma gravidade tão estafada,
+que eu, compadecido, me erguia, o libertava, gozando a sua pressa em
+abalar, a sua fuga d'ave solta... Raramente (e então com vehemente
+arranque como quem salta um fosso) descia a um dos seus Clubs, ao fundo
+dos Campos-Elyseos. Não se occupara mais das suas Sociedades e
+Companhias, nem dos _Telephones de Constantinopla_, nem das _Religiões
+Esotericas_, nem do _Bazar Espiritualista_, cujas cartas fechadas se
+amontoavam sobre a mesa d'ebano, d'onde o Grillo as varria tristemente
+como o lixo d'uma vida finda. Tambem lentamente se despegava de todas as
+suas convivencias. As paginas da Agenda côr de rosa murcha andavam
+desafogadas e brancas. E se ainda cedia a um passeio de Mail-coach, ou a
+um convite para algum Castello amigo dos arredores de Paris, era tão
+arrastadamente, com um esforço tão saturado ao enfiar o paletot leve,
+que me lembrava sempre um homem, depois d'um gordo jantar de provincia,
+a estalar, que, por pollidez ou em obediencia a um dogma, devesse ainda
+comer uma lamprêa de ovos!
+
+Jazer, jazer em casa, na segurança das portas bem cerradas e bem
+defendidas contra toda a intrusão do mundo, seria uma doçura para o meu
+Principe se o seu proprio 202, com todo aquelle tremendo recheio de
+Civilisação, não lhe désse uma sensação dolorosa de abafamento, de
+atulhamento! Julho escaldava: e os brocados, as alcatifas, tantos moveis
+roliços e fôfos, todos os seus metaes e todos os seus livros, tão
+espessamente o opprimiam, que escancarava sem cessar as janellas para
+prolongar o espaço, a claridade, a frescura. Mas era então a poeira,
+suja e acre, rolada em bafos mornos, que o enfurecia:
+
+--Oh, este pó da Cidade!
+
+--Mas, oh Jacintho, por que não vamos para Fontainebleau, ou para
+Montmorency, ou...
+
+--P'ra o campo? O que! P'ra o campo?!
+
+E na sua face enrugada, através d'este berro, lampejava sempre tanta
+indignação, que eu curvava os hombros, humilde, no arrependimento de ter
+affrontosamente ultrajado o Principe que tanto amava. Desventurado
+Principe! Com o seu dourado cigarro d'Yaka a fumegar, errava então pelas
+salas, lenta e murchamente, como quem vaga em terra alheia sem affeições
+e sem occupações. Esses desaffeiçoados e desoccupados passos
+monotonamente o traziam ao seu centro, ao gabinete verde, á Bibliotheca
+d'ebano, onde accumulara Civilisação nas maximas proporções para gozar
+nas maximas proporções a delicia de viver. Espalhava em tôrno um olhar
+farto. Nenhuma curiosidade ou interesse lhe sollicitavam as mãos,
+enterradas nas algibeiras das pantalonas de sêda, n'uma inercia de
+derrota. Annulado, bocejava com descorçoada molleza. E nada mais
+instructivo e doloroso do que este supremo homem do seculo XIX, no meio
+de todos os apparelhos reforçadores dos seus orgãos, e de todos os fios
+que disciplinavam ao seu serviço as Forças Universaes, e dos seus trinta
+mil volumes repletos do saber dos seculos--estacando, com as mãos
+derrotadas no fundo das algibeiras, e exprimindo, na face e na indecisão
+molle d'um bocejo, o embaraço de viver!
+
+
+
+
+VI
+
+
+Todas as tardes, cultivando uma d'essas intimidades que entre tudo o que
+cança jámais cançam, Jacintho, ás quatro horas, com regularidade devota,
+visitava Madame d'Oriol:--por que essa flôr de Parisianismo permanecera
+em Paris, mesmo depois do Grand-Prix, a desbotar na calma e no cisco da
+Cidade. N'uma d'essas tardes, porém, o Telephone, anciosamente repicado,
+avisou Jacintho de que a sua dôce amiga jantava em Enghien com os
+Trèves. (Esses senhores gozavam o seu verão á beira do lago, n'uma casa
+toda branca e vestida de rosinhas brancas que pertencia a Ephrain).
+
+Era um domingo silencioso, ennevoado e macio, convidando ás
+voluptuosidades da melancolia. E eu (no interesse da minha alma) suggeri
+a Jacintho que subissemos á Basilica do _Sacré-Coeur_, em construcção
+nos altos de Montmartre.
+
+--É uma secca, Zé Fernandes...
+
+--Com mil demonios! Eu nunca vi a Basilica...
+
+--Bem, bem! Vamos á Basilica, homem fatal de Noronha e Sande!
+
+E por fim logo que começamos a penetrar, para além de S. Vicente de
+Paula, em bairros estreitos e ingremes, d'uma quietação de provincia,
+com muros velhos fechando quintalejos rusticos, mulheres despenteadas
+cozendo á soleira das portas, carriolas desatreladas descançando diante
+das tascas, gallinhas soltas picando o lixo, cueiros molhados seccando
+em canas--o meu fastidioso camarada sorriu áquella liberdade e singeleza
+das cousas.
+
+A vittoria parou em frente á larga rua de escadarias que trepa, cortando
+viellasinhas campestres, até á esplanada, onde, envolta em andaimes, se
+ergue a Basilica immensa. Em cada patamar barracas d'arraial devoto,
+forradas de panninho vermelho, transbordavam de Imagens, Bentinhos,
+Crucifixos, Corações de Jesus bordados a retroz, claros molhos de
+Rosarios. Pelos cantos, velhas agachadas resmungavam a Avè-Maria. Dois
+padres desciam, tomando risonhamente uma pitada. Um sino lento tilintava
+na doçura cinzenta da tarde. E Jacintho murmurou, com agrado:
+
+--É curioso!
+
+Mas a Basilica em cima não nos interessou, abafada em tapumes e
+andaimes, toda branca e sêcca, de pedra muito nova, ainda sem alma. E
+Jacintho, por um impulso bem Jacinthico, caminhou gulosamente para a
+borda do terraço, a contemplar Paris. Sob o ceu cinzento, na planicie
+cinzenta, a Cidade jazia, toda cinzenta, como uma vasta e grossa camada
+de caliça e telha. E, na sua immobilidade e na sua mudez, algum rolo de
+fumo, mais tenue e ralo que o fumear d'um escombro mal apagado, era todo
+o vestigio visivel da sua vida magnifica.
+
+Então chasqueei risonhamente o meu Principe. Ahi estava pois a Cidade,
+augusta creação da Humanidade! Eil-a ahi, bello Jacintho! Sobre a crosta
+cinzenta da Terra--uma camada de caliça, apenas mais cinzenta! No
+emtanto ainda momentos antes a deixaramos prodigiosamente viva, cheia
+d'um povo forte, com todos os seus poderosos orgãos funccionando,
+abarrotada de riqueza, resplandecente de sapiencia, na triumphal
+plenitude do seu orgulho, como Rainha do Mundo coroada de Graça. E agora
+eu e o bello Jacintho trepavamos a uma collina, espreitavamos,
+escutavamos--e de toda a estridente e radiante Civilisação da Cidade não
+percebiamos nem um rumor nem um lampejo! E o 202, o soberbo 202, com os
+seus arames, os seus apparelhos, a pompa da sua Mechanica, os seus
+trinta mil livros? Sumido, esvaído na confusão de telha e cinza! Para
+este esvaecimento pois da obra humana, mal ella se comtempla de cem
+metros de altura, arqueja o obreiro humano em tão angustioso esforço?
+Hein, Jacintho?... Onde estão os teus Armazens servidos por tres mil
+caixeiros? E os Bancos em que retine o ouro universal? E as Bibliothecas
+atulhadas com o saber dos seculos? Tudo se fundiu n'uma nodoa parda que
+suja a Terra. Aos olhos piscos de um Zé Fernandes, logo que elle suba,
+fumando o seu cigarro, a uma arredada collina--a sublime edificação dos
+Tempos não é mais que um silencioso monturo da espessura e da côr do pó
+final. O que será então aos olhos de Deus!
+
+E ante estes clamores, lançados com affavel malicia para espicaçar o meu
+Principe, elle murmurou, pensativo:
+
+--Sim, é talvez tudo uma illusão... E a Cidade a maior illusão!
+
+Tão facilmente victorioso redobrei de facundia. Certamente, meu
+Principe, uma Illusão! E a mais amarga, por que o Homem pensa ter na
+Cidade a base de toda a sua grandeza e só n'ella tem a fonte de toda a
+sua miseria. Vê, Jacintho! Na Cidade perdeu elle a força e belleza
+harmoniosa do corpo, e se tornou esse ser resequido e escanifrado ou
+obeso e afogado em unto, de ossos molles como trapos, de nervos tremulos
+como arames, com cangalhas, com chinós, com dentaduras de chumbo, sem
+sangue, sem febra, sem viço, torto, corcunda--esse ser em que Deus,
+espantado, mal póde reconhecer o seu esbelto e rijo e nobre Adão! Na
+Cidade findou a sua liberdade moral: cada manhã ella lhe impõe uma
+necessidade, e cada necessidade o arremessa para uma dependencia: pobre
+e subalterno, a sua vida é um constante sollicitar, adular, vergar,
+rastejar, aturar; rico e superior como um Jacintho, a Sociedade logo o
+enreda em tradições, preceitos, etiquetas, ceremonias, praxes, ritos,
+serviços mais disciplinares que os d'um carcere ou d'um quartel... A sua
+tranquillidade (bem tão alto que Deus com elle recompensa os Santos)
+onde está, meu Jacintho? Sumida para sempre, n'essa batalha desesperada
+pelo pão, ou pela fama, ou pelo poder, ou pelo gôzo, ou pela fugidia
+rodella d'ouro! Alegria como a haverá na Cidade para esses milhões de
+seres que tumultuam na arquejante occupação de _desejar_--e que, nunca
+fartando o desejo, incessantemente padecem de desillusão, desesperança
+ou derrota? Os sentimentos mais genuinamente humanos logo na Cidade se
+deshumanisam! Vê, meu Jacintho! São como luzes que o aspero vento do
+viver social não deixa arder com serenidade e limpidez; e aqui abala e
+faz tremer; e além brutamente apaga; e adiante obriga a flammejar com
+desnaturada violencia. As amizades nunca passam d'allianças que o
+interesse, na hora inquieta da defeza ou na hora sofrega do assalto, ata
+apressadamente com um cordel apressado, e que estalam ao menor embate da
+rivalidade ou do orgulho. E o Amor, na Cidade, meu gentil Jacintho?
+Considera esses vastos armazens com espelhos, onde a nobre carne d'Eva
+se vende, tarifada ao arratel, como a de vacca! Contempla esse velho
+Deus do Hymeneu, que circula trazendo em vez do ondeante facho da Paixão
+a apertada carteira do Dote! Espreita essa turba que foge dos largos
+caminhos assoalhados em que os Faunos amam as Nymphas na boa lei
+natural, e busca tristemente os recantos lobregos de Sodoma ou de
+Lesbos!... Mas o que a Cidade mais deteriora no homem é a Intelligencia,
+por que ou lh'a arregimenta dentro da banalidade ou lh'a empurra para a
+extravagancia. N'esta densa e pairante camada d'Idéas e Formulas que
+constitue a atmosphera mental das Cidades, o homem que a respira, n'ella
+envolto, só pensa todos os pensamentos já pensados, só exprime todas as
+expressões já exprimidas:--ou então, para se destacar na pardacente e
+chata Rotina e trepar ao fragil andaime da gloriola, inventa n'um
+gemente esforço, inchando o craneo, uma novidade disforme que espante e
+que detenha a multidão como um mostrengo n'uma Feira. Todos,
+intelectualmente, são carneiros, trilhando o mesmo trilho, balando o
+mesmo balido, com o focinho pendido para a poeira onde pisam, em fila,
+as pégadas pisadas;--e alguns são macacos, saltando no topo de mastros
+vistosos, com esgares e cabriolas. Assim, meu Jacintho, na Cidade,
+n'esta creação tão anti-natural onde o solo é de pau e feltro e
+alcatrão, e o carvão tapa o ceu, e a gente vive acamada nos predios como
+o panninho nas lojas, e a claridade vem pelos canos, e as mentiras se
+murmuram através d'arames--o homem apparece como uma creatura
+anti-humana, sem belleza, sem força, sem liberdade, sem riso, sem
+sentimento, e trazendo em si um espirito que é passivo como um escravo
+ou impudente como um histrião... E aqui tem o bello Jacintho o que é a
+bella Cidade!
+
+E ante estas encanecidas e veneraveis invectivas, retumbadas
+pontualmente por todos os Moralistas bucolicos, desde Hesiodo, atravez
+dos seculos--o meu Principe vergou a nuca docil, como se ellas
+brotassem, inesperadas e frescas, d'uma Revelação superior, n'aquelles
+cimos de Montmartre:
+
+--Sim, com effeito, a Cidade... É talvez uma illusão perversa!
+
+Insisti logo, com abundancia, puchando os punhos, saboreando o meu facil
+philosophar. E se ao menos essa illusão da Cidade tornasse feliz a
+totalidade dos sêres, que a manteem... Mas não! Só uma estreita e
+reluzente casta goza na Cidade os gozos especiaes que ella cria. O
+resto, a escura, immensa plebe, só n'ella soffre, e com soffrimentos
+especiaes que só n'ella existem! D'este terraço, junto a esta rica
+Basilica consagrada ao Coração que amou o Pobre e por elle sangrou, bem
+avistamos nós o lobrego casario onde a plebe se curva sob esse antigo
+opprobrio de que nem Religiões, nem Philosophias, nem Moraes, nem a sua
+propria força brutal a poderão jámais libertar! Ahi jaz, espalhada pela
+Cidade, como esterco vil que fecunda a Cidade. Os seculos rolam; e
+sempre immutaveis farrapos lhe cobrem o corpo, e sempre debaixo d'elles,
+através do longo dia, os homens labutarão e as mulheres chorarão. E com
+este labor e este pranto dos pobres, meu Principe, se edifica a
+abundancia da Cidade! Eil-a agora coberta de moradas em que elles se não
+abrigam; armazenada de estofos, com que elles se não agasalham;
+abarrotada de alimentos, com que elles se não saciam! Para elles só a
+neve, quando a neve cáe, e entorpece e sepulta as creancinhas aninhadas
+pelos bancos das praças ou sob os arcos das pontes de Paris... A neve
+cáe, muda e branca na treva: as creancinhas gelam nos seus trapos: e a
+policia, em torno, ronda attenta para que não seja perturbado o tépido
+somno d'aquelles que amam a neve, para patinar nos lagos do Bosque de
+Bolonha com pelliças de tres mil francos. Mas quê, meu Jacintho! a tua
+Civilisação reclama insaciavelmente regalos e pompas, que só obterá,
+n'esta amarga desharmonia social, se o Capital dér ao Trabalho, por cada
+arquejante esfôrço, uma migalha ratinhada. Irremediavel é, pois, que
+incessantemente a plebe sirva, a plebe péne! A sua esfalfada miseria é a
+condição do esplendor sereno da Cidade. Se nas suas tigellas fumegasse a
+justa ração de caldo--não poderia apparecer nas baixellas de prata a
+luxuosa porção de _foie-gras_ e tubaras que são o orgulho da
+Civilisação. Ha andrajos em trapeiras--para que as bellas Madamas
+d'Oriol, resplandecentes de sêdas e rendas, subam, em doce ondulação, a
+escadaria da Opera. Ha mãos regeladas que se estendem, e beiços sumidos
+que agradecem o dom magnanimo d'um _sou_--para que os Ephrains tenham
+dez milhões no Banco de França, se aqueçam á chamma rica da lenha
+aromatica, e surtam de collares de saphiras as suas concubinas, netas
+dos Duques d'Athenas. E um povo chora de fome, e da fome dos seus
+pequeninos--para que os Jacinthos, em janeiro, debiquem, bocejando,
+sobre pratos de Saxe, morangos gelados em Champagne e avivados d'um fio
+d'ether!
+
+--E eu comi dos teus morangos, Jacintho! Miseraveis, tu e eu!
+
+Elle murmurou, desolado:
+
+--É horrivel, comemos d'esses morangos... E talvez por uma illusão!
+
+Pensativamente deixou a borda do terraço, como se a presença da Cidade,
+estendida na planicie, fosse escandalosa. E caminhamos devagar, sob a
+molleza cinzenta da tarde, philosophando--considerando que para esta
+iniquidade não havia cura humana, trazida pelo esforço humano. Ah, os
+Ephrains, os Trèves, os vorazes e sombrios tubarões do mar humano, só
+abandonarão ou affrouxarão a exploração das Plebes, se uma influencia
+celeste, por milagre novo, mais alto que os milagres velhos, lhes
+converter as almas! O burguez triumpha, muito forte, todo endurecido no
+peccado--e contra elle são impotentes os prantos dos Humanitarios, os
+raciocinios dos Logicos, as bombas dos Anarchistas. Para amollecer tão
+duro granito só uma doçura divina. Eis pois esperança da terra novamente
+posta n'um Messias!... Um decerto desceu outrora dos grandes Ceus; e,
+para mostrar bem que mandado trazia, penetrou mansamente no mundo pela
+porta d'um curral. Mas a sua passagem entre os homens foi tão curta! Um
+meigo sermão n'uma montanha, ao fim d'uma tarde meiga; uma reprehensão
+moderada aos Phariseus que então redigiam o _Boulevard_; algumas
+vergastadas nos Ephrains vendilhões; e logo, através da porta da morte,
+a fuga radiosa para o Paraiso! Esse adoravel filho de Deus teve
+demasiada pressa em recolher a casa de seu Pae! E os homens a quem elle
+incumbira a continuação da sua obra, envolvidos logo pelas influencias
+dos Ephrains, dos Trèves, da gente do _Boulevard_, bem depressa
+esqueceram a lição da Montanha e do lago de Tiberiade--e eis que por seu
+turno revestem a purpura, e são Bispos, e são Papas, e se alliam á
+oppressão, e reinam com ella, e edificam a duração do seu Reino sobre a
+miseria dos sem-pão e dos sem-lar! Assim tem de ser recomeçada a obra da
+Redempção. Jesus, ou Guatama, ou Christna, ou outro d'esses filhos que
+Deus por vezes escolhe no seio d'uma Virgem, nos quietos vergeis da
+Asia, deverá novamente descer á terra de servidão. Virá elle, o
+desejado? Porventura já algum grave rei d'Oriente despertou, e olhou a
+estrella, e tomou a myrrha nas suas mãos reaes, e montou pensativamente
+sobre o seu dromedario? Já por esses arredores da dura Cidade, de noute,
+emquanto Caiphaz e Magdalena ceam lagosta no Paillard, andou um Anjo,
+attento, n'um vôo lento, escolhendo um curral? Já de longe, sem moço que
+os tanja, na gostosa pressa d'um divino encontro, vem trotando a vacca,
+trotando o burrinho?
+
+--Tu sabes, Jacintho?
+
+Não, Jacintho não sabia--e queria accender o charuto. Forneci um
+phosphoro ao meu Principe. Ainda rondamos no terraço, espalhando pelo ar
+outras idéas solidas que no ar se desfaziam. Depois penetravamos na
+Basilica--quando um Sachristão nedio, de barrete de velludo, cerrou
+fortemente a porta, e um Padre passou, enterrando na algibeira, com um
+cançado gesto final e como para sempre, o seu velho Breviario.
+
+--Estou com uma sêde, Jacintho... Foi esta tremenda Philosophia!
+
+Descemos a escadaria, armada em arraial devoto. O meu pensativo camarada
+comprou uma imagem da Basilica. E saltavamos para a vittoria, quando
+alguem gritou rijamente, n'uma surpreza:
+
+--Eh Jacintho!
+
+O meu Principe abriu os braços, tambem espantado:
+
+--Eh Mauricio!
+
+E, n'um alvoroço, atravessou a rua, para um café, onde, sob o toldo de
+riscadinho, um robusto homem, de barba em bico, remexia o seu absintho,
+com o chapéo de palha descahido na nuca, a quinzena solta sobre a camisa
+de sêda, sem gravata, como se descançasse n'um banco, entre as sombras
+do seu jardim.
+
+E ambos, apertando as mãos, se admiravam d'aquelle encontro, n'um
+domingo de verão, sobre as alturas de Montmartre.
+
+--Oh! eu estou aqui no meu bairro! exclamava alegremente Mauricio. Em
+familia, em chinellos... Ha tres mezes que subi para estes cimos da
+Verdade... Mas tu na Santa Colina, homem profano da planicie e das ruas
+d'Israel!
+
+O meu Principe mostrou o seu Zé Fernandes:
+
+--Com este amigo, em peregrinação á Basilica... O meu amigo Fernandes
+Lorena... Mauricio de Mayolle, velho camarada.
+
+Mr. de Mayolle (que, pela face larga e nariz nobremente grosso, lembrava
+Francisco de Valois, Rei de França) ergueu o seu chapeu de palha. E
+empurrava uma cadeira, insistia que nos accommodassemos para um absintho
+ou para um bock.
+
+--Toma um bock, Zé Fernandes! lembrou Jacintho. Tu estavas a ganir com
+sêde!
+
+Corri lentamente a lingua sobre os beiços, mais sêcos que pergaminhos:
+
+--Estou a guardar esta sêdesinha para logo, para o jantar, com um
+vinhosinho gelado!
+
+Mauricio saudou, com silenciosa admiração, esta minha avisada malicia. E
+immediatamente, para o meu Principe:
+
+--Ha tres annos que te não vejo, Jacintho... Como tem sido possivel,
+n'este Paris que é uma aldeola e que tu atravancas?
+
+--A vida, Mauricio, a espalhada vida... Com effeito! Ha tres annos,
+desde a casa dos Lamotte-Orcel. Tu ainda visitas esse santuario?
+
+Mauricio atirou um gesto desdenhoso e largo, que sacudia um mundo:
+
+--Oh! Ha mais d'um anno que me separei d'essa bicharia heretica... Uma
+turba indisciplinada, meu Jacintho! Nenhuma fixidez, um dilletantismo
+estonteado, carencia completa e comica de toda a base experimental...
+Quando tu ias aos Lamotte-Orcel, e á Parola do 37, e á _Cerveja ideal_,
+o que reinava?...
+
+Jacintho catou lentamente as suas recordações por entre os pêllos do
+bigode:
+
+--Eu sei!... Reinava Wagner e a Mithologia Eddica, e o Raganarock, e as
+Nornas... Muito Pre-Raphaelismo tambem, e Montagna, e Fra-Angelico... Em
+moral, o Renanismo.
+
+Mauricio sacudia os hombros. Oh, tudo isso pertencia a um passado
+archaico, quasi lacustre! Quando Madame de Lamotte-Orcel remobilára a
+sala com velludos Morris, grossas alcachofras sobre tons d'açafrão, já o
+Renanismo passára, tão esquecido como o Cartesianismo...
+
+--Tu ainda és do tempo do culto do _Eu_?
+
+O meu Principe suspirou risonhamente:
+
+--Ainda o cultivei.
+
+--Pois bem! Logo depois foi o Hartmanismo, o Inconsciente. Depois o
+Nietzismo, o Feudalismo espiritual... Depois grassou o Tolstoïsmo, um
+furor immenso de renunciamento neo-cenobitico. Ainda me lembro d'um
+jantar em que appareceu um mostrengo d'um slavo, de guedelha sordida,
+que atirava olhos medonhos para o decote da pobre condessa d'Arche, e
+que grunhia com o dedo espetado:--«Busquemos a luz, muito por baixo, no
+pó da terra!»--E á sobremeza bebemos á delicia da humildade e do
+trabalho servil, com aquelle Champagne Marceaux granitado que a Mathilde
+dava nos grandes dias em copos da fórma do San-Gral! Depois veio
+Emersonismo... Mas a praga cruel foi Ibsenismo! Emfim, meu filho, uma
+Babel de Ethicas e Estheticas. Paris parecia demente. Já havia uns
+desgarrados que tendiam para o Luciferismo. E amiguinhas nossas,
+coitadas, iam descambando para o Phallismo, uma moxinifada
+mystico-brejeira, prégada por aquelle pobre La Carte que depois se fez
+Monge Branco, e que anda no Deserto... Um horror! E uma tarde, de
+repente, toda esta massa se precipita com ancia para o Ruskinismo!
+
+Eu, agarrado á bengala, bem fincada no chão, sentia como um vendaval que
+redemoinhava, me torcia o craneo! E até Jacintho balbuciou, esgazeado:
+
+--O Ruskinismo?
+
+--Sim, o velho Ruskin,... John Ruskin!
+
+O meu ditoso Principe comprehendeu:
+
+--Ah, Ruskin!... _As sete lampadas da Architectura_, _A Corôa de
+Oliveira Brava_... É o culto da Belleza.
+
+--Sim! O culto da Belleza, confirmou Mauricio. Mas a esse tempo eu,
+enojado, já descera de todas essas nuvens vãs... Pisava um chão mais
+seguro, mais fertil.
+
+Deu um sorvo lento ao absintho, cerrando as palpebras. Jacintho
+esperava, com o seu fino nariz dilatado, como para respirar a Flôr de
+Novidade que ia desabrochar:
+
+--E então? então?...
+
+Mas o outro murmurou, dispersamente, por entre reticencias em que se
+velava:
+
+--Vim para Montmartre... Tenho aqui um amigo, um homem de genio, que
+percorreu toda a India... Viveu com os Toddas, esteve nos mosteiros de
+Garma-Khian e de Dashi-Lumbo, e estudou com Gegen-Chutu no retiro santo
+de Urga... Gegen-Chutu foi a decima-sexta encarnação de Guatama, e era
+portanto um Boddi-sattva... Trabalhamos, procuramos... Não são visões.
+Mas factos, experiencias bem antigas, que vem talvez desde os tempos de
+Christna...
+
+Através d'estes nomes, que exhalavam um perfume triste de vetustos
+ritos, arredára a cadeira. E de pé, deixando cair sobre a mesa,
+distrahidamente, para pagar o absintho, moedas de prata e moedas de
+cobre, murmurava com os olhos descançados em Jacintho, mas perdidos
+n'outra visão:
+
+--Por fim tudo se reduz ao supremo desenvolvimento da Vontade dentro da
+suprema pureza da Vida. É toda a sciencia e força dos grandes mestres
+Hindus... Mas a pureza absoluta da vida, eis a lucta, eis o obstaculo!
+Não basta mesmo o Deserto, nem o bosque do mais velho templo no alto
+Thibet... Ainda assim, meu Jacintho, já obtivemos resultados bem
+extranhos. Sabes as experiencias de Tyndall, com as chammas
+sensitivas... O pobre chimico, para demonstrar as vibrações do som,
+tocou quasi ás portas da verdade isoterica. Mas què! homem de sciencia,
+portanto homem d'estupidez, ficou áquem, entre as suas placas e as suas
+retortas! Nós fômos além. Verificámos as _ondulações da Vontade_! Deante
+de nós, pela expansão da energia do meu companheiro, e em cadencia com o
+seu mandado, uma chamma, a tres metros, ondulou, rastejou, despediu
+linguas ardentes, lambeu uma alta parede, rugiu furiosa e negra,
+resplandeceu direita e silenciosa, e bruscamente abatida em cinza
+morreu!
+
+E o extranho homem, com o chapeu para a nuca, ficou immovel, de braços
+abertos e os olhares esgazeados, como no renovado assombro e no transe
+d'aquelle prodigio. Depois, recahindo no seu modo facil e sereno,
+accendendo de vagar um cigarro:
+
+--Uma d'estas manhãs, Jacintho, appareço no 202, para almoçar comtigo, e
+levo o meu amigo. Elle só come arrôz, uma pouca de salada, e fructa. E
+conversamos... Tu tinhas um exemplar do _Sepher-Zerijah_ e outro do
+_Targum d'Onkelus_. Preciso folhear esses livros.
+
+Apertou a mão do meu Principe, saudou este assombrado Zé Fernandes, e
+serenamente seguiu pela quieta rua, com o chapeu de palha para a nuca,
+as mãos enterradas nas algibeiras, como um homem natural entre cousas
+naturaes.
+
+--Oh Jacintho! Quem é este bruxo? Conta!... Quem é elle, santissimo nome
+de Deus?
+
+Recostado na vittoria, ageitando o vinco das calças, o meu Principe
+contou, concisamente. Era um nobre e leal rapaz, muito rico, muito
+intelligente, da antiga casa soberana de Mayolle, descendente dos Duques
+de Septimania... E murmurou, através do costumado bocejo:
+
+--O desenvolvimento supremo da vontade!... Theosophia, Buddhismo
+isoterico... Aspirações, decepções... Já experimentei... Uma massada!
+
+Atravessamos, callados, o rumôr de Paris, sob a molleza abafada do
+crepusculo de verão, para jantar no Bosque, no Pavilhão d'Armenonville,
+onde os Tziganes, avistando Jacintho, tocaram o _Hymno da Carta_ com
+paixão, com langor, n'uma cadencia de _czarda_ dolorosa e aspera.
+
+E eu, desdobrando regaladamente o guardanapo:
+
+--Pois venha agora para a minha rica sêde esse vinhosinho gelado!
+Grandemente o mereço, caramba, que superiormente philosophei!... E creio
+que estabeleci definitivamente no espirito do Snr. D. Jacintho o salutar
+horror da cidade!
+
+O meu Principe percorria, catando o bigode, a Lista-dos-Vinhos, em
+quanto o Copeiro, esperava com pensativa reverencia:
+
+--Mande gelar duas garrafas de champagne S.^t Marceaux... Mas antes, um
+Barsac velho, apenas refrescado... Agoa de Evian... Não, de Bussang!
+Bem, d'Evian e de Bussang! E, para começar, um bock.
+
+Depois, bocejando, desabotoando lentamente a sobrecasaca cinzenta:
+
+--Pois estou com vontade de construir uma casa nos cimos de Montmartre,
+com um miradouro no alto, todo de vidro e ferro, para descançar de tarde
+e dominar a Cidade...
+
+
+
+
+VII
+
+
+Julho findára com uma chuva refrescante e consoladora:--e eu pensava em
+realisar finalmente a minha romagem ás cidades da Europa, sempre
+retardada, através da primavera, pelas surprezas do Mundo e da Carne.
+Mas, de repente, Jacintho começou a rogar e a reclamar que o seu Zé
+Fernandes o acompanhasse, todas as tardes, a casa de Madame d'Oriol! E
+eu comprehendi que o meu Principe (á maneira do divino Achilles, que,
+sob a tenda, e junto da branca, insipida e docil Briseis, nunca
+dispensava Patoclo) desejava ter, no retiro do Amor, a presença, o
+confôrto e o soccorro da Amizade. Pobre Jacintho! Logo pela manhã
+combinava pelo telephone com Madame d'Oriol essa hora de quietação e
+doçura. E assim encontravamos sempre a superfina Dama prevenida e
+solitaria n'aquella sala da rua de Lisbonne, onde Jacintho e eu mal
+cabiamos, suffocavamos na confusão, entre os cestos de flôres, e os
+ouros rocalhados, e os monstros do Japão, e a galante fragilidade dos
+Saxes, e as pelles de feras estiradas aos pés de sophás adormecedores, e
+os biombos de Aubusson formando alcôvas favoraveis e languidas...
+Aninhada n'uma cadeira de bambú lacada de branco, entre almofadas
+aromatisadas de verbena da India, com um romance pousado no regaço, ella
+esperava o seu amigo, n'uma certa indolencia passiva e mansa que me
+lembrava sempre o Oriente e um Harem. Mas, pelas frescas sedinhas
+Pompadour, parecia tambem uma marquezinha de Versalhes cançada do grande
+seculo; ou então, com brocados sombrios e largos cintos cravejados, era
+como uma veneziana, preparada para um Doge. A minha intrusão, na
+intimidade d'aquellas tardes, não a contrariava--antes lhe trazia um
+vassallo novo, com dous olhos novos para a contemplar. Eu era já o seu
+_cher Fernandez_!
+
+E apenas descerrava os labios avivados de vermelho, semelhantes a uma
+ferida fresca, e começava a chalrar--logo nos envolvia o burburinho e a
+murmuração de Paris. Ella só sabia chalrar sobre a sua pessoa que era o
+resumo da sua Classe, e sobre a sua existencia que era o resumo do seu
+Paris:--e a sua existencia, desde casada, consistira em ornar com
+suprema sciencia o seu lindo corpo; entrar com perfeição n'uma sala e
+irradiar; remexer em estofos e conferenciar pensativamente com o grande
+costureiro; rolar pelo Bois pousada na sua vittoria como uma imagem de
+cêra; decotar e branquear o collo; debicar uma perna de gallinhola em
+mezas de luxo; fender turbas ricas em bailes espessos; adormecer com a
+vaidade esfalfada; percorrer de manhã, tomando chocolate, os «Echos» e
+as «Festas» do _Figaro_; e de vez em quando murmurar para o marido--«Ah,
+és tu?...» Além d'isso, ao lusco-fusco, n'um sophá, alguns certos
+suspiros, entre os braços d'alguem a quem era constante. Ao meu
+Principe, n'esse anno, pertencia o sophá. E todos estes deveres de
+Cidade e de Casta os cumpria sorrindo. Tanto sorrira, desde casada, que
+já duas prégas lhe vincavam os cantos dos beiços, indelevelmente. Mas
+nem na alma, nem na pelle, mostrava outras maculas de fadiga. A sua
+Agenda de Visitas continha mil e tresentos nomes, todos do Nobiliario.
+Através, porém, desta fulgurante sociabilidade arranjára no cerebro
+(onde de certo penetrára o pó d'arroz que desde o collegio acamava na
+testa) algumas Idéas Geraes. Em Politica era pelos Principes; e todos os
+outros «horrores», a Republica, o Socialismo, a Democracia que se não
+lava, os sacudia risonhamente, com um bater de leque. Na Semana Santa
+juntava ás rendas do chapeu a Corôa amarga de espinhos--por serem esses,
+para a gente bem-nascida, dias de penitencia e dôr. E, deante de todo o
+Livro ou de todo o Quadro, sentia a emoção e formulava finamente o
+juizo, que no seu Mundo, e n'essa Semana, fôsse elegante formular e
+sentir. Tinha trinta annos. Nunca se embaraçára nos tormentos d'uma
+paixão. Marcava, com rigida regularidade, todas as suas despezas n'um
+Livro de Contas encadernado em pellucia verde-mar. A sua religião intíma
+(e mais genuina do que a outra, que a levava todos os domingos á missa
+de S. Philippe du Roule) era a Ordem. No inverno, logo que na amavel
+cidade começavam a morrer de frio, debaixo das pontes, creancinhas sem
+abrigo--ella preparava com commovido cuidado os seus vestidos de
+patinagem. E preparava tambem os de Caridade--porque era boa, e
+concorria para Bazares, Concertos e Tombolas, quando fossem patrocinados
+pelas Duquezas do seu «rancho». Depois, na primavera, muito
+methodicamente, regateando, vendia a uma adela os vestidos e as capas de
+inverno. Paris admirava n'ella uma suprema flôr de Parisianismo.
+
+Pois respirando esta macia e fina flôr passamos nós as tardes d'esse
+julho em quanto as outras flôres pendiam e murchavam na calma e no pó.
+Mas, na intimidade do seu perfume, Jacintho não parecia encontrar esse
+contentamento d'alma, que entre tudo que cança jámais cança. Era já com
+a paciente lentidão com que se sobem todos os Calvarios, os mais bem
+tapetados, que elle subia a escadaria de Madame d'Oriol, tão suave e
+orlada de tão frescas palmeiras. Quando a appetitosa creatura, com
+dedicação, para o entreter, desdobrava a sua vivacidade como um pavão
+desdobra a cauda, o meu pobre Principe puxava os pêllos do bigode
+murcho, na murcha postura de quem, por uma manhã de Maio, em quanto os
+melros cantam nas sebes, assiste, n'uma egreja negra, a um responso
+funebre por um Principe. E no beijo que elle chuchurreava sobre a mão da
+sua dôce amiga, para se despedir, havia sempre alacridade e allivio.
+
+Mas ao outro dia, ao começar da tarde, depois de errar através da
+Bibliotheca e do Gabinete, puxando sem curiosidade a tira do telegrapho,
+atirando algum recado molle pelo telephone, espalhando o olhar
+desalentado sobre o saber immenso dos trinta mil livros, remexendo a
+collina dos Jornaes e Revistas, terminava por me chamar, já com a
+preguiça triste da façanha a que se impellia:
+
+--Vamos a casa de Madame d'Oriol, Zé Fernandes? Eu tinha marcadas para
+hoje seis ou sete coisas, mas não posso, é uma secca! Vamos a casa de
+Madame d'Oriol... Ao menos lá, ás vezes, ha um bocado de frescura e paz.
+
+E foi n'uma d'essas tardes, em que o meu Principe assim procurava
+desesperadamente um «bocado de frescura e paz», que encontramos, ao meio
+da escadaria suave, entre as palmeiras, o marido de Madame d'Oriol. Eu
+já o conhecia--porque Jacintho m'o mostrára uma noite, no Grand Café,
+ceiando com dançarinas do _Moulin Rouge_. Era um moço gordalhufo,
+indolente, de uma brancura crúa de toucinho, com uma calvice já séria e
+já lustrosa, constantemente acariciada pelos seus gordos dedos
+carregados de anneis. N'essa tarde, porém, vinha vermelho, todo
+emocionado, calçando as luvas com colera. Estacou diante de Jacintho--e
+sem mesmo lhe apertar a mão, atirando um gesto para o patamar:
+
+--Visita lá acima? Vai achar a Joanna em pessima disposição... Tivemos
+uma scena, e tremenda.
+
+Deu outro puxão desesperado á luva côr de palha, já esgaçada:
+
+--Estamos separados, cada um vive como lhe appetece, é excellente! Mas
+em tudo ha medida e fórma... Ella tem o meu nome, não posso consentir
+que em Paris, com conhecimento de todo o Paris, seja a amante do
+trintanario. Amantes na nossa roda, vá! Um lacaio, não!... Se quer
+dormir com os creados que emigre para o fundo da provincia, para a sua
+casa de Corbelle. E lá até com os animaes!... Foi o que eu lhe disse!
+Ficou como uma fera.
+
+Sacudiu então a mão do Jacintho que «era da sua roda»--rebolou pela
+escadaria florida e nobre. O meu Principe, immovel nos degraus, de face
+pendida, cofiava lentamente os fios pendidos do bigode. Depois, olhando
+para mim, como um sèr saturado de tedio e em quem nenhum tedio novo póde
+caber:
+
+--Já agora subamos, sim?
+
+ * * * * *
+
+Parti então, com muita alegria, para a minha appetecida romagem ás
+Cidades da Europa.
+
+Ia viajar!... Viajei. Trinta e quatro vezes, á pressa, bufando, com todo
+o sangue na face, desfiz e refiz a mala. Onze vezes passei o dia n'um
+wagon, envolto em poeirada e fumo, suffocado, a arquejar, a escorrer de
+suor, saltando em cada estação para sorver desesperadamente limonadas
+mornas que me escangalhavam a entranha. Quatorze vezes subi
+derreadamente, atraz de um creado, a escadaria desconhecida d'um Hotel;
+e espalhei o olhar incerto por um quarto desconhecido; e estranhei uma
+cama desconhecida, d'onde me erguia, estremunhado, para pedir em linguas
+desconhecidas um café com leite que me sabia a fava, um banho de tina
+que me cheirava a lôdo. Oito vezes travei bulhas abominaveis na rua com
+cocheiros que me espoliavam. Perdi uma chapelleira, quinze lenços, tres
+ceroulas, e duas botas, uma branca, outra envernizada, ambas do pé
+direito. Em mais de trinta mezas-redondas esperei tristonhamente que me
+chegasse o _boeuf-a-la-mode_, já frio, com môlho coalhado--e que o
+copeiro me trouxesse a garrafa de Bordeus que eu provava e repellia com
+desditosa carantonha. Percorri, na fresca penumbra dos granitos e dos
+marmores, com pé respeitoso e abafado, vinte e nove Cathedraes. Trilhei
+mollemente, com uma dôr surda na nuca, em quatorze muzeus, cento e
+quarenta salas revestidas até aos tectos de Christos, heroes, santos,
+nymphas, princezas, batalhas, architecturas, verduras, nudezes, sombrias
+manchas de betume, tristezas das formas immoveis!... E o dia mais dôce
+foi quando em Veneza, onde chovia desabaladamente, encontrei um velho
+inglez de penca flammejante que habitára o Porto, conhecêra o Ricardo, o
+José Duarte, o Visconde do Bom Successo, e as Limas da Boa Vista...
+Gastei seis mil francos. Tinha viajado.
+
+Emfim, n'uma bemdita manhã d'outubro, na primeira friagem e nevoa
+d'outomno, avistei com enternecido alvoroço as cortinas de seda ainda
+fechadas do meu 202! Affaguei o hombro do Porteiro. No patamar, onde
+encontrei o ar macio e tepido que deixára em Florença, apertei os ossos
+do Grillo excellente:
+
+--E Jacintho?
+
+O digno negro murmurou, d'entre os altos, reluzentes collarinhos:
+
+--S. Exc.^a circula... Pesadote, fartote. Entrou tarde do baile da
+Duqueza de Loches. Era o contracto de casamento de Mademoiselle de
+Loches... Ainda tomou antes de se deitar um chá gelado... E disse a
+coçar a cabeça: «Eh! que massada! Eh! que massada!»
+
+Depois do banho e do chocolate, ás dez horas, consolado e quentinho
+dentro do roupão de velludo, rompi pelo quarto do meu Principe, de
+braços abertos e sedentos:
+
+--Oh Jacintho!
+
+--Oh viajante!...
+
+Quando nos estreitamos, fartamente, eu recuei para lhe contemplar a
+face--e n'ella a alma. Encolhido n'uma quinzena de panno côr de malva
+orlada de pelles de martha, com os pellos do bigode murchos, as suas
+duas rugas mais cavadas, uma molleza nos hombros largos, o meu amigo
+parecia já vergado sob o pezo e a oppressão e o terror do seu dia. Eu
+sorri, para que elle sorrisse:
+
+--Valente Jacintho... Então como tens vivido?
+
+Elle respondeu, muito serenamente:
+
+--Como um morto.
+
+Forcei uma gargalhada leve, como se o seu mal fôsse leve:
+
+--Aborrecidote, hein?
+
+O meu Principe lançou, n'um gesto tão vencido, um _oh_ tão cansado--que
+eu compadecido de novo o abracei, o estreitei, como para lhe communicar
+uma parte d'esta alegria solida e pura que recebi do meu Deus!
+
+ * * * * *
+
+Desde essa manhã, Jacintho começou a mostrar claramente,
+escancaradamente, ao seu Zé Fernandes, o tédio de que a existencia o
+saturava. O seu cuidado realmente e o seu esfôrço consistiram então em
+sondar e formular esse tédio--na esperança de o vencer logo que lhe
+conhecesse bem a origem e a potencia. E o meu pobre Jacintho reproduziu
+a comedia pouco divertida d'um Melancolico que perpetuamente raciocina a
+sua Melancolia! N'esse raciocinío, elle partia sempre do facto
+irrecusavel e massiço--que a sua vida especial de Jacintho continha
+todos os interesses e todas as facilidades, possiveis no seculo XIX,
+n'uma vida de homem que não é um Genio, nem um Santo. Com effeito!
+Apezar do appetite embotado por doze annos de Champagnes e môlhos ricos
+elle conservava a sua rijeza de pinheiro bravo; na luz da sua
+intelligencia não apparecêra nem tremor nem morrão; a boa terra de
+Portugal, e algumas Companhias macissas, pontualmente lhe forneciam a
+sua doce centena de contos; sempre activas e sempre fieis o cercavam as
+sympathias d'uma Cidade inconstante e chasqueadora; o 202 estourava de
+confôrtos; nenhuma amargura de coração o atormentava;--e todavia era um
+Triste. Porque?... E d'aqui saltava, com certeza fulgurante, á conclusão
+de que a sua tristeza, esse cinzento burel em que a sua alma andava
+amortalhada, não provinham da sua individualidade de Jacintho--mas da
+Vida, do lamentavel, do desastroso facto de Viver! E assim o saudavel,
+intellectual, riquissimo, bem-acolhido Jacintho tombára no Pessimismo.
+
+E um Pessimismo irritado! Porque (segundo affirmava) elle nascera para
+ser tão naturalmente optimista como um pardal ou um gato. E, até aos
+doze annos, emquanto fôra um bicho superiormente amimado, com a sua
+pelle sempre bem coberta, o seu prato sempre bem cheio, nunca sentira
+fadiga, ou melancolia, ou contrariedade, ou pena--e as lagrimas eram
+para elle tão incomprehensiveis que lhe pareciam viciosas. Só quando
+crescêra, e da animalidade penetrára na humanidade, despontára n'elle
+esse fermento de tristeza, muito tempo indesenvolvido no tumulto das
+primeiras curiosidades, e que depois alastrára, o invadira todo, se lhe
+tornára consubstancial e como o sangue das suas veias. Soffrer portanto
+era inseparavel de Viver. Soffrimentos differentes nos destinos
+differentes da Vida. Na turba dos humanos é a angustiada lucta pelo pão,
+pelo tecto, pelo lume; n'uma casta, agitada por necessidades mais altas,
+é a amargura das desillusões, o mal da imaginação insatisfeita, o
+orgulho chocando contra obstaculo; n'elle, que tinha os bens todos e
+desejos nenhuns, era o tédio. Miseria do Corpo, tormento da Vontade,
+fastio da Intelligencia--eis a Vida! E agora aos trinta e tres annos a
+sua occupação era bocejar, correr com os dedos desalentados a face
+pendida para n'ella palpar e appetecer a caveira.
+
+Foi então que o meu Principe começou a ler apaixonadamente, desde o
+_Ecclesiastes_ até Schopenhauer, todos os lyricos e todos os theoricos
+do Pessimismo. N'estas leituras encontrava a reconfortante comprovação
+de que o seu mal não era mesquinhamente «Jacinthico»--mas grandiosamente
+resultante d'uma Lei Universal. Já ha quatro mil annos, na remota
+Jerusalém, a Vida, mesmo nas suas delicias mais triumphaes, se resumia
+em Illusão. Já o Rei incomparavel, de sapiencia divina, summo Vencedor,
+summo Edificador, se enfastiava, bocejava, entre os despojos das suas
+conquistas, e os marmores novos dos seus Templos, e as suas tres mil
+concubinas, e as Rainhas que subiam do fundo da Ethiopia para que elle
+as fecundasse e no seu ventre depozésse um Deus! Não ha nada novo sob o
+sol, e a eterna repetição das coisas é a eterna repetição dos males.
+Quanto mais se sabe mais se pena. E o justo como o perverso, nascidos do
+pó, em pó se tornam. Tudo tende ao pó ephemero, em Jerusalém e em Paris!
+E elle, obscuro no 202, padecia por ser homem e por viver--como no seu
+throno d'ouro, entre os seus quatro leões d'ouro, o filho magnifico de
+David.
+
+Não se separava então do _Ecclesiastes_. E circulava por Paris trazendo
+dentro do coupé Salomão, como irmão de dôr, com quem repetia o grito
+desolado que é a summa da verdade humana--_Vanitas Vanitatum_! Tudo é
+Vaidade! Outras vezes, logo de manhã o encontrava estendido no sophá,
+n'um roupão de sêda, absorvendo Schopenhauer--emquanto o pedicuro,
+ajoelhado sobre o tapete, lhe polia com respeito e pericia as unhas dos
+pés. Ao lado pousava a chavena de Saxe, cheia d'esse café de Moka
+enviado por emires do Deserto, que não o contentava nunca, nem pela
+força, nem pelo aroma. A espaços pousava o livro no peito, resvalava um
+olhar compassivo para o pedicuro, como a procurar que dôr o
+torturaria--pois que a todo o viver corresponde um soffrer. Decerto o
+remexer assim, perpetuamente, em pés alheios... E quando o pedicuro se
+erguia, Jacintho abria para elle um sorriso de confraternidade--com um
+«adeus, meu amigo» que era «um adeus, meu irmão!»
+
+Esse foi o periodo esplendido e soberbamente divertido do seu tédio.
+Jacintho encontrára emfim na vida uma occupação grata--maldizer a Vida!
+E para que a podésse maldizer em todas as suas fórmas, as mais ricas, as
+mais intellectuaes, as mais puras, sobrecarregou a sua vida propria de
+novo luxo, de interesses novos d'espirito, e até de fervores
+humanitarios, e até de curiosidades supernaturaes.
+
+O 202, n'esse inverno, refulgiu de magnificencia. Foi então que elle
+iniciou em Paris, repetindo Heliogabalo, os Festins de Côr contados na
+Historia Augusta: e offereceu ás suas amigas esse sublime jantar côr de
+rosa, em que tudo era roseo, as paredes, os moveis, as luzes, as louças,
+os crystaes, os gelados, os Champagnes, e até (por uma invenção da
+Alta-Cozinha) os peixes, e as carnes, e os legumes, que os escudeiros
+serviam, empoados de pó rosado, com librés da côr da rosa, em quanto do
+tecto, d'um velario de seda rosada, cahiam petalas frescas de rosas... A
+Cidade, deslumbrada, clamou--«Bravo, Jacintho!» E o meu Principe, ao
+rematar a festa fulgurante, plantou deante de mim as mãos nas ilhargas e
+gritou triumphalmente:--«Hein? Que massada!...»
+
+Depois foi o Humanitarismo: e fundou um Hospicio no campo, entre
+jardins, para velhinhos desamparados, outro para creanças debeis á beira
+do Mediterraneo. Depois com o major Dorchas, e Mayolle, e o Hindù de
+Mayolle penetrou no Theosophismo: e montou tremendas experiencias para
+verificar a mysteriosa _exteriorisação da motilidade_. Depois,
+desesperadamente, ligou o 202 com os fios telegraphicos do _Times_, para
+que no seu gabinete, como n'um coração, palpitasse toda a vida Social da
+Europa.
+
+E a cada um d'estes esforços da elegancia, do humanitarismo, da
+sociabilidade, e da intelligencia indagadora, voltava para mim, de
+braços alegres, com um grito victorioso:--«Vês tu, Zé Fernandes? Uma
+massada!»--Arrebatava então o seu _Ecclesiastes_, o seu Schopenhauer, e,
+estendido no sophá, saboreava voluptuosamente a concordancia da Doutrina
+e da Experiencia. Possuia uma Fé--o Pessimismo: era um apostolo rico e
+esforçado: e tudo tentava, com sumptuosidade, para provar a verdade da
+sua Fé! Muito gozou n'esse anno o meu desgraçado Principe!
+
+No começo do inverno, porém, notei com inquietação que Jacintho já não
+folheava o _Ecclesiastes_, desleixava Schopenhauer. Nem festas, nem
+Theosophismos, nem os seus Hospicios, nem os fios do _Times_, pareciam
+interessar agora o meu amigo, mesmo como demonstrações gloriosas da sua
+Crença. E a sua abominavel funcção de novo se limitou a bocejar, a
+passar os dedos molles sobre a face pendida palpando a caveira.
+Incessantemente alludia á morte como a uma libertação. Uma tarde mesmo,
+no melancolico crepusculo da Bibliotheca, antes de refulgirem as luzes,
+consideravelmente me aterrou, fallando n'um tom regelado de mortes
+rapidas, sem dôr, pelo choque d'uma vasta pilha electrica ou pela
+violencia compassiva do acido cyanidrico. Diabo! O Pessimismo, que
+apparecera na Intelligencia do meu Principe como um conceito
+elegante--atacára bruscamente a Vontade!
+
+Todo o seu movimento então foi o d'um boi inconsciente que marcha sob a
+canga e o aguilhão. Já não esperava da Vida contentamento--nem mesmo se
+lastimava que ella lhe trouxesse tédio ou pena. «Tudo é indifferente, Zé
+Fernandes!» E tão indifferentemente sahiria á sua janella para receber
+uma Corôa Imperial offerecida por um Povo--como se estenderia n'uma
+poltrona rôta para emmudecer e jazer. Sendo tudo inutil, e não
+conduzindo senão a maior desillusão, que podia importar a mais rutilante
+actividade ou a mais desgostada inercia? O seu gesto constante, que me
+irritava, era encolher os hombros. Perante duas ideias, dois caminhos,
+dois pratos, encolhia os hombros! Que importava?... E no minimo acto,
+raspar um phosphoro ou desdobrar um Jornal, punha uma morosidade tão
+desconsolada que todo elle parecia ligado, desde os dedos até á alma,
+pelas voltas apertadas d'uma corda que se não via e que o travava.
+
+ * * * * *
+
+Muito desagradavelmente me recordo do dia dos seus annos, a 10 de
+Janeiro. Cêdo, de manhã, recebèra, com uma carta de Madame de Trèves, um
+açafate de camelias, azaleas, orchideas e lyrios do valle. E foi este
+mimo que lhe recordou a data consideravel. Soprou sobre as petalas o
+fumo do cigarro e murmurou com um riso de lento escarneo:
+
+--Então, ha trinta e quatro annos que eu ando n'esta massada?
+
+E como eu propunha que telephonassemos aos amigos para beberem no 202 o
+Champagne do «Natalicio»--elle recusou, com o nariz enojado. Oh! Não!
+Que horrivel sécca!... E bradou mesmo para o Grillo:
+
+--Eu hoje não estou em Paris para ninguem. Abalei para o campo, abalei
+para Marselha... Morri!
+
+E a sua ironia não cessou até ao almoço perante os bilhetes, os
+telegrammas, as cartas, que subiam, se arredondavam em collina sobre a
+meza d'ebano, como um preito da Cidade. Outras flôres que vieram, em
+vistosos cestos, com vistosos laços, foram por elle comparadas ás que se
+depõe sobre uma tumba. E apenas se interessou um momento pelo presente
+de Ephraim, uma engenhosa meza, que se abaixava até ao tapete ou se
+alteava até ao tecto--para que, senhor Deus meu?
+
+Depois do almoço, como chovia sombriamente, não arredamos do 202, com os
+pés estendidos ao lume, em preguiçoso silencio. Eu terminára por
+adormecer beatificamente. Acordei aos passos açodados do Grillo...
+Jacintho, enterrado na poltrona, com umas tesouras, recortava um papel!
+E nunca eu me compadeci d'aquelle amigo, que cançára a mocidade a
+accumular todas as noções formuladas desde Aristoteles e a juntar todos
+os inventos realisados desde Tharamenes, como n'essa tarde de festa, em
+que elle, cercado de Civilisação nas maximas proporções para gozar nas
+maximas proporções a delicia de viver, se encontrava reduzido, junto ao
+seu lar, a recortar papeis com uma tesoura!
+
+O Grillo trazia um presente do Gran-Duque--uma caixa de prata, forrada
+de cedro, e cheia d'um chá precioso, colhido, flôr a flôr, nas veigas de
+Kiang-Sou por mãos puras de virgens, e conduzido através da Asia, em
+caravanas, com a veneração d'uma reliquia. Então, para despertar o nosso
+torpôr, lembrei que tomassemos o divino chá--occupação bem harmonica com
+a tarde triste, a chuva grossa alagando os vidros, e a clara chamma
+bailando no fogão. Jacintho accedeu--e um escudeiro acercou logo a meza
+de Ephraim para que nós lhe estreassemos os serviços destros. Mas o meu
+Principe, depois de a altear, para meu espanto, até aos crystaes do
+lustre, não conseguiu, apezar de uma suada e desesperada batalha com as
+molas, que a meza regressasse a uma altura humana e cazeira. E o
+escudeiro de novo a levou, levantada como um andaime, chimerica,
+unicamente aproveitavel para o gigante Adamastor. Depois veio a caixa do
+chá entre chaleiras, lampadas, coadores, filtros, todo um fausto de
+alfaias de prata, que communicavam a essa occupação, tão simples e dôce
+em caza de minha tia, _fazer chá_, a magestade d'um rito. Prevenido pelo
+meu camarada da sublimidade d'aquelle chá de Kiang-Sou, ergui a chavena
+aos labios com reverencia. Era uma infusão descorada que sabia a malva e
+a formiga. Jacintho provou, cuspiu, blasphemou... Não tomamos chá.
+
+Ao cabo d'outro pensativo silencio, murmurei, com os olhos perdidos no
+lume:
+
+--E as obras de Tormes? A egreja... Já haverá egreja nova?
+
+Jacintho retomára o papel e a thesoura:
+
+--Não sei... Não tornei a receber carta do Silverio... Nem imagino onde
+param os ossos... Que lugubre historia!
+
+Depois chegou a hora das luzes e do jantar. Eu encommendára pelo Grillo
+ao nosso magistral cozinheiro uma larga travessa d'arroz dôce, com as
+iniciaes de Jacintho e a data ditosa em canella, á moda amavel da nossa
+meiga terra. E o meu Principe á meza, percorrendo a lamina de marfim
+onde no 202 se inscreviam os pratos a lapis vermelho, louvou com fervôr
+a ideia patriarchal:
+
+--Arrôz dôce! Está escripto com dois _ss_, mas não tem dúvida...
+Excellente lembrança! Ha que tempos não cômo arrôz dôce!... Desde a
+morte da avó.
+
+Mas quando o arrôz dôce appareceu triumphalmente, que vexâme! Era um
+prato monumental, de grande arte! O arrôz, massiço, moldado em fórma de
+pyramide do Egypto, emergia d'uma calda de cereja, e desapparecia sob os
+fructos seccos que o revestiam até ao cimo, onde se equilibrava uma
+corôa de Conde feita de chocolate e gomos de tangerina gelada! E as
+iniciaes, a data, tão lindas e graves na canella ingenua, vinham
+traçadas nas bordas da travessa com violetas pralinadas! Repellimos,
+n'um mudo horror, o prato acanalhado. E Jacintho, erguendo o copo de
+Champagne, murmurou como n'um funeral pagão:
+
+--_Ad Manes_, aos nossos mortos!
+
+Recolhemos á Bibliotheca, a tomar o café no conchego e alegria do lume.
+Fóra, o vento bramava como n'um êrmo serrano: e as vidraças tremiam,
+alagadas, sob as bategas da chuva irada. Que dolorosa noite para os dez
+mil pobres que em Paris erram sem pão e sem lar! Na minha aldeia, entre
+cêrro e valle, talvez assim rugisse a tormenta. Mas ahi cada pobre, sob
+o abrigo da sua telha vã, com a sua panella atestada de couves, se
+agacha no seu mantéo ao calor da lareira. E para os que não tenham lenha
+ou couve, lá está o João das Quintas, ou a tia Vicencia, ou o abbade,
+que conhecem todos os pobres pelos seus nomes, e com elles contam, como
+sendo dos seus, quando o carro vae ao matto e a fornada entra no fôrno.
+Ah Portugal pequenino, que ainda és dôce aos pequeninos!
+
+Suspirei, Jacintho preguiçava. E terminamos por remexer languidamente os
+jornaes que o mordomo trouxera, n'um monte facundo, sobre uma salva de
+prata--jornaes de Paris, jornaes de Londres, Semanarios, Magazines,
+Revistas, Illustrações... Jacintho desdobrava, arremessava: das Revistas
+espreitava o summario, logo farto; ás Illustrações rasgava as folhas com
+o dedo indifferente, bocejando por cima das gravuras. Depois, mais
+estirado para o lume:
+
+--É uma sécca... Não ha que lêr.
+
+E de repente, revoltado contra este fastio oppressor que o escravisava,
+saltou da poltrona com um arranque de quem despedaça algemas, e ficou
+erecto, dardejando em torno um olhar imperativo e duro, como se
+intimasse aquelle seu 202, tão abarrotado de Civilisação, a que por um
+momento sequer fornecesse á sua alma um interesse vivo, á sua vida um
+fugitivo gôsto! Mas o 202 permaneceu insensivel: nem uma luz, para o
+animar, avivou o seu brilho mudo: só as vidraças tremeram sob o embate
+mais rude de agua e vento.
+
+Então o meu Principe, succumbido, arrastou os passos até ao seu
+gabinete, começou a percorrer todos os apparelhos completadores e
+facilitadores da Vida--o seu Telegrapho, o seu Telephone, o seu
+Phonographo, o seu Radiometro, o seu Graphophono, o seu Microphono, a
+sua Machina d'Escrever, a sua Machina de Contar, a sua Imprensa
+Electrica, a outra Magnetica, todos os seus utensilios, todos os seus
+tubos, todos os seus fios... Assim um Supplicante percorre altares
+d'onde espera soccorro. E toda a sua sumptuosa Mechanica se conservou
+rigida, reluzindo frigidamente, sem que uma roda girasse, nem uma lamina
+vibrasse, para entreter o seu Senhor.
+
+Só o relogio monumental, que marcava a hora de todas as capitaes e o
+curso de todos os planetas, se compadeceu, batendo a meia-noite,
+annunciando ao meu amigo que mais um Dia partira levando o seu
+pêzo--diminuindo esse sombrio pêzo da Vida, sob que elle gemia, vergado.
+O Principe da Gran-Ventura, então, decidiu recolher para a cama--com um
+livro... E durante um momento, estacou no meio da Bibliotheca,
+considerando os seus setenta mil volumes estabelecidos com pompa e
+magestade como Doutores n'um Concilio--depois as pilhas tumultuarias dos
+livros novos que esperavam pelos cantos, sobre o tapete, o repouso e a
+consagração das estantes d'ebano. Torcendo mollemente o bigode caminhou
+por fim para a região dos Historiadores: espreitou seculos, farejou
+raças: pareceu attrahido pelo explendor do Imperio Byzantino: penetrou
+na Revolução Franceza d'onde se arredou desencantado: e palpou com mão
+indeliberada toda a vasta Grecia desde a creação de Athenas até a
+aniquilação de Corintho. Mas bruscamente virou para a fila dos Poetas,
+que reluziam em marroquins claros, mostrando, sobre a lombada, em ouro,
+nos titulos fortes ou languidos, o interior das suas almas. Não
+appeteceu nenhuma d'essas seis mil almas--e recuou, desconsolado, até
+aos Biologos... Tão massiça e cerrada era a estante de Biologia que o
+meu pobre Jacintho estarreceu, como ante uma cidadella inaccessivel!
+Rolou a escada--e, fugindo, trepou, até ás alturas da Astronomia:
+destacou astros, recollocou mundos: todo um Systema Solar desabou com
+fragor. Aturdido, desceu, começou a procurar por sobre as rimas das
+obras novas, ainda brochadas, nas suas roupas leves de combate.
+Apanhava, folheava, arremessava: para desentulhar um volume, demolia uma
+torre de doutrinas: saltava por cima dos Problemas, pisava as Religiões:
+e relanceando uma linha, esgravatando além n'um indice, todos
+interrogava, de todos se desinteressava, rolando quasi de rastos, nas
+grossas vagas de tomos que rolavam, sem se poder deter, na ancia de
+encontrar um Livro! Parou então no meio da immensa nave, de cocoras, sem
+coragem, contemplando aquelles muros todos forrados, aquelle chão todo
+alastrado, os seus setenta mil volumes--e, sem lhes provar a substancia,
+já absolutamente saciado, abarrotado, nauseado pela opressão da sua
+abundancia. Findou por voltar ao montão de jornaes amarrotados, ergueu
+melancholicamente um velho _Diario de Noticias_, e com elle debaixo do
+braço subiu ao seu quarto, para dormir, para esquecer.
+
+
+
+
+VIII
+
+
+Ao fim d'esse inverno escuro e pessimista, uma manhã que eu preguiçava
+na cama, sentindo através da vidraça cheia de sol ainda pallido um bafo
+de Primavera ainda timido--Jacintho assomou á porta do meu quarto,
+revestido de flanellas leves, d'uma alvura de açucena. Parou lentamente
+á beira dos colxões, e, com gravidade, como se annunciasse o seu
+casamento ou a sua morte, deixou desabar sobre mim esta declaração
+formidavel:
+
+--Zé Fernandes, vou partir para Tormes.
+
+O pulo com que me sentei abalou o rijo leito de pau preto do velho D.
+Galião:
+
+--Para Tormes? Oh Jacintho, quem assassinaste?...
+
+Deleitado com a minha emoção, o Principe da Gran Ventura tirou da
+algibeira uma carta, e encetou estas linhas, já decerto relidas,
+fundamente estudadas:
+
+--«Ill.^{mo} e exc.^{mo} snr.--Tenho grande satisfação em communicar a
+v. exc.^a que por toda esta semana devem ficar promptas as obras da
+capella...»
+
+--É do Silverio? exclamei.
+
+--É do Silverio. «...as obras da capella nova. Os venerandos restos dos
+excelsos avós de v. exc.^a, senhores de todo o meu respeito, podem pois
+ser em breve trasladados da egreja de S. José, onde têm estado
+depositados por bondade do nosso Abbade, que muito se recommenda a v.
+exc.^a... Submisso, aguardo as prestantes ordens de v. exc.^a a respeito
+d'esta magestosa e afflictiva ceremonia...»
+
+Atirei os braços, comprehendendo:
+
+--Ah! bem! Queres ir assistir á trasladação...
+
+Jacintho sumiu a carta no bolso.
+
+--Pois não te parece, Zé Fernandes? Não é por causa dos outros avós, que
+são ossos vagos, e que eu não conheci. É por causa do avô Galião...
+Tambem não o conheci. Mas este 202 está cheio d'elle; tu estás deitado
+na cama d'elle; eu ainda uso o relogio d'elle. Não posso abandonar ao
+Silverio e aos caseiros o cuidado de o installarem no seu jazigo novo.
+Ha aqui um escrupulo de decencia, de elegancia moral... Emfim, decidi.
+Apertei os punhos na cabeça, e gritei--_vou a Tormes_! E vou!... E tu
+vens!
+
+Eu enfiara as chinellas, apertava os cordões do roupão:
+
+--Mas tu sabes, meu bom Jacintho, que a casa de Tormes está
+inhabitavel...
+
+Elle cravou em mim os olhos aterrados.
+
+--Medonha, hein?
+
+--Medonha, medonha, não... É uma bella casa, de bella pedra. Mas os
+caseiros, que lá vivem ha trinta annos, dormem em catres, comem o caldo
+á lareira, e usam as salas para seccar o milho. Creio que os unicos
+moveis de Tormes, se bem recordo, são um armario, e uma espinetta de
+charão, côxa, já sem teclas.
+
+O meu pobre Principe suspirou, com um gesto rendido em que se abandonava
+ao Destino:
+
+--Acabou!... _Alea jact est!_ E como só partimos para abril, ha tempo de
+pintar, d'assoalhar, d'envidraçar... Mando d'aqui de Paris tapetes e
+camas... Um estofador de Lisboa vae depois forrar e disfarçar algum
+buraco... Levamos livros, uma machina para fabricar gelo... E é mesmo
+uma occasião de pôr emfim n'uma das minhas casas de Portugal alguma
+decencia e ordem. Pois não achas? E então essa! Uma casa que data de
+1410... Ainda existia o Imperio Byzantino!
+
+Eu espalhava, com o pincel, sobre a face, flocos lentos de sabão. O meu
+Principe accendeu muito pensativamente um cigarro; e não se arredou do
+toucador, considerando o meu preparo com uma attenção triste que me
+incommodava. Por fim, como se remoesse uma sentença minha, para lhe
+reter bem a moral e o succo:
+
+--Então, definitivamente, Zé Fernandes, entendes que é um dever, um
+absoluto dever, ir eu a Tormes?
+
+Afastei do espelho a cara ensaboada para encarar com divertido espanto o
+meu Principe:
+
+--Oh Jacintho! foi em ti, só em ti que nasceu a ideia d'esse dever! E
+honra te seja, menino... Não cedas a ninguem essa honra!
+
+Elle atirou o cigarro--e, com as mãos enterradas nas algibeiras das
+pantalonas, vagou pelo quarto, topando nas cadeiras, embicando contra os
+postes torneados do velho leito de D. Galião, n'um balanço vago, como
+barco já desamarrado do seu seguro ancoradouro, e sem rumo no mar
+incerto. Depois encalhou sobre a mesa onde eu conservava enfileirada,
+por gradações de sentimentos, desde o dagarreotypo do papá até á
+photographia do _Carocho_ perdigueiro, a galeria da minha Familia.
+
+E nunca o meu Principe (que eu contemplava esticando os suspensorios) me
+pareceu tão corcovado, tão minguado, como gasto por uma lima que desde
+muito o andasse fundamente limando. Assim viera findar, desfeita em
+Civilisação, n'aquelle super-requintado magricellas sem musculo e sem
+energia, a raça fortissima dos Jacinthos! Esses guedelhudos Jacinthões,
+que nas suas altas terras de Tormes, de volta de bater o moiro no Salado
+ou o castelhano em Valverde, nem mesmo despiam as fuscas armaduras para
+lavrar as suas chans e amarrar a vide ao olmo, edificando o Reino com a
+lança e com a enxada, ambas tão rudes e rijas! E agora, alli estava
+aquelle ultimo Jacintho, um Jacinthiculo, com a macia pelle embebida em
+aromas, a curta alma enrodilhada em Philosophias, travado e suspirando
+baixinho na miuda indecisão de viver.
+
+--Oh Zé Fernandes, quem é esta lavradeirona tão rechonchuda?
+
+Estendi o pescoço para a Photographia que elle erguera d'entre a minha
+galeria, no seu honroso caixilho de pellucia escarlate:
+
+--Mais respeito, Snr. D. Jacintho... Um pouco mais de respeito,
+cavalheiro!... É minha prima Joanninha, de Sandofim, da Casa da Flôr da
+Malva.
+
+--Flôr da Malva, murmurou o meu Principe. É a casa do Condestavel, de
+Nun'alvares.
+
+--Flôr da Rosa, homem! A casa do Condestavel era na Flôr da Rosa, no
+Alemtejo... Essa tua ignorancia trapalhona das coisas de Portugal!
+
+O meu Principe deixou escorregar mollemente a photographia da minha
+prima d'entre os dedos molles--que levou á face, no seu gesto horrendo
+de palpar atravez da face a caveira. Depois, de repente, com um soberbo
+esforço, em que se endireitou e cresceu:
+
+--Bem! _Alea jacta est!_ Partamos pois para as serras!... E agora nem
+reflexão, nem descanço!... Á obra! E a caminho!
+
+Atirou a mão ao fecho dourado da porta como se fosse o negro loquete que
+abre os Destinos--e no corredor gritou pelo Grillo, com uma larga e
+açodada voz que eu nunca lhe conhecera, e me lembrou a d'um Chefe
+ordenando, n'alvorada, que se levante o Acampamento, e que a Hoste
+marche, com pendões e bagagens...
+
+Logo n'essa manhã (com uma actividade em que eu reconheci a pressa
+enjoada de quem bebe oleo-de-ricino), escreveu ao Silverio mandando
+caiar, assoalhar, envidraçar o casarão. E depois do almoço appareceu na
+Bibliotheca, chamado violentamente pelo telephone, para combinar a
+remessa de mobilias e confortos, o director da _Companhia Universal de
+Transportes_.
+
+Era um homem que parecia o cartaz da sua Companhia, apertado n'um
+jaquetão de xadrezinho escuro, com polainas de jornada sobre botas
+brancas, uma sacola de marroquim a tiracolo, e na botoeira uma roseta
+multicor resumindo as suas condecorações exoticas de Madagascar, de
+Nicaragua, da Persia, outras ainda, que provavam a universalidade dos
+seus serviços. Apenas Jacintho mencionou «Tormes, no Douro...»--elle
+logo, atravez d'um sorriso superior, estendeu o braço, detendo outros
+esclarecimentos, na sua intimidade minuciosa com essas regiões.
+
+--Tormes... Perfeitamente! Perfeitamente!
+
+Sobre o joelho, na carteira, escrevinhou uma fugidia nota--emquanto eu
+considerava, assombrado, a vastidão do seu saber Chorographico, assim
+familiar com os recantos d'uma serra de Portugal e com todos os seus
+velhos solares. Já elle atirára a carteira para o bolso... E «nós, seus
+caros senhores, não tinhamos senão a encaixotar as roupas, as mobilias,
+as preciosidades! Elle mandaria as suas carroças buscar os caixotes, a
+que poria, em grossa letra, com grossa tinta, o endereço...»
+
+--Tormes, perfeitamente! Linha Norte-Hespanha-Medina-Salamanca...
+Perfeitamente! Tormes... Muito pittoresco! E antigo, historico!
+Perfeitamente, perfeitamente!
+
+Desengonçou a cabeça n'uma venia profundissima--e sahiu da Bibliotheca,
+com passos que devoravam leguas, annunciavam a presteza dos seus
+Transportes.
+
+--Vê tu, murmurou Jacintho muito serio. Que promptidão, que
+facilidade!... Em Portugal era uma tragedia. Não ha senão Paris!
+
+Começou então no 202 o collossal encaixotamento de todos os confortos
+necessarios ao meu Principe para um mez de serra aspera--camas de penna,
+banheiras de nickel, lampadas Carcel, divans profundos, cortinas para
+vedar as gretas rudes, tapetes para amaciar os soalhos broncos. Os
+sotãos, onde se arrecadavam os pesados trastes do avô Galião, foram
+esvasiados--porque o casarão medieval de 1410 comportava os tremós
+romanticos de 1830. De todos os armazens de Paris chegavam cada manhã
+fardos, caixas, temerosos embrulhos que os emmaladores desfaziam,
+atulhando os corredores de montes de palha e de papel pardo, onde os
+nossos passos açodados se enrodilhavam. O cozinheiro, esbaforido,
+organisava a remessa de fornalhas, geleiras, bocaes de trufas, latas de
+conservas, bojudas garrafas de aguas mineraes. Jacintho, lembrando as
+trovoadas da serra, comprou um immenso pára-raios. Desde o amanhecer,
+nos pateos, no jardim, se martellava, se pregava, com vasto fragor, como
+na construcção d'uma cidade. E o desfilar das bagagens, através do
+portão, lembrava uma pagina de Herodoto contando a marcha dos Persas.
+
+Das janellas, Jacintho com o braço estendido, saboreava aquella
+actividade e aquella disciplina:
+
+--Vê tu, Zé Fernandes, que facilidade!... Sahimos do 202, chegamos á
+serra, encontramos o 202. Não ha senão Paris!
+
+Recomeçára a amar a Cidade, o meu Principe, emquanto preparava o seu
+Exodo. Depois de ter, toda a manhã, apressado os encaixotadores,
+descortinado confortos novos para o abandonado solar, telephonado gordas
+listas de encommendas a cada loja de Paris--era com delicia que se
+vestia, se perfumava, se floria, se enterrava na vittoria ou saltava
+para a almofada do phaeton, e corria ao Bosque, e saudava a barba
+talmudica do Ephraim, e os bandós furiosamente negros da Verghane, e o
+Psychologo de fiacre, e a condessa de Trèves na sua nova caleche de
+oito-molas fornecida pelas operações conjunctas da Bolsa e da alcôva.
+Depois arrebanhava amigos para jantares de surpreza no Voisin ou no
+Bignon, onde desdobrava o guardanapo com a impaciencia d'uma fome
+alegre, vigiando fervorosamente que os Bordeus estivessem bem aquecidos
+e os Champagnes bem granitados. E no theatro das _Nouveautés_, no
+_Palais Royal_, nos _Buffos_, ria, batendo na côxa, com encanecidas
+facecias d'encanecidas farças, antiquissimos tregeitos d'antiquissimos
+actores, com que já rira na sua infancia, antes da guerra, sob o segundo
+Napoleão!
+
+De novo, em duas semanas, se abarrotaram as paginas da sua Agenda. A
+magnificencia do seu trage, como imperador Frederico II de Suabia,
+deslumbrou, no baile mascarado da Princesa de Cravon-Rogan (onde tambem
+fui, de «moço de forcado».) E na _Associação para o Desenvolvimento das
+Religiões Esotericas_ discursou e batalhou bravamente pela construcção
+d'um Templo Budhista em Montmartre!
+
+Com espanto meu recomeçou tambem a conversar, como nos tempos de Escóla,
+da «famosa Civilisação nas suas maximas proporções.» Mandou encaixotar o
+seu velho telescopio para o usar em Tormes. Receei mesmo que no seu
+espirito germinasse a idéa de crear, no cimo da serra, uma Cidade com
+todos os seus orgãos. Pelo menos não consentia o meu Jacintho que essas
+semanas da silvestre Tormes interrompessem a illimitada accumulação das
+noções--porque uma manhã rompeu pelo meu quarto, desolado, gritando que
+entre tantos confortos e fórmas de Civilisação esqueceramos os livros!
+Assim era--e que vexame para a nossa Intellectualidade! Mas que livros
+escolher entre os facundos milhares sob que vergava o 202? O meu
+Principe decidiu logo dedicar os seus dias serranos ao estudo da
+Historia Natural--e nós mesmos, immediatamente, deitamos para o fundo
+d'um vasto caixote novo, como lastro, os vinte e cinco tomos de Plinio.
+Despejamos depois para dentro, ás braçadas, Geologia, Mineralogia,
+Botanica... Espalhamos por cima uma camada aeria de Astronomia. E, para
+fixar bem no caixote estas Sciencias oscillantes, entalamos em redor
+cunhas de Metaphysica.
+
+Mas quando a derradeira caixa, pregada e cintada de ferro, sahiu do
+portão do 202 na derradeira carroça da _Companhia dos Transportes_, toda
+esta animação de Jacintho se abateu como a efervescencia n'um copo de
+Champagne. Era em meados já tepidos de Março. E de novo os seus
+desagradaveis bocejos atroaram o 202, e todos os sophás rangeram sob o
+peso do corpo que elle lhe atirava para cima, mortalmente vencido pela
+fartura e pelo tedio, n'um desejo de repouso eterno, bem envolto de
+solidão e silencio. Desesperei. O que! Aturaria eu ainda aquelle
+Principe palpando amargamente a caveira, e, quando o crepusculo
+entristecia a Bibliotheca, alludindo, n'um tom rouco, á doçura das
+mortes rapidas pela violencia misericordiosa do acido cyanhidrico? Ah
+não, caramba! E uma tarde em que o encontrei estirado sobre um divan, de
+braços em cruz, como se fosse a sua estatua de marmore sobre o seu
+jazigo de granito, positivamente o abanei com furor, berrando:
+
+--Accorda, homem! Vamos para Tormes! O casarão deve estar prompto, a
+reluzir, a abarrotar de cousas! Os ossos de teus avós pedem repouso, em
+cova sua!... A caminho, a enterrar esses mortos, e a vivermos nós, os
+vivos!... Irra! São cinco de Abril!... É o bom tempo da serra!
+
+O meu Principe resurgiu lentamente da inercia de pedra:
+
+--O Silverio não me escreveu, nunca me escreveu... Mas, com effeito,
+deve estar tudo preparado... Já lá temos certamente creados, o
+cosinheiro de Lisboa... Eu só levo o Grillo, e o Anatole que envernisa
+bem o calçado, e tem geito como pedicuro... Hoje é Domingo.
+
+Atirou os pés para o tapete, com heroismo:
+
+--Bem, partimos no Sabbado!... Avisa tu o Silverio!
+
+Começou então o laborioso e pensativo estudo dos Horarios--e o dedo
+magro de Jacintho, por sobre o mappa, avançando e recuando entre Paris e
+Tormes. Para escolher o «salão» que deviamos habitar durante a temida
+jornada, duas vezes percorremos o deposito da Estação d'Orleans,
+atolados em lama, atraz do Chefe do Trafico que entontecia. O meu
+Principe recusava este salão por causa da côr tristonha dos estofos;
+depois recusava aquelle por causa da mesquinhez afflictiva do
+Water-Closet! Uma das suas inquietações era o banho, nas manhãs que
+passariamos rolando. Suggeri uma banheira de borracha. Jacintho,
+indeciso, suspirava... Mas nada o aterrou como o trasbordo em Medina del
+Campo, de noite, nas trevas da Velha Castella. Debalde a Companhia do
+Norte de Hespanha e a de Salamanca, por cartas, por telegrammas,
+socegaram o meu camarada, affirmando que, quando elle chegasse no
+comboio de Irun dentro do seu salão, já outro salão ligado ao comboio de
+Portugal esperaria, bem aquecido, bem allumiado, com uma ceia que lhe
+offertava um dos Directores, D. Esteban Castillo, ruidoso e rubicundo
+conviva do 202! Jacintho corría os dedos anciosos pela face:--«E os
+saccos, as pelles, os livros, quem os transportaria do salão de Irun
+para o salão de Salamanca?» Eu berrava, desesperado, que os carregadores
+de Medina eram os mais rapidos, os mais destros de toda a Europa! Elle
+murmurava:--«Pois sim, mas em Hespanha, de noite!...» A noite, longe da
+Cidade, sem telephone, sem luz electrica, sem postos de policia, parecia
+ao meu Principe povoada de surprezas e assaltos. Só acalmou depois de
+verificar no Observatorio Astronomico, sob a garantia do sabio professor
+Bertrand, que a noite da nossa jornada era de lua cheia!
+
+Emfim, na sexta-feira, findou a tremenda organisação d'aquella viagem
+historica! O sabbado predestinado amanheceu com generoso sol, de
+affagadora doçura. E eu acabava de guardar na mala, embrulhadas em papel
+pardo, as photographias das creaturinhas suaves que, n'esses vinte e
+sete mezes de Paris, me tinham chamado «_mon petit chou! mon rat
+cheri!_»--quando Jacintho rompeu pelo quarto, com um soberbo ramo de
+orchideas na sobrecasaca, pallido e todo nervoso.
+
+--Vamos ao Bosque, por despedida?
+
+Fomos--á grande despedida! E que encanto! Até nas almofadas e molas da
+vittoria senti logo uma elasticidade mais emballadora. Depois, pela
+Avenida do Bosque, quasi me pezava não ficar sempiternamente rolando, ao
+trote rimado das eguas perfeitas, no rebrilho rico de metaes e vernizes,
+sobre aquelle macadam mais alisado que marmore, entre tão bem regadas
+flôres e relvas de tão tentadora frescura, cruzando uma Humanidade fina,
+de elegancia bem acabada, que almoçára o seu chocolate em porcellanas de
+Sevres ou de Minton, sahira d'entre sèdas e tapetes de tres mil francos,
+e respirava a belleza de Abril com vagar, requinte e pensamentos
+ligeiros! O Bosque resplandecia n'uma harmonia de verde, azul e ouro.
+Nenhuma cova ou terra solta desalisava as polidas alleas que a Arte
+traçou e enroscou na espessura--nenhum esgalho desgrenhado desmanchava
+as ondulações macias da folhagem que o Estado escóva e lava. O piar das
+aves apenas se elevava para espalhar uma graça leve de vida alada;--e
+mais natural parecia, entre o arvoredo sociavel, o ranger das sellas
+novas, onde pousavam, com balanço esbelto, as amazonas espartilhadas
+pelo grande Redfern. Em frente ao Pavilhão de Armenonville cruzamos
+Madame de Trèves, que nos envolveu ambos na caricia do seu sorriso, mais
+avivado áquella hora pelo vermelhão ainda humido. Logo atraz a barba
+talmudica de Ephraim negrejou, fresca tambem da brilhantine da manhã, no
+alto d'um phaeton tilintante. Outros amigos de Jacintho circulavam nas
+Acacias--e as mãos que lhe acenavam, lentas e affaveis, calçavam luvas
+frescas côr de palha, côr de perola, côr de lilaz. Todelle relampejou
+rente de nós sobre uma grande bycicleta. Dornan, alastrado n'uma cadeira
+de ferro, sob um espinheiro em flôr, mamava o seu immenso charuto, como
+perdido na busca de rimas sensuaes e nedias. Adeante foi o Psychologo,
+que nos não avistou, conversando com um requebro melancolico para dentro
+d'um coupé que rescendia a alcova, e a que um cocheiro obeso imprimia
+dignidade e decencia. E rolavamos ainda, quando o Duque de Marizac, a
+cavallo, ergueu a bengala, estacou a nossa vittoria para perguntar a
+Jacintho se apparecia á noite nos «quadros vivos» dos Verghanes. O meu
+Principe rosnou um--«não, parto para o sul...»--que mal lhe passou
+d'entre os bigodes murchos... E Marizac lamentou--porque era uma festa
+estupenda. Quadros vivos da Historia Sagrada e da Historia Romana!...
+Madame Verghane, de Magdalena, de braços nús, peitos nús, pernas núas,
+limpando com os cabellos os pés do Christo!--O Christo, um latagão
+soberbo, parente dos Trèves, empregado no Ministerio da Guerra, gemendo,
+derreado, sob uma cruz de papelão! Havia tambem Lucrecia na cama, e
+Tarquinio ao lado, de punhal, a puxar os lençoes! E depois ceia, em
+mezas soltas, todos nos seus trajes historicos. Elle já estava
+aparceirado com Madame de Malbe, que era Agrippina! Quadro portentoso
+esse--Agrippina morta, quando Nero a vem contemplar e lhe estuda as
+fórmas, admirando umas, desdenhando outras como imperfeitas. Mas, por
+polidez, ficára combinado que Nero admiraria sem reserva todas as fórmas
+de Madame de Malbe... Emfim collossal, e estupendamente instructivo!
+
+Acenamos um longo adeus áquelle alegre Marizac. E recolhemos sem que
+Jacintho emergisse do silencio enrugado em que se abysmára, com os
+braços rigidamente cruzados, como remoendo pensamentos decisivos e
+fortes. Depois, em frente ao Arco de Triumpho, moveu a cabeça, murmurou:
+
+--É muito grave, deixar a Europa!
+
+ * * * * *
+
+Emfim, partimos! Sob a doçura do crepusculo que se enublára deixamos o
+202. O Grillo e o Anatole seguiam n'um fiacre atulhado de livros, de
+estojos, de paletots, de impermeaveis, de travesseiras, de agoas
+mineraes, de saccos de couro, de rolos de mantas: e mais atraz um
+omnibus rangia sob a carga de vinte e tres malas. Na Estação, Jacintho
+ainda comprou todos os Jornaes, todas as Illustrações, Horarios, mais
+livros, e um saca-rolhas de fórma complicada e hostil. Guiados pelo
+Chefe do Trafico, pelo Secretario da Companhia, occupamos copiosamente o
+nosso salão. Eu puz o meu bonet de sêda, calcei as minhas chinellas. Um
+silvo varou a noite. Paris lampejou, fugiu n'um derradeiro clarão de
+janellas... Para o sorver, Jacintho ainda se arremessou á portinhola.
+Mas rolavamos já na treva da Provincia. O meu Principe então recahiu nas
+almofadas:
+
+--Que aventura, Zé Fernandes!
+
+Até Chartres, em silencio, folheamos as Illustrações. Em Orleans, o
+guarda veio arranjar respeitosamente as nossas camas. Derreado com
+aquelles quatorze mezes de Civilisação adormeci--e só acordei em Bordeus
+quando Grillo, zeloso, nos trouxe o nosso chocolate. Fóra, uma chuva
+miudinha pingava mollemente d'um espesso ceu de algodão sujo. Jacintho
+não se deitára, desconfiado da aspereza e da humidade dos lençoes. E,
+mettido n'um roupão de flanella branco, com a face arripiada e
+estremunhada, ensopando um bolo no chocolate, rosnava sombriamente:
+
+--Este horror!... E agora com chuva!
+
+Em Biarritz, ambos observamos com uma certeza indolente:
+
+--É Biarritz.
+
+Depois Jacintho, que espreitava pela janella embaciada, reconheceu o
+lento caminhar pernalto, o nariz bicudo e triste, do Historiador Danjon.
+Era elle, o facundo homem, vestido de xadrezinho, ao lado d'uma dama
+roliça que levava pela trella uma cadellinha felpuda. Jacintho baixou a
+vidraça violentamente, berrou pelo Historiador, na ancia de communicar
+ainda, através d'elle, com a Cidade, com o 202!... Mas o comboio
+mergulhára na chuva e nevoa.
+
+Sobre a ponte do Bidassoa, antevendo o termo da vida facil, os abrolhos
+da Incivilisação, Jacintho suspirou com desalento:
+
+--Agora adeus, começa a Hespanha!...
+
+Indignado, eu, que já saboreava o generoso ar da terra bemdita, saltei
+para diante do meu Principe, e n'um saracoteio de tremendo salero,
+castanholando os dedos, entoei uma «petenera» condigna:
+
+A la puerta de mi casa
+Ay Soledad, Soleda... á... á... á.
+
+Elle estendeu os braços, supplicante:
+
+--Zé Fernandes, tem piedade do enfermo e do triste!
+
+--_Irun_! _Irun_!...
+
+N'essa Irun almoçamos com succulencia--por que sobre nós velava, como
+Deusa omnipresente, a Companhia do Norte. Depois «el jefe d'Aduana, el
+jefe d'Estacion», preciosamente nos installaram n'outro salão, novo, com
+setins côr d'azeitona, mas tão pequeno que uma rica porção dos nossos
+confortos em mantas, livros, saccos e impermeaveis, passou para o
+compartimento do _Sleeping_ onde se repoltreavam o Grillo e o Anatole,
+ambos de bonets escocezes, e fumando gordos charutos.--_Buen viaje_!
+_Gracias_! _Servidores_!--E entramos silvando nos Pyreneos.
+
+Sob a influencia da chuva embaciadora, d'aquellas serras sempre eguaes,
+que se desenrolavam, arripiadas, diluidas na nevoa, resvalei a uma
+somnolencia dôce;--e, quando descerrava as palpebras, encontrava
+Jacintho a um canto, esquecido do livro fechado nos joelhos, sobre que
+cruzára os magros dedos, considerando valles e montes com a melancolia
+de quem penetra nas terras do seu desterro! Um momento veio em que,
+arremessando o livro, enterrando mais o chapéo molle, se ergueu com
+tanta decisão, que receei detivesse o comboio para saltar á estrada,
+correr atravez das Vascongadas e da Navarra, para traz, para o 202!
+Sacudi o meu torpôr, exclamei:--«oh menino!...» Não! O pobre amigo ia
+apenas continuar o seu tedio para outro canto, enterrado n'outra
+almofada, com outro livro fechado. E á maneira que a escuridão da tarde
+crescia, e com ella a borrasca de vento e agoa, uma inquietação mais
+aterrada se apoderava do meu Principe, assim desgarrado da Civilisação,
+arrastado para a Natureza que já o cercava de brutalidade agreste. Não
+cessou então de me interrogar sobre Tormes:
+
+--As noites são horriveis, hein, Zé Fernandes? Tudo negro, enorme
+solidão... E medico?... Ha medico?
+
+Subitamente o comboio estacou. Mais grossa e ruidosa a chuva fustigou as
+vidraças. Era um descampado, todo em treva, onde rolava e lufava um
+grande vento solto. A machina apitava, com angustia. Uma lanterna
+lampejou, correndo. Jacintho batia o pé:--«É medonho! é medonho!»...
+Entreabri a portinhola. Da claridade incerta das vidraças surdiam
+cabeças esticadas, assustadas.--«_Que hay_? _Que hay_?»--A uma rajada,
+que me alagou, recuei:--e esperamos durante lentos, calados minutos,
+esfregando desesperadamente os vidros embaciados para sondar a
+escuridão. De repente o comboio recomeçou a rolar, muito sereno.
+
+Em breve appareceram as luzinhas mortas d'uma estação abarracada. Um
+conductor, com o casacão de oleado todo a escorrer, trepou ao salão:--e
+por elle soubemos, emquanto carimbava apressadamente os bilhetes, que o
+trem, muito atrazado, talvez não alcançasse em Medina o comboio de
+Salamanca!
+
+--Mas então?...
+
+O casaco de oleado escorregára pela portinhola, fundido na noite,
+deixando um cheiro de humidade e azeite. E nós encetamos um novo
+tormento... Se o trem de Salamanca tivesse abalado? O salão, tomado até
+Medina, desengatava em Medina:--e eis os nossos preciosos corpos, com as
+nossas preciosas almas, despejados em Medina, para cima da lama, entre
+vinte e trez malas, n'uma rude confusão hespanhola, sob a tormenta de
+ventania e d'agua!
+
+--Oh, Zé Fernandes, uma noite em Medina!
+
+Ao meu Principe apparecia como desventura suprema essa noite em Medina,
+n'uma _fonda_ sordida, fedendo a alho, com gordas filas de percevejos
+atravez dos lençoes d'estopa encardida!... Não cessei então de fitar,
+n'um desassocego, os ponteiros do relogio:--emquanto Jacintho, pela
+vidraça escancarada, todo fustigado da chuva clamorosa, furava a
+negrura, na esperança de avistar as luzes de Medina e um comboio
+paciente fumegando... Depois recahia no divan, limpava os bigodes e os
+olhos, maldizia a Hespanha. O trem arquejava, rompendo o vasto vento da
+planura desolada. E a cada apito era um alvoroço. Medina?... Não! Algum
+sumido apeadeiro, onde o trem se atardava, esfalfado, resfolgando,
+emquanto dormentes figuras encarapuçadas, embrulhadas em mantas,
+rondavam sob o telheiro do barracão, que as lanternas baças tornavam
+mais soturno. Jacintho esmurrava o joelho:--«Mas por que pára este
+infame comboio? Não ha trafico, não ha gente! Oh esta Hespanha!...» A
+sineta badalava, moribunda. De novo fendiamos a noite e a borrasca.
+
+Resignadamente comecei a percorrer um _Jornal do Commercio_, antigo,
+trazido de Paris. Jacintho esmagava o espesso tapete do salão com
+passadas rancorosas, rosnando como uma fera. E ainda assim se escoou, ás
+gottas, uma hora cheia de eternidade.--Um silvo, outro silvo!... Luzes
+mais fortes, longe, palpitaram na neblina. As rodas trilharam, com rijos
+solavancos, os encontros de carris. Emfim, Medina!... Um muro sujo de
+barracão alvejou--e bruscamente, á portinhola aberta com violencia,
+apparece um cavalheiro barbudo, de capa á hespanhola, gritando pelo snr.
+D. Jacintho!... Depressa! depressa! que parte o comboio de Salamanca!
+
+--«Que no hay un momento, caballeros! Que no hay un momento!»
+
+Agarro estonteadamente o meu paletot, o _Jornal do Commercio_. Saltamos
+com ancia:--e, pela plataforma, por sobre os trilhos, através de
+charcos, tropeçando em fardos, empurrados pelo vento, pelo homem da capa
+á hespanhola, enfiamos outra portinhola, que se fechou com um estalo
+tremendo... Ambos arquejavamos. Era um salão forrado de um panno verde
+que comia a luz escassa. E eu estendia o braço, para receber dos
+carregadores açodados as nossas malas, os nossos livros, as nossas
+mantas--quando, em silencio, sem um apito, o trem despegou e rolou.
+Ambos nos atiramos ás vidraças, em brados furiosos:
+
+--Pare! As nossas malas, as nossas mantas!... P'ra aqui!... Oh Grillo!
+Oh Grillo!
+
+Uma immensa rajada levou os nossos brados. Era de novo o descampado
+tenebroso, sob a chuva despenhada. Jacintho ergueu os punhos, n'um furor
+que o engasgava:
+
+--Oh! Que serviço! Oh que canalhas!... Só em Hespanha!... E agora? As
+malas perdidas!... Nem uma camisa, nem uma escova!
+
+Calmei o meu desgraçado amigo:
+
+--Escuta! eu entrevi dous carregadores arrebanhando as nossas cousas...
+Decerto o Grillo fiscalisou. Mas na pressa, naturalmente, atirou com
+tudo para o seu compartimento... Foi um erro não trazer o Grillo
+comnosco, no salão... Até podiamos jogar a manilha!
+
+De resto a sollicitude da Companhia, Deusa omnipresente, velava sobre o
+nosso conforto--pois que á porta do lavatorio branquejava o cesto da
+nossa ceia, mostrando na tampa um bilhete de D. Esteban com estas doces
+palavras a lapis--_á D. Jacintho y su egregio amigo, que les dè gusto_!
+Farejei um aroma de perdiz. E alguma tranquillidade nos penetrou no
+coração sentindo tambem as nossas malas sob a tutella da Deusa
+omnipresente.
+
+--Tens fome Jacintho?
+
+--Não. Tenho horror, furor, rancor!... E tenho somno.
+
+Com effeito! depois de tão desencontradas emoções só appeteciamos as
+camas que esperavam, macias e abertas. Quando cahi sobre a travesseira,
+sem gravata, em ceroulas, já o meu Principe, que não se despira, apenas
+embrulhára os pés no _meu_ paletot, nosso unico agasalho, resonava com
+magestade.
+
+Depois, muito tarde e muito longe, percebi junto do meu catre, na
+claridadezinha da manhã, coada pelas cortinas verdes, uma fardeta, um
+bonet, que murmuravam baixinho com immensa doçura:
+
+--V. exc.^as não têem nada a declarar?... Não ha malinhas de mão?...
+
+Era a minha terra! Murmurei baixinho com immensa ternura:
+
+--Não temos aqui nada... Pergunte v. exc.^a pelo Grillo... Ahi atraz,
+n'um compartimento... Elle tem as chaves, tem tudo... É o Grillo.
+
+A fardeta desappareceu, sem rumor, como sombra benefica. E eu readormeci
+com o pensamento em Guiães, onde a tia Vicencia, atarefada, de lenço
+branco cruzado no peito, de certo já preparava o leitão.
+
+Acordei envolto n'um largo e doce silencio. Era uma Estação muito
+socegada, muito varrida, com rosinhas brancas trepando pelas paredes--e
+outras rosas em moitas, n'um jardim, onde um tanquesinho abafado de
+limos dormia sob duas mimosas em flôr que rescendiam. Um moço pallido,
+de paletot côr de mel, vergando a bengalinha contra o chão, contemplava
+pensativamente o comboio. Agachada rente á grade da horta, uma velha,
+diante da sua cesta de ovos, contava moedas de cobre no regaço. Sobre o
+telhado seccavam aboboras. Por cima rebrilhava o profundo, rico e macio
+azul de que meus olhos andavam agoados.
+
+Sacudi violentamente Jacintho:
+
+--Acorda, homem, que estás na tua terra!
+
+Elle desembrulhou os pés do meu paletot, cofiou o bigode, e veio sem
+pressa, á vidraça que eu abrira, conhecer a sua terra.
+
+--Então é Portugal, hein?... Cheira bem.
+
+--Está claro que cheira bem, animal!
+
+A sineta tilintou languidamente. E o comboio deslisou, com descanço,
+como se passeasse para seu regalo sobre as duas fitas d'aço, assobiando
+e gozando a belleza da terra e do ceu.
+
+O meu Principe alargava os braços, desolado:
+
+--E nem uma camisa, nem uma escova, nem uma gotta d'agoa de Colonia!...
+Entro em Portugal, immundo!
+
+--Na Regoa ha uma demora, temos tempo de chamar o Grillo, rehaver os
+nossos confortos... Olha para o rio!
+
+Rolavamos na vertente d'uma serra, sobre penhascos que desabavam até
+largos socalcos cultivados de vinhedo. Em baixo, n'uma esplanada,
+branquejava uma casa nobre, de opulento repouso, com a capellinha muito
+caiada entre um laranjal maduro. Pelo rio, onde a agoa turva e tarda nem
+se quebrava contra as rochas, descia, com a vela cheia, um barco lento
+carregado de pipas. Para além, outros socalcos, d'um verde pallido de
+rezeda, com oliveiras apoucadas pela amplidão dos montes, subiam até
+outras penedias que se embebiam, todas brancas e assoalhadas, na fina
+abundancia do azul. Jacintho acariciava os pellos corredios do bigode:
+
+--O Douro, hein?... É interessante, tem grandeza. Mas agora é que eu
+estou com uma fome, Zé Fernandes!
+
+Tambem eu! Destapamos o cesto de D. Esteban d'onde surdiu um bodo
+grandioso, de presunto, anho, perdizes, outras viandas frias que o ouro
+de duas nobres garrafas d'Amontillado, além de duas garrafas de Rioja,
+aqueciam com um calor de sol Andaluz. Durante o presunto, Jacintho
+lamentou contrictamente o seu erro. Ter deixado Tormes, um solar
+historico, assim abandonado e vasio! Que delicia, por aquella manhã tão
+lustrosa e tepida, subir á serra, encontrar a sua casa bem apetrechada,
+bem civilisada... Para o animar, lembrei que com as obras do Silverio,
+tantos caixotes de Civilisação remettidos de Paris, Tormes estaria
+confortavel mesmo para Epicuro. Oh! mas Jacintho entendia um palacio
+perfeito, um 202 no deserto!... E, assim discorrendo, atacamos as
+perdizes. Eu desarrolhava uma garrafa de Amontillado--quando o comboio,
+muito sorrateiramente, penetrou n'uma Estação. Era a Regoa. E o meu
+Principe pousou logo a faca para chamar o Grillo, reclamar as malas que
+traziam o aceio dos nossos corpos.
+
+--Espera, Jacintho! Temos muito tempo, O comboio pára aqui uma hora...
+Come com tranquillidade. Não escangalhemos este almocinho com arrumações
+de maletas... O Grillo não tarda a apparecer.
+
+E corri mesmo a cortina, porque de fóra um padre muito alto, com uma
+ponta de cigarro collada ao beiço, parára a espreitar indiscretamente o
+nosso festim. Mas quando acabamos as perdizes, e Jacintho confiadamente
+desembrulhava um queijo manchego, sem que Grillo ou Anatole
+comparecessem, eu, inquieto, corri á portinhola para apressar esses
+servos tardios... E n'esse instante o comboio, largando, deslisou com o
+mesmo silencio sorrateiro. Para o meu Principe foi um desgosto:
+
+--Ahi ficamos outra vez sem um pente, sem uma escova... E eu que queria
+mudar de camisa! Por culpa tua, Zé-Fernandes!
+
+--É espantoso!... Demora sempre uma eternidade. Hoje chega e abala!
+Paciencia, Jacintho. Em duas horas estamos na Estação de Tormes...
+Tambem não valia a pena mudar de camisa para subir á serra! Em casa
+tomamos um banho, antes de jantar... Já deve estar installada a
+banheira.
+
+Ambos nos consolamos com copinhos d'uma divina aguardente Chinchon.
+Depois, estendidos nos sophás, saboreando os dois charutos que nos
+restavam, com as vidraças abertas ao ar adoravel, conversamos de Tormes.
+Na estação certamente estaria o Silverio, com os cavallos...
+
+--Que tempo leva a subir?
+
+Uma hora. Depois de lavados sobrava tempo para um demorado passeio pelas
+terras com o caseiro, o excellente Melchior, para que o Senhor de
+Tormes, solemnemente, tomasse posse do seu Senhorio. E á noite o
+primeiro brodio da serra, com os piteus vernaculos do velho Portugal!
+
+Jacintho sorria, seduzido:
+
+--Vamos a ver que cozinheiro me arranjou esse Silverio. Eu recommendei
+que fosse um soberbo cozinheiro portuguez, classico. Mas que soubesse
+trufar um perú, afogar um bife em molho de moella, estas cousas simples
+da cozinha de França!... O peor é não te demorares, seguires logo para
+Guiães...
+
+--Ah, menino, annos da tia Vicencia no sabbado... Dia sagrado! Mas
+volto. Em duas semanas estou em Tormes, para fazermos uma larga
+Bucolica. E, está claro, para assistir á trasladação.
+
+Jacintho estendera o braço:
+
+--Que casarão é aquelle, além no outeiro, com a torre?
+
+Eu não sabia. Algum solar de fidalgote do Douro... Tormes era n'esse
+feitio atarracado e massiço. Casa de seculos e para seculos--mas sem
+torre.
+
+--E logo se vê, da estação, Tormes?...
+
+--Não! Muito no alto, n'uma prega da serra, entre arvoredo.
+
+No meu Principe já evidentemente nascèra uma curiosidade pela sua rude
+casa ancestral. Mirava o relogio, impaciente. Ainda trinta minutos!
+Depois, sorvendo o ar e a luz, murmurava, no primeiro encanto de
+iniciado:
+
+--Que doçura, que paz...
+
+--Trez horas e meia, estamos a chegar, Jacintho!
+
+Guardei o meu velho _Jornal do Commercio_ dentro do bolso do paletot,
+que deitei sobre o braço;--e ambos em pé, ás janellas, esperamos com
+alvoroço a pequenina Estação de Tormes, termo ditoso das nossas
+provações. Ella appareceu emfim, clara e simples, á beira do rio, entre
+rochas, com os seus vistosos girasoes enchendo um jardimsinho breve, as
+duas altas figueiras assombreando o pateo, e por traz a serra coberta de
+velho e denso arvoredo... Logo na plataforma avistei com gosto a immensa
+barriga, as bochechas menineiras do chefe da Estação, o louro Pimenta,
+meu condiscipulo em Rhetorica, no Lyceu de Braga. Os cavallos decerto
+esperavam, á sombra, sob as figueiras.
+
+Mal o trem parou ambos saltamos alegremente. A bojuda massa do Pimenta
+rebolou para mim com amizade:
+
+--Viva o amigo Zé Fernandes!
+
+--Oh bello Pimentão!...
+
+Apresentei o senhor de Tormes. E immediatamente:
+
+--Ouve lá, Pimentinha... Não está ahi o Silverio?
+
+--Não... O Silverio ha quasi dois mezes que partiu para Castello de
+Vide, vêr a mãe que apanhou uma cornada d'um boi!
+
+Atirei a Jacintho um olhar inquieto:
+
+--Ora essa! E o Melchior, o caseiro?... Pois não estão ahi os cavallos
+para subirmos á quinta?
+
+O digno chefe ergueu com surpreza as sobrancelhas côr de milho:
+
+--Não!... Nem Melchior, nem cavallos... O Melchior... Ha que tempos eu
+não vejo o Melchior!
+
+O carregador badalou lentamente a sineta para o comboio rolar. Então,
+não avistando em torno, na lisa e despovoada Estação, nem creados nem
+malas, o meu Principe e eu lançamos o mesmo grito de angustia:
+
+--E o Grillo? as bagagens?...
+
+Corremos pela beira do comboio, berrando com desespero:
+
+--Grillo!... Oh Grillo!... Anatole!... Oh Grillo!
+
+Na esperança que elle e o Anatole viessem mortalmente adormecidos,
+trepavamos aos estribos, atirando a cabeça para dentro dos
+compartimentos, espavorindo a gente quieta com o mesmo berro que
+retumbava:--«Grillo, estás ahi, Grillo?»--Já d'uma terceira-classe, onde
+uma viola repenicava, um jocoso gania, troçando:--«Não ha por ahi um
+grillo? Andam por ahi uns senhores a pedir um grillo!»--E nem Anatole,
+nem Grillo!
+
+A sineta tilintou.
+
+--Oh Pimentinha, espera, homem, não deixes largar o comboio!... As
+nossas bagagens, homem!
+
+E, afflicto, empurrei o enorme chefe para o forgão de carga, a
+pesquizar, descortinar as nossas vinte e trez malas! Apenas encontramos
+barris, cestos de vime, latas de azeite, um bahú amarrado com cordas...
+Jacintho mordia os beiços, livido. E o Pimentinha, esgazeado:
+
+--Oh filhos, eu não posso atrazar o comboio!...
+
+A sineta repicou... E com um bello fumo claro o comboio desappareceu por
+detraz das fragas altas. Tudo em torno pareceu mais calado e deserto.
+Alli ficavamos pois baldeados, perdidos na serra, sem Grillo, sem
+procurador, sem caseiro, sem cavallos, sem malas! Eu conservava o
+paletot alvadio, d'onde surdia o _Jornal do Commercio_. Jacintho, uma
+bengala. Eram todos os nossos bens!
+
+O Pimentão arregalava para nós os olhinhos papudos e compadecidos.
+Contei então áquelle amigo o atarantado trasfêgo em Medina sob a
+borrasca, o Grillo desgarrado, encalhado com as vinte e trez malas, ou
+rolando talvez para Madrid sem nos deixar um lenço...
+
+--Eu não tenho um lenço!... Tenho este _Jornal do Commercio_. É toda a
+minha roupa branca.
+
+--Grande arrelia, caramba! murmurava o Pimenta, impressionado. E agora?
+
+--Agora, exclamei, é trepar, para a quinta, á pata... A não ser que se
+arranjassem ahi uns burros.
+
+Então o carregador lembrou que perto, no casal da Giesta, ainda
+pertencente a Tormes, o caseiro, seu compadre, tinha uma boa egua e um
+jumento... E o prestante homem enfiou n'uma carreira para a
+Giesta--emquanto o meu Principe e eu cahiamos para cima d'um banco,
+arquejantes e succumbidos, como naufragos. O vasto Pimentinha, com as
+mãos nas algibeiras, não cessava de nos contemplar, de murmurar:--«É de
+arrelia».--O rio defronte descia, preguiçoso e como adormentado sob a
+calma já pesada de maio, abraçando, sem um sussurro, uma larga ilhota de
+pedra que rebrilhava. Para além a serra crescia em corcovas doces, com
+uma funda prega onde se aninhava, bem junta e esquecida do mundo, uma
+villasinha clara. O espaço immenso repousava n'um immenso silencio.
+N'aquellas solidões de monte e penedia os pardaes, revoando no telhado,
+pareciam aves consideraveis. E a massa rotunda e rubicunda do Pimentinha
+dominava, atulhava a região.
+
+--Está tudo arranjado, meu senhor! Vêm ahi os bichos!... Só o que não
+calhou foi um selimsinho para a jumenta!
+
+Era o carregador, digno homem, que voltava da Giesta, sacudindo na mão
+duas esporas desirmanadas e ferrugentas. E não tardaram a apparecer no
+corrego, para nos levarem a Tormes, uma egua ruça, um jumento com
+albarda, um rapaz e um podengo. Apertamos a mão suada e amiga do
+Pimentinha. Eu cedi a egua ao senhor de Tormes. E começamos a trepar o
+caminho, que não se alisára nem se desbravára desde os tempos em que o
+trilhavam, com rudes sapatões ferrados, cortando de rio a monte, os
+Jacinthos do seculo XIV! Logo depois de atravessarmos uma tremula ponte
+de pau, sobre um riacho quebrado por pedregulhos, o meu Principe, com o
+olho de dono subitamente aguçado, notou a robustez e a fartura das
+oliveiras...--E em breve os nossos males esqueceram ante a incomparavel
+belleza d'aquella serra bemdita!
+
+Com que brilho e inspiração copiosa a compozera o divino Artista que faz
+as serras, e que tanto as cuidou, e tão ricamente as dotou, n'este seu
+Portugal bem-amado! A grandeza egualava a graça. Para os valles,
+poderosamente cavados, desciam bandos de arvoredos, tão copados e
+redondos, d'um verde tão môço que eram como um musgo macio onde
+appetecia cahir e rolar. Dos pendores, sobranceiros ao carreiro fragoso,
+largas ramadas estendiam o seu toldo amavel, a que o esvoaçar leve dos
+passaros sacudia a fragrancia. Atravez dos muros seculares, que sustem
+as terras liados pelas heras, rompiam grossas raizes colleantes a que
+mais hera se enroscava. Em todo o torrão, de cada fenda, brotavam flôres
+silvestres. Brancas rochas, pelas encostas, alastravam a solida nudez do
+seu ventre polido pelo vento e pelo sol; outras, vestidas de lichen e de
+silvados floridos, avançavam como prôas de galeras enfeitadas: e,
+d'entre as que se apinhavam nos cimos, algum casebre que para lá
+galgára, todo amachucado e torto, espreitava pelos postigos negros, sob
+as desgrenhadas farripas de verdura, que o vento lhe semeára nas telhas.
+Por toda a parte a agua sussurrante, a agua fecundante... Espertos
+regatinhos fugiam, rindo com os seixos, d'entre as patas da egua e do
+burro; grossos ribeiros açodados saltavam com fragor de pedra em pedra;
+fios direitos e luzidios como cordas de prata vibravam e faiscavam das
+alturas aos barrancos; e muita fonte, posta á beira de veredas, jorrava
+por uma bica, beneficamente, á espera dos homens e dos gados... Todo um
+cabeço por vezes era uma ceára, onde um vasto carvalho ancestral,
+solitario, dominava como seu senhor e seu guarda. Em socalcos verdejavam
+laranjaes rescendentes. Caminhos de lages soltas circumdavam fartos
+prados com carneiros e vaccas retouçando:--ou mais estreitos, entalados
+em muros, penetravam sob ramadas de parra espessa, n'uma penumbra de
+repouso e frescura. Trepavamos então alguma ruasinha de aldeia, dez ou
+doze casebres, sumidos entre figueiras, onde se esgaçava, fugindo do lar
+pela telha vã, o fumo branco e cheiroso das pinhas. Nos cerros remotos,
+por cima da negrura pensativa dos pinheiraes, branquejavam ermidas. O ar
+fino e puro entrava na alma, e n'alma espalhava alegria e força. Um
+esparso tilintar de chocalhos de guizos morria pelas quebradas...
+
+Jacintho adiante, na sua egua ruça, murmurava:
+
+--Que belleza!
+
+E eu atraz, no burro de Sancho, murmurava:
+
+--Que belleza!
+
+Frescos ramos roçavam os nossos hombros com familiaridade e carinho. Por
+traz das sebes, carregadas d'amoras, as macieiras estendidas offereciam
+as suas maçãs verdes, porque as não tinham maduras. Todos os vidros
+d'uma casa velha, com a sua cruz no topo, refulgiram hospitaleiramente
+quando nós passamos. Muito tempo um melro nos seguia, de azinheiro a
+olmo, assobiando os nossos louvores. Obrigado, irmão melro! Ramos de
+macieira, obrigado! Aqui vimos, aqui vimos! E sempre comtigo fiquemos,
+serra tão acolhedora, serra de fartura e de paz, serra bemdita entre as
+serras!
+
+Assim, vagarosamente e maravilhados, chegamos áquella avenida de faias,
+que sempre me encantára pela sua fidalga gravidade. Atirando uma
+vergastada ao burro e á egua, o nosso rapaz, com o seu podengo sobre os
+calcanhares, gritou:--«Aqui é que estêmos, meus amos!» E ao fundo das
+faias, com effeito, apparecia o portão da quinta de Tormes, com o seu
+brazão de armas, de secular granito, que o musgo retocava e mais
+envelhecia. Dentro já os cães ladravam com furor. E quando Jacintho, na
+sua suada egua, e eu atraz, no burro de Sancho, transpozemos o limiar
+solarengo, desceu para nós, do alto do alpendre, pela escadaria de pedra
+gasta, um homem nedio, rapado como um padre, sem collete, sem jaleca,
+acalmando os cães que se encarniçavam contra o meu Principe. Era o
+Melchior, o caseiro... Apenas me reconheceu, toda a bocca se lhe
+escancarou n'um riso hospitaleiro, a que faltavam dentes. Mas apenas eu
+lhe revelei, d'aquelle cavalheiro de bigodes louros que descia da egua
+esfregando os quadris, o senhor de Tormes--o bom Melchior recuou,
+colhido de espanto e terror como diante d'uma avantesma.
+
+--Ora essa!... Santissimo nome de Deus! Pois então...
+
+E, entre o rosnar dos cães, n'um bracejar desolado, balbuciou uma
+historia que por seu turno apavorava Jacintho, como se o negro muro do
+casarão pendesse para desabar. O Melchior não esperava s. ex.^a! Ninguem
+esperava s. ex.^a!... (Elle dizia _sua incellencia_)... O snr. Silverio
+estava para Castello de Vide desde março, com a mãe, que apanhára uma
+cornada na virilha. E de certo houvera engano, cartas perdidas... Porque
+o snr. Silverio só contava com s. exc.^a em setembro, para a vindima! Na
+casa as obras seguiam devagarinho, devagarinho... O telhado, no sul,
+ainda continuava sem telhas; muitas vidraças esperavam, ainda sem
+vidros; e, para ficar, Virgem Santa, nem uma cama arranjada!...
+
+Jacintho cruzou os braços n'uma colera tumultuosa que o suffocava. Por
+fim, com um berro:
+
+--Mas os caixotes? Os caixotes, mandados de Paris, em fevereiro, ha
+quatro mezes?...
+
+O desgraçado Melchior arregalava os olhos miudos, que se embaciavam de
+lagrimas. Os caixotes?! Nada chegára, nada apparecera!... E na sua
+perturbação mirava pelas arcadas do pateo, palpava na algibeira das
+pantalonas. Os caixotes?... Não, não tinha os caixotes!
+
+--E agora, Zé Fernandes?
+
+Encolhi os hombros:
+
+--Agora, meu filho, só vires commigo para Guiães... Mas são duas horas
+fartas a cavallo. E não temos cavallos! O melhor é vêr o casarão, comer
+a boa gallinha que o nosso amigo Melchior nos assa no espeto, dormir
+n'uma enxerga, e ámanha cedo, antes do calor, trotar para cima, para a
+tia Vicencia.
+
+Jacintho replicou, com uma decisão furiosa:
+
+--Ámanhã troto, mas para baixo, para a estação!... E depois, para
+Lisboa!
+
+E subiu a gasta escadaria do seu solar com amargura e rancor. Em cima
+uma larga varanda acompanhava a fachada do casarão, sob um alpendre de
+negras vigas, toda ornada, por entre os pilares de granito, com caixas
+de pau onde floriam cravos. Colhi um cravo amarello---e penetrei atraz
+de Jacintho nas salas nobres, que elle contemplava com um murmurio de
+horror. Eram enormes, d'uma sonoridade de casa capitular, com os grossos
+muros ennegrecidos pelo tempo e o abandono, e regeladas, desoladamente
+núas, conservando apenas aos cantos algum monte de canastras ou alguma
+enxada entre paus. Nos tectos remotos, de carvalho apainelado, luziam
+através dos rasgões manchas de céo. As janellas, sem vidraças,
+conservavam essas macissas portadas, com fechos para as trancas, que,
+quando se cerram, espalham a treva. Sob os nossos passos, aqui e além,
+uma taboa pôdre rangia e cedia.
+
+--Inhabitavel! rugia Jacintho surdamente. Um horror! Uma infamia!...
+
+Mas depois, n'outras salas, o soalho alternava com remendos de taboas
+novas. Os mesmos remendos claros mosqueavam os velhissimos tectos de
+rico carvalho sombrio. As paredes repelliam pela alvura crúa da cal
+fresca. E o sol mal atravessava as vidraças--embaciadas e gordurentas da
+massa e das mãos dos vidraceiros.
+
+Penetramos emfim na ultima, a mais vasta, rasgada por seis janellas,
+mobilada com um armario e com uma enxerga parda e curta estirada a um
+canto: e junto d'ella paramos, e sobre ella depuzemos tristemente o que
+nos restava de vinte e trez malas--o meu paletot alvadio, a bengala de
+Jacintho, e o _Jornal do Commercio_ que nos era commum. Através das
+janellas escancaradas, sem vidraças, o grande ar da serra entrava e
+circulava como n'um eirado, com um cheiro fresco d'horta regada. Mas o
+que avistavamos, da beira da enxerga, era um pinheiral cobrindo um
+cabeço e descendo pelo pendor suave, á maneira d'uma hoste em marcha,
+com pinheiros na frente, destacados, direitos, emplumados de negro; mais
+longe as serras d'além rio, d'uma fina e macia côr de violeta; depois a
+brancura do céo, todo liso, sem uma nuvem, d'uma magestade divina. E lá
+debaixo, dos valles, subia, desgarrada e melancolica, uma voz de
+pegureiro cantando.
+
+Jacintho caminhou lentamente para o poial d'uma janella, onde cahiu
+esbarrondado pelo desastre, sem resistencia ante aquelle brusco
+desapparecimento de toda a Civilisação! Eu palpava a enxerga, dura e
+regelada como um granito de inverno. E pensando nos luxuosos colchões de
+pennas e molas, tão prodigamente encaixotados no 202, desafoguei tambem
+a minha indignação:
+
+--Mas os caixotes, caramba?... Como se perdem assim trinta e tantos
+caixotes enormes?...
+
+Jacintho saccudiu amargamente os hombros:
+
+--Encalhados, por ahi, algures, n'um barracão!... Em Medina, talvez,
+n'essa horrenda Medina. Indifferença das Companhias, inercia do
+Silverio... Emfim a Peninsula, a barbarie!
+
+Vim ajoelhar sobre o outro poial, alongando os olhos consolados por céo
+e monte:
+
+--É uma belleza!
+
+O meu principe, depois de um silencio grave, murmurou, com a face
+encostada á mão:
+
+--É uma lindeza... E que paz!
+
+Sob a janella vicejava fartamente uma horta, com repolho, feijoal,
+talhões de alface, gordas folhas de abobora rastejando. Uma eira, velha
+e mal alisada, dominava o valle, d'onde já subia tenuemente a nevoa
+d'algum fundo ribeiro. Toda a esquina do casarão d'esse lado se
+encravava em laranjal. E d'uma fontinha rustica, meio afogada em rosas
+tremedeiras, corria um longo e rutilante fio d'agua.
+
+--Estou com appetite desesperado d'aquella agoa! declarou Jacintho,
+muito sério.
+
+--Tambem eu... Desçamos ao quintal, hein? E passamos pela cosinha, a
+saber do frango.
+
+Voltamos á varanda. O meu Principe, mais conciliado com o destino
+inclemente, colheu um cravo amarello. E por outra porta baixa, de
+rigissimas hombreiras, mergulhamos n'uma sala, alastrada de caliça, sem
+tecto, coberta apenas de grossas vigas, d'onde s'ergueu uma revoada de
+pardaes.
+
+--Olha para este horror! murmurava Jacintho arripiado.
+
+E descemos por uma lobrega escada de castello, tenteando depois um
+corredor tenebroso de lages asperas, atravancado por profundas arcas,
+capazes de guardar todo o grão d'uma provincia. Ao fundo a cozinha,
+immensa, era uma massa de fórmas negras, madeira negra, pedra negra,
+densas negruras de felugem secular. E n'este negrume refulgia a um
+canto, sobre o chão de terra negra, a fogueira vermelha, lambendo tachos
+e panellas de ferro, despedindo uma fumarada que fugia pela grade aberta
+no muro, depois por entre a folhagem dos limoeiros. Na enorme lareira,
+onde se aqueciam e assavam as suas grossas peças de porco e boi os
+Jacinthos medievaes, agora desaproveitada pela frugalidade dos caseiros,
+negrejava um poeirento montão de cestas e ferramentas; e a claridade
+toda entrava por uma porta de castanho, escancarada sobre um quintalejo
+rustico em que se misturavam couves lombardas e junquilhos formosos. Em
+roda do lume um bando alvoroçado de mulheres depennava frangos, remexia
+as caçarolas, picava a cebola, com um fervor afogueado e palreiro. Todas
+emmudeceram quando apparecemos--e d'entre ellas o pobre Melchior,
+estonteado, com o sangue a espirrar na nedia face d'abbade, correu para
+nós, jurando «que o jantarinho de suas Incellencias não demorava um
+credo»...
+
+--E a respeito de camas, oh amigo Melchior?
+
+O digno homem ciciou uma desculpa encolhida «sobre enxergasinhas no
+chão...»
+
+--É o que basta! acudi eu, para o consolar. Por uma noite, com lençoes
+frescos...
+
+--Ah, lá pelos lençoesinhos respondo eu!... Mas um desgosto assim, meu
+senhor! A gente apanhada sem um colxãosinho de lã, sem um lombosinho de
+vacca... Que eu já pensei, até lembrei á minha comadre, V. Inc.^{as}
+podiam ir dormir aos _Ninhos_, a casa do Silverio. Tinham lá camas de
+ferro, lavatorios... Elle sempre é uma legoasita e mau caminho...
+
+Jacintho, bondoso, accudiu:
+
+--Não, tudo se arranja, Melchior. Por uma noite!... Até gósto mais de
+dormir em Tormes, na minha casa da serra!
+
+Sahimos ao terreiro, retalho de horta fechado por grossas rochas
+encabelladas de verdura, entestando com os socalcos da serra onde
+lourejava o centeio. O meu principe bebeu da agua nevada e lusidia da
+fonte, regaladamente, com os beiços na bica; appeteceu a alface
+rechonchuda e crespa; e atirou pulos aos ramos altos d'uma copada
+cerejeira, toda carregada de cereja. Depois, costeando o velho lagar, a
+que um bando de pombas branqueava o telhado, deslisámos até ao carreiro,
+cortado no costado do monte. E andando, pensativamente, o meu Principe
+pasmava para os milheiraes, para os vetustos carvalhos plantados por
+vetustos Jacinthos, para os casebres espalhados sobre os cabeços á orla
+negra dos pinheiraes.
+
+De novo penetramos na avenida de faias e transpozemos o portão senhorial
+entre o latir dos cães, mais mansos, farejando um dono. Jacintho
+reconheceu «certa nobreza» na frontaria do seu lar. Mas sobretudo lhe
+agradava a longa alameda, assim direita e larga, como traçada para
+n'ella se desenrolar uma cavalgada de Senhores com plumas e pagens.
+Depois, de cima da varanda, reparando na telha nova da capella, louvou o
+Silverio, «esse ralaço», por cuidar ao menos da morada do Bom-Deus.
+
+--E esta varanda tambem é agradavel, murmurou elle mergulhando a face no
+aroma dos cravos. Precisa grandes poltronas, grandes divans de verga...
+
+Dentro, na «nossa sala», ambos nos sentamos nos poiaes da janella,
+contemplando o doce socego crepuscular que lentamente se estabelecia
+sobre valle e monte. No alto tremeluzia uma estrellinha, a Venus
+diamantina, languida annunciadora da noite e dos seus contentamentos.
+Jacintho nunca considerára demoradamente aquella estrella, de amorosa
+refulgencia, que perpetua no nosso Céo catholico a memoria da Deusa
+incomparavel:--nem assistira jámais, com a alma attenta, ao magestoso
+adormecer da Natureza. E este ennegrecimento dos montes que se embuçam
+em sombra; os arvoredos emmudecendo, cançados de susurrar; o rebrilho
+dos casaes mansamente apagado; o cobertor de nevoa, sob que se acama e
+agasalha a frialdade dos valles; um toque somnolento de sino que rola
+pelas quebradas; o segredado cochichar das aguas e das relvas
+escuras--eram para elle como iniciações. D'aquella janella, aberta sobre
+as serras, entrevia uma outra vida, que não anda sómente cheia do Homem
+e do tumulto da sua obra. E senti o meu amigo suspirar como quem emfim
+descança.
+
+D'este enlevo nos arrancou o Melchior com o doce aviso do «jantarinho de
+suas Incellencias». Era n'outra sala, mais núa, mais abandonada:--e ahi
+logo á porta o meu super-civilisado Principe estacou, estarrecido pelo
+desconforto, escassez e rudeza das coisas. Na mesa, encostada ao muro
+denegrido, sulcado pelo fumo das candeias, sobre uma toalha de estopa,
+duas velas de sêbo em castiçaes de lata alumiavam grossos pratos de
+louça amarella, ladeados por colheres de estanho e por garfos de ferro.
+Os copos, d'um vidro espesso, conservavam a sombra roxa do vinho que
+n'elles passára em fartos annos de fartas vindimas. A malga de barro,
+atestada de azeitonas pretas, contentaria Diogenes. Espetado na côdea
+d'um immenso pão reluzia um immenso facalhão. E na cadeira senhoreal
+reservada ao meu Principe, derradeira alfaia dos velhos Jacinthos, de
+hirto espaldar de couro, com a madeira roída de caruncho, a clina fugia
+em melenas pelos rasgões do assento poido.
+
+Uma formidavel moça, de enormes peitos que lhe tremiam dentro das
+ramagens do lenço cruzado, ainda suada e esbrazeada do calor da lareira,
+entrou esmagando o soalho, com uma terrina a fumegar. E o Melchior, que
+seguia erguendo a infusa do vinho, esperava que suas Incellencias lhe
+perdoassem porque faltára tempo para o caldinho apurar... Jacintho
+occupou a séde ancestral--e, durante momentos (de esgazeada anciedade
+para o caseiro excellente) esfregou energicamente, com a ponta da
+toalha, o garfo negro, a fusca colhér de estanho. Depois, desconfiado,
+provou o caldo, que era de gallinha e rescendia. Provou--e levantou para
+mim, seu camarada de miserias, uns olhos que brilharam, surprehendidos.
+Tornou a sorver uma colherada mais cheia, mais considerada. E sorriu,
+com espanto:--«Está bom!»
+
+Estava precioso: tinha figado e tinha moela: o seu perfume enternecia:
+tres vezes, fervorosamente, ataquei aquelle caldo.
+
+--Tambem lá volto! exclamava Jacintho com uma convicção immensa. É que
+estou com uma fome... Santo Deus! Ha annos que não sinto esta fome.
+
+Foi elle que rapou avaramente a sopeira. E já espreitava a porta,
+esperando a portadora dos piteus, a rija moça de peitos trementes, que
+emfim surgiu, mais esbrazeada, abalando o sobrado--e pousou sobre a mesa
+uma travessa a trasbordar de arroz com favas. Que desconsolo! Jacintho,
+em Paris, sempre abominára favas!... Tentou todavia uma garfada
+timida--e de novo aquelles seus olhos, que o pessimismo ennovoára,
+luziram, procurando os meus. Outra larga garfada, concentrada, com uma
+lentidão de frade que se regala. Depois um brado:
+
+--Optimo!... Ah, d'estas favas, sim! Oh que fava! Que delicia!
+
+E por esta santa gula louvava a serra, a arte perfeita das mulheres
+palreiras que em baixo remexiam as panellas, o Melchior que presidia ao
+brodio...
+
+--D'este arroz com fava nem em Paris, Melchior amigo!
+
+O homem optimo sorria, inteiramente desannuviado:
+
+--Pois é cá a comidinha dos moços da quinta! E cada pratada, que até
+suas Incellencias se riam... Mas agora, aqui, o Snr. D. Jacintho, tambem
+vae engordar e enrijar!
+
+O bom caseiro sinceramente cria que, perdido n'esses remotos Parizes, o
+Senhor de Tormes, longe da fartura de Tormes, padecia fome e mingava...
+E o meu Principe, na verdade, parecia saciar uma velhissima fome e uma
+longa saudade da abundancia, rompendo assim, a cada travessa, em
+louvores mais copiosos. Diante do louro frango assado no espeto e da
+salada que elle appetecera na horta, agora temperada com um azeite da
+serra digno dos labios de Platão, terminou por bradar:--«É divino!» Mas
+nada o enthusiasmava como o vinho de Tormes, cahindo d'alto, da bojuda
+infusa verde--um vinho fresco, esperto, seivoso, e tendo mais alma,
+entrando mais na alma, que muito poema ou livro santo. Mirando, á vela
+de sèbo, o copo grosso que elle orlava de leve espuma rosea, o meu
+Principe, com um resplendôr d'optimismo na face, citou Virgilio:
+
+--_Quo te carmina dicam, Rethica_? Quem dignamente te cantará, vinho
+amavel d'estas serras?
+
+Eu, que não gosto que me avantagem em saber classico, espanejei logo
+tambem o meu Virgilio, louvando as doçuras da vida rural:
+
+--_Hanc olim veteres vitam coluere Sabini_... Assim viveram os velhos
+Sabinos. Assim Romolo e Remo... Assim cresceu a valente Etruria. Assim
+Roma se tornou a maravilha do mundo!
+
+E immovel, com a mão agarrada á infusa, o Melchior arregalava para nós
+os olhos em infinito assombro e religiosa reverencia.
+
+ * * * * *
+
+Ah! Jantamos deliciosissimamente, sob os auspicios do Melchior--que
+ainda depois, próvido e tutelar, nos forneceu o tabaco. E, como ante nós
+se alongava uma noite de monte, voltamos para as janellas desvidraçadas,
+na sala immensa, a contemplar o sumptuoso céo de verão. Philosophámos
+então com pachorra e facundia.
+
+Na Cidade (como notou Jacintho) nunca se olham, nem lembram os
+astros--por causa dos candieiros de gaz ou dos globos de electricidade
+que os offuscam. Por isso (como eu notei) nunca se entra n'essa
+communhão com o Universo que é a unica gloria e unica consolação da
+Vida. Mas na serra, sem predios disformes de seis andares, sem a
+fumaraça que tapa Deus, sem os cuidados que como pedaços de chumbo puxam
+a alma para o pó rasteiro--um Jacintho, um Zé Fernandes, livres, bem
+jantados, fumando nos poiaes d'uma janella, olham para os astros e os
+astros olham para elles. Uns, certamente, com olhos de sublime
+immobilidade ou de subllime indifferença. Mas outros curiosamente,
+anciosamente, com uma luz que acena, uma luz que chama, como se
+tentassem, de tão longe, revelar os seus segredos, ou de tão longe
+comprehender os nossos...
+
+--Oh Jacintho, que estrella é esta, aqui, tão viva, sobre o beiral do
+telhado?
+
+--Não sei... E aquella, Zé Fernandes, além, por cima do pinheiral?
+
+--Não sei.
+
+Não sabiamos. Eu, por causa da espessa crosta de ignorancia com que sahi
+do ventre de Coimbra, minha Mãe espiritual. Elle, porque na sua
+Bibliotheca possuia trezentos e oito tratados sobre Astronomia, e o
+Saber, assim accumulado, fórma um monte que nunca se transpõe nem se
+desbasta. Mas que nos importava que aquelle astro além se chamasse
+Syrius e aquelle outro Aldebaran? Que lhes importava a elles que um de
+nós fosse Jacintho, outro Zé? Elles tão immensos, nós tão pequeninos,
+somos a obra da mesma Vontade. E todos, Uranos ou Lorenas de Noronha e
+Sande, constituimos modos diversos d'um Sêr unico, e as nossas
+diversidades esparsas sommam na mesma compacta Unidade. Molleculas do
+mesmo Todo, governadas pela mesma Lei, rolando para o mesmo Fim... Do
+astro ao homem, do homem á flôr do trevo, da flôr do trevo ao mar
+sonoro--tudo é o mesmo Corpo, onde circula, como um sangue, o mesmo
+Deus. E nenhum fremito de vida, por menor, passa n'uma fibra d'esse
+sublime Corpo, que se não repercuta em todas, até ás mais humildes, até
+ás que parecem inertes e invitaes. Quando um Sol que não avisto, nunca
+avistarei, morre de inanição nas profundidades, esse esguio galho de
+limoeiro, em baixo na horta, sente um secreto arrepio de morte:--e,
+quando eu bato uma patada no soalho de Tormes, além o monstruoso Saturno
+estremece, e esse estremecimento percorre o inteiro Universo! Jacintho
+abateu rijamente a mão no rebordo da janella. Eu gritei:
+
+--Acredita!... O sol tremeu.
+
+E depois (como eu notei) deviamos considerar que, sobre cada um d'esses
+grãos de pó luminoso, existia uma creação, que incessantemente nasce,
+perece, renasce. N'este instante, outros Jacinthos, outros Zés
+Fernandes, sentados ás janellas d'outras Tormes, contemplam o céo
+nocturno, e n'elle um pequenininho ponto de luz, que é a nossa possante
+Terra por nós tanto sublimada. Não terão todos esta nossa fórma, bem
+fragil, bem desconfortavel, e (a não ser no Apollo do Vaticano, na Venus
+de Milo e talvez na Princeza, de Carman) singularmente feia e burlesca.
+Mas, horrendos ou de ineffavel belleza; collossaes e d'uma carne mais
+dura que o granito, ou leves como gazes e ondulando na luz, todos elles
+são sêres pensantes e teem consciencia da Vida--porque decerto cada
+Mundo possue o seu Descartes, ou já o nosso Descartes os percorreu a
+todos com o seu Methodo, a sua escura capa, a sua agudeza elegante,
+formulando a unica certeza talvez certa, o grande _Penso logo existo_.
+Portanto todos nós, Habitantes dos Mundos, ás janellas dos nossos
+casarões, além nos Saturnos, ou aqui na nossa Terricula, constantemente
+perfazemos um acto sacrosanto que nos penetra e nos funde--que é
+sentirmos no Pensamento o nucleo commum das nossas modalidades, e
+portanto realisarmos um momento, dentro da Consciencia, a Unidade do
+Universo!--Hein, Jacintho?...
+
+O meu amigo rosnou:
+
+--Talvez... Estou a cahir com somno.
+
+--Tambem eu. «Remontamos muito, Ex.^{mo} Snr.!» como dizia o Pestaninha
+em Coimbra. Mas nada mais bello, e mais vão, que uma cavaqueira, no alto
+das serras, a olhar para as estrellas!... Tu sempre vaes amanhã?
+
+--Com certeza, Zé Fernandes! Com a certeza de Descartes. «Penso _logo
+fujo_!» Como queres tu, n'este pardieiro, sem uma cama, sem uma
+poltrona, sem um livro?... Nem só de arroz com fava vive o Homem! Mas
+demoro em Lisboa, para conversar com o Cesimbra, o meu Administrador. E
+tambem á espera que estas obras acabem, os caixotes surjam, e eu possa
+voltar decentemente, com roupa lavada, para a trasladação...
+
+--É verdade, os ossos...
+
+--Mas resta ainda o Grillo... Que animal! Por onde andará esse perdido?
+
+Então, passeando lentamente na sala enorme, onde a vela de sêbo já
+derretida no castiçal de lata era como um lume de cigarro n'um
+descampado, meditámos na sorte do Grillo. O estimado negro ou fôra
+despejado nas lamas de Medina, com as vinte e sete malas, aos
+gritos--ou, regaladamente adormecido, rolára com o Anatole no comboio
+para Madrid. Mas ambos os casos appareciam ao meu Principe como
+irremediavelmente destruidores do seu conforto...
+
+--Não, escuta, Jacintho... Se o Grillo encalhou em Medina, dormiu na
+Fonda, catou os percevejos, e esta madrugada correu para Tormes. Quando
+ámanhã desceres á Estação, ás quatro horas, encontras o teu precioso
+homem, com as tuas preciosas malas, mettido n'esse comboio que te leva
+ao Porto e á Capital...
+
+Jacintho saccudiu os braços como quem se debate nas malhas d'uma rede:
+
+--E se seguiu para Madrid?
+
+--Então, por esta semana, cá apparece em Tormes, onde encontra ordem
+para regressar a Lisboa e reentrar no teu sequito... Resta o
+interessante caso das minhas bagagens. Se ámanhã encontrares na Estação
+o Grillo, separa a minha mala negra, e o sacco de lona, e a chapelleira.
+O Grillo conhece. E pede ao Pimenta, ao gordalhufo, que me avise para
+Guiães. Se o Grillo aportar Tormes, esfogueteado de Madrid, com toda
+essa malaria, deixa as minhas cousas aqui, ao Melchior... Eu ámanhã
+fallo ao Melchior.
+
+Jacintho sacudiu furiosamente o collarinho:
+
+--Mas como posso eu partir para Lisboa, ámanhã, com esta camisa de dous
+dias, que já me faz uma comichão horrenda? E sem um lenço... Nem ao
+menos uma escova de dentes!
+
+Fertil em idéas, estendi as mãos, n'um bello gesto tutelar:
+
+--Tudo se arranja, meu Jacintho, tudo se arranja! Eu, largando d'aqui
+cedo, pelas seis horas, chego a Guiães ás dez, ainda sem calor. E, mesmo
+antes do almoço e da cavaqueira com a tia Vicencia, immediatamente te
+mando por um moço um sacco de roupa branca. As minhas camisas e as
+minhas ceroulas talvez te estejam largas. Mas um mendigo como tu não tem
+direito a elegancias e a roupas bem cortadas. O moço, n'um bom trote,
+entra aqui ás duas horas; tens tempo de mudar antes de desceres para a
+Estação... Posso metter na mala uma escova de dentes.
+
+--Oh Zé Fernandes! Então mette tambem uma esponja... E um frasco d'agoa
+de colonia!
+
+--Agoa d'alfazema, excellente, feita pela tia Vicencia...
+
+O meu Principe suspirou, impressionado com a sua miseria esqualida, e
+esta dadiva de roupas:
+
+--Bem, então vamos dormir, que estou esfalfado de emoções e d'astros...
+
+Justamente Melchior entreabria a pesada porta, com timidez, a avisar que
+«estavam preparadinhas as camas de suas Incellencias.» E seguindo o bom
+caseiro, que erguia uma candeia, que avistamos nós, o meu Principe e eu,
+ainda ha pouco irmanados com os astros? Em duas saletas, que uma
+abertura em arco, lobrego arco de pedra, separava--duas enxergas sobre o
+soalho. Junto á cabeceira da mais larga, que pertencia ao senhor de
+Tormes, um castiçal de latão sobre um alqueire; aos pés, como lavatorio,
+um alguidar vidrado em cima duma tripeça. Para mim, serrano d'aquellas
+serras, nem alguidar nem alqueire.
+
+Lentamente, com o pé, o meu super-civilisado amigo palpou a enxerga. E
+decerto lhe sentiu uma dureza intransigente, porque ficou pendido sobre
+ella, a correr desoladamente os dedos pela face desmaiada.
+
+--E o peior não é ainda a enxerga, murmurou emfim com um suspiro. É que
+não tenho camisa de dormir, nem chinelas!... E não me posso deitar de
+camisa engommada.
+
+Por inspiração minha reccorremos ao Melchior. De novo, esse benemerito
+providenciou, trazendo a Jacintho, para elle desafogar os pés, uns
+tamancos--e para embrulhar o corpo uma camisa da comadre, enorme, de
+estopa, áspera como uma estamenha de penitente, com folhos mais crespos
+e duros do que lavores de madeira. Para consolar o meu Principe lembrei
+que Platão quando compunha o _Banquete_, Vasco da Gama quando dobrava o
+Cabo, não dormiam em melhores catres! As enxergas rijas fazem as almas
+fortes, oh Jacintho!... E é só vestido de estamenha que se penetra no
+Paraiso.
+
+--Tens tu, volveu o meu amigo seccamente, alguma coisa que eu leia? Não
+posso adormecer sem um livro.
+
+Eu? Um livro? Possuia apenas o velho numero do _Jornal do Commercio_,
+que escapára á dispersão dos nossos bens. Rasguei a copiosa folha pelo
+meio, partilhei com Jacintho fraternalmente. Elle tomou a sua metade,
+que era a dos annuncios... E quem não viu então Jacintho, senhor de
+Tormes, acaçapado á borda da enxerga, rente da vela de sêbo que se
+derretia no alqueire, com os pés encafuados nos sócos, perdido dentro
+das ásperas pregas e dos rijos folhos da camisa serrana, percorrendo
+n'um pedaço velho de Gazeta, pensativamente, as partidas dos
+Paquetes--não póde saber o que é uma intensa e veridica imagem do
+Desalento.
+
+Recolhido á minha alcova espartana, desabotoava o collete, n'um
+delicioso cansaço, quando o meu Principe ainda me reclamou:
+
+--Zé Fernandes...
+
+--Dize.
+
+--Manda tambem no sacco um abotoador de botas.
+
+Estirado commodamente na rija enxerga murmurei, como sempre murmuro ao
+penetrar no Somno, que é um primo da Morte, «Deus seja louvado!» Depois
+tomei a metade do _Jornal do Commercio_ que me pertencia.
+
+--Zé Fernandes...
+
+--Que é?
+
+--Tambem podias metter no sacco pós dos dentes... E uma lima das
+unhas... E um romance!
+
+Já a meia Gazeta me escapava das mãos dormentes. Mas da sua alcova,
+depois de soprar a vela, Jacintho murmurou entre um bocejo:
+
+--Zé Fernandes...
+
+--Hein?
+
+--Escreve para Lisboa, para o Hotel Bragança... Os lençoes ao menos são
+frescos, cheiram bem, a sadio!
+
+
+
+
+IX
+
+
+Cedo, de madrugada, sem rumor, para não despertar o meu Jacintho, que,
+com as mãos cruzadas sobre o peito, dormia beatificamente na sua enxerga
+de granito--parti para Guiães.
+
+Ao cabo d'uma semana, recolhendo uma manhã para o almoço, encontrei no
+corredor as minhas malas tão desejadas, que um moço do casal da Giesta
+trouxera n'um carro com «recados do Snr. Pimentinha». O meu pensamento
+pulou para o meu Principe. E lancei pelo telegrapho, para Lisboa, para o
+Hotel Bragança, este brado alegre:--«Estás lá? Sei recuperaste Grillo e
+Civilisação! Hurrah! Abraço!»--Só depois de sete dias, occupados n'uma
+delicada apanha de aspargos com que outr'ora civilisára a horta da tia
+Vicencia, notei o silencio de Jacintho. N'um bilhete postal renovei,
+desenvolvi o grito amigo:--«Estás lá? São os prazeres da Baixa que assim
+te tornam desattento e mudo? Eu, todo aspargos! Responde, quando chegas?
+Tempo delicioso! 23^o á sombra. E os ossos?...»--Veio depois a devota
+romaria da Senhora da Roqueirinha. Durante a lua nova andei n'um córte
+de matto, na minha terra das Corcas. A tia Vicencia vomitou, com uma
+indigestão de murcellas. E o silencio do meu Principe era ingrato e
+ferrenho.
+
+Emfim uma tarde, voltando da Flor da Malva, de casa da minha prima
+Joanninha, parei em Sandofim, na venda do Manoel Rico, para beber de
+certo vinho branco que a minha alma conhece--e sempre pede.
+
+Defronte, á porta do ferrador, o Severo, sobrinho do Melchior de Tormes
+e o mais fino alveitar da serra, picava tabaco, escarranchado n'um
+banco. Mandei encher outro quartilho: elle acariciou o pescoço da minha
+egua que já salvára d'um esfriamento: e, como eu indagasse do nosso
+Melchior, o Severo contou que na véspera jantára com elle em Tormes, e
+se abeirára tambem do fidalgo...
+
+--Ora essa! Então o snr. D. Jacintho está em Tormes?
+
+O meu espanto divertiu o Severo:
+
+--Então v. exc.^a... Pois em Tormes é que elle está, ha mais de cinco
+semanas, sem arredar! E parece que fica para a vindima, e vai lá uma
+grandeza!
+
+Santissimo nome de Deus! Ao outro dia, domingo, depois da missa e sem me
+assustar com a calma que carregava, trotei alvoroçadamente para Tormes.
+Ao latir dos rafeiros, quando transpuz o portal solarengo, a comadre do
+Melchior accudio dos lados do curral, com um alguidar de lavagem
+encostado á cintura.--Então o snr. D. Jacintho?... O snr. D. Jacintho
+andava lá para baixo, com o Silverio e com o Melchior, nos campos de
+Freixomil...
+
+--E o Snr. Grillo, o preto?
+
+--Ha bocadinho tambem o enxerguei no pomar, com o francez, a apanhar
+limões doces...
+
+Todas as janellas do solar rebrilhavam, com vidraças novas, bem polidas.
+A um canto do páteo notei baldes de cal e tijellas de tintas. Uma escada
+de pedreiro descançára durante o Dia Santo arrimada contra o telhado. E,
+rente ao muro da capella, dois gatos dormiam sobre montões de palha
+desempacotada de caixotes consideraveis.
+
+--Bem, pensei eu. Eis a Civilisação!
+
+Recolhi a egua, galguei a escada. Na varanda, sobre uma pilha de ripas,
+reluzia n'um raio de sol uma banheira de zinco. Dentro encontrei todos
+os soalhos remendados, esfregados a carqueja. As paredes, muito caiadas
+e núas, refrigeravam como as d'um convento. Um quarto, a que me levaram
+tres portas escancaradas com franqueza serrana, era certamente o de
+Jacintho: a roupa pendia de cabides de pau: o leito de ferro, com
+coberta de fustão, encolhia timidamente a sua rigidez virginal a um
+canto, entre o muro e a banquinha onde um castiçal de latão resplandecia
+sobre um volume do _D. Quichote_; no lavatorio pintado de amarello,
+imitando bambú, apenas cabia o jarro, a bacia, um naco gordo de sabão; e
+uma prateleirinha bastava ao esmerado alinho da escova, da thesoura, do
+pente, do espelhinho de feira, e do frasquinho de agua de alfazema que
+eu mandára de Guiães. As tres janellas, sem cortinas, contemplavam a
+belleza da serra, respirando um delicado e macio ar, que se perfumava
+nas resinas dos pinheiraes, depois nas roseiras da horta. Em frente, no
+corredor, outro quarto repetia a mesma simplicidade. Certamente a
+previdencia do meu Principe o destinára ao seu Zé Fernandes. Pendurei
+logo dentro, no cabide, o meu guarda-pó de lustrina.
+
+Mas na sala immensa, onde tanto philosopháramos considerando as
+estrellas, Jacintho arranjára um centro de repouso e d'estudo--e
+desenrolára essa «grandeza» que impressionava o Severo. As cadeiras de
+verga da Madeira, amplas e de braços, offereciam o conforto de
+almofadinhas de chita. Sobre a mesa enorme de pau branco, carpinteirada
+em Tormes, admirei um candieiro de metal de tres bicos, um tinteiro de
+frade armado de pennas de pato, um vaso de capella transbordando de
+cravos. Entre duas janellas uma commoda antiga, embutida, com ferragens
+lavradas, recebera sobre o seu marmore rosado o devoto peso d'um
+Presepio, onde Reis Magos, pastores de surrões vistosos, cordeiros
+d'esguedelhada lã, se apressavam atravez d'alcantis para o Menino, que
+na sua lapinha lhes abria os braços, coroado por uma enorme Corôa Real.
+Uma estante de madeira enchia outro pedaço de parede, entre dois
+retratos negros com caixilhos negros; sobre uma das suas prateleiras
+repousavam duas espingardas; nas outras esperavam, espalhados, como os
+primeiros Doutores nas bancadas d'um concilio, alguns nobres livros, um
+Plutarcho, um Virgilio, a Odyssea, o Manual de Epictecto, as Chronicas
+de Froissart. Depois, em fila decorosa, cadeiras de palhinha, muito
+novas, muito envernisadas. E a um canto um mólho de varapaus.
+
+Tudo resplandecia de asseio e ordem. As portadas das janellas, cerradas,
+abrigavam do sol que batia aquelle lado de Tormes, escaldando os
+peitoris de pedra. Do soalho, burrifado de agua, subia, na suavisada
+penumbra, uma frescura. Os cravos rescendiam. Nem dos campos, nem da
+casa, se elevava um rumor. Tormes dormia no esplendor da manhã santa. E,
+penetrado por aquella consoladora quietação de convento rural, terminei
+por me estender n'uma cadeira de verga, junto da mesa, abrir
+languidamente um tomo de Virgilio, e murmurar, appropriando o doce verso
+que encontrára:
+
+Fortunate Jacinthe! Hic, inter arva nota
+Et fontes sacros, frigus captabis opacum...
+
+Afortunado Jacintho, na verdade! Agora, entre campos que são teus e
+aguas que te são sagradas, colhes emfim a sombra e a paz!
+
+Li ainda outros versos. E, na fadiga das duas horas de egua e calor
+desde Guiães, irreverentemente adormecia sobre o divino
+Bucoliasta--quando me despertou um berro amigo! Era o meu Principe. E
+muito decididamente, depois de me soltar do seu rijo abraço, o comparei
+a uma planta estiolada, emmurchecida na escuridão, entre tapetes e
+sêdas, que, levada para vento e sol, profusamente regada, reverdece,
+desabrocha e honra a Natureza! Jacintho já não corcovava. Sobre a sua
+arrefecida pallidez de super-civilisado, o ar montesino, ou vida mais
+verdadeira, espalhára um rubor trigueiro e quente de sangue renovado que
+o virilisava soberbamente. Dos olhos, que na Cidade andavam sempre tão
+crepusculares e desviados do Mundo, saltava agora um brilho de meio-dia,
+resoluto e largo, contente em se embeber na belleza das coisas. Até o
+bigode se lhe encrespára. E já não deslisava a mão desencantada sobre a
+face,--mas batia com ella triumphalmente na côxa. Que sei? Era um
+Jacintho novissimo. E quasi me assustava, por eu ter de aprender e
+penetrar, n'este novo Principe, os modos e as idéas novas.
+
+--Caramba, Jacintho, mas então...?
+
+Elle encolheu jovialmente os hombros realargados. E só me soube contar,
+trilhando soberanamente com os sapatos brancos e cobertos de pó o soalho
+remendado, que, ao acordar em Tormes, depois de se lavar n'uma dorna, e
+d'enfiar a minha roupa branca, se sentira de repente como
+_desannuviado_, _desenvencilhado_! Almoçára uma pratada de ovos com
+chouriço, sublime. Passeára por toda aquella magnificencia da serra com
+pensamentos ligeiros de liberdade e de paz. Mandára ao Porto comprar uma
+cama, uns cabides... E alli estava...
+
+--Para todo o verão?
+
+--Não! Mas um mez... Dois mezes! Emquanto houver chouriços, e a agoa da
+fonte, bebida pela telha ou n'uma folha de couve, me souber tão
+divinamente!
+
+Cahi sobre a cadeira de verga, e contemplei, arregalado, quasi
+esgazeado, o meu Principe! Elle enrolava n'uma mortalha tabaco picado,
+tabaco grosso, guardado n'uma malga vidrada. E exclamava:
+
+--Ando ahi pelas terras desde o romper d'alva! Pesquei já hoje quatro
+trutas, magnificas... Lá em baixo, no Naves, um riachote que se atira
+pelo valle da Seranda... Temos logo ao jantar essas trutas!
+
+Mas eu, avido pela historia d'aquella ressurreição:
+
+--Então, não estiveste em Lisboa?... Eu telegraphei...
+
+--Qual telegrapho! Qual Lisboa! Estive lá em cima, ao pé da fonte da
+Lira, á sombra d'uma grande arvore, _sub tegmine_ não sei quê, a lêr
+esse adorável Virgilio... E tambem a arranjar o meu palacio! Que te
+parece, Zé Fernandes? Em tres semanas, tudo soalhado, envidraçado,
+caiado, encadeirado!... Trabalhou a freguezia inteira! Até eu pintei,
+com uma immensa brocha. Viste o comedoiro?
+
+--Não.
+
+--Então vem admirar a belleza na simplicidade, barbaro!
+
+Era a mesma onde nós tanto exaltaramos o arroz com favas--mas muito
+esfregada, muito caiada, com um rodapé bezuntado d'azul estridente onde
+logo adivinhei a obra do meu Principe. Uma toalha de linho de Guimarães
+cobria a mesa, com as franjas roçando o soalho. No fundo dos pratos de
+louça forte reluzia um gallo amarello. Era o mesmo gallo e a mesma louça
+em que na nossa casa, em Guiães, se servem os feijões dos cavadores...
+
+Mas no páteo os cães latiram. E Jacintho correu á varanda, com uma
+ligeireza curiosa que me deleitou. Ah, bem definitivamente se
+esfrangalhára aquella rede de malha que se não percebia e que outr'ora o
+travava!--N'esse momento appareceu o Grillo, de quinzena de linho,
+segurando em cada mão uma garrafa de vinho branco. Todo se alegrou «em
+vêr na quinta o siô Fernandes». Mas a sua veneranda face já não
+resplandecia, como em Paris, com um tão sereno e ditoso brilho de ebano.
+Até me pareceu que corcovava... Quando o interroguei sobre aquella
+mudança, estendeu duvidosamente o beiço grosso:
+
+--O menino gosta, eu então tambem gósto... Que o ar aqui é muito bom,
+siô Fernandes, o ar é muito bom!
+
+Depois, mais baixo, envolvendo n'um gesto desolado a louça de Barcellos,
+as facas de cabo d'osso, as prateleiras de pinho como n'um refeitorio de
+Franciscanos:
+
+--Mas muita magreza, siô Fernandes, muita magreza!
+
+Jacintho voltava com um maço de jornaes cintados:
+
+--Era o carteiro. Já vês que não amuei inteiramente com a Civilisação.
+Eis a Imprensa!... Mas nada de _Figaro_, ou da horrenda _Dois-Mundos_!
+Jornaes de Agricultura! Para aprender como se produzem as risonhas
+messes, e sob que signo se casa a vinha ao olmo, e que cuidados
+necessita a abelha provida... _Quid faciat laetas segetes_... De resto
+para esta nobre educação, já me bastavam as _Georgicas_, que tu ignoras!
+
+Eu ri:
+
+--Alto lá! _Nos quoque gens sumus et nostrum Virgilium sabemus_!
+
+Mas o meu novissimo amigo, debruçado da janella, batia as palmas--como
+Catão para chamar os servos, na Roma simples. E gritava:
+
+--Anna Vaqueira! Um copo d'agoa, bem lavado, da fonte velha!
+
+Pulei, immensamente divertido:
+
+--Oh Jacintho! E as aguas carbonatadas? e as phosphatadas? e as
+esterilisadas? e as sodicas?...
+
+O meu Principe atirou os hombros com um desdem soberbo. E acclamou a
+apparição d'um grande copo, todo embaciado pela frescura nevada da agoa
+refulgente, que uma bella moça trazia n'um prato. Eu admirei sobretudo a
+moça... Que olhos, d'um negro tão liquido e serio! No andar, no quebrar
+da cinta, que harmonia e que graça de Nympha latina!
+
+E apenas pela porta desapparecera a explendida apparição:
+
+--Oh Jacintho, eu d'aqui a um instante tambem quero agua! E se compete a
+esta rapariga trazer as cousas, eu, de cinco em cinco minutos, quero uma
+cousa!... Que olhos, que corpo... Caramba, menino! Eis a poesia, toda
+viva, da serra...
+
+O meu Principe sorria, com sinceridade:
+
+--Não! não nos illudamos, Zé Fernandes, nem façamos Arcadia. É uma bella
+moça, mas uma bruta... Não ha alli mais poesia, nem mais sensibilidade,
+nem mesmo mais belleza do que n'uma linda vacca tourina. Merece o seu
+nome de Anna Vaqueira. Trabalha bem, digere bem, concebe bem. Para isso
+a fez a Natureza, assim sã e rija; e ella cumpre. O marido todavia não
+parece contente, porque a desanca. Tambem é um bello bruto... Não, meu
+filho, a serra é maravilhosa e muito grato lhe estou... Mas temos aqui a
+fêmea em toda a sua animalidade e o macho em todo o seu egoismo... São
+porém verdadeiros, genuinamente verdadeiros! E esta verdade, Zé
+Fernandes, é para mim um repouso.
+
+Lentamente, gozando a frescura, o silencio, a liberdade do vasto
+casarão, retrocedemos á sala que Jacintho já denominára a _Livraria_. E,
+de repente, ao avistar n'um canto uma caixa com a tampa meio despregada,
+quasi me engasguei, na furiosa curiosidade que me assaltou:
+
+--E os caixotes? Oh Jacintho?... Toda aquella immensa caixotaria que nós
+mandamos, abarrotada de Civilisação? Soubeste? Appareceram?
+
+O meu Principe parou, bateu alegremente na côxa:
+
+--Sublime! Tu ainda te lembras d'aquelle homemsinho, de sacco a
+tiracollo, que nós admiramos tanto pela sua sagacidade, o seu saber
+geographico?... Lembras? Apenas fallei em Tormes, gritou que conhecia,
+rabiscou uma nota... Nem era necessario mais! «Oh! Tormes,
+perfeitamente, muito antigo, muito curioso!» Pois mandou tudo para
+Alba-de-Tormes, em Hespanha! Está tudo em Hespanha!
+
+Cocei o queixo, desconsolado:
+
+--Ora, ora... Um homem tão esperto, tão expedito, que fazia tanta honra
+ao Progresso! Tudo para Hespanha!... E mandaste vir?
+
+--Não! Talvez mais tarde... Agora, Zé Fernandes, estou saboreando esta
+delicia de me erguer pela manhã, e de ter só uma escova para alisar o
+cabello.
+
+Considerei, cheio de recordações, o meu amigo:
+
+--Tinhas umas nove...
+
+--Nove? Tinha vinte! Talvez trinta! E era uma atrapalhação, não me
+bastavam!... Nunca em Paris andei bem penteado. Assim com os meus
+setenta mil volumes: eram tantos que nunca li nenhum. Assim com as
+minhas occupações: tanto me sobrecarregavam, que nunca fui util!
+
+ * * * * *
+
+De tarde, depois da calma, fomos vaguear pelos caminhos colleantes
+d'aquella quinta rica, que, através de duas legoas, ondula por valle e
+monte. Não m'encontrára mais com Jacintho em meio da Natureza, desde o
+remoto dia d'entremez em que elle tanto soffrera no sociavel e policiado
+bosque de Montmorency. Ah, mas agora, com que segurança e idyllico amor
+elle se movia através d'essa Natureza, d'onde andára tantos annos
+desviado por theoria e por habito! Já não arreceiava a humidade mortal
+das relvas; nem repellia como impertinente o roçar das ramagens; nem o
+silencio dos altos o inquietava como um despovoamento do Universo. Era
+com delicias, com um consolado sentimento de estabilidade recuperada,
+que enterrava os grossos sapatos nas terras molles, como no seu elemento
+natural e paterno: sem razão, deixava os trilhos faceis, para se
+embrenhar através de arbustos emaranhados, e receber na face a caricia
+das folhas tenras; sobre os outeiros, parava, immovel, retendo os meus
+gestos e quasi o meu halito, para se embeber de silencio e de paz: e
+duas vezes o surprehendi attento e sorrindo á beira d'um regatinho
+palreiro, como se lhe escutasse a confidencia...
+
+Depois philosophava, sem descontinuar, com o enthusiasmo d'um
+convertido, avido de converter:
+
+--Como a intelligencia aqui se liberta, hein? E como tudo é animado
+d'uma vida forte e profunda!... Dizes tu agora, Zé Fernandes, que não ha
+aqui pensamento...
+
+--Eu?! Eu não digo nada, Jacintho...
+
+--Pois é uma maneira de reflectir muito estreita e muito grosseira...
+
+--Ora essa! Mas eu...
+
+--Não, não percebes. A vida não se limita a pensar, meu caro doutor...
+
+--Que não sou!
+
+--A vida é essencialmente Vontade e Movimento: e n'aquelle pedaço de
+terra, plantado de milho, vae todo um mundo de impulsos, de forças que
+se revelam, e que attingem a sua expressão suprema, que é a Fórma. Não,
+essa tua philosophia está ainda extremamente grosseira...
+
+--Irra! mas eu não...
+
+--E depois, menino, que inesgotavel, que miraculosa diversidade de
+fórmas... E todas bellas!
+
+Agarrava o meu pobre braço, exigia que eu reparasse com reverencia. Na
+Natureza nunca eu descobriria um contorno feio ou repetido! Nunca duas
+folhas d'hera, que, na verdura ou recorte, se assemelhassem! Na Cidade,
+pelo contrario, cada casa repete servilmente a outra casa; todas as
+faces reproduzem a mesma indifferença ou a mesma inquietação; as idéas
+teem todas o mesmo valor, o mesmo cunho, a mesma fórma, como as libras;
+e até o que ha mais pessoal e intimo, a Illusão, é em todos identica, e
+todos a respiram, e todos se perdem n'ella como no mesmo nevoeiro... A
+_mesmice_--eis o horror das Cidades!
+
+--Mas aqui! Olha para aquelle castanheiro. Ha tres semanas que cada
+manhã o vejo, e sempre me parece outro... A sombra, o sol, o vento, as
+nuvens, a chuva, incessantemente lhe compõem uma expressão diversa e
+nova, sempre interessante. Nunca a sua frequentação me poderia fartar...
+
+Eu murmurei:
+
+--É pena que não converse!
+
+O meu Principe recuou, com olhares chammejantes, d'Apostolo:
+
+--Como que não converse? Mas é justamente um conversador sublime! Está
+claro, não tem ditos, nem parola theorias, _ore rotundo_. Mas nunca eu
+passo junto d'elle que não me suggira um pensamento ou me não desvende
+uma verdade... Ainda hoje quando eu voltava de pescar as trutas...
+Parei: e logo elle me fez sentir como toda a sua vida de vegetal é
+isenta de trabalho, da anciedade, do esforço que a vida humana impõe;
+não tem de se preoccupar com o sustento, nem com o vestido, nem com o
+abrigo; filho querido de Deus, Deus o nutre, sem que elle se mova ou se
+inquiete... E é esta segurança que lhe dá tanta graça e tanta magestade.
+Pois não achas?
+
+Eu sorria, concordava. Tudo isto era de certo rebuscado e especioso. Mas
+que importavam as requintadas metaphoras, e essa metaphysica mal madura,
+colhida á pressa nos ramos d'um castanheiro? Sob toda aquella ideologia
+transparecia uma excellente realidade--a reconciliação do meu Principe
+com a Vida. Segura estava a sua Resurreição depois de tantos annos de
+cova, da cova molle em que jazera, enfaixado como uma mumia nas faixas
+do Pessimismo!
+
+E o que esse Principe, n'esta tarde me esfalfou! Farejava, com uma
+curiosidade insaciavel, todos os recantos da serra! Galgava os cabeços
+correndo, como na esperança de descobrir lá do alto os esplendores nunca
+contemplados d'um Mundo inedito. E o seu tormento era não conhecer os
+nomes das arvores, da mais rasteira planta brotando das fendas d'um
+socalco... Constantemente me folheava como a um Diccionario Botanico.
+
+--Fiz toda a sorte de cursos, passei pelos professores mais illustres da
+Europa, tenho trinta mil volumes, e não sei se aquelle senhor além é um
+amieiro ou um sobreiro...
+
+--É um azinheiro, Jacintho.
+
+Já a tarde cahia quando recolhemos muito lentamente. E toda essa
+adoravel paz do céo, realmente celestial, e dos campos, onde cada
+folhinha conservava uma quietação contemplativa, na luz docemente
+desmaiada, pousando sobre as cousas com um liso e leve affago, penetrava
+tão profundamente Jacintho, que eu o senti, no silencio em que
+cahiramos, suspirar de puro allivio.
+
+Depois, muito gravemente:
+
+--Tu dizes que na natureza não ha pensamento...
+
+--Outra vez! Olha que massada! Eu...
+
+--Mas é por estar n'ella supprimido o pensamento que lhe está poupado o
+soffrimento! Nós, desgraçados, não podemos supprimir o pensamento, mas
+certamente o podemos disciplinar e impedir que elle se estonteie e se
+esfalfe, como na fornalha das cidades, ideando gozos que nunca se
+realisam, aspirando a certezas que nunca se attingem!... E é o que
+aconselham estas collinas e estas arvores á nossa alma, que vela e se
+agita:--que viva na paz d'um sonho vago e nada appeteça, nada tema,
+contra nada se insurja, e deixe o Mundo rolar, não esperando d'elle
+senão um rumor de harmonia, que a emballe e lhe favoreça o dormir dentro
+da mão de Deus. Hein, não te parece, Zé Fernandes?
+
+--Talvez. Mas é necessario então viver n'um mosteiro, com o temperamento
+de S. Bruno, ou ter cento e quarenta contos de renda e o desplante de
+certos Jacinthos... E tambem me parece que andamos leguas. Estou
+derreado. E que fome!
+
+--Tanto melhor, para as trutas, e para o cabrito assado que nos
+espera...
+
+--Bravo! Quem te cosinha?
+
+--Uma afilhada do Melchior. Mulher sublime! Has de ver a canja! Has de
+ver a cabidella! Ella é horrenda, quasi anã, com os olhos tortos, um
+verde e outro preto. Mas que paladar! Que genio!
+
+Com effeito! Horacio dedicaria uma ode áquelle cabrito assado n'um
+espeto de cerejeira. E com as trutas, e o vinho Melchior, e a cabidella,
+em que a sublime anã de olhos tortos puzera inspirações que não são da
+terra, e aquella doçura da noite de Junho, que pelas janellas abertas
+nos envolveu no seu velludo negro, tão molle e tão consolado fiquei,
+que, na sala onde nos esperava o café, cahi n'uma cadeira de verga, na
+mais larga, e de melhores almofadas, e atirei um berro de pura delicia.
+
+Depois, com uma recordação, limpando o café do pello dos bigodes:
+
+--Ó Jacintho, e quando nós andavamos por Paris com o Pessimismo ás
+costas, a gemer que tudo era illusão e dôr?
+
+O meu Principe, que o cabrito tornára ainda mais alegre, trilhava a
+grandes passadas o soalho, enrolando o cigarro:
+
+--Oh! que engenhosa besta, esse Schopenhauer! E maior besta eu, que o
+sorvia, e que me desolava com sinceridade! E todavia,--continuava elle,
+remexendo a chavena--o Pessimismo é uma theoria bem consoladora para os
+que soffrem, porque desindividualisa o soffrimento, alarga-o até o
+tornar uma lei universal, a lei propria da Vida; portanto lhe tira o
+caracter pungente d'uma injustiça especial, commettida contra o
+soffredor por um Destino inimigo e faccioso! Realmente o nosso mal
+sobretudo nos amarga quando contemplamos ou imaginamos o bem do nosso
+visinho:--porque nos sentimos escolhidos e destacados para a
+infelicidade, podendo, como elle, ter nascido para a Fortuna. Quem se
+queixaria de ser côxo--se toda a humanidade coxeasse? E quaes não seriam
+os urros, e a furiosa revolta do homem envolto na neve e friagem e
+borrasca d'um inverno especial, organisado nos ceus para o envolver a
+elle unicamente--em quanto em redor, toda a Humanidade se movesse na
+luminosa benignidade d'uma Primavera?
+
+--Com effeito, murmurei eu, esse sujeito teria immensa razão para
+urrar...
+
+--E depois, clamava ainda o meu amigo, o Pessimismo é excellente para os
+Inertes, por que lhes attenua o desgracioso delicto da Inercia. Se toda
+a meta é um monte de Dor, onde a alma vae esbarrar, para que marchar
+para a meta, atravez dos embaraços do mundo? E de resto todos os Lyricos
+e Theoricos do Pessimismo, desde Salomão até o maligno Schopenhauer,
+lançam o seu cantico ou a sua doutrina para disfarçar a humilhação das
+suas miserias, subordinando-as todas a uma vasta lei de Vida, uma lei
+Cosmica, e ornando assim com a aureola de uma origem quasi divina as
+suas miudas desgraçazinhas de temperamento ou de Sorte. O bom
+Schopenhauer formúla todo o seu schopenhauerismo, quando é um philosopho
+sem editor, e um professor sem discipulos; e soffre horrendamente de
+terrores e manias; e esconde o seu dinheiro debaixo do sobrado; e redige
+as suas contas em grego nos perpetuos lamentos da desconfiança; e vive
+nas adegas com o medo de incendios; e viaja com um copo de lata na
+algibeira para não beber em vidro que beiços de leproso tivessem
+contaminado!... Então Schopenhauer é sombriamente Schopenhauerista. Mas
+apenas penetra na celebridade, e os seus miseraveis nervos se acalmam, e
+o cerca uma paz amavel, não ha então, em todo Francfort, burguez mais
+optimista, de face mais jocunda, e gozando mais regradamente os bens da
+intelligencia e da Vida!... E o outro, o Israelita, o muito pedantesco
+rei de Jerusalem! quando descobre esse sublime Rhetorico que o mundo é
+Illusão e Vaidade? Aos setenta e cinco annos, quando o Poder lhe escapa
+das mãos tremulas, e o seu serralho de trezentas concubinas se lhe torna
+ridiculamente superfluo. Então rompem os pomposos queixumes! Tudo é
+vaidade e afflicção de espirito! nada existe estavel sob o sol! Com
+effeito, meu bom Salomão, tudo passa--principalmente o poder de usar
+trezentas concubinas! Mas que se restitua a esse velho sultão asiatico,
+besuntado de Litteratura, a sua virilidade,--e onde se sumirá o lamento
+do Ecclesiastes? Então voltará, em segunda e triumphal edição, o extase
+do _Livro dos Cantares_!...
+
+Assim discursava o meu amigo no nocturno silencio de Tormes. Creio que
+ainda estabeleceu sobre o Pessimismo outras coisas joviaes, profundas ou
+elegantes;--mas eu adormecera, beatificamente envolto em Optimismo e
+doçura.
+
+Em breve porém, me fez pular, escancarar as palpebras molles, uma rija,
+larga, sadia e genuina risada. Era Jacintho, estirado n'uma cadeira, que
+lia o D. Quixote... Oh bem aventurado Principe! Conservára elle o agudo
+poder de arrancar theorias a uma espiga de milho ainda verde, e por uma
+clemencia de Deus, que fizera reflorir o tronco secco, recuperára o dom
+divino de rir, com as facecias de Sancho!
+
+Aproveitando a minha companhia, as duas semanas de bucolica occiosidade
+que eu lhe concedera, o meu Jacintho preparou então a ceremonia tão
+falada, tão meditada, a trasladação dos ossos dos velhos Jacinthos--dos
+«respeitaveis ossos» como murmurava, cumprimentando, o bom Silverio, o
+procurador, n'essa manhã de sexta feira, em que almoçava comnosco,
+mettido n'um espantoso jaquetão de velludilho amarello debruado de seda
+azul! A ceremonia, de resto, reclamava muita singeleza por serem tão
+incertos, quasi impessoaes, aquelles restos, que nós estabeleceriamos na
+Capellinha do valle da Carriça, na Capellinha toda nova, toda nua e toda
+fria, ainda sem alma e sem calor de Deus.
+
+--Por que emfim v. ex.^a comprehende,--explicava o Silverio passando o
+guardanapo por sobre a larga face suada e por sobre as immensas barbas
+negras, como as d'um turco--, n'aquella mixordia... Oh! peço desculpa a
+v. ex.^a! N'aquella confusão, quando tudo desabou, não pudémos mais
+conhecer a quem pertenciam os ossos. Nem sequer, fallando verdade, nós
+sabiamos bem que dignos avós de v. ex.^a jaziam na capella velha, assim
+tão antigos, com os letreiros apagados, senhores de todo o nosso
+respeito, certamente, mas, se v. ex.^a me permitte, senhores já muito
+desfeitos... Depois veio o desastre, a mixordia. E aqui está o que
+decidi, depois de pensar. Mandei arranjar tantos caixões de chumbo,
+quantas as caveiras que se apanharam lá em baixo na Carriça, entre o
+lixo e o pedregulho. Havia sete caveiras e meia. Quero dizer, sete
+caveiras e uma caveirinha pequenina. Mettemos cada caveira em seu
+caixão. Depois... Que quer v. ex.^a? Não havia outro meio! E aqui o Snr.
+Fernandes dirá se não acha que procedemos com habilidade. A cada caveira
+juntamos uma certa porção d'ossos, uma porção rasoavel... Não havia
+outro meio... Nem todos os ossos se acharam. Canellas, por exemplo,
+faltavam! E é bem possivel que as costellas d'um d'aquelles senhores
+ficasse com a cabeça d'outro... Mas quem podia saber? Só Deus. Emfim
+fizemos o que a prudência mandava... Depois, no dia de Juizo, cada um
+d'estes fidalgos apresentará os ossos que lhe pertencerem.
+
+Lançava estas cousas macabras e tremendas, penetrado de respeito, quasi
+com magestade, espetando, ora em mim, ora no meu Principe, os olhinhos
+agudos e relusentes como vidrilhos.
+
+Eu approvei o pittoresco homem:
+
+--Perfeitamente! Andou perfeitamente, amigo Silverio. São tão vagos, tão
+anonymos, todos esses avós! Só faz pena, grande pena, que se
+tresmalhassem os restos do avô Galião.
+
+--Não estava cá! accudiu Jacintho. Vim a Tormes expressamente por causa
+do avô Galião, e por fim o seu jazigo nunca foi aqui, na Capellinha da
+Carriça... Felizmente!
+
+O Silverio saccudia gravemente a calva trigueira:
+
+--Nunca tivemos o ex.^{mo} sr. Galião. Ha cem annos, Snr. Fernandes, ha
+cem annos que se não depositava na capella velha corpo de cavalheiro cá
+da casa.
+
+--Onde estará então?...
+
+O meu Principe encolheu os hombros. Por esse Reino... Na egrejinha, no
+cemiterio d'alguma das freguezias numerosas, onde elle possuia terras.
+Casa tão espalhada!
+
+--Bem! conclui. Então, como se trata d'ossadas vagas, sem nome, sem
+data, convem uma ceremoniasinha muito simples, muito sobria.
+
+--Quietinha, quietinha! murmurou o Silverio, dando um forte sorvo
+assobiado ao café.
+
+E foi quietinha, d'uma rustica e doce singeleza, a ceremonia d'aquelles
+altos senhores. Cedo, por uma manhã, levemente enevoada, os oito caixões
+pequeninos, cobertos d'um velludo vermelho mais de festa que de funeral,
+com molhos de rosas espalhados, contendo cada um o seu montesinho
+d'ossos incertos, sahiram aos hombros dos coveiros de Tormes e dos moços
+da quinta, da Egreja de S. José, cujo sino leve tangia, na enevoada
+doçura da manhã,--quanto fina e levemente!--como pia um passarinho
+triste. Adiante, um airoso moço de sobrepelis, erguia com zelo a velha
+cruz prateada; abrigando o pescoço sob um immenso lenço de rapé, de
+quadrados azues, o velho e corcovado sacristão segurava pensativamente a
+caldeirinha d'agoa benta; e o bom abbade de S. José, com os dedos entre
+o breviario fechado, movia os labios, n'uma lenta, murmurosa resa, que
+ia, pelo doce ar, espalhando mais doçura. Logo atraz do ultimo cofre, o
+mais pequenino, o da caveirinha pequena, Jacintho caminhava; e eu, a
+estalar dentro d'um fato preto de Jacintho, tirado á pressa d'uma das
+malas de Paris quando, de manhã, já tarde para mandar a Guiães, me
+lembrei que toda a minha roupa era de cores festivaes e pastoris.
+
+Depois marchava o Silverio, solemnissimo, com um immenso peitilho, onde
+as barbas immensas se alastravam, negrissimas. De casaca, com o grosso
+beiço descahido, descahido todo elle por aquella melancolia de enterro
+que se juntava á melancolia da serra, o Grillo enfiava no braço a sua
+coroa, enorme, de rosas e d'heras. Por fim seguia o Melchior, entre um
+rancho de mulheres, que, sumidas na sombra dos lenços pretos, desfiando
+longos rosarios, rosnavam surdas avè-marias, atravez d'espaçados
+suspiros, tão doridos como se inconsoladamente lhes doesse a perda
+d'aquelles Jacinthos. Assim, pelas varzeas entrecorridas de regueiros,
+lenta nos recostos dos mattos, escorregando mais rapida, pelos corregos
+pedregosos, seguia a procissão, sempre com a cruz adiante, alta e
+prateada, rebrilhando por vezes n'um breve raiosinho de sol que,
+vagarosamente, surdia da nevoa desfeita. Ramos baixos de lodão ou de
+salgueiro passavam uma derradeira caricia sobre o velludo dos caixões.
+
+Um regato por vezes nos acompanhava, com discreto fulgir entre as
+relvas, sussurrando e como resando tambem, alegremente: e nos
+quintalinhos umbrosos, á nossa passagem, os gallos, de cima das pilhas
+de matto, faziam soar o seu clarim festivo. Depois, adiante da fonte da
+Lira, como o caminho se alongava, e desejassemos poupar o nosso velho
+abbade, cortamos atravez d'uma seara, já alta, quasi madura, toda
+entremeada de papoulas, O sol radiou: sob a brisa larga, que levára a
+nevoa, toda a messe ondulou n'uma lenta vaga dourada, em que se
+balouçavam os esquifes; e, como enorme papoula, a mais vermelha,
+rutilava o guarda sol de panninho logo aberto pelo sacristão para
+abrigar o abbade.
+
+Jacintho tocou no meu cotovello:
+
+--Que lindos vamos! Ora vê tu a Natureza... N'um simples enterrar
+d'ossos, quanta graça e quanta belleza!
+
+Na Capellinha, nova, dominando o valle da Carriça, solitaria e muito
+nua, no meio d'um adro, ainda mal alisado, sem uma verdura de relva, uma
+frescura d'arbusto, dous moços seguravam á porta molhos de tochas, que o
+Silverio distribuiu, a passos graves, com cortezias, solemnissimo.
+Dentro as curtas chammas, mal luziam, mal derramavam a sua amarellidão
+triste, esbatidas na relusente brancura dos muros estucados, na jovial
+claridade que cahia das altas vidraças bem polidas. Em torno dos
+esquifes, pousados sobre bancos, que pesados velludilhos recobriam, o
+abbade murmurava um suave latim, emquanto ao fundo as mulheres, sumidas
+na sombra dos seus negros lenços, gemiam _amens_ agudos, abafavam um
+respeitoso soluço. Depois, tomando levemente o hyssope, ainda o bom
+abbade aspergiu, para uma derradeira purificação, os incertos ossos dos
+incertos Jacinthos. E todos desfilamos por diante do meu Principe,
+timidamente encostado á umbreira, com o Silverio ao lado esmagando
+contra o peitilho as barbas immensas, a face descahida, cerradas as
+palpebras como contendo lagrimas.
+
+No adro, o meu Principe accendeu regaladamente um cigarro pedido ao
+Melchior:
+
+--E então, Zé Fernandes, que te pareceu a ceremoniasinha?
+
+--Muito campestre, muito suave, muito risonha... Uma delicia.
+
+Mas o Abbade, que se desvestira na Sachristia, appareceu, já com o seu
+grande casaco de lustrina, e seu velho chapeu desabado, trazidos pelo
+moço da Residencia, n'um sacco de chita. Jacintho, immediatamente lhe
+agradeceu tantos cuidados, a affavel hospitalidade que offerecera aos
+ossos, durante a construcção da Capellinha nova. E o suave velho, todo
+branquinho, de faces ainda menineiras e coradas, com um claro sorriso de
+dentes sadios, louvava Jacintho, que assim viera de tão longe, em tão
+longa jornada, para cumprir aquelle dever de bom neto.
+
+--São avós muito remotos, e agora tão confusos! murmurava Jacintho
+sorrindo.
+
+--Pois mais merito ainda o de v. ex.^a. Respeitar um avô morto, bem é
+corrente... Mas respeitar os ossos d'um quinto avô, d'um setimo avô!
+
+--Sobretudo, Snr. Abbade, quando d'elles nada se sabe, e naturalmente
+nada fizeram.
+
+O velho sacudiu risonhamente o dedo gordo:
+
+--Ora quem sabe, quem sabe! Talvez fossem excellentes! E por fim, quem
+muito se demora no mundo, como eu, termina por se convencer que no mundo
+não ha cousa ou ser inutil. Ainda hontem eu lia n'um jornal do Porto,
+que por fim, segundo se descobriu, são as minhocas que estrumam e lavram
+a terra, antes de chegar o lavrador e os bois com o arado. Até as
+minhocas são uteis. Não ha nada inutil... Eu tinha lá na residencia uma
+porção de cardos a um canto da horta, que me affligiam. Pois reflecti e
+terminei por me regalar com elles em xarope. Os avós de v. ex.^a por cá
+andaram, por cá trabalharam, por cá padeceram. Quer dizer: por cá
+serviram. E, em todo o caso, que lhes rezemos um Padre-Nosso por alma
+não lhes póde fazer senão bem, a elles e a nós.
+
+E assim, docemente philosophando, paramos n'um souto de carvalheiras,
+onde esperava a velhissima egoa do Abbade, por que o santo homem agora,
+depois do rheumatismo do ultimo inverno, já não affrontava rijamente
+como antes os trilhos duros da serra. Para elle montar, filialmente
+Jacintho segurou o estribo. E emquanto a egoa se empurrava pelo corrego
+acima, quasi tapada sob o immenso guarda sol vermelho em que se abrigava
+o velho, nós recolhemos a casa mettendo pela serra da Lombinha, atravez
+dos milhos, e depressa, porque eu estalava, aperreado, dentro da roupa
+preta do meu Principe.
+
+--Estão pois accommodados estes senhores, Zé Fernandes! Só resta rezar
+por elles o Padre-Nosso, que recommenda o abbade... Sómente, eu não sei,
+já não me lembro do Padre-Nosso.
+
+--Não te afflijas, Jacintho: peço á tia Vicencia que reze por mim e por
+ti. É sempre a tia Vicencia que reza os meus Padre-Nossos.
+
+Durante essas semanas que preguicei em Tormes, eu assisti, com
+internecido interesse, a uma consideravel evolução de Jacintho nas suas
+relações com a Natureza. D'aquelle periodo sentimental de contemplação,
+em que colhia theorias nos ramos de qualquer cerejeira, e edificava
+Systemas sobre o espumar das levadas, o meu Principe lentamente passava
+para o desejo da Acção... E d'uma acção directa e material, em que a sua
+mão, emfim restituida a uma funcção superior, revolvesse o torrão.
+
+Depois de tanto _commentar_, o meu Principe, evidentemente, aspirava a
+_crear_.
+
+Uma tardinha, ao anoitecer, sentados no pomar, no rebordo do tanque, em
+quanto o Manoel hortelão apanhava laranjas no alto d'uma escada arrimada
+a uma alta laranjeira, Jacintho observou, mais para si do que para mim:
+
+--É curioso... Nunca plantei uma arvore!
+
+--Pois é um dos tres grandes actos, sem os quaes segundo diz não sei que
+Philosopho, nunca se foi um verdadeiro homem... Fazer um filho, plantar
+uma arvore, escrever um livro. Tens de te apressar, para ser um homem. É
+possivel que talvez nunca prestasses um serviço a uma arvore, como se
+presta a um semelhante!
+
+--Sim... Em Paris, quando era pequeno, regava os lilazes. E no verão é
+um bello serviço! Mas nunca semeei.
+
+E como o Manoel descia da escada, o meu Principe, que nunca acreditára
+inteiramente--pobre homem!--no meu saber agricola, immediatamente
+reclamou o parecer d'aquella auctoridade:
+
+--Oh Manoel, ouça lá, o que é que se poderia agora semear?
+
+Como cesto das laranjas enfiado no braço, o Manoel exclamou, atravez
+d'um lento riso, entre respeitoso e divertido:
+
+--Semear, patrão? Agora é antes colher... Olhe que já se anda a limpar a
+eirasinha para a debulha, meu patrão.
+
+--Pois sim... Mas sem ser milho nem cevada... Então alli no pomar, rente
+do muro velho, não se podia plantar uma fila de pecegueiros?
+
+O riso do Manoel crescia.
+
+--Isso sim, meu senhor! Isso é lá para os Santos ou para o Natal. Agora
+só a couvinha na horta, a beldroega, os espinafres, algum feijãosinho em
+terra muito fresca...
+
+O meu Principe sacudiu com brando gesto estes legumes rasteiros.
+
+--Bem, boa noite, Manoel. Essas laranjas são da tal laranjeira que diz o
+Melchior, muito doces, muito finas? Então leve para os seus pequenos.
+Leve muitas para os pequenos.
+
+Não! o empenho era crear a arvore. Pela arvore contemplada na serra em
+sua verdadeira magestade, na beneficencia da sua sombra, na frescura
+emballadora do seu rumorejar, na graça e santidade dos ninhos que a
+povoam, começára talvez, lentamente, o seu amor novo da Terra. E agora
+sonhava uma Tormes toda coberta d'arvores, cujos fructos e verduras, e
+sombras, e rumorejos suaves, e abrigados ninhos, fossem a obra e o
+cuidado das suas mãos paternaes.
+
+No silencio grave do crepusculo, que descia, murmurou ainda:
+
+--Oh Zé Fernandes; quaes são as arvores que crescem mais depressa?
+
+--Eh, meu Jacintho... A arvore que cresce mais depressa é o eucalypto, o
+feiissimo e ridiculo eucalypto. Em seis annos tens ahi Tormes coberta de
+eucalyptos...
+
+--Tudo tão lento, Zé Fernandes...
+
+Porque o seu sonho, que eu comprehendia, seria plantar caroços que
+subissem em fortes troncos, se alargassem em verdes ramarias, antes de
+elle voltar ao 202, no começo do inverno...
+
+--Um carvalho!... Trinta annos, antes que seja bello! Desanímo! É bom
+para Deus, que pode esperar... _Patiens quia aeternus_. Trinta annos!
+D'aqui a trinta annos, arvores só para me cobrirem a sepultura!
+
+--Já é um ganho. E depois para teus filhos, Jacintho...
+
+--Filhos! onde os tenho eu?
+
+--É o mesmo processo dos castanheiros. Semeia. Não faltam por ahi terras
+agradaveis... Em nove mezes tens uma planta feita. E quanto mais
+tenrinhas, e mais pequeninas, mais essas plantas encantam.
+
+Elle murmurou, crusando as mãos sobre o joelho:
+
+--Tudo leva tanto tempo!...
+
+E á borda do tanque nos quedamos, calados, na fresca doçura do
+anoitecer, entre o cheiro avivado das madresilvas do muro, olhando o
+crescente da lua, que surdia dos telhados de Tormes.
+
+E decerto esta pressa de se tornar entre a Natureza não mais um
+sonhador, mas um creador, arremessou vivamente o seu interesse para os
+gados! Repetidamente, nos nossos passeios atravez da quinta, elle lhe
+notava a solidão.
+
+--Faltam aqui animaes, Zé Fernandes!
+
+Imaginava eu, que elle appetecia em Tormes o ornato elegante de veados e
+pavões. Mas um domingo, costeando o largo campo da Ribeirinha, sempre
+escasso d'agoas, agora mais resequido por verão de tanta seccura, o meu
+Principe parou a considerar os tres carneiros do caseiro, que retouçavam
+com penuria uma relvagem pobre.
+
+E, de repente, como magoado:
+
+--Justamente! Aqui está o espaço para um bello prado, um immenso prado,
+muito verde, muito farto, com rebanhos de carneiros brancos, gordissimos
+como bolas de algodão pousadas na relva!... Era lindo, hein? É facil,
+não é verdade, Zé Fernandes?
+
+--Sim... Trazes a agoa para o prado. Agoas não faltam, na serra.
+
+E o meu principe encadeando logo n'esta inspirada idea outra, mais rica
+e vasta, lembrou quanta belleza daria a Tormes encher esses prados,
+esses verdes ferregiaes, de manadas de vaccas, formosas vaccas inglezas,
+bem nedias e bem luzidias. Hein? Uma belleza. Para abrigar esses gados
+ricos, construiria curraes perfeitos, d'uma architectura leve e util,
+toda em ferro e vidro, fundamente varridos pelo ar, largamente lavados
+pela agoa... Hein? Que formosura! Depois, com todas essas vaccas, e o
+leite jorrando, nada mais facil e mais divertido, e até mais moral, que
+a installação d'uma queijeira, á fresca moda Hollandeza, toda branca e
+reluzente, de azulejos e de marmore, para fabricar os Camemberts, os
+Bries... os Coulommiers... Para a casa, que conforto! E para toda a
+serra, que actividade!
+
+--Pois não te parece, Zé Fernandes?
+
+--Com certeza. Tu tens, em abundancia, os quatro Elementos: o ar, a
+agoa, a terra, e o dinheiro. Com estes quatro elementos, facilmente se
+faz uma grande lavoura. Quanto mais uma queijeira!
+
+--Pois não é verdade? E até como negocio! Está claro, para mim o lucro é
+o deleite moral do trabalho, o emprego fecundo do dia... Mas uma
+queijaria, assim perfeita, rende. Rende prodigiosamente. E educa o
+paladar, incita a installações eguaes, implanta talvez no paiz uma
+industria nova e rica! Ora com essa installação, perfeita, quanto me
+poderá custar cada queijo?
+
+Fechei um olho, calculando:
+
+--Eu te digo.... Cada queijo, um d'esses queijinhos redondos, como o
+Camembert ou o Rabaçal, póde vir a custar-te, a ti Jacintho queijeiro,
+entre duzentos e cincoenta e trezentos mil réis.
+
+O meu Principe recuou, com dous olhos alegres espantados para mim.
+
+--Como trezentos mil réis?
+
+--Ponhamos duzentos... Tem a certeza! Com todos esses prados, e os
+encanamentos d'agoa e a configuração da serra alterada, e as vaccas
+inglezas, e os edificios de porcellana e vidro, e as maquinas, a
+extravagancia, e a patuscada bucolica, cada queijo te custa, a ti
+productor, duzentos mil réis. Mas com certeza o vendes no Porto por um
+tostão. Põe cincoenta réis para a caixa, rotulos, transporte, commissão,
+etc. Tens apenas, em cada queijo uma perda de cento e noventa e nove mil
+oitocentos e cincoenta réis!
+
+O meu Principe não desanimou.
+
+--Perfeitamente! Faço um d'esses espantosos queijos por semana, ao
+sabbado, para o comermos nós ambos ao domingo!
+
+E tanta energia lhe communicava o seu novo Optimismo, tão anciosamente
+aspirava a crear, que logo, arrastando o Silverio e o Melchior por
+cabeços e barrancos, largou a percorrer a quinta toda, para determinar
+onde cresceriam, ao seu mando inspirado, os verdes prados, e se
+ergueriam, rebrilhantes no sol de Tormes, os curraes elegantes. Com a
+esplendida segurança dos seus cento e nove contos de renda, não surgia
+difficuldade, risonhamente murmurada pelo Melchior, ou exclamada, com
+respeitoso pasmo, pelo Silverio, que elle não afastasse brandamente, com
+geito leve, como um galho de roseira brava atravessado n'uma vereda.
+
+Aquellas rochas, além, empecendo? Que se arrancassem! Um valle importuno
+dividia dous campos? Que se atulhasse! O Silverio suspirava, enxugando
+sobre a escura calva um suor quasi d'angustia. Pobre Silverio! Rijamente
+sacudido na doce pachorra da sua administração, calculando despezas que
+se affiguravam sobrehumanas á sua parcimonia serrana, forçado a
+arquejar, sem descanço, sob soalheiras de Junho, o desgraçado retomára
+na Serra o geito que Jacintho deixára em Paris,--e era elle que corria
+pelas longas barbas tenebrosas os dedos desalentados... Emfim uma tarde
+desabafou comigo, a um canto da varanda, em quanto Jacintho, na
+livraria, escrevia a um seu amigo de Hollanda, o conde Rylant, Mordomo
+Mór da Corte, pedindo desenhos, e planos, e orçamentos d'uma queijeira
+perfeita.
+
+--Pois, Snr. Fernandes, se toda esta grandeza vae por diante, sempre lhe
+digo que o Snr. D. Jacintho enterra aqui na serra dezenas de contos...
+Dezenas de contos!
+
+E como eu alludia á fortuna do meu Principe, a quem todas essas obras
+tão vastas, que alterariam o antiquissimo rosto da serra, não custavam
+mais que a outros o concerto d'um socalco,--o bom Silverio atirou os
+longos braços para as coxas gordas, ainda mais desolado:
+
+--Pois por isso mesmo, Snr. Fernandes! Se o Snr. D. Jacintho não tivesse
+a dinheirama, recuava. Assim, é zás zás, para deante; e eu não o censuro
+pela ideia. Lograsse eu a renda de S. Ex.^a, que me atirava tambem a uma
+lavoura de capricho. Mas não aqui, Snr. Fernandes, n'estas serranias,
+entre alcantis. Pois um senhor que possue aquella linda propriedade de
+Montemór, nos campos do Mondego, onde até podia plantar jardins de
+desbancar os do Palacio de Crystal do Porto! E a Velleira? O Snr.
+Fernandes não conhece a Velleira, lá para os lados de Penafiel? Isso é
+um condado! E uma terra chã, boa terra, toda junta, alli em volta da
+casa, com uma torre. Um regalo, Snr. Fernandes. Mas sobretudo Montemór!
+Lá é que eram prados e manadas de vaccas inglezas, e queijeira e horta
+rica, de fartar, e ahi trinta perús na capoeira...
+
+--Então que quer, Silverio? O Jacintho gosta da serra. E depois este é o
+solar da familia, e aqui começaram no seculo XIV os Jacinthos...
+
+O pobre Silverio, no seu desespero, esquecia o respeito devido á secular
+nobreza da casa.
+
+--Ora! até ficam mal ao Snr. Fernandes essas ideias, n'este seculo da
+liberdade... Pois estamos lá em tempos de se fallar em fidalguias, agora
+que por toda a parte anda tudo em Republica? Leia o _Seculo_, Snr.
+Fernandes! leia o _Seculo_, e verá! E depois eu sempre quero vêr o Snr.
+D. Jacintho, aqui no inverno, com o nevoeiro a subir do rio logo pela
+manhã, e a friagem a trespassar os ossos, e ventanias que atiram
+carvalheiras de raizes ao ar, e chuvas e chuvas que se desfaz a
+serra!... Olhe, até mesmo por amor da saude o Snr. D. Jacintho, que é
+fraquinho e acostumado á cidade, necessita sahir da serra. Em Montemór,
+em Montemór é que s. ex.^a estava bem. E o Snr. Fernandes, tão amigo
+d'elle e assim com tanta influencia, devia teimar, e berrar, até que o
+levasse para Montemór.
+
+Mas, infelizmente para a quietação do Silverio, Jacintho lançára raizes,
+e rijas, e amorosas raizes na sua rude serra. Era realmente como se o
+tivessem plantado d'estaca n'aquelle antiquissimo chão, d'onde brotára a
+sua raça, e o antiquissimo humus refluisse e o penetrasse todo, e o
+andasse transformando n'um Jacintho rural, quasi vegetal, tão do chão, e
+preso ao chão, como as arvores que elle tanto amava.
+
+E depois o que o prendia á serra era o ter n'ella encontrado o que na
+Cidade, apesar da sua sociabilidade, não encontrára nunca,--dias tão
+cheios, tão deliciosamente occupados, d'um tão saboroso interesse, que
+sempre penetrava n'elles, como n'uma festa ou n'uma gloria.
+
+Logo de manhã, ás seis horas, eu, no meu quarto, mexendo ainda
+regaladamente o meu corpo nos colchões de fresco folhelho, sentia os
+seus rijos sapatões pelo corredor, e o seu cantarolar, desafinado, mas
+ditoso como o d'um melro. Em poucos instantes escancarava com fragor a
+minha porta, já de chapeu desabado, já de bengalão de cerejeira,
+disposto com reservado fervor para os trilhos conhecidos da serra. E era
+sempre a mesma nova, quasi orgulhosa:
+
+--Dormi hoje deliciosamente, Zé Fernandes. Tão bem, com uma tal
+serenidade, que começo a acreditar que sou um justo! Um dia lindo!
+Quando abri a janella, ás cinco horas, quasi gritei de puro gosto!
+
+Na sua pressa, nem me deixava demorar na frescura da banheira; e quando
+eu repetia a risca mal começada do cabello, aquelle antigo homem das
+trinta e nove escovas, protestava contra esse desbarato effeminado d'um
+tempo devido aos fortes gozos da terra.
+
+Mas quando, depois de acariciar os rafeiros no pateo, desembocavamos da
+alameda de platanos, e deante de nós se dividiam matutinamente, mais
+brancos entre o verde matutino, os caminhos colleantes da quinta, toda a
+sua pressa findava, e penetrava na Natureza, com a reverente lentidão de
+quem penetra n'um Templo. E repetidamente sustentava ser «contrario á
+Esthetica, á Philosophia e á Religião, andar depressa através dos
+campos.» De resto, com aquella subtil sensibilidade bucolica que n'elle
+se desenvolvera, e incessantemente se afinava, qualquer breve belleza,
+do ar ou da terra, lhe bastava para um longo encanto. Ditosamente
+poderia elle entreter toda uma manhã, caminhar por entre um pinheiral,
+de tronco a tronco, callado, embebido no silencio, na frescura, no
+resinoso aroma, empurrando com o pé as agulhas e as pinhas seccas.
+Qualquer agua corrente o retinha, enternecido n'aquella serviçal
+actividade, que se apressa, cantando, para o torrão que tem sêde, e
+n'elle se some, e se perde. E recordo ainda quando me reteve meio
+domingo, depois da Missa, no cabeço, junto a um velho curral
+desmantellado, sob uma grande arvore,--só por que em torno havia
+quietação, doce aragem, um fino piar d'ave na ramaria, um murmurio de
+regato entre canas verdes, e por sobre a sébe, ao lado, um perfume,
+muito fino e muito fresco, de flores escondidas.
+
+Depois, quando eu, velho familiar das serras, me não abandonava aos
+mesmos extasis que a elle lhe enchiam a alma ainda noviça--o meu
+Principe rugia, com a indignação d'um poeta que descobre um mercieiro
+bocejando sobre Shakspeare ou Musset. Eu ria.
+
+--Meu filho, olha que eu não passo d'um pequeno proprietario. Para mim
+não se trata de saber se a terra é _linda_, mas se a terra é _boa_. Olha
+o que diz a Biblia! «Trabalharás a quinta com o suor do teu rosto!» E
+não diz «contemplarás a quinta com o enlevo da tua imaginação!»
+
+--Podéra! exclamava o meu Principe. Um livro escripto por Judeos, por
+asperos semitas, sempre com o turvo olho posto no lucro! Repára, homem,
+para aquelle bocadinho de valle, e consegue não pensar, por um momento,
+nos trinta mil reis que elle rende! Verás que pela sua belleza e graça
+elle te dá mais contentamento á alma que os trinta mil reis ao corpo. E
+na vida só a alma importa.
+
+Recolhendo ao casarão, já o encontravamos com as janellas meio cerradas,
+os soalhos borrifados para aquellas quentes restias de sol de junho, que
+depois do almoço docemente nos retinham na livraria, preguiçando.
+
+Mas realmente a alegre actividade do meu Principe não cessava, nem
+amollecia, sob o peso da sésta. A essa hora, em quanto pelo arvoredo
+mudo os mais agitados pardaes dormiam, e o sol mesmo parecia repousar,
+immovel na rutilancia da sua luz, Jacintho com o espirito
+acordado,--ávido de sempre gosar, agora que reconquistára essa
+faculdade,--tomava com delicia o _seu livro_. Por que o dono de trinta
+mil volumes era agora, na sua casa de Tormes, depois de resuscitado, o
+homem que só tem um livro. Essa mesma Natureza, que o desligára das
+ligaduras amortalhadoras do tedio, e lhe gritára o seu bello _Ambula_,
+caminha!--tambem certamente lhe gritára _et lege_, e lê. E libertado
+emfim do envolucro suffocante da sua Bibliotheca immensa, o meu ditoso
+amigo comprehendia emfim a incomparavel delicia de _lêr um livro_.
+Quando eu correra a Tormes, (depois das revelações do Severo na venda do
+Torto,) elle findava o D. Quichote, e ainda eu lhe escutára as
+derradeiras risadas com as cousas deliciosas, e de certo profundas, que
+o gordo Sancho lhe murmurava, escarranchado no seu burro. Mas agora o
+meu Principe mergulhára na _Odyssea_,--e todo elle vivia no espanto e no
+deslumbramento de assim ter encontrado no meio do caminho da sua vida, o
+velho errante, o velho Homero!
+
+--Oh Zé Fernandes, como succedeu que eu chegasse a esta edade sem ter
+lido Homero?...
+
+--Outras leituras, mais urgentes... O _Figaro_, George Ohnet...
+
+--Tu leste a _Illiada_?
+
+--Menino, sinceramente me gabo de nunca ter lido a _Illiada_.
+
+Os olhos do meu Principe fuzilavam.
+
+--Tu sabes o que fez Alcibiades, uma tarde, no Portico, a um sophista,
+um desavergonhado d'um sophista, que se gabava de não ter lido a
+_Illiada_?
+
+--Não.
+
+--Ergueu a mão e atirou-lhe uma bofetada tremenda.
+
+--Para lá, Alcibiades! Olha que eu li a _Odyssea_!
+
+Oh! mas de certo eu a lêra, corridamente, com a alma desattenta! E
+insistia em me iniciar, elle, e me conduzir, através do Livro sem egual.
+Eu ria. E rindo, pesado do almoço, terminava por consentir, e me
+estirava no canapé de verga. Elle, deante da mesa, direito na cadeira,
+abria o livro gravemente, pontificalmente, como um missal, e começava
+n'uma lenta ode sentida. Aquelle grande mar da _Odyssea_,--resplandecente e
+sonoro, sempre azul, todo azul, sob o vôo branco das
+gaivotas, rolando, e mansamente quebrando sobre a areia fina ou contra
+as rochas de marmore das Ilhas divinas,--exhalava logo uma frescura
+salina, bem vinda e consoladora n'aquella calma de Junho, em que a serra
+se entorpecia. Depois as estupendas manhas do subtil Ulysses e os seus
+perigos sobrehumanos, tantas lamurias sublimes, e um anceio tão
+espalhado da Patria perdida, e toda aquella intriga, em que embrulhava
+os Heroes, lograva as Deusas, illudia o Fado, tinham um delicioso sabôr
+ali, nos campos de Tormes, onde nunca se necessitava de subtileza ou de
+engenho, e a Vida se desenrolava com a segurança immutavel com que cada
+manhã sempre o Sol egual nascia, e sempre centeios e milhos, regados por
+agoas eguaes, seguramente medravam, espigavam, amadureciam... Emballado
+pela recitação grave e monotona do meu Principe, eu cerrava as palpebras
+docemente. Em breve um vasto tumulto, por terra e ceu, me alvoroçava...
+E eram os rugidos de Polyphemo, ou a grita dos companheiros d'Ulysses
+roubando as vaccas de Apollo. Com os olhos logo esbugalhados para
+Jacintho, eu murmurava: _Sublime!_ E sempre, n'esse momento o engenhoso
+Ulysses, de carapuço vermelho e o longo remo ao hombro, surprehendia com
+a sua facundia a clemencia dos Principes, ou reclamava presentes devidos
+ao Hospede, ou surripiava astutamente algum favor aos Deuses. E Tormes
+dormia, no esplendor de Junho. Novamente, eu cerrava as palpebras
+consoladas, sob a caricia ineffavel do largo dizer homerico... E meio
+adormecido, encantado, incessantemente avistava, longe, na divina
+Hellade, entre o mar muito azul e o ceu muito azul, a branca vela,
+hesitante, procurando Ithaca...
+
+Depois da sésta o meu Principe de novo se soltava para os campos. E a
+essa hora, sempre mais activa, voltava com ardor aos «seus planos», a
+essas culturas de luxo e elegantes officinas que cobririam a serra de
+magnificencias ruraes. Agora andava todo no esplendido appetite d'uma
+horta que elle concebera, immensa horta ajardinada, em que todos os
+legumes, classicos ou exoticos, cresceriam, soberbamente, em vistosos
+talhões, fechados por sebes de rosas, de cravos, de alfazêma, de
+dhalias. A agoa das regas desceria por lindos corrêgos de louça
+esmaltada. Nas ruas, a sombra cahiria de densas latadas de moscatel,
+pousando em esteios revestidos d'azulejo. E o meu Principe desenhára o
+plano d'esta espantosa horta, a lapiz vermelho, n'um papel immenso, que
+o Melchior e o Silverio, consultados, longamente contemplaram,--um
+coçando risonhamente a nuca, o outro com os braços duramente crusados, e
+o sobrôlho tragico.
+
+Mas este plano, o da queijaria, o da capoeira, e outro, sumptuoso, d'um
+pombal tão povoado que todo o ceu de Tormes ás tardes se tornaria branco
+e todo fremente d'azas--não sahiam das nossas gostosas palestras, ou dos
+papeis em que Jacintho os debuxava, e que se amontoavam sobre a meza,
+platonicos, immoveis, entre o tinteiro de latão e o vaso com flôres.
+
+Nem enxadada fendera terra, nem alavanca deslocára pedra, nem serra
+serrára madeira, para encetar estas maravilhas. Contra a resistencia
+rebolada e escorregadia do Melchior, contra a respeitosa inercia do
+Silverio se quedavam, encalhados, os planos do meu Principe, como
+galeras vistosas em rochas ou em lôdo.
+
+Não convinha bolir em nada, (clamava o Silverio) antes das colheitas e
+da vindima! E depois, (acrescentava o Melchior com um sorriso de grande
+promessa) «para boas obras mez de Janeiro» porque lá ensina o dictado:
+
+Em Janeiro--mette obreiro
+Mez meante--que não ante.
+
+E, de resto, o goso de conceber as suas obras e de indicar, estendendo a
+bengala por cima de valle e monte, os sitios privilegiados que ellas
+aformoseariam, bastava por ora ao meu Principe, ainda mais imaginativo
+que operante. E, em quanto meditava estas transformações da terra, muito
+progressivamente e com um amavel esforço, se ia familiarisando com os
+homens simples que a trabalhavam. Na sua chegada a Tormes, o meu
+Principe soffria d'uma estranha timidez diante dos caseiros, dos
+jornaleiros, e até de qualquer rapazinho que passasse, tangendo uma
+vacca para o pasto. Nunca elle então se demoraria a conversar com os
+moços, quando á borda d'um caminho ou n'um campo em monda elles se
+endireitavam de chapeu na mão, n'um respeito de velha vassalagem. De
+certo o empecia a preguiça, e talvez ainda o pudico recato de transpor
+toda a immensa distancia que se alargava desde a sua complicada
+super-civilisação até á rude simplicidade d'aquellas almas
+naturaes:--mas sobretudo o retinha o medo de mostrar a sua ignorancia da
+lavoura e da terra, ou de parecer talvez desdenhoso de occupações e de
+interesses, que para os outros eram supremos e quasi religiosos. Remia
+então esta reserva com uma profusão de sorrisos, de doces acenos,
+tirando tambem o chapeu em cortezias profundas, com uma tal emphase de
+polidez que eu por vezes receava que elle murmurasse aos jornaleiros:
+«Tenha v. ex.^a muito boas tardes;... Creado de v. ex.^a!»
+
+Mas agora, depois d'aquellas semanas de serra, e de já saber (com um
+saber ainda fragil,) a epocha das sementeiras e das ceifas, e que as
+arvores de fructa se semeiam no inverno, já se aprazia em parar junto
+dos trabalhadores, contemplar descançadamente o trabalho, dizer cousas
+affaveis e vagas.
+
+--Então, isso vae andando?... Ora ainda bem!... Este bocado de torrão
+aqui é rico... O talude ali adeante está precisando concerto...
+
+E cada um d'estes tão simples dizeres lhe era doce, como se por meio
+d'elles penetrasse mais fundamente na intimidade da terra, e
+consolidasse a sua encarnação em «homem do campo,» deixando de ser uma
+mera sombra circulando entre realidades. Já por isso não crusava no
+caminho o mocinho atraz das vaccas, que não o detivesse, o não
+interrogasse: «Para onde vaes tu? De quem é o gado? Como te chamas?» E,
+contente comsigo, sempre gabava gratamente o desembaraço do rapaz, ou a
+esperteza dos seus olhos. Outra satisfação do meu Principe era conhecer
+os nomes de todos os campos, as nascentes d'agua, e as delimitações da
+sua quinta.
+
+--Vês acolá, para além do ribeiro, o pinheiral. Já não é meu, é dos
+Albuquerques.
+
+E com a perenne alegria de Jacintho as noites da serra, no vasto
+casarão, eram faceis e curtas. O meu Principe era então uma alma que se
+simplificava:--e qualquer pequenino goso lhe bastava, desde que n'elle
+entrasse paz ou doçura. Com verdadeira delicia ficava, depois do café,
+estendido n'uma cadeira, sentindo atravez das janellas abertas, a
+nocturna tranquillidade da serra, sob a mudez estrellada do ceu.
+
+As historias, muito simples e muito caseiras, que eu lhe contava, de
+Guiães, do abbade, da tia Vicencia, dos nossos parentes da Flôr da
+Malva, tão sinceramente o interessavam que eu encetára, para seu regalo,
+a chronica completa de Guiães, com todos os namoricos, e as façanhas de
+forças, e as desavenças por causa de servidões ou d'aguas. Tambem por
+vezes nos enfronhavamos, com afferro n'uma partida de gamão, sobre um
+bello taboleiro de pau preto, com pedras de velho marfim, que nos
+emprestára o Silverio. Mas nada de certo o encantava tanto como
+atravessar as casas, pé ante pé, até uma saleta que dava para o pomar, e
+ahi ficar encostado á janella, sem luz, n'um enlevado socego, a escutar
+longamente, languidamente, os rouxinoes que cantavam no laranjal.
+
+
+
+
+X
+
+
+N'uma dessas manhãs--justamente na vespera do meu regresso a Guiães--, o
+tempo, que andára pela serra tão alegre, n'um inalterado riso de luz
+rutilante, todo vestido d'azul e ouro, fazendo poeira pelos caminhos, e
+alegrando toda a natureza, desde os passaros até os regatos,
+subitamente, com uma d'aquellas mudanças que tornam o seu temperamento
+tão semelhante ao do homem, appareceu triste, carrancudo, todo
+embrulhado no seu manto cinzento, com uma tristeza tão pesada e
+contagiosa que toda a serra entristeceu. E não houve mais passaro que
+cantasse, e os arroios fugiram para debaixo das hervas com um lento
+murmurio de chôro.
+
+Quando Jacintho entrou no meu quarto, não resisti á malicia de o
+aterrar:
+
+--Sudoeste! gralhas a grasnar por todos esses soutos... Temos muita
+agua, Snr. D. Jacintho! Talvez duas semanas d'agua! E agora é se vae
+saber quem é aqui o fino amador da Natureza, com esta chuva pegada, com
+vendaval, com a serra toda a escorrer!
+
+O meu Principe caminhou para a janella com as mãos nas algibeiras:
+
+--Com effeito! Está carregado. Já mandei abrir uma das malas de Paris e
+tirar um casacão impermeavel... Não importa! Fica o arvoredo mais verde.
+E é bom que eu conheça Tormes nos seus habitos d'inverno.
+
+Mas como o Melchior lhe affiançára que a «chuvinha só viria para a
+tarde», Jacintho decidiu ir antes d'almoço á Corujeira, onde o Silverio
+o esperava para decidirem da sorte d'uns castanheiros, muito velhos,
+muito pittorescos, inteiramente interessantes, mas já roidos, e
+ameaçando desabar. E, confiando nas previsões do Melchior, partimos sem
+que Jacintho se vestisse á prova d'agoa. Não andaramos porém meio
+caminho, quando, depois d'um arrepio nas arvores, um negrume carregou,
+e, bruscamente, desabou sobre nós uma grossa chuva obliqua, vergastada
+pelo vento, que nos deixou estonteados, agarrando os chapeus,
+enrodilhados na borrasca. Chamados por uma grande voz, que se esganiçava
+no vento, avistamos n'um campo mais alto, á beira d'um alpendre, o
+Silverio, debaixo d'um guarda-chuva vermelho, que acenava, nos indicava
+o trilho mais curto para aquelle abrigo. E para lá rompemos, com a chuva
+a escorrer na cara, patinhando na lama, contorcidos, cambaleantes,
+atordoados no vendaval, que n'um instante alagára os campos, inchára os
+ribeiros, esboroava a terra dos socalcos, lançára n'um desespero todo o
+arvoredo, tornára a serra negra, bravamente agreste, hostil,
+inhabitavel.
+
+Quando emfim, debaixo do vasto guarda-chuva com que o Silverio nos
+esperava á beira do campo, corremos para o alpendre, nos refugiamos
+n'aquelle abrigo inesperado, a escorrer, a arquejar, o meu Principe,
+enxugando a face, enxugando o pescoço, murmurou, desfallecido:
+
+--Apre! que ferocidade!
+
+Parecia espantado d'aquella brusca, violenta colera d'uma serra tão
+amavel e accolhedora, que em dous mezes, inalteradamente, só lhe
+offerecera doçura e sombra, e suaves ceus, e quietas ramagens, e
+murmurios discretos de ribeirinhos mansos.
+
+--Santo Deus! Vem muitas vezes assim, estas borrascas?
+
+Immediatamente o Silverio aterrou o meu Principe:
+
+--Isto agora são brincadeiras de verão, meu senhor! Mas ha de V. Ex.^a
+vêr no inverno, se V. Ex.^a se aguentar por cá! Então é cada temporal,
+que até parece que os montes estremecem!
+
+E contou como fôra tambem apanhado, quando ia para a Corujeira.
+Felizmente, logo pela manhã, quando sentiu o ar carrancudo e as
+folhinhas dos choupos a tremer, se acautelára com o chapeu de chuva e
+calçára as suas grandes botas.
+
+--Ainda estive para me abrigar em casa do Esgueira, que é um caseiro de
+cá. Aquella casa, ali abaixo, onde está a figueira... Mas a mulher tem
+estado doente, já ha dias... E como póde ser obra que se pegue, bexigas
+ou coisa que o valha, pensei comigo: Nada, o seguro morreu de velho!
+Metti para o alpendre... E não passára um credo quando lobriguei a V.
+Ex.^a... Coisa assim!... E o Snr. D. Jacintho é voltar para casa, e
+mudar-se, que temos um dia e uma noite d'agoa.
+
+Mas, justamente, a chuva começára a cahir perpendicular, d'um ceu ainda
+negro, onde o vento se calára; e para além do rio e dos montes havia uma
+claridade, como entre cortinas de pano cinzento que se descerram.
+
+Jacintho repousava. Eu não cessára de me sacudir, de bater os pés
+encharcados, que me arrefeciam. E o bom Silverio, passando a mão
+pensativa sobre o negrume das suas barbas, reflectia, emendava os seus
+prognosticos:
+
+--Pois, não senhor... Ainda estía! Nunca pensei. É que tornejou o vento.
+
+O alpendre que nos cobria assentava sobre duas paredes em angulo, de
+pedra solta, restos d'algum casebre desmantelado, e sobre um esteio
+fazendo cunhal. N'esse momento só abrigava madeira, um cuculo de cestos
+vasios, e um carro de bois, onde o meu Principe se sentára, enrolando um
+cigarro confortador. A chuva desabava, copiosa, em longos fios
+reluzentes. E todos tres nos callavamos, n'aquella contemplação inerte e
+sem pensamento, em que uma chuva grossa e serena sempre immobilisa e
+retem olhos e almas.
+
+--Ó Snr. Silverio, murmurou lentamente o meu Principe, que é que o
+senhor esteve ahi a dizer de bexigas?
+
+O procurador voltou a face surprehendido:
+
+--Eu, Ex.^{mo} Snr.?... Ah sim! a mulher do Esgueira! É que póde ser,
+póde ser... Não imagine V. Ex.^a que faltam por cá doenças. O ar é bom.
+Não digo que não! Arsinho são, agoasinha leve. Mas ás vezes, se V. Ex.^a
+me dá licença, vae por ahi muita maleita.
+
+--Mas não ha medico, não ha botica?
+
+O Silverio teve o riso superior de quem habita regiões civilisadas e bem
+providas...
+
+--Então não havia d'haver? Pois ha um boticario, em Guiães, lá quasi ao
+pé da casa aqui do nosso amigo. E homem entendido... o Firmino, hein,
+Snr. Fernandes? Homem capaz. Medico é o Dr. Avelino, d'aqui a legoa e
+meia, nas Bolsas. Mas já V. Ex.^a vê, esta gentinha é pobre!... Tomaram
+elles para pão, quanto mais para remedios!
+
+E de novo se estabeleceu um silencio, sob o alpendre, onde penetrava a
+friagem crescente da serra encharcada. Para além do rio, a promettedora
+claridade não se alargára entre as duas espessas cortinas pardacentas.
+No campo, em declive deante de nós, ia um longo correr de ribeiros
+barrentos. Eu terminára por me sentar na ponta d'um madeiro, enervado,
+já com a fome aguçada pela manhã agreste. E Jacintho, na borda do carro,
+com os pés no ar, cofiava os bigodes humidos, palpava a face, onde, com
+espanto meu, reapparecera a sombra, a sombra triste dos dias passados, a
+sombra do 202!
+
+E, então, surdiu por traz da parede do alpendre um rapasito, muito
+rotinho, muito magrinho, com uma carita miuda, toda amarella sob a
+porcaria, e onde dous grandes olhos pretos se arregalavam para nós, com
+vago pasmo e vago medo. Silverio immediatamente o conheceu.
+
+--Como vae a tua mãe? Escusas de te chegar para cá, deixa-te estar ahi.
+Eu ouço bem. Como vae a tua mãe?
+
+Não percebi o que os pobres beicitos descorados murmuraram. Mas Jacinto,
+interessado:
+
+--Que diz elle? Deixe vir o rapaz! Quem é a tua mãe?
+
+Foi o Silverio que informou respeitosamente:
+
+--É a tal mulher que está doente, a mulher do Esgueira, ali do casal da
+figueira. E ainda tem outro abaixo d'este... Filharada não lhe falta.
+
+--Mas este pequeno tambem parece doente!--exclamou Jacintho. Coitadito,
+tão amarello!... Tu tambem estás doente?
+
+O rapasinho emmudecera, chupando o dedo, com os tristes olhos pasmados.
+E o Silverio sorria, com bondade:
+
+--Nada! este é sãosinho... Coitado, é assim amarellado e enfezadito, por
+que... Que quer V. Ex.^a? Mal comido! muita miseria... Quando ha o
+bocadito de pão é para todo o rancho. Fomesinha, fomesinha!
+
+Jacintho pulou bruscamente da borda do carro.
+
+--Fome? Então elle tem fome? Ha aqui gente com fome?
+
+Os seus olhos rebrilhavam, n'um espanto commovido, em que pediam, ora a
+mim, ora ao Silverio, a confirmação d'esta miseria insuspeitada. E fui
+eu que esclareci o meu Principe:
+
+--Homem! está claro que ha fome! Tu imaginavas talvez que o Paraiso se
+tinha perpetuado aqui nas serras, sem trabalho e sem miseria... Em toda
+a parte ha pobres, até na Australia, nas minas d'ouro. Onde ha trabalho
+ha proletariado, seja em Paris, seja no Douro...
+
+O meu Principe, teve um gesto d'afflicta impaciencia:
+
+--Eu não quero saber o que ha no Douro. O que eu pergunto é se aqui, em
+Tormes, na minha propriedade, dentro d'estes campos que são meus, ha
+gente que trabalhe para mim, e que tenha fome... Se ha creancinhas, como
+esta, esfomeadas? É o que eu quero saber.
+
+O Silverio sorria, respeitosamente, ante aquella candida ignorancia das
+realidades da Serra:
+
+--Pois está bem de vêr, meu senhor, que ha para ahi caseiros que são
+muito pobres. Quasi todos... É uma miseria, que se não fosse algum
+soccorro que se lhes dá, nem eu sei!... Este Esgueira, com o rancho de
+filhos que tem, é uma desgraça... Havia V. Ex.^a de vêr as casitas em
+que elles vivem... São chiqueiros. A do Esgueira, acolá...
+
+--Vamos vêl-a! atalhou Jacintho com uma decisão exaltada.
+
+E sahiu logo do alpendre, sem attender á chuva, que ainda cahia, mais
+leve e mais rala. Mas então Silverio alargou os braços deante d'elle,
+com anciedade, como para o salvar d'um precipicio.
+
+--Não! V. Ex.^a lá na casa do Esgueira é que não entra! Não se sabe o
+que a mulher tem, e cautella e caldo de gallinha...
+
+Jacintho não se alterou na sua polidez paciente:
+
+--Obrigado pelo seu cuidado, Silverio... Abra o seu chapeu de chuva, e
+ávante!
+
+Então o Procurador vergou os hombros, e, como S. Ex.^a mandava, abriu
+com estrondo o immenso pára-agoas, abrigou respeitosamente Jacintho,
+através do campo encharcado. Eu segui, pensando na esmola sumptuosa que
+o bom Deus mandava áquelle pobre casal por um remoto senhor das Cidades!
+Atraz vinha o pequenito perdido n'um immenso pasmo.
+
+Como todos os casebres da serra, o do Esgueira era de grossa pedra
+solta, sem reboco, com um vago telhado, de telha musgosa e negra, um
+postigo no alto, e a rude porta que servia para o ar, para a luz, para o
+fumo, e para a gente. E em redor, a Natureza e o Trabalho tinham,
+através d'annos, accumulado ali trepadeiras e flôres silvestres, e
+cantinhos d'horta, e sebes cheirosas, e velhos bancos roidos de musgo, e
+panellas com terra onde crescia salsa, e regueiros cantantes, e videiras
+enforcadas nos olmos, e sombras e charcos espelhados, que tornavam
+deliciosa, para uma Ecloga, aquella morada da Fome, da Doença e da
+Tristeza.
+
+Cautelosamente, com a ponteira do guarda-chuva, Silverio empurrou a
+porta, chamando:
+
+--Eh! tia Maria... Olá rapariga!
+
+E na fenda entreaberta appareceu uma moça, muito alta, escura e suja,
+com uns tristes olhos pisados, que se espantaram para nós, serenamente.
+
+--Então como vae a tua mãe?--Abre lá a porta, que estão aqui estes
+senhores...
+
+Ella abriu, lentamente, e ia murmurando n'uma voz dolente e arrastada
+mas sem queixume, que um vago, resignado sorriso acompanhava:
+
+--Ora, coitada! como ha de ir? Malzinha... malzinha.
+
+E dentro, n'um gemido que subia como do chão, d'entre abafos, amodorrado
+e lento, a mãe repetiu a desconsolada queixa:
+
+--Ai! para aqui estou, e malzinha, malzinha!...
+
+O Silverio, sem passar da porta, com o guarda-chuva em riste, meio
+aberto, como um escudo contra a infecção, lançou uma consolação vaga:
+
+--Não ha de ser nada, tia Maria!... Isso foi friagem! Não foi senão
+friagem!
+
+E, sobre o hombro de Jacintho, encolhido:
+
+--Já V. Ex.^a vê... Muita miseria! Até lhe chove lá dentro.
+
+E, no pedaço de chão que viam, chão de terra batida, uma mancha humida
+reluzia, da chuva pingada de uma telha rôta. A parede, coberta de
+fuligem, das longas fumaraças da lareira, era tão negra como o chão. E
+aquella penumbra suja parecia atulhada, n'uma desordem escura, de
+trapos, de cacos, de restos de coisas, onde só mostravam fórma
+comprehensivel uma arca de pau negro, e por cima, pendurado d'um prego,
+entre uma serra e uma candeia, um grosso saiote escarlate.
+
+Então Jacintho, muito embaraçado, murmurou abstrahidamente:
+
+--Está bem, está bem...
+
+E largou pelo campo para o lado do alpendre como se fugisse, emquanto o
+Silverio decerto revelava á rapariga, a presença augusta do «fidalgo»,
+por que a sentimos, da porta, levantar a voz dolorida:
+
+--Ai! Nosso Senhor lhe dê muito boa sorte! Nosso Senhor o acompanhe!
+
+Quando o Silverio, com as grandes passadas das suas grandes botas, nos
+colheu, no meio do campo, Jacintho parára, olhava para mim, com os dedos
+tremulos a torturar o bigode, e murmurava:
+
+--É horrivel, Zé Fernandes, é horrivel.
+
+Ao lado, o vozeirão do Silverio trovejou:
+
+--Que queres tu outra vez, rapaz? Vae para a tua mãe, creatura!
+
+Era o pequeno rotinho, esfaimadinho, que se prendia a nós, n'um immenso
+pasmo das nossas pessoas, e com a confusa esperança, talvez, que
+d'ellas, como de Deuses encontrados n'um caminho, lhe viesse affago ou
+proveito. E Jacintho, para quem elle mais especialmente arregalava os
+olhos tristes, e que aquella miseria, e a sua muda humildade,
+embaraçavam, acanhavam horrivelmente, só soube sorrir, murmurar o seu
+vago: «Está bem, está bem...» Fui eu que dei ao pequenito um tostão,
+para o fartar, o despegar dos nossos passos. Mas como elle, com o seu
+tostão bem agarrado, nos seguia ainda, como no sulco da nossa
+magnificencia, o Silverio teve de o espantar, como a um passaro, batendo
+as mãos, e de lhe gritar:
+
+--Já para casa! E leve esse dinheiro á mãe. Roda, roda!...
+
+--E nós vamos almoçar, lembrei eu olhando o relogio. O dia ainda vae
+estar lindo.
+
+Sobre o rio, com effeito, reluzia um pedaço d'azul lavado e lustroso; e
+a grossa camada de nuvens já se ia enrolando sob a lenta varredela do
+vento, que as levava, despejadas e rôtas, para um canto escuso do ceu.
+
+Então recolhemos lentamente para casa, por uma vereda ingreme, que
+ensinára o Silverio, e onde um leve enchurro vinha ainda, saltando e
+chalrando. De cada ramo tocado, rechuvia uma chuva leve. Toda a verdura,
+que bebera largamente, reluzia consolada.
+
+Bruscamente, ao sahirmos da vereda para um caminho mais largo, entre um
+socalco e um renque de vinha, Jacintho parou, tirando lentamente a
+cigarreira:
+
+--Pois, Silverio, eu não quero mais estas horriveis miserias na quinta.
+
+O Procurador deu um geito aos hombros, com um vago _eh_! _eh_!
+d'obediencia e dúvida.
+
+--Antes de tudo, continuava Jacintho, mande já hoje chamar esse Dr.
+Avelino para aquella pobre mulher... E os remedios que os vão buscar
+logo a Guiães. E recommendação ao medico para voltar ámanhã, e em cada
+dia; até que ella melhore... Escute! E quero, Melchior, que lhe leve
+dinheiro, para os caldos, para a dieta, uns dez, ou quinze mil réis...
+Bastará?
+
+O Procurador não conteve um riso respeitoso. Quinze mil réis! Uns
+tostões bastavam... Nem era bom acostumar assim, a tanta franqueza,
+aquella gente. Depois todos queriam, todos pedinchavam...
+
+--Mas é que todos hão-de ter, disse Jacintho simplesmente.
+
+--V. Ex.^a manda, murmurou o Silverio.
+
+Encolhera os hombros, parado no caminho, no espanto d'aquellas
+extravagancias. Eu tive de o apressar, impaciente:
+
+--Vamos conversando e andando! É meio dia! Estou com uma fome de lobo!
+
+Caminhamos, com o Silverio no meio, pensativo, a fronte enrugada sob a
+vasta aba do chapeu, a barba immensa espalhada pelo peito, e a barraca
+exorbitante do guarda-chuva vermelho enrolada debaixo do braço. E
+Jacintho, puxando nervosamente o bigode, arriscava outras idéas
+bemfazejas, cautelosamente, no seu indominavel medo do Silverio:
+
+--E as casas tambem... Aquella casa é um covil!... Gostava de abrigar
+melhor aquella pobre gente... E naturalmente, as dos outros caseiros são
+pocilgas eguaes... Era necessario uma reforma! Construir casas novas a
+todos os rendeiros da quinta...
+
+--A todos?...--O Silverio gaguejava,--emudeceu.
+
+E Jacintho balbuciava aterrado:
+
+--A todos... Emfim, quero dizer... Quantos serão elles?
+
+Silverio atirou um gesto enorme:
+
+--São vinte e coisas... Vinte e tres! se bem lembro. Upa! Upa! Vinte e
+sete...
+
+Então Jacintho emmudeceu tambem, como reconhecendo a vastidão do numero.
+Mas desejou saber, por quanto ficaria cada casa!... Oh! uma casa
+simples, mas limpa, confortavel, como a que tinha a irmã do Melchior, ao
+pé do lagar. Silverio estacou de novo. Uma casa como a da Ermelinda?
+Queria Sua Ex.^a saber? E alijou a cifra, muito d'alto, como uma pedra
+immensa, para esmagar Jacintho:
+
+--Duzentos mil réis, Ex^{mo} Senhor! E é para mais que não para menos!
+
+Eu ria da tragica ameaça do excellente homem. E Jacintho, muito
+docemente, para conciliar o Silverio:
+
+--Bem, meu amigo... Eram uns seis contos de réis! Digamos dez, por que
+eu queria dar a todos alguma mobilia e alguma roupa.
+
+Então o Silverio teve um brado de terror:
+
+--Mas então, Ex.^{mo} Senhor, é uma revolução!
+
+E como nós, irresistivelmente, riamos dos seus olhos esgazeados de
+horror, dos seus immensos braços abertos para traz, como se visse o
+mundo desabar,--o bom Silverio encavacou:
+
+--Ah! V. Ex.^{as} riem? Casas para todos, mobilias, pratas, bragal, dez
+contos de réis! Então tambem eu rio! Ah! ah! ah! Ora viva a bella
+chalaça!... Está bôa a risota!
+
+E subitamente, n'uma profunda mesura, como declinando toda a
+responsabilidade n'aquelle disparate magnifico:
+
+--Emfim, V. Ex.^a é quem manda!
+
+--Está mandado, Silverio. E tambem quero saber as rendas que paga essa
+gente, os contractos que existem, para os melhorar. Ha muito que
+melhorar. Venha vossê almoçar comnosco. E conversamos.
+
+Tão saturado d'espanto estava o Silverio, que nem recebeu mais espanto
+com essa «melhoria de rendas». Agradeceu o convite, penhorado. Mas pedia
+licença a Sua Ex.^a para passar primeiramente pelo lagar, para ver os
+carpinteiros que andavam a concertar a trave do rio. Era um instante, e
+estava em seguida ás ordens de S. Ex.^a.
+
+Metteu a corta matto, saltando um cancello. E nós seguimos, com passos
+que eram ligeiros, pela hora do almoço que se retardára, pello azul
+alegre que reapparecia, e por toda aquella justiça feita á pobresa da
+serra.
+
+--Não perdeste hoje o teu dia, Jacintho, disse eu, batendo, com uma
+ternura que não disfarcei, no hombro do meu amigo.
+
+--Que miseria, Zé Fernandes! Eu nem sonhava... Haver por ahi, á vista da
+minha casa, outras casas, onde creanças teem fome! É horrivel...
+
+Estavamos entrando na alameda. Um raio de sol, sahindo d'entre duas
+grossas, algodoadas nuvens, passou sobre uma esquina do casarão, ao
+fundo, uma viva tira d'ouro. O clarim dos gallos soava claro e alto. E
+um doce vento, que se erguera, punha nas folhas lavadas e luzidias um
+fremito alegre e doce.
+
+--Sabes o que eu estava pensando, Jacintho?... Que te aconteceu aquella
+lenda de Santo Ambrosio... Não, não era Santo Ambrosio... Não me lembra
+o santo... Nem era ainda santo... apenas um cavalleiro peccador, que se
+enamorára d'uma mulher, puzera toda a sua alma n'essa mulher, só por a
+avistar a distancia na rua. Depois, uma tarde que a seguia, enlevado,
+ella entrou n'um portal de egreja, e ahi, de repente, ergueu o veu,
+entreabriu o vestido, e mostrou ao pobre cavalleiro o seio roido por uma
+chaga! Tu, tambem andavas namorado da serra, sem a conhecer, só pela sua
+belleza de verão. E a serra, hoje, zás! de repente, descobre a sua
+grande ulcera... É talvez a tua preparação para S. Jacintho.
+
+Elle parou, pensativo, com os dedos nas cavas do collete:
+
+---É verdade! Vi a chaga! Mas emfim, esta, louvado seja Deus, é das que
+eu posso curar!
+
+Não desilludi o meu Principe. E ambos subimos alegremente a escadaria do
+casarão.
+
+
+
+
+XI
+
+
+No dia que seguiu estas largas caridades recolhi a Guiães. E, desde
+então, tantas vezes trotei por aquellas tres legoas entre a nossa e a
+velha alameda dos Jacinthos, que a minha egoa, quando a desviava d'essa
+estrada familiar, conduzindo a uma cavallariça familiar, (onde ella
+privava com o garrano do Melchior) relinchava de pura saudade. Até a tia
+Vicencia se mostrava vagamente ciumenta d'aquella Tormes, para onde eu
+sempre corria, d'aquelle Principe de quem incessantemente celebrava o
+rejuvenescimento, a caridade, os piteus, e as chimeras agricolas. Já um
+dia com um grão de sal e ironia,--o unico que cabia n'um coração todo
+cheio d'innocencia,--ella me dissera, movendo com mais vivacidade as
+agulhas da sua meia:
+
+--Olha que te podes gabar! Até me tens feito curiosidade de conhecer
+esse Jacintho... Traze cá essa maravilha, menino!
+
+Eu rira:
+
+--Socegue, tia Vicencia, que o trarei agora, para o dia dos meus annos,
+a jantar... Damos uma festa, haverá um bailarico no pateo, e vem ahi
+toda essa senhorama dos arredores. Talvez até se arranje uma noiva para
+o Jacintho.
+
+Eu, com effeito, já convidára o meu Principe para este «natalicio». E de
+resto convinha que o senhor de Tormes conhecesse todos aquelles senhores
+das boas casas da serra... Sobretudo, como eu lhe dizia rindo, convinha
+que elle conhecesse algumas mulheres, algumas d'aquellas fortes
+raparigas dos solares serranos, por que Tormes tinha uma solidão muito
+monastica; e o homem, sem um pouco do Eterno Feminino, facilmente se
+enrudece e ganha uma casca aspera como a das arvores, na solidão.
+
+--E esta Tormes, Jacintho, esta tua reconciliação com a Natureza, e o
+renunciamento ás mentiras da Civilisação é uma linda historia... Mas,
+caramba, faltam mulheres!
+
+Elle concordava, rindo, languidamente estendido na cadeira de vime:
+
+--Com effeito, ha aqui falta de mulher, com M. grande. Mas essas
+senhoras ahi das casas dos arredores... Não sei, estou pensando que se
+devem parecer com legumes. Sans, nutritivas, excellentes para a
+panella--mas, emfim, legumes. As mulheres que os poetas comparam ás
+Flores são sempre as mulheres das Côrtes, das Capitaes, ás quaes,
+invariavelmente, desde Hesiodo e de Horacio, se rendem os poetas... E
+evidentemente não ha perfume, nem graça, nem elegancia, nem requinte,
+n'uma cenoura ou n'uma couve... Não devem ser interessantes as senhoras
+da minha serra.
+
+--Eu te digo... A tua visinha mais chegada, a filha do D. Theotonio, com
+effeito, salvo o respeito que se deve á casa illustre dos Barbedos, é um
+mostrengo! A irmã dos Albergarias, da quinta da Loja, tambem não
+tentaria nem mesmo o precisado Santo Antão. Sobretudo se se despisse,
+por que é um espinafre infernal! Essa realmente é legume, e não dos
+nutritivos.
+
+--Tu o disseste: espinafre!
+
+--Temos tambem a D. Beatriz Velloso... Essa é bonita... Mas, menino, que
+horrivelmente bem fallante! Falla como as heroinas do Camillo. Tu nunca
+leste o Camillo... E depois, um tom de voz que te não sei descrever, o
+tom com que se falla em D. Maria, em peças de sentimento. Tu tambem
+nunca viste o Theatro de D. Maria... Emfim, um horror! E perguntas
+pavorosas. «V. Ex.^a. Snr. Doutor, não se delicia com Lamartine?» Já me
+disse esta, a indecente!
+
+--E tu?
+
+--Eu! Arregalei os olhos... «Oh Lamartine!». Mas, coitada, é uma
+excellente rapariga! Agora, por outro lado, temos as Rojões, as filhas
+de João Rojão, duas flores, muito frescas, muito alegres, com um cheiro
+e um brilho a sadio, e muito simples... A tia Vicencia morre por ellas.
+Depois ha a mulher do Dr. Alypio, que é uma belleza. Oh! uma creatura
+esplendida! Mas, emfim, é a mulher do Dr. Alypio, e tu renunciaste aos
+deveres da Civilisação... Além disso, mulher muito séria, toda absorvida
+nos seus dous pequenos, que parecem dous anjinhos de Murillo... E quem
+mais? Já agora, quero completar a lista do pessoal feminino. Temos a
+Mello Rebello, de Sandofim, muito engraçada, com cabello lindo... Borda
+na perfeição, faz doces como uma freira do antigo Regimen... Havia
+tambem uma Julia Lobo, muito linda, mas morreu... Agora não me lembro
+mais. Mas falta a flôr da Serra, que é a minha prima Joanninha, da Flôr
+da Malva! Essa é uma perfeição de rapariga.
+
+--E tu, primo Zé, como tens tu resistido?
+
+--Somos como irmãos, creados de pequeninos, mais acostumados e
+familiares que tu e eu... A familiaridade esbate os sexos. A mãe d'ella
+era a unica irmã da tia Vicencia, e morreu muito nova. A Joanninha,
+quasi desde o berço que se creou em nossa casa, em Guiães. O pae é bom
+homem, o tio Adrião. Erudito, antiquario, colleccionador... Collecciona
+toda a sorte de cousas exquisitas, campainhas, esporas, sinetes,
+fivellas... Tem uma collecção curiosa. Elle ha muito que deseja vir a
+Tormes, para te visitar... Mas, coitado, soffre da bexiga, não póde
+montar a cavallo. E a estrada da Flôr da Malva aqui é impossivel para
+carruagens...
+
+O meu Principe espreguiçára longamente os braços:
+
+--Não, está claro! eu é que hei-de visitar teu tio, e a tia Vicencia...
+Desejo conhecer os meus visinhos. Mas mais tarde, quando socegar. Agora
+ando todo occupado com o meu povo.
+
+E com effeito! Jacintho era agora como um Rei fundador d'um Reino, e
+grande edificador. Por todo o seu dominio de Tormes andavam obras, para
+o renovamento das casas dos rendeiros, umas que se concertavam, outras
+mais velhas, que se derrubavam para se reconstruirem com uma larguesa
+commoda. Pelos caminhos constantemente chiavam carros, carregados de
+pedra, ou de madeiras cortadas nos pinheiraes.
+
+Na taberna do Pedro, á entrada da freguezia, ia um desusado movimento,
+de pedreiros e carpinteiros contractados para as obras;--e o Pedro, com
+as mangas arregaçadas, por traz do balcão, não cessava de encher os
+decilitros com uma vasta enfusa.
+
+Jacintho, que tinha agora dous cavallos, todas as manhãs cedo percorria
+as obras, com amor. Eu, inquieto, sentia outra vez, latejar e irromper
+no meu Principe o seu velho, maniaco furor d'accumular Civilisação! O
+plano primitivo das obras era incessantemente alargado, aperfeiçoado.
+Nas janellas, que deviam ter apenas portadas, segundo o secular costume
+da serra, decidira pôr vidraças, apezar do mestre d'obras lhe dizer
+honradamente, que depois d'habitadas um mez, não haveria casa com um só
+vidro. Para substituir as traves classicas queria estucar os tectos;--e
+eu via bem claramente que elle se continha, se retesava dentro do
+Bom-senso, para não dotar cada casa com campainhas electricas. Nem
+sequer me espantei, quando elle uma manhã me declarou que a porcaria da
+gente do campo provinha de elles não terem onde commodamente se lavar,
+pelo que andava pensando em dotar cada casa com uma banheira. Desciamos
+n'esse momento, com os cavallos á redea, por uma azinhaga precipitada e
+escabrosa; um vento leve ramalhava nas arvores, um regato saltava
+ruidosamente entre as pedras. Eu não me espantei--mas realmente me
+pareceu que as pedras, o arroio, as ramagens e o vento, se riam
+alegremente do meu Principe. E além d'estes confortos, a que o João,
+mestre d'obras, com os olhos loucamente arregalados chamava «as
+grandezas», Jacintho meditava o bem das almas. Já encommendára ao seu
+architecto, em Paris, o plano perfeito d'uma escola, que elle queria
+erguer, n'aquelle campo da Carriça, junto á capellinha que abrigava «os
+ossos». Pouco a pouco, ahi crearia tambem uma bibliotheca, com livros
+d'estampas, para entreter, aos domingos, os homens a quem já não era
+possivel ensinar a lêr. Eu vergava os hombros, pensando:--«Ahi vem a
+terrivel accumulação das Noções! Eis o livro invadindo a Serra!» Mas
+outras idéas de Jacintho eram tocantes,--e eu mesmo me enthusiasmei, e
+excitei o enthusiasmo da tia Vicencia com o seu plano d'uma Creche, onde
+elle esperava ter manhãs muito divertidas vendo as creancinhas a
+gatinhar, a correr tropegamente atraz d'uma bola. De resto, o nosso
+boticario de Guiães estava já apalavrado para estabelecer uma pequena
+pharmacia em Tormes, sob a direcção do seu praticante, um afilhado da
+tia Vicencia, que tinha publicado um artigo sobre as festas populares do
+Douro no _Almanach de Lembranças_. E já fôra offerecido o partido medico
+de Tormes, com ordenado de 600$000 réis.
+
+--Não te falta senão um Theatro! dizia eu, rindo.
+
+--Um theatro não. Mas tenho a idéa d'uma sala, com projecções de
+lanterna magica, para ensinar a esta pobre gente as cidades d'esse
+mundo, e as cousas d'Africa, e um bocado de Historia.
+
+E tambem me ensoberbeci com esta innovação!--E quando a contei ao tio
+Adrião, o digno antiquario bateu, apezar do seu rheumatismo, uma palmada
+tremenda na côxa. «Sim, senhor! Bella idéa! Assim se podia ensinar
+áquella gente illetrada, vivamente, por imagens, a Historia Santa, a
+Historia Romana, até a Historia de Portugal!...» E voltado para a prima
+Joanninha, o tio Adrião declarou Jacintho um «homem de coração!»
+
+E realmente pela Serra crescia a popularidade do meu Principe.
+N'aquelle, «guarde-o Deus, meu senhor!» com que as mulheres ao passar o
+saudavam, se voltavam para o vêr ainda, havia uma seriedade d'oração, o
+bem sincero desejo de que Deus o guardasse sempre. As creanças a quem
+elle distribuia tostões, farejavam de longe a sua passagem,--e era em
+torno d'elle um escuro formigueiro de caritas trigueiras e sujas, com
+grandes olhos arregalados, que se ainda tinham pasmo, já não tinham
+medo. Como o cavallo de Jacintho uma tarde se chapára, ao desembocar da
+alameda, n'umas grossas pedras que ahi deformavam a estrada, logo ao
+outro dia um bando d'homens, sem que Jacintho o ordenasse, veio por
+dedicação ensaibrar e alisar aquelle pedaço perigoso de caminho,
+aterrados com o risco que correra o bom senhor. Já pela serra se
+espalhava esse nome de «bom senhor». Os mais edosos da freguezia não o
+encontravam sem exclamarem, uns com gravidade, outros com grandes risos
+desdentados:--_Este é o nosso bemfeitor_! Por vezes, alguma velha corria
+do fundo do eido, ou vinha á porta do casebre, ao avistal-o no caminho,
+para gritar, com grandes gestos dos braços magros: «Ai que Deus o cubra
+de bençãos! Que Deus o cubra de bençãos!»
+
+Aos domingos, o padre José Maria, (bom amigo meu e grande caçador) vinha
+de Sandofim, na sua egoa ruça, a Tormes, para celebrar a missa na
+Capellinha. Jacintho assistia ao officio na sua tribuna, como os
+Jacinthos d'outras eras, para que aquelles simples o não suppuzessem
+estranho a Deus. Quasi sempre então elle recebia presentes, que as
+filhas dos caseiros, ou os pequenos, vinham muito corados, trazer-lhe á
+varanda, e eram vasos de manjaricão, ou um grosso ramalhete de cravos, e
+por vezes um gordo pato. Havia então uma distribuição de cavacas e
+merengues de Guiães, ás raparigas e ás creanças,--e, no pateo, para os
+homens circulavam as infusas de vinho branco. O Silverio já sustentava
+com espanto, e redobrado respeito, que o Snr. D. Jacintho em breve
+disporia de mais votos nas eleições que o Dr. Alypio. E eu proprio me
+impressionei, quando o Melchior me contou que o João Torrado, um velho
+singular d'aquelles sitios, de grandes barbas brancas, hervanario,
+vagamente alveitar, um pouco adivinho, morador mysterioso d'uma cova no
+alto da serra, a todos affirmava que aquelle bom senhor era El-Rei D.
+Sebastião, que voltára!
+
+
+
+
+XII
+
+
+Assim chegou Setembro, e com elle o meu natalicio, que era a 3 e n'um
+Domingo. Toda essa semana a passára eu em Guiães, nos preparos da
+vindima,--e de manhã cedo, n'esse Domingo illustre, me fui debruçar da
+varanda do quarto do saudoso tio Affonso, vigiando a estrada, por onde
+devia apparecer o meu Principe, que emfim visitava a casa do seu Zé
+Fernandes. A tia Vicencia, desde a madrugada, andava atarefada pela
+cosinha e pela copa, porque, desejando mostrar ao meu Principe «o
+pessoal» da serra, convidára para jantar algumas familias amigas, dos
+arredores, as que tinham carruagens ou carroções, e podiam, pelas
+estradas mal seguras, recolher tarde, depois d'um bailarico campestre,
+no pateo, já enfeitado para esse effeito de lanternas chinezas. Mas logo
+ás dez horas me desesperei, ao receber, por um moço da Flôr da Malva,
+uma carta da prima Joanninha, em que dizia «a pena de não poder vir
+porque o Papá estava desde a vespera com um leicenço, e ella não o
+queria abandonar.» Corri indignado á cosinha, onde a tia Vicencia
+presidia a um violento bater de gemas d'ovos dentro d'uma immensa
+terrina.
+
+--A Joanninha não vem! Sempre assim! Diz que o pae tem um leicenço...
+Aquelle tio Adrião escolhe sempre os grandes dias para ter leicenços, ou
+para ter a pontada...
+
+A boa face redondinha e corada da tia Vicencia enterneceu-se.
+
+--Coitado! será em sitio que não se pudesse sentar na carruagem!
+Coitado! Olha, se lhe escreveres, dize-lhe que ponha um emplastrosinho
+de folhas d'alecrim. É com que teu tio se dava bem.
+
+Eu gritei simplesmente para o moço, que dava de beber ao burro no pateo:
+
+--Dize á Snr.^a D. Joanninha que sentimos muito... Que talvez eu lá
+appareça ámanhã.
+
+E voltei á janella, impaciente, por que o relogio do corredor, muito
+atrazado, já cantára a meia hora depois das dez e o Principe tardava
+para o almoço. Mas, mal eu me chegára á varanda, appareceu justamente na
+volta da estrada Jacintho, de grande chapeu de palha, no seu cavallo,
+seguido do Grillo que, tambem de chapeu de palha, e abrigado sob um
+immenso guarda-sol verde, se escarranchava no albardão da velha egoa do
+Melchior. Atraz, um moço com uma maleta á cabeça. E eu, na alegria de
+avistar emfim o meu Principe trotando para a minha casa d'aldeia, no dia
+dos meus trinta e seis annos, pensava n'outro natalicio, no d'elle, em
+Paris, no 202, quando, entre todos os esplendores da Civilização, nós
+bebemos tristemente _ad manes_, aos nossos mortos!
+
+--_Salvè_! gritei da varanda. _Salvè, domine Jacinthi_!
+
+E entoei, para o accolher, n'um alegre tarantantan, o hymno da carta!
+
+--Isto por aqui tambem é lindo!--gritou elle de baixo. E o teu palacio
+tem um soberbo ar... Por onde é a porta?
+
+Mas eu já me precipitava para o pateo--onde Jacintho, apeando, contou
+alegremente os tormentos do Grillo, que nunca montára a cavallo, e não
+cessára de berrar ante os perigos d'aquella aventura.
+
+E o digno preto, offegante, lustroso de suor, e livido sob o esplendor
+da sua negrura, exclamava, apontando com a mão tremula para a pobre
+egoa, que solta, de cabeça pensativa, parecia de pedra, sobre as patas
+mais immoveis que marcos:
+
+--Pois se o siô Fernandes visse! Uma fera, que nunca veiu quieta. Sempre
+para a esquerda, sempre para a direita, pé aqui, pé além! Só para me
+sacudir! Só para me sacudir!
+
+E não resistiu. Com a ponta do guarda-sol atirou uma pontoada vingativa
+contra a egoa, sobre o albardão.
+
+Subindo a escadaria ligeira, penetrando no alegre corredor, com a sua
+janella ao fundo engrinaldada de rosinhas, Jacintho louvava grandemente
+a nossa casa, que o repousava das rijas muralhas, das grossas portas
+feudaes de Tormes. E no seu quarto agradeceu os cuidados maternaes da
+tia Vicencia, que enchera de flores os dois vasos da China sobre a
+commoda, e adornára a cama com uma das nossas colxas da India mais
+ricas, côr de canario, com grandes aves d'ouro. Eu sorria, enternecido.
+Então estreitamos os ossos n'um grande abraço, pelo natalicio... «Trinta
+e oito, hein, Zé Fernandes?»--«Trinta e quatro, animal!» E o meu
+Principe abrindo a mala, sobria maleta de philosopho, offereceu os
+«nobres presentes, que são devidos», como diz sempre o astuto Ulysses na
+Odyssea. Era um alfinete de gravata, com uma saphira, uma cigarreira de
+aro fosco, adornada de um florido ramo de macieira em delicado esmalte,
+e uma faca para livros de velho lavor Chinez. Eu protestava contra a
+prodigalidade.
+
+--É tudo das malas de Paris... Mandei-as abrir hontem á noite. E tomei a
+liberdade de trazer esta lembrança á tua tia Vicencia. Não vale nada...
+É só por ter pertencido á princeza de Lamballe.
+
+Era uma caldeirinha d'agoa benta, em prata lavrada, d'um gosto florido e
+quasi galante.
+
+--A tia Vicencia não sabe quem é a princeza de Lamballe, mas ficará
+encantada! E é uma garantia, por que ella suspeita da tua religião, como
+homem de Paris, da terra das impiedades... E agora, lavar, escovar, e ao
+almoço!
+
+A tia Vicencia pareceu toda surprehendida, e logo encantada com o meu
+camarada, que ella suppuzera realmente um Principe, arrogante, escarpado
+e difficil. Quando elle lhe offereceu a caldeirinha, com um delicado
+pedido «para se lembrar d'elle nas suas orações», duas largas rosas,
+mais roseas e frescas que as rosas que enchiam a mesa, cobriram as faces
+redondas da boa senhora, que nunca recebera tão piedoso presente, com
+tão linda palavra. Mas o que sobretudo a captivou foi o tremendo
+appetite de Jacintho, a enthusiasmada convicção com que elle,
+accumulando no prato montes de cabidella, depois altas serras d'arroz de
+forno, depois bifes de numerosa cebolada, exaltava a nossa cosinha,
+jurava nunca ter provado nada tão sublime. Ella resplandecia:
+
+--Até faz gosto, até faz gosto!... Ora mais uma d'estas batatinhas
+recheadas...
+
+--Com certesa, minha senhora! até duas! As minhas rações, em mesas
+d'estas, tão perfeitas, são sempre as de Gargantua.
+
+--Não cites Rabelais, que a tia Vicencia não conhece os auctores
+profanos! exclamava eu, tambem radiante. E prova esse vinho branco cá da
+nossa lavra, e louva Deus que amadurece tal uva.
+
+E o almoço foi muito alegre, muito intimo, muito conversado, sobre as
+obras de Jacintho em Tormes, e a sua Creche, que enlevava a tia
+Vicencia, e as esperanças da vindima, e a minha prima Joanninha, que
+tinha o papá doente, e o pessimo estado dos caminhos. Mas o
+enternecimento maior foi quando, ao servir o café, o creado poz ao lado
+de Jacintho um pires com um pau de canella, o seu estranho e costumado
+pau de canella. Não o esquecera a tia Vicencia! Ali tinha o seu pausinho
+de canella!--Queria que elle, em Guiães, continuasse os seus habitos
+como em Tormes... E aquelle pau de canella foi o symbolo de adopção do
+meu Principe como novo sobrinho da tia Vicencia.
+
+Ella em breve recolheu á cosinha, aos preparativos do banquete. Nós
+fumamos um preguiçoso charuto no jardim, ao pé do repuxo, sob a
+recolhida sombra do cedro. Depois, inexoravelmente, como proprietario,
+mostrei ao meu Principe a propriedade toda, com desapiedada
+minuciosidade, sem lhe perdoar uma leira, um regueiro, uma arvore, um pé
+de vinha. Só quando a sua face começou a opar e a empallidecer, de
+cançaço, e que do entendimento totalmente atordoado só lhe escorria um
+vago--«muito bonito! bella terra!»--é que voltei os passos para casa,
+tornejando ainda n'uma volta larga para lhe mostrar o lagar, uma
+plantação d'espargos, e o sitio onde existira a ruina d'um velho castro
+romano. Ao penetrarmos de novo, pelo jardim, na fresca sala, ainda o
+empurrei, como uma rez, para a livraria do meu bom tio Affonso, para lhe
+mostrar as preciosidades, uma magnifica chronica de D. João I por Fernão
+Lopes, a primeira edição do _Imperador Clarimundo_, uma _Henriada_, com
+a assignatura de Voltaire, foraes d'El-Rei D. Manoel, e outras
+maravilhas. Elle respirava fechando o derradeiro pergaminho, quando eu o
+arrastei á adega, para que admirasse a famosa pipa, que tinha, em
+relevo, na madeira do tampo, as complicadas armas dos Sandes. Eram
+quatro horas. O meu Principe tinha o ar esgaseado e livido. Cravando
+n'elle os olhos inexoraveis, olhos em que eu mesmo sentia reluzir a
+ferocidade, declarei «que iriamos agora vêr a tulha.» Mas então, com as
+mãos nos rins, elle murmurou, humildemente, n'um murmurio de creança:
+
+--Não se me dava de me sentar um poucochinho!
+
+Tive então piedade, abri as garras, deixei que elle se arrastasse, atraz
+de mim, para o seu quarto, onde freneticamente descalçou as botas, se
+atirou para um fresco canapé forrado de ganga, murmurando n'um
+abatimento profundo:--«Bella propriedade!»
+
+Consenti generosamente que elle adormecesse,--e eu mesmo desci a
+verificar se a Gertrudes dispusera bem as escovas, as toalhas de renda,
+no quarto onde os convidados, em breve, ao chegar, lavariam as mãos,
+escovariam a poeira da estrada. E justamente, uma caleche rodava no
+pateo, a velha caleche do D. Theotonio, com a parelha ruça. Espreitando
+da janella descobri, com prazer, que chegava só, de gravata branca, sob
+o guarda-pó, sem a horrendissima filha. Corri alegremente ao quarto da
+tia Vicencia, que, ajudada pela Catharina, abrochava á pressa as suas
+pulseiras ricas de topazios.
+
+--Tia Vicencia! chegou o D. Theotonio! Felizmente vem sem a filha... Não
+se demore, os outros não tardam. O Manoel que esteja bem penteado, de
+gravata bem teza!... Vamos a vêr como corre a festa!
+
+
+
+
+XIII
+
+
+Ai de mim! a festa no meu anniversario não se passou com brilho, nem com
+alegria!
+
+Quando o meu Principe entrou na sala, com uma elegancia, (onde eu senti
+as malas de Paris, abertas na vespera)--uma rosa branca no jaquetão
+preto, collete branco lavrado e trespassado, copiosa gravata de sêda
+branca, tufando, e presa por uma perola negra,--já todos os convidados
+estavam na sala,--o D. Theotonio, o Ricardo Velloso, o Dr. Alypio, o
+gordo Mello Rebello, de Sandofim, os dois manos Albergarias, da quinta
+da Loja--; todos de pé, n'um pellotão cerrado. Em torno do sophá onde a
+tia Vicencia se installára, um magotesinho de cadeiras reunira as
+senhoras,--a Beatriz Velloso, de cassa branca sobre sèda, que a tornava
+mais aeria e magra, com a sua trunfa immensa de cabello riçado; as duas
+Rojões, (com a tia Adelaide Rojão) vermelhinhas como camoezas, ambas de
+branco; e a mulher do Dr. Alypio, de preto, esplendida como uma Venus
+Rustica... E foi na sala, como se realmente entrasse um Principe,
+d'esses paizes do Norte onde os Principes são magnificos, muito
+distantes dos homens, e aterram as gentes. Um silencio, como se o tecto
+de carvalho descesse, nos esmagava: e todos os olhos se enristaram
+contra o meu desgraçado Jacintho, como n'uma caçada hindú, quando á orla
+da floresta surge o Tigre Real. Debalde,--nas confusas, apressadas
+apresentações, com que eu o levava atravez da sala,--os seus apertos de
+mão, os sorrisos, o vago murmurio, «da sua honra, do seu prazer» foram
+repassados de sympathia, de simplicidade. Todos os cavalheiros
+permaneciam reservados, observando o Principe, que subira á serra: e as
+senhoras mais se aconchegavam á sombra da tia Vicencia, como ovelhas á
+volta do pastor, quando na altura assoma o lobo. Eu, já inquieto, lancei
+o D. Theotonio, o mais ornamental d'aquelles cavalheiros.
+
+--O Snr. D. Theotonio foi muito amavel em vir, Jacintho. Raras vezes sae
+da sua linda casa da Abrujeira.
+
+O digno D. Theotonio sorriu, cofiando os espessos bigodes brancos, de
+velho brigadeiro:
+
+--V. Ex.^a chegou directamente de Vienna?
+
+Não! Jacintho viera directamente de Paris, com o amigo Zé Fernandes. D.
+Theotonio insistiu:
+
+--Mas certamente visita muitas vezes Vienna...
+
+Jacintho sorria surprehendido:
+
+--Vienna, porque?... Não. Ha mais de quinze annos que não vou a Vienna.
+
+O fidalgo murmurou um lento _ah_! e ficou calado, de palpebras baixas,
+como revolvendo analyses profundas, com as mãos cruzadas sob as abas da
+longa sobrecasaca azul.
+
+Eu então, vigilante, lancei o Dr. Alypio:
+
+--O nosso Doutor, meu caro Jacintho, é o mais poderoso influente de todo
+o districto.
+
+O Doutor curvou a cabeça bem feita, com um bello cabello preto,
+admiravelmente alisado e lustroso. Mas a tia Vicencia, que se erguera do
+sofá, chamava o meu Principe, porque o Manoel annunciára o jantar,
+mudamente, mostrando apenas, á porta da sala, a sua corpulenta
+pessoa,--inteiriçado e vermelho.
+
+Á mesa, onde os pudins, as travessas de doce d'ovos, os antigos vinhos
+da Madeira e do Porto, nas suas pesadas garrafas de cristal lapidado,
+fundiam com felicidade os seus tons ricos e quentes, Jacintho ficou
+entre a tia Vicencia e uma das Rojões, a Luizinha, sua afilhada, que,
+por costume velho, quando jantava em Guiães, sempre se collocava á
+sombra da sua bôa madrinha. E a sôpa, que era de gallinha com macarrão,
+foi comida n'um tão largo e pesado silencio que eu, na ancia de o
+quebrar, exclamei, ao acaso, sem pensar que me achava em Guiães depois
+de tanto tempo e em minha própria casa:
+
+--Deliciosa, esta sopa!
+
+Jacintho echoou:
+
+--Divina!!
+
+Mas como todos os convidados certamente estranharam este meu brado, e a
+excessiva admiração de Jacintho, o silencio, carregado de cerimonia,
+mais se carregou de embaraço. Felizmente a tia Vicencia, com aquelle seu
+bom sorriso, observou que Jacintho parecia gostar da comida
+portugueza... E eu, sempre no intuito d'animar a conversa, nem deixei
+que o meu Principe confirmasse o seu amor da cosinha vernacula, e
+gritei:
+
+--Como gostar! Mas é que delira!... Pudera! Tanto tempo em Paris,
+privado dos piteus lusitanos...
+
+E como, ditosamente, me lembrára o prato de arroz doce preparado na
+occasião do natalicio de Jacintho, pelo cosinheiro do 202, contei a
+historia, profusamente, exaggerando, affirmando que esse arroz doce
+continha _foie gras_, e que sobre a sua ornamentada pyramide fluctuava a
+bandeira tricolor, por cima do busto do conde de Chambord! Mas o arroz
+doce de Paris, assim estragado tão longe da Serra, não interessára
+ninguem. Puxou apenas alguns sorrisos de polida condescendencia, quando
+eu, alternadamente, me voltava para um cavalheiro, para uma senhora,
+insistindo, exclamando:--Extraordinario, hein?
+
+D. Theotonio observou, mysteriosamente, que o «cosinheiro sabia para
+quem cosinhava.» E a bella mulher do Dr. Alypio ousou murmurar, corando:
+
+--Havia de ser bonito prato, e talvez não fosse mau!
+
+Eu, sempre na ancia de espiritualisar o banquete, de produzir
+conversação, ataquei com desabrida alegria a Snr.^a D. Luiza, por ella
+assim defender a profanação do nosso grande acepipe nacional! Mas, pobre
+de mim! tão excessiva e ruidosamente interpellei a formosa senhora, que
+ella se enconchou, emmudeceu, toda corada, e mais formosa assim. E outro
+silencio se abatia sobre a mesa, como uma nevoa, quando a tia Vicencia,
+providencial, se desculpou para com Jacintho de não ter peixe! Mas quê!
+ali na Serra era impossivel, ainda a peso d'ouro, ter peixe, a não ser a
+pescada salgada, ou o bacalhau. O excellente Rojão, com aquelle seu
+modo, tão suave que cada syllaba para correr mais docemente parecia
+lubrificada com oleos santos, lembrou que o Snr. D. Jacintho possuia uma
+larga facha do rio Douro com privilegio para a pesca do savel. Jacintho
+não sabia, nem imaginava que houvesse saveis... O Dr. Alypio não se
+admirava por que essas pescas tinham sido vendidas ao Cunha brasileiro,
+ha vinte annos, na mocidade do Snr. D. Jacintho. E hoje, segundo o D.
+Theotonio, não valiam dois mil réis. Se já não ha saveis!... E a
+proposito das antigas pescas do Douro se ia formando, em torno da mesa,
+entre os homens mais visinhos, lentas cavaqueirinhas ruraes, que as
+senhoras aproveitavam para cochichar, no desabafo d'aquelle silencio
+cerimonioso, que viera pesando cada vez mais desde a sôpa até os frangos
+guisados. Receoso de que essa orla de murmurios lentos, sem brilho e sem
+alegria, se estabelecesse de novo, me abalancei (para animar), a
+interpellar Jacintho, recordando a famosa aventura do peixe da Dalmacia
+encalhado no ascensor.
+
+--Isso foi uma das melhores historias que nos succederam em Paris! O
+Jacintho, por causa d'um peixe muito raro, que lhe mandára o Grão-Duque
+Casimiro, dava uma magnifica ceia, a que o Grão-Duque... o Grão-Duque
+Casimiro, o irmão do Imperador...
+
+Todos os olhos se desviaram para o meu Jacintho, que se servia de
+ervilhas:--e o Mello Rebello quasi se engasgou, n'um sorvo precipitado
+ao copo, para contemplar no meu amigo algum reflexo do Grão-Duque. E eu
+contei, com profusão, o peixe encalhado, o Grão-Duque pescando, o anzol
+feito com um gancho da Princeza de Carman, o duque de Marizac, cahindo
+quasi no poço do elevador... Mas não se produziu um unico riso, e a
+attenção mesma era dada com esforço, por cortezia. Debalde eu
+arremessava aquelles nomes magnificos de principes e princezas,
+misturados a cousas picarescas... Nenhum dos meus convidados
+comprehendia o maquinismo do elevador, um prato encalhado n'um poço
+negro... Perante o gancho da princeza as Albergarias baixaram os olhos.
+E a minha deliciosa historia morreu n'uma reticencia, ainda mais
+regelada pela exclamação innocente da tia Vicencia:
+
+--Oh! filho, que cousas!
+
+Mas, como Jacintho se enfronhára de repente n'uma larga conversa com a
+Luizinha Rojão, que ria, toda luminosa e palradora,--todos, como
+libertados do peso cerimonioso da sua presença augusta, se lançaram nas
+conversinhas discretas, a que o champagne, agora, depois do assado, dava
+mais viveza. Eram os soturnos murmurios, em torno da mesa, que
+definitivamente se perpetuavam. Foi então que desisti de animar o
+jantar. Mergulhei com a bella mulher do Doutor Alypio na grande questão
+social d'esse tempo em Guiães, o casamento da D. Amelia Noronha com o
+feitor! E eu defendia a D. Amelia, os direitos do amor, quando se
+alargou um silencio,--e era Jacintho, que se debruçava, de copo na mão.
+
+--Velho amigo Zé Fernandes, á tua! Muitos e bons, e sempre em companhia
+de tua tia e minha senhora, a quem peço para saudar.
+
+Todos os copos, onde a espuma morria sobre um fundo de champagne, se
+ergueram n'um largo rumor de amisade, e boa visinhança. Eu acenei ao
+Manoel, vivamente, para encher os copos; e logo, tambem de pé, atirando
+para traz a sobrecasaca:
+
+--Meus senhores, peço uma grande saude para o meu velho amigo Jacintho,
+que pela primeira vez honra esta casa fraternal... Que digo eu? que pela
+primeira vez honra com a sua presença a sua querida patria! E que por cá
+fique, pelas serras, muitos annos, todos bons. Á tua, meu velho!
+
+Outro rumor correu pela mesa, mas ceremonioso e sereno. A nossa
+oratoria, positivamente, não incendiára as imaginações! A tia Vicencia
+fez tilintar o seu copo, quasi vasio, com o de Jacintho, que tocou no
+copo da sua visinha, a Luizinha Rojão, toda resplandecente, e mais
+vermelha que uma peonia. Depois foi um encadeamento de saudes, com os
+copos quasi vasios, entre todos os convidados, sem esquecer o tio
+Adrião, e o Abbade, ambos ausentes, ambos com furunculos. E a tia
+Vicencia espalhava aquelle olhar, que prepára o erguer, o arrastar de
+cadeiras,--quando D. Theotonio, erguendo o seu copo de vinho do Porto,
+com a outra mão apoiada á mesa, meio erguido, chamou Jacintho, e n'uma
+voz respeitosa, quasi cava:
+
+--Esta é toda particular, e entre nós... Brindo o ausente!
+
+Esvasiou o copo, como em religião, pontificando. Jacintho bebeu
+assombrado, sem comprehender. As cadeiras arrastavam,--eu dei o braço á
+tia Albergaria.
+
+E só comprehendi, na sala, quando o Dr. Alypio, com a sua chavena de
+café e o charuto fumegante, me disse, n'um d'aquelles seus olhares
+finos, que lhe valiam a alcunha de _Dr. Agudo_:--«Espero que ao menos,
+cá por Guiães, não se erga de novo a forca!...» E o mesmo fino olhar me
+indicava o D. Theotonio, que arrastára Jacintho para entre as cortinas
+d'uma janella, e discorria, com um ar de fé e de mysterio. Era o
+miguelismo, por Deus! O bom D. Theotonio considerava Jacintho como um
+hereditario, ferrenho, miguelista,--e na sua inesperada vinda ao seu
+solar de Tormes, entrevia uma missão politica, o começo d'uma propaganda
+energica, e o primeiro passo para uma tentativa de Restauração. E na
+reserva d'aquelles cavalheiros, ante o meu Principe, eu senti então a
+suspeita liberal, o receio d'uma influencia rica, nova, nas Eleições
+proximas, e a nascente irritação contra as velhas ideias, representadas
+n'aquelle moço, tão rico, de civilisação tão superior. Quasi entornei o
+café, na alegre surpreza d'aquella sandice. E retive o Mello Rebello,
+que repunha a chavena vasia na bandeja, fitei, com um pouco de riso, o
+_Dr. Agudo_.
+
+--Então, francamente, os amigos imaginam que o Jacintho veio para Tormes
+trabalhar no miguelismo?
+
+Muito serio, Mello Rebello chegou o seu grosso bigode á minha orelha:
+
+--Até corre, como certo, que o Principe D. Miguel está com elle em
+Tormes!
+
+E como eu os considerava esgazeado, o Dr. Alypio--tão agudo!--confirmou:
+
+--É o que corre... Disfarçado em creado!
+
+Em creado? Oh! santo Deus! Era o Baptista! Justamente, Ricardo Velloso
+veio, puxando do seu cigarrinho, para o accender no meu charuto. E o bom
+Rebello logo invocou o seu testemunho.--Pois não corria, que o filho de
+D. Miguel estava em Tormes, escondido?...
+
+--Disfarçado em lacaio, confirmou logo o digno Rebello.
+
+Accendeu o cigarro, soprou o fumo, e erguendo muito as sobrancelhas
+meditativas:
+
+--Se assim é, lá me parece desplante... Que eu não desgostava de o vêr.
+Dizem que é bonito moço, bem apessoado. Mas emfim, meu tio João Vaz
+Rebello foi partido ás postas, a machado, nas prisões d'Almeida... E se
+recomeçam essas questões, mau, mau! Ora o seu amigo...
+
+Emmudeceu. Jacintho, que se libertára do velho D. Theotonio, e ainda
+conservava um resto de riso, d'assombro divertido, vinha para mim,
+desabafar:
+
+--Extraordinario! Vejo que, aqui, na serra, ainda se conservam, sem uma
+ruga, as velhas e boas ideias...
+
+Immediatamente, sem se conter, Mello Rebello acudiu:
+
+--É conforme o que V. Ex.^a chama _boas ideas_.
+
+E eu agora, furioso com aquella disparatada invenção, que cercava
+d'hostilidade o meu pobre Jacintho, estragava aquella amavel noite
+d'annos, intervim, vivamente:
+
+--Tu jogas o voltarete, Jacintho? Não jogas... Então vamos arranjar duas
+mesas... O D. Theotonio ha de querer cartas.
+
+E arrastei Jacintho para as senhoras, que de novo se aninhavam á sombra
+da tia Vicencia, estabelecida no seu canto do sofá. Todas se callavam,
+parecia encolherem-se ante a apparição do meu Principe, como pombas
+avistando o abutre. E deixei o temido homem affirmando á mulher do Dr.
+Alypio (um pouco desgarrada do bando das aves timidas) que lhe dera
+grande prazer aquella occasião de conhecer as suas visinhas de Tormes...
+Ella abrira nervosamente o leque, sorria, e nunca de certo Jacintho
+admirára na Cidade uma bocca mais vermelha, dentinhos mais rutilantes.
+Mas depois d'organisar a mesa do voltarete, tive de abancar, eu, para
+substituir o Manoel Albergaria, que era dispeptico, se declarára
+«affrontado», e desejava respirar um momento na varanda. Todos aquelles
+cavalheiros, de resto, se queixavam de calor. Mandei abrir as janellas
+que davam sobre as mimosas do pateo. O Velloso, ao baralhar, parava,
+bufando, como opprimido:
+
+--Está abafado... Ainda temos trovoada!
+
+E o Dr. Alypio, inquieto, por que tinha uma hora d'estrada até casa, e
+uma das egoas da caleche era escabriada, correu á janella, espreitar o
+ceu, que ennegrecera, morno e pesado.
+
+--Com effeito, vae cahir agoa.
+
+As hastes das mimosas ramalhavam, arripiadas: e o ar que agitava as
+cortinas era intermittente, estonteado. De certo na sala, entre as
+senhoras, surgira a mesma inquietação, porque a tia Albergaria
+appareceu, avisando o mano Jorge.
+
+Era prudente pensar em partir, a noite ameaçava... E o Dr. Alypio,
+puxando o relogio, propoz que, levantada aquella remissa, se preparasse
+a marcha. Justamente o Albergaria recolhia da varanda desaffrontado,
+alliviado com um calice de genebra: e rotomou as suas cartas,
+annunciando tambem que vinha ahi uma trovoada valente.
+
+Voltando á sala, encontrei Jacintho muito alegre entre as senhoras, que
+se familiarisaram, escutando cheias de riso e gosto, a historia da sua
+chegada a Tormes, sem malas, sem creados, tão desprovido que dormira com
+a camisa da caseira! Mas a minha pobre noite d'annos findava,
+desorganisada. A tia Albergaria rondava de janella em janella, assustada
+com a volta á Roqueirinha, espreitando a treva abafada. Calçando
+lentamente as luvas, a bella mulher do Dr. Alypio perguntava se ainda
+havia a remissa. E a tia Vicencia apressára o chá, que o Manoel seguido
+pela Gertrudes, com a bandeja de bolos, já começava a servir ás
+senhoras. Jacintho, de pé, offerecendo chavenas, gracejava:
+
+--Então tanta pressa, tanto medo, por causa d'uma trovoadinha?
+
+Ellas replicavam, familiarizadas, n'uma crescente sympathia pelo meu
+Principe:
+
+--Ora o senhor falla bem, porque fica debaixo de telhas...
+
+--Sempre o queriamos vêr... se fosse agora para Tormes, com esta noite
+cerrada!
+
+O voltarete findára nas duas mesas: e aquelles cavalheiros, das
+janellas, gritavam ordens para o pateo negro, onde as carroagens
+esperavam atreladas:
+
+--Desce a cabeça da victoria, ó Diogo!
+
+--Accende o lampeão, Pedro! Sempre ajuda a luz das lanternas.
+
+A creada Quiteria chegava á porta com os braços carregados de chales, de
+mantilhas de renda. Como uma das Albergarias ia no assento de deante na
+victoria, eu corri a buscar o meu casaco de borracha, para ella se
+abrigar se a chuva viesse. E só o D. Theotonio, que tinha até casa
+apenas meia legoa de estrada boa, se não apressava, filado outra vez no
+meu Principe, que levava para os cantos mais solitarios, em conversas
+profundas, que o seu dedo solemne, espetado, sublinhava gravemente. Mas
+a tia Albergaria gritou que já chovia;--e então foi uma pressa das
+senhoras, que beijocavam vivamente a tia Vicencia, em quanto os homens,
+na ante-camara, enfiavam açodadamente os paletós.
+
+Jacintho e eu descemos ao pateo para acompanhar aquella debandada,--e
+uma a uma, a traquitana do Dr. Alypio, a victoria das Albergarias, a
+velha e immensa caleche dos Vellosos, rolaram sob a noite, entre os
+nossos desejos de boa jornada. Por fim D. Theotonio calçou as luvas
+pretas e entrou para a sua caleche, dizendo a Jacintho:
+
+--Pois, primo e amigo, Deus permitta que, do nosso encontro, e do mais
+que se passar, algum bem resulte a esta terra!
+
+Subindo a escada, o meu Principe desabafou:
+
+--Este Theotonio é extraordinario! Sabes o que descobri por fim?... Que
+me toma por um miguelista, e imagina que eu vim para Tormes preparar a
+restauração de D. Miguel?!
+
+--E tu?
+
+--Eu fiquei tão espantado, que nem o desilludi!
+
+--Pois sabe mais, meu pobre amigo. Todos pensam o mesmo, estão
+desconfiados, e receiam vêr de novo erguidas as fôrcas em Guiães! E
+corre que tu tens o Principe D. Miguel escondido em Tormes, disfarçado
+em creado. E sabes quem elle é? o Baptista!
+
+--Isso é sublime! murmurou Jacintho, com uns grandes olhos abertos.
+
+Na sala, a tia Vicencia nos esperava desconsolada, entre todas as luzes,
+que ardiam ainda no silencio e paz do serão debandado:
+
+--Ora uma cousa assim! Nem quererem ficar para tomar um copinho de
+gelea, um calice de vinho do Porto!
+
+--Esteve tudo muito desanimado, tia Vicencia! exclamei desafogando o meu
+tedio. Todo esse mulherio emmudeceu; os amigos com um ar desconfiado...
+
+Jacintho protestou, muito divertido, muito sincero:
+
+Não! pelo contrario. Gostei immenso. Excellente gente! E tão simples...
+Todas estas raparigas me pareceram optimas. E tão frescas, tão alegres!
+Vou ter aqui bons amigos, quando verificarem que não sou miguelista.
+
+Então contamos á tia Vicencia a prodigiosa historia de D. Miguel
+escondido em Tormes... Ella ria! Que cousa! E mau seria...
+
+--Mas o Snr. Jacintho, não é?
+
+--Eu, minha senhora, sou socialista...
+
+Acudi, explicando á tia Vicencia, que socialista era ser pelos pobres. A
+doce senhora considerava esse partido o melhor, o verdadeiro:
+
+--O meu Affonso, que Deus haja, era liberal... Meu pae, tambem e até
+amigo do Duque da Terceira...
+
+Mas um rude trovão rolou, atroou a noite negra:--e uma batega d'agoa
+cantou nos vidros, e nas pedras da varanda.
+
+--Santa Barbara! gritou a tia Vicencia! Ai aquella pobre gente!... Até
+estou com cuidado... As Rojões, que vão na victoria!
+
+E correu para o quarto, na sua pressa de accender as duas velas
+costumadas no oratorio, ainda antes de ir guardar as pratas, e resar o
+terço, com a Gertrudes.
+
+
+
+
+XIV
+
+
+Ao outro dia, depois d'almoço, eu e Jacintho montamos a cavallo para um
+grande passeio até á Flôr da Malva, a saber de meu tio Adrião, e do seu
+furunculo. E sentia uma curiosidade interessada, e até inquieta, de
+testemunhar a impressão que daria ao meu Principe aquella nossa prima
+Joanninha, que era o orgulho da nossa casa. Já n'essa manhã, andando
+todos no jardim a escolher uma bella rosa chá para a botoeira do meu
+Principe, a tia Vicencia celebrára com tanto fervor a belleza, a graça,
+a caridade, e a doçura da sua sobrinha toda-amada, que eu protestei:
+
+--Oh! tia Vicencia, olhe que esses elogios todos competem apenas á
+Virgem Maria! A tia Vicencia está a cahir em peccado de idolatria! O
+Jacintho depois vae encontrar uma creatura apenas humana, e tem um
+desapontamento tremendo!
+
+E agora, trotando pela facil estrada de Sandofim, lembrava-me aquella
+manhã, no 202, em que Jacintho encontrára o retrato d'ella no meu
+quarto, e lhe chamára uma _lavradeirôna_. Com effeito, era grande e
+forte a Joanninha. Mas a photographia datava do seu tempo de viço
+rustico, quando ella era apenas uma bella forte e sã planta da serra.
+Agora entrava nos vinte e cinco, e já pensava, e sentia,--e a alma que
+n'ella se formára, afinára, amaciára, e espiritualisava o seu esplendor
+rubicundo.
+
+A manhã, com o ceu todo purificado pela trovoada da vespera, e as terras
+reverdecidas e lavadas pelos chuviscos ligeiros, offerecia uma doçura
+luminosa, fina, fresca, que tornava doce, como diz o velho Euripedes ou
+o velho Sophocles, mover o corpo, e deixar a alma preguiçar, sem pressa
+nem cuidados. A estrada não tinha sombra, mas o sol batia muito de leve,
+e roçava-nos com uma caricia quasi alada. O valle parecia a Jacintho,
+que nunca ali passára, uma pintura da Escola Franceza do seculo XVIII,
+tão graciosamente n'elle ondulavam as terras verdes, e com tanta paz e
+frescura corria o risonho Serpão, e tão affaveis e promettedores de
+fartura e contentamento alvejavam os casaes nas verduras tenras! Os
+nossos cavallos caminhavam n'um passo pensativo, gosando tambem a paz da
+manhã adoravel. E não sei, nunca soube, que plantasinhas silvestres e
+escondidas espalhavam um delicado aroma, que eu tantas vezes sentira,
+n'aquelle caminho, ao começar o outomno.
+
+--Que delicioso dia! murmurou Jacintho. Este caminho para a Flôr da
+Malva é o caminho do ceu... Oh Zé Fernandes, de que é este cheirinho tão
+doce, tão bom?
+
+Eu sorri, com certo pensamento:
+
+--Não sei... É talvez já o cheiro do ceu!
+
+Depois, parando o cavallo, apontei com o chicote para o valle:
+
+--Olha, acolá, onde está aquella fila d'olmos, e ha o riacho, já são
+terras do tio Adrião. Tem alli um pomar, que dá os pêcegos mais
+deliciosos de Portugal... Hei de pedir á prima Joanninha que te mande um
+cesto d'elles. E o dôce que ella faz com esses pêcegos, menino, é alguma
+cousa de celeste. Tambem lhe hei de pedir que te mande o dôce.
+
+Elle ria:
+
+--Será explorar de mais a prima Joanninha. E eu (por que?) recordei e
+atirei ao meu Principe estes dous versos d'uma ballada cavalheiresca,
+composta em Coimbra pelo meu pobre amigo Procopio:
+
+--Manda-lhe um servo querido,
+Bem hajas dona formosa!
+E que lhe entregue um annel
+E com um annel uma rosa.
+
+Jacintho rio alegremente:
+
+--Zé Fernandes, seria excessivo, só por causa de meia duzia de pêcegos,
+e d'um boião de dôce.
+
+Assim riamos, quando appareceu, á volta da estrada, o longo muro da
+quinta dos Vellosos, e depois a capellinha de S. José de Sandofim. E
+immediatamente piquei para o largo, para a taverna do Tôrto, por causa
+d'aquelle vinhinho branco, que sempre, quando por ali a levo, a minha
+alma me pede. O meu Principe reprovou, indignado:
+
+--Oh! Zé Fernandes, pois tu, a esta hora, depois d'almoço, vaes beber
+vinho branco?
+
+--É um costumesinho antigo... Aqui á taverninha do Tôrto... um
+decilitrosinho... A almasinha assim m'o pede.
+
+E paramos; eu gritei pelo Manoel, que appareceu, rebolando a sua grossa
+pansa, sobre as pernas tortas, com a infusa verde, e um copo.
+
+--Dous copos, Tôrto amigo. Que aqui este cavalheiro tambem aprecia.
+
+Depois d'um pallido protesto, o meu Principe tambem quiz, mirou o
+limpido e dourado vinho ao sol, provou, e esvasiou o copo, com delicia,
+e um estalinho de alto apreço.
+
+--Delicioso vinho!... Hei de querer d'este vinho em Tormes... É
+perfeito.
+
+--Hein? Fresquinho, leve, aromatico, alegrador, todo alma!... Encha lá
+outra vez os copos, amigo Tôrto. Este cavalheiro aqui é o Snr. D.
+Jacintho, o fidalgo de Tormes.
+
+Então, de traz da umbreira da taverna, uma grande voz bradou, cavamente,
+solemnemente:
+
+--Bemdito seja o pae dos Pobres!
+
+E um extranho velho, de longos cabellos brancos, barbas brancas, que lhe
+comiam a face côr de tijolo, assomou no vão da porta, apoiado a um
+bordão, com uma caixa de lata a tiracolo, e cravou em Jacintho dous
+olhinhos d'um brilho negro, que faiscavam. Era o tio João Torrado, o
+propheta da Serra... Logo lhe estendi a mão, que elle apertou, sem
+despegar de Jacintho os olhos, que se dilatavam mais negros. Mandei vir
+outro copo, apresentei Jacintho, que córára, embaraçado.
+
+--Pois aqui o tem, o senhor de Tormes, que fez por ahi todo esse bem á
+pobreza.
+
+O velho atirou para elle bruscamente o braço, que sahia cabelludo e
+quasi negro, d'uma manga muito curta.
+
+--A mão!
+
+E quando Jacintho lh'a deu, depois de arrancar vivamente a luva, João
+Torrado longamente lh'a reteve com um sacudir lento e pensativo,
+murmurando:
+
+--Mão real, mão de dar, mão que vem de cima, mão já rara!
+
+Depois tomou o copo, que lhe offerecia o Tôrto, bebeu com immensa
+lentidão, limpou as barbas, deu um geito á correia que lhe prendia a
+caixa de lata, e batendo com a ponta do cajado no chão:
+
+--Pois louvado seja nosso Senhor Jesus Christo, que por aqui me trouxe,
+que não o meu dia, e vi um homem!
+
+Eu então debrucei-me para elle, mais em confidencia:
+
+--Mas, ó tio João, ouça cá! Sempre é certo você dizer por ahi, pelos
+sitios, que El-Rei D. Sebastião voltára?
+
+O pittoresco velho apoiou as duas mãos sobre o cajado, o queixo
+d'espalhada barba sobre as mãos, e murmurava, sem nos olhar, como
+seguindo a percussão dos seus pensamentos:
+
+--Talvez voltasse, talvez não voltasse... Não se sabe quem vae, nem quem
+vem. A gente vê os corpos, mas não vê as almas que estão dentro. Ha
+corpos d'agora com almas d'outr'ora. Corpo é vestido, alma é pessoa...
+Na feira da Roqueirinha quem sabe com quantos reis antigos se topa,
+quando se anda aos encontrões entre os vaqueiros... Em ruim corpo se
+esconde bom senhor!
+
+E como elle findára n'um murmurio, eu, atirando um olhar a Jacintho, e
+para gosarmos aquelles estranhos, pittorescos modos de vidente, insisti:
+
+--Mas, ó tio João, você realmente, em sua consciencia, pensa que El-Rei
+D. Sebastião não morreu na batalha?
+
+O velho ergueu para mim a face, que se enrugára n'uma desconfiança:
+
+--Essas cousas são muito antigas. E não calham bem aqui á porta do
+Tôrto. O vinho era bom, e V. S.^a tem pressa, meu menino! A flôr da Flôr
+da Malva lá tem o paesinho doente... Mas o mal já vae pela serra abaixo
+com a inchação ás costas. Dá gosto vêr quem dá gosto aos tristes. Por
+cima de Tormes ha uma estrella clara. E é trotar, trotar, que o dia está
+lindo!
+
+Com a magra mão lançou um gesto para que seguissemos. E já passavamos o
+cruzeiro quando o seu brado ardente, de novo revoou, com solemnidade
+cava:
+
+--Bemdito seja o Pae dos Pobres.
+
+Direito, no meio da estrada, erguia o cajado como dirigindo as
+acclamações d'um povo. E Jacintho pasmava de que ainda houvesse no reino
+um Sebastianista.
+
+--Todos o somos ainda em Portugal, Jacintho! Na serra ou na cidade cada
+um espera o seu D. Sebastião. Até a loteria da Misericordia é uma forma
+do Sebastianismo. Eu todas as manhãs, mesmo sem ser de nevoeiro,
+espreito, a vêr se chega o meu. Ou antes a minha, por que eu espero uma
+D. Sebastiana... E tu, felizardo?
+
+--Eu? Uma D. Sebastiana? Estou muito velho, Zé Fernandes... Sou o ultimo
+Jacintho; Jacintho ponto final... Que casa é aquella com os dous
+torreões?
+
+--A Flôr da Malva.
+
+Jacintho tirou o relogio:
+
+--São tres horas. Gastamos hora e meia... Mas foi um bello passeio, e
+instructivo. É lindo este sitio.
+
+Sobre um outeirinho, afastada da estrada por arvoredo, que um muro
+cerrava, e dominando, a Flôr da Malva voltava para Oriente e para o Sol
+a sua longa fachada com os dous torreões quadrados, onde as janellas, de
+varanda, eram emolduradas em azulejos. O grande portão de ferro, ladeado
+por dous bancos de pedra, ficava ao fundo do terreirinho, onde um
+immenso castanheiro derramava verdura e sombra. Sentado sobre as fortes
+raizes descarnadas da grande arvore, um pequeno esperava segurando um
+burro pela arreata.
+
+--Está por ahi o Manoel da Porta?
+
+--Ainda agora subio pela alameda.
+
+--Bem: empurra lá o portão.
+
+E subimos, por uma curta avenida de velhas arvores, até outro terreiro,
+com um alpendre, uma casa de moços, toda coberta d'heras, e uma casota
+de cão, d'onde saltou, com um rumor de corrente arrastada, um molosso, o
+Tritão, que eu logo soceguei fazendo-lhe reconhecer o seu velho amigo Zé
+Fernandes. E o Manoel da Porta correu da fonte, onde enchia um grande
+balde, para nos segurar os cavallos.
+
+--Como está o tio Adrião?
+
+Surdo, o excellente Manoel sorrio, deleitado:
+
+--E então vossa excellencia, bem? A Snr.^a D. Joanninha ainda agora
+andava no laranjal com o pequeno da Josepha.
+
+Seguimos por ruasinhas bem areadas, orladas d'alfazema e buxo alto, em
+quanto eu contava ao meu Principe que aquelle pequenito da Josepha era
+um afilhadinho da prima Joanna, e agora o seu encanto e o seu cuidado
+todo.
+
+--Esta minha santa prima, apesar de solteira, tem ahi pela freguezia uma
+verdadeira filharada. E não é só dar-lhes roupas e presentes, e ajudar
+as mães. Mas até os lava, e os penteia, e lhes trata as tosses. Nunca a
+encontro sem alguma creancita ao collo... Agora anda na paixão d'este
+Josésinho.
+
+Mas quando chegamos ao laranjal, á beira da larga rua da quinta que
+levava ao tanque, debalde procurei, e me embrenhei, e até gritei:--Eh,
+prima Joanninha!...
+
+--Talvez esteja lá para baixo, para o tanque...
+
+Descemos a rua, entre arvores, que a cobriam com as densas ramas
+encruzadas. Uma fresca, limpida agoa de rega corria e luzia n'um caneiro
+de pedra. Entre os troncos, as roseiras bravas ainda tinham uma frescura
+de verão. E o pequeno campo, que se avistava para além, rebrilhava com
+doçura, todo amarello e branco, dos malmequeres e botões d'ouro.
+
+O tanque, redondo, fôra esvasiado para se lavar, e agora de novo o
+repuxo o ia enchendo d'uma agoa muito clara, ainda baixa, onde os peixes
+vermelhos se agitavam na alegria de recuperarem o seu pequeno oceano.
+Sobre um dos bancos de pedra que circumdavam o tanque pousava um cesto
+cheio de dhalias cortadas. E um moço, que sobre uma escada podava as
+camelias, vira a Snr.^a D. Joanna seguir para o lado da parreira.
+
+Marchamos para a parreira, ainda toda carregada de uva preta. Duas
+mulheres, longe, ensaboavam n'um lavadoiro, na sombra de grandes
+nogueiras. Gritei:--Eh lá? Vocês viram por ahi a Snr.^a D. Joanna? Uma
+das moças esganiçou a voz, que se perdeu no vasto ar luminoso e doce.
+
+--Bem: vamos a casa! Não podemos farejar assim, toda a tarde.
+
+--É uma bella quinta, murmurava o meu Principe encantado.
+
+--Magnifica! E bem tratada... O tio Adrião tem um feitor excellente...
+Não é o teu Melchior. Observa, aprende, lavrador! Olha aquelle
+cebolinho!
+
+Passamos pela horta, uma horta ajardinada, como a sonhára o meu
+Principe, com os seus talhões debruados d'alfazema, e madresilva
+enroscada nos pilares de pedra, que faziam ruasinhas frescas toldadas de
+parra densa. E démos volta á capella, onde crescia aos dous lados da
+porta uma roseira chá, com uma rosa unica, muito aberta, e uma moita de
+baunilha, onde Jacintho apanhou um raminho para cheirar. Depois entramos
+no terraço em frente da casa, com a sua balaustrada de pedra, toda
+enrodilhada de jasmineiros amarellos. A porta envidraçada estava aberta:
+e subimos pela escadaria de pedra, no immenso silencio em que toda a
+Flôr da Malva repousava, até á ante-camara, d'altos tectos apainelados,
+com longos bancos de pau, onde desmaiavam na sua velha pintura as
+complicadas armas dos Cerqueiras. Empurrei a porta d'uma outra sala, que
+tinha as janellas da varanda abertas, cada uma com a gaiola d'um
+canario.
+
+--É curioso!--exclamou Jacintho. Parece o meu Presepio... E as minhas
+cadeiras.
+
+E com effeito. Sobre uma commoda antiga, com bronzes antigos, pousava um
+presepio semelhante ao da livraria de Jacintho. E as cadeiras de couro
+lavrado tinham, como as que elle descobrira no sotão, umas armas sob um
+chapéo de Cardeal.
+
+--Oh senhores! exclamei. Não haverá um creado?
+
+Bati as mãos, fortemente. E o mesmo doce silencio permaneceu, muito
+largo, todo luminoso e arejado pelo macio ar da quinta, apenas cortado
+pelo saltitar dos canarios nos poleiros das gaiolas.
+
+--É o Palacio da Bella adormecida no bosque! murmurou Jacintho, quasi
+indignado. Dá um berro!
+
+--Não, caramba! Vou lá dentro!
+
+Mas, á porta, que de repente se abrio, appareceu minha prima Joanninha,
+córada do passeio e do vivo ar, com um vestido claro um pouco aberto no
+pescoço, que fundia mais docemente, n'uma larga claridade, o explendor
+branco da sua pelle, e o louro ondeado dos seus bellos
+cabellos,--lindamente risonha, na surpreza que alargava os seus largos,
+luminosos olhos negros, e trazendo ao collo uma creancinha, gorda e côr
+de rosa, apenas coberta com uma camisinha, de grandes laços azues.
+
+E foi assim que Jacintho, n'essa tarde de Septembro, na Flôr da Malva,
+vio aquella com quem casou em Maio, na capellinha d'azulejos, quando o
+grande pé de roseira se cobrira todo de rosas.
+
+
+
+
+XV
+
+
+E agora, entre roseiras que rebentam, e vinhas que se vindimam, já cinco
+annos passaram sobre Tormes e a Serra. O meu Principe já não é o ultimo
+Jacintho, Jacintho ponto final--por que n'aquelle solar que decahira,
+correm agora, com soberba vida, uma gorda e vermelha Theresinha, minha
+afilhada, e um Jacinthinho, senhor muito da minha amisade. E, pae de
+familia, principiára a fazer-se monotono, pela perfeição da belleza
+moral, aquelle homem tão pittoresco pela inquietação philosophica, e
+pelos variados tormentos da phantasia insaciada. Quando elle agora, bom
+sabedor das cousas da lavoura, percorria comigo a quinta, em solidas
+palestras agricolas, prudentes e sem chimeras--eu quasi lamentava esse
+outro Jacintho que colhia uma theoria em cada ramo d'arvore, e riscando
+o ar com a bengala, planeava queijeiras de cristal e porcellana, para
+fabricar queijinhos que custariam duzentos mil réis cada um!
+
+Tambem a paternidade lhe despertára a responsabilidade. Jacintho possuia
+agora um caderno de contas, ainda pequeno, rabiscado a lapis, com
+falhas, e papeluchos soltos entremeados, mas onde as suas despezas, as
+suas rendas se alinhavam, como duas hostes disciplinadas. Visitára já as
+suas propriedades de Montemór, da Beira; e concertava, mobilava as
+velhas casas d'essas propriedades para que os seus filhos, mais tarde,
+crescidos, encontrassem «ninhos feitos». Mas onde eu reconheci que
+definitivamente um perfeito e ditoso equilibrio se estabelecera na alma
+do meu Principe, foi quando elle, já sabido d'aquelle primeiro e ardente
+fanatismo da Simplicidade--entreabrio a porta de Tormes á Civilisação.
+Dous mezes antes de nascer a Theresinha, uma tarde, entrou pela avenida
+de platanos uma chiante e longa fila de carros, requisitados por toda a
+freguesia, e acuculados de caixotes. Eram os famosos caixotes, por tanto
+tempo encalhados em Alba de Tormes, e que chegavam, para despejar a
+Cidade sobre a Serra. Eu pensei:--Mau! o meu pobre Jacintho teve uma
+recahida! Mas os confortos mais complicados, que continha aquella
+caixotaria temerosa, foram, com surpreza minha, desviados para os sotãos
+immensos, para o pó da inutilidade: e o velho solar apenas se regalou
+com alguns tapetes sobre os seus soalhos, cortinas pelas janellas
+desabrigadas, e fundas poltronas, fundos sofás, para que os repousos,
+por que elle suspirára, fossem mais lentos e suaves. Attribui esta
+moderação a minha prima Joanninha, que amava Tormes na sua nudez rude.
+Ella jurou que assim o ordenára o seu Jacintho. Mas, decorridas semanas,
+tremi. Apparecera, vindo de Lisboa, um contra-mestre, com operarios, e
+mais caixotes, para installar um telephone!
+
+--Um telephone, em Tormes, Jacintho?
+
+O meu Principe explicou, com humildade:
+
+--Para casa de meu sogro!... Bem vês.
+
+--Era rasoavel e carinhoso. O telephone porém, subtilmente, mudamente,
+estendeu outro longo fio, para Valverde. E Jacintho, alargando os
+braços, quasi supplicante:
+
+--Para casa do medico. Comprehendes...
+
+Era prudente. Mas, certa manhã, em Guiães, accordei aos berros da tia
+Vicencia! Um homem chegára, mysterioso, com outros homens, trazendo
+arame, para installar na nossa casa o novo invento. Soceguei a tia
+Vicencia, jurando que essa machina nem fazia barulho, nem trazia
+doenças, nem attrahia as trovoadas. Mas corri a Tormes. Jacintho sorrio,
+encolhendo os hombros:
+
+--Que queres? Em Guiães está o boticario, está o carniceiro... E,
+depois, estás tu!
+
+Era fraternal. Todavia pensei: Estamos perdidos! Dentro d'um mez temos a
+pobre Joanna a apertar o vestido por meio d'uma machina! Pois não! o
+Progresso, que, á intimação de Jacintho, subira a Tormes a estabelecer
+aquella sua maravilha, pensando talvez que conquistára mais um reino
+para desfear, desceu, silenciosamente, desilludido, e não avistamos mais
+sobre a serra a sua hirta sombra côr de ferro e de fuligem. Então
+comprehendi que, verdadeiramente, na alma de Jacintho se estabelecera o
+equilibrio da vida, e com elle a Gran-Ventura, de que tanto tempo elle
+fôra o principe sem Principado. E uma tarde, no pomar, encontrando o
+nosso velho Grillo, agora reconciliado com a serra, desde que a serra
+lhe dera meninos para trazer ás cavalleiras, observei ao digno preto,
+que lia o seu _Figaro_, armado de immensos oculos redondos:
+
+--Pois, Grillo, agora realmente bem podemos dizer que o Snr. D. Jacintho
+está firme.
+
+O Grillo arredou os oculos para a testa, e levantando para o ar os cinco
+dedos em curva como petalas d'uma tulipa:
+
+--S. ex.^a brotou!
+
+Profundo sempre o digno preto! Sim! Aquelle resequido galho de Cidade,
+plantado na serra, pegára, chupára o humus do torrão herdado, creára
+seiva, afundára raizes, engrossára de tronco, atirára ramos, rebentára
+em flôres, forte, sereno, ditoso, benefico, nobre, dando fructos,
+derramando sombra. E abrigados pela grande arvore, e por ella nutridos,
+cem casaes em redor a bemdiziam.
+
+
+
+
+XVI
+
+
+Muitas vezes Jacintho, durante esses annos, fallára com prazer n'um
+regresso de dous, tres mezes, ao 202, para mostrar Paris á prima
+Joanninha. E eu seria o companheiro fiel, para archivar os espantos da
+minha serrana ante a Cidade! Depois conveio em esperar que o Jacinthinho
+completasse dous annos, para poder jornadear sem desconforto, e
+apontando já com o seu dedo para as cousas da Civilisação. Mas, quando
+elle, em Outubro, fez esses dous annos desejados, a prima Joanninha
+sentiu uma preguiça immensa, quasi aterrada, do comboio, do estridor da
+Cidade, do 202, e dos seus esplendores. «Estamos aqui tão bem! está um
+tempo tão lindo!» murmurava, deitando os braços, sempre deslumbrada, ao
+rijo pescoço do seu Jacintho. Elle desistia logo de Paris, encantado.
+«Vamos para Abril, quando os castanheiros dos Campos-Elyseos estiverem
+em flôr!» Mas em Abril vieram aquelles cansaços que immobilisavam a
+prima Joanninha no divan, ditosa, risonha, com umas pintas na pelle, e o
+roupão mais solto. Por todo um longo anno estava desfeita a alegre
+aventura. Eu andava então soffrendo de desoccupação. As chuvas de Março
+promettiam uma farta colheita. Uma certa Anna Vaqueira, córada e bem
+feita, viuva, que surtia as necessidades do meu coração, partira com o
+irmão para o Brazil, onde elle dirigia uma venda. Desde o inverno,
+sentia tambem no corpo como um começo de ferrugem, que o emperrava, e,
+certamente, algures, na minha alma, nascera uma pontinha de bolor.
+Depois a minha egoa morreu... Parti eu para Paris.
+
+Logo em Hendaya, apenas pisei a doce terra de França, o meu pensamento,
+como pombo a um velho pombal, voou ao 202,--talvez por eu vêr um enorme
+cartaz em que uma mulher nua, com flôres bacchanticas nas tranças, se
+estorcia, segurando n'uma das mãos uma garrafa espumante, e brandindo na
+outra, para o annunciar ao Mundo, um novo modelo de saca-rolhas. E oh
+surpresa! eis que, logo adeante, na estação quieta e clara de Saint
+Jean-de-Luz, um moço esbelto, de perfeita elegancia, entra vivamente no
+meu compartimento, e, depois de me encarar, grita:
+
+--Eh, Fernandes!
+
+Marizac! O duque de Marizac! Era já o 202... Com que reconhecimento lhe
+sacudi a mão fina, por elle me ter reconhecido! E, atirando para o canto
+do vagon um paletó, um masso de jornaes, que o escudeiro lhe passára, o
+bom Marizac exclamava na mesma surpreza alegre:
+
+--E Jacintho?
+
+Contei Tormes, a serra, o seu primeiro amor pela Natureza, o seu outro
+grande amor por minha prima, e os dous filhos, que elle trazia
+escarranchados no pescoço.
+
+--Ah que canalha! exclamou Marizac com os olhos espetados em mim! É
+capaz de ser feliz!
+
+--Espantosamente, loucamente... Qual! não ha adverbios...
+
+--Indecentemente--murmurou Marizac muito serio. Que canalha!
+
+Eu então desejei saber do nosso rancho familiar do 202. Elle encolheu os
+hombros, accendendo a cigarette:
+
+--Todo esse mundo circula...
+
+--Madame d'Oriol?
+
+--Continúa.
+
+--Os Trèves? o Ephraim?
+
+--Continuam, todos tres.
+
+Lançou um gesto languido.
+
+--Durante cinco annos, em Paris, tudo continúa... As mulheres com um
+pouco mais de pós d'arroz, e a pelle um pouco mais molle, e melada. Os
+homens com um tanto mais de dispepsia. E tudo segue. Tivemos os
+Anarchistas. A princeza de Carman abalou com um acrobata do Circo de
+Inverno... E--e voilà!
+
+--Dornan?
+
+--Continúa... Não o encontrei mais desde o 202. Mas vejo ás vezes o nome
+d'elle, no _Boulevard_, com versos preciosos, obscenidades muito
+apuradas, muito subtis.
+
+--E o Psychologo?... Ora, como se chamava elle?...
+
+--Continúa tambem. Sempre com as feminices a tres francos e cincoenta...
+Duquezas em camisa, almas núas... Cousas que se vendem bem!
+
+Mas quando eu, encantado, ia indagar de Todelle, do Grão-Duque, o
+comboio entrou na estação de Biarritz:--e rapidamente, apanhando o
+paletot e os jornaes, depois de me apertar a mão, o delicioso Marizac
+saltou pela portinhola, que o seu creado abrira, gritando:
+
+--Até Paris!... Sempre rue Cambori.
+
+Então, no compartimento solitario, bocejei, com uma estranha sensação de
+monotonia, de saciedade, como cercado já de gentes muito vistas,
+murmurando historias muito sabidas, e cousas muito ditas, atravez de
+sorrisos estafados. Dos dous lados do comboio era a longa planicie
+monotona, sem variedade, muito miudamente cultivada, muito miudamente
+retalhada, d'um verde de rezeda, verde cinzento e apagado, onde nenhum
+lampejo, nem tom alegre de flôr, nem acidente do solo, desmanchavam a
+mediocridade discreta e ordeira. Pallidos choupos, em renques pautados e
+finos, bordavam canaesinhos muito direitos e claros. Os casaes, todos da
+mesma côr pardacenta, mal se elevavam do solo, mal se destacavam da
+verdura desbotada, como encolhidos na sua mediocridade e cautella. E o
+ceu, por cima, liso, sem uma nuvem, com um sol descórado, parecia um
+vasto espelho muito lavado a grande agoa, até que de todo se lhe safasse
+o esmalte e o brilho. Adormeci n'uma doce insipidez.
+
+Com que linda manhã de Maio entrei em Paris! Tão fresca e fina, e já
+macia, que, apesar de cansado, mergulhei com repugnancia no profundo,
+sombrio leito do Grand-Hotel, todo fechado de espessos velludos, grossos
+cordões, pesadas borlas, como um palanque de gala. N'essa profunda cova
+de pennas sonhei que em Tormes se construira uma torre Eiffel e que em
+volta d'ella as senhoras da Serra, as mais respeitaveis, a propria tia
+Albergaria, dançavam, núas, agitando no ar saca-rolhas immensos. Com as
+commoções d'este pesadello, e depois o banho, e o desemmalar da mala, já
+se acercavam as duas horas quando emfim emergi do grande portão, pisei,
+ao cabo de cinco annos, o Boulevard. E immediatamente me pareceu que
+todos esses cinco annos eu ali permanecera á porta do Grand-Hotel, tão
+estafadamente conhecido me era aquelle estridente rolar da cidade, e as
+magras arvores, e as grossas taboletas, e os immensos chapeus emplumados
+sobre tranças pintadas d'amarello, e as empertigadas sobrecasacas com
+grossas rosetas da legião d'honra, e os garotos, em voz rouca e baixa,
+offerecendo baralhos de cartas obscenas, caixas de phosphoros
+obscenas... Santo Deus! pensei, ha que annos eu estou em Paris! Comprei
+então, n'um kiosque, um jornal, a Voz de Paris, para que elle me
+contasse, durante o almoço, as novas da Cidade. A mesa do kiosque
+desapparecia, alastrada de jornaes illustrados:--e em todos se repetia a
+mesma mulher, sempre núa, ou meia despida, ora mostrando as costellas
+magras, de gata faminta, ora voltando para o Leitor duas tremendas
+nadegas... Eu outra vez murmurei:--Santo Deus! No café da Paz, o creado
+livido, e com um resto de pó de arroz sobre a sua lividez, aconselhou ao
+meu appetite, por ser tão tarde, um lingoado frito e uma costelleta.
+
+--E que vinho, snr. Conde?
+
+--Chablis, snr. Duque!
+
+Elle sorrio á minha deliciosa pilheria,--e eu abri, contente, a Voz de
+Paris. Na primeira columna, atravez d'uma prosa muito retorcida, toda em
+brilhos de joia barata, entrevi uma Princesa núa, e um Capitão de
+Dragões, que soluçava. Saltei a outras columnas, onde se contavam feitos
+de cocottes de nomes sonoros. Na outra pagina escriptores eloquentes
+celebravam vinhos digestivos e tonicos. Depois eram os crimes do
+costume.--Não ha nada de novo! Puz de parte a Voz de Paris,--e então
+foi, entre mim e o lingoado, uma lucta pavorosa. O miseravel, que se
+frigira rancorosamente contra mim, não consentia que eu descollasse da
+sua espinha uma febra escassa. Todo elle se ressequira n'uma sola
+impenetravel e tostada, onde a faca vergava, impotente e tremula. Gritei
+pelo môço livido, o qual, com faca mais rija, fincando no soalho os
+sapatos de fivella, arrancou emfim áquelle malvado duas tirinhas, finas
+e curtas como palitos, que engoli juntas, e me esfomearam. D'uma garfada
+findei a costelleta. E paguei quinze francos com um bom luiz d'ouro. No
+trôco, que o moço me deu, com a polidez requintada d'uma civilisação
+muito diffundida, havia dous francos falsos. E por aquella dôce tarde de
+Maio sahi para tomar no terraço um café côr de chapéo côco, que sabia a
+fava.
+
+Com o charuto acceso contemplei o Boulevard, áquella hora em toda a
+pressa e estridor da sua grossa sociabilidade. A densa torrente dos
+omnibus, calhambeques, carroças, parelhas de luxo, rolava vivamente,
+como toda uma escura humanidade formigando entre patas e rodas, n'uma
+pressa inquieta. Aquelle movimento continuado e rude bem depressa
+entonteceu este espirito, por cinco annos affeito á quietação das serras
+immutaveis. Tentava então, puerilmente, repousar n'alguma forma immovel,
+omnibus parado, fiacre que estacára, n'um brusco escorregar da pileca:
+mas logo algum dorso apressado se encafuava pela portinhola da tipoia,
+ou um cacho de figuras escuras trepava sofregamente para o omnibus:--e,
+rapido, recomeçava o rolar retumbante. Immoveis, de certo, estavam os
+altos predios hirtos, ribas de pedra e cal, que continham,
+disciplinavam, aquella torrente offegante. Mas da rua aos telhados, em
+cada varanda, por toda a fachada, eram taboletas encimando taboletas,
+que outras taboletas apertavam:--e mais me cançava o perceber a tenaz
+incessancia do trabalho latente, a devorante canceira do lucro,
+arquejante por traz das frontarias decorosas e mudas. Então, emquanto
+fumava o meu charuto, extranhamente se apossaram de mim os sentimentos
+que Jacintho outr'ora experimentára no meio da Natureza, e que tanto me
+divertiam. Ali, á porta do café, entre a indifferença e a pressa da
+Cidade, tambem eu senti, como elle no campo, a vaga tristeza da minha
+fragilidade e da minha solidão. Bem certamente estava ali como perdido
+n'um mundo, que me não era fraternal. Quem me conhecia? Quem se
+interessaria por Zé Fernandes? Se eu sentisse fome, e o confessasse,
+ninguem me daria metade do seu pão. Por mais afflictamente que a minha
+face revelasse uma angustia, ninguem na sua pressa pararia para me
+consolar. De que me serviriam tambem as excellencias d'alma, que só na
+alma florescem? Se eu fosse um santo, aquella turba não se importaria
+com a minha santidade; e se eu abrisse os braços e gritasse, ali no
+Boulevard--«ó homens, meus irmãos!» os homens, mais ferozes que o lôbo
+ante o Pobresinho d'Assis, ririam e passariam indifferentes. Dous
+impulsos unicos, correspondendo a duas funcções unicas, parecia estarem
+vivos n'aquella multidão,--o lucro e o gôso. Isolada entre elles, e ao
+contagio ambiente da sua influencia, em breve a minha alma se
+contrahiria, se tornaria n'um duro calhau de Egoismo. Do ser que eu
+trouxera da Serra só restaria em pouco tempo esse calhau, e n'elle,
+vivos, os dous appetites da Cidade,--encher a bolsa, saciar a carne! E
+pouco a pouco as mesmas exagerações de Jacintho perante a Natureza me
+invadiam perante a Cidade. Aquelle Boulevard reçumava para mim um bafo
+mortal, extrahido dos seus milhões de microbios. De cada porta me
+parecia sahir um ardil para me roubar. Em cada face, avistada á
+portinhola d'um fiacre, suspeitava um bandido em manobra. Todas as
+mulheres me pareciam caiadas como sepulchros, tendo só podridão por
+dentro. E considerava d'uma melancolia funambulesca as fórmas de toda
+aquella Multidão, a sua pressa aspera e vã, a affectação das attitudes,
+as immensas plumas das chapeletas, as expressões postiças e falsas, a
+pompa dos peitos alteados, o dorso redondo dos velhos olhando as imagens
+obscenas das vitrines. Ah! tudo isto era pueril, quasi comico da minha
+parte, mas é o que eu sentia no Boulevard, pensando na necessidade de
+remergulhar na Serra, para que ao seu puro ar se me despegasse a crosta
+da Cidade, e eu resurgisse humano, e Zé-Fernandico!
+
+Então, para dissipar aquelle pesadume de solidão, paguei o café e parti,
+lentamente, a visitar o 202. Ao passar na Magdalena, deante da estação
+dos omnibus, pensei:--Que será feito de Madame Colombe? E, oh miseria!
+pelo meu miseravel ser subiu uma curta e quente baforada de desejo bruto
+por aquella besta suja e magra! Era o charco onde eu me envenenara, e
+que me envolvia nas emanações subtis do seu veneno. Depois, ao dobrar da
+rue Royale para a Praça da Concordia, topei com um robusto e possante
+homem, que estacou, ergueu o braço, ergueu o vozeirão, n'um modo de
+commando:
+
+--Eh, Fernandes!
+
+O Grão-Duque! O bello Grão-Duque, de jaquetão alvadio e chapeu tyrolez
+côr de mel! Apertei com gratidão reverente a mão do Principe, que me
+reconhecera.
+
+--E Jacintho? Em Paris?...
+
+Contei Tormes, a serra, o rejuvenescimento do nosso amigo entre a
+Natureza, a minha dôce prima, e os bravos pequenos, que elle trazia ás
+cavalleiras. O Grão-Duque encolheu os hombros, desolado:
+
+--Oh lá, lá, lá!... Peuh! Casado, na aldeia, com filharada... Homem
+perdido! Ora não ha!... E um rapaz util! que nos divertia, e tinha
+gosto! Aquelle jantar côr de rosa foi uma festa linda... Não se fez, não
+se tornou a fazer nada tão brilhante em Paris... E Madame d'Oriol...
+Ainda ha dias a vi no Palacio de Gelo... Potavel, mulher ainda muito
+potavel... Não é todavia o meu genero... Adocicada, leitosa, pommadada,
+neve á la vanille!... Ora esse Jacintho!...
+
+--E Vossa Alteza, em Paris com demora?
+
+O formidavel homem baixou a face, franzida e confidencial:
+
+--Nenhuma. Paris não se aguenta... Está estragado, positivamente
+estragado... Nem se come! Agora é o Ernest, da Praça Gaillon, o Ernest,
+que era maitre-d'hotel do Maire... Já lá comeu? Um horror. Tudo é o
+Ernest, agora! Onde se come? No Ernest. Qual! Ainda esta manhã lá
+almocei... Um horror! Uma salada Chambord... palhada, indecentemente
+palhada! Não tem, não tem a noção da salada! Paris foi! Theatros, uma
+estopada. Mulheres, hui! Lambidas todas. Não ha nada! Ainda assim, n'um
+dos theatritos de Montmartre, na Roulotte, está uma revista, que se vê:
+_Para cá as mulheres_!--engraçada, bem despida... A Celestine tem uma
+cantiga, meia sentimental, meia porca, o _Amor no Water-Closet_, que
+diverte, tem topete... Onde está, Fernandes?
+
+--No Grand-Hotel, meu senhor.
+
+--Que barraca!... E o seu Rei sempre bom?
+
+Curvei a cabeça:
+
+--Sua Magestade, bem.
+
+--Estimo! Pois, Fernandes, tive prazer... Esse Jacintho é que me desola!
+Vá vêr a Revista... Boas pernas, a Celestine... E tem graça o tal _Amor
+no Water-Closet_.
+
+Um rijissimo aperto de mão,--e S. Alteza subiu pesadamente para a
+victoria, ainda com um aceno amavel, que me penhorou... Excellente
+homem, este Grão-Duque! Mais reconciliado com Paris, atravessei para os
+Campos-Elyseos. Em toda a sua nobre e formosa larguesa, toda verde, com
+os castanheiros em flôr, corriam, subindo, descendo, velocipedes. Parei
+a contemplar aquella fealdade nova, estes innumeraveis espinhaços
+arqueados, e gambias magras, agitando-se desesperadamente sobre duas
+rodas. Velhos gordos, de cachaço escarlate, pedalavam, gordamente.
+Galfarros esguios, de tibias descarnadas, fugiam n'uma linha esfusiada.
+E as mulheres, muito pintadas, de bolero curto, calções bufantes,
+giravam, mais rapidamente ainda, no prazer equivoco da carreira,
+escarranchadas em hastes de ferro. E a cada instante outras medonhas
+machinas passavam, victorias e phaetons a vapor, com uma complicação de
+tubos e caldeiras, torneiras e chaminés, rolando n'uma trepidação
+estridente e pesada, espalhando um grosso fedor de petroleo. Segui para
+o 202, pensando no que diria um grego do tempo de Phidias, se visse esta
+nova belleza e graça do caminhar humano!...
+
+No 202, o porteiro, o velho Vian, quando me reconheceu, mostrou uma
+alegria enternecedora. Não se fartou de saber do casamento de Jacintho,
+e d'aquelles queridos meninos. E era para elle uma felicidade que eu
+apparecesse, justamente quando tudo se andára limpando para a entrada da
+primavera. Quando penetrei na amada casa senti mais vivamente a minha
+solidão. Não restava em toda ella nem um dos costumados aspectos que
+fizessem reviver a velha camaradagem com o meu Principe. Logo na
+ante-camara grandes lonas cobriam as tapessarias heroicas, e egual lona
+parda escondia os estofos das cadeiras e dos muros, e as largas estantes
+d'ebano da Bibliotheca, onde os trinta mil volumes, nobremente
+enfileirados como Doutores n'um Concilio, pareciam separados do mundo
+por aquelle panno que sobre elles descera depois de finda a comedia da
+sua força e da sua auctoridade. No gabinete de Jacintho, de sobre a mesa
+d'escripta, desapparecera aquella confusão de instrumentosinhos, de que
+eu perdera já a memória: e só a Mechanica sumptuosa, por sobre peanhas e
+pedestaes, recentemente espanejada, reluzia, com as suas engrenagens,
+tubos, rodas, rigidezes de metaes, n'uma frieza inerte, na inactividade
+definitiva das cousas desusadas, como já dispostas n'um Museu, para
+exemplificar a instrumentação caduca d'um mundo passado. Tentei mover o
+telephone, que se não moveu; a mola da electricidade não accendeu nenhum
+lume: todas as forças universaes tinham abandonado o serviço do 202,
+como servos despedidos. E então, passeando atravez das salas, realmente
+me pareceu que percorria um museu d'antiguidades; e que mais tarde
+outros homens, com uma comprehensão mais pura e exacta da Vida e da
+Felicidade, percorreriam como eu, longas salas, atulhadas com os
+instrumentos da Super-Civilisação, e, como eu, encolheriam
+desdenhosamente os hombros ante a grande Illusão que findára, agora para
+sempre inutil, arrumada como um lixo historico, guardada debaixo de
+lona.
+
+Quando sahi do 202 tomei um fiacre, subi ao Bosque de Bolonha. E apenas
+rolára momentos pela avenida das Acacias, no silencio decoroso,
+unicamente cortado pelo tilintar dos freios e pelas rodas vagarosas
+esmagando a areia, comecei a reconhecer as velhas figuras, sempre com o
+mesmo sorriso, o mesmo pó d'arroz; as mesmas palpebras amortecidas, os
+mesmos olhos farejantes, a mesma immobilidade de cêra! O romancista da
+_Couraça_ passou n'uma victoria, fixou em mim o monoculo defumado, mas
+permaneceu indifferente. Os bandós negros de Madame Verghane,
+tapando-lhe as orelhas, pareciam ainda mais furiosamente negros entre a
+harmonia de todo o branco que a vestia, chapéo, plumas, flôres, rendas e
+corpete, onde o seu peito immenso se empolava como uma onda. No passeio,
+sob as Acacias, espapado em duas cadeiras, o director do _Boulevard_
+mamava o resto do seu charuto. E n'um grande landeau, Madame de Trèves
+continuava o seu sorriso de ha cinco annos, com duas pregasinhas mais
+molles aos cantos dos labios seccos.
+
+Abalei para o Grand-Hotel, bocejando,--como outr'ora Jacintho. E findei
+o meu dia de Paris, no Theatro das Variedades, estonteado com uma
+comedia muito fina, muito acclamada, toda faiscante do mais vivo
+parisianismo, em que todo o enredo se enrodilhava á volta d'uma Cama,
+onde alternadamente se espojavam mulheres em camisa, sujeitos gordos em
+ceroulas, um coronel com papas de linhaça nas nadegas, cosinheiras de
+meias de sêda bordadas, e ainda mais gente, ruidosa e saltitante, a
+esfusiar de cio e de pilheria. Tomei um chá melancolico no Julien, no
+meio de um aspero e lugubre namoro de prostitutas, fariscando a preza.
+Em duas d'ellas, de pelle oleosa e cobreada, olhos obliquos, cabellos
+duros e negros como clinas, senti o Oriente, a sua provocação felina...
+Interroguei o creado, um medonho ser, d'uma obesidade balofa e livida,
+d'eunuco. O monstro explicou n'uma voz roufenha e surda:
+
+--Mulheres de Madagascar... Foram importadas quando a França occupou a
+ilha!
+
+Arrastei então por Paris dias d'immenso tedio. Ao longo do Boulevard
+revi nas vitrines todo o luxo, que já me enfartára havia cinco annos,
+sem uma graça nova, uma curta frescura de invenção. Nas livrarias, sem
+descobrir um livro, folheava centenas de volumes amarellos, onde, de
+cada pagina que ao acaso abria, se exhalava om cheiro môrno d'alcova e
+de pós d'arroz, entre linhas trabalhadas com effeminado arrebique, como
+rendas de camisas. Ao jantar, em qualquer restaurante, encontrava,
+ornando e disfarçando as carnes ou as aves, o mesmo môlho, de côres e
+sabores de pomada, que já de manhã, n'outro restaurante, espelhado e
+dourejado, me enjoára no peixe e nos legumes. Paguei por grossos preços
+garrafas do nosso adstringente e rustico vinho de Torres, ennobrecido
+com o titulo de Château isto, Château aquillo, e pó postiço no gargalo.
+Á noite, nos theatros, encontrava a Cama, a costumada cama, como centro
+e unico fim da vida, attrahindo, mais fortemente que o monturo attrahe
+os moscardos, todo um enxame de gentes, estonteadas, frementes
+d'erotismo, zumbindo chacotas senis. Esta sordidez da Planicie me levou
+a procurar melhor aragem d'espirito nas alturas da Collina, em
+Montmartre; e ahi, no meio d'uma multidão elegante de Senhoras, de
+Duquezas, de Generaes, de todo o alto pessoal da Cidade, eu recebia, do
+alto do palco, grossos jorros de obscenidades, que faziam estremecer de
+goso as orelhas cabelludas de gordos banqueiros, e arfar com delicia os
+corpetes de Worms e de Doucet, sobre os peitos postiços das nobres
+damas. E recolhia enjoado com tanto relento d'Alcova, vagamente
+dispeptico com os môlhos de pomada do jantar, e sobre tudo descontente
+comigo, por me não divertir, não comprehender a Cidade, e errar atravez
+d'ella e da sua Civilisação Superior, com a reserva ridicula d'um
+Censor, d'um Catão austero. Oh senhores!--pensava,--pois eu não me
+divertirei nesta deliciosa Cidade? Entrará comigo o bolor da velhice?
+
+Passei as pontes, que separam em Paris o Temporal do Espiritual,
+mergulhei no meu doce Bairro Latino, evoquei, deante de certos cafés, a
+memoria da minha Nini; e, como outr'ora, preguiçosamente, subi as
+escadas da Sorbonne. N'um amphitheatro, onde sentira um grosso susurro,
+um homem magro, com uma testa muito branca e larga, como talhada para
+alojar pensamentos altos e puros, ensinava, falando das instituições da
+Cidade Antiga. Mas, mal eu entrára, o seu dizer elegante e limpido foi
+suffocado por gritos, urros, patadas, um tumulto rancoroso de troça
+bestial, que sahia da mocidade apinhada nos bancos, a mocidade das
+Escolas, Primavera sagrada, em que eu fôra flôr murcha. O Professor
+parou, espalhando em redor um olhar frio, e remexendo as suas notas.
+Quando o grosso grunhido se moderou em susurro desconfiado, elle
+recomeçou com alta serenidade. Todas as suas ideias eram frias e
+substanciaes, expressas n'uma lingoa pura e forte; mas, immediatamente,
+rompe uma furiosa rajada de apitos, uivos, relinchos, cacarejos de
+gallo, por entre magras mãos, que se estendiam levantadas para
+estrangular as ideias. Ao meu lado um velho, encolhido na alta gola d'um
+macfrelane de xadrezes, contemplava o tumulto com melancolia, pingando
+endefluxado. Perguntei ao velho:
+
+--Que querem elles? É embirração com o professor... é politica?
+
+O velho abanou a cabeça, espirrando:
+
+--Não... É sempre assim, agora, em todos os cursos... Não querem
+ideias... Creio que queriam cançonetas. É o amor da porcaria e da troça.
+
+Então, indignado, berrei:
+
+--Silencio, brutos!
+
+E eis que um abortosinho de rapaz, amarellado e sebento, de longas
+melenas, umas enormes lunetas rebrilhantes, se arrebita, me fita, e me
+berra:
+
+--_Sale Maure_!
+
+Ergui o meu grosso punho serrano,--e o desgraçado, n'uma confusão de
+melenas, com sangue por toda a face, alluio, como um montão de trapos
+molles, ganindo desesperadamente, em quanto o furacão de uivos e
+cacarejos, guinchos e silvos, envolvia o Professor, que cruzára os
+braços, esperando, com uma serenidade simples.
+
+Desde esse momento decidi abandonar a fastidiosa Cidade; e o unico dia
+alegre e divertido que n'ella passei foi o derradeiro, comprando para os
+meus queridinhos de Tormes brinquedos consideraveis, tremendamente
+complicados pela Civilisação,--vapores de aço e cobre, providos de
+caldeiras para viajar em tanques; leões de pelle veridica rugindo
+pavorosamente, bonecas vestidas pela Laferrière, com phonographo no
+ventre...
+
+Finalmente abalei uma tarde, depois de lançar da minha janella, sobre o
+Boulevard, as minhas despedidas á Cidade:
+
+--Pois adeusinho, até nunca mais! Na lama do teu vicio e na poeira da
+tua vaidade, outra vez, não me pilhas! O que tens de bom, que é o teu
+genio, elegante e claro, lá o receberei na Serra pelo correio.
+Adeusinho!
+
+Na tarde do seguinte Domingo, debruçado da janella do comboio, que
+vagarosamente deslisava pela borda do rio lento, n'um silencio todo
+feito d'azul e sol, avistei, na plata-forma da quieta estação da minha
+aldeia, os Senhores de Tormes, com a minha afilhada Thereza, muito
+vermelha, arregalando os seus soberbos olhos, e o bravo Jacinthinho, que
+empunhava uma bandeira branca. O alvoroço ditoso com que abracei e
+beijei aquella tribu bem amada conviria perfeitamente a quem voltasse
+vivo d'uma guerra distante, na Tartaria. Na alegria de recuperar a
+Serra, até beijoquei o chefe Pimentinha, que a estalar d'obesidade se
+açodava gritando ao carregador todo o cuidado com as minhas malas.
+
+Jacintho, magnifico, de grande chapéo serrano e jaqueta, de novo me
+abraçou:
+
+--E esse Paris?
+
+--Medonho!
+
+Abri depois os braços para o bravo Jacintinho.
+
+--Então para que é essa bandeira, meu cavalleiro?
+
+--É a bandeira do Castello! declarou elle, com uma bella seriedade nos
+seus grandes olhos.
+
+A mãe ria. Desde essa manhã, logo que soubera da chegada do Ti-Zé,
+appareceu de bandeira, feita pelo Grillo, e não a largára mais; com ella
+almoçára, com ella descera de Tormes!
+
+--Bravo! E, prima Joanninha, olhe que está magnifica! Eu, tambem, venho
+d'aquellas pelles meladas de Paris... Mas acho-a triumphal! E o tio
+Adrião, e a tia Vicencia?
+
+--Tudo optimo! gritou Jacintho. A serra, Deos louvado, prospera. E
+agora, para cima! Tu hoje ficas em Tormes. Para contar da Civilisação.
+
+No largo por traz da estação, debaixo dos eucalyptos, que revi com
+gosto, esperavam os tres cavallos, e dous bellos burros brancos, um com
+cadeirinha para a Thereza, outro com um cesto de verga, para metter
+dentro o heroico Jacinthinho, um e outro servidos á estribeira por um
+creado. Eu ajudára a prima Joanninha a montar, quando o carregador
+appareceu com um masso de jornaes e papeis, que eu esquecera na
+carruagem. Era uma papelada, de que me surtira na Estação d'Orleans,
+toda recheada de mulheres nuas, de historietas sujas, de parisianismo,
+d'erotismo. Jacintho, que as reconhecera, gritou rindo:
+
+--Deita isso fóra!
+
+E eu atirei, para um montão de lixo, ao canto do Pateo, aquelle putrido
+rebotalho da Civilisação. E montei. Mas ao dobrar para o caminho
+empinado da serra, ainda me voltei, para gritar adeus ao Pimenta, de
+quem me esquecera. O digno chefe, debruçado sobre o monturo, apanhava,
+sacudia, recolhia com amor aquellas bellas estampas, que chegavam de
+Paris, contavam as delicias de Paris, derramavam atravez do mundo a
+seducção de Paris.
+
+Em fila começamos a subir para a Serra. A tarde adoçava o seu esplendor
+d'estio. Uma aragem trazia, como offertados, perfumes das flôres
+silvestres. As ramagens moviam, com um aceno de doce acolhimento, as
+suas folhas vivas e relusentes. Toda a passarinhada cantava, n'um
+alvoroço de alegria e de louvor. As agoas correntes, saltantes,
+lusidias, despediam um brilho mais vivo, n'uma pressa mais animada.
+Vidraças distantes de casas amaveis, flammejavam com um fulgor d'ouro. A
+serra toda se offertava, na sua belleza eterna e verdadeira. E, sempre
+adiante da nossa fila, por entre a verdura, fluctuava no ar a bandeira
+branca, que o Jacinthinho não largava, de dentro do seu cesto, com a
+haste bem segura na mão. Era _a bandeira do Castello_, affirmára elle.
+
+E na verdade me parecia que, por aquelles caminhos, atravez da natureza
+campestre e mansa,--o meu Principe, atrigueirado nas soalheiras e nos
+ventos da serra, a minha prima Joanninha, tão doce e risonha mãe, os
+dois primeiros representantes da sua abençoada tribu, e eu--, tão longe
+de amarguradas illusões e de falsas delicias, trilhando um solo eterno,
+e de eterna solidez, com a alma contente, e Deus contente de nós,
+serenamente e seguramente subiamos--para o Castello da Gran-Ventura!
+
+
+Fim
+
+
+
+
+ADVERTENCIA
+
+
+Desde a pagina 241, até o final, as provas d'este livro não foram
+revistas pelo auctor, arrebatado pela morte antes de haver dado a esta
+parte da sua escripta aquella ultima demão, em que habitualmente elle
+punha a diligencia mais perseverante e mais admiravelmente lucida.
+
+Aquelle dos seus amigos e companheiro de letras, a quem foi confiado o
+trabalho delicado e piedoso de tocar no manuscripto posthumo de Eça de
+Queiroz, ao concluir o desempenho de tal missão, beija com o mais
+enternecido e saudoso respeito a mão, para todo sempre immobilisada, que
+traçou estas paginas encantadoras; e faz votos por que a revisão de que
+se incumbiu não deslustre muito grosseiramente a immortal aureola com
+que ficará resplandecendo na litteratura portugueza este livro, em que o
+espirito do grande escriptor parece exhalar-se da vida n'um terno
+suspiro de doçura, de paz, e de puro amor á terra da sua patria.
+
+24 de abril de 1901.
+
+
+
+
+*LIVRARIA CHARDRON de Lello & Irmão*
+
+96--CLERIGOS--98
+
+
+*Bazillio Telles*
+
+O problema agricola $600
+Estudos historicos e economicos $600
+
+_No prélo_:
+
+Introducção ao problema do trabalho nacional.
+
+
+*Abel Botelho*
+
+O barão de Lavos $800
+O livro d'Alda $800
+Sem remedio... $500
+
+_No prélo_:
+
+Amanhã.
+
+
+*José Caldas*
+
+Humildes $400
+Os Jesuitas; a sua influencia na actual
+ sociedade portugueza; meio de a conjurar _no prélo_
+
+
+*Sylvio Romero*
+
+Martins Penna $400
+
+
+*Rebello da Silva*
+
+Mocidade de D. João V. 1$500
+
+
+*Andrade Corvo*
+
+Um anno na côrte 1$500
+
+
+*Antonio C. Louzada*
+
+Rua escura $500
+Na consciencia $500
+
+
+*Dumas*
+
+Jorge ou o capitão dos piratas $500
+Tres mosqueteiros, 2 volumes 1$000
+
+
+*Lermina*
+
+Filho do Monte Christo, 2 volumes 1$000
+
+
+*Eugenio Sue*
+
+Mysterios de Paris, 3 volumes cart. 2$000
+
+
+*Zola*
+
+Naná $500
+Historia da lavadeira Gervasia, 2 vols 1$000
+O Capitão Burle $500
+Ventre de Paris, 2 vols 1$000
+
+
+*Arnaldo Gama*
+
+Caldeira de Pero Botelho $500
+Honra ou loucura $500
+Filho do Baldaia $600
+
+
+*Bruno*
+
+O Brazil mental $800
+Notas do exilio $500
+
+ * * * * *
+
+Historia da Prostituição 1$800
+
+
+*Camillo Castello Branco*
+
+Maria da Fonte $500
+Livro de consolação $500
+D. Luiz de Portugal $300
+Brazileira de Prazins $500
+Eusebio Macario $500
+Volcoens da lama $500
+Carta de guia de casados $300
+
+
+*Grainha*
+
+Jesuitas $600
+
+
+*Tolstoi*
+
+A Sonata de Kreutzer $400
+
+
+
+
+*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK A CIDADE E AS SERRAS ***
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+of this license, apply to copying and distributing Project
+Gutenberg-tm electronic works to protect the PROJECT GUTENBERG-tm
+concept and trademark. Project Gutenberg is a registered trademark,
+and may not be used if you charge for an eBook, except by following
+the terms of the trademark license, including paying royalties for use
+of the Project Gutenberg trademark. If you do not charge anything for
+copies of this eBook, complying with the trademark license is very
+easy. You may use this eBook for nearly any purpose such as creation
+of derivative works, reports, performances and research. Project
+Gutenberg eBooks may be modified and printed and given away--you may
+do practically ANYTHING in the United States with eBooks not protected
+by U.S. copyright law. Redistribution is subject to the trademark
+license, especially commercial redistribution.
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+START: FULL LICENSE
+
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+even without complying with the full terms of this agreement. See
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+electronic works. See paragraph 1.E below.
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+Foundation" or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection
+of Project Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual
+works in the collection are in the public domain in the United
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+DAMAGE.
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+without further opportunities to fix the problem.
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+in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS', WITH NO
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+trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
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+electronic works, harmless from all liability, costs and expenses,
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+or any Project Gutenberg-tm work, (b) alteration, modification, or
+additions or deletions to any Project Gutenberg-tm work, and (c) any
+Defect you cause.
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of
+computers including obsolete, old, middle-aged and new computers. It
+exists because of the efforts of hundreds of volunteers and donations
+from people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future
+generations. To learn more about the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation and how your efforts and donations can help, see
+Sections 3 and 4 and the Foundation information page at
+www.gutenberg.org
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non-profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
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+Archive Foundation are tax deductible to the full extent permitted by
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+The Foundation's business office is located at 809 North 1500 West,
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+to date contact information can be found at the Foundation's website
+and official page at www.gutenberg.org/contact
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+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
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+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without
+widespread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
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+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
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+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
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+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
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+any statements concerning tax treatment of donations received from
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+edition.
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+Most people start at our website which has the main PG search
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+<div style='display:block; margin:1em 0'>
+This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and
+most other parts of the world at no cost and with almost no restrictions
+whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms
+of the Project Gutenberg License included with this eBook or online
+at <a href="https://www.gutenberg.org">www.gutenberg.org</a>. If you
+are not located in the United States, you will have to check the laws of the
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+<div style='display:block; margin-top:1em; margin-bottom:1em; margin-left:2em; text-indent:-2em'>Title: A Cidade e as Serras</div>
+<div style='display:block; margin-top:1em; margin-bottom:1em; margin-left:2em; text-indent:-2em'>Author: Eça Queirós</div>
+<div style='display:block; margin:1em 0'>Release Date: April 21, 2006 [eBook #18220]<br />
+[Most recently updated: December 8, 2022]</div>
+<div style='display:block; margin:1em 0'>Language: Portuguese</div>
+<div style='display:block; margin:1em 0'>Character set encoding: UTF-8</div>
+<div style='display:block; margin-left:2em; text-indent:-2em'>Produced by: Rita Farinha and the Online Distributed Proofreading Team</div>
+<div style='margin-top:2em; margin-bottom:4em'>*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK A CIDADE E AS SERRAS ***</div>
+
+<div>
+<br />
+
+<br />
+
+<h1>EÇA DE QUEIROZ </h1>
+
+<h1>A CIDADE E AS SERRAS </h1>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h2>PORTO </h2>
+
+<h2>LIVRARIA CHARDRON </h2>
+
+<h2>De Lello &amp; Irm&atilde;o, editores </h2>
+
+<h2>1901 </h2>
+
+<h3>
+Todos os direitos reservados </h3>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;" class="bbox"><br />
+
+<br />
+
+EÇA
+DE QUEIROZ<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<big><big><b>A CIDADE E AS SERRAS</b></big></big><br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<img style="width: 97px; height: 115px;" alt="" src="images/p1.jpg" /><br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+PORTO<br />
+
+LIVRARIA CHARDRON<br />
+
+De Lello &amp; Irm&atilde;o, editores<br />
+
+1901<br />
+
+<br />
+
+Todos os direitos reservados<br />
+
+<br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+Pertence no Brazil o direito de propriedade d'esta obra ao
+cidad&atilde;o Francisco Alves, livreiro editor no Rio de Janeiro,
+que, para a
+garantia que lhe offerece a lei n.&ordm; 496 de 1 d'Agosto de 1898,
+fez o competente
+deposito na Bibliotheca nacional, segundo a
+determinaç&atilde;o do art. 13.&ordm; da mesma Lei. <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="break">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;">
+<em>Porto&#8213;Imprensa Moderna</em></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;"><img style="width: 282px; height: 444px;" alt="" src="images/p2.jpg" />
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h1>A CIDADE E AS SERRAS </h1>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h2>Obras do mesmo auctor:</h2>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td><span style="font-weight: bold;">Revista
+de Portugal.</span> 4 grossos volumes</td>
+
+ <td style="text-align: right;">12$000</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td><span style="font-weight: bold;">As minas
+de Salom&atilde;o.</span> 1 volume</td>
+
+ <td style="text-align: right;">$600</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td><span style="font-weight: bold;">Os Maias.</span>
+2 grossos volumes</td>
+
+ <td style="text-align: right;">2$000</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td><span style="font-weight: bold;">O crime
+do padre Amaro.</span> Terceira ediç&atilde;o
+inteiramente refundida, recomposta, e differente na fórma e
+na acç&atilde;o da ediç&atilde;o
+primitiva.<br />
+
+1 grosso volume</td>
+
+ <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;">1$200</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td><span style="font-weight: bold;">O primo
+Bazilio.</span> Quarta ediç&atilde;o. 1 grosso
+volume</td>
+
+ <td style="text-align: right;">1$000</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td><span style="font-weight: bold;">A
+Reliquia.</span> 1 grosso volume</td>
+
+ <td style="text-align: right;">1$000</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td><span style="font-weight: bold;">O
+Mandarim.</span> Quarta ediç&atilde;o. 1 volume</td>
+
+ <td style="text-align: right;">$500 </td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td><span style="font-weight: bold;">Correspondencia
+de Fradique Mendes.</span> 1 volume</td>
+
+ <td style="text-align: right;">$600 </td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td><span style="font-weight: bold;">A
+illustre casa de Ramires.</span> 1 volume</td>
+
+ <td style="text-align: right;">1$000 </td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h1>A CIDADE E AS SERRAS</h1>
+
+<h2>I</h2>
+
+<br />
+
+<br />
+
+O meu amigo Jacintho nasceu n'um palacio, com cento e nove contos de
+renda em terras de semeadura, de vinhedo, de cortiça e
+d'olival.
+No Alemtejo, pela Extremadura, atravez das duas Beiras, densas sebes
+ondulando por collina e valle, muros altos de boa pedra, ribeiras,
+estradas, delimitavam os campos d'esta velha familia agricola que
+j&aacute;
+entulhava gr&atilde;o e plantava cepa em tempos d'el-rei D. Diniz.
+A sua quinta e casa senhorial de Tormes, no Baixo Douro, cobriam uma
+serra. Entre o Tua e o Tinhela, por cinco fartas legoas, todo o
+torr&atilde;o lhe
+pagava f&ocirc;ro. E cerrados pinheiraes seus negrejavam desde Arga
+at&eacute; ao mar
+d'Ancora.
+Mas o palacio onde Jacintho nasc&ecirc;ra, e onde sempre
+habit&aacute;ra, era em Paris, nos Campos Elyseos, n.&ordm;
+202. <span class="pagenum">[2]</span>
+Seu av&ocirc;, aquelle gordissimo e riquissimo Jacintho a quem
+chamavam em Lisboa o <em>D. Gali&atilde;o</em>,
+descendo uma tarde pela travessa da Trabuqueta,
+rente d'um muro de quintal que uma parreira toldava, escorregou n'uma
+casca de laranja e desabou no lagedo. Da portinha da horta sahia n'esse
+momento um homem moreno, escanhoado, de grosso casaco de
+baet&atilde;o verde e
+botas altas de picador, que, galhofando e com uma força
+facil, levantou
+o enorme Jacintho&#8213;at&eacute; lhe apanhou a bengala de
+cast&atilde;o d'ouro que rol&aacute;ra
+para o lixo. Depois, demorando n'elle os olhos pestanudos e pretos: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Oh Jacintho Gali&atilde;o, que andas tu aqui, a estas horas, a
+rebolar pelas
+pedras? <br />
+
+<br />
+
+E Jacintho, aturdido e deslumbrado, reconheceu o snr. Infante D.
+Miguel! <br />
+
+<br />
+
+Desde essa tarde amou aquelle bom Infante como nunca am&aacute;ra,
+apesar de
+t&atilde;o guloso, o seu ventre, e apesar de t&atilde;o devoto
+o seu Deus! Na sala
+nobre da sua casa (&aacute; Pampulha) pendurou sobre os damascos o
+retrato do
+&laquo;seu Salvador&raquo;, enfeitado de palmitos como um
+retabulo, e por baixo a
+bengala que as magnanimas m&atilde;os reaes tinham erguido do lixo.
+Emquanto o adoravel, desejado Infante penou no desterro de Vienna, o
+barrigudo
+senhor corria, sacudido na sua sege amarella, do botequim<span class="pagenum">[3]</span> do
+Z&eacute;-Maria em
+Belem &aacute; botica do Placido nos Algibebes, a gemer as saudades
+do
+<em>anginho</em>, a tramar o regresso do
+<em>anginho</em>. No dia, entre todos
+bemdito, em que a <em>Perola</em>
+appareceu
+&aacute; barra com o Messias, engrinaldou
+a Pampulha, ergueu no Caneiro um monumento de papel&atilde;o e lona
+onde D.
+Miguel, tornado S. Miguel, branco, d'aureola e azas de Archanjo, furava
+de cima do seu corcel d'Alter o Drag&atilde;o do Liberalismo, que
+se estorcia
+vomitando a Carta. Durante a guerra com o &laquo;outro, com o
+pedreiro livre&raquo;
+mandava recoveiros a Santo Thyrso, a S. Gens, levar ao Rei fiambres,
+caixas de d&ocirc;ce, garrafas do seu vinho de Tarrafal, e bolsas
+de retroz
+atochadas de peças que elle ensaboava para lhes avivar o
+ouro. E quando
+soube que o snr. D. Miguel, com dois velhos bahus amarrados sobre um
+macho, tom&aacute;ra o caminho de Sines e do final
+desterro&#8213;Jacintho
+<em>Gali&atilde;o</em>
+correu pela casa, fechou todas as janellas como n'um luto, berrando
+furiosamente: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tambem c&aacute; n&atilde;o fico! tambem c&aacute;
+n&atilde;o fico! <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o, n&atilde;o queria ficar na terra perversa d'onde
+partia, esbulhado e
+escorraçado, aquelle Rei de Portugal que levantava na rua os
+Jacinthos! Embarcou para França com a mulher, a
+snr.<sup>a</sup> D. Angelina
+Fafes (da t&atilde;o fallada <span class="pagenum">[4]</span>casa
+dos Fafes da Avellan); com o filho, o 'Cinthinho, menino amarellinho,
+mollesinho, coberto de caróços e
+leicenços; com a aia e com o moleque. Nas costas da
+Cantabria o
+paquete encontrou t&atilde;o
+rijos mares
+que a snr.<sup>a</sup> D. Angelina, esguedelhada, de joelhos na enxerga
+do
+beliche, prometteu ao Senhor dos Passos d'Alcantara uma cor&ocirc;a
+d'espinhos, de ouro, com as gottas de sangue em rubis do Pegu. Em
+Bayonna, onde arribaram, 'Cinthinho teve ithericia. Na estrada
+d'Orleans, n'uma noite agreste, o eixo da berlinda em que jornadeavam
+partiu, e o nedio senhor, a delicada senhora da casa da Avellan, o
+menino, marcharam tres horas na chuva e na lama do exilio
+at&eacute; uma
+aldeia, onde, depois de baterem como mendigos a portas mudas, dormiram
+nos bancos d'uma taberna. No &laquo;Hotel dos Santos
+Padres&raquo;, em Paris,
+soffreram os terrores d'um fogo que rebent&aacute;ra na
+cavalhariça, sob o quarto de <em>D. Gali&atilde;o</em>,
+e o
+digno fidalgo, rebolando pelas escadas em camisa, at&eacute; ao
+pateo, enterrou o p&eacute; n&uacute;
+numa lasca de vidro. Ent&atilde;o ergueu amargamente ao
+c&eacute;o o punho cabelludo, e rugiu: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Irra! &Eacute; de mais! <br />
+
+<br />
+
+Logo n'essa semana, sem escolher, Jacintho
+<em>Gali&atilde;o</em> comprou a um
+Principe polaco, que depois da tomada de Varsovia se mettera frade<span class="pagenum">[5]</span>cartuxo,
+aquelle palacete dos Campos Elyseos, n.&ordm; 202. E sob o
+pesado ouro dos seus estuques, entre as suas ramalhudas sedas se
+enconchou, descançando de tantas
+agitaç&otilde;es, n'uma
+vida de pachorra e de boa mesa, com alguns companheiros
+d'emigraç&atilde;o (o
+desembargador Nuno Velho, o conde de Rabacena, outros menores),
+at&eacute; que morreu de
+indigest&atilde;o, d'uma lampreia d'escabeche que lhe
+mand&aacute;ra o
+seu procurador em
+Monte-mór. Os amigos pensavam que a snr.<sup>a</sup> D.
+Angelina Fafes
+voltaria ao reino. Mas a
+boa senhora temia a jornada, os mares, as caleças que
+racham. E n&atilde;o se queria separar do seu Confessor, nem do seu
+Medico, que t&atilde;o
+bem lhe comprehendiam os escrupulos e a asthma. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu, por mim, aqui fico no 202 (declar&aacute;ra ella), ainda que
+me faz falta a boa agua d'Alcolena... O 'Cinthinho, esse, em crescendo,
+que decida. <br />
+
+<br />
+
+O 'Cinthinho cresc&egrave;ra. Era um moço mais esguio e
+livido que um cirio, de longos cabellos corredios, narigudo,
+silencioso, encafuado em roupas pretas, muito largas e bambas; de
+noite, sem dormir, por causa da tosse
+e de suffocaç&otilde;es, errava em camisa com uma
+lamparina atravez do 202; e os creados na copa sempre lhe chamavam a
+<em>Sombra</em>. N'essa sua mudez e indecis&atilde;o de
+sombra surdira, ao fim<span class="pagenum">[6]</span>
+do luto do
+pap&aacute;, o gosto muito vivo de tornear madeiras ao torno:
+depois,
+mais tarde, com a melada
+fl&ocirc;r dos seus vinte annos, brotou n'elle outro sentimento, de
+desejo e de pasmo,
+pela filha do desembargador Velho, uma menina redondinha como uma
+r&ocirc;la, educada n'um convento de Paris, e t&atilde;o
+habilidosa que
+esmaltava, dourava, concertava relogios e fabricava chap&eacute;os
+de
+feltro. No
+outomno de 1851, quando j&aacute; se desfolhavam os castanheiros
+dos
+Campos Elyseos,
+o 'Cinthinho cuspilhou sangue. O medico, acarinhando o queixo e com uma
+ruga seria na testa immensa, aconselhou que o menino abalasse para o
+golfo Juan ou para as tepidas areias d'Arcachon. <br />
+
+<br />
+
+'Cinthinho por&eacute;m, no seu af&egrave;rro de sombra,
+n&atilde;o se quiz arredar da Therezinha Velho, de quem se
+torn&aacute;ra, atravez de Paris, a
+muda, tard&ocirc;nha sombra. Como uma sombra, casou; deu mais
+algumas voltas ao torno;
+cuspiu um resto de sangue; e passou, como uma sombra. <br />
+
+<br />
+
+Tres mezes e tres dias depois do seu enterro o meu Jacintho nasceu. <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="break">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Desde o berço, onde a avó espalhava funcho e
+ambar para afugentar a <em>Sorte-Ruim</em>, Jacintho
+medrou com a
+segurança, a rijeza, a seiva rica d'um pinheiro das dunas. <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[7]</span>N&atilde;o teve
+sarampo e n&atilde;o
+teve lombrigas. As Letras,
+a Taboada, o Latim entraram por elle t&atilde;o facilmente como o
+sol
+por uma
+vidraça. Entre os camaradas, nos pateos dos collegios,
+erguendo
+a sua espada de lata e lançando um brado de commando, foi
+logo o
+vencedor, o Rei
+que se adula, e a quem se cede a fructa das merendas. Na edade em que
+se l&ecirc;
+Balzac e Musset nunca atravessou os tormentos da sensibilidade;&#8213;nem
+crepusculos
+quentes o retiveram na solid&atilde;o d'uma janella, padecendo d'um
+desejo sem fórma e sem nome. Todos os seus amigos (eramos
+tres,
+contando o seu velho escudeiro preto, o Grillo) lhe conservaram sempre
+amizades puras
+e certas&#8213;sem que j&aacute;mais a
+participaç&atilde;o
+do seu luxo as avivasse ou fossem desanimadas pelas evidencias do seu
+egoismo. Sem
+coraç&atilde;o bastante forte para conceber um amor
+forte, e
+contente com esta incapacidade que o libertava, do amor só
+experimentou o mel&#8213;esse mel que o
+amor reserva aos que o recolhem, &aacute; maneira das abelhas, com
+ligeireza,
+mobilidade e cantando. Rijo, rico, indifferente ao Estado e ao Governo
+dos Homens, nunca lhe conhecemos outra ambiç&atilde;o
+al&eacute;m de comprehender bem as Ideias Geraes; e a sua
+intelligencia, nos annos alegres de escólas
+e controversias, c&iacute;rculava dentro das Philosophias mais <span class="pagenum">[8]</span>densas
+como enguia lustrosa na agua limpa d'um tanque. O seu valor, genuino,
+de fino quilate, nunca foi desconhecido, nem desapreciado; e toda a
+opini&atilde;o, ou mera facecia que lançasse, logo
+encontrava
+uma aragem de
+sympathia e concordancia que a erguia, a mantinha emballada e
+rebrilhando nas alturas. Era servido pelas cousas com docilidade e
+carinho;&#8213;e
+n&atilde;o recordo que jamais lhe estalasse um bot&atilde;o da
+camisa,
+ou que
+um papel maliciosamente se escondesse dos seus olhos, ou que ante a sua
+vivacidade e pressa uma gaveta perfida emperrasse. Quando um dia, rindo
+com descrido riso da Fortuna e da sua Roda, comprou a um
+sachrist&atilde;o hespanhol um Decimo de Loteria, logo a Fortuna,
+ligeira e ridente sobre
+a sua Roda, correu n'um fulgor, para lhe trazer quatro centas mil
+pesetas. E no ceu as Nuvens, pejadas e lentas, se avistavam Jacintho
+sem guarda chuva, retinham com reverencia as suas aguas at&eacute;
+que
+elle passasse... Ah! o ambar e o funcho da snr.<sup>a</sup> D. Angelina
+tinham escorraçado do seu destino, bem triumphalmente e para
+sempre, a <em>Sorte-Ruim</em>! A amoravel
+avó (que eu conheci obesa, com barba) costumava citar um
+soneto natalicio do desembargador Nunes Velho contendo um
+verso de boa liç&atilde;o: <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[9]</span>
+<div class="break">Sabei, senhora, que esta Vida
+&eacute; um rio...</div>
+
+<br />
+
+Pois um rio de ver&atilde;o, manso, translucido, harmoniosamente
+estendido sobre uma areia macia e alva, por entre arvoredos fragrantes
+e ditosas aldeias, n&atilde;o offereceria &aacute;quelle que o
+descesse
+n'um barco de cedro, bem toldado e bem almofadado, com fructas e
+Champagne a refrescar em gelo, um Anjo governando ao leme, outros Anjos
+puxando &aacute; sirga,
+mais segurança e doçura do que a Vida offerecia
+ao meu
+amigo Jacintho. <br />
+
+<br />
+
+Por isso nós lhe chamavamos &laquo;o Principe da
+Gran-Ventura&raquo;! <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="break">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Jacintho e eu, Jos&eacute; Fernandes, ambos nos encontramos e
+acamaradamos em Paris, nas Escólas do Bairro Latino&#8213;para
+onde
+me
+mand&aacute;ra meu bom tio Affonso Fernandes Lorena de Noronha e
+Sande,
+quando aquelles malvados
+me riscaram da Universidade por eu ter esborrachado, n'uma tarde de
+prociss&atilde;o, na Sophia, a cara sordida do dr. Paes Pitta. <br />
+
+<br />
+
+Ora n'esse tempo Jacintho conceb&ecirc;ra uma Ideia... Este
+Principe conceb&ecirc;ra a Ideia de que &laquo;o homem
+só &eacute;
+superiormente feliz quando &eacute; superiormente
+civilisado&raquo;. E por homem civilisado o meu camarada entendia
+aquelle <span class="pagenum">[10]</span>que,
+robustecendo a sua força pensante com todas as
+noç&otilde;es adquiridas desde Aristoteles, e
+multiplicando a
+potencia corporal dos seus
+org&atilde;os com todos os mechanismos inventados desde Theramenes,
+creador da roda, se torna um magnifico Ad&atilde;o,
+quas&iacute;
+omnipotente,
+quas&iacute; omnisciente, e apto portanto a recolher dentro d'uma
+sociedade e nos limites do Progresso (tal como elle se comportava em
+1875) todos os gozos e todos os proveitos que resultam de Saber e de
+Poder... Pelo menos assim Jacintho
+formulava copiosamente a sua Ideia, quando conversavamos de fins e
+destinos humanos, sorvendo bocks poeirentos, sob o toldo das
+cervejarias philosophicas, no Boulevard Saint-Michel. <br />
+
+<br />
+
+Este conceito de Jacintho impression&aacute;ra os nossos camaradas
+de cenaculo, que tendo surgido para a vida intellectual, de 1866 a
+1875, entre a batalha de Sadowa e a batalha de Sedan, e ouvindo
+constantemente, desde
+ent&atilde;o, aos technicos e aos philosophos, que f&ocirc;ra a
+Espingarda-de-agulha que venc&ecirc;ra em Sadowa e f&ocirc;ra o
+Mestre-de-escóla quem venc&ecirc;ra em Sedan, estavam
+largamente
+preparados a acreditar que a felicidade dos individuos, como a das
+naç&otilde;es, se realisa pelo
+illimitado desenvolvimento da Mechanica e da
+Erudiç&atilde;o. Um
+d'esses moços mesmo, o nosso inventivo Jorge <span class="pagenum">[11]</span>Carlande,
+reduz&iacute;ra a theoria de
+Jacintho, para lhe facilitar a circulaç&atilde;o e lhe
+condensar o brilho,
+a uma fórma algebrica: <br />
+
+<br />
+
+<table style="text-align: center; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td>Summa sciencia</td>
+
+ <td colspan="1" rowspan="3"><big><big><big><big><big>}</big></big></big></big></big></td>
+
+ <td></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>X</td>
+
+ <td>Summa potencia</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Summa felicidade</td>
+
+ <td></td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<br />
+
+<br />
+
+E durante dias, do Odeon &aacute; Sorbonna, foi louvada pela
+mocidade positiva a <em>Equaç&atilde;o
+Metaphysica de
+Jacintho</em>. <br />
+
+<br />
+
+Para Jacintho, por&eacute;m, o seu conceito n&atilde;o era
+meramente metaphysico e lançado pelo gozo elegante de
+exercer a
+raz&atilde;o
+especulativa:&#8213;mas constituia uma regra, toda de realidade e de
+utilidade, determinando a conducta, modalisando a vida. E j&aacute;
+a
+esse tempo, em
+concordancia com o seu preceito&#8213;elle se surtira da <em>Pequena
+Encyclopedia
+dos Conhecimentos
+Universaes</em>
+em setenta e cinco volumes e
+install&aacute;ra, sobre os telhados do 202, n'um mirante
+envidraçado, um telescopio. Justamente
+com esse telescopio me tornou elle palpavel a sua ideia, n'uma noite de
+agosto, de molle e dormente calor. Nos c&eacute;os remotos
+lampejavam
+relampagos languidos. Pela Avenida dos Campos Elyseos, os fiacres
+rolavam para as frescuras do Bosque, lentos, abertos,
+cançados,
+transbordando de vestidos claros. <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[12]</span>&#8213;Aqui tens tu,
+Z&eacute; Fernandes,
+(começou Jacintho,
+encostado &aacute; janella do mirante) a theoria que me governa,
+bem
+comprovada. Com estes olhos que recebemos da Madre natureza, lestos e
+s&atilde;os, nós
+podemos apenas distinguir al&eacute;m, atravez da Avenida,
+n'aquella
+loja, uma
+vidraça alumiada. Mais nada! Se eu por&eacute;m aos meus
+olhos
+juntar os
+dois vidros simples d'um binoculo de corridas, percebo, por traz da
+vidraça, presuntos, queijos, boi&otilde;es de
+gel&ecirc;a e
+caixas de
+ameixa s&ecirc;cca. Concluo portanto que &eacute; uma
+mercearia. Obtive
+uma
+noç&atilde;o; tenho sobre ti, que com os olhos
+desarmados
+v&ecirc;s só o luzir da
+vidraça, uma vantagem positiva. Se agora, em vez d'estes
+vidros
+simples, eu usasse os do meu telescopio,
+de composiç&atilde;o mais scientifica, poderia avistar
+al&eacute;m, no planeta Marte, os mares, as neves, os canaes, o
+recorte
+dos golphos, toda a geographia d'um astro que circula a milhares de
+leguas dos Campos Elyseos.
+&Eacute; outra noç&atilde;o, e tremenda! Tens aqui
+pois o olho
+primitivo, o da Natureza, elevado pela
+Civilisaç&atilde;o
+&aacute; sua maxima
+potencia de vis&atilde;o. E desde j&aacute;, pelo lado do olho
+portanto, eu, civilisado, sou mais feliz que o incivilisado, porque
+descubro realidades do Universo que elle
+n&atilde;o suspeita e de que est&aacute; privado. Applica esta
+prova a
+todos
+os org&atilde;os e comprehendes o meu principio. Emquanto <span class="pagenum">[13]</span>&aacute; intelligencia,
+e
+&aacute; felicidade que d'ella se tira pela incançavel
+accumulaç&atilde;o das noç&otilde;es,
+só te peco que compares Renan e o Grillo... Claro
+&eacute; portanto que nos
+devemos cercar de Civilisaç&atilde;o nas maximas
+proporç&otilde;es para gosar nas maximas
+proporç&otilde;es a vantagem de viver. Agora concordas,
+Z&eacute; Fernandes? <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o me parecia irrecusavelmente certo que Renan fosse mais
+feliz que o Grillo; nem eu percebia que vantagem espiritual ou temporal
+se
+c&ocirc;lha em distinguir atravez do espaço manchas n'um
+astro,
+ou atravez
+da Avenida dos Campos Elyseos presuntos n'uma vidraça. Mas
+concordei,
+porque sou bom, e nunca desalojarei um espirito do conceito onde elle
+encontra segurança, disciplina e motivo de energia.
+Desabotoei o
+collete, e lançando um gesto para o lado dos
+caf&eacute;s e das
+luzes: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vamos ent&atilde;o beber, nas maximas
+proporç&otilde;es, <em>brandy and
+soda</em>, com gelo! <br />
+
+<br />
+
+Por uma conclus&atilde;o bem natural, a ideia de
+Civilisaç&atilde;o, para Jacintho, n&atilde;o se
+separava da
+imagem de Cidade, d'uma enorme Cidade,
+com todos os seus vastos org&atilde;os funccionando poderosamente.
+Nem
+este meu super-civilisado amigo comprehendia que longe de Armazens
+servidos por tres mil caixeiros; e de Mercados onde se despejam os
+vergeis e
+lezirias de trinta provincias; e de Bancos em que retine <span class="pagenum">[14]</span>o
+ouro universal; e de Fabricas fumegando com ancia, inventando com
+ancia; e de Bibliothecas abarrotadas, a estalar, com a papelada dos
+seculos; e de fundas milhas de ruas, cortadas, por baixo e por cima, de
+fios de telegraphos, de
+fios de telephones, de canos de gazes, de canos de fezes; e da fila
+atroante
+dos omnibus, tramways, carroças, velocipedes, calhambeques,
+parelhas de luxo; e de dois milh&otilde;es d'uma vaga humanidade,
+fervilhando,
+a offegar, atravez da Policia, na busca dura do p&atilde;o ou sob a
+illus&atilde;o do gozo&#8213;o homem do seculo XIX podesse saborear,
+plenamente, a delicia de viver! <br />
+
+<br />
+
+Quando Jacintho, no seu quarto do 202, com as varandas abertas sobre os
+lilazes, me desenrolava estas imagens, todo elle crescia, illuminado.
+Que creaç&atilde;o augusta, a da Cidade! Só
+por ella, Z&eacute;-Fernandes, só por ella,
+póde o homem soberbamente affirmar a sua alma!... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Oh Jacintho, e a religi&atilde;o? Pois a religi&atilde;o
+n&atilde;o prova a alma? <br />
+
+<br />
+
+Elle encolhia os hombros. A religi&atilde;o! A religi&atilde;o
+&eacute; o desenvolvimento sumptuoso de um instincto rudimentar,
+commum
+a todos os brutos, o terror. Um c&atilde;o lambendo a
+m&atilde;o do
+dono, de quem
+lhe vem o osso ou o chicote, j&aacute; constitue toscamente um
+devoto,
+o consciente
+devoto, prostrado em rezas ante o Deus que<span class="pagenum">[15]</span>
+distribue o c&eacute;o ou o
+inferno!... Mas o telephone! o phonographo! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ahi tens tu, o phonographo!... Só o phonographo,
+Z&eacute; Fernandes, me faz verdadeiramente sentir a minha
+superioridade de s&ecirc;r pensante
+e me separa do bicho. Acredita, n&atilde;o ha sen&atilde;o a
+Cidade,
+Z&eacute; Fernandes, n&atilde;o ha sen&atilde;o a Cidade! <br />
+
+<br />
+
+E depois (accrescentava) só a Cidade lhe dava a
+sensaç&atilde;o, t&atilde;o necessaria &aacute;
+vida como o
+calor, da solidariedade humana. E no 202,
+quando considerava em redor, nas densas massas do casario de Paris,
+dois milh&otilde;es de s&ecirc;res arquejando na obra da
+Civilisaç&atilde;o (para manter na natureza o dominio
+dos
+Jacinthos!) sentia um socego, um conchego,
+só comparaveis ao do peregrino, que, ao atravessar o
+deserto, se
+ergue no seu dromedario, e avista a longa fila da caravana marchando,
+cheia de lumes e de armas... <br />
+
+<br />
+
+Eu murmurava, impressionado: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Caramba! <br />
+
+<br />
+
+Ao contrario no campo, entre a inconsciencia e a impassibilidade da
+Natureza, elle tremia com o terror da sua fragilidade e da sua
+solid&atilde;o. Estava ahi como perdido n'um mundo que lhe
+n&atilde;o
+fosse
+fraternal; nenhum silvado encolheria os espinhos para que elle
+passasse; se gemesse com fome nenhuma arvore, <span class="pagenum">[16]</span>por
+mais carregada, lhe estenderia o seu fructo na
+ponta compassiva d'um ramo. Depois, em meio da Natureza, elle assistia
+&aacute; subita e humilhante inutilisaç&atilde;o de
+todas as suas
+faculdades superiores. De que servia, entre plantas e bichos&#8213;ser um
+Genio ou ser um Santo? As
+searas n&atilde;o comprehendem as
+<em>Georgicas</em>; e f&ocirc;ra
+necessario o socorro ancioso de Deus, e a invers&atilde;o de todas
+as
+leis naturaes, e
+um violento milagre para que o lobo de Agubio n&atilde;o devorasse
+S.
+Francisco
+d'Assis, que lhe sorria e lhe estendia os braços e lhe
+chamava
+&laquo;meu irm&atilde;o lobo&raquo;! Toda a
+intellectualidade, nos
+campos, se esterilisa, e só
+resta a bestialidade. N'esses reinos crassos do Vegetal e do Animal
+duas unicas
+funcç&otilde;es se mant&ecirc;m vivas, a nutritiva e
+a procreadora. Isolada, sem occupaç&atilde;o, entre
+focinhos e
+raizes que
+n&atilde;o cessam de sugar e de pastar, suffocando no calido bafo
+da
+universal
+fecundaç&atilde;o, a sua pobre alma toda se engelhava,
+se
+reduzia a uma migalha d'alma, uma fagulhasinha espiritual a tremeluzir,
+como morta, sobre um naco de materia; e n'essa
+materia dois instinctos surdiam, imperiosos e pungentes, o de devorar e
+o de gerar. Ao cabo de uma semana rural, de todo o seu s&ecirc;r
+t&atilde;o nobremente composto só restava um estomago e
+por
+baixo um
+phallus! A alma? Sumida sob a besta. E necessitava <span class="pagenum">[17]</span>correr, reentrar na Cidade,
+mergulhar nas ondas lustraes da Civilisaç&atilde;o, para
+largar n'ellas a crosta vegetativa, e resurgir re-humanisado, de novo
+espiritual e Jacinthico! <br />
+
+<br />
+
+E estas requintadas metaphoras do meu amigo exprimiam sentimentos
+reaes&#8213;que eu testemunhei, que muito me divertiram, no unico passeio
+que fizemos ao campo, &aacute; bem amavel e bem sociavel floresta
+de
+Montmorency. Oh delicias d'entremez, Jacintho entre a Natureza! Logo
+que se afastava
+dos pavimentos de madeira, do macadam, qualquer ch&atilde;o que os
+seus p&eacute;s calcassem o enchia de desconfiança e
+terror.
+Toda a relva,
+por mais crestada, lhe parecia reçumar uma humidade mortal.
+De
+sob
+cada torr&atilde;o, da sombra de cada pedra, receava o assalto de
+lacraus, de viboras, de fórmas rastejantes e viscosas. No
+silencio do bosque sentia
+um lugubre despovoamento do Universo. N&atilde;o tolerava a
+familiaridade dos
+galhos que lhe roçassem a manga ou a face. Saltar uma sebe
+era
+para
+elle um acto degradante que o retrogradava ao macaco inicial. Todas as
+fl&ocirc;res que n&atilde;o tivesse j&aacute; encontrado em
+jardins,
+domesticadas por longos
+seculos de servid&atilde;o ornamental, o inquietavam como
+venenosas. E
+considerava d'uma melancolia funambulesca certos modos e
+fórmas
+do
+S&ecirc;r inanimado, a pressa esperta e v&atilde; dos
+regatinhos, <span class="pagenum">[18]</span>a
+careca dos rochedos, todas as
+contors&otilde;es do arvoredo e o seu resmungar solemne e tonto. <br />
+
+<br />
+
+Depois d'uma hora, n'aquelle honesto bosque de Montmorency, o meu pobre
+amigo abafava, apavorado, experimentando j&aacute; esse lento
+mingoar e sumir d'alma que o tornava como um bicho entre bichos.
+Só
+desannuviou quando penetramos no lag&ecirc;do e no gaz de Paris&#8213;e
+a
+nossa vittoria
+quasi se despedaçou contra um omnibus retumbante, atulhado
+de
+cidad&atilde;os. Mandou descer pelos Boulevards, para dissipar, na
+sua
+grossa sociabilidade, aquella materialisaç&atilde;o em
+que
+sentia a
+cabeça pesada e vaga como a d'um boi. E reclamou que eu o
+acompanhasse ao theatro das Variedades para sacudir, com os estribilhos
+da <em>Femme &agrave;
+Papa</em>, o rumor importuno que lhe fic&aacute;ra dos melros
+cantando nos choupos altos. <br />
+
+<br />
+
+Este delicioso Jacintho fizera ent&atilde;o vinte e tres annos, e
+era um soberbo moço em quem reapparec&ecirc;ra a
+força dos velhos Jacinthos ruraes. Só pelo nariz,
+afilado, com narinas quasi transparentes,
+d'uma mobilidade inquieta, como se andasse fariscando perfumes,
+pertencia
+&aacute;s delicadezas do seculo XIX. O cabello ainda se conservava,
+ao
+modo das &eacute;ras rudes, crespo e quasi lanigero: e o bigode,
+como o
+d'um
+Celta, cahia em fios sedosos, que elle necessitava aparar e frizar.
+Todo o seu
+fato, as espessas <span class="pagenum">[19]</span>gravatas
+de setim escuro que uma perola prendia, as luvas de anta branca, o
+verniz das botas, vinham de Londres em caixotes
+de cedro; e usava sempre ao peito uma fl&ocirc;r, n&atilde;o
+natural, mas composta destramente pela sua ramalheteira com petalas de
+fl&ocirc;res
+dessemelhantes, cravo, azalea, orchidea ou tulipa, fundidas na mesma
+haste entre uma leve folhagem de funcho. <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="break">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Em 1880, em Fevereiro, n'uma cinzenta e arripiada manh&atilde; de
+chuva, recebi uma carta de meu bom tio Affonso Fernandes, em que,
+depois de lamentaç&otilde;es sobre os seus setenta
+annos, os
+seus
+males hemorroidaes, e a pesada gerencia dos seus bens &laquo;que
+pedia
+homem mais novo, com
+pernas mais rijas&raquo;&#8213;me ordenava que recolhesse &aacute;
+nossa
+casa de Gui&atilde;es, no Douro! Encostado ao marmore partido do
+fog&atilde;o, onde na
+v&eacute;spera a minha Nini deix&aacute;ra um espartilho
+embrulhado no
+<em>Jornal dos Debates</em>, censurei severamente meu tio
+que assim
+cortava em bot&atilde;o, antes de
+desabrochar, a fl&ocirc;r do meu Saber Juridico. Depois n'um
+Post-Scriptum elle accrescentava&#8213;&laquo;O tempo aqui
+est&aacute;
+lindo, o que se
+póde chamar de rosas, e tua santa tia muito se recommenda,
+que
+anda l&aacute; pela
+cozinha, porque vai hoje em trinta e seis <span class="pagenum">[20]</span>annos
+que cas&aacute;mos, temos
+c&aacute; o abbade e o Quintaes a jantar, e ella quiz fazer uma
+sopa dourada&raquo;. <br />
+
+<br />
+
+Deitando uma acha ao lume, pensei como devia estar boa a sopa dourada
+da tia Vicencia. Ha quantos annos n&atilde;o a provava, nem o
+leit&atilde;o assado, nem o arroz de f&ocirc;rno da nossa casa!
+Com o
+tempo assim
+t&atilde;o lindo, j&aacute; as mimosas do nosso pateo vergariam
+sob os
+seus grandes cachos amarellos. Um
+pedaço de c&eacute;o azul, do azul de Gui&atilde;es,
+que outro
+n&atilde;o ha t&atilde;o lustroso e macio, entrou pelo quarto,
+alumiou,
+sobre a poida tristeza do tapete, relvas, ribeirinhos, malmequeres e
+fl&ocirc;res de trevo de que meus olhos
+andavam agoados. E, por entre as bambinellas de sarja, passou um ar
+fino e
+forte e cheiroso de serra e de pinheiral. <br />
+
+<br />
+
+Assobiando um <em>fado</em> meigo tirei
+debaixo da cama a minha velha mala, e metti solicitamente entre
+calças e piugas um Tratado de
+Direito Civil, para aprender emfim, nos vagares da aldeia, estendido
+sob a faia, as leis que regem os homens. Depois, n'essa tarde,
+annunciei a Jacintho
+que partia para Gui&atilde;es. O meu camarada recuou com um surdo
+gemido de espanto e piedade: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Para Gui&atilde;es!... Oh Z&eacute; Fernandes, que horror! <br />
+
+<br />
+
+E toda essa semana me lembrou solicitamente <span class="pagenum">[21]</span>confortos
+de que eu me deveria prover para que pudesse conservar, nos ermos
+silvestres,
+t&atilde;o longe da Cidade, uma pouca d'alma dentro d'um pouco de
+corpo.
+&laquo;Leva uma poltrona! Leva a <em>Encyclopedia
+Geral</em>! Leva caixas de aspargos!...&raquo; <br />
+
+<br />
+
+Mas para o meu Jacintho, desde que assim me arrancavam da Cidade, eu
+era arbusto desarraigado que n&atilde;o reviver&aacute;. A
+magoa
+com que me acompanhou ao comboio conviria excellentemente ao meu
+funeral. E quando fechou sobre mim a portinhola, gravemente,
+supremamente, como se cerra uma grade de sepultura, eu quasi
+solucei&#8213;com saudades minhas. <br />
+
+<br />
+
+Cheguei a Gui&atilde;es. Ainda restavam fl&ocirc;res nas
+mimosas do nosso pateo; comi com delicias a sopa dourada da tia
+Vicencia; de tamancos nos
+p&eacute;s assisti &aacute; ceifa dos milhos. E assim de
+colheitas a lavras, crestando
+ao sol das eiras, caçando a perdiz nos matos geados,
+rachando a
+melancia fresca na poeira dos arraiaes, arranchando a magustos,
+serandando &aacute;
+candeia, atiçando fogueiras de S. Jo&atilde;o,
+enfeitando
+presepios de Natal, por alli me passaram docemente sete annos,
+t&atilde;o atarefados que nunca
+logrei abrir o Tratado de Direito Civil, e t&atilde;o singelos que
+apenas me
+recordo quando, em v&eacute;speras de S. Nicolau, o abbade <span class="pagenum">[22]</span>cahiu da egua
+&aacute; porta do Braz das Córtes. De Jacintho
+só recebia raramente algumas
+linhas, escrevinhadas &aacute; pressa por entre o tumulto da
+Civilisaç&atilde;o.
+Depois, n'um Setembro muito quente, ao lidar da vindima, meu bom tio
+Affonso Fernandes morreu,
+t&atilde;o quietamente, Deus seja louvado por esta
+graça, como se cala
+um passarinho ao fim do seu bem cantado e bem voado dia. Acabei pela
+aldeia a roupa do luto. A minha afilhada Joanninha casou na
+matança
+do porco. Andaram obras no nosso telhado. Voltei a Paris. <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h2>II</h2>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Era de novo Fevereiro, e um fim de tarde arripiado e cinzento, quando
+eu desci os Campos Elyseos em demanda do 202. Adiante de mim caminhava,
+levemente curvado, um homem que, desde as botas rebrilhantes
+at&eacute; &aacute;s abas recurvas do chap&eacute;o d'onde
+fugiam
+anneis d'um cabello crespo,
+reçumava elegancia e a familiaridade das coisas finas. Nas
+m&atilde;os,
+cruzadas atraz das costas, calçadas d'anta branca,
+sustentava
+uma bengala
+grossa com cast&atilde;o de crystal. E só quando elle
+parou ao
+port&atilde;o do 202 reconheci o nariz afilado, os fios do bigode
+corredios e sedosos. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Oh Jacintho! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Oh Z&eacute; Fernandes! <br />
+
+<br />
+
+O abraço que nos enlaçou foi t&atilde;o
+alvoroçado que o meu chap&eacute;o rolou na lama. E
+ambos murmuravamos, commovidos, entrando a grade: <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[24]</span>
+&#8213;Ha sete annos!... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ha sete annos!... <br />
+
+<br />
+
+E, todavia, nada mud&aacute;ra durante esses sete annos no jardim
+do 202! Ainda entre as duas aleas bem areadas se arredondava uma relva,
+mais lisa e varrida que a l&atilde; d'um tapete. No meio o vaso
+corinthico
+esperava Abril para resplandecer com tulipas e depois Junho para
+transbordar de margaridas. E ao lado das escadas limiares, que uma
+vidraçaria toldava, as duas magras Deusas de pedra, do tempo
+de
+D. Gali&atilde;o,
+sustentavam as antigas lampadas de globos foscos, onde j&aacute;
+silvava o gaz. <br />
+
+<br />
+
+Mas dentro, no peristillo, logo me surprehendeu um elevador installado
+por Jacintho&#8213;apesar do 202 ter sómente dois andares, e
+ligados por uma escadaria t&atilde;o doce que nunca
+offend&ecirc;ra a
+asthma da
+snr.<sup>a</sup> D. Angelina! Espaçoso, tapetado, elle
+offerecia, para
+aquella jornada de
+sete segundos, confortos numerosos, um divan, uma pelle d'urso, um
+roteiro das ruas de Paris, prateleiras gradeadas com charutos e livros.
+Na antecamara, onde desembarcamos, encontrei a temperatura macia e
+tepida d'uma tarde de Maio, em Gui&atilde;es. Um creado, mais
+attento
+ao
+thermometro que um piloto &aacute; agulha, regulava destramente a
+bocca
+dourada
+do calorifero. E perfumadores entre palmeiras, como n'um terrasso santo
+de
+Benares, <span class="pagenum">[25]</span>esparziam
+um vapor, aromatisando e salutarmente humedecendo aquelle ar delicado e
+superfino. <br />
+
+<br />
+
+Eu murmurei, nas profundidades do meu assombrado s&ecirc;r: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eis a civilisaç&atilde;o! <br />
+
+<br />
+
+Jacintho empurrou uma porta, penetramos n'uma nave cheia de magestade e
+sombra, onde reconheci a Bibliotheca por tropeçar n'uma
+pilha monstruosa de livros novos. O meu amigo roçou de leve
+o
+dedo na parede:
+e uma cor&ocirc;a de lumes electricos, refulgindo entre os lavores
+do
+tecto, alumiou as estantes monumentaes, todas d'ebano. N'ellas
+repousavam mais de trinta mil volumes, encadernados em branco, em
+escarlate, em negro, com retoques d'ouro, hirtos na sua pompa e na sua
+auctoridade como doutores
+n'um concilio. <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o contive a minha admiraç&atilde;o: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Oh Jacintho! Que deposito! <br />
+
+<br />
+
+Elle murmurou, n'um sorriso descorado: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ha que l&ecirc;r, ha que l&ecirc;r... <br />
+
+<br />
+
+Reparei ent&atilde;o que o meu amigo emmagrecera: e que o nariz se
+lhe afil&aacute;ra mais entre duas rugas muito fundas, como as d'um
+comediante
+cançado. Os anneis do seu cabello lanigero rareavam sobre a
+testa, que perdera a antiga serenidade de marmore bem polido.
+N&atilde;o frisava agora o
+bigode murcho, cahido <span class="pagenum">[26]</span>em
+fios pensativos. Tambem notei que corcovava. <br />
+
+<br />
+
+Elle ergu&ecirc;ra uma tapeçaria&#8213;entramos no seu
+gabinete de trabalho, que me inquietou. Sobre a espessura dos tapetes
+sombrios os nossos passos perderam logo o som, e como a realidade. O
+damasco das paredes, os divans, as madeiras, eram verdes, d'um verde
+profundo de folha de
+louro. S&ecirc;das verdes envolviam as luzes electricas, dispersas
+em
+lampadas t&atilde;o baixas que lembravam estrellas cahidas por cima
+das
+mesas, acabando de arrefecer e morrer: só uma rebrilhava,
+n&uacute;a e
+clara, no alto d'uma estante quadrada, esguia, solitaria como uma torre
+n'uma planicie, e de
+que o lume parecia ser o pharol melancolico. Um biombo de laca verde,
+fresco verde de relva, resguardava a chamin&eacute; de marmore
+verde, verde de mar sombrio, onde esmoreciam as brazas d'uma lenha
+aromatica. E entre aquelles verdes reluzia, por sobre peanhas e
+pedestaes, toda uma Mechanica sumptuosa, apparelhos, laminas, rodas,
+tubos, engrenagens, hastes, friezas, rigidezas de metaes... <br />
+
+<br />
+
+Mas Jacintho batia nas almofadas do divan, onde se enterr&aacute;ra
+com um modo cançado que eu n&atilde;o lhe conhecia: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Para aqui, Z&eacute; Fernandes, para aqui! &Eacute;
+necessario reatarmos estas nossas vidas, t&atilde;o <span class="pagenum">[27]</span>apartadas ha sete annos!...
+Em
+Gui&atilde;es, sete annos! Que fizeste tu? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E tu, que tens feito, Jacintho? <br />
+
+<br />
+
+O meu amigo encolheu mollemente os hombros. Viv&ecirc;ra&#8213;cumprira
+com serenidade todas as funcç&otilde;es, as que
+pertencem
+&aacute; materia e as que pertencem ao espirito... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E accumulaste civilisaç&atilde;o, Jacintho! Santo
+Deus... Est&aacute; tremendo, o 202! <br />
+
+<br />
+
+Elle espalhou em torno um olhar onde j&aacute; n&atilde;o
+faiscava a antiga vivacidade: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim, ha confortos... Mas falta muito! A humanidade ainda
+est&aacute; mal apetrechada, Z&eacute; Fernandes... E a vida
+conserva resistencias.
+<br />
+
+<br />
+
+Subitamente, a um canto, repicou a campainha do telephone. E emquanto o
+meu amigo, curvado sobre a placa, murmurava impaciente
+&laquo;<em>Est&aacute;
+l&aacute;?&#8213;Est&aacute;
+l&aacute;?</em>&raquo;,
+examinei curiosamente,
+sobre a sua immensa mesa de trabalho, uma estranha e miuda
+legi&atilde;o de instrumentosinhos de nickel,
+d'aço, de cobre, de ferro, com gumes, com argolas, com
+tenazes,
+com ganchos, com dentes,
+expressivos todos, de utilidades misteriosas. Tomei um que tentei
+manejar&#8213;e logo uma ponta malevola me picou um dedo. N'esse instante
+rompeu d'outro canto um &laquo;tic-tic-tic&raquo;
+açodado, quasi ancioso. Jacintho acudiu, com a face no
+telephone: <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[28]</span>
+&#8213;V&ecirc; ahi o telegrapho!... Ao p&eacute; do divan. Uma tira
+de papel que deve estar a correr. <br />
+
+<br />
+
+E, com effeito, d'uma red&ocirc;ma de vidro posta n'uma columna, e
+contendo um apparelho esperto e diligente, escorria para o tapete, como
+uma tenia,
+a longa tira de papel com caracteres impressos, que eu, homem das
+serras,
+apanhei, maravilhado. A linha, traçada em azul, annunciava
+ao meu amigo Jacintho que a fragata russa <em>Azoff</em>
+entr&aacute;ra em Marselha com avaria! <br />
+
+<br />
+
+J&aacute; elle abandon&aacute;ra o telephone. Desejei saber,
+inquieto, se o prejudicava directamente aquella avaria da
+<em>Azoff</em>. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Da <em>Azoff</em>?... A avaria? A mim?...
+N&atilde;o! &Eacute; uma noticia. <br />
+
+<br />
+
+Depois, consultando um relogio monumental que, ao fundo da Bibliotheca,
+marcava a hora de todas as Capitaes e o curso de todos os Planetas: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu preciso escrever uma carta, seis linhas... Tu esperas,
+n&atilde;o, Z&eacute; Fernandes? Tens ahi os jornaes de Paris,
+da
+noite; e os de Londres, d'esta manh&atilde;. As
+Illustraç&otilde;es
+al&eacute;m, n'aquella pasta de couro com ferragens. <br />
+
+<br />
+
+Mas eu preferi inventariar o gabinete, que dava &aacute; minha
+profanidade serrana todos os gostos d'uma
+iniciaç&atilde;o. Aos
+lados da cadeira de Jacintho pendiam gordos tubos acusticos, <span class="pagenum">[29]</span>por
+onde elle decerto soprava as suas ordens atrav&eacute;s do 202. Dos
+p&eacute;s da mesa
+cord&otilde;es tumidos e molles, colleando sobre o tapete, corriam
+para
+os recantos de sombra
+&aacute; maneira de cobras assustadas. Sobre uma banquinha, e
+reflectida no seu verniz como na agua d'um poço, pousava uma
+Machina-de-escrever: e
+adiante era uma immensa Machina-de-calcular, com fileiras de buracos
+d'onde espreitavam, esperando, numeros rigidos e de ferro. Depois parei
+em frente da estante que me preoccupava, assim solitaria, &aacute;
+maneira d'uma torre n'uma planicie, com o seu alto pharol. Toda uma das
+suas faces estava repleta de Diccionarios; a outra de Manuaes; a outra
+de Atlas; a
+ultima de Guias, e entre elles, abrindo um folio, encontrei o Guia das
+ruas de Samarkande. Que macissa torre de
+informaç&atilde;o! Sobre prateleiras admirei apparelhos
+que
+n&atilde;o comprehendia:&#8213;um composto de
+laminas de gelatina, onde desmaiavam, meio-chupadas, as linhas d'uma
+carta, talvez
+amorosa; outro, que erguia sobre um pobre livro brochado, como para o
+decepar, um cutello funesto; outro avançando a bocca d'uma
+tuba, toda aberta para as vozes do invisivel. Cingidos aos umbraes,
+liados
+&aacute;s cimalhas, luziam arames, que fugiam atrav&eacute;s do
+tecto,
+para o
+espaço. Todos mergulhavam em forças universaes,
+todos <span class="pagenum">[30]</span>transmittiam
+forças universaes. A Natureza convergia disciplinada ao
+serviço do
+meu amigo e entr&aacute;ra na sua domesticidade!... <br />
+
+<br />
+
+Jacintho atirou uma exclamaç&atilde;o impaciente: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Oh, estas pennas electricas!... Que secca! <br />
+
+<br />
+
+Amarrot&aacute;ra com colera a carta começada&#8213;eu
+escapei, respirando, para a Bibliotheca. Que magestoso armazem dos
+productos do Raciocinio e da Imaginaç&atilde;o! Alli
+jaziam mais
+de trinta mil
+volumes, e todos decerto essenciaes a uma cultura humana. Logo
+&aacute;
+entrada notei, em
+ouro n'uma lombada verde, o nome de Adam Smith. Era pois a
+regi&atilde;o dos
+Economistas. Avancei&#8213;e percorri, espantado, oito metros de Economia
+Politica.
+Depois avistei os Philosophos e os seus commentadores, que revestiam
+toda uma parede, desde as escólas Pre-socraticas
+at&eacute;
+&aacute;s escólas Neo-pessimistas. N'aquellas pranchas
+se
+acastellavam mais de dois mil systemas&#8213;e que todos se contradiziam.
+Pelas encadernaç&otilde;es logo
+se deduziam as doutrinas: Hobbes, em baixo, era pesado, de couro negro;
+Plat&atilde;o, em cima, resplandecia, n'uma pellica pura e alva.
+Para
+diante
+começavam as Historias Universaes. Mas ahi uma immensa pilha
+de
+livros brochados, cheirando a tinta nova e a documentos <span class="pagenum">[31]</span>novos,
+subia contra a estante, como fresca terra d'alluvi&atilde;o tapando
+uma
+riba secular.
+Contornei essa collina, mergulhei na secç&atilde;o das
+Sciencias
+Naturaes, peregrinando, n'um assombro crescente, da Orographia para a
+Paleontologia, e da
+Morphologia para a Crystallographia. Essa estante rematava junto d'uma
+janella rasgada sobre os Campos Elyseos. Apartei as cortinas de
+velludo&#8213;e por traz descobri outra portentosa rima de volumes, todos de
+Historia Religiosa, de Exegese Religiosa, que trepavam montanhosamente
+at&eacute; aos ultimos vidros, vedando, nas manh&atilde;s mais
+candidas, o ar e a
+luz do Senhor. <br />
+
+<br />
+
+Mas depois rebrilhava, em marroquins claros, a estante amavel dos
+Poetas. Como um repouso para o espirito esfalfado de todo aquelle saber
+positivo, Jacintho aconcheg&aacute;ra ahi um recanto, com um divan
+e uma mesa de limoeiro, mais lustrosa que um fino esmalte, coberta de
+charutos, de
+cigarros d'Oriente, de tabaqueiras do seculo XVIII. Sobre um cofre de
+madeira lisa pousava ainda, esquecido, um prato de damascos seccos do
+Jap&atilde;o. Cedi &aacute; seducç&atilde;o das
+almofadas; trinquei um damasco, abri um volume; e senti estranhamente,
+ao lado, um zumbido, como de um insecto de azas harmoniosas. Sorri
+&aacute; id&eacute;a que fossem
+abelhas, compondo o seu <span class="pagenum">[32]</span>mel
+n'aquelle massiço de versos em fl&ocirc;r. Depois
+percebi que o susurro remoto e dormente vinha do cofre de mogne, de
+parecer t&atilde;o discreto.
+Arredei uma <em>Gazeta de França</em>;
+e
+descornitei um cord&atilde;o que emergia de um orificio, escavado
+no
+cofre, e rematava n'um funil de marfim. Com curiosidade, encostei o
+funil a esta minha confiada orelha, afeita &aacute;
+singeleza dos rumores da serra. E logo uma Voz, muito mansa, mas muito
+dicidida, aproveitando a minha curiosidade para me invadir e se
+apoderar do meu entendimento, susurrou capciosamente: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;...&laquo;E assim, pela disposiç&atilde;o dos
+cubos diabolicos, eu chego a verificar os espaços
+hypermagicos!...&raquo; <br />
+
+<br />
+
+Pulei, com um berro. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Oh Jacintho, aqui ha um homem! Est&aacute; aqui um homem a fallar
+dentro d'uma caixa! <br />
+
+<br />
+
+O meu camarada, habituado aos prodigios, n&atilde;o se
+alvoroçou: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; o Conferençophone... Exactamente como o
+Theatrophone; sómente applicado &aacute;s
+escólas e &aacute;s
+conferencias. Muito commodo!... Que diz o homem, Z&eacute;
+Fernandes? <br />
+
+<br />
+
+Eu considerava o cofre, ainda esgazeado: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu sei! Cubos diabolicos, espaços magicos, toda a sorte de
+horrores... <br />
+
+<br />
+
+Senti dentro o sorriso superior de Jacintho: <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[33]</span>
+&#8213;Ah, &eacute; o coronel Dorchas... Liç&otilde;es de
+Metaphysica Positiva sobre a Quarta Dimens&atilde;o... Conjecturas,
+uma massada! Ouve
+l&aacute;, tu hoje jantas commigo e com uns amigos, Z&eacute;
+Fernandes? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o, Jacintho... Estou ainda enfardelado pelo alfaiate da
+serra! <br />
+
+<br />
+
+E voltei ao gabinete mostrar ao meu camarada o jaquet&atilde;o de
+flanella grossa, a gravata de pintinhas escarlates, com que ao domingo,
+em Gui&atilde;es, visitava o Senhor. Mas Jacintho affirmou que esta
+simplicidade montesina interessaria os seus convidados, que eram dois
+artistas... Quem? O auctor do <em>Coraç&atilde;o
+Triplo</em>,
+um Psychologo Feminista, d'agudeza transcendente, Mestre muito
+experimentado e muito consultado em Sciencias Sentimentaes; e Vorcan,
+um pintor mythico, que
+interpret&aacute;ra ethereamente, havia um anno, a symbolia
+rapsodica
+do cerco de Troia, n'uma vasta composiç&atilde;o, <em>Helena
+Devastadora</em>... <br />
+
+<br />
+
+Eu coçava a barba: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o, Jacintho, n&atilde;o... Eu venho de
+Gui&atilde;es, das serras; preciso entrar em toda esta
+civilisac&atilde;o, lentamente, com cautella,
+sen&atilde;o rebento. Logo na mesma tarde a electricidade, e o
+conferençophone, e os
+espaços hypermagicos e o feminista, e o ethereo, e a
+symbolia devastadora,
+&eacute; excessivo! Volto &aacute;manh&atilde;. <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[34]</span>Jacintho dobrava
+vagarosamente a sua carta, onde mettera sem
+rebuço (como convinha &aacute; nossa fraternidade) duas
+violetas brancas
+tiradas do ramo que lhe floria o peito. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Aacute;manh&atilde;, Z&eacute; Fernandes, tu vens antes
+d'almoço, com as tuas malas dentro d'um fiacre, para te
+installares no 202, no teu quarto. No Hotel
+s&atilde;o embaraços, privaç&otilde;es.
+Aqui tens o
+telephone, o teatrophone, livros... <br />
+
+<br />
+
+Acceitei logo, com simplicidade. E Jacintho, embocando um tubo
+acustico, murmurou: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Grillo! <br />
+
+<br />
+
+Da parede, recoberta de damasco, que subitamente e sem rumor se fendeu,
+surdio o seu velho escudeiro (aquelle moleque que viera com
+<em>D.
+Galli&atilde;o</em>), que eu me alegrei de encontrar
+t&atilde;o rijo, mais negro, reluzente e veneravel na sua tesa
+gravata,
+no seu collete branco de bot&otilde;es de ouro. Elle tambem estimou
+v&ecirc;r de novo
+&laquo;o si&ocirc; Fernandes&raquo;. E, quando soube que eu
+occuparia o
+quarto do av&ocirc; Jacintho, teve
+um claro sorriso de preto, em que envolveu o seu senhor, no
+contentamento de o sentir emfim reprovido d'uma familia. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Grillo, dizia Jacintho, esta carta a Madame de Oriol... Escuta!
+Telephona para casa dos Tr&egrave;ves que os espiritistas
+só est&atilde;o livres no domingo... Escuta! Eu tomo uma
+douche <span class="pagenum">[35]</span>antes de
+jantar, tepida, a 17. Fricç&atilde;o com malva-rosa. <br />
+
+<br />
+
+E cahindo pesadamente para cima do divan, com um bocejo arrastado e
+vago: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois &eacute; verdade, meu Z&eacute; Fernandes, aqui estamos,
+como ha sete annos, n'este velho Paris... <br />
+
+<br />
+
+Mas eu n&atilde;o me arredava da mesa, no desejo de completar a
+minha iniciaç&atilde;o: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Oh Jacintho, para que servem todos estes instrumentosinhos? Houve
+j&aacute; ahi um desavergonhado que me picou. Parecem perversos...
+S&atilde;o
+uteis? <br />
+
+<br />
+
+Jacintho esboçou, com languidez, um gesto que os
+sublimava.&#8213;Providenciaes, meu filho, absolutamente providenciaes, pela
+simplificaç&atilde;o que d&atilde;o ao trabalho!
+Assim... E apontou. Este arrancava as pennas velhas; o outro numerava
+rapidamente as paginas d'um
+manuscripto; aquell'outro, al&eacute;m, raspava emendas... E ainda
+os havia para
+collar estampilhas, imprimir datas, derreter lacres, cintar
+documentos... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas com effeito, accrescentou, &eacute; uma s&eacute;cca. Com
+as molas, com os bicos, &aacute;s vezes magoam, ferem...
+J&aacute; me succedeu
+inutilisar cartas por as ter sujado com dedadas de sangue. &Eacute;
+uma massada! <br />
+
+<br />
+
+Ent&atilde;o, como o meu amigo espreit&aacute;ra novamente <span class="pagenum">[36]</span>o
+relogio monumental, n&atilde;o lhe quiz retardar a
+consolaç&atilde;o da douche e da
+malva-rosa. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Bem, Jacintho, j&aacute; te revi, j&aacute; me contentei...
+Agora at&eacute; &aacute;manh&atilde;, com as malas. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que diabo, Z&eacute; Fernandes, espera um momento... Vamos pela
+sala de jantar. Talvez te tentes! <br />
+
+<br />
+
+E, atrav&eacute;s da Bibliotheca, penetramos na sala de
+jantar,&#8213;que me encantou pelo seu luxo sereno e fresco. Uma madeira
+branca, laccada, mais lustrosa e macia que setim, revestia as paredes,
+encaixilhando medalh&otilde;es de damasco c&ocirc;r de morango,
+de
+morango
+muito maduro e esmagado: os aparadores, discretamente lavrados em
+flor&otilde;es e rocalhas,
+resplandeciam com a mesma lacca nevada: e damascos amorangados
+estofavam tambem as cadeiras, brancas, muito amplas, feitas para a
+lentid&atilde;o de gulas delicadas, de gulas intellectuaes. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Viva o meu Principe! Sim senhor... Eis aqui um comedoiro muito
+comprehensivel e muito repousante, Jacintho! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o janta, homem! <br />
+
+<br />
+
+Mas j&aacute; eu me começava a inquietar, reparando que
+a cada talher correspondiam seis garfos, e todos de feitios astuciosos.
+E mais me impressionei quando Jacintho me desvendou <span class="pagenum">[37]</span>que
+um era para as ostras, outro para o peixe, outro para as carnes, outro
+para os legumes, outro para as fructas, outro para o queijo!
+Simultaneamente, com uma sobriedade que louvaria Salom&atilde;o,
+só dois copos,
+para dois vinhos:&#8213;um Bordeus rosado em infusas de crystal, e Champagne
+gelando dentro de baldes de prata. Todo um aparador por&eacute;m
+vergava, sob o luxo
+redundante, quasi assustador d'aguas&#8213;aguas oxigenadas, aguas
+carbonatadas, aguas phosphatadas, aguas esterilisadas, aguas de saes,
+outras ainda, em garrafas bojudas, com tratados therapeuticos impressos
+em rotulos. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Santissimo nome de Deus, Jacintho! Ent&atilde;o &eacute;s
+ainda o mesmo tremendo bebedor d'agua, hein?... <em>Un
+aquatico</em>! como dizia o nosso poeta chileno, que andava a
+traduzir Klopstock. <br />
+
+<br />
+
+Elle derramou, por sobre toda aquella garrafaria
+encarapuçada em metal, um olhar desconsolado: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o... &Eacute; por causa das aguas da Cidade,
+contaminadas, atulhadas de microbios... Mas ainda n&atilde;o
+encontrei uma b&ocirc;a agua
+que me convenha, que me satisfaça... At&eacute; soffro
+s&ecirc;de. <br />
+
+<br />
+
+Desejei ent&atilde;o conhecer o jantar do Psychologo e do
+Symbolista&#8213;traçado, ao lado dos <span class="pagenum">[38]</span>talheres,
+em tinta vermelha, sobre laminas de marfim. Começava
+honradamente por ostras classicas, de Marennes.
+Depois apparecia uma sopa d'alcachofras e ovas de carpa... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; bom? <br />
+
+<br />
+
+Jacintho encolheu desinteressadamente os hombros: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim... Eu n&atilde;o tenho nunca appetite, j&aacute; ha
+tempos... J&aacute; ha annos. <br />
+
+<br />
+
+Do outro prato só comprehendi que continha frangos e
+tubaras. Depois saboreariam aquelles senhores um filete de veado,
+macerado em Xerez,
+com gel&ecirc;a de noz. E por sobremeza simplesmente laranjas
+geladas
+em ether. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Em ether, Jacintho? <br />
+
+<br />
+
+O meu amigo hesitou, esboçou com os dedos a
+ondulaç&atilde;o d'um aroma que s'evola. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; novo... Parece que o ether desenvolve, faz afflorar a
+alma das fructas... <br />
+
+<br />
+
+Curvei a cabeça ignara, murmurei nas minhas profundidades: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eis a Civilisaç&atilde;o! <br />
+
+<br />
+
+E, descendo os Campos Elyseos, encolhido no paletot, a cogitar n'este
+prato symbolico, considerava a rudeza e atolado atrazo da minha
+Gui&atilde;es, onde desde seculos a alma das laranjas permanece
+ignorada e desaproveitada dentro dos gomos sumarentos, por todos <span class="pagenum">[39]</span>aquelles
+pomares que ensombram e perfumam o valle, da Roqueirinha a Sandofim!
+Agora por&eacute;m, bemdito Deus, na convivencia de um
+t&atilde;o
+grande iniciado como Jacintho, eu comprehenderia todas as finuras e
+todos os poderes da Civilisaç&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+E, (melhor ainda para a minha ternura!) contemplaria a raridade d'um
+homem que, concebendo uma id&eacute;a da Vida, a realisa&#8213;e
+atrav&eacute;s d'ella e por ella recolhe a felicidade perfeita. <br />
+
+<br />
+
+Bem se affirm&aacute;ra este Jacintho, na verdade, como Principe da
+Gran-Ventura! <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h2>III</h2>
+
+<br />
+
+<br />
+
+No 202, todas as manh&atilde;s, &aacute;s nove horas, depois do
+meu chocolate e ainda em chinelas, penetrava no quarto de Jacintho.
+Encontrava o meu amigo banhado, barbeado, friccionado, envolto n'um
+roup&atilde;o branco
+de pello de cabra do Thibet, diante da sua mesa de toilette, toda de
+crystal, (por causa dos microbios) e atulhada com esses utensilios de
+tartaruga, marfim, prata, aço e madreperola que o homem do
+seculo XIX
+necessita para n&atilde;o desfeiar o conjuncto sumptuario da
+Civilisaç&atilde;o e manter n'ella o seu Typo. As
+escovas
+sobretudo renovavam, cada dia, o meu regalo e o meu espanto&#8213;porque as
+havia largas como a roda massiça d'um
+carro sabino; estreitas e mais recurvas que o alfange d'um mouro;
+concavas,
+em fórma de telha alde&atilde;; ponteagudas em feitio de
+folha de hera; rijas que nem cerdas de javali; macias que nem pennugem <span class="pagenum">[42]</span>de r&ocirc;la! De
+todas, fielmente, como amo que n&atilde;o desdenha nenhum servo, se
+utilisava o meu Jacintho. E assim, em face ao espelho emmoldurado de
+folhedos de prata,
+permanecia este Principe passando pellos sobre o seu pello durante
+quatorze minutos. <br />
+
+<br />
+
+No emtanto o Grillo e outro escudeiro, por traz dos biombos de Kioto,
+de sedas lavradas, manobravam, com pericia e vigor, os apparelhos do
+lavatorio&#8213;que era apenas um resumo das machinas monumentaes da Sala de
+Banho, a mais estremada maravilha do 202. N'estes marmores
+simplificados existiam unicamente dois jactos graduados desde
+<em>zero</em> at&eacute;
+<em>cem</em>; as duas duchas, fina e grossa, para a
+cabeça; a fonte
+esterilisada para os dentes; o repuxo borbulhante para a barba; e ainda
+bot&otilde;es
+discretos, que, roçados, desencadeavam esguichos, cascatas
+cantantes,
+ou um leve orvalho estival. D'esse recanto temeroso, onde delgados
+tubos mantinham
+em disciplina e servid&atilde;o tantas aguas ferventes, tantas
+aguas violentas, sahia emfim o meu Jacintho enxugando as
+m&atilde;os a uma toalha de
+felpo, a uma toalha de linho, a outra de corda entrançada
+para
+restabelecer a circulaç&atilde;o, a outra de
+s&ecirc;da frouxa para
+repolir a pelle. Depois d'este rito derradeiro que lhe arrancava ora um
+suspiro, ora um bocejo, Jacintho, estendido n'um divan, <span class="pagenum">[43]</span>folheava uma Agenda, onde
+se arrolavam,
+inscriptas pelo Grillo ou por elle, as occupaç&otilde;es
+do seu dia, t&atilde;o numerosas por vezes que cobriam duas laudas.
+<br />
+
+<br />
+
+Todas ellas se prendiam &aacute; sua sociabilidade, &aacute;
+sua civilisaç&atilde;o muito complexa, ou a interesses
+que o meu Principe, n'esses sete annos,
+cre&aacute;ra para viver em mais consciente communh&atilde;o
+com todas as
+funcç&otilde;es da Cidade. (Jacintho com effeito era
+presidente do Club da
+<em>Espada e Alvo</em>; commanditario do Jornal o
+<em>Boulevard</em>; director da
+<em>Companhia dos
+Telephones de Constantinopla</em>; socio dos
+<em>Bazares unidos da Arte
+Espiritualista</em>; membro do
+<em>Comit&eacute; de Iniciaç&atilde;o
+das Religi&otilde;es Esotericas</em>,
+etc.) Nenhuma d'estas
+occupaç&otilde;es parecia por&eacute;m aprazivel ao
+meu
+amigo&#8213;porque, apesar da mansid&atilde;o e harmonia dos seus
+modos, frequentemente arremessava para o tapete, n'uma
+rebelli&atilde;o
+de
+homem livre, aquella Agenda que o escravisava. E n'uma d'essas
+manh&atilde;s (de vento e neve), apanhando eu o livro oppressivo,
+encadernado em pellica,
+de um carinhoso tom de rosa murcha&#8213;descobri que o meu Jacintho devia
+depois do almoço fazer uma visita na rua da Universidade,
+outra no Parque Monceau, outra entre os arvoredos remotos da Muette;
+assistir
+por fidelidade a uma votaç&atilde;o no Club; acompanhar
+Madame <span class="pagenum">[44]</span>d'Oriol a
+uma exposiç&atilde;o de leques; escolher um presente de
+noivado para a sobrinha dos Tr&egrave;ves; comparecer no funeral do
+velho conde de Malville;
+presidir um tribunal de honra n'uma quest&atilde;o de roubalheira,
+entre
+cavalheiros, ao ecart&eacute;... E ainda se acavallavam outras
+indicaç&otilde;es, escrivinhadas por Jacintho a
+lapis:&#8213;&laquo;Carroceiro&#8213;Five-oclock dos Ephrains&#8213;A
+pequena das <em>Variedades</em>&#8213;Levar
+a nota ao
+jornal...&raquo; Considerei o meu Principe. Estirado no divan,
+d'olhos
+miserrimamente cerrados, bocejava, n'um bocejo immenso e mudo. <br />
+
+<br />
+
+Mas os affazeres de Jacintho começavam logo no 202, cedo,
+depois do banho. Desde as oito horas a campainha do telephone repicava
+por elle, com impaciencia, quasi com colera, como por um escravo
+tardio. E mal enxugado, dentro do seu roup&atilde;o de pello de
+cabra
+do Thibet
+ou de grossas pyjamas de pelucia c&ocirc;r d'ouro-velho,
+constantemente
+sahia ao
+corredor a cochichar com sujeitos t&atilde;o apressados, que
+conservavam na
+m&atilde;o o guarda-chuva pingando sobre o tapete. Um d'esses,
+sempre
+presente (e
+que pertencia decerto aos <em>Telephones de
+Constantinopla</em>), era temeroso&#8213;todo elle chupado, tisnado,
+com maus dentes,
+sobraçando uma enorme pasta sebenta, e dardejando, d'entre a
+alta gola d'uma pelissa poida, <span class="pagenum">[45]</span>como
+da abertura d'um covil, dous olhinhos t&ocirc;rvos e de
+rapina. Sem cessar, inexoravelmente, um escudeiro apparecia, com
+bilhetes n'uma
+salva... Depois eram fornecedores d'Industria e d'Arte; negociantes de
+cavallos, rubicundos e de paletot branco; inventores com grossos rolos
+de papel; alfarrabistas trazendo na algibeira uma
+ediç&atilde;o &laquo;unica&raquo;, quasi
+inverosimil, de Ulrich
+Zell ou do
+<em>Lapidanus</em>. Jacintho circulava estonteado pelo 202,
+rabiscando
+a carteira, repicando o telephone, desatando nervosamente pacotes,
+sacudindo ao passar algum embuscado que
+surdia das sombras da antecamara, estendia como um trabuco o seu
+memorial ou o seu catalogo! <br />
+
+<br />
+
+Ao meio dia, um tam-tam argentino e melancholico ressoava, chamando ao
+almoço. Com o <em>Figaro</em> ou
+as <em>Novidades</em>
+abertas sobre o prato,
+eu esperava sempre meia hora pelo meu Principe, que entrava n'uma
+rajada, consultando o relogio, exhalando com a face mo&iacute;da o
+seu
+queixume eterno: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que massada! E depois uma noite abominavel, enrodilhada em sonhos...
+Tomei sulforal, chamei o Grillo para me esfregar com therebentina...
+Uma s&eacute;cca! <br />
+
+<br />
+
+Espalhava pela mesa um olhar j&aacute; farto. Nenhum prato, por
+mais engenhoso, o seduzia;&#8213;e, como atrav&eacute;s do seu tumulto
+matinal fumava
+<span class="pagenum">[46]</span>incontaveis
+cigarretes que o
+resequiam, começava por se encharcar com um
+immenso copo d'agua oxygenada, ou carbonatada, ou gazoza, misturada
+d'um cognac
+raro, muito caro, horrendamente adocicado, de moscatel de Syracusa.
+Depois, &aacute; pressa, sem gosto, com a ponta incerta do garfo,
+picava aqui e al&eacute;m uma lasca de fiambre, uma febra de
+lagosta;&#8213;e
+reclamava impacientemente o caf&eacute;, um caf&eacute; de
+Moka,
+mandado
+cada mez por um feitor do Dedjah, fervido &aacute; turca, muito
+espesso, que elle remexia
+com um pau de canella! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E tu, Z&eacute; Fernandes, que vaes tu fazer? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu? <br />
+
+<br />
+
+Recostado na cadeira, com delicias, os dedos mettidos nas cavas do
+collete: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vou vadiar, regaladamente, como um c&atilde;o natural! <br />
+
+<br />
+
+O meu sollicito amigo, remexendo o caf&eacute; com o pau de
+canella, rebuscava atrav&eacute;s da numerosa
+Civilisaç&atilde;o da
+Cidade uma occupaç&atilde;o que me encantasse. Mas
+apenas suggeria uma Exposiç&atilde;o, ou
+uma Conferencia, ou monumentos, ou passeios, logo encolhia os hombros
+desconsolados: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Por fim nem vale a pena, &eacute; uma s&eacute;cca! <br />
+
+<br />
+
+Accendia outra das cigarretes russas, onde rebrilhava o seu nome,
+impresso a ouro na mortalha. Torcendo, n'uma pressa nervosa, os <span class="pagenum">[47]</span>fios do
+bigode, ainda escutava, &aacute; porta da Bibliotheca, o seu
+procurador, o nedio e magestoso Laporte. E emfim, seguido d'um criado,
+que
+sobraçava um maço tremendo de jornaes para lhe
+abastecer o
+coup&eacute;, o Principe da Gran-Ventura mergulhava na Cidade. <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="break">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Quando o dia social de Jacintho se apresentava mais desafogado, e o
+c&eacute;o de Março nos concedia caridosamente um pouco
+de azul
+agoado,
+sahiamos depois d'almoço, a p&eacute;,
+atrav&eacute;s de
+Paris. Estes lentos e errantes passeios eram outr'ora, na nossa edade
+de Estudantes, um gozo muito querido de Jacintho&#8213;porque n'elles mais
+intensamente e mais minuciosamente saboreava a Cidade. Agora
+por&eacute;m, apesar da
+minha companhia, só lhe davam uma impaciencia e uma fadiga
+que
+desoladoramente destoava do antigo, illuminado extasi. Com espanto
+(mesmo com
+d&ocirc;r, porque sou bom, e sempre me entristece o desmoronar
+d'uma
+crença) descobri eu, na primeira tarde em que descemos aos
+Boulevards, que o denso formigueiro humano sobre o asphalto, e a
+torrente sombria dos trens sobre o macadam, affligiam o meu amigo pela
+brutalidade da sua pressa, do seu egoismo, <span class="pagenum">[48]</span>e
+do seu estridor. Encostado e como refugiado
+no meu braço, este Jacintho novo começou a
+lamentar
+que as ruas, na nossa Civilisaç&atilde;o, n&atilde;o
+fossem
+calçadas de gutta-percha! E a gutta-percha claramente
+representava, para o meu amigo, a substancia discreta que amortece o
+choque e a rudeza das cousas. Oh maravilha! Jacintho
+querendo borracha, a borracha isoladora, entre a sua sensibilidade e as
+funcç&otilde;es da Cidade! Depois, nem me permittiu
+pasmar
+diante d'aquellas dourejadas
+e espelhadas lojas que elle outr'ora considerava como os
+&laquo;preciosos museus do seculo XIX&raquo;... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o vale a pena, Z&eacute; Fernandes. Ha uma immensa
+pobreza e seccura d'invenç&atilde;o! Sempre os mesmos
+flor&otilde;es
+Luiz XV, sempre as mesmas pelucias... N&atilde;o vale a pena! <br />
+
+<br />
+
+Eu arregalava os olhos para este transformado Jacintho. E sobretudo me
+impressionava o seu horror pela Multid&atilde;o&#8213;por certos
+effeitos da Multid&atilde;o, só para elle sensiveis, e a
+que
+chamava
+os &laquo;sulcos&raquo;. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tu n&atilde;o os sentes, Z&eacute; Fernandes. Vens das
+serras... Pois constituem o rijo inconveniente das Cidades, estes
+sulcos! &Eacute; um perfume
+muito agudo e petulante que uma mulher larga ao passar, e se installa
+no olfacto, e estraga para todo o dia o ar respiravel. &Eacute; um
+dito
+que se
+surprehende n'um grupo, que <span class="pagenum">[49]</span>revela
+um mundo de velhacaria, ou de pedantismo, ou de estupidez, e que nos
+fica collado &aacute; alma, como um salpico,
+lembrando a immensidade da lama a atravessar. Ou ent&atilde;o, meu
+filho,
+&eacute; uma figura intoleravel pela
+pretenç&atilde;o, ou pelo mau-gosto, ou
+pela impertinencia, ou pela rellice, ou pela dureza, e de que se
+n&atilde;o
+póde sacudir mais a vis&atilde;o repulsiva... Um pavor,
+estes sulcos, Z&eacute; Fernandes! De resto,
+que diabo, s&atilde;o as pequeninas miserias d'uma
+Civilisaç&atilde;o deliciosa! <br />
+
+<br />
+
+Tudo isto era especioso, talvez pueril&#8213;mas para mim revelava,
+n'aquelle chamejante devoto da Cidade, o arrefecimento da
+devoç&atilde;o. N'essa mesma tarde, se bem recordo, sob
+uma luz macia e fina, penetramos nos centros
+de Paris, nas ruas longas, nas milhas de casario, todo de
+caliça parda, erriçado de chamin&eacute;s de
+lata negra, com as
+janellas sempre fechadas, as cortininhas sempre corridas, abafando,
+escondendo a vida. Só
+tijolo, só ferro, só argamassa, só
+estuque: linhas hirtas,
+angulos asperos: tudo secco, tudo rigido. E dos ch&atilde;os aos
+telhados, por toda a
+fachada, tapando as varandas, comendo os muros, Taboletas, Taboletas...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Oh, este Paris, Jacintho, este teu Paris! Que enorme, que grosseiro
+bazar! <br />
+
+<br />
+
+E, mais para sondar o meu Principe do que <span class="pagenum">[50]</span>por
+persuas&atilde;o,
+insisti na fealdade e tristeza d'estes predios, duros armazens, cujos
+andares
+s&atilde;o prateleiras onde se apilha humanidade! E uma humanidade
+impiedosamente catalogada e arrumada! A mais vistosa e de luxo nas
+prateleiras baixas,
+bem envernisadas. A relles e de trabalho nos altos, nos
+desv&atilde;os, sobre pranchas de pinho n&uacute;, entre o
+pó e
+a
+traça... <br />
+
+<br />
+
+Jacintho murmurou, com a face arripiada: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; feio, &eacute; muito feio! <br />
+
+<br />
+
+E accudiu logo, sacudindo no ar a luva de anta: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas que maravilhoso organismo, Z&eacute; Fernandes! Que solidez!
+Que producç&atilde;o! <br />
+
+<br />
+
+Onde Jacintho me parecia mais renegado era na sua antiga e quasi
+religiosa affeiç&atilde;o pelo Bosque de Bolonha. Quando
+moço, elle construira sobre o Bosque theorias complicadas e
+consideraveis. E sustentava, com olhos rutilantes de fanatico, que no
+Bosque a Cidade cada tarde ia retemperar salutarmente a sua
+força, recebendo, pela
+presença das suas Duquezas, das suas Cortez&atilde;s,
+dos seus
+Politicos, dos seus
+Financeiros, dos seus Generaes, dos seus Academicos, dos seus Artistas,
+dos seus Clubistas, dos seus Judeus, a certeza consoladora de que todo
+o seu pessoal se mantinha em numero, em vitalidade, em
+funcç&atilde;o, <span class="pagenum">[51]</span>e
+que nenhum elemento da sua grandeza desapparecera ou deperecera!
+&laquo;Ir ao
+Bois&raquo; constituia ent&atilde;o para o meu Principe um acto
+de consciencia.
+E voltava sempre confirmando com orgulho que a Cidade possuia todos os
+seus astros, garantindo a eternidade da sua luz! <br />
+
+<br />
+
+Agora, por&eacute;m, era sem fervor, arrastadamente, que elle me
+levava ao Bosque, onde eu, aproveitando a clemencia d'Abril, tentava
+enganar a minha saudade d'arvoredos. Emquanto subiamos, ao trote nobre
+das suas egoas lustrosas, a Avenida dos Campos-Elyseos e a do Bosque,
+rejuvenescidas pelas relvas tenras e fresco verdejar dos rebentos,
+Jacintho, soprando o fumo da cigarrete pelas vidraças
+abertas do coup&eacute;, permanecia o bom camarada, de veia amavel,
+com
+quem era doce
+philosophar atrav&eacute;s de Paris. Mas logo que passavamos as
+grades
+douradas
+do Bosque, e penetravamos na Avenida das Acacias, e enfiavamos na lenta
+fila dos trens de luxo e de praça, sob o silencio decoroso,
+apenas
+cortado pelo tilintar dos freios e pelas rodas vagarosas esmagando a
+areia,&#8213;o meu Principe emmudecia, mollemente engilhado no fundo das
+almofadas, d'onde
+só despegava a face para escancarar bocejos de fartura. Pelo
+antigo habito de verificar a presença confortadora <span class="pagenum">[52]</span>do
+&laquo;pessoal, dos astros&raquo;, ainda, por vezes, apontava
+para
+algum coup&eacute; ou vittoria
+rodando com rodar rangente n'outra arrastada fila&#8213;e murmurava um nome.
+E assim fui
+conhecendo a encaracolada barba hebraica do banqueiro Ephraim; e o
+longo nariz patricio de Madame de Tr&egrave;ves abrigando um
+sorriso
+perenne; e as bochechas flacidas do poeta neo-platonico Dornan, sempre
+espapado no fundo de fiacres; e os longos band&ograve;s
+pre-raphaelitas
+e
+negros de Madame Verghane; e o monoculo defumado do director do
+<em>Boulevard</em>; e o bigodinho vencedor do Duque de
+Marizac,
+reinando de cima do seu phaeton
+de guerra; e ainda outros sorrisos immoveis, e barbichas &aacute;
+Renascença, e palpebras amortecidas, e olhos farejantes, e
+pelles empoadas d'arroz, que eram todas illustres e da intimidade do
+meu Principe. Mas, do topo da Avenida das Acacias,
+recomeçavamos
+a descer, em passo
+sopeado, esmagando lentamente a areia; na fila vagarosa que subia,
+calhambeque atraz de landau, vittoria atraz de fiacre, fatalmente
+reviamos o binoculo sombrio do homem do
+<em>Boulevard</em>, e os band&ograve;s
+furiosamente negros de Madame Verghane, e o ventre espapado do
+neo-platonico, e a barba talmudica, e todas aquellas figuras, d'uma
+immobilidade de cera, super-conhecidas do meu <span class="pagenum">[53]</span>camarada,
+recruzadas cada tarde
+atrav&eacute;s de revividos annos, sempre com os mesmos sorrisos,
+sob o mesmo
+pó d'arroz, na mesma immobilidade de cera; ent&atilde;o
+Jacintho n&atilde;o
+se continha, gritava ao cocheiro: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Para casa, depressa! <br />
+
+<br />
+
+E era pela Avenida do Bosque, pelos Campos-Elyseos, uma fuga ardente
+das egoas a quem a lentid&atilde;o sopeada, n'um roer de freios,
+entre
+outras egoas tambem d'ellas super-conhecidas, lançavam n'uma
+exasperaç&atilde;o comparavel &aacute; de Jacintho. <br />
+
+<br />
+
+Para o sondar eu denegria o Bosque: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;J&aacute; n&atilde;o &eacute; t&atilde;o divertido,
+perdeu o brilho!... <br />
+
+<br />
+
+Elle acudia, timidamente: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o, &eacute; agradavel, n&atilde;o ha nada mais
+agradavel; mas... <br />
+
+<br />
+
+E accusava a friagem das tardes ou o despotismo dos seus affazeres.
+Recolhiamos ent&atilde;o ao 202, onde, com effeito, em breve
+embrulhado no seu roup&atilde;o branco, diante da mesa de crystal,
+entre a
+legi&atilde;o das escovas, com toda a electricidade refulgindo, o
+meu Principe se
+começava a adornar para o serviço social da
+noite. <br />
+
+<br />
+
+E foi justamente numa d'essas noites (um sabado) que nós
+passamos, n'aquelle quarto t&atilde;o civilisado e protegido, por
+um d'esses
+brutos <span class="pagenum">[54]</span>e revoltos
+terrores como só os produz a ferocidade dos
+Elementos. J&aacute; tarde, &aacute; pressa (jantavamos com
+Marizac no Club para o
+acompanhar depois ao <em>Lohengrin</em>
+na Opera) Jacintho
+arrocheava o nó da gravata branca&#8213;quando no lavatorio, ou
+porque se rompesse o tubo, ou se dessoldasse a torneira, o jacto d'agua
+a ferver rebentou furiosamente, fumegando e silvando. Uma nevoa densa
+de vapor quente abafou as luzes&#8213;e, perdidos n'ella, sentiamos, por
+entre os gritos do escudeiro
+e do Grillo, o jorro devastador batendo os muros, esparrinhando uma
+chuva
+que escaldava. Sob os p&eacute;s o tapete ensopado era uma lama
+ardente. E como se todas as forças da natureza, submettidas
+ao
+serviço de Jacintho, se agitassem, animadas por aquella
+rebelli&atilde;o da agua&#8213;ouvimos
+roncos surdos no interior das paredes, e pelos fios dos lumes
+electricos sulcaram faiscas ameaçadoras! Eu fugira para o
+corredor, onde se
+alargava a nevoa grossa. Por todo o 202 ia um tumulto de desastre.
+Diante do
+port&atilde;o, attrahidas pela fumarada que se escapava das
+janellas,
+estacionava policia, uma multid&atilde;o. E na escada esbarrei com
+um
+reporter,
+de chap&eacute;o para a nuca, a carteira aberta, gritando
+sofregamente
+&laquo;se
+havia mortos?&raquo; <br />
+
+<br />
+
+Domada a agua, clareada a bruma, vim <span class="pagenum">[55]</span>encontrar
+Jacintho no meio do quarto, em ceroulas, livido: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Oh Z&eacute; Fernandes, esta nossa industria!... Que impotencia,
+que impotencia! Pela segunda vez, este desastre! E agora, apparelhos
+perfeitos, um processo novo... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E eu encharcado por esse processo novo! E sem outra casaca! <br />
+
+<br />
+
+Em redor, as nobres s&ecirc;das bordadas, os brocateis Luiz XIII,
+cobertos de manchas negras, fumegavam. O meu Principe, enfiado,
+enchugava uma photographia de Madame d'Oriol, d'hombros decotados, que
+o jorro bruto macul&aacute;ra d'empolas. E eu, com rancor, pensava
+que
+na minha
+Gui&atilde;es a agua aquecia em seguras panellas&#8213;e subia ao meu
+lavatorio, pela
+m&atilde;o forte da Catharina, em seguras infusas! N&atilde;o
+jantamos
+com o duque de
+Marizac, no Club. E, na Opera, nem saboreei Lohengrin e a sua branca
+alma e o seu branco cysne e as suas brancas armas&#8213;entallado,
+aperreado, cortado nos
+sovacos pela casaca que Jacintho me emprest&aacute;ra e que
+rescendia estonteadoramente a flores de Nessari. <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="break">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+No domingo, muito cedo, o Grillo, que na v&eacute;spera
+escald&aacute;ra as m&atilde;os e as trazia embrulhadas em
+s&ecirc;da, penetrou no meu quarto, descerrou
+<span class="pagenum">[56]</span>as cortinas, e
+&aacute; beira do leito, com o seu radiante sorriso de
+preto: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vem no <em>Figaro</em>! <br />
+
+<br />
+
+Desdobrou triumphalmente o jornal. Eram, nos
+<em>Echos</em>, doze linhas, onde as nossas aguas rugiam e
+espadavam,
+com tanta magnificencia e tanta publicidade, que tambem
+sorr&iacute;,
+deleitado. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E toda a manh&atilde;, o telephone, si&ocirc; Fernandes!
+exclamava o Grillo, rebrilhando em ebano. A quererem saber, a quererem
+saber...
+&laquo;Est&aacute; l&aacute;? Est&aacute;
+escaldado?&raquo; Paris afflicto, si&ocirc;
+Fernandes! <br />
+
+<br />
+
+O telephone, com effeito, repicava, insaciavel. E quando desci para o
+almoço, a toalha desapparecia sob uma camada de telegrammas,
+que o meu Principe fendia com a faca, enrugado, rosnando contra a
+&laquo;massada&raquo;. Só desannuviou, ao ler um
+d'esses papeis
+azues, que atirou para cima do
+meu prato, com o mesmo sorriso agradado com que de manh&atilde;
+sorriramos, o Grillo e eu: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; do Gran-Duque Casimiro... Rat&atilde;o amavel!
+Coitado! <br />
+
+<br />
+
+Saboreei, atrav&eacute;s dos ovos, o telegramma de S. Alteza.
+&laquo;O que! o meu Jacintho inundado! Muito chic, nos
+Campos-Elyseos! N&atilde;o volto
+ao 202 sem boia de salvaç&atilde;o! Compassivo
+abraço!
+Casimiro...&raquo; Murmurei tambem <span class="pagenum">[57]</span>com
+deferencia:&#8213;&laquo;Amavel! Coitado!&raquo; Depois, revolvendo
+lentamente o mont&atilde;o de telegrammas que se alastrava
+at&eacute; ao meu copo: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Oh Jacintho! Quem &eacute; esta Diana que incessantemente te
+escreve, te telephona, te telegrapha, te...? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Diana?... Diana de Lorge. &Eacute; uma cocotte. &Eacute; uma
+grande cocotte! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tua? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Minha, minha... N&atilde;o! tenho um bocado. <br />
+
+<br />
+
+E como eu lamentava que o meu Principe, senhor t&atilde;o rico e de
+t&atilde;o fino orgulho, por economia d'uma gamella propria
+chafurdasse com outros
+n'uma gamella publica&#8213;Jacintho levantou os hombros, com um
+camar&atilde;o espetado no garfo: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tu vens das serras... Uma cidade como Paris, Z&eacute; Fernandes,
+precisa ter cortez&atilde;s de grande pompa e grande fausto. Ora
+para
+montar em
+Paris, n'esta tremenda carestia de Paris, uma cocotte com os seus
+vestidos, os
+seus diamantes, os seus cavallos, os seus lacaios, os seus camarotes,
+as suas festas, o seu palacete, a sua publicidade, a sua insolencia,
+&eacute; necessario que se aggremiem umas poucas de fortunas, se
+forme
+um syndicato! Somos uns sete, no Club. Eu pago um bocado... Mas
+meramente por Civismo, para dotar a cidade com uma cocotte monumental. <span class="pagenum">[58]</span>De resto n&atilde;o
+chafurdo. Pobre Diana!... Dos hombros para baixo nem sei
+se tem a pelle c&ocirc;r de neve ou c&ocirc;r de
+lim&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Arregalei um olho divertido: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Dos hombros para baixo?... E para cima? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Oh para cima tem pó d'arroz!... Mas &eacute; uma
+s&eacute;cca! Sempre bilhetes, sempre telephones, sempre
+telegrammas. E tres mil francos por mez,
+al&eacute;m das flores... Uma massada! <br />
+
+<br />
+
+E as duas rugas do meu Principe, aos lados do seu afilado nariz,
+curvado sobre a salada, eram como dous valles muito tristes, ao
+entardecer. <br />
+
+<br />
+
+Acabavamos o almoço, quando um escudeiro, muito
+discretamente, n'um murmurio, annunciou Madame d'Oriol. Jacintho pousou
+com tranquillidade
+o charuto; eu quasi me engasguei, n'um sorvo alvoroçado de
+caf&eacute;. Entre os reposteiros de damasco c&ocirc;r de
+morango ella appareceu, toda de
+negro, d'um negro liso e austero de Semana Santa, lançando
+com o
+regalo um lindo gesto para nos socegar. E immediatamente, n'uma
+volubilidade docemente chalrada: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; um momento, nem se levantem! Passei, ia para a
+Magdalena, n&atilde;o me contive, quiz v&ecirc;r os estragos...
+Uma
+inundaç&atilde;o em Paris, nos Campos-Elyseos!
+N&atilde;o ha sen&atilde;o este Jacintho. <span class="pagenum">[59]</span>E vem
+no <em>Figaro!</em>
+O que eu estava assustada, quando telephonei! Imaginem! Agua a ferver,
+como no Vesuvio... Mas &eacute; d'uma novidade! E os estofos
+perdidos,
+naturalmente, os tapetes... Estou morrendo por admirar as ruinas! <br />
+
+<br />
+
+Jacintho, que n&atilde;o me pareceu commovido, nem agradecido com
+aquelle interesse, retom&aacute;ra risonhamente o charuto: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Est&aacute; tudo secco, minha querida senhora, tudo secco! A
+belleza foi hontem, quando a agua fumegava e rugia! Ora que pena
+n&atilde;o ter
+ao menos cahido uma parede! <br />
+
+<br />
+
+Mas ella insistia. Nem todos os dias se gozavam em Paris os
+destroços d'uma inundaç&atilde;o. O
+<em>Figaro</em> cont&aacute;ra... E era
+uma aventura deliciosa, uma casa escaldada nos Campos-Elyseos! <br />
+
+<br />
+
+Toda a sua pessoa, desde as plumasinhas que frisavam no
+chap&eacute;o at&eacute; &aacute; ponta reluzente das
+botinas de verniz, se agitava, vibrava, como um
+ramo tenro sob o boliço do passaro a chalrar. Só
+o
+sorriso, por traz do v&eacute;o espesso, conservava um brilho
+immovel. E j&aacute; no ar se
+espalh&aacute;ra um aroma, uma doçura, emanadas de toda
+a sua mobilidade e de toda a
+sua graça. <br />
+
+<br />
+
+Jacintho no emtanto cedera, alegremente: e pelo corredor Madame d'Oriol
+ainda louvava <span class="pagenum">[60]</span>o <em>Figaro</em>
+amavel, e
+confessava quanto tremera... Eu voltei ao meu caf&eacute;,
+felicitando mentalmente o Principe da
+Gran-Ventura por aquella perfeita fl&ocirc;r de
+Civilisaç&atilde;o que lhe perfumava a vida. Pensei
+ent&atilde;o na apurada harmonia em que se movia essa
+fl&ocirc;r. E corri vivamente &aacute; ante-camara, verificar
+diante do espelho o meu
+penteado e o nó da minha gravata. Depois recolhi
+&aacute; sala de
+jantar, e junto da janella, folheando languidamente a <em>Revista
+do Seculo
+XIX</em>,
+tomei uma attitude de elegancia e d'alta cultura. Quasi immediatamente
+elles reappareceram: e Madame d'Oriol, que, sempre sorrindo, se
+proclamava espoliada, nada encontr&aacute;ra que recordasse as
+agoas
+furiosas,
+roçou pela mesa, onde Jacintho procurava, para lhe
+offerecer,
+tangerinas de Malta,
+ou castanhas geladas, ou um biscouto molhado em vinho de Tokai. <br />
+
+<br />
+
+Ella recusava com as m&atilde;os guardadas no regalo.
+N&atilde;o era alta, nem forte&#8213;mas cada prega do vestido, ou curva
+da
+capa, cahia e ondulava harmoniosamente, como
+perfeiç&otilde;es
+recobrindo
+perfeiç&otilde;es. Sob o v&eacute;o cerrado, apenas
+percebi a
+brancura da face empoada, e a
+escurid&atilde;o dos olhos largos. E com aquellas s&ecirc;das e
+velludos negros, e um
+pouco do cabello louro, d'um louro quente, torcido fortemente sobre as
+pelles negras que lhe orlavam <span class="pagenum">[61]</span>o
+pescoço, toda ella derramava uma
+sensaç&atilde;o de macio e de fino. Eu teimosamente a
+considerava como uma fl&ocirc;r
+de Civilisaç&atilde;o:&#8213;e pensava no secular trabalho e
+na
+cultura superior que necessit&aacute;ra o terreno onde ella
+t&atilde;o delicadamente
+brot&aacute;ra, j&aacute; desabrochada, em pleno perfume, mais
+graciosa por ser fl&ocirc;r
+d'esforço e d'estufa, e trazendo nas suas p&eacute;talas
+um n&atilde;o sei
+qu&ecirc; de desbotado e de ante-murcho. <br />
+
+<br />
+
+No emtanto, com a sua volubilidade de passaro, chalrando para mim,
+chalrando para Jacintho, ella mostrava o seu lindo espanto por aquelle
+mont&atilde;o de telegrammas sobre a toalha. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tudo esta manh&atilde;, por causa da
+inundaç&atilde;o?... Ah, Jacintho &eacute; hoje o
+homem, o unico homem de Paris! Muitas mulheres n'esses telegrammas? <br />
+
+<br />
+
+Languidamente, com o charuto a fumegar, o meu Principe empurrou para a
+sua amiga o telegramma do Gran-duque. Ent&atilde;o Madame d'Oriol
+teve um <em>ah!</em> muito grave e muito sentido. Releu
+profundamente o papel de S. A. que
+os seus dedos acariciavam com uma reverencia gulosa. E sempre grave,
+sempre s&eacute;ria: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; brilhante! <br />
+
+<br />
+
+Oh, certamente! n'aquelle desastre tudo <span class="pagenum">[62]</span>se
+pass&aacute;ra com muito
+brilho, n'um tom muito Parisiense. E a deliciosa creatura
+n&atilde;o se
+podia demorar, porque fizera marcar um logar na egreja da Magdalena
+para o
+serm&atilde;o! <br />
+
+<br />
+
+Jacintho exclamou com innocencia: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Serm&atilde;o?... &Eacute; j&aacute; a
+estaç&atilde;o dos serm&otilde;es? <br />
+
+<br />
+
+Madame d'Oriol teve um movimento de carinhoso escandalo e
+d&ocirc;r. O qu&ecirc;! pois nem na austera casa dos
+Tr&egrave;ves dera pela entrada da
+quaresma? De resto n&atilde;o se admirava&#8213;Jacintho era um turco!
+E,
+immediatamente celebrou o pr&eacute;gador, um frade dominicano, o
+P&egrave;re Granon!
+Oh d'uma eloquencia! d'uma violencia! No derradeiro serm&atilde;o
+pr&eacute;gara
+sobre o amor, a fragilidade dos amores mundanos! E tivera coisas d'uma
+inspiraç&atilde;o, d'uma brutalidade! Depois que gesto,
+um gesto terrivel que esmagava, em que
+se lhe arregaçava toda a manga, mostrando o braço
+n&uacute;, um braço soberbo, muito branco, muito forte! <br />
+
+<br />
+
+O seu sorriso permanecia claro sob o olhar que negrej&aacute;ra
+dentro do v&eacute;o negro. E Jacintho, rindo: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Um bom braço de director espiritual, hein? Para vergar,
+espancar almas... <br />
+
+<br />
+
+Ella acudiu: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o! infelizmente o P&egrave;re Granon n&atilde;o
+confessa! <br />
+
+<br />
+
+E de repente reconsiderou&#8213;aceitava um <span class="pagenum">[63]</span>biscouto,
+um c&aacute;lice
+de Tokai. Era necessario um cordial para affrontar as
+emoç&otilde;es
+do P&egrave;re Granon! Ambos nos precipit&aacute;ramos, um
+arrebatando a garrafa, outro
+offerecendo o prato de bonbons. Franzio o v&eacute;o para os olhos,
+chupou &aacute;
+pressa um bolo que ensop&aacute;ra no Tokai. E como Jacintho,
+reparando casualmente no
+chap&eacute;o que ella trazia, se curv&aacute;ra com
+curiosidade, impressionado,
+Madame d'Oriol apagou o sorriso, toda seria, ante uma cousa seria: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Elegante, n&atilde;o &eacute; verdade?... &Eacute; uma
+creaç&atilde;o inteiramente nova de Madame Vial. Muito
+respeitoso, e muito suggestivo, agora na Quaresma. <br />
+
+<br />
+
+O seu olhar, que me envolvera, tambem me convidava a admirar.
+Approximei o meu focinho de homem das serras para contemplar essa
+creaç&atilde;o suprema do luxo de Quaresma. E era
+maravilhoso!
+Sobre o velludo, na sombra das plumas frizadas, aninhada entre rendas,
+fixada por um pr&eacute;go,
+pousava delicadamente, feita de azeviche, uma Cor&ocirc;a de
+Espinhos! <br />
+
+<br />
+
+Ambos nos extasiamos. E Madame d'Oriol, n'um movimento e n'um sorriso
+que derramou mais aroma e mais claridade, abalou para a Magdalena. <br />
+
+<br />
+
+O meu Principe arrastou pelo tapete alguns <span class="pagenum">[64]</span>passos
+pensativos e molles.
+E bruscamente, levantando os hombros com uma
+determinaç&atilde;o immensa, como se deslocasse um
+mundo: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Oh Z&eacute; Fernandes, vamos passar este Domingo n'alguma cousa
+simples e natural... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Em qu&ecirc;? <br />
+
+<br />
+
+Jacintho circumgirou os olhares muito abertos, como se, atravez da Vida
+Universal, procurasse anciosamente uma cousa natural e simples. Depois,
+descançando sobre mim os mesmos largos olhos que voltavam de
+muito longe, cançados e com pouca esperança: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vamos ao Jardim das Plantas, v&ecirc;r a girafa! <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h2>IV</h2>
+
+<br />
+
+<br />
+
+N'essa fecunda semana, uma noite, recolhiamos ambos da Opera, quando
+Jacintho, bocejando, me annunciou uma festa no 202. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Uma festa?... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Por causa do Gran-Duque, coitado, que me vai mandar um peixe
+delicioso e muito raro que se pesca na Dalmacia. Eu queria um
+almoço
+curto. O Gran-Duque reclamou uma ceia. &Eacute; um barbaro,
+besuntado
+com
+litteratura do seculo XVIII, que ainda acredita em ceias, em Paris!
+Reuno no domingo tres ou quatro mulheres, e uns dez homens bem typicos,
+para o divertir.
+Tambem aproveitas. Folheias Paris n'um resumo... Mas &eacute; uma
+massada amarga! <br />
+
+<br />
+
+Sem interesse pela sua festa, Jacintho n&atilde;o se affadigou em a
+comp&ocirc;r com relevo ou brilho. Encommendou apenas uma orchestra
+de Tziganes (os Tziganes, as suas jalecas escarlates, <span class="pagenum">[66]</span>a
+melancolia aspera das Czardas ainda n'esses tempos remotos emocionavam
+Paris): e mandou, na Bibliotheca, ligar o Theatrophone com a Opera, com
+a Comedia-Franceza, com o Alcazar e com os Buffos, prevendo todos os
+gostos desde o tragico
+at&eacute; ao picaro. Depois no domingo, ao entardecer, ambos
+visitamos a mesa da ceia, que resplandecia com as velhas baixellas de
+D.
+Gali&atilde;o. E a faustosa profus&atilde;o de orchideas, em
+longas
+sylvas por sobre a
+toalha bordada a s&ecirc;da, enroladas aos fructeiros de Saxe,
+trasbordando de crystaes lavrados e filagranados d'ouro, espalhava uma
+t&atilde;o
+fina sensaç&atilde;o de luxo e gosto, que eu
+murmurei:&#8213;&laquo;Caramba, bemdito, seja o
+dinheiro!&raquo; Pela primeira vez, tambem, admirei a copa e a sua
+installaç&atilde;o abundante e minuciosa&#8213;sobretudo os
+dois
+ascensores que rolavam das profundidades
+da cozinha, um para os peixes e carnes aquecido por tubos d'agua
+fervente, o outro para as saladas e gelados revestido de placas
+frigorificas. Oh, este 202! <br />
+
+<br />
+
+&Aacute;s nove horas, por&eacute;m, descendo eu ao gabinete de
+Jacintho para escrever a minha boa tia Vicencia, em quanto elle
+fic&aacute;ra no toucador
+com o man&iacute;curo que lhe polia as unhas, passamos n'esse
+delicioso
+palacio, florido e em gala, por bem corriqueiro susto! <span class="pagenum">[67]</span>Todos os lumes
+electricos, subitamente, em todo o 202, se apagaram! Na minha immensa
+desconfiança d'aquellas forças universaes, pulei
+logo para a porta,
+tropeçando nas trevas, ganindo um <em>Aqui d'Elrei</em>!
+que tresandava a Gui&atilde;es. Jacintho em cima berrava, com o
+man&iacute;curo agarrado &aacute;s pyjamas.
+E de novo, como serva ralassa que recolhe arrastando as chinellas, a
+luz resurgiu com lentid&atilde;o. Mas o meu Principe, que descera,
+enfiado, mandou
+buscar um engenheiro &aacute; Companhia Central da Electricidade
+Domestica.
+Por precauç&atilde;o outro creado correu &aacute;
+mercearia
+comprar pacotes de velas. E
+o Grillo desenterrava j&aacute; dos armarios os candelabros
+abandonados, os
+pesados castiçaes archaicos dos tempos inscientificos de D.
+Gali&atilde;o: era uma reserva de veteranos fortes, para o caso
+pavoroso em que mais tarde,
+&aacute; ceia, falhassem perfidamente as forças bisonhas
+da
+Civilisaç&atilde;o. O Electricista, que acudira
+esbaforido,
+afiançou
+por&eacute;m que a Electricidade se conservaria fiel, sem outro
+amuo.
+Eu, cautelosamente, soneguei na algibeira dous c&ocirc;tos de
+estearina. <br />
+
+<br />
+
+A Electricidade permaneceu fiel, sem amuos. E quando desci do meu
+quarto, tarde (porque perdera o collete de baile e só depois
+d'uma busca furiosa e praguejada o encontrei cahido por traz da cama!),
+todo <span class="pagenum">[68]</span>o 202
+refulgia, e os Tziganes, na antecamara, sacudindo as guedelhas,
+atiravam as arcadas d'uma valsa t&atilde;o arrastadora que, pelas
+paredes,
+os immensos Personagens das tapeçarias, Priamo, Nestor, o
+engenhoso
+Ulysses, arfavam, boliam com os p&eacute;s venerandos! <br />
+
+<br />
+
+Timidamente, sem rumor, puxando os punhos, penetrei no gabinete de
+Jacintho. E fui logo acolhido pelo sorriso da condessa de Treves, que,
+acompanhada pelo illustre historiador Danjon (da Academia Franceza),
+percorria maravilhada os Apparelhos, os Instrumentos, toda a sumptuosa
+Mechanica do meu super-civilisado Principe. Nunca ella me parecera mais
+magestosa do que n'aquellas s&ecirc;das c&ocirc;r de
+açafr&atilde;o, com rendas cruzadas no peito
+&aacute;
+Maria-Antonietta, o cabello crespo e ruivo levantado
+em rolo sobre a testa dominadora, e o curvo nariz patricio, abrigando o
+sorriso
+sempre luzidio, sempre corrente, como um arco abriga o correr e o luzir
+d'um regato. Direita como n'um solio, a longa luneta de tartaruga
+acercada dos olhos miudos e turvamente azulados, ella escutava deante
+do Graphophono, depois deante do Microphono, como melodias superiores,
+os commentarios que o meu Jacintho ia atabalhoando com uma amabilidade
+penosa. E ante cada roda, cada mola, eram pasmos, louvores finamente
+torneados, <span class="pagenum">[69]</span>em
+que attribuia a Jacintho, com astuta candura, todas aquellas
+invenç&otilde;es do Saber! Os utensilios
+misteriosos que atulhavam a mesa d'ebano foram para ella uma
+iniciaç&atilde;o que a
+enlevou. Oh, o &laquo;numerador de paginas&raquo;! oh, o
+&laquo;collador
+d'estampilhas&raquo;! A caricia demorada dos seus dedos seccos
+aquecia
+os metaes. E supplicava os endereços dos fabricantes para se
+prover de todas aquellas
+utilidades adoraveis! Como a vida, assim apetrechada, se tornava
+escorregadia e facil! Mas era necessario o talento, o gosto de
+Jacintho, para
+escolher, para &laquo;crear!&raquo; E n&atilde;o
+só ao meu
+amigo (que o recebia com resignaç&atilde;o) ella
+offertava o
+fino mel. Affagando com o cabo da luneta o Telegrapho,
+achou a possibilidade de recordar a eloquencia do Historiador. Mesmo
+para mim
+(de quem ignorava o nome) arranjou junto do Phonographo, e
+&aacute;cerca de &laquo;vozes d'amigos que &eacute; doce
+colleccionar&raquo;, uma lisonjasinha redondinha e lustrosa, que eu
+chupei como um rebuçado celeste. Boa
+casaleira que vae atirando o gr&atilde;o aos frangos famintos, a
+cada
+passo,
+maternalmente, ella nutria uma vaidade. Sofrego d'outro
+rebuçado, acompanhei a
+sua cauda sussurrante e c&ocirc;r d'açafr&atilde;o.
+Ella
+par&aacute;ra deante da Machina-de-contar, de que Jacintho
+j&aacute;
+lhe fornecera pacientemente uma
+explicaç&atilde;o sapiente. <span class="pagenum">[70]</span>E
+de novo roçou os buracos d'onde espreitam os numeros negros,
+e com o seu enlevado sorriso murmurou:&#8213;&laquo;Prodigiosa, esta
+prensa
+electrica!...&raquo; <br />
+
+<br />
+
+Jacintho accudiu: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o! N&atilde;o! Esta &eacute;... <br />
+
+<br />
+
+Mas ella sorria, seguia... Madame de Treves n&atilde;o
+comprehendera nenhum apparelho do meu Principe! Madame de Treves
+n&atilde;o attendera a
+nenhuma dissertaç&atilde;o do meu Principe! N'aquelle
+gabinete
+de sumptuosa Mechanica ella sómente se occup&aacute;ra
+em exercer, com proveito
+e com perfeiç&atilde;o, a Arte de Agradar. Toda ella era
+uma sublime falsidade. N&atilde;o
+escondi a Danjon a admiraç&atilde;o que me penetrava. <br />
+
+<br />
+
+O facundo Academico revirou os olhos bogalhudos: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Oh! e um g&ocirc;sto, uma intelligencia, uma
+seducç&atilde;o!... E depois como se janta bem em casa
+d'ella! Que caf&eacute;!... Mulher superior, meu
+caro senhor, verdadeiramente superior! <br />
+
+<br />
+
+Deslisei para a bibliotheca. Logo &aacute; entrada da erudita nave,
+junto da estante dos Padres da Egreja onde alguns cavalheiros
+conversavam, parei
+a saudar o director do <em>Boulevard</em> e
+o Psychologo-feminista, o auctor do <em>Coraç&atilde;o
+Triple</em>, com quem na v&eacute;spera me
+familiaris&aacute;ra ao almoço, no 202. O seu
+acolhimento foi paternal: e, como se necessitasse a minha <span class="pagenum">[71]</span>presença,
+reteve na sua m&atilde;o illustre, rutilante
+de anneis, com força e com gula, a minha grossa palma
+serrana.
+Todos aquelles senhores, com effeito, celebravam o seu Romance, a
+<em>Couraça</em>,
+lançado n'essa semana entre gritinhos de g&ocirc;zo e um
+quente
+rumor de saias
+alvoroçadas. Um sobretudo, com uma vasta cabeça
+arranjada
+&aacute; Van
+Dick e que parecia postiça, proclamava, alçado na
+ponta
+das botas,
+que nunca penetr&aacute;ra t&atilde;o fundamente, na velha alma
+humana,
+a ponta da Psychologia Experimental! Todos concordavam, se apertavam
+contra o Psychologo, o tratavam por &laquo;mestre&raquo;. Eu
+mesmo, que
+nem sequer entrevira a capa
+amarella da <em>Couraça</em>, mas para quem
+elle voltava os olhos pedinch&otilde;es e famintos de mais mel,
+murmurei com um leve assobio:&#8213;&laquo;uma
+delicia!&raquo; <br />
+
+<br />
+
+E o Psychologo, reluzindo, com o labio humido, entalado n'um alto
+collarinho onde se enroscava uma gravata &aacute; 1830, confessava
+modestamente que dissec&aacute;ra todas aquellas almas da
+<em>Couraça</em> com
+&laquo;algum cuidado&raquo;, sobre documentos, sobre
+pedaços de vida ainda quentes, ainda
+a sangrar... E foi ent&atilde;o que Marizac, o duque de Marizac,
+notou, com um sorriso mais afiado que um lampejo de navalha, e sem
+tirar as
+m&atilde;os dos bolsos: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;No emtanto, meu caro, n'esse livro t&atilde;o <span class="pagenum">[72]</span>profundamente
+estudado ha um erro bem estranho, bem curioso!... <br />
+
+<br />
+
+O Psychologo, vivamente, atir&aacute;ra a cabeça para
+traz: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Um erro? <br />
+
+<br />
+
+Oh, sim, um erro! E bem inesperado n'um mestre t&atilde;o
+experiente!... Era attribuir &aacute; esplendida amorosa da
+<em>Couraça</em>, uma duqueza, e
+do gosto mais puro,&#8213;<em>um collete de setim
+preto</em>!
+Esse collete, assim preto, de setim, apparecia na bella pagina de
+analyse e paix&atilde;o em que
+ella se despia no quarto de Ruy d'Alize. E Marizac, sempre com as
+m&atilde;os nos bolsos, mais grave, appellava para aquelles
+senhores.
+Pois era verosimil, n'uma mulher como a duqueza, esthetica,
+pre-raphaelitica,
+que se vestia no Doucet, no Paquin, nos costureiros intellectuaes, um
+collete de setim preto? <br />
+
+<br />
+
+O Psychologo emmudecera, colhido, trespassado! Marizac era uma
+t&atilde;o suprema auctoridade sobre a roupa intima das duquezas,
+que
+&aacute;
+tarde, em quartos de rapazes, por impulsos idealistas e anceios d'alma
+dolorida&#8213;se p&otilde;em em collete e saia branca!... De resto o
+director do <em>Boulevard</em> condemn&aacute;ra
+logo sem piedade, com uma experiencia firme, aquelle collete,
+só possivel n'alguma mercieira atrazada que
+ainda procurasse effeitos <span class="pagenum">[73]</span>de
+carne nedia sobre setim negro. E eu, para que me
+n&atilde;o julgassem alheio &aacute;s coisas dos adulterios
+ducaes e do luxo, acudi, mettendo os dedos pelo cabello: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Realmente, preto, só se estivesse de lucto pesado, pelo
+pae! <br />
+
+<br />
+
+O pobre mestre da
+<em>Couraça</em> succumbira. Era
+a sua gloria de Doutor em Elegancias-Femininas desmantelada&#8213;e Paris
+suppondo que elle nunca vira
+uma duqueza desatacar o collete na sua alcova de Psychologo!
+Ent&atilde;o, passando o lenço sobre os labios que a
+angustia ressequira,
+confessou o erro, e contrictamente o attribuiu a uma
+improvisaç&atilde;o tumultuosa: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Foi um tom falso, um tom perfeitamente falso que me escapou!... Com
+effeito! &eacute; absurdo, um collete preto!... Mesmo por harmonia
+com o estado da alma da duqueza devia ser lilaz, talvez c&ocirc;r
+de
+reseda
+muito desmaiada, com um frouxo de rendas antigas de Malines...
+&Eacute;
+prodigioso como me escapou! Pois tenho o meu caderno de entrevistas bem
+annotadas,
+bem documentadas!... <br />
+
+<br />
+
+Na sua amargura, terminou por supplicar a Marizac que espalhasse por
+toda a parte, no Club, nas salas, a sua confiss&atilde;o.
+F&ocirc;ra um engano de artista, que trabalha na febre, vasculhando
+as almas, perdido nas profundidades <span class="pagenum">[74]</span>negras
+das almas! N&atilde;o repar&aacute;ra no
+collete, confundira os tons... E gritou, com os braços
+estendidos para o director
+do <em>Boulevard</em>: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Estou prompto a fazer uma rectificaç&atilde;o, n'uma
+<em>interview</em>, meu caro mestre! Mande um dos seus
+redactores... &Aacute;manh&atilde;,
+&aacute;s dez horas! Fazemos uma <em>interview</em>,
+fixamos a
+c&ocirc;r. Evidentemente &eacute; lilaz... Mande um dos seus
+homens, meu caro mestre! &Eacute; tambem uma
+occasi&atilde;o para eu confessar, bem alto, os serviços
+que o
+<em>Boulevard</em> tem feito &aacute;s
+sciencias psychologicas e feministas! <br />
+
+<br />
+
+Assim elle supplicava, encostado &aacute; estante, &aacute;s
+lombadas dos Santos Padres. E eu abalei, vendo ao fundo da Bibliotheca
+Jacintho que se debatia e se recusava entre dous homens. <br />
+
+<br />
+
+Eram os dois homens de Madame de Treves&#8213;o marido, conde de Treves,
+descendente dos reis de Candia, e o amante, o terrivel banqueiro judeu,
+David Ephraim. E t&atilde;o enfronhadamente assaltavam o meu
+Principe que nem me reconheceram, ambos n'um aperto de m&atilde;o
+molle
+e vago me
+trataram por &laquo;caro conde&raquo;! N'um relance, rebuscando
+charutos
+sobre a mesa de limoeiro, comprehendi que se tramava a <em>Companhia
+das
+Esmeraldas da
+Birmania</em>, medonha empreza em que scintillavam
+milh&otilde;es, e para que os dous confederados <span class="pagenum">[75]</span>de
+bolsa e d'alc&ocirc;va, desde o
+começo do anno, pediam o nome, a influencia, o dinheiro de
+Jacintho. Elle resistira, n'um enfado
+dos negocios, desconfiado d'aquellas esmeraldas soterradas n'um valle
+da Asia. E agora o conde de Treves, um homem esgrouviado, de face
+rechupada, erriçada de barba rala, sob uma fronte rotunda e
+amarella como um mel&atilde;o, assegurava ao meu pobre Principe que
+no
+Prospecto j&aacute; preparado, demonstrando a grandeza do negocio,
+perpassava um
+fulg&ocirc;r das <em>Mil e Uma noites</em>. Mas
+sobretudo
+aquella excavaç&atilde;o de esmeraldas convidava todo o
+espirito culto pela sua acç&atilde;o
+civilisadora. Era uma corrente de id&eacute;as occidentaes,
+invadindo, educando a
+Birmania. Elle acceit&aacute;ra a direcç&atilde;o
+por
+patriotismo... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;De resto &eacute; um negocio de joias, de arte, de progresso, que
+deve ser feito, n'um mundo superior, entre amigos... <br />
+
+<br />
+
+E do outro lado o terrivel Ephraim, passando a m&atilde;o curta e
+gorda sobre a sua bella barba, mais frisada e negra que a d'um Rei
+Assyrio,
+affiançava o triumpho da empreza pelas grossas
+forças que n'ella
+entravam, os Nagayers, os Bolsans, os Saccart... <br />
+
+<br />
+
+Jacintho franzia o nariz, enervado: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas, ao menos, est&atilde;o feitos os estudos? J&aacute; se
+provou que ha esmeraldas? <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[76]</span>Tanta ingenuidade
+exasperou Ephraim: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Esmeraldas! Est&aacute; claro que ha esmeraldas!... Ha sempre
+esmeraldas desde que haja accionistas! <br />
+
+<br />
+
+E eu admirava a grandeza d'aquella maxima&#8213;quando appareceu,
+esbaforido, desdobrando o lenço muito perfumado, um dos
+familiares do
+202, Todelle (Antonio de Todelle), moço j&aacute; calvo,
+d'infinitas
+prendas, que conduzia Cotillons, imitava cantores de Caf&eacute;
+Concerto, temperava
+saladas raras, conhecia todos os enredos de Paris. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;J&aacute; veio?... J&aacute; c&aacute; est&aacute; o
+Gran-Duque? <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o, S. Alteza ainda n&atilde;o cheg&aacute;ra. E
+Madame de Todelle? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o poude... No soph&aacute;... Esfolou uma perna. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Oh! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quasi nada... Cahiu do velocipede! <br />
+
+<br />
+
+Jacintho, logo interessado: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah! Madame de Todelle anda j&aacute; de velocipede? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Aprende. Nem tem velocipede!... Agora, na quaresma, &eacute; que
+se applicou mais, no velocipede do padre Ernesto, do cura de S.
+Jos&eacute;!
+Mas hontem, no Bosque, z&aacute;s, terra!... Perna esfolada. Aqui. <br />
+
+<br />
+
+E na sua propria c&ocirc;xa, com a unha, vivamente, desenhou o
+esfol&atilde;o. Ephraim, brutal e <span class="pagenum">[77]</span>serio,
+murmurou:&#8213;&laquo;Diabo! &eacute; no
+melhor sitio!&raquo; Mas Todelle nem o escut&aacute;ra,
+correndo para o director do
+<em>Boulevard</em>, que se avançava, lento e
+barrigudo, com o seu monoculo negro
+semelhante a um pacho. Ambos se collaram contra uma estante, n'um
+cochichar profundo. <br />
+
+<br />
+
+Jacintho e eu entramos ent&atilde;o no bilhar, forrado de velhos
+couros de Cordova, onde se fumava. Ao canto d'um divan, o grande
+Dornan, o poeta neo-platonico e mystico, o Mestre subtil de todos os
+rithmos, espapado nas almofadas, com um dos p&eacute;s sob a
+c&ocirc;xa
+gorda,
+como um Deus indio, dois bot&otilde;es do collete desabotoados, a
+papeira cahida sobre o
+largo decote do collarinho, mamava magestosamente um immenso charuto.
+Ao p&eacute;
+d'elle, tamb&eacute;m sentado, um velho que eu nunca
+encontr&aacute;ra
+no 202, esbelto, de cabellos brancos em anneis passados por traz das
+orelhas, a face
+coberta de pó de arroz, um bigodinho muito negro e
+arrebitado,
+find&aacute;ra certamente alguma historia de bom e grosso
+sal&#8213;porque
+deante do divan,
+de p&eacute;, Joban, o supr&egrave;mo Critico de Theatro, ria
+com a calva escarlate de g&ocirc;so, e um moço muito
+ruivo
+(descendente de
+Colygny), de perfil de periquito, sacudia os braços curtos
+como
+azas, e gania:
+&laquo;delicioso! divino!&raquo; Só o poeta
+idealista
+permanecera
+impassivel, na sua magestade obesa. <span class="pagenum">[78]</span>Mas,
+quando nos acercamos, esse Mestre do rythmo perfeito,
+depois de soprar uma farta fumarada e me saudar com um pesado mover das
+palpebras, começou n'uma voz de rico e sonoro metal: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ha melhor, ha infinitamente melhor... Todos aqui conhecem Madame
+Noredal. Madame Noredal tem umas immensas nadegas... <br />
+
+<br />
+
+Desgraçadamente para o meu regalo Todelle invadiu o bilhar,
+reclamando Jacintho com alarido. Eram as senhoras que desejavam ouvir
+no Phonographo uma aria da Patti! O meu amigo sacudiu logo os hombros,
+n'uma surda irritaç&atilde;o: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Aria da Patti... Eu sei l&aacute;! Todos esses rolos
+est&atilde;o em confus&atilde;o. Al&eacute;m d'isso o
+Phonographo trabalha mal. Nem trabalha! Tenho tres. Nenhum trabalha! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Bem! exclamou alegremente Todelle. Canto eu a
+<em>Pauvre fille</em>... &Eacute; mais de ceia! <em>Oh,
+la pauv', pauv',
+pauv'</em>... <br />
+
+<br />
+
+Travou do meu braço, e arrastou a minha timidez serrana para
+o sal&atilde;o c&ocirc;r de rosa murcha, onde, como Deusas n'um
+circulo
+escolhido do Olympo, resplandeciam Madame d'Oriol, Madame Verghane, a
+princeza de Carman, o uma outra loura, com grandes brilhantes nas
+grandes farripas, e d'hombros t&atilde;o n&uacute;s, e
+braços
+t&atilde;o n&uacute;s, e peitos t&atilde;o n&uacute;s,
+que o seu vestido <span class="pagenum">[79]</span>branco
+com
+bordados d'ouro pallido parecia uma camisa, a escorregar.
+Impressionado, ainda retive Todelle, rugi baixinho:&#8213;&laquo;Quem
+&eacute;?&raquo; Mas j&aacute; o festivo homem correra para
+Madame
+d'Oriol, com quem riam, n'uma familiaridade superior e facil, Marizac
+(o duque de Marizac) e um
+moço de barba c&ocirc;r de milho e mais leve que uma
+penugem,
+que se
+balouçava gracilmente sobre os p&eacute;s, como uma
+espiga ao
+vento. E eu,
+encalhado contra o piano, esfregava lentamente as m&atilde;os,
+amassando o
+meu embaraço, quando Madame Verghane se ergueu do
+soph&aacute;
+onde conversava
+com um velho (que tinha a Gran-Cruz de Santo Andr&eacute;), e
+avançou, deslizou no tapete, pequena e nedia, na sua copiosa
+cauda de velludo verde-negro.
+T&atilde;o fina era a cinta, entre os encontros fecundos e a
+vastid&atilde;o do
+peito, todo n&uacute; e c&ocirc;r de nacar, que eu receava que
+ella
+partisse pelo meio,
+no seu lento ondular. Os seus famosos bandós negros, d'um
+negro
+furioso,
+inteiramente lhe tapavam as orelhas; e, no grande aro d'ouro que os
+circumdava, reluzia uma estrella de brilhantes, como na fronte dos
+anjos de Boticelli. Conhecendo sem d&uacute;vida a minha
+auctoridade no
+202,
+ella despediu sobre mim ao passar, como raio benefico, um sorriso que
+lhe liquescia mais os olhos liquidos, e murmurou: <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[80]</span>
+&#8213;O Gran-Duque vem, com certeza? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Oh com certeza, minha senhora, para o peixe! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;P'ra o peixe?... <br />
+
+<br />
+
+Mas justamente, na antecamara, rompeu, em rufos e arcadas triumphaes, a
+marcha de Rakoczy. Era elle! Na Bibliotheca, o nosso retumbante mordomo
+annunciava: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;S. Alteza o Gran-Duque Casimiro! <br />
+
+<br />
+
+Madame de Verghane, com um curto suspiro
+d'emoç&atilde;o, alteou o peito, como para lhe
+exp&ocirc;r melhor a magnificencia eburnea. E o homem do
+<em>Boulevard</em>, o velho da Gran-Cruz, Ephraim, quasi me
+empurraram, investindo para a porta, na immensa sofreguid&atilde;o
+de Pessoa Real. <br />
+
+<br />
+
+Precedido por Jacintho, o Gran-Duque surgiu. Era um possante homem, de
+barba em bico, j&aacute; grisalha, um pouco calvo. Durante um
+momento hesitou, com um balanço lento sobre os
+p&eacute;s
+pequeninos,
+calçados de sapatos rasos, quasi sumidos sob as pantalonas
+muito
+largas. Depois, pesado e risonho,
+veio apertar a m&atilde;o &aacute;s senhoras que mergulhavam
+nos velludos e s&ecirc;das, em mesuras de C&ocirc;rte. E
+immediatamente, batendo com carinhosa
+jovialidade no hombro de Jacintho: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E o peixe?... Preparado pela receita que mandei, hein? <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[81]</span>
+Um murmurio de Jacintho tranquillisou S. Alteza. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ainda bem, ainda bem! exclamou elle, no seu vozeir&atilde;o de
+commando. Que eu n&atilde;o jantei, absolutamente n&atilde;o
+jantei!
+&Eacute; que se est&aacute; jantando deploravelmente em casa do
+Joseph.
+Mas porque se vai jantar ainda ao Joseph? Sempre que chego a Paris,
+pergunto: &laquo;Onde
+&eacute; que se janta agora?&raquo; Em casa do Joseph!... Qual!
+n&atilde;o se janta! Hoje, por exemplo,
+gallinholas... Uma peste! N&atilde;o tem, n&atilde;o tem a
+noç&atilde;o da gallinhola! <br />
+
+<br />
+
+Os seus olhos azulados, d'um azul sujo, rebrilhavam, alargados pela
+indignaç&atilde;o: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Paris est&aacute; perdendo todas as suas superioridades.
+J&aacute; se n&atilde;o janta, em Paris! <br />
+
+<br />
+
+Ent&atilde;o, em redor, aquelles senhores concordaram, desolados. O
+conde de Treves defendeu o Bignon, onde se conservavam nobres
+tradiç&otilde;es. E o director do <em>Boulevard</em>,
+que se
+empurrava todo para S. Alteza, attribuia a decadencia da cozinha, em
+França, &aacute; Republica,
+ao gosto democratico e torpe pelo barato. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;No Paillard, todavia...&#8213;começou o Ephraim. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;No Paillard! gritou logo o Gran-Duque. Mas os Borgonhas
+s&atilde;o t&atilde;o maus! os Borgonhas s&atilde;o
+t&atilde;o maus!... <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[82]</span>Deix&aacute;ra
+pender os
+braços, os hombros,
+descorçoado. Depois, com o seu lento andar
+balançado como
+o d'um velho piloto, atirando um
+pouco para traz as lapellas da casaca, foi saudar Madame d'Oriol, que
+toda ella faiscou, no sorriso, nos olhos, nas joias, em cada
+pr&eacute;ga das
+suas s&ecirc;das c&ocirc;r de salm&atilde;o. Mas apenas a
+clara e macia
+creatura, batendo o leque como uma aza alegre,
+começ&aacute;ra a
+chalrar, S. Alteza
+reparou no apparelho do Theatrophone, pousado sobre uma mesa entre
+fl&ocirc;res, e chamou
+Jacintho: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Em communicaç&atilde;o com o Alcazar?... O
+Theatrophone? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Certamente, meu senhor. <br />
+
+<br />
+
+Excellente! Muito chic! Elle fic&aacute;ra com pena de
+n&atilde;o ouvir a Gilberte n'uma cançoneta nova, as
+<em>Casquettes</em>. Onze e meia! Era
+justamente a essa hora que ella cantava, no ultimo acto da <em>Revista
+Electrica</em>...&#8213;Collou &aacute;s orelhas os dous
+&laquo;receptores&raquo; do Theatrophone, e quedou embebido,
+com uma ruga s&eacute;ria na testa dura. De
+repente, n'um commando forte: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; ella! Chut! Venham ouvir!... &Eacute; ella! Venham
+todos! Princeza de Carman, para aqui! Todos! &Eacute; ella! Chut...
+<br />
+
+<br />
+
+Ent&atilde;o, como Jacintho install&aacute;ra prodigamente dois
+Theatrophones, cada um provido de doze fios, as senhoras, todos
+aquelles cavalheiros, <span class="pagenum">[83]</span>se
+apressaram a acercar submissamente um receptor do ouvido, e a
+permanecer immoveis para saborear <em>Les
+Casquettes</em>. E no sal&atilde;o c&ocirc;r de
+rosa murcha, na nave da Bibliotheca, onde se espalh&aacute;ra um
+silencio
+augusto, só eu fiquei desligado do Theatrophone, com as
+m&atilde;os nas algibeiras
+e ocioso. <br />
+
+<br />
+
+No relogio monumental, que marcava a hora de todas as Capitaes e o
+movimento de todos os Planetas, o ponteiro rendilhado adormeceu. Sobre
+a mudez e a immobilidade pensativa d'aquelles dorsos, d'aquelles
+decotes,
+a Electricidade refulgia com uma tristeza de sol regelado. E de cada
+orelha attenta, que a m&atilde;o tapava, pendia um fio negro, como
+uma tripa. Dornan, esbroado sobre a mesa, cerr&aacute;ra as
+palpebras,
+n'uma
+meditaç&atilde;o de monge obeso. O historiador dos
+Duques
+d'Anjou, com o
+&laquo;receptor&raquo; na ponta delicada dos dedos, erguendo o
+nariz
+agudo e triste, gravemente cumpria
+um dever palaciano. Madame d'Oriol sorria, toda languida, como se o fio
+lhe murmurasse doçuras. Para desentorpecer arrisquei um
+passo timido. Mas cahiu logo sobre mim um <em>chut</em>
+severo do Gran-Duque! Recuei para entre as cortinas da janella, a
+abrigar a minha ociosidade. O Philologo
+da <em>Couraça</em>, distante da
+mesa, com o seu comprido fio esticado, mordia o beiço, n'um
+esforço de
+penetraç&atilde;o. <span class="pagenum">[84]</span>A
+beatitude de S. Alteza, enterrado n'uma vasta poltrona, era perfeita.
+Ao lado o collo de Madame Verghane arfava como uma onda de leite. E o
+meu pobre Jacintho, n'uma
+applicaç&atilde;o conscienciosa, pendia sobre o
+Theatrophone
+t&atilde;o tristemente
+como sobre uma sepultura. <br />
+
+<br />
+
+Ent&atilde;o, ante aquelles seres de superior
+civilisaç&atilde;o, sorvendo n'um silencio devoto as
+obscenidades que a Gilberte lhes gania, por debaixo do solo de Paris,
+atravez de fios mergulhados nos esgotos, cingidos aos
+canos das fezes,&#8213;pensei na minha aldeia adormecida. O crescente de
+lua, que, seguido d'uma estrellinha, corria entre nuvens sobre os
+telhados e
+as chamin&eacute;s negras dos Campos-Elyseos, tambem andava
+l&aacute; fugindo, mais lustrosa e mais d&ocirc;ce, por cima
+dos
+pinheiraes. As
+r&atilde;s coaxavam ao longe no Pego da Dona. A ermidinha de S.
+Joaquim
+branquejava no
+cabeço, nuasinha e candida... <br />
+
+<br />
+
+Uma das senhoras murmurou: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas, n&atilde;o &eacute; a Gilberte!... <br />
+
+<br />
+
+E um dos homens: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Parece um cornetim... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Agora s&atilde;o palmas... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o, &eacute; o Paulin! <br />
+
+<br />
+
+O Gran-Duque lançou um
+<em>chut</em> feroz... No pateo da nossa
+casa ladravam os c&atilde;es. D'al&eacute;m <span class="pagenum">[85]</span>do
+ribeiro respondiam os
+c&atilde;es do Jo&atilde;o Saranda. Como me encontrei descendo
+por uma
+quelha, sob as ramadas, com o meu varapau ao
+hombro? E sentia, entre a s&ecirc;da das cortinas, n'um fino ar
+macio, o cheiro das pinhas estalando nas lareiras, o calor dos curraes
+atravez das sebes altas, e o susurro dormente das levadas... <br />
+
+<br />
+
+Despertei a um brado que n&atilde;o sahia nem dos eidos, nem das
+sombras. Era o Gran-Duque que se erguera, encolhia furiosamente os
+hombros: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o se ouve nada!... Só guinchos! E um zumbido!
+Que massada!... Pois &eacute; uma belleza, a cançoneta: <br />
+
+<br />
+
+<div class="break">Oh les casquettes,<br />
+
+Oh les casque-e-e-tes!...</div>
+
+<br />
+
+Todos largaram os fios&#8213;proclamavam a Gilberte deliciosa. E o mordomo
+bemdito, abrindo largamente os dous batentes, annunciou: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;<em>Monseigneur est servi!</em> <br />
+
+<br />
+
+Na mesa, que pelo esplendor das orchideas mereceu os louvores ruidosos
+de S. Alteza, fiquei entre o ethereo poeta Dornan e aquelle
+moço de pennugem loura que balouçava como uma
+espiga ao
+vento.
+Depois de <span class="pagenum">[86]</span>desdobrar
+o guardanapo, de
+o accomodar regaladamente sobre os joelhos, Dornan desenvencilhou da
+corrente do relogio uma enorme luneta para percorrer o <em>menu</em>&#8213;que
+approvou. E
+inclinando para mim a sua face de Apostolo obeso: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Este Porto de 1834, aqui era casa do Jacintho, deve ser authentico...
+Hein? <br />
+
+<br />
+
+Assegurei ao Mestre dos Rythmos que o &laquo;Porto&raquo;
+envelhec&ecirc;ra nas adegas classicas do av&ocirc;
+Gali&atilde;o. Elle
+afastou, n'uma
+preparaç&atilde;o methodica, os longos, densos fios do
+bigode
+que lhe cobriam a bocca grossa. Os escudeiros serviram um
+consomm&eacute; frio com trufas. E o
+moço c&ocirc;r de milho, que espalh&aacute;ra pela
+mesa o seu
+olhar azul e d&ocirc;ce,
+murmurou, com uma desconsolaç&atilde;o risonha: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que pena!... Só falta aqui um general e um bispo! <br />
+
+<br />
+
+Com effeito! Todas as Classes Dominantes comiam n'esse momento as
+trufas do meu Jacintho... Mas defronte Madame d'Oriol
+lanç&aacute;ra um riso mais cantado que um gorgeio. O
+Gran-Duque, n'uma silva de orchideas que orlava o seu talher,
+not&aacute;ra uma, sombriamente horrenda,
+semelhante a um lacrau esverdinhado, de azas lustrosas, gordo e tumido
+de veneno: e muito delicadamente offert&aacute;ra a fl&ocirc;r
+monstruosa a
+Madame d'Oriol, que, com trinado <span class="pagenum">[87]</span>riso,
+solemnemente, a collocou no seio. Collado
+&aacute;quella carne macia, d'uma brancura de nata fina, o lacrau
+inch&aacute;ra,
+mais verde, com as azas frementes. Todos os olhos se accendiam, se
+cravavam no
+lindo peito, a que a fl&ocirc;r disforme, de c&ocirc;r
+venenosa,
+apimentava o sabor. Ella reluzia, triumphava. Para ageitar melhor a
+orchidea os seus dedos alargaram o decote, aclararam bellezas, guiando
+aquellas curiosidades flammejantes que a despiam. A face vincada de
+Jacintho pendia para o prato vasio. E o alto lyrico do <em>Crepusculo
+Mystico</em>, passando a m&atilde;o pelas barbas, rosnou com
+desdem: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Bella mulher... Mas ancas seccas, e aposto que n&atilde;o tem
+nadegas! <br />
+
+<br />
+
+No emtanto o moço de loura pennugem volt&aacute;ra
+&aacute; sua estranha m&aacute;goa. N&atilde;o possuirmos
+um general com a sua espada, e um bispo com seu baculo!... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Para que, meu caro senhor? <br />
+
+<br />
+
+Elle atirou um gesto suave em que todos os seus anneis faiscaram: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Para uma bomba de dynamite... Temos aqui um explendido ramalhete de
+fl&ocirc;res de Civilisac&atilde;o, com um Gran-Duque no meio.
+Imagine uma bomba de dynamite, atirada da porta!... Que bello fim de
+ceia, n'um fim de seculo! <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[88]</span>E como eu o
+considerava assombrado, elle, bebendo golos de Chateau-Yquem, declarou
+que hoje a unica emoç&atilde;o,
+verdadeiramente fina, seria aniquillar a
+Civilisaç&atilde;o. Nem a sciencia,
+nem as artes, nem o dinheiro, nem o amor, podiam j&aacute; dar um
+gosto intenso e real
+&aacute;s nossas almas saciadas. Todo o prazer que se
+extrah&iacute;ra de
+<em>crear</em> estava esgotado. Só restava,
+agora, o divino prazer de
+<em>destruir</em>! <br />
+
+<br />
+
+Desenrolou ainda outras enormidades, com um riso claro nos olhos
+claros. Mas eu n&atilde;o attendia o gentil pedante, colhido por
+outro
+cuidado&#8213;reparando que em torno, subitamente, todo o serviço
+estac&aacute;ra como no conto do Palacio Petrificado. E o prato
+agora
+devido era o
+peixe famoso da Dalmacia, o peixe de S. Alteza, o peixe inspirador da
+festa! Jacintho, nervoso, esmagava entre os dedos uma fl&ocirc;r. E
+todos
+os escudeiros sumidos! <br />
+
+<br />
+
+Felizmente o Gran-Duque contava a historia d'uma caçada, nas
+coutadas de Sarvan, em que uma senhora, mulher de um banqueiro,
+salt&aacute;ra
+bruscamente do cavallo, n'um descampado, sem arvores. Elle e todos os
+caçadores param&#8213;e a galante senhora, livida, com a amazona
+arregaçada, corre para traz d'uma pedra... Mas nunca
+soubemos em
+que se occupava a banqueira, n'esse descampado, agachada atraz da
+pedra&#8213;porque justamente <span class="pagenum">[89]</span>o
+mordomo
+appareceu, relusente de suor, e balbuciou uma confidencia a Jacintho,
+que mordeu o beiço, trespassado. O Gran-Duque emmudecera.
+Todos se entre-olhavam, n'uma anciedade alegre. Ent&atilde;o o meu
+Principe,
+com paciencia, com heroicidade, forçando pallidamente o
+sorriso:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Meus amigos, ha uma desgraça... <br />
+
+<br />
+
+Dornan pulou na cadeira: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Fogo? <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o, n&atilde;o era fogo. F&ocirc;ra o elevador dos
+pratos, que inesperadamente, ao subir o peixe de S. Alteza, se
+desarranj&aacute;ra, e
+n&atilde;o se movia, encalhado! <br />
+
+<br />
+
+O Gran-Duque arremessou o guardanapo. Toda a sua polidez estalava como
+um esmalte mal posto: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Essa &eacute; forte!... Pois um peixe que me deu tanto trabalho!
+Para que estamos nós aqui ent&atilde;o a cear? Que
+estupidez! E
+porque o n&atilde;o trouxeram &aacute; m&atilde;o,
+simplesmente? Encalhado... Quero v&ecirc;r! Onde
+&eacute; a copa? <br />
+
+<br />
+
+E, furiosamente, investiu para a copa, conduzido pelo mordomo que
+tropeçava, vergava os hombros, ante esta esmagadora colera
+de Principe. Jacintho seguiu, como uma sombra, levado na rajada de S.
+Alteza. E eu n&atilde;o me contive, tambem me atirei para a copa, a
+contemplar <span class="pagenum">[90]</span>o
+desastre, emquanto Dornan, batendo na c&ocirc;xa, clamava que se
+ceasse sem
+peixe! <br />
+
+<br />
+
+O Gran-Duque l&aacute; estava, debruçado sobre o
+poço escuro do elevador, onde mergulh&aacute;ra uma vela
+que lhe
+avermelhava mais a face
+esbraseada. Espreitei, por sobre o seu hombro real. Em baixo, na treva,
+sobre uma larga prancha, o peixe precioso alvejava, deitado na
+travessa, ainda fumegando, entre rodellas de lim&atilde;o.
+Jacintho,
+branco como a
+gravata, torturava desesperadamente a mola complicada do ascensor.
+Depois foi o Gran-Duque que, com os pulsos cabelludos, atirou um
+empux&atilde;o
+tremendo aos cabos em que elle rolava. Debalde! O apparelho
+enrij&aacute;ra
+n'uma inercia de bronze eterno. <br />
+
+<br />
+
+S&ecirc;das roçagaram &aacute; entrada da copa. Era
+Madame d'Oriol, e atraz Madame Verghane, com os olhos a faiscar, na
+curiosidade d'aquelle lance em que
+o Principe solt&aacute;ra tanta paix&atilde;o. Marizac, nosso
+intimo, surgiu tambem, risonho, propondo uma descida ao poço
+com
+escadas. Depois
+foi o Psychologo, que se abeirou, psychologou, attribuindo
+intenç&otilde;es sagazes ao peixe que assim se recusava.
+E a
+cada um o Gran-Duque, escarlate, mostrava com dedo tragico, no fundo da
+cova, o seu peixe! Todos afundavam a face, murmuravam:
+&laquo;l&aacute;
+est&aacute;!&raquo; Todelle, na sua
+precipitaç&atilde;o, quasi se <span class="pagenum">[91]</span>despenhou.
+O periquito descendente de Colygny batia as azas,
+ganindo:&#8213;&laquo;Que cheiro elle deita, que delicia!&raquo; Na
+copa atulhada os decotes das senhoras roçavam a farda dos
+lacaios. O velho
+caiado de pó d'arroz metteu o p&eacute; n'um balde de
+gelo, com um berro ferino.
+E o Historiador dos Duques d'Anjou movia por cima de todos o seu nariz
+bicudo e triste. <br />
+
+<br />
+
+De repente, Todelle teve uma id&eacute;a! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; muito simples... &Eacute; pescar o peixe! <br />
+
+<br />
+
+O Gran-Duque bateu na c&ocirc;xa uma palmada triumphal.
+Est&aacute; claro! Pescar o peixe! E no gozo d'aquella facecia,
+t&atilde;o rara e
+t&atilde;o nova, toda a sua colera se sum&iacute;ra, de novo se
+torn&aacute;ra o Principe
+amavel, de magnifica polidez, desejando que as senhoras se sentassem
+para assistir
+&aacute; pesca miraculosa! Elle mesmo seria o pescador! Nem se
+necessitava, para a divertida façanha, mais que uma bengala,
+uma
+guita e um
+gancho. Immediatamente Madame d'Oriol, excitada, offereceu um dos seus
+ganchos.
+Apinhados em volta d'ella, sentindo o seu perfume, o calor da sua
+pelle, todos exaltamos a amoravel dedicaç&atilde;o. E o
+Psychologo proclamou que nunca se pesc&aacute;ra com t&atilde;o
+divino
+anzol! <br />
+
+<br />
+
+Quando dois escudeiros estonteados voltaram, trazendo uma bengala e um
+cordel, j&aacute; o Gran-Duque, radiante, verg&aacute;ra o
+gancho em <span class="pagenum">[92]</span>anzol.
+Jacintho, com uma paciencia livida, erguia uma lampada sobre a
+escurid&atilde;o do poço fundo. E os senhores mais
+graves, o Historiador, o director do <em>Boulevard</em>,
+o Conde de Treves, o
+homem de cabeça &aacute; Van-Dick, sorriam, amontoados
+&aacute;
+porta, n'um interesse reverente pela phantasia
+de S. Alteza. Madame de Treves, essa, examinava serenamente, com a sua
+nobre luneta, a installaç&atilde;o da copa.
+Só
+Dornan n&atilde;o se erguera da mesa, com os punhos cerrados sobre
+a
+toalha, o gordo pescoço encovado, no
+tedio sombrio de fera a quem arrancaram a posta. <br />
+
+<br />
+
+No emtanto S. Alteza pescava com fervor! Mas debalde! O gancho, pouco
+agudo, sem presa, bamboleando na extremidade da guita frouxa,
+n&atilde;o fisgava. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Oh Jacintho, erga essa luz! gritava elle, inchado e suado. Mais!...
+Agora! Agora! &Eacute; na guelra! Só na guelra
+&eacute; que o gancho o póde prender. Agora... Qual! Que
+diabo! N&atilde;o vae! <br />
+
+<br />
+
+Tirou a face do poço, resfolgando e affrontado.
+N&atilde;o era possivel! Só carpinteiros, com
+alavancas!... E todos, anciosamente, bradamos que se abandonasse o
+peixe! <br />
+
+<br />
+
+O Principe, risonho, sacudindo as m&atilde;os, concordava que por
+fim &laquo;f&ocirc;ra mais divertido pescal-o do que
+com&ecirc;l-o!&raquo; E o
+elegante bando <span class="pagenum">[93]</span>refluiu
+sofregamente para a mesa, ao som d'uma valsa de Strauss, que os
+Tziganes arremeçaram em arcadas de languido ard&ocirc;r.
+Só Madame de Treves se demorou ainda, retendo o meu pobre
+Jacintho, para lhe assegurar quanto admirava
+o arranjo da sua copa... Oh perfeita! Que comprehens&atilde;o da
+vida, que fina intelligencia do conforto! <br />
+
+<br />
+
+S. Alteza, encalmado pelo esforço, esvasiou poderosamente
+dous copos de Chateau-Lagrange. Todos o acclamavam como um pescador
+genial. E os escudeiros serviram o <em>Bar&atilde;o de
+Pauillac</em>, cordeiro das lezirias marinhas, que, preparado com
+ritos quasi sagrados, toma este grande
+nome sonoro e entra no Nobiliario de França. <br />
+
+<br />
+
+Eu comi com o appetite d'um heroe de Homero. Sobre o meu copo e o de
+Dornan o Champagne scintillou e jorrou ininterrompidamente como uma
+fonte de inverno. Quando se serviram ortolans gelados, que se derretiam
+na bocca, o divino poeta murmurou, para meu regalo, o seu soneto
+sublime a &laquo;Santa Clara&raquo;. E como, do outro lado, o
+moço de pennugem loura insistia pela
+destruiç&atilde;o do
+velho mundo, tambem
+concordei, e, sorvendo o Champagne coalhado em sorvete, maldissemos o
+Seculo, a
+Civilisaç&atilde;o, todos os orgulhos da Sciencia!
+Atrav&eacute;s das fl&ocirc;res
+e das luzes, <span class="pagenum">[94]</span>no
+emtanto, eu seguia
+as ondas arfantes do vasto peito de Madame Verghane,
+que ria como uma bacchante. E nem me apiedava de Jacintho que, com a
+doçura de S. Jacintho sobre o c&ecirc;po, esperava o fim
+do seu martyrio e da sua festa. <br />
+
+<br />
+
+Ella findou. Ainda recordo, &aacute;s tres horas da noite, o
+Gran-Duque na antecamara, muito vermelho, mal firme nos p&eacute;s
+pequeninos,
+sem acertar com as mangas da pelissa que Jacintho e eu lhe ajudamos a
+enfiar&#8213;convidando o meu amigo, n'uma effus&atilde;o carinhosa, a
+ir caçar &aacute;s suas terras da Dalmacia... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Devo ao meu Jacintho uma bella pesca, quero que elle me deva uma
+bella caçada! <br />
+
+<br />
+
+E emquanto o acompanhavamos, entre as alas dos escudeiros, pela vasta
+escada onde o mordomo o precedia erguendo um candelabro de tres lumes,
+S. Alteza repisava, pegajoso: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Uma bella caçada... E tambem vae Fernandes! Bom Fernandes,
+Z&eacute; Fernandes! Ceia superior, meu Jacintho! O
+<em>Bar&atilde;o de Pauillac</em>, divino!... Creio que
+o devemos
+nomear Duque... O Senhor Duque de Pauillac! Mais um bocado da perna do
+Senhor Duque de Pauillac. Ah! Ah!... N&atilde;o venham
+fóra!
+N&atilde;o se
+constipem! <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[95]</span>E do fundo do
+coup&eacute;, ao rodar, ainda bradou: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;O peixe, Jacintho, desencalha o peixe! Excellente, ao
+almoço, frio, com m&ocirc;lho verde! <br />
+
+<br />
+
+Trepando cançadamente os degraus, n'uma molleza de Champagne
+e somno em que os olhos se me cerravam, murmurei para o meu Principe: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Foi divertido, Jacintho! Sumptuosa mulher, a Verghane! Grande pena, o
+elevador... <br />
+
+<br />
+
+E Jacintho, n'um som cavo que era bocejo e rugido: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Uma massada! E tudo falha! <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="break">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Tres dias depois d'esta festa no 202 recebeu o meu Principe
+inesperadamente, de Portugal, uma nova consideravel. Sobre a sua quinta
+e solar de Tormes, por toda a serra, pass&aacute;ra uma tormenta
+devastadora de vento, corisco e agua. Com as grossas chuvas,
+&laquo;ou
+por outras
+causas que os peritos dir&atilde;o&raquo; (como exclamava na
+sua carta
+angustiada o procurador Silverio), um pedaço de monte, que
+se
+avançava em
+socalco sobre o valle da Carriça, desab&aacute;ra,
+arrastando a
+velha egreja,
+uma egrejinha rustica do seculo XVI, onde jaziam sepultados os
+avós de Jacintho
+desde os tempos de el-rei D. Manoel. Os ossos veneraveis <span class="pagenum">[96]</span>d'esses Jacinthos
+jaziam agora soterrados sob um mont&atilde;o informe de terra e
+pedra. O
+Silverio j&aacute; começ&aacute;ra com os
+moços da quinta a
+desatulhar dos &laquo;preciosos restos&raquo;. Mas esperava
+anciosamente as ordens de sua exc.<sup>a</sup>... <br />
+
+<br />
+
+Jacintho empallidec&ecirc;ra, impressionado. Esse velho solo
+serrano, t&atilde;o rijo e firme desde os Godos, que de repente
+ruia!
+Esses jazigos de paz piedosa, precipitados com fragor, na borrasca e na
+treva, para um negro
+fundo de valle! Essas ossadas, que todas conservavam um nome, uma data,
+uma historia, confundidas n'um lixo de ruina! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Coisa estranha, coisa estranha!... <br />
+
+<br />
+
+E toda a noite me interrogou &aacute;cerca da serra e de Tormes,
+que eu conhecia desde pequeno, por que o velho solar, com a sua nobre
+alameda de faias seculares, se erguia a duas legoas da nossa casa, no
+antigo caminho de Gui&atilde;es &aacute;
+estaç&atilde;o
+e ao rio. O caseiro de Tormes, o bom Melchior, era cunhado do nosso
+feitor da Roqueirinha:&#8213;e muitas vezes, depois da minha intimidade com
+Jacintho, eu entr&aacute;ra no
+robusto casar&atilde;o de granito, e avali&aacute;ra o
+gr&atilde;o
+espalhado pelas
+salas sonoras, e prov&aacute;ra o vinho novo nas adegas immensas...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E a egreja, Z&eacute; Fernandes?... Entraste na egreja? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Nunca... Mas era pittoresca, com uma <span class="pagenum">[97]</span>torresinha
+quadrada, toda negra,
+onde ha muitos annos vivia uma familia de cegonhas... Terrivel
+transtorno para as cegonhas! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Coisa estranha! murmurava ainda o meu Principe, agourado. <br />
+
+<br />
+
+E telegraphou ao Silverio que desatulhasse o valle, recolhesse as
+ossadas, reedificasse a Egreja, e, para esta obra de piedade e
+reverencia, gastasse o dinheiro, sem contar, como a agua d'um rio
+largo. <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h2>V</h2>
+
+<br />
+
+<br />
+
+No emtanto Jacintho, desesperado com tantos desastres humilhadores&#8213;as
+torneiras que dessoldavam, os elevadores que emperravam, o Vapor que se
+encolhia, a Electricidade que se sumia, decidiu valorosamente vencer as
+resistencias finaes da Materia e da Força por novas e mais
+poderosas accumulac&otilde;es de Mechanismos. E n'essas semanas de
+Abril,
+emquanto as rosas desabrochavam, a nossa agitada casa, entre aquellas
+quietas casas
+dos Campos-Elyseos que preguiçavam ao sol, incessantemente
+tremeu, envolta n'um pó de caliça e d'empreitada,
+com o
+bruto picar de pedra, o retininte martelar de ferro. Nos silenciosos
+corredores, onde me era d&ocirc;ce fumar antes do almoço
+um
+pensativo cigarro,
+circulavam agora, desde madrugada, ranchos d'operarios, de blusas
+brancas, assobiando o <em>Pet&icirc;t-Bleu</em>, e
+intimidando
+os meus passos <span class="pagenum">[100]</span>quando
+eu atravessava em fralda e chinellas para o banho ou para outros
+retiros. Apenas se
+varava com pericia algum andaime obstruindo as portas&#8213;logo se
+esbarrava com uma pilha de taboas, uma ceira de farramentas ou um balde
+enorme d'argamassa. E os pedaços de soalho levantado
+mostravam
+tristemente, como n'um cadaver aberto, todos os interiores do 202, a
+ossatura, os sensiveis nervos d'arame, os negros intestinos de ferro
+fundido. <br />
+
+<br />
+
+Cada dia estacava deante do port&atilde;o alguma lenta
+carroça, d'onde os creados, em mangas de camisa,
+descarregavam
+caixotes de madeira, fardos
+de lona, que se despregavam e se descosiam n'uma sala asphaltada, ao
+fundo do jardim, por traz da sebe de lilazes. E eu descia, reclamado
+pelo meu Principe, para admirar uma nova Machina que nos tornaria a
+vida mais facil, estabelecendo d'um modo mais seguro o nosso dominio
+sobre a
+Substancia. Durante os calores, que apertaram depois da
+Ascenç&atilde;o, ensaiamos esperançadamente,
+para
+refrescar as aguas
+mineraes, a Soda-Water e os Medocs ligeiros, tres geleiras, que se
+amontoaram na copa successivamente desprestigiadas. Com os morangos
+novos appareceu
+um instrumentosinho astuto, para lhes arrancar os p&eacute;s,
+delicadamente. <span class="pagenum">[101]</span>Depois
+recebemos
+outro, prodigioso, de prata e crystal, para remexer phreneticamente as
+saladas; e, na primeira vez que o experimentei, todo
+o vinagre esparrinhou sobre os olhos do meu Principe, que fugiu aos
+uivos! Mas elle teimava... Nos actos mais elementares, para alliviar ou
+apressar o esforço, se soccorria Jacintho da Dynamica. E
+agora era por intervenç&atilde;o d'uma machina que
+abotoava as
+ceroulas. <br />
+
+<br />
+
+E simultaneamente, ou em obediencia &aacute; sua Id&eacute;a,
+ou governado pelo despotismo do habito, n&atilde;o cessava, ao lado
+da
+Mechanica
+accumulada, de accumular Erudiç&atilde;o. Oh, a
+invas&atilde;o
+dos
+livros no 202! Solitarios, aos pares, em pacotes, dentro de caixas,
+franzinos, gordos e repletos de auctoridade, envoltos em plebeia capa
+amarella ou revestidos de marroquim e ouro, perpetuamente,
+torrencialmente, invadiam por todas as
+largas portas a Bibliotheca, onde se estiravam sobre o tapete, se
+repimpavam nas cadeiras macias, se enthronisavam em cima das mesas
+robustas, e sobretudo trepavam contra as janellas, em sofregas pilhas,
+como se, suffocados pela sua propria multid&atilde;o, procurassem
+com ancia espaço e ar! Na erudita nave, onde apenas alguns
+vidros mais
+altos restavam descobertos, sem tapume de livros, perennemente se
+adensava um
+pensativo <span class="pagenum">[102]</span>crepusculo
+de outono
+emquanto fóra Junho refulgia.
+A Bibliotheca transbord&aacute;ra atrav&eacute;s de todo o 202!
+N&atilde;o se abria um armario sem que de dentro se despenhasse,
+desamparada, uma pilha de livros!
+N&atilde;o se franzia uma cortina sem que de traz surgisse, hirta,
+uma
+ruma de livros! E immensa foi a minha indignaç&atilde;o
+quando
+uma manh&atilde;, correndo urgentemente, de m&atilde;os nas
+alças, encontrei,
+vedada por uma tremenda collecç&atilde;o de Estudos
+Sociaes, a
+porta do
+Water-Closet! <br />
+
+<br />
+
+Mais amargamente por&eacute;m me lembro da noite historica em que,
+no meu quarto, moido e molle d'um passeio a Versalhes, com as palpebras
+poeirentas e meio adormecidas, tive de desalojar do meu leito,
+praguejando, um pavoroso Diccionario de Industria em trinta e sete
+volumes! Senti ent&atilde;o a suprema fartura do livro. Ageitando,
+com murros, os travesseiros, maldisse a Imprensa, a Facundia humana...
+E
+j&aacute; me estir&aacute;ra, adormecia, quando topei, quasi
+parti a
+preciosa
+rotula do joelho, contra a lombada d'um tomo que velhacamente se
+aninh&aacute;ra entre a parede e os colch&otilde;es. Com furor
+e um
+berro empolguei,
+arremessei o tomo affrontoso&#8213;que entornou o jarro, inundou um tapete
+rico de Daghestan.
+E nem sei se depois adormeci&#8213;porque os meus p&eacute;s, a que
+n&atilde;o sentia nem o pisar nem <span class="pagenum">[103]</span>o
+rumor, como se um vento brando me levasse, continuaram a
+tropeçar em livros no corredor apagado, depois na areia do
+jardim que o luar branqueava, depois na Avenida dos Campos-Elyseos,
+povoada e
+ruidosa como n'uma festa civica. E, oh portento! todas as casas aos
+lados eram construidas com livros. Nos ramos dos castanheiros
+ramalhavam folhas de
+livros. E os homens, as finas damas, vestidos de papel impresso, com
+titulos nos dorsos, mostravam em vez de rosto um livro aberto, a que a
+brisa lenta virava docemente as folhas. Ao fundo, na Praça
+da Concordia, avistei uma escarpada montanha de livros, a que tentei
+trepar, arquejante, ora enterrando a perna em flacidas camadas de
+versos, ora batendo contra a lombada, dura como calhau, de tomos de
+Exegese e Critica. A t&atilde;o vastas alturas subi, para
+al&eacute;m
+da
+terra, para al&eacute;m das nuvens, que me encontrei, maravilhado,
+entre os astros. Elles rolavam serenamente, enormes e mudos, recobertos
+por espessas crostas de
+livros, d'onde surdia, aqui e al&eacute;m, por alguma fenda, entre
+dois
+volumes mal juntos, um raiosinho de luz suffocada e anciada. E assim
+ascendi ao Paraiso. Decerto era o Paraiso&#8213;porque com meus olhos de
+mortal argila avistei o Anci&atilde;o da Eternidade, aquelle que
+n&atilde;o
+tem Manh&atilde; nem Tarde. N'uma claridade que d'elle irradiava <span class="pagenum">[104]</span>mais
+clara que todas as
+claridades, entre fundas estantes d'ouro abarrotadas de codices,
+sentado em vetustissimos folios, com os flocos das infinitas barbas
+espalhados por
+sobre resmas de folhetos, brochuras, gazetas e catalogos&#8213;o Altissimo
+lia. A fronte super-divina que concebera o Mundo pousava sobre a
+m&atilde;o super-forte que o Mundo cre&aacute;ra&#8213;e o Creador
+lia e
+sorria.
+Ousei, arrepiado de sagrado horror, espreitar por cima do seu hombro
+coruscante. O livro era brochado, de tres francos... O Eterno lia
+Voltaire, n'uma ediç&atilde;o barata, e sorria. <br />
+
+<br />
+
+Uma porta faiscou e rangeu, como se alguem penetrasse no Paraiso.
+Pensei que um Santo novo cheg&aacute;ra da Terra. Era Jacintho, com
+o
+charuto em braza, um molho de cravos na lapella, sobraçando
+tres livros
+amarellos que a Princeza de Carman lhe emprest&aacute;ra para
+l&ecirc;r! <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="break">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+N'uma d'essas activas semanas, por&eacute;m, a minha
+attenç&atilde;o subitamente se despegou d'este
+interessante Jacintho. Hospede do 202, conservava no
+202 a minha mala e a minha roupa: e, acostado &aacute; bandeira do
+meu
+Principe, ainda occasionalmente comia do seu caldeir&atilde;o
+sumptuoso. Mas
+a minha alma, a minha embrutecida <span class="pagenum">[105]</span>alma,
+e o meu corpo, o meu embrutecido corpo,
+habitavam ent&atilde;o na rua do Helder, n.&ordm; 16, quarto
+andar,
+porta &aacute; esquerda. <br />
+
+<br />
+
+Descia eu uma tarde, n'uma leda paz de id&eacute;as e
+sensaç&otilde;es, o Boulevard da Magdalena, quando
+avistei,
+deante da Estaç&atilde;o dos
+Omnibus, rondando no asphalto, n'um passo lento e felino, uma creatura
+secca, muito morena, quasi tisnada, com dous fundos olhos taciturnos e
+tristes, e uma matta de cabellos amarellados, toda crespa e rebelde,
+sob o chap&eacute;o
+velho de plumas negras. Parei, como colhido por um repux&atilde;o
+nas
+entranhas. A creatura passou&#8213;no seu magro rondar de gata negra, sobre
+um beiral de telhado, ao luar de Janeiro. Dous poços fundos
+n&atilde;o luzem mais negra e taciturnamente do que luziam os seus
+olhos taciturnos e negros.
+N&atilde;o recordo (Deus louvado!) como rocei o seu vestido de
+s&ecirc;da,
+lustroso e encebado nas pregas; nem como lhe rosnei uma
+s&uacute;pplica
+por
+entre os dentes que rangiam; nem como subimos ambos, morosamente e mais
+silenciosos que condemnnados, para um gabinete do Caf&eacute;
+Durand, safado e m&ocirc;rno. Deante do espelho, a creatura, com a
+lentid&atilde;o d'um rito triste, tirou o chap&eacute;o e a
+romeira
+salpicada de vidrilhos. A
+s&ecirc;da poida do corpete esgarçava nos cotovellos
+agudos. E
+os seus cabellos
+eram immensos, d'uma <span class="pagenum">[106]</span>dureza
+e espessura de juba brava, em dous tons amarellos, uns mais dourados,
+outros mais crestados, como a
+c&ocirc;dea de uma torta ao sahir quente do forno. <br />
+
+<br />
+
+Com um riso tremulo, agarrei os seus dedos compridos e frios: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E o nomesinho, hein? <br />
+
+<br />
+
+Ella s&eacute;ria, quasi grave: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Madame Colombe, 16, rua do Helder, quarto andar, porta &aacute;
+esquerda. <br />
+
+<br />
+
+E eu (miseravel Z&eacute; Fernandes!) tambem me senti muito
+s&eacute;rio, trespassado por uma emoç&atilde;o
+grave, como se
+nos envolvesse,
+n'aquella alc&ocirc;va de Caf&eacute;, a magestade d'um
+Sacramento.
+&Aacute; porta, empurrada levemente, o
+creado avançou a face nedia. Ordenei uma lagosta, pato com
+piment&otilde;es, e Borgonha. E foi sómente ao findarmos
+o pato
+que me ergui,
+amarfanhando convulsamente o guardanapo, e a tremer lhe beijei a bocca,
+todo a tremer, n'um beijo profundo e terrivel, em que deixei a alma,
+entre saliva e g&ocirc;sto de piment&atilde;o! Depois, n'uma
+tipoia
+aberta, sob um bafo molle de leste e de trovoada, subimos a Avenida dos
+Campos-Elyseos. Em frente &aacute; grade do 202 murmurei, para a
+deslumbrar com o meu
+luxo:&#8213;&laquo;Móro alli, todo o anno!...&raquo; E
+como ao mirar
+o Palacete,
+debruçada, ella roç&aacute;ra a matta fulva
+do pello
+crespo pela minha
+barba&#8213;berrei<span class="pagenum">[107]</span>
+desesperadamente ao cocheiro; que galopasse para a rua do Helder,
+n.&ordm; 16, quarto andar, porta &aacute; esquerda! <br />
+
+<br />
+
+Amei aquella creatura. Amei aquella creatura com Amor, com todos os
+Amores que est&atilde;o no Amor, o Amor divino, o Amor humano, o
+Amor bestial, como Santo Antonino amava a Virgem, como Romeu amava
+Julietta, como um bode ama uma cabra. Era estupida, era triste. Eu
+deliciosamente apagava
+a minha alegria na cinza da sua tristeza; e com ineffavel
+g&ocirc;sto afundava a minha raz&atilde;o na densidade da sua
+estupidez. Durante sete
+furiosas semanas perdi a consciencia da minha personalidade de
+Z&eacute; Fernandes&#8213;Fernandes de Noronha e Sande, de
+Gui&atilde;es!
+Ora se
+me affigurava ser um pedaço de c&ecirc;ra que se
+derretia, com
+horrenda delicia, n'um forno rubro e rugidor: ora me parecia ser uma
+faminta fogueira onde flammejava, estalava e se consumia um
+mólho de galhos
+seccos. D'esses dias de sublime sordidez só conservo a
+impress&atilde;o
+d'uma alc&ocirc;va forrada de cretones sujos, d'uma bata de
+l&atilde;
+c&ocirc;r de lilaz com
+sotaches negros, de vagas garrafas de cerveja no marmore d'um
+lavatorio, e d'um corpo tisnado que rangia e tinha cabellos no peito. E
+tambem me resta a sensaç&atilde;o de incessantemente e
+com
+arrobado
+deleite me despojar, arremessar <span class="pagenum">[108]</span>para
+um regaço, que se cavava entre um ventre
+sumido e uns joelhos agudos, o meu relogio, os meus berloques, os meus
+anneis, os meus bot&otilde;es de punho de saphira, e as cento e
+noventa
+e sete
+libras em ouro que eu trouxera de Gui&atilde;es n'uma cinta de
+camurça. Do solido, decoroso, bem fornecido Z&eacute;
+Fernandes,
+só restava
+uma carcassa errando atrav&eacute;z d'um sonho, com as gambias
+molles e
+a baba a
+escorrer. <br />
+
+<br />
+
+Depois, uma tarde, trepando com a costumada gula a escada da rua do
+Helder, encontrei a porta fechada&#8213;e arrancado da hombreira aquelle
+cart&atilde;o de <em>Madame Colombe</em>
+que eu lia sempre t&atilde;o devotamente e que era a sua
+taboleta... Tudo no meu ser tremeu como se o ch&atilde;o de
+Paris tremesse! Aquella era a porta do Mundo que ante mim se
+fech&aacute;ra! Para
+al&eacute;m estavam as gentes, as cidades, a vida, Deus e Ella. E
+eu fic&aacute;ra
+sósinho, n'aquelle patamar do N&atilde;o-ser,
+fóra da porta que
+se fech&aacute;ra, unico ser fóra do Mundo! Rolei pelos
+degraus, com o fragor e a
+incoherencia d'uma pedra, at&eacute; ao cubiculo da porteira e do
+seu homem que
+jogavam as cartas em ditosa pachorra, como se t&atilde;o pavoroso
+abalo
+n&atilde;o tivesse desmantelado o Universo! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Madame Colombe? <br />
+
+<br />
+
+A barbuda comadre recolheu lentamente a vaza: <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[109]</span>
+&#8213;Ja n&atilde;o mora... Abalou esta manh&atilde;, para outra
+terra, com outra porca! <br />
+
+<br />
+
+Para outra terra! com outra porca!... Vasio, negramente vasio de todo o
+pensar, de todo o sentir, de todo o querer&#8213;boiei aos tombos, como um
+tonel vasio, na corrente açodada do Boulevard,
+at&eacute; que encalhei n'um banco da Praça da
+Magdalena, onde
+tapei com as
+m&atilde;os, a que n&atilde;o sentia a febre, os olhos a que
+n&atilde;o
+sentia o pranto! Tarde, muito
+tarde, quando j&aacute; se cerravam com estrondo as cortinas de
+ferro
+das lojas, surdiu,
+d'entre todas estas confusas ruinas do meu ser, a eterna sobrevivente
+de todas as ruinas&#8213;a ideia de jantar. Penetrei no Durand, com os
+passos entorpecidos d'um resuscitado. E, n'uma
+recordaç&atilde;o que m'escaldava a alma, encommendei a
+lagosta,
+o pato, o Borgonha! Mas ao alargar o collarinho, ensopado pelo ardor
+d'aquella tarde de Julho, entre a
+poeira da Magdalena, pensei com
+desconf&ocirc;rto:&#8213;&laquo;Santissimo
+Nome de Deus! Que immensa s&ecirc;de me fez esta
+desgraça!...&raquo;
+De manso acenei ao moço:&#8213;&laquo;Antes do Borgonha, uma
+garrafa
+de Champagne, com muito g&ecirc;lo, e um
+grande copo!...&raquo; Creio que aquelle Champagne se
+engarraf&aacute;ra no Ceu onde corre perennemente a fresca fonte da
+Consolaç&atilde;o, e que
+na garrafa bemdita que me coube penetr&aacute;ra, antes
+d'arrolhada, <span class="pagenum">[110]</span>um
+jorro largo d'essa
+fonte inneffavel. Jesus! que transcendente regalo, o d'aquelle nobre
+copo, embaciado, nevado, a espumar, a picar, n'um brilho d'ouro! E
+depois, garrafa de Borgonha! E depois, garrafa de Cognac! E depois
+Hortel&atilde;-Pimenta granitada em g&ecirc;lo! E depois um
+desejo arquejante de espancar, com o meu rijo marmelleiro de
+Gui&atilde;es, a porca que
+fugira com outra porca! Dentro da tipoia fechada, que me transportou
+n'um galope
+ao 202, n&atilde;o suffoquei este santo impulso, e com os meus
+punhos
+serranos atirei murros retumbantes contra as almofadas, onde
+<em>via</em>, furiosamente <em>via</em> a
+matta immensa de pello
+amarello, em que a minha alma uma tarde se perdera, e tres mezes se
+debatera, e para sempre se
+emporcalh&aacute;ra! Quando o fiacre estacou no 202 ainda eu
+espancava t&atilde;o
+desesperadamente a besta ingrata, que, aos berros do cocheiro, dous
+moços
+accudiram e me sustiveram, recebendo pelos hombros, sobre as nucas
+servis, os restos cançados da minha colera. <br />
+
+<br />
+
+Em cima, repelli a sollicitude do Grillo que tentava imp&ocirc;r ao
+<em>si&ocirc;</em> Z&eacute; Fernandes, a
+Z&eacute; Fernandes de Gui&atilde;es, a immensa
+indignidade d'um ch&aacute; de macella! E estirado no leito de D.
+Gali&atilde;o, com as botas
+sobre o travesseiro, o chap&eacute;o alto sobre os olhos, ri, n'um
+doloroso
+<span class="pagenum">[111]</span>riso, d'este Mundo
+burlesco e sordido
+de Jacinthos e de Colombes! E de
+repente senti uma angustia horrenda. Era Ella! Era a Madame Colombe,
+que esfuzi&aacute;ra da chamma da vela, e salt&aacute;ra sobre
+o
+meu leito, e desaboto&aacute;ra o meu collete, e
+arromb&aacute;ra as
+minhas costellas, e toda ella,
+com as saias sujas, mergulh&aacute;ra dentro do meu peito, e
+aboc&aacute;ra o meu coraç&atilde;o, e chupava a
+sorvos lentos,
+como na rua do Helder, o sangue do meu
+coraç&atilde;o! Ent&atilde;o, certo da Morte,
+ganindo pela tia
+Vicencia, pendi do
+leito para mergulhar na minha sepultura, que, atrav&eacute;s da
+nevoa
+final,
+eu distinguia sobre o tapete&#8213;redondinha, vidrada, de porcelana e com
+aza. E, sobre a
+minha sepultura, que t&atilde;o irreverentemente se assimilhava ao
+meu vaso, vomitei o Borgonha, vomitei o pato, vomitei a lagosta.
+Depois, n'um esforço ultra-humano, com um rugido, sentindo
+que,
+n&atilde;o sómente toda a entranha, mas a alma se
+esvasiava
+toda, vomitei Madame Colombe! Recahi sobre o leito de D.
+Gali&atilde;o... Recarreguei o
+chap&eacute;o sobre os olhos para n&atilde;o sentir os raios do
+sol.
+Era um sol novo, um sol
+espiritual, que se erguia sobre a minha vida. E adormeci, como uma
+creancinha docemente embalada n'um berço de verga pelo Anjo
+da
+Guarda. <br />
+
+<br />
+
+De manh&atilde;, lavei a pelle n'um banho profundo, perfumado com
+todos os aromas do <span class="pagenum">[112]</span>202,
+desde folhas de limonete da India at&eacute;
+essencia de jasmin de França: e lavei a alma com uma rica
+carta
+da Tia
+Vicencia, em letra farta, contando da nossa casa, e da linda promessa
+das vinhas, e da compota de ginja que nunca lhe sah&iacute;ra
+t&atilde;o fina, e
+da alegre fogueira do pateo em noite de S. Jo&atilde;o, e da
+menininha
+muito gorda e
+cabelluda que vi&eacute;ra do ceu para a minha afilhada Joanninha.
+Depois,
+&aacute; janella, bem limpo de alma e de corpo, n'uma quinzena de
+sedinha branca, tomando
+ch&aacute; de Na&iuml;p&ograve;, respirando os rosaes do
+jardim
+revividos
+pela chuva da madrugada, considerei, em divertido pasmo, que, durante
+sete semanas,
+me emporcalh&aacute;ra, na rua do Helder, com um estardalho muito
+magro e muito tisnado! E conclui que padecera d'uma longa
+sez&atilde;o,
+sez&atilde;o da carne, sez&atilde;o da
+imaginaç&atilde;o,
+apanhada n'um charco de
+Paris&#8213;n'esses charcos que se formam atrav&eacute;s da Cidade com
+as
+aguas mortas, os limos, os
+lixos, os tortulhos e os vermes d'uma Civilisaç&atilde;o
+que
+apodrece. <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="break">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Ent&atilde;o, curado, todo o meu espirito, como uma agulha para o
+Norte, se virou logo para o meu complicado Principe, que, nas
+derradeiras semanas
+da minha infecç&atilde;o sentimental, eu entrevira
+sempre descahido por cima <span class="pagenum">[113]</span>de
+soph&aacute;s, ou vagueando atrav&eacute;s da Bibliotheca entre
+os seus trinta mil volumes, com arrastados bocejos de inercia e de
+vacuidade. Eu, na minha
+pressa indigna, só lhe lançava um
+distrahido&#8213;&laquo;que &eacute; isso?&raquo; Elle, no seu
+moroso desalento, só murmurava um
+s&ecirc;cco&#8213;&laquo;&eacute; calor!&raquo; <br />
+
+<br />
+
+E, n'essa manh&atilde; da minha libertaç&atilde;o,
+ao penetrar antes d'almoço no seu quarto, no
+soph&aacute; o encontrei enterrado, com o
+<em>Figaro</em> aberto sobre a barriga, a Agenda cahida
+sobre o tapete,
+toda a face envolta em sombra,
+e os p&eacute;s abandonados, n'uma soberana tristeza, ao pedicuro
+que lhe polia as unhas. Decerto o meu olhar reallumiado e repurificado,
+a brancura
+das minhas flanellas reproduzindo a quietaç&atilde;o das
+minhas sensaç&otilde;es, e a segura harmonia em que todo
+o meu
+ser visivelmente se movia, impressionaram o meu Principe&#8213;a quem a
+melancolia nunca embotava a agudeza. Ergueu mollemente um
+braço
+molle: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o esse capricho? <br />
+
+<br />
+
+Derramei, sobre elle todo o fulgor d'um riso victorioso: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Morto! E, como o Snr. de Malbrouck, &laquo;morto e bem
+enterrado.&raquo; Jaz! Ou antes, rola! Com effeito deve andar agora
+rolando por dentro do cano do
+esgoto! <br />
+
+<br />
+
+Jacintho bocejou, murmurou: <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[114]</span>
+&#8213;Este Z&eacute; Fernandes de Noronha e Sande!... <br />
+
+<br />
+
+E, no meu nome, no meu digno nome assim embrulhado n'um bocejo com
+desprendida ironia, se resumiu todo o interesse d'aquelle Principe pela
+suja tormenta em que se debatera o meu coraç&atilde;o!
+Mas n&atilde;o me melindrou esse consummado egoismo... Claramente
+percebia eu que o meu Jacintho atravessava uma densa nevoa de tedio,
+t&atilde;o densa, e elle
+t&atilde;o afundado na sua molle densidade, que as glorias ou os
+tormentos d'um camarada
+n&atilde;o o commoviam, como muito remotas, intangiveis, separadas
+da
+sua sensibilidade por immensas camadas de algod&atilde;o. Pobre
+Principe da Gran-Ventura, tombado para o soph&aacute; de inercia,
+com
+os
+p&eacute;s no regaço do pedicuro! Em que lodoso fastio
+cahira,
+depois de renovar t&atilde;o
+bravamente todo o recheio mechanico e erudito do 202, na sua lucta
+contra a
+Força e a Materia!&#8213;E esse fastio n&atilde;o o escondeu
+mais do
+seu velho
+Z&eacute; Fernandes quando recomeçou entre
+nós a
+communh&atilde;o
+de vida e de alma a que eu t&atilde;o torpemente me
+arranc&aacute;ra,
+uma tarde, deante da
+Estaç&atilde;o dos Omnibus, no charco da Magdalena. <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o eram certamente confiss&otilde;es enunciadas. O
+elegante e reservado Jacintho n&atilde;o torcia <span class="pagenum">[115]</span>os
+braços,
+gemendo&#8213;&laquo;Oh vida maldita!&raquo; Eram apenas
+express&otilde;es
+saciadas; um gesto de repellir com
+ranc&ocirc;r a importunidade das coisas; por vezes uma immobilidade
+determinada, de protesto, no fundo d'um divan, d'onde se n&atilde;o
+desenterrava, como para um repouso
+que desejasse eterno; depois os bocejos, os &ocirc;cos bocejos com
+que
+sublinhava cada passo, continuado por fraqueza ou por dever
+inilludivel; e sobretudo aquelle murmurar que se torn&aacute;ra
+perenne
+e
+natural&#8213;&laquo;Para que?&raquo;&#8213;&laquo;N&atilde;o
+vale a
+pena!&raquo;&#8213;&laquo;Que massada!...&raquo; <br />
+
+<br />
+
+Uma noite no meu quarto, descalçando as botas, consultei o
+Grillo: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Jacintho anda t&atilde;o mucho, t&atilde;o corcunda... Que
+ser&aacute;, Grillo? <br />
+
+<br />
+
+O venerando preto declarou com uma certeza immensa: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;S. Exc.<sup>a</sup> soffre de fartura. <br />
+
+<br />
+
+Era fartura! O meu Principe sentia abafadamente a fartura de Paris:&#8213;e
+na Cidade, na symbolica Cidade, fóra de cuja vida culta e
+forte (como elle outr'ora gritava, illuminado) o homem do seculo XIX
+nunca poderia saborear plenamente a &laquo;delicia de
+viver&raquo;,
+elle
+n&atilde;o encontrava agora fórma de vida, espiritual ou
+social,
+que o interessasse, lhe
+valesse o esf&ocirc;rço d'uma corrida curta n'uma tipoia
+<span class="pagenum">[116]</span>facil.
+Pobre Jacintho! Um jornal velho, setenta vezes relido desde a Chronica
+at&eacute; aos
+Annuncios, com a tinta delida, as dobras ro&iacute;das,
+n&atilde;o
+enfastiaria mais o Solitario, que só possuisse na sua
+Solid&atilde;o esse alimento
+intellectual, do que o Parisianismo enfastiava o meu doce camarada! Se
+eu n'esse
+ver&atilde;o capciosamente o arrastava a um
+Caf&eacute;-Concerto, ou ao
+festivo
+Pavilh&atilde;o d'Armenonville, o meu bom Jacintho, collado
+pesadamente
+&aacute;
+cadeira com um maravilhoso ramo de orchideas na casaca, as finas
+m&atilde;os
+abatidas sobre o cast&atilde;o da bengala, conservava toda a noite
+uma
+gravidade
+t&atilde;o estafada, que eu, compadecido, me erguia, o libertava,
+gozando a sua pressa em abalar, a sua fuga d'ave solta... Raramente (e
+ent&atilde;o com
+vehemente arranque como quem salta um fosso) descia a um dos seus
+Clubs, ao fundo
+dos Campos-Elyseos. N&atilde;o se occupara mais das suas Sociedades
+e Companhias, nem dos <em>Telephones de
+Constantinopla</em>, nem das
+<em>Religi&otilde;es
+Esotericas</em>, nem do <em>Bazar
+Espiritualista</em>,
+cujas cartas fechadas se amontoavam sobre a mesa d'ebano, d'onde o
+Grillo as varria tristemente como o lixo d'uma vida finda. Tambem
+lentamente se despegava de todas
+as suas convivencias. As paginas da Agenda c&ocirc;r de rosa murcha
+andavam desafogadas e brancas. E se ainda cedia a um passeio de
+Mail-coach, <span class="pagenum">[117]</span>ou
+a um convite para algum Castello amigo dos arredores de Paris, era
+t&atilde;o arrastadamente, com um esforço t&atilde;o
+saturado ao
+enfiar o paletot leve, que me lembrava sempre um homem, depois d'um
+gordo jantar de provincia,
+a estalar, que, por pollidez ou em obediencia a um dogma, devesse ainda
+comer uma lampr&ecirc;a de ovos! <br />
+
+<br />
+
+Jazer, jazer em casa, na segurança das portas bem cerradas e
+bem defendidas contra toda a intrus&atilde;o do mundo, seria uma
+doçura para o meu Principe se o seu proprio 202, com todo
+aquelle tremendo recheio de Civilisaç&atilde;o,
+n&atilde;o lhe
+d&eacute;sse
+uma sensaç&atilde;o dolorosa de abafamento, de
+atulhamento!
+Julho escaldava: e os brocados, as alcatifas, tantos
+moveis roliços e f&ocirc;fos, todos os seus metaes e
+todos os
+seus livros, t&atilde;o espessamente o opprimiam, que escancarava
+sem
+cessar as janellas para prolongar o espaço, a claridade, a
+frescura. Mas era
+ent&atilde;o a poeira, suja e acre, rolada em bafos mornos, que o
+enfurecia: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Oh, este pó da Cidade! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas, oh Jacintho, por que n&atilde;o vamos para Fontainebleau, ou
+para Montmorency, ou... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;P'ra o campo? O que! P'ra o campo?! <br />
+
+<br />
+
+E na sua face enrugada, atrav&eacute;s d'este berro, lampejava
+sempre tanta indignaç&atilde;o, que <span class="pagenum">[118]</span>eu
+curvava os hombros, humilde,
+no arrependimento de ter affrontosamente ultrajado o Principe que tanto
+amava. Desventurado Principe! Com o seu dourado cigarro d'Yaka a
+fumegar, errava
+ent&atilde;o pelas salas, lenta e murchamente, como quem vaga em
+terra
+alheia sem
+affeiç&otilde;es e sem occupaç&otilde;es.
+Esses
+desaffeiçoados
+e desoccupados passos monotonamente o traziam ao seu centro, ao
+gabinete verde, &aacute;
+Bibliotheca d'ebano, onde accumulara Civilisaç&atilde;o
+nas
+maximas
+proporç&otilde;es para gozar nas maximas
+proporç&otilde;es a delicia de viver.
+Espalhava em t&ocirc;rno um olhar farto. Nenhuma curiosidade ou
+interesse lhe sollicitavam as
+m&atilde;os, enterradas nas algibeiras das pantalonas de
+s&ecirc;da,
+n'uma
+inercia de derrota. Annulado, bocejava com descorçoada
+molleza.
+E nada
+mais instructivo e doloroso do que este supremo homem do seculo XIX, no
+meio
+de todos os apparelhos reforçadores dos seus
+org&atilde;os, e de todos os fios que disciplinavam ao seu
+serviço as Forças
+Universaes, e dos seus trinta mil volumes repletos do saber dos
+seculos&#8213;estacando, com as
+m&atilde;os derrotadas no fundo das algibeiras, e exprimindo, na
+face e
+na
+indecis&atilde;o molle d'um bocejo, o embaraço de viver!
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h2>VI</h2>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Todas as tardes, cultivando uma d'essas intimidades que entre tudo o
+que cança j&aacute;mais cançam, Jacintho,
+&aacute;s quatro horas, com regularidade devota, visitava Madame
+d'Oriol:&#8213;por que essa fl&ocirc;r de Parisianismo
+permanecera em Paris, mesmo depois do Grand-Prix, a desbotar na calma e
+no cisco da
+Cidade. N'uma d'essas tardes, por&eacute;m, o Telephone,
+anciosamente repicado, avisou Jacintho de que a sua d&ocirc;ce
+amiga jantava em Enghien
+com os Tr&egrave;ves. (Esses senhores gozavam o seu
+ver&atilde;o
+&aacute; beira do lago, n'uma casa toda branca e vestida de
+rosinhas brancas que pertencia a Ephrain). <br />
+
+<br />
+
+Era um domingo silencioso, ennevoado e macio, convidando &aacute;s
+voluptuosidades da melancolia. E eu (no interesse da minha alma)
+suggeri a Jacintho que subissemos &aacute; Basilica do
+<em>Sacr&eacute;-Coeur</em>, em
+construcç&atilde;o nos altos de Montmartre. <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[120]</span>
+&#8213;&Eacute; uma secca, Z&eacute; Fernandes... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Com mil demonios! Eu nunca vi a Basilica... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Bem, bem! Vamos &aacute; Basilica, homem fatal de Noronha e
+Sande! <br />
+
+<br />
+
+E por fim logo que começamos a penetrar, para
+al&eacute;m de S. Vicente de Paula, em bairros estreitos e
+ingremes,
+d'uma
+quietaç&atilde;o de provincia, com muros velhos fechando
+quintalejos rusticos, mulheres despenteadas cozendo &aacute;
+soleira
+das portas, carriolas desatreladas
+descançando diante das tascas, gallinhas soltas picando o
+lixo,
+cueiros molhados seccando em canas&#8213;o meu fastidioso camarada sorriu
+&aacute;quella liberdade
+e singeleza das cousas. <br />
+
+<br />
+
+A vittoria parou em frente &aacute; larga rua de escadarias que
+trepa, cortando viellasinhas campestres, at&eacute; &aacute;
+esplanada,
+onde,
+envolta em andaimes, se ergue a Basilica immensa. Em cada patamar
+barracas d'arraial devoto, forradas de panninho vermelho, transbordavam
+de Imagens, Bentinhos, Crucifixos, Coraç&otilde;es de
+Jesus
+bordados a retroz,
+claros molhos de Rosarios. Pelos cantos, velhas agachadas resmungavam a
+Av&egrave;-Maria. Dois padres desciam, tomando risonhamente uma
+pitada.
+Um sino lento
+tilintava na doçura cinzenta da tarde. E Jacintho murmurou,
+com
+agrado: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; curioso! <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[121]</span>Mas a Basilica em
+cima n&atilde;o nos
+interessou, abafada em
+tapumes e andaimes, toda branca e s&ecirc;cca, de pedra muito nova,
+ainda sem
+alma. E Jacintho, por um impulso bem Jacinthico, caminhou gulosamente
+para a borda do terraço, a contemplar Paris. Sob o ceu
+cinzento,
+na
+planicie cinzenta, a Cidade jazia, toda cinzenta, como uma vasta e
+grossa camada
+de caliça e telha. E, na sua immobilidade e na sua mudez,
+algum rolo de fumo, mais tenue e ralo que o fumear d'um escombro mal
+apagado, era
+todo o vestigio visivel da sua vida magnifica. <br />
+
+<br />
+
+Ent&atilde;o chasqueei risonhamente o meu Principe. Ahi estava pois
+a Cidade, augusta creaç&atilde;o da Humanidade! Eil-a
+ahi, bello
+Jacintho! Sobre a crosta cinzenta da Terra&#8213;uma camada de
+caliça, apenas mais
+cinzenta! No emtanto ainda momentos antes a deixaramos prodigiosamente
+viva, cheia d'um povo forte, com todos os seus poderosos
+org&atilde;os
+funccionando, abarrotada de riqueza, resplandecente de sapiencia, na
+triumphal plenitude do seu orgulho, como Rainha do Mundo coroada de
+Graça. E agora eu e o bello Jacintho trepavamos a uma
+collina,
+espreitavamos, escutavamos&#8213;e de toda a estridente e radiante
+Civilisaç&atilde;o da Cidade n&atilde;o percebiamos
+nem um rumor
+nem um lampejo! E o 202, o soberbo <span class="pagenum">[122]</span>202,
+com os
+seus arames, os seus apparelhos, a pompa da sua Mechanica, os seus
+trinta mil livros? Sumido, esva&iacute;do na confus&atilde;o de
+telha e cinza! Para este esvaecimento pois da obra humana, mal ella se
+comtempla de cem metros de altura, arqueja o obreiro humano em
+t&atilde;o angustioso
+esforço? Hein, Jacintho?... Onde est&atilde;o os teus
+Armazens
+servidos por
+tres mil caixeiros? E os Bancos em que retine o ouro universal? E as
+Bibliothecas atulhadas com o saber dos seculos? Tudo se fundiu n'uma
+nodoa parda que
+suja a Terra. Aos olhos piscos de um Z&eacute; Fernandes, logo que
+elle suba, fumando o seu cigarro, a uma arredada collina&#8213;a sublime
+edificaç&atilde;o dos Tempos n&atilde;o &eacute;
+mais que um
+silencioso monturo da
+espessura e da c&ocirc;r do pó final. O que
+ser&aacute;
+ent&atilde;o aos olhos de Deus! <br />
+
+<br />
+
+E ante estes clamores, lançados com affavel malicia para
+espicaçar o meu Principe, elle murmurou, pensativo: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim, &eacute; talvez tudo uma illus&atilde;o... E a Cidade a
+maior illus&atilde;o! <br />
+
+<br />
+
+T&atilde;o facilmente victorioso redobrei de facundia. Certamente,
+meu Principe, uma Illus&atilde;o! E a mais amarga, por que o Homem
+pensa ter na Cidade a base de toda a sua grandeza e só
+n'ella tem a fonte
+de toda a sua miseria. V&ecirc;, Jacintho! Na Cidade perdeu <span class="pagenum">[123]</span>elle
+a
+força e belleza harmoniosa do corpo, e se tornou esse ser
+resequido e escanifrado ou obeso e afogado em unto, de ossos molles
+como trapos, de nervos
+tremulos como arames, com cangalhas, com chinós, com
+dentaduras
+de
+chumbo, sem sangue, sem febra, sem viço, torto,
+corcunda&#8213;esse
+ser em
+que Deus, espantado, mal póde reconhecer o seu esbelto e
+rijo e
+nobre
+Ad&atilde;o! Na Cidade findou a sua liberdade moral: cada
+manh&atilde;
+ella lhe
+imp&otilde;e uma necessidade, e cada necessidade o arremessa para
+uma
+dependencia: pobre
+e subalterno, a sua vida &eacute; um constante sollicitar, adular,
+vergar, rastejar, aturar; rico e superior como um Jacintho, a Sociedade
+logo o enreda em tradiç&otilde;es, preceitos, etiquetas,
+ceremonias, praxes, ritos, serviços mais disciplinares que
+os
+d'um carcere ou d'um
+quartel... A sua tranquillidade (bem t&atilde;o alto que Deus com
+elle
+recompensa os
+Santos) onde est&aacute;, meu Jacintho? Sumida para sempre, n'essa
+batalha
+desesperada pelo p&atilde;o, ou pela fama, ou pelo poder, ou pelo
+g&ocirc;zo, ou pela fugidia rodella d'ouro! Alegria como a
+haver&aacute; na Cidade para esses
+milh&otilde;es de seres que tumultuam na arquejante
+occupaç&atilde;o de
+<em>desejar</em>&#8213;e que, nunca fartando o desejo,
+incessantemente padecem de desillus&atilde;o,
+desesperança ou derrota? Os sentimentos mais genuinamente <span class="pagenum">[124]</span>humanos
+logo na Cidade se deshumanisam! V&ecirc;, meu Jacintho!
+S&atilde;o como
+luzes que
+o aspero vento do viver social n&atilde;o deixa arder com
+serenidade e
+limpidez; e
+aqui abala e faz tremer; e al&eacute;m brutamente apaga; e adiante
+obriga a
+flammejar com desnaturada violencia. As amizades nunca passam
+d'allianças
+que o interesse, na hora inquieta da defeza ou na hora sofrega do
+assalto,
+ata apressadamente com um cordel apressado, e que estalam ao menor
+embate
+da rivalidade ou do orgulho. E o Amor, na Cidade, meu gentil Jacintho?
+Considera esses vastos armazens com espelhos, onde a nobre carne d'Eva
+se vende, tarifada ao arratel, como a de vacca! Contempla esse velho
+Deus do Hymeneu, que circula trazendo em vez do ondeante facho da
+Paix&atilde;o a apertada carteira do Dote! Espreita essa turba que
+foge
+dos largos caminhos assoalhados em que os Faunos amam as Nymphas na boa
+lei natural, e busca tristemente os recantos lobregos de Sodoma ou de
+Lesbos!... Mas o que a Cidade mais deteriora no homem &eacute; a
+Intelligencia, por que ou lh'a arregimenta dentro da banalidade ou lh'a
+empurra para a
+extravagancia. N'esta densa e pairante camada d'Id&eacute;as e
+Formulas que constitue a atmosphera mental das Cidades, o homem que a
+respira,
+n'ella envolto, só pensa todos os <span class="pagenum">[125]</span>pensamentos
+j&aacute;
+pensados, só exprime todas as express&otilde;es
+j&aacute;
+exprimidas:&#8213;ou ent&atilde;o,
+para se destacar na pardacente e chata Rotina e trepar ao fragil
+andaime da gloriola, inventa n'um gemente esforço, inchando
+o
+craneo, uma novidade disforme
+que espante e que detenha a multid&atilde;o como um mostrengo n'uma
+Feira. Todos,
+intelectualmente, s&atilde;o carneiros, trilhando o mesmo trilho,
+balando o mesmo balido, com o focinho pendido para a poeira onde pisam,
+em fila, as p&eacute;gadas pisadas;&#8213;e alguns s&atilde;o
+macacos,
+saltando no topo de mastros vistosos, com esgares e cabriolas. Assim,
+meu Jacintho, na Cidade, n'esta creaç&atilde;o
+t&atilde;o
+anti-natural onde o
+solo &eacute; de pau e feltro e alcatr&atilde;o, e o
+carv&atilde;o tapa
+o ceu, e a gente vive
+acamada nos predios como o panninho nas lojas, e a claridade vem pelos
+canos, e as mentiras se murmuram atrav&eacute;s d'arames&#8213;o homem
+apparece como uma
+creatura anti-humana, sem belleza, sem força, sem liberdade,
+sem
+riso, sem sentimento, e trazendo em si um espirito que &eacute;
+passivo
+como
+um escravo ou impudente como um histri&atilde;o... E aqui tem o
+bello
+Jacintho
+o que &eacute; a bella Cidade! <br />
+
+<br />
+
+E ante estas encanecidas e veneraveis invectivas, retumbadas
+pontualmente por todos os Moralistas bucolicos, desde Hesiodo, atravez <span class="pagenum">[126]</span>dos seculos&#8213;o meu
+Principe vergou a nuca docil, como se ellas brotassem, inesperadas e
+frescas, d'uma Revelaç&atilde;o
+superior, n'aquelles cimos de Montmartre: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim, com effeito, a Cidade... &Eacute; talvez uma
+illus&atilde;o perversa! <br />
+
+<br />
+
+Insisti logo, com abundancia, puchando os punhos, saboreando o meu
+facil philosophar. E se ao menos essa illus&atilde;o da Cidade
+tornasse
+feliz a totalidade dos s&ecirc;res, que a manteem... Mas
+n&atilde;o!
+Só uma estreita e reluzente casta goza na Cidade os gozos
+especiaes que ella cria. O resto, a escura, immensa plebe,
+só
+n'ella soffre, e com
+soffrimentos especiaes que só n'ella existem! D'este
+terraço,
+junto a esta rica Basilica consagrada ao Coraç&atilde;o
+que amou
+o Pobre e
+por elle sangrou, bem avistamos nós o lobrego casario onde a
+plebe se curva sob
+esse antigo opprobrio de que nem Religi&otilde;es, nem
+Philosophias,
+nem
+Moraes, nem a sua propria força brutal a poder&atilde;o
+j&aacute;mais
+libertar! Ahi jaz, espalhada pela Cidade, como esterco vil que fecunda
+a Cidade. Os seculos rolam; e sempre immutaveis farrapos lhe cobrem o
+corpo, e sempre debaixo
+d'elles, atrav&eacute;s do longo dia, os homens
+labutar&atilde;o e as
+mulheres chorar&atilde;o. E com este labor e este pranto dos
+pobres,
+meu Principe, se edifica a abundancia da Cidade! <span class="pagenum">[127]</span>Eil-a
+agora coberta de moradas em que elles se
+n&atilde;o abrigam; armazenada de estofos, com que elles se
+n&atilde;o
+agasalham; abarrotada de alimentos, com que elles se n&atilde;o
+saciam!
+Para
+elles só a neve, quando a neve c&aacute;e, e entorpece e
+sepulta
+as
+creancinhas aninhadas pelos bancos das praças ou sob os
+arcos
+das pontes de
+Paris... A neve c&aacute;e, muda e branca na treva: as creancinhas
+gelam nos seus
+trapos: e a policia, em torno, ronda attenta para que n&atilde;o
+seja
+perturbado o t&eacute;pido somno d'aquelles que amam a neve, para
+patinar nos lagos do Bosque de Bolonha com pelliças de tres
+mil
+francos. Mas qu&ecirc;,
+meu Jacintho! a tua Civilisaç&atilde;o reclama
+insaciavelmente
+regalos e
+pompas, que só obter&aacute;, n'esta amarga desharmonia
+social,
+se o Capital d&eacute;r ao
+Trabalho, por cada arquejante esf&ocirc;rço, uma migalha
+ratinhada.
+Irremediavel &eacute;, pois, que incessantemente a plebe sirva, a
+plebe
+p&eacute;ne! A sua esfalfada
+miseria &eacute; a condiç&atilde;o do esplendor
+sereno da
+Cidade. Se nas
+suas tigellas fumegasse a justa raç&atilde;o de
+caldo&#8213;n&atilde;o poderia
+apparecer nas baixellas de prata a luxuosa porç&atilde;o
+de
+<em>foie-gras</em> e tubaras que
+s&atilde;o o orgulho da Civilisaç&atilde;o. Ha
+andrajos em trapeiras&#8213;para que
+as bellas Madamas d'Oriol, resplandecentes de s&ecirc;das e rendas,
+subam, em doce
+ondulaç&atilde;o, a escadaria da Opera. Ha
+m&atilde;os <span class="pagenum">[128]</span>regeladas
+que se estendem, e
+beiços sumidos que agradecem o dom magnanimo d'um
+<em>sou</em>&#8213;para que os Ephrains tenham dez
+milh&otilde;es no Banco
+de França, se
+aqueçam &aacute; chamma rica da lenha aromatica, e
+surtam de
+collares de saphiras as suas concubinas, netas dos Duques d'Athenas. E
+um povo chora de fome, e da fome dos seus pequeninos&#8213;para que os
+Jacinthos, em janeiro, debiquem, bocejando, sobre pratos de Saxe,
+morangos gelados em Champagne e avivados d'um fio
+d'ether! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E eu comi dos teus morangos, Jacintho! Miseraveis, tu e eu! <br />
+
+<br />
+
+Elle murmurou, desolado: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; horrivel, comemos d'esses morangos... E talvez por uma
+illus&atilde;o! <br />
+
+<br />
+
+Pensativamente deixou a borda do terraço, como se a
+presença da Cidade, estendida na planicie, fosse
+escandalosa. E
+caminhamos devagar, sob a molleza cinzenta da tarde,
+philosophando&#8213;considerando que para esta iniquidade n&atilde;o
+havia
+cura humana, trazida pelo
+esforço humano. Ah, os Ephrains, os Tr&egrave;ves, os
+vorazes e
+sombrios
+tubar&otilde;es do mar humano, só abandonar&atilde;o
+ou
+affrouxar&atilde;o a
+exploraç&atilde;o das Plebes, se uma influencia celeste,
+por
+milagre novo, mais alto que os milagres velhos, lhes converter as
+almas! <span class="pagenum">[129]</span>O
+burguez triumpha, muito forte, todo endurecido no
+peccado&#8213;e contra elle s&atilde;o impotentes os prantos dos
+Humanitarios, os raciocinios dos Logicos, as bombas dos Anarchistas.
+Para amollecer
+t&atilde;o duro granito só uma doçura divina.
+Eis pois
+esperança da terra novamente posta n'um Messias!... Um
+decerto
+desceu outrora dos grandes Ceus; e, para mostrar bem que mandado
+trazia, penetrou mansamente no mundo pela porta d'um curral. Mas a sua
+passagem entre os homens foi
+t&atilde;o curta! Um meigo serm&atilde;o n'uma montanha, ao fim
+d'uma
+tarde meiga; uma
+reprehens&atilde;o moderada aos Phariseus que ent&atilde;o
+redigiam o
+<em>Boulevard</em>; algumas vergastadas nos Ephrains
+vendilh&otilde;es; e logo,
+atrav&eacute;s da porta da morte, a fuga radiosa para o Paraiso!
+Esse
+adoravel filho de Deus teve demasiada pressa em recolher a casa de seu
+Pae! E os homens a quem elle
+incumbira a continuaç&atilde;o da sua obra, envolvidos
+logo pelas influencias dos Ephrains, dos Tr&egrave;ves, da gente do
+<em>Boulevard</em>, bem depressa esqueceram a
+liç&atilde;o da Montanha e do lago de
+Tiberiade&#8213;e eis que por seu turno revestem a purpura, e s&atilde;o
+Bispos, e s&atilde;o
+Papas, e se alliam &aacute; oppress&atilde;o, e reinam com
+ella, e edificam a
+duraç&atilde;o do seu Reino sobre a miseria dos
+sem-p&atilde;o e dos sem-lar! Assim tem de ser
+recomeçada a obra <span class="pagenum">[130]</span>da
+Redempç&atilde;o. Jesus, ou Guatama, ou Christna, ou
+outro d'esses filhos que Deus por vezes escolhe no seio d'uma Virgem,
+nos quietos vergeis da Asia, dever&aacute; novamente descer
+&aacute;
+terra de
+servid&atilde;o. Vir&aacute; elle, o desejado? Porventura
+j&aacute;
+algum grave rei d'Oriente despertou,
+e olhou a estrella, e tomou a myrrha nas suas m&atilde;os reaes, e
+montou
+pensativamente sobre o seu dromedario? J&aacute; por esses
+arredores da
+dura
+Cidade, de noute, emquanto Caiphaz e Magdalena ceam lagosta no
+Paillard, andou um Anjo, attento, n'um v&ocirc;o lento, escolhendo
+um
+curral? J&aacute;
+de longe, sem moço que os tanja, na gostosa pressa d'um
+divino
+encontro, vem trotando a vacca,
+trotando o burrinho? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tu sabes, Jacintho? <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o, Jacintho n&atilde;o sabia&#8213;e queria accender o
+charuto. Forneci um phosphoro ao meu Principe. Ainda rondamos no
+terraço,
+espalhando pelo ar outras id&eacute;as solidas que no ar se
+desfaziam.
+Depois
+penetravamos na Basilica&#8213;quando um Sachrist&atilde;o nedio, de
+barrete
+de velludo,
+cerrou fortemente a porta, e um Padre passou, enterrando na algibeira,
+com um cançado gesto final e como para sempre, o seu velho
+Breviario. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Estou com uma s&ecirc;de, Jacintho... Foi esta tremenda
+Philosophia! <br />
+
+<br />
+
+Descemos a escadaria, armada em arraial <span class="pagenum">[131]</span>devoto.
+O meu pensativo
+camarada comprou uma imagem da Basilica. E saltavamos para a vittoria,
+quando alguem gritou rijamente, n'uma surpreza: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eh Jacintho! <br />
+
+<br />
+
+O meu Principe abriu os braços, tambem espantado: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eh Mauricio! <br />
+
+<br />
+
+E, n'um alvoroço, atravessou a rua, para um caf&eacute;,
+onde, sob o toldo de riscadinho, um robusto homem, de barba em bico,
+remexia o seu absintho,
+com o chap&eacute;o de palha descahido na nuca, a quinzena solta
+sobre a camisa de s&ecirc;da, sem gravata, como se
+descançasse n'um
+banco, entre as sombras do seu jardim. <br />
+
+<br />
+
+E ambos, apertando as m&atilde;os, se admiravam d'aquelle encontro,
+n'um domingo de ver&atilde;o, sobre as alturas de Montmartre. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Oh! eu estou aqui no meu bairro! exclamava alegremente Mauricio. Em
+familia, em chinellos... Ha tres mezes que subi para estes cimos da
+Verdade... Mas tu na Santa Colina, homem profano da planicie e das ruas
+d'Israel! <br />
+
+<br />
+
+O meu Principe mostrou o seu Z&eacute; Fernandes: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Com este amigo, em peregrinaç&atilde;o &aacute;
+Basilica... <span class="pagenum">[132]</span>O meu
+amigo Fernandes Lorena... Mauricio de Mayolle, velho camarada. <br />
+
+<br />
+
+Mr. de Mayolle (que, pela face larga e nariz nobremente grosso,
+lembrava Francisco de Valois, Rei de França) ergueu o seu
+chapeu de
+palha. E empurrava uma cadeira, insistia que nos accommodassemos para
+um
+absintho ou para um bock. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Toma um bock, Z&eacute; Fernandes! lembrou Jacintho. Tu estavas a
+ganir com s&ecirc;de! <br />
+
+<br />
+
+Corri lentamente a lingua sobre os beiços, mais
+s&ecirc;cos que pergaminhos: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Estou a guardar esta s&ecirc;desinha para logo, para o jantar,
+com um vinhosinho gelado! <br />
+
+<br />
+
+Mauricio saudou, com silenciosa admiraç&atilde;o, esta
+minha avisada malicia. E immediatamente, para o meu Principe: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ha tres annos que te n&atilde;o vejo, Jacintho... Como tem sido
+possivel, n'este Paris que &eacute; uma aldeola e que tu
+atravancas? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;A vida, Mauricio, a espalhada vida... Com effeito! Ha tres annos,
+desde a casa dos Lamotte-Orcel. Tu ainda visitas esse santuario? <br />
+
+<br />
+
+Mauricio atirou um gesto desdenhoso e largo, que sacudia um mundo: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Oh! Ha mais d'um anno que me separei d'essa bicharia heretica... Uma
+turba indisciplinada, meu Jacintho! Nenhuma fixidez, um dilletantismo
+estonteado, carencia completa e <span class="pagenum">[133]</span>comica
+de toda a base experimental... Quando tu ias aos Lamotte-Orcel, e
+&aacute; Parola do 37, e
+&aacute; <em>Cerveja ideal</em>, o que reinava?... <br />
+
+<br />
+
+Jacintho catou lentamente as suas recordaç&otilde;es por
+entre os p&ecirc;llos do bigode: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu sei!... Reinava Wagner e a Mithologia Eddica, e o Raganarock, e as
+Nornas... Muito Pre-Raphaelismo tambem, e Montagna, e Fra-Angelico...
+Em moral, o Renanismo. <br />
+
+<br />
+
+Mauricio sacudia os hombros. Oh, tudo isso pertencia a um passado
+archaico, quasi lacustre! Quando Madame de Lamotte-Orcel
+remobil&aacute;ra a sala com velludos Morris, grossas alcachofras
+sobre tons
+d'açafr&atilde;o, j&aacute; o Renanismo
+pass&aacute;ra, t&atilde;o esquecido como o
+Cartesianismo... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tu ainda &eacute;s do tempo do culto do
+<em>Eu</em>? <br />
+
+<br />
+
+O meu Principe suspirou risonhamente: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ainda o cultivei. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois bem! Logo depois foi o Hartmanismo, o Inconsciente. Depois o
+Nietzismo, o Feudalismo espiritual... Depois grassou o
+Tolsto&iuml;smo, um furor immenso de renunciamento neo-cenobitico.
+Ainda me lembro d'um jantar em que appareceu um mostrengo d'um slavo,
+de guedelha sordida, que atirava olhos medonhos para o decote da pobre
+condessa d'Arche, e que grunhia com o dedo
+espetado:&#8213;&laquo;Busquemos
+a luz, muito por
+baixo, no pó <span class="pagenum">[134]</span>da
+terra!&raquo;&#8213;E &aacute; sobremeza bebemos
+&aacute; delicia da humildade e do trabalho servil, com aquelle
+Champagne Marceaux granitado que a
+Mathilde dava nos grandes dias em copos da fórma do
+San-Gral!
+Depois
+veio Emersonismo... Mas a praga cruel foi Ibsenismo! Emfim, meu filho,
+uma Babel de Ethicas e Estheticas. Paris parecia demente. J&aacute;
+havia uns desgarrados que tendiam para o Luciferismo. E amiguinhas
+nossas, coitadas, iam descambando para o Phallismo, uma moxinifada
+mystico-brejeira, pr&eacute;gada por aquelle pobre La Carte que
+depois se fez Monge Branco, e que anda no Deserto... Um horror! E uma
+tarde, de repente, toda esta massa se precipita com ancia para o
+Ruskinismo! <br />
+
+<br />
+
+Eu, agarrado &aacute; bengala, bem fincada no ch&atilde;o,
+sentia como um vendaval que redemoinhava, me torcia o craneo! E
+at&eacute; Jacintho balbuciou,
+esgazeado: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;O Ruskinismo? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim, o velho Ruskin,... John Ruskin! <br />
+
+<br />
+
+O meu ditoso Principe comprehendeu: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah, Ruskin!... <em>As sete lampadas da
+Architectura</em>, <em>A Cor&ocirc;a de
+Oliveira Brava</em>... &Eacute; o culto da Belleza. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim! O culto da Belleza, confirmou Mauricio. Mas a esse tempo eu,
+enojado, j&aacute; descera <span class="pagenum">[135]</span>de
+todas essas nuvens v&atilde;s...
+Pisava um ch&atilde;o mais seguro, mais fertil. <br />
+
+<br />
+
+Deu um sorvo lento ao absintho, cerrando as palpebras. Jacintho
+esperava, com o seu fino nariz dilatado, como para respirar a
+Fl&ocirc;r de Novidade que ia desabrochar: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E ent&atilde;o? ent&atilde;o?... <br />
+
+<br />
+
+Mas o outro murmurou, dispersamente, por entre reticencias em que se
+velava: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vim para Montmartre... Tenho aqui um amigo, um homem de genio, que
+percorreu toda a India... Viveu com os Toddas, esteve nos mosteiros de
+Garma-Khian e de Dashi-Lumbo, e estudou com Gegen-Chutu no retiro santo
+de Urga... Gegen-Chutu foi a decima-sexta
+encarnaç&atilde;o de Guatama, e era portanto um
+Boddi-sattva...
+Trabalhamos, procuramos... N&atilde;o
+s&atilde;o vis&otilde;es. Mas factos, experiencias bem antigas,
+que vem
+talvez desde os tempos de
+Christna... <br />
+
+<br />
+
+Atrav&eacute;s d'estes nomes, que exhalavam um perfume triste de
+vetustos ritos, arred&aacute;ra a cadeira. E de p&eacute;,
+deixando
+cair
+sobre a mesa, distrahidamente, para pagar o absintho, moedas de prata e
+moedas de cobre, murmurava com os olhos descançados em
+Jacintho,
+mas
+perdidos n'outra vis&atilde;o: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Por fim tudo se reduz ao supremo desenvolvimento da Vontade dentro da
+suprema <span class="pagenum">[136]</span>pureza
+da Vida. &Eacute; toda a sciencia e força
+dos grandes mestres Hindus... Mas a pureza absoluta da vida, eis a
+lucta, eis o obstaculo! N&atilde;o basta mesmo o Deserto, nem o
+bosque
+do mais velho templo
+no alto Thibet... Ainda assim, meu Jacintho, j&aacute; obtivemos
+resultados
+bem extranhos. Sabes as experiencias de Tyndall, com as chammas
+sensitivas... O pobre chimico, para demonstrar as
+vibraç&otilde;es do som, tocou quasi &aacute;s
+portas da verdade
+isoterica. Mas
+qu&egrave;! homem de sciencia, portanto homem d'estupidez, ficou
+&aacute;quem, entre as suas
+placas e as suas retortas! Nós f&ocirc;mos
+al&eacute;m.
+Verific&aacute;mos as
+<em>ondulaç&otilde;es da
+Vontade</em>! Deante de nós,
+pela expans&atilde;o da energia do meu
+companheiro, e em cadencia com o seu mandado, uma chamma, a tres
+metros, ondulou, rastejou, despediu linguas ardentes, lambeu uma alta
+parede, rugiu furiosa e negra, resplandeceu direita e silenciosa, e
+bruscamente abatida em cinza morreu! <br />
+
+<br />
+
+E o extranho homem, com o chapeu para a nuca, ficou immovel, de
+braços abertos e os olhares esgazeados, como no renovado
+assombro e no transe d'aquelle prodigio. Depois, recahindo no seu modo
+facil e sereno, accendendo de vagar um cigarro: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Uma d'estas manh&atilde;s, Jacintho, appareço no 202,
+para almoçar comtigo, e levo o meu <span class="pagenum">[137]</span>amigo.
+Elle só come arr&ocirc;z, uma pouca de
+salada, e fructa. E conversamos... Tu tinhas um exemplar do
+<em>Sepher-Zerijah</em> e outro do <em>Targum
+d'Onkelus</em>. Preciso folhear
+esses livros. <br />
+
+<br />
+
+Apertou a m&atilde;o do meu Principe, saudou este assombrado
+Z&eacute; Fernandes, e serenamente seguiu pela quieta rua, com o
+chapeu
+de palha para a nuca, as m&atilde;os enterradas nas algibeiras,
+como um
+homem natural
+entre cousas naturaes. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Oh Jacintho! Quem &eacute; este bruxo? Conta!... Quem
+&eacute; elle, santissimo nome de Deus? <br />
+
+<br />
+
+Recostado na vittoria, ageitando o vinco das calças, o meu
+Principe contou, concisamente. Era um nobre e leal rapaz, muito rico,
+muito intelligente, da antiga casa soberana de Mayolle, descendente dos
+Duques de Septimania... E murmurou, atrav&eacute;s do costumado
+bocejo:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O desenvolvimento supremo da vontade!... Theosophia, Buddhismo
+isoterico... Aspiraç&otilde;es,
+decepç&otilde;es... J&aacute; experimentei... Uma
+massada! <br />
+
+<br />
+
+Atravessamos, callados, o rum&ocirc;r de Paris, sob a molleza
+abafada do crepusculo de ver&atilde;o, para jantar no Bosque, no
+Pavilh&atilde;o d'Armenonville, onde os Tziganes, avistando
+Jacintho, tocaram o <em>Hymno
+da Carta</em> com paix&atilde;o, <span class="pagenum">[138]</span>com
+langor, n'uma cadencia de
+<em>czarda</em> dolorosa e aspera. <br />
+
+<br />
+
+E eu, desdobrando regaladamente o guardanapo: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois venha agora para a minha rica s&ecirc;de esse vinhosinho
+gelado! Grandemente o mereço, caramba, que superiormente
+philosophei!... E creio que estabeleci definitivamente no espirito do
+Snr. D. Jacintho o
+salutar horror da cidade! <br />
+
+<br />
+
+O meu Principe percorria, catando o bigode, a Lista-dos-Vinhos, em
+quanto o Copeiro, esperava com pensativa reverencia: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mande gelar duas garrafas de champagne S.<sup>t</sup>
+Marceaux... Mas antes, um
+Barsac velho, apenas refrescado... Agoa de Evian... N&atilde;o, de
+Bussang! Bem, d'Evian e de Bussang! E, para começar, um
+bock. <br />
+
+<br />
+
+Depois, bocejando, desabotoando lentamente a sobrecasaca cinzenta: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois estou com vontade de construir uma casa nos cimos de Montmartre,
+com um miradouro no alto, todo de vidro e ferro, para
+descançar de tarde e dominar a Cidade... <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h2>VII</h2>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Julho find&aacute;ra com uma chuva refrescante e consoladora:&#8213;e eu
+pensava em realisar finalmente a minha romagem &aacute;s cidades da
+Europa,
+sempre retardada, atrav&eacute;s da primavera, pelas surprezas do
+Mundo
+e
+da Carne. Mas, de repente, Jacintho começou a rogar e a
+reclamar
+que o
+seu Z&eacute; Fernandes o acompanhasse, todas as tardes, a casa de
+Madame d'Oriol! E eu comprehendi que o meu Principe (&aacute;
+maneira
+do divino
+Achilles, que, sob a tenda, e junto da branca, insipida e docil
+Briseis, nunca dispensava Patoclo) desejava ter, no retiro do Amor, a
+presença, o conf&ocirc;rto e o soccorro da Amizade.
+Pobre
+Jacintho! Logo pela
+manh&atilde; combinava pelo telephone com Madame d'Oriol essa hora
+de
+quietaç&atilde;o e doçura. E assim
+encontravamos sempre a
+superfina Dama
+prevenida e solitaria n'aquella sala da rua de Lisbonne, onde Jacintho
+e eu mal <span class="pagenum">[140]</span>cabiamos,
+suffocavamos na confus&atilde;o, entre os cestos de
+fl&ocirc;res, e os ouros rocalhados, e os monstros do
+Jap&atilde;o, e a
+galante
+fragilidade dos Saxes, e as pelles de feras estiradas aos
+p&eacute;s de
+soph&aacute;s adormecedores, e os biombos de Aubusson formando
+alc&ocirc;vas favoraveis e
+languidas... Aninhada n'uma cadeira de bamb&uacute; lacada de
+branco,
+entre
+almofadas aromatisadas de verbena da India, com um romance pousado no
+regaço, ella esperava o seu amigo, n'uma certa indolencia
+passiva e mansa que me lembrava sempre o Oriente e um Harem. Mas, pelas
+frescas sedinhas Pompadour, parecia tambem uma marquezinha de Versalhes
+cançada do grande seculo; ou ent&atilde;o, com brocados
+sombrios
+e largos cintos
+cravejados, era como uma veneziana, preparada para um Doge. A minha
+intrus&atilde;o, na intimidade d'aquellas tardes, n&atilde;o a
+contrariava&#8213;antes lhe
+trazia um vassallo novo, com dous olhos novos para a contemplar. Eu era
+j&aacute; o seu <em>cher Fernandez!</em> <br />
+
+<br />
+
+E apenas descerrava os labios avivados de vermelho, semelhantes a uma
+ferida fresca, e começava a chalrar&#8213;logo nos envolvia o
+burburinho e a murmuraç&atilde;o de Paris. Ella
+só sabia
+chalrar sobre a sua pessoa que era o resumo da sua Classe, e sobre a
+sua existencia que era o resumo do seu Paris:&#8213;e a sua existencia, <span class="pagenum">[141]</span>desde
+casada, consistira em ornar com suprema sciencia o seu lindo corpo;
+entrar com
+perfeiç&atilde;o n'uma sala e irradiar; remexer em
+estofos e
+conferenciar pensativamente com o grande
+costureiro; rolar pelo Bois pousada na sua vittoria como uma imagem de
+c&ecirc;ra; decotar e branquear o collo; debicar uma perna de
+gallinhola em mezas de luxo; fender turbas ricas em bailes espessos;
+adormecer com a vaidade esfalfada; percorrer de manh&atilde;,
+tomando
+chocolate, os
+&laquo;Echos&raquo; e as &laquo;Festas&raquo; do
+<em>Figaro</em>; e de vez em quando murmurar
+para o marido&#8213;&laquo;Ah, &eacute;s tu?...&raquo;
+Al&eacute;m d'isso,
+ao lusco-fusco,
+n'um soph&aacute;, alguns certos suspiros, entre os
+braços
+d'alguem a quem era constante. Ao
+meu Principe, n'esse anno, pertencia o soph&aacute;. E todos estes
+deveres de Cidade e de Casta os cumpria sorrindo. Tanto sorrira, desde
+casada, que
+j&aacute; duas pr&eacute;gas lhe vincavam os cantos dos
+beiços, indelevelmente. Mas nem na alma, nem na pelle,
+mostrava
+outras maculas de fadiga. A sua Agenda de Visitas continha mil e
+tresentos nomes, todos do Nobiliario. Atrav&eacute;s,
+por&eacute;m,
+desta fulgurante sociabilidade
+arranj&aacute;ra no cerebro (onde de certo penetr&aacute;ra o
+pó
+d'arroz que desde o
+collegio acamava na testa) algumas Id&eacute;as Geraes. Em Politica
+era
+pelos
+Principes; e todos os outros &laquo;horrores&raquo;, a
+Republica, o
+Socialismo, <span class="pagenum">[142]</span>a
+Democracia que se n&atilde;o lava, os sacudia risonhamente, com um
+bater de leque. Na Semana Santa juntava &aacute;s rendas do chapeu
+a
+Cor&ocirc;a amarga de
+espinhos&#8213;por serem esses, para a gente bem-nascida, dias de penitencia
+e d&ocirc;r. E, deante
+de todo o Livro ou de todo o Quadro, sentia a
+emoç&atilde;o e
+formulava finamente o juizo, que no seu Mundo, e n'essa Semana,
+f&ocirc;sse elegante
+formular e sentir. Tinha trinta annos. Nunca se
+embaraç&aacute;ra
+nos tormentos d'uma paix&atilde;o. Marcava, com rigida
+regularidade,
+todas as suas
+despezas n'um Livro de Contas encadernado em pellucia verde-mar. A sua
+religi&atilde;o int&iacute;ma (e mais genuina do que a outra,
+que a
+levava todos os domingos
+&aacute; missa de S. Philippe du Roule) era a Ordem. No inverno,
+logo
+que na amavel cidade começavam a morrer de frio, debaixo das
+pontes,
+creancinhas sem abrigo&#8213;ella preparava com commovido cuidado os seus
+vestidos de patinagem. E preparava tambem os de Caridade&#8213;porque era
+boa, e concorria para Bazares, Concertos e Tombolas, quando fossem
+patrocinados pelas Duquezas do seu &laquo;rancho&raquo;.
+Depois, na
+primavera, muito methodicamente, regateando, vendia a uma adela os
+vestidos e as capas
+de inverno. Paris admirava n'ella uma suprema fl&ocirc;r de
+Parisianismo. <br />
+
+<br />
+
+Pois respirando esta macia e fina fl&ocirc;r passamos
+<span class="pagenum">[143]</span>nós as
+tardes d'esse julho em
+quanto as outras fl&ocirc;res pendiam e murchavam na calma
+e no pó. Mas, na intimidade do seu perfume, Jacintho
+n&atilde;o
+parecia
+encontrar esse contentamento d'alma, que entre tudo que
+cança
+j&aacute;mais cança. Era j&aacute; com a paciente
+lentid&atilde;o com que se sobem todos os Calvarios, os
+mais bem tapetados, que elle subia a escadaria de Madame d'Oriol,
+t&atilde;o
+suave e orlada de t&atilde;o frescas palmeiras. Quando a appetitosa
+creatura, com dedicaç&atilde;o, para o entreter,
+desdobrava a
+sua
+vivacidade como um pav&atilde;o desdobra a cauda, o meu pobre
+Principe
+puxava os p&ecirc;llos do
+bigode murcho, na murcha postura de quem, por uma manh&atilde; de
+Maio,
+em
+quanto os melros cantam nas sebes, assiste, n'uma egreja negra, a um
+responso funebre por um Principe. E no beijo que elle chuchurreava
+sobre a
+m&atilde;o da sua d&ocirc;ce amiga, para se despedir, havia
+sempre
+alacridade e
+allivio. <br />
+
+<br />
+
+Mas ao outro dia, ao começar da tarde, depois de errar
+atrav&eacute;s da Bibliotheca e do Gabinete, puxando sem
+curiosidade a
+tira do
+telegrapho, atirando algum recado molle pelo telephone, espalhando o
+olhar desalentado sobre o saber immenso dos trinta mil livros,
+remexendo a collina dos Jornaes e Revistas, terminava por me chamar,
+j&aacute;
+com a preguiça triste da façanha a que se
+impellia: <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[144]</span>
+&#8213;Vamos a casa de Madame d'Oriol, Z&eacute; Fernandes? Eu tinha
+marcadas para hoje seis ou sete coisas, mas n&atilde;o posso,
+&eacute; uma
+secca! Vamos a casa de Madame d'Oriol... Ao menos l&aacute;,
+&aacute;s vezes, ha um
+bocado de frescura e paz. <br />
+
+<br />
+
+E foi n'uma d'essas tardes, em que o meu Principe assim procurava
+desesperadamente um &laquo;bocado de frescura e paz&raquo;, que
+encontramos, ao meio da escadaria suave, entre as palmeiras, o marido
+de Madame d'Oriol. Eu j&aacute; o conhecia&#8213;porque Jacintho m'o
+mostr&aacute;ra uma
+noite, no Grand Caf&eacute;, ceiando com dançarinas do <em>Moulin
+Rouge</em>. Era um moço gordalhufo, indolente, de uma
+brancura cr&uacute;a de toucinho, com uma calvice
+j&aacute; s&eacute;ria e j&aacute; lustrosa, constantemente
+acariciada pelos seus gordos
+dedos carregados de anneis. N'essa tarde, por&eacute;m, vinha
+vermelho,
+todo emocionado, calçando as luvas com colera. Estacou
+diante de
+Jacintho&#8213;e sem mesmo lhe apertar a m&atilde;o, atirando um gesto
+para o
+patamar: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Visita l&aacute; acima? Vai achar a Joanna em pessima
+disposiç&atilde;o... Tivemos uma scena, e tremenda. <br />
+
+<br />
+
+Deu outro pux&atilde;o desesperado &aacute; luva c&ocirc;r
+de palha, j&aacute; esgaçada: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Estamos separados, cada um vive como lhe appetece, &eacute;
+excellente! Mas em tudo ha <span class="pagenum">[145]</span>medida
+e fórma... Ella tem o meu nome,
+n&atilde;o posso consentir que em Paris, com conhecimento de todo o
+Paris, seja a amante do trintanario. Amantes na nossa roda,
+v&aacute;!
+Um lacaio,
+n&atilde;o!... Se quer dormir com os creados que emigre para o
+fundo da
+provincia, para a sua casa de Corbelle. E l&aacute; at&eacute;
+com os
+animaes!... Foi
+o que eu lhe disse! Ficou como uma fera. <br />
+
+<br />
+
+Sacudiu ent&atilde;o a m&atilde;o do Jacintho que
+&laquo;era da sua roda&raquo;&#8213;rebolou pela escadaria florida e
+nobre. O meu Principe, immovel nos degraus, de face
+pendida, cofiava lentamente os fios pendidos do bigode. Depois, olhando
+para mim, como um s&egrave;r saturado de tedio e em quem nenhum
+tedio novo póde caber: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;J&aacute; agora subamos, sim? <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="break">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Parti ent&atilde;o, com muita alegria, para a minha appetecida
+romagem &aacute;s Cidades da Europa. <br />
+
+<br />
+
+Ia viajar!... Viajei. Trinta e quatro vezes, &aacute; pressa,
+bufando, com todo o sangue na face, desfiz e refiz a mala. Onze vezes
+passei o dia n'um wagon, envolto em poeirada e fumo, suffocado, a
+arquejar, a escorrer de
+suor, saltando em cada estaç&atilde;o para sorver
+desesperadamente limonadas mornas que me escangalhavam <span class="pagenum">[146]</span>a
+entranha. Quatorze vezes subi derreadamente, atraz de um creado, a
+escadaria desconhecida d'um Hotel;
+e espalhei o olhar incerto por um quarto desconhecido; e estranhei uma
+cama desconhecida, d'onde me erguia, estremunhado, para pedir em
+linguas desconhecidas um caf&eacute; com leite que me sabia a fava,
+um
+banho de tina que me cheirava a l&ocirc;do. Oito vezes travei
+bulhas
+abominaveis
+na rua com cocheiros que me espoliavam. Perdi uma chapelleira, quinze
+lenços, tres ceroulas, e duas botas, uma branca, outra
+envernizada, ambas do
+p&eacute; direito. Em mais de trinta mezas-redondas esperei
+tristonhamente que me
+chegasse o <em>boeuf-a-la-mode</em>,
+j&aacute; frio, com m&ocirc;lho coalhado&#8213;e que o copeiro me
+trouxesse a garrafa de Bordeus que eu provava e repellia com
+desditosa carantonha. Percorri, na fresca penumbra dos granitos e dos
+marmores, com p&eacute; respeitoso e abafado, vinte e nove
+Cathedraes. Trilhei mollemente, com uma d&ocirc;r surda na nuca, em
+quatorze muzeus,
+cento e quarenta salas revestidas at&eacute; aos tectos de
+Christos,
+heroes, santos, nymphas, princezas, batalhas, architecturas, verduras,
+nudezes,
+sombrias manchas de betume, tristezas das formas immoveis!... E o dia
+mais
+d&ocirc;ce foi quando em Veneza, onde chovia desabaladamente,
+encontrei um velho <span class="pagenum">[147]</span>
+inglez de penca flammejante que habit&aacute;ra o Porto,
+conhec&ecirc;ra o Ricardo, o Jos&eacute; Duarte, o Visconde do
+Bom Successo, e as Limas da Boa
+Vista... Gastei seis mil francos. Tinha viajado. <br />
+
+<br />
+
+Emfim, n'uma bemdita manh&atilde; d'outubro, na primeira friagem e
+nevoa d'outomno, avistei com enternecido alvoroço as
+cortinas de
+seda ainda fechadas do meu 202! Affaguei o hombro do Porteiro. No
+patamar, onde encontrei o ar macio e tepido que deix&aacute;ra em
+Florença, apertei os ossos do Grillo excellente: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E Jacintho? <br />
+
+<br />
+
+O digno negro murmurou, d'entre os altos, reluzentes collarinhos: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;S. Exc.<sup>a</sup> circula... Pesadote, fartote. Entrou tarde do baile
+da
+Duqueza de Loches. Era o contracto de casamento de Mademoiselle de
+Loches... Ainda tomou antes de se deitar um ch&aacute; gelado... E
+disse a coçar a cabeça: &laquo;Eh! que
+massada! Eh!
+que massada!&raquo; <br />
+
+<br />
+
+Depois do banho e do chocolate, &aacute;s dez horas, consolado e
+quentinho dentro do roup&atilde;o de velludo, rompi pelo quarto do
+meu
+Principe, de braços abertos e sedentos: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Oh Jacintho! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Oh viajante!... <br />
+
+<br />
+
+Quando nos estreitamos, fartamente, eu recuei para lhe contemplar a
+face&#8213;e n'ella a <span class="pagenum">[148]</span>alma.
+Encolhido n'uma quinzena de panno c&ocirc;r
+de malva orlada de pelles de martha, com os pellos do bigode murchos,
+as suas duas rugas mais cavadas, uma molleza nos hombros largos, o meu
+amigo parecia j&aacute; vergado sob o pezo e a oppress&atilde;o
+e o
+terror do seu dia. Eu sorri, para que elle sorrisse: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Valente Jacintho... Ent&atilde;o como tens vivido? <br />
+
+<br />
+
+Elle respondeu, muito serenamente: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Como um morto. <br />
+
+<br />
+
+Forcei uma gargalhada leve, como se o seu mal f&ocirc;sse leve: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Aborrecidote, hein? <br />
+
+<br />
+
+O meu Principe lançou, n'um gesto t&atilde;o vencido, um
+<em>oh</em> t&atilde;o cansado&#8213;que eu compadecido de
+novo o abracei, o estreitei, como para lhe communicar
+uma parte d'esta alegria solida e pura que recebi do meu Deus! <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="break">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Desde essa manh&atilde;, Jacintho começou a mostrar
+claramente, escancaradamente, ao seu Z&eacute; Fernandes, o
+t&eacute;dio de
+que a existencia o saturava. O seu cuidado realmente e o seu
+esf&ocirc;rço
+consistiram ent&atilde;o em sondar e formular esse
+t&eacute;dio&#8213;na esperança de o
+vencer logo que lhe conhecesse bem a origem e a potencia. <span class="pagenum">[149]</span>E
+o meu pobre Jacintho reproduziu
+a comedia pouco divertida d'um Melancolico que perpetuamente raciocina
+a sua Melancolia! N'esse raciocin&iacute;o, elle partia sempre do
+facto irrecusavel e massiço&#8213;que a sua vida especial de
+Jacintho
+continha todos os interesses e todas as facilidades, possiveis no
+seculo XIX, n'uma vida de homem que n&atilde;o &eacute; um
+Genio, nem
+um
+Santo. Com effeito! Apezar do appetite embotado por doze annos de
+Champagnes e
+m&ocirc;lhos ricos elle conservava a sua rijeza de pinheiro bravo;
+na
+luz da sua intelligencia n&atilde;o apparec&ecirc;ra nem tremor
+nem
+morr&atilde;o; a boa terra de Portugal, e algumas Companhias
+macissas,
+pontualmente lhe forneciam a sua doce centena de contos; sempre activas
+e sempre fieis o cercavam as
+sympathias d'uma Cidade inconstante e chasqueadora; o 202 estourava de
+conf&ocirc;rtos; nenhuma amargura de coraç&atilde;o
+o atormentava;&#8213;e todavia era um Triste. Porque?... E d'aqui saltava,
+com certeza fulgurante,
+&aacute; conclus&atilde;o de que a sua tristeza, esse cinzento
+burel em
+que a sua alma andava amortalhada, n&atilde;o provinham da sua
+individualidade de
+Jacintho&#8213;mas da Vida, do lamentavel, do desastroso facto de Viver! E
+assim o saudavel, intellectual, riquissimo, bem-acolhido Jacintho
+tomb&aacute;ra no
+Pessimismo. <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[150]</span>E um Pessimismo
+irritado! Porque
+(segundo affirmava) elle nascera para ser t&atilde;o naturalmente
+optimista como um pardal ou um gato. E,
+at&eacute; aos doze annos, emquanto f&ocirc;ra um bicho
+superiormente
+amimado, com
+a sua pelle sempre bem coberta, o seu prato sempre bem cheio, nunca
+sentira fadiga, ou melancolia, ou contrariedade, ou pena&#8213;e as lagrimas
+eram para elle t&atilde;o incomprehensiveis que lhe pareciam
+viciosas.
+Só quando cresc&ecirc;ra, e da animalidade
+penetr&aacute;ra na
+humanidade, despont&aacute;ra n'elle esse fermento de tristeza,
+muito
+tempo indesenvolvido no tumulto das primeiras curiosidades, e que
+depois alastr&aacute;ra, o invadira
+todo, se lhe torn&aacute;ra consubstancial e como o sangue das suas
+veias.
+Soffrer portanto era inseparavel de Viver. Soffrimentos differentes nos
+destinos differentes da Vida. Na turba dos humanos &eacute; a
+angustiada
+lucta pelo p&atilde;o, pelo tecto, pelo lume; n'uma casta, agitada
+por
+necessidades mais
+altas, &eacute; a amargura das desillus&otilde;es, o mal da
+imaginaç&atilde;o insatisfeita, o orgulho chocando
+contra
+obstaculo; n'elle, que tinha os bens todos e desejos nenhuns, era o
+t&eacute;dio. Miseria do Corpo, tormento da
+Vontade, fastio da Intelligencia&#8213;eis a Vida! E agora aos trinta e tres
+annos a sua occupaç&atilde;o era bocejar, correr com <span class="pagenum">[151]</span>os dedos
+desalentados a face pendida para n'ella palpar e appetecer a caveira. <br />
+
+<br />
+
+Foi ent&atilde;o que o meu Principe começou a ler
+apaixonadamente, desde o <em>Ecclesiastes</em>
+at&eacute;
+Schopenhauer, todos os lyricos e todos os theoricos do Pessimismo.
+N'estas leituras encontrava a reconfortante
+comprovaç&atilde;o de que o seu mal n&atilde;o era
+mesquinhamente
+&laquo;Jacinthico&raquo;&#8213;mas grandiosamente resultante d'uma
+Lei
+Universal. J&aacute; ha quatro mil annos, na
+remota Jerusal&eacute;m, a Vida, mesmo nas suas delicias mais
+triumphaes,
+se resumia em Illus&atilde;o. J&aacute; o Rei incomparavel, de
+sapiencia
+divina, summo Vencedor, summo Edificador, se enfastiava, bocejava,
+entre os despojos das suas conquistas, e os marmores novos dos seus
+Templos, e as suas tres mil concubinas, e as Rainhas que subiam do
+fundo da Ethiopia para que elle as fecundasse e no seu ventre
+depoz&eacute;sse um Deus!
+N&atilde;o ha nada novo sob o sol, e a eterna
+repetiç&atilde;o
+das coisas &eacute;
+a eterna repetiç&atilde;o dos males. Quanto mais se sabe
+mais se
+pena. E o justo como o perverso, nascidos
+do pó, em pó se tornam. Tudo tende ao
+pó
+ephemero, em Jerusal&eacute;m e em Paris! E elle, obscuro no 202,
+padecia por ser homem e por viver&#8213;como no seu throno d'ouro, entre os
+seus quatro le&otilde;es d'ouro, o filho
+magnifico de David. <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[152]</span>
+N&atilde;o se separava ent&atilde;o do
+<em>Ecclesiastes</em>. E circulava por Paris
+trazendo dentro do coup&eacute; Salom&atilde;o, como
+irm&atilde;o de
+d&ocirc;r, com quem repetia o grito desolado que &eacute; a
+summa da verdade
+humana&#8213;<em>Vanitas Vanitatum!</em>
+Tudo
+&eacute; Vaidade! Outras vezes, logo de manh&atilde; o
+encontrava
+estendido
+no soph&aacute;, n'um roup&atilde;o de s&ecirc;da,
+absorvendo
+Schopenhauer&#8213;emquanto o pedicuro, ajoelhado sobre o tapete, lhe polia
+com respeito e pericia as unhas dos
+p&eacute;s. Ao lado pousava a chavena de Saxe, cheia d'esse
+caf&eacute; de Moka enviado por emires do Deserto, que
+n&atilde;o o
+contentava nunca,
+nem pela força, nem pelo aroma. A espaços pousava
+o livro
+no peito, resvalava um olhar compassivo para o pedicuro, como a
+procurar que d&ocirc;r o torturaria&#8213;pois que a todo o viver
+corresponde um soffrer. Decerto o remexer assim, perpetuamente, em
+p&eacute;s alheios... E quando o
+pedicuro se erguia, Jacintho abria para elle um sorriso de
+confraternidade&#8213;com um &laquo;adeus, meu amigo&raquo; que era
+&laquo;um adeus, meu
+irm&atilde;o!&raquo; <br />
+
+<br />
+
+Esse foi o periodo esplendido e soberbamente divertido do seu
+t&eacute;dio. Jacintho encontr&aacute;ra emfim na vida uma
+occupaç&atilde;o grata&#8213;maldizer a Vida! E para que a
+pod&eacute;sse maldizer em todas as suas
+fórmas, as mais ricas, as mais intellectuaes, as mais puras,
+sobrecarregou <span class="pagenum">[153]</span>a
+sua vida propria de novo luxo, de interesses novos d'espirito, e
+at&eacute; de fervores
+humanitarios, e at&eacute; de curiosidades supernaturaes. <br />
+
+<br />
+
+O 202, n'esse inverno, refulgiu de magnificencia. Foi ent&atilde;o
+que elle iniciou em Paris, repetindo Heliogabalo, os Festins de
+C&ocirc;r
+contados na Historia Augusta: e offereceu &aacute;s suas amigas
+esse
+sublime
+jantar c&ocirc;r de rosa, em que tudo era roseo, as paredes, os
+moveis,
+as luzes, as
+louças, os crystaes, os gelados, os Champagnes, e
+at&eacute;
+(por uma
+invenç&atilde;o da Alta-Cozinha) os peixes, e as carnes,
+e os
+legumes, que os escudeiros serviam, empoados de pó rosado,
+com
+libr&eacute;s da
+c&ocirc;r da rosa, em quanto do tecto, d'um velario de seda rosada,
+cahiam petalas frescas de rosas...
+A Cidade, deslumbrada, clamou&#8213;&laquo;Bravo, Jacintho!&raquo; E
+o
+meu Principe, ao rematar a festa fulgurante, plantou deante de mim as
+m&atilde;os
+nas ilhargas e gritou triumphalmente:&#8213;&laquo;Hein? Que
+massada!...&raquo; <br />
+
+<br />
+
+Depois foi o Humanitarismo: e fundou um Hospicio no campo, entre
+jardins, para velhinhos desamparados, outro para creanças
+debeis &aacute; beira do Mediterraneo. Depois com o major Dorchas,
+e
+Mayolle, e o
+Hind&ugrave; de Mayolle penetrou no Theosophismo: e montou
+tremendas
+experiencias para verificar a mysteriosa
+<span class="pagenum">[154]</span><em>exteriorisaç&atilde;o
+da
+motilidade</em>. Depois, desesperadamente, ligou o 202 com os
+fios telegraphicos do
+<em>Times</em>, para que no seu gabinete, como n'um
+coraç&atilde;o,
+palpitasse toda a vida Social da Europa. <br />
+
+<br />
+
+E a cada um d'estes esforços da elegancia, do humanitarismo,
+da sociabilidade, e da intelligencia indagadora, voltava para mim, de
+braços alegres, com um grito
+victorioso:&#8213;&laquo;V&ecirc;s tu, Z&eacute; Fernandes? Uma
+massada!&raquo;&#8213;Arrebatava ent&atilde;o o seu
+<em>Ecclesiastes</em>, o seu Schopenhauer,
+e, estendido no soph&aacute;, saboreava voluptuosamente a
+concordancia
+da Doutrina e da Experiencia. Possuia uma F&eacute;&#8213;o Pessimismo:
+era um
+apostolo rico e esforçado: e tudo tentava, com
+sumptuosidade, para provar a
+verdade da sua F&eacute;! Muito gozou n'esse anno o meu
+desgraçado
+Principe! <br />
+
+<br />
+
+No começo do inverno, por&eacute;m, notei com
+inquietaç&atilde;o que Jacintho j&aacute;
+n&atilde;o folheava o <em>Ecclesiastes</em>,
+desleixava
+Schopenhauer. Nem festas, nem Theosophismos, nem os seus Hospicios, nem
+os fios do
+<em>Times</em>, pareciam interessar agora o meu amigo,
+mesmo como
+demonstraç&otilde;es gloriosas da sua Crença.
+E a sua
+abominavel funcç&atilde;o de
+novo se limitou a bocejar, a passar os dedos molles sobre a face
+pendida palpando a caveira. Incessantemente alludia &aacute; morte
+como
+a uma
+libertaç&atilde;o. Uma <span class="pagenum">[155]</span>tarde
+mesmo, no melancolico crepusculo da Bibliotheca, antes de refulgirem as
+luzes,
+consideravelmente me aterrou, fallando n'um tom regelado de mortes
+rapidas, sem d&ocirc;r, pelo choque d'uma vasta pilha electrica ou
+pela violencia compassiva do acido cyanidrico. Diabo! O Pessimismo, que
+apparecera na Intelligencia do meu Principe como um conceito
+elegante&#8213;atac&aacute;ra bruscamente a Vontade! <br />
+
+<br />
+
+Todo o seu movimento ent&atilde;o foi o d'um boi inconsciente que
+marcha sob a canga e o aguilh&atilde;o. J&aacute;
+n&atilde;o esperava
+da
+Vida contentamento&#8213;nem mesmo se lastimava que ella lhe trouxesse
+t&eacute;dio ou pena.
+&laquo;Tudo &eacute; indifferente, Z&eacute;
+Fernandes!&raquo; E
+t&atilde;o indifferentemente sahiria
+&aacute; sua janella para receber uma Cor&ocirc;a Imperial
+offerecida
+por um Povo&#8213;como se estenderia
+n'uma poltrona r&ocirc;ta para emmudecer e jazer. Sendo tudo
+inutil, e
+n&atilde;o conduzindo sen&atilde;o a maior
+desillus&atilde;o, que podia
+importar a mais rutilante actividade ou a mais desgostada inercia? O
+seu gesto constante, que me irritava, era encolher os hombros. Perante
+duas ideias, dois caminhos, dois pratos, encolhia os hombros! Que
+importava?... E no minimo acto, raspar um phosphoro ou desdobrar um
+Jornal, punha uma morosidade
+t&atilde;o desconsolada que todo elle parecia ligado, desde os
+dedos
+at&eacute; &aacute; alma, <span class="pagenum">[156]</span>
+pelas voltas apertadas d'uma corda que se n&atilde;o via e que o
+travava. <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="break">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Muito desagradavelmente me recordo do dia dos seus annos, a 10 de
+Janeiro. C&ecirc;do, de manh&atilde;, receb&egrave;ra, com
+uma carta de Madame de Tr&egrave;ves, um açafate de
+camelias,
+azaleas, orchideas e lyrios do valle. E
+foi este mimo que lhe recordou a data consideravel. Soprou sobre as
+petalas o fumo do cigarro e murmurou com um riso de lento escarneo: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o, ha trinta e quatro annos que eu ando n'esta
+massada? <br />
+
+<br />
+
+E como eu propunha que telephonassemos aos amigos para beberem no 202 o
+Champagne do &laquo;Natalicio&raquo;&#8213;elle recusou, com o nariz
+enojado. Oh! N&atilde;o! Que horrivel s&eacute;cca!... E bradou
+mesmo para o Grillo: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu hoje n&atilde;o estou em Paris para ninguem. Abalei para o
+campo, abalei para Marselha... Morri! <br />
+
+<br />
+
+E a sua ironia n&atilde;o cessou at&eacute; ao
+almoço perante os bilhetes, os telegrammas, as cartas, que
+subiam, se arredondavam em collina sobre a meza d'ebano, como um preito
+da Cidade. Outras fl&ocirc;res que
+vieram, em vistosos cestos, com vistosos laços, foram por
+elle
+comparadas &aacute;s que se dep&otilde;e sobre uma tumba. <span class="pagenum">[157]</span>E apenas se interessou um
+momento
+pelo presente de Ephraim, uma engenhosa meza, que se abaixava
+at&eacute; ao
+tapete ou se alteava at&eacute; ao tecto&#8213;para que, senhor Deus
+meu? <br />
+
+<br />
+
+Depois do almoço, como chovia sombriamente, n&atilde;o
+arredamos do 202, com os p&eacute;s estendidos ao lume, em
+preguiçoso silencio.
+Eu termin&aacute;ra por adormecer beatificamente. Acordei aos
+passos açodados do
+Grillo... Jacintho, enterrado na poltrona, com umas tesouras, recortava
+um papel!
+E nunca eu me compadeci d'aquelle amigo, que
+canç&aacute;ra a mocidade a accumular todas as
+noç&otilde;es formuladas desde
+Aristoteles e a juntar todos os inventos realisados desde Tharamenes,
+como n'essa tarde de festa, em
+que elle, cercado de Civilisaç&atilde;o nas maximas
+proporç&otilde;es para gozar nas maximas
+proporç&otilde;es a delicia de viver, se
+encontrava reduzido, junto ao seu lar, a recortar papeis com uma
+tesoura! <br />
+
+<br />
+
+O Grillo trazia um presente do Gran-Duque&#8213;uma caixa de prata, forrada
+de cedro, e cheia d'um ch&aacute; precioso, colhido, fl&ocirc;r
+a fl&ocirc;r, nas veigas de Kiang-Sou por m&atilde;os puras de
+virgens,
+e conduzido
+atrav&eacute;s da Asia, em caravanas, com a
+veneraç&atilde;o
+d'uma reliquia.
+Ent&atilde;o, para despertar o nosso torp&ocirc;r, lembrei que
+tomassemos o divino
+ch&aacute;&#8213;occupaç&atilde;o bem harmonica com a
+tarde triste, a
+chuva <span class="pagenum">[158]</span>grossa
+alagando os vidros, e a clara chamma bailando no fog&atilde;o.
+Jacintho
+accedeu&#8213;e um escudeiro acercou
+logo a meza de Ephraim para que nós lhe estreassemos os
+serviços destros. Mas o meu Principe, depois de a altear,
+para
+meu espanto, at&eacute; aos
+crystaes do lustre, n&atilde;o conseguiu, apezar de uma suada e
+desesperada
+batalha com as molas, que a meza regressasse a uma altura humana e
+cazeira. E o escudeiro de novo a levou, levantada como um andaime,
+chimerica, unicamente aproveitavel para o gigante Adamastor. Depois
+veio a caixa
+do ch&aacute; entre chaleiras, lampadas, coadores, filtros, todo um
+fausto de alfaias de prata, que communicavam a essa
+occupaç&atilde;o, t&atilde;o simples e
+d&ocirc;ce em caza de minha tia, <em>fazer
+ch&aacute;</em>, a magestade d'um rito. Prevenido pelo
+meu camarada da sublimidade d'aquelle ch&aacute; de Kiang-Sou,
+ergui a chavena aos labios com reverencia. Era uma infus&atilde;o
+descorada que
+sabia a malva e a formiga. Jacintho provou, cuspiu, blasphemou...
+N&atilde;o
+tomamos ch&aacute;. <br />
+
+<br />
+
+Ao cabo d'outro pensativo silencio, murmurei, com os olhos perdidos no
+lume: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E as obras de Tormes? A egreja... J&aacute; haver&aacute;
+egreja nova? <br />
+
+<br />
+
+Jacintho retom&aacute;ra o papel e a thesoura: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o sei... N&atilde;o tornei a receber carta
+<span class="pagenum">[159]</span>
+do
+Silverio... Nem imagino onde param os ossos... Que lugubre historia! <br />
+
+<br />
+
+Depois chegou a hora das luzes e do jantar. Eu encommend&aacute;ra
+pelo Grillo ao nosso magistral cozinheiro uma larga travessa d'arroz
+d&ocirc;ce, com as iniciaes de Jacintho e a data ditosa em canella,
+&aacute; moda
+amavel da nossa meiga terra. E o meu Principe &aacute; meza,
+percorrendo a lamina
+de marfim onde no 202 se inscreviam os pratos a lapis vermelho, louvou
+com
+ferv&ocirc;r a ideia patriarchal: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Arr&ocirc;z d&ocirc;ce! Est&aacute; escripto com dois
+<em>ss</em>, mas n&atilde;o tem
+d&uacute;vida... Excellente lembrança! Ha que tempos
+n&atilde;o
+c&ocirc;mo arr&ocirc;z d&ocirc;ce!... Desde a morte da
+avó. <br />
+
+<br />
+
+Mas quando o arr&ocirc;z d&ocirc;ce appareceu triumphalmente,
+que vex&acirc;me! Era um prato monumental, de grande arte! O
+arr&ocirc;z,
+massiço, moldado em fórma de pyramide do Egypto,
+emergia
+d'uma calda de cereja, e desapparecia sob
+os fructos seccos que o revestiam at&eacute; ao cimo, onde se
+equilibrava uma cor&ocirc;a de Conde feita de chocolate e gomos de
+tangerina
+gelada! E as iniciaes, a data, t&atilde;o lindas e graves na
+canella
+ingenua,
+vinham traçadas nas bordas da travessa com violetas
+pralinadas!
+Repellimos, n'um mudo horror, o prato acanalhado. E Jacintho, erguendo
+o copo de Champagne, murmurou como n'um funeral pag&atilde;o: <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[160]</span>
+&#8213;<em>Ad Manes</em>, aos nossos mortos! <br />
+
+<br />
+
+Recolhemos &aacute; Bibliotheca, a tomar o caf&eacute; no
+conchego e alegria do lume. Fóra, o vento bramava como n'um
+&ecirc;rmo serrano: e as
+vidraças tremiam, alagadas, sob as bategas da chuva irada.
+Que dolorosa noite para os dez
+mil pobres que em Paris erram sem p&atilde;o e sem lar! Na minha
+aldeia, entre c&ecirc;rro e valle, talvez assim rugisse a tormenta.
+Mas ahi cada
+pobre, sob o abrigo da sua telha v&atilde;, com a sua panella
+atestada de
+couves, se agacha no seu mant&eacute;o ao calor da lareira. E para
+os que
+n&atilde;o tenham lenha ou couve, l&aacute; est&aacute; o
+Jo&atilde;o das Quintas,
+ou a tia Vicencia, ou o abbade, que conhecem todos os pobres pelos seus
+nomes, e com elles contam, como
+sendo dos seus, quando o carro vae ao matto e a fornada entra no
+f&ocirc;rno. Ah Portugal pequenino, que ainda &eacute;s
+d&ocirc;ce aos
+pequeninos! <br />
+
+<br />
+
+Suspirei, Jacintho preguiçava. E terminamos por remexer
+languidamente os jornaes que o mordomo trouxera, n'um monte facundo,
+sobre uma salva de prata&#8213;jornaes de Paris, jornaes de Londres,
+Semanarios, Magazines, Revistas, Illustraç&otilde;es...
+Jacintho
+desdobrava,
+arremessava: das Revistas espreitava o summario, logo farto;
+&aacute;s
+Illustraç&otilde;es rasgava as folhas com o dedo
+indifferente,
+bocejando <span class="pagenum">[161]</span>por
+cima das gravuras. Depois, mais estirado para o lume: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; uma s&eacute;cca... N&atilde;o ha que
+l&ecirc;r. <br />
+
+<br />
+
+E de repente, revoltado contra este fastio oppressor que o escravisava,
+saltou da poltrona com um arranque de quem despedaça
+algemas, e ficou erecto, dardejando em torno um olhar imperativo e
+duro, como se intimasse aquelle seu 202, t&atilde;o abarrotado de
+Civilisaç&atilde;o, a que por um momento sequer
+fornecesse
+&aacute; sua alma um interesse vivo,
+&aacute; sua vida um fugitivo g&ocirc;sto! Mas o 202 permaneceu
+insensivel: nem uma luz,
+para o animar, avivou o seu brilho mudo: só as
+vidraças
+tremeram sob o embate mais rude de agua e vento. <br />
+
+<br />
+
+Ent&atilde;o o meu Principe, succumbido, arrastou os passos
+at&eacute; ao seu gabinete, começou a percorrer todos os
+apparelhos
+completadores e facilitadores da Vida&#8213;o seu Telegrapho, o seu
+Telephone, o seu Phonographo, o seu Radiometro, o seu Graphophono, o
+seu Microphono, a sua Machina d'Escrever, a sua Machina de Contar, a
+sua Imprensa Electrica, a outra Magnetica, todos os seus utensilios,
+todos os seus tubos, todos os seus fios... Assim um Supplicante
+percorre altares d'onde espera soccorro. E toda a sua sumptuosa
+Mechanica <span class="pagenum">[162]</span>se
+conservou rigida, reluzindo frigidamente, sem que uma roda girasse, nem
+uma
+lamina vibrasse, para entreter o seu Senhor. <br />
+
+<br />
+
+Só o relogio monumental, que marcava a hora de todas as
+capitaes e o curso de todos os planetas, se compadeceu, batendo a
+meia-noite, annunciando ao meu amigo que mais um Dia partira levando o
+seu p&ecirc;zo&#8213;diminuindo esse sombrio p&ecirc;zo da Vida, sob
+que
+elle gemia, vergado. O Principe da Gran-Ventura, ent&atilde;o,
+decidiu
+recolher para a
+cama&#8213;com um livro... E durante um momento, estacou no meio da
+Bibliotheca, considerando os seus setenta mil volumes estabelecidos com
+pompa e magestade como Doutores n'um Concilio&#8213;depois as pilhas
+tumultuarias
+dos livros novos que esperavam pelos cantos, sobre o tapete, o repouso
+e a consagraç&atilde;o das estantes d'ebano. Torcendo
+mollemente o bigode caminhou por fim para a regi&atilde;o dos
+Historiadores: espreitou seculos,
+farejou raças: pareceu attrahido pelo explendor do Imperio
+Byzantino: penetrou na Revoluç&atilde;o Franceza d'onde
+se
+arredou
+desencantado: e palpou com m&atilde;o indeliberada toda a vasta
+Grecia
+desde a creaç&atilde;o
+de Athenas at&eacute; a aniquilaç&atilde;o de
+Corintho. Mas
+bruscamente virou
+para a fila dos Poetas, <span class="pagenum">[163]</span>
+que reluziam em marroquins claros, mostrando, sobre a lombada, em ouro,
+nos titulos fortes ou languidos, o interior das suas almas.
+N&atilde;o appeteceu nenhuma d'essas seis mil almas&#8213;e recuou,
+desconsolado,
+at&eacute; aos Biologos... T&atilde;o massiça e
+cerrada era a
+estante de Biologia que o meu pobre Jacintho estarreceu, como ante uma
+cidadella inaccessivel! Rolou a escada&#8213;e, fugindo, trepou,
+at&eacute;
+&aacute;s
+alturas da Astronomia: destacou astros, recollocou mundos: todo um
+Systema Solar desabou com fragor. Aturdido, desceu, começou
+a
+procurar por sobre as
+rimas das obras novas, ainda brochadas, nas suas roupas leves de
+combate. Apanhava, folheava, arremessava: para desentulhar um volume,
+demolia
+uma torre de doutrinas: saltava por cima dos Problemas, pisava as
+Religi&otilde;es: e relanceando uma linha, esgravatando
+al&eacute;m
+n'um indice,
+todos interrogava, de todos se desinteressava, rolando quasi de rastos,
+nas grossas vagas de tomos que rolavam, sem se poder deter, na ancia de
+encontrar um Livro! Parou ent&atilde;o no meio da immensa nave, de
+cocoras, sem coragem, contemplando aquelles muros todos forrados,
+aquelle
+ch&atilde;o todo alastrado, os seus setenta mil volumes&#8213;e, sem
+lhes
+provar a
+substancia, j&aacute; absolutamente saciado, abarrotado, nauseado <span class="pagenum">[164]</span>pela
+opress&atilde;o da sua abundancia. Findou por voltar ao
+mont&atilde;o de jornaes
+amarrotados, ergueu melancholicamente um velho <em>Diario de
+Noticias</em>, e com elle debaixo do braço subiu ao
+seu quarto, para dormir, para esquecer. <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h2>VIII</h2>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Ao fim d'esse inverno escuro e pessimista, uma manh&atilde; que eu
+preguiçava na cama, sentindo atrav&eacute;s da
+vidraça cheia de sol
+ainda pallido um bafo de Primavera ainda timido&#8213;Jacintho assomou
+&aacute; porta do meu
+quarto, revestido de flanellas leves, d'uma alvura de
+açucena. Parou
+lentamente &aacute; beira dos colx&otilde;es, e, com gravidade,
+como se
+annunciasse o seu casamento ou a sua morte, deixou desabar sobre mim
+esta
+declaraç&atilde;o formidavel: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Z&eacute; Fernandes, vou partir para Tormes. <br />
+
+<br />
+
+O pulo com que me sentei abalou o rijo leito de pau preto do velho D.
+Gali&atilde;o: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Para Tormes? Oh Jacintho, quem assassinaste?... <br />
+
+<br />
+
+Deleitado com a minha emoç&atilde;o, o Principe da Gran
+Ventura tirou da algibeira uma carta, e encetou estas linhas,
+j&aacute; decerto
+relidas, fundamente estudadas: <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[166]</span>
+&#8213;&laquo;Ill.<sup>mo</sup> e exc.<sup>mo</sup>
+snr.&#8213;Tenho grande
+satisfaç&atilde;o em communicar a v. exc.<sup>a</sup> que
+por toda
+esta semana devem ficar promptas as obras da capella...&raquo; <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; do Silverio? exclamei. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; do Silverio. &laquo;...as obras da capella nova. Os
+venerandos restos dos excelsos avós de v. exc.<sup>a</sup>,
+senhores
+de todo o meu respeito,
+podem pois ser em breve trasladados da egreja de S. Jos&eacute;,
+onde
+t&ecirc;m estado depositados por bondade do nosso Abbade, que muito
+se
+recommenda a v. exc.<sup>a</sup>... Submisso, aguardo as prestantes
+ordens de
+v. exc.<sup>a</sup> a
+respeito d'esta magestosa e afflictiva ceremonia...&raquo; <br />
+
+<br />
+
+Atirei os braços, comprehendendo: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah! bem! Queres ir assistir &aacute;
+trasladaç&atilde;o... <br />
+
+<br />
+
+Jacintho sumiu a carta no bolso. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois n&atilde;o te parece, Z&eacute; Fernandes?
+N&atilde;o &eacute; por causa dos outros avós, que
+s&atilde;o
+ossos vagos, e que eu n&atilde;o conheci.
+&Eacute; por causa do av&ocirc; Gali&atilde;o... Tambem
+n&atilde;o o
+conheci. Mas este 202 est&aacute; cheio
+d'elle; tu est&aacute;s deitado na cama d'elle; eu ainda uso o
+relogio
+d'elle. N&atilde;o posso
+abandonar ao Silverio e aos caseiros o cuidado de o installarem no seu
+jazigo novo. Ha aqui um escrupulo de decencia, de elegancia moral...
+Emfim, decidi. Apertei os <span class="pagenum">[167]</span>punhos
+na cabeça, e gritei&#8213;<em>vou
+a Tormes</em>! E vou!... E tu vens! <br />
+
+<br />
+
+Eu enfiara as chinellas, apertava os cord&otilde;es do
+roup&atilde;o: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas tu sabes, meu bom Jacintho, que a casa de Tormes est&aacute;
+inhabitavel... <br />
+
+<br />
+
+Elle cravou em mim os olhos aterrados. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Medonha, hein? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Medonha, medonha, n&atilde;o... &Eacute; uma bella casa, de
+bella pedra. Mas os caseiros, que l&aacute; vivem ha trinta annos,
+dormem em catres,
+comem o caldo &aacute; lareira, e usam as salas para seccar o
+milho. Creio que os
+unicos moveis de Tormes, se bem recordo, s&atilde;o um armario, e
+uma
+espinetta de char&atilde;o, c&ocirc;xa, j&aacute; sem
+teclas. <br />
+
+<br />
+
+O meu pobre Principe suspirou, com um gesto rendido em que se
+abandonava ao Destino: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Acabou!... <em>Alea jact est!</em> E como
+só partimos para abril, ha tempo de pintar, d'assoalhar,
+d'envidraçar... Mando d'aqui de Paris
+tapetes e camas... Um estofador de Lisboa vae depois forrar e
+disfarçar algum buraco... Levamos livros, uma machina para
+fabricar gelo... E
+&eacute; mesmo uma occasi&atilde;o de p&ocirc;r emfim n'uma
+das minhas casas
+de Portugal alguma decencia e ordem. Pois n&atilde;o achas? <span class="pagenum">[168]</span>E ent&atilde;o essa!
+Uma casa que data de 1410... Ainda existia o Imperio Byzantino! <br />
+
+<br />
+
+Eu espalhava, com o pincel, sobre a face, flocos lentos de
+sab&atilde;o. O meu Principe accendeu muito pensativamente um
+cigarro; e n&atilde;o se
+arredou do toucador, considerando o meu preparo com uma
+attenç&atilde;o triste que me incommodava. Por fim, como
+se remoesse uma sentença minha,
+para lhe reter bem a moral e o succo: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o, definitivamente, Z&eacute; Fernandes, entendes
+que &eacute; um dever, um absoluto dever, ir eu a Tormes? <br />
+
+<br />
+
+Afastei do espelho a cara ensaboada para encarar com divertido espanto
+o meu Principe: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Oh Jacintho! foi em ti, só em ti que nasceu a ideia d'esse
+dever! E honra te seja, menino... N&atilde;o cedas a ninguem essa
+honra! <br />
+
+<br />
+
+Elle atirou o cigarro&#8213;e, com as m&atilde;os enterradas nas
+algibeiras das pantalonas, vagou pelo quarto, topando nas cadeiras,
+embicando contra
+os postes torneados do velho leito de D. Gali&atilde;o, n'um
+balanço vago, como barco j&aacute; desamarrado do seu
+seguro ancoradouro, e sem rumo
+no mar incerto. Depois encalhou sobre a mesa onde eu conservava
+enfileirada, por gradaç&otilde;es de sentimentos, desde
+o
+dagarreotypo <span class="pagenum">[169]</span>do
+pap&aacute; at&eacute; &aacute; photographia do <em>Carocho</em>
+perdigueiro, a galeria da minha Familia. <br />
+
+<br />
+
+E nunca o meu Principe (que eu contemplava esticando os suspensorios)
+me pareceu t&atilde;o corcovado, t&atilde;o minguado, como
+gasto
+por uma lima que desde muito o andasse fundamente limando. Assim viera
+findar, desfeita em Civilisaç&atilde;o, n'aquelle
+super-requintado
+magricellas sem musculo e sem energia, a raça fortissima dos
+Jacinthos! Esses guedelhudos
+Jacinth&otilde;es, que nas suas altas terras de Tormes, de volta de
+bater o moiro no
+Salado ou o castelhano em Valverde, nem mesmo despiam as fuscas
+armaduras para
+lavrar as suas chans e amarrar a vide ao olmo, edificando o Reino com a
+lança e com a enxada, ambas t&atilde;o rudes e rijas! E
+agora, alli estava aquelle ultimo Jacintho, um Jacinthiculo, com a
+macia pelle embebida em
+aromas, a curta alma enrodilhada em Philosophias, travado e suspirando
+baixinho na miuda indecis&atilde;o de viver. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Oh Z&eacute; Fernandes, quem &eacute; esta lavradeirona
+t&atilde;o rechonchuda? <br />
+
+<br />
+
+Estendi o pescoço para a Photographia que elle erguera
+d'entre a minha galeria, no seu honroso caixilho de pellucia escarlate:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mais respeito, Snr. D. Jacintho... Um pouco mais de respeito,
+cavalheiro!... &Eacute; minha <span class="pagenum">[170]</span>prima
+Joanninha, de Sandofim, da Casa
+da Fl&ocirc;r da Malva. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Fl&ocirc;r da Malva, murmurou o meu Principe. &Eacute; a casa
+do Condestavel, de Nun'alvares. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Fl&ocirc;r da Rosa, homem! A casa do Condestavel era na
+Fl&ocirc;r da Rosa, no Alemtejo... Essa tua ignorancia trapalhona
+das coisas de Portugal! <br />
+
+<br />
+
+O meu Principe deixou escorregar mollemente a photographia da minha
+prima d'entre os dedos molles&#8213;que levou &aacute; face, no seu
+gesto horrendo de palpar atravez da face a caveira. Depois, de repente,
+com um soberbo
+esforço, em que se endireitou e cresceu: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Bem! <em>Alea jacta est!</em> Partamos
+pois para as serras!... E agora nem reflex&atilde;o, nem
+descanço!... &Aacute; obra! E a
+caminho! <br />
+
+<br />
+
+Atirou a m&atilde;o ao fecho dourado da porta como se fosse o negro
+loquete que abre os Destinos&#8213;e no corredor gritou pelo Grillo, com uma
+larga e açodada voz que eu nunca lhe conhecera, e me lembrou
+a
+d'um
+Chefe ordenando, n'alvorada, que se levante o Acampamento, e que a
+Hoste marche, com pend&otilde;es e bagagens... <br />
+
+<br />
+
+Logo n'essa manh&atilde; (com uma actividade em que eu reconheci a
+pressa enjoada de quem bebe oleo-de-ricino), escreveu ao Silverio
+mandando caiar, assoalhar, envidraçar o <span class="pagenum">[171]</span>casar&atilde;o.
+E depois
+do almoço appareceu na Bibliotheca, chamado violentamente
+pelo
+telephone, para combinar a remessa de mobilias e confortos, o director
+da
+<em>Companhia Universal de
+Transportes</em>. <br />
+
+<br />
+
+Era um homem que parecia o cartaz da sua Companhia, apertado n'um
+jaquet&atilde;o de xadrezinho escuro, com polainas de jornada sobre
+botas brancas, uma sacola de marroquim a tiracolo, e na botoeira uma
+roseta multicor resumindo as suas condecoraç&otilde;es
+exoticas
+de Madagascar, de Nicaragua, da Persia, outras ainda, que provavam a
+universalidade dos seus serviços. Apenas Jacintho mencionou
+&laquo;Tormes,
+no Douro...&raquo;&#8213;elle logo, atravez d'um sorriso superior,
+estendeu
+o braço,
+detendo outros esclarecimentos, na sua intimidade minuciosa com essas
+regi&otilde;es. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tormes... Perfeitamente! Perfeitamente! <br />
+
+<br />
+
+Sobre o joelho, na carteira, escrevinhou uma fugidia nota&#8213;emquanto eu
+considerava, assombrado, a vastid&atilde;o do seu saber
+Chorographico, assim familiar com os recantos d'uma serra de Portugal e
+com todos os seus velhos solares. J&aacute; elle atir&aacute;ra
+a
+carteira para o
+bolso... E &laquo;nós, seus caros senhores,
+n&atilde;o tinhamos
+sen&atilde;o a encaixotar
+as roupas, as mobilias, as preciosidades! Elle mandaria as suas
+carroças buscar os
+caixotes, a que <span class="pagenum">[172]</span>poria,
+em grossa letra, com grossa tinta, o
+endereço...&raquo; <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tormes, perfeitamente! Linha Norte-Hespanha-Medina-Salamanca...
+Perfeitamente! Tormes... Muito pittoresco! E antigo, historico!
+Perfeitamente, perfeitamente! <br />
+
+<br />
+
+Desengonçou a cabeça n'uma venia profundissima&#8213;e
+sahiu da Bibliotheca, com passos que devoravam leguas, annunciavam a
+presteza dos seus Transportes. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;V&ecirc; tu, murmurou Jacintho muito serio. Que
+promptid&atilde;o, que facilidade!... Em Portugal era uma tragedia.
+N&atilde;o ha
+sen&atilde;o Paris! <br />
+
+<br />
+
+Começou ent&atilde;o no 202 o collossal encaixotamento
+de todos os confortos necessarios ao meu Principe para um mez de serra
+aspera&#8213;camas de
+penna, banheiras de nickel, lampadas Carcel, divans profundos, cortinas
+para vedar as gretas rudes, tapetes para amaciar os soalhos broncos. Os
+sot&atilde;os, onde se arrecadavam os pesados trastes do
+av&ocirc; Gali&atilde;o, foram esvasiados&#8213;porque o
+casar&atilde;o
+medieval de 1410 comportava os
+tremós romanticos de 1830. De todos os armazens de Paris
+chegavam cada
+manh&atilde; fardos, caixas, temerosos embrulhos que os emmaladores
+desfaziam, atulhando os corredores de montes de palha e de papel pardo,
+onde os nossos passos açodados se enrodilhavam. O
+cozinheiro,
+esbaforido, <span class="pagenum">[173]</span>
+organisava a remessa de fornalhas, geleiras, bocaes de trufas, latas de
+conservas, bojudas garrafas de aguas mineraes. Jacintho, lembrando as
+trovoadas da serra, comprou um immenso p&aacute;ra-raios. Desde o
+amanhecer, nos pateos, no jardim, se martellava, se pregava, com vasto
+fragor,
+como na construcç&atilde;o d'uma cidade. E o desfilar
+das
+bagagens, atrav&eacute;s do port&atilde;o, lembrava uma pagina
+de
+Herodoto contando a marcha
+dos Persas. <br />
+
+<br />
+
+Das janellas, Jacintho com o braço estendido, saboreava
+aquella actividade e aquella disciplina: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;V&ecirc; tu, Z&eacute; Fernandes, que facilidade!... Sahimos
+do 202, chegamos &aacute; serra, encontramos o 202. N&atilde;o
+ha sen&atilde;o Paris! <br />
+
+<br />
+
+Recomeç&aacute;ra a amar a Cidade, o meu Principe,
+emquanto preparava o seu Exodo. Depois de ter, toda a manh&atilde;,
+apressado os
+encaixotadores, descortinado confortos novos para o abandonado solar,
+telephonado
+gordas listas de encommendas a cada loja de Paris&#8213;era com delicia que
+se vestia, se perfumava, se floria, se enterrava na vittoria ou saltava
+para a almofada do phaeton, e corria ao Bosque, e saudava a barba
+talmudica do Ephraim, e os bandós furiosamente negros da
+Verghane, e o Psychologo de fiacre, e a <span class="pagenum">[174]</span>condessa
+de Tr&egrave;ves na sua nova
+caleche de oito-molas fornecida pelas operaç&otilde;es
+conjunctas
+da Bolsa e da alc&ocirc;va. Depois arrebanhava amigos para jantares
+de
+surpreza no Voisin ou no Bignon, onde desdobrava o guardanapo com a
+impaciencia d'uma fome alegre, vigiando fervorosamente que os Bordeus
+estivessem bem aquecidos
+e os Champagnes bem granitados. E no theatro das
+<em>Nouveaut&eacute;s</em>, no <em>Palais Royal</em>,
+nos
+<em>Buffos</em>, ria, batendo na
+c&ocirc;xa, com encanecidas facecias d'encanecidas
+farças, antiquissimos tregeitos
+d'antiquissimos actores, com que j&aacute; rira na sua infancia,
+antes da guerra,
+sob o segundo Napole&atilde;o! <br />
+
+<br />
+
+De novo, em duas semanas, se abarrotaram as paginas da sua Agenda. A
+magnificencia do seu trage, como imperador Frederico II de Suabia,
+deslumbrou, no baile mascarado da Princesa de Cravon-Rogan (onde tambem
+fui, de &laquo;moço de forcado&raquo;.) E na
+<em>Associaç&atilde;o para o
+Desenvolvimento das
+Religi&otilde;es Esotericas</em> discursou e batalhou
+bravamente pela construcç&atilde;o d'um Templo Budhista
+em Montmartre! <br />
+
+<br />
+
+Com espanto meu recomeçou tambem a conversar, como nos
+tempos de Escóla, da &laquo;famosa
+Civilisaç&atilde;o nas
+suas maximas
+proporç&otilde;es.&raquo; Mandou encaixotar o seu
+velho
+telescopio para o usar em Tormes. Receei mesmo que no seu espirito
+germinasse a id&eacute;a de <span class="pagenum">[175]</span>crear,
+no cimo da serra, uma
+Cidade com todos os seus org&atilde;os. Pelo menos n&atilde;o
+consentia
+o
+meu Jacintho que essas semanas da silvestre Tormes interrompessem a
+illimitada
+accumulaç&atilde;o das
+noç&otilde;es&#8213;porque uma
+manh&atilde; rompeu pelo
+meu quarto, desolado, gritando que entre tantos confortos e
+fórmas de
+Civilisaç&atilde;o esqueceramos os livros! Assim era&#8213;e
+que
+vexame para a nossa Intellectualidade! Mas que livros escolher entre os
+facundos milhares sob que vergava o 202? O meu Principe decidiu logo
+dedicar os seus dias serranos ao estudo da Historia Natural&#8213;e
+nós mesmos, immediatamente, deitamos
+para o fundo d'um vasto caixote novo, como lastro, os vinte e cinco
+tomos de Plinio.
+Despejamos depois para dentro, &aacute;s braçadas,
+Geologia, Mineralogia, Botanica... Espalhamos por cima uma camada aeria
+de Astronomia. E, para
+fixar bem no caixote estas Sciencias oscillantes, entalamos em redor
+cunhas de Metaphysica. <br />
+
+<br />
+
+Mas quando a derradeira caixa, pregada e cintada de ferro, sahiu do
+port&atilde;o do 202 na derradeira carroça da
+<em>Companhia dos Transportes</em>, toda esta
+animaç&atilde;o de Jacintho se abateu como a
+efervescencia n'um copo de Champagne. Era em meados j&aacute;
+tepidos de Março. E
+de novo os seus desagradaveis bocejos atroaram <span class="pagenum">[176]</span>o
+202, e todos os soph&aacute;s
+rangeram sob o peso do corpo que elle lhe atirava para cima,
+mortalmente vencido pela fartura e pelo tedio, n'um desejo de repouso
+eterno, bem envolto de solid&atilde;o e silencio. Desesperei. O
+que!
+Aturaria eu ainda
+aquelle Principe palpando amargamente a caveira, e, quando o crepusculo
+entristecia a Bibliotheca, alludindo, n'um tom rouco, &aacute;
+doçura das mortes rapidas pela violencia misericordiosa do
+acido
+cyanhidrico? Ah n&atilde;o, caramba! E uma tarde em que o encontrei
+estirado sobre
+um divan, de braços em cruz, como se fosse a sua estatua de
+marmore sobre
+o seu jazigo de granito, positivamente o abanei com furor, berrando: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Accorda, homem! Vamos para Tormes! O casar&atilde;o deve estar
+prompto, a reluzir, a abarrotar de cousas! Os ossos de teus
+avós pedem
+repouso, em cova sua!... A caminho, a enterrar esses mortos, e a
+vivermos
+nós, os vivos!... Irra! S&atilde;o cinco de Abril!...
+&Eacute; o bom
+tempo da serra! <br />
+
+<br />
+
+O meu Principe resurgiu lentamente da inercia de pedra: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;O Silverio n&atilde;o me escreveu, nunca me escreveu... Mas, com
+effeito, deve estar tudo preparado... J&aacute; l&aacute; temos
+certamente creados, o cosinheiro de Lisboa... Eu só levo o
+Grillo, e o Anatole que
+envernisa bem o calçado, e <span class="pagenum">[177]</span>tem
+geito como pedicuro... Hoje
+&eacute; Domingo. <br />
+
+<br />
+
+Atirou os p&eacute;s para o tapete, com heroismo: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Bem, partimos no Sabbado!... Avisa tu o Silverio! <br />
+
+<br />
+
+Começou ent&atilde;o o laborioso e pensativo estudo dos
+Horarios&#8213;e o dedo magro de Jacintho, por sobre o mappa,
+avançando e recuando
+entre Paris e Tormes. Para escolher o
+&laquo;sal&atilde;o&raquo; que
+deviamos habitar durante a temida jornada, duas vezes percorremos o
+deposito da
+Estaç&atilde;o d'Orleans, atolados em lama, atraz do
+Chefe do
+Trafico que entontecia. O meu Principe recusava este sal&atilde;o
+por
+causa da c&ocirc;r
+tristonha dos estofos; depois recusava aquelle por causa da mesquinhez
+afflictiva do Water-Closet! Uma das suas
+inquietaç&otilde;es era
+o
+banho, nas manh&atilde;s que passariamos rolando. Suggeri uma
+banheira
+de borracha. Jacintho, indeciso, suspirava... Mas nada o aterrou como o
+trasbordo em Medina
+del Campo, de noite, nas trevas da Velha Castella. Debalde a Companhia
+do Norte de Hespanha e a de Salamanca, por cartas, por telegrammas,
+socegaram o meu camarada, affirmando que, quando elle chegasse no
+comboio de Irun dentro do seu sal&atilde;o, j&aacute; outro
+sal&atilde;o ligado ao comboio de Portugal esperaria, bem aquecido,
+bem
+allumiado, com uma ceia que lhe offertava um dos Directores, D. Esteban
+Castillo, ruidoso <span class="pagenum">[178]</span>e
+rubicundo conviva do 202! Jacintho corr&iacute;a os dedos anciosos
+pela
+face:&#8213;&laquo;E os saccos, as pelles, os livros, quem os
+transportaria
+do sal&atilde;o
+de Irun para o sal&atilde;o de Salamanca?&raquo; Eu berrava,
+desesperado, que os carregadores de Medina eram os mais rapidos, os
+mais destros de toda a Europa! Elle murmurava:&#8213;&laquo;Pois sim,
+mas em
+Hespanha, de
+noite!...&raquo; A noite, longe da Cidade, sem telephone, sem luz
+electrica, sem postos de policia,
+parecia ao meu Principe povoada de surprezas e assaltos. Só
+acalmou
+depois de verificar no Observatorio Astronomico, sob a garantia do
+sabio
+professor Bertrand, que a noite da nossa jornada era de lua cheia! <br />
+
+<br />
+
+Emfim, na sexta-feira, findou a tremenda
+organisaç&atilde;o d'aquella viagem historica! O sabbado
+predestinado amanheceu com generoso sol, de affagadora
+doçura. E
+eu acabava de guardar na mala,
+embrulhadas em papel pardo, as photographias das creaturinhas suaves
+que, n'esses vinte e sete mezes de Paris, me tinham chamado &laquo;<em>mon
+petit chou! mon rat
+cheri!</em>&raquo;&#8213;quando Jacintho rompeu pelo
+quarto, com um soberbo ramo de orchideas na sobrecasaca, pallido e todo
+nervoso. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vamos ao Bosque, por despedida? <br />
+
+<br />
+
+Fomos&#8213;&aacute; grande despedida! E que encanto! At&eacute; nas
+almofadas e molas da vittoria <span class="pagenum">[179]</span>senti
+logo uma elasticidade mais emballadora. Depois, pela Avenida do Bosque,
+quasi me pezava n&atilde;o ficar sempiternamente
+rolando, ao trote rimado das eguas perfeitas, no rebrilho rico de
+metaes e
+vernizes, sobre aquelle macadam mais alisado que marmore, entre
+t&atilde;o
+bem regadas fl&ocirc;res e relvas de t&atilde;o tentadora
+frescura,
+cruzando uma Humanidade fina, de elegancia bem acabada, que
+almoç&aacute;ra o seu
+chocolate em porcellanas de Sevres ou de Minton, sahira d'entre
+s&egrave;das e tapetes de tres
+mil francos, e respirava a belleza de Abril com vagar, requinte e
+pensamentos ligeiros! O Bosque resplandecia n'uma harmonia de verde,
+azul e ouro. Nenhuma cova ou terra solta desalisava as polidas alleas
+que a Arte traçou e enroscou na espessura&#8213;nenhum esgalho
+desgrenhado
+desmanchava as ondulaç&otilde;es macias da folhagem que
+o Estado
+escóva e lava. O piar das aves apenas se elevava para
+espalhar
+uma graça leve de vida
+alada;&#8213;e mais natural parecia, entre o arvoredo sociavel, o ranger das
+sellas novas, onde pousavam, com balanço esbelto, as
+amazonas
+espartilhadas pelo grande Redfern. Em frente ao Pavilh&atilde;o de
+Armenonville
+cruzamos Madame de Tr&egrave;ves, que nos envolveu ambos na caricia
+do
+seu
+sorriso, mais avivado &aacute;quella hora pelo vermelh&atilde;o
+ainda
+humido.
+Logo atraz <span class="pagenum">[180]</span>a
+barba talmudica de
+Ephraim negrejou, fresca tambem da brilhantine da
+manh&atilde;, no alto d'um phaeton tilintante. Outros amigos de
+Jacintho circulavam nas Acacias&#8213;e as m&atilde;os que lhe acenavam,
+lentas e affaveis,
+calçavam luvas frescas c&ocirc;r de palha, c&ocirc;r
+de perola,
+c&ocirc;r
+de lilaz. Todelle relampejou rente de nós sobre uma grande
+bycicleta. Dornan, alastrado
+n'uma cadeira de ferro, sob um espinheiro em fl&ocirc;r, mamava o
+seu
+immenso
+charuto, como perdido na busca de rimas sensuaes e nedias. Adeante foi
+o Psychologo, que nos n&atilde;o avistou, conversando com um
+requebro
+melancolico
+para dentro d'um coup&eacute; que rescendia a alcova, e a que um
+cocheiro obeso
+imprimia dignidade e decencia. E rolavamos ainda, quando o Duque de
+Marizac, a cavallo, ergueu a bengala, estacou a nossa vittoria para
+perguntar a Jacintho se apparecia &aacute; noite nos
+&laquo;quadros
+vivos&raquo; dos Verghanes. O meu Principe rosnou
+um&#8213;&laquo;n&atilde;o, parto para o
+sul...&raquo;&#8213;que mal lhe passou d'entre os bigodes murchos... E
+Marizac lamentou&#8213;porque era uma festa estupenda. Quadros vivos da
+Historia Sagrada e da Historia Romana!... Madame Verghane, de
+Magdalena, de braços n&uacute;s,
+peitos n&uacute;s, pernas n&uacute;as, limpando com os cabellos
+os
+p&eacute;s do Christo!&#8213;O Christo, um
+latag&atilde;o soberbo, parente dos Tr&egrave;ves, empregado no
+<span class="pagenum">[181]</span>Ministerio
+da
+Guerra, gemendo, derreado, sob uma cruz de papel&atilde;o! Havia
+tambem
+Lucrecia na
+cama, e Tarquinio ao lado, de punhal, a puxar os lençoes! E
+depois
+ceia, em mezas soltas, todos nos seus trajes historicos. Elle
+j&aacute;
+estava aparceirado com Madame de Malbe, que era Agrippina! Quadro
+portentoso esse&#8213;Agrippina morta, quando Nero a vem contemplar e lhe
+estuda as fórmas, admirando umas, desdenhando outras como
+imperfeitas.
+Mas, por polidez, fic&aacute;ra combinado que Nero admiraria sem
+reserva
+todas as fórmas de Madame de Malbe... Emfim collossal, e
+estupendamente instructivo! <br />
+
+<br />
+
+Acenamos um longo adeus &aacute;quelle alegre Marizac. E recolhemos
+sem que Jacintho emergisse do silencio enrugado em que se
+abysm&aacute;ra,
+com os braços rigidamente cruzados, como remoendo
+pensamentos
+decisivos e fortes. Depois, em frente ao Arco de Triumpho, moveu a
+cabeça, murmurou: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; muito grave, deixar a Europa! <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="break">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Emfim, partimos! Sob a doçura do crepusculo que se
+enubl&aacute;ra deixamos o 202. O Grillo e o Anatole seguiam n'um
+fiacre atulhado de livros, de estojos, de paletots, de impermeaveis, de
+travesseiras, de agoas mineraes, <span class="pagenum">[182]</span>de
+saccos de couro, de rolos de mantas: e mais atraz um omnibus rangia sob
+a carga de vinte e tres malas. Na
+Estaç&atilde;o, Jacintho ainda comprou todos os Jornaes,
+todas as
+Illustraç&otilde;es, Horarios, mais livros, e um
+saca-rolhas de fórma complicada e hostil.
+Guiados pelo Chefe do Trafico, pelo Secretario da Companhia, occupamos
+copiosamente
+o nosso sal&atilde;o. Eu puz o meu bonet de s&ecirc;da, calcei
+as
+minhas chinellas. Um silvo varou a noite. Paris lampejou, fugiu n'um
+derradeiro
+clar&atilde;o de janellas... Para o sorver, Jacintho ainda se
+arremessou &aacute;
+portinhola. Mas rolavamos j&aacute; na treva da Provincia. O meu
+Principe
+ent&atilde;o recahiu nas almofadas: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que aventura, Z&eacute; Fernandes! <br />
+
+<br />
+
+At&eacute; Chartres, em silencio, folheamos as
+Illustraç&otilde;es. Em Orleans, o guarda veio arranjar
+respeitosamente as nossas camas. Derreado com aquelles quatorze mezes
+de Civilisaç&atilde;o
+adormeci&#8213;e só acordei em Bordeus quando Grillo, zeloso, nos
+trouxe o nosso chocolate. Fóra,
+uma chuva miudinha pingava mollemente d'um espesso ceu de
+algod&atilde;o
+sujo. Jacintho n&atilde;o se deit&aacute;ra, desconfiado da
+aspereza e
+da
+humidade dos lençoes. E, mettido n'um roup&atilde;o de
+flanella
+branco, com a face arripiada
+e estremunhada, ensopando um bolo no chocolate, rosnava sombriamente: <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[183]</span>
+&#8213;Este horror!... E agora com chuva! <br />
+
+<br />
+
+Em Biarritz, ambos observamos com uma certeza indolente: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; Biarritz. <br />
+
+<br />
+
+Depois Jacintho, que espreitava pela janella embaciada, reconheceu o
+lento caminhar pernalto, o nariz bicudo e triste, do Historiador
+Danjon. Era elle, o facundo homem, vestido de xadrezinho, ao lado d'uma
+dama roliça que levava pela trella uma cadellinha felpuda.
+Jacintho baixou a vidraça violentamente, berrou pelo
+Historiador, na ancia de
+communicar ainda, atrav&eacute;s d'elle, com a Cidade, com o
+202!...
+Mas o
+comboio mergulh&aacute;ra na chuva e nevoa. <br />
+
+<br />
+
+Sobre a ponte do Bidassoa, antevendo o termo da vida facil, os abrolhos
+da Incivilisaç&atilde;o, Jacintho suspirou com
+desalento: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Agora adeus, começa a Hespanha!... <br />
+
+<br />
+
+Indignado, eu, que j&aacute; saboreava o generoso ar da terra
+bemdita, saltei para diante do meu Principe, e n'um saracoteio de
+tremendo salero, castanholando os dedos, entoei uma
+&laquo;petenera&raquo;
+condigna: <br />
+
+<br />
+
+<div class="break">A la puerta de mi casa<br />
+
+Ay Soledad, Soleda... &aacute;... &aacute;... &aacute;.</div>
+
+<br />
+
+Elle estendeu os braços, supplicante: <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[184]</span>
+&#8213;Z&eacute; Fernandes, tem piedade do enfermo e do triste! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;<em>Irun</em>!
+<em>Irun</em>!... <br />
+
+<br />
+
+N'essa Irun almoçamos com succulencia&#8213;por que sobre
+nós velava, como Deusa omnipresente, a Companhia do Norte.
+Depois &laquo;el jefe
+d'Aduana, el jefe d'Estacion&raquo;, preciosamente nos installaram
+n'outro
+sal&atilde;o, novo, com setins c&ocirc;r d'azeitona, mas
+t&atilde;o pequeno que uma
+rica porç&atilde;o dos nossos confortos em mantas,
+livros, saccos e impermeaveis, passou para o compartimento do <em>Sleeping</em>
+onde se
+repoltreavam o Grillo e o Anatole, ambos de bonets escocezes, e fumando
+gordos
+charutos.&#8213;<em>Buen viaje</em>! <em>Gracias</em>!
+<em>Servidores</em>!&#8213;E entramos silvando
+nos Pyreneos. <br />
+
+<br />
+
+Sob a influencia da chuva embaciadora, d'aquellas serras sempre eguaes,
+que se desenrolavam, arripiadas, diluidas na nevoa, resvalei a uma
+somnolencia d&ocirc;ce;&#8213;e, quando descerrava as palpebras,
+encontrava Jacintho a um canto, esquecido do livro fechado nos joelhos,
+sobre que cruz&aacute;ra os magros dedos, considerando valles e
+montes
+com a
+melancolia de quem penetra nas terras do seu desterro! Um momento veio
+em que, arremessando o livro, enterrando mais o chap&eacute;o
+molle, se
+ergueu com tanta decis&atilde;o, que receei detivesse o comboio
+para
+saltar
+&aacute; estrada, <span class="pagenum">[185]</span>
+correr atravez das Vascongadas e da Navarra, para traz, para o 202!
+Sacudi o meu torp&ocirc;r, exclamei:&#8213;&laquo;oh
+menino!...&raquo; N&atilde;o! O pobre amigo ia apenas continuar
+o seu
+tedio para outro canto, enterrado n'outra almofada, com outro livro
+fechado. E &aacute; maneira que a
+escurid&atilde;o da tarde crescia, e com ella a borrasca de vento e
+agoa, uma
+inquietaç&atilde;o mais aterrada se apoderava do meu
+Principe,
+assim desgarrado da
+Civilisaç&atilde;o, arrastado para a Natureza que
+j&aacute; o
+cercava de brutalidade
+agreste. N&atilde;o cessou ent&atilde;o de me interrogar sobre
+Tormes: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;As noites s&atilde;o horriveis, hein, Z&eacute; Fernandes?
+Tudo negro, enorme solid&atilde;o... E medico?... Ha medico? <br />
+
+<br />
+
+Subitamente o comboio estacou. Mais grossa e ruidosa a chuva fustigou
+as vidraças. Era um descampado, todo em treva, onde rolava e
+lufava um grande vento solto. A machina apitava, com angustia. Uma
+lanterna lampejou, correndo. Jacintho batia o
+p&eacute;:&#8213;&laquo;&Eacute; medonho! &eacute;
+medonho!&raquo;... Entreabri a portinhola. Da claridade incerta das
+vidraças
+surdiam cabeças esticadas,
+assustadas.&#8213;&laquo;<em>Que hay</em>?
+<em>Que hay</em>?&raquo;&#8213;A uma rajada, que me alagou,
+recuei:&#8213;e
+esperamos durante lentos, calados minutos, esfregando desesperadamente
+os vidros embaciados para sondar a escurid&atilde;o. <span class="pagenum">[186]</span>De repente o comboio
+recomeçou a
+rolar, muito sereno. <br />
+
+<br />
+
+Em breve appareceram as luzinhas mortas d'uma
+estaç&atilde;o abarracada. Um conductor, com o
+casac&atilde;o de oleado todo a escorrer, trepou
+ao sal&atilde;o:&#8213;e por elle soubemos, emquanto carimbava
+apressadamente os bilhetes, que o
+trem, muito atrazado, talvez n&atilde;o alcançasse em
+Medina o comboio de Salamanca! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas ent&atilde;o?... <br />
+
+<br />
+
+O casaco de oleado escorreg&aacute;ra pela portinhola, fundido na
+noite, deixando um cheiro de humidade e azeite. E nós
+encetamos
+um
+novo tormento... Se o trem de Salamanca tivesse abalado? O
+sal&atilde;o,
+tomado at&eacute; Medina, desengatava em Medina:&#8213;e eis os nossos
+preciosos corpos, com
+as nossas preciosas almas, despejados em Medina, para cima da lama,
+entre vinte e trez malas, n'uma rude confus&atilde;o hespanhola,
+sob a
+tormenta de ventania e d'agua! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Oh, Z&eacute; Fernandes, uma noite em Medina! <br />
+
+<br />
+
+Ao meu Principe apparecia como desventura suprema essa noite em Medina,
+n'uma <em>fonda</em>
+sordida, fedendo a
+alho, com gordas filas de percevejos atravez dos lençoes
+d'estopa encardida!... N&atilde;o
+cessei ent&atilde;o de fitar, n'um desassocego, os ponteiros do
+relogio:&#8213;emquanto Jacintho, pela vidraça escancarada, todo
+fustigado <span class="pagenum">[187]</span>da
+chuva clamorosa,
+furava a negrura, na esperança de avistar as luzes de Medina
+e
+um
+comboio paciente fumegando... Depois recahia no divan, limpava os
+bigodes e os olhos, maldizia a Hespanha. O trem arquejava, rompendo o
+vasto vento da
+planura desolada. E a cada apito era um alvoroço. Medina?...
+N&atilde;o! Algum sumido apeadeiro, onde o trem se atardava,
+esfalfado,
+resfolgando, emquanto dormentes figuras encarapuçadas,
+embrulhadas em
+mantas, rondavam sob o telheiro do barrac&atilde;o, que as
+lanternas
+baças tornavam mais soturno. Jacintho esmurrava o
+joelho:&#8213;&laquo;Mas por que
+p&aacute;ra este infame comboio? N&atilde;o ha trafico,
+n&atilde;o ha
+gente! Oh
+esta Hespanha!...&raquo; A sineta badalava, moribunda. De novo
+fendiamos a noite e a borrasca. <br />
+
+<br />
+
+Resignadamente comecei a percorrer um <em>Jornal do
+Commercio</em>,
+antigo, trazido de Paris. Jacintho esmagava o espesso tapete do
+sal&atilde;o com passadas rancorosas, rosnando como uma fera. E
+ainda
+assim se escoou,
+&aacute;s gottas, uma hora cheia de eternidade.&#8213;Um silvo, outro
+silvo!... Luzes mais fortes, longe, palpitaram na neblina. As rodas
+trilharam, com
+rijos solavancos, os encontros de carris. Emfim, Medina!... Um muro
+sujo de barrac&atilde;o alvejou&#8213;e bruscamente, &aacute;
+portinhola
+aberta com violencia, apparece um cavalheiro barbudo, <span class="pagenum">[188]</span>de capa &aacute;
+hespanhola,
+gritando pelo snr. D. Jacintho!... Depressa! depressa! que parte o
+comboio de Salamanca! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&laquo;Que no hay un momento, caballeros! Que no hay un
+momento!&raquo; <br />
+
+<br />
+
+Agarro estonteadamente o meu paletot, o <em>Jornal do
+Commercio</em>.
+Saltamos com ancia:&#8213;e, pela plataforma, por sobre os trilhos,
+atrav&eacute;s de charcos, tropeçando em fardos,
+empurrados pelo
+vento, pelo
+homem da capa &aacute; hespanhola, enfiamos outra portinhola, que
+se
+fechou com
+um estalo tremendo... Ambos arquejavamos. Era um sal&atilde;o
+forrado
+de um
+panno verde que comia a luz escassa. E eu estendia o braço,
+para
+receber
+dos carregadores açodados as nossas malas, os nossos livros,
+as
+nossas mantas&#8213;quando, em silencio, sem um apito, o trem despegou e
+rolou. Ambos nos atiramos &aacute;s vidraças, em brados
+furiosos: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pare! As nossas malas, as nossas mantas!... P'ra aqui!... Oh Grillo!
+Oh Grillo! <br />
+
+<br />
+
+Uma immensa rajada levou os nossos brados. Era de novo o descampado
+tenebroso, sob a chuva despenhada. Jacintho ergueu os punhos, n'um
+furor que o engasgava: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Oh! Que serviço! Oh que canalhas!... Só em
+Hespanha!... E agora? As malas perdidas!... Nem uma camisa, nem uma
+escova! <br />
+
+<br />
+
+Calmei o meu desgraçado amigo: <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[189]</span>&#8213;Escuta! eu
+entrevi dous
+carregadores arrebanhando as nossas cousas...
+Decerto o Grillo fiscalisou. Mas na pressa, naturalmente, atirou com
+tudo para o seu compartimento... Foi um erro n&atilde;o trazer o
+Grillo comnosco, no sal&atilde;o... At&eacute; podiamos jogar a
+manilha! <br />
+
+<br />
+
+De resto a sollicitude da Companhia, Deusa omnipresente, velava sobre o
+nosso conforto&#8213;pois que &aacute; porta do lavatorio branquejava o
+cesto da nossa ceia, mostrando na tampa um bilhete de D. Esteban com
+estas doces
+palavras a lapis&#8213;<em>&aacute; D. Jacintho y su
+egregio amigo, que les d&egrave; gusto</em>!
+Farejei um aroma de perdiz. E alguma tranquillidade nos penetrou no
+coraç&atilde;o sentindo tambem as nossas malas sob a
+tutella da Deusa omnipresente. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tens fome Jacintho? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o. Tenho horror, furor, rancor!... E tenho somno. <br />
+
+<br />
+
+Com effeito! depois de t&atilde;o desencontradas
+emoç&otilde;es só appeteciamos as camas que
+esperavam, macias e abertas. Quando cahi sobre a travesseira,
+sem gravata, em ceroulas, j&aacute; o meu Principe, que
+n&atilde;o se despira, apenas embrulh&aacute;ra os
+p&eacute;s no
+<em>meu</em> paletot, nosso unico agasalho,
+resonava com magestade. <br />
+
+<br />
+
+Depois, muito tarde e muito longe, percebi junto do meu catre, na
+claridadezinha da manh&atilde;, coada pelas cortinas verdes, uma
+<span class="pagenum">[190]</span>fardeta, um bonet,
+que murmuravam baixinho com immensa doçura: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;V. exc.<sup>a</sup>s n&atilde;o t&ecirc;em nada a declarar?...
+N&atilde;o ha malinhas de m&atilde;o?... <br />
+
+<br />
+
+Era a minha terra! Murmurei baixinho com immensa ternura: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o temos aqui nada... Pergunte v. exc.<sup>a</sup> pelo
+Grillo...
+Ahi atraz, n'um compartimento... Elle tem as chaves, tem tudo...
+&Eacute; o
+Grillo. <br />
+
+<br />
+
+A fardeta desappareceu, sem rumor, como sombra benefica. E eu
+readormeci com o pensamento em Gui&atilde;es, onde a tia Vicencia,
+atarefada,
+de lenço branco cruzado no peito, de certo j&aacute;
+preparava o
+leit&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Acordei envolto n'um largo e doce silencio. Era uma
+Estaç&atilde;o muito socegada, muito varrida, com
+rosinhas
+brancas trepando pelas paredes&#8213;e
+outras rosas em moitas, n'um jardim, onde um tanquesinho abafado de
+limos dormia sob duas mimosas em fl&ocirc;r que rescendiam. Um
+moço pallido, de paletot c&ocirc;r de mel, vergando a
+bengalinha
+contra o
+ch&atilde;o, contemplava pensativamente o comboio. Agachada rente
+&aacute; grade da horta,
+uma velha, diante da sua cesta de ovos, contava moedas de cobre no
+regaço. Sobre o telhado seccavam aboboras. Por cima
+rebrilhava o
+profundo, <span class="pagenum">[191]</span>rico e
+macio azul de que meus olhos andavam agoados. <br />
+
+<br />
+
+Sacudi violentamente Jacintho: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Acorda, homem, que est&aacute;s na tua terra! <br />
+
+<br />
+
+Elle desembrulhou os p&eacute;s do meu paletot, cofiou o bigode, e
+veio sem pressa, &aacute; vidraça que eu abrira,
+conhecer a sua
+terra. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o &eacute; Portugal, hein?... Cheira bem. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Est&aacute; claro que cheira bem, animal! <br />
+
+<br />
+
+A sineta tilintou languidamente. E o comboio deslisou, com
+descanço, como se passeasse para seu regalo sobre as duas
+fitas d'aço,
+assobiando e gozando a belleza da terra e do ceu. <br />
+
+<br />
+
+O meu Principe alargava os braços, desolado: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E nem uma camisa, nem uma escova, nem uma gotta d'agoa de Colonia!...
+Entro em Portugal, immundo! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Na Regoa ha uma demora, temos tempo de chamar o Grillo, rehaver os
+nossos confortos... Olha para o rio! <br />
+
+<br />
+
+Rolavamos na vertente d'uma serra, sobre penhascos que desabavam
+at&eacute; largos socalcos cultivados de vinhedo. Em baixo, n'uma
+esplanada, branquejava uma casa nobre, de opulento repouso, com a
+capellinha muito
+caiada entre um laranjal maduro. Pelo rio, onde a agoa turva e tarda
+nem se quebrava contra <span class="pagenum">[192]</span>as
+rochas,
+descia, com a vela cheia, um barco lento carregado de pipas. Para
+al&eacute;m, outros socalcos, d'um verde
+pallido de rezeda, com oliveiras apoucadas pela amplid&atilde;o dos
+montes,
+subiam at&eacute; outras penedias que se embebiam, todas brancas e
+assoalhadas, na fina abundancia do azul. Jacintho acariciava os pellos
+corredios do bigode: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;O Douro, hein?... &Eacute; interessante, tem grandeza. Mas agora
+&eacute; que eu estou com uma fome, Z&eacute; Fernandes! <br />
+
+<br />
+
+Tambem eu! Destapamos o cesto de D. Esteban d'onde surdiu um bodo
+grandioso, de presunto, anho, perdizes, outras viandas frias que o ouro
+de duas nobres garrafas d'Amontillado, al&eacute;m de duas garrafas
+de Rioja, aqueciam com um calor de sol Andaluz. Durante o presunto,
+Jacintho lamentou contrictamente o seu erro. Ter deixado Tormes, um
+solar historico, assim abandonado e vasio! Que delicia, por aquella
+manh&atilde; t&atilde;o lustrosa e tepida, subir &aacute;
+serra,
+encontrar a sua casa bem
+apetrechada, bem civilisada... Para o animar, lembrei que com as obras
+do Silverio, tantos caixotes de Civilisaç&atilde;o
+remettidos de
+Paris, Tormes estaria confortavel mesmo para Epicuro. Oh! mas Jacintho
+entendia um palacio perfeito, um 202 no deserto!... E, assim
+discorrendo, atacamos as perdizes. Eu desarrolhava <span class="pagenum">[193]</span>uma garrafa de
+Amontillado&#8213;quando o comboio,
+muito sorrateiramente, penetrou n'uma Estaç&atilde;o.
+Era a Regoa. E o meu Principe pousou logo a faca para chamar o Grillo,
+reclamar as malas que
+traziam o aceio dos nossos corpos. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Espera, Jacintho! Temos muito tempo, O comboio p&aacute;ra aqui
+uma hora... Come com tranquillidade. N&atilde;o escangalhemos este
+almocinho
+com arrumaç&otilde;es de maletas... O Grillo
+n&atilde;o tarda a apparecer. <br />
+
+<br />
+
+E corri mesmo a cortina, porque de fóra um padre muito alto,
+com uma ponta de cigarro collada ao beiço, par&aacute;ra
+a
+espreitar indiscretamente o nosso festim. Mas quando acabamos as
+perdizes, e Jacintho confiadamente
+desembrulhava um queijo manchego, sem que Grillo ou Anatole
+comparecessem, eu, inquieto, corri &aacute; portinhola para
+apressar esses servos tardios... E n'esse instante o comboio, largando,
+deslisou com o
+mesmo silencio sorrateiro. Para o meu Principe foi um desgosto: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ahi ficamos outra vez sem um pente, sem uma escova... E eu que queria
+mudar de camisa! Por culpa tua, Z&eacute;-Fernandes! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; espantoso!... Demora sempre uma eternidade. Hoje chega e
+abala! Paciencia, Jacintho. Em duas horas estamos na
+Estaç&atilde;o de Tormes... Tambem n&atilde;o valia
+a pena mudar <span class="pagenum">[194]</span>de
+camisa para subir
+&aacute; serra! Em casa tomamos um banho, antes de jantar...
+J&aacute; deve estar
+installada a banheira. <br />
+
+<br />
+
+Ambos nos consolamos com copinhos d'uma divina aguardente Chinchon.
+Depois, estendidos nos soph&aacute;s, saboreando os dois charutos
+que nos restavam, com as vidraças abertas ao ar adoravel,
+conversamos de Tormes. Na estaç&atilde;o certamente
+estaria o
+Silverio, com os
+cavallos... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que tempo leva a subir? <br />
+
+<br />
+
+Uma hora. Depois de lavados sobrava tempo para um demorado passeio
+pelas terras com o caseiro, o excellente Melchior, para que o Senhor de
+Tormes, solemnemente, tomasse posse do seu Senhorio. E &aacute;
+noite o primeiro brodio da serra, com os piteus vernaculos do velho
+Portugal! <br />
+
+<br />
+
+Jacintho sorria, seduzido: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vamos a ver que cozinheiro me arranjou esse Silverio. Eu recommendei
+que fosse um soberbo cozinheiro portuguez, classico. Mas que soubesse
+trufar um per&uacute;, afogar um bife em molho de moella, estas
+cousas simples da cozinha de França!... O peor &eacute;
+n&atilde;o
+te demorares, seguires logo para Gui&atilde;es... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah, menino, annos da tia Vicencia no sabbado... Dia sagrado! Mas
+volto. Em duas semanas estou em Tormes, para fazermos uma <span class="pagenum">[195]</span>larga Bucolica. E,
+est&aacute; claro, para assistir &aacute;
+trasladaç&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Jacintho estendera o braço: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que casar&atilde;o &eacute; aquelle, al&eacute;m no
+outeiro, com a torre? <br />
+
+<br />
+
+Eu n&atilde;o sabia. Algum solar de fidalgote do Douro... Tormes
+era n'esse feitio atarracado e massiço. Casa de seculos e
+para
+seculos&#8213;mas sem torre. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E logo se v&ecirc;, da estaç&atilde;o, Tormes?... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o! Muito no alto, n'uma prega da serra, entre arvoredo. <br />
+
+<br />
+
+No meu Principe j&aacute; evidentemente nasc&egrave;ra uma
+curiosidade pela sua rude casa ancestral. Mirava o relogio, impaciente.
+Ainda trinta minutos! Depois, sorvendo o ar e a luz, murmurava, no
+primeiro encanto de iniciado: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que doçura, que paz... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Trez horas e meia, estamos a chegar, Jacintho! <br />
+
+<br />
+
+Guardei o meu velho <em>Jornal do
+Commercio</em> dentro do bolso do paletot, que deitei sobre o
+braço;&#8213;e ambos em p&eacute;,
+&aacute;s janellas, esperamos com alvoroço a pequenina
+Estaç&atilde;o de
+Tormes, termo ditoso das nossas provaç&otilde;es. Ella
+appareceu emfim, clara e simples,
+&aacute; beira do rio, entre rochas, com os seus vistosos girasoes
+enchendo um jardimsinho breve, as
+duas altas figueiras assombreando o pateo, <span class="pagenum">[196]</span>e
+por traz a serra coberta de velho e denso arvoredo... Logo na
+plataforma avistei com gosto a
+immensa barriga, as bochechas menineiras do chefe da
+Estaç&atilde;o, o louro Pimenta, meu condiscipulo em
+Rhetorica,
+no Lyceu de Braga. Os cavallos decerto esperavam, &aacute; sombra,
+sob
+as figueiras. <br />
+
+<br />
+
+Mal o trem parou ambos saltamos alegremente. A bojuda massa do Pimenta
+rebolou para mim com amizade: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Viva o amigo Z&eacute; Fernandes! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Oh bello Piment&atilde;o!... <br />
+
+<br />
+
+Apresentei o senhor de Tormes. E immediatamente: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ouve l&aacute;, Pimentinha... N&atilde;o est&aacute; ahi
+o Silverio? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o... O Silverio ha quasi dois mezes que partiu para
+Castello de Vide, v&ecirc;r a m&atilde;e que apanhou uma
+cornada d'um boi! <br />
+
+<br />
+
+Atirei a Jacintho um olhar inquieto: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora essa! E o Melchior, o caseiro?... Pois n&atilde;o
+est&atilde;o ahi os cavallos para subirmos &aacute; quinta? <br />
+
+<br />
+
+O digno chefe ergueu com surpreza as sobrancelhas c&ocirc;r de
+milho: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o!... Nem Melchior, nem cavallos... O Melchior... Ha que
+tempos eu n&atilde;o vejo o Melchior! <br />
+
+<br />
+
+O carregador badalou lentamente a sineta <span class="pagenum">[197]</span>para
+o comboio rolar.
+Ent&atilde;o, n&atilde;o avistando em torno, na lisa e
+despovoada
+Estaç&atilde;o, nem creados nem malas, o meu Principe e
+eu lançamos o mesmo grito de
+angustia: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E o Grillo? as bagagens?... <br />
+
+<br />
+
+Corremos pela beira do comboio, berrando com desespero: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Grillo!... Oh Grillo!... Anatole!... Oh Grillo! <br />
+
+<br />
+
+Na esperança que elle e o Anatole viessem mortalmente
+adormecidos, trepavamos aos estribos, atirando a cabeça para
+dentro dos compartimentos, espavorindo a gente quieta com o mesmo berro
+que retumbava:&#8213;&laquo;Grillo, est&aacute;s ahi,
+Grillo?&raquo;&#8213;J&aacute; d'uma terceira-classe, onde uma viola
+repenicava, um jocoso gania,
+troçando:&#8213;&laquo;N&atilde;o ha por ahi um grillo?
+Andam por ahi
+uns senhores a pedir um grillo!&raquo;&#8213;E nem
+Anatole, nem Grillo! <br />
+
+<br />
+
+A sineta tilintou. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Oh Pimentinha, espera, homem, n&atilde;o deixes largar o
+comboio!... As nossas bagagens, homem! <br />
+
+<br />
+
+E, afflicto, empurrei o enorme chefe para o forg&atilde;o de carga,
+a pesquizar, descortinar as nossas vinte e trez malas! Apenas
+encontramos
+barris, cestos de vime, latas de azeite, um bah&uacute; amarrado
+com cordas... Jacintho <span class="pagenum">[198]</span>mordia
+os beiços, livido. E o Pimentinha,
+esgazeado: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Oh filhos, eu n&atilde;o posso atrazar o comboio!... <br />
+
+<br />
+
+A sineta repicou... E com um bello fumo claro o comboio desappareceu
+por detraz das fragas altas. Tudo em torno pareceu mais calado e
+deserto. Alli ficavamos pois baldeados, perdidos na serra, sem Grillo,
+sem procurador, sem caseiro, sem cavallos, sem malas! Eu conservava o
+paletot alvadio, d'onde surdia o <em>Jornal do
+Commercio</em>. Jacintho, uma bengala. Eram todos os nossos bens!
+<br />
+
+<br />
+
+O Piment&atilde;o arregalava para nós os olhinhos
+papudos e compadecidos. Contei ent&atilde;o &aacute;quelle
+amigo o
+atarantado
+trasf&ecirc;go em Medina sob a borrasca, o Grillo desgarrado,
+encalhado
+com as vinte e trez malas, ou rolando talvez para Madrid sem nos deixar
+um lenço... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu n&atilde;o tenho um lenço!... Tenho este
+<em>Jornal do Commercio</em>. &Eacute;
+toda a minha roupa branca. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Grande arrelia, caramba! murmurava o Pimenta, impressionado. E agora?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Agora, exclamei, &eacute; trepar, para a quinta, &aacute;
+pata... A n&atilde;o ser que se arranjassem ahi uns burros. <br />
+
+<br />
+
+Ent&atilde;o o carregador lembrou que perto, no casal da Giesta,
+ainda pertencente a Tormes, <span class="pagenum">[199]</span>o
+caseiro, seu compadre, tinha uma boa egua e um jumento... E o prestante
+homem enfiou n'uma carreira para a Giesta&#8213;emquanto o meu Principe e eu
+cahiamos para cima d'um banco, arquejantes e succumbidos, como
+naufragos. O vasto Pimentinha, com as m&atilde;os nas algibeiras,
+n&atilde;o cessava de nos
+contemplar, de murmurar:&#8213;&laquo;&Eacute; de
+arrelia&raquo;.&#8213;O rio
+defronte descia, preguiçoso e
+como adormentado sob a calma j&aacute; pesada de maio,
+abraçando, sem um
+sussurro, uma larga ilhota de pedra que rebrilhava. Para
+al&eacute;m a
+serra crescia em corcovas
+doces, com uma funda prega onde se aninhava, bem junta e esquecida do
+mundo, uma villasinha clara. O espaço immenso repousava n'um
+immenso
+silencio. N'aquellas solid&otilde;es de monte e penedia os pardaes,
+revoando
+no telhado, pareciam aves consideraveis. E a massa rotunda e rubicunda
+do
+Pimentinha dominava, atulhava a regi&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Est&aacute; tudo arranjado, meu senhor! V&ecirc;m ahi os
+bichos!... Só o que n&atilde;o calhou foi um selimsinho
+para a jumenta! <br />
+
+<br />
+
+Era o carregador, digno homem, que voltava da Giesta, sacudindo na
+m&atilde;o duas esporas desirmanadas e ferrugentas. E
+n&atilde;o tardaram a
+apparecer no corrego, para nos levarem a Tormes, uma egua
+ruça, um
+jumento com albarda, um rapaz e um podengo. Apertamos <span class="pagenum">[200]</span>a m&atilde;o suada e
+amiga do Pimentinha. Eu cedi a egua ao senhor de Tormes. E
+começamos
+a trepar o caminho, que n&atilde;o se alis&aacute;ra nem se
+desbrav&aacute;ra desde os tempos em que o trilhavam, com rudes
+sapat&otilde;es ferrados, cortando de rio a
+monte, os Jacinthos do seculo XIV! Logo depois de atravessarmos uma
+tremula ponte
+de pau, sobre um riacho quebrado por pedregulhos, o meu Principe, com o
+olho de dono subitamente aguçado, notou a robustez e a
+fartura das oliveiras...&#8213;E em breve os nossos males esqueceram ante a
+incomparavel
+belleza d'aquella serra bemdita! <br />
+
+<br />
+
+Com que brilho e inspiraç&atilde;o copiosa a compozera o
+divino Artista que faz as serras, e que tanto as cuidou, e
+t&atilde;o
+ricamente as dotou,
+n'este seu Portugal bem-amado! A grandeza egualava a graça.
+Para
+os
+valles, poderosamente cavados, desciam bandos de arvoredos,
+t&atilde;o
+copados e redondos, d'um verde t&atilde;o m&ocirc;ço
+que eram
+como um musgo macio onde appetecia cahir e rolar. Dos pendores,
+sobranceiros ao carreiro
+fragoso, largas ramadas estendiam o seu toldo amavel, a que o
+esvoaçar leve dos passaros sacudia a fragrancia. Atravez dos
+muros seculares, que sustem as terras liados pelas heras, rompiam
+grossas raizes colleantes a que mais hera se enroscava. Em todo o
+torr&atilde;o, de cada fenda,
+brotavam <span class="pagenum">[201]</span>fl&ocirc;res
+silvestres.
+Brancas rochas, pelas encostas, alastravam a solida nudez
+do seu ventre polido pelo vento e pelo sol; outras, vestidas de lichen
+e
+de silvados floridos, avançavam como pr&ocirc;as de
+galeras
+enfeitadas: e, d'entre as que se apinhavam nos cimos, algum casebre que
+para
+l&aacute; galg&aacute;ra, todo amachucado e torto, espreitava
+pelos
+postigos
+negros, sob as desgrenhadas farripas de verdura, que o vento lhe
+seme&aacute;ra
+nas telhas. Por toda a parte a agua sussurrante, a agua fecundante...
+Espertos regatinhos fugiam, rindo com os seixos, d'entre as patas da
+egua e do burro; grossos ribeiros açodados saltavam com
+fragor
+de
+pedra em pedra; fios direitos e luzidios como cordas de prata vibravam
+e faiscavam das alturas aos barrancos; e muita fonte, posta
+&aacute;
+beira de
+veredas, jorrava por uma bica, beneficamente, &aacute; espera dos
+homens e dos
+gados... Todo um cabeço por vezes era uma ce&aacute;ra,
+onde um
+vasto
+carvalho ancestral, solitario, dominava como seu senhor e seu guarda.
+Em socalcos
+verdejavam laranjaes rescendentes. Caminhos de lages soltas circumdavam
+fartos prados com carneiros e vaccas retouçando:&#8213;ou mais
+estreitos, entalados em muros, penetravam sob ramadas de parra espessa,
+n'uma penumbra de repouso e frescura. Trepavamos ent&atilde;o
+alguma
+ruasinha de
+aldeia, dez ou doze <span class="pagenum">[202]</span>casebres,
+sumidos entre figueiras, onde se esgaçava,
+fugindo do lar pela telha v&atilde;, o fumo branco e cheiroso das
+pinhas. Nos
+cerros remotos, por cima da negrura pensativa dos pinheiraes,
+branquejavam ermidas. O
+ar fino e puro entrava na alma, e n'alma espalhava alegria e
+força. Um esparso tilintar de chocalhos de guizos morria
+pelas quebradas... <br />
+
+<br />
+
+Jacintho adiante, na sua egua ruça, murmurava: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que belleza! <br />
+
+<br />
+
+E eu atraz, no burro de Sancho, murmurava: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que belleza! <br />
+
+<br />
+
+Frescos ramos roçavam os nossos hombros com familiaridade e
+carinho. Por traz das sebes, carregadas d'amoras, as macieiras
+estendidas offereciam
+as suas maç&atilde;s verdes, porque as n&atilde;o
+tinham maduras. Todos os vidros d'uma casa velha, com a sua cruz no
+topo, refulgiram hospitaleiramente quando nós passamos.
+Muito
+tempo um melro nos seguia, de
+azinheiro a olmo, assobiando os nossos louvores. Obrigado,
+irm&atilde;o
+melro!
+Ramos de macieira, obrigado! Aqui vimos, aqui vimos! E sempre comtigo
+fiquemos, serra t&atilde;o acolhedora, serra de fartura e de paz,
+serra
+bemdita entre as serras! <br />
+
+<br />
+
+Assim, vagarosamente e maravilhados, chegamos <span class="pagenum">[203]</span>&aacute;quella
+avenida de faias, que sempre me encant&aacute;ra pela sua fidalga
+gravidade. Atirando
+uma vergastada ao burro e &aacute; egua, o nosso rapaz, com o seu
+podengo sobre os calcanhares, gritou:&#8213;&laquo;Aqui &eacute; que
+est&ecirc;mos, meus amos!&raquo; E ao fundo das faias, com
+effeito,
+apparecia o port&atilde;o da quinta de Tormes,
+com o seu braz&atilde;o de armas, de secular granito, que o musgo
+retocava e
+mais envelhecia. Dentro j&aacute; os c&atilde;es ladravam com
+furor.
+E quando Jacintho, na sua suada egua, e eu atraz, no burro de Sancho,
+transpozemos o limiar solarengo, desceu para nós, do alto do
+alpendre, pela
+escadaria de pedra gasta, um homem nedio, rapado como um padre, sem
+collete, sem jaleca, acalmando os c&atilde;es que se
+encarniçavam contra o
+meu Principe. Era o Melchior, o caseiro... Apenas me reconheceu, toda a
+bocca se lhe escancarou n'um riso hospitaleiro, a que faltavam dentes.
+Mas apenas eu
+lhe revelei, d'aquelle cavalheiro de bigodes louros que descia da egua
+esfregando os quadris, o senhor de Tormes&#8213;o bom Melchior recuou,
+colhido de espanto e terror como diante d'uma avantesma. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora essa!... Santissimo nome de Deus! Pois ent&atilde;o... <br />
+
+<br />
+
+E, entre o rosnar dos c&atilde;es, n'um bracejar desolado,
+balbuciou uma historia que por <span class="pagenum">[204]</span>seu
+turno apavorava Jacintho, como se o negro muro do casar&atilde;o
+pendesse para desabar. O Melchior n&atilde;o
+esperava s. ex.<sup>a</sup>! Ninguem esperava s. ex.<sup>a</sup>!...
+(Elle
+dizia <em>sua
+incellencia</em>)...
+O snr. Silverio estava para Castello de Vide desde março,
+com a
+m&atilde;e, que apanh&aacute;ra uma cornada na virilha. E de
+certo
+houvera engano, cartas perdidas...
+Porque o snr. Silverio só contava com s. exc.<sup>a</sup> em
+setembro,
+para a
+vindima! Na casa as obras seguiam devagarinho, devagarinho... O
+telhado, no sul, ainda continuava sem telhas; muitas
+vidraças
+esperavam,
+ainda sem vidros; e, para ficar, Virgem Santa, nem uma cama
+arranjada!... <br />
+
+<br />
+
+Jacintho cruzou os braços n'uma colera tumultuosa que o
+suffocava. Por fim, com um berro: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas os caixotes? Os caixotes, mandados de Paris, em fevereiro, ha
+quatro mezes?... <br />
+
+<br />
+
+O desgraçado Melchior arregalava os olhos miudos, que se
+embaciavam de lagrimas. Os caixotes?! Nada cheg&aacute;ra, nada
+apparecera!... E
+na sua perturbaç&atilde;o mirava pelas arcadas do pateo,
+palpava na algibeira das pantalonas. Os caixotes?... N&atilde;o,
+n&atilde;o tinha os
+caixotes! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E agora, Z&eacute; Fernandes? <br />
+
+<br />
+
+Encolhi os hombros: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Agora, meu filho, só vires commigo para
+Gui&atilde;es... Mas s&atilde;o duas horas fartas a cavallo. <span class="pagenum">[205]</span>E
+n&atilde;o temos cavallos! O melhor
+&eacute; v&ecirc;r o casar&atilde;o, comer a boa gallinha
+que o nosso
+amigo Melchior nos assa no espeto, dormir n'uma enxerga, e
+&aacute;manha cedo, antes do calor, trotar para
+cima, para a tia Vicencia. <br />
+
+<br />
+
+Jacintho replicou, com uma decis&atilde;o furiosa: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Aacute;manh&atilde; troto, mas para baixo, para a
+estaç&atilde;o!... E depois, para Lisboa! <br />
+
+<br />
+
+E subiu a gasta escadaria do seu solar com amargura e rancor. Em cima
+uma larga varanda acompanhava a fachada do casar&atilde;o, sob um
+alpendre de negras vigas, toda ornada, por entre os pilares de granito,
+com caixas de pau onde floriam cravos. Colhi um cravo amarello&#8213;-e
+penetrei atraz de Jacintho nas salas nobres, que elle contemplava com
+um murmurio de horror. Eram enormes, d'uma sonoridade de casa
+capitular, com os
+grossos muros ennegrecidos pelo tempo e o abandono, e regeladas,
+desoladamente n&uacute;as, conservando apenas aos cantos algum
+monte de
+canastras
+ou alguma enxada entre paus. Nos tectos remotos, de carvalho
+apainelado, luziam atrav&eacute;s dos rasg&otilde;es manchas de
+c&eacute;o. As
+janellas, sem vidraças, conservavam essas macissas portadas,
+com
+fechos para as trancas, que, quando se cerram, espalham a treva. <span class="pagenum">[206]</span>Sob os nossos passos, aqui
+e
+al&eacute;m, uma taboa p&ocirc;dre rangia e cedia. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Inhabitavel! rugia Jacintho surdamente. Um horror! Uma infamia!... <br />
+
+<br />
+
+Mas depois, n'outras salas, o soalho alternava com remendos de taboas
+novas. Os mesmos remendos claros mosqueavam os velhissimos tectos de
+rico carvalho sombrio. As paredes repelliam pela alvura cr&uacute;a
+da cal fresca. E o sol mal atravessava as
+vidraças&#8213;embaciadas e
+gordurentas da massa e das m&atilde;os dos vidraceiros. <br />
+
+<br />
+
+Penetramos emfim na ultima, a mais vasta, rasgada por seis janellas,
+mobilada com um armario e com uma enxerga parda e curta estirada a um
+canto: e junto d'ella paramos, e sobre ella depuzemos tristemente o que
+nos restava de vinte e trez malas&#8213;o meu paletot alvadio, a bengala de
+Jacintho, e o <em>Jornal do Commercio</em>
+que nos era commum. Atrav&eacute;s das janellas escancaradas, sem
+vidraças, o grande ar da serra
+entrava e circulava como n'um eirado, com um cheiro fresco d'horta
+regada. Mas o que avistavamos, da beira da enxerga, era um pinheiral
+cobrindo um cabeço e descendo pelo pendor suave,
+&aacute;
+maneira
+d'uma hoste em marcha, com pinheiros na frente, destacados, direitos,
+emplumados de negro;
+mais longe as serras <span class="pagenum">[207]</span>d'al&eacute;m
+rio, d'uma fina e macia c&ocirc;r
+de violeta; depois a brancura do c&eacute;o, todo liso, sem uma
+nuvem, d'uma magestade
+divina. E l&aacute; debaixo, dos valles, subia, desgarrada e
+melancolica, uma voz de pegureiro cantando. <br />
+
+<br />
+
+Jacintho caminhou lentamente para o poial d'uma janella, onde cahiu
+esbarrondado pelo desastre, sem resistencia ante aquelle brusco
+desapparecimento de toda a Civilisaç&atilde;o! Eu
+palpava a enxerga, dura e regelada como um granito de inverno. E
+pensando nos luxuosos
+colch&otilde;es de pennas e molas, t&atilde;o prodigamente
+encaixotados
+no 202,
+desafoguei tambem a minha indignaç&atilde;o: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas os caixotes, caramba?... Como se perdem assim trinta e tantos
+caixotes enormes?... <br />
+
+<br />
+
+Jacintho saccudiu amargamente os hombros: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Encalhados, por ahi, algures, n'um barrac&atilde;o!... Em Medina,
+talvez, n'essa horrenda Medina. Indifferença das Companhias,
+inercia
+do Silverio...
+Emfim a Peninsula, a barbarie! <br />
+
+<br />
+
+Vim ajoelhar sobre o outro poial, alongando os olhos consolados por
+c&eacute;o e monte: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; uma belleza! <br />
+
+<br />
+
+O meu principe, depois de um silencio grave, murmurou, com a face
+encostada &aacute; m&atilde;o: <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[208]</span>
+&#8213;&Eacute; uma lindeza... E que paz! <br />
+
+<br />
+
+Sob a janella vicejava fartamente uma horta, com repolho, feijoal,
+talh&otilde;es de alface, gordas folhas de abobora rastejando. Uma
+eira, velha e mal alisada, dominava o valle, d'onde j&aacute; subia
+tenuemente
+a nevoa d'algum fundo ribeiro. Toda a esquina do casar&atilde;o
+d'esse
+lado
+se encravava em laranjal. E d'uma fontinha rustica, meio afogada em
+rosas tremedeiras, corria um longo e rutilante fio d'agua. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Estou com appetite desesperado d'aquella agoa! declarou Jacintho,
+muito s&eacute;rio. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tambem eu... Desçamos ao quintal, hein? E passamos pela
+cosinha, a saber do frango. <br />
+
+<br />
+
+Voltamos &aacute; varanda. O meu Principe, mais conciliado com o
+destino inclemente, colheu um cravo amarello. E por outra porta baixa,
+de rigissimas hombreiras, mergulhamos n'uma sala, alastrada de
+caliça, sem tecto, coberta apenas de grossas vigas, d'onde
+s'ergueu uma revoada de pardaes. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Olha para este horror! murmurava Jacintho arripiado. <br />
+
+<br />
+
+E descemos por uma lobrega escada de castello, tenteando depois um
+corredor tenebroso de lages asperas, atravancado por profundas arcas,
+capazes de guardar todo o gr&atilde;o d'uma provincia. Ao fundo a
+cozinha, immensa, <span class="pagenum">[209]</span>era
+uma massa de
+fórmas negras, madeira negra,
+pedra negra, densas negruras de felugem secular. E n'este negrume
+refulgia a um canto, sobre o ch&atilde;o de terra negra, a fogueira
+vermelha,
+lambendo tachos e panellas de ferro, despedindo uma fumarada que fugia
+pela grade
+aberta no muro, depois por entre a folhagem dos limoeiros. Na enorme
+lareira, onde se aqueciam e assavam as suas grossas peças de
+porco e
+boi os Jacinthos medievaes, agora desaproveitada pela frugalidade dos
+caseiros, negrejava um poeirento mont&atilde;o de cestas e
+ferramentas;
+e a
+claridade toda entrava por uma porta de castanho, escancarada sobre um
+quintalejo
+rustico em que se misturavam couves lombardas e junquilhos formosos. Em
+roda do lume um bando alvoroçado de mulheres depennava
+frangos, remexia as caçarolas, picava a cebola, com um
+fervor
+afogueado e
+palreiro. Todas emmudeceram quando apparecemos&#8213;e d'entre ellas o pobre
+Melchior, estonteado, com o sangue a espirrar na nedia face d'abbade,
+correu para
+nós, jurando &laquo;que o jantarinho de suas
+Incellencias n&atilde;o demorava um credo&raquo;... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E a respeito de camas, oh amigo Melchior? <br />
+
+<br />
+
+O digno homem ciciou uma desculpa encolhida &laquo;sobre
+enxergasinhas no ch&atilde;o...&raquo; <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[210]</span>
+&#8213;&Eacute; o que basta! acudi eu, para o consolar. Por uma noite,
+com lençoes frescos... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah, l&aacute; pelos lençoesinhos respondo eu!... Mas
+um desgosto assim, meu senhor! A gente apanhada sem um
+colx&atilde;osinho de
+l&atilde;, sem um lombosinho de vacca... Que eu j&aacute;
+pensei, at&eacute; lembrei
+&aacute; minha comadre, V. Inc.<sup>as</sup> podiam ir
+dormir aos <em>Ninhos</em>, a casa
+do Silverio. Tinham l&aacute; camas de ferro, lavatorios... Elle
+sempre &eacute; uma legoasita e mau
+caminho... <br />
+
+<br />
+
+Jacintho, bondoso, accudiu: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o, tudo se arranja, Melchior. Por uma noite!...
+At&eacute; gósto mais de dormir em Tormes, na minha casa
+da serra! <br />
+
+<br />
+
+Sahimos ao terreiro, retalho de horta fechado por grossas rochas
+encabelladas de verdura, entestando com os socalcos da serra onde
+lourejava o centeio. O meu principe bebeu da agua nevada e lusidia da
+fonte, regaladamente, com os beiços na bica; appeteceu a
+alface rechonchuda e crespa; e atirou pulos aos ramos altos d'uma
+copada cerejeira, toda carregada de cereja. Depois, costeando o velho
+lagar, a
+que um bando de pombas branqueava o telhado, deslis&aacute;mos
+at&eacute; ao carreiro, cortado no costado do monte. E andando,
+pensativamente, o meu Principe pasmava para os milheiraes, para os
+vetustos carvalhos plantados por vetustos Jacinthos, para os casebres <span class="pagenum">[211]</span>espalhados sobre os
+cabeços &aacute; orla negra dos pinheiraes. <br />
+
+<br />
+
+De novo penetramos na avenida de faias e transpozemos o
+port&atilde;o senhorial entre o latir dos c&atilde;es, mais
+mansos,
+farejando um dono.
+Jacintho reconheceu &laquo;certa nobreza&raquo; na frontaria do
+seu
+lar.
+Mas sobretudo lhe agradava a longa alameda, assim direita e larga, como
+traçada para n'ella se desenrolar uma cavalgada de Senhores
+com
+plumas e pagens. Depois, de cima da varanda, reparando na telha nova da
+capella, louvou
+o Silverio, &laquo;esse ralaço&raquo;, por cuidar ao
+menos da morada do Bom-Deus. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E esta varanda tambem &eacute; agradavel, murmurou elle
+mergulhando a face no aroma dos cravos. Precisa grandes poltronas,
+grandes divans de verga...
+<br />
+
+<br />
+
+Dentro, na &laquo;nossa sala&raquo;, ambos nos sentamos nos
+poiaes da janella, contemplando o doce socego crepuscular que
+lentamente se estabelecia sobre valle e monte. No alto tremeluzia uma
+estrellinha, a Venus diamantina, languida annunciadora da noite e dos
+seus contentamentos. Jacintho nunca consider&aacute;ra
+demoradamente
+aquella estrella,
+de amorosa refulgencia, que perpetua no nosso C&eacute;o catholico
+a
+memoria
+da Deusa incomparavel:&#8213;nem assistira j&aacute;mais, com a alma
+attenta, ao
+magestoso adormecer da Natureza. E este <span class="pagenum">[212]</span>ennegrecimento
+dos montes que se
+embuçam em sombra; os arvoredos emmudecendo,
+cançados de
+susurrar; o
+rebrilho dos casaes mansamente apagado; o cobertor de nevoa, sob que se
+acama e agasalha a frialdade dos valles; um toque somnolento de sino
+que rola pelas quebradas; o segredado cochichar das aguas e das relvas
+escuras&#8213;eram para elle como iniciaç&otilde;es.
+D'aquella janella, aberta sobre as serras, entrevia uma outra vida, que
+n&atilde;o anda
+sómente cheia do Homem e do tumulto da sua obra. E senti o
+meu
+amigo suspirar como quem emfim descança. <br />
+
+<br />
+
+D'este enlevo nos arrancou o Melchior com o doce aviso do
+&laquo;jantarinho de suas Incellencias&raquo;. Era n'outra
+sala, mais
+n&uacute;a,
+mais abandonada:&#8213;e ahi logo &aacute; porta o meu super-civilisado
+Principe estacou,
+estarrecido pelo desconforto, escassez e rudeza das coisas. Na mesa,
+encostada ao muro denegrido, sulcado pelo fumo das candeias, sobre uma
+toalha de estopa, duas velas de s&ecirc;bo em castiçaes
+de lata
+alumiavam
+grossos pratos de louça amarella, ladeados por colheres de
+estanho e por
+garfos de ferro. Os copos, d'um vidro espesso, conservavam a sombra
+roxa do vinho que n'elles pass&aacute;ra em fartos annos de fartas
+vindimas. A malga
+de barro, atestada de azeitonas pretas, contentaria Diogenes. Espetado <span class="pagenum">[213]</span>na
+c&ocirc;dea d'um immenso p&atilde;o reluzia um immenso
+facalh&atilde;o.
+E
+na cadeira senhoreal reservada ao meu Principe, derradeira alfaia dos
+velhos Jacinthos, de hirto espaldar de couro, com a madeira
+ro&iacute;da de caruncho, a
+clina fugia em melenas pelos rasg&otilde;es do assento poido. <br />
+
+<br />
+
+Uma formidavel moça, de enormes peitos que lhe tremiam
+dentro das ramagens do lenço cruzado, ainda suada e
+esbrazeada
+do calor
+da lareira, entrou esmagando o soalho, com uma terrina a fumegar. E o
+Melchior, que
+seguia erguendo a infusa do vinho, esperava que suas Incellencias lhe
+perdoassem porque falt&aacute;ra tempo para o caldinho apurar...
+Jacintho occupou a s&eacute;de ancestral&#8213;e, durante momentos (de
+esgazeada
+anciedade para o caseiro excellente) esfregou energicamente, com a
+ponta da toalha, o garfo negro, a fusca colh&eacute;r de estanho.
+Depois,
+desconfiado, provou o caldo, que era de gallinha e rescendia. Provou&#8213;e
+levantou
+para mim, seu camarada de miserias, uns olhos que brilharam,
+surprehendidos.
+Tornou a sorver uma colherada mais cheia, mais considerada. E sorriu,
+com espanto:&#8213;&laquo;Est&aacute; bom!&raquo; <br />
+
+<br />
+
+Estava precioso: tinha figado e tinha moela: o seu perfume enternecia:
+tres vezes, fervorosamente, ataquei aquelle caldo. <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[214]</span>
+&#8213;Tambem l&aacute; volto! exclamava Jacintho com uma
+convicç&atilde;o immensa. &Eacute; que estou com uma
+fome... Santo Deus! Ha annos que n&atilde;o sinto
+esta fome. <br />
+
+<br />
+
+Foi elle que rapou avaramente a sopeira. E j&aacute; espreitava a
+porta, esperando a portadora dos piteus, a rija moça de
+peitos
+trementes, que emfim surgiu, mais esbrazeada, abalando o sobrado&#8213;e
+pousou sobre a
+mesa uma travessa a trasbordar de arroz com favas. Que desconsolo!
+Jacintho,
+em Paris, sempre abomin&aacute;ra favas!... Tentou todavia uma
+garfada timida&#8213;e de novo aquelles seus olhos, que o pessimismo
+ennovo&aacute;ra, luziram, procurando os meus. Outra larga garfada,
+concentrada, com uma lentid&atilde;o de frade que se regala. Depois
+um
+brado: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Optimo!... Ah, d'estas favas, sim! Oh que fava! Que delicia! <br />
+
+<br />
+
+E por esta santa gula louvava a serra, a arte perfeita das mulheres
+palreiras que em baixo remexiam as panellas, o Melchior que presidia ao
+brodio... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;D'este arroz com fava nem em Paris, Melchior amigo! <br />
+
+<br />
+
+O homem optimo sorria, inteiramente desannuviado: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois &eacute; c&aacute; a comidinha dos moços da
+quinta! E cada pratada, que at&eacute; suas Incellencias <span class="pagenum">[215]</span>se riam... Mas agora,
+aqui, o Snr. D. Jacintho,
+tambem vae engordar e enrijar! <br />
+
+<br />
+
+O bom caseiro sinceramente cria que, perdido n'esses remotos Parizes, o
+Senhor de Tormes, longe da fartura de Tormes, padecia fome e mingava...
+E o meu Principe, na verdade, parecia saciar uma velhissima fome e uma
+longa saudade da abundancia, rompendo assim, a cada travessa, em
+louvores mais copiosos. Diante do louro frango assado no espeto e da
+salada que elle appetecera na horta, agora temperada com um azeite da
+serra digno dos labios de Plat&atilde;o, terminou por
+bradar:&#8213;&laquo;&Eacute; divino!&raquo; Mas nada o
+enthusiasmava como o
+vinho de Tormes, cahindo d'alto, da bojuda infusa verde&#8213;um vinho
+fresco, esperto, seivoso, e tendo mais alma, entrando mais na alma, que
+muito poema ou livro santo. Mirando,
+&aacute; vela de s&egrave;bo, o copo grosso que elle orlava de
+leve
+espuma rosea,
+o meu Principe, com um resplend&ocirc;r d'optimismo na face, citou
+Virgilio: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;<em>Quo te carmina dicam, Rethica</em>?
+Quem dignamente te cantar&aacute;, vinho amavel d'estas serras? <br />
+
+<br />
+
+Eu, que n&atilde;o gosto que me avantagem em saber classico,
+espanejei logo tambem o meu Virgilio, louvando as doçuras da
+vida rural: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;<em>Hanc olim veteres vitam coluere
+Sabini</em>... <span class="pagenum">[216]</span>Assim
+viveram os velhos Sabinos. Assim Romolo e Remo... Assim cresceu a
+valente Etruria. Assim Roma se tornou a maravilha do mundo! <br />
+
+<br />
+
+E immovel, com a m&atilde;o agarrada &aacute; infusa, o
+Melchior arregalava para nós os olhos em infinito assombro e
+religiosa reverencia. <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="break">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Ah! Jantamos deliciosissimamente, sob os auspicios do Melchior&#8213;que
+ainda depois, próvido e tutelar, nos forneceu o tabaco. E,
+como ante nós se alongava uma noite de monte, voltamos para
+as
+janellas
+desvidraçadas, na sala immensa, a contemplar o sumptuoso
+c&eacute;o de
+ver&atilde;o. Philosoph&aacute;mos ent&atilde;o com
+pachorra e
+facundia. <br />
+
+<br />
+
+Na Cidade (como notou Jacintho) nunca se olham, nem lembram os
+astros&#8213;por causa dos candieiros de gaz ou dos globos de electricidade
+que os offuscam. Por isso (como eu notei) nunca se entra n'essa
+communh&atilde;o com o Universo que &eacute; a unica gloria e
+unica consolaç&atilde;o da Vida. Mas na serra, sem
+predios
+disformes de seis andares, sem a fumaraça que tapa Deus, sem
+os
+cuidados que como
+pedaços de chumbo puxam a alma para o pó
+rasteiro&#8213;um
+Jacintho, um Z&eacute;
+Fernandes, livres, bem jantados, fumando nos poiaes <span class="pagenum">[217]</span>d'uma
+janella, olham para os astros e os astros olham para elles. Uns,
+certamente, com olhos de sublime immobilidade ou de subllime
+indifferença. Mas outros
+curiosamente, anciosamente, com uma luz que acena, uma luz que chama,
+como se tentassem, de t&atilde;o longe, revelar os seus segredos,
+ou de
+t&atilde;o longe comprehender os nossos... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Oh Jacintho, que estrella &eacute; esta, aqui, t&atilde;o
+viva, sobre o beiral do telhado? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o sei... E aquella, Z&eacute; Fernandes,
+al&eacute;m, por cima do pinheiral? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o sei. <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o sabiamos. Eu, por causa da espessa crosta de ignorancia
+com que sahi do ventre de Coimbra, minha M&atilde;e espiritual.
+Elle,
+porque na
+sua Bibliotheca possuia trezentos e oito tratados sobre Astronomia, e o
+Saber, assim accumulado, fórma um monte que nunca se
+transp&otilde;e nem se desbasta. Mas que nos importava que aquelle
+astro al&eacute;m se
+chamasse Syrius e aquelle outro Aldebaran? Que lhes importava a elles
+que um de nós fosse Jacintho, outro Z&eacute;? Elles
+t&atilde;o immensos, nós t&atilde;o pequeninos,
+somos a obra da
+mesma Vontade. E todos, Uranos ou Lorenas de Noronha e Sande,
+constituimos modos diversos d'um S&ecirc;r unico, e as
+nossas diversidades esparsas sommam na mesma compacta Unidade.
+Molleculas <span class="pagenum">[218]</span>do
+mesmo Todo, governadas pela mesma Lei, rolando para o mesmo Fim... Do
+astro ao homem, do homem &aacute; fl&ocirc;r do trevo, da
+fl&ocirc;r do trevo ao mar sonoro&#8213;tudo &eacute; o mesmo Corpo,
+onde
+circula, como um sangue,
+o mesmo Deus. E nenhum fremito de vida, por menor, passa n'uma fibra
+d'esse sublime Corpo, que se n&atilde;o repercuta em todas,
+at&eacute;
+&aacute;s mais humildes, at&eacute; &aacute;s que parecem
+inertes e
+invitaes. Quando um Sol que
+n&atilde;o avisto, nunca avistarei, morre de
+inaniç&atilde;o nas
+profundidades,
+esse esguio galho de limoeiro, em baixo na horta, sente um secreto
+arrepio de morte:&#8213;e, quando eu bato uma patada no soalho de Tormes,
+al&eacute;m o
+monstruoso Saturno estremece, e esse estremecimento percorre o inteiro
+Universo! Jacintho abateu rijamente a m&atilde;o no rebordo da
+janella.
+Eu gritei: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Acredita!... O sol tremeu. <br />
+
+<br />
+
+E depois (como eu notei) deviamos considerar que, sobre cada um d'esses
+gr&atilde;os de pó luminoso, existia uma
+creaç&atilde;o, que incessantemente nasce, perece,
+renasce. N'este instante, outros Jacinthos, outros
+Z&eacute;s Fernandes, sentados &aacute;s janellas d'outras
+Tormes, contemplam
+o c&eacute;o nocturno, e n'elle um pequenininho ponto de luz, que
+&eacute; a
+nossa possante Terra por nós tanto sublimada. N&atilde;o
+ter&atilde;o todos esta nossa fórma, bem fragil, bem <span class="pagenum">[219]</span>desconfortavel,
+e (a n&atilde;o ser no Apollo do
+Vaticano, na Venus de Milo e talvez na Princeza, de Carman)
+singularmente feia e burlesca.
+Mas, horrendos ou de ineffavel belleza; collossaes e d'uma carne mais
+dura que o granito, ou leves como gazes e ondulando na luz, todos elles
+s&atilde;o s&ecirc;res pensantes e teem consciencia da
+Vida&#8213;porque decerto cada Mundo possue o seu Descartes, ou
+j&aacute; o
+nosso Descartes os
+percorreu a todos com o seu Methodo, a sua escura capa, a sua agudeza
+elegante, formulando a unica certeza talvez certa, o grande
+<em>Penso logo existo</em>. Portanto todos nós,
+Habitantes dos
+Mundos, &aacute;s
+janellas dos nossos casar&otilde;es, al&eacute;m nos Saturnos,
+ou aqui
+na nossa
+Terricula, constantemente perfazemos um acto sacrosanto que nos penetra
+e nos funde&#8213;que
+&eacute; sentirmos no Pensamento o nucleo commum das nossas
+modalidades, e portanto realisarmos um momento, dentro da Consciencia,
+a Unidade do Universo!&#8213;Hein, Jacintho?... <br />
+
+<br />
+
+O meu amigo rosnou: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Talvez... Estou a cahir com somno. <br />
+
+<br />
+
+&gt;
+&#8213;Tambem eu. &laquo;Remontamos muito, Ex.<sup>mo</sup>
+Snr.!&raquo;
+como dizia o Pestaninha em Coimbra. Mas nada mais bello, e mais
+v&atilde;o, que uma
+cavaqueira, no alto das serras, a olhar para as estrellas!... Tu sempre
+vaes
+amanh&atilde;? <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[220]</span>
+&#8213;Com certeza, Z&eacute; Fernandes! Com a certeza de Descartes.
+&laquo;Penso <em>logo
+fujo</em>!&raquo; Como queres tu, n'este pardieiro,
+sem uma cama, sem uma poltrona, sem um livro?... Nem só de
+arroz com fava vive o
+Homem! Mas demoro em Lisboa, para conversar com o Cesimbra, o meu
+Administrador. E
+tambem &aacute; espera que estas obras acabem, os caixotes surjam,
+e eu possa voltar decentemente, com roupa lavada, para a
+trasladaç&atilde;o... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; verdade, os ossos... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas resta ainda o Grillo... Que animal! Por onde andar&aacute;
+esse perdido? <br />
+
+<br />
+
+Ent&atilde;o, passeando lentamente na sala enorme, onde a vela de
+s&ecirc;bo j&aacute; derretida no castiçal de lata
+era como um
+lume de cigarro
+n'um descampado, medit&aacute;mos na sorte do Grillo. O estimado
+negro
+ou f&ocirc;ra despejado nas lamas de Medina, com as vinte e sete
+malas,
+aos gritos&#8213;ou, regaladamente adormecido, rol&aacute;ra com o
+Anatole
+no comboio para Madrid. Mas ambos os casos appareciam ao meu Principe
+como irremediavelmente destruidores do seu conforto... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o, escuta, Jacintho... Se o Grillo encalhou em Medina,
+dormiu na Fonda, catou os percevejos, e esta madrugada correu para
+Tormes. Quando
+&aacute;manh&atilde; desceres &aacute;
+Estaç&atilde;o, &aacute;s quatro horas, encontras o
+teu precioso homem, <span class="pagenum">[221]</span>com
+as tuas preciosas malas, mettido n'esse comboio que te leva ao Porto e
+&aacute; Capital... <br />
+
+<br />
+
+Jacintho saccudiu os braços como quem se debate nas malhas
+d'uma rede: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E se seguiu para Madrid? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o, por esta semana, c&aacute; apparece em Tormes,
+onde encontra ordem para regressar a Lisboa e reentrar no teu
+sequito... Resta o interessante caso das minhas bagagens. Se
+&aacute;manh&atilde;
+encontrares na Estaç&atilde;o o Grillo, separa a minha
+mala
+negra, e o sacco de lona, e a
+chapelleira. O Grillo conhece. E pede ao Pimenta, ao gordalhufo, que me
+avise para Gui&atilde;es. Se o Grillo aportar Tormes, esfogueteado
+de
+Madrid,
+com toda essa malaria, deixa as minhas cousas aqui, ao Melchior... Eu
+&aacute;manh&atilde; fallo ao Melchior. <br />
+
+<br />
+
+Jacintho sacudiu furiosamente o collarinho: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas como posso eu partir para Lisboa, &aacute;manh&atilde;,
+com esta camisa de dous dias, que j&aacute; me faz uma
+comich&atilde;o horrenda? E sem
+um lenço... Nem ao menos uma escova de dentes! <br />
+
+<br />
+
+Fertil em id&eacute;as, estendi as m&atilde;os, n'um bello
+gesto tutelar: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tudo se arranja, meu Jacintho, tudo se arranja! Eu, largando d'aqui
+cedo, pelas seis <span class="pagenum">[222]</span>horas,
+chego a Gui&atilde;es &aacute;s dez,
+ainda sem calor. E, mesmo antes do almoço e da cavaqueira
+com a tia Vicencia,
+immediatamente te mando por um moço um sacco de roupa
+branca. As minhas
+camisas e as minhas ceroulas talvez te estejam largas. Mas um mendigo
+como tu
+n&atilde;o tem direito a elegancias e a roupas bem cortadas. O
+moço, n'um
+bom trote, entra aqui &aacute;s duas horas; tens tempo de mudar
+antes de
+desceres para a Estaç&atilde;o... Posso metter na mala
+uma escova de
+dentes. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Oh Z&eacute; Fernandes! Ent&atilde;o mette tambem uma
+esponja... E um frasco d'agoa de colonia! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Agoa d'alfazema, excellente, feita pela tia Vicencia... <br />
+
+<br />
+
+O meu Principe suspirou, impressionado com a sua miseria esqualida, e
+esta dadiva de roupas: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Bem, ent&atilde;o vamos dormir, que estou esfalfado de
+emoç&otilde;es e d'astros... <br />
+
+<br />
+
+Justamente Melchior entreabria a pesada porta, com timidez, a avisar
+que &laquo;estavam preparadinhas as camas de suas
+Incellencias.&raquo; E seguindo o bom caseiro, que erguia uma
+candeia,
+que avistamos nós, o meu
+Principe e eu, ainda ha pouco irmanados com os astros? Em duas saletas,
+que uma abertura em arco, lobrego arco de pedra, separava&#8213;duas
+enxergas sobre
+o soalho. Junto &aacute; cabeceira <span class="pagenum">[223]</span>da
+mais larga, que pertencia ao
+senhor de Tormes, um castiçal de lat&atilde;o sobre um
+alqueire;
+aos p&eacute;s, como lavatorio, um alguidar vidrado em cima duma
+tripeça. Para mim, serrano
+d'aquellas serras, nem alguidar nem alqueire. <br />
+
+<br />
+
+Lentamente, com o p&eacute;, o meu super-civilisado amigo palpou a
+enxerga. E decerto lhe sentiu uma dureza intransigente, porque ficou
+pendido sobre
+ella, a correr desoladamente os dedos pela face desmaiada. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E o peior n&atilde;o &eacute; ainda a enxerga, murmurou emfim
+com um suspiro. &Eacute; que n&atilde;o tenho camisa de dormir,
+nem chinelas!... E
+n&atilde;o me posso deitar de camisa engommada. <br />
+
+<br />
+
+Por inspiraç&atilde;o minha reccorremos ao Melchior. De
+novo, esse benemerito providenciou, trazendo a Jacintho, para elle
+desafogar os
+p&eacute;s, uns tamancos&#8213;e para embrulhar o corpo uma camisa da
+comadre, enorme, de estopa, &aacute;spera como uma estamenha de
+penitente, com folhos
+mais crespos e duros do que lavores de madeira. Para consolar o meu
+Principe lembrei
+que Plat&atilde;o quando compunha o
+<em>Banquete</em>, Vasco da Gama quando
+dobrava o Cabo, n&atilde;o dormiam em melhores catres! As enxergas
+rijas
+fazem as almas fortes, oh Jacintho!... E &eacute; só
+vestido de
+estamenha que se penetra no Paraiso. <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[224]</span>
+&#8213;Tens tu, volveu o meu amigo seccamente, alguma coisa que eu leia?
+N&atilde;o posso adormecer sem um livro. <br />
+
+<br />
+
+Eu? Um livro? Possuia apenas o velho numero do <em>Jornal
+do Commercio</em>,
+que escap&aacute;ra &aacute; dispers&atilde;o dos nossos
+bens. Rasguei a copiosa folha pelo meio, partilhei com Jacintho
+fraternalmente. Elle tomou a sua metade, que era a dos annuncios... E
+quem n&atilde;o viu ent&atilde;o
+Jacintho, senhor de Tormes, acaçapado &aacute; borda da
+enxerga,
+rente da
+vela de s&ecirc;bo que se derretia no alqueire, com os
+p&eacute;s
+encafuados nos
+sócos, perdido dentro das &aacute;speras pregas e dos
+rijos
+folhos da camisa serrana,
+percorrendo n'um pedaço velho de Gazeta, pensativamente, as
+partidas dos
+Paquetes&#8213;n&atilde;o póde saber o que &eacute; uma
+intensa e veridica imagem do Desalento. <br />
+
+<br />
+
+Recolhido &aacute; minha alcova espartana, desabotoava o collete,
+n'um delicioso cansaço, quando o meu Principe ainda me
+reclamou: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Z&eacute; Fernandes... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Dize. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Manda tambem no sacco um abotoador de botas. <br />
+
+<br />
+
+Estirado commodamente na rija enxerga murmurei, como sempre murmuro ao
+penetrar no Somno, que &eacute; um primo da Morte, <span class="pagenum">[225]</span>&laquo;Deus
+seja louvado!&raquo; Depois tomei a metade do <em>Jornal do
+Commercio</em> que me pertencia. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Z&eacute; Fernandes... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que &eacute;? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tambem podias metter no sacco pós dos dentes... E uma lima
+das unhas... E um romance! <br />
+
+<br />
+
+J&aacute; a meia Gazeta me escapava das m&atilde;os dormentes.
+Mas da sua alcova, depois de soprar a vela, Jacintho murmurou entre um
+bocejo: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Z&eacute; Fernandes... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Hein? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Escreve para Lisboa, para o Hotel Bragança... Os
+lençoes ao menos s&atilde;o frescos, cheiram bem, a
+sadio! <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h2>IX</h2>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Cedo, de madrugada, sem rumor, para n&atilde;o despertar o meu
+Jacintho, que, com as m&atilde;os cruzadas sobre o peito, dormia
+beatificamente na
+sua enxerga de granito&#8213;parti para Gui&atilde;es. <br />
+
+<br />
+
+Ao cabo d'uma semana, recolhendo uma manh&atilde; para o
+almoço, encontrei no corredor as minhas malas t&atilde;o
+desejadas, que um
+moço do casal da Giesta trouxera n'um carro com
+&laquo;recados
+do Snr.
+Pimentinha&raquo;. O meu pensamento pulou para o meu Principe. E
+lancei
+pelo telegrapho, para Lisboa, para
+o Hotel Bragança, este brado
+alegre:&#8213;&laquo;Est&aacute;s l&aacute;? Sei recuperaste
+Grillo e Civilisaç&atilde;o! Hurrah!
+Abraço!&raquo;&#8213;Só depois de sete dias,
+occupados n'uma delicada apanha de aspargos com que outr'ora
+civilis&aacute;ra a
+horta da tia Vicencia, notei o silencio de Jacintho. N'um bilhete
+postal renovei, desenvolvi o grito amigo:&#8213;&laquo;Est&aacute;s
+l&aacute;?
+S&atilde;o os prazeres da Baixa que assim te <span class="pagenum">[228]</span>tornam
+desattento e mudo? Eu, todo aspargos! Responde, quando
+chegas? Tempo delicioso! 23&ordm; &aacute; sombra. E os
+ossos?...&raquo;&#8213;Veio depois a devota romaria da Senhora da
+Roqueirinha. Durante a lua nova andei n'um
+córte de matto, na minha terra das Corcas. A tia Vicencia
+vomitou, com uma indigest&atilde;o de murcellas. E o silencio do
+meu
+Principe era
+ingrato e ferrenho. <br />
+
+<br />
+
+Emfim uma tarde, voltando da Flor da Malva, de casa da minha prima
+Joanninha, parei em Sandofim, na venda do Manoel Rico, para beber de
+certo vinho branco que a minha alma conhece&#8213;e sempre pede. <br />
+
+<br />
+
+Defronte, &aacute; porta do ferrador, o Severo, sobrinho do
+Melchior de Tormes e o mais fino alveitar da serra, picava tabaco,
+escarranchado n'um banco. Mandei encher outro quartilho: elle acariciou
+o
+pescoço da minha egua que j&aacute; salv&aacute;ra
+d'um
+esfriamento: e, como eu
+indagasse do nosso Melchior, o Severo contou que na v&eacute;spera
+jant&aacute;ra
+com elle em Tormes, e se abeir&aacute;ra tambem do fidalgo... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora essa! Ent&atilde;o o snr. D. Jacintho est&aacute; em
+Tormes? <br />
+
+<br />
+
+O meu espanto divertiu o Severo: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o v. exc.<sup>a</sup>... Pois em Tormes &eacute; que
+elle
+est&aacute;, ha mais de cinco semanas, sem arredar! <span class="pagenum">[229]</span>E parece que fica para a
+vindima, e vai
+l&aacute; uma grandeza! <br />
+
+<br />
+
+Santissimo nome de Deus! Ao outro dia, domingo, depois da missa e sem
+me assustar com a calma que carregava, trotei
+alvoroçadamente
+para Tormes. Ao latir dos rafeiros, quando transpuz o portal solarengo,
+a comadre do
+Melchior accudio dos lados do curral, com um alguidar de lavagem
+encostado &aacute; cintura.&#8213;Ent&atilde;o o snr. D.
+Jacintho?... O snr. D. Jacintho andava l&aacute; para baixo, com o
+Silverio e com o Melchior, nos
+campos de Freixomil... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E o Snr. Grillo, o preto? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ha bocadinho tambem o enxerguei no pomar, com o francez, a apanhar
+lim&otilde;es doces... <br />
+
+<br />
+
+Todas as janellas do solar rebrilhavam, com vidraças novas,
+bem polidas. A um canto do p&aacute;teo notei baldes de cal e
+tijellas de
+tintas. Uma escada de pedreiro descanç&aacute;ra durante
+o Dia Santo
+arrimada contra o telhado. E, rente ao muro da capella, dois gatos
+dormiam sobre mont&otilde;es
+de palha desempacotada de caixotes consideraveis. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Bem, pensei eu. Eis a Civilisaç&atilde;o! <br />
+
+<br />
+
+Recolhi a egua, galguei a escada. Na varanda, sobre uma pilha de ripas,
+reluzia n'um raio de sol uma banheira de zinco. Dentro <span class="pagenum">[230]</span>encontrei
+todos os soalhos remendados, esfregados a carqueja. As paredes, muito
+caiadas
+e n&uacute;as, refrigeravam como as d'um convento. Um quarto, a que
+me levaram tres portas escancaradas com franqueza serrana, era
+certamente o de Jacintho: a roupa pendia de cabides de pau: o leito de
+ferro, com coberta de fust&atilde;o, encolhia timidamente a sua
+rigidez
+virginal a um canto, entre o muro e a banquinha onde um
+castiçal
+de
+lat&atilde;o resplandecia sobre um volume do <em>D. Quichote</em>;
+no
+lavatorio pintado de amarello, imitando bamb&uacute;, apenas cabia
+o
+jarro, a bacia, um naco gordo
+de sab&atilde;o; e uma prateleirinha bastava ao esmerado alinho da
+escova, da thesoura, do
+pente, do espelhinho de feira, e do frasquinho de agua de alfazema que
+eu mand&aacute;ra de Gui&atilde;es. As tres janellas, sem
+cortinas, contemplavam a belleza da serra, respirando um delicado e
+macio ar, que se perfumava nas resinas dos pinheiraes, depois nas
+roseiras da horta. Em frente, no
+corredor, outro quarto repetia a mesma simplicidade. Certamente a
+previdencia do meu Principe o destin&aacute;ra ao seu Z&eacute;
+Fernandes. Pendurei logo dentro, no cabide, o meu guarda-pó
+de
+lustrina. <br />
+
+<br />
+
+Mas na sala immensa, onde tanto philosoph&aacute;ramos considerando
+as estrellas, Jacintho arranj&aacute;ra um centro de repouso e
+d'estudo&#8213;e <span class="pagenum">[231]</span>desenrol&aacute;ra
+essa &laquo;grandeza&raquo; que
+impressionava o Severo. As cadeiras de verga da Madeira, amplas e de
+braços, offereciam o conforto
+de almofadinhas de chita. Sobre a mesa enorme de pau branco,
+carpinteirada
+em Tormes, admirei um candieiro de metal de tres bicos, um tinteiro de
+frade armado de pennas de pato, um vaso de capella transbordando de
+cravos. Entre duas janellas uma commoda antiga, embutida, com ferragens
+lavradas, recebera sobre o seu marmore rosado o devoto peso d'um
+Presepio, onde Reis Magos, pastores de surr&otilde;es vistosos,
+cordeiros d'esguedelhada l&atilde;, se apressavam atravez
+d'alcantis
+para o
+Menino, que na sua lapinha lhes abria os braços, coroado por
+uma
+enorme
+Cor&ocirc;a Real. Uma estante de madeira enchia outro
+pedaço de
+parede, entre
+dois retratos negros com caixilhos negros; sobre uma das suas
+prateleiras repousavam duas espingardas; nas outras esperavam,
+espalhados, como os primeiros Doutores nas bancadas d'um concilio,
+alguns nobres livros, um
+Plutarcho, um Virgilio, a Odyssea, o Manual de Epictecto, as Chronicas
+de Froissart. Depois, em fila decorosa, cadeiras de palhinha, muito
+novas, muito envernisadas. E a um canto um mólho de
+varapaus. <br />
+
+<br />
+
+Tudo resplandecia de asseio e ordem. As <span class="pagenum">[232]</span>portadas
+das janellas,
+cerradas, abrigavam do sol que batia aquelle lado de Tormes, escaldando
+os peitoris de pedra. Do soalho, burrifado de agua, subia, na suavisada
+penumbra, uma frescura. Os cravos rescendiam. Nem dos campos, nem da
+casa, se elevava um rumor. Tormes dormia no esplendor da
+manh&atilde; santa. E, penetrado por aquella consoladora
+quietaç&atilde;o de
+convento rural, terminei por me estender n'uma cadeira de verga, junto
+da mesa, abrir languidamente um tomo de Virgilio, e murmurar,
+appropriando o doce
+verso que encontr&aacute;ra: <br />
+
+<br />
+
+<div class="quote">Fortunate Jacinthe! Hic, inter arva nota<br />
+
+Et fontes sacros, frigus captabis opacum... </div>
+
+<br />
+
+Afortunado Jacintho, na verdade! Agora, entre campos que s&atilde;o
+teus e aguas que te s&atilde;o sagradas, colhes emfim a sombra e a
+paz! <br />
+
+<br />
+
+Li ainda outros versos. E, na fadiga das duas horas de egua e calor
+desde Gui&atilde;es, irreverentemente adormecia sobre o divino
+Bucoliasta&#8213;quando me despertou um berro amigo! Era o meu Principe. E
+muito decididamente, depois de me soltar do seu rijo abraço,
+o comparei a uma planta estiolada, emmurchecida na
+escurid&atilde;o,
+entre
+tapetes e s&ecirc;das, que, levada para vento e sol, profusamente <span class="pagenum">[233]</span>regada,
+reverdece, desabrocha e honra a Natureza! Jacintho j&aacute;
+n&atilde;o
+corcovava. Sobre a sua arrefecida pallidez de super-civilisado, o ar
+montesino, ou vida mais verdadeira, espalh&aacute;ra um rubor
+trigueiro
+e quente de sangue
+renovado que o virilisava soberbamente. Dos olhos, que na Cidade
+andavam sempre
+t&atilde;o crepusculares e desviados do Mundo, saltava agora um
+brilho
+de
+meio-dia, resoluto e largo, contente em se embeber na belleza das
+coisas.
+At&eacute; o bigode se lhe encresp&aacute;ra. E j&aacute;
+n&atilde;o
+deslisava a m&atilde;o desencantada sobre a face,&#8213;mas batia com
+ella
+triumphalmente na c&ocirc;xa. Que sei?
+Era um Jacintho novissimo. E quasi me assustava, por eu ter de aprender
+e penetrar, n'este novo Principe, os modos e as id&eacute;as novas.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Caramba, Jacintho, mas ent&atilde;o...? <br />
+
+<br />
+
+Elle encolheu jovialmente os hombros realargados. E só me
+soube contar, trilhando soberanamente com os sapatos brancos e cobertos
+de
+pó o soalho remendado, que, ao acordar em Tormes, depois de
+se lavar n'uma dorna, e
+d'enfiar a minha roupa branca, se sentira de repente como <em>desannuviado</em>,
+<em>desenvencilhado</em>!
+Almoç&aacute;ra uma pratada de ovos com
+chouriço, sublime. Passe&aacute;ra por toda aquella
+magnificencia da serra com pensamentos ligeiros de liberdade e de paz.
+Mand&aacute;ra <span class="pagenum">[234]</span>ao
+Porto comprar uma cama, uns cabides... E alli estava... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Para todo o ver&atilde;o? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o! Mas um mez... Dois mezes! Emquanto houver
+chouriços, e a agoa da fonte, bebida pela telha ou n'uma
+folha de couve, me souber
+t&atilde;o divinamente! <br />
+
+<br />
+
+Cahi sobre a cadeira de verga, e contemplei, arregalado, quasi
+esgazeado, o meu Principe! Elle enrolava n'uma mortalha tabaco picado,
+tabaco grosso, guardado n'uma malga vidrada. E exclamava: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ando ahi pelas terras desde o romper d'alva! Pesquei j&aacute;
+hoje quatro trutas, magnificas... L&aacute; em baixo, no Naves, um
+riachote que
+se atira pelo valle da Seranda... Temos logo ao jantar essas trutas! <br />
+
+<br />
+
+Mas eu, avido pela historia d'aquella
+ressurreiç&atilde;o: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o, n&atilde;o estiveste em Lisboa?... Eu
+telegraphei... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Qual telegrapho! Qual Lisboa! Estive l&aacute; em cima, ao
+p&eacute; da fonte da Lira, &aacute; sombra d'uma grande
+arvore, <em>sub
+tegmine</em> n&atilde;o sei qu&ecirc;, a
+l&ecirc;r esse ador&aacute;vel Virgilio... E tambem a arranjar
+o meu palacio!
+Que te parece, Z&eacute; Fernandes? Em tres semanas, tudo soalhado,
+envidraçado, caiado, encadeirado!... Trabalhou <span class="pagenum">[235]</span>a freguezia inteira!
+At&eacute;
+eu pintei, com uma immensa brocha. Viste o comedoiro? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o vem admirar a belleza na simplicidade, barbaro! <br />
+
+<br />
+
+Era a mesma onde nós tanto exaltaramos o arroz com
+favas&#8213;mas muito esfregada, muito caiada, com um rodap&eacute;
+bezuntado d'azul
+estridente onde logo adivinhei a obra do meu Principe. Uma toalha de
+linho de
+Guimar&atilde;es cobria a mesa, com as franjas roçando o
+soalho. No fundo dos
+pratos de louça forte reluzia um gallo amarello. Era o mesmo
+gallo e a
+mesma louça em que na nossa casa, em Gui&atilde;es, se
+servem os
+feij&otilde;es dos cavadores... <br />
+
+<br />
+
+Mas no p&aacute;teo os c&atilde;es latiram. E Jacintho correu
+&aacute; varanda, com uma ligeireza curiosa que me deleitou. Ah,
+bem
+definitivamente se esfrangalh&aacute;ra aquella rede de malha que
+se
+n&atilde;o
+percebia e que outr'ora o travava!&#8213;N'esse momento appareceu o Grillo,
+de quinzena de linho, segurando em cada m&atilde;o uma garrafa de
+vinho
+branco. Todo se
+alegrou &laquo;em v&ecirc;r na quinta o si&ocirc;
+Fernandes&raquo;. Mas
+a sua
+veneranda face j&aacute; n&atilde;o resplandecia, como em
+Paris, com um
+t&atilde;o sereno e ditoso
+brilho de ebano. At&eacute; me pareceu que corcovava... Quando o
+interroguei sobre
+aquella mudança, estendeu duvidosamente o beiço
+grosso: <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[236]</span>
+&#8213;O menino gosta, eu ent&atilde;o tambem gósto... Que o
+ar aqui &eacute; muito bom, si&ocirc; Fernandes, o ar
+&eacute; muito bom! <br />
+
+<br />
+
+Depois, mais baixo, envolvendo n'um gesto desolado a louça
+de Barcellos, as facas de cabo d'osso, as prateleiras de pinho como
+n'um refeitorio
+de Franciscanos: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas muita magreza, si&ocirc; Fernandes, muita magreza! <br />
+
+<br />
+
+Jacintho voltava com um maço de jornaes cintados: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Era o carteiro. J&aacute; v&ecirc;s que n&atilde;o amuei
+inteiramente com a Civilisaç&atilde;o. Eis a
+Imprensa!... Mas nada de
+<em>Figaro</em>, ou da horrenda
+<em>Dois-Mundos</em>! Jornaes de Agricultura! Para aprender
+como se
+produzem as risonhas messes, e sob que signo se casa a vinha ao olmo, e
+que cuidados necessita a abelha provida... <em>Quid faciat
+laetas
+segetes</em>... De resto para esta nobre
+educaç&atilde;o, j&aacute; me
+bastavam as <em>Georgicas</em>, que tu
+ignoras! <br />
+
+<br />
+
+Eu ri: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Alto l&aacute;! <em>Nos quoque gens sumus et
+nostrum Virgilium sabemus</em>! <br />
+
+<br />
+
+Mas o meu novissimo amigo, debruçado da janella, batia as
+palmas&#8213;como Cat&atilde;o para chamar os servos, na Roma simples. E
+gritava: <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[237]</span>
+&#8213;Anna Vaqueira! Um copo d'agoa, bem lavado, da fonte velha! <br />
+
+<br />
+
+Pulei, immensamente divertido: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Oh Jacintho! E as aguas carbonatadas? e as phosphatadas? e as
+esterilisadas? e as sodicas?... <br />
+
+<br />
+
+O meu Principe atirou os hombros com um desdem soberbo. E acclamou a
+appariç&atilde;o d'um grande copo, todo embaciado pela
+frescura nevada da agoa refulgente, que uma bella moça
+trazia
+n'um prato. Eu admirei
+sobretudo a moça... Que olhos, d'um negro t&atilde;o
+liquido e
+serio! No andar, no quebrar da cinta, que harmonia e que
+graça
+de Nympha latina! <br />
+
+<br />
+
+E apenas pela porta desapparecera a explendida
+appariç&atilde;o: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Oh Jacintho, eu d'aqui a um instante tambem quero agua! E se compete
+a esta rapariga trazer as cousas, eu, de cinco em cinco minutos, quero
+uma cousa!... Que olhos, que corpo... Caramba, menino! Eis a poesia,
+toda viva, da serra... <br />
+
+<br />
+
+O meu Principe sorria, com sinceridade: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o! n&atilde;o nos illudamos, Z&eacute;
+Fernandes, nem façamos Arcadia. &Eacute; uma bella
+moça, mas uma bruta... N&atilde;o ha alli mais poesia,
+nem mais sensibilidade, nem mesmo mais belleza do que n'uma linda vacca
+tourina. Merece o <span class="pagenum">[238]</span>seu
+nome de Anna Vaqueira. Trabalha bem, digere bem, concebe bem. Para isso
+a fez a Natureza, assim s&atilde; e rija; e ella cumpre. O marido
+todavia n&atilde;o parece contente, porque a desanca. Tambem
+&eacute;
+um bello
+bruto... N&atilde;o, meu filho, a serra &eacute; maravilhosa e
+muito
+grato lhe estou... Mas
+temos aqui a f&ecirc;mea em toda a sua animalidade e o macho em
+todo o
+seu
+egoismo... S&atilde;o por&eacute;m verdadeiros, genuinamente
+verdadeiros! E esta verdade,
+Z&eacute; Fernandes, &eacute; para mim um repouso. <br />
+
+<br />
+
+Lentamente, gozando a frescura, o silencio, a liberdade do vasto
+casar&atilde;o, retrocedemos &aacute; sala que Jacintho
+j&aacute; denomin&aacute;ra a
+<em>Livraria</em>. E, de repente, ao avistar n'um canto uma
+caixa com a tampa meio
+despregada, quasi me engasguei, na furiosa curiosidade que me assaltou:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E os caixotes? Oh Jacintho?... Toda aquella immensa caixotaria que
+nós mandamos, abarrotada de
+Civilisaç&atilde;o? Soubeste?
+Appareceram? <br />
+
+<br />
+
+O meu Principe parou, bateu alegremente na c&ocirc;xa: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sublime! Tu ainda te lembras d'aquelle homemsinho, de sacco a
+tiracollo, que nós admiramos tanto pela sua sagacidade, o
+seu saber geographico?... Lembras? Apenas fallei em Tormes, gritou que
+conhecia, rabiscou <span class="pagenum">[239]</span>uma
+nota... Nem era necessario mais! &laquo;Oh! Tormes, perfeitamente,
+muito antigo, muito curioso!&raquo; Pois mandou tudo
+para Alba-de-Tormes, em Hespanha! Est&aacute; tudo em Hespanha! <br />
+
+<br />
+
+Cocei o queixo, desconsolado: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora, ora... Um homem t&atilde;o esperto, t&atilde;o expedito,
+que fazia tanta honra ao Progresso! Tudo para Hespanha!... E mandaste
+vir? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o! Talvez mais tarde... Agora, Z&eacute; Fernandes,
+estou saboreando esta delicia de me erguer pela manh&atilde;, e de
+ter só uma
+escova para alisar o cabello. <br />
+
+<br />
+
+Considerei, cheio de recordaç&otilde;es, o meu amigo: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tinhas umas nove... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Nove? Tinha vinte! Talvez trinta! E era uma
+atrapalhaç&atilde;o, n&atilde;o me bastavam!...
+Nunca em Paris
+andei bem penteado. Assim com os meus setenta mil volumes: eram tantos
+que nunca li nenhum. Assim com as minhas
+occupaç&otilde;es:
+tanto me sobrecarregavam, que
+nunca fui util! <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="break">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+De tarde, depois da calma, fomos vaguear pelos caminhos colleantes
+d'aquella quinta rica, que, atrav&eacute;s de duas legoas, ondula
+por valle e monte. N&atilde;o m'encontr&aacute;ra mais com
+Jacintho em
+meio
+da Natureza, desde o <span class="pagenum">[240]</span>remoto
+dia
+d'entremez em que elle tanto soffrera no sociavel e
+policiado bosque de Montmorency. Ah, mas agora, com que
+segurança e
+idyllico amor elle se movia atrav&eacute;s d'essa Natureza, d'onde
+and&aacute;ra tantos annos desviado por theoria e por habito!
+J&aacute;
+n&atilde;o
+arreceiava a humidade mortal das relvas; nem repellia como impertinente
+o roçar das
+ramagens; nem o silencio dos altos o inquietava como um despovoamento
+do Universo. Era com delicias, com um consolado sentimento de
+estabilidade recuperada, que enterrava os grossos sapatos nas terras
+molles, como no seu
+elemento natural e paterno: sem raz&atilde;o, deixava os trilhos
+faceis,
+para se embrenhar atrav&eacute;s de arbustos emaranhados, e receber
+na
+face
+a caricia das folhas tenras; sobre os outeiros, parava, immovel,
+retendo os meus gestos e quasi o meu halito, para se embeber de
+silencio e de paz: e duas vezes o surprehendi attento e sorrindo
+&aacute; beira d'um
+regatinho palreiro, como se lhe escutasse a confidencia... <br />
+
+<br />
+
+Depois philosophava, sem descontinuar, com o enthusiasmo d'um
+convertido, avido de converter: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Como a intelligencia aqui se liberta, hein? E como tudo &eacute;
+animado d'uma vida <span class="pagenum">[241]</span>forte
+e profunda!... Dizes tu agora, Z&eacute;
+Fernandes, que n&atilde;o ha aqui pensamento... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu?! Eu n&atilde;o digo nada, Jacintho... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois &eacute; uma maneira de reflectir muito estreita e muito
+grosseira... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora essa! Mas eu... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o, n&atilde;o percebes. A vida n&atilde;o se
+limita a pensar, meu caro doutor... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que n&atilde;o sou! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;A vida &eacute; essencialmente Vontade e Movimento: e n'aquelle
+pedaço de terra, plantado de milho, vae todo um mundo de
+impulsos, de
+forças que se revelam, e que attingem a sua
+express&atilde;o suprema, que
+&eacute; a Fórma. N&atilde;o, essa tua philosophia
+est&aacute; ainda extremamente grosseira... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Irra! mas eu n&atilde;o... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E depois, menino, que inesgotavel, que miraculosa diversidade de
+fórmas... E todas bellas! <br />
+
+<br />
+
+Agarrava o meu pobre braço, exigia que eu reparasse com
+reverencia. Na Natureza nunca eu descobriria um contorno feio ou
+repetido! Nunca duas folhas d'hera, que, na verdura ou recorte, se
+assemelhassem! Na Cidade, pelo contrario, cada casa repete servilmente
+a outra casa; todas as faces reproduzem a mesma indifferença
+ou
+a mesma
+inquietaç&atilde;o; as id&eacute;as teem todas o
+mesmo valor, <span class="pagenum">[242]</span>o
+mesmo cunho, a mesma fórma, como
+as libras; e at&eacute; o que ha mais pessoal e intimo, a
+Illus&atilde;o,
+&eacute; em todos identica, e todos a respiram, e todos se perdem
+n'ella como no mesmo nevoeiro... A <em>mesmice</em>&#8213;eis o
+horror das Cidades! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas aqui! Olha para aquelle castanheiro. Ha tres semanas que cada
+manh&atilde; o vejo, e sempre me parece outro... A sombra, o sol, o
+vento, as nuvens, a chuva, incessantemente lhe comp&otilde;em uma
+express&atilde;o diversa e nova, sempre interessante. Nunca a sua
+frequentaç&atilde;o me poderia fartar... <br />
+
+<br />
+
+Eu murmurei: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; pena que n&atilde;o converse! <br />
+
+<br />
+
+O meu Principe recuou, com olhares chammejantes, d'Apostolo: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Como que n&atilde;o converse? Mas &eacute; justamente um
+conversador sublime! Est&aacute; claro, n&atilde;o tem ditos,
+nem parola theorias,
+<em>ore rotundo</em>. Mas nunca eu passo junto d'elle que
+n&atilde;o me
+suggira um pensamento ou me
+n&atilde;o desvende uma verdade... Ainda hoje quando eu voltava de
+pescar as trutas... Parei: e logo elle me fez sentir como toda a sua
+vida de vegetal
+&eacute; isenta de trabalho, da anciedade, do esforço
+que a vida
+humana imp&otilde;e; n&atilde;o tem de se preoccupar com o
+sustento,
+nem com o vestido,
+nem com o abrigo; filho querido <span class="pagenum">[243]</span>de
+Deus, Deus o nutre, sem que elle se mova ou se inquiete... E
+&eacute;
+esta segurança que lhe d&aacute; tanta graça
+e tanta
+magestade. Pois n&atilde;o achas? <br />
+
+<br />
+
+Eu sorria, concordava. Tudo isto era de certo rebuscado e especioso.
+Mas que importavam as requintadas metaphoras, e essa metaphysica mal
+madura, colhida &aacute; pressa nos ramos d'um castanheiro? Sob
+toda
+aquella ideologia transparecia uma excellente realidade&#8213;a
+reconciliaç&atilde;o do meu Principe com a Vida. Segura
+estava a sua Resurreiç&atilde;o
+depois de tantos annos de cova, da cova molle em que jazera, enfaixado
+como uma mumia nas faixas do Pessimismo! <br />
+
+<br />
+
+E o que esse Principe, n'esta tarde me esfalfou! Farejava, com uma
+curiosidade insaciavel, todos os recantos da serra! Galgava os
+cabeços correndo, como na esperança de descobrir
+l&aacute; do
+alto os esplendores nunca contemplados d'um Mundo inedito. E o seu
+tormento era n&atilde;o
+conhecer os nomes das arvores, da mais rasteira planta brotando das
+fendas d'um socalco... Constantemente me folheava como a um Diccionario
+Botanico. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Fiz toda a sorte de cursos, passei pelos professores mais illustres
+da Europa, tenho trinta mil volumes, e n&atilde;o sei se aquelle
+senhor al&eacute;m &eacute; um amieiro ou um sobreiro... <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[244]</span>
+&#8213;&Eacute; um azinheiro, Jacintho. <br />
+
+<br />
+
+J&aacute; a tarde cahia quando recolhemos muito lentamente. E toda
+essa adoravel paz do c&eacute;o, realmente celestial, e dos campos,
+onde
+cada folhinha conservava uma quietaç&atilde;o
+contemplativa,
+na luz docemente desmaiada, pousando sobre as cousas com um liso e leve
+affago,
+penetrava t&atilde;o profundamente Jacintho, que eu o senti, no
+silencio em
+que cahiramos, suspirar de puro allivio. <br />
+
+<br />
+
+Depois, muito gravemente: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tu dizes que na natureza n&atilde;o ha pensamento... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Outra vez! Olha que massada! Eu... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas &eacute; por estar n'ella supprimido o pensamento que lhe
+est&aacute; poupado o soffrimento! Nós,
+desgraçados,
+n&atilde;o
+podemos supprimir o pensamento, mas certamente o podemos disciplinar e
+impedir que elle se estonteie e se esfalfe, como na fornalha das
+cidades, ideando gozos que nunca se realisam, aspirando a certezas que
+nunca se attingem!... E &eacute;
+o que aconselham estas collinas e estas arvores &aacute; nossa
+alma,
+que
+vela e se agita:&#8213;que viva na paz d'um sonho vago e nada
+appeteça,
+nada tema, contra nada se insurja, e deixe o Mundo rolar,
+n&atilde;o
+esperando
+d'elle sen&atilde;o um rumor de harmonia, que a emballe e lhe
+favoreça o <span class="pagenum">[245]</span>dormir
+dentro da m&atilde;o de Deus. Hein, n&atilde;o te parece,
+Z&eacute; Fernandes? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Talvez. Mas &eacute; necessario ent&atilde;o viver n'um
+mosteiro, com o temperamento de S. Bruno, ou ter cento e quarenta
+contos de renda e o desplante de certos Jacinthos... E tambem me parece
+que andamos leguas. Estou derreado. E que fome! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tanto melhor, para as trutas, e para o cabrito assado que nos
+espera... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Bravo! Quem te cosinha? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Uma afilhada do Melchior. Mulher sublime! Has de ver a canja! Has de
+ver a cabidella! Ella &eacute; horrenda, quasi an&atilde;, com
+os olhos tortos, um verde e outro preto. Mas que paladar! Que genio! <br />
+
+<br />
+
+Com effeito! Horacio dedicaria uma ode &aacute;quelle cabrito
+assado n'um espeto de cerejeira. E com as trutas, e o vinho Melchior, e
+a
+cabidella, em que a sublime an&atilde; de olhos tortos puzera
+inspiraç&otilde;es que n&atilde;o s&atilde;o da
+terra, e aquella doçura da noite de Junho, que pelas
+janellas abertas nos envolveu no seu velludo negro, t&atilde;o
+molle e
+t&atilde;o consolado fiquei, que, na sala onde nos esperava o
+caf&eacute;, cahi n'uma cadeira de
+verga, na mais larga, e de melhores almofadas, e atirei um berro de
+pura delicia.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[246]</span>
+Depois, com uma recordaç&atilde;o, limpando o
+caf&eacute; do pello dos bigodes: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Oacute; Jacintho, e quando nós andavamos por Paris
+com o Pessimismo &aacute;s costas, a gemer que tudo era
+illus&atilde;o e d&ocirc;r? <br />
+
+<br />
+
+O meu Principe, que o cabrito torn&aacute;ra ainda mais alegre,
+trilhava a grandes passadas o soalho, enrolando o cigarro: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Oh! que engenhosa besta, esse Schopenhauer! E maior besta eu, que o
+sorvia, e que me desolava com sinceridade! E todavia,&#8213;continuava elle,
+remexendo a chavena&#8213;o Pessimismo &eacute; uma theoria bem
+consoladora para os que soffrem, porque desindividualisa o soffrimento,
+alarga-o
+at&eacute; o tornar uma lei universal, a lei propria da Vida;
+portanto
+lhe tira o caracter pungente d'uma injustiça especial,
+commettida
+contra o soffredor por um Destino inimigo e faccioso! Realmente o nosso
+mal sobretudo nos amarga quando contemplamos ou imaginamos o bem do
+nosso visinho:&#8213;porque nos sentimos escolhidos e destacados para a
+infelicidade, podendo, como elle, ter nascido para a Fortuna. Quem se
+queixaria de ser c&ocirc;xo&#8213;se toda a humanidade coxeasse? E quaes
+n&atilde;o seriam os urros, e a furiosa revolta do homem envolto na
+neve e friagem e borrasca d'um inverno especial, organisado <span class="pagenum">[247]</span>nos
+ceus para o envolver a elle unicamente&#8213;em quanto em redor, toda a
+Humanidade se movesse na luminosa benignidade d'uma Primavera? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Com effeito, murmurei eu, esse sujeito teria immensa raz&atilde;o
+para urrar... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E depois, clamava ainda o meu amigo, o Pessimismo &eacute;
+excellente
+para os Inertes, por que lhes attenua o desgracioso delicto da Inercia.
+Se toda a meta &eacute; um monte de Dor, onde a alma vae esbarrar,
+para
+que marchar para a meta, atravez dos embaraços do mundo? E
+de
+resto todos os Lyricos e Theoricos do Pessimismo, desde
+Salom&atilde;o
+at&eacute; o maligno Schopenhauer, lançam o seu cantico
+ou a sua
+doutrina para
+disfarçar a humilhaç&atilde;o das suas
+miserias,
+subordinando-as todas a uma vasta lei de Vida, uma lei Cosmica, e
+ornando assim com a aureola de uma origem quasi divina as suas miudas
+desgraçazinhas de temperamento ou de Sorte. O
+bom Schopenhauer form&uacute;la todo o seu schopenhauerismo, quando
+&eacute; um philosopho sem editor, e um professor sem discipulos; e
+soffre horrendamente de terrores e manias; e esconde o seu dinheiro
+debaixo do sobrado; e
+redige as suas contas em grego nos perpetuos lamentos da
+desconfiança; e vive nas adegas com o medo de incendios; e
+viaja
+com um copo de lata na algibeira para <span class="pagenum">[248]</span>n&atilde;o
+beber em vidro que beiços de
+leproso tivessem contaminado!... Ent&atilde;o Schopenhauer
+&eacute;
+sombriamente
+Schopenhauerista. Mas apenas penetra na celebridade, e os seus
+miseraveis nervos se acalmam,
+e o cerca uma paz amavel, n&atilde;o ha ent&atilde;o, em todo
+Francfort, burguez mais optimista, de face mais jocunda, e gozando mais
+regradamente os bens da
+intelligencia e da Vida!... E o outro, o Israelita, o muito pedantesco
+rei de Jerusalem! quando descobre esse sublime Rhetorico que o mundo
+&eacute; Illus&atilde;o e Vaidade? Aos setenta e cinco annos,
+quando o
+Poder
+lhe escapa das m&atilde;os tremulas, e o seu serralho de trezentas
+concubinas
+se lhe torna ridiculamente superfluo. Ent&atilde;o rompem os
+pomposos
+queixumes!
+Tudo &eacute; vaidade e afflicç&atilde;o de
+espirito! nada
+existe
+estavel sob o sol! Com effeito, meu bom Salom&atilde;o, tudo
+passa&#8213;principalmente o poder
+de usar trezentas concubinas! Mas que se restitua a esse velho
+sult&atilde;o asiatico, besuntado de Litteratura, a sua
+virilidade,&#8213;e
+onde se
+sumir&aacute; o lamento do Ecclesiastes? Ent&atilde;o
+voltar&aacute;,
+em segunda e
+triumphal ediç&atilde;o, o extase do <em>Livro
+dos Cantares</em>!... <br />
+
+<br />
+
+Assim discursava o meu amigo no nocturno silencio de Tormes. Creio que
+ainda estabeleceu sobre o Pessimismo outras coisas joviaes, profundas
+ou elegantes;&#8213;mas eu <span class="pagenum">[249]</span>adormecera,
+beatificamente envolto em Optimismo e doçura. <br />
+
+<br />
+
+Em breve por&eacute;m, me fez pular, escancarar as palpebras
+molles, uma rija, larga, sadia e genuina risada. Era Jacintho, estirado
+n'uma cadeira,
+que lia o D. Quixote... Oh bem aventurado Principe!
+Conserv&aacute;ra
+elle o agudo poder de arrancar theorias a uma espiga de milho ainda
+verde, e por uma
+clemencia de Deus, que fizera reflorir o tronco secco,
+recuper&aacute;ra o dom divino de rir, com as facecias de Sancho! <br />
+
+<br />
+
+Aproveitando a minha companhia, as duas semanas de bucolica occiosidade
+que eu lhe concedera, o meu Jacintho preparou ent&atilde;o a
+ceremonia t&atilde;o falada, t&atilde;o meditada, a
+trasladaç&atilde;o
+dos ossos dos velhos Jacinthos&#8213;dos &laquo;respeitaveis
+ossos&raquo; como murmurava,
+cumprimentando, o bom Silverio, o procurador, n'essa manh&atilde;
+de sexta feira, em que
+almoçava comnosco, mettido n'um espantoso
+jaquet&atilde;o de velludilho amarello
+debruado de seda azul! A ceremonia, de resto, reclamava muita singeleza
+por serem
+t&atilde;o incertos, quasi impessoaes, aquelles restos, que
+nós
+estabeleceriamos na Capellinha do valle da Carriça, na
+Capellinha toda nova,
+toda nua e toda fria, ainda sem alma e sem calor de Deus. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Por que emfim v. ex.<sup>a</sup> comprehende,&#8213;explicava <span class="pagenum">[250]</span>o
+Silverio passando o guardanapo por sobre a larga face suada e por sobre
+as immensas barbas negras, como as d'um turco&#8213;, n'aquella mixordia...
+Oh! peço
+desculpa a v. ex.<sup>a</sup>! N'aquella confus&atilde;o, quando tudo
+desabou,
+n&atilde;o pud&eacute;mos mais conhecer a quem pertenciam os
+ossos. Nem
+sequer, fallando verdade,
+nós sabiamos bem que dignos avós de v.
+ex.<sup>a</sup> jaziam
+na capella
+velha, assim t&atilde;o antigos, com os letreiros apagados,
+senhores de
+todo o
+nosso respeito, certamente, mas, se v. ex.<sup>a</sup> me permitte,
+senhores
+j&aacute; muito desfeitos... Depois veio o desastre, a mixordia. E
+aqui
+est&aacute;
+o que decidi, depois de pensar. Mandei arranjar tantos
+caix&otilde;es
+de
+chumbo, quantas as caveiras que se apanharam l&aacute; em baixo na
+Carriça, entre o lixo e o pedregulho. Havia sete caveiras e
+meia. Quero dizer, sete caveiras e uma caveirinha pequenina. Mettemos
+cada caveira em seu caix&atilde;o. Depois... Que quer v.
+ex.<sup>a</sup>?
+N&atilde;o havia
+outro meio! E aqui o Snr. Fernandes dir&aacute; se n&atilde;o
+acha que
+procedemos com
+habilidade. A cada caveira juntamos uma certa
+porç&atilde;o
+d'ossos, uma
+porç&atilde;o rasoavel... N&atilde;o havia outro
+meio... Nem
+todos os ossos se acharam. Canellas, por exemplo, faltavam! E
+&eacute;
+bem possivel que as costellas d'um d'aquelles
+senhores ficasse com a cabeça d'outro... Mas quem podia
+saber?
+Só Deus. Emfim <span class="pagenum">[251]</span>fizemos
+o que a prud&ecirc;ncia mandava... Depois, no dia de Juizo,
+cada um d'estes fidalgos apresentar&aacute; os ossos que lhe
+pertencerem. <br />
+
+<br />
+
+Lançava estas cousas macabras e tremendas, penetrado de
+respeito, quasi com magestade, espetando, ora em mim, ora no meu
+Principe, os olhinhos agudos e relusentes como vidrilhos. <br />
+
+<br />
+
+Eu approvei o pittoresco homem: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Perfeitamente! Andou perfeitamente, amigo Silverio. S&atilde;o
+t&atilde;o vagos, t&atilde;o anonymos, todos esses
+avós! Só faz pena, grande
+pena, que se tresmalhassem os restos do av&ocirc;
+Gali&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o estava c&aacute;! accudiu Jacintho. Vim a Tormes
+expressamente por causa do av&ocirc; Gali&atilde;o, e por fim o
+seu jazigo nunca foi
+aqui, na Capellinha da Carriça... Felizmente! <br />
+
+<br />
+
+O Silverio saccudia gravemente a calva trigueira: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Nunca tivemos o ex.<sup>mo</sup> sr. Gali&atilde;o.
+Ha cem annos, Snr.
+Fernandes, ha cem annos que se n&atilde;o depositava na capella
+velha corpo de
+cavalheiro c&aacute; da casa. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Onde estar&aacute; ent&atilde;o?... <br />
+
+<br />
+
+O meu Principe encolheu os hombros. Por esse Reino... Na egrejinha, no
+cemiterio d'alguma das freguezias numerosas, onde elle possuia terras.
+Casa t&atilde;o espalhada! <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[252]</span>
+&#8213;Bem! conclui. Ent&atilde;o, como se trata d'ossadas vagas, sem
+nome, sem data, convem uma ceremoniasinha muito simples, muito sobria. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quietinha, quietinha! murmurou o Silverio, dando um forte sorvo
+assobiado ao caf&eacute;. <br />
+
+<br />
+
+E foi quietinha, d'uma rustica e doce singeleza, a ceremonia d'aquelles
+altos senhores. Cedo, por uma manh&atilde;, levemente enevoada, os
+oito caix&otilde;es pequeninos, cobertos d'um velludo vermelho mais
+de
+festa que de
+funeral, com molhos de rosas espalhados, contendo cada um o seu
+montesinho d'ossos incertos, sahiram aos hombros dos coveiros de Tormes
+e dos
+moços da quinta, da Egreja de S. Jos&eacute;, cujo sino
+leve
+tangia, na
+enevoada doçura da manh&atilde;,&#8213;quanto fina e
+levemente!&#8213;como
+pia um passarinho triste. Adiante, um airoso moço de
+sobrepelis,
+erguia com
+zelo a velha cruz prateada; abrigando o pescoço sob um
+immenso
+lenço de rap&eacute;, de quadrados azues, o velho e
+corcovado
+sacrist&atilde;o segurava
+pensativamente a caldeirinha d'agoa benta; e o bom abbade de S.
+Jos&eacute;, com os
+dedos entre o breviario fechado, movia os labios, n'uma lenta,
+murmurosa resa, que ia, pelo doce ar, espalhando mais
+doçura.
+Logo atraz do
+ultimo cofre, o mais pequenino, o da caveirinha pequena, Jacintho
+caminhava; e eu, <span class="pagenum">[253]</span>a
+estalar dentro d'um fato preto de Jacintho, tirado &aacute; pressa
+d'uma das malas de Paris quando, de manh&atilde;, j&aacute;
+tarde para
+mandar a Gui&atilde;es, me lembrei que toda a minha roupa era de
+cores
+festivaes e pastoris. <br />
+
+<br />
+
+Depois marchava o Silverio, solemnissimo, com um immenso peitilho, onde
+as barbas immensas se alastravam, negrissimas. De casaca, com o grosso
+beiço descahido, descahido todo elle por aquella melancolia
+de enterro que se juntava &aacute; melancolia da serra, o Grillo
+enfiava no
+braço a sua coroa, enorme, de rosas e d'heras. Por fim
+seguia o
+Melchior, entre um rancho de mulheres, que, sumidas na sombra dos
+lenços
+pretos, desfiando longos rosarios, rosnavam surdas
+av&egrave;-marias,
+atravez
+d'espaçados suspiros, t&atilde;o doridos como se
+inconsoladamente lhes doesse a
+perda d'aquelles Jacinthos. Assim, pelas varzeas entrecorridas de
+regueiros, lenta nos recostos dos mattos, escorregando mais rapida,
+pelos corregos
+pedregosos, seguia a prociss&atilde;o, sempre com a cruz adiante,
+alta e prateada, rebrilhando por vezes n'um breve raiosinho de sol que,
+vagarosamente, surdia da nevoa desfeita. Ramos baixos de
+lod&atilde;o ou de salgueiro passavam uma derradeira caricia sobre
+o
+velludo dos
+caix&otilde;es. <br />
+
+<br />
+
+Um regato por vezes nos acompanhava, <span class="pagenum">[254]</span>com
+discreto fulgir entre as relvas, sussurrando e como resando tambem,
+alegremente: e nos quintalinhos umbrosos, &aacute; nossa passagem,
+os
+gallos, de cima das pilhas de matto, faziam soar o seu clarim festivo.
+Depois, adiante da fonte da Lira, como o caminho se alongava, e
+desejassemos poupar o nosso velho abbade, cortamos atravez d'uma seara,
+j&aacute; alta, quasi madura, toda entremeada de papoulas, O sol
+radiou: sob a brisa larga, que
+lev&aacute;ra a nevoa, toda a messe ondulou n'uma lenta vaga
+dourada,
+em que se balouçavam os esquifes; e, como enorme papoula, a
+mais
+vermelha, rutilava o guarda sol de panninho logo aberto pelo
+sacrist&atilde;o
+para abrigar o abbade. <br />
+
+<br />
+
+Jacintho tocou no meu cotovello: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que lindos vamos! Ora v&ecirc; tu a Natureza... N'um simples
+enterrar d'ossos, quanta graça e quanta belleza! <br />
+
+<br />
+
+Na Capellinha, nova, dominando o valle da Carriça, solitaria
+e muito nua, no meio d'um adro, ainda mal alisado, sem uma verdura de
+relva,
+uma frescura d'arbusto, dous moços seguravam &aacute;
+porta
+molhos de tochas, que o Silverio distribuiu, a passos graves, com
+cortezias, solemnissimo. Dentro as curtas chammas, mal luziam, mal
+derramavam a sua
+amarellid&atilde;o triste, esbatidas na relusente brancura <span class="pagenum">[255]</span>dos
+muros estucados, na jovial claridade que cahia das altas
+vidraças bem polidas. Em torno
+dos esquifes, pousados sobre bancos, que pesados velludilhos recobriam,
+o abbade murmurava um suave latim, emquanto ao fundo as mulheres,
+sumidas
+na sombra dos seus negros lenços, gemiam
+<em>amens</em> agudos, abafavam um respeitoso
+soluço. Depois,
+tomando levemente o hyssope,
+ainda o bom abbade aspergiu, para uma derradeira
+purificaç&atilde;o,
+os incertos ossos dos incertos Jacinthos. E todos desfilamos por diante
+do meu Principe, timidamente encostado &aacute; umbreira, com o
+Silverio ao lado
+esmagando contra o peitilho as barbas immensas, a face descahida,
+cerradas as palpebras como contendo lagrimas. <br />
+
+<br />
+
+No adro, o meu Principe accendeu regaladamente um cigarro pedido ao
+Melchior: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E ent&atilde;o, Z&eacute; Fernandes, que te pareceu a
+ceremoniasinha? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Muito campestre, muito suave, muito risonha... Uma delicia. <br />
+
+<br />
+
+Mas o Abbade, que se desvestira na Sachristia, appareceu, j&aacute;
+com o seu grande casaco de lustrina, e seu velho chapeu desabado,
+trazidos pelo moço da Residencia, n'um sacco de chita.
+Jacintho,
+immediatamente lhe agradeceu tantos cuidados, a affavel hospitalidade <span class="pagenum">[256]</span>que offerecera aos ossos,
+durante a construcç&atilde;o da Capellinha nova.
+E o suave velho, todo branquinho, de faces ainda menineiras e coradas,
+com um claro sorriso
+de dentes sadios, louvava Jacintho, que assim viera de t&atilde;o
+longe, em t&atilde;o longa jornada, para cumprir aquelle dever de
+bom neto. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;S&atilde;o avós muito remotos, e agora t&atilde;o
+confusos! murmurava Jacintho sorrindo. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois mais merito ainda o de v. ex.<sup>a</sup>. Respeitar um
+av&ocirc;
+morto, bem &eacute; corrente... Mas respeitar os ossos d'um quinto
+av&ocirc;, d'um
+setimo av&ocirc;! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sobretudo, Snr. Abbade, quando d'elles nada se sabe, e naturalmente
+nada fizeram. <br />
+
+<br />
+
+O velho sacudiu risonhamente o dedo gordo: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora quem sabe, quem sabe! Talvez fossem excellentes! E por fim, quem
+muito se demora no mundo, como eu, termina por se convencer que no
+mundo n&atilde;o ha cousa ou ser inutil. Ainda hontem eu lia n'um
+jornal
+do Porto, que por fim, segundo se descobriu, s&atilde;o as minhocas
+que
+estrumam e lavram a terra, antes de chegar o lavrador e os bois com o
+arado.
+At&eacute; as minhocas s&atilde;o uteis. N&atilde;o ha nada
+inutil...
+Eu
+tinha l&aacute; na residencia uma porç&atilde;o de
+cardos a um
+canto da horta, que me
+affligiam. Pois reflecti e terminei por me regalar com elles em xarope.
+Os avós de <span class="pagenum">[257]</span>v.
+ex.<sup>a</sup> por c&aacute; andaram, por c&aacute; trabalharam,
+por
+c&aacute; padeceram.
+Quer dizer: por c&aacute; serviram. E, em todo o caso, que lhes
+rezemos
+um Padre-Nosso por alma n&atilde;o lhes póde fazer
+sen&atilde;o
+bem, a elles
+e a nós. <br />
+
+<br />
+
+E assim, docemente philosophando, paramos n'um souto de carvalheiras,
+onde esperava a velhissima egoa do Abbade, por que o santo homem agora,
+depois do rheumatismo do ultimo inverno, j&aacute; n&atilde;o
+affrontava rijamente como antes os trilhos duros da serra. Para elle
+montar, filialmente Jacintho segurou o estribo. E emquanto a egoa se
+empurrava pelo corrego
+acima, quasi tapada sob o immenso guarda sol vermelho em que se
+abrigava o velho, nós recolhemos a casa mettendo pela serra
+da
+Lombinha, atravez dos milhos, e depressa, porque eu estalava,
+aperreado, dentro da roupa preta do meu Principe. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Est&atilde;o pois accommodados estes senhores, Z&eacute;
+Fernandes! Só resta rezar por elles o Padre-Nosso, que
+recommenda o abbade... Sómente,
+eu n&atilde;o sei, j&aacute; n&atilde;o me lembro do
+Padre-Nosso. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o te afflijas, Jacintho: peço &aacute;
+tia Vicencia que reze por mim e por ti. &Eacute; sempre a tia
+Vicencia que reza os meus Padre-Nossos. <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[258]</span>Durante essas
+semanas que preguicei
+em Tormes, eu assisti, com internecido interesse, a uma consideravel
+evoluç&atilde;o de Jacintho nas suas
+relaç&otilde;es com
+a Natureza. D'aquelle periodo
+sentimental de contemplaç&atilde;o, em que colhia
+theorias nos
+ramos de qualquer cerejeira, e edificava Systemas sobre o espumar das
+levadas, o meu Principe lentamente passava
+para o desejo da Acç&atilde;o... E d'uma
+acç&atilde;o directa e material, em que a sua
+m&atilde;o, emfim
+restituida a uma funcç&atilde;o
+superior, revolvesse o torr&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Depois de tanto <em>commentar</em>, o meu
+Principe, evidentemente, aspirava a <em>crear</em>. <br />
+
+<br />
+
+Uma tardinha, ao anoitecer, sentados no pomar, no rebordo do tanque, em
+quanto o Manoel hortel&atilde;o apanhava laranjas no alto d'uma
+escada arrimada a uma alta laranjeira, Jacintho observou, mais para si
+do que para mim:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; curioso... Nunca plantei uma arvore! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois &eacute; um dos tres grandes actos, sem os quaes segundo diz
+n&atilde;o sei que Philosopho, nunca se foi um verdadeiro homem...
+Fazer um filho, plantar
+uma arvore, escrever um livro. Tens de te apressar, para ser um homem.
+&Eacute; possivel que talvez nunca prestasses um serviço
+a uma arvore, como se presta a um semelhante! <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[259]</span>
+&#8213;Sim... Em Paris, quando era pequeno, regava os lilazes. E no
+ver&atilde;o &eacute; um bello serviço! Mas nunca
+semeei. <br />
+
+<br />
+
+E como o Manoel descia da escada, o meu Principe, que nunca
+acredit&aacute;ra inteiramente&#8213;pobre homem!&#8213;no meu saber
+agricola, immediatamente reclamou o parecer d'aquella auctoridade: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Oh Manoel, ouça l&aacute;, o que &eacute; que se
+poderia agora semear? <br />
+
+<br />
+
+Como cesto das laranjas enfiado no braço, o Manoel exclamou,
+atravez d'um lento riso, entre respeitoso e divertido: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Semear, patr&atilde;o? Agora &eacute; antes colher... Olhe
+que j&aacute; se anda a limpar a eirasinha para a debulha, meu
+patr&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois sim... Mas sem ser milho nem cevada... Ent&atilde;o alli no
+pomar, rente do muro velho, n&atilde;o se podia plantar uma fila de
+pecegueiros?
+<br />
+
+<br />
+
+O riso do Manoel crescia. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Isso sim, meu senhor! Isso &eacute; l&aacute; para os Santos
+ou para o Natal. Agora só a couvinha na horta, a beldroega,
+os espinafres, algum
+feij&atilde;osinho em terra muito fresca... <br />
+
+<br />
+
+O meu Principe sacudiu com brando gesto estes legumes rasteiros. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Bem, boa noite, Manoel. Essas laranjas s&atilde;o da tal
+laranjeira que diz o Melchior, muito <span class="pagenum">[260]</span>doces,
+muito finas? Ent&atilde;o leve para os seus
+pequenos. Leve muitas para os pequenos. <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o! o empenho era crear a arvore. Pela arvore contemplada
+na
+serra em sua verdadeira magestade, na beneficencia da sua sombra, na
+frescura emballadora do seu rumorejar, na graça e santidade
+dos
+ninhos que a povoam, começ&aacute;ra talvez, lentamente,
+o seu
+amor
+novo da Terra. E agora sonhava uma Tormes toda coberta d'arvores, cujos
+fructos e verduras, e sombras, e rumorejos suaves, e abrigados ninhos,
+fossem a obra e o cuidado das suas m&atilde;os paternaes. <br />
+
+<br />
+
+No silencio grave do crepusculo, que descia, murmurou ainda: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Oh Z&eacute; Fernandes; quaes s&atilde;o as arvores que
+crescem mais depressa? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eh, meu Jacintho... A arvore que cresce mais depressa &eacute; o
+eucalypto, o feiissimo e ridiculo eucalypto. Em seis annos tens ahi
+Tormes coberta
+de eucalyptos... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tudo t&atilde;o lento, Z&eacute; Fernandes... <br />
+
+<br />
+
+Porque o seu sonho, que eu comprehendia, seria plantar
+caroços que subissem em fortes troncos, se alargassem em
+verdes
+ramarias, antes de elle voltar ao 202, no começo do
+inverno... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Um carvalho!... Trinta annos, antes que seja bello!
+Desan&iacute;mo! &Eacute; bom para Deus, <span class="pagenum">[261]</span>que pode esperar... <em>Patiens
+quia aeternus</em>. Trinta annos! D'aqui a trinta annos, arvores
+só para me cobrirem a
+sepultura! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;J&aacute; &eacute; um ganho. E depois para teus filhos,
+Jacintho... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Filhos! onde os tenho eu? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; o mesmo processo dos castanheiros. Semeia.
+N&atilde;o faltam por ahi terras agradaveis... Em nove mezes tens
+uma
+planta feita. E quanto mais tenrinhas, e mais pequeninas, mais essas
+plantas encantam. <br />
+
+<br />
+
+Elle murmurou, crusando as m&atilde;os sobre o joelho: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tudo leva tanto tempo!... <br />
+
+<br />
+
+E &aacute; borda do tanque nos quedamos, calados, na fresca
+doçura do anoitecer, entre o cheiro avivado das madresilvas
+do
+muro, olhando o crescente da lua, que surdia dos telhados de Tormes. <br />
+
+<br />
+
+E decerto esta pressa de se tornar entre a Natureza n&atilde;o mais
+um sonhador, mas um creador, arremessou vivamente o seu interesse para
+os gados! Repetidamente, nos nossos passeios atravez da quinta, elle
+lhe notava a solid&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Faltam aqui animaes, Z&eacute; Fernandes! <br />
+
+<br />
+
+Imaginava eu, que elle appetecia em Tormes o ornato elegante de veados
+e pav&otilde;es. Mas um domingo, costeando o largo campo da
+<span class="pagenum">[262]</span>Ribeirinha, sempre
+escasso d'agoas, agora mais resequido por ver&atilde;o de tanta
+seccura, o meu Principe parou a considerar os tres carneiros do
+caseiro, que
+retouçavam com penuria uma relvagem pobre. <br />
+
+<br />
+
+E, de repente, como magoado: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Justamente! Aqui est&aacute; o espaço para um bello
+prado, um immenso prado, muito verde, muito farto, com rebanhos de
+carneiros brancos,
+gordissimos como bolas de algod&atilde;o pousadas na relva!... Era
+lindo, hein?
+&Eacute; facil, n&atilde;o &eacute; verdade, Z&eacute;
+Fernandes? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim... Trazes a agoa para o prado. Agoas n&atilde;o faltam, na
+serra. <br />
+
+<br />
+
+E o meu principe encadeando logo n'esta inspirada idea outra, mais rica
+e vasta, lembrou quanta belleza daria a Tormes encher esses prados,
+esses verdes ferregiaes, de manadas de vaccas, formosas vaccas
+inglezas, bem nedias e bem luzidias. Hein? Uma belleza. Para abrigar
+esses gados ricos, construiria curraes perfeitos, d'uma architectura
+leve e util, toda em ferro e vidro, fundamente varridos pelo ar,
+largamente lavados pela agoa... Hein? Que formosura! Depois, com todas
+essas vaccas, e o leite jorrando, nada mais facil e mais divertido, e
+at&eacute; mais
+moral, que a installaç&atilde;o d'uma queijeira,
+&aacute;
+fresca moda Hollandeza, toda branca e reluzente, de azulejos <span class="pagenum">[263]</span>e
+de marmore, para fabricar os Camemberts, os Bries... os Coulommiers...
+Para a casa, que conforto! E para toda a serra, que actividade! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois n&atilde;o te parece, Z&eacute; Fernandes? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Com certeza. Tu tens, em abundancia, os quatro Elementos: o ar, a
+agoa, a terra, e o dinheiro. Com estes quatro elementos, facilmente se
+faz uma grande lavoura. Quanto mais uma queijeira! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois n&atilde;o &eacute; verdade? E at&eacute; como
+negocio! Est&aacute; claro, para mim o lucro &eacute; o deleite
+moral
+do trabalho, o emprego fecundo do dia... Mas uma queijaria, assim
+perfeita, rende. Rende prodigiosamente. E educa o paladar, incita a
+installaç&otilde;es eguaes, implanta
+talvez no paiz uma industria nova e rica! Ora com essa
+installaç&atilde;o,
+perfeita, quanto me poder&aacute; custar cada queijo? <br />
+
+<br />
+
+Fechei um olho, calculando: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu te digo.... Cada queijo, um d'esses queijinhos redondos, como o
+Camembert ou o Rabaçal, póde vir a custar-te, a
+ti Jacintho queijeiro, entre duzentos e cincoenta e trezentos mil
+r&eacute;is. <br />
+
+<br />
+
+O meu Principe recuou, com dous olhos alegres espantados para mim. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Como trezentos mil r&eacute;is? <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[264]</span>&#8213;Ponhamos
+duzentos... Tem a certeza!
+Com todos esses prados, e os encanamentos d'agoa e a
+configuraç&atilde;o da serra
+alterada, e as vaccas inglezas, e os edificios de porcellana e vidro, e
+as maquinas, a extravagancia, e a patuscada bucolica, cada queijo te
+custa, a ti productor, duzentos mil r&eacute;is. Mas com certeza o
+vendes no
+Porto por um tost&atilde;o. P&otilde;e cincoenta
+r&eacute;is para a
+caixa, rotulos, transporte, commiss&atilde;o, etc. Tens apenas, em
+cada
+queijo uma perda de cento e noventa e nove
+mil oitocentos e cincoenta r&eacute;is! <br />
+
+<br />
+
+O meu Principe n&atilde;o desanimou. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Perfeitamente! Faço um d'esses espantosos queijos por
+semana, ao sabbado, para o comermos nós ambos ao domingo! <br />
+
+<br />
+
+E tanta energia lhe communicava o seu novo Optimismo, t&atilde;o
+anciosamente aspirava a crear, que logo, arrastando o Silverio e o
+Melchior por cabeços e barrancos, largou a percorrer a
+quinta
+toda, para
+determinar onde cresceriam, ao seu mando inspirado, os verdes prados, e
+se ergueriam, rebrilhantes no sol de Tormes, os curraes elegantes. Com
+a esplendida segurança dos seus cento e nove contos de
+renda,
+n&atilde;o surgia difficuldade, risonhamente murmurada pelo
+Melchior,
+ou exclamada, com respeitoso pasmo, pelo Silverio, <span class="pagenum">[265]</span>que elle n&atilde;o
+afastasse brandamente, com geito leve, como um galho de roseira brava
+atravessado n'uma vereda. <br />
+
+<br />
+
+Aquellas rochas, al&eacute;m, empecendo? Que se arrancassem! Um
+valle importuno dividia dous campos? Que se atulhasse! O Silverio
+suspirava, enxugando sobre a escura calva um suor quasi d'angustia.
+Pobre Silverio!
+Rijamente sacudido na doce pachorra da sua
+administraç&atilde;o,
+calculando despezas que se affiguravam sobrehumanas &aacute; sua
+parcimonia serrana,
+forçado a arquejar, sem descanço, sob soalheiras
+de
+Junho, o
+desgraçado retom&aacute;ra na Serra o geito que Jacintho
+deix&aacute;ra em Paris,&#8213;e era elle
+que corria pelas longas barbas tenebrosas os dedos desalentados...
+Emfim uma tarde
+desabafou comigo, a um canto da varanda, em quanto Jacintho, na
+livraria, escrevia a um seu amigo de Hollanda, o conde Rylant, Mordomo
+Mór da Corte, pedindo desenhos, e planos, e
+orçamentos d'uma queijeira perfeita. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois, Snr. Fernandes, se toda esta grandeza vae por diante, sempre
+lhe digo que o Snr. D. Jacintho enterra aqui na serra dezenas de
+contos... Dezenas de contos! <br />
+
+<br />
+
+E como eu alludia &aacute; fortuna do meu Principe, a quem todas
+essas obras t&atilde;o vastas, que alterariam o antiquissimo rosto
+da serra, <span class="pagenum">[266]</span>n&atilde;o
+custavam mais que a outros o concerto d'um socalco,&#8213;o bom Silverio
+atirou os longos braços para as coxas gordas, ainda mais
+desolado: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois por isso mesmo, Snr. Fernandes! Se o Snr. D. Jacintho
+n&atilde;o
+tivesse a dinheirama, recuava. Assim, &eacute; z&aacute;s
+z&aacute;s, para deante; e eu n&atilde;o o censuro pela ideia.
+Lograsse
+eu a renda de S. Ex.<sup>a</sup>, que me atirava tambem a
+uma lavoura de capricho. Mas n&atilde;o aqui, Snr. Fernandes,
+n'estas
+serranias, entre alcantis. Pois um senhor que possue aquella linda
+propriedade de Montemór, nos campos do Mondego, onde
+at&eacute;
+podia
+plantar jardins de desbancar os do Palacio de Crystal do Porto! E a
+Velleira? O Snr. Fernandes n&atilde;o conhece a Velleira,
+l&aacute;
+para os
+lados de Penafiel? Isso &eacute; um condado! E uma terra
+ch&atilde;,
+boa terra, toda junta, alli em
+volta da casa, com uma torre. Um regalo, Snr. Fernandes. Mas sobretudo
+Montemór! L&aacute; &eacute; que eram prados e
+manadas de vaccas
+inglezas, e queijeira e horta rica, de fartar, e ahi trinta
+per&uacute;s na capoeira... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o que quer, Silverio? O Jacintho gosta da serra. E
+depois este &eacute; o solar da familia, e aqui
+começaram no seculo XIV os
+Jacinthos... <br />
+
+<br />
+
+O pobre Silverio, no seu desespero, esquecia <span class="pagenum">[267]</span>o
+respeito devido
+&aacute; secular nobreza da casa. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora! at&eacute; ficam mal ao Snr. Fernandes essas ideias, n'este
+seculo da liberdade... Pois estamos l&aacute; em tempos de se
+fallar em
+fidalguias, agora que por toda a parte anda tudo em Republica? Leia o
+<em>Seculo</em>, Snr. Fernandes! leia o <em>Seculo</em>,
+e
+ver&aacute;! E depois eu sempre quero v&ecirc;r o Snr. D.
+Jacintho,
+aqui no inverno, com o nevoeiro a subir do rio logo pela
+manh&atilde;,
+e a friagem a trespassar os ossos, e ventanias que
+atiram carvalheiras de raizes ao ar, e chuvas e chuvas que se desfaz a
+serra!... Olhe, at&eacute; mesmo por amor da saude o Snr. D.
+Jacintho, que &eacute; fraquinho e acostumado &aacute; cidade,
+necessita sahir da serra.
+Em Montemór, em Montemór &eacute; que s.
+ex.<sup>a</sup> estava
+bem. E o Snr.
+Fernandes, t&atilde;o amigo d'elle e assim com tanta influencia,
+devia
+teimar, e berrar,
+at&eacute; que o levasse para Montemór. <br />
+
+<br />
+
+Mas, infelizmente para a quietaç&atilde;o do Silverio,
+Jacintho lanç&aacute;ra raizes, e rijas, e amorosas
+raizes na
+sua rude serra. Era realmente como se o tivessem plantado d'estaca
+n'aquelle antiquissimo ch&atilde;o,
+d'onde brot&aacute;ra a sua raça, e o antiquissimo humus
+refluisse e o penetrasse
+todo, e o andasse transformando n'um Jacintho rural, quasi vegetal,
+t&atilde;o do <span class="pagenum">[268]</span>ch&atilde;o,
+e preso ao ch&atilde;o, como as arvores que elle tanto amava. <br />
+
+<br />
+
+E depois o que o prendia &aacute; serra era o ter n'ella encontrado
+o que na Cidade, apesar da sua sociabilidade, n&atilde;o
+encontr&aacute;ra nunca,&#8213;dias t&atilde;o cheios,
+t&atilde;o deliciosamente occupados, d'um t&atilde;o
+saboroso interesse, que sempre penetrava n'elles, como n'uma festa ou
+n'uma gloria. <br />
+
+<br />
+
+Logo de manh&atilde;, &aacute;s seis horas, eu, no meu quarto,
+mexendo ainda regaladamente o meu corpo nos colch&otilde;es de
+fresco
+folhelho,
+sentia os seus rijos sapat&otilde;es pelo corredor, e o seu
+cantarolar,
+desafinado, mas ditoso como o d'um melro. Em poucos instantes
+escancarava com fragor a minha porta, j&aacute; de chapeu desabado,
+j&aacute; de
+bengal&atilde;o de cerejeira, disposto com reservado fervor para os
+trilhos conhecidos da serra. E
+era sempre a mesma nova, quasi orgulhosa: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Dormi hoje deliciosamente, Z&eacute; Fernandes. T&atilde;o
+bem, com uma tal serenidade, que começo a acreditar que sou
+um justo! Um dia
+lindo! Quando abri a janella, &aacute;s cinco horas, quasi gritei
+de puro
+gosto! <br />
+
+<br />
+
+Na sua pressa, nem me deixava demorar na frescura da banheira; e quando
+eu repetia a risca mal começada do cabello, aquelle antigo
+homem das trinta e nove escovas, protestava <span class="pagenum">[269]</span>contra
+esse desbarato effeminado d'um tempo devido aos fortes gozos da terra. <br />
+
+<br />
+
+Mas quando, depois de acariciar os rafeiros no pateo, desembocavamos da
+alameda de platanos, e deante de nós se dividiam
+matutinamente, mais brancos entre o verde matutino, os caminhos
+colleantes da quinta, toda
+a sua pressa findava, e penetrava na Natureza, com a reverente
+lentid&atilde;o de quem penetra n'um Templo. E repetidamente
+sustentava
+ser
+&laquo;contrario &aacute; Esthetica, &aacute; Philosophia e
+&aacute;
+Religi&atilde;o,
+andar depressa atrav&eacute;s dos campos.&raquo; De resto, com
+aquella
+subtil sensibilidade bucolica
+que n'elle se desenvolvera, e incessantemente se afinava, qualquer
+breve belleza, do ar ou da terra, lhe bastava para um longo encanto.
+Ditosamente poderia elle entreter toda uma manh&atilde;, caminhar
+por
+entre um
+pinheiral, de tronco a tronco, callado, embebido no silencio, na
+frescura, no resinoso aroma, empurrando com o p&eacute; as agulhas
+e as
+pinhas
+seccas. Qualquer agua corrente o retinha, enternecido n'aquella
+serviçal actividade, que se apressa, cantando, para o
+torr&atilde;o que tem
+s&ecirc;de, e n'elle se some, e se perde. E recordo ainda quando me
+reteve meio domingo, depois da Missa, no cabeço, junto a um
+velho curral
+desmantellado, sob uma grande arvore,&#8213;só por que em torno
+havia quietaç&atilde;o, <span class="pagenum">[270]</span>doce
+aragem, um fino piar d'ave na
+ramaria, um murmurio de regato entre canas verdes, e por sobre a
+s&eacute;be, ao lado, um
+perfume, muito fino e muito fresco, de flores escondidas. <br />
+
+<br />
+
+Depois, quando eu, velho familiar das serras, me n&atilde;o
+abandonava aos mesmos extasis que a elle lhe enchiam a alma ainda
+noviça&#8213;o
+meu Principe rugia, com a indignaç&atilde;o d'um poeta
+que
+descobre um mercieiro bocejando sobre Shakspeare ou Musset. Eu ria. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Meu filho, olha que eu n&atilde;o passo d'um pequeno
+proprietario. Para mim n&atilde;o se trata de saber se a terra
+&eacute;
+<em>linda</em>, mas se a terra &eacute;
+<em>boa</em>. Olha o que diz a Biblia!
+&laquo;Trabalhar&aacute;s a quinta com o
+suor do teu rosto!&raquo; E n&atilde;o diz
+&laquo;contemplar&aacute;s a quinta com o
+enlevo da tua imaginaç&atilde;o!&raquo; <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pod&eacute;ra! exclamava o meu Principe. Um livro escripto por
+Judeos, por asperos semitas, sempre com o turvo olho posto no lucro!
+Rep&aacute;ra, homem, para aquelle bocadinho de valle, e consegue
+n&atilde;o pensar, por
+um momento, nos trinta mil reis que elle rende! Ver&aacute;s que
+pela sua
+belleza e graça elle te d&aacute; mais contentamento
+&aacute; alma que os
+trinta mil reis ao corpo. E na vida só a alma importa. <br />
+
+<br />
+
+Recolhendo ao casar&atilde;o, j&aacute; o encontravamos com as
+janellas meio cerradas, os soalhos <span class="pagenum">[271]</span>borrifados
+para aquellas quentes restias de sol de junho,
+que depois do almoço docemente nos retinham na livraria,
+preguiçando. <br />
+
+<br />
+
+Mas realmente a alegre actividade do meu Principe n&atilde;o
+cessava, nem amollecia, sob o peso da s&eacute;sta. A essa hora, em
+quanto pelo
+arvoredo mudo os mais agitados pardaes dormiam, e o sol mesmo parecia
+repousar, immovel na rutilancia da sua luz, Jacintho com o espirito
+acordado,&#8213;&aacute;vido de sempre gosar, agora que
+reconquist&aacute;ra essa faculdade,&#8213;tomava com delicia o <em>seu
+livro</em>.
+Por que o dono de trinta mil volumes era agora, na sua casa de Tormes,
+depois de resuscitado, o homem que só tem um livro. Essa
+mesma
+Natureza, que o
+deslig&aacute;ra das ligaduras amortalhadoras do tedio, e lhe
+grit&aacute;ra o seu bello
+<em>Ambula</em>, caminha!&#8213;tambem certamente lhe
+grit&aacute;ra <em>et
+lege</em>,
+e l&ecirc;. E libertado emfim do envolucro suffocante da sua
+Bibliotheca immensa, o meu ditoso amigo comprehendia emfim a
+incomparavel delicia de
+<em>l&ecirc;r um livro</em>. Quando eu correra a
+Tormes, (depois das
+revelaç&otilde;es do Severo na venda do Torto,) elle
+findava o D. Quichote, e ainda eu lhe escut&aacute;ra
+as derradeiras risadas com as cousas deliciosas, e de certo profundas,
+que
+o gordo Sancho lhe murmurava, escarranchado no seu burro. Mas agora o
+meu Principe mergulh&aacute;ra na
+<em>Odyssea</em>,&#8213;e todo <span class="pagenum">[272]</span>elle
+vivia no
+espanto e no deslumbramento de assim ter encontrado no meio do caminho
+da sua vida,
+o velho errante, o velho Homero! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Oh Z&eacute; Fernandes, como succedeu que eu chegasse a esta
+edade sem ter lido Homero?... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Outras leituras, mais urgentes... O
+<em>Figaro</em>, George Ohnet... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tu leste a <em>Illiada</em>? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Menino, sinceramente me gabo de nunca ter lido a
+<em>Illiada</em>. <br />
+
+<br />
+
+Os olhos do meu Principe fuzilavam. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tu sabes o que fez Alcibiades, uma tarde, no Portico, a um sophista,
+um desavergonhado d'um sophista, que se gabava de n&atilde;o ter
+lido a <em>Illiada</em>? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ergueu a m&atilde;o e atirou-lhe uma bofetada tremenda. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Para l&aacute;, Alcibiades! Olha que eu li a
+<em>Odyssea</em>! <br />
+
+<br />
+
+Oh! mas de certo eu a l&ecirc;ra, corridamente, com a alma
+desattenta! E insistia em me iniciar, elle, e me conduzir,
+atrav&eacute;s do
+Livro sem egual. Eu ria. E rindo, pesado do almoço,
+terminava por consentir,
+e me estirava no canap&eacute; de verga. Elle, deante da mesa,
+direito
+na cadeira, abria o livro gravemente, pontificalmente, como um missal,
+e
+começava <span class="pagenum">[273]</span>n'uma
+lenta ode sentida. Aquelle grande mar da
+<em>Odyssea</em>,&#8213;resplandecente e sonoro, sempre azul,
+todo azul, sob
+o v&ocirc;o
+branco das gaivotas, rolando, e mansamente quebrando sobre a areia fina
+ou contra as rochas de marmore das Ilhas divinas,&#8213;exhalava logo uma
+frescura salina, bem vinda e consoladora n'aquella calma de Junho, em
+que a
+serra se entorpecia. Depois as estupendas manhas do subtil Ulysses e os
+seus perigos sobrehumanos, tantas lamurias sublimes, e um anceio
+t&atilde;o espalhado da Patria perdida, e toda aquella intriga, em
+que
+embrulhava os Heroes, lograva as Deusas, illudia o Fado, tinham um
+delicioso
+sab&ocirc;r ali, nos campos de Tormes, onde nunca se necessitava de
+subtileza ou de
+engenho, e a Vida se desenrolava com a segurança immutavel
+com que cada manh&atilde; sempre o Sol egual nascia, e sempre
+centeios
+e milhos,
+regados por agoas eguaes, seguramente medravam, espigavam,
+amadureciam... Emballado
+pela recitaç&atilde;o grave e monotona do meu Principe,
+eu cerrava as palpebras docemente. Em breve um vasto tumulto, por terra
+e ceu, me
+alvoroçava... E eram os rugidos de Polyphemo, ou a grita dos
+companheiros d'Ulysses roubando as vaccas de Apollo. Com os olhos logo
+esbugalhados para Jacintho, eu murmurava: <span class="pagenum">[274]</span><em>Sublime</em>!
+E
+sempre, n'esse momento o engenhoso Ulysses, de carapuço
+vermelho
+e o longo remo ao hombro,
+surprehendia com a sua facundia a clemencia dos Principes, ou reclamava
+presentes
+devidos ao Hospede, ou surripiava astutamente algum favor aos Deuses. E
+Tormes dormia, no esplendor de Junho. Novamente, eu cerrava as
+palpebras consoladas, sob a caricia ineffavel do largo dizer
+homerico... E meio adormecido, encantado, incessantemente avistava,
+longe, na divina Hellade, entre o mar muito azul e o ceu muito azul, a
+branca vela, hesitante, procurando Ithaca... <br />
+
+<br />
+
+Depois da s&eacute;sta o meu Principe de novo se soltava para os
+campos. E a essa hora, sempre mais activa, voltava com ardor aos
+&laquo;seus
+planos&raquo;, a essas culturas de luxo e elegantes officinas que
+cobririam a serra de magnificencias ruraes. Agora andava todo no
+esplendido appetite d'uma horta que elle concebera, immensa horta
+ajardinada, em que todos os legumes, classicos ou exoticos, cresceriam,
+soberbamente, em vistosos talh&otilde;es, fechados por sebes de
+rosas,
+de cravos, de
+alfaz&ecirc;ma, de dhalias. A agoa das regas desceria por lindos
+corr&ecirc;gos de
+louça esmaltada. Nas ruas, a sombra cahiria de densas
+latadas <span class="pagenum">[275]</span>de
+moscatel, pousando em esteios revestidos d'azulejo. E o meu Principe
+desenh&aacute;ra o plano d'esta espantosa horta, a lapiz vermelho,
+n'um
+papel immenso, que
+o Melchior e o Silverio, consultados, longamente contemplaram,&#8213;um
+coçando risonhamente a nuca, o outro com os
+braços duramente crusados, e o sobr&ocirc;lho tragico. <br />
+
+<br />
+
+Mas este plano, o da queijaria, o da capoeira, e outro, sumptuoso, d'um
+pombal t&atilde;o povoado que todo o ceu de Tormes &aacute;s
+tardes se tornaria branco e todo fremente d'azas&#8213;n&atilde;o sahiam
+das
+nossas gostosas
+palestras, ou dos papeis em que Jacintho os debuxava, e que se
+amontoavam sobre a meza, platonicos, immoveis, entre o tinteiro de
+lat&atilde;o e o vaso com
+fl&ocirc;res. <br />
+
+<br />
+
+Nem enxadada fendera terra, nem alavanca desloc&aacute;ra pedra,
+nem serra serr&aacute;ra madeira, para encetar estas maravilhas.
+Contra
+a
+resistencia rebolada e escorregadia do Melchior, contra a respeitosa
+inercia do Silverio se quedavam, encalhados, os planos do meu Principe,
+como galeras vistosas em rochas ou em l&ocirc;do. <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o convinha bolir em nada, (clamava o Silverio) antes das
+colheitas e da vindima! E depois, (acrescentava o Melchior com um
+sorriso <span class="pagenum">[276]</span>de grande
+promessa) &laquo;para boas obras mez de Janeiro&raquo; porque
+l&aacute; ensina o dictado: <br />
+
+<br />
+
+<div class="break">Em Janeiro&#8213;mette obreiro<br />
+
+Mez meante&#8213;que n&atilde;o ante.</div>
+
+<br />
+
+E, de resto, o goso de conceber as suas obras e de indicar, estendendo
+a bengala por cima de valle e monte, os sitios privilegiados que ellas
+aformoseariam, bastava por ora ao meu Principe, ainda mais imaginativo
+que operante. E, em quanto meditava estas
+transformaç&otilde;es da terra, muito progressivamente e
+com um
+amavel esforço, se ia
+familiarisando com os homens simples que a trabalhavam. Na sua chegada
+a Tormes, o meu Principe soffria d'uma estranha timidez diante dos
+caseiros, dos jornaleiros, e at&eacute; de qualquer rapazinho que
+passasse,
+tangendo uma vacca para o pasto. Nunca elle ent&atilde;o se
+demoraria a
+conversar com os moços, quando &aacute; borda d'um
+caminho ou
+n'um campo
+em monda elles se endireitavam de chapeu na m&atilde;o, n'um
+respeito
+de velha
+vassalagem. De certo o empecia a preguiça, e talvez ainda o
+pudico recato
+de transpor toda a immensa distancia que se alargava desde a sua
+complicada super-civilisaç&atilde;o at&eacute;
+&aacute;
+rude simplicidade d'aquellas <span class="pagenum">[277]</span>almas
+naturaes:&#8213;mas sobretudo o retinha o medo de mostrar a sua ignorancia
+da lavoura e da terra, ou de parecer talvez desdenhoso de
+occupaç&otilde;es e de interesses, que para os outros
+eram
+supremos e quasi religiosos. Remia ent&atilde;o esta reserva com
+uma
+profus&atilde;o de sorrisos,
+de doces acenos, tirando tambem o chapeu em cortezias profundas, com
+uma tal emphase de polidez que eu por vezes receava que elle murmurasse
+aos jornaleiros: &laquo;Tenha v. ex.<sup>a</sup> muito boas
+tardes;... Creado
+de v.
+ex.<sup>a</sup>!&raquo; <br />
+
+<br />
+
+Mas agora, depois d'aquellas semanas de serra, e de j&aacute; saber
+(com um saber ainda fragil,) a epocha das sementeiras e das ceifas, e
+que as arvores de fructa se semeiam no inverno, j&aacute; se
+aprazia em
+parar junto dos trabalhadores, contemplar descançadamente o
+trabalho,
+dizer cousas affaveis e vagas. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o, isso vae andando?... Ora ainda bem!... Este bocado
+de torr&atilde;o aqui &eacute; rico... O talude ali adeante
+est&aacute;
+precisando concerto... <br />
+
+<br />
+
+E cada um d'estes t&atilde;o simples dizeres lhe era doce, como se
+por meio d'elles penetrasse mais fundamente na intimidade da terra, e
+consolidasse a sua encarnaç&atilde;o em &laquo;homem
+do campo,&raquo; deixando de ser uma mera sombra circulando entre
+realidades. J&aacute; por isso
+<span class="pagenum">[278]</span>n&atilde;o
+crusava no caminho o mocinho atraz das vaccas, que n&atilde;o o
+detivesse, o
+n&atilde;o interrogasse: &laquo;Para onde vaes tu? De quem
+&eacute; o
+gado? Como te chamas?&raquo; E, contente comsigo, sempre gabava
+gratamente o desembaraço do
+rapaz, ou a esperteza dos seus olhos. Outra
+satisfaç&atilde;o do meu
+Principe era conhecer os nomes de todos os campos, as nascentes d'agua,
+e as
+delimitaç&otilde;es da sua quinta. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;V&ecirc;s acol&aacute;, para al&eacute;m do ribeiro, o
+pinheiral. J&aacute; n&atilde;o &eacute; meu, &eacute;
+dos Albuquerques. <br />
+
+<br />
+
+E com a perenne alegria de Jacintho as noites da serra, no vasto
+casar&atilde;o, eram faceis e curtas. O meu Principe era
+ent&atilde;o uma alma que se simplificava:&#8213;e qualquer pequenino
+goso
+lhe bastava, desde que n'elle entrasse paz ou doçura. Com
+verdadeira delicia ficava,
+depois do caf&eacute;, estendido n'uma cadeira, sentindo atravez
+das
+janellas abertas, a nocturna tranquillidade da serra, sob a mudez
+estrellada do ceu. <br />
+
+<br />
+
+As historias, muito simples e muito caseiras, que eu lhe contava, de
+Gui&atilde;es, do abbade, da tia Vicencia, dos nossos parentes da
+Fl&ocirc;r da Malva, t&atilde;o sinceramente o interessavam que
+eu
+encet&aacute;ra, para seu regalo, a chronica completa de
+Gui&atilde;es,
+com todos os namoricos, e as
+façanhas de forças, e as desavenças
+por causa de
+servid&otilde;es ou d'aguas. Tambem <span class="pagenum">[279]</span>por
+vezes nos enfronhavamos, com afferro n'uma partida de gam&atilde;o,
+sobre um bello taboleiro de pau preto, com pedras de velho marfim, que
+nos emprest&aacute;ra o Silverio. Mas nada de certo o encantava
+tanto
+como atravessar as casas, p&eacute; ante p&eacute;,
+at&eacute;
+uma saleta que dava para o pomar, e ahi ficar encostado &aacute;
+janella, sem luz, n'um enlevado
+socego, a escutar longamente, languidamente, os rouxinoes que cantavam
+no laranjal. <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h2>X</h2>
+
+<br />
+
+<br />
+
+N'uma dessas manh&atilde;s&#8213;justamente na vespera do meu regresso a
+Gui&atilde;es&#8213;, o tempo, que and&aacute;ra pela serra
+t&atilde;o alegre, n'um
+inalterado riso de luz rutilante, todo vestido d'azul e ouro, fazendo
+poeira pelos caminhos, e
+alegrando toda a natureza, desde os passaros at&eacute; os regatos,
+subitamente, com uma d'aquellas mudanças que tornam o seu
+temperamento t&atilde;o semelhante ao do homem, appareceu triste,
+carrancudo,
+todo embrulhado no seu manto cinzento, com uma tristeza t&atilde;o
+pesada e contagiosa que toda a serra entristeceu. E n&atilde;o
+houve mais
+passaro que cantasse, e os arroios fugiram para debaixo das hervas com
+um lento murmurio de ch&ocirc;ro. <br />
+
+<br />
+
+Quando Jacintho entrou no meu quarto, n&atilde;o resisti
+&aacute; malicia de o aterrar: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sudoeste! gralhas a grasnar por todos esses soutos... Temos muita
+agua, Snr. D. Jacintho! <span class="pagenum">[282]</span>Talvez
+duas semanas d'agua! E agora
+&eacute; se vae saber quem &eacute; aqui o fino amador da
+Natureza, com esta chuva
+pegada, com vendaval, com a serra toda a escorrer! <br />
+
+<br />
+
+O meu Principe caminhou para a janella com as m&atilde;os nas
+algibeiras: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Com effeito! Est&aacute; carregado. J&aacute; mandei abrir
+uma das malas de Paris e tirar um casac&atilde;o impermeavel...
+N&atilde;o importa! Fica
+o arvoredo mais verde. E &eacute; bom que eu conheça
+Tormes nos seus habitos
+d'inverno. <br />
+
+<br />
+
+Mas como o Melchior lhe affianç&aacute;ra que a
+&laquo;chuvinha só viria para a tarde&raquo;,
+Jacintho decidiu
+ir antes d'almoço
+&aacute; Corujeira, onde o Silverio o esperava para decidirem da
+sorte
+d'uns castanheiros, muito velhos, muito pittorescos, inteiramente
+interessantes, mas j&aacute;
+roidos, e ameaçando desabar. E, confiando nas
+previs&otilde;es
+do
+Melchior, partimos sem que Jacintho se vestisse &aacute; prova
+d'agoa.
+N&atilde;o
+andaramos por&eacute;m meio caminho, quando, depois d'um arrepio
+nas
+arvores, um negrume carregou, e, bruscamente, desabou sobre
+nós
+uma grossa chuva obliqua,
+vergastada pelo vento, que nos deixou estonteados, agarrando os
+chapeus, enrodilhados na borrasca. Chamados por uma grande voz, que se
+esganiçava no vento, avistamos n'um campo mais alto,
+&aacute;
+beira d'um
+alpendre, o Silverio, debaixo d'um <span class="pagenum">[283]</span>guarda-chuva
+vermelho, que acenava, nos indicava
+o trilho mais curto para aquelle abrigo. E para l&aacute; rompemos,
+com a chuva a escorrer na cara, patinhando na lama, contorcidos,
+cambaleantes, atordoados no vendaval, que n'um instante
+alag&aacute;ra
+os campos,
+inch&aacute;ra os ribeiros, esboroava a terra dos socalcos,
+lanç&aacute;ra
+n'um desespero todo o arvoredo, torn&aacute;ra a serra negra,
+bravamente agreste, hostil,
+inhabitavel. <br />
+
+<br />
+
+Quando emfim, debaixo do vasto guarda-chuva com que o Silverio nos
+esperava &aacute; beira do campo, corremos para o alpendre, nos
+refugiamos n'aquelle abrigo inesperado, a escorrer, a arquejar, o meu
+Principe, enxugando a face, enxugando o pescoço, murmurou,
+desfallecido: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Apre! que ferocidade! <br />
+
+<br />
+
+Parecia espantado d'aquella brusca, violenta colera d'uma serra
+t&atilde;o amavel e accolhedora, que em dous mezes,
+inalteradamente, só
+lhe offerecera doçura e sombra, e suaves ceus, e quietas
+ramagens, e murmurios discretos de ribeirinhos mansos. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Santo Deus! Vem muitas vezes assim, estas borrascas? <br />
+
+<br />
+
+Immediatamente o Silverio aterrou o meu Principe: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Isto agora s&atilde;o brincadeiras de ver&atilde;o, <span class="pagenum">[284]</span>meu
+senhor! Mas ha de V. Ex.<sup>a</sup> v&ecirc;r no inverno, se V.
+Ex.<sup>a</sup> se aguentar por c&aacute;!
+Ent&atilde;o &eacute; cada temporal, que at&eacute; parece
+que os montes estremecem! <br />
+
+<br />
+
+E contou como f&ocirc;ra tambem apanhado, quando ia para a
+Corujeira. Felizmente, logo pela manh&atilde;, quando sentiu o ar
+carrancudo e
+as folhinhas dos choupos a tremer, se acautel&aacute;ra com o
+chapeu
+de chuva e calç&aacute;ra as suas grandes botas. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ainda estive para me abrigar em casa do Esgueira, que &eacute; um
+caseiro de c&aacute;. Aquella casa, ali abaixo, onde
+est&aacute; a
+figueira... Mas a mulher tem estado doente, j&aacute; ha dias... E
+como
+póde ser obra
+que se pegue, bexigas ou coisa que o valha, pensei comigo: Nada, o
+seguro morreu de velho! Metti para o alpendre... E n&atilde;o
+pass&aacute;ra um credo
+quando lobriguei a V. Ex.<sup>a</sup>... Coisa assim!... E o Snr. D.
+Jacintho
+&eacute; voltar para
+casa, e mudar-se, que temos um dia e uma noite d'agoa. <br />
+
+<br />
+
+Mas, justamente, a chuva começ&aacute;ra a cahir
+perpendicular, d'um ceu ainda negro, onde o vento se cal&aacute;ra;
+e para al&eacute;m do rio
+e dos montes havia uma claridade, como entre cortinas de pano cinzento
+que se descerram. <br />
+
+<br />
+
+Jacintho repousava. Eu n&atilde;o cess&aacute;ra de me sacudir,
+de bater os p&eacute;s encharcados, que me arrefeciam. E o bom
+Silverio, passando <span class="pagenum">[285]</span>a
+m&atilde;o pensativa sobre o negrume das suas barbas, reflectia,
+emendava os seus prognosticos: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois, n&atilde;o senhor... Ainda est&iacute;a! Nunca pensei.
+&Eacute; que tornejou o vento. <br />
+
+<br />
+
+O alpendre que nos cobria assentava sobre duas paredes em angulo, de
+pedra solta, restos d'algum casebre desmantelado, e sobre um esteio
+fazendo cunhal. N'esse momento só abrigava madeira, um
+cuculo de cestos vasios, e um carro de bois, onde o meu Principe se
+sent&aacute;ra,
+enrolando um cigarro confortador. A chuva desabava, copiosa, em longos
+fios reluzentes. E todos tres nos callavamos, n'aquella
+contemplaç&atilde;o inerte e sem pensamento, em que uma
+chuva
+grossa e serena sempre immobilisa e retem olhos e almas. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Oacute; Snr. Silverio, murmurou lentamente o meu Principe, que
+&eacute; que o senhor esteve ahi a dizer de bexigas? <br />
+
+<br />
+
+O procurador voltou a face surprehendido: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu, Ex.<sup>mo</sup> Snr.?... Ah sim! a mulher do
+Esgueira! &Eacute; que
+póde ser, póde ser... N&atilde;o imagine V.
+Ex.<sup>a</sup> que faltam por
+c&aacute; doenças. O ar &eacute; bom. N&atilde;o
+digo que n&atilde;o! Arsinho s&atilde;o,
+agoasinha leve. Mas &aacute;s vezes, se V. Ex.<sup>a</sup> me
+d&aacute; licença, vae por ahi muita maleita. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas n&atilde;o ha medico, n&atilde;o ha botica? <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[286]</span>
+O Silverio teve o riso superior de quem habita regi&otilde;es
+civilisadas e bem providas... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o n&atilde;o havia d'haver? Pois ha um boticario,
+em Gui&atilde;es, l&aacute; quasi ao p&eacute; da casa aqui
+do nosso amigo. E homem entendido... o
+Firmino, hein, Snr. Fernandes? Homem capaz. Medico &eacute; o Dr.
+Avelino, d'aqui
+a legoa e meia, nas Bolsas. Mas j&aacute; V. Ex.<sup>a</sup>
+v&ecirc;, esta
+gentinha &eacute; pobre!... Tomaram elles para p&atilde;o,
+quanto mais para remedios! <br />
+
+<br />
+
+E de novo se estabeleceu um silencio, sob o alpendre, onde penetrava a
+friagem crescente da serra encharcada. Para al&eacute;m do rio, a
+promettedora claridade n&atilde;o se alarg&aacute;ra entre as
+duas
+espessas
+cortinas pardacentas. No campo, em declive deante de nós, ia
+um
+longo correr de
+ribeiros barrentos. Eu termin&aacute;ra por me sentar na ponta d'um
+madeiro,
+enervado, j&aacute; com a fome aguçada pela
+manh&atilde;
+agreste. E Jacintho, na borda do carro, com os p&eacute;s no ar,
+cofiava os bigodes humidos, palpava a
+face, onde, com espanto meu, reapparecera a sombra, a sombra triste dos
+dias passados,
+a sombra do 202! <br />
+
+<br />
+
+E, ent&atilde;o, surdiu por traz da parede do alpendre um rapasito,
+muito rotinho, muito magrinho, com uma carita miuda, toda amarella sob
+a porcaria, e onde dous grandes olhos pretos se arregalavam para
+nós, com <span class="pagenum">[287]</span>
+vago pasmo e vago medo. Silverio immediatamente o conheceu. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Como vae a tua m&atilde;e? Escusas de te chegar para
+c&aacute;, deixa-te estar ahi. Eu ouço bem. Como vae a
+tua m&atilde;e? <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o percebi o que os pobres beicitos descorados murmuraram.
+Mas Jacinto, interessado: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que diz elle? Deixe vir o rapaz! Quem &eacute; a tua
+m&atilde;e? <br />
+
+<br />
+
+Foi o Silverio que informou respeitosamente: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; a tal mulher que est&aacute; doente, a mulher do
+Esgueira, ali do casal da figueira. E ainda tem outro abaixo d'este...
+Filharada n&atilde;o
+lhe falta. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas este pequeno tambem parece doente!&#8213;exclamou Jacintho. Coitadito,
+t&atilde;o amarello!... Tu tambem est&aacute;s doente? <br />
+
+<br />
+
+O rapasinho emmudecera, chupando o dedo, com os tristes olhos pasmados.
+E o Silverio sorria, com bondade: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Nada! este &eacute; s&atilde;osinho... Coitado, &eacute;
+assim amarellado e enfezadito, por que... Que quer V. Ex.<sup>a</sup>?
+Mal
+comido! muita miseria... Quando ha o bocadito de p&atilde;o
+&eacute;
+para todo o rancho. Fomesinha,
+fomesinha! <br />
+
+<br />
+
+Jacintho pulou bruscamente da borda do carro. <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[288]</span>
+&#8213;Fome? Ent&atilde;o elle tem fome? Ha aqui gente com fome? <br />
+
+<br />
+
+Os seus olhos rebrilhavam, n'um espanto commovido, em que pediam, ora a
+mim, ora ao Silverio, a confirmaç&atilde;o d'esta
+miseria insuspeitada. E fui eu que esclareci o meu Principe: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Homem! est&aacute; claro que ha fome! Tu imaginavas talvez que o
+Paraiso se tinha perpetuado aqui nas serras, sem trabalho e sem
+miseria... Em toda
+a parte ha pobres, at&eacute; na Australia, nas minas d'ouro. Onde
+ha trabalho ha proletariado, seja em Paris, seja no Douro... <br />
+
+<br />
+
+O meu Principe, teve um gesto d'afflicta impaciencia: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu n&atilde;o quero saber o que ha no Douro. O que eu pergunto
+&eacute; se aqui, em Tormes, na minha propriedade, dentro d'estes
+campos que s&atilde;o
+meus, ha gente que trabalhe para mim, e que tenha fome... Se ha
+creancinhas,
+como esta, esfomeadas? &Eacute; o que eu quero saber. <br />
+
+<br />
+
+O Silverio sorria, respeitosamente, ante aquella candida ignorancia das
+realidades da Serra: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois est&aacute; bem de v&ecirc;r, meu senhor, que ha para
+ahi caseiros que s&atilde;o muito pobres. Quasi todos...
+&Eacute; uma miseria, que se
+n&atilde;o fosse algum soccorro que se lhes d&aacute;, nem eu <span class="pagenum">[289]</span>sei!... Este Esgueira, com
+o
+rancho de filhos que tem, &eacute; uma desgraça... Havia
+V. Ex.<sup>a</sup>
+de v&ecirc;r as casitas em que elles vivem... S&atilde;o
+chiqueiros. A do Esgueira,
+acol&aacute;... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vamos v&ecirc;l-a! atalhou Jacintho com uma decis&atilde;o
+exaltada. <br />
+
+<br />
+
+E sahiu logo do alpendre, sem attender &aacute; chuva, que ainda
+cahia, mais leve e mais rala. Mas ent&atilde;o Silverio alargou os
+braços deante d'elle, com anciedade, como para o salvar d'um
+precipicio. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o! V. Ex.<sup>a</sup> l&aacute; na casa do Esgueira
+&eacute; que n&atilde;o entra! N&atilde;o se sabe o que a
+mulher tem, e cautella e caldo de gallinha... <br />
+
+<br />
+
+Jacintho n&atilde;o se alterou na sua polidez paciente: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Obrigado pelo seu cuidado, Silverio... Abra o seu chapeu de chuva, e
+&aacute;vante! <br />
+
+<br />
+
+Ent&atilde;o o Procurador vergou os hombros, e, como S.
+Ex.<sup>a</sup>
+mandava, abriu com estrondo o immenso p&aacute;ra-agoas, abrigou
+respeitosamente
+Jacintho, atrav&eacute;s do campo encharcado. Eu segui, pensando na
+esmola
+sumptuosa que o bom Deus mandava &aacute;quelle pobre casal por um
+remoto senhor
+das Cidades! Atraz vinha o pequenito perdido n'um immenso pasmo. <br />
+
+<br />
+
+Como todos os casebres da serra, o do Esgueira era de grossa pedra
+solta, sem reboco, <span class="pagenum">[290]</span>com
+um vago telhado, de telha musgosa e negra, um postigo no alto, e a rude
+porta que servia para o ar, para a luz, para
+o fumo, e para a gente. E em redor, a Natureza e o Trabalho tinham,
+atrav&eacute;s d'annos, accumulado ali trepadeiras e
+fl&ocirc;res silvestres, e cantinhos d'horta, e sebes cheirosas, e
+velhos bancos roidos de musgo,
+e panellas com terra onde crescia salsa, e regueiros cantantes, e
+videiras enforcadas nos olmos, e sombras e charcos espelhados, que
+tornavam deliciosa, para uma Ecloga, aquella morada da Fome, da
+Doença e da Tristeza. <br />
+
+<br />
+
+Cautelosamente, com a ponteira do guarda-chuva, Silverio empurrou a
+porta, chamando: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eh! tia Maria... Ol&aacute; rapariga! <br />
+
+<br />
+
+E na fenda entreaberta appareceu uma moça, muito alta,
+escura e suja, com uns tristes olhos pisados, que se espantaram para
+nós,
+serenamente. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o como vae a tua m&atilde;e?&#8213;Abre l&aacute; a
+porta, que est&atilde;o aqui estes senhores... <br />
+
+<br />
+
+Ella abriu, lentamente, e ia murmurando n'uma voz dolente e arrastada
+mas sem queixume, que um vago, resignado sorriso acompanhava: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora, coitada! como ha de ir? Malzinha... malzinha. <br />
+
+<br />
+
+E dentro, n'um gemido que subia como <span class="pagenum">[291]</span>do
+ch&atilde;o, d'entre
+abafos, amodorrado e lento, a m&atilde;e repetiu a desconsolada
+queixa: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ai! para aqui estou, e malzinha, malzinha!... <br />
+
+<br />
+
+O Silverio, sem passar da porta, com o guarda-chuva em riste, meio
+aberto, como um escudo contra a infecç&atilde;o,
+lançou uma consolaç&atilde;o vaga: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o ha de ser nada, tia Maria!... Isso foi friagem!
+N&atilde;o foi sen&atilde;o friagem! <br />
+
+<br />
+
+E, sobre o hombro de Jacintho, encolhido: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;J&aacute; V. Ex.<sup>a</sup> v&ecirc;... Muita miseria!
+At&eacute;
+lhe chove l&aacute; dentro. <br />
+
+<br />
+
+E, no pedaço de ch&atilde;o que viam, ch&atilde;o de
+terra batida, uma mancha humida reluzia, da chuva pingada de uma telha
+r&ocirc;ta. A parede,
+coberta de fuligem, das longas fumaraças da lareira, era
+t&atilde;o
+negra como o ch&atilde;o. E aquella penumbra suja parecia atulhada,
+n'uma desordem escura, de trapos, de cacos, de restos de coisas, onde
+só mostravam
+fórma comprehensivel uma arca de pau negro, e por cima,
+pendurado d'um prego,
+entre uma serra e uma candeia, um grosso saiote escarlate. <br />
+
+<br />
+
+Ent&atilde;o Jacintho, muito embaraçado, murmurou
+abstrahidamente: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Est&aacute; bem, est&aacute; bem... <br />
+
+<br />
+
+E largou pelo campo para o lado do alpendre como se fugisse, emquanto o
+Silverio decerto <span class="pagenum">[292]</span>revelava
+&aacute; rapariga, a presença
+augusta do &laquo;fidalgo&raquo;, por que a sentimos, da porta,
+levantar a voz dolorida: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ai! Nosso Senhor lhe d&ecirc; muito boa sorte! Nosso Senhor o
+acompanhe! <br />
+
+<br />
+
+Quando o Silverio, com as grandes passadas das suas grandes botas, nos
+colheu, no meio do campo, Jacintho par&aacute;ra, olhava para mim,
+com os dedos tremulos a torturar o bigode, e murmurava: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; horrivel, Z&eacute; Fernandes, &eacute;
+horrivel. <br />
+
+<br />
+
+Ao lado, o vozeir&atilde;o do Silverio trovejou: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que queres tu outra vez, rapaz? Vae para a tua m&atilde;e,
+creatura! <br />
+
+<br />
+
+Era o pequeno rotinho, esfaimadinho, que se prendia a nós,
+n'um immenso pasmo das nossas pessoas, e com a confusa
+esperança, talvez,
+que d'ellas, como de Deuses encontrados n'um caminho, lhe viesse affago
+ou proveito. E Jacintho, para quem elle mais especialmente arregalava
+os olhos tristes, e que aquella miseria, e a sua muda humildade,
+embaraçavam, acanhavam horrivelmente, só soube
+sorrir, murmurar o seu vago: &laquo;Est&aacute; bem,
+est&aacute;
+bem...&raquo;
+Fui eu que dei ao pequenito um tost&atilde;o, para o fartar, o
+despegar
+dos nossos passos. Mas como elle, com o seu tost&atilde;o bem
+agarrado,
+nos seguia ainda, como no sulco da
+nossa magnificencia, o Silverio teve de o espantar, <span class="pagenum">[293]</span>como a um passaro,
+batendo as m&atilde;os, e de lhe gritar: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;J&aacute; para casa! E leve esse dinheiro &aacute;
+m&atilde;e. Roda, roda!... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E nós vamos almoçar, lembrei eu olhando o
+relogio. O dia ainda vae estar lindo. <br />
+
+<br />
+
+Sobre o rio, com effeito, reluzia um pedaço d'azul lavado e
+lustroso; e a grossa camada de nuvens j&aacute; se ia enrolando sob
+a lenta
+varredela do vento, que as levava, despejadas e r&ocirc;tas, para
+um canto
+escuso do ceu. <br />
+
+<br />
+
+Ent&atilde;o recolhemos lentamente para casa, por uma vereda
+ingreme, que ensin&aacute;ra o Silverio, e onde um leve enchurro
+vinha ainda,
+saltando e chalrando. De cada ramo tocado, rechuvia uma chuva leve.
+Toda a
+verdura, que bebera largamente, reluzia consolada. <br />
+
+<br />
+
+Bruscamente, ao sahirmos da vereda para um caminho mais largo, entre um
+socalco e um renque de vinha, Jacintho parou, tirando lentamente a
+cigarreira: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois, Silverio, eu n&atilde;o quero mais estas horriveis miserias
+na quinta. <br />
+
+<br />
+
+O Procurador deu um geito aos hombros, com um vago
+<em>eh</em>!
+<em>eh</em>! d'obediencia e d&uacute;vida. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Antes de tudo, continuava Jacintho, mande j&aacute; hoje chamar
+esse Dr. Avelino para aquella pobre mulher... E os remedios que os
+v&atilde;o buscar logo a Gui&atilde;es. E
+recommendaç&atilde;o ao
+medico <span class="pagenum">[294]</span>para
+voltar &aacute;manh&atilde;, e em cada dia; at&eacute; que
+ella melhore... Escute! E quero, Melchior, que
+lhe leve dinheiro, para os caldos, para a dieta, uns dez, ou quinze mil
+r&eacute;is... Bastar&aacute;? <br />
+
+<br />
+
+O Procurador n&atilde;o conteve um riso respeitoso. Quinze mil
+r&eacute;is! Uns tost&otilde;es bastavam... Nem era bom
+acostumar assim, a tanta
+franqueza, aquella gente. Depois todos queriam, todos pedinchavam... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas &eacute; que todos h&atilde;o-de ter, disse Jacintho
+simplesmente. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;V. Ex.<sup>a</sup> manda, murmurou o Silverio. <br />
+
+<br />
+
+Encolhera os hombros, parado no caminho, no espanto d'aquellas
+extravagancias. Eu tive de o apressar, impaciente: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vamos conversando e andando! &Eacute; meio dia! Estou com uma
+fome de lobo! <br />
+
+<br />
+
+Caminhamos, com o Silverio no meio, pensativo, a fronte enrugada sob a
+vasta aba do chapeu, a barba immensa espalhada pelo peito, e a barraca
+exorbitante do guarda-chuva vermelho enrolada debaixo do
+braço. E Jacintho, puxando nervosamente o bigode, arriscava
+outras
+id&eacute;as bemfazejas, cautelosamente, no seu indominavel medo do
+Silverio: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E as casas tambem... Aquella casa &eacute; um covil!... Gostava
+de abrigar melhor aquella pobre gente... E naturalmente, as dos outros <span class="pagenum">[295]</span>caseiros
+s&atilde;o pocilgas eguaes... Era necessario uma reforma! Construir
+casas novas a todos os rendeiros da quinta... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;A todos?...&#8213;O Silverio gaguejava,&#8213;emudeceu. <br />
+
+<br />
+
+E Jacintho balbuciava aterrado: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;A todos... Emfim, quero dizer... Quantos ser&atilde;o elles? <br />
+
+<br />
+
+Silverio atirou um gesto enorme: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;S&atilde;o vinte e coisas... Vinte e tres! se bem lembro. Upa!
+Upa! Vinte e sete... <br />
+
+<br />
+
+Ent&atilde;o Jacintho emmudeceu tambem, como reconhecendo a
+vastid&atilde;o do numero. Mas desejou saber, por quanto ficaria
+cada
+casa!... Oh! uma casa simples, mas limpa, confortavel, como a que tinha
+a irm&atilde; do
+Melchior, ao p&eacute; do lagar. Silverio estacou de novo. Uma casa
+como a da
+Ermelinda? Queria Sua Ex.<sup>a</sup> saber? E alijou a cifra, muito
+d'alto,
+como uma pedra immensa, para esmagar Jacintho: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Duzentos mil r&eacute;is, Ex<sup>mo</sup> Senhor! E
+&eacute; para mais
+que n&atilde;o para menos! <br />
+
+<br />
+
+Eu ria da tragica ameaça do excellente homem. E Jacintho,
+muito docemente, para conciliar o Silverio: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Bem, meu amigo... Eram uns seis contos de r&eacute;is! Digamos
+dez, por que eu queria dar a todos alguma mobilia e alguma roupa. <br />
+
+<br />
+
+Ent&atilde;o o Silverio teve um brado de terror: <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[296]</span>
+&#8213;Mas ent&atilde;o, Ex.<sup>mo</sup> Senhor,
+&eacute; uma
+revoluç&atilde;o! <br />
+
+<br />
+
+E como nós, irresistivelmente, riamos dos seus olhos
+esgazeados de horror, dos seus immensos braços abertos para
+traz, como se
+visse o mundo desabar,&#8213;o bom Silverio encavacou: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah! V. Ex.<sup>as</sup> riem? Casas para todos, mobilias,
+pratas, bragal, dez
+contos de r&eacute;is! Ent&atilde;o tambem eu rio! Ah! ah! ah!
+Ora viva a bella chalaça!... Est&aacute; b&ocirc;a a
+risota! <br />
+
+<br />
+
+E subitamente, n'uma profunda mesura, como declinando toda a
+responsabilidade n'aquelle disparate magnifico: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Emfim, V. Ex.<sup>a</sup> &eacute; quem manda! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Est&aacute; mandado, Silverio. E tambem quero saber as rendas que
+paga essa gente, os contractos que existem, para os melhorar. Ha muito
+que melhorar. Venha voss&ecirc; almoçar comnosco. E
+conversamos. <br />
+
+<br />
+
+T&atilde;o saturado d'espanto estava o Silverio, que nem recebeu
+mais espanto com essa &laquo;melhoria de rendas&raquo;.
+Agradeceu o convite,
+penhorado. Mas pedia licença a Sua Ex.<sup>a</sup> para passar
+primeiramente pelo lagar,
+para ver os carpinteiros que andavam a concertar a trave do rio. Era um
+instante, e
+estava em seguida &aacute;s ordens de S. Ex.<sup>a</sup>. <br />
+
+<br />
+
+Metteu a corta matto, saltando um cancello. <span class="pagenum">[297]</span>E
+nós seguimos,
+com passos que eram ligeiros, pela hora do almoço que se
+retard&aacute;ra, pello azul alegre que reapparecia, e por toda
+aquella justiça feita
+&aacute; pobresa da serra. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o perdeste hoje o teu dia, Jacintho, disse eu, batendo,
+com uma ternura que n&atilde;o disfarcei, no hombro do meu amigo. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que miseria, Z&eacute; Fernandes! Eu nem sonhava... Haver por
+ahi, &aacute; vista da minha casa, outras casas, onde
+creanças teem fome!
+&Eacute; horrivel... <br />
+
+<br />
+
+Estavamos entrando na alameda. Um raio de sol, sahindo d'entre duas
+grossas, algodoadas nuvens, passou sobre uma esquina do
+casar&atilde;o, ao fundo, uma viva tira d'ouro. O clarim dos gallos
+soava claro e alto. E um doce vento, que se erguera, punha nas folhas
+lavadas e luzidias um fremito alegre e doce. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sabes o que eu estava pensando, Jacintho?... Que te aconteceu aquella
+lenda de Santo Ambrosio... N&atilde;o, n&atilde;o era Santo
+Ambrosio... N&atilde;o me lembra o santo... Nem era ainda santo...
+apenas um cavalleiro peccador, que se
+enamor&aacute;ra d'uma mulher, puzera toda a sua alma n'essa
+mulher, só por a avistar a distancia na rua. Depois, uma
+tarde
+que a seguia, enlevado, ella entrou n'um portal de egreja, e ahi, de
+repente, ergueu o veu, entreabriu o vestido, e mostrou ao pobre
+cavalleiro <span class="pagenum">[298]</span>o seio
+roido por
+uma chaga! Tu, tambem andavas namorado da serra, sem a conhecer,
+só pela sua belleza de ver&atilde;o. E a serra, hoje,
+z&aacute;s! de
+repente, descobre a sua grande ulcera... &Eacute; talvez a tua
+preparaç&atilde;o para S. Jacintho. <br />
+
+<br />
+
+Elle parou, pensativo, com os dedos nas cavas do collete: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;-&Eacute; verdade! Vi a chaga! Mas emfim, esta, louvado seja
+Deus, &eacute; das que eu posso curar! <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o desilludi o meu Principe. E ambos subimos alegremente a
+escadaria do casar&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h2>XI</h2>
+
+<br />
+
+<br />
+
+No dia que seguiu estas largas caridades recolhi a Gui&atilde;es.
+E, desde ent&atilde;o, tantas vezes trotei por aquellas tres legoas
+entre a
+nossa e a velha alameda dos Jacinthos, que a minha egoa, quando a
+desviava d'essa
+estrada familiar, conduzindo a uma cavallariça familiar,
+(onde ella privava com o garrano do Melchior) relinchava de pura
+saudade.
+At&eacute; a tia Vicencia se mostrava vagamente ciumenta d'aquella
+Tormes, para onde eu sempre corria, d'aquelle Principe de quem
+incessantemente celebrava o rejuvenescimento, a caridade, os piteus, e
+as chimeras agricolas.
+J&aacute; um dia com um gr&atilde;o de sal e ironia,&#8213;o unico
+que cabia
+n'um
+coraç&atilde;o todo cheio d'innocencia,&#8213;ella me
+dissera,
+movendo com mais vivacidade as agulhas da sua meia: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Olha que te podes gabar! At&eacute; me tens <span class="pagenum">[300]</span>feito curiosidade de
+conhecer esse Jacintho... Traze c&aacute; essa maravilha, menino! <br />
+
+<br />
+
+Eu rira: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Socegue, tia Vicencia, que o trarei agora, para o dia dos meus annos,
+a jantar... Damos uma festa, haver&aacute; um bailarico no pateo, e
+vem ahi toda essa senhorama dos arredores. Talvez at&eacute; se
+arranje uma
+noiva para o Jacintho. <br />
+
+<br />
+
+Eu, com effeito, j&aacute; convid&aacute;ra o meu Principe para
+este &laquo;natalicio&raquo;. E de resto convinha que o senhor
+de
+Tormes conhecesse todos aquelles
+senhores das boas casas da serra... Sobretudo, como eu lhe dizia rindo,
+convinha
+que elle conhecesse algumas mulheres, algumas d'aquellas fortes
+raparigas dos solares serranos, por que Tormes tinha uma
+solid&atilde;o muito monastica; e o homem, sem um pouco do Eterno
+Feminino, facilmente se enrudece e ganha uma casca aspera como a das
+arvores, na
+solid&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E esta Tormes, Jacintho, esta tua reconciliaç&atilde;o
+com a Natureza, e o renunciamento &aacute;s mentiras da
+Civilisaç&atilde;o &eacute; uma linda historia...
+Mas, caramba, faltam mulheres! <br />
+
+<br />
+
+Elle concordava, rindo, languidamente estendido na cadeira de vime: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Com effeito, ha aqui falta de mulher, com M. grande. Mas essas
+senhoras ahi das <span class="pagenum">[301]</span>casas
+dos arredores... N&atilde;o sei, estou
+pensando que se devem parecer com legumes. Sans, nutritivas,
+excellentes para a panella&#8213;mas, emfim, legumes. As mulheres que os
+poetas comparam
+&aacute;s Flores s&atilde;o sempre as mulheres das
+C&ocirc;rtes, das
+Capitaes, &aacute;s quaes, invariavelmente, desde Hesiodo e de
+Horacio,
+se rendem os poetas... E evidentemente n&atilde;o ha perfume, nem
+graça, nem
+elegancia, nem requinte, n'uma cenoura ou n'uma couve... N&atilde;o
+devem ser interessantes
+as senhoras da minha serra. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu te digo... A tua visinha mais chegada, a filha do D. Theotonio,
+com effeito, salvo o respeito que se deve &aacute; casa illustre
+dos
+Barbedos, &eacute; um mostrengo! A irm&atilde; dos Albergarias,
+da quinta da Loja, tambem
+n&atilde;o tentaria nem mesmo o precisado Santo Ant&atilde;o.
+Sobretudo se se
+despisse, por que &eacute; um espinafre infernal! Essa realmente
+&eacute;
+legume, e n&atilde;o dos nutritivos. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tu o disseste: espinafre! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Temos tambem a D. Beatriz Velloso... Essa &eacute; bonita... Mas,
+menino, que horrivelmente bem fallante! Falla como as heroinas do
+Camillo. Tu nunca
+leste o Camillo... E depois, um tom de voz que te n&atilde;o sei
+descrever, o tom com que se falla em D. Maria, em peças de
+sentimento. Tu
+tambem nunca viste o Theatro <span class="pagenum">[302]</span>de
+D. Maria... Emfim, um horror! E perguntas pavorosas. &laquo;V.
+Ex.<sup>a</sup>. Snr. Doutor, n&atilde;o se delicia
+com Lamartine?&raquo; J&aacute; me disse esta, a indecente! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E tu? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu! Arregalei os olhos... &laquo;Oh Lamartine!&raquo;. Mas,
+coitada, &eacute; uma excellente rapariga! Agora, por outro lado,
+temos
+as Roj&otilde;es,
+as filhas de Jo&atilde;o Roj&atilde;o, duas flores, muito
+frescas,
+muito
+alegres, com um cheiro e um brilho a sadio, e muito simples... A tia
+Vicencia morre por ellas.
+Depois ha a mulher do Dr. Alypio, que &eacute; uma belleza. Oh! uma
+creatura esplendida! Mas, emfim, &eacute; a mulher do Dr. Alypio, e
+tu
+renunciaste aos deveres da Civilisaç&atilde;o...
+Al&eacute;m
+disso,
+mulher muito s&eacute;ria, toda absorvida nos seus dous pequenos,
+que
+parecem dous anjinhos de Murillo... E quem mais? J&aacute; agora,
+quero
+completar a lista do pessoal feminino.
+Temos a Mello Rebello, de Sandofim, muito engraçada, com
+cabello
+lindo... Borda na perfeiç&atilde;o, faz doces como uma
+freira do
+antigo
+Regimen... Havia tambem uma Julia Lobo, muito linda, mas morreu...
+Agora n&atilde;o
+me lembro mais. Mas falta a fl&ocirc;r da Serra, que &eacute; a
+minha
+prima Joanninha, da Fl&ocirc;r da Malva! Essa &eacute; uma
+perfeiç&atilde;o de
+rapariga. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E tu, primo Z&eacute;, como tens tu resistido? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Somos como irm&atilde;os, creados de pequeninos, <span class="pagenum">[303]</span>mais
+acostumados
+e familiares que tu e eu... A familiaridade esbate os sexos. A
+m&atilde;e d'ella era a unica irm&atilde; da tia Vicencia, e
+morreu
+muito nova. A
+Joanninha, quasi desde o berço que se creou em nossa casa,
+em
+Gui&atilde;es. O pae &eacute; bom homem, o tio
+Adri&atilde;o. Erudito,
+antiquario, colleccionador...
+Collecciona toda a sorte de cousas exquisitas, campainhas, esporas,
+sinetes, fivellas... Tem uma collecç&atilde;o curiosa.
+Elle ha
+muito que deseja vir a Tormes, para te visitar... Mas, coitado, soffre
+da bexiga,
+n&atilde;o póde montar a cavallo. E a estrada da
+Fl&ocirc;r da
+Malva aqui
+&eacute; impossivel para carruagens... <br />
+
+<br />
+
+O meu Principe espreguiç&aacute;ra longamente os
+braços: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o, est&aacute; claro! eu &eacute; que hei-de
+visitar teu tio, e a tia Vicencia... Desejo conhecer os meus visinhos.
+Mas mais tarde, quando socegar. Agora
+ando todo occupado com o meu povo. <br />
+
+<br />
+
+E com effeito! Jacintho era agora como um Rei fundador d'um Reino, e
+grande edificador. Por todo o seu dominio de Tormes andavam obras, para
+o renovamento das casas dos rendeiros, umas que se concertavam, outras
+mais velhas, que se derrubavam para se reconstruirem com uma larguesa
+commoda. Pelos caminhos constantemente chiavam carros, <span class="pagenum">[304]</span>carregados de pedra, ou de
+madeiras cortadas nos pinheiraes. <br />
+
+<br />
+
+Na taberna do Pedro, &aacute; entrada da freguezia, ia um desusado
+movimento, de pedreiros e carpinteiros contractados para as obras;&#8213;e o
+Pedro, com
+as mangas arregaçadas, por traz do balc&atilde;o,
+n&atilde;o cessava de encher os decilitros com uma vasta enfusa. <br />
+
+<br />
+
+Jacintho, que tinha agora dous cavallos, todas as manh&atilde;s
+cedo percorria as obras, com amor. Eu, inquieto, sentia outra vez,
+latejar e irromper no meu Principe o seu velho, maniaco furor
+d'accumular
+Civilisaç&atilde;o! O plano primitivo das obras era
+incessantemente alargado,
+aperfeiçoado. Nas janellas, que deviam ter apenas portadas,
+segundo o secular costume
+da serra, decidira p&ocirc;r vidraças, apezar do mestre
+d'obras lhe dizer honradamente, que depois d'habitadas um mez,
+n&atilde;o haveria
+casa com um só vidro. Para substituir as traves classicas
+queria
+estucar os tectos;&#8213;e
+eu via bem claramente que elle se continha, se retesava dentro do
+Bom-senso, para n&atilde;o dotar cada casa com campainhas
+electricas. Nem sequer me espantei, quando elle uma manh&atilde; me
+declarou que a
+porcaria da gente do campo provinha de elles n&atilde;o terem onde
+commodamente
+se lavar, pelo que andava pensando em dotar cada casa com uma banheira.
+<span class="pagenum">[305]</span>Desciamos
+n'esse momento, com os cavallos &aacute; redea, por uma azinhaga
+precipitada e escabrosa; um vento leve ramalhava nas arvores, um regato
+saltava ruidosamente entre as pedras. Eu n&atilde;o me
+espantei&#8213;mas
+realmente me pareceu que as pedras, o arroio, as ramagens e o vento, se
+riam alegremente do meu Principe. E al&eacute;m d'estes confortos,
+a
+que
+o Jo&atilde;o, mestre d'obras, com os olhos loucamente arregalados
+chamava
+&laquo;as grandezas&raquo;, Jacintho meditava o bem das almas.
+J&aacute;
+encommend&aacute;ra ao seu architecto, em Paris, o plano perfeito
+d'uma
+escola, que elle queria erguer, n'aquelle campo da Carriça,
+junto &aacute;
+capellinha que abrigava &laquo;os ossos&raquo;. Pouco a pouco,
+ahi
+crearia tambem uma bibliotheca,
+com livros d'estampas, para entreter, aos domingos, os homens a quem
+j&aacute;
+n&atilde;o era possivel ensinar a l&ecirc;r. Eu vergava os
+hombros,
+pensando:&#8213;&laquo;Ahi vem a terrivel
+accumulaç&atilde;o das
+Noç&otilde;es! Eis o livro invadindo a Serra!&raquo;
+Mas outras id&eacute;as de Jacintho eram tocantes,&#8213;e eu mesmo me
+enthusiasmei, e excitei o enthusiasmo da tia Vicencia com o seu plano
+d'uma Creche,
+onde elle esperava ter manh&atilde;s muito divertidas vendo as
+creancinhas a gatinhar, a correr tropegamente atraz d'uma bola. De
+resto, o nosso boticario de Gui&atilde;es estava j&aacute;
+apalavrado
+para
+estabelecer uma pequena pharmacia em Tormes, <span class="pagenum">[306]</span>sob
+a direcç&atilde;o do seu
+praticante, um afilhado da tia Vicencia, que tinha publicado um artigo
+sobre as festas populares
+do Douro no <em>Almanach de
+Lembranças</em>. E j&aacute; f&ocirc;ra
+offerecido o partido medico de Tormes, com ordenado de 600$000
+r&eacute;is. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o te falta sen&atilde;o um Theatro! dizia eu, rindo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Um theatro n&atilde;o. Mas tenho a id&eacute;a d'uma sala,
+com projecç&otilde;es de lanterna magica, para ensinar a
+esta
+pobre gente as cidades d'esse mundo, e as cousas d'Africa, e um bocado
+de Historia. <br />
+
+<br />
+
+E tambem me ensoberbeci com esta innovaç&atilde;o!&#8213;E
+quando a contei ao tio Adri&atilde;o, o digno antiquario bateu,
+apezar do seu rheumatismo,
+uma palmada tremenda na c&ocirc;xa. &laquo;Sim, senhor! Bella
+id&eacute;a! Assim se podia ensinar &aacute;quella gente
+illetrada, vivamente, por imagens, a Historia
+Santa, a Historia Romana, at&eacute; a Historia de
+Portugal!...&raquo; E
+voltado para a prima Joanninha, o tio Adri&atilde;o declarou
+Jacintho um
+&laquo;homem de coraç&atilde;o!&raquo; <br />
+
+<br />
+
+E realmente pela Serra crescia a popularidade do meu Principe.
+N'aquelle, &laquo;guarde-o Deus, meu senhor!&raquo; com que as
+mulheres ao passar o saudavam, se voltavam para o v&ecirc;r ainda,
+havia uma seriedade
+d'oraç&atilde;o, o bem sincero desejo de que Deus o
+guardasse <span class="pagenum">[307]</span>sempre.
+As
+creanças a quem elle distribuia tost&otilde;es,
+farejavam de
+longe a sua
+passagem,&#8213;e era em torno d'elle um escuro formigueiro de caritas
+trigueiras e sujas, com grandes olhos arregalados, que se ainda tinham
+pasmo, j&aacute;
+n&atilde;o tinham medo. Como o cavallo de Jacintho uma tarde se
+chap&aacute;ra, ao
+desembocar da alameda, n'umas grossas pedras que ahi deformavam a
+estrada, logo ao outro dia um bando d'homens, sem que Jacintho o
+ordenasse, veio por dedicaç&atilde;o ensaibrar e alisar
+aquelle
+pedaço perigoso de caminho, aterrados com o risco que
+correra o
+bom senhor. J&aacute; pela
+serra se espalhava esse nome de &laquo;bom senhor&raquo;. Os
+mais
+edosos
+da freguezia n&atilde;o o encontravam sem exclamarem, uns com
+gravidade, outros com grandes risos
+desdentados:&#8213;<em>Este &eacute; o nosso
+bemfeitor</em>! Por vezes, alguma velha corria do fundo do eido,
+ou vinha &aacute; porta do casebre, ao avistal-o
+no caminho, para gritar, com grandes gestos dos braços
+magros:
+&laquo;Ai que Deus o cubra de benç&atilde;os! Que
+Deus o cubra de
+benç&atilde;os!&raquo; <br />
+
+<br />
+
+Aos domingos, o padre Jos&eacute; Maria, (bom amigo meu e grande
+caçador) vinha de Sandofim, na sua egoa ruça, a
+Tormes,
+para celebrar a
+missa na Capellinha. Jacintho assistia ao officio na sua tribuna, como
+os Jacinthos d'outras eras, para que aquelles simples o n&atilde;o
+<span class="pagenum">[308]</span>suppuzessem
+estranho a Deus. Quasi
+sempre ent&atilde;o elle recebia presentes,
+que as filhas dos caseiros, ou os pequenos, vinham muito corados,
+trazer-lhe
+&aacute; varanda, e eram vasos de manjaric&atilde;o, ou um
+grosso
+ramalhete
+de cravos, e por vezes um gordo pato. Havia ent&atilde;o uma
+distribuiç&atilde;o de cavacas e merengues de
+Gui&atilde;es,
+&aacute;s raparigas e &aacute;s
+creanças,&#8213;e, no pateo, para os homens circulavam as infusas
+de
+vinho branco. O Silverio j&aacute;
+sustentava com espanto, e redobrado respeito, que o Snr. D. Jacintho em
+breve disporia de mais votos nas eleiç&otilde;es que o
+Dr.
+Alypio. E eu proprio me impressionei, quando o Melchior me contou que o
+Jo&atilde;o
+Torrado, um velho singular d'aquelles sitios, de grandes barbas
+brancas, hervanario, vagamente alveitar, um pouco adivinho, morador
+mysterioso d'uma cova no
+alto da serra, a todos affirmava que aquelle bom senhor era El-Rei D.
+Sebasti&atilde;o, que volt&aacute;ra! <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h2>XII</h2>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Assim chegou Setembro, e com elle o meu natalicio, que era a 3 e n'um
+Domingo. Toda essa semana a pass&aacute;ra eu em Gui&atilde;es,
+nos preparos da vindima,&#8213;e de manh&atilde; cedo, n'esse Domingo
+illustre, me fui
+debruçar da varanda do quarto do saudoso tio Affonso,
+vigiando a
+estrada, por onde devia apparecer o meu Principe, que emfim visitava a
+casa do seu
+Z&eacute; Fernandes. A tia Vicencia, desde a madrugada, andava
+atarefada pela cosinha e pela copa, porque, desejando mostrar ao meu
+Principe
+&laquo;o pessoal&raquo; da serra, convid&aacute;ra para
+jantar algumas
+familias amigas, dos arredores, as que tinham carruagens ou
+carroç&otilde;es,
+e podiam, pelas estradas mal seguras, recolher tarde, depois d'um
+bailarico campestre, no <span class="pagenum">[310]</span>pateo,
+j&aacute; enfeitado para esse effeito de lanternas
+chinezas. Mas logo &aacute;s dez horas me desesperei, ao receber,
+por um
+moço da Fl&ocirc;r da Malva, uma carta da prima
+Joanninha, em que dizia &laquo;a pena de
+n&atilde;o poder vir porque o Pap&aacute; estava desde a
+vespera com um
+leicenço, e ella n&atilde;o o queria
+abandonar.&raquo; Corri indignado &aacute; cosinha, onde
+a tia Vicencia presidia a um violento bater de gemas d'ovos dentro
+d'uma immensa terrina. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;A Joanninha n&atilde;o vem! Sempre assim! Diz que o pae tem um
+leicenço... Aquelle tio Adri&atilde;o escolhe sempre os
+grandes dias para ter
+leicenços, ou para ter a pontada... <br />
+
+<br />
+
+A boa face redondinha e corada da tia Vicencia enterneceu-se. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Coitado! ser&aacute; em sitio que n&atilde;o se pudesse
+sentar na carruagem! Coitado! Olha, se lhe escreveres, dize-lhe que
+ponha um emplastrosinho de folhas d'alecrim. &Eacute; com que teu
+tio
+se dava bem. <br />
+
+<br />
+
+Eu gritei simplesmente para o moço, que dava de beber ao
+burro no pateo: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Dize &aacute; Snr.<sup>a</sup> D. Joanninha que sentimos muito...
+Que
+talvez eu l&aacute; appareça
+&aacute;manh&atilde;. <br />
+
+<br />
+
+E voltei &aacute; janella, impaciente, por que o relogio do
+corredor, muito atrazado, j&aacute; cant&aacute;ra a meia hora
+depois das dez e
+o Principe tardava <span class="pagenum">[311]</span>para
+o almoço. Mas, mal eu me cheg&aacute;ra
+&aacute; varanda, appareceu justamente na volta da estrada
+Jacintho, de
+grande chapeu de palha, no seu cavallo, seguido do Grillo que, tambem
+de chapeu de palha, e abrigado sob um immenso guarda-sol verde, se
+escarranchava no albard&atilde;o da
+velha egoa do Melchior. Atraz, um moço com uma maleta
+&aacute;
+cabeça. E eu, na alegria de avistar emfim o meu Principe
+trotando para a minha casa d'aldeia, no
+dia dos meus trinta e seis annos, pensava n'outro natalicio, no d'elle,
+em Paris, no 202, quando, entre todos os esplendores da
+Civilizaç&atilde;o, nós bebemos tristemente <em>ad
+manes</em>, aos
+nossos mortos! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;<em>Salv&egrave;</em>! gritei da
+varanda. <em>Salv&egrave;, domine
+Jacinthi</em>! <br />
+
+<br />
+
+E entoei, para o accolher, n'um alegre tarantantan, o hymno da carta! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Isto por aqui tambem &eacute; lindo!&#8213;gritou elle de baixo. E o
+teu palacio tem um soberbo ar... Por onde &eacute; a porta? <br />
+
+<br />
+
+Mas eu j&aacute; me precipitava para o pateo&#8213;onde Jacintho,
+apeando, contou alegremente os tormentos do Grillo, que nunca
+mont&aacute;ra a
+cavallo, e n&atilde;o cess&aacute;ra de berrar ante os perigos
+d'aquella aventura. <br />
+
+<br />
+
+E o digno preto, offegante, lustroso de suor, e livido sob o esplendor
+da sua negrura, exclamava, <span class="pagenum">[312]</span>apontando
+com a m&atilde;o tremula para
+a pobre egoa, que solta, de cabeça pensativa, parecia de
+pedra,
+sobre as patas mais immoveis que marcos: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois se o si&ocirc; Fernandes visse! Uma fera, que nunca veiu
+quieta. Sempre para a esquerda, sempre para a direita, p&eacute;
+aqui,
+p&eacute; al&eacute;m! Só para me sacudir!
+Só para me sacudir! <br />
+
+<br />
+
+E n&atilde;o resistiu. Com a ponta do guarda-sol atirou uma
+pontoada vingativa contra a egoa, sobre o albard&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Subindo a escadaria ligeira, penetrando no alegre corredor, com a sua
+janella ao fundo engrinaldada de rosinhas, Jacintho louvava grandemente
+a nossa casa, que o repousava das rijas muralhas, das grossas portas
+feudaes de Tormes. E no seu quarto agradeceu os cuidados maternaes da
+tia Vicencia, que enchera de flores os dois vasos da China sobre a
+commoda, e adorn&aacute;ra a cama com uma das nossas colxas da
+India mais ricas, c&ocirc;r de canario, com grandes aves d'ouro. Eu
+sorria,
+enternecido. Ent&atilde;o estreitamos os ossos n'um grande
+abraço,
+pelo natalicio... &laquo;Trinta e oito, hein, Z&eacute;
+Fernandes?&raquo;&#8213;&laquo;Trinta e
+quatro, animal!&raquo; E o meu Principe abrindo a mala, sobria
+maleta
+de philosopho, offereceu os &laquo;nobres presentes, que
+s&atilde;o
+devidos&raquo;,
+como diz sempre o astuto Ulysses na Odyssea. Era um alfinete de
+gravata, <span class="pagenum">[313]</span>com uma
+saphira, uma cigarreira de
+aro fosco, adornada de um florido ramo de macieira em delicado esmalte,
+e uma faca para livros de velho lavor Chinez. Eu protestava contra a
+prodigalidade. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; tudo das malas de Paris... Mandei-as abrir hontem
+&aacute; noite. E tomei a liberdade de trazer esta
+lembrança &aacute; tua tia
+Vicencia. N&atilde;o vale nada... &Eacute; só por
+ter pertencido &aacute; princeza de
+Lamballe. <br />
+
+<br />
+
+Era uma caldeirinha d'agoa benta, em prata lavrada, d'um gosto florido
+e quasi galante. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;A tia Vicencia n&atilde;o sabe quem &eacute; a princeza de
+Lamballe, mas ficar&aacute; encantada! E &eacute; uma garantia,
+por que ella suspeita da tua
+religi&atilde;o, como homem de Paris, da terra das impiedades... E
+agora, lavar, escovar, e
+ao almoço! <br />
+
+<br />
+
+A tia Vicencia pareceu toda surprehendida, e logo encantada com o meu
+camarada, que ella suppuzera realmente um Principe, arrogante,
+escarpado e difficil. Quando elle lhe offereceu a caldeirinha, com um
+delicado pedido &laquo;para se lembrar d'elle nas suas
+oraç&otilde;es&raquo;, duas largas rosas, mais
+roseas e frescas
+que as rosas que enchiam a mesa, cobriram as
+faces redondas da boa senhora, que nunca recebera t&atilde;o
+piedoso
+presente, com t&atilde;o linda palavra. Mas o que sobretudo a
+captivou <span class="pagenum">[314]</span>foi o
+tremendo appetite de Jacintho, a enthusiasmada
+convicç&atilde;o
+com que elle, accumulando no prato montes de cabidella, depois altas
+serras d'arroz
+de forno, depois bifes de numerosa cebolada, exaltava a nossa cosinha,
+jurava nunca ter provado nada t&atilde;o sublime. Ella
+resplandecia: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;At&eacute; faz gosto, at&eacute; faz gosto!... Ora mais uma
+d'estas batatinhas recheadas... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Com certesa, minha senhora! at&eacute; duas! As minhas
+raç&otilde;es, em mesas d'estas, t&atilde;o
+perfeitas, s&atilde;o sempre as de
+Gargantua. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o cites Rabelais, que a tia Vicencia n&atilde;o
+conhece os auctores profanos! exclamava eu, tambem radiante. E prova
+esse vinho branco
+c&aacute; da nossa lavra, e louva Deus que amadurece tal uva. <br />
+
+<br />
+
+E o almoço foi muito alegre, muito intimo, muito conversado,
+sobre as obras de Jacintho em Tormes, e a sua Creche, que enlevava a
+tia Vicencia, e as esperanças da vindima, e a minha prima
+Joanninha, que tinha o pap&aacute; doente, e o pessimo estado dos
+caminhos. Mas o enternecimento maior foi quando, ao servir o
+caf&eacute;, o creado
+poz ao lado de Jacintho um pires com um pau de canella, o seu estranho
+e costumado pau de canella. N&atilde;o o esquecera a tia Vicencia!
+Ali
+tinha o
+seu pausinho de canella!&#8213;Queria que elle, em <span class="pagenum">[315]</span>Gui&atilde;es,
+continuasse os seus
+habitos como em Tormes... E aquelle pau de canella foi o symbolo de
+adopç&atilde;o do meu Principe como novo sobrinho da tia
+Vicencia. <br />
+
+<br />
+
+Ella em breve recolheu &aacute; cosinha, aos preparativos do
+banquete. Nós fumamos um preguiçoso charuto no
+jardim, ao
+p&eacute; do
+repuxo, sob a recolhida sombra do cedro. Depois, inexoravelmente, como
+proprietario, mostrei ao meu Principe a propriedade toda, com
+desapiedada minuciosidade, sem lhe perdoar uma leira, um regueiro, uma
+arvore, um
+p&eacute; de vinha. Só quando a sua face
+começou a opar e
+a
+empallidecer, de cançaço, e que do entendimento
+totalmente
+atordoado só lhe escorria um vago&#8213;&laquo;muito bonito!
+bella
+terra!&raquo;&#8213;&eacute;
+que voltei os passos para casa, tornejando ainda n'uma volta larga para
+lhe mostrar o lagar, uma plantaç&atilde;o d'espargos, e
+o sitio
+onde existira a
+ruina d'um velho castro romano. Ao penetrarmos de novo, pelo jardim, na
+fresca sala, ainda o empurrei, como uma rez, para a livraria do meu bom
+tio Affonso, para
+lhe mostrar as preciosidades, uma magnifica chronica de D.
+Jo&atilde;o
+I por Fern&atilde;o Lopes, a primeira ediç&atilde;o
+do
+<em>Imperador Clarimundo</em>, uma
+<em>Henriada</em>, com a assignatura de Voltaire, foraes
+d'El-Rei D.
+Manoel, e outras maravilhas. Elle respirava fechando o derradeiro
+pergaminho, <span class="pagenum">[316]</span>quando
+eu
+o arrastei &aacute; adega, para que admirasse a famosa pipa, que
+tinha, em relevo, na madeira do tampo, as complicadas armas dos Sandes.
+Eram quatro horas. O meu Principe tinha o ar esgaseado e livido.
+Cravando n'elle os olhos inexoraveis, olhos em que eu mesmo sentia
+reluzir a ferocidade, declarei &laquo;que iriamos agora
+v&ecirc;r a
+tulha.&raquo; Mas ent&atilde;o, com as m&atilde;os nos
+rins, elle
+murmurou, humildemente, n'um murmurio de
+creança: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o se me dava de me sentar um poucochinho! <br />
+
+<br />
+
+Tive ent&atilde;o piedade, abri as garras, deixei que elle se
+arrastasse, atraz de mim, para o seu quarto, onde freneticamente
+descalçou as
+botas, se atirou para um fresco canap&eacute; forrado de ganga,
+murmurando
+n'um abatimento profundo:&#8213;&laquo;Bella propriedade!&raquo; <br />
+
+<br />
+
+Consenti generosamente que elle adormecesse,&#8213;e eu mesmo desci a
+verificar se a Gertrudes dispusera bem as escovas, as toalhas de renda,
+no quarto onde os convidados, em breve, ao chegar, lavariam as
+m&atilde;os, escovariam a poeira da estrada. E justamente, uma
+caleche
+rodava no pateo, a velha caleche do D. Theotonio, com a parelha
+ruça.
+Espreitando da janella descobri, com prazer, que chegava só,
+de
+gravata
+branca, sob o guarda-pó, sem a horrendissima filha. Corri <span class="pagenum">[317]</span>alegremente ao
+quarto da tia Vicencia, que, ajudada pela Catharina, abrochava
+&aacute;
+pressa as suas pulseiras ricas de topazios. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tia Vicencia! chegou o D. Theotonio! Felizmente vem sem a filha...
+N&atilde;o se demore, os outros n&atilde;o tardam. O Manoel que
+esteja bem
+penteado, de gravata bem teza!... Vamos a v&ecirc;r como corre a
+festa! <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h2>XIII</h2>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Ai de mim! a festa no meu anniversario n&atilde;o se passou com
+brilho, nem com alegria! <br />
+
+<br />
+
+Quando o meu Principe entrou na sala, com uma elegancia, (onde eu senti
+as malas de Paris, abertas na vespera)&#8213;uma rosa branca no
+jaquet&atilde;o preto, collete branco lavrado e trespassado,
+copiosa
+gravata de
+s&ecirc;da branca, tufando, e presa por uma perola
+negra,&#8213;j&aacute;
+todos os
+convidados estavam na sala,&#8213;o D. Theotonio, o Ricardo Velloso, o Dr.
+Alypio, o gordo Mello Rebello, de Sandofim, os dois manos Albergarias,
+da quinta da Loja&#8213;; todos de p&eacute;, n'um pellot&atilde;o
+cerrado.
+Em
+torno do soph&aacute; onde a tia Vicencia se install&aacute;ra,
+um
+magotesinho de cadeiras
+reunira as senhoras,&#8213;a Beatriz Velloso, de cassa branca sobre <span class="pagenum">[320]</span>s&egrave;da,
+que a tornava mais aeria e magra, com a sua trunfa immensa de cabello
+riçado; as duas Roj&otilde;es, (com a tia Adelaide
+Roj&atilde;o)
+vermelhinhas
+como camoezas, ambas de branco; e a mulher do Dr. Alypio, de preto,
+esplendida como uma Venus Rustica... E foi na sala, como se realmente
+entrasse um Principe, d'esses paizes do Norte onde os Principes
+s&atilde;o magnificos,
+muito distantes dos homens, e aterram as gentes. Um silencio, como se o
+tecto
+de carvalho descesse, nos esmagava: e todos os olhos se enristaram
+contra o meu desgraçado Jacintho, como n'uma
+caçada hind&uacute;, quando &aacute; orla da
+floresta surge o
+Tigre Real. Debalde,&#8213;nas confusas, apressadas
+apresentaç&otilde;es, com que eu o levava atravez da
+sala,&#8213;os seus apertos de m&atilde;o, os sorrisos, o vago murmurio,
+&laquo;da sua honra,
+do seu prazer&raquo; foram repassados de sympathia, de
+simplicidade.
+Todos os cavalheiros permaneciam reservados, observando o Principe, que
+subira &aacute;
+serra: e as senhoras mais se aconchegavam &aacute; sombra da tia
+Vicencia, como
+ovelhas &aacute; volta do pastor, quando na altura assoma o lobo.
+Eu,
+j&aacute;
+inquieto, lancei o D. Theotonio, o mais ornamental d'aquelles
+cavalheiros. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;O Snr. D. Theotonio foi muito amavel em vir, Jacintho. Raras vezes
+sae da sua linda casa da Abrujeira. <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[321]</span>
+O digno D. Theotonio sorriu, cofiando os espessos bigodes brancos, de
+velho brigadeiro: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;V. Ex.<sup>a</sup> chegou directamente de Vienna? <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o! Jacintho viera directamente de Paris, com o amigo
+Z&eacute; Fernandes. D. Theotonio insistiu: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas certamente visita muitas vezes Vienna... <br />
+
+<br />
+
+Jacintho sorria surprehendido: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vienna, porque?... N&atilde;o. Ha mais de quinze annos que
+n&atilde;o vou a Vienna. <br />
+
+<br />
+
+O fidalgo murmurou um lento <em>ah</em>! e
+ficou calado, de palpebras baixas, como revolvendo analyses profundas,
+com as m&atilde;os cruzadas sob
+as abas da longa sobrecasaca azul. <br />
+
+<br />
+
+Eu ent&atilde;o, vigilante, lancei o Dr. Alypio: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;O nosso Doutor, meu caro Jacintho, &eacute; o mais poderoso
+influente de todo o districto. <br />
+
+<br />
+
+O Doutor curvou a cabeça bem feita, com um bello cabello
+preto, admiravelmente alisado e lustroso. Mas a tia Vicencia, que se
+erguera
+do sof&aacute;, chamava o meu Principe, porque o Manoel
+annunci&aacute;ra o jantar, mudamente, mostrando apenas,
+&aacute; porta da sala, a sua
+corpulenta pessoa,&#8213;inteiriçado e vermelho. <br />
+
+<br />
+
+&Aacute; mesa, onde os pudins, as travessas de doce d'ovos, os
+antigos vinhos da Madeira e do Porto, nas suas pesadas garrafas de
+cristal lapidado, fundiam com felicidade os seus <span class="pagenum">[322]</span>tons ricos e quentes,
+Jacintho ficou entre a tia Vicencia e uma das Roj&otilde;es, a
+Luizinha, sua
+afilhada, que, por costume velho, quando jantava em Gui&atilde;es,
+sempre se
+collocava &aacute; sombra da sua b&ocirc;a madrinha. E a
+s&ocirc;pa, que era de
+gallinha com macarr&atilde;o, foi comida n'um t&atilde;o largo
+e pesado silencio que eu, na ancia
+de o quebrar, exclamei, ao acaso, sem pensar que me achava em
+Gui&atilde;es depois de tanto tempo e em minha própria
+casa: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Deliciosa, esta sopa! <br />
+
+<br />
+
+Jacintho echoou: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Divina!! <br />
+
+<br />
+
+Mas como todos os convidados certamente estranharam este meu brado, e a
+excessiva admiraç&atilde;o de Jacintho, o silencio,
+carregado de cerimonia, mais se carregou de embaraço.
+Felizmente
+a tia Vicencia, com
+aquelle seu bom sorriso, observou que Jacintho parecia gostar da comida
+portugueza... E eu, sempre no intuito d'animar a conversa, nem deixei
+que o meu Principe confirmasse o seu amor da cosinha vernacula, e
+gritei: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Como gostar! Mas &eacute; que delira!... Pudera! Tanto tempo em
+Paris, privado dos piteus lusitanos... <br />
+
+<br />
+
+E como, ditosamente, me lembr&aacute;ra o prato de arroz doce
+preparado na occasi&atilde;o do natalicio de Jacintho, pelo
+cosinheiro do 202,
+<span class="pagenum">[323]</span>contei a historia,
+profusamente, exaggerando, affirmando que esse arroz doce continha <em>foie
+gras</em>,
+e que sobre a
+sua ornamentada pyramide fluctuava a bandeira tricolor, por cima do
+busto do conde de Chambord! Mas o arroz doce de Paris, assim estragado
+t&atilde;o longe da Serra,
+n&atilde;o interess&aacute;ra ninguem. Puxou apenas alguns
+sorrisos de
+polida condescendencia, quando
+eu, alternadamente, me voltava para um cavalheiro, para uma senhora,
+insistindo, exclamando:&#8213;Extraordinario, hein? <br />
+
+<br />
+
+D. Theotonio observou, mysteriosamente, que o &laquo;cosinheiro
+sabia para quem cosinhava.&raquo; E a bella mulher do Dr. Alypio
+ousou
+murmurar, corando: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Havia de ser bonito prato, e talvez n&atilde;o fosse mau! <br />
+
+<br />
+
+Eu, sempre na ancia de espiritualisar o banquete, de produzir
+conversaç&atilde;o, ataquei com desabrida alegria a
+Snr.<sup>a</sup> D. Luiza, por ella assim defender a
+profanaç&atilde;o do nosso grande
+acepipe nacional! Mas, pobre de mim! t&atilde;o excessiva e
+ruidosamente interpellei a formosa
+senhora, que ella se enconchou, emmudeceu, toda corada, e mais formosa
+assim. E
+outro silencio se abatia sobre a mesa, como uma nevoa, quando a tia
+Vicencia,
+providencial, se desculpou para com Jacintho de n&atilde;o ter
+peixe! Mas qu&ecirc;! ali na Serra era impossivel, <span class="pagenum">[324]</span>ainda
+a peso d'ouro, ter peixe, a
+n&atilde;o ser a pescada salgada, ou o bacalhau. O excellente
+Roj&atilde;o, com
+aquelle seu modo, t&atilde;o suave que cada syllaba para correr
+mais
+docemente
+parecia lubrificada com oleos santos, lembrou que o Snr. D. Jacintho
+possuia
+uma larga facha do rio Douro com privilegio para a pesca do savel.
+Jacintho
+n&atilde;o sabia, nem imaginava que houvesse saveis... O Dr. Alypio
+n&atilde;o se admirava por que essas pescas tinham sido vendidas ao
+Cunha brasileiro,
+ha vinte annos, na mocidade do Snr. D. Jacintho. E hoje, segundo o D.
+Theotonio, n&atilde;o valiam dois mil r&eacute;is. Se
+j&aacute; n&atilde;o ha saveis!... E a proposito das antigas
+pescas do
+Douro se ia formando, em torno da mesa,
+entre os homens mais visinhos, lentas cavaqueirinhas ruraes, que as
+senhoras aproveitavam para cochichar, no desabafo d'aquelle silencio
+cerimonioso, que viera pesando cada vez mais desde a s&ocirc;pa
+at&eacute; os frangos guisados. Receoso de que essa orla de
+murmurios
+lentos, sem brilho e
+sem alegria, se estabelecesse de novo, me abalancei (para animar), a
+interpellar Jacintho, recordando a famosa aventura do peixe da Dalmacia
+encalhado no ascensor. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Isso foi uma das melhores historias que nos succederam em Paris! O
+Jacintho, por causa d'um peixe muito raro, que lhe mand&aacute;ra <span class="pagenum">[325]</span>o
+Gr&atilde;o-Duque Casimiro, dava uma magnifica ceia, a que o
+Gr&atilde;o-Duque... o
+Gr&atilde;o-Duque Casimiro, o irm&atilde;o do Imperador... <br />
+
+<br />
+
+Todos os olhos se desviaram para o meu Jacintho, que se servia de
+ervilhas:&#8213;e o Mello Rebello quasi se engasgou, n'um sorvo precipitado
+ao copo, para contemplar no meu amigo algum reflexo do
+Gr&atilde;o-Duque. E eu contei, com profus&atilde;o, o peixe
+encalhado,
+o
+Gr&atilde;o-Duque pescando, o anzol feito com um gancho da Princeza
+de
+Carman, o duque de Marizac, cahindo quasi no poço do
+elevador...
+Mas n&atilde;o se produziu
+um unico riso, e a attenç&atilde;o mesma era dada com
+esforço,
+por cortezia. Debalde eu arremessava aquelles nomes magnificos de
+principes e princezas, misturados a cousas picarescas... Nenhum dos
+meus convidados comprehendia o maquinismo do elevador, um prato
+encalhado n'um
+poço negro... Perante o gancho da princeza as Albergarias
+baixaram os olhos.
+E a minha deliciosa historia morreu n'uma reticencia, ainda mais
+regelada pela exclamaç&atilde;o innocente da tia
+Vicencia: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Oh! filho, que cousas! <br />
+
+<br />
+
+Mas, como Jacintho se enfronh&aacute;ra de repente n'uma larga
+conversa com a Luizinha Roj&atilde;o, que ria, toda luminosa e
+palradora,&#8213;todos,
+como libertados do peso cerimonioso <span class="pagenum">[326]</span>da
+sua presença augusta, se
+lançaram nas conversinhas discretas, a que o champagne,
+agora,
+depois do assado,
+dava mais viveza. Eram os soturnos murmurios, em torno da mesa, que
+definitivamente se perpetuavam. Foi ent&atilde;o que desisti de
+animar o jantar. Mergulhei com a bella mulher do Doutor Alypio na
+grande
+quest&atilde;o social d'esse tempo em Gui&atilde;es, o
+casamento da D.
+Amelia
+Noronha com o feitor! E eu defendia a D. Amelia, os direitos do amor,
+quando se alargou um silencio,&#8213;e era Jacintho, que se
+debruçava, de
+copo na m&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Velho amigo Z&eacute; Fernandes, &aacute; tua! Muitos e bons,
+e sempre em companhia de tua tia e minha senhora, a quem
+peço para saudar. <br />
+
+<br />
+
+Todos os copos, onde a espuma morria sobre um fundo de champagne, se
+ergueram n'um largo rumor de amisade, e boa visinhança. Eu
+acenei ao Manoel, vivamente, para encher os copos; e logo, tambem de
+p&eacute;, atirando para traz a sobrecasaca: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Meus senhores, peço uma grande saude para o meu velho
+amigo Jacintho, que pela primeira vez honra esta casa fraternal... Que
+digo eu? que
+pela primeira vez honra com a sua presença a sua querida
+patria!
+E que por c&aacute; fique, pelas serras, muitos annos, todos bons.
+&Aacute; tua, meu
+velho! <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[327]</span>Outro rumor correu
+pela mesa, mas
+ceremonioso e sereno. A nossa oratoria, positivamente, n&atilde;o
+incendi&aacute;ra as
+imaginaç&otilde;es! A tia Vicencia fez tilintar o seu
+copo,
+quasi vasio, com o de Jacintho, que tocou no copo da sua visinha, a
+Luizinha Roj&atilde;o, toda resplandecente,
+e mais vermelha que uma peonia. Depois foi um encadeamento de saudes,
+com os copos quasi vasios, entre todos os convidados, sem esquecer o
+tio Adri&atilde;o, e o Abbade, ambos ausentes, ambos com
+furunculos. E
+a tia Vicencia espalhava aquelle olhar, que prep&aacute;ra o
+erguer, o
+arrastar de cadeiras,&#8213;quando D. Theotonio, erguendo o seu copo de
+vinho do Porto, com a outra m&atilde;o apoiada &aacute; mesa,
+meio
+erguido,
+chamou Jacintho, e n'uma voz respeitosa, quasi cava: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Esta &eacute; toda particular, e entre nós... Brindo o
+ausente! <br />
+
+<br />
+
+Esvasiou o copo, como em religi&atilde;o, pontificando. Jacintho
+bebeu assombrado, sem comprehender. As cadeiras arrastavam,&#8213;eu dei o
+braço &aacute; tia Albergaria. <br />
+
+<br />
+
+E só comprehendi, na sala, quando o Dr. Alypio, com a sua
+chavena de caf&eacute; e o charuto fumegante, me disse, n'um
+d'aquelles seus
+olhares finos, que lhe valiam a alcunha de <em>Dr.
+Agudo</em>:&#8213;&laquo;Espero que ao menos, c&aacute; por
+Gui&atilde;es, n&atilde;o se erga de novo a
+forca!...&raquo; <span class="pagenum">[328]</span>E
+o mesmo fino olhar me indicava o D. Theotonio, que arrast&aacute;ra
+Jacintho para entre
+as cortinas d'uma janella, e discorria, com um ar de f&eacute; e de
+mysterio.
+Era o miguelismo, por Deus! O bom D. Theotonio considerava Jacintho
+como um hereditario, ferrenho, miguelista,&#8213;e na sua inesperada vinda
+ao seu solar de Tormes, entrevia uma miss&atilde;o politica, o
+começo d'uma propaganda energica, e o primeiro passo para
+uma
+tentativa de
+Restauraç&atilde;o. E na reserva d'aquelles cavalheiros,
+ante o
+meu Principe, eu senti
+ent&atilde;o a suspeita liberal, o receio d'uma influencia rica,
+nova,
+nas
+Eleiç&otilde;es proximas, e a nascente
+irritaç&atilde;o
+contra as velhas
+ideias, representadas n'aquelle moço, t&atilde;o rico,
+de
+civilisaç&atilde;o t&atilde;o superior. Quasi
+entornei o caf&eacute;, na alegre surpreza d'aquella sandice. E
+retive
+o Mello
+Rebello, que repunha a chavena vasia na bandeja, fitei, com um pouco de
+riso, o <em>Dr. Agudo</em>. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o, francamente, os amigos imaginam que o Jacintho veio
+para Tormes trabalhar no miguelismo? <br />
+
+<br />
+
+Muito serio, Mello Rebello chegou o seu grosso bigode &aacute;
+minha orelha: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;At&eacute; corre, como certo, que o Principe D. Miguel
+est&aacute; com elle em Tormes! <br />
+
+<br />
+
+E como eu os considerava esgazeado, o Dr. Alypio&#8213;t&atilde;o
+agudo!&#8213;confirmou: <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[329]</span>
+&#8213;&Eacute; o que corre... Disfarçado em creado! <br />
+
+<br />
+
+Em creado? Oh! santo Deus! Era o Baptista! Justamente, Ricardo Velloso
+veio, puxando do seu cigarrinho, para o accender no meu charuto. E o
+bom Rebello logo invocou o seu testemunho.&#8213;Pois n&atilde;o corria,
+que
+o filho de D. Miguel estava em Tormes, escondido?... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Disfarçado em lacaio, confirmou logo o digno Rebello. <br />
+
+<br />
+
+Accendeu o cigarro, soprou o fumo, e erguendo muito as sobrancelhas
+meditativas: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Se assim &eacute;, l&aacute; me parece desplante... Que eu
+n&atilde;o desgostava de o v&ecirc;r. Dizem que &eacute;
+bonito moço, bem apessoado. Mas
+emfim, meu tio Jo&atilde;o Vaz Rebello foi partido &aacute;s
+postas, a machado, nas
+pris&otilde;es d'Almeida... E se recomeçam essas
+quest&otilde;es, mau, mau! Ora o seu
+amigo... <br />
+
+<br />
+
+Emmudeceu. Jacintho, que se libert&aacute;ra do velho D. Theotonio,
+e ainda conservava um resto de riso, d'assombro divertido, vinha para
+mim, desabafar: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Extraordinario! Vejo que, aqui, na serra, ainda se conservam, sem uma
+ruga, as velhas e boas ideias... <br />
+
+<br />
+
+Immediatamente, sem se conter, Mello Rebello acudiu: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; conforme o que V. Ex.<sup>a</sup> chama <em>boas
+ideas</em>. <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[330]</span>E eu agora,
+furioso com aquella
+disparatada
+invenç&atilde;o, que cercava d'hostilidade o meu pobre
+Jacintho,
+estragava aquella amavel noite d'annos, intervim, vivamente: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tu jogas o voltarete, Jacintho? N&atilde;o jogas...
+Ent&atilde;o vamos arranjar duas mesas... O D. Theotonio ha de
+querer cartas. <br />
+
+<br />
+
+E arrastei Jacintho para as senhoras, que de novo se aninhavam
+&aacute; sombra da tia Vicencia, estabelecida no seu canto do
+sof&aacute;. Todas se
+callavam, parecia encolherem-se ante a appariç&atilde;o
+do meu
+Principe, como pombas avistando o abutre. E deixei o temido homem
+affirmando &aacute;
+mulher do Dr. Alypio (um pouco desgarrada do bando das aves timidas)
+que lhe dera grande prazer aquella occasi&atilde;o de conhecer as
+suas
+visinhas
+de Tormes... Ella abrira nervosamente o leque, sorria, e nunca de certo
+Jacintho admir&aacute;ra na Cidade uma bocca mais vermelha,
+dentinhos
+mais
+rutilantes. Mas depois d'organisar a mesa do voltarete, tive de
+abancar, eu, para substituir o Manoel Albergaria, que era dispeptico,
+se
+declar&aacute;ra &laquo;affrontado&raquo;, e desejava
+respirar um
+momento na
+varanda. Todos aquelles cavalheiros, de resto, se queixavam de calor.
+Mandei abrir as janellas que davam sobre as mimosas do pateo. O
+Velloso, ao baralhar, parava, bufando, como opprimido: <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[331]</span>
+&#8213;Est&aacute; abafado... Ainda temos trovoada! <br />
+
+<br />
+
+E o Dr. Alypio, inquieto, por que tinha uma hora d'estrada
+at&eacute; casa, e uma das egoas da caleche era escabriada, correu
+&aacute; janella,
+espreitar o ceu, que ennegrecera, morno e pesado. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Com effeito, vae cahir agoa. <br />
+
+<br />
+
+As hastes das mimosas ramalhavam, arripiadas: e o ar que agitava as
+cortinas era intermittente, estonteado. De certo na sala, entre as
+senhoras, surgira a mesma inquietaç&atilde;o, porque a
+tia Albergaria appareceu, avisando o mano Jorge. <br />
+
+<br />
+
+Era prudente pensar em partir, a noite ameaçava... E o Dr.
+Alypio, puxando o relogio, propoz que, levantada aquella remissa, se
+preparasse
+a marcha. Justamente o Albergaria recolhia da varanda desaffrontado,
+alliviado com um calice de genebra: e rotomou as suas cartas,
+annunciando tambem que vinha ahi uma trovoada valente. <br />
+
+<br />
+
+Voltando &aacute; sala, encontrei Jacintho muito alegre entre as
+senhoras, que se familiarisaram, escutando cheias de riso e gosto, a
+historia da sua chegada a Tormes, sem malas, sem creados,
+t&atilde;o
+desprovido que
+dormira com a camisa da caseira! Mas a minha pobre noite d'annos
+findava, desorganisada. A tia Albergaria rondava de janella em janella,
+assustada <span class="pagenum">[332]</span>com a
+volta &aacute;
+Roqueirinha, espreitando a treva abafada.
+Calçando lentamente as luvas, a bella mulher do Dr. Alypio
+perguntava se ainda havia a remissa. E a tia Vicencia
+apress&aacute;ra
+o
+ch&aacute;, que o Manoel seguido pela Gertrudes, com a bandeja de
+bolos, j&aacute;
+começava a servir &aacute;s senhoras. Jacintho, de
+p&eacute;,
+offerecendo chavenas, gracejava: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o tanta pressa, tanto medo, por causa d'uma
+trovoadinha? <br />
+
+<br />
+
+Ellas replicavam, familiarizadas, n'uma crescente sympathia pelo meu
+Principe: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora o senhor falla bem, porque fica debaixo de telhas... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sempre o queriamos v&ecirc;r... se fosse agora para Tormes, com
+esta noite cerrada! <br />
+
+<br />
+
+O voltarete find&aacute;ra nas duas mesas: e aquelles cavalheiros,
+das janellas, gritavam ordens para o pateo negro, onde as carroagens
+esperavam atreladas: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Desce a cabeça da victoria, ó Diogo! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Accende o lampe&atilde;o, Pedro! Sempre ajuda a luz das
+lanternas. <br />
+
+<br />
+
+A creada Quiteria chegava &aacute; porta com os braços
+carregados de chales, de mantilhas de renda. Como uma das Albergarias
+ia no assento de deante na
+victoria, eu corri a buscar o meu casaco de borracha, para ella se
+abrigar se a chuva viesse. E só o D. Theotonio, que <span class="pagenum">[333]</span>tinha
+at&eacute; casa apenas meia legoa de estrada boa, se n&atilde;o
+apressava, filado
+outra vez no meu Principe, que levava para os cantos mais solitarios,
+em conversas profundas, que o seu dedo solemne, espetado, sublinhava
+gravemente. Mas
+a tia Albergaria gritou que j&aacute; chovia;&#8213;e ent&atilde;o
+foi uma pressa das senhoras, que beijocavam vivamente a tia Vicencia,
+em quanto os homens,
+na ante-camara, enfiavam açodadamente os paletós.
+<br />
+
+<br />
+
+Jacintho e eu descemos ao pateo para acompanhar aquella debandada,&#8213;e
+uma a uma, a traquitana do Dr. Alypio, a victoria das Albergarias, a
+velha e immensa caleche dos Vellosos, rolaram sob a noite, entre os
+nossos desejos de boa jornada. Por fim D. Theotonio calçou
+as luvas pretas e entrou para a sua caleche, dizendo a Jacintho: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois, primo e amigo, Deus permitta que, do nosso encontro, e do mais
+que se passar, algum bem resulte a esta terra! <br />
+
+<br />
+
+Subindo a escada, o meu Principe desabafou: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Este Theotonio &eacute; extraordinario! Sabes o que descobri por
+fim?... Que me toma por um miguelista, e imagina que eu vim para Tormes
+preparar a restauraç&atilde;o de D. Miguel?! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E tu? <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[334]</span>
+&#8213;Eu fiquei t&atilde;o espantado, que nem o desilludi! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois sabe mais, meu pobre amigo. Todos pensam o mesmo,
+est&atilde;o desconfiados, e receiam v&ecirc;r de novo erguidas
+as
+f&ocirc;rcas em Gui&atilde;es! E corre que tu tens o Principe
+D. Miguel escondido em Tormes,
+disfarçado em creado. E sabes quem elle &eacute;? o
+Baptista! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Isso &eacute; sublime! murmurou Jacintho, com uns grandes olhos
+abertos. <br />
+
+<br />
+
+Na sala, a tia Vicencia nos esperava desconsolada, entre todas as
+luzes, que ardiam ainda no silencio e paz do ser&atilde;o
+debandado: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora uma cousa assim! Nem quererem ficar para tomar um copinho de
+gelea, um calice de vinho do Porto! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Esteve tudo muito desanimado, tia Vicencia! exclamei desafogando o
+meu tedio. Todo esse mulherio emmudeceu; os amigos com um ar
+desconfiado...
+<br />
+
+<br />
+
+Jacintho protestou, muito divertido, muito sincero: <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o! pelo contrario. Gostei immenso. Excellente gente! E
+t&atilde;o simples... Todas estas raparigas me pareceram optimas. E
+t&atilde;o frescas,
+t&atilde;o alegres! Vou ter aqui bons amigos, quando verificarem
+que n&atilde;o sou
+miguelista. <br />
+
+<br />
+
+Ent&atilde;o contamos &aacute; tia Vicencia a prodigiosa
+<span class="pagenum">[335]</span>historia de D.
+Miguel escondido em Tormes... Ella ria! Que cousa! E mau seria... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas o Snr. Jacintho, n&atilde;o &eacute;? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu, minha senhora, sou socialista... <br />
+
+<br />
+
+Acudi, explicando &aacute; tia Vicencia, que socialista era ser
+pelos pobres. A doce senhora considerava esse partido o melhor, o
+verdadeiro: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;O meu Affonso, que Deus haja, era liberal... Meu pae, tambem e
+at&eacute; amigo do Duque da Terceira... <br />
+
+<br />
+
+Mas um rude trov&atilde;o rolou, atroou a noite negra:&#8213;e uma
+batega d'agoa cantou nos vidros, e nas pedras da varanda. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Santa Barbara! gritou a tia Vicencia! Ai aquella pobre gente!...
+At&eacute; estou com cuidado... As Roj&otilde;es, que
+v&atilde;o na
+victoria! <br />
+
+<br />
+
+E correu para o quarto, na sua pressa de accender as duas velas
+costumadas no oratorio, ainda antes de ir guardar as pratas, e resar o
+terço, com a Gertrudes. <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h2>XIV</h2>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Ao outro dia, depois d'almoço, eu e Jacintho montamos a
+cavallo para um grande passeio at&eacute; &aacute;
+Fl&ocirc;r da Malva, a
+saber de meu tio Adri&atilde;o, e do seu furunculo. E sentia uma
+curiosidade interessada, e at&eacute;
+inquieta, de testemunhar a impress&atilde;o que daria ao meu
+Principe aquella
+nossa prima Joanninha, que era o orgulho da nossa casa. J&aacute;
+n'essa
+manh&atilde;, andando todos no jardim a escolher uma bella rosa
+ch&aacute; para a
+botoeira do meu Principe, a tia Vicencia celebr&aacute;ra com tanto
+fervor a
+belleza, a graça, a caridade, e a doçura da sua
+sobrinha toda-amada, que eu
+protestei: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Oh! tia Vicencia, olhe que esses elogios todos competem apenas
+&aacute; Virgem Maria! A tia Vicencia est&aacute; a cahir em
+peccado de
+idolatria! O Jacintho depois vae encontrar uma creatura apenas humana,
+e tem um desapontamento tremendo! <br />
+
+<br />
+
+E agora, trotando pela facil estrada de Sandofim, <span class="pagenum">[338]</span>lembrava-me aquella
+manh&atilde;, no 202, em que Jacintho encontr&aacute;ra o
+retrato d'ella no meu quarto, e lhe cham&aacute;ra uma
+<em>lavradeir&ocirc;na</em>. Com
+effeito, era grande e forte a Joanninha. Mas a photographia datava do
+seu tempo de
+viço rustico, quando ella era apenas uma bella forte e
+s&atilde; planta
+da serra. Agora entrava nos vinte e cinco, e j&aacute; pensava, e
+sentia,&#8213;e
+a alma que n'ella se form&aacute;ra, afin&aacute;ra,
+amaci&aacute;ra,
+e espiritualisava o seu esplendor rubicundo. <br />
+
+<br />
+
+A manh&atilde;, com o ceu todo purificado pela trovoada da vespera,
+e as terras reverdecidas e lavadas pelos chuviscos ligeiros, offerecia
+uma
+doçura luminosa, fina, fresca, que tornava doce, como diz o
+velho Euripedes ou
+o velho Sophocles, mover o corpo, e deixar a alma preguiçar,
+sem pressa nem cuidados. A estrada n&atilde;o tinha sombra, mas o
+sol
+batia
+muito de leve, e roçava-nos com uma caricia quasi alada. O
+valle
+parecia a
+Jacintho, que nunca ali pass&aacute;ra, uma pintura da Escola
+Franceza
+do
+seculo XVIII, t&atilde;o graciosamente n'elle ondulavam as terras
+verdes, e com
+tanta paz e frescura corria o risonho Serp&atilde;o, e
+t&atilde;o
+affaveis
+e promettedores de fartura e contentamento alvejavam os casaes nas
+verduras tenras! Os nossos cavallos caminhavam n'um passo pensativo,
+gosando tambem a paz
+da manh&atilde; adoravel. E n&atilde;o sei, nunca soube, que
+plantasinhas <span class="pagenum">[339]</span>silvestres
+e
+escondidas espalhavam um delicado aroma, que eu tantas vezes sentira,
+n'aquelle caminho, ao começar o outomno. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que delicioso dia! murmurou Jacintho. Este caminho para a
+Fl&ocirc;r da Malva &eacute; o caminho do ceu... Oh
+Z&eacute; Fernandes, de
+que &eacute; este cheirinho t&atilde;o doce, t&atilde;o
+bom? <br />
+
+<br />
+
+Eu sorri, com certo pensamento: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o sei... &Eacute; talvez j&aacute; o cheiro do
+ceu! <br />
+
+<br />
+
+Depois, parando o cavallo, apontei com o chicote para o valle: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Olha, acol&aacute;, onde est&aacute; aquella fila d'olmos, e
+ha o riacho, j&aacute; s&atilde;o terras do tio
+Adri&atilde;o. Tem alli um pomar, que d&aacute;
+os p&ecirc;cegos mais deliciosos de Portugal... Hei de pedir
+&aacute; prima Joanninha que
+te mande um cesto d'elles. E o d&ocirc;ce que ella faz com esses
+p&ecirc;cegos, menino, &eacute; alguma cousa de celeste. Tambem
+lhe hei de pedir que te mande o
+d&ocirc;ce. <br />
+
+<br />
+
+Elle ria: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ser&aacute; explorar de mais a prima Joanninha. E eu (por que?)
+recordei e atirei ao meu Principe estes dous versos d'uma ballada
+cavalheiresca, composta em Coimbra pelo meu pobre amigo Procopio: <br />
+
+<br />
+
+<div class="break">&#8213;Manda-lhe um servo querido,<br />
+
+Bem hajas dona formosa!<br />
+
+E que lhe entregue um annel<br />
+
+E com um annel uma rosa. </div>
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[340]</span>Jacintho rio
+alegremente: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Z&eacute; Fernandes, seria excessivo, só por causa de
+meia duzia de p&ecirc;cegos, e d'um boi&atilde;o de
+d&ocirc;ce. <br />
+
+<br />
+
+Assim riamos, quando appareceu, &aacute; volta da estrada, o longo
+muro da quinta dos Vellosos, e depois a capellinha de S.
+Jos&eacute; de
+Sandofim. E immediatamente piquei para o largo, para a taverna do
+T&ocirc;rto,
+por causa d'aquelle vinhinho branco, que sempre, quando por ali a levo,
+a minha alma me pede. O meu Principe reprovou, indignado: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Oh! Z&eacute; Fernandes, pois tu, a esta hora, depois
+d'almoço, vaes beber vinho branco? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; um costumesinho antigo... Aqui &aacute; taverninha
+do T&ocirc;rto... um decilitrosinho... A almasinha assim m'o pede. <br />
+
+<br />
+
+E paramos; eu gritei pelo Manoel, que appareceu, rebolando a sua grossa
+pansa, sobre as pernas tortas, com a infusa verde, e um copo. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Dous copos, T&ocirc;rto amigo. Que aqui este cavalheiro tambem
+aprecia. <br />
+
+<br />
+
+Depois d'um pallido protesto, o meu Principe tambem quiz, mirou o
+limpido e dourado vinho ao sol, provou, e esvasiou o copo, com delicia,
+e um estalinho de alto apreço. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Delicioso vinho!... Hei de querer d'este vinho em Tormes...
+&Eacute; perfeito. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Hein? Fresquinho, leve, aromatico, alegrador, <span class="pagenum">[341]</span>todo
+alma!... Encha
+l&aacute; outra vez os copos, amigo T&ocirc;rto. Este
+cavalheiro aqui
+&eacute; o Snr. D. Jacintho, o fidalgo de Tormes. <br />
+
+<br />
+
+Ent&atilde;o, de traz da umbreira da taverna, uma grande voz
+bradou, cavamente, solemnemente: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Bemdito seja o pae dos Pobres! <br />
+
+<br />
+
+E um extranho velho, de longos cabellos brancos, barbas brancas, que
+lhe comiam a face c&ocirc;r de tijolo, assomou no v&atilde;o da
+porta, apoiado a um bord&atilde;o, com uma caixa de lata a
+tiracolo, e cravou em
+Jacintho dous olhinhos d'um brilho negro, que faiscavam. Era o tio
+Jo&atilde;o
+Torrado, o propheta da Serra... Logo lhe estendi a m&atilde;o, que
+elle
+apertou, sem despegar de Jacintho os olhos, que se dilatavam mais
+negros. Mandei vir
+outro copo, apresentei Jacintho, que cór&aacute;ra,
+embaraçado. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois aqui o tem, o senhor de Tormes, que fez por ahi todo esse bem
+&aacute; pobreza. <br />
+
+<br />
+
+O velho atirou para elle bruscamente o braço, que sahia
+cabelludo e quasi negro, d'uma manga muito curta. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;A m&atilde;o! <br />
+
+<br />
+
+E quando Jacintho lh'a deu, depois de arrancar vivamente a luva,
+Jo&atilde;o Torrado longamente lh'a reteve com um sacudir lento e
+pensativo, murmurando: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;M&atilde;o real, m&atilde;o de dar, m&atilde;o que vem de
+cima, m&atilde;o j&aacute; rara! <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[342]</span>
+Depois tomou o copo, que lhe offerecia o T&ocirc;rto, bebeu com
+immensa lentid&atilde;o, limpou as barbas, deu um geito
+&aacute;
+correia que lhe prendia a caixa de lata, e batendo com a ponta do
+cajado no ch&atilde;o: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois louvado seja nosso Senhor Jesus Christo, que por aqui me trouxe,
+que n&atilde;o o meu dia, e vi um homem! <br />
+
+<br />
+
+Eu ent&atilde;o debrucei-me para elle, mais em confidencia: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas, ó tio Jo&atilde;o, ouça c&aacute;!
+Sempre &eacute; certo voc&ecirc; dizer por ahi, pelos sitios,
+que El-Rei D. Sebasti&atilde;o volt&aacute;ra? <br />
+
+<br />
+
+O pittoresco velho apoiou as duas m&atilde;os sobre o cajado, o
+queixo d'espalhada barba sobre as m&atilde;os, e murmurava, sem nos
+olhar,
+como seguindo a percuss&atilde;o dos seus pensamentos: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Talvez voltasse, talvez n&atilde;o voltasse... N&atilde;o se
+sabe quem vae, nem quem vem. A gente v&ecirc; os corpos, mas
+n&atilde;o
+v&ecirc; as
+almas que est&atilde;o dentro. Ha corpos d'agora com almas
+d'outr'ora.
+Corpo &eacute; vestido, alma
+&eacute; pessoa... Na feira da Roqueirinha quem sabe com quantos
+reis
+antigos se topa, quando se anda aos encontr&otilde;es entre os
+vaqueiros... Em ruim
+corpo se esconde bom senhor! <br />
+
+<br />
+
+E como elle find&aacute;ra n'um murmurio, eu, atirando um olhar a
+Jacintho, e para gosarmos <span class="pagenum">[343]</span>aquelles
+estranhos, pittorescos modos de vidente,
+insisti: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas, ó tio Jo&atilde;o, voc&ecirc; realmente, em
+sua consciencia, pensa que El-Rei D. Sebasti&atilde;o
+n&atilde;o morreu na batalha? <br />
+
+<br />
+
+O velho ergueu para mim a face, que se enrug&aacute;ra n'uma
+desconfiança: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Essas cousas s&atilde;o muito antigas. E n&atilde;o calham
+bem aqui &aacute; porta do T&ocirc;rto. O vinho era bom, e V.
+S.<sup>a</sup> tem pressa, meu menino! A
+fl&ocirc;r da Fl&ocirc;r da Malva l&aacute; tem o paesinho
+doente... Mas o mal j&aacute;
+vae pela serra abaixo com a inchaç&atilde;o
+&aacute;s costas.
+D&aacute; gosto v&ecirc;r quem d&aacute; gosto aos tristes.
+Por cima de Tormes ha uma estrella clara. E &eacute; trotar,
+trotar,
+que o dia est&aacute; lindo! <br />
+
+<br />
+
+Com a magra m&atilde;o lançou um gesto para que
+seguissemos. E j&aacute; passavamos o cruzeiro quando o seu brado
+ardente, de novo revoou, com solemnidade cava: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Bemdito seja o Pae dos Pobres. <br />
+
+<br />
+
+Direito, no meio da estrada, erguia o cajado como dirigindo as
+acclamaç&otilde;es d'um povo. E Jacintho pasmava de que
+ainda houvesse no reino um Sebastianista. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Todos o somos ainda em Portugal, Jacintho! Na serra ou na cidade cada
+um espera o seu D. Sebasti&atilde;o. At&eacute; a loteria da
+Misericordia &eacute; uma forma do Sebastianismo. <span class="pagenum">[344]</span>Eu todas as
+manh&atilde;s, mesmo sem ser de
+nevoeiro, espreito, a v&ecirc;r se chega o meu. Ou antes a minha,
+por que eu
+espero uma D. Sebastiana... E tu, felizardo? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu? Uma D. Sebastiana? Estou muito velho, Z&eacute; Fernandes...
+Sou o ultimo Jacintho; Jacintho ponto final... Que casa &eacute;
+aquella com os
+dous torre&otilde;es? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;A Fl&ocirc;r da Malva. <br />
+
+<br />
+
+Jacintho tirou o relogio: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;S&atilde;o tres horas. Gastamos hora e meia... Mas foi um bello
+passeio, e instructivo. &Eacute; lindo este sitio. <br />
+
+<br />
+
+Sobre um outeirinho, afastada da estrada por arvoredo, que um muro
+cerrava, e dominando, a Fl&ocirc;r da Malva voltava para Oriente e
+para o Sol a sua longa fachada com os dous torre&otilde;es
+quadrados,
+onde as
+janellas, de varanda, eram emolduradas em azulejos. O grande
+port&atilde;o de
+ferro, ladeado por dous bancos de pedra, ficava ao fundo do
+terreirinho, onde um immenso castanheiro derramava verdura e sombra.
+Sentado sobre as fortes
+raizes descarnadas da grande arvore, um pequeno esperava segurando um
+burro pela arreata. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Est&aacute; por ahi o Manoel da Porta? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ainda agora subio pela alameda. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Bem: empurra l&aacute; o port&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+E subimos, por uma curta avenida de velhas <span class="pagenum">[345]</span>arvores,
+at&eacute;
+outro terreiro, com um alpendre, uma casa de moços, toda
+coberta
+d'heras, e
+uma casota de c&atilde;o, d'onde saltou, com um rumor de corrente
+arrastada,
+um molosso, o Trit&atilde;o, que eu logo soceguei fazendo-lhe
+reconhecer o seu
+velho amigo Z&eacute; Fernandes. E o Manoel da Porta correu da
+fonte,
+onde enchia um grande balde, para nos segurar os cavallos. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Como est&aacute; o tio Adri&atilde;o? <br />
+
+<br />
+
+Surdo, o excellente Manoel sorrio, deleitado: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E ent&atilde;o vossa excellencia, bem? A Snr.<sup>a</sup> D.
+Joanninha
+ainda agora andava no laranjal com o pequeno da Josepha. <br />
+
+<br />
+
+Seguimos por ruasinhas bem areadas, orladas d'alfazema e buxo alto, em
+quanto eu contava ao meu Principe que aquelle pequenito da Josepha era
+um afilhadinho da prima Joanna, e agora o seu encanto e o seu cuidado
+todo. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Esta minha santa prima, apesar de solteira, tem ahi pela freguezia
+uma verdadeira filharada. E n&atilde;o &eacute; só
+dar-lhes roupas e presentes, e ajudar as m&atilde;es. Mas
+at&eacute; os lava, e os penteia, e lhes
+trata as tosses. Nunca a encontro sem alguma creancita ao collo...
+Agora anda na
+paix&atilde;o d'este Jos&eacute;sinho. <br />
+
+<br />
+
+Mas quando chegamos ao laranjal, &aacute; beira <span class="pagenum">[346]</span>da larga rua da
+quinta que levava ao tanque, debalde procurei, e me embrenhei, e
+at&eacute;
+gritei:&#8213;Eh, prima Joanninha!... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Talvez esteja l&aacute; para baixo, para o tanque... <br />
+
+<br />
+
+Descemos a rua, entre arvores, que a cobriam com as densas ramas
+encruzadas. Uma fresca, limpida agoa de rega corria e luzia n'um
+caneiro de pedra. Entre os troncos, as roseiras bravas ainda tinham uma
+frescura de ver&atilde;o. E o pequeno campo, que se avistava para
+al&eacute;m, rebrilhava com doçura, todo amarello e
+branco, dos
+malmequeres e
+bot&otilde;es d'ouro. <br />
+
+<br />
+
+O tanque, redondo, f&ocirc;ra esvasiado para se lavar, e agora de
+novo o repuxo o ia enchendo d'uma agoa muito clara, ainda baixa, onde
+os
+peixes vermelhos se agitavam na alegria de recuperarem o seu pequeno
+oceano. Sobre um dos bancos de pedra que circumdavam o tanque pousava
+um cesto cheio de dhalias cortadas. E um moço, que sobre uma
+escada
+podava as camelias, vira a Snr.<sup>a</sup> D. Joanna seguir para o lado
+da
+parreira. <br />
+
+<br />
+
+Marchamos para a parreira, ainda toda carregada de uva preta. Duas
+mulheres, longe, ensaboavam n'um lavadoiro, na sombra de grandes
+nogueiras. Gritei:&#8213;Eh l&aacute;? Voc&ecirc;s viram por ahi a
+Snr.<sup>a</sup> D. Joanna? Uma das moças <span class="pagenum">[347]</span>esganiçou a
+voz, que se perdeu no vasto
+ar luminoso e doce. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Bem: vamos a casa! N&atilde;o podemos farejar assim, toda a
+tarde. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; uma bella quinta, murmurava o meu Principe encantado. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Magnifica! E bem tratada... O tio Adri&atilde;o tem um feitor
+excellente... N&atilde;o &eacute; o teu Melchior. Observa,
+aprende, lavrador!
+Olha aquelle cebolinho! <br />
+
+<br />
+
+Passamos pela horta, uma horta ajardinada, como a sonh&aacute;ra o
+meu Principe, com os seus talh&otilde;es debruados d'alfazema, e
+madresilva enroscada nos pilares de pedra, que faziam ruasinhas frescas
+toldadas
+de parra densa. E d&eacute;mos volta &aacute; capella, onde
+crescia aos dous lados da porta uma roseira ch&aacute;, com uma
+rosa
+unica, muito aberta, e
+uma moita de baunilha, onde Jacintho apanhou um raminho para cheirar.
+Depois
+entramos no terraço em frente da casa, com a sua balaustrada
+de
+pedra, toda enrodilhada de jasmineiros amarellos. A porta
+envidraçada
+estava aberta: e subimos pela escadaria de pedra, no immenso silencio
+em que toda a Fl&ocirc;r da Malva repousava, at&eacute;
+&aacute;
+ante-camara, d'altos tectos apainelados, com longos bancos de pau, onde
+desmaiavam na sua velha pintura as complicadas armas dos Cerqueiras.
+Empurrei a porta <span class="pagenum">[348]</span>d'uma
+outra sala,
+que tinha as janellas da varanda abertas, cada uma com a gaiola d'um
+canario. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; curioso!&#8213;exclamou Jacintho. Parece o meu Presepio... E
+as minhas cadeiras. <br />
+
+<br />
+
+E com effeito. Sobre uma commoda antiga, com bronzes antigos, pousava
+um presepio semelhante ao da livraria de Jacintho. E as cadeiras de
+couro lavrado tinham, como as que elle descobrira no sot&atilde;o,
+umas
+armas sob um chap&eacute;o de Cardeal. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Oh senhores! exclamei. N&atilde;o haver&aacute; um creado? <br />
+
+<br />
+
+Bati as m&atilde;os, fortemente. E o mesmo doce silencio
+permaneceu, muito largo, todo luminoso e arejado pelo macio ar da
+quinta, apenas cortado pelo saltitar dos canarios nos poleiros das
+gaiolas. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; o Palacio da Bella adormecida no bosque! murmurou
+Jacintho, quasi indignado. D&aacute; um berro! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o, caramba! Vou l&aacute; dentro! <br />
+
+<br />
+
+Mas, &aacute; porta, que de repente se abrio, appareceu minha prima
+Joanninha, córada do passeio e do vivo ar, com um vestido
+claro um
+pouco aberto no pescoço, que fundia mais docemente, n'uma
+larga claridade, o
+explendor branco da sua pelle, e o louro ondeado dos seus bellos
+cabellos,&#8213;lindamente risonha, na <span class="pagenum">[349]</span>surpreza
+que alargava os seus largos,
+luminosos olhos negros, e trazendo ao collo uma creancinha, gorda e
+c&ocirc;r de rosa, apenas coberta com uma camisinha, de grandes
+laços
+azues. <br />
+
+<br />
+
+E foi assim que Jacintho, n'essa tarde de Septembro, na Fl&ocirc;r
+da Malva, vio aquella com quem casou em Maio, na capellinha d'azulejos,
+quando o grande p&eacute; de roseira se cobrira todo de rosas. <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h2>XV</h2>
+
+<br />
+
+<br />
+
+E agora, entre roseiras que rebentam, e vinhas que se vindimam,
+j&aacute; cinco annos passaram sobre Tormes e a Serra. O meu
+Principe
+j&aacute;
+n&atilde;o &eacute; o ultimo Jacintho, Jacintho ponto
+final&#8213;por que
+n'aquelle solar que decahira, correm agora, com soberba vida, uma gorda
+e vermelha Theresinha, minha afilhada, e um Jacinthinho, senhor muito
+da minha amisade. E, pae de familia, principi&aacute;ra a fazer-se
+monotono, pela
+perfeiç&atilde;o da belleza moral, aquelle homem
+t&atilde;o
+pittoresco pela
+inquietaç&atilde;o philosophica, e pelos variados
+tormentos da
+phantasia insaciada. Quando elle agora, bom
+sabedor das cousas da lavoura, percorria comigo a quinta, em solidas
+palestras agricolas, prudentes e sem chimeras&#8213;eu quasi lamentava esse
+outro Jacintho que colhia uma theoria em cada ramo d'arvore, e riscando
+o ar com a bengala, planeava queijeiras de cristal e <span class="pagenum">[352]</span>porcellana, para fabricar
+queijinhos que custariam duzentos mil r&eacute;is cada um!
+<br />
+
+<br />
+
+Tambem a paternidade lhe despert&aacute;ra a responsabilidade.
+Jacintho possuia agora um caderno de contas, ainda pequeno, rabiscado a
+lapis, com falhas, e papeluchos soltos entremeados, mas onde as suas
+despezas, as suas rendas se alinhavam, como duas hostes disciplinadas.
+Visit&aacute;ra j&aacute; as suas propriedades de
+Montemór, da
+Beira; e concertava,
+mobilava as velhas casas d'essas propriedades para que os seus filhos,
+mais tarde, crescidos, encontrassem &laquo;ninhos
+feitos&raquo;. Mas
+onde
+eu reconheci que definitivamente um perfeito e ditoso equilibrio se
+estabelecera na alma
+do meu Principe, foi quando elle, j&aacute; sabido d'aquelle
+primeiro e ardente fanatismo da Simplicidade&#8213;entreabrio a porta de
+Tormes &aacute;
+Civilisaç&atilde;o. Dous mezes antes de nascer a
+Theresinha, uma
+tarde, entrou pela avenida
+de platanos uma chiante e longa fila de carros, requisitados por toda a
+freguesia, e acuculados de caixotes. Eram os famosos caixotes, por
+tanto tempo encalhados em Alba de Tormes, e que chegavam, para despejar
+a Cidade sobre a Serra. Eu pensei:&#8213;Mau! o meu pobre Jacintho teve uma
+recahida! Mas os confortos mais complicados, que continha aquella
+caixotaria temerosa, foram, com surpreza minha, desviados <span class="pagenum">[353]</span>para
+os
+sot&atilde;os immensos, para o pó da inutilidade: e o
+velho
+solar apenas
+se regalou com alguns tapetes sobre os seus soalhos, cortinas pelas
+janellas desabrigadas, e fundas poltronas, fundos sof&aacute;s,
+para
+que os
+repousos, por que elle suspir&aacute;ra, fossem mais lentos e
+suaves.
+Attribui esta moderaç&atilde;o a minha prima Joanninha,
+que
+amava
+Tormes na sua nudez rude. Ella jurou que assim o orden&aacute;ra o
+seu
+Jacintho. Mas,
+decorridas semanas, tremi. Apparecera, vindo de Lisboa, um
+contra-mestre, com operarios, e mais caixotes, para installar um
+telephone! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Um telephone, em Tormes, Jacintho? <br />
+
+<br />
+
+O meu Principe explicou, com humildade: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Para casa de meu sogro!... Bem v&ecirc;s. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Era rasoavel e carinhoso. O telephone por&eacute;m, subtilmente,
+mudamente, estendeu outro longo fio, para Valverde. E Jacintho,
+alargando os braços, quasi supplicante: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Para casa do medico. Comprehendes... <br />
+
+<br />
+
+Era prudente. Mas, certa manh&atilde;, em Gui&atilde;es,
+accordei aos berros da tia Vicencia! Um homem cheg&aacute;ra,
+mysterioso, com outros homens,
+trazendo arame, para installar na nossa casa o novo invento. Soceguei a
+tia Vicencia, jurando que essa machina nem fazia barulho, nem trazia
+doenças, nem attrahia as trovoadas. Mas <span class="pagenum">[354]</span>corri a Tormes.
+Jacintho sorrio, encolhendo os hombros: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que queres? Em Gui&atilde;es est&aacute; o boticario,
+est&aacute; o carniceiro... E, depois, est&aacute;s tu! <br />
+
+<br />
+
+Era fraternal. Todavia pensei: Estamos perdidos! Dentro d'um mez temos
+a pobre Joanna a apertar o vestido por meio d'uma machina! Pois
+n&atilde;o! o Progresso, que, &aacute;
+intimaç&atilde;o de
+Jacintho, subira a Tormes a estabelecer aquella sua maravilha, pensando
+talvez que conquist&aacute;ra mais
+um reino para desfear, desceu, silenciosamente, desilludido, e
+n&atilde;o
+avistamos mais sobre a serra a sua hirta sombra c&ocirc;r de ferro
+e de
+fuligem.
+Ent&atilde;o comprehendi que, verdadeiramente, na alma de Jacintho
+se
+estabelecera o
+equilibrio da vida, e com elle a Gran-Ventura, de que tanto tempo elle
+f&ocirc;ra o principe sem Principado. E uma tarde, no pomar,
+encontrando o nosso velho Grillo, agora reconciliado com a serra, desde
+que a serra lhe dera meninos para trazer &aacute;s cavalleiras,
+observei ao
+digno preto, que lia o seu <em>Figaro</em>, armado de
+immensos oculos redondos: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois, Grillo, agora realmente bem podemos dizer que o Snr. D.
+Jacintho est&aacute; firme. <br />
+
+<br />
+
+O Grillo arredou os oculos para a testa, e levantando para o ar os
+cinco dedos em curva como petalas d'uma tulipa: <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[355]</span>
+&#8213;S. ex.<sup>a</sup> brotou! <br />
+
+<br />
+
+Profundo sempre o digno preto! Sim! Aquelle resequido galho de Cidade,
+plantado na serra, peg&aacute;ra, chup&aacute;ra o humus do
+torr&atilde;o herdado, cre&aacute;ra seiva, afund&aacute;ra
+raizes,
+engross&aacute;ra de tronco,
+atir&aacute;ra ramos, rebent&aacute;ra em fl&ocirc;res,
+forte, sereno,
+ditoso, benefico, nobre, dando
+fructos, derramando sombra. E abrigados pela grande arvore, e por ella
+nutridos,
+cem casaes em redor a bemdiziam. <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h2>XVI</h2>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Muitas vezes Jacintho, durante esses annos, fall&aacute;ra com
+prazer n'um regresso de dous, tres mezes, ao 202, para mostrar Paris
+&aacute;
+prima Joanninha. E eu seria o companheiro fiel, para archivar os
+espantos da minha serrana ante a Cidade! Depois conveio em esperar que
+o
+Jacinthinho completasse dous annos, para poder jornadear sem
+desconforto, e apontando j&aacute; com o seu dedo para as cousas da
+Civilisaç&atilde;o. Mas, quando elle, em Outubro, fez
+esses dous
+annos desejados, a prima Joanninha sentiu uma preguiça
+immensa,
+quasi aterrada, do comboio, do
+estridor da Cidade, do 202, e dos seus esplendores. &laquo;Estamos
+aqui
+t&atilde;o bem! est&aacute; um tempo t&atilde;o
+lindo!&raquo;
+murmurava, deitando os
+braços, sempre deslumbrada, ao rijo pescoço do
+seu
+Jacintho. Elle desistia logo de Paris,
+encantado. &laquo;Vamos para Abril, quando os castanheiros dos
+Campos-Elyseos
+<span class="pagenum">[358]</span>estiverem em
+fl&ocirc;r!&raquo; Mas
+em Abril vieram aquelles
+cansaços que immobilisavam a prima Joanninha no divan,
+ditosa,
+risonha, com umas pintas na pelle, e
+o roup&atilde;o mais solto. Por todo um longo anno estava desfeita
+a
+alegre aventura. Eu andava ent&atilde;o soffrendo de
+desoccupaç&atilde;o. As chuvas de Março
+promettiam uma
+farta colheita. Uma certa Anna Vaqueira,
+córada e bem feita, viuva, que surtia as necessidades do meu
+coraç&atilde;o, partira com o irm&atilde;o para o
+Brazil, onde
+elle dirigia uma venda. Desde o
+inverno, sentia tambem no corpo como um começo de ferrugem,
+que
+o
+emperrava, e, certamente, algures, na minha alma, nascera uma pontinha
+de bolor. Depois a minha egoa morreu... Parti eu para Paris. <br />
+
+<br />
+
+Logo em Hendaya, apenas pisei a doce terra de França, o meu
+pensamento, como pombo a um velho pombal, voou ao 202,&#8213;talvez por eu
+v&ecirc;r
+um enorme cartaz em que uma mulher nua, com fl&ocirc;res
+bacchanticas
+nas
+tranças, se estorcia, segurando n'uma das m&atilde;os
+uma
+garrafa espumante, e
+brandindo na outra, para o annunciar ao Mundo, um novo modelo de
+saca-rolhas. E oh surpresa! eis que, logo adeante, na
+estaç&atilde;o
+quieta e clara de Saint Jean-de-Luz, um moço esbelto, de
+perfeita elegancia, entra
+vivamente no meu compartimento, e, depois de me encarar, grita: <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[359]</span>
+&#8213;Eh, Fernandes! <br />
+
+<br />
+
+Marizac! O duque de Marizac! Era j&aacute; o 202... Com que
+reconhecimento lhe sacudi a m&atilde;o fina, por elle me ter
+reconhecido! E, atirando
+para o canto do vagon um paletó, um masso de jornaes, que o
+escudeiro lhe
+pass&aacute;ra, o bom Marizac exclamava na mesma surpreza alegre: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E Jacintho? <br />
+
+<br />
+
+Contei Tormes, a serra, o seu primeiro amor pela Natureza, o seu outro
+grande amor por minha prima, e os dous filhos, que elle trazia
+escarranchados no pescoço. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah que canalha! exclamou Marizac com os olhos espetados em mim!
+&Eacute; capaz de ser feliz! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Espantosamente, loucamente... Qual! n&atilde;o ha adverbios... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Indecentemente&#8213;murmurou Marizac muito serio. Que canalha! <br />
+
+<br />
+
+Eu ent&atilde;o desejei saber do nosso rancho familiar do 202. Elle
+encolheu os hombros, accendendo a cigarette: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Todo esse mundo circula... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Madame d'Oriol? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Contin&uacute;a. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Os Tr&egrave;ves? o Ephraim? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Continuam, todos tres. <br />
+
+<br />
+
+Lançou um gesto languido. <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[360]</span>&#8213;Durante cinco
+annos, em Paris, tudo
+contin&uacute;a... As
+mulheres com um pouco mais de pós d'arroz, e a pelle um
+pouco
+mais molle, e
+melada. Os homens com um tanto mais de dispepsia. E tudo segue. Tivemos
+os Anarchistas. A princeza de Carman abalou com um acrobata do Circo de
+Inverno... E&#8213;e voil&agrave;! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Dornan? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Contin&uacute;a... N&atilde;o o encontrei mais desde o 202.
+Mas vejo &aacute;s vezes o nome d'elle, no <em>Boulevard</em>,
+com versos
+preciosos, obscenidades muito apuradas, muito subtis. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E o Psychologo?... Ora, como se chamava elle?... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Contin&uacute;a tambem. Sempre com as feminices a tres francos e
+cincoenta... Duquezas em camisa, almas n&uacute;as... Cousas que se
+vendem bem! <br />
+
+<br />
+
+Mas quando eu, encantado, ia indagar de Todelle, do
+Gr&atilde;o-Duque, o comboio entrou na
+estaç&atilde;o de Biarritz:&#8213;e
+rapidamente, apanhando o paletot e os jornaes, depois de me apertar a
+m&atilde;o, o
+delicioso Marizac saltou pela portinhola, que o seu creado abrira,
+gritando: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;At&eacute; Paris!... Sempre rue Cambori. <br />
+
+<br />
+
+Ent&atilde;o, no compartimento solitario, bocejei, com uma estranha
+sensaç&atilde;o de monotonia, de saciedade, como cercado
+j&aacute; de gentes <span class="pagenum">[361]</span>muito
+vistas, murmurando historias muito sabidas, e cousas muito ditas,
+atravez de sorrisos estafados. Dos dous lados do comboio era a longa
+planicie monotona, sem variedade, muito miudamente cultivada, muito
+miudamente retalhada, d'um verde de rezeda, verde cinzento e apagado,
+onde nenhum lampejo, nem tom alegre de fl&ocirc;r, nem acidente do
+solo,
+desmanchavam a mediocridade discreta e ordeira. Pallidos choupos, em
+renques pautados
+e finos, bordavam canaesinhos muito direitos e claros. Os casaes, todos
+da mesma c&ocirc;r pardacenta, mal se elevavam do solo, mal se
+destacavam da verdura desbotada, como encolhidos na sua mediocridade e
+cautella. E o ceu, por cima, liso, sem uma nuvem, com um sol
+descórado,
+parecia um vasto espelho muito lavado a grande agoa, at&eacute; que
+de
+todo se
+lhe safasse o esmalte e o brilho. Adormeci n'uma doce insipidez. <br />
+
+<br />
+
+Com que linda manh&atilde; de Maio entrei em Paris! T&atilde;o
+fresca e fina, e j&aacute; macia, que, apesar de cansado, mergulhei
+com
+repugnancia no profundo, sombrio leito do Grand-Hotel, todo fechado de
+espessos velludos,
+grossos cord&otilde;es, pesadas borlas, como um palanque de gala.
+N'essa
+profunda cova de pennas sonhei que em Tormes se construira uma torre
+Eiffel e que em volta d'ella as senhoras da Serra, <span class="pagenum">[362]</span>as
+mais respeitaveis, a propria tia Albergaria, dançavam,
+n&uacute;as, agitando no ar
+saca-rolhas immensos. Com as commoç&otilde;es d'este
+pesadello,
+e depois o banho, e o
+desemmalar da mala, j&aacute; se acercavam as duas horas quando
+emfim
+emergi do grande
+port&atilde;o, pisei, ao cabo de cinco annos, o Boulevard. E
+immediatamente me pareceu que todos esses cinco annos eu ali
+permanecera &aacute; porta do
+Grand-Hotel, t&atilde;o estafadamente conhecido me era aquelle
+estridente rolar da cidade, e as
+magras arvores, e as grossas taboletas, e os immensos chapeus
+emplumados sobre tranças pintadas d'amarello, e as
+empertigadas
+sobrecasacas com grossas rosetas da legi&atilde;o d'honra, e os
+garotos, em voz
+rouca e baixa, offerecendo baralhos de cartas obscenas, caixas de
+phosphoros obscenas... Santo Deus! pensei, ha que annos eu estou em
+Paris! Comprei
+ent&atilde;o, n'um kiosque, um jornal, a Voz de Paris, para que
+elle me contasse, durante o almoço, as novas da Cidade. A
+mesa
+do
+kiosque desapparecia, alastrada de jornaes illustrados:&#8213;e em todos se
+repetia
+a mesma mulher, sempre n&uacute;a, ou meia despida, ora mostrando
+as
+costellas magras, de gata faminta, ora voltando para o Leitor duas
+tremendas nadegas... Eu outra vez murmurei:&#8213;Santo Deus! No
+caf&eacute;
+da
+Paz, o creado livido, e com um resto de pó de arroz <span class="pagenum">[363]</span>sobre a sua lividez,
+aconselhou ao meu appetite, por ser t&atilde;o tarde, um lingoado
+frito e uma
+costelleta. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E que vinho, snr. Conde? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Chablis, snr. Duque! <br />
+
+<br />
+
+Elle sorrio &aacute; minha deliciosa pilheria,&#8213;e eu abri,
+contente, a Voz de Paris. Na primeira columna, atravez d'uma prosa
+muito retorcida, toda
+em brilhos de joia barata, entrevi uma Princesa n&uacute;a, e um
+Capit&atilde;o de Drag&otilde;es, que soluçava.
+Saltei a outras
+columnas,
+onde se contavam feitos de cocottes de nomes sonoros. Na outra pagina
+escriptores eloquentes celebravam vinhos digestivos e tonicos. Depois
+eram os crimes do costume.&#8213;N&atilde;o ha nada de novo! Puz de
+parte a
+Voz de
+Paris,&#8213;e ent&atilde;o foi, entre mim e o lingoado, uma lucta
+pavorosa.
+O miseravel, que se frigira rancorosamente contra mim, n&atilde;o
+consentia que eu
+descollasse da sua espinha uma febra escassa. Todo elle se ressequira
+n'uma sola impenetravel e tostada, onde a faca vergava, impotente e
+tremula.
+Gritei pelo m&ocirc;ço livido, o qual, com faca mais
+rija,
+fincando no soalho os sapatos de fivella, arrancou emfim
+&aacute;quelle
+malvado duas
+tirinhas, finas e curtas como palitos, que engoli juntas, e me
+esfomearam. D'uma
+garfada findei a costelleta. E paguei quinze francos com um bom luiz
+d'ouro. No
+tr&ocirc;co, que o <span class="pagenum">[364]</span>moço
+me deu, com a polidez requintada
+d'uma civilisaç&atilde;o muito diffundida, havia dous
+francos falsos. E por aquella
+d&ocirc;ce tarde de Maio sahi para tomar no terraço um
+caf&eacute;
+c&ocirc;r de chap&eacute;o c&ocirc;co, que sabia a fava. <br />
+
+<br />
+
+Com o charuto acceso contemplei o Boulevard, &aacute;quella hora em
+toda a pressa e estridor da sua grossa sociabilidade. A densa torrente
+dos omnibus, calhambeques, carroças, parelhas de luxo,
+rolava
+vivamente, como toda uma escura humanidade formigando entre patas e
+rodas, n'uma pressa inquieta. Aquelle movimento continuado e rude bem
+depressa entonteceu este espirito, por cinco annos affeito &aacute;
+quietaç&atilde;o das serras immutaveis. Tentava
+ent&atilde;o,
+puerilmente, repousar n'alguma
+forma immovel, omnibus parado, fiacre que estac&aacute;ra, n'um
+brusco
+escorregar
+da pileca: mas logo algum dorso apressado se encafuava pela portinhola
+da tipoia, ou um cacho de figuras escuras trepava sofregamente para o
+omnibus:&#8213;e,
+rapido, recomeçava o rolar retumbante. Immoveis, de certo,
+estavam os altos predios hirtos, ribas de pedra e cal, que continham,
+disciplinavam, aquella torrente offegante. Mas da rua aos telhados, em
+cada varanda, por toda a fachada, eram taboletas encimando taboletas,
+que outras taboletas apertavam:&#8213;e mais me cançava o
+perceber <span class="pagenum">[365]</span>a tenaz
+incessancia do
+trabalho latente, a devorante canceira do lucro, arquejante por traz
+das frontarias decorosas e mudas. Ent&atilde;o,
+emquanto fumava o meu charuto, extranhamente se apossaram de mim os
+sentimentos que Jacintho outr'ora experiment&aacute;ra no meio da
+Natureza, e
+que tanto me divertiam. Ali, &aacute; porta do caf&eacute;,
+entre a
+indifferença e a pressa da Cidade, tambem eu senti, como
+elle no
+campo, a vaga tristeza da minha fragilidade e da minha
+solid&atilde;o.
+Bem certamente estava ali
+como perdido n'um mundo, que me n&atilde;o era fraternal. Quem me
+conhecia? Quem
+se interessaria por Z&eacute; Fernandes? Se eu sentisse fome, e o
+confessasse, ninguem me daria metade do seu p&atilde;o. Por mais
+afflictamente
+que a minha face revelasse uma angustia, ninguem na sua pressa pararia
+para me consolar. De que me serviriam tambem as excellencias d'alma,
+que
+só na alma florescem? Se eu fosse um santo, aquella turba
+n&atilde;o se
+importaria com a minha santidade; e se eu abrisse os braços
+e
+gritasse,
+ali no Boulevard&#8213;&laquo;ó homens, meus
+irm&atilde;os!&raquo; os homens, mais ferozes que o
+l&ocirc;bo ante o Pobresinho d'Assis, ririam e passariam
+indifferentes.
+Dous impulsos unicos, correspondendo a duas
+funcç&otilde;es
+unicas, parecia estarem vivos n'aquella multid&atilde;o,&#8213;o lucro e
+o
+g&ocirc;so.
+Isolada entre elles, e ao contagio <span class="pagenum">[366]</span>ambiente
+da sua influencia, em breve a minha alma se contrahiria, se tornaria
+n'um duro calhau de Egoismo. Do ser que eu trouxera da Serra
+só
+restaria em pouco tempo esse calhau, e
+n'elle, vivos, os dous appetites da Cidade,&#8213;encher a bolsa, saciar a
+carne! E pouco a pouco as mesmas exageraç&otilde;es de
+Jacintho
+perante a Natureza me invadiam perante a Cidade. Aquelle Boulevard
+reçumava para
+mim um bafo mortal, extrahido dos seus milh&otilde;es de microbios.
+De
+cada
+porta me parecia sahir um ardil para me roubar. Em cada face, avistada
+&aacute; portinhola d'um fiacre, suspeitava um bandido em manobra.
+Todas as mulheres me pareciam caiadas como sepulchros, tendo
+só
+podrid&atilde;o por dentro. E considerava d'uma melancolia
+funambulesca
+as
+fórmas de toda aquella Multid&atilde;o, a sua pressa
+aspera e
+v&atilde;, a
+affectaç&atilde;o das attitudes, as immensas plumas das
+chapeletas, as express&otilde;es
+postiças e falsas, a pompa dos peitos alteados, o dorso
+redondo
+dos velhos olhando as
+imagens obscenas das vitrines. Ah! tudo isto era pueril, quasi comico
+da minha parte, mas &eacute; o que eu sentia no Boulevard, pensando
+na
+necessidade de remergulhar na Serra, para que ao seu puro ar se me
+despegasse a crosta
+da Cidade, e eu resurgisse humano, e Z&eacute;-Fernandico! <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[367]</span>Ent&atilde;o,
+para dissipar aquelle
+pesadume de solid&atilde;o,
+paguei o caf&eacute; e parti, lentamente, a visitar o 202. Ao
+passar na
+Magdalena, deante da
+estaç&atilde;o dos omnibus, pensei:&#8213;Que ser&aacute;
+feito de
+Madame Colombe? E,
+oh miseria! pelo meu miseravel ser subiu uma curta e quente baforada de
+desejo
+bruto por aquella besta suja e magra! Era o charco onde eu me
+envenenara, e que me envolvia nas emanaç&otilde;es
+subtis do seu
+veneno. Depois, ao dobrar da rue Royale para a Praça da
+Concordia, topei com um robusto e
+possante homem, que estacou, ergueu o braço, ergueu o
+vozeir&atilde;o, n'um modo de commando: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eh, Fernandes! <br />
+
+<br />
+
+O Gr&atilde;o-Duque! O bello Gr&atilde;o-Duque, de
+jaquet&atilde;o alvadio e chapeu tyrolez c&ocirc;r de mel!
+Apertei com gratid&atilde;o reverente a
+m&atilde;o do Principe, que me reconhecera. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E Jacintho? Em Paris?... <br />
+
+<br />
+
+Contei Tormes, a serra, o rejuvenescimento do nosso amigo entre a
+Natureza, a minha d&ocirc;ce prima, e os bravos pequenos, que elle
+trazia &aacute;s cavalleiras. O Gr&atilde;o-Duque encolheu os
+hombros,
+desolado: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Oh l&aacute;, l&aacute;, l&aacute;!... Peuh! Casado, na
+aldeia, com filharada... Homem perdido! Ora n&atilde;o ha!... E um
+rapaz util! que nos divertia, e
+tinha gosto! Aquelle jantar c&ocirc;r de rosa foi uma <span class="pagenum">[368]</span>festa
+linda...
+N&atilde;o se fez, n&atilde;o se tornou a fazer nada
+t&atilde;o
+brilhante em Paris... E Madame
+d'Oriol... Ainda ha dias a vi no Palacio de Gelo... Potavel, mulher
+ainda muito potavel... N&atilde;o &eacute; todavia o meu
+genero...
+Adocicada, leitosa, pommadada, neve &aacute; la vanille!... Ora
+esse
+Jacintho!... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E Vossa Alteza, em Paris com demora? <br />
+
+<br />
+
+O formidavel homem baixou a face, franzida e confidencial: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Nenhuma. Paris n&atilde;o se aguenta... Est&aacute;
+estragado, positivamente estragado... Nem se come! Agora &eacute; o
+Ernest, da
+Praça Gaillon, o Ernest, que era maitre-d'hotel do Maire...
+J&aacute; l&aacute; comeu?
+Um horror. Tudo &eacute; o Ernest, agora! Onde se come? No Ernest.
+Qual! Ainda esta
+manh&atilde; l&aacute; almocei... Um horror! Uma salada
+Chambord...
+palhada, indecentemente palhada! N&atilde;o tem, n&atilde;o tem
+a
+noç&atilde;o da salada! Paris foi! Theatros, uma
+estopada.
+Mulheres, hui! Lambidas todas. N&atilde;o ha nada! Ainda
+assim, n'um dos theatritos de Montmartre, na Roulotte, est&aacute;
+uma
+revista,
+que se v&ecirc;: <em>Para c&aacute; as
+mulheres</em>!&#8213;engraçada, bem despida... A
+Celestine tem uma cantiga, meia sentimental, meia porca, o <em>Amor
+no
+Water-Closet</em>, que diverte, tem topete... Onde
+est&aacute;, Fernandes? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;No Grand-Hotel, meu senhor. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que barraca!... E o seu Rei sempre bom? <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[369]</span>
+Curvei a cabeça: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sua Magestade, bem. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Estimo! Pois, Fernandes, tive prazer... Esse Jacintho &eacute;
+que me desola! V&aacute; v&ecirc;r a Revista... Boas pernas, a
+Celestine... E
+tem graça o tal <em>Amor no Water-Closet</em>. <br />
+
+<br />
+
+Um rijissimo aperto de m&atilde;o,&#8213;e S. Alteza subiu pesadamente
+para a victoria, ainda com um aceno amavel, que me penhorou...
+Excellente homem, este Gr&atilde;o-Duque! Mais reconciliado com
+Paris,
+atravessei para os Campos-Elyseos. Em toda a sua nobre e formosa
+larguesa, toda verde, com
+os castanheiros em fl&ocirc;r, corriam, subindo, descendo,
+velocipedes. Parei a contemplar aquella fealdade nova, estes
+innumeraveis
+espinhaços arqueados, e gambias magras, agitando-se
+desesperadamente sobre duas rodas. Velhos gordos, de cachaço
+escarlate, pedalavam,
+gordamente. Galfarros esguios, de tibias descarnadas, fugiam n'uma
+linha esfusiada.
+E as mulheres, muito pintadas, de bolero curto,
+calç&otilde;es bufantes, giravam, mais rapidamente
+ainda, no
+prazer equivoco da carreira, escarranchadas em hastes de ferro. E a
+cada instante outras medonhas machinas passavam, victorias e phaetons a
+vapor, com uma
+complicaç&atilde;o de tubos e caldeiras, torneiras e
+chamin&eacute;s, rolando n'uma
+trepidaç&atilde;o estridente e pesada, espalhando <span class="pagenum">[370]</span>um grosso fedor de
+petroleo. Segui para
+o 202, pensando no que diria um grego do tempo de Phidias, se visse
+esta nova belleza e graça do caminhar humano!... <br />
+
+<br />
+
+No 202, o porteiro, o velho Vian, quando me reconheceu, mostrou uma
+alegria enternecedora. N&atilde;o se fartou de saber do casamento
+de Jacintho, e d'aquelles queridos meninos. E era para elle uma
+felicidade que eu apparecesse, justamente quando tudo se
+and&aacute;ra
+limpando para
+a entrada da primavera. Quando penetrei na amada casa senti mais
+vivamente a minha solid&atilde;o. N&atilde;o restava em toda
+ella nem
+um dos
+costumados aspectos que fizessem reviver a velha camaradagem com o meu
+Principe. Logo na ante-camara grandes lonas cobriam as tapessarias
+heroicas, e egual lona
+parda escondia os estofos das cadeiras e dos muros, e as largas
+estantes d'ebano da Bibliotheca, onde os trinta mil volumes, nobremente
+enfileirados como Doutores n'um Concilio, pareciam separados do mundo
+por aquelle panno que sobre elles descera depois de finda a comedia da
+sua força e da sua auctoridade. No gabinete de Jacintho, de
+sobre a mesa d'escripta, desapparecera aquella confus&atilde;o de
+instrumentosinhos, de que eu perdera j&aacute; a
+memória: e
+só a
+Mechanica sumptuosa, por sobre peanhas e pedestaes, <span class="pagenum">[371]</span>recentemente
+espanejada, reluzia, com as suas engrenagens, tubos, rodas, rigidezes
+de metaes, n'uma frieza inerte, na inactividade
+definitiva das cousas desusadas, como j&aacute; dispostas n'um
+Museu, para exemplificar a instrumentaç&atilde;o caduca
+d'um
+mundo
+passado. Tentei mover o telephone, que se n&atilde;o moveu; a mola
+da
+electricidade
+n&atilde;o accendeu nenhum lume: todas as forças
+universaes
+tinham abandonado o
+serviço do 202, como servos despedidos. E ent&atilde;o,
+passeando atravez das
+salas, realmente me pareceu que percorria um museu d'antiguidades; e
+que mais tarde outros homens, com uma comprehens&atilde;o mais pura
+e
+exacta da
+Vida e da Felicidade, percorreriam como eu, longas salas, atulhadas com
+os instrumentos da Super-Civilisaç&atilde;o, e, como eu,
+encolheriam desdenhosamente os hombros ante a grande Illus&atilde;o
+que
+find&aacute;ra, agora para sempre inutil, arrumada como um lixo
+historico, guardada debaixo de lona. <br />
+
+<br />
+
+Quando sahi do 202 tomei um fiacre, subi ao Bosque de Bolonha. E apenas
+rol&aacute;ra momentos pela avenida das Acacias, no silencio
+decoroso, unicamente cortado pelo tilintar dos freios e pelas rodas
+vagarosas esmagando a areia, comecei a reconhecer as velhas figuras,
+sempre com o
+mesmo sorriso, o mesmo pó d'arroz; as mesmas palpebras
+amortecidas, <span class="pagenum">[372]</span>os
+mesmos olhos farejantes, a mesma immobilidade de c&ecirc;ra! O
+romancista da <em>Couraça</em> passou n'uma
+victoria, fixou em mim o monoculo defumado, mas permaneceu
+indifferente. Os bandós negros de Madame
+Verghane, tapando-lhe as orelhas, pareciam ainda mais furiosamente
+negros entre a
+harmonia de todo o branco que a vestia, chap&eacute;o, plumas,
+fl&ocirc;res, rendas e corpete, onde o seu peito immenso se
+empolava como uma onda. No
+passeio, sob as Acacias, espapado em duas cadeiras, o director do
+<em>Boulevard</em> mamava o resto do seu charuto. E n'um
+grande landeau, Madame de
+Tr&egrave;ves continuava o seu sorriso de ha cinco annos, com duas
+pregasinhas mais molles aos cantos dos labios seccos. <br />
+
+<br />
+
+Abalei para o Grand-Hotel, bocejando,&#8213;como outr'ora Jacintho. E findei
+o meu dia de Paris, no Theatro das Variedades, estonteado com uma
+comedia muito fina, muito acclamada, toda faiscante do mais vivo
+parisianismo, em que todo o enredo se enrodilhava &aacute; volta
+d'uma Cama, onde alternadamente se espojavam mulheres em camisa,
+sujeitos gordos em
+ceroulas, um coronel com papas de linhaça nas nadegas,
+cosinheiras de meias de s&ecirc;da bordadas, e ainda mais gente,
+ruidosa e
+saltitante, a esfusiar de cio e de pilheria. Tomei um ch&aacute;
+melancolico no
+Julien, no meio de <span class="pagenum">[373]</span>um
+aspero e
+lugubre namoro de prostitutas, fariscando a preza. Em duas d'ellas, de
+pelle oleosa e cobreada, olhos obliquos, cabellos duros e negros como
+clinas, senti o Oriente, a sua
+provocaç&atilde;o felina... Interroguei o creado, um
+medonho
+ser, d'uma obesidade balofa e livida, d'eunuco. O monstro explicou
+n'uma voz roufenha e surda: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mulheres de Madagascar... Foram importadas quando a França
+occupou a ilha! <br />
+
+<br />
+
+Arrastei ent&atilde;o por Paris dias d'immenso tedio. Ao longo do
+Boulevard revi nas vitrines todo o luxo, que j&aacute; me
+enfart&aacute;ra havia cinco annos, sem uma graça nova,
+uma
+curta frescura de
+invenç&atilde;o. Nas livrarias, sem descobrir um livro,
+folheava
+centenas de volumes amarellos, onde, de cada pagina que ao acaso abria,
+se exhalava om cheiro m&ocirc;rno
+d'alcova e de pós d'arroz, entre linhas trabalhadas com
+effeminado
+arrebique, como rendas de camisas. Ao jantar, em qualquer restaurante,
+encontrava, ornando e disfarçando as carnes ou as aves, o
+mesmo
+m&ocirc;lho, de c&ocirc;res e sabores de pomada, que
+j&aacute; de
+manh&atilde;, n'outro
+restaurante, espelhado e dourejado, me enjo&aacute;ra no peixe e
+nos
+legumes. Paguei por
+grossos preços garrafas do nosso adstringente e rustico
+vinho de
+Torres, ennobrecido com o titulo de Ch&acirc;teau isto,
+Ch&acirc;teau
+aquillo, e
+pó postiço no <span class="pagenum">[374]</span>gargalo.
+&Aacute; noite, nos theatros, encontrava a Cama, a costumada cama,
+como centro e unico fim da vida, attrahindo, mais fortemente que o
+monturo attrahe os moscardos, todo um enxame de gentes, estonteadas,
+frementes d'erotismo, zumbindo chacotas senis. Esta sordidez da
+Planicie me levou
+a procurar melhor aragem d'espirito nas alturas da Collina, em
+Montmartre; e ahi, no meio d'uma multid&atilde;o elegante de
+Senhoras, de Duquezas, de Generaes, de todo o alto pessoal da Cidade,
+eu recebia, do
+alto do palco, grossos jorros de obscenidades, que faziam estremecer de
+goso as orelhas cabelludas de gordos banqueiros, e arfar com delicia os
+corpetes de Worms e de Doucet, sobre os peitos postiços das
+nobres damas. E recolhia enjoado com tanto relento d'Alcova, vagamente
+dispeptico com os m&ocirc;lhos de pomada do jantar, e sobre tudo
+descontente comigo, por me n&atilde;o divertir, n&atilde;o
+comprehender
+a
+Cidade, e errar atravez d'ella e da sua
+Civilisaç&atilde;o
+Superior, com a
+reserva ridicula d'um Censor, d'um Cat&atilde;o austero. Oh
+senhores!&#8213;pensava,&#8213;pois eu
+n&atilde;o me divertirei nesta deliciosa Cidade? Entrar&aacute;
+comigo
+o bolor da
+velhice? <br />
+
+<br />
+
+Passei as pontes, que separam em Paris o Temporal do Espiritual,
+mergulhei no meu doce Bairro Latino, evoquei, deante de certos
+<span class="pagenum">[375]</span>caf&eacute;s,
+a memoria da minha
+Nini; e, como outr'ora, preguiçosamente,
+subi as escadas da Sorbonne. N'um amphitheatro, onde sentira um grosso
+susurro,
+um homem magro, com uma testa muito branca e larga, como talhada para
+alojar pensamentos altos e puros, ensinava, falando das
+instituiç&otilde;es da Cidade Antiga. Mas, mal eu
+entr&aacute;ra, o seu dizer elegante e
+limpido foi suffocado por gritos, urros, patadas, um tumulto rancoroso
+de
+troça bestial, que sahia da mocidade apinhada nos bancos, a
+mocidade das Escolas, Primavera sagrada, em que eu f&ocirc;ra
+fl&ocirc;r
+murcha. O Professor parou, espalhando em redor um olhar frio, e
+remexendo as suas notas. Quando o grosso grunhido se moderou em susurro
+desconfiado, elle recomeçou com alta serenidade. Todas as
+suas
+ideias eram
+frias e substanciaes, expressas n'uma lingoa pura e forte; mas,
+immediatamente,
+rompe uma furiosa rajada de apitos, uivos, relinchos, cacarejos de
+gallo, por entre magras m&atilde;os, que se estendiam levantadas
+para estrangular as ideias. Ao meu lado um velho, encolhido na alta
+gola
+d'um macfrelane de xadrezes, contemplava o tumulto com melancolia,
+pingando endefluxado. Perguntei ao velho: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que querem elles? &Eacute; embirraç&atilde;o com o
+professor... &eacute; politica? <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[376]</span>
+O velho abanou a cabeça, espirrando: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o... &Eacute; sempre assim, agora, em todos os
+cursos... N&atilde;o querem ideias... Creio que queriam
+cançonetas. &Eacute; o amor
+da porcaria e da troça. <br />
+
+<br />
+
+Ent&atilde;o, indignado, berrei: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Silencio, brutos! <br />
+
+<br />
+
+E eis que um abortosinho de rapaz, amarellado e sebento, de longas
+melenas, umas enormes lunetas rebrilhantes, se arrebita, me fita, e me
+berra: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;<em>Sale Maure</em>! <br />
+
+<br />
+
+Ergui o meu grosso punho serrano,&#8213;e o desgraçado, n'uma
+confus&atilde;o de melenas, com sangue por toda a face, alluio,
+como um mont&atilde;o
+de trapos molles, ganindo desesperadamente, em quanto o
+furac&atilde;o de
+uivos e cacarejos, guinchos e silvos, envolvia o Professor, que
+cruz&aacute;ra os braços, esperando, com uma serenidade
+simples. <br />
+
+<br />
+
+Desde esse momento decidi abandonar a fastidiosa Cidade; e o unico dia
+alegre e divertido que n'ella passei foi o derradeiro, comprando para
+os meus queridinhos de Tormes brinquedos consideraveis, tremendamente
+complicados pela Civilisaç&atilde;o,&#8213;vapores de
+aço e cobre, providos de caldeiras para viajar em tanques;
+le&otilde;es de pelle veridica
+rugindo pavorosamente, bonecas vestidas <span class="pagenum">[377]</span>pela
+Laferri&egrave;re, com
+phonographo no ventre... <br />
+
+<br />
+
+Finalmente abalei uma tarde, depois de lançar da minha
+janella, sobre o Boulevard, as minhas despedidas &aacute; Cidade: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois adeusinho, at&eacute; nunca mais! Na lama do teu vicio e na
+poeira da tua vaidade, outra vez, n&atilde;o me pilhas! O que tens
+de bom,
+que &eacute; o teu genio, elegante e claro, l&aacute; o
+receberei na Serra pelo
+correio. Adeusinho! <br />
+
+<br />
+
+Na tarde do seguinte Domingo, debruçado da janella do
+comboio, que vagarosamente deslisava pela borda do rio lento, n'um
+silencio todo feito d'azul e sol, avistei, na plata-forma da quieta
+estaç&atilde;o da minha aldeia, os Senhores de Tormes,
+com a
+minha afilhada Thereza, muito vermelha, arregalando os seus soberbos
+olhos, e o bravo Jacinthinho,
+que empunhava uma bandeira branca. O alvoroço ditoso com que
+abracei e beijei aquella tribu bem amada conviria perfeitamente a quem
+voltasse vivo d'uma guerra distante, na Tartaria. Na alegria de
+recuperar a Serra, at&eacute; beijoquei o chefe Pimentinha, que a
+estalar
+d'obesidade se açodava gritando ao carregador todo o cuidado
+com
+as minhas
+malas. <br />
+
+<br />
+
+Jacintho, magnifico, de grande chap&eacute;o serrano e jaqueta, de
+novo me abraçou: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E esse Paris? <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[378]</span>
+&#8213;Medonho! <br />
+
+<br />
+
+Abri depois os braços para o bravo Jacintinho. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o para que &eacute; essa bandeira, meu cavalleiro?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; a bandeira do Castello! declarou elle, com uma bella
+seriedade nos seus grandes olhos. <br />
+
+<br />
+
+A m&atilde;e ria. Desde essa manh&atilde;, logo que soubera da
+chegada do Ti-Z&eacute;, appareceu de bandeira, feita pelo Grillo,
+e n&atilde;o a
+larg&aacute;ra mais; com ella almoç&aacute;ra, com
+ella descera de Tormes! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Bravo! E, prima Joanninha, olhe que est&aacute; magnifica! Eu,
+tambem, venho d'aquellas pelles meladas de Paris... Mas acho-a
+triumphal! E o tio Adri&atilde;o, e a tia Vicencia? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tudo optimo! gritou Jacintho. A serra, Deos louvado, prospera. E
+agora, para cima! Tu hoje ficas em Tormes. Para contar da
+Civilisaç&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+No largo por traz da estaç&atilde;o, debaixo dos
+eucalyptos, que revi com gosto, esperavam os tres cavallos, e dous
+bellos burros brancos, um com
+cadeirinha para a Thereza, outro com um cesto de verga, para metter
+dentro o heroico Jacinthinho, um e outro servidos &aacute;
+estribeira por um creado. Eu ajud&aacute;ra a prima Joanninha a
+montar, quando o
+carregador <span class="pagenum">[379]</span>appareceu
+com um masso de jornaes e papeis, que eu esquecera na carruagem. Era
+uma papelada, de que me surtira na
+Estaç&atilde;o d'Orleans, toda recheada de mulheres
+nuas, de
+historietas sujas, de parisianismo, d'erotismo. Jacintho, que as
+reconhecera, gritou rindo: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Deita isso fóra! <br />
+
+<br />
+
+E eu atirei, para um mont&atilde;o de lixo, ao canto do Pateo,
+aquelle putrido rebotalho da Civilisaç&atilde;o. E
+montei. Mas
+ao dobrar
+para o caminho empinado da serra, ainda me voltei, para gritar adeus ao
+Pimenta, de quem me esquecera. O digno chefe, debruçado
+sobre o
+monturo,
+apanhava, sacudia, recolhia com amor aquellas bellas estampas, que
+chegavam de Paris, contavam as delicias de Paris, derramavam atravez do
+mundo a seducç&atilde;o de Paris. <br />
+
+<br />
+
+Em fila começamos a subir para a Serra. A tarde
+adoçava o seu esplendor d'estio. Uma aragem trazia, como
+offertados, perfumes das
+fl&ocirc;res silvestres. As ramagens moviam, com um aceno de doce
+acolhimento, as suas folhas vivas e relusentes. Toda a passarinhada
+cantava, n'um alvoroço de alegria e de louvor. As agoas
+correntes,
+saltantes, lusidias, despediam um brilho mais vivo, n'uma pressa mais
+animada. Vidraças distantes de casas <span class="pagenum">[380]</span>amaveis,
+flammejavam com um
+fulgor d'ouro. A serra toda se offertava, na sua belleza eterna e
+verdadeira. E, sempre adiante da nossa fila, por entre a verdura,
+fluctuava no ar a bandeira branca, que o Jacinthinho n&atilde;o
+largava, de dentro do seu
+cesto, com a haste bem segura na m&atilde;o. Era <em>a
+bandeira do
+Castello</em>, affirm&aacute;ra elle. <br />
+
+<br />
+
+E na verdade me parecia que, por aquelles caminhos, atravez da natureza
+campestre e mansa,&#8213;o meu Principe, atrigueirado nas soalheiras e nos
+ventos da serra, a minha prima Joanninha, t&atilde;o doce e risonha
+m&atilde;e, os dois primeiros representantes da sua
+abençoada
+tribu, e
+eu&#8213;, t&atilde;o longe de amarguradas illus&otilde;es e de
+falsas
+delicias, trilhando um
+solo eterno, e de eterna solidez, com a alma contente, e Deus contente
+de
+nós, serenamente e seguramente subiamos&#8213;para o Castello da
+Gran-Ventura! <br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;">
+<h4>Fim </h4>
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h2>ADVERTENCIA</h2>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Desde a pagina 241, at&eacute; o final, as provas d'este livro
+n&atilde;o foram revistas pelo auctor, arrebatado pela morte antes
+de
+haver dado a esta parte da sua escripta aquella ultima
+dem&atilde;o, em
+que
+habitualmente elle punha a diligencia mais perseverante e mais
+admiravelmente lucida. <br />
+
+<br />
+
+Aquelle dos seus amigos e companheiro de letras, a quem foi confiado o
+trabalho delicado e piedoso de tocar no manuscripto posthumo de
+Eça de Queiroz, ao concluir o desempenho de tal
+miss&atilde;o,
+beija com o
+mais enternecido e saudoso respeito a m&atilde;o, para todo sempre
+immobilisada, que traçou estas paginas encantadoras; e faz
+votos
+por que a
+revis&atilde;o de que se incumbiu n&atilde;o deslustre muito
+grosseiramente a immortal
+aureola com que ficar&aacute; resplandecendo na litteratura
+portugueza
+este
+livro, em que o espirito do grande escriptor parece exhalar-se da vida
+n'um terno suspiro de doçura, de paz, e de puro amor
+&aacute;
+terra
+da sua patria. <br />
+
+<br />
+
+24 de abril de 1901. <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="4" cellspacing="4">
+
+ <tbody>
+
+ <tr align="center">
+
+ <td style="width: 100%;" colspan="4" rowspan="1"><b>LIVRARIA
+CHARDRON de Lello &amp; Irm&atilde;o<br />
+
+ </b>96&#8213;CLERIGOS&#8213;98
+ <hr /></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 45%;"><b>Bazillio Telles<br />
+
+ </b>O problema agricola</td>
+
+ <td style="width: 5%; vertical-align: bottom; text-align: right;">$600</td>
+
+ <td style="width: 45%;"><b>Lermina</b>
+ <br />
+
+Filho do Monte Christo, 2
+volumes</td>
+
+ <td style="vertical-align: bottom; width: 5%;">1$000</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Estudos historicos e
+economicos</td>
+
+ <td style="text-align: right;">$600</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>
+ <div style="margin-left: 5%;"><em>No
+pr&eacute;lo</em>:</div>
+
+ </td>
+
+ <td style="text-align: right;"></td>
+
+ <td><b>Eugenio Sue</b>
+ <br />
+
+Mysterios de Paris, 3 volumes
+cart.</td>
+
+ <td style="vertical-align: bottom;">2$000</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Introducç&atilde;o
+ao problema do trabalho nacional. </td>
+
+ <td style="text-align: right;"></td>
+
+ <td></td>
+
+ <td></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: right;"></td>
+
+ <td><b>Zola</b> <br />
+
+Nan&aacute;</td>
+
+ <td style="vertical-align: bottom; text-align: right;">$500</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td><b>Abel Botelho<br />
+
+ </b>O bar&atilde;o de
+Lavos</td>
+
+ <td style="vertical-align: bottom; text-align: right;">$800</td>
+
+ <td style="vertical-align: bottom;">Historia
+da lavadeira Gervasia, 2
+vols</td>
+
+ <td style="vertical-align: bottom; text-align: right;">1$000</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>O livro
+d'Alda</td>
+
+ <td style="text-align: right;">$800</td>
+
+ <td>O
+Capit&atilde;o
+Burle</td>
+
+ <td style="text-align: right;">$500</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Sem
+remedio...</td>
+
+ <td style="text-align: right;">$500</td>
+
+ <td>Ventre de
+Paris, 2
+vols</td>
+
+ <td style="text-align: right;">1$000</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>
+ <div style="margin-left: 5%;"><em>No
+pr&eacute;lo</em>: </div>
+
+ </td>
+
+ <td style="text-align: right;"></td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: right;"></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Amanh&atilde;. </td>
+
+ <td style="text-align: right;"></td>
+
+ <td><b>Arnaldo Gama</b>
+ <br />
+
+Caldeira de Pero
+Botelho</td>
+
+ <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;">$500</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: right;"></td>
+
+ <td>Honra ou
+loucura</td>
+
+ <td style="text-align: right;">$500</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td><b>Jos&eacute;
+Caldas<br />
+
+ </b>Humildes</td>
+
+ <td style="vertical-align: bottom; text-align: right;">$400</td>
+
+ <td style="vertical-align: top;">Filho
+do Baldaia</td>
+
+ <td style="text-align: right; vertical-align: top;">$600</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Os
+Jesuitas; a sua influencia na actual sociedade portugueza;
+meio de a
+conjurar</td>
+
+ <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;"><em>no
+pr&eacute;lo</em></td>
+
+ <td></td>
+
+ <td></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: right;"></td>
+
+ <td><b>Bruno</b> <br />
+
+O Brazil mental</td>
+
+ <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;">$800</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td><b>Sylvio Romero<br />
+
+ </b>Martins Penna</td>
+
+ <td style="vertical-align: bottom; text-align: right;">$400
+ </td>
+
+ <td style="vertical-align: top;">Notas
+do exilio<br />
+
+Historia da
+Prostituiç&atilde;o</td>
+
+ <td style="vertical-align: top; text-align: right;">$500<br />
+
+1$800</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: right;"></td>
+
+ <td>
+ <hr /></td>
+
+ <td style="text-align: right; vertical-align: top;"><br />
+
+ </td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td><b>Rebello da Silva<br />
+
+ </b>Mocidade de D. Jo&atilde;o
+V.</td>
+
+ <td style="vertical-align: bottom; text-align: right;">1$500</td>
+
+ <td> <b>Camillo
+Castello
+Branco</b> <br />
+
+Maria da Fonte</td>
+
+ <td style="text-align: right;">$500</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: right;"></td>
+
+ <td>Livro de
+consolaç&atilde;o</td>
+
+ <td style="text-align: right;">$500</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td><b>Andrade Corvo<br />
+
+ </b>Um anno na
+c&ocirc;rte</td>
+
+ <td style="vertical-align: bottom; text-align: right;">1$500</td>
+
+ <td>D. Luiz de
+Portugal<br />
+
+Brazileira de
+Prazins</td>
+
+ <td style="text-align: right;">$300<br />
+
+$500</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td><br />
+
+ </td>
+
+ <td style="text-align: right;"></td>
+
+ <td>Eusebio Macario</td>
+
+ <td style="text-align: right;">$500</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td><b>Antonio C. Louzada<br />
+
+ </b>Rua escura</td>
+
+ <td style="text-align: right;">$500</td>
+
+ <td>Volcoens da lama<br />
+
+Carta de guia de
+casados</td>
+
+ <td style="text-align: right;">$500<br />
+
+$300</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Na
+consciencia</td>
+
+ <td style="text-align: right;">$500</td>
+
+ <td><br />
+
+ </td>
+
+ <td style="text-align: right;"></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td></td>
+
+ <td></td>
+
+ <td><b>Grainha</b>
+ <br />
+
+Jesuitas</td>
+
+ <td style="vertical-align: bottom; text-align: right;">$600</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td><b>Dumas<br />
+
+ </b>Jorge ou o capit&atilde;o dos
+piratas</td>
+
+ <td style="vertical-align: bottom; text-align: right;">$500</td>
+
+ <td><b><br />
+
+ </b></td>
+
+ <td style="text-align: right;"><br />
+
+ </td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Tres
+mosqueteiros, 2
+volumes</td>
+
+ <td style="text-align: right;">1$000</td>
+
+ <td><b>Tolstoi</b>
+ <br />
+
+A Sonata de Kreutzer</td>
+
+ <td style="vertical-align: bottom; text-align: right;">$400<br />
+
+ </td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+</div>
+
+<div style='display:block; margin-top:4em'>*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK A CIDADE E AS SERRAS ***</div>
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+Vanilla ASCII&#8221; or other form. Any alternate format must include the
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+ </div>
+
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+ </div>
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+ </div>
+</div>
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+</div>
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+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg&#8482;
+</div>
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+Project Gutenberg&#8482; is synonymous with the free distribution of
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+exists because of the efforts of hundreds of volunteers and donations
+from people in all walks of life.
+</div>
+
+<div style='display:block; margin:1em 0'>
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg&#8482;&#8217;s
+goals and ensuring that the Project Gutenberg&#8482; collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg&#8482; and future
+generations. To learn more about the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation and how your efforts and donations can help, see
+Sections 3 and 4 and the Foundation information page at www.gutenberg.org.
+</div>
+
+<div style='display:block; font-size:1.1em; margin:1em 0; font-weight:bold'>
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+</div>
+
+<div style='display:block; margin:1em 0'>
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non-profit
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+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation&#8217;s EIN or federal tax identification
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+The Foundation&#8217;s business office is located at 809 North 1500 West,
+Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887. Email contact links and up
+to date contact information can be found at the Foundation&#8217;s website
+and official page at www.gutenberg.org/contact
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+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+</div>
+
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+Project Gutenberg&#8482; depends upon and cannot survive without widespread
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+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
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+</div>
+
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+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
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+</div>
+
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+donate, please visit: www.gutenberg.org/donate
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+Section 5. General Information About Project Gutenberg&#8482; electronic works
+</div>
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+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project
+Gutenberg&#8482; concept of a library of electronic works that could be
+freely shared with anyone. For forty years, he produced and
+distributed Project Gutenberg&#8482; eBooks with only a loose network of
+volunteer support.
+</div>
+
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+Project Gutenberg&#8482; eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as not protected by copyright in
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+edition.
+</div>
+
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+This eBook, including all associated images, markup, improvements,
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+Project Gutenberg (https://www.gutenberg.org) public repository for
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+The Project Gutenberg EBook of A Cidade e as Serras, by Ea Queirs
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: A Cidade e as Serras
+
+Author: Ea Queirs
+
+Release Date: February 28, 2008 [EBook #18220]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A CIDADE E AS SERRAS ***
+
+
+
+
+Produced by Rita Farinha and the Online Distributed
+Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This file was
+produced from images generously made available by National
+Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).)
+
+
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+
+
+
+
+
+EA DE QUEIROZ
+
+A CIDADE E AS SERRAS
+
+
+PORTO
+
+LIVRARIA CHARDRON
+
+De Lello & Irmo, editores
+
+1901
+
+Todos os direitos reservados
+
+
+
+
+EA DE QUEIROZ
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+A CIDADE E AS SERRAS
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+PORTO
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+LIVRARIA CHARDRON
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+De Lello & Irmo, editores
+
+1901
+
+Todos os direitos reservados
+
+
+
+
+Pertence no Brazil o direito de propriedade d'esta obra ao cidado
+Francisco Alves, livreiro editor no Rio de Janeiro, que, para a garantia
+que lhe offerece a lei n.^o 496 de 1 d'Agosto de 1898, fez o competente
+deposito na Bibliotheca nacional, segundo a determinao do art. 13.^o
+da mesma Lei.
+
+
+_Porto--Imprensa Moderna_
+
+
+
+
+[Figura de Ea de Queirs]
+
+
+
+
+A CIDADE E AS SERRAS
+
+
+
+
+Obras do mesmo auctor:
+
+
+*Revista de Portugal.* 4 grossos volumes 12$000
+
+*As minas de Salomo.* 1 volume $600
+
+*Os Maias.* 2 grossos volumes 2$000
+
+*O crime do padre Amaro.* Terceira edio inteiramente refundida,
+recomposta, e differente na frma e na aco da edio primitiva. 1 grosso
+volume 1$200
+
+*O primo Bazilio.* Quarta edio. 1 grosso volume 1$000
+
+*A Reliquia.* 1 grosso volume 1$000
+
+*O Mandarim.* Quarta edio. 1 volume $500
+
+*Correspondencia de Fradique Mendes.* 1 volume $600
+
+*A illustre casa de Ramires.* 1 volume 1$000
+
+
+
+
+A CIDADE E AS SERRAS
+
+
+
+
+I
+
+
+O meu amigo Jacintho nasceu n'um palacio, com cento e nove contos de
+renda em terras de semeadura, de vinhedo, de cortia e d'olival.
+
+No Alemtejo, pela Extremadura, atravez das duas Beiras, densas sebes
+ondulando por collina e valle, muros altos de boa pedra, ribeiras,
+estradas, delimitavam os campos d'esta velha familia agricola que j
+entulhava gro e plantava cepa em tempos d'el-rei D. Diniz. A sua quinta
+e casa senhorial de Tormes, no Baixo Douro, cobriam uma serra. Entre o
+Tua e o Tinhela, por cinco fartas legoas, todo o torro lhe pagava fro.
+E cerrados pinheiraes seus negrejavam desde Arga at ao mar d'Ancora.
+Mas o palacio onde Jacintho nascra, e onde sempre habitra, era em
+Paris, nos Campos Elyseos, n.^o 202.
+
+Seu av, aquelle gordissimo e riquissimo Jacintho a quem chamavam em
+Lisboa o _D. Galio_, descendo uma tarde pela travessa da Trabuqueta,
+rente d'um muro de quintal que uma parreira toldava, escorregou n'uma
+casca de laranja e desabou no lagedo. Da portinha da horta sahia n'esse
+momento um homem moreno, escanhoado, de grosso casaco de baeto verde e
+botas altas de picador, que, galhofando e com uma fora facil, levantou
+o enorme Jacintho--at lhe apanhou a bengala de casto d'ouro que rolra
+para o lixo. Depois, demorando n'elle os olhos pestanudos e pretos:
+
+--Oh Jacintho Galio, que andas tu aqui, a estas horas, a rebolar pelas
+pedras?
+
+E Jacintho, aturdido e deslumbrado, reconheceu o snr. Infante D. Miguel!
+
+Desde essa tarde amou aquelle bom Infante como nunca amra, apesar de
+to guloso, o seu ventre, e apesar de to devoto o seu Deus! Na sala
+nobre da sua casa ( Pampulha) pendurou sobre os damascos o retrato do
+seu Salvador, enfeitado de palmitos como um retabulo, e por baixo a
+bengala que as magnanimas mos reaes tinham erguido do lixo. Emquanto o
+adoravel, desejado Infante penou no desterro de Vienna, o barrigudo
+senhor corria, sacudido na sua sege amarella, do botequim do Z-Maria em
+Belem botica do Placido nos Algibebes, a gemer as saudades do
+_anginho_, a tramar o regresso do _anginho_. No dia, entre todos
+bemdito, em que a _Perola_ appareceu barra com o Messias, engrinaldou
+a Pampulha, ergueu no Caneiro um monumento de papelo e lona onde D.
+Miguel, tornado S. Miguel, branco, d'aureola e azas de Archanjo, furava
+de cima do seu corcel d'Alter o Drago do Liberalismo, que se estorcia
+vomitando a Carta. Durante a guerra com o outro, com o pedreiro livre
+mandava recoveiros a Santo Thyrso, a S. Gens, levar ao Rei fiambres,
+caixas de dce, garrafas do seu vinho de Tarrafal, e bolsas de retroz
+atochadas de peas que elle ensaboava para lhes avivar o ouro. E quando
+soube que o snr. D. Miguel, com dois velhos bahus amarrados sobre um
+macho, tomra o caminho de Sines e do final desterro--Jacintho _Galio_
+correu pela casa, fechou todas as janellas como n'um luto, berrando
+furiosamente:
+
+--Tambem c no fico! tambem c no fico!
+
+No, no queria ficar na terra perversa d'onde partia, esbulhado e
+escorraado, aquelle Rei de Portugal que levantava na rua os Jacinthos!
+Embarcou para Frana com a mulher, a snr.^a D. Angelina Fafes (da to
+fallada casa dos Fafes da Avellan); com o filho, o 'Cinthinho, menino
+amarellinho, mollesinho, coberto de caros e leicenos; com a aia e com
+o moleque. Nas costas da Cantabria o paquete encontrou to rijos mares
+que a snr.^a D. Angelina, esguedelhada, de joelhos na enxerga do
+beliche, prometteu ao Senhor dos Passos d'Alcantara uma cora
+d'espinhos, de ouro, com as gottas de sangue em rubis do Pegu. Em
+Bayonna, onde arribaram, 'Cinthinho teve ithericia. Na estrada
+d'Orleans, n'uma noite agreste, o eixo da berlinda em que jornadeavam
+partiu, e o nedio senhor, a delicada senhora da casa da Avellan, o
+menino, marcharam tres horas na chuva e na lama do exilio at uma
+aldeia, onde, depois de baterem como mendigos a portas mudas, dormiram
+nos bancos d'uma taberna. No Hotel dos Santos Padres, em Paris,
+soffreram os terrores d'um fogo que rebentra na cavalharia, sob o
+quarto de _D. Galio_, e o digno fidalgo, rebolando pelas escadas em
+camisa, at ao pateo, enterrou o p n numa lasca de vidro. Ento ergueu
+amargamente ao co o punho cabelludo, e rugiu:
+
+--Irra! de mais!
+
+Logo n'essa semana, sem escolher, Jacintho _Galio_ comprou a um
+Principe polaco, que depois da tomada de Varsovia se mettera frade
+cartuxo, aquelle palacete dos Campos Elyseos, n.^o 202. E sob o pesado
+ouro dos seus estuques, entre as suas ramalhudas sedas se enconchou,
+descanando de tantas agitaes, n'uma vida de pachorra e de boa mesa,
+com alguns companheiros d'emigrao (o desembargador Nuno Velho, o conde
+de Rabacena, outros menores), at que morreu de indigesto, d'uma
+lampreia d'escabeche que lhe mandra o seu procurador em Monte-mr. Os
+amigos pensavam que a snr.^a D. Angelina Fafes voltaria ao reino. Mas a
+boa senhora temia a jornada, os mares, as caleas que racham. E no se
+queria separar do seu Confessor, nem do seu Medico, que to bem lhe
+comprehendiam os escrupulos e a asthma.
+
+--Eu, por mim, aqui fico no 202 (declarra ella), ainda que me faz falta
+a boa agua d'Alcolena... O 'Cinthinho, esse, em crescendo, que decida.
+
+O 'Cinthinho crescra. Era um moo mais esguio e livido que um cirio, de
+longos cabellos corredios, narigudo, silencioso, encafuado em roupas
+pretas, muito largas e bambas; de noite, sem dormir, por causa da tosse
+e de suffocaes, errava em camisa com uma lamparina atravez do 202; e
+os creados na copa sempre lhe chamavam a _Sombra_. N'essa sua mudez e
+indeciso de sombra surdira, ao fim do luto do pap, o gosto muito vivo
+de tornear madeiras ao torno: depois, mais tarde, com a melada flr dos
+seus vinte annos, brotou n'elle outro sentimento, de desejo e de pasmo,
+pela filha do desembargador Velho, uma menina redondinha como uma rla,
+educada n'um convento de Paris, e to habilidosa que esmaltava, dourava,
+concertava relogios e fabricava chapos de feltro. No outomno de 1851,
+quando j se desfolhavam os castanheiros dos Campos Elyseos, o
+'Cinthinho cuspilhou sangue. O medico, acarinhando o queixo e com uma
+ruga seria na testa immensa, aconselhou que o menino abalasse para o
+golfo Juan ou para as tepidas areias d'Arcachon.
+
+'Cinthinho porm, no seu afrro de sombra, no se quiz arredar da
+Therezinha Velho, de quem se tornra, atravez de Paris, a muda, tardnha
+sombra. Como uma sombra, casou; deu mais algumas voltas ao torno; cuspiu
+um resto de sangue; e passou, como uma sombra.
+
+Tres mezes e tres dias depois do seu enterro o meu Jacintho nasceu.
+
+ * * * * *
+
+Desde o bero, onde a av espalhava funcho e ambar para afugentar a
+_Sorte-Ruim_, Jacintho medrou com a segurana, a rijeza, a seiva rica
+d'um pinheiro das dunas.
+
+No teve sarampo e no teve lombrigas. As Letras, a Taboada, o Latim
+entraram por elle to facilmente como o sol por uma vidraa. Entre os
+camaradas, nos pateos dos collegios, erguendo a sua espada de lata e
+lanando um brado de commando, foi logo o vencedor, o Rei que se adula,
+e a quem se cede a fructa das merendas. Na edade em que se l Balzac e
+Musset nunca atravessou os tormentos da sensibilidade;--nem crepusculos
+quentes o retiveram na solido d'uma janella, padecendo d'um desejo sem
+frma e sem nome. Todos os seus amigos (eramos tres, contando o seu
+velho escudeiro preto, o Grillo) lhe conservaram sempre amizades puras e
+certas--sem que jmais a participao do seu luxo as avivasse ou fossem
+desanimadas pelas evidencias do seu egoismo. Sem corao bastante forte
+para conceber um amor forte, e contente com esta incapacidade que o
+libertava, do amor s experimentou o mel--esse mel que o amor reserva
+aos que o recolhem, maneira das abelhas, com ligeireza, mobilidade e
+cantando. Rijo, rico, indifferente ao Estado e ao Governo dos Homens,
+nunca lhe conhecemos outra ambio alm de comprehender bem as Ideias
+Geraes; e a sua intelligencia, nos annos alegres de esclas e
+controversias, crculava dentro das Philosophias mais densas como enguia
+lustrosa na agua limpa d'um tanque. O seu valor, genuino, de fino
+quilate, nunca foi desconhecido, nem desapreciado; e toda a opinio, ou
+mera facecia que lanasse, logo encontrava uma aragem de sympathia e
+concordancia que a erguia, a mantinha emballada e rebrilhando nas
+alturas. Era servido pelas cousas com docilidade e carinho;--e no
+recordo que jamais lhe estalasse um boto da camisa, ou que um papel
+maliciosamente se escondesse dos seus olhos, ou que ante a sua
+vivacidade e pressa uma gaveta perfida emperrasse. Quando um dia, rindo
+com descrido riso da Fortuna e da sua Roda, comprou a um sachristo
+hespanhol um Decimo de Loteria, logo a Fortuna, ligeira e ridente sobre
+a sua Roda, correu n'um fulgor, para lhe trazer quatro centas mil
+pesetas. E no ceu as Nuvens, pejadas e lentas, se avistavam Jacintho sem
+guarda chuva, retinham com reverencia as suas aguas at que elle
+passasse... Ah! o ambar e o funcho da snr.^a D. Angelina tinham
+escorraado do seu destino, bem triumphalmente e para sempre, a
+_Sorte-Ruim_! A amoravel av (que eu conheci obesa, com barba) costumava
+citar um soneto natalicio do desembargador Nunes Velho contendo um verso
+de boa lio:
+
+ Sabei, senhora, que esta Vida um rio...
+
+Pois um rio de vero, manso, translucido, harmoniosamente estendido
+sobre uma areia macia e alva, por entre arvoredos fragrantes e ditosas
+aldeias, no offereceria quelle que o descesse n'um barco de cedro, bem
+toldado e bem almofadado, com fructas e Champagne a refrescar em gelo,
+um Anjo governando ao leme, outros Anjos puxando sirga, mais segurana
+e doura do que a Vida offerecia ao meu amigo Jacintho.
+
+Por isso ns lhe chamavamos o Principe da Gran-Ventura!
+
+ * * * * *
+
+Jacintho e eu, Jos Fernandes, ambos nos encontramos e acamaradamos em
+Paris, nas Esclas do Bairro Latino--para onde me mandra meu bom tio
+Affonso Fernandes Lorena de Noronha e Sande, quando aquelles malvados me
+riscaram da Universidade por eu ter esborrachado, n'uma tarde de
+procisso, na Sophia, a cara sordida do dr. Paes Pitta.
+
+Ora n'esse tempo Jacintho concebra uma Ideia... Este Principe concebra
+a Ideia de que o homem s superiormente feliz quando superiormente
+civilisado. E por homem civilisado o meu camarada entendia aquelle que,
+robustecendo a sua fora pensante com todas as noes adquiridas desde
+Aristoteles, e multiplicando a potencia corporal dos seus orgos com
+todos os mechanismos inventados desde Theramenes, creador da roda, se
+torna um magnifico Ado, quas omnipotente, quas omnisciente, e apto
+portanto a recolher dentro d'uma sociedade e nos limites do Progresso
+(tal como elle se comportava em 1875) todos os gozos e todos os
+proveitos que resultam de Saber e de Poder... Pelo menos assim Jacintho
+formulava copiosamente a sua Ideia, quando conversavamos de fins e
+destinos humanos, sorvendo bocks poeirentos, sob o toldo das cervejarias
+philosophicas, no Boulevard Saint-Michel.
+
+Este conceito de Jacintho impressionra os nossos camaradas de cenaculo,
+que tendo surgido para a vida intellectual, de 1866 a 1875, entre a
+batalha de Sadowa e a batalha de Sedan, e ouvindo constantemente, desde
+ento, aos technicos e aos philosophos, que fra a Espingarda-de-agulha
+que vencra em Sadowa e fra o Mestre-de-escla quem vencra em Sedan,
+estavam largamente preparados a acreditar que a felicidade dos
+individuos, como a das naes, se realisa pelo illimitado
+desenvolvimento da Mechanica e da Erudio. Um d'esses moos mesmo, o
+nosso inventivo Jorge Carlande, reduzra a theoria de Jacintho, para lhe
+facilitar a circulao e lhe condensar o brilho, a uma frma algebrica:
+
+Summa sciencia}
+ X }= Summa felicidade
+Summa potencia}
+
+E durante dias, do Odeon Sorbonna, foi louvada pela mocidade positiva
+a _Equao Metaphysica de Jacintho_.
+
+Para Jacintho, porm, o seu conceito no era meramente metaphysico e
+lanado pelo gozo elegante de exercer a razo especulativa:--mas
+constituia uma regra, toda de realidade e de utilidade, determinando a
+conducta, modalisando a vida. E j a esse tempo, em concordancia com o
+seu preceito--elle se surtira da _Pequena Encyclopedia dos Conhecimentos
+Universaes_ em setenta e cinco volumes e installra, sobre os telhados
+do 202, n'um mirante envidraado, um telescopio. Justamente com esse
+telescopio me tornou elle palpavel a sua ideia, n'uma noite de agosto,
+de molle e dormente calor. Nos cos remotos lampejavam relampagos
+languidos. Pela Avenida dos Campos Elyseos, os fiacres rolavam para as
+frescuras do Bosque, lentos, abertos, canados, transbordando de
+vestidos claros.
+
+--Aqui tens tu, Z Fernandes, (comeou Jacintho, encostado janella do
+mirante) a theoria que me governa, bem comprovada. Com estes olhos que
+recebemos da Madre natureza, lestos e sos, ns podemos apenas
+distinguir alm, atravez da Avenida, n'aquella loja, uma vidraa
+alumiada. Mais nada! Se eu porm aos meus olhos juntar os dois vidros
+simples d'um binoculo de corridas, percebo, por traz da vidraa,
+presuntos, queijos, boies de gela e caixas de ameixa scca. Concluo
+portanto que uma mercearia. Obtive uma noo; tenho sobre ti, que com
+os olhos desarmados vs s o luzir da vidraa, uma vantagem positiva. Se
+agora, em vez d'estes vidros simples, eu usasse os do meu telescopio, de
+composio mais scientifica, poderia avistar alm, no planeta Marte, os
+mares, as neves, os canaes, o recorte dos golphos, toda a geographia
+d'um astro que circula a milhares de leguas dos Campos Elyseos. outra
+noo, e tremenda! Tens aqui pois o olho primitivo, o da Natureza,
+elevado pela Civilisao sua maxima potencia de viso. E desde j,
+pelo lado do olho portanto, eu, civilisado, sou mais feliz que o
+incivilisado, porque descubro realidades do Universo que elle no
+suspeita e de que est privado. Applica esta prova a todos os orgos e
+comprehendes o meu principio. Emquanto intelligencia, e felicidade
+que d'ella se tira pela incanavel accumulao das noes, s te peco
+que compares Renan e o Grillo... Claro portanto que nos devemos cercar
+de Civilisao nas maximas propores para gosar nas maximas propores
+a vantagem de viver. Agora concordas, Z Fernandes?
+
+No me parecia irrecusavelmente certo que Renan fosse mais feliz que o
+Grillo; nem eu percebia que vantagem espiritual ou temporal se clha em
+distinguir atravez do espao manchas n'um astro, ou atravez da Avenida
+dos Campos Elyseos presuntos n'uma vidraa. Mas concordei, porque sou
+bom, e nunca desalojarei um espirito do conceito onde elle encontra
+segurana, disciplina e motivo de energia. Desabotoei o collete, e
+lanando um gesto para o lado dos cafs e das luzes:
+
+--Vamos ento beber, nas maximas propores, _brandy and soda_, com
+gelo!
+
+Por uma concluso bem natural, a ideia de Civilisao, para Jacintho,
+no se separava da imagem de Cidade, d'uma enorme Cidade, com todos os
+seus vastos orgos funccionando poderosamente. Nem este meu
+super-civilisado amigo comprehendia que longe de Armazens servidos por
+tres mil caixeiros; e de Mercados onde se despejam os vergeis e lezirias
+de trinta provincias; e de Bancos em que retine o ouro universal; e de
+Fabricas fumegando com ancia, inventando com ancia; e de Bibliothecas
+abarrotadas, a estalar, com a papelada dos seculos; e de fundas milhas
+de ruas, cortadas, por baixo e por cima, de fios de telegraphos, de fios
+de telephones, de canos de gazes, de canos de fezes; e da fila atroante
+dos omnibus, tramways, carroas, velocipedes, calhambeques, parelhas de
+luxo; e de dois milhes d'uma vaga humanidade, fervilhando, a offegar,
+atravez da Policia, na busca dura do po ou sob a illuso do gozo--o
+homem do seculo XIX podesse saborear, plenamente, a delicia de viver!
+
+Quando Jacintho, no seu quarto do 202, com as varandas abertas sobre os
+lilazes, me desenrolava estas imagens, todo elle crescia, illuminado.
+Que creao augusta, a da Cidade! S por ella, Z-Fernandes, s por
+ella, pde o homem soberbamente affirmar a sua alma!...
+
+--Oh Jacintho, e a religio? Pois a religio no prova a alma?
+
+Elle encolhia os hombros. A religio! A religio o desenvolvimento
+sumptuoso de um instincto rudimentar, commum a todos os brutos, o
+terror. Um co lambendo a mo do dono, de quem lhe vem o osso ou o
+chicote, j constitue toscamente um devoto, o consciente devoto,
+prostrado em rezas ante o Deus que distribue o co ou o inferno!... Mas
+o telephone! o phonographo!
+
+--Ahi tens tu, o phonographo!... S o phonographo, Z Fernandes, me faz
+verdadeiramente sentir a minha superioridade de sr pensante e me separa
+do bicho. Acredita, no ha seno a Cidade, Z Fernandes, no ha seno a
+Cidade!
+
+E depois (accrescentava) s a Cidade lhe dava a sensao, to necessaria
+ vida como o calor, da solidariedade humana. E no 202, quando
+considerava em redor, nas densas massas do casario de Paris, dois
+milhes de sres arquejando na obra da Civilisao (para manter na
+natureza o dominio dos Jacinthos!) sentia um socego, um conchego, s
+comparaveis ao do peregrino, que, ao atravessar o deserto, se ergue no
+seu dromedario, e avista a longa fila da caravana marchando, cheia de
+lumes e de armas...
+
+Eu murmurava, impressionado:
+
+--Caramba!
+
+Ao contrario no campo, entre a inconsciencia e a impassibilidade da
+Natureza, elle tremia com o terror da sua fragilidade e da sua solido.
+Estava ahi como perdido n'um mundo que lhe no fosse fraternal; nenhum
+silvado encolheria os espinhos para que elle passasse; se gemesse com
+fome nenhuma arvore, por mais carregada, lhe estenderia o seu fructo na
+ponta compassiva d'um ramo. Depois, em meio da Natureza, elle assistia
+subita e humilhante inutilisao de todas as suas faculdades superiores.
+De que servia, entre plantas e bichos--ser um Genio ou ser um Santo? As
+searas no comprehendem as _Georgicas_; e fra necessario o socorro
+ancioso de Deus, e a inverso de todas as leis naturaes, e um violento
+milagre para que o lobo de Agubio no devorasse S. Francisco d'Assis,
+que lhe sorria e lhe estendia os braos e lhe chamava meu irmo lobo!
+Toda a intellectualidade, nos campos, se esterilisa, e s resta a
+bestialidade. N'esses reinos crassos do Vegetal e do Animal duas unicas
+funces se mantm vivas, a nutritiva e a procreadora. Isolada, sem
+occupao, entre focinhos e raizes que no cessam de sugar e de pastar,
+suffocando no calido bafo da universal fecundao, a sua pobre alma toda
+se engelhava, se reduzia a uma migalha d'alma, uma fagulhasinha
+espiritual a tremeluzir, como morta, sobre um naco de materia; e n'essa
+materia dois instinctos surdiam, imperiosos e pungentes, o de devorar e
+o de gerar. Ao cabo de uma semana rural, de todo o seu sr to
+nobremente composto s restava um estomago e por baixo um phallus! A
+alma? Sumida sob a besta. E necessitava correr, reentrar na Cidade,
+mergulhar nas ondas lustraes da Civilisao, para largar n'ellas a
+crosta vegetativa, e resurgir re-humanisado, de novo espiritual e
+Jacinthico!
+
+E estas requintadas metaphoras do meu amigo exprimiam sentimentos
+reaes--que eu testemunhei, que muito me divertiram, no unico passeio que
+fizemos ao campo, bem amavel e bem sociavel floresta de Montmorency.
+Oh delicias d'entremez, Jacintho entre a Natureza! Logo que se afastava
+dos pavimentos de madeira, do macadam, qualquer cho que os seus ps
+calcassem o enchia de desconfiana e terror. Toda a relva, por mais
+crestada, lhe parecia reumar uma humidade mortal. De sob cada torro,
+da sombra de cada pedra, receava o assalto de lacraus, de viboras, de
+frmas rastejantes e viscosas. No silencio do bosque sentia um lugubre
+despovoamento do Universo. No tolerava a familiaridade dos galhos que
+lhe roassem a manga ou a face. Saltar uma sebe era para elle um acto
+degradante que o retrogradava ao macaco inicial. Todas as flres que no
+tivesse j encontrado em jardins, domesticadas por longos seculos de
+servido ornamental, o inquietavam como venenosas. E considerava d'uma
+melancolia funambulesca certos modos e frmas do Sr inanimado, a pressa
+esperta e v dos regatinhos, a careca dos rochedos, todas as contorses
+do arvoredo e o seu resmungar solemne e tonto.
+
+Depois d'uma hora, n'aquelle honesto bosque de Montmorency, o meu pobre
+amigo abafava, apavorado, experimentando j esse lento mingoar e sumir
+d'alma que o tornava como um bicho entre bichos. S desannuviou quando
+penetramos no lagdo e no gaz de Paris--e a nossa vittoria quasi se
+despedaou contra um omnibus retumbante, atulhado de cidados. Mandou
+descer pelos Boulevards, para dissipar, na sua grossa sociabilidade,
+aquella materialisao em que sentia a cabea pesada e vaga como a d'um
+boi. E reclamou que eu o acompanhasse ao theatro das Variedades para
+sacudir, com os estribilhos da _Femme Papa_, o rumor importuno que lhe
+ficra dos melros cantando nos choupos altos.
+
+Este delicioso Jacintho fizera ento vinte e tres annos, e era um
+soberbo moo em quem reapparecra a fora dos velhos Jacinthos ruraes.
+S pelo nariz, afilado, com narinas quasi transparentes, d'uma
+mobilidade inquieta, como se andasse fariscando perfumes, pertencia s
+delicadezas do seculo XIX. O cabello ainda se conservava, ao modo das
+ras rudes, crespo e quasi lanigero: e o bigode, como o d'um Celta,
+cahia em fios sedosos, que elle necessitava aparar e frizar. Todo o seu
+fato, as espessas gravatas de setim escuro que uma perola prendia, as
+luvas de anta branca, o verniz das botas, vinham de Londres em caixotes
+de cedro; e usava sempre ao peito uma flr, no natural, mas composta
+destramente pela sua ramalheteira com petalas de flres dessemelhantes,
+cravo, azalea, orchidea ou tulipa, fundidas na mesma haste entre uma
+leve folhagem de funcho.
+
+ * * * * *
+
+Em 1880, em Fevereiro, n'uma cinzenta e arripiada manh de chuva, recebi
+uma carta de meu bom tio Affonso Fernandes, em que, depois de
+lamentaes sobre os seus setenta annos, os seus males hemorroidaes, e a
+pesada gerencia dos seus bens que pedia homem mais novo, com pernas
+mais rijas--me ordenava que recolhesse nossa casa de Guies, no
+Douro! Encostado ao marmore partido do fogo, onde na vspera a minha
+Nini deixra um espartilho embrulhado no _Jornal dos Debates_, censurei
+severamente meu tio que assim cortava em boto, antes de desabrochar, a
+flr do meu Saber Juridico. Depois n'um Post-Scriptum elle
+accrescentava--O tempo aqui est lindo, o que se pde chamar de rosas,
+e tua santa tia muito se recommenda, que anda l pela cozinha, porque
+vai hoje em trinta e seis annos que casmos, temos c o abbade e o
+Quintaes a jantar, e ella quiz fazer uma sopa dourada.
+
+Deitando uma acha ao lume, pensei como devia estar boa a sopa dourada da
+tia Vicencia. Ha quantos annos no a provava, nem o leito assado, nem o
+arroz de frno da nossa casa! Com o tempo assim to lindo, j as mimosas
+do nosso pateo vergariam sob os seus grandes cachos amarellos. Um pedao
+de co azul, do azul de Guies, que outro no ha to lustroso e macio,
+entrou pelo quarto, alumiou, sobre a poida tristeza do tapete, relvas,
+ribeirinhos, malmequeres e flres de trevo de que meus olhos andavam
+agoados. E, por entre as bambinellas de sarja, passou um ar fino e forte
+e cheiroso de serra e de pinheiral.
+
+Assobiando um _fado_ meigo tirei debaixo da cama a minha velha mala, e
+metti solicitamente entre calas e piugas um Tratado de Direito Civil,
+para aprender emfim, nos vagares da aldeia, estendido sob a faia, as
+leis que regem os homens. Depois, n'essa tarde, annunciei a Jacintho que
+partia para Guies. O meu camarada recuou com um surdo gemido de espanto
+e piedade:
+
+--Para Guies!... Oh Z Fernandes, que horror!
+
+E toda essa semana me lembrou solicitamente confortos de que eu me
+deveria prover para que pudesse conservar, nos ermos silvestres, to
+longe da Cidade, uma pouca d'alma dentro d'um pouco de corpo. Leva uma
+poltrona! Leva a _Encyclopedia Geral_! Leva caixas de aspargos!...
+
+Mas para o meu Jacintho, desde que assim me arrancavam da Cidade, eu era
+arbusto desarraigado que no reviver. A magoa com que me acompanhou ao
+comboio conviria excellentemente ao meu funeral. E quando fechou sobre
+mim a portinhola, gravemente, supremamente, como se cerra uma grade de
+sepultura, eu quasi solucei--com saudades minhas.
+
+Cheguei a Guies. Ainda restavam flres nas mimosas do nosso pateo; comi
+com delicias a sopa dourada da tia Vicencia; de tamancos nos ps assisti
+ ceifa dos milhos. E assim de colheitas a lavras, crestando ao sol das
+eiras, caando a perdiz nos matos geados, rachando a melancia fresca na
+poeira dos arraiaes, arranchando a magustos, serandando candeia,
+atiando fogueiras de S. Joo, enfeitando presepios de Natal, por alli
+me passaram docemente sete annos, to atarefados que nunca logrei abrir
+o Tratado de Direito Civil, e to singelos que apenas me recordo quando,
+em vsperas de S. Nicolau, o abbade cahiu da egua porta do Braz das
+Crtes. De Jacintho s recebia raramente algumas linhas, escrevinhadas
+pressa por entre o tumulto da Civilisao. Depois, n'um Setembro muito
+quente, ao lidar da vindima, meu bom tio Affonso Fernandes morreu, to
+quietamente, Deus seja louvado por esta graa, como se cala um
+passarinho ao fim do seu bem cantado e bem voado dia. Acabei pela aldeia
+a roupa do luto. A minha afilhada Joanninha casou na matana do porco.
+Andaram obras no nosso telhado. Voltei a Paris.
+
+
+
+
+II
+
+
+Era de novo Fevereiro, e um fim de tarde arripiado e cinzento, quando eu
+desci os Campos Elyseos em demanda do 202. Adiante de mim caminhava,
+levemente curvado, um homem que, desde as botas rebrilhantes at s abas
+recurvas do chapo d'onde fugiam anneis d'um cabello crespo, reumava
+elegancia e a familiaridade das coisas finas. Nas mos, cruzadas atraz
+das costas, caladas d'anta branca, sustentava uma bengala grossa com
+casto de crystal. E s quando elle parou ao porto do 202 reconheci o
+nariz afilado, os fios do bigode corredios e sedosos.
+
+--Oh Jacintho!
+
+--Oh Z Fernandes!
+
+O abrao que nos enlaou foi to alvoroado que o meu chapo rolou na
+lama. E ambos murmuravamos, commovidos, entrando a grade:
+
+--Ha sete annos!...
+
+--Ha sete annos!...
+
+E, todavia, nada mudra durante esses sete annos no jardim do 202! Ainda
+entre as duas aleas bem areadas se arredondava uma relva, mais lisa e
+varrida que a l d'um tapete. No meio o vaso corinthico esperava Abril
+para resplandecer com tulipas e depois Junho para transbordar de
+margaridas. E ao lado das escadas limiares, que uma vidraaria toldava,
+as duas magras Deusas de pedra, do tempo de D. Galio, sustentavam as
+antigas lampadas de globos foscos, onde j silvava o gaz.
+
+Mas dentro, no peristillo, logo me surprehendeu um elevador installado
+por Jacintho--apesar do 202 ter smente dois andares, e ligados por uma
+escadaria to doce que nunca offendra a asthma da snr.^a D. Angelina!
+Espaoso, tapetado, elle offerecia, para aquella jornada de sete
+segundos, confortos numerosos, um divan, uma pelle d'urso, um roteiro
+das ruas de Paris, prateleiras gradeadas com charutos e livros. Na
+antecamara, onde desembarcamos, encontrei a temperatura macia e tepida
+d'uma tarde de Maio, em Guies. Um creado, mais attento ao thermometro
+que um piloto agulha, regulava destramente a bocca dourada do
+calorifero. E perfumadores entre palmeiras, como n'um terrasso santo de
+Benares, esparziam um vapor, aromatisando e salutarmente humedecendo
+aquelle ar delicado e superfino.
+
+Eu murmurei, nas profundidades do meu assombrado sr:
+
+--Eis a civilisao!
+
+Jacintho empurrou uma porta, penetramos n'uma nave cheia de magestade e
+sombra, onde reconheci a Bibliotheca por tropear n'uma pilha monstruosa
+de livros novos. O meu amigo roou de leve o dedo na parede: e uma cora
+de lumes electricos, refulgindo entre os lavores do tecto, alumiou as
+estantes monumentaes, todas d'ebano. N'ellas repousavam mais de trinta
+mil volumes, encadernados em branco, em escarlate, em negro, com
+retoques d'ouro, hirtos na sua pompa e na sua auctoridade como doutores
+n'um concilio.
+
+No contive a minha admirao:
+
+--Oh Jacintho! Que deposito!
+
+Elle murmurou, n'um sorriso descorado:
+
+--Ha que lr, ha que lr...
+
+Reparei ento que o meu amigo emmagrecera: e que o nariz se lhe afilra
+mais entre duas rugas muito fundas, como as d'um comediante canado. Os
+anneis do seu cabello lanigero rareavam sobre a testa, que perdera a
+antiga serenidade de marmore bem polido. No frisava agora o bigode
+murcho, cahido em fios pensativos. Tambem notei que corcovava.
+
+Elle ergura uma tapearia--entramos no seu gabinete de trabalho, que me
+inquietou. Sobre a espessura dos tapetes sombrios os nossos passos
+perderam logo o som, e como a realidade. O damasco das paredes, os
+divans, as madeiras, eram verdes, d'um verde profundo de folha de louro.
+Sdas verdes envolviam as luzes electricas, dispersas em lampadas to
+baixas que lembravam estrellas cahidas por cima das mesas, acabando de
+arrefecer e morrer: s uma rebrilhava, na e clara, no alto d'uma
+estante quadrada, esguia, solitaria como uma torre n'uma planicie, e de
+que o lume parecia ser o pharol melancolico. Um biombo de laca verde,
+fresco verde de relva, resguardava a chamin de marmore verde, verde de
+mar sombrio, onde esmoreciam as brazas d'uma lenha aromatica. E entre
+aquelles verdes reluzia, por sobre peanhas e pedestaes, toda uma
+Mechanica sumptuosa, apparelhos, laminas, rodas, tubos, engrenagens,
+hastes, friezas, rigidezas de metaes...
+
+Mas Jacintho batia nas almofadas do divan, onde se enterrra com um modo
+canado que eu no lhe conhecia:
+
+--Para aqui, Z Fernandes, para aqui! necessario reatarmos estas
+nossas vidas, to apartadas ha sete annos!... Em Guies, sete annos! Que
+fizeste tu?
+
+--E tu, que tens feito, Jacintho?
+
+O meu amigo encolheu mollemente os hombros. Vivra--cumprira com
+serenidade todas as funces, as que pertencem materia e as que
+pertencem ao espirito...
+
+--E accumulaste civilisao, Jacintho! Santo Deus... Est tremendo, o
+202!
+
+Elle espalhou em torno um olhar onde j no faiscava a antiga
+vivacidade:
+
+--Sim, ha confortos... Mas falta muito! A humanidade ainda est mal
+apetrechada, Z Fernandes... E a vida conserva resistencias.
+
+Subitamente, a um canto, repicou a campainha do telephone. E emquanto o
+meu amigo, curvado sobre a placa, murmurava impaciente _Est l?--Est
+l?_, examinei curiosamente, sobre a sua immensa mesa de trabalho, uma
+estranha e miuda legio de instrumentosinhos de nickel, d'ao, de cobre,
+de ferro, com gumes, com argolas, com tenazes, com ganchos, com dentes,
+expressivos todos, de utilidades misteriosas. Tomei um que tentei
+manejar--e logo uma ponta malevola me picou um dedo. N'esse instante
+rompeu d'outro canto um tic-tic-tic aodado, quasi ancioso. Jacintho
+acudiu, com a face no telephone:
+
+--V ahi o telegrapho!... Ao p do divan. Uma tira de papel que deve
+estar a correr.
+
+E, com effeito, d'uma redma de vidro posta n'uma columna, e contendo um
+apparelho esperto e diligente, escorria para o tapete, como uma tenia, a
+longa tira de papel com caracteres impressos, que eu, homem das serras,
+apanhei, maravilhado. A linha, traada em azul, annunciava ao meu amigo
+Jacintho que a fragata russa _Azoff_ entrra em Marselha com avaria!
+
+J elle abandonra o telephone. Desejei saber, inquieto, se o
+prejudicava directamente aquella avaria da _Azoff_.
+
+--Da _Azoff_?... A avaria? A mim?... No! uma noticia.
+
+Depois, consultando um relogio monumental que, ao fundo da Bibliotheca,
+marcava a hora de todas as Capitaes e o curso de todos os Planetas:
+
+--Eu preciso escrever uma carta, seis linhas... Tu esperas, no, Z
+Fernandes? Tens ahi os jornaes de Paris, da noite; e os de Londres,
+d'esta manh. As Illustraes alm, n'aquella pasta de couro com
+ferragens.
+
+Mas eu preferi inventariar o gabinete, que dava minha profanidade
+serrana todos os gostos d'uma iniciao. Aos lados da cadeira de
+Jacintho pendiam gordos tubos acusticos, por onde elle decerto soprava
+as suas ordens atravs do 202. Dos ps da mesa cordes tumidos e molles,
+colleando sobre o tapete, corriam para os recantos de sombra maneira
+de cobras assustadas. Sobre uma banquinha, e reflectida no seu verniz
+como na agua d'um poo, pousava uma Machina-de-escrever: e adiante era
+uma immensa Machina-de-calcular, com fileiras de buracos d'onde
+espreitavam, esperando, numeros rigidos e de ferro. Depois parei em
+frente da estante que me preoccupava, assim solitaria, maneira d'uma
+torre n'uma planicie, com o seu alto pharol. Toda uma das suas faces
+estava repleta de Diccionarios; a outra de Manuaes; a outra de Atlas; a
+ultima de Guias, e entre elles, abrindo um folio, encontrei o Guia das
+ruas de Samarkande. Que macissa torre de informao! Sobre prateleiras
+admirei apparelhos que no comprehendia:--um composto de laminas de
+gelatina, onde desmaiavam, meio-chupadas, as linhas d'uma carta, talvez
+amorosa; outro, que erguia sobre um pobre livro brochado, como para o
+decepar, um cutello funesto; outro avanando a bocca d'uma tuba, toda
+aberta para as vozes do invisivel. Cingidos aos umbraes, liados s
+cimalhas, luziam arames, que fugiam atravs do tecto, para o espao.
+Todos mergulhavam em foras universaes, todos transmittiam foras
+universaes. A Natureza convergia disciplinada ao servio do meu amigo e
+entrra na sua domesticidade!...
+
+Jacintho atirou uma exclamao impaciente:
+
+--Oh, estas pennas electricas!... Que secca!
+
+Amarrotra com colera a carta comeada--eu escapei, respirando, para a
+Bibliotheca. Que magestoso armazem dos productos do Raciocinio e da
+Imaginao! Alli jaziam mais de trinta mil volumes, e todos decerto
+essenciaes a uma cultura humana. Logo entrada notei, em ouro n'uma
+lombada verde, o nome de Adam Smith. Era pois a regio dos Economistas.
+Avancei--e percorri, espantado, oito metros de Economia Politica. Depois
+avistei os Philosophos e os seus commentadores, que revestiam toda uma
+parede, desde as esclas Pre-socraticas at s esclas Neo-pessimistas.
+N'aquellas pranchas se acastellavam mais de dois mil systemas--e que
+todos se contradiziam. Pelas encadernaes logo se deduziam as
+doutrinas: Hobbes, em baixo, era pesado, de couro negro; Plato, em
+cima, resplandecia, n'uma pellica pura e alva. Para diante comeavam as
+Historias Universaes. Mas ahi uma immensa pilha de livros brochados,
+cheirando a tinta nova e a documentos novos, subia contra a estante,
+como fresca terra d'alluvio tapando uma riba secular. Contornei essa
+collina, mergulhei na seco das Sciencias Naturaes, peregrinando, n'um
+assombro crescente, da Orographia para a Paleontologia, e da Morphologia
+para a Crystallographia. Essa estante rematava junto d'uma janella
+rasgada sobre os Campos Elyseos. Apartei as cortinas de velludo--e por
+traz descobri outra portentosa rima de volumes, todos de Historia
+Religiosa, de Exegese Religiosa, que trepavam montanhosamente at aos
+ultimos vidros, vedando, nas manhs mais candidas, o ar e a luz do
+Senhor.
+
+Mas depois rebrilhava, em marroquins claros, a estante amavel dos
+Poetas. Como um repouso para o espirito esfalfado de todo aquelle saber
+positivo, Jacintho aconchegra ahi um recanto, com um divan e uma mesa
+de limoeiro, mais lustrosa que um fino esmalte, coberta de charutos, de
+cigarros d'Oriente, de tabaqueiras do seculo XVIII. Sobre um cofre de
+madeira lisa pousava ainda, esquecido, um prato de damascos seccos do
+Japo. Cedi seduco das almofadas; trinquei um damasco, abri um
+volume; e senti estranhamente, ao lado, um zumbido, como de um insecto
+de azas harmoniosas. Sorri ida que fossem abelhas, compondo o seu mel
+n'aquelle massio de versos em flr. Depois percebi que o susurro remoto
+e dormente vinha do cofre de mogne, de parecer to discreto. Arredei uma
+_Gazeta de Frana_; e descornitei um cordo que emergia de um orificio,
+escavado no cofre, e rematava n'um funil de marfim. Com curiosidade,
+encostei o funil a esta minha confiada orelha, afeita singeleza dos
+rumores da serra. E logo uma Voz, muito mansa, mas muito dicidida,
+aproveitando a minha curiosidade para me invadir e se apoderar do meu
+entendimento, susurrou capciosamente:
+
+--...E assim, pela disposio dos cubos diabolicos, eu chego a
+verificar os espaos hypermagicos!...
+
+Pulei, com um berro.
+
+--Oh Jacintho, aqui ha um homem! Est aqui um homem a fallar dentro
+d'uma caixa!
+
+O meu camarada, habituado aos prodigios, no se alvoroou:
+
+-- o Conferenophone... Exactamente como o Theatrophone; smente
+applicado s esclas e s conferencias. Muito commodo!... Que diz o
+homem, Z Fernandes?
+
+Eu considerava o cofre, ainda esgazeado:
+
+--Eu sei! Cubos diabolicos, espaos magicos, toda a sorte de horrores...
+
+Senti dentro o sorriso superior de Jacintho:
+
+--Ah, o coronel Dorchas... Lies de Metaphysica Positiva sobre a
+Quarta Dimenso... Conjecturas, uma massada! Ouve l, tu hoje jantas
+commigo e com uns amigos, Z Fernandes?
+
+--No, Jacintho... Estou ainda enfardelado pelo alfaiate da serra!
+
+E voltei ao gabinete mostrar ao meu camarada o jaqueto de flanella
+grossa, a gravata de pintinhas escarlates, com que ao domingo, em
+Guies, visitava o Senhor. Mas Jacintho affirmou que esta simplicidade
+montesina interessaria os seus convidados, que eram dois artistas...
+Quem? O auctor do _Corao Triplo_, um Psychologo Feminista, d'agudeza
+transcendente, Mestre muito experimentado e muito consultado em
+Sciencias Sentimentaes; e Vorcan, um pintor mythico, que interpretra
+ethereamente, havia um anno, a symbolia rapsodica do cerco de Troia,
+n'uma vasta composio, _Helena Devastadora_...
+
+Eu coava a barba:
+
+--No, Jacintho, no... Eu venho de Guies, das serras; preciso entrar
+em toda esta civilisaco, lentamente, com cautella, seno rebento. Logo
+na mesma tarde a electricidade, e o conferenophone, e os espaos
+hypermagicos e o feminista, e o ethereo, e a symbolia devastadora,
+excessivo! Volto manh.
+
+Jacintho dobrava vagarosamente a sua carta, onde mettera sem rebuo
+(como convinha nossa fraternidade) duas violetas brancas tiradas do
+ramo que lhe floria o peito.
+
+--manh, Z Fernandes, tu vens antes d'almoo, com as tuas malas dentro
+d'um fiacre, para te installares no 202, no teu quarto. No Hotel so
+embaraos, privaes. Aqui tens o telephone, o teatrophone, livros...
+
+Acceitei logo, com simplicidade. E Jacintho, embocando um tubo acustico,
+murmurou:
+
+--Grillo!
+
+Da parede, recoberta de damasco, que subitamente e sem rumor se fendeu,
+surdio o seu velho escudeiro (aquelle moleque que viera com _D.
+Gallio_), que eu me alegrei de encontrar to rijo, mais negro,
+reluzente e veneravel na sua tesa gravata, no seu collete branco de
+botes de ouro. Elle tambem estimou vr de novo o si Fernandes. E,
+quando soube que eu occuparia o quarto do av Jacintho, teve um claro
+sorriso de preto, em que envolveu o seu senhor, no contentamento de o
+sentir emfim reprovido d'uma familia.
+
+--Grillo, dizia Jacintho, esta carta a Madame de Oriol... Escuta!
+Telephona para casa dos Trves que os espiritistas s esto livres no
+domingo... Escuta! Eu tomo uma douche antes de jantar, tepida, a 17.
+Frico com malva-rosa.
+
+E cahindo pesadamente para cima do divan, com um bocejo arrastado e
+vago:
+
+--Pois verdade, meu Z Fernandes, aqui estamos, como ha sete annos,
+n'este velho Paris...
+
+Mas eu no me arredava da mesa, no desejo de completar a minha
+iniciao:
+
+--Oh Jacintho, para que servem todos estes instrumentosinhos? Houve j
+ahi um desavergonhado que me picou. Parecem perversos... So uteis?
+
+Jacintho esboou, com languidez, um gesto que os
+sublimava.--Providenciaes, meu filho, absolutamente providenciaes, pela
+simplificao que do ao trabalho! Assim... E apontou. Este arrancava as
+pennas velhas; o outro numerava rapidamente as paginas d'um manuscripto;
+aquell'outro, alm, raspava emendas... E ainda os havia para collar
+estampilhas, imprimir datas, derreter lacres, cintar documentos...
+
+--Mas com effeito, accrescentou, uma scca. Com as molas, com os
+bicos, s vezes magoam, ferem... J me succedeu inutilisar cartas por as
+ter sujado com dedadas de sangue. uma massada!
+
+Ento, como o meu amigo espreitra novamente o relogio monumental, no
+lhe quiz retardar a consolao da douche e da malva-rosa.
+
+--Bem, Jacintho, j te revi, j me contentei... Agora at manh, com as
+malas.
+
+--Que diabo, Z Fernandes, espera um momento... Vamos pela sala de
+jantar. Talvez te tentes!
+
+E, atravs da Bibliotheca, penetramos na sala de jantar,--que me
+encantou pelo seu luxo sereno e fresco. Uma madeira branca, laccada,
+mais lustrosa e macia que setim, revestia as paredes, encaixilhando
+medalhes de damasco cr de morango, de morango muito maduro e esmagado:
+os aparadores, discretamente lavrados em flores e rocalhas,
+resplandeciam com a mesma lacca nevada: e damascos amorangados estofavam
+tambem as cadeiras, brancas, muito amplas, feitas para a lentido de
+gulas delicadas, de gulas intellectuaes.
+
+--Viva o meu Principe! Sim senhor... Eis aqui um comedoiro muito
+comprehensivel e muito repousante, Jacintho!
+
+--Ento janta, homem!
+
+Mas j eu me comeava a inquietar, reparando que a cada talher
+correspondiam seis garfos, e todos de feitios astuciosos. E mais me
+impressionei quando Jacintho me desvendou que um era para as ostras,
+outro para o peixe, outro para as carnes, outro para os legumes, outro
+para as fructas, outro para o queijo! Simultaneamente, com uma
+sobriedade que louvaria Salomo, s dois copos, para dois vinhos:--um
+Bordeus rosado em infusas de crystal, e Champagne gelando dentro de
+baldes de prata. Todo um aparador porm vergava, sob o luxo redundante,
+quasi assustador d'aguas--aguas oxigenadas, aguas carbonatadas, aguas
+phosphatadas, aguas esterilisadas, aguas de saes, outras ainda, em
+garrafas bojudas, com tratados therapeuticos impressos em rotulos.
+
+--Santissimo nome de Deus, Jacintho! Ento s ainda o mesmo tremendo
+bebedor d'agua, hein?... _Un aquatico_! como dizia o nosso poeta
+chileno, que andava a traduzir Klopstock.
+
+Elle derramou, por sobre toda aquella garrafaria encarapuada em metal,
+um olhar desconsolado:
+
+--No... por causa das aguas da Cidade, contaminadas, atulhadas de
+microbios... Mas ainda no encontrei uma ba agua que me convenha, que
+me satisfaa... At soffro sde.
+
+Desejei ento conhecer o jantar do Psychologo e do Symbolista--traado,
+ao lado dos talheres, em tinta vermelha, sobre laminas de marfim.
+Comeava honradamente por ostras classicas, de Marennes. Depois
+apparecia uma sopa d'alcachofras e ovas de carpa...
+
+-- bom?
+
+Jacintho encolheu desinteressadamente os hombros:
+
+--Sim... Eu no tenho nunca appetite, j ha tempos... J ha annos.
+
+Do outro prato s comprehendi que continha frangos e tubaras. Depois
+saboreariam aquelles senhores um filete de veado, macerado em Xerez, com
+gela de noz. E por sobremeza simplesmente laranjas geladas em ether.
+
+--Em ether, Jacintho?
+
+O meu amigo hesitou, esboou com os dedos a ondulao d'um aroma que
+s'evola.
+
+-- novo... Parece que o ether desenvolve, faz afflorar a alma das
+fructas...
+
+Curvei a cabea ignara, murmurei nas minhas profundidades:
+
+--Eis a Civilisao!
+
+E, descendo os Campos Elyseos, encolhido no paletot, a cogitar n'este
+prato symbolico, considerava a rudeza e atolado atrazo da minha Guies,
+onde desde seculos a alma das laranjas permanece ignorada e
+desaproveitada dentro dos gomos sumarentos, por todos aquelles pomares
+que ensombram e perfumam o valle, da Roqueirinha a Sandofim! Agora
+porm, bemdito Deus, na convivencia de um to grande iniciado como
+Jacintho, eu comprehenderia todas as finuras e todos os poderes da
+Civilisao.
+
+E, (melhor ainda para a minha ternura!) contemplaria a raridade d'um
+homem que, concebendo uma ida da Vida, a realisa--e atravs d'ella e
+por ella recolhe a felicidade perfeita.
+
+Bem se affirmra este Jacintho, na verdade, como Principe da
+Gran-Ventura!
+
+
+
+
+III
+
+
+No 202, todas as manhs, s nove horas, depois do meu chocolate e ainda
+em chinelas, penetrava no quarto de Jacintho. Encontrava o meu amigo
+banhado, barbeado, friccionado, envolto n'um roupo branco de pello de
+cabra do Thibet, diante da sua mesa de toilette, toda de crystal, (por
+causa dos microbios) e atulhada com esses utensilios de tartaruga,
+marfim, prata, ao e madreperola que o homem do seculo XIX necessita
+para no desfeiar o conjuncto sumptuario da Civilisao e manter n'ella
+o seu Typo. As escovas sobretudo renovavam, cada dia, o meu regalo e o
+meu espanto--porque as havia largas como a roda massia d'um carro
+sabino; estreitas e mais recurvas que o alfange d'um mouro; concavas, em
+frma de telha alde; ponteagudas em feitio de folha de hera; rijas que
+nem cerdas de javali; macias que nem pennugem de rla! De todas,
+fielmente, como amo que no desdenha nenhum servo, se utilisava o meu
+Jacintho. E assim, em face ao espelho emmoldurado de folhedos de prata,
+permanecia este Principe passando pellos sobre o seu pello durante
+quatorze minutos.
+
+No emtanto o Grillo e outro escudeiro, por traz dos biombos de Kioto, de
+sedas lavradas, manobravam, com pericia e vigor, os apparelhos do
+lavatorio--que era apenas um resumo das machinas monumentaes da Sala de
+Banho, a mais estremada maravilha do 202. N'estes marmores simplificados
+existiam unicamente dois jactos graduados desde _zero_ at _cem_; as
+duas duchas, fina e grossa, para a cabea; a fonte esterilisada para os
+dentes; o repuxo borbulhante para a barba; e ainda botes discretos,
+que, roados, desencadeavam esguichos, cascatas cantantes, ou um leve
+orvalho estival. D'esse recanto temeroso, onde delgados tubos mantinham
+em disciplina e servido tantas aguas ferventes, tantas aguas violentas,
+sahia emfim o meu Jacintho enxugando as mos a uma toalha de felpo, a
+uma toalha de linho, a outra de corda entranada para restabelecer a
+circulao, a outra de sda frouxa para repolir a pelle. Depois d'este
+rito derradeiro que lhe arrancava ora um suspiro, ora um bocejo,
+Jacintho, estendido n'um divan, folheava uma Agenda, onde se arrolavam,
+inscriptas pelo Grillo ou por elle, as occupaes do seu dia, to
+numerosas por vezes que cobriam duas laudas.
+
+Todas ellas se prendiam sua sociabilidade, sua civilisao muito
+complexa, ou a interesses que o meu Principe, n'esses sete annos, crera
+para viver em mais consciente communho com todas as funces da Cidade.
+(Jacintho com effeito era presidente do Club da _Espada e Alvo_;
+commanditario do Jornal o _Boulevard_; director da _Companhia dos
+Telephones de Constantinopla_; socio dos _Bazares unidos da Arte
+Espiritualista_; membro do _Comit de Iniciao das Religies
+Esotericas_, etc.) Nenhuma d'estas occupaes parecia porm aprazivel ao
+meu amigo--porque, apesar da mansido e harmonia dos seus modos,
+frequentemente arremessava para o tapete, n'uma rebellio de homem
+livre, aquella Agenda que o escravisava. E n'uma d'essas manhs (de
+vento e neve), apanhando eu o livro oppressivo, encadernado em pellica,
+de um carinhoso tom de rosa murcha--descobri que o meu Jacintho devia
+depois do almoo fazer uma visita na rua da Universidade, outra no
+Parque Monceau, outra entre os arvoredos remotos da Muette; assistir por
+fidelidade a uma votao no Club; acompanhar Madame d'Oriol a uma
+exposio de leques; escolher um presente de noivado para a sobrinha dos
+Trves; comparecer no funeral do velho conde de Malville; presidir um
+tribunal de honra n'uma questo de roubalheira, entre cavalheiros, ao
+ecart... E ainda se acavallavam outras indicaes, escrivinhadas por
+Jacintho a lapis:--Carroceiro--Five-oclock dos Ephrains--A pequena das
+_Variedades_--Levar a nota ao jornal... Considerei o meu Principe.
+Estirado no divan, d'olhos miserrimamente cerrados, bocejava, n'um
+bocejo immenso e mudo.
+
+Mas os affazeres de Jacintho comeavam logo no 202, cedo, depois do
+banho. Desde as oito horas a campainha do telephone repicava por elle,
+com impaciencia, quasi com colera, como por um escravo tardio. E mal
+enxugado, dentro do seu roupo de pello de cabra do Thibet ou de grossas
+pyjamas de pelucia cr d'ouro-velho, constantemente sahia ao corredor a
+cochichar com sujeitos to apressados, que conservavam na mo o
+guarda-chuva pingando sobre o tapete. Um d'esses, sempre presente (e que
+pertencia decerto aos _Telephones de Constantinopla_), era
+temeroso--todo elle chupado, tisnado, com maus dentes, sobraando uma
+enorme pasta sebenta, e dardejando, d'entre a alta gola d'uma pelissa
+poida, como da abertura d'um covil, dous olhinhos trvos e de rapina.
+Sem cessar, inexoravelmente, um escudeiro apparecia, com bilhetes n'uma
+salva... Depois eram fornecedores d'Industria e d'Arte; negociantes de
+cavallos, rubicundos e de paletot branco; inventores com grossos rolos
+de papel; alfarrabistas trazendo na algibeira uma edio unica, quasi
+inverosimil, de Ulrich Zell ou do _Lapidanus_. Jacintho circulava
+estonteado pelo 202, rabiscando a carteira, repicando o telephone,
+desatando nervosamente pacotes, sacudindo ao passar algum embuscado que
+surdia das sombras da antecamara, estendia como um trabuco o seu
+memorial ou o seu catalogo!
+
+Ao meio dia, um tam-tam argentino e melancholico ressoava, chamando ao
+almoo. Com o _Figaro_ ou as _Novidades_ abertas sobre o prato, eu
+esperava sempre meia hora pelo meu Principe, que entrava n'uma rajada,
+consultando o relogio, exhalando com a face moda o seu queixume eterno:
+
+--Que massada! E depois uma noite abominavel, enrodilhada em sonhos...
+Tomei sulforal, chamei o Grillo para me esfregar com therebentina... Uma
+scca!
+
+Espalhava pela mesa um olhar j farto. Nenhum prato, por mais engenhoso,
+o seduzia;--e, como atravs do seu tumulto matinal fumava incontaveis
+cigarretes que o resequiam, comeava por se encharcar com um immenso
+copo d'agua oxygenada, ou carbonatada, ou gazoza, misturada d'um cognac
+raro, muito caro, horrendamente adocicado, de moscatel de Syracusa.
+Depois, pressa, sem gosto, com a ponta incerta do garfo, picava aqui e
+alm uma lasca de fiambre, uma febra de lagosta;--e reclamava
+impacientemente o caf, um caf de Moka, mandado cada mez por um feitor
+do Dedjah, fervido turca, muito espesso, que elle remexia com um pau
+de canella!
+
+--E tu, Z Fernandes, que vaes tu fazer?
+
+--Eu?
+
+Recostado na cadeira, com delicias, os dedos mettidos nas cavas do
+collete:
+
+--Vou vadiar, regaladamente, como um co natural!
+
+O meu sollicito amigo, remexendo o caf com o pau de canella, rebuscava
+atravs da numerosa Civilisao da Cidade uma occupao que me
+encantasse. Mas apenas suggeria uma Exposio, ou uma Conferencia, ou
+monumentos, ou passeios, logo encolhia os hombros desconsolados:
+
+--Por fim nem vale a pena, uma scca!
+
+Accendia outra das cigarretes russas, onde rebrilhava o seu nome,
+impresso a ouro na mortalha. Torcendo, n'uma pressa nervosa, os fios do
+bigode, ainda escutava, porta da Bibliotheca, o seu procurador, o
+nedio e magestoso Laporte. E emfim, seguido d'um criado, que sobraava
+um mao tremendo de jornaes para lhe abastecer o coup, o Principe da
+Gran-Ventura mergulhava na Cidade.
+
+ * * * * *
+
+Quando o dia social de Jacintho se apresentava mais desafogado, e o co
+de Maro nos concedia caridosamente um pouco de azul agoado, sahiamos
+depois d'almoo, a p, atravs de Paris. Estes lentos e errantes
+passeios eram outr'ora, na nossa edade de Estudantes, um gozo muito
+querido de Jacintho--porque n'elles mais intensamente e mais
+minuciosamente saboreava a Cidade. Agora porm, apesar da minha
+companhia, s lhe davam uma impaciencia e uma fadiga que desoladoramente
+destoava do antigo, illuminado extasi. Com espanto (mesmo com dr,
+porque sou bom, e sempre me entristece o desmoronar d'uma crena)
+descobri eu, na primeira tarde em que descemos aos Boulevards, que o
+denso formigueiro humano sobre o asphalto, e a torrente sombria dos
+trens sobre o macadam, affligiam o meu amigo pela brutalidade da sua
+pressa, do seu egoismo, e do seu estridor. Encostado e como refugiado no
+meu brao, este Jacintho novo comeou a lamentar que as ruas, na nossa
+Civilisao, no fossem caladas de gutta-percha! E a gutta-percha
+claramente representava, para o meu amigo, a substancia discreta que
+amortece o choque e a rudeza das cousas. Oh maravilha! Jacintho querendo
+borracha, a borracha isoladora, entre a sua sensibilidade e as funces
+da Cidade! Depois, nem me permittiu pasmar diante d'aquellas dourejadas
+e espelhadas lojas que elle outr'ora considerava como os preciosos
+museus do seculo XIX...
+
+--No vale a pena, Z Fernandes. Ha uma immensa pobreza e seccura
+d'inveno! Sempre os mesmos flores Luiz XV, sempre as mesmas
+pelucias... No vale a pena!
+
+Eu arregalava os olhos para este transformado Jacintho. E sobretudo me
+impressionava o seu horror pela Multido--por certos effeitos da
+Multido, s para elle sensiveis, e a que chamava os sulcos.
+
+--Tu no os sentes, Z Fernandes. Vens das serras... Pois constituem o
+rijo inconveniente das Cidades, estes sulcos! um perfume muito agudo e
+petulante que uma mulher larga ao passar, e se installa no olfacto, e
+estraga para todo o dia o ar respiravel. um dito que se surprehende
+n'um grupo, que revela um mundo de velhacaria, ou de pedantismo, ou de
+estupidez, e que nos fica collado alma, como um salpico, lembrando a
+immensidade da lama a atravessar. Ou ento, meu filho, uma figura
+intoleravel pela preteno, ou pelo mau-gosto, ou pela impertinencia, ou
+pela rellice, ou pela dureza, e de que se no pde sacudir mais a viso
+repulsiva... Um pavor, estes sulcos, Z Fernandes! De resto, que diabo,
+so as pequeninas miserias d'uma Civilisao deliciosa!
+
+Tudo isto era especioso, talvez pueril--mas para mim revelava, n'aquelle
+chamejante devoto da Cidade, o arrefecimento da devoo. N'essa mesma
+tarde, se bem recordo, sob uma luz macia e fina, penetramos nos centros
+de Paris, nas ruas longas, nas milhas de casario, todo de calia parda,
+erriado de chamins de lata negra, com as janellas sempre fechadas, as
+cortininhas sempre corridas, abafando, escondendo a vida. S tijolo, s
+ferro, s argamassa, s estuque: linhas hirtas, angulos asperos: tudo
+secco, tudo rigido. E dos chos aos telhados, por toda a fachada,
+tapando as varandas, comendo os muros, Taboletas, Taboletas...
+
+--Oh, este Paris, Jacintho, este teu Paris! Que enorme, que grosseiro
+bazar!
+
+E, mais para sondar o meu Principe do que por persuaso, insisti na
+fealdade e tristeza d'estes predios, duros armazens, cujos andares so
+prateleiras onde se apilha humanidade! E uma humanidade impiedosamente
+catalogada e arrumada! A mais vistosa e de luxo nas prateleiras baixas,
+bem envernisadas. A relles e de trabalho nos altos, nos desvos, sobre
+pranchas de pinho n, entre o p e a traa...
+
+Jacintho murmurou, com a face arripiada:
+
+-- feio, muito feio!
+
+E accudiu logo, sacudindo no ar a luva de anta:
+
+--Mas que maravilhoso organismo, Z Fernandes! Que solidez! Que
+produco!
+
+Onde Jacintho me parecia mais renegado era na sua antiga e quasi
+religiosa affeio pelo Bosque de Bolonha. Quando moo, elle construira
+sobre o Bosque theorias complicadas e consideraveis. E sustentava, com
+olhos rutilantes de fanatico, que no Bosque a Cidade cada tarde ia
+retemperar salutarmente a sua fora, recebendo, pela presena das suas
+Duquezas, das suas Cortezs, dos seus Politicos, dos seus Financeiros,
+dos seus Generaes, dos seus Academicos, dos seus Artistas, dos seus
+Clubistas, dos seus Judeus, a certeza consoladora de que todo o seu
+pessoal se mantinha em numero, em vitalidade, em funco, e que nenhum
+elemento da sua grandeza desapparecera ou deperecera! Ir ao Bois
+constituia ento para o meu Principe um acto de consciencia. E voltava
+sempre confirmando com orgulho que a Cidade possuia todos os seus
+astros, garantindo a eternidade da sua luz!
+
+Agora, porm, era sem fervor, arrastadamente, que elle me levava ao
+Bosque, onde eu, aproveitando a clemencia d'Abril, tentava enganar a
+minha saudade d'arvoredos. Emquanto subiamos, ao trote nobre das suas
+egoas lustrosas, a Avenida dos Campos-Elyseos e a do Bosque,
+rejuvenescidas pelas relvas tenras e fresco verdejar dos rebentos,
+Jacintho, soprando o fumo da cigarrete pelas vidraas abertas do coup,
+permanecia o bom camarada, de veia amavel, com quem era doce philosophar
+atravs de Paris. Mas logo que passavamos as grades douradas do Bosque,
+e penetravamos na Avenida das Acacias, e enfiavamos na lenta fila dos
+trens de luxo e de praa, sob o silencio decoroso, apenas cortado pelo
+tilintar dos freios e pelas rodas vagarosas esmagando a areia,--o meu
+Principe emmudecia, mollemente engilhado no fundo das almofadas, d'onde
+s despegava a face para escancarar bocejos de fartura. Pelo antigo
+habito de verificar a presena confortadora do pessoal, dos astros,
+ainda, por vezes, apontava para algum coup ou vittoria rodando com
+rodar rangente n'outra arrastada fila--e murmurava um nome. E assim fui
+conhecendo a encaracolada barba hebraica do banqueiro Ephraim; e o longo
+nariz patricio de Madame de Trves abrigando um sorriso perenne; e as
+bochechas flacidas do poeta neo-platonico Dornan, sempre espapado no
+fundo de fiacres; e os longos bands pre-raphaelitas e negros de Madame
+Verghane; e o monoculo defumado do director do _Boulevard_; e o
+bigodinho vencedor do Duque de Marizac, reinando de cima do seu phaeton
+de guerra; e ainda outros sorrisos immoveis, e barbichas Renascena, e
+palpebras amortecidas, e olhos farejantes, e pelles empoadas d'arroz,
+que eram todas illustres e da intimidade do meu Principe. Mas, do topo
+da Avenida das Acacias, recomeavamos a descer, em passo sopeado,
+esmagando lentamente a areia; na fila vagarosa que subia, calhambeque
+atraz de landau, vittoria atraz de fiacre, fatalmente reviamos o
+binoculo sombrio do homem do _Boulevard_, e os bands furiosamente
+negros de Madame Verghane, e o ventre espapado do neo-platonico, e a
+barba talmudica, e todas aquellas figuras, d'uma immobilidade de cera,
+super-conhecidas do meu camarada, recruzadas cada tarde atravs de
+revividos annos, sempre com os mesmos sorrisos, sob o mesmo p d'arroz,
+na mesma immobilidade de cera; ento Jacintho no se continha, gritava
+ao cocheiro:
+
+--Para casa, depressa!
+
+E era pela Avenida do Bosque, pelos Campos-Elyseos, uma fuga ardente das
+egoas a quem a lentido sopeada, n'um roer de freios, entre outras egoas
+tambem d'ellas super-conhecidas, lanavam n'uma exasperao comparavel
+de Jacintho.
+
+Para o sondar eu denegria o Bosque:
+
+--J no to divertido, perdeu o brilho!...
+
+Elle acudia, timidamente:
+
+--No, agradavel, no ha nada mais agradavel; mas...
+
+E accusava a friagem das tardes ou o despotismo dos seus affazeres.
+Recolhiamos ento ao 202, onde, com effeito, em breve embrulhado no seu
+roupo branco, diante da mesa de crystal, entre a legio das escovas,
+com toda a electricidade refulgindo, o meu Principe se comeava a
+adornar para o servio social da noite.
+
+E foi justamente numa d'essas noites (um sabado) que ns passamos,
+n'aquelle quarto to civilisado e protegido, por um d'esses brutos e
+revoltos terrores como s os produz a ferocidade dos Elementos. J
+tarde, pressa (jantavamos com Marizac no Club para o acompanhar depois
+ao _Lohengrin_ na Opera) Jacintho arrocheava o n da gravata
+branca--quando no lavatorio, ou porque se rompesse o tubo, ou se
+dessoldasse a torneira, o jacto d'agua a ferver rebentou furiosamente,
+fumegando e silvando. Uma nevoa densa de vapor quente abafou as
+luzes--e, perdidos n'ella, sentiamos, por entre os gritos do escudeiro e
+do Grillo, o jorro devastador batendo os muros, esparrinhando uma chuva
+que escaldava. Sob os ps o tapete ensopado era uma lama ardente. E como
+se todas as foras da natureza, submettidas ao servio de Jacintho, se
+agitassem, animadas por aquella rebellio da agua--ouvimos roncos surdos
+no interior das paredes, e pelos fios dos lumes electricos sulcaram
+faiscas ameaadoras! Eu fugira para o corredor, onde se alargava a nevoa
+grossa. Por todo o 202 ia um tumulto de desastre. Diante do porto,
+attrahidas pela fumarada que se escapava das janellas, estacionava
+policia, uma multido. E na escada esbarrei com um reporter, de chapo
+para a nuca, a carteira aberta, gritando sofregamente se havia mortos?
+
+Domada a agua, clareada a bruma, vim encontrar Jacintho no meio do
+quarto, em ceroulas, livido:
+
+--Oh Z Fernandes, esta nossa industria!... Que impotencia, que
+impotencia! Pela segunda vez, este desastre! E agora, apparelhos
+perfeitos, um processo novo...
+
+--E eu encharcado por esse processo novo! E sem outra casaca!
+
+Em redor, as nobres sdas bordadas, os brocateis Luiz XIII, cobertos de
+manchas negras, fumegavam. O meu Principe, enfiado, enchugava uma
+photographia de Madame d'Oriol, d'hombros decotados, que o jorro bruto
+maculra d'empolas. E eu, com rancor, pensava que na minha Guies a agua
+aquecia em seguras panellas--e subia ao meu lavatorio, pela mo forte da
+Catharina, em seguras infusas! No jantamos com o duque de Marizac, no
+Club. E, na Opera, nem saboreei Lohengrin e a sua branca alma e o seu
+branco cysne e as suas brancas armas--entallado, aperreado, cortado nos
+sovacos pela casaca que Jacintho me emprestra e que rescendia
+estonteadoramente a flores de Nessari.
+
+ * * * * *
+
+No domingo, muito cedo, o Grillo, que na vspera escaldra as mos e as
+trazia embrulhadas em sda, penetrou no meu quarto, descerrou as
+cortinas, e beira do leito, com o seu radiante sorriso de preto:
+
+--Vem no _Figaro_!
+
+Desdobrou triumphalmente o jornal. Eram, nos _Echos_, doze linhas, onde
+as nossas aguas rugiam e espadavam, com tanta magnificencia e tanta
+publicidade, que tambem sorr, deleitado.
+
+--E toda a manh, o telephone, si Fernandes! exclamava o Grillo,
+rebrilhando em ebano. A quererem saber, a quererem saber... Est l?
+Est escaldado? Paris afflicto, si Fernandes!
+
+O telephone, com effeito, repicava, insaciavel. E quando desci para o
+almoo, a toalha desapparecia sob uma camada de telegrammas, que o meu
+Principe fendia com a faca, enrugado, rosnando contra a massada. S
+desannuviou, ao ler um d'esses papeis azues, que atirou para cima do meu
+prato, com o mesmo sorriso agradado com que de manh sorriramos, o
+Grillo e eu:
+
+-- do Gran-Duque Casimiro... Rato amavel! Coitado!
+
+Saboreei, atravs dos ovos, o telegramma de S. Alteza. O que! o meu
+Jacintho inundado! Muito chic, nos Campos-Elyseos! No volto ao 202 sem
+boia de salvao! Compassivo abrao! Casimiro... Murmurei tambem com
+deferencia:--Amavel! Coitado! Depois, revolvendo lentamente o monto
+de telegrammas que se alastrava at ao meu copo:
+
+--Oh Jacintho! Quem esta Diana que incessantemente te escreve, te
+telephona, te telegrapha, te...?
+
+--Diana?... Diana de Lorge. uma cocotte. uma grande cocotte!
+
+--Tua?
+
+--Minha, minha... No! tenho um bocado.
+
+E como eu lamentava que o meu Principe, senhor to rico e de to fino
+orgulho, por economia d'uma gamella propria chafurdasse com outros n'uma
+gamella publica--Jacintho levantou os hombros, com um camaro espetado
+no garfo:
+
+--Tu vens das serras... Uma cidade como Paris, Z Fernandes, precisa ter
+cortezs de grande pompa e grande fausto. Ora para montar em Paris,
+n'esta tremenda carestia de Paris, uma cocotte com os seus vestidos, os
+seus diamantes, os seus cavallos, os seus lacaios, os seus camarotes, as
+suas festas, o seu palacete, a sua publicidade, a sua insolencia,
+necessario que se aggremiem umas poucas de fortunas, se forme um
+syndicato! Somos uns sete, no Club. Eu pago um bocado... Mas meramente
+por Civismo, para dotar a cidade com uma cocotte monumental. De resto
+no chafurdo. Pobre Diana!... Dos hombros para baixo nem sei se tem a
+pelle cr de neve ou cr de limo.
+
+Arregalei um olho divertido:
+
+--Dos hombros para baixo?... E para cima?
+
+--Oh para cima tem p d'arroz!... Mas uma scca! Sempre bilhetes,
+sempre telephones, sempre telegrammas. E tres mil francos por mez, alm
+das flores... Uma massada!
+
+E as duas rugas do meu Principe, aos lados do seu afilado nariz, curvado
+sobre a salada, eram como dous valles muito tristes, ao entardecer.
+
+Acabavamos o almoo, quando um escudeiro, muito discretamente, n'um
+murmurio, annunciou Madame d'Oriol. Jacintho pousou com tranquillidade o
+charuto; eu quasi me engasguei, n'um sorvo alvoroado de caf. Entre os
+reposteiros de damasco cr de morango ella appareceu, toda de negro,
+d'um negro liso e austero de Semana Santa, lanando com o regalo um
+lindo gesto para nos socegar. E immediatamente, n'uma volubilidade
+docemente chalrada:
+
+-- um momento, nem se levantem! Passei, ia para a Magdalena, no me
+contive, quiz vr os estragos... Uma inundao em Paris, nos
+Campos-Elyseos! No ha seno este Jacintho. E vem no _Figaro!_ O que eu
+estava assustada, quando telephonei! Imaginem! Agua a ferver, como no
+Vesuvio... Mas d'uma novidade! E os estofos perdidos, naturalmente, os
+tapetes... Estou morrendo por admirar as ruinas!
+
+Jacintho, que no me pareceu commovido, nem agradecido com aquelle
+interesse, retomra risonhamente o charuto:
+
+--Est tudo secco, minha querida senhora, tudo secco! A belleza foi
+hontem, quando a agua fumegava e rugia! Ora que pena no ter ao menos
+cahido uma parede!
+
+Mas ella insistia. Nem todos os dias se gozavam em Paris os destroos
+d'uma inundao. O _Figaro_ contra... E era uma aventura deliciosa, uma
+casa escaldada nos Campos-Elyseos!
+
+Toda a sua pessoa, desde as plumasinhas que frisavam no chapo at
+ponta reluzente das botinas de verniz, se agitava, vibrava, como um ramo
+tenro sob o bolio do passaro a chalrar. S o sorriso, por traz do vo
+espesso, conservava um brilho immovel. E j no ar se espalhra um aroma,
+uma doura, emanadas de toda a sua mobilidade e de toda a sua graa.
+
+Jacintho no emtanto cedera, alegremente: e pelo corredor Madame d'Oriol
+ainda louvava o _Figaro_ amavel, e confessava quanto tremera... Eu
+voltei ao meu caf, felicitando mentalmente o Principe da Gran-Ventura
+por aquella perfeita flr de Civilisao que lhe perfumava a vida.
+Pensei ento na apurada harmonia em que se movia essa flr. E corri
+vivamente ante-camara, verificar diante do espelho o meu penteado e o
+n da minha gravata. Depois recolhi sala de jantar, e junto da
+janella, folheando languidamente a _Revista do Seculo XIX_, tomei uma
+attitude de elegancia e d'alta cultura. Quasi immediatamente elles
+reappareceram: e Madame d'Oriol, que, sempre sorrindo, se proclamava
+espoliada, nada encontrra que recordasse as agoas furiosas, roou pela
+mesa, onde Jacintho procurava, para lhe offerecer, tangerinas de Malta,
+ou castanhas geladas, ou um biscouto molhado em vinho de Tokai.
+
+Ella recusava com as mos guardadas no regalo. No era alta, nem
+forte--mas cada prega do vestido, ou curva da capa, cahia e ondulava
+harmoniosamente, como perfeies recobrindo perfeies. Sob o vo
+cerrado, apenas percebi a brancura da face empoada, e a escurido dos
+olhos largos. E com aquellas sdas e velludos negros, e um pouco do
+cabello louro, d'um louro quente, torcido fortemente sobre as pelles
+negras que lhe orlavam o pescoo, toda ella derramava uma sensao de
+macio e de fino. Eu teimosamente a considerava como uma flr de
+Civilisao:--e pensava no secular trabalho e na cultura superior que
+necessitra o terreno onde ella to delicadamente brotra, j
+desabrochada, em pleno perfume, mais graciosa por ser flr d'esforo e
+d'estufa, e trazendo nas suas ptalas um no sei qu de desbotado e de
+ante-murcho.
+
+No emtanto, com a sua volubilidade de passaro, chalrando para mim,
+chalrando para Jacintho, ella mostrava o seu lindo espanto por aquelle
+monto de telegrammas sobre a toalha.
+
+--Tudo esta manh, por causa da inundao?... Ah, Jacintho hoje o
+homem, o unico homem de Paris! Muitas mulheres n'esses telegrammas?
+
+Languidamente, com o charuto a fumegar, o meu Principe empurrou para a
+sua amiga o telegramma do Gran-duque. Ento Madame d'Oriol teve um _ah!_
+muito grave e muito sentido. Releu profundamente o papel de S. A. que os
+seus dedos acariciavam com uma reverencia gulosa. E sempre grave, sempre
+sria:
+
+-- brilhante!
+
+Oh, certamente! n'aquelle desastre tudo se passra com muito brilho,
+n'um tom muito Parisiense. E a deliciosa creatura no se podia demorar,
+porque fizera marcar um logar na egreja da Magdalena para o sermo!
+
+Jacintho exclamou com innocencia:
+
+--Sermo?... j a estao dos sermes?
+
+Madame d'Oriol teve um movimento de carinhoso escandalo e dr. O qu!
+pois nem na austera casa dos Trves dera pela entrada da quaresma? De
+resto no se admirava--Jacintho era um turco! E, immediatamente celebrou
+o prgador, um frade dominicano, o Pre Granon! Oh d'uma eloquencia!
+d'uma violencia! No derradeiro sermo prgara sobre o amor, a
+fragilidade dos amores mundanos! E tivera coisas d'uma inspirao, d'uma
+brutalidade! Depois que gesto, um gesto terrivel que esmagava, em que se
+lhe arregaava toda a manga, mostrando o brao n, um brao soberbo,
+muito branco, muito forte!
+
+O seu sorriso permanecia claro sob o olhar que negrejra dentro do vo
+negro. E Jacintho, rindo:
+
+--Um bom brao de director espiritual, hein? Para vergar, espancar
+almas...
+
+Ella acudiu:
+
+--No! infelizmente o Pre Granon no confessa!
+
+E de repente reconsiderou--aceitava um biscouto, um clice de Tokai. Era
+necessario um cordial para affrontar as emoes do Pre Granon! Ambos
+nos precipitramos, um arrebatando a garrafa, outro offerecendo o prato
+de bonbons. Franzio o vo para os olhos, chupou pressa um bolo que
+ensopra no Tokai. E como Jacintho, reparando casualmente no chapo que
+ella trazia, se curvra com curiosidade, impressionado, Madame d'Oriol
+apagou o sorriso, toda seria, ante uma cousa seria:
+
+--Elegante, no verdade?... uma creao inteiramente nova de Madame
+Vial. Muito respeitoso, e muito suggestivo, agora na Quaresma.
+
+O seu olhar, que me envolvera, tambem me convidava a admirar. Approximei
+o meu focinho de homem das serras para contemplar essa creao suprema
+do luxo de Quaresma. E era maravilhoso! Sobre o velludo, na sombra das
+plumas frizadas, aninhada entre rendas, fixada por um prgo, pousava
+delicadamente, feita de azeviche, uma Cora de Espinhos!
+
+Ambos nos extasiamos. E Madame d'Oriol, n'um movimento e n'um sorriso
+que derramou mais aroma e mais claridade, abalou para a Magdalena.
+
+O meu Principe arrastou pelo tapete alguns passos pensativos e molles. E
+bruscamente, levantando os hombros com uma determinao immensa, como se
+deslocasse um mundo:
+
+--Oh Z Fernandes, vamos passar este Domingo n'alguma cousa simples e
+natural...
+
+--Em qu?
+
+Jacintho circumgirou os olhares muito abertos, como se, atravez da Vida
+Universal, procurasse anciosamente uma cousa natural e simples. Depois,
+descanando sobre mim os mesmos largos olhos que voltavam de muito
+longe, canados e com pouca esperana:
+
+--Vamos ao Jardim das Plantas, vr a girafa!
+
+
+
+
+IV
+
+
+N'essa fecunda semana, uma noite, recolhiamos ambos da Opera, quando
+Jacintho, bocejando, me annunciou uma festa no 202.
+
+--Uma festa?...
+
+--Por causa do Gran-Duque, coitado, que me vai mandar um peixe delicioso
+e muito raro que se pesca na Dalmacia. Eu queria um almoo curto. O
+Gran-Duque reclamou uma ceia. um barbaro, besuntado com litteratura do
+seculo XVIII, que ainda acredita em ceias, em Paris! Reuno no domingo
+tres ou quatro mulheres, e uns dez homens bem typicos, para o divertir.
+Tambem aproveitas. Folheias Paris n'um resumo... Mas uma massada
+amarga!
+
+Sem interesse pela sua festa, Jacintho no se affadigou em a compr com
+relevo ou brilho. Encommendou apenas uma orchestra de Tziganes (os
+Tziganes, as suas jalecas escarlates, a melancolia aspera das Czardas
+ainda n'esses tempos remotos emocionavam Paris): e mandou, na
+Bibliotheca, ligar o Theatrophone com a Opera, com a Comedia-Franceza,
+com o Alcazar e com os Buffos, prevendo todos os gostos desde o tragico
+at ao picaro. Depois no domingo, ao entardecer, ambos visitamos a mesa
+da ceia, que resplandecia com as velhas baixellas de D. Galio. E a
+faustosa profuso de orchideas, em longas sylvas por sobre a toalha
+bordada a sda, enroladas aos fructeiros de Saxe, trasbordando de
+crystaes lavrados e filagranados d'ouro, espalhava uma to fina sensao
+de luxo e gosto, que eu murmurei:--Caramba, bemdito, seja o dinheiro!
+Pela primeira vez, tambem, admirei a copa e a sua installao abundante
+e minuciosa--sobretudo os dois ascensores que rolavam das profundidades
+da cozinha, um para os peixes e carnes aquecido por tubos d'agua
+fervente, o outro para as saladas e gelados revestido de placas
+frigorificas. Oh, este 202!
+
+s nove horas, porm, descendo eu ao gabinete de Jacintho para escrever
+a minha boa tia Vicencia, em quanto elle ficra no toucador com o
+mancuro que lhe polia as unhas, passamos n'esse delicioso palacio,
+florido e em gala, por bem corriqueiro susto! Todos os lumes electricos,
+subitamente, em todo o 202, se apagaram! Na minha immensa desconfiana
+d'aquellas foras universaes, pulei logo para a porta, tropeando nas
+trevas, ganindo um _Aqui d'Elrei_! que tresandava a Guies. Jacintho em
+cima berrava, com o mancuro agarrado s pyjamas. E de novo, como serva
+ralassa que recolhe arrastando as chinellas, a luz resurgiu com
+lentido. Mas o meu Principe, que descera, enfiado, mandou buscar um
+engenheiro Companhia Central da Electricidade Domestica. Por precauo
+outro creado correu mercearia comprar pacotes de velas. E o Grillo
+desenterrava j dos armarios os candelabros abandonados, os pesados
+castiaes archaicos dos tempos inscientificos de D. Galio: era uma
+reserva de veteranos fortes, para o caso pavoroso em que mais tarde,
+ceia, falhassem perfidamente as foras bisonhas da Civilisao. O
+Electricista, que acudira esbaforido, afianou porm que a Electricidade
+se conservaria fiel, sem outro amuo. Eu, cautelosamente, soneguei na
+algibeira dous ctos de estearina.
+
+A Electricidade permaneceu fiel, sem amuos. E quando desci do meu
+quarto, tarde (porque perdera o collete de baile e s depois d'uma busca
+furiosa e praguejada o encontrei cahido por traz da cama!), todo o 202
+refulgia, e os Tziganes, na antecamara, sacudindo as guedelhas, atiravam
+as arcadas d'uma valsa to arrastadora que, pelas paredes, os immensos
+Personagens das tapearias, Priamo, Nestor, o engenhoso Ulysses,
+arfavam, boliam com os ps venerandos!
+
+Timidamente, sem rumor, puxando os punhos, penetrei no gabinete de
+Jacintho. E fui logo acolhido pelo sorriso da condessa de Treves, que,
+acompanhada pelo illustre historiador Danjon (da Academia Franceza),
+percorria maravilhada os Apparelhos, os Instrumentos, toda a sumptuosa
+Mechanica do meu super-civilisado Principe. Nunca ella me parecera mais
+magestosa do que n'aquellas sdas cr de aafro, com rendas cruzadas no
+peito Maria-Antonietta, o cabello crespo e ruivo levantado em rolo
+sobre a testa dominadora, e o curvo nariz patricio, abrigando o sorriso
+sempre luzidio, sempre corrente, como um arco abriga o correr e o luzir
+d'um regato. Direita como n'um solio, a longa luneta de tartaruga
+acercada dos olhos miudos e turvamente azulados, ella escutava deante do
+Graphophono, depois deante do Microphono, como melodias superiores, os
+commentarios que o meu Jacintho ia atabalhoando com uma amabilidade
+penosa. E ante cada roda, cada mola, eram pasmos, louvores finamente
+torneados, em que attribuia a Jacintho, com astuta candura, todas
+aquellas invenes do Saber! Os utensilios misteriosos que atulhavam a
+mesa d'ebano foram para ella uma iniciao que a enlevou. Oh, o
+numerador de paginas! oh, o collador d'estampilhas! A caricia
+demorada dos seus dedos seccos aquecia os metaes. E supplicava os
+endereos dos fabricantes para se prover de todas aquellas utilidades
+adoraveis! Como a vida, assim apetrechada, se tornava escorregadia e
+facil! Mas era necessario o talento, o gosto de Jacintho, para escolher,
+para crear! E no s ao meu amigo (que o recebia com resignao) ella
+offertava o fino mel. Affagando com o cabo da luneta o Telegrapho, achou
+a possibilidade de recordar a eloquencia do Historiador. Mesmo para mim
+(de quem ignorava o nome) arranjou junto do Phonographo, e cerca de
+vozes d'amigos que doce colleccionar, uma lisonjasinha redondinha e
+lustrosa, que eu chupei como um rebuado celeste. Boa casaleira que vae
+atirando o gro aos frangos famintos, a cada passo, maternalmente, ella
+nutria uma vaidade. Sofrego d'outro rebuado, acompanhei a sua cauda
+sussurrante e cr d'aafro. Ella parra deante da Machina-de-contar, de
+que Jacintho j lhe fornecera pacientemente uma explicao sapiente. E
+de novo roou os buracos d'onde espreitam os numeros negros, e com o seu
+enlevado sorriso murmurou:--Prodigiosa, esta prensa electrica!...
+
+Jacintho accudiu:
+
+--No! No! Esta ...
+
+Mas ella sorria, seguia... Madame de Treves no comprehendera nenhum
+apparelho do meu Principe! Madame de Treves no attendera a nenhuma
+dissertao do meu Principe! N'aquelle gabinete de sumptuosa Mechanica
+ella smente se occupra em exercer, com proveito e com perfeio, a
+Arte de Agradar. Toda ella era uma sublime falsidade. No escondi a
+Danjon a admirao que me penetrava.
+
+O facundo Academico revirou os olhos bogalhudos:
+
+--Oh! e um gsto, uma intelligencia, uma seduco!... E depois como se
+janta bem em casa d'ella! Que caf!... Mulher superior, meu caro senhor,
+verdadeiramente superior!
+
+Deslisei para a bibliotheca. Logo entrada da erudita nave, junto da
+estante dos Padres da Egreja onde alguns cavalheiros conversavam, parei
+a saudar o director do _Boulevard_ e o Psychologo-feminista, o auctor do
+_Corao Triple_, com quem na vspera me familiarisra ao almoo, no
+202. O seu acolhimento foi paternal: e, como se necessitasse a minha
+presena, reteve na sua mo illustre, rutilante de anneis, com fora e
+com gula, a minha grossa palma serrana. Todos aquelles senhores, com
+effeito, celebravam o seu Romance, a _Couraa_, lanado n'essa semana
+entre gritinhos de gzo e um quente rumor de saias alvoroadas. Um
+sobretudo, com uma vasta cabea arranjada Van Dick e que parecia
+postia, proclamava, alado na ponta das botas, que nunca penetrra to
+fundamente, na velha alma humana, a ponta da Psychologia Experimental!
+Todos concordavam, se apertavam contra o Psychologo, o tratavam por
+mestre. Eu mesmo, que nem sequer entrevira a capa amarella da
+_Couraa_, mas para quem elle voltava os olhos pedinches e famintos de
+mais mel, murmurei com um leve assobio:--uma delicia!
+
+E o Psychologo, reluzindo, com o labio humido, entalado n'um alto
+collarinho onde se enroscava uma gravata 1830, confessava modestamente
+que dissecra todas aquellas almas da _Couraa_ com algum cuidado,
+sobre documentos, sobre pedaos de vida ainda quentes, ainda a
+sangrar... E foi ento que Marizac, o duque de Marizac, notou, com um
+sorriso mais afiado que um lampejo de navalha, e sem tirar as mos dos
+bolsos:
+
+--No emtanto, meu caro, n'esse livro to profundamente estudado ha um
+erro bem estranho, bem curioso!...
+
+O Psychologo, vivamente, atirra a cabea para traz:
+
+--Um erro?
+
+Oh, sim, um erro! E bem inesperado n'um mestre to experiente!... Era
+attribuir esplendida amorosa da _Couraa_, uma duqueza, e do gosto
+mais puro,--_um collete de setim preto_! Esse collete, assim preto, de
+setim, apparecia na bella pagina de analyse e paixo em que ella se
+despia no quarto de Ruy d'Alize. E Marizac, sempre com as mos nos
+bolsos, mais grave, appellava para aquelles senhores. Pois era
+verosimil, n'uma mulher como a duqueza, esthetica, pre-raphaelitica, que
+se vestia no Doucet, no Paquin, nos costureiros intellectuaes, um
+collete de setim preto?
+
+O Psychologo emmudecera, colhido, trespassado! Marizac era uma to
+suprema auctoridade sobre a roupa intima das duquezas, que tarde, em
+quartos de rapazes, por impulsos idealistas e anceios d'alma
+dolorida--se pem em collete e saia branca!... De resto o director do
+_Boulevard_ condemnra logo sem piedade, com uma experiencia firme,
+aquelle collete, s possivel n'alguma mercieira atrazada que ainda
+procurasse effeitos de carne nedia sobre setim negro. E eu, para que me
+no julgassem alheio s coisas dos adulterios ducaes e do luxo, acudi,
+mettendo os dedos pelo cabello:
+
+--Realmente, preto, s se estivesse de lucto pesado, pelo pae!
+
+O pobre mestre da _Couraa_ succumbira. Era a sua gloria de Doutor em
+Elegancias-Femininas desmantelada--e Paris suppondo que elle nunca vira
+uma duqueza desatacar o collete na sua alcova de Psychologo! Ento,
+passando o leno sobre os labios que a angustia ressequira, confessou o
+erro, e contrictamente o attribuiu a uma improvisao tumultuosa:
+
+--Foi um tom falso, um tom perfeitamente falso que me escapou!... Com
+effeito! absurdo, um collete preto!... Mesmo por harmonia com o estado
+da alma da duqueza devia ser lilaz, talvez cr de reseda muito
+desmaiada, com um frouxo de rendas antigas de Malines... prodigioso
+como me escapou! Pois tenho o meu caderno de entrevistas bem annotadas,
+bem documentadas!...
+
+Na sua amargura, terminou por supplicar a Marizac que espalhasse por
+toda a parte, no Club, nas salas, a sua confisso. Fra um engano de
+artista, que trabalha na febre, vasculhando as almas, perdido nas
+profundidades negras das almas! No reparra no collete, confundira os
+tons... E gritou, com os braos estendidos para o director do
+_Boulevard_:
+
+--Estou prompto a fazer uma rectificao, n'uma _interview_, meu caro
+mestre! Mande um dos seus redactores... manh, s dez horas! Fazemos
+uma _interview_, fixamos a cr. Evidentemente lilaz... Mande um dos
+seus homens, meu caro mestre! tambem uma occasio para eu confessar,
+bem alto, os servios que o _Boulevard_ tem feito s sciencias
+psychologicas e feministas!
+
+Assim elle supplicava, encostado estante, s lombadas dos Santos
+Padres. E eu abalei, vendo ao fundo da Bibliotheca Jacintho que se
+debatia e se recusava entre dous homens.
+
+Eram os dois homens de Madame de Treves--o marido, conde de Treves,
+descendente dos reis de Candia, e o amante, o terrivel banqueiro judeu,
+David Ephraim. E to enfronhadamente assaltavam o meu Principe que nem
+me reconheceram, ambos n'um aperto de mo molle e vago me trataram por
+caro conde! N'um relance, rebuscando charutos sobre a mesa de
+limoeiro, comprehendi que se tramava a _Companhia das Esmeraldas da
+Birmania_, medonha empreza em que scintillavam milhes, e para que os
+dous confederados de bolsa e d'alcva, desde o comeo do anno, pediam o
+nome, a influencia, o dinheiro de Jacintho. Elle resistira, n'um enfado
+dos negocios, desconfiado d'aquellas esmeraldas soterradas n'um valle da
+Asia. E agora o conde de Treves, um homem esgrouviado, de face
+rechupada, erriada de barba rala, sob uma fronte rotunda e amarella
+como um melo, assegurava ao meu pobre Principe que no Prospecto j
+preparado, demonstrando a grandeza do negocio, perpassava um fulgr das
+_Mil e Uma noites_. Mas sobretudo aquella excavao de esmeraldas
+convidava todo o espirito culto pela sua aco civilisadora. Era uma
+corrente de idas occidentaes, invadindo, educando a Birmania. Elle
+acceitra a direco por patriotismo...
+
+--De resto um negocio de joias, de arte, de progresso, que deve ser
+feito, n'um mundo superior, entre amigos...
+
+E do outro lado o terrivel Ephraim, passando a mo curta e gorda sobre a
+sua bella barba, mais frisada e negra que a d'um Rei Assyrio, affianava
+o triumpho da empreza pelas grossas foras que n'ella entravam, os
+Nagayers, os Bolsans, os Saccart...
+
+Jacintho franzia o nariz, enervado:
+
+--Mas, ao menos, esto feitos os estudos? J se provou que ha
+esmeraldas?
+
+Tanta ingenuidade exasperou Ephraim:
+
+--Esmeraldas! Est claro que ha esmeraldas!... Ha sempre esmeraldas
+desde que haja accionistas!
+
+E eu admirava a grandeza d'aquella maxima--quando appareceu, esbaforido,
+desdobrando o leno muito perfumado, um dos familiares do 202, Todelle
+(Antonio de Todelle), moo j calvo, d'infinitas prendas, que conduzia
+Cotillons, imitava cantores de Caf Concerto, temperava saladas raras,
+conhecia todos os enredos de Paris.
+
+--J veio?... J c est o Gran-Duque?
+
+No, S. Alteza ainda no chegra. E Madame de Todelle?
+
+--No poude... No soph... Esfolou uma perna.
+
+--Oh!
+
+--Quasi nada... Cahiu do velocipede!
+
+Jacintho, logo interessado:
+
+--Ah! Madame de Todelle anda j de velocipede?
+
+--Aprende. Nem tem velocipede!... Agora, na quaresma, que se applicou
+mais, no velocipede do padre Ernesto, do cura de S. Jos! Mas hontem, no
+Bosque, zs, terra!... Perna esfolada. Aqui.
+
+E na sua propria cxa, com a unha, vivamente, desenhou o esfolo.
+Ephraim, brutal e serio, murmurou:--Diabo! no melhor sitio! Mas
+Todelle nem o escutra, correndo para o director do _Boulevard_, que se
+avanava, lento e barrigudo, com o seu monoculo negro semelhante a um
+pacho. Ambos se collaram contra uma estante, n'um cochichar profundo.
+
+Jacintho e eu entramos ento no bilhar, forrado de velhos couros de
+Cordova, onde se fumava. Ao canto d'um divan, o grande Dornan, o poeta
+neo-platonico e mystico, o Mestre subtil de todos os rithmos, espapado
+nas almofadas, com um dos ps sob a cxa gorda, como um Deus indio, dois
+botes do collete desabotoados, a papeira cahida sobre o largo decote do
+collarinho, mamava magestosamente um immenso charuto. Ao p d'elle,
+tambm sentado, um velho que eu nunca encontrra no 202, esbelto, de
+cabellos brancos em anneis passados por traz das orelhas, a face coberta
+de p de arroz, um bigodinho muito negro e arrebitado, findra
+certamente alguma historia de bom e grosso sal--porque deante do divan,
+de p, Joban, o suprmo Critico de Theatro, ria com a calva escarlate de
+gso, e um moo muito ruivo (descendente de Colygny), de perfil de
+periquito, sacudia os braos curtos como azas, e gania: delicioso!
+divino! S o poeta idealista permanecera impassivel, na sua magestade
+obesa. Mas, quando nos acercamos, esse Mestre do rythmo perfeito, depois
+de soprar uma farta fumarada e me saudar com um pesado mover das
+palpebras, comeou n'uma voz de rico e sonoro metal:
+
+--Ha melhor, ha infinitamente melhor... Todos aqui conhecem Madame
+Noredal. Madame Noredal tem umas immensas nadegas...
+
+Desgraadamente para o meu regalo Todelle invadiu o bilhar, reclamando
+Jacintho com alarido. Eram as senhoras que desejavam ouvir no
+Phonographo uma aria da Patti! O meu amigo sacudiu logo os hombros,
+n'uma surda irritao:
+
+--Aria da Patti... Eu sei l! Todos esses rolos esto em confuso. Alm
+d'isso o Phonographo trabalha mal. Nem trabalha! Tenho tres. Nenhum
+trabalha!
+
+--Bem! exclamou alegremente Todelle. Canto eu a _Pauvre fille_... mais
+de ceia! _Oh, la pauv', pauv', pauv'_...
+
+Travou do meu brao, e arrastou a minha timidez serrana para o salo cr
+de rosa murcha, onde, como Deusas n'um circulo escolhido do Olympo,
+resplandeciam Madame d'Oriol, Madame Verghane, a princeza de Carman, o
+uma outra loura, com grandes brilhantes nas grandes farripas, e
+d'hombros to ns, e braos to ns, e peitos to ns, que o seu vestido
+branco com bordados d'ouro pallido parecia uma camisa, a escorregar.
+Impressionado, ainda retive Todelle, rugi baixinho:--Quem ? Mas j o
+festivo homem correra para Madame d'Oriol, com quem riam, n'uma
+familiaridade superior e facil, Marizac (o duque de Marizac) e um moo
+de barba cr de milho e mais leve que uma penugem, que se balouava
+gracilmente sobre os ps, como uma espiga ao vento. E eu, encalhado
+contra o piano, esfregava lentamente as mos, amassando o meu embarao,
+quando Madame Verghane se ergueu do soph onde conversava com um velho
+(que tinha a Gran-Cruz de Santo Andr), e avanou, deslizou no tapete,
+pequena e nedia, na sua copiosa cauda de velludo verde-negro. To fina
+era a cinta, entre os encontros fecundos e a vastido do peito, todo n
+e cr de nacar, que eu receava que ella partisse pelo meio, no seu lento
+ondular. Os seus famosos bands negros, d'um negro furioso, inteiramente
+lhe tapavam as orelhas; e, no grande aro d'ouro que os circumdava,
+reluzia uma estrella de brilhantes, como na fronte dos anjos de
+Boticelli. Conhecendo sem dvida a minha auctoridade no 202, ella
+despediu sobre mim ao passar, como raio benefico, um sorriso que lhe
+liquescia mais os olhos liquidos, e murmurou:
+
+--O Gran-Duque vem, com certeza?
+
+--Oh com certeza, minha senhora, para o peixe!
+
+--P'ra o peixe?...
+
+Mas justamente, na antecamara, rompeu, em rufos e arcadas triumphaes, a
+marcha de Rakoczy. Era elle! Na Bibliotheca, o nosso retumbante mordomo
+annunciava:
+
+--S. Alteza o Gran-Duque Casimiro!
+
+Madame de Verghane, com um curto suspiro d'emoo, alteou o peito, como
+para lhe expr melhor a magnificencia eburnea. E o homem do _Boulevard_,
+o velho da Gran-Cruz, Ephraim, quasi me empurraram, investindo para a
+porta, na immensa sofreguido de Pessoa Real.
+
+Precedido por Jacintho, o Gran-Duque surgiu. Era um possante homem, de
+barba em bico, j grisalha, um pouco calvo. Durante um momento hesitou,
+com um balano lento sobre os ps pequeninos, calados de sapatos rasos,
+quasi sumidos sob as pantalonas muito largas. Depois, pesado e risonho,
+veio apertar a mo s senhoras que mergulhavam nos velludos e sdas, em
+mesuras de Crte. E immediatamente, batendo com carinhosa jovialidade no
+hombro de Jacintho:
+
+--E o peixe?... Preparado pela receita que mandei, hein?
+
+Um murmurio de Jacintho tranquillisou S. Alteza.
+
+--Ainda bem, ainda bem! exclamou elle, no seu vozeiro de commando. Que
+eu no jantei, absolutamente no jantei! que se est jantando
+deploravelmente em casa do Joseph. Mas porque se vai jantar ainda ao
+Joseph? Sempre que chego a Paris, pergunto: Onde que se janta agora?
+Em casa do Joseph!... Qual! no se janta! Hoje, por exemplo,
+gallinholas... Uma peste! No tem, no tem a noo da gallinhola!
+
+Os seus olhos azulados, d'um azul sujo, rebrilhavam, alargados pela
+indignao:
+
+--Paris est perdendo todas as suas superioridades. J se no janta, em
+Paris!
+
+Ento, em redor, aquelles senhores concordaram, desolados. O conde de
+Treves defendeu o Bignon, onde se conservavam nobres tradies. E o
+director do _Boulevard_, que se empurrava todo para S. Alteza, attribuia
+a decadencia da cozinha, em Frana, Republica, ao gosto democratico e
+torpe pelo barato.
+
+--No Paillard, todavia...--comeou o Ephraim.
+
+--No Paillard! gritou logo o Gran-Duque. Mas os Borgonhas so to maus!
+os Borgonhas so to maus!...
+
+Deixra pender os braos, os hombros, descoroado. Depois, com o seu
+lento andar balanado como o d'um velho piloto, atirando um pouco para
+traz as lapellas da casaca, foi saudar Madame d'Oriol, que toda ella
+faiscou, no sorriso, nos olhos, nas joias, em cada prga das suas sdas
+cr de salmo. Mas apenas a clara e macia creatura, batendo o leque como
+uma aza alegre, comera a chalrar, S. Alteza reparou no apparelho do
+Theatrophone, pousado sobre uma mesa entre flres, e chamou Jacintho:
+
+--Em communicao com o Alcazar?... O Theatrophone?
+
+--Certamente, meu senhor.
+
+Excellente! Muito chic! Elle ficra com pena de no ouvir a Gilberte
+n'uma canoneta nova, as _Casquettes_. Onze e meia! Era justamente a
+essa hora que ella cantava, no ultimo acto da _Revista
+Electrica_...--Collou s orelhas os dous receptores do Theatrophone, e
+quedou embebido, com uma ruga sria na testa dura. De repente, n'um
+commando forte:
+
+-- ella! Chut! Venham ouvir!... ella! Venham todos! Princeza de
+Carman, para aqui! Todos! ella! Chut...
+
+Ento, como Jacintho installra prodigamente dois Theatrophones, cada um
+provido de doze fios, as senhoras, todos aquelles cavalheiros, se
+apressaram a acercar submissamente um receptor do ouvido, e a permanecer
+immoveis para saborear _Les Casquettes_. E no salo cr de rosa murcha,
+na nave da Bibliotheca, onde se espalhra um silencio augusto, s eu
+fiquei desligado do Theatrophone, com as mos nas algibeiras e ocioso.
+
+No relogio monumental, que marcava a hora de todas as Capitaes e o
+movimento de todos os Planetas, o ponteiro rendilhado adormeceu. Sobre a
+mudez e a immobilidade pensativa d'aquelles dorsos, d'aquelles decotes,
+a Electricidade refulgia com uma tristeza de sol regelado. E de cada
+orelha attenta, que a mo tapava, pendia um fio negro, como uma tripa.
+Dornan, esbroado sobre a mesa, cerrra as palpebras, n'uma meditao de
+monge obeso. O historiador dos Duques d'Anjou, com o receptor na ponta
+delicada dos dedos, erguendo o nariz agudo e triste, gravemente cumpria
+um dever palaciano. Madame d'Oriol sorria, toda languida, como se o fio
+lhe murmurasse douras. Para desentorpecer arrisquei um passo timido.
+Mas cahiu logo sobre mim um _chut_ severo do Gran-Duque! Recuei para
+entre as cortinas da janella, a abrigar a minha ociosidade. O Philologo
+da _Couraa_, distante da mesa, com o seu comprido fio esticado, mordia
+o beio, n'um esforo de penetrao. A beatitude de S. Alteza, enterrado
+n'uma vasta poltrona, era perfeita. Ao lado o collo de Madame Verghane
+arfava como uma onda de leite. E o meu pobre Jacintho, n'uma applicao
+conscienciosa, pendia sobre o Theatrophone to tristemente como sobre
+uma sepultura.
+
+Ento, ante aquelles seres de superior civilisao, sorvendo n'um
+silencio devoto as obscenidades que a Gilberte lhes gania, por debaixo
+do solo de Paris, atravez de fios mergulhados nos esgotos, cingidos aos
+canos das fezes,--pensei na minha aldeia adormecida. O crescente de lua,
+que, seguido d'uma estrellinha, corria entre nuvens sobre os telhados e
+as chamins negras dos Campos-Elyseos, tambem andava l fugindo, mais
+lustrosa e mais dce, por cima dos pinheiraes. As rs coaxavam ao longe
+no Pego da Dona. A ermidinha de S. Joaquim branquejava no cabeo,
+nuasinha e candida...
+
+Uma das senhoras murmurou:
+
+--Mas, no a Gilberte!...
+
+E um dos homens:
+
+--Parece um cornetim...
+
+--Agora so palmas...
+
+--No, o Paulin!
+
+O Gran-Duque lanou um _chut_ feroz... No pateo da nossa casa ladravam
+os ces. D'alm do ribeiro respondiam os ces do Joo Saranda. Como me
+encontrei descendo por uma quelha, sob as ramadas, com o meu varapau ao
+hombro? E sentia, entre a sda das cortinas, n'um fino ar macio, o
+cheiro das pinhas estalando nas lareiras, o calor dos curraes atravez
+das sebes altas, e o susurro dormente das levadas...
+
+Despertei a um brado que no sahia nem dos eidos, nem das sombras. Era o
+Gran-Duque que se erguera, encolhia furiosamente os hombros:
+
+--No se ouve nada!... S guinchos! E um zumbido! Que massada!... Pois
+uma belleza, a canoneta:
+
+Oh les casquettes,
+Oh les casque-e-e-tes!...
+
+Todos largaram os fios--proclamavam a Gilberte deliciosa. E o mordomo
+bemdito, abrindo largamente os dous batentes, annunciou:
+
+--_Monseigneur est servi_!
+
+Na mesa, que pelo esplendor das orchideas mereceu os louvores ruidosos
+de S. Alteza, fiquei entre o ethereo poeta Dornan e aquelle moo de
+pennugem loura que balouava como uma espiga ao vento. Depois de
+desdobrar o guardanapo, de o accomodar regaladamente sobre os joelhos,
+Dornan desenvencilhou da corrente do relogio uma enorme luneta para
+percorrer o _menu_--que approvou. E inclinando para mim a sua face de
+Apostolo obeso:
+
+--Este Porto de 1834, aqui era casa do Jacintho, deve ser authentico...
+Hein?
+
+Assegurei ao Mestre dos Rythmos que o Porto envelhecra nas adegas
+classicas do av Galio. Elle afastou, n'uma preparao methodica, os
+longos, densos fios do bigode que lhe cobriam a bocca grossa. Os
+escudeiros serviram um consomm frio com trufas. E o moo cr de milho,
+que espalhra pela mesa o seu olhar azul e dce, murmurou, com uma
+desconsolao risonha:
+
+--Que pena!... S falta aqui um general e um bispo!
+
+Com effeito! Todas as Classes Dominantes comiam n'esse momento as trufas
+do meu Jacintho... Mas defronte Madame d'Oriol lanra um riso mais
+cantado que um gorgeio. O Gran-Duque, n'uma silva de orchideas que
+orlava o seu talher, notra uma, sombriamente horrenda, semelhante a um
+lacrau esverdinhado, de azas lustrosas, gordo e tumido de veneno: e
+muito delicadamente offertra a flr monstruosa a Madame d'Oriol, que,
+com trinado riso, solemnemente, a collocou no seio. Collado quella
+carne macia, d'uma brancura de nata fina, o lacrau inchra, mais verde,
+com as azas frementes. Todos os olhos se accendiam, se cravavam no lindo
+peito, a que a flr disforme, de cr venenosa, apimentava o sabor. Ella
+reluzia, triumphava. Para ageitar melhor a orchidea os seus dedos
+alargaram o decote, aclararam bellezas, guiando aquellas curiosidades
+flammejantes que a despiam. A face vincada de Jacintho pendia para o
+prato vasio. E o alto lyrico do _Crepusculo Mystico_, passando a mo
+pelas barbas, rosnou com desdem:
+
+--Bella mulher... Mas ancas seccas, e aposto que no tem nadegas!
+
+No emtanto o moo de loura pennugem voltra sua estranha mgoa. No
+possuirmos um general com a sua espada, e um bispo com seu baculo!...
+
+--Para que, meu caro senhor?
+
+Elle atirou um gesto suave em que todos os seus anneis faiscaram:
+
+--Para uma bomba de dynamite... Temos aqui um explendido ramalhete de
+flres de Civilisaco, com um Gran-Duque no meio. Imagine uma bomba de
+dynamite, atirada da porta!... Que bello fim de ceia, n'um fim de
+seculo!
+
+E como eu o considerava assombrado, elle, bebendo golos de
+Chateau-Yquem, declarou que hoje a unica emoo, verdadeiramente fina,
+seria aniquillar a Civilisao. Nem a sciencia, nem as artes, nem o
+dinheiro, nem o amor, podiam j dar um gosto intenso e real s nossas
+almas saciadas. Todo o prazer que se extrahra de _crear_ estava
+esgotado. S restava, agora, o divino prazer de _destruir_!
+
+Desenrolou ainda outras enormidades, com um riso claro nos olhos claros.
+Mas eu no attendia o gentil pedante, colhido por outro
+cuidado--reparando que em torno, subitamente, todo o servio estacra
+como no conto do Palacio Petrificado. E o prato agora devido era o peixe
+famoso da Dalmacia, o peixe de S. Alteza, o peixe inspirador da festa!
+Jacintho, nervoso, esmagava entre os dedos uma flr. E todos os
+escudeiros sumidos!
+
+Felizmente o Gran-Duque contava a historia d'uma caada, nas coutadas de
+Sarvan, em que uma senhora, mulher de um banqueiro, saltra bruscamente
+do cavallo, n'um descampado, sem arvores. Elle e todos os caadores
+param--e a galante senhora, livida, com a amazona arregaada, corre para
+traz d'uma pedra... Mas nunca soubemos em que se occupava a banqueira,
+n'esse descampado, agachada atraz da pedra--porque justamente o mordomo
+appareceu, relusente de suor, e balbuciou uma confidencia a Jacintho,
+que mordeu o beio, trespassado. O Gran-Duque emmudecera. Todos se
+entre-olhavam, n'uma anciedade alegre. Ento o meu Principe, com
+paciencia, com heroicidade, forando pallidamente o sorriso:
+
+--Meus amigos, ha uma desgraa...
+
+Dornan pulou na cadeira:
+
+--Fogo?
+
+No, no era fogo. Fra o elevador dos pratos, que inesperadamente, ao
+subir o peixe de S. Alteza, se desarranjra, e no se movia, encalhado!
+
+O Gran-Duque arremessou o guardanapo. Toda a sua polidez estalava como
+um esmalte mal posto:
+
+--Essa forte!... Pois um peixe que me deu tanto trabalho! Para que
+estamos ns aqui ento a cear? Que estupidez! E porque o no trouxeram
+mo, simplesmente? Encalhado... Quero vr! Onde a copa?
+
+E, furiosamente, investiu para a copa, conduzido pelo mordomo que
+tropeava, vergava os hombros, ante esta esmagadora colera de Principe.
+Jacintho seguiu, como uma sombra, levado na rajada de S. Alteza. E eu
+no me contive, tambem me atirei para a copa, a contemplar o desastre,
+emquanto Dornan, batendo na cxa, clamava que se ceasse sem peixe!
+
+O Gran-Duque l estava, debruado sobre o poo escuro do elevador, onde
+mergulhra uma vela que lhe avermelhava mais a face esbraseada.
+Espreitei, por sobre o seu hombro real. Em baixo, na treva, sobre uma
+larga prancha, o peixe precioso alvejava, deitado na travessa, ainda
+fumegando, entre rodellas de limo. Jacintho, branco como a gravata,
+torturava desesperadamente a mola complicada do ascensor. Depois foi o
+Gran-Duque que, com os pulsos cabelludos, atirou um empuxo tremendo aos
+cabos em que elle rolava. Debalde! O apparelho enrijra n'uma inercia de
+bronze eterno.
+
+Sdas roagaram entrada da copa. Era Madame d'Oriol, e atraz Madame
+Verghane, com os olhos a faiscar, na curiosidade d'aquelle lance em que
+o Principe soltra tanta paixo. Marizac, nosso intimo, surgiu tambem,
+risonho, propondo uma descida ao poo com escadas. Depois foi o
+Psychologo, que se abeirou, psychologou, attribuindo intenes sagazes
+ao peixe que assim se recusava. E a cada um o Gran-Duque, escarlate,
+mostrava com dedo tragico, no fundo da cova, o seu peixe! Todos
+afundavam a face, murmuravam: l est! Todelle, na sua precipitao,
+quasi se despenhou. O periquito descendente de Colygny batia as azas,
+ganindo:--Que cheiro elle deita, que delicia! Na copa atulhada os
+decotes das senhoras roavam a farda dos lacaios. O velho caiado de p
+d'arroz metteu o p n'um balde de gelo, com um berro ferino. E o
+Historiador dos Duques d'Anjou movia por cima de todos o seu nariz
+bicudo e triste.
+
+De repente, Todelle teve uma ida!
+
+-- muito simples... pescar o peixe!
+
+O Gran-Duque bateu na cxa uma palmada triumphal. Est claro! Pescar o
+peixe! E no gozo d'aquella facecia, to rara e to nova, toda a sua
+colera se sumra, de novo se tornra o Principe amavel, de magnifica
+polidez, desejando que as senhoras se sentassem para assistir pesca
+miraculosa! Elle mesmo seria o pescador! Nem se necessitava, para a
+divertida faanha, mais que uma bengala, uma guita e um gancho.
+Immediatamente Madame d'Oriol, excitada, offereceu um dos seus ganchos.
+Apinhados em volta d'ella, sentindo o seu perfume, o calor da sua pelle,
+todos exaltamos a amoravel dedicao. E o Psychologo proclamou que nunca
+se pescra com to divino anzol!
+
+Quando dois escudeiros estonteados voltaram, trazendo uma bengala e um
+cordel, j o Gran-Duque, radiante, vergra o gancho em anzol. Jacintho,
+com uma paciencia livida, erguia uma lampada sobre a escurido do poo
+fundo. E os senhores mais graves, o Historiador, o director do
+_Boulevard_, o Conde de Treves, o homem de cabea Van-Dick, sorriam,
+amontoados porta, n'um interesse reverente pela phantasia de S.
+Alteza. Madame de Treves, essa, examinava serenamente, com a sua nobre
+luneta, a installao da copa. S Dornan no se erguera da mesa, com os
+punhos cerrados sobre a toalha, o gordo pescoo encovado, no tedio
+sombrio de fera a quem arrancaram a posta.
+
+No emtanto S. Alteza pescava com fervor! Mas debalde! O gancho, pouco
+agudo, sem presa, bamboleando na extremidade da guita frouxa, no
+fisgava.
+
+--Oh Jacintho, erga essa luz! gritava elle, inchado e suado. Mais!...
+Agora! Agora! na guelra! S na guelra que o gancho o pde prender.
+Agora... Qual! Que diabo! No vae!
+
+Tirou a face do poo, resfolgando e affrontado. No era possivel! S
+carpinteiros, com alavancas!... E todos, anciosamente, bradamos que se
+abandonasse o peixe!
+
+O Principe, risonho, sacudindo as mos, concordava que por fim fra
+mais divertido pescal-o do que coml-o! E o elegante bando refluiu
+sofregamente para a mesa, ao som d'uma valsa de Strauss, que os Tziganes
+arremearam em arcadas de languido ardr. S Madame de Treves se demorou
+ainda, retendo o meu pobre Jacintho, para lhe assegurar quanto admirava
+o arranjo da sua copa... Oh perfeita! Que comprehenso da vida, que fina
+intelligencia do conforto!
+
+S. Alteza, encalmado pelo esforo, esvasiou poderosamente dous copos de
+Chateau-Lagrange. Todos o acclamavam como um pescador genial. E os
+escudeiros serviram o _Baro de Pauillac_, cordeiro das lezirias
+marinhas, que, preparado com ritos quasi sagrados, toma este grande nome
+sonoro e entra no Nobiliario de Frana.
+
+Eu comi com o appetite d'um heroe de Homero. Sobre o meu copo e o de
+Dornan o Champagne scintillou e jorrou ininterrompidamente como uma
+fonte de inverno. Quando se serviram ortolans gelados, que se derretiam
+na bocca, o divino poeta murmurou, para meu regalo, o seu soneto sublime
+a Santa Clara. E como, do outro lado, o moo de pennugem loura
+insistia pela destruio do velho mundo, tambem concordei, e, sorvendo o
+Champagne coalhado em sorvete, maldissemos o Seculo, a Civilisao,
+todos os orgulhos da Sciencia! Atravs das flres e das luzes, no
+emtanto, eu seguia as ondas arfantes do vasto peito de Madame Verghane,
+que ria como uma bacchante. E nem me apiedava de Jacintho que, com a
+doura de S. Jacintho sobre o cpo, esperava o fim do seu martyrio e da
+sua festa.
+
+Ella findou. Ainda recordo, s tres horas da noite, o Gran-Duque na
+antecamara, muito vermelho, mal firme nos ps pequeninos, sem acertar
+com as mangas da pelissa que Jacintho e eu lhe ajudamos a
+enfiar--convidando o meu amigo, n'uma effuso carinhosa, a ir caar s
+suas terras da Dalmacia...
+
+--Devo ao meu Jacintho uma bella pesca, quero que elle me deva uma bella
+caada!
+
+E emquanto o acompanhavamos, entre as alas dos escudeiros, pela vasta
+escada onde o mordomo o precedia erguendo um candelabro de tres lumes,
+S. Alteza repisava, pegajoso:
+
+--Uma bella caada... E tambem vae Fernandes! Bom Fernandes, Z
+Fernandes! Ceia superior, meu Jacintho! O _Baro de Pauillac_,
+divino!... Creio que o devemos nomear Duque... O Senhor Duque de
+Pauillac! Mais um bocado da perna do Senhor Duque de Pauillac. Ah!
+Ah!... No venham fra! No se constipem!
+
+E do fundo do coup, ao rodar, ainda bradou:
+
+--O peixe, Jacintho, desencalha o peixe! Excellente, ao almoo, frio,
+com mlho verde!
+
+Trepando canadamente os degraus, n'uma molleza de Champagne e somno em
+que os olhos se me cerravam, murmurei para o meu Principe:
+
+--Foi divertido, Jacintho! Sumptuosa mulher, a Verghane! Grande pena, o
+elevador...
+
+E Jacintho, n'um som cavo que era bocejo e rugido:
+
+--Uma massada! E tudo falha!
+
+ * * * * *
+
+Tres dias depois d'esta festa no 202 recebeu o meu Principe
+inesperadamente, de Portugal, uma nova consideravel. Sobre a sua quinta
+e solar de Tormes, por toda a serra, passra uma tormenta devastadora de
+vento, corisco e agua. Com as grossas chuvas, ou por outras causas que
+os peritos diro (como exclamava na sua carta angustiada o procurador
+Silverio), um pedao de monte, que se avanava em socalco sobre o valle
+da Carria, desabra, arrastando a velha egreja, uma egrejinha rustica
+do seculo XVI, onde jaziam sepultados os avs de Jacintho desde os
+tempos de el-rei D. Manoel. Os ossos veneraveis d'esses Jacinthos jaziam
+agora soterrados sob um monto informe de terra e pedra. O Silverio j
+comera com os moos da quinta a desatulhar dos preciosos restos. Mas
+esperava anciosamente as ordens de sua exc.^a...
+
+Jacintho empallidecra, impressionado. Esse velho solo serrano, to rijo
+e firme desde os Godos, que de repente ruia! Esses jazigos de paz
+piedosa, precipitados com fragor, na borrasca e na treva, para um negro
+fundo de valle! Essas ossadas, que todas conservavam um nome, uma data,
+uma historia, confundidas n'um lixo de ruina!
+
+--Coisa estranha, coisa estranha!...
+
+E toda a noite me interrogou cerca da serra e de Tormes, que eu
+conhecia desde pequeno, por que o velho solar, com a sua nobre alameda
+de faias seculares, se erguia a duas legoas da nossa casa, no antigo
+caminho de Guies estao e ao rio. O caseiro de Tormes, o bom
+Melchior, era cunhado do nosso feitor da Roqueirinha:--e muitas vezes,
+depois da minha intimidade com Jacintho, eu entrra no robusto casaro
+de granito, e avalira o gro espalhado pelas salas sonoras, e provra o
+vinho novo nas adegas immensas...
+
+--E a egreja, Z Fernandes?... Entraste na egreja?
+
+--Nunca... Mas era pittoresca, com uma torresinha quadrada, toda negra,
+onde ha muitos annos vivia uma familia de cegonhas... Terrivel
+transtorno para as cegonhas!
+
+--Coisa estranha! murmurava ainda o meu Principe, agourado.
+
+E telegraphou ao Silverio que desatulhasse o valle, recolhesse as
+ossadas, reedificasse a Egreja, e, para esta obra de piedade e
+reverencia, gastasse o dinheiro, sem contar, como a agua d'um rio largo.
+
+
+
+
+V
+
+
+No emtanto Jacintho, desesperado com tantos desastres humilhadores--as
+torneiras que dessoldavam, os elevadores que emperravam, o Vapor que se
+encolhia, a Electricidade que se sumia, decidiu valorosamente vencer as
+resistencias finaes da Materia e da Fora por novas e mais poderosas
+accumulaces de Mechanismos. E n'essas semanas de Abril, emquanto as
+rosas desabrochavam, a nossa agitada casa, entre aquellas quietas casas
+dos Campos-Elyseos que preguiavam ao sol, incessantemente tremeu,
+envolta n'um p de calia e d'empreitada, com o bruto picar de pedra, o
+retininte martelar de ferro. Nos silenciosos corredores, onde me era
+dce fumar antes do almoo um pensativo cigarro, circulavam agora, desde
+madrugada, ranchos d'operarios, de blusas brancas, assobiando o
+_Pett-Bleu_, e intimidando os meus passos quando eu atravessava em
+fralda e chinellas para o banho ou para outros retiros. Apenas se varava
+com pericia algum andaime obstruindo as portas--logo se esbarrava com
+uma pilha de taboas, uma ceira de farramentas ou um balde enorme
+d'argamassa. E os pedaos de soalho levantado mostravam tristemente,
+como n'um cadaver aberto, todos os interiores do 202, a ossatura, os
+sensiveis nervos d'arame, os negros intestinos de ferro fundido.
+
+Cada dia estacava deante do porto alguma lenta carroa, d'onde os
+creados, em mangas de camisa, descarregavam caixotes de madeira, fardos
+de lona, que se despregavam e se descosiam n'uma sala asphaltada, ao
+fundo do jardim, por traz da sebe de lilazes. E eu descia, reclamado
+pelo meu Principe, para admirar uma nova Machina que nos tornaria a vida
+mais facil, estabelecendo d'um modo mais seguro o nosso dominio sobre a
+Substancia. Durante os calores, que apertaram depois da Asceno,
+ensaiamos esperanadamente, para refrescar as aguas mineraes, a
+Soda-Water e os Medocs ligeiros, tres geleiras, que se amontoaram na
+copa successivamente desprestigiadas. Com os morangos novos appareceu um
+instrumentosinho astuto, para lhes arrancar os ps, delicadamente.
+Depois recebemos outro, prodigioso, de prata e crystal, para remexer
+phreneticamente as saladas; e, na primeira vez que o experimentei, todo
+o vinagre esparrinhou sobre os olhos do meu Principe, que fugiu aos
+uivos! Mas elle teimava... Nos actos mais elementares, para alliviar ou
+apressar o esforo, se soccorria Jacintho da Dynamica. E agora era por
+interveno d'uma machina que abotoava as ceroulas.
+
+E simultaneamente, ou em obediencia sua Ida, ou governado pelo
+despotismo do habito, no cessava, ao lado da Mechanica accumulada, de
+accumular Erudio. Oh, a invaso dos livros no 202! Solitarios, aos
+pares, em pacotes, dentro de caixas, franzinos, gordos e repletos de
+auctoridade, envoltos em plebeia capa amarella ou revestidos de
+marroquim e ouro, perpetuamente, torrencialmente, invadiam por todas as
+largas portas a Bibliotheca, onde se estiravam sobre o tapete, se
+repimpavam nas cadeiras macias, se enthronisavam em cima das mesas
+robustas, e sobretudo trepavam contra as janellas, em sofregas pilhas,
+como se, suffocados pela sua propria multido, procurassem com ancia
+espao e ar! Na erudita nave, onde apenas alguns vidros mais altos
+restavam descobertos, sem tapume de livros, perennemente se adensava um
+pensativo crepusculo de outono emquanto fra Junho refulgia. A
+Bibliotheca transbordra atravs de todo o 202! No se abria um armario
+sem que de dentro se despenhasse, desamparada, uma pilha de livros! No
+se franzia uma cortina sem que de traz surgisse, hirta, uma ruma de
+livros! E immensa foi a minha indignao quando uma manh, correndo
+urgentemente, de mos nas alas, encontrei, vedada por uma tremenda
+colleco de Estudos Sociaes, a porta do Water-Closet!
+
+Mais amargamente porm me lembro da noite historica em que, no meu
+quarto, moido e molle d'um passeio a Versalhes, com as palpebras
+poeirentas e meio adormecidas, tive de desalojar do meu leito,
+praguejando, um pavoroso Diccionario de Industria em trinta e sete
+volumes! Senti ento a suprema fartura do livro. Ageitando, com murros,
+os travesseiros, maldisse a Imprensa, a Facundia humana... E j me
+estirra, adormecia, quando topei, quasi parti a preciosa rotula do
+joelho, contra a lombada d'um tomo que velhacamente se aninhra entre a
+parede e os colches. Com furor e um berro empolguei, arremessei o tomo
+affrontoso--que entornou o jarro, inundou um tapete rico de Daghestan. E
+nem sei se depois adormeci--porque os meus ps, a que no sentia nem o
+pisar nem o rumor, como se um vento brando me levasse, continuaram a
+tropear em livros no corredor apagado, depois na areia do jardim que o
+luar branqueava, depois na Avenida dos Campos-Elyseos, povoada e ruidosa
+como n'uma festa civica. E, oh portento! todas as casas aos lados eram
+construidas com livros. Nos ramos dos castanheiros ramalhavam folhas de
+livros. E os homens, as finas damas, vestidos de papel impresso, com
+titulos nos dorsos, mostravam em vez de rosto um livro aberto, a que a
+brisa lenta virava docemente as folhas. Ao fundo, na Praa da Concordia,
+avistei uma escarpada montanha de livros, a que tentei trepar,
+arquejante, ora enterrando a perna em flacidas camadas de versos, ora
+batendo contra a lombada, dura como calhau, de tomos de Exegese e
+Critica. A to vastas alturas subi, para alm da terra, para alm das
+nuvens, que me encontrei, maravilhado, entre os astros. Elles rolavam
+serenamente, enormes e mudos, recobertos por espessas crostas de livros,
+d'onde surdia, aqui e alm, por alguma fenda, entre dois volumes mal
+juntos, um raiosinho de luz suffocada e anciada. E assim ascendi ao
+Paraiso. Decerto era o Paraiso--porque com meus olhos de mortal argila
+avistei o Ancio da Eternidade, aquelle que no tem Manh nem Tarde.
+N'uma claridade que d'elle irradiava mais clara que todas as claridades,
+entre fundas estantes d'ouro abarrotadas de codices, sentado em
+vetustissimos folios, com os flocos das infinitas barbas espalhados por
+sobre resmas de folhetos, brochuras, gazetas e catalogos--o Altissimo
+lia. A fronte super-divina que concebera o Mundo pousava sobre a mo
+super-forte que o Mundo crera--e o Creador lia e sorria. Ousei,
+arrepiado de sagrado horror, espreitar por cima do seu hombro
+coruscante. O livro era brochado, de tres francos... O Eterno lia
+Voltaire, n'uma edio barata, e sorria.
+
+Uma porta faiscou e rangeu, como se alguem penetrasse no Paraiso. Pensei
+que um Santo novo chegra da Terra. Era Jacintho, com o charuto em
+braza, um molho de cravos na lapella, sobraando tres livros amarellos
+que a Princeza de Carman lhe emprestra para lr!
+
+ * * * * *
+
+N'uma d'essas activas semanas, porm, a minha atteno subitamente se
+despegou d'este interessante Jacintho. Hospede do 202, conservava no 202
+a minha mala e a minha roupa: e, acostado bandeira do meu Principe,
+ainda occasionalmente comia do seu caldeiro sumptuoso. Mas a minha
+alma, a minha embrutecida alma, e o meu corpo, o meu embrutecido corpo,
+habitavam ento na rua do Helder, n.^o 16, quarto andar, porta
+esquerda.
+
+Descia eu uma tarde, n'uma leda paz de idas e sensaes, o Boulevard da
+Magdalena, quando avistei, deante da Estao dos Omnibus, rondando no
+asphalto, n'um passo lento e felino, uma creatura secca, muito morena,
+quasi tisnada, com dous fundos olhos taciturnos e tristes, e uma matta
+de cabellos amarellados, toda crespa e rebelde, sob o chapo velho de
+plumas negras. Parei, como colhido por um repuxo nas entranhas. A
+creatura passou--no seu magro rondar de gata negra, sobre um beiral de
+telhado, ao luar de Janeiro. Dous poos fundos no luzem mais negra e
+taciturnamente do que luziam os seus olhos taciturnos e negros. No
+recordo (Deus louvado!) como rocei o seu vestido de sda, lustroso e
+encebado nas pregas; nem como lhe rosnei uma spplica por entre os
+dentes que rangiam; nem como subimos ambos, morosamente e mais
+silenciosos que condemnnados, para um gabinete do Caf Durand, safado e
+mrno. Deante do espelho, a creatura, com a lentido d'um rito triste,
+tirou o chapo e a romeira salpicada de vidrilhos. A sda poida do
+corpete esgarava nos cotovellos agudos. E os seus cabellos eram
+immensos, d'uma dureza e espessura de juba brava, em dous tons
+amarellos, uns mais dourados, outros mais crestados, como a cdea de uma
+torta ao sahir quente do forno.
+
+Com um riso tremulo, agarrei os seus dedos compridos e frios:
+
+--E o nomesinho, hein?
+
+Ella sria, quasi grave:
+
+--Madame Colombe, 16, rua do Helder, quarto andar, porta esquerda.
+
+E eu (miseravel Z Fernandes!) tambem me senti muito srio, trespassado
+por uma emoo grave, como se nos envolvesse, n'aquella alcva de Caf,
+a magestade d'um Sacramento. porta, empurrada levemente, o creado
+avanou a face nedia. Ordenei uma lagosta, pato com pimentes, e
+Borgonha. E foi smente ao findarmos o pato que me ergui, amarfanhando
+convulsamente o guardanapo, e a tremer lhe beijei a bocca, todo a
+tremer, n'um beijo profundo e terrivel, em que deixei a alma, entre
+saliva e gsto de pimento! Depois, n'uma tipoia aberta, sob um bafo
+molle de leste e de trovoada, subimos a Avenida dos Campos-Elyseos. Em
+frente grade do 202 murmurei, para a deslumbrar com o meu luxo:--Mro
+alli, todo o anno!... E como ao mirar o Palacete, debruada, ella
+rora a matta fulva do pello crespo pela minha barba--berrei
+desesperadamente ao cocheiro; que galopasse para a rua do Helder, n.^o
+16, quarto andar, porta esquerda!
+
+Amei aquella creatura. Amei aquella creatura com Amor, com todos os
+Amores que esto no Amor, o Amor divino, o Amor humano, o Amor bestial,
+como Santo Antonino amava a Virgem, como Romeu amava Julietta, como um
+bode ama uma cabra. Era estupida, era triste. Eu deliciosamente apagava
+a minha alegria na cinza da sua tristeza; e com ineffavel gsto afundava
+a minha razo na densidade da sua estupidez. Durante sete furiosas
+semanas perdi a consciencia da minha personalidade de Z
+Fernandes--Fernandes de Noronha e Sande, de Guies! Ora se me affigurava
+ser um pedao de cra que se derretia, com horrenda delicia, n'um forno
+rubro e rugidor: ora me parecia ser uma faminta fogueira onde
+flammejava, estalava e se consumia um mlho de galhos seccos. D'esses
+dias de sublime sordidez s conservo a impresso d'uma alcva forrada de
+cretones sujos, d'uma bata de l cr de lilaz com sotaches negros, de
+vagas garrafas de cerveja no marmore d'um lavatorio, e d'um corpo
+tisnado que rangia e tinha cabellos no peito. E tambem me resta a
+sensao de incessantemente e com arrobado deleite me despojar,
+arremessar para um regao, que se cavava entre um ventre sumido e uns
+joelhos agudos, o meu relogio, os meus berloques, os meus anneis, os
+meus botes de punho de saphira, e as cento e noventa e sete libras em
+ouro que eu trouxera de Guies n'uma cinta de camura. Do solido,
+decoroso, bem fornecido Z Fernandes, s restava uma carcassa errando
+atravz d'um sonho, com as gambias molles e a baba a escorrer.
+
+Depois, uma tarde, trepando com a costumada gula a escada da rua do
+Helder, encontrei a porta fechada--e arrancado da hombreira aquelle
+carto de _Madame Colombe_ que eu lia sempre to devotamente e que era a
+sua taboleta... Tudo no meu ser tremeu como se o cho de Paris tremesse!
+Aquella era a porta do Mundo que ante mim se fechra! Para alm estavam
+as gentes, as cidades, a vida, Deus e Ella. E eu ficra ssinho,
+n'aquelle patamar do No-ser, fra da porta que se fechra, unico ser
+fra do Mundo! Rolei pelos degraus, com o fragor e a incoherencia d'uma
+pedra, at ao cubiculo da porteira e do seu homem que jogavam as cartas
+em ditosa pachorra, como se to pavoroso abalo no tivesse desmantelado
+o Universo!
+
+--Madame Colombe?
+
+A barbuda comadre recolheu lentamente a vaza:
+
+--Ja no mora... Abalou esta manh, para outra terra, com outra porca!
+
+Para outra terra! com outra porca!... Vasio, negramente vasio de todo o
+pensar, de todo o sentir, de todo o querer--boiei aos tombos, como um
+tonel vasio, na corrente aodada do Boulevard, at que encalhei n'um
+banco da Praa da Magdalena, onde tapei com as mos, a que no sentia a
+febre, os olhos a que no sentia o pranto! Tarde, muito tarde, quando j
+se cerravam com estrondo as cortinas de ferro das lojas, surdiu, d'entre
+todas estas confusas ruinas do meu ser, a eterna sobrevivente de todas
+as ruinas--a ideia de jantar. Penetrei no Durand, com os passos
+entorpecidos d'um resuscitado. E, n'uma recordao que m'escaldava a
+alma, encommendei a lagosta, o pato, o Borgonha! Mas ao alargar o
+collarinho, ensopado pelo ardor d'aquella tarde de Julho, entre a poeira
+da Magdalena, pensei com desconfrto:--Santissimo Nome de Deus! Que
+immensa sde me fez esta desgraa!... De manso acenei ao moo:--Antes
+do Borgonha, uma garrafa de Champagne, com muito glo, e um grande
+copo!... Creio que aquelle Champagne se engarrafra no Ceu onde corre
+perennemente a fresca fonte da Consolao, e que na garrafa bemdita que
+me coube penetrra, antes d'arrolhada, um jorro largo d'essa fonte
+inneffavel. Jesus! que transcendente regalo, o d'aquelle nobre copo,
+embaciado, nevado, a espumar, a picar, n'um brilho d'ouro! E depois,
+garrafa de Borgonha! E depois, garrafa de Cognac! E depois
+Hortel-Pimenta granitada em glo! E depois um desejo arquejante de
+espancar, com o meu rijo marmelleiro de Guies, a porca que fugira com
+outra porca! Dentro da tipoia fechada, que me transportou n'um galope ao
+202, no suffoquei este santo impulso, e com os meus punhos serranos
+atirei murros retumbantes contra as almofadas, onde _via_, furiosamente
+_via_ a matta immensa de pello amarello, em que a minha alma uma tarde
+se perdera, e tres mezes se debatera, e para sempre se emporcalhra!
+Quando o fiacre estacou no 202 ainda eu espancava to desesperadamente a
+besta ingrata, que, aos berros do cocheiro, dous moos accudiram e me
+sustiveram, recebendo pelos hombros, sobre as nucas servis, os restos
+canados da minha colera.
+
+Em cima, repelli a sollicitude do Grillo que tentava impr ao _si_ Z
+Fernandes, a Z Fernandes de Guies, a immensa indignidade d'um ch de
+macella! E estirado no leito de D. Galio, com as botas sobre o
+travesseiro, o chapo alto sobre os olhos, ri, n'um doloroso riso,
+d'este Mundo burlesco e sordido de Jacinthos e de Colombes! E de repente
+senti uma angustia horrenda. Era Ella! Era a Madame Colombe, que
+esfuzira da chamma da vela, e saltra sobre o meu leito, e desabotora
+o meu collete, e arrombra as minhas costellas, e toda ella, com as
+saias sujas, mergulhra dentro do meu peito, e abocra o meu corao, e
+chupava a sorvos lentos, como na rua do Helder, o sangue do meu corao!
+Ento, certo da Morte, ganindo pela tia Vicencia, pendi do leito para
+mergulhar na minha sepultura, que, atravs da nevoa final, eu distinguia
+sobre o tapete--redondinha, vidrada, de porcelana e com aza. E, sobre a
+minha sepultura, que to irreverentemente se assimilhava ao meu vaso,
+vomitei o Borgonha, vomitei o pato, vomitei a lagosta. Depois, n'um
+esforo ultra-humano, com um rugido, sentindo que, no smente toda a
+entranha, mas a alma se esvasiava toda, vomitei Madame Colombe! Recahi
+sobre o leito de D. Galio... Recarreguei o chapo sobre os olhos para
+no sentir os raios do sol. Era um sol novo, um sol espiritual, que se
+erguia sobre a minha vida. E adormeci, como uma creancinha docemente
+embalada n'um bero de verga pelo Anjo da Guarda.
+
+De manh, lavei a pelle n'um banho profundo, perfumado com todos os
+aromas do 202, desde folhas de limonete da India at essencia de jasmin
+de Frana: e lavei a alma com uma rica carta da Tia Vicencia, em letra
+farta, contando da nossa casa, e da linda promessa das vinhas, e da
+compota de ginja que nunca lhe sahra to fina, e da alegre fogueira do
+pateo em noite de S. Joo, e da menininha muito gorda e cabelluda que
+vira do ceu para a minha afilhada Joanninha. Depois, janella, bem
+limpo de alma e de corpo, n'uma quinzena de sedinha branca, tomando ch
+de Nap, respirando os rosaes do jardim revividos pela chuva da
+madrugada, considerei, em divertido pasmo, que, durante sete semanas, me
+emporcalhra, na rua do Helder, com um estardalho muito magro e muito
+tisnado! E conclui que padecera d'uma longa sezo, sezo da carne, sezo
+da imaginao, apanhada n'um charco de Paris--n'esses charcos que se
+formam atravs da Cidade com as aguas mortas, os limos, os lixos, os
+tortulhos e os vermes d'uma Civilisao que apodrece.
+
+ * * * * *
+
+Ento, curado, todo o meu espirito, como uma agulha para o Norte, se
+virou logo para o meu complicado Principe, que, nas derradeiras semanas
+da minha infeco sentimental, eu entrevira sempre descahido por cima de
+sophs, ou vagueando atravs da Bibliotheca entre os seus trinta mil
+volumes, com arrastados bocejos de inercia e de vacuidade. Eu, na minha
+pressa indigna, s lhe lanava um distrahido--que isso? Elle, no seu
+moroso desalento, s murmurava um scco-- calor!
+
+E, n'essa manh da minha libertao, ao penetrar antes d'almoo no seu
+quarto, no soph o encontrei enterrado, com o _Figaro_ aberto sobre a
+barriga, a Agenda cahida sobre o tapete, toda a face envolta em sombra,
+e os ps abandonados, n'uma soberana tristeza, ao pedicuro que lhe polia
+as unhas. Decerto o meu olhar reallumiado e repurificado, a brancura das
+minhas flanellas reproduzindo a quietao das minhas sensaes, e a
+segura harmonia em que todo o meu ser visivelmente se movia,
+impressionaram o meu Principe--a quem a melancolia nunca embotava a
+agudeza. Ergueu mollemente um brao molle:
+
+--Ento esse capricho?
+
+Derramei, sobre elle todo o fulgor d'um riso victorioso:
+
+--Morto! E, como o Snr. de Malbrouck, morto e bem enterrado. Jaz! Ou
+antes, rola! Com effeito deve andar agora rolando por dentro do cano do
+esgoto!
+
+Jacintho bocejou, murmurou:
+
+--Este Z Fernandes de Noronha e Sande!...
+
+E, no meu nome, no meu digno nome assim embrulhado n'um bocejo com
+desprendida ironia, se resumiu todo o interesse d'aquelle Principe pela
+suja tormenta em que se debatera o meu corao! Mas no me melindrou
+esse consummado egoismo... Claramente percebia eu que o meu Jacintho
+atravessava uma densa nevoa de tedio, to densa, e elle to afundado na
+sua molle densidade, que as glorias ou os tormentos d'um camarada no o
+commoviam, como muito remotas, intangiveis, separadas da sua
+sensibilidade por immensas camadas de algodo. Pobre Principe da
+Gran-Ventura, tombado para o soph de inercia, com os ps no regao do
+pedicuro! Em que lodoso fastio cahira, depois de renovar to bravamente
+todo o recheio mechanico e erudito do 202, na sua lucta contra a Fora e
+a Materia!--E esse fastio no o escondeu mais do seu velho Z Fernandes
+quando recomeou entre ns a communho de vida e de alma a que eu to
+torpemente me arrancra, uma tarde, deante da Estao dos Omnibus, no
+charco da Magdalena.
+
+No eram certamente confisses enunciadas. O elegante e reservado
+Jacintho no torcia os braos, gemendo--Oh vida maldita! Eram apenas
+expresses saciadas; um gesto de repellir com rancr a importunidade das
+coisas; por vezes uma immobilidade determinada, de protesto, no fundo
+d'um divan, d'onde se no desenterrava, como para um repouso que
+desejasse eterno; depois os bocejos, os cos bocejos com que sublinhava
+cada passo, continuado por fraqueza ou por dever inilludivel; e
+sobretudo aquelle murmurar que se tornra perenne e natural--Para
+que?--No vale a pena!--Que massada!...
+
+Uma noite no meu quarto, descalando as botas, consultei o Grillo:
+
+--Jacintho anda to mucho, to corcunda... Que ser, Grillo?
+
+O venerando preto declarou com uma certeza immensa:
+
+--S. Exc.^a soffre de fartura.
+
+Era fartura! O meu Principe sentia abafadamente a fartura de Paris:--e
+na Cidade, na symbolica Cidade, fra de cuja vida culta e forte (como
+elle outr'ora gritava, illuminado) o homem do seculo XIX nunca poderia
+saborear plenamente a delicia de viver, elle no encontrava agora
+frma de vida, espiritual ou social, que o interessasse, lhe valesse o
+esfro d'uma corrida curta n'uma tipoia facil. Pobre Jacintho! Um
+jornal velho, setenta vezes relido desde a Chronica at aos Annuncios,
+com a tinta delida, as dobras rodas, no enfastiaria mais o Solitario,
+que s possuisse na sua Solido esse alimento intellectual, do que o
+Parisianismo enfastiava o meu doce camarada! Se eu n'esse vero
+capciosamente o arrastava a um Caf-Concerto, ou ao festivo Pavilho
+d'Armenonville, o meu bom Jacintho, collado pesadamente cadeira com um
+maravilhoso ramo de orchideas na casaca, as finas mos abatidas sobre o
+casto da bengala, conservava toda a noite uma gravidade to estafada,
+que eu, compadecido, me erguia, o libertava, gozando a sua pressa em
+abalar, a sua fuga d'ave solta... Raramente (e ento com vehemente
+arranque como quem salta um fosso) descia a um dos seus Clubs, ao fundo
+dos Campos-Elyseos. No se occupara mais das suas Sociedades e
+Companhias, nem dos _Telephones de Constantinopla_, nem das _Religies
+Esotericas_, nem do _Bazar Espiritualista_, cujas cartas fechadas se
+amontoavam sobre a mesa d'ebano, d'onde o Grillo as varria tristemente
+como o lixo d'uma vida finda. Tambem lentamente se despegava de todas as
+suas convivencias. As paginas da Agenda cr de rosa murcha andavam
+desafogadas e brancas. E se ainda cedia a um passeio de Mail-coach, ou a
+um convite para algum Castello amigo dos arredores de Paris, era to
+arrastadamente, com um esforo to saturado ao enfiar o paletot leve,
+que me lembrava sempre um homem, depois d'um gordo jantar de provincia,
+a estalar, que, por pollidez ou em obediencia a um dogma, devesse ainda
+comer uma lampra de ovos!
+
+Jazer, jazer em casa, na segurana das portas bem cerradas e bem
+defendidas contra toda a intruso do mundo, seria uma doura para o meu
+Principe se o seu proprio 202, com todo aquelle tremendo recheio de
+Civilisao, no lhe dsse uma sensao dolorosa de abafamento, de
+atulhamento! Julho escaldava: e os brocados, as alcatifas, tantos moveis
+rolios e ffos, todos os seus metaes e todos os seus livros, to
+espessamente o opprimiam, que escancarava sem cessar as janellas para
+prolongar o espao, a claridade, a frescura. Mas era ento a poeira,
+suja e acre, rolada em bafos mornos, que o enfurecia:
+
+--Oh, este p da Cidade!
+
+--Mas, oh Jacintho, por que no vamos para Fontainebleau, ou para
+Montmorency, ou...
+
+--P'ra o campo? O que! P'ra o campo?!
+
+E na sua face enrugada, atravs d'este berro, lampejava sempre tanta
+indignao, que eu curvava os hombros, humilde, no arrependimento de ter
+affrontosamente ultrajado o Principe que tanto amava. Desventurado
+Principe! Com o seu dourado cigarro d'Yaka a fumegar, errava ento pelas
+salas, lenta e murchamente, como quem vaga em terra alheia sem affeies
+e sem occupaes. Esses desaffeioados e desoccupados passos
+monotonamente o traziam ao seu centro, ao gabinete verde, Bibliotheca
+d'ebano, onde accumulara Civilisao nas maximas propores para gozar
+nas maximas propores a delicia de viver. Espalhava em trno um olhar
+farto. Nenhuma curiosidade ou interesse lhe sollicitavam as mos,
+enterradas nas algibeiras das pantalonas de sda, n'uma inercia de
+derrota. Annulado, bocejava com descoroada molleza. E nada mais
+instructivo e doloroso do que este supremo homem do seculo XIX, no meio
+de todos os apparelhos reforadores dos seus orgos, e de todos os fios
+que disciplinavam ao seu servio as Foras Universaes, e dos seus trinta
+mil volumes repletos do saber dos seculos--estacando, com as mos
+derrotadas no fundo das algibeiras, e exprimindo, na face e na indeciso
+molle d'um bocejo, o embarao de viver!
+
+
+
+
+VI
+
+
+Todas as tardes, cultivando uma d'essas intimidades que entre tudo o que
+cana jmais canam, Jacintho, s quatro horas, com regularidade devota,
+visitava Madame d'Oriol:--por que essa flr de Parisianismo permanecera
+em Paris, mesmo depois do Grand-Prix, a desbotar na calma e no cisco da
+Cidade. N'uma d'essas tardes, porm, o Telephone, anciosamente repicado,
+avisou Jacintho de que a sua dce amiga jantava em Enghien com os
+Trves. (Esses senhores gozavam o seu vero beira do lago, n'uma casa
+toda branca e vestida de rosinhas brancas que pertencia a Ephrain).
+
+Era um domingo silencioso, ennevoado e macio, convidando s
+voluptuosidades da melancolia. E eu (no interesse da minha alma) suggeri
+a Jacintho que subissemos Basilica do _Sacr-Coeur_, em construco
+nos altos de Montmartre.
+
+-- uma secca, Z Fernandes...
+
+--Com mil demonios! Eu nunca vi a Basilica...
+
+--Bem, bem! Vamos Basilica, homem fatal de Noronha e Sande!
+
+E por fim logo que comeamos a penetrar, para alm de S. Vicente de
+Paula, em bairros estreitos e ingremes, d'uma quietao de provincia,
+com muros velhos fechando quintalejos rusticos, mulheres despenteadas
+cozendo soleira das portas, carriolas desatreladas descanando diante
+das tascas, gallinhas soltas picando o lixo, cueiros molhados seccando
+em canas--o meu fastidioso camarada sorriu quella liberdade e singeleza
+das cousas.
+
+A vittoria parou em frente larga rua de escadarias que trepa, cortando
+viellasinhas campestres, at esplanada, onde, envolta em andaimes, se
+ergue a Basilica immensa. Em cada patamar barracas d'arraial devoto,
+forradas de panninho vermelho, transbordavam de Imagens, Bentinhos,
+Crucifixos, Coraes de Jesus bordados a retroz, claros molhos de
+Rosarios. Pelos cantos, velhas agachadas resmungavam a Av-Maria. Dois
+padres desciam, tomando risonhamente uma pitada. Um sino lento tilintava
+na doura cinzenta da tarde. E Jacintho murmurou, com agrado:
+
+-- curioso!
+
+Mas a Basilica em cima no nos interessou, abafada em tapumes e
+andaimes, toda branca e scca, de pedra muito nova, ainda sem alma. E
+Jacintho, por um impulso bem Jacinthico, caminhou gulosamente para a
+borda do terrao, a contemplar Paris. Sob o ceu cinzento, na planicie
+cinzenta, a Cidade jazia, toda cinzenta, como uma vasta e grossa camada
+de calia e telha. E, na sua immobilidade e na sua mudez, algum rolo de
+fumo, mais tenue e ralo que o fumear d'um escombro mal apagado, era todo
+o vestigio visivel da sua vida magnifica.
+
+Ento chasqueei risonhamente o meu Principe. Ahi estava pois a Cidade,
+augusta creao da Humanidade! Eil-a ahi, bello Jacintho! Sobre a crosta
+cinzenta da Terra--uma camada de calia, apenas mais cinzenta! No
+emtanto ainda momentos antes a deixaramos prodigiosamente viva, cheia
+d'um povo forte, com todos os seus poderosos orgos funccionando,
+abarrotada de riqueza, resplandecente de sapiencia, na triumphal
+plenitude do seu orgulho, como Rainha do Mundo coroada de Graa. E agora
+eu e o bello Jacintho trepavamos a uma collina, espreitavamos,
+escutavamos--e de toda a estridente e radiante Civilisao da Cidade no
+percebiamos nem um rumor nem um lampejo! E o 202, o soberbo 202, com os
+seus arames, os seus apparelhos, a pompa da sua Mechanica, os seus
+trinta mil livros? Sumido, esvado na confuso de telha e cinza! Para
+este esvaecimento pois da obra humana, mal ella se comtempla de cem
+metros de altura, arqueja o obreiro humano em to angustioso esforo?
+Hein, Jacintho?... Onde esto os teus Armazens servidos por tres mil
+caixeiros? E os Bancos em que retine o ouro universal? E as Bibliothecas
+atulhadas com o saber dos seculos? Tudo se fundiu n'uma nodoa parda que
+suja a Terra. Aos olhos piscos de um Z Fernandes, logo que elle suba,
+fumando o seu cigarro, a uma arredada collina--a sublime edificao dos
+Tempos no mais que um silencioso monturo da espessura e da cr do p
+final. O que ser ento aos olhos de Deus!
+
+E ante estes clamores, lanados com affavel malicia para espicaar o meu
+Principe, elle murmurou, pensativo:
+
+--Sim, talvez tudo uma illuso... E a Cidade a maior illuso!
+
+To facilmente victorioso redobrei de facundia. Certamente, meu
+Principe, uma Illuso! E a mais amarga, por que o Homem pensa ter na
+Cidade a base de toda a sua grandeza e s n'ella tem a fonte de toda a
+sua miseria. V, Jacintho! Na Cidade perdeu elle a fora e belleza
+harmoniosa do corpo, e se tornou esse ser resequido e escanifrado ou
+obeso e afogado em unto, de ossos molles como trapos, de nervos tremulos
+como arames, com cangalhas, com chins, com dentaduras de chumbo, sem
+sangue, sem febra, sem vio, torto, corcunda--esse ser em que Deus,
+espantado, mal pde reconhecer o seu esbelto e rijo e nobre Ado! Na
+Cidade findou a sua liberdade moral: cada manh ella lhe impe uma
+necessidade, e cada necessidade o arremessa para uma dependencia: pobre
+e subalterno, a sua vida um constante sollicitar, adular, vergar,
+rastejar, aturar; rico e superior como um Jacintho, a Sociedade logo o
+enreda em tradies, preceitos, etiquetas, ceremonias, praxes, ritos,
+servios mais disciplinares que os d'um carcere ou d'um quartel... A sua
+tranquillidade (bem to alto que Deus com elle recompensa os Santos)
+onde est, meu Jacintho? Sumida para sempre, n'essa batalha desesperada
+pelo po, ou pela fama, ou pelo poder, ou pelo gzo, ou pela fugidia
+rodella d'ouro! Alegria como a haver na Cidade para esses milhes de
+seres que tumultuam na arquejante occupao de _desejar_--e que, nunca
+fartando o desejo, incessantemente padecem de desilluso, desesperana
+ou derrota? Os sentimentos mais genuinamente humanos logo na Cidade se
+deshumanisam! V, meu Jacintho! So como luzes que o aspero vento do
+viver social no deixa arder com serenidade e limpidez; e aqui abala e
+faz tremer; e alm brutamente apaga; e adiante obriga a flammejar com
+desnaturada violencia. As amizades nunca passam d'allianas que o
+interesse, na hora inquieta da defeza ou na hora sofrega do assalto, ata
+apressadamente com um cordel apressado, e que estalam ao menor embate da
+rivalidade ou do orgulho. E o Amor, na Cidade, meu gentil Jacintho?
+Considera esses vastos armazens com espelhos, onde a nobre carne d'Eva
+se vende, tarifada ao arratel, como a de vacca! Contempla esse velho
+Deus do Hymeneu, que circula trazendo em vez do ondeante facho da Paixo
+a apertada carteira do Dote! Espreita essa turba que foge dos largos
+caminhos assoalhados em que os Faunos amam as Nymphas na boa lei
+natural, e busca tristemente os recantos lobregos de Sodoma ou de
+Lesbos!... Mas o que a Cidade mais deteriora no homem a Intelligencia,
+por que ou lh'a arregimenta dentro da banalidade ou lh'a empurra para a
+extravagancia. N'esta densa e pairante camada d'Idas e Formulas que
+constitue a atmosphera mental das Cidades, o homem que a respira, n'ella
+envolto, s pensa todos os pensamentos j pensados, s exprime todas as
+expresses j exprimidas:--ou ento, para se destacar na pardacente e
+chata Rotina e trepar ao fragil andaime da gloriola, inventa n'um
+gemente esforo, inchando o craneo, uma novidade disforme que espante e
+que detenha a multido como um mostrengo n'uma Feira. Todos,
+intelectualmente, so carneiros, trilhando o mesmo trilho, balando o
+mesmo balido, com o focinho pendido para a poeira onde pisam, em fila,
+as pgadas pisadas;--e alguns so macacos, saltando no topo de mastros
+vistosos, com esgares e cabriolas. Assim, meu Jacintho, na Cidade,
+n'esta creao to anti-natural onde o solo de pau e feltro e
+alcatro, e o carvo tapa o ceu, e a gente vive acamada nos predios como
+o panninho nas lojas, e a claridade vem pelos canos, e as mentiras se
+murmuram atravs d'arames--o homem apparece como uma creatura
+anti-humana, sem belleza, sem fora, sem liberdade, sem riso, sem
+sentimento, e trazendo em si um espirito que passivo como um escravo
+ou impudente como um histrio... E aqui tem o bello Jacintho o que a
+bella Cidade!
+
+E ante estas encanecidas e veneraveis invectivas, retumbadas
+pontualmente por todos os Moralistas bucolicos, desde Hesiodo, atravez
+dos seculos--o meu Principe vergou a nuca docil, como se ellas
+brotassem, inesperadas e frescas, d'uma Revelao superior, n'aquelles
+cimos de Montmartre:
+
+--Sim, com effeito, a Cidade... talvez uma illuso perversa!
+
+Insisti logo, com abundancia, puchando os punhos, saboreando o meu facil
+philosophar. E se ao menos essa illuso da Cidade tornasse feliz a
+totalidade dos sres, que a manteem... Mas no! S uma estreita e
+reluzente casta goza na Cidade os gozos especiaes que ella cria. O
+resto, a escura, immensa plebe, s n'ella soffre, e com soffrimentos
+especiaes que s n'ella existem! D'este terrao, junto a esta rica
+Basilica consagrada ao Corao que amou o Pobre e por elle sangrou, bem
+avistamos ns o lobrego casario onde a plebe se curva sob esse antigo
+opprobrio de que nem Religies, nem Philosophias, nem Moraes, nem a sua
+propria fora brutal a podero jmais libertar! Ahi jaz, espalhada pela
+Cidade, como esterco vil que fecunda a Cidade. Os seculos rolam; e
+sempre immutaveis farrapos lhe cobrem o corpo, e sempre debaixo d'elles,
+atravs do longo dia, os homens labutaro e as mulheres choraro. E com
+este labor e este pranto dos pobres, meu Principe, se edifica a
+abundancia da Cidade! Eil-a agora coberta de moradas em que elles se no
+abrigam; armazenada de estofos, com que elles se no agasalham;
+abarrotada de alimentos, com que elles se no saciam! Para elles s a
+neve, quando a neve ce, e entorpece e sepulta as creancinhas aninhadas
+pelos bancos das praas ou sob os arcos das pontes de Paris... A neve
+ce, muda e branca na treva: as creancinhas gelam nos seus trapos: e a
+policia, em torno, ronda attenta para que no seja perturbado o tpido
+somno d'aquelles que amam a neve, para patinar nos lagos do Bosque de
+Bolonha com pellias de tres mil francos. Mas qu, meu Jacintho! a tua
+Civilisao reclama insaciavelmente regalos e pompas, que s obter,
+n'esta amarga desharmonia social, se o Capital dr ao Trabalho, por cada
+arquejante esfro, uma migalha ratinhada. Irremediavel , pois, que
+incessantemente a plebe sirva, a plebe pne! A sua esfalfada miseria a
+condio do esplendor sereno da Cidade. Se nas suas tigellas fumegasse a
+justa rao de caldo--no poderia apparecer nas baixellas de prata a
+luxuosa poro de _foie-gras_ e tubaras que so o orgulho da
+Civilisao. Ha andrajos em trapeiras--para que as bellas Madamas
+d'Oriol, resplandecentes de sdas e rendas, subam, em doce ondulao, a
+escadaria da Opera. Ha mos regeladas que se estendem, e beios sumidos
+que agradecem o dom magnanimo d'um _sou_--para que os Ephrains tenham
+dez milhes no Banco de Frana, se aqueam chamma rica da lenha
+aromatica, e surtam de collares de saphiras as suas concubinas, netas
+dos Duques d'Athenas. E um povo chora de fome, e da fome dos seus
+pequeninos--para que os Jacinthos, em janeiro, debiquem, bocejando,
+sobre pratos de Saxe, morangos gelados em Champagne e avivados d'um fio
+d'ether!
+
+--E eu comi dos teus morangos, Jacintho! Miseraveis, tu e eu!
+
+Elle murmurou, desolado:
+
+-- horrivel, comemos d'esses morangos... E talvez por uma illuso!
+
+Pensativamente deixou a borda do terrao, como se a presena da Cidade,
+estendida na planicie, fosse escandalosa. E caminhamos devagar, sob a
+molleza cinzenta da tarde, philosophando--considerando que para esta
+iniquidade no havia cura humana, trazida pelo esforo humano. Ah, os
+Ephrains, os Trves, os vorazes e sombrios tubares do mar humano, s
+abandonaro ou affrouxaro a explorao das Plebes, se uma influencia
+celeste, por milagre novo, mais alto que os milagres velhos, lhes
+converter as almas! O burguez triumpha, muito forte, todo endurecido no
+peccado--e contra elle so impotentes os prantos dos Humanitarios, os
+raciocinios dos Logicos, as bombas dos Anarchistas. Para amollecer to
+duro granito s uma doura divina. Eis pois esperana da terra novamente
+posta n'um Messias!... Um decerto desceu outrora dos grandes Ceus; e,
+para mostrar bem que mandado trazia, penetrou mansamente no mundo pela
+porta d'um curral. Mas a sua passagem entre os homens foi to curta! Um
+meigo sermo n'uma montanha, ao fim d'uma tarde meiga; uma reprehenso
+moderada aos Phariseus que ento redigiam o _Boulevard_; algumas
+vergastadas nos Ephrains vendilhes; e logo, atravs da porta da morte,
+a fuga radiosa para o Paraiso! Esse adoravel filho de Deus teve
+demasiada pressa em recolher a casa de seu Pae! E os homens a quem elle
+incumbira a continuao da sua obra, envolvidos logo pelas influencias
+dos Ephrains, dos Trves, da gente do _Boulevard_, bem depressa
+esqueceram a lio da Montanha e do lago de Tiberiade--e eis que por seu
+turno revestem a purpura, e so Bispos, e so Papas, e se alliam
+oppresso, e reinam com ella, e edificam a durao do seu Reino sobre a
+miseria dos sem-po e dos sem-lar! Assim tem de ser recomeada a obra da
+Redempo. Jesus, ou Guatama, ou Christna, ou outro d'esses filhos que
+Deus por vezes escolhe no seio d'uma Virgem, nos quietos vergeis da
+Asia, dever novamente descer terra de servido. Vir elle, o
+desejado? Porventura j algum grave rei d'Oriente despertou, e olhou a
+estrella, e tomou a myrrha nas suas mos reaes, e montou pensativamente
+sobre o seu dromedario? J por esses arredores da dura Cidade, de noute,
+emquanto Caiphaz e Magdalena ceam lagosta no Paillard, andou um Anjo,
+attento, n'um vo lento, escolhendo um curral? J de longe, sem moo que
+os tanja, na gostosa pressa d'um divino encontro, vem trotando a vacca,
+trotando o burrinho?
+
+--Tu sabes, Jacintho?
+
+No, Jacintho no sabia--e queria accender o charuto. Forneci um
+phosphoro ao meu Principe. Ainda rondamos no terrao, espalhando pelo ar
+outras idas solidas que no ar se desfaziam. Depois penetravamos na
+Basilica--quando um Sachristo nedio, de barrete de velludo, cerrou
+fortemente a porta, e um Padre passou, enterrando na algibeira, com um
+canado gesto final e como para sempre, o seu velho Breviario.
+
+--Estou com uma sde, Jacintho... Foi esta tremenda Philosophia!
+
+Descemos a escadaria, armada em arraial devoto. O meu pensativo camarada
+comprou uma imagem da Basilica. E saltavamos para a vittoria, quando
+alguem gritou rijamente, n'uma surpreza:
+
+--Eh Jacintho!
+
+O meu Principe abriu os braos, tambem espantado:
+
+--Eh Mauricio!
+
+E, n'um alvoroo, atravessou a rua, para um caf, onde, sob o toldo de
+riscadinho, um robusto homem, de barba em bico, remexia o seu absintho,
+com o chapo de palha descahido na nuca, a quinzena solta sobre a camisa
+de sda, sem gravata, como se descanasse n'um banco, entre as sombras
+do seu jardim.
+
+E ambos, apertando as mos, se admiravam d'aquelle encontro, n'um
+domingo de vero, sobre as alturas de Montmartre.
+
+--Oh! eu estou aqui no meu bairro! exclamava alegremente Mauricio. Em
+familia, em chinellos... Ha tres mezes que subi para estes cimos da
+Verdade... Mas tu na Santa Colina, homem profano da planicie e das ruas
+d'Israel!
+
+O meu Principe mostrou o seu Z Fernandes:
+
+--Com este amigo, em peregrinao Basilica... O meu amigo Fernandes
+Lorena... Mauricio de Mayolle, velho camarada.
+
+Mr. de Mayolle (que, pela face larga e nariz nobremente grosso, lembrava
+Francisco de Valois, Rei de Frana) ergueu o seu chapeu de palha. E
+empurrava uma cadeira, insistia que nos accommodassemos para um absintho
+ou para um bock.
+
+--Toma um bock, Z Fernandes! lembrou Jacintho. Tu estavas a ganir com
+sde!
+
+Corri lentamente a lingua sobre os beios, mais scos que pergaminhos:
+
+--Estou a guardar esta sdesinha para logo, para o jantar, com um
+vinhosinho gelado!
+
+Mauricio saudou, com silenciosa admirao, esta minha avisada malicia. E
+immediatamente, para o meu Principe:
+
+--Ha tres annos que te no vejo, Jacintho... Como tem sido possivel,
+n'este Paris que uma aldeola e que tu atravancas?
+
+--A vida, Mauricio, a espalhada vida... Com effeito! Ha tres annos,
+desde a casa dos Lamotte-Orcel. Tu ainda visitas esse santuario?
+
+Mauricio atirou um gesto desdenhoso e largo, que sacudia um mundo:
+
+--Oh! Ha mais d'um anno que me separei d'essa bicharia heretica... Uma
+turba indisciplinada, meu Jacintho! Nenhuma fixidez, um dilletantismo
+estonteado, carencia completa e comica de toda a base experimental...
+Quando tu ias aos Lamotte-Orcel, e Parola do 37, e _Cerveja ideal_,
+o que reinava?...
+
+Jacintho catou lentamente as suas recordaes por entre os pllos do
+bigode:
+
+--Eu sei!... Reinava Wagner e a Mithologia Eddica, e o Raganarock, e as
+Nornas... Muito Pre-Raphaelismo tambem, e Montagna, e Fra-Angelico... Em
+moral, o Renanismo.
+
+Mauricio sacudia os hombros. Oh, tudo isso pertencia a um passado
+archaico, quasi lacustre! Quando Madame de Lamotte-Orcel remobilra a
+sala com velludos Morris, grossas alcachofras sobre tons d'aafro, j o
+Renanismo passra, to esquecido como o Cartesianismo...
+
+--Tu ainda s do tempo do culto do _Eu_?
+
+O meu Principe suspirou risonhamente:
+
+--Ainda o cultivei.
+
+--Pois bem! Logo depois foi o Hartmanismo, o Inconsciente. Depois o
+Nietzismo, o Feudalismo espiritual... Depois grassou o Tolstosmo, um
+furor immenso de renunciamento neo-cenobitico. Ainda me lembro d'um
+jantar em que appareceu um mostrengo d'um slavo, de guedelha sordida,
+que atirava olhos medonhos para o decote da pobre condessa d'Arche, e
+que grunhia com o dedo espetado:--Busquemos a luz, muito por baixo, no
+p da terra!--E sobremeza bebemos delicia da humildade e do
+trabalho servil, com aquelle Champagne Marceaux granitado que a Mathilde
+dava nos grandes dias em copos da frma do San-Gral! Depois veio
+Emersonismo... Mas a praga cruel foi Ibsenismo! Emfim, meu filho, uma
+Babel de Ethicas e Estheticas. Paris parecia demente. J havia uns
+desgarrados que tendiam para o Luciferismo. E amiguinhas nossas,
+coitadas, iam descambando para o Phallismo, uma moxinifada
+mystico-brejeira, prgada por aquelle pobre La Carte que depois se fez
+Monge Branco, e que anda no Deserto... Um horror! E uma tarde, de
+repente, toda esta massa se precipita com ancia para o Ruskinismo!
+
+Eu, agarrado bengala, bem fincada no cho, sentia como um vendaval que
+redemoinhava, me torcia o craneo! E at Jacintho balbuciou, esgazeado:
+
+--O Ruskinismo?
+
+--Sim, o velho Ruskin,... John Ruskin!
+
+O meu ditoso Principe comprehendeu:
+
+--Ah, Ruskin!... _As sete lampadas da Architectura_, _A Cora de
+Oliveira Brava_... o culto da Belleza.
+
+--Sim! O culto da Belleza, confirmou Mauricio. Mas a esse tempo eu,
+enojado, j descera de todas essas nuvens vs... Pisava um cho mais
+seguro, mais fertil.
+
+Deu um sorvo lento ao absintho, cerrando as palpebras. Jacintho
+esperava, com o seu fino nariz dilatado, como para respirar a Flr de
+Novidade que ia desabrochar:
+
+--E ento? ento?...
+
+Mas o outro murmurou, dispersamente, por entre reticencias em que se
+velava:
+
+--Vim para Montmartre... Tenho aqui um amigo, um homem de genio, que
+percorreu toda a India... Viveu com os Toddas, esteve nos mosteiros de
+Garma-Khian e de Dashi-Lumbo, e estudou com Gegen-Chutu no retiro santo
+de Urga... Gegen-Chutu foi a decima-sexta encarnao de Guatama, e era
+portanto um Boddi-sattva... Trabalhamos, procuramos... No so vises.
+Mas factos, experiencias bem antigas, que vem talvez desde os tempos de
+Christna...
+
+Atravs d'estes nomes, que exhalavam um perfume triste de vetustos
+ritos, arredra a cadeira. E de p, deixando cair sobre a mesa,
+distrahidamente, para pagar o absintho, moedas de prata e moedas de
+cobre, murmurava com os olhos descanados em Jacintho, mas perdidos
+n'outra viso:
+
+--Por fim tudo se reduz ao supremo desenvolvimento da Vontade dentro da
+suprema pureza da Vida. toda a sciencia e fora dos grandes mestres
+Hindus... Mas a pureza absoluta da vida, eis a lucta, eis o obstaculo!
+No basta mesmo o Deserto, nem o bosque do mais velho templo no alto
+Thibet... Ainda assim, meu Jacintho, j obtivemos resultados bem
+extranhos. Sabes as experiencias de Tyndall, com as chammas
+sensitivas... O pobre chimico, para demonstrar as vibraes do som,
+tocou quasi s portas da verdade isoterica. Mas qu! homem de sciencia,
+portanto homem d'estupidez, ficou quem, entre as suas placas e as suas
+retortas! Ns fmos alm. Verificmos as _ondulaes da Vontade_! Deante
+de ns, pela expanso da energia do meu companheiro, e em cadencia com o
+seu mandado, uma chamma, a tres metros, ondulou, rastejou, despediu
+linguas ardentes, lambeu uma alta parede, rugiu furiosa e negra,
+resplandeceu direita e silenciosa, e bruscamente abatida em cinza
+morreu!
+
+E o extranho homem, com o chapeu para a nuca, ficou immovel, de braos
+abertos e os olhares esgazeados, como no renovado assombro e no transe
+d'aquelle prodigio. Depois, recahindo no seu modo facil e sereno,
+accendendo de vagar um cigarro:
+
+--Uma d'estas manhs, Jacintho, appareo no 202, para almoar comtigo, e
+levo o meu amigo. Elle s come arrz, uma pouca de salada, e fructa. E
+conversamos... Tu tinhas um exemplar do _Sepher-Zerijah_ e outro do
+_Targum d'Onkelus_. Preciso folhear esses livros.
+
+Apertou a mo do meu Principe, saudou este assombrado Z Fernandes, e
+serenamente seguiu pela quieta rua, com o chapeu de palha para a nuca,
+as mos enterradas nas algibeiras, como um homem natural entre cousas
+naturaes.
+
+--Oh Jacintho! Quem este bruxo? Conta!... Quem elle, santissimo nome
+de Deus?
+
+Recostado na vittoria, ageitando o vinco das calas, o meu Principe
+contou, concisamente. Era um nobre e leal rapaz, muito rico, muito
+intelligente, da antiga casa soberana de Mayolle, descendente dos Duques
+de Septimania... E murmurou, atravs do costumado bocejo:
+
+--O desenvolvimento supremo da vontade!... Theosophia, Buddhismo
+isoterico... Aspiraes, decepes... J experimentei... Uma massada!
+
+Atravessamos, callados, o rumr de Paris, sob a molleza abafada do
+crepusculo de vero, para jantar no Bosque, no Pavilho d'Armenonville,
+onde os Tziganes, avistando Jacintho, tocaram o _Hymno da Carta_ com
+paixo, com langor, n'uma cadencia de _czarda_ dolorosa e aspera.
+
+E eu, desdobrando regaladamente o guardanapo:
+
+--Pois venha agora para a minha rica sde esse vinhosinho gelado!
+Grandemente o mereo, caramba, que superiormente philosophei!... E creio
+que estabeleci definitivamente no espirito do Snr. D. Jacintho o salutar
+horror da cidade!
+
+O meu Principe percorria, catando o bigode, a Lista-dos-Vinhos, em
+quanto o Copeiro, esperava com pensativa reverencia:
+
+--Mande gelar duas garrafas de champagne S.^t Marceaux... Mas antes, um
+Barsac velho, apenas refrescado... Agoa de Evian... No, de Bussang!
+Bem, d'Evian e de Bussang! E, para comear, um bock.
+
+Depois, bocejando, desabotoando lentamente a sobrecasaca cinzenta:
+
+--Pois estou com vontade de construir uma casa nos cimos de Montmartre,
+com um miradouro no alto, todo de vidro e ferro, para descanar de tarde
+e dominar a Cidade...
+
+
+
+
+VII
+
+
+Julho findra com uma chuva refrescante e consoladora:--e eu pensava em
+realisar finalmente a minha romagem s cidades da Europa, sempre
+retardada, atravs da primavera, pelas surprezas do Mundo e da Carne.
+Mas, de repente, Jacintho comeou a rogar e a reclamar que o seu Z
+Fernandes o acompanhasse, todas as tardes, a casa de Madame d'Oriol! E
+eu comprehendi que o meu Principe ( maneira do divino Achilles, que,
+sob a tenda, e junto da branca, insipida e docil Briseis, nunca
+dispensava Patoclo) desejava ter, no retiro do Amor, a presena, o
+confrto e o soccorro da Amizade. Pobre Jacintho! Logo pela manh
+combinava pelo telephone com Madame d'Oriol essa hora de quietao e
+doura. E assim encontravamos sempre a superfina Dama prevenida e
+solitaria n'aquella sala da rua de Lisbonne, onde Jacintho e eu mal
+cabiamos, suffocavamos na confuso, entre os cestos de flres, e os
+ouros rocalhados, e os monstros do Japo, e a galante fragilidade dos
+Saxes, e as pelles de feras estiradas aos ps de sophs adormecedores, e
+os biombos de Aubusson formando alcvas favoraveis e languidas...
+Aninhada n'uma cadeira de bamb lacada de branco, entre almofadas
+aromatisadas de verbena da India, com um romance pousado no regao, ella
+esperava o seu amigo, n'uma certa indolencia passiva e mansa que me
+lembrava sempre o Oriente e um Harem. Mas, pelas frescas sedinhas
+Pompadour, parecia tambem uma marquezinha de Versalhes canada do grande
+seculo; ou ento, com brocados sombrios e largos cintos cravejados, era
+como uma veneziana, preparada para um Doge. A minha intruso, na
+intimidade d'aquellas tardes, no a contrariava--antes lhe trazia um
+vassallo novo, com dous olhos novos para a contemplar. Eu era j o seu
+_cher Fernandez_!
+
+E apenas descerrava os labios avivados de vermelho, semelhantes a uma
+ferida fresca, e comeava a chalrar--logo nos envolvia o burburinho e a
+murmurao de Paris. Ella s sabia chalrar sobre a sua pessoa que era o
+resumo da sua Classe, e sobre a sua existencia que era o resumo do seu
+Paris:--e a sua existencia, desde casada, consistira em ornar com
+suprema sciencia o seu lindo corpo; entrar com perfeio n'uma sala e
+irradiar; remexer em estofos e conferenciar pensativamente com o grande
+costureiro; rolar pelo Bois pousada na sua vittoria como uma imagem de
+cra; decotar e branquear o collo; debicar uma perna de gallinhola em
+mezas de luxo; fender turbas ricas em bailes espessos; adormecer com a
+vaidade esfalfada; percorrer de manh, tomando chocolate, os Echos e
+as Festas do _Figaro_; e de vez em quando murmurar para o marido--Ah,
+s tu?... Alm d'isso, ao lusco-fusco, n'um soph, alguns certos
+suspiros, entre os braos d'alguem a quem era constante. Ao meu
+Principe, n'esse anno, pertencia o soph. E todos estes deveres de
+Cidade e de Casta os cumpria sorrindo. Tanto sorrira, desde casada, que
+j duas prgas lhe vincavam os cantos dos beios, indelevelmente. Mas
+nem na alma, nem na pelle, mostrava outras maculas de fadiga. A sua
+Agenda de Visitas continha mil e tresentos nomes, todos do Nobiliario.
+Atravs, porm, desta fulgurante sociabilidade arranjra no cerebro
+(onde de certo penetrra o p d'arroz que desde o collegio acamava na
+testa) algumas Idas Geraes. Em Politica era pelos Principes; e todos os
+outros horrores, a Republica, o Socialismo, a Democracia que se no
+lava, os sacudia risonhamente, com um bater de leque. Na Semana Santa
+juntava s rendas do chapeu a Cora amarga de espinhos--por serem esses,
+para a gente bem-nascida, dias de penitencia e dr. E, deante de todo o
+Livro ou de todo o Quadro, sentia a emoo e formulava finamente o
+juizo, que no seu Mundo, e n'essa Semana, fsse elegante formular e
+sentir. Tinha trinta annos. Nunca se embarara nos tormentos d'uma
+paixo. Marcava, com rigida regularidade, todas as suas despezas n'um
+Livro de Contas encadernado em pellucia verde-mar. A sua religio intma
+(e mais genuina do que a outra, que a levava todos os domingos missa
+de S. Philippe du Roule) era a Ordem. No inverno, logo que na amavel
+cidade comeavam a morrer de frio, debaixo das pontes, creancinhas sem
+abrigo--ella preparava com commovido cuidado os seus vestidos de
+patinagem. E preparava tambem os de Caridade--porque era boa, e
+concorria para Bazares, Concertos e Tombolas, quando fossem patrocinados
+pelas Duquezas do seu rancho. Depois, na primavera, muito
+methodicamente, regateando, vendia a uma adela os vestidos e as capas de
+inverno. Paris admirava n'ella uma suprema flr de Parisianismo.
+
+Pois respirando esta macia e fina flr passamos ns as tardes d'esse
+julho em quanto as outras flres pendiam e murchavam na calma e no p.
+Mas, na intimidade do seu perfume, Jacintho no parecia encontrar esse
+contentamento d'alma, que entre tudo que cana jmais cana. Era j com
+a paciente lentido com que se sobem todos os Calvarios, os mais bem
+tapetados, que elle subia a escadaria de Madame d'Oriol, to suave e
+orlada de to frescas palmeiras. Quando a appetitosa creatura, com
+dedicao, para o entreter, desdobrava a sua vivacidade como um pavo
+desdobra a cauda, o meu pobre Principe puxava os pllos do bigode
+murcho, na murcha postura de quem, por uma manh de Maio, em quanto os
+melros cantam nas sebes, assiste, n'uma egreja negra, a um responso
+funebre por um Principe. E no beijo que elle chuchurreava sobre a mo da
+sua dce amiga, para se despedir, havia sempre alacridade e allivio.
+
+Mas ao outro dia, ao comear da tarde, depois de errar atravs da
+Bibliotheca e do Gabinete, puxando sem curiosidade a tira do telegrapho,
+atirando algum recado molle pelo telephone, espalhando o olhar
+desalentado sobre o saber immenso dos trinta mil livros, remexendo a
+collina dos Jornaes e Revistas, terminava por me chamar, j com a
+preguia triste da faanha a que se impellia:
+
+--Vamos a casa de Madame d'Oriol, Z Fernandes? Eu tinha marcadas para
+hoje seis ou sete coisas, mas no posso, uma secca! Vamos a casa de
+Madame d'Oriol... Ao menos l, s vezes, ha um bocado de frescura e paz.
+
+E foi n'uma d'essas tardes, em que o meu Principe assim procurava
+desesperadamente um bocado de frescura e paz, que encontramos, ao meio
+da escadaria suave, entre as palmeiras, o marido de Madame d'Oriol. Eu
+j o conhecia--porque Jacintho m'o mostrra uma noite, no Grand Caf,
+ceiando com danarinas do _Moulin Rouge_. Era um moo gordalhufo,
+indolente, de uma brancura cra de toucinho, com uma calvice j sria e
+j lustrosa, constantemente acariciada pelos seus gordos dedos
+carregados de anneis. N'essa tarde, porm, vinha vermelho, todo
+emocionado, calando as luvas com colera. Estacou diante de Jacintho--e
+sem mesmo lhe apertar a mo, atirando um gesto para o patamar:
+
+--Visita l acima? Vai achar a Joanna em pessima disposio... Tivemos
+uma scena, e tremenda.
+
+Deu outro puxo desesperado luva cr de palha, j esgaada:
+
+--Estamos separados, cada um vive como lhe appetece, excellente! Mas
+em tudo ha medida e frma... Ella tem o meu nome, no posso consentir
+que em Paris, com conhecimento de todo o Paris, seja a amante do
+trintanario. Amantes na nossa roda, v! Um lacaio, no!... Se quer
+dormir com os creados que emigre para o fundo da provincia, para a sua
+casa de Corbelle. E l at com os animaes!... Foi o que eu lhe disse!
+Ficou como uma fera.
+
+Sacudiu ento a mo do Jacintho que era da sua roda--rebolou pela
+escadaria florida e nobre. O meu Principe, immovel nos degraus, de face
+pendida, cofiava lentamente os fios pendidos do bigode. Depois, olhando
+para mim, como um sr saturado de tedio e em quem nenhum tedio novo pde
+caber:
+
+--J agora subamos, sim?
+
+ * * * * *
+
+Parti ento, com muita alegria, para a minha appetecida romagem s
+Cidades da Europa.
+
+Ia viajar!... Viajei. Trinta e quatro vezes, pressa, bufando, com todo
+o sangue na face, desfiz e refiz a mala. Onze vezes passei o dia n'um
+wagon, envolto em poeirada e fumo, suffocado, a arquejar, a escorrer de
+suor, saltando em cada estao para sorver desesperadamente limonadas
+mornas que me escangalhavam a entranha. Quatorze vezes subi
+derreadamente, atraz de um creado, a escadaria desconhecida d'um Hotel;
+e espalhei o olhar incerto por um quarto desconhecido; e estranhei uma
+cama desconhecida, d'onde me erguia, estremunhado, para pedir em linguas
+desconhecidas um caf com leite que me sabia a fava, um banho de tina
+que me cheirava a ldo. Oito vezes travei bulhas abominaveis na rua com
+cocheiros que me espoliavam. Perdi uma chapelleira, quinze lenos, tres
+ceroulas, e duas botas, uma branca, outra envernizada, ambas do p
+direito. Em mais de trinta mezas-redondas esperei tristonhamente que me
+chegasse o _boeuf-a-la-mode_, j frio, com mlho coalhado--e que o
+copeiro me trouxesse a garrafa de Bordeus que eu provava e repellia com
+desditosa carantonha. Percorri, na fresca penumbra dos granitos e dos
+marmores, com p respeitoso e abafado, vinte e nove Cathedraes. Trilhei
+mollemente, com uma dr surda na nuca, em quatorze muzeus, cento e
+quarenta salas revestidas at aos tectos de Christos, heroes, santos,
+nymphas, princezas, batalhas, architecturas, verduras, nudezes, sombrias
+manchas de betume, tristezas das formas immoveis!... E o dia mais dce
+foi quando em Veneza, onde chovia desabaladamente, encontrei um velho
+inglez de penca flammejante que habitra o Porto, conhecra o Ricardo, o
+Jos Duarte, o Visconde do Bom Successo, e as Limas da Boa Vista...
+Gastei seis mil francos. Tinha viajado.
+
+Emfim, n'uma bemdita manh d'outubro, na primeira friagem e nevoa
+d'outomno, avistei com enternecido alvoroo as cortinas de seda ainda
+fechadas do meu 202! Affaguei o hombro do Porteiro. No patamar, onde
+encontrei o ar macio e tepido que deixra em Florena, apertei os ossos
+do Grillo excellente:
+
+--E Jacintho?
+
+O digno negro murmurou, d'entre os altos, reluzentes collarinhos:
+
+--S. Exc.^a circula... Pesadote, fartote. Entrou tarde do baile da
+Duqueza de Loches. Era o contracto de casamento de Mademoiselle de
+Loches... Ainda tomou antes de se deitar um ch gelado... E disse a
+coar a cabea: Eh! que massada! Eh! que massada!
+
+Depois do banho e do chocolate, s dez horas, consolado e quentinho
+dentro do roupo de velludo, rompi pelo quarto do meu Principe, de
+braos abertos e sedentos:
+
+--Oh Jacintho!
+
+--Oh viajante!...
+
+Quando nos estreitamos, fartamente, eu recuei para lhe contemplar a
+face--e n'ella a alma. Encolhido n'uma quinzena de panno cr de malva
+orlada de pelles de martha, com os pellos do bigode murchos, as suas
+duas rugas mais cavadas, uma molleza nos hombros largos, o meu amigo
+parecia j vergado sob o pezo e a oppresso e o terror do seu dia. Eu
+sorri, para que elle sorrisse:
+
+--Valente Jacintho... Ento como tens vivido?
+
+Elle respondeu, muito serenamente:
+
+--Como um morto.
+
+Forcei uma gargalhada leve, como se o seu mal fsse leve:
+
+--Aborrecidote, hein?
+
+O meu Principe lanou, n'um gesto to vencido, um _oh_ to cansado--que
+eu compadecido de novo o abracei, o estreitei, como para lhe communicar
+uma parte d'esta alegria solida e pura que recebi do meu Deus!
+
+ * * * * *
+
+Desde essa manh, Jacintho comeou a mostrar claramente,
+escancaradamente, ao seu Z Fernandes, o tdio de que a existencia o
+saturava. O seu cuidado realmente e o seu esfro consistiram ento em
+sondar e formular esse tdio--na esperana de o vencer logo que lhe
+conhecesse bem a origem e a potencia. E o meu pobre Jacintho reproduziu
+a comedia pouco divertida d'um Melancolico que perpetuamente raciocina a
+sua Melancolia! N'esse raciocino, elle partia sempre do facto
+irrecusavel e massio--que a sua vida especial de Jacintho continha
+todos os interesses e todas as facilidades, possiveis no seculo XIX,
+n'uma vida de homem que no um Genio, nem um Santo. Com effeito!
+Apezar do appetite embotado por doze annos de Champagnes e mlhos ricos
+elle conservava a sua rijeza de pinheiro bravo; na luz da sua
+intelligencia no apparecra nem tremor nem morro; a boa terra de
+Portugal, e algumas Companhias macissas, pontualmente lhe forneciam a
+sua doce centena de contos; sempre activas e sempre fieis o cercavam as
+sympathias d'uma Cidade inconstante e chasqueadora; o 202 estourava de
+confrtos; nenhuma amargura de corao o atormentava;--e todavia era um
+Triste. Porque?... E d'aqui saltava, com certeza fulgurante, concluso
+de que a sua tristeza, esse cinzento burel em que a sua alma andava
+amortalhada, no provinham da sua individualidade de Jacintho--mas da
+Vida, do lamentavel, do desastroso facto de Viver! E assim o saudavel,
+intellectual, riquissimo, bem-acolhido Jacintho tombra no Pessimismo.
+
+E um Pessimismo irritado! Porque (segundo affirmava) elle nascera para
+ser to naturalmente optimista como um pardal ou um gato. E, at aos
+doze annos, emquanto fra um bicho superiormente amimado, com a sua
+pelle sempre bem coberta, o seu prato sempre bem cheio, nunca sentira
+fadiga, ou melancolia, ou contrariedade, ou pena--e as lagrimas eram
+para elle to incomprehensiveis que lhe pareciam viciosas. S quando
+crescra, e da animalidade penetrra na humanidade, despontra n'elle
+esse fermento de tristeza, muito tempo indesenvolvido no tumulto das
+primeiras curiosidades, e que depois alastrra, o invadira todo, se lhe
+tornra consubstancial e como o sangue das suas veias. Soffrer portanto
+era inseparavel de Viver. Soffrimentos differentes nos destinos
+differentes da Vida. Na turba dos humanos a angustiada lucta pelo po,
+pelo tecto, pelo lume; n'uma casta, agitada por necessidades mais altas,
+ a amargura das desilluses, o mal da imaginao insatisfeita, o
+orgulho chocando contra obstaculo; n'elle, que tinha os bens todos e
+desejos nenhuns, era o tdio. Miseria do Corpo, tormento da Vontade,
+fastio da Intelligencia--eis a Vida! E agora aos trinta e tres annos a
+sua occupao era bocejar, correr com os dedos desalentados a face
+pendida para n'ella palpar e appetecer a caveira.
+
+Foi ento que o meu Principe comeou a ler apaixonadamente, desde o
+_Ecclesiastes_ at Schopenhauer, todos os lyricos e todos os theoricos
+do Pessimismo. N'estas leituras encontrava a reconfortante comprovao
+de que o seu mal no era mesquinhamente Jacinthico--mas grandiosamente
+resultante d'uma Lei Universal. J ha quatro mil annos, na remota
+Jerusalm, a Vida, mesmo nas suas delicias mais triumphaes, se resumia
+em Illuso. J o Rei incomparavel, de sapiencia divina, summo Vencedor,
+summo Edificador, se enfastiava, bocejava, entre os despojos das suas
+conquistas, e os marmores novos dos seus Templos, e as suas tres mil
+concubinas, e as Rainhas que subiam do fundo da Ethiopia para que elle
+as fecundasse e no seu ventre depozsse um Deus! No ha nada novo sob o
+sol, e a eterna repetio das coisas a eterna repetio dos males.
+Quanto mais se sabe mais se pena. E o justo como o perverso, nascidos do
+p, em p se tornam. Tudo tende ao p ephemero, em Jerusalm e em Paris!
+E elle, obscuro no 202, padecia por ser homem e por viver--como no seu
+throno d'ouro, entre os seus quatro lees d'ouro, o filho magnifico de
+David.
+
+No se separava ento do _Ecclesiastes_. E circulava por Paris trazendo
+dentro do coup Salomo, como irmo de dr, com quem repetia o grito
+desolado que a summa da verdade humana--_Vanitas Vanitatum_! Tudo
+Vaidade! Outras vezes, logo de manh o encontrava estendido no soph,
+n'um roupo de sda, absorvendo Schopenhauer--emquanto o pedicuro,
+ajoelhado sobre o tapete, lhe polia com respeito e pericia as unhas dos
+ps. Ao lado pousava a chavena de Saxe, cheia d'esse caf de Moka
+enviado por emires do Deserto, que no o contentava nunca, nem pela
+fora, nem pelo aroma. A espaos pousava o livro no peito, resvalava um
+olhar compassivo para o pedicuro, como a procurar que dr o
+torturaria--pois que a todo o viver corresponde um soffrer. Decerto o
+remexer assim, perpetuamente, em ps alheios... E quando o pedicuro se
+erguia, Jacintho abria para elle um sorriso de confraternidade--com um
+adeus, meu amigo que era um adeus, meu irmo!
+
+Esse foi o periodo esplendido e soberbamente divertido do seu tdio.
+Jacintho encontrra emfim na vida uma occupao grata--maldizer a Vida!
+E para que a podsse maldizer em todas as suas frmas, as mais ricas, as
+mais intellectuaes, as mais puras, sobrecarregou a sua vida propria de
+novo luxo, de interesses novos d'espirito, e at de fervores
+humanitarios, e at de curiosidades supernaturaes.
+
+O 202, n'esse inverno, refulgiu de magnificencia. Foi ento que elle
+iniciou em Paris, repetindo Heliogabalo, os Festins de Cr contados na
+Historia Augusta: e offereceu s suas amigas esse sublime jantar cr de
+rosa, em que tudo era roseo, as paredes, os moveis, as luzes, as louas,
+os crystaes, os gelados, os Champagnes, e at (por uma inveno da
+Alta-Cozinha) os peixes, e as carnes, e os legumes, que os escudeiros
+serviam, empoados de p rosado, com librs da cr da rosa, em quanto do
+tecto, d'um velario de seda rosada, cahiam petalas frescas de rosas... A
+Cidade, deslumbrada, clamou--Bravo, Jacintho! E o meu Principe, ao
+rematar a festa fulgurante, plantou deante de mim as mos nas ilhargas e
+gritou triumphalmente:--Hein? Que massada!...
+
+Depois foi o Humanitarismo: e fundou um Hospicio no campo, entre
+jardins, para velhinhos desamparados, outro para creanas debeis beira
+do Mediterraneo. Depois com o major Dorchas, e Mayolle, e o Hind de
+Mayolle penetrou no Theosophismo: e montou tremendas experiencias para
+verificar a mysteriosa _exteriorisao da motilidade_. Depois,
+desesperadamente, ligou o 202 com os fios telegraphicos do _Times_, para
+que no seu gabinete, como n'um corao, palpitasse toda a vida Social da
+Europa.
+
+E a cada um d'estes esforos da elegancia, do humanitarismo, da
+sociabilidade, e da intelligencia indagadora, voltava para mim, de
+braos alegres, com um grito victorioso:--Vs tu, Z Fernandes? Uma
+massada!--Arrebatava ento o seu _Ecclesiastes_, o seu Schopenhauer, e,
+estendido no soph, saboreava voluptuosamente a concordancia da Doutrina
+e da Experiencia. Possuia uma F--o Pessimismo: era um apostolo rico e
+esforado: e tudo tentava, com sumptuosidade, para provar a verdade da
+sua F! Muito gozou n'esse anno o meu desgraado Principe!
+
+No comeo do inverno, porm, notei com inquietao que Jacintho j no
+folheava o _Ecclesiastes_, desleixava Schopenhauer. Nem festas, nem
+Theosophismos, nem os seus Hospicios, nem os fios do _Times_, pareciam
+interessar agora o meu amigo, mesmo como demonstraes gloriosas da sua
+Crena. E a sua abominavel funco de novo se limitou a bocejar, a
+passar os dedos molles sobre a face pendida palpando a caveira.
+Incessantemente alludia morte como a uma libertao. Uma tarde mesmo,
+no melancolico crepusculo da Bibliotheca, antes de refulgirem as luzes,
+consideravelmente me aterrou, fallando n'um tom regelado de mortes
+rapidas, sem dr, pelo choque d'uma vasta pilha electrica ou pela
+violencia compassiva do acido cyanidrico. Diabo! O Pessimismo, que
+apparecera na Intelligencia do meu Principe como um conceito
+elegante--atacra bruscamente a Vontade!
+
+Todo o seu movimento ento foi o d'um boi inconsciente que marcha sob a
+canga e o aguilho. J no esperava da Vida contentamento--nem mesmo se
+lastimava que ella lhe trouxesse tdio ou pena. Tudo indifferente, Z
+Fernandes! E to indifferentemente sahiria sua janella para receber
+uma Cora Imperial offerecida por um Povo--como se estenderia n'uma
+poltrona rta para emmudecer e jazer. Sendo tudo inutil, e no
+conduzindo seno a maior desilluso, que podia importar a mais rutilante
+actividade ou a mais desgostada inercia? O seu gesto constante, que me
+irritava, era encolher os hombros. Perante duas ideias, dois caminhos,
+dois pratos, encolhia os hombros! Que importava?... E no minimo acto,
+raspar um phosphoro ou desdobrar um Jornal, punha uma morosidade to
+desconsolada que todo elle parecia ligado, desde os dedos at alma,
+pelas voltas apertadas d'uma corda que se no via e que o travava.
+
+ * * * * *
+
+Muito desagradavelmente me recordo do dia dos seus annos, a 10 de
+Janeiro. Cdo, de manh, recebra, com uma carta de Madame de Trves, um
+aafate de camelias, azaleas, orchideas e lyrios do valle. E foi este
+mimo que lhe recordou a data consideravel. Soprou sobre as petalas o
+fumo do cigarro e murmurou com um riso de lento escarneo:
+
+--Ento, ha trinta e quatro annos que eu ando n'esta massada?
+
+E como eu propunha que telephonassemos aos amigos para beberem no 202 o
+Champagne do Natalicio--elle recusou, com o nariz enojado. Oh! No!
+Que horrivel scca!... E bradou mesmo para o Grillo:
+
+--Eu hoje no estou em Paris para ninguem. Abalei para o campo, abalei
+para Marselha... Morri!
+
+E a sua ironia no cessou at ao almoo perante os bilhetes, os
+telegrammas, as cartas, que subiam, se arredondavam em collina sobre a
+meza d'ebano, como um preito da Cidade. Outras flres que vieram, em
+vistosos cestos, com vistosos laos, foram por elle comparadas s que se
+depe sobre uma tumba. E apenas se interessou um momento pelo presente
+de Ephraim, uma engenhosa meza, que se abaixava at ao tapete ou se
+alteava at ao tecto--para que, senhor Deus meu?
+
+Depois do almoo, como chovia sombriamente, no arredamos do 202, com os
+ps estendidos ao lume, em preguioso silencio. Eu terminra por
+adormecer beatificamente. Acordei aos passos aodados do Grillo...
+Jacintho, enterrado na poltrona, com umas tesouras, recortava um papel!
+E nunca eu me compadeci d'aquelle amigo, que canra a mocidade a
+accumular todas as noes formuladas desde Aristoteles e a juntar todos
+os inventos realisados desde Tharamenes, como n'essa tarde de festa, em
+que elle, cercado de Civilisao nas maximas propores para gozar nas
+maximas propores a delicia de viver, se encontrava reduzido, junto ao
+seu lar, a recortar papeis com uma tesoura!
+
+O Grillo trazia um presente do Gran-Duque--uma caixa de prata, forrada
+de cedro, e cheia d'um ch precioso, colhido, flr a flr, nas veigas de
+Kiang-Sou por mos puras de virgens, e conduzido atravs da Asia, em
+caravanas, com a venerao d'uma reliquia. Ento, para despertar o nosso
+torpr, lembrei que tomassemos o divino ch--occupao bem harmonica com
+a tarde triste, a chuva grossa alagando os vidros, e a clara chamma
+bailando no fogo. Jacintho accedeu--e um escudeiro acercou logo a meza
+de Ephraim para que ns lhe estreassemos os servios destros. Mas o meu
+Principe, depois de a altear, para meu espanto, at aos crystaes do
+lustre, no conseguiu, apezar de uma suada e desesperada batalha com as
+molas, que a meza regressasse a uma altura humana e cazeira. E o
+escudeiro de novo a levou, levantada como um andaime, chimerica,
+unicamente aproveitavel para o gigante Adamastor. Depois veio a caixa do
+ch entre chaleiras, lampadas, coadores, filtros, todo um fausto de
+alfaias de prata, que communicavam a essa occupao, to simples e dce
+em caza de minha tia, _fazer ch_, a magestade d'um rito. Prevenido pelo
+meu camarada da sublimidade d'aquelle ch de Kiang-Sou, ergui a chavena
+aos labios com reverencia. Era uma infuso descorada que sabia a malva e
+a formiga. Jacintho provou, cuspiu, blasphemou... No tomamos ch.
+
+Ao cabo d'outro pensativo silencio, murmurei, com os olhos perdidos no
+lume:
+
+--E as obras de Tormes? A egreja... J haver egreja nova?
+
+Jacintho retomra o papel e a thesoura:
+
+--No sei... No tornei a receber carta do Silverio... Nem imagino onde
+param os ossos... Que lugubre historia!
+
+Depois chegou a hora das luzes e do jantar. Eu encommendra pelo Grillo
+ao nosso magistral cozinheiro uma larga travessa d'arroz dce, com as
+iniciaes de Jacintho e a data ditosa em canella, moda amavel da nossa
+meiga terra. E o meu Principe meza, percorrendo a lamina de marfim
+onde no 202 se inscreviam os pratos a lapis vermelho, louvou com fervr
+a ideia patriarchal:
+
+--Arrz dce! Est escripto com dois _ss_, mas no tem dvida...
+Excellente lembrana! Ha que tempos no cmo arrz dce!... Desde a
+morte da av.
+
+Mas quando o arrz dce appareceu triumphalmente, que vexme! Era um
+prato monumental, de grande arte! O arrz, massio, moldado em frma de
+pyramide do Egypto, emergia d'uma calda de cereja, e desapparecia sob os
+fructos seccos que o revestiam at ao cimo, onde se equilibrava uma
+cora de Conde feita de chocolate e gomos de tangerina gelada! E as
+iniciaes, a data, to lindas e graves na canella ingenua, vinham
+traadas nas bordas da travessa com violetas pralinadas! Repellimos,
+n'um mudo horror, o prato acanalhado. E Jacintho, erguendo o copo de
+Champagne, murmurou como n'um funeral pago:
+
+--_Ad Manes_, aos nossos mortos!
+
+Recolhemos Bibliotheca, a tomar o caf no conchego e alegria do lume.
+Fra, o vento bramava como n'um rmo serrano: e as vidraas tremiam,
+alagadas, sob as bategas da chuva irada. Que dolorosa noite para os dez
+mil pobres que em Paris erram sem po e sem lar! Na minha aldeia, entre
+crro e valle, talvez assim rugisse a tormenta. Mas ahi cada pobre, sob
+o abrigo da sua telha v, com a sua panella atestada de couves, se
+agacha no seu manto ao calor da lareira. E para os que no tenham lenha
+ou couve, l est o Joo das Quintas, ou a tia Vicencia, ou o abbade,
+que conhecem todos os pobres pelos seus nomes, e com elles contam, como
+sendo dos seus, quando o carro vae ao matto e a fornada entra no frno.
+Ah Portugal pequenino, que ainda s dce aos pequeninos!
+
+Suspirei, Jacintho preguiava. E terminamos por remexer languidamente os
+jornaes que o mordomo trouxera, n'um monte facundo, sobre uma salva de
+prata--jornaes de Paris, jornaes de Londres, Semanarios, Magazines,
+Revistas, Illustraes... Jacintho desdobrava, arremessava: das Revistas
+espreitava o summario, logo farto; s Illustraes rasgava as folhas com
+o dedo indifferente, bocejando por cima das gravuras. Depois, mais
+estirado para o lume:
+
+-- uma scca... No ha que lr.
+
+E de repente, revoltado contra este fastio oppressor que o escravisava,
+saltou da poltrona com um arranque de quem despedaa algemas, e ficou
+erecto, dardejando em torno um olhar imperativo e duro, como se
+intimasse aquelle seu 202, to abarrotado de Civilisao, a que por um
+momento sequer fornecesse sua alma um interesse vivo, sua vida um
+fugitivo gsto! Mas o 202 permaneceu insensivel: nem uma luz, para o
+animar, avivou o seu brilho mudo: s as vidraas tremeram sob o embate
+mais rude de agua e vento.
+
+Ento o meu Principe, succumbido, arrastou os passos at ao seu
+gabinete, comeou a percorrer todos os apparelhos completadores e
+facilitadores da Vida--o seu Telegrapho, o seu Telephone, o seu
+Phonographo, o seu Radiometro, o seu Graphophono, o seu Microphono, a
+sua Machina d'Escrever, a sua Machina de Contar, a sua Imprensa
+Electrica, a outra Magnetica, todos os seus utensilios, todos os seus
+tubos, todos os seus fios... Assim um Supplicante percorre altares
+d'onde espera soccorro. E toda a sua sumptuosa Mechanica se conservou
+rigida, reluzindo frigidamente, sem que uma roda girasse, nem uma lamina
+vibrasse, para entreter o seu Senhor.
+
+S o relogio monumental, que marcava a hora de todas as capitaes e o
+curso de todos os planetas, se compadeceu, batendo a meia-noite,
+annunciando ao meu amigo que mais um Dia partira levando o seu
+pzo--diminuindo esse sombrio pzo da Vida, sob que elle gemia, vergado.
+O Principe da Gran-Ventura, ento, decidiu recolher para a cama--com um
+livro... E durante um momento, estacou no meio da Bibliotheca,
+considerando os seus setenta mil volumes estabelecidos com pompa e
+magestade como Doutores n'um Concilio--depois as pilhas tumultuarias dos
+livros novos que esperavam pelos cantos, sobre o tapete, o repouso e a
+consagrao das estantes d'ebano. Torcendo mollemente o bigode caminhou
+por fim para a regio dos Historiadores: espreitou seculos, farejou
+raas: pareceu attrahido pelo explendor do Imperio Byzantino: penetrou
+na Revoluo Franceza d'onde se arredou desencantado: e palpou com mo
+indeliberada toda a vasta Grecia desde a creao de Athenas at a
+aniquilao de Corintho. Mas bruscamente virou para a fila dos Poetas,
+que reluziam em marroquins claros, mostrando, sobre a lombada, em ouro,
+nos titulos fortes ou languidos, o interior das suas almas. No
+appeteceu nenhuma d'essas seis mil almas--e recuou, desconsolado, at
+aos Biologos... To massia e cerrada era a estante de Biologia que o
+meu pobre Jacintho estarreceu, como ante uma cidadella inaccessivel!
+Rolou a escada--e, fugindo, trepou, at s alturas da Astronomia:
+destacou astros, recollocou mundos: todo um Systema Solar desabou com
+fragor. Aturdido, desceu, comeou a procurar por sobre as rimas das
+obras novas, ainda brochadas, nas suas roupas leves de combate.
+Apanhava, folheava, arremessava: para desentulhar um volume, demolia uma
+torre de doutrinas: saltava por cima dos Problemas, pisava as Religies:
+e relanceando uma linha, esgravatando alm n'um indice, todos
+interrogava, de todos se desinteressava, rolando quasi de rastos, nas
+grossas vagas de tomos que rolavam, sem se poder deter, na ancia de
+encontrar um Livro! Parou ento no meio da immensa nave, de cocoras, sem
+coragem, contemplando aquelles muros todos forrados, aquelle cho todo
+alastrado, os seus setenta mil volumes--e, sem lhes provar a substancia,
+j absolutamente saciado, abarrotado, nauseado pela opresso da sua
+abundancia. Findou por voltar ao monto de jornaes amarrotados, ergueu
+melancholicamente um velho _Diario de Noticias_, e com elle debaixo do
+brao subiu ao seu quarto, para dormir, para esquecer.
+
+
+
+
+VIII
+
+
+Ao fim d'esse inverno escuro e pessimista, uma manh que eu preguiava
+na cama, sentindo atravs da vidraa cheia de sol ainda pallido um bafo
+de Primavera ainda timido--Jacintho assomou porta do meu quarto,
+revestido de flanellas leves, d'uma alvura de aucena. Parou lentamente
+ beira dos colxes, e, com gravidade, como se annunciasse o seu
+casamento ou a sua morte, deixou desabar sobre mim esta declarao
+formidavel:
+
+--Z Fernandes, vou partir para Tormes.
+
+O pulo com que me sentei abalou o rijo leito de pau preto do velho D.
+Galio:
+
+--Para Tormes? Oh Jacintho, quem assassinaste?...
+
+Deleitado com a minha emoo, o Principe da Gran Ventura tirou da
+algibeira uma carta, e encetou estas linhas, j decerto relidas,
+fundamente estudadas:
+
+--Ill.^{mo} e exc.^{mo} snr.--Tenho grande satisfao em communicar a
+v. exc.^a que por toda esta semana devem ficar promptas as obras da
+capella...
+
+-- do Silverio? exclamei.
+
+-- do Silverio. ...as obras da capella nova. Os venerandos restos dos
+excelsos avs de v. exc.^a, senhores de todo o meu respeito, podem pois
+ser em breve trasladados da egreja de S. Jos, onde tm estado
+depositados por bondade do nosso Abbade, que muito se recommenda a v.
+exc.^a... Submisso, aguardo as prestantes ordens de v. exc.^a a respeito
+d'esta magestosa e afflictiva ceremonia...
+
+Atirei os braos, comprehendendo:
+
+--Ah! bem! Queres ir assistir trasladao...
+
+Jacintho sumiu a carta no bolso.
+
+--Pois no te parece, Z Fernandes? No por causa dos outros avs, que
+so ossos vagos, e que eu no conheci. por causa do av Galio...
+Tambem no o conheci. Mas este 202 est cheio d'elle; tu ests deitado
+na cama d'elle; eu ainda uso o relogio d'elle. No posso abandonar ao
+Silverio e aos caseiros o cuidado de o installarem no seu jazigo novo.
+Ha aqui um escrupulo de decencia, de elegancia moral... Emfim, decidi.
+Apertei os punhos na cabea, e gritei--_vou a Tormes_! E vou!... E tu
+vens!
+
+Eu enfiara as chinellas, apertava os cordes do roupo:
+
+--Mas tu sabes, meu bom Jacintho, que a casa de Tormes est
+inhabitavel...
+
+Elle cravou em mim os olhos aterrados.
+
+--Medonha, hein?
+
+--Medonha, medonha, no... uma bella casa, de bella pedra. Mas os
+caseiros, que l vivem ha trinta annos, dormem em catres, comem o caldo
+ lareira, e usam as salas para seccar o milho. Creio que os unicos
+moveis de Tormes, se bem recordo, so um armario, e uma espinetta de
+charo, cxa, j sem teclas.
+
+O meu pobre Principe suspirou, com um gesto rendido em que se abandonava
+ao Destino:
+
+--Acabou!... _Alea jact est!_ E como s partimos para abril, ha tempo de
+pintar, d'assoalhar, d'envidraar... Mando d'aqui de Paris tapetes e
+camas... Um estofador de Lisboa vae depois forrar e disfarar algum
+buraco... Levamos livros, uma machina para fabricar gelo... E mesmo
+uma occasio de pr emfim n'uma das minhas casas de Portugal alguma
+decencia e ordem. Pois no achas? E ento essa! Uma casa que data de
+1410... Ainda existia o Imperio Byzantino!
+
+Eu espalhava, com o pincel, sobre a face, flocos lentos de sabo. O meu
+Principe accendeu muito pensativamente um cigarro; e no se arredou do
+toucador, considerando o meu preparo com uma atteno triste que me
+incommodava. Por fim, como se remoesse uma sentena minha, para lhe
+reter bem a moral e o succo:
+
+--Ento, definitivamente, Z Fernandes, entendes que um dever, um
+absoluto dever, ir eu a Tormes?
+
+Afastei do espelho a cara ensaboada para encarar com divertido espanto o
+meu Principe:
+
+--Oh Jacintho! foi em ti, s em ti que nasceu a ideia d'esse dever! E
+honra te seja, menino... No cedas a ninguem essa honra!
+
+Elle atirou o cigarro--e, com as mos enterradas nas algibeiras das
+pantalonas, vagou pelo quarto, topando nas cadeiras, embicando contra os
+postes torneados do velho leito de D. Galio, n'um balano vago, como
+barco j desamarrado do seu seguro ancoradouro, e sem rumo no mar
+incerto. Depois encalhou sobre a mesa onde eu conservava enfileirada,
+por gradaes de sentimentos, desde o dagarreotypo do pap at
+photographia do _Carocho_ perdigueiro, a galeria da minha Familia.
+
+E nunca o meu Principe (que eu contemplava esticando os suspensorios) me
+pareceu to corcovado, to minguado, como gasto por uma lima que desde
+muito o andasse fundamente limando. Assim viera findar, desfeita em
+Civilisao, n'aquelle super-requintado magricellas sem musculo e sem
+energia, a raa fortissima dos Jacinthos! Esses guedelhudos Jacinthes,
+que nas suas altas terras de Tormes, de volta de bater o moiro no Salado
+ou o castelhano em Valverde, nem mesmo despiam as fuscas armaduras para
+lavrar as suas chans e amarrar a vide ao olmo, edificando o Reino com a
+lana e com a enxada, ambas to rudes e rijas! E agora, alli estava
+aquelle ultimo Jacintho, um Jacinthiculo, com a macia pelle embebida em
+aromas, a curta alma enrodilhada em Philosophias, travado e suspirando
+baixinho na miuda indeciso de viver.
+
+--Oh Z Fernandes, quem esta lavradeirona to rechonchuda?
+
+Estendi o pescoo para a Photographia que elle erguera d'entre a minha
+galeria, no seu honroso caixilho de pellucia escarlate:
+
+--Mais respeito, Snr. D. Jacintho... Um pouco mais de respeito,
+cavalheiro!... minha prima Joanninha, de Sandofim, da Casa da Flr da
+Malva.
+
+--Flr da Malva, murmurou o meu Principe. a casa do Condestavel, de
+Nun'alvares.
+
+--Flr da Rosa, homem! A casa do Condestavel era na Flr da Rosa, no
+Alemtejo... Essa tua ignorancia trapalhona das coisas de Portugal!
+
+O meu Principe deixou escorregar mollemente a photographia da minha
+prima d'entre os dedos molles--que levou face, no seu gesto horrendo
+de palpar atravez da face a caveira. Depois, de repente, com um soberbo
+esforo, em que se endireitou e cresceu:
+
+--Bem! _Alea jacta est!_ Partamos pois para as serras!... E agora nem
+reflexo, nem descano!... obra! E a caminho!
+
+Atirou a mo ao fecho dourado da porta como se fosse o negro loquete que
+abre os Destinos--e no corredor gritou pelo Grillo, com uma larga e
+aodada voz que eu nunca lhe conhecera, e me lembrou a d'um Chefe
+ordenando, n'alvorada, que se levante o Acampamento, e que a Hoste
+marche, com pendes e bagagens...
+
+Logo n'essa manh (com uma actividade em que eu reconheci a pressa
+enjoada de quem bebe oleo-de-ricino), escreveu ao Silverio mandando
+caiar, assoalhar, envidraar o casaro. E depois do almoo appareceu na
+Bibliotheca, chamado violentamente pelo telephone, para combinar a
+remessa de mobilias e confortos, o director da _Companhia Universal de
+Transportes_.
+
+Era um homem que parecia o cartaz da sua Companhia, apertado n'um
+jaqueto de xadrezinho escuro, com polainas de jornada sobre botas
+brancas, uma sacola de marroquim a tiracolo, e na botoeira uma roseta
+multicor resumindo as suas condecoraes exoticas de Madagascar, de
+Nicaragua, da Persia, outras ainda, que provavam a universalidade dos
+seus servios. Apenas Jacintho mencionou Tormes, no Douro...--elle
+logo, atravez d'um sorriso superior, estendeu o brao, detendo outros
+esclarecimentos, na sua intimidade minuciosa com essas regies.
+
+--Tormes... Perfeitamente! Perfeitamente!
+
+Sobre o joelho, na carteira, escrevinhou uma fugidia nota--emquanto eu
+considerava, assombrado, a vastido do seu saber Chorographico, assim
+familiar com os recantos d'uma serra de Portugal e com todos os seus
+velhos solares. J elle atirra a carteira para o bolso... E ns, seus
+caros senhores, no tinhamos seno a encaixotar as roupas, as mobilias,
+as preciosidades! Elle mandaria as suas carroas buscar os caixotes, a
+que poria, em grossa letra, com grossa tinta, o endereo...
+
+--Tormes, perfeitamente! Linha Norte-Hespanha-Medina-Salamanca...
+Perfeitamente! Tormes... Muito pittoresco! E antigo, historico!
+Perfeitamente, perfeitamente!
+
+Desengonou a cabea n'uma venia profundissima--e sahiu da Bibliotheca,
+com passos que devoravam leguas, annunciavam a presteza dos seus
+Transportes.
+
+--V tu, murmurou Jacintho muito serio. Que promptido, que
+facilidade!... Em Portugal era uma tragedia. No ha seno Paris!
+
+Comeou ento no 202 o collossal encaixotamento de todos os confortos
+necessarios ao meu Principe para um mez de serra aspera--camas de penna,
+banheiras de nickel, lampadas Carcel, divans profundos, cortinas para
+vedar as gretas rudes, tapetes para amaciar os soalhos broncos. Os
+sotos, onde se arrecadavam os pesados trastes do av Galio, foram
+esvasiados--porque o casaro medieval de 1410 comportava os trems
+romanticos de 1830. De todos os armazens de Paris chegavam cada manh
+fardos, caixas, temerosos embrulhos que os emmaladores desfaziam,
+atulhando os corredores de montes de palha e de papel pardo, onde os
+nossos passos aodados se enrodilhavam. O cozinheiro, esbaforido,
+organisava a remessa de fornalhas, geleiras, bocaes de trufas, latas de
+conservas, bojudas garrafas de aguas mineraes. Jacintho, lembrando as
+trovoadas da serra, comprou um immenso pra-raios. Desde o amanhecer,
+nos pateos, no jardim, se martellava, se pregava, com vasto fragor, como
+na construco d'uma cidade. E o desfilar das bagagens, atravs do
+porto, lembrava uma pagina de Herodoto contando a marcha dos Persas.
+
+Das janellas, Jacintho com o brao estendido, saboreava aquella
+actividade e aquella disciplina:
+
+--V tu, Z Fernandes, que facilidade!... Sahimos do 202, chegamos
+serra, encontramos o 202. No ha seno Paris!
+
+Recomera a amar a Cidade, o meu Principe, emquanto preparava o seu
+Exodo. Depois de ter, toda a manh, apressado os encaixotadores,
+descortinado confortos novos para o abandonado solar, telephonado gordas
+listas de encommendas a cada loja de Paris--era com delicia que se
+vestia, se perfumava, se floria, se enterrava na vittoria ou saltava
+para a almofada do phaeton, e corria ao Bosque, e saudava a barba
+talmudica do Ephraim, e os bands furiosamente negros da Verghane, e o
+Psychologo de fiacre, e a condessa de Trves na sua nova caleche de
+oito-molas fornecida pelas operaes conjunctas da Bolsa e da alcva.
+Depois arrebanhava amigos para jantares de surpreza no Voisin ou no
+Bignon, onde desdobrava o guardanapo com a impaciencia d'uma fome
+alegre, vigiando fervorosamente que os Bordeus estivessem bem aquecidos
+e os Champagnes bem granitados. E no theatro das _Nouveauts_, no
+_Palais Royal_, nos _Buffos_, ria, batendo na cxa, com encanecidas
+facecias d'encanecidas faras, antiquissimos tregeitos d'antiquissimos
+actores, com que j rira na sua infancia, antes da guerra, sob o segundo
+Napoleo!
+
+De novo, em duas semanas, se abarrotaram as paginas da sua Agenda. A
+magnificencia do seu trage, como imperador Frederico II de Suabia,
+deslumbrou, no baile mascarado da Princesa de Cravon-Rogan (onde tambem
+fui, de moo de forcado.) E na _Associao para o Desenvolvimento das
+Religies Esotericas_ discursou e batalhou bravamente pela construco
+d'um Templo Budhista em Montmartre!
+
+Com espanto meu recomeou tambem a conversar, como nos tempos de Escla,
+da famosa Civilisao nas suas maximas propores. Mandou encaixotar o
+seu velho telescopio para o usar em Tormes. Receei mesmo que no seu
+espirito germinasse a ida de crear, no cimo da serra, uma Cidade com
+todos os seus orgos. Pelo menos no consentia o meu Jacintho que essas
+semanas da silvestre Tormes interrompessem a illimitada accumulao das
+noes--porque uma manh rompeu pelo meu quarto, desolado, gritando que
+entre tantos confortos e frmas de Civilisao esqueceramos os livros!
+Assim era--e que vexame para a nossa Intellectualidade! Mas que livros
+escolher entre os facundos milhares sob que vergava o 202? O meu
+Principe decidiu logo dedicar os seus dias serranos ao estudo da
+Historia Natural--e ns mesmos, immediatamente, deitamos para o fundo
+d'um vasto caixote novo, como lastro, os vinte e cinco tomos de Plinio.
+Despejamos depois para dentro, s braadas, Geologia, Mineralogia,
+Botanica... Espalhamos por cima uma camada aeria de Astronomia. E, para
+fixar bem no caixote estas Sciencias oscillantes, entalamos em redor
+cunhas de Metaphysica.
+
+Mas quando a derradeira caixa, pregada e cintada de ferro, sahiu do
+porto do 202 na derradeira carroa da _Companhia dos Transportes_, toda
+esta animao de Jacintho se abateu como a efervescencia n'um copo de
+Champagne. Era em meados j tepidos de Maro. E de novo os seus
+desagradaveis bocejos atroaram o 202, e todos os sophs rangeram sob o
+peso do corpo que elle lhe atirava para cima, mortalmente vencido pela
+fartura e pelo tedio, n'um desejo de repouso eterno, bem envolto de
+solido e silencio. Desesperei. O que! Aturaria eu ainda aquelle
+Principe palpando amargamente a caveira, e, quando o crepusculo
+entristecia a Bibliotheca, alludindo, n'um tom rouco, doura das
+mortes rapidas pela violencia misericordiosa do acido cyanhidrico? Ah
+no, caramba! E uma tarde em que o encontrei estirado sobre um divan, de
+braos em cruz, como se fosse a sua estatua de marmore sobre o seu
+jazigo de granito, positivamente o abanei com furor, berrando:
+
+--Accorda, homem! Vamos para Tormes! O casaro deve estar prompto, a
+reluzir, a abarrotar de cousas! Os ossos de teus avs pedem repouso, em
+cova sua!... A caminho, a enterrar esses mortos, e a vivermos ns, os
+vivos!... Irra! So cinco de Abril!... o bom tempo da serra!
+
+O meu Principe resurgiu lentamente da inercia de pedra:
+
+--O Silverio no me escreveu, nunca me escreveu... Mas, com effeito,
+deve estar tudo preparado... J l temos certamente creados, o
+cosinheiro de Lisboa... Eu s levo o Grillo, e o Anatole que envernisa
+bem o calado, e tem geito como pedicuro... Hoje Domingo.
+
+Atirou os ps para o tapete, com heroismo:
+
+--Bem, partimos no Sabbado!... Avisa tu o Silverio!
+
+Comeou ento o laborioso e pensativo estudo dos Horarios--e o dedo
+magro de Jacintho, por sobre o mappa, avanando e recuando entre Paris e
+Tormes. Para escolher o salo que deviamos habitar durante a temida
+jornada, duas vezes percorremos o deposito da Estao d'Orleans,
+atolados em lama, atraz do Chefe do Trafico que entontecia. O meu
+Principe recusava este salo por causa da cr tristonha dos estofos;
+depois recusava aquelle por causa da mesquinhez afflictiva do
+Water-Closet! Uma das suas inquietaes era o banho, nas manhs que
+passariamos rolando. Suggeri uma banheira de borracha. Jacintho,
+indeciso, suspirava... Mas nada o aterrou como o trasbordo em Medina del
+Campo, de noite, nas trevas da Velha Castella. Debalde a Companhia do
+Norte de Hespanha e a de Salamanca, por cartas, por telegrammas,
+socegaram o meu camarada, affirmando que, quando elle chegasse no
+comboio de Irun dentro do seu salo, j outro salo ligado ao comboio de
+Portugal esperaria, bem aquecido, bem allumiado, com uma ceia que lhe
+offertava um dos Directores, D. Esteban Castillo, ruidoso e rubicundo
+conviva do 202! Jacintho corra os dedos anciosos pela face:--E os
+saccos, as pelles, os livros, quem os transportaria do salo de Irun
+para o salo de Salamanca? Eu berrava, desesperado, que os carregadores
+de Medina eram os mais rapidos, os mais destros de toda a Europa! Elle
+murmurava:--Pois sim, mas em Hespanha, de noite!... A noite, longe da
+Cidade, sem telephone, sem luz electrica, sem postos de policia, parecia
+ao meu Principe povoada de surprezas e assaltos. S acalmou depois de
+verificar no Observatorio Astronomico, sob a garantia do sabio professor
+Bertrand, que a noite da nossa jornada era de lua cheia!
+
+Emfim, na sexta-feira, findou a tremenda organisao d'aquella viagem
+historica! O sabbado predestinado amanheceu com generoso sol, de
+affagadora doura. E eu acabava de guardar na mala, embrulhadas em papel
+pardo, as photographias das creaturinhas suaves que, n'esses vinte e
+sete mezes de Paris, me tinham chamado _mon petit chou! mon rat
+cheri!_--quando Jacintho rompeu pelo quarto, com um soberbo ramo de
+orchideas na sobrecasaca, pallido e todo nervoso.
+
+--Vamos ao Bosque, por despedida?
+
+Fomos-- grande despedida! E que encanto! At nas almofadas e molas da
+vittoria senti logo uma elasticidade mais emballadora. Depois, pela
+Avenida do Bosque, quasi me pezava no ficar sempiternamente rolando, ao
+trote rimado das eguas perfeitas, no rebrilho rico de metaes e vernizes,
+sobre aquelle macadam mais alisado que marmore, entre to bem regadas
+flres e relvas de to tentadora frescura, cruzando uma Humanidade fina,
+de elegancia bem acabada, que almora o seu chocolate em porcellanas de
+Sevres ou de Minton, sahira d'entre sdas e tapetes de tres mil francos,
+e respirava a belleza de Abril com vagar, requinte e pensamentos
+ligeiros! O Bosque resplandecia n'uma harmonia de verde, azul e ouro.
+Nenhuma cova ou terra solta desalisava as polidas alleas que a Arte
+traou e enroscou na espessura--nenhum esgalho desgrenhado desmanchava
+as ondulaes macias da folhagem que o Estado escva e lava. O piar das
+aves apenas se elevava para espalhar uma graa leve de vida alada;--e
+mais natural parecia, entre o arvoredo sociavel, o ranger das sellas
+novas, onde pousavam, com balano esbelto, as amazonas espartilhadas
+pelo grande Redfern. Em frente ao Pavilho de Armenonville cruzamos
+Madame de Trves, que nos envolveu ambos na caricia do seu sorriso, mais
+avivado quella hora pelo vermelho ainda humido. Logo atraz a barba
+talmudica de Ephraim negrejou, fresca tambem da brilhantine da manh, no
+alto d'um phaeton tilintante. Outros amigos de Jacintho circulavam nas
+Acacias--e as mos que lhe acenavam, lentas e affaveis, calavam luvas
+frescas cr de palha, cr de perola, cr de lilaz. Todelle relampejou
+rente de ns sobre uma grande bycicleta. Dornan, alastrado n'uma cadeira
+de ferro, sob um espinheiro em flr, mamava o seu immenso charuto, como
+perdido na busca de rimas sensuaes e nedias. Adeante foi o Psychologo,
+que nos no avistou, conversando com um requebro melancolico para dentro
+d'um coup que rescendia a alcova, e a que um cocheiro obeso imprimia
+dignidade e decencia. E rolavamos ainda, quando o Duque de Marizac, a
+cavallo, ergueu a bengala, estacou a nossa vittoria para perguntar a
+Jacintho se apparecia noite nos quadros vivos dos Verghanes. O meu
+Principe rosnou um--no, parto para o sul...--que mal lhe passou
+d'entre os bigodes murchos... E Marizac lamentou--porque era uma festa
+estupenda. Quadros vivos da Historia Sagrada e da Historia Romana!...
+Madame Verghane, de Magdalena, de braos ns, peitos ns, pernas nas,
+limpando com os cabellos os ps do Christo!--O Christo, um latago
+soberbo, parente dos Trves, empregado no Ministerio da Guerra, gemendo,
+derreado, sob uma cruz de papelo! Havia tambem Lucrecia na cama, e
+Tarquinio ao lado, de punhal, a puxar os lenoes! E depois ceia, em
+mezas soltas, todos nos seus trajes historicos. Elle j estava
+aparceirado com Madame de Malbe, que era Agrippina! Quadro portentoso
+esse--Agrippina morta, quando Nero a vem contemplar e lhe estuda as
+frmas, admirando umas, desdenhando outras como imperfeitas. Mas, por
+polidez, ficra combinado que Nero admiraria sem reserva todas as frmas
+de Madame de Malbe... Emfim collossal, e estupendamente instructivo!
+
+Acenamos um longo adeus quelle alegre Marizac. E recolhemos sem que
+Jacintho emergisse do silencio enrugado em que se abysmra, com os
+braos rigidamente cruzados, como remoendo pensamentos decisivos e
+fortes. Depois, em frente ao Arco de Triumpho, moveu a cabea, murmurou:
+
+-- muito grave, deixar a Europa!
+
+ * * * * *
+
+Emfim, partimos! Sob a doura do crepusculo que se enublra deixamos o
+202. O Grillo e o Anatole seguiam n'um fiacre atulhado de livros, de
+estojos, de paletots, de impermeaveis, de travesseiras, de agoas
+mineraes, de saccos de couro, de rolos de mantas: e mais atraz um
+omnibus rangia sob a carga de vinte e tres malas. Na Estao, Jacintho
+ainda comprou todos os Jornaes, todas as Illustraes, Horarios, mais
+livros, e um saca-rolhas de frma complicada e hostil. Guiados pelo
+Chefe do Trafico, pelo Secretario da Companhia, occupamos copiosamente o
+nosso salo. Eu puz o meu bonet de sda, calcei as minhas chinellas. Um
+silvo varou a noite. Paris lampejou, fugiu n'um derradeiro claro de
+janellas... Para o sorver, Jacintho ainda se arremessou portinhola.
+Mas rolavamos j na treva da Provincia. O meu Principe ento recahiu nas
+almofadas:
+
+--Que aventura, Z Fernandes!
+
+At Chartres, em silencio, folheamos as Illustraes. Em Orleans, o
+guarda veio arranjar respeitosamente as nossas camas. Derreado com
+aquelles quatorze mezes de Civilisao adormeci--e s acordei em Bordeus
+quando Grillo, zeloso, nos trouxe o nosso chocolate. Fra, uma chuva
+miudinha pingava mollemente d'um espesso ceu de algodo sujo. Jacintho
+no se deitra, desconfiado da aspereza e da humidade dos lenoes. E,
+mettido n'um roupo de flanella branco, com a face arripiada e
+estremunhada, ensopando um bolo no chocolate, rosnava sombriamente:
+
+--Este horror!... E agora com chuva!
+
+Em Biarritz, ambos observamos com uma certeza indolente:
+
+-- Biarritz.
+
+Depois Jacintho, que espreitava pela janella embaciada, reconheceu o
+lento caminhar pernalto, o nariz bicudo e triste, do Historiador Danjon.
+Era elle, o facundo homem, vestido de xadrezinho, ao lado d'uma dama
+rolia que levava pela trella uma cadellinha felpuda. Jacintho baixou a
+vidraa violentamente, berrou pelo Historiador, na ancia de communicar
+ainda, atravs d'elle, com a Cidade, com o 202!... Mas o comboio
+mergulhra na chuva e nevoa.
+
+Sobre a ponte do Bidassoa, antevendo o termo da vida facil, os abrolhos
+da Incivilisao, Jacintho suspirou com desalento:
+
+--Agora adeus, comea a Hespanha!...
+
+Indignado, eu, que j saboreava o generoso ar da terra bemdita, saltei
+para diante do meu Principe, e n'um saracoteio de tremendo salero,
+castanholando os dedos, entoei uma petenera condigna:
+
+A la puerta de mi casa
+Ay Soledad, Soleda... ... ... .
+
+Elle estendeu os braos, supplicante:
+
+--Z Fernandes, tem piedade do enfermo e do triste!
+
+--_Irun_! _Irun_!...
+
+N'essa Irun almoamos com succulencia--por que sobre ns velava, como
+Deusa omnipresente, a Companhia do Norte. Depois el jefe d'Aduana, el
+jefe d'Estacion, preciosamente nos installaram n'outro salo, novo, com
+setins cr d'azeitona, mas to pequeno que uma rica poro dos nossos
+confortos em mantas, livros, saccos e impermeaveis, passou para o
+compartimento do _Sleeping_ onde se repoltreavam o Grillo e o Anatole,
+ambos de bonets escocezes, e fumando gordos charutos.--_Buen viaje_!
+_Gracias_! _Servidores_!--E entramos silvando nos Pyreneos.
+
+Sob a influencia da chuva embaciadora, d'aquellas serras sempre eguaes,
+que se desenrolavam, arripiadas, diluidas na nevoa, resvalei a uma
+somnolencia dce;--e, quando descerrava as palpebras, encontrava
+Jacintho a um canto, esquecido do livro fechado nos joelhos, sobre que
+cruzra os magros dedos, considerando valles e montes com a melancolia
+de quem penetra nas terras do seu desterro! Um momento veio em que,
+arremessando o livro, enterrando mais o chapo molle, se ergueu com
+tanta deciso, que receei detivesse o comboio para saltar estrada,
+correr atravez das Vascongadas e da Navarra, para traz, para o 202!
+Sacudi o meu torpr, exclamei:--oh menino!... No! O pobre amigo ia
+apenas continuar o seu tedio para outro canto, enterrado n'outra
+almofada, com outro livro fechado. E maneira que a escurido da tarde
+crescia, e com ella a borrasca de vento e agoa, uma inquietao mais
+aterrada se apoderava do meu Principe, assim desgarrado da Civilisao,
+arrastado para a Natureza que j o cercava de brutalidade agreste. No
+cessou ento de me interrogar sobre Tormes:
+
+--As noites so horriveis, hein, Z Fernandes? Tudo negro, enorme
+solido... E medico?... Ha medico?
+
+Subitamente o comboio estacou. Mais grossa e ruidosa a chuva fustigou as
+vidraas. Era um descampado, todo em treva, onde rolava e lufava um
+grande vento solto. A machina apitava, com angustia. Uma lanterna
+lampejou, correndo. Jacintho batia o p:-- medonho! medonho!...
+Entreabri a portinhola. Da claridade incerta das vidraas surdiam
+cabeas esticadas, assustadas.--_Que hay_? _Que hay_?--A uma rajada,
+que me alagou, recuei:--e esperamos durante lentos, calados minutos,
+esfregando desesperadamente os vidros embaciados para sondar a
+escurido. De repente o comboio recomeou a rolar, muito sereno.
+
+Em breve appareceram as luzinhas mortas d'uma estao abarracada. Um
+conductor, com o casaco de oleado todo a escorrer, trepou ao salo:--e
+por elle soubemos, emquanto carimbava apressadamente os bilhetes, que o
+trem, muito atrazado, talvez no alcanasse em Medina o comboio de
+Salamanca!
+
+--Mas ento?...
+
+O casaco de oleado escorregra pela portinhola, fundido na noite,
+deixando um cheiro de humidade e azeite. E ns encetamos um novo
+tormento... Se o trem de Salamanca tivesse abalado? O salo, tomado at
+Medina, desengatava em Medina:--e eis os nossos preciosos corpos, com as
+nossas preciosas almas, despejados em Medina, para cima da lama, entre
+vinte e trez malas, n'uma rude confuso hespanhola, sob a tormenta de
+ventania e d'agua!
+
+--Oh, Z Fernandes, uma noite em Medina!
+
+Ao meu Principe apparecia como desventura suprema essa noite em Medina,
+n'uma _fonda_ sordida, fedendo a alho, com gordas filas de percevejos
+atravez dos lenoes d'estopa encardida!... No cessei ento de fitar,
+n'um desassocego, os ponteiros do relogio:--emquanto Jacintho, pela
+vidraa escancarada, todo fustigado da chuva clamorosa, furava a
+negrura, na esperana de avistar as luzes de Medina e um comboio
+paciente fumegando... Depois recahia no divan, limpava os bigodes e os
+olhos, maldizia a Hespanha. O trem arquejava, rompendo o vasto vento da
+planura desolada. E a cada apito era um alvoroo. Medina?... No! Algum
+sumido apeadeiro, onde o trem se atardava, esfalfado, resfolgando,
+emquanto dormentes figuras encarapuadas, embrulhadas em mantas,
+rondavam sob o telheiro do barraco, que as lanternas baas tornavam
+mais soturno. Jacintho esmurrava o joelho:--Mas por que pra este
+infame comboio? No ha trafico, no ha gente! Oh esta Hespanha!... A
+sineta badalava, moribunda. De novo fendiamos a noite e a borrasca.
+
+Resignadamente comecei a percorrer um _Jornal do Commercio_, antigo,
+trazido de Paris. Jacintho esmagava o espesso tapete do salo com
+passadas rancorosas, rosnando como uma fera. E ainda assim se escoou, s
+gottas, uma hora cheia de eternidade.--Um silvo, outro silvo!... Luzes
+mais fortes, longe, palpitaram na neblina. As rodas trilharam, com rijos
+solavancos, os encontros de carris. Emfim, Medina!... Um muro sujo de
+barraco alvejou--e bruscamente, portinhola aberta com violencia,
+apparece um cavalheiro barbudo, de capa hespanhola, gritando pelo snr.
+D. Jacintho!... Depressa! depressa! que parte o comboio de Salamanca!
+
+--Que no hay un momento, caballeros! Que no hay un momento!
+
+Agarro estonteadamente o meu paletot, o _Jornal do Commercio_. Saltamos
+com ancia:--e, pela plataforma, por sobre os trilhos, atravs de
+charcos, tropeando em fardos, empurrados pelo vento, pelo homem da capa
+ hespanhola, enfiamos outra portinhola, que se fechou com um estalo
+tremendo... Ambos arquejavamos. Era um salo forrado de um panno verde
+que comia a luz escassa. E eu estendia o brao, para receber dos
+carregadores aodados as nossas malas, os nossos livros, as nossas
+mantas--quando, em silencio, sem um apito, o trem despegou e rolou.
+Ambos nos atiramos s vidraas, em brados furiosos:
+
+--Pare! As nossas malas, as nossas mantas!... P'ra aqui!... Oh Grillo!
+Oh Grillo!
+
+Uma immensa rajada levou os nossos brados. Era de novo o descampado
+tenebroso, sob a chuva despenhada. Jacintho ergueu os punhos, n'um furor
+que o engasgava:
+
+--Oh! Que servio! Oh que canalhas!... S em Hespanha!... E agora? As
+malas perdidas!... Nem uma camisa, nem uma escova!
+
+Calmei o meu desgraado amigo:
+
+--Escuta! eu entrevi dous carregadores arrebanhando as nossas cousas...
+Decerto o Grillo fiscalisou. Mas na pressa, naturalmente, atirou com
+tudo para o seu compartimento... Foi um erro no trazer o Grillo
+comnosco, no salo... At podiamos jogar a manilha!
+
+De resto a sollicitude da Companhia, Deusa omnipresente, velava sobre o
+nosso conforto--pois que porta do lavatorio branquejava o cesto da
+nossa ceia, mostrando na tampa um bilhete de D. Esteban com estas doces
+palavras a lapis--_ D. Jacintho y su egregio amigo, que les d gusto_!
+Farejei um aroma de perdiz. E alguma tranquillidade nos penetrou no
+corao sentindo tambem as nossas malas sob a tutella da Deusa
+omnipresente.
+
+--Tens fome Jacintho?
+
+--No. Tenho horror, furor, rancor!... E tenho somno.
+
+Com effeito! depois de to desencontradas emoes s appeteciamos as
+camas que esperavam, macias e abertas. Quando cahi sobre a travesseira,
+sem gravata, em ceroulas, j o meu Principe, que no se despira, apenas
+embrulhra os ps no _meu_ paletot, nosso unico agasalho, resonava com
+magestade.
+
+Depois, muito tarde e muito longe, percebi junto do meu catre, na
+claridadezinha da manh, coada pelas cortinas verdes, uma fardeta, um
+bonet, que murmuravam baixinho com immensa doura:
+
+--V. exc.^as no tem nada a declarar?... No ha malinhas de mo?...
+
+Era a minha terra! Murmurei baixinho com immensa ternura:
+
+--No temos aqui nada... Pergunte v. exc.^a pelo Grillo... Ahi atraz,
+n'um compartimento... Elle tem as chaves, tem tudo... o Grillo.
+
+A fardeta desappareceu, sem rumor, como sombra benefica. E eu readormeci
+com o pensamento em Guies, onde a tia Vicencia, atarefada, de leno
+branco cruzado no peito, de certo j preparava o leito.
+
+Acordei envolto n'um largo e doce silencio. Era uma Estao muito
+socegada, muito varrida, com rosinhas brancas trepando pelas paredes--e
+outras rosas em moitas, n'um jardim, onde um tanquesinho abafado de
+limos dormia sob duas mimosas em flr que rescendiam. Um moo pallido,
+de paletot cr de mel, vergando a bengalinha contra o cho, contemplava
+pensativamente o comboio. Agachada rente grade da horta, uma velha,
+diante da sua cesta de ovos, contava moedas de cobre no regao. Sobre o
+telhado seccavam aboboras. Por cima rebrilhava o profundo, rico e macio
+azul de que meus olhos andavam agoados.
+
+Sacudi violentamente Jacintho:
+
+--Acorda, homem, que ests na tua terra!
+
+Elle desembrulhou os ps do meu paletot, cofiou o bigode, e veio sem
+pressa, vidraa que eu abrira, conhecer a sua terra.
+
+--Ento Portugal, hein?... Cheira bem.
+
+--Est claro que cheira bem, animal!
+
+A sineta tilintou languidamente. E o comboio deslisou, com descano,
+como se passeasse para seu regalo sobre as duas fitas d'ao, assobiando
+e gozando a belleza da terra e do ceu.
+
+O meu Principe alargava os braos, desolado:
+
+--E nem uma camisa, nem uma escova, nem uma gotta d'agoa de Colonia!...
+Entro em Portugal, immundo!
+
+--Na Regoa ha uma demora, temos tempo de chamar o Grillo, rehaver os
+nossos confortos... Olha para o rio!
+
+Rolavamos na vertente d'uma serra, sobre penhascos que desabavam at
+largos socalcos cultivados de vinhedo. Em baixo, n'uma esplanada,
+branquejava uma casa nobre, de opulento repouso, com a capellinha muito
+caiada entre um laranjal maduro. Pelo rio, onde a agoa turva e tarda nem
+se quebrava contra as rochas, descia, com a vela cheia, um barco lento
+carregado de pipas. Para alm, outros socalcos, d'um verde pallido de
+rezeda, com oliveiras apoucadas pela amplido dos montes, subiam at
+outras penedias que se embebiam, todas brancas e assoalhadas, na fina
+abundancia do azul. Jacintho acariciava os pellos corredios do bigode:
+
+--O Douro, hein?... interessante, tem grandeza. Mas agora que eu
+estou com uma fome, Z Fernandes!
+
+Tambem eu! Destapamos o cesto de D. Esteban d'onde surdiu um bodo
+grandioso, de presunto, anho, perdizes, outras viandas frias que o ouro
+de duas nobres garrafas d'Amontillado, alm de duas garrafas de Rioja,
+aqueciam com um calor de sol Andaluz. Durante o presunto, Jacintho
+lamentou contrictamente o seu erro. Ter deixado Tormes, um solar
+historico, assim abandonado e vasio! Que delicia, por aquella manh to
+lustrosa e tepida, subir serra, encontrar a sua casa bem apetrechada,
+bem civilisada... Para o animar, lembrei que com as obras do Silverio,
+tantos caixotes de Civilisao remettidos de Paris, Tormes estaria
+confortavel mesmo para Epicuro. Oh! mas Jacintho entendia um palacio
+perfeito, um 202 no deserto!... E, assim discorrendo, atacamos as
+perdizes. Eu desarrolhava uma garrafa de Amontillado--quando o comboio,
+muito sorrateiramente, penetrou n'uma Estao. Era a Regoa. E o meu
+Principe pousou logo a faca para chamar o Grillo, reclamar as malas que
+traziam o aceio dos nossos corpos.
+
+--Espera, Jacintho! Temos muito tempo, O comboio pra aqui uma hora...
+Come com tranquillidade. No escangalhemos este almocinho com arrumaes
+de maletas... O Grillo no tarda a apparecer.
+
+E corri mesmo a cortina, porque de fra um padre muito alto, com uma
+ponta de cigarro collada ao beio, parra a espreitar indiscretamente o
+nosso festim. Mas quando acabamos as perdizes, e Jacintho confiadamente
+desembrulhava um queijo manchego, sem que Grillo ou Anatole
+comparecessem, eu, inquieto, corri portinhola para apressar esses
+servos tardios... E n'esse instante o comboio, largando, deslisou com o
+mesmo silencio sorrateiro. Para o meu Principe foi um desgosto:
+
+--Ahi ficamos outra vez sem um pente, sem uma escova... E eu que queria
+mudar de camisa! Por culpa tua, Z-Fernandes!
+
+-- espantoso!... Demora sempre uma eternidade. Hoje chega e abala!
+Paciencia, Jacintho. Em duas horas estamos na Estao de Tormes...
+Tambem no valia a pena mudar de camisa para subir serra! Em casa
+tomamos um banho, antes de jantar... J deve estar installada a
+banheira.
+
+Ambos nos consolamos com copinhos d'uma divina aguardente Chinchon.
+Depois, estendidos nos sophs, saboreando os dois charutos que nos
+restavam, com as vidraas abertas ao ar adoravel, conversamos de Tormes.
+Na estao certamente estaria o Silverio, com os cavallos...
+
+--Que tempo leva a subir?
+
+Uma hora. Depois de lavados sobrava tempo para um demorado passeio pelas
+terras com o caseiro, o excellente Melchior, para que o Senhor de
+Tormes, solemnemente, tomasse posse do seu Senhorio. E noite o
+primeiro brodio da serra, com os piteus vernaculos do velho Portugal!
+
+Jacintho sorria, seduzido:
+
+--Vamos a ver que cozinheiro me arranjou esse Silverio. Eu recommendei
+que fosse um soberbo cozinheiro portuguez, classico. Mas que soubesse
+trufar um per, afogar um bife em molho de moella, estas cousas simples
+da cozinha de Frana!... O peor no te demorares, seguires logo para
+Guies...
+
+--Ah, menino, annos da tia Vicencia no sabbado... Dia sagrado! Mas
+volto. Em duas semanas estou em Tormes, para fazermos uma larga
+Bucolica. E, est claro, para assistir trasladao.
+
+Jacintho estendera o brao:
+
+--Que casaro aquelle, alm no outeiro, com a torre?
+
+Eu no sabia. Algum solar de fidalgote do Douro... Tormes era n'esse
+feitio atarracado e massio. Casa de seculos e para seculos--mas sem
+torre.
+
+--E logo se v, da estao, Tormes?...
+
+--No! Muito no alto, n'uma prega da serra, entre arvoredo.
+
+No meu Principe j evidentemente nascra uma curiosidade pela sua rude
+casa ancestral. Mirava o relogio, impaciente. Ainda trinta minutos!
+Depois, sorvendo o ar e a luz, murmurava, no primeiro encanto de
+iniciado:
+
+--Que doura, que paz...
+
+--Trez horas e meia, estamos a chegar, Jacintho!
+
+Guardei o meu velho _Jornal do Commercio_ dentro do bolso do paletot,
+que deitei sobre o brao;--e ambos em p, s janellas, esperamos com
+alvoroo a pequenina Estao de Tormes, termo ditoso das nossas
+provaes. Ella appareceu emfim, clara e simples, beira do rio, entre
+rochas, com os seus vistosos girasoes enchendo um jardimsinho breve, as
+duas altas figueiras assombreando o pateo, e por traz a serra coberta de
+velho e denso arvoredo... Logo na plataforma avistei com gosto a immensa
+barriga, as bochechas menineiras do chefe da Estao, o louro Pimenta,
+meu condiscipulo em Rhetorica, no Lyceu de Braga. Os cavallos decerto
+esperavam, sombra, sob as figueiras.
+
+Mal o trem parou ambos saltamos alegremente. A bojuda massa do Pimenta
+rebolou para mim com amizade:
+
+--Viva o amigo Z Fernandes!
+
+--Oh bello Pimento!...
+
+Apresentei o senhor de Tormes. E immediatamente:
+
+--Ouve l, Pimentinha... No est ahi o Silverio?
+
+--No... O Silverio ha quasi dois mezes que partiu para Castello de
+Vide, vr a me que apanhou uma cornada d'um boi!
+
+Atirei a Jacintho um olhar inquieto:
+
+--Ora essa! E o Melchior, o caseiro?... Pois no esto ahi os cavallos
+para subirmos quinta?
+
+O digno chefe ergueu com surpreza as sobrancelhas cr de milho:
+
+--No!... Nem Melchior, nem cavallos... O Melchior... Ha que tempos eu
+no vejo o Melchior!
+
+O carregador badalou lentamente a sineta para o comboio rolar. Ento,
+no avistando em torno, na lisa e despovoada Estao, nem creados nem
+malas, o meu Principe e eu lanamos o mesmo grito de angustia:
+
+--E o Grillo? as bagagens?...
+
+Corremos pela beira do comboio, berrando com desespero:
+
+--Grillo!... Oh Grillo!... Anatole!... Oh Grillo!
+
+Na esperana que elle e o Anatole viessem mortalmente adormecidos,
+trepavamos aos estribos, atirando a cabea para dentro dos
+compartimentos, espavorindo a gente quieta com o mesmo berro que
+retumbava:--Grillo, ests ahi, Grillo?--J d'uma terceira-classe, onde
+uma viola repenicava, um jocoso gania, troando:--No ha por ahi um
+grillo? Andam por ahi uns senhores a pedir um grillo!--E nem Anatole,
+nem Grillo!
+
+A sineta tilintou.
+
+--Oh Pimentinha, espera, homem, no deixes largar o comboio!... As
+nossas bagagens, homem!
+
+E, afflicto, empurrei o enorme chefe para o forgo de carga, a
+pesquizar, descortinar as nossas vinte e trez malas! Apenas encontramos
+barris, cestos de vime, latas de azeite, um bah amarrado com cordas...
+Jacintho mordia os beios, livido. E o Pimentinha, esgazeado:
+
+--Oh filhos, eu no posso atrazar o comboio!...
+
+A sineta repicou... E com um bello fumo claro o comboio desappareceu por
+detraz das fragas altas. Tudo em torno pareceu mais calado e deserto.
+Alli ficavamos pois baldeados, perdidos na serra, sem Grillo, sem
+procurador, sem caseiro, sem cavallos, sem malas! Eu conservava o
+paletot alvadio, d'onde surdia o _Jornal do Commercio_. Jacintho, uma
+bengala. Eram todos os nossos bens!
+
+O Pimento arregalava para ns os olhinhos papudos e compadecidos.
+Contei ento quelle amigo o atarantado trasfgo em Medina sob a
+borrasca, o Grillo desgarrado, encalhado com as vinte e trez malas, ou
+rolando talvez para Madrid sem nos deixar um leno...
+
+--Eu no tenho um leno!... Tenho este _Jornal do Commercio_. toda a
+minha roupa branca.
+
+--Grande arrelia, caramba! murmurava o Pimenta, impressionado. E agora?
+
+--Agora, exclamei, trepar, para a quinta, pata... A no ser que se
+arranjassem ahi uns burros.
+
+Ento o carregador lembrou que perto, no casal da Giesta, ainda
+pertencente a Tormes, o caseiro, seu compadre, tinha uma boa egua e um
+jumento... E o prestante homem enfiou n'uma carreira para a
+Giesta--emquanto o meu Principe e eu cahiamos para cima d'um banco,
+arquejantes e succumbidos, como naufragos. O vasto Pimentinha, com as
+mos nas algibeiras, no cessava de nos contemplar, de murmurar:-- de
+arrelia.--O rio defronte descia, preguioso e como adormentado sob a
+calma j pesada de maio, abraando, sem um sussurro, uma larga ilhota de
+pedra que rebrilhava. Para alm a serra crescia em corcovas doces, com
+uma funda prega onde se aninhava, bem junta e esquecida do mundo, uma
+villasinha clara. O espao immenso repousava n'um immenso silencio.
+N'aquellas solides de monte e penedia os pardaes, revoando no telhado,
+pareciam aves consideraveis. E a massa rotunda e rubicunda do Pimentinha
+dominava, atulhava a regio.
+
+--Est tudo arranjado, meu senhor! Vm ahi os bichos!... S o que no
+calhou foi um selimsinho para a jumenta!
+
+Era o carregador, digno homem, que voltava da Giesta, sacudindo na mo
+duas esporas desirmanadas e ferrugentas. E no tardaram a apparecer no
+corrego, para nos levarem a Tormes, uma egua rua, um jumento com
+albarda, um rapaz e um podengo. Apertamos a mo suada e amiga do
+Pimentinha. Eu cedi a egua ao senhor de Tormes. E comeamos a trepar o
+caminho, que no se alisra nem se desbravra desde os tempos em que o
+trilhavam, com rudes sapates ferrados, cortando de rio a monte, os
+Jacinthos do seculo XIV! Logo depois de atravessarmos uma tremula ponte
+de pau, sobre um riacho quebrado por pedregulhos, o meu Principe, com o
+olho de dono subitamente aguado, notou a robustez e a fartura das
+oliveiras...--E em breve os nossos males esqueceram ante a incomparavel
+belleza d'aquella serra bemdita!
+
+Com que brilho e inspirao copiosa a compozera o divino Artista que faz
+as serras, e que tanto as cuidou, e to ricamente as dotou, n'este seu
+Portugal bem-amado! A grandeza egualava a graa. Para os valles,
+poderosamente cavados, desciam bandos de arvoredos, to copados e
+redondos, d'um verde to mo que eram como um musgo macio onde
+appetecia cahir e rolar. Dos pendores, sobranceiros ao carreiro fragoso,
+largas ramadas estendiam o seu toldo amavel, a que o esvoaar leve dos
+passaros sacudia a fragrancia. Atravez dos muros seculares, que sustem
+as terras liados pelas heras, rompiam grossas raizes colleantes a que
+mais hera se enroscava. Em todo o torro, de cada fenda, brotavam flres
+silvestres. Brancas rochas, pelas encostas, alastravam a solida nudez do
+seu ventre polido pelo vento e pelo sol; outras, vestidas de lichen e de
+silvados floridos, avanavam como pras de galeras enfeitadas: e,
+d'entre as que se apinhavam nos cimos, algum casebre que para l
+galgra, todo amachucado e torto, espreitava pelos postigos negros, sob
+as desgrenhadas farripas de verdura, que o vento lhe semera nas telhas.
+Por toda a parte a agua sussurrante, a agua fecundante... Espertos
+regatinhos fugiam, rindo com os seixos, d'entre as patas da egua e do
+burro; grossos ribeiros aodados saltavam com fragor de pedra em pedra;
+fios direitos e luzidios como cordas de prata vibravam e faiscavam das
+alturas aos barrancos; e muita fonte, posta beira de veredas, jorrava
+por uma bica, beneficamente, espera dos homens e dos gados... Todo um
+cabeo por vezes era uma cera, onde um vasto carvalho ancestral,
+solitario, dominava como seu senhor e seu guarda. Em socalcos verdejavam
+laranjaes rescendentes. Caminhos de lages soltas circumdavam fartos
+prados com carneiros e vaccas retouando:--ou mais estreitos, entalados
+em muros, penetravam sob ramadas de parra espessa, n'uma penumbra de
+repouso e frescura. Trepavamos ento alguma ruasinha de aldeia, dez ou
+doze casebres, sumidos entre figueiras, onde se esgaava, fugindo do lar
+pela telha v, o fumo branco e cheiroso das pinhas. Nos cerros remotos,
+por cima da negrura pensativa dos pinheiraes, branquejavam ermidas. O ar
+fino e puro entrava na alma, e n'alma espalhava alegria e fora. Um
+esparso tilintar de chocalhos de guizos morria pelas quebradas...
+
+Jacintho adiante, na sua egua rua, murmurava:
+
+--Que belleza!
+
+E eu atraz, no burro de Sancho, murmurava:
+
+--Que belleza!
+
+Frescos ramos roavam os nossos hombros com familiaridade e carinho. Por
+traz das sebes, carregadas d'amoras, as macieiras estendidas offereciam
+as suas mas verdes, porque as no tinham maduras. Todos os vidros
+d'uma casa velha, com a sua cruz no topo, refulgiram hospitaleiramente
+quando ns passamos. Muito tempo um melro nos seguia, de azinheiro a
+olmo, assobiando os nossos louvores. Obrigado, irmo melro! Ramos de
+macieira, obrigado! Aqui vimos, aqui vimos! E sempre comtigo fiquemos,
+serra to acolhedora, serra de fartura e de paz, serra bemdita entre as
+serras!
+
+Assim, vagarosamente e maravilhados, chegamos quella avenida de faias,
+que sempre me encantra pela sua fidalga gravidade. Atirando uma
+vergastada ao burro e egua, o nosso rapaz, com o seu podengo sobre os
+calcanhares, gritou:--Aqui que estmos, meus amos! E ao fundo das
+faias, com effeito, apparecia o porto da quinta de Tormes, com o seu
+brazo de armas, de secular granito, que o musgo retocava e mais
+envelhecia. Dentro j os ces ladravam com furor. E quando Jacintho, na
+sua suada egua, e eu atraz, no burro de Sancho, transpozemos o limiar
+solarengo, desceu para ns, do alto do alpendre, pela escadaria de pedra
+gasta, um homem nedio, rapado como um padre, sem collete, sem jaleca,
+acalmando os ces que se encarniavam contra o meu Principe. Era o
+Melchior, o caseiro... Apenas me reconheceu, toda a bocca se lhe
+escancarou n'um riso hospitaleiro, a que faltavam dentes. Mas apenas eu
+lhe revelei, d'aquelle cavalheiro de bigodes louros que descia da egua
+esfregando os quadris, o senhor de Tormes--o bom Melchior recuou,
+colhido de espanto e terror como diante d'uma avantesma.
+
+--Ora essa!... Santissimo nome de Deus! Pois ento...
+
+E, entre o rosnar dos ces, n'um bracejar desolado, balbuciou uma
+historia que por seu turno apavorava Jacintho, como se o negro muro do
+casaro pendesse para desabar. O Melchior no esperava s. ex.^a! Ninguem
+esperava s. ex.^a!... (Elle dizia _sua incellencia_)... O snr. Silverio
+estava para Castello de Vide desde maro, com a me, que apanhra uma
+cornada na virilha. E de certo houvera engano, cartas perdidas... Porque
+o snr. Silverio s contava com s. exc.^a em setembro, para a vindima! Na
+casa as obras seguiam devagarinho, devagarinho... O telhado, no sul,
+ainda continuava sem telhas; muitas vidraas esperavam, ainda sem
+vidros; e, para ficar, Virgem Santa, nem uma cama arranjada!...
+
+Jacintho cruzou os braos n'uma colera tumultuosa que o suffocava. Por
+fim, com um berro:
+
+--Mas os caixotes? Os caixotes, mandados de Paris, em fevereiro, ha
+quatro mezes?...
+
+O desgraado Melchior arregalava os olhos miudos, que se embaciavam de
+lagrimas. Os caixotes?! Nada chegra, nada apparecera!... E na sua
+perturbao mirava pelas arcadas do pateo, palpava na algibeira das
+pantalonas. Os caixotes?... No, no tinha os caixotes!
+
+--E agora, Z Fernandes?
+
+Encolhi os hombros:
+
+--Agora, meu filho, s vires commigo para Guies... Mas so duas horas
+fartas a cavallo. E no temos cavallos! O melhor vr o casaro, comer
+a boa gallinha que o nosso amigo Melchior nos assa no espeto, dormir
+n'uma enxerga, e manha cedo, antes do calor, trotar para cima, para a
+tia Vicencia.
+
+Jacintho replicou, com uma deciso furiosa:
+
+--manh troto, mas para baixo, para a estao!... E depois, para
+Lisboa!
+
+E subiu a gasta escadaria do seu solar com amargura e rancor. Em cima
+uma larga varanda acompanhava a fachada do casaro, sob um alpendre de
+negras vigas, toda ornada, por entre os pilares de granito, com caixas
+de pau onde floriam cravos. Colhi um cravo amarello---e penetrei atraz
+de Jacintho nas salas nobres, que elle contemplava com um murmurio de
+horror. Eram enormes, d'uma sonoridade de casa capitular, com os grossos
+muros ennegrecidos pelo tempo e o abandono, e regeladas, desoladamente
+nas, conservando apenas aos cantos algum monte de canastras ou alguma
+enxada entre paus. Nos tectos remotos, de carvalho apainelado, luziam
+atravs dos rasges manchas de co. As janellas, sem vidraas,
+conservavam essas macissas portadas, com fechos para as trancas, que,
+quando se cerram, espalham a treva. Sob os nossos passos, aqui e alm,
+uma taboa pdre rangia e cedia.
+
+--Inhabitavel! rugia Jacintho surdamente. Um horror! Uma infamia!...
+
+Mas depois, n'outras salas, o soalho alternava com remendos de taboas
+novas. Os mesmos remendos claros mosqueavam os velhissimos tectos de
+rico carvalho sombrio. As paredes repelliam pela alvura cra da cal
+fresca. E o sol mal atravessava as vidraas--embaciadas e gordurentas da
+massa e das mos dos vidraceiros.
+
+Penetramos emfim na ultima, a mais vasta, rasgada por seis janellas,
+mobilada com um armario e com uma enxerga parda e curta estirada a um
+canto: e junto d'ella paramos, e sobre ella depuzemos tristemente o que
+nos restava de vinte e trez malas--o meu paletot alvadio, a bengala de
+Jacintho, e o _Jornal do Commercio_ que nos era commum. Atravs das
+janellas escancaradas, sem vidraas, o grande ar da serra entrava e
+circulava como n'um eirado, com um cheiro fresco d'horta regada. Mas o
+que avistavamos, da beira da enxerga, era um pinheiral cobrindo um
+cabeo e descendo pelo pendor suave, maneira d'uma hoste em marcha,
+com pinheiros na frente, destacados, direitos, emplumados de negro; mais
+longe as serras d'alm rio, d'uma fina e macia cr de violeta; depois a
+brancura do co, todo liso, sem uma nuvem, d'uma magestade divina. E l
+debaixo, dos valles, subia, desgarrada e melancolica, uma voz de
+pegureiro cantando.
+
+Jacintho caminhou lentamente para o poial d'uma janella, onde cahiu
+esbarrondado pelo desastre, sem resistencia ante aquelle brusco
+desapparecimento de toda a Civilisao! Eu palpava a enxerga, dura e
+regelada como um granito de inverno. E pensando nos luxuosos colches de
+pennas e molas, to prodigamente encaixotados no 202, desafoguei tambem
+a minha indignao:
+
+--Mas os caixotes, caramba?... Como se perdem assim trinta e tantos
+caixotes enormes?...
+
+Jacintho saccudiu amargamente os hombros:
+
+--Encalhados, por ahi, algures, n'um barraco!... Em Medina, talvez,
+n'essa horrenda Medina. Indifferena das Companhias, inercia do
+Silverio... Emfim a Peninsula, a barbarie!
+
+Vim ajoelhar sobre o outro poial, alongando os olhos consolados por co
+e monte:
+
+-- uma belleza!
+
+O meu principe, depois de um silencio grave, murmurou, com a face
+encostada mo:
+
+-- uma lindeza... E que paz!
+
+Sob a janella vicejava fartamente uma horta, com repolho, feijoal,
+talhes de alface, gordas folhas de abobora rastejando. Uma eira, velha
+e mal alisada, dominava o valle, d'onde j subia tenuemente a nevoa
+d'algum fundo ribeiro. Toda a esquina do casaro d'esse lado se
+encravava em laranjal. E d'uma fontinha rustica, meio afogada em rosas
+tremedeiras, corria um longo e rutilante fio d'agua.
+
+--Estou com appetite desesperado d'aquella agoa! declarou Jacintho,
+muito srio.
+
+--Tambem eu... Desamos ao quintal, hein? E passamos pela cosinha, a
+saber do frango.
+
+Voltamos varanda. O meu Principe, mais conciliado com o destino
+inclemente, colheu um cravo amarello. E por outra porta baixa, de
+rigissimas hombreiras, mergulhamos n'uma sala, alastrada de calia, sem
+tecto, coberta apenas de grossas vigas, d'onde s'ergueu uma revoada de
+pardaes.
+
+--Olha para este horror! murmurava Jacintho arripiado.
+
+E descemos por uma lobrega escada de castello, tenteando depois um
+corredor tenebroso de lages asperas, atravancado por profundas arcas,
+capazes de guardar todo o gro d'uma provincia. Ao fundo a cozinha,
+immensa, era uma massa de frmas negras, madeira negra, pedra negra,
+densas negruras de felugem secular. E n'este negrume refulgia a um
+canto, sobre o cho de terra negra, a fogueira vermelha, lambendo tachos
+e panellas de ferro, despedindo uma fumarada que fugia pela grade aberta
+no muro, depois por entre a folhagem dos limoeiros. Na enorme lareira,
+onde se aqueciam e assavam as suas grossas peas de porco e boi os
+Jacinthos medievaes, agora desaproveitada pela frugalidade dos caseiros,
+negrejava um poeirento monto de cestas e ferramentas; e a claridade
+toda entrava por uma porta de castanho, escancarada sobre um quintalejo
+rustico em que se misturavam couves lombardas e junquilhos formosos. Em
+roda do lume um bando alvoroado de mulheres depennava frangos, remexia
+as caarolas, picava a cebola, com um fervor afogueado e palreiro. Todas
+emmudeceram quando apparecemos--e d'entre ellas o pobre Melchior,
+estonteado, com o sangue a espirrar na nedia face d'abbade, correu para
+ns, jurando que o jantarinho de suas Incellencias no demorava um
+credo...
+
+--E a respeito de camas, oh amigo Melchior?
+
+O digno homem ciciou uma desculpa encolhida sobre enxergasinhas no
+cho...
+
+-- o que basta! acudi eu, para o consolar. Por uma noite, com lenoes
+frescos...
+
+--Ah, l pelos lenoesinhos respondo eu!... Mas um desgosto assim, meu
+senhor! A gente apanhada sem um colxosinho de l, sem um lombosinho de
+vacca... Que eu j pensei, at lembrei minha comadre, V. Inc.^{as}
+podiam ir dormir aos _Ninhos_, a casa do Silverio. Tinham l camas de
+ferro, lavatorios... Elle sempre uma legoasita e mau caminho...
+
+Jacintho, bondoso, accudiu:
+
+--No, tudo se arranja, Melchior. Por uma noite!... At gsto mais de
+dormir em Tormes, na minha casa da serra!
+
+Sahimos ao terreiro, retalho de horta fechado por grossas rochas
+encabelladas de verdura, entestando com os socalcos da serra onde
+lourejava o centeio. O meu principe bebeu da agua nevada e lusidia da
+fonte, regaladamente, com os beios na bica; appeteceu a alface
+rechonchuda e crespa; e atirou pulos aos ramos altos d'uma copada
+cerejeira, toda carregada de cereja. Depois, costeando o velho lagar, a
+que um bando de pombas branqueava o telhado, deslismos at ao carreiro,
+cortado no costado do monte. E andando, pensativamente, o meu Principe
+pasmava para os milheiraes, para os vetustos carvalhos plantados por
+vetustos Jacinthos, para os casebres espalhados sobre os cabeos orla
+negra dos pinheiraes.
+
+De novo penetramos na avenida de faias e transpozemos o porto senhorial
+entre o latir dos ces, mais mansos, farejando um dono. Jacintho
+reconheceu certa nobreza na frontaria do seu lar. Mas sobretudo lhe
+agradava a longa alameda, assim direita e larga, como traada para
+n'ella se desenrolar uma cavalgada de Senhores com plumas e pagens.
+Depois, de cima da varanda, reparando na telha nova da capella, louvou o
+Silverio, esse ralao, por cuidar ao menos da morada do Bom-Deus.
+
+--E esta varanda tambem agradavel, murmurou elle mergulhando a face no
+aroma dos cravos. Precisa grandes poltronas, grandes divans de verga...
+
+Dentro, na nossa sala, ambos nos sentamos nos poiaes da janella,
+contemplando o doce socego crepuscular que lentamente se estabelecia
+sobre valle e monte. No alto tremeluzia uma estrellinha, a Venus
+diamantina, languida annunciadora da noite e dos seus contentamentos.
+Jacintho nunca considerra demoradamente aquella estrella, de amorosa
+refulgencia, que perpetua no nosso Co catholico a memoria da Deusa
+incomparavel:--nem assistira jmais, com a alma attenta, ao magestoso
+adormecer da Natureza. E este ennegrecimento dos montes que se embuam
+em sombra; os arvoredos emmudecendo, canados de susurrar; o rebrilho
+dos casaes mansamente apagado; o cobertor de nevoa, sob que se acama e
+agasalha a frialdade dos valles; um toque somnolento de sino que rola
+pelas quebradas; o segredado cochichar das aguas e das relvas
+escuras--eram para elle como iniciaes. D'aquella janella, aberta sobre
+as serras, entrevia uma outra vida, que no anda smente cheia do Homem
+e do tumulto da sua obra. E senti o meu amigo suspirar como quem emfim
+descana.
+
+D'este enlevo nos arrancou o Melchior com o doce aviso do jantarinho de
+suas Incellencias. Era n'outra sala, mais na, mais abandonada:--e ahi
+logo porta o meu super-civilisado Principe estacou, estarrecido pelo
+desconforto, escassez e rudeza das coisas. Na mesa, encostada ao muro
+denegrido, sulcado pelo fumo das candeias, sobre uma toalha de estopa,
+duas velas de sbo em castiaes de lata alumiavam grossos pratos de
+loua amarella, ladeados por colheres de estanho e por garfos de ferro.
+Os copos, d'um vidro espesso, conservavam a sombra roxa do vinho que
+n'elles passra em fartos annos de fartas vindimas. A malga de barro,
+atestada de azeitonas pretas, contentaria Diogenes. Espetado na cdea
+d'um immenso po reluzia um immenso facalho. E na cadeira senhoreal
+reservada ao meu Principe, derradeira alfaia dos velhos Jacinthos, de
+hirto espaldar de couro, com a madeira roda de caruncho, a clina fugia
+em melenas pelos rasges do assento poido.
+
+Uma formidavel moa, de enormes peitos que lhe tremiam dentro das
+ramagens do leno cruzado, ainda suada e esbrazeada do calor da lareira,
+entrou esmagando o soalho, com uma terrina a fumegar. E o Melchior, que
+seguia erguendo a infusa do vinho, esperava que suas Incellencias lhe
+perdoassem porque faltra tempo para o caldinho apurar... Jacintho
+occupou a sde ancestral--e, durante momentos (de esgazeada anciedade
+para o caseiro excellente) esfregou energicamente, com a ponta da
+toalha, o garfo negro, a fusca colhr de estanho. Depois, desconfiado,
+provou o caldo, que era de gallinha e rescendia. Provou--e levantou para
+mim, seu camarada de miserias, uns olhos que brilharam, surprehendidos.
+Tornou a sorver uma colherada mais cheia, mais considerada. E sorriu,
+com espanto:--Est bom!
+
+Estava precioso: tinha figado e tinha moela: o seu perfume enternecia:
+tres vezes, fervorosamente, ataquei aquelle caldo.
+
+--Tambem l volto! exclamava Jacintho com uma convico immensa. que
+estou com uma fome... Santo Deus! Ha annos que no sinto esta fome.
+
+Foi elle que rapou avaramente a sopeira. E j espreitava a porta,
+esperando a portadora dos piteus, a rija moa de peitos trementes, que
+emfim surgiu, mais esbrazeada, abalando o sobrado--e pousou sobre a mesa
+uma travessa a trasbordar de arroz com favas. Que desconsolo! Jacintho,
+em Paris, sempre abominra favas!... Tentou todavia uma garfada
+timida--e de novo aquelles seus olhos, que o pessimismo ennovora,
+luziram, procurando os meus. Outra larga garfada, concentrada, com uma
+lentido de frade que se regala. Depois um brado:
+
+--Optimo!... Ah, d'estas favas, sim! Oh que fava! Que delicia!
+
+E por esta santa gula louvava a serra, a arte perfeita das mulheres
+palreiras que em baixo remexiam as panellas, o Melchior que presidia ao
+brodio...
+
+--D'este arroz com fava nem em Paris, Melchior amigo!
+
+O homem optimo sorria, inteiramente desannuviado:
+
+--Pois c a comidinha dos moos da quinta! E cada pratada, que at
+suas Incellencias se riam... Mas agora, aqui, o Snr. D. Jacintho, tambem
+vae engordar e enrijar!
+
+O bom caseiro sinceramente cria que, perdido n'esses remotos Parizes, o
+Senhor de Tormes, longe da fartura de Tormes, padecia fome e mingava...
+E o meu Principe, na verdade, parecia saciar uma velhissima fome e uma
+longa saudade da abundancia, rompendo assim, a cada travessa, em
+louvores mais copiosos. Diante do louro frango assado no espeto e da
+salada que elle appetecera na horta, agora temperada com um azeite da
+serra digno dos labios de Plato, terminou por bradar:-- divino! Mas
+nada o enthusiasmava como o vinho de Tormes, cahindo d'alto, da bojuda
+infusa verde--um vinho fresco, esperto, seivoso, e tendo mais alma,
+entrando mais na alma, que muito poema ou livro santo. Mirando, vela
+de sbo, o copo grosso que elle orlava de leve espuma rosea, o meu
+Principe, com um resplendr d'optimismo na face, citou Virgilio:
+
+--_Quo te carmina dicam, Rethica_? Quem dignamente te cantar, vinho
+amavel d'estas serras?
+
+Eu, que no gosto que me avantagem em saber classico, espanejei logo
+tambem o meu Virgilio, louvando as douras da vida rural:
+
+--_Hanc olim veteres vitam coluere Sabini_... Assim viveram os velhos
+Sabinos. Assim Romolo e Remo... Assim cresceu a valente Etruria. Assim
+Roma se tornou a maravilha do mundo!
+
+E immovel, com a mo agarrada infusa, o Melchior arregalava para ns
+os olhos em infinito assombro e religiosa reverencia.
+
+ * * * * *
+
+Ah! Jantamos deliciosissimamente, sob os auspicios do Melchior--que
+ainda depois, prvido e tutelar, nos forneceu o tabaco. E, como ante ns
+se alongava uma noite de monte, voltamos para as janellas desvidraadas,
+na sala immensa, a contemplar o sumptuoso co de vero. Philosophmos
+ento com pachorra e facundia.
+
+Na Cidade (como notou Jacintho) nunca se olham, nem lembram os
+astros--por causa dos candieiros de gaz ou dos globos de electricidade
+que os offuscam. Por isso (como eu notei) nunca se entra n'essa
+communho com o Universo que a unica gloria e unica consolao da
+Vida. Mas na serra, sem predios disformes de seis andares, sem a
+fumaraa que tapa Deus, sem os cuidados que como pedaos de chumbo puxam
+a alma para o p rasteiro--um Jacintho, um Z Fernandes, livres, bem
+jantados, fumando nos poiaes d'uma janella, olham para os astros e os
+astros olham para elles. Uns, certamente, com olhos de sublime
+immobilidade ou de subllime indifferena. Mas outros curiosamente,
+anciosamente, com uma luz que acena, uma luz que chama, como se
+tentassem, de to longe, revelar os seus segredos, ou de to longe
+comprehender os nossos...
+
+--Oh Jacintho, que estrella esta, aqui, to viva, sobre o beiral do
+telhado?
+
+--No sei... E aquella, Z Fernandes, alm, por cima do pinheiral?
+
+--No sei.
+
+No sabiamos. Eu, por causa da espessa crosta de ignorancia com que sahi
+do ventre de Coimbra, minha Me espiritual. Elle, porque na sua
+Bibliotheca possuia trezentos e oito tratados sobre Astronomia, e o
+Saber, assim accumulado, frma um monte que nunca se transpe nem se
+desbasta. Mas que nos importava que aquelle astro alm se chamasse
+Syrius e aquelle outro Aldebaran? Que lhes importava a elles que um de
+ns fosse Jacintho, outro Z? Elles to immensos, ns to pequeninos,
+somos a obra da mesma Vontade. E todos, Uranos ou Lorenas de Noronha e
+Sande, constituimos modos diversos d'um Sr unico, e as nossas
+diversidades esparsas sommam na mesma compacta Unidade. Molleculas do
+mesmo Todo, governadas pela mesma Lei, rolando para o mesmo Fim... Do
+astro ao homem, do homem flr do trevo, da flr do trevo ao mar
+sonoro--tudo o mesmo Corpo, onde circula, como um sangue, o mesmo
+Deus. E nenhum fremito de vida, por menor, passa n'uma fibra d'esse
+sublime Corpo, que se no repercuta em todas, at s mais humildes, at
+s que parecem inertes e invitaes. Quando um Sol que no avisto, nunca
+avistarei, morre de inanio nas profundidades, esse esguio galho de
+limoeiro, em baixo na horta, sente um secreto arrepio de morte:--e,
+quando eu bato uma patada no soalho de Tormes, alm o monstruoso Saturno
+estremece, e esse estremecimento percorre o inteiro Universo! Jacintho
+abateu rijamente a mo no rebordo da janella. Eu gritei:
+
+--Acredita!... O sol tremeu.
+
+E depois (como eu notei) deviamos considerar que, sobre cada um d'esses
+gros de p luminoso, existia uma creao, que incessantemente nasce,
+perece, renasce. N'este instante, outros Jacinthos, outros Zs
+Fernandes, sentados s janellas d'outras Tormes, contemplam o co
+nocturno, e n'elle um pequenininho ponto de luz, que a nossa possante
+Terra por ns tanto sublimada. No tero todos esta nossa frma, bem
+fragil, bem desconfortavel, e (a no ser no Apollo do Vaticano, na Venus
+de Milo e talvez na Princeza, de Carman) singularmente feia e burlesca.
+Mas, horrendos ou de ineffavel belleza; collossaes e d'uma carne mais
+dura que o granito, ou leves como gazes e ondulando na luz, todos elles
+so sres pensantes e teem consciencia da Vida--porque decerto cada
+Mundo possue o seu Descartes, ou j o nosso Descartes os percorreu a
+todos com o seu Methodo, a sua escura capa, a sua agudeza elegante,
+formulando a unica certeza talvez certa, o grande _Penso logo existo_.
+Portanto todos ns, Habitantes dos Mundos, s janellas dos nossos
+casares, alm nos Saturnos, ou aqui na nossa Terricula, constantemente
+perfazemos um acto sacrosanto que nos penetra e nos funde--que
+sentirmos no Pensamento o nucleo commum das nossas modalidades, e
+portanto realisarmos um momento, dentro da Consciencia, a Unidade do
+Universo!--Hein, Jacintho?...
+
+O meu amigo rosnou:
+
+--Talvez... Estou a cahir com somno.
+
+--Tambem eu. Remontamos muito, Ex.^{mo} Snr.! como dizia o Pestaninha
+em Coimbra. Mas nada mais bello, e mais vo, que uma cavaqueira, no alto
+das serras, a olhar para as estrellas!... Tu sempre vaes amanh?
+
+--Com certeza, Z Fernandes! Com a certeza de Descartes. Penso _logo
+fujo_! Como queres tu, n'este pardieiro, sem uma cama, sem uma
+poltrona, sem um livro?... Nem s de arroz com fava vive o Homem! Mas
+demoro em Lisboa, para conversar com o Cesimbra, o meu Administrador. E
+tambem espera que estas obras acabem, os caixotes surjam, e eu possa
+voltar decentemente, com roupa lavada, para a trasladao...
+
+-- verdade, os ossos...
+
+--Mas resta ainda o Grillo... Que animal! Por onde andar esse perdido?
+
+Ento, passeando lentamente na sala enorme, onde a vela de sbo j
+derretida no castial de lata era como um lume de cigarro n'um
+descampado, meditmos na sorte do Grillo. O estimado negro ou fra
+despejado nas lamas de Medina, com as vinte e sete malas, aos
+gritos--ou, regaladamente adormecido, rolra com o Anatole no comboio
+para Madrid. Mas ambos os casos appareciam ao meu Principe como
+irremediavelmente destruidores do seu conforto...
+
+--No, escuta, Jacintho... Se o Grillo encalhou em Medina, dormiu na
+Fonda, catou os percevejos, e esta madrugada correu para Tormes. Quando
+manh desceres Estao, s quatro horas, encontras o teu precioso
+homem, com as tuas preciosas malas, mettido n'esse comboio que te leva
+ao Porto e Capital...
+
+Jacintho saccudiu os braos como quem se debate nas malhas d'uma rede:
+
+--E se seguiu para Madrid?
+
+--Ento, por esta semana, c apparece em Tormes, onde encontra ordem
+para regressar a Lisboa e reentrar no teu sequito... Resta o
+interessante caso das minhas bagagens. Se manh encontrares na Estao
+o Grillo, separa a minha mala negra, e o sacco de lona, e a chapelleira.
+O Grillo conhece. E pede ao Pimenta, ao gordalhufo, que me avise para
+Guies. Se o Grillo aportar Tormes, esfogueteado de Madrid, com toda
+essa malaria, deixa as minhas cousas aqui, ao Melchior... Eu manh
+fallo ao Melchior.
+
+Jacintho sacudiu furiosamente o collarinho:
+
+--Mas como posso eu partir para Lisboa, manh, com esta camisa de dous
+dias, que j me faz uma comicho horrenda? E sem um leno... Nem ao
+menos uma escova de dentes!
+
+Fertil em idas, estendi as mos, n'um bello gesto tutelar:
+
+--Tudo se arranja, meu Jacintho, tudo se arranja! Eu, largando d'aqui
+cedo, pelas seis horas, chego a Guies s dez, ainda sem calor. E, mesmo
+antes do almoo e da cavaqueira com a tia Vicencia, immediatamente te
+mando por um moo um sacco de roupa branca. As minhas camisas e as
+minhas ceroulas talvez te estejam largas. Mas um mendigo como tu no tem
+direito a elegancias e a roupas bem cortadas. O moo, n'um bom trote,
+entra aqui s duas horas; tens tempo de mudar antes de desceres para a
+Estao... Posso metter na mala uma escova de dentes.
+
+--Oh Z Fernandes! Ento mette tambem uma esponja... E um frasco d'agoa
+de colonia!
+
+--Agoa d'alfazema, excellente, feita pela tia Vicencia...
+
+O meu Principe suspirou, impressionado com a sua miseria esqualida, e
+esta dadiva de roupas:
+
+--Bem, ento vamos dormir, que estou esfalfado de emoes e d'astros...
+
+Justamente Melchior entreabria a pesada porta, com timidez, a avisar que
+estavam preparadinhas as camas de suas Incellencias. E seguindo o bom
+caseiro, que erguia uma candeia, que avistamos ns, o meu Principe e eu,
+ainda ha pouco irmanados com os astros? Em duas saletas, que uma
+abertura em arco, lobrego arco de pedra, separava--duas enxergas sobre o
+soalho. Junto cabeceira da mais larga, que pertencia ao senhor de
+Tormes, um castial de lato sobre um alqueire; aos ps, como lavatorio,
+um alguidar vidrado em cima duma tripea. Para mim, serrano d'aquellas
+serras, nem alguidar nem alqueire.
+
+Lentamente, com o p, o meu super-civilisado amigo palpou a enxerga. E
+decerto lhe sentiu uma dureza intransigente, porque ficou pendido sobre
+ella, a correr desoladamente os dedos pela face desmaiada.
+
+--E o peior no ainda a enxerga, murmurou emfim com um suspiro. que
+no tenho camisa de dormir, nem chinelas!... E no me posso deitar de
+camisa engommada.
+
+Por inspirao minha reccorremos ao Melchior. De novo, esse benemerito
+providenciou, trazendo a Jacintho, para elle desafogar os ps, uns
+tamancos--e para embrulhar o corpo uma camisa da comadre, enorme, de
+estopa, spera como uma estamenha de penitente, com folhos mais crespos
+e duros do que lavores de madeira. Para consolar o meu Principe lembrei
+que Plato quando compunha o _Banquete_, Vasco da Gama quando dobrava o
+Cabo, no dormiam em melhores catres! As enxergas rijas fazem as almas
+fortes, oh Jacintho!... E s vestido de estamenha que se penetra no
+Paraiso.
+
+--Tens tu, volveu o meu amigo seccamente, alguma coisa que eu leia? No
+posso adormecer sem um livro.
+
+Eu? Um livro? Possuia apenas o velho numero do _Jornal do Commercio_,
+que escapra disperso dos nossos bens. Rasguei a copiosa folha pelo
+meio, partilhei com Jacintho fraternalmente. Elle tomou a sua metade,
+que era a dos annuncios... E quem no viu ento Jacintho, senhor de
+Tormes, acaapado borda da enxerga, rente da vela de sbo que se
+derretia no alqueire, com os ps encafuados nos scos, perdido dentro
+das speras pregas e dos rijos folhos da camisa serrana, percorrendo
+n'um pedao velho de Gazeta, pensativamente, as partidas dos
+Paquetes--no pde saber o que uma intensa e veridica imagem do
+Desalento.
+
+Recolhido minha alcova espartana, desabotoava o collete, n'um
+delicioso cansao, quando o meu Principe ainda me reclamou:
+
+--Z Fernandes...
+
+--Dize.
+
+--Manda tambem no sacco um abotoador de botas.
+
+Estirado commodamente na rija enxerga murmurei, como sempre murmuro ao
+penetrar no Somno, que um primo da Morte, Deus seja louvado! Depois
+tomei a metade do _Jornal do Commercio_ que me pertencia.
+
+--Z Fernandes...
+
+--Que ?
+
+--Tambem podias metter no sacco ps dos dentes... E uma lima das
+unhas... E um romance!
+
+J a meia Gazeta me escapava das mos dormentes. Mas da sua alcova,
+depois de soprar a vela, Jacintho murmurou entre um bocejo:
+
+--Z Fernandes...
+
+--Hein?
+
+--Escreve para Lisboa, para o Hotel Bragana... Os lenoes ao menos so
+frescos, cheiram bem, a sadio!
+
+
+
+
+IX
+
+
+Cedo, de madrugada, sem rumor, para no despertar o meu Jacintho, que,
+com as mos cruzadas sobre o peito, dormia beatificamente na sua enxerga
+de granito--parti para Guies.
+
+Ao cabo d'uma semana, recolhendo uma manh para o almoo, encontrei no
+corredor as minhas malas to desejadas, que um moo do casal da Giesta
+trouxera n'um carro com recados do Snr. Pimentinha. O meu pensamento
+pulou para o meu Principe. E lancei pelo telegrapho, para Lisboa, para o
+Hotel Bragana, este brado alegre:--Ests l? Sei recuperaste Grillo e
+Civilisao! Hurrah! Abrao!--S depois de sete dias, occupados n'uma
+delicada apanha de aspargos com que outr'ora civilisra a horta da tia
+Vicencia, notei o silencio de Jacintho. N'um bilhete postal renovei,
+desenvolvi o grito amigo:--Ests l? So os prazeres da Baixa que assim
+te tornam desattento e mudo? Eu, todo aspargos! Responde, quando chegas?
+Tempo delicioso! 23^o sombra. E os ossos?...--Veio depois a devota
+romaria da Senhora da Roqueirinha. Durante a lua nova andei n'um crte
+de matto, na minha terra das Corcas. A tia Vicencia vomitou, com uma
+indigesto de murcellas. E o silencio do meu Principe era ingrato e
+ferrenho.
+
+Emfim uma tarde, voltando da Flor da Malva, de casa da minha prima
+Joanninha, parei em Sandofim, na venda do Manoel Rico, para beber de
+certo vinho branco que a minha alma conhece--e sempre pede.
+
+Defronte, porta do ferrador, o Severo, sobrinho do Melchior de Tormes
+e o mais fino alveitar da serra, picava tabaco, escarranchado n'um
+banco. Mandei encher outro quartilho: elle acariciou o pescoo da minha
+egua que j salvra d'um esfriamento: e, como eu indagasse do nosso
+Melchior, o Severo contou que na vspera jantra com elle em Tormes, e
+se abeirra tambem do fidalgo...
+
+--Ora essa! Ento o snr. D. Jacintho est em Tormes?
+
+O meu espanto divertiu o Severo:
+
+--Ento v. exc.^a... Pois em Tormes que elle est, ha mais de cinco
+semanas, sem arredar! E parece que fica para a vindima, e vai l uma
+grandeza!
+
+Santissimo nome de Deus! Ao outro dia, domingo, depois da missa e sem me
+assustar com a calma que carregava, trotei alvoroadamente para Tormes.
+Ao latir dos rafeiros, quando transpuz o portal solarengo, a comadre do
+Melchior accudio dos lados do curral, com um alguidar de lavagem
+encostado cintura.--Ento o snr. D. Jacintho?... O snr. D. Jacintho
+andava l para baixo, com o Silverio e com o Melchior, nos campos de
+Freixomil...
+
+--E o Snr. Grillo, o preto?
+
+--Ha bocadinho tambem o enxerguei no pomar, com o francez, a apanhar
+limes doces...
+
+Todas as janellas do solar rebrilhavam, com vidraas novas, bem polidas.
+A um canto do pteo notei baldes de cal e tijellas de tintas. Uma escada
+de pedreiro descanra durante o Dia Santo arrimada contra o telhado. E,
+rente ao muro da capella, dois gatos dormiam sobre montes de palha
+desempacotada de caixotes consideraveis.
+
+--Bem, pensei eu. Eis a Civilisao!
+
+Recolhi a egua, galguei a escada. Na varanda, sobre uma pilha de ripas,
+reluzia n'um raio de sol uma banheira de zinco. Dentro encontrei todos
+os soalhos remendados, esfregados a carqueja. As paredes, muito caiadas
+e nas, refrigeravam como as d'um convento. Um quarto, a que me levaram
+tres portas escancaradas com franqueza serrana, era certamente o de
+Jacintho: a roupa pendia de cabides de pau: o leito de ferro, com
+coberta de fusto, encolhia timidamente a sua rigidez virginal a um
+canto, entre o muro e a banquinha onde um castial de lato resplandecia
+sobre um volume do _D. Quichote_; no lavatorio pintado de amarello,
+imitando bamb, apenas cabia o jarro, a bacia, um naco gordo de sabo; e
+uma prateleirinha bastava ao esmerado alinho da escova, da thesoura, do
+pente, do espelhinho de feira, e do frasquinho de agua de alfazema que
+eu mandra de Guies. As tres janellas, sem cortinas, contemplavam a
+belleza da serra, respirando um delicado e macio ar, que se perfumava
+nas resinas dos pinheiraes, depois nas roseiras da horta. Em frente, no
+corredor, outro quarto repetia a mesma simplicidade. Certamente a
+previdencia do meu Principe o destinra ao seu Z Fernandes. Pendurei
+logo dentro, no cabide, o meu guarda-p de lustrina.
+
+Mas na sala immensa, onde tanto philosophramos considerando as
+estrellas, Jacintho arranjra um centro de repouso e d'estudo--e
+desenrolra essa grandeza que impressionava o Severo. As cadeiras de
+verga da Madeira, amplas e de braos, offereciam o conforto de
+almofadinhas de chita. Sobre a mesa enorme de pau branco, carpinteirada
+em Tormes, admirei um candieiro de metal de tres bicos, um tinteiro de
+frade armado de pennas de pato, um vaso de capella transbordando de
+cravos. Entre duas janellas uma commoda antiga, embutida, com ferragens
+lavradas, recebera sobre o seu marmore rosado o devoto peso d'um
+Presepio, onde Reis Magos, pastores de surres vistosos, cordeiros
+d'esguedelhada l, se apressavam atravez d'alcantis para o Menino, que
+na sua lapinha lhes abria os braos, coroado por uma enorme Cora Real.
+Uma estante de madeira enchia outro pedao de parede, entre dois
+retratos negros com caixilhos negros; sobre uma das suas prateleiras
+repousavam duas espingardas; nas outras esperavam, espalhados, como os
+primeiros Doutores nas bancadas d'um concilio, alguns nobres livros, um
+Plutarcho, um Virgilio, a Odyssea, o Manual de Epictecto, as Chronicas
+de Froissart. Depois, em fila decorosa, cadeiras de palhinha, muito
+novas, muito envernisadas. E a um canto um mlho de varapaus.
+
+Tudo resplandecia de asseio e ordem. As portadas das janellas, cerradas,
+abrigavam do sol que batia aquelle lado de Tormes, escaldando os
+peitoris de pedra. Do soalho, burrifado de agua, subia, na suavisada
+penumbra, uma frescura. Os cravos rescendiam. Nem dos campos, nem da
+casa, se elevava um rumor. Tormes dormia no esplendor da manh santa. E,
+penetrado por aquella consoladora quietao de convento rural, terminei
+por me estender n'uma cadeira de verga, junto da mesa, abrir
+languidamente um tomo de Virgilio, e murmurar, appropriando o doce verso
+que encontrra:
+
+Fortunate Jacinthe! Hic, inter arva nota
+Et fontes sacros, frigus captabis opacum...
+
+Afortunado Jacintho, na verdade! Agora, entre campos que so teus e
+aguas que te so sagradas, colhes emfim a sombra e a paz!
+
+Li ainda outros versos. E, na fadiga das duas horas de egua e calor
+desde Guies, irreverentemente adormecia sobre o divino
+Bucoliasta--quando me despertou um berro amigo! Era o meu Principe. E
+muito decididamente, depois de me soltar do seu rijo abrao, o comparei
+a uma planta estiolada, emmurchecida na escurido, entre tapetes e
+sdas, que, levada para vento e sol, profusamente regada, reverdece,
+desabrocha e honra a Natureza! Jacintho j no corcovava. Sobre a sua
+arrefecida pallidez de super-civilisado, o ar montesino, ou vida mais
+verdadeira, espalhra um rubor trigueiro e quente de sangue renovado que
+o virilisava soberbamente. Dos olhos, que na Cidade andavam sempre to
+crepusculares e desviados do Mundo, saltava agora um brilho de meio-dia,
+resoluto e largo, contente em se embeber na belleza das coisas. At o
+bigode se lhe encrespra. E j no deslisava a mo desencantada sobre a
+face,--mas batia com ella triumphalmente na cxa. Que sei? Era um
+Jacintho novissimo. E quasi me assustava, por eu ter de aprender e
+penetrar, n'este novo Principe, os modos e as idas novas.
+
+--Caramba, Jacintho, mas ento...?
+
+Elle encolheu jovialmente os hombros realargados. E s me soube contar,
+trilhando soberanamente com os sapatos brancos e cobertos de p o soalho
+remendado, que, ao acordar em Tormes, depois de se lavar n'uma dorna, e
+d'enfiar a minha roupa branca, se sentira de repente como
+_desannuviado_, _desenvencilhado_! Almora uma pratada de ovos com
+chourio, sublime. Passera por toda aquella magnificencia da serra com
+pensamentos ligeiros de liberdade e de paz. Mandra ao Porto comprar uma
+cama, uns cabides... E alli estava...
+
+--Para todo o vero?
+
+--No! Mas um mez... Dois mezes! Emquanto houver chourios, e a agoa da
+fonte, bebida pela telha ou n'uma folha de couve, me souber to
+divinamente!
+
+Cahi sobre a cadeira de verga, e contemplei, arregalado, quasi
+esgazeado, o meu Principe! Elle enrolava n'uma mortalha tabaco picado,
+tabaco grosso, guardado n'uma malga vidrada. E exclamava:
+
+--Ando ahi pelas terras desde o romper d'alva! Pesquei j hoje quatro
+trutas, magnificas... L em baixo, no Naves, um riachote que se atira
+pelo valle da Seranda... Temos logo ao jantar essas trutas!
+
+Mas eu, avido pela historia d'aquella ressurreio:
+
+--Ento, no estiveste em Lisboa?... Eu telegraphei...
+
+--Qual telegrapho! Qual Lisboa! Estive l em cima, ao p da fonte da
+Lira, sombra d'uma grande arvore, _sub tegmine_ no sei qu, a lr
+esse adorvel Virgilio... E tambem a arranjar o meu palacio! Que te
+parece, Z Fernandes? Em tres semanas, tudo soalhado, envidraado,
+caiado, encadeirado!... Trabalhou a freguezia inteira! At eu pintei,
+com uma immensa brocha. Viste o comedoiro?
+
+--No.
+
+--Ento vem admirar a belleza na simplicidade, barbaro!
+
+Era a mesma onde ns tanto exaltaramos o arroz com favas--mas muito
+esfregada, muito caiada, com um rodap bezuntado d'azul estridente onde
+logo adivinhei a obra do meu Principe. Uma toalha de linho de Guimares
+cobria a mesa, com as franjas roando o soalho. No fundo dos pratos de
+loua forte reluzia um gallo amarello. Era o mesmo gallo e a mesma loua
+em que na nossa casa, em Guies, se servem os feijes dos cavadores...
+
+Mas no pteo os ces latiram. E Jacintho correu varanda, com uma
+ligeireza curiosa que me deleitou. Ah, bem definitivamente se
+esfrangalhra aquella rede de malha que se no percebia e que outr'ora o
+travava!--N'esse momento appareceu o Grillo, de quinzena de linho,
+segurando em cada mo uma garrafa de vinho branco. Todo se alegrou em
+vr na quinta o si Fernandes. Mas a sua veneranda face j no
+resplandecia, como em Paris, com um to sereno e ditoso brilho de ebano.
+At me pareceu que corcovava... Quando o interroguei sobre aquella
+mudana, estendeu duvidosamente o beio grosso:
+
+--O menino gosta, eu ento tambem gsto... Que o ar aqui muito bom,
+si Fernandes, o ar muito bom!
+
+Depois, mais baixo, envolvendo n'um gesto desolado a loua de Barcellos,
+as facas de cabo d'osso, as prateleiras de pinho como n'um refeitorio de
+Franciscanos:
+
+--Mas muita magreza, si Fernandes, muita magreza!
+
+Jacintho voltava com um mao de jornaes cintados:
+
+--Era o carteiro. J vs que no amuei inteiramente com a Civilisao.
+Eis a Imprensa!... Mas nada de _Figaro_, ou da horrenda _Dois-Mundos_!
+Jornaes de Agricultura! Para aprender como se produzem as risonhas
+messes, e sob que signo se casa a vinha ao olmo, e que cuidados
+necessita a abelha provida... _Quid faciat laetas segetes_... De resto
+para esta nobre educao, j me bastavam as _Georgicas_, que tu ignoras!
+
+Eu ri:
+
+--Alto l! _Nos quoque gens sumus et nostrum Virgilium sabemus_!
+
+Mas o meu novissimo amigo, debruado da janella, batia as palmas--como
+Cato para chamar os servos, na Roma simples. E gritava:
+
+--Anna Vaqueira! Um copo d'agoa, bem lavado, da fonte velha!
+
+Pulei, immensamente divertido:
+
+--Oh Jacintho! E as aguas carbonatadas? e as phosphatadas? e as
+esterilisadas? e as sodicas?...
+
+O meu Principe atirou os hombros com um desdem soberbo. E acclamou a
+appario d'um grande copo, todo embaciado pela frescura nevada da agoa
+refulgente, que uma bella moa trazia n'um prato. Eu admirei sobretudo a
+moa... Que olhos, d'um negro to liquido e serio! No andar, no quebrar
+da cinta, que harmonia e que graa de Nympha latina!
+
+E apenas pela porta desapparecera a explendida appario:
+
+--Oh Jacintho, eu d'aqui a um instante tambem quero agua! E se compete a
+esta rapariga trazer as cousas, eu, de cinco em cinco minutos, quero uma
+cousa!... Que olhos, que corpo... Caramba, menino! Eis a poesia, toda
+viva, da serra...
+
+O meu Principe sorria, com sinceridade:
+
+--No! no nos illudamos, Z Fernandes, nem faamos Arcadia. uma bella
+moa, mas uma bruta... No ha alli mais poesia, nem mais sensibilidade,
+nem mesmo mais belleza do que n'uma linda vacca tourina. Merece o seu
+nome de Anna Vaqueira. Trabalha bem, digere bem, concebe bem. Para isso
+a fez a Natureza, assim s e rija; e ella cumpre. O marido todavia no
+parece contente, porque a desanca. Tambem um bello bruto... No, meu
+filho, a serra maravilhosa e muito grato lhe estou... Mas temos aqui a
+fmea em toda a sua animalidade e o macho em todo o seu egoismo... So
+porm verdadeiros, genuinamente verdadeiros! E esta verdade, Z
+Fernandes, para mim um repouso.
+
+Lentamente, gozando a frescura, o silencio, a liberdade do vasto
+casaro, retrocedemos sala que Jacintho j denominra a _Livraria_. E,
+de repente, ao avistar n'um canto uma caixa com a tampa meio despregada,
+quasi me engasguei, na furiosa curiosidade que me assaltou:
+
+--E os caixotes? Oh Jacintho?... Toda aquella immensa caixotaria que ns
+mandamos, abarrotada de Civilisao? Soubeste? Appareceram?
+
+O meu Principe parou, bateu alegremente na cxa:
+
+--Sublime! Tu ainda te lembras d'aquelle homemsinho, de sacco a
+tiracollo, que ns admiramos tanto pela sua sagacidade, o seu saber
+geographico?... Lembras? Apenas fallei em Tormes, gritou que conhecia,
+rabiscou uma nota... Nem era necessario mais! Oh! Tormes,
+perfeitamente, muito antigo, muito curioso! Pois mandou tudo para
+Alba-de-Tormes, em Hespanha! Est tudo em Hespanha!
+
+Cocei o queixo, desconsolado:
+
+--Ora, ora... Um homem to esperto, to expedito, que fazia tanta honra
+ao Progresso! Tudo para Hespanha!... E mandaste vir?
+
+--No! Talvez mais tarde... Agora, Z Fernandes, estou saboreando esta
+delicia de me erguer pela manh, e de ter s uma escova para alisar o
+cabello.
+
+Considerei, cheio de recordaes, o meu amigo:
+
+--Tinhas umas nove...
+
+--Nove? Tinha vinte! Talvez trinta! E era uma atrapalhao, no me
+bastavam!... Nunca em Paris andei bem penteado. Assim com os meus
+setenta mil volumes: eram tantos que nunca li nenhum. Assim com as
+minhas occupaes: tanto me sobrecarregavam, que nunca fui util!
+
+ * * * * *
+
+De tarde, depois da calma, fomos vaguear pelos caminhos colleantes
+d'aquella quinta rica, que, atravs de duas legoas, ondula por valle e
+monte. No m'encontrra mais com Jacintho em meio da Natureza, desde o
+remoto dia d'entremez em que elle tanto soffrera no sociavel e policiado
+bosque de Montmorency. Ah, mas agora, com que segurana e idyllico amor
+elle se movia atravs d'essa Natureza, d'onde andra tantos annos
+desviado por theoria e por habito! J no arreceiava a humidade mortal
+das relvas; nem repellia como impertinente o roar das ramagens; nem o
+silencio dos altos o inquietava como um despovoamento do Universo. Era
+com delicias, com um consolado sentimento de estabilidade recuperada,
+que enterrava os grossos sapatos nas terras molles, como no seu elemento
+natural e paterno: sem razo, deixava os trilhos faceis, para se
+embrenhar atravs de arbustos emaranhados, e receber na face a caricia
+das folhas tenras; sobre os outeiros, parava, immovel, retendo os meus
+gestos e quasi o meu halito, para se embeber de silencio e de paz: e
+duas vezes o surprehendi attento e sorrindo beira d'um regatinho
+palreiro, como se lhe escutasse a confidencia...
+
+Depois philosophava, sem descontinuar, com o enthusiasmo d'um
+convertido, avido de converter:
+
+--Como a intelligencia aqui se liberta, hein? E como tudo animado
+d'uma vida forte e profunda!... Dizes tu agora, Z Fernandes, que no ha
+aqui pensamento...
+
+--Eu?! Eu no digo nada, Jacintho...
+
+--Pois uma maneira de reflectir muito estreita e muito grosseira...
+
+--Ora essa! Mas eu...
+
+--No, no percebes. A vida no se limita a pensar, meu caro doutor...
+
+--Que no sou!
+
+--A vida essencialmente Vontade e Movimento: e n'aquelle pedao de
+terra, plantado de milho, vae todo um mundo de impulsos, de foras que
+se revelam, e que attingem a sua expresso suprema, que a Frma. No,
+essa tua philosophia est ainda extremamente grosseira...
+
+--Irra! mas eu no...
+
+--E depois, menino, que inesgotavel, que miraculosa diversidade de
+frmas... E todas bellas!
+
+Agarrava o meu pobre brao, exigia que eu reparasse com reverencia. Na
+Natureza nunca eu descobriria um contorno feio ou repetido! Nunca duas
+folhas d'hera, que, na verdura ou recorte, se assemelhassem! Na Cidade,
+pelo contrario, cada casa repete servilmente a outra casa; todas as
+faces reproduzem a mesma indifferena ou a mesma inquietao; as idas
+teem todas o mesmo valor, o mesmo cunho, a mesma frma, como as libras;
+e at o que ha mais pessoal e intimo, a Illuso, em todos identica, e
+todos a respiram, e todos se perdem n'ella como no mesmo nevoeiro... A
+_mesmice_--eis o horror das Cidades!
+
+--Mas aqui! Olha para aquelle castanheiro. Ha tres semanas que cada
+manh o vejo, e sempre me parece outro... A sombra, o sol, o vento, as
+nuvens, a chuva, incessantemente lhe compem uma expresso diversa e
+nova, sempre interessante. Nunca a sua frequentao me poderia fartar...
+
+Eu murmurei:
+
+-- pena que no converse!
+
+O meu Principe recuou, com olhares chammejantes, d'Apostolo:
+
+--Como que no converse? Mas justamente um conversador sublime! Est
+claro, no tem ditos, nem parola theorias, _ore rotundo_. Mas nunca eu
+passo junto d'elle que no me suggira um pensamento ou me no desvende
+uma verdade... Ainda hoje quando eu voltava de pescar as trutas...
+Parei: e logo elle me fez sentir como toda a sua vida de vegetal
+isenta de trabalho, da anciedade, do esforo que a vida humana impe;
+no tem de se preoccupar com o sustento, nem com o vestido, nem com o
+abrigo; filho querido de Deus, Deus o nutre, sem que elle se mova ou se
+inquiete... E esta segurana que lhe d tanta graa e tanta magestade.
+Pois no achas?
+
+Eu sorria, concordava. Tudo isto era de certo rebuscado e especioso. Mas
+que importavam as requintadas metaphoras, e essa metaphysica mal madura,
+colhida pressa nos ramos d'um castanheiro? Sob toda aquella ideologia
+transparecia uma excellente realidade--a reconciliao do meu Principe
+com a Vida. Segura estava a sua Resurreio depois de tantos annos de
+cova, da cova molle em que jazera, enfaixado como uma mumia nas faixas
+do Pessimismo!
+
+E o que esse Principe, n'esta tarde me esfalfou! Farejava, com uma
+curiosidade insaciavel, todos os recantos da serra! Galgava os cabeos
+correndo, como na esperana de descobrir l do alto os esplendores nunca
+contemplados d'um Mundo inedito. E o seu tormento era no conhecer os
+nomes das arvores, da mais rasteira planta brotando das fendas d'um
+socalco... Constantemente me folheava como a um Diccionario Botanico.
+
+--Fiz toda a sorte de cursos, passei pelos professores mais illustres da
+Europa, tenho trinta mil volumes, e no sei se aquelle senhor alm um
+amieiro ou um sobreiro...
+
+-- um azinheiro, Jacintho.
+
+J a tarde cahia quando recolhemos muito lentamente. E toda essa
+adoravel paz do co, realmente celestial, e dos campos, onde cada
+folhinha conservava uma quietao contemplativa, na luz docemente
+desmaiada, pousando sobre as cousas com um liso e leve affago, penetrava
+to profundamente Jacintho, que eu o senti, no silencio em que
+cahiramos, suspirar de puro allivio.
+
+Depois, muito gravemente:
+
+--Tu dizes que na natureza no ha pensamento...
+
+--Outra vez! Olha que massada! Eu...
+
+--Mas por estar n'ella supprimido o pensamento que lhe est poupado o
+soffrimento! Ns, desgraados, no podemos supprimir o pensamento, mas
+certamente o podemos disciplinar e impedir que elle se estonteie e se
+esfalfe, como na fornalha das cidades, ideando gozos que nunca se
+realisam, aspirando a certezas que nunca se attingem!... E o que
+aconselham estas collinas e estas arvores nossa alma, que vela e se
+agita:--que viva na paz d'um sonho vago e nada appetea, nada tema,
+contra nada se insurja, e deixe o Mundo rolar, no esperando d'elle
+seno um rumor de harmonia, que a emballe e lhe favorea o dormir dentro
+da mo de Deus. Hein, no te parece, Z Fernandes?
+
+--Talvez. Mas necessario ento viver n'um mosteiro, com o temperamento
+de S. Bruno, ou ter cento e quarenta contos de renda e o desplante de
+certos Jacinthos... E tambem me parece que andamos leguas. Estou
+derreado. E que fome!
+
+--Tanto melhor, para as trutas, e para o cabrito assado que nos
+espera...
+
+--Bravo! Quem te cosinha?
+
+--Uma afilhada do Melchior. Mulher sublime! Has de ver a canja! Has de
+ver a cabidella! Ella horrenda, quasi an, com os olhos tortos, um
+verde e outro preto. Mas que paladar! Que genio!
+
+Com effeito! Horacio dedicaria uma ode quelle cabrito assado n'um
+espeto de cerejeira. E com as trutas, e o vinho Melchior, e a cabidella,
+em que a sublime an de olhos tortos puzera inspiraes que no so da
+terra, e aquella doura da noite de Junho, que pelas janellas abertas
+nos envolveu no seu velludo negro, to molle e to consolado fiquei,
+que, na sala onde nos esperava o caf, cahi n'uma cadeira de verga, na
+mais larga, e de melhores almofadas, e atirei um berro de pura delicia.
+
+Depois, com uma recordao, limpando o caf do pello dos bigodes:
+
+-- Jacintho, e quando ns andavamos por Paris com o Pessimismo s
+costas, a gemer que tudo era illuso e dr?
+
+O meu Principe, que o cabrito tornra ainda mais alegre, trilhava a
+grandes passadas o soalho, enrolando o cigarro:
+
+--Oh! que engenhosa besta, esse Schopenhauer! E maior besta eu, que o
+sorvia, e que me desolava com sinceridade! E todavia,--continuava elle,
+remexendo a chavena--o Pessimismo uma theoria bem consoladora para os
+que soffrem, porque desindividualisa o soffrimento, alarga-o at o
+tornar uma lei universal, a lei propria da Vida; portanto lhe tira o
+caracter pungente d'uma injustia especial, commettida contra o
+soffredor por um Destino inimigo e faccioso! Realmente o nosso mal
+sobretudo nos amarga quando contemplamos ou imaginamos o bem do nosso
+visinho:--porque nos sentimos escolhidos e destacados para a
+infelicidade, podendo, como elle, ter nascido para a Fortuna. Quem se
+queixaria de ser cxo--se toda a humanidade coxeasse? E quaes no seriam
+os urros, e a furiosa revolta do homem envolto na neve e friagem e
+borrasca d'um inverno especial, organisado nos ceus para o envolver a
+elle unicamente--em quanto em redor, toda a Humanidade se movesse na
+luminosa benignidade d'uma Primavera?
+
+--Com effeito, murmurei eu, esse sujeito teria immensa razo para
+urrar...
+
+--E depois, clamava ainda o meu amigo, o Pessimismo excellente para os
+Inertes, por que lhes attenua o desgracioso delicto da Inercia. Se toda
+a meta um monte de Dor, onde a alma vae esbarrar, para que marchar
+para a meta, atravez dos embaraos do mundo? E de resto todos os Lyricos
+e Theoricos do Pessimismo, desde Salomo at o maligno Schopenhauer,
+lanam o seu cantico ou a sua doutrina para disfarar a humilhao das
+suas miserias, subordinando-as todas a uma vasta lei de Vida, uma lei
+Cosmica, e ornando assim com a aureola de uma origem quasi divina as
+suas miudas desgraazinhas de temperamento ou de Sorte. O bom
+Schopenhauer formla todo o seu schopenhauerismo, quando um philosopho
+sem editor, e um professor sem discipulos; e soffre horrendamente de
+terrores e manias; e esconde o seu dinheiro debaixo do sobrado; e redige
+as suas contas em grego nos perpetuos lamentos da desconfiana; e vive
+nas adegas com o medo de incendios; e viaja com um copo de lata na
+algibeira para no beber em vidro que beios de leproso tivessem
+contaminado!... Ento Schopenhauer sombriamente Schopenhauerista. Mas
+apenas penetra na celebridade, e os seus miseraveis nervos se acalmam, e
+o cerca uma paz amavel, no ha ento, em todo Francfort, burguez mais
+optimista, de face mais jocunda, e gozando mais regradamente os bens da
+intelligencia e da Vida!... E o outro, o Israelita, o muito pedantesco
+rei de Jerusalem! quando descobre esse sublime Rhetorico que o mundo
+Illuso e Vaidade? Aos setenta e cinco annos, quando o Poder lhe escapa
+das mos tremulas, e o seu serralho de trezentas concubinas se lhe torna
+ridiculamente superfluo. Ento rompem os pomposos queixumes! Tudo
+vaidade e afflico de espirito! nada existe estavel sob o sol! Com
+effeito, meu bom Salomo, tudo passa--principalmente o poder de usar
+trezentas concubinas! Mas que se restitua a esse velho sulto asiatico,
+besuntado de Litteratura, a sua virilidade,--e onde se sumir o lamento
+do Ecclesiastes? Ento voltar, em segunda e triumphal edio, o extase
+do _Livro dos Cantares_!...
+
+Assim discursava o meu amigo no nocturno silencio de Tormes. Creio que
+ainda estabeleceu sobre o Pessimismo outras coisas joviaes, profundas ou
+elegantes;--mas eu adormecera, beatificamente envolto em Optimismo e
+doura.
+
+Em breve porm, me fez pular, escancarar as palpebras molles, uma rija,
+larga, sadia e genuina risada. Era Jacintho, estirado n'uma cadeira, que
+lia o D. Quixote... Oh bem aventurado Principe! Conservra elle o agudo
+poder de arrancar theorias a uma espiga de milho ainda verde, e por uma
+clemencia de Deus, que fizera reflorir o tronco secco, recuperra o dom
+divino de rir, com as facecias de Sancho!
+
+Aproveitando a minha companhia, as duas semanas de bucolica occiosidade
+que eu lhe concedera, o meu Jacintho preparou ento a ceremonia to
+falada, to meditada, a trasladao dos ossos dos velhos Jacinthos--dos
+respeitaveis ossos como murmurava, cumprimentando, o bom Silverio, o
+procurador, n'essa manh de sexta feira, em que almoava comnosco,
+mettido n'um espantoso jaqueto de velludilho amarello debruado de seda
+azul! A ceremonia, de resto, reclamava muita singeleza por serem to
+incertos, quasi impessoaes, aquelles restos, que ns estabeleceriamos na
+Capellinha do valle da Carria, na Capellinha toda nova, toda nua e toda
+fria, ainda sem alma e sem calor de Deus.
+
+--Por que emfim v. ex.^a comprehende,--explicava o Silverio passando o
+guardanapo por sobre a larga face suada e por sobre as immensas barbas
+negras, como as d'um turco--, n'aquella mixordia... Oh! peo desculpa a
+v. ex.^a! N'aquella confuso, quando tudo desabou, no pudmos mais
+conhecer a quem pertenciam os ossos. Nem sequer, fallando verdade, ns
+sabiamos bem que dignos avs de v. ex.^a jaziam na capella velha, assim
+to antigos, com os letreiros apagados, senhores de todo o nosso
+respeito, certamente, mas, se v. ex.^a me permitte, senhores j muito
+desfeitos... Depois veio o desastre, a mixordia. E aqui est o que
+decidi, depois de pensar. Mandei arranjar tantos caixes de chumbo,
+quantas as caveiras que se apanharam l em baixo na Carria, entre o
+lixo e o pedregulho. Havia sete caveiras e meia. Quero dizer, sete
+caveiras e uma caveirinha pequenina. Mettemos cada caveira em seu
+caixo. Depois... Que quer v. ex.^a? No havia outro meio! E aqui o Snr.
+Fernandes dir se no acha que procedemos com habilidade. A cada caveira
+juntamos uma certa poro d'ossos, uma poro rasoavel... No havia
+outro meio... Nem todos os ossos se acharam. Canellas, por exemplo,
+faltavam! E bem possivel que as costellas d'um d'aquelles senhores
+ficasse com a cabea d'outro... Mas quem podia saber? S Deus. Emfim
+fizemos o que a prudncia mandava... Depois, no dia de Juizo, cada um
+d'estes fidalgos apresentar os ossos que lhe pertencerem.
+
+Lanava estas cousas macabras e tremendas, penetrado de respeito, quasi
+com magestade, espetando, ora em mim, ora no meu Principe, os olhinhos
+agudos e relusentes como vidrilhos.
+
+Eu approvei o pittoresco homem:
+
+--Perfeitamente! Andou perfeitamente, amigo Silverio. So to vagos, to
+anonymos, todos esses avs! S faz pena, grande pena, que se
+tresmalhassem os restos do av Galio.
+
+--No estava c! accudiu Jacintho. Vim a Tormes expressamente por causa
+do av Galio, e por fim o seu jazigo nunca foi aqui, na Capellinha da
+Carria... Felizmente!
+
+O Silverio saccudia gravemente a calva trigueira:
+
+--Nunca tivemos o ex.^{mo} sr. Galio. Ha cem annos, Snr. Fernandes, ha
+cem annos que se no depositava na capella velha corpo de cavalheiro c
+da casa.
+
+--Onde estar ento?...
+
+O meu Principe encolheu os hombros. Por esse Reino... Na egrejinha, no
+cemiterio d'alguma das freguezias numerosas, onde elle possuia terras.
+Casa to espalhada!
+
+--Bem! conclui. Ento, como se trata d'ossadas vagas, sem nome, sem
+data, convem uma ceremoniasinha muito simples, muito sobria.
+
+--Quietinha, quietinha! murmurou o Silverio, dando um forte sorvo
+assobiado ao caf.
+
+E foi quietinha, d'uma rustica e doce singeleza, a ceremonia d'aquelles
+altos senhores. Cedo, por uma manh, levemente enevoada, os oito caixes
+pequeninos, cobertos d'um velludo vermelho mais de festa que de funeral,
+com molhos de rosas espalhados, contendo cada um o seu montesinho
+d'ossos incertos, sahiram aos hombros dos coveiros de Tormes e dos moos
+da quinta, da Egreja de S. Jos, cujo sino leve tangia, na enevoada
+doura da manh,--quanto fina e levemente!--como pia um passarinho
+triste. Adiante, um airoso moo de sobrepelis, erguia com zelo a velha
+cruz prateada; abrigando o pescoo sob um immenso leno de rap, de
+quadrados azues, o velho e corcovado sacristo segurava pensativamente a
+caldeirinha d'agoa benta; e o bom abbade de S. Jos, com os dedos entre
+o breviario fechado, movia os labios, n'uma lenta, murmurosa resa, que
+ia, pelo doce ar, espalhando mais doura. Logo atraz do ultimo cofre, o
+mais pequenino, o da caveirinha pequena, Jacintho caminhava; e eu, a
+estalar dentro d'um fato preto de Jacintho, tirado pressa d'uma das
+malas de Paris quando, de manh, j tarde para mandar a Guies, me
+lembrei que toda a minha roupa era de cores festivaes e pastoris.
+
+Depois marchava o Silverio, solemnissimo, com um immenso peitilho, onde
+as barbas immensas se alastravam, negrissimas. De casaca, com o grosso
+beio descahido, descahido todo elle por aquella melancolia de enterro
+que se juntava melancolia da serra, o Grillo enfiava no brao a sua
+coroa, enorme, de rosas e d'heras. Por fim seguia o Melchior, entre um
+rancho de mulheres, que, sumidas na sombra dos lenos pretos, desfiando
+longos rosarios, rosnavam surdas av-marias, atravez d'espaados
+suspiros, to doridos como se inconsoladamente lhes doesse a perda
+d'aquelles Jacinthos. Assim, pelas varzeas entrecorridas de regueiros,
+lenta nos recostos dos mattos, escorregando mais rapida, pelos corregos
+pedregosos, seguia a procisso, sempre com a cruz adiante, alta e
+prateada, rebrilhando por vezes n'um breve raiosinho de sol que,
+vagarosamente, surdia da nevoa desfeita. Ramos baixos de lodo ou de
+salgueiro passavam uma derradeira caricia sobre o velludo dos caixes.
+
+Um regato por vezes nos acompanhava, com discreto fulgir entre as
+relvas, sussurrando e como resando tambem, alegremente: e nos
+quintalinhos umbrosos, nossa passagem, os gallos, de cima das pilhas
+de matto, faziam soar o seu clarim festivo. Depois, adiante da fonte da
+Lira, como o caminho se alongava, e desejassemos poupar o nosso velho
+abbade, cortamos atravez d'uma seara, j alta, quasi madura, toda
+entremeada de papoulas, O sol radiou: sob a brisa larga, que levra a
+nevoa, toda a messe ondulou n'uma lenta vaga dourada, em que se
+balouavam os esquifes; e, como enorme papoula, a mais vermelha,
+rutilava o guarda sol de panninho logo aberto pelo sacristo para
+abrigar o abbade.
+
+Jacintho tocou no meu cotovello:
+
+--Que lindos vamos! Ora v tu a Natureza... N'um simples enterrar
+d'ossos, quanta graa e quanta belleza!
+
+Na Capellinha, nova, dominando o valle da Carria, solitaria e muito
+nua, no meio d'um adro, ainda mal alisado, sem uma verdura de relva, uma
+frescura d'arbusto, dous moos seguravam porta molhos de tochas, que o
+Silverio distribuiu, a passos graves, com cortezias, solemnissimo.
+Dentro as curtas chammas, mal luziam, mal derramavam a sua amarellido
+triste, esbatidas na relusente brancura dos muros estucados, na jovial
+claridade que cahia das altas vidraas bem polidas. Em torno dos
+esquifes, pousados sobre bancos, que pesados velludilhos recobriam, o
+abbade murmurava um suave latim, emquanto ao fundo as mulheres, sumidas
+na sombra dos seus negros lenos, gemiam _amens_ agudos, abafavam um
+respeitoso soluo. Depois, tomando levemente o hyssope, ainda o bom
+abbade aspergiu, para uma derradeira purificao, os incertos ossos dos
+incertos Jacinthos. E todos desfilamos por diante do meu Principe,
+timidamente encostado umbreira, com o Silverio ao lado esmagando
+contra o peitilho as barbas immensas, a face descahida, cerradas as
+palpebras como contendo lagrimas.
+
+No adro, o meu Principe accendeu regaladamente um cigarro pedido ao
+Melchior:
+
+--E ento, Z Fernandes, que te pareceu a ceremoniasinha?
+
+--Muito campestre, muito suave, muito risonha... Uma delicia.
+
+Mas o Abbade, que se desvestira na Sachristia, appareceu, j com o seu
+grande casaco de lustrina, e seu velho chapeu desabado, trazidos pelo
+moo da Residencia, n'um sacco de chita. Jacintho, immediatamente lhe
+agradeceu tantos cuidados, a affavel hospitalidade que offerecera aos
+ossos, durante a construco da Capellinha nova. E o suave velho, todo
+branquinho, de faces ainda menineiras e coradas, com um claro sorriso de
+dentes sadios, louvava Jacintho, que assim viera de to longe, em to
+longa jornada, para cumprir aquelle dever de bom neto.
+
+--So avs muito remotos, e agora to confusos! murmurava Jacintho
+sorrindo.
+
+--Pois mais merito ainda o de v. ex.^a. Respeitar um av morto, bem
+corrente... Mas respeitar os ossos d'um quinto av, d'um setimo av!
+
+--Sobretudo, Snr. Abbade, quando d'elles nada se sabe, e naturalmente
+nada fizeram.
+
+O velho sacudiu risonhamente o dedo gordo:
+
+--Ora quem sabe, quem sabe! Talvez fossem excellentes! E por fim, quem
+muito se demora no mundo, como eu, termina por se convencer que no mundo
+no ha cousa ou ser inutil. Ainda hontem eu lia n'um jornal do Porto,
+que por fim, segundo se descobriu, so as minhocas que estrumam e lavram
+a terra, antes de chegar o lavrador e os bois com o arado. At as
+minhocas so uteis. No ha nada inutil... Eu tinha l na residencia uma
+poro de cardos a um canto da horta, que me affligiam. Pois reflecti e
+terminei por me regalar com elles em xarope. Os avs de v. ex.^a por c
+andaram, por c trabalharam, por c padeceram. Quer dizer: por c
+serviram. E, em todo o caso, que lhes rezemos um Padre-Nosso por alma
+no lhes pde fazer seno bem, a elles e a ns.
+
+E assim, docemente philosophando, paramos n'um souto de carvalheiras,
+onde esperava a velhissima egoa do Abbade, por que o santo homem agora,
+depois do rheumatismo do ultimo inverno, j no affrontava rijamente
+como antes os trilhos duros da serra. Para elle montar, filialmente
+Jacintho segurou o estribo. E emquanto a egoa se empurrava pelo corrego
+acima, quasi tapada sob o immenso guarda sol vermelho em que se abrigava
+o velho, ns recolhemos a casa mettendo pela serra da Lombinha, atravez
+dos milhos, e depressa, porque eu estalava, aperreado, dentro da roupa
+preta do meu Principe.
+
+--Esto pois accommodados estes senhores, Z Fernandes! S resta rezar
+por elles o Padre-Nosso, que recommenda o abbade... Smente, eu no sei,
+j no me lembro do Padre-Nosso.
+
+--No te afflijas, Jacintho: peo tia Vicencia que reze por mim e por
+ti. sempre a tia Vicencia que reza os meus Padre-Nossos.
+
+Durante essas semanas que preguicei em Tormes, eu assisti, com
+internecido interesse, a uma consideravel evoluo de Jacintho nas suas
+relaes com a Natureza. D'aquelle periodo sentimental de contemplao,
+em que colhia theorias nos ramos de qualquer cerejeira, e edificava
+Systemas sobre o espumar das levadas, o meu Principe lentamente passava
+para o desejo da Aco... E d'uma aco directa e material, em que a sua
+mo, emfim restituida a uma funco superior, revolvesse o torro.
+
+Depois de tanto _commentar_, o meu Principe, evidentemente, aspirava a
+_crear_.
+
+Uma tardinha, ao anoitecer, sentados no pomar, no rebordo do tanque, em
+quanto o Manoel hortelo apanhava laranjas no alto d'uma escada arrimada
+a uma alta laranjeira, Jacintho observou, mais para si do que para mim:
+
+-- curioso... Nunca plantei uma arvore!
+
+--Pois um dos tres grandes actos, sem os quaes segundo diz no sei que
+Philosopho, nunca se foi um verdadeiro homem... Fazer um filho, plantar
+uma arvore, escrever um livro. Tens de te apressar, para ser um homem.
+possivel que talvez nunca prestasses um servio a uma arvore, como se
+presta a um semelhante!
+
+--Sim... Em Paris, quando era pequeno, regava os lilazes. E no vero
+um bello servio! Mas nunca semeei.
+
+E como o Manoel descia da escada, o meu Principe, que nunca acreditra
+inteiramente--pobre homem!--no meu saber agricola, immediatamente
+reclamou o parecer d'aquella auctoridade:
+
+--Oh Manoel, oua l, o que que se poderia agora semear?
+
+Como cesto das laranjas enfiado no brao, o Manoel exclamou, atravez
+d'um lento riso, entre respeitoso e divertido:
+
+--Semear, patro? Agora antes colher... Olhe que j se anda a limpar a
+eirasinha para a debulha, meu patro.
+
+--Pois sim... Mas sem ser milho nem cevada... Ento alli no pomar, rente
+do muro velho, no se podia plantar uma fila de pecegueiros?
+
+O riso do Manoel crescia.
+
+--Isso sim, meu senhor! Isso l para os Santos ou para o Natal. Agora
+s a couvinha na horta, a beldroega, os espinafres, algum feijosinho em
+terra muito fresca...
+
+O meu Principe sacudiu com brando gesto estes legumes rasteiros.
+
+--Bem, boa noite, Manoel. Essas laranjas so da tal laranjeira que diz o
+Melchior, muito doces, muito finas? Ento leve para os seus pequenos.
+Leve muitas para os pequenos.
+
+No! o empenho era crear a arvore. Pela arvore contemplada na serra em
+sua verdadeira magestade, na beneficencia da sua sombra, na frescura
+emballadora do seu rumorejar, na graa e santidade dos ninhos que a
+povoam, comera talvez, lentamente, o seu amor novo da Terra. E agora
+sonhava uma Tormes toda coberta d'arvores, cujos fructos e verduras, e
+sombras, e rumorejos suaves, e abrigados ninhos, fossem a obra e o
+cuidado das suas mos paternaes.
+
+No silencio grave do crepusculo, que descia, murmurou ainda:
+
+--Oh Z Fernandes; quaes so as arvores que crescem mais depressa?
+
+--Eh, meu Jacintho... A arvore que cresce mais depressa o eucalypto, o
+feiissimo e ridiculo eucalypto. Em seis annos tens ahi Tormes coberta de
+eucalyptos...
+
+--Tudo to lento, Z Fernandes...
+
+Porque o seu sonho, que eu comprehendia, seria plantar caroos que
+subissem em fortes troncos, se alargassem em verdes ramarias, antes de
+elle voltar ao 202, no comeo do inverno...
+
+--Um carvalho!... Trinta annos, antes que seja bello! Desanmo! bom
+para Deus, que pode esperar... _Patiens quia aeternus_. Trinta annos!
+D'aqui a trinta annos, arvores s para me cobrirem a sepultura!
+
+--J um ganho. E depois para teus filhos, Jacintho...
+
+--Filhos! onde os tenho eu?
+
+-- o mesmo processo dos castanheiros. Semeia. No faltam por ahi terras
+agradaveis... Em nove mezes tens uma planta feita. E quanto mais
+tenrinhas, e mais pequeninas, mais essas plantas encantam.
+
+Elle murmurou, crusando as mos sobre o joelho:
+
+--Tudo leva tanto tempo!...
+
+E borda do tanque nos quedamos, calados, na fresca doura do
+anoitecer, entre o cheiro avivado das madresilvas do muro, olhando o
+crescente da lua, que surdia dos telhados de Tormes.
+
+E decerto esta pressa de se tornar entre a Natureza no mais um
+sonhador, mas um creador, arremessou vivamente o seu interesse para os
+gados! Repetidamente, nos nossos passeios atravez da quinta, elle lhe
+notava a solido.
+
+--Faltam aqui animaes, Z Fernandes!
+
+Imaginava eu, que elle appetecia em Tormes o ornato elegante de veados e
+paves. Mas um domingo, costeando o largo campo da Ribeirinha, sempre
+escasso d'agoas, agora mais resequido por vero de tanta seccura, o meu
+Principe parou a considerar os tres carneiros do caseiro, que retouavam
+com penuria uma relvagem pobre.
+
+E, de repente, como magoado:
+
+--Justamente! Aqui est o espao para um bello prado, um immenso prado,
+muito verde, muito farto, com rebanhos de carneiros brancos, gordissimos
+como bolas de algodo pousadas na relva!... Era lindo, hein? facil,
+no verdade, Z Fernandes?
+
+--Sim... Trazes a agoa para o prado. Agoas no faltam, na serra.
+
+E o meu principe encadeando logo n'esta inspirada idea outra, mais rica
+e vasta, lembrou quanta belleza daria a Tormes encher esses prados,
+esses verdes ferregiaes, de manadas de vaccas, formosas vaccas inglezas,
+bem nedias e bem luzidias. Hein? Uma belleza. Para abrigar esses gados
+ricos, construiria curraes perfeitos, d'uma architectura leve e util,
+toda em ferro e vidro, fundamente varridos pelo ar, largamente lavados
+pela agoa... Hein? Que formosura! Depois, com todas essas vaccas, e o
+leite jorrando, nada mais facil e mais divertido, e at mais moral, que
+a installao d'uma queijeira, fresca moda Hollandeza, toda branca e
+reluzente, de azulejos e de marmore, para fabricar os Camemberts, os
+Bries... os Coulommiers... Para a casa, que conforto! E para toda a
+serra, que actividade!
+
+--Pois no te parece, Z Fernandes?
+
+--Com certeza. Tu tens, em abundancia, os quatro Elementos: o ar, a
+agoa, a terra, e o dinheiro. Com estes quatro elementos, facilmente se
+faz uma grande lavoura. Quanto mais uma queijeira!
+
+--Pois no verdade? E at como negocio! Est claro, para mim o lucro
+o deleite moral do trabalho, o emprego fecundo do dia... Mas uma
+queijaria, assim perfeita, rende. Rende prodigiosamente. E educa o
+paladar, incita a installaes eguaes, implanta talvez no paiz uma
+industria nova e rica! Ora com essa installao, perfeita, quanto me
+poder custar cada queijo?
+
+Fechei um olho, calculando:
+
+--Eu te digo.... Cada queijo, um d'esses queijinhos redondos, como o
+Camembert ou o Rabaal, pde vir a custar-te, a ti Jacintho queijeiro,
+entre duzentos e cincoenta e trezentos mil ris.
+
+O meu Principe recuou, com dous olhos alegres espantados para mim.
+
+--Como trezentos mil ris?
+
+--Ponhamos duzentos... Tem a certeza! Com todos esses prados, e os
+encanamentos d'agoa e a configurao da serra alterada, e as vaccas
+inglezas, e os edificios de porcellana e vidro, e as maquinas, a
+extravagancia, e a patuscada bucolica, cada queijo te custa, a ti
+productor, duzentos mil ris. Mas com certeza o vendes no Porto por um
+tosto. Pe cincoenta ris para a caixa, rotulos, transporte, commisso,
+etc. Tens apenas, em cada queijo uma perda de cento e noventa e nove mil
+oitocentos e cincoenta ris!
+
+O meu Principe no desanimou.
+
+--Perfeitamente! Fao um d'esses espantosos queijos por semana, ao
+sabbado, para o comermos ns ambos ao domingo!
+
+E tanta energia lhe communicava o seu novo Optimismo, to anciosamente
+aspirava a crear, que logo, arrastando o Silverio e o Melchior por
+cabeos e barrancos, largou a percorrer a quinta toda, para determinar
+onde cresceriam, ao seu mando inspirado, os verdes prados, e se
+ergueriam, rebrilhantes no sol de Tormes, os curraes elegantes. Com a
+esplendida segurana dos seus cento e nove contos de renda, no surgia
+difficuldade, risonhamente murmurada pelo Melchior, ou exclamada, com
+respeitoso pasmo, pelo Silverio, que elle no afastasse brandamente, com
+geito leve, como um galho de roseira brava atravessado n'uma vereda.
+
+Aquellas rochas, alm, empecendo? Que se arrancassem! Um valle importuno
+dividia dous campos? Que se atulhasse! O Silverio suspirava, enxugando
+sobre a escura calva um suor quasi d'angustia. Pobre Silverio! Rijamente
+sacudido na doce pachorra da sua administrao, calculando despezas que
+se affiguravam sobrehumanas sua parcimonia serrana, forado a
+arquejar, sem descano, sob soalheiras de Junho, o desgraado retomra
+na Serra o geito que Jacintho deixra em Paris,--e era elle que corria
+pelas longas barbas tenebrosas os dedos desalentados... Emfim uma tarde
+desabafou comigo, a um canto da varanda, em quanto Jacintho, na
+livraria, escrevia a um seu amigo de Hollanda, o conde Rylant, Mordomo
+Mr da Corte, pedindo desenhos, e planos, e oramentos d'uma queijeira
+perfeita.
+
+--Pois, Snr. Fernandes, se toda esta grandeza vae por diante, sempre lhe
+digo que o Snr. D. Jacintho enterra aqui na serra dezenas de contos...
+Dezenas de contos!
+
+E como eu alludia fortuna do meu Principe, a quem todas essas obras
+to vastas, que alterariam o antiquissimo rosto da serra, no custavam
+mais que a outros o concerto d'um socalco,--o bom Silverio atirou os
+longos braos para as coxas gordas, ainda mais desolado:
+
+--Pois por isso mesmo, Snr. Fernandes! Se o Snr. D. Jacintho no tivesse
+a dinheirama, recuava. Assim, zs zs, para deante; e eu no o censuro
+pela ideia. Lograsse eu a renda de S. Ex.^a, que me atirava tambem a uma
+lavoura de capricho. Mas no aqui, Snr. Fernandes, n'estas serranias,
+entre alcantis. Pois um senhor que possue aquella linda propriedade de
+Montemr, nos campos do Mondego, onde at podia plantar jardins de
+desbancar os do Palacio de Crystal do Porto! E a Velleira? O Snr.
+Fernandes no conhece a Velleira, l para os lados de Penafiel? Isso
+um condado! E uma terra ch, boa terra, toda junta, alli em volta da
+casa, com uma torre. Um regalo, Snr. Fernandes. Mas sobretudo Montemr!
+L que eram prados e manadas de vaccas inglezas, e queijeira e horta
+rica, de fartar, e ahi trinta pers na capoeira...
+
+--Ento que quer, Silverio? O Jacintho gosta da serra. E depois este o
+solar da familia, e aqui comearam no seculo XIV os Jacinthos...
+
+O pobre Silverio, no seu desespero, esquecia o respeito devido secular
+nobreza da casa.
+
+--Ora! at ficam mal ao Snr. Fernandes essas ideias, n'este seculo da
+liberdade... Pois estamos l em tempos de se fallar em fidalguias, agora
+que por toda a parte anda tudo em Republica? Leia o _Seculo_, Snr.
+Fernandes! leia o _Seculo_, e ver! E depois eu sempre quero vr o Snr.
+D. Jacintho, aqui no inverno, com o nevoeiro a subir do rio logo pela
+manh, e a friagem a trespassar os ossos, e ventanias que atiram
+carvalheiras de raizes ao ar, e chuvas e chuvas que se desfaz a
+serra!... Olhe, at mesmo por amor da saude o Snr. D. Jacintho, que
+fraquinho e acostumado cidade, necessita sahir da serra. Em Montemr,
+em Montemr que s. ex.^a estava bem. E o Snr. Fernandes, to amigo
+d'elle e assim com tanta influencia, devia teimar, e berrar, at que o
+levasse para Montemr.
+
+Mas, infelizmente para a quietao do Silverio, Jacintho lanra raizes,
+e rijas, e amorosas raizes na sua rude serra. Era realmente como se o
+tivessem plantado d'estaca n'aquelle antiquissimo cho, d'onde brotra a
+sua raa, e o antiquissimo humus refluisse e o penetrasse todo, e o
+andasse transformando n'um Jacintho rural, quasi vegetal, to do cho, e
+preso ao cho, como as arvores que elle tanto amava.
+
+E depois o que o prendia serra era o ter n'ella encontrado o que na
+Cidade, apesar da sua sociabilidade, no encontrra nunca,--dias to
+cheios, to deliciosamente occupados, d'um to saboroso interesse, que
+sempre penetrava n'elles, como n'uma festa ou n'uma gloria.
+
+Logo de manh, s seis horas, eu, no meu quarto, mexendo ainda
+regaladamente o meu corpo nos colches de fresco folhelho, sentia os
+seus rijos sapates pelo corredor, e o seu cantarolar, desafinado, mas
+ditoso como o d'um melro. Em poucos instantes escancarava com fragor a
+minha porta, j de chapeu desabado, j de bengalo de cerejeira,
+disposto com reservado fervor para os trilhos conhecidos da serra. E era
+sempre a mesma nova, quasi orgulhosa:
+
+--Dormi hoje deliciosamente, Z Fernandes. To bem, com uma tal
+serenidade, que comeo a acreditar que sou um justo! Um dia lindo!
+Quando abri a janella, s cinco horas, quasi gritei de puro gosto!
+
+Na sua pressa, nem me deixava demorar na frescura da banheira; e quando
+eu repetia a risca mal comeada do cabello, aquelle antigo homem das
+trinta e nove escovas, protestava contra esse desbarato effeminado d'um
+tempo devido aos fortes gozos da terra.
+
+Mas quando, depois de acariciar os rafeiros no pateo, desembocavamos da
+alameda de platanos, e deante de ns se dividiam matutinamente, mais
+brancos entre o verde matutino, os caminhos colleantes da quinta, toda a
+sua pressa findava, e penetrava na Natureza, com a reverente lentido de
+quem penetra n'um Templo. E repetidamente sustentava ser contrario
+Esthetica, Philosophia e Religio, andar depressa atravs dos
+campos. De resto, com aquella subtil sensibilidade bucolica que n'elle
+se desenvolvera, e incessantemente se afinava, qualquer breve belleza,
+do ar ou da terra, lhe bastava para um longo encanto. Ditosamente
+poderia elle entreter toda uma manh, caminhar por entre um pinheiral,
+de tronco a tronco, callado, embebido no silencio, na frescura, no
+resinoso aroma, empurrando com o p as agulhas e as pinhas seccas.
+Qualquer agua corrente o retinha, enternecido n'aquella servial
+actividade, que se apressa, cantando, para o torro que tem sde, e
+n'elle se some, e se perde. E recordo ainda quando me reteve meio
+domingo, depois da Missa, no cabeo, junto a um velho curral
+desmantellado, sob uma grande arvore,--s por que em torno havia
+quietao, doce aragem, um fino piar d'ave na ramaria, um murmurio de
+regato entre canas verdes, e por sobre a sbe, ao lado, um perfume,
+muito fino e muito fresco, de flores escondidas.
+
+Depois, quando eu, velho familiar das serras, me no abandonava aos
+mesmos extasis que a elle lhe enchiam a alma ainda novia--o meu
+Principe rugia, com a indignao d'um poeta que descobre um mercieiro
+bocejando sobre Shakspeare ou Musset. Eu ria.
+
+--Meu filho, olha que eu no passo d'um pequeno proprietario. Para mim
+no se trata de saber se a terra _linda_, mas se a terra _boa_. Olha
+o que diz a Biblia! Trabalhars a quinta com o suor do teu rosto! E
+no diz contemplars a quinta com o enlevo da tua imaginao!
+
+--Podra! exclamava o meu Principe. Um livro escripto por Judeos, por
+asperos semitas, sempre com o turvo olho posto no lucro! Repra, homem,
+para aquelle bocadinho de valle, e consegue no pensar, por um momento,
+nos trinta mil reis que elle rende! Vers que pela sua belleza e graa
+elle te d mais contentamento alma que os trinta mil reis ao corpo. E
+na vida s a alma importa.
+
+Recolhendo ao casaro, j o encontravamos com as janellas meio cerradas,
+os soalhos borrifados para aquellas quentes restias de sol de junho, que
+depois do almoo docemente nos retinham na livraria, preguiando.
+
+Mas realmente a alegre actividade do meu Principe no cessava, nem
+amollecia, sob o peso da ssta. A essa hora, em quanto pelo arvoredo
+mudo os mais agitados pardaes dormiam, e o sol mesmo parecia repousar,
+immovel na rutilancia da sua luz, Jacintho com o espirito
+acordado,--vido de sempre gosar, agora que reconquistra essa
+faculdade,--tomava com delicia o _seu livro_. Por que o dono de trinta
+mil volumes era agora, na sua casa de Tormes, depois de resuscitado, o
+homem que s tem um livro. Essa mesma Natureza, que o desligra das
+ligaduras amortalhadoras do tedio, e lhe gritra o seu bello _Ambula_,
+caminha!--tambem certamente lhe gritra _et lege_, e l. E libertado
+emfim do envolucro suffocante da sua Bibliotheca immensa, o meu ditoso
+amigo comprehendia emfim a incomparavel delicia de _lr um livro_.
+Quando eu correra a Tormes, (depois das revelaes do Severo na venda do
+Torto,) elle findava o D. Quichote, e ainda eu lhe escutra as
+derradeiras risadas com as cousas deliciosas, e de certo profundas, que
+o gordo Sancho lhe murmurava, escarranchado no seu burro. Mas agora o
+meu Principe mergulhra na _Odyssea_,--e todo elle vivia no espanto e no
+deslumbramento de assim ter encontrado no meio do caminho da sua vida, o
+velho errante, o velho Homero!
+
+--Oh Z Fernandes, como succedeu que eu chegasse a esta edade sem ter
+lido Homero?...
+
+--Outras leituras, mais urgentes... O _Figaro_, George Ohnet...
+
+--Tu leste a _Illiada_?
+
+--Menino, sinceramente me gabo de nunca ter lido a _Illiada_.
+
+Os olhos do meu Principe fuzilavam.
+
+--Tu sabes o que fez Alcibiades, uma tarde, no Portico, a um sophista,
+um desavergonhado d'um sophista, que se gabava de no ter lido a
+_Illiada_?
+
+--No.
+
+--Ergueu a mo e atirou-lhe uma bofetada tremenda.
+
+--Para l, Alcibiades! Olha que eu li a _Odyssea_!
+
+Oh! mas de certo eu a lra, corridamente, com a alma desattenta! E
+insistia em me iniciar, elle, e me conduzir, atravs do Livro sem egual.
+Eu ria. E rindo, pesado do almoo, terminava por consentir, e me
+estirava no canap de verga. Elle, deante da mesa, direito na cadeira,
+abria o livro gravemente, pontificalmente, como um missal, e comeava
+n'uma lenta ode sentida. Aquelle grande mar da _Odyssea_,--resplandecente e
+sonoro, sempre azul, todo azul, sob o vo branco das
+gaivotas, rolando, e mansamente quebrando sobre a areia fina ou contra
+as rochas de marmore das Ilhas divinas,--exhalava logo uma frescura
+salina, bem vinda e consoladora n'aquella calma de Junho, em que a serra
+se entorpecia. Depois as estupendas manhas do subtil Ulysses e os seus
+perigos sobrehumanos, tantas lamurias sublimes, e um anceio to
+espalhado da Patria perdida, e toda aquella intriga, em que embrulhava
+os Heroes, lograva as Deusas, illudia o Fado, tinham um delicioso sabr
+ali, nos campos de Tormes, onde nunca se necessitava de subtileza ou de
+engenho, e a Vida se desenrolava com a segurana immutavel com que cada
+manh sempre o Sol egual nascia, e sempre centeios e milhos, regados por
+agoas eguaes, seguramente medravam, espigavam, amadureciam... Emballado
+pela recitao grave e monotona do meu Principe, eu cerrava as palpebras
+docemente. Em breve um vasto tumulto, por terra e ceu, me alvoroava...
+E eram os rugidos de Polyphemo, ou a grita dos companheiros d'Ulysses
+roubando as vaccas de Apollo. Com os olhos logo esbugalhados para
+Jacintho, eu murmurava: _Sublime!_ E sempre, n'esse momento o engenhoso
+Ulysses, de carapuo vermelho e o longo remo ao hombro, surprehendia com
+a sua facundia a clemencia dos Principes, ou reclamava presentes devidos
+ao Hospede, ou surripiava astutamente algum favor aos Deuses. E Tormes
+dormia, no esplendor de Junho. Novamente, eu cerrava as palpebras
+consoladas, sob a caricia ineffavel do largo dizer homerico... E meio
+adormecido, encantado, incessantemente avistava, longe, na divina
+Hellade, entre o mar muito azul e o ceu muito azul, a branca vela,
+hesitante, procurando Ithaca...
+
+Depois da ssta o meu Principe de novo se soltava para os campos. E a
+essa hora, sempre mais activa, voltava com ardor aos seus planos, a
+essas culturas de luxo e elegantes officinas que cobririam a serra de
+magnificencias ruraes. Agora andava todo no esplendido appetite d'uma
+horta que elle concebera, immensa horta ajardinada, em que todos os
+legumes, classicos ou exoticos, cresceriam, soberbamente, em vistosos
+talhes, fechados por sebes de rosas, de cravos, de alfazma, de
+dhalias. A agoa das regas desceria por lindos corrgos de loua
+esmaltada. Nas ruas, a sombra cahiria de densas latadas de moscatel,
+pousando em esteios revestidos d'azulejo. E o meu Principe desenhra o
+plano d'esta espantosa horta, a lapiz vermelho, n'um papel immenso, que
+o Melchior e o Silverio, consultados, longamente contemplaram,--um
+coando risonhamente a nuca, o outro com os braos duramente crusados, e
+o sobrlho tragico.
+
+Mas este plano, o da queijaria, o da capoeira, e outro, sumptuoso, d'um
+pombal to povoado que todo o ceu de Tormes s tardes se tornaria branco
+e todo fremente d'azas--no sahiam das nossas gostosas palestras, ou dos
+papeis em que Jacintho os debuxava, e que se amontoavam sobre a meza,
+platonicos, immoveis, entre o tinteiro de lato e o vaso com flres.
+
+Nem enxadada fendera terra, nem alavanca deslocra pedra, nem serra
+serrra madeira, para encetar estas maravilhas. Contra a resistencia
+rebolada e escorregadia do Melchior, contra a respeitosa inercia do
+Silverio se quedavam, encalhados, os planos do meu Principe, como
+galeras vistosas em rochas ou em ldo.
+
+No convinha bolir em nada, (clamava o Silverio) antes das colheitas e
+da vindima! E depois, (acrescentava o Melchior com um sorriso de grande
+promessa) para boas obras mez de Janeiro porque l ensina o dictado:
+
+Em Janeiro--mette obreiro
+Mez meante--que no ante.
+
+E, de resto, o goso de conceber as suas obras e de indicar, estendendo a
+bengala por cima de valle e monte, os sitios privilegiados que ellas
+aformoseariam, bastava por ora ao meu Principe, ainda mais imaginativo
+que operante. E, em quanto meditava estas transformaes da terra, muito
+progressivamente e com um amavel esforo, se ia familiarisando com os
+homens simples que a trabalhavam. Na sua chegada a Tormes, o meu
+Principe soffria d'uma estranha timidez diante dos caseiros, dos
+jornaleiros, e at de qualquer rapazinho que passasse, tangendo uma
+vacca para o pasto. Nunca elle ento se demoraria a conversar com os
+moos, quando borda d'um caminho ou n'um campo em monda elles se
+endireitavam de chapeu na mo, n'um respeito de velha vassalagem. De
+certo o empecia a preguia, e talvez ainda o pudico recato de transpor
+toda a immensa distancia que se alargava desde a sua complicada
+super-civilisao at rude simplicidade d'aquellas almas
+naturaes:--mas sobretudo o retinha o medo de mostrar a sua ignorancia da
+lavoura e da terra, ou de parecer talvez desdenhoso de occupaes e de
+interesses, que para os outros eram supremos e quasi religiosos. Remia
+ento esta reserva com uma profuso de sorrisos, de doces acenos,
+tirando tambem o chapeu em cortezias profundas, com uma tal emphase de
+polidez que eu por vezes receava que elle murmurasse aos jornaleiros:
+Tenha v. ex.^a muito boas tardes;... Creado de v. ex.^a!
+
+Mas agora, depois d'aquellas semanas de serra, e de j saber (com um
+saber ainda fragil,) a epocha das sementeiras e das ceifas, e que as
+arvores de fructa se semeiam no inverno, j se aprazia em parar junto
+dos trabalhadores, contemplar descanadamente o trabalho, dizer cousas
+affaveis e vagas.
+
+--Ento, isso vae andando?... Ora ainda bem!... Este bocado de torro
+aqui rico... O talude ali adeante est precisando concerto...
+
+E cada um d'estes to simples dizeres lhe era doce, como se por meio
+d'elles penetrasse mais fundamente na intimidade da terra, e
+consolidasse a sua encarnao em homem do campo, deixando de ser uma
+mera sombra circulando entre realidades. J por isso no crusava no
+caminho o mocinho atraz das vaccas, que no o detivesse, o no
+interrogasse: Para onde vaes tu? De quem o gado? Como te chamas? E,
+contente comsigo, sempre gabava gratamente o desembarao do rapaz, ou a
+esperteza dos seus olhos. Outra satisfao do meu Principe era conhecer
+os nomes de todos os campos, as nascentes d'agua, e as delimitaes da
+sua quinta.
+
+--Vs acol, para alm do ribeiro, o pinheiral. J no meu, dos
+Albuquerques.
+
+E com a perenne alegria de Jacintho as noites da serra, no vasto
+casaro, eram faceis e curtas. O meu Principe era ento uma alma que se
+simplificava:--e qualquer pequenino goso lhe bastava, desde que n'elle
+entrasse paz ou doura. Com verdadeira delicia ficava, depois do caf,
+estendido n'uma cadeira, sentindo atravez das janellas abertas, a
+nocturna tranquillidade da serra, sob a mudez estrellada do ceu.
+
+As historias, muito simples e muito caseiras, que eu lhe contava, de
+Guies, do abbade, da tia Vicencia, dos nossos parentes da Flr da
+Malva, to sinceramente o interessavam que eu encetra, para seu regalo,
+a chronica completa de Guies, com todos os namoricos, e as faanhas de
+foras, e as desavenas por causa de servides ou d'aguas. Tambem por
+vezes nos enfronhavamos, com afferro n'uma partida de gamo, sobre um
+bello taboleiro de pau preto, com pedras de velho marfim, que nos
+emprestra o Silverio. Mas nada de certo o encantava tanto como
+atravessar as casas, p ante p, at uma saleta que dava para o pomar, e
+ahi ficar encostado janella, sem luz, n'um enlevado socego, a escutar
+longamente, languidamente, os rouxinoes que cantavam no laranjal.
+
+
+
+
+X
+
+
+N'uma dessas manhs--justamente na vespera do meu regresso a Guies--, o
+tempo, que andra pela serra to alegre, n'um inalterado riso de luz
+rutilante, todo vestido d'azul e ouro, fazendo poeira pelos caminhos, e
+alegrando toda a natureza, desde os passaros at os regatos,
+subitamente, com uma d'aquellas mudanas que tornam o seu temperamento
+to semelhante ao do homem, appareceu triste, carrancudo, todo
+embrulhado no seu manto cinzento, com uma tristeza to pesada e
+contagiosa que toda a serra entristeceu. E no houve mais passaro que
+cantasse, e os arroios fugiram para debaixo das hervas com um lento
+murmurio de chro.
+
+Quando Jacintho entrou no meu quarto, no resisti malicia de o
+aterrar:
+
+--Sudoeste! gralhas a grasnar por todos esses soutos... Temos muita
+agua, Snr. D. Jacintho! Talvez duas semanas d'agua! E agora se vae
+saber quem aqui o fino amador da Natureza, com esta chuva pegada, com
+vendaval, com a serra toda a escorrer!
+
+O meu Principe caminhou para a janella com as mos nas algibeiras:
+
+--Com effeito! Est carregado. J mandei abrir uma das malas de Paris e
+tirar um casaco impermeavel... No importa! Fica o arvoredo mais verde.
+E bom que eu conhea Tormes nos seus habitos d'inverno.
+
+Mas como o Melchior lhe affianra que a chuvinha s viria para a
+tarde, Jacintho decidiu ir antes d'almoo Corujeira, onde o Silverio
+o esperava para decidirem da sorte d'uns castanheiros, muito velhos,
+muito pittorescos, inteiramente interessantes, mas j roidos, e
+ameaando desabar. E, confiando nas previses do Melchior, partimos sem
+que Jacintho se vestisse prova d'agoa. No andaramos porm meio
+caminho, quando, depois d'um arrepio nas arvores, um negrume carregou,
+e, bruscamente, desabou sobre ns uma grossa chuva obliqua, vergastada
+pelo vento, que nos deixou estonteados, agarrando os chapeus,
+enrodilhados na borrasca. Chamados por uma grande voz, que se esganiava
+no vento, avistamos n'um campo mais alto, beira d'um alpendre, o
+Silverio, debaixo d'um guarda-chuva vermelho, que acenava, nos indicava
+o trilho mais curto para aquelle abrigo. E para l rompemos, com a chuva
+a escorrer na cara, patinhando na lama, contorcidos, cambaleantes,
+atordoados no vendaval, que n'um instante alagra os campos, inchra os
+ribeiros, esboroava a terra dos socalcos, lanra n'um desespero todo o
+arvoredo, tornra a serra negra, bravamente agreste, hostil,
+inhabitavel.
+
+Quando emfim, debaixo do vasto guarda-chuva com que o Silverio nos
+esperava beira do campo, corremos para o alpendre, nos refugiamos
+n'aquelle abrigo inesperado, a escorrer, a arquejar, o meu Principe,
+enxugando a face, enxugando o pescoo, murmurou, desfallecido:
+
+--Apre! que ferocidade!
+
+Parecia espantado d'aquella brusca, violenta colera d'uma serra to
+amavel e accolhedora, que em dous mezes, inalteradamente, s lhe
+offerecera doura e sombra, e suaves ceus, e quietas ramagens, e
+murmurios discretos de ribeirinhos mansos.
+
+--Santo Deus! Vem muitas vezes assim, estas borrascas?
+
+Immediatamente o Silverio aterrou o meu Principe:
+
+--Isto agora so brincadeiras de vero, meu senhor! Mas ha de V. Ex.^a
+vr no inverno, se V. Ex.^a se aguentar por c! Ento cada temporal,
+que at parece que os montes estremecem!
+
+E contou como fra tambem apanhado, quando ia para a Corujeira.
+Felizmente, logo pela manh, quando sentiu o ar carrancudo e as
+folhinhas dos choupos a tremer, se acautelra com o chapeu de chuva e
+calra as suas grandes botas.
+
+--Ainda estive para me abrigar em casa do Esgueira, que um caseiro de
+c. Aquella casa, ali abaixo, onde est a figueira... Mas a mulher tem
+estado doente, j ha dias... E como pde ser obra que se pegue, bexigas
+ou coisa que o valha, pensei comigo: Nada, o seguro morreu de velho!
+Metti para o alpendre... E no passra um credo quando lobriguei a V.
+Ex.^a... Coisa assim!... E o Snr. D. Jacintho voltar para casa, e
+mudar-se, que temos um dia e uma noite d'agoa.
+
+Mas, justamente, a chuva comera a cahir perpendicular, d'um ceu ainda
+negro, onde o vento se calra; e para alm do rio e dos montes havia uma
+claridade, como entre cortinas de pano cinzento que se descerram.
+
+Jacintho repousava. Eu no cessra de me sacudir, de bater os ps
+encharcados, que me arrefeciam. E o bom Silverio, passando a mo
+pensativa sobre o negrume das suas barbas, reflectia, emendava os seus
+prognosticos:
+
+--Pois, no senhor... Ainda esta! Nunca pensei. que tornejou o vento.
+
+O alpendre que nos cobria assentava sobre duas paredes em angulo, de
+pedra solta, restos d'algum casebre desmantelado, e sobre um esteio
+fazendo cunhal. N'esse momento s abrigava madeira, um cuculo de cestos
+vasios, e um carro de bois, onde o meu Principe se sentra, enrolando um
+cigarro confortador. A chuva desabava, copiosa, em longos fios
+reluzentes. E todos tres nos callavamos, n'aquella contemplao inerte e
+sem pensamento, em que uma chuva grossa e serena sempre immobilisa e
+retem olhos e almas.
+
+-- Snr. Silverio, murmurou lentamente o meu Principe, que que o
+senhor esteve ahi a dizer de bexigas?
+
+O procurador voltou a face surprehendido:
+
+--Eu, Ex.^{mo} Snr.?... Ah sim! a mulher do Esgueira! que pde ser,
+pde ser... No imagine V. Ex.^a que faltam por c doenas. O ar bom.
+No digo que no! Arsinho so, agoasinha leve. Mas s vezes, se V. Ex.^a
+me d licena, vae por ahi muita maleita.
+
+--Mas no ha medico, no ha botica?
+
+O Silverio teve o riso superior de quem habita regies civilisadas e bem
+providas...
+
+--Ento no havia d'haver? Pois ha um boticario, em Guies, l quasi ao
+p da casa aqui do nosso amigo. E homem entendido... o Firmino, hein,
+Snr. Fernandes? Homem capaz. Medico o Dr. Avelino, d'aqui a legoa e
+meia, nas Bolsas. Mas j V. Ex.^a v, esta gentinha pobre!... Tomaram
+elles para po, quanto mais para remedios!
+
+E de novo se estabeleceu um silencio, sob o alpendre, onde penetrava a
+friagem crescente da serra encharcada. Para alm do rio, a promettedora
+claridade no se alargra entre as duas espessas cortinas pardacentas.
+No campo, em declive deante de ns, ia um longo correr de ribeiros
+barrentos. Eu terminra por me sentar na ponta d'um madeiro, enervado,
+j com a fome aguada pela manh agreste. E Jacintho, na borda do carro,
+com os ps no ar, cofiava os bigodes humidos, palpava a face, onde, com
+espanto meu, reapparecera a sombra, a sombra triste dos dias passados, a
+sombra do 202!
+
+E, ento, surdiu por traz da parede do alpendre um rapasito, muito
+rotinho, muito magrinho, com uma carita miuda, toda amarella sob a
+porcaria, e onde dous grandes olhos pretos se arregalavam para ns, com
+vago pasmo e vago medo. Silverio immediatamente o conheceu.
+
+--Como vae a tua me? Escusas de te chegar para c, deixa-te estar ahi.
+Eu ouo bem. Como vae a tua me?
+
+No percebi o que os pobres beicitos descorados murmuraram. Mas Jacinto,
+interessado:
+
+--Que diz elle? Deixe vir o rapaz! Quem a tua me?
+
+Foi o Silverio que informou respeitosamente:
+
+-- a tal mulher que est doente, a mulher do Esgueira, ali do casal da
+figueira. E ainda tem outro abaixo d'este... Filharada no lhe falta.
+
+--Mas este pequeno tambem parece doente!--exclamou Jacintho. Coitadito,
+to amarello!... Tu tambem ests doente?
+
+O rapasinho emmudecera, chupando o dedo, com os tristes olhos pasmados.
+E o Silverio sorria, com bondade:
+
+--Nada! este sosinho... Coitado, assim amarellado e enfezadito, por
+que... Que quer V. Ex.^a? Mal comido! muita miseria... Quando ha o
+bocadito de po para todo o rancho. Fomesinha, fomesinha!
+
+Jacintho pulou bruscamente da borda do carro.
+
+--Fome? Ento elle tem fome? Ha aqui gente com fome?
+
+Os seus olhos rebrilhavam, n'um espanto commovido, em que pediam, ora a
+mim, ora ao Silverio, a confirmao d'esta miseria insuspeitada. E fui
+eu que esclareci o meu Principe:
+
+--Homem! est claro que ha fome! Tu imaginavas talvez que o Paraiso se
+tinha perpetuado aqui nas serras, sem trabalho e sem miseria... Em toda
+a parte ha pobres, at na Australia, nas minas d'ouro. Onde ha trabalho
+ha proletariado, seja em Paris, seja no Douro...
+
+O meu Principe, teve um gesto d'afflicta impaciencia:
+
+--Eu no quero saber o que ha no Douro. O que eu pergunto se aqui, em
+Tormes, na minha propriedade, dentro d'estes campos que so meus, ha
+gente que trabalhe para mim, e que tenha fome... Se ha creancinhas, como
+esta, esfomeadas? o que eu quero saber.
+
+O Silverio sorria, respeitosamente, ante aquella candida ignorancia das
+realidades da Serra:
+
+--Pois est bem de vr, meu senhor, que ha para ahi caseiros que so
+muito pobres. Quasi todos... uma miseria, que se no fosse algum
+soccorro que se lhes d, nem eu sei!... Este Esgueira, com o rancho de
+filhos que tem, uma desgraa... Havia V. Ex.^a de vr as casitas em
+que elles vivem... So chiqueiros. A do Esgueira, acol...
+
+--Vamos vl-a! atalhou Jacintho com uma deciso exaltada.
+
+E sahiu logo do alpendre, sem attender chuva, que ainda cahia, mais
+leve e mais rala. Mas ento Silverio alargou os braos deante d'elle,
+com anciedade, como para o salvar d'um precipicio.
+
+--No! V. Ex.^a l na casa do Esgueira que no entra! No se sabe o
+que a mulher tem, e cautella e caldo de gallinha...
+
+Jacintho no se alterou na sua polidez paciente:
+
+--Obrigado pelo seu cuidado, Silverio... Abra o seu chapeu de chuva, e
+vante!
+
+Ento o Procurador vergou os hombros, e, como S. Ex.^a mandava, abriu
+com estrondo o immenso pra-agoas, abrigou respeitosamente Jacintho,
+atravs do campo encharcado. Eu segui, pensando na esmola sumptuosa que
+o bom Deus mandava quelle pobre casal por um remoto senhor das Cidades!
+Atraz vinha o pequenito perdido n'um immenso pasmo.
+
+Como todos os casebres da serra, o do Esgueira era de grossa pedra
+solta, sem reboco, com um vago telhado, de telha musgosa e negra, um
+postigo no alto, e a rude porta que servia para o ar, para a luz, para o
+fumo, e para a gente. E em redor, a Natureza e o Trabalho tinham,
+atravs d'annos, accumulado ali trepadeiras e flres silvestres, e
+cantinhos d'horta, e sebes cheirosas, e velhos bancos roidos de musgo, e
+panellas com terra onde crescia salsa, e regueiros cantantes, e videiras
+enforcadas nos olmos, e sombras e charcos espelhados, que tornavam
+deliciosa, para uma Ecloga, aquella morada da Fome, da Doena e da
+Tristeza.
+
+Cautelosamente, com a ponteira do guarda-chuva, Silverio empurrou a
+porta, chamando:
+
+--Eh! tia Maria... Ol rapariga!
+
+E na fenda entreaberta appareceu uma moa, muito alta, escura e suja,
+com uns tristes olhos pisados, que se espantaram para ns, serenamente.
+
+--Ento como vae a tua me?--Abre l a porta, que esto aqui estes
+senhores...
+
+Ella abriu, lentamente, e ia murmurando n'uma voz dolente e arrastada
+mas sem queixume, que um vago, resignado sorriso acompanhava:
+
+--Ora, coitada! como ha de ir? Malzinha... malzinha.
+
+E dentro, n'um gemido que subia como do cho, d'entre abafos, amodorrado
+e lento, a me repetiu a desconsolada queixa:
+
+--Ai! para aqui estou, e malzinha, malzinha!...
+
+O Silverio, sem passar da porta, com o guarda-chuva em riste, meio
+aberto, como um escudo contra a infeco, lanou uma consolao vaga:
+
+--No ha de ser nada, tia Maria!... Isso foi friagem! No foi seno
+friagem!
+
+E, sobre o hombro de Jacintho, encolhido:
+
+--J V. Ex.^a v... Muita miseria! At lhe chove l dentro.
+
+E, no pedao de cho que viam, cho de terra batida, uma mancha humida
+reluzia, da chuva pingada de uma telha rta. A parede, coberta de
+fuligem, das longas fumaraas da lareira, era to negra como o cho. E
+aquella penumbra suja parecia atulhada, n'uma desordem escura, de
+trapos, de cacos, de restos de coisas, onde s mostravam frma
+comprehensivel uma arca de pau negro, e por cima, pendurado d'um prego,
+entre uma serra e uma candeia, um grosso saiote escarlate.
+
+Ento Jacintho, muito embaraado, murmurou abstrahidamente:
+
+--Est bem, est bem...
+
+E largou pelo campo para o lado do alpendre como se fugisse, emquanto o
+Silverio decerto revelava rapariga, a presena augusta do fidalgo,
+por que a sentimos, da porta, levantar a voz dolorida:
+
+--Ai! Nosso Senhor lhe d muito boa sorte! Nosso Senhor o acompanhe!
+
+Quando o Silverio, com as grandes passadas das suas grandes botas, nos
+colheu, no meio do campo, Jacintho parra, olhava para mim, com os dedos
+tremulos a torturar o bigode, e murmurava:
+
+-- horrivel, Z Fernandes, horrivel.
+
+Ao lado, o vozeiro do Silverio trovejou:
+
+--Que queres tu outra vez, rapaz? Vae para a tua me, creatura!
+
+Era o pequeno rotinho, esfaimadinho, que se prendia a ns, n'um immenso
+pasmo das nossas pessoas, e com a confusa esperana, talvez, que
+d'ellas, como de Deuses encontrados n'um caminho, lhe viesse affago ou
+proveito. E Jacintho, para quem elle mais especialmente arregalava os
+olhos tristes, e que aquella miseria, e a sua muda humildade,
+embaraavam, acanhavam horrivelmente, s soube sorrir, murmurar o seu
+vago: Est bem, est bem... Fui eu que dei ao pequenito um tosto,
+para o fartar, o despegar dos nossos passos. Mas como elle, com o seu
+tosto bem agarrado, nos seguia ainda, como no sulco da nossa
+magnificencia, o Silverio teve de o espantar, como a um passaro, batendo
+as mos, e de lhe gritar:
+
+--J para casa! E leve esse dinheiro me. Roda, roda!...
+
+--E ns vamos almoar, lembrei eu olhando o relogio. O dia ainda vae
+estar lindo.
+
+Sobre o rio, com effeito, reluzia um pedao d'azul lavado e lustroso; e
+a grossa camada de nuvens j se ia enrolando sob a lenta varredela do
+vento, que as levava, despejadas e rtas, para um canto escuso do ceu.
+
+Ento recolhemos lentamente para casa, por uma vereda ingreme, que
+ensinra o Silverio, e onde um leve enchurro vinha ainda, saltando e
+chalrando. De cada ramo tocado, rechuvia uma chuva leve. Toda a verdura,
+que bebera largamente, reluzia consolada.
+
+Bruscamente, ao sahirmos da vereda para um caminho mais largo, entre um
+socalco e um renque de vinha, Jacintho parou, tirando lentamente a
+cigarreira:
+
+--Pois, Silverio, eu no quero mais estas horriveis miserias na quinta.
+
+O Procurador deu um geito aos hombros, com um vago _eh_! _eh_!
+d'obediencia e dvida.
+
+--Antes de tudo, continuava Jacintho, mande j hoje chamar esse Dr.
+Avelino para aquella pobre mulher... E os remedios que os vo buscar
+logo a Guies. E recommendao ao medico para voltar manh, e em cada
+dia; at que ella melhore... Escute! E quero, Melchior, que lhe leve
+dinheiro, para os caldos, para a dieta, uns dez, ou quinze mil ris...
+Bastar?
+
+O Procurador no conteve um riso respeitoso. Quinze mil ris! Uns
+tostes bastavam... Nem era bom acostumar assim, a tanta franqueza,
+aquella gente. Depois todos queriam, todos pedinchavam...
+
+--Mas que todos ho-de ter, disse Jacintho simplesmente.
+
+--V. Ex.^a manda, murmurou o Silverio.
+
+Encolhera os hombros, parado no caminho, no espanto d'aquellas
+extravagancias. Eu tive de o apressar, impaciente:
+
+--Vamos conversando e andando! meio dia! Estou com uma fome de lobo!
+
+Caminhamos, com o Silverio no meio, pensativo, a fronte enrugada sob a
+vasta aba do chapeu, a barba immensa espalhada pelo peito, e a barraca
+exorbitante do guarda-chuva vermelho enrolada debaixo do brao. E
+Jacintho, puxando nervosamente o bigode, arriscava outras idas
+bemfazejas, cautelosamente, no seu indominavel medo do Silverio:
+
+--E as casas tambem... Aquella casa um covil!... Gostava de abrigar
+melhor aquella pobre gente... E naturalmente, as dos outros caseiros so
+pocilgas eguaes... Era necessario uma reforma! Construir casas novas a
+todos os rendeiros da quinta...
+
+--A todos?...--O Silverio gaguejava,--emudeceu.
+
+E Jacintho balbuciava aterrado:
+
+--A todos... Emfim, quero dizer... Quantos sero elles?
+
+Silverio atirou um gesto enorme:
+
+--So vinte e coisas... Vinte e tres! se bem lembro. Upa! Upa! Vinte e
+sete...
+
+Ento Jacintho emmudeceu tambem, como reconhecendo a vastido do numero.
+Mas desejou saber, por quanto ficaria cada casa!... Oh! uma casa
+simples, mas limpa, confortavel, como a que tinha a irm do Melchior, ao
+p do lagar. Silverio estacou de novo. Uma casa como a da Ermelinda?
+Queria Sua Ex.^a saber? E alijou a cifra, muito d'alto, como uma pedra
+immensa, para esmagar Jacintho:
+
+--Duzentos mil ris, Ex^{mo} Senhor! E para mais que no para menos!
+
+Eu ria da tragica ameaa do excellente homem. E Jacintho, muito
+docemente, para conciliar o Silverio:
+
+--Bem, meu amigo... Eram uns seis contos de ris! Digamos dez, por que
+eu queria dar a todos alguma mobilia e alguma roupa.
+
+Ento o Silverio teve um brado de terror:
+
+--Mas ento, Ex.^{mo} Senhor, uma revoluo!
+
+E como ns, irresistivelmente, riamos dos seus olhos esgazeados de
+horror, dos seus immensos braos abertos para traz, como se visse o
+mundo desabar,--o bom Silverio encavacou:
+
+--Ah! V. Ex.^{as} riem? Casas para todos, mobilias, pratas, bragal, dez
+contos de ris! Ento tambem eu rio! Ah! ah! ah! Ora viva a bella
+chalaa!... Est ba a risota!
+
+E subitamente, n'uma profunda mesura, como declinando toda a
+responsabilidade n'aquelle disparate magnifico:
+
+--Emfim, V. Ex.^a quem manda!
+
+--Est mandado, Silverio. E tambem quero saber as rendas que paga essa
+gente, os contractos que existem, para os melhorar. Ha muito que
+melhorar. Venha voss almoar comnosco. E conversamos.
+
+To saturado d'espanto estava o Silverio, que nem recebeu mais espanto
+com essa melhoria de rendas. Agradeceu o convite, penhorado. Mas pedia
+licena a Sua Ex.^a para passar primeiramente pelo lagar, para ver os
+carpinteiros que andavam a concertar a trave do rio. Era um instante, e
+estava em seguida s ordens de S. Ex.^a.
+
+Metteu a corta matto, saltando um cancello. E ns seguimos, com passos
+que eram ligeiros, pela hora do almoo que se retardra, pello azul
+alegre que reapparecia, e por toda aquella justia feita pobresa da
+serra.
+
+--No perdeste hoje o teu dia, Jacintho, disse eu, batendo, com uma
+ternura que no disfarcei, no hombro do meu amigo.
+
+--Que miseria, Z Fernandes! Eu nem sonhava... Haver por ahi, vista da
+minha casa, outras casas, onde creanas teem fome! horrivel...
+
+Estavamos entrando na alameda. Um raio de sol, sahindo d'entre duas
+grossas, algodoadas nuvens, passou sobre uma esquina do casaro, ao
+fundo, uma viva tira d'ouro. O clarim dos gallos soava claro e alto. E
+um doce vento, que se erguera, punha nas folhas lavadas e luzidias um
+fremito alegre e doce.
+
+--Sabes o que eu estava pensando, Jacintho?... Que te aconteceu aquella
+lenda de Santo Ambrosio... No, no era Santo Ambrosio... No me lembra
+o santo... Nem era ainda santo... apenas um cavalleiro peccador, que se
+enamorra d'uma mulher, puzera toda a sua alma n'essa mulher, s por a
+avistar a distancia na rua. Depois, uma tarde que a seguia, enlevado,
+ella entrou n'um portal de egreja, e ahi, de repente, ergueu o veu,
+entreabriu o vestido, e mostrou ao pobre cavalleiro o seio roido por uma
+chaga! Tu, tambem andavas namorado da serra, sem a conhecer, s pela sua
+belleza de vero. E a serra, hoje, zs! de repente, descobre a sua
+grande ulcera... talvez a tua preparao para S. Jacintho.
+
+Elle parou, pensativo, com os dedos nas cavas do collete:
+
+--- verdade! Vi a chaga! Mas emfim, esta, louvado seja Deus, das que
+eu posso curar!
+
+No desilludi o meu Principe. E ambos subimos alegremente a escadaria do
+casaro.
+
+
+
+
+XI
+
+
+No dia que seguiu estas largas caridades recolhi a Guies. E, desde
+ento, tantas vezes trotei por aquellas tres legoas entre a nossa e a
+velha alameda dos Jacinthos, que a minha egoa, quando a desviava d'essa
+estrada familiar, conduzindo a uma cavallaria familiar, (onde ella
+privava com o garrano do Melchior) relinchava de pura saudade. At a tia
+Vicencia se mostrava vagamente ciumenta d'aquella Tormes, para onde eu
+sempre corria, d'aquelle Principe de quem incessantemente celebrava o
+rejuvenescimento, a caridade, os piteus, e as chimeras agricolas. J um
+dia com um gro de sal e ironia,--o unico que cabia n'um corao todo
+cheio d'innocencia,--ella me dissera, movendo com mais vivacidade as
+agulhas da sua meia:
+
+--Olha que te podes gabar! At me tens feito curiosidade de conhecer
+esse Jacintho... Traze c essa maravilha, menino!
+
+Eu rira:
+
+--Socegue, tia Vicencia, que o trarei agora, para o dia dos meus annos,
+a jantar... Damos uma festa, haver um bailarico no pateo, e vem ahi
+toda essa senhorama dos arredores. Talvez at se arranje uma noiva para
+o Jacintho.
+
+Eu, com effeito, j convidra o meu Principe para este natalicio. E de
+resto convinha que o senhor de Tormes conhecesse todos aquelles senhores
+das boas casas da serra... Sobretudo, como eu lhe dizia rindo, convinha
+que elle conhecesse algumas mulheres, algumas d'aquellas fortes
+raparigas dos solares serranos, por que Tormes tinha uma solido muito
+monastica; e o homem, sem um pouco do Eterno Feminino, facilmente se
+enrudece e ganha uma casca aspera como a das arvores, na solido.
+
+--E esta Tormes, Jacintho, esta tua reconciliao com a Natureza, e o
+renunciamento s mentiras da Civilisao uma linda historia... Mas,
+caramba, faltam mulheres!
+
+Elle concordava, rindo, languidamente estendido na cadeira de vime:
+
+--Com effeito, ha aqui falta de mulher, com M. grande. Mas essas
+senhoras ahi das casas dos arredores... No sei, estou pensando que se
+devem parecer com legumes. Sans, nutritivas, excellentes para a
+panella--mas, emfim, legumes. As mulheres que os poetas comparam s
+Flores so sempre as mulheres das Crtes, das Capitaes, s quaes,
+invariavelmente, desde Hesiodo e de Horacio, se rendem os poetas... E
+evidentemente no ha perfume, nem graa, nem elegancia, nem requinte,
+n'uma cenoura ou n'uma couve... No devem ser interessantes as senhoras
+da minha serra.
+
+--Eu te digo... A tua visinha mais chegada, a filha do D. Theotonio, com
+effeito, salvo o respeito que se deve casa illustre dos Barbedos, um
+mostrengo! A irm dos Albergarias, da quinta da Loja, tambem no
+tentaria nem mesmo o precisado Santo Anto. Sobretudo se se despisse,
+por que um espinafre infernal! Essa realmente legume, e no dos
+nutritivos.
+
+--Tu o disseste: espinafre!
+
+--Temos tambem a D. Beatriz Velloso... Essa bonita... Mas, menino, que
+horrivelmente bem fallante! Falla como as heroinas do Camillo. Tu nunca
+leste o Camillo... E depois, um tom de voz que te no sei descrever, o
+tom com que se falla em D. Maria, em peas de sentimento. Tu tambem
+nunca viste o Theatro de D. Maria... Emfim, um horror! E perguntas
+pavorosas. V. Ex.^a. Snr. Doutor, no se delicia com Lamartine? J me
+disse esta, a indecente!
+
+--E tu?
+
+--Eu! Arregalei os olhos... Oh Lamartine!. Mas, coitada, uma
+excellente rapariga! Agora, por outro lado, temos as Rojes, as filhas
+de Joo Rojo, duas flores, muito frescas, muito alegres, com um cheiro
+e um brilho a sadio, e muito simples... A tia Vicencia morre por ellas.
+Depois ha a mulher do Dr. Alypio, que uma belleza. Oh! uma creatura
+esplendida! Mas, emfim, a mulher do Dr. Alypio, e tu renunciaste aos
+deveres da Civilisao... Alm disso, mulher muito sria, toda absorvida
+nos seus dous pequenos, que parecem dous anjinhos de Murillo... E quem
+mais? J agora, quero completar a lista do pessoal feminino. Temos a
+Mello Rebello, de Sandofim, muito engraada, com cabello lindo... Borda
+na perfeio, faz doces como uma freira do antigo Regimen... Havia
+tambem uma Julia Lobo, muito linda, mas morreu... Agora no me lembro
+mais. Mas falta a flr da Serra, que a minha prima Joanninha, da Flr
+da Malva! Essa uma perfeio de rapariga.
+
+--E tu, primo Z, como tens tu resistido?
+
+--Somos como irmos, creados de pequeninos, mais acostumados e
+familiares que tu e eu... A familiaridade esbate os sexos. A me d'ella
+era a unica irm da tia Vicencia, e morreu muito nova. A Joanninha,
+quasi desde o bero que se creou em nossa casa, em Guies. O pae bom
+homem, o tio Adrio. Erudito, antiquario, colleccionador... Collecciona
+toda a sorte de cousas exquisitas, campainhas, esporas, sinetes,
+fivellas... Tem uma colleco curiosa. Elle ha muito que deseja vir a
+Tormes, para te visitar... Mas, coitado, soffre da bexiga, no pde
+montar a cavallo. E a estrada da Flr da Malva aqui impossivel para
+carruagens...
+
+O meu Principe espreguira longamente os braos:
+
+--No, est claro! eu que hei-de visitar teu tio, e a tia Vicencia...
+Desejo conhecer os meus visinhos. Mas mais tarde, quando socegar. Agora
+ando todo occupado com o meu povo.
+
+E com effeito! Jacintho era agora como um Rei fundador d'um Reino, e
+grande edificador. Por todo o seu dominio de Tormes andavam obras, para
+o renovamento das casas dos rendeiros, umas que se concertavam, outras
+mais velhas, que se derrubavam para se reconstruirem com uma larguesa
+commoda. Pelos caminhos constantemente chiavam carros, carregados de
+pedra, ou de madeiras cortadas nos pinheiraes.
+
+Na taberna do Pedro, entrada da freguezia, ia um desusado movimento,
+de pedreiros e carpinteiros contractados para as obras;--e o Pedro, com
+as mangas arregaadas, por traz do balco, no cessava de encher os
+decilitros com uma vasta enfusa.
+
+Jacintho, que tinha agora dous cavallos, todas as manhs cedo percorria
+as obras, com amor. Eu, inquieto, sentia outra vez, latejar e irromper
+no meu Principe o seu velho, maniaco furor d'accumular Civilisao! O
+plano primitivo das obras era incessantemente alargado, aperfeioado.
+Nas janellas, que deviam ter apenas portadas, segundo o secular costume
+da serra, decidira pr vidraas, apezar do mestre d'obras lhe dizer
+honradamente, que depois d'habitadas um mez, no haveria casa com um s
+vidro. Para substituir as traves classicas queria estucar os tectos;--e
+eu via bem claramente que elle se continha, se retesava dentro do
+Bom-senso, para no dotar cada casa com campainhas electricas. Nem
+sequer me espantei, quando elle uma manh me declarou que a porcaria da
+gente do campo provinha de elles no terem onde commodamente se lavar,
+pelo que andava pensando em dotar cada casa com uma banheira. Desciamos
+n'esse momento, com os cavallos redea, por uma azinhaga precipitada e
+escabrosa; um vento leve ramalhava nas arvores, um regato saltava
+ruidosamente entre as pedras. Eu no me espantei--mas realmente me
+pareceu que as pedras, o arroio, as ramagens e o vento, se riam
+alegremente do meu Principe. E alm d'estes confortos, a que o Joo,
+mestre d'obras, com os olhos loucamente arregalados chamava as
+grandezas, Jacintho meditava o bem das almas. J encommendra ao seu
+architecto, em Paris, o plano perfeito d'uma escola, que elle queria
+erguer, n'aquelle campo da Carria, junto capellinha que abrigava os
+ossos. Pouco a pouco, ahi crearia tambem uma bibliotheca, com livros
+d'estampas, para entreter, aos domingos, os homens a quem j no era
+possivel ensinar a lr. Eu vergava os hombros, pensando:--Ahi vem a
+terrivel accumulao das Noes! Eis o livro invadindo a Serra! Mas
+outras idas de Jacintho eram tocantes,--e eu mesmo me enthusiasmei, e
+excitei o enthusiasmo da tia Vicencia com o seu plano d'uma Creche, onde
+elle esperava ter manhs muito divertidas vendo as creancinhas a
+gatinhar, a correr tropegamente atraz d'uma bola. De resto, o nosso
+boticario de Guies estava j apalavrado para estabelecer uma pequena
+pharmacia em Tormes, sob a direco do seu praticante, um afilhado da
+tia Vicencia, que tinha publicado um artigo sobre as festas populares do
+Douro no _Almanach de Lembranas_. E j fra offerecido o partido medico
+de Tormes, com ordenado de 600$000 ris.
+
+--No te falta seno um Theatro! dizia eu, rindo.
+
+--Um theatro no. Mas tenho a ida d'uma sala, com projeces de
+lanterna magica, para ensinar a esta pobre gente as cidades d'esse
+mundo, e as cousas d'Africa, e um bocado de Historia.
+
+E tambem me ensoberbeci com esta innovao!--E quando a contei ao tio
+Adrio, o digno antiquario bateu, apezar do seu rheumatismo, uma palmada
+tremenda na cxa. Sim, senhor! Bella ida! Assim se podia ensinar
+quella gente illetrada, vivamente, por imagens, a Historia Santa, a
+Historia Romana, at a Historia de Portugal!... E voltado para a prima
+Joanninha, o tio Adrio declarou Jacintho um homem de corao!
+
+E realmente pela Serra crescia a popularidade do meu Principe.
+N'aquelle, guarde-o Deus, meu senhor! com que as mulheres ao passar o
+saudavam, se voltavam para o vr ainda, havia uma seriedade d'orao, o
+bem sincero desejo de que Deus o guardasse sempre. As creanas a quem
+elle distribuia tostes, farejavam de longe a sua passagem,--e era em
+torno d'elle um escuro formigueiro de caritas trigueiras e sujas, com
+grandes olhos arregalados, que se ainda tinham pasmo, j no tinham
+medo. Como o cavallo de Jacintho uma tarde se chapra, ao desembocar da
+alameda, n'umas grossas pedras que ahi deformavam a estrada, logo ao
+outro dia um bando d'homens, sem que Jacintho o ordenasse, veio por
+dedicao ensaibrar e alisar aquelle pedao perigoso de caminho,
+aterrados com o risco que correra o bom senhor. J pela serra se
+espalhava esse nome de bom senhor. Os mais edosos da freguezia no o
+encontravam sem exclamarem, uns com gravidade, outros com grandes risos
+desdentados:--_Este o nosso bemfeitor_! Por vezes, alguma velha corria
+do fundo do eido, ou vinha porta do casebre, ao avistal-o no caminho,
+para gritar, com grandes gestos dos braos magros: Ai que Deus o cubra
+de benos! Que Deus o cubra de benos!
+
+Aos domingos, o padre Jos Maria, (bom amigo meu e grande caador) vinha
+de Sandofim, na sua egoa rua, a Tormes, para celebrar a missa na
+Capellinha. Jacintho assistia ao officio na sua tribuna, como os
+Jacinthos d'outras eras, para que aquelles simples o no suppuzessem
+estranho a Deus. Quasi sempre ento elle recebia presentes, que as
+filhas dos caseiros, ou os pequenos, vinham muito corados, trazer-lhe
+varanda, e eram vasos de manjarico, ou um grosso ramalhete de cravos, e
+por vezes um gordo pato. Havia ento uma distribuio de cavacas e
+merengues de Guies, s raparigas e s creanas,--e, no pateo, para os
+homens circulavam as infusas de vinho branco. O Silverio j sustentava
+com espanto, e redobrado respeito, que o Snr. D. Jacintho em breve
+disporia de mais votos nas eleies que o Dr. Alypio. E eu proprio me
+impressionei, quando o Melchior me contou que o Joo Torrado, um velho
+singular d'aquelles sitios, de grandes barbas brancas, hervanario,
+vagamente alveitar, um pouco adivinho, morador mysterioso d'uma cova no
+alto da serra, a todos affirmava que aquelle bom senhor era El-Rei D.
+Sebastio, que voltra!
+
+
+
+
+XII
+
+
+Assim chegou Setembro, e com elle o meu natalicio, que era a 3 e n'um
+Domingo. Toda essa semana a passra eu em Guies, nos preparos da
+vindima,--e de manh cedo, n'esse Domingo illustre, me fui debruar da
+varanda do quarto do saudoso tio Affonso, vigiando a estrada, por onde
+devia apparecer o meu Principe, que emfim visitava a casa do seu Z
+Fernandes. A tia Vicencia, desde a madrugada, andava atarefada pela
+cosinha e pela copa, porque, desejando mostrar ao meu Principe o
+pessoal da serra, convidra para jantar algumas familias amigas, dos
+arredores, as que tinham carruagens ou carroes, e podiam, pelas
+estradas mal seguras, recolher tarde, depois d'um bailarico campestre,
+no pateo, j enfeitado para esse effeito de lanternas chinezas. Mas logo
+s dez horas me desesperei, ao receber, por um moo da Flr da Malva,
+uma carta da prima Joanninha, em que dizia a pena de no poder vir
+porque o Pap estava desde a vespera com um leiceno, e ella no o
+queria abandonar. Corri indignado cosinha, onde a tia Vicencia
+presidia a um violento bater de gemas d'ovos dentro d'uma immensa
+terrina.
+
+--A Joanninha no vem! Sempre assim! Diz que o pae tem um leiceno...
+Aquelle tio Adrio escolhe sempre os grandes dias para ter leicenos, ou
+para ter a pontada...
+
+A boa face redondinha e corada da tia Vicencia enterneceu-se.
+
+--Coitado! ser em sitio que no se pudesse sentar na carruagem!
+Coitado! Olha, se lhe escreveres, dize-lhe que ponha um emplastrosinho
+de folhas d'alecrim. com que teu tio se dava bem.
+
+Eu gritei simplesmente para o moo, que dava de beber ao burro no pateo:
+
+--Dize Snr.^a D. Joanninha que sentimos muito... Que talvez eu l
+apparea manh.
+
+E voltei janella, impaciente, por que o relogio do corredor, muito
+atrazado, j cantra a meia hora depois das dez e o Principe tardava
+para o almoo. Mas, mal eu me chegra varanda, appareceu justamente na
+volta da estrada Jacintho, de grande chapeu de palha, no seu cavallo,
+seguido do Grillo que, tambem de chapeu de palha, e abrigado sob um
+immenso guarda-sol verde, se escarranchava no albardo da velha egoa do
+Melchior. Atraz, um moo com uma maleta cabea. E eu, na alegria de
+avistar emfim o meu Principe trotando para a minha casa d'aldeia, no dia
+dos meus trinta e seis annos, pensava n'outro natalicio, no d'elle, em
+Paris, no 202, quando, entre todos os esplendores da Civilizao, ns
+bebemos tristemente _ad manes_, aos nossos mortos!
+
+--_Salv_! gritei da varanda. _Salv, domine Jacinthi_!
+
+E entoei, para o accolher, n'um alegre tarantantan, o hymno da carta!
+
+--Isto por aqui tambem lindo!--gritou elle de baixo. E o teu palacio
+tem um soberbo ar... Por onde a porta?
+
+Mas eu j me precipitava para o pateo--onde Jacintho, apeando, contou
+alegremente os tormentos do Grillo, que nunca montra a cavallo, e no
+cessra de berrar ante os perigos d'aquella aventura.
+
+E o digno preto, offegante, lustroso de suor, e livido sob o esplendor
+da sua negrura, exclamava, apontando com a mo tremula para a pobre
+egoa, que solta, de cabea pensativa, parecia de pedra, sobre as patas
+mais immoveis que marcos:
+
+--Pois se o si Fernandes visse! Uma fera, que nunca veiu quieta. Sempre
+para a esquerda, sempre para a direita, p aqui, p alm! S para me
+sacudir! S para me sacudir!
+
+E no resistiu. Com a ponta do guarda-sol atirou uma pontoada vingativa
+contra a egoa, sobre o albardo.
+
+Subindo a escadaria ligeira, penetrando no alegre corredor, com a sua
+janella ao fundo engrinaldada de rosinhas, Jacintho louvava grandemente
+a nossa casa, que o repousava das rijas muralhas, das grossas portas
+feudaes de Tormes. E no seu quarto agradeceu os cuidados maternaes da
+tia Vicencia, que enchera de flores os dois vasos da China sobre a
+commoda, e adornra a cama com uma das nossas colxas da India mais
+ricas, cr de canario, com grandes aves d'ouro. Eu sorria, enternecido.
+Ento estreitamos os ossos n'um grande abrao, pelo natalicio... Trinta
+e oito, hein, Z Fernandes?--Trinta e quatro, animal! E o meu
+Principe abrindo a mala, sobria maleta de philosopho, offereceu os
+nobres presentes, que so devidos, como diz sempre o astuto Ulysses na
+Odyssea. Era um alfinete de gravata, com uma saphira, uma cigarreira de
+aro fosco, adornada de um florido ramo de macieira em delicado esmalte,
+e uma faca para livros de velho lavor Chinez. Eu protestava contra a
+prodigalidade.
+
+-- tudo das malas de Paris... Mandei-as abrir hontem noite. E tomei a
+liberdade de trazer esta lembrana tua tia Vicencia. No vale nada...
+ s por ter pertencido princeza de Lamballe.
+
+Era uma caldeirinha d'agoa benta, em prata lavrada, d'um gosto florido e
+quasi galante.
+
+--A tia Vicencia no sabe quem a princeza de Lamballe, mas ficar
+encantada! E uma garantia, por que ella suspeita da tua religio, como
+homem de Paris, da terra das impiedades... E agora, lavar, escovar, e ao
+almoo!
+
+A tia Vicencia pareceu toda surprehendida, e logo encantada com o meu
+camarada, que ella suppuzera realmente um Principe, arrogante, escarpado
+e difficil. Quando elle lhe offereceu a caldeirinha, com um delicado
+pedido para se lembrar d'elle nas suas oraes, duas largas rosas,
+mais roseas e frescas que as rosas que enchiam a mesa, cobriram as faces
+redondas da boa senhora, que nunca recebera to piedoso presente, com
+to linda palavra. Mas o que sobretudo a captivou foi o tremendo
+appetite de Jacintho, a enthusiasmada convico com que elle,
+accumulando no prato montes de cabidella, depois altas serras d'arroz de
+forno, depois bifes de numerosa cebolada, exaltava a nossa cosinha,
+jurava nunca ter provado nada to sublime. Ella resplandecia:
+
+--At faz gosto, at faz gosto!... Ora mais uma d'estas batatinhas
+recheadas...
+
+--Com certesa, minha senhora! at duas! As minhas raes, em mesas
+d'estas, to perfeitas, so sempre as de Gargantua.
+
+--No cites Rabelais, que a tia Vicencia no conhece os auctores
+profanos! exclamava eu, tambem radiante. E prova esse vinho branco c da
+nossa lavra, e louva Deus que amadurece tal uva.
+
+E o almoo foi muito alegre, muito intimo, muito conversado, sobre as
+obras de Jacintho em Tormes, e a sua Creche, que enlevava a tia
+Vicencia, e as esperanas da vindima, e a minha prima Joanninha, que
+tinha o pap doente, e o pessimo estado dos caminhos. Mas o
+enternecimento maior foi quando, ao servir o caf, o creado poz ao lado
+de Jacintho um pires com um pau de canella, o seu estranho e costumado
+pau de canella. No o esquecera a tia Vicencia! Ali tinha o seu pausinho
+de canella!--Queria que elle, em Guies, continuasse os seus habitos
+como em Tormes... E aquelle pau de canella foi o symbolo de adopo do
+meu Principe como novo sobrinho da tia Vicencia.
+
+Ella em breve recolheu cosinha, aos preparativos do banquete. Ns
+fumamos um preguioso charuto no jardim, ao p do repuxo, sob a
+recolhida sombra do cedro. Depois, inexoravelmente, como proprietario,
+mostrei ao meu Principe a propriedade toda, com desapiedada
+minuciosidade, sem lhe perdoar uma leira, um regueiro, uma arvore, um p
+de vinha. S quando a sua face comeou a opar e a empallidecer, de
+canao, e que do entendimento totalmente atordoado s lhe escorria um
+vago--muito bonito! bella terra!-- que voltei os passos para casa,
+tornejando ainda n'uma volta larga para lhe mostrar o lagar, uma
+plantao d'espargos, e o sitio onde existira a ruina d'um velho castro
+romano. Ao penetrarmos de novo, pelo jardim, na fresca sala, ainda o
+empurrei, como uma rez, para a livraria do meu bom tio Affonso, para lhe
+mostrar as preciosidades, uma magnifica chronica de D. Joo I por Ferno
+Lopes, a primeira edio do _Imperador Clarimundo_, uma _Henriada_, com
+a assignatura de Voltaire, foraes d'El-Rei D. Manoel, e outras
+maravilhas. Elle respirava fechando o derradeiro pergaminho, quando eu o
+arrastei adega, para que admirasse a famosa pipa, que tinha, em
+relevo, na madeira do tampo, as complicadas armas dos Sandes. Eram
+quatro horas. O meu Principe tinha o ar esgaseado e livido. Cravando
+n'elle os olhos inexoraveis, olhos em que eu mesmo sentia reluzir a
+ferocidade, declarei que iriamos agora vr a tulha. Mas ento, com as
+mos nos rins, elle murmurou, humildemente, n'um murmurio de creana:
+
+--No se me dava de me sentar um poucochinho!
+
+Tive ento piedade, abri as garras, deixei que elle se arrastasse, atraz
+de mim, para o seu quarto, onde freneticamente descalou as botas, se
+atirou para um fresco canap forrado de ganga, murmurando n'um
+abatimento profundo:--Bella propriedade!
+
+Consenti generosamente que elle adormecesse,--e eu mesmo desci a
+verificar se a Gertrudes dispusera bem as escovas, as toalhas de renda,
+no quarto onde os convidados, em breve, ao chegar, lavariam as mos,
+escovariam a poeira da estrada. E justamente, uma caleche rodava no
+pateo, a velha caleche do D. Theotonio, com a parelha rua. Espreitando
+da janella descobri, com prazer, que chegava s, de gravata branca, sob
+o guarda-p, sem a horrendissima filha. Corri alegremente ao quarto da
+tia Vicencia, que, ajudada pela Catharina, abrochava pressa as suas
+pulseiras ricas de topazios.
+
+--Tia Vicencia! chegou o D. Theotonio! Felizmente vem sem a filha... No
+se demore, os outros no tardam. O Manoel que esteja bem penteado, de
+gravata bem teza!... Vamos a vr como corre a festa!
+
+
+
+
+XIII
+
+
+Ai de mim! a festa no meu anniversario no se passou com brilho, nem com
+alegria!
+
+Quando o meu Principe entrou na sala, com uma elegancia, (onde eu senti
+as malas de Paris, abertas na vespera)--uma rosa branca no jaqueto
+preto, collete branco lavrado e trespassado, copiosa gravata de sda
+branca, tufando, e presa por uma perola negra,--j todos os convidados
+estavam na sala,--o D. Theotonio, o Ricardo Velloso, o Dr. Alypio, o
+gordo Mello Rebello, de Sandofim, os dois manos Albergarias, da quinta
+da Loja--; todos de p, n'um pelloto cerrado. Em torno do soph onde a
+tia Vicencia se installra, um magotesinho de cadeiras reunira as
+senhoras,--a Beatriz Velloso, de cassa branca sobre sda, que a tornava
+mais aeria e magra, com a sua trunfa immensa de cabello riado; as duas
+Rojes, (com a tia Adelaide Rojo) vermelhinhas como camoezas, ambas de
+branco; e a mulher do Dr. Alypio, de preto, esplendida como uma Venus
+Rustica... E foi na sala, como se realmente entrasse um Principe,
+d'esses paizes do Norte onde os Principes so magnificos, muito
+distantes dos homens, e aterram as gentes. Um silencio, como se o tecto
+de carvalho descesse, nos esmagava: e todos os olhos se enristaram
+contra o meu desgraado Jacintho, como n'uma caada hind, quando orla
+da floresta surge o Tigre Real. Debalde,--nas confusas, apressadas
+apresentaes, com que eu o levava atravez da sala,--os seus apertos de
+mo, os sorrisos, o vago murmurio, da sua honra, do seu prazer foram
+repassados de sympathia, de simplicidade. Todos os cavalheiros
+permaneciam reservados, observando o Principe, que subira serra: e as
+senhoras mais se aconchegavam sombra da tia Vicencia, como ovelhas
+volta do pastor, quando na altura assoma o lobo. Eu, j inquieto, lancei
+o D. Theotonio, o mais ornamental d'aquelles cavalheiros.
+
+--O Snr. D. Theotonio foi muito amavel em vir, Jacintho. Raras vezes sae
+da sua linda casa da Abrujeira.
+
+O digno D. Theotonio sorriu, cofiando os espessos bigodes brancos, de
+velho brigadeiro:
+
+--V. Ex.^a chegou directamente de Vienna?
+
+No! Jacintho viera directamente de Paris, com o amigo Z Fernandes. D.
+Theotonio insistiu:
+
+--Mas certamente visita muitas vezes Vienna...
+
+Jacintho sorria surprehendido:
+
+--Vienna, porque?... No. Ha mais de quinze annos que no vou a Vienna.
+
+O fidalgo murmurou um lento _ah_! e ficou calado, de palpebras baixas,
+como revolvendo analyses profundas, com as mos cruzadas sob as abas da
+longa sobrecasaca azul.
+
+Eu ento, vigilante, lancei o Dr. Alypio:
+
+--O nosso Doutor, meu caro Jacintho, o mais poderoso influente de todo
+o districto.
+
+O Doutor curvou a cabea bem feita, com um bello cabello preto,
+admiravelmente alisado e lustroso. Mas a tia Vicencia, que se erguera do
+sof, chamava o meu Principe, porque o Manoel annuncira o jantar,
+mudamente, mostrando apenas, porta da sala, a sua corpulenta
+pessoa,--inteiriado e vermelho.
+
+ mesa, onde os pudins, as travessas de doce d'ovos, os antigos vinhos
+da Madeira e do Porto, nas suas pesadas garrafas de cristal lapidado,
+fundiam com felicidade os seus tons ricos e quentes, Jacintho ficou
+entre a tia Vicencia e uma das Rojes, a Luizinha, sua afilhada, que,
+por costume velho, quando jantava em Guies, sempre se collocava
+sombra da sua ba madrinha. E a spa, que era de gallinha com macarro,
+foi comida n'um to largo e pesado silencio que eu, na ancia de o
+quebrar, exclamei, ao acaso, sem pensar que me achava em Guies depois
+de tanto tempo e em minha prpria casa:
+
+--Deliciosa, esta sopa!
+
+Jacintho echoou:
+
+--Divina!!
+
+Mas como todos os convidados certamente estranharam este meu brado, e a
+excessiva admirao de Jacintho, o silencio, carregado de cerimonia,
+mais se carregou de embarao. Felizmente a tia Vicencia, com aquelle seu
+bom sorriso, observou que Jacintho parecia gostar da comida
+portugueza... E eu, sempre no intuito d'animar a conversa, nem deixei
+que o meu Principe confirmasse o seu amor da cosinha vernacula, e
+gritei:
+
+--Como gostar! Mas que delira!... Pudera! Tanto tempo em Paris,
+privado dos piteus lusitanos...
+
+E como, ditosamente, me lembrra o prato de arroz doce preparado na
+occasio do natalicio de Jacintho, pelo cosinheiro do 202, contei a
+historia, profusamente, exaggerando, affirmando que esse arroz doce
+continha _foie gras_, e que sobre a sua ornamentada pyramide fluctuava a
+bandeira tricolor, por cima do busto do conde de Chambord! Mas o arroz
+doce de Paris, assim estragado to longe da Serra, no interessra
+ninguem. Puxou apenas alguns sorrisos de polida condescendencia, quando
+eu, alternadamente, me voltava para um cavalheiro, para uma senhora,
+insistindo, exclamando:--Extraordinario, hein?
+
+D. Theotonio observou, mysteriosamente, que o cosinheiro sabia para
+quem cosinhava. E a bella mulher do Dr. Alypio ousou murmurar, corando:
+
+--Havia de ser bonito prato, e talvez no fosse mau!
+
+Eu, sempre na ancia de espiritualisar o banquete, de produzir
+conversao, ataquei com desabrida alegria a Snr.^a D. Luiza, por ella
+assim defender a profanao do nosso grande acepipe nacional! Mas, pobre
+de mim! to excessiva e ruidosamente interpellei a formosa senhora, que
+ella se enconchou, emmudeceu, toda corada, e mais formosa assim. E outro
+silencio se abatia sobre a mesa, como uma nevoa, quando a tia Vicencia,
+providencial, se desculpou para com Jacintho de no ter peixe! Mas qu!
+ali na Serra era impossivel, ainda a peso d'ouro, ter peixe, a no ser a
+pescada salgada, ou o bacalhau. O excellente Rojo, com aquelle seu
+modo, to suave que cada syllaba para correr mais docemente parecia
+lubrificada com oleos santos, lembrou que o Snr. D. Jacintho possuia uma
+larga facha do rio Douro com privilegio para a pesca do savel. Jacintho
+no sabia, nem imaginava que houvesse saveis... O Dr. Alypio no se
+admirava por que essas pescas tinham sido vendidas ao Cunha brasileiro,
+ha vinte annos, na mocidade do Snr. D. Jacintho. E hoje, segundo o D.
+Theotonio, no valiam dois mil ris. Se j no ha saveis!... E a
+proposito das antigas pescas do Douro se ia formando, em torno da mesa,
+entre os homens mais visinhos, lentas cavaqueirinhas ruraes, que as
+senhoras aproveitavam para cochichar, no desabafo d'aquelle silencio
+cerimonioso, que viera pesando cada vez mais desde a spa at os frangos
+guisados. Receoso de que essa orla de murmurios lentos, sem brilho e sem
+alegria, se estabelecesse de novo, me abalancei (para animar), a
+interpellar Jacintho, recordando a famosa aventura do peixe da Dalmacia
+encalhado no ascensor.
+
+--Isso foi uma das melhores historias que nos succederam em Paris! O
+Jacintho, por causa d'um peixe muito raro, que lhe mandra o Gro-Duque
+Casimiro, dava uma magnifica ceia, a que o Gro-Duque... o Gro-Duque
+Casimiro, o irmo do Imperador...
+
+Todos os olhos se desviaram para o meu Jacintho, que se servia de
+ervilhas:--e o Mello Rebello quasi se engasgou, n'um sorvo precipitado
+ao copo, para contemplar no meu amigo algum reflexo do Gro-Duque. E eu
+contei, com profuso, o peixe encalhado, o Gro-Duque pescando, o anzol
+feito com um gancho da Princeza de Carman, o duque de Marizac, cahindo
+quasi no poo do elevador... Mas no se produziu um unico riso, e a
+atteno mesma era dada com esforo, por cortezia. Debalde eu
+arremessava aquelles nomes magnificos de principes e princezas,
+misturados a cousas picarescas... Nenhum dos meus convidados
+comprehendia o maquinismo do elevador, um prato encalhado n'um poo
+negro... Perante o gancho da princeza as Albergarias baixaram os olhos.
+E a minha deliciosa historia morreu n'uma reticencia, ainda mais
+regelada pela exclamao innocente da tia Vicencia:
+
+--Oh! filho, que cousas!
+
+Mas, como Jacintho se enfronhra de repente n'uma larga conversa com a
+Luizinha Rojo, que ria, toda luminosa e palradora,--todos, como
+libertados do peso cerimonioso da sua presena augusta, se lanaram nas
+conversinhas discretas, a que o champagne, agora, depois do assado, dava
+mais viveza. Eram os soturnos murmurios, em torno da mesa, que
+definitivamente se perpetuavam. Foi ento que desisti de animar o
+jantar. Mergulhei com a bella mulher do Doutor Alypio na grande questo
+social d'esse tempo em Guies, o casamento da D. Amelia Noronha com o
+feitor! E eu defendia a D. Amelia, os direitos do amor, quando se
+alargou um silencio,--e era Jacintho, que se debruava, de copo na mo.
+
+--Velho amigo Z Fernandes, tua! Muitos e bons, e sempre em companhia
+de tua tia e minha senhora, a quem peo para saudar.
+
+Todos os copos, onde a espuma morria sobre um fundo de champagne, se
+ergueram n'um largo rumor de amisade, e boa visinhana. Eu acenei ao
+Manoel, vivamente, para encher os copos; e logo, tambem de p, atirando
+para traz a sobrecasaca:
+
+--Meus senhores, peo uma grande saude para o meu velho amigo Jacintho,
+que pela primeira vez honra esta casa fraternal... Que digo eu? que pela
+primeira vez honra com a sua presena a sua querida patria! E que por c
+fique, pelas serras, muitos annos, todos bons. tua, meu velho!
+
+Outro rumor correu pela mesa, mas ceremonioso e sereno. A nossa
+oratoria, positivamente, no incendira as imaginaes! A tia Vicencia
+fez tilintar o seu copo, quasi vasio, com o de Jacintho, que tocou no
+copo da sua visinha, a Luizinha Rojo, toda resplandecente, e mais
+vermelha que uma peonia. Depois foi um encadeamento de saudes, com os
+copos quasi vasios, entre todos os convidados, sem esquecer o tio
+Adrio, e o Abbade, ambos ausentes, ambos com furunculos. E a tia
+Vicencia espalhava aquelle olhar, que prepra o erguer, o arrastar de
+cadeiras,--quando D. Theotonio, erguendo o seu copo de vinho do Porto,
+com a outra mo apoiada mesa, meio erguido, chamou Jacintho, e n'uma
+voz respeitosa, quasi cava:
+
+--Esta toda particular, e entre ns... Brindo o ausente!
+
+Esvasiou o copo, como em religio, pontificando. Jacintho bebeu
+assombrado, sem comprehender. As cadeiras arrastavam,--eu dei o brao
+tia Albergaria.
+
+E s comprehendi, na sala, quando o Dr. Alypio, com a sua chavena de
+caf e o charuto fumegante, me disse, n'um d'aquelles seus olhares
+finos, que lhe valiam a alcunha de _Dr. Agudo_:--Espero que ao menos,
+c por Guies, no se erga de novo a forca!... E o mesmo fino olhar me
+indicava o D. Theotonio, que arrastra Jacintho para entre as cortinas
+d'uma janella, e discorria, com um ar de f e de mysterio. Era o
+miguelismo, por Deus! O bom D. Theotonio considerava Jacintho como um
+hereditario, ferrenho, miguelista,--e na sua inesperada vinda ao seu
+solar de Tormes, entrevia uma misso politica, o comeo d'uma propaganda
+energica, e o primeiro passo para uma tentativa de Restaurao. E na
+reserva d'aquelles cavalheiros, ante o meu Principe, eu senti ento a
+suspeita liberal, o receio d'uma influencia rica, nova, nas Eleies
+proximas, e a nascente irritao contra as velhas ideias, representadas
+n'aquelle moo, to rico, de civilisao to superior. Quasi entornei o
+caf, na alegre surpreza d'aquella sandice. E retive o Mello Rebello,
+que repunha a chavena vasia na bandeja, fitei, com um pouco de riso, o
+_Dr. Agudo_.
+
+--Ento, francamente, os amigos imaginam que o Jacintho veio para Tormes
+trabalhar no miguelismo?
+
+Muito serio, Mello Rebello chegou o seu grosso bigode minha orelha:
+
+--At corre, como certo, que o Principe D. Miguel est com elle em
+Tormes!
+
+E como eu os considerava esgazeado, o Dr. Alypio--to agudo!--confirmou:
+
+-- o que corre... Disfarado em creado!
+
+Em creado? Oh! santo Deus! Era o Baptista! Justamente, Ricardo Velloso
+veio, puxando do seu cigarrinho, para o accender no meu charuto. E o bom
+Rebello logo invocou o seu testemunho.--Pois no corria, que o filho de
+D. Miguel estava em Tormes, escondido?...
+
+--Disfarado em lacaio, confirmou logo o digno Rebello.
+
+Accendeu o cigarro, soprou o fumo, e erguendo muito as sobrancelhas
+meditativas:
+
+--Se assim , l me parece desplante... Que eu no desgostava de o vr.
+Dizem que bonito moo, bem apessoado. Mas emfim, meu tio Joo Vaz
+Rebello foi partido s postas, a machado, nas prises d'Almeida... E se
+recomeam essas questes, mau, mau! Ora o seu amigo...
+
+Emmudeceu. Jacintho, que se libertra do velho D. Theotonio, e ainda
+conservava um resto de riso, d'assombro divertido, vinha para mim,
+desabafar:
+
+--Extraordinario! Vejo que, aqui, na serra, ainda se conservam, sem uma
+ruga, as velhas e boas ideias...
+
+Immediatamente, sem se conter, Mello Rebello acudiu:
+
+-- conforme o que V. Ex.^a chama _boas ideas_.
+
+E eu agora, furioso com aquella disparatada inveno, que cercava
+d'hostilidade o meu pobre Jacintho, estragava aquella amavel noite
+d'annos, intervim, vivamente:
+
+--Tu jogas o voltarete, Jacintho? No jogas... Ento vamos arranjar duas
+mesas... O D. Theotonio ha de querer cartas.
+
+E arrastei Jacintho para as senhoras, que de novo se aninhavam sombra
+da tia Vicencia, estabelecida no seu canto do sof. Todas se callavam,
+parecia encolherem-se ante a appario do meu Principe, como pombas
+avistando o abutre. E deixei o temido homem affirmando mulher do Dr.
+Alypio (um pouco desgarrada do bando das aves timidas) que lhe dera
+grande prazer aquella occasio de conhecer as suas visinhas de Tormes...
+Ella abrira nervosamente o leque, sorria, e nunca de certo Jacintho
+admirra na Cidade uma bocca mais vermelha, dentinhos mais rutilantes.
+Mas depois d'organisar a mesa do voltarete, tive de abancar, eu, para
+substituir o Manoel Albergaria, que era dispeptico, se declarra
+affrontado, e desejava respirar um momento na varanda. Todos aquelles
+cavalheiros, de resto, se queixavam de calor. Mandei abrir as janellas
+que davam sobre as mimosas do pateo. O Velloso, ao baralhar, parava,
+bufando, como opprimido:
+
+--Est abafado... Ainda temos trovoada!
+
+E o Dr. Alypio, inquieto, por que tinha uma hora d'estrada at casa, e
+uma das egoas da caleche era escabriada, correu janella, espreitar o
+ceu, que ennegrecera, morno e pesado.
+
+--Com effeito, vae cahir agoa.
+
+As hastes das mimosas ramalhavam, arripiadas: e o ar que agitava as
+cortinas era intermittente, estonteado. De certo na sala, entre as
+senhoras, surgira a mesma inquietao, porque a tia Albergaria
+appareceu, avisando o mano Jorge.
+
+Era prudente pensar em partir, a noite ameaava... E o Dr. Alypio,
+puxando o relogio, propoz que, levantada aquella remissa, se preparasse
+a marcha. Justamente o Albergaria recolhia da varanda desaffrontado,
+alliviado com um calice de genebra: e rotomou as suas cartas,
+annunciando tambem que vinha ahi uma trovoada valente.
+
+Voltando sala, encontrei Jacintho muito alegre entre as senhoras, que
+se familiarisaram, escutando cheias de riso e gosto, a historia da sua
+chegada a Tormes, sem malas, sem creados, to desprovido que dormira com
+a camisa da caseira! Mas a minha pobre noite d'annos findava,
+desorganisada. A tia Albergaria rondava de janella em janella, assustada
+com a volta Roqueirinha, espreitando a treva abafada. Calando
+lentamente as luvas, a bella mulher do Dr. Alypio perguntava se ainda
+havia a remissa. E a tia Vicencia apressra o ch, que o Manoel seguido
+pela Gertrudes, com a bandeja de bolos, j comeava a servir s
+senhoras. Jacintho, de p, offerecendo chavenas, gracejava:
+
+--Ento tanta pressa, tanto medo, por causa d'uma trovoadinha?
+
+Ellas replicavam, familiarizadas, n'uma crescente sympathia pelo meu
+Principe:
+
+--Ora o senhor falla bem, porque fica debaixo de telhas...
+
+--Sempre o queriamos vr... se fosse agora para Tormes, com esta noite
+cerrada!
+
+O voltarete findra nas duas mesas: e aquelles cavalheiros, das
+janellas, gritavam ordens para o pateo negro, onde as carroagens
+esperavam atreladas:
+
+--Desce a cabea da victoria, Diogo!
+
+--Accende o lampeo, Pedro! Sempre ajuda a luz das lanternas.
+
+A creada Quiteria chegava porta com os braos carregados de chales, de
+mantilhas de renda. Como uma das Albergarias ia no assento de deante na
+victoria, eu corri a buscar o meu casaco de borracha, para ella se
+abrigar se a chuva viesse. E s o D. Theotonio, que tinha at casa
+apenas meia legoa de estrada boa, se no apressava, filado outra vez no
+meu Principe, que levava para os cantos mais solitarios, em conversas
+profundas, que o seu dedo solemne, espetado, sublinhava gravemente. Mas
+a tia Albergaria gritou que j chovia;--e ento foi uma pressa das
+senhoras, que beijocavam vivamente a tia Vicencia, em quanto os homens,
+na ante-camara, enfiavam aodadamente os palets.
+
+Jacintho e eu descemos ao pateo para acompanhar aquella debandada,--e
+uma a uma, a traquitana do Dr. Alypio, a victoria das Albergarias, a
+velha e immensa caleche dos Vellosos, rolaram sob a noite, entre os
+nossos desejos de boa jornada. Por fim D. Theotonio calou as luvas
+pretas e entrou para a sua caleche, dizendo a Jacintho:
+
+--Pois, primo e amigo, Deus permitta que, do nosso encontro, e do mais
+que se passar, algum bem resulte a esta terra!
+
+Subindo a escada, o meu Principe desabafou:
+
+--Este Theotonio extraordinario! Sabes o que descobri por fim?... Que
+me toma por um miguelista, e imagina que eu vim para Tormes preparar a
+restaurao de D. Miguel?!
+
+--E tu?
+
+--Eu fiquei to espantado, que nem o desilludi!
+
+--Pois sabe mais, meu pobre amigo. Todos pensam o mesmo, esto
+desconfiados, e receiam vr de novo erguidas as frcas em Guies! E
+corre que tu tens o Principe D. Miguel escondido em Tormes, disfarado
+em creado. E sabes quem elle ? o Baptista!
+
+--Isso sublime! murmurou Jacintho, com uns grandes olhos abertos.
+
+Na sala, a tia Vicencia nos esperava desconsolada, entre todas as luzes,
+que ardiam ainda no silencio e paz do sero debandado:
+
+--Ora uma cousa assim! Nem quererem ficar para tomar um copinho de
+gelea, um calice de vinho do Porto!
+
+--Esteve tudo muito desanimado, tia Vicencia! exclamei desafogando o meu
+tedio. Todo esse mulherio emmudeceu; os amigos com um ar desconfiado...
+
+Jacintho protestou, muito divertido, muito sincero:
+
+No! pelo contrario. Gostei immenso. Excellente gente! E to simples...
+Todas estas raparigas me pareceram optimas. E to frescas, to alegres!
+Vou ter aqui bons amigos, quando verificarem que no sou miguelista.
+
+Ento contamos tia Vicencia a prodigiosa historia de D. Miguel
+escondido em Tormes... Ella ria! Que cousa! E mau seria...
+
+--Mas o Snr. Jacintho, no ?
+
+--Eu, minha senhora, sou socialista...
+
+Acudi, explicando tia Vicencia, que socialista era ser pelos pobres. A
+doce senhora considerava esse partido o melhor, o verdadeiro:
+
+--O meu Affonso, que Deus haja, era liberal... Meu pae, tambem e at
+amigo do Duque da Terceira...
+
+Mas um rude trovo rolou, atroou a noite negra:--e uma batega d'agoa
+cantou nos vidros, e nas pedras da varanda.
+
+--Santa Barbara! gritou a tia Vicencia! Ai aquella pobre gente!... At
+estou com cuidado... As Rojes, que vo na victoria!
+
+E correu para o quarto, na sua pressa de accender as duas velas
+costumadas no oratorio, ainda antes de ir guardar as pratas, e resar o
+tero, com a Gertrudes.
+
+
+
+
+XIV
+
+
+Ao outro dia, depois d'almoo, eu e Jacintho montamos a cavallo para um
+grande passeio at Flr da Malva, a saber de meu tio Adrio, e do seu
+furunculo. E sentia uma curiosidade interessada, e at inquieta, de
+testemunhar a impresso que daria ao meu Principe aquella nossa prima
+Joanninha, que era o orgulho da nossa casa. J n'essa manh, andando
+todos no jardim a escolher uma bella rosa ch para a botoeira do meu
+Principe, a tia Vicencia celebrra com tanto fervor a belleza, a graa,
+a caridade, e a doura da sua sobrinha toda-amada, que eu protestei:
+
+--Oh! tia Vicencia, olhe que esses elogios todos competem apenas
+Virgem Maria! A tia Vicencia est a cahir em peccado de idolatria! O
+Jacintho depois vae encontrar uma creatura apenas humana, e tem um
+desapontamento tremendo!
+
+E agora, trotando pela facil estrada de Sandofim, lembrava-me aquella
+manh, no 202, em que Jacintho encontrra o retrato d'ella no meu
+quarto, e lhe chamra uma _lavradeirna_. Com effeito, era grande e
+forte a Joanninha. Mas a photographia datava do seu tempo de vio
+rustico, quando ella era apenas uma bella forte e s planta da serra.
+Agora entrava nos vinte e cinco, e j pensava, e sentia,--e a alma que
+n'ella se formra, afinra, amacira, e espiritualisava o seu esplendor
+rubicundo.
+
+A manh, com o ceu todo purificado pela trovoada da vespera, e as terras
+reverdecidas e lavadas pelos chuviscos ligeiros, offerecia uma doura
+luminosa, fina, fresca, que tornava doce, como diz o velho Euripedes ou
+o velho Sophocles, mover o corpo, e deixar a alma preguiar, sem pressa
+nem cuidados. A estrada no tinha sombra, mas o sol batia muito de leve,
+e roava-nos com uma caricia quasi alada. O valle parecia a Jacintho,
+que nunca ali passra, uma pintura da Escola Franceza do seculo XVIII,
+to graciosamente n'elle ondulavam as terras verdes, e com tanta paz e
+frescura corria o risonho Serpo, e to affaveis e promettedores de
+fartura e contentamento alvejavam os casaes nas verduras tenras! Os
+nossos cavallos caminhavam n'um passo pensativo, gosando tambem a paz da
+manh adoravel. E no sei, nunca soube, que plantasinhas silvestres e
+escondidas espalhavam um delicado aroma, que eu tantas vezes sentira,
+n'aquelle caminho, ao comear o outomno.
+
+--Que delicioso dia! murmurou Jacintho. Este caminho para a Flr da
+Malva o caminho do ceu... Oh Z Fernandes, de que este cheirinho to
+doce, to bom?
+
+Eu sorri, com certo pensamento:
+
+--No sei... talvez j o cheiro do ceu!
+
+Depois, parando o cavallo, apontei com o chicote para o valle:
+
+--Olha, acol, onde est aquella fila d'olmos, e ha o riacho, j so
+terras do tio Adrio. Tem alli um pomar, que d os pcegos mais
+deliciosos de Portugal... Hei de pedir prima Joanninha que te mande um
+cesto d'elles. E o dce que ella faz com esses pcegos, menino, alguma
+cousa de celeste. Tambem lhe hei de pedir que te mande o dce.
+
+Elle ria:
+
+--Ser explorar de mais a prima Joanninha. E eu (por que?) recordei e
+atirei ao meu Principe estes dous versos d'uma ballada cavalheiresca,
+composta em Coimbra pelo meu pobre amigo Procopio:
+
+--Manda-lhe um servo querido,
+Bem hajas dona formosa!
+E que lhe entregue um annel
+E com um annel uma rosa.
+
+Jacintho rio alegremente:
+
+--Z Fernandes, seria excessivo, s por causa de meia duzia de pcegos,
+e d'um boio de dce.
+
+Assim riamos, quando appareceu, volta da estrada, o longo muro da
+quinta dos Vellosos, e depois a capellinha de S. Jos de Sandofim. E
+immediatamente piquei para o largo, para a taverna do Trto, por causa
+d'aquelle vinhinho branco, que sempre, quando por ali a levo, a minha
+alma me pede. O meu Principe reprovou, indignado:
+
+--Oh! Z Fernandes, pois tu, a esta hora, depois d'almoo, vaes beber
+vinho branco?
+
+-- um costumesinho antigo... Aqui taverninha do Trto... um
+decilitrosinho... A almasinha assim m'o pede.
+
+E paramos; eu gritei pelo Manoel, que appareceu, rebolando a sua grossa
+pansa, sobre as pernas tortas, com a infusa verde, e um copo.
+
+--Dous copos, Trto amigo. Que aqui este cavalheiro tambem aprecia.
+
+Depois d'um pallido protesto, o meu Principe tambem quiz, mirou o
+limpido e dourado vinho ao sol, provou, e esvasiou o copo, com delicia,
+e um estalinho de alto apreo.
+
+--Delicioso vinho!... Hei de querer d'este vinho em Tormes...
+perfeito.
+
+--Hein? Fresquinho, leve, aromatico, alegrador, todo alma!... Encha l
+outra vez os copos, amigo Trto. Este cavalheiro aqui o Snr. D.
+Jacintho, o fidalgo de Tormes.
+
+Ento, de traz da umbreira da taverna, uma grande voz bradou, cavamente,
+solemnemente:
+
+--Bemdito seja o pae dos Pobres!
+
+E um extranho velho, de longos cabellos brancos, barbas brancas, que lhe
+comiam a face cr de tijolo, assomou no vo da porta, apoiado a um
+bordo, com uma caixa de lata a tiracolo, e cravou em Jacintho dous
+olhinhos d'um brilho negro, que faiscavam. Era o tio Joo Torrado, o
+propheta da Serra... Logo lhe estendi a mo, que elle apertou, sem
+despegar de Jacintho os olhos, que se dilatavam mais negros. Mandei vir
+outro copo, apresentei Jacintho, que crra, embaraado.
+
+--Pois aqui o tem, o senhor de Tormes, que fez por ahi todo esse bem
+pobreza.
+
+O velho atirou para elle bruscamente o brao, que sahia cabelludo e
+quasi negro, d'uma manga muito curta.
+
+--A mo!
+
+E quando Jacintho lh'a deu, depois de arrancar vivamente a luva, Joo
+Torrado longamente lh'a reteve com um sacudir lento e pensativo,
+murmurando:
+
+--Mo real, mo de dar, mo que vem de cima, mo j rara!
+
+Depois tomou o copo, que lhe offerecia o Trto, bebeu com immensa
+lentido, limpou as barbas, deu um geito correia que lhe prendia a
+caixa de lata, e batendo com a ponta do cajado no cho:
+
+--Pois louvado seja nosso Senhor Jesus Christo, que por aqui me trouxe,
+que no o meu dia, e vi um homem!
+
+Eu ento debrucei-me para elle, mais em confidencia:
+
+--Mas, tio Joo, oua c! Sempre certo voc dizer por ahi, pelos
+sitios, que El-Rei D. Sebastio voltra?
+
+O pittoresco velho apoiou as duas mos sobre o cajado, o queixo
+d'espalhada barba sobre as mos, e murmurava, sem nos olhar, como
+seguindo a percusso dos seus pensamentos:
+
+--Talvez voltasse, talvez no voltasse... No se sabe quem vae, nem quem
+vem. A gente v os corpos, mas no v as almas que esto dentro. Ha
+corpos d'agora com almas d'outr'ora. Corpo vestido, alma pessoa...
+Na feira da Roqueirinha quem sabe com quantos reis antigos se topa,
+quando se anda aos encontres entre os vaqueiros... Em ruim corpo se
+esconde bom senhor!
+
+E como elle findra n'um murmurio, eu, atirando um olhar a Jacintho, e
+para gosarmos aquelles estranhos, pittorescos modos de vidente, insisti:
+
+--Mas, tio Joo, voc realmente, em sua consciencia, pensa que El-Rei
+D. Sebastio no morreu na batalha?
+
+O velho ergueu para mim a face, que se enrugra n'uma desconfiana:
+
+--Essas cousas so muito antigas. E no calham bem aqui porta do
+Trto. O vinho era bom, e V. S.^a tem pressa, meu menino! A flr da Flr
+da Malva l tem o paesinho doente... Mas o mal j vae pela serra abaixo
+com a inchao s costas. D gosto vr quem d gosto aos tristes. Por
+cima de Tormes ha uma estrella clara. E trotar, trotar, que o dia est
+lindo!
+
+Com a magra mo lanou um gesto para que seguissemos. E j passavamos o
+cruzeiro quando o seu brado ardente, de novo revoou, com solemnidade
+cava:
+
+--Bemdito seja o Pae dos Pobres.
+
+Direito, no meio da estrada, erguia o cajado como dirigindo as
+acclamaes d'um povo. E Jacintho pasmava de que ainda houvesse no reino
+um Sebastianista.
+
+--Todos o somos ainda em Portugal, Jacintho! Na serra ou na cidade cada
+um espera o seu D. Sebastio. At a loteria da Misericordia uma forma
+do Sebastianismo. Eu todas as manhs, mesmo sem ser de nevoeiro,
+espreito, a vr se chega o meu. Ou antes a minha, por que eu espero uma
+D. Sebastiana... E tu, felizardo?
+
+--Eu? Uma D. Sebastiana? Estou muito velho, Z Fernandes... Sou o ultimo
+Jacintho; Jacintho ponto final... Que casa aquella com os dous
+torrees?
+
+--A Flr da Malva.
+
+Jacintho tirou o relogio:
+
+--So tres horas. Gastamos hora e meia... Mas foi um bello passeio, e
+instructivo. lindo este sitio.
+
+Sobre um outeirinho, afastada da estrada por arvoredo, que um muro
+cerrava, e dominando, a Flr da Malva voltava para Oriente e para o Sol
+a sua longa fachada com os dous torrees quadrados, onde as janellas, de
+varanda, eram emolduradas em azulejos. O grande porto de ferro, ladeado
+por dous bancos de pedra, ficava ao fundo do terreirinho, onde um
+immenso castanheiro derramava verdura e sombra. Sentado sobre as fortes
+raizes descarnadas da grande arvore, um pequeno esperava segurando um
+burro pela arreata.
+
+--Est por ahi o Manoel da Porta?
+
+--Ainda agora subio pela alameda.
+
+--Bem: empurra l o porto.
+
+E subimos, por uma curta avenida de velhas arvores, at outro terreiro,
+com um alpendre, uma casa de moos, toda coberta d'heras, e uma casota
+de co, d'onde saltou, com um rumor de corrente arrastada, um molosso, o
+Trito, que eu logo soceguei fazendo-lhe reconhecer o seu velho amigo Z
+Fernandes. E o Manoel da Porta correu da fonte, onde enchia um grande
+balde, para nos segurar os cavallos.
+
+--Como est o tio Adrio?
+
+Surdo, o excellente Manoel sorrio, deleitado:
+
+--E ento vossa excellencia, bem? A Snr.^a D. Joanninha ainda agora
+andava no laranjal com o pequeno da Josepha.
+
+Seguimos por ruasinhas bem areadas, orladas d'alfazema e buxo alto, em
+quanto eu contava ao meu Principe que aquelle pequenito da Josepha era
+um afilhadinho da prima Joanna, e agora o seu encanto e o seu cuidado
+todo.
+
+--Esta minha santa prima, apesar de solteira, tem ahi pela freguezia uma
+verdadeira filharada. E no s dar-lhes roupas e presentes, e ajudar
+as mes. Mas at os lava, e os penteia, e lhes trata as tosses. Nunca a
+encontro sem alguma creancita ao collo... Agora anda na paixo d'este
+Jossinho.
+
+Mas quando chegamos ao laranjal, beira da larga rua da quinta que
+levava ao tanque, debalde procurei, e me embrenhei, e at gritei:--Eh,
+prima Joanninha!...
+
+--Talvez esteja l para baixo, para o tanque...
+
+Descemos a rua, entre arvores, que a cobriam com as densas ramas
+encruzadas. Uma fresca, limpida agoa de rega corria e luzia n'um caneiro
+de pedra. Entre os troncos, as roseiras bravas ainda tinham uma frescura
+de vero. E o pequeno campo, que se avistava para alm, rebrilhava com
+doura, todo amarello e branco, dos malmequeres e botes d'ouro.
+
+O tanque, redondo, fra esvasiado para se lavar, e agora de novo o
+repuxo o ia enchendo d'uma agoa muito clara, ainda baixa, onde os peixes
+vermelhos se agitavam na alegria de recuperarem o seu pequeno oceano.
+Sobre um dos bancos de pedra que circumdavam o tanque pousava um cesto
+cheio de dhalias cortadas. E um moo, que sobre uma escada podava as
+camelias, vira a Snr.^a D. Joanna seguir para o lado da parreira.
+
+Marchamos para a parreira, ainda toda carregada de uva preta. Duas
+mulheres, longe, ensaboavam n'um lavadoiro, na sombra de grandes
+nogueiras. Gritei:--Eh l? Vocs viram por ahi a Snr.^a D. Joanna? Uma
+das moas esganiou a voz, que se perdeu no vasto ar luminoso e doce.
+
+--Bem: vamos a casa! No podemos farejar assim, toda a tarde.
+
+-- uma bella quinta, murmurava o meu Principe encantado.
+
+--Magnifica! E bem tratada... O tio Adrio tem um feitor excellente...
+No o teu Melchior. Observa, aprende, lavrador! Olha aquelle
+cebolinho!
+
+Passamos pela horta, uma horta ajardinada, como a sonhra o meu
+Principe, com os seus talhes debruados d'alfazema, e madresilva
+enroscada nos pilares de pedra, que faziam ruasinhas frescas toldadas de
+parra densa. E dmos volta capella, onde crescia aos dous lados da
+porta uma roseira ch, com uma rosa unica, muito aberta, e uma moita de
+baunilha, onde Jacintho apanhou um raminho para cheirar. Depois entramos
+no terrao em frente da casa, com a sua balaustrada de pedra, toda
+enrodilhada de jasmineiros amarellos. A porta envidraada estava aberta:
+e subimos pela escadaria de pedra, no immenso silencio em que toda a
+Flr da Malva repousava, at ante-camara, d'altos tectos apainelados,
+com longos bancos de pau, onde desmaiavam na sua velha pintura as
+complicadas armas dos Cerqueiras. Empurrei a porta d'uma outra sala, que
+tinha as janellas da varanda abertas, cada uma com a gaiola d'um
+canario.
+
+-- curioso!--exclamou Jacintho. Parece o meu Presepio... E as minhas
+cadeiras.
+
+E com effeito. Sobre uma commoda antiga, com bronzes antigos, pousava um
+presepio semelhante ao da livraria de Jacintho. E as cadeiras de couro
+lavrado tinham, como as que elle descobrira no soto, umas armas sob um
+chapo de Cardeal.
+
+--Oh senhores! exclamei. No haver um creado?
+
+Bati as mos, fortemente. E o mesmo doce silencio permaneceu, muito
+largo, todo luminoso e arejado pelo macio ar da quinta, apenas cortado
+pelo saltitar dos canarios nos poleiros das gaiolas.
+
+-- o Palacio da Bella adormecida no bosque! murmurou Jacintho, quasi
+indignado. D um berro!
+
+--No, caramba! Vou l dentro!
+
+Mas, porta, que de repente se abrio, appareceu minha prima Joanninha,
+crada do passeio e do vivo ar, com um vestido claro um pouco aberto no
+pescoo, que fundia mais docemente, n'uma larga claridade, o explendor
+branco da sua pelle, e o louro ondeado dos seus bellos
+cabellos,--lindamente risonha, na surpreza que alargava os seus largos,
+luminosos olhos negros, e trazendo ao collo uma creancinha, gorda e cr
+de rosa, apenas coberta com uma camisinha, de grandes laos azues.
+
+E foi assim que Jacintho, n'essa tarde de Septembro, na Flr da Malva,
+vio aquella com quem casou em Maio, na capellinha d'azulejos, quando o
+grande p de roseira se cobrira todo de rosas.
+
+
+
+
+XV
+
+
+E agora, entre roseiras que rebentam, e vinhas que se vindimam, j cinco
+annos passaram sobre Tormes e a Serra. O meu Principe j no o ultimo
+Jacintho, Jacintho ponto final--por que n'aquelle solar que decahira,
+correm agora, com soberba vida, uma gorda e vermelha Theresinha, minha
+afilhada, e um Jacinthinho, senhor muito da minha amisade. E, pae de
+familia, principira a fazer-se monotono, pela perfeio da belleza
+moral, aquelle homem to pittoresco pela inquietao philosophica, e
+pelos variados tormentos da phantasia insaciada. Quando elle agora, bom
+sabedor das cousas da lavoura, percorria comigo a quinta, em solidas
+palestras agricolas, prudentes e sem chimeras--eu quasi lamentava esse
+outro Jacintho que colhia uma theoria em cada ramo d'arvore, e riscando
+o ar com a bengala, planeava queijeiras de cristal e porcellana, para
+fabricar queijinhos que custariam duzentos mil ris cada um!
+
+Tambem a paternidade lhe despertra a responsabilidade. Jacintho possuia
+agora um caderno de contas, ainda pequeno, rabiscado a lapis, com
+falhas, e papeluchos soltos entremeados, mas onde as suas despezas, as
+suas rendas se alinhavam, como duas hostes disciplinadas. Visitra j as
+suas propriedades de Montemr, da Beira; e concertava, mobilava as
+velhas casas d'essas propriedades para que os seus filhos, mais tarde,
+crescidos, encontrassem ninhos feitos. Mas onde eu reconheci que
+definitivamente um perfeito e ditoso equilibrio se estabelecera na alma
+do meu Principe, foi quando elle, j sabido d'aquelle primeiro e ardente
+fanatismo da Simplicidade--entreabrio a porta de Tormes Civilisao.
+Dous mezes antes de nascer a Theresinha, uma tarde, entrou pela avenida
+de platanos uma chiante e longa fila de carros, requisitados por toda a
+freguesia, e acuculados de caixotes. Eram os famosos caixotes, por tanto
+tempo encalhados em Alba de Tormes, e que chegavam, para despejar a
+Cidade sobre a Serra. Eu pensei:--Mau! o meu pobre Jacintho teve uma
+recahida! Mas os confortos mais complicados, que continha aquella
+caixotaria temerosa, foram, com surpreza minha, desviados para os sotos
+immensos, para o p da inutilidade: e o velho solar apenas se regalou
+com alguns tapetes sobre os seus soalhos, cortinas pelas janellas
+desabrigadas, e fundas poltronas, fundos sofs, para que os repousos,
+por que elle suspirra, fossem mais lentos e suaves. Attribui esta
+moderao a minha prima Joanninha, que amava Tormes na sua nudez rude.
+Ella jurou que assim o ordenra o seu Jacintho. Mas, decorridas semanas,
+tremi. Apparecera, vindo de Lisboa, um contra-mestre, com operarios, e
+mais caixotes, para installar um telephone!
+
+--Um telephone, em Tormes, Jacintho?
+
+O meu Principe explicou, com humildade:
+
+--Para casa de meu sogro!... Bem vs.
+
+--Era rasoavel e carinhoso. O telephone porm, subtilmente, mudamente,
+estendeu outro longo fio, para Valverde. E Jacintho, alargando os
+braos, quasi supplicante:
+
+--Para casa do medico. Comprehendes...
+
+Era prudente. Mas, certa manh, em Guies, accordei aos berros da tia
+Vicencia! Um homem chegra, mysterioso, com outros homens, trazendo
+arame, para installar na nossa casa o novo invento. Soceguei a tia
+Vicencia, jurando que essa machina nem fazia barulho, nem trazia
+doenas, nem attrahia as trovoadas. Mas corri a Tormes. Jacintho sorrio,
+encolhendo os hombros:
+
+--Que queres? Em Guies est o boticario, est o carniceiro... E,
+depois, ests tu!
+
+Era fraternal. Todavia pensei: Estamos perdidos! Dentro d'um mez temos a
+pobre Joanna a apertar o vestido por meio d'uma machina! Pois no! o
+Progresso, que, intimao de Jacintho, subira a Tormes a estabelecer
+aquella sua maravilha, pensando talvez que conquistra mais um reino
+para desfear, desceu, silenciosamente, desilludido, e no avistamos mais
+sobre a serra a sua hirta sombra cr de ferro e de fuligem. Ento
+comprehendi que, verdadeiramente, na alma de Jacintho se estabelecera o
+equilibrio da vida, e com elle a Gran-Ventura, de que tanto tempo elle
+fra o principe sem Principado. E uma tarde, no pomar, encontrando o
+nosso velho Grillo, agora reconciliado com a serra, desde que a serra
+lhe dera meninos para trazer s cavalleiras, observei ao digno preto,
+que lia o seu _Figaro_, armado de immensos oculos redondos:
+
+--Pois, Grillo, agora realmente bem podemos dizer que o Snr. D. Jacintho
+est firme.
+
+O Grillo arredou os oculos para a testa, e levantando para o ar os cinco
+dedos em curva como petalas d'uma tulipa:
+
+--S. ex.^a brotou!
+
+Profundo sempre o digno preto! Sim! Aquelle resequido galho de Cidade,
+plantado na serra, pegra, chupra o humus do torro herdado, crera
+seiva, afundra raizes, engrossra de tronco, atirra ramos, rebentra
+em flres, forte, sereno, ditoso, benefico, nobre, dando fructos,
+derramando sombra. E abrigados pela grande arvore, e por ella nutridos,
+cem casaes em redor a bemdiziam.
+
+
+
+
+XVI
+
+
+Muitas vezes Jacintho, durante esses annos, fallra com prazer n'um
+regresso de dous, tres mezes, ao 202, para mostrar Paris prima
+Joanninha. E eu seria o companheiro fiel, para archivar os espantos da
+minha serrana ante a Cidade! Depois conveio em esperar que o Jacinthinho
+completasse dous annos, para poder jornadear sem desconforto, e
+apontando j com o seu dedo para as cousas da Civilisao. Mas, quando
+elle, em Outubro, fez esses dous annos desejados, a prima Joanninha
+sentiu uma preguia immensa, quasi aterrada, do comboio, do estridor da
+Cidade, do 202, e dos seus esplendores. Estamos aqui to bem! est um
+tempo to lindo! murmurava, deitando os braos, sempre deslumbrada, ao
+rijo pescoo do seu Jacintho. Elle desistia logo de Paris, encantado.
+Vamos para Abril, quando os castanheiros dos Campos-Elyseos estiverem
+em flr! Mas em Abril vieram aquelles cansaos que immobilisavam a
+prima Joanninha no divan, ditosa, risonha, com umas pintas na pelle, e o
+roupo mais solto. Por todo um longo anno estava desfeita a alegre
+aventura. Eu andava ento soffrendo de desoccupao. As chuvas de Maro
+promettiam uma farta colheita. Uma certa Anna Vaqueira, crada e bem
+feita, viuva, que surtia as necessidades do meu corao, partira com o
+irmo para o Brazil, onde elle dirigia uma venda. Desde o inverno,
+sentia tambem no corpo como um comeo de ferrugem, que o emperrava, e,
+certamente, algures, na minha alma, nascera uma pontinha de bolor.
+Depois a minha egoa morreu... Parti eu para Paris.
+
+Logo em Hendaya, apenas pisei a doce terra de Frana, o meu pensamento,
+como pombo a um velho pombal, voou ao 202,--talvez por eu vr um enorme
+cartaz em que uma mulher nua, com flres bacchanticas nas tranas, se
+estorcia, segurando n'uma das mos uma garrafa espumante, e brandindo na
+outra, para o annunciar ao Mundo, um novo modelo de saca-rolhas. E oh
+surpresa! eis que, logo adeante, na estao quieta e clara de Saint
+Jean-de-Luz, um moo esbelto, de perfeita elegancia, entra vivamente no
+meu compartimento, e, depois de me encarar, grita:
+
+--Eh, Fernandes!
+
+Marizac! O duque de Marizac! Era j o 202... Com que reconhecimento lhe
+sacudi a mo fina, por elle me ter reconhecido! E, atirando para o canto
+do vagon um palet, um masso de jornaes, que o escudeiro lhe passra, o
+bom Marizac exclamava na mesma surpreza alegre:
+
+--E Jacintho?
+
+Contei Tormes, a serra, o seu primeiro amor pela Natureza, o seu outro
+grande amor por minha prima, e os dous filhos, que elle trazia
+escarranchados no pescoo.
+
+--Ah que canalha! exclamou Marizac com os olhos espetados em mim!
+capaz de ser feliz!
+
+--Espantosamente, loucamente... Qual! no ha adverbios...
+
+--Indecentemente--murmurou Marizac muito serio. Que canalha!
+
+Eu ento desejei saber do nosso rancho familiar do 202. Elle encolheu os
+hombros, accendendo a cigarette:
+
+--Todo esse mundo circula...
+
+--Madame d'Oriol?
+
+--Contina.
+
+--Os Trves? o Ephraim?
+
+--Continuam, todos tres.
+
+Lanou um gesto languido.
+
+--Durante cinco annos, em Paris, tudo contina... As mulheres com um
+pouco mais de ps d'arroz, e a pelle um pouco mais molle, e melada. Os
+homens com um tanto mais de dispepsia. E tudo segue. Tivemos os
+Anarchistas. A princeza de Carman abalou com um acrobata do Circo de
+Inverno... E--e voil!
+
+--Dornan?
+
+--Contina... No o encontrei mais desde o 202. Mas vejo s vezes o nome
+d'elle, no _Boulevard_, com versos preciosos, obscenidades muito
+apuradas, muito subtis.
+
+--E o Psychologo?... Ora, como se chamava elle?...
+
+--Contina tambem. Sempre com as feminices a tres francos e cincoenta...
+Duquezas em camisa, almas nas... Cousas que se vendem bem!
+
+Mas quando eu, encantado, ia indagar de Todelle, do Gro-Duque, o
+comboio entrou na estao de Biarritz:--e rapidamente, apanhando o
+paletot e os jornaes, depois de me apertar a mo, o delicioso Marizac
+saltou pela portinhola, que o seu creado abrira, gritando:
+
+--At Paris!... Sempre rue Cambori.
+
+Ento, no compartimento solitario, bocejei, com uma estranha sensao de
+monotonia, de saciedade, como cercado j de gentes muito vistas,
+murmurando historias muito sabidas, e cousas muito ditas, atravez de
+sorrisos estafados. Dos dous lados do comboio era a longa planicie
+monotona, sem variedade, muito miudamente cultivada, muito miudamente
+retalhada, d'um verde de rezeda, verde cinzento e apagado, onde nenhum
+lampejo, nem tom alegre de flr, nem acidente do solo, desmanchavam a
+mediocridade discreta e ordeira. Pallidos choupos, em renques pautados e
+finos, bordavam canaesinhos muito direitos e claros. Os casaes, todos da
+mesma cr pardacenta, mal se elevavam do solo, mal se destacavam da
+verdura desbotada, como encolhidos na sua mediocridade e cautella. E o
+ceu, por cima, liso, sem uma nuvem, com um sol descrado, parecia um
+vasto espelho muito lavado a grande agoa, at que de todo se lhe safasse
+o esmalte e o brilho. Adormeci n'uma doce insipidez.
+
+Com que linda manh de Maio entrei em Paris! To fresca e fina, e j
+macia, que, apesar de cansado, mergulhei com repugnancia no profundo,
+sombrio leito do Grand-Hotel, todo fechado de espessos velludos, grossos
+cordes, pesadas borlas, como um palanque de gala. N'essa profunda cova
+de pennas sonhei que em Tormes se construira uma torre Eiffel e que em
+volta d'ella as senhoras da Serra, as mais respeitaveis, a propria tia
+Albergaria, danavam, nas, agitando no ar saca-rolhas immensos. Com as
+commoes d'este pesadello, e depois o banho, e o desemmalar da mala, j
+se acercavam as duas horas quando emfim emergi do grande porto, pisei,
+ao cabo de cinco annos, o Boulevard. E immediatamente me pareceu que
+todos esses cinco annos eu ali permanecera porta do Grand-Hotel, to
+estafadamente conhecido me era aquelle estridente rolar da cidade, e as
+magras arvores, e as grossas taboletas, e os immensos chapeus emplumados
+sobre tranas pintadas d'amarello, e as empertigadas sobrecasacas com
+grossas rosetas da legio d'honra, e os garotos, em voz rouca e baixa,
+offerecendo baralhos de cartas obscenas, caixas de phosphoros
+obscenas... Santo Deus! pensei, ha que annos eu estou em Paris! Comprei
+ento, n'um kiosque, um jornal, a Voz de Paris, para que elle me
+contasse, durante o almoo, as novas da Cidade. A mesa do kiosque
+desapparecia, alastrada de jornaes illustrados:--e em todos se repetia a
+mesma mulher, sempre na, ou meia despida, ora mostrando as costellas
+magras, de gata faminta, ora voltando para o Leitor duas tremendas
+nadegas... Eu outra vez murmurei:--Santo Deus! No caf da Paz, o creado
+livido, e com um resto de p de arroz sobre a sua lividez, aconselhou ao
+meu appetite, por ser to tarde, um lingoado frito e uma costelleta.
+
+--E que vinho, snr. Conde?
+
+--Chablis, snr. Duque!
+
+Elle sorrio minha deliciosa pilheria,--e eu abri, contente, a Voz de
+Paris. Na primeira columna, atravez d'uma prosa muito retorcida, toda em
+brilhos de joia barata, entrevi uma Princesa na, e um Capito de
+Drages, que soluava. Saltei a outras columnas, onde se contavam feitos
+de cocottes de nomes sonoros. Na outra pagina escriptores eloquentes
+celebravam vinhos digestivos e tonicos. Depois eram os crimes do
+costume.--No ha nada de novo! Puz de parte a Voz de Paris,--e ento
+foi, entre mim e o lingoado, uma lucta pavorosa. O miseravel, que se
+frigira rancorosamente contra mim, no consentia que eu descollasse da
+sua espinha uma febra escassa. Todo elle se ressequira n'uma sola
+impenetravel e tostada, onde a faca vergava, impotente e tremula. Gritei
+pelo mo livido, o qual, com faca mais rija, fincando no soalho os
+sapatos de fivella, arrancou emfim quelle malvado duas tirinhas, finas
+e curtas como palitos, que engoli juntas, e me esfomearam. D'uma garfada
+findei a costelleta. E paguei quinze francos com um bom luiz d'ouro. No
+trco, que o moo me deu, com a polidez requintada d'uma civilisao
+muito diffundida, havia dous francos falsos. E por aquella dce tarde de
+Maio sahi para tomar no terrao um caf cr de chapo cco, que sabia a
+fava.
+
+Com o charuto acceso contemplei o Boulevard, quella hora em toda a
+pressa e estridor da sua grossa sociabilidade. A densa torrente dos
+omnibus, calhambeques, carroas, parelhas de luxo, rolava vivamente,
+como toda uma escura humanidade formigando entre patas e rodas, n'uma
+pressa inquieta. Aquelle movimento continuado e rude bem depressa
+entonteceu este espirito, por cinco annos affeito quietao das serras
+immutaveis. Tentava ento, puerilmente, repousar n'alguma forma immovel,
+omnibus parado, fiacre que estacra, n'um brusco escorregar da pileca:
+mas logo algum dorso apressado se encafuava pela portinhola da tipoia,
+ou um cacho de figuras escuras trepava sofregamente para o omnibus:--e,
+rapido, recomeava o rolar retumbante. Immoveis, de certo, estavam os
+altos predios hirtos, ribas de pedra e cal, que continham,
+disciplinavam, aquella torrente offegante. Mas da rua aos telhados, em
+cada varanda, por toda a fachada, eram taboletas encimando taboletas,
+que outras taboletas apertavam:--e mais me canava o perceber a tenaz
+incessancia do trabalho latente, a devorante canceira do lucro,
+arquejante por traz das frontarias decorosas e mudas. Ento, emquanto
+fumava o meu charuto, extranhamente se apossaram de mim os sentimentos
+que Jacintho outr'ora experimentra no meio da Natureza, e que tanto me
+divertiam. Ali, porta do caf, entre a indifferena e a pressa da
+Cidade, tambem eu senti, como elle no campo, a vaga tristeza da minha
+fragilidade e da minha solido. Bem certamente estava ali como perdido
+n'um mundo, que me no era fraternal. Quem me conhecia? Quem se
+interessaria por Z Fernandes? Se eu sentisse fome, e o confessasse,
+ninguem me daria metade do seu po. Por mais afflictamente que a minha
+face revelasse uma angustia, ninguem na sua pressa pararia para me
+consolar. De que me serviriam tambem as excellencias d'alma, que s na
+alma florescem? Se eu fosse um santo, aquella turba no se importaria
+com a minha santidade; e se eu abrisse os braos e gritasse, ali no
+Boulevard-- homens, meus irmos! os homens, mais ferozes que o lbo
+ante o Pobresinho d'Assis, ririam e passariam indifferentes. Dous
+impulsos unicos, correspondendo a duas funces unicas, parecia estarem
+vivos n'aquella multido,--o lucro e o gso. Isolada entre elles, e ao
+contagio ambiente da sua influencia, em breve a minha alma se
+contrahiria, se tornaria n'um duro calhau de Egoismo. Do ser que eu
+trouxera da Serra s restaria em pouco tempo esse calhau, e n'elle,
+vivos, os dous appetites da Cidade,--encher a bolsa, saciar a carne! E
+pouco a pouco as mesmas exageraes de Jacintho perante a Natureza me
+invadiam perante a Cidade. Aquelle Boulevard reumava para mim um bafo
+mortal, extrahido dos seus milhes de microbios. De cada porta me
+parecia sahir um ardil para me roubar. Em cada face, avistada
+portinhola d'um fiacre, suspeitava um bandido em manobra. Todas as
+mulheres me pareciam caiadas como sepulchros, tendo s podrido por
+dentro. E considerava d'uma melancolia funambulesca as frmas de toda
+aquella Multido, a sua pressa aspera e v, a affectao das attitudes,
+as immensas plumas das chapeletas, as expresses postias e falsas, a
+pompa dos peitos alteados, o dorso redondo dos velhos olhando as imagens
+obscenas das vitrines. Ah! tudo isto era pueril, quasi comico da minha
+parte, mas o que eu sentia no Boulevard, pensando na necessidade de
+remergulhar na Serra, para que ao seu puro ar se me despegasse a crosta
+da Cidade, e eu resurgisse humano, e Z-Fernandico!
+
+Ento, para dissipar aquelle pesadume de solido, paguei o caf e parti,
+lentamente, a visitar o 202. Ao passar na Magdalena, deante da estao
+dos omnibus, pensei:--Que ser feito de Madame Colombe? E, oh miseria!
+pelo meu miseravel ser subiu uma curta e quente baforada de desejo bruto
+por aquella besta suja e magra! Era o charco onde eu me envenenara, e
+que me envolvia nas emanaes subtis do seu veneno. Depois, ao dobrar da
+rue Royale para a Praa da Concordia, topei com um robusto e possante
+homem, que estacou, ergueu o brao, ergueu o vozeiro, n'um modo de
+commando:
+
+--Eh, Fernandes!
+
+O Gro-Duque! O bello Gro-Duque, de jaqueto alvadio e chapeu tyrolez
+cr de mel! Apertei com gratido reverente a mo do Principe, que me
+reconhecera.
+
+--E Jacintho? Em Paris?...
+
+Contei Tormes, a serra, o rejuvenescimento do nosso amigo entre a
+Natureza, a minha dce prima, e os bravos pequenos, que elle trazia s
+cavalleiras. O Gro-Duque encolheu os hombros, desolado:
+
+--Oh l, l, l!... Peuh! Casado, na aldeia, com filharada... Homem
+perdido! Ora no ha!... E um rapaz util! que nos divertia, e tinha
+gosto! Aquelle jantar cr de rosa foi uma festa linda... No se fez, no
+se tornou a fazer nada to brilhante em Paris... E Madame d'Oriol...
+Ainda ha dias a vi no Palacio de Gelo... Potavel, mulher ainda muito
+potavel... No todavia o meu genero... Adocicada, leitosa, pommadada,
+neve la vanille!... Ora esse Jacintho!...
+
+--E Vossa Alteza, em Paris com demora?
+
+O formidavel homem baixou a face, franzida e confidencial:
+
+--Nenhuma. Paris no se aguenta... Est estragado, positivamente
+estragado... Nem se come! Agora o Ernest, da Praa Gaillon, o Ernest,
+que era maitre-d'hotel do Maire... J l comeu? Um horror. Tudo o
+Ernest, agora! Onde se come? No Ernest. Qual! Ainda esta manh l
+almocei... Um horror! Uma salada Chambord... palhada, indecentemente
+palhada! No tem, no tem a noo da salada! Paris foi! Theatros, uma
+estopada. Mulheres, hui! Lambidas todas. No ha nada! Ainda assim, n'um
+dos theatritos de Montmartre, na Roulotte, est uma revista, que se v:
+_Para c as mulheres_!--engraada, bem despida... A Celestine tem uma
+cantiga, meia sentimental, meia porca, o _Amor no Water-Closet_, que
+diverte, tem topete... Onde est, Fernandes?
+
+--No Grand-Hotel, meu senhor.
+
+--Que barraca!... E o seu Rei sempre bom?
+
+Curvei a cabea:
+
+--Sua Magestade, bem.
+
+--Estimo! Pois, Fernandes, tive prazer... Esse Jacintho que me desola!
+V vr a Revista... Boas pernas, a Celestine... E tem graa o tal _Amor
+no Water-Closet_.
+
+Um rijissimo aperto de mo,--e S. Alteza subiu pesadamente para a
+victoria, ainda com um aceno amavel, que me penhorou... Excellente
+homem, este Gro-Duque! Mais reconciliado com Paris, atravessei para os
+Campos-Elyseos. Em toda a sua nobre e formosa larguesa, toda verde, com
+os castanheiros em flr, corriam, subindo, descendo, velocipedes. Parei
+a contemplar aquella fealdade nova, estes innumeraveis espinhaos
+arqueados, e gambias magras, agitando-se desesperadamente sobre duas
+rodas. Velhos gordos, de cachao escarlate, pedalavam, gordamente.
+Galfarros esguios, de tibias descarnadas, fugiam n'uma linha esfusiada.
+E as mulheres, muito pintadas, de bolero curto, cales bufantes,
+giravam, mais rapidamente ainda, no prazer equivoco da carreira,
+escarranchadas em hastes de ferro. E a cada instante outras medonhas
+machinas passavam, victorias e phaetons a vapor, com uma complicao de
+tubos e caldeiras, torneiras e chamins, rolando n'uma trepidao
+estridente e pesada, espalhando um grosso fedor de petroleo. Segui para
+o 202, pensando no que diria um grego do tempo de Phidias, se visse esta
+nova belleza e graa do caminhar humano!...
+
+No 202, o porteiro, o velho Vian, quando me reconheceu, mostrou uma
+alegria enternecedora. No se fartou de saber do casamento de Jacintho,
+e d'aquelles queridos meninos. E era para elle uma felicidade que eu
+apparecesse, justamente quando tudo se andra limpando para a entrada da
+primavera. Quando penetrei na amada casa senti mais vivamente a minha
+solido. No restava em toda ella nem um dos costumados aspectos que
+fizessem reviver a velha camaradagem com o meu Principe. Logo na
+ante-camara grandes lonas cobriam as tapessarias heroicas, e egual lona
+parda escondia os estofos das cadeiras e dos muros, e as largas estantes
+d'ebano da Bibliotheca, onde os trinta mil volumes, nobremente
+enfileirados como Doutores n'um Concilio, pareciam separados do mundo
+por aquelle panno que sobre elles descera depois de finda a comedia da
+sua fora e da sua auctoridade. No gabinete de Jacintho, de sobre a mesa
+d'escripta, desapparecera aquella confuso de instrumentosinhos, de que
+eu perdera j a memria: e s a Mechanica sumptuosa, por sobre peanhas e
+pedestaes, recentemente espanejada, reluzia, com as suas engrenagens,
+tubos, rodas, rigidezes de metaes, n'uma frieza inerte, na inactividade
+definitiva das cousas desusadas, como j dispostas n'um Museu, para
+exemplificar a instrumentao caduca d'um mundo passado. Tentei mover o
+telephone, que se no moveu; a mola da electricidade no accendeu nenhum
+lume: todas as foras universaes tinham abandonado o servio do 202,
+como servos despedidos. E ento, passeando atravez das salas, realmente
+me pareceu que percorria um museu d'antiguidades; e que mais tarde
+outros homens, com uma comprehenso mais pura e exacta da Vida e da
+Felicidade, percorreriam como eu, longas salas, atulhadas com os
+instrumentos da Super-Civilisao, e, como eu, encolheriam
+desdenhosamente os hombros ante a grande Illuso que findra, agora para
+sempre inutil, arrumada como um lixo historico, guardada debaixo de
+lona.
+
+Quando sahi do 202 tomei um fiacre, subi ao Bosque de Bolonha. E apenas
+rolra momentos pela avenida das Acacias, no silencio decoroso,
+unicamente cortado pelo tilintar dos freios e pelas rodas vagarosas
+esmagando a areia, comecei a reconhecer as velhas figuras, sempre com o
+mesmo sorriso, o mesmo p d'arroz; as mesmas palpebras amortecidas, os
+mesmos olhos farejantes, a mesma immobilidade de cra! O romancista da
+_Couraa_ passou n'uma victoria, fixou em mim o monoculo defumado, mas
+permaneceu indifferente. Os bands negros de Madame Verghane,
+tapando-lhe as orelhas, pareciam ainda mais furiosamente negros entre a
+harmonia de todo o branco que a vestia, chapo, plumas, flres, rendas e
+corpete, onde o seu peito immenso se empolava como uma onda. No passeio,
+sob as Acacias, espapado em duas cadeiras, o director do _Boulevard_
+mamava o resto do seu charuto. E n'um grande landeau, Madame de Trves
+continuava o seu sorriso de ha cinco annos, com duas pregasinhas mais
+molles aos cantos dos labios seccos.
+
+Abalei para o Grand-Hotel, bocejando,--como outr'ora Jacintho. E findei
+o meu dia de Paris, no Theatro das Variedades, estonteado com uma
+comedia muito fina, muito acclamada, toda faiscante do mais vivo
+parisianismo, em que todo o enredo se enrodilhava volta d'uma Cama,
+onde alternadamente se espojavam mulheres em camisa, sujeitos gordos em
+ceroulas, um coronel com papas de linhaa nas nadegas, cosinheiras de
+meias de sda bordadas, e ainda mais gente, ruidosa e saltitante, a
+esfusiar de cio e de pilheria. Tomei um ch melancolico no Julien, no
+meio de um aspero e lugubre namoro de prostitutas, fariscando a preza.
+Em duas d'ellas, de pelle oleosa e cobreada, olhos obliquos, cabellos
+duros e negros como clinas, senti o Oriente, a sua provocao felina...
+Interroguei o creado, um medonho ser, d'uma obesidade balofa e livida,
+d'eunuco. O monstro explicou n'uma voz roufenha e surda:
+
+--Mulheres de Madagascar... Foram importadas quando a Frana occupou a
+ilha!
+
+Arrastei ento por Paris dias d'immenso tedio. Ao longo do Boulevard
+revi nas vitrines todo o luxo, que j me enfartra havia cinco annos,
+sem uma graa nova, uma curta frescura de inveno. Nas livrarias, sem
+descobrir um livro, folheava centenas de volumes amarellos, onde, de
+cada pagina que ao acaso abria, se exhalava om cheiro mrno d'alcova e
+de ps d'arroz, entre linhas trabalhadas com effeminado arrebique, como
+rendas de camisas. Ao jantar, em qualquer restaurante, encontrava,
+ornando e disfarando as carnes ou as aves, o mesmo mlho, de cres e
+sabores de pomada, que j de manh, n'outro restaurante, espelhado e
+dourejado, me enjora no peixe e nos legumes. Paguei por grossos preos
+garrafas do nosso adstringente e rustico vinho de Torres, ennobrecido
+com o titulo de Chteau isto, Chteau aquillo, e p postio no gargalo.
+ noite, nos theatros, encontrava a Cama, a costumada cama, como centro
+e unico fim da vida, attrahindo, mais fortemente que o monturo attrahe
+os moscardos, todo um enxame de gentes, estonteadas, frementes
+d'erotismo, zumbindo chacotas senis. Esta sordidez da Planicie me levou
+a procurar melhor aragem d'espirito nas alturas da Collina, em
+Montmartre; e ahi, no meio d'uma multido elegante de Senhoras, de
+Duquezas, de Generaes, de todo o alto pessoal da Cidade, eu recebia, do
+alto do palco, grossos jorros de obscenidades, que faziam estremecer de
+goso as orelhas cabelludas de gordos banqueiros, e arfar com delicia os
+corpetes de Worms e de Doucet, sobre os peitos postios das nobres
+damas. E recolhia enjoado com tanto relento d'Alcova, vagamente
+dispeptico com os mlhos de pomada do jantar, e sobre tudo descontente
+comigo, por me no divertir, no comprehender a Cidade, e errar atravez
+d'ella e da sua Civilisao Superior, com a reserva ridicula d'um
+Censor, d'um Cato austero. Oh senhores!--pensava,--pois eu no me
+divertirei nesta deliciosa Cidade? Entrar comigo o bolor da velhice?
+
+Passei as pontes, que separam em Paris o Temporal do Espiritual,
+mergulhei no meu doce Bairro Latino, evoquei, deante de certos cafs, a
+memoria da minha Nini; e, como outr'ora, preguiosamente, subi as
+escadas da Sorbonne. N'um amphitheatro, onde sentira um grosso susurro,
+um homem magro, com uma testa muito branca e larga, como talhada para
+alojar pensamentos altos e puros, ensinava, falando das instituies da
+Cidade Antiga. Mas, mal eu entrra, o seu dizer elegante e limpido foi
+suffocado por gritos, urros, patadas, um tumulto rancoroso de troa
+bestial, que sahia da mocidade apinhada nos bancos, a mocidade das
+Escolas, Primavera sagrada, em que eu fra flr murcha. O Professor
+parou, espalhando em redor um olhar frio, e remexendo as suas notas.
+Quando o grosso grunhido se moderou em susurro desconfiado, elle
+recomeou com alta serenidade. Todas as suas ideias eram frias e
+substanciaes, expressas n'uma lingoa pura e forte; mas, immediatamente,
+rompe uma furiosa rajada de apitos, uivos, relinchos, cacarejos de
+gallo, por entre magras mos, que se estendiam levantadas para
+estrangular as ideias. Ao meu lado um velho, encolhido na alta gola d'um
+macfrelane de xadrezes, contemplava o tumulto com melancolia, pingando
+endefluxado. Perguntei ao velho:
+
+--Que querem elles? embirrao com o professor... politica?
+
+O velho abanou a cabea, espirrando:
+
+--No... sempre assim, agora, em todos os cursos... No querem
+ideias... Creio que queriam canonetas. o amor da porcaria e da troa.
+
+Ento, indignado, berrei:
+
+--Silencio, brutos!
+
+E eis que um abortosinho de rapaz, amarellado e sebento, de longas
+melenas, umas enormes lunetas rebrilhantes, se arrebita, me fita, e me
+berra:
+
+--_Sale Maure_!
+
+Ergui o meu grosso punho serrano,--e o desgraado, n'uma confuso de
+melenas, com sangue por toda a face, alluio, como um monto de trapos
+molles, ganindo desesperadamente, em quanto o furaco de uivos e
+cacarejos, guinchos e silvos, envolvia o Professor, que cruzra os
+braos, esperando, com uma serenidade simples.
+
+Desde esse momento decidi abandonar a fastidiosa Cidade; e o unico dia
+alegre e divertido que n'ella passei foi o derradeiro, comprando para os
+meus queridinhos de Tormes brinquedos consideraveis, tremendamente
+complicados pela Civilisao,--vapores de ao e cobre, providos de
+caldeiras para viajar em tanques; lees de pelle veridica rugindo
+pavorosamente, bonecas vestidas pela Laferrire, com phonographo no
+ventre...
+
+Finalmente abalei uma tarde, depois de lanar da minha janella, sobre o
+Boulevard, as minhas despedidas Cidade:
+
+--Pois adeusinho, at nunca mais! Na lama do teu vicio e na poeira da
+tua vaidade, outra vez, no me pilhas! O que tens de bom, que o teu
+genio, elegante e claro, l o receberei na Serra pelo correio.
+Adeusinho!
+
+Na tarde do seguinte Domingo, debruado da janella do comboio, que
+vagarosamente deslisava pela borda do rio lento, n'um silencio todo
+feito d'azul e sol, avistei, na plata-forma da quieta estao da minha
+aldeia, os Senhores de Tormes, com a minha afilhada Thereza, muito
+vermelha, arregalando os seus soberbos olhos, e o bravo Jacinthinho, que
+empunhava uma bandeira branca. O alvoroo ditoso com que abracei e
+beijei aquella tribu bem amada conviria perfeitamente a quem voltasse
+vivo d'uma guerra distante, na Tartaria. Na alegria de recuperar a
+Serra, at beijoquei o chefe Pimentinha, que a estalar d'obesidade se
+aodava gritando ao carregador todo o cuidado com as minhas malas.
+
+Jacintho, magnifico, de grande chapo serrano e jaqueta, de novo me
+abraou:
+
+--E esse Paris?
+
+--Medonho!
+
+Abri depois os braos para o bravo Jacintinho.
+
+--Ento para que essa bandeira, meu cavalleiro?
+
+-- a bandeira do Castello! declarou elle, com uma bella seriedade nos
+seus grandes olhos.
+
+A me ria. Desde essa manh, logo que soubera da chegada do Ti-Z,
+appareceu de bandeira, feita pelo Grillo, e no a largra mais; com ella
+almora, com ella descera de Tormes!
+
+--Bravo! E, prima Joanninha, olhe que est magnifica! Eu, tambem, venho
+d'aquellas pelles meladas de Paris... Mas acho-a triumphal! E o tio
+Adrio, e a tia Vicencia?
+
+--Tudo optimo! gritou Jacintho. A serra, Deos louvado, prospera. E
+agora, para cima! Tu hoje ficas em Tormes. Para contar da Civilisao.
+
+No largo por traz da estao, debaixo dos eucalyptos, que revi com
+gosto, esperavam os tres cavallos, e dous bellos burros brancos, um com
+cadeirinha para a Thereza, outro com um cesto de verga, para metter
+dentro o heroico Jacinthinho, um e outro servidos estribeira por um
+creado. Eu ajudra a prima Joanninha a montar, quando o carregador
+appareceu com um masso de jornaes e papeis, que eu esquecera na
+carruagem. Era uma papelada, de que me surtira na Estao d'Orleans,
+toda recheada de mulheres nuas, de historietas sujas, de parisianismo,
+d'erotismo. Jacintho, que as reconhecera, gritou rindo:
+
+--Deita isso fra!
+
+E eu atirei, para um monto de lixo, ao canto do Pateo, aquelle putrido
+rebotalho da Civilisao. E montei. Mas ao dobrar para o caminho
+empinado da serra, ainda me voltei, para gritar adeus ao Pimenta, de
+quem me esquecera. O digno chefe, debruado sobre o monturo, apanhava,
+sacudia, recolhia com amor aquellas bellas estampas, que chegavam de
+Paris, contavam as delicias de Paris, derramavam atravez do mundo a
+seduco de Paris.
+
+Em fila comeamos a subir para a Serra. A tarde adoava o seu esplendor
+d'estio. Uma aragem trazia, como offertados, perfumes das flres
+silvestres. As ramagens moviam, com um aceno de doce acolhimento, as
+suas folhas vivas e relusentes. Toda a passarinhada cantava, n'um
+alvoroo de alegria e de louvor. As agoas correntes, saltantes,
+lusidias, despediam um brilho mais vivo, n'uma pressa mais animada.
+Vidraas distantes de casas amaveis, flammejavam com um fulgor d'ouro. A
+serra toda se offertava, na sua belleza eterna e verdadeira. E, sempre
+adiante da nossa fila, por entre a verdura, fluctuava no ar a bandeira
+branca, que o Jacinthinho no largava, de dentro do seu cesto, com a
+haste bem segura na mo. Era _a bandeira do Castello_, affirmra elle.
+
+E na verdade me parecia que, por aquelles caminhos, atravez da natureza
+campestre e mansa,--o meu Principe, atrigueirado nas soalheiras e nos
+ventos da serra, a minha prima Joanninha, to doce e risonha me, os
+dois primeiros representantes da sua abenoada tribu, e eu--, to longe
+de amarguradas illuses e de falsas delicias, trilhando um solo eterno,
+e de eterna solidez, com a alma contente, e Deus contente de ns,
+serenamente e seguramente subiamos--para o Castello da Gran-Ventura!
+
+
+Fim
+
+
+
+
+ADVERTENCIA
+
+
+Desde a pagina 241, at o final, as provas d'este livro no foram
+revistas pelo auctor, arrebatado pela morte antes de haver dado a esta
+parte da sua escripta aquella ultima demo, em que habitualmente elle
+punha a diligencia mais perseverante e mais admiravelmente lucida.
+
+Aquelle dos seus amigos e companheiro de letras, a quem foi confiado o
+trabalho delicado e piedoso de tocar no manuscripto posthumo de Ea de
+Queiroz, ao concluir o desempenho de tal misso, beija com o mais
+enternecido e saudoso respeito a mo, para todo sempre immobilisada, que
+traou estas paginas encantadoras; e faz votos por que a reviso de que
+se incumbiu no deslustre muito grosseiramente a immortal aureola com
+que ficar resplandecendo na litteratura portugueza este livro, em que o
+espirito do grande escriptor parece exhalar-se da vida n'um terno
+suspiro de doura, de paz, e de puro amor terra da sua patria.
+
+24 de abril de 1901.
+
+
+
+
+*LIVRARIA CHARDRON de Lello & Irmo*
+
+96--CLERIGOS--98
+
+
+*Bazillio Telles*
+
+O problema agricola $600
+Estudos historicos e economicos $600
+
+_No prlo_:
+
+Introduco ao problema do trabalho nacional.
+
+
+*Abel Botelho*
+
+O baro de Lavos $800
+O livro d'Alda $800
+Sem remedio... $500
+
+_No prlo_:
+
+Amanh.
+
+
+*Jos Caldas*
+
+Humildes $400
+Os Jesuitas; a sua influencia na actual
+ sociedade portugueza; meio de a conjurar _no prlo_
+
+
+*Sylvio Romero*
+
+Martins Penna $400
+
+
+*Rebello da Silva*
+
+Mocidade de D. Joo V. 1$500
+
+
+*Andrade Corvo*
+
+Um anno na crte 1$500
+
+
+*Antonio C. Louzada*
+
+Rua escura $500
+Na consciencia $500
+
+
+*Dumas*
+
+Jorge ou o capito dos piratas $500
+Tres mosqueteiros, 2 volumes 1$000
+
+
+*Lermina*
+
+Filho do Monte Christo, 2 volumes 1$000
+
+
+*Eugenio Sue*
+
+Mysterios de Paris, 3 volumes cart. 2$000
+
+
+*Zola*
+
+Nan $500
+Historia da lavadeira Gervasia, 2 vols 1$000
+O Capito Burle $500
+Ventre de Paris, 2 vols 1$000
+
+
+*Arnaldo Gama*
+
+Caldeira de Pero Botelho $500
+Honra ou loucura $500
+Filho do Baldaia $600
+
+
+*Bruno*
+
+O Brazil mental $800
+Notas do exilio $500
+
+ * * * * *
+
+Historia da Prostituio 1$800
+
+
+*Camillo Castello Branco*
+
+Maria da Fonte $500
+Livro de consolao $500
+D. Luiz de Portugal $300
+Brazileira de Prazins $500
+Eusebio Macario $500
+Volcoens da lama $500
+Carta de guia de casados $300
+
+
+*Grainha*
+
+Jesuitas $600
+
+
+*Tolstoi*
+
+A Sonata de Kreutzer $400
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of A Cidade e as Serras, by Ea Queirs
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A CIDADE E AS SERRAS ***
+
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+Produced by Rita Farinha and the Online Distributed
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+Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).)
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+(and you!) can copy and distribute it in the United States without
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+Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you
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+such as creation of derivative works, reports, performances and
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+works. See paragraph 1.E below.
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+The Project Gutenberg EBook of A Cidade e as Serras, by Ea de Queirs
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: A Cidade e as Serras
+
+Author: Ea de Queirs
+
+Release Date: April 21, 2006 [EBook #18220]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A CIDADE E AS SERRAS ***
+
+
+
+
+Produced by Rita Farinha and the Online Distributed
+Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This file was
+produced from images generously made available by National
+Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).)
+
+
+
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+
+
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+
+
+EA DE QUEIROZ
+
+A CIDADE E AS SERRAS
+
+
+PORTO
+
+LIVRARIA CHARDRON
+
+De Lello & Irmo, editores
+
+1901
+
+Todos os direitos reservados
+
+
+
+
+EA DE QUEIROZ
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+A CIDADE E AS SERRAS
+
+
+PORTO
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+LIVRARIA CHARDRON
+
+De Lello & Irmo, editores
+
+1901
+
+Todos os direitos reservados
+
+
+
+
+Pertence no Brazil o direito de propriedade d'esta obra ao cidado
+Francisco Alves, livreiro editor no Rio de Janeiro, que, para a garantia
+que lhe offerece a lei n.^o 496 de 1 d'Agosto de 1898, fez o competente
+deposito na Bibliotheca nacional, segundo a determinao do art. 13.^o
+da mesma Lei.
+
+
+_Porto--Imprensa Moderna_
+
+
+
+
+[Figura de Ea de Queirs]
+
+
+
+
+A CIDADE E AS SERRAS
+
+
+
+
+Obras do mesmo auctor:
+
+
+*Revista de Portugal.* 4 grossos volumes 12$000
+
+*As minas de Salomo.* 1 volume $600
+
+*Os Maias.* 2 grossos volumes 2$000
+
+*O crime do padre Amaro.* Terceira edio inteiramente refundida,
+recomposta, e differente na frma e na aco da edio primitiva. 1 grosso
+volume 1$200
+
+*O primo Bazilio.* Quarta edio. 1 grosso volume 1$000
+
+*A Reliquia.* 1 grosso volume 1$000
+
+*O Mandarim.* Quarta edio. 1 volume $500
+
+*Correspondencia de Fradique Mendes.* 1 volume $600
+
+*A illustre casa de Ramires.* 1 volume 1$000
+
+
+
+
+A CIDADE E AS SERRAS
+
+
+
+
+I
+
+
+O meu amigo Jacintho nasceu n'um palacio, com cento e nove contos de
+renda em terras de semeadura, de vinhedo, de cortia e d'olival.
+
+No Alemtejo, pela Extremadura, atravez das duas Beiras, densas sebes
+ondulando por collina e valle, muros altos de boa pedra, ribeiras,
+estradas, delimitavam os campos d'esta velha familia agricola que j
+entulhava gro e plantava cepa em tempos d'el-rei D. Diniz. A sua quinta
+e casa senhorial de Tormes, no Baixo Douro, cobriam uma serra. Entre o
+Tua e o Tinhela, por cinco fartas legoas, todo o torro lhe pagava fro.
+E cerrados pinheiraes seus negrejavam desde Arga at ao mar d'Ancora.
+Mas o palacio onde Jacintho nascra, e onde sempre habitra, era em
+Paris, nos Campos Elyseos, n.^o 202.
+
+Seu av, aquelle gordissimo e riquissimo Jacintho a quem chamavam em
+Lisboa o _D. Galio_, descendo uma tarde pela travessa da Trabuqueta,
+rente d'um muro de quintal que uma parreira toldava, escorregou n'uma
+casca de laranja e desabou no lagedo. Da portinha da horta sahia n'esse
+momento um homem moreno, escanhoado, de grosso casaco de baeto verde e
+botas altas de picador, que, galhofando e com uma fora facil, levantou
+o enorme Jacintho--at lhe apanhou a bengala de casto d'ouro que rolra
+para o lixo. Depois, demorando n'elle os olhos pestanudos e pretos:
+
+--Oh Jacintho Galio, que andas tu aqui, a estas horas, a rebolar pelas
+pedras?
+
+E Jacintho, aturdido e deslumbrado, reconheceu o snr. Infante D. Miguel!
+
+Desde essa tarde amou aquelle bom Infante como nunca amra, apesar de
+to guloso, o seu ventre, e apesar de to devoto o seu Deus! Na sala
+nobre da sua casa ( Pampulha) pendurou sobre os damascos o retrato do
+seu Salvador, enfeitado de palmitos como um retabulo, e por baixo a
+bengala que as magnanimas mos reaes tinham erguido do lixo. Emquanto o
+adoravel, desejado Infante penou no desterro de Vienna, o barrigudo
+senhor corria, sacudido na sua sege amarella, do botequim do Z-Maria em
+Belem botica do Placido nos Algibebes, a gemer as saudades do
+_anginho_, a tramar o regresso do _anginho_. No dia, entre todos
+bemdito, em que a _Perola_ appareceu barra com o Messias, engrinaldou
+a Pampulha, ergueu no Caneiro um monumento de papelo e lona onde D.
+Miguel, tornado S. Miguel, branco, d'aureola e azas de Archanjo, furava
+de cima do seu corcel d'Alter o Drago do Liberalismo, que se estorcia
+vomitando a Carta. Durante a guerra com o outro, com o pedreiro livre
+mandava recoveiros a Santo Thyrso, a S. Gens, levar ao Rei fiambres,
+caixas de dce, garrafas do seu vinho de Tarrafal, e bolsas de retroz
+atochadas de peas que elle ensaboava para lhes avivar o ouro. E quando
+soube que o snr. D. Miguel, com dois velhos bahus amarrados sobre um
+macho, tomra o caminho de Sines e do final desterro--Jacintho _Galio_
+correu pela casa, fechou todas as janellas como n'um luto, berrando
+furiosamente:
+
+--Tambem c no fico! tambem c no fico!
+
+No, no queria ficar na terra perversa d'onde partia, esbulhado e
+escorraado, aquelle Rei de Portugal que levantava na rua os Jacinthos!
+Embarcou para Frana com a mulher, a snr.^a D. Angelina Fafes (da to
+fallada casa dos Fafes da Avellan); com o filho, o 'Cinthinho, menino
+amarellinho, mollesinho, coberto de caros e leicenos; com a aia e com
+o moleque. Nas costas da Cantabria o paquete encontrou to rijos mares
+que a snr.^a D. Angelina, esguedelhada, de joelhos na enxerga do
+beliche, prometteu ao Senhor dos Passos d'Alcantara uma cora
+d'espinhos, de ouro, com as gottas de sangue em rubis do Pegu. Em
+Bayonna, onde arribaram, 'Cinthinho teve ithericia. Na estrada
+d'Orleans, n'uma noite agreste, o eixo da berlinda em que jornadeavam
+partiu, e o nedio senhor, a delicada senhora da casa da Avellan, o
+menino, marcharam tres horas na chuva e na lama do exilio at uma
+aldeia, onde, depois de baterem como mendigos a portas mudas, dormiram
+nos bancos d'uma taberna. No Hotel dos Santos Padres, em Paris,
+soffreram os terrores d'um fogo que rebentra na cavalharia, sob o
+quarto de _D. Galio_, e o digno fidalgo, rebolando pelas escadas em
+camisa, at ao pateo, enterrou o p n numa lasca de vidro. Ento ergueu
+amargamente ao co o punho cabelludo, e rugiu:
+
+--Irra! de mais!
+
+Logo n'essa semana, sem escolher, Jacintho _Galio_ comprou a um
+Principe polaco, que depois da tomada de Varsovia se mettera frade
+cartuxo, aquelle palacete dos Campos Elyseos, n.^o 202. E sob o pesado
+ouro dos seus estuques, entre as suas ramalhudas sedas se enconchou,
+descanando de tantas agitaes, n'uma vida de pachorra e de boa mesa,
+com alguns companheiros d'emigrao (o desembargador Nuno Velho, o conde
+de Rabacena, outros menores), at que morreu de indigesto, d'uma
+lampreia d'escabeche que lhe mandra o seu procurador em Monte-mr. Os
+amigos pensavam que a snr.^a D. Angelina Fafes voltaria ao reino. Mas a
+boa senhora temia a jornada, os mares, as caleas que racham. E no se
+queria separar do seu Confessor, nem do seu Medico, que to bem lhe
+comprehendiam os escrupulos e a asthma.
+
+--Eu, por mim, aqui fico no 202 (declarra ella), ainda que me faz falta
+a boa agua d'Alcolena... O 'Cinthinho, esse, em crescendo, que decida.
+
+O 'Cinthinho crescra. Era um moo mais esguio e livido que um cirio, de
+longos cabellos corredios, narigudo, silencioso, encafuado em roupas
+pretas, muito largas e bambas; de noite, sem dormir, por causa da tosse
+e de suffocaes, errava em camisa com uma lamparina atravez do 202; e
+os creados na copa sempre lhe chamavam a _Sombra_. N'essa sua mudez e
+indeciso de sombra surdira, ao fim do luto do pap, o gosto muito vivo
+de tornear madeiras ao torno: depois, mais tarde, com a melada flr dos
+seus vinte annos, brotou n'elle outro sentimento, de desejo e de pasmo,
+pela filha do desembargador Velho, uma menina redondinha como uma rla,
+educada n'um convento de Paris, e to habilidosa que esmaltava, dourava,
+concertava relogios e fabricava chapos de feltro. No outomno de 1851,
+quando j se desfolhavam os castanheiros dos Campos Elyseos, o
+'Cinthinho cuspilhou sangue. O medico, acarinhando o queixo e com uma
+ruga seria na testa immensa, aconselhou que o menino abalasse para o
+golfo Juan ou para as tepidas areias d'Arcachon.
+
+'Cinthinho porm, no seu afrro de sombra, no se quiz arredar da
+Therezinha Velho, de quem se tornra, atravez de Paris, a muda, tardnha
+sombra. Como uma sombra, casou; deu mais algumas voltas ao torno; cuspiu
+um resto de sangue; e passou, como uma sombra.
+
+Tres mezes e tres dias depois do seu enterro o meu Jacintho nasceu.
+
+ * * * * *
+
+Desde o bero, onde a av espalhava funcho e ambar para afugentar a
+_Sorte-Ruim_, Jacintho medrou com a segurana, a rijeza, a seiva rica
+d'um pinheiro das dunas.
+
+No teve sarampo e no teve lombrigas. As Letras, a Taboada, o Latim
+entraram por elle to facilmente como o sol por uma vidraa. Entre os
+camaradas, nos pateos dos collegios, erguendo a sua espada de lata e
+lanando um brado de commando, foi logo o vencedor, o Rei que se adula,
+e a quem se cede a fructa das merendas. Na edade em que se l Balzac e
+Musset nunca atravessou os tormentos da sensibilidade;--nem crepusculos
+quentes o retiveram na solido d'uma janella, padecendo d'um desejo sem
+frma e sem nome. Todos os seus amigos (eramos tres, contando o seu
+velho escudeiro preto, o Grillo) lhe conservaram sempre amizades puras e
+certas--sem que jmais a participao do seu luxo as avivasse ou fossem
+desanimadas pelas evidencias do seu egoismo. Sem corao bastante forte
+para conceber um amor forte, e contente com esta incapacidade que o
+libertava, do amor s experimentou o mel--esse mel que o amor reserva
+aos que o recolhem, maneira das abelhas, com ligeireza, mobilidade e
+cantando. Rijo, rico, indifferente ao Estado e ao Governo dos Homens,
+nunca lhe conhecemos outra ambio alm de comprehender bem as Ideias
+Geraes; e a sua intelligencia, nos annos alegres de esclas e
+controversias, crculava dentro das Philosophias mais densas como enguia
+lustrosa na agua limpa d'um tanque. O seu valor, genuino, de fino
+quilate, nunca foi desconhecido, nem desapreciado; e toda a opinio, ou
+mera facecia que lanasse, logo encontrava uma aragem de sympathia e
+concordancia que a erguia, a mantinha emballada e rebrilhando nas
+alturas. Era servido pelas cousas com docilidade e carinho;--e no
+recordo que jamais lhe estalasse um boto da camisa, ou que um papel
+maliciosamente se escondesse dos seus olhos, ou que ante a sua
+vivacidade e pressa uma gaveta perfida emperrasse. Quando um dia, rindo
+com descrido riso da Fortuna e da sua Roda, comprou a um sachristo
+hespanhol um Decimo de Loteria, logo a Fortuna, ligeira e ridente sobre
+a sua Roda, correu n'um fulgor, para lhe trazer quatro centas mil
+pesetas. E no ceu as Nuvens, pejadas e lentas, se avistavam Jacintho sem
+guarda chuva, retinham com reverencia as suas aguas at que elle
+passasse... Ah! o ambar e o funcho da snr.^a D. Angelina tinham
+escorraado do seu destino, bem triumphalmente e para sempre, a
+_Sorte-Ruim_! A amoravel av (que eu conheci obesa, com barba) costumava
+citar um soneto natalicio do desembargador Nunes Velho contendo um verso
+de boa lio:
+
+ Sabei, senhora, que esta Vida um rio...
+
+Pois um rio de vero, manso, translucido, harmoniosamente estendido
+sobre uma areia macia e alva, por entre arvoredos fragrantes e ditosas
+aldeias, no offereceria quelle que o descesse n'um barco de cedro, bem
+toldado e bem almofadado, com fructas e Champagne a refrescar em gelo,
+um Anjo governando ao leme, outros Anjos puxando sirga, mais segurana
+e doura do que a Vida offerecia ao meu amigo Jacintho.
+
+Por isso ns lhe chamavamos o Principe da Gran-Ventura!
+
+ * * * * *
+
+Jacintho e eu, Jos Fernandes, ambos nos encontramos e acamaradamos em
+Paris, nas Esclas do Bairro Latino--para onde me mandra meu bom tio
+Affonso Fernandes Lorena de Noronha e Sande, quando aquelles malvados me
+riscaram da Universidade por eu ter esborrachado, n'uma tarde de
+procisso, na Sophia, a cara sordida do dr. Paes Pitta.
+
+Ora n'esse tempo Jacintho concebra uma Ideia... Este Principe concebra
+a Ideia de que o homem s superiormente feliz quando superiormente
+civilisado. E por homem civilisado o meu camarada entendia aquelle que,
+robustecendo a sua fora pensante com todas as noes adquiridas desde
+Aristoteles, e multiplicando a potencia corporal dos seus orgos com
+todos os mechanismos inventados desde Theramenes, creador da roda, se
+torna um magnifico Ado, quas omnipotente, quas omnisciente, e apto
+portanto a recolher dentro d'uma sociedade e nos limites do Progresso
+(tal como elle se comportava em 1875) todos os gozos e todos os
+proveitos que resultam de Saber e de Poder... Pelo menos assim Jacintho
+formulava copiosamente a sua Ideia, quando conversavamos de fins e
+destinos humanos, sorvendo bocks poeirentos, sob o toldo das cervejarias
+philosophicas, no Boulevard Saint-Michel.
+
+Este conceito de Jacintho impressionra os nossos camaradas de cenaculo,
+que tendo surgido para a vida intellectual, de 1866 a 1875, entre a
+batalha de Sadowa e a batalha de Sedan, e ouvindo constantemente, desde
+ento, aos technicos e aos philosophos, que fra a Espingarda-de-agulha
+que vencra em Sadowa e fra o Mestre-de-escla quem vencra em Sedan,
+estavam largamente preparados a acreditar que a felicidade dos
+individuos, como a das naes, se realisa pelo illimitado
+desenvolvimento da Mechanica e da Erudio. Um d'esses moos mesmo, o
+nosso inventivo Jorge Carlande, reduzra a theoria de Jacintho, para lhe
+facilitar a circulao e lhe condensar o brilho, a uma frma algebrica:
+
+Summa sciencia}
+ X }= Summa felicidade
+Summa potencia}
+
+E durante dias, do Odeon Sorbonna, foi louvada pela mocidade positiva
+a _Equao Metaphysica de Jacintho_.
+
+Para Jacintho, porm, o seu conceito no era meramente metaphysico e
+lanado pelo gozo elegante de exercer a razo especulativa:--mas
+constituia uma regra, toda de realidade e de utilidade, determinando a
+conducta, modalisando a vida. E j a esse tempo, em concordancia com o
+seu preceito--elle se surtira da _Pequena Encyclopedia dos Conhecimentos
+Universaes_ em setenta e cinco volumes e installra, sobre os telhados
+do 202, n'um mirante envidraado, um telescopio. Justamente com esse
+telescopio me tornou elle palpavel a sua ideia, n'uma noite de agosto,
+de molle e dormente calor. Nos cos remotos lampejavam relampagos
+languidos. Pela Avenida dos Campos Elyseos, os fiacres rolavam para as
+frescuras do Bosque, lentos, abertos, canados, transbordando de
+vestidos claros.
+
+--Aqui tens tu, Z Fernandes, (comeou Jacintho, encostado janella do
+mirante) a theoria que me governa, bem comprovada. Com estes olhos que
+recebemos da Madre natureza, lestos e sos, ns podemos apenas
+distinguir alm, atravez da Avenida, n'aquella loja, uma vidraa
+alumiada. Mais nada! Se eu porm aos meus olhos juntar os dois vidros
+simples d'um binoculo de corridas, percebo, por traz da vidraa,
+presuntos, queijos, boies de gela e caixas de ameixa scca. Concluo
+portanto que uma mercearia. Obtive uma noo; tenho sobre ti, que com
+os olhos desarmados vs s o luzir da vidraa, uma vantagem positiva. Se
+agora, em vez d'estes vidros simples, eu usasse os do meu telescopio, de
+composio mais scientifica, poderia avistar alm, no planeta Marte, os
+mares, as neves, os canaes, o recorte dos golphos, toda a geographia
+d'um astro que circula a milhares de leguas dos Campos Elyseos. outra
+noo, e tremenda! Tens aqui pois o olho primitivo, o da Natureza,
+elevado pela Civilisao sua maxima potencia de viso. E desde j,
+pelo lado do olho portanto, eu, civilisado, sou mais feliz que o
+incivilisado, porque descubro realidades do Universo que elle no
+suspeita e de que est privado. Applica esta prova a todos os orgos e
+comprehendes o meu principio. Emquanto intelligencia, e felicidade
+que d'ella se tira pela incanavel accumulao das noes, s te peco
+que compares Renan e o Grillo... Claro portanto que nos devemos cercar
+de Civilisao nas maximas propores para gosar nas maximas propores
+a vantagem de viver. Agora concordas, Z Fernandes?
+
+No me parecia irrecusavelmente certo que Renan fosse mais feliz que o
+Grillo; nem eu percebia que vantagem espiritual ou temporal se clha em
+distinguir atravez do espao manchas n'um astro, ou atravez da Avenida
+dos Campos Elyseos presuntos n'uma vidraa. Mas concordei, porque sou
+bom, e nunca desalojarei um espirito do conceito onde elle encontra
+segurana, disciplina e motivo de energia. Desabotoei o collete, e
+lanando um gesto para o lado dos cafs e das luzes:
+
+--Vamos ento beber, nas maximas propores, _brandy and soda_, com
+gelo!
+
+Por uma concluso bem natural, a ideia de Civilisao, para Jacintho,
+no se separava da imagem de Cidade, d'uma enorme Cidade, com todos os
+seus vastos orgos funccionando poderosamente. Nem este meu
+super-civilisado amigo comprehendia que longe de Armazens servidos por
+tres mil caixeiros; e de Mercados onde se despejam os vergeis e lezirias
+de trinta provincias; e de Bancos em que retine o ouro universal; e de
+Fabricas fumegando com ancia, inventando com ancia; e de Bibliothecas
+abarrotadas, a estalar, com a papelada dos seculos; e de fundas milhas
+de ruas, cortadas, por baixo e por cima, de fios de telegraphos, de fios
+de telephones, de canos de gazes, de canos de fezes; e da fila atroante
+dos omnibus, tramways, carroas, velocipedes, calhambeques, parelhas de
+luxo; e de dois milhes d'uma vaga humanidade, fervilhando, a offegar,
+atravez da Policia, na busca dura do po ou sob a illuso do gozo--o
+homem do seculo XIX podesse saborear, plenamente, a delicia de viver!
+
+Quando Jacintho, no seu quarto do 202, com as varandas abertas sobre os
+lilazes, me desenrolava estas imagens, todo elle crescia, illuminado.
+Que creao augusta, a da Cidade! S por ella, Z-Fernandes, s por
+ella, pde o homem soberbamente affirmar a sua alma!...
+
+--Oh Jacintho, e a religio? Pois a religio no prova a alma?
+
+Elle encolhia os hombros. A religio! A religio o desenvolvimento
+sumptuoso de um instincto rudimentar, commum a todos os brutos, o
+terror. Um co lambendo a mo do dono, de quem lhe vem o osso ou o
+chicote, j constitue toscamente um devoto, o consciente devoto,
+prostrado em rezas ante o Deus que distribue o co ou o inferno!... Mas
+o telephone! o phonographo!
+
+--Ahi tens tu, o phonographo!... S o phonographo, Z Fernandes, me faz
+verdadeiramente sentir a minha superioridade de sr pensante e me separa
+do bicho. Acredita, no ha seno a Cidade, Z Fernandes, no ha seno a
+Cidade!
+
+E depois (accrescentava) s a Cidade lhe dava a sensao, to necessaria
+ vida como o calor, da solidariedade humana. E no 202, quando
+considerava em redor, nas densas massas do casario de Paris, dois
+milhes de sres arquejando na obra da Civilisao (para manter na
+natureza o dominio dos Jacinthos!) sentia um socego, um conchego, s
+comparaveis ao do peregrino, que, ao atravessar o deserto, se ergue no
+seu dromedario, e avista a longa fila da caravana marchando, cheia de
+lumes e de armas...
+
+Eu murmurava, impressionado:
+
+--Caramba!
+
+Ao contrario no campo, entre a inconsciencia e a impassibilidade da
+Natureza, elle tremia com o terror da sua fragilidade e da sua solido.
+Estava ahi como perdido n'um mundo que lhe no fosse fraternal; nenhum
+silvado encolheria os espinhos para que elle passasse; se gemesse com
+fome nenhuma arvore, por mais carregada, lhe estenderia o seu fructo na
+ponta compassiva d'um ramo. Depois, em meio da Natureza, elle assistia
+subita e humilhante inutilisao de todas as suas faculdades superiores.
+De que servia, entre plantas e bichos--ser um Genio ou ser um Santo? As
+searas no comprehendem as _Georgicas_; e fra necessario o socorro
+ancioso de Deus, e a inverso de todas as leis naturaes, e um violento
+milagre para que o lobo de Agubio no devorasse S. Francisco d'Assis,
+que lhe sorria e lhe estendia os braos e lhe chamava meu irmo lobo!
+Toda a intellectualidade, nos campos, se esterilisa, e s resta a
+bestialidade. N'esses reinos crassos do Vegetal e do Animal duas unicas
+funces se mantm vivas, a nutritiva e a procreadora. Isolada, sem
+occupao, entre focinhos e raizes que no cessam de sugar e de pastar,
+suffocando no calido bafo da universal fecundao, a sua pobre alma toda
+se engelhava, se reduzia a uma migalha d'alma, uma fagulhasinha
+espiritual a tremeluzir, como morta, sobre um naco de materia; e n'essa
+materia dois instinctos surdiam, imperiosos e pungentes, o de devorar e
+o de gerar. Ao cabo de uma semana rural, de todo o seu sr to
+nobremente composto s restava um estomago e por baixo um phallus! A
+alma? Sumida sob a besta. E necessitava correr, reentrar na Cidade,
+mergulhar nas ondas lustraes da Civilisao, para largar n'ellas a
+crosta vegetativa, e resurgir re-humanisado, de novo espiritual e
+Jacinthico!
+
+E estas requintadas metaphoras do meu amigo exprimiam sentimentos
+reaes--que eu testemunhei, que muito me divertiram, no unico passeio que
+fizemos ao campo, bem amavel e bem sociavel floresta de Montmorency.
+Oh delicias d'entremez, Jacintho entre a Natureza! Logo que se afastava
+dos pavimentos de madeira, do macadam, qualquer cho que os seus ps
+calcassem o enchia de desconfiana e terror. Toda a relva, por mais
+crestada, lhe parecia reumar uma humidade mortal. De sob cada torro,
+da sombra de cada pedra, receava o assalto de lacraus, de viboras, de
+frmas rastejantes e viscosas. No silencio do bosque sentia um lugubre
+despovoamento do Universo. No tolerava a familiaridade dos galhos que
+lhe roassem a manga ou a face. Saltar uma sebe era para elle um acto
+degradante que o retrogradava ao macaco inicial. Todas as flres que no
+tivesse j encontrado em jardins, domesticadas por longos seculos de
+servido ornamental, o inquietavam como venenosas. E considerava d'uma
+melancolia funambulesca certos modos e frmas do Sr inanimado, a pressa
+esperta e v dos regatinhos, a careca dos rochedos, todas as contorses
+do arvoredo e o seu resmungar solemne e tonto.
+
+Depois d'uma hora, n'aquelle honesto bosque de Montmorency, o meu pobre
+amigo abafava, apavorado, experimentando j esse lento mingoar e sumir
+d'alma que o tornava como um bicho entre bichos. S desannuviou quando
+penetramos no lagdo e no gaz de Paris--e a nossa vittoria quasi se
+despedaou contra um omnibus retumbante, atulhado de cidados. Mandou
+descer pelos Boulevards, para dissipar, na sua grossa sociabilidade,
+aquella materialisao em que sentia a cabea pesada e vaga como a d'um
+boi. E reclamou que eu o acompanhasse ao theatro das Variedades para
+sacudir, com os estribilhos da _Femme Papa_, o rumor importuno que lhe
+ficra dos melros cantando nos choupos altos.
+
+Este delicioso Jacintho fizera ento vinte e tres annos, e era um
+soberbo moo em quem reapparecra a fora dos velhos Jacinthos ruraes.
+S pelo nariz, afilado, com narinas quasi transparentes, d'uma
+mobilidade inquieta, como se andasse fariscando perfumes, pertencia s
+delicadezas do seculo XIX. O cabello ainda se conservava, ao modo das
+ras rudes, crespo e quasi lanigero: e o bigode, como o d'um Celta,
+cahia em fios sedosos, que elle necessitava aparar e frizar. Todo o seu
+fato, as espessas gravatas de setim escuro que uma perola prendia, as
+luvas de anta branca, o verniz das botas, vinham de Londres em caixotes
+de cedro; e usava sempre ao peito uma flr, no natural, mas composta
+destramente pela sua ramalheteira com petalas de flres dessemelhantes,
+cravo, azalea, orchidea ou tulipa, fundidas na mesma haste entre uma
+leve folhagem de funcho.
+
+ * * * * *
+
+Em 1880, em Fevereiro, n'uma cinzenta e arripiada manh de chuva, recebi
+uma carta de meu bom tio Affonso Fernandes, em que, depois de
+lamentaes sobre os seus setenta annos, os seus males hemorroidaes, e a
+pesada gerencia dos seus bens que pedia homem mais novo, com pernas
+mais rijas--me ordenava que recolhesse nossa casa de Guies, no
+Douro! Encostado ao marmore partido do fogo, onde na vspera a minha
+Nini deixra um espartilho embrulhado no _Jornal dos Debates_, censurei
+severamente meu tio que assim cortava em boto, antes de desabrochar, a
+flr do meu Saber Juridico. Depois n'um Post-Scriptum elle
+accrescentava--O tempo aqui est lindo, o que se pde chamar de rosas,
+e tua santa tia muito se recommenda, que anda l pela cozinha, porque
+vai hoje em trinta e seis annos que casmos, temos c o abbade e o
+Quintaes a jantar, e ella quiz fazer uma sopa dourada.
+
+Deitando uma acha ao lume, pensei como devia estar boa a sopa dourada da
+tia Vicencia. Ha quantos annos no a provava, nem o leito assado, nem o
+arroz de frno da nossa casa! Com o tempo assim to lindo, j as mimosas
+do nosso pateo vergariam sob os seus grandes cachos amarellos. Um pedao
+de co azul, do azul de Guies, que outro no ha to lustroso e macio,
+entrou pelo quarto, alumiou, sobre a poida tristeza do tapete, relvas,
+ribeirinhos, malmequeres e flres de trevo de que meus olhos andavam
+agoados. E, por entre as bambinellas de sarja, passou um ar fino e forte
+e cheiroso de serra e de pinheiral.
+
+Assobiando um _fado_ meigo tirei debaixo da cama a minha velha mala, e
+metti solicitamente entre calas e piugas um Tratado de Direito Civil,
+para aprender emfim, nos vagares da aldeia, estendido sob a faia, as
+leis que regem os homens. Depois, n'essa tarde, annunciei a Jacintho que
+partia para Guies. O meu camarada recuou com um surdo gemido de espanto
+e piedade:
+
+--Para Guies!... Oh Z Fernandes, que horror!
+
+E toda essa semana me lembrou solicitamente confortos de que eu me
+deveria prover para que pudesse conservar, nos ermos silvestres, to
+longe da Cidade, uma pouca d'alma dentro d'um pouco de corpo. Leva uma
+poltrona! Leva a _Encyclopedia Geral_! Leva caixas de aspargos!...
+
+Mas para o meu Jacintho, desde que assim me arrancavam da Cidade, eu era
+arbusto desarraigado que no reviver. A magoa com que me acompanhou ao
+comboio conviria excellentemente ao meu funeral. E quando fechou sobre
+mim a portinhola, gravemente, supremamente, como se cerra uma grade de
+sepultura, eu quasi solucei--com saudades minhas.
+
+Cheguei a Guies. Ainda restavam flres nas mimosas do nosso pateo; comi
+com delicias a sopa dourada da tia Vicencia; de tamancos nos ps assisti
+ ceifa dos milhos. E assim de colheitas a lavras, crestando ao sol das
+eiras, caando a perdiz nos matos geados, rachando a melancia fresca na
+poeira dos arraiaes, arranchando a magustos, serandando candeia,
+atiando fogueiras de S. Joo, enfeitando presepios de Natal, por alli
+me passaram docemente sete annos, to atarefados que nunca logrei abrir
+o Tratado de Direito Civil, e to singelos que apenas me recordo quando,
+em vsperas de S. Nicolau, o abbade cahiu da egua porta do Braz das
+Crtes. De Jacintho s recebia raramente algumas linhas, escrevinhadas
+pressa por entre o tumulto da Civilisao. Depois, n'um Setembro muito
+quente, ao lidar da vindima, meu bom tio Affonso Fernandes morreu, to
+quietamente, Deus seja louvado por esta graa, como se cala um
+passarinho ao fim do seu bem cantado e bem voado dia. Acabei pela aldeia
+a roupa do luto. A minha afilhada Joanninha casou na matana do porco.
+Andaram obras no nosso telhado. Voltei a Paris.
+
+
+
+
+II
+
+
+Era de novo Fevereiro, e um fim de tarde arripiado e cinzento, quando eu
+desci os Campos Elyseos em demanda do 202. Adiante de mim caminhava,
+levemente curvado, um homem que, desde as botas rebrilhantes at s abas
+recurvas do chapo d'onde fugiam anneis d'um cabello crespo, reumava
+elegancia e a familiaridade das coisas finas. Nas mos, cruzadas atraz
+das costas, caladas d'anta branca, sustentava uma bengala grossa com
+casto de crystal. E s quando elle parou ao porto do 202 reconheci o
+nariz afilado, os fios do bigode corredios e sedosos.
+
+--Oh Jacintho!
+
+--Oh Z Fernandes!
+
+O abrao que nos enlaou foi to alvoroado que o meu chapo rolou na
+lama. E ambos murmuravamos, commovidos, entrando a grade:
+
+--Ha sete annos!...
+
+--Ha sete annos!...
+
+E, todavia, nada mudra durante esses sete annos no jardim do 202! Ainda
+entre as duas aleas bem areadas se arredondava uma relva, mais lisa e
+varrida que a l d'um tapete. No meio o vaso corinthico esperava Abril
+para resplandecer com tulipas e depois Junho para transbordar de
+margaridas. E ao lado das escadas limiares, que uma vidraaria toldava,
+as duas magras Deusas de pedra, do tempo de D. Galio, sustentavam as
+antigas lampadas de globos foscos, onde j silvava o gaz.
+
+Mas dentro, no peristillo, logo me surprehendeu um elevador installado
+por Jacintho--apesar do 202 ter smente dois andares, e ligados por uma
+escadaria to doce que nunca offendra a asthma da snr.^a D. Angelina!
+Espaoso, tapetado, elle offerecia, para aquella jornada de sete
+segundos, confortos numerosos, um divan, uma pelle d'urso, um roteiro
+das ruas de Paris, prateleiras gradeadas com charutos e livros. Na
+antecamara, onde desembarcamos, encontrei a temperatura macia e tepida
+d'uma tarde de Maio, em Guies. Um creado, mais attento ao thermometro
+que um piloto agulha, regulava destramente a bocca dourada do
+calorifero. E perfumadores entre palmeiras, como n'um terrasso santo de
+Benares, esparziam um vapor, aromatisando e salutarmente humedecendo
+aquelle ar delicado e superfino.
+
+Eu murmurei, nas profundidades do meu assombrado sr:
+
+--Eis a civilisao!
+
+Jacintho empurrou uma porta, penetramos n'uma nave cheia de magestade e
+sombra, onde reconheci a Bibliotheca por tropear n'uma pilha monstruosa
+de livros novos. O meu amigo roou de leve o dedo na parede: e uma cora
+de lumes electricos, refulgindo entre os lavores do tecto, alumiou as
+estantes monumentaes, todas d'ebano. N'ellas repousavam mais de trinta
+mil volumes, encadernados em branco, em escarlate, em negro, com
+retoques d'ouro, hirtos na sua pompa e na sua auctoridade como doutores
+n'um concilio.
+
+No contive a minha admirao:
+
+--Oh Jacintho! Que deposito!
+
+Elle murmurou, n'um sorriso descorado:
+
+--Ha que lr, ha que lr...
+
+Reparei ento que o meu amigo emmagrecera: e que o nariz se lhe afilra
+mais entre duas rugas muito fundas, como as d'um comediante canado. Os
+anneis do seu cabello lanigero rareavam sobre a testa, que perdera a
+antiga serenidade de marmore bem polido. No frisava agora o bigode
+murcho, cahido em fios pensativos. Tambem notei que corcovava.
+
+Elle ergura uma tapearia--entramos no seu gabinete de trabalho, que me
+inquietou. Sobre a espessura dos tapetes sombrios os nossos passos
+perderam logo o som, e como a realidade. O damasco das paredes, os
+divans, as madeiras, eram verdes, d'um verde profundo de folha de louro.
+Sdas verdes envolviam as luzes electricas, dispersas em lampadas to
+baixas que lembravam estrellas cahidas por cima das mesas, acabando de
+arrefecer e morrer: s uma rebrilhava, na e clara, no alto d'uma
+estante quadrada, esguia, solitaria como uma torre n'uma planicie, e de
+que o lume parecia ser o pharol melancolico. Um biombo de laca verde,
+fresco verde de relva, resguardava a chamin de marmore verde, verde de
+mar sombrio, onde esmoreciam as brazas d'uma lenha aromatica. E entre
+aquelles verdes reluzia, por sobre peanhas e pedestaes, toda uma
+Mechanica sumptuosa, apparelhos, laminas, rodas, tubos, engrenagens,
+hastes, friezas, rigidezas de metaes...
+
+Mas Jacintho batia nas almofadas do divan, onde se enterrra com um modo
+canado que eu no lhe conhecia:
+
+--Para aqui, Z Fernandes, para aqui! necessario reatarmos estas
+nossas vidas, to apartadas ha sete annos!... Em Guies, sete annos! Que
+fizeste tu?
+
+--E tu, que tens feito, Jacintho?
+
+O meu amigo encolheu mollemente os hombros. Vivra--cumprira com
+serenidade todas as funces, as que pertencem materia e as que
+pertencem ao espirito...
+
+--E accumulaste civilisao, Jacintho! Santo Deus... Est tremendo, o
+202!
+
+Elle espalhou em torno um olhar onde j no faiscava a antiga
+vivacidade:
+
+--Sim, ha confortos... Mas falta muito! A humanidade ainda est mal
+apetrechada, Z Fernandes... E a vida conserva resistencias.
+
+Subitamente, a um canto, repicou a campainha do telephone. E emquanto o
+meu amigo, curvado sobre a placa, murmurava impaciente _Est l?--Est
+l?_, examinei curiosamente, sobre a sua immensa mesa de trabalho, uma
+estranha e miuda legio de instrumentosinhos de nickel, d'ao, de cobre,
+de ferro, com gumes, com argolas, com tenazes, com ganchos, com dentes,
+expressivos todos, de utilidades misteriosas. Tomei um que tentei
+manejar--e logo uma ponta malevola me picou um dedo. N'esse instante
+rompeu d'outro canto um tic-tic-tic aodado, quasi ancioso. Jacintho
+acudiu, com a face no telephone:
+
+--V ahi o telegrapho!... Ao p do divan. Uma tira de papel que deve
+estar a correr.
+
+E, com effeito, d'uma redma de vidro posta n'uma columna, e contendo um
+apparelho esperto e diligente, escorria para o tapete, como uma tenia, a
+longa tira de papel com caracteres impressos, que eu, homem das serras,
+apanhei, maravilhado. A linha, traada em azul, annunciava ao meu amigo
+Jacintho que a fragata russa _Azoff_ entrra em Marselha com avaria!
+
+J elle abandonra o telephone. Desejei saber, inquieto, se o
+prejudicava directamente aquella avaria da _Azoff_.
+
+--Da _Azoff_?... A avaria? A mim?... No! uma noticia.
+
+Depois, consultando um relogio monumental que, ao fundo da Bibliotheca,
+marcava a hora de todas as Capitaes e o curso de todos os Planetas:
+
+--Eu preciso escrever uma carta, seis linhas... Tu esperas, no, Z
+Fernandes? Tens ahi os jornaes de Paris, da noite; e os de Londres,
+d'esta manh. As Illustraes alm, n'aquella pasta de couro com
+ferragens.
+
+Mas eu preferi inventariar o gabinete, que dava minha profanidade
+serrana todos os gostos d'uma iniciao. Aos lados da cadeira de
+Jacintho pendiam gordos tubos acusticos, por onde elle decerto soprava
+as suas ordens atravs do 202. Dos ps da mesa cordes tumidos e molles,
+colleando sobre o tapete, corriam para os recantos de sombra maneira
+de cobras assustadas. Sobre uma banquinha, e reflectida no seu verniz
+como na agua d'um poo, pousava uma Machina-de-escrever: e adiante era
+uma immensa Machina-de-calcular, com fileiras de buracos d'onde
+espreitavam, esperando, numeros rigidos e de ferro. Depois parei em
+frente da estante que me preoccupava, assim solitaria, maneira d'uma
+torre n'uma planicie, com o seu alto pharol. Toda uma das suas faces
+estava repleta de Diccionarios; a outra de Manuaes; a outra de Atlas; a
+ultima de Guias, e entre elles, abrindo um folio, encontrei o Guia das
+ruas de Samarkande. Que macissa torre de informao! Sobre prateleiras
+admirei apparelhos que no comprehendia:--um composto de laminas de
+gelatina, onde desmaiavam, meio-chupadas, as linhas d'uma carta, talvez
+amorosa; outro, que erguia sobre um pobre livro brochado, como para o
+decepar, um cutello funesto; outro avanando a bocca d'uma tuba, toda
+aberta para as vozes do invisivel. Cingidos aos umbraes, liados s
+cimalhas, luziam arames, que fugiam atravs do tecto, para o espao.
+Todos mergulhavam em foras universaes, todos transmittiam foras
+universaes. A Natureza convergia disciplinada ao servio do meu amigo e
+entrra na sua domesticidade!...
+
+Jacintho atirou uma exclamao impaciente:
+
+--Oh, estas pennas electricas!... Que secca!
+
+Amarrotra com colera a carta comeada--eu escapei, respirando, para a
+Bibliotheca. Que magestoso armazem dos productos do Raciocinio e da
+Imaginao! Alli jaziam mais de trinta mil volumes, e todos decerto
+essenciaes a uma cultura humana. Logo entrada notei, em ouro n'uma
+lombada verde, o nome de Adam Smith. Era pois a regio dos Economistas.
+Avancei--e percorri, espantado, oito metros de Economia Politica. Depois
+avistei os Philosophos e os seus commentadores, que revestiam toda uma
+parede, desde as esclas Pre-socraticas at s esclas Neo-pessimistas.
+N'aquellas pranchas se acastellavam mais de dois mil systemas--e que
+todos se contradiziam. Pelas encadernaes logo se deduziam as
+doutrinas: Hobbes, em baixo, era pesado, de couro negro; Plato, em
+cima, resplandecia, n'uma pellica pura e alva. Para diante comeavam as
+Historias Universaes. Mas ahi uma immensa pilha de livros brochados,
+cheirando a tinta nova e a documentos novos, subia contra a estante,
+como fresca terra d'alluvio tapando uma riba secular. Contornei essa
+collina, mergulhei na seco das Sciencias Naturaes, peregrinando, n'um
+assombro crescente, da Orographia para a Paleontologia, e da Morphologia
+para a Crystallographia. Essa estante rematava junto d'uma janella
+rasgada sobre os Campos Elyseos. Apartei as cortinas de velludo--e por
+traz descobri outra portentosa rima de volumes, todos de Historia
+Religiosa, de Exegese Religiosa, que trepavam montanhosamente at aos
+ultimos vidros, vedando, nas manhs mais candidas, o ar e a luz do
+Senhor.
+
+Mas depois rebrilhava, era marroquins claros, a estante amavel dos
+Poetas. Como um repouso para o espirito esfalfado de todo aquelle saber
+positivo, Jacintho aconchegra ahi um recanto, com um divan e uma mesa
+de limoeiro, mais lustrosa que um fino esmalte, coberta de charutos, de
+cigarros d'Oriente, de tabaqueiras do seculo XVIII. Sobre um cofre de
+madeira lisa pousava ainda, esquecido, um prato de damascos seccos do
+Japo. Cedi seduco das almofadas; trinquei um damasco, abri um
+volume; e senti estranhamente, ao lado, um zumbido, como de um insecto
+de azas harmoniosas. Sorri ida que fossem abelhas, compondo o seu mel
+n'aquelle massio de versos em flr. Depois percebi que o susurro remoto
+e dormente vinha do cofre de mogne, de parecer to discreto. Arredei uma
+_Gazeta de Frana_; e descornitei um cordo que emergia de um orificio,
+escavado no cofre, e rematava n'um funil de marfim. Com curiosidade,
+encostei o funil a esta minha confiada orelha, afeita singeleza dos
+rumores da serra. E logo uma Voz, muito mansa, mas muito dicidida,
+aproveitando a minha curiosidade para me invadir e se apoderar do meu
+entendimento, susurrou capciosamente:
+
+--...E assim, pela disposio dos cubos diabolicos, eu chego a
+verificar os espaos hypermagicos!...
+
+Pulei, com um berro.
+
+--Oh Jacintho, aqui ha um homem! Est aqui um homem a fallar dentro
+d'uma caixa!
+
+O meu camarada, habituado aos prodigios, no se alvoroou:
+
+-- o Conferenophone... Exactamente como o Theatrophone; smente
+applicado s esclas e s conferencias. Muito commodo!... Que diz o
+homem, Z Fernandes?
+
+Eu considerava o cofre, ainda esgazeado:
+
+--Eu sei! Cubos diabolicos, espaos magicos, toda a sorte de horrores...
+
+Senti dentro o sorriso superior de Jacintho:
+
+--Ah, o coronel Dorchas... Lies de Metaphysica Positiva sobre a
+Quarta Dimenso... Conjecturas, uma massada! Ouve l, tu hoje jantas
+commigo e com uns amigos, Z Fernandes?
+
+--No, Jacintho... Estou ainda enfardelado pelo alfaiate da serra!
+
+E voltei ao gabinete mostrar ao meu camarada o jaqueto de flanella
+grossa, a gravata de pintinhas escarlates, com que ao domingo, em
+Guies, visitava o Senhor. Mas Jacintho affirmou que esta simplicidade
+montesina interessaria os seus convidados, que eram dois artistas...
+Quem? O auctor do _Corao Triplo_, um Psychologo Feminista, d'agudeza
+transcendente, Mestre muito experimentado e muito consultado em
+Sciencias Sentimentaes; e Vorcan, um pintor mythico, que interpretra
+ethereamente, havia um anno, a symbolia rapsodica do cerco de Troia,
+n'uma vasta composio, _Helena Devastadora_...
+
+Eu coava a barba:
+
+--No, Jacintho, no... Eu venho de Guies, das serras; preciso entrar
+em toda esta civilisaco, lentamente, com cautella, seno rebento. Logo
+na mesma tarde a electricidade, e o conferenophone, e os espaos
+hypermagicos e o feminista, e o ethereo, e a symbolia devastadora,
+excessivo! Volto manh.
+
+Jacintho dobrava vagarosamente a sua carta, onde mettera sem rebuo
+(como convinha nossa fraternidade) duas violetas brancas tiradas do
+ramo que lhe floria o peito.
+
+--manh, Z Fernandes, tu vens antes d'almoo, com as tuas malas dentro
+d'um fiacre, para te installares no 202, no teu quarto. No Hotel so
+embaraos, privaes. Aqui tens o telephone, o teatrophone, livros...
+
+Acceitei logo, com simplicidade. E Jacintho, embocando um tubo acustico,
+murmurou:
+
+--Grillo!
+
+Da parede, recoberta de damasco, que subitamente e sem rumor se fendeu,
+surdio o seu velho escudeiro (aquelle moleque que viera com _D.
+Gallio_), que eu me alegrei de encontrar to rijo, mais negro,
+reluzente e veneravel na sua tesa gravata, no seu collete branco de
+botes de ouro. Elle tambem estimou vr de novo o si Fernandes. E,
+quando soube que eu occuparia o quarto do av Jacintho, teve um claro
+sorriso de preto, em que envolveu o seu senhor, no contentamento de o
+sentir emfim reprovido d'uma familia.
+
+--Grillo, dizia Jacintho, esta carta a Madame de Oriol... Escuta!
+Telephona para casa dos Trves que os espiritistas s esto livres no
+domingo... Escuta! Eu tomo uma douche antes de jantar, tepida, a 17.
+Frico com malva-rosa.
+
+E cahindo pesadamente para cima do divan, com um bocejo arrastado e
+vago:
+
+--Pois verdade, meu Z Fernandes, aqui estamos, como ha sete annos,
+n'este velho Paris...
+
+Mas eu no me arredava da mesa, no desejo de completar a minha
+iniciao:
+
+--Oh Jacintho, para que servem todos estes instrumentosinhos? Houve j
+ahi um desavergonhado que me picou. Parecem perversos... So uteis?
+
+Jacintho esboou, com languidez, um gesto que os
+sublimava.--Providenciaes, meu filho, absolutamente providenciaes, pela
+simplificao que do ao trabalho! Assim... E apontou. Este arrancava as
+pennas velhas; o outro numerava rapidamente as paginas d'um manuscripto;
+aquell'outro, alm, raspava emendas... E ainda os havia para collar
+estampilhas, imprimir datas, derreter lacres, cintar documentos...
+
+--Mas com effeito, accrescentou, uma scca. Com as molas, com os
+bicos, s vezes magoam, ferem... J me succedeu inutilisar cartas por as
+ter sujado com dedadas de sangue. uma massada!
+
+Ento, como o meu amigo espreitra novamente o relogio monumental, no
+lhe quiz retardar a consolao da douche e da malva-rosa.
+
+--Bem, Jacintho, j te revi, j me contentei... Agora at manh, com as
+malas.
+
+--Que diabo, Z Fernandes, espera um momento... Vamos pela sala de
+jantar. Talvez te tentes!
+
+E, atravs da Bibliotheca, penetramos na sala de jantar,--que me
+encantou pelo seu luxo sereno e fresco. Uma madeira branca, laccada,
+mais lustrosa e macia que setim, revestia as paredes, encaixilhando
+medalhes de damasco cr de morango, de morango muito maduro e esmagado:
+os aparadores, discretamente lavrados em flores e rocalhas,
+resplandeciam com a mesma lacca nevada: e damascos amorangados estofavam
+tambem as cadeiras, brancas, muito amplas, feitas para a lentido de
+gulas delicadas, de gulas intellectuaes.
+
+--Viva o meu Principe! Sim senhor... Eis aqui um comedoiro muito
+comprehensivel e muito repousante, Jacintho!
+
+--Ento janta, homem!
+
+Mas j eu me comeava a inquietar, reparando que a cada talher
+correspondiam seis garfos, e todos de feitios astuciosos. E mais me
+impressionei quando Jacintho me desvendou que um era para as ostras,
+outro para o peixe, outro para as carnes, outro para os legumes, outro
+para as fructas, outro para o queijo! Simultaneamente, com uma
+sobriedade que louvaria Salomo, s dois copos, para dois vinhos:--um
+Bordeus rosado em infusas de crystal, e Champagne gelando dentro de
+baldes de prata. Todo um aparador porm vergava, sob o luxo redundante,
+quasi assustador d'aguas--aguas oxigenadas, aguas carbonatadas, aguas
+phosphatadas, aguas esterilisadas, aguas de saes, outras ainda, em
+garrafas bojudas, com tratados therapeuticos impressos em rotulos.
+
+--Santissimo nome de Deus, Jacintho! Ento s ainda o mesmo tremendo
+bebedor d'agua, hein?... _Un aquatico_! como dizia o nosso poeta
+chileno, que andava a traduzir Klopstock.
+
+Elle derramou, por sobre toda aquella garrafaria encarapuada em metal,
+um olhar desconsolado:
+
+--No... por causa das aguas da Cidade, contaminadas, atulhadas de
+microbios... Mas ainda no encontrei uma ba agua que me convenha, que
+me satisfaa... At soffro sde.
+
+Desejei ento conhecer o jantar do Psychologo e do Symbolista--traado,
+ao lado dos talheres, em tinta vermelha, sobre laminas de marfim.
+Comeava honradamente por ostras classicas, de Marennes. Depois
+apparecia uma sopa d'alcachofras e ovas de carpa...
+
+-- bom?
+
+Jacintho encolheu desinteressadamente os hombros:
+
+--Sim... Ea no tenho nunca appetite, j ha tempos... J ha annos.
+
+Do outro prato s comprehendi que continha frangos e tubaras. Depois
+saboreariam aquelles senhores um filete de veado, macerado em Xerez, com
+gela de noz. E por sobremeza simplesmente laranjas geladas em ether.
+
+--Em ether, Jacintho?
+
+O meu amigo hesitou, esboou com os dedos a ondulao d'um aroma que
+s'evola.
+
+-- novo... Parece que o ether desenvolve, faz afflorar a alma das
+fructas...
+
+Curvei a cabea ignara, murmurei nas minhas profundidades:
+
+--Eis a Civilisao!
+
+E, descendo os Campos Elyseos, encolhido no paletot, a cogitar n'este
+prato symbolico, considerava a rudeza e atolado atrazo da minha Guies,
+onde desde seculos a alma das laranjas permanece ignorada e
+desaproveitada dentro dos gomos sumarentos, por todos aquelles pomares
+que ensombram e perfumam o valle, da Roqueirinha a Sandofim! Agora
+porm, bemdito Deus, na convivencia de um to grande iniciado como
+Jacintho, eu comprehenderia todas as finuras e todos os poderes da
+Civilisao.
+
+E, (melhor ainda para a minha ternura!) contemplaria a raridade d'um
+homem que, concebendo uma ida da Vida, a realisa--e atravs d'ella e
+por ella recolhe a felicidade perfeita.
+
+Bem se affirmra este Jacintho, na verdade, como Principe da
+Gran-Ventura!
+
+
+
+
+III
+
+
+No 202, todas as manhs, s nove horas, depois do meu chocolate e ainda
+em chinelas, penetrava no quarto de Jacintho. Encontrava o meu amigo
+banhado, barbeado, friccionado, envolto n'um roupo branco de pello de
+cabra do Thibet, diante da sua mesa de toilette, toda de crystal, (por
+causa dos microbios) e atulhada com esses utensilios de tartaruga,
+marfim, prata, ao e madreperola que o homem do seculo XIX necessita
+para no desfeiar o conjuncto sumptuario da Civilisao e manter n'ella
+o seu Typo. As escovas sobretudo renovavam, cada dia, o meu regalo e o
+meu espanto--porque as havia largas como a roda massia d'um carro
+sabino; estreitas e mais recurvas que o alfange d'um mouro; concavas, em
+frma de telha alde; ponteagudas em feitio de folha de hera; rijas que
+nem cerdas de javali; macias que nem pennugem de rla! De todas,
+fielmente, como amo que no desdenha nenhum servo, se utilisava o meu
+Jacintho. E assim, em face ao espelho emmoldurado de folhedos de prata,
+permanecia este Principe passando pellos sobre o seu pello durante
+quatorze minutos.
+
+No emtanto o Grillo e outro escudeiro, por traz dos biombos de Kioto, de
+sedas lavradas, manobravam, com pericia e vigor, os apparelhos do
+lavatorio--que era apenas um resumo das machinas monumentaes da Sala de
+Banho, a mais estremada maravilha do 202. N'estes marmores simplificados
+existiam unicamente dois jactos graduados desde _zero_ at _cem_; as
+duas duchas, fina e grossa, para a cabea; a fonte esterilisada para os
+dentes; o repuxo borbulhante para a barba; e ainda botes discretos,
+que, roados, desencadeavam esguichos, cascatas cantantes, ou um leve
+orvalho estival. D'esse recanto temeroso, onde delgados tubos mantinham
+em disciplina e servido tantas aguas ferventes, tantas aguas violentas,
+sahia emfim o meu Jacintho enxugando as mos a uma toalha de felpo, a
+uma toalha de linho, a outra de corda entranada para restabelecer a
+circulao, a outra de sda frouxa para repolir a pelle. Depois d'este
+rito derradeiro que lhe arrancava ora um suspiro, ora um bocejo,
+Jacintho, estendido n'um divan, folheava uma Agenda, onde se arrolavam,
+inscriptas pelo Grillo ou por elle, as occupaes do seu dia, to
+numerosas por vezes que cobriam duas laudas.
+
+Todas ellas se prendiam sua sociabilidade, sua civilisao muito
+complexa, ou a interesses que o meu Principe, n'esses sete annos, crera
+para viver em mais consciente communho com todas as funces da Cidade.
+(Jacintho com effeito era presidente do Club da _Espada e Alvo_;
+commanditario do Jornal o _Boulevard_; director da _Companhia dos
+Telephones de Constantinopla_; socio dos _Bazares unidos da Arte
+Espiritualista_; membro do _Comit de Iniciao das Religies
+Esotericas_, etc.) Nenhuma d'estas occupaes parecia porm aprazivel ao
+meu amigo--porque, apesar da mansido e harmonia dos seus modos,
+frequentemente arremessava para o tapete, n'uma rebellio de homem
+livre, aquella Agenda que o escravisava. E n'uma d'essas manhs (de
+vento e neve), apanhando eu o livro oppressivo, encadernado em pellica,
+de um carinhoso tom de rosa murcha--descobri que o meu Jacintho devia
+depois do almoo fazer uma visita na rua da Universidade, outra no
+Parque Monceau, outra entre os arvoredos remotos da Muette; assistir por
+fidelidade a uma votao no Club; acompanhar Madame d'Oriol a uma
+exposio de leques; escolher um presente de noivado para a sobrinha dos
+Trves; comparecer no funeral do velho, conde de Malville; presidir um
+tribunal de honra n'uma questo de roubalheira, entre cavalheiros, ao
+ecart... E ainda se acavallavam outras indicaes, escrivinhadas por
+Jacintho a lapis:--Carroceiro--Five-oclock dos Ephrains--A pequena das
+_Variedades_--Levar a nota ao jornal... Considerei o meu Principe.
+Estirado no divan, d'olhos miserrimamente cerrados, bocejava, n'um
+bocejo immenso e mudo.
+
+Mas os affazeres de Jacintho comeavam logo no 202, cedo, depois do
+banho. Desde as oito horas a campainha do telephone repicava por elle,
+com impaciencia, quasi com colera, como por um escravo tardio. E mal
+enxugado, dentro do seu roupo de pello de cabra do Thibet ou de grossas
+pyjamas de pelucia cr d'ouro-velho, constantemente sahia ao corredor a
+cochichar com sujeitos to apressados, que conservavam na mo o
+guarda-chuva pingando sobre o tapete. Um d'esses, sempre presente (e que
+pertencia decerto aos _Telephones de Constantinopla_), era
+temeroso--todo elle chupado, tisnado, com maus dentes, sobraando uma
+enorme pasta sebenta, e dardejando, d'entre a alta gola d'uma pelissa
+poida, como da abertura d'um covil, dous olhinhos trvos e de rapina.
+Sem cessar, inexoravelmente, um escudeiro apparecia, com bilhetes n'uma
+salva... Depois eram fornecedores d'Industria e d'Arte; negociantes de
+cavallos, rubicundos e de paletot branco; inventores com grossos rolos
+de papel; alfarrabistas trazendo na algibeira uma edio unica, quasi
+inverosimil, de Ulrich Zell ou do _Lapidanus_. Jacintho circulava
+estonteado pelo 202, rabiscando a carteira, repicando o telephone,
+desatando nervosamente pacotes, sacudindo ao passar algum embuscado que
+surdia das sombras da antecamara, estendia como um trabuco o seu
+memorial ou o seu catalogo!
+
+Ao meio dia, um tam-tam argentino e melancholico ressoava, chamando ao
+almoo. Com o _Figaro_ ou as _Novidades_ abertas sobre o prato, eu
+esperava sempre meia hora pelo meu Principe, que entrava n'uma rajada,
+consultando o relogio, exhalando com a face moda o seu queixume eterno:
+
+--Que massada! E depois uma noite abominavel, enrodilhada em sonhos...
+Tomei sulforal, chamei o Grillo para me esfregar com therebentina... Uma
+scca!
+
+Espalhava pela mesa um olhar j farto. Nenhum prato, por mais engenhoso,
+o seduzia;--e, como atravs do seu tumulto matinal fumava incontaveis
+cigarretes que o resequiam, comeava por se encharcar com um immenso
+copo d'agua oxygenada, ou carbonatada, ou gazoza, misturada d'um cognac
+raro, muito caro, horrendamente adocicado, de moscatel de Syracusa.
+Depois, pressa, sem gosto, com a ponta incerta do garfo, picava aqui e
+alm uma lasca de fiambre, uma febra de lagosta;--e reclamava
+impacientemente o caf, um caf de Moka, mandado cada mez por um feitor
+do Dedjah, fervido turca, muito espesso, que elle remexia com um pau
+de canella!
+
+--E tu, Z Fernandes, que vaes tu fazer?
+
+--Eu?
+
+Recostado na cadeira, com delicias, os dedos mettidos nas cavas do
+collete:
+
+--Vou vadiar, regaladamente, como um co natural!
+
+O meu sollicito amigo, remexendo o caf com o pau de canella, rebuscava
+atravs da numerosa Civilisao da Cidade uma occupao que me
+encantasse. Mas apenas suggeria uma Exposio, ou uma Conferencia, ou
+monumentos, ou passeios, logo encolhia os hombros desconsolados:
+
+--Por fim nem vale a pena, uma scca!
+
+Accendia outra das cigarretes russas, onde rebrilhava o seu nome,
+impresso a ouro na mortalha. Torcendo, n'uma pressa nervosa, os fios do
+bigode, ainda escutava, porta da Bibliotheca, o seu procurador, o
+nedio e magestoso Laporte. E emfim, seguido d'um criado, que sobraava
+um mao tremendo de jornaes para lhe abastecer o coup, o Principe da
+Gran-Ventura mergulhava na Cidade.
+
+ * * * * *
+
+Quando o dia social de Jacintho se apresentava mais desafogado, e o co
+de Maro nos concedia caridosamente um pouco de azul agoado, sahiamos
+depois d'almoo, a p, atravs de Paris. Estes lentos e errantes
+passeios eram outr'ora, na nossa edade de Estudantes, um gozo muito
+querido de Jacintho--porque n'elles mais intensamente e mais
+minuciosamente saboreava a Cidade. Agora porm, apesar da minha
+companhia, s lhe davam uma impaciencia e uma fadiga que desoladoramente
+destoava do antigo, illuminado extasi. Com espanto (mesmo com dr,
+porque sou bom, e sempre me entristece o desmoronar d'uma crena)
+descobri eu, na primeira tarde em que descemos aos Boulevards, que o
+denso formigueiro humano sobre o asphalto, e a torrente sombria dos
+trens sobre o macadam, affligiam o meu amigo pela brutalidade da sua
+pressa, do seu egoismo, e do seu estridor. Encostado e como refugiado no
+meu brao, este Jacintho novo comeou a lamentar que as ruas, na nossa
+Civilisao, no fossem caladas de gutta-percha! E a gutta-percha
+claramente representava, para o meu amigo, a substancia discreta que
+amortece o choque e a rudeza das cousas. Oh maravilha! Jacintho querendo
+borracha, a borracha isoladora, entre a sua sensibilidade e as funces
+da Cidade! Depois, nem me permittiu pasmar diante d'aquellas dourejadas
+e espelhadas lojas que elle outr'ora considerava como os preciosos
+museus do seculo XIX...
+
+--No vale a pena, Z Fernandes. Ha uma immensa pobreza e seccura
+d'inveno! Sempre os mesmos flores Luiz XV, sempre as mesmas
+pelucias... No vale a pena!
+
+Eu arregalava os olhos para este transformado Jacintho. E sobretudo me
+impressionava o seu horror pela Multido--por certos effeitos da
+Multido, s para elle sensiveis, e a que chamava os sulcos.
+
+--Tu no os sentes, Z Fernandes. Vens das serras... Pois constituem o
+rijo inconveniente das Cidades, estes sulcos! um perfume muito agudo e
+petulante que uma mulher larga ao passar, e se installa no olfacto, e
+estraga para todo o dia o ar respiravel. um dito que se surprehende
+n'um grupo, que revela um mundo de velhacaria, ou de pedantismo, ou de
+estupidez, e que nos fica collado alma, como um salpico, lembrando a
+immensidade da lama a atravessar. Ou ento, meu filho, uma figura
+intoleravel pela preteno, ou pelo mau-gosto, ou pela impertinencia, ou
+pela rellice, ou pela dureza, e de que se no pde sacudir mais a viso
+repulsiva... Um pavor, estes sulcos, Z Fernandes! De resto, que diabo,
+so as pequeninas miserias d'uma Civilisao deliciosa!
+
+Tudo isto era especioso, talvez pueril--mas para mim revelava, n'aquelle
+chamejante devoto da Cidade, o arrefecimento da devoo. N'essa mesma
+tarde, se bem recordo, sob uma luz macia e fina, penetramos nos centros
+de Paris, nas ruas longas, nas milhas de casario, todo de calia parda,
+erriado de chamins de lata negra, com as janellas sempre fechadas, as
+cortininhas sempre corridas, abafando, escondendo a vida. S tijolo, s
+ferro, s argamassa, s estuque: linhas hirtas, angulos asperos: tudo
+secco, tudo rigido. E dos chos aos telhados, por toda a fachada,
+tapando as varandas, comendo os muros, Taboletas, Taboletas...
+
+--Oh, este Paris, Jacintho, este teu Paris! Que enorme, que grosseiro
+bazar!
+
+E, mais para sondar o meu Principe do que por persuaso, insisti na
+fealdade e tristeza d'estes predios, duros armazens, cujos andares so
+prateleiras onde se apilha humanidade! E uma humanidade impiedosamente
+catalogada e arrumada! A mais vistosa e de luxo nas prateleiras baixas,
+bem envernisadas. A relles e de trabalho nos altos, nos desvos, sobre
+pranchas de pinho n, entre o p e a traa...
+
+Jacintho murmurou, com a face arripiada:
+
+-- feio, muito feio!
+
+E accudiu logo, sacudindo no ar a luva de anta:
+
+--Mas que maravilhoso organismo, Z Fernandes! Que solidez! Que
+produco!
+
+Onde Jacintho me parecia mais renegado era na sua antiga e quasi
+religiosa affeio pelo Bosque de Bolonha. Quando moo, elle construira
+sobre o Bosque theorias complicadas e consideraveis. E sustentava, com
+olhos rutilantes de fanatico, que no Bosque a Cidade cada tarde ia
+retemperar salutarmente a sua fora, recebendo, pela presena das suas
+Duquezas, das suas Cortezs, dos seus Politicos, dos seus Financeiros,
+dos seus Generaes, dos seus Academicos, dos seus Artistas, dos seus
+Clubistas, dos seus Judeus, a certeza consoladora de que todo o seu
+pessoal se mantinha em numero, em vitalidade, em funco, e que nenhum
+elemento da sua grandeza desapparecera ou deperecera! Ir ao Bois
+constituia ento para o meu Principe um acto de consciencia. E voltava
+sempre confirmando com orgulho que a Cidade possuia todos os seus
+astros, garantindo a eternidade da sua luz!
+
+Agora, porm, era sem fervor, arrastadamente, que elle me levava ao
+Bosque, onde eu, aproveitando a clemencia d'Abril, tentava enganar a
+minha saudade d'arvoredos. Emquanto subiamos, ao trote nobre das suas
+egoas lustrosas, a Avenida dos Campos-Elyseos e a do Bosque,
+rejuvenescidas pelas relvas tenras e fresco verdejar dos rebentos,
+Jacintho, soprando o fumo da cigarrete pelas vidraas abertas do coup,
+permanecia o bom camarada, de veia amavel, com quem era doce philosophar
+atravs de Paris. Mas logo que passavamos as grades douradas do Bosque,
+e penetravamos na Avenida das Acacias, e enfiavamos na lenta fila dos
+trens de luxo e de praa, sob o silencio decoroso, apenas cortado pelo
+tilintar dos freios e pelas rodas vagarosas esmagando a areia,--o meu
+Principe emmudecia, mollemente engilhado no fundo das almofadas, d'onde
+s despegava a face para escancarar bocejos de fartura. Pelo antigo
+habito de verificar a presena confortadora do pessoal, dos astros,
+ainda, por vezes, apontava para algum coup ou vittoria rodando com
+rodar rangente n'outra arrastada fila--e murmurava um nome. E assim fui
+conhecendo a encaracolada barba hebraica do banqueiro Ephraim; e o longo
+nariz patricio de Madame de Trves abrigando um sorriso perenne; e as
+bochechas flacidas do poeta neo-platonico Dornan, sempre espapado no
+fundo de fiacres; e os longos bands pre-raphaelitas e negros de Madame
+Verghane; e o monoculo defumado do director do _Boulevard_; e o
+bigodinho vencedor do Duque de Marizac, reinando de cima do seu phaeton
+de guerra; e ainda outros sorrisos immoveis, e barbichas Renascena, e
+palpebras amortecidas, e olhos farejantes, e pelles empoadas d'arroz,
+que eram todas illustres e da intimidade do meu Principe. Mas, do topo
+da Avenida das Acacias, recomeavamos a descer, em passo sopeado,
+esmagando lentamente a areia; na fila vagarosa que subia, calhambeque
+atraz de landau, vittoria atraz de fiacre, fatalmente reviamos o
+binoculo sombrio do homem do _Boulevard_, e os bands furiosamente
+negros de Madame Verghane, e o ventre espapado do neo-platonico, e a
+barba talmudica, e todas aquellas figuras, d'uma immobilidade de cera,
+super-conhecidas do meu camarada, recruzadas cada tarde atravs de
+revividos annos, sempre com os mesmos sorrisos, sob o mesmo p d'arroz,
+na mesma immobilidade de cera; ento Jacintho no se continha, gritava
+ao cocheiro:
+
+--Para casa, depressa!
+
+E era pela Avenida do Bosque, pelos Campos-Elyseos, uma fuga ardente das
+egoas a quem a lentido sopeada, n'um roer de freios, entre outras egoas
+tambem d'ellas super-conhecidas, lanavam n'uma exasperao comparavel
+de Jacintho.
+
+Para o sondar eu denegria o Bosque:
+
+--J no to divertido, perdeu o brilho!...
+
+Elle acudia, timidamente:
+
+--No, agradavel, no ha nada mais agradavel; mas...
+
+E accusava a friagem das tardes ou o despotismo dos seus affazeres.
+Recolhiamos ento ao 202, onde, com effeito, em breve embrulhado no seu
+roupo branco, diante da mesa de crystal, entre a legio das escovas,
+com toda a electricidade refulgindo, o meu Principe se comeava a
+adornar para o servio social da noite.
+
+E foi justamente numa d'essas noites (um sabado) que ns passamos,
+n'aquelle quarto to civilisado e protegido, por um d'esses brutos e
+revoltos terrores como s os produz a ferocidade dos Elementos. J
+tarde, pressa (jantavamos com Marizac no Club para o acompanhar depois
+ao _Lohengrin_ na Opera) Jacintho arrocheava o n da gravata
+branca--quando no lavatorio, ou porque se rompesse o tubo, ou se
+dessoldasse a torneira, o jacto d'agua a ferver rebentou furiosamente,
+fumegando e silvando. Uma nevoa densa de vapor quente abafou as
+luzes--e, perdidos n'ella, sentiamos, por entre os gritos do escudeiro e
+do Grillo, o jorro devastador batendo os muros, esparrinhando uma chuva
+que escaldava. Sob os ps o tapete ensopado era uma lama ardente. E como
+se todas as foras da natureza, submettidas ao servio de Jacintho, se
+agitassem, animadas por aquella rebellio da agua--ouvimos roncos surdos
+no interior das paredes, e pelos fios dos lumes electricos sulcaram
+faiscas ameaadoras! Eu fugira para o corredor, onde se alargava a nevoa
+grossa. Por todo o 202 ia um tumulto de desastre. Diante do porto,
+attrahidas pela fumarada que se escapava das janellas, estacionava
+policia, uma multido. E na escada esbarrei com um reporter, de chapo
+para a nuca, a carteira aberta, gritando sofregamente se havia mortos?
+
+Domada a agua, clareada a bruma, vim encontrar Jacintho no meio do
+quarto, em ceroulas, livido:
+
+--Oh Z Fernandes, esta nossa industria!... Que impotencia, que
+impotencia! Pela segunda vez, este desastre! E agora, apparelhos
+perfeitos, um processo novo...
+
+--E eu encharcado por esse processo novo! E sem outra casaca!
+
+Em redor, as nobres sdas bordadas, os brocateis Luiz XIII, cobertos de
+manchas negras, fumegavam. O meu Principe, enfiado, enchugava uma
+photographia de Madame d'Oriol, d'hombros decotados, que o jorro bruto
+maculra d'empolas. E eu, com rancor, pensava que na minha Guies a agua
+aquecia em seguras panellas--e subia ao meu lavatorio, pela mo forte da
+Catharina, em seguras infusas! No jantamos com o duque de Marizac, no
+Club. E, na Opera, nem saboreei Lohengrin e a sua branca alma e o seu
+branco cysne e as suas brancas armas--entallado, aperreado, cortado nos
+sovacos pela casaca que Jacintho me emprestra e que rescendia
+estonteadoramente a flores de Nessari.
+
+ * * * * *
+
+No domingo, muito cedo, o Grillo, que na vspera escaldra as mos e as
+trazia embrulhadas em sda, penetrou no meu quarto, descerrou as
+cortinas, e beira do leito, com o seu radiante sorriso de preto:
+
+--Vem no _Figaro_!
+
+Desdobrou triumphalmente o jornal. Eram, nos _Echos_, doze linhas, onde
+as nossas aguas rugiam e espadavam, com tanta magnificencia e tanta
+publicidade, que tambem sorr, deleitado.
+
+--E toda a manh, o telephone, si Fernandes! exclamava o Grillo,
+rebrilhando em ebano. A quererem saber, a quererem saber... Est l?
+Est escaldado? Paris afflicto, si Fernandes!
+
+O telephone, com effeito, repicava, insaciavel. E quando desci para o
+almoo, a toalha desapparecia sob uma camada de telegrammas, que o meu
+Principe fendia com a faca, enrugado, rosnando contra a massada. S
+desannuviou, ao ler um d'esses papeis azues, que atirou para cima do meu
+prato, com o mesmo sorriso agradado com que de manh sorriramos, o
+Grillo e eu:
+
+-- do Gran-Duque Casimiro... Rato amavel! Coitado!
+
+Saboreei, atravs dos ovos, o telegramma de S. Alteza. O que! o meu
+Jacintho inundado! Muito chic, nos Campos-Elyseos! No volto ao 202 sem
+boia de salvao! Compassivo abrao! Casimiro... Murmurei tambem com
+deferencia:--Amavel! Coitado! Depois, revolvendo lentamente o monto
+de telegrammas que se alastrava at ao meu copo:
+
+--Oh Jacintho! Quem esta Diana que incessantemente te escreve, te
+telephona, te telegrapha, te...?
+
+--Diana?... Diana de Lorge. uma cocotte. uma grande cocotte!
+
+--Tua?
+
+--Minha, minha... No! tenho um bocado.
+
+E como eu lamentava que o meu Principe, senhor to rico e de to fino
+orgulho, por economia d'uma gamella propria chafurdasse com outros n'uma
+gamella publica--Jacintho levantou os hombros, com um camaro espetado
+no garfo:
+
+--Tu vens das serras... Uma cidade como Paris, Z Fernandes, precisa ter
+cortezs de grande pompa e grande fausto. Ora para montar em Paris,
+n'esta tremenda carestia de Paris, uma cocotte com os seus vestidos, os
+seus diamantes, os seus cavallos, os seus lacaios, os seus camarotes, as
+suas festas, o seu palacete, a sua publicidade, a sua insolencia,
+necessario que se aggremiem umas poucas de fortunas, se forme um
+syndicato! Somos uns sete, no Club. Eu pago um bocado... Mas meramente
+por Civismo, para dotar a cidade com uma cocotte monumental. De resto
+no chafurdo. Pobre Diana!... Dos hombros para baixo nem sei se tem a
+pelle cr de neve ou cr de limo.
+
+Arregalei um olho divertido:
+
+--Dos hombros para baixo?... E para cima?
+
+--Oh para cima tem p d'arroz!... Mas uma scca! Sempre bilhetes,
+sempre telephones, sempre telegrammas. E tres mil francos por mez, alm
+das flores... Uma massada!
+
+E as duas rugas do meu Principe, aos lados do seu afilado nariz, curvado
+sobre a salada, eram como dous valles muito tristes, ao entardecer.
+
+Acabavamos o almoo, quando um escudeiro, muito discretamente, n'um
+murmurio, annunciou Madame d'Oriol. Jacintho pousou com tranquillidade o
+charuto; eu quasi me engasguei, n'um sorvo alvoroado de caf. Entre os
+reposteiros de damasco cr de morango ella appareceu, toda de negro,
+d'um negro liso e austero de Semana Santa, lanando com o regalo um
+lindo gesto para nos socegar. E immediatamente, n'uma volubilidade
+docemente chalrada:
+
+-- um momento, nem se levantem! Passei, ia para a Magdalena, no me
+contive, quiz vr os estragos... Uma inundao em Paris, nos
+Campos-Elyseos! No ha seno este Jacintho. E vem no _Figaro!_ O que eu
+estava assustada, quando telephonei! Imaginem! Agua a ferver, como no
+Vesuvio... Mas d'uma novidade! E os estofos perdidos, naturalmente, os
+tapetes... Estou morrendo por admirar as ruinas!
+
+Jacintho, que no me pareceu commovido, nem agradecido com aquelle
+interesse, retomra risonhamente o charuto:
+
+--Est tudo secco, minha querida senhora, tudo secco! A belleza foi
+hontem, quando a agua fumegava e rugia! Ora que pena no ter ao menos
+cahido uma parede!
+
+Mas ella insistia. Nem todos os dias se gozavam em Paris os destroos
+d'uma inundao. O _Figaro_ contra... E era uma aventura deliciosa, uma
+casa escaldada nos Campos-Elyseos!
+
+Toda a sua pessoa, desde as plumasinhas que frisavam no chapo at
+ponta reluzente das botinas de verniz, se agitava, vibrava, como um ramo
+tenro sob o bolio do passaro a chalrar. S o sorriso, por traz do vo
+espesso, conservava um brilho immovel. E j no ar se espalhra um aroma,
+uma doura, emanadas de toda a sua mobilidade e de toda a sua graa.
+
+Jacintho no emtanto cedera, alegremente: e pelo corredor Madame d'Oriol
+ainda louvava o _Figaro_ amavel, e confessava quanto tremera... Eu
+voltei ao meu caf, felicitando mentalmente o Principe da Gran-Ventura
+por aquella perfeita flr de Civilisao que lhe perfumava a vida.
+Pensei ento na apurada harmonia em que se movia essa flr. E corri
+vivamente ante-camara, verificar diante do espelho o meu penteado e o
+n da minha gravata. Depois recolhi sala de jantar, e junto da
+janella, folheando languidamente a _Revista do Seculo XIX_, tomei uma
+attitude de elegancia e d'alta cultura. Quasi immediatamente elles
+reappareceram: e Madame d'Oriol, que, sempre sorrindo, se proclamava
+espoliada, nada encontrra que recordasse as agoas furiosas, roou pela
+mesa, onde Jacintho procurava, para lhe offerecer, tangerinas de Malta,
+ou castanhas geladas, ou um biscouto molhado em vinho de Tokai.
+
+Ella recusava com as mos guardadas no regalo. No era alta, nem
+forte--mas cada prega do vestido, ou curva da capa, cahia e ondulava
+harmoniosamente, como perfeies recobrindo perfeies. Sob o vo
+cerrado, apenas percebi a brancura da face empoada, e a escurido dos
+olhos largos. E com aquellas sdas e velludos negros, e um pouco do
+cabello louro, d'um louro quente, torcido fortemente sobre as pelles
+negras que lhe orlavam o pescoo, toda ella derramava uma sensao de
+macio e de fino. Eu teimosamente a considerava como uma flr de
+Civilisao:--e pensava no secular trabalho e na cultura superior que
+necessitra o terreno onde ella to delicadamente brotra, j
+desabrochada, em pleno perfume, mais graciosa por ser flr d'esforo e
+d'estufa, e trazendo nas suas ptalas um no sei qu de desbotado e de
+ante-murcho.
+
+No emtanto, com a sua volubilidade de passaro, chalrando para mim,
+chalrando para Jacintho, ella mostrava o seu lindo espanto por aquelle
+monto de telegrammas sobre a toalha.
+
+--Tudo esta manh, por causa da inundao?... Ah, Jacintho hoje o
+homem, o unico homem de Paris! Muitas mulheres n'esses telegrammas?
+
+Languidamente, com o charuto a fumegar, o meu Principe empurrou para a
+sua amiga o telegramma do Gran-duque. Ento Madame d'Oriol teve um _ah!_
+muito grave e muito sentido. Releu profundamente o papel de S. A. que os
+seus dedos acariciavam com uma reverencia gulosa. E sempre grave, sempre
+sria:
+
+-- brilhante!
+
+Oh, certamente! n'aquelle desastre tudo se passra com muito brilho,
+n'um tom muito Parisiense. E a deliciosa creatura no se podia demorar,
+porque fizera marcar um logar na egreja da Magdalena para o sermo!
+
+Jacintho exclamou com innocencia:
+
+--Sermo?... j a estao dos sermes?
+
+Madame d'Oriol teve um movimento de carinhoso escandalo e dr. O qu!
+pois nem na austera casa dos Trves dera pela entrada da quaresma? De
+resto no se admirava--Jacintho era um turco! E, immediatamente celebrou
+o prgador, um frade dominicano, o Pre Granon! Oh d'uma eloquencia!
+d'uma violencia! No derradeiro sermo prgara sobre o amor, a
+fragilidade dos amores mundanos! E tivera coisas d'uma inspirao, d'uma
+brutalidade! Depois que gesto, um gesto terrivel que esmagava, em que se
+lhe arregaava toda a manga, mostrando o brao n, um brao soberbo,
+muito branco, muito forte!
+
+O seu sorriso permanecia claro sob o olhar que negrejra dentro do vo
+negro. E Jacintho, rindo:
+
+--Um bom brao de director espiritual, hein? Para vergar, espancar
+almas...
+
+Ella acudiu:
+
+--No! infelizmente o Pre Granon no confessa!
+
+E de repente reconsiderou--aceitava um biscouto, um clice de Tokai. Era
+necessario um cordial para affrontar as emoes do Pre Granon! Ambos
+nos precipitramos, um arrebatando a garrafa, outro offerecendo o prato
+de bonbons. Franzio o vo para os olhos, chupou pressa um bolo que
+ensopra no Tokai. E como Jacintho, reparando casualmente no chapo que
+ella trazia, se curvra com curiosidade, impressionado, Madame d'Oriol
+apagou o sorriso, toda seria, ante uma cousa seria:
+
+--Elegante, no verdade?... uma creao inteiramente nova de Madame
+Vial. Muito respeitoso, e muito suggestivo, agora na Quaresma.
+
+O seu olhar, que me envolvera, tambem me convidava a admirar. Approximei
+o meu focinho de homem das serras para contemplar essa creao suprema
+do luxo de Quaresma. E era maravilhoso! Sobre o velludo, na sombra das
+plumas frizadas, aninhada entre rendas, fixada por um prgo, pousava
+delicadamente, feita de azeviche, uma Cora de Espinhos!
+
+Ambos nos extasiamos. E Madame d'Oriol, n'um movimento e n'um sorriso
+que derramou mais aroma e mais claridade, abalou para a Magdalena.
+
+O meu Principe arrastou pelo tapete alguns passos pensativos e molles. E
+bruscamente, levantando os hombros com uma determinao immensa, como se
+deslocasse um mundo:
+
+--Oh Z Fernandes, vamos passar este Domingo n'alguma cousa simples e
+natural...
+
+--Em qu?
+
+Jacintho circumgirou os olhares muito abertos, como se, atravez da Vida
+Universal, procurasse anciosamente uma cousa natural e simples. Depois,
+descanando sobre mim os mesmos largos olhos que voltavam de muito
+longe, canados e com pouca esperana:
+
+--Vamos ao Jardim das Plantas, vr a girafa!
+
+
+
+
+IV
+
+
+N'essa fecunda semana, uma noite, recolhiamos ambos da Opera, quando
+Jacintho, bocejando, me annunciou uma festa no 202.
+
+--Uma festa?...
+
+--Por causa do Gran-Duque, coitado, que me vai mandar um peixe delicioso
+e muito raro que se pesca na Dalmacia. Eu queria um almoo curto. O
+Gran-Duque reclamou uma ceia. um barbaro, besuntado com litteratura do
+seculo XVIII, que ainda acredita em ceias, em Paris! Reuno no domingo
+tres ou quatro mulheres, e uns dez homens bem typicos, para o divertir.
+Tambem aproveitas. Folheias Paris n'um resumo... Mas uma massada
+amarga!
+
+Sem interesse pela sua festa, Jacintho no se affadigou em a compr com
+relevo ou brilho. Encommendou apenas uma orchestra de Tziganes (os
+Tziganes, as suas jalecas escarlates; a melancolia aspera das Czardas
+ainda n'esses tempos remotos emocionavam Paris): e mandou, na
+Bibliotheca, ligar o Theatrophone com a Opera, com a Comedia-Franceza,
+com o Alcazar e com os Buffos, prevendo todos os gostos desde o tragico
+at ao picaro. Depois no domingo, ao entardecer, ambos visitamos a mesa
+da ceia, que resplandecia com as velhas baixellas de D. Galio. E a
+faustosa profuso de orchideas, em longas sylvas por sobre a toalha
+bordada a sda, enroladas aos fructeiros de Saxe, trasbordando de
+crystaes lavrados e filagranados d'ouro, espalhava uma to fina sensao
+de luxo e gosto, que eu murmurei:--Caramba, bemdito, seja o dinheiro!
+Pela primeira vez, tambem, admirei a copa e a sua installao abundante
+e minuciosa--sobretudo os dois ascensores que rolavam das profundidades
+da cozinha, um para os peixes e carnes aquecido por tubos d'agua
+fervente, o outro para as saladas e gelados revestido de placas
+frigorificas. Oh, este 202!
+
+s nove horas, porm, descendo eu ao gabinete de Jacintho para escrever
+a minha boa tia Vicencia, em quanto elle ficra no toucador com o
+mancuro que lhe polia as unhas, passamos n'esse delicioso palacio,
+florido e em gala, por bem corriqueiro susto! Todos os lumes electricos,
+subitamente, em todo o 202, se apagaram! Na minha immensa desconfiana
+d'aquellas foras universaes, pulei logo para a porta, tropeando nas
+trevas, ganindo um _Aqui d'Elrei_! que tresandava a Guies. Jacintho em
+cima berrava, com o mancuro agarrado s pyjamas. E de novo, como serva
+ralassa que recolhe arrastando as chinellas, a luz resurgiu com
+lentido. Mas o meu Principe, que descera, enfiado, mandou buscar um
+engenheiro Companhia Central da Electricidade Domestica. Por precauo
+outro creado correu mercearia comprar pacotes de velas. E o Grillo
+desenterrava j dos armarios os candelabros abandonados, os pesados
+castiaes archaicos dos tempos inscientificos de D. Galio: era uma
+reserva de veteranos fortes, para o caso pavoroso em que mais tarde,
+ceia, falhassem perfidamente as foras bisonhas da Civilisao. O
+Electricista, que acudira esbaforido, afianou porm que a Electricidade
+se conservaria fiel, sem outro amuo. Eu, cautelosamente, soneguei na
+algibeira dous ctos de estearina.
+
+A Electricidade permaneceu fiel, sem amuos. E quando desci do meu
+quarto, tarde (porque perdera o collete de baile e s depois d'uma busca
+furiosa e praguejada o encontrei cahido por traz da cama!), todo o 202
+refulgia, e os Tziganes, na antecamara, sacudindo as guedelhas, atiravam
+as arcadas d'uma valsa to arrastadora que, pelas paredes, os immensos
+Personagens das tapearias, Priamo, Nestor, o engenhoso Ulysses,
+arfavam, boliam com os ps venerandos!
+
+Timidamente, sem rumor, puxando os punhos, penetrei no gabinete de
+Jacintho. E fui logo acolhido pelo sorriso da condessa de Treves, que,
+acompanhada pelo illustre historiador Danjon (da Academia Franceza),
+percorria maravilhada os Apparelhos, os Instrumentos, toda a sumptuosa
+Mechanica do meu super-civilisado Principe. Nunca ella me parecera mais
+magestosa do que n'aquellas sdas cr de aafro, com rendas cruzadas no
+peito Maria-Antonietta, o cabello crespo e ruivo levantado em rolo
+sobre a testa dominadora, e o curvo nariz patricio, abrigando o sorriso
+sempre luzidio, sempre corrente, como um arco abriga o correr e o luzir
+d'um regato. Direita como n'um solio, a longa luneta de tartaruga
+acercada dos olhos miudos e turvamente azulados, ella escutava deante do
+Graphophono, depois deante do Microphono, como melodias superiores, os
+commentarios que o meu Jacintho ia atabalhoando com uma amabilidade
+penosa. E ante cada roda, cada mola, eram pasmos, louvores finamente
+torneados, em que attribuia a Jacintho, com astuta candura, todas
+aquellas invenes do Saber! Os utensilios misteriosos que atulhavam a
+mesa d'ebano foram para ella uma iniciao que a enlevou. Oh, o
+numerador de paginas! oh, o collador d'estampilhas! A caricia
+demorada dos seus dedos seccos aquecia os metaes. E supplicava os
+endereos dos fabricantes para se prover de todas aquellas utilidades
+adoraveis! Como a vida, assim apetrechada, se tornava escorregadia e
+facil! Mas era necessario o talento, o gosto de Jacintho, para escolher,
+para crear! E no s ao meu amigo (que o recebia com resignao) ella
+offertava o fino mel. Affagando com o cabo da luneta o Telegrapho, achou
+a possibilidade de recordar a eloquencia do Historiador. Mesmo para mim
+(de quem ignorava o nome) arranjou junto do Phonographo, e cerca de
+vozes d'amigos que doce colleccionar, uma lisonjasinha redondinha e
+lustrosa, que eu chupei como um rebuado celeste. Boa casaleira que vae
+atirando o gro aos frangos famintos, a cada passo, maternalmente, ella
+nutria uma vaidade. Sofrego d'outro rebuado, acompanhei a sua cauda
+sussurrante e cr d'aafro. Ella parra deante da Machina-de-contar, de
+que Jacintho j lhe fornecera pacientemente uma explicao sapiente. E
+de novo roou os buracos d'onde espreitam os numeros negros, e com o seu
+enlevado sorriso murmurou:--Prodigiosa, esta prensa electrica!...
+
+Jacintho accudiu:
+
+--No! No! Esta ...
+
+Mas ella sorria, seguia... Madame de Treves no comprehendera nenhum
+apparelho do meu Principe! Madame de Treves no attendera a nenhuma
+dissertao do meu Principe! N'aquelle gabinete de sumptuosa Mechanica
+ella smente se occupra em exercer, com proveito e com perfeio, a
+Arte de Agradar. Toda ella era uma sublime falsidade. No escondi a
+Danjon a admirao que me penetrava.
+
+O facundo Academico revirou os olhos bogalhudos:
+
+--Oh! e um gsto, uma intelligencia, uma seduco!... E depois como se
+janta bem em casa d'ella! Que caf!... Mulher superior, meu caro senhor,
+verdadeiramente superior!
+
+Deslisei para a bibliotheca. Logo entrada da erudita nave, junto da
+estante dos Padres da Egreja onde alguns cavalheiros conversavam, parei
+a saudar o director do _Boulevard_ e o Psychologo-feminista, o auctor do
+_Corao Triple_, com quem na vspera me familiarisra ao almoo, no
+202. O seu acolhimento foi paternal: e, como se necessitasse a minha
+presena, reteve na sua mo illustre, rutilante de anneis, com fora e
+com gula, a minha grossa palma serrana. Todos aquelles senhores, com
+effeito, celebravam o seu Romance, a _Couraa_, lanado n'essa semana
+entre gritinhos de gzo e um quente rumor de saias alvoroadas. Um
+sobretudo, com uma vasta cabea arranjada Van Dick e que parecia
+postia, proclamava, alado na ponta das botas, que nunca penetrra to
+fundamente, na velha alma humana, a ponta da Psychologia Experimental!
+Todos concordavam, se apertavam contra o Psychologo, o tratavam por
+mestre. Eu mesmo, que nem sequer entrevira a capa amarella da
+_Couraa_, mas para quem elle voltava os olhos pedinches e famintos de
+mais mel, murmurei com um leve assobio:--uma delicia!
+
+E o Psychologo, reluzindo, com o labio humido, entalado n'um alto
+collarinho onde se enroscava uma gravata 1830, confessava modestamente
+que dissecra todas aquellas almas da _Couraa_ com algum cuidado,
+sobre documentos, sobre pedaos de vida ainda quentes, ainda a
+sangrar... E foi ento que Marizac, o duque de Marizac, notou, com um
+sorriso mais afiado que um lampejo de navalha, e sem tirar as mos dos
+bolsos:
+
+--No emtanto, meu caro, n'esse livro to profundamente estudado ha um
+erro bem estranho, bem curioso!...
+
+O Psychologo, vivamente, atirra a cabea para traz:
+
+--Um erro?
+
+Oh, sim, um erro! E bem inesperado n'um mestre to experiente!... Era
+attribuir esplendida amorosa da _Couraa_, uma duqueza, e do gosto
+mais puro,--_um collete de setim preto_! Esse collete, assim preto, de
+setim, apparecia na bella pagina de analyse e paixo em que ella se
+despia no quarto de Ruy d'Alize. E Marizac, sempre com as mos nos
+bolsos, mais grave, appellava para aquelles senhores. Pois era
+verosimil, n'uma mulher como a duqueza, esthetica, pre-raphaelitica, que
+se vestia no Doucet, no Paquin, nos costureiros intellectuaes, um
+collete de setim preto?
+
+O Psychologo emmudecera, colhido, trespassado! Marizac era uma to
+suprema auctoridade sobre a roupa intima das duquezas, que tarde, em
+quartos de rapazes, por impulsos idealistas e anceios d'alma
+dolorida--se pem em collete e saia branca!... De resto o director do
+_Boulevard_ condemnra logo sem piedade, com uma experiencia firme,
+aquelle collete, s possivel n'alguma mercieira atrazada que ainda
+procurasse effeitos de carne nedia sobre setim negro. E eu, para que me
+no julgassem alheio s coisas dos adulterios ducaes e do luxo, acudi,
+mettendo os dedos pelo cabello:
+
+--Realmente, preto, s se estivesse de lucto pesado, pelo pae!
+
+O pobre mestre da _Couraa_ succumbira. Era a sua gloria de Doutor em
+Elegancias-Femininas desmantelada--e Paris suppondo que elle nunca vira
+uma duqueza desatacar o collete na sua alcova de Psychologo! Ento,
+passando o leno sobre os labios que a angustia ressequira, confessou o
+erro, e contrictamente o attribuiu a uma improvisao tumultuosa:
+
+--Foi um tom falso, um tom perfeitamente falso que me escapou!... Com
+effeito! absurdo, um collete preto!... Mesmo por harmonia com o estado
+da alma da duqueza devia ser lilaz, talvez cr de reseda muito
+desmaiada, com um frouxo de rendas antigas de Malines... prodigioso
+como me escapou! Pois tenho o meu caderno de entrevistas bem annotadas,
+bem documentadas!...
+
+Na sua amargura, terminou por supplicar a Marizac que espalhasse por
+toda a parte, no Club, nas salas, a sua confisso. Fra um engano de
+artista, que trabalha na febre, vasculhando as almas, perdido nas
+profundidades negras das almas! No reparra no collete, confundira os
+tons... E gritou, com os braos estendidos para o director do
+_Boulevard_:
+
+--Estou prompto a fazer uma rectificao, n'uma _interview_, meu caro
+mestre! Mande um dos seus redactores... manh, s dez horas! Fazemos
+uma _interview_, fixamos a cr. Evidentemente lilaz... Mande um dos
+seus homens, meu caro mestre! tambem uma occasio para eu confessar,
+bem alto, os servios que o _Boulevard_ tem feito s sciencias
+psychologicas e feministas!
+
+Assim elle supplicava, encostado estante, s lombadas dos Santos
+Padres. E eu abalei, vendo ao fundo da Bibliotheca Jacintho que se
+debatia e se recusava entre dous homens.
+
+Eram os dois homens de Madame de Treves--o marido, conde de Treves,
+descendente dos reis de Candia, e o amante, o terrivel banqueiro judeu,
+David Ephraim. E to enfronhadamente assaltavam o meu Principe que nem
+me reconheceram, ambos n'um aperto de mo molle e vago me trataram por
+caro conde! N'um relance, rebuscando charutos sobre a mesa de
+limoeiro, comprehendi que se tramava a _Companhia das Esmeraldas da
+Birmania_, medonha empreza em que scintillavam milhes, e para que os
+dous confederados de bolsa e d'alcva, desde o comeo do anno, pediam o
+nome, a influencia, o dinheiro de Jacintho. Elle resistira, n'um enfado
+dos negocios, desconfiado d'aquellas esmeraldas soterradas n'um valle da
+Asia. E agora o conde de Treves, um homem esgrouviado, de face
+rechupada, erriada de barba rala, sob uma fronte rotunda e amarella
+como um melo, assegurava ao meu pobre Principe que no Prospecto j
+preparado, demonstrando a grandeza do negocio, perpassava um fulgr das
+_Mil e Uma noites_. Mas sobretudo aquella excavao de esmeraldas
+convidava todo o espirito culto pela sua aco civilisadora. Era uma
+corrente de idas occidentaes, invadindo, educando a Birmania. Elle
+acceitra a direco por patriotismo...
+
+--De resto um negocio de joias, de arte, de progresso, que deve ser
+feito, n'um mundo superior, entre amigos...
+
+E do outro lado o terrivel Ephraim, passando a mo curta e gorda sobre a
+sua bella barba, mais frisada e negra que a d'um Rei Assyrio, affianava
+o triumpho da empreza pelas grossas foras que n'ella entravam, os
+Nagayers, os Bolsans, os Saccart...
+
+Jacintho franzia o nariz, enervado:
+
+--Mas, ao menos, esto feitos os estudos? J se provou que ha
+esmeraldas?
+
+Tanta ingenuidade exasperou Ephraim:
+
+--Esmeraldas! Est claro que ha esmeraldas!... Ha sempre esmeraldas
+desde que haja accionistas!
+
+E eu admirava a grandeza d'aquella maxima--quando appareceu, esbaforido,
+desdobrando o leno muito perfumado, um dos familiares do 202, Todelle
+(Antonio de Todelle), moo j calvo, d'infinitas prendas, que conduzia
+Cotillons, imitava cantores de Caf Concerto, temperava saladas raras,
+conhecia todos os enredos de Paris.
+
+--J veio?... J c est o Gran-Duque?
+
+No, S. Alteza ainda no chegra. E Madame de Todelle?
+
+--No poude... No soph... Esfolou uma perna.
+
+--Oh!
+
+--Quasi nada... Cahiu do velocipede!
+
+Jacintho, logo interessado:
+
+--Ah! Madame de Todelle anda j de velocipede?
+
+--Aprende. Nem tem velocipede!... Agora, na quaresma, que se applicou
+mais, no velocipede do padre Ernesto, do cura de S. Jos! Mas hontem, no
+Bosque, zs, terra!... Perna esfolada. Aqui.
+
+E na sua propria cxa, com a unha, vivamente, desenhou o esfolo.
+Ephraim, brutal e serio, murmurou:--Diabo! no melhor sitio! Mas
+Todelle nem o escutra, correndo para o director do _Boulevard_, que se
+avanava, lento e barrigudo, com o seu monoculo negro semelhante a um
+pacho. Ambos se collaram contra uma estante, n'um cochichar profundo.
+
+Jacintho e eu entramos ento no bilhar, forrado de velhos couros de
+Cordova, onde se fumava. Ao canto d'um divan, o grande Dornan, o poeta
+neo-platonico e mystico, o Mestre subtil de todos os rithmos, espapado
+nas almofadas, com um dos ps sob a cxa gorda, como um Deus indio, dois
+botes do collete desabotoados, a papeira cahida sobre o largo decote do
+collarinho, mamava magestosamente um immenso charuto. Ao p d'elle,
+tambm sentado, um velho que eu nunca encontrra no 202, esbelto, de
+cabellos brancos em anneis passados por traz das orelhas, a face coberta
+de p de arroz, um bigodinho muito negro e arrebitado, findra
+certamente alguma historia de bom e grosso sal--porque deante do divan,
+de p, Joban, o suprmo Critico de Theatro, ria com a calva escarlate de
+gso, e um moo muito ruivo (descendente de Colygny), de perfil de
+periquito, sacudia os braos curtos como azas, e gania: delicioso!
+divino! S o poeta idealista permanecera impassivel, na sua magestade
+obesa. Mas, quando nos acercamos, esse Mestre do rythmo perfeito, depois
+de soprar uma farta fumarada e me saudar com um pesado mover das
+palpebras, comeou n'uma voz de rico e sonoro metal:
+
+--Ha melhor, ha infinitamente melhor... Todos aqui conhecem Madame
+Noredal. Madame Noredal tem umas immensas nadegas...
+
+Desgraadamente para o meu regalo Todelle invadiu o bilhar, reclamando
+Jacintho com alarido. Eram as senhoras que desejavam ouvir no
+Phonographo uma aria da Patti! O meu amigo sacudiu logo os hombros,
+n'uma surda irritao:
+
+--Aria da Patti... Eu sei l! Todos esses rolos esto em confuso. Alm
+d'isso o Phonographo trabalha mal. Nem trabalha! Tenho tres. Nenhum
+trabalha!
+
+--Bem! exclamou alegremente Todelle. Canto eu a _Pauvre fille_... mais
+de ceia! _Oh, la pauv', pauv', pauv'_...
+
+Travou do meu brao, e arrastou a minha timidez serrana para o salo cr
+de rosa murcha, onde, como Deusas n'um circulo escolhido do Olympo,
+resplandeciam Madame d'Oriol, Madame Verghane, a princeza de Carman, o
+uma outra loura, com grandes brilhantes nas grandes farripas, e
+d'hombros to ns, e braos to ns, e peitos to ns, que o seu vestido
+branco com bordados d'ouro pallido parecia uma camisa, a escorregar.
+Impressionado, ainda retive Todelle, rugi baixinho:--Quem ? Mas j o
+festivo homem correra para Madame d'Oriol, com quem riam, n'uma
+familiaridade superior e facil, Marizac (o duque de Marizac) e um moo
+de barba cr de milho e mais leve que uma penugem, que se balouava
+gracilmente sobre os ps, como uma espiga ao vento. E eu, encalhado
+contra o piano, esfregava lentamente as mos, amassando o meu embarao,
+quando Madame Verghane se ergueu do soph onde conversava com um velho
+(que tinha a Gran-Cruz de Santo Andr), e avanou, deslizou no tapete,
+pequena e nedia, na sua copiosa cauda de velludo verde-negro. To fina
+era a cinta, entre os encontros fecundos e a vastido do peito, todo n
+e cr de nacar, que eu receava que ella partisse pelo meio, no seu lento
+ondular. Os seus famosos bands negros, d'um negro furioso, inteiramente
+lhe tapavam as orelhas; e, no grande aro d'ouro que os circumdava,
+reluzia uma estrella de brilhantes, como na fronte dos anjos de
+Boticelli. Conhecendo sem dvida a minha auctoridade no 202, ella
+despediu sobre mim ao passar, como raio benefico, um sorriso que lhe
+liquescia mais os olhos liquidos, e murmurou:
+
+--O Gran-Duque vem, com certeza?
+
+--Oh com certeza, minha senhora, para o peixe!
+
+--P'ra o peixe?...
+
+Mas justamente, na antecamara, rompeu, em rufos e arcadas triumphaes, a
+marcha de Rakoczy. Era elle! Na Bibliotheca, o nosso retumbante mordomo
+annunciava:
+
+--S. Alteza o Gran-Duque Casimiro!
+
+Madame de Verghane, com um curto suspiro d'emoo, alteou o peito, como
+para lhe expr melhor a magnificencia eburnea. E o homem do _Boulevard_,
+o velho da Gran-Cruz, Ephraim, quasi me empurraram, investindo para a
+porta, na immensa sofreguido de Pessoa Real.
+
+Precedido por Jacintho, o Gran-Duque surgiu. Era um possante homem, de
+barba em bico, j grisalha, um pouco calvo. Durante um momento hesitou,
+com um balano lento sobre os ps pequeninos, calados de sapatos rasos,
+quasi sumidos sob as pantalonas muito largas. Depois, pesado e risonho,
+veio apertar a mo s senhoras que mergulhavam nos velludos e sdas, em
+mesuras de Crte. E immediatamente, batendo com carinhosa jovialidade no
+hombro de Jacintho:
+
+--E o peixe?... Preparado pela receita que mandei, hein?
+
+Um murmurio de Jacintho tranquillisou S. Alteza.
+
+--Ainda bem, ainda bem! exclamou elle, no seu vozeiro de commando. Que
+eu no jantei, absolutamente no jantei! que se est jantando
+deploravelmente em casa do Joseph. Mas porque se vai jantar ainda ao
+Joseph? Sempre que chego a Paris, pergunto: Onde que se janta agora?
+Em casa do Joseph!... Qual! no se janta! Hoje, por exemplo,
+gallinholas... Uma peste! No tem, no tem a noo da gallinhola!
+
+Os seus olhos azulados, d'um azul sujo, rebrilhavam, alargados pela
+indignao:
+
+--Paris est perdendo todas as suas superioridades. J se no janta, em
+Paris!
+
+Ento, em redor, aquelles senhores concordaram, desolados. O conde de
+Treves defendeu o Bignon, onde se conservavam nobres tradies. E o
+director do _Boulevard_, que se empurrava todo para S. Alteza, attribuia
+a decadencia da cozinha, em Frana, Republica, ao gosto democratico e
+torpe pelo barato.
+
+--No Paillard, todavia...--comeou o Ephraim.
+
+--No Paillard! gritou logo o Gran-Duque. Mas os Borgonhas so to maus!
+os Borgonhas so to maus!...
+
+Deixra pender os braos, os hombros, descoroado. Depois, com o seu
+lento andar balanado como o d'um velho piloto, atirando um pouco para
+traz as lapellas da casaca, foi saudar Madame d'Oriol, que toda ella
+faiscou, no sorriso, nos olhos, nas joias, em cada prga das suas sdas
+cr de salmo. Mas apenas a clara e macia creatura, batendo o leque como
+uma aza alegre, comera a chalrar, S. Alteza reparou no apparelho do
+Theatrophone, pousado sobre uma mesa entre flres, e chamou Jacintho:
+
+--Em communicao com o Alcazar?... O Theatrophone?
+
+--Certamente, meu senhor.
+
+Excellente! Muito chic! Elle ficra com pena de no ouvir a Gilberte
+n'uma canoneta nova, as _Casquettes_. Onze e meia! Era justamente a
+essa hora que ella cantava, no ultimo acto da _Revista
+Electrica_...--Collou s orelhas os dous receptores do Theatrophone, e
+quedou embebido, com uma ruga sria na testa dura. De repente, n'um
+commando forte:
+
+-- ella! Chut! Venham ouvir!... ella! Venham todos! Princeza de
+Carman, para aqui! Todos! ella! Chut...
+
+Ento, como Jacintho installra prodigamente dois Theatrophones, cada um
+provido de doze fios, as senhoras, todos aquelles cavalheiros, se
+apressaram a acercar submissamente um receptor do ouvido, e a permanecer
+immoveis para saborear _Les Casquettes_. E no salo cr de rosa murcha,
+na nave da Bibliotheca, onde se espalhra um silencio augusto, s eu
+fiquei desligado do Theatrophone, com as mos nas algibeiras e ocioso.
+
+No relogio monumental, que marcava a hora de todas as Capitaes e o
+movimento de todos os Planetas, o ponteiro rendilhado adormeceu. Sobre a
+mudez e a immobilidade pensativa d'aquelles dorsos, d'aquelles decotes,
+a Electricidade refulgia com uma tristeza de sol regelado. E de cada
+orelha attenta, que a mo tapava, pendia um fio negro, como uma tripa.
+Dornan, esbroado sobre a mesa, cerrra as palpebras, n'uma meditao de
+monge obeso. O historiador dos Duques d'Anjou, com o receptor na ponta
+delicada dos dedos, erguendo o nariz agudo e triste, gravemente cumpria
+um dever palaciano. Madame d'Oriol sorria, toda languida, como se o fio
+lhe murmurasse douras. Para desentorpecer arrisquei um passo timido.
+Mas cahiu logo sobre mim um _chut_ severo do Gran-Duque! Recuei para
+entre as cortinas da janella, a abrigar a minha ociosidade. O Philologo
+da _Couraa_, distante da mesa, com o seu comprido fio esticado, mordia
+o beio, n'um esforo de penetrao. A beatitude de S. Alteza, enterrado
+n'uma vasta poltrona, era perfeita. Ao lado o collo de Madame Verghane
+arfava como uma onda de leite. E o meu pobre Jacintho, n'uma applicao
+conscienciosa, pendia sobre o Theatrophone to tristemente como sobre
+uma sepultura.
+
+Ento, ante aquelles seres de superior civilisao, sorvendo n'um
+silencio devoto as obscenidades que a Gilberte lhes gania, por debaixo
+do solo de Paris, atravez de fios mergulhados nos esgotos, cingidos aos
+canos das fezes,--pensei na minha aldeia adormecida. O crescente de lua,
+que, seguido d'uma estrellinha, corria entre nuvens sobre os telhados e
+as chamins negras dos Campos-Elyseos, tambem andava l fugindo, mais
+lustrosa e mais dce, por cima dos pinheiraes. As rs coaxavam ao longe
+no Pego da Dona. A ermidinha de S. Joaquim branquejava no cabeo,
+nuasinha e candida...
+
+Uma das senhoras murmurou:
+
+--Mas, no a Gilberte!...
+
+E um dos homens:
+
+--Parece um cornetim...
+
+--Agora so palmas...
+
+--No, o Paulin!
+
+O Gran-Duque lanou um _chut_ feroz... No pateo da nossa casa ladravam
+os ces. D'alm do ribeiro respondiam os ces do Joo Saranda. Como me
+encontrei descendo por uma quelha, sob as ramadas, com o meu varapau ao
+hombro? E sentia, entre a sda das cortinas, n'um fino ar macio, o
+cheiro das pinhas estalando nas lareiras, o calor dos curraes atravez
+das sebes altas, e o susurro dormente das levadas...
+
+Despertei a um brado que no sahia nem dos eidos, nem das sombras. Era o
+Gran-Duque que se erguera, encolhia furiosamente os hombros:
+
+--No se ouve nada!... S guinchos! E um zumbido! Que massada!... Pois
+uma belleza, a canoneta:
+
+Oh les casquettes,
+Oh les casque-e-e-tes!...
+
+Todos largaram os fios--proclamavam a Gilberte deliciosa. E o mordomo
+bemdito, abrindo largamente os dous batentes, annunciou:
+
+--_Monseigneur est servi_!
+
+Na mesa, que pelo esplendor das orchideas mereceu os louvores ruidosos
+de S. Alteza, fiquei entre o ethereo poeta Dornan e aquelle moo de
+pennugem loura que balouava como uma espiga ao vento. Depois de
+desdobrar o guardanapo, de o accomodar regaladamente sobre os joelhos,
+Dornan desenvencilhou da corrente do relogio uma enorme luneta para
+percorrer o _menu_--que approvou. E inclinando para mim a sua face de
+Apostolo obeso:
+
+--Este Porto de 1834, aqui era casa do Jacintho, deve ser authentico...
+Hein?
+
+Assegurei ao Mestre dos Rythmos que o Porto envelhecra nas adegas
+classicas do av Galio. Elle afastou, n'uma preparao methodica, os
+longos, densos fios do bigode que lhe cobriam a bocca grossa. Os
+escudeiros serviram um consomm frio com trufas. E o moo cr de milho,
+que espalhra pela mesa o seu olhar azul e dce, murmurou, com uma
+desconsolao risonha:
+
+--Que pena!... S falta aqui um general e um bispo!
+
+Com effeito! Todas as Classes Dominantes comiam n'esse momento as trufas
+do meu Jacintho... Mas defronte Madame d'Oriol lanra um riso mais
+cantado que um gorgeio. O Gran-Duque, n'uma silva de orchideas que
+orlava o seu talher, notra uma, sombriamente horrenda, semelhante a um
+lacrau esverdinhado, de azas lustrosas, gordo e tumido de veneno: e
+muito delicadamente offertra a flr monstruosa a Madame d'Oriol, que,
+com trinado riso, solemnemente, a collocou no seio. Collado quella
+carne macia, d'uma brancura de nata fina, o lacrau inchra, mais verde,
+com as azas frementes. Todos os olhos se accendiam, se cravavam no lindo
+peito, a que a flr disforme, de cr venenosa, apimentava o sabor. Ella
+reluzia, triumphava. Para ageitar melhor a orchidea os seus dedos
+alargaram o decote, aclararam bellezas, guiando aquellas curiosidades
+flammejantes que a despiam. A face vincada de Jacintho pendia para o
+prato vasio. E o alto lyrico do _Crepusculo Mystico_, passando a mo
+pelas barbas, rosnou com desdem:
+
+--Bella mulher... Mas ancas seccas, e aposto que no tem nadegas!
+
+No emtanto o moo de loura pennugem voltra sua estranha mgoa. No
+possuirmos um general com a sua espada, e um bispo com seu baculo!...
+
+--Para que, meu caro senhor?
+
+Elle atirou um gesto suave em que todos os seus anneis faiscaram:
+
+--Para uma bomba de dynamite... Temos aqui um explendido ramalhete de
+flres de Civilisaco, com um Gran-Duque no meio. Imagine uma bomba de
+dynamite, atirada da porta!... Que bello fim de ceia, n'um fim de
+seculo!
+
+E como eu o considerava assombrado, elle, bebendo golos de
+Chateau-Yquem, declarou que hoje a unica emoo, verdadeiramente fina,
+seria aniquillar a Civilisao. Nem a sciencia, nem as artes, nem o
+dinheiro, nem o amor, podiam j dar um gosto intenso e real s nossas
+almas saciadas. Todo o prazer que se extrahra de _crear_ estava
+esgotado. S restava, agora, o divino prazer de _destruir_!
+
+Desenrolou ainda outras enormidades, com um riso claro nos olhos claros.
+Mas eu no attendia o gentil pedante, colhido por outro
+cuidado--reparando que em torno, subitamente, todo o servio estacra
+como no conto do Palacio Petrificado. E o prato agora devido era o peixe
+famoso da Dalmacia, o peixe de S. Alteza, o peixe inspirador da festa!
+Jacintho, nervoso, esmagava entre os dedos uma flr. E todos os
+escudeiros sumidos!
+
+Felizmente o Gran-Duque contava a historia d'uma caada, nas coutadas de
+Sarvan, em que uma senhora, mulher de um banqueiro, saltra bruscamente
+do cavallo, n'um descampado, sem arvores. Elle e todos os caadores
+param--e a galante senhora, livida, com a amazona arregaada, corre para
+traz d'uma pedra... Mas nunca soubemos em que se occupava a banqueira,
+n'esse descampado, agachada atraz da pedra--porque justamente o mordomo
+appareceu, relusente de suor, e balbuciou uma confidencia a Jacintho,
+que mordeu o beio, trespassado. O Gran-Duque emmudecera. Todos se
+entre-olhavam, n'uma anciedade alegre. Ento o meu Principe, com
+paciencia, com heroicidade, forando pallidamente o sorriso:
+
+--Meus amigos, ha uma desgraa...
+
+Dornan pulou na cadeira:
+
+--Fogo?
+
+No, no era fogo. Fra o elevador dos pratos, que inesperadamente, ao
+subir o peixe de S. Alteza, se desarranjra, e no se movia, encalhado!
+
+O Gran-Duque arremessou o guardanapo. Toda a sua polidez estalava como
+um esmalte mal posto:
+
+--Essa forte!... Pois um peixe que me deu tanto trabalho! Para que
+estamos ns aqui ento a cear? Que estupidez! E porque o no trouxeram
+mo, simplesmente? Encalhado... Quero vr! Onde a copa?
+
+E, furiosamente, investiu para a copa, conduzido pelo mordomo que
+tropeava, vergava os hombros, ante esta esmagadora colera de Principe.
+Jacintho seguiu, como uma sombra, levado na rajada de S. Alteza. E eu
+no me contive, tambem me atirei para a copa, a contemplar o desastre,
+emquanto Dornan, batendo na cxa, clamava que se ceasse sem peixe!
+
+O Gran-Duque l estava, debruado sobre o poo escuro do elevador, onde
+mergulhra uma vela que lhe avermelhava mais a face esbraseada.
+Espreitei, por sobre o seu hombro real. Em baixo, na treva, sobre uma
+larga prancha, o peixe precioso alvejava, deitado na travessa, ainda
+fumegando, entre rodellas de limo. Jacintho, branco como a gravata,
+torturava desesperadamente a mola complicada do ascensor. Depois foi o
+Gran-Duque que, com os pulsos cabelludos, atirou um empuxo tremendo aos
+cabos em que elle rolava. Debalde! O apparelho enrijra n'uma inercia de
+bronze eterno.
+
+Sdas roagaram entrada da copa. Era Madame d'Oriol, e atraz Madame
+Verghane, com os olhos a faiscar, na curiosidade d'aquelle lance em que
+o Principe soltra tanta paixo. Marizac, nosso intimo, surgiu tambem,
+risonho, propondo uma descida ao poo com escadas. Depois foi o
+Psychologo, que se abeirou, psychologou, attribuindo intenes sagazes
+ao peixe que assim se recusava. E a cada um o Gran-Duque, escarlate,
+mostrava com dedo tragico, no fundo da cova, o seu peixe! Todos
+afundavam a face, murmuravam: l est! Todelle, na sua precipitao,
+quasi se despenhou. O periquito descendente de Colygny batia as azas,
+ganindo:--Que cheiro elle deita, que delicia! Na copa atulhada os
+decotes das senhoras roavam a farda dos lacaios. O velho caiado de p
+d'arroz metteu o p n'um balde de gelo, com um berro ferino. E o
+Historiador dos Duques d'Anjou movia por cima de todos o seu nariz
+bicudo e triste.
+
+De repente, Todelle teve uma ida!
+
+-- muito simples... pescar o peixe!
+
+O Gran-Duque bateu na cxa uma palmada triumphal. Est claro! Pescar o
+peixe! E no gozo d'aquella facecia, to rara e to nova, toda a sua
+colera se sumra, de novo se tornra o Principe amavel, de magnifica
+polidez, desejando que as senhoras se sentassem para assistir pesca
+miraculosa! Elle mesmo seria o pescador! Nem se necessitava, para a
+divertida faanha, mais que uma bengala, uma guita e um gancho.
+Immediatamente Madame d'Oriol, excitada, offereceu um dos seus ganchos.
+Apinhados em volta d'ella, sentindo o seu perfume, o calor da sua pelle,
+todos exaltamos a amoravel dedicao. E o Psychologo proclamou que nunca
+se pescra com to divino anzol!
+
+Quando dois escudeiros estonteados voltaram, trazendo uma bengala e um
+cordel, j o Gran-Duque, radiante, vergra o gancho em anzol. Jacintho,
+com uma paciencia livida, erguia uma lampada sobre a escurido do poo
+fundo. E os senhores mais graves, o Historiador, o director do
+_Boulevard_, o Conde de Treves, o homem de cabea Van-Dick, sorriam,
+amontoados porta, n'um interesse reverente pela phantasia de S.
+Alteza. Madame de Treves, essa, examinava serenamente, com a sua nobre
+luneta, a installao da copa. S Dornan no se erguera da mesa, com os
+punhos cerrados sobre a toalha, o gordo pescoo encovado, no tedio
+sombrio de fera a quem arrancaram a posta.
+
+No emtanto S. Alteza pescava com fervor! Mas debalde! O gancho, pouco
+agudo, sem presa, bamboleando na extremidade da guita frouxa, no
+fisgava.
+
+--Oh Jacintho, erga essa luz! gritava elle, inchado e suado. Mais!...
+Agora! Agora! na guelra! S na guelra que o gancho o pde prender.
+Agora... Qual! Que diabo! No vae!
+
+Tirou a face do poo, resfolgando e affrontado. No era possivel! S
+carpinteiros, com alavancas!... E todos, anciosamente, bradamos que se
+abandonasse o peixe!
+
+O Principe, risonho, sacudindo as mos, concordava que por fim fra
+mais divertido pescal-o do que coml-o! E o elegante bando refluiu
+sofregamente para a mesa, ao som d'uma valsa de Strauss, que os Tziganes
+arremearam em arcadas de languido ardr. S Madame de Treves se demorou
+ainda, retendo o meu pobre Jacintho, para lhe assegurar quanto admirava
+o arranjo da sua copa... Oh perfeita! Que comprehenso da vida, que fina
+intelligencia do conforto!
+
+S. Alteza, encalmado pelo esforo, esvasiou poderosamente dous copos de
+Chateau-Lagrange. Todos o acclamavam como um pescador genial. E os
+escudeiros serviram o _Baro de Pauillac_, cordeiro das lezirias
+marinhas, que, preparado com ritos quasi sagrados, toma este grande nome
+sonoro e entra no Nobiliario de Frana.
+
+Eu comi com o appetite d'um heroe de Homero. Sobre o meu copo e o de
+Dornan o Champagne scintillou e jorrou ininterrompidamente como uma
+fonte de inverno. Quando se serviram ortolans gelados, que se derretiam
+na bocca, o divino poeta murmurou, para meu regalo, o seu soneto sublime
+a Santa Clara. E como, do outro lado, o moo de pennugem loura
+insistia pela destruio do velho mundo, tambem concordei, e, sorvendo o
+Champagne coalhado em sorvete, maldissemos o Seculo, a Civilisao,
+todos os orgulhos da Sciencia! Atravs das flres e das luzes, no
+emtanto, eu seguia as ondas arfantes do vasto peito de Madame Verghane,
+que ria como uma bacchante. E nem me apiedava de Jacintho que, com a
+doura de S. Jacintho sobre o cpo, esperava o fim do seu martyrio e da
+sua festa.
+
+Ella findou. Ainda recordo, s tres horas da noite, o Gran-Duque na
+antecamara, muito vermelho, mal firme nos ps pequeninos, sem acertar
+com as mangas da pelissa que Jacintho e eu lhe ajudamos a
+enfiar--convidando o meu amigo, n'uma effuso carinhosa, a ir caar s
+suas terras da Dalmacia...
+
+--Devo ao meu Jacintho uma bella pesca, quero que elle me deva uma bella
+caada!
+
+E emquanto o acompanhavamos, entre as alas dos escudeiros, pela vasta
+escada onde o mordomo o precedia erguendo um candelabro de tres lumes,
+S. Alteza repisava, pegajoso:
+
+--Uma bella caada... E tambem vae Fernandes! Bom Fernandes, Z
+Fernandes! Ceia superior, meu Jacintho! O _Baro de Pauillac_,
+divino!... Creio que o devemos nomear Duque... O Senhor Duque de
+Pauillac! Mais um bocado da perna do Senhor Duque de Pauillac. Ah!
+Ah!... No venham fra! No se constipem!
+
+E do fundo do coup, ao rodar, ainda bradou:
+
+--O peixe, Jacintho, desencalha o peixe! Excellente, ao almoo, frio,
+com mlho verde!
+
+Trepando canadamente os degraus, n'uma molleza de Champagne e somno em
+que os olhos se me cerravam, murmurei para o meu Principe:
+
+--Foi divertido, Jacintho! Sumptuosa mulher, a Verghane! Grande pena, o
+elevador...
+
+E Jacintho, n'um som cavo que era bocejo e rugido:
+
+--Uma massada! E tudo falha!
+
+ * * * * *
+
+Tres dias depois d'esta festa no 202 recebeu o meu Principe
+inesperadamente, de Portugal, uma nova consideravel. Sobre a sua quinta
+e solar de Tormes, por toda a serra, passra uma tormenta devastadora de
+vento, corisco e agua. Com as grossas chuvas, ou por outras causas que
+os peritos diro (como exclamava na sua carta angustiada o procurador
+Silverio), um pedao de monte, que se avanava em socalco sobre o valle
+da Carria, desabra, arrastando a velha egreja, uma egrejinha rustica
+do seculo XVI, onde jaziam sepultados os avs de Jacintho desde os
+tempos de el-rei D. Manoel. Os ossos veneraveis d'esses Jacinthos jaziam
+agora soterrados sob um monto informe de terra e pedra. O Silverio j
+comera com os moos da quinta a desatulhar dos preciosos restos. Mas
+esperava anciosamente as ordens de sua exc.^a...
+
+Jacintho empallidecra, impressionado. Esse velho solo serrano, to rijo
+e firme desde os Godos, que de repente ruia! Esses jazigos de paz
+piedosa, precipitados com fragor, na borrasca e na treva, para um negro
+fundo de valle! Essas ossadas, que todas conservavam um nome, uma data,
+uma historia, confundidas n'um lixo de ruina!
+
+--Coisa estranha, coisa estranha!...
+
+E toda a noite me interrogou cerca da serra e de Tormes, que eu
+conhecia desde pequeno, por que o velho solar, com a sua nobre alameda
+de faias seculares, se erguia a duas legoas da nossa casa, no antigo
+caminho de Guies estao e ao rio. O caseiro de Tormes, o bom
+Melchior, era cunhado do nosso feitor da Roqueirinha:--e muitas vezes,
+depois da minha intimidade com Jacintho, eu entrra no robusto casaro
+de granito, e avalira o gro espalhado pelas salas sonoras, e provra o
+vinho novo nas adegas immensas...
+
+--E a egreja, Z Fernandes?... Entraste na egreja?
+
+--Nunca... Mas era pittoresca, com uma torresinha quadrada, toda negra,
+onde ha muitos annos vivia uma familia de cegonhas... Terrivel
+transtorno para as cegonhas!
+
+--Coisa estranha! murmurava ainda o meu Principe, agourado.
+
+E telegraphou ao Silverio que desatulhasse o valle, recolhesse as
+ossadas, reedificasse a Egreja, e, para esta obra de piedade e
+reverencia, gastasse o dinheiro, sem contar, como a agua d'um rio largo.
+
+
+
+
+V
+
+
+No emtanto Jacintho, desesperado com tantos desastres humilhadores--as
+torneiras que dessoldavam, os elevadores que emperravam, o Vapor que se
+encolhia, a Electricidade que se sumia, decidiu valorosamente vencer as
+resistencias finaes da Materia e da Fora por novas e mais poderosas
+accumulaces de Mechanismos. E n'essas semanas de Abril, emquanto as
+rosas desabrochavam, a nossa agitada casa, entre aquellas quietas casas
+dos Campos-Elyseos que preguiavam ao sol, incessantemente tremeu,
+envolta n'um p de calia e d'empreitada, com o bruto picar de pedra, o
+retininte martelar de ferro. Nos silenciosos corredores, onde me era
+dce fumar antes do almoo um pensativo cigarro, circulavam agora, desde
+madrugada, ranchos d'operarios, de blusas brancas, assobiando o
+_Pett-Bleu_, e intimidando os meus passos quando eu atravessava em
+fralda e chinellas para o banho ou para outros retiros. Apenas se varava
+com pericia algum andaime obstruindo as portas--logo se esbarrava com
+uma pilha de taboas, uma ceira de farramentas ou um balde enorme
+d'argamassa. E os pedaos de soalho levantado mostravam tristemente,
+como n'um cadaver aberto, todos os interiores do 202, a ossatura, os
+sensiveis nervos d'arame, os negros intestinos de ferro fundido.
+
+Cada dia estacava deante do porto alguma lenta carroa, d'onde os
+creados, em mangas de camisa, descarregavam caixotes de madeira, fardos
+de lona, que se despregavam e se descosiam n'uma sala asphaltada, ao
+fundo do jardim, por traz da sebe de lilazes. E eu descia, reclamado
+pelo meu Principe, para admirar uma nova Machina que nos tornaria a vida
+mais facil, estabelecendo d'um modo mais seguro o nosso dominio sobre a
+Substancia. Durante os calores, que apertaram depois da Asceno,
+ensaiamos esperanadamente, para refrescar as aguas mineraes, a
+Soda-Water e os Medocs ligeiros, tres geleiras, que se amontoaram na
+copa successivamente desprestigiadas. Com os morangos novos appareceu um
+instrumentosinho astuto, para lhes arrancar os ps, delicadamente.
+Depois recebemos outro, prodigioso, de prata e crystal, para remexer
+phreneticamente as saladas; e, na primeira vez que o experimentei, todo
+o vinagre esparrinhou sobre os olhos do meu Principe, que fugiu aos
+uivos! Mas elle teimava... Nos actos mais elementares, para alliviar ou
+apressar o esforo, se soccorria Jacintho da Dynamica. E agora era por
+interveno d'uma machina que abotoava as ceroulas.
+
+E simultaneamente, ou em obediencia sua Ida, ou governado pelo
+despotismo do habito, no cessava, ao lado da Mechanica accumulada, de
+accumular Erudio. Oh, a invaso dos livros no 202! Solitarios, aos
+pares, em pacotes, dentro de caixas, franzinos, gordos e repletos de
+auctoridade, envoltos em plebeia capa amarella ou revestidos de
+marroquim e ouro, perpetuamente, torrencialmente, invadiam por todas as
+largas portas a Bibliotheca, onde se estiravam sobre o tapete, se
+repimpavam nas cadeiras macias, se enthronisavam em cima das mesas
+robustas, e sobretudo trepavam contra as janellas, em sofregas pilhas,
+como se, suffocados pela sua propria multido, procurassem com ancia
+espao e ar! Na erudita nave, onde apenas alguns vidros mais altos
+restavam descobertos, sem tapume de livros, perennemente se adensava um
+pensativo crepusculo de outono emquanto fra Junho refulgia. A
+Bibliotheca transbordra atravs de todo o 202! No se abria um armario
+sem que de dentro se despenhasse, desamparada, uma pilha de livros! No
+se franzia uma cortina sem que de traz surgisse, hirta, uma ruma de
+livros! E immensa foi a minha indignao quando uma manh, correndo
+urgentemente, de mos nas alas, encontrei, vedada por uma tremenda
+colleco de Estudos Sociaes, a porta do Water-Closet!
+
+Mais amargamente porm me lembro da noite historica em que, no meu
+quarto, moido e molle d'um passeio a Versalhes, com as palpebras
+poeirentas e meio adormecidas, tive de desalojar do meu leito,
+praguejando, um pavoroso Diccionario de Industria em trinta e sete
+volumes! Senti ento a suprema fartura do livro. Ageitando, com murros,
+os travesseiros, maldisse a Imprensa, a Facundia humana... E j me
+estirra, adormecia, quando topei, quasi parti a preciosa rotula do
+joelho, contra a lombada d'um tomo que velhacamente se aninhra entre a
+parede e os colches. Com furor e um berro empolguei, arremessei o tomo
+affrontoso--que entornou o jarro, inundou um tapete rico de Daghestan. E
+nem sei se depois adormeci--porque os meus ps, a que no sentia nem o
+pisar nem o rumor, como se um vento brando me levasse, continuaram a
+tropear em livros no corredor apagado, depois na areia do jardim que o
+luar branqueava, depois na Avenida dos Campos-Elyseos, povoada e ruidosa
+como n'uma festa civica. E, oh portento! todas as casas aos lados eram
+construidas com livros. Nos ramos dos castanheiros ramalhavam folhas de
+livros. E os homens, as finas damas, vestidos de papel impresso, com
+titulos nos dorsos, mostravam em vez de rosto um livro aberto, a que a
+brisa lenta virava docemente as folhas. Ao fundo, na Praa da Concordia,
+avistei uma escarpada montanha de livros, a que tentei trepar,
+arquejante, ora enterrando a perna em flacidas camadas de versos, ora
+batendo contra a lombada, dura como calhau, de tomos de Exegese e
+Critica. A to vastas alturas subi, para alm da terra, para alm das
+nuvens, que me encontrei, maravilhado, entre os astros. Elles rolavam
+serenamente, enormes e mudos, recobertos por espessas crostas de livros,
+d'onde surdia, aqui e alm, por alguma fenda, entre dois volumes mal
+juntos, um raiosinho de luz suffocada e anciada. E assim ascendi ao
+Paraiso. Decerto era o Paraiso--porque com meus olhos de mortal argila
+avistei o Ancio da Eternidade, aquelle que no tem Manh nem Tarde.
+N'uma claridade que d'elle irradiava mais clara que todas as claridades,
+entre fundas estantes d'ouro abarrotadas de codices, sentado em
+vetustissimos folios, com os flocos das infinitas barbas espalhados por
+sobre resmas de folhetos, brochuras, gazetas e catalogos--o Altissimo
+lia. A fronte super-divina que concebera o Mundo pousava sobre a mo
+super-forte que o Mundo crera--e o Creador lia e sorria. Ousei,
+arrepiado de sagrado horror, espreitar por cima do seu hombro
+coruscante. O livro era brochado, de tres francos... O Eterno lia
+Voltaire, n'uma edio barata, e sorria.
+
+Uma porta faiscou e rangeu, como se alguem penetrasse no Paraiso. Pensei
+que um Santo novo chegra da Terra. Era Jacintho, com o charuto em
+braza, um molho de cravos na lapella, sobraando tres livros amarellos
+que a Princeza de Carman lhe emprestra para lr!
+
+ * * * * *
+
+N'uma d'essas activas semanas, porm, a minha atteno subitamente se
+despegou d'este interessante Jacintho. Hospede do 202, conservava no 202
+a minha mala e a minha roupa: e, acostado bandeira do meu Principe,
+ainda occasionalmente comia do seu caldeiro sumptuoso. Mas a minha
+alma, a minha embrutecida alma, e o meu corpo, o meu embrutecido corpo,
+habitavam ento na rua do Helder, n.^o 16, quarto andar, porta
+esquerda.
+
+Descia eu uma tarde, n'uma leda paz de idas e sensaes, o Boulevard da
+Magdalena, quando avistei, deante da Estao dos Omnibus, rondando no
+asphalto, n'um passo lento e felino, uma creatura secca, muito morena,
+quasi tisnada, com dous fundos olhos taciturnos e tristes, e uma matta
+de cabellos amarellados, toda crespa e rebelde, sob o chapo velho de
+plumas negras. Parei, como colhido por um repuxo nas entranhas. A
+creatura passou--no seu magro rondar de gata negra, sobre um beiral de
+telhado, ao luar de Janeiro. Dous poos fundos no luzem mais negra e
+taciturnamente do que luziam os seus olhos taciturnos e negros. No
+recordo (Deus louvado!) como rocei o seu vestido de sda, lustroso e
+encebado nas pregas; nem como lhe rosnei uma spplica por entre os
+dentes que rangiam; nem como subimos ambos, morosamente e mais
+silenciosos que condemnnados, para um gabinete do Caf Durand, safado e
+mrno. Deante do espelho, a creatura, com a lentido d'um rito triste,
+tirou o chapo e a romeira salpicada de vidrilhos. A sda poida do
+corpete esgarava nos cotovellos agudos. E os seus cabellos eram
+immensos, d'uma dureza e espessura de juba brava, em dous tons
+amarellos, uns mais dourados, outros mais crestados, como a cdea de uma
+torta ao sahir quente do forno.
+
+Com um riso tremulo, agarrei os seus dedos compridos e frios:
+
+--E o nomesinho, hein?
+
+Ella sria, quasi grave:
+
+--Madame Colombe, 16, rua do Helder, quarto andar, porta esquerda.
+
+E eu (miseravel Z Fernandes!) tambem me senti muito srio, trespassado
+por uma emoo grave, como se nos envolvesse, n'aquella alcva de Caf,
+a magestade d'um Sacramento. porta, empurrada levemente, o creado
+avanou a face nedia. Ordenei uma lagosta, pato com pimentes, e
+Borgonha. E foi smente ao findarmos o pato que me ergui, amarfanhando
+convulsamente o guardanapo, e a tremer lhe beijei a bocca, todo a
+tremer, n'um beijo profundo e terrivel, em que deixei a alma, entre
+saliva e gsto de pimento! Depois, n'uma tipoia aberta, sob um bafo
+molle de leste e de trovoada, subimos a Avenida dos Campos-Elyseos. Em
+frente grade do 202 murmurei, para a deslumbrar com o meu luxo:--Mro
+alli, todo o anno!... E como ao mirar o Palacete, debruada, ella
+rora a matta fulva do pello crespo pela minha barba--berrei
+desesperadamente ao cocheiro; que galopasse para a rua do Helder, n.^o
+16, quarto andar, porta esquerda!
+
+Amei aquella creatura. Amei aquella creatura com Amor, com todos os
+Amores que esto no Amor, o Amor divino, o Amor humano, o Amor bestial,
+como Santo Antonino amava a Virgem, como Romeu amava Julietta, como um
+bode ama uma cabra. Era estupida, era triste. Eu deliciosamente apagava
+a minha alegria na cinza da sua tristeza; e com ineffavel gsto afundava
+a minha razo na densidade da sua estupidez. Durante sete furiosas
+semanas perdi a consciencia da minha personalidade de Z
+Fernandes--Fernandes de Noronha e Sande, de Guies! Ora se me affigurava
+ser um pedao de cra que se derretia, com horrenda delicia, n'um forno
+rubro e rugidor: ora me parecia ser uma faminta fogueira onde
+flammejava, estalava e se consumia um mlho de galhos seccos. D'esses
+dias de sublime sordidez s conservo a impresso d'uma alcva forrada de
+cretones sujos, d'uma bata de l cr de lilaz com sotaches negros, de
+vagas garrafas de cerveja no marmore d'um lavatorio, e d'um corpo
+tisnado que rangia e tinha cabellos no peito. E tambem me resta a
+sensao de incessantemente e com arrobado deleite me despojar,
+arremessar para um regao, que se cavava entre um ventre sumido e uns
+joelhos agudos, o meu relogio, os meus berloques, os meus anneis, os
+meus botes de punho de saphira, e as cento e noventa e sete libras em
+ouro que eu trouxera de Guies n'uma cinta de camura. Do solido,
+decoroso, bem fornecido Z Fernandes, s restava uma carcassa errando
+atravz d'um sonho, com as gambias molles e a baba a escorrer.
+
+Depois, uma tarde, trepando com a costumada gula a escada da rua do
+Helder, encontrei a porta fechada--e arrancado da hombreira aquelle
+carto de _Madame Colombe_ que eu lia sempre to devotamente e que era a
+sua taboleta... Tudo no meu ser tremeu como se o cho de Paris tremesse!
+Aquella era a porta do Mundo que ante mim se fechra! Para alm estavam
+as gentes, as cidades, a vida, Deus e Ella. E eu ficra ssinho,
+n'aquelle patamar do No-ser, fra da porta que se fechra, unico ser
+fra do Mundo! Rolei pelos degraus, com o fragor e a incoherencia d'uma
+pedra, at ao cubiculo da porteira e do seu homem que jogavam as cartas
+em ditosa pachorra, como se to pavoroso abalo no tivesse desmantelado
+o Universo!
+
+--Madame Colombe?
+
+A barbuda comadre recolheu lentamente a vaza:
+
+--Ja no mora... Abalou esta manh, para outra terra, com outra porca!
+
+Para outra terra! com outra porca!... Vasio, negramente vasio de todo o
+pensar, de todo o sentir, de todo o querer--boiei aos tombos, como um
+tonel vasio, na corrente aodada do Boulevard, at que encalhei n'um
+banco da Praa da Magdalena, onde tapei com as mos, a que no sentia a
+febre, os olhos a que no sentia o pranto! Tarde, muito tarde, quando j
+se cerravam com estrondo as cortinas de ferro das lojas, surdiu, d'entre
+todas estas confusas ruinas do meu ser, a eterna sobrevivente de todas
+as ruinas--a ideia de jantar. Penetrei no Durand, com os passos
+entorpecidos d'um resuscitado. E, n'uma recordao que m'escaldava a
+alma, encommendei a lagosta, o pato, o Borgonha! Mas ao alargar o
+collarinho, ensopado pelo ardor d'aquella tarde de Julho, entre a poeira
+da Magdalena, pensei com desconfrto:--Santissimo Nome de Deus! Que
+immensa sde me fez esta desgraa!... De manso acenei ao moo:--Antes
+do Borgonha, uma garrafa de Champagne, com muito glo, e um grande
+copo!... Creio que aquelle Champagne se engarrafra no Ceu onde corre
+perennemente a fresca fonte da Consolao, e que na garrafa bemdita que
+me coube penetrra, antes d'arrolhada, um jorro largo d'essa fonte
+inneffavel. Jesus! que transcendente regalo, o d'aquelle nobre copo,
+embaciado, nevado, a espumar, a picar, n'um brilho d'ouro! E depois,
+garrafa de Borgonha! E depois, garrafa de Cognac! E depois
+Hortel-Pimenta granitada em glo! E depois um desejo arquejante de
+espancar, com o meu rijo marmelleiro de Guies, a porca que fugira com
+outra porca! Dentro da tipoia fechada, que me transportou n'um galope ao
+202, no suffoquei este santo impulso, e com os meus punhos serranos
+atirei murros retumbantes contra as almofadas, onde _via_, furiosamente
+_via_ a matta immensa de pello amarello, em que a minha alma uma tarde
+se perdera, e tres mezes se debatera, e para sempre se emporcalhra!
+Quando o fiacre estacou no 202 ainda eu espancava to desesperadamente a
+besta ingrata, que, aos berros do cocheiro, dous moos accudiram e me
+sustiveram, recebendo pelos hombros, sobre as nucas servis, os restos
+canados da minha colera.
+
+Em cima, repelli a sollicitude do Grillo que tentava impr ao _si_ Z
+Fernandes, a Z Fernandes de Guies, a immensa indignidade d'um ch de
+macella! E estirado no leito de D. Galio, com as botas sobre o
+travesseiro, o chapo alto sobre os olhos, ri, n'um doloroso riso,
+d'este Mundo burlesco e sordido de Jacinthos e de Colombes! E de repente
+senti uma angustia horrenda. Era Ella! Era a Madame Colombe, que
+esfuzira da chamma da vela, e saltra sobre o meu leito, e desabotora
+o meu collete, e arrombra as minhas costellas, e toda ella, com as
+saias sujas, mergulhra dentro do meu peito, e abocra o meu corao, e
+chupava a sorvos lentos, como na rua do Helder, o sangue do meu corao!
+Ento, certo da Morte, ganindo pela tia Vicencia, pendi do leito para
+mergulhar na minha sepultura, que, atravs da nevoa final, eu distinguia
+sobre o tapete--redondinha, vidrada, de porcelana e com aza. E, sobre a
+minha sepultura, que to irreverentemente se assimilhava ao meu vaso,
+vomitei o Borgonha, vomitei o pato, vomitei a lagosta. Depois, n'um
+esforo ultra-humano, com um rugido, sentindo que, no smente toda a
+entranha, mas a alma se esvasiava toda, vomitei Madame Colombe! Recahi
+sobre o leito de D. Galio... Recarreguei o chapo sobre os olhos para
+no sentir os raios do sol. Era um sol novo, um sol espiritual, que se
+erguia sobre a minha vida. E adormeci, como uma creancinha docemente
+embalada n'um bero de verga pelo Anjo da Guarda.
+
+De manh, lavei a pelle n'um banho profundo, perfumado com todos os
+aromas do 202, desde folhas de limonete da India at essencia de jasmin
+de Frana: e lavei a alma com uma rica carta da Tia Vicencia, em letra
+farta, contando da nossa casa, e da linda promessa das vinhas, e da
+compota de ginja que nunca lhe sahra to fina, e da alegre fogueira do
+pateo em noite de S. Joo, e da menininha muito gorda e cabelluda que
+vira do ceu para a minha afilhada Joanninha. Depois, janella, bem
+limpo de alma e de corpo, n'uma quinzena de sedinha branca, tomando ch
+de Nap, respirando os rosaes do jardim revividos pela chuva da
+madrugada, considerei, em divertido pasmo, que, durante sete semanas, me
+emporcalhra, na rua do Helder, com um estardalho muito magro e muito
+tisnado! E conclui que padecera d'uma longa sezo, sezo da carne, sezo
+da imaginao, apanhada n'um charco de Paris--n'esses charcos que se
+formam atravs da Cidade com as aguas mortas, os limos, os lixos, os
+tortulhos e os vermes d'uma Civilisao que apodrece.
+
+ * * * * *
+
+Ento, curado, todo o meu espirito, como uma agulha para o Norte, se
+virou logo para o meu complicado Principe, que, nas derradeiras semanas
+da minha infeco sentimental, eu entrevira sempre descahido por cima de
+sophs, ou vagueando atravs da Bibliotheca entre os seus trinta mil
+volumes, com arrastados bocejos de inercia e de vacuidade. Eu, na minha
+pressa indigna, s lhe lanava um distrahido--que isso? Elle, no seu
+moroso desalento, s murmurava um scco-- calor!
+
+E, n'essa manh da minha libertao, ao penetrar antes d'almoo no seu
+quarto, no soph o encontrei enterrado, com o _Figaro_ aberto sobre a
+barriga, a Agenda cahida sobre o tapete, toda a face envolta em sombra,
+e os ps abandonados, n'uma soberana tristeza, ao pedicuro que lhe polia
+as unhas. Decerto o meu olhar reallumiado e repurificado, a brancura das
+minhas flanellas reproduzindo a quietao das minhas sensaes, e a
+segura harmonia em que todo o meu ser visivelmente se movia,
+impressionaram o meu Principe--a quem a melancolia nunca embotava a
+agudeza. Ergueu mollemente um brao molle:
+
+--Ento esse capricho?
+
+Derramei, sobre elle todo o fulgor d'um riso victorioso:
+
+--Morto! E, como o Snr. de Malbrouck, morto e bem enterrado. Jaz! Ou
+antes, rola! Com effeito deve andar agora rolando por dentro do cano do
+esgoto!
+
+Jacintho bocejou, murmurou:
+
+--Este Z Fernandes de Noronha e Sande!...
+
+E, no meu nome, no meu digno nome assim embrulhado n'um bocejo com
+desprendida ironia, se resumiu todo o interesse d'aquelle Principe pela
+suja tormenta em que se debatera o meu corao! Mas no me melindrou
+esse consummado egoismo... Claramente percebia eu que o meu Jacintho
+atravessava uma densa nevoa de tedio, to densa, e elle to afundado na
+sua molle densidade, que as glorias ou os tormentos d'um camarada no o
+commoviam, como muito remotas, intangiveis, separadas da sua
+sensibilidade por immensas camadas de algodo. Pobre Principe da
+Gran-Ventura, tombado para o soph de inercia, com os ps no regao do
+pedicuro! Em que lodoso fastio cahira, depois de renovar to bravamente
+todo o recheio mechanico e erudito do 202, na sua lucta contra a Fora e
+a Materia!--E esse fastio no o escondeu mais do seu velho Z Fernandes
+quando recomeou entre ns a communho de vida e de alma a que eu to
+torpemente me arrancra, uma tarde, deante da Estao dos Omnibus, no
+charco da Magdalena.
+
+No eram certamente confisses enunciadas. O elegante e reservado
+Jacintho no torcia os braos, gemendo--Oh vida maldita! Eram apenas
+expresses saciadas; um gesto de repellir com rancr a importunidade das
+coisas; por vezes uma immobilidade determinada, de protesto, no fundo
+d'um divan, d'onde se no desenterrava, como para um repouso que
+desejasse eterno; depois os bocejos, os cos bocejos com que sublinhava
+cada passo, continuado por fraqueza ou por dever inilludivel; e
+sobretudo aquelle murmurar que se tornra perenne e natural--Para
+que?--No vale a pena!--Que massada!...
+
+Uma noite no meu quarto, descalando as botas, consultei o Grillo:
+
+--Jacintho anda to mucho, to corcunda... Que ser, Grillo?
+
+O venerando preto declarou com uma certeza immensa:
+
+--S. Exc.^a soffre de fartura.
+
+Era fartura! O meu Principe sentia abafadamente a fartura de Paris:--e
+na Cidade, na symbolica Cidade, fra de cuja vida culta e forte (como
+elle outr'ora gritava, illuminado) o homem do seculo XIX nunca poderia
+saborear plenamente a delicia de viver, elle no encontrava agora
+frma de vida, espiritual ou social, que o interessasse, lhe valesse o
+esfro d'uma corrida curta n'uma tipoia facil. Pobre Jacintho! Um
+jornal velho, setenta vezes relido desde a Chronica at aos Annuncios,
+com a tinta delida, as dobras rodas, no enfastiaria mais o Solitario,
+que s possuisse na sua Solido esse alimento intellectual, do que o
+Parisianismo enfastiava o meu doce camarada! Se eu n'esse vero
+capciosamente o arrastava a um Caf-Concerto, ou ao festivo Pavilho
+d'Armenonville, o meu bom Jacintho, collado pesadamente cadeira com um
+maravilhoso ramo de orchideas na casaca, as finas mos abatidas sobre o
+casto da bengala, conservava toda a noite uma gravidade to estafada,
+que eu, compadecido, me erguia, o libertava, gozando a sua pressa em
+abalar, a sua fuga d'ave solta... Raramente (e ento com vehemente
+arranque como quem salta um fosso) descia a um dos seus Clubs, ao fundo
+dos Campos-Elyseos. No se occupara mais das suas Sociedades e
+Companhias, nem dos _Telephones de Constantinopla_, nem das _Religies
+Esotericas_, nem do _Bazar Espiritualista_, cujas cartas fechadas se
+amontoavam sobre a mesa d'ebano, d'onde o Grillo as varria tristemente
+como o lixo d'uma vida finda. Tambem lentamente se despegava de todas as
+suas convivencias. As paginas da Agenda cr de rosa murcha andavam
+desafogadas e brancas. E se ainda cedia a um passeio de Mail-coach, ou a
+um convite para algum Castello amigo dos arredores de Paris, era to
+arrastadamente, com um esforo to saturado ao enfiar o paletot leve,
+que me lembrava sempre um homem, depois d'um gordo jantar de provincia,
+a estalar, que, por pollidez ou em obediencia a um dogma, devesse ainda
+comer uma lampra de ovos!
+
+Jazer, jazer em casa, na segurana das portas bem cerradas e bem
+defendidas contra toda a intruso do mundo, seria uma doura para o meu
+Principe se o seu proprio 202, com todo aquelle tremendo recheio de
+Civilisao, no lhe dsse uma sensao dolorosa de abafamento, de
+atulhamento! Julho escaldava: e os brocados, as alcatifas, tantos moveis
+rolios e ffos, todos os seus metaes e todos os seus livros, to
+espessamente o opprimiam, que escancarava sem cessar as janellas para
+prolongar o espao, a claridade, a frescura. Mas era ento a poeira,
+suja e acre, rolada em bafos mornos, que o enfurecia:
+
+--Oh, este p da Cidade!
+
+--Mas, oh Jacintho, por que no vamos para Fontainebleau, ou para
+Montmorency, ou...
+
+--P'ra o campo? O que! P'ra o campo?!
+
+E na sua face enrugada, atravs d'este berro, lampejava sempre tanta
+indignao, que eu curvava os hombros, humilde, no arrependimento de ter
+affrontosamente ultrajado o Principe que tanto amava. Desventurado
+Principe! Com o seu dourado cigarro d'Yaka a fumegar, errava ento pelas
+salas, lenta e murchamente, como quem vaga em terra alheia sem affeies
+e sem occupaes. Esses desaffeioados e desoccupados passos
+monotonamente o traziam ao seu centro, ao gabinete verde, Bibliotheca
+d'ebano, onde accumulara Civilisao nas maximas propores para gozar
+nas maximas propores a delicia de viver. Espalhava em trno um olhar
+farto. Nenhuma curiosidade ou interesse lhe sollicitavam as mos,
+enterradas nas algibeiras das pantalonas de sda, n'uma inercia de
+derrota. Annulado, bocejava com descoroada molleza. E nada mais
+instructivo e doloroso do que este supremo homem do seculo XIX, no meio
+de todos os apparelhos reforadores dos seus orgos, e de todos os fios
+que disciplinavam ao seu servio as Foras Universaes, e dos seus trinta
+mil volumes repletos do saber dos seculos--estacando, com as mos
+derrotadas no fundo das algibeiras, e exprimindo, na face e na indeciso
+molle d'um bocejo, o embarao de viver!
+
+
+
+
+VI
+
+
+Todas as tardes, cultivando uma d'essas intimidades que entre tudo o que
+cana jmais canam, Jacintho, s quatro horas, com regularidade devota,
+visitava Madame d'Oriol:--por que essa flr de Parisianismo permanecera
+em Paris, mesmo depois do Grand-Prix, a desbotar na calma e no cisco da
+Cidade. N'uma d'essas tardes, porm, o Telephone, anciosamente repicado,
+avisou Jacintho de que a sua dce amiga jantava em Enghien com os
+Trves. (Esses senhores gozavam o seu vero beira do lago, n'uma casa
+toda branca e vestida de rosinhas brancas que pertencia a Ephrain).
+
+Era um domingo silencioso, ennevoado e macio, convidando s
+voluptuosidades da melancolia. E eu (no interesse da minha alma) suggeri
+a Jacintho que subissemos Basilica do _Sacr-Coeur_, em construco
+nos altos de Montmartre.
+
+-- uma secca, Z Fernandes...
+
+--Com mil demonios! Eu nunca vi a Basilica...
+
+--Bem, bem! Vamos Basilica, homem fatal de Noronha e Sande!
+
+E por fim logo que comeamos a penetrar, para alm de S. Vicente de
+Paula, em bairros estreitos e ingremes, d'uma quietao de provincia,
+com muros velhos fechando quintalejos rusticos, mulheres despenteadas
+cozendo soleira das portas, carriolas desatreladas descanando diante
+das tascas, gallinhas soltas picando o lixo, cueiros molhados seccando
+em canas--o meu fastidioso camarada sorriu quella liberdade e singeleza
+das cousas.
+
+A vittoria parou em frente larga rua de escadarias que trepa, cortando
+viellasinhas campestres, at esplanada, onde, envolta em andaimes, se
+ergue a Basilica immensa. Em cada patamar barracas d'arraial devoto,
+forradas de panninho vermelho, transbordavam de Imagens, Bentinhos,
+Crucifixos, Coraes de Jesus bordados a retroz, claros molhos de
+Rosarios. Pelos cantos, velhas agachadas resmungavam a Av-Maria. Dois
+padres desciam, tomando risonhamente uma pitada. Um sino lento tilintava
+na doura cinzenta da tarde. E Jacintho murmurou, com agrado:
+
+-- curioso!
+
+Mas a Basilica em cima no nos interessou, abafada em tapumes e
+andaimes, toda branca e scca, de pedra muito nova, ainda sem alma. E
+Jacintho, por um impulso bem Jacinthico, caminhou gulosamente para a
+borda do terrao, a contemplar Paris. Sob o ceu cinzento, na planicie
+cinzenta, a Cidade jazia, toda cinzenta, como uma vasta e grossa camada
+de calia e telha. E, na sua immobilidade e na sua mudez, algum rolo de
+fumo, mais tenue e ralo que o fumear d'um escombro mal apagado, era todo
+o vestigio visivel da sua vida magnifica.
+
+Ento chasqueei risonhamente o meu Principe. Ahi estava pois a Cidade,
+augusta creao da Humanidade! Eil-a ahi, bello Jacintho! Sobre a crosta
+cinzenta da Terra--uma camada de calia, apenas mais cinzenta! No
+emtanto ainda momentos antes a deixaramos prodigiosamente viva, cheia
+d'um povo forte, com todos os seus poderosos orgos funccionando,
+abarrotada de riqueza, resplandecente de sapiencia, na triumphal
+plenitude do seu orgulho, como Rainha do Mundo coroada de Graa. E agora
+eu e o bello Jacintho trepavamos a uma collina, espreitavamos,
+escutavamos--e de toda a estridente e radiante Civilisao da Cidade no
+percebiamos nem um rumor nem um lampejo! E o 202, o soberbo 202, com os
+seus arames, os seus apparelhos, a pompa da sua Mechanica, os seus
+trinta mil livros? Sumido, esvado na confuso de telha e cinza! Para
+este esvaecimento pois da obra humana, mal ella se comtempla de cem
+metros de altura, arqueja o obreiro humano em to angustioso esforo?
+Hein, Jacintho?... Onde esto os teus Armazens servidos por tres mil
+caixeiros? E os Bancos em que retine o ouro universal? E as Bibliothecas
+atulhadas com o saber dos seculos? Tudo se fundiu n'uma nodoa parda que
+suja a Terra. Aos olhos piscos de um Z Fernandes, logo que elle suba,
+fumando o seu cigarro, a uma arredada collina--a sublime edificao dos
+Tempos no mais que um silencioso monturo da espessura e da cr do p
+final. O que ser ento aos olhos de Deus!
+
+E ante estes clamores, lanados com affavel malicia para espicaar o meu
+Principe, elle murmurou, pensativo:
+
+--Sim, talvez tudo uma illuso... E a Cidade a maior illuso!
+
+To facilmente victorioso redobrei de facundia. Certamente, meu
+Principe, uma Illuso! E a mais amarga, por que o Homem pensa ter na
+Cidade a base de toda a sua grandeza e s n'ella tem a fonte de toda a
+sua miseria. V, Jacintho! Na Cidade perdeu elle a fora e belleza
+harmoniosa do corpo, e se tornou esse ser resequido e escanifrado ou
+obeso e afogado em unto, de ossos molles como trapos, de nervos tremulos
+como arames, com cangalhas, com chins, com dentaduras de chumbo, sem
+sangue, sem febra, sem vio, torto, corcunda--esse ser em que Deus,
+espantado, mal pde reconhecer o seu esbelto e rijo e nobre Ado! Na
+Cidade findou a sua liberdade moral: cada manh ella lhe impe uma
+necessidade, e cada necessidade o arremessa para uma dependencia: pobre
+e subalterno, a sua vida um constante sollicitar, adular, vergar,
+rastejar, aturar; rico e superior como um Jacintho, a Sociedade logo o
+enreda em tradies, preceitos, etiquetas, ceremonias, praxes, ritos,
+servios mais disciplinares que os d'um carcere ou d'um quartel... A sua
+tranquillidade (bem to alto que Deus com elle recompensa os Santos)
+onde est, meu Jacintho? Sumida para sempre, n'essa batalha desesperada
+pelo po, ou pela fama, ou pelo poder, ou pelo gzo, ou pela fugidia
+rodella d'ouro! Alegria como a haver na Cidade para esses milhes de
+seres que tumultuam na arquejante occupao de _desejar_--e que, nunca
+fartando o desejo, incessantemente padecem de desilluso, desesperana
+ou derrota? Os sentimentos mais genuinamente humanos logo na Cidade se
+deshumanisam! V, meu Jacintho! So como luzes que o aspero vento do
+viver social no deixa arder com serenidade e limpidez; e aqui abala e
+faz tremer; e alm brutamente apaga; e adiante obriga a flammejar com
+desnaturada violencia. As amizades nunca passam d'allianas que o
+interesse, na hora inquieta da defeza ou na hora sofrega do assalto, ata
+apressadamente com um cordel apressado, e que estalam ao menor embate da
+rivalidade ou do orgulho. E o Amor, na Cidade, meu gentil Jacintho?
+Considera esses vastos armazens com espelhos, onde a nobre carne d'Eva
+se vende, tarifada ao arratel, como a de vacca! Contempla esse velho
+Deus do Hymeneu, que circula trazendo em vez do ondeante facho da Paixo
+a apertada carteira do Dote! Espreita essa turba que foge dos largos
+caminhos assoalhados em que os Faunos amam as Nymphas na boa lei
+natural, e busca tristemente os recantos lobregos de Sodoma ou de
+Lesbos!... Mas o que a Cidade mais deteriora no homem a Intelligencia,
+por que ou lh'a arregimenta dentro da banalidade ou lh'a empurra para a
+extravagancia. N'esta densa e pairante camada d'Idas e Formulas que
+constitue a atmosphera mental das Cidades, o homem que a respira, n'ella
+envolto, s pensa todos os pensamentos j pensados, s exprime todas as
+expresses j exprimidas:--ou ento, para se destacar na pardacente e
+chata Rotina e trepar ao fragil andaime da gloriola, inventa n'um
+gemente esforo, inchando o craneo, uma novidade disforme que espante e
+que detenha a multido como um mostrengo n'uma Feira. Todos,
+intelectualmente, so carneiros, trilhando o mesmo trilho, balando o
+mesmo balido, com o focinho pendido para a poeira onde pisam, em fila,
+as pgadas pisadas;--e alguns so macacos, saltando no topo de mastros
+vistosos, com esgares e cabriolas. Assim, meu Jacintho, na Cidade,
+n'esta creao to anti-natural onde o solo de pau e feltro e
+alcatro, e o carvo tapa o ceu, e a gente vive acamada nos predios como
+o panninho nas lojas, e a claridade vem pelos canos, e as mentiras se
+murmuram atravs d'arames--o homem apparece como uma creatura
+anti-humana, sem belleza, sem fora, sem liberdade, sem riso, sem
+sentimento, e trazendo em si um espirito que passivo como um escravo
+ou impudente como um histrio... E aqui tem o bello Jacintho o que a
+bella Cidade!
+
+E ante estas encanecidas e veneraveis invectivas, retumbadas
+pontualmente por todos os Moralistas bucolicos, desde Hesiodo, atravez
+dos seculos--o meu Principe vergou a nuca docil, como se ellas
+brotassem, inesperadas e frescas, d'uma Revelao superior, n'aquelles
+cimos de Montmartre:
+
+--Sim, com effeito, a Cidade... talvez uma illuso perversa!
+
+Insisti logo, com abundancia, puchando os punhos, saboreando o meu facil
+philosophar. E se ao menos essa illuso da Cidade tornasse feliz a
+totalidade dos sres, que a manteem... Mas no! S uma estreita e
+reluzente casta goza na Cidade os gozos especiaes que ella cria. O
+resto, a escura, immensa plebe, s n'ella soffre, e com soffrimentos
+especiaes que s n'ella existem! D'este terrao, junto a esta rica
+Basilica consagrada ao Corao que amou o Pobre e por elle sangrou, bem
+avistamos ns o lobrego casario onde a plebe se curva sob esse antigo
+opprobrio de que nem Religies, nem Philosophias, nem Moraes, nem a sua
+propria fora brutal a podero jmais libertar! Ahi jaz, espalhada pela
+Cidade, como esterco vil que fecunda a Cidade. Os seculos rolam; e
+sempre immutaveis farrapos lhe cobrem o corpo, e sempre debaixo d'elles,
+atravs do longo dia, os homens labutaro e as mulheres choraro. E com
+este labor e este pranto dos pobres, meu Principe, se edifica a
+abundancia da Cidade! Eil-a agora coberta de moradas em que elles se no
+abrigam; armazenada de estofos, com que elles se no agasalham;
+abarrotada de alimentos, com que elles se no saciam! Para elles s a
+neve, quando a neve ce, e entorpece e sepulta as creancinhas aninhadas
+pelos bancos das praas ou sob os arcos das pontes de Paris... A neve
+ce, muda e branca na treva: as creancinhas gelam nos seus trapos: e a
+policia, em torno, ronda attenta para que no seja perturbado o tpido
+somno d'aquelles que amam a neve, para patinar nos lagos do Bosque de
+Bolonha com pellias de tres mil francos. Mas qu, meu Jacintho! a tua
+Civilisao reclama insaciavelmente regalos e pompas, que s obter,
+n'esta amarga desharmonia social, se o Capital dr ao Trabalho, por cada
+arquejante esfro, uma migalha ratinhada. Irremediavel , pois, que
+incessantemente a plebe sirva, a plebe pne! A sua esfalfada miseria a
+condio do esplendor sereno da Cidade. Se nas suas tigellas fumegasse a
+justa rao de caldo--no poderia apparecer nas baixellas de prata a
+luxuosa poro de _foie-gras_ e tubaras que so o orgulho da
+Civilisao. Ha andrajos em trapeiras--para que as bellas Madamas
+d'Oriol, resplandecentes de sdas e rendas, subam, em doce ondulao, a
+escadaria da Opera. Ha mos regeladas que se estendem, e beios sumidos
+que agradecem o dom magnanimo d'um _sou_--para que os Ephrains tenham
+dez milhes no Banco de Frana, se aqueam chamma rica da lenha
+aromatica, e surtam de collares de saphiras as suas concubinas, netas
+dos Duques d'Athenas. E um povo chora de fome, e da fome dos seus
+pequeninos--para que os Jacinthos, em janeiro, debiquem, bocejando,
+sobre pratos de Saxe, morangos gelados em Champagne e avivados d'um fio
+d'ether!
+
+--E eu comi dos teus morangos, Jacintho! Miseraveis, tu e eu!
+
+Elle murmurou, desolado:
+
+-- horrivel, comemos d'esses morangos... E talvez por uma illuso!
+
+Pensativamente deixou a borda do terrao, como se a presena da Cidade,
+estendida na planicie, fosse escandalosa. E caminhamos devagar, sob a
+molleza cinzenta da tarde, philosophando--considerando que para esta
+iniquidade no havia cura humana, trazida pelo esforo humano. Ah, os
+Ephrains, os Trves, os vorazes e sombrios tubares do mar humano, s
+abandonaro ou affrouxaro a explorao das Plebes, se uma influencia
+celeste, por milagre novo, mais alto que os milagres velhos, lhes
+converter as almas! O burguez triumpha, muito forte, todo endurecido no
+peccado--e contra elle so impotentes os prantos dos Humanitarios, os
+raciocinios dos Logicos, as bombas dos Anarchistas. Para amollecer to
+duro granito s uma doura divina. Eis pois esperana da terra novamente
+posta n'um Messias!... Um decerto desceu outrora dos grandes Ceus; e,
+para mostrar bem que mandado trazia, penetrou mansamente no mundo pela
+porta d'um curral. Mas a sua passagem entre os homens foi to curta! Um
+meigo sermo n'uma montanha, ao fim d'uma tarde meiga; uma reprehenso
+moderada aos Phariseus que ento redigiam o _Boulevard_; algumas
+vergastadas nos Ephrains vendilhes; e logo, atravs da porta da morte,
+a fuga radiosa para o Paraiso! Esse adoravel filho de Deus teve
+demasiada pressa em recolher a casa de seu Pae! E os homens a quem elle
+incumbira a continuao da sua obra, envolvidos logo pelas influencias
+dos Ephrains, dos Trves, da gente do _Boulevard_, bem depressa
+esqueceram a lio da Montanha e do lago de Tiberiade--e eis que por seu
+turno revestem a purpura, e so Bispos, e so Papas, e se alliam
+oppresso, e reinam com ella, e edificam a durao do seu Reino sobre a
+miseria dos sem-po e dos sem-lar! Assim tem de ser recomeada a obra da
+Redempo. Jesus, ou Guatama, ou Christna, ou outro d'esses filhos que
+Deus por vezes escolhe no seio d'uma Virgem, nos quietos vergeis da
+Asia, dever novamente descer terra de servido. Vir elle, o
+desejado? Porventura j algum grave rei d'Oriente despertou, e olhou a
+estrella, e tomou a myrrha nas suas mos reaes, e montou pensativamente
+sobre o seu dromedario? J por esses arredores da dura Cidade, de noute,
+emquanto Caiphaz e Magdalena ceam lagosta no Paillard, andou um Anjo,
+attento, n'um vo lento, escolhendo um curral? J de longe, sem moo que
+os tanja, na gostosa pressa d'um divino encontro, vem trotando a vacca,
+trotando o burrinho?
+
+--Tu sabes, Jacintho?
+
+No, Jacintho no sabia--e queria accender o charuto. Forneci um
+phosphoro ao meu Principe. Ainda rondamos no terrao, espalhando pelo ar
+outras idas solidas que no ar se desfaziam. Depois penetravamos na
+Basilica--quando um Sachristo nedio, de barrete de velludo, cerrou
+fortemente a porta, e um Padre passou, enterrando na algibeira, com um
+canado gesto final e como para sempre, o seu velho Breviario.
+
+--Estou com uma sde, Jacintho... Foi esta tremenda Philosophia!
+
+Descemos a escadaria, armada em arraial devoto. O meu pensativo camarada
+comprou uma imagem da Basilica. E saltavamos para a vittoria, quando
+alguem gritou rijamente, n'uma surpreza:
+
+--Eh Jacintho!
+
+O meu Principe abriu os braos, tambem espantado:
+
+--Eh Mauricio!
+
+E, n'um alvoroo, atravessou a rua, para um caf, onde, sob o toldo de
+riscadinho, um robusto homem, de barba em bico, remexia o seu absintho,
+com o chapo de palha descahido na nuca, a quinzena solta sobre a camisa
+de sda, sem gravata, como se descanasse n'um banco, entre as sombras
+do seu jardim.
+
+E ambos, apertando as mos, se admiravam d'aquelle encontro, n'um
+domingo de vero, sobre as alturas de Montmartre.
+
+--Oh! eu estou aqui no meu bairro! exclamava alegremente Mauricio. Em
+familia, em chinellos... Ha tres mezes que subi para estes cimos da
+Verdade... Mas tu na Santa Colina, homem profano da planicie e das ruas
+d'Israel!
+
+O meu Principe mostrou o seu Z Fernandes:
+
+--Com este amigo, em peregrinao Basilica... O meu amigo Fernandes
+Lorena... Mauricio de Mayolle, velho camarada.
+
+Mr. de Mayolle (que, pela face larga e nariz nobremente grosso, lembrava
+Francisco de Valois, Rei de Frana) ergueu o seu chapeu de palha. E
+empurrava uma cadeira, insistia que nos accommodassemos para um absintho
+ou para um bock.
+
+--Toma um bock, Z Fernandes! lembrou Jacintho. Tu estavas a ganir com
+sde!
+
+Corri lentamente a lingua sobre os beios, mais scos que pergaminhos:
+
+--Estou a guardar esta sdesinha para logo, para o jantar, com um
+vinhosinho gelado!
+
+Mauricio saudou, com silenciosa admirao, esta minha avisada malicia. E
+immediatamente, para o meu Principe:
+
+--Ha tres annos que te no vejo, Jacintho... Como tem sido possivel,
+n'este Paris que uma aldeola e que tu atravancas?
+
+--A vida, Mauricio, a espalhada vida... Com effeito! Ha tres annos,
+desde a casa dos Lamotte-Orcel. Tu ainda visitas esse santuario?
+
+Mauricio atirou um gesto desdenhoso e largo, que sacudia um mundo:
+
+--Oh! Ha mais d'um anno que me separei d'essa bicharia heretica... Uma
+turba indisciplinada, meu Jacintho! Nenhuma fixidez, um dilletantismo
+estonteado, carencia completa e comica de toda a base experimental...
+Quando tu ias aos Lamotte-Orcel, e Parola do 37, e _Cerveja ideal_,
+o que reinava?...
+
+Jacintho catou lentamente as suas recordaes por entre os pllos do
+bigode:
+
+--Eu sei!... Reinava Wagner e a Mithologia Eddica, e o Raganarock, e as
+Nornas... Muito Pre-Raphaelismo tambem, e Montagna, e Fra-Angelico... Em
+moral, o Renanismo.
+
+Mauricio sacudia os hombros. Oh, tudo isso pertencia a um passado
+archaico, quasi lacustre! Quando Madame de Lamotte-Orcel remobilra a
+sala com velludos Morris, grossas alcachofras sobre tons d'aafro, j o
+Renanismo passra, to esquecido como o Cartesianismo...
+
+--Tu ainda s do tempo do culto do _Eu_?
+
+O meu Principe suspirou risonhamente:
+
+--Ainda o cultivei.
+
+--Pois bem! Logo depois foi o Hartmanismo, o Inconsciente. Depois o
+Nietzismo, o Feudalismo espiritual... Depois grassou o Tolstosmo, um
+furor immenso de renunciamento neo-cenobitico. Ainda me lembro d'um
+jantar em que appareceu um mostrengo d'um slavo, de guedelha sordida,
+que atirava olhos medonhos para o decote da pobre condessa d'Arche, e
+que grunhia com o dedo espetado:--Busquemos a luz, muito por baixo, no
+p da terra!--E sobremeza bebemos delicia da humildade e do
+trabalho servil, com aquelle Champagne Marceaux granitado que a Mathilde
+dava nos grandes dias em copos da frma do San-Gral! Depois veio
+Emersonismo... Mas a praga cruel foi Ibsenismo! Emfim, meu filho, uma
+Babel de Ethicas e Estheticas. Paris parecia demente. J havia uns
+desgarrados que tendiam para o Luciferismo. E amiguinhas nossas,
+coitadas, iam descambando para o Phallismo, uma moxinifada
+mystico-brejeira, prgada por aquelle pobre La Carte que depois se fez
+Monge Branco, e que anda no Deserto... Um horror! E uma tarde, de
+repente, toda esta massa se precipita com ancia para o Ruskinismo!
+
+Eu, agarrado bengala, bem fincada no cho, sentia como um vendaval que
+redemoinhava, me torcia o craneo! E at Jacintho balbuciou, esgazeado:
+
+--O Ruskinismo?
+
+--Sim, o velho Ruskin,... John Ruskin!
+
+O meu ditoso Principe comprehendeu:
+
+--Ah, Ruskin!... _As sete lampadas da Architectura_, _A Cora de
+Oliveira Brava_... o culto da Belleza.
+
+--Sim! O culto da Belleza, confirmou Mauricio. Mas a esse tempo eu,
+enojado, j descera de todas essas nuvens vs... Pisava um cho mais
+seguro, mais fertil.
+
+Deu um sorvo lento ao absintho, cerrando as palpebras. Jacintho
+esperava, com o seu fino nariz dilatado, como para respirar a Flr de
+Novidade que ia desabrochar:
+
+--E ento? ento?...
+
+Mas o outro murmurou, dispersamente, por entre reticencias em que se
+velava:
+
+--Vim para Montmartre... Tenho aqui um amigo, um homem de genio, que
+percorreu toda a India... Viveu com os Toddas, esteve nos mosteiros de
+Garma-Khian e de Dashi-Lumbo, e estudou com Gegen-Chutu no retiro santo
+de Urga... Gegen-Chutu foi a decima-sexta encarnao de Guatama, e era
+portanto um Boddi-sattva... Trabalhamos, procuramos... No so vises.
+Mas factos, experiencias bem antigas, que vem talvez desde os tempos de
+Christna...
+
+Atravs d'estes nomes, que exhalavam um perfume triste de vetustos
+ritos, arredra a cadeira. E de p, deixando cair sobre a mesa,
+distrahidamente, para pagar o absintho, moedas de prata e moedas de
+cobre, murmurava com os olhos descanados em Jacintho, mas perdidos
+n'outra viso:
+
+--Por fim tudo se reduz ao supremo desenvolvimento da Vontade dentro da
+suprema pureza da Vida. toda a sciencia e fora dos grandes mestres
+Hindus... Mas a pureza absoluta da vida, eis a lucta, eis o obstaculo!
+No basta mesmo o Deserto, nem o bosque do mais velho templo no alto
+Thibet... Ainda assim, meu Jacintho, j obtivemos resultados bem
+extranhos. Sabes as experiencias de Tyndall, com as chammas
+sensitivas... O pobre chimico, para demonstrar as vibraes do som,
+tocou quasi s portas da verdade isoterica. Mas qu! homem de sciencia,
+portanto homem d'estupidez, ficou quem, entre as suas placas e as suas
+retortas! Ns fmos alm. Verificmos as _ondulaes da Vontade_! Deante
+de ns, pela expanso da energia do meu companheiro, e em cadencia com o
+seu mandado, uma chamma, a tres metros, ondulou, rastejou, despediu
+linguas ardentes, lambeu uma alta parede, rugiu furiosa e negra,
+resplandeceu direita e silenciosa, e bruscamente abatida em cinza
+morreu!
+
+E o extranho homem, com o chapeu para a nuca, ficou immovel, de braos
+abertos e os olhares esgazeados, como no renovado assombro e no transe
+d'aquelle prodigio. Depois, recahindo no seu modo facil e sereno,
+accendendo de vagar um cigarro:
+
+--Uma d'estas manhs, Jacintho, appareo no 202, para almoar comtigo, e
+levo o meu amigo. Elle s come arrz, uma pouca de salada, e fructa. E
+conversamos... Tu tinhas um exemplar do _Sepher-Zerijah_ e outro do
+_Targum d'Onkelus_. Preciso folhear esses livros.
+
+Apertou a mo do meu Principe, saudou este assombrado Z Fernandes, e
+serenamente seguiu pela quieta rua, com o chapeu de palha para a nuca,
+as mos enterradas nas algibeiras, como um homem natural entre cousas
+naturaes.
+
+--Oh Jacintho! Quem este bruxo? Conta!... Quem elle, santissimo nome
+de Deus?
+
+Recostado na vittoria, ageitando o vinco das calas, o meu Principe
+contou, concisamente. Era um nobre e leal rapaz, muito rico, muito
+intelligente, da antiga casa soberana de Mayolle, descendente dos Duques
+de Septimania... E murmurou, atravs do costumado bocejo:
+
+--O desenvolvimento supremo da vontade!... Theosophia, Buddhismo
+isoterico... Aspiraes, decepes... J experimentei... Uma massada!
+
+Atravessamos, callados, o rumr de Paris, sob a molleza abafada do
+crepusculo de vero, para jantar no Bosque, no Pavilho d'Armenonville,
+onde os Tziganes, avistando Jacintho, tocaram o _Hymno da Carta_ com
+paixo, com langor, n'uma cadencia de _czarda_ dolorosa e aspera.
+
+E eu, desdobrando regaladamente o guardanapo:
+
+--Pois venha agora para a minha rica sde esse vinhosinho gelado!
+Grandemente o mereo, caramba, que superiormente philosophei!... E creio
+que estabeleci definitivamente no espirito do Snr. D. Jacintho o salutar
+horror da cidade!
+
+O meu Principe percorria, catando o bigode, a Lista-dos-Vinhos, em
+quanto o Copeiro, esperava com pensativa reverencia:
+
+--Mande gelar duas garrafas de champagne S.^t Marceaux... Mas antes, um
+Barsac velho, apenas refrescado... Agoa de Evian... No, de Bussang!
+Bem, d'Evian e de Bussang! E, para comear, um bock.
+
+Depois, bocejando, desabotoando lentamente a sobrecasaca cinzenta:
+
+--Pois estou com vontade de construir uma casa nos cimos de Montmartre,
+com um miradouro no alto, todo de vidro e ferro, para descanar de tarde
+e dominar a Cidade...
+
+
+
+
+VII
+
+
+Julho findra com uma chuva refrescante e consoladora:--e eu pensava em
+realisar finalmente a minha romagem s cidades da Europa, sempre
+retardada, atravs da primavera, pelas surprezas do Mundo e da Carne.
+Mas, de repente, Jacintho comeou a rogar e a reclamar que o seu Z
+Fernandes o acompanhasse, todas as tardes, a casa de Madame d'Oriol! E
+eu comprehendi que o meu Principe ( maneira do divino Achilles, que,
+sob a tenda, e junto da branca, insipida e docil Briseis, nunca
+dispensava Patoclo) desejava ter, no retiro do Amor, a presena, o
+confrto e o soccorro da Amizade. Pobre Jacintho! Logo pela manh
+combinava pelo telephone com Madame d'Oriol essa hora de quietao e
+doura. E assim encontravamos sempre a superfina Dama prevenida e
+solitaria n'aquella sala da rua de Lisbonne, onde Jacintho e eu mal
+cabiamos, suffocavamos na confuso, entre os cestos de flres, e os
+ouros rocalhados, e os monstros do Japo, e a galante fragilidade dos
+Saxes, e as pelles de feras estiradas aos ps de sophs adormecedores, e
+os biombos de Aubusson formando alcvas favoraveis e languidas...
+Aninhada n'uma cadeira de bamb lacada de branco, entre almofadas
+aromatisadas de verbena da India, com um romance pousado no regao, ella
+esperava o seu amigo, n'uma certa indolencia passiva e mansa que me
+lembrava sempre o Oriente e um Harem. Mas, pelas frescas sedinhas
+Pompadour, parecia tambem uma marquezinha de Versalhes canada do grande
+seculo; ou ento, com brocados sombrios e largos cintos cravejados, era
+como uma veneziana, preparada para um Doge. A minha intruso, na
+intimidade d'aquellas tardes, no a contrariava--antes lhe trazia um
+vassallo novo, com dous olhos novos para a contemplar. Eu era j o seu
+_cher Fernandez_!
+
+E apenas descerrava os labios avivados de vermelho, semelhantes a uma
+ferida fresca, e comeava a chalrar--logo nos envolvia o burburinho e a
+murmurao de Paris. Ella s sabia chalrar sobre a sua pessoa que era o
+resumo da sua Classe, e sobre a sua existencia que era o resumo do seu
+Paris:--e a sua existencia, desde casada, consistira em ornar com
+suprema sciencia o seu lindo corpo; entrar com perfeio n'uma sala e
+irradiar; remexer em estofos e conferenciar pensativamente com o grande
+costureiro; rolar pelo Bois pousada na sua vittoria como uma imagem de
+cra; decotar e branquear o collo; debicar uma perna de gallinhola em
+mezas de luxo; fender turbas ricas em bailes espessos; adormecer com a
+vaidade esfalfada; percorrer de manh, tomando chocolate, os Echos e
+as Festas do _Figaro_; e de vez em quando murmurar para o marido--Ah,
+s tu?... Alm d'isso, ao lusco-fusco, n'um soph, alguns certos
+suspiros, entre os braos d'alguem a quem era constante. Ao meu
+Principe, n'esse anno, pertencia o soph. E todos estes deveres de
+Cidade e de Casta os cumpria sorrindo. Tanto sorrira, desde casada, que
+j duas prgas lhe vincavam os cantos dos beios, indelevelmente. Mas
+nem na alma, nem na pelle, mostrava outras maculas de fadiga. A sua
+Agenda de Visitas continha mil e tresentos nomes, todos do Nobiliario.
+Atravs, porm, desta fulgurante sociabilidade arranjra no cerebro
+(onde de certo penetrra o p d'arroz que desde o collegio acamava na
+testa) algumas Idas Geraes. Em Politica era pelos Principes; e todos os
+outros horrores, a Republica, o Socialismo, a Democracia que se no
+lava, os sacudia risonhamente, com um bater de leque. Na Semana Santa
+juntava s rendas do chapeu a Cora amarga de espinhos--por serem esses,
+para a gente bem-nascida, dias de penitencia e dr. E, deante de todo o
+Livro ou de todo o Quadro, sentia a emoo e formulava finamente o
+juizo, que no seu Mundo, e n'essa Semana, fsse elegante formular e
+sentir. Tinha trinta annos. Nunca se embarara nos tormentos d'uma
+paixo. Marcava, com rigida regularidade, todas as suas despezas n'um
+Livro de Contas encadernado em pellucia verde-mar. A sua religio intma
+(e mais genuina do que a outra, que a levava todos os domingos missa
+de S. Philippe du Roule) era a Ordem. No inverno, logo que na amavel
+cidade comeavam a morrer de frio, debaixo das pontes, creancinhas sem
+abrigo--ella preparava com commovido cuidado os seus vestidos de
+patinagem. E preparava tambem os de Caridade--porque era boa, e
+concorria para Bazares, Concertos e Tombolas, quando fossem patrocinados
+pelas Duquezas do seu rancho. Depois, na primavera, muito
+methodicamente, regateando, vendia a uma adela os vestidos e as capas de
+inverno. Paris admirava n'ella uma suprema flr de Parisianismo.
+
+Pois respirando esta macia e fina flr passamos ns as tardes d'esse
+julho em quanto as outras flres pendiam e murchavam na calma e no p.
+Mas, na intimidade do seu perfume, Jacintho no parecia encontrar esse
+contentamento d'alma, que entre tudo que cana jmais cana. Era j com
+a paciente lentido com que se sobem todos os Calvarios, os mais bem
+tapetados, que elle subia a escadaria de Madame d'Oriol, to suave e
+orlada de to frescas palmeiras. Quando a appetitosa creatura, com
+dedicao, para o entreter, desdobrava a sua vivacidade como um pavo
+desdobra a cauda, o meu pobre Principe puxava os pllos do bigode
+murcho, na murcha postura de quem, por uma manh de Maio, em quanto os
+melros cantam nas sebes, assiste, n'uma egreja negra, a um responso
+funebre por um Principe. E no beijo que elle chuchurreava sobre a mo da
+sua dce amiga, para se despedir, havia sempre alacridade e allivio.
+
+Mas ao outro dia, ao comear da tarde, depois de errar atravs da
+Bibliotheca e do Gabinete, puxando sem curiosidade a tira do telegrapho,
+atirando algum recado molle pelo telephone, espalhando o olhar
+desalentado sobre o saber immenso dos trinta mil livros, remexendo a
+collina dos Jornaes e Revistas, terminava por me chamar, j com a
+preguia triste da faanha a que se impellia:
+
+--Vamos a casa de Madame d'Oriol, Z Fernandes? Eu tinha marcadas para
+hoje seis ou sete coisas, mas no posso, uma secca! Vamos a casa de
+Madame d'Oriol... Ao menos l, s vezes, ha um bocado de frescura e paz.
+
+E foi n'uma d'essas tardes, em que o meu Principe assim procurava
+desesperadamente um bocado de frescura e paz, que encontramos, ao meio
+da escadaria suave, entre as palmeiras, o marido de Madame d'Oriol. Eu
+j o conhecia--porque Jacintho m'o mostrra uma noite, no Grand Caf,
+ceiando com danarinas do _Moulin Rouge_. Era um moo gordalhufo,
+indolente, de uma brancura cra de toucinho, com uma calvice j sria e
+j lustrosa, constantemente acariciada pelos seus gordos dedos
+carregados de anneis. N'essa tarde, porm, vinha vermelho, todo
+emocionado, calando as luvas com colera. Estacou diante de Jacintho--e
+sem mesmo lhe apertar a mo, atirando um gesto para o patamar:
+
+--Visita l acima? Vai achar a Joanna em pessima disposio... Tivemos
+uma scena, e tremenda.
+
+Deu outro puxo desesperado luva cr de palha, j esgaada:
+
+--Estamos separados, cada um vive como lhe appetece, excellente! Mas
+em tudo ha medida e frma... Ella tem o meu nome, no posso consentir
+que em Paris, com conhecimento de todo o Paris, seja a amante do
+trintanario. Amantes na nossa roda, v! Um lacaio, no!... Se quer
+dormir com os creados que emigre para o fundo da provincia, para a sua
+casa de Corbelle. E l at com os animaes!... Foi o que eu lhe disse!
+Ficou como uma fera.
+
+Sacudiu ento a mo do Jacintho que era da sua roda--rebolou pela
+escadaria florida e nobre. O meu Principe, immovel nos degraus, de face
+pendida, cofiava lentamente os fios pendidos do bigode. Depois, olhando
+para mim, como um sr saturado de tedio e em quem nenhum tedio novo pde
+caber:
+
+--J agora subamos, sim?
+
+ * * * * *
+
+Parti ento, com muita alegria, para a minha appetecida romagem s
+Cidades da Europa.
+
+Ia viajar!... Viajei. Trinta e quatro vezes, pressa, bufando, com todo
+o sangue na face, desfiz e refiz a mala. Onze vezes passei o dia n'um
+wagon, envolto em poeirada e fumo, suffocado, a arquejar, a escorrer de
+suor, saltando em cada estao para sorver desesperadamente limonadas
+mornas que me escangalhavam a entranha. Quatorze vezes subi
+derreadamente, atraz de um creado, a escadaria desconhecida d'um Hotel;
+e espalhei o olhar incerto por um quarto desconhecido; e estranhei uma
+cama desconhecida, d'onde me erguia, estremunhado, para pedir em linguas
+desconhecidas um caf com leite que me sabia a fava, um banho de tina
+que me cheirava a ldo. Oito vezes travei bulhas abominaveis na rua com
+cocheiros que me espoliavam. Perdi uma chapelleira, quinze lenos, tres
+ceroulas, e duas botas, uma branca, outra envernizada, ambas do p
+direito. Em mais de trinta mezas-redondas esperei tristonhamente que me
+chegasse o _boeuf-a-la-mode_, j frio, com mlho coalhado--e que o
+copeiro me trouxesse a garrafa de Bordeus que eu provava e repellia com
+desditosa carantonha. Percorri, na fresca penumbra dos granitos e dos
+marmores, com p respeitoso e abafado, vinte e nove Cathedraes. Trilhei
+mollemente, com uma dr surda na nuca, em quatorze muzeus, cento e
+quarenta salas revestidas at aos tectos de Christos, heroes, santos,
+nymphas, princezas, batalhas, architecturas, verduras, nudezes, sombrias
+manchas de betume, tristezas das formas immoveis!... E o dia mais dce
+foi quando em Veneza, onde chovia desabaladamente, encontrei um velho
+inglez de penca flammejante que habitra o Porto, conhecra o Ricardo, o
+Jos Duarte, o Visconde do Bom Successo, e as Limas da Boa Vista...
+Gastei seis mil francos. Tinha viajado.
+
+Emfim, n'uma bemdita manh d'outubro, na primeira friagem e nevoa
+d'outomno, avistei com enternecido alvoroo as cortinas de seda ainda
+fechadas do meu 202! Affaguei o hombro do Porteiro. No patamar, onde
+encontrei o ar macio e tepido que deixra em Florena, apertei os ossos
+do Grillo excellente:
+
+--E Jacintho?
+
+O digno negro murmurou, d'entre os altos, reluzentes collarinhos:
+
+--S. Exc.^a circula... Pesadote, fartote. Entrou tarde do baile da
+Duqueza de Loches. Era o contracto de casamento de Mademoiselle de
+Loches... Ainda tomou antes de se deitar um ch gelado... E disse a
+coar a cabea: Eh! que massada! Eh! que massada!
+
+Depois do banho e do chocolate, s dez horas, consolado e quentinho
+dentro do roupo de velludo, rompi pelo quarto do meu Principe, de
+braos abertos e sedentos:
+
+--Oh Jacintho!
+
+--Oh viajante!...
+
+Quando nos estreitamos, fartamente, eu recuei para lhe contemplar a
+face--e n'ella a alma. Encolhido n'uma quinzena de panno cr de malva
+orlada de pelles de martha, com os pellos do bigode murchos, as suas
+duas rugas mais cavadas, uma molleza nos hombros largos, o meu amigo
+parecia j vergado sob o pezo e a oppresso e o terror do seu dia. Eu
+sorri, para que elle sorrisse:
+
+--Valente Jacintho... Ento como tens vivido?
+
+Elle respondeu, muito serenamente:
+
+--Como um morto.
+
+Forcei uma gargalhada leve, como se o seu mal fsse leve:
+
+--Aborrecidote, hein?
+
+O meu Principe lanou, n'um gesto to vencido, um _oh_ to cansado--que
+eu compadecido de novo o abracei, o estreitei, como para lhe communicar
+uma parte d'esta alegria solida e pura que recebi do meu Deus!
+
+ * * * * *
+
+Desde essa manh, Jacintho comeou a mostrar claramente,
+escancaradamente, ao seu Z Fernandes, o tdio de que a existencia o
+saturava. O seu cuidado realmente e o seu esfro consistiram ento em
+sondar e formular esse tdio--na esperana de o vencer logo que lhe
+conhecesse bem a origem e a potencia. E o meu pobre Jacintho reproduziu
+a comedia pouco divertida d'um Melancolico que perpetuamente raciocina a
+sua Melancolia! N'esse raciocino, elle partia sempre do facto
+irrecusavel e massio--que a sua vida especial de Jacintho continha
+todos os interesses e todas as facilidades, possiveis no seculo XIX,
+n'uma vida de homem que no um Genio, nem um Santo. Com effeito!
+Apezar do appetite embotado por doze annos de Champagnes e mlhos ricos
+elle conservava a sua rijeza de pinheiro bravo; na luz da sua
+intelligencia no apparecra nem tremor nem morro; a boa terra de
+Portugal, e algumas Companhias macissas, pontualmente lhe forneciam a
+sua doce centena de contos; sempre activas e sempre fieis o cercavam as
+sympathias d'uma Cidade inconstante e chasqueadora; o 202 estourava de
+confrtos; nenhuma amargura de corao o atormentava;--e todavia era um
+Triste. Porque?... E d'aqui saltava, com certeza fulgurante, concluso
+de que a sua tristeza, esse cinzento burel em que a sua alma andava
+amortalhada, no provinham da sua individualidade de Jacintho--mas da
+Vida, do lamentavel, do desastroso facto de Viver! E assim o saudavel,
+intellectual, riquissimo, bem-acolhido Jacintho tombra no Pessimismo.
+
+E um Pessimismo irritado! Porque (segundo affirmava) elle nascera para
+ser to naturalmente optimista como um pardal ou um gato. E, at aos
+doze annos, emquanto fra um bicho superiormente amimado, com a sua
+pelle sempre bem coberta, o seu prato sempre bem cheio, nunca sentira
+fadiga, ou melancolia, ou contrariedade, ou pena--e as lagrimas eram
+para elle to incomprehensiveis que lhe pareciam viciosas. S quando
+crescra, e da animalidade penetrra na humanidade, despontra n'elle
+esse fermento de tristeza, muito tempo indesenvolvido no tumulto das
+primeiras curiosidades, e que depois alastrra, o invadira todo, se lhe
+tornra consubstancial e como o sangue das suas veias. Soffrer portanto
+era inseparavel de Viver. Soffrimentos differentes nos destinos
+differentes da Vida. Na turba dos humanos a angustiada lucta pelo po,
+pelo tecto, pelo lume; n'uma casta, agitada por necessidades mais altas,
+ a amargura das desilluses, o mal da imaginao insatisfeita, o
+orgulho chocando contra obstaculo; n'elle, que tinha os bens todos e
+desejos nenhuns, era o tdio. Miseria do Corpo, tormento da Vontade,
+fastio da Intelligencia--eis a Vida! E agora aos trinta e tres annos a
+sua occupao era bocejar, correr com os dedos desalentados a face
+pendida para n'ella palpar e appetecer a caveira.
+
+Foi ento que o meu Principe comeou a ler apaixonadamente, desde o
+_Ecclesiastes_ at Schopenhauer, todos os lyricos e todos os theoricos
+do Pessimismo. N'estas leituras encontrava a reconfortante comprovao
+de que o seu mal no era mesquinhamente Jacinthico--mas grandiosamente
+resultante d'uma Lei Universal. J ha quatro mil annos, na remota
+Jerusalm, a Vida, mesmo nas suas delicias mais triumphaes, se resumia
+em Illuso. J o Rei incomparavel, de sapiencia divina, summo Vencedor,
+summo Edificador, se enfastiava, bocejava, entre os despojos das suas
+conquistas, e os marmores novos dos seus Templos, e as suas tres mil
+concubinas, e as Rainhas que subiam do fundo da Ethiopia para que elle
+as fecundasse e no seu ventre depozsse um Deus! No ha nada novo sob o
+sol, e a eterna repetio das coisas a eterna repetio dos males.
+Quanto mais se sabe mais se pena. E o justo como o perverso, nascidos do
+p, em p se tornam. Tudo tende ao p ephemero, em Jerusalm e em Paris!
+E elle, obscuro no 202, padecia por ser homem e por viver--como no seu
+throno d'ouro, entre os seus quatro lees d'ouro, o filho magnifico de
+David.
+
+No se separava ento do _Ecclesiastes_. E circulava por Paris trazendo
+dentro do coup Salomo, como irmo de dr, com quem repetia o grito
+desolado que a summa da verdade humana--_Vanitas Vanitatum_! Tudo
+Vaidade! Outras vezes, logo de manh o encontrava estendido no soph,
+n'um roupo de sda, absorvendo Schopenhauer--emquanto o pedicuro,
+ajoelhado sobre o tapete, lhe polia com respeito e pericia as unhas dos
+ps. Ao lado pousava a chavena de Saxe, cheia d'esse caf de Moka
+enviado por emires do Deserto, que no o contentava nunca, nem pela
+fora, nem pelo aroma. A espaos pousava o livro no peito, resvalava um
+olhar compassivo para o pedicuro, como a procurar que dr o
+torturaria--pois que a todo o viver corresponde um soffrer. Decerto o
+remexer assim, perpetuamente, em ps alheios... E quando o pedicuro se
+erguia, Jacintho abria para elle um sorriso de confraternidade--com um
+adeus, meu amigo que era um adeus, meu irmo!
+
+Esse foi o periodo esplendido e soberbamente divertido do seu tdio.
+Jacintho encontrra emfim na vida uma occupao grata--maldizer a Vida!
+E para que a podsse maldizer em todas as suas frmas, as mais ricas, as
+mais intellectuaes, as mais puras, sobrecarregou a sua vida propria de
+novo luxo, de interesses novos d'espirito, e at de fervores
+humanitarios, e at de curiosidades supernaturaes.
+
+O 202, n'esse inverno, refulgiu de magnificencia. Foi ento que elle
+iniciou em Paris, repetindo Heliogabalo, os Festins de Cr contados na
+Historia Augusta: e offereceu s suas amigas esse sublime jantar cr de
+rosa, em que tudo era roseo, as paredes, os moveis, as luzes, as louas,
+os crystaes, os gelados, os Champagnes, e at (por uma inveno da
+Alta-Cozinha) os peixes, e as carnes, e os legumes, que os escudeiros
+serviam, empoados de p rosado, com librs da cr da rosa, em quanto do
+tecto, d'um velario de seda rosada, cahiam petalas frescas de rosas... A
+Cidade, deslumbrada, clamou--Bravo, Jacintho! E o meu Principe, ao
+rematar a festa fulgurante, plantou deante de mim as mos nas ilhargas e
+gritou triumphalmente:--Hein? Que massada!...
+
+Depois foi o Humanitarismo: e fundou um Hospicio no campo, entre
+jardins, para velhinhos desamparados, outro para creanas debeis beira
+do Mediterraneo. Depois com o major Dorchas, e Mayolle, e o Hind de
+Mayolle penetrou no Theosophismo: e montou tremendas experiencias para
+verificar a mysteriosa _exteriorisao da motilidade_. Depois,
+desesperadamente, ligou o 202 com os fios telegraphicos do _Times_, para
+que no seu gabinete, como n'um corao, palpitasse toda a vida Social da
+Europa.
+
+E a cada um d'estes esforos da elegancia, do humanitarismo, da
+sociabilidade, e da intelligencia indagadora, voltava para mim, de
+braos alegres, com um grito victorioso:--Vs tu, Z Fernandes? Uma
+massada!--Arrebatava ento o seu _Ecclesiastes_, o seu Schopenhauer, e,
+estendido no soph, saboreava voluptuosamente a concordancia da Doutrina
+e da Experiencia. Possuia uma F--o Pessimismo: era um apostolo rico e
+esforado: e tudo tentava, com sumptuosidade, para provar a verdade da
+sua F! Muito gozou n'esse anno o meu desgraado Principe!
+
+No comeo do inverno, porm, notei com inquietao que Jacintho j no
+folheava o _Ecclesiastes_, desleixava Schopenhauer. Nem festas, nem
+Theosophismos, nem os seus Hospicios, nem os fios do _Times_, pareciam
+interessar agora o meu amigo, mesmo como demonstraes gloriosas da sua
+Crena. E a sua abominavel funco de novo se limitou a bocejar, a
+passar os dedos molles sobre a face pendida palpando a caveira.
+Incessantemente alludia morte como a uma libertao. Uma tarde mesmo,
+no melancolico crepusculo da Bibliotheca, antes de refulgirem as luzes,
+consideravelmente me aterrou, fallando n'um tom regelado de mortes
+rapidas, sem dr, pelo choque d'uma vasta pilha electrica ou pela
+violencia compassiva do acido cyanidrico. Diabo! O Pessimismo, que
+apparecera na Intelligencia do meu Principe como um conceito
+elegante--atacra bruscamente a Vontade!
+
+Todo o seu movimento ento foi o d'um boi inconsciente que marcha sob a
+canga e o aguilho. J no esperava da Vida contentamento--nem mesmo se
+lastimava que ella lhe trouxesse tdio ou pena. Tudo indifferente, Z
+Fernandes! E to indifferentemente sahiria sua janella para receber
+uma Cora Imperial offerecida por um Povo--como se estenderia n'uma
+poltrona rta para emmudecer e jazer. Sendo tudo inutil, e no
+conduzindo seno a maior desilluso, que podia importar a mais rutilante
+actividade ou a mais desgostada inercia? O seu gesto constante, que me
+irritava, era encolher os hombros. Perante duas ideias, dois caminhos,
+dois pratos, encolhia os hombros! Que importava?... E no minimo acto,
+raspar um phosphoro ou desdobrar um Jornal, punha uma morosidade to
+desconsolada que todo elle parecia ligado, desde os dedos at alma,
+pelas voltas apertadas d'uma corda que se no via e que o travava.
+
+ * * * * *
+
+Muito desagradavelmente me recordo do dia dos seus annos, a 10 de
+Janeiro. Cdo, de manh, recebra, com uma carta de Madame de Trves, um
+aafate de camelias, azaleas, orchideas e lyrios do valle. E foi este
+mimo que lhe recordou a data consideravel. Soprou sobre as petalas o
+fumo do cigarro e murmurou com um riso de lento escarneo:
+
+--Ento, ha trinta e quatro annos que eu ando n'esta massada?
+
+E como eu propunha que telephonassemos aos amigos para beberem no 202 o
+Champagne do Natalicio--elle recusou, com o nariz enojado. Oh! No!
+Que horrivel scca!... E bradou mesmo para o Grillo:
+
+--Eu hoje no estou em Paris para ninguem. Abalei para o campo, abalei
+para Marselha... Morri!
+
+E a sua ironia no cessou at ao almoo perante os bilhetes, os
+telegrammas, as cartas, que subiam, se arredondavam em collina sobre a
+meza d'ebano, como um preito da Cidade. Outras flres que vieram, em
+vistosos cestos, com vistosos laos, foram por elle comparadas s que se
+depe sobre uma tumba. E apenas se interessou um momento pelo presente
+de Ephraim, uma engenhosa meza, que se abaixava at ao tapete ou se
+alteava at ao tecto--para que, senhor Deus meu?
+
+Depois do almoo, como chovia sombriamente, no arredamos do 202, com os
+ps estendidos ao lume, em preguioso silencio. Eu terminra por
+adormecer beatificamente. Acordei aos passos aodados do Grillo...
+Jacintho, enterrado na poltrona, com umas tesouras, recortava um papel!
+E nunca eu me compadeci d'aquelle amigo, que canra a mocidade a
+accumular todas as noes formuladas desde Aristoteles e a juntar todos
+os inventos realisados desde Tharamenes, como n'essa tarde de festa, em
+que elle, cercado de Civilisao nas maximas propores para gozar nas
+maximas propores a delicia de viver, se encontrava reduzido, junto ao
+seu lar, a recortar papeis com uma tesoura!
+
+O Grillo trazia um presente do Gran-Duque--uma caixa de prata, forrada
+de cedro, e cheia d'um ch precioso, colhido, flr a flr, nas veigas de
+Kiang-Sou por mos puras de virgens, e conduzido atravs da Asia, em
+caravanas, com a venerao d'uma reliquia. Ento, para despertar o nosso
+torpr, lembrei que tomassemos o divino ch--occupao bem harmonica com
+a tarde triste, a chuva grossa alagando os vidros, e a clara chamma
+bailando no fogo. Jacintho accedeu--e um escudeiro acercou logo a meza
+de Ephraim para que ns lhe estreassemos os servios destros. Mas o meu
+Principe, depois de a altear, para meu espanto, at aos crystaes do
+lustre, no conseguiu, apezar de uma suada e desesperada batalha com as
+molas, que a meza regressasse a uma altura humana e cazeira. E o
+escudeiro de novo a levou, levantada como um andaime, chimerica,
+unicamente aproveitavel para o gigante Adamastor. Depois veio a caixa do
+ch entre chaleiras, lampadas, coadores, filtros, todo um fausto de
+alfaias de prata, que communicavam a essa occupao, to simples e dce
+em caza de minha tia, _fazer ch_, a magestade d'um rito. Prevenido pelo
+meu camarada da sublimidade d'aquelle ch de Kiang-Sou, ergui a chavena
+aos labios com reverencia. Era uma infuso descorada que sabia a malva e
+a formiga. Jacintho provou, cuspiu, blasphemou... No tomamos ch.
+
+Ao cabo d'outro pensativo silencio, murmurei, com os olhos perdidos no
+lume:
+
+--E as obras de Tormes? A egreja... J haver egreja nova?
+
+Jacintho retomra o papel e a thesoura:
+
+--No sei... No tornei a receber carta do Silverio... Nem imagino onde
+param os ossos... Que lugubre historia!
+
+Depois chegou a hora das luzes e do jantar. Eu encommendra pelo Grillo
+ao nosso magistral cozinheiro uma larga travessa d'arroz dce, com as
+iniciaes de Jacintho e a data ditosa em canella, moda amavel da nossa
+meiga terra. E o meu Principe meza, percorrendo a lamina de marfim
+onde no 202 se inscreviam os pratos a lapis vermelho, louvou com fervr
+a ideia patriarchal:
+
+--Arrz dce! Est escripto com dois _ss_, mas no tem dvida...
+Excellente lembrana! Ha que tempos no cmo arrz dce!... Desde a
+morte da av.
+
+Mas quando o arrz dce appareceu triumphalmente, que vexme! Era um
+prato monumental, de grande arte! O arrz, massio, moldado em frma de
+pyramide do Egypto, emergia d'uma calda de cereja, e desapparecia sob os
+fructos seccos que o revestiam at ao cimo, onde se equilibrava uma
+cora de Conde feita de chocolate e gomos de tangerina gelada! E as
+iniciaes, a data, to lindas e graves na canella ingenua, vinham
+traadas nas bordas da travessa com violetas pralinadas! Repellimos,
+n'um mudo horror, o prato acanalhado. E Jacintho, erguendo o copo de
+Champagne, murmurou como n'um funeral pago:
+
+--_Ad Manes_, aos nossos mortos!
+
+Recolhemos Bibliotheca, a tomar o caf no conchego e alegria do lume.
+Fra, o vento bramava como n'um rmo serrano: e as vidraas tremiam,
+alagadas, sob as bategas da chuva irada. Que dolorosa noite para os dez
+mil pobres que em Paris erram sem po e sem lar! Na minha aldeia, entre
+crro e valle, talvez assim rugisse a tormenta. Mas ahi cada pobre, sob
+o abrigo da sua telha v, com a sua panella atestada de couves, se
+agacha no seu manto ao calor da lareira. E para os que no tenham lenha
+ou couve, l est o Joo das Quintas, ou a tia Vicencia, ou o abbade,
+que conhecem todos os pobres pelos seus nomes, e com elles contam, como
+sendo dos seus, quando o carro vae ao matto e a fornada entra no frno.
+Ah Portugal pequenino, que ainda s dce aos pequeninos!
+
+Suspirei, Jacintho preguiava. E terminamos por remexer languidamente os
+jornaes que o mordomo trouxera, n'um monte facundo, sobre uma salva de
+prata--jornaes de Paris, jornaes de Londres, Semanarios, Magazines,
+Revistas, Illustraes... Jacintho desdobrava, arremessava: das Revistas
+espreitava o summario, logo farto; s Illustraes rasgava as folhas com
+o dedo indifferente, bocejando por cima das gravuras. Depois, mais
+estirado para o lume:
+
+-- uma scca... No ha que lr.
+
+E de repente, revoltado contra este fastio oppressor que o escravisava,
+saltou da poltrona com um arranque de quem despedaa algemas, e ficou
+erecto, dardejando em torno um olhar imperativo e duro, como se
+intimasse aquelle seu 202, to abarrotado de Civilisao, a que por um
+momento sequer fornecesse sua alma um interesse vivo, sua vida um
+fugitivo gsto! Mas o 202 permaneceu insensivel: nem uma luz, para o
+animar, avivou o seu brilho mudo: s as vidraas tremeram sob o embate
+mais rude de agua e vento.
+
+Ento o meu Principe, succumbido, arrastou os passos at ao seu
+gabinete, comeou a percorrer todos os apparelhos completadores e
+facilitadores da Vida--o seu Telegrapho, o seu Telephone, o seu
+Phonographo, o seu Radiometro, o seu Graphophono, o seu Microphono, a
+sua Machina d'Escrever, a sua Machina de Contar, a sua Imprensa
+Electrica, a outra Magnetica, todos os seus utensilios, todos os seus
+tubos, todos os seus fios... Assim um Supplicante percorre altares
+d'onde espera soccorro. E toda a sua sumptuosa Mechanica se conservou
+rigida, reluzindo frigidamente, sem que uma roda girasse, nem uma lamina
+vibrasse, para entreter o seu Senhor.
+
+S o relogio monumental, que marcava a hora de todas as capitaes e o
+curso de todos os planetas, se compadeceu, batendo a meia-noite,
+annunciando ao meu amigo que mais um Dia partira levando o seu
+pzo--diminuindo esse sombrio pzo da Vida, sob que elle gemia, vergado.
+O Principe da Gran-Ventura, ento, decidiu recolher para a cama--com um
+livro... E durante um momento, estacou no meio da Bibliotheca,
+considerando os seus setenta mil volumes estabelecidos com pompa e
+magestade como Doutores n'um Concilio--depois as pilhas tumultuarias dos
+livros novos que esperavam pelos cantos, sobre o tapete, o repouso e a
+consagrao das estantes d'ebano. Torcendo mollemente o bigode caminhou
+por fim para a regio dos Historiadores: espreitou seculos, farejou
+raas: pareceu attrahido pelo explendor do Imperio Byzantino: penetrou
+na Revoluo Franceza d'onde se arredou desencantado: e palpou com mo
+indeliberada toda a vasta Grecia desde a creao de Athenas at a
+aniquilao de Corintho. Mas bruscamente virou para a fila dos Poetas,
+que reluziam em marroquins claros, mostrando, sobre a lombada, em ouro,
+nos titulos fortes ou languidos, o interior das suas almas. No
+appeteceu nenhuma d'essas seis mil almas--e recuou, desconsolado, at
+aos Biologos... To massia e cerrada era a estante de Biologia que o
+meu pobre Jacintho estarreceu, como ante uma cidadella inaccessivel!
+Rolou a escada--e, fugindo, trepou, at s alturas da Astronomia:
+destacou astros, recollocou mundos: todo um Systema Solar desabou com
+fragor. Aturdido, desceu, comeou a procurar por sobre as rimas das
+obras novas, ainda brochadas, nas suas roupas leves de combate.
+Apanhava, folheava, arremessava: para desentulhar um volume, demolia uma
+torre de doutrinas: saltava por cima dos Problemas, pisava as Religies:
+e relanceando uma linha, esgravatando alm n'um indice, todos
+interrogava, de todos se desinteressava, rolando quasi de rastos, nas
+grossas vagas de tomos que rolavam, sem se poder deter, na ancia de
+encontrar um Livro! Parou ento no meio da immensa nave, de cocoras, sem
+coragem, contemplando aquelles muros todos forrados, aquelle cho todo
+alastrado, os seus setenta mil volumes--e, sem lhes provar a substancia,
+j absolutamente saciado, abarrotado, nauseado pela opresso da sua
+abundancia. Findou por voltar ao monto de jornaes amarrotados, ergueu
+melancholicamente um velho _Diario de Noticias_, e com elle debaixo do
+brao subiu ao seu quarto, para dormir, para esquecer.
+
+
+
+
+VIII
+
+
+Ao fim d'esse inverno escuro e pessimista, uma manh que eu preguiava
+na cama, sentindo atravs da vidraa cheia de sol ainda pallido um bafo
+de Primavera ainda timido--Jacintho assomou porta do meu quarto,
+revestido de flanellas leves, d'uma alvura de aucena. Parou lentamente
+ beira dos colxes, e, com gravidade, como se annunciasse o seu
+casamento ou a sua morte, deixou desabar sobre mim esta declarao
+formidavel:
+
+--Z Fernandes, vou partir para Tormes.
+
+O pulo com que me sentei abalou o rijo leito de pau preto do velho D.
+Galio:
+
+--Para Tormes? Oh Jacintho, quem assassinaste?...
+
+Deleitado com a minha emoo, o Principe da Gran Ventura tirou da
+algibeira uma carta, e encetou estas linhas, j decerto relidas,
+fundamente estudadas:
+
+--Ill.^{mo} e exc.^{mo} snr.--Tenho grande satisfao em communicar a
+v. exc.^a que por toda esta semana devem ficar promptas as obras da
+capella...
+
+-- do Silverio? exclamei.
+
+-- do Silverio. ...as obras da capella nova. Os venerandos restos dos
+excelsos avs de v. exc.^a, senhores de todo o meu respeito, podem pois
+ser em breve trasladados da egreja de S. Jos, onde tm estado
+depositados por bondade do nosso Abbade, que muito se recommenda a v.
+exc.^a... Submisso, aguardo as prestantes ordens de v. exc.^a a respeito
+d'esta magestosa e afflictiva ceremonia...
+
+Atirei os braos, comprehendendo:
+
+--Ah! bem! Queres ir assistir trasladao...
+
+Jacintho sumiu a carta no bolso.
+
+--Pois no te parece, Z Fernandes? No por causa dos outros avs, que
+so ossos vagos, e que eu no conheci. por causa do av Galio...
+Tambem no o conheci. Mas este 202 est cheio d'elle; tu ests deitado
+na cama d'elle; eu ainda uso o relogio d'elle. No posso abandonar ao
+Silverio e aos caseiros o cuidado de o installarem no seu jazigo novo.
+Ha aqui um escrupulo de decencia, de elegancia moral... Emfim, decidi.
+Apertei os punhos na cabea, e gritei--_vou a Tormes_! E vou!... E tu
+vens!
+
+Eu enfiara as chinellas, apertava os cordes do roupo:
+
+--Mas tu sabes, meu bom Jacintho, que a casa de Tormes est
+inhabitavel...
+
+Elle cravou em mim os olhos aterrados.
+
+--Medonha, hein?
+
+--Medonha, medonha, no... uma bella casa, de bella pedra. Mas os
+caseiros, que l vivem ha trinta annos, dormem em catres, comem o caldo
+ lareira, e usam as salas para seccar o milho. Creio que os unicos
+moveis de Tormes, se bem recordo, so um armario, e uma espinetta de
+charo, cxa, j sem teclas.
+
+O meu pobre Principe suspirou, com um gesto rendido em que se abandonava
+ao Destino:
+
+--Acabou!... _Alea jact est!_ E como s partimos para abril, ha tempo de
+pintar, d'assoalhar, d'envidraar... Mando d'aqui de Paris tapetes e
+camas... Um estofador de Lisboa vae depois forrar e disfarar algum
+buraco... Levamos livros, uma machina para fabricar gelo... E mesmo
+uma occasio de pr emfim n'uma das minhas casas de Portugal alguma
+decencia e ordem. Pois no achas? E ento essa! Uma casa que data de
+1410... Ainda existia o Imperio Byzantino!
+
+Eu espalhava, com o pincel, sobre a face, flocos lentos de sabo. O meu
+Principe accendeu muito pensativamente um cigarro; e no se arredou do
+toucador, considerando o meu preparo com uma atteno triste que me
+incommodava. Por fim, como se remoesse uma sentena minha, para lhe
+reter bem a moral e o succo:
+
+--Ento, definitivamente, Z Fernandes, entendes que um dever, um
+absoluto dever, ir eu a Tormes?
+
+Afastei do espelho a cara ensaboada para encarar com divertido espanto o
+meu Principe:
+
+--Oh Jacintho! foi em ti, s em ti que nasceu a ideia d'esse dever! E
+honra te seja, menino... No cedas a ninguem essa honra!
+
+Elle atirou o cigarro--e, com as mos enterradas nas algibeiras das
+pantalonas, vagou pelo quarto, topando nas cadeiras, embicando contra os
+postes torneados do velho leito de D. Galio, n'um balano vago, como
+barco j desamarrado do seu seguro ancoradouro, e sem rumo no mar
+incerto. Depois encalhou sobre a mesa onde eu conservava enfileirada,
+por gradaes de sentimentos, desde o dagarreotypo do pap at
+photographia do _Carocho_ perdigueiro, a galeria da minha Familia.
+
+E nunca o meu Principe (que eu contemplava esticando os suspensorios) me
+pareceu to corcovado, to minguado, como gasto por uma lima que desde
+muito o andasse fundamente limando. Assim viera findar, desfeita em
+Civilisao, n'aquelle super-requintado magricellas sem musculo e sem
+energia, a raa fortissima dos Jacinthos! Esses guedelhudos Jacinthes,
+que nas suas altas terras de Tormes, de volta de bater o moiro no Salado
+ou o castelhano em Valverde, nem mesmo despiam as fuscas armaduras para
+lavrar as suas chans e amarrar a vide ao olmo, edificando o Reino com a
+lana e com a enxada, ambas to rudes e rijas! E agora, alli estava
+aquelle ultimo Jacintho, um Jacinthiculo, com a macia pelle embebida em
+aromas, a curta alma enrodilhada em Philosophias, travado e suspirando
+baixinho na miuda indeciso de viver.
+
+--Oh Z Fernandes, quem esta lavradeirona to rechonchuda?
+
+Estendi o pescoo para a Photographia que elle erguera d'entre a minha
+galeria, no seu honroso caixilho de pellucia escarlate:
+
+--Mais respeito, Snr. D. Jacintho... Um pouco mais de respeito,
+cavalheiro!... minha prima Joanninha, de Sandofim, da Casa da Flr da
+Malva.
+
+--Flr da Malva, murmurou o meu Principe. a casa do Condestavel, de
+Nun'alvares.
+
+--Flr da Rosa, homem! A casa do Condestavel era na Flr da Rosa, no
+Alemtejo... Essa tua ignorancia trapalhona das coisas de Portugal!
+
+O meu Principe deixou escorregar mollemente a photographia da minha
+prima d'entre os dedos molles--que levou face, no seu gesto horrendo
+de palpar atravez da face a caveira. Depois, de repente, com um soberbo
+esforo, em que se endireitou e cresceu:
+
+--Bem! _Alea jacta est!_ Partamos pois para as serras!... E agora nem
+reflexo, nem descano!... obra! E a caminho!
+
+Atirou a mo ao fecho dourado da porta como se fosse o negro loquete que
+abre os Destinos--e no corredor gritou pelo Grillo, com uma larga e
+aodada voz que eu nunca lhe conhecera, e me lembrou a d'um Chefe
+ordenando, n'alvorada, que se levante o Acampamento, e que a Hoste
+marche, com pendes e bagagens...
+
+Logo n'essa manh (com uma actividade em que eu reconheci a pressa
+enjoada de quem bebe oleo-de-ricino), escreveu ao Silverio mandando
+caiar, assoalhar, envidraar o casaro. E depois do almoo appareceu na
+Bibliotheca, chamado violentamente pelo telephone, para combinar a
+remessa de mobilias e confortos, o director da _Companhia Universal de
+Transportes_.
+
+Era um homem que parecia o cartaz da sua Companhia, apertado n'um
+jaqueto de xadrezinho escuro, com polainas de jornada sobre botas
+brancas, uma sacola de marroquim a tiracolo, e na botoeira uma roseta
+multicor resumindo as suas condecoraes exoticas de Madagascar, de
+Nicaragua, da Persia, outras ainda, que provavam a universalidade dos
+seus servios. Apenas Jacintho mencionou Tormes, no Douro...--elle
+logo, atravez d'um sorriso superior, estendeu o brao, detendo outros
+esclarecimentos, na sua intimidade minuciosa com essas regies.
+
+--Tormes... Perfeitamente! Perfeitamente!
+
+Sobre o joelho, na carteira, escrevinhou uma fugidia nota--emquanto eu
+considerava, assombrado, a vastido do seu saber Chorographico, assim
+familiar com os recantos d'uma serra de Portugal e com todos os seus
+velhos solares. J elle atirra a carteira para o bolso... E ns, seus
+caros senhores, no tinhamos seno a encaixotar as roupas, as mobilias,
+as preciosidades! Elle mandaria as suas carroas buscar os caixotes, a
+que poria, em grossa letra, com grossa tinta, o endereo...
+
+--Tormes, perfeitamente! Linha Norte-Hespanha-Medina-Salamanca...
+Perfeitamente! Tormes... Muito pittoresco! E antigo, historico!
+Perfeitamente, perfeitamente!
+
+Desengonou a cabea n'uma venia profundissima--e sahiu da Bibliotheca,
+com passos que devoravam leguas, annunciavam a presteza dos seus
+Transportes.
+
+--V tu, murmurou Jacintho muito serio. Que promptido, que
+facilidade!... Em Portugal era uma tragedia. No ha seno Paris!
+
+Comeou ento no 202 o collossal encaixotamento de todos os confortos
+necessarios ao meu Principe para um mez de serra aspera--camas de penna,
+banheiras de nickel, lampadas Carcel, divans profundos, cortinas para
+vedar as gretas rudes, tapetes para amaciar os soalhos broncos. Os
+sotos, onde se arrecadavam os pesados trastes do av Galio, foram
+esvasiados--porque o casaro medieval de 1410 comportava os trems
+romanticos de 1830. De todos os armazens de Paris chegavam cada manh
+fardos, caixas, temerosos embrulhos que os emmaladores desfaziam,
+atulhando os corredores de montes de palha e de papel pardo, onde os
+nossos passos aodados se enrodilhavam. O cozinheiro, esbaforido,
+organisava a remessa de fornalhas, geleiras, bocaes de trufas, latas de
+conservas, bojudas garrafas de aguas mineraes. Jacintho, lembrando as
+trovoadas da serra, comprou um immenso pra-raios. Desde o amanhecer,
+nos pateos, no jardim, se martellava, se pregava, com vasto fragor, como
+na construco d'uma cidade. E o desfilar das bagagens, atravs do
+porto, lembrava uma pagina de Herodoto contando a marcha dos Persas.
+
+Das janellas, Jacintho com o brao estendido, saboreava aquella
+actividade e aquella disciplina:
+
+--V tu, Z Fernandes, que facilidade!... Sahimos do 202, chegamos
+serra, encontramos o 202. No ha seno Paris!
+
+Recomera a amar a Cidade, o meu Principe, emquanto preparava o seu
+Exodo. Depois de ter, toda a manh, apressado os encaixotadores,
+descortinado confortos novos para o abandonado solar, telephonado gordas
+listas de encommendas a cada loja de Paris--era com delicia que se
+vestia, se perfumava, se floria, se enterrava na vittoria ou saltava
+para a almofada do phaeton, e corria ao Bosque, e saudava a barba
+talmudica do Ephraim, e os bands furiosamente negros da Verghane, e o
+Psychologo de fiacre, e a condessa de Trves na sua nova caleche de
+oito-molas fornecida pelas operaes conjunctas da Bolsa e da alcva.
+Depois arrebanhava amigos para jantares de surpreza no Voisin ou no
+Bignon, onde desdobrava o guardanapo com a impaciencia d'uma fome
+alegre, vigiando fervorosamente que os Bordeus estivessem bem aquecidos
+e os Champagnes bem granitados. E no theatro das _Nouveauts_, no
+_Palais Royal_, nos _Buffos_, ria, batendo na cxa, com encanecidas
+facecias d'encanecidas faras, antiquissimos tregeitos d'antiquissimos
+actores, com que j rira na sua infancia, antes da guerra, sob o segundo
+Napoleo!
+
+De novo, em duas semanas, se abarrotaram as paginas da sua Agenda. A
+magnificencia do seu trage, como imperador Frederico II de Suabia,
+deslumbrou, no baile mascarado da Princesa de Cravon-Rogan (onde tambem
+fui, de moo de forcado.) E na _Associao para o Desenvolvimento das
+Religies Esotericas_ discursou e batalhou bravamente pela construco
+d'um Templo Budhista em Montmartre!
+
+Com espanto meu recomeou tambem a conversar, como nos tempos de Escla,
+da famosa Civilisao nas suas maximas propores. Mandou encaixotar o
+seu velho telescopio para o usar em Tormes. Receei mesmo que no seu
+espirito germinasse a ida de crear, no cimo da serra, uma Cidade com
+todos os seus orgos. Pelo menos no consentia o meu Jacintho que essas
+semanas da silvestre Tormes interrompessem a illimitada accumulao das
+noes--porque uma manh rompeu pelo meu quarto, desolado, gritando que
+entre tantos confortos e frmas de Civilisao esqueceramos os livros!
+Assim era--e que vexame para a nossa Intellectualidade! Mas que livros
+escolher entre os facundos milhares sob que vergava o 202? O meu
+Principe decidiu logo dedicar os seus dias serranos ao estudo da
+Historia Natural--e ns mesmos, immediatamente, deitamos para o fundo
+d'um vasto caixote novo, como lastro, os vinte e cinco tomos de Plinio.
+Despejamos depois para dentro, s braadas, Geologia, Mineralogia,
+Botanica... Espalhamos por cima uma camada aeria de Astronomia. E, para
+fixar bem no caixote estas Sciencias oscillantes, entalamos em redor
+cunhas de Metaphysica.
+
+Mas quando a derradeira caixa, pregada e cintada de ferro, sahiu do
+porto do 202 na derradeira carroa da _Companhia dos Transportes_, toda
+esta animao de Jacintho se abateu como a efervescencia n'um copo de
+Champagne. Era em meados j tepidos de Maro. E de novo os seus
+desagradaveis bocejos atroaram o 202, e todos os sophs rangeram sob o
+peso do corpo que elle lhe atirava para cima, mortalmente vencido pela
+fartura e pelo tedio, n'um desejo de repouso eterno, bem envolto de
+solido e silencio. Desesperei. O que! Aturaria eu ainda aquelle
+Principe palpando amargamente a caveira, e, quando o crepusculo
+entristecia a Bibliotheca, alludindo, n'um tom rouco, doura das
+mortes rapidas pela violencia misericordiosa do acido cyanhidrico? Ah
+no, caramba! E uma tarde em que o encontrei estirado sobre um divan, de
+braos em cruz, como se fosse a sua estatua de marmore sobre o seu
+jazigo de granito, positivamente o abanei com furor, berrando:
+
+--Accorda, homem! Vamos para Tormes! O casaro deve estar prompto, a
+reluzir, a abarrotar de cousas! Os ossos de teus avs pedem repouso, em
+cova sua!... A caminho, a enterrar esses mortos, e a vivermos ns, os
+vivos!... Irra! So cinco de Abril!... o bom tempo da serra!
+
+O meu Principe resurgiu lentamente da inercia de pedra:
+
+--O Silverio no me escreveu, nunca me escreveu... Mas, com effeito,
+deve estar tudo preparado... J l temos certamente creados, o
+cosinheiro de Lisboa... Eu s levo o Grillo, e o Anatole que envernisa
+bem o calado, e tem geito como pedicuro... Hoje Domingo.
+
+Atirou os ps para o tapete, com heroismo:
+
+--Bem, partimos no Sabbado!... Avisa tu o Silverio!
+
+Comeou ento o laborioso e pensativo estudo dos Horarios--e o dedo
+magro de Jacintho, por sobre o mappa, avanando e recuando entre Paris e
+Tormes. Para escolher o salo que deviamos habitar durante a temida
+jornada, duas vezes percorremos o deposito da Estao d'Orleans,
+atolados em lama, atraz do Chefe do Trafico que entontecia. O meu
+Principe recusava este salo por causa da cr tristonha dos estofos;
+depois recusava aquelle por causa da mesquinhez afflictiva do
+Water-Closet! Uma das suas inquietaes era o banho, nas manhs que
+passariamos rolando. Suggeri uma banheira de borracha. Jacintho,
+indeciso, suspirava... Mas nada o aterrou como o trasbordo em Medina del
+Campo, de noite, nas trevas da Velha Castella. Debalde a Companhia do
+Norte de Hespanha e a de Salamanca, por cartas, por telegrammas,
+socegaram o meu camarada, affirmando que, quando elle chegasse no
+comboio de Irun dentro do seu salo, j outro salo ligado ao comboio de
+Portugal esperaria, bem aquecido, bem allumiado, com uma ceia que lhe
+offertava um dos Directores, D. Esteban Castillo, ruidoso e rubicundo
+conviva do 202! Jacintho corra os dedos anciosos pela face:--E os
+saccos, as pelles, os livros, quem os transportaria do salo de Irun
+para o salo de Salamanca? Eu berrava, desesperado, que os carregadores
+de Medina eram os mais rapidos, os mais destros de toda a Europa! Elle
+murmurava:--Pois sim, mas em Hespanha, de noite!... A noite, longe da
+Cidade, sem telephone, sem luz electrica, sem postos de policia, parecia
+ao meu Principe povoada de surprezas e assaltos. S acalmou depois de
+verificar no Observatorio Astronomico, sob a garantia do sabio professor
+Bertrand, que a noite da nossa jornada era de lua cheia!
+
+Emfim, na sexta-feira, findou a tremenda organisao d'aquella viagem
+historica! O sabbado predestinado amanheceu com generoso sol, de
+affagadora doura. E eu acabava de guardar na mala, embrulhadas em papel
+pardo, as photographias das creaturinhas suaves que, n'esses vinte e
+sete mezes de Paris, me tinham chamado _mon petit chou! mon rat
+cheri!_--quando Jacintho rompeu pelo quarto, com um soberbo ramo de
+orchideas na sobrecasaca, pallido e todo nervoso.
+
+--Vamos ao Bosque, por despedida?
+
+Fomos-- grande despedida! E que encanto! At nas almofadas e molas da
+vittoria senti logo uma elasticidade mais emballadora. Depois, pela
+Avenida do Bosque, quasi me pezava no ficar sempiternamente rolando, ao
+trote rimado das eguas perfeitas, no rebrilho rico de metaes e vernizes,
+sobre aquelle macadam mais alisado que marmore, entre to bem regadas
+flres e relvas de to tentadora frescura, cruzando uma Humanidade fina,
+de elegancia bem acabada, que almora o seu chocolate em porcellanas de
+Sevres ou de Minton, sahira d'entre sdas e tapetes de tres mil francos,
+e respirava a belleza de Abril com vagar, requinte e pensamentos
+ligeiros! O Bosque resplandecia n'uma harmonia de verde, azul e ouro.
+Nenhuma cova ou terra solta desalisava as polidas alleas que a Arte
+traou e enroscou na espessura--nenhum esgalho desgrenhado desmanchava
+as ondulaes macias da folhagem que o Estado escva e lava. O piar das
+aves apenas se elevava para espalhar uma graa leve de vida alada;--e
+mais natural parecia, entre o arvoredo sociavel, o ranger das sellas
+novas, onde pousavam, com balano esbelto, as amazonas espartilhadas
+pelo grande Redfern. Em frente ao Pavilho de Armenonville cruzamos
+Madame de Trves, que nos envolveu ambos na caricia do seu sorriso, mais
+avivado quella hora pelo vermelho ainda humido. Logo atraz a barba
+talmudica de Ephraim negrejou, fresca tambem da brilhantine da manh, no
+alto d'um phaeton tilintante. Outros amigos de Jacintho circulavam nas
+Acacias--e as mos que lhe acenavam, lentas e affaveis, calavam luvas
+frescas cr de palha, cr de perola, cr de lilaz. Todelle relampejou
+rente de ns sobre uma grande bycicleta. Dornan, alastrado n'uma cadeira
+de ferro, sob um espinheiro em flr, mamava o seu immenso charuto, como
+perdido na busca de rimas sensuaes e nedias. Adeante foi o Psychologo,
+que nos no avistou, conversando com um requebro melancolico para dentro
+d'um coup que rescendia a alcova, e a que um cocheiro obeso imprimia
+dignidade e decencia. E rolavamos ainda, quando o Duque de Marizac, a
+cavallo, ergueu a bengala, estacou a nossa vittoria para perguntar a
+Jacintho se apparecia noite nos quadros vivos dos Verghanes. O meu
+Principe rosnou um--no, parto para o sul...--que mal lhe passou
+d'entre os bigodes murchos... E Marizac lamentou--porque era uma festa
+estupenda. Quadros vivos da Historia Sagrada e da Historia Romana!...
+Madame Verghane, de Magdalena, de braos ns, peitos ns, pernas nas,
+limpando com os cabellos os ps do Christo!--O Christo, um latago
+soberbo, parente dos Trves, empregado no Ministerio da Guerra, gemendo,
+derreado, sob uma cruz de papelo! Havia tambem Lucrecia na cama, e
+Tarquinio ao lado, de punhal, a puxar os lenoes! E depois ceia, em
+mezas soltas, todos nos seus trajes historicos. Elle j estava
+aparceirado com Madame de Malbe, que era Agrippina! Quadro portentoso
+esse--Agrippina morta, quando Nero a vem contemplar e lhe estuda as
+frmas, admirando umas, desdenhando outras como imperfeitas. Mas, por
+polidez, ficra combinado que Nero admiraria sem reserva todas as frmas
+de Madame de Malbe... Emfim collossal, e estupendamente instructivo!
+
+Acenamos um longo adeus quelle alegre Marizac. E recolhemos sem que
+Jacintho emergisse do silencio enrugado em que se abysmra, com os
+braos rigidamente cruzados, como remoendo pensamentos decisivos e
+fortes. Depois, em frente ao Arco de Triumpho, moveu a cabea, murmurou:
+
+-- muito grave, deixar a Europa!
+
+ * * * * *
+
+Emfim, partimos! Sob a doura do crepusculo que se enublra deixamos o
+202. O Grillo e o Anatole seguiam n'um fiacre atulhado de livros, de
+estojos, de paletots, de impermeaveis, de travesseiras, de agoas
+mineraes, de saccos de couro, de rolos de mantas: e mais atraz um
+omnibus rangia sob a carga de vinte e tres malas. Na Estao, Jacintho
+ainda comprou todos os Jornaes, todas as Illustraes, Horarios, mais
+livros, e um saca-rolhas de frma complicada e hostil. Guiados pelo
+Chefe do Trafico, pelo Secretario da Companhia, occupamos copiosamente o
+nosso salo. Eu puz o meu bonet de sda, calcei as minhas chinellas. Um
+silvo varou a noite. Paris lampejou, fugiu n'um derradeiro claro de
+janellas... Para o sorver, Jacintho ainda se arremessou portinhola.
+Mas rolavamos j na treva da Provincia. O meu Principe ento recahiu nas
+almofadas:
+
+--Que aventura, Z Fernandes!
+
+At Chartres, em silencio, folheamos as Illustraes. Em Orleans, o
+guarda veio arranjar respeitosamente as nossas camas. Derreado com
+aquelles quatorze mezes de Civilisao adormeci--e s acordei em Bordeus
+quando Grillo, zeloso, nos trouxe o nosso chocolate. Fra, uma chuva
+miudinha pingava mollemente d'um espesso ceu de algodo sujo. Jacintho
+no se deitra, desconfiado da aspereza e da humidade dos lenoes. E,
+mettido n'um roupo de flanella branco, com a face arripiada e
+estremunhada, ensopando um bolo no chocolate, rosnava sombriamente:
+
+--Este horror!... E agora com chuva!
+
+Em Biarritz, ambos observamos com uma certeza indolente:
+
+-- Biarritz.
+
+Depois Jacintho, que espreitava pela janella embaciada, reconheceu o
+lento caminhar pernalto, o nariz bicudo e triste, do Historiador Danjon.
+Era elle, o facundo homem, vestido de xadrezinho, ao lado d'uma dama
+rolia que levava pela trella uma cadellinha felpuda. Jacintho baixou a
+vidraa violentamente, berrou pelo Historiador, na ancia de communicar
+ainda, atravs d'elle, com a Cidade, com o 202!... Mas o comboio
+mergulhra na chuva e nevoa.
+
+Sobre a ponte do Bidassoa, antevendo o termo da vida facil, os abrolhos
+da Incivilisao, Jacintho suspirou com desalento:
+
+--Agora adeus, comea a Hespanha!...
+
+Indignado, eu, que j saboreava o generoso ar da terra bemdita, saltei
+para diante do meu Principe, e n'um saracoteio de tremendo salero,
+castanholando os dedos, entoei uma petenera condigna:
+
+A la puerta de mi casa
+Ay Soledad, Soleda... ... ... .
+
+Elle estendeu os braos, supplicante:
+
+--Z Fernandes, tem piedade do enfermo e do triste!
+
+--_Irun_! _Irun_!...
+
+N'essa Irun almoamos com succulencia--por que sobre ns velava, como
+Deusa omnipresente, a Companhia do Norte. Depois el jefe d'Aduana, el
+jefe d'Estacion, preciosamente nos installaram n'outro salo, novo, com
+setins cr d'azeitona, mas to pequeno que uma rica poro dos nossos
+confortos em mantas, livros, saccos e impermeaveis, passou para o
+compartimento do _Sleeping_ onde se repoltreavam o Grillo e o Anatole,
+ambos de bonets escocezes, e fumando gordos charutos.--_Buen viaje_!
+_Gracias_! _Servidores_!--E entramos silvando nos Pyreneos.
+
+Sob a influencia da chuva embaciadora, d'aquellas serras sempre eguaes,
+que se desenrolavam, arripiadas, diluidas na nevoa, resvalei a uma
+somnolencia dce;--e, quando descerrava as palpebras, encontrava
+Jacintho a um canto, esquecido do livro fechado nos joelhos, sobre que
+cruzra os magros dedos, considerando valles e montes com a melancolia
+de quem penetra nas terras do seu desterro! Um momento veio em que,
+arremessando o livro, enterrando mais o chapo molle, se ergueu com
+tanta deciso, que receei detivesse o comboio para saltar estrada,
+correr atravez das Vascongadas e da Navarra, para traz, para o 202!
+Sacudi o meu torpr, exclamei:--oh menino!... No! O pobre amigo ia
+apenas continuar o seu tedio para outro canto, enterrado n'outra
+almofada, com outro livro fechado. E maneira que a escurido da tarde
+crescia, e com ella a borrasca de vento e agoa, uma inquietao mais
+aterrada se apoderava do meu Principe, assim desgarrado da Civilisao,
+arrastado para a Natureza que j o cercava de brutalidade agreste. No
+cessou ento de me interrogar sobre Tormes:
+
+--As noites so horriveis, hein, Z Fernandes? Tudo negro, enorme
+solido... E medico?... Ha medico?
+
+Subitamente o comboio estacou. Mais grossa e ruidosa a chuva fustigou as
+vidraas. Era um descampado, todo em treva, onde rolava e lufava um
+grande vento solto. A machina apitava, com angustia. Uma lanterna
+lampejou, correndo. Jacintho batia o p:-- medonho! medonho!...
+Entreabri a portinhola. Da claridade incerta das vidraas surdiam
+cabeas esticadas, assustadas.--_Que hay_? _Que hay_?--A uma rajada,
+que me alagou, recuei:--e esperamos durante lentos, calados minutos,
+esfregando desesperadamente os vidros embaciados para sondar a
+escurido. De repente o comboio recomeou a rolar, muito sereno.
+
+Em breve appareceram as luzinhas mortas d'uma estao abarracada. Um
+conductor, com o casaco de oleado todo a escorrer, trepou ao salo:--e
+por elle soubemos, emquanto carimbava apressadamente os bilhetes, que o
+trem, muito atrazado, talvez no alcanasse em Medina o comboio de
+Salamanca!
+
+--Mas ento?...
+
+O casaco de oleado escorregra pela portinhola, fundido na noite,
+deixando um cheiro de humidade e azeite. E ns encetamos um novo
+tormento... Se o trem de Salamanca tivesse abalado? O salo, tomado at
+Medina, desengatava em Medina:--e eis os nossos preciosos corpos, com as
+nossas preciosas almas, despejados em Medina, para cima da lama, entre
+vinte e trez malas, n'uma rude confuso hespanhola, sob a tormenta de
+ventania e d'agua!
+
+--Oh, Z Fernandes, uma noite em Medina!
+
+Ao meu Principe apparecia como desventura suprema essa noite em Medina,
+n'uma _fonda_ sordida, fedendo a alho, com gordas filas de percevejos
+atravez dos lenoes d'estopa encardida!... No cessei ento de fitar,
+n'um desassocego, os ponteiros do relogio:--emquanto Jacintho, pela
+vidraa escancarada, todo fustigado da chuva clamorosa, furava a
+negrura, na esperana de avistar as luzes de Medina e um comboio
+paciente fumegando... Depois recahia no divan, limpava os bigodes e os
+olhos, maldizia a Hespanha. O trem arquejava, rompendo o vasto vento da
+planura desolada. E a cada apito era um alvoroo. Medina?... No! Algum
+sumido apeadeiro, onde o trem se atardava, esfalfado, resfolgando,
+emquanto dormentes figuras encarapuadas, embrulhadas em mantas,
+rondavam sob o telheiro do barraco, que as lanternas baas tornavam
+mais soturno. Jacintho esmurrava o joelho:--Mas por que pra este
+infame comboio? No ha trafico, no ha gente! Oh esta Hespanha!... A
+sineta badalava, moribunda. De novo fendiamos a noite e a borrasca.
+
+Resignadamente comecei a percorrer um _Jornal do Commercio_, antigo,
+trazido de Paris. Jacintho esmagava o espesso tapete do salo com
+passadas rancorosas, rosnando como uma fera. E ainda assim se escoou, s
+gottas, uma hora cheia de eternidade.--Um silvo, outro silvo!... Luzes
+mais fortes, longe, palpitaram na neblina. As rodas trilharam, com rijos
+solavancos, os encontros de carris. Emfim, Medina!... Um muro sujo de
+barraco alvejou--e bruscamente, portinhola aberta com violencia,
+apparece um cavalheiro barbudo, de capa hespanhola, gritando pelo snr.
+D. Jacintho!... Depressa! depressa! que parte o comboio de Salamanca!
+
+--Que no hay un momento, caballeros! Que no hay un momento!
+
+Agarro estonteadamente o meu paletot, o _Jornal ao Commercio_. Saltamos
+com ancia:--e, pela plataforma, por sobre os trilhos, atravs de
+charcos, tropeando em fardos, empurrados pelo vento, pelo homem da capa
+ hespanhola, enfiamos outra portinhola, que se fechou com um estalo
+tremendo... Ambos arquejavamos. Era um salo forrado de um panno verde
+que comia a luz escassa. E eu estendia o brao, para receber dos
+carregadores aodados as nossas malas, os nossos livros, as nossas
+mantas--quando, em silencio, sem um apito, o trem despegou e rolou.
+Ambos nos atiramos s vidraas, em brados furiosos:
+
+--Pare! As nossas malas, as nossas mantas!... P'ra aqui!... Oh Grillo!
+Oh Grillo!
+
+Uma immensa rajada levou os nossos brados. Era de novo o descampado
+tenebroso, sob a chuva despenhada. Jacintho ergueu os punhos, n'um furor
+que o engasgava:
+
+--Oh! Que servio! Oh que canalhas!... S em Hespanha!... E agora? As
+malas perdidas!... Nem uma camisa, nem uma escova!
+
+Calmei o meu desgraado amigo:
+
+--Escuta! eu entrevi dous carregadores arrebanhando as nossas cousas...
+Decerto o Grillo fiscalisou. Mas na pressa, naturalmente, atirou com
+tudo para o seu compartimento... Foi um erro no trazer o Grillo
+comnosco, no salo... At podiamos jogar a manilha!
+
+De resto a sollicitude da Companhia, Deusa omnipresente, velava sobre o
+nosso conforto--pois que porta do lavatorio branquejava o cesto da
+nossa ceia, mostrando na tampa um bilhete de D. Esteban com estas doces
+palavras a lapis--_ D. Jacintho y su egregio amigo, que les d gusto_!
+Farejei um aroma de perdiz. E alguma tranquillidade nos penetrou no
+corao sentindo tambem as nossas malas sob a tutella da Deusa
+omnipresente.
+
+--Tens fome Jacintho?
+
+--No. Tenho horror, furor, rancor!... E tenho somno.
+
+Com effeito! depois de to desencontradas emoes s appeteciamos as
+camas que esperavam, macias e abertas. Quando cahi sobre a travesseira,
+sem gravata, em ceroulas, j o meu Principe, que no se despira, apenas
+embrulhra os ps no _meu_ paletot, nosso unico agasalho, resonava com
+magestade.
+
+Depois, muito tarde e muito longe, percebi junto do meu catre, na
+claridadezinha da manh, coada pelas cortinas verdes, uma fardeta, um
+bonet, que murmuravam baixinho com immensa doura:
+
+--V. exc.^as no tem nada a declarar?... No ha malinhas de mo?...
+
+Era a minha terra! Murmurei baixinho com immensa ternura:
+
+--No temos aqui nada... Pergunte v. exc.^a pelo Grillo... Ahi atraz,
+n'um compartimento... Elle tem as chaves, tem tudo... o Grillo.
+
+A fardeta desappareceu, sem rumor, como sombra benefica. E eu readormeci
+com o pensamento em Guies, onde a tia Vicencia, atarefada, de leno
+branco cruzado no peito, de certo j preparava o leito.
+
+Acordei envolto n'um largo e doce silencio. Era uma Estao muito
+socegada, muito varrida, com rosinhas brancas trepando pelas paredes--e
+outras rosas em moitas, n'um jardim, onde um tanquesinho abafado de
+limos dormia sob duas mimosas em flr que rescendiam. Um moo pallido,
+de paletot cr de mel, vergando a bengalinha contra o cho, contemplava
+pensativamente o comboio. Agachada rente grade da horta, uma velha,
+diante da sua cesta de ovos, contava moedas de cobre no regao. Sobre o
+telhado seccavam aboboras. Por cima rebrilhava o profundo, rico e macio
+azul de que meus olhos andavam agoados.
+
+Sacudi violentamente Jacintho:
+
+--Acorda, homem, que ests na tua terra!
+
+Elle desembrulhou os ps do meu paletot, cofiou o bigode, e veio sem
+pressa, vidraa que eu abrira, conhecer a sua terra.
+
+--Ento Portugal, hein?... Cheira bem.
+
+--Est claro que cheira bem, animal!
+
+A sineta tilintou languidamente. E o comboio deslisou, com descano,
+como se passeasse para seu regalo sobre as duas fitas d'ao, assobiando
+e gozando a belleza da terra e do ceu.
+
+O meu Principe alargava os braos, desolado:
+
+--E nem uma camisa, nem uma escova, nem uma gotta d'agoa de Colonia!...
+Entro em Portugal, immundo!
+
+--Na Regoa ha uma demora, temos tempo de chamar o Grillo, rehaver os
+nossos confortos... Olha para o rio!
+
+Rolavamos na vertente d'uma serra, sobre penhascos que desabavam at
+largos socalcos cultivados de vinhedo. Em baixo, n'uma esplanada,
+branquejava uma casa nobre, de opulento repouso, com a capellinha muito
+caiada entre um laranjal maduro. Pelo rio, onde a agoa turva e tarda nem
+se quebrava contra as rochas, descia, com a vela cheia, um barco lento
+carregado de pipas. Para alm, outros socalcos, d'um verde pallido de
+rezeda, com oliveiras apoucadas pela amplido dos montes, subiam at
+outras penedias que se embebiam, todas brancas e assoalhadas, na fina
+abundancia do azul. Jacintho acariciava os pellos corredios do bigode:
+
+--O Douro, hein?... interessante, tem grandeza. Mas agora que eu
+estou com uma fome, Z Fernandes!
+
+Tambem eu! Destapamos o cesto de D. Esteban d'onde surdiu um bodo
+grandioso, de presunto, anho, perdizes, outras viandas frias que o ouro
+de duas nobres garrafas d'Amontillado, alm de duas garrafas de Rioja,
+aqueciam com um calor de sol Andaluz. Durante o presunto, Jacintho
+lamentou contrictamente o seu erro. Ter deixado Tormes, um solar
+historico, assim abandonado e vasio! Que delicia, por aquella manh to
+lustrosa e tepida, subir serra, encontrar a sua casa bem apetrechada,
+bem civilisada... Para o animar, lembrei que com as obras do Silverio,
+tantos caixotes de Civilisao remettidos de Paris, Tormes estaria
+confortavel mesmo para Epicuro. Oh! mas Jacintho entendia um palacio
+perfeito, um 202 no deserto!... E, assim discorrendo, atacamos as
+perdizes. Eu desarrolhava uma garrafa de Amontillado--quando o comboio,
+muito sorrateiramente, penetrou n'uma Estao. Era a Regoa. E o meu
+Principe pousou logo a faca para chamar o Grillo, reclamar as malas que
+traziam o aceio dos nossos corpos.
+
+--Espera, Jacintho! Temos muito tempo, O comboio pra aqui uma hora...
+Come com tranquillidade. No escangalhemos este almocinho com arrumaes
+de maletas... O Grillo no tarda a apparecer.
+
+E corri mesmo a cortina, porque de fra um padre muito alto, com uma
+ponta de cigarro collada ao beio, parra a espreitar indiscretamente o
+nosso festim. Mas quando acabamos as perdizes, e Jacintho confiadamente
+desembrulhava um queijo manchego, sem que Grillo ou Anatole
+comparecessem, eu, inquieto, corri portinhola para apressar esses
+servos tardios... E n'esse instante o comboio, largando, deslisou com o
+mesmo silencio sorrateiro. Para o meu Principe foi um desgosto:
+
+--Ahi ficamos outra vez sem um pente, sem uma escova... E eu que queria
+mudar de camisa! Por culpa tua, Z-Fernandes!
+
+-- espantoso!... Demora sempre uma eternidade. Hoje chega e abala!
+Paciencia, Jacintho. Em duas horas estamos na Estao de Tormes...
+Tambem no valia a pena mudar de camisa para subir serra! Em casa
+tomamos um banho, antes de jantar... J deve estar installada a
+banheira.
+
+Ambos nos consolamos com copinhos d'uma divina aguardente Chinchon.
+Depois, estendidos nos sophs, saboreando os dois charutos que nos
+restavam, com as vidraas abertas ao ar adoravel, conversamos de Tormes.
+Na estao certamente estaria o Silverio, com os cavallos...
+
+--Que tempo leva a subir?
+
+Uma hora. Depois de lavados sobrava tempo para um demorado passeio pelas
+terras com o caseiro, o excellente Melchior, para que o Senhor de
+Tormes, solemnemente, tomasse posse do seu Senhorio. E noite o
+primeiro brodio da serra, com os piteus vernaculos do velho Portugal!
+
+Jacintho sorria, seduzido:
+
+--Vamos a ver que cozinheiro me arranjou esse Silverio. Eu recommendei
+que fosse um soberbo cozinheiro portuguez, classico. Mas que soubesse
+trufar um per, afogar um bife em molho de moella, estas cousas simples
+da cozinha de Frana!... O peor no te demorares, seguires logo para
+Guies...
+
+--Ah, menino, annos da tia Vicencia no sabbado... Dia sagrado! Mas
+volto. Em duas semanas estou em Tormes, para fazermos uma larga
+Bucolica. E, est claro, para assistir trasladao.
+
+Jacintho estendera o brao:
+
+--Que casaro aquelle, alm no outeiro, com a torre?
+
+Eu no sabia. Algum solar de fidalgote do Douro... Tormes era n'esse
+feitio atarracado e massio. Casa de seculos e para seculos--mas sem
+torre.
+
+--E logo se v, da estao, Tormes?...
+
+--No! Muito no alto, n'uma prega da serra, entre arvoredo.
+
+No meu Principe j evidentemente nascra uma curiosidade pela sua rude
+casa ancestral. Mirava o relogio, impaciente. Ainda trinta minutos!
+Depois, sorvendo o ar e a luz, murmurava, no primeiro encanto de
+iniciado:
+
+--Que doura, que paz...
+
+--Trez horas e meia, estamos a chegar, Jacintho!
+
+Guardei o meu velho _Jornal do Commercio_ dentro do bolso do paletot,
+que deitei sobre o brao;--e ambos em p, s janellas, esperamos com
+alvoroo a pequenina Estao de Tormes, termo ditoso das nossas
+provaes. Ella appareceu emfim, clara e simples, beira do rio, entre
+rochas, com os seus vistosos girasoes enchendo um jardimsinho breve, as
+duas altas figueiras assombreando o pateo, e por traz a serra coberta de
+velho e denso arvoredo... Logo na plataforma avistei com gosto a immensa
+barriga, as bochechas menineiras do chefe da Estao, o louro Pimenta,
+meu condiscipulo em Rhetorica, no Lyceu de Braga. Os cavallos decerto
+esperavam, sombra, sob as figueiras.
+
+Mal o trem parou ambos saltamos alegremente. A bojuda massa do Pimenta
+rebolou para mim com amizade:
+
+--Viva o amigo Z Fernandes!
+
+--Oh bello Pimento!...
+
+Apresentei o senhor de Tormes. E immediatamente:
+
+--Ouve l, Pimentinha... No est ahi o Silverio?
+
+--No... O Silverio ha quasi dois mezes que partiu para Castello de
+Vide, vr a me que apanhou uma cornada d'um boi!
+
+Atirei a Jacintho um olhar inquieto:
+
+--Ora essa! E o Melchior, o caseiro?... Pois no esto ahi os cavallos
+para subirmos quinta?
+
+O digno chefe ergueu com surpreza as sobrancelhas cr de milho:
+
+--No!... Nem Melchior, nem cavallos... O Melchior... Ha que tempos eu
+no vejo o Melchior!
+
+O carregador badalou lentamente a sineta para o comboio rolar. Ento,
+no avistando em torno, na lisa e despovoada Estao, nem creados nem
+malas, o meu Principe e eu lanamos o mesmo grito de angustia:
+
+--E o Grillo? as bagagens?...
+
+Corremos pela beira do comboio, berrando com desespero:
+
+--Grillo!... Oh Grillo!... Anatole!... Oh Grillo!
+
+Na esperana que elle e o Anatole viessem mortalmente adormecidos,
+trepavamos aos estribos, atirando a cabea para dentro dos
+compartimentos, espavorindo a gente quieta com o mesmo berro que
+retumbava:--Grillo, ests ahi, Grillo?--J d'uma terceira-classe, onde
+uma viola repenicava, um jocoso gania, troando:--No ha por ahi um
+grillo? Andam por ahi uns senhores a pedir um grillo!--E nem Anatole,
+nem Grillo!
+
+A sineta tilintou.
+
+--Oh Pimentinha, espera, homem, no deixes largar o comboio!... As
+nossas bagagens, homem!
+
+E, afflicto, empurrei o enorme chefe para o forgo de carga, a
+pesquizar, descortinar as nossas vinte e trez malas! Apenas encontramos
+barris, cestos de vime, latas de azeite, um bah amarrado com cordas...
+Jacintho mordia os beios, livido. E o Pimentinha, esgazeado:
+
+--Oh filhos, eu no posso atrazar o comboio!...
+
+A sineta repicou... E com um bello fumo claro o comboio desappareceu por
+detraz das fragas altas. Tudo em torno pareceu mais calado e deserto.
+Alli ficavamos pois baldeados, perdidos na serra, sem Grillo, sem
+procurador, sem caseiro, sem cavallos, sem malas! Eu conservava o
+paletot alvadio, d'onde surdia o _Jornal do Commercio_. Jacintho, uma
+bengala. Eram todos os nossos bens!
+
+O Pimento arregalava para ns os olhinhos papudos e compadecidos.
+Contei ento quelle amigo o atarantado trasfgo em Medina sob a
+borrasca, o Grillo desgarrado, encalhado com as vinte e trez malas, ou
+rolando talvez para Madrid sem nos deixar um leno...
+
+--Eu no tenho um leno!... Tenho este _Jornal do Commercio_. toda a
+minha roupa branca.
+
+--Grande arrelia, caramba! murmurava o Pimenta, impressionado. E agora?
+
+--Agora, exclamei, trepar, para a quinta, pata... A no ser que se
+arranjassem ahi uns burros.
+
+Ento o carregador lembrou que perto, no casal da Giesta, ainda
+pertencente a Tormes, o caseiro, seu compadre, tinha uma boa egua e um
+jumento... E o prestante homem enfiou n'uma carreira para a
+Giesta--emquanto o meu Principe e eu cahiamos para cima d'um banco,
+arquejantes e succumbidos, como naufragos. O vasto Pimentinha, com as
+mos nas algibeiras, no cessava de nos contemplar, de murmurar:-- de
+arrelia.--O rio defronte descia, preguioso e como adormentado sob a
+calma j pesada de maio, abraando, sem um sussurro, uma larga ilhota de
+pedra que rebrilhava. Para alm a serra crescia em corcovas doces, com
+uma funda prega onde se aninhava, bem junta e esquecida do mundo, uma
+villasinha clara. O espao immenso repousava n'um immenso silencio.
+N'aquellas solides de monte e penedia os pardaes, revoando no telhado,
+pareciam aves consideraveis. E a massa rotunda e rubicunda do Pimentinha
+dominava, atulhava a regio.
+
+--Est tudo arranjado, meu senhor! Vm ahi os bichos!... S o que no
+calhou foi um selimsinho para a jumenta!
+
+Era o carregador, digno homem, que voltava da Giesta, sacudindo na mo
+duas esporas desirmanadas e ferrugentas. E no tardaram a apparecer no
+corrego, para nos levarem a Tormes, uma egua rua, um jumento com
+albarda, um rapaz e um podengo. Apertamos a mo suada e amiga do
+Pimentinha. Eu cedi a egua ao senhor de Tormes. E comeamos a trepar o
+caminho, que no se alisra nem se desbravra desde os tempos em que o
+trilhavam, com rudes sapates ferrados, cortando de rio a monte, os
+Jacinthos do seculo XIV! Logo depois de atravessarmos uma tremula ponte
+de pau, sobre um riacho quebrado por pedregulhos, o meu Principe, com o
+olho de dono subitamente aguado, notou a robustez e a fartura das
+oliveiras...--E em breve os nossos males esqueceram ante a incomparavel
+belleza d'aquella serra bemdita!
+
+Com que brilho e inspirao copiosa a compozera o divino Artista que faz
+as serras, e que tanto as cuidou, e to ricamente as dotou, n'este seu
+Portugal bem-amado! A grandeza egualava a graa. Para os valles,
+poderosamente cavados, desciam bandos de arvoredos, to copados e
+redondos, d'um verde to mo que eram como um musgo macio onde
+appetecia cahir e rolar. Dos pendores, sobranceiros ao carreiro fragoso,
+largas ramadas estendiam o seu toldo amavel, a que o esvoaar leve dos
+passaros sacudia a fragrancia. Atravez dos muros seculares, que sustem
+as terras liados pelas heras, rompiam grossas raizes colleantes a que
+mais hera se enroscava. Em todo o torro, de cada fenda, brotavam flres
+silvestres. Brancas rochas, pelas encostas, alastravam a solida nudez do
+seu ventre polido pelo vento e pelo sol; outras, vestidas de lichen e de
+silvados floridos, avanavam como pras de galeras enfeitadas: e,
+d'entre as que se apinhavam nos cimos, algum casebre que para l
+galgra, todo amachucado e torto, espreitava pelos postigos negros, sob
+as desgrenhadas farripas de verdura, que o vento lhe semera nas telhas.
+Por toda a parte a agua sussurrante, a agua fecundante... Espertos
+regatinhos fugiam, rindo com os seixos, d'entre as patas da egua e do
+burro; grossos ribeiros aodados saltavam com fragor de pedra em pedra;
+fios direitos e luzidios como cordas de prata vibravam e faiscavam das
+alturas aos barrancos; e muita fonte, posta beira de veredas, jorrava
+por uma bica, beneficamente, espera dos homens e dos gados... Todo um
+cabeo por vezes era uma cera, onde um vasto carvalho ancestral,
+solitario, dominava como seu senhor e seu guarda. Em socalcos verdejavam
+laranjaes rescendentes. Caminhos de lages soltas circumdavam fartos
+prados com carneiros e vaccas retouando:--ou mais estreitos, entalados
+em muros, penetravam sob ramadas de parra espessa, n'uma penumbra de
+repouso e frescura. Trepavamos ento alguma ruasinha de aldeia, dez ou
+doze casebres, sumidos entre figueiras, onde se esgaava, fugindo do lar
+pela telha v, o fumo branco e cheiroso das pinhas. Nos cerros remotos,
+por cima da negrura pensativa dos pinheiraes, branquejavam ermidas. O ar
+fino e puro entrava na alma, e n'alma espalhava alegria e fora. Um
+esparso tilintar de chocalhos de guizos morria pelas quebradas...
+
+Jacintho adiante, na sua egua rua, murmurava:
+
+--Que belleza!
+
+E eu atraz, no burro de Sancho, murmurava:
+
+--Que belleza!
+
+Frescos ramos roavam os nossos hombros com familiaridade e carinho. Por
+traz das sebes, carregadas d'amoras, as macieiras estendidas offereciam
+as suas mas verdes, porque as no tinham maduras. Todos os vidros
+d'uma casa velha, com a sua cruz no topo, refulgiram hospitaleiramente
+quando ns passamos. Muito tempo um melro nos seguia, de azinheiro a
+olmo, assobiando os nossos louvores. Obrigado, irmo melro! Ramos de
+macieira, obrigado! Aqui vimos, aqui vimos! E sempre comtigo fiquemos,
+serra to acolhedora, serra de fartura e de paz, serra bemdita entre as
+serras!
+
+Assim, vagarosamente e maravilhados, chegamos quella avenida de faias,
+que sempre me encantra pela sua fidalga gravidade. Atirando uma
+vergastada ao burro e egua, o nosso rapaz, com o seu podengo sobre os
+calcanhares, gritou:--Aqui que estmos, meus amos! E ao fundo das
+faias, com effeito, apparecia o porto da quinta de Tormes, com o seu
+brazo de armas, de secular granito, que o musgo retocava e mais
+envelhecia. Dentro j os ces ladravam com furor. E quando Jacintho, na
+sua suada egua, e eu atraz, no burro de Sancho, transpozemos o limiar
+solarengo, desceu para ns, do alto do alpendre, pela escadaria de pedra
+gasta, um homem nedio, rapado como um padre, sem collete, sem jaleca,
+acalmando os ces que se encarniavam contra o meu Principe. Era o
+Melchior, o caseiro... Apenas me reconheceu, toda a bocca se lhe
+escancarou n'um riso hospitaleiro, a que faltavam dentes. Mas apenas eu
+lhe revelei, d'aquelle cavalheiro de bigodes louros que descia da egua
+esfregando os quadris, o senhor de Tormes--o bom Melchior recuou,
+colhido de espanto e terror como diante d'uma avantesma.
+
+--Ora essa!... Santissimo nome de Deus! Pois ento...
+
+E, entre o rosnar dos ces, n'um bracejar desolado, balbuciou uma
+historia que por seu turno apavorava Jacintho, como se o negro muro do
+casaro pendesse para desabar. O Melchior no esperava s. ex.^a! Ninguem
+esperava s. ex.^a!... (Elle dizia _sua incellencia_)... O snr. Silverio
+estava para Castello de Vide desde maro, com a me, que apanhra uma
+cornada na virilha. E de certo houvera engano, cartas perdidas... Porque
+o snr. Silverio s contava com s. exc.^a em setembro, para a vindima! Na
+casa as obras seguiam devagarinho, devagarinho... O telhado, no sul,
+ainda continuava sem telhas; muitas vidraas esperavam, ainda sem
+vidros; e, para ficar, Virgem Santa, nem uma cama arranjada!...
+
+Jacintho cruzou os braos n'uma colera tumultuosa que o suffocava. Por
+fim, com um berro:
+
+--Mas os caixotes? Os caixotes, mandados de Paris, em fevereiro, ha
+quatro mezes?...
+
+O desgraado Melchior arregalava os olhos miudos, que se embaciavam de
+lagrimas. Os caixotes?! Nada chegra, nada apparecera!... E na sua
+perturbao mirava pelas arcadas do pateo, palpava na algibeira das
+pantalonas. Os caixotes?... No, no tinha os caixotes!
+
+--E agora, Z Fernandes?
+
+Encolhi os hombros:
+
+--Agora, meu filho, s vires commigo para Guies... Mas so duas horas
+fartas a cavallo. E no temos cavallos! O melhor vr o casaro, comer
+a boa gallinha que o nosso amigo Melchior nos assa no espeto, dormir
+n'uma enxerga, e manha cedo, antes do calor, trotar para cima, para a
+tia Vicencia.
+
+Jacintho replicou, com uma deciso furiosa:
+
+--manh troto, mas para baixo, para a estao!... E depois, para
+Lisboa!
+
+E subiu a gasta escadaria do seu solar com amargura e rancor. Em cima
+uma larga varanda acompanhava a fachada do casaro, sob um alpendre de
+negras vigas, toda ornada, por entre os pilares de granito, com caixas
+de pau onde floriam cravos. Colhi um cravo amarello---e penetrei atraz
+de Jacintho nas salas nobres, que elle contemplava com um murmurio de
+horror. Eram enormes, d'uma sonoridade de casa capitular, com os grossos
+muros ennegrecidos pelo tempo e o abandono, e regeladas, desoladamente
+nas, conservando apenas aos cantos algum monte de canastras ou alguma
+enxada entre paus. Nos tectos remotos, de carvalho apainelado, luziam
+atravs dos rasges manchas de co. As janellas, sem vidraas,
+conservavam essas macissas portadas, com fechos para as trancas, que,
+quando se cerram, espalham a treva. Sob os nossos passos, aqui e alm,
+uma taboa pdre rangia e cedia.
+
+--Inhabitavel! rugia Jacintho surdamente. Um horror! Uma infamia!...
+
+Mas depois, n'outras salas, o soalho alternava com remendos de taboas
+novas. Os mesmos remendos claros mosqueavam os velhissimos tectos de
+rico carvalho sombrio. As paredes repelliam pela alvura cra da cal
+fresca. E o sol mal atravessava as vidraas--embaciadas e gordurentas da
+massa e das mos dos vidraceiros.
+
+Penetramos emfim na ultima, a mais vasta, rasgada por seis janellas,
+mobilada com um armario e com uma enxerga parda e curta estirada a um
+canto: e junto d'ella paramos, e sobre ella depuzemos tristemente o que
+nos restava de vinte e trez malas--o meu paletot alvadio, a bengala de
+Jacintho, e o _Jornal do Commercio_ que nos era commum. Atravs das
+janellas escancaradas, sem vidraas, o grande ar da serra entrava e
+circulava como n'um eirado, com um cheiro fresco d'horta regada. Mas o
+que avistavamos, da beira da enxerga, era um pinheiral cobrindo um
+cabeo e descendo pelo pendor suave, maneira d'uma hoste em marcha,
+com pinheiros na frente, destacados, direitos, emplumados de negro; mais
+longe as serras d'alm rio, d'uma fina e macia cr de violeta; depois a
+brancura do co, todo liso, sem uma nuvem, d'uma magestade divina. E l
+debaixo, dos valles, subia, desgarrada e melancolica, uma voz de
+pegureiro cantando.
+
+Jacintho caminhou lentamente para o poial d'uma janella, onde cahiu
+esbarrondado pelo desastre, sem resistencia ante aquelle brusco
+desapparecimento de toda a Civilisao! Eu palpava a enxerga, dura e
+regelada como um granito de inverno. E pensando nos luxuosos colches de
+pennas e molas, to prodigamente encaixotados no 202, desafoguei tambem
+a minha indignao:
+
+--Mas os caixotes, caramba?... Como se perdem assim trinta e tantos
+caixotes enormes?...
+
+Jacintho saccudiu amargamente os hombros:
+
+--Encalhados, por ahi, algures, n'um barraco!... Em Medina, talvez,
+n'essa horrenda Medina. Indifferena das Companhias, inercia do
+Silverio... Emfim a Peninsula, a barbarie!
+
+Vim ajoelhar sobre o outro poial, alongando os olhos consolados por co
+e monte:
+
+-- uma belleza!
+
+O meu principe, depois de um silencio grave, murmurou, com a face
+encostada mo:
+
+-- uma lindeza... E que paz!
+
+Sob a janella vicejava fartamente uma horta, com repolho, feijoal,
+talhes de alface, gordas folhas de abobora rastejando. Uma eira, velha
+e mal alisada, dominava o valle, d'onde j subia tenuemente a nevoa
+d'algum fundo ribeiro. Toda a esquina do casaro d'esse lado se
+encravava em laranjal. E d'uma fontinha rustica, meio afogada em rosas
+tremedeiras, corria um longo e rutilante fio d'agua.
+
+--Estou com appetite desesperado d'aquella agoa! declarou Jacintho,
+muito srio.
+
+--Tambem eu... Desamos ao quintal, hein? E passamos pela cosinha, a
+saber do frango.
+
+Voltamos varanda. O meu Principe, mais conciliado com o destino
+inclemente, colheu um cravo amarello. E por outra porta baixa, de
+rigissimas hombreiras, mergulhamos n'uma sala, alastrada de calia, sem
+tecto, coberta apenas de grossas vigas, d'onde s'ergueu uma revoada de
+pardaes.
+
+--Olha para este horror! murmurava Jacintho arripiado.
+
+E descemos por uma lobrega escada de castello, tenteando depois um
+corredor tenebroso de lages asperas, atravancado por profundas arcas,
+capazes de guardar todo o gro d'uma provincia. Ao fundo a cozinha,
+immensa, era uma massa de frmas negras, madeira negra, pedra negra,
+densas negruras de felugem secular. E n'este negrume refulgia a um
+canto, sobre o cho de terra negra, a fogueira vermelha, lambendo tachos
+e panellas de ferro, despedindo uma fumarada que fugia pela grade aberta
+no muro, depois por entre a folhagem dos limoeiros. Na enorme lareira,
+onde se aqueciam e assavam as suas grossas peas de porco e boi os
+Jacinthos medievaes, agora desaproveitada pela frugalidade dos caseiros,
+negrejava um poeirento monto de cestas e ferramentas; e a claridade
+toda entrava por uma porta de castanho, escancarada sobre um quintalejo
+rustico em que se misturavam couves lombardas e junquilhos formosos. Em
+roda do lume um bando alvoroado de mulheres depennava frangos, remexia
+as caarolas, picava a cebola, com um fervor afogueado e palreiro. Todas
+emmudeceram quando apparecemos--e d'entre ellas o pobre Melchior,
+estonteado, com o sangue a espirrar na nedia face d'abbade, correu para
+ns, jurando que o jantarinho de suas Incellencias no demorava um
+credo...
+
+--E a respeito de camas, oh amigo Melchior?
+
+O digno homem ciciou uma desculpa encolhida sobre enxergasinhas no
+cho...
+
+-- o que basta! acudi eu, para o consolar. Por uma noite, com lenoes
+frescos...
+
+--Ah, l pelos lenoesinhos respondo eu!... Mas um desgosto assim, meu
+senhor! A gente apanhada sem um colxosinho de l, sem um lombosinho de
+vacca... Que eu j pensei, at lembrei minha comadre, V. Inc.^{as}
+podiam ir dormir aos _Ninhos_, a casa do Silverio. Tinham l camas de
+ferro, lavatorios... Elle sempre uma legoasita e mau caminho...
+
+Jacintho, bondoso, accudiu:
+
+--No, tudo se arranja, Melchior. Por uma noite!... At gsto mais de
+dormir em Tormes, na minha casa da serra!
+
+Sahimos ao terreiro, retalho de horta fechado por grossas rochas
+encabelladas de verdura, entestando com os socalcos da serra onde
+lourejava o centeio. O meu principe bebeu da agua nevada e lusidia da
+fonte, regaladamente, com os beios na bica; appeteceu a alface
+rechonchuda e crespa; e atirou pulos aos ramos altos d'uma copada
+cerejeira, toda carregada de cereja. Depois, costeando o velho lagar, a
+que um bando de pombas branqueava o telhado, deslismos at ao carreiro,
+cortado no costado do monte. E andando, pensativamente, o meu Principe
+pasmava para os milheiraes, para os vetustos carvalhos plantados por
+vetustos Jacinthos, para os casebres espalhados sobre os cabeos orla
+negra dos pinheiraes.
+
+De novo penetramos na avenida de faias e transpozemos o porto senhorial
+entre o latir dos ces, mais mansos, farejando um dono. Jacintho
+reconheceu certa nobreza na frontaria do seu lar. Mas sobretudo lhe
+agradava a longa alameda, assim direita e larga, como traada para
+n'ella se desenrolar uma cavalgada de Senhores com plumas e pagens.
+Depois, de cima da varanda, reparando na telha nova da capella, louvou o
+Silverio, esse ralao, por cuidar ao menos da morada do Bom-Deus.
+
+--E esta varanda tambem agradavel, murmurou elle mergulhando a face no
+aroma dos cravos. Precisa grandes poltronas, grandes divans de verga...
+
+Dentro, na nossa sala, ambos nos sentamos nos poiaes da janella,
+contemplando o doce socego crepuscular que lentamente se estabelecia
+sobre valle e monte. No alto tremeluzia uma estrellinha, a Venus
+diamantina, languida annunciadora da noite e dos seus contentamentos.
+Jacintho nunca considerra demoradamente aquella estrella, de amorosa
+refulgencia, que perpetua no nosso Co catholico a memoria da Deusa
+incomparavel:--nem assistira jmais, com a alma attenta, ao magestoso
+adormecer da Natureza. E este ennegrecimento dos montes que se embuam
+em sombra; os arvoredos emmudecendo, canados de susurrar; o rebrilho
+dos casaes mansamente apagado; o cobertor de nevoa, sob que se acama e
+agasalha a frialdade dos valles; um toque somnolento de sino que rola
+pelas quebradas; o segredado cochichar das aguas e das relvas
+escuras--eram para elle como iniciaes. D'aquella janella, aberta sobre
+as serras, entrevia uma outra vida, que no anda smente cheia do Homem
+e do tumulto da sua obra. E senti o meu amigo suspirar como quem emfim
+descana.
+
+D'este enlevo nos arrancou o Melchior com o doce aviso do jantarinho de
+suas Incellencias. Era n'outra sala, mais na, mais abandonada:--e ahi
+logo porta o meu super-civilisado Principe estacou, estarrecido pelo
+desconforto, escassez e rudeza das coisas. Na mesa, encostada ao muro
+denegrido, sulcado pelo fumo das candeias, sobre uma toalha de estopa,
+duas velas de sbo em castiaes de lata alumiavam grossos pratos de
+loua amarella, ladeados por colheres de estanho e por garfos de ferro.
+Os copos, d'um vidro espesso, conservavam a sombra roxa do vinho que
+n'elles passra em fartos annos de fartas vindimas. A malga de barro,
+atestada de azeitonas pretas, contentaria Diogenes. Espetado na cdea
+d'um immenso po reluzia um immenso facalho. E na cadeira senhoreal
+reservada ao meu Principe, derradeira alfaia dos velhos Jacinthos, de
+hirto espaldar de couro, com a madeira roda de caruncho, a clina fugia
+em melenas pelos rasges do assento poido.
+
+Uma formidavel moa, de enormes peitos que lhe tremiam dentro das
+ramagens do leno cruzado, ainda suada e esbrazeada do calor da lareira,
+entrou esmagando o soalho, com uma terrina a fumegar. E o Melchior, que
+seguia erguendo a infusa do vinho, esperava que suas Incellencias lhe
+perdoassem porque faltra tempo para o caldinho apurar... Jacintho
+occupou a sde ancestral--e, durante momentos (de esgazeada anciedade
+para o caseiro excellente) esfregou energicamente, com a ponta da
+toalha, o garfo negro, a fusca colhr de estanho. Depois, desconfiado,
+provou o caldo, que era de gallinha e rescendia. Provou--e levantou para
+mim, seu camarada de miserias, uns olhos que brilharam, surprehendidos.
+Tornou a sorver uma colherada mais cheia, mais considerada. E sorriu,
+com espanto:--Est bom!
+
+Estava precioso: tinha figado e tinha moela: o seu perfume enternecia:
+tres vezes, fervorosamente, ataquei aquelle caldo.
+
+--Tambem l volto! exclamava Jacintho com uma convico immensa. que
+estou com uma fome... Santo Deus! Ha annos que no sinto esta fome.
+
+Foi elle que rapou avaramente a sopeira. E j espreitava a porta,
+esperando a portadora dos piteus, a rija moa de peitos trementes, que
+emfim surgiu, mais esbrazeada, abalando o sobrado--e pousou sobre a mesa
+uma travessa a trasbordar de arroz com favas. Que desconsolo! Jacintho,
+em Paris, sempre abominra favas!... Tentou todavia uma garfada
+timida--e de novo aquelles seus olhos, que o pessimismo ennovora,
+luziram, procurando os meus. Outra larga garfada, concentrada, com uma
+lentido de frade que se regala. Depois um brado:
+
+--Optimo!... Ah, d'estas favas, sim! Oh que fava! Que delicia!
+
+E por esta santa gula louvava a serra, a arte perfeita das mulheres
+palreiras que em baixo remexiam as panellas, o Melchior que presidia ao
+brodio...
+
+--D'este arroz com fava nem em Paris, Melchior amigo!
+
+O homem optimo sorria, inteiramente desannuviado:
+
+--Pois c a comidinha dos moos da quinta! E cada pratada, que at
+suas Incellencias se riam... Mas agora, aqui, o Snr. D. Jacintho, tambem
+vae engordar e enrijar!
+
+O bom caseiro sinceramente cria que, perdido n'esses remotos Parizes, o
+Senhor de Tormes, longe da fartura de Tormes, padecia fome e mingava...
+E o meu Principe, na verdade, parecia saciar uma velhissima fome e uma
+longa saudade da abundancia, rompendo assim, a cada travessa, em
+louvores mais copiosos. Diante do louro frango assado no espeto e da
+salada que elle appetecera na horta, agora temperada com um azeite da
+serra digno dos labios de Plato, terminou por bradar:-- divino! Mas
+nada o enthusiasmava como o vinho de Tormes, cahindo d'alto, da bojuda
+infusa verde--um vinho fresco, esperto, seivoso, e tendo mais alma,
+entrando mais na alma, que muito poema ou livro santo. Mirando, vela
+de sbo, o copo grosso que elle orlava de leve espuma rosea, o meu
+Principe, com um resplendr d'optimismo na face, citou Virgilio:
+
+--_Quo te carmina dicam, Rethica_? Quem dignamente te cantar, vinho
+amavel d'estas serras?
+
+Eu, que no gosto que me avantagem em saber classico, espanejei logo
+tambem o meu Virgilio, louvando as douras da vida rural:
+
+--_Hanc olim veteres vitam coluere Sabini_... Assim viveram os velhos
+Sabinos. Assim Romolo e Remo... Assim cresceu a valente Etruria. Assim
+Roma se tornou a maravilha do mundo!
+
+E immovel, com a mo agarrada infusa, o Melchior arregalava para ns
+os olhos em infinito assombro e religiosa reverencia.
+
+ * * * * *
+
+Ah! Jantamos deliciosissimamente, sob os auspicios do Melchior--que
+ainda depois, prvido e tutelar, nos forneceu o tabaco. E, como ante ns
+se alongava uma noite de monte, voltamos para as janellas desvidraadas,
+na sala immensa, a contemplar o sumptuoso co de vero. Philosophmos
+ento com pachorra e facundia.
+
+Na Cidade (como notou Jacintho) nunca se olham, nem lembram os
+astros--por causa dos candieiros de gaz ou dos globos de electricidade
+que os offuscam. Por isso (como eu notei) nunca se entra n'essa
+communho com o Universo que a unica gloria e unica consolao da
+Vida. Mas na serra, sem predios disformes de seis andares, sem a
+fumaraa que tapa Deus, sem os cuidados que como pedaos de chumbo puxam
+a alma para o p rasteiro--um Jacintho, um Z Fernandes, livres, bem
+jantados, fumando nos poiaes d'uma janella, olham para os astros e os
+astros olham para elles. Uns, certamente, com olhos de sublime
+immobilidade ou de subllime indifferena. Mas outros curiosamente,
+anciosamente, com uma luz que acena, uma luz que chama, como se
+tentassem, de to longe, revelar os seus segredos, ou de to longe
+comprehender os nossos...
+
+--Oh Jacintho, que estrella esta, aqui, to viva, sobre o beiral do
+telhado?
+
+--No sei... E aquella, Z Fernandes, alm, por cima do pinheiral?
+
+--No sei.
+
+No sabiamos. Eu, por causa da espessa crosta de ignorancia com que sahi
+do ventre de Coimbra, minha Me espiritual. Elle, porque na sua
+Bibliotheca possuia trezentos e oito tratados sobre Astronomia, e o
+Saber, assim accumulado, frma um monte que nunca se transpe nem se
+desbasta. Mas que nos importava que aquelle astro alm se chamasse
+Syrius e aquelle outro Aldebaran? Que lhes importava a elles que um de
+ns fosse Jacintho, outro Z? Elles to immensos, ns to pequeninos,
+somos a obra da mesma Vontade. E todos, Uranos ou Lorenas de Noronha e
+Sande, constituimos modos diversos d'um Sr unico, e as nossas
+diversidades esparsas sommam na mesma compacta Unidade. Molleculas do
+mesmo Todo, governadas pela mesma Lei, rolando para o mesmo Fim... Do
+astro ao homem, do homem flr do trevo, da flr do trevo ao mar
+sonoro--tudo o mesmo Corpo, onde circula, como um sangue, o mesmo
+Deus. E nenhum fremito de vida, por menor, passa n'uma fibra d'esse
+sublime Corpo, que se no repercuta em todas, at s mais humildes, at
+s que parecem inertes e invitaes. Quando um Sol que no avisto, nunca
+avistarei, morre de inanio nas profundidades, esse esguio galho de
+limoeiro, em baixo na horta, sente um secreto arrepio de morte:--e,
+quando eu bato uma patada no soalho de Tormes, alm o monstruoso Saturno
+estremece, e esse estremecimento percorre o inteiro Universo! Jacintho
+abateu rijamente a mo no rebordo da janella. Eu gritei:
+
+--Acredita!... O sol tremeu.
+
+E depois (como eu notei) deviamos considerar que, sobre cada um d'esses
+gros de p luminoso, existia uma creao, que incessantemente nasce,
+perece, renasce. N'este instante, outros Jacinthos, outros Zs
+Fernandes, sentados s janellas d'outras Tormes, contemplam o co
+nocturno, e n'elle um pequenininho ponto de luz, que a nossa possante
+Terra por ns tanto sublimada. No tero todos esta nossa frma, bem
+fragil, bem desconfortavel, e (a no ser no Apollo do Vaticano, na Venus
+de Milo e talvez na Princeza, de Carman) singularmente feia e burlesca.
+Mas, horrendos ou de ineffavel belleza; collossaes e d'uma carne mais
+dura que o granito, ou leves como gazes e ondulando na luz, todos elles
+so sres pensantes e teem consciencia da Vida--porque decerto cada
+Mundo possue o seu Descartes, ou j o nosso Descartes os percorreu a
+todos com o seu Methodo, a sua escura capa, a sua agudeza elegante,
+formulando a unica certeza talvez certa, o grande _Penso logo existo_.
+Portanto todos ns, Habitantes dos Mundos, s janellas dos nossos
+casares, alm nos Saturnos, ou aqui na nossa Terricula, constantemente
+perfazemos um acto sacrosanto que nos penetra e nos funde--que
+sentirmos no Pensamento o nucleo commum das nossas modalidades, e
+portanto realisarmos um momento, dentro da Consciencia, a Unidade do
+Universo!--Hein, Jacintho?...
+
+O meu amigo rosnou:
+
+--Talvez... Estou a cahir com somno.
+
+--Tambem eu. Remontamos muito, Ex.^{mo} Snr.! como dizia o Pestaninha
+em Coimbra. Mas nada mais bello, e mais vo, que uma cavaqueira, no alto
+das serras, a olhar para as estrellas!... Tu sempre vaes amanh?
+
+--Com certeza, Z Fernandes! Com a certeza de Descartes. Penso _logo
+fujo_! Como queres tu, n'este pardieiro, sem uma cama, sem uma
+poltrona, sem um livro?... Nem s de arroz com fava vive o Homem! Mas
+demoro em Lisboa, para conversar com o Cesimbra, o meu Administrador. E
+tambem espera que estas obras acabem, os caixotes surjam, e eu possa
+voltar decentemente, com roupa lavada, para a trasladao...
+
+-- verdade, os ossos...
+
+--Mas resta ainda o Grillo... Que animal! Por onde andar esse perdido?
+
+Ento, passeando lentamente na sala enorme, onde a vela de sbo j
+derretida no castial de lata era como um lume de cigarro n'um
+descampado, meditmos na sorte do Grillo. O estimado negro ou fra
+despejado nas lamas de Medina, com as vinte e sete malas, aos
+gritos--ou, regaladamente adormecido, rolra com o Anatole no comboio
+para Madrid. Mas ambos os casos appareciam ao meu Principe como
+irremediavelmente destruidores do seu conforto...
+
+--No, escuta, Jacintho... Se o Grillo encalhou em Medina, dormiu na
+Fonda, catou os percevejos, e esta madrugada correu para Tormes. Quando
+manh desceres Estao, s quatro horas, encontras o teu precioso
+homem, com as tuas preciosas malas, mettido n'esse comboio que te leva
+ao Porto e Capital...
+
+Jacintho saccudiu os braos como quem se debate nas malhas d'uma rede:
+
+--E se seguiu para Madrid?
+
+--Ento, por esta semana, c apparece em Tormes, onde encontra ordem
+para regressar a Lisboa e reentrar no teu sequito... Resta o
+interessante caso das minhas bagagens. Se manh encontrares na Estao
+o Grillo, separa a minha mala negra, e o sacco de lona, e a chapelleira.
+O Grillo conhece. E pede ao Pimenta, ao gordalhufo, que me avise para
+Guies. Se o Grillo aportar Tormes, esfogueteado de Madrid, com toda
+essa malaria, deixa as minhas cousas aqui, ao Melchior... Eu manh
+fallo ao Melchior.
+
+Jacintho sacudiu furiosamente o collarinho:
+
+--Mas como posso eu partir para Lisboa, manh, com esta camisa de dous
+dias, que j me faz uma comicho horrenda? E sem um leno... Nem ao
+menos uma escova de dentes!
+
+Fertil em idas, estendi as mos, n'um bello gesto tutelar:
+
+--Tudo se arranja, meu Jacintho, tudo se arranja! Eu, largando d'aqui
+cedo, pelas seis horas, chego a Guies s dez, ainda sem calor. E, mesmo
+antes do almoo e da cavaqueira com a tia Vicencia, immediatamente te
+mando por um moo um sacco de roupa branca. As minhas camisas e as
+minhas ceroulas talvez te estejam largas. Mas um mendigo como tu no tem
+direito a elegancias e a roupas bem cortadas. O moo, n'um bom trote,
+entra aqui s duas horas; tens tempo de mudar antes de desceres para a
+Estao... Posso metter na mala uma escova de dentes.
+
+--Oh Z Fernandes! Ento mette tambem uma esponja... E um frasco d'agoa
+de colonia!
+
+--Agoa d'alfazema, excellente, feita pela tia Vicencia...
+
+O meu Principe suspirou, impressionado com a sua miseria esqualida, e
+esta dadiva de roupas:
+
+--Bem, ento vamos dormir, que estou esfalfado de emoes e d'astros...
+
+Justamente Melchior entreabria a pesada porta, com timidez, a avisar que
+estavam preparadinhas as camas de suas Incellencias. E seguindo o bom
+caseiro, que erguia uma candeia, que avistamos ns, o meu Principe e eu,
+ainda ha pouco irmanados com os astros? Em duas saletas, que uma
+abertura em arco, lobrego arco de pedra, separava--duas enxergas sobre o
+soalho. Junto cabeceira da mais larga, que pertencia ao senhor de
+Tormes, um castial de lato sobre um alqueire; aos ps, como lavatorio,
+um alguidar vidrado em cima duma tripea. Para mim, serrano d'aquellas
+serras, nem alguidar nem alqueire.
+
+Lentamente, com o p, o meu super-civilisado amigo palpou a enxerga. E
+decerto lhe sentiu uma dureza intransigente, porque ficou pendido sobre
+ella, a correr desoladamente os dedos pela face desmaiada.
+
+--E o peior no ainda a enxerga, murmurou emfim com um suspiro. que
+no tenho camisa de dormir, nem chinelas!... E no me posso deitar de
+camisa engommada.
+
+Por inspirao minha reccorremos ao Melchior. De novo, esse benemerito
+providenciou, trazendo a Jacintho, para elle desafogar os ps, uns
+tamancos--e para embrulhar o corpo uma camisa da comadre, enorme, de
+estopa, spera como uma estamenha de penitente, com folhos mais crespos
+e duros do que lavores de madeira. Para consolar o meu Principe lembrei
+que Plato quando compunha o _Banquete_, Vasco da Gama quando dobrava o
+Cabo, no dormiam em melhores catres! As enxergas rijas fazem as almas
+fortes, oh Jacintho!... E s vestido de estamenha que se penetra no
+Paraiso.
+
+--Tens tu, volveu o meu amigo seccamente, alguma coisa que eu leia? No
+posso adormecer sem um livro.
+
+Eu? Um livro? Possuia apenas o velho numero do _Jornal do Commercio_,
+que escapra disperso dos nossos bens. Rasguei a copiosa folha pelo
+meio, partilhei com Jacintho fraternalmente. Elle tomou a sua metade,
+que era a dos annuncios... E quem no viu ento Jacintho, senhor de
+Tormes, acaapado borda da enxerga, rente da vela de sbo que se
+derretia no alqueire, com os ps encafuados nos scos, perdido dentro
+das speras pregas e dos rijos folhos da camisa serrana, percorrendo
+n'um pedao velho de Gazeta, pensativamente, as partidas dos
+Paquetes--no pde saber o que uma intensa e veridica imagem do
+Desalento.
+
+Recolhido minha alcova espartana, desabotoava o collete, n'um
+delicioso cansao, quando o meu Principe ainda me reclamou:
+
+--Z Fernandes...
+
+--Dize.
+
+--Manda tambem no sacco um abotoador de botas.
+
+Estirado commodamente na rija enxerga murmurei, como sempre murmuro ao
+penetrar no Somno, que um primo da Morte, Deus seja louvado! Depois
+tomei a metade do _Jornal do Commercio_ que me pertencia.
+
+--Z Fernandes...
+
+--Que ?
+
+--Tambem podias metter no sacco ps dos dentes... E uma lima das
+unhas... E um romance!
+
+J a meia Gazeta me escapava das mos dormentes. Mas da sua alcova,
+depois de soprar a vela, Jacintho murmurou entre um bocejo:
+
+--Z Fernandes...
+
+--Hein?
+
+--Escreve para Lisboa, para o Hotel Bragana... Os lenoes ao menos so
+frescos, cheiram bem, a sadio!
+
+
+
+
+IX
+
+
+Cedo, de madrugada, sem rumor, para no despertar o meu Jacintho, que,
+com as mos cruzadas sobre o peito, dormia beatificamente na sua enxerga
+de granito--parti para Guies.
+
+Ao cabo d'uma semana, recolhendo uma manh para o almoo, encontrei no
+corredor as minhas malas to desejadas, que um moo do casal da Giesta
+trouxera n'um carro com recados do Snr. Pimentinha. O meu pensamento
+pulou para o meu Principe. E lancei pelo telegrapho, para Lisboa, para o
+Hotel Bragana, este brado alegre:--Ests l? Sei recuperaste Grillo e
+Civilisao! Hurrah! Abrao!--S depois de sete dias, occupados n'uma
+delicada apanha de aspargos com que outr'ora civilisra a horta da tia
+Vicencia, notei o silencio de Jacintho. N'um bilhete postal renovei,
+desenvolvi o grito amigo:--Ests l? So os prazeres da Baixa que assim
+te tornam desattento e mudo? Eu, todo aspargos! Responde, quando chegas?
+Tempo delicioso! 23^o sombra. E os ossos?...--Veio depois a devota
+romaria da Senhora da Roqueirinha. Durante a lua nova andei n'um crte
+de matto, na minha terra das Corcas. A tia Vicencia vomitou, com uma
+indigesto de murcellas. E o silencio do meu Principe era ingrato e
+ferrenho.
+
+Emfim uma tarde, voltando da Flor da Malva, de casa da minha prima
+Joanninha, parei em Sandofim, na venda do Manoel Rico, para beber de
+certo vinho branco que a minha alma conhece--e sempre pede.
+
+Defronte, porta do ferrador, o Severo, sobrinho do Melchior de Tormes
+e o mais fino alveitar da serra, picava tabaco, escarranchado n'um
+banco. Mandei encher outro quartilho: elle acariciou o pescoo da minha
+egua que j salvra d'um esfriamento: e, como eu indagasse do nosso
+Melchior, o Severo contou que na vspera jantra com elle em Tormes, e
+se abeirra tambem do fidalgo...
+
+--Ora essa! Ento o snr. D. Jacintho est em Tormes?
+
+O meu espanto divertiu o Severo:
+
+--Ento v. exc.^a... Pois em Tormes que elle est, ha mais de cinco
+semanas, sem arredar! E parece que fica para a vindima, e vai l uma
+grandeza!
+
+Santissimo nome de Deus! Ao outro dia, domingo, depois da missa e sem me
+assustar com a calma que carregava, trotei alvoroadamente para Tormes.
+Ao latir dos rafeiros, quando transpuz o portal solarengo, a comadre do
+Melchior accudio dos lados do curral, com um alguidar de lavagem
+encostado cintura.--Ento o snr. D. Jacintho?... O snr. D. Jacintho
+andava l para baixo, com o Silverio e com o Melchior, nos campos de
+Freixomil...
+
+--E o Snr. Grillo, o preto?
+
+--Ha bocadinho tambem o enxerguei no pomar, com o francez, a apanhar
+limes doces...
+
+Todas as janellas do solar rebrilhavam, com vidraas novas, bem polidas.
+A um canto do pteo notei baldes de cal e tijellas de tintas. Uma escada
+de pedreiro descanra durante o Dia Santo arrimada contra o telhado. E,
+rente ao muro da capella, dois gatos dormiam sobre montes de palha
+desempacotada de caixotes consideraveis.
+
+--Bem, pensei eu. Eis a Civilisao!
+
+Recolhi a egua, galguei a escada. Na varanda, sobre uma pilha de ripas,
+reluzia n'um raio de sol uma banheira de zinco. Dentro encontrei todos
+os soalhos remendados, esfregados a carqueja. As paredes, muito caiadas
+e nas, refrigeravam como as d'um convento. Um quarto, a que me levaram
+tres portas escancaradas com franqueza serrana, era certamente o de
+Jacintho: a roupa pendia de cabides de pau: o leito de ferro, com
+coberta de fusto, encolhia timidamente a sua rigidez virginal a um
+canto, entre o muro e a banquinha onde um castial de lato resplandecia
+sobre um volume do _D. Quichote_; no lavatorio pintado de amarello,
+imitando bamb, apenas cabia o jarro, a bacia, um naco gordo de sabo; e
+uma prateleirinha bastava ao esmerado alinho da escova, da thesoura, do
+pente, do espelhinho de feira, e do frasquinho de agua de alfazema que
+eu mandra de Guies. As tres janellas, sem cortinas, contemplavam a
+belleza da serra, respirando um delicado e macio ar, que se perfumava
+nas resinas dos pinheiraes, depois nas roseiras da horta. Em frente, no
+corredor, outro quarto repetia a mesma simplicidade. Certamente a
+previdencia do meu Principe o destinra ao seu Z Fernandes. Pendurei
+logo dentro, no cabide, o meu guarda-p de lustrina.
+
+Mas na sala immensa, onde tanto philosophramos considerando as
+estrellas, Jacintho arranjra um centro de repouso e d'estudo--e
+desenrolra essa grandeza que impressionava o Severo. As cadeiras de
+verga da Madeira, amplas e de braos, offereciam o conforto de
+almofadinhas de chita. Sobre a mesa enorme de pau branco, carpinteirada
+em Tormes, admirei um candieiro de metal de tres bicos, um tinteiro de
+frade armado de pennas de pato, um vaso de capella transbordando de
+cravos. Entre duas janellas uma commoda antiga, embutida, com ferragens
+lavradas, recebera sobre o seu marmore rosado o devoto peso d'um
+Presepio, onde Reis Magos, pastores de surres vistosos, cordeiros
+d'esguedelhada l, se apressavam atravez d'alcantis para o Menino, que
+na sua lapinha lhes abria os braos, coroado por uma enorme Cora Real.
+Uma estante de madeira enchia outro pedao de parede, entre dois
+retratos negros com caixilhos negros; sobre uma das suas prateleiras
+repousavam duas espingardas; nas outras esperavam, espalhados, como os
+primeiros Doutores nas bancadas d'um concilio, alguns nobres livros, um
+Plutarcho, um Virgilio, a Odyssea, o Manual de Epictecto, as Chronicas
+de Froissart. Depois, em fila decorosa, cadeiras de palhinha, muito
+novas, muito envernisadas. E a um canto um mlho de varapaus.
+
+Tudo resplandecia de asseio e ordem. As portadas das janellas, cerradas,
+abrigavam do sol que batia aquelle lado de Tormes, escaldando os
+peitoris de pedra. Do soalho, burrifado de agua, subia, na suavisada
+penumbra, uma frescura. Os cravos rescendiam. Nem dos campos, nem da
+casa, se elevava um rumor. Tormes dormia no esplendor da manh santa. E,
+penetrado por aquella consoladora quietao de convento rural, terminei
+por me estender n'uma cadeira de verga, junto da mesa, abrir
+languidamente um tomo de Virgilio, e murmurar, appropriando o doce verso
+que encontrra:
+
+Fortunate Jacinthe! Hic, inter arva nota
+Et fontes sacros, frigus captabis opacum...
+
+Afortunado Jacintho, na verdade! Agora, entre campos que so teus e
+aguas que te so sagradas, colhes emfim a sombra e a paz!
+
+Li ainda outros versos. E, na fadiga das duas horas de egua e calor
+desde Guies, irreverentemente adormecia sobre o divino
+Bucoliasta--quando me despertou um berro amigo! Era o meu Principe. E
+muito decididamente, depois de me soltar do seu rijo abrao, o comparei
+a uma planta estiolada, emmurchecida na escurido, entre tapetes e
+sdas, que, levada para vento e sol, profusamente regada, reverdece,
+desabrocha e honra a Natureza! Jacintho j no corcovava. Sobre a sua
+arrefecida pallidez de super-civilisado, o ar montesino, ou vida mais
+verdadeira, espalhra um rubor trigueiro e quente de sangue renovado que
+o virilisava soberbamente. Dos olhos, que na Cidade andavam sempre to
+crepusculares e desviados do Mundo, saltava agora um brilho de meio-dia,
+resoluto e largo, contente em se embeber na belleza das coisas. At o
+bigode se lhe encrespra. E j no deslisava a mo desencantada sobre a
+face,--mas batia com ella triumphalmente na cxa. Que sei? Era um
+Jacintho novissimo. E quasi me assustava, por eu ter de aprender e
+penetrar, n'este novo Principe, os modos e as idas novas.
+
+--Caramba, Jacintho, mas ento...?
+
+Elle encolheu jovialmente os hombros realargados. E s me soube contar,
+trilhando soberanamente com os sapatos brancos e cobertos de p o soalho
+remendado, que, ao acordar em Tormes, depois de se lavar n'uma dorna, e
+d'enfiar a minha roupa branca, se sentira de repente como
+_desannuviado_, _desenvencilhado_! Almora uma pratada de ovos com
+chourio, sublime. Passera por toda aquella magnificencia da serra com
+pensamentos ligeiros de liberdade e de paz. Mandra ao Porto comprar uma
+cama, uns cabides... E alli estava...
+
+--Para todo o vero?
+
+--No! Mas um mez... Dois mezes! Emquanto houver chourios, e a agoa da
+fonte, bebida pela telha ou n'uma folha de couve, me souber to
+divinamente!
+
+Cahi sobre a cadeira de verga, e contemplei, arregalado, quasi
+esgazeado, o meu Principe! Elle enrolava n'uma mortalha tabaco picado,
+tabaco grosso, guardado n'uma malga vidrada. E exclamava:
+
+--Ando ahi pelas terras desde o romper d'alva! Pesquei j hoje quatro
+trutas, magnificas... L em baixo, no Naves, um riachote que se atira
+pelo valle da Seranda... Temos logo ao jantar essas trutas!
+
+Mas eu, avido pela historia d'aquella ressurreio:
+
+--Ento, no estiveste em Lisboa?... Eu telegraphei...
+
+--Qual telegrapho! Qual Lisboa! Estive l em cima, ao p da fonte da
+Lira, sombra d'uma grande arvore, _sub tegmine_ no sei qu, a lr
+esse adorvel Virgilio... E tambem a arranjar o meu palacio! Que te
+parece, Z Fernandes? Em tres semanas, tudo soalhado, envidraado,
+caiado, encadeirado!... Trabalhou a freguezia inteira! At eu pintei,
+com uma immensa brocha. Viste o comedoiro?
+
+--No.
+
+--Ento vem admirar a belleza na simplicidade, barbaro!
+
+Era a mesma onde ns tanto exaltaramos o arroz com favas--mas muito
+esfregada, muito caiada, com um rodap bezuntado d'azul estridente onde
+logo adivinhei a obra do meu Principe. Uma toalha de linho de Guimares
+cobria a mesa, com as franjas roando o soalho. No fundo dos pratos de
+loua forte reluzia um gallo amarello. Era o mesmo gallo e a mesma loua
+em que na nossa casa, em Guies, se servem os feijes dos cavadores...
+
+Mas no pteo os ces latiram. E Jacintho correu varanda, com uma
+ligeireza curiosa que me deleitou. Ah, bem definitivamente se
+esfrangalhra aquella rede de malha que se no percebia e que outr'ora o
+travava!--N'esse momento appareceu o Grillo, de quinzena de linho,
+segurando em cada mo uma garrafa de vinho branco. Todo se alegrou em
+vr na quinta o si Fernandes. Mas a sua veneranda face j no
+resplandecia, como em Paris, com um to sereno e ditoso brilho de ebano.
+At me pareceu que corcovava... Quando o interroguei sobre aquella
+mudana, estendeu duvidosamente o beio grosso:
+
+--O menino gosta, eu ento tambem gsto... Que o ar aqui muito bom,
+si Fernandes, o ar muito bom!
+
+Depois, mais baixo, envolvendo n'um gesto desolado a loua de Barcellos,
+as facas de cabo d'osso, as prateleiras de pinho como n'um refeitorio de
+Franciscanos:
+
+--Mas muita magreza, si Fernandes, muita magreza!
+
+Jacintho voltava com um mao de jornaes cintados:
+
+--Era o carteiro. J vs que no amuei inteiramente com a Civilisao.
+Eis a Imprensa!... Mas nada de _Figaro_, ou da horrenda _Dois-Mundos_!
+Jornaes de Agricultura! Para aprender como se produzem as risonhas
+messes, e sob que signo se casa a vinha ao olmo, e que cuidados
+necessita a abelha provida... _Quid faciat laetas segetes_... De resto
+para esta nobre educao, j me bastavam as _Georgicas_, que tu ignoras!
+
+Eu ri:
+
+--Alto l! _Nos quoque gens sumus et nostrum Virgilium sabemus_!
+
+Mas o meu novissimo amigo, debruado da janella, batia as palmas--como
+Cato para chamar os servos, na Roma simples. E gritava:
+
+--Anna Vaqueira! Um copo d'agoa, bem lavado, da fonte velha!
+
+Pulei, immensamente divertido:
+
+--Oh Jacintho! E as aguas carbonatadas? e as phosphatadas? e as
+esterilisadas? e as sodicas?...
+
+O meu Principe atirou os hombros com um desdem soberbo. E acclamou a
+appario d'um grande copo, todo embaciado pela frescura nevada da agoa
+refulgente, que uma bella moa trazia n'um prato. Eu admirei sobretudo a
+moa... Que olhos, d'um negro to liquido e serio! No andar, no quebrar
+da cinta, que harmonia e que graa de Nympha latina!
+
+E apenas pela porta desapparecera a explendida appario:
+
+--Oh Jacintho, eu d'aqui a um instante tambem quero agua! E se compete a
+esta rapariga trazer as cousas, eu, de cinco em cinco minutos, quero uma
+cousa!... Que olhos, que corpo... Caramba, menino! Eis a poesia, toda
+viva, da serra...
+
+O meu Principe sorria, com sinceridade:
+
+--No! no nos illudamos, Z Fernandes, nem faamos Arcadia. uma bella
+moa, mas uma bruta... No ha alli mais poesia, nem mais sensibilidade,
+nem mesmo mais belleza do que n'uma linda vacca tourina. Merece o seu
+nome de Anna Vaqueira. Trabalha bem, digere bem, concebe bem. Para isso
+a fez a Natureza, assim s e rija; e ella cumpre. O marido todavia no
+parece contente, porque a desanca. Tambem um bello bruto... No, meu
+filho, a serra maravilhosa e muito grato lhe estou... Mas temos aqui a
+fmea em toda a sua animalidade e o macho em todo o seu egoismo... So
+porm verdadeiros, genuinamente verdadeiros! E esta verdade, Z
+Fernandes, para mim um repouso.
+
+Lentamente, gozando a frescura, o silencio, a liberdade do vasto
+casaro, retrocedemos sala que Jacintho j denominra a _Livraria_. E,
+de repente, ao avistar n'um canto uma caixa com a tampa meio despregada,
+quasi me engasguei, na furiosa curiosidade que me assaltou:
+
+--E os caixotes? Oh Jacintho?... Toda aquella immensa caixotaria que ns
+mandamos, abarrotada de Civilisao? Soubeste? Appareceram?
+
+O meu Principe parou, bateu alegremente na cxa:
+
+--Sublime! Tu ainda te lembras d'aquelle homemsinho, de sacco a
+tiracollo, que ns admiramos tanto pela sua sagacidade, o seu saber
+geographico?... Lembras? Apenas fallei em Tormes, gritou que conhecia,
+rabiscou uma nota... Nem era necessario mais! Oh! Tormes,
+perfeitamente, muito antigo, muito curioso! Pois mandou tudo para
+Alba-de-Tormes, em Hespanha! Est tudo em Hespanha!
+
+Cocei o queixo, desconsolado:
+
+--Ora, ora... Um homem to esperto, to expedito, que fazia tanta honra
+ao Progresso! Tudo para Hespanha!... E mandaste vir?
+
+--No! Talvez mais tarde... Agora, Z Fernandes, estou saboreando esta
+delicia de me erguer pela manh, e de ter s uma escova para alisar o
+cabello.
+
+Considerei, cheio de recordaes, o meu amigo:
+
+--Tinhas umas nove...
+
+--Nove? Tinha vinte! Talvez trinta! E era uma atrapalhao, no me
+bastavam!... Nunca em Paris andei bem penteado. Assim com os meus
+setenta mil volumes: eram tantos que nunca li nenhum. Assim com as
+minhas occupaes: tanto me sobrecarregavam, que nunca fui util!
+
+ * * * * *
+
+De tarde, depois da calma, fomos vaguear pelos caminhos colleantes
+d'aquella quinta rica, que, atravs de duas legoas, ondula por valle e
+monte. No m'encontrra mais com Jacintho em meio da Natureza, desde o
+remoto dia d'entremez em que elle tanto soffrera no sociavel e policiado
+bosque de Montmorency. Ah, mas agora, com que segurana e idyllico amor
+elle se movia atravs d'essa Natureza, d'onde andra tantos annos
+desviado por theoria e por habito! J no arreceiava a humidade mortal
+das relvas; nem repellia como impertinente o roar das ramagens; nem o
+silencio dos altos o inquietava como um despovoamento do Universo. Era
+com delicias, com um consolado sentimento de estabilidade recuperada,
+que enterrava os grossos sapatos nas terras molles, como no seu elemento
+natural e paterno: sem razo, deixava os trilhos faceis, para se
+embrenhar atravs de arbustos emaranhados, e receber na face a caricia
+das folhas tenras; sobre os outeiros, parava, immovel, retendo os meus
+gestos e quasi o meu halito, para se embeber de silencio e de paz: e
+duas vezes o surprehendi attento e sorrindo beira d'um regatinho
+palreiro, como se lhe escutasse a confidencia...
+
+Depois philosophava, sem descontinuar, com o enthusiasmo d'um
+convertido, avido de converter:
+
+--Como a intelligencia aqui se liberta, hein? E como tudo animado
+d'uma vida forte o profunda!... Dizes tu agora, Z Fernandes, que no ha
+aqui pensamento...
+
+--Eu?! Eu no digo nada, Jacintho...
+
+--Pois uma maneira de reflectir muito estreita e muito grosseira...
+
+--Ora essa! Mas eu...
+
+--No, no percebes. A vida no se limita a pensar, meu caro doutor...
+
+--Que no sou!
+
+--A vida essencialmente Vontade e Movimento: e n'aquelle pedao de
+terra, plantado de milho, vae todo um mundo de impulsos, de foras que
+se revelam, e que attingem a sua expresso suprema, que a Frma. No,
+essa tua philosophia est ainda extremamente grosseira...
+
+--Irra! mas eu no...
+
+--E depois, menino, que inesgotavel, que miraculosa diversidade de
+frmas... E todas bellas!
+
+Agarrava o meu pobre brao, exigia que eu reparasse com reverencia. Na
+Natureza nunca eu descobriria um contorno feio ou repetido! Nunca duas
+folhas d'hera, que, na verdura ou recorte, se assemelhassem! Na Cidade,
+pelo contrario, cada casa repete servilmente a outra casa; todas as
+faces reproduzem a mesma indifferena ou a mesma inquietao; as idas
+teem todas o mesmo valor, o mesmo cunho, a mesma frma, como as libras;
+e at o que ha mais pessoal e intimo, a Illuso, em todos identica, e
+todos a respiram, e todos se perdem n'ella como no mesmo nevoeiro... A
+_mesmice_--eis o horror das Cidades!
+
+--Mas aqui! Olha para aquelle castanheiro. Ha tres semanas que cada
+manh o vejo, e sempre me parece outro... A sombra, o sol, o vento, as
+nuvens, a chuva, incessantemente lhe compem uma expresso diversa e
+nova, sempre interessante. Nunca a sua frequentao me poderia fartar...
+
+Eu murmurei:
+
+-- pena que no converse!
+
+O meu Principe recuou, com olhares chammejantes, d'Apostolo:
+
+--Como que no converse? Mas justamente um conversador sublime! Est
+claro, no tem ditos, nem parola theorias, _ore rotundo_. Mas nunca eu
+passo junto d'elle que no me suggira um pensamento ou me no desvende
+uma verdade... Ainda hoje quando eu voltava de pescar as trutas...
+Parei: e logo elle me fez sentir como toda a sua vida de vegetal
+isenta de trabalho, da anciedade, do esforo que a vida humana impe;
+no tem de se preoccupar com o sustento, nem com o vestido, nem com o
+abrigo; filho querido de Deus, Deus o nutre, sem que elle se mova ou se
+inquiete... E esta segurana que lhe d tanta graa e tanta magestade.
+Pois no achas?
+
+Eu sorria, concordava. Tudo isto era de certo rebuscado e especioso. Mas
+que importavam as requintadas metaphoras, e essa metaphysica mal madura,
+colhida pressa nos ramos d'um castanheiro? Sob toda aquella ideologia
+transparecia uma excellente realidade--a reconciliao do meu Principe
+com a Vida. Segura estava a sua Resurreio depois de tantos annos de
+cova, da cova molle em que jazera, enfaixado como uma mumia nas faixas
+do Pessimismo!
+
+E o que esse Principe, n'esta tarde me esfalfou! Farejava, com uma
+curiosidade insaciavel, todos os recantos da serra! Galgava os cabeos
+correndo, como na esperana de descobrir l do alto os esplendores nunca
+contemplados d'um Mundo inedito. E o seu tormento era no conhecer os
+nomes das arvores, da mais rasteira planta brotando das fendas d'um
+socalco... Constantemente me folheava como a um Diccionario Botanico.
+
+--Fiz toda a sorte de cursos, passei pelos professores mais illustres da
+Europa, tenho trinta mil volumes, e no sei se aquelle senhor alm um
+amieiro ou um sobreiro...
+
+-- um azinheiro, Jacintho.
+
+J a tarde cahia quando recolhemos muito lentamente. E toda essa
+adoravel paz do co, realmente celestial, e dos campos, onde cada
+folhinha conservava uma quietao contemplativa, na luz docemente
+desmaiada, pousando sobre as cousas com um liso e leve affago, penetrava
+to profundamente Jacintho, que eu o senti, no silencio em que
+cahiramos, suspirar de puro allivio.
+
+Depois, muito gravemente:
+
+--Tu dizes que na natureza no ha pensamento...
+
+--Outra vez! Olha que massada! Eu...
+
+--Mas por estar n'ella supprimido o pensamento que lhe est poupado o
+soffrimento! Ns, desgraados, no podemos supprimir o pensamento, mas
+certamente o podemos disciplinar e impedir que elle se estonteie e se
+esfalfe, como na fornalha das cidades, ideando gozos que nunca se
+realisam, aspirando a certezas que nunca se attingem!... E o que
+aconselham estas collinas e estas arvores nossa alma, que vela e se
+agita:--que viva na paz d'um sonho vago e nada appetea, nada tema,
+contra nada se insurja, e deixe o Mundo rolar, no esperando d'elle
+seno um rumor de harmonia, que a emballe e lhe favorea o dormir dentro
+da mo de Deus. Hein, no te parece, Z Fernandes?
+
+--Talvez. Mas necessario ento viver n'um mosteiro, com o temperamento
+de S. Bruno, ou ter cento e quarenta contos de renda e o desplante de
+certos Jacinthos... E tambem me parece que andamos leguas. Estou
+derreado. E que fome!
+
+--Tanto melhor, para as trutas, e para o cabrito assado que nos
+espera...
+
+--Bravo! Quem te cosinha?
+
+--Uma afilhada do Melchior. Mulher sublime! Has de ver a canja! Has de
+ver a cabidella! Ella horrenda, quasi an, com os olhos tortos, um
+verde e outro preto. Mas que paladar! Que genio!
+
+Com effeito! Horacio dedicaria uma ode quelle cabrito assado n'um
+espeto de cerejeira. E com as trutas, e o vinho Melchior, e a cabidella,
+em que a sublime an de olhos tortos puzera inspiraes que no so da
+terra, e aquella doura da noite de Junho, que pelas janellas abertas
+nos envolveu no seu velludo negro, to molle e to consolado fiquei,
+que, na sala onde nos esperava o caf, cahi n'uma cadeira de verga, na
+mais larga, e de melhores almofadas, e atirei um berro de pura delicia.
+
+Depois, com uma recordao, limpando o caf do pello dos bigodes:
+
+-- Jacintho, e quando ns andavamos por Paris com o Pessimismo s
+costas, a gemer que tudo era illuso e dr?
+
+O meu Principe, que o cabrito tornra ainda mais alegre, trilhava a
+grandes passadas o soalho, enrolando o cigarro:
+
+--Oh! que engenhosa besta, esse Schopenhauer! E maior besta eu, que o
+sorvia, e que me desolava com sinceridade! E todavia,--continuava elle,
+remexendo a chavena--o Pessimismo uma theoria bem consoladora para os
+que soffrem, porque desindividualisa o soffrimento, alarga-o at o
+tornar uma lei universal, a lei propria da Vida; portanto lhe tira o
+caracter pungente d'uma injustia especial, commettida contra o
+soffredor por um Destino inimigo e faccioso! Realmente o nosso mal
+sobretudo nos amarga quando contemplamos ou imaginamos o bem do nosso
+visinho:--porque nos sentimos escolhidos e destacados para a
+infelicidade, podendo, como elle, ter nascido para a Fortuna. Quem se
+queixaria de ser cxo--se toda a humanidade coxeasse? E quaes no seriam
+os urros, e a furiosa revolta do homem envolto na neve e friagem e
+borrasca d'um inverno especial, organisado nos ceus para o envolver a
+elle unicamente--em quanto em redor, toda a Humanidade se movesse na
+luminosa benignidade d'uma Primavera?
+
+--Com effeito, murmurei eu, esse sujeito teria immensa razo para
+urrar...
+
+--E depois, clamava ainda o meu amigo, o Pessimismo excellente para os
+Inertes, por que lhes attenua o desgracioso delicto da Inercia. Se toda
+a meta um monte de Dor, onde a alma vae esbarrar, para que marchar
+para a meta, atravez dos embaraos do mundo? E de resto todos os Lyricos
+e Theoricos do Pessimismo, desde Salomo at o maligno Schopenhauer,
+lanam o seu cantico ou a sua doutrina para disfarar a humilhao das
+suas miserias, subordinando-as todas a uma vasta lei de Vida, uma lei
+Cosmica, e ornando assim com a aureola de uma origem quasi divina as
+suas miudas desgraazinhas de temperamento ou de Sorte. O bom
+Schopenhauer formla todo o seu schopenhauerismo, quando um philosopho
+sem editor, e um professor sem discipulos; e soffre horrendamente de
+terrores e manias; e esconde o seu dinheiro debaixo do sobrado; e redige
+as suas contas em grego nos perpetuos lamentos da desconfiana; e vive
+nas adegas com o medo de incendios; e viaja com um copo de lata na
+algibeira para no beber em vidro que beios de leproso tivessem
+contaminado!... Ento Schopenhauer sombriamente Schopenhauerista. Mas
+apenas penetra na celebridade, e os seus miseraveis nervos se acalmam, e
+o cerca uma paz amavel, no ha ento, em todo Francfort, burguez mais
+optimista, de face mais jocunda, e gozando mais regradamente os bens da
+intelligencia e da Vida!... E o outro, o Israelita, o muito pedantesco
+rei de Jerusalem! quando descobre esse sublime Rhetorico que o mundo
+Illuso e Vaidade? Aos setenta e cinco annos, quando o Poder lhe escapa
+das mos tremulas, e o seu serralho de trezentas concubinas se lhe torna
+ridiculamente superfluo. Ento rompem os pomposos queixumes! Tudo
+vaidade e afflico de espirito! nada existe estavel sob o sol! Com
+effeito, meu bom Salomo, tudo passa--principalmente o poder de usar
+trezentas concubinas! Mas que se restitua a esse velho sulto asiatico,
+besuntado de Litteratura, a sua virilidade,--e onde se sumir o lamento
+do Ecclesiastes? Ento voltar, em segunda e triumphal edio, o extase
+do _Livro dos Cantares_!...
+
+Assim discursava o meu amigo no nocturno silencio de Tormes. Creio que
+ainda estabeleceu sobre o Pessimismo outras coisas joviaes, profundas ou
+elegantes;--mas eu adormecera, beatificamente envolto em Optimismo e
+doura.
+
+Em breve porm, me fez pular, escancarar as palpebras molles, uma rija,
+larga, sadia e genuina risada. Era Jacintho, estirado n'uma cadeira, que
+lia o D. Quixote... Oh bem aventurado Principe! Conservra elle o agudo
+poder de arrancar theorias a uma espiga de milho ainda verde, e por uma
+clemencia de Deus, que fizera reflorir o tronco secco, recuperra o dom
+divino de rir, com as facecias de Sancho!
+
+Aproveitando a minha companhia, as duas semanas de bucolica occiosidade
+que eu lhe concedera, o meu Jacintho preparou ento a ceremonia to
+falada, to meditada, a trasladao dos ossos dos velhos Jacinthos--dos
+respeitaveis ossos como murmurava, cumprimentando, o bom Silverio, o
+procurador, n'essa manh de sexta feira, em que almoava comnosco,
+mettido n'um espantoso jaqueto de velludilho amarello debruado de seda
+azul! A ceremonia, de resto, reclamava muita singeleza por serem to
+incertos, quasi impessoaes, aquelles restos, que ns estabeleceriamos na
+Capellinha do valle da Carria, na Capellinha toda nova, toda nua e toda
+fria, ainda sem alma e sem calor de Deus.
+
+--Por que emfim v. ex.^a comprehende,--explicava o Silverio passando o
+guardanapo por sobre a larga face suada e por sobre as immensas barbas
+negras, como as d'um turco--, n'aquella mixordia... Oh! peo desculpa a
+v. ex.^a! N'aquella confuso, quando tudo desabou, no pudmos mais
+conhecer a quem pertenciam os ossos. Nem sequer, fallando verdade, ns
+sabiamos bem que dignos avs de v. ex.^a jaziam na capella velha, assim
+to antigos, com os letreiros apagados, senhores de todo o nosso
+respeito, certamente, mas, se v. ex.^a me permitte, senhores j muito
+desfeitos... Depois veio o desastre, a mixordia. E aqui est o que
+decidi, depois de pensar. Mandei arranjar tantos caixes de chumbo,
+quantas as caveiras que se apanharam l em baixo na Carria, entre o
+lixo e o pedregulho. Havia sete caveiras e meia. Quero dizer, sete
+caveiras e uma caveirinha pequenina. Mettemos cada caveira em seu
+caixo. Depois... Que quer v. ex.^a? No havia outro meio! E aqui o Snr.
+Fernandes dir se no acha que procedemos com habilidade. A cada caveira
+juntamos uma certa poro d'ossos, uma poro rasoavel... No havia
+outro meio... Nem todos os ossos se acharam. Canellas, por exemplo,
+faltavam! E bem possivel que as costellas d'um d'aquelles senhores
+ficasse com a cabea d'outro... Mas quem podia saber? S Deus. Emfim
+fizemos o que a prudncia mandava... Depois, no dia de Juizo, cada um
+d'estes fidalgos apresentar os ossos que lhe pertencerem.
+
+Lanava estas cousas macabras e tremendas, penetrado de respeito, quasi
+com magestade, espetando, ora em mim, ora no meu Principe, os olhinhos
+agudos e relusentes como vidrilhos.
+
+Eu approvei o pittoresco homem:
+
+--Perfeitamente! Andou perfeitamente, amigo Silverio. So to vagos, to
+anonymos, todos esses avs! S faz pena, grande pena, que se
+tresmalhassem os restos do av Galio.
+
+--No estava c! accudiu Jacintho. Vim a Tormes expressamente por causa
+do av Galio, e por fim o seu jazigo nunca foi aqui, na Capellinha da
+Carria... Felizmente!
+
+O Silverio saccudia gravemente a calva trigueira:
+
+--Nunca tivemos o ex.^{mo} sr. Galio. Ha cem annos, Snr. Fernandes, ha
+cem annos que se no depositava na capella velha corpo de cavalheiro c
+da casa.
+
+--Onde estar ento?...
+
+O meu Principe encolheu os hombros. Por esse Reino... Na egrejinha, no
+cemiterio d'alguma das freguezias numerosas, onde elle possuia terras.
+Casa to espalhada!
+
+--Bem! conclui. Ento, como se trata d'ossadas vagas, sem nome, sem
+data, convem uma ceremoniasinha muito simples, muito sobria.
+
+--Quietinha, quietinha! murmurou o Silverio, dando um forte sorvo
+assobiado ao caf.
+
+E foi quietinha, d'uma rustica e doce singeleza, a ceremonia d'aquelles
+altos senhores. Cedo, por uma manh, levemente enevoada, os oito caixes
+pequeninos, cobertos d'um velludo vermelho mais de festa que de funeral,
+com molhos de rosas espalhados, contendo cada um o seu montesinho
+d'ossos incertos, sahiram aos hombros dos coveiros de Tormes e dos moos
+da quinta, da Egreja de S. Jos, cujo sino leve tangia, na enevoada
+doura da manh,--quanto fina e levemente!--como pia um passarinho
+triste. Adiante, um airoso moo de sobrepelis, erguia com zelo a velha
+cruz prateada; abrigando o pescoo sob um immenso leno de rap, de
+quadrados azues, o velho e corcovado sacristo segurava pensativamente a
+caldeirinha d'agoa benta; e o bom abbade de S. Jos, com os dedos entre
+o breviario fechado, movia os labios, n'uma lenta, murmurosa resa, que
+ia, pelo doce ar, espalhando mais doura. Logo atraz do ultimo cofre, o
+mais pequenino, o da caveirinha pequena, Jacintho caminhava; e eu, a
+estalar dentro d'um fato preto de Jacintho, tirado pressa d'uma das
+malas de Paris quando, de manh, j tarde para mandar a Guies, me
+lembrei que toda a minha roupa era de cores festivaes e pastoris.
+
+Depois marchava o Silverio, solemnissimo, com um immenso peitilho, onde
+as barbas immensas se alastravam, negrissimas. De casaca, com o grosso
+beio descahido, descahido todo elle por aquella melancolia de enterro
+que se juntava melancolia da serra, o Grillo enfiava no brao a sua
+coroa, enorme, de rosas e d'heras. Por fim seguia o Melchior, entre um
+rancho de mulheres, que, sumidas na sombra dos lenos pretos, desfiando
+longos rosarios, rosnavam surdas av-marias, atravez d'espaados
+suspiros, to doridos como se inconsoladamente lhes doesse a perda
+d'aquelles Jacinthos. Assim, pelas varzeas entrecorridas de regueiros,
+lenta nos recostos dos mattos, escorregando mais rapida, pelos corregos
+pedregosos, seguia a procisso, sempre com a cruz adiante, alta e
+prateada, rebrilhando por vezes n'um breve raiosinho de sol que,
+vagarosamente, surdia da nevoa desfeita. Ramos baixos de lodo ou de
+salgueiro passavam uma derradeira caricia sobre o velludo dos caixes.
+
+Um regato por vezes nos acompanhava, com discreto fulgir entre as
+relvas, sussurrando e como resando tambem, alegremente: e nos
+quintalinhos umbrosos, nossa passagem, os gallos, de cima das pilhas
+de matto, faziam soar o seu clarim festivo. Depois, adiante da fonte da
+Lira, como o caminho se alongava, e desejassemos poupar o nosso velho
+abbade, cortamos atravez d'uma seara, j alta, quasi madura, toda
+entremeada de papoulas, O sol radiou: sob a brisa larga, que levra a
+nevoa, toda a messe ondulou n'uma lenta vaga dourada, em que se
+balouavam os esquifes; e, como enorme papoula, a mais vermelha,
+rutilava o guarda sol de panninho logo aberto pelo sacristo para
+abrigar o abbade.
+
+Jacintho tocou no meu cotovello:
+
+--Que lindos vamos! Ora v tu a Natureza... N'um simples enterrar
+d'ossos, quanta graa e quanta belleza!
+
+Na Capellinha, nova, dominando o valle da Carria, solitaria e muito
+nua, no meio d'um adro, ainda mal alisado, sem uma verdura de relva, uma
+frescura d'arbusto, dous moos seguravam porta molhos de tochas, que o
+Silverio distribuiu, a passos graves, com cortezias, solemnissimo.
+Dentro as curtas chammas, mal luziam, mal derramavam a sua amarellido
+triste, esbatidas na relusente brancura dos muros estacados, na jovial
+claridade que cahia das altas vidraas bem polidas. Em torno dos
+esquifes, pousados sobre bancos, que pesados velludilhos recobriam, o
+abbade murmurava um suave latim, emquanto ao fundo as mulheres, sumidas
+na sombra dos seus negros lenos, gemiam _amens_ agudos, abafavam um
+respeitoso soluo. Depois, tomando levemente o hyssope, ainda o bom
+abbade aspergiu, para uma derradeira purificao, os incertos ossos dos
+incertos Jacinthos. E todos desfilamos por diante do meu Principe,
+timidamente encostado umbreira, com o Silverio ao lado esmagando
+contra o peitilho as barbas inamensas, a face descahida, cerradas as
+palpebras como contendo lagrimas.
+
+No adro, o meu Principe accendeu regaladamente um cigarro pedido ao
+Melchior:
+
+--E ento, Z Fernandes, que te pareceu a ceremoniasinha?
+
+--Muito campestre, muito suave, muito risonha... Uma delicia.
+
+Mas o Abbade, que se desvestira na Sachristia, appareceu, j com o seu
+grande casaco de lustrina, e seu velho chapeu desabado, trazidos pelo
+moo da Residencia, n'um sacco de chita. Jacintho, immediatamente lhe
+agradeceu tantos cuidados, a affavel hospitalidade que offerecera aos
+ossos, durante a construco da Capellinha nova. E o suave velho, todo
+branquinho, de faces ainda menineiras e coradas, com um claro sorriso de
+dentes sadios, louvava Jacintho, que assim viera de to longe, em to
+longa jornada, para cumprir aquelle dever de bom neto.
+
+--So avs muito remotos, e agora to confusos! murmurava Jacintho
+sorrindo.
+
+--Pois mais merito ainda o de v. ex.^a. Respeitar um av morto, bem
+corrente... Mas respeitar os ossos d'um quinto av, d'um setimo av!
+
+--Sobretudo, Snr. Abbade, quando d'elles nada se sabe, e naturalmente
+nada fizeram.
+
+O velho sacudiu risonhamente o dedo gordo:
+
+--Ora quem sabe, quem sabe! Talvez fossem excellentes! E por fim, quem
+muito se demora no mundo, como eu, termina por se convencer que no mundo
+no ha cousa ou ser inutil. Ainda hontem eu lia n'um jornal do Porto,
+que por fim, segundo se descobriu, so as minhocas que estrumam e lavram
+a terra, antes de chegar o lavrador e os bois com o arado. At as
+minhocas so uteis. No ha nada inutil... Eu tinha l na residencia uma
+poro de cardos a um canto da horta, que me affligiam. Pois reflecti e
+terminei por me regalar com elles em xarope. Os avs de v. ex.^a por c
+andaram, por c trabalharam, por c padeceram. Quer dizer: por c
+serviram. E, em todo o caso, que lhes rezemos um Padre-Nosso por alma
+no lhes pde fazer seno bem, a elles e a ns.
+
+E assim, docemente philosophando, paramos n'um souto de carvalheiras,
+onde esperava a velhissima egoa do Abbade, por que o santo homem agora,
+depois do rheumatismo do ultimo inverno, j no affrontava rijamente
+como antes os trilhos duros da serra. Para elle montar, filialmente
+Jacintho segurou o estribo. E emquanto a egoa se empurrava pelo corrego
+acima, quasi tapada sob o immenso guarda sol vermelho em que se abrigava
+o velho, ns recolhemos a casa mettendo pela serra da Lombinha, atravez
+dos milhos, e depressa, porque eu estalava, aperreado, dentro da roupa
+preta do meu Principe.
+
+--Esto pois accommodados estes senhores, Z Fernandes! S resta rezar
+por elles o Padre-Nosso, que recommenda o abbade... Smente, eu no sei,
+j no me lembro do Padre-Nosso.
+
+--No te afflijas, Jacintho: peo tia Vicencia que reze por mim e por
+ti. sempre a tia Vicencia que reza os meus Padre-Nossos.
+
+Durante essas semanas que preguicei em Tormes, eu assisti, com
+internecido interesse, a uma consideravel evoluo de Jacintho nas suas
+relaes com a Natureza. D'aquelle periodo sentimental de contemplao,
+em que colhia theorias nos ramos de qualquer cerejeira, e edificava
+Systemas sobre o espumar das levadas, o meu Principe lentamente passava
+para o desejo da Aco... E d'uma aco directa e material, em que a sua
+mo, emfim restituida a uma funco superior, revolvesse o torro.
+
+Depois de tanto _commentar_, o meu Principe, evidentemente, aspirava a
+_crear_.
+
+Uma tardinha, ao anoitecer, sentados no pomar, no rebordo do tanque, em
+quanto o Manoel hortelo apanhava laranjas no alto d'uma escada arrimada
+a uma alta laranjeira, Jacintho observou, mais para si do que para mim:
+
+-- curioso... Nunca plantei uma arvore!
+
+--Pois um dos tres grandes actos, sem os quaes segundo diz no sei que
+Philosopho, nunca se foi um verdadeiro homem... Fazer um filho, plantar
+uma arvore, escrever um livro. Tens de te apressar, para ser um homem.
+possivel que talvez nunca prestasses um servio a uma arvore, como se
+presta a um semelhante!
+
+--Sim... Em Paris, quando era pequeno, regava os lilazes. E no vero
+um bello servio! Mas nunca semeei.
+
+E como o Manoel descia da escada, o meu Principe, que nunca acreditra
+inteiramente--pobre homem!--no meu saber agricola, immediatamente
+reclamou o parecer d'aquella auctoridade:
+
+--Oh Manoel, oua l, o que que se poderia agora semear?
+
+Como cesto das laranjas enfiado no brao, o Manoel exclamou, atravez
+d'um lento riso, entre respeitoso e divertido:
+
+--Semear, patro? Agora antes colher... Olhe que j se anda a limpar a
+eirasinha para a debulha, meu patro.
+
+--Pois sim... Mas sem ser milho nem cevada... Ento alli no pomar, rente
+do muro velho, no se podia plantar uma fila de pecegueiros?
+
+O riso do Manoel crescia.
+
+--Isso sim, meu senhor! Isso l para os Santos ou para o Natal. Agora
+s a couvinha na horta, a beldroega, os espinafres, algum feijosinho em
+terra muito fresca...
+
+O meu Principe sacudiu com brando gesto estes legumes rasteiros.
+
+--Bem, boa noite, Manoel. Essas laranjas so da tal laranjeira que diz o
+Melchior, muito doces, muito finas? Ento leve para os seus pequenos.
+Leve muitas para os pequenos.
+
+No! o empenho era crear a arvore. Pela arvore contemplada na serra em
+sua verdadeira magestade, na beneficencia da sua sombra, na frescura
+emballadora do seu rumorejar, na graa e santidade dos ninhos que a
+povoam, comera talvez, lentamente, o seu amor novo da Terra. E agora
+sonhava uma Tormes toda coberta d'arvores, cujos fructos e verduras, e
+sombras, e rumorejos suaves, e abrigados ninhos, fossem a obra e o
+cuidado das suas mos paternaes.
+
+No silencio grave do crepusculo, que descia, murmurou ainda:
+
+--Oh Z Fernandes; quaes so as arvores que crescem mais depressa?
+
+--Eh, meu Jacintho... A arvore que cresce mais depressa o eucalypto, o
+feiissimo e ridiculo eucalypto. Em seis annos tens ahi Tormes coberta de
+eucalyptos...
+
+--Tudo to lento, Z Fernandes...
+
+Porque o seu sonho, que eu comprehendia, seria plantar caroos que
+subissem em fortes troncos, se alargassem em verdes ramarias, antes de
+elle voltar ao 202, no comeo do inverno...
+
+--Um carvalho!... Trinta annos, antes que seja bello! Desanmo! bom
+para Deus, que pode esperar... _Patiens quia aeternus_. Trinta annos!
+D'aqui a trinta annos, arvores s para me cobrirem a sepultura!
+
+--J um ganho. E depois para teus filhos, Jacintho...
+
+--Filhos! onde os tenho eu?
+
+-- o mesmo processo dos castanheiros. Semeia. No faltam por ahi terras
+agradaveis... Em nove mezes tens uma planta feita. E quanto mais
+tenrinhas, e mais pequeninas, mais essas plantas encantam.
+
+Elle murmurou, crusando as mos sobre o joelho:
+
+--Tudo leva tanto tempo!...
+
+E borda do tanque nos quedamos, calados, na fresca doura do
+anoitecer, entre o cheiro avivado das madresilvas do muro, olhando o
+crescente da lua, que surdia dos telhados de Tormes.
+
+E decerto esta pressa de se tornar entre a Natureza no mais um
+sonhador, mas um creador, arremessou vivamente o seu interesse para os
+gados! Repetidamente, nos nossos passeios atravez da quinta, elle lhe
+notava a solido.
+
+--Faltam aqui animaes, Z Fernandes!
+
+Imaginava eu, que elle appetecia em Tormes o ornato elegante de veados e
+paves. Mas um domingo, costeando o largo campo da Ribeirinha, sempre
+escasso d'agoas, agora mais resequido por vero de tanta seccura, o meu
+Principe parou a considerar os tres carneiros do caseiro, que retouavam
+com penuria uma relvagem pobre.
+
+E, de repente, como magoado:
+
+--Justamente! Aqui est o espao para um bello prado, um immenso prado,
+muito verde, muito farto, com rebanhos de carneiros brancos, gordissimos
+como bolas de algodo pousadas na relva!... Era lindo, hein? facil,
+no verdade, Z Fernandes?
+
+--Sim... Trazes a agoa para o prado. Agoas no faltam, na serra.
+
+E o meu principe encadeando logo n'esta inspirada idea outra, mais rica
+e vasta, lembrou quanta belleza daria a Tormes encher esses prados,
+esses verdes ferregiaes, de manadas de vaccas, formosas vaccas inglezas,
+bem nedias e bem luzidias. Hein? Uma belleza. Para abrigar esses gados
+ricos, construiria curraes perfeitos, d'uma architectura leve e util,
+toda em ferro e vidro, fundamente varridos pelo ar, largamente lavados
+pela agoa... Hein? Que formosura! Depois, com todas essas vaccas, e o
+leite jorrando, nada mais facil e mais divertido, e at mais moral, que
+a installao d'uma queijeira, fresca moda Hollandeza, toda branca e
+reluzente, de azulejos e de marmore, para fabricar os Camemberts, os
+Bries... os Coulommiers... Para a casa, que conforto! E para toda a
+serra, que actividade!
+
+--Pois no te parece, Z Fernandes?
+
+--Com certeza. Tu tens, em abundancia, os quatro Elementos: o ar, a
+agoa, a terra, e o dinheiro. Com estes quatro elementos, facilmente se
+faz uma grande lavoura. Quanto mais uma queijeira!
+
+--Pois no verdade? E at como negocio! Est claro, para mim o lucro
+o deleite moral do trabalho, o emprego fecundo do dia... Mas uma
+queijaria, assim perfeita, rende. Rende prodigiosamente. E educa o
+paladar, incita a installaes eguaes, implanta talvez no paiz uma
+industria nova e rica! Ora com essa installao, perfeita, quanto me
+poder custar cada queijo?
+
+Fechei um olho, calculando:
+
+--Eu te digo.... Cada queijo, um d'esses queijinhos redondos, como o
+Camembert ou o Rabaal, pde vir a custar-te, a ti Jacintho queijeiro,
+entre duzentos e cincoenta e trezentos mil ris.
+
+O meu Principe recuou, com dous olhos alegres espantados para mim.
+
+--Como trezentos mil ris?
+
+--Ponhamos duzentos... Tem a certeza! Com todos esses prados, e os
+encanamentos d'agoa e a configurao da serra alterada, e as vaccas
+inglezas, e os edificios de porcellana e vidro, e as maquinas, a
+extravagancia, e a patuscada bucolica, cada queijo te custa, a ti
+productor, duzentos mil ris. Mas com certeza o vendes no Porto por um
+tosto. Pe cincoenta ris para a caixa, rotulos, transporte, commisso,
+etc. Tens apenas, em cada queijo uma perda de cento e noventa e nove mil
+oitocentos e cincoenta ris!
+
+O meu Principe no desanimou.
+
+--Perfeitamente! Fao um d'esses espantosos queijos por semana, ao
+sabbado, para o comermos ns ambos ao domingo!
+
+E tanta energia lhe communicava o seu novo Optimismo, to anciosamente
+aspirava a crear, que logo, arrastando o Silverio e o Melchior por
+cabeos e barrancos, largou a percorrer a quinta toda, para determinar
+onde cresceriam, ao seu mando inspirado, os verdes prados, e se
+ergueriam, rebrilhantes no sol de Tormes, os curraes elegantes. Com a
+esplendida segurana dos seus cento e nove contos de renda, no surgia
+difficuldade, risonhamente murmurada pelo Melchior, ou exclamada, com
+respeitoso pasmo, pelo Silverio, que elle no afastasse brandamente, com
+geito leve, como um galho de roseira brava atravessado n'uma vereda.
+
+Aquellas rochas, alm, empecendo? Que se arrancassem! Um valle importuno
+dividia dous campos? Que se atulhasse! O Silverio suspirava, enxugando
+sobre a escura calva um suor quasi d'angustia. Pobre Silverio! Rijamente
+sacudido na doce pachorra da sua administrao, calculando despezas que
+se affiguravam sobrehumanas sua parcimonia serrana, forado a
+arquejar, sem descano, sob soalheiras de Junho, o desgraado retomra
+na Serra o geito que Jacintho deixra em Paris,--e era elle que corria
+pelas longas barbas tenebrosas os dedos desalentados... Emfim uma tarde
+desabafou comigo, a um canto da varanda, em quanto Jacintho, na
+livraria, escrevia a um seu amigo de Hollanda, o conde Rylant, Mordomo
+Mr da Corte, pedindo desenhos, e planos, e oramentos d'uma queijeira
+perfeita.
+
+--Pois, Snr. Fernandes, se toda esta grandeza vae por diante, sempre lhe
+digo que o Snr. D. Jacintho enterra aqui na serra dezenas de contos...
+Dezenas de contos!
+
+E como eu alludia fortuna do meu Principe, a quem todas essas obras
+to vastas, que alterariam o antiquissimo rosto da serra, no custavam
+mais que a outros o concerto d'um socalco,--o bom Silverio atirou os
+longos braos para as coxas gordas, ainda mais desolado:
+
+--Pois por isso mesmo, Snr. Fernandes! Se o Snr. D. Jacintho no tivesse
+a dinheirama, recuava. Assim, zs zs, para deante; e eu no o censuro
+pela ideia. Lograsse eu a renda de S. Ex.^a, que me atirava tambem a uma
+lavoura de capricho. Mas no aqui, Snr. Fernandes, n'estas serranias,
+entre alcantis. Pois um senhor que possue aquella linda propriedade de
+Montemr, nos campos do Mondego, onde at podia plantar jardins de
+desbancar os do Palacio de Crystal do Porto! E a Velleira? O Snr.
+Fernandes no conhece a Velleira, l para os lados de Penafiel? Isso
+um condado! E uma terra ch, boa terra, toda junta, alli em volta da
+casa, com uma torre. Um regalo, Snr. Fernandes. Mas sobretudo Montemr!
+L que eram prados e manadas de vaccas inglezas, e queijeira e horta
+rica, de fartar, e ahi trinta pers na capoeira...
+
+--Ento que quer, Silverio? O Jacintho gosta da serra. E depois este o
+solar da familia, e aqui comearam no seculo XIV os Jacinthos...
+
+O pobre Silverio, no seu desespero, esquecia o respeito devido secular
+nobreza da casa.
+
+--Ora! at ficam mal ao Snr. Fernandes essas ideias, n'este seculo da
+liberdade... Pois estamos l em tempos de se fallar em fidalguias, agora
+que por toda a parte anda tudo em Republica? Leia o _Seculo_, Snr.
+Fernandes! leia o _Seculo_, e ver! E depois eu sempre quero vr o Snr.
+D. Jacintho, aqui no inverno, com o nevoeiro a subir do rio logo pela
+manh, e a friagem a trespassar os ossos, e ventanias que atiram
+carvalheiras de raizes ao ar, e chuvas e chuvas que se desfaz a
+serra!... Olhe, at mesmo por amor da saude o Snr. D. Jacintho, que
+fraquinho e acostumado cidade, necessita sahir da serra. Em Montemr,
+em Montemr que s. ex.^a estava bem. E o Snr. Fernandes, to amigo
+d'elle e assim com tanta influencia, devia teimar, e berrar, at que o
+levasse para Montemr.
+
+Mas, infelizmente para a quietao do Silverio, Jacintho lanra raizes,
+e rijas, e amorosas raizes na sua rude serra. Era realmente como se o
+tivessem plantado d'estaca n'aquelle antiquissimo cho, d'onde brotra a
+sua raa, e o antiquissimo humus refluisse e o penetrasse todo, e o
+andasse transformando n'um Jacintho rural, quasi vegetal, to do cho, e
+preso ao cho, como as arvores que elle tanto amava.
+
+E depois o que o prendia serra era o ter n'ella encontrado o que na
+Cidade, apesar da sua sociabilidade, no encontrra nunca,--dias to
+cheios, to deliciosamente occupados, d'um to saboroso interesse, que
+sempre penetrava n'elles, como n'uma festa ou n'uma gloria.
+
+Logo de manh, s seis horas, eu, no meu quarto, mexendo ainda
+regaladamente o meu corpo nos colches de fresco folhelho, sentia os
+seus rijos sapates pelo corredor, e o seu cantarolar, desafinado, mas
+ditoso como o d'um melro. Em poucos instantes escancarava com fragor a
+minha porta, j de chapeu desabado, j de bengalo de cerejeira,
+disposto com reservado fervor para os trilhos conhecidos da serra. E era
+sempre a mesma nova, quasi orgulhosa:
+
+--Dormi hoje deliciosamente, Z Fernandes. To bem, com uma tal
+serenidade, que comeo a acreditar que sou um justo! Um dia lindo!
+Quando abri a janella, s cinco horas, quasi gritei de puro gosto!
+
+Na sua pressa, nem me deixava demorar na frescura da banheira; e quando
+eu repetia a risca mal comeada do cabello, aquelle antigo homem das
+trinta e nove escovas, protestava contra esse desbarato effeminado d'um
+tempo devido aos fortes gozos da terra.
+
+Mas quando, depois de acariciar os rafeiros no pateo, desembocavamos da
+alameda de platanos, e deante de ns se dividiam matutinamente, mais
+brancos entre o verde matutino, os caminhos colleantes da quinta, toda a
+sua pressa findava, e penetrava na Natureza, com a reverente lentido de
+quem penetra n'um Templo. E repetidamente sustentava ser contrario
+Esthetica, Philosophia e Religio, andar depressa atravs dos
+campos. De resto, com aquella subtil sensibilidade bucolica que n'elle
+se desenvolvera, e incessantemente se afinava, qualquer breve belleza,
+do ar ou da terra, lhe bastava para um longo encanto. Ditosamente
+poderia elle entreter toda uma manh, caminhar por entre um pinheiral,
+de tronco a tronco, callado, embebido no silencio, na frescura, no
+resinoso aroma, empurrando com o p as agulhas e as pinhas seccas.
+Qualquer agua corrente o retinha, enternecido n'aquella servial
+actividade, que se apressa, cantando, para o torro que tem sde, e
+n'elle se some, e se perde. E recordo ainda quando me reteve meio
+domingo, depois da Missa, no cabeo, junto a um velho curral
+desmantellado, sob uma grande arvore,--s por que em torno havia
+quietao, doce aragem, um fino piar d'ave na ramaria, um murmurio de
+regato entre canas verdes, e por sobre a sbe, ao lado, um perfume,
+muito fino e muito fresco, de flores escondidas.
+
+Depois, quando eu, velho familiar das serras, me no abandonava aos
+mesmos extasis que a elle lhe enchiam a alma ainda novia--o meu
+Principe rugia, com a indignao d'um poeta que descobre um mercieiro
+bocejando sobre Shakspeare ou Musset. Eu ria.
+
+--Meu filho, olha que eu no passo d'um pequeno proprietario. Para mim
+no se trata de saber se a terra _linda_, mas se a terra _boa_. Olha
+o que diz a Biblia! Trabalhars a quinta com o suor do teu rosto! E
+no diz contemplars a quinta com o enlevo da tua imaginao!
+
+--Podra! exclamava o meu Principe. Um livro escripto por Judeos, por
+asperos semitas, sempre com o turvo olho posto no lucro! Repra, homem,
+para aquelle bocadinho de valle, e consegue no pensar, por um momento,
+nos trinta mil reis que elle rende! Vers que pela sua belleza e graa
+elle te d mais contentamento alma que os trinta mil reis ao corpo. E
+na vida s a alma importa.
+
+Recolhendo ao casaro, j o encontravamos com as janellas meio cerradas,
+os soalhos borrifados para aquellas quentes restias de sol de junho, que
+depois do almoo docemente nos retinham na livraria, preguiando.
+
+Mas realmente a alegre actividade do meu Principe no cessava, nem
+amollecia, sob o peso da ssta. A essa hora, em quanto pelo arvoredo
+mudo os mais agitados pardaes dormiam, e o sol mesmo parecia repousar,
+immovel na rutilancia da sua luz, Jacintho com o espirito
+acordado,--vido de sempre gosar, agora que reconquistra essa
+faculdade,--tomava com delicia o _seu livro_. Por que o dono de trinta
+mil volumes era agora, na sua casa de Tormes, depois de resuscitado, o
+homem que s tem um livro. Essa mesma Natureza, que o desligra das
+ligaduras amortalhadoras do tedio, e lhe gritra o seu bello _Ambula_,
+caminha!--tambem certamente lhe gritra _et lege_, e l. E libertado
+emfim do envolucro suffocante da sua Bibliotheca immensa, o meu ditoso
+amigo comprehendia emfim a incomparavel delicia de _lr um livro_.
+Quando eu correra a Tormes, (depois das revelaes do Severo na venda do
+Torto,) elle findava o D. Quichote, e ainda eu lhe escutra as
+derradeiras risadas com as cousas deliciosas, e de certo profundas, que
+o gordo Sancho lhe murmurava, escarranchado no seu burro. Mas agora o
+meu Principe mergulhra na _Odyssea_,--e todo elle vivia no espanto e no
+deslumbramento de assim ter encontrado no meio do caminho da sua vida, o
+velho errante, o velho Homero!
+
+--Oh Z Fernandes, como succedeu que eu chegasse a esta edade sem ter
+lido Homero?...
+
+--Outras leituras, mais urgentes... O _Figaro_, George Ohnet...
+
+--Tu leste a _Illiada_?
+
+--Menino, sinceramente me gabo de nunca ter lido a _Illiada_.
+
+Os olhos do meu Principe fuzilavam.
+
+--Tu sabes o que fez Alcibiades, uma tarde, no Portico, a um sophista,
+um desavergonhado d'um sophista, que se gabava de no ter lido a
+_Illiada_?
+
+--No.
+
+--Ergueu a mo e atirou-lhe uma bofetada tremenda.
+
+--Para l, Alcibiades! Olha que eu li a _Odyssea_!
+
+Oh! mas de certo eu a lra, corridamente, com a alma desattenta! E
+insistia em me iniciar, elle, e me conduzir, atravs do Livro sem egual.
+Eu ria. E rindo, pesado do almoo, terminava por consentir, e me
+estirava no canap de verga. Elle, deante da mesa, direito na cadeira,
+abria o livro gravemente, pontificalmente, como um missal, e comeava
+n'uma lenta ode sentida. Aquelle grande mar da _Odyssea_,--
+resplandecente e sonoro, sempre azul, todo azul, sob o vo branco das
+gaivotas, rolando, e mansamente quebrando sobre a areia fina ou contra
+as rochas de marmore das Ilhas divinas,--exhalava logo uma frescura
+salina, bem vinda e consoladora n'aquella calma de Junho, em que a serra
+se entorpecia. Depois as estupendas manhas do subtil Ulysses e os seus
+perigos sobrehumanos, tantas lamurias sublimes, e um anceio to
+espalhado da Patria perdida, e toda aquella intriga, em que embrulhava
+os Heroes, lograva as Deusas, illudia o Fado, tinham um delicioso sabr
+ali, nos campos de Tormes, onde nunca se necessitava de subtileza ou de
+engenho, e a Vida se desenrolava com a segurana immutavel com que cada
+manh sempre o Sol egual nascia, e sempre centeios e milhos, regados por
+agoas eguaes, seguramente medravam, espigavam, amadureciam... Emballado
+pela recitao grave e monotona do meu Principe, eu cerrava as palpebras
+docemente. Em breve um vasto tumulto, por terra e ceu, me alvoroava...
+E eram os rugidos de Polyphemo, ou a grita dos companheiros d'Ulysses
+roubando as vaccas de Apollo. Com os olhos logo esbugalhados para
+Jacintho, eu murmurava: _Sublime!_ E sempre, n'esse momento o engenhoso
+Ulysses, de carapuo vermelho e o longo remo ao hombro, surprehendia com
+a sua facundia a clemencia dos Principes, ou reclamava presentes devidos
+ao Hospede, ou surripiava astutamente algum favor aos Deuses. E Tormes
+dormia, no esplendor de Junho. Novamente, eu cerrava as palpebras
+consoladas, sob a caricia ineffavel do largo dizer homerico... E meio
+adormecido, encantado, incessantemente avistava, longe, na divina
+Hellade, entre o mar muito azul e o ceu muito azul, a branca vela,
+hesitante, procurando Ithaca...
+
+Depois da ssta o meu Principe de novo se soltava para os campos. E a
+essa hora, sempre mais activa, voltava com ardor aos seus planos, a
+essas culturas de luxo e elegantes officinas que cobririam a serra de
+magnificencias ruraes. Agora andava todo no esplendido appetite d'uma
+horta que elle concebera, immensa horta ajardinada, em que todos os
+legumes, classicos ou exoticos, cresceriam, soberbamente, em vistosos
+talhes, fechados por sebes de rosas, de cravos, de alfazma, de
+dhalias. A agoa das regas desceria por lindos corrgos de loua
+esmaltada. Nas ruas, a sombra cahiria de densas latadas de moscatel,
+pousando em esteios revestidos d'azulejo. E o meu Principe desenhra o
+plano d'esta espantosa horta, a lapiz vermelho, n'um papel immenso, que
+o Melchior e o Silverio, consultados, longamente contemplaram,--um
+coando risonhamente a nuca, o outro com os braos duramente crusados, e
+o sobrlho tragico.
+
+Mas este plano, o da queijaria, o da capoeira, e outro, sumptuoso, d'um
+pombal to povoado que todo o ceu de Tormes s tardes se tornaria branco
+e todo fremente d'azas--no sahiam das nossas gostosas palestras, ou dos
+papeis em que Jacintho os debuxava, e que se amontoavam sobre a meza,
+platonicos, immoveis, entre o tinteiro de lato e o vaso com flres.
+
+Nem enxadada fendera terra, nem alavanca deslocra pedra, nem serra
+serrra madeira, para encetar estas maravilhas. Contra a resistencia
+rebolada e escorregadia do Melchior, contra a respeitosa inercia do
+Silverio se quedavam, encalhados, os planos do meu Principe, como
+galeras vistosas em rochas ou em ldo.
+
+No convinha bolir em nada, (clamava o Silverio) antes das colheitas e
+da vindima! E depois, (acrescentava o Melchior com um sorriso de grande
+promessa) para boas obras mez de Janeiro porque l ensina o dictado:
+
+Em Janeiro--mette obreiro
+Mez meante--que no ante.
+
+E, de resto, o goso de conceber as suas obras e de indicar, estendendo a
+bengala por cima de valle e monte, os sitios privilegiados que ellas
+aformoseariam, bastava por ora ao meu Principe, ainda mais imaginativo
+que operante. E, em quanto meditava estas transformaes da terra, muito
+progressivamente e com um amavel esforo, se ia familiarisando com os
+homens simples que a trabalhavam. Na sua chegada a Tormes, o meu
+Principe soffria d'uma estranha timidez diante dos caseiros, dos
+jornaleiros, e at de qualquer rapazinho que passasse, tangendo uma
+vacca para o pasto. Nunca elle ento se demoraria a conversar com os
+moos, quando borda d'um caminho ou n'um campo em monda elles se
+endireitavam de chapeu na mo, n'um respeito de velha vassalagem. De
+certo o empecia a preguia, e talvez ainda o pudico recato de transpor
+toda a immensa distancia que se alargava desde a sua complicada
+super-civilisao at rude simplicidade d'aquellas almas
+naturaes:--mas sobretudo o retinha o medo de mostrar a sua ignorancia da
+lavoura e da terra, ou de parecer talvez desdenhoso de occupaes e de
+interesses, que para os outros eram supremos e quasi religiosos. Remia
+ento esta reserva com uma profuso de sorrisos, de doces acenos,
+tirando tambem o chapeu em cortezias profundas, com uma tal emphase de
+polidez que eu por vezes receava que elle murmurasse aos jornaleiros:
+Tenha v. ex.^a muito boas tardes;... Creado de v. ex.^a!
+
+Mas agora, depois d'aquellas semanas de serra, e de j saber (com um
+saber ainda fragil,) a epocha das sementeiras e das ceifas, e que as
+arvores de fructa se semeiam no inverno, j se aprazia em parar junto
+dos trabalhadores, contemplar descanadamente o trabalho, dizer cousas
+affaveis e vagas.
+
+--Ento, isso vae andando?... Ora ainda bem!... Este bocado de torro
+aqui rico... O talude ali adeante est precisando concerto...
+
+E cada um d'estes to simples dizeres lhe era doce, como se por meio
+d'elles penetrasse mais fundamente na intimidade da terra, e
+consolidasse a sua encarnao em homem do campo, deixando de ser uma
+mera sombra circulando entre realidades. J por isso no crusava no
+caminho o mocinho atraz das vaccas, que no o detivesse, o no
+interrogasse: Para onde vaes tu? De quem o gado? Como te chamas? E,
+contente comsigo, sempre gabava gratamente o desembarao do rapaz, ou a
+esperteza dos seus olhos. Outra satisfao do meu Principe era conhecer
+os nomes de todos os campos, as nascentes d'agua, e as delimitaes da
+sua quinta.
+
+--Vs acol, para alm do ribeiro, o pinheiral. J no meu, dos
+Albuquerques.
+
+E com a perenne alegria de Jacintho as noites da serra, no vasto
+casaro, eram faceis e curtas. O meu Principe era ento uma alma que se
+simplificava:--e qualquer pequenino goso lhe bastava, desde que n'elle
+entrasse paz ou doura. Com verdadeira delicia ficava, depois do caf,
+estendido n'uma cadeira, sentindo atravez das janellas abertas, a
+nocturna tranquillidade da serra, sob a mudez estrellada do ceu.
+
+As historias, muito simples e muito caseiras, que eu lhe contava, de
+Guies, do abbade, da tia Vicencia, dos nossos parentes da Flr da
+Malva, to sinceramente o interessavam que eu encetra, para seu regalo,
+a chronica completa de Guies, com todos os namoricos, e as faanhas de
+foras, e as desavenas por causa de servides ou d'aguas. Tambem por
+vezes nos enfronhavamos, com afferro n'uma partida de gamo, sobre um
+bello taboleiro de pau preto, com pedras de velho marfim, que nos
+emprestra o Silverio. Mas nada de certo o encantava tanto como
+atravessar as casas, p ante p, at uma saleta que dava para o pomar, e
+ahi ficar encostado janella, sem luz, n'um enlevado socego, a escutar
+longamente, languidamente, os rouxinoes que cantavam no laranjal.
+
+
+
+
+X
+
+
+N'uma dessas manhs--justamente na vespera do meu regresso a Guies--, o
+tempo, que andra pela serra to alegre, n'um inalterado riso de luz
+rutilante, todo vestido d'azul e ouro, fazendo poeira pelos caminhos, e
+alegrando toda a natureza, desde os passaros at os regatos,
+subitamente, com uma d'aquellas mudanas que tornam o seu temperamento
+to semelhante ao do homem, appareceu triste, carrancudo, todo
+embrulhado no seu manto cinzento, com uma tristeza to pesada e
+contagiosa que toda a serra entristeceu. E no houve mais passaro que
+cantasse, e os arroios fugiram para debaixo das hervas com um lento
+murmurio de chro.
+
+Quando Jacintho entrou no meu quarto, no resisti malicia de o
+aterrar:
+
+--Sudoeste! gralhas a grasnar por todos esses soutos... Temos muita
+agua, Snr. D. Jacintho! Talvez duas semanas d'agua! E agora se vae
+saber quem aqui o fino amador da Natureza, com esta chuva pegada, com
+vendaval, com a serra toda a escorrer!
+
+O meu Principe caminhou para a janella com as mos nas algibeiras:
+
+--Com effeito! Est carregado. J mandei abrir uma das malas de Paris e
+tirar um casaco impermeavel... No importa! Fica o arvoredo mais verde.
+E bom que eu conhea Tormes nos seus habitos d'inverno.
+
+Mas como o Melchior lhe affianra que a chuvinha s viria para a
+tarde, Jacintho decidiu ir antes d'almoo Corujeira, onde o Silverio
+o esperava para decidirem da sorte d'uns castanheiros, muito velhos,
+muito pittorescos, inteiramente interessantes, mas j roidos, e
+ameaando desabar. E, confiando nas previses do Melchior, partimos sem
+que Jacintho se vestisse prova d'agoa. No andaramos porm meio
+caminho, quando, depois d'um arrepio nas arvores, um negrume carregou,
+e, bruscamente, desabou sobre ns uma grossa chuva obliqua, vergastada
+pelo vento, que nos deixou estonteados, agarrando os chapeus,
+enrodilhados na borrasca. Chamados por uma grande voz, que se esganiava
+no vento, avistamos n'um campo mais alto, beira d'um alpendre, o
+Silverio, debaixo d'um guarda-chuva vermelho, que acenava, nos indicava
+o trilho mais curto para aquelle abrigo. E para l rompemos, com a chuva
+a escorrer na cara, patinhando na lama, contorcidos, cambaleantes,
+atordoados no vendaval, que n'um instante alagra os campos, inchra os
+ribeiros, esboroava a terra dos socalcos, lanra n'um desespero todo o
+arvoredo, tornra a serra negra, bravamente agreste, hostil,
+inhabitavel.
+
+Quando emfim, debaixo do vasto guarda-chuva com que o Silverio nos
+esperava beira do campo, corremos para o alpendre, nos refugiamos
+n'aquelle abrigo inesperado, a escorrer, a arquejar, o meu Principe,
+enxugando a face, enxugando o pescoo, murmurou, desfallecido:
+
+--Apre! que ferocidade!
+
+Parecia espantado d'aquella brusca, violenta colera d'uma serra to
+amavel e accolhedora, que em dous mezes, inalteradamente, s lhe
+offerecera doura e sombra, e suaves ceus, e quietas ramagens, e
+murmurios discretos de ribeirinhos mansos.
+
+--Santo Deus! Vem muitas vezes assim, estas borrascas?
+
+Immediatamente o Silverio aterrou o meu Principe:
+
+--Isto agora so brincadeiras de vero, meu senhor! Mas ha de V. Ex.^a
+vr no inverno, se V. Ex.^a se aguentar por c! Ento cada temporal,
+que at parece que os montes estremecem!
+
+E contou como fra tambem apanhado, quando ia para a Corujeira.
+Felizmente, logo pela manh, quando sentiu o ar carrancudo e as
+folhinhas dos choupos a tremer, se acautelra com o chapeu de chuva e
+calra as suas grandes botas.
+
+--Ainda estive para me abrigar em casa do Esgueira, que um caseiro de
+c. Aquella casa, ali abaixo, onde est a figueira... Mas a mulher tem
+estado doente, j ha dias... E como pde ser obra que se pegue, bexigas
+ou coisa que o valha, pensei comigo: Nada, o seguro morreu de velho!
+Metti para o alpendre... E no passra um credo quando lobriguei a V.
+Ex.^a... Coisa assim!... E o Snr. D. Jacintho voltar para casa, e
+mudar-se, que temos um dia e uma noite d'agoa.
+
+Mas, justamente, a chuva comera a cahir perpendicular, d'um ceu ainda
+negro, onde o vento se calra; e para alm do rio e dos montes havia uma
+claridade, como entre cortinas de pano cinzento que se descerram.
+
+Jacintho repousava. Eu no cessra de me sacudir, de bater os ps
+encharcados, que me arrefeciam. E o bom Silverio, passando a mo
+pensativa sobre o negrume das suas barbas, reflectia, emendava os seus
+prognosticos:
+
+--Pois, no senhor... Ainda esta! Nunca pensei. que tornejou o vento.
+
+O alpendre que nos cobria assentava sobre duas paredes em angulo, de
+pedra solta, restos d'algum casebre desmantelado, e sobre um esteio
+fazendo cunhal. N'esse momento s abrigava madeira, um cuculo de cestos
+vasios, e um carro de bois, onde o meu Principe se sentra, enrolando um
+cigarro confortador. A chuva desabava, copiosa, em longos fios
+reluzentes. E todos tres nos callavamos, n'aquella contemplao inerte e
+sem pensamento, em que uma chuva grossa e serena sempre immobilisa e
+retem olhos e almas.
+
+-- Snr. Silverio, murmurou lentamente o meu Principe, que que o
+senhor esteve ahi a dizer de bexigas?
+
+O procurador voltou a face surprehendido:
+
+--Eu, Ex.^{mo} Snr.?... Ah sim! a mulher do Esgueira! que pde ser,
+pde ser... No imagine V. Ex.^a que faltam por c doenas. O ar bom.
+No digo que no! Arsinho so, agoasinha leve. Mas s vezes, se V. Ex.^a
+me d licena, vae por ahi muita maleita.
+
+--Mas no ha medico, no ha botica?
+
+O Silverio teve o riso superior de quem habita regies civilisadas e bem
+providas...
+
+--Ento no havia d'haver? Pois ha um boticario, em Guies, l quasi ao
+p da casa aqui do nosso amigo. E homem entendido... o Firmino, hein,
+Snr. Fernandes? Homem capaz. Medico o Dr. Avelino, d'aqui a legoa e
+meia, nas Bolsas. Mas j V. Ex.^a v, esta gentinha pobre!... Tomaram
+elles para po, quanto mais para remedios!
+
+E de novo se estabeleceu um silencio, sob o alpendre, onde penetrava a
+friagem crescente da serra encharcada. Para alm do rio, a promettedora
+claridade no se alargra entre as duas espessas cortinas pardacentas.
+No campo, em declive deante de ns, ia um longo correr de ribeiros
+barrentos. Eu terminra por me sentar na ponta d'um madeiro, enervado,
+j com a fome aguada pela manh agreste. E Jacintho, na borda do carro,
+com os ps no ar, cofiava os bigodes humidos, palpava a face, onde, com
+espanto meu, reapparecera a sombra, a sombra triste dos dias passados, a
+sombra do 202!
+
+E, ento, surdiu por traz da parede do alpendre um rapasito, muito
+rotinho, muito magrinho, com uma carita miuda, toda amarella sob a
+porcaria, e onde dous grandes olhos pretos se arregalavam para ns, com
+vago pasmo e vago medo. Silverio immediatamente o conheceu.
+
+--Como vae a tua me? Escusas de te chegar para c, deixa-te estar ahi.
+Eu ouo bem. Como vae a tua me?
+
+No percebi o que os pobres beicitos descorados murmuraram. Mas Jacinto,
+interessado:
+
+--Que diz elle? Deixe vir o rapaz! Quem a tua me?
+
+Foi o Silverio que informou respeitosamente:
+
+-- a tal mulher que est doente, a mulher do Esgueira, ali do casal da
+figueira. E ainda tem outro abaixo d'este... Filharada no lhe falta.
+
+--Mas este pequeno tambem parece doente!--exclamou Jacintho. Coitadito,
+to amarello!... Tu tambem ests doente?
+
+O rapasinho emmudecera, chupando o dedo, com os tristes olhos pasmados.
+E o Silverio sorria, com bondade:
+
+--Nada! este sosinho... Coitado, assim amarellado e enfezadito, por
+que... Que quer V. Ex.^a? Mal comido! muita miseria... Quando ha o
+bocadito de po para todo o rancho. Fomesinha, fomesinha!
+
+Jacintho pulou bruscamente da borda do carro.
+
+--Fome? Ento elle tem fome? Ha aqui gente com fome?
+
+Os seus olhos rebrilhavam, n'um espanto commovido, em que pediam, ora a
+mim, ora ao Silverio, a confirmao d'esta miseria insuspeitada. E fui
+eu que esclareci o meu Principe:
+
+--Homem! est claro que ha fome! Tu imaginavas talvez que o Paraiso se
+tinha perpetuado aqui nas serras, sem trabalho e sem miseria... Em toda
+a parte ha pobres, at na Australia, nas minas d'ouro. Onde ha trabalho
+ha proletariado, seja em Paris, seja no Douro...
+
+O meu Principe, teve um gesto d'afflicta impaciencia:
+
+--Eu no quero saber o que ha no Douro. O que eu pergunto se aqui, em
+Tormes, na minha propriedade, dentro d'estes campos que so meus, ha
+gente que trabalhe para mim, e que tenha fome... Se ha creancinhas, como
+esta, esfomeadas? o que eu quero saber.
+
+O Silverio sorria, respeitosamente, ante aquella candida ignorancia das
+realidades da Serra:
+
+--Pois est bem de vr, meu senhor, que ha para ahi caseiros que so
+muito pobres. Quasi todos... uma miseria, que se no fosse algum
+soccorro que se lhes d, nem eu sei!... Este Esgueira, com o rancho de
+filhos que tem, uma desgraa... Havia V. Ex.^a de vr as casitas em
+que elles vivem... So chiqueiros. A do Esgueira, acol...
+
+--Vamos vl-a! atalhou Jacintho com uma deciso exaltada.
+
+E sahiu logo do alpendre, sem attender chuva, que ainda cahia, mais
+leve e mais rala. Mas ento Silverio alargou os braos deante d'elle,
+com anciedade, como para o salvar d'um precipicio.
+
+--No! V. Ex.^a l na casa do Esgueira que no entra! No se sabe o
+que a mulher tem, e cautella e caldo de gallinha...
+
+Jacintho no se alterou na sua polidez paciente:
+
+--Obrigado pelo seu cuidado, Silverio... Abra o seu chapeu de chuva, e
+vante!
+
+Ento o Procurador vergou os hombros, e, como S. Ex.^a mandava, abriu
+com estrondo o immenso pra-agoas, abrigou respeitosamente Jacintho,
+atravs do campo encharcado. Eu segui, pensando na esmola sumptuosa que
+o bom Deus mandava quelle pobre casal por um remoto senhor das Cidades!
+Atraz vinha o pequenito perdido n'um immenso pasmo.
+
+Como todos os casebres da serra, o do Esgueira era de grossa pedra
+solta, sem reboco, com um vago telhado, de telha musgosa e negra, um
+postigo no alto, e a rude porta que servia para o ar, para a luz, para o
+fumo, e para a gente. E em redor, a Natureza e o Trabalho tinham,
+atravs d'annos, accumulado ali trepadeiras e flres silvestres, e
+cantinhos d'horta, e sebes cheirosas, e velhos bancos roidos de musgo, e
+panellas com terra onde crescia salsa, e regueiros cantantes, e videiras
+enforcadas nos olmos, e sombras e charcos espelhados, que tornavam
+deliciosa, para uma Ecloga, aquella morada da Fome, da Doena e da
+Tristeza.
+
+Cautelosamente, com a ponteira do guarda-chuva, Silverio empurrou a
+porta, chamando:
+
+--Eh! tia Maria... Ol rapariga!
+
+E na fenda entreaberta appareceu uma moa, muito alta, escura e suja,
+com uns tristes olhos pisados, que se espantaram para ns, serenamente.
+
+--Ento como vae a tua me?--Abre l a porta, que esto aqui estes
+senhores...
+
+Ella abriu, lentamente, e ia murmurando n'uma voz dolente e arrastada
+mas sem queixume, que um vago, resignado sorriso acompanhava:
+
+--Ora, coitada! como ha de ir? Malzinha... malzinha.
+
+E dentro, n'um gemido que subia como do cho, d'entre abafos, amodorrado
+e lento, a me repetiu a desconsolada queixa:
+
+--Ai! para aqui estou, e malzinha, malzinha!...
+
+O Silverio, sem passar da porta, com o guarda-chuva em riste, meio
+aberto, como um escudo contra a infeco, lanou uma consolao vaga:
+
+--No ha de ser nada, tia Maria!... Isso foi friagem! No foi seno
+friagem!
+
+E, sobre o hombro de Jacintho, encolhido:
+
+--J V. Ex.^a v... Muita miseria! At lhe chove l dentro.
+
+E, no pedao de cho que viam, cho de terra batida, uma mancha humida
+reluzia, da chuva pingada de uma telha rta. A parede, coberta de
+fuligem, das longas fumaraas da lareira, era to negra como o cho. E
+aquella penumbra suja parecia atulhada, n'uma desordem escura, de
+trapos, de cacos, de restos de coisas, onde s mostravam frma
+comprehensivel uma arca de pau negro, e por cima, pendurado d'um prego,
+entre uma serra e uma candeia, um grosso saiote escarlate.
+
+Ento Jacintho, muito embaraado, murmurou abstrahidamente:
+
+--Est bem, est bem...
+
+E largou pelo campo para o lado do alpendre como se fugisse, emquanto o
+Silverio decerto revelava rapariga, a presena augusta do fidalgo,
+por que a sentimos, da porta, levantar a voz dolorida:
+
+--Ai! Nosso Senhor lhe d muito boa sorte! Nosso Senhor o acompanhe!
+
+Quando o Silverio, com as grandes passadas das suas grandes botas, nos
+colheu, no meio do campo, Jacintho parra, olhava para mim, com os dedos
+tremulos a torturar o bigode, e murmurava:
+
+-- horrivel, Z Fernandes, horrivel.
+
+Ao lado, o vozeiro do Silverio trovejou:
+
+--Que queres tu outra vez, rapaz? Vae para a tua me, creatura!
+
+Era o pequeno rotinho, esfaimadinho, que se prendia a ns, n'um immenso
+pasmo das nossas pessoas, e com a confusa esperana, talvez, que
+d'ellas, como de Deuses encontrados n'um caminho, lhe viesse affago ou
+proveito. E Jacintho, para quem elle mais especialmente arregalava os
+olhos tristes, e que aquella miseria, e a sua muda humildade,
+embaraavam, acanhavam horrivelmente, s soube sorrir, murmurar o seu
+vago: Est bem, est bem... Fui eu que dei ao pequenito um tosto,
+para o fartar, o despegar dos nossos passos. Mas como elle, com o seu
+tosto bem agarrado, nos seguia ainda, como no sulco da nossa
+magnificencia, o Silverio teve de o espantar, como a um passaro, batendo
+as mos, e de lhe gritar:
+
+--J para casa! E leve esse dinheiro me. Roda, roda!...
+
+--E ns vamos almoar, lembrei eu olhando o relogio. O dia ainda vae
+estar lindo.
+
+Sobre o rio, com effeito, reluzia um pedao d'azul lavado e lustroso; e
+a grossa camada de nuvens j se ia enrolando sob a lenta varredela do
+vento, que as levava, despejadas e rtas, para um canto escuso do ceu.
+
+Ento recolhemos lentamente para casa, por uma vereda ingreme, que
+ensinra o Silverio, e onde um leve enchurro vinha ainda, saltando e
+chalrando. De cada ramo tocado, rechuvia uma chuva leve. Toda a verdura,
+que bebera largamente, reluzia consolada.
+
+Bruscamente, ao sahirmos da vereda para um caminho mais largo, entre um
+socalco e um renque de vinha, Jacintho parou, tirando lentamente a
+cigarreira:
+
+--Pois, Silverio, eu no quero mais estas horriveis miserias na quinta.
+
+O Procurador deu um geito aos hombros, com um vago _eh_! _eh_!
+d'obediencia e dvida.
+
+--Antes de tudo, continuava Jacintho, mande j hoje chamar esse Dr.
+Avelino para aquella pobre mulher... E os remedios que os vo buscar
+logo a Guies. E recommendao ao medico para voltar manh, e em cada
+dia; at que ella melhore... Escute! E quero, Melchior, que lhe leve
+dinheiro, para os caldos, para a dieta, uns dez, ou quinze mil ris...
+Bastar?
+
+O Procurador no conteve um riso respeitoso. Quinze mil ris! Uns
+tostes bastavam... Nem era bom acostumar assim, a tanta franqueza,
+aquella gente. Depois todos queriam, todos pedinchavam...
+
+--Mas que todos ho-de ter, disse Jacintho simplesmente.
+
+--V. Ex.^a manda, murmurou o Silverio.
+
+Encolhera os hombros, parado no caminho, no espanto d'aquellas
+extravagancias. Eu tive de o apressar, impaciente:
+
+--Vamos conversando e andando! meio dia! Estou com uma fome de lobo!
+
+Caminhamos, com o Silverio no meio, pensativo, a fronte enrugada sob a
+vasta aba do chapeu, a barba immensa espalhada pelo peito, e a barraca
+exorbitante do guarda-chuva vermelho enrolada debaixo do brao. E
+Jacintho, puxando nervosamente o bigode, arriscava outras idas
+bemfazejas, cautelosamente, no seu indominavel medo do Silverio:
+
+--E as casas tambem... Aquella casa um covil!... Gostava de abrigar
+melhor aquella pobre gente... E naturalmente, as dos outros caseiros so
+pocilgas eguaes... Era necessario uma reforma! Construir casas novas a
+todos os rendeiros da quinta...
+
+--A todos?...--O Silverio gaguejava,--emudeceu.
+
+E Jacintho balbuciava aterrado:
+
+--A todos... Emfim, quero dizer... Quantos sero elles?
+
+Silverio atirou um gesto enorme:
+
+--So vinte e coisas... Vinte e tres! se bem lembro. Upa! Upa! Vinte e
+sete...
+
+Ento Jacintho emmudeceu tambem, como reconhecendo a vastido do numero.
+Mas desejou saber, por quanto ficaria cada casa!... Oh! uma casa
+simples, mas limpa, confortavel, como a que tinha a irm do Melchior, ao
+p do lagar. Silverio estacou de novo. Uma casa como a da Ermelinda?
+Queria Sua Ex.^a saber? E alijou a cifra, muito d'alto, como uma pedra
+immensa, para esmagar Jacintho:
+
+--Duzentos mil ris, Ex^mo Senhor! E para mais que no para menos!
+
+Eu ria da tragica ameaa do excellente homem. E Jacintho, muito
+docemente, para conciliar o Silverio:
+
+--Bem, meu amigo... Eram uns seis contos de ris! Digamos dez, por que
+eu queria dar a todos alguma mobilia e alguma roupa.
+
+Ento o Silverio teve um brado de terror:
+
+--Mas ento, Ex.^mo Senhor, uma revoluo!
+
+E como ns, irresistivelmente, riamos dos seus olhos esgazeados de
+horror, dos seus immensos braos abertos para traz, como se visse o
+mundo desabar,--o bom Silverio encavacou:
+
+--Ah! V. Ex.^{as} riem? Casas para todos, mobilias, pratas, bragal, dez
+contos de ris! Ento tambem eu rio! Ah! ah! ah! Ora viva a bella
+chalaa!... Est ba a risota!
+
+E subitamente, n'uma profunda mesura, como declinando toda a
+responsabilidade n'aquelle disparate magnifico:
+
+--Emfim, V. Ex.^a quem manda!
+
+--Est mandado, Silverio. E tambem quero saber as rendas que paga essa
+gente, os contractos que existem, para os melhorar. Ha muito que
+melhorar. Venha voss almoar comnosco. E conversamos.
+
+To saturado d'espanto estava o Silverio, que nem recebeu mais espanto
+com essa melhoria de rendas. Agradeceu o convite, penhorado. Mas pedia
+licena a Sua Ex.^a para passar primeiramente pelo lagar, para ver os
+carpinteiros que andavam a concertar a trave do rio. Era um instante, e
+estava em seguida s ordens de S. Ex.^a.
+
+Metteu a corta matto, saltando um cancello. E ns seguimos, com passos
+que eram ligeiros, pela hora do almoo que se retardra, pelio azul
+alegre que reapparecia, e por toda aquella justia feita pobresa da
+serra.
+
+--No perdeste hoje o teu dia, Jacintho, disse eu, batendo, com uma
+ternura que no disfarcei, no hombro do meu amigo.
+
+--Que miseria, Z Fernandes! Eu nem sonhava... Haver por ahi, vista da
+minha casa, outras casas, onde creanas teem fome! horrivel...
+
+Estavamos entrando na alameda. Um raio de sol, sahindo d'entre duas
+grossas, algodoadas nuvens, passou sobre uma esquina do casaro, ao
+fundo, uma viva tira d'ouro. O clarim dos gallos soava claro e alto. E
+um doce vento, que se erguera, punha nas folhas lavadas e luzidias um
+fremito alegre e doce.
+
+--Sabes o que eu estava pensando, Jacintho?... Que te aconteceu aquella
+lenda de Santo Ambrosio... No, no era Santo Ambrosio... No me lembra
+o santo... Nem era ainda santo... apenas um cavalleiro peccador, que se
+enamorra d'uma mulher, puzera toda a sua alma n'essa mulher, s por a
+avistar a distancia na rua. Depois, uma tarde que a seguia, enlevado,
+ella entrou n'um portal de egreja, e ahi, de repente, ergueu o veu,
+entreabriu o vestido, e mostrou ao pobre cavalleiro o seio roido por uma
+chaga! Tu, tambem andavas namorado da serra, sem a conhecer, s pela sua
+belleza de vero. E a serra, hoje, zs! de repente, descobre a sua
+grande ulcera... talvez a tua prepararo para S. Jacintho.
+
+Elle parou, pensativo, com os dedos nas cavas do collete:
+
+--- verdade! Vi a chaga! Mas emfim, esta, louvado seja Deus, das que
+eu posso curar!
+
+No desilludi o meu Principe. E ambos subimos alegremente a escadaria do
+casaro.
+
+
+
+
+XI
+
+
+No dia que seguiu estas largas caridades recolhi a Guies. E, desde
+ento, tantas vezes trotei por aquellas tres legoas entre a nossa e a
+velha alameda dos Jacinthos, que a minha egoa, quando a desviava d'essa
+estrada familiar, conduzindo a uma cavallaria familiar, (onde ella
+privava com o garrano do Melchior) relinchava de pura saudade. At a tia
+Vicencia se mostrava vagamente ciumenta d'aquella Tormes, para onde eu
+sempre corria, d'aquelle Principe de quem incessantemente celebrava o
+rejuvenescimento, a caridade, os piteus, e as chimeras agricolas. J um
+dia com um gro de sal e ironia,--o unico que cabia n'um corao todo
+cheio d'innocencia,--ella me dissera, movendo com mais vivacidade as
+agulhas da sua meia:
+
+--Olha que te podes gabar! At me tens feito curiosidade de conhecer
+esse Jacintho... Traze c essa maravilha, menino!
+
+Eu rira:
+
+--Socegue, tia Vicencia, que o trarei agora, para o dia dos meus annos,
+a jantar... Damos uma festa, haver um bailarico no pateo, e vem ahi
+toda essa senhorama dos arredores. Talvez at se arranje uma noiva para
+o Jacintho.
+
+Eu, com effeito, j convidra o meu Principe para este natalicio. E de
+resto convinha que o senhor de Tormes conhecesse todos aquelles senhores
+das boas casas da serra... Sobretudo, como eu lhe dizia rindo, convinha
+que elle conhecesse algumas mulheres, algumas d'aquellas fortes
+raparigas dos solares serranos, por que Tormes tinha uma solido muito
+monastica; e o homem, sem um pouco do Eterno Feminino, facilmente se
+enrudece e ganha uma casca aspera como a das arvores, na solido.
+
+--E esta Tormes, Jacintho, esta tua reconciliao com a Natureza, e o
+renunciamento s mentiras da Civilisao uma linda historia... Mas,
+caramba, faltam mulheres!
+
+Elle concordava, rindo, languidamente estendido na cadeira de vime:
+
+--Com effeito, ha aqui falta de mulher, com M. grande. Mas essas
+senhoras ahi das casas dos arredores... No sei, estou pensando que se
+devem parecer com legumes. Sans, nutritivas, excellentes para a
+panella--mas, emfim, legumes. As mulheres que os poetas comparam s
+Flores so sempre as mulheres das Crtes, das Capitaes, s quaes,
+invariavelmente, desde Hesiodo e de Horacio, se rendem os poetas... E
+evidentemente no ha perfume, nem graa, nem elegancia, nem requinte,
+n'uma cenoura ou n'uma couve... No devem ser interessantes as senhoras
+da minha serra.
+
+--Eu te digo... A tua visinha mais chegada, a filha do D. Theotonio, com
+effeito, salvo o respeito que se deve casa illustre dos Barbedos, um
+mostrengo! A irm dos Albergarias, da quinta da Loja, tambem no
+tentaria nem mesmo o precisado Santo Anto. Sobretudo se se despisse,
+por que um espinafre infernal! Essa realmente legume, e no dos
+nutritivos.
+
+--Tu o disseste: espinafre!
+
+--Temos tambem a D. Beatriz Velloso... Essa bonita... Mas, menino, que
+horrivelmente bem fallante! Falla como as heroinas do Camillo. Tu nunca
+leste o Camillo... E depois, um tom de voz que te no sei descrever, o
+tom com que se falla em D. Maria, em peas de sentimento. Tu tambem
+nunca viste o Theatro de D. Maria... Emfim, um horror! E perguntas
+pavorosas. V. Ex.^a. Snr. Doutor, no se delicia com Lamartine? J me
+disse esta, a indecente!
+
+--E tu?
+
+--Eu! Arregalei os olhos... Oh Lamartine!. Mas, coitada, uma
+excellente rapariga! Agora, por outro lado, temos as Rojes, as filhas
+de Joo Rojo, duas flores, muito frescas, muito alegres, com um cheiro
+e um brilho a sadio, e muito simples... A tia Vicencia morre por ellas.
+Depois ha a mulher do Dr. Alypio, que uma belleza. Oh! uma creatura
+esplendida! Mas, emfim, a mulher do Dr. Alypio, e tu renunciaste aos
+deveres da Civilisao... Alm disso, mulher muito sria, toda absorvida
+nos seus dous pequenos, que parecem dous anjinhos de Murillo... E quem
+mais? J agora, quero completar a lista do pessoal feminino. Temos a
+Mello Rebello, de Sandofim, muito engraada, com cabello lindo... Borda
+na perfeio, faz doces como uma freira do antigo Regimen... Havia
+tambem uma Julia Lobo, muito linda, mas morreu... Agora no me lembro
+mais. Mas falta a flr da Serra, que a minha prima Joanninha, da Flr
+da Malva! Essa uma perfeio de rapariga.
+
+--E tu, primo Z, como tens tu resistido?
+
+--Somos como irmos, creados de pequeninos, mais acostumados e
+familiares que tu e eu... A familiaridade esbate os sexos. A me d'ella
+era a unica irm da tia Vicencia, e morreu muito nova. A Joanninha,
+quasi desde o bero que se creou em nossa casa, em Guies. O pae bom
+homem, o tio Adrio. Erudito, antiquario, colleccionador... Collecciona
+toda a sorte de cousas exquisitas, campainhas, esporas, sinetes,
+fivellas... Tem uma colleco curiosa. Elle ha muito que deseja vir a
+Tormes, para te visitar... Mas, coitado, soffre da bexiga, no pde
+montar a cavallo. E a estrada da Flr da Malva aqui impossivel para
+carruagens...
+
+O meu Principe espreguira longamente os braos:
+
+--No, est claro! eu que hei-de visitar teu tio, e a tia Vicencia...
+Desejo conhecer os meus visinhos. Mas mais tarde, quando socegar. Agora
+ando todo occupado com o meu povo.
+
+E com effeito! Jacintho era agora como um Rei fundador d'um Reino, e
+grande edificador. Por todo o seu dominio de Tormes andavam obras, para
+o renovamento das casas dos rendeiros, umas que se concertavam, outras
+mais velhas, que se derrubavam para se reconstruirem com uma larguesa
+commoda. Pelos caminhos constantemente chiavam carros, carregados de
+pedra, ou de madeiras cortadas nos pinheiraes.
+
+Na taberna do Pedro, entrada da freguezia, ia um desusado movimento,
+de pedreiros e carpinteiros contractados para as obras;--e o Pedro, com
+as mangas arregaadas, por traz do balco, no cessava de encher os
+decilitros com uma vasta enfusa.
+
+Jacintho, que tinha agora dous cavallos, todas as manhs cedo percorria
+as obras, com amor. Eu, inquieto, sentia outra vez, latejar e irromper
+no meu Principe o seu velho, maniaco furor d'accumular Civilisao! O
+plano primitivo das obras era incessantemente alargado, aperfeioado.
+Nas janellas, que deviam ter apenas portadas, segundo o secular costume
+da serra, decidira pr vidraas, apezar do mestre d'obras lhe dizer
+honradamente, que depois d'habitadas um mez, no haveria casa com um s
+vidro. Para substituir as traves classicas queria estucar os tectos;--e
+eu via bem claramente que elle se continha, se retesava dentro do
+Bom-senso, para no dotar cada casa com campainhas electricas. Nem
+sequer me espantei, quando elle uma manh me declarou que a porcaria da
+gente do campo provinha de elles no terem onde commodamente se lavar,
+pelo que andava pensando em dotar cada casa com uma banheira. Desciamos
+n'esse momento, com os cavallos redea, por uma azinhaga precipitada e
+escabrosa; um vento leve ramalhava nas arvores, um regato saltava
+ruidosamente entre as pedras. Eu no me espantei--mas realmente me
+pareceu que as pedras, o arroio, as ramagens e o vento, se riam
+alegremente do meu Principe. E alm d'estes confortos, a que o Joo,
+mestre d'obras, com os olhos loucamente arregalados chamava as
+grandezas, Jacintho meditava o bem das almas. J encommendra ao seu
+architecto, em Paris, o plano perfeito d'uma escola, que elle queria
+erguer, n'aquelle campo da Carria, junto capellinha que abrigava os
+ossos. Pouco a pouco, ahi crearia tambem uma bibliotheca, com livros
+d'estampas, para entreter, aos domingos, os homens a quem j no era
+possivel ensinar a lr. Eu vergava os hombros, pensando:--Ahi vem a
+terrivel accumulao das Noes! Eis o livro invadindo a Serra! Mas
+outras idas de Jacintho eram tocantes,--e eu mesmo me enthusiasmei, e
+excitei o enthusiasmo da tia Vicencia com o seu plano d'uma Creche, onde
+elle esperava ter manhs muito divertidas vendo as creancinhas a
+gatinhar, a correr tropegamente atraz d'uma bola. De resto, o nosso
+boticario de Guies estava j apalavrado para estabelecer uma pequena
+pharmacia em Tormes, sob a direco do seu praticante, um afilhado da
+tia Vicencia, que tinha publicado um artigo sobre as festas populares do
+Douro no _Almanach de Lembranas_. E j fra offerecido o partido medico
+de Tormes, com ordenado de 600$000 ris.
+
+--No te falta seno um Theatro! dizia eu, rindo.
+
+--Um theatro no. Mas tenho a ida d'uma sala, com projeces de
+lanterna magica, para ensinar a esta pobre gente as cidades d'esse
+mundo, e as cousas d'Africa, e um bocado de Historia.
+
+E tambem me ensoberbeci com esta innovao!--E quando a contei ao tio
+Adrio, o digno antiquario bateu, apezar do seu rheumatismo, uma palmada
+tremenda na cxa. Sim, senhor! Bella ida! Assim se podia ensinar
+quella gente illetrada, vivamente, por imagens, a Historia Santa, a
+Historia Romana, at a Historia de Portugal!... E voltado para a prima
+Joanninha, o tio Adrio declarou Jacintho um homem de corao!
+
+E realmente pela Serra crescia a popularidade do meu Principe.
+N'aquelle, guarde-o Deus, meu senhor! com que as mulheres ao passar o
+saudavam, se voltavam para o vr ainda, havia uma seriedade d'orao, o
+bem sincero desejo de que Deus o guardasse sempre. As creanas a quem
+elle distribuia tostes, farejavam de longe a sua passagem,--e era em
+torno d'elle um escuro formigueiro de caritas trigueiras e sujas, com
+grandes olhos arregalados, que se ainda tinham pasmo, j no tinham
+medo. Como o cavallo de Jacintho uma tarde se chapra, ao desembocar da
+alameda, n'umas grossas pedras que ahi deformavam a estrada, logo ao
+outro dia um bando d'homens, sem que Jacintho o ordenasse, veio por
+dedicao ensaibrar e alisar aquelle pedao perigoso de caminho,
+aterrados com o risco que correra o bom senhor. J pela serra se
+espalhava esse nome de bom senhor. Os mais edosos da freguezia no o
+encontravam sem exclamarem, uns com gravidade, outros com grandes risos
+desdentados:--_Este o nosso bemfeitor_! Por vezes, alguma velha corria
+do fundo do eido, ou vinha porta do casebre, ao avistal-o no caminho,
+para gritar, com grandes gestos dos braos magros: Ai que Deus o cubra
+de benos! Que Deus o cubra de benos!
+
+Aos domingos, o padre Jos Maria, (bom amigo meu e grande caador) vinha
+de Sandofim, na sua egoa rua, a Tormes, para celebrar a missa na
+Capellinha. Jacintho assistia ao officio na sua tribuna, como os
+Jacinthos d'outras eras, para que aquelles simples o no suppuzessem
+estranho a Deus. Quasi sempre ento elle recebia presentes, que as
+filhas dos caseiros, ou os pequenos, vinham muito corados, trazer-lhe
+varanda, e eram vasos de manjarico, ou um grosso ramalhete de cravos, e
+por vezes um gordo pato. Havia ento uma distribuio de cavacas e
+merengues de Guies, s raparigas e s creanas,--e, no pateo, para os
+homens circulavam as infusas de vinho branco. O Silverio j sustentava
+com espanto, e redobrado respeito, que o Snr. D. Jacintho em breve
+disporia de mais votos nas eleies que o Dr. Alypio. E eu proprio me
+impressionei, quando o Melchior me contou que o Joo Torrado, um velho
+singular d'aquelles sitios, de grandes barbas brancas, hervanario,
+vagamente alveitar, um pouco adivinho, morador mysterioso d'uma cova no
+alto da serra, a todos affirmava que aquelle bom senhor era El-Rei D.
+Sebastio, que voltra!
+
+
+
+
+XII
+
+
+Assim chegou Setembro, e com elle o meu natalicio, que era a 3 e n'um
+Domingo. Toda essa semana a passra eu em Guies, nos preparos da
+vindima,--e de manh cedo, n'esse Domingo illustre, me fui debruar da
+varanda do quarto do saudoso tio Affonso, vigiando a estrada, por onde
+devia apparecer o meu Principe, que emfim visitava a casa do seu Z
+Fernandes. A tia Vicencia, desde a madrugada, andava atarefada pela
+cosinha e pela copa, porque, desejando mostrar ao meu Principe o
+pessoal da serra, convidra para jantar algumas familias amigas, dos
+arredores, as que tinham carruagens ou carroes, e podiam, pelas
+estradas mal seguras, recolher tarde, depois d'um bailarico campestre,
+no pateo, j enfeitado para esse effeito de lanternas chinezas. Mas logo
+s dez horas me desesperei, ao receber, por um moo da Flr da Malva,
+uma carta da prima Joanninha, em que dizia a pena de no poder vir
+porque o Pap estava desde a vespera com um leiceno, e ella no o
+queria abandonar. Corri indignado cosinha, onde a tia Vicencia
+presidia a um violento bater de gemas d'ovos dentro d'uma immensa
+terrina.
+
+--A Joanninha no vem! Sempre assim! Diz que o pae tem um leiceno...
+Aquelle tio Adrio escolhe sempre os grandes dias para ter leicenos, ou
+para ter a pontada...
+
+A boa face redondinha e corada da tia Vicencia enterneceu-se.
+
+--Coitado! ser em sitio que no se pudesse sentar na carruagem!
+Coitado! Olha, se lhe escreveres, dize-lhe que ponha um emplastrosinho
+de folhas d'alecrim. com que teu tio se dava bem.
+
+Eu gritei simplesmente para o moo, que dava de beber ao burro no pateo:
+
+--Dize Snr.^a D. Joanninha que sentimos muito... Que talvez eu l
+apparea manh.
+
+E voltei janella, impaciente, por que o relogio do corredor, muito
+atrazado, j cantra a meia hora depois das dez e o Principe tardava
+para o almoo. Mas, mal eu me chegra varanda, appareceu justamente na
+volta da estrada Jacintho, de grande chapeu de palha, no seu cavallo,
+seguido do Grillo que, tambem de chapeu de palha, e abrigado sob um
+immenso guarda-sol verde, se escarranchava no albardo da velha egoa do
+Melchior. Atraz, um moo com uma maleta cabea. E eu, na alegria de
+avistar emfim o meu Principe trotando para a minha casa d'aldeia, no dia
+dos meus trinta e seis annos, pensava n'outro natalicio, no d'elle, em
+Paris, no 202, quando, entre todos os esplendores da Civilizao, ns
+bebemos tristemente _ad manes_, aos nossos mortos!
+
+--_Salv_! gritei da varanda. _Salv, domine Jacinthi_!
+
+E entoei, para o accolher, n'um alegre tarantantan, o hymno da carta!
+
+--Isto por aqui tambem lindo!--gritou elle de baixo. E o teu palacio
+tem um soberbo ar... Por onde a porta?
+
+Mas eu j me precipitava para o pateo--onde Jacintho, apeando, contou
+alegremente os tormentos do Grillo, que nunca montra a cavallo, e no
+cessra de berrar ante os perigos d'aquella aventura.
+
+E o digno preto, offegante, lustroso de suor, e livido sob o esplendor
+da sua negrura, exclamava, apontando com a mo tremula para a pobre
+egoa, que solta, de cabea pensativa, parecia de pedra, sobre as patas
+mais immoveis que marcos:
+
+--Pois se o si Fernandes visse! Uma fera, que nunca veiu quieta. Sempre
+para a esquerda, sempre para a direita, p aqui, p alm! S para me
+sacudir! S para me sacudir!
+
+E no resistiu. Com a ponta do guarda-sol atirou uma pontoada vingativa
+contra a egoa, sobre o albardo.
+
+Subindo a escadaria ligeira, penetrando no alegre corredor, com a sua
+janella ao fundo engrinaldada de rosinhas, Jacintho louvava grandemente
+a nossa casa, que o repousava das rijas muralhas, das grossas portas
+feudaes de Tormes. E no seu quarto agradeceu os cuidados maternaes da
+tia Vicencia, que enchera de flores os dois vasos da China sobre a
+commoda, e adornra a cama com uma das nossas colxas da India mais
+ricas, cr de canario, com grandes aves d'ouro. Eu sorria, enternecido.
+Ento estreitamos os ossos n'um grande abrao, pelo natalicio... Trinta
+e oito, hein, Z Fernandes?--Trinta e quatro, animal! E o meu
+Principe abrindo a mala, sobria maleta de philosopho, offereceu os
+nobres presentes, que so devidos, como diz sempre o astuto Ulysses na
+Odyssea. Era um alfinete de gravata, com uma saphira, uma cigarreira de
+aro fosco, adornada de um florido ramo de macieira em delicado esmalte,
+e uma faca para livros de velho lavor Chinez. Eu protestava contra a
+prodigalidade.
+
+-- tudo das malas de Paris... Mandei-as abrir hontem noite. E tomei a
+liberdade de trazer esta lembrana tua tia Vicencia. No vale nada...
+ s por ter pertencido princeza de Lamballe.
+
+Era uma caldeirinha d'agoa benta, em prata lavrada, d'um gosto florido e
+quasi galante.
+
+--A tia Vicencia no sabe quem a princeza de Lamballe, mas ficar
+encantada! E uma garantia, por que ella suspeita da tua religio, como
+homem de Paris, da terra das impiedades... E agora, lavar, escovar, e ao
+almoo!
+
+A tia Vicencia pareceu toda surprehendida, e logo encantada com o meu
+camarada, que ella suppuzera realmente um Principe, arrogante, escarpado
+e difficil. Quando elle lhe offereceu a caldeirinha, com um delicado
+pedido para se lembrar d'elle nas suas oraes, duas largas rosas,
+mais roseas e frescas que as rosas que enchiam a mesa, cobriram as faces
+redondas da boa senhora, que nunca recebera to piedoso presente, com
+to linda palavra. Mas o que sobretudo a captivou foi o tremendo
+appetite de Jacintho, a enthusiasmada convico com que elle,
+accumulando no prato montes de cabidella, depois altas serras d'arroz de
+forno, depois bifes de numerosa cebolada, exaltava a nossa cosinha,
+jurava nunca ter provado nada to sublime. Ella resplandecia:
+
+--At faz gosto, at faz gosto!... Ora mais uma d'estas batatinhas
+recheadas...
+
+--Com certesa, minha senhora! at duas! As minhas raes, em mesas
+d'estas, to perfeitas, so sempre as de Gargantua.
+
+--No cites Rabelais, que a tia Vicencia no conhece os auctores
+profanos! exclamava eu, tambem radiante. E prova esse vinho branco c da
+nossa lavra, e louva Deus que amadurece tal uva.
+
+E o almoo foi muito alegre, muito intimo, muito conversado, sobre as
+obras de Jacintho em Tormes, e a sua Creche, que enlevava a tia
+Vicencia, e as esperanas da vindima, e a minha prima Joanninha, que
+tinha o pap doente, e o pessimo estado dos caminhos. Mas o
+enternecimento maior foi quando, ao servir o caf, o creado poz ao lado
+de Jacintho um pires com um pau de canella, o seu estranho e costumado
+pau de canella. No o esquecera a tia Vicencia! Ali tinha o seu pausinho
+de canella!--Queria que elle, em Guies, continuasse os seus habitos
+como em Tormes... E aquelle pau de canella foi o symbolo de adopo do
+meu Principe como novo sobrinho da tia Vicencia.
+
+Ella em breve recolheu cosinha, aos preparativos do banquete. Ns
+fumamos um preguioso charuto no jardim, ao p do repuxo, sob a
+recolhida sombra do cedro. Depois, inexoravelmente, como proprietario,
+mostrei ao meu Principe a propriedade toda, com desapiedada
+minuciosidade, sem lhe perdoar uma leira, um regueiro, uma arvore, um p
+de vinha. S quando a sua face comeou a opar e a empallidecer, de
+canao, e que do entendimento totalmente atordoado s lhe escorria um
+vago--muito bonito! bella terra!-- que voltei os passos para casa,
+tornejando ainda n'uma volta larga para lhe mostrar o lagar, uma
+plantao d'espargos, e o sitio onde existira a ruina d'um velho castro
+romano. Ao penetrarmos de novo, pelo jardim, na fresca sala, ainda o
+empurrei, como uma rez, para a livraria do meu bom tio Affonso, para lhe
+mostrar as preciosidades, uma magnifica chronica de D. Joo I por Ferno
+Lopes, a primeira edio do _Imperador Clarimundo_, uma _Henriada_, com
+a assignatura de Voltaire, foraes d'El-Rei D. Manoel, e outras
+maravilhas. Elle respirava fechando o derradeiro pergaminho, quando eu o
+arrastei adega, para que admirasse a famosa pipa, que tinha, em
+relevo, na madeira do tampo, as complicadas armas dos Sandes. Eram
+quatro horas. O meu Principe tinha o ar esgaseado e livido. Cravando
+n'elle os olhos inexoraveis, olhos em que eu mesmo sentia reluzir a
+ferocidade, declarei que iriamos agora vr a tulha. Mas ento, com as
+mos nos rins, elle murmurou, humildemente, n'um murmurio de creana:
+
+--No se me dava de me sentar um poucochinho!
+
+Tive ento piedade, abri as garras, deixei que elle se arrastasse, atraz
+de mim, para o seu quarto, onde freneticamente descalou as botas, se
+atirou para um fresco canap forrado de ganga, murmurando n'um
+abatimento profundo:--Bella propriedade!
+
+Consenti generosamente que elle adormecesse,--e eu mesmo desci a
+verificar se a Gertrudes dispusera bem as escovas, as toalhas de renda,
+no quarto onde os convidados, em breve, ao chegar, lavariam as mos,
+escovariam a poeira da estrada. E justamente, uma caleche rodava no
+pateo, a velha caleche do D. Theotonio, com a parelha rua. Espreitando
+da janella descobri, com prazer, que chegava s, de gravata branca, sob
+o guarda-p, sem a horrendissima filha. Corri alegremente ao quarto da
+tia Vicencia, que, ajudada pela Catharina, abrochava pressa as suas
+pulseiras ricas de topazios.
+
+--Tia Vicencia! chegou o D. Theotonio! Felizmente vem sem a filha... No
+se demore, os outros no tardam. O Manoel que esteja bem penteado, de
+gravata bem teza!... Vamos a vr como corre a festa!
+
+
+
+
+XIII
+
+
+Ai de mim! a festa no meu anniversario no se passou com brilho, nem com
+alegria!
+
+Quando o meu Principe entrou na sala, com uma elegancia, (onde eu senti
+as malas de Paris, abertas na vespera)--uma rosa branca no jaqueto
+preto, collete branco lavrado e trespassado, copiosa gravata de sda
+branca, tufando, e presa por uma perola negra,--j todos os convidados
+estavam na sala,--o D. Theotonio, o Ricardo Velloso, o Dr. Alypio, o
+gordo Mello Rebello, de Sandofim, os dois manos Albergarias, da quinta
+da Loja--; todos de p, n'um pelloto cerrado. Em torno do soph onde a
+tia Vicencia se installra, um magotesinho de cadeiras reunira as
+senhoras,--a Beatriz Velloso, de cassa branca sobre sda, que a tornava
+mais aeria e magra, com a sua trunfa immensa de cabello riado; as duas
+Rojes, (com a tia Adelaide Rojo) vermelhinhas como camoezas, ambas de
+branco; e a mulher do Dr. Alypio, de preto, esplendida como uma Venus
+Rustica... E foi na sala, como se realmente entrasse um Principe,
+d'esses paizes do Norte onde os Principes so magnificos, muito
+distantes dos homens, e aterram as gentes. Um silencio, como se o tecto
+de carvalho descesse, nos esmagava: e todos os olhos se enristaram
+contra o meu desgraado Jacintho, como n'uma caada hind, quando orla
+da floresta surge o Tigre Real. Debalde,--nas confusas, apressadas
+apresentaes, com que eu o levava atravez da sala,--os seus apertos de
+mo, os sorrisos, o vago murmurio, da sua honra, do seu prazer foram
+repassados de sympathia, de simplicidade. Todos os cavalheiros
+permaneciam reservados, observando o Principe, que subira serra: e as
+senhoras mais se aconchegavam sombra da tia Vicencia, como ovelhas
+volta do pastor, quando na altura assoma o lobo. Eu, j inquieto, lancei
+o D. Theotonio, o mais ornamental d'aquelles cavalheiros.
+
+--O Snr. D. Theotonio foi muito amavel em vir, Jacintho. Raras vezes sae
+da sua linda casa da Abrujeira.
+
+O digno D. Theotonio sorriu, cofiando os espessos bigodes brancos, de
+velho brigadeiro:
+
+--V. Ex.^a chegou directamente de Vienna?
+
+No! Jacintho viera directamente de Paris, com o amigo Z Fernandes. D.
+Theotonio insistiu:
+
+--Mas certamente visita muitas vezes Vienna...
+
+Jacintho sorria surprehendido:
+
+--Vienna, porque?... No. Ha mais de quinze annos que no vou a Vienna.
+
+O fidalgo murmurou um lento _ah_! e ficou calado, de palpebras baixas,
+como revolvendo analyses profundas, com as mos cruzadas sob as abas da
+longa sobrecasaca azul.
+
+Eu ento, vigilante, lancei o Dr. Alypio:
+
+--O nosso Doutor, meu caro Jacintho, o mais poderoso influente de todo
+o districto.
+
+O Doutor curvou a cabea bem feita, com um bello cabello preto,
+admiravelmente alisado e lustroso. Mas a tia Vicencia, que se erguera do
+sof, chamava o meu Principe, porque o Manoel annuncira o jantar,
+mudamente, mostrando apenas, porta da sala, a sua corpulenta
+pessoa,--inteiriado e vermelho.
+
+ mesa, onde os pudins, as travessas de doce d'ovos, os antigos vinhos
+da Madeira e do Porto, nas suas pesadas garrafas de cristal lapidado,
+fundiam com felicidade os seus tons ricos e quentes, Jacintho ficou
+entre a tia Vicencia e uma das Rojes, a Luizinha, sua afilhada, que,
+por costume velho, quando jantava em Guies, sempre se collocava
+sombra da sua ba madrinha. E a spa, que era de gallinha com macarro,
+foi comida n'um to largo e pesado silencio que eu, na ancia de o
+quebrar, exclamei, ao acaso, sem pensar que me achava em Guies depois
+de tanto tempo e em minha prpria casa:
+
+--Deliciosa, esta sopa!
+
+Jacintho echoou:
+
+--Divina!!
+
+Mas como todos os convidados certamente estranharam este meu brado, e a
+excessiva admirao de Jacintho, o silencio, carregado de cerimonia,
+mais se carregou de embarao. Felizmente a tia Vicencia, com aquelle seu
+bom sorriso, observou que Jacintho parecia gostar da comida
+portugueza... E eu, sempre no intuito d'animar a conversa, nem deixei
+que o meu Principe confirmasse o seu amor da cosinha vernacula, e
+gritei:
+
+--Como gostar! Mas que delira!... Pudera! Tanto tempo em Paris,
+privado dos piteus lusitanos...
+
+E como, ditosamente, me lembrra o prato de arroz doce preparado na
+occasio do natalicio de Jacintho, pelo cosinheiro do 202, contei a
+historia, profusamente, exaggerando, affirmando que esse arroz doce
+continha _foie gras_, e que sobre a sua ornamentada pyramide fluctuava a
+bandeira tricolor, por cima do busto do conde de Chambord! Mas o arroz
+doce de Paris, assim estragado to longe da Serra, no interessra
+ninguem. Puxou apenas alguns sorrisos de polida condescendencia, quando
+eu, alternadamente, me voltava para um cavalheiro, para uma senhora,
+insistindo, exclamando:--Extraordinario, hein?
+
+D. Theotonio observou, mysteriosamente, que o cosinheiro sabia para
+quem cosinhava. E a bella mulher do Dr. Alypio ousou murmurar, corando:
+
+--Havia de ser bonito prato, e talvez no fosse mau!
+
+Eu, sempre na ancia de espiritualisar o banquete, de produzir
+conversao, ataquei com desabrida alegria a Snr.^a D. Luiza, por ella
+assim defender a profanao do nosso grande acepipe nacional! Mas, pobre
+de mim! to excessiva e ruidosamente interpellei a formosa senhora, que
+ella se enconchou, emmudeceu, toda corada, e mais formosa assim. E outro
+silencio se abatia sobre a mesa, como uma nevoa, quando a tia Vicencia,
+providencial, se desculpou para com Jacintho de no ter peixe! Mas qu!
+ali na Serra era impossivel, ainda a peso d'ouro, ter peixe, a no ser a
+pescada salgada, ou o bacalhau. O excellente Rojo, com aquelle seu
+modo, to suave que cada syllaba para correr mais docemente parecia
+lubrificada com oleos santos, lembrou que o Snr. D. Jacintho possuia uma
+larga facha do rio Douro com privilegio para a pesca do savel. Jacintho
+no sabia, nem imaginava que houvesse saveis... O Dr. Alypio no se
+admirava por que essas pescas tinham sido vendidas ao Cunha brasileiro,
+ha vinte annos, na mocidade do Snr. D. Jacintho. E hoje, segundo o D.
+Theotonio, no valiam dois mil ris. Se j no ha saveis!... E a
+proposito das antigas pescas do Douro se ia formando, em torno da mesa,
+entre os homens mais visinhos, lentas cavaqueirinhas ruraes, que as
+senhoras aproveitavam para cochichar, no desabafo d'aquelle silencio
+cerimonioso, que viera pesando cada vez mais desde a spa at os frangos
+guisados. Receoso de que essa orla de murmurios lentos, sem brilho e sem
+alegria, se estabelecesse de novo, me abalancei (para animar), a
+interpellar Jacintho, recordando a famosa aventura do peixe da Dalmacia
+encalhado no ascensor.
+
+--Isso foi uma das melhores historias que nos succederam em Paris! O
+Jacintho, por causa d'um peixe muito raro, que lhe mandra o Gro-Duque
+Casimiro, dava uma magnifica ceia, a que o Gro-Duque... o Gro-Duque
+Casimiro, o irmo do Imperador...
+
+Todos os olhos se desviaram para o meu Jacintho, que se servia de
+ervilhas:--e o Mello Rebello quasi se engasgou, n'um sorvo precipitado
+ao copo, para contemplar no meu amigo algum reflexo do Gro-Duque. E eu
+contei, com profuso, o peixe encalhado, o Gro-Duque pescando, o anzol
+feito com um gancho da Princeza de Carman, o duque de Marizac, cahindo
+quasi no poo do elevador... Mas no se produziu um unico riso, e a
+atteno mesma era dada com esforo, por cortezia. Debalde eu
+arremessava aquelles nomes magnificos de principes e princezas,
+misturados a cousas picarescas... Nenhum dos meus convidados
+comprehendia o maquinismo do elevador, um prato encalhado n'um poo
+negro... Perante o gancho da princeza as Albergarias baixaram os olhos.
+E a minha deliciosa historia morreu n'uma reticencia, ainda mais
+regelada pela exclamao innocente da tia Vicencia:
+
+--Oh! filho, que cousas!
+
+Mas, como Jacintho se enfronhra de repente n'uma larga conversa com a
+Luizinha Rojo, que ria, toda luminosa e palradora,--todos, como
+libertados do peso cerimonioso da sua presena augusta, se lanaram nas
+conversinhas discretas, a que o champagne, agora, depois do assado, dava
+mais viveza. Eram os soturnos murmurios, em torno da mesa, que
+definitivamente se perpetuavam. Foi ento que desisti de animar o
+jantar. Mergulhei com a bella mulher do Doutor Alypio na grande questo
+social d'esse tempo em Guies, o casamento da D. Amelia Noronha com o
+feitor! E eu defendia a D. Amelia, os direitos do amor, quando se
+alargou um silencio,--e era Jacintho, que se debruava, de copo na mo.
+
+--Velho amigo Z Fernandes, tua! Muitos e bons, e sempre em companhia
+de tua tia e minha senhora, a quem peo para saudar.
+
+Todos os copos, onde a espuma morria sobre um fundo de champagne, se
+ergueram n'um largo rumor de amisade, e boa visinhana. Eu acenei ao
+Manoel, vivamente, para encher os copos; e logo, tambem de p, atirando
+para traz a sobrecasaca:
+
+--Meus senhores, peo uma grande saude para o meu velho amigo Jacintho,
+que pela primeira vez honra esta casa fraternal... Que digo eu? que pela
+primeira vez honra com a sua presena a sua querida patria! E que por c
+fique, pelas serras, muitos annos, todos bons. tua, meu velho!
+
+Outro rumor correu pela mesa, mas ceremonioso e sereno. A nossa
+oratoria, positivamente, no incendira as imaginaes! A tia Vicencia
+fez tilintar o seu copo, quasi vasio, com o de Jacintho, que tocou no
+copo da sua visinha, a Luizinha Rojo, toda resplandecente, e mais
+vermelha que uma peonia. Depois foi um encadeamento de saudes, com os
+copos quasi vasios, entre todos os convidados, sem esquecer o tio
+Adrio, e o Abbade, ambos ausentes, ambos com furunculos. E a tia
+Vicencia espalhava aquelle olhar, que prepra o erguer, o arrastar de
+cadeiras,--quando D. Theotonio, erguendo o seu copo de vinho do Porto,
+com a outra mo apoiada mesa, meio erguido, chamou Jacintho, e n'uma
+voz respeitosa, quasi cava:
+
+--Esta toda particular, e entre ns... Brindo o ausente!
+
+Esvasiou o copo, como em religio, pontificando. Jacintho bebeu
+assombrado, sem comprehender. As cadeiras arrastavam,--eu dei o brao
+tia Albergaria.
+
+E s comprehendi, na sala, quando o Dr. Alypio, com a sua chavena de
+caf e o charuto fumegante, me disse, n'um d'aquelles seus olhares
+finos, que lhe valiam a alcunha de _Dr. Agudo_:--Espero que ao menos,
+c por Guies, no se erga de novo a forca!... E o mesmo fino olhar me
+indicava o D. Theotonio, que arrastra Jacintho para entre as cortinas
+d'uma janella, e discorria, com um ar de f e de mysterio. Era o
+miguelismo, por Deus! O bom D. Theotonio considerava Jacintho como um
+hereditario, ferrenho, miguelista,--e na sua inesperada vinda ao seu
+solar de Tormes, entrevia uma misso politica, o comeo d'uma propaganda
+energica, e o primeiro passo para uma tentativa de Restaurao. E na
+reserva d'aquelles cavalheiros, ante o meu Principe, eu senti ento a
+suspeita liberal, o receio d'uma influencia rica, nova, nas Eleies
+proximas, e a nascente irritao contra as velhas ideias, representadas
+n'aquelle moo, to rico, de civilisao to superior. Quasi entornei o
+caf, na alegre surpreza d'aquella sandice. E retive o Mello Rebello,
+que repunha a chavena vasia na bandeja, fitei, com um pouco de riso, o
+_Dr. Agudo_.
+
+--Ento, francamente, os amigos imaginam que o Jacintho veio para Tormes
+trabalhar no miguelismo?
+
+Muito serio, Mello Rebello chegou o seu grosso bigode minha orelha:
+
+--At corre, como certo, que o Principe D. Miguel est com elle em
+Tormes!
+
+E como eu os considerava esgazeado, o Dr. Alypio--to agudo!--confirmou:
+
+-- o que corre... Disfarado em creado!
+
+Em creado? Oh! santo Deus! Era o Baptista! Justamente, Ricardo Velloso
+veio, puxando do seu cigarrinho, para o accender no meu charuto. E o bom
+Rebello logo invocou o seu testemunho.--Pois no corria, que o filho de
+D. Miguel estava em Tormes, escondido?...
+
+--Disfarado em lacaio, confirmou logo o digno Rebello.
+
+Accendeu o cigarro, soprou o fumo, e erguendo muito as sobrancelhas
+meditativas:
+
+--Se assim , l me parece desplante... Que eu no desgostava de o vr.
+Dizem que bonito moo, bem apessoado. Mas emfim, meu tio Joo Vaz
+Rebello foi partido s postas, a machado, nas prises d'Almeida... E se
+recomeam essas questes, mau, mau! Ora o seu amigo...
+
+Emmudeceu. Jacintho, que se libertra do velho D. Theotonio, e ainda
+conservava um resto de riso, d'assombro divertido, vinha para mim,
+desabafar:
+
+--Extraordinario! Vejo que, aqui, na serra, ainda se conservam, sem uma
+ruga, as velhas e boas ideias...
+
+Immediatamente, sem se conter, Mello Rebello acudiu:
+
+-- conforme o que V. Ex.^a chama _boas ideas_.
+
+E eu agora, furioso com aquella disparatada inveno, que cercava
+d'hostilidade o meu pobre Jacintho, estragava aquella amavel noite
+d'annos, intervim, vivamente:
+
+--Tu jogas o voltarete, Jacintho? No jogas... Ento vamos arranjar duas
+mesas... O D. Theotonio ha de querer cartas.
+
+E arrastei Jacintho para as senhoras, que de novo se aninhavam sombra
+da tia Vicencia, estabelecida no seu canto do sof. Todas se callavam,
+parecia encolherem-se ante a appario do meu Principe, como pombas
+avistando o abutre. E deixei o temido homem affirmando mulher do Dr.
+Alypio (um pouco desgarrada do bando das aves timidas) que lhe dera
+grande prazer aquella occasio de conhecer as suas visinhas de Tormes...
+Ella abrira nervosamente o leque, sorria, e nunca de certo Jacintho
+admirra na Cidade uma bocca mais vermelha, dentinhos mais rutilantes.
+Mas depois d'organisar a mesa do voltarete, tive de abancar, eu, para
+substituir o Manoel Albergaria, que era dispeptico, se declarra
+affrontado, e desejava respirar um momento na varanda. Todos aquelles
+cavalheiros, de resto, se queixavam de calor. Mandei abrir as janellas
+que davam sobre as mimosas do pateo. O Velloso, ao baralhar, parava,
+bufando, como opprimido:
+
+--Est abafado... Ainda temos trovoada!
+
+E o Dr. Alypio, inquieto, por que tinha uma hora d'estrada at casa, e
+uma das egoas da caleche era escabriada, correu janella, espreitar o
+ceu, que ennegrecera, morno e pesado.
+
+--Com effeito, vae cahir agoa.
+
+As hastes das mimosas ramalhavam, arripiadas: e o ar que agitava as
+cortinas era intermittente, estonteado. De certo na sala, entre as
+senhoras, surgira a mesma inquietao, porque a tia Albergaria
+appareceu, avisando o mano Jorge.
+
+Era prudente pensar em partir, a noite ameaava... E o Dr. Alypio,
+puxando o relogio, propoz que, levantada aquella remissa, se preparasse
+a marcha. Justamente o Albergaria recolhia da varanda desaffrontado,
+alliviado com um calice de genebra: e rotomou as suas cartas,
+annunciando tambem que vinha ahi uma trovoada valente.
+
+Voltando sala, encontrei Jacintho muito alegre entre as senhoras, que
+se familiarisaram, escutando cheias de riso e gosto, a historia da sua
+chegada a Tormes, sem malas, sem creados, to desprovido que dormira com
+a camisa da caseira! Mas a minha pobre noite d'annos findava,
+desorganisada. A tia Albergaria rondava de janella em janella, assustada
+com a volta Roqueirinha, espreitando a treva abafada. Calando
+lentamente as luvas, a bella mulher do Dr. Alypio perguntava se ainda
+havia a remissa. E a tia Vicencia apressra o ch, que o Manoel seguido
+pela Gertrudes, com a bandeja de bolos, j comeava a servir s
+senhoras. Jacintho, de p, offerecendo chavenas, gracejava:
+
+--Ento tanta pressa, tanto medo, por causa d'uma trovoadinha?
+
+Ellas replicavam, familiarizadas, n'uma crescente sympathia pelo meu
+Principe:
+
+--Ora o senhor falla bem, porque fica debaixo de telhas...
+
+--Sempre o queriamos vr... se fosse agora para Tormes, com esta noite
+cerrada!
+
+O voltarete findra nas duas mesas: e aquelles cavalheiros, das
+janellas, gritavam ordens para o pateo negro, onde as carroagens
+esperavam atreladas:
+
+--Desce a cabea da victoria, Diogo!
+
+--Accende o lampeo, Pedro! Sempre ajuda a luz das lanternas.
+
+A creada Quiteria chegava porta com os braos carregados de chales, de
+mantilhas de renda. Como uma das Albergarias ia no assento de deante na
+victoria, eu corri a buscar o meu casaco de borracha, para ella se
+abrigar se a chuva viesse. E s o D. Theotonio, que tinha at casa
+apenas meia legoa de estrada boa, se no apressava, filado outra vez no
+meu Principe, que levava para os cantos mais solitarios, em conversas
+profundas, que o seu dedo solemne, espetado, sublinhava gravemente. Mas
+a tia Albergaria gritou que j chovia;--e ento foi uma pressa das
+senhoras, que beijocavam vivamente a tia Vicencia, em quanto os homens,
+na ante-camara, enfiavam aodadamente os palets.
+
+Jacintho e eu descemos ao pateo para acompanhar aquella debandada,--e
+uma a uma, a traquitana do Dr. Alypio, a victoria das Albergarias, a
+velha e immensa caleche dos Vellosos, rolaram sob a noite, entre os
+nossos desejos de boa jornada. Por fim D. Theotonio calou as luvas
+pretas e entrou para a sua caleche, dizendo a Jacintho:
+
+--Pois, primo e amigo, Deus permitta que, do nosso encontro, e do mais
+que se passar, algum bem resulte a esta terra!
+
+Subindo a escada, o meu Principe desabafou:
+
+--Este Theotonio extraordinario! Sabes o que descobri por fim?... Que
+me toma por um miguelista, e imagina que eu vim para Tormes preparar a
+restaurao de D. Miguel?!
+
+--E tu?
+
+--Eu fiquei to espantado, que nem o desilludi!
+
+--Pois sabe mais, meu pobre amigo. Todos pensam o mesmo, esto
+desconfiados, e receiam vr de novo erguidas as frcas em Guies! E
+corre que tu tens o Principe D. Miguel escondido em Tormes, disfarado
+em creado. E sabes quem elle ? o Baptista!
+
+--Isso sublime! murmurou Jacintho, com uns grandes olhos abertos.
+
+Na sala, a tia Vicencia nos esperava desconsolada, entre todas as luzes,
+que ardiam ainda no silencio e paz do sero debandado:
+
+--Ora uma cousa assim! Nem quererem ficar para tomar um copinho de
+gelea, um calice de vinho do Porto!
+
+--Esteve tudo muito desanimado, tia Vicencia! exclamei desafogando o meu
+tedio. Todo esse mulherio emmudeceu; os amigos com um ar desconfiado...
+
+Jacintho protestou, muito divertido, muito sincero:
+
+No! pelo contrario. Gostei immenso. Excellente gente! E to simples...
+Todas estas raparigas me pareceram optimas. E to frescas, to alegres!
+Vou ter aqui bons amigos, quando verificarem que no sou miguelista.
+
+Ento contamos tia Vicencia a prodigiosa historia de D. Miguel
+escondido em Tormes... Ella ria! Que cousa! E mau seria...
+
+--Mas o Snr. Jacintho, no ?
+
+--Eu, minha senhora, sou socialista...
+
+Acudi, explicando tia Vicencia, que socialista era ser pelos pobres. A
+doce senhora considerava esse partido o melhor, o verdadeiro:
+
+--O meu Affonso, que Deus haja, era liberal... Meu pae, tambem e at
+amigo do Duque da Terceira...
+
+Mas um rude trovo rolou, atroou a noite negra:--e uma batega d'agoa
+cantou nos vidros, e nas pedras da varanda.
+
+--Santa Barbara! gritou a tia Vicencia! Ai aquella pobre gente!... At
+estou com cuidado... As Rojes, que vo na victoria!
+
+E correu para o quarto, na sua pressa de accender as duas velas
+costumadas no oratorio, ainda antes de ir guardar as pratas, a resar o
+tero, com a Gertrudes.
+
+
+
+
+XIV
+
+
+Ao outro dia, depois d'almoo, eu e Jacintho montamos a cavallo para um
+grande passeio at Flr da Malva, a saber de meu tio Adrio, e do seu
+furunculo. E sentia uma curiosidade interessada, e at inquieta, de
+testemunhar a impresso que daria ao meu Principe aquella nossa prima
+Joanninha, que era o orgulho da nossa casa. J n'essa manh, andando
+todos no jardim a escolher uma bella rosa ch para a botoeira do meu
+Principe, a tia Vicencia celebrra com tanto fervor a belleza, a graa,
+a caridade, e a doura da sua sobrinha toda-amada, que eu protestei:
+
+--Oh! tia Vicencia, olhe que esses elogios todos competem apenas
+Virgem Maria! A tia Vicencia est a cahir em peccado de idolatria! O
+Jacintho depois vae encontrar uma creatura apenas humana, e tem um
+desapontamento tremendo!
+
+E agora, trotando pela facil estrada de Sandofim, lembrava-me aquella
+manh, no 202, em que Jacintho encontrra o retrato d'ella no meu
+quarto, e lhe chamra uma _lavradeirna_. Com effeito, era grande e
+forte a Joanninha. Mas a photographia datava do seu tempo de vio
+rustico, quando ella era apenas uma bella forte e s planta da serra.
+Agora entrava nos vinte e cinco, e j pensava, e sentia,--e a alma que
+n'ella se formra, afinra, amacira, e espiritualisava o seu esplendor
+rubicundo.
+
+A manh, com o ceu todo purificado pela trovoada da vespera, e as terras
+reverdecidas e lavadas pelos chuviscos ligeiros, offerecia uma doura
+luminosa, fina, fresca, que tornava doce, como diz o velho Euripedes ou
+o velho Sophocles, mover o corpo, e deixar a alma preguiar, sem pressa
+nem cuidados. A estrada no tinha sombra, mas o sol batia muito de leve,
+e roava-nos com uma caricia quasi alada. O valle parecia a Jacintho,
+que nunca ali passra, uma pintura da Escola Franceza do seculo XVIII,
+to graciosamente n'elle ondulavam as terras verdes, e com tanta paz e
+frescura corria o risonho Serpo, e to affaveis e promettedores de
+fartura e contentamento alvejavam os casaes nas verduras tenras! Os
+nossos cavallos caminhavam n'um passo pensativo, gosando tambem a paz da
+manh adoravel. E no sei, nunca soube, que plantasinhas silvestres e
+escondidas espalhavam um delicado aroma, que eu tantas vezes sentira,
+n'aquelle caminho, ao comear o outomno.
+
+--Que delicioso dia! murmurou Jacintho. Este caminho para a Flr da
+Malva o caminho do ceu... Oh Z Fernandes, de que este cheirinho to
+doce, to bom?
+
+Eu sorri, com certo pensamento:
+
+--No sei... talvez j o cheiro do ceu!
+
+Depois, parando o cavallo, apontei com o chicote para o valle:
+
+--Olha, acol, onde est aquella fila d'olmos, e ha o riacho, j so
+terras do tio Adrio. Tem alli um pomar, que d os pcegos mais
+deliciosos de Portugal... Hei de pedir prima Joanninha que te mande um
+cesto d'elles. E o dce que ella faz com esses pcegos, menino, alguma
+cousa de celeste. Tambem lhe hei de pedir que te mande o dce.
+
+Elle ria:
+
+--Ser explorar de mais a prima Joanninha. E eu (por que?) recordei e
+atirei ao meu Principe estes dous versos d'uma ballada cavalheiresca,
+composta em Coimbra pelo meu pobre amigo Procopio:
+
+--Manda-lhe um servo querido,
+Bem hajas dona formosa!
+E que lhe entregue um annel
+E com um annel uma rosa.
+
+Jacintho rio alegremente:
+
+--Z Fernandes, seria excessivo, s por causa de meia duzia de pcegos,
+e d'um boio de dce.
+
+Assim riamos, quando appareceu, volta da estrada, o longo muro da
+quinta dos Vellosos, e depois a capellinha de S. Jos de Sandofim. E
+immediatamente piquei para o largo, para a taverna do Trto, por causa
+d'aquelle vinhinho branco, que sempre, quando por ali a levo, a minha
+alma me pede. O meu Principe reprovou, indignado:
+
+--Oh! Z Fernandes, pois tu, a esta hora, depois d'almoo, vaes beber
+vinho branco?
+
+-- um costumesinho antigo... Aqui taverninha do Trto... um
+decilitrosinho... A almasinha assim m'o pede.
+
+E paramos; eu gritei pelo Manoel, que appareceu, rebolando a sua grossa
+pansa, sobre as pernas tortas, com a infusa verde, e um copo.
+
+--Dous copos, Trto amigo. Que aqui este cavalheiro tambem aprecia.
+
+Depois d'um pallido protesto, o meu Principe tambem quiz, mirou o
+limpido e dourado vinho ao sol, provou, e esvasiou o copo, com delicia,
+e um estalinho de alto apreo.
+
+--Delicioso vinho!... Hei de querer d'este vinho em Tormes...
+perfeito.
+
+--Hein? Fresquinho, leve, aromatico, alegrador, todo alma!... Encha l
+outra vez os copos, amigo Trto. Este cavalheiro aqui o Snr. D.
+Jacintho, o fidalgo de Tormes.
+
+Ento, de traz da umbreira da taverna, uma grande voz bradou, cavamente,
+solemnemente:
+
+--Bemdito seja o pae dos Pobres!
+
+E um extranho velho, de longos cabellos brancos, barbas brancas, que lhe
+comiam a face cr de tijolo, assomou no vo da porta, apoiado a um
+bordo, com uma caixa de lata a tiracolo, e cravou em Jacintho dous
+olhinhos d'um brilho negro, que faiscavam. Era o tio Joo Torrado, o
+propheta da Serra... Logo lhe estendi a mo, que elle apertou, sem
+despegar de Jacintho os olhos, que se dilatavam mais negros. Mandei vir
+outro copo, apresentei Jacintho, que crra, embaraado.
+
+--Pois aqui o tem, o senhor de Tormes, que fez por ahi todo esse bem
+pobreza.
+
+O velho atirou para elle bruscamente o brao, que sahia cabelludo e
+quasi negro, d'uma manga muito curta.
+
+--A mo!
+
+E quando Jacintho lh'a deu, depois de arrancar vivamente a luva, Joo
+Torrado longamente lh'a reteve com um sacudir lento e pensativo,
+murmurando:
+
+--Mo real, mo de dar, mo que vem de cima, mo j rara!
+
+Depois tomou o copo, que lhe offerecia o Trto, bebeu com immensa
+lentido, limpou as barbas, deu um geito correia que lhe prendia a
+caixa de lata, e batendo com a ponta do cajado no cho:
+
+--Pois louvado seja nosso Senhor Jesus Christo, que por aqui me trouxe,
+que no o meu dia, e vi um homem!
+
+Eu ento debrucei-me para elle, mais em confidencia:
+
+--Mas, tio Joo, oua c! Sempre certo voc dizer por ahi, pelos
+sitios, que El-Rei D. Sebastio voltra?
+
+O pittoresco velho apoiou as duas mos sobre o cajado, o queixo
+d'espalhada barba sobre as mos, e murmurava, sem nos olhar, como
+seguindo a percusso dos seus pensamentos:
+
+--Talvez voltasse, talvez no voltasse... No se sabe quem vae, nem quem
+vem. A gente v os corpos, mas no v as almas que esto dentro. Ha
+corpos d'agora com almas d'outr'ora. Corpo vestido, alma pessoa...
+Na feira da Roqueirinha quem sabe com quantos reis antigos se topa,
+quando se anda aos encontres entre os vaqueiros... Em ruim corpo se
+esconde bom senhor!
+
+E como elle findra n'um murmurio, eu, atirando um olhar a Jacintho, e
+para gosarmos aquelles estranhos, pittorescos modos de vidente, insisti:
+
+--Mas, tio Joo, voc realmente, em sua consciencia, pensa que El-Rei
+D. Sebastio no morreu na batalha?
+
+O velho ergueu para mim a face, que se enrugra n'uma desconfiana:
+
+--Essas cousas so muito antigas. E no calham bem aqui porta do
+Trto. O vinho era bom, e V. S.^a tem pressa, meu menino! A flr da Flr
+da Malva l tem o paesinho doente... Mas o mal j vae pela serra abaixo
+com a inchao s costas. D gosto vr quem d gosto aos tristes. Por
+cima de Tormes ha uma estrella clara. E trotar, trotar, que o dia est
+lindo!
+
+Com a magra mo lanou um gesto para que seguissemos. E j passavamos o
+cruzeiro quando o seu brado ardente, de novo revoou, com solemnidade
+cava:
+
+--Bemdito seja o Pae dos Pobres.
+
+Direito, no meio da estrada, erguia o cajado como dirigindo as
+acclamaes d'um povo. E Jacintho pasmava de que ainda houvesse no reino
+um Sebastianista.
+
+--Todos o somos ainda em Portugal, Jacintho! Na serra ou na cidade cada
+um espera o seu D. Sebastio. At a loteria da Misericordia uma forma
+do Sebastianismo. Eu todas as manhs, mesmo sem ser de nevoeiro,
+espreito, a vr se chega o meu. Ou antes a minha, por que eu espero uma
+D. Sebastiana... E tu, felizardo?
+
+--Eu? Uma D. Sebastiana? Estou muito velho, Z Fernandes... Sou o ultimo
+Jacintho; Jacintho ponto final... Que casa aquella com os dous
+torrees?
+
+--A Flr da Malva.
+
+Jacintho tirou o relogio:
+
+--So tres horas. Gastamos hora e meia... Mas foi um bello passeio, e
+instructivo. lindo este sitio.
+
+Sobre um outeirinho, afastada da estrada por arvoredo, que um muro
+cerrava, e dominando, a Flr da Malva voltava para Oriente e para o Sol
+a sua longa fachada com os dous torrees quadrados, onde as janellas, de
+varanda, eram emolduradas em azulejos. O grande porto de ferro, ladeado
+por dous bancos de pedra, ficava ao fundo do terreirinho, onde um
+immenso castanheiro derramava verdura e sombra. Sentado sobre as fortes
+raizes descarnadas da grande arvore, um pequeno esperava segurando um
+burro pela arreata.
+
+--Est por ahi o Manoel da Porta?
+
+--Ainda agora subio pela alameda.
+
+--Bem: empurra l o porto.
+
+E subimos, por uma curta avenida de velhas arvores, at outro terreiro,
+com um alpendre, uma casa de moos, toda coberta d'heras, e uma casota
+de co, d'onde saltou, com um rumor de corrente arrastada, um molosso, o
+Trito, que eu logo soceguei fazendo-lhe reconhecer o seu velho amigo Z
+Fernandes. E o Manoel da Porta correu da fonte, onde enchia um grande
+balde, para nos segurar os cavallos.
+
+--Como est o tio Adrio?
+
+Surdo, o excellente Manoel sorrio, deleitado:
+
+--E ento vossa excellencia, bem? A Snr.^a D. Joanninha ainda agora
+andava no laranjal com o pequeno da Josepha.
+
+Seguimos por ruasinhas bem areadas, orladas d'alfazema e buxo alto, em
+quanto eu contava ao meu Principe que aquelle pequenito da Josepha era
+um afilhadinho da prima Joanna, e agora o seu encanto e o seu cuidado
+todo.
+
+--Esta minha santa prima, apesar de solteira, tem ahi pela freguezia uma
+verdadeira filharada. E no s dar-lhes roupas e presentes, e ajudar
+as mes. Mas at os lava, e os penteia, e lhes trata as tosses. Nunca a
+encontro sem alguma creancita ao collo... Agora anda na paixo d'este
+Jossinho.
+
+Mas quando chegamos ao laranjal, beira da larga rua da quinta que
+levava ao tanque, debalde procurei, e me embrenhei, e at gritei:--Eh,
+prima Joanninha!...
+
+--Talvez esteja l para baixo, para o tanque...
+
+Descemos a rua, entre arvores, que a cobriam com as densas ramas
+encruzadas. Uma fresca, limpida agoa de rega corria e luzia n'um caneiro
+de pedra. Entre os troncos, as roseiras bravas ainda tinham uma frescura
+de vero. E o pequeno campo, que se avistava para alm, rebrilhava com
+doura, todo amarello e branco, dos malmequeres e botes d'ouro.
+
+O tanque, redondo, fra esvasiado para se lavar, e agora de novo o
+repuxo o ia enchendo d'uma agoa muito clara, ainda baixa, onde os peixes
+vermelhos se agitavam na alegria de recuperarem o seu pequeno oceano.
+Sobre um dos bancos de pedra que circumdavam o tanque pousava um cesto
+cheio de dhalias cortadas. E um moo, que sobre uma escada podava as
+camelias, vira a Snr.^a D. Joanna seguir para o lado da parreira.
+
+Marchamos para a parreira, ainda toda carregada de uva preta. Duas
+mulheres, longe, ensaboavam n'um lavadoiro, na sombra de grandes
+nogueiras. Gritei:--Eh l? Vocs viram por ahi a Snr.^a D. Joanna? Uma
+das moas esganiou a voz, que se perdeu no vasto ar luminoso e doce.
+
+--Bem: vamos a casa! No podemos farejar assim, toda a tarde.
+
+-- uma bella quinta, murmurava o meu Principe encantado.
+
+--Magnifica! E bem tratada... O tio Adrio tem um feitor excellente...
+No o teu Melchior. Observa, aprende, lavrador! Olha aquelle
+cebolinho!
+
+Passamos pela horta, uma horta ajardinada, como a sonhra o meu
+Principe, com os seus talhes debruados d'alfazema, e madresilva
+enroscada nos pilares de pedra, que faziam ruasinhas frescas toldadas de
+parra densa. E dmos volta capella, onde crescia aos dous lados da
+porta uma roseira ch, com uma rosa unica, muito aberta, e uma moita de
+baunilha, onde Jacintho apanhou um raminho para cheirar. Depois entramos
+no terrao em frente da casa, com a sua balaustrada de pedra, toda
+enrodilhada de jasmineiros amarellos. A porta envidraada estava aberta:
+e subimos pela escadaria de pedra, no immenso silencio em que toda a
+Flr da Malva repousava, at ante-camara, d'altos tectos apainelados,
+com longos bancos de pau, onde desmaiavam na sua velha pintura as
+complicadas armas dos Cerqueiras. Empurrei a porta d'uma outra sala, que
+tinha as janellas da varanda abertas, cada uma com a gaiola d'um
+canario.
+
+-- curioso!--exclamou Jacintho. Parece o meu Presepio... E as minhas
+cadeiras.
+
+E com effeito. Sobre uma commoda antiga, com bronzes antigos, pousava um
+presepio semelhante ao da livraria de Jacintho. E as cadeiras de couro
+lavrado tinham, como as que elle descobrira no soto, umas armas sob um
+chapo de Cardeal.
+
+--Oh senhores! exclamei. No haver um creado?
+
+Bati as mos, fortemente. E o mesmo doce silencio permaneceu, muito
+largo, todo luminoso e arejado pelo macio ar da quinta, apenas cortado
+pelo saltitar dos canarios nos poleiros das gaiolas.
+
+-- o Palacio da Bella adormecida no bosque! murmurou Jacintho, quasi
+indignado. D um berro!
+
+--No, caramba! Vou l dentro!
+
+Mas, porta, que de repente se abrio, appareceu minha prima Joanninha,
+crada do passeio e do vivo ar, com um vestido claro um pouco aberto no
+pescoo, que fundia mais docemente, n'uma larga claridade, o explendor
+branco da sua pelle, e o louro ondeado dos seus bellos
+cabellos,--lindamente risonha, na surpreza que alargava os seus largos,
+luminosos olhos negros, e trazendo ao collo uma creancinha, gorda e cr
+de rosa, apenas coberta com uma camisinha, de grandes laos azues.
+
+E foi assim que Jacintho, n'essa tarde de Septembro, na Flr da Malva,
+vio aquella com quem casou em Maio, na capellinha d'azulejos, quando o
+grande p de roseira se cobrira todo de rosas.
+
+
+
+
+XV
+
+
+E agora, entre roseiras que rebentam, e vinhas que se vindimam, j cinco
+annos passaram sobre Tormes e a Serra. O meu Principe j no o ultimo
+Jacintho, Jacintho ponto final--por que n'aquelle solar que decahira,
+correm agora, com soberba vida, uma gorda e vermelha Theresinha, minha
+afilhada, e um Jacinthinho, senhor muito da minha amisade. E, pae de
+familia, principira a fazer-se monotono, pela perfeio da belleza
+moral, aquelle homem to pittoresco pela inquietao philosophica, e
+pelos variados tormentos da phantasia insaciada. Quando elle agora, bom
+sabedor das cousas da lavoura, percorria comigo a quinta, em solidas
+palestras agricolas, prudentes e sem chimeras--eu quasi lamentava esse
+outro Jacintho que colhia uma theoria em cada ramo d'arvore, e riscando
+o ar com a bengala, planeava queijeiras de cristal e porcellana, para
+fabricar queijinhos que custariam duzentos mil ris cada um!
+
+Tambem a paternidade lhe despertra a responsabilidade. Jacintho possuia
+agora um caderno de contas, ainda pequeno, rabiscado a lapis, com
+falhas, e papeluchos soltos entremeados, mas onde as suas despezas, as
+suas rendas se alinhavam, como duas hostes disciplinadas. Visitra j as
+suas propriedades de Montemr, da Beira; e concertava, mobilava as
+velhas casas d'essas propriedades para que os seus filhos, mais tarde,
+crescidos, encontrassem ninhos feitos. Mas onde eu reconheci que
+definitivamente um perfeito e ditoso equilibrio se estabelecera na alma
+do meu Principe, foi quando elle, j sabido d'aquelle primeiro e ardente
+fanatismo da Simplicidade--entreabrio a porta de Tormes Civilisao.
+Dous mezes antes de nascer a Theresinha, uma tarde, entrou pela avenida
+de platanos uma chiante e longa fila de carros, requisitados por toda a
+freguesia, e acuculados de caixotes. Eram os famosos caixotes, por tanto
+tempo encalhados em Alba de Tormes, e que chegavam, para despejar a
+Cidade sobre a Serra. Eu pensei:--Mau! o meu pobre Jacintho teve uma
+recahida! Mas os confortos mais complicados, que continha aquella
+caixotaria temerosa, foram, com surpreza minha, desviados para os sotos
+immensos, para o p da inutilidade: e o velho solar apenas se regalou
+com alguns tapetes sobre os seus soalhos, cortinas pelas janellas
+desabrigadas, e fundas poltronas, fundos sofs, para que os repousos,
+por que elle suspirra, fossem mais lentos e suaves. Attribui esta
+moderao a minha prima Joanninha, que amava Tormes na sua nudez rude.
+Ella jurou que assim o ordenra o seu Jacintho. Mas, decorridas semanas,
+tremi. Apparecera, vindo de Lisboa, um contra-mestre, com operarios, e
+mais caixotes, para installar um telephone!
+
+--Um telephone, em Tormes, Jacintho?
+
+O meu Principe explicou, com humildade:
+
+--Para casa de meu sogro!... Bem vs.
+
+--Era rasoavel e carinhoso. O telephone porm, subtilmente, mudamente,
+estendeu outro longo fio, para Valverde. E Jacintho, alargando os
+braos, quasi supplicante:
+
+--Para casa do medico. Comprehendes...
+
+Era prudente. Mas, certa manh, em Guies, accordei aos berros da tia
+Vicencia! Um homem chegra, mysterioso, com outros homens, trazendo
+arame, para installar na nossa casa o novo invento. Soceguei a tia
+Vicencia, jurando que essa machina nem fazia barulho, nem trazia
+doenas, nem attrahia as trovoadas. Mas corri a Tormes. Jacintho sorrio,
+encolhendo os hombros:
+
+--Que queres? Em Guies est o boticario, est o carniceiro... E,
+depois, ests tu!
+
+Era fraternal. Todavia pensei: Estamos perdidos! Dentro d'um mez temos a
+pobre Joanna a apertar o vestido por meio d'uma machina! Pois no! o
+Progresso, que, intimao de Jacintho, subira a Tormes a estabelecer
+aquella sua maravilha, pensando talvez que conquistra mais um reino
+para desfear, desceu, silenciosamente, desilludido, e no avistamos mais
+sobre a serra a sua hirta sombra cr de ferro e de fuligem. Ento
+comprehendi que, verdadeiramente, na alma de Jacintho se estabelecera o
+equilibrio da vida, e com elle a Gran-Ventura, de que tanto tempo elle
+fra o principe sem Principado. E uma tarde, no pomar, encontrando o
+nosso velho Grillo, agora reconciliado com a serra, desde que a serra
+lhe dera meninos para trazer s cavalleiras, observei ao digno preto,
+que lia o seu _Figaro_, armado de immensos oculos redondos:
+
+--Pois, Grillo, agora realmente bem podemos dizer que o Snr. D. Jacintho
+est firme.
+
+O Grillo arredou os oculos para a testa, e levantando para o ar os cinco
+dedos em curva como petalas d'uma tulipa:
+
+--S. ex.^a brotou!
+
+Profundo sempre o digno preto! Sim! Aquelle resequido galho de Cidade,
+plantado na serra, pegra, chupra o humus do torro herdado, crera
+seiva, afundra raizes, engrossra de tronco, atirra ramos, rebentra
+em flres, forte, sereno, ditoso, benefico, nobre, dando fructos,
+derramando sombra. E abrigados pela grande arvore, e por ella nutridos,
+cem casaes em redor a bemdiziam.
+
+
+
+
+XVI
+
+
+Muitas vezes Jacintho, durante esses annos, fallra com prazer n'um
+regresso de dous, tres mezes, ao 202, para mostrar Paris prima
+Joanninha. E eu seria o companheiro fiel, para archivar os espantos da
+minha serrana ante a Cidade! Depois conveio em esperar que o Jacinthinho
+completasse dous annos, para poder jornadear sem desconforto, e
+apontando j com o seu dedo para as cousas da Civilisao. Mas, quando
+elle, em Outubro, fez esses dous annos desejados, a prima Joanninha
+sentiu uma preguia immensa, quasi aterrada, do comboio, do estridor da
+Cidade, do 202, e dos seus esplendores. Estamos aqui to bem! est um
+tempo to lindo! murmurava, deitando os braos, sempre deslumbrada, ao
+rijo pescoo do seu Jacintho. Elle desistia logo de Paris, encantado.
+Vamos para Abril, quando os castanheiros dos Campos-Elyseos estiverem
+em flr! Mas em Abril vieram aquelles cansaos que immobilisavam a
+prima Joanninha no divan, ditosa, risonha, com umas pintas na pelle, e o
+roupo mais solto. Por todo um longo anno estava desfeita a alegre
+aventura. Eu andava ento soffrendo de desoccupao. As chuvas de Maro
+promettiam uma farta colheita. Uma certa Anna Vaqueira, crada e bem
+feita, viuva, que surtia as necessidades do meu corao, partira com o
+irmo para o Brazil, onde elle dirigia uma venda. Desde o inverno,
+sentia tambem no corpo como um comeo de ferrugem, que o emperrava, e,
+certamente, algures, na minha alma, nascera uma pontinha de bolor.
+Depois a minha egoa morreu... Parti eu para Paris.
+
+Logo em Hendaya, apenas pisei a doce terra de Frana, o meu pensamento,
+como pombo a um velho pombal, voou ao 202,--talvez por eu vr um enorme
+cartaz em que uma mulher nua, com flres bacchanticas nas tranas, se
+estorcia, segurando n'uma das mos uma garrafa espumante, e brandindo na
+outra, para o annunciar ao Mundo, um novo modelo de saca-rolhas. E oh
+surpresa! eis que, logo adeante, na estao quieta e clara de Saint
+Jean-de-Luz, um moo esbelto, de perfeita elegancia, entra vivamente no
+meu compartimento, e, depois de me encarar, grita:
+
+--Eh, Fernandes!
+
+Marizac! O duque de Marizac! Era j o 202... Com que reconhecimento lhe
+sacudi a mo fina, por elle me ter reconhecido! E, atirando para o canto
+do vagon um palet, um masso de jornaes, que o escudeiro lhe passra, o
+bom Marizac exclamava na mesma surpreza alegre:
+
+--E Jacintho?
+
+Contei Tormes, a serra, o seu primeiro amor pela Natureza, o seu outro
+grande amor por minha prima, e os dous filhos, que elle trazia
+escarranchados no pescoo.
+
+--Ah que canalha! exclamou Marizac com os olhos espetados em mim!
+capaz de ser feliz!
+
+--Espantosamente, loucamente... Qual! no ha adverbios...
+
+--Indecentemente--murmurou Marizac muito serio. Que canalha!
+
+Eu ento desejei saber do nosso rancho familiar do 202. Elle encolheu os
+hombros, accendendo a cigarette:
+
+--Todo esse mundo circula...
+
+--Madame d'Oriol?
+
+--Contina.
+
+--Os Trves? o Ephraim?
+
+--Continuam, todos tres.
+
+Lanou um gesto languido.
+
+--Durante cinco annos, em Paris, tudo contina... As mulheres com um
+pouco mais de ps d'arroz, e a pelle um pouco mais molle, e melada. Os
+homens com um tanto mais de dispepsia. E tudo segue. Tivemos os
+Anarchistas. A princeza de Carman abalou com um acrobata do Circo de
+Inverno... E--e voil!
+
+--Dornan?
+
+--Contina... No o encontrei mais desde o 202. Mas vejo s vezes o nome
+d'elle, no _Boulevard_, com versos preciosos, obscenidades muito
+apuradas, muito subtis.
+
+--E o Psychologo?... Ora, como se chamava elle?...
+
+--Contina tambem. Sempre com as feminices a tres francos e cincoenta...
+Duquezas em camisa, almas nas... Cousas que se vendem bem!
+
+Mas quando eu, encantado, ia indagar de Todelle, do Gro-Duque, o
+comboio entrou na estao de Biarritz:--e rapidamente, apanhando o
+paletot e os jornaes, depois de me apertar a mo, o delicioso Marizac
+saltou pela portinhola, que o seu creado abrira, gritando:
+
+--At Paris!... Sempre rue Cambori.
+
+Ento, no compartimento solitario, bocejei, com uma estranha sensao de
+monotonia, de saciedade, como cercado j de gentes muito vistas,
+murmurando historias muito sabidas, e cousas muito ditas, atravez de
+sorrisos estafados. Dos dous lados do comboio era a longa planicie
+monotona, sem variedade, muito miudamente cultivada, muito miudamente
+retalhada, d'um verde de rezeda, verde cinzento e apagado, onde nenhum
+lampejo, nem tom alegre de flr, nem acidente do solo, desmanchavam a
+mediocridade discreta e ordeira. Pallidos choupos, em renques pautados e
+finos, bordavam canaesinhos muito direitos e claros. Os casaes, todos da
+mesma cr pardacenta, mal se elevavam do solo, mal se destacavam da
+verdura desbotada, como encolhidos na sua mediocridade e cautella. E o
+ceu, por cima, liso, sem uma nuvem, com um sol descrado, parecia um
+vasto espelho muito lavado a grande agoa, at que de todo se lhe safasse
+o esmalte e o brilho. Adormeci n'uma doce insipidez.
+
+Com que linda manh de Maio entrei em Paris! To fresca e fina, e j
+macia, que, apesar de cansado, mergulhei com repugnancia no profundo,
+sombrio leito do Grand-Hotel, todo fechado de espessos velludos, grossos
+cordes, pesadas borlas, como um palanque de gala. N'essa profunda cova
+de pennas sonhei que em Tormes se construira uma torre Eiffel e que em
+volta d'ella as senhoras da Serra, as mais respeitaveis, a propria tia
+Albergaria, danavam, nas, agitando no ar saca-rolhas immensos. Com as
+commoes d'este pesadello, e depois o banho, e o desemmalar da mala, j
+se acercavam as duas horas quando emfim emergi do grande porto, pisei,
+ao cabo de cinco annos, o Boulevard. E immediatamente me pareceu que
+todos esses cinco annos eu ali permanecera porta do Grand-Hotel, to
+estafadamente conhecido me era aquelle estridente rolar da cidade, e as
+magras arvores, e as grossas taboletas, e os immensos chapeus emplumados
+sobre tranas pintadas d'amarello, e as empertigadas sobrecasacas com
+grossas rosetas da legio d'honra, e os garotos, em voz rouca e baixa,
+offerecendo baralhos de cartas obscenas, caixas de phosphoros
+obscenas... Santo Deus! pensei, ha que annos eu estou em Paris! Comprei
+ento, n'um kiosque, um jornal, a Voz de Paris, para que elle me
+contasse, durante o almoo, as novas da Cidade. A mesa do kiosque
+desapparecia, alastrada de jornaes illustrados:--e em todos se repetia a
+mesma mulher, sempre na, ou meia despida, ora mostrando as costellas
+magras, de gata faminta, ora voltando para o Leitor duas tremendas
+nadegas... Eu outra vez murmurei:--Santo Deus! No caf da Paz, o creado
+livido, e com um resto de p de arroz sobre a sua lividez, aconselhou ao
+meu appetite, por ser to tarde, um lingoado frito e uma costelleta.
+
+--E que vinho, snr. Conde?
+
+--Chablis, snr. Duque!
+
+Elle sorrio minha deliciosa pilheria,--e eu abri, contente, a Voz de
+Paris. Na primeira columna, atravez d'uma prosa muito retorcida, toda em
+brilhos de joia barata, entrevi uma Princesa na, e um Capito de
+Drages, que soluava. Saltei a outras columnas, onde se contavam feitos
+de cocottes de nomes sonoros. Na outra pagina escriptores eloquentes
+celebravam vinhos digestivos e tonicos. Depois eram os crimes do
+costume.--No ha nada de novo! Puz de parte a Voz de Paris,--e ento
+foi, entre mim e o lingoado, uma lucta pavorosa. O miseravel, que se
+frigira rancorosamente contra mim, no consentia que eu descollasse da
+sua espinha uma febra escassa. Todo elle se ressequira n'uma sola
+impenetravel e tostada, onde a faca vergava, impotente e tremula. Gritei
+pelo mo livido, o qual, com faca mais rija, fincando no soalho os
+sapatos de fivella, arrancou emfim quelle malvado duas tirinhas, finas
+e curtas como palitos, que engoli juntas, e me esfomearam. D'uma garfada
+findei a costelleta. E paguei quinze francos com um bom luiz d'ouro. No
+trco, que o moo me deu, com a polidez requintada d'uma civilisao
+muito diffundida, havia dous francos falsos. E por aquella dce tarde de
+Maio sahi para tomar no terrao um caf cr de chapo cco, que sabia a
+fava.
+
+Com o charuto acceso contemplei o Boulevard, quella hora em toda a
+pressa e estridor da sua grossa sociabilidade. A densa torrente dos
+omnibus, calhambeques, carroas, parelhas de luxo, rolava vivamente,
+como toda uma escura humanidade formigando entre patas e rodas, n'uma
+pressa inquieta. Aquelle movimento continuado e rude bem depressa
+entonteceu este espirito, por cinco annos affeito quietao das serras
+immutaveis. Tentava ento, puerilmente, repousar n'alguma forma immovel,
+omnibus parado, fiacre que estacra, n'um brusco escorregar da pileca:
+mas logo algum dorso apressado se encafuava pela portinhola da tipoia,
+ou um cacho de figuras escuras trepava sofregamente para o omnibus:--e,
+rapido, recomeava o rolar retumbante. Immoveis, de certo, estavam os
+altos predios hirtos, ribas de pedra e cal, que continham,
+disciplinavam, aquella torrente offegante. Mas da rua aos telhados, em
+cada varanda, por toda a fachada, eram taboletas encimando taboletas,
+que outras taboletas apertavam:--e mais me canava o perceber a tenaz
+incessancia do trabalho latente, a devorante canceira do lucro,
+arquejante por traz das frontarias decorosas e mudas. Ento, emquanto
+fumava o meu charuto, extranhamente se apossaram de mim os sentimentos
+que Jacintho outr'ora experimentra no meio da Natureza, e que tanto me
+divertiam. Ali, porta do caf, entre a indifferena e a pressa da
+Cidade, tambem eu senti, como elle no campo, a vaga tristeza da minha
+fragilidade e da minha solido. Bem certamente estava ali como perdido
+n'um mundo, que me no era fraternal. Quem me conhecia? Quem se
+interessaria por Z Fernandes? Se eu sentisse fome, e o confessasse,
+ninguem me daria metade do seu po. Por mais afflictamente que a minha
+face revelasse uma angustia, ninguem na sua pressa pararia para me
+consolar. De que me serviriam tambem as excellencias d'alma, que s na
+alma florescem? Se eu fosse um santo, aquella turba no se importaria
+com a minha santidade; e se eu abrisse os braos e gritasse, ali no
+Boulevard-- homens, meus irmos! os homens, mais ferozes que o lbo
+ante o Pobresinho d'Assis, ririam e passariam indifferentes. Dous
+impulsos unicos, correspondendo a duas funces unicas, parecia estarem
+vivos n'aquella multido,--o lucro e o gso. Isolada entre elles, e ao
+contagio ambiente da sua influencia, em breve a minha alma se
+contrahiria, se tornaria n'um duro calhau de Egoismo. Do ser que eu
+trouxera da Serra s restaria em pouco tempo esse calhau, e n'elle,
+vivos, os dous appetites da Cidade,--encher a bolsa, saciar a carne! E
+pouco a pouco as mesmas exageraes de Jacintho perante a Natureza me
+invadiam perante a Cidade. Aquelle Boulevard reumava para mim um bafo
+mortal, extrahido dos seus milhes de microbios. De cada porta me
+parecia sahir um ardil para me roubar. Em cada face, avistada
+portinhola d'um fiacre, suspeitava um bandido em manobra. Todas as
+mulheres me pareciam caiadas como sepulchros, tendo s podrido por
+dentro. E considerava d'uma melancolia funambulesca as frmas de toda
+aquella Multido, a sua pressa aspera e v, a affectao das attitudes,
+as immensas plumas das chapeletas, as expresses postias e falsas, a
+pompa dos peitos alteados, o dorso redondo dos velhos olhando as imagens
+obscenas das vitrines. Ah! tudo isto era pueril, quasi comico da minha
+parte, mas o que eu sentia no Boulevard, pensando na necessidade de
+remergulhar na Serra, para que ao seu puro ar se me despegasse a crosta
+da Cidade, e eu resurgisse humano, e Z-Fernandico!
+
+Ento, para dissipar aquelle pesadume de solido, paguei o caf e parti,
+lentamente, a visitar o 202. Ao passar na Magdalena, deante da estao
+dos omnibus, pensei:--Que ser feito de Madame Colombe? E, oh miseria!
+pelo meu miseravel ser subiu uma curta e quente baforada de desejo bruto
+por aquella besta suja e magra! Era o charco onde eu me envenenara, e
+que me envolvia nas emanaes subtis do seu veneno. Depois, ao dobrar da
+rue Royale para a Praa da Concordia, topei com um robusto e possante
+homem, que estacou, ergueu o brao, ergueu o vozeiro, n'um modo de
+commando:
+
+--Eh, Fernandes!
+
+O Gro-Duque! O bello Gro-Duque, de jaqueto alvadio e chapeu tyrolez
+cr de mel! Apertei com gratido reverente a mo do Principe, que me
+reconhecera.
+
+--E Jacintho? Em Paris?...
+
+Contei Tormes, a serra, o rejuvenescimento do nosso amigo entre a
+Natureza, a minha dce prima, e os bravos pequenos, que elle trazia s
+cavalleiras. O Gro-Duque encolheu os hombros, desolado:
+
+--Oh l, l, l!... Peuh! Casado, na aldeia, com filharada... Homem
+perdido! Ora no ha!... E um rapaz util! que nos divertia, e tinha
+gosto! Aquelle jantar cr de rosa foi uma festa linda... No se fez, no
+se tornou a fazer nada to brilhante em Paris... E Madame d'Oriol...
+Ainda ha dias a vi no Palacio de Gelo... Potavel, mulher ainda muito
+potavel... No todavia o meu genero... Adocicada, leitosa, pommadada,
+neve la vanille!... Ora esse Jacintho!...
+
+--E Vossa Alteza, em Paris com demora?
+
+O formidavel homem baixou a face, franzida e confidencial:
+
+--Nenhuma. Paris no se aguenta... Est estragado, positivamente
+estragado... Nem se come! Agora o Ernest, da Praa Gaillon, o Ernest,
+que era maitre-d'hotel do Maire... J l comeu? Um horror. Tudo o
+Ernest, agora! Onde se come? No Ernest. Qual! Ainda esta manh l
+almocei... Um horror! Uma salada Chambord... palhada, indecentemente
+palhada! No tem, no tem a noo da salada! Paris foi! Theatros, uma
+estopada. Mulheres, hui! Lambidas todas. No ha nada! Ainda assim, n'um
+dos theatritos de Montmartre, na Roulotte, est uma revista, que se v:
+_Para c as mulheres_!--engraada, bem despida... A Celestine tem uma
+cantiga, meia sentimental, meia porca, o _Amor no Water-Closet_, que
+diverte, tem topete... Onde est, Fernandes?
+
+--No Grand-Hotel, meu senhor.
+
+--Que barraca!... E o seu Rei sempre bom?
+
+Curvei a cabea:
+
+--Sua Magestade, bem.
+
+--Estimo! Pois, Fernandes, tive prazer... Esse Jacintho que me desola!
+V vr a Revista... Boas pernas, a Celestine... E tem graa o tal _Amor
+no Water-Closet_.
+
+Um rijissimo aperto de mo,--e S. Alteza subiu pesadamente para a
+victoria, ainda com um aceno amavel, que me penhorou... Excellente
+homem, este Gro-Duque! Mais reconciliado com Paris, atravessei para os
+Campos-Elyseos. Em toda a sua nobre e formosa larguesa, toda verde, com
+os castanheiros em flr, corriam, subindo, descendo, velocipedes. Parei
+a contemplar aquella fealdade nova, estes innumeraveis espinhaos
+arqueados, e gambias magras, agitando-se desesperadamente sobre duas
+rodas. Velhos gordos, de cachao escarlate, pedalavam, gordamente.
+Galfarros esguios, de tibias descarnadas, fugiam n'uma linha esfusiada.
+E as mulheres, muito pintadas, de bolero curto, cales bufantes,
+giravam, mais rapidamente ainda, no prazer equivoco da carreira,
+escarranchadas em hastes de ferro. E a cada instante outras medonhas
+machinas passavam, victorias e phaetons a vapor, com uma complicao de
+tubos e caldeiras, torneiras e chamins, rolando n'uma trepidao
+estridente e pesada, espalhando um grosso fedor de petroleo. Segui para
+o 202, pensando no que diria um grego do tempo de Phidias, se visse esta
+nova belleza e graa do caminhar humano!...
+
+No 202, o porteiro, o velho Vian, quando me reconheceu, mostrou uma
+alegria enternecedora. No se fartou de saber do casamento de Jacintho,
+e d'aquelles queridos meninos. E era para elle uma felicidade que eu
+apparecesse, justamente quando tudo se andra limpando para a entrada da
+primavera. Quando penetrei na amada casa senti mais vivamente a minha
+solido. No restava em toda ella nem um dos costumados aspectos que
+fizessem reviver a velha camaradagem com o meu Principe. Logo na
+ante-camara grandes lonas cobriam as tapessarias heroicas, e egual lona
+parda escondia os estofos das cadeiras e dos muros, e as largas estantes
+d'ebano da Bibliotheca, onde os trinta mil volumes, nobremente
+enfileirados como Doutores n'um Concilio, pareciam separados do mundo
+por aquelle panno que sobre elles descera depois de finda a comedia da
+sua fora e da sua auctoridade. No gabinete de Jacintho, de sobre a mesa
+d'escripta, desapparecera aquella confuso de instrumentosinhos, de que
+eu perdera j a memria: e s a Mechanica sumptuosa, por sobre peanhas e
+pedestaes, recentemente espanejada, reluzia, com as suas engrenagens,
+tubos, rodas, rigidezes de metaes, n'uma frieza inerte, na inactividade
+definitiva das cousas desusadas, como j dispostas n'um Museu, para
+exemplificar a instrumentao caduca d'um mundo passado. Tentei mover o
+telephone, que se no moveu; a mola da electricidade no accendeu nenhum
+lume: todas as foras universaes tinham abandonado o servio do 202,
+como servos despedidos. E ento, passeando atravez das salas, realmente
+me pareceu que percorria um museu d'antiguidades; e que mais tarde
+outros homens, com uma comprehenso mais pura e exacta da Vida e da
+Felicidade, percorreriam como eu, longas salas, atulhadas com os
+instrumentos da Super-Civilisao, e, como eu, encolheriam
+desdenhosamente os hombros ante a grande Illuso que findra, agora para
+sempre inutil, arrumada como um lixo historico, guardada debaixo de
+lona.
+
+Quando sahi do 202 tomei um fiacre, subi ao Bosque de Bolonha. E apenas
+rolra momentos pela avenida das Acacias, no silencio decoroso,
+unicamente cortado pelo tilintar dos freios e pelas rodas vagarosas
+esmagando a areia, comecei a reconhecer as velhas figuras, sempre com o
+mesmo sorriso, o mesmo p d'arroz; as mesmas palpebras amortecidas, os
+mesmos olhos farejantes, a mesma immobilidade de cra! O romancista da
+_Couraa_ passou n'uma victoria, fixou em mim o monoculo defumado, mas
+permaneceu indifferente. Os bands negros de Madame Verghane,
+tapando-lhe as orelhas, pareciam ainda mais furiosamente negros entre a
+harmonia de todo o branco que a vestia, chapo, plumas, flres, rendas e
+corpete, onde o seu peito immenso se empolava como uma onda. No passeio,
+sob as Acacias, espapado em duas cadeiras, o director do _Boulevard_
+mamava o resto do seu charuto. E n'um grande landeau, Madame de Trves
+continuava o seu sorriso de ha cinco annos, com duas pregasinhas mais
+molles aos cantos dos labios seccos.
+
+Abalei para o Grand-Hotel, bocejando,--como outr'ora Jacintho. E findei
+o meu dia de Paris, no Theatro das Variedades, estonteado com uma
+comedia muito fina, muito acclamada, toda faiscante do mais vivo
+parisianismo, em que todo o enredo se enrodilhava volta d'uma Cama,
+onde alternadamente se espojavam mulheres em camisa, sujeitos gordos em
+ceroulas, um coronel com papas de linhaa nas nadegas, cosinheiras de
+meias de sda bordadas, e ainda mais gente, ruidosa e saltitante, a
+esfusiar de cio e de pilheria. Tomei um ch melancolico no Julien, no
+meio de um aspero e lugubre namoro de prostitutas, fariscando a preza.
+Em duas d'ellas, de pelle oleosa e cobreada, olhos obliquos, cabellos
+duros e negros como clinas, senti o Oriente, a sua provocao felina...
+Interroguei o creado, um medonho ser, d'uma obesidade balofa e livida,
+d'eunuco. O monstro explicou n'uma voz roufenha e surda:
+
+--Mulheres de Madagascar... Foram importadas quando a Frana occupou a
+ilha!
+
+Arrastei ento por Paris dias d'immenso tedio. Ao longo do Boulevard
+revi nas vitrines todo o luxo, que j me enfartra havia cinco annos,
+sem uma graa nova, uma curta frescura de inveno. Nas livrarias, sem
+descobrir um livro, folheava centenas de volumes amarellos, onde, de
+cada pagina que ao acaso abria, se exhalava om cheiro mrno d'alcova e
+de ps d'arroz, entre linhas trabalhadas com effeminado arrebique, como
+rendas de camisas. Ao jantar, em qualquer restaurante, encontrava,
+ornando e disfarando as carnes ou as aves, o mesmo mlho, de cres e
+sabores de pomada, que j de manh, n'outro restaurante, espelhado e
+dourejado, me enjora no peixe e nos legumes. Paguei por grossos preos
+garrafas do nosso adstringente e rustico vinho de Torres, ennobrecido
+com o titulo de Chteau isto, Chteau aquillo, e p postio no gargalo.
+ noite, nos theatros, encontrava a Cama, a costumada cama, como centro
+e unico fim da vida, attrahindo, mais fortemente que o monturo attrahe
+os moscardos, todo um enxame de gentes, estonteadas, frementes
+d'erotismo, zumbindo chacotas senis. Esta sordidez da Planicie me levou
+a procurar melhor aragem d'espirito nas alturas da Collina, em
+Montmartre; e ahi, no meio d'uma multido elegante de Senhoras, de
+Duquezas, de Generaes, de todo o alto pessoal da Cidade, eu recebia, do
+alto do palco, grossos jorros de obscenidades, que faziam estremecer de
+goso as orelhas cabelludas de gordos banqueiros, e arfar com delicia os
+corpetes de Worms e de Doucet, sobre os peitos postios das nobres
+damas. E recolhia enjoado com tanto relento d'Alcova, vagamente
+dispeptico com os mlhos de pomada do jantar, e sobre tudo descontente
+comigo, por me no divertir, no comprehender a Cidade, e errar atravez
+d'ella e da sua Civilisao Superior, com a reserva ridicula d'um
+Censor, d'um Cato austero. Oh senhores!--pensava,--pois eu no me
+divertirei nesta deliciosa Cidade? Entrar comigo o bolor da velhice?
+
+Passei as pontes, que separam em Paris o Temporal do Espiritual,
+mergulhei no meu doce Bairro Latino, evoquei, deante de certos cafs, a
+memoria da minha Nini; e, como outr'ora, preguiosamente, subi as
+escadas da Sorbonne. N'um amphitheatro, onde sentira um grosso susurro,
+um homem magro, com uma testa muito branca e larga, como talhada para
+alojar pensamentos altos e puros, ensinava, falando das instituies da
+Cidade Antiga. Mas, mal eu entrra, o seu dizer elegante e limpido foi
+suffocado por gritos, urros, patadas, um tumulto rancoroso de troa
+bestial, que sahia da mocidade apinhada nos bancos, a mocidade das
+Escolas, Primavera sagrada, em que eu fra flr murcha. O Professor
+parou, espalhando em redor um olhar frio, e remexendo as suas notas.
+Quando o grosso grunhido se moderou em susurro desconfiado, elle
+recomeou com alta serenidade. Todas as suas ideias eram frias e
+substanciaes, expressas n'uma lingoa pura e forte; mas, immediatamente,
+rompe uma furiosa rajada de apitos, uivos, relinchos, cacarejos de
+gallo, por entre magras mos, que se estendiam levantadas para
+estrangular as ideias. Ao meu lado um velho, encolhido na alta gola d'um
+macfrelane de xadrezes, contemplava o tumulto com melancolia, pingando
+endefluxado. Perguntei ao velho:
+
+--Que querem elles? embirrao com o professor... politica?
+
+O velho abanou a cabea, espirrando:
+
+--No... sempre assim, agora, em todos os cursos... No querem
+ideias... Creio que queriam canonetas. o amor da porcaria e da troa.
+
+Ento, indignado, berrei:
+
+--Silencio, brutos!
+
+E eis que um abortosinho de rapaz, amarellado e sebento, de longas
+melenas, umas enormes lunetas rebrilhantes, se arrebita, me fita, e me
+berra:
+
+--_Sale Maure_!
+
+Ergui o meu grosso punho serrano,--e o desgraado, n'uma confuso de
+melenas, com sangue por toda a face, alluio, como um monto de trapos
+molles, ganindo desesperadamente, em quanto o furaco de uivos e
+cacarejos, guinchos e silvos, envolvia o Professor, que cruzra os
+braos, esperando, com uma serenidade simples.
+
+Desde esse momento decidi abandonar a fastidiosa Cidade; e o unico dia
+alegre e divertido que n'ella passei foi o derradeiro, comprando para os
+meus queridinhos de Tormes brinquedos consideraveis, tremendamente
+complicados pela Civilisao,--vapores de ao e cobre, providos de
+caldeiras para viajar em tanques; lees de pelle veridica rugindo
+pavorosamente, bonecas vestidas pela Laferrire, com phonographo no
+ventre...
+
+Finalmente abalei uma tarde, depois de lanar da minha janella, sobre o
+Boulevard, as minhas despedidas Cidade:
+
+--Pois adeusinho, at nunca mais! Na lama do teu vicio e na poeira da
+tua vaidade, outra vez, no me pilhas! O que tens de bom, que o teu
+genio, elegante e claro, l o receberei na Serra pelo correio.
+Adeusinho!
+
+Na tarde do seguinte Domingo, debruado da janella do comboio, que
+vagarosamente deslisava pela borda do rio lento, n'um silencio todo
+feito d'azul e sol, avistei, na plata-forma da quieta estao da minha
+aldeia, os Senhores de Tormes, com a minha afilhada Thereza, muito
+vermelha, arregalando os seus soberbos olhos, e o bravo Jacinthinho, que
+empunhava uma bandeira branca. O alvoroo ditoso com que abracei e
+beijei aquella tribu bem amada conviria perfeitamente a quem voltasse
+vivo d'uma guerra distante, na Tartaria. Na alegria de recuperar a
+Serra, at beijoquei o chefe Pimentinha, que a estalar d'obesidade se
+aodava gritando ao carregador todo o cuidado com as minhas malas.
+
+Jacintho, magnifico, de grande chapo serrano e jaqueta, de novo me
+abraou:
+
+--E esse Paris?
+
+--Medonho!
+
+Abri depois os braos para o bravo Jacintinho.
+
+--Ento para que essa bandeira, meu cavalleiro?
+
+-- a bandeira do Castello! declarou elle, com uma bella seriedade nos
+seus grandes olhos.
+
+A me ria. Desde essa manh, logo que soubera da chegada do Ti-Z,
+appareceu de bandeira, feita pelo Grillo, e no a largra mais; com ella
+almora, com ella descera de Tormes!
+
+--Bravo! E, prima Joanninha, olhe que est magnifica! Eu, tambem, venho
+d'aquellas pelles meladas de Paris... Mas acho-a triumphal! E o tio
+Adrio, e a tia Vicencia?
+
+--Tudo optimo! gritou Jacintho. A serra, Deos louvado, prospera. E
+agora, para cima! Tu hoje ficas em Tormes. Para contar da Civilisao.
+
+No largo por traz da estao, debaixo dos eucalyptos, que revi com
+gosto, esperavam os tres cavallos, e dous bellos burros brancos, um com
+cadeirinha para a Thereza, outro com um cesto de verga, para metter
+dentro o heroico Jacinthinho, um e outro servidos estribeira por um
+creado. Eu ajudra a prima Joanninha a montar, quando o carregador
+appareceu com um masso de jornaes e papeis, que eu esquecera na
+carruagem. Era uma papelada, de que me surtira na Estao d'Orleans,
+toda recheada de mulheres nuas, de historietas sujas, de parisianismo,
+d'erotismo. Jacintho, que as reconhecera, gritou rindo:
+
+--Deita isso fra!
+
+E eu atirei, para um monto de lixo, ao canto do Pateo, aquelle putrido
+rebotalho da Civilisao. E montei. Mas ao dobrar para o caminho
+empinado da serra, ainda me voltei, para gritar adeus ao Pimenta, de
+quem me esquecera. O digno chefe, debruado sobre o monturo, apanhava,
+sacudia, recolhia com amor aquellas bellas estampas, que chegavam de
+Paris, contavam as delicias de Paris, derramavam atravez do mundo a
+seduco de Paris.
+
+Em fila comeamos a subir para a Serra. A tarde adoava o seu esplendor
+d'estio. Uma aragem trazia, como offertados, perfumes das flres
+silvestres. As ramagens moviam, com um aceno de doce acolhimento, as
+suas folhas vivas e relusentes. Toda a passarinhada cantava, n'um
+alvoroo de alegria e de louvor. As agoas correntes, saltantes,
+lusidias, despediam um brilho mais vivo, n'uma pressa mais animada.
+Vidraas distantes de casas amaveis, flammejavam com um fulgor d'ouro. A
+serra toda se offertava, na sua belleza eterna e verdadeira. E, sempre
+adiante da nossa fila, por entre a verdura, fluctuava no ar a bandeira
+branca, que o Jacinthinho no largava, de dentro do seu cesto, com a
+haste bem segura na mo. Era _a bandeira do Castello_, affirmra elle.
+
+E na verdade me parecia que, por aquelles caminhos, atravez da natureza
+campestre e mansa,--o meu Principe, atrigueirado nas soalheiras e nos
+ventos da serra, a minha prima Joanninha, to doce e risonha me, os
+dois primeiros representantes da sua abenoada tribu, e eu--, to longe
+de amarguradas illuses e de falsas delicias, trilhando um solo eterno,
+e de eterna solidez, com a alma contente, e Deus contente de ns,
+serenamente e seguramente subiamos--para o Castello da Gran-Ventura!
+
+
+Fim
+
+
+
+
+ADVERTENCIA
+
+
+Desde a pagina 241, at o final, as provas d'este livro no foram
+revistas pelo auctor, arrebatado pela morte antes de haver dado a esta
+parte da sua escripta aquella ultima demo, em que habitualmente elle
+punha a diligencia mais perseverante e mais admiravelmente lucida.
+
+Aquelle dos seus amigos e companheiro de letras, a quem foi confiado o
+trabalho delicado e piedoso de tocar no manuscripto posthumo de Ea de
+Queiroz, ao concluir o desempenho de tal misso, beija com o mais
+enternecido e saudoso respeito a mo, para todo sempre immobilisada, que
+traou estas paginas encantadoras; e faz votos por que a reviso de que
+se incumbiu no deslustre muito grosseiramente a immortal aureola com
+que ficar resplandecendo na litteratura portugueza este livro, em que o
+espirito do grande escriptor parece exhalar-se da vida n'um terno
+suspiro de doura, de paz, e de puro amor terra da sua patria.
+
+24 de abril de 1901.
+
+
+
+
+*LIVRARIA CHARDRON de Lello & Irmo*
+
+96--CLERIGOS--98
+
+
+*Bazillio Telles*
+
+O problema agricola $600
+Estudos historicos e economicos $600
+
+_No prlo_:
+
+Introduco ao problema do trabalho nacional.
+
+
+*Abel Botelho*
+
+O baro de Lavos $800
+O livro d'Alda $800
+Sem remedio... $500
+
+_No prlo_:
+
+Amanh.
+
+
+*Jos Caldas*
+
+Humildes $400
+Os Jesuitas; a sua influencia na actual
+ sociedade portugueza; meio de a conjurar _no prlo_
+
+
+*Sylvio Romero*
+
+Martins Penna $400
+
+
+*Rebello da Silva*
+
+Mocidade de D. Joo V. 1$500
+
+
+*Andrade Corvo*
+
+Um anno na crte 1$500
+
+
+*Antonio C. Louzada*
+
+Rua escura $500
+Na consciencia $500
+
+
+*Dumas*
+
+Jorge ou o capito dos piratas $500
+Tres mosqueteiros, 2 volumes 1$000
+
+
+*Lermina*
+
+Filho do Monte Christo, 2 volumes 1$000
+
+
+*Eugenio Sue*
+
+Mysterios de Paris, 3 volumes cart. 2$000
+
+
+*Zola*
+
+Nan $500
+Historia da lavadeira Gervasia, 2 vols 1$000
+O Capito Burle $500
+Ventre de Paris, 2 vols 1$000
+
+
+*Arnaldo Gama*
+
+Caldeira de Pero Botelho $500
+Honra ou loucura $500
+Filho do Baldaia $600
+
+
+*Bruno*
+
+O Brazil mental $800
+Notas do exilio $500
+
+ * * * * *
+
+Historia da Prostituio 1$800
+
+
+*Camillo Castello Branco*
+
+Maria da Fonte $500
+Livro de consolao $500
+D. Luiz de Portugal $300
+Brazileira de Prazins $500
+Eusebio Macario $500
+Volcoens da lama $500
+Carta de guia de casados $300
+
+
+*Grainha*
+
+Jesuitas $600
+
+
+*Tolstoi*
+
+A Sonata de Kreutzer $400
+
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of A Cidade e as Serras, by Ea de Queirs
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A CIDADE E AS SERRAS ***
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+such as creation of derivative works, reports, performances and
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+paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project
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+works. See paragraph 1.E below.
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+1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
+or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
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index 0000000..31173ab
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+++ b/old/20071012.18220-8.txt
@@ -0,0 +1,8783 @@
+The Project Gutenberg EBook of A Cidade e as Serras, by Ea Queirs
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: A Cidade e as Serras
+
+Author: Ea Queirs
+
+Release Date: October 12, 2007 [EBook #18220]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A CIDADE E AS SERRAS ***
+
+
+
+
+Produced by Rita Farinha and the Online Distributed
+Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This file was
+produced from images generously made available by National
+Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).)
+
+
+
+
+
+
+
+
+
+EA DE QUEIROZ
+
+A CIDADE E AS SERRAS
+
+
+PORTO
+
+LIVRARIA CHARDRON
+
+De Lello & Irmo, editores
+
+1901
+
+Todos os direitos reservados
+
+
+
+
+EA DE QUEIROZ
+
+A CIDADE E AS SERRAS
+
+
+PORTO
+
+LIVRARIA CHARDRON
+
+De Lello & Irmo, editores
+
+1901
+
+Todos os direitos reservados
+
+
+
+
+Pertence no Brazil o direito de propriedade d'esta obra ao cidado
+Francisco Alves, livreiro editor no Rio de Janeiro, que, para a garantia
+que lhe offerece a lei n.^o 496 de 1 d'Agosto de 1898, fez o competente
+deposito na Bibliotheca nacional, segundo a determinao do art. 13.^o
+da mesma Lei.
+
+
+_Porto--Imprensa Moderna_
+
+
+
+
+[Figura de Ea de Queirs]
+
+
+
+
+A CIDADE E AS SERRAS
+
+
+
+
+Obras do mesmo auctor:
+
+
+*Revista de Portugal.* 4 grossos volumes 12$000
+
+*As minas de Salomo.* 1 volume $600
+
+*Os Maias.* 2 grossos volumes 2$000
+
+*O crime do padre Amaro.* Terceira edio inteiramente refundida,
+recomposta, e differente na frma e na aco da edio primitiva. 1 grosso
+volume 1$200
+
+*O primo Bazilio.* Quarta edio. 1 grosso volume 1$000
+
+*A Reliquia.* 1 grosso volume 1$000
+
+*O Mandarim.* Quarta edio. 1 volume $500
+
+*Correspondencia de Fradique Mendes.* 1 volume $600
+
+*A illustre casa de Ramires.* 1 volume 1$000
+
+
+
+
+A CIDADE E AS SERRAS
+
+
+
+
+I
+
+
+O meu amigo Jacintho nasceu n'um palacio, com cento e nove contos de
+renda em terras de semeadura, de vinhedo, de cortia e d'olival.
+
+No Alemtejo, pela Extremadura, atravez das duas Beiras, densas sebes
+ondulando por collina e valle, muros altos de boa pedra, ribeiras,
+estradas, delimitavam os campos d'esta velha familia agricola que j
+entulhava gro e plantava cepa em tempos d'el-rei D. Diniz. A sua quinta
+e casa senhorial de Tormes, no Baixo Douro, cobriam uma serra. Entre o
+Tua e o Tinhela, por cinco fartas legoas, todo o torro lhe pagava fro.
+E cerrados pinheiraes seus negrejavam desde Arga at ao mar d'Ancora.
+Mas o palacio onde Jacintho nascra, e onde sempre habitra, era em
+Paris, nos Campos Elyseos, n.^o 202.
+
+Seu av, aquelle gordissimo e riquissimo Jacintho a quem chamavam em
+Lisboa o _D. Galio_, descendo uma tarde pela travessa da Trabuqueta,
+rente d'um muro de quintal que uma parreira toldava, escorregou n'uma
+casca de laranja e desabou no lagedo. Da portinha da horta sahia n'esse
+momento um homem moreno, escanhoado, de grosso casaco de baeto verde e
+botas altas de picador, que, galhofando e com uma fora facil, levantou
+o enorme Jacintho--at lhe apanhou a bengala de casto d'ouro que rolra
+para o lixo. Depois, demorando n'elle os olhos pestanudos e pretos:
+
+--Oh Jacintho Galio, que andas tu aqui, a estas horas, a rebolar pelas
+pedras?
+
+E Jacintho, aturdido e deslumbrado, reconheceu o snr. Infante D. Miguel!
+
+Desde essa tarde amou aquelle bom Infante como nunca amra, apesar de
+to guloso, o seu ventre, e apesar de to devoto o seu Deus! Na sala
+nobre da sua casa ( Pampulha) pendurou sobre os damascos o retrato do
+seu Salvador, enfeitado de palmitos como um retabulo, e por baixo a
+bengala que as magnanimas mos reaes tinham erguido do lixo. Emquanto o
+adoravel, desejado Infante penou no desterro de Vienna, o barrigudo
+senhor corria, sacudido na sua sege amarella, do botequim do Z-Maria em
+Belem botica do Placido nos Algibebes, a gemer as saudades do
+_anginho_, a tramar o regresso do _anginho_. No dia, entre todos
+bemdito, em que a _Perola_ appareceu barra com o Messias, engrinaldou
+a Pampulha, ergueu no Caneiro um monumento de papelo e lona onde D.
+Miguel, tornado S. Miguel, branco, d'aureola e azas de Archanjo, furava
+de cima do seu corcel d'Alter o Drago do Liberalismo, que se estorcia
+vomitando a Carta. Durante a guerra com o outro, com o pedreiro livre
+mandava recoveiros a Santo Thyrso, a S. Gens, levar ao Rei fiambres,
+caixas de dce, garrafas do seu vinho de Tarrafal, e bolsas de retroz
+atochadas de peas que elle ensaboava para lhes avivar o ouro. E quando
+soube que o snr. D. Miguel, com dois velhos bahus amarrados sobre um
+macho, tomra o caminho de Sines e do final desterro--Jacintho _Galio_
+correu pela casa, fechou todas as janellas como n'um luto, berrando
+furiosamente:
+
+--Tambem c no fico! tambem c no fico!
+
+No, no queria ficar na terra perversa d'onde partia, esbulhado e
+escorraado, aquelle Rei de Portugal que levantava na rua os Jacinthos!
+Embarcou para Frana com a mulher, a snr.^a D. Angelina Fafes (da to
+fallada casa dos Fafes da Avellan); com o filho, o 'Cinthinho, menino
+amarellinho, mollesinho, coberto de caros e leicenos; com a aia e com
+o moleque. Nas costas da Cantabria o paquete encontrou to rijos mares
+que a snr.^a D. Angelina, esguedelhada, de joelhos na enxerga do
+beliche, prometteu ao Senhor dos Passos d'Alcantara uma cora
+d'espinhos, de ouro, com as gottas de sangue em rubis do Pegu. Em
+Bayonna, onde arribaram, 'Cinthinho teve ithericia. Na estrada
+d'Orleans, n'uma noite agreste, o eixo da berlinda em que jornadeavam
+partiu, e o nedio senhor, a delicada senhora da casa da Avellan, o
+menino, marcharam tres horas na chuva e na lama do exilio at uma
+aldeia, onde, depois de baterem como mendigos a portas mudas, dormiram
+nos bancos d'uma taberna. No Hotel dos Santos Padres, em Paris,
+soffreram os terrores d'um fogo que rebentra na cavalharia, sob o
+quarto de _D. Galio_, e o digno fidalgo, rebolando pelas escadas em
+camisa, at ao pateo, enterrou o p n numa lasca de vidro. Ento ergueu
+amargamente ao co o punho cabelludo, e rugiu:
+
+--Irra! de mais!
+
+Logo n'essa semana, sem escolher, Jacintho _Galio_ comprou a um
+Principe polaco, que depois da tomada de Varsovia se mettera frade
+cartuxo, aquelle palacete dos Campos Elyseos, n.^o 202. E sob o pesado
+ouro dos seus estuques, entre as suas ramalhudas sedas se enconchou,
+descanando de tantas agitaes, n'uma vida de pachorra e de boa mesa,
+com alguns companheiros d'emigrao (o desembargador Nuno Velho, o conde
+de Rabacena, outros menores), at que morreu de indigesto, d'uma
+lampreia d'escabeche que lhe mandra o seu procurador em Monte-mr. Os
+amigos pensavam que a snr.^a D. Angelina Fafes voltaria ao reino. Mas a
+boa senhora temia a jornada, os mares, as caleas que racham. E no se
+queria separar do seu Confessor, nem do seu Medico, que to bem lhe
+comprehendiam os escrupulos e a asthma.
+
+--Eu, por mim, aqui fico no 202 (declarra ella), ainda que me faz falta
+a boa agua d'Alcolena... O 'Cinthinho, esse, em crescendo, que decida.
+
+O 'Cinthinho crescra. Era um moo mais esguio e livido que um cirio, de
+longos cabellos corredios, narigudo, silencioso, encafuado em roupas
+pretas, muito largas e bambas; de noite, sem dormir, por causa da tosse
+e de suffocaes, errava em camisa com uma lamparina atravez do 202; e
+os creados na copa sempre lhe chamavam a _Sombra_. N'essa sua mudez e
+indeciso de sombra surdira, ao fim do luto do pap, o gosto muito vivo
+de tornear madeiras ao torno: depois, mais tarde, com a melada flr dos
+seus vinte annos, brotou n'elle outro sentimento, de desejo e de pasmo,
+pela filha do desembargador Velho, uma menina redondinha como uma rla,
+educada n'um convento de Paris, e to habilidosa que esmaltava, dourava,
+concertava relogios e fabricava chapos de feltro. No outomno de 1851,
+quando j se desfolhavam os castanheiros dos Campos Elyseos, o
+'Cinthinho cuspilhou sangue. O medico, acarinhando o queixo e com uma
+ruga seria na testa immensa, aconselhou que o menino abalasse para o
+golfo Juan ou para as tepidas areias d'Arcachon.
+
+'Cinthinho porm, no seu afrro de sombra, no se quiz arredar da
+Therezinha Velho, de quem se tornra, atravez de Paris, a muda, tardnha
+sombra. Como uma sombra, casou; deu mais algumas voltas ao torno; cuspiu
+um resto de sangue; e passou, como uma sombra.
+
+Tres mezes e tres dias depois do seu enterro o meu Jacintho nasceu.
+
+ * * * * *
+
+Desde o bero, onde a av espalhava funcho e ambar para afugentar a
+_Sorte-Ruim_, Jacintho medrou com a segurana, a rijeza, a seiva rica
+d'um pinheiro das dunas.
+
+No teve sarampo e no teve lombrigas. As Letras, a Taboada, o Latim
+entraram por elle to facilmente como o sol por uma vidraa. Entre os
+camaradas, nos pateos dos collegios, erguendo a sua espada de lata e
+lanando um brado de commando, foi logo o vencedor, o Rei que se adula,
+e a quem se cede a fructa das merendas. Na edade em que se l Balzac e
+Musset nunca atravessou os tormentos da sensibilidade;--nem crepusculos
+quentes o retiveram na solido d'uma janella, padecendo d'um desejo sem
+frma e sem nome. Todos os seus amigos (eramos tres, contando o seu
+velho escudeiro preto, o Grillo) lhe conservaram sempre amizades puras e
+certas--sem que jmais a participao do seu luxo as avivasse ou fossem
+desanimadas pelas evidencias do seu egoismo. Sem corao bastante forte
+para conceber um amor forte, e contente com esta incapacidade que o
+libertava, do amor s experimentou o mel--esse mel que o amor reserva
+aos que o recolhem, maneira das abelhas, com ligeireza, mobilidade e
+cantando. Rijo, rico, indifferente ao Estado e ao Governo dos Homens,
+nunca lhe conhecemos outra ambio alm de comprehender bem as Ideias
+Geraes; e a sua intelligencia, nos annos alegres de esclas e
+controversias, crculava dentro das Philosophias mais densas como enguia
+lustrosa na agua limpa d'um tanque. O seu valor, genuino, de fino
+quilate, nunca foi desconhecido, nem desapreciado; e toda a opinio, ou
+mera facecia que lanasse, logo encontrava uma aragem de sympathia e
+concordancia que a erguia, a mantinha emballada e rebrilhando nas
+alturas. Era servido pelas cousas com docilidade e carinho;--e no
+recordo que jamais lhe estalasse um boto da camisa, ou que um papel
+maliciosamente se escondesse dos seus olhos, ou que ante a sua
+vivacidade e pressa uma gaveta perfida emperrasse. Quando um dia, rindo
+com descrido riso da Fortuna e da sua Roda, comprou a um sachristo
+hespanhol um Decimo de Loteria, logo a Fortuna, ligeira e ridente sobre
+a sua Roda, correu n'um fulgor, para lhe trazer quatro centas mil
+pesetas. E no ceu as Nuvens, pejadas e lentas, se avistavam Jacintho sem
+guarda chuva, retinham com reverencia as suas aguas at que elle
+passasse... Ah! o ambar e o funcho da snr.^a D. Angelina tinham
+escorraado do seu destino, bem triumphalmente e para sempre, a
+_Sorte-Ruim_! A amoravel av (que eu conheci obesa, com barba) costumava
+citar um soneto natalicio do desembargador Nunes Velho contendo um verso
+de boa lio:
+
+ Sabei, senhora, que esta Vida um rio...
+
+Pois um rio de vero, manso, translucido, harmoniosamente estendido
+sobre uma areia macia e alva, por entre arvoredos fragrantes e ditosas
+aldeias, no offereceria quelle que o descesse n'um barco de cedro, bem
+toldado e bem almofadado, com fructas e Champagne a refrescar em gelo,
+um Anjo governando ao leme, outros Anjos puxando sirga, mais segurana
+e doura do que a Vida offerecia ao meu amigo Jacintho.
+
+Por isso ns lhe chamavamos o Principe da Gran-Ventura!
+
+ * * * * *
+
+Jacintho e eu, Jos Fernandes, ambos nos encontramos e acamaradamos em
+Paris, nas Esclas do Bairro Latino--para onde me mandra meu bom tio
+Affonso Fernandes Lorena de Noronha e Sande, quando aquelles malvados me
+riscaram da Universidade por eu ter esborrachado, n'uma tarde de
+procisso, na Sophia, a cara sordida do dr. Paes Pitta.
+
+Ora n'esse tempo Jacintho concebra uma Ideia... Este Principe concebra
+a Ideia de que o homem s superiormente feliz quando superiormente
+civilisado. E por homem civilisado o meu camarada entendia aquelle que,
+robustecendo a sua fora pensante com todas as noes adquiridas desde
+Aristoteles, e multiplicando a potencia corporal dos seus orgos com
+todos os mechanismos inventados desde Theramenes, creador da roda, se
+torna um magnifico Ado, quas omnipotente, quas omnisciente, e apto
+portanto a recolher dentro d'uma sociedade e nos limites do Progresso
+(tal como elle se comportava em 1875) todos os gozos e todos os
+proveitos que resultam de Saber e de Poder... Pelo menos assim Jacintho
+formulava copiosamente a sua Ideia, quando conversavamos de fins e
+destinos humanos, sorvendo bocks poeirentos, sob o toldo das cervejarias
+philosophicas, no Boulevard Saint-Michel.
+
+Este conceito de Jacintho impressionra os nossos camaradas de cenaculo,
+que tendo surgido para a vida intellectual, de 1866 a 1875, entre a
+batalha de Sadowa e a batalha de Sedan, e ouvindo constantemente, desde
+ento, aos technicos e aos philosophos, que fra a Espingarda-de-agulha
+que vencra em Sadowa e fra o Mestre-de-escla quem vencra em Sedan,
+estavam largamente preparados a acreditar que a felicidade dos
+individuos, como a das naes, se realisa pelo illimitado
+desenvolvimento da Mechanica e da Erudio. Um d'esses moos mesmo, o
+nosso inventivo Jorge Carlande, reduzra a theoria de Jacintho, para lhe
+facilitar a circulao e lhe condensar o brilho, a uma frma algebrica:
+
+Summa sciencia}
+ X }= Summa felicidade
+Summa potencia}
+
+E durante dias, do Odeon Sorbonna, foi louvada pela mocidade positiva
+a _Equao Metaphysica de Jacintho_.
+
+Para Jacintho, porm, o seu conceito no era meramente metaphysico e
+lanado pelo gozo elegante de exercer a razo especulativa:--mas
+constituia uma regra, toda de realidade e de utilidade, determinando a
+conducta, modalisando a vida. E j a esse tempo, em concordancia com o
+seu preceito--elle se surtira da _Pequena Encyclopedia dos Conhecimentos
+Universaes_ em setenta e cinco volumes e installra, sobre os telhados
+do 202, n'um mirante envidraado, um telescopio. Justamente com esse
+telescopio me tornou elle palpavel a sua ideia, n'uma noite de agosto,
+de molle e dormente calor. Nos cos remotos lampejavam relampagos
+languidos. Pela Avenida dos Campos Elyseos, os fiacres rolavam para as
+frescuras do Bosque, lentos, abertos, canados, transbordando de
+vestidos claros.
+
+--Aqui tens tu, Z Fernandes, (comeou Jacintho, encostado janella do
+mirante) a theoria que me governa, bem comprovada. Com estes olhos que
+recebemos da Madre natureza, lestos e sos, ns podemos apenas
+distinguir alm, atravez da Avenida, n'aquella loja, uma vidraa
+alumiada. Mais nada! Se eu porm aos meus olhos juntar os dois vidros
+simples d'um binoculo de corridas, percebo, por traz da vidraa,
+presuntos, queijos, boies de gela e caixas de ameixa scca. Concluo
+portanto que uma mercearia. Obtive uma noo; tenho sobre ti, que com
+os olhos desarmados vs s o luzir da vidraa, uma vantagem positiva. Se
+agora, em vez d'estes vidros simples, eu usasse os do meu telescopio, de
+composio mais scientifica, poderia avistar alm, no planeta Marte, os
+mares, as neves, os canaes, o recorte dos golphos, toda a geographia
+d'um astro que circula a milhares de leguas dos Campos Elyseos. outra
+noo, e tremenda! Tens aqui pois o olho primitivo, o da Natureza,
+elevado pela Civilisao sua maxima potencia de viso. E desde j,
+pelo lado do olho portanto, eu, civilisado, sou mais feliz que o
+incivilisado, porque descubro realidades do Universo que elle no
+suspeita e de que est privado. Applica esta prova a todos os orgos e
+comprehendes o meu principio. Emquanto intelligencia, e felicidade
+que d'ella se tira pela incanavel accumulao das noes, s te peco
+que compares Renan e o Grillo... Claro portanto que nos devemos cercar
+de Civilisao nas maximas propores para gosar nas maximas propores
+a vantagem de viver. Agora concordas, Z Fernandes?
+
+No me parecia irrecusavelmente certo que Renan fosse mais feliz que o
+Grillo; nem eu percebia que vantagem espiritual ou temporal se clha em
+distinguir atravez do espao manchas n'um astro, ou atravez da Avenida
+dos Campos Elyseos presuntos n'uma vidraa. Mas concordei, porque sou
+bom, e nunca desalojarei um espirito do conceito onde elle encontra
+segurana, disciplina e motivo de energia. Desabotoei o collete, e
+lanando um gesto para o lado dos cafs e das luzes:
+
+--Vamos ento beber, nas maximas propores, _brandy and soda_, com
+gelo!
+
+Por uma concluso bem natural, a ideia de Civilisao, para Jacintho,
+no se separava da imagem de Cidade, d'uma enorme Cidade, com todos os
+seus vastos orgos funccionando poderosamente. Nem este meu
+super-civilisado amigo comprehendia que longe de Armazens servidos por
+tres mil caixeiros; e de Mercados onde se despejam os vergeis e lezirias
+de trinta provincias; e de Bancos em que retine o ouro universal; e de
+Fabricas fumegando com ancia, inventando com ancia; e de Bibliothecas
+abarrotadas, a estalar, com a papelada dos seculos; e de fundas milhas
+de ruas, cortadas, por baixo e por cima, de fios de telegraphos, de fios
+de telephones, de canos de gazes, de canos de fezes; e da fila atroante
+dos omnibus, tramways, carroas, velocipedes, calhambeques, parelhas de
+luxo; e de dois milhes d'uma vaga humanidade, fervilhando, a offegar,
+atravez da Policia, na busca dura do po ou sob a illuso do gozo--o
+homem do seculo XIX podesse saborear, plenamente, a delicia de viver!
+
+Quando Jacintho, no seu quarto do 202, com as varandas abertas sobre os
+lilazes, me desenrolava estas imagens, todo elle crescia, illuminado.
+Que creao augusta, a da Cidade! S por ella, Z-Fernandes, s por
+ella, pde o homem soberbamente affirmar a sua alma!...
+
+--Oh Jacintho, e a religio? Pois a religio no prova a alma?
+
+Elle encolhia os hombros. A religio! A religio o desenvolvimento
+sumptuoso de um instincto rudimentar, commum a todos os brutos, o
+terror. Um co lambendo a mo do dono, de quem lhe vem o osso ou o
+chicote, j constitue toscamente um devoto, o consciente devoto,
+prostrado em rezas ante o Deus que distribue o co ou o inferno!... Mas
+o telephone! o phonographo!
+
+--Ahi tens tu, o phonographo!... S o phonographo, Z Fernandes, me faz
+verdadeiramente sentir a minha superioridade de sr pensante e me separa
+do bicho. Acredita, no ha seno a Cidade, Z Fernandes, no ha seno a
+Cidade!
+
+E depois (accrescentava) s a Cidade lhe dava a sensao, to necessaria
+ vida como o calor, da solidariedade humana. E no 202, quando
+considerava em redor, nas densas massas do casario de Paris, dois
+milhes de sres arquejando na obra da Civilisao (para manter na
+natureza o dominio dos Jacinthos!) sentia um socego, um conchego, s
+comparaveis ao do peregrino, que, ao atravessar o deserto, se ergue no
+seu dromedario, e avista a longa fila da caravana marchando, cheia de
+lumes e de armas...
+
+Eu murmurava, impressionado:
+
+--Caramba!
+
+Ao contrario no campo, entre a inconsciencia e a impassibilidade da
+Natureza, elle tremia com o terror da sua fragilidade e da sua solido.
+Estava ahi como perdido n'um mundo que lhe no fosse fraternal; nenhum
+silvado encolheria os espinhos para que elle passasse; se gemesse com
+fome nenhuma arvore, por mais carregada, lhe estenderia o seu fructo na
+ponta compassiva d'um ramo. Depois, em meio da Natureza, elle assistia
+subita e humilhante inutilisao de todas as suas faculdades superiores.
+De que servia, entre plantas e bichos--ser um Genio ou ser um Santo? As
+searas no comprehendem as _Georgicas_; e fra necessario o socorro
+ancioso de Deus, e a inverso de todas as leis naturaes, e um violento
+milagre para que o lobo de Agubio no devorasse S. Francisco d'Assis,
+que lhe sorria e lhe estendia os braos e lhe chamava meu irmo lobo!
+Toda a intellectualidade, nos campos, se esterilisa, e s resta a
+bestialidade. N'esses reinos crassos do Vegetal e do Animal duas unicas
+funces se mantm vivas, a nutritiva e a procreadora. Isolada, sem
+occupao, entre focinhos e raizes que no cessam de sugar e de pastar,
+suffocando no calido bafo da universal fecundao, a sua pobre alma toda
+se engelhava, se reduzia a uma migalha d'alma, uma fagulhasinha
+espiritual a tremeluzir, como morta, sobre um naco de materia; e n'essa
+materia dois instinctos surdiam, imperiosos e pungentes, o de devorar e
+o de gerar. Ao cabo de uma semana rural, de todo o seu sr to
+nobremente composto s restava um estomago e por baixo um phallus! A
+alma? Sumida sob a besta. E necessitava correr, reentrar na Cidade,
+mergulhar nas ondas lustraes da Civilisao, para largar n'ellas a
+crosta vegetativa, e resurgir re-humanisado, de novo espiritual e
+Jacinthico!
+
+E estas requintadas metaphoras do meu amigo exprimiam sentimentos
+reaes--que eu testemunhei, que muito me divertiram, no unico passeio que
+fizemos ao campo, bem amavel e bem sociavel floresta de Montmorency.
+Oh delicias d'entremez, Jacintho entre a Natureza! Logo que se afastava
+dos pavimentos de madeira, do macadam, qualquer cho que os seus ps
+calcassem o enchia de desconfiana e terror. Toda a relva, por mais
+crestada, lhe parecia reumar uma humidade mortal. De sob cada torro,
+da sombra de cada pedra, receava o assalto de lacraus, de viboras, de
+frmas rastejantes e viscosas. No silencio do bosque sentia um lugubre
+despovoamento do Universo. No tolerava a familiaridade dos galhos que
+lhe roassem a manga ou a face. Saltar uma sebe era para elle um acto
+degradante que o retrogradava ao macaco inicial. Todas as flres que no
+tivesse j encontrado em jardins, domesticadas por longos seculos de
+servido ornamental, o inquietavam como venenosas. E considerava d'uma
+melancolia funambulesca certos modos e frmas do Sr inanimado, a pressa
+esperta e v dos regatinhos, a careca dos rochedos, todas as contorses
+do arvoredo e o seu resmungar solemne e tonto.
+
+Depois d'uma hora, n'aquelle honesto bosque de Montmorency, o meu pobre
+amigo abafava, apavorado, experimentando j esse lento mingoar e sumir
+d'alma que o tornava como um bicho entre bichos. S desannuviou quando
+penetramos no lagdo e no gaz de Paris--e a nossa vittoria quasi se
+despedaou contra um omnibus retumbante, atulhado de cidados. Mandou
+descer pelos Boulevards, para dissipar, na sua grossa sociabilidade,
+aquella materialisao em que sentia a cabea pesada e vaga como a d'um
+boi. E reclamou que eu o acompanhasse ao theatro das Variedades para
+sacudir, com os estribilhos da _Femme Papa_, o rumor importuno que lhe
+ficra dos melros cantando nos choupos altos.
+
+Este delicioso Jacintho fizera ento vinte e tres annos, e era um
+soberbo moo em quem reapparecra a fora dos velhos Jacinthos ruraes.
+S pelo nariz, afilado, com narinas quasi transparentes, d'uma
+mobilidade inquieta, como se andasse fariscando perfumes, pertencia s
+delicadezas do seculo XIX. O cabello ainda se conservava, ao modo das
+ras rudes, crespo e quasi lanigero: e o bigode, como o d'um Celta,
+cahia em fios sedosos, que elle necessitava aparar e frizar. Todo o seu
+fato, as espessas gravatas de setim escuro que uma perola prendia, as
+luvas de anta branca, o verniz das botas, vinham de Londres em caixotes
+de cedro; e usava sempre ao peito uma flr, no natural, mas composta
+destramente pela sua ramalheteira com petalas de flres dessemelhantes,
+cravo, azalea, orchidea ou tulipa, fundidas na mesma haste entre uma
+leve folhagem de funcho.
+
+ * * * * *
+
+Em 1880, em Fevereiro, n'uma cinzenta e arripiada manh de chuva, recebi
+uma carta de meu bom tio Affonso Fernandes, em que, depois de
+lamentaes sobre os seus setenta annos, os seus males hemorroidaes, e a
+pesada gerencia dos seus bens que pedia homem mais novo, com pernas
+mais rijas--me ordenava que recolhesse nossa casa de Guies, no
+Douro! Encostado ao marmore partido do fogo, onde na vspera a minha
+Nini deixra um espartilho embrulhado no _Jornal dos Debates_, censurei
+severamente meu tio que assim cortava em boto, antes de desabrochar, a
+flr do meu Saber Juridico. Depois n'um Post-Scriptum elle
+accrescentava--O tempo aqui est lindo, o que se pde chamar de rosas,
+e tua santa tia muito se recommenda, que anda l pela cozinha, porque
+vai hoje em trinta e seis annos que casmos, temos c o abbade e o
+Quintaes a jantar, e ella quiz fazer uma sopa dourada.
+
+Deitando uma acha ao lume, pensei como devia estar boa a sopa dourada da
+tia Vicencia. Ha quantos annos no a provava, nem o leito assado, nem o
+arroz de frno da nossa casa! Com o tempo assim to lindo, j as mimosas
+do nosso pateo vergariam sob os seus grandes cachos amarellos. Um pedao
+de co azul, do azul de Guies, que outro no ha to lustroso e macio,
+entrou pelo quarto, alumiou, sobre a poida tristeza do tapete, relvas,
+ribeirinhos, malmequeres e flres de trevo de que meus olhos andavam
+agoados. E, por entre as bambinellas de sarja, passou um ar fino e forte
+e cheiroso de serra e de pinheiral.
+
+Assobiando um _fado_ meigo tirei debaixo da cama a minha velha mala, e
+metti solicitamente entre calas e piugas um Tratado de Direito Civil,
+para aprender emfim, nos vagares da aldeia, estendido sob a faia, as
+leis que regem os homens. Depois, n'essa tarde, annunciei a Jacintho que
+partia para Guies. O meu camarada recuou com um surdo gemido de espanto
+e piedade:
+
+--Para Guies!... Oh Z Fernandes, que horror!
+
+E toda essa semana me lembrou solicitamente confortos de que eu me
+deveria prover para que pudesse conservar, nos ermos silvestres, to
+longe da Cidade, uma pouca d'alma dentro d'um pouco de corpo. Leva uma
+poltrona! Leva a _Encyclopedia Geral_! Leva caixas de aspargos!...
+
+Mas para o meu Jacintho, desde que assim me arrancavam da Cidade, eu era
+arbusto desarraigado que no reviver. A magoa com que me acompanhou ao
+comboio conviria excellentemente ao meu funeral. E quando fechou sobre
+mim a portinhola, gravemente, supremamente, como se cerra uma grade de
+sepultura, eu quasi solucei--com saudades minhas.
+
+Cheguei a Guies. Ainda restavam flres nas mimosas do nosso pateo; comi
+com delicias a sopa dourada da tia Vicencia; de tamancos nos ps assisti
+ ceifa dos milhos. E assim de colheitas a lavras, crestando ao sol das
+eiras, caando a perdiz nos matos geados, rachando a melancia fresca na
+poeira dos arraiaes, arranchando a magustos, serandando candeia,
+atiando fogueiras de S. Joo, enfeitando presepios de Natal, por alli
+me passaram docemente sete annos, to atarefados que nunca logrei abrir
+o Tratado de Direito Civil, e to singelos que apenas me recordo quando,
+em vsperas de S. Nicolau, o abbade cahiu da egua porta do Braz das
+Crtes. De Jacintho s recebia raramente algumas linhas, escrevinhadas
+pressa por entre o tumulto da Civilisao. Depois, n'um Setembro muito
+quente, ao lidar da vindima, meu bom tio Affonso Fernandes morreu, to
+quietamente, Deus seja louvado por esta graa, como se cala um
+passarinho ao fim do seu bem cantado e bem voado dia. Acabei pela aldeia
+a roupa do luto. A minha afilhada Joanninha casou na matana do porco.
+Andaram obras no nosso telhado. Voltei a Paris.
+
+
+
+
+II
+
+
+Era de novo Fevereiro, e um fim de tarde arripiado e cinzento, quando eu
+desci os Campos Elyseos em demanda do 202. Adiante de mim caminhava,
+levemente curvado, um homem que, desde as botas rebrilhantes at s abas
+recurvas do chapo d'onde fugiam anneis d'um cabello crespo, reumava
+elegancia e a familiaridade das coisas finas. Nas mos, cruzadas atraz
+das costas, caladas d'anta branca, sustentava uma bengala grossa com
+casto de crystal. E s quando elle parou ao porto do 202 reconheci o
+nariz afilado, os fios do bigode corredios e sedosos.
+
+--Oh Jacintho!
+
+--Oh Z Fernandes!
+
+O abrao que nos enlaou foi to alvoroado que o meu chapo rolou na
+lama. E ambos murmuravamos, commovidos, entrando a grade:
+
+--Ha sete annos!...
+
+--Ha sete annos!...
+
+E, todavia, nada mudra durante esses sete annos no jardim do 202! Ainda
+entre as duas aleas bem areadas se arredondava uma relva, mais lisa e
+varrida que a l d'um tapete. No meio o vaso corinthico esperava Abril
+para resplandecer com tulipas e depois Junho para transbordar de
+margaridas. E ao lado das escadas limiares, que uma vidraaria toldava,
+as duas magras Deusas de pedra, do tempo de D. Galio, sustentavam as
+antigas lampadas de globos foscos, onde j silvava o gaz.
+
+Mas dentro, no peristillo, logo me surprehendeu um elevador installado
+por Jacintho--apesar do 202 ter smente dois andares, e ligados por uma
+escadaria to doce que nunca offendra a asthma da snr.^a D. Angelina!
+Espaoso, tapetado, elle offerecia, para aquella jornada de sete
+segundos, confortos numerosos, um divan, uma pelle d'urso, um roteiro
+das ruas de Paris, prateleiras gradeadas com charutos e livros. Na
+antecamara, onde desembarcamos, encontrei a temperatura macia e tepida
+d'uma tarde de Maio, em Guies. Um creado, mais attento ao thermometro
+que um piloto agulha, regulava destramente a bocca dourada do
+calorifero. E perfumadores entre palmeiras, como n'um terrasso santo de
+Benares, esparziam um vapor, aromatisando e salutarmente humedecendo
+aquelle ar delicado e superfino.
+
+Eu murmurei, nas profundidades do meu assombrado sr:
+
+--Eis a civilisao!
+
+Jacintho empurrou uma porta, penetramos n'uma nave cheia de magestade e
+sombra, onde reconheci a Bibliotheca por tropear n'uma pilha monstruosa
+de livros novos. O meu amigo roou de leve o dedo na parede: e uma cora
+de lumes electricos, refulgindo entre os lavores do tecto, alumiou as
+estantes monumentaes, todas d'ebano. N'ellas repousavam mais de trinta
+mil volumes, encadernados em branco, em escarlate, em negro, com
+retoques d'ouro, hirtos na sua pompa e na sua auctoridade como doutores
+n'um concilio.
+
+No contive a minha admirao:
+
+--Oh Jacintho! Que deposito!
+
+Elle murmurou, n'um sorriso descorado:
+
+--Ha que lr, ha que lr...
+
+Reparei ento que o meu amigo emmagrecera: e que o nariz se lhe afilra
+mais entre duas rugas muito fundas, como as d'um comediante canado. Os
+anneis do seu cabello lanigero rareavam sobre a testa, que perdera a
+antiga serenidade de marmore bem polido. No frisava agora o bigode
+murcho, cahido em fios pensativos. Tambem notei que corcovava.
+
+Elle ergura uma tapearia--entramos no seu gabinete de trabalho, que me
+inquietou. Sobre a espessura dos tapetes sombrios os nossos passos
+perderam logo o som, e como a realidade. O damasco das paredes, os
+divans, as madeiras, eram verdes, d'um verde profundo de folha de louro.
+Sdas verdes envolviam as luzes electricas, dispersas em lampadas to
+baixas que lembravam estrellas cahidas por cima das mesas, acabando de
+arrefecer e morrer: s uma rebrilhava, na e clara, no alto d'uma
+estante quadrada, esguia, solitaria como uma torre n'uma planicie, e de
+que o lume parecia ser o pharol melancolico. Um biombo de laca verde,
+fresco verde de relva, resguardava a chamin de marmore verde, verde de
+mar sombrio, onde esmoreciam as brazas d'uma lenha aromatica. E entre
+aquelles verdes reluzia, por sobre peanhas e pedestaes, toda uma
+Mechanica sumptuosa, apparelhos, laminas, rodas, tubos, engrenagens,
+hastes, friezas, rigidezas de metaes...
+
+Mas Jacintho batia nas almofadas do divan, onde se enterrra com um modo
+canado que eu no lhe conhecia:
+
+--Para aqui, Z Fernandes, para aqui! necessario reatarmos estas
+nossas vidas, to apartadas ha sete annos!... Em Guies, sete annos! Que
+fizeste tu?
+
+--E tu, que tens feito, Jacintho?
+
+O meu amigo encolheu mollemente os hombros. Vivra--cumprira com
+serenidade todas as funces, as que pertencem materia e as que
+pertencem ao espirito...
+
+--E accumulaste civilisao, Jacintho! Santo Deus... Est tremendo, o
+202!
+
+Elle espalhou em torno um olhar onde j no faiscava a antiga
+vivacidade:
+
+--Sim, ha confortos... Mas falta muito! A humanidade ainda est mal
+apetrechada, Z Fernandes... E a vida conserva resistencias.
+
+Subitamente, a um canto, repicou a campainha do telephone. E emquanto o
+meu amigo, curvado sobre a placa, murmurava impaciente _Est l?--Est
+l?_, examinei curiosamente, sobre a sua immensa mesa de trabalho, uma
+estranha e miuda legio de instrumentosinhos de nickel, d'ao, de cobre,
+de ferro, com gumes, com argolas, com tenazes, com ganchos, com dentes,
+expressivos todos, de utilidades misteriosas. Tomei um que tentei
+manejar--e logo uma ponta malevola me picou um dedo. N'esse instante
+rompeu d'outro canto um tic-tic-tic aodado, quasi ancioso. Jacintho
+acudiu, com a face no telephone:
+
+--V ahi o telegrapho!... Ao p do divan. Uma tira de papel que deve
+estar a correr.
+
+E, com effeito, d'uma redma de vidro posta n'uma columna, e contendo um
+apparelho esperto e diligente, escorria para o tapete, como uma tenia, a
+longa tira de papel com caracteres impressos, que eu, homem das serras,
+apanhei, maravilhado. A linha, traada em azul, annunciava ao meu amigo
+Jacintho que a fragata russa _Azoff_ entrra em Marselha com avaria!
+
+J elle abandonra o telephone. Desejei saber, inquieto, se o
+prejudicava directamente aquella avaria da _Azoff_.
+
+--Da _Azoff_?... A avaria? A mim?... No! uma noticia.
+
+Depois, consultando um relogio monumental que, ao fundo da Bibliotheca,
+marcava a hora de todas as Capitaes e o curso de todos os Planetas:
+
+--Eu preciso escrever uma carta, seis linhas... Tu esperas, no, Z
+Fernandes? Tens ahi os jornaes de Paris, da noite; e os de Londres,
+d'esta manh. As Illustraes alm, n'aquella pasta de couro com
+ferragens.
+
+Mas eu preferi inventariar o gabinete, que dava minha profanidade
+serrana todos os gostos d'uma iniciao. Aos lados da cadeira de
+Jacintho pendiam gordos tubos acusticos, por onde elle decerto soprava
+as suas ordens atravs do 202. Dos ps da mesa cordes tumidos e molles,
+colleando sobre o tapete, corriam para os recantos de sombra maneira
+de cobras assustadas. Sobre uma banquinha, e reflectida no seu verniz
+como na agua d'um poo, pousava uma Machina-de-escrever: e adiante era
+uma immensa Machina-de-calcular, com fileiras de buracos d'onde
+espreitavam, esperando, numeros rigidos e de ferro. Depois parei em
+frente da estante que me preoccupava, assim solitaria, maneira d'uma
+torre n'uma planicie, com o seu alto pharol. Toda uma das suas faces
+estava repleta de Diccionarios; a outra de Manuaes; a outra de Atlas; a
+ultima de Guias, e entre elles, abrindo um folio, encontrei o Guia das
+ruas de Samarkande. Que macissa torre de informao! Sobre prateleiras
+admirei apparelhos que no comprehendia:--um composto de laminas de
+gelatina, onde desmaiavam, meio-chupadas, as linhas d'uma carta, talvez
+amorosa; outro, que erguia sobre um pobre livro brochado, como para o
+decepar, um cutello funesto; outro avanando a bocca d'uma tuba, toda
+aberta para as vozes do invisivel. Cingidos aos umbraes, liados s
+cimalhas, luziam arames, que fugiam atravs do tecto, para o espao.
+Todos mergulhavam em foras universaes, todos transmittiam foras
+universaes. A Natureza convergia disciplinada ao servio do meu amigo e
+entrra na sua domesticidade!...
+
+Jacintho atirou uma exclamao impaciente:
+
+--Oh, estas pennas electricas!... Que secca!
+
+Amarrotra com colera a carta comeada--eu escapei, respirando, para a
+Bibliotheca. Que magestoso armazem dos productos do Raciocinio e da
+Imaginao! Alli jaziam mais de trinta mil volumes, e todos decerto
+essenciaes a uma cultura humana. Logo entrada notei, em ouro n'uma
+lombada verde, o nome de Adam Smith. Era pois a regio dos Economistas.
+Avancei--e percorri, espantado, oito metros de Economia Politica. Depois
+avistei os Philosophos e os seus commentadores, que revestiam toda uma
+parede, desde as esclas Pre-socraticas at s esclas Neo-pessimistas.
+N'aquellas pranchas se acastellavam mais de dois mil systemas--e que
+todos se contradiziam. Pelas encadernaes logo se deduziam as
+doutrinas: Hobbes, em baixo, era pesado, de couro negro; Plato, em
+cima, resplandecia, n'uma pellica pura e alva. Para diante comeavam as
+Historias Universaes. Mas ahi uma immensa pilha de livros brochados,
+cheirando a tinta nova e a documentos novos, subia contra a estante,
+como fresca terra d'alluvio tapando uma riba secular. Contornei essa
+collina, mergulhei na seco das Sciencias Naturaes, peregrinando, n'um
+assombro crescente, da Orographia para a Paleontologia, e da Morphologia
+para a Crystallographia. Essa estante rematava junto d'uma janella
+rasgada sobre os Campos Elyseos. Apartei as cortinas de velludo--e por
+traz descobri outra portentosa rima de volumes, todos de Historia
+Religiosa, de Exegese Religiosa, que trepavam montanhosamente at aos
+ultimos vidros, vedando, nas manhs mais candidas, o ar e a luz do
+Senhor.
+
+Mas depois rebrilhava, em marroquins claros, a estante amavel dos
+Poetas. Como um repouso para o espirito esfalfado de todo aquelle saber
+positivo, Jacintho aconchegra ahi um recanto, com um divan e uma mesa
+de limoeiro, mais lustrosa que um fino esmalte, coberta de charutos, de
+cigarros d'Oriente, de tabaqueiras do seculo XVIII. Sobre um cofre de
+madeira lisa pousava ainda, esquecido, um prato de damascos seccos do
+Japo. Cedi seduco das almofadas; trinquei um damasco, abri um
+volume; e senti estranhamente, ao lado, um zumbido, como de um insecto
+de azas harmoniosas. Sorri ida que fossem abelhas, compondo o seu mel
+n'aquelle massio de versos em flr. Depois percebi que o susurro remoto
+e dormente vinha do cofre de mogne, de parecer to discreto. Arredei uma
+_Gazeta de Frana_; e descornitei um cordo que emergia de um orificio,
+escavado no cofre, e rematava n'um funil de marfim. Com curiosidade,
+encostei o funil a esta minha confiada orelha, afeita singeleza dos
+rumores da serra. E logo uma Voz, muito mansa, mas muito dicidida,
+aproveitando a minha curiosidade para me invadir e se apoderar do meu
+entendimento, susurrou capciosamente:
+
+--...E assim, pela disposio dos cubos diabolicos, eu chego a
+verificar os espaos hypermagicos!...
+
+Pulei, com um berro.
+
+--Oh Jacintho, aqui ha um homem! Est aqui um homem a fallar dentro
+d'uma caixa!
+
+O meu camarada, habituado aos prodigios, no se alvoroou:
+
+-- o Conferenophone... Exactamente como o Theatrophone; smente
+applicado s esclas e s conferencias. Muito commodo!... Que diz o
+homem, Z Fernandes?
+
+Eu considerava o cofre, ainda esgazeado:
+
+--Eu sei! Cubos diabolicos, espaos magicos, toda a sorte de horrores...
+
+Senti dentro o sorriso superior de Jacintho:
+
+--Ah, o coronel Dorchas... Lies de Metaphysica Positiva sobre a
+Quarta Dimenso... Conjecturas, uma massada! Ouve l, tu hoje jantas
+commigo e com uns amigos, Z Fernandes?
+
+--No, Jacintho... Estou ainda enfardelado pelo alfaiate da serra!
+
+E voltei ao gabinete mostrar ao meu camarada o jaqueto de flanella
+grossa, a gravata de pintinhas escarlates, com que ao domingo, em
+Guies, visitava o Senhor. Mas Jacintho affirmou que esta simplicidade
+montesina interessaria os seus convidados, que eram dois artistas...
+Quem? O auctor do _Corao Triplo_, um Psychologo Feminista, d'agudeza
+transcendente, Mestre muito experimentado e muito consultado em
+Sciencias Sentimentaes; e Vorcan, um pintor mythico, que interpretra
+ethereamente, havia um anno, a symbolia rapsodica do cerco de Troia,
+n'uma vasta composio, _Helena Devastadora_...
+
+Eu coava a barba:
+
+--No, Jacintho, no... Eu venho de Guies, das serras; preciso entrar
+em toda esta civilisaco, lentamente, com cautella, seno rebento. Logo
+na mesma tarde a electricidade, e o conferenophone, e os espaos
+hypermagicos e o feminista, e o ethereo, e a symbolia devastadora,
+excessivo! Volto manh.
+
+Jacintho dobrava vagarosamente a sua carta, onde mettera sem rebuo
+(como convinha nossa fraternidade) duas violetas brancas tiradas do
+ramo que lhe floria o peito.
+
+--manh, Z Fernandes, tu vens antes d'almoo, com as tuas malas dentro
+d'um fiacre, para te installares no 202, no teu quarto. No Hotel so
+embaraos, privaes. Aqui tens o telephone, o teatrophone, livros...
+
+Acceitei logo, com simplicidade. E Jacintho, embocando um tubo acustico,
+murmurou:
+
+--Grillo!
+
+Da parede, recoberta de damasco, que subitamente e sem rumor se fendeu,
+surdio o seu velho escudeiro (aquelle moleque que viera com _D.
+Gallio_), que eu me alegrei de encontrar to rijo, mais negro,
+reluzente e veneravel na sua tesa gravata, no seu collete branco de
+botes de ouro. Elle tambem estimou vr de novo o si Fernandes. E,
+quando soube que eu occuparia o quarto do av Jacintho, teve um claro
+sorriso de preto, em que envolveu o seu senhor, no contentamento de o
+sentir emfim reprovido d'uma familia.
+
+--Grillo, dizia Jacintho, esta carta a Madame de Oriol... Escuta!
+Telephona para casa dos Trves que os espiritistas s esto livres no
+domingo... Escuta! Eu tomo uma douche antes de jantar, tepida, a 17.
+Frico com malva-rosa.
+
+E cahindo pesadamente para cima do divan, com um bocejo arrastado e
+vago:
+
+--Pois verdade, meu Z Fernandes, aqui estamos, como ha sete annos,
+n'este velho Paris...
+
+Mas eu no me arredava da mesa, no desejo de completar a minha
+iniciao:
+
+--Oh Jacintho, para que servem todos estes instrumentosinhos? Houve j
+ahi um desavergonhado que me picou. Parecem perversos... So uteis?
+
+Jacintho esboou, com languidez, um gesto que os
+sublimava.--Providenciaes, meu filho, absolutamente providenciaes, pela
+simplificao que do ao trabalho! Assim... E apontou. Este arrancava as
+pennas velhas; o outro numerava rapidamente as paginas d'um manuscripto;
+aquell'outro, alm, raspava emendas... E ainda os havia para collar
+estampilhas, imprimir datas, derreter lacres, cintar documentos...
+
+--Mas com effeito, accrescentou, uma scca. Com as molas, com os
+bicos, s vezes magoam, ferem... J me succedeu inutilisar cartas por as
+ter sujado com dedadas de sangue. uma massada!
+
+Ento, como o meu amigo espreitra novamente o relogio monumental, no
+lhe quiz retardar a consolao da douche e da malva-rosa.
+
+--Bem, Jacintho, j te revi, j me contentei... Agora at manh, com as
+malas.
+
+--Que diabo, Z Fernandes, espera um momento... Vamos pela sala de
+jantar. Talvez te tentes!
+
+E, atravs da Bibliotheca, penetramos na sala de jantar,--que me
+encantou pelo seu luxo sereno e fresco. Uma madeira branca, laccada,
+mais lustrosa e macia que setim, revestia as paredes, encaixilhando
+medalhes de damasco cr de morango, de morango muito maduro e esmagado:
+os aparadores, discretamente lavrados em flores e rocalhas,
+resplandeciam com a mesma lacca nevada: e damascos amorangados estofavam
+tambem as cadeiras, brancas, muito amplas, feitas para a lentido de
+gulas delicadas, de gulas intellectuaes.
+
+--Viva o meu Principe! Sim senhor... Eis aqui um comedoiro muito
+comprehensivel e muito repousante, Jacintho!
+
+--Ento janta, homem!
+
+Mas j eu me comeava a inquietar, reparando que a cada talher
+correspondiam seis garfos, e todos de feitios astuciosos. E mais me
+impressionei quando Jacintho me desvendou que um era para as ostras,
+outro para o peixe, outro para as carnes, outro para os legumes, outro
+para as fructas, outro para o queijo! Simultaneamente, com uma
+sobriedade que louvaria Salomo, s dois copos, para dois vinhos:--um
+Bordeus rosado em infusas de crystal, e Champagne gelando dentro de
+baldes de prata. Todo um aparador porm vergava, sob o luxo redundante,
+quasi assustador d'aguas--aguas oxigenadas, aguas carbonatadas, aguas
+phosphatadas, aguas esterilisadas, aguas de saes, outras ainda, em
+garrafas bojudas, com tratados therapeuticos impressos em rotulos.
+
+--Santissimo nome de Deus, Jacintho! Ento s ainda o mesmo tremendo
+bebedor d'agua, hein?... _Un aquatico_! como dizia o nosso poeta
+chileno, que andava a traduzir Klopstock.
+
+Elle derramou, por sobre toda aquella garrafaria encarapuada em metal,
+um olhar desconsolado:
+
+--No... por causa das aguas da Cidade, contaminadas, atulhadas de
+microbios... Mas ainda no encontrei uma ba agua que me convenha, que
+me satisfaa... At soffro sde.
+
+Desejei ento conhecer o jantar do Psychologo e do Symbolista--traado,
+ao lado dos talheres, em tinta vermelha, sobre laminas de marfim.
+Comeava honradamente por ostras classicas, de Marennes. Depois
+apparecia uma sopa d'alcachofras e ovas de carpa...
+
+-- bom?
+
+Jacintho encolheu desinteressadamente os hombros:
+
+--Sim... Eu no tenho nunca appetite, j ha tempos... J ha annos.
+
+Do outro prato s comprehendi que continha frangos e tubaras. Depois
+saboreariam aquelles senhores um filete de veado, macerado em Xerez, com
+gela de noz. E por sobremeza simplesmente laranjas geladas em ether.
+
+--Em ether, Jacintho?
+
+O meu amigo hesitou, esboou com os dedos a ondulao d'um aroma que
+s'evola.
+
+-- novo... Parece que o ether desenvolve, faz afflorar a alma das
+fructas...
+
+Curvei a cabea ignara, murmurei nas minhas profundidades:
+
+--Eis a Civilisao!
+
+E, descendo os Campos Elyseos, encolhido no paletot, a cogitar n'este
+prato symbolico, considerava a rudeza e atolado atrazo da minha Guies,
+onde desde seculos a alma das laranjas permanece ignorada e
+desaproveitada dentro dos gomos sumarentos, por todos aquelles pomares
+que ensombram e perfumam o valle, da Roqueirinha a Sandofim! Agora
+porm, bemdito Deus, na convivencia de um to grande iniciado como
+Jacintho, eu comprehenderia todas as finuras e todos os poderes da
+Civilisao.
+
+E, (melhor ainda para a minha ternura!) contemplaria a raridade d'um
+homem que, concebendo uma ida da Vida, a realisa--e atravs d'ella e
+por ella recolhe a felicidade perfeita.
+
+Bem se affirmra este Jacintho, na verdade, como Principe da
+Gran-Ventura!
+
+
+
+
+III
+
+
+No 202, todas as manhs, s nove horas, depois do meu chocolate e ainda
+em chinelas, penetrava no quarto de Jacintho. Encontrava o meu amigo
+banhado, barbeado, friccionado, envolto n'um roupo branco de pello de
+cabra do Thibet, diante da sua mesa de toilette, toda de crystal, (por
+causa dos microbios) e atulhada com esses utensilios de tartaruga,
+marfim, prata, ao e madreperola que o homem do seculo XIX necessita
+para no desfeiar o conjuncto sumptuario da Civilisao e manter n'ella
+o seu Typo. As escovas sobretudo renovavam, cada dia, o meu regalo e o
+meu espanto--porque as havia largas como a roda massia d'um carro
+sabino; estreitas e mais recurvas que o alfange d'um mouro; concavas, em
+frma de telha alde; ponteagudas em feitio de folha de hera; rijas que
+nem cerdas de javali; macias que nem pennugem de rla! De todas,
+fielmente, como amo que no desdenha nenhum servo, se utilisava o meu
+Jacintho. E assim, em face ao espelho emmoldurado de folhedos de prata,
+permanecia este Principe passando pellos sobre o seu pello durante
+quatorze minutos.
+
+No emtanto o Grillo e outro escudeiro, por traz dos biombos de Kioto, de
+sedas lavradas, manobravam, com pericia e vigor, os apparelhos do
+lavatorio--que era apenas um resumo das machinas monumentaes da Sala de
+Banho, a mais estremada maravilha do 202. N'estes marmores simplificados
+existiam unicamente dois jactos graduados desde _zero_ at _cem_; as
+duas duchas, fina e grossa, para a cabea; a fonte esterilisada para os
+dentes; o repuxo borbulhante para a barba; e ainda botes discretos,
+que, roados, desencadeavam esguichos, cascatas cantantes, ou um leve
+orvalho estival. D'esse recanto temeroso, onde delgados tubos mantinham
+em disciplina e servido tantas aguas ferventes, tantas aguas violentas,
+sahia emfim o meu Jacintho enxugando as mos a uma toalha de felpo, a
+uma toalha de linho, a outra de corda entranada para restabelecer a
+circulao, a outra de sda frouxa para repolir a pelle. Depois d'este
+rito derradeiro que lhe arrancava ora um suspiro, ora um bocejo,
+Jacintho, estendido n'um divan, folheava uma Agenda, onde se arrolavam,
+inscriptas pelo Grillo ou por elle, as occupaes do seu dia, to
+numerosas por vezes que cobriam duas laudas.
+
+Todas ellas se prendiam sua sociabilidade, sua civilisao muito
+complexa, ou a interesses que o meu Principe, n'esses sete annos, crera
+para viver em mais consciente communho com todas as funces da Cidade.
+(Jacintho com effeito era presidente do Club da _Espada e Alvo_;
+commanditario do Jornal o _Boulevard_; director da _Companhia dos
+Telephones de Constantinopla_; socio dos _Bazares unidos da Arte
+Espiritualista_; membro do _Comit de Iniciao das Religies
+Esotericas_, etc.) Nenhuma d'estas occupaes parecia porm aprazivel ao
+meu amigo--porque, apesar da mansido e harmonia dos seus modos,
+frequentemente arremessava para o tapete, n'uma rebellio de homem
+livre, aquella Agenda que o escravisava. E n'uma d'essas manhs (de
+vento e neve), apanhando eu o livro oppressivo, encadernado em pellica,
+de um carinhoso tom de rosa murcha--descobri que o meu Jacintho devia
+depois do almoo fazer uma visita na rua da Universidade, outra no
+Parque Monceau, outra entre os arvoredos remotos da Muette; assistir por
+fidelidade a uma votao no Club; acompanhar Madame d'Oriol a uma
+exposio de leques; escolher um presente de noivado para a sobrinha dos
+Trves; comparecer no funeral do velho conde de Malville; presidir um
+tribunal de honra n'uma questo de roubalheira, entre cavalheiros, ao
+ecart... E ainda se acavallavam outras indicaes, escrivinhadas por
+Jacintho a lapis:--Carroceiro--Five-oclock dos Ephrains--A pequena das
+_Variedades_--Levar a nota ao jornal... Considerei o meu Principe.
+Estirado no divan, d'olhos miserrimamente cerrados, bocejava, n'um
+bocejo immenso e mudo.
+
+Mas os affazeres de Jacintho comeavam logo no 202, cedo, depois do
+banho. Desde as oito horas a campainha do telephone repicava por elle,
+com impaciencia, quasi com colera, como por um escravo tardio. E mal
+enxugado, dentro do seu roupo de pello de cabra do Thibet ou de grossas
+pyjamas de pelucia cr d'ouro-velho, constantemente sahia ao corredor a
+cochichar com sujeitos to apressados, que conservavam na mo o
+guarda-chuva pingando sobre o tapete. Um d'esses, sempre presente (e que
+pertencia decerto aos _Telephones de Constantinopla_), era
+temeroso--todo elle chupado, tisnado, com maus dentes, sobraando uma
+enorme pasta sebenta, e dardejando, d'entre a alta gola d'uma pelissa
+poida, como da abertura d'um covil, dous olhinhos trvos e de rapina.
+Sem cessar, inexoravelmente, um escudeiro apparecia, com bilhetes n'uma
+salva... Depois eram fornecedores d'Industria e d'Arte; negociantes de
+cavallos, rubicundos e de paletot branco; inventores com grossos rolos
+de papel; alfarrabistas trazendo na algibeira uma edio unica, quasi
+inverosimil, de Ulrich Zell ou do _Lapidanus_. Jacintho circulava
+estonteado pelo 202, rabiscando a carteira, repicando o telephone,
+desatando nervosamente pacotes, sacudindo ao passar algum embuscado que
+surdia das sombras da antecamara, estendia como um trabuco o seu
+memorial ou o seu catalogo!
+
+Ao meio dia, um tam-tam argentino e melancholico ressoava, chamando ao
+almoo. Com o _Figaro_ ou as _Novidades_ abertas sobre o prato, eu
+esperava sempre meia hora pelo meu Principe, que entrava n'uma rajada,
+consultando o relogio, exhalando com a face moda o seu queixume eterno:
+
+--Que massada! E depois uma noite abominavel, enrodilhada em sonhos...
+Tomei sulforal, chamei o Grillo para me esfregar com therebentina... Uma
+scca!
+
+Espalhava pela mesa um olhar j farto. Nenhum prato, por mais engenhoso,
+o seduzia;--e, como atravs do seu tumulto matinal fumava incontaveis
+cigarretes que o resequiam, comeava por se encharcar com um immenso
+copo d'agua oxygenada, ou carbonatada, ou gazoza, misturada d'um cognac
+raro, muito caro, horrendamente adocicado, de moscatel de Syracusa.
+Depois, pressa, sem gosto, com a ponta incerta do garfo, picava aqui e
+alm uma lasca de fiambre, uma febra de lagosta;--e reclamava
+impacientemente o caf, um caf de Moka, mandado cada mez por um feitor
+do Dedjah, fervido turca, muito espesso, que elle remexia com um pau
+de canella!
+
+--E tu, Z Fernandes, que vaes tu fazer?
+
+--Eu?
+
+Recostado na cadeira, com delicias, os dedos mettidos nas cavas do
+collete:
+
+--Vou vadiar, regaladamente, como um co natural!
+
+O meu sollicito amigo, remexendo o caf com o pau de canella, rebuscava
+atravs da numerosa Civilisao da Cidade uma occupao que me
+encantasse. Mas apenas suggeria uma Exposio, ou uma Conferencia, ou
+monumentos, ou passeios, logo encolhia os hombros desconsolados:
+
+--Por fim nem vale a pena, uma scca!
+
+Accendia outra das cigarretes russas, onde rebrilhava o seu nome,
+impresso a ouro na mortalha. Torcendo, n'uma pressa nervosa, os fios do
+bigode, ainda escutava, porta da Bibliotheca, o seu procurador, o
+nedio e magestoso Laporte. E emfim, seguido d'um criado, que sobraava
+um mao tremendo de jornaes para lhe abastecer o coup, o Principe da
+Gran-Ventura mergulhava na Cidade.
+
+ * * * * *
+
+Quando o dia social de Jacintho se apresentava mais desafogado, e o co
+de Maro nos concedia caridosamente um pouco de azul agoado, sahiamos
+depois d'almoo, a p, atravs de Paris. Estes lentos e errantes
+passeios eram outr'ora, na nossa edade de Estudantes, um gozo muito
+querido de Jacintho--porque n'elles mais intensamente e mais
+minuciosamente saboreava a Cidade. Agora porm, apesar da minha
+companhia, s lhe davam uma impaciencia e uma fadiga que desoladoramente
+destoava do antigo, illuminado extasi. Com espanto (mesmo com dr,
+porque sou bom, e sempre me entristece o desmoronar d'uma crena)
+descobri eu, na primeira tarde em que descemos aos Boulevards, que o
+denso formigueiro humano sobre o asphalto, e a torrente sombria dos
+trens sobre o macadam, affligiam o meu amigo pela brutalidade da sua
+pressa, do seu egoismo, e do seu estridor. Encostado e como refugiado no
+meu brao, este Jacintho novo comeou a lamentar que as ruas, na nossa
+Civilisao, no fossem caladas de gutta-percha! E a gutta-percha
+claramente representava, para o meu amigo, a substancia discreta que
+amortece o choque e a rudeza das cousas. Oh maravilha! Jacintho querendo
+borracha, a borracha isoladora, entre a sua sensibilidade e as funces
+da Cidade! Depois, nem me permittiu pasmar diante d'aquellas dourejadas
+e espelhadas lojas que elle outr'ora considerava como os preciosos
+museus do seculo XIX...
+
+--No vale a pena, Z Fernandes. Ha uma immensa pobreza e seccura
+d'inveno! Sempre os mesmos flores Luiz XV, sempre as mesmas
+pelucias... No vale a pena!
+
+Eu arregalava os olhos para este transformado Jacintho. E sobretudo me
+impressionava o seu horror pela Multido--por certos effeitos da
+Multido, s para elle sensiveis, e a que chamava os sulcos.
+
+--Tu no os sentes, Z Fernandes. Vens das serras... Pois constituem o
+rijo inconveniente das Cidades, estes sulcos! um perfume muito agudo e
+petulante que uma mulher larga ao passar, e se installa no olfacto, e
+estraga para todo o dia o ar respiravel. um dito que se surprehende
+n'um grupo, que revela um mundo de velhacaria, ou de pedantismo, ou de
+estupidez, e que nos fica collado alma, como um salpico, lembrando a
+immensidade da lama a atravessar. Ou ento, meu filho, uma figura
+intoleravel pela preteno, ou pelo mau-gosto, ou pela impertinencia, ou
+pela rellice, ou pela dureza, e de que se no pde sacudir mais a viso
+repulsiva... Um pavor, estes sulcos, Z Fernandes! De resto, que diabo,
+so as pequeninas miserias d'uma Civilisao deliciosa!
+
+Tudo isto era especioso, talvez pueril--mas para mim revelava, n'aquelle
+chamejante devoto da Cidade, o arrefecimento da devoo. N'essa mesma
+tarde, se bem recordo, sob uma luz macia e fina, penetramos nos centros
+de Paris, nas ruas longas, nas milhas de casario, todo de calia parda,
+erriado de chamins de lata negra, com as janellas sempre fechadas, as
+cortininhas sempre corridas, abafando, escondendo a vida. S tijolo, s
+ferro, s argamassa, s estuque: linhas hirtas, angulos asperos: tudo
+secco, tudo rigido. E dos chos aos telhados, por toda a fachada,
+tapando as varandas, comendo os muros, Taboletas, Taboletas...
+
+--Oh, este Paris, Jacintho, este teu Paris! Que enorme, que grosseiro
+bazar!
+
+E, mais para sondar o meu Principe do que por persuaso, insisti na
+fealdade e tristeza d'estes predios, duros armazens, cujos andares so
+prateleiras onde se apilha humanidade! E uma humanidade impiedosamente
+catalogada e arrumada! A mais vistosa e de luxo nas prateleiras baixas,
+bem envernisadas. A relles e de trabalho nos altos, nos desvos, sobre
+pranchas de pinho n, entre o p e a traa...
+
+Jacintho murmurou, com a face arripiada:
+
+-- feio, muito feio!
+
+E accudiu logo, sacudindo no ar a luva de anta:
+
+--Mas que maravilhoso organismo, Z Fernandes! Que solidez! Que
+produco!
+
+Onde Jacintho me parecia mais renegado era na sua antiga e quasi
+religiosa affeio pelo Bosque de Bolonha. Quando moo, elle construira
+sobre o Bosque theorias complicadas e consideraveis. E sustentava, com
+olhos rutilantes de fanatico, que no Bosque a Cidade cada tarde ia
+retemperar salutarmente a sua fora, recebendo, pela presena das suas
+Duquezas, das suas Cortezs, dos seus Politicos, dos seus Financeiros,
+dos seus Generaes, dos seus Academicos, dos seus Artistas, dos seus
+Clubistas, dos seus Judeus, a certeza consoladora de que todo o seu
+pessoal se mantinha em numero, em vitalidade, em funco, e que nenhum
+elemento da sua grandeza desapparecera ou deperecera! Ir ao Bois
+constituia ento para o meu Principe um acto de consciencia. E voltava
+sempre confirmando com orgulho que a Cidade possuia todos os seus
+astros, garantindo a eternidade da sua luz!
+
+Agora, porm, era sem fervor, arrastadamente, que elle me levava ao
+Bosque, onde eu, aproveitando a clemencia d'Abril, tentava enganar a
+minha saudade d'arvoredos. Emquanto subiamos, ao trote nobre das suas
+egoas lustrosas, a Avenida dos Campos-Elyseos e a do Bosque,
+rejuvenescidas pelas relvas tenras e fresco verdejar dos rebentos,
+Jacintho, soprando o fumo da cigarrete pelas vidraas abertas do coup,
+permanecia o bom camarada, de veia amavel, com quem era doce philosophar
+atravs de Paris. Mas logo que passavamos as grades douradas do Bosque,
+e penetravamos na Avenida das Acacias, e enfiavamos na lenta fila dos
+trens de luxo e de praa, sob o silencio decoroso, apenas cortado pelo
+tilintar dos freios e pelas rodas vagarosas esmagando a areia,--o meu
+Principe emmudecia, mollemente engilhado no fundo das almofadas, d'onde
+s despegava a face para escancarar bocejos de fartura. Pelo antigo
+habito de verificar a presena confortadora do pessoal, dos astros,
+ainda, por vezes, apontava para algum coup ou vittoria rodando com
+rodar rangente n'outra arrastada fila--e murmurava um nome. E assim fui
+conhecendo a encaracolada barba hebraica do banqueiro Ephraim; e o longo
+nariz patricio de Madame de Trves abrigando um sorriso perenne; e as
+bochechas flacidas do poeta neo-platonico Dornan, sempre espapado no
+fundo de fiacres; e os longos bands pre-raphaelitas e negros de Madame
+Verghane; e o monoculo defumado do director do _Boulevard_; e o
+bigodinho vencedor do Duque de Marizac, reinando de cima do seu phaeton
+de guerra; e ainda outros sorrisos immoveis, e barbichas Renascena, e
+palpebras amortecidas, e olhos farejantes, e pelles empoadas d'arroz,
+que eram todas illustres e da intimidade do meu Principe. Mas, do topo
+da Avenida das Acacias, recomeavamos a descer, em passo sopeado,
+esmagando lentamente a areia; na fila vagarosa que subia, calhambeque
+atraz de landau, vittoria atraz de fiacre, fatalmente reviamos o
+binoculo sombrio do homem do _Boulevard_, e os bands furiosamente
+negros de Madame Verghane, e o ventre espapado do neo-platonico, e a
+barba talmudica, e todas aquellas figuras, d'uma immobilidade de cera,
+super-conhecidas do meu camarada, recruzadas cada tarde atravs de
+revividos annos, sempre com os mesmos sorrisos, sob o mesmo p d'arroz,
+na mesma immobilidade de cera; ento Jacintho no se continha, gritava
+ao cocheiro:
+
+--Para casa, depressa!
+
+E era pela Avenida do Bosque, pelos Campos-Elyseos, uma fuga ardente das
+egoas a quem a lentido sopeada, n'um roer de freios, entre outras egoas
+tambem d'ellas super-conhecidas, lanavam n'uma exasperao comparavel
+de Jacintho.
+
+Para o sondar eu denegria o Bosque:
+
+--J no to divertido, perdeu o brilho!...
+
+Elle acudia, timidamente:
+
+--No, agradavel, no ha nada mais agradavel; mas...
+
+E accusava a friagem das tardes ou o despotismo dos seus affazeres.
+Recolhiamos ento ao 202, onde, com effeito, em breve embrulhado no seu
+roupo branco, diante da mesa de crystal, entre a legio das escovas,
+com toda a electricidade refulgindo, o meu Principe se comeava a
+adornar para o servio social da noite.
+
+E foi justamente numa d'essas noites (um sabado) que ns passamos,
+n'aquelle quarto to civilisado e protegido, por um d'esses brutos e
+revoltos terrores como s os produz a ferocidade dos Elementos. J
+tarde, pressa (jantavamos com Marizac no Club para o acompanhar depois
+ao _Lohengrin_ na Opera) Jacintho arrocheava o n da gravata
+branca--quando no lavatorio, ou porque se rompesse o tubo, ou se
+dessoldasse a torneira, o jacto d'agua a ferver rebentou furiosamente,
+fumegando e silvando. Uma nevoa densa de vapor quente abafou as
+luzes--e, perdidos n'ella, sentiamos, por entre os gritos do escudeiro e
+do Grillo, o jorro devastador batendo os muros, esparrinhando uma chuva
+que escaldava. Sob os ps o tapete ensopado era uma lama ardente. E como
+se todas as foras da natureza, submettidas ao servio de Jacintho, se
+agitassem, animadas por aquella rebellio da agua--ouvimos roncos surdos
+no interior das paredes, e pelos fios dos lumes electricos sulcaram
+faiscas ameaadoras! Eu fugira para o corredor, onde se alargava a nevoa
+grossa. Por todo o 202 ia um tumulto de desastre. Diante do porto,
+attrahidas pela fumarada que se escapava das janellas, estacionava
+policia, uma multido. E na escada esbarrei com um reporter, de chapo
+para a nuca, a carteira aberta, gritando sofregamente se havia mortos?
+
+Domada a agua, clareada a bruma, vim encontrar Jacintho no meio do
+quarto, em ceroulas, livido:
+
+--Oh Z Fernandes, esta nossa industria!... Que impotencia, que
+impotencia! Pela segunda vez, este desastre! E agora, apparelhos
+perfeitos, um processo novo...
+
+--E eu encharcado por esse processo novo! E sem outra casaca!
+
+Em redor, as nobres sdas bordadas, os brocateis Luiz XIII, cobertos de
+manchas negras, fumegavam. O meu Principe, enfiado, enchugava uma
+photographia de Madame d'Oriol, d'hombros decotados, que o jorro bruto
+maculra d'empolas. E eu, com rancor, pensava que na minha Guies a agua
+aquecia em seguras panellas--e subia ao meu lavatorio, pela mo forte da
+Catharina, em seguras infusas! No jantamos com o duque de Marizac, no
+Club. E, na Opera, nem saboreei Lohengrin e a sua branca alma e o seu
+branco cysne e as suas brancas armas--entallado, aperreado, cortado nos
+sovacos pela casaca que Jacintho me emprestra e que rescendia
+estonteadoramente a flores de Nessari.
+
+ * * * * *
+
+No domingo, muito cedo, o Grillo, que na vspera escaldra as mos e as
+trazia embrulhadas em sda, penetrou no meu quarto, descerrou as
+cortinas, e beira do leito, com o seu radiante sorriso de preto:
+
+--Vem no _Figaro_!
+
+Desdobrou triumphalmente o jornal. Eram, nos _Echos_, doze linhas, onde
+as nossas aguas rugiam e espadavam, com tanta magnificencia e tanta
+publicidade, que tambem sorr, deleitado.
+
+--E toda a manh, o telephone, si Fernandes! exclamava o Grillo,
+rebrilhando em ebano. A quererem saber, a quererem saber... Est l?
+Est escaldado? Paris afflicto, si Fernandes!
+
+O telephone, com effeito, repicava, insaciavel. E quando desci para o
+almoo, a toalha desapparecia sob uma camada de telegrammas, que o meu
+Principe fendia com a faca, enrugado, rosnando contra a massada. S
+desannuviou, ao ler um d'esses papeis azues, que atirou para cima do meu
+prato, com o mesmo sorriso agradado com que de manh sorriramos, o
+Grillo e eu:
+
+-- do Gran-Duque Casimiro... Rato amavel! Coitado!
+
+Saboreei, atravs dos ovos, o telegramma de S. Alteza. O que! o meu
+Jacintho inundado! Muito chic, nos Campos-Elyseos! No volto ao 202 sem
+boia de salvao! Compassivo abrao! Casimiro... Murmurei tambem com
+deferencia:--Amavel! Coitado! Depois, revolvendo lentamente o monto
+de telegrammas que se alastrava at ao meu copo:
+
+--Oh Jacintho! Quem esta Diana que incessantemente te escreve, te
+telephona, te telegrapha, te...?
+
+--Diana?... Diana de Lorge. uma cocotte. uma grande cocotte!
+
+--Tua?
+
+--Minha, minha... No! tenho um bocado.
+
+E como eu lamentava que o meu Principe, senhor to rico e de to fino
+orgulho, por economia d'uma gamella propria chafurdasse com outros n'uma
+gamella publica--Jacintho levantou os hombros, com um camaro espetado
+no garfo:
+
+--Tu vens das serras... Uma cidade como Paris, Z Fernandes, precisa ter
+cortezs de grande pompa e grande fausto. Ora para montar em Paris,
+n'esta tremenda carestia de Paris, uma cocotte com os seus vestidos, os
+seus diamantes, os seus cavallos, os seus lacaios, os seus camarotes, as
+suas festas, o seu palacete, a sua publicidade, a sua insolencia,
+necessario que se aggremiem umas poucas de fortunas, se forme um
+syndicato! Somos uns sete, no Club. Eu pago um bocado... Mas meramente
+por Civismo, para dotar a cidade com uma cocotte monumental. De resto
+no chafurdo. Pobre Diana!... Dos hombros para baixo nem sei se tem a
+pelle cr de neve ou cr de limo.
+
+Arregalei um olho divertido:
+
+--Dos hombros para baixo?... E para cima?
+
+--Oh para cima tem p d'arroz!... Mas uma scca! Sempre bilhetes,
+sempre telephones, sempre telegrammas. E tres mil francos por mez, alm
+das flores... Uma massada!
+
+E as duas rugas do meu Principe, aos lados do seu afilado nariz, curvado
+sobre a salada, eram como dous valles muito tristes, ao entardecer.
+
+Acabavamos o almoo, quando um escudeiro, muito discretamente, n'um
+murmurio, annunciou Madame d'Oriol. Jacintho pousou com tranquillidade o
+charuto; eu quasi me engasguei, n'um sorvo alvoroado de caf. Entre os
+reposteiros de damasco cr de morango ella appareceu, toda de negro,
+d'um negro liso e austero de Semana Santa, lanando com o regalo um
+lindo gesto para nos socegar. E immediatamente, n'uma volubilidade
+docemente chalrada:
+
+-- um momento, nem se levantem! Passei, ia para a Magdalena, no me
+contive, quiz vr os estragos... Uma inundao em Paris, nos
+Campos-Elyseos! No ha seno este Jacintho. E vem no _Figaro!_ O que eu
+estava assustada, quando telephonei! Imaginem! Agua a ferver, como no
+Vesuvio... Mas d'uma novidade! E os estofos perdidos, naturalmente, os
+tapetes... Estou morrendo por admirar as ruinas!
+
+Jacintho, que no me pareceu commovido, nem agradecido com aquelle
+interesse, retomra risonhamente o charuto:
+
+--Est tudo secco, minha querida senhora, tudo secco! A belleza foi
+hontem, quando a agua fumegava e rugia! Ora que pena no ter ao menos
+cahido uma parede!
+
+Mas ella insistia. Nem todos os dias se gozavam em Paris os destroos
+d'uma inundao. O _Figaro_ contra... E era uma aventura deliciosa, uma
+casa escaldada nos Campos-Elyseos!
+
+Toda a sua pessoa, desde as plumasinhas que frisavam no chapo at
+ponta reluzente das botinas de verniz, se agitava, vibrava, como um ramo
+tenro sob o bolio do passaro a chalrar. S o sorriso, por traz do vo
+espesso, conservava um brilho immovel. E j no ar se espalhra um aroma,
+uma doura, emanadas de toda a sua mobilidade e de toda a sua graa.
+
+Jacintho no emtanto cedera, alegremente: e pelo corredor Madame d'Oriol
+ainda louvava o _Figaro_ amavel, e confessava quanto tremera... Eu
+voltei ao meu caf, felicitando mentalmente o Principe da Gran-Ventura
+por aquella perfeita flr de Civilisao que lhe perfumava a vida.
+Pensei ento na apurada harmonia em que se movia essa flr. E corri
+vivamente ante-camara, verificar diante do espelho o meu penteado e o
+n da minha gravata. Depois recolhi sala de jantar, e junto da
+janella, folheando languidamente a _Revista do Seculo XIX_, tomei uma
+attitude de elegancia e d'alta cultura. Quasi immediatamente elles
+reappareceram: e Madame d'Oriol, que, sempre sorrindo, se proclamava
+espoliada, nada encontrra que recordasse as agoas furiosas, roou pela
+mesa, onde Jacintho procurava, para lhe offerecer, tangerinas de Malta,
+ou castanhas geladas, ou um biscouto molhado em vinho de Tokai.
+
+Ella recusava com as mos guardadas no regalo. No era alta, nem
+forte--mas cada prega do vestido, ou curva da capa, cahia e ondulava
+harmoniosamente, como perfeies recobrindo perfeies. Sob o vo
+cerrado, apenas percebi a brancura da face empoada, e a escurido dos
+olhos largos. E com aquellas sdas e velludos negros, e um pouco do
+cabello louro, d'um louro quente, torcido fortemente sobre as pelles
+negras que lhe orlavam o pescoo, toda ella derramava uma sensao de
+macio e de fino. Eu teimosamente a considerava como uma flr de
+Civilisao:--e pensava no secular trabalho e na cultura superior que
+necessitra o terreno onde ella to delicadamente brotra, j
+desabrochada, em pleno perfume, mais graciosa por ser flr d'esforo e
+d'estufa, e trazendo nas suas ptalas um no sei qu de desbotado e de
+ante-murcho.
+
+No emtanto, com a sua volubilidade de passaro, chalrando para mim,
+chalrando para Jacintho, ella mostrava o seu lindo espanto por aquelle
+monto de telegrammas sobre a toalha.
+
+--Tudo esta manh, por causa da inundao?... Ah, Jacintho hoje o
+homem, o unico homem de Paris! Muitas mulheres n'esses telegrammas?
+
+Languidamente, com o charuto a fumegar, o meu Principe empurrou para a
+sua amiga o telegramma do Gran-duque. Ento Madame d'Oriol teve um _ah!_
+muito grave e muito sentido. Releu profundamente o papel de S. A. que os
+seus dedos acariciavam com uma reverencia gulosa. E sempre grave, sempre
+sria:
+
+-- brilhante!
+
+Oh, certamente! n'aquelle desastre tudo se passra com muito brilho,
+n'um tom muito Parisiense. E a deliciosa creatura no se podia demorar,
+porque fizera marcar um logar na egreja da Magdalena para o sermo!
+
+Jacintho exclamou com innocencia:
+
+--Sermo?... j a estao dos sermes?
+
+Madame d'Oriol teve um movimento de carinhoso escandalo e dr. O qu!
+pois nem na austera casa dos Trves dera pela entrada da quaresma? De
+resto no se admirava--Jacintho era um turco! E, immediatamente celebrou
+o prgador, um frade dominicano, o Pre Granon! Oh d'uma eloquencia!
+d'uma violencia! No derradeiro sermo prgara sobre o amor, a
+fragilidade dos amores mundanos! E tivera coisas d'uma inspirao, d'uma
+brutalidade! Depois que gesto, um gesto terrivel que esmagava, em que se
+lhe arregaava toda a manga, mostrando o brao n, um brao soberbo,
+muito branco, muito forte!
+
+O seu sorriso permanecia claro sob o olhar que negrejra dentro do vo
+negro. E Jacintho, rindo:
+
+--Um bom brao de director espiritual, hein? Para vergar, espancar
+almas...
+
+Ella acudiu:
+
+--No! infelizmente o Pre Granon no confessa!
+
+E de repente reconsiderou--aceitava um biscouto, um clice de Tokai. Era
+necessario um cordial para affrontar as emoes do Pre Granon! Ambos
+nos precipitramos, um arrebatando a garrafa, outro offerecendo o prato
+de bonbons. Franzio o vo para os olhos, chupou pressa um bolo que
+ensopra no Tokai. E como Jacintho, reparando casualmente no chapo que
+ella trazia, se curvra com curiosidade, impressionado, Madame d'Oriol
+apagou o sorriso, toda seria, ante uma cousa seria:
+
+--Elegante, no verdade?... uma creao inteiramente nova de Madame
+Vial. Muito respeitoso, e muito suggestivo, agora na Quaresma.
+
+O seu olhar, que me envolvera, tambem me convidava a admirar. Approximei
+o meu focinho de homem das serras para contemplar essa creao suprema
+do luxo de Quaresma. E era maravilhoso! Sobre o velludo, na sombra das
+plumas frizadas, aninhada entre rendas, fixada por um prgo, pousava
+delicadamente, feita de azeviche, uma Cora de Espinhos!
+
+Ambos nos extasiamos. E Madame d'Oriol, n'um movimento e n'um sorriso
+que derramou mais aroma e mais claridade, abalou para a Magdalena.
+
+O meu Principe arrastou pelo tapete alguns passos pensativos e molles. E
+bruscamente, levantando os hombros com uma determinao immensa, como se
+deslocasse um mundo:
+
+--Oh Z Fernandes, vamos passar este Domingo n'alguma cousa simples e
+natural...
+
+--Em qu?
+
+Jacintho circumgirou os olhares muito abertos, como se, atravez da Vida
+Universal, procurasse anciosamente uma cousa natural e simples. Depois,
+descanando sobre mim os mesmos largos olhos que voltavam de muito
+longe, canados e com pouca esperana:
+
+--Vamos ao Jardim das Plantas, vr a girafa!
+
+
+
+
+IV
+
+
+N'essa fecunda semana, uma noite, recolhiamos ambos da Opera, quando
+Jacintho, bocejando, me annunciou uma festa no 202.
+
+--Uma festa?...
+
+--Por causa do Gran-Duque, coitado, que me vai mandar um peixe delicioso
+e muito raro que se pesca na Dalmacia. Eu queria um almoo curto. O
+Gran-Duque reclamou uma ceia. um barbaro, besuntado com litteratura do
+seculo XVIII, que ainda acredita em ceias, em Paris! Reuno no domingo
+tres ou quatro mulheres, e uns dez homens bem typicos, para o divertir.
+Tambem aproveitas. Folheias Paris n'um resumo... Mas uma massada
+amarga!
+
+Sem interesse pela sua festa, Jacintho no se affadigou em a compr com
+relevo ou brilho. Encommendou apenas uma orchestra de Tziganes (os
+Tziganes, as suas jalecas escarlates, a melancolia aspera das Czardas
+ainda n'esses tempos remotos emocionavam Paris): e mandou, na
+Bibliotheca, ligar o Theatrophone com a Opera, com a Comedia-Franceza,
+com o Alcazar e com os Buffos, prevendo todos os gostos desde o tragico
+at ao picaro. Depois no domingo, ao entardecer, ambos visitamos a mesa
+da ceia, que resplandecia com as velhas baixellas de D. Galio. E a
+faustosa profuso de orchideas, em longas sylvas por sobre a toalha
+bordada a sda, enroladas aos fructeiros de Saxe, trasbordando de
+crystaes lavrados e filagranados d'ouro, espalhava uma to fina sensao
+de luxo e gosto, que eu murmurei:--Caramba, bemdito, seja o dinheiro!
+Pela primeira vez, tambem, admirei a copa e a sua installao abundante
+e minuciosa--sobretudo os dois ascensores que rolavam das profundidades
+da cozinha, um para os peixes e carnes aquecido por tubos d'agua
+fervente, o outro para as saladas e gelados revestido de placas
+frigorificas. Oh, este 202!
+
+s nove horas, porm, descendo eu ao gabinete de Jacintho para escrever
+a minha boa tia Vicencia, em quanto elle ficra no toucador com o
+mancuro que lhe polia as unhas, passamos n'esse delicioso palacio,
+florido e em gala, por bem corriqueiro susto! Todos os lumes electricos,
+subitamente, em todo o 202, se apagaram! Na minha immensa desconfiana
+d'aquellas foras universaes, pulei logo para a porta, tropeando nas
+trevas, ganindo um _Aqui d'Elrei_! que tresandava a Guies. Jacintho em
+cima berrava, com o mancuro agarrado s pyjamas. E de novo, como serva
+ralassa que recolhe arrastando as chinellas, a luz resurgiu com
+lentido. Mas o meu Principe, que descera, enfiado, mandou buscar um
+engenheiro Companhia Central da Electricidade Domestica. Por precauo
+outro creado correu mercearia comprar pacotes de velas. E o Grillo
+desenterrava j dos armarios os candelabros abandonados, os pesados
+castiaes archaicos dos tempos inscientificos de D. Galio: era uma
+reserva de veteranos fortes, para o caso pavoroso em que mais tarde,
+ceia, falhassem perfidamente as foras bisonhas da Civilisao. O
+Electricista, que acudira esbaforido, afianou porm que a Electricidade
+se conservaria fiel, sem outro amuo. Eu, cautelosamente, soneguei na
+algibeira dous ctos de estearina.
+
+A Electricidade permaneceu fiel, sem amuos. E quando desci do meu
+quarto, tarde (porque perdera o collete de baile e s depois d'uma busca
+furiosa e praguejada o encontrei cahido por traz da cama!), todo o 202
+refulgia, e os Tziganes, na antecamara, sacudindo as guedelhas, atiravam
+as arcadas d'uma valsa to arrastadora que, pelas paredes, os immensos
+Personagens das tapearias, Priamo, Nestor, o engenhoso Ulysses,
+arfavam, boliam com os ps venerandos!
+
+Timidamente, sem rumor, puxando os punhos, penetrei no gabinete de
+Jacintho. E fui logo acolhido pelo sorriso da condessa de Treves, que,
+acompanhada pelo illustre historiador Danjon (da Academia Franceza),
+percorria maravilhada os Apparelhos, os Instrumentos, toda a sumptuosa
+Mechanica do meu super-civilisado Principe. Nunca ella me parecera mais
+magestosa do que n'aquellas sdas cr de aafro, com rendas cruzadas no
+peito Maria-Antonietta, o cabello crespo e ruivo levantado em rolo
+sobre a testa dominadora, e o curvo nariz patricio, abrigando o sorriso
+sempre luzidio, sempre corrente, como um arco abriga o correr e o luzir
+d'um regato. Direita como n'um solio, a longa luneta de tartaruga
+acercada dos olhos miudos e turvamente azulados, ella escutava deante do
+Graphophono, depois deante do Microphono, como melodias superiores, os
+commentarios que o meu Jacintho ia atabalhoando com uma amabilidade
+penosa. E ante cada roda, cada mola, eram pasmos, louvores finamente
+torneados, em que attribuia a Jacintho, com astuta candura, todas
+aquellas invenes do Saber! Os utensilios misteriosos que atulhavam a
+mesa d'ebano foram para ella uma iniciao que a enlevou. Oh, o
+numerador de paginas! oh, o collador d'estampilhas! A caricia
+demorada dos seus dedos seccos aquecia os metaes. E supplicava os
+endereos dos fabricantes para se prover de todas aquellas utilidades
+adoraveis! Como a vida, assim apetrechada, se tornava escorregadia e
+facil! Mas era necessario o talento, o gosto de Jacintho, para escolher,
+para crear! E no s ao meu amigo (que o recebia com resignao) ella
+offertava o fino mel. Affagando com o cabo da luneta o Telegrapho, achou
+a possibilidade de recordar a eloquencia do Historiador. Mesmo para mim
+(de quem ignorava o nome) arranjou junto do Phonographo, e cerca de
+vozes d'amigos que doce colleccionar, uma lisonjasinha redondinha e
+lustrosa, que eu chupei como um rebuado celeste. Boa casaleira que vae
+atirando o gro aos frangos famintos, a cada passo, maternalmente, ella
+nutria uma vaidade. Sofrego d'outro rebuado, acompanhei a sua cauda
+sussurrante e cr d'aafro. Ella parra deante da Machina-de-contar, de
+que Jacintho j lhe fornecera pacientemente uma explicao sapiente. E
+de novo roou os buracos d'onde espreitam os numeros negros, e com o seu
+enlevado sorriso murmurou:--Prodigiosa, esta prensa electrica!...
+
+Jacintho accudiu:
+
+--No! No! Esta ...
+
+Mas ella sorria, seguia... Madame de Treves no comprehendera nenhum
+apparelho do meu Principe! Madame de Treves no attendera a nenhuma
+dissertao do meu Principe! N'aquelle gabinete de sumptuosa Mechanica
+ella smente se occupra em exercer, com proveito e com perfeio, a
+Arte de Agradar. Toda ella era uma sublime falsidade. No escondi a
+Danjon a admirao que me penetrava.
+
+O facundo Academico revirou os olhos bogalhudos:
+
+--Oh! e um gsto, uma intelligencia, uma seduco!... E depois como se
+janta bem em casa d'ella! Que caf!... Mulher superior, meu caro senhor,
+verdadeiramente superior!
+
+Deslisei para a bibliotheca. Logo entrada da erudita nave, junto da
+estante dos Padres da Egreja onde alguns cavalheiros conversavam, parei
+a saudar o director do _Boulevard_ e o Psychologo-feminista, o auctor do
+_Corao Triple_, com quem na vspera me familiarisra ao almoo, no
+202. O seu acolhimento foi paternal: e, como se necessitasse a minha
+presena, reteve na sua mo illustre, rutilante de anneis, com fora e
+com gula, a minha grossa palma serrana. Todos aquelles senhores, com
+effeito, celebravam o seu Romance, a _Couraa_, lanado n'essa semana
+entre gritinhos de gzo e um quente rumor de saias alvoroadas. Um
+sobretudo, com uma vasta cabea arranjada Van Dick e que parecia
+postia, proclamava, alado na ponta das botas, que nunca penetrra to
+fundamente, na velha alma humana, a ponta da Psychologia Experimental!
+Todos concordavam, se apertavam contra o Psychologo, o tratavam por
+mestre. Eu mesmo, que nem sequer entrevira a capa amarella da
+_Couraa_, mas para quem elle voltava os olhos pedinches e famintos de
+mais mel, murmurei com um leve assobio:--uma delicia!
+
+E o Psychologo, reluzindo, com o labio humido, entalado n'um alto
+collarinho onde se enroscava uma gravata 1830, confessava modestamente
+que dissecra todas aquellas almas da _Couraa_ com algum cuidado,
+sobre documentos, sobre pedaos de vida ainda quentes, ainda a
+sangrar... E foi ento que Marizac, o duque de Marizac, notou, com um
+sorriso mais afiado que um lampejo de navalha, e sem tirar as mos dos
+bolsos:
+
+--No emtanto, meu caro, n'esse livro to profundamente estudado ha um
+erro bem estranho, bem curioso!...
+
+O Psychologo, vivamente, atirra a cabea para traz:
+
+--Um erro?
+
+Oh, sim, um erro! E bem inesperado n'um mestre to experiente!... Era
+attribuir esplendida amorosa da _Couraa_, uma duqueza, e do gosto
+mais puro,--_um collete de setim preto_! Esse collete, assim preto, de
+setim, apparecia na bella pagina de analyse e paixo em que ella se
+despia no quarto de Ruy d'Alize. E Marizac, sempre com as mos nos
+bolsos, mais grave, appellava para aquelles senhores. Pois era
+verosimil, n'uma mulher como a duqueza, esthetica, pre-raphaelitica, que
+se vestia no Doucet, no Paquin, nos costureiros intellectuaes, um
+collete de setim preto?
+
+O Psychologo emmudecera, colhido, trespassado! Marizac era uma to
+suprema auctoridade sobre a roupa intima das duquezas, que tarde, em
+quartos de rapazes, por impulsos idealistas e anceios d'alma
+dolorida--se pem em collete e saia branca!... De resto o director do
+_Boulevard_ condemnra logo sem piedade, com uma experiencia firme,
+aquelle collete, s possivel n'alguma mercieira atrazada que ainda
+procurasse effeitos de carne nedia sobre setim negro. E eu, para que me
+no julgassem alheio s coisas dos adulterios ducaes e do luxo, acudi,
+mettendo os dedos pelo cabello:
+
+--Realmente, preto, s se estivesse de lucto pesado, pelo pae!
+
+O pobre mestre da _Couraa_ succumbira. Era a sua gloria de Doutor em
+Elegancias-Femininas desmantelada--e Paris suppondo que elle nunca vira
+uma duqueza desatacar o collete na sua alcova de Psychologo! Ento,
+passando o leno sobre os labios que a angustia ressequira, confessou o
+erro, e contrictamente o attribuiu a uma improvisao tumultuosa:
+
+--Foi um tom falso, um tom perfeitamente falso que me escapou!... Com
+effeito! absurdo, um collete preto!... Mesmo por harmonia com o estado
+da alma da duqueza devia ser lilaz, talvez cr de reseda muito
+desmaiada, com um frouxo de rendas antigas de Malines... prodigioso
+como me escapou! Pois tenho o meu caderno de entrevistas bem annotadas,
+bem documentadas!...
+
+Na sua amargura, terminou por supplicar a Marizac que espalhasse por
+toda a parte, no Club, nas salas, a sua confisso. Fra um engano de
+artista, que trabalha na febre, vasculhando as almas, perdido nas
+profundidades negras das almas! No reparra no collete, confundira os
+tons... E gritou, com os braos estendidos para o director do
+_Boulevard_:
+
+--Estou prompto a fazer uma rectificao, n'uma _interview_, meu caro
+mestre! Mande um dos seus redactores... manh, s dez horas! Fazemos
+uma _interview_, fixamos a cr. Evidentemente lilaz... Mande um dos
+seus homens, meu caro mestre! tambem uma occasio para eu confessar,
+bem alto, os servios que o _Boulevard_ tem feito s sciencias
+psychologicas e feministas!
+
+Assim elle supplicava, encostado estante, s lombadas dos Santos
+Padres. E eu abalei, vendo ao fundo da Bibliotheca Jacintho que se
+debatia e se recusava entre dous homens.
+
+Eram os dois homens de Madame de Treves--o marido, conde de Treves,
+descendente dos reis de Candia, e o amante, o terrivel banqueiro judeu,
+David Ephraim. E to enfronhadamente assaltavam o meu Principe que nem
+me reconheceram, ambos n'um aperto de mo molle e vago me trataram por
+caro conde! N'um relance, rebuscando charutos sobre a mesa de
+limoeiro, comprehendi que se tramava a _Companhia das Esmeraldas da
+Birmania_, medonha empreza em que scintillavam milhes, e para que os
+dous confederados de bolsa e d'alcva, desde o comeo do anno, pediam o
+nome, a influencia, o dinheiro de Jacintho. Elle resistira, n'um enfado
+dos negocios, desconfiado d'aquellas esmeraldas soterradas n'um valle da
+Asia. E agora o conde de Treves, um homem esgrouviado, de face
+rechupada, erriada de barba rala, sob uma fronte rotunda e amarella
+como um melo, assegurava ao meu pobre Principe que no Prospecto j
+preparado, demonstrando a grandeza do negocio, perpassava um fulgr das
+_Mil e Uma noites_. Mas sobretudo aquella excavao de esmeraldas
+convidava todo o espirito culto pela sua aco civilisadora. Era uma
+corrente de idas occidentaes, invadindo, educando a Birmania. Elle
+acceitra a direco por patriotismo...
+
+--De resto um negocio de joias, de arte, de progresso, que deve ser
+feito, n'um mundo superior, entre amigos...
+
+E do outro lado o terrivel Ephraim, passando a mo curta e gorda sobre a
+sua bella barba, mais frisada e negra que a d'um Rei Assyrio, affianava
+o triumpho da empreza pelas grossas foras que n'ella entravam, os
+Nagayers, os Bolsans, os Saccart...
+
+Jacintho franzia o nariz, enervado:
+
+--Mas, ao menos, esto feitos os estudos? J se provou que ha
+esmeraldas?
+
+Tanta ingenuidade exasperou Ephraim:
+
+--Esmeraldas! Est claro que ha esmeraldas!... Ha sempre esmeraldas
+desde que haja accionistas!
+
+E eu admirava a grandeza d'aquella maxima--quando appareceu, esbaforido,
+desdobrando o leno muito perfumado, um dos familiares do 202, Todelle
+(Antonio de Todelle), moo j calvo, d'infinitas prendas, que conduzia
+Cotillons, imitava cantores de Caf Concerto, temperava saladas raras,
+conhecia todos os enredos de Paris.
+
+--J veio?... J c est o Gran-Duque?
+
+No, S. Alteza ainda no chegra. E Madame de Todelle?
+
+--No poude... No soph... Esfolou uma perna.
+
+--Oh!
+
+--Quasi nada... Cahiu do velocipede!
+
+Jacintho, logo interessado:
+
+--Ah! Madame de Todelle anda j de velocipede?
+
+--Aprende. Nem tem velocipede!... Agora, na quaresma, que se applicou
+mais, no velocipede do padre Ernesto, do cura de S. Jos! Mas hontem, no
+Bosque, zs, terra!... Perna esfolada. Aqui.
+
+E na sua propria cxa, com a unha, vivamente, desenhou o esfolo.
+Ephraim, brutal e serio, murmurou:--Diabo! no melhor sitio! Mas
+Todelle nem o escutra, correndo para o director do _Boulevard_, que se
+avanava, lento e barrigudo, com o seu monoculo negro semelhante a um
+pacho. Ambos se collaram contra uma estante, n'um cochichar profundo.
+
+Jacintho e eu entramos ento no bilhar, forrado de velhos couros de
+Cordova, onde se fumava. Ao canto d'um divan, o grande Dornan, o poeta
+neo-platonico e mystico, o Mestre subtil de todos os rithmos, espapado
+nas almofadas, com um dos ps sob a cxa gorda, como um Deus indio, dois
+botes do collete desabotoados, a papeira cahida sobre o largo decote do
+collarinho, mamava magestosamente um immenso charuto. Ao p d'elle,
+tambm sentado, um velho que eu nunca encontrra no 202, esbelto, de
+cabellos brancos em anneis passados por traz das orelhas, a face coberta
+de p de arroz, um bigodinho muito negro e arrebitado, findra
+certamente alguma historia de bom e grosso sal--porque deante do divan,
+de p, Joban, o suprmo Critico de Theatro, ria com a calva escarlate de
+gso, e um moo muito ruivo (descendente de Colygny), de perfil de
+periquito, sacudia os braos curtos como azas, e gania: delicioso!
+divino! S o poeta idealista permanecera impassivel, na sua magestade
+obesa. Mas, quando nos acercamos, esse Mestre do rythmo perfeito, depois
+de soprar uma farta fumarada e me saudar com um pesado mover das
+palpebras, comeou n'uma voz de rico e sonoro metal:
+
+--Ha melhor, ha infinitamente melhor... Todos aqui conhecem Madame
+Noredal. Madame Noredal tem umas immensas nadegas...
+
+Desgraadamente para o meu regalo Todelle invadiu o bilhar, reclamando
+Jacintho com alarido. Eram as senhoras que desejavam ouvir no
+Phonographo uma aria da Patti! O meu amigo sacudiu logo os hombros,
+n'uma surda irritao:
+
+--Aria da Patti... Eu sei l! Todos esses rolos esto em confuso. Alm
+d'isso o Phonographo trabalha mal. Nem trabalha! Tenho tres. Nenhum
+trabalha!
+
+--Bem! exclamou alegremente Todelle. Canto eu a _Pauvre fille_... mais
+de ceia! _Oh, la pauv', pauv', pauv'_...
+
+Travou do meu brao, e arrastou a minha timidez serrana para o salo cr
+de rosa murcha, onde, como Deusas n'um circulo escolhido do Olympo,
+resplandeciam Madame d'Oriol, Madame Verghane, a princeza de Carman, o
+uma outra loura, com grandes brilhantes nas grandes farripas, e
+d'hombros to ns, e braos to ns, e peitos to ns, que o seu vestido
+branco com bordados d'ouro pallido parecia uma camisa, a escorregar.
+Impressionado, ainda retive Todelle, rugi baixinho:--Quem ? Mas j o
+festivo homem correra para Madame d'Oriol, com quem riam, n'uma
+familiaridade superior e facil, Marizac (o duque de Marizac) e um moo
+de barba cr de milho e mais leve que uma penugem, que se balouava
+gracilmente sobre os ps, como uma espiga ao vento. E eu, encalhado
+contra o piano, esfregava lentamente as mos, amassando o meu embarao,
+quando Madame Verghane se ergueu do soph onde conversava com um velho
+(que tinha a Gran-Cruz de Santo Andr), e avanou, deslizou no tapete,
+pequena e nedia, na sua copiosa cauda de velludo verde-negro. To fina
+era a cinta, entre os encontros fecundos e a vastido do peito, todo n
+e cr de nacar, que eu receava que ella partisse pelo meio, no seu lento
+ondular. Os seus famosos bands negros, d'um negro furioso, inteiramente
+lhe tapavam as orelhas; e, no grande aro d'ouro que os circumdava,
+reluzia uma estrella de brilhantes, como na fronte dos anjos de
+Boticelli. Conhecendo sem dvida a minha auctoridade no 202, ella
+despediu sobre mim ao passar, como raio benefico, um sorriso que lhe
+liquescia mais os olhos liquidos, e murmurou:
+
+--O Gran-Duque vem, com certeza?
+
+--Oh com certeza, minha senhora, para o peixe!
+
+--P'ra o peixe?...
+
+Mas justamente, na antecamara, rompeu, em rufos e arcadas triumphaes, a
+marcha de Rakoczy. Era elle! Na Bibliotheca, o nosso retumbante mordomo
+annunciava:
+
+--S. Alteza o Gran-Duque Casimiro!
+
+Madame de Verghane, com um curto suspiro d'emoo, alteou o peito, como
+para lhe expr melhor a magnificencia eburnea. E o homem do _Boulevard_,
+o velho da Gran-Cruz, Ephraim, quasi me empurraram, investindo para a
+porta, na immensa sofreguido de Pessoa Real.
+
+Precedido por Jacintho, o Gran-Duque surgiu. Era um possante homem, de
+barba em bico, j grisalha, um pouco calvo. Durante um momento hesitou,
+com um balano lento sobre os ps pequeninos, calados de sapatos rasos,
+quasi sumidos sob as pantalonas muito largas. Depois, pesado e risonho,
+veio apertar a mo s senhoras que mergulhavam nos velludos e sdas, em
+mesuras de Crte. E immediatamente, batendo com carinhosa jovialidade no
+hombro de Jacintho:
+
+--E o peixe?... Preparado pela receita que mandei, hein?
+
+Um murmurio de Jacintho tranquillisou S. Alteza.
+
+--Ainda bem, ainda bem! exclamou elle, no seu vozeiro de commando. Que
+eu no jantei, absolutamente no jantei! que se est jantando
+deploravelmente em casa do Joseph. Mas porque se vai jantar ainda ao
+Joseph? Sempre que chego a Paris, pergunto: Onde que se janta agora?
+Em casa do Joseph!... Qual! no se janta! Hoje, por exemplo,
+gallinholas... Uma peste! No tem, no tem a noo da gallinhola!
+
+Os seus olhos azulados, d'um azul sujo, rebrilhavam, alargados pela
+indignao:
+
+--Paris est perdendo todas as suas superioridades. J se no janta, em
+Paris!
+
+Ento, em redor, aquelles senhores concordaram, desolados. O conde de
+Treves defendeu o Bignon, onde se conservavam nobres tradies. E o
+director do _Boulevard_, que se empurrava todo para S. Alteza, attribuia
+a decadencia da cozinha, em Frana, Republica, ao gosto democratico e
+torpe pelo barato.
+
+--No Paillard, todavia...--comeou o Ephraim.
+
+--No Paillard! gritou logo o Gran-Duque. Mas os Borgonhas so to maus!
+os Borgonhas so to maus!...
+
+Deixra pender os braos, os hombros, descoroado. Depois, com o seu
+lento andar balanado como o d'um velho piloto, atirando um pouco para
+traz as lapellas da casaca, foi saudar Madame d'Oriol, que toda ella
+faiscou, no sorriso, nos olhos, nas joias, em cada prga das suas sdas
+cr de salmo. Mas apenas a clara e macia creatura, batendo o leque como
+uma aza alegre, comera a chalrar, S. Alteza reparou no apparelho do
+Theatrophone, pousado sobre uma mesa entre flres, e chamou Jacintho:
+
+--Em communicao com o Alcazar?... O Theatrophone?
+
+--Certamente, meu senhor.
+
+Excellente! Muito chic! Elle ficra com pena de no ouvir a Gilberte
+n'uma canoneta nova, as _Casquettes_. Onze e meia! Era justamente a
+essa hora que ella cantava, no ultimo acto da _Revista
+Electrica_...--Collou s orelhas os dous receptores do Theatrophone, e
+quedou embebido, com uma ruga sria na testa dura. De repente, n'um
+commando forte:
+
+-- ella! Chut! Venham ouvir!... ella! Venham todos! Princeza de
+Carman, para aqui! Todos! ella! Chut...
+
+Ento, como Jacintho installra prodigamente dois Theatrophones, cada um
+provido de doze fios, as senhoras, todos aquelles cavalheiros, se
+apressaram a acercar submissamente um receptor do ouvido, e a permanecer
+immoveis para saborear _Les Casquettes_. E no salo cr de rosa murcha,
+na nave da Bibliotheca, onde se espalhra um silencio augusto, s eu
+fiquei desligado do Theatrophone, com as mos nas algibeiras e ocioso.
+
+No relogio monumental, que marcava a hora de todas as Capitaes e o
+movimento de todos os Planetas, o ponteiro rendilhado adormeceu. Sobre a
+mudez e a immobilidade pensativa d'aquelles dorsos, d'aquelles decotes,
+a Electricidade refulgia com uma tristeza de sol regelado. E de cada
+orelha attenta, que a mo tapava, pendia um fio negro, como uma tripa.
+Dornan, esbroado sobre a mesa, cerrra as palpebras, n'uma meditao de
+monge obeso. O historiador dos Duques d'Anjou, com o receptor na ponta
+delicada dos dedos, erguendo o nariz agudo e triste, gravemente cumpria
+um dever palaciano. Madame d'Oriol sorria, toda languida, como se o fio
+lhe murmurasse douras. Para desentorpecer arrisquei um passo timido.
+Mas cahiu logo sobre mim um _chut_ severo do Gran-Duque! Recuei para
+entre as cortinas da janella, a abrigar a minha ociosidade. O Philologo
+da _Couraa_, distante da mesa, com o seu comprido fio esticado, mordia
+o beio, n'um esforo de penetrao. A beatitude de S. Alteza, enterrado
+n'uma vasta poltrona, era perfeita. Ao lado o collo de Madame Verghane
+arfava como uma onda de leite. E o meu pobre Jacintho, n'uma applicao
+conscienciosa, pendia sobre o Theatrophone to tristemente como sobre
+uma sepultura.
+
+Ento, ante aquelles seres de superior civilisao, sorvendo n'um
+silencio devoto as obscenidades que a Gilberte lhes gania, por debaixo
+do solo de Paris, atravez de fios mergulhados nos esgotos, cingidos aos
+canos das fezes,--pensei na minha aldeia adormecida. O crescente de lua,
+que, seguido d'uma estrellinha, corria entre nuvens sobre os telhados e
+as chamins negras dos Campos-Elyseos, tambem andava l fugindo, mais
+lustrosa e mais dce, por cima dos pinheiraes. As rs coaxavam ao longe
+no Pego da Dona. A ermidinha de S. Joaquim branquejava no cabeo,
+nuasinha e candida...
+
+Uma das senhoras murmurou:
+
+--Mas, no a Gilberte!...
+
+E um dos homens:
+
+--Parece um cornetim...
+
+--Agora so palmas...
+
+--No, o Paulin!
+
+O Gran-Duque lanou um _chut_ feroz... No pateo da nossa casa ladravam
+os ces. D'alm do ribeiro respondiam os ces do Joo Saranda. Como me
+encontrei descendo por uma quelha, sob as ramadas, com o meu varapau ao
+hombro? E sentia, entre a sda das cortinas, n'um fino ar macio, o
+cheiro das pinhas estalando nas lareiras, o calor dos curraes atravez
+das sebes altas, e o susurro dormente das levadas...
+
+Despertei a um brado que no sahia nem dos eidos, nem das sombras. Era o
+Gran-Duque que se erguera, encolhia furiosamente os hombros:
+
+--No se ouve nada!... S guinchos! E um zumbido! Que massada!... Pois
+uma belleza, a canoneta:
+
+Oh les casquettes,
+Oh les casque-e-e-tes!...
+
+Todos largaram os fios--proclamavam a Gilberte deliciosa. E o mordomo
+bemdito, abrindo largamente os dous batentes, annunciou:
+
+--_Monseigneur est servi_!
+
+Na mesa, que pelo esplendor das orchideas mereceu os louvores ruidosos
+de S. Alteza, fiquei entre o ethereo poeta Dornan e aquelle moo de
+pennugem loura que balouava como uma espiga ao vento. Depois de
+desdobrar o guardanapo, de o accomodar regaladamente sobre os joelhos,
+Dornan desenvencilhou da corrente do relogio uma enorme luneta para
+percorrer o _menu_--que approvou. E inclinando para mim a sua face de
+Apostolo obeso:
+
+--Este Porto de 1834, aqui era casa do Jacintho, deve ser authentico...
+Hein?
+
+Assegurei ao Mestre dos Rythmos que o Porto envelhecra nas adegas
+classicas do av Galio. Elle afastou, n'uma preparao methodica, os
+longos, densos fios do bigode que lhe cobriam a bocca grossa. Os
+escudeiros serviram um consomm frio com trufas. E o moo cr de milho,
+que espalhra pela mesa o seu olhar azul e dce, murmurou, com uma
+desconsolao risonha:
+
+--Que pena!... S falta aqui um general e um bispo!
+
+Com effeito! Todas as Classes Dominantes comiam n'esse momento as trufas
+do meu Jacintho... Mas defronte Madame d'Oriol lanra um riso mais
+cantado que um gorgeio. O Gran-Duque, n'uma silva de orchideas que
+orlava o seu talher, notra uma, sombriamente horrenda, semelhante a um
+lacrau esverdinhado, de azas lustrosas, gordo e tumido de veneno: e
+muito delicadamente offertra a flr monstruosa a Madame d'Oriol, que,
+com trinado riso, solemnemente, a collocou no seio. Collado quella
+carne macia, d'uma brancura de nata fina, o lacrau inchra, mais verde,
+com as azas frementes. Todos os olhos se accendiam, se cravavam no lindo
+peito, a que a flr disforme, de cr venenosa, apimentava o sabor. Ella
+reluzia, triumphava. Para ageitar melhor a orchidea os seus dedos
+alargaram o decote, aclararam bellezas, guiando aquellas curiosidades
+flammejantes que a despiam. A face vincada de Jacintho pendia para o
+prato vasio. E o alto lyrico do _Crepusculo Mystico_, passando a mo
+pelas barbas, rosnou com desdem:
+
+--Bella mulher... Mas ancas seccas, e aposto que no tem nadegas!
+
+No emtanto o moo de loura pennugem voltra sua estranha mgoa. No
+possuirmos um general com a sua espada, e um bispo com seu baculo!...
+
+--Para que, meu caro senhor?
+
+Elle atirou um gesto suave em que todos os seus anneis faiscaram:
+
+--Para uma bomba de dynamite... Temos aqui um explendido ramalhete de
+flres de Civilisaco, com um Gran-Duque no meio. Imagine uma bomba de
+dynamite, atirada da porta!... Que bello fim de ceia, n'um fim de
+seculo!
+
+E como eu o considerava assombrado, elle, bebendo golos de
+Chateau-Yquem, declarou que hoje a unica emoo, verdadeiramente fina,
+seria aniquillar a Civilisao. Nem a sciencia, nem as artes, nem o
+dinheiro, nem o amor, podiam j dar um gosto intenso e real s nossas
+almas saciadas. Todo o prazer que se extrahra de _crear_ estava
+esgotado. S restava, agora, o divino prazer de _destruir_!
+
+Desenrolou ainda outras enormidades, com um riso claro nos olhos claros.
+Mas eu no attendia o gentil pedante, colhido por outro
+cuidado--reparando que em torno, subitamente, todo o servio estacra
+como no conto do Palacio Petrificado. E o prato agora devido era o peixe
+famoso da Dalmacia, o peixe de S. Alteza, o peixe inspirador da festa!
+Jacintho, nervoso, esmagava entre os dedos uma flr. E todos os
+escudeiros sumidos!
+
+Felizmente o Gran-Duque contava a historia d'uma caada, nas coutadas de
+Sarvan, em que uma senhora, mulher de um banqueiro, saltra bruscamente
+do cavallo, n'um descampado, sem arvores. Elle e todos os caadores
+param--e a galante senhora, livida, com a amazona arregaada, corre para
+traz d'uma pedra... Mas nunca soubemos em que se occupava a banqueira,
+n'esse descampado, agachada atraz da pedra--porque justamente o mordomo
+appareceu, relusente de suor, e balbuciou uma confidencia a Jacintho,
+que mordeu o beio, trespassado. O Gran-Duque emmudecera. Todos se
+entre-olhavam, n'uma anciedade alegre. Ento o meu Principe, com
+paciencia, com heroicidade, forando pallidamente o sorriso:
+
+--Meus amigos, ha uma desgraa...
+
+Dornan pulou na cadeira:
+
+--Fogo?
+
+No, no era fogo. Fra o elevador dos pratos, que inesperadamente, ao
+subir o peixe de S. Alteza, se desarranjra, e no se movia, encalhado!
+
+O Gran-Duque arremessou o guardanapo. Toda a sua polidez estalava como
+um esmalte mal posto:
+
+--Essa forte!... Pois um peixe que me deu tanto trabalho! Para que
+estamos ns aqui ento a cear? Que estupidez! E porque o no trouxeram
+mo, simplesmente? Encalhado... Quero vr! Onde a copa?
+
+E, furiosamente, investiu para a copa, conduzido pelo mordomo que
+tropeava, vergava os hombros, ante esta esmagadora colera de Principe.
+Jacintho seguiu, como uma sombra, levado na rajada de S. Alteza. E eu
+no me contive, tambem me atirei para a copa, a contemplar o desastre,
+emquanto Dornan, batendo na cxa, clamava que se ceasse sem peixe!
+
+O Gran-Duque l estava, debruado sobre o poo escuro do elevador, onde
+mergulhra uma vela que lhe avermelhava mais a face esbraseada.
+Espreitei, por sobre o seu hombro real. Em baixo, na treva, sobre uma
+larga prancha, o peixe precioso alvejava, deitado na travessa, ainda
+fumegando, entre rodellas de limo. Jacintho, branco como a gravata,
+torturava desesperadamente a mola complicada do ascensor. Depois foi o
+Gran-Duque que, com os pulsos cabelludos, atirou um empuxo tremendo aos
+cabos em que elle rolava. Debalde! O apparelho enrijra n'uma inercia de
+bronze eterno.
+
+Sdas roagaram entrada da copa. Era Madame d'Oriol, e atraz Madame
+Verghane, com os olhos a faiscar, na curiosidade d'aquelle lance em que
+o Principe soltra tanta paixo. Marizac, nosso intimo, surgiu tambem,
+risonho, propondo uma descida ao poo com escadas. Depois foi o
+Psychologo, que se abeirou, psychologou, attribuindo intenes sagazes
+ao peixe que assim se recusava. E a cada um o Gran-Duque, escarlate,
+mostrava com dedo tragico, no fundo da cova, o seu peixe! Todos
+afundavam a face, murmuravam: l est! Todelle, na sua precipitao,
+quasi se despenhou. O periquito descendente de Colygny batia as azas,
+ganindo:--Que cheiro elle deita, que delicia! Na copa atulhada os
+decotes das senhoras roavam a farda dos lacaios. O velho caiado de p
+d'arroz metteu o p n'um balde de gelo, com um berro ferino. E o
+Historiador dos Duques d'Anjou movia por cima de todos o seu nariz
+bicudo e triste.
+
+De repente, Todelle teve uma ida!
+
+-- muito simples... pescar o peixe!
+
+O Gran-Duque bateu na cxa uma palmada triumphal. Est claro! Pescar o
+peixe! E no gozo d'aquella facecia, to rara e to nova, toda a sua
+colera se sumra, de novo se tornra o Principe amavel, de magnifica
+polidez, desejando que as senhoras se sentassem para assistir pesca
+miraculosa! Elle mesmo seria o pescador! Nem se necessitava, para a
+divertida faanha, mais que uma bengala, uma guita e um gancho.
+Immediatamente Madame d'Oriol, excitada, offereceu um dos seus ganchos.
+Apinhados em volta d'ella, sentindo o seu perfume, o calor da sua pelle,
+todos exaltamos a amoravel dedicao. E o Psychologo proclamou que nunca
+se pescra com to divino anzol!
+
+Quando dois escudeiros estonteados voltaram, trazendo uma bengala e um
+cordel, j o Gran-Duque, radiante, vergra o gancho em anzol. Jacintho,
+com uma paciencia livida, erguia uma lampada sobre a escurido do poo
+fundo. E os senhores mais graves, o Historiador, o director do
+_Boulevard_, o Conde de Treves, o homem de cabea Van-Dick, sorriam,
+amontoados porta, n'um interesse reverente pela phantasia de S.
+Alteza. Madame de Treves, essa, examinava serenamente, com a sua nobre
+luneta, a installao da copa. S Dornan no se erguera da mesa, com os
+punhos cerrados sobre a toalha, o gordo pescoo encovado, no tedio
+sombrio de fera a quem arrancaram a posta.
+
+No emtanto S. Alteza pescava com fervor! Mas debalde! O gancho, pouco
+agudo, sem presa, bamboleando na extremidade da guita frouxa, no
+fisgava.
+
+--Oh Jacintho, erga essa luz! gritava elle, inchado e suado. Mais!...
+Agora! Agora! na guelra! S na guelra que o gancho o pde prender.
+Agora... Qual! Que diabo! No vae!
+
+Tirou a face do poo, resfolgando e affrontado. No era possivel! S
+carpinteiros, com alavancas!... E todos, anciosamente, bradamos que se
+abandonasse o peixe!
+
+O Principe, risonho, sacudindo as mos, concordava que por fim fra
+mais divertido pescal-o do que coml-o! E o elegante bando refluiu
+sofregamente para a mesa, ao som d'uma valsa de Strauss, que os Tziganes
+arremearam em arcadas de languido ardr. S Madame de Treves se demorou
+ainda, retendo o meu pobre Jacintho, para lhe assegurar quanto admirava
+o arranjo da sua copa... Oh perfeita! Que comprehenso da vida, que fina
+intelligencia do conforto!
+
+S. Alteza, encalmado pelo esforo, esvasiou poderosamente dous copos de
+Chateau-Lagrange. Todos o acclamavam como um pescador genial. E os
+escudeiros serviram o _Baro de Pauillac_, cordeiro das lezirias
+marinhas, que, preparado com ritos quasi sagrados, toma este grande nome
+sonoro e entra no Nobiliario de Frana.
+
+Eu comi com o appetite d'um heroe de Homero. Sobre o meu copo e o de
+Dornan o Champagne scintillou e jorrou ininterrompidamente como uma
+fonte de inverno. Quando se serviram ortolans gelados, que se derretiam
+na bocca, o divino poeta murmurou, para meu regalo, o seu soneto sublime
+a Santa Clara. E como, do outro lado, o moo de pennugem loura
+insistia pela destruio do velho mundo, tambem concordei, e, sorvendo o
+Champagne coalhado em sorvete, maldissemos o Seculo, a Civilisao,
+todos os orgulhos da Sciencia! Atravs das flres e das luzes, no
+emtanto, eu seguia as ondas arfantes do vasto peito de Madame Verghane,
+que ria como uma bacchante. E nem me apiedava de Jacintho que, com a
+doura de S. Jacintho sobre o cpo, esperava o fim do seu martyrio e da
+sua festa.
+
+Ella findou. Ainda recordo, s tres horas da noite, o Gran-Duque na
+antecamara, muito vermelho, mal firme nos ps pequeninos, sem acertar
+com as mangas da pelissa que Jacintho e eu lhe ajudamos a
+enfiar--convidando o meu amigo, n'uma effuso carinhosa, a ir caar s
+suas terras da Dalmacia...
+
+--Devo ao meu Jacintho uma bella pesca, quero que elle me deva uma bella
+caada!
+
+E emquanto o acompanhavamos, entre as alas dos escudeiros, pela vasta
+escada onde o mordomo o precedia erguendo um candelabro de tres lumes,
+S. Alteza repisava, pegajoso:
+
+--Uma bella caada... E tambem vae Fernandes! Bom Fernandes, Z
+Fernandes! Ceia superior, meu Jacintho! O _Baro de Pauillac_,
+divino!... Creio que o devemos nomear Duque... O Senhor Duque de
+Pauillac! Mais um bocado da perna do Senhor Duque de Pauillac. Ah!
+Ah!... No venham fra! No se constipem!
+
+E do fundo do coup, ao rodar, ainda bradou:
+
+--O peixe, Jacintho, desencalha o peixe! Excellente, ao almoo, frio,
+com mlho verde!
+
+Trepando canadamente os degraus, n'uma molleza de Champagne e somno em
+que os olhos se me cerravam, murmurei para o meu Principe:
+
+--Foi divertido, Jacintho! Sumptuosa mulher, a Verghane! Grande pena, o
+elevador...
+
+E Jacintho, n'um som cavo que era bocejo e rugido:
+
+--Uma massada! E tudo falha!
+
+ * * * * *
+
+Tres dias depois d'esta festa no 202 recebeu o meu Principe
+inesperadamente, de Portugal, uma nova consideravel. Sobre a sua quinta
+e solar de Tormes, por toda a serra, passra uma tormenta devastadora de
+vento, corisco e agua. Com as grossas chuvas, ou por outras causas que
+os peritos diro (como exclamava na sua carta angustiada o procurador
+Silverio), um pedao de monte, que se avanava em socalco sobre o valle
+da Carria, desabra, arrastando a velha egreja, uma egrejinha rustica
+do seculo XVI, onde jaziam sepultados os avs de Jacintho desde os
+tempos de el-rei D. Manoel. Os ossos veneraveis d'esses Jacinthos jaziam
+agora soterrados sob um monto informe de terra e pedra. O Silverio j
+comera com os moos da quinta a desatulhar dos preciosos restos. Mas
+esperava anciosamente as ordens de sua exc.^a...
+
+Jacintho empallidecra, impressionado. Esse velho solo serrano, to rijo
+e firme desde os Godos, que de repente ruia! Esses jazigos de paz
+piedosa, precipitados com fragor, na borrasca e na treva, para um negro
+fundo de valle! Essas ossadas, que todas conservavam um nome, uma data,
+uma historia, confundidas n'um lixo de ruina!
+
+--Coisa estranha, coisa estranha!...
+
+E toda a noite me interrogou cerca da serra e de Tormes, que eu
+conhecia desde pequeno, por que o velho solar, com a sua nobre alameda
+de faias seculares, se erguia a duas legoas da nossa casa, no antigo
+caminho de Guies estao e ao rio. O caseiro de Tormes, o bom
+Melchior, era cunhado do nosso feitor da Roqueirinha:--e muitas vezes,
+depois da minha intimidade com Jacintho, eu entrra no robusto casaro
+de granito, e avalira o gro espalhado pelas salas sonoras, e provra o
+vinho novo nas adegas immensas...
+
+--E a egreja, Z Fernandes?... Entraste na egreja?
+
+--Nunca... Mas era pittoresca, com uma torresinha quadrada, toda negra,
+onde ha muitos annos vivia uma familia de cegonhas... Terrivel
+transtorno para as cegonhas!
+
+--Coisa estranha! murmurava ainda o meu Principe, agourado.
+
+E telegraphou ao Silverio que desatulhasse o valle, recolhesse as
+ossadas, reedificasse a Egreja, e, para esta obra de piedade e
+reverencia, gastasse o dinheiro, sem contar, como a agua d'um rio largo.
+
+
+
+
+V
+
+
+No emtanto Jacintho, desesperado com tantos desastres humilhadores--as
+torneiras que dessoldavam, os elevadores que emperravam, o Vapor que se
+encolhia, a Electricidade que se sumia, decidiu valorosamente vencer as
+resistencias finaes da Materia e da Fora por novas e mais poderosas
+accumulaces de Mechanismos. E n'essas semanas de Abril, emquanto as
+rosas desabrochavam, a nossa agitada casa, entre aquellas quietas casas
+dos Campos-Elyseos que preguiavam ao sol, incessantemente tremeu,
+envolta n'um p de calia e d'empreitada, com o bruto picar de pedra, o
+retininte martelar de ferro. Nos silenciosos corredores, onde me era
+dce fumar antes do almoo um pensativo cigarro, circulavam agora, desde
+madrugada, ranchos d'operarios, de blusas brancas, assobiando o
+_Pett-Bleu_, e intimidando os meus passos quando eu atravessava em
+fralda e chinellas para o banho ou para outros retiros. Apenas se varava
+com pericia algum andaime obstruindo as portas--logo se esbarrava com
+uma pilha de taboas, uma ceira de farramentas ou um balde enorme
+d'argamassa. E os pedaos de soalho levantado mostravam tristemente,
+como n'um cadaver aberto, todos os interiores do 202, a ossatura, os
+sensiveis nervos d'arame, os negros intestinos de ferro fundido.
+
+Cada dia estacava deante do porto alguma lenta carroa, d'onde os
+creados, em mangas de camisa, descarregavam caixotes de madeira, fardos
+de lona, que se despregavam e se descosiam n'uma sala asphaltada, ao
+fundo do jardim, por traz da sebe de lilazes. E eu descia, reclamado
+pelo meu Principe, para admirar uma nova Machina que nos tornaria a vida
+mais facil, estabelecendo d'um modo mais seguro o nosso dominio sobre a
+Substancia. Durante os calores, que apertaram depois da Asceno,
+ensaiamos esperanadamente, para refrescar as aguas mineraes, a
+Soda-Water e os Medocs ligeiros, tres geleiras, que se amontoaram na
+copa successivamente desprestigiadas. Com os morangos novos appareceu um
+instrumentosinho astuto, para lhes arrancar os ps, delicadamente.
+Depois recebemos outro, prodigioso, de prata e crystal, para remexer
+phreneticamente as saladas; e, na primeira vez que o experimentei, todo
+o vinagre esparrinhou sobre os olhos do meu Principe, que fugiu aos
+uivos! Mas elle teimava... Nos actos mais elementares, para alliviar ou
+apressar o esforo, se soccorria Jacintho da Dynamica. E agora era por
+interveno d'uma machina que abotoava as ceroulas.
+
+E simultaneamente, ou em obediencia sua Ida, ou governado pelo
+despotismo do habito, no cessava, ao lado da Mechanica accumulada, de
+accumular Erudio. Oh, a invaso dos livros no 202! Solitarios, aos
+pares, em pacotes, dentro de caixas, franzinos, gordos e repletos de
+auctoridade, envoltos em plebeia capa amarella ou revestidos de
+marroquim e ouro, perpetuamente, torrencialmente, invadiam por todas as
+largas portas a Bibliotheca, onde se estiravam sobre o tapete, se
+repimpavam nas cadeiras macias, se enthronisavam em cima das mesas
+robustas, e sobretudo trepavam contra as janellas, em sofregas pilhas,
+como se, suffocados pela sua propria multido, procurassem com ancia
+espao e ar! Na erudita nave, onde apenas alguns vidros mais altos
+restavam descobertos, sem tapume de livros, perennemente se adensava um
+pensativo crepusculo de outono emquanto fra Junho refulgia. A
+Bibliotheca transbordra atravs de todo o 202! No se abria um armario
+sem que de dentro se despenhasse, desamparada, uma pilha de livros! No
+se franzia uma cortina sem que de traz surgisse, hirta, uma ruma de
+livros! E immensa foi a minha indignao quando uma manh, correndo
+urgentemente, de mos nas alas, encontrei, vedada por uma tremenda
+colleco de Estudos Sociaes, a porta do Water-Closet!
+
+Mais amargamente porm me lembro da noite historica em que, no meu
+quarto, moido e molle d'um passeio a Versalhes, com as palpebras
+poeirentas e meio adormecidas, tive de desalojar do meu leito,
+praguejando, um pavoroso Diccionario de Industria em trinta e sete
+volumes! Senti ento a suprema fartura do livro. Ageitando, com murros,
+os travesseiros, maldisse a Imprensa, a Facundia humana... E j me
+estirra, adormecia, quando topei, quasi parti a preciosa rotula do
+joelho, contra a lombada d'um tomo que velhacamente se aninhra entre a
+parede e os colches. Com furor e um berro empolguei, arremessei o tomo
+affrontoso--que entornou o jarro, inundou um tapete rico de Daghestan. E
+nem sei se depois adormeci--porque os meus ps, a que no sentia nem o
+pisar nem o rumor, como se um vento brando me levasse, continuaram a
+tropear em livros no corredor apagado, depois na areia do jardim que o
+luar branqueava, depois na Avenida dos Campos-Elyseos, povoada e ruidosa
+como n'uma festa civica. E, oh portento! todas as casas aos lados eram
+construidas com livros. Nos ramos dos castanheiros ramalhavam folhas de
+livros. E os homens, as finas damas, vestidos de papel impresso, com
+titulos nos dorsos, mostravam em vez de rosto um livro aberto, a que a
+brisa lenta virava docemente as folhas. Ao fundo, na Praa da Concordia,
+avistei uma escarpada montanha de livros, a que tentei trepar,
+arquejante, ora enterrando a perna em flacidas camadas de versos, ora
+batendo contra a lombada, dura como calhau, de tomos de Exegese e
+Critica. A to vastas alturas subi, para alm da terra, para alm das
+nuvens, que me encontrei, maravilhado, entre os astros. Elles rolavam
+serenamente, enormes e mudos, recobertos por espessas crostas de livros,
+d'onde surdia, aqui e alm, por alguma fenda, entre dois volumes mal
+juntos, um raiosinho de luz suffocada e anciada. E assim ascendi ao
+Paraiso. Decerto era o Paraiso--porque com meus olhos de mortal argila
+avistei o Ancio da Eternidade, aquelle que no tem Manh nem Tarde.
+N'uma claridade que d'elle irradiava mais clara que todas as claridades,
+entre fundas estantes d'ouro abarrotadas de codices, sentado em
+vetustissimos folios, com os flocos das infinitas barbas espalhados por
+sobre resmas de folhetos, brochuras, gazetas e catalogos--o Altissimo
+lia. A fronte super-divina que concebera o Mundo pousava sobre a mo
+super-forte que o Mundo crera--e o Creador lia e sorria. Ousei,
+arrepiado de sagrado horror, espreitar por cima do seu hombro
+coruscante. O livro era brochado, de tres francos... O Eterno lia
+Voltaire, n'uma edio barata, e sorria.
+
+Uma porta faiscou e rangeu, como se alguem penetrasse no Paraiso. Pensei
+que um Santo novo chegra da Terra. Era Jacintho, com o charuto em
+braza, um molho de cravos na lapella, sobraando tres livros amarellos
+que a Princeza de Carman lhe emprestra para lr!
+
+ * * * * *
+
+N'uma d'essas activas semanas, porm, a minha atteno subitamente se
+despegou d'este interessante Jacintho. Hospede do 202, conservava no 202
+a minha mala e a minha roupa: e, acostado bandeira do meu Principe,
+ainda occasionalmente comia do seu caldeiro sumptuoso. Mas a minha
+alma, a minha embrutecida alma, e o meu corpo, o meu embrutecido corpo,
+habitavam ento na rua do Helder, n.^o 16, quarto andar, porta
+esquerda.
+
+Descia eu uma tarde, n'uma leda paz de idas e sensaes, o Boulevard da
+Magdalena, quando avistei, deante da Estao dos Omnibus, rondando no
+asphalto, n'um passo lento e felino, uma creatura secca, muito morena,
+quasi tisnada, com dous fundos olhos taciturnos e tristes, e uma matta
+de cabellos amarellados, toda crespa e rebelde, sob o chapo velho de
+plumas negras. Parei, como colhido por um repuxo nas entranhas. A
+creatura passou--no seu magro rondar de gata negra, sobre um beiral de
+telhado, ao luar de Janeiro. Dous poos fundos no luzem mais negra e
+taciturnamente do que luziam os seus olhos taciturnos e negros. No
+recordo (Deus louvado!) como rocei o seu vestido de sda, lustroso e
+encebado nas pregas; nem como lhe rosnei uma spplica por entre os
+dentes que rangiam; nem como subimos ambos, morosamente e mais
+silenciosos que condemnnados, para um gabinete do Caf Durand, safado e
+mrno. Deante do espelho, a creatura, com a lentido d'um rito triste,
+tirou o chapo e a romeira salpicada de vidrilhos. A sda poida do
+corpete esgarava nos cotovellos agudos. E os seus cabellos eram
+immensos, d'uma dureza e espessura de juba brava, em dous tons
+amarellos, uns mais dourados, outros mais crestados, como a cdea de uma
+torta ao sahir quente do forno.
+
+Com um riso tremulo, agarrei os seus dedos compridos e frios:
+
+--E o nomesinho, hein?
+
+Ella sria, quasi grave:
+
+--Madame Colombe, 16, rua do Helder, quarto andar, porta esquerda.
+
+E eu (miseravel Z Fernandes!) tambem me senti muito srio, trespassado
+por uma emoo grave, como se nos envolvesse, n'aquella alcva de Caf,
+a magestade d'um Sacramento. porta, empurrada levemente, o creado
+avanou a face nedia. Ordenei uma lagosta, pato com pimentes, e
+Borgonha. E foi smente ao findarmos o pato que me ergui, amarfanhando
+convulsamente o guardanapo, e a tremer lhe beijei a bocca, todo a
+tremer, n'um beijo profundo e terrivel, em que deixei a alma, entre
+saliva e gsto de pimento! Depois, n'uma tipoia aberta, sob um bafo
+molle de leste e de trovoada, subimos a Avenida dos Campos-Elyseos. Em
+frente grade do 202 murmurei, para a deslumbrar com o meu luxo:--Mro
+alli, todo o anno!... E como ao mirar o Palacete, debruada, ella
+rora a matta fulva do pello crespo pela minha barba--berrei
+desesperadamente ao cocheiro; que galopasse para a rua do Helder, n.^o
+16, quarto andar, porta esquerda!
+
+Amei aquella creatura. Amei aquella creatura com Amor, com todos os
+Amores que esto no Amor, o Amor divino, o Amor humano, o Amor bestial,
+como Santo Antonino amava a Virgem, como Romeu amava Julietta, como um
+bode ama uma cabra. Era estupida, era triste. Eu deliciosamente apagava
+a minha alegria na cinza da sua tristeza; e com ineffavel gsto afundava
+a minha razo na densidade da sua estupidez. Durante sete furiosas
+semanas perdi a consciencia da minha personalidade de Z
+Fernandes--Fernandes de Noronha e Sande, de Guies! Ora se me affigurava
+ser um pedao de cra que se derretia, com horrenda delicia, n'um forno
+rubro e rugidor: ora me parecia ser uma faminta fogueira onde
+flammejava, estalava e se consumia um mlho de galhos seccos. D'esses
+dias de sublime sordidez s conservo a impresso d'uma alcva forrada de
+cretones sujos, d'uma bata de l cr de lilaz com sotaches negros, de
+vagas garrafas de cerveja no marmore d'um lavatorio, e d'um corpo
+tisnado que rangia e tinha cabellos no peito. E tambem me resta a
+sensao de incessantemente e com arrobado deleite me despojar,
+arremessar para um regao, que se cavava entre um ventre sumido e uns
+joelhos agudos, o meu relogio, os meus berloques, os meus anneis, os
+meus botes de punho de saphira, e as cento e noventa e sete libras em
+ouro que eu trouxera de Guies n'uma cinta de camura. Do solido,
+decoroso, bem fornecido Z Fernandes, s restava uma carcassa errando
+atravz d'um sonho, com as gambias molles e a baba a escorrer.
+
+Depois, uma tarde, trepando com a costumada gula a escada da rua do
+Helder, encontrei a porta fechada--e arrancado da hombreira aquelle
+carto de _Madame Colombe_ que eu lia sempre to devotamente e que era a
+sua taboleta... Tudo no meu ser tremeu como se o cho de Paris tremesse!
+Aquella era a porta do Mundo que ante mim se fechra! Para alm estavam
+as gentes, as cidades, a vida, Deus e Ella. E eu ficra ssinho,
+n'aquelle patamar do No-ser, fra da porta que se fechra, unico ser
+fra do Mundo! Rolei pelos degraus, com o fragor e a incoherencia d'uma
+pedra, at ao cubiculo da porteira e do seu homem que jogavam as cartas
+em ditosa pachorra, como se to pavoroso abalo no tivesse desmantelado
+o Universo!
+
+--Madame Colombe?
+
+A barbuda comadre recolheu lentamente a vaza:
+
+--Ja no mora... Abalou esta manh, para outra terra, com outra porca!
+
+Para outra terra! com outra porca!... Vasio, negramente vasio de todo o
+pensar, de todo o sentir, de todo o querer--boiei aos tombos, como um
+tonel vasio, na corrente aodada do Boulevard, at que encalhei n'um
+banco da Praa da Magdalena, onde tapei com as mos, a que no sentia a
+febre, os olhos a que no sentia o pranto! Tarde, muito tarde, quando j
+se cerravam com estrondo as cortinas de ferro das lojas, surdiu, d'entre
+todas estas confusas ruinas do meu ser, a eterna sobrevivente de todas
+as ruinas--a ideia de jantar. Penetrei no Durand, com os passos
+entorpecidos d'um resuscitado. E, n'uma recordao que m'escaldava a
+alma, encommendei a lagosta, o pato, o Borgonha! Mas ao alargar o
+collarinho, ensopado pelo ardor d'aquella tarde de Julho, entre a poeira
+da Magdalena, pensei com desconfrto:--Santissimo Nome de Deus! Que
+immensa sde me fez esta desgraa!... De manso acenei ao moo:--Antes
+do Borgonha, uma garrafa de Champagne, com muito glo, e um grande
+copo!... Creio que aquelle Champagne se engarrafra no Ceu onde corre
+perennemente a fresca fonte da Consolao, e que na garrafa bemdita que
+me coube penetrra, antes d'arrolhada, um jorro largo d'essa fonte
+inneffavel. Jesus! que transcendente regalo, o d'aquelle nobre copo,
+embaciado, nevado, a espumar, a picar, n'um brilho d'ouro! E depois,
+garrafa de Borgonha! E depois, garrafa de Cognac! E depois
+Hortel-Pimenta granitada em glo! E depois um desejo arquejante de
+espancar, com o meu rijo marmelleiro de Guies, a porca que fugira com
+outra porca! Dentro da tipoia fechada, que me transportou n'um galope ao
+202, no suffoquei este santo impulso, e com os meus punhos serranos
+atirei murros retumbantes contra as almofadas, onde _via_, furiosamente
+_via_ a matta immensa de pello amarello, em que a minha alma uma tarde
+se perdera, e tres mezes se debatera, e para sempre se emporcalhra!
+Quando o fiacre estacou no 202 ainda eu espancava to desesperadamente a
+besta ingrata, que, aos berros do cocheiro, dous moos accudiram e me
+sustiveram, recebendo pelos hombros, sobre as nucas servis, os restos
+canados da minha colera.
+
+Em cima, repelli a sollicitude do Grillo que tentava impr ao _si_ Z
+Fernandes, a Z Fernandes de Guies, a immensa indignidade d'um ch de
+macella! E estirado no leito de D. Galio, com as botas sobre o
+travesseiro, o chapo alto sobre os olhos, ri, n'um doloroso riso,
+d'este Mundo burlesco e sordido de Jacinthos e de Colombes! E de repente
+senti uma angustia horrenda. Era Ella! Era a Madame Colombe, que
+esfuzira da chamma da vela, e saltra sobre o meu leito, e desabotora
+o meu collete, e arrombra as minhas costellas, e toda ella, com as
+saias sujas, mergulhra dentro do meu peito, e abocra o meu corao, e
+chupava a sorvos lentos, como na rua do Helder, o sangue do meu corao!
+Ento, certo da Morte, ganindo pela tia Vicencia, pendi do leito para
+mergulhar na minha sepultura, que, atravs da nevoa final, eu distinguia
+sobre o tapete--redondinha, vidrada, de porcelana e com aza. E, sobre a
+minha sepultura, que to irreverentemente se assimilhava ao meu vaso,
+vomitei o Borgonha, vomitei o pato, vomitei a lagosta. Depois, n'um
+esforo ultra-humano, com um rugido, sentindo que, no smente toda a
+entranha, mas a alma se esvasiava toda, vomitei Madame Colombe! Recahi
+sobre o leito de D. Galio... Recarreguei o chapo sobre os olhos para
+no sentir os raios do sol. Era um sol novo, um sol espiritual, que se
+erguia sobre a minha vida. E adormeci, como uma creancinha docemente
+embalada n'um bero de verga pelo Anjo da Guarda.
+
+De manh, lavei a pelle n'um banho profundo, perfumado com todos os
+aromas do 202, desde folhas de limonete da India at essencia de jasmin
+de Frana: e lavei a alma com uma rica carta da Tia Vicencia, em letra
+farta, contando da nossa casa, e da linda promessa das vinhas, e da
+compota de ginja que nunca lhe sahra to fina, e da alegre fogueira do
+pateo em noite de S. Joo, e da menininha muito gorda e cabelluda que
+vira do ceu para a minha afilhada Joanninha. Depois, janella, bem
+limpo de alma e de corpo, n'uma quinzena de sedinha branca, tomando ch
+de Nap, respirando os rosaes do jardim revividos pela chuva da
+madrugada, considerei, em divertido pasmo, que, durante sete semanas, me
+emporcalhra, na rua do Helder, com um estardalho muito magro e muito
+tisnado! E conclui que padecera d'uma longa sezo, sezo da carne, sezo
+da imaginao, apanhada n'um charco de Paris--n'esses charcos que se
+formam atravs da Cidade com as aguas mortas, os limos, os lixos, os
+tortulhos e os vermes d'uma Civilisao que apodrece.
+
+ * * * * *
+
+Ento, curado, todo o meu espirito, como uma agulha para o Norte, se
+virou logo para o meu complicado Principe, que, nas derradeiras semanas
+da minha infeco sentimental, eu entrevira sempre descahido por cima de
+sophs, ou vagueando atravs da Bibliotheca entre os seus trinta mil
+volumes, com arrastados bocejos de inercia e de vacuidade. Eu, na minha
+pressa indigna, s lhe lanava um distrahido--que isso? Elle, no seu
+moroso desalento, s murmurava um scco-- calor!
+
+E, n'essa manh da minha libertao, ao penetrar antes d'almoo no seu
+quarto, no soph o encontrei enterrado, com o _Figaro_ aberto sobre a
+barriga, a Agenda cahida sobre o tapete, toda a face envolta em sombra,
+e os ps abandonados, n'uma soberana tristeza, ao pedicuro que lhe polia
+as unhas. Decerto o meu olhar reallumiado e repurificado, a brancura das
+minhas flanellas reproduzindo a quietao das minhas sensaes, e a
+segura harmonia em que todo o meu ser visivelmente se movia,
+impressionaram o meu Principe--a quem a melancolia nunca embotava a
+agudeza. Ergueu mollemente um brao molle:
+
+--Ento esse capricho?
+
+Derramei, sobre elle todo o fulgor d'um riso victorioso:
+
+--Morto! E, como o Snr. de Malbrouck, morto e bem enterrado. Jaz! Ou
+antes, rola! Com effeito deve andar agora rolando por dentro do cano do
+esgoto!
+
+Jacintho bocejou, murmurou:
+
+--Este Z Fernandes de Noronha e Sande!...
+
+E, no meu nome, no meu digno nome assim embrulhado n'um bocejo com
+desprendida ironia, se resumiu todo o interesse d'aquelle Principe pela
+suja tormenta em que se debatera o meu corao! Mas no me melindrou
+esse consummado egoismo... Claramente percebia eu que o meu Jacintho
+atravessava uma densa nevoa de tedio, to densa, e elle to afundado na
+sua molle densidade, que as glorias ou os tormentos d'um camarada no o
+commoviam, como muito remotas, intangiveis, separadas da sua
+sensibilidade por immensas camadas de algodo. Pobre Principe da
+Gran-Ventura, tombado para o soph de inercia, com os ps no regao do
+pedicuro! Em que lodoso fastio cahira, depois de renovar to bravamente
+todo o recheio mechanico e erudito do 202, na sua lucta contra a Fora e
+a Materia!--E esse fastio no o escondeu mais do seu velho Z Fernandes
+quando recomeou entre ns a communho de vida e de alma a que eu to
+torpemente me arrancra, uma tarde, deante da Estao dos Omnibus, no
+charco da Magdalena.
+
+No eram certamente confisses enunciadas. O elegante e reservado
+Jacintho no torcia os braos, gemendo--Oh vida maldita! Eram apenas
+expresses saciadas; um gesto de repellir com rancr a importunidade das
+coisas; por vezes uma immobilidade determinada, de protesto, no fundo
+d'um divan, d'onde se no desenterrava, como para um repouso que
+desejasse eterno; depois os bocejos, os cos bocejos com que sublinhava
+cada passo, continuado por fraqueza ou por dever inilludivel; e
+sobretudo aquelle murmurar que se tornra perenne e natural--Para
+que?--No vale a pena!--Que massada!...
+
+Uma noite no meu quarto, descalando as botas, consultei o Grillo:
+
+--Jacintho anda to mucho, to corcunda... Que ser, Grillo?
+
+O venerando preto declarou com uma certeza immensa:
+
+--S. Exc.^a soffre de fartura.
+
+Era fartura! O meu Principe sentia abafadamente a fartura de Paris:--e
+na Cidade, na symbolica Cidade, fra de cuja vida culta e forte (como
+elle outr'ora gritava, illuminado) o homem do seculo XIX nunca poderia
+saborear plenamente a delicia de viver, elle no encontrava agora
+frma de vida, espiritual ou social, que o interessasse, lhe valesse o
+esfro d'uma corrida curta n'uma tipoia facil. Pobre Jacintho! Um
+jornal velho, setenta vezes relido desde a Chronica at aos Annuncios,
+com a tinta delida, as dobras rodas, no enfastiaria mais o Solitario,
+que s possuisse na sua Solido esse alimento intellectual, do que o
+Parisianismo enfastiava o meu doce camarada! Se eu n'esse vero
+capciosamente o arrastava a um Caf-Concerto, ou ao festivo Pavilho
+d'Armenonville, o meu bom Jacintho, collado pesadamente cadeira com um
+maravilhoso ramo de orchideas na casaca, as finas mos abatidas sobre o
+casto da bengala, conservava toda a noite uma gravidade to estafada,
+que eu, compadecido, me erguia, o libertava, gozando a sua pressa em
+abalar, a sua fuga d'ave solta... Raramente (e ento com vehemente
+arranque como quem salta um fosso) descia a um dos seus Clubs, ao fundo
+dos Campos-Elyseos. No se occupara mais das suas Sociedades e
+Companhias, nem dos _Telephones de Constantinopla_, nem das _Religies
+Esotericas_, nem do _Bazar Espiritualista_, cujas cartas fechadas se
+amontoavam sobre a mesa d'ebano, d'onde o Grillo as varria tristemente
+como o lixo d'uma vida finda. Tambem lentamente se despegava de todas as
+suas convivencias. As paginas da Agenda cr de rosa murcha andavam
+desafogadas e brancas. E se ainda cedia a um passeio de Mail-coach, ou a
+um convite para algum Castello amigo dos arredores de Paris, era to
+arrastadamente, com um esforo to saturado ao enfiar o paletot leve,
+que me lembrava sempre um homem, depois d'um gordo jantar de provincia,
+a estalar, que, por pollidez ou em obediencia a um dogma, devesse ainda
+comer uma lampra de ovos!
+
+Jazer, jazer em casa, na segurana das portas bem cerradas e bem
+defendidas contra toda a intruso do mundo, seria uma doura para o meu
+Principe se o seu proprio 202, com todo aquelle tremendo recheio de
+Civilisao, no lhe dsse uma sensao dolorosa de abafamento, de
+atulhamento! Julho escaldava: e os brocados, as alcatifas, tantos moveis
+rolios e ffos, todos os seus metaes e todos os seus livros, to
+espessamente o opprimiam, que escancarava sem cessar as janellas para
+prolongar o espao, a claridade, a frescura. Mas era ento a poeira,
+suja e acre, rolada em bafos mornos, que o enfurecia:
+
+--Oh, este p da Cidade!
+
+--Mas, oh Jacintho, por que no vamos para Fontainebleau, ou para
+Montmorency, ou...
+
+--P'ra o campo? O que! P'ra o campo?!
+
+E na sua face enrugada, atravs d'este berro, lampejava sempre tanta
+indignao, que eu curvava os hombros, humilde, no arrependimento de ter
+affrontosamente ultrajado o Principe que tanto amava. Desventurado
+Principe! Com o seu dourado cigarro d'Yaka a fumegar, errava ento pelas
+salas, lenta e murchamente, como quem vaga em terra alheia sem affeies
+e sem occupaes. Esses desaffeioados e desoccupados passos
+monotonamente o traziam ao seu centro, ao gabinete verde, Bibliotheca
+d'ebano, onde accumulara Civilisao nas maximas propores para gozar
+nas maximas propores a delicia de viver. Espalhava em trno um olhar
+farto. Nenhuma curiosidade ou interesse lhe sollicitavam as mos,
+enterradas nas algibeiras das pantalonas de sda, n'uma inercia de
+derrota. Annulado, bocejava com descoroada molleza. E nada mais
+instructivo e doloroso do que este supremo homem do seculo XIX, no meio
+de todos os apparelhos reforadores dos seus orgos, e de todos os fios
+que disciplinavam ao seu servio as Foras Universaes, e dos seus trinta
+mil volumes repletos do saber dos seculos--estacando, com as mos
+derrotadas no fundo das algibeiras, e exprimindo, na face e na indeciso
+molle d'um bocejo, o embarao de viver!
+
+
+
+
+VI
+
+
+Todas as tardes, cultivando uma d'essas intimidades que entre tudo o que
+cana jmais canam, Jacintho, s quatro horas, com regularidade devota,
+visitava Madame d'Oriol:--por que essa flr de Parisianismo permanecera
+em Paris, mesmo depois do Grand-Prix, a desbotar na calma e no cisco da
+Cidade. N'uma d'essas tardes, porm, o Telephone, anciosamente repicado,
+avisou Jacintho de que a sua dce amiga jantava em Enghien com os
+Trves. (Esses senhores gozavam o seu vero beira do lago, n'uma casa
+toda branca e vestida de rosinhas brancas que pertencia a Ephrain).
+
+Era um domingo silencioso, ennevoado e macio, convidando s
+voluptuosidades da melancolia. E eu (no interesse da minha alma) suggeri
+a Jacintho que subissemos Basilica do _Sacr-Coeur_, em construco
+nos altos de Montmartre.
+
+-- uma secca, Z Fernandes...
+
+--Com mil demonios! Eu nunca vi a Basilica...
+
+--Bem, bem! Vamos Basilica, homem fatal de Noronha e Sande!
+
+E por fim logo que comeamos a penetrar, para alm de S. Vicente de
+Paula, em bairros estreitos e ingremes, d'uma quietao de provincia,
+com muros velhos fechando quintalejos rusticos, mulheres despenteadas
+cozendo soleira das portas, carriolas desatreladas descanando diante
+das tascas, gallinhas soltas picando o lixo, cueiros molhados seccando
+em canas--o meu fastidioso camarada sorriu quella liberdade e singeleza
+das cousas.
+
+A vittoria parou em frente larga rua de escadarias que trepa, cortando
+viellasinhas campestres, at esplanada, onde, envolta em andaimes, se
+ergue a Basilica immensa. Em cada patamar barracas d'arraial devoto,
+forradas de panninho vermelho, transbordavam de Imagens, Bentinhos,
+Crucifixos, Coraes de Jesus bordados a retroz, claros molhos de
+Rosarios. Pelos cantos, velhas agachadas resmungavam a Av-Maria. Dois
+padres desciam, tomando risonhamente uma pitada. Um sino lento tilintava
+na doura cinzenta da tarde. E Jacintho murmurou, com agrado:
+
+-- curioso!
+
+Mas a Basilica em cima no nos interessou, abafada em tapumes e
+andaimes, toda branca e scca, de pedra muito nova, ainda sem alma. E
+Jacintho, por um impulso bem Jacinthico, caminhou gulosamente para a
+borda do terrao, a contemplar Paris. Sob o ceu cinzento, na planicie
+cinzenta, a Cidade jazia, toda cinzenta, como uma vasta e grossa camada
+de calia e telha. E, na sua immobilidade e na sua mudez, algum rolo de
+fumo, mais tenue e ralo que o fumear d'um escombro mal apagado, era todo
+o vestigio visivel da sua vida magnifica.
+
+Ento chasqueei risonhamente o meu Principe. Ahi estava pois a Cidade,
+augusta creao da Humanidade! Eil-a ahi, bello Jacintho! Sobre a crosta
+cinzenta da Terra--uma camada de calia, apenas mais cinzenta! No
+emtanto ainda momentos antes a deixaramos prodigiosamente viva, cheia
+d'um povo forte, com todos os seus poderosos orgos funccionando,
+abarrotada de riqueza, resplandecente de sapiencia, na triumphal
+plenitude do seu orgulho, como Rainha do Mundo coroada de Graa. E agora
+eu e o bello Jacintho trepavamos a uma collina, espreitavamos,
+escutavamos--e de toda a estridente e radiante Civilisao da Cidade no
+percebiamos nem um rumor nem um lampejo! E o 202, o soberbo 202, com os
+seus arames, os seus apparelhos, a pompa da sua Mechanica, os seus
+trinta mil livros? Sumido, esvado na confuso de telha e cinza! Para
+este esvaecimento pois da obra humana, mal ella se comtempla de cem
+metros de altura, arqueja o obreiro humano em to angustioso esforo?
+Hein, Jacintho?... Onde esto os teus Armazens servidos por tres mil
+caixeiros? E os Bancos em que retine o ouro universal? E as Bibliothecas
+atulhadas com o saber dos seculos? Tudo se fundiu n'uma nodoa parda que
+suja a Terra. Aos olhos piscos de um Z Fernandes, logo que elle suba,
+fumando o seu cigarro, a uma arredada collina--a sublime edificao dos
+Tempos no mais que um silencioso monturo da espessura e da cr do p
+final. O que ser ento aos olhos de Deus!
+
+E ante estes clamores, lanados com affavel malicia para espicaar o meu
+Principe, elle murmurou, pensativo:
+
+--Sim, talvez tudo uma illuso... E a Cidade a maior illuso!
+
+To facilmente victorioso redobrei de facundia. Certamente, meu
+Principe, uma Illuso! E a mais amarga, por que o Homem pensa ter na
+Cidade a base de toda a sua grandeza e s n'ella tem a fonte de toda a
+sua miseria. V, Jacintho! Na Cidade perdeu elle a fora e belleza
+harmoniosa do corpo, e se tornou esse ser resequido e escanifrado ou
+obeso e afogado em unto, de ossos molles como trapos, de nervos tremulos
+como arames, com cangalhas, com chins, com dentaduras de chumbo, sem
+sangue, sem febra, sem vio, torto, corcunda--esse ser em que Deus,
+espantado, mal pde reconhecer o seu esbelto e rijo e nobre Ado! Na
+Cidade findou a sua liberdade moral: cada manh ella lhe impe uma
+necessidade, e cada necessidade o arremessa para uma dependencia: pobre
+e subalterno, a sua vida um constante sollicitar, adular, vergar,
+rastejar, aturar; rico e superior como um Jacintho, a Sociedade logo o
+enreda em tradies, preceitos, etiquetas, ceremonias, praxes, ritos,
+servios mais disciplinares que os d'um carcere ou d'um quartel... A sua
+tranquillidade (bem to alto que Deus com elle recompensa os Santos)
+onde est, meu Jacintho? Sumida para sempre, n'essa batalha desesperada
+pelo po, ou pela fama, ou pelo poder, ou pelo gzo, ou pela fugidia
+rodella d'ouro! Alegria como a haver na Cidade para esses milhes de
+seres que tumultuam na arquejante occupao de _desejar_--e que, nunca
+fartando o desejo, incessantemente padecem de desilluso, desesperana
+ou derrota? Os sentimentos mais genuinamente humanos logo na Cidade se
+deshumanisam! V, meu Jacintho! So como luzes que o aspero vento do
+viver social no deixa arder com serenidade e limpidez; e aqui abala e
+faz tremer; e alm brutamente apaga; e adiante obriga a flammejar com
+desnaturada violencia. As amizades nunca passam d'allianas que o
+interesse, na hora inquieta da defeza ou na hora sofrega do assalto, ata
+apressadamente com um cordel apressado, e que estalam ao menor embate da
+rivalidade ou do orgulho. E o Amor, na Cidade, meu gentil Jacintho?
+Considera esses vastos armazens com espelhos, onde a nobre carne d'Eva
+se vende, tarifada ao arratel, como a de vacca! Contempla esse velho
+Deus do Hymeneu, que circula trazendo em vez do ondeante facho da Paixo
+a apertada carteira do Dote! Espreita essa turba que foge dos largos
+caminhos assoalhados em que os Faunos amam as Nymphas na boa lei
+natural, e busca tristemente os recantos lobregos de Sodoma ou de
+Lesbos!... Mas o que a Cidade mais deteriora no homem a Intelligencia,
+por que ou lh'a arregimenta dentro da banalidade ou lh'a empurra para a
+extravagancia. N'esta densa e pairante camada d'Idas e Formulas que
+constitue a atmosphera mental das Cidades, o homem que a respira, n'ella
+envolto, s pensa todos os pensamentos j pensados, s exprime todas as
+expresses j exprimidas:--ou ento, para se destacar na pardacente e
+chata Rotina e trepar ao fragil andaime da gloriola, inventa n'um
+gemente esforo, inchando o craneo, uma novidade disforme que espante e
+que detenha a multido como um mostrengo n'uma Feira. Todos,
+intelectualmente, so carneiros, trilhando o mesmo trilho, balando o
+mesmo balido, com o focinho pendido para a poeira onde pisam, em fila,
+as pgadas pisadas;--e alguns so macacos, saltando no topo de mastros
+vistosos, com esgares e cabriolas. Assim, meu Jacintho, na Cidade,
+n'esta creao to anti-natural onde o solo de pau e feltro e
+alcatro, e o carvo tapa o ceu, e a gente vive acamada nos predios como
+o panninho nas lojas, e a claridade vem pelos canos, e as mentiras se
+murmuram atravs d'arames--o homem apparece como uma creatura
+anti-humana, sem belleza, sem fora, sem liberdade, sem riso, sem
+sentimento, e trazendo em si um espirito que passivo como um escravo
+ou impudente como um histrio... E aqui tem o bello Jacintho o que a
+bella Cidade!
+
+E ante estas encanecidas e veneraveis invectivas, retumbadas
+pontualmente por todos os Moralistas bucolicos, desde Hesiodo, atravez
+dos seculos--o meu Principe vergou a nuca docil, como se ellas
+brotassem, inesperadas e frescas, d'uma Revelao superior, n'aquelles
+cimos de Montmartre:
+
+--Sim, com effeito, a Cidade... talvez uma illuso perversa!
+
+Insisti logo, com abundancia, puchando os punhos, saboreando o meu facil
+philosophar. E se ao menos essa illuso da Cidade tornasse feliz a
+totalidade dos sres, que a manteem... Mas no! S uma estreita e
+reluzente casta goza na Cidade os gozos especiaes que ella cria. O
+resto, a escura, immensa plebe, s n'ella soffre, e com soffrimentos
+especiaes que s n'ella existem! D'este terrao, junto a esta rica
+Basilica consagrada ao Corao que amou o Pobre e por elle sangrou, bem
+avistamos ns o lobrego casario onde a plebe se curva sob esse antigo
+opprobrio de que nem Religies, nem Philosophias, nem Moraes, nem a sua
+propria fora brutal a podero jmais libertar! Ahi jaz, espalhada pela
+Cidade, como esterco vil que fecunda a Cidade. Os seculos rolam; e
+sempre immutaveis farrapos lhe cobrem o corpo, e sempre debaixo d'elles,
+atravs do longo dia, os homens labutaro e as mulheres choraro. E com
+este labor e este pranto dos pobres, meu Principe, se edifica a
+abundancia da Cidade! Eil-a agora coberta de moradas em que elles se no
+abrigam; armazenada de estofos, com que elles se no agasalham;
+abarrotada de alimentos, com que elles se no saciam! Para elles s a
+neve, quando a neve ce, e entorpece e sepulta as creancinhas aninhadas
+pelos bancos das praas ou sob os arcos das pontes de Paris... A neve
+ce, muda e branca na treva: as creancinhas gelam nos seus trapos: e a
+policia, em torno, ronda attenta para que no seja perturbado o tpido
+somno d'aquelles que amam a neve, para patinar nos lagos do Bosque de
+Bolonha com pellias de tres mil francos. Mas qu, meu Jacintho! a tua
+Civilisao reclama insaciavelmente regalos e pompas, que s obter,
+n'esta amarga desharmonia social, se o Capital dr ao Trabalho, por cada
+arquejante esfro, uma migalha ratinhada. Irremediavel , pois, que
+incessantemente a plebe sirva, a plebe pne! A sua esfalfada miseria a
+condio do esplendor sereno da Cidade. Se nas suas tigellas fumegasse a
+justa rao de caldo--no poderia apparecer nas baixellas de prata a
+luxuosa poro de _foie-gras_ e tubaras que so o orgulho da
+Civilisao. Ha andrajos em trapeiras--para que as bellas Madamas
+d'Oriol, resplandecentes de sdas e rendas, subam, em doce ondulao, a
+escadaria da Opera. Ha mos regeladas que se estendem, e beios sumidos
+que agradecem o dom magnanimo d'um _sou_--para que os Ephrains tenham
+dez milhes no Banco de Frana, se aqueam chamma rica da lenha
+aromatica, e surtam de collares de saphiras as suas concubinas, netas
+dos Duques d'Athenas. E um povo chora de fome, e da fome dos seus
+pequeninos--para que os Jacinthos, em janeiro, debiquem, bocejando,
+sobre pratos de Saxe, morangos gelados em Champagne e avivados d'um fio
+d'ether!
+
+--E eu comi dos teus morangos, Jacintho! Miseraveis, tu e eu!
+
+Elle murmurou, desolado:
+
+-- horrivel, comemos d'esses morangos... E talvez por uma illuso!
+
+Pensativamente deixou a borda do terrao, como se a presena da Cidade,
+estendida na planicie, fosse escandalosa. E caminhamos devagar, sob a
+molleza cinzenta da tarde, philosophando--considerando que para esta
+iniquidade no havia cura humana, trazida pelo esforo humano. Ah, os
+Ephrains, os Trves, os vorazes e sombrios tubares do mar humano, s
+abandonaro ou affrouxaro a explorao das Plebes, se uma influencia
+celeste, por milagre novo, mais alto que os milagres velhos, lhes
+converter as almas! O burguez triumpha, muito forte, todo endurecido no
+peccado--e contra elle so impotentes os prantos dos Humanitarios, os
+raciocinios dos Logicos, as bombas dos Anarchistas. Para amollecer to
+duro granito s uma doura divina. Eis pois esperana da terra novamente
+posta n'um Messias!... Um decerto desceu outrora dos grandes Ceus; e,
+para mostrar bem que mandado trazia, penetrou mansamente no mundo pela
+porta d'um curral. Mas a sua passagem entre os homens foi to curta! Um
+meigo sermo n'uma montanha, ao fim d'uma tarde meiga; uma reprehenso
+moderada aos Phariseus que ento redigiam o _Boulevard_; algumas
+vergastadas nos Ephrains vendilhes; e logo, atravs da porta da morte,
+a fuga radiosa para o Paraiso! Esse adoravel filho de Deus teve
+demasiada pressa em recolher a casa de seu Pae! E os homens a quem elle
+incumbira a continuao da sua obra, envolvidos logo pelas influencias
+dos Ephrains, dos Trves, da gente do _Boulevard_, bem depressa
+esqueceram a lio da Montanha e do lago de Tiberiade--e eis que por seu
+turno revestem a purpura, e so Bispos, e so Papas, e se alliam
+oppresso, e reinam com ella, e edificam a durao do seu Reino sobre a
+miseria dos sem-po e dos sem-lar! Assim tem de ser recomeada a obra da
+Redempo. Jesus, ou Guatama, ou Christna, ou outro d'esses filhos que
+Deus por vezes escolhe no seio d'uma Virgem, nos quietos vergeis da
+Asia, dever novamente descer terra de servido. Vir elle, o
+desejado? Porventura j algum grave rei d'Oriente despertou, e olhou a
+estrella, e tomou a myrrha nas suas mos reaes, e montou pensativamente
+sobre o seu dromedario? J por esses arredores da dura Cidade, de noute,
+emquanto Caiphaz e Magdalena ceam lagosta no Paillard, andou um Anjo,
+attento, n'um vo lento, escolhendo um curral? J de longe, sem moo que
+os tanja, na gostosa pressa d'um divino encontro, vem trotando a vacca,
+trotando o burrinho?
+
+--Tu sabes, Jacintho?
+
+No, Jacintho no sabia--e queria accender o charuto. Forneci um
+phosphoro ao meu Principe. Ainda rondamos no terrao, espalhando pelo ar
+outras idas solidas que no ar se desfaziam. Depois penetravamos na
+Basilica--quando um Sachristo nedio, de barrete de velludo, cerrou
+fortemente a porta, e um Padre passou, enterrando na algibeira, com um
+canado gesto final e como para sempre, o seu velho Breviario.
+
+--Estou com uma sde, Jacintho... Foi esta tremenda Philosophia!
+
+Descemos a escadaria, armada em arraial devoto. O meu pensativo camarada
+comprou uma imagem da Basilica. E saltavamos para a vittoria, quando
+alguem gritou rijamente, n'uma surpreza:
+
+--Eh Jacintho!
+
+O meu Principe abriu os braos, tambem espantado:
+
+--Eh Mauricio!
+
+E, n'um alvoroo, atravessou a rua, para um caf, onde, sob o toldo de
+riscadinho, um robusto homem, de barba em bico, remexia o seu absintho,
+com o chapo de palha descahido na nuca, a quinzena solta sobre a camisa
+de sda, sem gravata, como se descanasse n'um banco, entre as sombras
+do seu jardim.
+
+E ambos, apertando as mos, se admiravam d'aquelle encontro, n'um
+domingo de vero, sobre as alturas de Montmartre.
+
+--Oh! eu estou aqui no meu bairro! exclamava alegremente Mauricio. Em
+familia, em chinellos... Ha tres mezes que subi para estes cimos da
+Verdade... Mas tu na Santa Colina, homem profano da planicie e das ruas
+d'Israel!
+
+O meu Principe mostrou o seu Z Fernandes:
+
+--Com este amigo, em peregrinao Basilica... O meu amigo Fernandes
+Lorena... Mauricio de Mayolle, velho camarada.
+
+Mr. de Mayolle (que, pela face larga e nariz nobremente grosso, lembrava
+Francisco de Valois, Rei de Frana) ergueu o seu chapeu de palha. E
+empurrava uma cadeira, insistia que nos accommodassemos para um absintho
+ou para um bock.
+
+--Toma um bock, Z Fernandes! lembrou Jacintho. Tu estavas a ganir com
+sde!
+
+Corri lentamente a lingua sobre os beios, mais scos que pergaminhos:
+
+--Estou a guardar esta sdesinha para logo, para o jantar, com um
+vinhosinho gelado!
+
+Mauricio saudou, com silenciosa admirao, esta minha avisada malicia. E
+immediatamente, para o meu Principe:
+
+--Ha tres annos que te no vejo, Jacintho... Como tem sido possivel,
+n'este Paris que uma aldeola e que tu atravancas?
+
+--A vida, Mauricio, a espalhada vida... Com effeito! Ha tres annos,
+desde a casa dos Lamotte-Orcel. Tu ainda visitas esse santuario?
+
+Mauricio atirou um gesto desdenhoso e largo, que sacudia um mundo:
+
+--Oh! Ha mais d'um anno que me separei d'essa bicharia heretica... Uma
+turba indisciplinada, meu Jacintho! Nenhuma fixidez, um dilletantismo
+estonteado, carencia completa e comica de toda a base experimental...
+Quando tu ias aos Lamotte-Orcel, e Parola do 37, e _Cerveja ideal_,
+o que reinava?...
+
+Jacintho catou lentamente as suas recordaes por entre os pllos do
+bigode:
+
+--Eu sei!... Reinava Wagner e a Mithologia Eddica, e o Raganarock, e as
+Nornas... Muito Pre-Raphaelismo tambem, e Montagna, e Fra-Angelico... Em
+moral, o Renanismo.
+
+Mauricio sacudia os hombros. Oh, tudo isso pertencia a um passado
+archaico, quasi lacustre! Quando Madame de Lamotte-Orcel remobilra a
+sala com velludos Morris, grossas alcachofras sobre tons d'aafro, j o
+Renanismo passra, to esquecido como o Cartesianismo...
+
+--Tu ainda s do tempo do culto do _Eu_?
+
+O meu Principe suspirou risonhamente:
+
+--Ainda o cultivei.
+
+--Pois bem! Logo depois foi o Hartmanismo, o Inconsciente. Depois o
+Nietzismo, o Feudalismo espiritual... Depois grassou o Tolstosmo, um
+furor immenso de renunciamento neo-cenobitico. Ainda me lembro d'um
+jantar em que appareceu um mostrengo d'um slavo, de guedelha sordida,
+que atirava olhos medonhos para o decote da pobre condessa d'Arche, e
+que grunhia com o dedo espetado:--Busquemos a luz, muito por baixo, no
+p da terra!--E sobremeza bebemos delicia da humildade e do
+trabalho servil, com aquelle Champagne Marceaux granitado que a Mathilde
+dava nos grandes dias em copos da frma do San-Gral! Depois veio
+Emersonismo... Mas a praga cruel foi Ibsenismo! Emfim, meu filho, uma
+Babel de Ethicas e Estheticas. Paris parecia demente. J havia uns
+desgarrados que tendiam para o Luciferismo. E amiguinhas nossas,
+coitadas, iam descambando para o Phallismo, uma moxinifada
+mystico-brejeira, prgada por aquelle pobre La Carte que depois se fez
+Monge Branco, e que anda no Deserto... Um horror! E uma tarde, de
+repente, toda esta massa se precipita com ancia para o Ruskinismo!
+
+Eu, agarrado bengala, bem fincada no cho, sentia como um vendaval que
+redemoinhava, me torcia o craneo! E at Jacintho balbuciou, esgazeado:
+
+--O Ruskinismo?
+
+--Sim, o velho Ruskin,... John Ruskin!
+
+O meu ditoso Principe comprehendeu:
+
+--Ah, Ruskin!... _As sete lampadas da Architectura_, _A Cora de
+Oliveira Brava_... o culto da Belleza.
+
+--Sim! O culto da Belleza, confirmou Mauricio. Mas a esse tempo eu,
+enojado, j descera de todas essas nuvens vs... Pisava um cho mais
+seguro, mais fertil.
+
+Deu um sorvo lento ao absintho, cerrando as palpebras. Jacintho
+esperava, com o seu fino nariz dilatado, como para respirar a Flr de
+Novidade que ia desabrochar:
+
+--E ento? ento?...
+
+Mas o outro murmurou, dispersamente, por entre reticencias em que se
+velava:
+
+--Vim para Montmartre... Tenho aqui um amigo, um homem de genio, que
+percorreu toda a India... Viveu com os Toddas, esteve nos mosteiros de
+Garma-Khian e de Dashi-Lumbo, e estudou com Gegen-Chutu no retiro santo
+de Urga... Gegen-Chutu foi a decima-sexta encarnao de Guatama, e era
+portanto um Boddi-sattva... Trabalhamos, procuramos... No so vises.
+Mas factos, experiencias bem antigas, que vem talvez desde os tempos de
+Christna...
+
+Atravs d'estes nomes, que exhalavam um perfume triste de vetustos
+ritos, arredra a cadeira. E de p, deixando cair sobre a mesa,
+distrahidamente, para pagar o absintho, moedas de prata e moedas de
+cobre, murmurava com os olhos descanados em Jacintho, mas perdidos
+n'outra viso:
+
+--Por fim tudo se reduz ao supremo desenvolvimento da Vontade dentro da
+suprema pureza da Vida. toda a sciencia e fora dos grandes mestres
+Hindus... Mas a pureza absoluta da vida, eis a lucta, eis o obstaculo!
+No basta mesmo o Deserto, nem o bosque do mais velho templo no alto
+Thibet... Ainda assim, meu Jacintho, j obtivemos resultados bem
+extranhos. Sabes as experiencias de Tyndall, com as chammas
+sensitivas... O pobre chimico, para demonstrar as vibraes do som,
+tocou quasi s portas da verdade isoterica. Mas qu! homem de sciencia,
+portanto homem d'estupidez, ficou quem, entre as suas placas e as suas
+retortas! Ns fmos alm. Verificmos as _ondulaes da Vontade_! Deante
+de ns, pela expanso da energia do meu companheiro, e em cadencia com o
+seu mandado, uma chamma, a tres metros, ondulou, rastejou, despediu
+linguas ardentes, lambeu uma alta parede, rugiu furiosa e negra,
+resplandeceu direita e silenciosa, e bruscamente abatida em cinza
+morreu!
+
+E o extranho homem, com o chapeu para a nuca, ficou immovel, de braos
+abertos e os olhares esgazeados, como no renovado assombro e no transe
+d'aquelle prodigio. Depois, recahindo no seu modo facil e sereno,
+accendendo de vagar um cigarro:
+
+--Uma d'estas manhs, Jacintho, appareo no 202, para almoar comtigo, e
+levo o meu amigo. Elle s come arrz, uma pouca de salada, e fructa. E
+conversamos... Tu tinhas um exemplar do _Sepher-Zerijah_ e outro do
+_Targum d'Onkelus_. Preciso folhear esses livros.
+
+Apertou a mo do meu Principe, saudou este assombrado Z Fernandes, e
+serenamente seguiu pela quieta rua, com o chapeu de palha para a nuca,
+as mos enterradas nas algibeiras, como um homem natural entre cousas
+naturaes.
+
+--Oh Jacintho! Quem este bruxo? Conta!... Quem elle, santissimo nome
+de Deus?
+
+Recostado na vittoria, ageitando o vinco das calas, o meu Principe
+contou, concisamente. Era um nobre e leal rapaz, muito rico, muito
+intelligente, da antiga casa soberana de Mayolle, descendente dos Duques
+de Septimania... E murmurou, atravs do costumado bocejo:
+
+--O desenvolvimento supremo da vontade!... Theosophia, Buddhismo
+isoterico... Aspiraes, decepes... J experimentei... Uma massada!
+
+Atravessamos, callados, o rumr de Paris, sob a molleza abafada do
+crepusculo de vero, para jantar no Bosque, no Pavilho d'Armenonville,
+onde os Tziganes, avistando Jacintho, tocaram o _Hymno da Carta_ com
+paixo, com langor, n'uma cadencia de _czarda_ dolorosa e aspera.
+
+E eu, desdobrando regaladamente o guardanapo:
+
+--Pois venha agora para a minha rica sde esse vinhosinho gelado!
+Grandemente o mereo, caramba, que superiormente philosophei!... E creio
+que estabeleci definitivamente no espirito do Snr. D. Jacintho o salutar
+horror da cidade!
+
+O meu Principe percorria, catando o bigode, a Lista-dos-Vinhos, em
+quanto o Copeiro, esperava com pensativa reverencia:
+
+--Mande gelar duas garrafas de champagne S.^t Marceaux... Mas antes, um
+Barsac velho, apenas refrescado... Agoa de Evian... No, de Bussang!
+Bem, d'Evian e de Bussang! E, para comear, um bock.
+
+Depois, bocejando, desabotoando lentamente a sobrecasaca cinzenta:
+
+--Pois estou com vontade de construir uma casa nos cimos de Montmartre,
+com um miradouro no alto, todo de vidro e ferro, para descanar de tarde
+e dominar a Cidade...
+
+
+
+
+VII
+
+
+Julho findra com uma chuva refrescante e consoladora:--e eu pensava em
+realisar finalmente a minha romagem s cidades da Europa, sempre
+retardada, atravs da primavera, pelas surprezas do Mundo e da Carne.
+Mas, de repente, Jacintho comeou a rogar e a reclamar que o seu Z
+Fernandes o acompanhasse, todas as tardes, a casa de Madame d'Oriol! E
+eu comprehendi que o meu Principe ( maneira do divino Achilles, que,
+sob a tenda, e junto da branca, insipida e docil Briseis, nunca
+dispensava Patoclo) desejava ter, no retiro do Amor, a presena, o
+confrto e o soccorro da Amizade. Pobre Jacintho! Logo pela manh
+combinava pelo telephone com Madame d'Oriol essa hora de quietao e
+doura. E assim encontravamos sempre a superfina Dama prevenida e
+solitaria n'aquella sala da rua de Lisbonne, onde Jacintho e eu mal
+cabiamos, suffocavamos na confuso, entre os cestos de flres, e os
+ouros rocalhados, e os monstros do Japo, e a galante fragilidade dos
+Saxes, e as pelles de feras estiradas aos ps de sophs adormecedores, e
+os biombos de Aubusson formando alcvas favoraveis e languidas...
+Aninhada n'uma cadeira de bamb lacada de branco, entre almofadas
+aromatisadas de verbena da India, com um romance pousado no regao, ella
+esperava o seu amigo, n'uma certa indolencia passiva e mansa que me
+lembrava sempre o Oriente e um Harem. Mas, pelas frescas sedinhas
+Pompadour, parecia tambem uma marquezinha de Versalhes canada do grande
+seculo; ou ento, com brocados sombrios e largos cintos cravejados, era
+como uma veneziana, preparada para um Doge. A minha intruso, na
+intimidade d'aquellas tardes, no a contrariava--antes lhe trazia um
+vassallo novo, com dous olhos novos para a contemplar. Eu era j o seu
+_cher Fernandez_!
+
+E apenas descerrava os labios avivados de vermelho, semelhantes a uma
+ferida fresca, e comeava a chalrar--logo nos envolvia o burburinho e a
+murmurao de Paris. Ella s sabia chalrar sobre a sua pessoa que era o
+resumo da sua Classe, e sobre a sua existencia que era o resumo do seu
+Paris:--e a sua existencia, desde casada, consistira em ornar com
+suprema sciencia o seu lindo corpo; entrar com perfeio n'uma sala e
+irradiar; remexer em estofos e conferenciar pensativamente com o grande
+costureiro; rolar pelo Bois pousada na sua vittoria como uma imagem de
+cra; decotar e branquear o collo; debicar uma perna de gallinhola em
+mezas de luxo; fender turbas ricas em bailes espessos; adormecer com a
+vaidade esfalfada; percorrer de manh, tomando chocolate, os Echos e
+as Festas do _Figaro_; e de vez em quando murmurar para o marido--Ah,
+s tu?... Alm d'isso, ao lusco-fusco, n'um soph, alguns certos
+suspiros, entre os braos d'alguem a quem era constante. Ao meu
+Principe, n'esse anno, pertencia o soph. E todos estes deveres de
+Cidade e de Casta os cumpria sorrindo. Tanto sorrira, desde casada, que
+j duas prgas lhe vincavam os cantos dos beios, indelevelmente. Mas
+nem na alma, nem na pelle, mostrava outras maculas de fadiga. A sua
+Agenda de Visitas continha mil e tresentos nomes, todos do Nobiliario.
+Atravs, porm, desta fulgurante sociabilidade arranjra no cerebro
+(onde de certo penetrra o p d'arroz que desde o collegio acamava na
+testa) algumas Idas Geraes. Em Politica era pelos Principes; e todos os
+outros horrores, a Republica, o Socialismo, a Democracia que se no
+lava, os sacudia risonhamente, com um bater de leque. Na Semana Santa
+juntava s rendas do chapeu a Cora amarga de espinhos--por serem esses,
+para a gente bem-nascida, dias de penitencia e dr. E, deante de todo o
+Livro ou de todo o Quadro, sentia a emoo e formulava finamente o
+juizo, que no seu Mundo, e n'essa Semana, fsse elegante formular e
+sentir. Tinha trinta annos. Nunca se embarara nos tormentos d'uma
+paixo. Marcava, com rigida regularidade, todas as suas despezas n'um
+Livro de Contas encadernado em pellucia verde-mar. A sua religio intma
+(e mais genuina do que a outra, que a levava todos os domingos missa
+de S. Philippe du Roule) era a Ordem. No inverno, logo que na amavel
+cidade comeavam a morrer de frio, debaixo das pontes, creancinhas sem
+abrigo--ella preparava com commovido cuidado os seus vestidos de
+patinagem. E preparava tambem os de Caridade--porque era boa, e
+concorria para Bazares, Concertos e Tombolas, quando fossem patrocinados
+pelas Duquezas do seu rancho. Depois, na primavera, muito
+methodicamente, regateando, vendia a uma adela os vestidos e as capas de
+inverno. Paris admirava n'ella uma suprema flr de Parisianismo.
+
+Pois respirando esta macia e fina flr passamos ns as tardes d'esse
+julho em quanto as outras flres pendiam e murchavam na calma e no p.
+Mas, na intimidade do seu perfume, Jacintho no parecia encontrar esse
+contentamento d'alma, que entre tudo que cana jmais cana. Era j com
+a paciente lentido com que se sobem todos os Calvarios, os mais bem
+tapetados, que elle subia a escadaria de Madame d'Oriol, to suave e
+orlada de to frescas palmeiras. Quando a appetitosa creatura, com
+dedicao, para o entreter, desdobrava a sua vivacidade como um pavo
+desdobra a cauda, o meu pobre Principe puxava os pllos do bigode
+murcho, na murcha postura de quem, por uma manh de Maio, em quanto os
+melros cantam nas sebes, assiste, n'uma egreja negra, a um responso
+funebre por um Principe. E no beijo que elle chuchurreava sobre a mo da
+sua dce amiga, para se despedir, havia sempre alacridade e allivio.
+
+Mas ao outro dia, ao comear da tarde, depois de errar atravs da
+Bibliotheca e do Gabinete, puxando sem curiosidade a tira do telegrapho,
+atirando algum recado molle pelo telephone, espalhando o olhar
+desalentado sobre o saber immenso dos trinta mil livros, remexendo a
+collina dos Jornaes e Revistas, terminava por me chamar, j com a
+preguia triste da faanha a que se impellia:
+
+--Vamos a casa de Madame d'Oriol, Z Fernandes? Eu tinha marcadas para
+hoje seis ou sete coisas, mas no posso, uma secca! Vamos a casa de
+Madame d'Oriol... Ao menos l, s vezes, ha um bocado de frescura e paz.
+
+E foi n'uma d'essas tardes, em que o meu Principe assim procurava
+desesperadamente um bocado de frescura e paz, que encontramos, ao meio
+da escadaria suave, entre as palmeiras, o marido de Madame d'Oriol. Eu
+j o conhecia--porque Jacintho m'o mostrra uma noite, no Grand Caf,
+ceiando com danarinas do _Moulin Rouge_. Era um moo gordalhufo,
+indolente, de uma brancura cra de toucinho, com uma calvice j sria e
+j lustrosa, constantemente acariciada pelos seus gordos dedos
+carregados de anneis. N'essa tarde, porm, vinha vermelho, todo
+emocionado, calando as luvas com colera. Estacou diante de Jacintho--e
+sem mesmo lhe apertar a mo, atirando um gesto para o patamar:
+
+--Visita l acima? Vai achar a Joanna em pessima disposio... Tivemos
+uma scena, e tremenda.
+
+Deu outro puxo desesperado luva cr de palha, j esgaada:
+
+--Estamos separados, cada um vive como lhe appetece, excellente! Mas
+em tudo ha medida e frma... Ella tem o meu nome, no posso consentir
+que em Paris, com conhecimento de todo o Paris, seja a amante do
+trintanario. Amantes na nossa roda, v! Um lacaio, no!... Se quer
+dormir com os creados que emigre para o fundo da provincia, para a sua
+casa de Corbelle. E l at com os animaes!... Foi o que eu lhe disse!
+Ficou como uma fera.
+
+Sacudiu ento a mo do Jacintho que era da sua roda--rebolou pela
+escadaria florida e nobre. O meu Principe, immovel nos degraus, de face
+pendida, cofiava lentamente os fios pendidos do bigode. Depois, olhando
+para mim, como um sr saturado de tedio e em quem nenhum tedio novo pde
+caber:
+
+--J agora subamos, sim?
+
+ * * * * *
+
+Parti ento, com muita alegria, para a minha appetecida romagem s
+Cidades da Europa.
+
+Ia viajar!... Viajei. Trinta e quatro vezes, pressa, bufando, com todo
+o sangue na face, desfiz e refiz a mala. Onze vezes passei o dia n'um
+wagon, envolto em poeirada e fumo, suffocado, a arquejar, a escorrer de
+suor, saltando em cada estao para sorver desesperadamente limonadas
+mornas que me escangalhavam a entranha. Quatorze vezes subi
+derreadamente, atraz de um creado, a escadaria desconhecida d'um Hotel;
+e espalhei o olhar incerto por um quarto desconhecido; e estranhei uma
+cama desconhecida, d'onde me erguia, estremunhado, para pedir em linguas
+desconhecidas um caf com leite que me sabia a fava, um banho de tina
+que me cheirava a ldo. Oito vezes travei bulhas abominaveis na rua com
+cocheiros que me espoliavam. Perdi uma chapelleira, quinze lenos, tres
+ceroulas, e duas botas, uma branca, outra envernizada, ambas do p
+direito. Em mais de trinta mezas-redondas esperei tristonhamente que me
+chegasse o _boeuf-a-la-mode_, j frio, com mlho coalhado--e que o
+copeiro me trouxesse a garrafa de Bordeus que eu provava e repellia com
+desditosa carantonha. Percorri, na fresca penumbra dos granitos e dos
+marmores, com p respeitoso e abafado, vinte e nove Cathedraes. Trilhei
+mollemente, com uma dr surda na nuca, em quatorze muzeus, cento e
+quarenta salas revestidas at aos tectos de Christos, heroes, santos,
+nymphas, princezas, batalhas, architecturas, verduras, nudezes, sombrias
+manchas de betume, tristezas das formas immoveis!... E o dia mais dce
+foi quando em Veneza, onde chovia desabaladamente, encontrei um velho
+inglez de penca flammejante que habitra o Porto, conhecra o Ricardo, o
+Jos Duarte, o Visconde do Bom Successo, e as Limas da Boa Vista...
+Gastei seis mil francos. Tinha viajado.
+
+Emfim, n'uma bemdita manh d'outubro, na primeira friagem e nevoa
+d'outomno, avistei com enternecido alvoroo as cortinas de seda ainda
+fechadas do meu 202! Affaguei o hombro do Porteiro. No patamar, onde
+encontrei o ar macio e tepido que deixra em Florena, apertei os ossos
+do Grillo excellente:
+
+--E Jacintho?
+
+O digno negro murmurou, d'entre os altos, reluzentes collarinhos:
+
+--S. Exc.^a circula... Pesadote, fartote. Entrou tarde do baile da
+Duqueza de Loches. Era o contracto de casamento de Mademoiselle de
+Loches... Ainda tomou antes de se deitar um ch gelado... E disse a
+coar a cabea: Eh! que massada! Eh! que massada!
+
+Depois do banho e do chocolate, s dez horas, consolado e quentinho
+dentro do roupo de velludo, rompi pelo quarto do meu Principe, de
+braos abertos e sedentos:
+
+--Oh Jacintho!
+
+--Oh viajante!...
+
+Quando nos estreitamos, fartamente, eu recuei para lhe contemplar a
+face--e n'ella a alma. Encolhido n'uma quinzena de panno cr de malva
+orlada de pelles de martha, com os pellos do bigode murchos, as suas
+duas rugas mais cavadas, uma molleza nos hombros largos, o meu amigo
+parecia j vergado sob o pezo e a oppresso e o terror do seu dia. Eu
+sorri, para que elle sorrisse:
+
+--Valente Jacintho... Ento como tens vivido?
+
+Elle respondeu, muito serenamente:
+
+--Como um morto.
+
+Forcei uma gargalhada leve, como se o seu mal fsse leve:
+
+--Aborrecidote, hein?
+
+O meu Principe lanou, n'um gesto to vencido, um _oh_ to cansado--que
+eu compadecido de novo o abracei, o estreitei, como para lhe communicar
+uma parte d'esta alegria solida e pura que recebi do meu Deus!
+
+ * * * * *
+
+Desde essa manh, Jacintho comeou a mostrar claramente,
+escancaradamente, ao seu Z Fernandes, o tdio de que a existencia o
+saturava. O seu cuidado realmente e o seu esfro consistiram ento em
+sondar e formular esse tdio--na esperana de o vencer logo que lhe
+conhecesse bem a origem e a potencia. E o meu pobre Jacintho reproduziu
+a comedia pouco divertida d'um Melancolico que perpetuamente raciocina a
+sua Melancolia! N'esse raciocino, elle partia sempre do facto
+irrecusavel e massio--que a sua vida especial de Jacintho continha
+todos os interesses e todas as facilidades, possiveis no seculo XIX,
+n'uma vida de homem que no um Genio, nem um Santo. Com effeito!
+Apezar do appetite embotado por doze annos de Champagnes e mlhos ricos
+elle conservava a sua rijeza de pinheiro bravo; na luz da sua
+intelligencia no apparecra nem tremor nem morro; a boa terra de
+Portugal, e algumas Companhias macissas, pontualmente lhe forneciam a
+sua doce centena de contos; sempre activas e sempre fieis o cercavam as
+sympathias d'uma Cidade inconstante e chasqueadora; o 202 estourava de
+confrtos; nenhuma amargura de corao o atormentava;--e todavia era um
+Triste. Porque?... E d'aqui saltava, com certeza fulgurante, concluso
+de que a sua tristeza, esse cinzento burel em que a sua alma andava
+amortalhada, no provinham da sua individualidade de Jacintho--mas da
+Vida, do lamentavel, do desastroso facto de Viver! E assim o saudavel,
+intellectual, riquissimo, bem-acolhido Jacintho tombra no Pessimismo.
+
+E um Pessimismo irritado! Porque (segundo affirmava) elle nascera para
+ser to naturalmente optimista como um pardal ou um gato. E, at aos
+doze annos, emquanto fra um bicho superiormente amimado, com a sua
+pelle sempre bem coberta, o seu prato sempre bem cheio, nunca sentira
+fadiga, ou melancolia, ou contrariedade, ou pena--e as lagrimas eram
+para elle to incomprehensiveis que lhe pareciam viciosas. S quando
+crescra, e da animalidade penetrra na humanidade, despontra n'elle
+esse fermento de tristeza, muito tempo indesenvolvido no tumulto das
+primeiras curiosidades, e que depois alastrra, o invadira todo, se lhe
+tornra consubstancial e como o sangue das suas veias. Soffrer portanto
+era inseparavel de Viver. Soffrimentos differentes nos destinos
+differentes da Vida. Na turba dos humanos a angustiada lucta pelo po,
+pelo tecto, pelo lume; n'uma casta, agitada por necessidades mais altas,
+ a amargura das desilluses, o mal da imaginao insatisfeita, o
+orgulho chocando contra obstaculo; n'elle, que tinha os bens todos e
+desejos nenhuns, era o tdio. Miseria do Corpo, tormento da Vontade,
+fastio da Intelligencia--eis a Vida! E agora aos trinta e tres annos a
+sua occupao era bocejar, correr com os dedos desalentados a face
+pendida para n'ella palpar e appetecer a caveira.
+
+Foi ento que o meu Principe comeou a ler apaixonadamente, desde o
+_Ecclesiastes_ at Schopenhauer, todos os lyricos e todos os theoricos
+do Pessimismo. N'estas leituras encontrava a reconfortante comprovao
+de que o seu mal no era mesquinhamente Jacinthico--mas grandiosamente
+resultante d'uma Lei Universal. J ha quatro mil annos, na remota
+Jerusalm, a Vida, mesmo nas suas delicias mais triumphaes, se resumia
+em Illuso. J o Rei incomparavel, de sapiencia divina, summo Vencedor,
+summo Edificador, se enfastiava, bocejava, entre os despojos das suas
+conquistas, e os marmores novos dos seus Templos, e as suas tres mil
+concubinas, e as Rainhas que subiam do fundo da Ethiopia para que elle
+as fecundasse e no seu ventre depozsse um Deus! No ha nada novo sob o
+sol, e a eterna repetio das coisas a eterna repetio dos males.
+Quanto mais se sabe mais se pena. E o justo como o perverso, nascidos do
+p, em p se tornam. Tudo tende ao p ephemero, em Jerusalm e em Paris!
+E elle, obscuro no 202, padecia por ser homem e por viver--como no seu
+throno d'ouro, entre os seus quatro lees d'ouro, o filho magnifico de
+David.
+
+No se separava ento do _Ecclesiastes_. E circulava por Paris trazendo
+dentro do coup Salomo, como irmo de dr, com quem repetia o grito
+desolado que a summa da verdade humana--_Vanitas Vanitatum_! Tudo
+Vaidade! Outras vezes, logo de manh o encontrava estendido no soph,
+n'um roupo de sda, absorvendo Schopenhauer--emquanto o pedicuro,
+ajoelhado sobre o tapete, lhe polia com respeito e pericia as unhas dos
+ps. Ao lado pousava a chavena de Saxe, cheia d'esse caf de Moka
+enviado por emires do Deserto, que no o contentava nunca, nem pela
+fora, nem pelo aroma. A espaos pousava o livro no peito, resvalava um
+olhar compassivo para o pedicuro, como a procurar que dr o
+torturaria--pois que a todo o viver corresponde um soffrer. Decerto o
+remexer assim, perpetuamente, em ps alheios... E quando o pedicuro se
+erguia, Jacintho abria para elle um sorriso de confraternidade--com um
+adeus, meu amigo que era um adeus, meu irmo!
+
+Esse foi o periodo esplendido e soberbamente divertido do seu tdio.
+Jacintho encontrra emfim na vida uma occupao grata--maldizer a Vida!
+E para que a podsse maldizer em todas as suas frmas, as mais ricas, as
+mais intellectuaes, as mais puras, sobrecarregou a sua vida propria de
+novo luxo, de interesses novos d'espirito, e at de fervores
+humanitarios, e at de curiosidades supernaturaes.
+
+O 202, n'esse inverno, refulgiu de magnificencia. Foi ento que elle
+iniciou em Paris, repetindo Heliogabalo, os Festins de Cr contados na
+Historia Augusta: e offereceu s suas amigas esse sublime jantar cr de
+rosa, em que tudo era roseo, as paredes, os moveis, as luzes, as louas,
+os crystaes, os gelados, os Champagnes, e at (por uma inveno da
+Alta-Cozinha) os peixes, e as carnes, e os legumes, que os escudeiros
+serviam, empoados de p rosado, com librs da cr da rosa, em quanto do
+tecto, d'um velario de seda rosada, cahiam petalas frescas de rosas... A
+Cidade, deslumbrada, clamou--Bravo, Jacintho! E o meu Principe, ao
+rematar a festa fulgurante, plantou deante de mim as mos nas ilhargas e
+gritou triumphalmente:--Hein? Que massada!...
+
+Depois foi o Humanitarismo: e fundou um Hospicio no campo, entre
+jardins, para velhinhos desamparados, outro para creanas debeis beira
+do Mediterraneo. Depois com o major Dorchas, e Mayolle, e o Hind de
+Mayolle penetrou no Theosophismo: e montou tremendas experiencias para
+verificar a mysteriosa _exteriorisao da motilidade_. Depois,
+desesperadamente, ligou o 202 com os fios telegraphicos do _Times_, para
+que no seu gabinete, como n'um corao, palpitasse toda a vida Social da
+Europa.
+
+E a cada um d'estes esforos da elegancia, do humanitarismo, da
+sociabilidade, e da intelligencia indagadora, voltava para mim, de
+braos alegres, com um grito victorioso:--Vs tu, Z Fernandes? Uma
+massada!--Arrebatava ento o seu _Ecclesiastes_, o seu Schopenhauer, e,
+estendido no soph, saboreava voluptuosamente a concordancia da Doutrina
+e da Experiencia. Possuia uma F--o Pessimismo: era um apostolo rico e
+esforado: e tudo tentava, com sumptuosidade, para provar a verdade da
+sua F! Muito gozou n'esse anno o meu desgraado Principe!
+
+No comeo do inverno, porm, notei com inquietao que Jacintho j no
+folheava o _Ecclesiastes_, desleixava Schopenhauer. Nem festas, nem
+Theosophismos, nem os seus Hospicios, nem os fios do _Times_, pareciam
+interessar agora o meu amigo, mesmo como demonstraes gloriosas da sua
+Crena. E a sua abominavel funco de novo se limitou a bocejar, a
+passar os dedos molles sobre a face pendida palpando a caveira.
+Incessantemente alludia morte como a uma libertao. Uma tarde mesmo,
+no melancolico crepusculo da Bibliotheca, antes de refulgirem as luzes,
+consideravelmente me aterrou, fallando n'um tom regelado de mortes
+rapidas, sem dr, pelo choque d'uma vasta pilha electrica ou pela
+violencia compassiva do acido cyanidrico. Diabo! O Pessimismo, que
+apparecera na Intelligencia do meu Principe como um conceito
+elegante--atacra bruscamente a Vontade!
+
+Todo o seu movimento ento foi o d'um boi inconsciente que marcha sob a
+canga e o aguilho. J no esperava da Vida contentamento--nem mesmo se
+lastimava que ella lhe trouxesse tdio ou pena. Tudo indifferente, Z
+Fernandes! E to indifferentemente sahiria sua janella para receber
+uma Cora Imperial offerecida por um Povo--como se estenderia n'uma
+poltrona rta para emmudecer e jazer. Sendo tudo inutil, e no
+conduzindo seno a maior desilluso, que podia importar a mais rutilante
+actividade ou a mais desgostada inercia? O seu gesto constante, que me
+irritava, era encolher os hombros. Perante duas ideias, dois caminhos,
+dois pratos, encolhia os hombros! Que importava?... E no minimo acto,
+raspar um phosphoro ou desdobrar um Jornal, punha uma morosidade to
+desconsolada que todo elle parecia ligado, desde os dedos at alma,
+pelas voltas apertadas d'uma corda que se no via e que o travava.
+
+ * * * * *
+
+Muito desagradavelmente me recordo do dia dos seus annos, a 10 de
+Janeiro. Cdo, de manh, recebra, com uma carta de Madame de Trves, um
+aafate de camelias, azaleas, orchideas e lyrios do valle. E foi este
+mimo que lhe recordou a data consideravel. Soprou sobre as petalas o
+fumo do cigarro e murmurou com um riso de lento escarneo:
+
+--Ento, ha trinta e quatro annos que eu ando n'esta massada?
+
+E como eu propunha que telephonassemos aos amigos para beberem no 202 o
+Champagne do Natalicio--elle recusou, com o nariz enojado. Oh! No!
+Que horrivel scca!... E bradou mesmo para o Grillo:
+
+--Eu hoje no estou em Paris para ninguem. Abalei para o campo, abalei
+para Marselha... Morri!
+
+E a sua ironia no cessou at ao almoo perante os bilhetes, os
+telegrammas, as cartas, que subiam, se arredondavam em collina sobre a
+meza d'ebano, como um preito da Cidade. Outras flres que vieram, em
+vistosos cestos, com vistosos laos, foram por elle comparadas s que se
+depe sobre uma tumba. E apenas se interessou um momento pelo presente
+de Ephraim, uma engenhosa meza, que se abaixava at ao tapete ou se
+alteava at ao tecto--para que, senhor Deus meu?
+
+Depois do almoo, como chovia sombriamente, no arredamos do 202, com os
+ps estendidos ao lume, em preguioso silencio. Eu terminra por
+adormecer beatificamente. Acordei aos passos aodados do Grillo...
+Jacintho, enterrado na poltrona, com umas tesouras, recortava um papel!
+E nunca eu me compadeci d'aquelle amigo, que canra a mocidade a
+accumular todas as noes formuladas desde Aristoteles e a juntar todos
+os inventos realisados desde Tharamenes, como n'essa tarde de festa, em
+que elle, cercado de Civilisao nas maximas propores para gozar nas
+maximas propores a delicia de viver, se encontrava reduzido, junto ao
+seu lar, a recortar papeis com uma tesoura!
+
+O Grillo trazia um presente do Gran-Duque--uma caixa de prata, forrada
+de cedro, e cheia d'um ch precioso, colhido, flr a flr, nas veigas de
+Kiang-Sou por mos puras de virgens, e conduzido atravs da Asia, em
+caravanas, com a venerao d'uma reliquia. Ento, para despertar o nosso
+torpr, lembrei que tomassemos o divino ch--occupao bem harmonica com
+a tarde triste, a chuva grossa alagando os vidros, e a clara chamma
+bailando no fogo. Jacintho accedeu--e um escudeiro acercou logo a meza
+de Ephraim para que ns lhe estreassemos os servios destros. Mas o meu
+Principe, depois de a altear, para meu espanto, at aos crystaes do
+lustre, no conseguiu, apezar de uma suada e desesperada batalha com as
+molas, que a meza regressasse a uma altura humana e cazeira. E o
+escudeiro de novo a levou, levantada como um andaime, chimerica,
+unicamente aproveitavel para o gigante Adamastor. Depois veio a caixa do
+ch entre chaleiras, lampadas, coadores, filtros, todo um fausto de
+alfaias de prata, que communicavam a essa occupao, to simples e dce
+em caza de minha tia, _fazer ch_, a magestade d'um rito. Prevenido pelo
+meu camarada da sublimidade d'aquelle ch de Kiang-Sou, ergui a chavena
+aos labios com reverencia. Era uma infuso descorada que sabia a malva e
+a formiga. Jacintho provou, cuspiu, blasphemou... No tomamos ch.
+
+Ao cabo d'outro pensativo silencio, murmurei, com os olhos perdidos no
+lume:
+
+--E as obras de Tormes? A egreja... J haver egreja nova?
+
+Jacintho retomra o papel e a thesoura:
+
+--No sei... No tornei a receber carta do Silverio... Nem imagino onde
+param os ossos... Que lugubre historia!
+
+Depois chegou a hora das luzes e do jantar. Eu encommendra pelo Grillo
+ao nosso magistral cozinheiro uma larga travessa d'arroz dce, com as
+iniciaes de Jacintho e a data ditosa em canella, moda amavel da nossa
+meiga terra. E o meu Principe meza, percorrendo a lamina de marfim
+onde no 202 se inscreviam os pratos a lapis vermelho, louvou com fervr
+a ideia patriarchal:
+
+--Arrz dce! Est escripto com dois _ss_, mas no tem dvida...
+Excellente lembrana! Ha que tempos no cmo arrz dce!... Desde a
+morte da av.
+
+Mas quando o arrz dce appareceu triumphalmente, que vexme! Era um
+prato monumental, de grande arte! O arrz, massio, moldado em frma de
+pyramide do Egypto, emergia d'uma calda de cereja, e desapparecia sob os
+fructos seccos que o revestiam at ao cimo, onde se equilibrava uma
+cora de Conde feita de chocolate e gomos de tangerina gelada! E as
+iniciaes, a data, to lindas e graves na canella ingenua, vinham
+traadas nas bordas da travessa com violetas pralinadas! Repellimos,
+n'um mudo horror, o prato acanalhado. E Jacintho, erguendo o copo de
+Champagne, murmurou como n'um funeral pago:
+
+--_Ad Manes_, aos nossos mortos!
+
+Recolhemos Bibliotheca, a tomar o caf no conchego e alegria do lume.
+Fra, o vento bramava como n'um rmo serrano: e as vidraas tremiam,
+alagadas, sob as bategas da chuva irada. Que dolorosa noite para os dez
+mil pobres que em Paris erram sem po e sem lar! Na minha aldeia, entre
+crro e valle, talvez assim rugisse a tormenta. Mas ahi cada pobre, sob
+o abrigo da sua telha v, com a sua panella atestada de couves, se
+agacha no seu manto ao calor da lareira. E para os que no tenham lenha
+ou couve, l est o Joo das Quintas, ou a tia Vicencia, ou o abbade,
+que conhecem todos os pobres pelos seus nomes, e com elles contam, como
+sendo dos seus, quando o carro vae ao matto e a fornada entra no frno.
+Ah Portugal pequenino, que ainda s dce aos pequeninos!
+
+Suspirei, Jacintho preguiava. E terminamos por remexer languidamente os
+jornaes que o mordomo trouxera, n'um monte facundo, sobre uma salva de
+prata--jornaes de Paris, jornaes de Londres, Semanarios, Magazines,
+Revistas, Illustraes... Jacintho desdobrava, arremessava: das Revistas
+espreitava o summario, logo farto; s Illustraes rasgava as folhas com
+o dedo indifferente, bocejando por cima das gravuras. Depois, mais
+estirado para o lume:
+
+-- uma scca... No ha que lr.
+
+E de repente, revoltado contra este fastio oppressor que o escravisava,
+saltou da poltrona com um arranque de quem despedaa algemas, e ficou
+erecto, dardejando em torno um olhar imperativo e duro, como se
+intimasse aquelle seu 202, to abarrotado de Civilisao, a que por um
+momento sequer fornecesse sua alma um interesse vivo, sua vida um
+fugitivo gsto! Mas o 202 permaneceu insensivel: nem uma luz, para o
+animar, avivou o seu brilho mudo: s as vidraas tremeram sob o embate
+mais rude de agua e vento.
+
+Ento o meu Principe, succumbido, arrastou os passos at ao seu
+gabinete, comeou a percorrer todos os apparelhos completadores e
+facilitadores da Vida--o seu Telegrapho, o seu Telephone, o seu
+Phonographo, o seu Radiometro, o seu Graphophono, o seu Microphono, a
+sua Machina d'Escrever, a sua Machina de Contar, a sua Imprensa
+Electrica, a outra Magnetica, todos os seus utensilios, todos os seus
+tubos, todos os seus fios... Assim um Supplicante percorre altares
+d'onde espera soccorro. E toda a sua sumptuosa Mechanica se conservou
+rigida, reluzindo frigidamente, sem que uma roda girasse, nem uma lamina
+vibrasse, para entreter o seu Senhor.
+
+S o relogio monumental, que marcava a hora de todas as capitaes e o
+curso de todos os planetas, se compadeceu, batendo a meia-noite,
+annunciando ao meu amigo que mais um Dia partira levando o seu
+pzo--diminuindo esse sombrio pzo da Vida, sob que elle gemia, vergado.
+O Principe da Gran-Ventura, ento, decidiu recolher para a cama--com um
+livro... E durante um momento, estacou no meio da Bibliotheca,
+considerando os seus setenta mil volumes estabelecidos com pompa e
+magestade como Doutores n'um Concilio--depois as pilhas tumultuarias dos
+livros novos que esperavam pelos cantos, sobre o tapete, o repouso e a
+consagrao das estantes d'ebano. Torcendo mollemente o bigode caminhou
+por fim para a regio dos Historiadores: espreitou seculos, farejou
+raas: pareceu attrahido pelo explendor do Imperio Byzantino: penetrou
+na Revoluo Franceza d'onde se arredou desencantado: e palpou com mo
+indeliberada toda a vasta Grecia desde a creao de Athenas at a
+aniquilao de Corintho. Mas bruscamente virou para a fila dos Poetas,
+que reluziam em marroquins claros, mostrando, sobre a lombada, em ouro,
+nos titulos fortes ou languidos, o interior das suas almas. No
+appeteceu nenhuma d'essas seis mil almas--e recuou, desconsolado, at
+aos Biologos... To massia e cerrada era a estante de Biologia que o
+meu pobre Jacintho estarreceu, como ante uma cidadella inaccessivel!
+Rolou a escada--e, fugindo, trepou, at s alturas da Astronomia:
+destacou astros, recollocou mundos: todo um Systema Solar desabou com
+fragor. Aturdido, desceu, comeou a procurar por sobre as rimas das
+obras novas, ainda brochadas, nas suas roupas leves de combate.
+Apanhava, folheava, arremessava: para desentulhar um volume, demolia uma
+torre de doutrinas: saltava por cima dos Problemas, pisava as Religies:
+e relanceando uma linha, esgravatando alm n'um indice, todos
+interrogava, de todos se desinteressava, rolando quasi de rastos, nas
+grossas vagas de tomos que rolavam, sem se poder deter, na ancia de
+encontrar um Livro! Parou ento no meio da immensa nave, de cocoras, sem
+coragem, contemplando aquelles muros todos forrados, aquelle cho todo
+alastrado, os seus setenta mil volumes--e, sem lhes provar a substancia,
+j absolutamente saciado, abarrotado, nauseado pela opresso da sua
+abundancia. Findou por voltar ao monto de jornaes amarrotados, ergueu
+melancholicamente um velho _Diario de Noticias_, e com elle debaixo do
+brao subiu ao seu quarto, para dormir, para esquecer.
+
+
+
+
+VIII
+
+
+Ao fim d'esse inverno escuro e pessimista, uma manh que eu preguiava
+na cama, sentindo atravs da vidraa cheia de sol ainda pallido um bafo
+de Primavera ainda timido--Jacintho assomou porta do meu quarto,
+revestido de flanellas leves, d'uma alvura de aucena. Parou lentamente
+ beira dos colxes, e, com gravidade, como se annunciasse o seu
+casamento ou a sua morte, deixou desabar sobre mim esta declarao
+formidavel:
+
+--Z Fernandes, vou partir para Tormes.
+
+O pulo com que me sentei abalou o rijo leito de pau preto do velho D.
+Galio:
+
+--Para Tormes? Oh Jacintho, quem assassinaste?...
+
+Deleitado com a minha emoo, o Principe da Gran Ventura tirou da
+algibeira uma carta, e encetou estas linhas, j decerto relidas,
+fundamente estudadas:
+
+--Ill.^{mo} e exc.^{mo} snr.--Tenho grande satisfao em communicar a
+v. exc.^a que por toda esta semana devem ficar promptas as obras da
+capella...
+
+-- do Silverio? exclamei.
+
+-- do Silverio. ...as obras da capella nova. Os venerandos restos dos
+excelsos avs de v. exc.^a, senhores de todo o meu respeito, podem pois
+ser em breve trasladados da egreja de S. Jos, onde tm estado
+depositados por bondade do nosso Abbade, que muito se recommenda a v.
+exc.^a... Submisso, aguardo as prestantes ordens de v. exc.^a a respeito
+d'esta magestosa e afflictiva ceremonia...
+
+Atirei os braos, comprehendendo:
+
+--Ah! bem! Queres ir assistir trasladao...
+
+Jacintho sumiu a carta no bolso.
+
+--Pois no te parece, Z Fernandes? No por causa dos outros avs, que
+so ossos vagos, e que eu no conheci. por causa do av Galio...
+Tambem no o conheci. Mas este 202 est cheio d'elle; tu ests deitado
+na cama d'elle; eu ainda uso o relogio d'elle. No posso abandonar ao
+Silverio e aos caseiros o cuidado de o installarem no seu jazigo novo.
+Ha aqui um escrupulo de decencia, de elegancia moral... Emfim, decidi.
+Apertei os punhos na cabea, e gritei--_vou a Tormes_! E vou!... E tu
+vens!
+
+Eu enfiara as chinellas, apertava os cordes do roupo:
+
+--Mas tu sabes, meu bom Jacintho, que a casa de Tormes est
+inhabitavel...
+
+Elle cravou em mim os olhos aterrados.
+
+--Medonha, hein?
+
+--Medonha, medonha, no... uma bella casa, de bella pedra. Mas os
+caseiros, que l vivem ha trinta annos, dormem em catres, comem o caldo
+ lareira, e usam as salas para seccar o milho. Creio que os unicos
+moveis de Tormes, se bem recordo, so um armario, e uma espinetta de
+charo, cxa, j sem teclas.
+
+O meu pobre Principe suspirou, com um gesto rendido em que se abandonava
+ao Destino:
+
+--Acabou!... _Alea jact est!_ E como s partimos para abril, ha tempo de
+pintar, d'assoalhar, d'envidraar... Mando d'aqui de Paris tapetes e
+camas... Um estofador de Lisboa vae depois forrar e disfarar algum
+buraco... Levamos livros, uma machina para fabricar gelo... E mesmo
+uma occasio de pr emfim n'uma das minhas casas de Portugal alguma
+decencia e ordem. Pois no achas? E ento essa! Uma casa que data de
+1410... Ainda existia o Imperio Byzantino!
+
+Eu espalhava, com o pincel, sobre a face, flocos lentos de sabo. O meu
+Principe accendeu muito pensativamente um cigarro; e no se arredou do
+toucador, considerando o meu preparo com uma atteno triste que me
+incommodava. Por fim, como se remoesse uma sentena minha, para lhe
+reter bem a moral e o succo:
+
+--Ento, definitivamente, Z Fernandes, entendes que um dever, um
+absoluto dever, ir eu a Tormes?
+
+Afastei do espelho a cara ensaboada para encarar com divertido espanto o
+meu Principe:
+
+--Oh Jacintho! foi em ti, s em ti que nasceu a ideia d'esse dever! E
+honra te seja, menino... No cedas a ninguem essa honra!
+
+Elle atirou o cigarro--e, com as mos enterradas nas algibeiras das
+pantalonas, vagou pelo quarto, topando nas cadeiras, embicando contra os
+postes torneados do velho leito de D. Galio, n'um balano vago, como
+barco j desamarrado do seu seguro ancoradouro, e sem rumo no mar
+incerto. Depois encalhou sobre a mesa onde eu conservava enfileirada,
+por gradaes de sentimentos, desde o dagarreotypo do pap at
+photographia do _Carocho_ perdigueiro, a galeria da minha Familia.
+
+E nunca o meu Principe (que eu contemplava esticando os suspensorios) me
+pareceu to corcovado, to minguado, como gasto por uma lima que desde
+muito o andasse fundamente limando. Assim viera findar, desfeita em
+Civilisao, n'aquelle super-requintado magricellas sem musculo e sem
+energia, a raa fortissima dos Jacinthos! Esses guedelhudos Jacinthes,
+que nas suas altas terras de Tormes, de volta de bater o moiro no Salado
+ou o castelhano em Valverde, nem mesmo despiam as fuscas armaduras para
+lavrar as suas chans e amarrar a vide ao olmo, edificando o Reino com a
+lana e com a enxada, ambas to rudes e rijas! E agora, alli estava
+aquelle ultimo Jacintho, um Jacinthiculo, com a macia pelle embebida em
+aromas, a curta alma enrodilhada em Philosophias, travado e suspirando
+baixinho na miuda indeciso de viver.
+
+--Oh Z Fernandes, quem esta lavradeirona to rechonchuda?
+
+Estendi o pescoo para a Photographia que elle erguera d'entre a minha
+galeria, no seu honroso caixilho de pellucia escarlate:
+
+--Mais respeito, Snr. D. Jacintho... Um pouco mais de respeito,
+cavalheiro!... minha prima Joanninha, de Sandofim, da Casa da Flr da
+Malva.
+
+--Flr da Malva, murmurou o meu Principe. a casa do Condestavel, de
+Nun'alvares.
+
+--Flr da Rosa, homem! A casa do Condestavel era na Flr da Rosa, no
+Alemtejo... Essa tua ignorancia trapalhona das coisas de Portugal!
+
+O meu Principe deixou escorregar mollemente a photographia da minha
+prima d'entre os dedos molles--que levou face, no seu gesto horrendo
+de palpar atravez da face a caveira. Depois, de repente, com um soberbo
+esforo, em que se endireitou e cresceu:
+
+--Bem! _Alea jacta est!_ Partamos pois para as serras!... E agora nem
+reflexo, nem descano!... obra! E a caminho!
+
+Atirou a mo ao fecho dourado da porta como se fosse o negro loquete que
+abre os Destinos--e no corredor gritou pelo Grillo, com uma larga e
+aodada voz que eu nunca lhe conhecera, e me lembrou a d'um Chefe
+ordenando, n'alvorada, que se levante o Acampamento, e que a Hoste
+marche, com pendes e bagagens...
+
+Logo n'essa manh (com uma actividade em que eu reconheci a pressa
+enjoada de quem bebe oleo-de-ricino), escreveu ao Silverio mandando
+caiar, assoalhar, envidraar o casaro. E depois do almoo appareceu na
+Bibliotheca, chamado violentamente pelo telephone, para combinar a
+remessa de mobilias e confortos, o director da _Companhia Universal de
+Transportes_.
+
+Era um homem que parecia o cartaz da sua Companhia, apertado n'um
+jaqueto de xadrezinho escuro, com polainas de jornada sobre botas
+brancas, uma sacola de marroquim a tiracolo, e na botoeira uma roseta
+multicor resumindo as suas condecoraes exoticas de Madagascar, de
+Nicaragua, da Persia, outras ainda, que provavam a universalidade dos
+seus servios. Apenas Jacintho mencionou Tormes, no Douro...--elle
+logo, atravez d'um sorriso superior, estendeu o brao, detendo outros
+esclarecimentos, na sua intimidade minuciosa com essas regies.
+
+--Tormes... Perfeitamente! Perfeitamente!
+
+Sobre o joelho, na carteira, escrevinhou uma fugidia nota--emquanto eu
+considerava, assombrado, a vastido do seu saber Chorographico, assim
+familiar com os recantos d'uma serra de Portugal e com todos os seus
+velhos solares. J elle atirra a carteira para o bolso... E ns, seus
+caros senhores, no tinhamos seno a encaixotar as roupas, as mobilias,
+as preciosidades! Elle mandaria as suas carroas buscar os caixotes, a
+que poria, em grossa letra, com grossa tinta, o endereo...
+
+--Tormes, perfeitamente! Linha Norte-Hespanha-Medina-Salamanca...
+Perfeitamente! Tormes... Muito pittoresco! E antigo, historico!
+Perfeitamente, perfeitamente!
+
+Desengonou a cabea n'uma venia profundissima--e sahiu da Bibliotheca,
+com passos que devoravam leguas, annunciavam a presteza dos seus
+Transportes.
+
+--V tu, murmurou Jacintho muito serio. Que promptido, que
+facilidade!... Em Portugal era uma tragedia. No ha seno Paris!
+
+Comeou ento no 202 o collossal encaixotamento de todos os confortos
+necessarios ao meu Principe para um mez de serra aspera--camas de penna,
+banheiras de nickel, lampadas Carcel, divans profundos, cortinas para
+vedar as gretas rudes, tapetes para amaciar os soalhos broncos. Os
+sotos, onde se arrecadavam os pesados trastes do av Galio, foram
+esvasiados--porque o casaro medieval de 1410 comportava os trems
+romanticos de 1830. De todos os armazens de Paris chegavam cada manh
+fardos, caixas, temerosos embrulhos que os emmaladores desfaziam,
+atulhando os corredores de montes de palha e de papel pardo, onde os
+nossos passos aodados se enrodilhavam. O cozinheiro, esbaforido,
+organisava a remessa de fornalhas, geleiras, bocaes de trufas, latas de
+conservas, bojudas garrafas de aguas mineraes. Jacintho, lembrando as
+trovoadas da serra, comprou um immenso pra-raios. Desde o amanhecer,
+nos pateos, no jardim, se martellava, se pregava, com vasto fragor, como
+na construco d'uma cidade. E o desfilar das bagagens, atravs do
+porto, lembrava uma pagina de Herodoto contando a marcha dos Persas.
+
+Das janellas, Jacintho com o brao estendido, saboreava aquella
+actividade e aquella disciplina:
+
+--V tu, Z Fernandes, que facilidade!... Sahimos do 202, chegamos
+serra, encontramos o 202. No ha seno Paris!
+
+Recomera a amar a Cidade, o meu Principe, emquanto preparava o seu
+Exodo. Depois de ter, toda a manh, apressado os encaixotadores,
+descortinado confortos novos para o abandonado solar, telephonado gordas
+listas de encommendas a cada loja de Paris--era com delicia que se
+vestia, se perfumava, se floria, se enterrava na vittoria ou saltava
+para a almofada do phaeton, e corria ao Bosque, e saudava a barba
+talmudica do Ephraim, e os bands furiosamente negros da Verghane, e o
+Psychologo de fiacre, e a condessa de Trves na sua nova caleche de
+oito-molas fornecida pelas operaes conjunctas da Bolsa e da alcva.
+Depois arrebanhava amigos para jantares de surpreza no Voisin ou no
+Bignon, onde desdobrava o guardanapo com a impaciencia d'uma fome
+alegre, vigiando fervorosamente que os Bordeus estivessem bem aquecidos
+e os Champagnes bem granitados. E no theatro das _Nouveauts_, no
+_Palais Royal_, nos _Buffos_, ria, batendo na cxa, com encanecidas
+facecias d'encanecidas faras, antiquissimos tregeitos d'antiquissimos
+actores, com que j rira na sua infancia, antes da guerra, sob o segundo
+Napoleo!
+
+De novo, em duas semanas, se abarrotaram as paginas da sua Agenda. A
+magnificencia do seu trage, como imperador Frederico II de Suabia,
+deslumbrou, no baile mascarado da Princesa de Cravon-Rogan (onde tambem
+fui, de moo de forcado.) E na _Associao para o Desenvolvimento das
+Religies Esotericas_ discursou e batalhou bravamente pela construco
+d'um Templo Budhista em Montmartre!
+
+Com espanto meu recomeou tambem a conversar, como nos tempos de Escla,
+da famosa Civilisao nas suas maximas propores. Mandou encaixotar o
+seu velho telescopio para o usar em Tormes. Receei mesmo que no seu
+espirito germinasse a ida de crear, no cimo da serra, uma Cidade com
+todos os seus orgos. Pelo menos no consentia o meu Jacintho que essas
+semanas da silvestre Tormes interrompessem a illimitada accumulao das
+noes--porque uma manh rompeu pelo meu quarto, desolado, gritando que
+entre tantos confortos e frmas de Civilisao esqueceramos os livros!
+Assim era--e que vexame para a nossa Intellectualidade! Mas que livros
+escolher entre os facundos milhares sob que vergava o 202? O meu
+Principe decidiu logo dedicar os seus dias serranos ao estudo da
+Historia Natural--e ns mesmos, immediatamente, deitamos para o fundo
+d'um vasto caixote novo, como lastro, os vinte e cinco tomos de Plinio.
+Despejamos depois para dentro, s braadas, Geologia, Mineralogia,
+Botanica... Espalhamos por cima uma camada aeria de Astronomia. E, para
+fixar bem no caixote estas Sciencias oscillantes, entalamos em redor
+cunhas de Metaphysica.
+
+Mas quando a derradeira caixa, pregada e cintada de ferro, sahiu do
+porto do 202 na derradeira carroa da _Companhia dos Transportes_, toda
+esta animao de Jacintho se abateu como a efervescencia n'um copo de
+Champagne. Era em meados j tepidos de Maro. E de novo os seus
+desagradaveis bocejos atroaram o 202, e todos os sophs rangeram sob o
+peso do corpo que elle lhe atirava para cima, mortalmente vencido pela
+fartura e pelo tedio, n'um desejo de repouso eterno, bem envolto de
+solido e silencio. Desesperei. O que! Aturaria eu ainda aquelle
+Principe palpando amargamente a caveira, e, quando o crepusculo
+entristecia a Bibliotheca, alludindo, n'um tom rouco, doura das
+mortes rapidas pela violencia misericordiosa do acido cyanhidrico? Ah
+no, caramba! E uma tarde em que o encontrei estirado sobre um divan, de
+braos em cruz, como se fosse a sua estatua de marmore sobre o seu
+jazigo de granito, positivamente o abanei com furor, berrando:
+
+--Accorda, homem! Vamos para Tormes! O casaro deve estar prompto, a
+reluzir, a abarrotar de cousas! Os ossos de teus avs pedem repouso, em
+cova sua!... A caminho, a enterrar esses mortos, e a vivermos ns, os
+vivos!... Irra! So cinco de Abril!... o bom tempo da serra!
+
+O meu Principe resurgiu lentamente da inercia de pedra:
+
+--O Silverio no me escreveu, nunca me escreveu... Mas, com effeito,
+deve estar tudo preparado... J l temos certamente creados, o
+cosinheiro de Lisboa... Eu s levo o Grillo, e o Anatole que envernisa
+bem o calado, e tem geito como pedicuro... Hoje Domingo.
+
+Atirou os ps para o tapete, com heroismo:
+
+--Bem, partimos no Sabbado!... Avisa tu o Silverio!
+
+Comeou ento o laborioso e pensativo estudo dos Horarios--e o dedo
+magro de Jacintho, por sobre o mappa, avanando e recuando entre Paris e
+Tormes. Para escolher o salo que deviamos habitar durante a temida
+jornada, duas vezes percorremos o deposito da Estao d'Orleans,
+atolados em lama, atraz do Chefe do Trafico que entontecia. O meu
+Principe recusava este salo por causa da cr tristonha dos estofos;
+depois recusava aquelle por causa da mesquinhez afflictiva do
+Water-Closet! Uma das suas inquietaes era o banho, nas manhs que
+passariamos rolando. Suggeri uma banheira de borracha. Jacintho,
+indeciso, suspirava... Mas nada o aterrou como o trasbordo em Medina del
+Campo, de noite, nas trevas da Velha Castella. Debalde a Companhia do
+Norte de Hespanha e a de Salamanca, por cartas, por telegrammas,
+socegaram o meu camarada, affirmando que, quando elle chegasse no
+comboio de Irun dentro do seu salo, j outro salo ligado ao comboio de
+Portugal esperaria, bem aquecido, bem allumiado, com uma ceia que lhe
+offertava um dos Directores, D. Esteban Castillo, ruidoso e rubicundo
+conviva do 202! Jacintho corra os dedos anciosos pela face:--E os
+saccos, as pelles, os livros, quem os transportaria do salo de Irun
+para o salo de Salamanca? Eu berrava, desesperado, que os carregadores
+de Medina eram os mais rapidos, os mais destros de toda a Europa! Elle
+murmurava:--Pois sim, mas em Hespanha, de noite!... A noite, longe da
+Cidade, sem telephone, sem luz electrica, sem postos de policia, parecia
+ao meu Principe povoada de surprezas e assaltos. S acalmou depois de
+verificar no Observatorio Astronomico, sob a garantia do sabio professor
+Bertrand, que a noite da nossa jornada era de lua cheia!
+
+Emfim, na sexta-feira, findou a tremenda organisao d'aquella viagem
+historica! O sabbado predestinado amanheceu com generoso sol, de
+affagadora doura. E eu acabava de guardar na mala, embrulhadas em papel
+pardo, as photographias das creaturinhas suaves que, n'esses vinte e
+sete mezes de Paris, me tinham chamado _mon petit chou! mon rat
+cheri!_--quando Jacintho rompeu pelo quarto, com um soberbo ramo de
+orchideas na sobrecasaca, pallido e todo nervoso.
+
+--Vamos ao Bosque, por despedida?
+
+Fomos-- grande despedida! E que encanto! At nas almofadas e molas da
+vittoria senti logo uma elasticidade mais emballadora. Depois, pela
+Avenida do Bosque, quasi me pezava no ficar sempiternamente rolando, ao
+trote rimado das eguas perfeitas, no rebrilho rico de metaes e vernizes,
+sobre aquelle macadam mais alisado que marmore, entre to bem regadas
+flres e relvas de to tentadora frescura, cruzando uma Humanidade fina,
+de elegancia bem acabada, que almora o seu chocolate em porcellanas de
+Sevres ou de Minton, sahira d'entre sdas e tapetes de tres mil francos,
+e respirava a belleza de Abril com vagar, requinte e pensamentos
+ligeiros! O Bosque resplandecia n'uma harmonia de verde, azul e ouro.
+Nenhuma cova ou terra solta desalisava as polidas alleas que a Arte
+traou e enroscou na espessura--nenhum esgalho desgrenhado desmanchava
+as ondulaes macias da folhagem que o Estado escva e lava. O piar das
+aves apenas se elevava para espalhar uma graa leve de vida alada;--e
+mais natural parecia, entre o arvoredo sociavel, o ranger das sellas
+novas, onde pousavam, com balano esbelto, as amazonas espartilhadas
+pelo grande Redfern. Em frente ao Pavilho de Armenonville cruzamos
+Madame de Trves, que nos envolveu ambos na caricia do seu sorriso, mais
+avivado quella hora pelo vermelho ainda humido. Logo atraz a barba
+talmudica de Ephraim negrejou, fresca tambem da brilhantine da manh, no
+alto d'um phaeton tilintante. Outros amigos de Jacintho circulavam nas
+Acacias--e as mos que lhe acenavam, lentas e affaveis, calavam luvas
+frescas cr de palha, cr de perola, cr de lilaz. Todelle relampejou
+rente de ns sobre uma grande bycicleta. Dornan, alastrado n'uma cadeira
+de ferro, sob um espinheiro em flr, mamava o seu immenso charuto, como
+perdido na busca de rimas sensuaes e nedias. Adeante foi o Psychologo,
+que nos no avistou, conversando com um requebro melancolico para dentro
+d'um coup que rescendia a alcova, e a que um cocheiro obeso imprimia
+dignidade e decencia. E rolavamos ainda, quando o Duque de Marizac, a
+cavallo, ergueu a bengala, estacou a nossa vittoria para perguntar a
+Jacintho se apparecia noite nos quadros vivos dos Verghanes. O meu
+Principe rosnou um--no, parto para o sul...--que mal lhe passou
+d'entre os bigodes murchos... E Marizac lamentou--porque era uma festa
+estupenda. Quadros vivos da Historia Sagrada e da Historia Romana!...
+Madame Verghane, de Magdalena, de braos ns, peitos ns, pernas nas,
+limpando com os cabellos os ps do Christo!--O Christo, um latago
+soberbo, parente dos Trves, empregado no Ministerio da Guerra, gemendo,
+derreado, sob uma cruz de papelo! Havia tambem Lucrecia na cama, e
+Tarquinio ao lado, de punhal, a puxar os lenoes! E depois ceia, em
+mezas soltas, todos nos seus trajes historicos. Elle j estava
+aparceirado com Madame de Malbe, que era Agrippina! Quadro portentoso
+esse--Agrippina morta, quando Nero a vem contemplar e lhe estuda as
+frmas, admirando umas, desdenhando outras como imperfeitas. Mas, por
+polidez, ficra combinado que Nero admiraria sem reserva todas as frmas
+de Madame de Malbe... Emfim collossal, e estupendamente instructivo!
+
+Acenamos um longo adeus quelle alegre Marizac. E recolhemos sem que
+Jacintho emergisse do silencio enrugado em que se abysmra, com os
+braos rigidamente cruzados, como remoendo pensamentos decisivos e
+fortes. Depois, em frente ao Arco de Triumpho, moveu a cabea, murmurou:
+
+-- muito grave, deixar a Europa!
+
+ * * * * *
+
+Emfim, partimos! Sob a doura do crepusculo que se enublra deixamos o
+202. O Grillo e o Anatole seguiam n'um fiacre atulhado de livros, de
+estojos, de paletots, de impermeaveis, de travesseiras, de agoas
+mineraes, de saccos de couro, de rolos de mantas: e mais atraz um
+omnibus rangia sob a carga de vinte e tres malas. Na Estao, Jacintho
+ainda comprou todos os Jornaes, todas as Illustraes, Horarios, mais
+livros, e um saca-rolhas de frma complicada e hostil. Guiados pelo
+Chefe do Trafico, pelo Secretario da Companhia, occupamos copiosamente o
+nosso salo. Eu puz o meu bonet de sda, calcei as minhas chinellas. Um
+silvo varou a noite. Paris lampejou, fugiu n'um derradeiro claro de
+janellas... Para o sorver, Jacintho ainda se arremessou portinhola.
+Mas rolavamos j na treva da Provincia. O meu Principe ento recahiu nas
+almofadas:
+
+--Que aventura, Z Fernandes!
+
+At Chartres, em silencio, folheamos as Illustraes. Em Orleans, o
+guarda veio arranjar respeitosamente as nossas camas. Derreado com
+aquelles quatorze mezes de Civilisao adormeci--e s acordei em Bordeus
+quando Grillo, zeloso, nos trouxe o nosso chocolate. Fra, uma chuva
+miudinha pingava mollemente d'um espesso ceu de algodo sujo. Jacintho
+no se deitra, desconfiado da aspereza e da humidade dos lenoes. E,
+mettido n'um roupo de flanella branco, com a face arripiada e
+estremunhada, ensopando um bolo no chocolate, rosnava sombriamente:
+
+--Este horror!... E agora com chuva!
+
+Em Biarritz, ambos observamos com uma certeza indolente:
+
+-- Biarritz.
+
+Depois Jacintho, que espreitava pela janella embaciada, reconheceu o
+lento caminhar pernalto, o nariz bicudo e triste, do Historiador Danjon.
+Era elle, o facundo homem, vestido de xadrezinho, ao lado d'uma dama
+rolia que levava pela trella uma cadellinha felpuda. Jacintho baixou a
+vidraa violentamente, berrou pelo Historiador, na ancia de communicar
+ainda, atravs d'elle, com a Cidade, com o 202!... Mas o comboio
+mergulhra na chuva e nevoa.
+
+Sobre a ponte do Bidassoa, antevendo o termo da vida facil, os abrolhos
+da Incivilisao, Jacintho suspirou com desalento:
+
+--Agora adeus, comea a Hespanha!...
+
+Indignado, eu, que j saboreava o generoso ar da terra bemdita, saltei
+para diante do meu Principe, e n'um saracoteio de tremendo salero,
+castanholando os dedos, entoei uma petenera condigna:
+
+A la puerta de mi casa
+Ay Soledad, Soleda... ... ... .
+
+Elle estendeu os braos, supplicante:
+
+--Z Fernandes, tem piedade do enfermo e do triste!
+
+--_Irun_! _Irun_!...
+
+N'essa Irun almoamos com succulencia--por que sobre ns velava, como
+Deusa omnipresente, a Companhia do Norte. Depois el jefe d'Aduana, el
+jefe d'Estacion, preciosamente nos installaram n'outro salo, novo, com
+setins cr d'azeitona, mas to pequeno que uma rica poro dos nossos
+confortos em mantas, livros, saccos e impermeaveis, passou para o
+compartimento do _Sleeping_ onde se repoltreavam o Grillo e o Anatole,
+ambos de bonets escocezes, e fumando gordos charutos.--_Buen viaje_!
+_Gracias_! _Servidores_!--E entramos silvando nos Pyreneos.
+
+Sob a influencia da chuva embaciadora, d'aquellas serras sempre eguaes,
+que se desenrolavam, arripiadas, diluidas na nevoa, resvalei a uma
+somnolencia dce;--e, quando descerrava as palpebras, encontrava
+Jacintho a um canto, esquecido do livro fechado nos joelhos, sobre que
+cruzra os magros dedos, considerando valles e montes com a melancolia
+de quem penetra nas terras do seu desterro! Um momento veio em que,
+arremessando o livro, enterrando mais o chapo molle, se ergueu com
+tanta deciso, que receei detivesse o comboio para saltar estrada,
+correr atravez das Vascongadas e da Navarra, para traz, para o 202!
+Sacudi o meu torpr, exclamei:--oh menino!... No! O pobre amigo ia
+apenas continuar o seu tedio para outro canto, enterrado n'outra
+almofada, com outro livro fechado. E maneira que a escurido da tarde
+crescia, e com ella a borrasca de vento e agoa, uma inquietao mais
+aterrada se apoderava do meu Principe, assim desgarrado da Civilisao,
+arrastado para a Natureza que j o cercava de brutalidade agreste. No
+cessou ento de me interrogar sobre Tormes:
+
+--As noites so horriveis, hein, Z Fernandes? Tudo negro, enorme
+solido... E medico?... Ha medico?
+
+Subitamente o comboio estacou. Mais grossa e ruidosa a chuva fustigou as
+vidraas. Era um descampado, todo em treva, onde rolava e lufava um
+grande vento solto. A machina apitava, com angustia. Uma lanterna
+lampejou, correndo. Jacintho batia o p:-- medonho! medonho!...
+Entreabri a portinhola. Da claridade incerta das vidraas surdiam
+cabeas esticadas, assustadas.--_Que hay_? _Que hay_?--A uma rajada,
+que me alagou, recuei:--e esperamos durante lentos, calados minutos,
+esfregando desesperadamente os vidros embaciados para sondar a
+escurido. De repente o comboio recomeou a rolar, muito sereno.
+
+Em breve appareceram as luzinhas mortas d'uma estao abarracada. Um
+conductor, com o casaco de oleado todo a escorrer, trepou ao salo:--e
+por elle soubemos, emquanto carimbava apressadamente os bilhetes, que o
+trem, muito atrazado, talvez no alcanasse em Medina o comboio de
+Salamanca!
+
+--Mas ento?...
+
+O casaco de oleado escorregra pela portinhola, fundido na noite,
+deixando um cheiro de humidade e azeite. E ns encetamos um novo
+tormento... Se o trem de Salamanca tivesse abalado? O salo, tomado at
+Medina, desengatava em Medina:--e eis os nossos preciosos corpos, com as
+nossas preciosas almas, despejados em Medina, para cima da lama, entre
+vinte e trez malas, n'uma rude confuso hespanhola, sob a tormenta de
+ventania e d'agua!
+
+--Oh, Z Fernandes, uma noite em Medina!
+
+Ao meu Principe apparecia como desventura suprema essa noite em Medina,
+n'uma _fonda_ sordida, fedendo a alho, com gordas filas de percevejos
+atravez dos lenoes d'estopa encardida!... No cessei ento de fitar,
+n'um desassocego, os ponteiros do relogio:--emquanto Jacintho, pela
+vidraa escancarada, todo fustigado da chuva clamorosa, furava a
+negrura, na esperana de avistar as luzes de Medina e um comboio
+paciente fumegando... Depois recahia no divan, limpava os bigodes e os
+olhos, maldizia a Hespanha. O trem arquejava, rompendo o vasto vento da
+planura desolada. E a cada apito era um alvoroo. Medina?... No! Algum
+sumido apeadeiro, onde o trem se atardava, esfalfado, resfolgando,
+emquanto dormentes figuras encarapuadas, embrulhadas em mantas,
+rondavam sob o telheiro do barraco, que as lanternas baas tornavam
+mais soturno. Jacintho esmurrava o joelho:--Mas por que pra este
+infame comboio? No ha trafico, no ha gente! Oh esta Hespanha!... A
+sineta badalava, moribunda. De novo fendiamos a noite e a borrasca.
+
+Resignadamente comecei a percorrer um _Jornal do Commercio_, antigo,
+trazido de Paris. Jacintho esmagava o espesso tapete do salo com
+passadas rancorosas, rosnando como uma fera. E ainda assim se escoou, s
+gottas, uma hora cheia de eternidade.--Um silvo, outro silvo!... Luzes
+mais fortes, longe, palpitaram na neblina. As rodas trilharam, com rijos
+solavancos, os encontros de carris. Emfim, Medina!... Um muro sujo de
+barraco alvejou--e bruscamente, portinhola aberta com violencia,
+apparece um cavalheiro barbudo, de capa hespanhola, gritando pelo snr.
+D. Jacintho!... Depressa! depressa! que parte o comboio de Salamanca!
+
+--Que no hay un momento, caballeros! Que no hay un momento!
+
+Agarro estonteadamente o meu paletot, o _Jornal do Commercio_. Saltamos
+com ancia:--e, pela plataforma, por sobre os trilhos, atravs de
+charcos, tropeando em fardos, empurrados pelo vento, pelo homem da capa
+ hespanhola, enfiamos outra portinhola, que se fechou com um estalo
+tremendo... Ambos arquejavamos. Era um salo forrado de um panno verde
+que comia a luz escassa. E eu estendia o brao, para receber dos
+carregadores aodados as nossas malas, os nossos livros, as nossas
+mantas--quando, em silencio, sem um apito, o trem despegou e rolou.
+Ambos nos atiramos s vidraas, em brados furiosos:
+
+--Pare! As nossas malas, as nossas mantas!... P'ra aqui!... Oh Grillo!
+Oh Grillo!
+
+Uma immensa rajada levou os nossos brados. Era de novo o descampado
+tenebroso, sob a chuva despenhada. Jacintho ergueu os punhos, n'um furor
+que o engasgava:
+
+--Oh! Que servio! Oh que canalhas!... S em Hespanha!... E agora? As
+malas perdidas!... Nem uma camisa, nem uma escova!
+
+Calmei o meu desgraado amigo:
+
+--Escuta! eu entrevi dous carregadores arrebanhando as nossas cousas...
+Decerto o Grillo fiscalisou. Mas na pressa, naturalmente, atirou com
+tudo para o seu compartimento... Foi um erro no trazer o Grillo
+comnosco, no salo... At podiamos jogar a manilha!
+
+De resto a sollicitude da Companhia, Deusa omnipresente, velava sobre o
+nosso conforto--pois que porta do lavatorio branquejava o cesto da
+nossa ceia, mostrando na tampa um bilhete de D. Esteban com estas doces
+palavras a lapis--_ D. Jacintho y su egregio amigo, que les d gusto_!
+Farejei um aroma de perdiz. E alguma tranquillidade nos penetrou no
+corao sentindo tambem as nossas malas sob a tutella da Deusa
+omnipresente.
+
+--Tens fome Jacintho?
+
+--No. Tenho horror, furor, rancor!... E tenho somno.
+
+Com effeito! depois de to desencontradas emoes s appeteciamos as
+camas que esperavam, macias e abertas. Quando cahi sobre a travesseira,
+sem gravata, em ceroulas, j o meu Principe, que no se despira, apenas
+embrulhra os ps no _meu_ paletot, nosso unico agasalho, resonava com
+magestade.
+
+Depois, muito tarde e muito longe, percebi junto do meu catre, na
+claridadezinha da manh, coada pelas cortinas verdes, uma fardeta, um
+bonet, que murmuravam baixinho com immensa doura:
+
+--V. exc.^as no tem nada a declarar?... No ha malinhas de mo?...
+
+Era a minha terra! Murmurei baixinho com immensa ternura:
+
+--No temos aqui nada... Pergunte v. exc.^a pelo Grillo... Ahi atraz,
+n'um compartimento... Elle tem as chaves, tem tudo... o Grillo.
+
+A fardeta desappareceu, sem rumor, como sombra benefica. E eu readormeci
+com o pensamento em Guies, onde a tia Vicencia, atarefada, de leno
+branco cruzado no peito, de certo j preparava o leito.
+
+Acordei envolto n'um largo e doce silencio. Era uma Estao muito
+socegada, muito varrida, com rosinhas brancas trepando pelas paredes--e
+outras rosas em moitas, n'um jardim, onde um tanquesinho abafado de
+limos dormia sob duas mimosas em flr que rescendiam. Um moo pallido,
+de paletot cr de mel, vergando a bengalinha contra o cho, contemplava
+pensativamente o comboio. Agachada rente grade da horta, uma velha,
+diante da sua cesta de ovos, contava moedas de cobre no regao. Sobre o
+telhado seccavam aboboras. Por cima rebrilhava o profundo, rico e macio
+azul de que meus olhos andavam agoados.
+
+Sacudi violentamente Jacintho:
+
+--Acorda, homem, que ests na tua terra!
+
+Elle desembrulhou os ps do meu paletot, cofiou o bigode, e veio sem
+pressa, vidraa que eu abrira, conhecer a sua terra.
+
+--Ento Portugal, hein?... Cheira bem.
+
+--Est claro que cheira bem, animal!
+
+A sineta tilintou languidamente. E o comboio deslisou, com descano,
+como se passeasse para seu regalo sobre as duas fitas d'ao, assobiando
+e gozando a belleza da terra e do ceu.
+
+O meu Principe alargava os braos, desolado:
+
+--E nem uma camisa, nem uma escova, nem uma gotta d'agoa de Colonia!...
+Entro em Portugal, immundo!
+
+--Na Regoa ha uma demora, temos tempo de chamar o Grillo, rehaver os
+nossos confortos... Olha para o rio!
+
+Rolavamos na vertente d'uma serra, sobre penhascos que desabavam at
+largos socalcos cultivados de vinhedo. Em baixo, n'uma esplanada,
+branquejava uma casa nobre, de opulento repouso, com a capellinha muito
+caiada entre um laranjal maduro. Pelo rio, onde a agoa turva e tarda nem
+se quebrava contra as rochas, descia, com a vela cheia, um barco lento
+carregado de pipas. Para alm, outros socalcos, d'um verde pallido de
+rezeda, com oliveiras apoucadas pela amplido dos montes, subiam at
+outras penedias que se embebiam, todas brancas e assoalhadas, na fina
+abundancia do azul. Jacintho acariciava os pellos corredios do bigode:
+
+--O Douro, hein?... interessante, tem grandeza. Mas agora que eu
+estou com uma fome, Z Fernandes!
+
+Tambem eu! Destapamos o cesto de D. Esteban d'onde surdiu um bodo
+grandioso, de presunto, anho, perdizes, outras viandas frias que o ouro
+de duas nobres garrafas d'Amontillado, alm de duas garrafas de Rioja,
+aqueciam com um calor de sol Andaluz. Durante o presunto, Jacintho
+lamentou contrictamente o seu erro. Ter deixado Tormes, um solar
+historico, assim abandonado e vasio! Que delicia, por aquella manh to
+lustrosa e tepida, subir serra, encontrar a sua casa bem apetrechada,
+bem civilisada... Para o animar, lembrei que com as obras do Silverio,
+tantos caixotes de Civilisao remettidos de Paris, Tormes estaria
+confortavel mesmo para Epicuro. Oh! mas Jacintho entendia um palacio
+perfeito, um 202 no deserto!... E, assim discorrendo, atacamos as
+perdizes. Eu desarrolhava uma garrafa de Amontillado--quando o comboio,
+muito sorrateiramente, penetrou n'uma Estao. Era a Regoa. E o meu
+Principe pousou logo a faca para chamar o Grillo, reclamar as malas que
+traziam o aceio dos nossos corpos.
+
+--Espera, Jacintho! Temos muito tempo, O comboio pra aqui uma hora...
+Come com tranquillidade. No escangalhemos este almocinho com arrumaes
+de maletas... O Grillo no tarda a apparecer.
+
+E corri mesmo a cortina, porque de fra um padre muito alto, com uma
+ponta de cigarro collada ao beio, parra a espreitar indiscretamente o
+nosso festim. Mas quando acabamos as perdizes, e Jacintho confiadamente
+desembrulhava um queijo manchego, sem que Grillo ou Anatole
+comparecessem, eu, inquieto, corri portinhola para apressar esses
+servos tardios... E n'esse instante o comboio, largando, deslisou com o
+mesmo silencio sorrateiro. Para o meu Principe foi um desgosto:
+
+--Ahi ficamos outra vez sem um pente, sem uma escova... E eu que queria
+mudar de camisa! Por culpa tua, Z-Fernandes!
+
+-- espantoso!... Demora sempre uma eternidade. Hoje chega e abala!
+Paciencia, Jacintho. Em duas horas estamos na Estao de Tormes...
+Tambem no valia a pena mudar de camisa para subir serra! Em casa
+tomamos um banho, antes de jantar... J deve estar installada a
+banheira.
+
+Ambos nos consolamos com copinhos d'uma divina aguardente Chinchon.
+Depois, estendidos nos sophs, saboreando os dois charutos que nos
+restavam, com as vidraas abertas ao ar adoravel, conversamos de Tormes.
+Na estao certamente estaria o Silverio, com os cavallos...
+
+--Que tempo leva a subir?
+
+Uma hora. Depois de lavados sobrava tempo para um demorado passeio pelas
+terras com o caseiro, o excellente Melchior, para que o Senhor de
+Tormes, solemnemente, tomasse posse do seu Senhorio. E noite o
+primeiro brodio da serra, com os piteus vernaculos do velho Portugal!
+
+Jacintho sorria, seduzido:
+
+--Vamos a ver que cozinheiro me arranjou esse Silverio. Eu recommendei
+que fosse um soberbo cozinheiro portuguez, classico. Mas que soubesse
+trufar um per, afogar um bife em molho de moella, estas cousas simples
+da cozinha de Frana!... O peor no te demorares, seguires logo para
+Guies...
+
+--Ah, menino, annos da tia Vicencia no sabbado... Dia sagrado! Mas
+volto. Em duas semanas estou em Tormes, para fazermos uma larga
+Bucolica. E, est claro, para assistir trasladao.
+
+Jacintho estendera o brao:
+
+--Que casaro aquelle, alm no outeiro, com a torre?
+
+Eu no sabia. Algum solar de fidalgote do Douro... Tormes era n'esse
+feitio atarracado e massio. Casa de seculos e para seculos--mas sem
+torre.
+
+--E logo se v, da estao, Tormes?...
+
+--No! Muito no alto, n'uma prega da serra, entre arvoredo.
+
+No meu Principe j evidentemente nascra uma curiosidade pela sua rude
+casa ancestral. Mirava o relogio, impaciente. Ainda trinta minutos!
+Depois, sorvendo o ar e a luz, murmurava, no primeiro encanto de
+iniciado:
+
+--Que doura, que paz...
+
+--Trez horas e meia, estamos a chegar, Jacintho!
+
+Guardei o meu velho _Jornal do Commercio_ dentro do bolso do paletot,
+que deitei sobre o brao;--e ambos em p, s janellas, esperamos com
+alvoroo a pequenina Estao de Tormes, termo ditoso das nossas
+provaes. Ella appareceu emfim, clara e simples, beira do rio, entre
+rochas, com os seus vistosos girasoes enchendo um jardimsinho breve, as
+duas altas figueiras assombreando o pateo, e por traz a serra coberta de
+velho e denso arvoredo... Logo na plataforma avistei com gosto a immensa
+barriga, as bochechas menineiras do chefe da Estao, o louro Pimenta,
+meu condiscipulo em Rhetorica, no Lyceu de Braga. Os cavallos decerto
+esperavam, sombra, sob as figueiras.
+
+Mal o trem parou ambos saltamos alegremente. A bojuda massa do Pimenta
+rebolou para mim com amizade:
+
+--Viva o amigo Z Fernandes!
+
+--Oh bello Pimento!...
+
+Apresentei o senhor de Tormes. E immediatamente:
+
+--Ouve l, Pimentinha... No est ahi o Silverio?
+
+--No... O Silverio ha quasi dois mezes que partiu para Castello de
+Vide, vr a me que apanhou uma cornada d'um boi!
+
+Atirei a Jacintho um olhar inquieto:
+
+--Ora essa! E o Melchior, o caseiro?... Pois no esto ahi os cavallos
+para subirmos quinta?
+
+O digno chefe ergueu com surpreza as sobrancelhas cr de milho:
+
+--No!... Nem Melchior, nem cavallos... O Melchior... Ha que tempos eu
+no vejo o Melchior!
+
+O carregador badalou lentamente a sineta para o comboio rolar. Ento,
+no avistando em torno, na lisa e despovoada Estao, nem creados nem
+malas, o meu Principe e eu lanamos o mesmo grito de angustia:
+
+--E o Grillo? as bagagens?...
+
+Corremos pela beira do comboio, berrando com desespero:
+
+--Grillo!... Oh Grillo!... Anatole!... Oh Grillo!
+
+Na esperana que elle e o Anatole viessem mortalmente adormecidos,
+trepavamos aos estribos, atirando a cabea para dentro dos
+compartimentos, espavorindo a gente quieta com o mesmo berro que
+retumbava:--Grillo, ests ahi, Grillo?--J d'uma terceira-classe, onde
+uma viola repenicava, um jocoso gania, troando:--No ha por ahi um
+grillo? Andam por ahi uns senhores a pedir um grillo!--E nem Anatole,
+nem Grillo!
+
+A sineta tilintou.
+
+--Oh Pimentinha, espera, homem, no deixes largar o comboio!... As
+nossas bagagens, homem!
+
+E, afflicto, empurrei o enorme chefe para o forgo de carga, a
+pesquizar, descortinar as nossas vinte e trez malas! Apenas encontramos
+barris, cestos de vime, latas de azeite, um bah amarrado com cordas...
+Jacintho mordia os beios, livido. E o Pimentinha, esgazeado:
+
+--Oh filhos, eu no posso atrazar o comboio!...
+
+A sineta repicou... E com um bello fumo claro o comboio desappareceu por
+detraz das fragas altas. Tudo em torno pareceu mais calado e deserto.
+Alli ficavamos pois baldeados, perdidos na serra, sem Grillo, sem
+procurador, sem caseiro, sem cavallos, sem malas! Eu conservava o
+paletot alvadio, d'onde surdia o _Jornal do Commercio_. Jacintho, uma
+bengala. Eram todos os nossos bens!
+
+O Pimento arregalava para ns os olhinhos papudos e compadecidos.
+Contei ento quelle amigo o atarantado trasfgo em Medina sob a
+borrasca, o Grillo desgarrado, encalhado com as vinte e trez malas, ou
+rolando talvez para Madrid sem nos deixar um leno...
+
+--Eu no tenho um leno!... Tenho este _Jornal do Commercio_. toda a
+minha roupa branca.
+
+--Grande arrelia, caramba! murmurava o Pimenta, impressionado. E agora?
+
+--Agora, exclamei, trepar, para a quinta, pata... A no ser que se
+arranjassem ahi uns burros.
+
+Ento o carregador lembrou que perto, no casal da Giesta, ainda
+pertencente a Tormes, o caseiro, seu compadre, tinha uma boa egua e um
+jumento... E o prestante homem enfiou n'uma carreira para a
+Giesta--emquanto o meu Principe e eu cahiamos para cima d'um banco,
+arquejantes e succumbidos, como naufragos. O vasto Pimentinha, com as
+mos nas algibeiras, no cessava de nos contemplar, de murmurar:-- de
+arrelia.--O rio defronte descia, preguioso e como adormentado sob a
+calma j pesada de maio, abraando, sem um sussurro, uma larga ilhota de
+pedra que rebrilhava. Para alm a serra crescia em corcovas doces, com
+uma funda prega onde se aninhava, bem junta e esquecida do mundo, uma
+villasinha clara. O espao immenso repousava n'um immenso silencio.
+N'aquellas solides de monte e penedia os pardaes, revoando no telhado,
+pareciam aves consideraveis. E a massa rotunda e rubicunda do Pimentinha
+dominava, atulhava a regio.
+
+--Est tudo arranjado, meu senhor! Vm ahi os bichos!... S o que no
+calhou foi um selimsinho para a jumenta!
+
+Era o carregador, digno homem, que voltava da Giesta, sacudindo na mo
+duas esporas desirmanadas e ferrugentas. E no tardaram a apparecer no
+corrego, para nos levarem a Tormes, uma egua rua, um jumento com
+albarda, um rapaz e um podengo. Apertamos a mo suada e amiga do
+Pimentinha. Eu cedi a egua ao senhor de Tormes. E comeamos a trepar o
+caminho, que no se alisra nem se desbravra desde os tempos em que o
+trilhavam, com rudes sapates ferrados, cortando de rio a monte, os
+Jacinthos do seculo XIV! Logo depois de atravessarmos uma tremula ponte
+de pau, sobre um riacho quebrado por pedregulhos, o meu Principe, com o
+olho de dono subitamente aguado, notou a robustez e a fartura das
+oliveiras...--E em breve os nossos males esqueceram ante a incomparavel
+belleza d'aquella serra bemdita!
+
+Com que brilho e inspirao copiosa a compozera o divino Artista que faz
+as serras, e que tanto as cuidou, e to ricamente as dotou, n'este seu
+Portugal bem-amado! A grandeza egualava a graa. Para os valles,
+poderosamente cavados, desciam bandos de arvoredos, to copados e
+redondos, d'um verde to mo que eram como um musgo macio onde
+appetecia cahir e rolar. Dos pendores, sobranceiros ao carreiro fragoso,
+largas ramadas estendiam o seu toldo amavel, a que o esvoaar leve dos
+passaros sacudia a fragrancia. Atravez dos muros seculares, que sustem
+as terras liados pelas heras, rompiam grossas raizes colleantes a que
+mais hera se enroscava. Em todo o torro, de cada fenda, brotavam flres
+silvestres. Brancas rochas, pelas encostas, alastravam a solida nudez do
+seu ventre polido pelo vento e pelo sol; outras, vestidas de lichen e de
+silvados floridos, avanavam como pras de galeras enfeitadas: e,
+d'entre as que se apinhavam nos cimos, algum casebre que para l
+galgra, todo amachucado e torto, espreitava pelos postigos negros, sob
+as desgrenhadas farripas de verdura, que o vento lhe semera nas telhas.
+Por toda a parte a agua sussurrante, a agua fecundante... Espertos
+regatinhos fugiam, rindo com os seixos, d'entre as patas da egua e do
+burro; grossos ribeiros aodados saltavam com fragor de pedra em pedra;
+fios direitos e luzidios como cordas de prata vibravam e faiscavam das
+alturas aos barrancos; e muita fonte, posta beira de veredas, jorrava
+por uma bica, beneficamente, espera dos homens e dos gados... Todo um
+cabeo por vezes era uma cera, onde um vasto carvalho ancestral,
+solitario, dominava como seu senhor e seu guarda. Em socalcos verdejavam
+laranjaes rescendentes. Caminhos de lages soltas circumdavam fartos
+prados com carneiros e vaccas retouando:--ou mais estreitos, entalados
+em muros, penetravam sob ramadas de parra espessa, n'uma penumbra de
+repouso e frescura. Trepavamos ento alguma ruasinha de aldeia, dez ou
+doze casebres, sumidos entre figueiras, onde se esgaava, fugindo do lar
+pela telha v, o fumo branco e cheiroso das pinhas. Nos cerros remotos,
+por cima da negrura pensativa dos pinheiraes, branquejavam ermidas. O ar
+fino e puro entrava na alma, e n'alma espalhava alegria e fora. Um
+esparso tilintar de chocalhos de guizos morria pelas quebradas...
+
+Jacintho adiante, na sua egua rua, murmurava:
+
+--Que belleza!
+
+E eu atraz, no burro de Sancho, murmurava:
+
+--Que belleza!
+
+Frescos ramos roavam os nossos hombros com familiaridade e carinho. Por
+traz das sebes, carregadas d'amoras, as macieiras estendidas offereciam
+as suas mas verdes, porque as no tinham maduras. Todos os vidros
+d'uma casa velha, com a sua cruz no topo, refulgiram hospitaleiramente
+quando ns passamos. Muito tempo um melro nos seguia, de azinheiro a
+olmo, assobiando os nossos louvores. Obrigado, irmo melro! Ramos de
+macieira, obrigado! Aqui vimos, aqui vimos! E sempre comtigo fiquemos,
+serra to acolhedora, serra de fartura e de paz, serra bemdita entre as
+serras!
+
+Assim, vagarosamente e maravilhados, chegamos quella avenida de faias,
+que sempre me encantra pela sua fidalga gravidade. Atirando uma
+vergastada ao burro e egua, o nosso rapaz, com o seu podengo sobre os
+calcanhares, gritou:--Aqui que estmos, meus amos! E ao fundo das
+faias, com effeito, apparecia o porto da quinta de Tormes, com o seu
+brazo de armas, de secular granito, que o musgo retocava e mais
+envelhecia. Dentro j os ces ladravam com furor. E quando Jacintho, na
+sua suada egua, e eu atraz, no burro de Sancho, transpozemos o limiar
+solarengo, desceu para ns, do alto do alpendre, pela escadaria de pedra
+gasta, um homem nedio, rapado como um padre, sem collete, sem jaleca,
+acalmando os ces que se encarniavam contra o meu Principe. Era o
+Melchior, o caseiro... Apenas me reconheceu, toda a bocca se lhe
+escancarou n'um riso hospitaleiro, a que faltavam dentes. Mas apenas eu
+lhe revelei, d'aquelle cavalheiro de bigodes louros que descia da egua
+esfregando os quadris, o senhor de Tormes--o bom Melchior recuou,
+colhido de espanto e terror como diante d'uma avantesma.
+
+--Ora essa!... Santissimo nome de Deus! Pois ento...
+
+E, entre o rosnar dos ces, n'um bracejar desolado, balbuciou uma
+historia que por seu turno apavorava Jacintho, como se o negro muro do
+casaro pendesse para desabar. O Melchior no esperava s. ex.^a! Ninguem
+esperava s. ex.^a!... (Elle dizia _sua incellencia_)... O snr. Silverio
+estava para Castello de Vide desde maro, com a me, que apanhra uma
+cornada na virilha. E de certo houvera engano, cartas perdidas... Porque
+o snr. Silverio s contava com s. exc.^a em setembro, para a vindima! Na
+casa as obras seguiam devagarinho, devagarinho... O telhado, no sul,
+ainda continuava sem telhas; muitas vidraas esperavam, ainda sem
+vidros; e, para ficar, Virgem Santa, nem uma cama arranjada!...
+
+Jacintho cruzou os braos n'uma colera tumultuosa que o suffocava. Por
+fim, com um berro:
+
+--Mas os caixotes? Os caixotes, mandados de Paris, em fevereiro, ha
+quatro mezes?...
+
+O desgraado Melchior arregalava os olhos miudos, que se embaciavam de
+lagrimas. Os caixotes?! Nada chegra, nada apparecera!... E na sua
+perturbao mirava pelas arcadas do pateo, palpava na algibeira das
+pantalonas. Os caixotes?... No, no tinha os caixotes!
+
+--E agora, Z Fernandes?
+
+Encolhi os hombros:
+
+--Agora, meu filho, s vires commigo para Guies... Mas so duas horas
+fartas a cavallo. E no temos cavallos! O melhor vr o casaro, comer
+a boa gallinha que o nosso amigo Melchior nos assa no espeto, dormir
+n'uma enxerga, e manha cedo, antes do calor, trotar para cima, para a
+tia Vicencia.
+
+Jacintho replicou, com uma deciso furiosa:
+
+--manh troto, mas para baixo, para a estao!... E depois, para
+Lisboa!
+
+E subiu a gasta escadaria do seu solar com amargura e rancor. Em cima
+uma larga varanda acompanhava a fachada do casaro, sob um alpendre de
+negras vigas, toda ornada, por entre os pilares de granito, com caixas
+de pau onde floriam cravos. Colhi um cravo amarello---e penetrei atraz
+de Jacintho nas salas nobres, que elle contemplava com um murmurio de
+horror. Eram enormes, d'uma sonoridade de casa capitular, com os grossos
+muros ennegrecidos pelo tempo e o abandono, e regeladas, desoladamente
+nas, conservando apenas aos cantos algum monte de canastras ou alguma
+enxada entre paus. Nos tectos remotos, de carvalho apainelado, luziam
+atravs dos rasges manchas de co. As janellas, sem vidraas,
+conservavam essas macissas portadas, com fechos para as trancas, que,
+quando se cerram, espalham a treva. Sob os nossos passos, aqui e alm,
+uma taboa pdre rangia e cedia.
+
+--Inhabitavel! rugia Jacintho surdamente. Um horror! Uma infamia!...
+
+Mas depois, n'outras salas, o soalho alternava com remendos de taboas
+novas. Os mesmos remendos claros mosqueavam os velhissimos tectos de
+rico carvalho sombrio. As paredes repelliam pela alvura cra da cal
+fresca. E o sol mal atravessava as vidraas--embaciadas e gordurentas da
+massa e das mos dos vidraceiros.
+
+Penetramos emfim na ultima, a mais vasta, rasgada por seis janellas,
+mobilada com um armario e com uma enxerga parda e curta estirada a um
+canto: e junto d'ella paramos, e sobre ella depuzemos tristemente o que
+nos restava de vinte e trez malas--o meu paletot alvadio, a bengala de
+Jacintho, e o _Jornal do Commercio_ que nos era commum. Atravs das
+janellas escancaradas, sem vidraas, o grande ar da serra entrava e
+circulava como n'um eirado, com um cheiro fresco d'horta regada. Mas o
+que avistavamos, da beira da enxerga, era um pinheiral cobrindo um
+cabeo e descendo pelo pendor suave, maneira d'uma hoste em marcha,
+com pinheiros na frente, destacados, direitos, emplumados de negro; mais
+longe as serras d'alm rio, d'uma fina e macia cr de violeta; depois a
+brancura do co, todo liso, sem uma nuvem, d'uma magestade divina. E l
+debaixo, dos valles, subia, desgarrada e melancolica, uma voz de
+pegureiro cantando.
+
+Jacintho caminhou lentamente para o poial d'uma janella, onde cahiu
+esbarrondado pelo desastre, sem resistencia ante aquelle brusco
+desapparecimento de toda a Civilisao! Eu palpava a enxerga, dura e
+regelada como um granito de inverno. E pensando nos luxuosos colches de
+pennas e molas, to prodigamente encaixotados no 202, desafoguei tambem
+a minha indignao:
+
+--Mas os caixotes, caramba?... Como se perdem assim trinta e tantos
+caixotes enormes?...
+
+Jacintho saccudiu amargamente os hombros:
+
+--Encalhados, por ahi, algures, n'um barraco!... Em Medina, talvez,
+n'essa horrenda Medina. Indifferena das Companhias, inercia do
+Silverio... Emfim a Peninsula, a barbarie!
+
+Vim ajoelhar sobre o outro poial, alongando os olhos consolados por co
+e monte:
+
+-- uma belleza!
+
+O meu principe, depois de um silencio grave, murmurou, com a face
+encostada mo:
+
+-- uma lindeza... E que paz!
+
+Sob a janella vicejava fartamente uma horta, com repolho, feijoal,
+talhes de alface, gordas folhas de abobora rastejando. Uma eira, velha
+e mal alisada, dominava o valle, d'onde j subia tenuemente a nevoa
+d'algum fundo ribeiro. Toda a esquina do casaro d'esse lado se
+encravava em laranjal. E d'uma fontinha rustica, meio afogada em rosas
+tremedeiras, corria um longo e rutilante fio d'agua.
+
+--Estou com appetite desesperado d'aquella agoa! declarou Jacintho,
+muito srio.
+
+--Tambem eu... Desamos ao quintal, hein? E passamos pela cosinha, a
+saber do frango.
+
+Voltamos varanda. O meu Principe, mais conciliado com o destino
+inclemente, colheu um cravo amarello. E por outra porta baixa, de
+rigissimas hombreiras, mergulhamos n'uma sala, alastrada de calia, sem
+tecto, coberta apenas de grossas vigas, d'onde s'ergueu uma revoada de
+pardaes.
+
+--Olha para este horror! murmurava Jacintho arripiado.
+
+E descemos por uma lobrega escada de castello, tenteando depois um
+corredor tenebroso de lages asperas, atravancado por profundas arcas,
+capazes de guardar todo o gro d'uma provincia. Ao fundo a cozinha,
+immensa, era uma massa de frmas negras, madeira negra, pedra negra,
+densas negruras de felugem secular. E n'este negrume refulgia a um
+canto, sobre o cho de terra negra, a fogueira vermelha, lambendo tachos
+e panellas de ferro, despedindo uma fumarada que fugia pela grade aberta
+no muro, depois por entre a folhagem dos limoeiros. Na enorme lareira,
+onde se aqueciam e assavam as suas grossas peas de porco e boi os
+Jacinthos medievaes, agora desaproveitada pela frugalidade dos caseiros,
+negrejava um poeirento monto de cestas e ferramentas; e a claridade
+toda entrava por uma porta de castanho, escancarada sobre um quintalejo
+rustico em que se misturavam couves lombardas e junquilhos formosos. Em
+roda do lume um bando alvoroado de mulheres depennava frangos, remexia
+as caarolas, picava a cebola, com um fervor afogueado e palreiro. Todas
+emmudeceram quando apparecemos--e d'entre ellas o pobre Melchior,
+estonteado, com o sangue a espirrar na nedia face d'abbade, correu para
+ns, jurando que o jantarinho de suas Incellencias no demorava um
+credo...
+
+--E a respeito de camas, oh amigo Melchior?
+
+O digno homem ciciou uma desculpa encolhida sobre enxergasinhas no
+cho...
+
+-- o que basta! acudi eu, para o consolar. Por uma noite, com lenoes
+frescos...
+
+--Ah, l pelos lenoesinhos respondo eu!... Mas um desgosto assim, meu
+senhor! A gente apanhada sem um colxosinho de l, sem um lombosinho de
+vacca... Que eu j pensei, at lembrei minha comadre, V. Inc.^{as}
+podiam ir dormir aos _Ninhos_, a casa do Silverio. Tinham l camas de
+ferro, lavatorios... Elle sempre uma legoasita e mau caminho...
+
+Jacintho, bondoso, accudiu:
+
+--No, tudo se arranja, Melchior. Por uma noite!... At gsto mais de
+dormir em Tormes, na minha casa da serra!
+
+Sahimos ao terreiro, retalho de horta fechado por grossas rochas
+encabelladas de verdura, entestando com os socalcos da serra onde
+lourejava o centeio. O meu principe bebeu da agua nevada e lusidia da
+fonte, regaladamente, com os beios na bica; appeteceu a alface
+rechonchuda e crespa; e atirou pulos aos ramos altos d'uma copada
+cerejeira, toda carregada de cereja. Depois, costeando o velho lagar, a
+que um bando de pombas branqueava o telhado, deslismos at ao carreiro,
+cortado no costado do monte. E andando, pensativamente, o meu Principe
+pasmava para os milheiraes, para os vetustos carvalhos plantados por
+vetustos Jacinthos, para os casebres espalhados sobre os cabeos orla
+negra dos pinheiraes.
+
+De novo penetramos na avenida de faias e transpozemos o porto senhorial
+entre o latir dos ces, mais mansos, farejando um dono. Jacintho
+reconheceu certa nobreza na frontaria do seu lar. Mas sobretudo lhe
+agradava a longa alameda, assim direita e larga, como traada para
+n'ella se desenrolar uma cavalgada de Senhores com plumas e pagens.
+Depois, de cima da varanda, reparando na telha nova da capella, louvou o
+Silverio, esse ralao, por cuidar ao menos da morada do Bom-Deus.
+
+--E esta varanda tambem agradavel, murmurou elle mergulhando a face no
+aroma dos cravos. Precisa grandes poltronas, grandes divans de verga...
+
+Dentro, na nossa sala, ambos nos sentamos nos poiaes da janella,
+contemplando o doce socego crepuscular que lentamente se estabelecia
+sobre valle e monte. No alto tremeluzia uma estrellinha, a Venus
+diamantina, languida annunciadora da noite e dos seus contentamentos.
+Jacintho nunca considerra demoradamente aquella estrella, de amorosa
+refulgencia, que perpetua no nosso Co catholico a memoria da Deusa
+incomparavel:--nem assistira jmais, com a alma attenta, ao magestoso
+adormecer da Natureza. E este ennegrecimento dos montes que se embuam
+em sombra; os arvoredos emmudecendo, canados de susurrar; o rebrilho
+dos casaes mansamente apagado; o cobertor de nevoa, sob que se acama e
+agasalha a frialdade dos valles; um toque somnolento de sino que rola
+pelas quebradas; o segredado cochichar das aguas e das relvas
+escuras--eram para elle como iniciaes. D'aquella janella, aberta sobre
+as serras, entrevia uma outra vida, que no anda smente cheia do Homem
+e do tumulto da sua obra. E senti o meu amigo suspirar como quem emfim
+descana.
+
+D'este enlevo nos arrancou o Melchior com o doce aviso do jantarinho de
+suas Incellencias. Era n'outra sala, mais na, mais abandonada:--e ahi
+logo porta o meu super-civilisado Principe estacou, estarrecido pelo
+desconforto, escassez e rudeza das coisas. Na mesa, encostada ao muro
+denegrido, sulcado pelo fumo das candeias, sobre uma toalha de estopa,
+duas velas de sbo em castiaes de lata alumiavam grossos pratos de
+loua amarella, ladeados por colheres de estanho e por garfos de ferro.
+Os copos, d'um vidro espesso, conservavam a sombra roxa do vinho que
+n'elles passra em fartos annos de fartas vindimas. A malga de barro,
+atestada de azeitonas pretas, contentaria Diogenes. Espetado na cdea
+d'um immenso po reluzia um immenso facalho. E na cadeira senhoreal
+reservada ao meu Principe, derradeira alfaia dos velhos Jacinthos, de
+hirto espaldar de couro, com a madeira roda de caruncho, a clina fugia
+em melenas pelos rasges do assento poido.
+
+Uma formidavel moa, de enormes peitos que lhe tremiam dentro das
+ramagens do leno cruzado, ainda suada e esbrazeada do calor da lareira,
+entrou esmagando o soalho, com uma terrina a fumegar. E o Melchior, que
+seguia erguendo a infusa do vinho, esperava que suas Incellencias lhe
+perdoassem porque faltra tempo para o caldinho apurar... Jacintho
+occupou a sde ancestral--e, durante momentos (de esgazeada anciedade
+para o caseiro excellente) esfregou energicamente, com a ponta da
+toalha, o garfo negro, a fusca colhr de estanho. Depois, desconfiado,
+provou o caldo, que era de gallinha e rescendia. Provou--e levantou para
+mim, seu camarada de miserias, uns olhos que brilharam, surprehendidos.
+Tornou a sorver uma colherada mais cheia, mais considerada. E sorriu,
+com espanto:--Est bom!
+
+Estava precioso: tinha figado e tinha moela: o seu perfume enternecia:
+tres vezes, fervorosamente, ataquei aquelle caldo.
+
+--Tambem l volto! exclamava Jacintho com uma convico immensa. que
+estou com uma fome... Santo Deus! Ha annos que no sinto esta fome.
+
+Foi elle que rapou avaramente a sopeira. E j espreitava a porta,
+esperando a portadora dos piteus, a rija moa de peitos trementes, que
+emfim surgiu, mais esbrazeada, abalando o sobrado--e pousou sobre a mesa
+uma travessa a trasbordar de arroz com favas. Que desconsolo! Jacintho,
+em Paris, sempre abominra favas!... Tentou todavia uma garfada
+timida--e de novo aquelles seus olhos, que o pessimismo ennovora,
+luziram, procurando os meus. Outra larga garfada, concentrada, com uma
+lentido de frade que se regala. Depois um brado:
+
+--Optimo!... Ah, d'estas favas, sim! Oh que fava! Que delicia!
+
+E por esta santa gula louvava a serra, a arte perfeita das mulheres
+palreiras que em baixo remexiam as panellas, o Melchior que presidia ao
+brodio...
+
+--D'este arroz com fava nem em Paris, Melchior amigo!
+
+O homem optimo sorria, inteiramente desannuviado:
+
+--Pois c a comidinha dos moos da quinta! E cada pratada, que at
+suas Incellencias se riam... Mas agora, aqui, o Snr. D. Jacintho, tambem
+vae engordar e enrijar!
+
+O bom caseiro sinceramente cria que, perdido n'esses remotos Parizes, o
+Senhor de Tormes, longe da fartura de Tormes, padecia fome e mingava...
+E o meu Principe, na verdade, parecia saciar uma velhissima fome e uma
+longa saudade da abundancia, rompendo assim, a cada travessa, em
+louvores mais copiosos. Diante do louro frango assado no espeto e da
+salada que elle appetecera na horta, agora temperada com um azeite da
+serra digno dos labios de Plato, terminou por bradar:-- divino! Mas
+nada o enthusiasmava como o vinho de Tormes, cahindo d'alto, da bojuda
+infusa verde--um vinho fresco, esperto, seivoso, e tendo mais alma,
+entrando mais na alma, que muito poema ou livro santo. Mirando, vela
+de sbo, o copo grosso que elle orlava de leve espuma rosea, o meu
+Principe, com um resplendr d'optimismo na face, citou Virgilio:
+
+--_Quo te carmina dicam, Rethica_? Quem dignamente te cantar, vinho
+amavel d'estas serras?
+
+Eu, que no gosto que me avantagem em saber classico, espanejei logo
+tambem o meu Virgilio, louvando as douras da vida rural:
+
+--_Hanc olim veteres vitam coluere Sabini_... Assim viveram os velhos
+Sabinos. Assim Romolo e Remo... Assim cresceu a valente Etruria. Assim
+Roma se tornou a maravilha do mundo!
+
+E immovel, com a mo agarrada infusa, o Melchior arregalava para ns
+os olhos em infinito assombro e religiosa reverencia.
+
+ * * * * *
+
+Ah! Jantamos deliciosissimamente, sob os auspicios do Melchior--que
+ainda depois, prvido e tutelar, nos forneceu o tabaco. E, como ante ns
+se alongava uma noite de monte, voltamos para as janellas desvidraadas,
+na sala immensa, a contemplar o sumptuoso co de vero. Philosophmos
+ento com pachorra e facundia.
+
+Na Cidade (como notou Jacintho) nunca se olham, nem lembram os
+astros--por causa dos candieiros de gaz ou dos globos de electricidade
+que os offuscam. Por isso (como eu notei) nunca se entra n'essa
+communho com o Universo que a unica gloria e unica consolao da
+Vida. Mas na serra, sem predios disformes de seis andares, sem a
+fumaraa que tapa Deus, sem os cuidados que como pedaos de chumbo puxam
+a alma para o p rasteiro--um Jacintho, um Z Fernandes, livres, bem
+jantados, fumando nos poiaes d'uma janella, olham para os astros e os
+astros olham para elles. Uns, certamente, com olhos de sublime
+immobilidade ou de subllime indifferena. Mas outros curiosamente,
+anciosamente, com uma luz que acena, uma luz que chama, como se
+tentassem, de to longe, revelar os seus segredos, ou de to longe
+comprehender os nossos...
+
+--Oh Jacintho, que estrella esta, aqui, to viva, sobre o beiral do
+telhado?
+
+--No sei... E aquella, Z Fernandes, alm, por cima do pinheiral?
+
+--No sei.
+
+No sabiamos. Eu, por causa da espessa crosta de ignorancia com que sahi
+do ventre de Coimbra, minha Me espiritual. Elle, porque na sua
+Bibliotheca possuia trezentos e oito tratados sobre Astronomia, e o
+Saber, assim accumulado, frma um monte que nunca se transpe nem se
+desbasta. Mas que nos importava que aquelle astro alm se chamasse
+Syrius e aquelle outro Aldebaran? Que lhes importava a elles que um de
+ns fosse Jacintho, outro Z? Elles to immensos, ns to pequeninos,
+somos a obra da mesma Vontade. E todos, Uranos ou Lorenas de Noronha e
+Sande, constituimos modos diversos d'um Sr unico, e as nossas
+diversidades esparsas sommam na mesma compacta Unidade. Molleculas do
+mesmo Todo, governadas pela mesma Lei, rolando para o mesmo Fim... Do
+astro ao homem, do homem flr do trevo, da flr do trevo ao mar
+sonoro--tudo o mesmo Corpo, onde circula, como um sangue, o mesmo
+Deus. E nenhum fremito de vida, por menor, passa n'uma fibra d'esse
+sublime Corpo, que se no repercuta em todas, at s mais humildes, at
+s que parecem inertes e invitaes. Quando um Sol que no avisto, nunca
+avistarei, morre de inanio nas profundidades, esse esguio galho de
+limoeiro, em baixo na horta, sente um secreto arrepio de morte:--e,
+quando eu bato uma patada no soalho de Tormes, alm o monstruoso Saturno
+estremece, e esse estremecimento percorre o inteiro Universo! Jacintho
+abateu rijamente a mo no rebordo da janella. Eu gritei:
+
+--Acredita!... O sol tremeu.
+
+E depois (como eu notei) deviamos considerar que, sobre cada um d'esses
+gros de p luminoso, existia uma creao, que incessantemente nasce,
+perece, renasce. N'este instante, outros Jacinthos, outros Zs
+Fernandes, sentados s janellas d'outras Tormes, contemplam o co
+nocturno, e n'elle um pequenininho ponto de luz, que a nossa possante
+Terra por ns tanto sublimada. No tero todos esta nossa frma, bem
+fragil, bem desconfortavel, e (a no ser no Apollo do Vaticano, na Venus
+de Milo e talvez na Princeza, de Carman) singularmente feia e burlesca.
+Mas, horrendos ou de ineffavel belleza; collossaes e d'uma carne mais
+dura que o granito, ou leves como gazes e ondulando na luz, todos elles
+so sres pensantes e teem consciencia da Vida--porque decerto cada
+Mundo possue o seu Descartes, ou j o nosso Descartes os percorreu a
+todos com o seu Methodo, a sua escura capa, a sua agudeza elegante,
+formulando a unica certeza talvez certa, o grande _Penso logo existo_.
+Portanto todos ns, Habitantes dos Mundos, s janellas dos nossos
+casares, alm nos Saturnos, ou aqui na nossa Terricula, constantemente
+perfazemos um acto sacrosanto que nos penetra e nos funde--que
+sentirmos no Pensamento o nucleo commum das nossas modalidades, e
+portanto realisarmos um momento, dentro da Consciencia, a Unidade do
+Universo!--Hein, Jacintho?...
+
+O meu amigo rosnou:
+
+--Talvez... Estou a cahir com somno.
+
+--Tambem eu. Remontamos muito, Ex.^{mo} Snr.! como dizia o Pestaninha
+em Coimbra. Mas nada mais bello, e mais vo, que uma cavaqueira, no alto
+das serras, a olhar para as estrellas!... Tu sempre vaes amanh?
+
+--Com certeza, Z Fernandes! Com a certeza de Descartes. Penso _logo
+fujo_! Como queres tu, n'este pardieiro, sem uma cama, sem uma
+poltrona, sem um livro?... Nem s de arroz com fava vive o Homem! Mas
+demoro em Lisboa, para conversar com o Cesimbra, o meu Administrador. E
+tambem espera que estas obras acabem, os caixotes surjam, e eu possa
+voltar decentemente, com roupa lavada, para a trasladao...
+
+-- verdade, os ossos...
+
+--Mas resta ainda o Grillo... Que animal! Por onde andar esse perdido?
+
+Ento, passeando lentamente na sala enorme, onde a vela de sbo j
+derretida no castial de lata era como um lume de cigarro n'um
+descampado, meditmos na sorte do Grillo. O estimado negro ou fra
+despejado nas lamas de Medina, com as vinte e sete malas, aos
+gritos--ou, regaladamente adormecido, rolra com o Anatole no comboio
+para Madrid. Mas ambos os casos appareciam ao meu Principe como
+irremediavelmente destruidores do seu conforto...
+
+--No, escuta, Jacintho... Se o Grillo encalhou em Medina, dormiu na
+Fonda, catou os percevejos, e esta madrugada correu para Tormes. Quando
+manh desceres Estao, s quatro horas, encontras o teu precioso
+homem, com as tuas preciosas malas, mettido n'esse comboio que te leva
+ao Porto e Capital...
+
+Jacintho saccudiu os braos como quem se debate nas malhas d'uma rede:
+
+--E se seguiu para Madrid?
+
+--Ento, por esta semana, c apparece em Tormes, onde encontra ordem
+para regressar a Lisboa e reentrar no teu sequito... Resta o
+interessante caso das minhas bagagens. Se manh encontrares na Estao
+o Grillo, separa a minha mala negra, e o sacco de lona, e a chapelleira.
+O Grillo conhece. E pede ao Pimenta, ao gordalhufo, que me avise para
+Guies. Se o Grillo aportar Tormes, esfogueteado de Madrid, com toda
+essa malaria, deixa as minhas cousas aqui, ao Melchior... Eu manh
+fallo ao Melchior.
+
+Jacintho sacudiu furiosamente o collarinho:
+
+--Mas como posso eu partir para Lisboa, manh, com esta camisa de dous
+dias, que j me faz uma comicho horrenda? E sem um leno... Nem ao
+menos uma escova de dentes!
+
+Fertil em idas, estendi as mos, n'um bello gesto tutelar:
+
+--Tudo se arranja, meu Jacintho, tudo se arranja! Eu, largando d'aqui
+cedo, pelas seis horas, chego a Guies s dez, ainda sem calor. E, mesmo
+antes do almoo e da cavaqueira com a tia Vicencia, immediatamente te
+mando por um moo um sacco de roupa branca. As minhas camisas e as
+minhas ceroulas talvez te estejam largas. Mas um mendigo como tu no tem
+direito a elegancias e a roupas bem cortadas. O moo, n'um bom trote,
+entra aqui s duas horas; tens tempo de mudar antes de desceres para a
+Estao... Posso metter na mala uma escova de dentes.
+
+--Oh Z Fernandes! Ento mette tambem uma esponja... E um frasco d'agoa
+de colonia!
+
+--Agoa d'alfazema, excellente, feita pela tia Vicencia...
+
+O meu Principe suspirou, impressionado com a sua miseria esqualida, e
+esta dadiva de roupas:
+
+--Bem, ento vamos dormir, que estou esfalfado de emoes e d'astros...
+
+Justamente Melchior entreabria a pesada porta, com timidez, a avisar que
+estavam preparadinhas as camas de suas Incellencias. E seguindo o bom
+caseiro, que erguia uma candeia, que avistamos ns, o meu Principe e eu,
+ainda ha pouco irmanados com os astros? Em duas saletas, que uma
+abertura em arco, lobrego arco de pedra, separava--duas enxergas sobre o
+soalho. Junto cabeceira da mais larga, que pertencia ao senhor de
+Tormes, um castial de lato sobre um alqueire; aos ps, como lavatorio,
+um alguidar vidrado em cima duma tripea. Para mim, serrano d'aquellas
+serras, nem alguidar nem alqueire.
+
+Lentamente, com o p, o meu super-civilisado amigo palpou a enxerga. E
+decerto lhe sentiu uma dureza intransigente, porque ficou pendido sobre
+ella, a correr desoladamente os dedos pela face desmaiada.
+
+--E o peior no ainda a enxerga, murmurou emfim com um suspiro. que
+no tenho camisa de dormir, nem chinelas!... E no me posso deitar de
+camisa engommada.
+
+Por inspirao minha reccorremos ao Melchior. De novo, esse benemerito
+providenciou, trazendo a Jacintho, para elle desafogar os ps, uns
+tamancos--e para embrulhar o corpo uma camisa da comadre, enorme, de
+estopa, spera como uma estamenha de penitente, com folhos mais crespos
+e duros do que lavores de madeira. Para consolar o meu Principe lembrei
+que Plato quando compunha o _Banquete_, Vasco da Gama quando dobrava o
+Cabo, no dormiam em melhores catres! As enxergas rijas fazem as almas
+fortes, oh Jacintho!... E s vestido de estamenha que se penetra no
+Paraiso.
+
+--Tens tu, volveu o meu amigo seccamente, alguma coisa que eu leia? No
+posso adormecer sem um livro.
+
+Eu? Um livro? Possuia apenas o velho numero do _Jornal do Commercio_,
+que escapra disperso dos nossos bens. Rasguei a copiosa folha pelo
+meio, partilhei com Jacintho fraternalmente. Elle tomou a sua metade,
+que era a dos annuncios... E quem no viu ento Jacintho, senhor de
+Tormes, acaapado borda da enxerga, rente da vela de sbo que se
+derretia no alqueire, com os ps encafuados nos scos, perdido dentro
+das speras pregas e dos rijos folhos da camisa serrana, percorrendo
+n'um pedao velho de Gazeta, pensativamente, as partidas dos
+Paquetes--no pde saber o que uma intensa e veridica imagem do
+Desalento.
+
+Recolhido minha alcova espartana, desabotoava o collete, n'um
+delicioso cansao, quando o meu Principe ainda me reclamou:
+
+--Z Fernandes...
+
+--Dize.
+
+--Manda tambem no sacco um abotoador de botas.
+
+Estirado commodamente na rija enxerga murmurei, como sempre murmuro ao
+penetrar no Somno, que um primo da Morte, Deus seja louvado! Depois
+tomei a metade do _Jornal do Commercio_ que me pertencia.
+
+--Z Fernandes...
+
+--Que ?
+
+--Tambem podias metter no sacco ps dos dentes... E uma lima das
+unhas... E um romance!
+
+J a meia Gazeta me escapava das mos dormentes. Mas da sua alcova,
+depois de soprar a vela, Jacintho murmurou entre um bocejo:
+
+--Z Fernandes...
+
+--Hein?
+
+--Escreve para Lisboa, para o Hotel Bragana... Os lenoes ao menos so
+frescos, cheiram bem, a sadio!
+
+
+
+
+IX
+
+
+Cedo, de madrugada, sem rumor, para no despertar o meu Jacintho, que,
+com as mos cruzadas sobre o peito, dormia beatificamente na sua enxerga
+de granito--parti para Guies.
+
+Ao cabo d'uma semana, recolhendo uma manh para o almoo, encontrei no
+corredor as minhas malas to desejadas, que um moo do casal da Giesta
+trouxera n'um carro com recados do Snr. Pimentinha. O meu pensamento
+pulou para o meu Principe. E lancei pelo telegrapho, para Lisboa, para o
+Hotel Bragana, este brado alegre:--Ests l? Sei recuperaste Grillo e
+Civilisao! Hurrah! Abrao!--S depois de sete dias, occupados n'uma
+delicada apanha de aspargos com que outr'ora civilisra a horta da tia
+Vicencia, notei o silencio de Jacintho. N'um bilhete postal renovei,
+desenvolvi o grito amigo:--Ests l? So os prazeres da Baixa que assim
+te tornam desattento e mudo? Eu, todo aspargos! Responde, quando chegas?
+Tempo delicioso! 23^o sombra. E os ossos?...--Veio depois a devota
+romaria da Senhora da Roqueirinha. Durante a lua nova andei n'um crte
+de matto, na minha terra das Corcas. A tia Vicencia vomitou, com uma
+indigesto de murcellas. E o silencio do meu Principe era ingrato e
+ferrenho.
+
+Emfim uma tarde, voltando da Flor da Malva, de casa da minha prima
+Joanninha, parei em Sandofim, na venda do Manoel Rico, para beber de
+certo vinho branco que a minha alma conhece--e sempre pede.
+
+Defronte, porta do ferrador, o Severo, sobrinho do Melchior de Tormes
+e o mais fino alveitar da serra, picava tabaco, escarranchado n'um
+banco. Mandei encher outro quartilho: elle acariciou o pescoo da minha
+egua que j salvra d'um esfriamento: e, como eu indagasse do nosso
+Melchior, o Severo contou que na vspera jantra com elle em Tormes, e
+se abeirra tambem do fidalgo...
+
+--Ora essa! Ento o snr. D. Jacintho est em Tormes?
+
+O meu espanto divertiu o Severo:
+
+--Ento v. exc.^a... Pois em Tormes que elle est, ha mais de cinco
+semanas, sem arredar! E parece que fica para a vindima, e vai l uma
+grandeza!
+
+Santissimo nome de Deus! Ao outro dia, domingo, depois da missa e sem me
+assustar com a calma que carregava, trotei alvoroadamente para Tormes.
+Ao latir dos rafeiros, quando transpuz o portal solarengo, a comadre do
+Melchior accudio dos lados do curral, com um alguidar de lavagem
+encostado cintura.--Ento o snr. D. Jacintho?... O snr. D. Jacintho
+andava l para baixo, com o Silverio e com o Melchior, nos campos de
+Freixomil...
+
+--E o Snr. Grillo, o preto?
+
+--Ha bocadinho tambem o enxerguei no pomar, com o francez, a apanhar
+limes doces...
+
+Todas as janellas do solar rebrilhavam, com vidraas novas, bem polidas.
+A um canto do pteo notei baldes de cal e tijellas de tintas. Uma escada
+de pedreiro descanra durante o Dia Santo arrimada contra o telhado. E,
+rente ao muro da capella, dois gatos dormiam sobre montes de palha
+desempacotada de caixotes consideraveis.
+
+--Bem, pensei eu. Eis a Civilisao!
+
+Recolhi a egua, galguei a escada. Na varanda, sobre uma pilha de ripas,
+reluzia n'um raio de sol uma banheira de zinco. Dentro encontrei todos
+os soalhos remendados, esfregados a carqueja. As paredes, muito caiadas
+e nas, refrigeravam como as d'um convento. Um quarto, a que me levaram
+tres portas escancaradas com franqueza serrana, era certamente o de
+Jacintho: a roupa pendia de cabides de pau: o leito de ferro, com
+coberta de fusto, encolhia timidamente a sua rigidez virginal a um
+canto, entre o muro e a banquinha onde um castial de lato resplandecia
+sobre um volume do _D. Quichote_; no lavatorio pintado de amarello,
+imitando bamb, apenas cabia o jarro, a bacia, um naco gordo de sabo; e
+uma prateleirinha bastava ao esmerado alinho da escova, da thesoura, do
+pente, do espelhinho de feira, e do frasquinho de agua de alfazema que
+eu mandra de Guies. As tres janellas, sem cortinas, contemplavam a
+belleza da serra, respirando um delicado e macio ar, que se perfumava
+nas resinas dos pinheiraes, depois nas roseiras da horta. Em frente, no
+corredor, outro quarto repetia a mesma simplicidade. Certamente a
+previdencia do meu Principe o destinra ao seu Z Fernandes. Pendurei
+logo dentro, no cabide, o meu guarda-p de lustrina.
+
+Mas na sala immensa, onde tanto philosophramos considerando as
+estrellas, Jacintho arranjra um centro de repouso e d'estudo--e
+desenrolra essa grandeza que impressionava o Severo. As cadeiras de
+verga da Madeira, amplas e de braos, offereciam o conforto de
+almofadinhas de chita. Sobre a mesa enorme de pau branco, carpinteirada
+em Tormes, admirei um candieiro de metal de tres bicos, um tinteiro de
+frade armado de pennas de pato, um vaso de capella transbordando de
+cravos. Entre duas janellas uma commoda antiga, embutida, com ferragens
+lavradas, recebera sobre o seu marmore rosado o devoto peso d'um
+Presepio, onde Reis Magos, pastores de surres vistosos, cordeiros
+d'esguedelhada l, se apressavam atravez d'alcantis para o Menino, que
+na sua lapinha lhes abria os braos, coroado por uma enorme Cora Real.
+Uma estante de madeira enchia outro pedao de parede, entre dois
+retratos negros com caixilhos negros; sobre uma das suas prateleiras
+repousavam duas espingardas; nas outras esperavam, espalhados, como os
+primeiros Doutores nas bancadas d'um concilio, alguns nobres livros, um
+Plutarcho, um Virgilio, a Odyssea, o Manual de Epictecto, as Chronicas
+de Froissart. Depois, em fila decorosa, cadeiras de palhinha, muito
+novas, muito envernisadas. E a um canto um mlho de varapaus.
+
+Tudo resplandecia de asseio e ordem. As portadas das janellas, cerradas,
+abrigavam do sol que batia aquelle lado de Tormes, escaldando os
+peitoris de pedra. Do soalho, burrifado de agua, subia, na suavisada
+penumbra, uma frescura. Os cravos rescendiam. Nem dos campos, nem da
+casa, se elevava um rumor. Tormes dormia no esplendor da manh santa. E,
+penetrado por aquella consoladora quietao de convento rural, terminei
+por me estender n'uma cadeira de verga, junto da mesa, abrir
+languidamente um tomo de Virgilio, e murmurar, appropriando o doce verso
+que encontrra:
+
+Fortunate Jacinthe! Hic, inter arva nota
+Et fontes sacros, frigus captabis opacum...
+
+Afortunado Jacintho, na verdade! Agora, entre campos que so teus e
+aguas que te so sagradas, colhes emfim a sombra e a paz!
+
+Li ainda outros versos. E, na fadiga das duas horas de egua e calor
+desde Guies, irreverentemente adormecia sobre o divino
+Bucoliasta--quando me despertou um berro amigo! Era o meu Principe. E
+muito decididamente, depois de me soltar do seu rijo abrao, o comparei
+a uma planta estiolada, emmurchecida na escurido, entre tapetes e
+sdas, que, levada para vento e sol, profusamente regada, reverdece,
+desabrocha e honra a Natureza! Jacintho j no corcovava. Sobre a sua
+arrefecida pallidez de super-civilisado, o ar montesino, ou vida mais
+verdadeira, espalhra um rubor trigueiro e quente de sangue renovado que
+o virilisava soberbamente. Dos olhos, que na Cidade andavam sempre to
+crepusculares e desviados do Mundo, saltava agora um brilho de meio-dia,
+resoluto e largo, contente em se embeber na belleza das coisas. At o
+bigode se lhe encrespra. E j no deslisava a mo desencantada sobre a
+face,--mas batia com ella triumphalmente na cxa. Que sei? Era um
+Jacintho novissimo. E quasi me assustava, por eu ter de aprender e
+penetrar, n'este novo Principe, os modos e as idas novas.
+
+--Caramba, Jacintho, mas ento...?
+
+Elle encolheu jovialmente os hombros realargados. E s me soube contar,
+trilhando soberanamente com os sapatos brancos e cobertos de p o soalho
+remendado, que, ao acordar em Tormes, depois de se lavar n'uma dorna, e
+d'enfiar a minha roupa branca, se sentira de repente como
+_desannuviado_, _desenvencilhado_! Almora uma pratada de ovos com
+chourio, sublime. Passera por toda aquella magnificencia da serra com
+pensamentos ligeiros de liberdade e de paz. Mandra ao Porto comprar uma
+cama, uns cabides... E alli estava...
+
+--Para todo o vero?
+
+--No! Mas um mez... Dois mezes! Emquanto houver chourios, e a agoa da
+fonte, bebida pela telha ou n'uma folha de couve, me souber to
+divinamente!
+
+Cahi sobre a cadeira de verga, e contemplei, arregalado, quasi
+esgazeado, o meu Principe! Elle enrolava n'uma mortalha tabaco picado,
+tabaco grosso, guardado n'uma malga vidrada. E exclamava:
+
+--Ando ahi pelas terras desde o romper d'alva! Pesquei j hoje quatro
+trutas, magnificas... L em baixo, no Naves, um riachote que se atira
+pelo valle da Seranda... Temos logo ao jantar essas trutas!
+
+Mas eu, avido pela historia d'aquella ressurreio:
+
+--Ento, no estiveste em Lisboa?... Eu telegraphei...
+
+--Qual telegrapho! Qual Lisboa! Estive l em cima, ao p da fonte da
+Lira, sombra d'uma grande arvore, _sub tegmine_ no sei qu, a lr
+esse adorvel Virgilio... E tambem a arranjar o meu palacio! Que te
+parece, Z Fernandes? Em tres semanas, tudo soalhado, envidraado,
+caiado, encadeirado!... Trabalhou a freguezia inteira! At eu pintei,
+com uma immensa brocha. Viste o comedoiro?
+
+--No.
+
+--Ento vem admirar a belleza na simplicidade, barbaro!
+
+Era a mesma onde ns tanto exaltaramos o arroz com favas--mas muito
+esfregada, muito caiada, com um rodap bezuntado d'azul estridente onde
+logo adivinhei a obra do meu Principe. Uma toalha de linho de Guimares
+cobria a mesa, com as franjas roando o soalho. No fundo dos pratos de
+loua forte reluzia um gallo amarello. Era o mesmo gallo e a mesma loua
+em que na nossa casa, em Guies, se servem os feijes dos cavadores...
+
+Mas no pteo os ces latiram. E Jacintho correu varanda, com uma
+ligeireza curiosa que me deleitou. Ah, bem definitivamente se
+esfrangalhra aquella rede de malha que se no percebia e que outr'ora o
+travava!--N'esse momento appareceu o Grillo, de quinzena de linho,
+segurando em cada mo uma garrafa de vinho branco. Todo se alegrou em
+vr na quinta o si Fernandes. Mas a sua veneranda face j no
+resplandecia, como em Paris, com um to sereno e ditoso brilho de ebano.
+At me pareceu que corcovava... Quando o interroguei sobre aquella
+mudana, estendeu duvidosamente o beio grosso:
+
+--O menino gosta, eu ento tambem gsto... Que o ar aqui muito bom,
+si Fernandes, o ar muito bom!
+
+Depois, mais baixo, envolvendo n'um gesto desolado a loua de Barcellos,
+as facas de cabo d'osso, as prateleiras de pinho como n'um refeitorio de
+Franciscanos:
+
+--Mas muita magreza, si Fernandes, muita magreza!
+
+Jacintho voltava com um mao de jornaes cintados:
+
+--Era o carteiro. J vs que no amuei inteiramente com a Civilisao.
+Eis a Imprensa!... Mas nada de _Figaro_, ou da horrenda _Dois-Mundos_!
+Jornaes de Agricultura! Para aprender como se produzem as risonhas
+messes, e sob que signo se casa a vinha ao olmo, e que cuidados
+necessita a abelha provida... _Quid faciat laetas segetes_... De resto
+para esta nobre educao, j me bastavam as _Georgicas_, que tu ignoras!
+
+Eu ri:
+
+--Alto l! _Nos quoque gens sumus et nostrum Virgilium sabemus_!
+
+Mas o meu novissimo amigo, debruado da janella, batia as palmas--como
+Cato para chamar os servos, na Roma simples. E gritava:
+
+--Anna Vaqueira! Um copo d'agoa, bem lavado, da fonte velha!
+
+Pulei, immensamente divertido:
+
+--Oh Jacintho! E as aguas carbonatadas? e as phosphatadas? e as
+esterilisadas? e as sodicas?...
+
+O meu Principe atirou os hombros com um desdem soberbo. E acclamou a
+appario d'um grande copo, todo embaciado pela frescura nevada da agoa
+refulgente, que uma bella moa trazia n'um prato. Eu admirei sobretudo a
+moa... Que olhos, d'um negro to liquido e serio! No andar, no quebrar
+da cinta, que harmonia e que graa de Nympha latina!
+
+E apenas pela porta desapparecera a explendida appario:
+
+--Oh Jacintho, eu d'aqui a um instante tambem quero agua! E se compete a
+esta rapariga trazer as cousas, eu, de cinco em cinco minutos, quero uma
+cousa!... Que olhos, que corpo... Caramba, menino! Eis a poesia, toda
+viva, da serra...
+
+O meu Principe sorria, com sinceridade:
+
+--No! no nos illudamos, Z Fernandes, nem faamos Arcadia. uma bella
+moa, mas uma bruta... No ha alli mais poesia, nem mais sensibilidade,
+nem mesmo mais belleza do que n'uma linda vacca tourina. Merece o seu
+nome de Anna Vaqueira. Trabalha bem, digere bem, concebe bem. Para isso
+a fez a Natureza, assim s e rija; e ella cumpre. O marido todavia no
+parece contente, porque a desanca. Tambem um bello bruto... No, meu
+filho, a serra maravilhosa e muito grato lhe estou... Mas temos aqui a
+fmea em toda a sua animalidade e o macho em todo o seu egoismo... So
+porm verdadeiros, genuinamente verdadeiros! E esta verdade, Z
+Fernandes, para mim um repouso.
+
+Lentamente, gozando a frescura, o silencio, a liberdade do vasto
+casaro, retrocedemos sala que Jacintho j denominra a _Livraria_. E,
+de repente, ao avistar n'um canto uma caixa com a tampa meio despregada,
+quasi me engasguei, na furiosa curiosidade que me assaltou:
+
+--E os caixotes? Oh Jacintho?... Toda aquella immensa caixotaria que ns
+mandamos, abarrotada de Civilisao? Soubeste? Appareceram?
+
+O meu Principe parou, bateu alegremente na cxa:
+
+--Sublime! Tu ainda te lembras d'aquelle homemsinho, de sacco a
+tiracollo, que ns admiramos tanto pela sua sagacidade, o seu saber
+geographico?... Lembras? Apenas fallei em Tormes, gritou que conhecia,
+rabiscou uma nota... Nem era necessario mais! Oh! Tormes,
+perfeitamente, muito antigo, muito curioso! Pois mandou tudo para
+Alba-de-Tormes, em Hespanha! Est tudo em Hespanha!
+
+Cocei o queixo, desconsolado:
+
+--Ora, ora... Um homem to esperto, to expedito, que fazia tanta honra
+ao Progresso! Tudo para Hespanha!... E mandaste vir?
+
+--No! Talvez mais tarde... Agora, Z Fernandes, estou saboreando esta
+delicia de me erguer pela manh, e de ter s uma escova para alisar o
+cabello.
+
+Considerei, cheio de recordaes, o meu amigo:
+
+--Tinhas umas nove...
+
+--Nove? Tinha vinte! Talvez trinta! E era uma atrapalhao, no me
+bastavam!... Nunca em Paris andei bem penteado. Assim com os meus
+setenta mil volumes: eram tantos que nunca li nenhum. Assim com as
+minhas occupaes: tanto me sobrecarregavam, que nunca fui util!
+
+ * * * * *
+
+De tarde, depois da calma, fomos vaguear pelos caminhos colleantes
+d'aquella quinta rica, que, atravs de duas legoas, ondula por valle e
+monte. No m'encontrra mais com Jacintho em meio da Natureza, desde o
+remoto dia d'entremez em que elle tanto soffrera no sociavel e policiado
+bosque de Montmorency. Ah, mas agora, com que segurana e idyllico amor
+elle se movia atravs d'essa Natureza, d'onde andra tantos annos
+desviado por theoria e por habito! J no arreceiava a humidade mortal
+das relvas; nem repellia como impertinente o roar das ramagens; nem o
+silencio dos altos o inquietava como um despovoamento do Universo. Era
+com delicias, com um consolado sentimento de estabilidade recuperada,
+que enterrava os grossos sapatos nas terras molles, como no seu elemento
+natural e paterno: sem razo, deixava os trilhos faceis, para se
+embrenhar atravs de arbustos emaranhados, e receber na face a caricia
+das folhas tenras; sobre os outeiros, parava, immovel, retendo os meus
+gestos e quasi o meu halito, para se embeber de silencio e de paz: e
+duas vezes o surprehendi attento e sorrindo beira d'um regatinho
+palreiro, como se lhe escutasse a confidencia...
+
+Depois philosophava, sem descontinuar, com o enthusiasmo d'um
+convertido, avido de converter:
+
+--Como a intelligencia aqui se liberta, hein? E como tudo animado
+d'uma vida forte o profunda!... Dizes tu agora, Z Fernandes, que no ha
+aqui pensamento...
+
+--Eu?! Eu no digo nada, Jacintho...
+
+--Pois uma maneira de reflectir muito estreita e muito grosseira...
+
+--Ora essa! Mas eu...
+
+--No, no percebes. A vida no se limita a pensar, meu caro doutor...
+
+--Que no sou!
+
+--A vida essencialmente Vontade e Movimento: e n'aquelle pedao de
+terra, plantado de milho, vae todo um mundo de impulsos, de foras que
+se revelam, e que attingem a sua expresso suprema, que a Frma. No,
+essa tua philosophia est ainda extremamente grosseira...
+
+--Irra! mas eu no...
+
+--E depois, menino, que inesgotavel, que miraculosa diversidade de
+frmas... E todas bellas!
+
+Agarrava o meu pobre brao, exigia que eu reparasse com reverencia. Na
+Natureza nunca eu descobriria um contorno feio ou repetido! Nunca duas
+folhas d'hera, que, na verdura ou recorte, se assemelhassem! Na Cidade,
+pelo contrario, cada casa repete servilmente a outra casa; todas as
+faces reproduzem a mesma indifferena ou a mesma inquietao; as idas
+teem todas o mesmo valor, o mesmo cunho, a mesma frma, como as libras;
+e at o que ha mais pessoal e intimo, a Illuso, em todos identica, e
+todos a respiram, e todos se perdem n'ella como no mesmo nevoeiro... A
+_mesmice_--eis o horror das Cidades!
+
+--Mas aqui! Olha para aquelle castanheiro. Ha tres semanas que cada
+manh o vejo, e sempre me parece outro... A sombra, o sol, o vento, as
+nuvens, a chuva, incessantemente lhe compem uma expresso diversa e
+nova, sempre interessante. Nunca a sua frequentao me poderia fartar...
+
+Eu murmurei:
+
+-- pena que no converse!
+
+O meu Principe recuou, com olhares chammejantes, d'Apostolo:
+
+--Como que no converse? Mas justamente um conversador sublime! Est
+claro, no tem ditos, nem parola theorias, _ore rotundo_. Mas nunca eu
+passo junto d'elle que no me suggira um pensamento ou me no desvende
+uma verdade... Ainda hoje quando eu voltava de pescar as trutas...
+Parei: e logo elle me fez sentir como toda a sua vida de vegetal
+isenta de trabalho, da anciedade, do esforo que a vida humana impe;
+no tem de se preoccupar com o sustento, nem com o vestido, nem com o
+abrigo; filho querido de Deus, Deus o nutre, sem que elle se mova ou se
+inquiete... E esta segurana que lhe d tanta graa e tanta magestade.
+Pois no achas?
+
+Eu sorria, concordava. Tudo isto era de certo rebuscado e especioso. Mas
+que importavam as requintadas metaphoras, e essa metaphysica mal madura,
+colhida pressa nos ramos d'um castanheiro? Sob toda aquella ideologia
+transparecia uma excellente realidade--a reconciliao do meu Principe
+com a Vida. Segura estava a sua Resurreio depois de tantos annos de
+cova, da cova molle em que jazera, enfaixado como uma mumia nas faixas
+do Pessimismo!
+
+E o que esse Principe, n'esta tarde me esfalfou! Farejava, com uma
+curiosidade insaciavel, todos os recantos da serra! Galgava os cabeos
+correndo, como na esperana de descobrir l do alto os esplendores nunca
+contemplados d'um Mundo inedito. E o seu tormento era no conhecer os
+nomes das arvores, da mais rasteira planta brotando das fendas d'um
+socalco... Constantemente me folheava como a um Diccionario Botanico.
+
+--Fiz toda a sorte de cursos, passei pelos professores mais illustres da
+Europa, tenho trinta mil volumes, e no sei se aquelle senhor alm um
+amieiro ou um sobreiro...
+
+-- um azinheiro, Jacintho.
+
+J a tarde cahia quando recolhemos muito lentamente. E toda essa
+adoravel paz do co, realmente celestial, e dos campos, onde cada
+folhinha conservava uma quietao contemplativa, na luz docemente
+desmaiada, pousando sobre as cousas com um liso e leve affago, penetrava
+to profundamente Jacintho, que eu o senti, no silencio em que
+cahiramos, suspirar de puro allivio.
+
+Depois, muito gravemente:
+
+--Tu dizes que na natureza no ha pensamento...
+
+--Outra vez! Olha que massada! Eu...
+
+--Mas por estar n'ella supprimido o pensamento que lhe est poupado o
+soffrimento! Ns, desgraados, no podemos supprimir o pensamento, mas
+certamente o podemos disciplinar e impedir que elle se estonteie e se
+esfalfe, como na fornalha das cidades, ideando gozos que nunca se
+realisam, aspirando a certezas que nunca se attingem!... E o que
+aconselham estas collinas e estas arvores nossa alma, que vela e se
+agita:--que viva na paz d'um sonho vago e nada appetea, nada tema,
+contra nada se insurja, e deixe o Mundo rolar, no esperando d'elle
+seno um rumor de harmonia, que a emballe e lhe favorea o dormir dentro
+da mo de Deus. Hein, no te parece, Z Fernandes?
+
+--Talvez. Mas necessario ento viver n'um mosteiro, com o temperamento
+de S. Bruno, ou ter cento e quarenta contos de renda e o desplante de
+certos Jacinthos... E tambem me parece que andamos leguas. Estou
+derreado. E que fome!
+
+--Tanto melhor, para as trutas, e para o cabrito assado que nos
+espera...
+
+--Bravo! Quem te cosinha?
+
+--Uma afilhada do Melchior. Mulher sublime! Has de ver a canja! Has de
+ver a cabidella! Ella horrenda, quasi an, com os olhos tortos, um
+verde e outro preto. Mas que paladar! Que genio!
+
+Com effeito! Horacio dedicaria uma ode quelle cabrito assado n'um
+espeto de cerejeira. E com as trutas, e o vinho Melchior, e a cabidella,
+em que a sublime an de olhos tortos puzera inspiraes que no so da
+terra, e aquella doura da noite de Junho, que pelas janellas abertas
+nos envolveu no seu velludo negro, to molle e to consolado fiquei,
+que, na sala onde nos esperava o caf, cahi n'uma cadeira de verga, na
+mais larga, e de melhores almofadas, e atirei um berro de pura delicia.
+
+Depois, com uma recordao, limpando o caf do pello dos bigodes:
+
+-- Jacintho, e quando ns andavamos por Paris com o Pessimismo s
+costas, a gemer que tudo era illuso e dr?
+
+O meu Principe, que o cabrito tornra ainda mais alegre, trilhava a
+grandes passadas o soalho, enrolando o cigarro:
+
+--Oh! que engenhosa besta, esse Schopenhauer! E maior besta eu, que o
+sorvia, e que me desolava com sinceridade! E todavia,--continuava elle,
+remexendo a chavena--o Pessimismo uma theoria bem consoladora para os
+que soffrem, porque desindividualisa o soffrimento, alarga-o at o
+tornar uma lei universal, a lei propria da Vida; portanto lhe tira o
+caracter pungente d'uma injustia especial, commettida contra o
+soffredor por um Destino inimigo e faccioso! Realmente o nosso mal
+sobretudo nos amarga quando contemplamos ou imaginamos o bem do nosso
+visinho:--porque nos sentimos escolhidos e destacados para a
+infelicidade, podendo, como elle, ter nascido para a Fortuna. Quem se
+queixaria de ser cxo--se toda a humanidade coxeasse? E quaes no seriam
+os urros, e a furiosa revolta do homem envolto na neve e friagem e
+borrasca d'um inverno especial, organisado nos ceus para o envolver a
+elle unicamente--em quanto em redor, toda a Humanidade se movesse na
+luminosa benignidade d'uma Primavera?
+
+--Com effeito, murmurei eu, esse sujeito teria immensa razo para
+urrar...
+
+--E depois, clamava ainda o meu amigo, o Pessimismo excellente para os
+Inertes, por que lhes attenua o desgracioso delicto da Inercia. Se toda
+a meta um monte de Dor, onde a alma vae esbarrar, para que marchar
+para a meta, atravez dos embaraos do mundo? E de resto todos os Lyricos
+e Theoricos do Pessimismo, desde Salomo at o maligno Schopenhauer,
+lanam o seu cantico ou a sua doutrina para disfarar a humilhao das
+suas miserias, subordinando-as todas a uma vasta lei de Vida, uma lei
+Cosmica, e ornando assim com a aureola de uma origem quasi divina as
+suas miudas desgraazinhas de temperamento ou de Sorte. O bom
+Schopenhauer formla todo o seu schopenhauerismo, quando um philosopho
+sem editor, e um professor sem discipulos; e soffre horrendamente de
+terrores e manias; e esconde o seu dinheiro debaixo do sobrado; e redige
+as suas contas em grego nos perpetuos lamentos da desconfiana; e vive
+nas adegas com o medo de incendios; e viaja com um copo de lata na
+algibeira para no beber em vidro que beios de leproso tivessem
+contaminado!... Ento Schopenhauer sombriamente Schopenhauerista. Mas
+apenas penetra na celebridade, e os seus miseraveis nervos se acalmam, e
+o cerca uma paz amavel, no ha ento, em todo Francfort, burguez mais
+optimista, de face mais jocunda, e gozando mais regradamente os bens da
+intelligencia e da Vida!... E o outro, o Israelita, o muito pedantesco
+rei de Jerusalem! quando descobre esse sublime Rhetorico que o mundo
+Illuso e Vaidade? Aos setenta e cinco annos, quando o Poder lhe escapa
+das mos tremulas, e o seu serralho de trezentas concubinas se lhe torna
+ridiculamente superfluo. Ento rompem os pomposos queixumes! Tudo
+vaidade e afflico de espirito! nada existe estavel sob o sol! Com
+effeito, meu bom Salomo, tudo passa--principalmente o poder de usar
+trezentas concubinas! Mas que se restitua a esse velho sulto asiatico,
+besuntado de Litteratura, a sua virilidade,--e onde se sumir o lamento
+do Ecclesiastes? Ento voltar, em segunda e triumphal edio, o extase
+do _Livro dos Cantares_!...
+
+Assim discursava o meu amigo no nocturno silencio de Tormes. Creio que
+ainda estabeleceu sobre o Pessimismo outras coisas joviaes, profundas ou
+elegantes;--mas eu adormecera, beatificamente envolto em Optimismo e
+doura.
+
+Em breve porm, me fez pular, escancarar as palpebras molles, uma rija,
+larga, sadia e genuina risada. Era Jacintho, estirado n'uma cadeira, que
+lia o D. Quixote... Oh bem aventurado Principe! Conservra elle o agudo
+poder de arrancar theorias a uma espiga de milho ainda verde, e por uma
+clemencia de Deus, que fizera reflorir o tronco secco, recuperra o dom
+divino de rir, com as facecias de Sancho!
+
+Aproveitando a minha companhia, as duas semanas de bucolica occiosidade
+que eu lhe concedera, o meu Jacintho preparou ento a ceremonia to
+falada, to meditada, a trasladao dos ossos dos velhos Jacinthos--dos
+respeitaveis ossos como murmurava, cumprimentando, o bom Silverio, o
+procurador, n'essa manh de sexta feira, em que almoava comnosco,
+mettido n'um espantoso jaqueto de velludilho amarello debruado de seda
+azul! A ceremonia, de resto, reclamava muita singeleza por serem to
+incertos, quasi impessoaes, aquelles restos, que ns estabeleceriamos na
+Capellinha do valle da Carria, na Capellinha toda nova, toda nua e toda
+fria, ainda sem alma e sem calor de Deus.
+
+--Por que emfim v. ex.^a comprehende,--explicava o Silverio passando o
+guardanapo por sobre a larga face suada e por sobre as immensas barbas
+negras, como as d'um turco--, n'aquella mixordia... Oh! peo desculpa a
+v. ex.^a! N'aquella confuso, quando tudo desabou, no pudmos mais
+conhecer a quem pertenciam os ossos. Nem sequer, fallando verdade, ns
+sabiamos bem que dignos avs de v. ex.^a jaziam na capella velha, assim
+to antigos, com os letreiros apagados, senhores de todo o nosso
+respeito, certamente, mas, se v. ex.^a me permitte, senhores j muito
+desfeitos... Depois veio o desastre, a mixordia. E aqui est o que
+decidi, depois de pensar. Mandei arranjar tantos caixes de chumbo,
+quantas as caveiras que se apanharam l em baixo na Carria, entre o
+lixo e o pedregulho. Havia sete caveiras e meia. Quero dizer, sete
+caveiras e uma caveirinha pequenina. Mettemos cada caveira em seu
+caixo. Depois... Que quer v. ex.^a? No havia outro meio! E aqui o Snr.
+Fernandes dir se no acha que procedemos com habilidade. A cada caveira
+juntamos uma certa poro d'ossos, uma poro rasoavel... No havia
+outro meio... Nem todos os ossos se acharam. Canellas, por exemplo,
+faltavam! E bem possivel que as costellas d'um d'aquelles senhores
+ficasse com a cabea d'outro... Mas quem podia saber? S Deus. Emfim
+fizemos o que a prudncia mandava... Depois, no dia de Juizo, cada um
+d'estes fidalgos apresentar os ossos que lhe pertencerem.
+
+Lanava estas cousas macabras e tremendas, penetrado de respeito, quasi
+com magestade, espetando, ora em mim, ora no meu Principe, os olhinhos
+agudos e relusentes como vidrilhos.
+
+Eu approvei o pittoresco homem:
+
+--Perfeitamente! Andou perfeitamente, amigo Silverio. So to vagos, to
+anonymos, todos esses avs! S faz pena, grande pena, que se
+tresmalhassem os restos do av Galio.
+
+--No estava c! accudiu Jacintho. Vim a Tormes expressamente por causa
+do av Galio, e por fim o seu jazigo nunca foi aqui, na Capellinha da
+Carria... Felizmente!
+
+O Silverio saccudia gravemente a calva trigueira:
+
+--Nunca tivemos o ex.^{mo} sr. Galio. Ha cem annos, Snr. Fernandes, ha
+cem annos que se no depositava na capella velha corpo de cavalheiro c
+da casa.
+
+--Onde estar ento?...
+
+O meu Principe encolheu os hombros. Por esse Reino... Na egrejinha, no
+cemiterio d'alguma das freguezias numerosas, onde elle possuia terras.
+Casa to espalhada!
+
+--Bem! conclui. Ento, como se trata d'ossadas vagas, sem nome, sem
+data, convem uma ceremoniasinha muito simples, muito sobria.
+
+--Quietinha, quietinha! murmurou o Silverio, dando um forte sorvo
+assobiado ao caf.
+
+E foi quietinha, d'uma rustica e doce singeleza, a ceremonia d'aquelles
+altos senhores. Cedo, por uma manh, levemente enevoada, os oito caixes
+pequeninos, cobertos d'um velludo vermelho mais de festa que de funeral,
+com molhos de rosas espalhados, contendo cada um o seu montesinho
+d'ossos incertos, sahiram aos hombros dos coveiros de Tormes e dos moos
+da quinta, da Egreja de S. Jos, cujo sino leve tangia, na enevoada
+doura da manh,--quanto fina e levemente!--como pia um passarinho
+triste. Adiante, um airoso moo de sobrepelis, erguia com zelo a velha
+cruz prateada; abrigando o pescoo sob um immenso leno de rap, de
+quadrados azues, o velho e corcovado sacristo segurava pensativamente a
+caldeirinha d'agoa benta; e o bom abbade de S. Jos, com os dedos entre
+o breviario fechado, movia os labios, n'uma lenta, murmurosa resa, que
+ia, pelo doce ar, espalhando mais doura. Logo atraz do ultimo cofre, o
+mais pequenino, o da caveirinha pequena, Jacintho caminhava; e eu, a
+estalar dentro d'um fato preto de Jacintho, tirado pressa d'uma das
+malas de Paris quando, de manh, j tarde para mandar a Guies, me
+lembrei que toda a minha roupa era de cores festivaes e pastoris.
+
+Depois marchava o Silverio, solemnissimo, com um immenso peitilho, onde
+as barbas immensas se alastravam, negrissimas. De casaca, com o grosso
+beio descahido, descahido todo elle por aquella melancolia de enterro
+que se juntava melancolia da serra, o Grillo enfiava no brao a sua
+coroa, enorme, de rosas e d'heras. Por fim seguia o Melchior, entre um
+rancho de mulheres, que, sumidas na sombra dos lenos pretos, desfiando
+longos rosarios, rosnavam surdas av-marias, atravez d'espaados
+suspiros, to doridos como se inconsoladamente lhes doesse a perda
+d'aquelles Jacinthos. Assim, pelas varzeas entrecorridas de regueiros,
+lenta nos recostos dos mattos, escorregando mais rapida, pelos corregos
+pedregosos, seguia a procisso, sempre com a cruz adiante, alta e
+prateada, rebrilhando por vezes n'um breve raiosinho de sol que,
+vagarosamente, surdia da nevoa desfeita. Ramos baixos de lodo ou de
+salgueiro passavam uma derradeira caricia sobre o velludo dos caixes.
+
+Um regato por vezes nos acompanhava, com discreto fulgir entre as
+relvas, sussurrando e como resando tambem, alegremente: e nos
+quintalinhos umbrosos, nossa passagem, os gallos, de cima das pilhas
+de matto, faziam soar o seu clarim festivo. Depois, adiante da fonte da
+Lira, como o caminho se alongava, e desejassemos poupar o nosso velho
+abbade, cortamos atravez d'uma seara, j alta, quasi madura, toda
+entremeada de papoulas, O sol radiou: sob a brisa larga, que levra a
+nevoa, toda a messe ondulou n'uma lenta vaga dourada, em que se
+balouavam os esquifes; e, como enorme papoula, a mais vermelha,
+rutilava o guarda sol de panninho logo aberto pelo sacristo para
+abrigar o abbade.
+
+Jacintho tocou no meu cotovello:
+
+--Que lindos vamos! Ora v tu a Natureza... N'um simples enterrar
+d'ossos, quanta graa e quanta belleza!
+
+Na Capellinha, nova, dominando o valle da Carria, solitaria e muito
+nua, no meio d'um adro, ainda mal alisado, sem uma verdura de relva, uma
+frescura d'arbusto, dous moos seguravam porta molhos de tochas, que o
+Silverio distribuiu, a passos graves, com cortezias, solemnissimo.
+Dentro as curtas chammas, mal luziam, mal derramavam a sua amarellido
+triste, esbatidas na relusente brancura dos muros estucados, na jovial
+claridade que cahia das altas vidraas bem polidas. Em torno dos
+esquifes, pousados sobre bancos, que pesados velludilhos recobriam, o
+abbade murmurava um suave latim, emquanto ao fundo as mulheres, sumidas
+na sombra dos seus negros lenos, gemiam _amens_ agudos, abafavam um
+respeitoso soluo. Depois, tomando levemente o hyssope, ainda o bom
+abbade aspergiu, para uma derradeira purificao, os incertos ossos dos
+incertos Jacinthos. E todos desfilamos por diante do meu Principe,
+timidamente encostado umbreira, com o Silverio ao lado esmagando
+contra o peitilho as barbas immensas, a face descahida, cerradas as
+palpebras como contendo lagrimas.
+
+No adro, o meu Principe accendeu regaladamente um cigarro pedido ao
+Melchior:
+
+--E ento, Z Fernandes, que te pareceu a ceremoniasinha?
+
+--Muito campestre, muito suave, muito risonha... Uma delicia.
+
+Mas o Abbade, que se desvestira na Sachristia, appareceu, j com o seu
+grande casaco de lustrina, e seu velho chapeu desabado, trazidos pelo
+moo da Residencia, n'um sacco de chita. Jacintho, immediatamente lhe
+agradeceu tantos cuidados, a affavel hospitalidade que offerecera aos
+ossos, durante a construco da Capellinha nova. E o suave velho, todo
+branquinho, de faces ainda menineiras e coradas, com um claro sorriso de
+dentes sadios, louvava Jacintho, que assim viera de to longe, em to
+longa jornada, para cumprir aquelle dever de bom neto.
+
+--So avs muito remotos, e agora to confusos! murmurava Jacintho
+sorrindo.
+
+--Pois mais merito ainda o de v. ex.^a. Respeitar um av morto, bem
+corrente... Mas respeitar os ossos d'um quinto av, d'um setimo av!
+
+--Sobretudo, Snr. Abbade, quando d'elles nada se sabe, e naturalmente
+nada fizeram.
+
+O velho sacudiu risonhamente o dedo gordo:
+
+--Ora quem sabe, quem sabe! Talvez fossem excellentes! E por fim, quem
+muito se demora no mundo, como eu, termina por se convencer que no mundo
+no ha cousa ou ser inutil. Ainda hontem eu lia n'um jornal do Porto,
+que por fim, segundo se descobriu, so as minhocas que estrumam e lavram
+a terra, antes de chegar o lavrador e os bois com o arado. At as
+minhocas so uteis. No ha nada inutil... Eu tinha l na residencia uma
+poro de cardos a um canto da horta, que me affligiam. Pois reflecti e
+terminei por me regalar com elles em xarope. Os avs de v. ex.^a por c
+andaram, por c trabalharam, por c padeceram. Quer dizer: por c
+serviram. E, em todo o caso, que lhes rezemos um Padre-Nosso por alma
+no lhes pde fazer seno bem, a elles e a ns.
+
+E assim, docemente philosophando, paramos n'um souto de carvalheiras,
+onde esperava a velhissima egoa do Abbade, por que o santo homem agora,
+depois do rheumatismo do ultimo inverno, j no affrontava rijamente
+como antes os trilhos duros da serra. Para elle montar, filialmente
+Jacintho segurou o estribo. E emquanto a egoa se empurrava pelo corrego
+acima, quasi tapada sob o immenso guarda sol vermelho em que se abrigava
+o velho, ns recolhemos a casa mettendo pela serra da Lombinha, atravez
+dos milhos, e depressa, porque eu estalava, aperreado, dentro da roupa
+preta do meu Principe.
+
+--Esto pois accommodados estes senhores, Z Fernandes! S resta rezar
+por elles o Padre-Nosso, que recommenda o abbade... Smente, eu no sei,
+j no me lembro do Padre-Nosso.
+
+--No te afflijas, Jacintho: peo tia Vicencia que reze por mim e por
+ti. sempre a tia Vicencia que reza os meus Padre-Nossos.
+
+Durante essas semanas que preguicei em Tormes, eu assisti, com
+internecido interesse, a uma consideravel evoluo de Jacintho nas suas
+relaes com a Natureza. D'aquelle periodo sentimental de contemplao,
+em que colhia theorias nos ramos de qualquer cerejeira, e edificava
+Systemas sobre o espumar das levadas, o meu Principe lentamente passava
+para o desejo da Aco... E d'uma aco directa e material, em que a sua
+mo, emfim restituida a uma funco superior, revolvesse o torro.
+
+Depois de tanto _commentar_, o meu Principe, evidentemente, aspirava a
+_crear_.
+
+Uma tardinha, ao anoitecer, sentados no pomar, no rebordo do tanque, em
+quanto o Manoel hortelo apanhava laranjas no alto d'uma escada arrimada
+a uma alta laranjeira, Jacintho observou, mais para si do que para mim:
+
+-- curioso... Nunca plantei uma arvore!
+
+--Pois um dos tres grandes actos, sem os quaes segundo diz no sei que
+Philosopho, nunca se foi um verdadeiro homem... Fazer um filho, plantar
+uma arvore, escrever um livro. Tens de te apressar, para ser um homem.
+possivel que talvez nunca prestasses um servio a uma arvore, como se
+presta a um semelhante!
+
+--Sim... Em Paris, quando era pequeno, regava os lilazes. E no vero
+um bello servio! Mas nunca semeei.
+
+E como o Manoel descia da escada, o meu Principe, que nunca acreditra
+inteiramente--pobre homem!--no meu saber agricola, immediatamente
+reclamou o parecer d'aquella auctoridade:
+
+--Oh Manoel, oua l, o que que se poderia agora semear?
+
+Como cesto das laranjas enfiado no brao, o Manoel exclamou, atravez
+d'um lento riso, entre respeitoso e divertido:
+
+--Semear, patro? Agora antes colher... Olhe que j se anda a limpar a
+eirasinha para a debulha, meu patro.
+
+--Pois sim... Mas sem ser milho nem cevada... Ento alli no pomar, rente
+do muro velho, no se podia plantar uma fila de pecegueiros?
+
+O riso do Manoel crescia.
+
+--Isso sim, meu senhor! Isso l para os Santos ou para o Natal. Agora
+s a couvinha na horta, a beldroega, os espinafres, algum feijosinho em
+terra muito fresca...
+
+O meu Principe sacudiu com brando gesto estes legumes rasteiros.
+
+--Bem, boa noite, Manoel. Essas laranjas so da tal laranjeira que diz o
+Melchior, muito doces, muito finas? Ento leve para os seus pequenos.
+Leve muitas para os pequenos.
+
+No! o empenho era crear a arvore. Pela arvore contemplada na serra em
+sua verdadeira magestade, na beneficencia da sua sombra, na frescura
+emballadora do seu rumorejar, na graa e santidade dos ninhos que a
+povoam, comera talvez, lentamente, o seu amor novo da Terra. E agora
+sonhava uma Tormes toda coberta d'arvores, cujos fructos e verduras, e
+sombras, e rumorejos suaves, e abrigados ninhos, fossem a obra e o
+cuidado das suas mos paternaes.
+
+No silencio grave do crepusculo, que descia, murmurou ainda:
+
+--Oh Z Fernandes; quaes so as arvores que crescem mais depressa?
+
+--Eh, meu Jacintho... A arvore que cresce mais depressa o eucalypto, o
+feiissimo e ridiculo eucalypto. Em seis annos tens ahi Tormes coberta de
+eucalyptos...
+
+--Tudo to lento, Z Fernandes...
+
+Porque o seu sonho, que eu comprehendia, seria plantar caroos que
+subissem em fortes troncos, se alargassem em verdes ramarias, antes de
+elle voltar ao 202, no comeo do inverno...
+
+--Um carvalho!... Trinta annos, antes que seja bello! Desanmo! bom
+para Deus, que pode esperar... _Patiens quia aeternus_. Trinta annos!
+D'aqui a trinta annos, arvores s para me cobrirem a sepultura!
+
+--J um ganho. E depois para teus filhos, Jacintho...
+
+--Filhos! onde os tenho eu?
+
+-- o mesmo processo dos castanheiros. Semeia. No faltam por ahi terras
+agradaveis... Em nove mezes tens uma planta feita. E quanto mais
+tenrinhas, e mais pequeninas, mais essas plantas encantam.
+
+Elle murmurou, crusando as mos sobre o joelho:
+
+--Tudo leva tanto tempo!...
+
+E borda do tanque nos quedamos, calados, na fresca doura do
+anoitecer, entre o cheiro avivado das madresilvas do muro, olhando o
+crescente da lua, que surdia dos telhados de Tormes.
+
+E decerto esta pressa de se tornar entre a Natureza no mais um
+sonhador, mas um creador, arremessou vivamente o seu interesse para os
+gados! Repetidamente, nos nossos passeios atravez da quinta, elle lhe
+notava a solido.
+
+--Faltam aqui animaes, Z Fernandes!
+
+Imaginava eu, que elle appetecia em Tormes o ornato elegante de veados e
+paves. Mas um domingo, costeando o largo campo da Ribeirinha, sempre
+escasso d'agoas, agora mais resequido por vero de tanta seccura, o meu
+Principe parou a considerar os tres carneiros do caseiro, que retouavam
+com penuria uma relvagem pobre.
+
+E, de repente, como magoado:
+
+--Justamente! Aqui est o espao para um bello prado, um immenso prado,
+muito verde, muito farto, com rebanhos de carneiros brancos, gordissimos
+como bolas de algodo pousadas na relva!... Era lindo, hein? facil,
+no verdade, Z Fernandes?
+
+--Sim... Trazes a agoa para o prado. Agoas no faltam, na serra.
+
+E o meu principe encadeando logo n'esta inspirada idea outra, mais rica
+e vasta, lembrou quanta belleza daria a Tormes encher esses prados,
+esses verdes ferregiaes, de manadas de vaccas, formosas vaccas inglezas,
+bem nedias e bem luzidias. Hein? Uma belleza. Para abrigar esses gados
+ricos, construiria curraes perfeitos, d'uma architectura leve e util,
+toda em ferro e vidro, fundamente varridos pelo ar, largamente lavados
+pela agoa... Hein? Que formosura! Depois, com todas essas vaccas, e o
+leite jorrando, nada mais facil e mais divertido, e at mais moral, que
+a installao d'uma queijeira, fresca moda Hollandeza, toda branca e
+reluzente, de azulejos e de marmore, para fabricar os Camemberts, os
+Bries... os Coulommiers... Para a casa, que conforto! E para toda a
+serra, que actividade!
+
+--Pois no te parece, Z Fernandes?
+
+--Com certeza. Tu tens, em abundancia, os quatro Elementos: o ar, a
+agoa, a terra, e o dinheiro. Com estes quatro elementos, facilmente se
+faz uma grande lavoura. Quanto mais uma queijeira!
+
+--Pois no verdade? E at como negocio! Est claro, para mim o lucro
+o deleite moral do trabalho, o emprego fecundo do dia... Mas uma
+queijaria, assim perfeita, rende. Rende prodigiosamente. E educa o
+paladar, incita a installaes eguaes, implanta talvez no paiz uma
+industria nova e rica! Ora com essa installao, perfeita, quanto me
+poder custar cada queijo?
+
+Fechei um olho, calculando:
+
+--Eu te digo.... Cada queijo, um d'esses queijinhos redondos, como o
+Camembert ou o Rabaal, pde vir a custar-te, a ti Jacintho queijeiro,
+entre duzentos e cincoenta e trezentos mil ris.
+
+O meu Principe recuou, com dous olhos alegres espantados para mim.
+
+--Como trezentos mil ris?
+
+--Ponhamos duzentos... Tem a certeza! Com todos esses prados, e os
+encanamentos d'agoa e a configurao da serra alterada, e as vaccas
+inglezas, e os edificios de porcellana e vidro, e as maquinas, a
+extravagancia, e a patuscada bucolica, cada queijo te custa, a ti
+productor, duzentos mil ris. Mas com certeza o vendes no Porto por um
+tosto. Pe cincoenta ris para a caixa, rotulos, transporte, commisso,
+etc. Tens apenas, em cada queijo uma perda de cento e noventa e nove mil
+oitocentos e cincoenta ris!
+
+O meu Principe no desanimou.
+
+--Perfeitamente! Fao um d'esses espantosos queijos por semana, ao
+sabbado, para o comermos ns ambos ao domingo!
+
+E tanta energia lhe communicava o seu novo Optimismo, to anciosamente
+aspirava a crear, que logo, arrastando o Silverio e o Melchior por
+cabeos e barrancos, largou a percorrer a quinta toda, para determinar
+onde cresceriam, ao seu mando inspirado, os verdes prados, e se
+ergueriam, rebrilhantes no sol de Tormes, os curraes elegantes. Com a
+esplendida segurana dos seus cento e nove contos de renda, no surgia
+difficuldade, risonhamente murmurada pelo Melchior, ou exclamada, com
+respeitoso pasmo, pelo Silverio, que elle no afastasse brandamente, com
+geito leve, como um galho de roseira brava atravessado n'uma vereda.
+
+Aquellas rochas, alm, empecendo? Que se arrancassem! Um valle importuno
+dividia dous campos? Que se atulhasse! O Silverio suspirava, enxugando
+sobre a escura calva um suor quasi d'angustia. Pobre Silverio! Rijamente
+sacudido na doce pachorra da sua administrao, calculando despezas que
+se affiguravam sobrehumanas sua parcimonia serrana, forado a
+arquejar, sem descano, sob soalheiras de Junho, o desgraado retomra
+na Serra o geito que Jacintho deixra em Paris,--e era elle que corria
+pelas longas barbas tenebrosas os dedos desalentados... Emfim uma tarde
+desabafou comigo, a um canto da varanda, em quanto Jacintho, na
+livraria, escrevia a um seu amigo de Hollanda, o conde Rylant, Mordomo
+Mr da Corte, pedindo desenhos, e planos, e oramentos d'uma queijeira
+perfeita.
+
+--Pois, Snr. Fernandes, se toda esta grandeza vae por diante, sempre lhe
+digo que o Snr. D. Jacintho enterra aqui na serra dezenas de contos...
+Dezenas de contos!
+
+E como eu alludia fortuna do meu Principe, a quem todas essas obras
+to vastas, que alterariam o antiquissimo rosto da serra, no custavam
+mais que a outros o concerto d'um socalco,--o bom Silverio atirou os
+longos braos para as coxas gordas, ainda mais desolado:
+
+--Pois por isso mesmo, Snr. Fernandes! Se o Snr. D. Jacintho no tivesse
+a dinheirama, recuava. Assim, zs zs, para deante; e eu no o censuro
+pela ideia. Lograsse eu a renda de S. Ex.^a, que me atirava tambem a uma
+lavoura de capricho. Mas no aqui, Snr. Fernandes, n'estas serranias,
+entre alcantis. Pois um senhor que possue aquella linda propriedade de
+Montemr, nos campos do Mondego, onde at podia plantar jardins de
+desbancar os do Palacio de Crystal do Porto! E a Velleira? O Snr.
+Fernandes no conhece a Velleira, l para os lados de Penafiel? Isso
+um condado! E uma terra ch, boa terra, toda junta, alli em volta da
+casa, com uma torre. Um regalo, Snr. Fernandes. Mas sobretudo Montemr!
+L que eram prados e manadas de vaccas inglezas, e queijeira e horta
+rica, de fartar, e ahi trinta pers na capoeira...
+
+--Ento que quer, Silverio? O Jacintho gosta da serra. E depois este o
+solar da familia, e aqui comearam no seculo XIV os Jacinthos...
+
+O pobre Silverio, no seu desespero, esquecia o respeito devido secular
+nobreza da casa.
+
+--Ora! at ficam mal ao Snr. Fernandes essas ideias, n'este seculo da
+liberdade... Pois estamos l em tempos de se fallar em fidalguias, agora
+que por toda a parte anda tudo em Republica? Leia o _Seculo_, Snr.
+Fernandes! leia o _Seculo_, e ver! E depois eu sempre quero vr o Snr.
+D. Jacintho, aqui no inverno, com o nevoeiro a subir do rio logo pela
+manh, e a friagem a trespassar os ossos, e ventanias que atiram
+carvalheiras de raizes ao ar, e chuvas e chuvas que se desfaz a
+serra!... Olhe, at mesmo por amor da saude o Snr. D. Jacintho, que
+fraquinho e acostumado cidade, necessita sahir da serra. Em Montemr,
+em Montemr que s. ex.^a estava bem. E o Snr. Fernandes, to amigo
+d'elle e assim com tanta influencia, devia teimar, e berrar, at que o
+levasse para Montemr.
+
+Mas, infelizmente para a quietao do Silverio, Jacintho lanra raizes,
+e rijas, e amorosas raizes na sua rude serra. Era realmente como se o
+tivessem plantado d'estaca n'aquelle antiquissimo cho, d'onde brotra a
+sua raa, e o antiquissimo humus refluisse e o penetrasse todo, e o
+andasse transformando n'um Jacintho rural, quasi vegetal, to do cho, e
+preso ao cho, como as arvores que elle tanto amava.
+
+E depois o que o prendia serra era o ter n'ella encontrado o que na
+Cidade, apesar da sua sociabilidade, no encontrra nunca,--dias to
+cheios, to deliciosamente occupados, d'um to saboroso interesse, que
+sempre penetrava n'elles, como n'uma festa ou n'uma gloria.
+
+Logo de manh, s seis horas, eu, no meu quarto, mexendo ainda
+regaladamente o meu corpo nos colches de fresco folhelho, sentia os
+seus rijos sapates pelo corredor, e o seu cantarolar, desafinado, mas
+ditoso como o d'um melro. Em poucos instantes escancarava com fragor a
+minha porta, j de chapeu desabado, j de bengalo de cerejeira,
+disposto com reservado fervor para os trilhos conhecidos da serra. E era
+sempre a mesma nova, quasi orgulhosa:
+
+--Dormi hoje deliciosamente, Z Fernandes. To bem, com uma tal
+serenidade, que comeo a acreditar que sou um justo! Um dia lindo!
+Quando abri a janella, s cinco horas, quasi gritei de puro gosto!
+
+Na sua pressa, nem me deixava demorar na frescura da banheira; e quando
+eu repetia a risca mal comeada do cabello, aquelle antigo homem das
+trinta e nove escovas, protestava contra esse desbarato effeminado d'um
+tempo devido aos fortes gozos da terra.
+
+Mas quando, depois de acariciar os rafeiros no pateo, desembocavamos da
+alameda de platanos, e deante de ns se dividiam matutinamente, mais
+brancos entre o verde matutino, os caminhos colleantes da quinta, toda a
+sua pressa findava, e penetrava na Natureza, com a reverente lentido de
+quem penetra n'um Templo. E repetidamente sustentava ser contrario
+Esthetica, Philosophia e Religio, andar depressa atravs dos
+campos. De resto, com aquella subtil sensibilidade bucolica que n'elle
+se desenvolvera, e incessantemente se afinava, qualquer breve belleza,
+do ar ou da terra, lhe bastava para um longo encanto. Ditosamente
+poderia elle entreter toda uma manh, caminhar por entre um pinheiral,
+de tronco a tronco, callado, embebido no silencio, na frescura, no
+resinoso aroma, empurrando com o p as agulhas e as pinhas seccas.
+Qualquer agua corrente o retinha, enternecido n'aquella servial
+actividade, que se apressa, cantando, para o torro que tem sde, e
+n'elle se some, e se perde. E recordo ainda quando me reteve meio
+domingo, depois da Missa, no cabeo, junto a um velho curral
+desmantellado, sob uma grande arvore,--s por que em torno havia
+quietao, doce aragem, um fino piar d'ave na ramaria, um murmurio de
+regato entre canas verdes, e por sobre a sbe, ao lado, um perfume,
+muito fino e muito fresco, de flores escondidas.
+
+Depois, quando eu, velho familiar das serras, me no abandonava aos
+mesmos extasis que a elle lhe enchiam a alma ainda novia--o meu
+Principe rugia, com a indignao d'um poeta que descobre um mercieiro
+bocejando sobre Shakspeare ou Musset. Eu ria.
+
+--Meu filho, olha que eu no passo d'um pequeno proprietario. Para mim
+no se trata de saber se a terra _linda_, mas se a terra _boa_. Olha
+o que diz a Biblia! Trabalhars a quinta com o suor do teu rosto! E
+no diz contemplars a quinta com o enlevo da tua imaginao!
+
+--Podra! exclamava o meu Principe. Um livro escripto por Judeos, por
+asperos semitas, sempre com o turvo olho posto no lucro! Repra, homem,
+para aquelle bocadinho de valle, e consegue no pensar, por um momento,
+nos trinta mil reis que elle rende! Vers que pela sua belleza e graa
+elle te d mais contentamento alma que os trinta mil reis ao corpo. E
+na vida s a alma importa.
+
+Recolhendo ao casaro, j o encontravamos com as janellas meio cerradas,
+os soalhos borrifados para aquellas quentes restias de sol de junho, que
+depois do almoo docemente nos retinham na livraria, preguiando.
+
+Mas realmente a alegre actividade do meu Principe no cessava, nem
+amollecia, sob o peso da ssta. A essa hora, em quanto pelo arvoredo
+mudo os mais agitados pardaes dormiam, e o sol mesmo parecia repousar,
+immovel na rutilancia da sua luz, Jacintho com o espirito
+acordado,--vido de sempre gosar, agora que reconquistra essa
+faculdade,--tomava com delicia o _seu livro_. Por que o dono de trinta
+mil volumes era agora, na sua casa de Tormes, depois de resuscitado, o
+homem que s tem um livro. Essa mesma Natureza, que o desligra das
+ligaduras amortalhadoras do tedio, e lhe gritra o seu bello _Ambula_,
+caminha!--tambem certamente lhe gritra _et lege_, e l. E libertado
+emfim do envolucro suffocante da sua Bibliotheca immensa, o meu ditoso
+amigo comprehendia emfim a incomparavel delicia de _lr um livro_.
+Quando eu correra a Tormes, (depois das revelaes do Severo na venda do
+Torto,) elle findava o D. Quichote, e ainda eu lhe escutra as
+derradeiras risadas com as cousas deliciosas, e de certo profundas, que
+o gordo Sancho lhe murmurava, escarranchado no seu burro. Mas agora o
+meu Principe mergulhra na _Odyssea_,--e todo elle vivia no espanto e no
+deslumbramento de assim ter encontrado no meio do caminho da sua vida, o
+velho errante, o velho Homero!
+
+--Oh Z Fernandes, como succedeu que eu chegasse a esta edade sem ter
+lido Homero?...
+
+--Outras leituras, mais urgentes... O _Figaro_, George Ohnet...
+
+--Tu leste a _Illiada_?
+
+--Menino, sinceramente me gabo de nunca ter lido a _Illiada_.
+
+Os olhos do meu Principe fuzilavam.
+
+--Tu sabes o que fez Alcibiades, uma tarde, no Portico, a um sophista,
+um desavergonhado d'um sophista, que se gabava de no ter lido a
+_Illiada_?
+
+--No.
+
+--Ergueu a mo e atirou-lhe uma bofetada tremenda.
+
+--Para l, Alcibiades! Olha que eu li a _Odyssea_!
+
+Oh! mas de certo eu a lra, corridamente, com a alma desattenta! E
+insistia em me iniciar, elle, e me conduzir, atravs do Livro sem egual.
+Eu ria. E rindo, pesado do almoo, terminava por consentir, e me
+estirava no canap de verga. Elle, deante da mesa, direito na cadeira,
+abria o livro gravemente, pontificalmente, como um missal, e comeava
+n'uma lenta ode sentida. Aquelle grande mar da _Odyssea_,--resplandecente e
+sonoro, sempre azul, todo azul, sob o vo branco das
+gaivotas, rolando, e mansamente quebrando sobre a areia fina ou contra
+as rochas de marmore das Ilhas divinas,--exhalava logo uma frescura
+salina, bem vinda e consoladora n'aquella calma de Junho, em que a serra
+se entorpecia. Depois as estupendas manhas do subtil Ulysses e os seus
+perigos sobrehumanos, tantas lamurias sublimes, e um anceio to
+espalhado da Patria perdida, e toda aquella intriga, em que embrulhava
+os Heroes, lograva as Deusas, illudia o Fado, tinham um delicioso sabr
+ali, nos campos de Tormes, onde nunca se necessitava de subtileza ou de
+engenho, e a Vida se desenrolava com a segurana immutavel com que cada
+manh sempre o Sol egual nascia, e sempre centeios e milhos, regados por
+agoas eguaes, seguramente medravam, espigavam, amadureciam... Emballado
+pela recitao grave e monotona do meu Principe, eu cerrava as palpebras
+docemente. Em breve um vasto tumulto, por terra e ceu, me alvoroava...
+E eram os rugidos de Polyphemo, ou a grita dos companheiros d'Ulysses
+roubando as vaccas de Apollo. Com os olhos logo esbugalhados para
+Jacintho, eu murmurava: _Sublime!_ E sempre, n'esse momento o engenhoso
+Ulysses, de carapuo vermelho e o longo remo ao hombro, surprehendia com
+a sua facundia a clemencia dos Principes, ou reclamava presentes devidos
+ao Hospede, ou surripiava astutamente algum favor aos Deuses. E Tormes
+dormia, no esplendor de Junho. Novamente, eu cerrava as palpebras
+consoladas, sob a caricia ineffavel do largo dizer homerico... E meio
+adormecido, encantado, incessantemente avistava, longe, na divina
+Hellade, entre o mar muito azul e o ceu muito azul, a branca vela,
+hesitante, procurando Ithaca...
+
+Depois da ssta o meu Principe de novo se soltava para os campos. E a
+essa hora, sempre mais activa, voltava com ardor aos seus planos, a
+essas culturas de luxo e elegantes officinas que cobririam a serra de
+magnificencias ruraes. Agora andava todo no esplendido appetite d'uma
+horta que elle concebera, immensa horta ajardinada, em que todos os
+legumes, classicos ou exoticos, cresceriam, soberbamente, em vistosos
+talhes, fechados por sebes de rosas, de cravos, de alfazma, de
+dhalias. A agoa das regas desceria por lindos corrgos de loua
+esmaltada. Nas ruas, a sombra cahiria de densas latadas de moscatel,
+pousando em esteios revestidos d'azulejo. E o meu Principe desenhra o
+plano d'esta espantosa horta, a lapiz vermelho, n'um papel immenso, que
+o Melchior e o Silverio, consultados, longamente contemplaram,--um
+coando risonhamente a nuca, o outro com os braos duramente crusados, e
+o sobrlho tragico.
+
+Mas este plano, o da queijaria, o da capoeira, e outro, sumptuoso, d'um
+pombal to povoado que todo o ceu de Tormes s tardes se tornaria branco
+e todo fremente d'azas--no sahiam das nossas gostosas palestras, ou dos
+papeis em que Jacintho os debuxava, e que se amontoavam sobre a meza,
+platonicos, immoveis, entre o tinteiro de lato e o vaso com flres.
+
+Nem enxadada fendera terra, nem alavanca deslocra pedra, nem serra
+serrra madeira, para encetar estas maravilhas. Contra a resistencia
+rebolada e escorregadia do Melchior, contra a respeitosa inercia do
+Silverio se quedavam, encalhados, os planos do meu Principe, como
+galeras vistosas em rochas ou em ldo.
+
+No convinha bolir em nada, (clamava o Silverio) antes das colheitas e
+da vindima! E depois, (acrescentava o Melchior com um sorriso de grande
+promessa) para boas obras mez de Janeiro porque l ensina o dictado:
+
+Em Janeiro--mette obreiro
+Mez meante--que no ante.
+
+E, de resto, o goso de conceber as suas obras e de indicar, estendendo a
+bengala por cima de valle e monte, os sitios privilegiados que ellas
+aformoseariam, bastava por ora ao meu Principe, ainda mais imaginativo
+que operante. E, em quanto meditava estas transformaes da terra, muito
+progressivamente e com um amavel esforo, se ia familiarisando com os
+homens simples que a trabalhavam. Na sua chegada a Tormes, o meu
+Principe soffria d'uma estranha timidez diante dos caseiros, dos
+jornaleiros, e at de qualquer rapazinho que passasse, tangendo uma
+vacca para o pasto. Nunca elle ento se demoraria a conversar com os
+moos, quando borda d'um caminho ou n'um campo em monda elles se
+endireitavam de chapeu na mo, n'um respeito de velha vassalagem. De
+certo o empecia a preguia, e talvez ainda o pudico recato de transpor
+toda a immensa distancia que se alargava desde a sua complicada
+super-civilisao at rude simplicidade d'aquellas almas
+naturaes:--mas sobretudo o retinha o medo de mostrar a sua ignorancia da
+lavoura e da terra, ou de parecer talvez desdenhoso de occupaes e de
+interesses, que para os outros eram supremos e quasi religiosos. Remia
+ento esta reserva com uma profuso de sorrisos, de doces acenos,
+tirando tambem o chapeu em cortezias profundas, com uma tal emphase de
+polidez que eu por vezes receava que elle murmurasse aos jornaleiros:
+Tenha v. ex.^a muito boas tardes;... Creado de v. ex.^a!
+
+Mas agora, depois d'aquellas semanas de serra, e de j saber (com um
+saber ainda fragil,) a epocha das sementeiras e das ceifas, e que as
+arvores de fructa se semeiam no inverno, j se aprazia em parar junto
+dos trabalhadores, contemplar descanadamente o trabalho, dizer cousas
+affaveis e vagas.
+
+--Ento, isso vae andando?... Ora ainda bem!... Este bocado de torro
+aqui rico... O talude ali adeante est precisando concerto...
+
+E cada um d'estes to simples dizeres lhe era doce, como se por meio
+d'elles penetrasse mais fundamente na intimidade da terra, e
+consolidasse a sua encarnao em homem do campo, deixando de ser uma
+mera sombra circulando entre realidades. J por isso no crusava no
+caminho o mocinho atraz das vaccas, que no o detivesse, o no
+interrogasse: Para onde vaes tu? De quem o gado? Como te chamas? E,
+contente comsigo, sempre gabava gratamente o desembarao do rapaz, ou a
+esperteza dos seus olhos. Outra satisfao do meu Principe era conhecer
+os nomes de todos os campos, as nascentes d'agua, e as delimitaes da
+sua quinta.
+
+--Vs acol, para alm do ribeiro, o pinheiral. J no meu, dos
+Albuquerques.
+
+E com a perenne alegria de Jacintho as noites da serra, no vasto
+casaro, eram faceis e curtas. O meu Principe era ento uma alma que se
+simplificava:--e qualquer pequenino goso lhe bastava, desde que n'elle
+entrasse paz ou doura. Com verdadeira delicia ficava, depois do caf,
+estendido n'uma cadeira, sentindo atravez das janellas abertas, a
+nocturna tranquillidade da serra, sob a mudez estrellada do ceu.
+
+As historias, muito simples e muito caseiras, que eu lhe contava, de
+Guies, do abbade, da tia Vicencia, dos nossos parentes da Flr da
+Malva, to sinceramente o interessavam que eu encetra, para seu regalo,
+a chronica completa de Guies, com todos os namoricos, e as faanhas de
+foras, e as desavenas por causa de servides ou d'aguas. Tambem por
+vezes nos enfronhavamos, com afferro n'uma partida de gamo, sobre um
+bello taboleiro de pau preto, com pedras de velho marfim, que nos
+emprestra o Silverio. Mas nada de certo o encantava tanto como
+atravessar as casas, p ante p, at uma saleta que dava para o pomar, e
+ahi ficar encostado janella, sem luz, n'um enlevado socego, a escutar
+longamente, languidamente, os rouxinoes que cantavam no laranjal.
+
+
+
+
+X
+
+
+N'uma dessas manhs--justamente na vespera do meu regresso a Guies--, o
+tempo, que andra pela serra to alegre, n'um inalterado riso de luz
+rutilante, todo vestido d'azul e ouro, fazendo poeira pelos caminhos, e
+alegrando toda a natureza, desde os passaros at os regatos,
+subitamente, com uma d'aquellas mudanas que tornam o seu temperamento
+to semelhante ao do homem, appareceu triste, carrancudo, todo
+embrulhado no seu manto cinzento, com uma tristeza to pesada e
+contagiosa que toda a serra entristeceu. E no houve mais passaro que
+cantasse, e os arroios fugiram para debaixo das hervas com um lento
+murmurio de chro.
+
+Quando Jacintho entrou no meu quarto, no resisti malicia de o
+aterrar:
+
+--Sudoeste! gralhas a grasnar por todos esses soutos... Temos muita
+agua, Snr. D. Jacintho! Talvez duas semanas d'agua! E agora se vae
+saber quem aqui o fino amador da Natureza, com esta chuva pegada, com
+vendaval, com a serra toda a escorrer!
+
+O meu Principe caminhou para a janella com as mos nas algibeiras:
+
+--Com effeito! Est carregado. J mandei abrir uma das malas de Paris e
+tirar um casaco impermeavel... No importa! Fica o arvoredo mais verde.
+E bom que eu conhea Tormes nos seus habitos d'inverno.
+
+Mas como o Melchior lhe affianra que a chuvinha s viria para a
+tarde, Jacintho decidiu ir antes d'almoo Corujeira, onde o Silverio
+o esperava para decidirem da sorte d'uns castanheiros, muito velhos,
+muito pittorescos, inteiramente interessantes, mas j roidos, e
+ameaando desabar. E, confiando nas previses do Melchior, partimos sem
+que Jacintho se vestisse prova d'agoa. No andaramos porm meio
+caminho, quando, depois d'um arrepio nas arvores, um negrume carregou,
+e, bruscamente, desabou sobre ns uma grossa chuva obliqua, vergastada
+pelo vento, que nos deixou estonteados, agarrando os chapeus,
+enrodilhados na borrasca. Chamados por uma grande voz, que se esganiava
+no vento, avistamos n'um campo mais alto, beira d'um alpendre, o
+Silverio, debaixo d'um guarda-chuva vermelho, que acenava, nos indicava
+o trilho mais curto para aquelle abrigo. E para l rompemos, com a chuva
+a escorrer na cara, patinhando na lama, contorcidos, cambaleantes,
+atordoados no vendaval, que n'um instante alagra os campos, inchra os
+ribeiros, esboroava a terra dos socalcos, lanra n'um desespero todo o
+arvoredo, tornra a serra negra, bravamente agreste, hostil,
+inhabitavel.
+
+Quando emfim, debaixo do vasto guarda-chuva com que o Silverio nos
+esperava beira do campo, corremos para o alpendre, nos refugiamos
+n'aquelle abrigo inesperado, a escorrer, a arquejar, o meu Principe,
+enxugando a face, enxugando o pescoo, murmurou, desfallecido:
+
+--Apre! que ferocidade!
+
+Parecia espantado d'aquella brusca, violenta colera d'uma serra to
+amavel e accolhedora, que em dous mezes, inalteradamente, s lhe
+offerecera doura e sombra, e suaves ceus, e quietas ramagens, e
+murmurios discretos de ribeirinhos mansos.
+
+--Santo Deus! Vem muitas vezes assim, estas borrascas?
+
+Immediatamente o Silverio aterrou o meu Principe:
+
+--Isto agora so brincadeiras de vero, meu senhor! Mas ha de V. Ex.^a
+vr no inverno, se V. Ex.^a se aguentar por c! Ento cada temporal,
+que at parece que os montes estremecem!
+
+E contou como fra tambem apanhado, quando ia para a Corujeira.
+Felizmente, logo pela manh, quando sentiu o ar carrancudo e as
+folhinhas dos choupos a tremer, se acautelra com o chapeu de chuva e
+calra as suas grandes botas.
+
+--Ainda estive para me abrigar em casa do Esgueira, que um caseiro de
+c. Aquella casa, ali abaixo, onde est a figueira... Mas a mulher tem
+estado doente, j ha dias... E como pde ser obra que se pegue, bexigas
+ou coisa que o valha, pensei comigo: Nada, o seguro morreu de velho!
+Metti para o alpendre... E no passra um credo quando lobriguei a V.
+Ex.^a... Coisa assim!... E o Snr. D. Jacintho voltar para casa, e
+mudar-se, que temos um dia e uma noite d'agoa.
+
+Mas, justamente, a chuva comera a cahir perpendicular, d'um ceu ainda
+negro, onde o vento se calra; e para alm do rio e dos montes havia uma
+claridade, como entre cortinas de pano cinzento que se descerram.
+
+Jacintho repousava. Eu no cessra de me sacudir, de bater os ps
+encharcados, que me arrefeciam. E o bom Silverio, passando a mo
+pensativa sobre o negrume das suas barbas, reflectia, emendava os seus
+prognosticos:
+
+--Pois, no senhor... Ainda esta! Nunca pensei. que tornejou o vento.
+
+O alpendre que nos cobria assentava sobre duas paredes em angulo, de
+pedra solta, restos d'algum casebre desmantelado, e sobre um esteio
+fazendo cunhal. N'esse momento s abrigava madeira, um cuculo de cestos
+vasios, e um carro de bois, onde o meu Principe se sentra, enrolando um
+cigarro confortador. A chuva desabava, copiosa, em longos fios
+reluzentes. E todos tres nos callavamos, n'aquella contemplao inerte e
+sem pensamento, em que uma chuva grossa e serena sempre immobilisa e
+retem olhos e almas.
+
+-- Snr. Silverio, murmurou lentamente o meu Principe, que que o
+senhor esteve ahi a dizer de bexigas?
+
+O procurador voltou a face surprehendido:
+
+--Eu, Ex.^{mo} Snr.?... Ah sim! a mulher do Esgueira! que pde ser,
+pde ser... No imagine V. Ex.^a que faltam por c doenas. O ar bom.
+No digo que no! Arsinho so, agoasinha leve. Mas s vezes, se V. Ex.^a
+me d licena, vae por ahi muita maleita.
+
+--Mas no ha medico, no ha botica?
+
+O Silverio teve o riso superior de quem habita regies civilisadas e bem
+providas...
+
+--Ento no havia d'haver? Pois ha um boticario, em Guies, l quasi ao
+p da casa aqui do nosso amigo. E homem entendido... o Firmino, hein,
+Snr. Fernandes? Homem capaz. Medico o Dr. Avelino, d'aqui a legoa e
+meia, nas Bolsas. Mas j V. Ex.^a v, esta gentinha pobre!... Tomaram
+elles para po, quanto mais para remedios!
+
+E de novo se estabeleceu um silencio, sob o alpendre, onde penetrava a
+friagem crescente da serra encharcada. Para alm do rio, a promettedora
+claridade no se alargra entre as duas espessas cortinas pardacentas.
+No campo, em declive deante de ns, ia um longo correr de ribeiros
+barrentos. Eu terminra por me sentar na ponta d'um madeiro, enervado,
+j com a fome aguada pela manh agreste. E Jacintho, na borda do carro,
+com os ps no ar, cofiava os bigodes humidos, palpava a face, onde, com
+espanto meu, reapparecera a sombra, a sombra triste dos dias passados, a
+sombra do 202!
+
+E, ento, surdiu por traz da parede do alpendre um rapasito, muito
+rotinho, muito magrinho, com uma carita miuda, toda amarella sob a
+porcaria, e onde dous grandes olhos pretos se arregalavam para ns, com
+vago pasmo e vago medo. Silverio immediatamente o conheceu.
+
+--Como vae a tua me? Escusas de te chegar para c, deixa-te estar ahi.
+Eu ouo bem. Como vae a tua me?
+
+No percebi o que os pobres beicitos descorados murmuraram. Mas Jacinto,
+interessado:
+
+--Que diz elle? Deixe vir o rapaz! Quem a tua me?
+
+Foi o Silverio que informou respeitosamente:
+
+-- a tal mulher que est doente, a mulher do Esgueira, ali do casal da
+figueira. E ainda tem outro abaixo d'este... Filharada no lhe falta.
+
+--Mas este pequeno tambem parece doente!--exclamou Jacintho. Coitadito,
+to amarello!... Tu tambem ests doente?
+
+O rapasinho emmudecera, chupando o dedo, com os tristes olhos pasmados.
+E o Silverio sorria, com bondade:
+
+--Nada! este sosinho... Coitado, assim amarellado e enfezadito, por
+que... Que quer V. Ex.^a? Mal comido! muita miseria... Quando ha o
+bocadito de po para todo o rancho. Fomesinha, fomesinha!
+
+Jacintho pulou bruscamente da borda do carro.
+
+--Fome? Ento elle tem fome? Ha aqui gente com fome?
+
+Os seus olhos rebrilhavam, n'um espanto commovido, em que pediam, ora a
+mim, ora ao Silverio, a confirmao d'esta miseria insuspeitada. E fui
+eu que esclareci o meu Principe:
+
+--Homem! est claro que ha fome! Tu imaginavas talvez que o Paraiso se
+tinha perpetuado aqui nas serras, sem trabalho e sem miseria... Em toda
+a parte ha pobres, at na Australia, nas minas d'ouro. Onde ha trabalho
+ha proletariado, seja em Paris, seja no Douro...
+
+O meu Principe, teve um gesto d'afflicta impaciencia:
+
+--Eu no quero saber o que ha no Douro. O que eu pergunto se aqui, em
+Tormes, na minha propriedade, dentro d'estes campos que so meus, ha
+gente que trabalhe para mim, e que tenha fome... Se ha creancinhas, como
+esta, esfomeadas? o que eu quero saber.
+
+O Silverio sorria, respeitosamente, ante aquella candida ignorancia das
+realidades da Serra:
+
+--Pois est bem de vr, meu senhor, que ha para ahi caseiros que so
+muito pobres. Quasi todos... uma miseria, que se no fosse algum
+soccorro que se lhes d, nem eu sei!... Este Esgueira, com o rancho de
+filhos que tem, uma desgraa... Havia V. Ex.^a de vr as casitas em
+que elles vivem... So chiqueiros. A do Esgueira, acol...
+
+--Vamos vl-a! atalhou Jacintho com uma deciso exaltada.
+
+E sahiu logo do alpendre, sem attender chuva, que ainda cahia, mais
+leve e mais rala. Mas ento Silverio alargou os braos deante d'elle,
+com anciedade, como para o salvar d'um precipicio.
+
+--No! V. Ex.^a l na casa do Esgueira que no entra! No se sabe o
+que a mulher tem, e cautella e caldo de gallinha...
+
+Jacintho no se alterou na sua polidez paciente:
+
+--Obrigado pelo seu cuidado, Silverio... Abra o seu chapeu de chuva, e
+vante!
+
+Ento o Procurador vergou os hombros, e, como S. Ex.^a mandava, abriu
+com estrondo o immenso pra-agoas, abrigou respeitosamente Jacintho,
+atravs do campo encharcado. Eu segui, pensando na esmola sumptuosa que
+o bom Deus mandava quelle pobre casal por um remoto senhor das Cidades!
+Atraz vinha o pequenito perdido n'um immenso pasmo.
+
+Como todos os casebres da serra, o do Esgueira era de grossa pedra
+solta, sem reboco, com um vago telhado, de telha musgosa e negra, um
+postigo no alto, e a rude porta que servia para o ar, para a luz, para o
+fumo, e para a gente. E em redor, a Natureza e o Trabalho tinham,
+atravs d'annos, accumulado ali trepadeiras e flres silvestres, e
+cantinhos d'horta, e sebes cheirosas, e velhos bancos roidos de musgo, e
+panellas com terra onde crescia salsa, e regueiros cantantes, e videiras
+enforcadas nos olmos, e sombras e charcos espelhados, que tornavam
+deliciosa, para uma Ecloga, aquella morada da Fome, da Doena e da
+Tristeza.
+
+Cautelosamente, com a ponteira do guarda-chuva, Silverio empurrou a
+porta, chamando:
+
+--Eh! tia Maria... Ol rapariga!
+
+E na fenda entreaberta appareceu uma moa, muito alta, escura e suja,
+com uns tristes olhos pisados, que se espantaram para ns, serenamente.
+
+--Ento como vae a tua me?--Abre l a porta, que esto aqui estes
+senhores...
+
+Ella abriu, lentamente, e ia murmurando n'uma voz dolente e arrastada
+mas sem queixume, que um vago, resignado sorriso acompanhava:
+
+--Ora, coitada! como ha de ir? Malzinha... malzinha.
+
+E dentro, n'um gemido que subia como do cho, d'entre abafos, amodorrado
+e lento, a me repetiu a desconsolada queixa:
+
+--Ai! para aqui estou, e malzinha, malzinha!...
+
+O Silverio, sem passar da porta, com o guarda-chuva em riste, meio
+aberto, como um escudo contra a infeco, lanou uma consolao vaga:
+
+--No ha de ser nada, tia Maria!... Isso foi friagem! No foi seno
+friagem!
+
+E, sobre o hombro de Jacintho, encolhido:
+
+--J V. Ex.^a v... Muita miseria! At lhe chove l dentro.
+
+E, no pedao de cho que viam, cho de terra batida, uma mancha humida
+reluzia, da chuva pingada de uma telha rta. A parede, coberta de
+fuligem, das longas fumaraas da lareira, era to negra como o cho. E
+aquella penumbra suja parecia atulhada, n'uma desordem escura, de
+trapos, de cacos, de restos de coisas, onde s mostravam frma
+comprehensivel uma arca de pau negro, e por cima, pendurado d'um prego,
+entre uma serra e uma candeia, um grosso saiote escarlate.
+
+Ento Jacintho, muito embaraado, murmurou abstrahidamente:
+
+--Est bem, est bem...
+
+E largou pelo campo para o lado do alpendre como se fugisse, emquanto o
+Silverio decerto revelava rapariga, a presena augusta do fidalgo,
+por que a sentimos, da porta, levantar a voz dolorida:
+
+--Ai! Nosso Senhor lhe d muito boa sorte! Nosso Senhor o acompanhe!
+
+Quando o Silverio, com as grandes passadas das suas grandes botas, nos
+colheu, no meio do campo, Jacintho parra, olhava para mim, com os dedos
+tremulos a torturar o bigode, e murmurava:
+
+-- horrivel, Z Fernandes, horrivel.
+
+Ao lado, o vozeiro do Silverio trovejou:
+
+--Que queres tu outra vez, rapaz? Vae para a tua me, creatura!
+
+Era o pequeno rotinho, esfaimadinho, que se prendia a ns, n'um immenso
+pasmo das nossas pessoas, e com a confusa esperana, talvez, que
+d'ellas, como de Deuses encontrados n'um caminho, lhe viesse affago ou
+proveito. E Jacintho, para quem elle mais especialmente arregalava os
+olhos tristes, e que aquella miseria, e a sua muda humildade,
+embaraavam, acanhavam horrivelmente, s soube sorrir, murmurar o seu
+vago: Est bem, est bem... Fui eu que dei ao pequenito um tosto,
+para o fartar, o despegar dos nossos passos. Mas como elle, com o seu
+tosto bem agarrado, nos seguia ainda, como no sulco da nossa
+magnificencia, o Silverio teve de o espantar, como a um passaro, batendo
+as mos, e de lhe gritar:
+
+--J para casa! E leve esse dinheiro me. Roda, roda!...
+
+--E ns vamos almoar, lembrei eu olhando o relogio. O dia ainda vae
+estar lindo.
+
+Sobre o rio, com effeito, reluzia um pedao d'azul lavado e lustroso; e
+a grossa camada de nuvens j se ia enrolando sob a lenta varredela do
+vento, que as levava, despejadas e rtas, para um canto escuso do ceu.
+
+Ento recolhemos lentamente para casa, por uma vereda ingreme, que
+ensinra o Silverio, e onde um leve enchurro vinha ainda, saltando e
+chalrando. De cada ramo tocado, rechuvia uma chuva leve. Toda a verdura,
+que bebera largamente, reluzia consolada.
+
+Bruscamente, ao sahirmos da vereda para um caminho mais largo, entre um
+socalco e um renque de vinha, Jacintho parou, tirando lentamente a
+cigarreira:
+
+--Pois, Silverio, eu no quero mais estas horriveis miserias na quinta.
+
+O Procurador deu um geito aos hombros, com um vago _eh_! _eh_!
+d'obediencia e dvida.
+
+--Antes de tudo, continuava Jacintho, mande j hoje chamar esse Dr.
+Avelino para aquella pobre mulher... E os remedios que os vo buscar
+logo a Guies. E recommendao ao medico para voltar manh, e em cada
+dia; at que ella melhore... Escute! E quero, Melchior, que lhe leve
+dinheiro, para os caldos, para a dieta, uns dez, ou quinze mil ris...
+Bastar?
+
+O Procurador no conteve um riso respeitoso. Quinze mil ris! Uns
+tostes bastavam... Nem era bom acostumar assim, a tanta franqueza,
+aquella gente. Depois todos queriam, todos pedinchavam...
+
+--Mas que todos ho-de ter, disse Jacintho simplesmente.
+
+--V. Ex.^a manda, murmurou o Silverio.
+
+Encolhera os hombros, parado no caminho, no espanto d'aquellas
+extravagancias. Eu tive de o apressar, impaciente:
+
+--Vamos conversando e andando! meio dia! Estou com uma fome de lobo!
+
+Caminhamos, com o Silverio no meio, pensativo, a fronte enrugada sob a
+vasta aba do chapeu, a barba immensa espalhada pelo peito, e a barraca
+exorbitante do guarda-chuva vermelho enrolada debaixo do brao. E
+Jacintho, puxando nervosamente o bigode, arriscava outras idas
+bemfazejas, cautelosamente, no seu indominavel medo do Silverio:
+
+--E as casas tambem... Aquella casa um covil!... Gostava de abrigar
+melhor aquella pobre gente... E naturalmente, as dos outros caseiros so
+pocilgas eguaes... Era necessario uma reforma! Construir casas novas a
+todos os rendeiros da quinta...
+
+--A todos?...--O Silverio gaguejava,--emudeceu.
+
+E Jacintho balbuciava aterrado:
+
+--A todos... Emfim, quero dizer... Quantos sero elles?
+
+Silverio atirou um gesto enorme:
+
+--So vinte e coisas... Vinte e tres! se bem lembro. Upa! Upa! Vinte e
+sete...
+
+Ento Jacintho emmudeceu tambem, como reconhecendo a vastido do numero.
+Mas desejou saber, por quanto ficaria cada casa!... Oh! uma casa
+simples, mas limpa, confortavel, como a que tinha a irm do Melchior, ao
+p do lagar. Silverio estacou de novo. Uma casa como a da Ermelinda?
+Queria Sua Ex.^a saber? E alijou a cifra, muito d'alto, como uma pedra
+immensa, para esmagar Jacintho:
+
+--Duzentos mil ris, Ex^{mo} Senhor! E para mais que no para menos!
+
+Eu ria da tragica ameaa do excellente homem. E Jacintho, muito
+docemente, para conciliar o Silverio:
+
+--Bem, meu amigo... Eram uns seis contos de ris! Digamos dez, por que
+eu queria dar a todos alguma mobilia e alguma roupa.
+
+Ento o Silverio teve um brado de terror:
+
+--Mas ento, Ex.^{mo} Senhor, uma revoluo!
+
+E como ns, irresistivelmente, riamos dos seus olhos esgazeados de
+horror, dos seus immensos braos abertos para traz, como se visse o
+mundo desabar,--o bom Silverio encavacou:
+
+--Ah! V. Ex.^{as} riem? Casas para todos, mobilias, pratas, bragal, dez
+contos de ris! Ento tambem eu rio! Ah! ah! ah! Ora viva a bella
+chalaa!... Est ba a risota!
+
+E subitamente, n'uma profunda mesura, como declinando toda a
+responsabilidade n'aquelle disparate magnifico:
+
+--Emfim, V. Ex.^a quem manda!
+
+--Est mandado, Silverio. E tambem quero saber as rendas que paga essa
+gente, os contractos que existem, para os melhorar. Ha muito que
+melhorar. Venha voss almoar comnosco. E conversamos.
+
+To saturado d'espanto estava o Silverio, que nem recebeu mais espanto
+com essa melhoria de rendas. Agradeceu o convite, penhorado. Mas pedia
+licena a Sua Ex.^a para passar primeiramente pelo lagar, para ver os
+carpinteiros que andavam a concertar a trave do rio. Era um instante, e
+estava em seguida s ordens de S. Ex.^a.
+
+Metteu a corta matto, saltando um cancello. E ns seguimos, com passos
+que eram ligeiros, pela hora do almoo que se retardra, pello azul
+alegre que reapparecia, e por toda aquella justia feita pobresa da
+serra.
+
+--No perdeste hoje o teu dia, Jacintho, disse eu, batendo, com uma
+ternura que no disfarcei, no hombro do meu amigo.
+
+--Que miseria, Z Fernandes! Eu nem sonhava... Haver por ahi, vista da
+minha casa, outras casas, onde creanas teem fome! horrivel...
+
+Estavamos entrando na alameda. Um raio de sol, sahindo d'entre duas
+grossas, algodoadas nuvens, passou sobre uma esquina do casaro, ao
+fundo, uma viva tira d'ouro. O clarim dos gallos soava claro e alto. E
+um doce vento, que se erguera, punha nas folhas lavadas e luzidias um
+fremito alegre e doce.
+
+--Sabes o que eu estava pensando, Jacintho?... Que te aconteceu aquella
+lenda de Santo Ambrosio... No, no era Santo Ambrosio... No me lembra
+o santo... Nem era ainda santo... apenas um cavalleiro peccador, que se
+enamorra d'uma mulher, puzera toda a sua alma n'essa mulher, s por a
+avistar a distancia na rua. Depois, uma tarde que a seguia, enlevado,
+ella entrou n'um portal de egreja, e ahi, de repente, ergueu o veu,
+entreabriu o vestido, e mostrou ao pobre cavalleiro o seio roido por uma
+chaga! Tu, tambem andavas namorado da serra, sem a conhecer, s pela sua
+belleza de vero. E a serra, hoje, zs! de repente, descobre a sua
+grande ulcera... talvez a tua preparao para S. Jacintho.
+
+Elle parou, pensativo, com os dedos nas cavas do collete:
+
+--- verdade! Vi a chaga! Mas emfim, esta, louvado seja Deus, das que
+eu posso curar!
+
+No desilludi o meu Principe. E ambos subimos alegremente a escadaria do
+casaro.
+
+
+
+
+XI
+
+
+No dia que seguiu estas largas caridades recolhi a Guies. E, desde
+ento, tantas vezes trotei por aquellas tres legoas entre a nossa e a
+velha alameda dos Jacinthos, que a minha egoa, quando a desviava d'essa
+estrada familiar, conduzindo a uma cavallaria familiar, (onde ella
+privava com o garrano do Melchior) relinchava de pura saudade. At a tia
+Vicencia se mostrava vagamente ciumenta d'aquella Tormes, para onde eu
+sempre corria, d'aquelle Principe de quem incessantemente celebrava o
+rejuvenescimento, a caridade, os piteus, e as chimeras agricolas. J um
+dia com um gro de sal e ironia,--o unico que cabia n'um corao todo
+cheio d'innocencia,--ella me dissera, movendo com mais vivacidade as
+agulhas da sua meia:
+
+--Olha que te podes gabar! At me tens feito curiosidade de conhecer
+esse Jacintho... Traze c essa maravilha, menino!
+
+Eu rira:
+
+--Socegue, tia Vicencia, que o trarei agora, para o dia dos meus annos,
+a jantar... Damos uma festa, haver um bailarico no pateo, e vem ahi
+toda essa senhorama dos arredores. Talvez at se arranje uma noiva para
+o Jacintho.
+
+Eu, com effeito, j convidra o meu Principe para este natalicio. E de
+resto convinha que o senhor de Tormes conhecesse todos aquelles senhores
+das boas casas da serra... Sobretudo, como eu lhe dizia rindo, convinha
+que elle conhecesse algumas mulheres, algumas d'aquellas fortes
+raparigas dos solares serranos, por que Tormes tinha uma solido muito
+monastica; e o homem, sem um pouco do Eterno Feminino, facilmente se
+enrudece e ganha uma casca aspera como a das arvores, na solido.
+
+--E esta Tormes, Jacintho, esta tua reconciliao com a Natureza, e o
+renunciamento s mentiras da Civilisao uma linda historia... Mas,
+caramba, faltam mulheres!
+
+Elle concordava, rindo, languidamente estendido na cadeira de vime:
+
+--Com effeito, ha aqui falta de mulher, com M. grande. Mas essas
+senhoras ahi das casas dos arredores... No sei, estou pensando que se
+devem parecer com legumes. Sans, nutritivas, excellentes para a
+panella--mas, emfim, legumes. As mulheres que os poetas comparam s
+Flores so sempre as mulheres das Crtes, das Capitaes, s quaes,
+invariavelmente, desde Hesiodo e de Horacio, se rendem os poetas... E
+evidentemente no ha perfume, nem graa, nem elegancia, nem requinte,
+n'uma cenoura ou n'uma couve... No devem ser interessantes as senhoras
+da minha serra.
+
+--Eu te digo... A tua visinha mais chegada, a filha do D. Theotonio, com
+effeito, salvo o respeito que se deve casa illustre dos Barbedos, um
+mostrengo! A irm dos Albergarias, da quinta da Loja, tambem no
+tentaria nem mesmo o precisado Santo Anto. Sobretudo se se despisse,
+por que um espinafre infernal! Essa realmente legume, e no dos
+nutritivos.
+
+--Tu o disseste: espinafre!
+
+--Temos tambem a D. Beatriz Velloso... Essa bonita... Mas, menino, que
+horrivelmente bem fallante! Falla como as heroinas do Camillo. Tu nunca
+leste o Camillo... E depois, um tom de voz que te no sei descrever, o
+tom com que se falla em D. Maria, em peas de sentimento. Tu tambem
+nunca viste o Theatro de D. Maria... Emfim, um horror! E perguntas
+pavorosas. V. Ex.^a. Snr. Doutor, no se delicia com Lamartine? J me
+disse esta, a indecente!
+
+--E tu?
+
+--Eu! Arregalei os olhos... Oh Lamartine!. Mas, coitada, uma
+excellente rapariga! Agora, por outro lado, temos as Rojes, as filhas
+de Joo Rojo, duas flores, muito frescas, muito alegres, com um cheiro
+e um brilho a sadio, e muito simples... A tia Vicencia morre por ellas.
+Depois ha a mulher do Dr. Alypio, que uma belleza. Oh! uma creatura
+esplendida! Mas, emfim, a mulher do Dr. Alypio, e tu renunciaste aos
+deveres da Civilisao... Alm disso, mulher muito sria, toda absorvida
+nos seus dous pequenos, que parecem dous anjinhos de Murillo... E quem
+mais? J agora, quero completar a lista do pessoal feminino. Temos a
+Mello Rebello, de Sandofim, muito engraada, com cabello lindo... Borda
+na perfeio, faz doces como uma freira do antigo Regimen... Havia
+tambem uma Julia Lobo, muito linda, mas morreu... Agora no me lembro
+mais. Mas falta a flr da Serra, que a minha prima Joanninha, da Flr
+da Malva! Essa uma perfeio de rapariga.
+
+--E tu, primo Z, como tens tu resistido?
+
+--Somos como irmos, creados de pequeninos, mais acostumados e
+familiares que tu e eu... A familiaridade esbate os sexos. A me d'ella
+era a unica irm da tia Vicencia, e morreu muito nova. A Joanninha,
+quasi desde o bero que se creou em nossa casa, em Guies. O pae bom
+homem, o tio Adrio. Erudito, antiquario, colleccionador... Collecciona
+toda a sorte de cousas exquisitas, campainhas, esporas, sinetes,
+fivellas... Tem uma colleco curiosa. Elle ha muito que deseja vir a
+Tormes, para te visitar... Mas, coitado, soffre da bexiga, no pde
+montar a cavallo. E a estrada da Flr da Malva aqui impossivel para
+carruagens...
+
+O meu Principe espreguira longamente os braos:
+
+--No, est claro! eu que hei-de visitar teu tio, e a tia Vicencia...
+Desejo conhecer os meus visinhos. Mas mais tarde, quando socegar. Agora
+ando todo occupado com o meu povo.
+
+E com effeito! Jacintho era agora como um Rei fundador d'um Reino, e
+grande edificador. Por todo o seu dominio de Tormes andavam obras, para
+o renovamento das casas dos rendeiros, umas que se concertavam, outras
+mais velhas, que se derrubavam para se reconstruirem com uma larguesa
+commoda. Pelos caminhos constantemente chiavam carros, carregados de
+pedra, ou de madeiras cortadas nos pinheiraes.
+
+Na taberna do Pedro, entrada da freguezia, ia um desusado movimento,
+de pedreiros e carpinteiros contractados para as obras;--e o Pedro, com
+as mangas arregaadas, por traz do balco, no cessava de encher os
+decilitros com uma vasta enfusa.
+
+Jacintho, que tinha agora dous cavallos, todas as manhs cedo percorria
+as obras, com amor. Eu, inquieto, sentia outra vez, latejar e irromper
+no meu Principe o seu velho, maniaco furor d'accumular Civilisao! O
+plano primitivo das obras era incessantemente alargado, aperfeioado.
+Nas janellas, que deviam ter apenas portadas, segundo o secular costume
+da serra, decidira pr vidraas, apezar do mestre d'obras lhe dizer
+honradamente, que depois d'habitadas um mez, no haveria casa com um s
+vidro. Para substituir as traves classicas queria estucar os tectos;--e
+eu via bem claramente que elle se continha, se retesava dentro do
+Bom-senso, para no dotar cada casa com campainhas electricas. Nem
+sequer me espantei, quando elle uma manh me declarou que a porcaria da
+gente do campo provinha de elles no terem onde commodamente se lavar,
+pelo que andava pensando em dotar cada casa com uma banheira. Desciamos
+n'esse momento, com os cavallos redea, por uma azinhaga precipitada e
+escabrosa; um vento leve ramalhava nas arvores, um regato saltava
+ruidosamente entre as pedras. Eu no me espantei--mas realmente me
+pareceu que as pedras, o arroio, as ramagens e o vento, se riam
+alegremente do meu Principe. E alm d'estes confortos, a que o Joo,
+mestre d'obras, com os olhos loucamente arregalados chamava as
+grandezas, Jacintho meditava o bem das almas. J encommendra ao seu
+architecto, em Paris, o plano perfeito d'uma escola, que elle queria
+erguer, n'aquelle campo da Carria, junto capellinha que abrigava os
+ossos. Pouco a pouco, ahi crearia tambem uma bibliotheca, com livros
+d'estampas, para entreter, aos domingos, os homens a quem j no era
+possivel ensinar a lr. Eu vergava os hombros, pensando:--Ahi vem a
+terrivel accumulao das Noes! Eis o livro invadindo a Serra! Mas
+outras idas de Jacintho eram tocantes,--e eu mesmo me enthusiasmei, e
+excitei o enthusiasmo da tia Vicencia com o seu plano d'uma Creche, onde
+elle esperava ter manhs muito divertidas vendo as creancinhas a
+gatinhar, a correr tropegamente atraz d'uma bola. De resto, o nosso
+boticario de Guies estava j apalavrado para estabelecer uma pequena
+pharmacia em Tormes, sob a direco do seu praticante, um afilhado da
+tia Vicencia, que tinha publicado um artigo sobre as festas populares do
+Douro no _Almanach de Lembranas_. E j fra offerecido o partido medico
+de Tormes, com ordenado de 600$000 ris.
+
+--No te falta seno um Theatro! dizia eu, rindo.
+
+--Um theatro no. Mas tenho a ida d'uma sala, com projeces de
+lanterna magica, para ensinar a esta pobre gente as cidades d'esse
+mundo, e as cousas d'Africa, e um bocado de Historia.
+
+E tambem me ensoberbeci com esta innovao!--E quando a contei ao tio
+Adrio, o digno antiquario bateu, apezar do seu rheumatismo, uma palmada
+tremenda na cxa. Sim, senhor! Bella ida! Assim se podia ensinar
+quella gente illetrada, vivamente, por imagens, a Historia Santa, a
+Historia Romana, at a Historia de Portugal!... E voltado para a prima
+Joanninha, o tio Adrio declarou Jacintho um homem de corao!
+
+E realmente pela Serra crescia a popularidade do meu Principe.
+N'aquelle, guarde-o Deus, meu senhor! com que as mulheres ao passar o
+saudavam, se voltavam para o vr ainda, havia uma seriedade d'orao, o
+bem sincero desejo de que Deus o guardasse sempre. As creanas a quem
+elle distribuia tostes, farejavam de longe a sua passagem,--e era em
+torno d'elle um escuro formigueiro de caritas trigueiras e sujas, com
+grandes olhos arregalados, que se ainda tinham pasmo, j no tinham
+medo. Como o cavallo de Jacintho uma tarde se chapra, ao desembocar da
+alameda, n'umas grossas pedras que ahi deformavam a estrada, logo ao
+outro dia um bando d'homens, sem que Jacintho o ordenasse, veio por
+dedicao ensaibrar e alisar aquelle pedao perigoso de caminho,
+aterrados com o risco que correra o bom senhor. J pela serra se
+espalhava esse nome de bom senhor. Os mais edosos da freguezia no o
+encontravam sem exclamarem, uns com gravidade, outros com grandes risos
+desdentados:--_Este o nosso bemfeitor_! Por vezes, alguma velha corria
+do fundo do eido, ou vinha porta do casebre, ao avistal-o no caminho,
+para gritar, com grandes gestos dos braos magros: Ai que Deus o cubra
+de benos! Que Deus o cubra de benos!
+
+Aos domingos, o padre Jos Maria, (bom amigo meu e grande caador) vinha
+de Sandofim, na sua egoa rua, a Tormes, para celebrar a missa na
+Capellinha. Jacintho assistia ao officio na sua tribuna, como os
+Jacinthos d'outras eras, para que aquelles simples o no suppuzessem
+estranho a Deus. Quasi sempre ento elle recebia presentes, que as
+filhas dos caseiros, ou os pequenos, vinham muito corados, trazer-lhe
+varanda, e eram vasos de manjarico, ou um grosso ramalhete de cravos, e
+por vezes um gordo pato. Havia ento uma distribuio de cavacas e
+merengues de Guies, s raparigas e s creanas,--e, no pateo, para os
+homens circulavam as infusas de vinho branco. O Silverio j sustentava
+com espanto, e redobrado respeito, que o Snr. D. Jacintho em breve
+disporia de mais votos nas eleies que o Dr. Alypio. E eu proprio me
+impressionei, quando o Melchior me contou que o Joo Torrado, um velho
+singular d'aquelles sitios, de grandes barbas brancas, hervanario,
+vagamente alveitar, um pouco adivinho, morador mysterioso d'uma cova no
+alto da serra, a todos affirmava que aquelle bom senhor era El-Rei D.
+Sebastio, que voltra!
+
+
+
+
+XII
+
+
+Assim chegou Setembro, e com elle o meu natalicio, que era a 3 e n'um
+Domingo. Toda essa semana a passra eu em Guies, nos preparos da
+vindima,--e de manh cedo, n'esse Domingo illustre, me fui debruar da
+varanda do quarto do saudoso tio Affonso, vigiando a estrada, por onde
+devia apparecer o meu Principe, que emfim visitava a casa do seu Z
+Fernandes. A tia Vicencia, desde a madrugada, andava atarefada pela
+cosinha e pela copa, porque, desejando mostrar ao meu Principe o
+pessoal da serra, convidra para jantar algumas familias amigas, dos
+arredores, as que tinham carruagens ou carroes, e podiam, pelas
+estradas mal seguras, recolher tarde, depois d'um bailarico campestre,
+no pateo, j enfeitado para esse effeito de lanternas chinezas. Mas logo
+s dez horas me desesperei, ao receber, por um moo da Flr da Malva,
+uma carta da prima Joanninha, em que dizia a pena de no poder vir
+porque o Pap estava desde a vespera com um leiceno, e ella no o
+queria abandonar. Corri indignado cosinha, onde a tia Vicencia
+presidia a um violento bater de gemas d'ovos dentro d'uma immensa
+terrina.
+
+--A Joanninha no vem! Sempre assim! Diz que o pae tem um leiceno...
+Aquelle tio Adrio escolhe sempre os grandes dias para ter leicenos, ou
+para ter a pontada...
+
+A boa face redondinha e corada da tia Vicencia enterneceu-se.
+
+--Coitado! ser em sitio que no se pudesse sentar na carruagem!
+Coitado! Olha, se lhe escreveres, dize-lhe que ponha um emplastrosinho
+de folhas d'alecrim. com que teu tio se dava bem.
+
+Eu gritei simplesmente para o moo, que dava de beber ao burro no pateo:
+
+--Dize Snr.^a D. Joanninha que sentimos muito... Que talvez eu l
+apparea manh.
+
+E voltei janella, impaciente, por que o relogio do corredor, muito
+atrazado, j cantra a meia hora depois das dez e o Principe tardava
+para o almoo. Mas, mal eu me chegra varanda, appareceu justamente na
+volta da estrada Jacintho, de grande chapeu de palha, no seu cavallo,
+seguido do Grillo que, tambem de chapeu de palha, e abrigado sob um
+immenso guarda-sol verde, se escarranchava no albardo da velha egoa do
+Melchior. Atraz, um moo com uma maleta cabea. E eu, na alegria de
+avistar emfim o meu Principe trotando para a minha casa d'aldeia, no dia
+dos meus trinta e seis annos, pensava n'outro natalicio, no d'elle, em
+Paris, no 202, quando, entre todos os esplendores da Civilizao, ns
+bebemos tristemente _ad manes_, aos nossos mortos!
+
+--_Salv_! gritei da varanda. _Salv, domine Jacinthi_!
+
+E entoei, para o accolher, n'um alegre tarantantan, o hymno da carta!
+
+--Isto por aqui tambem lindo!--gritou elle de baixo. E o teu palacio
+tem um soberbo ar... Por onde a porta?
+
+Mas eu j me precipitava para o pateo--onde Jacintho, apeando, contou
+alegremente os tormentos do Grillo, que nunca montra a cavallo, e no
+cessra de berrar ante os perigos d'aquella aventura.
+
+E o digno preto, offegante, lustroso de suor, e livido sob o esplendor
+da sua negrura, exclamava, apontando com a mo tremula para a pobre
+egoa, que solta, de cabea pensativa, parecia de pedra, sobre as patas
+mais immoveis que marcos:
+
+--Pois se o si Fernandes visse! Uma fera, que nunca veiu quieta. Sempre
+para a esquerda, sempre para a direita, p aqui, p alm! S para me
+sacudir! S para me sacudir!
+
+E no resistiu. Com a ponta do guarda-sol atirou uma pontoada vingativa
+contra a egoa, sobre o albardo.
+
+Subindo a escadaria ligeira, penetrando no alegre corredor, com a sua
+janella ao fundo engrinaldada de rosinhas, Jacintho louvava grandemente
+a nossa casa, que o repousava das rijas muralhas, das grossas portas
+feudaes de Tormes. E no seu quarto agradeceu os cuidados maternaes da
+tia Vicencia, que enchera de flores os dois vasos da China sobre a
+commoda, e adornra a cama com uma das nossas colxas da India mais
+ricas, cr de canario, com grandes aves d'ouro. Eu sorria, enternecido.
+Ento estreitamos os ossos n'um grande abrao, pelo natalicio... Trinta
+e oito, hein, Z Fernandes?--Trinta e quatro, animal! E o meu
+Principe abrindo a mala, sobria maleta de philosopho, offereceu os
+nobres presentes, que so devidos, como diz sempre o astuto Ulysses na
+Odyssea. Era um alfinete de gravata, com uma saphira, uma cigarreira de
+aro fosco, adornada de um florido ramo de macieira em delicado esmalte,
+e uma faca para livros de velho lavor Chinez. Eu protestava contra a
+prodigalidade.
+
+-- tudo das malas de Paris... Mandei-as abrir hontem noite. E tomei a
+liberdade de trazer esta lembrana tua tia Vicencia. No vale nada...
+ s por ter pertencido princeza de Lamballe.
+
+Era uma caldeirinha d'agoa benta, em prata lavrada, d'um gosto florido e
+quasi galante.
+
+--A tia Vicencia no sabe quem a princeza de Lamballe, mas ficar
+encantada! E uma garantia, por que ella suspeita da tua religio, como
+homem de Paris, da terra das impiedades... E agora, lavar, escovar, e ao
+almoo!
+
+A tia Vicencia pareceu toda surprehendida, e logo encantada com o meu
+camarada, que ella suppuzera realmente um Principe, arrogante, escarpado
+e difficil. Quando elle lhe offereceu a caldeirinha, com um delicado
+pedido para se lembrar d'elle nas suas oraes, duas largas rosas,
+mais roseas e frescas que as rosas que enchiam a mesa, cobriram as faces
+redondas da boa senhora, que nunca recebera to piedoso presente, com
+to linda palavra. Mas o que sobretudo a captivou foi o tremendo
+appetite de Jacintho, a enthusiasmada convico com que elle,
+accumulando no prato montes de cabidella, depois altas serras d'arroz de
+forno, depois bifes de numerosa cebolada, exaltava a nossa cosinha,
+jurava nunca ter provado nada to sublime. Ella resplandecia:
+
+--At faz gosto, at faz gosto!... Ora mais uma d'estas batatinhas
+recheadas...
+
+--Com certesa, minha senhora! at duas! As minhas raes, em mesas
+d'estas, to perfeitas, so sempre as de Gargantua.
+
+--No cites Rabelais, que a tia Vicencia no conhece os auctores
+profanos! exclamava eu, tambem radiante. E prova esse vinho branco c da
+nossa lavra, e louva Deus que amadurece tal uva.
+
+E o almoo foi muito alegre, muito intimo, muito conversado, sobre as
+obras de Jacintho em Tormes, e a sua Creche, que enlevava a tia
+Vicencia, e as esperanas da vindima, e a minha prima Joanninha, que
+tinha o pap doente, e o pessimo estado dos caminhos. Mas o
+enternecimento maior foi quando, ao servir o caf, o creado poz ao lado
+de Jacintho um pires com um pau de canella, o seu estranho e costumado
+pau de canella. No o esquecera a tia Vicencia! Ali tinha o seu pausinho
+de canella!--Queria que elle, em Guies, continuasse os seus habitos
+como em Tormes... E aquelle pau de canella foi o symbolo de adopo do
+meu Principe como novo sobrinho da tia Vicencia.
+
+Ella em breve recolheu cosinha, aos preparativos do banquete. Ns
+fumamos um preguioso charuto no jardim, ao p do repuxo, sob a
+recolhida sombra do cedro. Depois, inexoravelmente, como proprietario,
+mostrei ao meu Principe a propriedade toda, com desapiedada
+minuciosidade, sem lhe perdoar uma leira, um regueiro, uma arvore, um p
+de vinha. S quando a sua face comeou a opar e a empallidecer, de
+canao, e que do entendimento totalmente atordoado s lhe escorria um
+vago--muito bonito! bella terra!-- que voltei os passos para casa,
+tornejando ainda n'uma volta larga para lhe mostrar o lagar, uma
+plantao d'espargos, e o sitio onde existira a ruina d'um velho castro
+romano. Ao penetrarmos de novo, pelo jardim, na fresca sala, ainda o
+empurrei, como uma rez, para a livraria do meu bom tio Affonso, para lhe
+mostrar as preciosidades, uma magnifica chronica de D. Joo I por Ferno
+Lopes, a primeira edio do _Imperador Clarimundo_, uma _Henriada_, com
+a assignatura de Voltaire, foraes d'El-Rei D. Manoel, e outras
+maravilhas. Elle respirava fechando o derradeiro pergaminho, quando eu o
+arrastei adega, para que admirasse a famosa pipa, que tinha, em
+relevo, na madeira do tampo, as complicadas armas dos Sandes. Eram
+quatro horas. O meu Principe tinha o ar esgaseado e livido. Cravando
+n'elle os olhos inexoraveis, olhos em que eu mesmo sentia reluzir a
+ferocidade, declarei que iriamos agora vr a tulha. Mas ento, com as
+mos nos rins, elle murmurou, humildemente, n'um murmurio de creana:
+
+--No se me dava de me sentar um poucochinho!
+
+Tive ento piedade, abri as garras, deixei que elle se arrastasse, atraz
+de mim, para o seu quarto, onde freneticamente descalou as botas, se
+atirou para um fresco canap forrado de ganga, murmurando n'um
+abatimento profundo:--Bella propriedade!
+
+Consenti generosamente que elle adormecesse,--e eu mesmo desci a
+verificar se a Gertrudes dispusera bem as escovas, as toalhas de renda,
+no quarto onde os convidados, em breve, ao chegar, lavariam as mos,
+escovariam a poeira da estrada. E justamente, uma caleche rodava no
+pateo, a velha caleche do D. Theotonio, com a parelha rua. Espreitando
+da janella descobri, com prazer, que chegava s, de gravata branca, sob
+o guarda-p, sem a horrendissima filha. Corri alegremente ao quarto da
+tia Vicencia, que, ajudada pela Catharina, abrochava pressa as suas
+pulseiras ricas de topazios.
+
+--Tia Vicencia! chegou o D. Theotonio! Felizmente vem sem a filha... No
+se demore, os outros no tardam. O Manoel que esteja bem penteado, de
+gravata bem teza!... Vamos a vr como corre a festa!
+
+
+
+
+XIII
+
+
+Ai de mim! a festa no meu anniversario no se passou com brilho, nem com
+alegria!
+
+Quando o meu Principe entrou na sala, com uma elegancia, (onde eu senti
+as malas de Paris, abertas na vespera)--uma rosa branca no jaqueto
+preto, collete branco lavrado e trespassado, copiosa gravata de sda
+branca, tufando, e presa por uma perola negra,--j todos os convidados
+estavam na sala,--o D. Theotonio, o Ricardo Velloso, o Dr. Alypio, o
+gordo Mello Rebello, de Sandofim, os dois manos Albergarias, da quinta
+da Loja--; todos de p, n'um pelloto cerrado. Em torno do soph onde a
+tia Vicencia se installra, um magotesinho de cadeiras reunira as
+senhoras,--a Beatriz Velloso, de cassa branca sobre sda, que a tornava
+mais aeria e magra, com a sua trunfa immensa de cabello riado; as duas
+Rojes, (com a tia Adelaide Rojo) vermelhinhas como camoezas, ambas de
+branco; e a mulher do Dr. Alypio, de preto, esplendida como uma Venus
+Rustica... E foi na sala, como se realmente entrasse um Principe,
+d'esses paizes do Norte onde os Principes so magnificos, muito
+distantes dos homens, e aterram as gentes. Um silencio, como se o tecto
+de carvalho descesse, nos esmagava: e todos os olhos se enristaram
+contra o meu desgraado Jacintho, como n'uma caada hind, quando orla
+da floresta surge o Tigre Real. Debalde,--nas confusas, apressadas
+apresentaes, com que eu o levava atravez da sala,--os seus apertos de
+mo, os sorrisos, o vago murmurio, da sua honra, do seu prazer foram
+repassados de sympathia, de simplicidade. Todos os cavalheiros
+permaneciam reservados, observando o Principe, que subira serra: e as
+senhoras mais se aconchegavam sombra da tia Vicencia, como ovelhas
+volta do pastor, quando na altura assoma o lobo. Eu, j inquieto, lancei
+o D. Theotonio, o mais ornamental d'aquelles cavalheiros.
+
+--O Snr. D. Theotonio foi muito amavel em vir, Jacintho. Raras vezes sae
+da sua linda casa da Abrujeira.
+
+O digno D. Theotonio sorriu, cofiando os espessos bigodes brancos, de
+velho brigadeiro:
+
+--V. Ex.^a chegou directamente de Vienna?
+
+No! Jacintho viera directamente de Paris, com o amigo Z Fernandes. D.
+Theotonio insistiu:
+
+--Mas certamente visita muitas vezes Vienna...
+
+Jacintho sorria surprehendido:
+
+--Vienna, porque?... No. Ha mais de quinze annos que no vou a Vienna.
+
+O fidalgo murmurou um lento _ah_! e ficou calado, de palpebras baixas,
+como revolvendo analyses profundas, com as mos cruzadas sob as abas da
+longa sobrecasaca azul.
+
+Eu ento, vigilante, lancei o Dr. Alypio:
+
+--O nosso Doutor, meu caro Jacintho, o mais poderoso influente de todo
+o districto.
+
+O Doutor curvou a cabea bem feita, com um bello cabello preto,
+admiravelmente alisado e lustroso. Mas a tia Vicencia, que se erguera do
+sof, chamava o meu Principe, porque o Manoel annuncira o jantar,
+mudamente, mostrando apenas, porta da sala, a sua corpulenta
+pessoa,--inteiriado e vermelho.
+
+ mesa, onde os pudins, as travessas de doce d'ovos, os antigos vinhos
+da Madeira e do Porto, nas suas pesadas garrafas de cristal lapidado,
+fundiam com felicidade os seus tons ricos e quentes, Jacintho ficou
+entre a tia Vicencia e uma das Rojes, a Luizinha, sua afilhada, que,
+por costume velho, quando jantava em Guies, sempre se collocava
+sombra da sua ba madrinha. E a spa, que era de gallinha com macarro,
+foi comida n'um to largo e pesado silencio que eu, na ancia de o
+quebrar, exclamei, ao acaso, sem pensar que me achava em Guies depois
+de tanto tempo e em minha prpria casa:
+
+--Deliciosa, esta sopa!
+
+Jacintho echoou:
+
+--Divina!!
+
+Mas como todos os convidados certamente estranharam este meu brado, e a
+excessiva admirao de Jacintho, o silencio, carregado de cerimonia,
+mais se carregou de embarao. Felizmente a tia Vicencia, com aquelle seu
+bom sorriso, observou que Jacintho parecia gostar da comida
+portugueza... E eu, sempre no intuito d'animar a conversa, nem deixei
+que o meu Principe confirmasse o seu amor da cosinha vernacula, e
+gritei:
+
+--Como gostar! Mas que delira!... Pudera! Tanto tempo em Paris,
+privado dos piteus lusitanos...
+
+E como, ditosamente, me lembrra o prato de arroz doce preparado na
+occasio do natalicio de Jacintho, pelo cosinheiro do 202, contei a
+historia, profusamente, exaggerando, affirmando que esse arroz doce
+continha _foie gras_, e que sobre a sua ornamentada pyramide fluctuava a
+bandeira tricolor, por cima do busto do conde de Chambord! Mas o arroz
+doce de Paris, assim estragado to longe da Serra, no interessra
+ninguem. Puxou apenas alguns sorrisos de polida condescendencia, quando
+eu, alternadamente, me voltava para um cavalheiro, para uma senhora,
+insistindo, exclamando:--Extraordinario, hein?
+
+D. Theotonio observou, mysteriosamente, que o cosinheiro sabia para
+quem cosinhava. E a bella mulher do Dr. Alypio ousou murmurar, corando:
+
+--Havia de ser bonito prato, e talvez no fosse mau!
+
+Eu, sempre na ancia de espiritualisar o banquete, de produzir
+conversao, ataquei com desabrida alegria a Snr.^a D. Luiza, por ella
+assim defender a profanao do nosso grande acepipe nacional! Mas, pobre
+de mim! to excessiva e ruidosamente interpellei a formosa senhora, que
+ella se enconchou, emmudeceu, toda corada, e mais formosa assim. E outro
+silencio se abatia sobre a mesa, como uma nevoa, quando a tia Vicencia,
+providencial, se desculpou para com Jacintho de no ter peixe! Mas qu!
+ali na Serra era impossivel, ainda a peso d'ouro, ter peixe, a no ser a
+pescada salgada, ou o bacalhau. O excellente Rojo, com aquelle seu
+modo, to suave que cada syllaba para correr mais docemente parecia
+lubrificada com oleos santos, lembrou que o Snr. D. Jacintho possuia uma
+larga facha do rio Douro com privilegio para a pesca do savel. Jacintho
+no sabia, nem imaginava que houvesse saveis... O Dr. Alypio no se
+admirava por que essas pescas tinham sido vendidas ao Cunha brasileiro,
+ha vinte annos, na mocidade do Snr. D. Jacintho. E hoje, segundo o D.
+Theotonio, no valiam dois mil ris. Se j no ha saveis!... E a
+proposito das antigas pescas do Douro se ia formando, em torno da mesa,
+entre os homens mais visinhos, lentas cavaqueirinhas ruraes, que as
+senhoras aproveitavam para cochichar, no desabafo d'aquelle silencio
+cerimonioso, que viera pesando cada vez mais desde a spa at os frangos
+guisados. Receoso de que essa orla de murmurios lentos, sem brilho e sem
+alegria, se estabelecesse de novo, me abalancei (para animar), a
+interpellar Jacintho, recordando a famosa aventura do peixe da Dalmacia
+encalhado no ascensor.
+
+--Isso foi uma das melhores historias que nos succederam em Paris! O
+Jacintho, por causa d'um peixe muito raro, que lhe mandra o Gro-Duque
+Casimiro, dava uma magnifica ceia, a que o Gro-Duque... o Gro-Duque
+Casimiro, o irmo do Imperador...
+
+Todos os olhos se desviaram para o meu Jacintho, que se servia de
+ervilhas:--e o Mello Rebello quasi se engasgou, n'um sorvo precipitado
+ao copo, para contemplar no meu amigo algum reflexo do Gro-Duque. E eu
+contei, com profuso, o peixe encalhado, o Gro-Duque pescando, o anzol
+feito com um gancho da Princeza de Carman, o duque de Marizac, cahindo
+quasi no poo do elevador... Mas no se produziu um unico riso, e a
+atteno mesma era dada com esforo, por cortezia. Debalde eu
+arremessava aquelles nomes magnificos de principes e princezas,
+misturados a cousas picarescas... Nenhum dos meus convidados
+comprehendia o maquinismo do elevador, um prato encalhado n'um poo
+negro... Perante o gancho da princeza as Albergarias baixaram os olhos.
+E a minha deliciosa historia morreu n'uma reticencia, ainda mais
+regelada pela exclamao innocente da tia Vicencia:
+
+--Oh! filho, que cousas!
+
+Mas, como Jacintho se enfronhra de repente n'uma larga conversa com a
+Luizinha Rojo, que ria, toda luminosa e palradora,--todos, como
+libertados do peso cerimonioso da sua presena augusta, se lanaram nas
+conversinhas discretas, a que o champagne, agora, depois do assado, dava
+mais viveza. Eram os soturnos murmurios, em torno da mesa, que
+definitivamente se perpetuavam. Foi ento que desisti de animar o
+jantar. Mergulhei com a bella mulher do Doutor Alypio na grande questo
+social d'esse tempo em Guies, o casamento da D. Amelia Noronha com o
+feitor! E eu defendia a D. Amelia, os direitos do amor, quando se
+alargou um silencio,--e era Jacintho, que se debruava, de copo na mo.
+
+--Velho amigo Z Fernandes, tua! Muitos e bons, e sempre em companhia
+de tua tia e minha senhora, a quem peo para saudar.
+
+Todos os copos, onde a espuma morria sobre um fundo de champagne, se
+ergueram n'um largo rumor de amisade, e boa visinhana. Eu acenei ao
+Manoel, vivamente, para encher os copos; e logo, tambem de p, atirando
+para traz a sobrecasaca:
+
+--Meus senhores, peo uma grande saude para o meu velho amigo Jacintho,
+que pela primeira vez honra esta casa fraternal... Que digo eu? que pela
+primeira vez honra com a sua presena a sua querida patria! E que por c
+fique, pelas serras, muitos annos, todos bons. tua, meu velho!
+
+Outro rumor correu pela mesa, mas ceremonioso e sereno. A nossa
+oratoria, positivamente, no incendira as imaginaes! A tia Vicencia
+fez tilintar o seu copo, quasi vasio, com o de Jacintho, que tocou no
+copo da sua visinha, a Luizinha Rojo, toda resplandecente, e mais
+vermelha que uma peonia. Depois foi um encadeamento de saudes, com os
+copos quasi vasios, entre todos os convidados, sem esquecer o tio
+Adrio, e o Abbade, ambos ausentes, ambos com furunculos. E a tia
+Vicencia espalhava aquelle olhar, que prepra o erguer, o arrastar de
+cadeiras,--quando D. Theotonio, erguendo o seu copo de vinho do Porto,
+com a outra mo apoiada mesa, meio erguido, chamou Jacintho, e n'uma
+voz respeitosa, quasi cava:
+
+--Esta toda particular, e entre ns... Brindo o ausente!
+
+Esvasiou o copo, como em religio, pontificando. Jacintho bebeu
+assombrado, sem comprehender. As cadeiras arrastavam,--eu dei o brao
+tia Albergaria.
+
+E s comprehendi, na sala, quando o Dr. Alypio, com a sua chavena de
+caf e o charuto fumegante, me disse, n'um d'aquelles seus olhares
+finos, que lhe valiam a alcunha de _Dr. Agudo_:--Espero que ao menos,
+c por Guies, no se erga de novo a forca!... E o mesmo fino olhar me
+indicava o D. Theotonio, que arrastra Jacintho para entre as cortinas
+d'uma janella, e discorria, com um ar de f e de mysterio. Era o
+miguelismo, por Deus! O bom D. Theotonio considerava Jacintho como um
+hereditario, ferrenho, miguelista,--e na sua inesperada vinda ao seu
+solar de Tormes, entrevia uma misso politica, o comeo d'uma propaganda
+energica, e o primeiro passo para uma tentativa de Restaurao. E na
+reserva d'aquelles cavalheiros, ante o meu Principe, eu senti ento a
+suspeita liberal, o receio d'uma influencia rica, nova, nas Eleies
+proximas, e a nascente irritao contra as velhas ideias, representadas
+n'aquelle moo, to rico, de civilisao to superior. Quasi entornei o
+caf, na alegre surpreza d'aquella sandice. E retive o Mello Rebello,
+que repunha a chavena vasia na bandeja, fitei, com um pouco de riso, o
+_Dr. Agudo_.
+
+--Ento, francamente, os amigos imaginam que o Jacintho veio para Tormes
+trabalhar no miguelismo?
+
+Muito serio, Mello Rebello chegou o seu grosso bigode minha orelha:
+
+--At corre, como certo, que o Principe D. Miguel est com elle em
+Tormes!
+
+E como eu os considerava esgazeado, o Dr. Alypio--to agudo!--confirmou:
+
+-- o que corre... Disfarado em creado!
+
+Em creado? Oh! santo Deus! Era o Baptista! Justamente, Ricardo Velloso
+veio, puxando do seu cigarrinho, para o accender no meu charuto. E o bom
+Rebello logo invocou o seu testemunho.--Pois no corria, que o filho de
+D. Miguel estava em Tormes, escondido?...
+
+--Disfarado em lacaio, confirmou logo o digno Rebello.
+
+Accendeu o cigarro, soprou o fumo, e erguendo muito as sobrancelhas
+meditativas:
+
+--Se assim , l me parece desplante... Que eu no desgostava de o vr.
+Dizem que bonito moo, bem apessoado. Mas emfim, meu tio Joo Vaz
+Rebello foi partido s postas, a machado, nas prises d'Almeida... E se
+recomeam essas questes, mau, mau! Ora o seu amigo...
+
+Emmudeceu. Jacintho, que se libertra do velho D. Theotonio, e ainda
+conservava um resto de riso, d'assombro divertido, vinha para mim,
+desabafar:
+
+--Extraordinario! Vejo que, aqui, na serra, ainda se conservam, sem uma
+ruga, as velhas e boas ideias...
+
+Immediatamente, sem se conter, Mello Rebello acudiu:
+
+-- conforme o que V. Ex.^a chama _boas ideas_.
+
+E eu agora, furioso com aquella disparatada inveno, que cercava
+d'hostilidade o meu pobre Jacintho, estragava aquella amavel noite
+d'annos, intervim, vivamente:
+
+--Tu jogas o voltarete, Jacintho? No jogas... Ento vamos arranjar duas
+mesas... O D. Theotonio ha de querer cartas.
+
+E arrastei Jacintho para as senhoras, que de novo se aninhavam sombra
+da tia Vicencia, estabelecida no seu canto do sof. Todas se callavam,
+parecia encolherem-se ante a appario do meu Principe, como pombas
+avistando o abutre. E deixei o temido homem affirmando mulher do Dr.
+Alypio (um pouco desgarrada do bando das aves timidas) que lhe dera
+grande prazer aquella occasio de conhecer as suas visinhas de Tormes...
+Ella abrira nervosamente o leque, sorria, e nunca de certo Jacintho
+admirra na Cidade uma bocca mais vermelha, dentinhos mais rutilantes.
+Mas depois d'organisar a mesa do voltarete, tive de abancar, eu, para
+substituir o Manoel Albergaria, que era dispeptico, se declarra
+affrontado, e desejava respirar um momento na varanda. Todos aquelles
+cavalheiros, de resto, se queixavam de calor. Mandei abrir as janellas
+que davam sobre as mimosas do pateo. O Velloso, ao baralhar, parava,
+bufando, como opprimido:
+
+--Est abafado... Ainda temos trovoada!
+
+E o Dr. Alypio, inquieto, por que tinha uma hora d'estrada at casa, e
+uma das egoas da caleche era escabriada, correu janella, espreitar o
+ceu, que ennegrecera, morno e pesado.
+
+--Com effeito, vae cahir agoa.
+
+As hastes das mimosas ramalhavam, arripiadas: e o ar que agitava as
+cortinas era intermittente, estonteado. De certo na sala, entre as
+senhoras, surgira a mesma inquietao, porque a tia Albergaria
+appareceu, avisando o mano Jorge.
+
+Era prudente pensar em partir, a noite ameaava... E o Dr. Alypio,
+puxando o relogio, propoz que, levantada aquella remissa, se preparasse
+a marcha. Justamente o Albergaria recolhia da varanda desaffrontado,
+alliviado com um calice de genebra: e rotomou as suas cartas,
+annunciando tambem que vinha ahi uma trovoada valente.
+
+Voltando sala, encontrei Jacintho muito alegre entre as senhoras, que
+se familiarisaram, escutando cheias de riso e gosto, a historia da sua
+chegada a Tormes, sem malas, sem creados, to desprovido que dormira com
+a camisa da caseira! Mas a minha pobre noite d'annos findava,
+desorganisada. A tia Albergaria rondava de janella em janella, assustada
+com a volta Roqueirinha, espreitando a treva abafada. Calando
+lentamente as luvas, a bella mulher do Dr. Alypio perguntava se ainda
+havia a remissa. E a tia Vicencia apressra o ch, que o Manoel seguido
+pela Gertrudes, com a bandeja de bolos, j comeava a servir s
+senhoras. Jacintho, de p, offerecendo chavenas, gracejava:
+
+--Ento tanta pressa, tanto medo, por causa d'uma trovoadinha?
+
+Ellas replicavam, familiarizadas, n'uma crescente sympathia pelo meu
+Principe:
+
+--Ora o senhor falla bem, porque fica debaixo de telhas...
+
+--Sempre o queriamos vr... se fosse agora para Tormes, com esta noite
+cerrada!
+
+O voltarete findra nas duas mesas: e aquelles cavalheiros, das
+janellas, gritavam ordens para o pateo negro, onde as carroagens
+esperavam atreladas:
+
+--Desce a cabea da victoria, Diogo!
+
+--Accende o lampeo, Pedro! Sempre ajuda a luz das lanternas.
+
+A creada Quiteria chegava porta com os braos carregados de chales, de
+mantilhas de renda. Como uma das Albergarias ia no assento de deante na
+victoria, eu corri a buscar o meu casaco de borracha, para ella se
+abrigar se a chuva viesse. E s o D. Theotonio, que tinha at casa
+apenas meia legoa de estrada boa, se no apressava, filado outra vez no
+meu Principe, que levava para os cantos mais solitarios, em conversas
+profundas, que o seu dedo solemne, espetado, sublinhava gravemente. Mas
+a tia Albergaria gritou que j chovia;--e ento foi uma pressa das
+senhoras, que beijocavam vivamente a tia Vicencia, em quanto os homens,
+na ante-camara, enfiavam aodadamente os palets.
+
+Jacintho e eu descemos ao pateo para acompanhar aquella debandada,--e
+uma a uma, a traquitana do Dr. Alypio, a victoria das Albergarias, a
+velha e immensa caleche dos Vellosos, rolaram sob a noite, entre os
+nossos desejos de boa jornada. Por fim D. Theotonio calou as luvas
+pretas e entrou para a sua caleche, dizendo a Jacintho:
+
+--Pois, primo e amigo, Deus permitta que, do nosso encontro, e do mais
+que se passar, algum bem resulte a esta terra!
+
+Subindo a escada, o meu Principe desabafou:
+
+--Este Theotonio extraordinario! Sabes o que descobri por fim?... Que
+me toma por um miguelista, e imagina que eu vim para Tormes preparar a
+restaurao de D. Miguel?!
+
+--E tu?
+
+--Eu fiquei to espantado, que nem o desilludi!
+
+--Pois sabe mais, meu pobre amigo. Todos pensam o mesmo, esto
+desconfiados, e receiam vr de novo erguidas as frcas em Guies! E
+corre que tu tens o Principe D. Miguel escondido em Tormes, disfarado
+em creado. E sabes quem elle ? o Baptista!
+
+--Isso sublime! murmurou Jacintho, com uns grandes olhos abertos.
+
+Na sala, a tia Vicencia nos esperava desconsolada, entre todas as luzes,
+que ardiam ainda no silencio e paz do sero debandado:
+
+--Ora uma cousa assim! Nem quererem ficar para tomar um copinho de
+gelea, um calice de vinho do Porto!
+
+--Esteve tudo muito desanimado, tia Vicencia! exclamei desafogando o meu
+tedio. Todo esse mulherio emmudeceu; os amigos com um ar desconfiado...
+
+Jacintho protestou, muito divertido, muito sincero:
+
+No! pelo contrario. Gostei immenso. Excellente gente! E to simples...
+Todas estas raparigas me pareceram optimas. E to frescas, to alegres!
+Vou ter aqui bons amigos, quando verificarem que no sou miguelista.
+
+Ento contamos tia Vicencia a prodigiosa historia de D. Miguel
+escondido em Tormes... Ella ria! Que cousa! E mau seria...
+
+--Mas o Snr. Jacintho, no ?
+
+--Eu, minha senhora, sou socialista...
+
+Acudi, explicando tia Vicencia, que socialista era ser pelos pobres. A
+doce senhora considerava esse partido o melhor, o verdadeiro:
+
+--O meu Affonso, que Deus haja, era liberal... Meu pae, tambem e at
+amigo do Duque da Terceira...
+
+Mas um rude trovo rolou, atroou a noite negra:--e uma batega d'agoa
+cantou nos vidros, e nas pedras da varanda.
+
+--Santa Barbara! gritou a tia Vicencia! Ai aquella pobre gente!... At
+estou com cuidado... As Rojes, que vo na victoria!
+
+E correu para o quarto, na sua pressa de accender as duas velas
+costumadas no oratorio, ainda antes de ir guardar as pratas, e resar o
+tero, com a Gertrudes.
+
+
+
+
+XIV
+
+
+Ao outro dia, depois d'almoo, eu e Jacintho montamos a cavallo para um
+grande passeio at Flr da Malva, a saber de meu tio Adrio, e do seu
+furunculo. E sentia uma curiosidade interessada, e at inquieta, de
+testemunhar a impresso que daria ao meu Principe aquella nossa prima
+Joanninha, que era o orgulho da nossa casa. J n'essa manh, andando
+todos no jardim a escolher uma bella rosa ch para a botoeira do meu
+Principe, a tia Vicencia celebrra com tanto fervor a belleza, a graa,
+a caridade, e a doura da sua sobrinha toda-amada, que eu protestei:
+
+--Oh! tia Vicencia, olhe que esses elogios todos competem apenas
+Virgem Maria! A tia Vicencia est a cahir em peccado de idolatria! O
+Jacintho depois vae encontrar uma creatura apenas humana, e tem um
+desapontamento tremendo!
+
+E agora, trotando pela facil estrada de Sandofim, lembrava-me aquella
+manh, no 202, em que Jacintho encontrra o retrato d'ella no meu
+quarto, e lhe chamra uma _lavradeirna_. Com effeito, era grande e
+forte a Joanninha. Mas a photographia datava do seu tempo de vio
+rustico, quando ella era apenas uma bella forte e s planta da serra.
+Agora entrava nos vinte e cinco, e j pensava, e sentia,--e a alma que
+n'ella se formra, afinra, amacira, e espiritualisava o seu esplendor
+rubicundo.
+
+A manh, com o ceu todo purificado pela trovoada da vespera, e as terras
+reverdecidas e lavadas pelos chuviscos ligeiros, offerecia uma doura
+luminosa, fina, fresca, que tornava doce, como diz o velho Euripedes ou
+o velho Sophocles, mover o corpo, e deixar a alma preguiar, sem pressa
+nem cuidados. A estrada no tinha sombra, mas o sol batia muito de leve,
+e roava-nos com uma caricia quasi alada. O valle parecia a Jacintho,
+que nunca ali passra, uma pintura da Escola Franceza do seculo XVIII,
+to graciosamente n'elle ondulavam as terras verdes, e com tanta paz e
+frescura corria o risonho Serpo, e to affaveis e promettedores de
+fartura e contentamento alvejavam os casaes nas verduras tenras! Os
+nossos cavallos caminhavam n'um passo pensativo, gosando tambem a paz da
+manh adoravel. E no sei, nunca soube, que plantasinhas silvestres e
+escondidas espalhavam um delicado aroma, que eu tantas vezes sentira,
+n'aquelle caminho, ao comear o outomno.
+
+--Que delicioso dia! murmurou Jacintho. Este caminho para a Flr da
+Malva o caminho do ceu... Oh Z Fernandes, de que este cheirinho to
+doce, to bom?
+
+Eu sorri, com certo pensamento:
+
+--No sei... talvez j o cheiro do ceu!
+
+Depois, parando o cavallo, apontei com o chicote para o valle:
+
+--Olha, acol, onde est aquella fila d'olmos, e ha o riacho, j so
+terras do tio Adrio. Tem alli um pomar, que d os pcegos mais
+deliciosos de Portugal... Hei de pedir prima Joanninha que te mande um
+cesto d'elles. E o dce que ella faz com esses pcegos, menino, alguma
+cousa de celeste. Tambem lhe hei de pedir que te mande o dce.
+
+Elle ria:
+
+--Ser explorar de mais a prima Joanninha. E eu (por que?) recordei e
+atirei ao meu Principe estes dous versos d'uma ballada cavalheiresca,
+composta em Coimbra pelo meu pobre amigo Procopio:
+
+--Manda-lhe um servo querido,
+Bem hajas dona formosa!
+E que lhe entregue um annel
+E com um annel uma rosa.
+
+Jacintho rio alegremente:
+
+--Z Fernandes, seria excessivo, s por causa de meia duzia de pcegos,
+e d'um boio de dce.
+
+Assim riamos, quando appareceu, volta da estrada, o longo muro da
+quinta dos Vellosos, e depois a capellinha de S. Jos de Sandofim. E
+immediatamente piquei para o largo, para a taverna do Trto, por causa
+d'aquelle vinhinho branco, que sempre, quando por ali a levo, a minha
+alma me pede. O meu Principe reprovou, indignado:
+
+--Oh! Z Fernandes, pois tu, a esta hora, depois d'almoo, vaes beber
+vinho branco?
+
+-- um costumesinho antigo... Aqui taverninha do Trto... um
+decilitrosinho... A almasinha assim m'o pede.
+
+E paramos; eu gritei pelo Manoel, que appareceu, rebolando a sua grossa
+pansa, sobre as pernas tortas, com a infusa verde, e um copo.
+
+--Dous copos, Trto amigo. Que aqui este cavalheiro tambem aprecia.
+
+Depois d'um pallido protesto, o meu Principe tambem quiz, mirou o
+limpido e dourado vinho ao sol, provou, e esvasiou o copo, com delicia,
+e um estalinho de alto apreo.
+
+--Delicioso vinho!... Hei de querer d'este vinho em Tormes...
+perfeito.
+
+--Hein? Fresquinho, leve, aromatico, alegrador, todo alma!... Encha l
+outra vez os copos, amigo Trto. Este cavalheiro aqui o Snr. D.
+Jacintho, o fidalgo de Tormes.
+
+Ento, de traz da umbreira da taverna, uma grande voz bradou, cavamente,
+solemnemente:
+
+--Bemdito seja o pae dos Pobres!
+
+E um extranho velho, de longos cabellos brancos, barbas brancas, que lhe
+comiam a face cr de tijolo, assomou no vo da porta, apoiado a um
+bordo, com uma caixa de lata a tiracolo, e cravou em Jacintho dous
+olhinhos d'um brilho negro, que faiscavam. Era o tio Joo Torrado, o
+propheta da Serra... Logo lhe estendi a mo, que elle apertou, sem
+despegar de Jacintho os olhos, que se dilatavam mais negros. Mandei vir
+outro copo, apresentei Jacintho, que crra, embaraado.
+
+--Pois aqui o tem, o senhor de Tormes, que fez por ahi todo esse bem
+pobreza.
+
+O velho atirou para elle bruscamente o brao, que sahia cabelludo e
+quasi negro, d'uma manga muito curta.
+
+--A mo!
+
+E quando Jacintho lh'a deu, depois de arrancar vivamente a luva, Joo
+Torrado longamente lh'a reteve com um sacudir lento e pensativo,
+murmurando:
+
+--Mo real, mo de dar, mo que vem de cima, mo j rara!
+
+Depois tomou o copo, que lhe offerecia o Trto, bebeu com immensa
+lentido, limpou as barbas, deu um geito correia que lhe prendia a
+caixa de lata, e batendo com a ponta do cajado no cho:
+
+--Pois louvado seja nosso Senhor Jesus Christo, que por aqui me trouxe,
+que no o meu dia, e vi um homem!
+
+Eu ento debrucei-me para elle, mais em confidencia:
+
+--Mas, tio Joo, oua c! Sempre certo voc dizer por ahi, pelos
+sitios, que El-Rei D. Sebastio voltra?
+
+O pittoresco velho apoiou as duas mos sobre o cajado, o queixo
+d'espalhada barba sobre as mos, e murmurava, sem nos olhar, como
+seguindo a percusso dos seus pensamentos:
+
+--Talvez voltasse, talvez no voltasse... No se sabe quem vae, nem quem
+vem. A gente v os corpos, mas no v as almas que esto dentro. Ha
+corpos d'agora com almas d'outr'ora. Corpo vestido, alma pessoa...
+Na feira da Roqueirinha quem sabe com quantos reis antigos se topa,
+quando se anda aos encontres entre os vaqueiros... Em ruim corpo se
+esconde bom senhor!
+
+E como elle findra n'um murmurio, eu, atirando um olhar a Jacintho, e
+para gosarmos aquelles estranhos, pittorescos modos de vidente, insisti:
+
+--Mas, tio Joo, voc realmente, em sua consciencia, pensa que El-Rei
+D. Sebastio no morreu na batalha?
+
+O velho ergueu para mim a face, que se enrugra n'uma desconfiana:
+
+--Essas cousas so muito antigas. E no calham bem aqui porta do
+Trto. O vinho era bom, e V. S.^a tem pressa, meu menino! A flr da Flr
+da Malva l tem o paesinho doente... Mas o mal j vae pela serra abaixo
+com a inchao s costas. D gosto vr quem d gosto aos tristes. Por
+cima de Tormes ha uma estrella clara. E trotar, trotar, que o dia est
+lindo!
+
+Com a magra mo lanou um gesto para que seguissemos. E j passavamos o
+cruzeiro quando o seu brado ardente, de novo revoou, com solemnidade
+cava:
+
+--Bemdito seja o Pae dos Pobres.
+
+Direito, no meio da estrada, erguia o cajado como dirigindo as
+acclamaes d'um povo. E Jacintho pasmava de que ainda houvesse no reino
+um Sebastianista.
+
+--Todos o somos ainda em Portugal, Jacintho! Na serra ou na cidade cada
+um espera o seu D. Sebastio. At a loteria da Misericordia uma forma
+do Sebastianismo. Eu todas as manhs, mesmo sem ser de nevoeiro,
+espreito, a vr se chega o meu. Ou antes a minha, por que eu espero uma
+D. Sebastiana... E tu, felizardo?
+
+--Eu? Uma D. Sebastiana? Estou muito velho, Z Fernandes... Sou o ultimo
+Jacintho; Jacintho ponto final... Que casa aquella com os dous
+torrees?
+
+--A Flr da Malva.
+
+Jacintho tirou o relogio:
+
+--So tres horas. Gastamos hora e meia... Mas foi um bello passeio, e
+instructivo. lindo este sitio.
+
+Sobre um outeirinho, afastada da estrada por arvoredo, que um muro
+cerrava, e dominando, a Flr da Malva voltava para Oriente e para o Sol
+a sua longa fachada com os dous torrees quadrados, onde as janellas, de
+varanda, eram emolduradas em azulejos. O grande porto de ferro, ladeado
+por dous bancos de pedra, ficava ao fundo do terreirinho, onde um
+immenso castanheiro derramava verdura e sombra. Sentado sobre as fortes
+raizes descarnadas da grande arvore, um pequeno esperava segurando um
+burro pela arreata.
+
+--Est por ahi o Manoel da Porta?
+
+--Ainda agora subio pela alameda.
+
+--Bem: empurra l o porto.
+
+E subimos, por uma curta avenida de velhas arvores, at outro terreiro,
+com um alpendre, uma casa de moos, toda coberta d'heras, e uma casota
+de co, d'onde saltou, com um rumor de corrente arrastada, um molosso, o
+Trito, que eu logo soceguei fazendo-lhe reconhecer o seu velho amigo Z
+Fernandes. E o Manoel da Porta correu da fonte, onde enchia um grande
+balde, para nos segurar os cavallos.
+
+--Como est o tio Adrio?
+
+Surdo, o excellente Manoel sorrio, deleitado:
+
+--E ento vossa excellencia, bem? A Snr.^a D. Joanninha ainda agora
+andava no laranjal com o pequeno da Josepha.
+
+Seguimos por ruasinhas bem areadas, orladas d'alfazema e buxo alto, em
+quanto eu contava ao meu Principe que aquelle pequenito da Josepha era
+um afilhadinho da prima Joanna, e agora o seu encanto e o seu cuidado
+todo.
+
+--Esta minha santa prima, apesar de solteira, tem ahi pela freguezia uma
+verdadeira filharada. E no s dar-lhes roupas e presentes, e ajudar
+as mes. Mas at os lava, e os penteia, e lhes trata as tosses. Nunca a
+encontro sem alguma creancita ao collo... Agora anda na paixo d'este
+Jossinho.
+
+Mas quando chegamos ao laranjal, beira da larga rua da quinta que
+levava ao tanque, debalde procurei, e me embrenhei, e at gritei:--Eh,
+prima Joanninha!...
+
+--Talvez esteja l para baixo, para o tanque...
+
+Descemos a rua, entre arvores, que a cobriam com as densas ramas
+encruzadas. Uma fresca, limpida agoa de rega corria e luzia n'um caneiro
+de pedra. Entre os troncos, as roseiras bravas ainda tinham uma frescura
+de vero. E o pequeno campo, que se avistava para alm, rebrilhava com
+doura, todo amarello e branco, dos malmequeres e botes d'ouro.
+
+O tanque, redondo, fra esvasiado para se lavar, e agora de novo o
+repuxo o ia enchendo d'uma agoa muito clara, ainda baixa, onde os peixes
+vermelhos se agitavam na alegria de recuperarem o seu pequeno oceano.
+Sobre um dos bancos de pedra que circumdavam o tanque pousava um cesto
+cheio de dhalias cortadas. E um moo, que sobre uma escada podava as
+camelias, vira a Snr.^a D. Joanna seguir para o lado da parreira.
+
+Marchamos para a parreira, ainda toda carregada de uva preta. Duas
+mulheres, longe, ensaboavam n'um lavadoiro, na sombra de grandes
+nogueiras. Gritei:--Eh l? Vocs viram por ahi a Snr.^a D. Joanna? Uma
+das moas esganiou a voz, que se perdeu no vasto ar luminoso e doce.
+
+--Bem: vamos a casa! No podemos farejar assim, toda a tarde.
+
+-- uma bella quinta, murmurava o meu Principe encantado.
+
+--Magnifica! E bem tratada... O tio Adrio tem um feitor excellente...
+No o teu Melchior. Observa, aprende, lavrador! Olha aquelle
+cebolinho!
+
+Passamos pela horta, uma horta ajardinada, como a sonhra o meu
+Principe, com os seus talhes debruados d'alfazema, e madresilva
+enroscada nos pilares de pedra, que faziam ruasinhas frescas toldadas de
+parra densa. E dmos volta capella, onde crescia aos dous lados da
+porta uma roseira ch, com uma rosa unica, muito aberta, e uma moita de
+baunilha, onde Jacintho apanhou um raminho para cheirar. Depois entramos
+no terrao em frente da casa, com a sua balaustrada de pedra, toda
+enrodilhada de jasmineiros amarellos. A porta envidraada estava aberta:
+e subimos pela escadaria de pedra, no immenso silencio em que toda a
+Flr da Malva repousava, at ante-camara, d'altos tectos apainelados,
+com longos bancos de pau, onde desmaiavam na sua velha pintura as
+complicadas armas dos Cerqueiras. Empurrei a porta d'uma outra sala, que
+tinha as janellas da varanda abertas, cada uma com a gaiola d'um
+canario.
+
+-- curioso!--exclamou Jacintho. Parece o meu Presepio... E as minhas
+cadeiras.
+
+E com effeito. Sobre uma commoda antiga, com bronzes antigos, pousava um
+presepio semelhante ao da livraria de Jacintho. E as cadeiras de couro
+lavrado tinham, como as que elle descobrira no soto, umas armas sob um
+chapo de Cardeal.
+
+--Oh senhores! exclamei. No haver um creado?
+
+Bati as mos, fortemente. E o mesmo doce silencio permaneceu, muito
+largo, todo luminoso e arejado pelo macio ar da quinta, apenas cortado
+pelo saltitar dos canarios nos poleiros das gaiolas.
+
+-- o Palacio da Bella adormecida no bosque! murmurou Jacintho, quasi
+indignado. D um berro!
+
+--No, caramba! Vou l dentro!
+
+Mas, porta, que de repente se abrio, appareceu minha prima Joanninha,
+crada do passeio e do vivo ar, com um vestido claro um pouco aberto no
+pescoo, que fundia mais docemente, n'uma larga claridade, o explendor
+branco da sua pelle, e o louro ondeado dos seus bellos
+cabellos,--lindamente risonha, na surpreza que alargava os seus largos,
+luminosos olhos negros, e trazendo ao collo uma creancinha, gorda e cr
+de rosa, apenas coberta com uma camisinha, de grandes laos azues.
+
+E foi assim que Jacintho, n'essa tarde de Septembro, na Flr da Malva,
+vio aquella com quem casou em Maio, na capellinha d'azulejos, quando o
+grande p de roseira se cobrira todo de rosas.
+
+
+
+
+XV
+
+
+E agora, entre roseiras que rebentam, e vinhas que se vindimam, j cinco
+annos passaram sobre Tormes e a Serra. O meu Principe j no o ultimo
+Jacintho, Jacintho ponto final--por que n'aquelle solar que decahira,
+correm agora, com soberba vida, uma gorda e vermelha Theresinha, minha
+afilhada, e um Jacinthinho, senhor muito da minha amisade. E, pae de
+familia, principira a fazer-se monotono, pela perfeio da belleza
+moral, aquelle homem to pittoresco pela inquietao philosophica, e
+pelos variados tormentos da phantasia insaciada. Quando elle agora, bom
+sabedor das cousas da lavoura, percorria comigo a quinta, em solidas
+palestras agricolas, prudentes e sem chimeras--eu quasi lamentava esse
+outro Jacintho que colhia uma theoria em cada ramo d'arvore, e riscando
+o ar com a bengala, planeava queijeiras de cristal e porcellana, para
+fabricar queijinhos que custariam duzentos mil ris cada um!
+
+Tambem a paternidade lhe despertra a responsabilidade. Jacintho possuia
+agora um caderno de contas, ainda pequeno, rabiscado a lapis, com
+falhas, e papeluchos soltos entremeados, mas onde as suas despezas, as
+suas rendas se alinhavam, como duas hostes disciplinadas. Visitra j as
+suas propriedades de Montemr, da Beira; e concertava, mobilava as
+velhas casas d'essas propriedades para que os seus filhos, mais tarde,
+crescidos, encontrassem ninhos feitos. Mas onde eu reconheci que
+definitivamente um perfeito e ditoso equilibrio se estabelecera na alma
+do meu Principe, foi quando elle, j sabido d'aquelle primeiro e ardente
+fanatismo da Simplicidade--entreabrio a porta de Tormes Civilisao.
+Dous mezes antes de nascer a Theresinha, uma tarde, entrou pela avenida
+de platanos uma chiante e longa fila de carros, requisitados por toda a
+freguesia, e acuculados de caixotes. Eram os famosos caixotes, por tanto
+tempo encalhados em Alba de Tormes, e que chegavam, para despejar a
+Cidade sobre a Serra. Eu pensei:--Mau! o meu pobre Jacintho teve uma
+recahida! Mas os confortos mais complicados, que continha aquella
+caixotaria temerosa, foram, com surpreza minha, desviados para os sotos
+immensos, para o p da inutilidade: e o velho solar apenas se regalou
+com alguns tapetes sobre os seus soalhos, cortinas pelas janellas
+desabrigadas, e fundas poltronas, fundos sofs, para que os repousos,
+por que elle suspirra, fossem mais lentos e suaves. Attribui esta
+moderao a minha prima Joanninha, que amava Tormes na sua nudez rude.
+Ella jurou que assim o ordenra o seu Jacintho. Mas, decorridas semanas,
+tremi. Apparecera, vindo de Lisboa, um contra-mestre, com operarios, e
+mais caixotes, para installar um telephone!
+
+--Um telephone, em Tormes, Jacintho?
+
+O meu Principe explicou, com humildade:
+
+--Para casa de meu sogro!... Bem vs.
+
+--Era rasoavel e carinhoso. O telephone porm, subtilmente, mudamente,
+estendeu outro longo fio, para Valverde. E Jacintho, alargando os
+braos, quasi supplicante:
+
+--Para casa do medico. Comprehendes...
+
+Era prudente. Mas, certa manh, em Guies, accordei aos berros da tia
+Vicencia! Um homem chegra, mysterioso, com outros homens, trazendo
+arame, para installar na nossa casa o novo invento. Soceguei a tia
+Vicencia, jurando que essa machina nem fazia barulho, nem trazia
+doenas, nem attrahia as trovoadas. Mas corri a Tormes. Jacintho sorrio,
+encolhendo os hombros:
+
+--Que queres? Em Guies est o boticario, est o carniceiro... E,
+depois, ests tu!
+
+Era fraternal. Todavia pensei: Estamos perdidos! Dentro d'um mez temos a
+pobre Joanna a apertar o vestido por meio d'uma machina! Pois no! o
+Progresso, que, intimao de Jacintho, subira a Tormes a estabelecer
+aquella sua maravilha, pensando talvez que conquistra mais um reino
+para desfear, desceu, silenciosamente, desilludido, e no avistamos mais
+sobre a serra a sua hirta sombra cr de ferro e de fuligem. Ento
+comprehendi que, verdadeiramente, na alma de Jacintho se estabelecera o
+equilibrio da vida, e com elle a Gran-Ventura, de que tanto tempo elle
+fra o principe sem Principado. E uma tarde, no pomar, encontrando o
+nosso velho Grillo, agora reconciliado com a serra, desde que a serra
+lhe dera meninos para trazer s cavalleiras, observei ao digno preto,
+que lia o seu _Figaro_, armado de immensos oculos redondos:
+
+--Pois, Grillo, agora realmente bem podemos dizer que o Snr. D. Jacintho
+est firme.
+
+O Grillo arredou os oculos para a testa, e levantando para o ar os cinco
+dedos em curva como petalas d'uma tulipa:
+
+--S. ex.^a brotou!
+
+Profundo sempre o digno preto! Sim! Aquelle resequido galho de Cidade,
+plantado na serra, pegra, chupra o humus do torro herdado, crera
+seiva, afundra raizes, engrossra de tronco, atirra ramos, rebentra
+em flres, forte, sereno, ditoso, benefico, nobre, dando fructos,
+derramando sombra. E abrigados pela grande arvore, e por ella nutridos,
+cem casaes em redor a bemdiziam.
+
+
+
+
+XVI
+
+
+Muitas vezes Jacintho, durante esses annos, fallra com prazer n'um
+regresso de dous, tres mezes, ao 202, para mostrar Paris prima
+Joanninha. E eu seria o companheiro fiel, para archivar os espantos da
+minha serrana ante a Cidade! Depois conveio em esperar que o Jacinthinho
+completasse dous annos, para poder jornadear sem desconforto, e
+apontando j com o seu dedo para as cousas da Civilisao. Mas, quando
+elle, em Outubro, fez esses dous annos desejados, a prima Joanninha
+sentiu uma preguia immensa, quasi aterrada, do comboio, do estridor da
+Cidade, do 202, e dos seus esplendores. Estamos aqui to bem! est um
+tempo to lindo! murmurava, deitando os braos, sempre deslumbrada, ao
+rijo pescoo do seu Jacintho. Elle desistia logo de Paris, encantado.
+Vamos para Abril, quando os castanheiros dos Campos-Elyseos estiverem
+em flr! Mas em Abril vieram aquelles cansaos que immobilisavam a
+prima Joanninha no divan, ditosa, risonha, com umas pintas na pelle, e o
+roupo mais solto. Por todo um longo anno estava desfeita a alegre
+aventura. Eu andava ento soffrendo de desoccupao. As chuvas de Maro
+promettiam uma farta colheita. Uma certa Anna Vaqueira, crada e bem
+feita, viuva, que surtia as necessidades do meu corao, partira com o
+irmo para o Brazil, onde elle dirigia uma venda. Desde o inverno,
+sentia tambem no corpo como um comeo de ferrugem, que o emperrava, e,
+certamente, algures, na minha alma, nascera uma pontinha de bolor.
+Depois a minha egoa morreu... Parti eu para Paris.
+
+Logo em Hendaya, apenas pisei a doce terra de Frana, o meu pensamento,
+como pombo a um velho pombal, voou ao 202,--talvez por eu vr um enorme
+cartaz em que uma mulher nua, com flres bacchanticas nas tranas, se
+estorcia, segurando n'uma das mos uma garrafa espumante, e brandindo na
+outra, para o annunciar ao Mundo, um novo modelo de saca-rolhas. E oh
+surpresa! eis que, logo adeante, na estao quieta e clara de Saint
+Jean-de-Luz, um moo esbelto, de perfeita elegancia, entra vivamente no
+meu compartimento, e, depois de me encarar, grita:
+
+--Eh, Fernandes!
+
+Marizac! O duque de Marizac! Era j o 202... Com que reconhecimento lhe
+sacudi a mo fina, por elle me ter reconhecido! E, atirando para o canto
+do vagon um palet, um masso de jornaes, que o escudeiro lhe passra, o
+bom Marizac exclamava na mesma surpreza alegre:
+
+--E Jacintho?
+
+Contei Tormes, a serra, o seu primeiro amor pela Natureza, o seu outro
+grande amor por minha prima, e os dous filhos, que elle trazia
+escarranchados no pescoo.
+
+--Ah que canalha! exclamou Marizac com os olhos espetados em mim!
+capaz de ser feliz!
+
+--Espantosamente, loucamente... Qual! no ha adverbios...
+
+--Indecentemente--murmurou Marizac muito serio. Que canalha!
+
+Eu ento desejei saber do nosso rancho familiar do 202. Elle encolheu os
+hombros, accendendo a cigarette:
+
+--Todo esse mundo circula...
+
+--Madame d'Oriol?
+
+--Contina.
+
+--Os Trves? o Ephraim?
+
+--Continuam, todos tres.
+
+Lanou um gesto languido.
+
+--Durante cinco annos, em Paris, tudo contina... As mulheres com um
+pouco mais de ps d'arroz, e a pelle um pouco mais molle, e melada. Os
+homens com um tanto mais de dispepsia. E tudo segue. Tivemos os
+Anarchistas. A princeza de Carman abalou com um acrobata do Circo de
+Inverno... E--e voil!
+
+--Dornan?
+
+--Contina... No o encontrei mais desde o 202. Mas vejo s vezes o nome
+d'elle, no _Boulevard_, com versos preciosos, obscenidades muito
+apuradas, muito subtis.
+
+--E o Psychologo?... Ora, como se chamava elle?...
+
+--Contina tambem. Sempre com as feminices a tres francos e cincoenta...
+Duquezas em camisa, almas nas... Cousas que se vendem bem!
+
+Mas quando eu, encantado, ia indagar de Todelle, do Gro-Duque, o
+comboio entrou na estao de Biarritz:--e rapidamente, apanhando o
+paletot e os jornaes, depois de me apertar a mo, o delicioso Marizac
+saltou pela portinhola, que o seu creado abrira, gritando:
+
+--At Paris!... Sempre rue Cambori.
+
+Ento, no compartimento solitario, bocejei, com uma estranha sensao de
+monotonia, de saciedade, como cercado j de gentes muito vistas,
+murmurando historias muito sabidas, e cousas muito ditas, atravez de
+sorrisos estafados. Dos dous lados do comboio era a longa planicie
+monotona, sem variedade, muito miudamente cultivada, muito miudamente
+retalhada, d'um verde de rezeda, verde cinzento e apagado, onde nenhum
+lampejo, nem tom alegre de flr, nem acidente do solo, desmanchavam a
+mediocridade discreta e ordeira. Pallidos choupos, em renques pautados e
+finos, bordavam canaesinhos muito direitos e claros. Os casaes, todos da
+mesma cr pardacenta, mal se elevavam do solo, mal se destacavam da
+verdura desbotada, como encolhidos na sua mediocridade e cautella. E o
+ceu, por cima, liso, sem uma nuvem, com um sol descrado, parecia um
+vasto espelho muito lavado a grande agoa, at que de todo se lhe safasse
+o esmalte e o brilho. Adormeci n'uma doce insipidez.
+
+Com que linda manh de Maio entrei em Paris! To fresca e fina, e j
+macia, que, apesar de cansado, mergulhei com repugnancia no profundo,
+sombrio leito do Grand-Hotel, todo fechado de espessos velludos, grossos
+cordes, pesadas borlas, como um palanque de gala. N'essa profunda cova
+de pennas sonhei que em Tormes se construira uma torre Eiffel e que em
+volta d'ella as senhoras da Serra, as mais respeitaveis, a propria tia
+Albergaria, danavam, nas, agitando no ar saca-rolhas immensos. Com as
+commoes d'este pesadello, e depois o banho, e o desemmalar da mala, j
+se acercavam as duas horas quando emfim emergi do grande porto, pisei,
+ao cabo de cinco annos, o Boulevard. E immediatamente me pareceu que
+todos esses cinco annos eu ali permanecera porta do Grand-Hotel, to
+estafadamente conhecido me era aquelle estridente rolar da cidade, e as
+magras arvores, e as grossas taboletas, e os immensos chapeus emplumados
+sobre tranas pintadas d'amarello, e as empertigadas sobrecasacas com
+grossas rosetas da legio d'honra, e os garotos, em voz rouca e baixa,
+offerecendo baralhos de cartas obscenas, caixas de phosphoros
+obscenas... Santo Deus! pensei, ha que annos eu estou em Paris! Comprei
+ento, n'um kiosque, um jornal, a Voz de Paris, para que elle me
+contasse, durante o almoo, as novas da Cidade. A mesa do kiosque
+desapparecia, alastrada de jornaes illustrados:--e em todos se repetia a
+mesma mulher, sempre na, ou meia despida, ora mostrando as costellas
+magras, de gata faminta, ora voltando para o Leitor duas tremendas
+nadegas... Eu outra vez murmurei:--Santo Deus! No caf da Paz, o creado
+livido, e com um resto de p de arroz sobre a sua lividez, aconselhou ao
+meu appetite, por ser to tarde, um lingoado frito e uma costelleta.
+
+--E que vinho, snr. Conde?
+
+--Chablis, snr. Duque!
+
+Elle sorrio minha deliciosa pilheria,--e eu abri, contente, a Voz de
+Paris. Na primeira columna, atravez d'uma prosa muito retorcida, toda em
+brilhos de joia barata, entrevi uma Princesa na, e um Capito de
+Drages, que soluava. Saltei a outras columnas, onde se contavam feitos
+de cocottes de nomes sonoros. Na outra pagina escriptores eloquentes
+celebravam vinhos digestivos e tonicos. Depois eram os crimes do
+costume.--No ha nada de novo! Puz de parte a Voz de Paris,--e ento
+foi, entre mim e o lingoado, uma lucta pavorosa. O miseravel, que se
+frigira rancorosamente contra mim, no consentia que eu descollasse da
+sua espinha uma febra escassa. Todo elle se ressequira n'uma sola
+impenetravel e tostada, onde a faca vergava, impotente e tremula. Gritei
+pelo mo livido, o qual, com faca mais rija, fincando no soalho os
+sapatos de fivella, arrancou emfim quelle malvado duas tirinhas, finas
+e curtas como palitos, que engoli juntas, e me esfomearam. D'uma garfada
+findei a costelleta. E paguei quinze francos com um bom luiz d'ouro. No
+trco, que o moo me deu, com a polidez requintada d'uma civilisao
+muito diffundida, havia dous francos falsos. E por aquella dce tarde de
+Maio sahi para tomar no terrao um caf cr de chapo cco, que sabia a
+fava.
+
+Com o charuto acceso contemplei o Boulevard, quella hora em toda a
+pressa e estridor da sua grossa sociabilidade. A densa torrente dos
+omnibus, calhambeques, carroas, parelhas de luxo, rolava vivamente,
+como toda uma escura humanidade formigando entre patas e rodas, n'uma
+pressa inquieta. Aquelle movimento continuado e rude bem depressa
+entonteceu este espirito, por cinco annos affeito quietao das serras
+immutaveis. Tentava ento, puerilmente, repousar n'alguma forma immovel,
+omnibus parado, fiacre que estacra, n'um brusco escorregar da pileca:
+mas logo algum dorso apressado se encafuava pela portinhola da tipoia,
+ou um cacho de figuras escuras trepava sofregamente para o omnibus:--e,
+rapido, recomeava o rolar retumbante. Immoveis, de certo, estavam os
+altos predios hirtos, ribas de pedra e cal, que continham,
+disciplinavam, aquella torrente offegante. Mas da rua aos telhados, em
+cada varanda, por toda a fachada, eram taboletas encimando taboletas,
+que outras taboletas apertavam:--e mais me canava o perceber a tenaz
+incessancia do trabalho latente, a devorante canceira do lucro,
+arquejante por traz das frontarias decorosas e mudas. Ento, emquanto
+fumava o meu charuto, extranhamente se apossaram de mim os sentimentos
+que Jacintho outr'ora experimentra no meio da Natureza, e que tanto me
+divertiam. Ali, porta do caf, entre a indifferena e a pressa da
+Cidade, tambem eu senti, como elle no campo, a vaga tristeza da minha
+fragilidade e da minha solido. Bem certamente estava ali como perdido
+n'um mundo, que me no era fraternal. Quem me conhecia? Quem se
+interessaria por Z Fernandes? Se eu sentisse fome, e o confessasse,
+ninguem me daria metade do seu po. Por mais afflictamente que a minha
+face revelasse uma angustia, ninguem na sua pressa pararia para me
+consolar. De que me serviriam tambem as excellencias d'alma, que s na
+alma florescem? Se eu fosse um santo, aquella turba no se importaria
+com a minha santidade; e se eu abrisse os braos e gritasse, ali no
+Boulevard-- homens, meus irmos! os homens, mais ferozes que o lbo
+ante o Pobresinho d'Assis, ririam e passariam indifferentes. Dous
+impulsos unicos, correspondendo a duas funces unicas, parecia estarem
+vivos n'aquella multido,--o lucro e o gso. Isolada entre elles, e ao
+contagio ambiente da sua influencia, em breve a minha alma se
+contrahiria, se tornaria n'um duro calhau de Egoismo. Do ser que eu
+trouxera da Serra s restaria em pouco tempo esse calhau, e n'elle,
+vivos, os dous appetites da Cidade,--encher a bolsa, saciar a carne! E
+pouco a pouco as mesmas exageraes de Jacintho perante a Natureza me
+invadiam perante a Cidade. Aquelle Boulevard reumava para mim um bafo
+mortal, extrahido dos seus milhes de microbios. De cada porta me
+parecia sahir um ardil para me roubar. Em cada face, avistada
+portinhola d'um fiacre, suspeitava um bandido em manobra. Todas as
+mulheres me pareciam caiadas como sepulchros, tendo s podrido por
+dentro. E considerava d'uma melancolia funambulesca as frmas de toda
+aquella Multido, a sua pressa aspera e v, a affectao das attitudes,
+as immensas plumas das chapeletas, as expresses postias e falsas, a
+pompa dos peitos alteados, o dorso redondo dos velhos olhando as imagens
+obscenas das vitrines. Ah! tudo isto era pueril, quasi comico da minha
+parte, mas o que eu sentia no Boulevard, pensando na necessidade de
+remergulhar na Serra, para que ao seu puro ar se me despegasse a crosta
+da Cidade, e eu resurgisse humano, e Z-Fernandico!
+
+Ento, para dissipar aquelle pesadume de solido, paguei o caf e parti,
+lentamente, a visitar o 202. Ao passar na Magdalena, deante da estao
+dos omnibus, pensei:--Que ser feito de Madame Colombe? E, oh miseria!
+pelo meu miseravel ser subiu uma curta e quente baforada de desejo bruto
+por aquella besta suja e magra! Era o charco onde eu me envenenara, e
+que me envolvia nas emanaes subtis do seu veneno. Depois, ao dobrar da
+rue Royale para a Praa da Concordia, topei com um robusto e possante
+homem, que estacou, ergueu o brao, ergueu o vozeiro, n'um modo de
+commando:
+
+--Eh, Fernandes!
+
+O Gro-Duque! O bello Gro-Duque, de jaqueto alvadio e chapeu tyrolez
+cr de mel! Apertei com gratido reverente a mo do Principe, que me
+reconhecera.
+
+--E Jacintho? Em Paris?...
+
+Contei Tormes, a serra, o rejuvenescimento do nosso amigo entre a
+Natureza, a minha dce prima, e os bravos pequenos, que elle trazia s
+cavalleiras. O Gro-Duque encolheu os hombros, desolado:
+
+--Oh l, l, l!... Peuh! Casado, na aldeia, com filharada... Homem
+perdido! Ora no ha!... E um rapaz util! que nos divertia, e tinha
+gosto! Aquelle jantar cr de rosa foi uma festa linda... No se fez, no
+se tornou a fazer nada to brilhante em Paris... E Madame d'Oriol...
+Ainda ha dias a vi no Palacio de Gelo... Potavel, mulher ainda muito
+potavel... No todavia o meu genero... Adocicada, leitosa, pommadada,
+neve la vanille!... Ora esse Jacintho!...
+
+--E Vossa Alteza, em Paris com demora?
+
+O formidavel homem baixou a face, franzida e confidencial:
+
+--Nenhuma. Paris no se aguenta... Est estragado, positivamente
+estragado... Nem se come! Agora o Ernest, da Praa Gaillon, o Ernest,
+que era maitre-d'hotel do Maire... J l comeu? Um horror. Tudo o
+Ernest, agora! Onde se come? No Ernest. Qual! Ainda esta manh l
+almocei... Um horror! Uma salada Chambord... palhada, indecentemente
+palhada! No tem, no tem a noo da salada! Paris foi! Theatros, uma
+estopada. Mulheres, hui! Lambidas todas. No ha nada! Ainda assim, n'um
+dos theatritos de Montmartre, na Roulotte, est uma revista, que se v:
+_Para c as mulheres_!--engraada, bem despida... A Celestine tem uma
+cantiga, meia sentimental, meia porca, o _Amor no Water-Closet_, que
+diverte, tem topete... Onde est, Fernandes?
+
+--No Grand-Hotel, meu senhor.
+
+--Que barraca!... E o seu Rei sempre bom?
+
+Curvei a cabea:
+
+--Sua Magestade, bem.
+
+--Estimo! Pois, Fernandes, tive prazer... Esse Jacintho que me desola!
+V vr a Revista... Boas pernas, a Celestine... E tem graa o tal _Amor
+no Water-Closet_.
+
+Um rijissimo aperto de mo,--e S. Alteza subiu pesadamente para a
+victoria, ainda com um aceno amavel, que me penhorou... Excellente
+homem, este Gro-Duque! Mais reconciliado com Paris, atravessei para os
+Campos-Elyseos. Em toda a sua nobre e formosa larguesa, toda verde, com
+os castanheiros em flr, corriam, subindo, descendo, velocipedes. Parei
+a contemplar aquella fealdade nova, estes innumeraveis espinhaos
+arqueados, e gambias magras, agitando-se desesperadamente sobre duas
+rodas. Velhos gordos, de cachao escarlate, pedalavam, gordamente.
+Galfarros esguios, de tibias descarnadas, fugiam n'uma linha esfusiada.
+E as mulheres, muito pintadas, de bolero curto, cales bufantes,
+giravam, mais rapidamente ainda, no prazer equivoco da carreira,
+escarranchadas em hastes de ferro. E a cada instante outras medonhas
+machinas passavam, victorias e phaetons a vapor, com uma complicao de
+tubos e caldeiras, torneiras e chamins, rolando n'uma trepidao
+estridente e pesada, espalhando um grosso fedor de petroleo. Segui para
+o 202, pensando no que diria um grego do tempo de Phidias, se visse esta
+nova belleza e graa do caminhar humano!...
+
+No 202, o porteiro, o velho Vian, quando me reconheceu, mostrou uma
+alegria enternecedora. No se fartou de saber do casamento de Jacintho,
+e d'aquelles queridos meninos. E era para elle uma felicidade que eu
+apparecesse, justamente quando tudo se andra limpando para a entrada da
+primavera. Quando penetrei na amada casa senti mais vivamente a minha
+solido. No restava em toda ella nem um dos costumados aspectos que
+fizessem reviver a velha camaradagem com o meu Principe. Logo na
+ante-camara grandes lonas cobriam as tapessarias heroicas, e egual lona
+parda escondia os estofos das cadeiras e dos muros, e as largas estantes
+d'ebano da Bibliotheca, onde os trinta mil volumes, nobremente
+enfileirados como Doutores n'um Concilio, pareciam separados do mundo
+por aquelle panno que sobre elles descera depois de finda a comedia da
+sua fora e da sua auctoridade. No gabinete de Jacintho, de sobre a mesa
+d'escripta, desapparecera aquella confuso de instrumentosinhos, de que
+eu perdera j a memria: e s a Mechanica sumptuosa, por sobre peanhas e
+pedestaes, recentemente espanejada, reluzia, com as suas engrenagens,
+tubos, rodas, rigidezes de metaes, n'uma frieza inerte, na inactividade
+definitiva das cousas desusadas, como j dispostas n'um Museu, para
+exemplificar a instrumentao caduca d'um mundo passado. Tentei mover o
+telephone, que se no moveu; a mola da electricidade no accendeu nenhum
+lume: todas as foras universaes tinham abandonado o servio do 202,
+como servos despedidos. E ento, passeando atravez das salas, realmente
+me pareceu que percorria um museu d'antiguidades; e que mais tarde
+outros homens, com uma comprehenso mais pura e exacta da Vida e da
+Felicidade, percorreriam como eu, longas salas, atulhadas com os
+instrumentos da Super-Civilisao, e, como eu, encolheriam
+desdenhosamente os hombros ante a grande Illuso que findra, agora para
+sempre inutil, arrumada como um lixo historico, guardada debaixo de
+lona.
+
+Quando sahi do 202 tomei um fiacre, subi ao Bosque de Bolonha. E apenas
+rolra momentos pela avenida das Acacias, no silencio decoroso,
+unicamente cortado pelo tilintar dos freios e pelas rodas vagarosas
+esmagando a areia, comecei a reconhecer as velhas figuras, sempre com o
+mesmo sorriso, o mesmo p d'arroz; as mesmas palpebras amortecidas, os
+mesmos olhos farejantes, a mesma immobilidade de cra! O romancista da
+_Couraa_ passou n'uma victoria, fixou em mim o monoculo defumado, mas
+permaneceu indifferente. Os bands negros de Madame Verghane,
+tapando-lhe as orelhas, pareciam ainda mais furiosamente negros entre a
+harmonia de todo o branco que a vestia, chapo, plumas, flres, rendas e
+corpete, onde o seu peito immenso se empolava como uma onda. No passeio,
+sob as Acacias, espapado em duas cadeiras, o director do _Boulevard_
+mamava o resto do seu charuto. E n'um grande landeau, Madame de Trves
+continuava o seu sorriso de ha cinco annos, com duas pregasinhas mais
+molles aos cantos dos labios seccos.
+
+Abalei para o Grand-Hotel, bocejando,--como outr'ora Jacintho. E findei
+o meu dia de Paris, no Theatro das Variedades, estonteado com uma
+comedia muito fina, muito acclamada, toda faiscante do mais vivo
+parisianismo, em que todo o enredo se enrodilhava volta d'uma Cama,
+onde alternadamente se espojavam mulheres em camisa, sujeitos gordos em
+ceroulas, um coronel com papas de linhaa nas nadegas, cosinheiras de
+meias de sda bordadas, e ainda mais gente, ruidosa e saltitante, a
+esfusiar de cio e de pilheria. Tomei um ch melancolico no Julien, no
+meio de um aspero e lugubre namoro de prostitutas, fariscando a preza.
+Em duas d'ellas, de pelle oleosa e cobreada, olhos obliquos, cabellos
+duros e negros como clinas, senti o Oriente, a sua provocao felina...
+Interroguei o creado, um medonho ser, d'uma obesidade balofa e livida,
+d'eunuco. O monstro explicou n'uma voz roufenha e surda:
+
+--Mulheres de Madagascar... Foram importadas quando a Frana occupou a
+ilha!
+
+Arrastei ento por Paris dias d'immenso tedio. Ao longo do Boulevard
+revi nas vitrines todo o luxo, que j me enfartra havia cinco annos,
+sem uma graa nova, uma curta frescura de inveno. Nas livrarias, sem
+descobrir um livro, folheava centenas de volumes amarellos, onde, de
+cada pagina que ao acaso abria, se exhalava om cheiro mrno d'alcova e
+de ps d'arroz, entre linhas trabalhadas com effeminado arrebique, como
+rendas de camisas. Ao jantar, em qualquer restaurante, encontrava,
+ornando e disfarando as carnes ou as aves, o mesmo mlho, de cres e
+sabores de pomada, que j de manh, n'outro restaurante, espelhado e
+dourejado, me enjora no peixe e nos legumes. Paguei por grossos preos
+garrafas do nosso adstringente e rustico vinho de Torres, ennobrecido
+com o titulo de Chteau isto, Chteau aquillo, e p postio no gargalo.
+ noite, nos theatros, encontrava a Cama, a costumada cama, como centro
+e unico fim da vida, attrahindo, mais fortemente que o monturo attrahe
+os moscardos, todo um enxame de gentes, estonteadas, frementes
+d'erotismo, zumbindo chacotas senis. Esta sordidez da Planicie me levou
+a procurar melhor aragem d'espirito nas alturas da Collina, em
+Montmartre; e ahi, no meio d'uma multido elegante de Senhoras, de
+Duquezas, de Generaes, de todo o alto pessoal da Cidade, eu recebia, do
+alto do palco, grossos jorros de obscenidades, que faziam estremecer de
+goso as orelhas cabelludas de gordos banqueiros, e arfar com delicia os
+corpetes de Worms e de Doucet, sobre os peitos postios das nobres
+damas. E recolhia enjoado com tanto relento d'Alcova, vagamente
+dispeptico com os mlhos de pomada do jantar, e sobre tudo descontente
+comigo, por me no divertir, no comprehender a Cidade, e errar atravez
+d'ella e da sua Civilisao Superior, com a reserva ridicula d'um
+Censor, d'um Cato austero. Oh senhores!--pensava,--pois eu no me
+divertirei nesta deliciosa Cidade? Entrar comigo o bolor da velhice?
+
+Passei as pontes, que separam em Paris o Temporal do Espiritual,
+mergulhei no meu doce Bairro Latino, evoquei, deante de certos cafs, a
+memoria da minha Nini; e, como outr'ora, preguiosamente, subi as
+escadas da Sorbonne. N'um amphitheatro, onde sentira um grosso susurro,
+um homem magro, com uma testa muito branca e larga, como talhada para
+alojar pensamentos altos e puros, ensinava, falando das instituies da
+Cidade Antiga. Mas, mal eu entrra, o seu dizer elegante e limpido foi
+suffocado por gritos, urros, patadas, um tumulto rancoroso de troa
+bestial, que sahia da mocidade apinhada nos bancos, a mocidade das
+Escolas, Primavera sagrada, em que eu fra flr murcha. O Professor
+parou, espalhando em redor um olhar frio, e remexendo as suas notas.
+Quando o grosso grunhido se moderou em susurro desconfiado, elle
+recomeou com alta serenidade. Todas as suas ideias eram frias e
+substanciaes, expressas n'uma lingoa pura e forte; mas, immediatamente,
+rompe uma furiosa rajada de apitos, uivos, relinchos, cacarejos de
+gallo, por entre magras mos, que se estendiam levantadas para
+estrangular as ideias. Ao meu lado um velho, encolhido na alta gola d'um
+macfrelane de xadrezes, contemplava o tumulto com melancolia, pingando
+endefluxado. Perguntei ao velho:
+
+--Que querem elles? embirrao com o professor... politica?
+
+O velho abanou a cabea, espirrando:
+
+--No... sempre assim, agora, em todos os cursos... No querem
+ideias... Creio que queriam canonetas. o amor da porcaria e da troa.
+
+Ento, indignado, berrei:
+
+--Silencio, brutos!
+
+E eis que um abortosinho de rapaz, amarellado e sebento, de longas
+melenas, umas enormes lunetas rebrilhantes, se arrebita, me fita, e me
+berra:
+
+--_Sale Maure_!
+
+Ergui o meu grosso punho serrano,--e o desgraado, n'uma confuso de
+melenas, com sangue por toda a face, alluio, como um monto de trapos
+molles, ganindo desesperadamente, em quanto o furaco de uivos e
+cacarejos, guinchos e silvos, envolvia o Professor, que cruzra os
+braos, esperando, com uma serenidade simples.
+
+Desde esse momento decidi abandonar a fastidiosa Cidade; e o unico dia
+alegre e divertido que n'ella passei foi o derradeiro, comprando para os
+meus queridinhos de Tormes brinquedos consideraveis, tremendamente
+complicados pela Civilisao,--vapores de ao e cobre, providos de
+caldeiras para viajar em tanques; lees de pelle veridica rugindo
+pavorosamente, bonecas vestidas pela Laferrire, com phonographo no
+ventre...
+
+Finalmente abalei uma tarde, depois de lanar da minha janella, sobre o
+Boulevard, as minhas despedidas Cidade:
+
+--Pois adeusinho, at nunca mais! Na lama do teu vicio e na poeira da
+tua vaidade, outra vez, no me pilhas! O que tens de bom, que o teu
+genio, elegante e claro, l o receberei na Serra pelo correio.
+Adeusinho!
+
+Na tarde do seguinte Domingo, debruado da janella do comboio, que
+vagarosamente deslisava pela borda do rio lento, n'um silencio todo
+feito d'azul e sol, avistei, na plata-forma da quieta estao da minha
+aldeia, os Senhores de Tormes, com a minha afilhada Thereza, muito
+vermelha, arregalando os seus soberbos olhos, e o bravo Jacinthinho, que
+empunhava uma bandeira branca. O alvoroo ditoso com que abracei e
+beijei aquella tribu bem amada conviria perfeitamente a quem voltasse
+vivo d'uma guerra distante, na Tartaria. Na alegria de recuperar a
+Serra, at beijoquei o chefe Pimentinha, que a estalar d'obesidade se
+aodava gritando ao carregador todo o cuidado com as minhas malas.
+
+Jacintho, magnifico, de grande chapo serrano e jaqueta, de novo me
+abraou:
+
+--E esse Paris?
+
+--Medonho!
+
+Abri depois os braos para o bravo Jacintinho.
+
+--Ento para que essa bandeira, meu cavalleiro?
+
+-- a bandeira do Castello! declarou elle, com uma bella seriedade nos
+seus grandes olhos.
+
+A me ria. Desde essa manh, logo que soubera da chegada do Ti-Z,
+appareceu de bandeira, feita pelo Grillo, e no a largra mais; com ella
+almora, com ella descera de Tormes!
+
+--Bravo! E, prima Joanninha, olhe que est magnifica! Eu, tambem, venho
+d'aquellas pelles meladas de Paris... Mas acho-a triumphal! E o tio
+Adrio, e a tia Vicencia?
+
+--Tudo optimo! gritou Jacintho. A serra, Deos louvado, prospera. E
+agora, para cima! Tu hoje ficas em Tormes. Para contar da Civilisao.
+
+No largo por traz da estao, debaixo dos eucalyptos, que revi com
+gosto, esperavam os tres cavallos, e dous bellos burros brancos, um com
+cadeirinha para a Thereza, outro com um cesto de verga, para metter
+dentro o heroico Jacinthinho, um e outro servidos estribeira por um
+creado. Eu ajudra a prima Joanninha a montar, quando o carregador
+appareceu com um masso de jornaes e papeis, que eu esquecera na
+carruagem. Era uma papelada, de que me surtira na Estao d'Orleans,
+toda recheada de mulheres nuas, de historietas sujas, de parisianismo,
+d'erotismo. Jacintho, que as reconhecera, gritou rindo:
+
+--Deita isso fra!
+
+E eu atirei, para um monto de lixo, ao canto do Pateo, aquelle putrido
+rebotalho da Civilisao. E montei. Mas ao dobrar para o caminho
+empinado da serra, ainda me voltei, para gritar adeus ao Pimenta, de
+quem me esquecera. O digno chefe, debruado sobre o monturo, apanhava,
+sacudia, recolhia com amor aquellas bellas estampas, que chegavam de
+Paris, contavam as delicias de Paris, derramavam atravez do mundo a
+seduco de Paris.
+
+Em fila comeamos a subir para a Serra. A tarde adoava o seu esplendor
+d'estio. Uma aragem trazia, como offertados, perfumes das flres
+silvestres. As ramagens moviam, com um aceno de doce acolhimento, as
+suas folhas vivas e relusentes. Toda a passarinhada cantava, n'um
+alvoroo de alegria e de louvor. As agoas correntes, saltantes,
+lusidias, despediam um brilho mais vivo, n'uma pressa mais animada.
+Vidraas distantes de casas amaveis, flammejavam com um fulgor d'ouro. A
+serra toda se offertava, na sua belleza eterna e verdadeira. E, sempre
+adiante da nossa fila, por entre a verdura, fluctuava no ar a bandeira
+branca, que o Jacinthinho no largava, de dentro do seu cesto, com a
+haste bem segura na mo. Era _a bandeira do Castello_, affirmra elle.
+
+E na verdade me parecia que, por aquelles caminhos, atravez da natureza
+campestre e mansa,--o meu Principe, atrigueirado nas soalheiras e nos
+ventos da serra, a minha prima Joanninha, to doce e risonha me, os
+dois primeiros representantes da sua abenoada tribu, e eu--, to longe
+de amarguradas illuses e de falsas delicias, trilhando um solo eterno,
+e de eterna solidez, com a alma contente, e Deus contente de ns,
+serenamente e seguramente subiamos--para o Castello da Gran-Ventura!
+
+
+Fim
+
+
+
+
+ADVERTENCIA
+
+
+Desde a pagina 241, at o final, as provas d'este livro no foram
+revistas pelo auctor, arrebatado pela morte antes de haver dado a esta
+parte da sua escripta aquella ultima demo, em que habitualmente elle
+punha a diligencia mais perseverante e mais admiravelmente lucida.
+
+Aquelle dos seus amigos e companheiro de letras, a quem foi confiado o
+trabalho delicado e piedoso de tocar no manuscripto posthumo de Ea de
+Queiroz, ao concluir o desempenho de tal misso, beija com o mais
+enternecido e saudoso respeito a mo, para todo sempre immobilisada, que
+traou estas paginas encantadoras; e faz votos por que a reviso de que
+se incumbiu no deslustre muito grosseiramente a immortal aureola com
+que ficar resplandecendo na litteratura portugueza este livro, em que o
+espirito do grande escriptor parece exhalar-se da vida n'um terno
+suspiro de doura, de paz, e de puro amor terra da sua patria.
+
+24 de abril de 1901.
+
+
+
+
+*LIVRARIA CHARDRON de Lello & Irmo*
+
+96--CLERIGOS--98
+
+
+*Bazillio Telles*
+
+O problema agricola $600
+Estudos historicos e economicos $600
+
+_No prlo_:
+
+Introduco ao problema do trabalho nacional.
+
+
+*Abel Botelho*
+
+O baro de Lavos $800
+O livro d'Alda $800
+Sem remedio... $500
+
+_No prlo_:
+
+Amanh.
+
+
+*Jos Caldas*
+
+Humildes $400
+Os Jesuitas; a sua influencia na actual
+ sociedade portugueza; meio de a conjurar _no prlo_
+
+
+*Sylvio Romero*
+
+Martins Penna $400
+
+
+*Rebello da Silva*
+
+Mocidade de D. Joo V. 1$500
+
+
+*Andrade Corvo*
+
+Um anno na crte 1$500
+
+
+*Antonio C. Louzada*
+
+Rua escura $500
+Na consciencia $500
+
+
+*Dumas*
+
+Jorge ou o capito dos piratas $500
+Tres mosqueteiros, 2 volumes 1$000
+
+
+*Lermina*
+
+Filho do Monte Christo, 2 volumes 1$000
+
+
+*Eugenio Sue*
+
+Mysterios de Paris, 3 volumes cart. 2$000
+
+
+*Zola*
+
+Nan $500
+Historia da lavadeira Gervasia, 2 vols 1$000
+O Capito Burle $500
+Ventre de Paris, 2 vols 1$000
+
+
+*Arnaldo Gama*
+
+Caldeira de Pero Botelho $500
+Honra ou loucura $500
+Filho do Baldaia $600
+
+
+*Bruno*
+
+O Brazil mental $800
+Notas do exilio $500
+
+ * * * * *
+
+Historia da Prostituio 1$800
+
+
+*Camillo Castello Branco*
+
+Maria da Fonte $500
+Livro de consolao $500
+D. Luiz de Portugal $300
+Brazileira de Prazins $500
+Eusebio Macario $500
+Volcoens da lama $500
+Carta de guia de casados $300
+
+
+*Grainha*
+
+Jesuitas $600
+
+
+*Tolstoi*
+
+A Sonata de Kreutzer $400
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of A Cidade e as Serras, by Ea Queirs
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A CIDADE E AS SERRAS ***
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+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
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+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
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+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.
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+
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+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
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+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
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+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
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@@ -0,0 +1,8769 @@
+Project Gutenberg's A Cidade e as Serras, by Jos Maria Ea de Queirs
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: A Cidade e as Serras
+
+Author: Jos Maria Ea de Queirs
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A CIDADE E AS SERRAS ***
+
+
+
+Produced by Manuela Alves and Ricardo F. Diogo; Nota dos transcritores:
+Actualizao ortogrfica da verso original, j disponvel no Project Gutenberg
+
+
+
+
+EA DE QUEIRS
+
+A CIDADE E AS SERRAS
+
+
+PORTO
+
+LIVRARIA CHARDRON
+
+De Lello & Irmo, editores
+
+1901
+
+Todos os direitos reservados
+
+
+
+
+EA DE QUEIRS
+
+A CIDADE E AS SERRAS
+
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+PORTO
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+De Lello & Irmo, editores
+
+1901
+
+Todos os direitos reservados
+
+
+
+
+Pertence no Brasil o direito de propriedade desta obra ao cidado
+Francisco Alves, livreiro editor no Rio de Janeiro, que, para a garantia
+que lhe oferece a lei n.^o 496 de 1 de Agosto de 1898, fez o competente
+depsito na Biblioteca Nacional, segundo a determinao do art. 13.^o
+da mesma Lei.
+
+
+_Porto--Imprensa Moderna_
+
+
+
+
+[Figura de Ea de Queirs]
+
+
+
+
+A CIDADE E AS SERRAS
+
+
+
+
+Obras do mesmo autor:
+
+
+*Revista de Portugal.* 4 grossos volumes 12$000
+
+*As minas de Salomo.* 1 volume $600
+
+*Os Maias.* 2 grossos volumes 2$000
+
+*O crime do padre Amaro.* Terceira edio inteiramente refundida,
+recomposta, e diferente na forma e na aco da edio primitiva. 1 grosso
+volume 1$200
+
+*O primo Baslio.* Quarta edio. 1 grosso volume 1$000
+
+*A Relquia.* 1 grosso volume 1$000
+
+*O Mandarim.* Quarta edio. 1 volume $500
+
+*Correspondncia de Fradique Mendes.* 1 volume $600
+
+*A ilustre casa de Ramires.* 1 volume 1$000
+
+
+
+
+A CIDADE E AS SERRAS
+
+
+
+
+I
+
+
+O meu amigo Jacinto nasceu num palcio, com cento e nove contos de
+renda em terras de semeadura, de vinhedo, de cortia e de olival.
+
+No Alentejo, pela Estremadura, atravs das duas Beiras, densas sebes
+ondulando por colina e vale, muros altos de boa pedra, ribeiras,
+estradas, delimitavam os campos desta velha famlia agrcola que j
+entulhava gro e plantava cepa em tempos de el-rei D. Dinis. A sua quinta
+e casa senhorial de Tormes, no Baixo Douro, cobriam uma serra. Entre o
+Tua e o Tinhela, por cinco fartas lguas, todo o torro lhe pagava foro.
+E cerrados pinheirais seus negrejavam desde Arga at ao mar de ncora.
+Mas o palcio onde Jacinto nascera, e onde sempre habitara, era em
+Paris, nos Campos Elsios, n.^o 202.
+
+Seu av, aquele gordssimo e riqussimo Jacinto a quem chamavam em
+Lisboa o _D. Galeo_, descendo uma tarde pela travessa da Trabuqueta,
+rente de um muro de quintal que uma parreira toldava, escorregou numa
+casca de laranja e desabou no lajedo. Da portinha da horta saa nesse
+momento um homem moreno, escanhoado, de grosso casaco de baeto verde e
+botas altas de picador, que, galhofando e com uma fora fcil, levantou
+o enorme Jacinto--at lhe apanhou a bengala de casto de ouro que rolara
+para o lixo. Depois, demorando nele os olhos pestanudos e pretos:
+
+--Oh Jacinto Galeo, que andas tu aqui, a estas horas, a rebolar pelas
+pedras?
+
+E Jacinto, aturdido e deslumbrado, reconheceu o Sr. Infante D. Miguel!
+
+Desde essa tarde amou aquele bom Infante como nunca amara, apesar de
+to guloso, o seu ventre, e apesar de to devoto o seu Deus! Na sala
+nobre da sua casa ( Pampulha) pendurou sobre os damascos o retrato do
+seu Salvador, enfeitado de palmitos como um retbulo, e por baixo a
+bengala que as magnnimas mos reais tinham erguido do lixo. Enquanto o
+adorvel, desejado Infante penou no desterro de Viena, o barrigudo
+senhor corria, sacudido na sua sege amarela, do botequim do Z Maria em
+Belm botica do Plcido nos Algibebes, a gemer as saudades do
+_anjinho_, a tramar o regresso do _anjinho_. No dia, entre todos
+bendito, em que a _Prola_ apareceu barra com o Messias, engrinaldou
+a Pampulha, ergueu no Caneiro um monumento de papelo e lona onde D.
+Miguel, tornado S. Miguel, branco, de aurola e asas de Arcanjo, furava
+de cima do seu corcel de Alter o Drago do Liberalismo, que se estorcia
+vomitando a Carta. Durante a guerra com o outro, com o pedreiro livre
+mandava recoveiros a Santo Tirso, a S. Gens, levar ao Rei fiambres,
+caixas de doce, garrafas do seu vinho de Tarrafal, e bolsas de retrs
+atochadas de peas que ele ensaboava para lhes avivar o ouro. E quando
+soube que o Sr. D. Miguel, com dois velhos bas amarrados sobre um
+macho, tomara o caminho de Sines e do final desterro--Jacinto _Galeo_
+correu pela casa, fechou todas as janelas como num luto, berrando
+furiosamente:
+
+--Tambm c no fico! tambm c no fico!
+
+No, no queria ficar na terra perversa donde partia, esbulhado e
+escorraado, aquele Rei de Portugal que levantava na rua os Jacintos!
+Embarcou para Frana com a mulher, a Sr.^a D. Angelina Fafes (da to
+falada casa dos Fafes da Avel); com o filho, o 'Cintinho, menino
+amarelinho, molezinho, coberto de caroos e leicenos; com a aia e com
+o moleque. Nas costas da Cantbria o paquete encontrou to rijos mares
+que a Sr.^a D. Angelina, esguedelhada, de joelhos na enxerga do
+beliche, prometeu ao Senhor dos Passos de Alcntara uma coroa
+de espinhos, de ouro, com as gotas de sangue em rubis do Pegu. Em
+Baiona, onde arribaram, 'Cintinho teve ictercia. Na estrada
+de Orlees, numa noite agreste, o eixo da berlinda em que jornadeavam
+partiu, e o ndio senhor, a delicada senhora da casa da Avel, o
+menino, marcharam trs horas na chuva e na lama do exlio at uma
+aldeia, onde, depois de baterem como mendigos a portas mudas, dormiram
+nos bancos de uma taberna. No Hotel dos Santos Padres, em Paris,
+sofreram os terrores de um fogo que rebentara na cavalaria, sob o
+quarto de _D. Galeo_, e o digno fidalgo, rebolando pelas escadas em
+camisa, at ao ptio, enterrou o p nu numa lasca de vidro. Ento ergueu
+amargamente ao cu o punho cabeludo, e rugiu:
+
+--Irra! de mais!
+
+Logo nessa semana, sem escolher, Jacinto _Galeo_ comprou a um
+Prncipe polaco, que depois da tomada de Varsvia se metera frade
+cartuxo, aquele palacete dos Campos Elsios, n.^o 202. E sob o pesado
+ouro dos seus estuques, entre as suas ramalhudas sedas se enconchou,
+descansando de tantas agitaes, numa vida de pachorra e de boa mesa,
+com alguns companheiros de emigrao (o desembargador Nuno Velho, o conde
+de Rabacena, outros menores), at que morreu de indigesto, de uma
+lampreia de escabeche que lhe mandara o seu procurador em Montemor. Os
+amigos pensavam que a Sr.^a D. Angelina Fafes voltaria ao reino. Mas a
+boa senhora temia a jornada, os mares, as caleas que racham. E no se
+queria separar do seu Confessor, nem do seu Mdico, que to bem lhe
+compreendiam os escrpulos e a asma.
+
+--Eu, por mim, aqui fico no 202 (declarara ela), ainda que me faz falta
+a boa gua de Alcolena... O 'Cintinho, esse, em crescendo, que decida.
+
+O 'Cintinho crescera. Era um moo mais esguio e lvido que um crio, de
+longos cabelos corredios, narigudo, silencioso, encafuado em roupas
+pretas, muito largas e bambas; de noite, sem dormir, por causa da tosse
+e de sufocaes, errava em camisa com uma lamparina atravs do 202; e
+os criados na copa sempre lhe chamavam a _Sombra_. Nessa sua mudez e
+indeciso de sombra surdira, ao fim do luto do pap, o gosto muito vivo
+de tornear madeiras ao torno: depois, mais tarde, com a melada flor dos
+seus vinte anos, brotou nele outro sentimento, de desejo e de pasmo,
+pela filha do desembargador Velho, uma menina redondinha como uma rola,
+educada num convento de Paris, e to habilidosa que esmaltava, dourava,
+concertava relgios e fabricava chapus de feltro. No Outono de 1851,
+quando j se desfolhavam os castanheiros dos Campos Elsios, o
+'Cintinho cuspilhou sangue. O mdico, acarinhando o queixo e com uma
+ruga sria na testa imensa, aconselhou que o menino abalasse para o
+golfo Juan ou para as tpidas areias de Arcachon.
+
+'Cintinho porm, no seu aferro de sombra, no se quis arredar da
+Teresinha Velho, de quem se tornara, atravs de Paris, a muda, tardonha
+sombra. Como uma sombra, casou; deu mais algumas voltas ao torno; cuspiu
+um resto de sangue; e passou, como uma sombra.
+
+Trs meses e trs dias depois do seu enterro o meu Jacinto nasceu.
+
+ * * * * *
+
+Desde o bero, onde a av espalhava funcho e mbar para afugentar a
+_Sorte-Ruim_, Jacinto medrou com a segurana, a rijeza, a seiva rica
+de um pinheiro das dunas.
+
+No teve sarampo e no teve lombrigas. As Letras, a Tabuada, o Latim
+entraram por ele to facilmente como o sol por uma vidraa. Entre os
+camaradas, nos ptios dos colgios, erguendo a sua espada de lata e
+lanando um brado de comando, foi logo o vencedor, o Rei que se adula,
+e a quem se cede a fruta das merendas. Na idade em que se l Balzac e
+Musset nunca atravessou os tormentos da sensibilidade;--nem crepsculos
+quentes o retiveram na solido de uma janela, padecendo de um desejo sem
+forma e sem nome. Todos os seus amigos (ramos trs, contando o seu
+velho escudeiro preto, o Grilo) lhe conservaram sempre amizades puras e
+certas--sem que jamais a participao do seu luxo as avivasse ou fossem
+desanimadas pelas evidncias do seu egosmo. Sem corao bastante forte
+para conceber um amor forte, e contente com esta incapacidade que o
+libertava, do amor s experimentou o mel--esse mel que o amor reserva
+aos que o recolhem, maneira das abelhas, com ligeireza, mobilidade e
+cantando. Rijo, rico, indiferente ao Estado e ao Governo dos Homens,
+nunca lhe conhecemos outra ambio alm de compreender bem as Ideias
+Gerais; e a sua inteligncia, nos anos alegres de escolas e
+controvrsias, circulava dentro das Filosofias mais densas como enguia
+lustrosa na gua limpa de um tanque. O seu valor, genuno, de fino
+quilate, nunca foi desconhecido, nem desapreciado; e toda a opinio, ou
+mera faccia que lanasse, logo encontrava uma aragem de simpatia e
+concordncia que a erguia, a mantinha embalada e rebrilhando nas
+alturas. Era servido pelas coisas com docilidade e carinho;--e no
+recordo que jamais lhe estalasse um boto da camisa, ou que um papel
+maliciosamente se escondesse dos seus olhos, ou que ante a sua
+vivacidade e pressa uma gaveta prfida emperrasse. Quando um dia, rindo
+com descrido riso da Fortuna e da sua Roda, comprou a um sacristo
+espanhol um Dcimo de Lotaria, logo a Fortuna, ligeira e ridente sobre
+a sua Roda, correu num fulgor, para lhe trazer quatrocentas mil
+pesetas. E no cu as Nuvens, pejadas e lentas, se avistavam Jacinto sem
+guarda-chuva, retinham com reverncia as suas guas at que ele
+passasse... Ah! o mbar e o funcho da Sr.^a D. Angelina tinham
+escorraado do seu destino, bem triunfalmente e para sempre, a
+_Sorte-Ruim_! A amorvel av (que eu conheci obesa, com barba) costumava
+citar um soneto natalcio do desembargador Nunes Velho contendo um verso
+de boa lio:
+
+ Sabei, senhora, que esta Vida um rio...
+
+Pois um rio de Vero, manso, translcido, harmoniosamente estendido
+sobre uma areia macia e alva, por entre arvoredos fragrantes e ditosas
+aldeias, no ofereceria quele que o descesse num barco de cedro, bem
+toldado e bem almofadado, com frutas e Champanhe a refrescar em gelo,
+um Anjo governando ao leme, outros Anjos puxando sirga, mais segurana
+e doura do que a Vida oferecia ao meu amigo Jacinto.
+
+Por isso ns lhe chamvamos o Prncipe da Gr-Ventura!
+
+ * * * * *
+
+Jacinto e eu, Jos Fernandes, ambos nos encontrmos e acamaradmos em
+Paris, nas Escolas do Bairro Latino--para onde me mandara meu bom tio
+Afonso Fernandes Lorena de Noronha e Sande, quando aqueles malvados me
+riscaram da Universidade por eu ter esborrachado, numa tarde de
+procisso, na Sofia, a cara srdida do dr. Pais Pita.
+
+Ora nesse tempo Jacinto concebera uma Ideia... Este Prncipe concebera
+a Ideia de que o homem s superiormente feliz quando superiormente
+civilizado. E por homem civilizado o meu camarada entendia aquele que,
+robustecendo a sua fora pensante com todas as noes adquiridas desde
+Aristteles, e multiplicando a potncia corporal dos seus rgos com
+todos os mecanismos inventados desde Termenes, criador da roda, se
+torna um magnfico Ado, quase omnipotente, quase omnisciente, e apto
+portanto a recolher dentro de uma sociedade e nos limites do Progresso
+(tal como ele se comportava em 1875) todos os gozos e todos os
+proveitos que resultam de Saber e de Poder... Pelo menos assim Jacinto
+formulava copiosamente a sua Ideia, quando conversvamos de fins e
+destinos humanos, sorvendo bocks poeirentos, sob o toldo das cervejarias
+filosficas, no Boulevard Saint-Michel.
+
+Este conceito de Jacinto impressionara os nossos camaradas de cenculo,
+que tendo surgido para a vida intelectual, de 1866 a 1875, entre a
+batalha de Sadova e a batalha de Sedan, e ouvindo constantemente, desde
+ento, aos tcnicos e aos filsofos, que fora a Espingarda-de-Agulha
+que vencera em Sadova e fora o Mestre-de-Escola quem vencera em Sedan,
+estavam largamente preparados a acreditar que a felicidade dos
+indivduos, como a das naes, se realiza pelo ilimitado
+desenvolvimento da Mecnica e da Erudio. Um desses moos mesmo, o
+nosso inventivo Jorge Carlande, reduzira a teoria de Jacinto, para lhe
+facilitar a circulao e lhe condensar o brilho, a uma forma algbrica:
+
+Suma cincia}
+ X }= Suma felicidade
+Suma potncia}
+
+E durante dias, do Odeon Sorbona, foi louvada pela mocidade positiva
+a _Equao Metafsica de Jacinto_.
+
+Para Jacinto, porm, o seu conceito no era meramente metafsico e
+lanado pelo gozo elegante de exercer a razo especulativa:--mas
+constitua uma regra, toda de realidade e de utilidade, determinando a
+conduta, modalizando a vida. E j a esse tempo, em concordncia com o
+seu preceito--ele se surtira da _Pequena Enciclopdia dos Conhecimentos
+Universais_ em setenta e cinco volumes e instalara, sobre os telhados
+do 202, num mirante envidraado, um telescpio. Justamente com esse
+telescpio me tornou ele palpvel a sua ideia, numa noite de Agosto,
+de mole e dormente calor. Nos cus remotos lampejavam relmpagos
+lnguidos. Pela Avenida dos Campos Elsios, os fiacres rolavam para as
+frescuras do Bosque, lentos, abertos, cansados, transbordando de
+vestidos claros.
+
+--Aqui tens tu, Z Fernandes, (comeou Jacinto, encostado janela do
+mirante) a teoria que me governa, bem comprovada. Com estes olhos que
+recebemos da Madre natureza, lestos e sos, ns podemos apenas
+distinguir alm, atravs da Avenida, naquela loja, uma vidraa
+alumiada. Mais nada! Se eu porm aos meus olhos juntar os dois vidros
+simples de um binculo de corridas, percebo, por trs da vidraa,
+presuntos, queijos, boies de geleia e caixas de ameixa seca. Concluo
+portanto que uma mercearia. Obtive uma noo; tenho sobre ti, que com
+os olhos desarmados vs s o luzir da vidraa, uma vantagem positiva. Se
+agora, em vez destes vidros simples, eu usasse os do meu telescpio, de
+composio mais cientfica, poderia avistar alm, no planeta Marte, os
+mares, as neves, os canais, o recorte dos golfos, toda a geografia
+de um astro que circula a milhares de lguas dos Campos Elsios. outra
+noo, e tremenda! Tens aqui pois o olho primitivo, o da Natureza,
+elevado pela Civilizao sua mxima potncia de viso. E desde j,
+pelo lado do olho portanto, eu, civilizado, sou mais feliz que o
+incivilizado, porque descubro realidades do Universo que ele no
+suspeita e de que est privado. Aplica esta prova a todos os rgos e
+compreendes o meu princpio. Enquanto inteligncia, e felicidade
+que dela se tira pela incansvel acumulao das noes, s te peo
+que compares Renan e o Grilo... Claro portanto que nos devemos cercar
+de Civilizao nas mximas propores para gozar nas mximas propores
+a vantagem de viver. Agora concordas, Z Fernandes?
+
+No me parecia irrecusavelmente certo que Renan fosse mais feliz que o
+Grilo; nem eu percebia que vantagem espiritual ou temporal se colha em
+distinguir atravs do espao manchas num astro, ou atravs da Avenida
+dos Campos Elsios presuntos numa vidraa. Mas concordei, porque sou
+bom, e nunca desalojarei um esprito do conceito onde ele encontra
+segurana, disciplina e motivo de energia. Desabotoei o colete, e
+lanando um gesto para o lado dos cafs e das luzes:
+
+--Vamos ento beber, nas mximas propores, _brandy and soda_, com
+gelo!
+
+Por uma concluso bem natural, a ideia de Civilizao, para Jacinto,
+no se separava da imagem de Cidade, de uma enorme Cidade, com todos os
+seus vastos rgos funcionando poderosamente. Nem este meu
+supercivilizado amigo compreendia que longe de Armazns servidos por
+trs mil caixeiros; e de Mercados onde se despejam os vergis e lezrias
+de trinta provncias; e de Bancos em que retine o ouro universal; e de
+Fbricas fumegando com nsia, inventando com nsia; e de Bibliotecas
+abarrotadas, a estalar, com a papelada dos sculos; e de fundas milhas
+de ruas, cortadas, por baixo e por cima, de fios de telgrafos, de fios
+de telefones, de canos de gases, de canos de fezes; e da fila atroante
+dos nibus, tramways, carroas, velocpedes, calhambeques, parelhas de
+luxo; e de dois milhes de uma vaga humanidade, fervilhando, a ofegar,
+atravs da Polcia, na busca dura do po ou sob a iluso do gozo--o
+homem do sculo XIX pudesse saborear, plenamente, a delcia de viver!
+
+Quando Jacinto, no seu quarto do 202, com as varandas abertas sobre os
+lilases, me desenrolava estas imagens, todo ele crescia, iluminado.
+Que criao augusta, a da Cidade! S por ela, Z Fernandes, s por
+ela, pode o homem soberbamente afirmar a sua alma!...
+
+--Oh Jacinto, e a religio? Pois a religio no prova a alma?
+
+Ele encolhia os ombros. A religio! A religio o desenvolvimento
+sumptuoso de um instinto rudimentar, comum a todos os brutos, o
+terror. Um co lambendo a mo do dono, de quem lhe vem o osso ou o
+chicote, j constitui toscamente um devoto, o consciente devoto,
+prostrado em rezas ante o Deus que distribui o cu ou o inferno!... Mas
+o telefone! o fongrafo!
+
+--A tens tu, o fongrafo!... S o fongrafo, Z Fernandes, me faz
+verdadeiramente sentir a minha superioridade de ser pensante e me separa
+do bicho. Acredita, no h seno a Cidade, Z Fernandes, no h seno a
+Cidade!
+
+E depois (acrescentava) s a Cidade lhe dava a sensao, to necessria
+ vida como o calor, da solidariedade humana. E no 202, quando
+considerava em redor, nas densas massas do casario de Paris, dois
+milhes de seres arquejando na obra da Civilizao (para manter na
+natureza o domnio dos Jacintos!) sentia um sossego, um conchego, s
+comparveis ao do peregrino, que, ao atravessar o deserto, se ergue no
+seu dromedrio, e avista a longa fila da caravana marchando, cheia de
+lumes e de armas...
+
+Eu murmurava, impressionado:
+
+--Caramba!
+
+Ao contrrio no campo, entre a inconscincia e a impassibilidade da
+Natureza, ele tremia com o terror da sua fragilidade e da sua solido.
+Estava a como perdido num mundo que lhe no fosse fraternal; nenhum
+silvado encolheria os espinhos para que ele passasse; se gemesse com
+fome nenhuma rvore, por mais carregada, lhe estenderia o seu fruto na
+ponta compassiva de um ramo. Depois, em meio da Natureza, ele assistia
+sbita e humilhante inutilizao de todas as suas faculdades superiores.
+De que servia, entre plantas e bichos--ser um Gnio ou ser um Santo? As
+searas no compreendem as _Gergicas_; e fora necessrio o socorro
+ansioso de Deus, e a inverso de todas as leis naturais, e um violento
+milagre para que o lobo de Agubio no devorasse S. Francisco de Assis,
+que lhe sorria e lhe estendia os braos e lhe chamava meu irmo lobo!
+Toda a intelectualidade, nos campos, se esteriliza, e s resta a
+bestialidade. Nesses reinos crassos do Vegetal e do Animal duas nicas
+funes se mantm vivas, a nutritiva e a procriadora. Isolada, sem
+ocupao, entre focinhos e razes que no cessam de sugar e de pastar,
+sufocando no clido bafo da universal fecundao, a sua pobre alma toda
+se engelhava, se reduzia a uma migalha de alma, uma fagulhazinha
+espiritual a tremeluzir, como morta, sobre um naco de matria; e nessa
+matria dois instintos surdiam, imperiosos e pungentes, o de devorar e
+o de gerar. Ao cabo de uma semana rural, de todo o seu ser to
+nobremente composto s restava um estmago e por baixo um falo! A
+alma? Sumida sob a besta. E necessitava correr, reentrar na Cidade,
+mergulhar nas ondas lustrais da Civilizao, para largar nelas a
+crosta vegetativa, e ressurgir reumanizado, de novo espiritual e
+Jacntico!
+
+E estas requintadas metforas do meu amigo exprimiam sentimentos
+reais--que eu testemunhei, que muito me divertiram, no nico passeio que
+fizemos ao campo, bem amvel e bem socivel floresta de Montmorency.
+Oh delcias de entremez, Jacinto entre a Natureza! Logo que se afastava
+dos pavimentos de madeira, do macadame, qualquer cho que os seus ps
+calcassem o enchia de desconfiana e terror. Toda a relva, por mais
+crestada, lhe parecia ressumar uma humidade mortal. De sob cada torro,
+da sombra de cada pedra, receava o assalto de lacraus, de vboras, de
+formas rastejantes e viscosas. No silncio do bosque sentia um lgubre
+despovoamento do Universo. No tolerava a familiaridade dos galhos que
+lhe roassem a manga ou a face. Saltar uma sebe era para ele um acto
+degradante que o retrogradava ao macaco inicial. Todas as flores que no
+tivesse j encontrado em jardins, domesticadas por longos sculos de
+servido ornamental, o inquietavam como venenosas. E considerava de uma
+melancolia funambulesca certos modos e formas do Ser inanimado, a pressa
+esperta e v dos regatinhos, a careca dos rochedos, todas as contores
+do arvoredo e o seu resmungar solene e tonto.
+
+Depois de uma hora, naquele honesto bosque de Montmorency, o meu pobre
+amigo abafava, apavorado, experimentando j esse lento minguar e sumir
+de alma que o tornava como um bicho entre bichos. S desanuviou quando
+penetramos no lajedo e no gs de Paris--e a nossa vitria quase se
+despedaou contra um nibus retumbante, atulhado de cidados. Mandou
+descer pelos Boulevards, para dissipar, na sua grossa sociabilidade,
+aquela materializao em que sentia a cabea pesada e vaga como a de um
+boi. E reclamou que eu o acompanhasse ao teatro das Variedades para
+sacudir, com os estribilhos da _Femme Papa_, o rumor importuno que lhe
+ficara dos melros cantando nos choupos altos.
+
+Este delicioso Jacinto fizera ento vinte e trs anos, e era um
+soberbo moo em quem reaparecera a fora dos velhos Jacintos rurais.
+S pelo nariz, afilado, com narinas quase transparentes, de uma
+mobilidade inquieta, como se andasse fariscando perfumes, pertencia s
+delicadezas do sculo XIX. O cabelo ainda se conservava, ao modo das
+eras rudes, crespo e quase langero: e o bigode, como o de um Celta,
+caa em fios sedosos, que ele necessitava aparar e frisar. Todo o seu
+fato, as espessas gravatas de cetim escuro que uma prola prendia, as
+luvas de anta branca, o verniz das botas, vinham de Londres em caixotes
+de cedro; e usava sempre ao peito uma flor, no natural, mas composta
+destramente pela sua ramalheteira com ptalas de flores dissemelhantes,
+cravo, azlea, orqudea ou tulipa, fundidas na mesma haste entre uma
+leve folhagem de funcho.
+
+ * * * * *
+
+Em 1880, em Fevereiro, numa cinzenta e arrepiada manh de chuva, recebi
+uma carta de meu bom tio Afonso Fernandes, em que, depois de
+lamentaes sobre os seus setenta anos, os seus males hemorroidais, e a
+pesada gerncia dos seus bens que pedia homem mais novo, com pernas
+mais rijas--me ordenava que recolhesse nossa casa de Guies, no
+Douro! Encostado ao mrmore partido do fogo, onde na vspera a minha
+Nini deixara um espartilho embrulhado no _Jornal dos Debates_, censurei
+severamente meu tio que assim cortava em boto, antes de desabrochar, a
+flor do meu Saber Jurdico. Depois num Post-Scriptum ele
+acrescentava--O tempo aqui est lindo, o que se pode chamar de rosas,
+e tua santa tia muito se recomenda, que anda l pela cozinha, porque
+vai hoje em trinta e seis anos que casmos, temos c o abade e o
+Quintais a jantar, e ela quis fazer uma sopa dourada.
+
+Deitando uma acha ao lume, pensei como devia estar boa a sopa dourada da
+tia Vicncia. H quantos anos no a provava, nem o leito assado, nem o
+arroz de forno da nossa casa! Com o tempo assim to lindo, j as mimosas
+do nosso ptio vergariam sob os seus grandes cachos amarelos. Um pedao
+de cu azul, do azul de Guies, que outro no h to lustroso e macio,
+entrou pelo quarto, alumiou, sobre a puda tristeza do tapete, relvas,
+ribeirinhos, malmequeres e flores de trevo de que meus olhos andavam
+aguados. E, por entre as bambinelas de sarja, passou um ar fino e forte
+e cheiroso de serra e de pinheiral.
+
+Assobiando um _fado_ meigo tirei debaixo da cama a minha velha mala, e
+meti solicitamente entre calas e pegas um Tratado de Direito Civil,
+para aprender enfim, nos vagares da aldeia, estendido sob a faia, as
+leis que regem os homens. Depois, nessa tarde, anunciei a Jacinto que
+partia para Guies. O meu camarada recuou com um surdo gemido de espanto
+e piedade:
+
+--Para Guies!... Oh Z Fernandes, que horror!
+
+E toda essa semana me lembrou solicitamente confortos de que eu me
+deveria prover para que pudesse conservar, nos ermos silvestres, to
+longe da Cidade, uma pouca de alma dentro de um pouco de corpo. Leva uma
+poltrona! Leva a _Enciclopdia Geral_! Leva caixas de aspragos!...
+
+Mas para o meu Jacinto, desde que assim me arrancavam da Cidade, eu era
+arbusto desarreigado que no reviver. A mgoa com que me acompanhou ao
+comboio conviria excelentemente ao meu funeral. E quando fechou sobre
+mim a portinhola, gravemente, supremamente, como se cerra uma grade de
+sepultura, eu quase solucei--com saudades minhas.
+
+Cheguei a Guies. Ainda restavam flores nas mimosas do nosso ptio; comi
+com delcias a sopa dourada da tia Vicncia; de tamancos nos ps assisti
+ ceifa dos milhos. E assim de colheitas a lavras, crestando ao sol das
+eiras, caando a perdiz nos matos geados, rachando a melancia fresca na
+poeira dos arraiais, arranchando a magustos, serandando candeia,
+atiando fogueiras de S. Joo, enfeitando prespios de Natal, por ali
+me passaram docemente sete anos, to atarefados que nunca logrei abrir
+o Tratado de Direito Civil, e to singelos que apenas me recordo quando,
+em vsperas de S. Nicolau, o abade caiu da gua porta do Brs das
+Cortes. De Jacinto s recebia raramente algumas linhas, escrevinhadas
+pressa por entre o tumulto da Civilizao. Depois, num Setembro muito
+quente, ao lidar da vindima, meu bom tio Afonso Fernandes morreu, to
+quietamente, Deus seja louvado por esta graa, como se cala um
+passarinho ao fim do seu bem cantado e bem voado dia. Acabei pela aldeia
+a roupa do luto. A minha afilhada Joaninha casou na matana do porco.
+Andaram obras no nosso telhado. Voltei a Paris.
+
+
+
+
+II
+
+
+Era de novo Fevereiro, e um fim de tarde arrepiado e cinzento, quando eu
+desci os Campos Elsios em demanda do 202. Adiante de mim caminhava,
+levemente curvado, um homem que, desde as botas rebrilhantes at s abas
+recurvas do chapu donde fugiam anis de um cabelo crespo, ressumava
+elegncia e a familiaridade das coisas finas. Nas mos, cruzadas atrs
+das costas, caladas de anta branca, sustentava uma bengala grossa com
+casto de cristal. E s quando ele parou ao porto do 202 reconheci o
+nariz afilado, os fios do bigode corredios e sedosos.
+
+--Oh Jacinto!
+
+--Oh Z Fernandes!
+
+O abrao que nos enlaou foi to alvoroado que o meu chapu rolou na
+lama. E ambos murmurvamos, comovidos, entrando a grade:
+
+--H sete anos!...
+
+--H sete anos!...
+
+E, todavia, nada mudara durante esses sete anos no jardim do 202! Ainda
+entre as duas leas bem areadas se arredondava uma relva, mais lisa e
+varrida que a l de um tapete. No meio o vaso corntico esperava Abril
+para resplandecer com tulipas e depois Junho para transbordar de
+margaridas. E ao lado das escadas limiares, que uma vidraaria toldava,
+as duas magras Deusas de pedra, do tempo de D. Galeo, sustentavam as
+antigas lmpadas de globos foscos, onde j silvava o gs.
+
+Mas dentro, no peristilo, logo me surpreendeu um elevador instalado
+por Jacinto--apesar do 202 ter somente dois andares, e ligados por uma
+escadaria to doce que nunca ofendera a asma da Sr.^a D. Angelina!
+Espaoso, tapetado, ele oferecia, para aquela jornada de sete
+segundos, confortos numerosos, um div, uma pele de urso, um roteiro
+das ruas de Paris, prateleiras gradeadas com charutos e livros. Na
+antecmara, onde desembarcmos, encontrei a temperatura macia e tpida
+de uma tarde de Maio, em Guies. Um criado, mais atento ao termmetro
+que um piloto agulha, regulava destramente a boca dourada do
+calorfero. E perfumadores entre palmeiras, como num terrao santo de
+Benares, esparziam um vapor, aromatizando e salutarmente humedecendo
+aquele ar delicado e superfino.
+
+Eu murmurei, nas profundidades do meu assombrado ser:
+
+--Eis a Civilizao!
+
+Jacinto empurrou uma porta, penetrmos numa nave cheia de majestade e
+sombra, onde reconheci a Biblioteca por tropear numa pilha monstruosa
+de livros novos. O meu amigo roou de leve o dedo na parede: e uma coroa
+de lumes elctricos, refulgindo entre os lavores do tecto, alumiou as
+estantes monumentais, todas de bano. Nelas repousavam mais de trinta
+mil volumes, encadernados em branco, em escarlate, em negro, com
+retoques de ouro, hirtos na sua pompa e na sua autoridade como doutores
+num conclio.
+
+No contive a minha admirao:
+
+--Oh Jacinto! Que depsito!
+
+Ele murmurou, num sorriso descorado:
+
+--H que ler, h que ler...
+
+Reparei ento que o meu amigo emagrecera: e que o nariz se lhe afilara
+mais entre duas rugas muito fundas, como as de um comediante cansado. Os
+anis do seu cabelo langero rareavam sobre a testa, que perdera a
+antiga serenidade de mrmore bem polido. No frisava agora o bigode
+murcho, cado em fios pensativos. Tambm notei que corcovava.
+
+Ele erguera uma tapearia--entrmos no seu gabinete de trabalho, que me
+inquietou. Sobre a espessura dos tapetes sombrios os nossos passos
+perderam logo o som, e como a realidade. O damasco das paredes, os
+divs, as madeiras, eram verdes, de um verde profundo de folha de louro.
+Sedas verdes envolviam as luzes elctricas, dispersas em lmpadas to
+baixas que lembravam estrelas cadas por cima das mesas, acabando de
+arrefecer e morrer: s uma rebrilhava, nua e clara, no alto de uma
+estante quadrada, esguia, solitria como uma torre numa plancie, e de
+que o lume parecia ser o farol melanclico. Um biombo de laca verde,
+fresco verde de relva, resguardava a chamin de mrmore verde, verde de
+mar sombrio, onde esmoreciam as brasas de uma lenha aromtica. E entre
+aqueles verdes reluzia, por sobre peanhas e pedestais, toda uma
+Mecnica sumptuosa, aparelhos, lminas, rodas, tubos, engrenagens,
+hastes, friezas, rigidezes de metais...
+
+Mas Jacinto batia nas almofadas do div, onde se enterrara com um modo
+cansado que eu no lhe conhecia:
+
+--Para aqui, Z Fernandes, para aqui! necessrio reatarmos estas
+nossas vidas, to apartadas h sete anos!... Em Guies, sete anos! Que
+fizeste tu?
+
+--E tu, que tens feito, Jacinto?
+
+O meu amigo encolheu molemente os ombros. Vivera--cumprira com
+serenidade todas as funes, as que pertencem matria e as que
+pertencem ao esprito...
+
+--E acumulaste Civilizao, Jacinto! Santo Deus... Est tremendo, o
+202!
+
+Ele espalhou em torno um olhar onde j no faiscava a antiga
+vivacidade:
+
+--Sim, h confortos... Mas falta muito! A humanidade ainda est mal
+apetrechada, Z Fernandes... E a vida conserva resistncias.
+
+Subitamente, a um canto, repicou a campainha do telefone. E enquanto o
+meu amigo, curvado sobre a placa, murmurava impaciente _Est l?--Est
+l?_, examinei curiosamente, sobre a sua imensa mesa de trabalho, uma
+estranha e mida legio de instrumentozinhos de nquel, de ao, de cobre,
+de ferro, com gumes, com argolas, com tenazes, com ganchos, com dentes,
+expressivos todos, de utilidades misteriosas. Tomei um que tentei
+manejar--e logo uma ponta malvola me picou um dedo. Nesse instante
+rompeu doutro canto um tic-tic-tic aodado, quase ansioso. Jacinto
+acudiu, com a face no telefone:
+
+--V a o telgrafo!... Ao p do div. Uma tira de papel que deve
+estar a correr.
+
+E, com efeito, de uma redoma de vidro posta numa coluna, e contendo um
+aparelho esperto e diligente, escorria para o tapete, como uma tnia, a
+longa tira de papel com caracteres impressos, que eu, homem das serras,
+apanhei, maravilhado. A linha, traada em azul, anunciava ao meu amigo
+Jacinto que a fragata russa _Azoff_ entrara em Marselha com avaria!
+
+J ele abandonara o telefone. Desejei saber, inquieto, se o
+prejudicava directamente aquela avaria da _Azoff_.
+
+--Da _Azoff_?... A avaria? A mim?... No! uma notcia.
+
+Depois, consultando um relgio monumental que, ao fundo da Biblioteca,
+marcava a hora de todas as Capitais e o curso de todos os Planetas:
+
+--Eu preciso escrever uma carta, seis linhas... Tu esperas, no, Z
+Fernandes? Tens a os jornais de Paris, da noite; e os de Londres,
+desta manh. As Ilustraes alm, naquela pasta de couro com
+ferragens.
+
+Mas eu preferi inventariar o gabinete, que dava minha profanidade
+serrana todos os gostos de uma iniciao. Aos lados da cadeira de
+Jacinto pendiam gordos tubos acsticos, por onde ele decerto soprava
+as suas ordens atravs do 202. Dos ps da mesa cordes tmidos e moles,
+coleando sobre o tapete, corriam para os recantos de sombra maneira
+de cobras assustadas. Sobre uma banquinha, e reflectida no seu verniz
+como na gua de um poo, pousava uma Mquina de escrever: e adiante era
+uma imensa Mquina de calcular, com fileiras de buracos donde
+espreitavam, esperando, nmeros rgidos e de ferro. Depois parei em
+frente da estante que me preocupava, assim solitria, maneira de uma
+torre numa plancie, com o seu alto farol. Toda uma das suas faces
+estava repleta de Dicionrios; a outra de Manuais; a outra de Atlas; a
+ltima de Guias, e entre eles, abrindo um flio, encontrei o Guia das
+ruas de Samarcanda. Que macia torre de informao! Sobre prateleiras
+admirei aparelhos que no compreendia:--um composto de lminas de
+gelatina, onde desmaiavam, meio-chupadas, as linhas de uma carta, talvez
+amorosa; outro, que erguia sobre um pobre livro brochado, como para o
+decepar, um cutelo funesto; outro avanando a boca de uma tuba, toda
+aberta para as vozes do invisvel. Cingidos aos umbrais, liados s
+cimalhas, luziam arames, que fugiam atravs do tecto, para o espao.
+Todos mergulhavam em foras universais, todos transmitiam foras
+universais. A Natureza convergia disciplinada ao servio do meu amigo e
+entrara na sua domesticidade!...
+
+Jacinto atirou uma exclamao impaciente:
+
+--Oh, estas penas elctricas!... Que seca!
+
+Amarrotara com clera a carta comeada--eu escapei, respirando, para a
+Biblioteca. Que majestoso armazm dos produtos do Raciocnio e da
+Imaginao! Ali jaziam mais de trinta mil volumes, e todos decerto
+essenciais a uma cultura humana. Logo entrada notei, em ouro numa
+lombada verde, o nome de Adam Smith. Era pois a regio dos Economistas.
+Avancei--e percorri, espantado, oito metros de Economia Poltica. Depois
+avistei os Filsofos e os seus comentadores, que revestiam toda uma
+parede, desde as escolas Pr-Socrticas at s escolas Neopessimistas.
+Naquelas pranchas se acastelavam mais de dois mil sistemas--e que
+todos se contradiziam. Pelas encadernaes logo se deduziam as
+doutrinas: Hobbes, em baixo, era pesado, de couro negro; Plato, em
+cima, resplandecia, numa pelica pura e alva. Para diante comeavam as
+Histrias Universais. Mas a uma imensa pilha de livros brochados,
+cheirando a tinta nova e a documentos novos, subia contra a estante,
+como fresca terra de aluvio tapando uma riba secular. Contornei essa
+colina, mergulhei na seco das Cincias Naturais, peregrinando, num
+assombro crescente, da Orografia para a Paleontologia, e da Morfologia
+para a Cristalografia. Essa estante rematava junto de uma janela
+rasgada sobre os Campos Elsios. Apartei as cortinas de veludo--e por
+trs descobri outra portentosa rima de volumes, todos de Histria
+Religiosa, de Exegese Religiosa, que trepavam montanhosamente at aos
+ltimos vidros, vedando, nas manhs mais cndidas, o ar e a luz do
+Senhor.
+
+Mas depois rebrilhava, em marroquins claros, a estante amvel dos
+Poetas. Como um repouso para o esprito esfalfado de todo aquele saber
+positivo, Jacinto aconchegara a um recanto, com um div e uma mesa
+de limoeiro, mais lustrosa que um fino esmalte, coberta de charutos, de
+cigarros do Oriente, de tabaqueiras do sculo XVIII. Sobre um cofre de
+madeira lisa pousava ainda, esquecido, um prato de damascos secos do
+Japo. Cedi seduo das almofadas; trinquei um damasco, abri um
+volume; e senti estranhamente, ao lado, um zumbido, como de um insecto
+de asas harmoniosas. Sorri ideia que fossem abelhas, compondo o seu mel
+naquele macio de versos em flor. Depois percebi que o sussurro remoto
+e dormente vinha do cofre de mogno, de parecer to discreto. Arredei uma
+_Gazeta de Frana_; e descortinei um cordo que emergia de um orifcio,
+escavado no cofre, e rematava num funil de marfim. Com curiosidade,
+encostei o funil a esta minha confiada orelha, afeita singeleza dos
+rumores da serra. E logo uma Voz, muito mansa, mas muito decidida,
+aproveitando a minha curiosidade para me invadir e se apoderar do meu
+entendimento, sussurrou capciosamente:
+
+--...E assim, pela disposio dos cubos diablicos, eu chego a
+verificar os espaos hipermgicos!...
+
+Pulei, com um berro.
+
+--Oh Jacinto, aqui h um homem! Est aqui um homem a falar dentro
+de uma caixa!
+
+O meu camarada, habituado aos prodgios, no se alvoroou:
+
+-- o Conferenofone... Exactamente como o Teatrofone; somente
+aplicado s escolas e s conferncias. Muito cmodo!... Que diz o
+homem, Z Fernandes?
+
+Eu considerava o cofre, ainda esgazeado:
+
+--Eu sei! Cubos diablicos, espaos mgicos, toda a sorte de horrores...
+
+Senti dentro o sorriso superior de Jacinto:
+
+--Ah, o coronel Dorchas... Lies de Metafsica Positiva sobre a
+Quarta Dimenso... Conjecturas, uma maada! Ouve l, tu hoje jantas
+comigo e com uns amigos, Z Fernandes?
+
+--No, Jacinto... Estou ainda enfardelado pelo alfaiate da serra!
+
+E voltei ao gabinete mostrar ao meu camarada o jaqueto de flanela
+grossa, a gravata de pintinhas escarlates, com que ao domingo, em
+Guies, visitava o Senhor. Mas Jacinto afirmou que esta simplicidade
+montesina interessaria os seus convidados, que eram dois artistas...
+Quem? O autor do _Corao Triplo_, um Psiclogo Feminista, de agudeza
+transcendente, Mestre muito experimentado e muito consultado em
+Cincias Sentimentais; e Vorcan, um pintor mtico, que interpretara
+etereamente, havia um ano, a simbolia rapsdica do cerco de Tria,
+numa vasta composio, _Helena Devastadora_...
+
+Eu coava a barba:
+
+--No, Jacinto, no... Eu venho de Guies, das serras; preciso entrar
+em toda esta civilizao, lentamente, com cautela, seno rebento. Logo
+na mesma tarde a electricidade, e o conferenofone, e os espaos
+hipermgicos e o feminista, e o etreo, e a simbolia devastadora,
+excessivo! Volto amanh.
+
+Jacinto dobrava vagarosamente a sua carta, onde metera sem rebuo
+(como convinha nossa fraternidade) duas violetas brancas tiradas do
+ramo que lhe floria o peito.
+
+--Amanh, Z Fernandes, tu vens antes de almoo, com as tuas malas dentro
+de um fiacre, para te instalares no 202, no teu quarto. No Hotel so
+embaraos, privaes. Aqui tens o telefone, o teatrofone, livros...
+
+Aceitei logo, com simplicidade. E Jacinto, embocando um tubo acstico,
+murmurou:
+
+--Grilo!
+
+Da parede, recoberta de damasco, que subitamente e sem rumor se fendeu,
+surdiu o seu velho escudeiro (aquele moleque que viera com _D.
+Galeo_), que eu me alegrei de encontrar to rijo, mais negro,
+reluzente e venervel na sua tesa gravata, no seu colete branco de
+botes de ouro. Ele tambm estimou ver de novo o si Fernandes. E,
+quando soube que eu ocuparia o quarto do av Jacinto, teve um claro
+sorriso de preto, em que envolveu o seu senhor, no contentamento de o
+sentir enfim reprovido de uma famlia.
+
+--Grilo, dizia Jacinto, esta carta a Madame de Oriol... Escuta!
+Telefona para casa dos Trves que os espiritistas s esto livres no
+domingo... Escuta! Eu tomo uma duche antes de jantar, tpida, a 17.
+Frico com malva-rosa.
+
+E caindo pesadamente para cima do div, com um bocejo arrastado e
+vago:
+
+--Pois verdade, meu Z Fernandes, aqui estamos, como h sete anos,
+neste velho Paris...
+
+Mas eu no me arredava da mesa, no desejo de completar a minha
+iniciao:
+
+--Oh Jacinto, para que servem todos estes instrumentozinhos? Houve j
+a um desavergonhado que me picou. Parecem perversos... So teis?
+
+Jacinto esboou, com languidez, um gesto que os
+sublimava.--Providenciais, meu filho, absolutamente providenciais, pela
+simplificao que do ao trabalho! Assim... E apontou. Este arrancava as
+penas velhas; o outro numerava rapidamente as pginas de um manuscrito;
+aqueloutro, alm, raspava emendas... E ainda os havia para colar
+estampilhas, imprimir datas, derreter lacres, cintar documentos...
+
+--Mas com efeito, acrescentou, uma seca. Com as molas, com os
+bicos, s vezes magoam, ferem... J me sucedeu inutilizar cartas por as
+ter sujado com dedadas de sangue. uma maada!
+
+Ento, como o meu amigo espreitara novamente o relgio monumental, no
+lhe quis retardar a consolao da ducha e da malva-rosa.
+
+--Bem, Jacinto, j te revi, j me contentei... Agora at amanh, com as
+malas.
+
+--Que diabo, Z Fernandes, espera um momento... Vamos pela sala de
+jantar. Talvez te tentes!
+
+E, atravs da Biblioteca, penetramos na sala de jantar,--que me
+encantou pelo seu luxo sereno e fresco. Uma madeira branca, lacada,
+mais lustrosa e macia que cetim, revestia as paredes, encaixilhando
+medalhes de damasco cor de morango, de morango muito maduro e esmagado:
+os aparadores, discretamente lavrados em flores e rocalhas,
+resplandeciam com a mesma laca nevada: e damascos amorangados estofavam
+tambm as cadeiras, brancas, muito amplas, feitas para a lentido de
+gulas delicadas, de gulas intelectuais.
+
+--Viva o meu Prncipe! Sim senhor... Eis aqui um comedouro muito
+compreensvel e muito repousante, Jacinto!
+
+--Ento janta, homem!
+
+Mas j eu me comeava a inquietar, reparando que a cada talher
+correspondiam seis garfos, e todos de feitios astuciosos. E mais me
+impressionei quando Jacinto me desvendou que um era para as ostras,
+outro para o peixe, outro para as carnes, outro para os legumes, outro
+para as frutas, outro para o queijo! Simultaneamente, com uma
+sobriedade que louvaria Salomo, s dois copos, para dois vinhos:--um
+Bordus rosado em infusas de cristal, e Champanhe gelando dentro de
+baldes de prata. Todo um aparador porm vergava, sob o luxo redundante,
+quase assustador de guas--guas oxigenadas, guas carbonatadas, guas
+fosfatadas, guas esterilizadas, guas de sais, outras ainda, em
+garrafas bojudas, com tratados teraputicos impressos em rtulos.
+
+--Santssimo nome de Deus, Jacinto! Ento s ainda o mesmo tremendo
+bebedor de gua, hein?... _Un aquatico!_ como dizia o nosso poeta
+chileno, que andava a traduzir Klopstock.
+
+Ele derramou, por sobre toda aquela garrafaria encarapuada em metal,
+um olhar desconsolado:
+
+--No... por causa das guas da Cidade, contaminadas, atulhadas de
+micrbios... Mas ainda no encontrei uma boa gua que me convenha, que
+me satisfaa... At sofro sede.
+
+Desejei ento conhecer o jantar do Psiclogo e do Simbolista--traado,
+ao lado dos talheres, em tinta vermelha, sobre lminas de marfim.
+Comeava honradamente por ostras clssicas, de Marennes. Depois
+aparecia uma sopa de alcachofras e ovas de carpa...
+
+-- bom?
+
+Jacinto encolheu desinteressadamente os ombros:
+
+--Sim... Eu no tenho nunca apetite, j h tempos... J h anos.
+
+Do outro prato s compreendi que continha frangos e tbaras. Depois
+saboreariam aqueles senhores um filete de veado, macerado em Xerez, com
+geleia de noz. E por sobremesa simplesmente laranjas geladas em ter.
+
+--Em ter, Jacinto?
+
+O meu amigo hesitou, esboou com os dedos a ondulao de um aroma que
+se evola.
+
+-- novo... Parece que o ter desenvolve, faz aflorar a alma das
+frutas...
+
+Curvei a cabea ignara, murmurei nas minhas profundidades:
+
+--Eis a Civilizao!
+
+E, descendo os Campos Elsios, encolhido no palet a cogitar neste
+prato simblico, considerava a rudeza e atolado atraso da minha Guies,
+onde desde sculos a alma das laranjas permanece ignorada e
+desaproveitada dentro dos gomos sumarentos, por todos aqueles pomares
+que ensombram e perfumam o vale, da Roqueirinha a Sandofim! Agora
+porm, bendito Deus, na convivncia de um to grande iniciado como
+Jacinto, eu compreenderia todas as finuras e todos os poderes da
+Civilizao.
+
+E, (melhor ainda para a minha ternura!) contemplaria a raridade de um
+homem que, concebendo uma ideia da Vida, a realiza--e atravs dela e
+por ela recolhe a felicidade perfeita.
+
+Bem se afirmara este Jacinto, na verdade, como Prncipe da
+Gr-Ventura!
+
+
+
+
+III
+
+
+No 202, todas as manhs, s nove horas, depois do meu chocolate e ainda
+em chinelas, penetrava no quarto de Jacinto. Encontrava o meu amigo
+banhado, barbeado, friccionado, envolto num roupo branco de plo de
+cabra do Tibete, diante da sua mesa de toilette, toda de cristal, (por
+causa dos micrbios) e atulhada com esses utenslios de tartaruga,
+marfim, prata, ao e madreprola que o homem do sculo XIX necessita
+para no desfeiar o conjunto sumpturio da Civilizao e manter nela
+o seu Tipo. As escovas sobretudo renovavam, cada dia, o meu regalo e o
+meu espanto--porque as havia largas como a roda macia de um carro
+sabino; estreitas e mais recurvas que o alfange de um mouro; cncavas, em
+forma de telha alde; pontiagudas em feitio de folha de hera; rijas que
+nem cerdas de javali; macias que nem penugem de rola! De todas,
+fielmente, como amo que no desdenha nenhum servo, se utilizava o meu
+Jacinto. E assim, em face ao espelho emoldurado de folhedos de prata,
+permanecia este Prncipe passando plos sobre o seu plo durante
+catorze minutos.
+
+No entanto o Grilo e outro escudeiro, por trs dos biombos de Quioto, de
+sedas lavradas, manobravam, com percia e vigor, os aparelhos do
+lavatrio--que era apenas um resumo das Mquinas monumentais da Sala de
+Banho, a mais estremada maravilha do 202. Nestes mrmores simplificados
+existiam unicamente dois jactos graduados desde _zero_ at _cem_; as
+duas duchas, fina e grossa, para a cabea; a fonte esterilizada para os
+dentes; o repuxo borbulhante para a barba; e ainda botes discretos,
+que, roados, desencadeavam esguichos, cascatas cantantes, ou um leve
+orvalho estival. Desse recanto temeroso, onde delgados tubos mantinham
+em disciplina e servido tantas guas ferventes, tantas guas violentas,
+saa enfim o meu Jacinto enxugando as mos a uma toalha de felpo, a
+uma toalha de linho, a outra de corda entranada para restabelecer a
+circulao, a outra de seda frouxa para repolir a pele. Depois deste
+rito derradeiro que lhe arrancava ora um suspiro, ora um bocejo,
+Jacinto, estendido num div, folheava uma Agenda, onde se arrolavam,
+inscritas pelo Grilo ou por ele, as ocupaes do seu dia, to
+numerosas por vezes que cobriam duas laudas.
+
+Todas elas se prendiam sua sociabilidade, sua Civilizao muito
+complexa, ou a interesses que o meu Prncipe, nesses sete anos, criara
+para viver em mais consciente comunho com todas as funes da Cidade.
+(Jacinto com efeito era presidente do Clube da _Espada e Alvo_;
+comanditrio do Jornal o _Boulevard_; director da _Companhia dos
+Telefones de Constantinopla_; scio dos _Bazares unidos da Arte
+Espiritualista_; membro do _Comit de Iniciao das Religies
+Esotricas_, etc.) Nenhuma destas ocupaes parecia porm aprazvel ao
+meu amigo--porque, apesar da mansido e harmonia dos seus modos,
+frequentemente arremessava para o tapete, numa rebelio de homem
+livre, aquela Agenda que o escravizava. E numa dessas manhs (de
+vento e neve), apanhando eu o livro opressivo, encadernado em pelica,
+de um carinhoso tom de rosa murcha--descobri que o meu Jacinto devia
+depois do almoo fazer uma visita na rua da Universidade, outra no
+Parque Monceau, outra entre os arvoredos remotos da Muette; assistir por
+fidelidade a uma votao no Clube; acompanhar Madame d'Oriol a uma
+exposio de leques; escolher um presente de noivado para a sobrinha dos
+Trves; comparecer no funeral do velho conde de Malville; presidir um
+tribunal de honra numa questo de roubalheira, entre cavalheiros, ao
+ecart... E ainda se acavalavam outras indicaes, escrevinhadas por
+Jacinto a lpis:--Carroceiro--Five-oclock dos Efrains--A pequena das
+_Variedades_--Levar a nota ao jornal... Considerei o meu Prncipe.
+Estirado no div, de olhos miserrimamente cerrados, bocejava, num
+bocejo imenso e mudo.
+
+Mas os afazeres de Jacinto comeavam logo no 202, cedo, depois do
+banho. Desde as oito horas a campainha do telefone repicava por ele,
+com impacincia, quase com clera, como por um escravo tardio. E mal
+enxugado, dentro do seu roupo de plo de cabra do Tibete ou de grossas
+pijamas de pelcia cor de ouro velho, constantemente saa ao corredor a
+cochichar com sujeitos to apressados, que conservavam na mo o
+guarda-chuva pingando sobre o tapete. Um desses, sempre presente (e que
+pertencia decerto aos _Telefones de Constantinopla_), era
+temeroso--todo ele chupado, tisnado, com maus dentes, sobraando uma
+enorme pasta sebenta, e dardejando, de entre a alta gola de uma pelia
+puda, como da abertura de um covil, dois olhinhos torvos e de rapina.
+Sem cessar, inexoravelmente, um escudeiro aparecia, com bilhetes numa
+salva... Depois eram fornecedores de Indstria e de Arte; negociantes de
+cavalos, rubicundos e de palet branco; inventores com grossos rolos
+de papel; alfarrabistas trazendo na algibeira uma edio nica, quase
+inverosmil, de Ulrich Zell ou do _Lapidanus_. Jacinto circulava
+estonteado pelo 202, rabiscando a carteira, repicando o telefone,
+desatando nervosamente pacotes, sacudindo ao passar algum emboscado que
+surdia das sombras da antecmara, estendia como um trabuco o seu
+memorial ou o seu catlogo!
+
+Ao meio-dia, um tant argentino e melanclico ressoava, chamando ao
+almoo. Com o _Figaro_ ou as _Novidades_ abertas sobre o prato, eu
+esperava sempre meia hora pelo meu Prncipe, que entrava numa rajada,
+consultando o relgio, exalando com a face moda o seu queixume eterno:
+
+--Que maada! E depois uma noite abominvel, enrodilhada em sonhos...
+Tomei sulforal, chamei o Grilo para me esfregar com terebintina... Uma
+seca!
+
+Espalhava pela mesa um olhar j farto. Nenhum prato, por mais engenhoso,
+o seduzia;--e, como atravs do seu tumulto matinal fumava incontveis
+cigarretes que o ressequiam, comeava por se encharcar com um imenso
+copo de gua oxigenada, ou carbonatada, ou gasosa, misturada de um cognac
+raro, muito caro, horrendamente adocicado, de moscatel de Siracusa.
+Depois, pressa, sem gosto, com a ponta incerta do garfo, picava aqui e
+alm uma lasca de fiambre, uma febra de lagosta;--e reclamava
+impacientemente o caf, um caf de Moca, mandado cada ms por um feitor
+do Dedjah, fervido turca, muito espesso, que ele remexia com um pau
+de canela!
+
+--E tu, Z Fernandes, que vais tu fazer?
+
+--Eu?
+
+Recostado na cadeira, com delcias, os dedos metidos nas cavas do
+colete:
+
+--Vou vadiar, regaladamente, como um co natural!
+
+O meu solcito amigo, remexendo o caf com o pau de canela, rebuscava
+atravs da numerosa Civilizao da Cidade uma ocupao que me
+encantasse. Mas apenas sugeria uma Exposio, ou uma Conferncia, ou
+monumentos, ou passeios, logo encolhia os ombros desconsolados:
+
+--Por fim nem vale a pena, uma seca!
+
+Acendia outra das cigarretes russas, onde rebrilhava o seu nome,
+impresso a ouro na mortalha. Torcendo, numa pressa nervosa, os fios do
+bigode, ainda escutava, porta da Biblioteca, o seu procurador, o
+ndio e majestoso Laporte. E enfim, seguido de um criado, que sobraava
+um mao tremendo de jornais para lhe abastecer o coup, o Prncipe da
+Gr-Ventura mergulhava na Cidade.
+
+ * * * * *
+
+Quando o dia social de Jacinto se apresentava mais desafogado, e o cu
+de Maro nos concedia caridosamente um pouco de azul aguado, saamos
+depois de almoo, a p, atravs de Paris. Estes lentos e errantes
+passeios eram outrora, na nossa idade de Estudantes, um gozo muito
+querido de Jacinto--porque neles mais intensamente e mais
+minuciosamente saboreava a Cidade. Agora porm, apesar da minha
+companhia, s lhe davam uma impacincia e uma fadiga que desoladoramente
+destoava do antigo, iluminado xtase. Com espanto (mesmo com dor,
+porque sou bom, e sempre me entristece o desmoronar de uma crena)
+descobri eu, na primeira tarde em que descemos aos Boulevards, que o
+denso formigueiro humano sobre o asfalto, e a torrente sombria dos
+trens sobre o macadame, afligiam o meu amigo pela brutalidade da sua
+pressa, do seu egosmo, e do seu estridor. Encostado e como refugiado no
+meu brao, este Jacinto novo comeou a lamentar que as ruas, na nossa
+Civilizao, no fossem caladas de guta-percha! E a guta-percha
+claramente representava, para o meu amigo, a substncia discreta que
+amortece o choque e a rudeza das coisas. Oh maravilha! Jacinto querendo
+borracha, a borracha isoladora, entre a sua sensibilidade e as funes
+da Cidade! Depois, nem me permitiu pasmar diante daquelas dourejadas
+e espelhadas lojas que ele outrora considerava como os preciosos
+museus do sculo XIX...
+
+--No vale a pena, Z Fernandes. H uma imensa pobreza e secura
+de inveno! Sempre os mesmos flores Lus XV, sempre as mesmas
+pelcias... No vale a pena!
+
+Eu arregalava os olhos para este transformado Jacinto. E sobretudo me
+impressionava o seu horror pela Multido--por certos efeitos da
+Multido, s para ele sensveis, e a que chamava os sulcos.
+
+--Tu no os sentes, Z Fernandes. Vens das serras... Pois constituem o
+rijo inconveniente das Cidades, estes sulcos! um perfume muito agudo e
+petulante que uma mulher larga ao passar, e se instala no olfacto, e
+estraga para todo o dia o ar respirvel. um dito que se surpreende
+num grupo, que revela um mundo de velhacaria, ou de pedantismo, ou de
+estupidez, e que nos fica colado alma, como um salpico, lembrando a
+imensidade da lama a atravessar. Ou ento, meu filho, uma figura
+intolervel pela pretenso, ou pelo mau gosto, ou pela impertinncia, ou
+pela relice, ou pela dureza, e de que se no pode sacudir mais a viso
+repulsiva... Um pavor, estes sulcos, Z Fernandes! De resto, que diabo,
+so as pequeninas misrias de uma Civilizao deliciosa!
+
+Tudo isto era especioso, talvez pueril--mas para mim revelava, naquele
+chamejante devoto da Cidade, o arrefecimento da devoo. Nessa mesma
+tarde, se bem recordo, sob uma luz macia e fina, penetrmos nos centros
+de Paris, nas ruas longas, nas milhas de casario, todo de calia parda,
+eriado de chamins de lata negra, com as janelas sempre fechadas, as
+cortininhas sempre corridas, abafando, escondendo a vida. S tijolo, s
+ferro, s argamassa, s estuque: linhas hirtas, ngulos speros: tudo
+seco, tudo rgido. E dos chos aos telhados, por toda a fachada,
+tapando as varandas, comendo os muros, Tabuletas, Tabuletas...
+
+--Oh, este Paris, Jacinto, este teu Paris! Que enorme, que grosseiro
+bazar!
+
+E, mais para sondar o meu Prncipe do que por persuaso, insisti na
+fealdade e tristeza destes prdios, duros armazns, cujos andares so
+prateleiras onde se apilha humanidade! E uma humanidade impiedosamente
+catalogada e arrumada! A mais vistosa e de luxo nas prateleiras baixas,
+bem envernizadas. A reles e de trabalho nos altos, nos desvos, sobre
+pranchas de pinho nu, entre o p e a traa...
+
+Jacinto murmurou, com a face arrepiada:
+
+-- feio, muito feio!
+
+E acudiu logo, sacudindo no ar a luva de anta:
+
+--Mas que maravilhoso organismo, Z Fernandes! Que solidez! Que
+produo!
+
+Onde Jacinto me parecia mais renegado era na sua antiga e quase
+religiosa afeio pelo Bosque de Bolonha. Quando moo, ele construra
+sobre o Bosque teorias complicadas e considerveis. E sustentava, com
+olhos rutilantes de fantico, que no Bosque a Cidade cada tarde ia
+retemperar salutarmente a sua fora, recebendo, pela presena das suas
+Duquesas, das suas Cortess, dos seus Polticos, dos seus Financeiros,
+dos seus Generais, dos seus Acadmicos, dos seus Artistas, dos seus
+Clubistas, dos seus Judeus, a certeza consoladora de que todo o seu
+pessoal se mantinha em nmero, em vitalidade, em funo, e que nenhum
+elemento da sua grandeza desaparecera ou deperecera! Ir ao Bois
+constitua ento para o meu Prncipe um acto de conscincia. E voltava
+sempre confirmando com orgulho que a Cidade possua todos os seus
+astros, garantindo a eternidade da sua luz!
+
+Agora, porm, era sem fervor, arrastadamente, que ele me levava ao
+Bosque, onde eu, aproveitando a clemncia de Abril, tentava enganar a
+minha saudade de arvoredos. Enquanto subamos, ao trote nobre das suas
+guas lustrosas, a Avenida dos Campos Elsios e a do Bosque,
+rejuvenescidas pelas relvas tenras e fresco verdejar dos rebentos,
+Jacinto, soprando o fumo da cigarrete pelas vidraas abertas do coup,
+permanecia o bom camarada, de veia amvel, com quem era doce filosofar
+atravs de Paris. Mas logo que passvamos as grades douradas do Bosque,
+e penetrvamos na Avenida das Accias, e enfivamos na lenta fila dos
+trens de luxo e de praa, sob o silncio decoroso, apenas cortado pelo
+tilintar dos freios e pelas rodas vagarosas esmagando a areia,--o meu
+Prncipe emudecia, molemente engelhado no fundo das almofadas, de onde
+s despegava a face para escancarar bocejos de fartura. Pelo antigo
+hbito de verificar a presena confortadora do pessoal, dos astros,
+ainda, por vezes, apontava para algum coup ou vitria rodando com
+rodar rangente noutra arrastada fila--e murmurava um nome. E assim fui
+conhecendo a encaracolada barba hebraica do banqueiro Efraim; e o longo
+nariz patrcio de Madame de Trves abrigando um sorriso perene; e as
+bochechas flcidas do poeta neoplatnico Dornan, sempre espapado no
+fundo de fiacres; e os longos bands pr-rafaelitas e negros de Madame
+Verghane; e o monculo defumado do director do _Boulevard_; e o
+bigodinho vencedor do Duque de Marizac, reinando de cima do seu faton
+de guerra; e ainda outros sorrisos imveis, e barbichas Renascena, e
+plpebras amortecidas, e olhos farejantes, e peles empoadas de arroz,
+que eram todas ilustres e da intimidade do meu Prncipe. Mas, do topo
+da Avenida das Accias, recomevamos a descer, em passo sopeado,
+esmagando lentamente a areia; na fila vagarosa que subia, calhambeque
+atrs de landau, vitria atrs de fiacre, fatalmente revamos o
+binculo sombrio do homem do _Boulevard_, e os bands furiosamente
+negros de Madame Verghane, e o ventre espapado do neoplatnico, e a
+barba talmdica, e todas aquelas figuras, de uma imobilidade de cera,
+super-conhecidas do meu camarada, recruzadas cada tarde atravs de
+revividos anos, sempre com os mesmos sorrisos, sob o mesmo p de arroz,
+na mesma imobilidade de cera; ento Jacinto no se continha, gritava
+ao cocheiro:
+
+--Para casa, depressa!
+
+E era pela Avenida do Bosque, pelos Campos Elsios, uma fuga ardente das
+guas a quem a lentido sopeada, num roer de freios, entre outras guas
+tambm delas superconhecidas, lanavam numa exasperao comparvel
+de Jacinto.
+
+Para o sondar eu denegria o Bosque:
+
+--J no to divertido, perdeu o brilho!...
+
+Ele acudia, timidamente:
+
+--No, agradvel, no h nada mais agradvel; mas...
+
+E acusava a friagem das tardes ou o despotismo dos seus afazeres.
+Recolhamos ento ao 202, onde, com efeito, em breve embrulhado no seu
+roupo branco, diante da mesa de cristal, entre a legio das escovas,
+com toda a electricidade refulgindo, o meu Prncipe se comeava a
+adornar para o servio social da noite.
+
+E foi justamente numa dessas noites (um sbado) que ns passmos,
+naquele quarto to civilizado e protegido, por um desses brutos e
+revoltos terrores como s os produz a ferocidade dos Elementos. J
+tarde, pressa (jantvamos com Marizac no Clube para o acompanhar depois
+ao _Lohengrin_ na pera) Jacinto arrocheava o n da gravata
+branca--quando no lavatrio, ou porque se rompesse o tubo, ou se
+dessoldasse a torneira, o jacto de gua a ferver rebentou furiosamente,
+fumegando e silvando. Uma nvoa densa de vapor quente abafou as
+luzes--e, perdidos nela, sentamos, por entre os gritos do escudeiro e
+do Grilo, o jorro devastador batendo os muros, esparrinhando uma chuva
+que escaldava. Sob os ps o tapete ensopado era uma lama ardente. E como
+se todas as foras da natureza, submetidas ao servio de Jacinto, se
+agitassem, animadas por aquela rebelio da gua--ouvimos roncos surdos
+no interior das paredes, e pelos fios dos lumes elctricos sulcaram
+fascas ameaadoras! Eu fugira para o corredor, onde se alargava a nvoa
+grossa. Por todo o 202 ia um tumulto de desastre. Diante do porto,
+atradas pela fumarada que se escapava das janelas, estacionava
+polcia, uma multido. E na escada esbarrei com um reprter, de chapu
+para a nuca, a carteira aberta, gritando sofregamente se havia mortos?
+
+Domada a gua, clareada a bruma, vim encontrar Jacinto no meio do
+quarto, em ceroulas, lvido:
+
+--Oh Z Fernandes, esta nossa indstria!... Que impotncia, que
+impotncia! Pela segunda vez, este desastre! E agora, aparelhos
+perfeitos, um processo novo...
+
+--E eu encharcado por esse processo novo! E sem outra casaca!
+
+Em redor, as nobres sedas bordadas, os brocatis Lus XIII, cobertos de
+manchas negras, fumegavam. O meu Prncipe, enfiado, enxugava uma
+fotografia de Madame d'Oriol, de ombros decotados, que o jorro bruto
+maculara de empolas. E eu, com rancor, pensava que na minha Guies a gua
+aquecia em seguras panelas--e subia ao meu lavatrio, pela mo forte da
+Catarina, em seguras infusas! No jantmos com o duque de Marizac, no
+Clube. E, na pera, nem saboreei Lohengrin e a sua branca alma e o seu
+branco cisne e as suas brancas armas--entalado, aperreado, cortado nos
+sovacos pela casaca que Jacinto me emprestara e que rescendia
+estonteadoramente a flores de Nessari.
+
+ * * * * *
+
+No domingo, muito cedo, o Grilo, que na vspera escaldara as mos e as
+trazia embrulhadas em seda, penetrou no meu quarto, descerrou as
+cortinas, e beira do leito, com o seu radiante sorriso de preto:
+
+--Vem no _Figaro_!
+
+Desdobrou triunfalmente o jornal. Eram, nos _Ecos, doze linhas, onde
+as nossas guas rugiam e espadavam, com tanta magnificncia e tanta
+publicidade, que tambm sorri, deleitado.
+
+--E toda a manh, o telefone, si Fernandes! exclamava o Grilo,
+rebrilhando em bano. A quererem saber, a quererem saber... Est l?
+Est escaldado? Paris aflito, si Fernandes!
+
+O telefone, com efeito, repicava, insacivel. E quando desci para o
+almoo, a toalha desaparecia sob uma camada de telegramas, que o meu
+Prncipe fendia com a faca, enrugado, rosnando contra a maada. S
+desanuviou, ao ler um desses papis azuis, que atirou para cima do meu
+prato, com o mesmo sorriso agradado com que de manh sorrramos, o
+Grilo e eu:
+
+-- do Gro-Duque Casimiro... Rato amvel! Coitado!
+
+Saboreei, atravs dos ovos, o telegrama de S. Alteza. O qu! o meu
+Jacinto inundado! Muito chic, nos Campos Elsios! No volto ao 202 sem
+bia de salvao! Compassivo abrao! Casimiro... Murmurei tambm com
+deferncia:--Amvel! Coitado! Depois, revolvendo lentamente o monto
+de telegramas que se alastrava at ao meu copo:
+
+--Oh Jacinto! Quem esta Diana que incessantemente te escreve, te
+telefona, te telegrafa, te...?
+
+--Diana?... Diana de Lorge. uma cocotte. uma grande cocotte!
+
+--Tua?
+
+--Minha, minha... No! tenho um bocado.
+
+E como eu lamentava que o meu Prncipe, senhor to rico e de to fino
+orgulho, por economia de uma gamela prpria chafurdasse com outros numa
+gamela pblica--Jacinto levantou os ombros, com um camaro espetado
+no garfo:
+
+--Tu vens das serras... Uma cidade como Paris, Z Fernandes, precisa ter
+cortess de grande pompa e grande fausto. Ora para montar em Paris,
+nesta tremenda carestia de Paris, uma cocotte com os seus vestidos, os
+seus diamantes, os seus cavalos, os seus lacaios, os seus camarotes, as
+suas festas, o seu palacete, a sua publicidade, a sua insolncia,
+necessrio que se agremiem umas poucas de fortunas, se forme um
+sindicato! Somos uns sete, no Clube. Eu pago um bocado... Mas meramente
+por Civismo, para dotar a cidade com uma cocotte monumental. De resto
+no chafurdo. Pobre Diana!... Dos ombros para baixo nem sei se tem a
+pele cor de neve ou cor de limo.
+
+Arregalei um olho divertido:
+
+--Dos ombros para baixo?... E para cima?
+
+--Oh para cima tem p de arroz!... Mas uma seca! Sempre bilhetes,
+sempre telefones, sempre telegramas. E trs mil francos por ms, alm
+das flores... Uma maada!
+
+E as duas rugas do meu Prncipe, aos lados do seu afilado nariz, curvado
+sobre a salada, eram como dois vales muito tristes, ao entardecer.
+
+Acabvamos o almoo, quando um escudeiro, muito discretamente, num
+murmrio, anunciou Madame d'Oriol. Jacinto pousou com tranquilidade o
+charuto; eu quase me engasguei, num sorvo alvoroado de caf. Entre os
+reposteiros de damasco cor de morango ela apareceu, toda de negro,
+de um negro liso e austero de Semana Santa, lanando com o regalo um
+lindo gesto para nos sossegar. E imediatamente, numa volubilidade
+docemente chalrada:
+
+-- um momento, nem se levantem! Passei, ia para a Madalena, no me
+contive, quis ver os estragos... Uma inundao em Paris, nos
+Campos Elsios! No h seno este Jacinto. E vem no _Figaro!_ O que eu
+estava assustada, quando telefonei! Imaginem! gua a ferver, como no
+Vesvio... Mas de uma novidade! E os estofos perdidos, naturalmente, os
+tapetes... Estou morrendo por admirar as runas!
+
+Jacinto, que no me pareceu comovido, nem agradecido com aquele
+interesse, retomara risonhamente o charuto:
+
+--Est tudo seco, minha querida senhora, tudo seco! A beleza foi
+ontem, quando a gua fumegava e rugia! Ora que pena no ter ao menos
+cado uma parede!
+
+Mas ela insistia. Nem todos os dias se gozavam em Paris os destroos
+de uma inundao. O _Figaro_ contara... E era uma aventura deliciosa, uma
+casa escaldada nos Campos Elsios!
+
+Toda a sua pessoa, desde as plumazinhas que frisavam no chapu at
+ponta reluzente das botinas de verniz, se agitava, vibrava, como um ramo
+tenro sob o bolio do pssaro a chalrar. S o sorriso, por trs do vu
+espesso, conservava um brilho imvel. E j no ar se espalhara um aroma,
+uma doura, emanadas de toda a sua mobilidade e de toda a sua graa.
+
+Jacinto no entanto cedera, alegremente: e pelo corredor Madame d'Oriol
+ainda louvava o _Figaro_ amvel, e confessava quanto tremera... Eu
+voltei ao meu caf, felicitando mentalmente o Prncipe da Gr-Ventura
+por aquela perfeita flor de Civilizao que lhe perfumava a vida.
+Pensei ento na apurada harmonia em que se movia essa flor. E corri
+vivamente antecmara, verificar diante do espelho o meu penteado e o
+n da minha gravata. Depois recolhi sala de jantar, e junto da
+janela, folheando languidamente a _Revista do Sculo XIX_, tomei uma
+atitude de elegncia e de alta cultura. Quase imediatamente eles
+reapareceram: e Madame d'Oriol, que, sempre sorrindo, se proclamava
+espoliada, nada encontrara que recordasse as guas furiosas, roou pela
+mesa, onde Jacinto procurava, para lhe oferecer, tangerinas de Malta,
+ou castanhas geladas, ou um biscoito molhado em vinho de Tokai.
+
+Ela recusava com as mos guardadas no regalo. No era alta, nem
+forte--mas cada prega do vestido, ou curva da capa, caa e ondulava
+harmoniosamente, como perfeies recobrindo perfeies. Sob o vu
+cerrado, apenas percebi a brancura da face empoada, e a escurido dos
+olhos largos. E com aquelas sedas e veludos negros, e um pouco do
+cabelo louro, de um louro quente, torcido fortemente sobre as peles
+negras que lhe orlavam o pescoo, toda ela derramava uma sensao de
+macio e de fino. Eu teimosamente a considerava como uma flor de
+Civilizao:--e pensava no secular trabalho e na cultura superior que
+necessitara o terreno onde ela to delicadamente brotara, j
+desabrochada, em pleno perfume, mais graciosa por ser flor de esforo e
+de estufa, e trazendo nas suas ptalas um no sei qu de desbotado e de
+antemurcho.
+
+No entanto, com a sua volubilidade de pssaro, chalrando para mim,
+chalrando para Jacinto, ela mostrava o seu lindo espanto por aquele
+monto de telegramas sobre a toalha.
+
+--Tudo esta manh, por causa da inundao?... Ah, Jacinto hoje o
+homem, o nico homem de Paris! Muitas mulheres nesses telegramas?
+
+Languidamente, com o charuto a fumegar, o meu Prncipe empurrou para a
+sua amiga o telegrama do Gro-Duque. Ento Madame d'Oriol teve um _ah!_
+muito grave e muito sentido. Releu profundamente o papel de S. A. que os
+seus dedos acariciavam com uma reverncia gulosa. E sempre grave, sempre
+sria:
+
+-- brilhante!
+
+Oh, certamente! naquele desastre tudo se passara com muito brilho,
+num tom muito Parisiense. E a deliciosa criatura no se podia demorar,
+porque fizera marcar um lugar na igreja da Madalena para o sermo!
+
+Jacinto exclamou com inocncia:
+
+--Sermo?... j a estao dos sermes?
+
+Madame d'Oriol teve um movimento de carinhoso escndalo e dor. O qu!
+pois nem na austera casa dos Trves dera pela entrada da Quaresma? De
+resto no se admirava--Jacinto era um turco! E, imediatamente celebrou
+o pregador, um frade dominicano, o Pre Granon! Oh de uma eloquncia!
+de uma violncia! No derradeiro sermo pregara sobre o amor, a
+fragilidade dos amores mundanos! E tivera coisas de uma inspirao, de uma brutalidade! Depois que gesto, um gesto terrvel que esmagava, em que se lhe arregaava toda a manga, mostrando o brao nu, um brao soberbo,
+muito branco, muito forte!
+
+O seu sorriso permanecia claro sob o olhar que negrejara dentro do vu
+negro. E Jacinto, rindo:
+
+--Um bom brao de director espiritual, hein? Para vergar, espancar
+almas...
+
+Ela acudiu:
+
+--No! infelizmente o Pre Granon no confessa!
+
+E de repente reconsiderou--aceitava um biscoito, um clice de Tokai. Era
+necessrio um cordial para afrontar as emoes do Pre Granon! Ambos
+nos precipitramos, um arrebatando a garrafa, outro oferecendo o prato
+de bombons. Franziu o vu para os olhos, chupou pressa um bolo que
+ensopara no Tokai. E como Jacinto, reparando casualmente no chapu que
+ela trazia, se curvara com curiosidade, impressionado, Madame d'Oriol
+apagou o sorriso, toda sria, ante uma coisa sria:
+
+--Elegante, no verdade?... uma criao inteiramente nova de Madame
+Vial. Muito respeitoso, e muito sugestivo, agora na Quaresma.
+
+O seu olhar, que me envolvera, tambm me convidava a admirar. Aproximei
+o meu focinho de homem das serras para contemplar essa criao suprema
+do luxo de Quaresma. E era maravilhoso! Sobre o veludo, na sombra das
+plumas frisadas, aninhada entre rendas, fixada por um prego, pousava
+delicadamente, feita de azeviche, uma Coroa de Espinhos!
+
+Ambos nos extasimos. E Madame d'Oriol, num movimento e num sorriso
+que derramou mais aroma e mais claridade, abalou para a Madalena.
+
+O meu Prncipe arrastou pelo tapete alguns passos pensativos e moles. E
+bruscamente, levantando os ombros com uma determinao imensa, como se
+deslocasse um mundo:
+
+--Oh Z Fernandes, vamos passar este Domingo nalguma coisa simples e
+natural...
+
+--Em qu?
+
+Jacinto circungirou os olhares muito abertos, como se, atravs da Vida
+Universal, procurasse ansiosamente uma coisa natural e simples. Depois,
+descansando sobre mim os mesmos largos olhos que voltavam de muito
+longe, cansados e com pouca esperana:
+
+--Vamos ao Jardim das Plantas, ver a girafa!
+
+
+
+
+IV
+
+
+Nessa fecunda semana, uma noite, recolhamos ambos da pera, quando
+Jacinto, bocejando, me anunciou uma festa no 202.
+
+--Uma festa?...
+
+--Por causa do Gro-Duque, coitado, que me vai mandar um peixe delicioso
+e muito raro que se pesca na Dalmcia. Eu queria um almoo curto. O
+Gro-Duque reclamou uma ceia. um brbaro, besuntado com literatura do
+sculo XVIII, que ainda acredita em ceias, em Paris! Reno no domingo
+trs ou quatro mulheres, e uns dez homens bem tpicos, para o divertir.
+Tambm aproveitas. Folheias Paris num resumo... Mas uma maada
+amarga!
+
+Sem interesse pela sua festa, Jacinto no se afadigou em a compor com
+relevo ou brilho. Encomendou apenas uma orquestra de Tziganes (os
+Tziganes, as suas jalecas escarlates; a melancolia spera das Czardas
+ainda nesses tempos remotos emocionavam Paris): e mandou, na
+Biblioteca, ligar o Teatrofone com a pera, com a Comdia Francesa,
+com o Alcazar e com os Bufos, prevendo todos os gostos desde o trgico
+at ao pcaro. Depois no domingo, ao entardecer, ambos visitmos a mesa
+da ceia, que resplandecia com as velhas baixelas de D. Galeo. E a
+faustosa profuso de orqudeas, em longas silvas por sobre a toalha
+bordada a seda, enroladas aos fruteiros de Saxe, transbordando de
+cristais lavrados e filagranados de ouro, espalhava uma to fina sensao
+de luxo e gosto, que eu murmurei:--Caramba, bendito, seja o dinheiro!
+Pela primeira vez, tambm, admirei a copa e a sua instalao abundante
+e minuciosa--sobretudo os dois ascensores que rolavam das profundidades
+da cozinha, um para os peixes e carnes aquecido por tubos de gua
+fervente, o outro para as saladas e gelados revestido de placas
+frigorficas. Oh, este 202!
+
+s nove horas, porm, descendo eu ao gabinete de Jacinto para escrever
+a minha boa tia Vicncia, enquanto ele ficara no toucador com o
+manicuro que lhe polia as unhas, passmos nesse delicioso palcio,
+florido e em gala, por bem corriqueiro susto! Todos os lumes elctricos,
+subitamente, em todo o 202, se apagaram! Na minha imensa desconfiana
+daquelas foras universais, pulei logo para a porta, tropeando nas
+trevas, ganindo um _Aqui d'El-Rei!_ que tresandava a Guies. Jacinto em
+cima berrava, com o manicuro agarrado ao pijama. E de novo, como serva
+ralaa que recolhe arrastando as chinelas, a luz ressurgiu com
+lentido. Mas o meu Prncipe, que descera, enfiado, mandou buscar um
+engenheiro Companhia Central da Electricidade Domstica. Por precauo
+outro criado correu mercearia comprar pacotes de velas. E o Grilo
+desenterrava j dos armrios os candelabros abandonados, os pesados
+castiais arcaicos dos tempos incientficos de D. Galeo: era uma
+reserva de veteranos fortes, para o caso pavoroso em que mais tarde,
+ceia, falhassem perfidamente as foras bisonhas da Civilizao. O
+Electricista, que acudira esbaforido, afianou porm que a Electricidade
+se conservaria fiel, sem outro amuo. Eu, cautelosamente, soneguei na
+algibeira dois cotos de estearina.
+
+A Electricidade permaneceu fiel, sem amuos. E quando desci do meu
+quarto, tarde (porque perdera o colete de baile e s depois de uma busca
+furiosa e praguejada o encontrei cado por trs da cama!), todo o 202
+refulgia, e os Tziganes, na antecmara, sacudindo as guedelhas, atiravam
+as arcadas de uma valsa to arrastadora que, pelas paredes, os imensos
+Personagens das tapearias, Pramo, Nestor, o engenhoso Ulisses,
+arfavam, buliam com os ps venerandos!
+
+Timidamente, sem rumor, puxando os punhos, penetrei no gabinete de
+Jacinto. E fui logo acolhido pelo sorriso da condessa de Trves, que,
+acompanhada pelo ilustre historiador Danjon (da Academia Francesa),
+percorria maravilhada os Aparelhos, os Instrumentos, toda a sumptuosa
+Mecnica do meu supercivilizado Prncipe. Nunca ela me parecera mais
+majestosa do que naquelas sedas cor de aafro, com rendas cruzadas no
+peito Maria Antonieta, o cabelo crespo e ruivo levantado em rolo
+sobre a testa dominadora, e o curvo nariz patrcio, abrigando o sorriso
+sempre luzidio, sempre corrente, como um arco abriga o correr e o luzir
+de um regato. Direita como num slio, a longa luneta de tartaruga
+acercada dos olhos midos e turvamente azulados, ela escutava diante do
+Grafofono, depois diante do Microfono, como melodias superiores, os
+comentrios que o meu Jacinto ia atabalhoando com uma amabilidade
+penosa. E ante cada roda, cada mola, eram pasmos, louvores finamente
+torneados, em que atribua a Jacinto, com astuta candura, todas
+aquelas invenes do Saber! Os utenslios misteriosos que atulhavam a
+mesa de bano foram para ela uma iniciao que a enlevou. Oh, o
+numerador de pginas! oh, o colador de estampilhas! A carcia
+demorada dos seus dedos secos aquecia os metais. E suplicava os
+endereos dos fabricantes para se prover de todas aquelas utilidades
+adorveis! Como a vida, assim apetrechada, se tornava escorregadia e
+fcil! Mas era necessrio o talento, o gosto de Jacinto, para escolher,
+para criar! E no s ao meu amigo (que o recebia com resignao) ela
+ofertava o fino mel. Afagando com o cabo da luneta o Telgrafo, achou
+a possibilidade de recordar a eloquncia do Historiador. Mesmo para mim
+(de quem ignorava o nome) arranjou junto do Fongrafo, e acerca de
+vozes de amigos que doce coleccionar, uma lisonjazinha redondinha e
+lustrosa, que eu chupei como um rebuado celeste. Boa casaleira que vai
+atirando o gro aos frangos famintos, a cada passo, maternalmente, ela
+nutria uma vaidade. Sfrego de outro rebuado, acompanhei a sua cauda
+sussurrante e cor de aafro. Ela parara diante da Mquina de contar, de
+que Jacinto j lhe fornecera pacientemente uma explicao sapiente. E
+de novo roou os buracos de onde espreitam os nmeros negros, e com o seu
+enlevado sorriso murmurou:--Prodigiosa, esta prensa elctrica!...
+
+Jacinto acudiu:
+
+--No! No! Esta ...
+
+Mas ela sorria, seguia... Madame de Trves no compreendera nenhum
+aparelho do meu Prncipe! Madame de Trves no atendera a nenhuma
+dissertao do meu Prncipe! Naquele gabinete de sumptuosa Mecnica
+ela somente se ocupara em exercer, com proveito e com perfeio, a
+Arte de Agradar. Toda ela era uma sublime falsidade. No escondi a
+Danjon a admirao que me penetrava.
+
+O facundo Acadmico revirou os olhos bogalhudos:
+
+--Oh! e um gosto, uma inteligncia, uma seduo!... E depois como se
+janta bem em casa dela! Que caf!... Mulher superior, meu caro senhor,
+verdadeiramente superior!
+
+Deslizei para a biblioteca. Logo entrada da erudita nave, junto da
+estante dos Padres da Igreja onde alguns cavalheiros conversavam, parei
+a saudar o director do _Boulevard_ e o Psiclogo feminista, o autor do
+_Corao Triplo_, com quem na vspera me familiarizara ao almoo, no
+202. O seu acolhimento foi paternal: e, como se necessitasse a minha
+presena, reteve na sua mo ilustre, rutilante de anis, com fora e
+com gula, a minha grossa palma serrana. Todos aqueles senhores, com
+efeito, celebravam o seu Romance, a _Couraa_, lanado nessa semana
+entre gritinhos de gozo e um quente rumor de saias alvoroadas. Um
+sobretudo, com uma vasta cabea arranjada Van Dick e que parecia
+postia, proclamava, alado na ponta das botas, que nunca penetrara to
+fundamente, na velha alma humana, a ponta da Psicologia Experimental!
+Todos concordavam, se apertavam contra o Psiclogo, o tratavam por
+mestre. Eu mesmo, que nem sequer entrevira a capa amarela da
+_Couraa_, mas para quem ele voltava os olhos pedinches e famintos de
+mais mel, murmurei com um leve assobio:--uma delcia!
+
+E o Psiclogo, reluzindo, com o lbio hmido, entalado num alto
+colarinho onde se enroscava uma gravata 1830, confessava modestamente
+que dissecara todas aquelas almas da _Couraa_ com algum cuidado,
+sobre documentos, sobre pedaos de vida ainda quentes, ainda a
+sangrar... E foi ento que Marizac, o duque de Marizac, notou, com um
+sorriso mais afiado que um lampejo de navalha, e sem tirar as mos dos
+bolsos:
+
+--No entanto, meu caro, nesse livro to profundamente estudado h um
+erro bem estranho, bem curioso!...
+
+O Psiclogo, vivamente, atirara a cabea para trs:
+
+--Um erro?
+
+Oh, sim, um erro! E bem inesperado num mestre to experiente!... Era
+atribuir esplndida amorosa da _Couraa_, uma duquesa, e do gosto
+mais puro,--_um colete de cetim preto_! Esse colete, assim preto, de
+cetim, aparecia na bela pgina de anlise e paixo em que ela se
+despia no quarto de Rui d'Alize. E Marizac, sempre com as mos nos
+bolsos, mais grave, apelava para aqueles senhores. Pois era
+verosmil, numa mulher como a duquesa, esttica, pr-rafaeltica, que
+se vestia no Doucet, no Paquin, nos costureiros intelectuais, um
+colete de cetim preto?
+
+O Psiclogo emudecera, colhido, trespassado! Marizac era uma to
+suprema autoridade sobre a roupa ntima das duquesas, que tarde, em
+quartos de rapazes, por impulsos idealistas e anseios de alma
+dolorida--se pem em colete e saia branca!... De resto o director do
+_Boulevard_ condenara logo sem piedade, com uma experincia firme,
+aquele colete, s possvel nalguma merceeira atrasada que ainda
+procurasse efeitos de carne ndia sobre cetim negro. E eu, para que me
+no julgassem alheio s coisas dos adultrios ducais e do luxo, acudi,
+metendo os dedos pelo cabelo:
+
+--Realmente, preto, s se estivesse de luto pesado, pelo pai!
+
+O pobre mestre da _Couraa_ sucumbira. Era a sua glria de Doutor em
+Elegncias Femininas desmantelada--e Paris supondo que ele nunca vira
+uma duquesa desatacar o colete na sua alcova de Psiclogo! Ento,
+passando o leno sobre os lbios que a angstia ressequira, confessou o
+erro, e contritamente o atribuiu a uma improvisao tumultuosa:
+
+--Foi um tom falso, um tom perfeitamente falso que me escapou!... Com
+efeito! absurdo, um colete preto!... Mesmo por harmonia com o estado
+da alma da duquesa devia ser lils, talvez cor de reseda muito
+desmaiada, com um frouxo de rendas antigas de Malines... prodigioso
+como me escapou! Pois tenho o meu caderno de entrevistas bem anotadas,
+bem documentadas!...
+
+Na sua amargura, terminou por suplicar a Marizac que espalhasse por
+toda a parte, no Clube, nas salas, a sua confisso. Fora um engano de
+artista, que trabalha na febre, vasculhando as almas, perdido nas
+profundidades negras das almas! No reparara no colete, confundira os
+tons... E gritou, com os braos estendidos para o director do
+_Boulevard_:
+
+--Estou pronto a fazer uma rectificao, numa _interview_, meu caro
+mestre! Mande um dos seus redactores... Amanh, s dez horas! Fazemos
+uma _interview_, fixamos a cor. Evidentemente lils... Mande um dos
+seus homens, meu caro mestre! tambm uma ocasio para eu confessar,
+bem alto, os servios que o _Boulevard_ tem feito s cincias
+psicolgicas e feministas!
+
+Assim ele suplicava, encostado estante, s lombadas dos Santos
+Padres. E eu abalei, vendo ao fundo da Biblioteca Jacinto que se
+debatia e se recusava entre dois homens.
+
+Eram os dois homens de Madame de Trves--o marido, conde de Trves,
+descendente dos reis de Cndia, e o amante, o terrvel banqueiro judeu,
+David Efraim. E to enfronhadamente assaltavam o meu Prncipe que nem
+me reconheceram, ambos num aperto de mo mole e vago me trataram por
+caro conde! Num relance, rebuscando charutos sobre a mesa de
+limoeiro, compreendi que se tramava a _Companhia das Esmeraldas da
+Birmnia_, medonha empresa em que cintilavam milhes, e para que os
+dois confederados de bolsa e de alcova, desde o comeo do ano, pediam o
+nome, a influncia, o dinheiro de Jacinto. Ele resistira, num enfado
+dos negcios, desconfiado daquelas esmeraldas soterradas num vale da
+sia. E agora o conde de Trves, um homem esgrouviado, de face
+rechupada, eriada de barba rala, sob uma fronte rotunda e amarela
+como um melo, assegurava ao meu pobre Prncipe que no Prospecto j
+preparado, demonstrando a grandeza do negcio, perpassava um fulgor das
+_Mil e Uma Noites_. Mas sobretudo aquela escavao de esmeraldas
+convidava todo o esprito culto pela sua aco civilizadora. Era uma
+corrente de ideias ocidentais, invadindo, educando a Birmnia. Ele
+aceitara a direco por patriotismo...
+
+--De resto um negcio de jias, de arte, de progresso, que deve ser
+feito, num mundo superior, entre amigos...
+
+E do outro lado o terrvel Efraim, passando a mo curta e gorda sobre a
+sua bela barba, mais frisada e negra que a de um Rei Assrio, afianava
+o triunfo da empresa pelas grossas foras que nela entravam, os
+Nagayers, os Bolsans, os Saccart...
+
+Jacinto franzia o nariz, enervado:
+
+--Mas, ao menos, esto feitos os estudos? J se provou que h
+esmeraldas?
+
+Tanta ingenuidade exasperou Efraim:
+
+--Esmeraldas! Est claro que h esmeraldas!... H sempre esmeraldas
+desde que haja accionistas!
+
+E eu admirava a grandeza daquela mxima--quando apareceu, esbaforido,
+desdobrando o leno muito perfumado, um dos familiares do 202, Todelle
+(Antnio de Todelle), moo j calvo, de infinitas prendas, que conduzia
+Cotillons, imitava cantores de Caf Concerto, temperava saladas raras,
+conhecia todos os enredos de Paris.
+
+--J veio?... J c est o Gro-Duque?
+
+No, S. Alteza ainda no chegara. E Madame de Todelle?
+
+--No pde... No sof... Esfolou uma perna.
+
+--Oh!
+
+--Quase nada... Caiu do velocpede!
+
+Jacinto, logo interessado:
+
+--Ah! Madame de Todelle anda j de velocpede?
+
+--Aprende. Nem tem velocpede!... Agora, na Quaresma, que se aplicou
+mais, no velocpede do padre Ernesto, do cura de S. Jos! Mas ontem, no
+Bosque, zs, terra!... Perna esfolada. Aqui.
+
+E na sua prpria coxa, com a unha, vivamente, desenhou o esfolo.
+Efraim, brutal e srio, murmurou:--Diabo! no melhor stio! Mas
+Todelle nem o escutara, correndo para o director do _Boulevard_, que se
+avanava, lento e barrigudo, com o seu monculo negro semelhante a um
+pacho. Ambos se colaram contra uma estante, num cochichar profundo.
+
+Jacinto e eu entrmos ento no bilhar, forrado de velhos couros de
+Crdova, onde se fumava. Ao canto de um div, o grande Dornan, o poeta
+neoplatnico e mstico, o Mestre subtil de todos os ritmos, espapado
+nas almofadas, com um dos ps sob a coxa gorda, como um Deus ndio, dois
+botes do colete desabotoados, a papeira cada sobre o largo decote do
+colarinho, mamava majestosamente um imenso charuto. Ao p dele,
+tambm sentado, um velho que eu nunca encontrara no 202, esbelto, de
+cabelos brancos em anis passados por trs das orelhas, a face coberta
+de p de arroz, um bigodinho muito negro e arrebitado, findara
+certamente alguma histria de bom e grosso sal--porque diante do div,
+de p, Joban, o supremo Crtico de Teatro, ria com a calva escarlate de
+gozo, e um moo muito ruivo (descendente de Coligny), de perfil de
+periquito, sacudia os braos curtos como asas, e gania: delicioso!
+divino! S o poeta idealista permanecera impassvel, na sua majestade
+obesa. Mas, quando nos acercmos, esse Mestre do ritmo perfeito, depois
+de soprar uma farta fumarada e me saudar com um pesado mover das
+plpebras, comeou numa voz de rico e sonoro metal:
+
+--H melhor, h infinitamente melhor... Todos aqui conhecem Madame
+Noredal. Madame Noredal tem umas imensas ndegas...
+
+Desgraadamente para o meu regalo Todelle invadiu o bilhar, reclamando
+Jacinto com alarido. Eram as senhoras que desejavam ouvir no
+Fongrafo uma ria da Patti! O meu amigo sacudiu logo os ombros,
+numa surda irritao:
+
+--ria da Patti... Eu sei l! Todos esses rolos esto em confuso. Alm
+disso o Fongrafo trabalha mal. Nem trabalha! Tenho trs. Nenhum
+trabalha!
+
+--Bem! exclamou alegremente Todelle. Canto eu a _Pauvre fille_... mais
+de ceia! _Oh, la pauv', pauv', pauv'_...
+
+Travou do meu brao, e arrastou a minha timidez serrana para o salo cor
+de rosa murcha, onde, como Deusas num crculo escolhido do Olimpo,
+resplandeciam Madame d'Oriol, Madame Verghane, a princesa de Carman, e
+uma outra loura, com grandes brilhantes nas grandes farripas, e
+de ombros to nus, e braos to nus, e peitos to nus, que o seu vestido
+branco com bordados de ouro plido parecia uma camisa, a escorregar.
+Impressionado, ainda retive Todelle, rugi baixinho:--Quem ? Mas j o
+festivo homem correra para Madame d'Oriol, com quem riam, numa
+familiaridade superior e fcil, Marizac (o duque de Marizac) e um moo
+de barba cor de milho e mais leve que uma penugem, que se balouava
+gracilmente sobre os ps, como uma espiga ao vento. E eu, encalhado
+contra o piano, esfregava lentamente as mos, amassando o meu embarao,
+quando Madame Verghane se ergueu do sof onde conversava com um velho
+(que tinha a Gr-Cruz de Santo Andr), e avanou, deslizou no tapete,
+pequena e ndia, na sua copiosa cauda de veludo verde-negro. To fina
+era a cinta, entre os encontros fecundos e a vastido do peito, todo nu
+e cor de ncar, que eu receava que ela partisse pelo meio, no seu lento
+ondular. Os seus famosos bands negros, de um negro furioso, inteiramente
+lhe tapavam as orelhas; e, no grande aro de ouro que os circundava,
+reluzia uma estrela de brilhantes, como na fronte dos anjos de
+Boticelli. Conhecendo sem dvida a minha autoridade no 202, ela
+despediu sobre mim ao passar, como raio benfico, um sorriso que lhe
+liquescia mais os olhos lquidos, e murmurou:
+
+--O Gro-Duque vem, com certeza?
+
+--Oh com certeza, minha senhora, para o peixe!
+
+--P'ra o peixe?...
+
+Mas justamente, na antecmara, rompeu, em rufos e arcadas triunfais, a
+marcha de Rakoczy. Era ele! Na Biblioteca, o nosso retumbante mordomo
+anunciava:
+
+--S. Alteza o Gro-Duque Casimiro!
+
+Madame de Verghane, com um curto suspiro de emoo, alteou o peito, como
+para lhe expor melhor a magnificncia ebrnea. E o homem do _Boulevard_,
+o velho da Gr-Cruz, Efraim, quase me empurraram, investindo para a
+porta, na imensa sofreguido de Pessoa Real.
+
+Precedido por Jacinto, o Gro-Duque surgiu. Era um possante homem, de
+barba em bico, j grisalha, um pouco calvo. Durante um momento hesitou,
+com um balano lento sobre os ps pequeninos, calados de sapatos rasos,
+quase sumidos sob as pantalonas muito largas. Depois, pesado e risonho,
+veio apertar a mo s senhoras que mergulhavam nos veludos e sedas, em
+mesuras de Corte. E imediatamente, batendo com carinhosa jovialidade no
+ombro de Jacinto:
+
+--E o peixe?... Preparado pela receita que mandei, hein?
+
+Um murmrio de Jacinto tranquilizou S. Alteza.
+
+--Ainda bem, ainda bem! exclamou ele, no seu vozeiro de comando. Que
+eu no jantei, absolutamente no jantei! que se est jantando
+deploravelmente em casa do Joseph. Mas porque se vai jantar ainda ao
+Joseph? Sempre que chego a Paris, pergunto: Onde que se janta agora?
+Em casa do Joseph!... Qual! no se janta! Hoje, por exemplo,
+galinholas... Uma peste! No tem, no tem a noo da galinhola!
+
+Os seus olhos azulados, de um azul sujo, rebrilhavam, alargados pela
+indignao:
+
+--Paris est perdendo todas as suas superioridades. J se no janta, em
+Paris!
+
+Ento, em redor, aqueles senhores concordaram, desolados. O conde de
+Trves defendeu o Bignon, onde se conservavam nobres tradies. E o
+director do _Boulevard_, que se empurrava todo para S. Alteza, atribua
+a decadncia da cozinha, em Frana, Repblica, ao gosto democrtico e
+torpe pelo barato.
+
+--No Paillard, todavia...--comeou o Efraim.
+
+--No Paillard! gritou logo o Gro-Duque. Mas os Borgonhas so to maus!
+os Borgonhas so to maus!...
+
+Deixara pender os braos, os ombros, descorooado. Depois, com o seu
+lento andar balanado como o de um velho piloto, atirando um pouco para
+trs as lapelas da casaca, foi saudar Madame d'Oriol, que toda ela
+faiscou, no sorriso, nos olhos, nas jias, em cada prega das suas sedas
+cor de salmo. Mas apenas a clara e macia criatura, batendo o leque como
+uma asa alegre, comeara a chalrar, S. Alteza reparou no aparelho do
+Teatrofone, pousado sobre uma mesa entre flores, e chamou Jacinto:
+
+--Em comunicao com o Alcazar?... O Teatrofone?
+
+--Certamente, meu senhor.
+
+Excelente! Muito chic! Ele ficara com pena de no ouvir a Gilberte
+numa canoneta nova, as _Casquettes_. Onze e meia! Era justamente a
+essa hora que ela cantava, no ltimo acto da _Revista
+Elctrica_...--Colou s orelhas os dois receptores do Teatrofone, e
+quedou embebido, com uma ruga sria na testa dura. De repente, num
+comando forte:
+
+-- ela! Chut! Venham ouvir!... ela! Venham todos! Princesa de
+Carman, para aqui! Todos! ela! Chut...
+
+Ento, como Jacinto instalara prodigamente dois Teatrofones, cada um
+provido de doze fios, as senhoras, todos aqueles cavalheiros, se
+apressaram a acercar submissamente um receptor do ouvido, e a permanecer
+imveis para saborear _Les Casquettes_. E no salo cor de rosa murcha,
+na nave da Biblioteca, onde se espalhara um silncio augusto, s eu
+fiquei desligado do Teatrofone, com as mos nas algibeiras e ocioso.
+
+No relgio monumental, que marcava a hora de todas as Capitais e o
+movimento de todos os Planetas, o ponteiro rendilhado adormeceu. Sobre a
+mudez e a imobilidade pensativa daqueles dorsos, daqueles decotes,
+a Electricidade refulgia com uma tristeza de sol regelado. E de cada
+orelha atenta, que a mo tapava, pendia um fio negro, como uma tripa.
+Dornan, esboroado sobre a mesa, cerrara as plpebras, numa meditao de
+monge obeso. O historiador dos Duques de Anjou, com o receptor na ponta
+delicada dos dedos, erguendo o nariz agudo e triste, gravemente cumpria
+um dever palaciano. Madame d'Oriol sorria, toda lnguida, como se o fio
+lhe murmurasse douras. Para desentorpecer arrisquei um passo tmido.
+Mas caiu logo sobre mim um _chut_ severo do Gro-Duque! Recuei para
+entre as cortinas da janela, a abrigar a minha ociosidade. O Fillogo
+da _Couraa_, distante da mesa, com o seu comprido fio esticado, mordia
+o beio, num esforo de penetrao. A beatitude de S. Alteza, enterrado
+numa vasta poltrona, era perfeita. Ao lado o colo de Madame Verghane
+arfava como uma onda de leite. E o meu pobre Jacinto, numa aplicao
+conscienciosa, pendia sobre o Teatrofone to tristemente como sobre
+uma sepultura.
+
+Ento, ante aqueles seres de superior civilizao, sorvendo num
+silncio devoto as obscenidades que a Gilberte lhes gania, por debaixo
+do solo de Paris, atravs de fios mergulhados nos esgotos, cingidos aos
+canos das fezes,--pensei na minha aldeia adormecida. O crescente de lua,
+que, seguido de uma estrelinha, corria entre nuvens sobre os telhados e
+as chamins negras dos Campos Elsios, tambm andava l fugindo, mais
+lustrosa e mais doce, por cima dos pinheirais. As rs coaxavam ao longe
+no Pego da Dona. A ermidinha de S. Joaquim branquejava no cabeo,
+nuazinha e cndida...
+
+Uma das senhoras murmurou:
+
+--Mas, no a Gilberte!...
+
+E um dos homens:
+
+--Parece um cornetim...
+
+--Agora so palmas...
+
+--No, o Paulin!
+
+O Gro-Duque lanou um _chut_ feroz... No ptio da nossa casa ladravam
+os ces. De alm do ribeiro respondiam os ces do Joo Saranda. Como me
+encontrei descendo por uma quelha, sob as ramadas, com o meu varapau ao
+ombro? E sentia, entre a seda das cortinas, num fino ar macio, o
+cheiro das pinhas estalando nas lareiras, o calor dos currais atravs
+das sebes altas, e o sussurro dormente das levadas...
+
+Despertei a um brado que no saa nem dos eidos, nem das sombras. Era o
+Gro-Duque que se erguera, encolhia furiosamente os ombros:
+
+--No se ouve nada!... S guinchos! E um zumbido! Que maada!... Pois
+uma beleza, a canoneta:
+
+Oh les casquettes,
+Oh les casque-e-e-tes!...
+
+Todos largaram os fios--proclamavam a Gilberte deliciosa. E o mordomo
+bendito, abrindo largamente os dois batentes, anunciou:
+
+--_Monseigneur est servi_!
+
+Na mesa, que pelo esplendor das orqudeas mereceu os louvores ruidosos
+de S. Alteza, fiquei entre o etreo poeta Dornan e aquele moo de
+penugem loura que balouava como uma espiga ao vento. Depois de
+desdobrar o guardanapo, de o acomodar regaladamente sobre os joelhos,
+Dornan desenvencilhou da corrente do relgio uma enorme luneta para
+percorrer o _menu_--que aprovou. E inclinando para mim a sua face de
+Apstolo obeso:
+
+--Este Porto de 1834, aqui em casa do Jacinto, deve ser autntico...
+Hein?
+
+Assegurei ao Mestre dos Ritmos que o Porto envelhecera nas adegas
+clssicas do av Galeo. Ele afastou, numa preparao metdica, os
+longos, densos fios do bigode que lhe cobriam a boca grossa. Os
+escudeiros serviram um consomm frio com trufas. E o moo cor de milho,
+que espalhara pela mesa o seu olhar azul e doce, murmurou, com uma
+desconsolao risonha:
+
+--Que pena!... S falta aqui um general e um bispo!
+
+Com efeito! Todas as Classes Dominantes comiam nesse momento as trufas
+do meu Jacinto... Mas defronte Madame d'Oriol lanara um riso mais
+cantado que um gorjeio. O Gro-Duque, numa silva de orqudeas que
+orlava o seu talher, notara uma, sombriamente horrenda, semelhante a um
+lacrau esverdinhado, de asas lustrosas, gordo e tmido de veneno: e
+muito delicadamente ofertara a flor monstruosa a Madame d'Oriol, que,
+com trinado riso, solenemente, a colocou no seio. Colado quela
+carne macia, de uma brancura de nata fina, o lacrau inchara, mais verde,
+com as asas frementes. Todos os olhos se acendiam, se cravavam no lindo
+peito, a que a flor disforme, de cor venenosa, apimentava o sabor. Ela
+reluzia, triunfava. Para ajeitar melhor a orqudea os seus dedos
+alargaram o decote, aclararam belezas, guiando aquelas curiosidades
+flamejantes que a despiam. A face vincada de Jacinto pendia para o
+prato vazio. E o alto lrico do _Crepsculo Mstico_, passando a mo
+pelas barbas, rosnou com desdm:
+
+--Bela mulher... Mas ancas secas, e aposto que no tem ndegas!
+
+No entanto o moo de loura penugem voltara sua estranha mgoa. No
+possuirmos um general com a sua espada, e um bispo com seu bculo!...
+
+--Para qu, meu caro senhor?
+
+Ele atirou um gesto suave em que todos os seus anis faiscaram:
+
+--Para uma bomba de dinamite... Temos aqui um esplndido ramalhete de
+flores de Civilizao, com um Gro-Duque no meio. Imagine uma bomba de
+dinamite, atirada da porta!... Que belo fim de ceia, num fim de
+sculo!
+
+E como eu o considerava assombrado, ele, bebendo golos de
+Chateau-Yquem, declarou que hoje a nica emoo, verdadeiramente fina,
+seria aniquilar a Civilizao. Nem a cincia, nem as artes, nem o
+dinheiro, nem o amor, podiam j dar um gosto intenso e real s nossas
+almas saciadas. Todo o prazer que se extrara de _criar_ estava
+esgotado. S restava, agora, o divino prazer de _destruir_!
+
+Desenrolou ainda outras enormidades, com um riso claro nos olhos claros.
+Mas eu no atendia o gentil pedante, colhido por outro
+cuidado--reparando que em torno, subitamente, todo o servio estacara
+como no conto do Palcio Petrificado. E o prato agora devido era o peixe
+famoso da Dalmcia, o peixe de S. Alteza, o peixe inspirador da festa!
+Jacinto, nervoso, esmagava entre os dedos uma flor. E todos os
+escudeiros sumidos!
+
+Felizmente o Gro-Duque contava a histria de uma caada, nas coutadas de
+Sarvan, em que uma senhora, mulher de um banqueiro, saltara bruscamente
+do cavalo, num descampado, sem rvores. Ele e todos os caadores
+param--e a galante senhora, lvida, com a amazona arregaada, corre para
+trs de uma pedra... Mas nunca soubemos em que se ocupava a banqueira,
+nesse descampado, agachada atrs da pedra--porque justamente o mordomo
+apareceu, reluzente de suor, e balbuciou uma confidncia a Jacinto,
+que mordeu o beio, trespassado. O Gro-Duque emudecera. Todos se
+entreolhavam, numa ansiedade alegre. Ento o meu Prncipe, com
+pacincia, com heroicidade, forando palidamente o sorriso:
+
+--Meus amigos, h uma desgraa...
+
+Dornan pulou na cadeira:
+
+--Fogo?
+
+No, no era fogo. Fora o elevador dos pratos, que inesperadamente, ao
+subir o peixe de S. Alteza, se desarranjara, e no se movia, encalhado!
+
+O Gro-Duque arremessou o guardanapo. Toda a sua polidez estalava como
+um esmalte mal posto:
+
+--Essa forte!... Pois um peixe que me deu tanto trabalho! Para que
+estamos ns aqui ento a cear? Que estupidez! E porque o no trouxeram
+mo, simplesmente? Encalhado... Quero ver! Onde a copa?
+
+E, furiosamente, investiu para a copa, conduzido pelo mordomo que
+tropeava, vergava os ombros, ante esta esmagadora clera de Prncipe.
+Jacinto seguiu, como uma sombra, levado na rajada de S. Alteza. E eu
+no me contive, tambm me atirei para a copa, a contemplar o desastre,
+enquanto Dornan, batendo na coxa, clamava que se ceasse sem peixe!
+
+O Gro-Duque l estava, debruado sobre o poo escuro do elevador, onde
+mergulhara uma vela que lhe avermelhava mais a face esbraseada.
+Espreitei, por sobre o seu ombro real. Em baixo, na treva, sobre uma
+larga prancha, o peixe precioso alvejava, deitado na travessa, ainda
+fumegando, entre rodelas de limo. Jacinto, branco como a gravata,
+torturava desesperadamente a mola complicada do ascensor. Depois foi o
+Gro-Duque que, com os pulsos cabeludos, atirou um empuxo tremendo aos
+cabos em que ele rolava. Debalde! O aparelho enrijara numa inrcia de
+bronze eterno.
+
+Sedas roagaram entrada da copa. Era Madame d'Oriol, e atrs Madame
+Verghane, com os olhos a faiscar, na curiosidade daquele lance em que
+o Prncipe soltara tanta paixo. Marizac, nosso ntimo, surgiu tambm,
+risonho, propondo uma descida ao poo com escadas. Depois foi o
+Psiclogo, que se abeirou, psicologou, atribuindo intenes sagazes
+ao peixe que assim se recusava. E a cada um o Gro-Duque, escarlate,
+mostrava com dedo trgico, no fundo da cova, o seu peixe! Todos
+afundavam a face, murmuravam: l est! Todelle, na sua precipitao,
+quase se despenhou. O periquito descendente de Coligny batia as asas,
+ganindo:--Que cheiro ele deita, que delcia! Na copa atulhada os
+decotes das senhoras roavam a farda dos lacaios. O velho caiado de p
+de arroz meteu o p num balde de gelo, com um berro ferino. E o
+Historiador dos Duques de Anjou movia por cima de todos o seu nariz
+bicudo e triste.
+
+De repente, Todelle teve uma ideia!
+
+-- muito simples... pescar o peixe!
+
+O Gro-Duque bateu na coxa uma palmada triunfal. Est claro! Pescar o
+peixe! E no gozo daquela faccia, to rara e to nova, toda a sua
+clera se sumira, de novo se tornara o Prncipe amvel, de magnfica
+polidez, desejando que as senhoras se sentassem para assistir pesca
+miraculosa! Ele mesmo seria o pescador! Nem se necessitava, para a
+divertida faanha, mais que uma bengala, uma guita e um gancho.
+Imediatamente Madame d'Oriol, excitada, ofereceu um dos seus ganchos.
+Apinhados em volta dela, sentindo o seu perfume, o calor da sua pele,
+todos exaltmos a amorvel dedicao. E o Psiclogo proclamou que nunca
+se pescara com to divino anzol!
+
+Quando dois escudeiros estonteados voltaram, trazendo uma bengala e um
+cordel, j o Gro-Duque, radiante, vergara o gancho em anzol. Jacinto,
+com uma pacincia lvida, erguia uma lmpada sobre a escurido do poo
+fundo. E os senhores mais graves, o Historiador, o director do
+_Boulevard_, o Conde de Trves, o homem de cabea Van-Dick, sorriam,
+amontoados porta, num interesse reverente pela fantasia de S.
+Alteza. Madame de Trves, essa, examinava serenamente, com a sua nobre
+luneta, a instalao da copa. S Dornan no se erguera da mesa, com os
+punhos cerrados sobre a toalha, o gordo pescoo encovado, no tdio
+sombrio de fera a quem arrancaram a posta.
+
+No entanto S. Alteza pescava com fervor! Mas debalde! O gancho, pouco
+agudo, sem presa, bamboleando na extremidade da guita frouxa, no
+fisgava.
+
+--Oh Jacinto, erga essa luz! gritava ele, inchado e suado. Mais!...
+Agora! Agora! na guelra! S na guelra que o gancho o pode prender.
+Agora... Qual! Que diabo! No vai!
+
+Tirou a face do poo, resfolgando e afrontado. No era possvel! S
+carpinteiros, com alavancas!... E todos, ansiosamente, bradmos que se
+abandonasse o peixe!
+
+O Prncipe, risonho, sacudindo as mos, concordava que por fim fora
+mais divertido pesc-lo do que com-lo! E o elegante bando refluiu
+sofregamente para a mesa, ao som de uma valsa de Strauss, que os Tziganes
+arremessaram em arcadas de lnguido ardor. S Madame de Trves se demorou
+ainda, retendo o meu pobre Jacinto, para lhe assegurar quanto admirava
+o arranjo da sua copa... Oh perfeita! Que compreenso da vida, que fina
+inteligncia do conforto!
+
+S. Alteza, encalmado pelo esforo, esvaziou poderosamente dois copos de
+Chateau-Lagrange. Todos o aclamavam como um pescador genial. E os
+escudeiros serviram o _Baro de Pauillac_, cordeiro das lezrias
+marinhas, que, preparado com ritos quase sagrados, toma este grande nome
+sonoro e entra no Nobilirio de Frana.
+
+Eu comi com o apetite de um heri de Homero. Sobre o meu copo e o de
+Dornan o Champanhe cintilou e jorrou ininterrompidamente como uma
+fonte de Inverno. Quando se serviram ortolans gelados, que se derretiam
+na boca, o divino poeta murmurou, para meu regalo, o seu soneto sublime
+a Santa Clara. E como, do outro lado, o moo de penugem loura
+insistia pela destruio do velho mundo, tambm concordei, e, sorvendo o
+Champanhe coalhado em sorvete, maldissemos o Sculo, a Civilizao,
+todos os orgulhos da Cincia! Atravs das flores e das luzes, no
+entanto, eu seguia as ondas arfantes do vasto peito de Madame Verghane,
+que ria como uma bacante. E nem me apiedava de Jacinto que, com a
+doura de S. Jacinto sobre o cepo, esperava o fim do seu martrio e da
+sua festa.
+
+Ela findou. Ainda recordo, s trs horas da noite, o Gro-Duque na
+antecmara, muito vermelho, mal firme nos ps pequeninos, sem acertar
+com as mangas da pelia que Jacinto e eu lhe ajudmos a
+enfiar--convidando o meu amigo, numa efuso carinhosa, a ir caar s
+suas terras da Dalmcia...
+
+--Devo ao meu Jacinto uma bela pesca, quero que ele me deva uma bela
+caada!
+
+E enquanto o acompanhvamos, entre as alas dos escudeiros, pela vasta
+escada onde o mordomo o precedia erguendo um candelabro de trs lumes,
+S. Alteza repisava, pegajoso:
+
+--Uma bela caada... E tambm vai Fernandes! Bom Fernandes, Z
+Fernandes! Ceia superior, meu Jacinto! O _Baro de Pauillac_,
+divino!... Creio que o devemos nomear Duque... O Senhor Duque de
+Pauillac! Mais um bocado da perna do Senhor Duque de Pauillac. Ah!
+Ah!... No venham fora! No se constipem!
+
+E do fundo do coup, ao rodar, ainda bradou:
+
+--O peixe, Jacinto, desencalha o peixe! Excelente, ao almoo, frio,
+com molho verde!
+
+Trepando cansadamente os degraus, numa moleza de Champanhe e sono em
+que os olhos se me cerravam, murmurei para o meu Prncipe:
+
+--Foi divertido, Jacinto! Sumptuosa mulher, a Verghane! Grande pena, o
+elevador...
+
+E Jacinto, num som cavo que era bocejo e rugido:
+
+--Uma maada! E tudo falha!
+
+ * * * * *
+
+Trs dias depois desta festa no 202 recebeu o meu Prncipe
+inesperadamente, de Portugal, uma nova considervel. Sobre a sua quinta
+e solar de Tormes, por toda a serra, passara uma tormenta devastadora de
+vento, corisco e gua. Com as grossas chuvas, ou por outras causas que
+os peritos diro (como exclamava na sua carta angustiada o procurador
+Silvrio), um pedao de monte, que se avanava em socalco sobre o vale
+da Carria, desabara, arrastando a velha igreja, uma igrejinha rstica
+do sculo XVI, onde jaziam sepultados os avs de Jacinto desde os
+tempos de el-rei D. Manuel. Os ossos venerveis desses Jacintos jaziam
+agora soterrados sob um monto informe de terra e pedra. O Silvrio j
+comeara com os moos da quinta a desatulhar dos preciosos restos. Mas
+esperava ansiosamente as ordens de sua exc.^a...
+
+Jacinto empalidecera, impressionado. Esse velho solo serrano, to rijo
+e firme desde os Godos, que de repente rua! Esses jazigos de paz
+piedosa, precipitados com fragor, na borrasca e na treva, para um negro
+fundo de vale! Essas ossadas, que todas conservavam um nome, uma data,
+uma histria, confundidas num lixo de runa!
+
+--Coisa estranha, coisa estranha!...
+
+E toda a noite me interrogou acerca da serra e de Tormes, que eu
+conhecia desde pequeno, por que o velho solar, com a sua nobre alameda
+de faias seculares, se erguia a duas lguas da nossa casa, no antigo
+caminho de Guies estao e ao rio. O caseiro de Tormes, o bom
+Melchior, era cunhado do nosso feitor da Roqueirinha:--e muitas vezes,
+depois da minha intimidade com Jacinto, eu entrara no robusto casaro
+de granito, e avaliara o gro espalhado pelas salas sonoras, e provara o
+vinho novo nas adegas imensas...
+
+--E a igreja, Z Fernandes?... Entraste na igreja?
+
+--Nunca... Mas era pitoresca, com uma torrezinha quadrada, toda negra,
+onde h muitos anos vivia uma famlia de cegonhas... Terrvel
+transtorno para as cegonhas!
+
+--Coisa estranha! murmurava ainda o meu Prncipe, agourado.
+
+E telegrafou ao Silvrio que desatulhasse o vale, recolhesse as
+ossadas, reedificasse a Igreja, e, para esta obra de piedade e
+reverncia, gastasse o dinheiro, sem contar, como a gua de um rio largo.
+
+
+
+
+V
+
+
+No entanto Jacinto, desesperado com tantos desastres humilhadores--as
+torneiras que dessoldavam, os elevadores que emperravam, o Vapor que se
+encolhia, a Electricidade que se sumia, decidiu valorosamente vencer as
+resistncias finais da Matria e da Fora por novas e mais poderosas
+acumulaes de Mecanismos. E nessas semanas de Abril, enquanto as
+rosas desabrochavam, a nossa agitada casa, entre aquelas quietas casas
+dos Campos Elsios que preguiavam ao sol, incessantemente tremeu,
+envolta num p de calia e de empreitada, com o bruto picar de pedra, o
+retininte martelar de ferro. Nos silenciosos corredores, onde me era
+doce fumar antes do almoo um pensativo cigarro, circulavam agora, desde
+madrugada, ranchos de operrios, de blusas brancas, assobiando o
+_Petit-Bleu_, e intimidando os meus passos quando eu atravessava em
+fralda e chinelas para o banho ou para outros retiros. Apenas se varava
+com percia algum andaime obstruindo as portas--logo se esbarrava com
+uma pilha de tbuas, uma seira de ferramentas ou um balde enorme
+de argamassa. E os pedaos de soalho levantado mostravam tristemente,
+como num cadver aberto, todos os interiores do 202, a ossatura, os
+sensveis nervos de arame, os negros intestinos de ferro fundido.
+
+Cada dia estacava diante do porto alguma lenta carroa, donde os
+criados, em mangas de camisa, descarregavam caixotes de madeira, fardos
+de lona, que se despregavam e se descosiam numa sala asfaltada, ao
+fundo do jardim, por trs da sebe de lilases. E eu descia, reclamado
+pelo meu Prncipe, para admirar uma nova Mquina que nos tornaria a vida
+mais fcil, estabelecendo de um modo mais seguro o nosso domnio sobre a
+Substncia. Durante os calores, que apertaram depois da Ascenso,
+ensaimos esperanadamente, para refrescar as guas minerais, a
+Soda-Water e os Medocs ligeiros, trs geleiras, que se amontoaram na
+copa sucessivamente desprestigiadas. Com os morangos novos apareceu um
+instrumentozinho astuto, para lhes arrancar os ps, delicadamente.
+Depois recebemos outro, prodigioso, de prata e cristal, para remexer
+freneticamente as saladas; e, na primeira vez que o experimentei, todo
+o vinagre esparrinhou sobre os olhos do meu Prncipe, que fugiu aos
+uivos! Mas ele teimava... Nos actos mais elementares, para aliviar ou
+apressar o esforo, se socorria Jacinto da Dinmica. E agora era por
+interveno de uma Mquina que abotoava as ceroulas.
+
+E simultaneamente, ou em obedincia sua Ideia, ou governado pelo
+despotismo do hbito, no cessava, ao lado da Mecnica acumulada, de
+acumular Erudio. Oh, a invaso dos livros no 202! Solitrios, aos
+pares, em pacotes, dentro de caixas, franzinos, gordos e repletos de
+autoridade, envoltos em plebeia capa amarela ou revestidos de
+marroquim e ouro, perpetuamente, torrencialmente, invadiam por todas as
+largas portas a Biblioteca, onde se estiravam sobre o tapete, se
+repimpavam nas cadeiras macias, se entronizavam em cima das mesas
+robustas, e sobretudo trepavam contra as janelas, em sfregas pilhas,
+como se, sufocados pela sua prpria multido, procurassem com nsia
+espao e ar! Na erudita nave, onde apenas alguns vidros mais altos
+restavam descobertos, sem tapume de livros, perenemente se adensava um
+pensativo crepsculo de Outono enquanto fora Junho refulgia. A
+Biblioteca transbordara atravs de todo o 202! No se abria um armrio
+sem que de dentro se despenhasse, desamparada, uma pilha de livros! No
+se franzia uma cortina sem que de trs surgisse, hirta, uma ruma de
+livros! E imensa foi a minha indignao quando uma manh, correndo
+urgentemente, de mos nas alas, encontrei, vedada por uma tremenda
+coleco de Estudos Sociais, a porta do Water-Closet!
+
+Mais amargamente porm me lembro da noite histrica em que, no meu
+quarto, modo e mole de um passeio a Versalhes, com as plpebras
+poeirentas e meio adormecidas, tive de desalojar do meu leito,
+praguejando, um pavoroso Dicionrio de Indstria em trinta e sete
+volumes! Senti ento a suprema fartura do livro. Ajeitando, com murros,
+os travesseiros, maldisse a Imprensa, a Facndia humana... E j me
+estirara, adormecia, quando topei, quase parti a preciosa rtula do
+joelho, contra a lombada de um tomo que velhacamente se aninhara entre a
+parede e os colches. Com furor e um berro empolguei, arremessei o tomo
+afrontoso--que entornou o jarro, inundou um tapete rico de Daghestan. E
+nem sei se depois adormeci--porque os meus ps, a que no sentia nem o
+pisar nem o rumor, como se um vento brando me levasse, continuaram a
+tropear em livros no corredor apagado, depois na areia do jardim que o
+luar branqueava, depois na Avenida dos Campos Elsios, povoada e ruidosa
+como numa festa cvica. E, oh portento! todas as casas aos lados eram
+construdas com livros. Nos ramos dos castanheiros ramalhavam folhas de
+livros. E os homens, as finas damas, vestidos de papel impresso, com
+ttulos nos dorsos, mostravam em vez de rosto um livro aberto, a que a
+brisa lenta virava docemente as folhas. Ao fundo, na Praa da Concrdia,
+avistei uma escarpada montanha de livros, a que tentei trepar,
+arquejante, ora enterrando a perna em flcidas camadas de versos, ora
+batendo contra a lombada, dura como calhau, de tomos de Exegese e
+Crtica. A to vastas alturas subi, para alm da terra, para alm das
+nuvens, que me encontrei, maravilhado, entre os astros. Eles rolavam
+serenamente, enormes e mudos, recobertos por espessas crostas de livros,
+donde surdia, aqui e alm, por alguma fenda, entre dois volumes mal
+juntos, um raiozinho de luz sufocada e ansiada. E assim ascendi ao
+Paraso. Decerto era o Paraso--porque com meus olhos de mortal argila
+avistei o Ancio da Eternidade, aquele que no tem Manh nem Tarde.
+Numa claridade que dele irradiava mais clara que todas as claridades,
+entre fundas estantes de ouro abarrotadas de cdices, sentado em
+vetustssimos flios, com os flocos das infinitas barbas espalhados por
+sobre resmas de folhetos, brochuras, gazetas e catlogos--o Altssimo
+lia. A fronte superdivina que concebera o Mundo pousava sobre a mo
+superforte que o Mundo criara--e o Criador lia e sorria. Ousei,
+arrepiado de sagrado horror, espreitar por cima do seu ombro
+coruscante. O livro era brochado, de trs francos... O Eterno lia
+Voltaire, numa edio barata, e sorria.
+
+Uma porta faiscou e rangeu, como se algum penetrasse no Paraso. Pensei
+que um Santo novo chegara da Terra. Era Jacinto, com o charuto em
+brasa, um molho de cravos na lapela, sobraando trs livros amarelos
+que a Princesa de Carman lhe emprestara para ler!
+
+ * * * * *
+
+Numa dessas activas semanas, porm, a minha ateno subitamente se
+despegou deste interessante Jacinto. Hspede do 202, conservava no 202
+a minha mala e a minha roupa: e, acostado bandeira do meu Prncipe,
+ainda ocasionalmente comia do seu caldeiro sumptuoso. Mas a minha
+alma, a minha embrutecida alma, e o meu corpo, o meu embrutecido corpo,
+habitavam ento na rua do Hlder, n.^o 16, quarto andar, porta
+esquerda.
+
+Descia eu uma tarde, numa leda paz de ideias e sensaes, o Boulevard da
+Madalena, quando avistei, diante da Estao dos nibus, rondando no
+asfalto, num passo lento e felino, uma criatura seca, muito morena,
+quase tisnada, com dois fundos olhos taciturnos e tristes, e uma mata
+de cabelos amarelados, toda crespa e rebelde, sob o chapu velho de
+plumas negras. Parei, como colhido por um repuxo nas entranhas. A
+criatura passou--no seu magro rondar de gata negra, sobre um beiral de
+telhado, ao luar de Janeiro. Dois poos fundos no luzem mais negra e
+taciturnamente do que luziam os seus olhos taciturnos e negros. No
+recordo (Deus louvado!) como rocei o seu vestido de seda, lustroso e
+ensebado nas pregas; nem como lhe rosnei uma splica por entre os
+dentes que rangiam; nem como subimos ambos, morosamente e mais
+silenciosos que condenados, para um gabinete do Caf Durand, safado e
+morno. Diante do espelho, a criatura, com a lentido de um rito triste,
+tirou o chapu e a romeira salpicada de vidrilhos. A seda puda do
+corpete esgarava nos cotovelos agudos. E os seus cabelos eram
+imensos, de uma dureza e espessura de juba brava, em dois tons
+amarelos, uns mais dourados, outros mais crestados, como a cdea de uma
+torta ao sair quente do forno.
+
+Com um riso trmulo, agarrei os seus dedos compridos e frios:
+
+--E o nomezinho, hein?
+
+Ela sria, quase grave:
+
+--Madame Colombe, 16, rua do Hlder, quarto andar, porta esquerda.
+
+E eu (miservel Z Fernandes!) tambm me senti muito srio, trespassado
+por uma emoo grave, como se nos envolvesse, naquela alcova de Caf,
+a majestade de um Sacramento. porta, empurrada levemente, o criado
+avanou a face ndia. Ordenei uma lagosta, pato com pimentes, e
+Borgonha. E foi somente ao findarmos o pato que me ergui, amarfanhando
+convulsamente o guardanapo, e a tremer lhe beijei a boca, todo a
+tremer, num beijo profundo e terrvel, em que deixei a alma, entre
+saliva e gosto de pimento! Depois, numa tipia aberta, sob um bafo
+mole de leste e de trovoada, subimos a Avenida dos Campos Elsios. Em
+frente grade do 202 murmurei, para a deslumbrar com o meu luxo:--Moro
+ali, todo o ano!... E como ao mirar o Palacete, debruada, ela
+roara a mata fulva do plo crespo pela minha barba--berrei
+desesperadamente ao cocheiro; que galopasse para a rua do Hlder, n.^o
+16, quarto andar, porta esquerda!
+
+Amei aquela criatura. Amei aquela criatura com Amor, com todos os
+Amores que esto no Amor, o Amor divino, o Amor humano, o Amor bestial,
+como Santo Antonino amava a Virgem, como Romeu amava Julieta, como um
+bode ama uma cabra. Era estpida, era triste. Eu deliciosamente apagava
+a minha alegria na cinza da sua tristeza; e com inefvel gosto afundava
+a minha razo na densidade da sua estupidez. Durante sete furiosas
+semanas perdi a conscincia da minha personalidade de Z
+Fernandes--Fernandes de Noronha e Sande, de Guies! Ora se me afigurava
+ser um pedao de cera que se derretia, com horrenda delcia, num forno
+rubro e rugidor: ora me parecia ser uma faminta fogueira onde
+flamejava, estalava e se consumia um molho de galhos secos. Desses
+dias de sublime sordidez s conservo a impresso de uma alcova forrada de
+cretones sujos, de uma bata de l cor de lils com sotaches negros, de
+vagas garrafas de cerveja no mrmore de um lavatrio, e de um corpo
+tisnado que rangia e tinha cabelos no peito. E tambm me resta a
+sensao de incessantemente e com arroubado deleite me despojar,
+arremessar para um regao, que se cavava entre um ventre sumido e uns
+joelhos agudos, o meu relgio, os meus berloques, os meus anis, os
+meus botes de punho de safira, e as cento e noventa e sete libras em
+ouro que eu trouxera de Guies numa cinta de camura. Do slido,
+decoroso, bem fornecido Z Fernandes, s restava uma carcaa errando
+atravs de um sonho, com as gmbias moles e a baba a escorrer.
+
+Depois, uma tarde, trepando com a costumada gula a escada da rua do
+Hlder, encontrei a porta fechada--e arrancado da ombreira aquele
+carto de _Madame Colombe_ que eu lia sempre to devotamente e que era a
+sua tabuleta... Tudo no meu ser tremeu como se o cho de Paris tremesse!
+Aquela era a porta do Mundo que ante mim se fechara! Para alm estavam
+as gentes, as cidades, a vida, Deus e Ela. E eu ficara sozinho,
+naquele patamar do No-Ser, fora da porta que se fechara, nico ser
+fora do Mundo! Rolei pelos degraus, com o fragor e a incoerncia de uma
+pedra, at ao cubculo da porteira e do seu homem que jogavam as cartas
+em ditosa pachorra, como se to pavoroso abalo no tivesse desmantelado
+o Universo!
+
+--Madame Colombe?
+
+A barbuda comadre recolheu lentamente a vaza:
+
+--J no mora... Abalou esta manh, para outra terra, com outra porca!
+
+Para outra terra! com outra porca!... Vazio, negramente vazio de todo o
+pensar, de todo o sentir, de todo o querer--boiei aos tombos, como um
+tonel vazio, na corrente aodada do Boulevard, at que encalhei num
+banco da Praa da Madalena, onde tapei com as mos, a que no sentia a
+febre, os olhos a que no sentia o pranto! Tarde, muito tarde, quando j
+se cerravam com estrondo as cortinas de ferro das lojas, surdiu, dentre
+todas estas confusas runas do meu ser, a eterna sobrevivente de todas
+as runas--a ideia de jantar. Penetrei no Durand, com os passos
+entorpecidos de um ressuscitado. E, numa recordao que me escaldava a
+alma, encomendei a lagosta, o pato, o Borgonha! Mas ao alargar o
+colarinho, ensopado pelo ardor daquela tarde de Julho, entre a poeira
+da Madalena, pensei com desconforto:--Santssimo Nome de Deus! Que
+imensa sede me fez esta desgraa!... De manso acenei ao moo:--Antes
+do Borgonha, uma garrafa de Champanhe, com muito gelo, e um grande
+copo!... Creio que aquele Champanhe se engarrafara no Cu onde corre
+perenemente a fresca fonte da Consolao, e que na garrafa bendita que
+me coube penetrara, antes de arrolhada, um jorro largo dessa fonte
+inefvel. Jesus! que transcendente regalo, o daquele nobre copo,
+embaciado, nevado, a espumar, a picar, num brilho de ouro! E depois,
+garrafa de Borgonha! E depois, garrafa de Cognac! E depois
+Hortel-Pimenta granitada em gelo! E depois um desejo arquejante de
+espancar, com o meu rijo marmeleiro de Guies, a porca que fugira com
+outra porca! Dentro da tipia fechada, que me transportou num galope ao
+202, no sufoquei este santo impulso, e com os meus punhos serranos
+atirei murros retumbantes contra as almofadas, onde _via_, furiosamente
+_via_ a mata imensa de plo amarelo, em que a minha alma uma tarde
+se perdera, e trs meses se debatera, e para sempre se emporcalhara!
+Quando o fiacre estacou no 202 ainda eu espancava to desesperadamente a
+besta ingrata, que, aos berros do cocheiro, dois moos acudiram e me
+sustiveram, recebendo pelos ombros, sobre as nucas servis, os restos
+cansados da minha clera.
+
+Em cima, repeli a solicitude do Grilo que tentava impor ao _si_ Z
+Fernandes, a Z Fernandes de Guies, a imensa indignidade de um ch de
+macela! E estirado no leito de D. Galeo, com as botas sobre o
+travesseiro, o chapu alto sobre os olhos, ri, num doloroso riso,
+deste Mundo burlesco e srdido de Jacintos e de Colombes! E de repente
+senti uma angstia horrenda. Era Ela! Era a Madame Colombe, que
+esfuziara da chama da vela, e saltara sobre o meu leito, e desabotoara
+o meu colete, e arrombara as minhas costelas, e toda ela, com as
+saias sujas, mergulhara dentro do meu peito, e abocara o meu corao, e
+chupava a sorvos lentos, como na rua do Hlder, o sangue do meu corao!
+Ento, certo da Morte, ganindo pela tia Vicncia, pendi do leito para
+mergulhar na minha sepultura, que, atravs da nvoa final, eu distinguia
+sobre o tapete--redondinha, vidrada, de porcelana e com asa. E, sobre a
+minha sepultura, que to irreverentemente se assemelhava ao meu vaso,
+vomitei o Borgonha, vomitei o pato, vomitei a lagosta. Depois, num
+esforo ultrahumano, com um rugido, sentindo que, no somente toda a
+entranha, mas a alma se esvaziava toda, vomitei Madame Colombe! Reca
+sobre o leito de D. Galeo... Recarreguei o chapu sobre os olhos para
+no sentir os raios do sol. Era um sol novo, um sol espiritual, que se
+erguia sobre a minha vida. E adormeci, como uma criancinha docemente
+embalada num bero de verga pelo Anjo da Guarda.
+
+De manh, lavei a pele num banho profundo, perfumado com todos os
+aromas do 202, desde folhas de limonete da ndia at essncia de jasmim
+de Frana: e lavei a alma com uma rica carta da Tia Vicncia, em letra
+farta, contando da nossa casa, e da linda promessa das vinhas, e da
+compota de ginja que nunca lhe sara to fina, e da alegre fogueira do
+ptio em noite de S. Joo, e da menininha muito gorda e cabeluda que
+viera do cu para a minha afilhada Joaninha. Depois, janela, bem
+limpo de alma e de corpo, numa quinzena de sedinha branca, tomando ch
+de Nap, respirando os rosais do jardim revividos pela chuva da
+madrugada, considerei, em divertido pasmo, que, durante sete semanas, me
+emporcalhara, na rua do Hlder, com um estardalho muito magro e muito
+tisnado! E conclui que padecera de uma longa sezo, sezo da carne, sezo
+da imaginao, apanhada num charco de Paris--nesses charcos que se
+formam atravs da Cidade com as guas mortas, os limos, os lixos, os
+tortulhos e os vermes de uma Civilizao que apodrece.
+
+ * * * * *
+
+Ento, curado, todo o meu esprito, como uma agulha para o Norte, se
+virou logo para o meu complicado Prncipe, que, nas derradeiras semanas
+da minha infeco sentimental, eu entrevira sempre descado por cima de
+sofs, ou vagueando atravs da Biblioteca entre os seus trinta mil
+volumes, com arrastados bocejos de inrcia e de vacuidade. Eu, na minha
+pressa indigna, s lhe lanava um distrado--que isso? Ele, no seu
+moroso desalento, s murmurava um seco-- calor!
+
+E, nessa manh da minha libertao, ao penetrar antes de almoo no seu
+quarto, no sof o encontrei enterrado, com o _Figaro_ aberto sobre a
+barriga, a Agenda cada sobre o tapete, toda a face envolta em sombra,
+e os ps abandonados, numa soberana tristeza, ao pedicuro que lhe polia
+as unhas. Decerto o meu olhar realumiado e repurificado, a brancura das
+minhas flanelas reproduzindo a quietao das minhas sensaes, e a
+segura harmonia em que todo o meu ser visivelmente se movia,
+impressionaram o meu Prncipe--a quem a melancolia nunca embotava a
+agudeza. Ergueu molemente um brao mole:
+
+--Ento esse capricho?
+
+Derramei, sobre ele todo o fulgor de um riso vitorioso:
+
+--Morto! E, como o Sr. de Malbrouck, morto e bem enterrado. Jaz! Ou
+antes, rola! Com efeito deve andar agora rolando por dentro do cano do
+esgoto!
+
+Jacinto bocejou, murmurou:
+
+--Este Z Fernandes de Noronha e Sande!...
+
+E, no meu nome, no meu digno nome assim embrulhado num bocejo com
+desprendida ironia, se resumiu todo o interesse daquele Prncipe pela
+suja tormenta em que se debatera o meu corao! Mas no me melindrou
+esse consumado egosmo... Claramente percebia eu que o meu Jacinto
+atravessava uma densa nvoa de tdio, to densa, e ele to afundado na
+sua mole densidade, que as glrias ou os tormentos de um camarada no o
+comoviam, como muito remotas, intangveis, separadas da sua
+sensibilidade por imensas camadas de algodo. Pobre Prncipe da
+Gr-Ventura, tombado para o sof de inrcia, com os ps no regao do
+pedicuro! Em que lodoso fastio cara, depois de renovar to bravamente
+todo o recheio mecnico e erudito do 202, na sua luta contra a Fora e
+a Matria!--E esse fastio no o escondeu mais do seu velho Z Fernandes
+quando recomeou entre ns a comunho de vida e de alma a que eu to
+torpemente me arrancara, uma tarde, diante da Estao dos nibus, no
+charco da Madalena.
+
+No eram certamente confisses enunciadas. O elegante e reservado
+Jacinto no torcia os braos, gemendo--Oh vida maldita! Eram apenas
+expresses saciadas; um gesto de repelir com rancor a importunidade das
+coisas; por vezes uma imobilidade determinada, de protesto, no fundo
+de um div, donde se no desenterrava, como para um repouso que
+desejasse eterno; depois os bocejos, os ocos bocejos com que sublinhava
+cada passo, continuado por fraqueza ou por dever iniludvel; e
+sobretudo aquele murmurar que se tornara perene e natural--Para
+qu?--No vale a pena!--Que maada!...
+
+Uma noite no meu quarto, descalando as botas, consultei o Grilo:
+
+--Jacinto anda to murcho, to corcunda... Que ser, Grilo?
+
+O venerando preto declarou com uma certeza imensa:
+
+--S. Exc.^a sofre de fartura.
+
+Era fartura! O meu Prncipe sentia abafadamente a fartura de Paris:--e
+na Cidade, na simblica Cidade, fora de cuja vida culta e forte (como
+ele outrora gritava, iluminado) o homem do sculo XIX nunca poderia
+saborear plenamente a delcia de viver, ele no encontrava agora
+forma de vida, espiritual ou social, que o interessasse, lhe valesse o
+esforo de uma corrida curta numa tipia fcil. Pobre Jacinto! Um
+jornal velho, setenta vezes relido desde a Crnica at aos Anncios,
+com a tinta delida, as dobras rodas, no enfastiaria mais o Solitrio,
+que s possusse na sua Solido esse alimento intelectual, do que o
+Parisianismo enfastiava o meu doce camarada! Se eu nesse Vero
+capciosamente o arrastava a um Caf-Concerto, ou ao festivo Pavilho
+d'Armenonville, o meu bom Jacinto, colado pesadamente cadeira com um
+maravilhoso ramo de orqudeas na casaca, as finas mos abatidas sobre o
+casto da bengala, conservava toda a noite uma gravidade to estafada,
+que eu, compadecido, me erguia, o libertava, gozando a sua pressa em
+abalar, a sua fuga de ave solta... Raramente (e ento com veemente
+arranque como quem salta um fosso) descia a um dos seus Clubes, ao fundo
+dos Campos Elsios. No se ocupara mais das suas Sociedades e
+Companhias, nem dos _Telefones de Constantinopla_, nem das _Religies
+Esotricas_, nem do _Bazar Espiritualista_, cujas cartas fechadas se
+amontoavam sobre a mesa de bano, donde o Grilo as varria tristemente
+como o lixo de uma vida finda. Tambm lentamente se despegava de todas as
+suas convivncias. As pginas da Agenda cor-de-rosa murcha andavam
+desafogadas e brancas. E se ainda cedia a um passeio de Mail-Coach, ou a
+um convite para algum Castelo amigo dos arredores de Paris, era to
+arrastadamente, com um esforo to saturado ao enfiar o palet leve,
+que me lembrava sempre um homem, depois de um gordo jantar de provncia,
+a estalar, que, por polidez ou em obedincia a um dogma, devesse ainda
+comer uma lampreia de ovos!
+
+Jazer, jazer em casa, na segurana das portas bem cerradas e bem
+defendidas contra toda a intruso do mundo, seria uma doura para o meu
+Prncipe se o seu prprio 202, com todo aquele tremendo recheio de
+Civilizao, no lhe desse uma sensao dolorosa de abafamento, de
+atulhamento! Julho escaldava: e os brocados, as alcatifas, tantos mveis
+rolios e fofos, todos os seus metais e todos os seus livros, to
+espessamente o oprimiam, que escancarava sem cessar as janelas para
+prolongar o espao, a claridade, a frescura. Mas era ento a poeira,
+suja e acre, rolada em bafos mornos, que o enfurecia:
+
+--Oh, este p da Cidade!
+
+--Mas, oh Jacinto, por que no vamos para Fontainebleau, ou para
+Montmorency, ou...
+
+--P'ra o campo? O qu! P'ra o campo?!
+
+E na sua face enrugada, atravs deste berro, lampejava sempre tanta
+indignao, que eu curvava os ombros, humilde, no arrependimento de ter
+afrontosamente ultrajado o Prncipe que tanto amava. Desventurado
+Prncipe! Com o seu dourado cigarro de Yaka a fumegar, errava ento pelas
+salas, lenta e murchamente, como quem vaga em terra alheia sem afeies
+e sem ocupaes. Esses desafeioados e desocupados passos
+monotonamente o traziam ao seu centro, ao gabinete verde, Biblioteca
+de bano, onde acumulara Civilizao nas mximas propores para gozar
+nas mximas propores a delcia de viver. Espalhava em torno um olhar
+farto. Nenhuma curiosidade ou interesse lhe solicitavam as mos,
+enterradas nas algibeiras das pantalonas de seda, numa inrcia de
+derrota. Anulado, bocejava com descorooada moleza. E nada mais
+instrutivo e doloroso do que este supremo homem do sculo XIX, no meio
+de todos os aparelhos reforadores dos seus rgos, e de todos os fios
+que disciplinavam ao seu servio as Foras Universais, e dos seus trinta
+mil volumes repletos do saber dos sculos--estacando, com as mos
+derrotadas no fundo das algibeiras, e exprimindo, na face e na indeciso
+mole de um bocejo, o embarao de viver!
+
+
+
+
+VI
+
+
+Todas as tardes, cultivando uma dessas intimidades que entre tudo o que
+cansa jamais cansam, Jacinto, s quatro horas, com regularidade devota,
+visitava Madame d'Oriol:--porque essa flor de Parisianismo permanecera
+em Paris, mesmo depois do Grand-Prix, a desbotar na calma e no cisco da
+Cidade. Numa dessas tardes, porm, o Telefone, ansiosamente repicado,
+avisou Jacinto de que a sua doce amiga jantava em Enghien com os
+Trves. (Esses senhores gozavam o seu Vero beira do lago, numa casa
+toda branca e vestida de rosinhas brancas que pertencia a Efraim).
+
+Era um domingo silencioso, enevoado e macio, convidando s
+voluptuosidades da melancolia. E eu (no interesse da minha alma) sugeri
+a Jacinto que subssemos Baslica do _Sacr-Coeur_, em construo
+nos altos de Montmartre.
+
+-- uma seca, Z Fernandes...
+
+--Com mil demnios! Eu nunca vi a Baslica...
+
+--Bem, bem! Vamos Baslica, homem fatal de Noronha e Sande!
+
+E por fim logo que comemos a penetrar, para alm de S. Vicente de
+Paula, em bairros estreitos e ngremes, de uma quietao de provncia,
+com muros velhos fechando quintalejos rsticos, mulheres despenteadas
+cosendo soleira das portas, carriolas desatreladas descansando diante
+das tascas, galinhas soltas picando o lixo, cueiros molhados secando
+em canas--o meu fastidioso camarada sorriu quela liberdade e singeleza
+das coisas.
+
+A vitria parou em frente larga rua de escadarias que trepa, cortando
+vielazinhas campestres, at esplanada, onde, envolta em andaimes, se
+ergue a Baslica imensa. Em cada patamar barracas de arraial devoto,
+forradas de paninho vermelho, transbordavam de Imagens, Bentinhos,
+Crucifixos, Coraes de Jesus bordados a retrs, claros molhos de
+Rosrios. Pelos cantos, velhas agachadas resmungavam a Ave-Maria. Dois
+padres desciam, tomando risonhamente uma pitada. Um sino lento tilintava
+na doura cinzenta da tarde. E Jacinto murmurou, com agrado:
+
+-- curioso!
+
+Mas a Baslica em cima no nos interessou, abafada em tapumes e
+andaimes, toda branca e seca, de pedra muito nova, ainda sem alma. E
+Jacinto, por um impulso bem Jacntico, caminhou gulosamente para a
+borda do terrao, a contemplar Paris. Sob o cu cinzento, na plancie
+cinzenta, a Cidade jazia, toda cinzenta, como uma vasta e grossa camada
+de calia e telha. E, na sua imobilidade e na sua mudez, algum rolo de
+fumo, mais tnue e ralo que o fumear de um escombro mal apagado, era todo
+o vestgio visvel da sua vida magnfica.
+
+Ento chasqueei risonhamente o meu Prncipe. A estava pois a Cidade,
+augusta criao da Humanidade! Ei-la a, belo Jacinto! Sobre a crosta
+cinzenta da Terra--uma camada de calia, apenas mais cinzenta! No
+entanto ainda momentos antes a deixramos prodigiosamente viva, cheia
+de um povo forte, com todos os seus poderosos rgos funcionando,
+abarrotada de riqueza, resplandecente de sapincia, na triunfal
+plenitude do seu orgulho, como Rainha do Mundo coroada de Graa. E agora
+eu e o belo Jacinto trepvamos a uma colina, espreitvamos,
+escutvamos--e de toda a estridente e radiante Civilizao da Cidade no
+percebamos nem um rumor nem um lampejo! E o 202, o soberbo 202, com os
+seus arames, os seus aparelhos, a pompa da sua Mecnica, os seus
+trinta mil livros? Sumido, esvado na confuso de telha e cinza! Para
+este esvaecimento pois da obra humana, mal ela se contempla de cem
+metros de altura, arqueja o obreiro humano em to angustioso esforo?
+Hein, Jacinto?... Onde esto os teus Armazns servidos por trs mil
+caixeiros? E os Bancos em que retine o ouro universal? E as Bibliotecas
+atulhadas com o saber dos sculos? Tudo se fundiu numa ndoa parda que
+suja a Terra. Aos olhos piscos de um Z Fernandes, logo que ele suba,
+fumando o seu cigarro, a uma arredada colina--a sublime edificao dos
+Tempos no mais que um silencioso monturo da espessura e da cor do p
+final. O que ser ento aos olhos de Deus!
+
+E ante estes clamores, lanados com afvel malcia para espicaar o meu
+Prncipe, ele murmurou, pensativo:
+
+--Sim, talvez tudo uma iluso... E a Cidade a maior iluso!
+
+To facilmente vitorioso redobrei de facndia. Certamente, meu
+Prncipe, uma Iluso! E a mais amarga, por que o Homem pensa ter na
+Cidade a base de toda a sua grandeza e s nela tem a fonte de toda a
+sua misria. V, Jacinto! Na Cidade perdeu ele a fora e beleza
+harmoniosa do corpo, e se tornou esse ser ressequido e escanifrado ou
+obeso e afogado em unto, de ossos moles como trapos, de nervos trmulos
+como arames, com cangalhas, com chins, com dentaduras de chumbo, sem
+sangue, sem febra, sem vio, torto, corcunda--esse ser em que Deus,
+espantado, mal pode reconhecer o seu esbelto e rijo e nobre Ado! Na
+Cidade findou a sua liberdade moral: cada manh ela lhe impe uma
+necessidade, e cada necessidade o arremessa para uma dependncia: pobre
+e subalterno, a sua vida um constante solicitar, adular, vergar,
+rastejar, aturar; rico e superior como um Jacinto, a Sociedade logo o
+enreda em tradies, preceitos, etiquetas, cerimnias, praxes, ritos,
+servios mais disciplinares que os de um crcere ou de um quartel... A
+sua tranquilidade (bem to alto que Deus com ele recompensa os Santos)
+onde est, meu Jacinto? Sumida para sempre, nessa batalha desesperada
+pelo po, ou pela fama, ou pelo poder, ou pelo gozo, ou pela fugidia
+rodela de ouro! Alegria como a haver na Cidade para esses milhes de
+seres que tumultuam na arquejante ocupao de _desejar_--e que, nunca
+fartando o desejo, incessantemente padecem de desiluso, desesperana
+ou derrota? Os sentimentos mais genuinamente humanos logo na Cidade se
+desumanizam! V, meu Jacinto! So como luzes que o spero vento do
+viver social no deixa arder com serenidade e limpidez; e aqui abala e
+faz tremer; e alm brutamente apaga; e adiante obriga a flamejar com
+desnaturada violncia. As amizades nunca passam de alianas que o
+interesse, na hora inquieta da defesa ou na hora sfrega do assalto, ata
+apressadamente com um cordel apressado, e que estalam ao menor embate da
+rivalidade ou do orgulho. E o Amor, na Cidade, meu gentil Jacinto?
+Considera esses vastos armazns com espelhos, onde a nobre carne de Eva
+se vende, tarifada ao arrtel, como a de vaca! Contempla esse velho
+Deus do Himeneu, que circula trazendo em vez do ondeante facho da Paixo
+a apertada carteira do Dote! Espreita essa turba que foge dos largos
+caminhos assoalhados em que os Faunos amam as Ninfas na boa lei
+natural, e busca tristemente os recantos lbregos de Sodoma ou de
+Lesbos!... Mas o que a Cidade mais deteriora no homem a Inteligncia,
+porque ou lha arregimenta dentro da banalidade ou lha empurra para a
+extravagncia. Nesta densa e pairante camada de Ideias e Frmulas que
+constitui a atmosfera mental das Cidades, o homem que a respira, nela
+envolto, s pensa todos os pensamentos j pensados, s exprime todas as
+expresses j exprimidas:--ou ento, para se destacar na pardacenta e
+chata Rotina e trepar ao frgil andaime da glorola, inventa num
+gemente esforo, inchando o crnio, uma novidade disforme que espante e
+que detenha a multido como um mostrengo numa Feira. Todos,
+intelectualmente, so carneiros, trilhando o mesmo trilho, balando o
+mesmo balido, com o focinho pendido para a poeira onde pisam, em fila,
+as pegadas pisadas;--e alguns so macacos, saltando no topo de mastros
+vistosos, com esgares e cabriolas. Assim, meu Jacinto, na Cidade,
+nesta criao to antinatural onde o solo de pau e feltro e
+alcatro, e o carvo tapa o cu, e a gente vive acamada nos prdios como
+o paninho nas lojas, e a claridade vem pelos canos, e as mentiras se
+murmuram atravs de arames--o homem aparece como uma criatura
+anti-humana, sem beleza, sem fora, sem liberdade, sem riso, sem
+sentimento, e trazendo em si um esprito que passivo como um escravo
+ou impudente como um histrio... E aqui tem o belo Jacinto o que a
+bela Cidade!
+
+E ante estas encanecidas e venerveis invectivas, retumbadas
+pontualmente por todos os Moralistas buclicos, desde Hesodo, atravs
+dos sculos--o meu Prncipe vergou a nuca dcil, como se elas
+brotassem, inesperadas e frescas, de uma Revelao superior, naqueles
+cimos de Montmartre:
+
+--Sim, com efeito, a Cidade... talvez uma iluso perversa!
+
+Insisti logo, com abundncia, puxando os punhos, saboreando o meu fcil
+filosofar. E se ao menos essa iluso da Cidade tornasse feliz a
+totalidade dos seres, que a mantm... Mas no! S uma estreita e
+reluzente casta goza na Cidade os gozos especiais que ela cria. O
+resto, a escura, imensa plebe, s nela sofre, e com sofrimentos
+especiais que s nela existem! Deste terrao, junto a esta rica
+Baslica consagrada ao Corao que amou o Pobre e por ele sangrou, bem
+avistamos ns o lbrego casario onde a plebe se curva sob esse antigo
+oprbrio de que nem Religies, nem Filosofias, nem Morais, nem a sua
+prpria fora brutal a podero jamais libertar! A jaz, espalhada pela
+Cidade, como esterco vil que fecunda a Cidade. Os sculos rolam; e
+sempre imutveis farrapos lhe cobrem o corpo, e sempre debaixo deles,
+atravs do longo dia, os homens labutaro e as mulheres choraro. E com
+este labor e este pranto dos pobres, meu Prncipe, se edifica a
+abundncia da Cidade! Ei-la agora coberta de moradas em que eles se no
+abrigam; armazenada de estofos, com que eles se no agasalham;
+abarrotada de alimentos, com que eles se no saciam! Para eles s a
+neve, quando a neve cai, e entorpece e sepulta as criancinhas aninhadas
+pelos bancos das praas ou sob os arcos das pontes de Paris... A neve
+cai, muda e branca na treva: as criancinhas gelam nos seus trapos: e a
+polcia, em torno, ronda atenta para que no seja perturbado o tpido
+sono daqueles que amam a neve, para patinar nos lagos do Bosque de
+Bolonha com pelias de trs mil francos. Mas qu, meu Jacinto! a tua
+Civilizao reclama insaciavelmente regalos e pompas, que s obter,
+nesta amarga desarmonia social, se o Capital der ao Trabalho, por cada
+arquejante esforo, uma migalha ratinhada. Irremedivel , pois, que
+incessantemente a plebe sirva, a plebe pene! A sua esfalfada misria a
+condio do esplendor sereno da Cidade. Se nas suas tigelas fumegasse a
+justa rao de caldo--no poderia aparecer nas baixelas de prata a
+luxuosa poro de _foie-gras_ e tbaras que so o orgulho da
+Civilizao. H andrajos em trapeiras--para que as belas Madamas
+d'Oriol, resplandecentes de sedas e rendas, subam, em doce ondulao, a
+escadaria da pera. H mos regeladas que se estendem, e beios sumidos
+que agradecem o dom magnnimo de um _sou_--para que os Efrains tenham
+dez milhes no Banco de Frana, se aqueam chama rica da lenha
+aromtica, e surtam de colares de safiras as suas concubinas, netas
+dos Duques de Atenas. E um povo chora de fome, e da fome dos seus
+pequeninos--para que os Jacintos, em Janeiro, debiquem, bocejando,
+sobre pratos de Saxe, morangos gelados em Champanhe e avivados de um fio
+de ter!
+
+--E eu comi dos teus morangos, Jacinto! Miserveis, tu e eu!
+
+Ele murmurou, desolado:
+
+-- horrvel, comemos desses morangos... E talvez por uma iluso!
+
+Pensativamente deixou a borda do terrao, como se a presena da Cidade,
+estendida na plancie, fosse escandalosa. E caminhmos devagar, sob a
+moleza cinzenta da tarde, filosofando--considerando que para esta
+iniquidade no havia cura humana, trazida pelo esforo humano. Ah, os
+Efrains, os Trves, os vorazes e sombrios tubares do mar humano, s
+abandonaro ou afrouxaro a explorao das Plebes, se uma influncia
+celeste, por milagre novo, mais alto que os milagres velhos, lhes
+converter as almas! O burgus triunfa, muito forte, todo endurecido no
+pecado--e contra ele so impotentes os prantos dos Humanitrios, os
+raciocnios dos Lgicos, as bombas dos Anarquistas. Para amolecer to
+duro granito s uma doura divina. Eis pois esperana da terra novamente
+posta num Messias!... Um decerto desceu outrora dos grandes Cus; e,
+para mostrar bem que mandado trazia, penetrou mansamente no mundo pela
+porta de um curral. Mas a sua passagem entre os homens foi to curta! Um
+meigo sermo numa montanha, ao fim de uma tarde meiga; uma repreenso
+moderada aos Fariseus que ento redigiam o _Boulevard_; algumas
+vergastadas nos Efrains vendilhes; e logo, atravs da porta da morte,
+a fuga radiosa para o Paraso! Esse adorvel filho de Deus teve
+demasiada pressa em recolher a casa de seu Pai! E os homens a quem ele
+incumbira a continuao da sua obra, envolvidos logo pelas influncias
+dos Efrains, dos Trves, da gente do _Boulevard_, bem depressa
+esqueceram a lio da Montanha e do lago de Tiberade--e eis que por seu
+turno revestem a prpura, e so Bispos, e so Papas, e se aliam
+opresso, e reinam com ela, e edificam a durao do seu Reino sobre a
+misria dos sem-po e dos sem-lar! Assim tem de ser recomeada a obra da
+Redeno. Jesus, ou Guatama, ou Cristna, ou outro desses filhos que
+Deus por vezes escolhe no seio de uma Virgem, nos quietos vergis da
+sia, dever novamente descer terra de servido. Vir ele, o
+desejado? Porventura j algum grave rei do Oriente despertou, e olhou a
+estrela, e tomou a mirra nas suas mos reais, e montou pensativamente
+sobre o seu dromedrio? J por esses arredores da dura Cidade, de noite,
+enquanto Caifs e Madalena ceiam lagosta no Paillard, andou um Anjo,
+atento, num voo lento, escolhendo um curral? J de longe, sem moo que
+os tanja, na gostosa pressa de um divino encontro, vem trotando a vaca,
+trotando o burrinho?
+
+--Tu sabes, Jacinto?
+
+No, Jacinto no sabia--e queria acender o charuto. Forneci um
+fsforo ao meu Prncipe. Ainda rondmos no terrao, espalhando pelo ar
+outras ideias slidas que no ar se desfaziam. Depois penetrvamos na
+Baslica--quando um Sacristo ndio, de barrete de veludo, cerrou
+fortemente a porta, e um Padre passou, enterrando na algibeira, com um
+cansado gesto final e como para sempre, o seu velho Brevirio.
+
+--Estou com uma sede, Jacinto... Foi esta tremenda Filosofia!
+
+Descemos a escadaria, armada em arraial devoto. O meu pensativo camarada
+comprou uma imagem da Baslica. E saltvamos para a vitria, quando
+algum gritou rijamente, numa surpresa:
+
+--Eh Jacinto!
+
+O meu Prncipe abriu os braos, tambm espantado:
+
+--Eh Maurcio!
+
+E, num alvoroo, atravessou a rua, para um caf, onde, sob o toldo de
+riscadinho, um robusto homem, de barba em bico, remexia o seu absinto,
+com o chapu de palha descado na nuca, a quinzena solta sobre a camisa
+de seda, sem gravata, como se descansasse num banco, entre as sombras
+do seu jardim.
+
+E ambos, apertando as mos, se admiravam daquele encontro, num
+domingo de Vero, sobre as alturas de Montmartre.
+
+--Oh! eu estou aqui no meu bairro! exclamava alegremente Maurcio. Em
+famlia, em chinelos... H trs meses que subi para estes cimos da
+Verdade... Mas tu na Santa Colina, homem profano da plancie e das ruas
+de Israel!
+
+O meu Prncipe mostrou o seu Z Fernandes:
+
+--Com este amigo, em peregrinao Baslica... O meu amigo Fernandes
+Lorena... Maurcio de Mayolle, velho camarada.
+
+Mr. de Mayolle (que, pela face larga e nariz nobremente grosso, lembrava
+Francisco de Valois, Rei de Frana) ergueu o seu chapu de palha. E
+empurrava uma cadeira, insistia que nos acomodssemos para um absinto
+ou para um bock.
+
+--Toma um bock, Z Fernandes! lembrou Jacinto. Tu estavas a ganir com
+sede!
+
+Corri lentamente a lngua sobre os beios, mais secos que pergaminhos:
+
+--Estou a guardar esta sedezinha para logo, para o jantar, com um
+vinhozinho gelado!
+
+Maurcio saudou, com silenciosa admirao, esta minha avisada malcia. E
+imediatamente, para o meu Prncipe:
+
+--H trs anos que te no vejo, Jacinto... Como tem sido possvel,
+neste Paris que uma aldeola e que tu atravancas?
+
+--A vida, Maurcio, a espalhada vida... Com efeito! H trs anos,
+desde a casa dos Lamotte-Orcel. Tu ainda visitas esse santurio?
+
+Maurcio atirou um gesto desdenhoso e largo, que sacudia um mundo:
+
+--Oh! H mais de um ano que me separei dessa bicharia hertica... Uma
+turba indisciplinada, meu Jacinto! Nenhuma fixidez, um diletantismo
+estonteado, carncia completa e cmica de toda a base experimental...
+Quando tu ias aos Lamotte-Orcel, e Parola do 37, e _Cerveja Ideal_,
+o que reinava?...
+
+Jacinto catou lentamente as suas recordaes por entre os plos do
+bigode:
+
+--Eu sei!... Reinava Wagner e a Mitologia dica, e o Raganarock, e as
+Nornas... Muito Pr-Rafaelismo tambm, e Montagna, e Fra Angelico... Em
+moral, o Renanismo.
+
+Maurcio sacudia os ombros. Oh, tudo isso pertencia a um passado
+arcaico, quase lacustre! Quando Madame de Lamotte-Orcel remobilara a
+sala com veludos Morris, grossas alcachofras sobre tons de aafro, j o
+Renanismo passara, to esquecido como o Cartesianismo...
+
+--Tu ainda s do tempo do culto do _Eu_?
+
+O meu Prncipe suspirou risonhamente:
+
+--Ainda o cultivei.
+
+--Pois bem! Logo depois foi o Hartmanismo, o Inconsciente. Depois o
+Nietzismo, o Feudalismo espiritual... Depois grassou o Tolstosmo, um
+furor imenso de renunciamento neo-cenobtico. Ainda me lembro de um
+jantar em que apareceu um mostrengo de um eslavo, de guedelha srdida,
+que atirava olhos medonhos para o decote da pobre condessa de Arche, e
+que grunhia com o dedo espetado:--Busquemos a luz, muito por baixo, no
+p da terra!--E sobremesa bebemos delcia da humildade e do
+trabalho servil, com aquele Champanhe Marceaux granitado que a Matilde
+dava nos grandes dias em copos da forma do San-Gral! Depois veio
+Emersonismo... Mas a praga cruel foi Ibsenismo! Enfim, meu filho, uma
+Babel de ticas e Estticas. Paris parecia demente. J havia uns
+desgarrados que tendiam para o Luciferismo. E amiguinhas nossas,
+coitadas, iam descambando para o Falismo, uma moxinifada
+mstico-brejeira, pregada por aquele pobre La Carte que depois se fez
+Monge Branco, e que anda no Deserto... Um horror! E uma tarde, de
+repente, toda esta massa se precipita com nsia para o Ruskinismo!
+
+Eu, agarrado bengala, bem fincada no cho, sentia como um vendaval que
+redemoinhava, me torcia o crnio! E at Jacinto balbuciou, esgazeado:
+
+--O Ruskinismo?
+
+--Sim, o velho Ruskin,... John Ruskin!
+
+O meu ditoso Prncipe compreendeu:
+
+--Ah, Ruskin!... _As sete lmpadas da Arquitectura_, _A Coroa de
+Oliveira Brava_... o culto da Beleza.
+
+--Sim! O culto da Beleza, confirmou Maurcio. Mas a esse tempo eu,
+enojado, j descera de todas essas nuvens vs... Pisava um cho mais
+seguro, mais frtil.
+
+Deu um sorvo lento ao absinto, cerrando as plpebras. Jacinto
+esperava, com o seu fino nariz dilatado, como para respirar a Flor de
+Novidade que ia desabrochar:
+
+--E ento? ento?...
+
+Mas o outro murmurou, dispersamente, por entre reticncias em que se
+velava:
+
+--Vim para Montmartre... Tenho aqui um amigo, um homem de gnio, que
+percorreu toda a ndia... Viveu com os Toddas, esteve nos mosteiros de
+Garma-Khian e de Dashi-Lumbo, e estudou com Gegen-Chutu no retiro santo
+de Urga... Gegen-Chutu foi a dcima sexta encarnao de Guatama, e era
+portanto um Boddi-sattva... Trabalhamos, procuramos... No so vises.
+Mas factos, experincias bem antigas, que vm talvez desde os tempos de
+Cristna...
+
+Atravs destes nomes, que exalavam um perfume triste de vetustos
+ritos, arredara a cadeira. E de p, deixando cair sobre a mesa,
+distraidamente, para pagar o absinto, moedas de prata e moedas de
+cobre, murmurava com os olhos descansados em Jacinto, mas perdidos
+noutra viso:
+
+--Por fim tudo se reduz ao supremo desenvolvimento da Vontade dentro da
+suprema pureza da Vida. toda a cincia e fora dos grandes mestres
+Hindus... Mas a pureza absoluta da vida, eis a luta, eis o obstculo!
+No basta mesmo o Deserto, nem o bosque do mais velho templo no alto
+Tibete... Ainda assim, meu Jacinto, j obtivemos resultados bem
+estranhos. Sabes as experincias de Tyndall, com as chamas
+sensitivas... O pobre qumico, para demonstrar as vibraes do som,
+tocou quase s portas da verdade esotrica. Mas qu! homem de cincia,
+portanto homem de estupidez, ficou aqum, entre as suas placas e as suas
+retortas! Ns fomos alm. Verificmos as _ondulaes da Vontade_! Diante
+de ns, pela expanso da energia do meu companheiro, e em cadncia com o
+seu mandado, uma chama, a trs metros, ondulou, rastejou, despediu
+lnguas ardentes, lambeu uma alta parede, rugiu furiosa e negra,
+resplandeceu direita e silenciosa, e bruscamente abatida em cinza
+morreu!
+
+E o estranho homem, com o chapu para a nuca, ficou imvel, de braos
+abertos e os olhares esgazeados, como no renovado assombro e no transe
+daquele prodgio. Depois, recaindo no seu modo fcil e sereno,
+acendendo de vagar um cigarro:
+
+--Uma destas manhs, Jacinto, apareo no 202, para almoar contigo, e
+levo o meu amigo. Ele s come arroz, uma pouca de salada, e fruta. E
+conversamos... Tu tinhas um exemplar do _Sepher-Zerijah_ e outro do
+_Targum d'Onkelus_. Preciso folhear esses livros.
+
+Apertou a mo do meu Prncipe, saudou este assombrado Z Fernandes, e
+serenamente seguiu pela quieta rua, com o chapu de palha para a nuca,
+as mos enterradas nas algibeiras, como um homem natural entre coisas
+naturais.
+
+--Oh Jacinto! Quem este bruxo? Conta!... Quem ele, santssimo nome
+de Deus?
+
+Recostado na vitria, ajeitando o vinco das calas, o meu Prncipe
+contou, concisamente. Era um nobre e leal rapaz, muito rico, muito
+inteligente, da antiga casa soberana de Mayolle, descendente dos Duques
+de Septimnia... E murmurou, atravs do costumado bocejo:
+
+--O desenvolvimento supremo da vontade!... Teosofia, Budismo
+esotrico... Aspiraes, decepes... J experimentei... Uma maada!
+
+Atravessamos, calados, o rumor de Paris, sob a moleza abafada do
+crepsculo de Vero, para jantar no Bosque, no Pavilho de Armenonville,
+onde os Tziganes, avistando Jacinto, tocaram o _Hino da Carta_ com
+paixo, com langor, numa cadncia de _czarda_ dolorosa e spera.
+
+E eu, desdobrando regaladamente o guardanapo:
+
+--Pois venha agora para a minha rica sede esse vinhozinho gelado!
+Grandemente o mereo, caramba, que superiormente filosofei!... E creio
+que estabeleci definitivamente no esprito do Sr. D. Jacinto o salutar
+horror da cidade!
+
+O meu Prncipe percorria, catando o bigode, a Lista dos Vinhos, enquanto
+o Copeiro, esperava com pensativa reverncia:
+
+--Mande gelar duas garrafas de champanhe S.^t Marceaux... Mas antes, um
+Barsac velho, apenas refrescado... gua de Evian... No, de Bussang!
+Bem, d'Evian e de Bussang! E, para comear, um bock.
+
+Depois, bocejando, desabotoando lentamente a sobrecasaca cinzenta:
+
+--Pois estou com vontade de construir uma casa nos cimos de Montmartre,
+com um miradouro no alto, todo de vidro e ferro, para descansar de tarde
+e dominar a Cidade...
+
+
+
+
+VII
+
+
+Julho findara com uma chuva refrescante e consoladora:--e eu pensava em
+realizar finalmente a minha romagem s cidades da Europa, sempre
+retardada, atravs da Primavera, pelas surpresas do Mundo e da Carne.
+Mas, de repente, Jacinto comeou a rogar e a reclamar que o seu Z
+Fernandes o acompanhasse, todas as tardes, a casa de Madame d'Oriol! E
+eu compreendi que o meu Prncipe ( maneira do divino Aquiles, que,
+sob a tenda, e junto da branca, inspida e dcil Briseis, nunca
+dispensava Ptroclo) desejava ter, no retiro do Amor, a presena, o
+conforto e o socorro da Amizade. Pobre Jacinto! Logo pela manh
+combinava pelo telefone com Madame d'Oriol essa hora de quietao e
+doura. E assim encontrvamos sempre a superfina Dama prevenida e
+solitria naquela sala da rua de Lisbonne, onde Jacinto e eu mal
+cabamos, sufocvamos na confuso, entre os cestos de flores, e os
+ouros rocalhados, e os monstros do Japo, e a galante fragilidade dos
+Saxes, e as peles de feras estiradas aos ps de sofs adormecedores, e
+os biombos de Aubusson formando alcovas favorveis e lnguidas...
+Aninhada numa cadeira de bambu lacada de branco, entre almofadas
+aromatizadas de verbena da ndia, com um romance pousado no regao, ela
+esperava o seu amigo, numa certa indolncia passiva e mansa que me
+lembrava sempre o Oriente e um Harm. Mas, pelas frescas sedinhas
+Pompadour, parecia tambm uma marquesinha de Versalhes cansada do grande
+sculo; ou ento, com brocados sombrios e largos cintos cravejados, era
+como uma veneziana, preparada para um Doge. A minha intruso, na
+intimidade daquelas tardes, no a contrariava--antes lhe trazia um
+vassalo novo, com dois olhos novos para a contemplar. Eu era j o seu
+_cher Fernandez_!
+
+E apenas descerrava os lbios avivados de vermelho, semelhantes a uma
+ferida fresca, e comeava a chalrar--logo nos envolvia o burburinho e a
+murmurao de Paris. Ela s sabia chalrar sobre a sua pessoa que era o
+resumo da sua Classe, e sobre a sua existncia que era o resumo do seu
+Paris:--e a sua existncia, desde casada, consistira em ornar com
+suprema cincia o seu lindo corpo; entrar com perfeio numa sala e
+irradiar; remexer em estofos e conferenciar pensativamente com o grande
+costureiro; rolar pelo Bois pousada na sua vitria como uma imagem de
+cera; decotar e branquear o colo; debicar uma perna de galinhola em
+mesas de luxo; fender turbas ricas em bailes espessos; adormecer com a
+vaidade esfalfada; percorrer de manh, tomando chocolate, os Echos e
+as Festas do _Figaro_; e de vez em quando murmurar para o marido--Ah,
+s tu?... Alm disso, ao lusco-fusco, num sof, alguns certos
+suspiros, entre os braos de algum a quem era constante. Ao meu
+Prncipe, nesse ano, pertencia o sof. E todos estes deveres de
+Cidade e de Casta os cumpria sorrindo. Tanto sorrira, desde casada, que
+j duas pregas lhe vincavam os cantos dos beios, indelevelmente. Mas
+nem na alma, nem na pele, mostrava outras mculas de fadiga. A sua
+Agenda de Visitas continha mil e trezentos nomes, todos do Nobilirio.
+Atravs, porm, desta fulgurante sociabilidade arranjara no crebro
+(onde de certo penetrara o p de arroz que desde o colgio acamava na
+testa) algumas Ideias Gerais. Em Poltica era pelos Prncipes; e todos os
+outros horrores, a Repblica, o Socialismo, a Democracia que se no
+lava, os sacudia risonhamente, com um bater de leque. Na Semana Santa
+juntava s rendas do chapu a Coroa amarga de espinhos--por serem esses,
+para a gente bem-nascida, dias de penitncia e dor. E, diante de todo o
+Livro ou de todo o Quadro, sentia a emoo e formulava finamente o
+juzo, que no seu Mundo, e nessa Semana, fosse elegante formular e
+sentir. Tinha trinta anos. Nunca se embaraara nos tormentos de uma
+paixo. Marcava, com rgida regularidade, todas as suas despesas num
+Livro de Contas encadernado em pelcia verde-mar. A sua religio ntima
+(e mais genuna do que a outra, que a levava todos os domingos missa
+de S. Philippe du Roule) era a Ordem. No Inverno, logo que na amvel
+cidade comeavam a morrer de frio, debaixo das pontes, criancinhas sem
+abrigo--ela preparava com comovido cuidado os seus vestidos de
+patinagem. E preparava tambm os de Caridade--porque era boa, e
+concorria para Bazares, Concertos e Tmbolas, quando fossem patrocinados
+pelas Duquesas do seu rancho. Depois, na Primavera, muito
+metodicamente, regateando, vendia a uma adela os vestidos e as capas de
+Inverno. Paris admirava nela uma suprema flor de Parisianismo.
+
+Pois respirando esta macia e fina flor passmos ns as tardes desse
+Julho enquanto as outras flores pendiam e murchavam na calma e no p.
+Mas, na intimidade do seu perfume, Jacinto no parecia encontrar esse
+contentamento de alma, que entre tudo que cansa jamais cansa. Era j com
+a paciente lentido com que se sobem todos os Calvrios, os mais bem
+tapetados, que ele subia a escadaria de Madame d'Oriol, to suave e
+orlada de to frescas palmeiras. Quando a apetitosa criatura, com
+dedicao, para o entreter, desdobrava a sua vivacidade como um pavo
+desdobra a cauda, o meu pobre Prncipe puxava os plos do bigode
+murcho, na murcha postura de quem, por uma manh de Maio, enquanto os
+melros cantam nas sebes, assiste, numa igreja negra, a um responso
+fnebre por um Prncipe. E no beijo que ele chuchurreava sobre a mo da
+sua doce amiga, para se despedir, havia sempre alacridade e alvio.
+
+Mas ao outro dia, ao comear da tarde, depois de errar atravs da
+Biblioteca e do Gabinete, puxando sem curiosidade a tira do telgrafo,
+atirando algum recado mole pelo telefone, espalhando o olhar
+desalentado sobre o saber imenso dos trinta mil livros, remexendo a
+colina dos Jornais e Revistas, terminava por me chamar, j com a
+preguia triste da faanha a que se impelia:
+
+--Vamos a casa de Madame d'Oriol, Z Fernandes? Eu tinha marcadas para
+hoje seis ou sete coisas, mas no posso, uma seca! Vamos a casa de
+Madame d'Oriol... Ao menos l, s vezes, h um bocado de frescura e paz.
+
+E foi numa dessas tardes, em que o meu Prncipe assim procurava
+desesperadamente um bocado de frescura e paz, que encontramos, ao meio
+da escadaria suave, entre as palmeiras, o marido de Madame d'Oriol. Eu
+j o conhecia--porque Jacinto mo mostrara uma noite, no Grand Caf,
+ceando com danarinas do _Moulin Rouge_. Era um moo gordalhufo,
+indolente, de uma brancura crua de toucinho, com uma calvcie j sria e
+j lustrosa, constantemente acariciada pelos seus gordos dedos
+carregados de anis. Nessa tarde, porm, vinha vermelho, todo
+emocionado, calando as luvas com clera. Estacou diante de Jacinto--e
+sem mesmo lhe apertar a mo, atirando um gesto para o patamar:
+
+--Visita l acima? Vai achar a Joana em pssima disposio... Tivemos
+uma cena, e tremenda.
+
+Deu outro puxo desesperado luva cor de palha, j esgaada:
+
+--Estamos separados, cada um vive como lhe apetece, excelente! Mas
+em tudo h medida e forma... Ela tem o meu nome, no posso consentir
+que em Paris, com conhecimento de todo o Paris, seja a amante do
+trintanrio. Amantes na nossa roda, v! Um lacaio, no!... Se quer
+dormir com os criados que emigre para o fundo da provncia, para a sua
+casa de Corbelle. E l at com os animais!... Foi o que eu lhe disse!
+Ficou como uma fera.
+
+Sacudiu ento a mo do Jacinto que era da sua roda--rebolou pela
+escadaria florida e nobre. O meu Prncipe, imvel nos degraus, de face
+pendida, cofiava lentamente os fios pendidos do bigode. Depois, olhando
+para mim, como um ser saturado de tdio e em quem nenhum tdio novo pode
+caber:
+
+--J agora subamos, sim?
+
+ * * * * *
+
+Parti ento, com muita alegria, para a minha apetecida romagem s
+Cidades da Europa.
+
+Ia viajar!... Viajei. Trinta e quatro vezes, pressa, bufando, com todo
+o sangue na face, desfiz e refiz a mala. Onze vezes passei o dia num
+vago, envolto em poeirada e fumo, sufocado, a arquejar, a escorrer de
+suor, saltando em cada estao para sorver desesperadamente limonadas
+mornas que me escangalhavam a entranha. Catorze vezes subi
+derreadamente, atrs de um criado, a escadaria desconhecida de um Hotel;
+e espalhei o olhar incerto por um quarto desconhecido; e estranhei uma
+cama desconhecida, de onde me erguia, estremunhado, para pedir em lnguas
+desconhecidas um caf com leite que me sabia a fava, um banho de tina
+que me cheirava a lodo. Oito vezes travei bulhas abominveis na rua com
+cocheiros que me espoliavam. Perdi uma chapeleira, quinze lenos, trs
+ceroulas, e duas botas, uma branca, outra envernizada, ambas do p
+direito. Em mais de trinta mesas-redondas esperei tristonhamente que me
+chegasse o _boeuf--la-mode_, j frio, com molho coalhado--e que o
+copeiro me trouxesse a garrafa de Bordus que eu provava e repelia com
+desditosa carantonha. Percorri, na fresca penumbra dos granitos e dos
+mrmores, com p respeitoso e abafado, vinte e nove Catedrais. Trilhei
+molemente, com uma dor surda na nuca, em catorze museus, cento e
+quarenta salas revestidas at aos tectos de Cristos, heris, santos,
+ninfas, princesas, batalhas, arquitecturas, verduras, nudezas, sombrias
+manchas de betume, tristezas das formas imveis!... E o dia mais doce
+foi quando em Veneza, onde chovia desabaladamente, encontrei um velho
+ingls de penca flamejante que habitara o Porto, conhecera o Ricardo, o
+Jos Duarte, o Visconde do Bom Sucesso, e as Limas da Boavista...
+Gastei seis mil francos. Tinha viajado.
+
+Enfim, numa bendita manh de Outubro, na primeira friagem e nvoa
+de Outono, avistei com enternecido alvoroo as cortinas de seda ainda
+fechadas do meu 202! Afaguei o ombro do Porteiro. No patamar, onde
+encontrei o ar macio e tpido que deixara em Florena, apertei os ossos
+do Grilo excelente:
+
+--E Jacinto?
+
+O digno negro murmurou, de entre os altos, reluzentes colarinhos:
+
+--S. Exc.^a circula... Pesadote, fartote. Entrou tarde do baile da
+Duquesa de Loches. Era o contrato de casamento de Mademoiselle de
+Loches... Ainda tomou antes de se deitar um ch gelado... E disse a
+coar a cabea: Eh! que maada! Eh! que maada!
+
+Depois do banho e do chocolate, s dez horas, consolado e quentinho
+dentro do roupo de veludo, rompi pelo quarto do meu Prncipe, de
+braos abertos e sedentos:
+
+--Oh Jacinto!
+
+--Oh viajante!...
+
+Quando nos estreitmos, fartamente, eu recuei para lhe contemplar a
+face--e nela a alma. Encolhido numa quinzena de pano cor de malva
+orlada de peles de marta, com os plos do bigode murchos, as suas
+duas rugas mais cavadas, uma moleza nos ombros largos, o meu amigo
+parecia j vergado sob o peso e a opresso e o terror do seu dia. Eu
+sorri, para que ele sorrisse:
+
+--Valente Jacinto... Ento como tens vivido?
+
+Ele respondeu, muito serenamente:
+
+--Como um morto.
+
+Forcei uma gargalhada leve, como se o seu mal fosse leve:
+
+--Aborrecidote, hein?
+
+O meu Prncipe lanou, num gesto to vencido, um _oh_ to cansado--que
+eu compadecido de novo o abracei, o estreitei, como para lhe comunicar
+uma parte desta alegria slida e pura que recebi do meu Deus!
+
+ * * * * *
+
+Desde essa manh, Jacinto comeou a mostrar claramente,
+escancaradamente, ao seu Z Fernandes, o tdio de que a existncia o
+saturava. O seu cuidado realmente e o seu esforo consistiram ento em
+sondar e formular esse tdio--na esperana de o vencer logo que lhe
+conhecesse bem a origem e a potncia. E o meu pobre Jacinto reproduziu
+a comdia pouco divertida de um Melanclico que perpetuamente raciocina a
+sua Melancolia! Nesse raciocnio, ele partia sempre do facto
+irrecusvel e macio--que a sua vida especial de Jacinto continha
+todos os interesses e todas as facilidades, possveis no sculo XIX,
+numa vida de homem que no um Gnio, nem um Santo. Com efeito!
+Apesar do apetite embotado por doze anos de Champanhes e molhos ricos
+ele conservava a sua rijeza de pinheiro bravo; na luz da sua
+inteligncia no aparecera nem tremor nem morro; a boa terra de
+Portugal, e algumas Companhias macias, pontualmente lhe forneciam a
+sua doce centena de contos; sempre activas e sempre fiis o cercavam as
+simpatias de uma Cidade inconstante e chasqueadora; o 202 estourava de
+confortos; nenhuma amargura de corao o atormentava;--e todavia era um
+Triste. Porqu?... E daqui saltava, com certeza fulgurante, concluso
+de que a sua tristeza, esse cinzento burel em que a sua alma andava
+amortalhada, no provinham da sua individualidade de Jacinto--mas da
+Vida, do lamentvel, do desastroso facto de Viver! E assim o saudvel,
+intelectual, riqussimo, bem-acolhido Jacinto tombara no Pessimismo.
+
+E um Pessimismo irritado! Porque (segundo afirmava) ele nascera para
+ser to naturalmente optimista como um pardal ou um gato. E, at aos
+doze anos, enquanto fora um bicho superiormente amimado, com a sua
+pele sempre bem coberta, o seu prato sempre bem cheio, nunca sentira
+fadiga, ou melancolia, ou contrariedade, ou pena--e as lgrimas eram
+para ele to incompreensveis que lhe pareciam viciosas. S quando
+crescera, e da animalidade penetrara na humanidade, despontara nele
+esse fermento de tristeza, muito tempo indesenvolvido no tumulto das
+primeiras curiosidades, e que depois alastrara, o invadira todo, se lhe
+tornara consubstancial e como o sangue das suas veias. Sofrer portanto
+era inseparvel de Viver. Sofrimentos diferentes nos destinos
+diferentes da Vida. Na turba dos humanos a angustiada luta pelo po,
+pelo tecto, pelo lume; numa casta, agitada por necessidades mais altas,
+ a amargura das desiluses, o mal da imaginao insatisfeita, o
+orgulho chocando contra obstculo; nele, que tinha os bens todos e
+desejos nenhuns, era o tdio. Misria do Corpo, tormento da Vontade,
+fastio da Inteligncia--eis a Vida! E agora aos trinta e trs anos a
+sua ocupao era bocejar, correr com os dedos desalentados a face
+pendida para nela palpar e apetecer a caveira.
+
+Foi ento que o meu Prncipe comeou a ler apaixonadamente, desde o
+_Eclesiastes_ at Schopenhauer, todos os lricos e todos os tericos
+do Pessimismo. Nestas leituras encontrava a reconfortante comprovao
+de que o seu mal no era mesquinhamente Jacntico--mas grandiosamente
+resultante de uma Lei Universal. J h quatro mil anos, na remota
+Jerusalm, a Vida, mesmo nas suas delcias mais triunfais, se resumia
+em Iluso. J o Rei incomparvel, de sapincia divina, sumo Vencedor,
+sumo Edificador, se enfastiava, bocejava, entre os despojos das suas
+conquistas, e os mrmores novos dos seus Templos, e as suas trs mil
+concubinas, e as Rainhas que subiam do fundo da Etipia para que ele
+as fecundasse e no seu ventre depusesse um Deus! No h nada novo sob o
+sol, e a eterna repetio das coisas a eterna repetio dos males.
+Quanto mais se sabe mais se pena. E o justo como o perverso, nascidos do
+p, em p se tornam. Tudo tende ao p efmero, em Jerusalm e em Paris!
+E ele, obscuro no 202, padecia por ser homem e por viver--como no seu
+trono de ouro, entre os seus quatro lees de ouro, o filho magnfico de
+David.
+
+No se separava ento do _Eclesiastes_. E circulava por Paris trazendo
+dentro do coup Salomo, como irmo de dor, com quem repetia o grito
+desolado que a suma da verdade humana--_Vanitas Vanitatum_! Tudo
+Vaidade! Outras vezes, logo de manh o encontrava estendido no sof,
+num roupo de seda, absorvendo Schopenhauer--enquanto o pedicuro,
+ajoelhado sobre o tapete, lhe polia com respeito e percia as unhas dos
+ps. Ao lado pousava a chvena de Saxe, cheia desse caf de Moca
+enviado por emires do Deserto, que no o contentava nunca, nem pela
+fora, nem pelo aroma. A espaos pousava o livro no peito, resvalava um
+olhar compassivo para o pedicuro, como a procurar que dor o
+torturaria--pois que a todo o viver corresponde um sofrer. Decerto o
+remexer assim, perpetuamente, em ps alheios... E quando o pedicuro se
+erguia, Jacinto abria para ele um sorriso de confraternidade--com um
+adeus, meu amigo que era um adeus, meu irmo!
+
+Esse foi o perodo esplndido e soberbamente divertido do seu tdio.
+Jacinto encontrara enfim na vida uma ocupao grata--maldizer a Vida!
+E para que a pudesse maldizer em todas as suas formas, as mais ricas, as
+mais intelectuais, as mais puras, sobrecarregou a sua vida prpria de
+novo luxo, de interesses novos de esprito, e at de fervores
+humanitrios, e at de curiosidades supernaturais.
+
+O 202, nesse Inverno, refulgiu de magnificncia. Foi ento que ele
+iniciou em Paris, repetindo Heliogbalo, os Festins de Cor contados na
+Histria Augusta: e ofereceu s suas amigas esse sublime jantar cor-de-rosa,
+em que tudo era rseo, as paredes, os mveis, as luzes, as louas,
+os cristais, os gelados, os Champanhes, e at (por uma inveno da
+Alta-Cozinha) os peixes, e as carnes, e os legumes, que os escudeiros
+serviam, empoados de p rosado, com librs da cor da rosa, enquanto do
+tecto, de um velrio de seda rosada, caam ptalas frescas de rosas... A
+Cidade, deslumbrada, clamou--Bravo, Jacinto! E o meu Prncipe, ao
+rematar a festa fulgurante, plantou diante de mim as mos nas ilhargas e
+gritou triunfalmente:--Hein? Que maada!...
+
+Depois foi o Humanitarismo: e fundou um Hospcio no campo, entre
+jardins, para velhinhos desamparados, outro para crianas dbeis beira
+do Mediterrneo. Depois com o major Dorchas, e Mayolle, e o Hindu de
+Mayolle penetrou no Teosofismo: e montou tremendas experincias para
+verificar a misteriosa _exteriorizao da motilidade_. Depois,
+desesperadamente, ligou o 202 com os fios telegrficos do _Times_, para
+que no seu gabinete, como num corao, palpitasse toda a vida Social da
+Europa.
+
+E a cada um destes esforos da elegncia, do humanitarismo, da
+sociabilidade, e da inteligncia indagadora, voltava para mim, de
+braos alegres, com um grito vitorioso:--Vs tu, Z Fernandes? Uma
+maada!--Arrebatava ento o seu _Eclesiastes_, o seu Schopenhauer, e,
+estendido no sof, saboreava voluptuosamente a concordncia da Doutrina
+e da Experincia. Possua uma F--o Pessimismo: era um apstolo rico e
+esforado: e tudo tentava, com sumptuosidade, para provar a verdade da
+sua F! Muito gozou nesse ano o meu desgraado Prncipe!
+
+No comeo do Inverno, porm, notei com inquietao que Jacinto j no
+folheava o _Eclesiastes_, desleixava Schopenhauer. Nem festas, nem
+Teosofismos, nem os seus Hospcios, nem os fios do _Times_, pareciam
+interessar agora o meu amigo, mesmo como demonstraes gloriosas da sua
+Crena. E a sua abominvel funo de novo se limitou a bocejar, a
+passar os dedos moles sobre a face pendida palpando a caveira.
+Incessantemente aludia morte como a uma libertao. Uma tarde mesmo,
+no melanclico crepsculo da Biblioteca, antes de refulgirem as luzes,
+consideravelmente me aterrou, falando num tom regelado de mortes
+rpidas, sem dor, pelo choque de uma vasta pilha elctrica ou pela
+violncia compassiva do acido ciandrico. Diabo! O Pessimismo, que
+aparecera na Inteligncia do meu Prncipe como um conceito
+elegante--atacara bruscamente a Vontade!
+
+Todo o seu movimento ento foi o de um boi inconsciente que marcha sob a
+canga e o aguilho. J no esperava da Vida contentamento--nem mesmo se
+lastimava que ela lhe trouxesse tdio ou pena. Tudo indiferente, Z
+Fernandes! E to indiferentemente sairia sua janela para receber
+uma Coroa Imperial oferecida por um Povo--como se estenderia numa
+poltrona rota para emudecer e jazer. Sendo tudo intil, e no
+conduzindo seno a maior desiluso, que podia importar a mais rutilante
+actividade ou a mais desgostada inrcia? O seu gesto constante, que me
+irritava, era encolher os ombros. Perante duas ideias, dois caminhos,
+dois pratos, encolhia os ombros! Que importava?... E no mnimo acto,
+raspar um fsforo ou desdobrar um Jornal, punha uma morosidade to
+desconsolada que todo ele parecia ligado, desde os dedos at alma,
+pelas voltas apertadas de uma corda que se no via e que o travava.
+
+ * * * * *
+
+Muito desagradavelmente me recordo do dia dos seus anos, a 10 de
+Janeiro. Cedo, de manh, recebera, com uma carta de Madame de Trves, um
+aafate de camlias, azleas, orqudeas e lrios do vale. E foi este
+mimo que lhe recordou a data considervel. Soprou sobre as ptalas o
+fumo do cigarro e murmurou com um riso de lento escrnio:
+
+--Ento, h trinta e quatro anos que eu ando nesta maada?
+
+E como eu propunha que telefonssemos aos amigos para beberem no 202 o
+Champanhe do Natalcio--ele recusou, com o nariz enojado. Oh! No!
+Que horrvel seca!... E bradou mesmo para o Grilo:
+
+--Eu hoje no estou em Paris para ningum. Abalei para o campo, abalei
+para Marselha... Morri!
+
+E a sua ironia no cessou at ao almoo perante os bilhetes, os
+telegramas, as cartas, que subiam, se arredondavam em colina sobre a
+mesa de bano, como um preito da Cidade. Outras flores que vieram, em
+vistosos cestos, com vistosos laos, foram por ele comparadas s que se
+depe sobre uma tumba. E apenas se interessou um momento pelo presente
+de Efraim, uma engenhosa mesa, que se abaixava at ao tapete ou se
+alteava at ao tecto--para qu, senhor Deus meu?
+
+Depois do almoo, como chovia sombriamente, no arredmos do 202, com os
+ps estendidos ao lume, em preguioso silncio. Eu terminara por
+adormecer beatificamente. Acordei aos passos aodados do Grilo...
+Jacinto, enterrado na poltrona, com umas tesouras, recortava um papel!
+E nunca eu me compadeci daquele amigo, que cansara a mocidade a
+acumular todas as noes formuladas desde Aristteles e a juntar todos
+os inventos realizados desde Tharamenes, como nessa tarde de festa, em
+que ele, cercado de Civilizao nas mximas propores para gozar nas
+mximas propores a delcia de viver, se encontrava reduzido, junto ao
+seu lar, a recortar papis com uma tesoura!
+
+O Grilo trazia um presente do Gro-Duque--uma caixa de prata, forrada
+de cedro, e cheia de um ch precioso, colhido, flor a flor, nas veigas de
+Kiang-Sou por mos puras de virgens, e conduzido atravs da sia, em
+caravanas, com a venerao de uma relquia. Ento, para despertar o nosso
+torpor, lembrei que tomssemos o divino ch--ocupao bem harmnica com
+a tarde triste, a chuva grossa alagando os vidros, e a clara chama
+bailando no fogo. Jacinto acedeu--e um escudeiro acercou logo a mesa
+de Efraim para que ns lhe estressemos os servios destros. Mas o meu
+Prncipe, depois de a altear, para meu espanto, at aos cristais do
+lustre, no conseguiu, apesar de uma suada e desesperada batalha com as
+molas, que a mesa regressasse a uma altura humana e caseira. E o
+escudeiro de novo a levou, levantada como um andaime, quimrica,
+unicamente aproveitvel para o gigante Adamastor. Depois veio a caixa do
+ch entre chaleiras, lmpadas, coadores, filtros, todo um fausto de
+alfaias de prata, que comunicavam a essa ocupao, to simples e doce
+em casa de minha tia, _fazer ch_, a majestade de um rito. Prevenido pelo
+meu camarada da sublimidade daquele ch de Kiang-Sou, ergui a chvena
+aos lbios com reverncia. Era uma infuso descorada que sabia a malva e
+a formiga. Jacinto provou, cuspiu, blasfemou... No tommos ch.
+
+Ao cabo doutro pensativo silncio, murmurei, com os olhos perdidos no
+lume:
+
+--E as obras de Tormes? A igreja... J haver igreja nova?
+
+Jacinto retomara o papel e a tesoura:
+
+--No sei... No tornei a receber carta do Silvrio... Nem imagino onde
+param os ossos... Que lgubre histria!
+
+Depois chegou a hora das luzes e do jantar. Eu encomendara pelo Grilo
+ao nosso magistral cozinheiro uma larga travessa de arroz doce, com as
+iniciais de Jacinto e a data ditosa em canela, moda amvel da nossa
+meiga terra. E o meu Prncipe mesa, percorrendo a lmina de marfim
+onde no 202 se inscreviam os pratos a lpis vermelho, louvou com fervor
+a ideia patriarcal:
+
+--Arroz doce! Est escrito com dois _ss_, mas no tem dvida...
+Excelente lembrana! H que tempos no como arroz doce!... Desde a
+morte da av.
+
+Mas quando o arroz doce apareceu triunfalmente, que vexame! Era um
+prato monumental, de grande arte! O arroz, macio, moldado em forma de
+pirmide do Egipto, emergia de uma calda de cereja, e desaparecia sob os
+frutos secos que o revestiam at ao cimo, onde se equilibrava uma
+coroa de Conde feita de chocolate e gomos de tangerina gelada! E as
+iniciais, a data, to lindas e graves na canela ingnua, vinham
+traadas nas bordas da travessa com violetas pralinadas! Repelimos,
+num mudo horror, o prato acanalhado. E Jacinto, erguendo o copo de
+Champanhe, murmurou como num funeral pago:
+
+--_Ad Manes_, aos nossos mortos!
+
+Recolhemos Biblioteca, a tomar o caf no conchego e alegria do lume.
+Fora, o vento bramava como num ermo serrano: e as vidraas tremiam,
+alagadas, sob as btegas da chuva irada. Que dolorosa noite para os dez
+mil pobres que em Paris erram sem po e sem lar! Na minha aldeia, entre
+cerro e vale, talvez assim rugisse a tormenta. Mas a cada pobre, sob
+o abrigo da sua telha v, com a sua panela atestada de couves, se
+agacha no seu mantu ao calor da lareira. E para os que no tenham lenha
+ou couve, l est o Joo das Quintas, ou a tia Vicncia, ou o abade,
+que conhecem todos os pobres pelos seus nomes, e com eles contam, como
+sendo dos seus, quando o carro vai ao mato e a fornada entra no forno.
+Ah Portugal pequenino, que ainda s doce aos pequeninos!
+
+Suspirei, Jacinto preguiava. E terminmos por remexer languidamente os
+jornais que o mordomo trouxera, num monte facundo, sobre uma salva de
+prata--jornais de Paris, jornais de Londres, Semanrios, Magazines,
+Revistas, Ilustraes... Jacinto desdobrava, arremessava: das Revistas
+espreitava o sumrio, logo farto; s Ilustraes rasgava as folhas com
+o dedo indiferente, bocejando por cima das gravuras. Depois, mais
+estirado para o lume:
+
+-- uma seca... No h que ler.
+
+E de repente, revoltado contra este fastio opressor que o escravizava,
+saltou da poltrona com um arranque de quem despedaa algemas, e ficou
+erecto, dardejando em torno um olhar imperativo e duro, como se
+intimasse aquele seu 202, to abarrotado de Civilizao, a que por um
+momento sequer fornecesse sua alma um interesse vivo, sua vida um
+fugitivo gosto! Mas o 202 permaneceu insensvel: nem uma luz, para o
+animar, avivou o seu brilho mudo: s as vidraas tremeram sob o embate
+mais rude de gua e vento.
+
+Ento o meu Prncipe, sucumbido, arrastou os passos at ao seu
+gabinete, comeou a percorrer todos os aparelhos completadores e
+facilitadores da Vida--o seu Telgrafo, o seu Telefone, o seu
+Fongrafo, o seu Radimetro, o seu Graffono, o seu Microfone, a
+sua Mquina de Escrever, a sua Mquina de Contar, a sua Imprensa
+Elctrica, a outra Magntica, todos os seus utenslios, todos os seus
+tubos, todos os seus fios... Assim um Suplicante percorre altares
+donde espera socorro. E toda a sua sumptuosa Mecnica se conservou
+rgida, reluzindo frigidamente, sem que uma roda girasse, nem uma lmina
+vibrasse, para entreter o seu Senhor.
+
+S o relgio monumental, que marcava a hora de todas as capitais e o
+curso de todos os planetas, se compadeceu, batendo a meia-noite,
+anunciando ao meu amigo que mais um Dia partira levando o seu
+peso--diminuindo esse sombrio peso da Vida, sob que ele gemia, vergado.
+O Prncipe da Gr-Ventura, ento, decidiu recolher para a cama--com um
+livro... E durante um momento, estacou no meio da Biblioteca,
+considerando os seus setenta mil volumes estabelecidos com pompa e
+majestade como Doutores num Conclio--depois as pilhas tumulturias dos
+livros novos que esperavam pelos cantos, sobre o tapete, o repouso e a
+consagrao das estantes de bano. Torcendo molemente o bigode caminhou
+por fim para a regio dos Historiadores: espreitou sculos, farejou
+raas: pareceu atrado pelo esplendor do Imprio Bizantino: penetrou
+na Revoluo Francesa donde se arredou desencantado: e palpou com mo
+indeliberada toda a vasta Grcia desde a criao de Atenas at a
+aniquilao de Corinto. Mas bruscamente virou para a fila dos Poetas,
+que reluziam em marroquins claros, mostrando, sobre a lombada, em ouro,
+nos ttulos fortes ou lnguidos, o interior das suas almas. No
+apeteceu nenhuma dessas seis mil almas--e recuou, desconsolado, at
+aos Bilogos... To macia e cerrada era a estante de Biologia que o
+meu pobre Jacinto estarreceu, como ante uma cidadela inacessvel!
+Rolou a escada--e, fugindo, trepou, at s alturas da Astronomia:
+destacou astros, recolocou mundos: todo um Sistema Solar desabou com
+fragor. Aturdido, desceu, comeou a procurar por sobre as rimas das
+obras novas, ainda brochadas, nas suas roupas leves de combate.
+Apanhava, folheava, arremessava: para desentulhar um volume, demolia uma
+torre de doutrinas: saltava por cima dos Problemas, pisava as Religies:
+e relanceando uma linha, esgravatando alm num ndice, todos
+interrogava, de todos se desinteressava, rolando quase de rastos, nas
+grossas vagas de tomos que rolavam, sem se poder deter, na nsia de
+encontrar um Livro! Parou ento no meio da imensa nave, de ccoras, sem
+coragem, contemplando aqueles muros todos forrados, aquele cho todo
+alastrado, os seus setenta mil volumes--e, sem lhes provar a substncia,
+j absolutamente saciado, abarrotado, nauseado pela opresso da sua
+abundncia. Findou por voltar ao monto de jornais amarrotados, ergueu
+melancolicamente um velho _Dirio de Notcias_, e com ele debaixo do
+brao subiu ao seu quarto, para dormir, para esquecer.
+
+
+
+
+VIII
+
+
+Ao fim desse Inverno escuro e pessimista, uma manh que eu preguiava
+na cama, sentindo atravs da vidraa cheia de sol ainda plido um bafo
+de Primavera ainda tmido--Jacinto assomou porta do meu quarto,
+revestido de flanelas leves, de uma alvura de aucena. Parou lentamente
+ beira dos colches, e, com gravidade, como se anunciasse o seu
+casamento ou a sua morte, deixou desabar sobre mim esta declarao
+formidvel:
+
+--Z Fernandes, vou partir para Tormes.
+
+O pulo com que me sentei abalou o rijo leito de pau preto do velho D.
+Galeo:
+
+--Para Tormes? Oh Jacinto, quem assassinaste?...
+
+Deleitado com a minha emoo, o Prncipe da Gr-Ventura tirou da
+algibeira uma carta, e encetou estas linhas, j decerto relidas,
+fundamente estudadas:
+
+--Il.^{mo} e Exc.^{mo} sr.--Tenho grande satisfao em comunicar a
+V. Exc.^a que por toda esta semana devem ficar prontas as obras da
+capela...
+
+-- do Silvrio? exclamei.
+
+-- do Silvrio. ...as obras da capela nova. Os venerandos restos dos
+excelsos avs de V. Exc.^a, senhores de todo o meu respeito, podem pois
+ser em breve trasladados da igreja de S. Jos, onde tm estado
+depositados por bondade do nosso Abade, que muito se recomenda a V.
+Exc.^a... Submisso, aguardo as prestantes ordens de V. Exc.^a a respeito
+desta majestosa e aflitiva cerimnia...
+
+Atirei os braos, compreendendo:
+
+--Ah! bem! Queres ir assistir trasladao...
+
+Jacinto sumiu a carta no bolso.
+
+--Pois no te parece, Z Fernandes? No por causa dos outros avs, que
+so ossos vagos, e que eu no conheci. por causa do av Galeo...
+Tambm no o conheci. Mas este 202 est cheio dele; tu ests deitado
+na cama dele; eu ainda uso o relgio dele. No posso abandonar ao
+Silvrio e aos caseiros o cuidado de o instalarem no seu jazigo novo.
+H aqui um escrpulo de decncia, de elegncia moral... Enfim, decidi.
+Apertei os punhos na cabea, e gritei--_vou a Tormes_! E vou!... E tu
+vens!
+
+Eu enfiara as chinelas, apertava os cordes do roupo:
+
+--Mas tu sabes, meu bom Jacinto, que a casa de Tormes est
+inabitvel...
+
+Ele cravou em mim os olhos aterrados.
+
+--Medonha, hein?
+
+--Medonha, medonha, no... uma bela casa, de bela pedra. Mas os
+caseiros, que l vivem h trinta anos, dormem em catres, comem o caldo
+ lareira, e usam as salas para secar o milho. Creio que os nicos
+mveis de Tormes, se bem recordo, so um armrio, e uma espineta de
+charo, coxa, j sem teclas.
+
+O meu pobre Prncipe suspirou, com um gesto rendido em que se abandonava
+ao Destino:
+
+--Acabou!... _Alea jacta est!_ E como s partimos para Abril, h tempo de
+pintar, de assoalhar, de envidraar... Mando daqui de Paris tapetes e
+camas... Um estofador de Lisboa vai depois forrar e disfarar algum
+buraco... Levamos livros, uma Mquina para fabricar gelo... E mesmo
+uma ocasio de pr enfim numa das minhas casas de Portugal alguma
+decncia e ordem. Pois no achas? E ento essa! Uma casa que data de
+1410... Ainda existia o Imprio Bizantino!
+
+Eu espalhava, com o pincel, sobre a face, flocos lentos de sabo. O meu
+Prncipe acendeu muito pensativamente um cigarro; e no se arredou do
+toucador, considerando o meu preparo com uma ateno triste que me
+incomodava. Por fim, como se remoesse uma sentena minha, para lhe
+reter bem a moral e o suco:
+
+--Ento, definitivamente, Z Fernandes, entendes que um dever, um
+absoluto dever, ir eu a Tormes?
+
+Afastei do espelho a cara ensaboada para encarar com divertido espanto o
+meu Prncipe:
+
+--Oh Jacinto! foi em ti, s em ti que nasceu a ideia desse dever! E
+honra te seja, menino... No cedas a ningum essa honra!
+
+Ele atirou o cigarro--e, com as mos enterradas nas algibeiras das
+pantalonas, vagou pelo quarto, topando nas cadeiras, embicando contra os
+postes torneados do velho leito de D. Galeo, num balano vago, como
+barco j desamarrado do seu seguro ancoradouro, e sem rumo no mar
+incerto. Depois encalhou sobre a mesa onde eu conservava enfileirada,
+por gradaes de sentimentos, desde o daguerretipo do pap at
+fotografia do _Carocho_ perdigueiro, a galeria da minha Famlia.
+
+E nunca o meu Prncipe (que eu contemplava esticando os suspensrios) me
+pareceu to corcovado, to minguado, como gasto por uma lima que desde
+muito o andasse fundamente limando. Assim viera findar, desfeita em
+Civilizao, naquele super-requintado magricelas sem msculo e sem
+energia, a raa fortssima dos Jacintos! Esses guedelhudos Jacintes,
+que nas suas altas terras de Tormes, de volta de bater o moiro no Salado
+ou o castelhano em Valverde, nem mesmo despiam as fuscas armaduras para
+lavrar as suas chs e amarrar a vide ao olmo, edificando o Reino com a
+lana e com a enxada, ambas to rudes e rijas! E agora, ali estava
+aquele ltimo Jacinto, um Jacintculo, com a macia pele embebida em
+aromas, a curta alma enrodilhada em Filosofias, travado e suspirando
+baixinho na mida indeciso de viver.
+
+--Oh Z Fernandes, quem esta lavradeirona to rechonchuda?
+
+Estendi o pescoo para a Fotografia que ele erguera dentre a minha
+galeria, no seu honroso caixilho de pelcia escarlate:
+
+--Mais respeito, Sr. D. Jacinto... Um pouco mais de respeito,
+cavalheiro!... minha prima Joaninha, de Sandofim, da Casa da Flor da
+Malva.
+
+--Flor da Malva, murmurou o meu Prncipe. a casa do Condestvel, de
+Nun'lvares.
+
+--Flor da Rosa, homem! A casa do Condestvel era na Flor da Rosa, no
+Alentejo... Essa tua ignorncia trapalhona das coisas de Portugal!
+
+O meu Prncipe deixou escorregar molemente a fotografia da minha
+prima dentre os dedos moles--que levou face, no seu gesto horrendo
+de palpar atravs da face a caveira. Depois, de repente, com um soberbo
+esforo, em que se endireitou e cresceu:
+
+--Bem! _Alea jacta est!_ Partamos pois para as serras!... E agora nem
+reflexo, nem descanso!... obra! E a caminho!
+
+Atirou a mo ao fecho dourado da porta como se fosse o negro loquete que
+abre os Destinos--e no corredor gritou pelo Grilo, com uma larga e
+aodada voz que eu nunca lhe conhecera, e me lembrou a de um Chefe
+ordenando, na alvorada, que se levante o Acampamento, e que a Hoste
+marche, com pendes e bagagens...
+
+Logo nessa manh (com uma actividade em que eu reconheci a pressa
+enjoada de quem bebe leo de rcino), escreveu ao Silvrio mandando
+caiar, assoalhar, envidraar o casaro. E depois do almoo apareceu na
+Biblioteca, chamado violentamente pelo telefone, para combinar a
+remessa de moblias e confortos, o director da _Companhia Universal de
+Transportes_.
+
+Era um homem que parecia o cartaz da sua Companhia, apertado num
+jaqueto de xadrezinho escuro, com polainas de jornada sobre botas
+brancas, uma sacola de marroquim a tiracolo, e na botoeira uma roseta
+multicor resumindo as suas condecoraes exticas de Madagscar, de
+Nicargua, da Prsia, outras ainda, que provavam a universalidade dos
+seus servios. Apenas Jacinto mencionou Tormes, no Douro...--ele
+logo, atravs de um sorriso superior, estendeu o brao, detendo outros
+esclarecimentos, na sua intimidade minuciosa com essas regies.
+
+--Tormes... Perfeitamente! Perfeitamente!
+
+Sobre o joelho, na carteira, escrevinhou uma fugidia nota--enquanto eu
+considerava, assombrado, a vastido do seu saber Corogrfico, assim
+familiar com os recantos de uma serra de Portugal e com todos os seus
+velhos solares. J ele atirara a carteira para o bolso... E ns, seus
+caros senhores, no tnhamos seno a encaixotar as roupas, as moblias,
+as preciosidades! Ele mandaria as suas carroas buscar os caixotes, a
+que poria, em grossa letra, com grossa tinta, o endereo...
+
+--Tormes, perfeitamente! Linha Norte-Espanha-Medina-Salamanca...
+Perfeitamente! Tormes... Muito pitoresco! E antigo, histrico!
+Perfeitamente, perfeitamente!
+
+Desengonou a cabea numa vnia profundssima--e saiu da Biblioteca,
+com passos que devoravam lguas, anunciavam a presteza dos seus
+Transportes.
+
+--V tu, murmurou Jacinto muito srio. Que prontido, que
+facilidade!... Em Portugal era uma tragdia. No h seno Paris!
+
+Comeou ento no 202 o colossal encaixotamento de todos os confortos
+necessrios ao meu Prncipe para um ms de serra spera--camas de pena,
+banheiras de nquel, lmpadas Carcel, divs profundos, cortinas para
+vedar as gretas rudes, tapetes para amaciar os soalhos broncos. Os
+stos, onde se arrecadavam os pesados trastes do av Galeo, foram
+esvaziados--porque o casaro medieval de 1410 comportava os trems
+romnticos de 1830. De todos os armazns de Paris chegavam cada manh
+fardos, caixas, temerosos embrulhos que os emaladores desfaziam,
+atulhando os corredores de montes de palha e de papel pardo, onde os
+nossos passos aodados se enrodilhavam. O cozinheiro, esbaforido,
+organizava a remessa de fornalhas, geleiras, bocais de trufas, latas de
+conservas, bojudas garrafas de guas minerais. Jacinto, lembrando as
+trovoadas da serra, comprou um imenso pra-raios. Desde o amanhecer,
+nos ptios, no jardim, se martelava, se pregava, com vasto fragor, como
+na construo de uma cidade. E o desfilar das bagagens, atravs do
+porto, lembrava uma pgina de Herdoto contando a marcha dos Persas.
+
+Das janelas, Jacinto com o brao estendido, saboreava aquela
+actividade e aquela disciplina:
+
+--V tu, Z Fernandes, que facilidade!... Samos do 202, chegamos
+serra, encontramos o 202. No h seno Paris!
+
+Recomeara a amar a Cidade, o meu Prncipe, enquanto preparava o seu
+xodo. Depois de ter, toda a manh, apressado os encaixotadores,
+descortinado confortos novos para o abandonado solar, telefonado gordas
+listas de encomendas a cada loja de Paris--era com delcia que se
+vestia, se perfumava, se floria, se enterrava na vitria ou saltava
+para a almofada do faton, e corria ao Bosque, e saudava a barba
+talmdica do Efraim, e os bands furiosamente negros da Verghane, e o
+Psiclogo de fiacre, e a condessa de Trves na sua nova caleche de
+oito molas fornecida pelas operaes conjuntas da Bolsa e da alcova.
+Depois arrebanhava amigos para jantares de surpresa no Voisin ou no
+Bignon, onde desdobrava o guardanapo com a impacincia de uma fome
+alegre, vigiando fervorosamente que os Bordus estivessem bem aquecidos
+e os Champanhes bem granitados. E no teatro das _Nouveauts_, no
+_Palais Royal_, nos _Buffos_, ria, batendo na coxa, com encanecidas
+faccias de encanecidas farsas, antiqussimos trejeitos de antiqussimos
+actores, com que j rira na sua infncia, antes da guerra, sob o segundo
+Napoleo!
+
+De novo, em duas semanas, se abarrotaram as pginas da sua Agenda. A
+magnificncia do seu traje, como imperador Frederico II de Subia,
+deslumbrou, no baile mascarado da Princesa de Cravon-Rogan (onde tambm
+fui, de moo de forcado.) E na _Associao para o Desenvolvimento das
+Religies Esotricas_ discursou e batalhou bravamente pela construo
+de um Templo Budista em Montmartre!
+
+Com espanto meu recomeou tambm a conversar, como nos tempos de Escola,
+da famosa Civilizao nas suas mximas propores. Mandou encaixotar o
+seu velho telescpio para o usar em Tormes. Receei mesmo que no seu
+esprito germinasse a ideia de criar, no cimo da serra, uma Cidade com
+todos os seus rgos. Pelo menos no consentia o meu Jacinto que essas
+semanas da silvestre Tormes interrompessem a ilimitada acumulao das
+noes--porque uma manh rompeu pelo meu quarto, desolado, gritando que
+entre tantos confortos e formas de Civilizao esquecramos os livros!
+Assim era--e que vexame para a nossa Intelectualidade! Mas que livros
+escolher entre os facundos milhares sob que vergava o 202? O meu
+Prncipe decidiu logo dedicar os seus dias serranos ao estudo da
+Histria Natural--e ns mesmos, imediatamente, deitmos para o fundo
+de um vasto caixote novo, como lastro, os vinte e cinco tomos de Plnio.
+Despejmos depois para dentro, s braadas, Geologia, Mineralogia,
+Botnica... Espalhmos por cima uma camada area de Astronomia. E, para
+fixar bem no caixote estas Cincias oscilantes, entalmos em redor
+cunhas de Metafsica.
+
+Mas quando a derradeira caixa, pregada e cintada de ferro, saiu do
+porto do 202 na derradeira carroa da _Companhia dos Transportes_, toda
+esta animao de Jacinto se abateu como a efervescncia num copo de
+Champanhe. Era em meados j tpidos de Maro. E de novo os seus
+desagradveis bocejos atroaram o 202, e todos os sofs rangeram sob o
+peso do corpo que ele lhe atirava para cima, mortalmente vencido pela
+fartura e pelo tdio, num desejo de repouso eterno, bem envolto de
+solido e silncio. Desesperei. O qu! Aturaria eu ainda aquele
+Prncipe palpando amargamente a caveira, e, quando o crepsculo
+entristecia a Biblioteca, aludindo, num tom rouco, doura das
+mortes rpidas pela violncia misericordiosa do acido ciandrico? Ah
+no, caramba! E uma tarde em que o encontrei estirado sobre um div, de
+braos em cruz, como se fosse a sua esttua de mrmore sobre o seu
+jazigo de granito, positivamente o abanei com furor, berrando:
+
+--Acorda, homem! Vamos para Tormes! O casaro deve estar pronto, a
+reluzir, a abarrotar de coisas! Os ossos de teus avs pedem repouso, em
+cova sua!... A caminho, a enterrar esses mortos, e a vivermos ns, os
+vivos!... Irra! So cinco de Abril!... o bom tempo da serra!
+
+O meu Prncipe ressurgiu lentamente da inrcia de pedra:
+
+--O Silvrio no me escreveu, nunca me escreveu... Mas, com efeito,
+deve estar tudo preparado... J l temos certamente criados, o
+cozinheiro de Lisboa... Eu s levo o Grilo, e o Anatole que enverniza
+bem o calado, e tem jeito como pedicuro... Hoje Domingo.
+
+Atirou os ps para o tapete, com herosmo:
+
+--Bem, partimos no Sbado!... Avisa tu o Silvrio!
+
+Comeou ento o laborioso e pensativo estudo dos Horrios--e o dedo
+magro de Jacinto, por sobre o mapa, avanando e recuando entre Paris e
+Tormes. Para escolher o salo que devamos habitar durante a temida
+jornada, duas vezes percorremos o depsito da Estao de Orlans,
+atolados em lama, atrs do Chefe do Trfico que entontecia. O meu
+Prncipe recusava este salo por causa da cor tristonha dos estofos;
+depois recusava aquele por causa da mesquinhez aflitiva do
+Water-Closet! Uma das suas inquietaes era o banho, nas manhs que
+passaramos rolando. Sugeri uma banheira de borracha. Jacinto,
+indeciso, suspirava... Mas nada o aterrou como o transbordo em Medina del
+Campo, de noite, nas trevas da Velha Castela. Debalde a Companhia do
+Norte de Espanha e a de Salamanca, por cartas, por telegramas,
+sossegaram o meu camarada, afirmando que, quando ele chegasse no
+comboio de Irun dentro do seu salo, j outro salo ligado ao comboio de
+Portugal esperaria, bem aquecido, bem alumiado, com uma ceia que lhe
+ofertava um dos Directores, D. Esteban Castillo, ruidoso e rubicundo
+conviva do 202! Jacinto corria os dedos ansiosos pela face:--E os
+sacos, as peles, os livros, quem os transportaria do salo de Irun
+para o salo de Salamanca? Eu berrava, desesperado, que os carregadores
+de Medina eram os mais rpidos, os mais destros de toda a Europa! Ele
+murmurava:--Pois sim, mas em Espanha, de noite!... A noite, longe da
+Cidade, sem telefone, sem luz elctrica, sem postos de polcia, parecia
+ao meu Prncipe povoada de surpresas e assaltos. S acalmou depois de
+verificar no Observatrio Astronmico, sob a garantia do sbio professor
+Bertrand, que a noite da nossa jornada era de lua cheia!
+
+Enfim, na sexta-feira, findou a tremenda organizao daquela viagem
+histrica! O sbado predestinado amanheceu com generoso sol, de
+afagadora doura. E eu acabava de guardar na mala, embrulhadas em papel
+pardo, as fotografias das criaturinhas suaves que, nesses vinte e
+sete meses de Paris, me tinham chamado _mon petit chou! mon rat
+cheri!_--quando Jacinto rompeu pelo quarto, com um soberbo ramo de
+orqudeas na sobrecasaca, plido e todo nervoso.
+
+--Vamos ao Bosque, por despedida?
+
+Fomos-- grande despedida! E que encanto! At nas almofadas e molas da
+vitria senti logo uma elasticidade mais embaladora. Depois, pela
+Avenida do Bosque, quase me pesava no ficar sempiternamente rolando, ao
+trote rimado das guas perfeitas, no rebrilho rico de metais e vernizes,
+sobre aquele macadame mais alisado que mrmore, entre to bem regadas
+flores e relvas de to tentadora frescura, cruzando uma Humanidade fina,
+de elegncia bem acabada, que almoara o seu chocolate em porcelanas de
+Svres ou de Minton, sara de entre sedas e tapetes de trs mil francos,
+e respirava a beleza de Abril com vagar, requinte e pensamentos
+ligeiros! O Bosque resplandecia numa harmonia de verde, azul e ouro.
+Nenhuma cova ou terra solta desalisava as polidas leas que a Arte
+traou e enroscou na espessura--nenhum esgalho desgrenhado desmanchava
+as ondulaes macias da folhagem que o Estado escova e lava. O piar das
+aves apenas se elevava para espalhar uma graa leve de vida alada;--e
+mais natural parecia, entre o arvoredo socivel, o ranger das selas
+novas, onde pousavam, com balano esbelto, as amazonas espartilhadas
+pelo grande Redfern. Em frente ao Pavilho de Armenonville cruzmos
+Madame de Trves, que nos envolveu ambos na carcia do seu sorriso, mais
+avivado quela hora pelo vermelho ainda hmido. Logo atrs a barba
+talmdica de Efraim negrejou, fresca tambm da brilhantina da manh, no
+alto de um faton tilintante. Outros amigos de Jacinto circulavam nas
+Accias--e as mos que lhe acenavam, lentas e afveis, calavam luvas
+frescas cor de palha, cor de prola, cor de lils. Todelle relampejou
+rente de ns sobre uma grande bicicleta. Dornan, alastrado numa cadeira
+de ferro, sob um espinheiro em flor, mamava o seu imenso charuto, como
+perdido na busca de rimas sensuais e ndias. Adiante foi o Psiclogo,
+que nos no avistou, conversando com um requebro melanclico para dentro
+de um coup que rescendia a alcova, e a que um cocheiro obeso imprimia
+dignidade e decncia. E rolvamos ainda, quando o Duque de Marizac, a
+cavalo, ergueu a bengala, estacou a nossa vitria para perguntar a
+Jacinto se aparecia noite nos quadros vivos dos Verghanes. O meu
+Prncipe rosnou um--no, parto para o sul...--que mal lhe passou
+de entre os bigodes murchos... E Marizac lamentou--porque era uma festa
+estupenda. Quadros vivos da Histria Sagrada e da Histria Romana!...
+Madame Verghane, de Madalena, de braos nus, peitos nus, pernas nuas,
+limpando com os cabelos os ps do Cristo!--O Cristo, um latago
+soberbo, parente dos Trves, empregado no Ministrio da Guerra, gemendo,
+derreado, sob uma cruz de papelo! Havia tambm Lucrcia na cama, e
+Tarqunio ao lado, de punhal, a puxar os lenis! E depois ceia, em
+mesas soltas, todos nos seus trajes histricos. Ele j estava
+aparceirado com Madame de Malbe, que era Agripina! Quadro portentoso
+esse--Agripina morta, quando Nero a vem contemplar e lhe estuda as
+formas, admirando umas, desdenhando outras como imperfeitas. Mas, por
+polidez, ficara combinado que Nero admiraria sem reserva todas as formas
+de Madame de Malbe... Enfim colossal, e estupendamente instrutivo!
+
+Acenmos um longo adeus quele alegre Marizac. E recolhemos sem que
+Jacinto emergisse do silncio enrugado em que se abismara, com os
+braos rigidamente cruzados, como remoendo pensamentos decisivos e
+fortes. Depois, em frente ao Arco de Triunfo, moveu a cabea, murmurou:
+
+-- muito grave, deixar a Europa!
+
+ * * * * *
+
+Enfim, partimos! Sob a doura do crepsculo que se enublara deixmos o
+202. O Grilo e o Anatole seguiam num fiacre atulhado de livros, de
+estojos, de palets, de impermeveis, de travesseiras, de guas
+minerais, de sacos de couro, de rolos de mantas: e mais atrs um
+nibus rangia sob a carga de vinte e trs malas. Na Estao, Jacinto
+ainda comprou todos os Jornais, todas as Ilustraes, Horrios, mais
+livros, e um saca-rolhas de forma complicada e hostil. Guiados pelo
+Chefe do Trfico, pelo Secretrio da Companhia, ocupmos copiosamente o
+nosso salo. Eu pus o meu bon de seda, calcei as minhas chinelas. Um
+silvo varou a noite. Paris lampejou, fugiu num derradeiro claro de
+janelas... Para o sorver, Jacinto ainda se arremessou portinhola.
+Mas rolvamos j na treva da Provncia. O meu Prncipe ento recaiu nas
+almofadas:
+
+--Que aventura, Z Fernandes!
+
+At Chartres, em silncio, folhemos as Ilustraes. Em Orlans, o
+guarda veio arranjar respeitosamente as nossas camas. Derreado com
+aqueles catorze meses de Civilizao adormeci--e s acordei em Bordus
+quando Grilo, zeloso, nos trouxe o nosso chocolate. Fora, uma chuva
+miudinha pingava molemente de um espesso cu de algodo sujo. Jacinto
+no se deitara, desconfiado da aspereza e da humidade dos lenis. E,
+metido num roupo de flanela branco, com a face arrepiada e
+estremunhada, ensopando um bolo no chocolate, rosnava sombriamente:
+
+--Este horror!... E agora com chuva!
+
+Em Biarritz, ambos observmos com uma certeza indolente:
+
+-- Biarritz.
+
+Depois Jacinto, que espreitava pela janela embaciada, reconheceu o
+lento caminhar pernalto, o nariz bicudo e triste, do Historiador Danjon.
+Era ele, o facundo homem, vestido de xadrezinho, ao lado de uma dama
+rolia que levava pela trela uma cadelinha felpuda. Jacinto baixou a
+vidraa violentamente, berrou pelo Historiador, na nsia de comunicar
+ainda, atravs dele, com a Cidade, com o 202!... Mas o comboio
+mergulhara na chuva e nvoa.
+
+Sobre a ponte do Bidassoa, antevendo o termo da vida fcil, os abrolhos
+da Incivilizao, Jacinto suspirou com desalento:
+
+--Agora adeus, comea a Espanha!...
+
+Indignado, eu, que j saboreava o generoso ar da terra bendita, saltei
+para diante do meu Prncipe, e num saracoteio de tremendo salero,
+castanholando os dedos, entoei uma petenera condigna:
+
+A la puerta de mi casa
+Ay Soledad, Soleda... ... ... .
+
+Ele estendeu os braos, suplicante:
+
+--Z Fernandes, tem piedade do enfermo e do triste!
+
+--_Irun_! _Irun_!...
+
+Nessa Irun almomos com suculncia--porque sobre ns velava, como
+Deusa omnipresente, a Companhia do Norte. Depois el jefe d'Aduana, el
+jefe d'Estacion, preciosamente nos instalaram noutro salo, novo, com
+cetins cor de azeitona, mas to pequeno que uma rica poro dos nossos
+confortos em mantas, livros, sacos e impermeveis, passou para o
+compartimento do _Sleeping_ onde se repoltreavam o Grilo e o Anatole,
+ambos de bons escoceses, e fumando gordos charutos.--_Buen viaje_!
+_Gracias_! _Servidores_!--E entrmos silvando nos Pirenus.
+
+Sob a influncia da chuva embaciadora, daquelas serras sempre iguais,
+que se desenrolavam, arrepiadas, diludas na nvoa, resvalei a uma
+sonolncia doce;--e, quando descerrava as plpebras, encontrava
+Jacinto a um canto, esquecido do livro fechado nos joelhos, sobre que
+cruzara os magros dedos, considerando vales e montes com a melancolia
+de quem penetra nas terras do seu desterro! Um momento veio em que,
+arremessando o livro, enterrando mais o chapu mole, se ergueu com
+tanta deciso, que receei detivesse o comboio para saltar estrada,
+correr atravs das Vascongadas e da Navarra, para trs, para o 202!
+Sacudi o meu torpor, exclamei:--oh menino!... No! O pobre amigo ia
+apenas continuar o seu tdio para outro canto, enterrado noutra
+almofada, com outro livro fechado. E maneira que a escurido da tarde
+crescia, e com ela a borrasca de vento e gua, uma inquietao mais
+aterrada se apoderava do meu Prncipe, assim desgarrado da Civilizao,
+arrastado para a Natureza que j o cercava de brutalidade agreste. No
+cessou ento de me interrogar sobre Tormes:
+
+--As noites so horrveis, hein, Z Fernandes? Tudo negro, enorme
+solido... E mdico?... H mdico?
+
+Subitamente o comboio estacou. Mais grossa e ruidosa a chuva fustigou as
+vidraas. Era um descampado, todo em treva, onde rolava e lufava um
+grande vento solto. A Mquina apitava, com angstia. Uma lanterna
+lampejou, correndo. Jacinto batia o p:-- medonho! medonho!...
+Entreabri a portinhola. Da claridade incerta das vidraas surdiam
+cabeas esticadas, assustadas.--_Que hay_? _Que hay_?--A uma rajada,
+que me alagou, recuei:--e espermos durante lentos, calados minutos,
+esfregando desesperadamente os vidros embaciados para sondar a
+escurido. De repente o comboio recomeou a rolar, muito sereno.
+
+Em breve apareceram as luzinhas mortas de uma estao abarracada. Um
+condutor, com o casaco de oleado todo a escorrer, trepou ao salo:--e
+por ele soubemos, enquanto carimbava apressadamente os bilhetes, que o
+trem, muito atrasado, talvez no alcanasse em Medina o comboio de
+Salamanca!
+
+--Mas ento?...
+
+O casaco de oleado escorregara pela portinhola, fundido na noite,
+deixando um cheiro de humidade e azeite. E ns encetmos um novo
+tormento... Se o trem de Salamanca tivesse abalado? O salo, tomado at
+Medina, desengatava em Medina:--e eis os nossos preciosos corpos, com as
+nossas preciosas almas, despejados em Medina, para cima da lama, entre
+vinte e trs malas, numa rude confuso espanhola, sob a tormenta de
+ventania e de gua!
+
+--Oh, Z Fernandes, uma noite em Medina!
+
+Ao meu Prncipe aparecia como desventura suprema essa noite em Medina,
+numa _fonda_ srdida, fedendo a alho, com gordas filas de percevejos
+atravs dos lenis de estopa encardida!... No cessei ento de fitar,
+num desassossego, os ponteiros do relgio:--enquanto Jacinto, pela
+vidraa escancarada, todo fustigado da chuva clamorosa, furava a
+negrura, na esperana de avistar as luzes de Medina e um comboio
+paciente fumegando... Depois recaa no div, limpava os bigodes e os
+olhos, maldizia a Espanha. O trem arquejava, rompendo o vasto vento da
+planura desolada. E a cada apito era um alvoroo. Medina?... No! Algum
+sumido apeadeiro, onde o trem se atardava, esfalfado, resfolgando,
+enquanto dormentes figuras encarapuadas, embrulhadas em mantas,
+rondavam sob o telheiro do barraco, que as lanternas baas tornavam
+mais soturno. Jacinto esmurrava o joelho:--Mas por que pra este
+infame comboio? No h trfico, no h gente! Oh esta Espanha!... A
+sineta badalava, moribunda. De novo fendamos a noite e a borrasca.
+
+Resignadamente comecei a percorrer um _Jornal do Comrcio_, antigo,
+trazido de Paris. Jacinto esmagava o espesso tapete do salo com
+passadas rancorosas, rosnando como uma fera. E ainda assim se escoou, s
+gotas, uma hora cheia de eternidade.--Um silvo, outro silvo!... Luzes
+mais fortes, longe, palpitaram na neblina. As rodas trilharam, com rijos
+solavancos, os encontros de carris. Enfim, Medina!... Um muro sujo de
+barraco alvejou--e bruscamente, portinhola aberta com violncia,
+aparece um cavalheiro barbudo, de capa espanhola, gritando pelo Sr.
+D. Jacinto!... Depressa! depressa! que parte o comboio de Salamanca!
+
+--Que no hay un momento, caballeros! Que no hay un momento!
+
+Agarro estonteadamente o meu palet, o _Jornal do Comrcio_. Saltmos
+com nsia:--e, pela plataforma, por sobre os trilhos, atravs de
+charcos, tropeando em fardos, empurrados pelo vento, pelo homem da capa
+ espanhola, enfimos outra portinhola, que se fechou com um estalo
+tremendo... Ambos arquejvamos. Era um salo forrado de um pano verde
+que comia a luz escassa. E eu estendia o brao, para receber dos
+carregadores aodados as nossas malas, os nossos livros, as nossas
+mantas--quando, em silncio, sem um apito, o trem despegou e rolou.
+Ambos nos atirmos s vidraas, em brados furiosos:
+
+--Pare! As nossas malas, as nossas mantas!... P'ra aqui!... Oh Grilo!
+Oh Grilo!
+
+Uma imensa rajada levou os nossos brados. Era de novo o descampado
+tenebroso, sob a chuva despenhada. Jacinto ergueu os punhos, num furor
+que o engasgava:
+
+--Oh! Que servio! Oh que canalhas!... S em Espanha!... E agora? As
+malas perdidas!... Nem uma camisa, nem uma escova!
+
+Calmei o meu desgraado amigo:
+
+--Escuta! eu entrevi dois carregadores arrebanhando as nossas coisas...
+Decerto o Grilo fiscalizou. Mas na pressa, naturalmente, atirou com
+tudo para o seu compartimento... Foi um erro no trazer o Grilo
+connosco, no salo... At podamos jogar a manilha!
+
+De resto a solicitude da Companhia, Deusa omnipresente, velava sobre o
+nosso conforto--pois que porta do lavatrio branquejava o cesto da
+nossa ceia, mostrando na tampa um bilhete de D. Esteban com estas doces
+palavras a lpis--_ D. Jacinto y su egregio amigo, que les d gusto_!
+Farejei um aroma de perdiz. E alguma tranquilidade nos penetrou no
+corao sentindo tambm as nossas malas sob a tutela da Deusa
+omnipresente.
+
+--Tens fome Jacinto?
+
+--No. Tenho horror, furor, rancor!... E tenho sono.
+
+Com efeito! depois de to desencontradas emoes s apetecamos as
+camas que esperavam, macias e abertas. Quando ca sobre a travesseira,
+sem gravata, em ceroulas, j o meu Prncipe, que no se despira, apenas
+embrulhara os ps no _meu_ palet, nosso nico agasalho, ressonava com
+majestade.
+
+Depois, muito tarde e muito longe, percebi junto do meu catre, na
+claridadezinha da manh, coada pelas cortinas verdes, uma fardeta, um
+bon, que murmuravam baixinho com imensa doura:
+
+--V. Exc.^as no tm nada a declarar?... No h malinhas de mo?...
+
+Era a minha terra! Murmurei baixinho com imensa ternura:
+
+--No temos aqui nada... Pergunte V. Exc.^a pelo Grilo... A atrs,
+num compartimento... Ele tem as chaves, tem tudo... o Grilo.
+
+A fardeta desapareceu, sem rumor, como sombra benfica. E eu readormeci
+com o pensamento em Guies, onde a tia Vicncia, atarefada, de leno
+branco cruzado no peito, de certo j preparava o leito.
+
+Acordei envolto num largo e doce silncio. Era uma Estao muito
+sossegada, muito varrida, com rosinhas brancas trepando pelas paredes--e
+outras rosas em moitas, num jardim, onde um tanquezinho abafado de
+limos dormia sob duas mimosas em flor que rescendiam. Um moo plido,
+de palet cor de mel, vergando a bengalinha contra o cho, contemplava
+pensativamente o comboio. Agachada rente grade da horta, uma velha,
+diante da sua cesta de ovos, contava moedas de cobre no regao. Sobre o
+telhado secavam abboras. Por cima rebrilhava o profundo, rico e macio
+azul de que meus olhos andavam aguados.
+
+Sacudi violentamente Jacinto:
+
+--Acorda, homem, que ests na tua terra!
+
+Ele desembrulhou os ps do meu palet, cofiou o bigode, e veio sem
+pressa, vidraa que eu abrira, conhecer a sua terra.
+
+--Ento Portugal, hein?... Cheira bem.
+
+--Est claro que cheira bem, animal!
+
+A sineta tilintou languidamente. E o comboio deslizou, com descanso,
+como se passeasse para seu regalo sobre as duas fitas de ao, assobiando
+e gozando a beleza da terra e do cu.
+
+O meu Prncipe alargava os braos, desolado:
+
+--E nem uma camisa, nem uma escova, nem uma gota de gua-de-colnia!...
+Entro em Portugal, imundo!
+
+--Na Rgua h uma demora, temos tempo de chamar o Grilo, reaver os
+nossos confortos... Olha para o rio!
+
+Rolvamos na vertente de uma serra, sobre penhascos que desabavam at
+largos socalcos cultivados de vinhedo. Em baixo, numa esplanada,
+branquejava uma casa nobre, de opulento repouso, com a capelinha muito
+caiada entre um laranjal maduro. Pelo rio, onde a gua turva e tarda nem
+se quebrava contra as rochas, descia, com a vela cheia, um barco lento
+carregado de pipas. Para alm, outros socalcos, de um verde plido de
+reseda, com oliveiras apoucadas pela amplido dos montes, subiam at
+outras penedias que se embebiam, todas brancas e assoalhadas, na fina
+abundncia do azul. Jacinto acariciava os plos corredios do bigode:
+
+--O Douro, hein?... interessante, tem grandeza. Mas agora que eu
+estou com uma fome, Z Fernandes!
+
+Tambm eu! Destapamos o cesto de D. Esteban donde surdiu um bodo
+grandioso, de presunto, anho, perdizes, outras viandas frias que o ouro
+de duas nobres garrafas de Amontillado, alm de duas garrafas de Rioja,
+aqueciam com um calor de sol Andaluz. Durante o presunto, Jacinto
+lamentou contritamente o seu erro. Ter deixado Tormes, um solar
+histrico, assim abandonado e vazio! Que delcia, por aquela manh to
+lustrosa e tpida, subir serra, encontrar a sua casa bem apetrechada,
+bem civilizada... Para o animar, lembrei que com as obras do Silvrio,
+tantos caixotes de Civilizao remetidos de Paris, Tormes estaria
+confortvel mesmo para Epicuro. Oh! mas Jacinto entendia um palcio
+perfeito, um 202 no deserto!... E, assim discorrendo, atacmos as
+perdizes. Eu desarrolhava uma garrafa de Amontillado--quando o comboio,
+muito sorrateiramente, penetrou numa Estao. Era a Rgua. E o meu
+Prncipe pousou logo a faca para chamar o Grilo, reclamar as malas que
+traziam o asseio dos nossos corpos.
+
+--Espera, Jacinto! Temos muito tempo, O comboio pra aqui uma hora...
+Come com tranquilidade. No escangalhemos este almocinho com arrumaes
+de maletas... O Grilo no tarda a aparecer.
+
+E corri mesmo a cortina, porque de fora um padre muito alto, com uma
+ponta de cigarro colada ao beio, parara a espreitar indiscretamente o
+nosso festim. Mas quando acabmos as perdizes, e Jacinto confiadamente
+desembrulhava um queijo manchego, sem que Grilo ou Anatole
+comparecessem, eu, inquieto, corri portinhola para apressar esses
+servos tardios... E nesse instante o comboio, largando, deslizou com o
+mesmo silncio sorrateiro. Para o meu Prncipe foi um desgosto:
+
+--A ficamos outra vez sem um pente, sem uma escova... E eu que queria
+mudar de camisa! Por culpa tua, Z Fernandes!
+
+-- espantoso!... Demora sempre uma eternidade. Hoje chega e abala!
+Pacincia, Jacinto. Em duas horas estamos na Estao de Tormes...
+Tambm no valia a pena mudar de camisa para subir serra! Em casa
+tomamos um banho, antes de jantar... J deve estar instalada a
+banheira.
+
+Ambos nos consolmos com copinhos de uma divina aguardente Chinchon.
+Depois, estendidos nos sofs, saboreando os dois charutos que nos
+restavam, com as vidraas abertas ao ar adorvel, conversmos de Tormes.
+Na estao certamente estaria o Silvrio, com os cavalos...
+
+--Que tempo leva a subir?
+
+Uma hora. Depois de lavados sobrava tempo para um demorado passeio pelas
+terras com o caseiro, o excelente Melchior, para que o Senhor de
+Tormes, solenemente, tomasse posse do seu Senhorio. E noite o
+primeiro brdio da serra, com os pitus vernculos do velho Portugal!
+
+Jacinto sorria, seduzido:
+
+--Vamos a ver que cozinheiro me arranjou esse Silvrio. Eu recomendei
+que fosse um soberbo cozinheiro portugus, clssico. Mas que soubesse
+trufar um peru, afogar um bife em molho de moela, estas coisas simples
+da cozinha de Frana!... O pior no te demorares, seguires logo para
+Guies...
+
+--Ah, menino, anos da tia Vicncia no sbado... Dia sagrado! Mas
+volto. Em duas semanas estou em Tormes, para fazermos uma larga
+Buclica. E, est claro, para assistir trasladao.
+
+Jacinto estendera o brao:
+
+--Que casaro aquele, alm no outeiro, com a torre?
+
+Eu no sabia. Algum solar de fidalgote do Douro... Tormes era nesse
+feitio atarracado e macio. Casa de sculos e para sculos--mas sem
+torre.
+
+--E logo se v, da estao, Tormes?...
+
+--No! Muito no alto, numa prega da serra, entre arvoredo.
+
+No meu Prncipe j evidentemente nascera uma curiosidade pela sua rude
+casa ancestral. Mirava o relgio, impaciente. Ainda trinta minutos!
+Depois, sorvendo o ar e a luz, murmurava, no primeiro encanto de
+iniciado:
+
+--Que doura, que paz...
+
+--Trs horas e meia, estamos a chegar, Jacinto!
+
+Guardei o meu velho _Jornal do Comrcio_ dentro do bolso do palet,
+que deitei sobre o brao;--e ambos em p, s janelas, espermos com
+alvoroo a pequenina Estao de Tormes, termo ditoso das nossas
+provaes. Ela apareceu enfim, clara e simples, beira do rio, entre
+rochas, com os seus vistosos girassis enchendo um jardinzinho breve, as
+duas altas figueiras assombreando o ptio, e por trs a serra coberta de
+velho e denso arvoredo... Logo na plataforma avistei com gosto a imensa
+barriga, as bochechas menineiras do chefe da Estao, o louro Pimenta,
+meu condiscpulo em Retrica, no Liceu de Braga. Os cavalos decerto
+esperavam, sombra, sob as figueiras.
+
+Mal o trem parou ambos saltmos alegremente. A bojuda massa do Pimenta
+rebolou para mim com amizade:
+
+--Viva o amigo Z Fernandes!
+
+--Oh belo Pimento!...
+
+Apresentei o senhor de Tormes. E imediatamente:
+
+--Ouve l, Pimentinha... No est a o Silvrio?
+
+--No... O Silvrio h quase dois meses que partiu para Castelo de
+Vide, ver a me que apanhou uma cornada de um boi!
+
+Atirei a Jacinto um olhar inquieto:
+
+--Ora essa! E o Melchior, o caseiro?... Pois no esto a os cavalos
+para subirmos quinta?
+
+O digno chefe ergueu com surpresa as sobrancelhas cor de milho:
+
+--No!... Nem Melchior, nem cavalos... O Melchior... H que tempos eu
+no vejo o Melchior!
+
+O carregador badalou lentamente a sineta para o comboio rolar. Ento,
+no avistando em torno, na lisa e despovoada Estao, nem criados nem
+malas, o meu Prncipe e eu lanmos o mesmo grito de angstia:
+
+--E o Grilo? as bagagens?...
+
+Corremos pela beira do comboio, berrando com desespero:
+
+--Grilo!... Oh Grilo!... Anatole!... Oh Grilo!
+
+Na esperana que ele e o Anatole viessem mortalmente adormecidos,
+trepvamos aos estribos, atirando a cabea para dentro dos
+compartimentos, espavorindo a gente quieta com o mesmo berro que
+retumbava:--Grilo, ests a, Grilo?--J de uma terceira classe, onde
+uma viola repenicava, um jocoso gania, troando:--No h por a um
+grilo? Andam por a uns senhores a pedir um grilo!--E nem Anatole,
+nem Grilo!
+
+A sineta tilintou.
+
+--Oh Pimentinha, espera, homem, no deixes largar o comboio!... As
+nossas bagagens, homem!
+
+E, aflito, empurrei o enorme chefe para o furgo de carga, a
+pesquisar, descortinar as nossas vinte e trs malas! Apenas encontrmos
+barris, cestos de vime, latas de azeite, um ba amarrado com cordas...
+Jacinto mordia os beios, lvido. E o Pimentinha, esgazeado:
+
+--Oh filhos, eu no posso atrasar o comboio!...
+
+A sineta repicou... E com um belo fumo claro o comboio desapareceu por
+detrs das fragas altas. Tudo em torno pareceu mais calado e deserto.
+Ali ficvamos pois baldeados, perdidos na serra, sem Grilo, sem
+procurador, sem caseiro, sem cavalos, sem malas! Eu conservava o
+palet alvadio, donde surdia o _Jornal do Comrcio_. Jacinto, uma
+bengala. Eram todos os nossos bens!
+
+O Pimento arregalava para ns os olhinhos papudos e compadecidos.
+Contei ento quele amigo o atarantado trasfego em Medina sob a
+borrasca, o Grilo desgarrado, encalhado com as vinte e trs malas, ou
+rolando talvez para Madrid sem nos deixar um leno...
+
+--Eu no tenho um leno!... Tenho este _Jornal do Comrcio_. toda a
+minha roupa branca.
+
+--Grande arrelia, caramba! murmurava o Pimenta, impressionado. E agora?
+
+--Agora, exclamei, trepar, para a quinta, pata... A no ser que se
+arranjassem a uns burros.
+
+Ento o carregador lembrou que perto, no casal da Giesta, ainda
+pertencente a Tormes, o caseiro, seu compadre, tinha uma boa gua e um
+jumento... E o prestante homem enfiou numa carreira para a
+Giesta--enquanto o meu Prncipe e eu caamos para cima de um banco,
+arquejantes e sucumbidos, como nufragos. O vasto Pimentinha, com as
+mos nas algibeiras, no cessava de nos contemplar, de murmurar:-- de
+arrelia.--O rio defronte descia, preguioso e como adormentado sob a
+calma j pesada de Maio, abraando, sem um sussurro, uma larga ilhota de
+pedra que rebrilhava. Para alm a serra crescia em corcovas doces, com
+uma funda prega onde se aninhava, bem junta e esquecida do mundo, uma
+vilazinha clara. O espao imenso repousava num imenso silncio.
+Naquelas solides de monte e penedia os pardais, revoando no telhado,
+pareciam aves considerveis. E a massa rotunda e rubicunda do Pimentinha
+dominava, atulhava a regio.
+
+--Est tudo arranjado, meu senhor! Vm a os bichos!... S o que no
+calhou foi um selinzinho para a jumenta!
+
+Era o carregador, digno homem, que voltava da Giesta, sacudindo na mo
+duas esporas desirmanadas e ferrugentas. E no tardaram a aparecer no
+crrego, para nos levarem a Tormes, uma gua rua, um jumento com
+albarda, um rapaz e um podengo. Apertmos a mo suada e amiga do
+Pimentinha. Eu cedi a gua ao senhor de Tormes. E comemos a trepar o
+caminho, que no se alisara nem se desbravara desde os tempos em que o
+trilhavam, com rudes sapates ferrados, cortando de rio a monte, os
+Jacintos do sculo XIV! Logo depois de atravessarmos uma trmula ponte
+de pau, sobre um riacho quebrado por pedregulhos, o meu Prncipe, com o
+olho de dono subitamente aguado, notou a robustez e a fartura das
+oliveiras...--E em breve os nossos males esqueceram ante a incomparvel
+beleza daquela serra bendita!
+
+Com que brilho e inspirao copiosa a compusera o divino Artista que faz
+as serras, e que tanto as cuidou, e to ricamente as dotou, neste seu
+Portugal bem-amado! A grandeza igualava a graa. Para os vales,
+poderosamente cavados, desciam bandos de arvoredos, to copados e
+redondos, de um verde to moo que eram como um musgo macio onde
+apetecia cair e rolar. Dos pendores, sobranceiros ao carreiro fragoso,
+largas ramadas estendiam o seu toldo amvel, a que o esvoaar leve dos
+pssaros sacudia a fragrncia. Atravs dos muros seculares, que sustm
+as terras liados pelas heras, rompiam grossas razes coleantes a que
+mais hera se enroscava. Em todo o torro, de cada fenda, brotavam flores
+silvestres. Brancas rochas, pelas encostas, alastravam a slida nudez do
+seu ventre polido pelo vento e pelo sol; outras, vestidas de lquen e de
+silvados floridos, avanavam como proas de galeras enfeitadas: e,
+dentre as que se apinhavam nos cimos, algum casebre que para l
+galgara, todo amachucado e torto, espreitava pelos postigos negros, sob
+as desgrenhadas farripas de verdura, que o vento lhe semeara nas telhas.
+Por toda a parte a gua sussurrante, a gua fecundante... Espertos
+regatinhos fugiam, rindo com os seixos, dentre as patas da gua e do
+burro; grossos ribeiros aodados saltavam com fragor de pedra em pedra;
+fios direitos e luzidios como cordas de prata vibravam e faiscavam das
+alturas aos barrancos; e muita fonte, posta beira de veredas, jorrava
+por uma bica, beneficamente, espera dos homens e dos gados... Todo um
+cabeo por vezes era uma seara, onde um vasto carvalho ancestral,
+solitrio, dominava como seu senhor e seu guarda. Em socalcos verdejavam
+laranjais rescendentes. Caminhos de lajes soltas circundavam fartos
+prados com carneiros e vacas retouando:--ou mais estreitos, entalados
+em muros, penetravam sob ramadas de parra espessa, numa penumbra de
+repouso e frescura. Trepvamos ento alguma ruazinha de aldeia, dez ou
+doze casebres, sumidos entre figueiras, onde se esgaava, fugindo do lar
+pela telha v, o fumo branco e cheiroso das pinhas. Nos cerros remotos,
+por cima da negrura pensativa dos pinheirais, branquejavam ermidas. O ar
+fino e puro entrava na alma, e na alma espalhava alegria e fora. Um
+esparso tilintar de chocalhos de guizos morria pelas quebradas...
+
+Jacinto adiante, na sua gua rua, murmurava:
+
+--Que beleza!
+
+E eu atrs, no burro de Sancho, murmurava:
+
+--Que beleza!
+
+Frescos ramos roavam os nossos ombros com familiaridade e carinho. Por
+trs das sebes, carregadas de amoras, as macieiras estendidas ofereciam
+as suas mas verdes, porque as no tinham maduras. Todos os vidros
+de uma casa velha, com a sua cruz no topo, refulgiram hospitaleiramente
+quando ns passmos. Muito tempo um melro nos seguia, de azinheiro a
+olmo, assobiando os nossos louvores. Obrigado, irmo melro! Ramos de
+macieira, obrigado! Aqui vimos, aqui vimos! E sempre contigo fiquemos,
+serra to acolhedora, serra de fartura e de paz, serra bendita entre as
+serras!
+
+Assim, vagarosamente e maravilhados, chegmos quela avenida de faias,
+que sempre me encantara pela sua fidalga gravidade. Atirando uma
+vergastada ao burro e gua, o nosso rapaz, com o seu podengo sobre os
+calcanhares, gritou:--Aqui que estemos, meus amos! E ao fundo das
+faias, com efeito, aparecia o porto da quinta de Tormes, com o seu
+braso de armas, de secular granito, que o musgo retocava e mais
+envelhecia. Dentro j os ces ladravam com furor. E quando Jacinto, na
+sua suada gua, e eu atrs, no burro de Sancho, transpusemos o limiar
+solarengo, desceu para ns, do alto do alpendre, pela escadaria de pedra
+gasta, um homem ndio, rapado como um padre, sem colete, sem jaleca,
+acalmando os ces que se encarniavam contra o meu Prncipe. Era o
+Melchior, o caseiro... Apenas me reconheceu, toda a boca se lhe
+escancarou num riso hospitaleiro, a que faltavam dentes. Mas apenas eu
+lhe revelei, daquele cavalheiro de bigodes louros que descia da gua
+esfregando os quadris, o senhor de Tormes--o bom Melchior recuou,
+colhido de espanto e terror como diante de uma avantesma.
+
+--Ora essa!... Santssimo nome de Deus! Pois ento...
+
+E, entre o rosnar dos ces, num bracejar desolado, balbuciou uma
+histria que por seu turno apavorava Jacinto, como se o negro muro do
+casaro pendesse para desabar. O Melchior no esperava S. Ex.^a! Ningum
+esperava S. Ex.^a!... (Ele dizia _sua incelncia_)... O Sr. Silvrio
+estava para Castelo de Vide desde Maro, com a me, que apanhara uma
+cornada na virilha. E de certo houvera engano, cartas perdidas... Porque
+o Sr. Silvrio s contava com S. Exc.^a em Setembro, para a vindima! Na
+casa as obras seguiam devagarinho, devagarinho... O telhado, no sul,
+ainda continuava sem telhas; muitas vidraas esperavam, ainda sem
+vidros; e, para ficar, Virgem Santa, nem uma cama arranjada!...
+
+Jacinto cruzou os braos numa clera tumultuosa que o sufocava. Por
+fim, com um berro:
+
+--Mas os caixotes? Os caixotes, mandados de Paris, em Fevereiro, h
+quatro meses?...
+
+O desgraado Melchior arregalava os olhos midos, que se embaciavam de
+lgrimas. Os caixotes?! Nada chegara, nada aparecera!... E na sua
+perturbao mirava pelas arcadas do ptio, palpava na algibeira das
+pantalonas. Os caixotes?... No, no tinha os caixotes!
+
+--E agora, Z Fernandes?
+
+Encolhi os ombros:
+
+--Agora, meu filho, s vires comigo para Guies... Mas so duas horas
+fartas a cavalo. E no temos cavalos! O melhor ver o casaro, comer
+a boa galinha que o nosso amigo Melchior nos assa no espeto, dormir
+numa enxerga, e amanh cedo, antes do calor, trotar para cima, para a
+tia Vicncia.
+
+Jacinto replicou, com uma deciso furiosa:
+
+--Amanh troto, mas para baixo, para a estao!... E depois, para
+Lisboa!
+
+E subiu a gasta escadaria do seu solar com amargura e rancor. Em cima
+uma larga varanda acompanhava a fachada do casaro, sob um alpendre de
+negras vigas, toda ornada, por entre os pilares de granito, com caixas
+de pau onde floriam cravos. Colhi um cravo amarelo---e penetrei atrs
+de Jacinto nas salas nobres, que ele contemplava com um murmrio de
+horror. Eram enormes, de uma sonoridade de casa capitular, com os grossos
+muros enegrecidos pelo tempo e o abandono, e regeladas, desoladamente
+nuas, conservando apenas aos cantos algum monte de canastras ou alguma
+enxada entre paus. Nos tectos remotos, de carvalho apainelado, luziam
+atravs dos rasges manchas de cu. As janelas, sem vidraas,
+conservavam essas macias portadas, com fechos para as trancas, que,
+quando se cerram, espalham a treva. Sob os nossos passos, aqui e alm,
+uma tbua podre rangia e cedia.
+
+--Inabitvel! rugia Jacinto surdamente. Um horror! Uma infmia!...
+
+Mas depois, noutras salas, o soalho alternava com remendos de tbuas
+novas. Os mesmos remendos claros mosqueavam os velhssimos tectos de
+rico carvalho sombrio. As paredes repeliam pela alvura crua da cal
+fresca. E o sol mal atravessava as vidraas--embaciadas e gordurentas da
+massa e das mos dos vidraceiros.
+
+Penetrmos enfim na ltima, a mais vasta, rasgada por seis janelas,
+mobilada com um armrio e com uma enxerga parda e curta estirada a um
+canto: e junto dela parmos, e sobre ela depusemos tristemente o que
+nos restava de vinte e trs malas--o meu palet alvadio, a bengala de
+Jacinto, e o _Jornal do Comrcio_ que nos era comum. Atravs das
+janelas escancaradas, sem vidraas, o grande ar da serra entrava e
+circulava como num eirado, com um cheiro fresco de horta regada. Mas o
+que avistvamos, da beira da enxerga, era um pinheiral cobrindo um
+cabeo e descendo pelo pendor suave, maneira de uma hoste em marcha,
+com pinheiros na frente, destacados, direitos, emplumados de negro; mais
+longe as serras de alm rio, de uma fina e macia cor de violeta; depois a
+brancura do cu, todo liso, sem uma nuvem, de uma majestade divina. E l
+debaixo, dos vales, subia, desgarrada e melanclica, uma voz de
+pegureiro cantando.
+
+Jacinto caminhou lentamente para o poial de uma janela, onde caiu
+esbarrondado pelo desastre, sem resistncia ante aquele brusco
+desaparecimento de toda a Civilizao! Eu palpava a enxerga, dura e
+regelada como um granito de Inverno. E pensando nos luxuosos colches de
+penas e molas, to prodigamente encaixotados no 202, desafoguei tambm
+a minha indignao:
+
+--Mas os caixotes, caramba?... Como se perdem assim trinta e tantos
+caixotes enormes?...
+
+Jacinto sacudiu amargamente os ombros:
+
+--Encalhados, por a, algures, num barraco!... Em Medina, talvez,
+nessa horrenda Medina. Indiferena das Companhias, inrcia do
+Silvrio... Enfim a Pennsula, a barbrie!
+
+Vim ajoelhar sobre o outro poial, alongando os olhos consolados por cu
+e monte:
+
+-- uma beleza!
+
+O meu Prncipe, depois de um silncio grave, murmurou, com a face
+encostada mo:
+
+-- uma lindeza... E que paz!
+
+Sob a janela vicejava fartamente uma horta, com repolho, feijoal,
+talhes de alface, gordas folhas de abbora rastejando. Uma eira, velha
+e mal alisada, dominava o vale, donde j subia tenuemente a nvoa
+de algum fundo ribeiro. Toda a esquina do casaro desse lado se
+encravava em laranjal. E de uma fontinha rstica, meio afogada em rosas
+tremedeiras, corria um longo e rutilante fio de gua.
+
+--Estou com apetite desesperado daquela gua! declarou Jacinto,
+muito srio.
+
+--Tambm eu... Desamos ao quintal, hein? E passamos pela cozinha, a
+saber do frango.
+
+Voltmos varanda. O meu Prncipe, mais conciliado com o destino
+inclemente, colheu um cravo amarelo. E por outra porta baixa, de
+rijssimas ombreiras, mergulhmos numa sala, alastrada de calia, sem
+tecto, coberta apenas de grossas vigas, donde se ergueu uma revoada de
+pardais.
+
+--Olha para este horror! murmurava Jacinto arrepiado.
+
+E descemos por uma lbrega escada de castelo, tenteando depois um
+corredor tenebroso de lajes speras, atravancado por profundas arcas,
+capazes de guardar todo o gro de uma provncia. Ao fundo a cozinha,
+imensa, era uma massa de formas negras, madeira negra, pedra negra,
+densas negruras de felugem secular. E neste negrume refulgia a um
+canto, sobre o cho de terra negra, a fogueira vermelha, lambendo tachos
+e panelas de ferro, despedindo uma fumarada que fugia pela grade aberta
+no muro, depois por entre a folhagem dos limoeiros. Na enorme lareira,
+onde se aqueciam e assavam as suas grossas peas de porco e boi os
+Jacintos medievais, agora desaproveitada pela frugalidade dos caseiros,
+negrejava um poeirento monto de cestas e ferramentas; e a claridade
+toda entrava por uma porta de castanho, escancarada sobre um quintalejo
+rstico em que se misturavam couves lombardas e junquilhos formosos. Em
+roda do lume um bando alvoroado de mulheres depenava frangos, remexia
+as caarolas, picava a cebola, com um fervor afogueado e palreiro. Todas
+emudeceram quando aparecemos--e dentre elas o pobre Melchior,
+estonteado, com o sangue a espirrar na ndia face de abade, correu para
+ns, jurando que o jantarinho de suas Incelncias no demorava um
+credo...
+
+--E a respeito de camas, oh amigo Melchior?
+
+O digno homem ciciou uma desculpa encolhida sobre enxergazinhas no
+cho...
+
+-- o que basta! acudi eu, para o consolar. Por uma noite, com lenis
+frescos...
+
+--Ah, l pelos lenoizinhos respondo eu!... Mas um desgosto assim, meu
+senhor! A gente apanhada sem um colchozinho de l, sem um lombozinho de
+vaca... Que eu j pensei, at lembrei minha comadre, V. Inc.^{as}
+podiam ir dormir aos _Ninhos_, a casa do Silvrio. Tinham l camas de
+ferro, lavatrios... Ele sempre uma leguazita e mau caminho...
+
+Jacinto, bondoso, acudiu:
+
+--No, tudo se arranja, Melchior. Por uma noite!... At gosto mais de
+dormir em Tormes, na minha casa da serra!
+
+Samos ao terreiro, retalho de horta fechado por grossas rochas
+encabeladas de verdura, entestando com os socalcos da serra onde
+lourejava o centeio. O meu Prncipe bebeu da gua nevada e luzidia da
+fonte, regaladamente, com os beios na bica; apeteceu a alface
+rechonchuda e crespa; e atirou pulos aos ramos altos de uma copada
+cerejeira, toda carregada de cereja. Depois, costeando o velho lagar, a
+que um bando de pombas branqueava o telhado, deslizmos at ao carreiro,
+cortado no costado do monte. E andando, pensativamente, o meu Prncipe
+pasmava para os milheirais, para os vetustos carvalhos plantados por
+vetustos Jacintos, para os casebres espalhados sobre os cabeos orla
+negra dos pinheirais.
+
+De novo penetrmos na avenida de faias e transpusemos o porto senhorial
+entre o latir dos ces, mais mansos, farejando um dono. Jacinto
+reconheceu certa nobreza na frontaria do seu lar. Mas sobretudo lhe
+agradava a longa alameda, assim direita e larga, como traada para
+nela se desenrolar uma cavalgada de Senhores com plumas e pajens.
+Depois, de cima da varanda, reparando na telha nova da capela, louvou o
+Silvrio, esse ralao, por cuidar ao menos da morada do Bom-Deus.
+
+--E esta varanda tambm agradvel, murmurou ele mergulhando a face no
+aroma dos cravos. Precisa grandes poltronas, grandes divs de verga...
+
+Dentro, na nossa sala, ambos nos sentmos nos poiais da janela,
+contemplando o doce sossego crepuscular que lentamente se estabelecia
+sobre vale e monte. No alto tremeluzia uma estrelinha, a Vnus
+diamantina, lnguida anunciadora da noite e dos seus contentamentos.
+Jacinto nunca considerara demoradamente aquela estrela, de amorosa
+refulgncia, que perpetua no nosso Cu catlico a memria da Deusa
+incomparvel:--nem assistira jamais, com a alma atenta, ao majestoso
+adormecer da Natureza. E este enegrecimento dos montes que se embuam
+em sombra; os arvoredos emudecendo, cansados de sussurrar; o rebrilho
+dos casais mansamente apagado; o cobertor de nvoa, sob que se acama e
+agasalha a frialdade dos vales; um toque sonolento de sino que rola
+pelas quebradas; o segredado cochichar das guas e das relvas
+escuras--eram para ele como iniciaes. Daquela janela, aberta sobre
+as serras, entrevia uma outra vida, que no anda somente cheia do Homem
+e do tumulto da sua obra. E senti o meu amigo suspirar como quem enfim
+descansa.
+
+Deste enlevo nos arrancou o Melchior com o doce aviso do jantarinho de
+suas Incelncias. Era noutra sala, mais nua, mais abandonada:--e a
+logo porta o meu supercivilizado Prncipe estacou, estarrecido pelo
+desconforto, escassez e rudeza das coisas. Na mesa, encostada ao muro
+denegrido, sulcado pelo fumo das candeias, sobre uma toalha de estopa,
+duas velas de sebo em castiais de lata alumiavam grossos pratos de
+loua amarela, ladeados por colheres de estanho e por garfos de ferro.
+Os copos, de um vidro espesso, conservavam a sombra roxa do vinho que
+neles passara em fartos anos de fartas vindimas. A malga de barro,
+atestada de azeitonas pretas, contentaria Digenes. Espetado na cdea
+de um imenso po reluzia um imenso facalho. E na cadeira senhorial
+reservada ao meu Prncipe, derradeira alfaia dos velhos Jacintos, de
+hirto espaldar de couro, com a madeira roda de caruncho, a clina fugia
+em melenas pelos rasges do assento pudo.
+
+Uma formidvel moa, de enormes peitos que lhe tremiam dentro das
+ramagens do leno cruzado, ainda suada e esbraseada do calor da lareira,
+entrou esmagando o soalho, com uma terrina a fumegar. E o Melchior, que
+seguia erguendo a infusa do vinho, esperava que suas Incelncias lhe
+perdoassem porque faltara tempo para o caldinho apurar... Jacinto
+ocupou a sede ancestral--e, durante momentos (de esgazeada ansiedade
+para o caseiro excelente) esfregou energicamente, com a ponta da
+toalha, o garfo negro, a fusca colher de estanho. Depois, desconfiado,
+provou o caldo, que era de galinha e rescendia. Provou--e levantou para
+mim, seu camarada de misrias, uns olhos que brilharam, surpreendidos.
+Tornou a sorver uma colherada mais cheia, mais considerada. E sorriu,
+com espanto:--Est bom!
+
+Estava precioso: tinha fgado e tinha moela: o seu perfume enternecia:
+trs vezes, fervorosamente, ataquei aquele caldo.
+
+--Tambm l volto! exclamava Jacinto com uma convico imensa. que
+estou com uma fome... Santo Deus! H anos que no sinto esta fome.
+
+Foi ele que rapou avaramente a sopeira. E j espreitava a porta,
+esperando a portadora dos pitus, a rija moa de peitos trementes, que
+enfim surgiu, mais esbraseada, abalando o sobrado--e pousou sobre a mesa
+uma travessa a transbordar de arroz com favas. Que desconsolo! Jacinto,
+em Paris, sempre abominara favas!... Tentou todavia uma garfada
+tmida--e de novo aqueles seus olhos, que o pessimismo enevoara,
+luziram, procurando os meus. Outra larga garfada, concentrada, com uma
+lentido de frade que se regala. Depois um brado:
+
+--ptimo!... Ah, destas favas, sim! Oh que fava! Que delcia!
+
+E por esta santa gula louvava a serra, a arte perfeita das mulheres
+palreiras que em baixo remexiam as panelas, o Melchior que presidia ao
+brdio...
+
+--Deste arroz com fava nem em Paris, Melchior amigo!
+
+O homem ptimo sorria, inteiramente desanuviado:
+
+--Pois c a comidinha dos moos da quinta! E cada pratada, que at
+suas Incelncias se riam... Mas agora, aqui, o Sr. D. Jacinto, tambm
+vai engordar e enrijar!
+
+O bom caseiro sinceramente cria que, perdido nesses remotos Parises, o
+Senhor de Tormes, longe da fartura de Tormes, padecia fome e mingava...
+E o meu Prncipe, na verdade, parecia saciar uma velhssima fome e uma
+longa saudade da abundncia, rompendo assim, a cada travessa, em
+louvores mais copiosos. Diante do louro frango assado no espeto e da
+salada que ele apetecera na horta, agora temperada com um azeite da
+serra digno dos lbios de Plato, terminou por bradar:-- divino! Mas
+nada o entusiasmava como o vinho de Tormes, caindo de alto, da bojuda
+infusa verde--um vinho fresco, esperto, seivoso, e tendo mais alma,
+entrando mais na alma, que muito poema ou livro santo. Mirando, vela
+de sebo, o copo grosso que ele orlava de leve espuma rsea, o meu
+Prncipe, com um resplendor de optimismo na face, citou Virglio:
+
+--_Quo te carmina dicam, Rethica_? Quem dignamente te cantar, vinho
+amvel destas serras?
+
+Eu, que no gosto que me avantajem em saber clssico, espanejei logo
+tambm o meu Virglio, louvando as douras da vida rural:
+
+--_Hanc olim veteres vitam coluere Sabini_... Assim viveram os velhos
+Sabinos. Assim Rmulo e Remo... Assim cresceu a valente Etrria. Assim
+Roma se tornou a maravilha do mundo!
+
+E imvel, com a mo agarrada infusa, o Melchior arregalava para ns
+os olhos em infinito assombro e religiosa reverncia.
+
+ * * * * *
+
+Ah! Jantmos deliciosissimamente, sob os auspcios do Melchior--que
+ainda depois, prvido e tutelar, nos forneceu o tabaco. E, como ante ns
+se alongava uma noite de monte, voltmos para as janelas desvidraadas,
+na sala imensa, a contemplar o sumptuoso cu de Vero. Filosofmos
+ento com pachorra e facndia.
+
+Na Cidade (como notou Jacinto) nunca se olham, nem lembram os
+astros--por causa dos candeeiros de gs ou dos globos de electricidade
+que os ofuscam. Por isso (como eu notei) nunca se entra nessa
+comunho com o Universo que a nica glria e nica consolao da
+Vida. Mas na serra, sem prdios disformes de seis andares, sem a
+fumaraa que tapa Deus, sem os cuidados que como pedaos de chumbo puxam
+a alma para o p rasteiro--um Jacinto, um Z Fernandes, livres, bem
+jantados, fumando nos poiais de uma janela, olham para os astros e os
+astros olham para eles. Uns, certamente, com olhos de sublime
+imobilidade ou de sublime indiferena. Mas outros curiosamente,
+ansiosamente, com uma luz que acena, uma luz que chama, como se
+tentassem, de to longe, revelar os seus segredos, ou de to longe
+compreender os nossos...
+
+--Oh Jacinto, que estrela esta, aqui, to viva, sobre o beiral do
+telhado?
+
+--No sei... E aquela, Z Fernandes, alm, por cima do pinheiral?
+
+--No sei.
+
+No sabamos. Eu, por causa da espessa crosta de ignorncia com que sa
+do ventre de Coimbra, minha Me espiritual. Ele, porque na sua
+Biblioteca possua trezentos e oito tratados sobre Astronomia, e o
+Saber, assim acumulado, forma um monte que nunca se transpe nem se
+desbasta. Mas que nos importava que aquele astro alm se chamasse
+Srio e aquele outro Aldebar? Que lhes importava a eles que um de
+ns fosse Jacinto, outro Z? Eles to imensos, ns to pequeninos,
+somos a obra da mesma Vontade. E todos, Uranos ou Lorenas de Noronha e
+Sande, constitumos modos diversos de um Ser nico, e as nossas
+diversidades esparsas somam na mesma compacta Unidade. Molculas do
+mesmo Todo, governadas pela mesma Lei, rolando para o mesmo Fim... Do
+astro ao homem, do homem flor do trevo, da flor do trevo ao mar
+sonoro--tudo o mesmo Corpo, onde circula, como um sangue, o mesmo
+Deus. E nenhum frmito de vida, por menor, passa numa fibra desse
+sublime Corpo, que se no repercuta em todas, at s mais humildes, at
+s que parecem inertes e invitais. Quando um Sol que no avisto, nunca
+avistarei, morre de inanio nas profundidades, esse esguio galho de
+limoeiro, em baixo na horta, sente um secreto arrepio de morte:--e,
+quando eu bato uma patada no soalho de Tormes, alm o monstruoso Saturno
+estremece, e esse estremecimento percorre o inteiro Universo! Jacinto
+abateu rijamente a mo no rebordo da janela. Eu gritei:
+
+--Acredita!... O sol tremeu.
+
+E depois (como eu notei) devamos considerar que, sobre cada um desses
+gros de p luminoso, existia uma criao, que incessantemente nasce,
+perece, renasce. Neste instante, outros Jacintos, outros Zs
+Fernandes, sentados s janelas doutras Tormes, contemplam o cu
+nocturno, e nele um pequenininho ponto de luz, que a nossa possante
+Terra por ns tanto sublimada. No tero todos esta nossa forma, bem
+frgil, bem desconfortvel, e (a no ser no Apolo do Vaticano, na Vnus
+de Milo e talvez na Princesa, de Carman) singularmente feia e burlesca.
+Mas, horrendos ou de inefvel beleza; colossais e de uma carne mais
+dura que o granito, ou leves como gazes e ondulando na luz, todos eles
+so seres pensantes e tm conscincia da Vida--porque decerto cada
+Mundo possui o seu Descartes, ou j o nosso Descartes os percorreu a
+todos com o seu Mtodo, a sua escura capa, a sua agudeza elegante,
+formulando a nica certeza talvez certa, o grande _Penso logo existo_.
+Portanto todos ns, Habitantes dos Mundos, s janelas dos nossos
+casares, alm nos Saturnos, ou aqui na nossa Terrcula, constantemente
+perfazemos um acto sacrossanto que nos penetra e nos funde--que
+sentirmos no Pensamento o ncleo comum das nossas modalidades, e
+portanto realizarmos um momento, dentro da Conscincia, a Unidade do
+Universo!--Hein, Jacinto?...
+
+O meu amigo rosnou:
+
+--Talvez... Estou a cair com sono.
+
+--Tambm eu. Remontmos muito, Ex.^{mo} Sr.! como dizia o Pestaninha
+em Coimbra. Mas nada mais belo, e mais vo, que uma cavaqueira, no alto
+das serras, a olhar para as estrelas!... Tu sempre vais amanh?
+
+--Concerteza, Z Fernandes! Com a certeza de Descartes. Penso _logo
+fujo_! Como queres tu, neste pardieiro, sem uma cama, sem uma
+poltrona, sem um livro?... Nem s de arroz com fava vive o Homem! Mas
+demoro em Lisboa, para conversar com o Sesimbra, o meu Administrador. E
+tambm espera que estas obras acabem, os caixotes surjam, e eu possa
+voltar decentemente, com roupa lavada, para a trasladao...
+
+-- verdade, os ossos...
+
+--Mas resta ainda o Grilo... Que animal! Por onde andar esse perdido?
+
+Ento, passeando lentamente na sala enorme, onde a vela de sebo j
+derretida no castial de lata era como um lume de cigarro num
+descampado, meditmos na sorte do Grilo. O estimado negro ou fora
+despejado nas lamas de Medina, com as vinte e sete malas, aos
+gritos--ou, regaladamente adormecido, rolara com o Anatole no comboio
+para Madrid. Mas ambos os casos apareciam ao meu Prncipe como
+irremediavelmente destruidores do seu conforto...
+
+--No, escuta, Jacinto... Se o Grilo encalhou em Medina, dormiu na
+Fonda, catou os percevejos, e esta madrugada correu para Tormes. Quando
+amanh desceres Estao, s quatro horas, encontras o teu precioso
+homem, com as tuas preciosas malas, metido nesse comboio que te leva
+ao Porto e Capital...
+
+Jacinto sacudiu os braos como quem se debate nas malhas de uma rede:
+
+--E se seguiu para Madrid?
+
+--Ento, por esta semana, c aparece em Tormes, onde encontra ordem
+para regressar a Lisboa e reentrar no teu squito... Resta o
+interessante caso das minhas bagagens. Se amanh encontrares na Estao
+o Grilo, separa a minha mala negra, e o saco de lona, e a chapeleira.
+O Grilo conhece. E pede ao Pimenta, ao gordalhufo, que me avise para
+Guies. Se o Grilo aportar Tormes, esfogueteado de Madrid, com toda
+essa malaria, deixa as minhas coisas aqui, ao Melchior... Eu amanh
+falo ao Melchior.
+
+Jacinto sacudiu furiosamente o colarinho:
+
+--Mas como posso eu partir para Lisboa, amanh, com esta camisa de dois
+dias, que j me faz uma comicho horrenda? E sem um leno... Nem ao
+menos uma escova de dentes!
+
+Frtil em ideias, estendi as mos, num belo gesto tutelar:
+
+--Tudo se arranja, meu Jacinto, tudo se arranja! Eu, largando daqui
+cedo, pelas seis horas, chego a Guies s dez, ainda sem calor. E, mesmo
+antes do almoo e da cavaqueira com a tia Vicncia, imediatamente te
+mando por um moo um saco de roupa branca. As minhas camisas e as
+minhas ceroulas talvez te estejam largas. Mas um mendigo como tu no tem
+direito a elegncias e a roupas bem cortadas. O moo, num bom trote,
+entra aqui s duas horas; tens tempo de mudar antes de desceres para a
+Estao... Posso meter na mala uma escova de dentes.
+
+--Oh Z Fernandes! Ento mete tambm uma esponja... E um frasco de gua-de-colnia!
+
+--gua de alfazema, excelente, feita pela tia Vicncia...
+
+O meu Prncipe suspirou, impressionado com a sua misria esqulida, e
+esta ddiva de roupas:
+
+--Bem, ento vamos dormir, que estou esfalfado de emoes e de astros...
+
+Justamente Melchior entreabria a pesada porta, com timidez, a avisar que
+estavam preparadinhas as camas de suas Incelncias. E seguindo o bom
+caseiro, que erguia uma candeia, que avistamos ns, o meu Prncipe e eu,
+ainda h pouco irmanados com os astros? Em duas saletas, que uma
+abertura em arco, lbrego arco de pedra, separava--duas enxergas sobre o
+soalho. Junto cabeceira da mais larga, que pertencia ao senhor de
+Tormes, um castial de lato sobre um alqueire; aos ps, como lavatrio,
+um alguidar vidrado em cima de uma tripea. Para mim, serrano daquelas
+serras, nem alguidar nem alqueire.
+
+Lentamente, com o p, o meu supercivilizado amigo palpou a enxerga. E
+decerto lhe sentiu uma dureza intransigente, porque ficou pendido sobre
+ela, a correr desoladamente os dedos pela face desmaiada.
+
+--E o pior no ainda a enxerga, murmurou enfim com um suspiro. que
+no tenho camisa de dormir, nem chinelas!... E no me posso deitar de
+camisa engomada.
+
+Por inspirao minha recorremos ao Melchior. De novo, esse benemrito
+providenciou, trazendo a Jacinto, para ele desafogar os ps, uns
+tamancos--e para embrulhar o corpo uma camisa da comadre, enorme, de
+estopa, spera como uma estamenha de penitente, com folhos mais crespos
+e duros do que lavores de madeira. Para consolar o meu Prncipe lembrei
+que Plato quando compunha o _Banquete_, Vasco da Gama quando dobrava o
+Cabo, no dormiam em melhores catres! As enxergas rijas fazem as almas
+fortes, oh Jacinto!... E s vestido de estamenha que se penetra no
+Paraso.
+
+--Tens tu, volveu o meu amigo secamente, alguma coisa que eu leia? No
+posso adormecer sem um livro.
+
+Eu? Um livro? Possua apenas o velho numero do _Jornal do Comrcio_,
+que escapara disperso dos nossos bens. Rasguei a copiosa folha pelo
+meio, partilhei com Jacinto fraternalmente. Ele tomou a sua metade,
+que era a dos anncios... E quem no viu ento Jacinto, senhor de
+Tormes, acaapado borda da enxerga, rente da vela de sebo que se
+derretia no alqueire, com os ps encafuados nos socos, perdido dentro
+das speras pregas e dos rijos folhos da camisa serrana, percorrendo
+num pedao velho de Gazeta, pensativamente, as partidas dos
+Paquetes--no pode saber o que uma intensa e verdica imagem do
+Desalento.
+
+Recolhido minha alcova espartana, desabotoava o colete, num
+delicioso cansao, quando o meu Prncipe ainda me reclamou:
+
+--Z Fernandes...
+
+--Diz.
+
+--Manda tambm no saco um abotoador de botas.
+
+Estirado comodamente na rija enxerga murmurei, como sempre murmuro ao
+penetrar no Sono, que um primo da Morte, Deus seja louvado! Depois
+tomei a metade do _Jornal do Comrcio_ que me pertencia.
+
+--Z Fernandes...
+
+--Que ?
+
+--Tambm podias meter no saco ps dos dentes... E uma lima das
+unhas... E um romance!
+
+J a meia Gazeta me escapava das mos dormentes. Mas da sua alcova,
+depois de soprar a vela, Jacinto murmurou entre um bocejo:
+
+--Z Fernandes...
+
+--Hein?
+
+--Escreve para Lisboa, para o Hotel Bragana... Os lenis ao menos so
+frescos, cheiram bem, a sadio!
+
+
+
+
+IX
+
+
+Cedo, de madrugada, sem rumor, para no despertar o meu Jacinto, que,
+com as mos cruzadas sobre o peito, dormia beatificamente na sua enxerga
+de granito--parti para Guies.
+
+Ao cabo de uma semana, recolhendo uma manh para o almoo, encontrei no
+corredor as minhas malas to desejadas, que um moo do casal da Giesta
+trouxera num carro com recados do Sr. Pimentinha. O meu pensamento
+pulou para o meu Prncipe. E lancei pelo telgrafo, para Lisboa, para o
+Hotel Bragana, este brado alegre:--Ests l? Sei recuperaste Grilo e
+Civilizao! Hurrah! Abrao!--S depois de sete dias, ocupados numa
+delicada apanha de espargos com que outrora civilizara a horta da tia
+Vicncia, notei o silncio de Jacinto. Num bilhete postal renovei,
+desenvolvi o grito amigo:--Ests l? So os prazeres da Baixa que assim
+te tornam desatento e mudo? Eu, todo espargos! Responde, quando chegas?
+Tempo delicioso! 23^o sombra. E os ossos?...--Veio depois a devota
+romaria da Senhora da Roqueirinha. Durante a lua nova andei num corte
+de mato, na minha terra das Corcas. A tia Vicncia vomitou, com uma
+indigesto de morcelas. E o silncio do meu Prncipe era ingrato e
+ferrenho.
+
+Enfim uma tarde, voltando da Flor da Malva, de casa da minha prima
+Joaninha, parei em Sandofim, na venda do Manuel Rico, para beber de
+certo vinho branco que a minha alma conhece--e sempre pede.
+
+Defronte, porta do ferrador, o Severo, sobrinho do Melchior de Tormes
+e o mais fino alveitar da serra, picava tabaco, escarranchado num
+banco. Mandei encher outro quartilho: ele acariciou o pescoo da minha
+gua que j salvara de um esfriamento: e, como eu indagasse do nosso
+Melchior, o Severo contou que na vspera jantara com ele em Tormes, e
+se abeirara tambm do fidalgo...
+
+--Ora essa! Ento o Sr. D. Jacinto est em Tormes?
+
+O meu espanto divertiu o Severo:
+
+--Ento V. Exc.^a... Pois em Tormes que ele est, h mais de cinco
+semanas, sem arredar! E parece que fica para a vindima, e vai l uma
+grandeza!
+
+Santssimo nome de Deus! Ao outro dia, domingo, depois da missa e sem me
+assustar com a calma que carregava, trotei alvoroadamente para Tormes.
+Ao latir dos rafeiros, quando transpus o portal solarengo, a comadre do
+Melchior acudiu dos lados do curral, com um alguidar de lavagem
+encostado cintura.--Ento o Sr. D. Jacinto?... O Sr. D. Jacinto
+andava l para baixo, com o Silvrio e com o Melchior, nos campos de
+Freixomil...
+
+--E o Sr. Grilo, o preto?
+
+--H bocadinho tambm o enxerguei no pomar, com o francs, a apanhar
+limes doces...
+
+Todas as janelas do solar rebrilhavam, com vidraas novas, bem polidas.
+A um canto do ptio notei baldes de cal e tigelas de tintas. Uma escada
+de pedreiro descansara durante o Dia Santo arrimada contra o telhado. E,
+rente ao muro da capela, dois gatos dormiam sobre montes de palha
+desempacotada de caixotes considerveis.
+
+--Bem, pensei eu. Eis a Civilizao!
+
+Recolhi a gua, galguei a escada. Na varanda, sobre uma pilha de ripas,
+reluzia num raio de sol uma banheira de zinco. Dentro encontrei todos
+os soalhos remendados, esfregados a carqueja. As paredes, muito caiadas
+e nuas, refrigeravam como as de um convento. Um quarto, a que me levaram
+trs portas escancaradas com franqueza serrana, era certamente o de
+Jacinto: a roupa pendia de cabides de pau: o leito de ferro, com
+coberta de fusto, encolhia timidamente a sua rigidez virginal a um
+canto, entre o muro e a banquinha onde um castial de lato resplandecia
+sobre um volume do _D. Quixote_ no lavatrio pintado de amarelo,
+imitando bambu, apenas cabia o jarro, a bacia, um naco gordo de sabo; e
+uma prateleirinha bastava ao esmerado alinho da escova, da tesoura, do
+pente, do espelhinho de feira, e do frasquinho de gua de alfazema que
+eu mandara de Guies. As trs janelas, sem cortinas, contemplavam a
+beleza da serra, respirando um delicado e macio ar, que se perfumava
+nas resinas dos pinheirais, depois nas roseiras da horta. Em frente, no
+corredor, outro quarto repetia a mesma simplicidade. Certamente a
+previdncia do meu Prncipe o destinara ao seu Z Fernandes. Pendurei
+logo dentro, no cabide, o meu guarda-p de lustrina.
+
+Mas na sala imensa, onde tanto filosoframos considerando as
+estrelas, Jacinto arranjara um centro de repouso e de estudo--e
+desenrolara essa grandeza que impressionava o Severo. As cadeiras de
+verga da Madeira, amplas e de braos, ofereciam o conforto de
+almofadinhas de chita. Sobre a mesa enorme de pau branco, carpinteirada
+em Tormes, admirei um candeeiro de metal de trs bicos, um tinteiro de
+frade armado de penas de pato, um vaso de capela transbordando de
+cravos. Entre duas janelas uma cmoda antiga, embutida, com ferragens
+lavradas, recebera sobre o seu mrmore rosado o devoto peso de um
+Prespio, onde Reis Magos, pastores de surres vistosos, cordeiros
+de esguedelhada l, se apressavam atravs de alcantis para o Menino, que
+na sua lapinha lhes abria os braos, coroado por uma enorme Coroa Real.
+Uma estante de madeira enchia outro pedao de parede, entre dois
+retratos negros com caixilhos negros; sobre uma das suas prateleiras
+repousavam duas espingardas; nas outras esperavam, espalhados, como os
+primeiros Doutores nas bancadas de um conclio, alguns nobres livros, um
+Plutarco, um Virglio, a Odisseia, o Manual de Epicteto, as Crnicas
+de Froissart. Depois, em fila decorosa, cadeiras de palhinha, muito
+novas, muito envernizadas. E a um canto um molho de varapaus.
+
+Tudo resplandecia de asseio e ordem. As portadas das janelas, cerradas,
+abrigavam do sol que batia aquele lado de Tormes, escaldando os
+peitoris de pedra. Do soalho, borrifado de gua, subia, na suavizada
+penumbra, uma frescura. Os cravos rescendiam. Nem dos campos, nem da
+casa, se elevava um rumor. Tormes dormia no esplendor da manh santa. E,
+penetrado por aquela consoladora quietao de convento rural, terminei
+por me estender numa cadeira de verga, junto da mesa, abrir
+languidamente um tomo de Virglio, e murmurar, apropriando o doce verso
+que encontrara:
+
+Fortunate Jacinthe! Hic, inter arva nota
+Et fontes sacros, frigus captabis opacum...
+
+Afortunado Jacinto, na verdade! Agora, entre campos que so teus e
+guas que te so sagradas, colhes enfim a sombra e a paz!
+
+Li ainda outros versos. E, na fadiga das duas horas de gua e calor
+desde Guies, irreverentemente adormecia sobre o divino
+Bucoliasta--quando me despertou um berro amigo! Era o meu Prncipe. E
+muito decididamente, depois de me soltar do seu rijo abrao, o comparei
+a uma planta estiolada, emurchecida na escurido, entre tapetes e
+sedas, que, levada para vento e sol, profusamente regada, reverdece,
+desabrocha e honra a Natureza! Jacinto j no corcovava. Sobre a sua
+arrefecida palidez de supercivilizado, o ar montesino, ou vida mais
+verdadeira, espalhara um rubor trigueiro e quente de sangue renovado que
+o virilizava soberbamente. Dos olhos, que na Cidade andavam sempre to
+crepusculares e desviados do Mundo, saltava agora um brilho de meio-dia,
+resoluto e largo, contente em se embeber na beleza das coisas. At o
+bigode se lhe encrespara. E j no deslizava a mo desencantada sobre a
+face,--mas batia com ela triunfalmente na coxa. Que sei? Era um
+Jacinto novssimo. E quase me assustava, por eu ter de aprender e
+penetrar, neste novo Prncipe, os modos e as ideias novas.
+
+--Caramba, Jacinto, mas ento...?
+
+Ele encolheu jovialmente os ombros realargados. E s me soube contar,
+trilhando soberanamente com os sapatos brancos e cobertos de p o soalho
+remendado, que, ao acordar em Tormes, depois de se lavar numa dorna, e
+de enfiar a minha roupa branca, se sentira de repente como
+_desanuviado_,desenvencilhado! Almoara uma pratada de ovos com
+chourio, sublime. Passeara por toda aquela magnificncia da serra com
+pensamentos ligeiros de liberdade e de paz. Mandara ao Porto comprar uma
+cama, uns cabides... E ali estava...
+
+--Para todo o Vero?
+
+--No! Mas um ms... Dois meses! Enquanto houver chourios, e a gua da
+fonte, bebida pela telha ou numa folha de couve, me souber to
+divinamente!
+
+Ca sobre a cadeira de verga, e contemplei, arregalado, quase
+esgazeado, o meu Prncipe! Ele enrolava numa mortalha tabaco picado,
+tabaco grosso, guardado numa malga vidrada. E exclamava:
+
+--Ando a pelas terras desde o romper de alva! Pesquei j hoje quatro
+trutas, magnficas... L em baixo, no Naves, um riachote que se atira
+pelo vale da Seranda... Temos logo ao jantar essas trutas!
+
+Mas eu, vido pela histria daquela ressurreio:
+
+--Ento, no estiveste em Lisboa?... Eu telegrafei...
+
+--Qual telgrafo! Qual Lisboa! Estive l em cima, ao p da fonte da
+Lira, sombra de uma grande rvore, _sub tegmine_ no sei qu, a ler
+esse adorvel Virglio... E tambm a arranjar o meu palcio! Que te
+parece, Z Fernandes? Em trs semanas, tudo soalhado, envidraado,
+caiado, encadeirado!... Trabalhou a freguesia inteira! At eu pintei,
+com uma imensa brocha. Viste o comedouro?
+
+--No.
+
+--Ento vem admirar a beleza na simplicidade, brbaro!
+
+Era a mesma onde ns tanto exaltramos o arroz com favas--mas muito
+esfregada, muito caiada, com um rodap besuntado de azul estridente onde
+logo adivinhei a obra do meu Prncipe. Uma toalha de linho de Guimares
+cobria a mesa, com as franjas roando o soalho. No fundo dos pratos de
+loua forte reluzia um galo amarelo. Era o mesmo galo e a mesma loua
+em que na nossa casa, em Guies, se servem os feijes dos cavadores...
+
+Mas no ptio os ces latiram. E Jacinto correu varanda, com uma
+ligeireza curiosa que me deleitou. Ah, bem definitivamente se
+esfrangalhara aquela rede de malha que se no percebia e que outrora o
+travava!--Nesse momento apareceu o Grilo, de quinzena de linho,
+segurando em cada mo uma garrafa de vinho branco. Todo se alegrou em
+ver na quinta o si Fernandes. Mas a sua veneranda face j no
+resplandecia, como em Paris, com um to sereno e ditoso brilho de bano.
+At me pareceu que corcovava... Quando o interroguei sobre aquela
+mudana, estendeu duvidosamente o beio grosso:
+
+--O menino gosta, eu ento tambm gosto... Que o ar aqui muito bom,
+si Fernandes, o ar muito bom!
+
+Depois, mais baixo, envolvendo num gesto desolado a loua de Barcelos,
+as facas de cabo de osso, as prateleiras de pinho como num refeitrio de
+Franciscanos:
+
+--Mas muita magreza, si Fernandes, muita magreza!
+
+Jacinto voltava com um mao de jornais cintados:
+
+--Era o carteiro. J vs que no amuei inteiramente com a Civilizao.
+Eis a Imprensa!... Mas nada de _Figaro_, ou da horrenda _Dois-Mundos_!
+Jornais de Agricultura! Para aprender como se produzem as risonhas
+messes, e sob que signo se casa a vinha ao olmo, e que cuidados
+necessita a abelha provida... _Quid faciat laetas segetes_... De resto
+para esta nobre educao, j me bastavam as _Gergicas_, que tu ignoras!
+
+Eu ri:
+
+--Alto l! _Nos quoque gens sumus et nostrum Virgilium sabemus_!
+
+Mas o meu novssimo amigo, debruado da janela, batia as palmas--como
+Cato para chamar os servos, na Roma simples. E gritava:
+
+--Ana Vaqueira! Um copo de gua, bem lavado, da fonte velha!
+
+Pulei, imensamente divertido:
+
+--Oh Jacinto! E as guas carbonatadas? e as fosfatadas? e as
+esterilizadas? e as sdicas?...
+
+O meu Prncipe atirou os ombros com um desdm soberbo. E aclamou a
+apario de um grande copo, todo embaciado pela frescura nevada da gua
+refulgente, que uma bela moa trazia num prato. Eu admirei sobretudo a
+moa... Que olhos, de um negro to lquido e srio! No andar, no quebrar
+da cinta, que harmonia e que graa de Ninfa latina!
+
+E apenas pela porta desaparecera a esplndida apario:
+
+--Oh Jacinto, eu daqui a um instante tambm quero gua! E se compete a
+esta rapariga trazer as coisas, eu, de cinco em cinco minutos, quero uma
+coisa!... Que olhos, que corpo... Caramba, menino! Eis a poesia, toda
+viva, da serra...
+
+O meu Prncipe sorria, com sinceridade:
+
+--No! no nos iludamos, Z Fernandes, nem faamos Arcdia. uma bela
+moa, mas uma bruta... No h ali mais poesia, nem mais sensibilidade,
+nem mesmo mais beleza do que numa linda vaca taurina. Merece o seu
+nome de Ana Vaqueira. Trabalha bem, digere bem, concebe bem. Para isso
+a fez a Natureza, assim s e rija; e ela cumpre. O marido todavia no
+parece contente, porque a desanca. Tambm um belo bruto... No, meu
+filho, a serra maravilhosa e muito grato lhe estou... Mas temos aqui a
+fmea em toda a sua animalidade e o macho em todo o seu egosmo... So
+porm verdadeiros, genuinamente verdadeiros! E esta verdade, Z
+Fernandes, para mim um repouso.
+
+Lentamente, gozando a frescura, o silncio, a liberdade do vasto
+casaro, retrocedemos sala que Jacinto j denominara a _Livraria_. E,
+de repente, ao avistar num canto uma caixa com a tampa meio despregada,
+quase me engasguei, na furiosa curiosidade que me assaltou:
+
+--E os caixotes? Oh Jacinto?... Toda aquela imensa caixotaria que ns
+mandmos, abarrotada de Civilizao? Soubeste? Apareceram?
+
+O meu Prncipe parou, bateu alegremente na coxa:
+
+--Sublime! Tu ainda te lembras daquele homenzinho, de saco a
+tiracolo, que ns admirmos tanto pela sua sagacidade, o seu saber
+geogrfico?... Lembras? Apenas falei em Tormes, gritou que conhecia,
+rabiscou uma nota... Nem era necessrio mais! Oh! Tormes,
+perfeitamente, muito antigo, muito curioso! Pois mandou tudo para
+Alba-de-Tormes, em Espanha! Est tudo em Espanha!
+
+Cocei o queixo, desconsolado:
+
+--Ora, ora... Um homem to esperto, to expedito, que fazia tanta honra
+ao Progresso! Tudo para Espanha!... E mandaste vir?
+
+--No! Talvez mais tarde... Agora, Z Fernandes, estou saboreando esta
+delcia de me erguer pela manh, e de ter s uma escova para alisar o
+cabelo.
+
+Considerei, cheio de recordaes, o meu amigo:
+
+--Tinhas umas nove...
+
+--Nove? Tinha vinte! Talvez trinta! E era uma atrapalhao, no me
+bastavam!... Nunca em Paris andei bem penteado. Assim com os meus
+setenta mil volumes: eram tantos que nunca li nenhum. Assim com as
+minhas ocupaes: tanto me sobrecarregavam, que nunca fui til!
+
+ * * * * *
+
+De tarde, depois da calma, fomos vaguear pelos caminhos coleantes
+daquela quinta rica, que, atravs de duas lguas, ondula por vale e
+monte. No me encontrara mais com Jacinto em meio da Natureza, desde o
+remoto dia de entremez em que ele tanto sofrera no socivel e policiado
+bosque de Montmorency. Ah, mas agora, com que segurana e idlico amor
+ele se movia atravs dessa Natureza, donde andara tantos anos
+desviado por teoria e por hbito! J no arreceava a humidade mortal
+das relvas; nem repelia como impertinente o roar das ramagens; nem o
+silncio dos altos o inquietava como um despovoamento do Universo. Era
+com delcias, com um consolado sentimento de estabilidade recuperada,
+que enterrava os grossos sapatos nas terras moles, como no seu elemento
+natural e paterno: sem razo, deixava os trilhos fceis, para se
+embrenhar atravs de arbustos emaranhados, e receber na face a carcia
+das folhas tenras; sobre os outeiros, parava, imvel, retendo os meus
+gestos e quase o meu hlito, para se embeber de silncio e de paz: e
+duas vezes o surpreendi atento e sorrindo beira de um regatinho
+palreiro, como se lhe escutasse a confidncia...
+
+Depois filosofava, sem descontinuar, com o entusiasmo de um
+convertido, vido de converter:
+
+--Como a inteligncia aqui se liberta, hein? E como tudo animado
+de uma vida forte e profunda!... Dizes tu agora, Z Fernandes, que no h
+aqui pensamento...
+
+--Eu?! Eu no digo nada, Jacinto...
+
+--Pois uma maneira de reflectir muito estreita e muito grosseira...
+
+--Ora essa! Mas eu...
+
+--No, no percebes. A vida no se limita a pensar, meu caro doutor...
+
+--Que no sou!
+
+--A vida essencialmente Vontade e Movimento: e naquele pedao de
+terra, plantado de milho, vai todo um mundo de impulsos, de foras que
+se revelam, e que atingem a sua expresso suprema, que a Forma. No,
+essa tua filosofia est ainda extremamente grosseira...
+
+--Irra! mas eu no...
+
+--E depois, menino, que inesgotvel, que miraculosa diversidade de
+formas... E todas belas!
+
+Agarrava o meu pobre brao, exigia que eu reparasse com reverncia. Na
+Natureza nunca eu descobriria um contorno feio ou repetido! Nunca duas
+folhas de hera, que, na verdura ou recorte, se assemelhassem! Na Cidade,
+pelo contrrio, cada casa repete servilmente a outra casa; todas as
+faces reproduzem a mesma indiferena ou a mesma inquietao; as ideias
+tm todas o mesmo valor, o mesmo cunho, a mesma forma, como as libras;
+e at o que h mais pessoal e ntimo, a Iluso, em todos idntica, e
+todos a respiram, e todos se perdem nela como no mesmo nevoeiro... A
+_mesmice_--eis o horror das Cidades!
+
+--Mas aqui! Olha para aquele castanheiro. H trs semanas que cada
+manh o vejo, e sempre me parece outro... A sombra, o sol, o vento, as
+nuvens, a chuva, incessantemente lhe compem uma expresso diversa e
+nova, sempre interessante. Nunca a sua frequentao me poderia fartar...
+
+Eu murmurei:
+
+-- pena que no converse!
+
+O meu Prncipe recuou, com olhares chamejantes, de Apstolo:
+
+--Como que no converse? Mas justamente um conversador sublime! Est
+claro, no tem ditos, nem parola teorias, _ore rotundo_. Mas nunca eu
+passo junto dele que no me sugira um pensamento ou me no desvende
+uma verdade... Ainda hoje quando eu voltava de pescar as trutas...
+Parei: e logo ele me fez sentir como toda a sua vida de vegetal
+isenta de trabalho, da ansiedade, do esforo que a vida humana impe;
+no tem de se preocupar com o sustento, nem com o vestido, nem com o
+abrigo; filho querido de Deus, Deus o nutre, sem que ele se mova ou se
+inquiete... E esta segurana que lhe d tanta graa e tanta majestade.
+Pois no achas?
+
+Eu sorria, concordava. Tudo isto era de certo rebuscado e especioso. Mas
+que importavam as requintadas metforas, e essa Metafsica mal madura,
+colhida pressa nos ramos de um castanheiro? Sob toda aquela ideologia
+transparecia uma excelente realidade--a reconciliao do meu Prncipe
+com a Vida. Segura estava a sua Ressurreio depois de tantos anos de
+cova, da cova mole em que jazera, enfaixado como uma mmia nas faixas
+do Pessimismo!
+
+E o que esse Prncipe, nesta tarde me esfalfou! Farejava, com uma
+curiosidade insacivel, todos os recantos da serra! Galgava os cabeos
+correndo, como na esperana de descobrir l do alto os esplendores nunca
+contemplados de um Mundo indito. E o seu tormento era no conhecer os
+nomes das rvores, da mais rasteira planta brotando das fendas de um
+socalco... Constantemente me folheava como a um Dicionrio Botnico.
+
+--Fiz toda a sorte de cursos, passei pelos professores mais ilustres da
+Europa, tenho trinta mil volumes, e no sei se aquele senhor alm um
+amieiro ou um sobreiro...
+
+-- um azinheiro, Jacinto.
+
+J a tarde caa quando recolhemos muito lentamente. E toda essa
+adorvel paz do cu, realmente celestial, e dos campos, onde cada
+folhinha conservava uma quietao contemplativa, na luz docemente
+desmaiada, pousando sobre as coisas com um liso e leve afago, penetrava
+to profundamente Jacinto, que eu o senti, no silncio em que
+caramos, suspirar de puro alvio.
+
+Depois, muito gravemente:
+
+--Tu dizes que na natureza no h pensamento...
+
+--Outra vez! Olha que maada! Eu...
+
+--Mas por estar nela suprimido o pensamento que lhe est poupado o
+sofrimento! Ns, desgraados, no podemos suprimir o pensamento, mas
+certamente o podemos disciplinar e impedir que ele se estonteie e se
+esfalfe, como na fornalha das cidades, ideando gozos que nunca se
+realizam, aspirando a certezas que nunca se atingem!... E o que
+aconselham estas colinas e estas rvores nossa alma, que vela e se
+agita:--que viva na paz de um sonho vago e nada apetea, nada tema,
+contra nada se insurja, e deixe o Mundo rolar, no esperando dele
+seno um rumor de harmonia, que a embale e lhe favorea o dormir dentro
+da mo de Deus. Hein, no te parece, Z Fernandes?
+
+--Talvez. Mas necessrio ento viver num mosteiro, com o temperamento
+de S. Bruno, ou ter cento e quarenta contos de renda e o desplante de
+certos Jacintos... E tambm me parece que andmos lguas. Estou
+derreado. E que fome!
+
+--Tanto melhor, para as trutas, e para o cabrito assado que nos
+espera...
+
+--Bravo! Quem te cozinha?
+
+--Uma afilhada do Melchior. Mulher sublime! Hs-de ver a canja! Hs-de
+ver a cabidela! Ela horrenda, quase an, com os olhos tortos, um
+verde e outro preto. Mas que paladar! Que gnio!
+
+Com efeito! Horcio dedicaria uma ode quele cabrito assado num
+espeto de cerejeira. E com as trutas, e o vinho Melchior, e a cabidela,
+em que a sublime an de olhos tortos pusera inspiraes que no so da
+terra, e aquela doura da noite de Junho, que pelas janelas abertas
+nos envolveu no seu veludo negro, to mole e to consolado fiquei,
+que, na sala onde nos esperava o caf, ca numa cadeira de verga, na
+mais larga, e de melhores almofadas, e atirei um berro de pura delcia.
+
+Depois, com uma recordao, limpando o caf do plo dos bigodes:
+
+-- Jacinto, e quando ns andvamos por Paris com o Pessimismo s
+costas, a gemer que tudo era iluso e dor?
+
+O meu Prncipe, que o cabrito tornara ainda mais alegre, trilhava a
+grandes passadas o soalho, enrolando o cigarro:
+
+--Oh! que engenhosa besta, esse Schopenhauer! E maior besta eu, que o
+sorvia, e que me desolava com sinceridade! E todavia,--continuava ele,
+remexendo a chvena--o Pessimismo uma teoria bem consoladora para os
+que sofrem, porque desindividualiza o sofrimento, alarga-o at o
+tornar uma lei universal, a lei prpria da Vida; portanto lhe tira o
+carcter pungente de uma injustia especial, cometida contra o
+sofredor por um Destino inimigo e faccioso! Realmente o nosso mal
+sobretudo nos amarga quando contemplamos ou imaginamos o bem do nosso
+vizinho:--porque nos sentimos escolhidos e destacados para a
+infelicidade, podendo, como ele, ter nascido para a Fortuna. Quem se
+queixaria de ser coxo--se toda a humanidade coxeasse? E quais no seriam
+os urros, e a furiosa revolta do homem envolto na neve e friagem e
+borrasca de um Inverno especial, organizado nos cus para o envolver a
+ele unicamente--enquanto em redor, toda a Humanidade se movesse na
+luminosa benignidade de uma Primavera?
+
+--Com efeito, murmurei eu, esse sujeito teria imensa razo para
+urrar...
+
+--E depois, clamava ainda o meu amigo, o Pessimismo excelente para os
+Inertes, por que lhes atenua o desgracioso delito da Inrcia. Se toda
+a meta um monte de Dor, onde a alma vai esbarrar, para qu marchar
+para a meta, atravs dos embaraos do mundo? E de resto todos os Lricos
+e Tericos do Pessimismo, desde Salomo at o maligno Schopenhauer,
+lanam o seu cntico ou a sua doutrina para disfarar a humilhao das
+suas misrias, subordinando-as todas a uma vasta lei de Vida, uma lei
+Csmica, e ornando assim com a aurola de uma origem quase divina as
+suas midas desgraazinhas de temperamento ou de Sorte. O bom
+Schopenhauer formula todo o seu schopenhauerismo, quando um filsofo
+sem editor, e um professor sem discpulos; e sofre horrendamente de
+terrores e manias; e esconde o seu dinheiro debaixo do sobrado; e redige
+as suas contas em grego nos perptuos lamentos da desconfiana; e vive
+nas adegas com o medo de incndios; e viaja com um copo de lata na
+algibeira para no beber em vidro que beios de leproso tivessem
+contaminado!... Ento Schopenhauer sombriamente Schopenhauerista. Mas
+apenas penetra na celebridade, e os seus miserveis nervos se acalmam, e
+o cerca uma paz amvel, no h ento, em todo Francfort, burgus mais
+optimista, de face mais jucunda, e gozando mais regradamente os bens da
+inteligncia e da Vida!... E o outro, o Israelita, o muito pedantesco
+rei de Jerusalm! quando descobre esse sublime Retrico que o mundo
+Iluso e Vaidade? Aos setenta e cinco anos, quando o Poder lhe escapa
+das mos trmulas, e o seu serralho de trezentas concubinas se lhe torna
+ridiculamente suprfluo. Ento rompem os pomposos queixumes! Tudo
+vaidade e aflio de esprito! nada existe estvel sob o sol! Com
+efeito, meu bom Salomo, tudo passa--principalmente o poder de usar
+trezentas concubinas! Mas que se restitua a esse velho sulto asitico,
+besuntado de Literatura, a sua virilidade,--e onde se sumir o lamento
+do Eclesiastes? Ento voltar, em segunda e triunfal edio, o xtase
+do _Livro dos Cantares_!...
+
+Assim discursava o meu amigo no nocturno silncio de Tormes. Creio que
+ainda estabeleceu sobre o Pessimismo outras coisas joviais, profundas ou
+elegantes;--mas eu adormecera, beatificamente envolto em Optimismo e
+doura.
+
+Em breve porm, me fez pular, escancarar as plpebras moles, uma rija,
+larga, sadia e genuna risada. Era Jacinto, estirado numa cadeira, que
+lia o D. Quixote... Oh bem aventurado Prncipe! Conservara ele o agudo
+poder de arrancar teorias a uma espiga de milho ainda verde, e por uma
+clemncia de Deus, que fizera reflorir o tronco seco, recuperara o dom
+divino de rir, com as faccias de Sancho!
+
+Aproveitando a minha companhia, as duas semanas de buclica ociosidade
+que eu lhe concedera, o meu Jacinto preparou ento a cerimnia to
+falada, to meditada, a trasladao dos ossos dos velhos Jacintos--dos
+respeitveis ossos como murmurava, cumprimentando, o bom Silvrio, o
+procurador, nessa manh de sexta-feira, em que almoava connosco,
+metido num espantoso jaqueto de veludilho amarelo debruado de seda
+azul! A cerimnia, de resto, reclamava muita singeleza por serem to
+incertos, quase impessoais, aqueles restos, que ns estabeleceramos na
+Capelinha do vale da Carria, na Capelinha toda nova, toda nua e toda
+fria, ainda sem alma e sem calor de Deus.
+
+--Por que enfim V. Ex.^a compreende,--explicava o Silvrio passando o
+guardanapo por sobre a larga face suada e por sobre as imensas barbas
+negras, como as de um turco--, naquela mixrdia... Oh! peo desculpa a
+V. Ex.^a! Naquela confuso, quando tudo desabou, no pudemos mais
+conhecer a quem pertenciam os ossos. Nem sequer, falando verdade, ns
+sabamos bem que dignos avs de V. Ex.^a jaziam na capela velha, assim
+to antigos, com os letreiros apagados, senhores de todo o nosso
+respeito, certamente, mas, se V. Ex.^a me permite, senhores j muito
+desfeitos... Depois veio o desastre, a mixrdia. E aqui est o que
+decidi, depois de pensar. Mandei arranjar tantos caixes de chumbo,
+quantas as caveiras que se apanharam l em baixo na Carria, entre o
+lixo e o pedregulho. Havia sete caveiras e meia. Quero dizer, sete
+caveiras e uma caveirinha pequenina. Metemos cada caveira em seu
+caixo. Depois... Que quer V. Ex.^a? No havia outro meio! E aqui o Sr.
+Fernandes dir se no acha que procedemos com habilidade. A cada caveira
+juntamos uma certa poro de ossos, uma poro razovel... No havia
+outro meio... Nem todos os ossos se acharam. Canelas, por exemplo,
+faltavam! E bem possvel que as costelas de um daqueles senhores
+ficasse com a cabea de outro... Mas quem podia saber? S Deus. Enfim
+fizemos o que a prudncia mandava... Depois, no dia de Juzo, cada um
+destes fidalgos apresentar os ossos que lhe pertencerem.
+
+Lanava estas coisas macabras e tremendas, penetrado de respeito, quase
+com majestade, espetando, ora em mim, ora no meu Prncipe, os olhinhos
+agudos e reluzentes como vidrilhos.
+
+Eu aprovei o pitoresco homem:
+
+--Perfeitamente! Andou perfeitamente, amigo Silvrio. So to vagos, to
+annimos, todos esses avs! S faz pena, grande pena, que se
+tresmalhassem os restos do av Galeo.
+
+--No estava c! acudiu Jacinto. Vim a Tormes expressamente por causa
+do av Galeo, e por fim o seu jazigo nunca foi aqui, na Capelinha da
+Carria... Felizmente!
+
+O Silvrio sacudia gravemente a calva trigueira:
+
+--Nunca tivemos o Ex.^{mo} Sr. Galeo. H cem anos, Sr. Fernandes, h
+cem anos que se no depositava na capela velha corpo de cavalheiro c
+da casa.
+
+--Onde estar ento?...
+
+O meu Prncipe encolheu os ombros. Por esse Reino... Na igrejinha, no
+cemitrio de alguma das freguesias numerosas, onde ele possua terras.
+Casa to espalhada!
+
+--Bem! conclu. Ento, como se trata de ossadas vagas, sem nome, sem
+data, convm uma ceremoniazinha muito simples, muito sbria.
+
+--Quietinha, quietinha! murmurou o Silvrio, dando um forte sorvo
+assobiado ao caf.
+
+E foi quietinha, de uma rstica e doce singeleza, a cerimnia daqueles
+altos senhores. Cedo, por uma manh, levemente enevoada, os oito caixes
+pequeninos, cobertos de um veludo vermelho mais de festa que de funeral,
+com molhos de rosas espalhados, contendo cada um o seu montezinho
+de ossos incertos, saram aos ombros dos coveiros de Tormes e dos moos
+da quinta, da Igreja de S. Jos, cujo sino leve tangia, na enevoada
+doura da manh,--quanto fina e levemente!--como pia um passarinho
+triste. Adiante, um airoso moo de sobrepeliz, erguia com zelo a velha
+cruz prateada; abrigando o pescoo sob um imenso leno de rap, de
+quadrados azuis, o velho e corcovado sacristo segurava pensativamente a
+caldeirinha de gua benta; e o bom abade de S. Jos, com os dedos entre
+o brevirio fechado, movia os lbios, numa lenta, murmurosa reza, que
+ia, pelo doce ar, espalhando mais doura. Logo atrs do ltimo cofre, o
+mais pequenino, o da caveirinha pequena, Jacinto caminhava; e eu, a
+estalar dentro de um fato preto de Jacinto, tirado pressa de uma das
+malas de Paris quando, de manh, j tarde para mandar a Guies, me
+lembrei que toda a minha roupa era de cores festivais e pastoris.
+
+Depois marchava o Silvrio, solenssimo, com um imenso peitilho, onde
+as barbas imensas se alastravam, negrssimas. De casaca, com o grosso
+beio descado, descado todo ele por aquela melancolia de enterro
+que se juntava melancolia da serra, o Grilo enfiava no brao a sua
+coroa, enorme, de rosas e de heras. Por fim seguia o Melchior, entre um
+rancho de mulheres, que, sumidas na sombra dos lenos pretos, desfiando
+longos rosrios, rosnavam surdas ave-marias, atravs de espaados
+suspiros, to doridos como se inconsoladamente lhes doesse a perda
+daqueles Jacintos. Assim, pelas vrzeas entrecorridas de regueiros,
+lenta nos recostos dos matos, escorregando mais rpida, pelos crregos
+pedregosos, seguia a procisso, sempre com a cruz adiante, alta e
+prateada, rebrilhando por vezes num breve raiozinho de sol que,
+vagarosamente, surdia da nvoa desfeita. Ramos baixos de lodo ou de
+salgueiro passavam uma derradeira carcia sobre o veludo dos caixes.
+
+Um regato por vezes nos acompanhava, com discreto fulgir entre as
+relvas, sussurrando e como rezando tambm, alegremente: e nos
+quintalinhos umbrosos, nossa passagem, os galos, de cima das pilhas
+de mato, faziam soar o seu clarim festivo. Depois, adiante da fonte da
+Lira, como o caminho se alongava, e desejssemos poupar o nosso velho
+abade, cortmos atravs de uma seara, j alta, quase madura, toda
+entremeada de papoilas, O sol radiou: sob a brisa larga, que levara a
+nvoa, toda a messe ondulou numa lenta vaga dourada, em que se
+balouavam os esquifes; e, como enorme papoila, a mais vermelha,
+rutilava o guarda-sol de paninho logo aberto pelo sacristo para
+abrigar o abade.
+
+Jacinto tocou no meu cotovelo:
+
+--Que lindos vamos! Ora v tu a Natureza... Num simples enterrar
+de ossos, quanta graa e quanta beleza!
+
+Na Capelinha, nova, dominando o vale da Carria, solitria e muito
+nua, no meio de um adro, ainda mal alisado, sem uma verdura de relva, uma
+frescura de arbusto, dois moos seguravam porta molhos de tochas, que o
+Silvrio distribuiu, a passos graves, com cortesias, solenssimo.
+Dentro as curtas chamas, mal luziam, mal derramavam a sua amarelido
+triste, esbatidas na reluzente brancura dos muros estacados, na jovial
+claridade que caa das altas vidraas bem polidas. Em torno dos
+esquifes, pousados sobre bancos, que pesados veludilhos recobriam, o
+abade murmurava um suave latim, enquanto ao fundo as mulheres, sumidas
+na sombra dos seus negros lenos, gemiam _amens_ agudos, abafavam um
+respeitoso soluo. Depois, tomando levemente o hissope, ainda o bom
+abade aspergiu, para uma derradeira purificao, os incertos ossos dos
+incertos Jacintos. E todos desfilmos por diante do meu Prncipe,
+timidamente encostado ombreira, com o Silvrio ao lado esmagando
+contra o peitilho as barbas imensas, a face descada, cerradas as
+plpebras como contendo lgrimas.
+
+No adro, o meu Prncipe acendeu regaladamente um cigarro pedido ao
+Melchior:
+
+--E ento, Z Fernandes, que te pareceu a cerimoniazinha?
+
+--Muito campestre, muito suave, muito risonha... Uma delcia.
+
+Mas o Abade, que se desvestira na Sacristia, apareceu, j com o seu
+grande casaco de lustrina, e seu velho chapu desabado, trazidos pelo
+moo da Residncia, num saco de chita. Jacinto, imediatamente lhe
+agradeceu tantos cuidados, a afvel hospitalidade que oferecera aos
+ossos, durante a construo da Capelinha nova. E o suave velho, todo
+branquinho, de faces ainda menineiras e coradas, com um claro sorriso de
+dentes sadios, louvava Jacinto, que assim viera de to longe, em to
+longa jornada, para cumprir aquele dever de bom neto.
+
+--So avs muito remotos, e agora to confusos! murmurava Jacinto
+sorrindo.
+
+--Pois mais mrito ainda o de V. Ex.^a. Respeitar um av morto, bem
+corrente... Mas respeitar os ossos de um quinto av, de um stimo av!
+
+--Sobretudo, Sr. Abade, quando deles nada se sabe, e naturalmente
+nada fizeram.
+
+O velho sacudiu risonhamente o dedo gordo:
+
+--Ora quem sabe, quem sabe! Talvez fossem excelentes! E por fim, quem
+muito se demora no mundo, como eu, termina por se convencer que no mundo
+no h coisa ou ser intil. Ainda ontem eu lia num jornal do Porto,
+que por fim, segundo se descobriu, so as minhocas que estrumam e lavram
+a terra, antes de chegar o lavrador e os bois com o arado. At as
+minhocas so teis. No h nada intil... Eu tinha l na residncia uma
+poro de cardos a um canto da horta, que me afligiam. Pois reflecti e
+terminei por me regalar com eles em xarope. Os avs de V. Ex.^a por c
+andaram, por c trabalharam, por c padeceram. Quer dizer: por c
+serviram. E, em todo o caso, que lhes rezemos um Padre-Nosso por alma
+no lhes pode fazer seno bem, a eles e a ns.
+
+E assim, docemente filosofando, parmos num souto de carvalheiras,
+onde esperava a velhssima gua do Abade, por que o santo homem agora,
+depois do reumatismo do ltimo Inverno, j no afrontava rijamente
+como antes os trilhos duros da serra. Para ele montar, filialmente
+Jacinto segurou o estribo. E enquanto a gua se empurrava pelo crrego
+acima, quase tapada sob o imenso guarda-sol vermelho em que se abrigava
+o velho, ns recolhemos a casa metendo pela serra da Lombinha, atravs
+dos milhos, e depressa, porque eu estalava, aperreado, dentro da roupa
+preta do meu Prncipe.
+
+--Esto pois acomodados estes senhores, Z Fernandes! S resta rezar
+por eles o Padre-Nosso, que recomenda o abade... Somente, eu no sei,
+j no me lembro do Padre-Nosso.
+
+--No te aflijas, Jacinto: peo tia Vicncia que reze por mim e por
+ti. sempre a tia Vicncia que reza os meus Padres-Nossos.
+
+Durante essas semanas que preguicei em Tormes, eu assisti, com
+enternecido interesse, a uma considervel evoluo de Jacinto nas suas
+relaes com a Natureza. Daquele perodo sentimental de contemplao,
+em que colhia teorias nos ramos de qualquer cerejeira, e edificava
+Sistemas sobre o espumar das levadas, o meu Prncipe lentamente passava
+para o desejo da Aco... E de uma aco directa e material, em que a sua
+mo, enfim restituda a uma funo superior, revolvesse o torro.
+
+Depois de tanto _comentar_, o meu Prncipe, evidentemente, aspirava a
+_criar_.
+
+Uma tardinha, ao anoitecer, sentados no pomar, no rebordo do tanque,
+enquanto o Manuel hortelo apanhava laranjas no alto de uma escada arrimada
+a uma alta laranjeira, Jacinto observou, mais para si do que para mim:
+
+-- curioso... Nunca plantei uma rvore!
+
+--Pois um dos trs grandes actos, sem os quais segundo diz no sei que
+Filsofo, nunca se foi um verdadeiro homem... Fazer um filho, plantar
+uma rvore, escrever um livro. Tens de te apressar, para ser um homem.
+possvel que talvez nunca prestasses um servio a uma rvore, como se
+presta a um semelhante!
+
+--Sim... Em Paris, quando era pequeno, regava os lilases. E no Vero
+um belo servio! Mas nunca semeei.
+
+E como o Manuel descia da escada, o meu Prncipe, que nunca acreditara
+inteiramente--pobre homem!--no meu saber agrcola, imediatamente
+reclamou o parecer daquela autoridade:
+
+--Oh Manuel, oua l, o que que se poderia agora semear?
+
+Com o cesto das laranjas enfiado no brao, o Manuel exclamou, atravs
+de um lento riso, entre respeitoso e divertido:
+
+--Semear, patro? Agora antes colher... Olhe que j se anda a limpar a
+eirazinha para a debulha, meu patro.
+
+--Pois sim... Mas sem ser milho nem cevada... Ento ali no pomar, rente
+do muro velho, no se podia plantar uma fila de pessegueiros?
+
+O riso do Manuel crescia.
+
+--Isso sim, meu senhor! Isso l para os Santos ou para o Natal. Agora
+s a couvinha na horta, a beldroega, os espinafres, algum feijozinho em
+terra muito fresca...
+
+O meu Prncipe sacudiu com brando gesto estes legumes rasteiros.
+
+--Bem, boa noite, Manuel. Essas laranjas so da tal laranjeira que diz o
+Melchior, muito doces, muito finas? Ento leve para os seus pequenos.
+Leve muitas para os pequenos.
+
+No! o empenho era criar a rvore. Pela rvore contemplada na serra em
+sua verdadeira majestade, na beneficncia da sua sombra, na frescura
+embaladora do seu rumorejar, na graa e santidade dos ninhos que a
+povoam, comeara talvez, lentamente, o seu amor novo da Terra. E agora
+sonhava uma Tormes toda coberta de rvores, cujos frutos e verduras, e
+sombras, e rumorejos suaves, e abrigados ninhos, fossem a obra e o
+cuidado das suas mos paternais.
+
+No silncio grave do crepsculo, que descia, murmurou ainda:
+
+--Oh Z Fernandes; quais so as rvores que crescem mais depressa?
+
+--Eh, meu Jacinto... A rvore que cresce mais depressa o eucalipto, o
+feissimo e ridculo eucalipto. Em seis anos tens a Tormes coberta de
+eucaliptos...
+
+--Tudo to lento, Z Fernandes...
+
+Porque o seu sonho, que eu compreendia, seria plantar caroos que
+subissem em fortes troncos, se alargassem em verdes ramarias, antes de
+ele voltar ao 202, no comeo do Inverno...
+
+--Um carvalho!... Trinta anos, antes que seja belo! Desanimo! bom
+para Deus, que pode esperar... _Patiens quia aeternus_. Trinta anos!
+Daqui a trinta anos, rvores s para me cobrirem a sepultura!
+
+--J um ganho. E depois para teus filhos, Jacinto...
+
+--Filhos! onde os tenho eu?
+
+-- o mesmo processo dos castanheiros. Semeia. No faltam por a terras
+agradveis... Em nove meses tens uma planta feita. E quanto mais
+tenrinhas, e mais pequeninas, mais essas plantas encantam.
+
+Ele murmurou, cruzando as mos sobre o joelho:
+
+--Tudo leva tanto tempo!...
+
+E borda do tanque nos quedmos, calados, na fresca doura do
+anoitecer, entre o cheiro avivado das madressilvas do muro, olhando o
+crescente da lua, que surdia dos telhados de Tormes.
+
+E decerto esta pressa de se tornar entre a Natureza no mais um
+sonhador, mas um criador, arremessou vivamente o seu interesse para os
+gados! Repetidamente, nos nossos passeios atravs da quinta, ele lhe
+notava a solido.
+
+--Faltam aqui animais, Z Fernandes!
+
+Imaginava eu, que ele apetecia em Tormes o ornato elegante de veados e
+paves. Mas um domingo, costeando o largo campo da Ribeirinha, sempre
+escasso de guas, agora mais ressequido por Vero de tanta secura, o meu
+Prncipe parou a considerar os trs carneiros do caseiro, que retouavam
+com penria uma relvagem pobre.
+
+E, de repente, como magoado:
+
+--Justamente! Aqui est o espao para um belo prado, um imenso prado,
+muito verde, muito farto, com rebanhos de carneiros brancos, gordssimos
+como bolas de algodo pousadas na relva!... Era lindo, hein? fcil,
+no verdade, Z Fernandes?
+
+--Sim... Trazes a gua para o prado. guas no faltam, na serra.
+
+E o meu Prncipe encadeando logo nesta inspirada ideia outra, mais rica
+e vasta, lembrou quanta beleza daria a Tormes encher esses prados,
+esses verdes ferragiais, de manadas de vacas, formosas vacas inglesas,
+bem ndias e bem luzidias. Hein? Uma beleza. Para abrigar esses gados
+ricos, construiria currais perfeitos, de uma arquitectura leve e til,
+toda em ferro e vidro, fundamente varridos pelo ar, largamente lavados
+pela gua... Hein? Que formosura! Depois, com todas essas vacas, e o
+leite jorrando, nada mais fcil e mais divertido, e at mais moral, que
+a instalao de uma queijeira, fresca moda Holandesa, toda branca e
+reluzente, de azulejos e de mrmore, para fabricar os Camemberts, os
+Bries... os Coulommiers... Para a casa, que conforto! E para toda a
+serra, que actividade!
+
+--Pois no te parece, Z Fernandes?
+
+--Concerteza. Tu tens, em abundncia, os quatro Elementos: o ar, a
+gua, a terra, e o dinheiro. Com estes quatro elementos, facilmente se
+faz uma grande lavoura. Quanto mais uma queijeira!
+
+--Pois no verdade? E at como negcio! Est claro, para mim o lucro
+o deleite moral do trabalho, o emprego fecundo do dia... Mas uma
+queijaria, assim perfeita, rende. Rende prodigiosamente. E educa o
+paladar, incita a instalaes iguais, implanta talvez no pas uma
+indstria nova e rica! Ora com essa instalao, perfeita, quanto me
+poder custar cada queijo?
+
+Fechei um olho, calculando:
+
+--Eu te digo.... Cada queijo, um desses queijinhos redondos, como o
+Camembert ou o Rabaal, pode vir a custar-te, a ti Jacinto queijeiro,
+entre duzentos e cinquenta e trezentos mil ris.
+
+O meu Prncipe recuou, com dois olhos alegres espantados para mim.
+
+--Como trezentos mil ris?
+
+--Ponhamos duzentos... Tem a certeza! Com todos esses prados, e os
+encanamentos de gua e a configurao da serra alterada, e as vacas
+inglesas, e os edifcios de porcelana e vidro, e as mquinas, a
+extravagncia, e a patuscada buclica, cada queijo te custa, a ti
+produtor, duzentos mil ris. Mas com certeza o vendes no Porto por um
+tosto. Pe cinquenta ris para a caixa, rtulos, transporte, comisso,
+etc. Tens apenas, em cada queijo uma perda de cento e noventa e nove mil
+oitocentos e cinquenta ris!
+
+O meu Prncipe no desanimou.
+
+--Perfeitamente! Fao um desses espantosos queijos por semana, ao
+sbado, para o comermos ns ambos ao domingo!
+
+E tanta energia lhe comunicava o seu novo Optimismo, to ansiosamente
+aspirava a criar, que logo, arrastando o Silvrio e o Melchior por
+cabeos e barrancos, largou a percorrer a quinta toda, para determinar
+onde cresceriam, ao seu mando inspirado, os verdes prados, e se
+ergueriam, rebrilhantes no sol de Tormes, os currais elegantes. Com a
+esplndida segurana dos seus cento e nove contos de renda, no surgia
+dificuldade, risonhamente murmurada pelo Melchior, ou exclamada, com
+respeitoso pasmo, pelo Silvrio, que ele no afastasse brandamente, com
+jeito leve, como um galho de roseira brava atravessado numa vereda.
+
+Aquelas rochas, alm, empecendo? Que se arrancassem! Um vale importuno
+dividia dois campos? Que se atulhasse! O Silvrio suspirava, enxugando
+sobre a escura calva um suor quase de angstia. Pobre Silvrio! Rijamente
+sacudido na doce pachorra da sua administrao, calculando despesas que
+se afiguravam sobre-humanas sua parcimnia serrana, forado a
+arquejar, sem descanso, sob soalheiras de Junho, o desgraado retomara
+na Serra o jeito que Jacinto deixara em Paris,--e era ele que corria
+pelas longas barbas tenebrosas os dedos desalentados... Enfim uma tarde
+desabafou comigo, a um canto da varanda, enquanto Jacinto, na
+livraria, escrevia a um seu amigo de Holanda, o conde Rylant, Mordomo-Mor
+da Corte, pedindo desenhos, e planos, e oramentos de uma queijeira
+perfeita.
+
+--Pois, Sr. Fernandes, se toda esta grandeza vai por diante, sempre lhe
+digo que o Sr. D. Jacinto enterra aqui na serra dezenas de contos...
+Dezenas de contos!
+
+E como eu aludia fortuna do meu Prncipe, a quem todas essas obras
+to vastas, que alterariam o antiqussimo rosto da serra, no custavam
+mais que a outros o concerto de um socalco,--o bom Silvrio atirou os
+longos braos para as coxas gordas, ainda mais desolado:
+
+--Pois por isso mesmo, Sr. Fernandes! Se o Sr. D. Jacinto no tivesse
+a dinheirama, recuava. Assim, zs zs, para diante; e eu no o censuro
+pela ideia. Lograsse eu a renda de S. Ex.^a, que me atirava tambm a uma
+lavoura de capricho. Mas no aqui, Sr. Fernandes, nestas serranias,
+entre alcantis. Pois um senhor que possui aquela linda propriedade de
+Montemor, nos campos do Mondego, onde at podia plantar jardins de
+desbancar os do Palcio de Cristal do Porto! E a Veleira? O Sr.
+Fernandes no conhece a Veleira, l para os lados de Penafiel? Isso
+um condado! E uma terra ch, boa terra, toda junta, ali em volta da
+casa, com uma torre. Um regalo, Sr. Fernandes. Mas sobretudo Montemor!
+L que eram prados e manadas de vacas inglesas, e queijeira e horta
+rica, de fartar, e a trinta perus na capoeira...
+
+--Ento que quer, Silvrio? O Jacinto gosta da serra. E depois este o
+solar da famlia, e aqui comearam no sculo XIV os Jacintos...
+
+O pobre Silvrio, no seu desespero, esquecia o respeito devido secular
+nobreza da casa.
+
+--Ora! at ficam mal ao Sr. Fernandes essas ideias, neste sculo da
+liberdade... Pois estamos l em tempos de se falar em fidalguias, agora
+que por toda a parte anda tudo em Repblica? Leia o _Sculo_, Sr.
+Fernandes! leia o _Sculo_, e ver! E depois eu sempre quero ver o Sr.
+D. Jacinto, aqui no Inverno, com o nevoeiro a subir do rio logo pela
+manh, e a friagem a trespassar os ossos, e ventanias que atiram
+carvalheiras de razes ao ar, e chuvas e chuvas que se desfaz a
+serra!... Olhe, at mesmo por amor da sade o Sr. D. Jacinto, que
+fraquinho e acostumado cidade, necessita sair da serra. Em Montemor,
+em Montemor que S. Ex.^a estava bem. E o Sr. Fernandes, to amigo
+dele e assim com tanta influncia, devia teimar, e berrar, at que o
+levasse para Montemor.
+
+Mas, infelizmente para a quietao do Silvrio, Jacinto lanara razes,
+e rijas, e amorosas razes na sua rude serra. Era realmente como se o
+tivessem plantado de estaca naquele antiqussimo cho, donde brotara a
+sua raa, e o antiqussimo hmus reflusse e o penetrasse todo, e o
+andasse transformando num Jacinto rural, quase vegetal, to do cho, e
+preso ao cho, como as rvores que ele tanto amava.
+
+E depois o que o prendia serra era o ter nela encontrado o que na
+Cidade, apesar da sua sociabilidade, no encontrara nunca,--dias to
+cheios, to deliciosamente ocupados, de um to saboroso interesse, que
+sempre penetrava neles, como numa festa ou numa glria.
+
+Logo de manh, s seis horas, eu, no meu quarto, mexendo ainda
+regaladamente o meu corpo nos colches de fresco folhelho, sentia os
+seus rijos sapates pelo corredor, e o seu cantarolar, desafinado, mas
+ditoso como o de um melro. Em poucos instantes escancarava com fragor a
+minha porta, j de chapu desabado, j de bengalo de cerejeira,
+disposto com reservado fervor para os trilhos conhecidos da serra. E era
+sempre a mesma nova, quase orgulhosa:
+
+--Dormi hoje deliciosamente, Z Fernandes. To bem, com uma tal
+serenidade, que comeo a acreditar que sou um justo! Um dia lindo!
+Quando abri a janela, s cinco horas, quase gritei de puro gosto!
+
+Na sua pressa, nem me deixava demorar na frescura da banheira; e quando
+eu repetia a risca mal comeada do cabelo, aquele antigo homem das
+trinta e nove escovas, protestava contra esse desbarato efeminado de um
+tempo devido aos fortes gozos da terra.
+
+Mas quando, depois de acariciar os rafeiros no ptio, desembocvamos da
+alameda de pltanos, e diante de ns se dividiam matutinamente, mais
+brancos entre o verde matutino, os caminhos coleantes da quinta, toda a
+sua pressa findava, e penetrava na Natureza, com a reverente lentido de
+quem penetra num Templo. E repetidamente sustentava ser contrrio
+Esttica, Filosofia e Religio, andar depressa atravs dos
+campos. De resto, com aquela subtil sensibilidade buclica que nele
+se desenvolvera, e incessantemente se afinava, qualquer breve beleza,
+do ar ou da terra, lhe bastava para um longo encanto. Ditosamente
+poderia ele entreter toda uma manh, caminhar por entre um pinheiral,
+de tronco a tronco, calado, embebido no silncio, na frescura, no
+resinoso aroma, empurrando com o p as agulhas e as pinhas secas.
+Qualquer gua corrente o retinha, enternecido naquela servial
+actividade, que se apressa, cantando, para o torro que tem sede, e
+nele se some, e se perde. E recordo ainda quando me reteve meio
+domingo, depois da Missa, no cabeo, junto a um velho curral
+desmantelado, sob uma grande rvore,--s por que em torno havia
+quietao, doce aragem, um fino piar de ave na ramaria, um murmrio de
+regato entre canas verdes, e por sobre a sebe, ao lado, um perfume,
+muito fino e muito fresco, de flores escondidas.
+
+Depois, quando eu, velho familiar das serras, me no abandonava aos
+mesmos xtases que a ele lhe enchiam a alma ainda novia--o meu
+Prncipe rugia, com a indignao de um poeta que descobre um merceeiro
+bocejando sobre Shakespeare ou Musset. Eu ria.
+
+--Meu filho, olha que eu no passo de um pequeno proprietrio. Para mim
+no se trata de saber se a terra _linda_, mas se a terra _boa_. Olha
+o que diz a Bblia! Trabalhars a quinta com o suor do teu rosto! E
+no diz contemplars a quinta com o enlevo da tua imaginao!
+
+--Pudera! exclamava o meu Prncipe. Um livro escrito por Judeus, por
+speros semitas, sempre com o turvo olho posto no lucro! Repara, homem,
+para aquele bocadinho de vale, e consegue no pensar, por um momento,
+nos trinta mil ris que ele rende! Vers que pela sua beleza e graa
+ele te d mais contentamento alma que os trinta mil ris ao corpo. E
+na vida s a alma importa.
+
+Recolhendo ao casaro, j o encontrvamos com as janelas meio cerradas,
+os soalhos borrifados para aquelas quentes rstias de sol de Junho, que
+depois do almoo docemente nos retinham na livraria, preguiando.
+
+Mas realmente a alegre actividade do meu Prncipe no cessava, nem
+amolecia, sob o peso da sesta. A essa hora, enquanto pelo arvoredo
+mudo os mais agitados pardais dormiam, e o sol mesmo parecia repousar,
+imvel na rutilncia da sua luz, Jacinto com o esprito
+acordado,--vido de sempre gozar, agora que reconquistara essa
+faculdade,--tomava com delcia o _seu livro_. Por que o dono de trinta
+mil volumes era agora, na sua casa de Tormes, depois de ressuscitado, o
+homem que s tem um livro. Essa mesma Natureza, que o desligara das
+ligaduras amortalhadoras do tdio, e lhe gritara o seu belo _Ambula_,
+caminha!--tambm certamente lhe gritara _et lege_, e l. E libertado
+enfim do invlucro sufocante da sua Biblioteca imensa, o meu ditoso
+amigo compreendia enfim a incomparvel delcia de _ler um livro_.
+Quando eu correra a Tormes, (depois das revelaes do Severo na venda do
+Torto,) ele findava o D. Quixote, e ainda eu lhe escutara as
+derradeiras risadas com as coisas deliciosas, e de certo profundas, que
+o gordo Sancho lhe murmurava, escarranchado no seu burro. Mas agora o
+meu Prncipe mergulhara na _Odisseia_,--e todo ele vivia no espanto e no
+deslumbramento de assim ter encontrado no meio do caminho da sua vida, o
+velho errante, o velho Homero!
+
+--Oh Z Fernandes, como sucedeu que eu chegasse a esta idade sem ter
+lido Homero?...
+
+--Outras leituras, mais urgentes... O _Figaro_, George Ohnet...
+
+--Tu leste a _Ilada_?
+
+--Menino, sinceramente me gabo de nunca ter lido a _Ilada_.
+
+Os olhos do meu Prncipe fuzilavam.
+
+--Tu sabes o que fez Alcibades, uma tarde, no Prtico, a um sofista,
+um desavergonhado de um sofista, que se gabava de no ter lido a
+_Ilada_?
+
+--No.
+
+--Ergueu a mo e atirou-lhe uma bofetada tremenda.
+
+--Para l, Alcibades! Olha que eu li a _Odisseia_!
+
+Oh! mas decerto eu a lera, corridamente, com a alma desatenta! E
+insistia em me iniciar, ele, e me conduzir, atravs do Livro sem igual.
+Eu ria. E rindo, pesado do almoo, terminava por consentir, e me
+estirava no canap de verga. Ele, diante da mesa, direito na cadeira,
+abria o livro gravemente, pontificalmente, como um missal, e comeava
+numa lenta ode sentida. Aquele grande mar da _Odisseia_,--
+resplandecente e sonoro, sempre azul, todo azul, sob o voo branco das
+gaivotas, rolando, e mansamente quebrando sobre a areia fina ou contra
+as rochas de mrmore das Ilhas divinas,--exalava logo uma frescura
+salina, bem-vinda e consoladora naquela calma de Junho, em que a serra
+se entorpecia. Depois as estupendas manhas do subtil Ulisses e os seus
+perigos sobre-humanos, tantas lamrias sublimes, e um anseio to
+espalhado da Ptria perdida, e toda aquela intriga, em que embrulhava
+os Heris, lograva as Deusas, iludia o Fado, tinham um delicioso sabor
+ali, nos campos de Tormes, onde nunca se necessitava de subtileza ou de
+engenho, e a Vida se desenrolava com a segurana imutvel com que cada
+manh sempre o Sol igual nascia, e sempre centeios e milhos, regados por
+guas iguais, seguramente medravam, espigavam, amadureciam... Embalado
+pela recitao grave e montona do meu Prncipe, eu cerrava as plpebras
+docemente. Em breve um vasto tumulto, por terra e cu, me alvoroava...
+E eram os rugidos de Polifemo, ou a grita dos companheiros de Ulisses
+roubando as vacas de Apolo. Com os olhos logo esbugalhados para
+Jacinto, eu murmurava: _Sublime!_ E sempre, nesse momento o engenhoso
+Ulisses, de carapuo vermelho e o longo remo ao ombro, surpreendia com
+a sua facndia a clemncia dos Prncipes, ou reclamava presentes devidos
+ao Hspede, ou surripiava astutamente algum favor aos Deuses. E Tormes
+dormia, no esplendor de Junho. Novamente, eu cerrava as plpebras
+consoladas, sob a carcia inefvel do largo dizer homrico... E meio
+adormecido, encantado, incessantemente avistava, longe, na divina
+Hlade, entre o mar muito azul e o ceu muito azul, a branca vela,
+hesitante, procurando taca...
+
+Depois da sesta o meu Prncipe de novo se soltava para os campos. E a
+essa hora, sempre mais activa, voltava com ardor aos seus planos, a
+essas culturas de luxo e elegantes oficinas que cobririam a serra de
+magnificncias rurais. Agora andava todo no esplndido apetite de uma
+horta que ele concebera, imensa horta ajardinada, em que todos os
+legumes, clssicos ou exticos, cresceriam, soberbamente, em vistosos
+talhes, fechados por sebes de rosas, de cravos, de alfazema, de
+dlias. A gua das regas desceria por lindos crregos de loua
+esmaltada. Nas ruas, a sombra cairia de densas latadas de moscatel,
+pousando em esteios revestidos de azulejo. E o meu Prncipe desenhara o
+plano desta espantosa horta, a lpis vermelho, num papel imenso, que
+o Melchior e o Silvrio, consultados, longamente contemplaram,--um
+coando risonhamente a nuca, o outro com os braos duramente cruzados, e
+o sobrolho trgico.
+
+Mas este plano, o da queijaria, o da capoeira, e outro, sumptuoso, de um
+pombal to povoado que todo o cu de Tormes s tardes se tornaria branco
+e todo fremente de asas--no saam das nossas gostosas palestras, ou dos
+papis em que Jacinto os debuxava, e que se amontoavam sobre a mesa,
+platnicos, imveis, entre o tinteiro de lato e o vaso com flores.
+
+Nem enxadada fendera terra, nem alavanca deslocara pedra, nem serra
+serrara madeira, para encetar estas maravilhas. Contra a resistncia
+rebolada e escorregadia do Melchior, contra a respeitosa inrcia do
+Silvrio se quedavam, encalhados, os planos do meu Prncipe, como
+galeras vistosas em rochas ou em lodo.
+
+No convinha bulir em nada, (clamava o Silvrio) antes das colheitas e
+da vindima! E depois, (acrescentava o Melchior com um sorriso de grande
+promessa) para boas obras ms de Janeiro porque l ensina o ditado:
+
+Em Janeiro--mete obreiro
+Ms meante--que no ante.
+
+E, de resto, o gozo de conceber as suas obras e de indicar, estendendo a
+bengala por cima de vale e monte, os stios privilegiados que elas
+aformoseariam, bastava por ora ao meu Prncipe, ainda mais imaginativo
+que operante. E, enquanto meditava estas transformaes da terra, muito
+progressivamente e com um amvel esforo, se ia familiarizando com os
+homens simples que a trabalhavam. Na sua chegada a Tormes, o meu
+Prncipe sofria de uma estranha timidez diante dos caseiros, dos
+jornaleiros, e at de qualquer rapazinho que passasse, tangendo uma
+vaca para o pasto. Nunca ele ento se demoraria a conversar com os
+moos, quando borda de um caminho ou num campo em monda eles se
+endireitavam de chapu na mo, num respeito de velha vassalagem. De
+certo o empecia a preguia, e talvez ainda o pdico recato de transpor
+toda a imensa distncia que se alargava desde a sua complicada
+super-civilizao at rude simplicidade daquelas almas
+naturais:--mas sobretudo o retinha o medo de mostrar a sua ignorncia da
+lavoura e da terra, ou de parecer talvez desdenhoso de ocupaes e de
+interesses, que para os outros eram supremos e quase religiosos. Remia
+ento esta reserva com uma profuso de sorrisos, de doces acenos,
+tirando tambm o chapu em cortesias profundas, com uma tal nfase de
+polidez que eu por vezes receava que ele murmurasse aos jornaleiros:
+Tenha V. Ex.^a muito boas tardes;... Criado de V. Ex.^a!
+
+Mas agora, depois daquelas semanas de serra, e de j saber (com um
+saber ainda frgil,) a poca das sementeiras e das ceifas, e que as
+rvores de fruta se semeiam no Inverno, j se aprazia em parar junto
+dos trabalhadores, contemplar descansadamente o trabalho, dizer coisas
+afveis e vagas.
+
+--Ento, isso vai andando?... Ora ainda bem!... Este bocado de torro
+aqui rico... O talude ali adiante est precisando conserto...
+
+E cada um destes to simples dizeres lhe era doce, como se por meio
+deles penetrasse mais fundamente na intimidade da terra, e
+consolidasse a sua encarnao em homem do campo, deixando de ser uma
+mera sombra circulando entre realidades. J por isso no cruzava no
+caminho o mocinho atrs das vacas, que no o detivesse, o no
+interrogasse: Para onde vais tu? De quem o gado? Como te chamas? E,
+contente consigo, sempre gabava gratamente o desembarao do rapaz, ou a
+esperteza dos seus olhos. Outra satisfao do meu Prncipe era conhecer
+os nomes de todos os campos, as nascentes de gua, e as delimitaes da
+sua quinta.
+
+--Vs acol, para alm do ribeiro, o pinheiral. J no meu, dos
+Albuquerques.
+
+E com a perene alegria de Jacinto as noites da serra, no vasto
+casaro, eram fceis e curtas. O meu Prncipe era ento uma alma que se
+simplificava:--e qualquer pequenino gozo lhe bastava, desde que nele
+entrasse paz ou doura. Com verdadeira delcia ficava, depois do caf,
+estendido numa cadeira, sentindo atravs das janelas abertas, a
+nocturna tranquilidade da serra, sob a mudez estrelada do cu.
+
+As histrias, muito simples e muito caseiras, que eu lhe contava, de
+Guies, do abade, da tia Vicncia, dos nossos parentes da Flor da
+Malva, to sinceramente o interessavam que eu encetara, para seu regalo,
+a crnica completa de Guies, com todos os namoricos, e as faanhas de
+foras, e as desavenas por causa de servides ou de guas. Tambm por
+vezes nos enfronhvamos, com aferro numa partida de gamo, sobre um
+belo tabuleiro de pau preto, com pedras de velho marfim, que nos
+emprestara o Silvrio. Mas nada de certo o encantava tanto como
+atravessar as casas, p ante p, at uma saleta que dava para o pomar, e
+a ficar encostado janela, sem luz, num enlevado sossego, a escutar
+longamente, languidamente, os rouxinis que cantavam no laranjal.
+
+
+
+
+X
+
+
+Numa dessas manhs--justamente na vspera do meu regresso a Guies--, o
+tempo, que andara pela serra to alegre, num inalterado riso de luz
+rutilante, todo vestido de azul e ouro, fazendo poeira pelos caminhos, e
+alegrando toda a natureza, desde os pssaros at os regatos,
+subitamente, com uma daquelas mudanas que tornam o seu temperamento
+to semelhante ao do homem, apareceu triste, carrancudo, todo
+embrulhado no seu manto cinzento, com uma tristeza to pesada e
+contagiosa que toda a serra entristeceu. E no houve mais pssaro que
+cantasse, e os arroios fugiram para debaixo das ervas com um lento
+murmrio de choro.
+
+Quando Jacinto entrou no meu quarto, no resisti malcia de o
+aterrar:
+
+--Sudoeste! gralhas a grasnar por todos esses soutos... Temos muita
+gua, Sr. D. Jacinto! Talvez duas semanas de gua! E agora se vai
+saber quem aqui o fino amador da Natureza, com esta chuva pegada, com
+vendaval, com a serra toda a escorrer!
+
+O meu Prncipe caminhou para a janela com as mos nas algibeiras:
+
+--Com efeito! Est carregado. J mandei abrir uma das malas de Paris e
+tirar um casaco impermevel... No importa! Fica o arvoredo mais verde.
+E bom que eu conhea Tormes nos seus hbitos de Inverno.
+
+Mas como o Melchior lhe afianara que a chuvinha s viria para a
+tarde, Jacinto decidiu ir antes de almoo Corujeira, onde o Silvrio
+o esperava para decidirem da sorte de uns castanheiros, muito velhos,
+muito pitorescos, inteiramente interessantes, mas j rodos, e
+ameaando desabar. E, confiando nas previses do Melchior, partimos sem
+que Jacinto se vestisse prova de gua. No andramos porm meio
+caminho, quando, depois de um arrepio nas rvores, um negrume carregou,
+e, bruscamente, desabou sobre ns uma grossa chuva oblqua, vergastada
+pelo vento, que nos deixou estonteados, agarrando os chapus,
+enrodilhados na borrasca. Chamados por uma grande voz, que se esganiava
+no vento, avistmos num campo mais alto, beira de um alpendre, o
+Silvrio, debaixo de um guarda-chuva vermelho, que acenava, nos indicava
+o trilho mais curto para aquele abrigo. E para l rompemos, com a chuva
+a escorrer na cara, patinhando na lama, contorcidos, cambaleantes,
+atordoados no vendaval, que num instante alagara os campos, inchara os
+ribeiros, esboroava a terra dos socalcos, lanara num desespero todo o
+arvoredo, tornara a serra negra, bravamente agreste, hostil,
+inabitvel.
+
+Quando enfim, debaixo do vasto guarda-chuva com que o Silvrio nos
+esperava beira do campo, corremos para o alpendre, nos refugimos
+naquele abrigo inesperado, a escorrer, a arquejar, o meu Prncipe,
+enxugando a face, enxugando o pescoo, murmurou, desfalecido:
+
+--Apre! que ferocidade!
+
+Parecia espantado daquela brusca, violenta clera de uma serra to
+amvel e acolhedora, que em dois meses, inalteradamente, s lhe
+oferecera doura e sombra, e suaves cus, e quietas ramagens, e
+murmrios discretos de ribeirinhos mansos.
+
+--Santo Deus! Vem muitas vezes assim, estas borrascas?
+
+Imediatamente o Silvrio aterrou o meu Prncipe:
+
+--Isto agora so brincadeiras de Vero, meu senhor! Mas h-de V. Ex.^a
+ver no Inverno, se V. Ex.^a se aguentar por c! Ento cada temporal,
+que at parece que os montes estremecem!
+
+E contou como fora tambm apanhado, quando ia para a Corujeira.
+Felizmente, logo pela manh, quando sentiu o ar carrancudo e as
+folhinhas dos choupos a tremer, se acautelara com o chapu de chuva e
+calara as suas grandes botas.
+
+--Ainda estive para me abrigar em casa do Esgueira, que um caseiro de
+c. Aquela casa, ali abaixo, onde est a figueira... Mas a mulher tem
+estado doente, j h dias... E como pode ser obra que se pegue, bexigas
+ou coisa que o valha, pensei comigo: Nada, o seguro morreu de velho!
+Meti para o alpendre... E no passara um credo quando lobriguei a V.
+Ex.^a... Coisa assim!... E o Sr. D. Jacinto voltar para casa, e
+mudar-se, que temos um dia e uma noite de gua.
+
+Mas, justamente, a chuva comeara a cair perpendicular, de um cu ainda
+negro, onde o vento se calara; e para alm do rio e dos montes havia uma
+claridade, como entre cortinas de pano cinzento que se descerram.
+
+Jacinto repousava. Eu no cessara de me sacudir, de bater os ps
+encharcados, que me arrefeciam. E o bom Silvrio, passando a mo
+pensativa sobre o negrume das suas barbas, reflectia, emendava os seus
+prognsticos:
+
+--Pois, no senhor... Ainda estia! Nunca pensei. que tornejou o vento.
+
+O alpendre que nos cobria assentava sobre duas paredes em ngulo, de
+pedra solta, restos de algum casebre desmantelado, e sobre um esteio
+fazendo cunhal. Nesse momento s abrigava madeira, um cuculo de cestos
+vazios, e um carro de bois, onde o meu Prncipe se sentara, enrolando um
+cigarro confortador. A chuva desabava, copiosa, em longos fios
+reluzentes. E todos trs nos calvamos, naquela contemplao inerte e
+sem pensamento, em que uma chuva grossa e serena sempre imobiliza e
+retm olhos e almas.
+
+-- Sr. Silvrio, murmurou lentamente o meu Prncipe, que que o
+senhor esteve a a dizer de bexigas?
+
+O procurador voltou a face surpreendido:
+
+--Eu, Ex.^{mo} Sr.?... Ah sim! a mulher do Esgueira! que pode ser,
+pode ser... No imagine V. Ex.^a que faltam por c doenas. O ar bom.
+No digo que no! Arzinho so, aguazinha leve. Mas s vezes, se V. Ex.^a
+me d licena, vai por a muita maleita.
+
+--Mas no h mdico, no h botica?
+
+O Silvrio teve o riso superior de quem habita regies civilizadas e bem
+providas...
+
+--Ento no havia de haver? Pois h um boticrio, em Guies, l quase ao
+p da casa aqui do nosso amigo. E homem entendido... o Firmino, hein,
+Sr. Fernandes? Homem capaz. Mdico o Dr. Avelino, daqui a lgua e
+meia, nas Bolsas. Mas j V. Ex.^a v, esta gentinha pobre!... Tomaram
+eles para po, quanto mais para remdios!
+
+E de novo se estabeleceu um silncio, sob o alpendre, onde penetrava a
+friagem crescente da serra encharcada. Para alm do rio, a prometedora
+claridade no se alargara entre as duas espessas cortinas pardacentas.
+No campo, em declive diante de ns, ia um longo correr de ribeiros
+barrentos. Eu terminara por me sentar na ponta de um madeiro, enervado,
+j com a fome aguada pela manh agreste. E Jacinto, na borda do carro,
+com os ps no ar, cofiava os bigodes hmidos, palpava a face, onde, com
+espanto meu, reaparecera a sombra, a sombra triste dos dias passados, a
+sombra do 202!
+
+E, ento, surdiu por trs da parede do alpendre um rapazito, muito
+rotinho, muito magrinho, com uma carita mida, toda amarela sob a
+porcaria, e onde dois grandes olhos pretos se arregalavam para ns, com
+vago pasmo e vago medo. Silvrio imediatamente o conheceu.
+
+--Como vai a tua me? Escusas de te chegar para c, deixa-te estar a.
+Eu ouo bem. Como vai a tua me?
+
+No percebi o que os pobres beicitos descorados murmuraram. Mas Jacinto,
+interessado:
+
+--Que diz ele? Deixe vir o rapaz! Quem a tua me?
+
+Foi o Silvrio que informou respeitosamente:
+
+-- a tal mulher que est doente, a mulher do Esgueira, ali do casal da
+figueira. E ainda tem outro abaixo deste... Filharada no lhe falta.
+
+--Mas este pequeno tambm parece doente!--exclamou Jacinto. Coitadito,
+to amarelo!... Tu tambm ests doente?
+
+O rapazinho emudecera, chupando o dedo, com os tristes olhos pasmados.
+E o Silvrio sorria, com bondade:
+
+--Nada! este sozinho... Coitado, assim amarelado e enfezadito, por
+que... Que quer V. Ex.^a? Mal comido! muita misria... Quando h o
+bocadito de po para todo o rancho. Fomezinha, fomezinha!
+
+Jacinto pulou bruscamente da borda do carro.
+
+--Fome? Ento ele tem fome? H aqui gente com fome?
+
+Os seus olhos rebrilhavam, num espanto comovido, em que pediam, ora a
+mim, ora ao Silvrio, a confirmao desta misria insuspeitada. E fui
+eu que esclareci o meu Prncipe:
+
+--Homem! est claro que h fome! Tu imaginavas talvez que o Paraso se
+tinha perpetuado aqui nas serras, sem trabalho e sem misria... Em toda
+a parte h pobres, at na Austrlia, nas minas de ouro. Onde h trabalho
+h proletariado, seja em Paris, seja no Douro...
+
+O meu Prncipe, teve um gesto de aflita impacincia:
+
+--Eu no quero saber o que h no Douro. O que eu pergunto se aqui, em
+Tormes, na minha propriedade, dentro destes campos que so meus, h
+gente que trabalhe para mim, e que tenha fome... Se h criancinhas, como
+esta, esfomeadas? o que eu quero saber.
+
+O Silvrio sorria, respeitosamente, ante aquela cndida ignorncia das
+realidades da Serra:
+
+--Pois est bem de ver, meu senhor, que h para a caseiros que so
+muito pobres. Quase todos... uma misria, que se no fosse algum
+socorro que se lhes d, nem eu sei!... Este Esgueira, com o rancho de
+filhos que tem, uma desgraa... Havia V. Ex.^a de ver as casitas em
+que eles vivem... So chiqueiros. A do Esgueira, acol...
+
+--Vamos v-la! atalhou Jacinto com uma deciso exaltada.
+
+E saiu logo do alpendre, sem atender chuva, que ainda caa, mais
+leve e mais rala. Mas ento Silvrio alargou os braos diante dele,
+com ansiedade, como para o salvar de um precipcio.
+
+--No! V. Ex.^a l na casa do Esgueira que no entra! No se sabe o
+que a mulher tem, e cautela e caldo de galinha...
+
+Jacinto no se alterou na sua polidez paciente:
+
+--Obrigado pelo seu cuidado, Silvrio... Abra o seu chapu de chuva, e
+avante!
+
+Ento o Procurador vergou os ombros, e, como S. Ex.^a mandava, abriu
+com estrondo o imenso pra-guas, abrigou respeitosamente Jacinto,
+atravs do campo encharcado. Eu segui, pensando na esmola sumptuosa que
+o bom Deus mandava quele pobre casal por um remoto senhor das Cidades!
+Atrs vinha o pequenito perdido num imenso pasmo.
+
+Como todos os casebres da serra, o do Esgueira era de grossa pedra
+solta, sem reboco, com um vago telhado, de telha musgosa e negra, um
+postigo no alto, e a rude porta que servia para o ar, para a luz, para o
+fumo, e para a gente. E em redor, a Natureza e o Trabalho tinham,
+atravs de anos, acumulado ali trepadeiras e flores silvestres, e
+cantinhos de horta, e sebes cheirosas, e velhos bancos rodos de musgo, e
+panelas com terra onde crescia salsa, e regueiros cantantes, e videiras
+enforcadas nos olmos, e sombras e charcos espelhados, que tornavam
+deliciosa, para uma cloga, aquela morada da Fome, da Doena e da
+Tristeza.
+
+Cautelosamente, com a ponteira do guarda-chuva, Silvrio empurrou a
+porta, chamando:
+
+--Eh! tia Maria... Ol rapariga!
+
+E na fenda entreaberta apareceu uma moa, muito alta, escura e suja,
+com uns tristes olhos pisados, que se espantaram para ns, serenamente.
+
+--Ento como vai a tua me?--Abre l a porta, que esto aqui estes
+senhores...
+
+Ela abriu, lentamente, e ia murmurando numa voz dolente e arrastada
+mas sem queixume, que um vago, resignado sorriso acompanhava:
+
+--Ora, coitada! como h-de ir? Malzinha... malzinha.
+
+E dentro, num gemido que subia como do cho, dentre abafos, amodorrado
+e lento, a me repetiu a desconsolada queixa:
+
+--Ai! para aqui estou, e malzinha, malzinha!...
+
+O Silvrio, sem passar da porta, com o guarda-chuva em riste, meio
+aberto, como um escudo contra a infeco, lanou uma consolao vaga:
+
+--No h-de ser nada, tia Maria!... Isso foi friagem! No foi seno
+friagem!
+
+E, sobre o ombro de Jacinto, encolhido:
+
+--J V. Ex.^a v... Muita misria! At lhe chove l dentro.
+
+E, no pedao de cho que viam, cho de terra batida, uma mancha hmida
+reluzia, da chuva pingada de uma telha rota. A parede, coberta de
+fuligem, das longas fumaraas da lareira, era to negra como o cho. E
+aquela penumbra suja parecia atulhada, numa desordem escura, de
+trapos, de cacos, de restos de coisas, onde s mostravam forma
+compreensvel uma arca de pau negro, e por cima, pendurado de um prego,
+entre uma serra e uma candeia, um grosso saiote escarlate.
+
+Ento Jacinto, muito embaraado, murmurou abstraidamente:
+
+--Est bem, est bem...
+
+E largou pelo campo para o lado do alpendre como se fugisse, enquanto o
+Silvrio decerto revelava rapariga, a presena augusta do fidalgo,
+porque a sentimos, da porta, levantar a voz dolorida:
+
+--Ai! Nosso Senhor lhe d muito boa sorte! Nosso Senhor o acompanhe!
+
+Quando o Silvrio, com as grandes passadas das suas grandes botas, nos
+colheu, no meio do campo, Jacinto parara, olhava para mim, com os dedos
+trmulos a torturar o bigode, e murmurava:
+
+-- horrvel, Z Fernandes, horrvel.
+
+Ao lado, o vozeiro do Silvrio trovejou:
+
+--Que queres tu outra vez, rapaz? Vai para a tua me, criatura!
+
+Era o pequeno rotinho, esfaimadinho, que se prendia a ns, num imenso
+pasmo das nossas pessoas, e com a confusa esperana, talvez, que
+delas, como de Deuses encontrados num caminho, lhe viesse afago ou
+proveito. E Jacinto, para quem ele mais especialmente arregalava os
+olhos tristes, e que aquela misria, e a sua muda humildade,
+embaraavam, acanhavam horrivelmente, s soube sorrir, murmurar o seu
+vago: Est bem, est bem... Fui eu que dei ao pequenito um tosto,
+para o fartar, o despegar dos nossos passos. Mas como ele, com o seu
+tosto bem agarrado, nos seguia ainda, como no sulco da nossa
+magnificncia, o Silvrio teve de o espantar, como a um pssaro, batendo
+as mos, e de lhe gritar:
+
+--J para casa! E leve esse dinheiro me. Roda, roda!...
+
+--E ns vamos almoar, lembrei eu olhando o relgio. O dia ainda vai
+estar lindo.
+
+Sobre o rio, com efeito, reluzia um pedao de azul lavado e lustroso; e
+a grossa camada de nuvens j se ia enrolando sob a lenta varredela do
+vento, que as levava, despejadas e rotas, para um canto escuso do cu.
+
+Ento recolhemos lentamente para casa, por uma vereda ngreme, que
+ensinara o Silvrio, e onde um leve enxurro vinha ainda, saltando e
+chalrando. De cada ramo tocado, rechovia uma chuva leve. Toda a verdura,
+que bebera largamente, reluzia consolada.
+
+Bruscamente, ao sairmos da vereda para um caminho mais largo, entre um
+socalco e um renque de vinha, Jacinto parou, tirando lentamente a
+cigarreira:
+
+--Pois, Silvrio, eu no quero mais estas horrveis misrias na quinta.
+
+O Procurador deu um jeito aos ombros, com um vago _eh_! _eh_!
+de obedincia e dvida.
+
+--Antes de tudo, continuava Jacinto, mande j hoje chamar esse Dr.
+Avelino para aquela pobre mulher... E os remdios que os vo buscar
+logo a Guies. E recomendao ao mdico para voltar amanh, e em cada
+dia; at que ela melhore... Escute! E quero, Melchior, que lhe leve
+dinheiro, para os caldos, para a dieta, uns dez, ou quinze mil ris...
+Bastar?
+
+O Procurador no conteve um riso respeitoso. Quinze mil ris! Uns
+tostes bastavam... Nem era bom acostumar assim, a tanta franqueza,
+aquela gente. Depois todos queriam, todos pedinchavam...
+
+--Mas que todos ho-de ter, disse Jacinto simplesmente.
+
+--V. Ex.^a manda, murmurou o Silvrio.
+
+Encolhera os ombros, parado no caminho, no espanto daquelas
+extravagncias. Eu tive de o apressar, impaciente:
+
+--Vamos conversando e andando! meio-dia! Estou com uma fome de lobo!
+
+Caminhmos, com o Silvrio no meio, pensativo, a fronte enrugada sob a
+vasta aba do chapu, a barba imensa espalhada pelo peito, e a barraca
+exorbitante do guarda-chuva vermelho enrolada debaixo do brao. E
+Jacinto, puxando nervosamente o bigode, arriscava outras ideias
+benfazejas, cautelosamente, no seu indominvel medo do Silvrio:
+
+--E as casas tambm... Aquela casa um covil!... Gostava de abrigar
+melhor aquela pobre gente... E naturalmente, as dos outros caseiros so
+pocilgas iguais... Era necessrio uma reforma! Construir casas novas a
+todos os rendeiros da quinta...
+
+--A todos?...--O Silvrio gaguejava,--emudeceu.
+
+E Jacinto balbuciava aterrado:
+
+--A todos... Enfim, quero dizer... Quantos sero eles?
+
+Silvrio atirou um gesto enorme:
+
+--So vinte e coisas... Vinte e trs! se bem lembro. Upa! Upa! Vinte e
+sete...
+
+Ento Jacinto emudeceu tambm, como reconhecendo a vastido do nmero.
+Mas desejou saber, por quanto ficaria cada casa!... Oh! uma casa
+simples, mas limpa, confortvel, como a que tinha a irm do Melchior, ao
+p do lagar. Silvrio estacou de novo. Uma casa como a da Ermelinda?
+Queria Sua Ex.^a saber? E alijou a cifra, muito de alto, como uma pedra
+imensa, para esmagar Jacinto:
+
+--Duzentos mil ris, Ex^mo Senhor! E para mais que no para menos!
+
+Eu ria da trgica ameaa do excelente homem. E Jacinto, muito
+docemente, para conciliar o Silvrio:
+
+--Bem, meu amigo... Eram uns seis contos de ris! Digamos dez, por que
+eu queria dar a todos alguma moblia e alguma roupa.
+
+Ento o Silvrio teve um brado de terror:
+
+--Mas ento, Ex.^mo Senhor, uma revoluo!
+
+E como ns, irresistivelmente, ramos dos seus olhos esgazeados de
+horror, dos seus imensos braos abertos para trs, como se visse o
+mundo desabar,--o bom Silvrio encavacou:
+
+--Ah! V. Ex.^{as} riem? Casas para todos, moblias, pratas, bragal, dez
+contos de ris! Ento tambm eu rio! Ah! ah! ah! Ora viva a bela
+chalaa!... Est boa a risota!
+
+E subitamente, numa profunda mesura, como declinando toda a
+responsabilidade naquele disparate magnfico:
+
+--Enfim, V. Ex.^a quem manda!
+
+--Est mandado, Silvrio. E tambm quero saber as rendas que paga essa
+gente, os contratos que existem, para os melhorar. H muito que
+melhorar. Venha voc almoar connosco. E conversamos.
+
+To saturado de espanto estava o Silvrio, que nem recebeu mais espanto
+com essa melhoria de rendas. Agradeceu o convite, penhorado. Mas pedia
+licena a Sua Ex.^a para passar primeiramente pelo lagar, para ver os
+carpinteiros que andavam a concertar a trave do rio. Era um instante, e
+estava em seguida s ordens de S. Ex.^a.
+
+Meteu a corta-mato, saltando um cancelo. E ns seguimos, com passos
+que eram ligeiros, pela hora do almoo que se retardara, pelo azul
+alegre que reaparecia, e por toda aquela justia feita pobreza da
+serra.
+
+--No perdeste hoje o teu dia, Jacinto, disse eu, batendo, com uma
+ternura que no disfarcei, no ombro do meu amigo.
+
+--Que misria, Z Fernandes! Eu nem sonhava... Haver por a, vista da
+minha casa, outras casas, onde crianas tm fome! horrvel...
+
+Estvamos entrando na alameda. Um raio de sol, saindo dentre duas
+grossas, algodoadas nuvens, passou sobre uma esquina do casaro, ao
+fundo, uma viva tira de ouro. O clarim dos galos soava claro e alto. E
+um doce vento, que se erguera, punha nas folhas lavadas e luzidias um
+frmito alegre e doce.
+
+--Sabes o que eu estava pensando, Jacinto?... Que te aconteceu aquela
+lenda de Santo Ambrsio... No, no era Santo Ambrsio... No me lembra
+o santo... Nem era ainda santo... apenas um cavaleiro pecador, que se
+enamorara de uma mulher, pusera toda a sua alma nessa mulher, s por a
+avistar a distncia na rua. Depois, uma tarde que a seguia, enlevado,
+ela entrou num portal de igreja, e a, de repente, ergueu o vu,
+entreabriu o vestido, e mostrou ao pobre cavaleiro o seio rodo por uma
+chaga! Tu, tambm andavas namorado da serra, sem a conhecer, s pela sua
+beleza de Vero. E a serra, hoje, zs! de repente, descobre a sua
+grande lcera... talvez a tua preparao para S. Jacinto.
+
+Ele parou, pensativo, com os dedos nas cavas do colete:
+
+--- verdade! Vi a chaga! Mas enfim, esta, louvado seja Deus, das que
+eu posso curar!
+
+No desiludi o meu Prncipe. E ambos subimos alegremente a escadaria do
+casaro.
+
+
+
+
+XI
+
+
+No dia que seguiu estas largas caridades recolhi a Guies. E, desde
+ento, tantas vezes trotei por aquelas trs lguas entre a nossa e a
+velha alameda dos Jacintos, que a minha gua, quando a desviava dessa
+estrada familiar, conduzindo a uma cavalaria familiar, (onde ela
+privava com o garrano do Melchior) relinchava de pura saudade. At a tia
+Vicncia se mostrava vagamente ciumenta daquela Tormes, para onde eu
+sempre corria, daquele Prncipe de quem incessantemente celebrava o
+rejuvenescimento, a caridade, os pitus, e as quimeras agrcolas. J um
+dia com um gro de sal e ironia,--o nico que cabia num corao todo
+cheio de inocncia,--ela me dissera, movendo com mais vivacidade as
+agulhas da sua meia:
+
+--Olha que te podes gabar! At me tens feito curiosidade de conhecer
+esse Jacinto... Traz c essa maravilha, menino!
+
+Eu rira:
+
+--Sossegue, tia Vicncia, que o trarei agora, para o dia dos meus anos,
+a jantar... Damos uma festa, haver um bailarico no ptio, e vem a
+toda essa senhorama dos arredores. Talvez at se arranje uma noiva para
+o Jacinto.
+
+Eu, com efeito, j convidara o meu Prncipe para este natalcio. E de
+resto convinha que o senhor de Tormes conhecesse todos aqueles senhores
+das boas casas da serra... Sobretudo, como eu lhe dizia rindo, convinha
+que ele conhecesse algumas mulheres, algumas daquelas fortes
+raparigas dos solares serranos, porque Tormes tinha uma solido muito
+monstica; e o homem, sem um pouco do Eterno Feminino, facilmente se
+enrudece e ganha uma casca spera como a das rvores, na solido.
+
+--E esta Tormes, Jacinto, esta tua reconciliao com a Natureza, e o
+renunciamento s mentiras da Civilizao uma linda histria... Mas,
+caramba, faltam mulheres!
+
+Ele concordava, rindo, languidamente estendido na cadeira de vime:
+
+--Com efeito, h aqui falta de mulher, com M. grande. Mas essas
+senhoras a das casas dos arredores... No sei, estou pensando que se
+devem parecer com legumes. Ss, nutritivas, excelentes para a
+panela--mas, enfim, legumes. As mulheres que os poetas comparam s
+Flores so sempre as mulheres das Cortes, das Capitais, s quais,
+invariavelmente, desde Hesodo e de Horcio, se rendem os poetas... E
+evidentemente no h perfume, nem graa, nem elegncia, nem requinte,
+numa cenoura ou numa couve... No devem ser interessantes as senhoras
+da minha serra.
+
+--Eu te digo... A tua vizinha mais chegada, a filha do D. Teotnio, com
+efeito, salvo o respeito que se deve casa ilustre dos Barbedos, um
+mostrengo! A irm dos Albergarias, da quinta da Loja, tambm no
+tentaria nem mesmo o precisado Santo Anto. Sobretudo se se despisse,
+por que um espinafre infernal! Essa realmente legume, e no dos
+nutritivos.
+
+--Tu o disseste: espinafre!
+
+--Temos tambm a D. Beatriz Veloso... Essa bonita... Mas, menino, que
+horrivelmente bem falante! Fala como as heronas do Camilo. Tu nunca
+leste o Camilo... E depois, um tom de voz que te no sei descrever, o
+tom com que se fala em D. Maria, em peas de sentimento. Tu tambm
+nunca viste o Teatro de D. Maria... Enfim, um horror! E perguntas
+pavorosas. V. Ex.^a. Sr. Doutor, no se delicia com Lamartine? J me
+disse esta, a indecente!
+
+--E tu?
+
+--Eu! Arregalei os olhos... Oh Lamartine!. Mas, coitada, uma
+excelente rapariga! Agora, por outro lado, temos as Rojes, as filhas
+de Joo Rojo, duas flores, muito frescas, muito alegres, com um cheiro
+e um brilho a sadio, e muito simples... A tia Vicncia morre por elas.
+Depois h a mulher do Dr. Alpio, que uma beleza. Oh! uma criatura
+esplndida! Mas, enfim, a mulher do Dr. Alpio, e tu renunciaste aos
+deveres da Civilizao... Alm disso, mulher muito sria, toda absorvida
+nos seus dois pequenos, que parecem dois anjinhos de Murillo... E quem
+mais? J agora, quero completar a lista do pessoal feminino. Temos a
+Melo Rebelo, de Sandofim, muito engraada, com cabelo lindo... Borda
+na perfeio, faz doces como uma freira do antigo Regime... Havia
+tambm uma Jlia Lobo, muito linda, mas morreu... Agora no me lembro
+mais. Mas falta a flor da Serra, que a minha prima Joaninha, da Flor
+da Malva! Essa uma perfeio de rapariga.
+
+--E tu, primo Z, como tens tu resistido?
+
+--Somos como irmos, criados de pequeninos, mais acostumados e
+familiares que tu e eu... A familiaridade esbate os sexos. A me dela
+era a nica irm da tia Vicncia, e morreu muito nova. A Joaninha,
+quase desde o bero que se criou em nossa casa, em Guies. O pai bom
+homem, o tio Adrio. Erudito, antiqurio, coleccionador... Colecciona
+toda a sorte de coisas esquisitas, campainhas, esporas, sinetes,
+fivelas... Tem uma coleco curiosa. Ele h muito que deseja vir a
+Tormes, para te visitar... Mas, coitado, sofre da bexiga, no pode
+montar a cavalo. E a estrada da Flor da Malva aqui impossvel para
+carruagens...
+
+O meu Prncipe espreguiara longamente os braos:
+
+--No, est claro! eu que hei-de visitar teu tio, e a tia Vicncia...
+Desejo conhecer os meus vizinhos. Mas mais tarde, quando sossegar. Agora
+ando todo ocupado com o meu povo.
+
+E com efeito! Jacinto era agora como um Rei fundador de um Reino, e
+grande edificador. Por todo o seu domnio de Tormes andavam obras, para
+o renovamento das casas dos rendeiros, umas que se concertavam, outras
+mais velhas, que se derrubavam para se reconstrurem com uma largueza
+cmoda. Pelos caminhos constantemente chiavam carros, carregados de
+pedra, ou de madeiras cortadas nos pinheirais.
+
+Na taberna do Pedro, entrada da freguesia, ia um desusado movimento,
+de pedreiros e carpinteiros contratados para as obras;--e o Pedro, com
+as mangas arregaadas, por trs do balco, no cessava de encher os
+decilitros com uma vasta infusa.
+
+Jacinto, que tinha agora dois cavalos, todas as manhs cedo percorria
+as obras, com amor. Eu, inquieto, sentia outra vez, latejar e irromper
+no meu Prncipe o seu velho, manaco furor de acumular Civilizao! O
+plano primitivo das obras era incessantemente alargado, aperfeioado.
+Nas janelas, que deviam ter apenas portadas, segundo o secular costume
+da serra, decidira pr vidraas, apesar do mestre de obras lhe dizer
+honradamente, que depois de habitadas um ms, no haveria casa com um s
+vidro. Para substituir as traves clssicas queria estucar os tectos;--e
+eu via bem claramente que ele se continha, se retesava dentro do
+Bom-Senso, para no dotar cada casa com campainhas elctricas. Nem
+sequer me espantei, quando ele uma manh me declarou que a porcaria da
+gente do campo provinha de eles no terem onde comodamente se lavar,
+pelo que andava pensando em dotar cada casa com uma banheira. Descamos
+nesse momento, com os cavalos rdea, por uma azinhaga precipitada e
+escabrosa; um vento leve ramalhava nas rvores, um regato saltava
+ruidosamente entre as pedras. Eu no me espantei--mas realmente me
+pareceu que as pedras, o arroio, as ramagens e o vento, se riam
+alegremente do meu Prncipe. E alm destes confortos, a que o Joo,
+mestre de obras, com os olhos loucamente arregalados chamava as
+grandezas, Jacinto meditava o bem das almas. J encomendara ao seu
+arquitecto, em Paris, o plano perfeito de uma escola, que ele queria
+erguer, naquele campo da Carria, junto capelinha que abrigava os
+ossos. Pouco a pouco, a criaria tambm uma biblioteca, com livros
+de estampas, para entreter, aos domingos, os homens a quem j no era
+possvel ensinar a ler. Eu vergava os ombros, pensando:--A vem a
+terrvel acumulao das Noes! Eis o livro invadindo a Serra! Mas
+outras ideias de Jacinto eram tocantes,--e eu mesmo me entusiasmei, e
+excitei o entusiasmo da tia Vicncia com o seu plano de uma Creche, onde
+ele esperava ter manhs muito divertidas vendo as criancinhas a
+gatinhar, a correr tropegamente atrs de uma bola. De resto, o nosso
+boticrio de Guies estava j apalavrado para estabelecer uma pequena
+farmcia em Tormes, sob a direco do seu praticante, um afilhado da
+tia Vicncia, que tinha publicado um artigo sobre as festas populares do
+Douro no _Almanaque de Lembranas_. E j fora oferecido o partido mdico
+de Tormes, com ordenado de 600$000 ris.
+
+--No te falta seno um Teatro! dizia eu, rindo.
+
+--Um teatro no. Mas tenho a ideia de uma sala, com projeces de
+lanterna mgica, para ensinar a esta pobre gente as cidades desse
+mundo, e as coisas de frica, e um bocado de Histria.
+
+E tambm me ensoberbeci com esta inovao!--E quando a contei ao tio
+Adrio, o digno antiqurio bateu, apesar do seu reumatismo, uma palmada
+tremenda na coxa. Sim, senhor! Bela ideia! Assim se podia ensinar
+quela gente iletrada, vivamente, por imagens, a Histria Santa, a
+Histria Romana, at a Histria de Portugal!... E voltado para a prima
+Joaninha, o tio Adrio declarou Jacinto um homem de corao!
+
+E realmente pela Serra crescia a popularidade do meu Prncipe.
+Naquele, guarde-o Deus, meu senhor! com que as mulheres ao passar o
+saudavam, se voltavam para o ver ainda, havia uma seriedade de orao, o
+bem sincero desejo de que Deus o guardasse sempre. As crianas a quem
+ele distribua tostes, farejavam de longe a sua passagem,--e era em
+torno dele um escuro formigueiro de caritas trigueiras e sujas, com
+grandes olhos arregalados, que se ainda tinham pasmo, j no tinham
+medo. Como o cavalo de Jacinto uma tarde se chapara, ao desembocar da
+alameda, numas grossas pedras que a deformavam a estrada, logo ao
+outro dia um bando de homens, sem que Jacinto o ordenasse, veio por
+dedicao ensaibrar e alisar aquele pedao perigoso de caminho,
+aterrados com o risco que correra o bom senhor. J pela serra se
+espalhava esse nome de bom senhor. Os mais idosos da freguesia no o
+encontravam sem exclamarem, uns com gravidade, outros com grandes risos
+desdentados:--_Este o nosso benfeitor!_ Por vezes, alguma velha corria
+do fundo do eido, ou vinha porta do casebre, ao avist-lo no caminho,
+para gritar, com grandes gestos dos braos magros: Ai que Deus o cubra
+de bnos! Que Deus o cubra de bnos!
+
+Aos domingos, o padre Jos Maria, (bom amigo meu e grande caador) vinha
+de Sandofim, na sua gua rua, a Tormes, para celebrar a missa na
+Capelinha. Jacinto assistia ao ofcio na sua tribuna, como os
+Jacintos doutras eras, para que aqueles simples o no supusessem
+estranho a Deus. Quase sempre ento ele recebia presentes, que as
+filhas dos caseiros, ou os pequenos, vinham muito corados, trazer-lhe
+varanda, e eram vasos de manjerico, ou um grosso ramalhete de cravos, e
+por vezes um gordo pato. Havia ento uma distribuio de cavacas e
+merengues de Guies, s raparigas e s crianas,--e, no ptio, para os
+homens circulavam as infusas de vinho branco. O Silvrio j sustentava
+com espanto, e redobrado respeito, que o Sr. D. Jacinto em breve
+disporia de mais votos nas eleies que o Dr. Alpio. E eu prprio me
+impressionei, quando o Melchior me contou que o Joo Torrado, um velho
+singular daqueles stios, de grandes barbas brancas, ervanrio,
+vagamente alveitar, um pouco adivinho, morador misterioso de uma cova no
+alto da serra, a todos afirmava que aquele bom senhor era El-Rei D.
+Sebastio, que voltara!
+
+
+
+
+XII
+
+
+Assim chegou Setembro, e com ele o meu natalcio, que era a 3 e num
+Domingo. Toda essa semana a passara eu em Guies, nos preparos da
+vindima,--e de manh cedo, nesse Domingo ilustre, me fui debruar da
+varanda do quarto do saudoso tio Afonso, vigiando a estrada, por onde
+devia aparecer o meu Prncipe, que enfim visitava a casa do seu Z
+Fernandes. A tia Vicncia, desde a madrugada, andava atarefada pela
+cozinha e pela copa, porque, desejando mostrar ao meu Prncipe o
+pessoal da serra, convidara para jantar algumas famlias amigas, dos
+arredores, as que tinham carruagens ou carroes, e podiam, pelas
+estradas mal seguras, recolher tarde, depois de um bailarico campestre,
+no ptio, j enfeitado para esse efeito de lanternas chinesas. Mas logo
+s dez horas me desesperei, ao receber, por um moo da Flor da Malva,
+uma carta da prima Joaninha, em que dizia a pena de no poder vir
+porque o Pap estava desde a vspera com um leiceno, e ela no o
+queria abandonar. Corri indignado cozinha, onde a tia Vicncia
+presidia a um violento bater de gemas de ovos dentro de uma imensa
+terrina.
+
+--A Joaninha no vem! Sempre assim! Diz que o pai tem um leiceno...
+Aquele tio Adrio escolhe sempre os grandes dias para ter leicenos, ou
+para ter a pontada...
+
+A boa face redondinha e corada da tia Vicncia enterneceu-se.
+
+--Coitado! ser em stio que no se pudesse sentar na carruagem!
+Coitado! Olha, se lhe escreveres, diz-lhe que ponha um emplastrozinho
+de folhas de alecrim. com que teu tio se dava bem.
+
+Eu gritei simplesmente para o moo, que dava de beber ao burro no ptio:
+
+--Diz Sr.^a D. Joaninha que sentimos muito... Que talvez eu l
+aparea amanh.
+
+E voltei janela, impaciente, por que o relgio do corredor, muito
+atrasado, j cantara a meia hora depois das dez e o Prncipe tardava
+para o almoo. Mas, mal eu me chegara varanda, apareceu justamente na
+volta da estrada Jacinto, de grande chapu de palha, no seu cavalo,
+seguido do Grilo que, tambm de chapu de palha, e abrigado sob um
+imenso guarda-sol verde, se escarranchava no albardo da velha gua do
+Melchior. Atrs, um moo com uma maleta cabea. E eu, na alegria de
+avistar enfim o meu Prncipe trotando para a minha casa de aldeia, no dia
+dos meus trinta e seis anos, pensava noutro natalcio, no dele, em
+Paris, no 202, quando, entre todos os esplendores da Civilizao, ns
+bebemos tristemente _ad manes_, aos nossos mortos!
+
+--_Salv!_ gritei da varanda. _Salv, domine Jacinthi_!
+
+E entoei, para o acolher, num alegre tarantantan, o Hino da Carta!
+
+--Isto por aqui tambm lindo!--gritou ele de baixo. E o teu palcio
+tem um soberbo ar... Por onde a porta?
+
+Mas eu j me precipitava para o ptio--onde Jacinto, apeando, contou
+alegremente os tormentos do Grilo, que nunca montara a cavalo, e no
+cessara de berrar ante os perigos daquela aventura.
+
+E o digno preto, ofegante, lustroso de suor, e lvido sob o esplendor
+da sua negrura, exclamava, apontando com a mo trmula para a pobre
+gua, que solta, de cabea pensativa, parecia de pedra, sobre as patas
+mais imveis que marcos:
+
+--Pois se o si Fernandes visse! Uma fera, que nunca veio quieta. Sempre
+para a esquerda, sempre para a direita, p aqui, p alm! S para me
+sacudir! S para me sacudir!
+
+E no resistiu. Com a ponta do guarda-sol atirou uma pontoada vingativa
+contra a gua, sobre o albardo.
+
+Subindo a escadaria ligeira, penetrando no alegre corredor, com a sua
+janela ao fundo engrinaldada de rosinhas, Jacinto louvava grandemente
+a nossa casa, que o repousava das rijas muralhas, das grossas portas
+feudais de Tormes. E no seu quarto agradeceu os cuidados maternais da
+tia Vicncia, que enchera de flores os dois vasos da China sobre a
+cmoda, e adornara a cama com uma das nossas colchas da ndia mais
+ricas, cor de canrio, com grandes aves de ouro. Eu sorria, enternecido.
+Ento estreitmos os ossos num grande abrao, pelo natalcio... Trinta
+e oito, hein, Z Fernandes?--Trinta e quatro, animal! E o meu
+Prncipe abrindo a mala, sbria maleta de filsofo, ofereceu os
+nobres presentes, que so devidos, como diz sempre o astuto Ulisses na
+Odisseia. Era um alfinete de gravata, com uma safira, uma cigarreira de
+aro fosco, adornada de um florido ramo de macieira em delicado esmalte,
+e uma faca para livros de velho lavor Chins. Eu protestava contra a
+prodigalidade.
+
+-- tudo das malas de Paris... Mandei-as abrir ontem noite. E tomei a
+liberdade de trazer esta lembrana tua tia Vicncia. No vale nada...
+ s por ter pertencido princesa de Lamballe.
+
+Era uma caldeirinha de gua benta, em prata lavrada, de um gosto florido e quase galante.
+
+--A tia Vicncia no sabe quem a princesa de Lamballe, mas ficar
+encantada! E uma garantia, por que ela suspeita da tua religio, como
+homem de Paris, da terra das impiedades... E agora, lavar, escovar, e ao
+almoo!
+
+A tia Vicncia pareceu toda surpreendida, e logo encantada com o meu
+camarada, que ela supusera realmente um Prncipe, arrogante, escarpado
+e difcil. Quando ele lhe ofereceu a caldeirinha, com um delicado
+pedido para se lembrar dele nas suas oraes, duas largas rosas,
+mais rseas e frescas que as rosas que enchiam a mesa, cobriram as faces
+redondas da boa senhora, que nunca recebera to piedoso presente, com
+to linda palavra. Mas o que sobretudo a cativou foi o tremendo
+apetite de Jacinto, a entusiasmada convico com que ele,
+acumulando no prato montes de cabidela, depois altas serras de arroz de
+forno, depois bifes de numerosa cebolada, exaltava a nossa cozinha,
+jurava nunca ter provado nada to sublime. Ela resplandecia:
+
+--At faz gosto, at faz gosto!... Ora mais uma destas batatinhas
+recheadas...
+
+--Concerteza, minha senhora! at duas! As minhas raes, em mesas
+destas, to perfeitas, so sempre as de Gargntua.
+
+--No cites Rabelais, que a tia Vicncia no conhece os autores
+profanos! exclamava eu, tambm radiante. E prova esse vinho branco c da
+nossa lavra, e louva Deus que amadurece tal uva.
+
+E o almoo foi muito alegre, muito ntimo, muito conversado, sobre as
+obras de Jacinto em Tormes, e a sua Creche, que enlevava a tia
+Vicncia, e as esperanas da vindima, e a minha prima Joaninha, que
+tinha o pap doente, e o pssimo estado dos caminhos. Mas o
+enternecimento maior foi quando, ao servir o caf, o criado ps ao lado
+de Jacinto um pires com um pau de canela, o seu estranho e costumado
+pau de canela. No o esquecera a tia Vicncia! Ali tinha o seu pauzinho
+de canela!--Queria que ele, em Guies, continuasse os seus hbitos
+como em Tormes... E aquele pau de canela foi o smbolo de adopo do
+meu Prncipe como novo sobrinho da tia Vicncia.
+
+Ela em breve recolheu cozinha, aos preparativos do banquete. Ns
+fummos um preguioso charuto no jardim, ao p do repuxo, sob a
+recolhida sombra do cedro. Depois, inexoravelmente, como proprietrio,
+mostrei ao meu Prncipe a propriedade toda, com desapiedada
+minuciosidade, sem lhe perdoar uma leira, um regueiro, uma rvore, um p
+de vinha. S quando a sua face comeou a opar e a empalidecer, de
+cansao, e que do entendimento totalmente atordoado s lhe escorria um
+vago--muito bonito! bela terra!-- que voltei os passos para casa,
+tornejando ainda numa volta larga para lhe mostrar o lagar, uma
+plantao de espargos, e o stio onde existira a runa de um velho castro
+romano. Ao penetrarmos de novo, pelo jardim, na fresca sala, ainda o
+empurrei, como uma rs, para a livraria do meu bom tio Afonso, para lhe
+mostrar as preciosidades, uma magnfica crnica de D. Joo I por Ferno
+Lopes, a primeira edio do _Imperador Clarimundo_, uma _Henriada_, com
+a assinatura de Voltaire, forais de El-Rei D. Manuel, e outras
+maravilhas. Ele respirava fechando o derradeiro pergaminho, quando eu o
+arrastei adega, para que admirasse a famosa pipa, que tinha, em
+relevo, na madeira do tampo, as complicadas armas dos Sandes. Eram
+quatro horas. O meu Prncipe tinha o ar esgazeado e lvido. Cravando
+nele os olhos inexorveis, olhos em que eu mesmo sentia reluzir a
+ferocidade, declarei que iramos agora ver a tulha. Mas ento, com as
+mos nos rins, ele murmurou, humildemente, num murmrio de criana:
+
+--No se me dava de me sentar um poucochinho!
+
+Tive ento piedade, abri as garras, deixei que ele se arrastasse, atrs
+de mim, para o seu quarto, onde freneticamente descalou as botas, se
+atirou para um fresco canap forrado de ganga, murmurando num
+abatimento profundo:--Bela propriedade!
+
+Consenti generosamente que ele adormecesse,--e eu mesmo desci a
+verificar se a Gertrudes dispusera bem as escovas, as toalhas de renda,
+no quarto onde os convidados, em breve, ao chegar, lavariam as mos,
+escovariam a poeira da estrada. E justamente, uma caleche rodava no
+ptio, a velha caleche do D. Teotnio, com a parelha rua. Espreitando
+da janela descobri, com prazer, que chegava s, de gravata branca, sob
+o guarda-p, sem a horrendssima filha. Corri alegremente ao quarto da
+tia Vicncia, que, ajudada pela Catarina, abrochava pressa as suas
+pulseiras ricas de topzios.
+
+--Tia Vicncia! chegou o D. Teotnio! Felizmente vem sem a filha... No
+se demore, os outros no tardam. O Manuel que esteja bem penteado, de
+gravata bem tesa!... Vamos a ver como corre a festa!
+
+
+
+
+XIII
+
+
+Ai de mim! a festa no meu aniversrio no se passou com brilho, nem com
+alegria!
+
+Quando o meu Prncipe entrou na sala, com uma elegncia, (onde eu senti
+as malas de Paris, abertas na vspera)--uma rosa branca no jaqueto
+preto, colete branco lavrado e trespassado, copiosa gravata de seda
+branca, tufando, e presa por uma prola negra,--j todos os convidados
+estavam na sala,--o D. Teotnio, o Ricardo Veloso, o Dr. Alpio, o
+gordo Melo Rebelo, de Sandofim, os dois manos Albergarias, da quinta
+da Loja--; todos de p, num peloto cerrado. Em torno do sof onde a
+tia Vicncia se instalara, um magotezinho de cadeiras reunira as
+senhoras,--a Beatriz Veloso, de cassa branca sobre seda, que a tornava
+mais area e magra, com a sua trunfa imensa de cabelo riado; as duas
+Rojes, (com a tia Adelaide Rojo) vermelhinhas como camoesas, ambas de
+branco; e a mulher do Dr. Alpio, de preto, esplndida como uma Vnus
+Rstica... E foi na sala, como se realmente entrasse um Prncipe,
+desses pases do Norte onde os Prncipes so magnficos, muito
+distantes dos homens, e aterram as gentes. Um silncio, como se o tecto
+de carvalho descesse, nos esmagava: e todos os olhos se enristaram
+contra o meu desgraado Jacinto, como numa caada hindu, quando orla
+da floresta surge o Tigre Real. Debalde,--nas confusas, apressadas
+apresentaes, com que eu o levava atravs da sala,--os seus apertos de
+mo, os sorrisos, o vago murmrio, da sua honra, do seu prazer foram
+repassados de simpatia, de simplicidade. Todos os cavalheiros
+permaneciam reservados, observando o Prncipe, que subira serra: e as
+senhoras mais se aconchegavam sombra da tia Vicncia, como ovelhas
+volta do pastor, quando na altura assoma o lobo. Eu, j inquieto, lancei
+o D. Teotnio, o mais ornamental daqueles cavalheiros.
+
+--O Sr. D. Teotnio foi muito amvel em vir, Jacinto. Raras vezes sai
+da sua linda casa da Abrujeira.
+
+O digno D. Teotnio sorriu, cofiando os espessos bigodes brancos, de
+velho brigadeiro:
+
+--V. Ex.^a chegou directamente de Viena?
+
+No! Jacinto viera directamente de Paris, com o amigo Z Fernandes. D.
+Teotnio insistiu:
+
+--Mas certamente visita muitas vezes Viena...
+
+Jacinto sorria surpreendido:
+
+--Viena, porqu?... No. H mais de quinze anos que no vou a Viena.
+
+O fidalgo murmurou um lento _ah_! e ficou calado, de plpebras baixas,
+como revolvendo anlises profundas, com as mos cruzadas sob as abas da
+longa sobrecasaca azul.
+
+Eu ento, vigilante, lancei o Dr. Alpio:
+
+--O nosso Doutor, meu caro Jacinto, o mais poderoso influente de todo
+o distrito.
+
+O Doutor curvou a cabea bem feita, com um belo cabelo preto,
+admiravelmente alisado e lustroso. Mas a tia Vicncia, que se erguera do
+sof, chamava o meu Prncipe, porque o Manuel anunciara o jantar,
+mudamente, mostrando apenas, porta da sala, a sua corpulenta
+pessoa,--inteiriado e vermelho.
+
+ mesa, onde os pudins, as travessas de doce de ovos, os antigos vinhos
+da Madeira e do Porto, nas suas pesadas garrafas de cristal lapidado,
+fundiam com felicidade os seus tons ricos e quentes, Jacinto ficou
+entre a tia Vicncia e uma das Rojes, a Luizinha, sua afilhada, que,
+por costume velho, quando jantava em Guies, sempre se colocava
+sombra da sua boa madrinha. E a sopa, que era de galinha com macarro,
+foi comida num to largo e pesado silncio que eu, na nsia de o
+quebrar, exclamei, ao acaso, sem pensar que me achava em Guies depois
+de tanto tempo e em minha prpria casa:
+
+--Deliciosa, esta sopa!
+
+Jacinto ecoou:
+
+--Divina!!
+
+Mas como todos os convidados certamente estranharam este meu brado, e a
+excessiva admirao de Jacinto, o silncio, carregado de cerimnia,
+mais se carregou de embarao. Felizmente a tia Vicncia, com aquele seu
+bom sorriso, observou que Jacinto parecia gostar da comida
+portuguesa... E eu, sempre no intuito de animar a conversa, nem deixei
+que o meu Prncipe confirmasse o seu amor da cozinha verncula, e
+gritei:
+
+--Como gostar! Mas que delira!... Pudera! Tanto tempo em Paris,
+privado dos pitus lusitanos...
+
+E como, ditosamente, me lembrara o prato de arroz doce preparado na
+ocasio do natalcio de Jacinto, pelo cozinheiro do 202, contei a
+histria, profusamente, exagerando, afirmando que esse arroz doce
+continha _foie gras_, e que sobre a sua ornamentada pirmide flutuava a
+bandeira tricolor, por cima do busto do conde de Chambord! Mas o arroz
+doce de Paris, assim estragado to longe da Serra, no interessara
+ningum. Puxou apenas alguns sorrisos de polida condescendncia, quando
+eu, alternadamente, me voltava para um cavalheiro, para uma senhora,
+insistindo, exclamando:--Extraordinrio, hein?
+
+D. Teotnio observou, misteriosamente, que o cozinheiro sabia para
+quem cozinhava. E a bela mulher do Dr. Alpio ousou murmurar, corando:
+
+--Havia de ser bonito prato, e talvez no fosse mau!
+
+Eu, sempre na nsia de espiritualizar o banquete, de produzir
+conversao, ataquei com desabrida alegria a Sr.^a D. Lusa, por ela
+assim defender a profanao do nosso grande acepipe nacional! Mas, pobre
+de mim! to excessiva e ruidosamente interpelei a formosa senhora, que
+ela se enconchou, emudeceu, toda corada, e mais formosa assim. E outro
+silncio se abatia sobre a mesa, como uma nvoa, quando a tia Vicncia,
+providencial, se desculpou para com Jacinto de no ter peixe! Mas qu!
+ali na Serra era impossvel, ainda a peso de ouro, ter peixe, a no ser a
+pescada salgada, ou o bacalhau. O excelente Rojo, com aquele seu
+modo, to suave que cada slaba para correr mais docemente parecia
+lubrificada com leos santos, lembrou que o Sr. D. Jacinto possua uma
+larga faixa do rio Douro com privilgio para a pesca do svel. Jacinto
+no sabia, nem imaginava que houvesse sveis... O Dr. Alpio no se
+admirava por que essas pescas tinham sido vendidas ao Cunha brasileiro,
+h vinte anos, na mocidade do Sr. D. Jacinto. E hoje, segundo o D.
+Teotnio, no valiam dois mil ris. Se j no h sveis!... E a
+propsito das antigas pescas do Douro se ia formando, em torno da mesa,
+entre os homens mais vizinhos, lentas cavaqueirinhas rurais, que as
+senhoras aproveitavam para cochichar, no desabafo daquele silncio
+cerimonioso, que viera pesando cada vez mais desde a sopa at os frangos
+guisados. Receoso de que essa orla de murmrios lentos, sem brilho e sem
+alegria, se estabelecesse de novo, me abalancei (para animar), a
+interpelar Jacinto, recordando a famosa aventura do peixe da Dalmcia
+encalhado no ascensor.
+
+--Isso foi uma das melhores histrias que nos sucederam em Paris! O
+Jacinto, por causa de um peixe muito raro, que lhe mandara o Gro-Duque
+Casimiro, dava uma magnfica ceia, a que o Gro-Duque... o Gro-Duque
+Casimiro, o irmo do Imperador...
+
+Todos os olhos se desviaram para o meu Jacinto, que se servia de
+ervilhas:--e o Melo Rebelo quase se engasgou, num sorvo precipitado
+ao copo, para contemplar no meu amigo algum reflexo do Gro-Duque. E eu
+contei, com profuso, o peixe encalhado, o Gro-Duque pescando, o anzol
+feito com um gancho da Princesa de Carman, o duque de Marizac, caindo
+quase no poo do elevador... Mas no se produziu um nico riso, e a
+ateno mesma era dada com esforo, por cortesia. Debalde eu
+arremessava aqueles nomes magnficos de Prncipes e princesas,
+misturados a coisas picarescas... Nenhum dos meus convidados
+compreendia o maquinismo do elevador, um prato encalhado num poo
+negro... Perante o gancho da princesa as Albergarias baixaram os olhos.
+E a minha deliciosa histria morreu numa reticncia, ainda mais
+regelada pela exclamao inocente da tia Vicncia:
+
+--Oh! filho, que coisas!
+
+Mas, como Jacinto se enfronhara de repente numa larga conversa com a
+Luisinha Rojo, que ria, toda luminosa e palradora,--todos, como
+libertados do peso cerimonioso da sua presena augusta, se lanaram nas
+conversinhas discretas, a que o champanhe, agora, depois do assado, dava
+mais viveza. Eram os soturnos murmrios, em torno da mesa, que
+definitivamente se perpetuavam. Foi ento que desisti de animar o
+jantar. Mergulhei com a bela mulher do Doutor Alpio na grande questo
+social desse tempo em Guies, o casamento da D. Amlia Noronha com o
+feitor! E eu defendia a D. Amlia, os direitos do amor, quando se
+alargou um silncio,--e era Jacinto, que se debruava, de copo na mo.
+
+--Velho amigo Z Fernandes, tua! Muitos e bons, e sempre em companhia
+de tua tia e minha senhora, a quem peo para saudar.
+
+Todos os copos, onde a espuma morria sobre um fundo de champanhe, se
+ergueram num largo rumor de amizade, e boa vizinhana. Eu acenei ao
+Manuel, vivamente, para encher os copos; e logo, tambm de p, atirando
+para trs a sobrecasaca:
+
+--Meus senhores, peo uma grande sade para o meu velho amigo Jacinto,
+que pela primeira vez honra esta casa fraternal... Que digo eu? que pela
+primeira vez honra com a sua presena a sua querida ptria! E que por c
+fique, pelas serras, muitos anos, todos bons. tua, meu velho!
+
+Outro rumor correu pela mesa, mas cerimonioso e sereno. A nossa
+oratria, positivamente, no incendiara as imaginaes! A tia Vicncia
+fez tilintar o seu copo, quase vazio, com o de Jacinto, que tocou no
+copo da sua vizinha, a Luisinha Rojo, toda resplandecente, e mais
+vermelha que uma penia. Depois foi um encadeamento de sades, com os
+copos quase vazios, entre todos os convidados, sem esquecer o tio
+Adrio, e o Abade, ambos ausentes, ambos com furnculos. E a tia
+Vicncia espalhava aquele olhar, que prepara o erguer, o arrastar de
+cadeiras,--quando D. Teotnio, erguendo o seu copo de vinho do Porto,
+com a outra mo apoiada mesa, meio erguido, chamou Jacinto, e numa
+voz respeitosa, quase cava:
+
+--Esta toda particular, e entre ns... Brindo o ausente!
+
+Esvaziou o copo, como em religio, pontificando. Jacinto bebeu
+assombrado, sem compreender. As cadeiras arrastavam,--eu dei o brao
+tia Albergaria.
+
+E s compreendi, na sala, quando o Dr. Alpio, com a sua chvena de
+caf e o charuto fumegante, me disse, num daqueles seus olhares
+finos, que lhe valiam a alcunha de _Dr. Agudo_:--Espero que ao menos,
+c por Guies, no se erga de novo a forca!... E o mesmo fino olhar me
+indicava o D. Teotnio, que arrastara Jacinto para entre as cortinas
+de uma janela, e discorria, com um ar de f e de mistrio. Era o
+miguelismo, por Deus! O bom D. Teotnio considerava Jacinto como um
+hereditrio, ferrenho, miguelista,--e na sua inesperada vinda ao seu
+solar de Tormes, entrevia uma misso poltica, o comeo de uma propaganda
+enrgica, e o primeiro passo para uma tentativa de Restaurao. E na
+reserva daqueles cavalheiros, ante o meu Prncipe, eu senti ento a
+suspeita liberal, o receio de uma influncia rica, nova, nas Eleies
+prximas, e a nascente irritao contra as velhas ideias, representadas
+naquele moo, to rico, de civilizao to superior. Quase entornei o
+caf, na alegre surpresa daquela sandice. E retive o Melo Rebelo,
+que repunha a chvena vazia na bandeja, fitei, com um pouco de riso, o
+_Dr. Agudo_.
+
+--Ento, francamente, os amigos imaginam que o Jacinto veio para Tormes
+trabalhar no miguelismo?
+
+Muito srio, Melo Rebelo chegou o seu grosso bigode minha orelha:
+
+--At corre, como certo, que o Prncipe D. Miguel est com ele em
+Tormes!
+
+E como eu os considerava esgazeado, o Dr. Alpio--to agudo!--confirmou:
+
+-- o que corre... Disfarado em criado!
+
+Em criado? Oh! santo Deus! Era o Baptista! Justamente, Ricardo Veloso
+veio, puxando do seu cigarrinho, para o acender no meu charuto. E o bom
+Rebelo logo invocou o seu testemunho.--Pois no corria, que o filho de
+D. Miguel estava em Tormes, escondido?...
+
+--Disfarado em lacaio, confirmou logo o digno Rebelo.
+
+Acendeu o cigarro, soprou o fumo, e erguendo muito as sobrancelhas
+meditativas:
+
+--Se assim , l me parece desplante... Que eu no desgostava de o ver.
+Dizem que bonito moo, bem apessoado. Mas enfim, meu tio Joo Vaz
+Rebelo foi partido s postas, a machado, nas prises de Almeida... E se
+recomeam essas questes, mau, mau! Ora o seu amigo...
+
+Emudeceu. Jacinto, que se libertara do velho D. Teotnio, e ainda
+conservava um resto de riso, de assombro divertido, vinha para mim,
+desabafar:
+
+--Extraordinrio! Vejo que, aqui, na serra, ainda se conservam, sem uma
+ruga, as velhas e boas ideias...
+
+Imediatamente, sem se conter, Melo Rebelo acudiu:
+
+-- conforme o que V. Ex.^a chama _boas ideias_.
+
+E eu agora, furioso com aquela disparatada inveno, que cercava
+de hostilidade o meu pobre Jacinto, estragava aquela amvel noite
+de anos, intervim, vivamente:
+
+--Tu jogas o voltarete, Jacinto? No jogas... Ento vamos arranjar duas
+mesas... O D. Teotnio h-de querer cartas.
+
+E arrastei Jacinto para as senhoras, que de novo se aninhavam sombra
+da tia Vicncia, estabelecida no seu canto do sof. Todas se calavam,
+parecia encolherem-se ante a apario do meu Prncipe, como pombas
+avistando o abutre. E deixei o temido homem afirmando mulher do Dr.
+Alpio (um pouco desgarrada do bando das aves tmidas) que lhe dera
+grande prazer aquela ocasio de conhecer as suas vizinhas de Tormes...
+Ela abrira nervosamente o leque, sorria, e nunca de certo Jacinto
+admirara na Cidade uma boca mais vermelha, dentinhos mais rutilantes.
+Mas depois de organizar a mesa do voltarete, tive de abancar, eu, para
+substituir o Manuel Albergaria, que era dispptico, se declarara
+afrontado, e desejava respirar um momento na varanda. Todos aqueles
+cavalheiros, de resto, se queixavam de calor. Mandei abrir as janelas
+que davam sobre as mimosas do ptio. O Veloso, ao baralhar, parava,
+bufando, como oprimido:
+
+--Est abafado... Ainda temos trovoada!
+
+E o Dr. Alpio, inquieto, porque tinha uma hora de estrada at casa, e
+uma das guas da caleche era escabriada, correu janela, espreitar o
+cu, que enegrecera, morno e pesado.
+
+--Com efeito, vai cair gua.
+
+As hastes das mimosas ramalhavam, arrepiadas: e o ar que agitava as
+cortinas era intermitente, estonteado. De certo na sala, entre as
+senhoras, surgira a mesma inquietao, porque a tia Albergaria
+apareceu, avisando o mano Jorge.
+
+Era prudente pensar em partir, a noite ameaava... E o Dr. Alpio,
+puxando o relgio, props que, levantada aquela remissa, se preparasse
+a marcha. Justamente o Albergaria recolhia da varanda desafrontado,
+aliviado com um clice de genebra: e retomou as suas cartas,
+anunciando tambm que vinha a uma trovoada valente.
+
+Voltando sala, encontrei Jacinto muito alegre entre as senhoras, que
+se familiarizaram, escutando cheias de riso e gosto, a histria da sua
+chegada a Tormes, sem malas, sem criados, to desprovido que dormira com
+a camisa da caseira! Mas a minha pobre noite de anos findava,
+desorganizada. A tia Albergaria rondava de janela em janela, assustada
+com a volta Roqueirinha, espreitando a treva abafada. Calando
+lentamente as luvas, a bela mulher do Dr. Alpio perguntava se ainda
+havia a remissa. E a tia Vicncia apressara o ch, que o Manuel seguido
+pela Gertrudes, com a bandeja de bolos, j comeava a servir s
+senhoras. Jacinto, de p, oferecendo chvenas, gracejava:
+
+--Ento tanta pressa, tanto medo, por causa de uma trovoadinha?
+
+Elas replicavam, familiarizadas, numa crescente simpatia pelo meu
+Prncipe:
+
+--Ora o senhor fala bem, porque fica debaixo de telhas...
+
+--Sempre o queramos ver... se fosse agora para Tormes, com esta noite
+cerrada!
+
+O voltarete findara nas duas mesas: e aqueles cavalheiros, das
+janelas, gritavam ordens para o ptio negro, onde as carruagens
+esperavam atreladas:
+
+--Desce a cabea da vitria, Diogo!
+
+--Acende o lampio, Pedro! Sempre ajuda a luz das lanternas.
+
+A criada Quitria chegava porta com os braos carregados de xales, de
+mantilhas de renda. Como uma das Albergarias ia no assento de diante na
+vitria, eu corri a buscar o meu casaco de borracha, para ela se
+abrigar se a chuva viesse. E s o D. Teotnio, que tinha at casa
+apenas meia lgua de estrada boa, se no apressava, filado outra vez no
+meu Prncipe, que levava para os cantos mais solitrios, em conversas
+profundas, que o seu dedo solene, espetado, sublinhava gravemente. Mas
+a tia Albergaria gritou que j chovia;--e ento foi uma pressa das
+senhoras, que beijocavam vivamente a tia Vicncia, enquanto os homens,
+na antecmara, enfiavam aodadamente os palets.
+
+Jacinto e eu descemos ao ptio para acompanhar aquela debandada,--e
+uma a uma, a traquitana do Dr. Alpio, a vitria das Albergarias, a
+velha e imensa caleche dos Velosos, rolaram sob a noite, entre os
+nossos desejos de boa jornada. Por fim D. Teotnio calou as luvas
+pretas e entrou para a sua caleche, dizendo a Jacinto:
+
+--Pois, primo e amigo, Deus permita que, do nosso encontro, e do mais
+que se passar, algum bem resulte a esta terra!
+
+Subindo a escada, o meu Prncipe desabafou:
+
+--Este Teotnio extraordinrio! Sabes o que descobri por fim?... Que
+me toma por um miguelista, e imagina que eu vim para Tormes preparar a
+restaurao de D. Miguel?!
+
+--E tu?
+
+--Eu fiquei to espantado, que nem o desiludi!
+
+--Pois sabe mais, meu pobre amigo. Todos pensam o mesmo, esto
+desconfiados, e receiam ver de novo erguidas as forcas em Guies! E
+corre que tu tens o Prncipe D. Miguel escondido em Tormes, disfarado
+em criado. E sabes quem ele ? o Baptista!
+
+--Isso sublime! murmurou Jacinto, com uns grandes olhos abertos.
+
+Na sala, a tia Vicncia nos esperava desconsolada, entre todas as luzes,
+que ardiam ainda no silncio e paz do sero debandado:
+
+--Ora uma coisa assim! Nem quererem ficar para tomar um copinho de
+geleia, um clice de vinho do Porto!
+
+--Esteve tudo muito desanimado, tia Vicncia! exclamei desafogando o meu
+tdio. Todo esse mulherio emudeceu; os amigos com um ar desconfiado...
+
+Jacinto protestou, muito divertido, muito sincero:
+
+No! pelo contrrio. Gostei imenso. Excelente gente! E to simples...
+Todas estas raparigas me pareceram ptimas. E to frescas, to alegres!
+Vou ter aqui bons amigos, quando verificarem que no sou miguelista.
+
+Ento contmos tia Vicncia a prodigiosa histria de D. Miguel
+escondido em Tormes... Ela ria! Que coisa! E mau seria...
+
+--Mas o Sr. Jacinto, no ?
+
+--Eu, minha senhora, sou socialista...
+
+Acudi, explicando tia Vicncia, que socialista era ser pelos pobres. A
+doce senhora considerava esse partido o melhor, o verdadeiro:
+
+--O meu Afonso, que Deus haja, era liberal... Meu pai, tambm e at
+amigo do Duque da Terceira...
+
+Mas um rude trovo rolou, atroou a noite negra:--e uma btega de gua
+cantou nos vidros, e nas pedras da varanda.
+
+--Santa Brbara! gritou a tia Vicncia! Ai aquela pobre gente!... At
+estou com cuidado... As Rojes, que vo na vitria!
+
+E correu para o quarto, na sua pressa de acender as duas velas
+costumadas no oratrio, ainda antes de ir guardar as pratas, e rezar o
+tero, com a Gertrudes.
+
+
+
+
+XIV
+
+
+Ao outro dia, depois de almoo, eu e Jacinto montmos a cavalo para um
+grande passeio at Flor da Malva, a saber de meu tio Adrio, e do seu
+furnculo. E sentia uma curiosidade interessada, e at inquieta, de
+testemunhar a impresso que daria ao meu Prncipe aquela nossa prima
+Joaninha, que era o orgulho da nossa casa. J nessa manh, andando
+todos no jardim a escolher uma bela rosa-ch para a botoeira do meu
+Prncipe, a tia Vicncia celebrara com tanto fervor a beleza, a graa,
+a caridade, e a doura da sua sobrinha toda-amada, que eu protestei:
+
+--Oh! tia Vicncia, olhe que esses elogios todos competem apenas
+Virgem Maria! A tia Vicncia est a cair em pecado de idolatria! O
+Jacinto depois vai encontrar uma criatura apenas humana, e tem um
+desapontamento tremendo!
+
+E agora, trotando pela fcil estrada de Sandofim, lembrava-me aquela
+manh, no 202, em que Jacinto encontrara o retrato dela no meu
+quarto, e lhe chamara uma _lavradeirona_. Com efeito, era grande e
+forte a Joaninha. Mas a fotografia datava do seu tempo de vio
+rstico, quando ela era apenas uma bela forte e s planta da serra.
+Agora entrava nos vinte e cinco, e j pensava, e sentia,--e a alma que
+nela se formara, afinara, amaciara, e espiritualizava o seu esplendor
+rubicundo.
+
+A manh, com o cu todo purificado pela trovoada da vspera, e as terras
+reverdecidas e lavadas pelos chuviscos ligeiros, oferecia uma doura
+luminosa, fina, fresca, que tornava doce, como diz o velho Eurpedes ou
+o velho Sfocles, mover o corpo, e deixar a alma preguiar, sem pressa
+nem cuidados. A estrada no tinha sombra, mas o sol batia muito de leve,
+e roava-nos com uma carcia quase alada. O vale parecia a Jacinto,
+que nunca ali passara, uma pintura da Escola Francesa do sculo XVIII,
+to graciosamente nele ondulavam as terras verdes, e com tanta paz e
+frescura corria o risonho Serpo, e to afveis e prometedores de
+fartura e contentamento alvejavam os casais nas verduras tenras! Os
+nossos cavalos caminhavam num passo pensativo, gozando tambm a paz da
+manh adorvel. E no sei, nunca soube, que plantazinhas silvestres e
+escondidas espalhavam um delicado aroma, que eu tantas vezes sentira,
+naquele caminho, ao comear o Outono.
+
+--Que delicioso dia! murmurou Jacinto. Este caminho para a Flor da
+Malva o caminho do cu... Oh Z Fernandes, de que este cheirinho to
+doce, to bom?
+
+Eu sorri, com certo pensamento:
+
+--No sei... talvez j o cheiro do cu!
+
+Depois, parando o cavalo, apontei com o chicote para o vale:
+
+--Olha, acol, onde est aquela fila de olmos, e h o riacho, j so
+terras do tio Adrio. Tem ali um pomar, que d os pssegos mais
+deliciosos de Portugal... Hei-de pedir prima Joaninha que te mande um
+cesto deles. E o doce que ela faz com esses pssegos, menino, alguma
+coisa de celeste. Tambm lhe hei-de pedir que te mande o doce.
+
+Ele ria:
+
+--Ser explorar de mais a prima Joaninha. E eu (porqu?) recordei e
+atirei ao meu Prncipe estes dois versos de uma balada cavalheiresca,
+composta em Coimbra pelo meu pobre amigo Procpio:
+
+--Manda-lhe um servo querido,
+Bem hajas dona formosa!
+E que lhe entregue um anel
+E com um anel uma rosa.
+
+Jacinto riu alegremente:
+
+--Z Fernandes, seria excessivo, s por causa de meia dzia de pssegos,
+e de um boio de doce.
+
+Assim ramos, quando apareceu, volta da estrada, o longo muro da
+quinta dos Velosos, e depois a capelinha de S. Jos de Sandofim. E
+imediatamente piquei para o largo, para a taverna do Torto, por causa
+daquele vinhinho branco, que sempre, quando por ali a levo, a minha
+alma me pede. O meu Prncipe reprovou, indignado:
+
+--Oh! Z Fernandes, pois tu, a esta hora, depois de almoo, vais beber
+vinho branco?
+
+-- um costumezinho antigo... Aqui taverninha do Torto... um
+decilitrozinho... A almazinha assim mo pede.
+
+E parmos; eu gritei pelo Manuel, que apareceu, rebolando a sua grossa
+pana, sobre as pernas tortas, com a infusa verde, e um copo.
+
+--Dois copos, Torto amigo. Que aqui este cavalheiro tambm aprecia.
+
+Depois de um plido protesto, o meu Prncipe tambm quis, mirou o
+lmpido e dourado vinho ao sol, provou, e esvaziou o copo, com delcia,
+e um estalinho de alto apreo.
+
+--Delicioso vinho!... Hei-de querer deste vinho em Tormes...
+perfeito.
+
+--Hein? Fresquinho, leve, aromtico, alegrador, todo alma!... Encha l
+outra vez os copos, amigo Torto. Este cavalheiro aqui o Sr. D.
+Jacinto, o fidalgo de Tormes.
+
+Ento, de trs da ombreira da taverna, uma grande voz bradou, cavamente,
+solenemente:
+
+--Bendito seja o pai dos Pobres!
+
+E um estranho velho, de longos cabelos brancos, barbas brancas, que lhe
+comiam a face cor de tijolo, assomou no vo da porta, apoiado a um
+bordo, com uma caixa de lata a tiracolo, e cravou em Jacinto dois
+olhinhos de um brilho negro, que faiscavam. Era o tio Joo Torrado, o
+profeta da Serra... Logo lhe estendi a mo, que ele apertou, sem
+despegar de Jacinto os olhos, que se dilatavam mais negros. Mandei vir
+outro copo, apresentei Jacinto, que corara, embaraado.
+
+--Pois aqui o tem, o senhor de Tormes, que fez por a todo esse bem
+pobreza.
+
+O velho atirou para ele bruscamente o brao, que saa cabeludo e
+quase negro, de uma manga muito curta.
+
+--A mo!
+
+E quando Jacinto lha deu, depois de arrancar vivamente a luva, Joo
+Torrado longamente lha reteve com um sacudir lento e pensativo,
+murmurando:
+
+--Mo real, mo de dar, mo que vem de cima, mo j rara!
+
+Depois tomou o copo, que lhe oferecia o Torto, bebeu com imensa
+lentido, limpou as barbas, deu um jeito correia que lhe prendia a
+caixa de lata, e batendo com a ponta do cajado no cho:
+
+--Pois louvado seja nosso Senhor Jesus Cristo, que por aqui me trouxe,
+que no o meu dia, e vi um homem!
+
+Eu ento debrucei-me para ele, mais em confidncia:
+
+--Mas, tio Joo, oua c! Sempre certo voc dizer por a, pelos
+stios, que El-Rei D. Sebastio voltara?
+
+O pitoresco velho apoiou as duas mos sobre o cajado, o queixo
+de espalhada barba sobre as mos, e murmurava, sem nos olhar, como
+seguindo a percusso dos seus pensamentos:
+
+--Talvez voltasse, talvez no voltasse... No se sabe quem vai, nem quem
+vem. A gente v os corpos, mas no v as almas que esto dentro. H
+corpos de agora com almas de outrora. Corpo vestido, alma pessoa...
+Na feira da Roqueirinha quem sabe com quantos reis antigos se topa,
+quando se anda aos encontres entre os vaqueiros... Em ruim corpo se
+esconde bom senhor!
+
+E como ele findara num murmrio, eu, atirando um olhar a Jacinto, e
+para gozarmos aqueles estranhos, pitorescos modos de vidente, insisti:
+
+--Mas, tio Joo, voc realmente, em sua conscincia, pensa que El-Rei
+D. Sebastio no morreu na batalha?
+
+O velho ergueu para mim a face, que se enrugara numa desconfiana:
+
+--Essas coisas so muito antigas. E no calham bem aqui porta do
+Torto. O vinho era bom, e V. S.^a tem pressa, meu menino! A flor da Flor
+da Malva l tem o paizinho doente... Mas o mal j vai pela serra abaixo
+com a inchao s costas. D gosto ver quem d gosto aos tristes. Por
+cima de Tormes h uma estrela clara. E trotar, trotar, que o dia est
+lindo!
+
+Com a magra mo lanou um gesto para que segussemos. E j passvamos o
+cruzeiro quando o seu brado ardente, de novo reboou, com solenidade
+cava:
+
+--Bendito seja o Pai dos Pobres.
+
+Direito, no meio da estrada, erguia o cajado como dirigindo as
+aclamaes de um povo. E Jacinto pasmava de que ainda houvesse no reino
+um Sebastianista.
+
+--Todos o somos ainda em Portugal, Jacinto! Na serra ou na cidade cada
+um espera o seu D. Sebastio. At a lotaria da Misericrdia uma forma
+do Sebastianismo. Eu todas as manhs, mesmo sem ser de nevoeiro,
+espreito, a ver se chega o meu. Ou antes a minha, por que eu espero uma
+D. Sebastiana... E tu, felizardo?
+
+--Eu? Uma D. Sebastiana? Estou muito velho, Z Fernandes... Sou o ltimo
+Jacinto; Jacinto ponto final... Que casa aquela com os dois
+torrees?
+
+--A Flor da Malva.
+
+Jacinto tirou o relgio:
+
+--So trs horas. Gastmos hora e meia... Mas foi um belo passeio, e
+instrutivo. lindo este stio.
+
+Sobre um outeirinho, afastada da estrada por arvoredo, que um muro
+cerrava, e dominando, a Flor da Malva voltava para Oriente e para o Sol
+a sua longa fachada com os dois torrees quadrados, onde as janelas, de
+varanda, eram emolduradas em azulejos. O grande porto de ferro, ladeado
+por dois bancos de pedra, ficava ao fundo do terreirinho, onde um
+imenso castanheiro derramava verdura e sombra. Sentado sobre as fortes
+razes descarnadas da grande rvore, um pequeno esperava segurando um
+burro pela arreata.
+
+--Est por a o Manuel da Porta?
+
+--Ainda agora subiu pela alameda.
+
+--Bem: empurra l o porto.
+
+E subimos, por uma curta avenida de velhas rvores, at outro terreiro,
+com um alpendre, uma casa de moos, toda coberta de heras, e uma casota
+de co, de onde saltou, com um rumor de corrente arrastada, um molosso, o
+Trito, que eu logo sosseguei fazendo-lhe reconhecer o seu velho amigo Z
+Fernandes. E o Manuel da Porta correu da fonte, onde enchia um grande
+balde, para nos segurar os cavalos.
+
+--Como est o tio Adrio?
+
+Surdo, o excelente Manuel sorriu, deleitado:
+
+--E ento vossa excelncia, bem? A Sr.^a D. Joaninha ainda agora
+andava no laranjal com o pequeno da Josefa.
+
+Seguimos por ruazinhas bem areadas, orladas de alfazema e buxo alto,
+enquanto eu contava ao meu Prncipe que aquele pequenito da Josefa era
+um afilhadinho da prima Joana, e agora o seu encanto e o seu cuidado
+todo.
+
+--Esta minha santa prima, apesar de solteira, tem a pela freguesia uma
+verdadeira filharada. E no s dar-lhes roupas e presentes, e ajudar
+as mes. Mas at os lava, e os penteia, e lhes trata as tosses. Nunca a
+encontro sem alguma criancita ao colo... Agora anda na paixo deste
+Josezinho.
+
+Mas quando chegmos ao laranjal, beira da larga rua da quinta que
+levava ao tanque, debalde procurei, e me embrenhei, e at gritei:--Eh,
+prima Joaninha!...
+
+--Talvez esteja l para baixo, para o tanque...
+
+Descemos a rua, entre rvores, que a cobriam com as densas ramas
+encruzadas. Uma fresca, lmpida gua de rega corria e luzia num caneiro
+de pedra. Entre os troncos, as roseiras bravas ainda tinham uma frescura
+de Vero. E o pequeno campo, que se avistava para alm, rebrilhava com
+doura, todo amarelo e branco, dos malmequeres e botes de ouro.
+
+O tanque, redondo, fora esvaziado para se lavar, e agora de novo o
+repuxo o ia enchendo de uma gua muito clara, ainda baixa, onde os peixes
+vermelhos se agitavam na alegria de recuperarem o seu pequeno oceano.
+Sobre um dos bancos de pedra que circundavam o tanque pousava um cesto
+cheio de dlias cortadas. E um moo, que sobre uma escada podava as
+camlias, vira a Sr.^a D. Joana seguir para o lado da parreira.
+
+Marchmos para a parreira, ainda toda carregada de uva preta. Duas
+mulheres, longe, ensaboavam num lavadouro, na sombra de grandes
+nogueiras. Gritei:--Eh l? Vocs viram por a a Sr.^a D. Joana? Uma
+das moas esganiou a voz, que se perdeu no vasto ar luminoso e doce.
+
+--Bem: vamos a casa! No podemos farejar assim, toda a tarde.
+
+-- uma bela quinta, murmurava o meu Prncipe encantado.
+
+--Magnfica! E bem tratada... O tio Adrio tem um feitor excelente...
+No o teu Melchior. Observa, aprende, lavrador! Olha aquele
+cebolinho!
+
+Passmos pela horta, uma horta ajardinada, como a sonhara o meu
+Prncipe, com os seus talhes debruados de alfazema, e madressilva
+enroscada nos pilares de pedra, que faziam ruazinhas frescas toldadas de
+parra densa. E demos volta capela, onde crescia aos dois lados da
+porta uma roseira-ch, com uma rosa nica, muito aberta, e uma moita de
+baunilha, onde Jacinto apanhou um raminho para cheirar. Depois entrmos
+no terrao em frente da casa, com a sua balaustrada de pedra, toda
+enrodilhada de jasmineiros amarelos. A porta envidraada estava aberta:
+e subimos pela escadaria de pedra, no imenso silncio em que toda a
+Flor da Malva repousava, at antecmara, de altos tectos apainelados,
+com longos bancos de pau, onde desmaiavam na sua velha pintura as
+complicadas armas dos Cerqueiras. Empurrei a porta de uma outra sala, que
+tinha as janelas da varanda abertas, cada uma com a gaiola de um
+canrio.
+
+-- curioso!--exclamou Jacinto. Parece o meu Prespio... E as minhas
+cadeiras.
+
+E com efeito. Sobre uma cmoda antiga, com bronzes antigos, pousava um
+prespio semelhante ao da livraria de Jacinto. E as cadeiras de couro
+lavrado tinham, como as que ele descobrira no sto, umas armas sob um
+chapu de Cardeal.
+
+--Oh senhores! exclamei. No haver um criado?
+
+Bati as mos, fortemente. E o mesmo doce silncio permaneceu, muito
+largo, todo luminoso e arejado pelo macio ar da quinta, apenas cortado
+pelo saltitar dos canrios nos poleiros das gaiolas.
+
+-- o Palcio da Bela Adormecida no bosque! murmurou Jacinto, quase
+indignado. D um berro!
+
+--No, caramba! Vou l dentro!
+
+Mas, porta, que de repente se abriu, apareceu minha prima Joaninha,
+corada do passeio e do vivo ar, com um vestido claro um pouco aberto no
+pescoo, que fundia mais docemente, numa larga claridade, o esplendor
+branco da sua pele, e o louro ondeado dos seus belos
+cabelos,--lindamente risonha, na surpresa que alargava os seus largos,
+luminosos olhos negros, e trazendo ao colo uma criancinha, gorda e
+cor-de-rosa, apenas coberta com uma camisinha, de grandes laos azuis.
+
+E foi assim que Jacinto, nessa tarde de Setembro, na Flor da Malva,
+viu aquela com quem casou em Maio, na capelinha de azulejos, quando o
+grande p de roseira se cobrira todo de rosas.
+
+
+
+
+XV
+
+
+E agora, entre roseiras que rebentam, e vinhas que se vindimam, j cinco
+anos passaram sobre Tormes e a Serra. O meu Prncipe j no o ltimo
+Jacinto, Jacinto ponto final--porque naquele solar que decara,
+correm agora, com soberba vida, uma gorda e vermelha Teresinha, minha
+afilhada, e um Jacintinho, senhor muito da minha amizade. E, pai de
+famlia, principiara a fazer-se montono, pela perfeio da beleza
+moral, aquele homem to pitoresco pela inquietao filosfica, e
+pelos variados tormentos da fantasia insaciada. Quando ele agora, bom
+sabedor das coisas da lavoura, percorria comigo a quinta, em slidas
+palestras agrcolas, prudentes e sem quimeras--eu quase lamentava esse
+outro Jacinto que colhia uma teoria em cada ramo de rvore, e riscando
+o ar com a bengala, planeava queijeiras de cristal e porcelana, para
+fabricar queijinhos que custariam duzentos mil ris cada um!
+
+Tambm a paternidade lhe despertara a responsabilidade. Jacinto possua
+agora um caderno de contas, ainda pequeno, rabiscado a lpis, com
+falhas, e papeluchos soltos entremeados, mas onde as suas despesas, as
+suas rendas se alinhavam, como duas hostes disciplinadas. Visitara j as
+suas propriedades de Montemor, da Beira; e concertava, mobilava as
+velhas casas dessas propriedades para que os seus filhos, mais tarde,
+crescidos, encontrassem ninhos feitos. Mas onde eu reconheci que
+definitivamente um perfeito e ditoso equilbrio se estabelecera na alma
+do meu Prncipe, foi quando ele, j sabido daquele primeiro e ardente
+fanatismo da Simplicidade--entreabriu a porta de Tormes Civilizao.
+Dois meses antes de nascer a Teresinha, uma tarde, entrou pela avenida
+de pltanos uma chiante e longa fila de carros, requisitados por toda a
+freguesia, e acuculados de caixotes. Eram os famosos caixotes, por tanto
+tempo encalhados em Alba de Tormes, e que chegavam, para despejar a
+Cidade sobre a Serra. Eu pensei:--Mau! o meu pobre Jacinto teve uma
+recada! Mas os confortos mais complicados, que continha aquela
+caixotaria temerosa, foram, com surpresa minha, desviados para os stos
+imensos, para o p da inutilidade: e o velho solar apenas se regalou
+com alguns tapetes sobre os seus soalhos, cortinas pelas janelas
+desabrigadas, e fundas poltronas, fundos sofs, para que os repousos,
+por que ele suspirara, fossem mais lentos e suaves. Atribu esta
+moderao a minha prima Joaninha, que amava Tormes na sua nudez rude.
+Ela jurou que assim o ordenara o seu Jacinto. Mas, decorridas semanas,
+tremi. Aparecera, vindo de Lisboa, um contramestre, com operrios, e
+mais caixotes, para instalar um telefone!
+
+--Um telefone, em Tormes, Jacinto?
+
+O meu Prncipe explicou, com humildade:
+
+--Para casa de meu sogro!... Bem vs.
+
+--Era razovel e carinhoso. O telefone porm, subtilmente, mudamente,
+estendeu outro longo fio, para Valverde. E Jacinto, alargando os
+braos, quase suplicante:
+
+--Para casa do mdico. Compreendes...
+
+Era prudente. Mas, certa manh, em Guies, acordei aos berros da tia
+Vicncia! Um homem chegara, misterioso, com outros homens, trazendo
+arame, para instalar na nossa casa o novo invento. Sosseguei a tia
+Vicncia, jurando que essa mquina nem fazia barulho, nem trazia
+doenas, nem atraa as trovoadas. Mas corri a Tormes. Jacinto sorriu,
+encolhendo os ombros:
+
+--Que queres? Em Guies est o boticrio, est o carniceiro... E,
+depois, ests tu!
+
+Era fraternal. Todavia pensei: Estamos perdidos! Dentro de um ms temos a
+pobre Joana a apertar o vestido por meio de uma mquina! Pois no! o
+Progresso, que, intimao de Jacinto, subira a Tormes a estabelecer
+aquela sua maravilha, pensando talvez que conquistara mais um reino
+para desfear, desceu, silenciosamente, desiludido, e no avistmos mais
+sobre a serra a sua hirta sombra cor de ferro e de fuligem. Ento
+compreendi que, verdadeiramente, na alma de Jacinto se estabelecera o
+equilbrio da vida, e com ele a Gr-Ventura, de que tanto tempo ele
+fora o Prncipe sem Principado. E uma tarde, no pomar, encontrando o
+nosso velho Grilo, agora reconciliado com a serra, desde que a serra
+lhe dera meninos para trazer s cavaleiras, observei ao digno preto,
+que lia o seu _Figaro_, armado de imensos culos redondos:
+
+--Pois, Grilo, agora realmente bem podemos dizer que o Sr. D. Jacinto
+est firme.
+
+O Grilo arredou os culos para a testa, e levantando para o ar os cinco
+dedos em curva como ptalas de uma tulipa:
+
+--S. Ex.^a brotou!
+
+Profundo sempre o digno preto! Sim! Aquele ressequido galho de Cidade,
+plantado na serra, pegara, chupara o hmus do torro herdado, criara
+seiva, afundara razes, engrossara de tronco, atirara ramos, rebentara
+em flores, forte, sereno, ditoso, benfico, nobre, dando frutos,
+derramando sombra. E abrigados pela grande rvore, e por ela nutridos,
+cem casais em redor a bendiziam.
+
+
+
+
+XVI
+
+
+Muitas vezes Jacinto, durante esses anos, falara com prazer num
+regresso de dois, trs meses, ao 202, para mostrar Paris prima
+Joaninha. E eu seria o companheiro fiel, para arquivar os espantos da
+minha serrana ante a Cidade! Depois conveio em esperar que o Jacintinho
+completasse dois anos, para poder jornadear sem desconforto, e
+apontando j com o seu dedo para as coisas da Civilizao. Mas, quando
+ele, em Outubro, fez esses dois anos desejados, a prima Joaninha
+sentiu uma preguia imensa, quase aterrada, do comboio, do estridor da
+Cidade, do 202, e dos seus esplendores. Estamos aqui to bem! est um
+tempo to lindo! murmurava, deitando os braos, sempre deslumbrada, ao
+rijo pescoo do seu Jacinto. Ele desistia logo de Paris, encantado.
+Vamos para Abril, quando os castanheiros dos Campos Elsios estiverem
+em flor! Mas em Abril vieram aqueles cansaos que imobilizavam a
+prima Joaninha no div, ditosa, risonha, com umas pintas na pele, e o
+roupo mais solto. Por todo um longo ano estava desfeita a alegre
+aventura. Eu andava ento sofrendo de desocupao. As chuvas de Maro
+prometiam uma farta colheita. Uma certa Ana Vaqueira, corada e bem
+feita, viva, que surtia as necessidades do meu corao, partira com o
+irmo para o Brasil, onde ele dirigia uma venda. Desde o Inverno,
+sentia tambm no corpo como um comeo de ferrugem, que o emperrava, e,
+certamente, algures, na minha alma, nascera uma pontinha de bolor.
+Depois a minha gua morreu... Parti eu para Paris.
+
+Logo em Hendaia, apenas pisei a doce terra de Frana, o meu pensamento,
+como pombo a um velho pombal, voou ao 202,--talvez por eu ver um enorme
+cartaz em que uma mulher nua, com flores bacnticas nas tranas, se
+estorcia, segurando numa das mos uma garrafa espumante, e brandindo na
+outra, para o anunciar ao Mundo, um novo modelo de saca-rolhas. E oh
+surpresa! eis que, logo adiante, na estao quieta e clara de Saint
+Jean-de-Luz, um moo esbelto, de perfeita elegncia, entra vivamente no
+meu compartimento, e, depois de me encarar, grita:
+
+--Eh, Fernandes!
+
+Marizac! O duque de Marizac! Era j o 202... Com que reconhecimento lhe
+sacudi a mo fina, por ele me ter reconhecido! E, atirando para o canto
+do vago um palet, um mao de jornais, que o escudeiro lhe passara, o
+bom Marizac exclamava na mesma surpresa alegre:
+
+--E Jacinto?
+
+Contei Tormes, a serra, o seu primeiro amor pela Natureza, o seu outro
+grande amor por minha prima, e os dois filhos, que ele trazia
+escarranchados no pescoo.
+
+--Ah que canalha! exclamou Marizac com os olhos espetados em mim!
+capaz de ser feliz!
+
+--Espantosamente, loucamente... Qual! no h advrbios...
+
+--Indecentemente--murmurou Marizac muito srio. Que canalha!
+
+Eu ento desejei saber do nosso rancho familiar do 202. Ele encolheu os
+ombros, acendendo a cigarette:
+
+--Todo esse mundo circula...
+
+--Madame d'Oriol?
+
+--Continua.
+
+--Os Trves? o Efraim?
+
+--Continuam, todos trs.
+
+Lanou um gesto lnguido.
+
+--Durante cinco anos, em Paris, tudo continua... As mulheres com um
+pouco mais de ps de arroz, e a pele um pouco mais mole, e melada. Os
+homens com um tanto mais de dispepsia. E tudo segue. Tivemos os
+Anarquistas. A princesa de Carman abalou com um acrobata do Circo de
+Inverno... E--e voil!
+
+--Dornan?
+
+--Continua... No o encontrei mais desde o 202. Mas vejo s vezes o nome
+dele, no _Boulevard_, com versos preciosos, obscenidades muito
+apuradas, muito subtis.
+
+--E o Psiclogo?... Ora, como se chamava ele?...
+
+--Continua tambm. Sempre com as feminices a trs francos e cinquenta...
+Duquesas em camisa, almas nuas... Coisas que se vendem bem!
+
+Mas quando eu, encantado, ia indagar de Todelle, do Gro-Duque, o
+comboio entrou na estao de Biarritz:--e rapidamente, apanhando o
+palet e os jornais, depois de me apertar a mo, o delicioso Marizac
+saltou pela portinhola, que o seu criado abrira, gritando:
+
+--At Paris!... Sempre rue Cambori.
+
+Ento, no compartimento solitrio, bocejei, com uma estranha sensao de
+monotonia, de saciedade, como cercado j de gentes muito vistas,
+murmurando histrias muito sabidas, e coisas muito ditas, atravs de
+sorrisos estafados. Dos dois lados do comboio era a longa plancie
+montona, sem variedade, muito miudamente cultivada, muito miudamente
+retalhada, de um verde de reseda, verde cinzento e apagado, onde nenhum
+lampejo, nem tom alegre de flor, nem acidente do solo, desmanchavam a
+mediocridade discreta e ordeira. Plidos choupos, em renques pautados e
+finos, bordavam canaizinhos muito direitos e claros. Os casais, todos da
+mesma cor pardacenta, mal se elevavam do solo, mal se destacavam da
+verdura desbotada, como encolhidos na sua mediocridade e cautela. E o
+cu, por cima, liso, sem uma nuvem, com um sol descorado, parecia um
+vasto espelho muito lavado a grande gua, at que de todo se lhe safasse
+o esmalte e o brilho. Adormeci numa doce insipidez.
+
+Com que linda manh de Maio entrei em Paris! To fresca e fina, e j
+macia, que, apesar de cansado, mergulhei com repugnncia no profundo,
+sombrio leito do Grand-Hotel, todo fechado de espessos veludos, grossos
+cordes, pesadas borlas, como um palanque de gala. Nessa profunda cova
+de penas sonhei que em Tormes se construra uma Torre Eiffel e que em
+volta dela as senhoras da Serra, as mais respeitveis, a prpria tia
+Albergaria, danavam, nuas, agitando no ar saca-rolhas imensos. Com as
+comoes deste pesadelo, e depois o banho, e o desemalar da mala, j
+se acercavam as duas horas quando enfim emergi do grande porto, pisei,
+ao cabo de cinco anos, o Boulevard. E imediatamente me pareceu que
+todos esses cinco anos eu ali permanecera porta do Grand-Hotel, to
+estafadamente conhecido me era aquele estridente rolar da cidade, e as
+magras rvores, e as grossas tabuletas, e os imensos chapus emplumados
+sobre tranas pintadas de amarelo, e as empertigadas sobrecasacas com
+grossas rosetas da legio de honra, e os garotos, em voz rouca e baixa,
+oferecendo baralhos de cartas obscenas, caixas de fsforos
+obscenas... Santo Deus! pensei, h que anos eu estou em Paris! Comprei
+ento, num quiosque, um jornal, a Voz de Paris, para que ele me
+contasse, durante o almoo, as novas da Cidade. A mesa do quiosque
+desaparecia, alastrada de jornais ilustrados:--e em todos se repetia a
+mesma mulher, sempre nua, ou meia despida, ora mostrando as costelas
+magras, de gata faminta, ora voltando para o Leitor duas tremendas
+ndegas... Eu outra vez murmurei:--Santo Deus! No Caf da Paz, o criado
+lvido, e com um resto de p de arroz sobre a sua lividez, aconselhou ao
+meu apetite, por ser to tarde, um linguado frito e uma costeleta.
+
+--E que vinho, Sr. Conde?
+
+--Chablis, Sr. Duque!
+
+Ele sorriu minha deliciosa pilhria,--e eu abri, contente, a Voz de
+Paris. Na primeira coluna, atravs de uma prosa muito retorcida, toda em
+brilhos de jia barata, entrevi uma Princesa nua, e um Capito de
+Drages, que soluava. Saltei a outras colunas, onde se contavam feitos
+de cocottes de nomes sonoros. Na outra pgina escritores eloquentes
+celebravam vinhos digestivos e tnicos. Depois eram os crimes do
+costume.--No h nada de novo! Pus de parte a Voz de Paris,--e ento
+foi, entre mim e o linguado, uma luta pavorosa. O miservel, que se
+frigira rancorosamente contra mim, no consentia que eu descolasse da
+sua espinha uma febra escassa. Todo ele se ressequira numa sola
+impenetrvel e tostada, onde a faca vergava, impotente e trmula. Gritei
+pelo moo lvido, o qual, com faca mais rija, fincando no soalho os
+sapatos de fivela, arrancou enfim quele malvado duas tirinhas, finas
+e curtas como palitos, que engoli juntas, e me esfomearam. De uma garfada
+findei a costeleta. E paguei quinze francos com um bom lus de ouro. No
+troco, que o moo me deu, com a polidez requintada de uma civilizao
+muito difundida, havia dois francos falsos. E por aquela doce tarde de
+Maio sa para tomar no terrao um caf cor de chapu coco, que sabia a
+fava.
+
+Com o charuto aceso contemplei o Boulevard, quela hora em toda a
+pressa e estridor da sua grossa sociabilidade. A densa torrente dos
+nibus, calhambeques, carroas, parelhas de luxo, rolava vivamente,
+como toda uma escura humanidade formigando entre patas e rodas, numa
+pressa inquieta. Aquele movimento continuado e rude bem depressa
+entonteceu este esprito, por cinco anos afeito quietao das serras
+imutveis. Tentava ento, puerilmente, repousar nalguma forma imvel,
+nibus parado, fiacre que estacara, num brusco escorregar da pileca:
+mas logo algum dorso apressado se encafuava pela portinhola da tipia,
+ou um cacho de figuras escuras trepava sofregamente para o nibus:--e,
+rpido, recomeava o rolar retumbante. Imveis, de certo, estavam os
+altos prdios hirtos, ribas de pedra e cal, que continham,
+disciplinavam, aquela torrente ofegante. Mas da rua aos telhados, em
+cada varanda, por toda a fachada, eram tabuletas encimando tabuletas,
+que outras tabuletas apertavam:--e mais me cansava o perceber a tenaz
+incessncia do trabalho latente, a devorante canseira do lucro,
+arquejante por trs das frontarias decorosas e mudas. Ento, enquanto
+fumava o meu charuto, estranhamente se apossaram de mim os sentimentos
+que Jacinto outrora experimentara no meio da Natureza, e que tanto me
+divertiam. Ali, porta do caf, entre a indiferena e a pressa da
+Cidade, tambm eu senti, como ele no campo, a vaga tristeza da minha
+fragilidade e da minha solido. Bem certamente estava ali como perdido
+num mundo, que me no era fraternal. Quem me conhecia? Quem se
+interessaria por Z Fernandes? Se eu sentisse fome, e o confessasse,
+ningum me daria metade do seu po. Por mais aflitamente que a minha
+face revelasse uma angstia, ningum na sua pressa pararia para me
+consolar. De que me serviriam tambm as excelncias de alma, que s na
+alma florescem? Se eu fosse um santo, aquela turba no se importaria
+com a minha santidade; e se eu abrisse os braos e gritasse, ali no
+Boulevard-- homens, meus irmos! os homens, mais ferozes que o lobo
+ante o Pobrezinho de Assis, ririam e passariam indiferentes. Dois
+impulsos nicos, correspondendo a duas funes nicas, parecia estarem
+vivos naquela multido,--o lucro e o gozo. Isolada entre eles, e ao
+contgio ambiente da sua influncia, em breve a minha alma se
+contrairia, se tornaria num duro calhau de Egosmo. Do ser que eu
+trouxera da Serra s restaria em pouco tempo esse calhau, e nele,
+vivos, os dois apetites da Cidade,--encher a bolsa, saciar a carne! E
+pouco a pouco as mesmas exageraes de Jacinto perante a Natureza me
+invadiam perante a Cidade. Aquele Boulevard ressumava para mim um bafo
+mortal, extrado dos seus milhes de micrbios. De cada porta me
+parecia sair um ardil para me roubar. Em cada face, avistada
+portinhola de um fiacre, suspeitava um bandido em manobra. Todas as
+mulheres me pareciam caiadas como sepulcros, tendo s podrido por
+dentro. E considerava de uma melancolia funambulesca as formas de toda
+aquela Multido, a sua pressa spera e v, a afectao das atitudes,
+as imensas plumas das chapeletas, as expresses postias e falsas, a
+pompa dos peitos alteados, o dorso redondo dos velhos olhando as imagens
+obscenas das vitrinas. Ah! tudo isto era pueril, quase cmico da minha
+parte, mas o que eu sentia no Boulevard, pensando na necessidade de
+remergulhar na Serra, para que ao seu puro ar se me despegasse a crosta
+da Cidade, e eu ressurgisse humano, e Z-Fernndico!
+
+Ento, para dissipar aquele pesadume de solido, paguei o caf e parti,
+lentamente, a visitar o 202. Ao passar na Madalena, diante da estao
+dos nibus, pensei:--Que ser feito de Madame Colombe? E, oh misria!
+pelo meu miservel ser subiu uma curta e quente baforada de desejo bruto
+por aquela besta suja e magra! Era o charco onde eu me envenenara, e
+que me envolvia nas emanaes subtis do seu veneno. Depois, ao dobrar da
+rue Royale para a Praa da Concrdia, topei com um robusto e possante
+homem, que estacou, ergueu o brao, ergueu o vozeiro, num modo de
+comando:
+
+--Eh, Fernandes!
+
+O Gro-Duque! O belo Gro-Duque, de jaqueto alvadio e chapu tirols
+cor de mel! Apertei com gratido reverente a mo do Prncipe, que me
+reconhecera.
+
+--E Jacinto? Em Paris?...
+
+Contei Tormes, a serra, o rejuvenescimento do nosso amigo entre a
+Natureza, a minha doce prima, e os bravos pequenos, que ele trazia s
+cavaleiras. O Gro-Duque encolheu os ombros, desolado:
+
+--Oh l, l, l!... Peuh! Casado, na aldeia, com filharada... Homem
+perdido! Ora no h!... E um rapaz til! que nos divertia, e tinha
+gosto! Aquele jantar cor-de-rosa foi uma festa linda... No se fez, no
+se tornou a fazer nada to brilhante em Paris... E Madame d'Oriol...
+Ainda h dias a vi no Palcio de Gelo... Potvel, mulher ainda muito
+potvel... No todavia o meu gnero... Adocicada, leitosa, pomadada,
+neve la vanille!... Ora esse Jacinto!...
+
+--E Vossa Alteza, em Paris com demora?
+
+O formidvel homem baixou a face, franzida e confidencial:
+
+--Nenhuma. Paris no se aguenta... Est estragado, positivamente
+estragado... Nem se come! Agora o Ernest, da Praa Gaillon, o Ernest,
+que era maitre-d'hotel do Maire... J l comeu? Um horror. Tudo o
+Ernest, agora! Onde se come? No Ernest. Qual! Ainda esta manh l
+almocei... Um horror! Uma salada Chambord... palhada, indecentemente
+palhada! No tem, no tem a noo da salada! Paris foi! Teatros, uma
+estopada. Mulheres, hui! Lambidas todas. No h nada! Ainda assim, num
+dos teatritos de Montmartre, na Roulotte, est uma revista, que se v:
+_Para c as mulheres_!--engraada, bem despida... A Celestine tem uma
+cantiga, meia sentimental, meia porca, o _Amor no Water-Closet_, que
+diverte, tem topete... Onde est, Fernandes?
+
+--No Grand-Hotel, meu senhor.
+
+--Que barraca!... E o seu Rei sempre bom?
+
+Curvei a cabea:
+
+--Sua Majestade, bem.
+
+--Estimo! Pois, Fernandes, tive prazer... Esse Jacinto que me desola!
+V vr a Revista... Boas pernas, a Celestine... E tem graa o tal _Amor
+no Water-Closet_.
+
+Um rijssimo aperto de mo,--e S. Alteza subiu pesadamente para a
+vitria, ainda com um aceno amvel, que me penhorou... Excelente
+homem, este Gro-Duque! Mais reconciliado com Paris, atravessei para os
+Campos Elsios. Em toda a sua nobre e formosa largueza, toda verde, com
+os castanheiros em flor, corriam, subindo, descendo, velocpedes. Parei
+a contemplar aquela fealdade nova, estes inumerveis espinhaos
+arqueados, e gmbias magras, agitando-se desesperadamente sobre duas
+rodas. Velhos gordos, de cachao escarlate, pedalavam, gordamente.
+Galfarros esguios, de tbias descarnadas, fugiam numa linha esfuziada.
+E as mulheres, muito pintadas, de bolero curto, cales bufantes,
+giravam, mais rapidamente ainda, no prazer equvoco da carreira,
+escarranchadas em hastes de ferro. E a cada instante outras medonhas
+mquinas passavam, vitrias e fatons a vapor, com uma complicao de
+tubos e caldeiras, torneiras e chamins, rolando numa trepidao
+estridente e pesada, espalhando um grosso fedor de petrleo. Segui para
+o 202, pensando no que diria um grego do tempo de Fdias, se visse esta
+nova beleza e graa do caminhar humano!...
+
+No 202, o porteiro, o velho Vian, quando me reconheceu, mostrou uma
+alegria enternecedora. No se fartou de saber do casamento de Jacinto,
+e daqueles queridos meninos. E era para ele uma felicidade que eu
+aparecesse, justamente quando tudo se andara limpando para a entrada da
+Primavera. Quando penetrei na amada casa senti mais vivamente a minha
+solido. No restava em toda ela nem um dos costumados aspectos que
+fizessem reviver a velha camaradagem com o meu Prncipe. Logo na
+antecmara grandes lonas cobriam as tapearias hericas, e igual lona
+parda escondia os estofos das cadeiras e dos muros, e as largas estantes
+de bano da Biblioteca, onde os trinta mil volumes, nobremente
+enfileirados como Doutores num Conclio, pareciam separados do mundo
+por aquele pano que sobre eles descera depois de finda a comdia da
+sua fora e da sua autoridade. No gabinete de Jacinto, de sobre a mesa
+de escrita, desaparecera aquela confuso de instrumentozinhos, de que
+eu perdera j a memria: e s a Mecnica sumptuosa, por sobre peanhas e
+pedestais, recentemente espanejada, reluzia, com as suas engrenagens,
+tubos, rodas, rigidezes de metais, numa frieza inerte, na inactividade
+definitiva das coisas desusadas, como j dispostas num Museu, para
+exemplificar a instrumentao caduca de um mundo passado. Tentei mover o
+telefone, que se no moveu; a mola da electricidade no acendeu nenhum
+lume: todas as foras universais tinham abandonado o servio do 202,
+como servos despedidos. E ento, passeando atravs das salas, realmente
+me pareceu que percorria um museu de antiguidades; e que mais tarde
+outros homens, com uma compreenso mais pura e exacta da Vida e da
+Felicidade, percorreriam como eu, longas salas, atulhadas com os
+instrumentos da Super-Civilizao, e, como eu, encolheriam
+desdenhosamente os ombros ante a grande Iluso que findara, agora para
+sempre intil, arrumada como um lixo histrico, guardada debaixo de
+lona.
+
+Quando sa do 202 tomei um fiacre, subi ao Bosque de Bolonha. E apenas
+rolara momentos pela avenida das Accias, no silncio decoroso,
+unicamente cortado pelo tilintar dos freios e pelas rodas vagarosas
+esmagando a areia, comecei a reconhecer as velhas figuras, sempre com o
+mesmo sorriso, o mesmo p de arroz; as mesmas plpebras amortecidas, os
+mesmos olhos farejantes, a mesma imobilidade de cera! O romancista da
+_Couraa_ passou numa vitria, fixou em mim o monculo defumado, mas
+permaneceu indiferente. Os bands negros de Madame Verghane,
+tapando-lhe as orelhas, pareciam ainda mais furiosamente negros entre a
+harmonia de todo o branco que a vestia, chapu, plumas, flores, rendas e
+corpete, onde o seu peito imenso se empolava como uma onda. No passeio,
+sob as Accias, espapado em duas cadeiras, o director do _Boulevard_
+mamava o resto do seu charuto. E num grande landeau, Madame de Trves
+continuava o seu sorriso de h cinco anos, com duas pregazinhas mais
+moles aos cantos dos lbios secos.
+
+Abalei para o Grand-Hotel, bocejando,--como outrora Jacinto. E findei
+o meu dia de Paris, no Teatro das Variedades, estonteado com uma
+comdia muito fina, muito aclamada, toda faiscante do mais vivo
+parisianismo, em que todo o enredo se enrodilhava volta de uma Cama,
+onde alternadamente se espojavam mulheres em camisa, sujeitos gordos em
+ceroulas, um coronel com papas de linhaa nas ndegas, cozinheiras de
+meias de seda bordadas, e ainda mais gente, ruidosa e saltitante, a
+esfuziar de cio e de pilhria. Tomei um ch melanclico no Julien, no
+meio de um spero e lgubre namoro de prostitutas, fariscando a presa.
+Em duas delas, de pele oleosa e cobreada, olhos oblquos, cabelos
+duros e negros como clinas, senti o Oriente, a sua provocao felina...
+Interroguei o criado, um medonho ser, de uma obesidade balofa e lvida,
+de eunuco. O monstro explicou numa voz roufenha e surda:
+
+--Mulheres de Madagscar... Foram importadas quando a Frana ocupou a
+ilha!
+
+Arrastei ento por Paris dias de imenso tdio. Ao longo do Boulevard
+revi nas vitrinas todo o luxo, que j me enfartara havia cinco anos,
+sem uma graa nova, uma curta frescura de inveno. Nas livrarias, sem
+descobrir um livro, folheava centenas de volumes amarelos, onde, de
+cada pgina que ao acaso abria, se exalava um cheiro morno de alcova e
+de ps- de-arroz, entre linhas trabalhadas com efeminado arrebique, como
+rendas de camisas. Ao jantar, em qualquer restaurante, encontrava,
+ornando e disfarando as carnes ou as aves, o mesmo molho, de cores e
+sabores de pomada, que j de manh, noutro restaurante, espelhado e
+dourejado, me enjoara no peixe e nos legumes. Paguei por grossos preos
+garrafas do nosso adstringente e rstico vinho de Torres, enobrecido
+com o ttulo de Chteau isto, Chteau aquilo, e p postio no gargalo.
+ noite, nos teatros, encontrava a Cama, a costumada cama, como centro
+e nico fim da vida, atraindo, mais fortemente que o monturo atrai
+os moscardos, todo um enxame de gentes, estonteadas, frementes
+de erotismo, zumbindo chacotas senis. Esta sordidez da Plancie me levou
+a procurar melhor aragem de esprito nas alturas da Colina, em
+Montmartre; e a, no meio de uma multido elegante de Senhoras, de
+Duquesas, de Generais, de todo o alto pessoal da Cidade, eu recebia, do
+alto do palco, grossos jorros de obscenidades, que faziam estremecer de
+gozo as orelhas cabeludas de gordos banqueiros, e arfar com delcia os
+corpetes de Worms e de Doucet, sobre os peitos postios das nobres
+damas. E recolhia enjoado com tanto relento de Alcova, vagamente
+dispptico com os molhos de pomada do jantar, e sobretudo descontente
+comigo, por me no divertir, no compreender a Cidade, e errar atravs
+dela e da sua Civilizao Superior, com a reserva ridcula de um
+Censor, de um Cato austero. Oh senhores!--pensava,--pois eu no me
+divertirei nesta deliciosa Cidade? Entrar comigo o bolor da velhice?
+
+Passei as pontes, que separam em Paris o Temporal do Espiritual,
+mergulhei no meu doce Bairro Latino, evoquei, diante de certos cafs, a
+memria da minha Nini; e, como outrora, preguiosamente, subi as
+escadas da Sorbonne. Num anfiteatro, onde sentira um grosso sussurro,
+um homem magro, com uma testa muito branca e larga, como talhada para
+alojar pensamentos altos e puros, ensinava, falando das instituies da
+Cidade Antiga. Mas, mal eu entrara, o seu dizer elegante e lmpido foi
+sufocado por gritos, urros, patadas, um tumulto rancoroso de troa
+bestial, que saa da mocidade apinhada nos bancos, a mocidade das
+Escolas, Primavera sagrada, em que eu fora flor murcha. O Professor
+parou, espalhando em redor um olhar frio, e remexendo as suas notas.
+Quando o grosso grunhido se moderou em sussurro desconfiado, ele
+recomeou com alta serenidade. Todas as suas ideias eram frias e
+substanciais, expressas numa lngua pura e forte; mas, imediatamente,
+rompe uma furiosa rajada de apitos, uivos, relinchos, cacarejos de
+galo, por entre magras mos, que se estendiam levantadas para
+estrangular as ideias. Ao meu lado um velho, encolhido na alta gola de um
+macfrelane de xadrezes, contemplava o tumulto com melancolia, pingando
+endefluxado. Perguntei ao velho:
+
+--Que querem eles? embirrao com o professor... poltica?
+
+O velho abanou a cabea, espirrando:
+
+--No... sempre assim, agora, em todos os cursos... No querem
+ideias... Creio que queriam canonetas. o amor da porcaria e da troa.
+
+Ento, indignado, berrei:
+
+--Silncio, brutos!
+
+E eis que um abortozinho de rapaz, amarelado e sebento, de longas
+melenas, umas enormes lunetas rebrilhantes, se arrebita, me fita, e me
+berra:
+
+--_Sale Maure_!
+
+Ergui o meu grosso punho serrano,--e o desgraado, numa confuso de
+melenas, com sangue por toda a face, aluiu, como um monto de trapos
+moles, ganindo desesperadamente, enquanto o furaco de uivos e
+cacarejos, guinchos e silvos, envolvia o Professor, que cruzara os
+braos, esperando, com uma serenidade simples.
+
+Desde esse momento decidi abandonar a fastidiosa Cidade; e o nico dia
+alegre e divertido que nela passei foi o derradeiro, comprando para os
+meus queridinhos de Tormes brinquedos considerveis, tremendamente
+complicados pela Civilizao,--vapores de ao e cobre, providos de
+caldeiras para viajar em tanques; lees de pele verdica rugindo
+pavorosamente, bonecas vestidas pela Laferrire, com fongrafo no
+ventre...
+
+Finalmente abalei uma tarde, depois de lanar da minha janela, sobre o
+Boulevard, as minhas despedidas Cidade:
+
+--Pois adeusinho, at nunca mais! Na lama do teu vcio e na poeira da
+tua vaidade, outra vez, no me pilhas! O que tens de bom, que o teu
+gnio, elegante e claro, l o receberei na Serra pelo correio.
+Adeusinho!
+
+Na tarde do seguinte Domingo, debruado da janela do comboio, que
+vagarosamente deslizava pela borda do rio lento, num silncio todo
+feito de azul e sol, avistei, na plataforma da quieta estao da minha
+aldeia, os Senhores de Tormes, com a minha afilhada Teresa, muito
+vermelha, arregalando os seus soberbos olhos, e o bravo Jacintinho, que
+empunhava uma bandeira branca. O alvoroo ditoso com que abracei e
+beijei aquela tribo bem amada conviria perfeitamente a quem voltasse
+vivo de uma guerra distante, na Tartria. Na alegria de recuperar a
+Serra, at beijoquei o chefe Pimentinha, que a estalar de obesidade se
+aodava gritando ao carregador todo o cuidado com as minhas malas.
+
+Jacinto, magnfico, de grande chapu serrano e jaqueta, de novo me
+abraou:
+
+--E esse Paris?
+
+--Medonho!
+
+Abri depois os braos para o bravo Jacintinho.
+
+--Ento para que essa bandeira, meu cavaleiro?
+
+-- a bandeira do Castelo! declarou ele, com uma bela seriedade nos
+seus grandes olhos.
+
+A me ria. Desde essa manh, logo que soubera da chegada do Ti-Z,
+apareceu de bandeira, feita pelo Grilo, e no a largara mais; com ela
+almoara, com ela descera de Tormes!
+
+--Bravo! E, prima Joaninha, olhe que est magnfica! Eu, tambm, venho
+daquelas peles meladas de Paris... Mas acho-a triunfal! E o tio
+Adrio, e a tia Vicncia?
+
+--Tudo ptimo! gritou Jacinto. A serra, Deus louvado, prospera. E
+agora, para cima! Tu hoje ficas em Tormes. Para contar da Civilizao.
+
+No largo por trs da estao, debaixo dos eucaliptos, que revi com
+gosto, esperavam os trs cavalos, e dois belos burros brancos, um com
+cadeirinha para a Teresa, outro com um cesto de verga, para meter
+dentro o herico Jacintinho, um e outro servidos estribeira por um
+criado. Eu ajudara a prima Joaninha a montar, quando o carregador
+apareceu com um mao de jornais e papis, que eu esquecera na
+carruagem. Era uma papelada, de que me sortira na Estao de Orleans,
+toda recheada de mulheres nuas, de historietas sujas, de parisianismo,
+de erotismo. Jacinto, que as reconhecera, gritou rindo:
+
+--Deita isso fora!
+
+E eu atirei, para um monto de lixo, ao canto do Ptio, aquele ptrido
+rebotalho da Civilizao. E montei. Mas ao dobrar para o caminho
+empinado da serra, ainda me voltei, para gritar adeus ao Pimenta, de
+quem me esquecera. O digno chefe, debruado sobre o monturo, apanhava,
+sacudia, recolhia com amor aquelas belas estampas, que chegavam de
+Paris, contavam as delcias de Paris, derramavam atravs do mundo a
+seduo de Paris.
+
+Em fila comemos a subir para a Serra. A tarde adoava o seu esplendor
+de estio. Uma aragem trazia, como ofertados, perfumes das flores
+silvestres. As ramagens moviam, com um aceno de doce acolhimento, as
+suas folhas vivas e reluzentes. Toda a passarinhada cantava, num
+alvoroo de alegria e de louvor. As guas correntes, saltantes,
+luzidias, despediam um brilho mais vivo, numa pressa mais animada.
+Vidraas distantes de casas amveis, flamejavam com um fulgor de ouro. A
+serra toda se ofertava, na sua beleza eterna e verdadeira. E, sempre
+adiante da nossa fila, por entre a verdura, flutuava no ar a bandeira
+branca, que o Jacintinho no largava, de dentro do seu cesto, com a
+haste bem segura na mo. Era _a bandeira do Castelo_, afirmara ele.
+
+E na verdade me parecia que, por aqueles caminhos, atravs da natureza
+campestre e mansa,--o meu Prncipe, atrigueirado nas soalheiras e nos
+ventos da serra, a minha prima Joaninha, to doce e risonha me, os
+dois primeiros representantes da sua abenoada tribo, e eu--, to longe
+de amarguradas iluses e de falsas delcias, trilhando um solo eterno,
+e de eterna solidez, com a alma contente, e Deus contente de ns,
+serenamente e seguramente subamos--para o Castelo da Gr-Ventura!
+
+
+Fim
+
+
+
+
+ADVERTNCIA
+
+
+Desde a pgina 241, at o final, as provas deste livro no foram
+revistas pelo autor, arrebatado pela morte antes de haver dado a esta
+parte da sua escrita aquela ltima demo, em que habitualmente ele
+punha a diligncia mais perseverante e mais admiravelmente lcida.
+
+Aquele dos seus amigos e companheiro de letras, a quem foi confiado o
+trabalho delicado e piedoso de tocar no manuscrito pstumo de Ea de
+Queirs, ao concluir o desempenho de tal misso, beija com o mais
+enternecido e saudoso respeito a mo, para todo sempre imobilizada, que
+traou estas pginas encantadoras; e faz votos por que a reviso de que
+se incumbiu no deslustre muito grosseiramente a imortal aurola com
+que ficar resplandecendo na literatura portuguesa este livro, em que o
+esprito do grande escritor parece exalar-se da vida num terno
+suspiro de doura, de paz, e de puro amor terra da sua ptria.
+
+24 de Abril de 1901.
+
+
+
+
+*LIVRARIA CHARDRON de Lello & Irmo*
+
+96--CLRIGOS--98
+
+
+*Baslio Teles*
+
+O problema agrcola $600
+Estudos histricos e econmicos $600
+
+_No prelo:_
+
+Introduo ao problema do trabalho nacional.
+
+
+*Abel Botelho*
+
+O baro de Lavos $800
+O livro de Alda $800
+Sem remdio... $500
+
+_No prelo:_
+
+Amanh.
+
+
+*Jos Caldas*
+
+Humildes $400
+Os Jesutas; a sua influncia na actual
+ sociedade portuguesa; meio de a conjurar _no prelo_
+
+
+*Slvio Romero*
+
+Martins Pena $400
+
+
+*Rebelo da Silva*
+
+Mocidade de D. Joo V. 1$500
+
+
+*Andrade Corvo*
+
+Um ano na corte 1$500
+
+
+*Antnio C. Lousada*
+
+Rua escura $500
+Na conscincia $500
+
+
+*Dumas*
+
+Jorge ou o capito dos piratas $500
+Trs mosqueteiros, 2 volumes 1$000
+
+
+*Lermina*
+
+Filho do Monte Cristo, 2 volumes 1$000
+
+
+*Eugnio Sue*
+
+Mistrios de Paris, 3 volumes cart. 2$000
+
+
+*Zola*
+
+Nan $500
+Histria da lavadeira Gervsia, 2 vols 1$000
+O Capito Burle $500
+Ventre de Paris, 2 vols 1$000
+
+
+*Arnaldo Gama*
+
+Caldeira de Pero Botelho $500
+Honra ou loucura $500
+Filho do Baldaia $600
+
+
+*Bruno*
+
+O Brasil mental $800
+Notas do exlio $500
+
+ * * * * *
+
+Histria da Prostituio 1$800
+
+
+*Camilo Castelo Branco*
+
+Maria da Fonte $500
+Livro de consolao $500
+D. Lus de Portugal $300
+Brasileira de Prazins $500
+Eusbio Macrio $500
+Vulces da lama $500
+Carta de guia de casados $300
+
+
+*Grainha*
+
+Jesutas $600
+
+
+*Tolstoi*
+
+A Sonata de Kreutzer $400
+
+
+
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+
+
+
+
+
+
+
+End of Project Gutenberg's A Cidade e as Serras, by Jos Maria Ea de Queirs
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A CIDADE E AS SERRAS ***
+
+Produced by Manuela Alves and Ricardo F. Diogo; Nota dos transcritores:
+Actualizao ortogrfica da verso original, j disponvel no Project Gutenberg
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+(and you!) can copy and distribute it in the United States without
+permission and without paying copyright royalties. Special rules,
+set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to
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+Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you
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+such as creation of derivative works, reports, performances and
+research. They may be modified and printed and given away--you may do
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+subject to the trademark license, especially commercial
+redistribution.
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+*** START: FULL LICENSE ***
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+
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+ <title>A Cidade e as Serras</title>
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+<pre>Project Gutenberg's A Cidade e as Serras, by Jos&eacute; Maria E&ccedil;a de Queir&oacute;s<br><br>This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with<br>almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or<br>re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included<br>with this eBook or online at www.gutenberg.org<br><br><br>Title: A Cidade e as Serras<br><br>Author: Jos&eacute; Maria E&ccedil;a de Queir&oacute;s<br><br>Language: Portuguese<br><br>Character set encoding: ISO-8859-1<br><br>*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A CIDADE E AS SERRAS ***<br><br><br><br><br>Produced by Manuela Alves and Ricardo F. Diogo; Nota dos transcritores:<br>Actualiza&ccedil;&atilde;o ortogr&aacute;fica da vers&atilde;o original, j&aacute; dispon&iacute;vel no Project Gutenberg<br><br><br>NOTA: Este texto tem duas vers&otilde;es em l&iacute;ngua portuguesa de acordo com o livro original,<br>a que pode ser aceder clicando numa das seguintes op&ccedil;&otilde;es:<br> <a href="../../18220-8.txt"><big><b>TEXT</b></big></a> <a href="../18220-h.htm"><big><b>HTML</b></big></a>
+<br><br><br><br><br></pre>
+
+
+<div><br>
+
+
+<br>
+
+
+<h1>E&Ccedil;A DE QUEIR&Oacute;S</h1>
+
+
+<h1>A CIDADE E AS SERRAS</h1>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+<h2>PORTO</h2>
+
+
+<h2>LIVRARIA CHARDRON</h2>
+
+
+<h2>De Lello &amp; Irm&atilde;o, editores</h2>
+
+
+
+<h2>1901</h2>
+
+
+<h3>Todos os direitos reservados</h3>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
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+
+<br>
+
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+<br>
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+<div class="bbox c2"><br>
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+
+<br>
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+
+E&Ccedil;A DE QUEIR&Oacute;S<br>
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+<br>
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+
+<big><big><b>A CIDADE E AS SERRAS</b></big></big><br>
+
+
+
+<br>
+
+<br>
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+
+<img style="width: 97px; height: 115px;" alt="" src="images/p1.jpg"><br>
+
+
+<br>
+
+
+PORTO<br>
+
+
+LIVRARIA CHARDRON<br>
+
+
+De Lello &amp; Irm&atilde;o, editores<br>
+
+
+1901<br>
+
+
+<br>
+
+
+
+Todos os direitos reservados<br>
+
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+<br>
+
+</div>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
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+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+Pertence no Brasil o direito de propriedade desta obra ao
+cidad&atilde;o Francisco Alves, livreiro editor no Rio de Janeiro,
+que, para a garantia que lhe oferece a lei n.&ordm; 496 de 1 de
+Agosto de 1898, fez o competente dep&oacute;sito na Biblioteca
+Nacional, segundo a determina&ccedil;&atilde;o do art. 13.&ordm; da
+mesma Lei.<br>
+
+
+<br>
+
+
+
+<br>
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+<br>
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+<div class="c2"><em>Porto--Imprensa Moderna</em></div>
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+<br>
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+<br>
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+<div class="c2"><img style="width: 282px; height: 444px;" alt="" src="images/p2.jpg"><br>
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+</div>
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+<h1>A CIDADE E AS SERRAS</h1>
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+<br>
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+<br>
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+<br>
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+<h2>Obras do mesmo autor:</h2>
+
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+<br>
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+
+<br>
+
+
+<table class="c7" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2">
+
+
+ <tbody>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td><span class="c4">Revista de Portugal.</span> 4 grossos
+volumes</td>
+
+
+
+ <td class="c5">12$000</td>
+
+
+ </tr>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td><span class="c4">As minas de Salom&atilde;o.</span> 1
+volume</td>
+
+
+ <td class="c5">$600</td>
+
+
+ </tr>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td><span class="c4">Os Maias.</span> 2 grossos volumes</td>
+
+
+
+ <td class="c5">2$000</td>
+
+
+ </tr>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td><span class="c4">O crime do padre Amaro.</span> Terceira
+edi&ccedil;&atilde;o inteiramente refundida, recomposta, e
+diferente na forma e na ac&ccedil;&atilde;o da edi&ccedil;&atilde;o
+primitiva.<br>
+
+
+1 grosso volume</td>
+
+
+ <td class="c6">1$200</td>
+
+
+ </tr>
+
+
+ <tr>
+
+
+
+ <td><span class="c4">O primo Bas&iacute;lio.</span> Quarta
+edi&ccedil;&atilde;o. 1 grosso volume</td>
+
+
+ <td class="c5">1$000</td>
+
+
+ </tr>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td><span class="c4">A Rel&iacute;quia.</span> 1 grosso volume</td>
+
+
+ <td class="c5">1$000</td>
+
+
+
+ </tr>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td><span class="c4">O Mandarim.</span> Quarta
+edi&ccedil;&atilde;o. 1 volume</td>
+
+
+ <td class="c5">$500</td>
+
+
+ </tr>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td><span class="c4">Correspond&ecirc;ncia de Fradique
+Mendes.</span> 1 volume</td>
+
+
+ <td class="c5">$600</td>
+
+
+
+ </tr>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td><span class="c4">A ilustre casa de Ramires.</span> 1
+volume</td>
+
+
+ <td class="c5">1$000</td>
+
+
+ </tr>
+
+
+
+ </tbody>
+</table>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+<h1>A CIDADE E AS SERRAS</h1>
+
+
+<h2>I</h2>
+
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+O meu amigo Jacinto nasceu num pal&aacute;cio, com cento e nove
+contos de renda em terras de semeadura, de vinhedo, de
+corti&ccedil;a e de olival. No Alentejo, pela Estremadura,
+atrav&eacute;s das duas Beiras, densas sebes ondulando por colina e
+vale, muros altos de boa pedra, ribeiras, estradas, delimitavam os
+campos desta velha fam&iacute;lia agr&iacute;cola que j&aacute;
+entulhava gr&atilde;o e plantava cepa em tempos de el-rei D. Dinis.
+A sua quinta e casa senhorial de Tormes, no Baixo Douro, cobriam
+uma serra. Entre o Tua e o Tinhela, por cinco fartas l&eacute;guas,
+todo o torr&atilde;o lhe pagava foro. E cerrados pinheirais seus
+negrejavam desde Arga at&eacute; ao mar de &Acirc;ncora. Mas o
+pal&aacute;cio onde Jacinto nascera, e onde sempre habitara, era em
+Paris, nos Campos El&iacute;sios, n.&ordm; 202. <span class="pagenum">[2]</span> Seu av&ocirc;, aquele gord&iacute;ssimo e
+riqu&iacute;ssimo Jacinto a quem chamavam em Lisboa o <i>D.
+Gale&atilde;o</i>, descendo uma tarde pela travessa da Trabuqueta,
+rente de um muro de quintal que uma parreira toldava, escorregou
+numa casca de laranja e desabou no lajedo. Da portinha da horta
+sa&iacute;a nesse momento um homem moreno, escanhoado, de grosso
+casaco de baet&atilde;o verde e botas altas de picador, que,
+galhofando e com uma for&ccedil;a f&aacute;cil, levantou o enorme
+Jacinto--at&eacute; lhe apanhou a bengala de cast&atilde;o de ouro
+que rolara para o lixo. Depois, demorando nele os olhos pestanudos
+e pretos:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Oh Jacinto Gale&atilde;o, que andas tu aqui, a estas horas, a
+rebolar pelas pedras?<br>
+
+
+<br>
+
+
+E Jacinto, aturdido e deslumbrado, reconheceu o Sr. Infante D.
+Miguel!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Desde essa tarde amou aquele bom Infante como nunca amara, apesar
+de t&atilde;o guloso, o seu ventre, e apesar de t&atilde;o devoto o
+seu Deus! Na sala nobre da sua casa (&agrave; Pampulha) pendurou
+sobre os damascos o retrato do &laquo;seu Salvador&raquo;,
+enfeitado de palmitos como um ret&aacute;bulo, e por baixo a
+bengala que as magn&acirc;nimas m&atilde;os reais tinham erguido do
+lixo. Enquanto o ador&aacute;vel, desejado Infante penou no
+desterro de Viena, o barrigudo senhor corria, sacudido na sua sege
+amarela, do botequim<span class="pagenum">[3]</span> do Z&eacute;
+
+Maria em Bel&eacute;m &agrave; botica do Pl&aacute;cido nos
+Algibebes, a gemer as saudades do <i>anjinho</i>, a tramar o
+regresso do <i>anjinho</i>. No dia, entre todos bendito, em que a
+<i>P&eacute;rola</i> apareceu &agrave; barra com o Messias,
+engrinaldou a Pampulha, ergueu no Caneiro um monumento de
+papel&atilde;o e lona onde D. Miguel, tornado S. Miguel, branco, de
+aur&eacute;ola e asas de Arcanjo, furava de cima do seu corcel de
+Alter o Drag&atilde;o do Liberalismo, que se estorcia vomitando a
+Carta. Durante a guerra com o &laquo;outro, com o pedreiro
+livre&raquo; mandava recoveiros a Santo Tirso, a S. Gens, levar ao
+Rei fiambres, caixas de doce, garrafas do seu vinho de Tarrafal, e
+bolsas de retr&oacute;s atochadas de pe&ccedil;as que ele ensaboava
+para lhes avivar o ouro. E quando soube que o Sr. D. Miguel, com
+dois velhos ba&uacute;s amarrados sobre um macho, tomara o caminho
+de Sines e do final desterro--Jacinto <i>Gale&atilde;o</i> correu
+pela casa, fechou todas as janelas como num luto, berrando
+furiosamente:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Tamb&eacute;m c&aacute; n&atilde;o fico! tamb&eacute;m c&aacute;
+n&atilde;o fico! N&atilde;o, n&atilde;o queria ficar na terra
+perversa donde partia, esbulhado e escorra&ccedil;ado, aquele Rei
+de Portugal que levantava na rua os Jacintos! Embarcou para
+Fran&ccedil;a com a mulher, a Sr.<sup>a</sup> D. Angelina Fafes (da
+t&atilde;o falada <span class="pagenum">[4]</span> casa dos Fafes
+da Avel&atilde;); com o filho, o 'Cintinho, menino amarelinho,
+molezinho, coberto de caro&ccedil;os e leicen&ccedil;os; com a aia
+e com o moleque. Nas costas da Cant&aacute;bria o paquete encontrou
+t&atilde;o rijos mares que a Sr.<sup>a</sup> D. Angelina,
+esguedelhada, de joelhos na enxerga do beliche, prometeu ao Senhor
+dos Passos de Alc&acirc;ntara uma coroa de espinhos, de ouro, com
+as gotas de sangue em rubis do Pegu. Em Baiona, onde arribaram,
+'Cintinho teve icter&iacute;cia. Na estrada de Orle&atilde;es, numa
+noite agreste, o eixo da berlinda em que jornadeavam partiu, e o
+n&eacute;dio senhor, a delicada senhora da casa da Avel&atilde;, o
+menino, marcharam tr&ecirc;s horas na chuva e na lama do
+ex&iacute;lio at&eacute; uma aldeia, onde, depois de baterem como
+mendigos a portas mudas, dormiram nos bancos de uma taberna. No
+
+&laquo;Hotel dos Santos Padres&raquo;, em Paris, sofreram os
+terrores de um fogo que rebentara na cavalari&ccedil;a, sob o
+quarto de <i>D. Gale&atilde;o</i>, e o digno fidalgo, rebolando
+pelas escadas em camisa, at&eacute; ao p&aacute;tio, enterrou o
+p&eacute; nu numa lasca de vidro. Ent&atilde;o ergueu amargamente
+ao c&eacute;u o punho cabeludo, e rugiu:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Irra! &Eacute; de mais!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Logo nessa semana, sem escolher, Jacinto <i>Gale&atilde;o</i>
+comprou a um Pr&iacute;ncipe polaco, que depois da tomada de
+Vars&oacute;via se metera frade<span class="pagenum">[5]</span>
+cartuxo, aquele palacete dos Campos El&iacute;sios, n.&ordm; 202. E
+sob o pesado ouro dos seus estuques, entre as suas ramalhudas sedas
+se enconchou, descansando de tantas agita&ccedil;&otilde;es, numa
+vida de pachorra e de boa mesa, com alguns companheiros de
+emigra&ccedil;&atilde;o (o desembargador Nuno Velho, o conde de
+Rabacena, outros menores), at&eacute; que morreu de
+indigest&atilde;o, de uma lampreia de escabeche que lhe mandara o
+seu procurador em Montemor. Os amigos pensavam que a
+Sr.<sup>a</sup> D. Angelina Fafes voltaria ao reino. Mas a boa
+senhora temia a jornada, os mares, as cale&ccedil;as que racham. E
+n&atilde;o se queria separar do seu Confessor, nem do seu
+M&eacute;dico, que t&atilde;o bem lhe compreendiam os
+escr&uacute;pulos e a asma.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Eu, por mim, aqui fico no 202 (declarara ela), ainda que me faz
+falta a boa &aacute;gua de Alcolena... O 'Cintinho, esse, em
+crescendo, que decida.<br>
+
+
+<br>
+
+
+O 'Cintinho crescera. Era um mo&ccedil;o mais esguio e
+l&iacute;vido que um c&iacute;rio, de longos cabelos corredios,
+narigudo, silencioso, encafuado em roupas pretas, muito largas e
+bambas; de noite, sem dormir, por causa da tosse e de
+sufoca&ccedil;&otilde;es, errava em camisa com uma lamparina
+atrav&eacute;s do 202; e os criados na copa sempre lhe chamavam a
+<i>Sombra</i>. Nessa sua mudez e indecis&atilde;o de sombra
+surdira, ao fim<span class="pagenum">[6]</span> do luto do
+pap&aacute;, o gosto muito vivo de tornear madeiras ao torno:
+depois, mais tarde, com a melada flor dos seus vinte anos, brotou
+nele outro sentimento, de desejo e de pasmo, pela filha do
+desembargador Velho, uma menina redondinha como uma rola, educada
+num convento de Paris, e t&atilde;o habilidosa que esmaltava,
+dourava, concertava rel&oacute;gios e fabricava chap&eacute;us de
+feltro. No Outono de 1851, quando j&aacute; se desfolhavam os
+castanheiros dos Campos El&iacute;sios, o 'Cintinho cuspilhou
+sangue. O m&eacute;dico, acarinhando o queixo e com uma ruga
+s&eacute;ria na testa imensa, aconselhou que o menino abalasse para
+o golfo Juan ou para as t&eacute;pidas areias de Arcachon.
+'Cintinho por&eacute;m, no seu aferro de sombra, n&atilde;o se quis
+arredar da Teresinha Velho, de quem se tornara, atrav&eacute;s de
+Paris, a muda, tardonha sombra. Como uma sombra, casou; deu mais
+algumas voltas ao torno; cuspiu um resto de sangue; e passou, como
+uma sombra.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Tr&ecirc;s meses e tr&ecirc;s dias depois do seu enterro o meu
+Jacinto nasceu.<br>
+
+
+<div class="break">
+<hr></div>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+Desde o ber&ccedil;o, onde a av&oacute; espalhava funcho e
+&acirc;mbar para afugentar a <i>Sorte-Ruim</i>, Jacinto medrou com
+a seguran&ccedil;a, a rijeza, a seiva rica de um pinheiro das
+dunas.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+<span class="pagenum">[7]</span>N&atilde;o teve sarampo e
+n&atilde;o teve lombrigas. As Letras, a Tabuada, o Latim entraram
+por ele t&atilde;o facilmente como o sol por uma vidra&ccedil;a.
+Entre os camaradas, nos p&aacute;tios dos col&eacute;gios, erguendo
+a sua espada de lata e lan&ccedil;ando um brado de comando, foi
+logo o vencedor, o Rei que se adula, e a quem se cede a fruta das
+merendas. Na idade em que se l&ecirc; Balzac e Musset nunca
+atravessou os tormentos da sensibilidade;--nem crep&uacute;sculos
+quentes o retiveram na solid&atilde;o de uma janela, padecendo de
+um desejo sem forma e sem nome. Todos os seus amigos (&eacute;ramos
+tr&ecirc;s, contando o seu velho escudeiro preto, o Grilo) lhe
+conservaram sempre amizades puras e certas--sem que jamais a
+participa&ccedil;&atilde;o do seu luxo as avivasse ou fossem
+desanimadas pelas evid&ecirc;ncias do seu ego&iacute;smo. Sem
+cora&ccedil;&atilde;o bastante forte para conceber um amor forte, e
+contente com esta incapacidade que o libertava, do amor s&oacute;
+
+experimentou o mel--esse mel que o amor reserva aos que o recolhem,
+&agrave; maneira das abelhas, com ligeireza, mobilidade e cantando.
+Rijo, rico, indiferente ao Estado e ao Governo dos Homens, nunca
+lhe conhecemos outra ambi&ccedil;&atilde;o al&eacute;m de
+compreender bem as Ideias Gerais; e a sua intelig&ecirc;ncia, nos
+anos alegres de escolas e controv&eacute;rsias, circulava dentro
+das Filosofias mais <span class="pagenum">[8]</span>densas como
+enguia lustrosa na &aacute;gua limpa de um tanque. O seu valor,
+genu&iacute;no, de fino quilate, nunca foi desconhecido, nem
+desapreciado; e toda a opini&atilde;o, ou mera fac&eacute;cia que
+lan&ccedil;asse, logo encontrava uma aragem de simpatia e
+concord&acirc;ncia que a erguia, a mantinha embalada e rebrilhando
+nas alturas. Era servido pelas coisas com docilidade e carinho;--e
+n&atilde;o recordo que jamais lhe estalasse um bot&atilde;o da
+camisa, ou que um papel maliciosamente se escondesse dos seus
+olhos, ou que ante a sua vivacidade e pressa uma gaveta
+p&eacute;rfida emperrasse. Quando um dia, rindo com descrido riso
+da Fortuna e da sua Roda, comprou a um sacrist&atilde;o espanhol um
+D&eacute;cimo de Lotaria, logo a Fortuna, ligeira e ridente sobre a
+sua Roda, correu num fulgor, para lhe trazer quatrocentas mil
+pesetas. E no c&eacute;u as Nuvens, pejadas e lentas, se avistavam
+Jacinto sem guarda-chuva, retinham com rever&ecirc;ncia as suas
+
+&aacute;guas at&eacute; que ele passasse... Ah! o &acirc;mbar e o
+funcho da Sr.<sup>a</sup> D. Angelina tinham escorra&ccedil;ado do
+seu destino, bem triunfalmente e para sempre, a <i>Sorte-Ruim</i>!
+A amor&aacute;vel av&oacute; (que eu conheci obesa, com barba)
+costumava citar um soneto natal&iacute;cio do desembargador Nunes
+Velho contendo um verso de boa li&ccedil;&atilde;o:<br>
+
+
+<br>
+
+
+
+<span class="pagenum">[9]</span>
+<div class="break">Sabei, senhora, que esta Vida &eacute; um
+rio...</div>
+
+
+<br>
+
+
+Pois um rio de Ver&atilde;o, manso, transl&uacute;cido,
+harmoniosamente estendido sobre uma areia macia e alva, por entre
+arvoredos fragrantes e ditosas aldeias, n&atilde;o ofereceria
+&agrave;quele que o descesse num barco de cedro, bem toldado e bem
+almofadado, com frutas e Champanhe a refrescar em gelo, um Anjo
+governando ao leme, outros Anjos puxando &agrave; sirga, mais
+seguran&ccedil;a e do&ccedil;ura do que a Vida oferecia ao meu
+amigo Jacinto.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Por isso n&oacute;s lhe cham&aacute;vamos &laquo;o Pr&iacute;ncipe
+da Gr&atilde;-Ventura&raquo;!<br>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+<div class="break">
+<hr></div>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+Jacinto e eu, Jos&eacute; Fernandes, ambos nos encontr&aacute;mos e
+acamarad&aacute;mos em Paris, nas Escolas do Bairro Latino--para
+onde me mandara meu bom tio Afonso Fernandes Lorena de Noronha e
+Sande, quando aqueles malvados me riscaram da Universidade por eu
+ter esborrachado, numa tarde de prociss&atilde;o, na Sofia, a cara
+s&oacute;rdida do dr. Pais Pita.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Ora nesse tempo Jacinto concebera uma Ideia... Este Pr&iacute;ncipe
+concebera a Ideia de que &laquo;o homem s&oacute; &eacute;
+superiormente feliz quando &eacute; superiormente
+civilizado&raquo;. E por homem civilizado o meu camarada entendia
+aquele <span class="pagenum">[10]</span>que, robustecendo a sua
+for&ccedil;a pensante com todas as no&ccedil;&otilde;es adquiridas
+desde Arist&oacute;teles, e multiplicando a pot&ecirc;ncia corporal
+dos seus &oacute;rg&atilde;os com todos os mecanismos inventados
+desde Ter&acirc;menes, criador da roda, se torna um
+magn&iacute;fico Ad&atilde;o, quase omnipotente, quase omnisciente,
+e apto portanto a recolher dentro de uma sociedade e nos limites do
+Progresso (tal como ele se comportava em 1875) todos os gozos e
+todos os proveitos que resultam de Saber e de Poder... Pelo menos
+assim Jacinto formulava copiosamente a sua Ideia, quando
+convers&aacute;vamos de fins e destinos humanos, sorvendo bocks
+poeirentos, sob o toldo das cervejarias filos&oacute;ficas, no
+Boulevard Saint-Michel.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Este conceito de Jacinto impressionara os nossos camaradas de
+cen&aacute;culo, que tendo surgido para a vida intelectual, de 1866
+a 1875, entre a batalha de Sadova e a batalha de Sedan, e ouvindo
+constantemente, desde ent&atilde;o, aos t&eacute;cnicos e aos
+fil&oacute;sofos, que fora a Espingarda-de-Agulha que vencera em
+Sadova e fora o Mestre-de-Escola quem vencera em Sedan, estavam
+largamente preparados a acreditar que a felicidade dos
+indiv&iacute;duos, como a das na&ccedil;&otilde;es, se realiza pelo
+ilimitado desenvolvimento da Mec&acirc;nica e da
+Erudi&ccedil;&atilde;o. Um desses mo&ccedil;os mesmo, o nosso
+inventivo Jorge <span class="pagenum">[11]</span>Carlande, reduzira
+a teoria de Jacinto, para lhe facilitar a circula&ccedil;&atilde;o
+e lhe condensar o brilho, a uma forma alg&eacute;brica:<br>
+
+
+<br>
+
+
+
+<table class="c8" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2">
+
+
+ <tbody>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td>Suma ci&ecirc;ncia</td>
+
+
+ <td colspan="1" rowspan="3">
+ <big><big><big><big><big>}</big></big></big></big></big></td>
+
+
+ <td></td>
+
+
+ </tr>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td>X</td>
+
+
+ <td>Suma pot&ecirc;ncia</td>
+
+
+
+ </tr>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td>Suma felicidade</td>
+
+
+ <td></td>
+
+
+ </tr>
+
+
+
+ </tbody>
+</table>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+E durante dias, do Odeon &agrave; Sorbona, foi louvada pela
+mocidade positiva a <i>Equa&ccedil;&atilde;o Metaf&iacute;sica de
+Jacinto</i>.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Para Jacinto, por&eacute;m, o seu conceito n&atilde;o era meramente
+metaf&iacute;sico e lan&ccedil;ado pelo gozo elegante de exercer a
+raz&atilde;o especulativa:--mas constitu&iacute;a uma regra, toda
+de realidade e de utilidade, determinando a conduta, modalizando a
+vida. E j&aacute; a esse tempo, em concord&acirc;ncia com o seu
+preceito--ele se surtira da <i>Pequena Enciclop&eacute;dia dos
+Conhecimentos Universais</i> em setenta e cinco volumes e
+instalara, sobre os telhados do 202, num mirante
+envidra&ccedil;ado, um telesc&oacute;pio. Justamente com esse
+telesc&oacute;pio me tornou ele palp&aacute;vel a sua ideia, numa
+noite de Agosto, de mole e dormente calor. Nos c&eacute;us remotos
+lampejavam rel&acirc;mpagos l&acirc;nguidos. Pela Avenida dos
+Campos El&iacute;sios, os fiacres rolavam para as frescuras do
+Bosque, lentos, abertos, cansados, transbordando de vestidos
+claros.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+<span class="pagenum">[12]</span>--Aqui tens tu, Z&eacute;
+Fernandes, (come&ccedil;ou Jacinto, encostado &agrave; janela do
+mirante) a teoria que me governa, bem comprovada. Com estes olhos
+que recebemos da Madre natureza, lestos e s&atilde;os, n&oacute;s
+podemos apenas distinguir al&eacute;m, atrav&eacute;s da Avenida,
+naquela loja, uma vidra&ccedil;a alumiada. Mais nada! Se eu
+por&eacute;m aos meus olhos juntar os dois vidros simples de um
+bin&oacute;culo de corridas, percebo, por tr&aacute;s da
+vidra&ccedil;a, presuntos, queijos, boi&otilde;es de geleia e
+caixas de ameixa seca. Concluo portanto que &eacute; uma mercearia.
+Obtive uma no&ccedil;&atilde;o; tenho sobre ti, que com os olhos
+desarmados v&ecirc;s s&oacute; o luzir da vidra&ccedil;a, uma
+vantagem positiva. Se agora, em vez destes vidros simples, eu
+usasse os do meu telesc&oacute;pio, de composi&ccedil;&atilde;o
+mais cient&iacute;fica, poderia avistar al&eacute;m, no planeta
+Marte, os mares, as neves, os canais, o recorte dos golfos, toda a
+geografia de um astro que circula a milhares de l&eacute;guas dos
+Campos El&iacute;sios. &Eacute; outra no&ccedil;&atilde;o, e
+tremenda! Tens aqui pois o olho primitivo, o da Natureza, elevado
+pela Civiliza&ccedil;&atilde;o &agrave; sua m&aacute;xima
+pot&ecirc;ncia de vis&atilde;o. E desde j&aacute;, pelo lado do
+olho portanto, eu, civilizado, sou mais feliz que o incivilizado,
+porque descubro realidades do Universo que ele n&atilde;o suspeita
+e de que est&aacute; privado. Aplica esta prova a todos os
+
+&oacute;rg&atilde;os e compreendes o meu princ&iacute;pio.
+Enquanto<span class="pagenum">[13]</span> &agrave;
+intelig&ecirc;ncia, e &agrave; felicidade que dela se tira pela
+incans&aacute;vel acumula&ccedil;&atilde;o das
+no&ccedil;&otilde;es, s&oacute; te pe&ccedil;o que compares Renan e
+o Grilo... Claro &eacute; portanto que nos devemos cercar de
+Civiliza&ccedil;&atilde;o nas m&aacute;ximas
+propor&ccedil;&otilde;es para gozar nas m&aacute;ximas
+propor&ccedil;&otilde;es a vantagem de viver. Agora concordas,
+Z&eacute; Fernandes?<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+N&atilde;o me parecia irrecusavelmente certo que Renan fosse mais
+feliz que o Grilo; nem eu percebia que vantagem espiritual ou
+temporal se colha em distinguir atrav&eacute;s do espa&ccedil;o
+manchas num astro, ou atrav&eacute;s da Avenida dos Campos
+El&iacute;sios presuntos numa vidra&ccedil;a. Mas concordei, porque
+sou bom, e nunca desalojarei um esp&iacute;rito do conceito onde
+ele encontra seguran&ccedil;a, disciplina e motivo de energia.
+Desabotoei o colete, e lan&ccedil;ando um gesto para o lado dos
+caf&eacute;s e das luzes:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Vamos ent&atilde;o beber, nas m&aacute;ximas
+propor&ccedil;&otilde;es, <i>brandy and soda</i>, com gelo!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Por uma conclus&atilde;o bem natural, a ideia de
+Civiliza&ccedil;&atilde;o, para Jacinto, n&atilde;o se separava da
+imagem de Cidade, de uma enorme Cidade, com todos os seus vastos
+&oacute;rg&atilde;os funcionando poderosamente. Nem este meu
+supercivilizado amigo compreendia que longe de Armaz&eacute;ns
+servidos por tr&ecirc;s mil caixeiros; e de Mercados onde se
+despejam os verg&eacute;is e lez&iacute;rias de trinta
+prov&iacute;ncias; e de Bancos em que retine <span class="pagenum">[14]</span>o ouro universal; e de F&aacute;bricas
+fumegando com &acirc;nsia, inventando com &acirc;nsia; e de
+Bibliotecas abarrotadas, a estalar, com a papelada dos
+s&eacute;culos; e de fundas milhas de ruas, cortadas, por baixo e
+por cima, de fios de tel&eacute;grafos, de fios de telefones, de
+canos de gases, de canos de fezes; e da fila atroante dos
+
+&oacute;nibus, tramways, carro&ccedil;as, veloc&iacute;pedes,
+calhambeques, parelhas de luxo; e de dois milh&otilde;es de uma
+vaga humanidade, fervilhando, a ofegar, atrav&eacute;s da
+Pol&iacute;cia, na busca dura do p&atilde;o ou sob a ilus&atilde;o
+do gozo--o homem do s&eacute;culo XIX pudesse saborear, plenamente,
+a del&iacute;cia de viver!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Quando Jacinto, no seu quarto do 202, com as varandas abertas sobre
+os lilases, me desenrolava estas imagens, todo ele crescia,
+iluminado. Que cria&ccedil;&atilde;o augusta, a da Cidade!
+S&oacute; por ela, Z&eacute; Fernandes, s&oacute; por ela, pode o
+homem soberbamente afirmar a sua alma!...<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Oh Jacinto, e a religi&atilde;o? Pois a religi&atilde;o
+n&atilde;o prova a alma?<br>
+
+
+<br>
+
+
+Ele encolhia os ombros. A religi&atilde;o! A religi&atilde;o
+&eacute; o desenvolvimento sumptuoso de um instinto rudimentar,
+comum a todos os brutos, o terror. Um c&atilde;o lambendo a
+m&atilde;o do dono, de quem lhe vem o osso ou o chicote, j&aacute;
+constitui toscamente um devoto, o consciente devoto, prostrado em
+rezas ante o Deus que<span class="pagenum">[15]</span> distribui o
+c&eacute;u ou o inferno!... Mas o telefone! o fon&oacute;grafo!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--A&iacute; tens tu, o fon&oacute;grafo!... S&oacute; o
+fon&oacute;grafo, Z&eacute; Fernandes, me faz verdadeiramente
+sentir a minha superioridade de ser pensante e me separa do bicho.
+Acredita, n&atilde;o h&aacute; sen&atilde;o a Cidade, Z&eacute;
+Fernandes, n&atilde;o h&aacute; sen&atilde;o a Cidade!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+E depois (acrescentava) s&oacute; a Cidade lhe dava a
+sensa&ccedil;&atilde;o, t&atilde;o necess&aacute;ria &agrave; vida
+como o calor, da solidariedade humana. E no 202, quando considerava
+em redor, nas densas massas do casario de Paris, dois
+milh&otilde;es de seres arquejando na obra da
+Civiliza&ccedil;&atilde;o (para manter na natureza o dom&iacute;nio
+dos Jacintos!) sentia um sossego, um conchego, s&oacute;
+compar&aacute;veis ao do peregrino, que, ao atravessar o deserto,
+se ergue no seu dromed&aacute;rio, e avista a longa fila da
+caravana marchando, cheia de lumes e de armas...<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Eu murmurava, impressionado:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Caramba!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Ao contr&aacute;rio no campo, entre a inconsci&ecirc;ncia e a
+impassibilidade da Natureza, ele tremia com o terror da sua
+fragilidade e da sua solid&atilde;o. Estava a&iacute; como perdido
+num mundo que lhe n&atilde;o fosse fraternal; nenhum silvado
+encolheria os espinhos para que ele passasse; se gemesse com fome
+nenhuma &aacute;rvore, <span class="pagenum">[16]</span>por mais
+carregada, lhe estenderia o seu fruto na ponta compassiva de um
+ramo. Depois, em meio da Natureza, ele assistia &agrave;
+
+s&uacute;bita e humilhante inutiliza&ccedil;&atilde;o de todas as
+suas faculdades superiores. De que servia, entre plantas e
+bichos--ser um G&eacute;nio ou ser um Santo? As searas n&atilde;o
+compreendem as <i>Ge&oacute;rgicas</i>; e fora necess&aacute;rio o
+socorro ansioso de Deus, e a invers&atilde;o de todas as leis
+naturais, e um violento milagre para que o lobo de Agubio
+n&atilde;o devorasse S. Francisco de Assis, que lhe sorria e lhe
+estendia os bra&ccedil;os e lhe chamava &laquo;meu irm&atilde;o
+lobo&raquo;! Toda a intelectualidade, nos campos, se esteriliza, e
+s&oacute; resta a bestialidade. Nesses reinos crassos do Vegetal e
+do Animal duas &uacute;nicas fun&ccedil;&otilde;es se mant&ecirc;m
+vivas, a nutritiva e a procriadora. Isolada, sem
+ocupa&ccedil;&atilde;o, entre focinhos e ra&iacute;zes que
+n&atilde;o cessam de sugar e de pastar, sufocando no c&aacute;lido
+bafo da universal fecunda&ccedil;&atilde;o, a sua pobre alma toda
+se engelhava, se reduzia a uma migalha de alma, uma fagulhazinha
+espiritual a tremeluzir, como morta, sobre um naco de
+mat&eacute;ria; e nessa mat&eacute;ria dois instintos surdiam,
+imperiosos e pungentes, o de devorar e o de gerar. Ao cabo de uma
+semana rural, de todo o seu ser t&atilde;o nobremente composto
+s&oacute; restava um est&ocirc;mago e por baixo um falo! A alma?
+Sumida sob a besta. E necessitava <span class="pagenum">[17]</span>correr, reentrar na Cidade, mergulhar nas
+ondas lustrais da Civiliza&ccedil;&atilde;o, para largar nelas a
+crosta vegetativa, e ressurgir reumanizado, de novo espiritual e
+Jac&iacute;ntico!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+E estas requintadas met&aacute;foras do meu amigo exprimiam
+sentimentos reais--que eu testemunhei, que muito me divertiram, no
+&uacute;nico passeio que fizemos ao campo, &agrave; bem
+am&aacute;vel e bem soci&aacute;vel floresta de Montmorency. Oh
+del&iacute;cias de entremez, Jacinto entre a Natureza! Logo que se
+afastava dos pavimentos de madeira, do macadame, qualquer
+ch&atilde;o que os seus p&eacute;s calcassem o enchia de
+desconfian&ccedil;a e terror. Toda a relva, por mais crestada, lhe
+parecia ressumar uma humidade mortal. De sob cada torr&atilde;o, da
+sombra de cada pedra, receava o assalto de lacraus, de
+v&iacute;boras, de formas rastejantes e viscosas. No sil&ecirc;ncio
+do bosque sentia um l&uacute;gubre despovoamento do Universo.
+N&atilde;o tolerava a familiaridade dos galhos que lhe
+ro&ccedil;assem a manga ou a face. Saltar uma sebe era para ele um
+acto degradante que o retrogradava ao macaco inicial. Todas as
+flores que n&atilde;o tivesse j&aacute; encontrado em jardins,
+domesticadas por longos s&eacute;culos de servid&atilde;o
+ornamental, o inquietavam como venenosas. E considerava de uma
+melancolia funambulesca certos modos e formas do Ser inanimado, a
+pressa esperta e v&atilde; dos regatinhos, <span class="pagenum">[18]</span>a careca dos rochedos, todas as
+contor&ccedil;&otilde;es do arvoredo e o seu resmungar solene e
+tonto.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Depois de uma hora, naquele honesto bosque de Montmorency, o meu
+pobre amigo abafava, apavorado, experimentando j&aacute; esse lento
+minguar e sumir de alma que o tornava como um bicho entre bichos.
+S&oacute; desanuviou quando penetramos no lajedo e no g&aacute;s de
+Paris--e a nossa vit&oacute;ria quase se despeda&ccedil;ou contra
+um &oacute;nibus retumbante, atulhado de cidad&atilde;os. Mandou
+descer pelos Boulevards, para dissipar, na sua grossa
+sociabilidade, aquela materializa&ccedil;&atilde;o em que sentia a
+cabe&ccedil;a pesada e vaga como a de um boi. E reclamou que eu o
+acompanhasse ao teatro das Variedades para sacudir, com os
+estribilhos da <i>Femme &agrave; Papa</i>, o rumor importuno que
+lhe ficara dos melros cantando nos choupos altos.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Este delicioso Jacinto fizera ent&atilde;o vinte e tr&ecirc;s anos,
+e era um soberbo mo&ccedil;o em quem reaparecera a for&ccedil;a dos
+velhos Jacintos rurais. S&oacute; pelo nariz, afilado, com narinas
+quase transparentes, de uma mobilidade inquieta, como se andasse
+fariscando perfumes, pertencia &agrave;s delicadezas do
+s&eacute;culo XIX. O cabelo ainda se conservava, ao modo das eras
+rudes, crespo e quase lan&iacute;gero: e o bigode, como o de um
+Celta, ca&iacute;a em fios sedosos, que ele necessitava aparar e
+frisar. Todo o seu fato, as espessas <span class="pagenum">[19]</span>gravatas de cetim escuro que uma p&eacute;rola
+prendia, as luvas de anta branca, o verniz das botas, vinham de
+Londres em caixotes de cedro; e usava sempre ao peito uma flor,
+n&atilde;o natural, mas composta destramente pela sua ramalheteira
+com p&eacute;talas de flores dissemelhantes, cravo, az&aacute;lea,
+orqu&iacute;dea ou tulipa, fundidas na mesma haste entre uma leve
+folhagem de funcho.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+<div class="break">
+<hr></div>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+Em 1880, em Fevereiro, numa cinzenta e arrepiada manh&atilde; de
+chuva, recebi uma carta de meu bom tio Afonso Fernandes, em que,
+depois de lamenta&ccedil;&otilde;es sobre os seus setenta anos, os
+seus males hemorroidais, e a pesada ger&ecirc;ncia dos seus bens
+&laquo;que pedia homem mais novo, com pernas mais rijas&raquo;--me
+ordenava que recolhesse &agrave; nossa casa de Gui&atilde;es, no
+Douro! Encostado ao m&aacute;rmore partido do fog&atilde;o, onde na
+v&eacute;spera a minha Nini deixara um espartilho embrulhado no
+
+<i>Jornal dos Debates</i>, censurei severamente meu tio que assim
+cortava em bot&atilde;o, antes de desabrochar, a flor do meu Saber
+Jur&iacute;dico. Depois num Post-Scriptum ele
+acrescentava--&laquo;O tempo aqui est&aacute; lindo, o que se pode
+chamar de rosas, e tua santa tia muito se recomenda, que anda
+l&aacute; pela cozinha, porque vai hoje em trinta e seis
+<span class="pagenum">[20]</span>anos que cas&aacute;mos, temos
+c&aacute; o abade e o Quintais a jantar, e ela quis fazer uma sopa
+dourada&raquo;.<br>
+
+
+<br>
+
+
+
+Deitando uma acha ao lume, pensei como devia estar boa a sopa
+dourada da tia Vic&ecirc;ncia. H&aacute; quantos anos n&atilde;o a
+provava, nem o leit&atilde;o assado, nem o arroz de forno da nossa
+casa! Com o tempo assim t&atilde;o lindo, j&aacute; as mimosas do
+nosso p&aacute;tio vergariam sob os seus grandes cachos amarelos.
+Um peda&ccedil;o de c&eacute;u azul, do azul de Gui&atilde;es, que
+outro n&atilde;o h&aacute; t&atilde;o lustroso e macio, entrou pelo
+quarto, alumiou, sobre a pu&iacute;da tristeza do tapete, relvas,
+ribeirinhos, malmequeres e flores de trevo de que meus olhos
+andavam aguados. E, por entre as bambinelas de sarja, passou um ar
+fino e forte e cheiroso de serra e de pinheiral.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Assobiando um <i>fado</i> meigo tirei debaixo da cama a minha velha
+mala, e meti solicitamente entre cal&ccedil;as e pe&uacute;gas um
+Tratado de Direito Civil, para aprender enfim, nos vagares da
+aldeia, estendido sob a faia, as leis que regem os homens. Depois,
+nessa tarde, anunciei a Jacinto que partia para Gui&atilde;es. O
+meu camarada recuou com um surdo gemido de espanto e piedade:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Para Gui&atilde;es!... Oh Z&eacute; Fernandes, que horror!<br>
+
+
+<br>
+
+
+E toda essa semana me lembrou solicitamente <span class="pagenum">[21]</span>confortos de que eu me deveria prover para que
+pudesse conservar, nos ermos silvestres, t&atilde;o longe da
+Cidade, uma pouca de alma dentro de um pouco de corpo. &laquo;Leva
+uma poltrona! Leva a <i>Enciclop&eacute;dia Geral</i>! Leva caixas
+de asp&aacute;ragos!...&raquo;<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Mas para o meu Jacinto, desde que assim me arrancavam da Cidade, eu
+era arbusto desarreigado que n&atilde;o reviver&aacute;. A
+m&aacute;goa com que me acompanhou ao comboio conviria
+excelentemente ao meu funeral. E quando fechou sobre mim a
+portinhola, gravemente, supremamente, como se cerra uma grade de
+sepultura, eu quase solucei--com saudades minhas.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Cheguei a Gui&atilde;es. Ainda restavam flores nas mimosas do nosso
+p&aacute;tio; comi com del&iacute;cias a sopa dourada da tia
+Vic&ecirc;ncia; de tamancos nos p&eacute;s assisti &agrave; ceifa
+dos milhos. E assim de colheitas a lavras, crestando ao sol das
+eiras, ca&ccedil;ando a perdiz nos matos geados, rachando a
+melancia fresca na poeira dos arraiais, arranchando a magustos,
+serandando &agrave; candeia, ati&ccedil;ando fogueiras de S.
+Jo&atilde;o, enfeitando pres&eacute;pios de Natal, por ali me
+passaram docemente sete anos, t&atilde;o atarefados que nunca
+logrei abrir o Tratado de Direito Civil, e t&atilde;o singelos que
+apenas me recordo quando, em v&eacute;speras de S. Nicolau, o
+abade<span class="pagenum">[22]</span> caiu da &eacute;gua &agrave;
+
+porta do Br&aacute;s das Cortes. De Jacinto s&oacute; recebia
+raramente algumas linhas, escrevinhadas &agrave; pressa por entre o
+tumulto da Civiliza&ccedil;&atilde;o. Depois, num Setembro muito
+quente, ao lidar da vindima, meu bom tio Afonso Fernandes morreu,
+t&atilde;o quietamente, Deus seja louvado por esta gra&ccedil;a,
+como se cala um passarinho ao fim do seu bem cantado e bem voado
+dia. Acabei pela aldeia a roupa do luto. A minha afilhada Joaninha
+casou na matan&ccedil;a do porco. Andaram obras no nosso telhado.
+Voltei a Paris.<br>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+<h2>II</h2>
+
+
+Era de novo Fevereiro, e um fim de tarde arrepiado e cinzento,
+quando eu desci os Campos El&iacute;sios em demanda do 202. Adiante
+de mim caminhava, levemente curvado, um homem que, desde as botas
+rebrilhantes at&eacute; &agrave;s abas recurvas do chap&eacute;u
+donde fugiam an&eacute;is de um cabelo crespo, ressumava
+eleg&acirc;ncia e a familiaridade das coisas finas. Nas
+m&atilde;os, cruzadas atr&aacute;s das costas, cal&ccedil;adas de
+anta branca, sustentava uma bengala grossa com cast&atilde;o de
+cristal. E s&oacute; quando ele parou ao port&atilde;o do 202
+reconheci o nariz afilado, os fios do bigode corredios e
+sedosos.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Oh Jacinto!<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Oh Z&eacute; Fernandes!<br>
+
+
+<br>
+
+
+O abra&ccedil;o que nos enla&ccedil;ou foi t&atilde;o
+alvoro&ccedil;ado que o meu chap&eacute;u rolou na lama. E ambos
+murmur&aacute;vamos, comovidos, entrando a grade:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+<span class="pagenum">[24]</span> --H&aacute; sete anos!...<br>
+
+
+<br>
+
+
+--H&aacute; sete anos!...<br>
+
+
+<br>
+
+
+E, todavia, nada mudara durante esses sete anos no jardim do 202!
+Ainda entre as duas &aacute;leas bem areadas se arredondava uma
+relva, mais lisa e varrida que a l&atilde; de um tapete. No meio o
+vaso cor&iacute;ntico esperava Abril para resplandecer com tulipas
+e depois Junho para transbordar de margaridas. E ao lado das
+escadas limiares, que uma vidra&ccedil;aria toldava, as duas magras
+Deusas de pedra, do tempo de D. Gale&atilde;o, sustentavam as
+antigas l&acirc;mpadas de globos foscos, onde j&aacute; silvava o
+g&aacute;s.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Mas dentro, no peristilo, logo me surpreendeu um elevador instalado
+por Jacinto--apesar do 202 ter somente dois andares, e ligados por
+uma escadaria t&atilde;o doce que nunca ofendera a asma da
+Sr.<sup>a</sup> D. Angelina! Espa&ccedil;oso, tapetado, ele
+oferecia, para aquela jornada de sete segundos, confortos
+numerosos, um div&atilde;, uma pele de urso, um roteiro das ruas de
+Paris, prateleiras gradeadas com charutos e livros. Na
+antec&acirc;mara, onde desembarc&aacute;mos, encontrei a
+temperatura macia e t&eacute;pida de uma tarde de Maio, em
+Gui&atilde;es. Um criado, mais atento ao term&oacute;metro que um
+piloto &agrave; agulha, regulava destramente a boca dourada do
+calor&iacute;fero. E perfumadores entre palmeiras, como num
+terra&ccedil;o santo de Benares, <span class="pagenum">[25]</span>esparziam um vapor, aromatizando e
+salutarmente humedecendo aquele ar delicado e superfino.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Eu murmurei, nas profundidades do meu assombrado ser:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Eis a Civiliza&ccedil;&atilde;o!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Jacinto empurrou uma porta, penetr&aacute;mos numa nave cheia de
+majestade e sombra, onde reconheci a Biblioteca por trope&ccedil;ar
+numa pilha monstruosa de livros novos. O meu amigo ro&ccedil;ou de
+leve o dedo na parede: e uma coroa de lumes el&eacute;ctricos,
+refulgindo entre os lavores do tecto, alumiou as estantes
+monumentais, todas de &eacute;bano. Nelas repousavam mais de trinta
+mil volumes, encadernados em branco, em escarlate, em negro, com
+retoques de ouro, hirtos na sua pompa e na sua autoridade como
+doutores num conc&iacute;lio.<br>
+
+
+<br>
+
+
+
+N&atilde;o contive a minha admira&ccedil;&atilde;o:<br>
+
+
+--Oh Jacinto! Que dep&oacute;sito!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Ele murmurou, num sorriso descorado:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--H&aacute; que ler, h&aacute; que ler...<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Reparei ent&atilde;o que o meu amigo emagrecera: e que o nariz se
+lhe afilara mais entre duas rugas muito fundas, como as de um
+comediante cansado. Os an&eacute;is do seu cabelo lan&iacute;gero
+rareavam sobre a testa, que perdera a antiga serenidade de
+m&aacute;rmore bem polido. N&atilde;o frisava agora o bigode
+murcho, ca&iacute;do <span class="pagenum">[26]</span>em fios
+pensativos. Tamb&eacute;m notei que corcovava.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Ele erguera uma tape&ccedil;aria--entr&aacute;mos no seu gabinete
+de trabalho, que me inquietou. Sobre a espessura dos tapetes
+sombrios os nossos passos perderam logo o som, e como a realidade.
+O damasco das paredes, os div&atilde;s, as madeiras, eram verdes,
+de um verde profundo de folha de louro. Sedas verdes envolviam as
+luzes el&eacute;ctricas, dispersas em l&acirc;mpadas t&atilde;o
+baixas que lembravam estrelas ca&iacute;das por cima das mesas,
+acabando de arrefecer e morrer: s&oacute; uma rebrilhava, nua e
+clara, no alto de uma estante quadrada, esguia, solit&aacute;ria
+como uma torre numa plan&iacute;cie, e de que o lume parecia ser o
+farol melanc&oacute;lico. Um biombo de laca verde, fresco verde de
+relva, resguardava a chamin&eacute; de m&aacute;rmore verde, verde
+de mar sombrio, onde esmoreciam as brasas de uma lenha
+arom&aacute;tica. E entre aqueles verdes reluzia, por sobre peanhas
+e pedestais, toda uma Mec&acirc;nica sumptuosa, aparelhos,
+l&acirc;minas, rodas, tubos, engrenagens, hastes, friezas,
+rigidezes de metais...<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Mas Jacinto batia nas almofadas do div&atilde;, onde se enterrara
+com um modo cansado que eu n&atilde;o lhe conhecia:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Para aqui, Z&eacute; Fernandes, para aqui! &Eacute;
+necess&aacute;rio reatarmos estas nossas vidas, t&atilde;o
+<span class="pagenum">[27]</span>apartadas h&aacute; sete anos!...
+Em Gui&atilde;es, sete anos! Que fizeste tu?<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--E tu, que tens feito, Jacinto?<br>
+
+
+<br>
+
+
+O meu amigo encolheu molemente os ombros. Vivera--cumprira com
+serenidade todas as fun&ccedil;&otilde;es, as que pertencem
+&agrave; mat&eacute;ria e as que pertencem ao
+esp&iacute;rito...<br>
+
+
+<br>
+
+
+--E acumulaste Civiliza&ccedil;&atilde;o, Jacinto! Santo Deus...
+Est&aacute; tremendo, o 202!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Ele espalhou em torno um olhar onde j&aacute; n&atilde;o faiscava a
+antiga vivacidade:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Sim, h&aacute; confortos... Mas falta muito! A humanidade ainda
+est&aacute; mal apetrechada, Z&eacute; Fernandes... E a vida
+conserva resist&ecirc;ncias.<br>
+
+
+<br>
+
+
+
+Subitamente, a um canto, repicou a campainha do telefone. E
+enquanto o meu amigo, curvado sobre a placa, murmurava impaciente
+&laquo;<i>Est&aacute; l&aacute;?--Est&aacute;
+l&aacute;?</i>&raquo;, examinei curiosamente, sobre a sua imensa
+mesa de trabalho, uma estranha e mi&uacute;da legi&atilde;o de
+instrumentozinhos de n&iacute;quel, de a&ccedil;o, de cobre, de
+ferro, com gumes, com argolas, com tenazes, com ganchos, com
+dentes, expressivos todos, de utilidades misteriosas. Tomei um que
+tentei manejar--e logo uma ponta mal&eacute;vola me picou um dedo.
+Nesse instante rompeu doutro canto um &laquo;tic-tic-tic&raquo;
+a&ccedil;odado, quase ansioso. Jacinto acudiu, com a face no
+telefone:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+<span class="pagenum">[28]</span> --V&ecirc; a&iacute; o
+tel&eacute;grafo!... Ao p&eacute; do div&atilde;. Uma tira de papel
+que deve estar a correr.<br>
+
+
+<br>
+
+
+E, com efeito, de uma redoma de vidro posta numa coluna, e contendo
+um aparelho esperto e diligente, escorria para o tapete, como uma
+t&eacute;nia, a longa tira de papel com caracteres impressos, que
+eu, homem das serras, apanhei, maravilhado. A linha, tra&ccedil;ada
+em azul, anunciava ao meu amigo Jacinto que a fragata russa
+
+<i>Azoff</i> entrara em Marselha com avaria!<br>
+
+
+<br>
+
+
+J&aacute; ele abandonara o telefone. Desejei saber, inquieto, se o
+prejudicava directamente aquela avaria da <i>Azoff</i>.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Da <i>Azoff</i>?... A avaria? A mim?... N&atilde;o! &Eacute; uma
+not&iacute;cia.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Depois, consultando um rel&oacute;gio monumental que, ao fundo da
+Biblioteca, marcava a hora de todas as Capitais e o curso de todos
+os Planetas:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Eu preciso escrever uma carta, seis linhas... Tu esperas,
+n&atilde;o, Z&eacute; Fernandes? Tens a&iacute; os jornais de
+Paris, da noite; e os de Londres, desta manh&atilde;. As
+Ilustra&ccedil;&otilde;es al&eacute;m, naquela pasta de couro com
+ferragens.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Mas eu preferi inventariar o gabinete, que dava &agrave; minha
+profanidade serrana todos os gostos de uma inicia&ccedil;&atilde;o.
+Aos lados da cadeira de Jacinto pendiam gordos tubos
+ac&uacute;sticos, <span class="pagenum">[29]</span>por onde ele
+decerto soprava as suas ordens atrav&eacute;s do 202. Dos
+p&eacute;s da mesa cord&otilde;es t&uacute;midos e moles, coleando
+sobre o tapete, corriam para os recantos de sombra &agrave; maneira
+de cobras assustadas. Sobre uma banquinha, e reflectida no seu
+verniz como na &aacute;gua de um po&ccedil;o, pousava uma
+M&aacute;quina de escrever: e adiante era uma imensa M&aacute;quina
+de calcular, com fileiras de buracos donde espreitavam, esperando,
+n&uacute;meros r&iacute;gidos e de ferro. Depois parei em frente da
+estante que me preocupava, assim solit&aacute;ria, &agrave; maneira
+de uma torre numa plan&iacute;cie, com o seu alto farol. Toda uma
+das suas faces estava repleta de Dicion&aacute;rios; a outra de
+Manuais; a outra de Atlas; a &uacute;ltima de Guias, e entre eles,
+abrindo um f&oacute;lio, encontrei o Guia das ruas de Samarcanda.
+Que maci&ccedil;a torre de informa&ccedil;&atilde;o! Sobre
+prateleiras admirei aparelhos que n&atilde;o compreendia:--um
+composto de l&acirc;minas de gelatina, onde desmaiavam,
+meio-chupadas, as linhas de uma carta, talvez amorosa; outro, que
+erguia sobre um pobre livro brochado, como para o decepar, um
+cutelo funesto; outro avan&ccedil;ando a boca de uma tuba, toda
+aberta para as vozes do invis&iacute;vel. Cingidos aos umbrais,
+liados &agrave;s cimalhas, luziam arames, que fugiam atrav&eacute;s
+do tecto, para o espa&ccedil;o. Todos mergulhavam em for&ccedil;as
+universais, todos <span class="pagenum">[30]</span>transmitiam
+for&ccedil;as universais. A Natureza convergia disciplinada ao
+servi&ccedil;o do meu amigo e entrara na sua domesticidade!...<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Jacinto atirou uma exclama&ccedil;&atilde;o impaciente:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Oh, estas penas el&eacute;ctricas!... Que seca!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Amarrotara com c&oacute;lera a carta come&ccedil;ada--eu escapei,
+respirando, para a Biblioteca. Que majestoso armaz&eacute;m dos
+produtos do Racioc&iacute;nio e da Imagina&ccedil;&atilde;o! Ali
+jaziam mais de trinta mil volumes, e todos decerto essenciais a uma
+cultura humana. Logo &agrave; entrada notei, em ouro numa lombada
+verde, o nome de Adam Smith. Era pois a regi&atilde;o dos
+Economistas. Avancei--e percorri, espantado, oito metros de
+Economia Pol&iacute;tica. Depois avistei os Fil&oacute;sofos e os
+seus comentadores, que revestiam toda uma parede, desde as escolas
+Pr&eacute;-Socr&aacute;ticas at&eacute; &agrave;s escolas
+Neopessimistas. Naquelas pranchas se acastelavam mais de dois mil
+sistemas--e que todos se contradiziam. Pelas
+encaderna&ccedil;&otilde;es logo se deduziam as doutrinas: Hobbes,
+em baixo, era pesado, de couro negro; Plat&atilde;o, em cima,
+resplandecia, numa pelica pura e alva. Para diante come&ccedil;avam
+as Hist&oacute;rias Universais. Mas a&iacute; uma imensa pilha de
+livros brochados, cheirando a tinta nova e a documentos
+
+<span class="pagenum">[31]</span>novos, subia contra a estante,
+como fresca terra de aluvi&atilde;o tapando uma riba secular.
+Contornei essa colina, mergulhei na sec&ccedil;&atilde;o das
+Ci&ecirc;ncias Naturais, peregrinando, num assombro crescente, da
+Orografia para a Paleontologia, e da Morfologia para a
+Cristalografia. Essa estante rematava junto de uma janela rasgada
+sobre os Campos El&iacute;sios. Apartei as cortinas de veludo--e
+por tr&aacute;s descobri outra portentosa rima de volumes, todos de
+Hist&oacute;ria Religiosa, de Exegese Religiosa, que trepavam
+montanhosamente at&eacute; aos &uacute;ltimos vidros, vedando, nas
+manh&atilde;s mais c&acirc;ndidas, o ar e a luz do Senhor.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Mas depois rebrilhava, em marroquins claros, a estante
+am&aacute;vel dos Poetas. Como um repouso para o esp&iacute;rito
+esfalfado de todo aquele saber positivo, Jacinto aconchegara
+a&iacute; um recanto, com um div&atilde; e uma mesa de limoeiro,
+mais lustrosa que um fino esmalte, coberta de charutos, de cigarros
+do Oriente, de tabaqueiras do s&eacute;culo XVIII. Sobre um cofre
+de madeira lisa pousava ainda, esquecido, um prato de damascos
+secos do Jap&atilde;o. Cedi &agrave; sedu&ccedil;&atilde;o das
+almofadas; trinquei um damasco, abri um volume; e senti
+estranhamente, ao lado, um zumbido, como de um insecto de asas
+harmoniosas. Sorri &agrave; ideia que fossem abelhas, compondo o
+seu <span class="pagenum">[32]</span>mel naquele maci&ccedil;o de
+versos em flor. Depois percebi que o sussurro remoto e dormente
+vinha do cofre de mogno, de parecer t&atilde;o discreto. Arredei
+uma <i>Gazeta de Fran&ccedil;a</i>; e descortinei um cord&atilde;o
+que emergia de um orif&iacute;cio, escavado no cofre, e rematava
+num funil de marfim. Com curiosidade, encostei o funil a esta minha
+confiada orelha, afeita &agrave; singeleza dos rumores da serra. E
+logo uma Voz, muito mansa, mas muito decidida, aproveitando a minha
+curiosidade para me invadir e se apoderar do meu entendimento,
+sussurrou capciosamente:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--...&laquo;E assim, pela disposi&ccedil;&atilde;o dos cubos
+diab&oacute;licos, eu chego a verificar os espa&ccedil;os
+hiperm&aacute;gicos!...&raquo;<br>
+
+
+<br>
+
+
+Pulei, com um berro.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Oh Jacinto, aqui h&aacute; um homem! Est&aacute; aqui um homem a
+falar dentro de uma caixa!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+O meu camarada, habituado aos prod&iacute;gios, n&atilde;o se
+alvoro&ccedil;ou:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--&Eacute; o Conferen&ccedil;ofone... Exactamente como o
+Teatrofone; somente aplicado &agrave;s escolas e &agrave;s
+confer&ecirc;ncias. Muito c&oacute;modo!... Que diz o homem,
+Z&eacute; Fernandes?<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Eu considerava o cofre, ainda esgazeado:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Eu sei! Cubos diab&oacute;licos, espa&ccedil;os m&aacute;gicos,
+toda a sorte de horrores...<br>
+
+
+<br>
+
+
+Senti dentro o sorriso superior de Jacinto:<br>
+
+
+<br>
+
+
+<span class="pagenum">[33]</span> --Ah, &eacute; o coronel
+Dorchas... Li&ccedil;&otilde;es de Metaf&iacute;sica Positiva sobre
+a Quarta Dimens&atilde;o... Conjecturas, uma ma&ccedil;ada! Ouve
+l&aacute;, tu hoje jantas comigo e com uns amigos, Z&eacute;
+
+Fernandes?<br>
+
+
+<br>
+
+
+--N&atilde;o, Jacinto... Estou ainda enfardelado pelo alfaiate da
+serra!<br>
+
+
+<br>
+
+
+E voltei ao gabinete mostrar ao meu camarada o jaquet&atilde;o de
+flanela grossa, a gravata de pintinhas escarlates, com que ao
+domingo, em Gui&atilde;es, visitava o Senhor. Mas Jacinto afirmou
+que esta simplicidade montesina interessaria os seus convidados,
+que eram dois artistas... Quem? O autor do <i>Cora&ccedil;&atilde;o
+Triplo</i>, um Psic&oacute;logo Feminista, de agudeza
+transcendente, Mestre muito experimentado e muito consultado em
+Ci&ecirc;ncias Sentimentais; e Vorcan, um pintor m&iacute;tico, que
+interpretara etereamente, havia um ano, a simbolia raps&oacute;dica
+do cerco de Tr&oacute;ia, numa vasta composi&ccedil;&atilde;o,
+
+<i>Helena Devastadora</i>...<br>
+
+
+<br>
+
+
+Eu co&ccedil;ava a barba:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--N&atilde;o, Jacinto, n&atilde;o... Eu venho de Gui&atilde;es, das
+serras; preciso entrar em toda esta civiliza&ccedil;&atilde;o,
+lentamente, com cautela, sen&atilde;o rebento. Logo na mesma tarde
+a electricidade, e o conferen&ccedil;ofone, e os espa&ccedil;os
+hiperm&aacute;gicos e o feminista, e o et&eacute;reo, e a simbolia
+devastadora, &eacute; excessivo! Volto amanh&atilde;.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+<span class="pagenum">[34]</span>Jacinto dobrava vagarosamente a
+sua carta, onde metera sem rebu&ccedil;o (como convinha &agrave;
+nossa fraternidade) duas violetas brancas tiradas do ramo que lhe
+floria o peito.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Amanh&atilde;, Z&eacute; Fernandes, tu vens antes de
+almo&ccedil;o, com as tuas malas dentro de um fiacre, para te
+instalares no 202, no teu quarto. No Hotel s&atilde;o
+embara&ccedil;os, priva&ccedil;&otilde;es. Aqui tens o telefone, o
+teatrofone, livros...<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Aceitei logo, com simplicidade. E Jacinto, embocando um tubo
+ac&uacute;stico, murmurou:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Grilo!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Da parede, recoberta de damasco, que subitamente e sem rumor se
+fendeu, surdiu o seu velho escudeiro (aquele moleque que viera com
+<i>D. Gale&atilde;o</i>), que eu me alegrei de encontrar t&atilde;o
+rijo, mais negro, reluzente e vener&aacute;vel na sua tesa gravata,
+no seu colete branco de bot&otilde;es de ouro. Ele tamb&eacute;m
+estimou ver de novo &laquo;o si&ocirc; Fernandes&raquo;. E, quando
+soube que eu ocuparia o quarto do av&ocirc; Jacinto, teve um claro
+sorriso de preto, em que envolveu o seu senhor, no contentamento de
+o sentir enfim reprovido de uma fam&iacute;lia.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Grilo, dizia Jacinto, esta carta a Madame de Oriol... Escuta!
+Telefona para casa dos Tr&egrave;ves que os espiritistas s&oacute;
+est&atilde;o livres no domingo... Escuta! Eu tomo uma duche
+<span class="pagenum">[35]</span>antes de jantar, t&eacute;pida, a
+17. Fric&ccedil;&atilde;o com malva-rosa.<br>
+
+
+<br>
+
+
+E caindo pesadamente para cima do div&atilde;, com um bocejo
+arrastado e vago:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Pois &eacute; verdade, meu Z&eacute; Fernandes, aqui estamos,
+como h&aacute; sete anos, neste velho Paris...<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Mas eu n&atilde;o me arredava da mesa, no desejo de completar a
+minha inicia&ccedil;&atilde;o:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Oh Jacinto, para que servem todos estes instrumentozinhos? Houve
+j&aacute; a&iacute; um desavergonhado que me picou. Parecem
+perversos... S&atilde;o &uacute;teis?<br>
+
+
+<br>
+
+
+Jacinto esbo&ccedil;ou, com languidez, um gesto que os
+sublimava.--Providenciais, meu filho, absolutamente providenciais,
+pela simplifica&ccedil;&atilde;o que d&atilde;o ao trabalho!
+Assim... E apontou. Este arrancava as penas velhas; o outro
+numerava rapidamente as p&aacute;ginas de um manuscrito;
+aqueloutro, al&eacute;m, raspava emendas... E ainda os havia para
+colar estampilhas, imprimir datas, derreter lacres, cintar
+documentos...<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Mas com efeito, acrescentou, &eacute; uma seca. Com as molas, com
+os bicos, &agrave;s vezes magoam, ferem... J&aacute; me sucedeu
+inutilizar cartas por as ter sujado com dedadas de sangue. &Eacute;
+uma ma&ccedil;ada!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Ent&atilde;o, como o meu amigo espreitara novamente <span class="pagenum">[36]</span>o rel&oacute;gio monumental, n&atilde;o lhe
+quis retardar a consola&ccedil;&atilde;o da ducha e da
+malva-rosa.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Bem, Jacinto, j&aacute; te revi, j&aacute; me contentei... Agora
+at&eacute; amanh&atilde;, com as malas.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Que diabo, Z&eacute; Fernandes, espera um momento... Vamos pela
+sala de jantar. Talvez te tentes!<br>
+
+
+<br>
+
+
+E, atrav&eacute;s da Biblioteca, penetramos na sala de jantar,--que
+me encantou pelo seu luxo sereno e fresco. Uma madeira branca,
+lacada, mais lustrosa e macia que cetim, revestia as paredes,
+encaixilhando medalh&otilde;es de damasco cor de morango, de
+morango muito maduro e esmagado: os aparadores, discretamente
+lavrados em flor&otilde;es e rocalhas, resplandeciam com a mesma
+laca nevada: e damascos amorangados estofavam tamb&eacute;m as
+cadeiras, brancas, muito amplas, feitas para a lentid&atilde;o de
+gulas delicadas, de gulas intelectuais.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Viva o meu Pr&iacute;ncipe! Sim senhor... Eis aqui um comedouro
+muito compreens&iacute;vel e muito repousante, Jacinto!<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Ent&atilde;o janta, homem!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Mas j&aacute; eu me come&ccedil;ava a inquietar, reparando que a
+cada talher correspondiam seis garfos, e todos de feitios
+astuciosos. E mais me impressionei quando Jacinto me desvendou
+<span class="pagenum">[37]</span>que um era para as ostras, outro
+para o peixe, outro para as carnes, outro para os legumes, outro
+para as frutas, outro para o queijo! Simultaneamente, com uma
+sobriedade que louvaria Salom&atilde;o, s&oacute; dois copos, para
+dois vinhos:--um Bord&eacute;us rosado em infusas de cristal, e
+Champanhe gelando dentro de baldes de prata. Todo um aparador
+por&eacute;m vergava, sob o luxo redundante, quase assustador de
+
+&aacute;guas--&aacute;guas oxigenadas, &aacute;guas carbonatadas,
+&aacute;guas fosfatadas, &aacute;guas esterilizadas, &aacute;guas
+de sais, outras ainda, em garrafas bojudas, com tratados
+terap&ecirc;uticos impressos em r&oacute;tulos.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Sant&iacute;ssimo nome de Deus, Jacinto! Ent&atilde;o &eacute;s
+ainda o mesmo tremendo bebedor de &aacute;gua, hein?... <i>Un
+aquatico!</i> como dizia o nosso poeta chileno, que andava a
+traduzir Klopstock.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Ele derramou, por sobre toda aquela garrafaria encarapu&ccedil;ada
+em metal, um olhar desconsolado:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--N&atilde;o... &Eacute; por causa das &aacute;guas da Cidade,
+contaminadas, atulhadas de micr&oacute;bios... Mas ainda n&atilde;o
+encontrei uma boa &aacute;gua que me convenha, que me
+satisfa&ccedil;a... At&eacute; sofro sede.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Desejei ent&atilde;o conhecer o jantar do Psic&oacute;logo e do
+Simbolista--tra&ccedil;ado, ao lado dos <span class="pagenum">[38]</span>talheres, em tinta vermelha, sobre
+l&acirc;minas de marfim. Come&ccedil;ava honradamente por ostras
+cl&aacute;ssicas, de Marennes. Depois aparecia uma sopa de
+alcachofras e ovas de carpa...<br>
+
+
+<br>
+
+
+--&Eacute; bom?<br>
+
+
+<br>
+
+
+
+Jacinto encolheu desinteressadamente os ombros:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Sim... Eu n&atilde;o tenho nunca apetite, j&aacute; h&aacute;
+tempos... J&aacute; h&aacute; anos.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Do outro prato s&oacute; compreendi que continha frangos e
+t&uacute;baras. Depois saboreariam aqueles senhores um filete de
+veado, macerado em Xerez, com geleia de noz. E por sobremesa
+simplesmente laranjas geladas em &eacute;ter.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Em &eacute;ter, Jacinto?<br>
+
+
+<br>
+
+
+O meu amigo hesitou, esbo&ccedil;ou com os dedos a
+ondula&ccedil;&atilde;o de um aroma que se evola.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--&Eacute; novo... Parece que o &eacute;ter desenvolve, faz aflorar
+a alma das frutas...<br>
+
+
+<br>
+
+
+Curvei a cabe&ccedil;a ignara, murmurei nas minhas
+profundidades:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Eis a Civiliza&ccedil;&atilde;o!<br>
+
+
+<br>
+
+
+E, descendo os Campos El&iacute;sios, encolhido no palet&oacute; a
+cogitar neste prato simb&oacute;lico, considerava a rudeza e
+atolado atraso da minha Gui&atilde;es, onde desde s&eacute;culos a
+alma das laranjas permanece ignorada e desaproveitada dentro dos
+gomos sumarentos, por todos <span class="pagenum">[39]</span>aqueles pomares que ensombram e perfumam o
+vale, da Roqueirinha a Sandofim! Agora por&eacute;m, bendito Deus,
+na conviv&ecirc;ncia de um t&atilde;o grande iniciado como Jacinto,
+eu compreenderia todas as finuras e todos os poderes da
+Civiliza&ccedil;&atilde;o.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+E, (melhor ainda para a minha ternura!) contemplaria a raridade de
+um homem que, concebendo uma ideia da Vida, a realiza--e
+atrav&eacute;s dela e por ela recolhe a felicidade perfeita.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Bem se afirmara este Jacinto, na verdade, como Pr&iacute;ncipe da
+Gr&atilde;-Ventura!<br>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+<h2>III</h2>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+No 202, todas as manh&atilde;s, &agrave;s nove horas, depois do meu
+chocolate e ainda em chinelas, penetrava no quarto de Jacinto.
+Encontrava o meu amigo banhado, barbeado, friccionado, envolto num
+roup&atilde;o branco de p&ecirc;lo de cabra do Tibete, diante da
+sua mesa de toilette, toda de cristal, (por causa dos
+micr&oacute;bios) e atulhada com esses utens&iacute;lios de
+tartaruga, marfim, prata, a&ccedil;o e madrep&eacute;rola que o
+homem do s&eacute;culo XIX necessita para n&atilde;o desfeiar o
+conjunto sumptu&aacute;rio da Civiliza&ccedil;&atilde;o e manter
+nela o seu Tipo. As escovas sobretudo renovavam, cada dia, o meu
+regalo e o meu espanto--porque as havia largas como a roda
+maci&ccedil;a de um carro sabino; estreitas e mais recurvas que o
+alfange de um mouro; c&ocirc;ncavas, em forma de telha
+alde&atilde;; pontiagudas em feitio de folha de hera; rijas que nem
+cerdas de javali; macias que nem penugem <span class="pagenum">[42]</span>de rola! De todas, fielmente, como amo que
+n&atilde;o desdenha nenhum servo, se utilizava o meu Jacinto. E
+assim, em face ao espelho emoldurado de folhedos de prata,
+permanecia este Pr&iacute;ncipe passando p&ecirc;los sobre o seu
+p&ecirc;lo durante catorze minutos.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+No entanto o Grilo e outro escudeiro, por tr&aacute;s dos biombos
+de Quioto, de sedas lavradas, manobravam, com per&iacute;cia e
+vigor, os aparelhos do lavat&oacute;rio--que era apenas um resumo
+das M&aacute;quinas monumentais da Sala de Banho, a mais estremada
+maravilha do 202. Nestes m&aacute;rmores simplificados existiam
+unicamente dois jactos graduados desde <i>zero</i> at&eacute;
+<i>cem</i>; as duas duchas, fina e grossa, para a cabe&ccedil;a; a
+fonte esterilizada para os dentes; o repuxo borbulhante para a
+barba; e ainda bot&otilde;es discretos, que, ro&ccedil;ados,
+desencadeavam esguichos, cascatas cantantes, ou um leve orvalho
+estival. Desse recanto temeroso, onde delgados tubos mantinham em
+disciplina e servid&atilde;o tantas &aacute;guas ferventes, tantas
+
+&aacute;guas violentas, sa&iacute;a enfim o meu Jacinto enxugando
+as m&atilde;os a uma toalha de felpo, a uma toalha de linho, a
+outra de corda entran&ccedil;ada para restabelecer a
+circula&ccedil;&atilde;o, a outra de seda frouxa para repolir a
+pele. Depois deste rito derradeiro que lhe arrancava ora um
+suspiro, ora um bocejo, Jacinto, estendido num div&atilde;,
+<span class="pagenum">[43]</span>folheava uma Agenda, onde se
+arrolavam, inscritas pelo Grilo ou por ele, as
+ocupa&ccedil;&otilde;es do seu dia, t&atilde;o numerosas por vezes
+que cobriam duas laudas.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Todas elas se prendiam &agrave; sua sociabilidade, &agrave; sua
+Civiliza&ccedil;&atilde;o muito complexa, ou a interesses que o meu
+Pr&iacute;ncipe, nesses sete anos, criara para viver em mais
+consciente comunh&atilde;o com todas as fun&ccedil;&otilde;es da
+Cidade. (Jacinto com efeito era presidente do Clube da <i>Espada e
+Alvo</i>; comandit&aacute;rio do Jornal o <i>Boulevard</i>;
+director da <i>Companhia dos Telefones de Constantinopla</i>;
+s&oacute;cio dos <i>Bazares unidos da Arte Espiritualista</i>;
+membro do <i>Comit&eacute; de Inicia&ccedil;&atilde;o das
+Religi&otilde;es Esot&eacute;ricas</i>, etc.) Nenhuma destas
+ocupa&ccedil;&otilde;es parecia por&eacute;m apraz&iacute;vel ao
+meu amigo--porque, apesar da mansid&atilde;o e harmonia dos seus
+modos, frequentemente arremessava para o tapete, numa
+rebeli&atilde;o de homem livre, aquela Agenda que o escravizava. E
+numa dessas manh&atilde;s (de vento e neve), apanhando eu o livro
+opressivo, encadernado em pelica, de um carinhoso tom de rosa
+murcha--descobri que o meu Jacinto devia depois do almo&ccedil;o
+fazer uma visita na rua da Universidade, outra no Parque Monceau,
+outra entre os arvoredos remotos da Muette; assistir por fidelidade
+a uma vota&ccedil;&atilde;o no Clube; acompanhar Madame
+
+<span class="pagenum">[44]</span>d'Oriol a uma
+exposi&ccedil;&atilde;o de leques; escolher um presente de noivado
+para a sobrinha dos Tr&egrave;ves; comparecer no funeral do velho
+conde de Malville; presidir um tribunal de honra numa
+quest&atilde;o de roubalheira, entre cavalheiros, ao
+ecart&eacute;... E ainda se acavalavam outras
+indica&ccedil;&otilde;es, escrevinhadas por Jacinto a
+l&aacute;pis:--&laquo;Carroceiro--Five-oclock dos Efrains--A
+pequena das <i>Variedades</i>--Levar a nota ao jornal...&raquo;
+Considerei o meu Pr&iacute;ncipe. Estirado no div&atilde;, de olhos
+miserrimamente cerrados, bocejava, num bocejo imenso e mudo.<br>
+
+
+<br>
+
+
+
+Mas os afazeres de Jacinto come&ccedil;avam logo no 202, cedo,
+depois do banho. Desde as oito horas a campainha do telefone
+repicava por ele, com impaci&ecirc;ncia, quase com c&oacute;lera,
+como por um escravo tardio. E mal enxugado, dentro do seu
+roup&atilde;o de p&ecirc;lo de cabra do Tibete ou de grossas
+pijamas de pel&uacute;cia cor de ouro velho, constantemente
+sa&iacute;a ao corredor a cochichar com sujeitos t&atilde;o
+apressados, que conservavam na m&atilde;o o guarda-chuva pingando
+sobre o tapete. Um desses, sempre presente (e que pertencia decerto
+aos <i>Telefones de Constantinopla</i>), era temeroso--todo ele
+chupado, tisnado, com maus dentes, sobra&ccedil;ando uma enorme
+pasta sebenta, e dardejando, de entre a alta gola de uma
+peli&ccedil;a pu&iacute;da, <span class="pagenum">[45]</span>como
+da abertura de um covil, dois olhinhos torvos e de rapina. Sem
+cessar, inexoravelmente, um escudeiro aparecia, com bilhetes numa
+salva... Depois eram fornecedores de Ind&uacute;stria e de Arte;
+negociantes de cavalos, rubicundos e de palet&oacute; branco;
+inventores com grossos rolos de papel; alfarrabistas trazendo na
+algibeira uma edi&ccedil;&atilde;o &laquo;&uacute;nica&raquo;,
+quase inveros&iacute;mil, de Ulrich Zell ou do <i>Lapidanus</i>.
+Jacinto circulava estonteado pelo 202, rabiscando a carteira,
+repicando o telefone, desatando nervosamente pacotes, sacudindo ao
+passar algum emboscado que surdia das sombras da antec&acirc;mara,
+estendia como um trabuco o seu memorial ou o seu
+cat&aacute;logo!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Ao meio-dia, um tant&atilde; argentino e melanc&oacute;lico
+ressoava, chamando ao almo&ccedil;o. Com o <i>Figaro</i> ou as
+<i>Novidades</i> abertas sobre o prato, eu esperava sempre meia
+hora pelo meu Pr&iacute;ncipe, que entrava numa rajada, consultando
+o rel&oacute;gio, exalando com a face mo&iacute;da o seu queixume
+eterno:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Que ma&ccedil;ada! E depois uma noite abomin&aacute;vel,
+enrodilhada em sonhos... Tomei sulforal, chamei o Grilo para me
+esfregar com terebintina... Uma seca!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Espalhava pela mesa um olhar j&aacute; farto. Nenhum prato, por
+mais engenhoso, o seduzia;--e, como atrav&eacute;s do seu tumulto
+matinal fumava <span class="pagenum">[46]</span>incont&aacute;veis
+cigarretes que o ressequiam, come&ccedil;ava por se encharcar com
+um imenso copo de &aacute;gua oxigenada, ou carbonatada, ou gasosa,
+misturada de um cognac raro, muito caro, horrendamente adocicado,
+de moscatel de Siracusa. Depois, &agrave; pressa, sem gosto, com a
+ponta incerta do garfo, picava aqui e al&eacute;m uma lasca de
+fiambre, uma febra de lagosta;--e reclamava impacientemente o
+caf&eacute;, um caf&eacute; de Moca, mandado cada m&ecirc;s por um
+feitor do Dedjah, fervido &agrave; turca, muito espesso, que ele
+remexia com um pau de canela!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--E tu, Z&eacute; Fernandes, que vais tu fazer?<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Eu?<br>
+
+
+<br>
+
+
+Recostado na cadeira, com del&iacute;cias, os dedos metidos nas
+cavas do colete:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Vou vadiar, regaladamente, como um c&atilde;o natural!<br>
+
+
+<br>
+
+
+
+O meu sol&iacute;cito amigo, remexendo o caf&eacute; com o pau de
+canela, rebuscava atrav&eacute;s da numerosa
+Civiliza&ccedil;&atilde;o da Cidade uma ocupa&ccedil;&atilde;o que
+me encantasse. Mas apenas sugeria uma Exposi&ccedil;&atilde;o, ou
+uma Confer&ecirc;ncia, ou monumentos, ou passeios, logo encolhia os
+ombros desconsolados:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Por fim nem vale a pena, &eacute; uma seca!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Acendia outra das cigarretes russas, onde rebrilhava o seu nome,
+impresso a ouro na mortalha. Torcendo, numa pressa nervosa, os
+
+<span class="pagenum">[47]</span>fios do bigode, ainda escutava,
+&agrave; porta da Biblioteca, o seu procurador, o n&eacute;dio e
+majestoso Laporte. E enfim, seguido de um criado, que
+sobra&ccedil;ava um ma&ccedil;o tremendo de jornais para lhe
+abastecer o coup&eacute;, o Pr&iacute;ncipe da Gr&atilde;-Ventura
+mergulhava na Cidade.<br>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+<div class="break">
+<hr></div>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+
+Quando o dia social de Jacinto se apresentava mais desafogado, e o
+c&eacute;u de Mar&ccedil;o nos concedia caridosamente um pouco de
+azul aguado, sa&iacute;amos depois de almo&ccedil;o, a p&eacute;,
+atrav&eacute;s de Paris. Estes lentos e errantes passeios eram
+outrora, na nossa idade de Estudantes, um gozo muito querido de
+Jacinto--porque neles mais intensamente e mais minuciosamente
+saboreava a Cidade. Agora por&eacute;m, apesar da minha companhia,
+s&oacute; lhe davam uma impaci&ecirc;ncia e uma fadiga que
+desoladoramente destoava do antigo, iluminado &ecirc;xtase. Com
+espanto (mesmo com dor, porque sou bom, e sempre me entristece o
+desmoronar de uma cren&ccedil;a) descobri eu, na primeira tarde em
+que descemos aos Boulevards, que o denso formigueiro humano sobre o
+asfalto, e a torrente sombria dos trens sobre o macadame, afligiam
+o meu amigo pela brutalidade da sua pressa, do seu ego&iacute;smo,
+<span class="pagenum">[48]</span>e do seu estridor. Encostado e
+como refugiado no meu bra&ccedil;o, este Jacinto novo
+come&ccedil;ou a lamentar que as ruas, na nossa
+Civiliza&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o fossem cal&ccedil;adas de
+guta-percha! E a guta-percha claramente representava, para o meu
+amigo, a subst&acirc;ncia discreta que amortece o choque e a rudeza
+das coisas. Oh maravilha! Jacinto querendo borracha, a borracha
+isoladora, entre a sua sensibilidade e as fun&ccedil;&otilde;es da
+Cidade! Depois, nem me permitiu pasmar diante daquelas dourejadas e
+espelhadas lojas que ele outrora considerava como os
+
+&laquo;preciosos museus do s&eacute;culo XIX&raquo;...<br>
+
+
+<br>
+
+
+--N&atilde;o vale a pena, Z&eacute; Fernandes. H&aacute; uma imensa
+pobreza e secura de inven&ccedil;&atilde;o! Sempre os mesmos
+flor&otilde;es Lu&iacute;s XV, sempre as mesmas pel&uacute;cias...
+N&atilde;o vale a pena!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Eu arregalava os olhos para este transformado Jacinto. E sobretudo
+me impressionava o seu horror pela Multid&atilde;o--por certos
+efeitos da Multid&atilde;o, s&oacute; para ele sens&iacute;veis, e
+a que chamava os &laquo;sulcos&raquo;.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Tu n&atilde;o os sentes, Z&eacute; Fernandes. Vens das serras...
+Pois constituem o rijo inconveniente das Cidades, estes sulcos!
+&Eacute; um perfume muito agudo e petulante que uma mulher larga ao
+passar, e se instala no olfacto, e estraga para todo o dia o ar
+respir&aacute;vel. &Eacute; um dito que se surpreende num grupo,
+que <span class="pagenum">[49]</span>revela um mundo de velhacaria,
+ou de pedantismo, ou de estupidez, e que nos fica colado &agrave;
+
+alma, como um salpico, lembrando a imensidade da lama a atravessar.
+Ou ent&atilde;o, meu filho, &eacute; uma figura intoler&aacute;vel
+pela pretens&atilde;o, ou pelo mau gosto, ou pela
+impertin&ecirc;ncia, ou pela relice, ou pela dureza, e de que se
+n&atilde;o pode sacudir mais a vis&atilde;o repulsiva... Um pavor,
+estes sulcos, Z&eacute; Fernandes! De resto, que diabo, s&atilde;o
+as pequeninas mis&eacute;rias de uma Civiliza&ccedil;&atilde;o
+deliciosa!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Tudo isto era especioso, talvez pueril--mas para mim revelava,
+naquele chamejante devoto da Cidade, o arrefecimento da
+devo&ccedil;&atilde;o. Nessa mesma tarde, se bem recordo, sob uma
+luz macia e fina, penetr&aacute;mos nos centros de Paris, nas ruas
+longas, nas milhas de casario, todo de cali&ccedil;a parda,
+eri&ccedil;ado de chamin&eacute;s de lata negra, com as janelas
+sempre fechadas, as cortininhas sempre corridas, abafando,
+escondendo a vida. S&oacute; tijolo, s&oacute; ferro, s&oacute;
+
+argamassa, s&oacute; estuque: linhas hirtas, &acirc;ngulos
+&aacute;speros: tudo seco, tudo r&iacute;gido. E dos ch&atilde;os
+aos telhados, por toda a fachada, tapando as varandas, comendo os
+muros, Tabuletas, Tabuletas...<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Oh, este Paris, Jacinto, este teu Paris! Que enorme, que
+grosseiro bazar!<br>
+
+
+<br>
+
+
+E, mais para sondar o meu Pr&iacute;ncipe do que <span class="pagenum">[50]</span>por persuas&atilde;o, insisti na fealdade e
+tristeza destes pr&eacute;dios, duros armaz&eacute;ns, cujos
+andares s&atilde;o prateleiras onde se apilha humanidade! E uma
+humanidade impiedosamente catalogada e arrumada! A mais vistosa e
+de luxo nas prateleiras baixas, bem envernizadas. A reles e de
+trabalho nos altos, nos desv&atilde;os, sobre pranchas de pinho nu,
+entre o p&oacute; e a tra&ccedil;a...<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Jacinto murmurou, com a face arrepiada:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--&Eacute; feio, &eacute; muito feio!<br>
+
+
+<br>
+
+
+E acudiu logo, sacudindo no ar a luva de anta:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Mas que maravilhoso organismo, Z&eacute; Fernandes! Que solidez!
+Que produ&ccedil;&atilde;o!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Onde Jacinto me parecia mais renegado era na sua antiga e quase
+religiosa afei&ccedil;&atilde;o pelo Bosque de Bolonha. Quando
+mo&ccedil;o, ele constru&iacute;ra sobre o Bosque teorias
+complicadas e consider&aacute;veis. E sustentava, com olhos
+rutilantes de fan&aacute;tico, que no Bosque a Cidade cada tarde ia
+retemperar salutarmente a sua for&ccedil;a, recebendo, pela
+presen&ccedil;a das suas Duquesas, das suas Cortes&atilde;s, dos
+seus Pol&iacute;ticos, dos seus Financeiros, dos seus Generais, dos
+seus Acad&eacute;micos, dos seus Artistas, dos seus Clubistas, dos
+seus Judeus, a certeza consoladora de que todo o seu pessoal se
+mantinha em n&uacute;mero, em vitalidade, em fun&ccedil;&atilde;o,
+<span class="pagenum">[51]</span>e que nenhum elemento da sua
+grandeza desaparecera ou deperecera! &laquo;Ir ao Bois&raquo;
+
+constitu&iacute;a ent&atilde;o para o meu Pr&iacute;ncipe um acto
+de consci&ecirc;ncia. E voltava sempre confirmando com orgulho que
+a Cidade possu&iacute;a todos os seus astros, garantindo a
+eternidade da sua luz!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Agora, por&eacute;m, era sem fervor, arrastadamente, que ele me
+levava ao Bosque, onde eu, aproveitando a clem&ecirc;ncia de Abril,
+tentava enganar a minha saudade de arvoredos. Enquanto
+sub&iacute;amos, ao trote nobre das suas &eacute;guas lustrosas, a
+Avenida dos Campos El&iacute;sios e a do Bosque, rejuvenescidas
+pelas relvas tenras e fresco verdejar dos rebentos, Jacinto,
+soprando o fumo da cigarrete pelas vidra&ccedil;as abertas do
+coup&eacute;, permanecia o bom camarada, de veia am&aacute;vel, com
+quem era doce filosofar atrav&eacute;s de Paris. Mas logo que
+pass&aacute;vamos as grades douradas do Bosque, e
+penetr&aacute;vamos na Avenida das Ac&aacute;cias, e
+enfi&aacute;vamos na lenta fila dos trens de luxo e de
+pra&ccedil;a, sob o sil&ecirc;ncio decoroso, apenas cortado pelo
+tilintar dos freios e pelas rodas vagarosas esmagando a areia,--o
+meu Pr&iacute;ncipe emudecia, molemente engelhado no fundo das
+almofadas, de onde s&oacute; despegava a face para escancarar
+bocejos de fartura. Pelo antigo h&aacute;bito de verificar a
+presen&ccedil;a confortadora <span class="pagenum">[52]</span>do
+
+&laquo;pessoal, dos astros&raquo;, ainda, por vezes, apontava para
+algum coup&eacute; ou vit&oacute;ria rodando com rodar rangente
+noutra arrastada fila--e murmurava um nome. E assim fui conhecendo
+a encaracolada barba hebraica do banqueiro Efraim; e o longo nariz
+patr&iacute;cio de Madame de Tr&egrave;ves abrigando um sorriso
+perene; e as bochechas fl&aacute;cidas do poeta neoplat&oacute;nico
+Dornan, sempre espapado no fundo de fiacres; e os longos
+band&oacute;s pr&eacute;-rafaelitas e negros de Madame Verghane; e
+o mon&oacute;culo defumado do director do <i>Boulevard</i>; e o
+bigodinho vencedor do Duque de Marizac, reinando de cima do seu
+fa&eacute;ton de guerra; e ainda outros sorrisos im&oacute;veis, e
+barbichas &agrave; Renascen&ccedil;a, e p&aacute;lpebras
+amortecidas, e olhos farejantes, e peles empoadas de arroz, que
+eram todas ilustres e da intimidade do meu Pr&iacute;ncipe. Mas, do
+topo da Avenida das Ac&aacute;cias, recome&ccedil;&aacute;vamos a
+descer, em passo sopeado, esmagando lentamente a areia; na fila
+vagarosa que subia, calhambeque atr&aacute;s de landau,
+vit&oacute;ria atr&aacute;s de fiacre, fatalmente rev&iacute;amos o
+bin&oacute;culo sombrio do homem do <i>Boulevard</i>, e os
+band&oacute;s furiosamente negros de Madame Verghane, e o ventre
+espapado do neoplat&oacute;nico, e a barba talm&uacute;dica, e
+todas aquelas figuras, de uma imobilidade de cera, super-conhecidas
+do meu <span class="pagenum">[53]</span>camarada, recruzadas cada
+tarde atrav&eacute;s de revividos anos, sempre com os mesmos
+sorrisos, sob o mesmo p&oacute; de arroz, na mesma imobilidade de
+cera; ent&atilde;o Jacinto n&atilde;o se continha, gritava ao
+cocheiro:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Para casa, depressa!<br>
+
+
+<br>
+
+
+E era pela Avenida do Bosque, pelos Campos El&iacute;sios, uma fuga
+ardente das &eacute;guas a quem a lentid&atilde;o sopeada, num roer
+de freios, entre outras &eacute;guas tamb&eacute;m delas
+superconhecidas, lan&ccedil;avam numa exaspera&ccedil;&atilde;o
+compar&aacute;vel &agrave; de Jacinto.<br>
+
+
+<br>
+
+
+
+Para o sondar eu denegria o Bosque:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--J&aacute; n&atilde;o &eacute; t&atilde;o divertido, perdeu o
+brilho!...<br>
+
+
+<br>
+
+
+Ele acudia, timidamente:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--N&atilde;o, &eacute; agrad&aacute;vel, n&atilde;o h&aacute; nada
+mais agrad&aacute;vel; mas...<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+E acusava a friagem das tardes ou o despotismo dos seus afazeres.
+Recolh&iacute;amos ent&atilde;o ao 202, onde, com efeito, em breve
+embrulhado no seu roup&atilde;o branco, diante da mesa de cristal,
+entre a legi&atilde;o das escovas, com toda a electricidade
+refulgindo, o meu Pr&iacute;ncipe se come&ccedil;ava a adornar para
+o servi&ccedil;o social da noite.<br>
+
+
+<br>
+
+
+E foi justamente numa dessas noites (um s&aacute;bado) que
+n&oacute;s pass&aacute;mos, naquele quarto t&atilde;o civilizado e
+protegido, por um desses brutos <span class="pagenum">[50]</span>e
+revoltos terrores como s&oacute; os produz a ferocidade dos
+Elementos. J&aacute; tarde, &agrave; pressa (jant&aacute;vamos com
+Marizac no Clube para o acompanhar depois ao <i>Lohengrin</i> na
+
+&Oacute;pera) Jacinto arrocheava o n&oacute; da gravata
+branca--quando no lavat&oacute;rio, ou porque se rompesse o tubo,
+ou se dessoldasse a torneira, o jacto de &aacute;gua a ferver
+rebentou furiosamente, fumegando e silvando. Uma n&eacute;voa densa
+de vapor quente abafou as luzes--e, perdidos nela,
+sent&iacute;amos, por entre os gritos do escudeiro e do Grilo, o
+jorro devastador batendo os muros, esparrinhando uma chuva que
+escaldava. Sob os p&eacute;s o tapete ensopado era uma lama
+ardente. E como se todas as for&ccedil;as da natureza, submetidas
+ao servi&ccedil;o de Jacinto, se agitassem, animadas por aquela
+rebeli&atilde;o da &aacute;gua--ouvimos roncos surdos no interior
+das paredes, e pelos fios dos lumes el&eacute;ctricos sulcaram
+fa&iacute;scas amea&ccedil;adoras! Eu fugira para o corredor, onde
+se alargava a n&eacute;voa grossa. Por todo o 202 ia um tumulto de
+desastre. Diante do port&atilde;o, atra&iacute;das pela fumarada
+que se escapava das janelas, estacionava pol&iacute;cia, uma
+multid&atilde;o. E na escada esbarrei com um rep&oacute;rter, de
+chap&eacute;u para a nuca, a carteira aberta, gritando sofregamente
+
+&laquo;se havia mortos?&raquo;<br>
+
+
+<br>
+
+
+Domada a &aacute;gua, clareada a bruma, vim <span class="pagenum">[55]</span>encontrar Jacinto no meio do quarto, em
+ceroulas, l&iacute;vido:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Oh Z&eacute; Fernandes, esta nossa ind&uacute;stria!... Que
+impot&ecirc;ncia, que impot&ecirc;ncia! Pela segunda vez, este
+desastre! E agora, aparelhos perfeitos, um processo novo...<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--E eu encharcado por esse processo novo! E sem outra casaca!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Em redor, as nobres sedas bordadas, os brocat&eacute;is Lu&iacute;s
+XIII, cobertos de manchas negras, fumegavam. O meu Pr&iacute;ncipe,
+enfiado, enxugava uma fotografia de Madame d'Oriol, de ombros
+decotados, que o jorro bruto maculara de empolas. E eu, com rancor,
+pensava que na minha Gui&atilde;es a &aacute;gua aquecia em seguras
+panelas--e subia ao meu lavat&oacute;rio, pela m&atilde;o forte da
+Catarina, em seguras infusas! N&atilde;o jant&aacute;mos com o
+duque de Marizac, no Clube. E, na &Oacute;pera, nem saboreei
+Lohengrin e a sua branca alma e o seu branco cisne e as suas
+brancas armas--entalado, aperreado, cortado nos sovacos pela casaca
+que Jacinto me emprestara e que rescendia estonteadoramente a
+flores de Nessari.<br>
+
+
+<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+<div class="break">
+<hr></div>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+No domingo, muito cedo, o Grilo, que na v&eacute;spera escaldara as
+m&atilde;os e as trazia embrulhadas em seda, penetrou no meu
+quarto, descerrou as <span class="pagenum">[56]</span>cortinas, e
+&agrave; beira do leito, com o seu radiante sorriso de preto:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Vem no <i>Figaro</i>!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Desdobrou triunfalmente o jornal. Eram, nos <i>Ecos</i>, doze
+linhas, onde as nossas &aacute;guas rugiam e espadavam, com tanta
+magnific&ecirc;ncia e tanta publicidade, que tamb&eacute;m sorri,
+deleitado.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--E toda a manh&atilde;, o telefone, si&ocirc; Fernandes! exclamava
+o Grilo, rebrilhando em &eacute;bano. A quererem saber, a quererem
+saber... &laquo;Est&aacute; l&aacute;? Est&aacute;
+
+escaldado?&raquo; Paris aflito, si&ocirc; Fernandes!<br>
+
+
+<br>
+
+
+O telefone, com efeito, repicava, insaci&aacute;vel. E quando desci
+para o almo&ccedil;o, a toalha desaparecia sob uma camada de
+telegramas, que o meu Pr&iacute;ncipe fendia com a faca, enrugado,
+rosnando contra a &laquo;ma&ccedil;ada&raquo;. S&oacute;
+desanuviou, ao ler um desses pap&eacute;is azuis, que atirou para
+cima do meu prato, com o mesmo sorriso agradado com que de
+manh&atilde; sorr&iacute;ramos, o Grilo e eu:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--&Eacute; do Gr&atilde;o-Duque Casimiro... Rat&atilde;o
+am&aacute;vel! Coitado!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Saboreei, atrav&eacute;s dos ovos, o telegrama de S. Alteza.
+&laquo;O qu&ecirc;! o meu Jacinto inundado! Muito chic, nos Campos
+El&iacute;sios! N&atilde;o volto ao 202 sem b&oacute;ia de
+salva&ccedil;&atilde;o! Compassivo abra&ccedil;o!
+Casimiro...&raquo; Murmurei tamb&eacute;m<span class="pagenum">[57]</span> com defer&ecirc;ncia:--&laquo;Am&aacute;vel!
+Coitado!&raquo; Depois, revolvendo lentamente o mont&atilde;o de
+telegramas que se alastrava at&eacute; ao meu copo:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Oh Jacinto! Quem &eacute; esta Diana que incessantemente te
+escreve, te telefona, te telegrafa, te...?<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Diana?... Diana de Lorge. &Eacute; uma cocotte. &Eacute; uma
+grande cocotte!<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Tua?<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Minha, minha... N&atilde;o! tenho um bocado.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+E como eu lamentava que o meu Pr&iacute;ncipe, senhor t&atilde;o
+rico e de t&atilde;o fino orgulho, por economia de uma gamela
+pr&oacute;pria chafurdasse com outros numa gamela
+p&uacute;blica--Jacinto levantou os ombros, com um camar&atilde;o
+espetado no garfo:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Tu vens das serras... Uma cidade como Paris, Z&eacute; Fernandes,
+precisa ter cortes&atilde;s de grande pompa e grande fausto. Ora
+para montar em Paris, nesta tremenda carestia de Paris, uma cocotte
+com os seus vestidos, os seus diamantes, os seus cavalos, os seus
+lacaios, os seus camarotes, as suas festas, o seu palacete, a sua
+publicidade, a sua insol&ecirc;ncia, &eacute; necess&aacute;rio que
+se agremiem umas poucas de fortunas, se forme um sindicato! Somos
+uns sete, no Clube. Eu pago um bocado... Mas meramente por Civismo,
+para dotar a cidade com uma cocotte monumental. <span class="pagenum">[58]</span>De resto n&atilde;o chafurdo. Pobre Diana!...
+Dos ombros para baixo nem sei se tem a pele cor de neve ou cor de
+lim&atilde;o.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Arregalei um olho divertido:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Dos ombros para baixo?... E para cima?<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Oh para cima tem p&oacute; de arroz!... Mas &eacute; uma seca!
+Sempre bilhetes, sempre telefones, sempre telegramas. E tr&ecirc;s
+mil francos por m&ecirc;s, al&eacute;m das flores... Uma
+ma&ccedil;ada!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+E as duas rugas do meu Pr&iacute;ncipe, aos lados do seu afilado
+nariz, curvado sobre a salada, eram como dois vales muito tristes,
+ao entardecer.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Acab&aacute;vamos o almo&ccedil;o, quando um escudeiro, muito
+discretamente, num murm&uacute;rio, anunciou Madame d'Oriol.
+Jacinto pousou com tranquilidade o charuto; eu quase me engasguei,
+num sorvo alvoro&ccedil;ado de caf&eacute;. Entre os reposteiros de
+damasco cor de morango ela apareceu, toda de negro, de um negro
+liso e austero de Semana Santa, lan&ccedil;ando com o regalo um
+lindo gesto para nos sossegar. E imediatamente, numa volubilidade
+docemente chalrada:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--&Eacute; um momento, nem se levantem! Passei, ia para a Madalena,
+n&atilde;o me contive, quis ver os estragos... Uma
+inunda&ccedil;&atilde;o em Paris, nos Campos El&iacute;sios!
+N&atilde;o h&aacute; sen&atilde;o este Jacinto. <span class="pagenum">[59]</span>E vem no <i>Figaro</i>! O que eu estava
+assustada, quando telefonei! Imaginem! &Aacute;gua a ferver, como
+no Ves&uacute;vio... Mas &eacute; de uma novidade! E os estofos
+perdidos, naturalmente, os tapetes... Estou morrendo por admirar as
+ru&iacute;nas!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Jacinto, que n&atilde;o me pareceu comovido, nem agradecido com
+aquele interesse, retomara risonhamente o charuto:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Est&aacute; tudo seco, minha querida senhora, tudo seco! A beleza
+foi ontem, quando a &aacute;gua fumegava e rugia! Ora que pena
+n&atilde;o ter ao menos ca&iacute;do uma parede!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Mas ela insistia. Nem todos os dias se gozavam em Paris os
+destro&ccedil;os de uma inunda&ccedil;&atilde;o. O <i>Figaro</i>
+
+contara... E era uma aventura deliciosa, uma casa escaldada nos
+Campos El&iacute;sios!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Toda a sua pessoa, desde as plumazinhas que frisavam no
+chap&eacute;u at&eacute; &agrave; ponta reluzente das botinas de
+verniz, se agitava, vibrava, como um ramo tenro sob o boli&ccedil;o
+do p&aacute;ssaro a chalrar. S&oacute; o sorriso, por tr&aacute;s
+do v&eacute;u espesso, conservava um brilho im&oacute;vel. E
+j&aacute; no ar se espalhara um aroma, uma do&ccedil;ura, emanadas
+de toda a sua mobilidade e de toda a sua gra&ccedil;a.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Jacinto no entanto cedera, alegremente: e pelo corredor Madame
+d'Oriol ainda louvava <span class="pagenum">[60]</span>o
+<i>Figaro</i> am&aacute;vel, e confessava quanto tremera... Eu
+voltei ao meu caf&eacute;, felicitando mentalmente o
+Pr&iacute;ncipe da Gr&atilde;-Ventura por aquela perfeita flor de
+Civiliza&ccedil;&atilde;o que lhe perfumava a vida. Pensei
+ent&atilde;o na apurada harmonia em que se movia essa flor. E corri
+vivamente &agrave; antec&acirc;mara, verificar diante do espelho o
+meu penteado e o n&oacute; da minha gravata. Depois recolhi
+
+&agrave; sala de jantar, e junto da janela, folheando languidamente
+a <i>Revista do S&eacute;culo XIX</i>, tomei uma atitude de
+eleg&acirc;ncia e de alta cultura. Quase imediatamente eles
+reapareceram: e Madame d'Oriol, que, sempre sorrindo, se proclamava
+espoliada, nada encontrara que recordasse as &aacute;guas furiosas,
+ro&ccedil;ou pela mesa, onde Jacinto procurava, para lhe oferecer,
+tangerinas de Malta, ou castanhas geladas, ou um biscoito molhado
+em vinho de Tokai.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Ela recusava com as m&atilde;os guardadas no regalo. N&atilde;o era
+alta, nem forte--mas cada prega do vestido, ou curva da capa,
+ca&iacute;a e ondulava harmoniosamente, como
+perfei&ccedil;&otilde;es recobrindo perfei&ccedil;&otilde;es. Sob o
+v&eacute;u cerrado, apenas percebi a brancura da face empoada, e a
+escurid&atilde;o dos olhos largos. E com aquelas sedas e veludos
+negros, e um pouco do cabelo louro, de um louro quente, torcido
+fortemente sobre as peles negras que lhe orlavam <span class="pagenum">[61]</span>o pesco&ccedil;o, toda ela derramava uma
+sensa&ccedil;&atilde;o de macio e de fino. Eu teimosamente a
+considerava como uma flor de Civiliza&ccedil;&atilde;o:--e pensava
+no secular trabalho e na cultura superior que necessitara o terreno
+onde ela t&atilde;o delicadamente brotara, j&aacute; desabrochada,
+em pleno perfume, mais graciosa por ser flor de esfor&ccedil;o e de
+estufa, e trazendo nas suas p&eacute;talas um n&atilde;o sei
+qu&ecirc; de desbotado e de antemurcho.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+No entanto, com a sua volubilidade de p&aacute;ssaro, chalrando
+para mim, chalrando para Jacinto, ela mostrava o seu lindo espanto
+por aquele mont&atilde;o de telegramas sobre a toalha.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Tudo esta manh&atilde;, por causa da inunda&ccedil;&atilde;o?...
+Ah, Jacinto &eacute; hoje o homem, o &uacute;nico homem de Paris!
+Muitas mulheres nesses telegramas?<br>
+
+
+<br>
+
+
+Languidamente, com o charuto a fumegar, o meu Pr&iacute;ncipe
+empurrou para a sua amiga o telegrama do Gr&atilde;o-Duque.
+Ent&atilde;o Madame d'Oriol teve um <i>ah!</i> muito grave e muito
+sentido. Releu profundamente o papel de S. A. que os seus dedos
+acariciavam com uma rever&ecirc;ncia gulosa. E sempre grave, sempre
+s&eacute;ria:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--&Eacute; brilhante!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Oh, certamente! naquele desastre tudo <span class="pagenum">[62]</span>se passara com muito brilho, num tom muito
+Parisiense. E a deliciosa criatura n&atilde;o se podia demorar,
+porque fizera marcar um lugar na igreja da Madalena para o
+serm&atilde;o!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Jacinto exclamou com inoc&ecirc;ncia:<br>
+
+
+<br>
+
+
+
+--Serm&atilde;o?... &Eacute; j&aacute; a esta&ccedil;&atilde;o dos
+serm&otilde;es?<br>
+
+
+<br>
+
+
+Madame d'Oriol teve um movimento de carinhoso esc&acirc;ndalo e
+dor. O qu&ecirc;! pois nem na austera casa dos Tr&egrave;ves dera
+pela entrada da Quaresma? De resto n&atilde;o se admirava--Jacinto
+era um turco! E, imediatamente celebrou o pregador, um frade
+dominicano, o P&egrave;re Granon! Oh de uma eloqu&ecirc;ncia! de
+uma viol&ecirc;ncia! No derradeiro serm&atilde;o pregara sobre o
+amor, a fragilidade dos amores mundanos! E tivera coisas de uma
+inspira&ccedil;&atilde;o, de uma brutalidade! Depois que gesto, um
+gesto terr&iacute;vel que esmagava, em que se lhe arrega&ccedil;ava
+toda a manga, mostrando o bra&ccedil;o nu, um bra&ccedil;o soberbo,
+muito branco, muito forte!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+O seu sorriso permanecia claro sob o olhar que negrejara dentro do
+v&eacute;u negro. E Jacinto, rindo:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Um bom bra&ccedil;o de director espiritual, hein? Para vergar,
+espancar almas...<br>
+
+
+<br>
+
+
+Ela acudiu:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--N&atilde;o! infelizmente o P&egrave;re Granon n&atilde;o
+confessa!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+E de repente reconsiderou--aceitava um <span class="pagenum">[63]</span>biscoito, um c&aacute;lice de Tokai. Era
+necess&aacute;rio um cordial para afrontar as emo&ccedil;&otilde;es
+do P&egrave;re Granon! Ambos nos precipit&aacute;ramos, um
+arrebatando a garrafa, outro oferecendo o prato de bombons. Franziu
+o v&eacute;u para os olhos, chupou &agrave; pressa um bolo que
+ensopara no Tokai. E como Jacinto, reparando casualmente no
+chap&eacute;u que ela trazia, se curvara com curiosidade,
+impressionado, Madame d'Oriol apagou o sorriso, toda s&eacute;ria,
+ante uma coisa s&eacute;ria:<br>
+
+
+<br>
+
+
+
+--Elegante, n&atilde;o &eacute; verdade?... &Eacute; uma
+cria&ccedil;&atilde;o inteiramente nova de Madame Vial. Muito
+respeitoso, e muito sugestivo, agora na Quaresma.<br>
+
+
+<br>
+
+
+O seu olhar, que me envolvera, tamb&eacute;m me convidava a
+admirar. Aproximei o meu focinho de homem das serras para
+contemplar essa cria&ccedil;&atilde;o suprema do luxo de Quaresma.
+E era maravilhoso! Sobre o veludo, na sombra das plumas frisadas,
+aninhada entre rendas, fixada por um prego, pousava delicadamente,
+feita de azeviche, uma Coroa de Espinhos!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Ambos nos extasi&aacute;mos. E Madame d'Oriol, num movimento e num
+sorriso que derramou mais aroma e mais claridade, abalou para a
+Madalena.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+O meu Pr&iacute;ncipe arrastou pelo tapete alguns <span class="pagenum">[64]</span>passos pensativos e moles. E bruscamente,
+levantando os ombros com uma determina&ccedil;&atilde;o imensa,
+como se deslocasse um mundo:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Oh Z&eacute; Fernandes, vamos passar este Domingo nalguma coisa
+simples e natural...<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Em qu&ecirc;?<br>
+
+
+<br>
+
+
+
+Jacinto circungirou os olhares muito abertos, como se,
+atrav&eacute;s da Vida Universal, procurasse ansiosamente uma coisa
+natural e simples. Depois, descansando sobre mim os mesmos largos
+olhos que voltavam de muito longe, cansados e com pouca
+esperan&ccedil;a:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Vamos ao Jardim das Plantas, ver a girafa!<br>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+<h2>IV</h2>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+Nessa fecunda semana, uma noite, recolh&iacute;amos ambos da
+&Oacute;pera, quando Jacinto, bocejando, me anunciou uma festa no
+202.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Uma festa?...<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Por causa do Gr&atilde;o-Duque, coitado, que me vai mandar um
+peixe delicioso e muito raro que se pesca na Dalm&aacute;cia. Eu
+queria um almo&ccedil;o curto. O Gr&atilde;o-Duque reclamou uma
+ceia. &Eacute; um b&aacute;rbaro, besuntado com literatura do
+s&eacute;culo XVIII, que ainda acredita em ceias, em Paris!
+Re&uacute;no no domingo tr&ecirc;s ou quatro mulheres, e uns dez
+homens bem t&iacute;picos, para o divertir. Tamb&eacute;m
+aproveitas. Folheias Paris num resumo... Mas &eacute; uma
+ma&ccedil;ada amarga!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Sem interesse pela sua festa, Jacinto n&atilde;o se afadigou em a
+compor com relevo ou brilho. Encomendou apenas uma orquestra de
+Tziganes (os Tziganes, as suas jalecas escarlates; <span class="pagenum">[66]</span>a melancolia &aacute;spera das Czardas ainda
+nesses tempos remotos emocionavam Paris): e mandou, na Biblioteca,
+ligar o Teatrofone com a &Oacute;pera, com a Com&eacute;dia
+Francesa, com o Alcazar e com os Bufos, prevendo todos os gostos
+desde o tr&aacute;gico at&eacute; ao p&iacute;caro. Depois no
+domingo, ao entardecer, ambos visit&aacute;mos a mesa da ceia, que
+resplandecia com as velhas baixelas de D. Gale&atilde;o. E a
+faustosa profus&atilde;o de orqu&iacute;deas, em longas silvas por
+sobre a toalha bordada a seda, enroladas aos fruteiros de Saxe,
+transbordando de cristais lavrados e filagranados de ouro,
+espalhava uma t&atilde;o fina sensa&ccedil;&atilde;o de luxo e
+gosto, que eu murmurei:--&laquo;Caramba, bendito, seja o
+dinheiro!&raquo; Pela primeira vez, tamb&eacute;m, admirei a copa e
+a sua instala&ccedil;&atilde;o abundante e minuciosa--sobretudo os
+dois ascensores que rolavam das profundidades da cozinha, um para
+os peixes e carnes aquecido por tubos de &aacute;gua fervente, o
+outro para as saladas e gelados revestido de placas
+frigor&iacute;ficas. Oh, este 202!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+&Agrave;s nove horas, por&eacute;m, descendo eu ao gabinete de
+Jacinto para escrever a minha boa tia Vic&ecirc;ncia, enquanto ele
+ficara no toucador com o manicuro que lhe polia as unhas,
+pass&aacute;mos nesse delicioso pal&aacute;cio, florido e em gala,
+por bem corriqueiro susto! <span class="pagenum">[67]</span>Todos
+os lumes el&eacute;ctricos, subitamente, em todo o 202, se
+apagaram! Na minha imensa desconfian&ccedil;a daquelas
+for&ccedil;as universais, pulei logo para a porta,
+trope&ccedil;ando nas trevas, ganindo um <i>Aqui d'El-Rei!</i> que
+tresandava a Gui&atilde;es. Jacinto em cima berrava, com o manicuro
+agarrado ao pijama. E de novo, como serva rala&ccedil;a que recolhe
+arrastando as chinelas, a luz ressurgiu com lentid&atilde;o. Mas o
+meu Pr&iacute;ncipe, que descera, enfiado, mandou buscar um
+engenheiro &agrave; Companhia Central da Electricidade
+Dom&eacute;stica. Por precau&ccedil;&atilde;o outro criado correu
+
+&agrave; mercearia comprar pacotes de velas. E o Grilo desenterrava
+j&aacute; dos arm&aacute;rios os candelabros abandonados, os
+pesados casti&ccedil;ais arcaicos dos tempos incient&iacute;ficos
+de D. Gale&atilde;o: era uma reserva de veteranos fortes, para o
+caso pavoroso em que mais tarde, &agrave; ceia, falhassem
+perfidamente as for&ccedil;as bisonhas da
+Civiliza&ccedil;&atilde;o. O Electricista, que acudira esbaforido,
+afian&ccedil;ou por&eacute;m que a Electricidade se conservaria
+fiel, sem outro amuo. Eu, cautelosamente, soneguei na algibeira
+dois cotos de estearina.<br>
+
+
+<br>
+
+
+A Electricidade permaneceu fiel, sem amuos. E quando desci do meu
+quarto, tarde (porque perdera o colete de baile e s&oacute; depois
+de uma busca furiosa e praguejada o encontrei ca&iacute;do por
+tr&aacute;s da cama!), todo <span class="pagenum">[68]</span>o 202
+refulgia, e os Tziganes, na antec&acirc;mara, sacudindo as
+guedelhas, atiravam as arcadas de uma valsa t&atilde;o arrastadora
+que, pelas paredes, os imensos Personagens das tape&ccedil;arias,
+Pr&iacute;amo, Nestor, o engenhoso Ulisses, arfavam, buliam com os
+p&eacute;s venerandos!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Timidamente, sem rumor, puxando os punhos, penetrei no gabinete de
+Jacinto. E fui logo acolhido pelo sorriso da condessa de
+Tr&egrave;ves, que, acompanhada pelo ilustre historiador Danjon (da
+Academia Francesa), percorria maravilhada os Aparelhos, os
+Instrumentos, toda a sumptuosa Mec&acirc;nica do meu
+supercivilizado Pr&iacute;ncipe. Nunca ela me parecera mais
+majestosa do que naquelas sedas cor de a&ccedil;afr&atilde;o, com
+rendas cruzadas no peito &agrave; Maria Antonieta, o cabelo crespo
+e ruivo levantado em rolo sobre a testa dominadora, e o curvo nariz
+patr&iacute;cio, abrigando o sorriso sempre luzidio, sempre
+corrente, como um arco abriga o correr e o luzir de um regato.
+Direita como num s&oacute;lio, a longa luneta de tartaruga acercada
+dos olhos mi&uacute;dos e turvamente azulados, ela escutava diante
+do Grafofono, depois diante do Microfono, como melodias superiores,
+os coment&aacute;rios que o meu Jacinto ia atabalhoando com uma
+amabilidade penosa. E ante cada roda, cada mola, eram pasmos,
+louvores finamente torneados, <span class="pagenum">[69]</span>em
+que atribu&iacute;a a Jacinto, com astuta candura, todas aquelas
+inven&ccedil;&otilde;es do Saber! Os utens&iacute;lios misteriosos
+que atulhavam a mesa de &eacute;bano foram para ela uma
+inicia&ccedil;&atilde;o que a enlevou. Oh, o &laquo;numerador de
+p&aacute;ginas&raquo;! oh, o &laquo;colador de estampilhas&raquo;!
+A car&iacute;cia demorada dos seus dedos secos aquecia os metais. E
+suplicava os endere&ccedil;os dos fabricantes para se prover de
+todas aquelas utilidades ador&aacute;veis! Como a vida, assim
+apetrechada, se tornava escorregadia e f&aacute;cil! Mas era
+necess&aacute;rio o talento, o gosto de Jacinto, para escolher,
+para &laquo;criar!&raquo; E n&atilde;o s&oacute; ao meu amigo (que
+o recebia com resigna&ccedil;&atilde;o) ela ofertava o fino mel.
+Afagando com o cabo da luneta o Tel&eacute;grafo, achou a
+possibilidade de recordar a eloqu&ecirc;ncia do Historiador. Mesmo
+para mim (de quem ignorava o nome) arranjou junto do
+Fon&oacute;grafo, e acerca de &laquo;vozes de amigos que &eacute;
+
+doce coleccionar&raquo;, uma lisonjazinha redondinha e lustrosa,
+que eu chupei como um rebu&ccedil;ado celeste. Boa casaleira que
+vai atirando o gr&atilde;o aos frangos famintos, a cada passo,
+maternalmente, ela nutria uma vaidade. S&ocirc;frego de outro
+rebu&ccedil;ado, acompanhei a sua cauda sussurrante e cor de
+a&ccedil;afr&atilde;o. Ela parara diante da M&aacute;quina de
+contar, de que Jacinto j&aacute; lhe fornecera pacientemente uma
+explica&ccedil;&atilde;o sapiente. <span class="pagenum">[70]</span>E de novo ro&ccedil;ou os buracos de onde
+espreitam os n&uacute;meros negros, e com o seu enlevado sorriso
+murmurou:--&laquo;Prodigiosa, esta prensa
+el&eacute;ctrica!...&raquo;<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Jacinto acudiu:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--N&atilde;o! N&atilde;o! Esta &eacute;...<br>
+
+
+<br>
+
+
+Mas ela sorria, seguia... Madame de Tr&egrave;ves n&atilde;o
+compreendera nenhum aparelho do meu Pr&iacute;ncipe! Madame de
+Tr&egrave;ves n&atilde;o atendera a nenhuma
+disserta&ccedil;&atilde;o do meu Pr&iacute;ncipe! Naquele gabinete
+de sumptuosa Mec&acirc;nica ela somente se ocupara em exercer, com
+proveito e com perfei&ccedil;&atilde;o, a Arte de Agradar. Toda ela
+era uma sublime falsidade. N&atilde;o escondi a Danjon a
+admira&ccedil;&atilde;o que me penetrava.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+O facundo Acad&eacute;mico revirou os olhos bogalhudos:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Oh! e um gosto, uma intelig&ecirc;ncia, uma
+sedu&ccedil;&atilde;o!... E depois como se janta bem em casa dela!
+Que caf&eacute;!... Mulher superior, meu caro senhor,
+verdadeiramente superior!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Deslizei para a biblioteca. Logo &agrave; entrada da erudita nave,
+junto da estante dos Padres da Igreja onde alguns cavalheiros
+conversavam, parei a saudar o director do <i>Boulevard</i>e o
+Psic&oacute;logo feminista, o autor do <i>Cora&ccedil;&atilde;o
+Triplo</i>, com quem na v&eacute;spera me familiarizara ao
+almo&ccedil;o, no 202. O seu acolhimento foi paternal: e, como se
+necessitasse a minha<span class="pagenum">[71]</span>
+
+presen&ccedil;a, reteve na sua m&atilde;o ilustre, rutilante de
+an&eacute;is, com for&ccedil;a e com gula, a minha grossa palma
+serrana. Todos aqueles senhores, com efeito, celebravam o seu
+Romance, a <i>Coura&ccedil;a</i>, lan&ccedil;ado nessa semana entre
+gritinhos de gozo e um quente rumor de saias alvoro&ccedil;adas. Um
+sobretudo, com uma vasta cabe&ccedil;a arranjada &agrave; Van Dick
+e que parecia posti&ccedil;a, proclamava, al&ccedil;ado na ponta
+das botas, que nunca penetrara t&atilde;o fundamente, na velha alma
+humana, a ponta da Psicologia Experimental! Todos concordavam, se
+apertavam contra o Psic&oacute;logo, o tratavam por
+
+&laquo;mestre&raquo;. Eu mesmo, que nem sequer entrevira a capa
+amarela da <i>Coura&ccedil;a</i>, mas para quem ele voltava os
+olhos pedinch&otilde;es e famintos de mais mel, murmurei com um
+leve assobio:--&laquo;uma del&iacute;cia!&raquo;<br>
+
+
+<br>
+
+
+E o Psic&oacute;logo, reluzindo, com o l&aacute;bio h&uacute;mido,
+entalado num alto colarinho onde se enroscava uma gravata &agrave;
+1830, confessava modestamente que dissecara todas aquelas almas da
+<i>Coura&ccedil;a</i> com &laquo;algum cuidado&raquo;, sobre
+documentos, sobre peda&ccedil;os de vida ainda quentes, ainda a
+sangrar... E foi ent&atilde;o que Marizac, o duque de Marizac,
+notou, com um sorriso mais afiado que um lampejo de navalha, e sem
+tirar as m&atilde;os dos bolsos:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--No entanto, meu caro, nesse livro t&atilde;o <span class="pagenum">[72]</span>profundamente estudado h&aacute; um erro bem
+estranho, bem curioso!...<br>
+
+
+<br>
+
+
+O Psic&oacute;logo, vivamente, atirara a cabe&ccedil;a para
+tr&aacute;s:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Um erro?<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Oh, sim, um erro! E bem inesperado num mestre t&atilde;o
+experiente!... Era atribuir &agrave; espl&ecirc;ndida amorosa da
+<i>Coura&ccedil;a</i>, uma duquesa, e do gosto mais puro,--<i>um
+colete de cetim preto</i>! Esse colete, assim preto, de cetim,
+aparecia na bela p&aacute;gina de an&aacute;lise e paix&atilde;o em
+que ela se despia no quarto de Rui d'Alize. E Marizac, sempre com
+as m&atilde;os nos bolsos, mais grave, apelava para aqueles
+senhores. Pois era veros&iacute;mil, numa mulher como a duquesa,
+est&eacute;tica, pr&eacute;-rafael&iacute;tica, que se vestia no
+Doucet, no Paquin, nos costureiros intelectuais, um colete de cetim
+preto?<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+O Psic&oacute;logo emudecera, colhido, trespassado! Marizac era uma
+t&atilde;o suprema autoridade sobre a roupa &iacute;ntima das
+duquesas, que &agrave; tarde, em quartos de rapazes, por impulsos
+idealistas e anseios de alma dolorida--se p&otilde;em em colete e
+saia branca!... De resto o director do <i>Boulevard</i> condenara
+logo sem piedade, com uma experi&ecirc;ncia firme, aquele colete,
+s&oacute; poss&iacute;vel nalguma merceeira atrasada que ainda
+procurasse efeitos <span class="pagenum">[73]</span>de carne
+n&eacute;dia sobre cetim negro. E eu, para que me n&atilde;o
+julgassem alheio &agrave;s coisas dos adult&eacute;rios ducais e do
+luxo, acudi, metendo os dedos pelo cabelo:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Realmente, preto, s&oacute; se estivesse de luto pesado, pelo
+pai!<br>
+
+
+<br>
+
+
+O pobre mestre da <i>Coura&ccedil;a</i> sucumbira. Era a sua
+gl&oacute;ria de Doutor em Eleg&acirc;ncias Femininas
+desmantelada--e Paris supondo que ele nunca vira uma duquesa
+desatacar o colete na sua alcova de Psic&oacute;logo! Ent&atilde;o,
+passando o len&ccedil;o sobre os l&aacute;bios que a
+ang&uacute;stia ressequira, confessou o erro, e contritamente o
+atribuiu a uma improvisa&ccedil;&atilde;o tumultuosa:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Foi um tom falso, um tom perfeitamente falso que me escapou!...
+Com efeito! &eacute; absurdo, um colete preto!... Mesmo por
+harmonia com o estado da alma da duquesa devia ser lil&aacute;s,
+talvez cor de reseda muito desmaiada, com um frouxo de rendas
+antigas de Malines... &Eacute; prodigioso como me escapou! Pois
+tenho o meu caderno de entrevistas bem anotadas, bem
+documentadas!...<br>
+
+
+<br>
+
+
+Na sua amargura, terminou por suplicar a Marizac que espalhasse por
+toda a parte, no Clube, nas salas, a sua confiss&atilde;o. Fora um
+engano de artista, que trabalha na febre, vasculhando as almas,
+perdido nas profundidades <span class="pagenum">[74]</span>negras
+das almas! N&atilde;o reparara no colete, confundira os tons... E
+gritou, com os bra&ccedil;os estendidos para o director do
+<i>Boulevard</i>:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Estou pronto a fazer uma rectifica&ccedil;&atilde;o, numa
+<i>interview</i>, meu caro mestre! Mande um dos seus redactores...
+Amanh&atilde;, &agrave;s dez horas! Fazemos uma <i>interview</i>,
+fixamos a cor. Evidentemente &eacute; lil&aacute;s... Mande um dos
+seus homens, meu caro mestre! &Eacute; tamb&eacute;m uma
+ocasi&atilde;o para eu confessar, bem alto, os servi&ccedil;os que
+o <i>Boulevard</i> tem feito &agrave;s ci&ecirc;ncias
+psicol&oacute;gicas e feministas!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Assim ele suplicava, encostado &agrave; estante, &agrave;s lombadas
+dos Santos Padres. E eu abalei, vendo ao fundo da Biblioteca
+Jacinto que se debatia e se recusava entre dois homens.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Eram os dois homens de Madame de Tr&egrave;ves--o marido, conde de
+Tr&egrave;ves, descendente dos reis de C&acirc;ndia, e o amante, o
+terr&iacute;vel banqueiro judeu, David Efraim. E t&atilde;o
+enfronhadamente assaltavam o meu Pr&iacute;ncipe que nem me
+reconheceram, ambos num aperto de m&atilde;o mole e vago me
+trataram por &laquo;caro conde&raquo;! Num relance, rebuscando
+charutos sobre a mesa de limoeiro, compreendi que se tramava a
+
+<i>Companhia das Esmeraldas da Birm&acirc;nia</i>, medonha empresa
+em que cintilavam milh&otilde;es, e para que os dois confederados
+<span class="pagenum">[75]</span>de bolsa e de alcova, desde o
+come&ccedil;o do ano, pediam o nome, a influ&ecirc;ncia, o dinheiro
+de Jacinto. Ele resistira, num enfado dos neg&oacute;cios,
+desconfiado daquelas esmeraldas soterradas num vale da &Aacute;sia.
+E agora o conde de Tr&egrave;ves, um homem esgrouviado, de face
+rechupada, eri&ccedil;ada de barba rala, sob uma fronte rotunda e
+amarela como um mel&atilde;o, assegurava ao meu pobre
+Pr&iacute;ncipe que no Prospecto j&aacute; preparado, demonstrando
+a grandeza do neg&oacute;cio, perpassava um fulgor das <i>Mil e Uma
+Noites</i>. Mas sobretudo aquela escava&ccedil;&atilde;o de
+esmeraldas convidava todo o esp&iacute;rito culto pela sua
+ac&ccedil;&atilde;o civilizadora. Era uma corrente de ideias
+ocidentais, invadindo, educando a Birm&acirc;nia. Ele aceitara a
+direc&ccedil;&atilde;o por patriotismo...<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--De resto &eacute; um neg&oacute;cio de j&oacute;ias, de arte, de
+progresso, que deve ser feito, num mundo superior, entre
+amigos...<br>
+
+
+<br>
+
+
+E do outro lado o terr&iacute;vel Efraim, passando a m&atilde;o
+curta e gorda sobre a sua bela barba, mais frisada e negra que a de
+um Rei Ass&iacute;rio, afian&ccedil;ava o triunfo da empresa pelas
+grossas for&ccedil;as que nela entravam, os Nagayers, os Bolsans,
+os Saccart...<br>
+
+
+<br>
+
+
+Jacinto franzia o nariz, enervado:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Mas, ao menos, est&atilde;o feitos os estudos? J&aacute; se
+provou que h&aacute; esmeraldas?<br>
+
+
+<br>
+
+
+<span class="pagenum">[76]</span>Tanta ingenuidade exasperou
+Efraim:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Esmeraldas! Est&aacute; claro que h&aacute; esmeraldas!...
+H&aacute; sempre esmeraldas desde que haja accionistas!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+E eu admirava a grandeza daquela m&aacute;xima--quando apareceu,
+esbaforido, desdobrando o len&ccedil;o muito perfumado, um dos
+familiares do 202, Todelle (Ant&oacute;nio de Todelle), mo&ccedil;o
+j&aacute; calvo, de infinitas prendas, que conduzia Cotillons,
+imitava cantores de Caf&eacute; Concerto, temperava saladas raras,
+conhecia todos os enredos de Paris.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--J&aacute; veio?... J&aacute; c&aacute; est&aacute; o
+Gr&atilde;o-Duque?<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+N&atilde;o, S. Alteza ainda n&atilde;o chegara. E Madame de
+Todelle?<br>
+
+
+<br>
+
+
+--N&atilde;o p&ocirc;de... No sof&aacute;... Esfolou uma perna.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Oh!<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Quase nada... Caiu do veloc&iacute;pede!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Jacinto, logo interessado:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Ah! Madame de Todelle anda j&aacute; de veloc&iacute;pede?<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Aprende. Nem tem veloc&iacute;pede!... Agora, na Quaresma,
+&eacute; que se aplicou mais, no veloc&iacute;pede do padre
+Ernesto, do cura de S. Jos&eacute;! Mas ontem, no Bosque,
+z&aacute;s, terra!... Perna esfolada. Aqui.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+E na sua pr&oacute;pria coxa, com a unha, vivamente, desenhou o
+esfol&atilde;o. Efraim, brutal e <span class="pagenum">[77]</span>s&eacute;rio, murmurou:--&laquo;Diabo!
+&eacute; no melhor s&iacute;tio!&raquo; Mas Todelle nem o escutara,
+correndo para o director do <i>Boulevard</i>, que se
+avan&ccedil;ava, lento e barrigudo, com o seu mon&oacute;culo negro
+semelhante a um pacho. Ambos se colaram contra uma estante, num
+cochichar profundo.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Jacinto e eu entr&aacute;mos ent&atilde;o no bilhar, forrado de
+velhos couros de C&oacute;rdova, onde se fumava. Ao canto de um
+div&atilde;, o grande Dornan, o poeta neoplat&oacute;nico e
+m&iacute;stico, o Mestre subtil de todos os ritmos, espapado nas
+almofadas, com um dos p&eacute;s sob a coxa gorda, como um Deus
+&iacute;ndio, dois bot&otilde;es do colete desabotoados, a papeira
+ca&iacute;da sobre o largo decote do colarinho, mamava
+majestosamente um imenso charuto. Ao p&eacute; dele, tamb&eacute;m
+sentado, um velho que eu nunca encontrara no 202, esbelto, de
+cabelos brancos em an&eacute;is passados por tr&aacute;s das
+orelhas, a face coberta de p&oacute; de arroz, um bigodinho muito
+negro e arrebitado, findara certamente alguma hist&oacute;ria de
+bom e grosso sal--porque diante do div&atilde;, de p&eacute;,
+Joban, o supremo Cr&iacute;tico de Teatro, ria com a calva
+escarlate de gozo, e um mo&ccedil;o muito ruivo (descendente de
+Coligny), de perfil de periquito, sacudia os bra&ccedil;os curtos
+como asas, e gania: &laquo;delicioso! divino!&raquo; S&oacute; o
+poeta idealista permanecera impass&iacute;vel, na sua majestade
+obesa. <span class="pagenum">[78]</span>Mas, quando nos
+acerc&aacute;mos, esse Mestre do ritmo perfeito, depois de soprar
+uma farta fumarada e me saudar com um pesado mover das
+p&aacute;lpebras, come&ccedil;ou numa voz de rico e sonoro
+metal:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--H&aacute; melhor, h&aacute; infinitamente melhor... Todos aqui
+conhecem Madame Noredal. Madame Noredal tem umas imensas
+n&aacute;degas...<br>
+
+
+<br>
+
+
+Desgra&ccedil;adamente para o meu regalo Todelle invadiu o bilhar,
+reclamando Jacinto com alarido. Eram as senhoras que desejavam
+ouvir no Fon&oacute;grafo uma &aacute;ria da Patti! O meu amigo
+sacudiu logo os ombros, numa surda irrita&ccedil;&atilde;o:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--&Aacute;ria da Patti... Eu sei l&aacute;! Todos esses rolos
+est&atilde;o em confus&atilde;o. Al&eacute;m disso o
+Fon&oacute;grafo trabalha mal. Nem trabalha! Tenho tr&ecirc;s.
+Nenhum trabalha!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Bem! exclamou alegremente Todelle. Canto eu a <i>Pauvre
+fille</i>... &Eacute; mais de ceia! <i>Oh, la pauv', pauv',
+pauv'</i>...<br>
+
+
+<br>
+
+
+Travou do meu bra&ccedil;o, e arrastou a minha timidez serrana para
+o sal&atilde;o cor de rosa murcha, onde, como Deusas num
+c&iacute;rculo escolhido do Olimpo, resplandeciam Madame d'Oriol,
+Madame Verghane, a princesa de Carman, e uma outra loura, com
+grandes brilhantes nas grandes farripas, e de ombros t&atilde;o
+nus, e bra&ccedil;os t&atilde;o nus, e peitos t&atilde;o nus, que o
+seu vestido <span class="pagenum">[72]</span> branco com bordados
+de ouro p&aacute;lido parecia uma camisa, a escorregar.
+Impressionado, ainda retive Todelle, rugi baixinho:--&laquo;Quem
+
+&eacute;?&raquo; Mas j&aacute; o festivo homem correra para Madame
+d'Oriol, com quem riam, numa familiaridade superior e f&aacute;cil,
+Marizac (o duque de Marizac) e um mo&ccedil;o de barba cor de milho
+e mais leve que uma penugem, que se balou&ccedil;ava gracilmente
+sobre os p&eacute;s, como uma espiga ao vento. E eu, encalhado
+contra o piano, esfregava lentamente as m&atilde;os, amassando o
+meu embara&ccedil;o, quando Madame Verghane se ergueu do
+sof&aacute; onde conversava com um velho (que tinha a
+Gr&atilde;-Cruz de Santo Andr&eacute;), e avan&ccedil;ou, deslizou
+no tapete, pequena e n&eacute;dia, na sua copiosa cauda de veludo
+verde-negro. T&atilde;o fina era a cinta, entre os encontros
+fecundos e a vastid&atilde;o do peito, todo nu e cor de
+n&aacute;car, que eu receava que ela partisse pelo meio, no seu
+lento ondular. Os seus famosos band&oacute;s negros, de um negro
+furioso, inteiramente lhe tapavam as orelhas; e, no grande aro de
+ouro que os circundava, reluzia uma estrela de brilhantes, como na
+fronte dos anjos de Boticelli. Conhecendo sem d&uacute;vida a minha
+autoridade no 202, ela despediu sobre mim ao passar, como raio
+ben&eacute;fico, um sorriso que lhe liquescia mais os olhos
+l&iacute;quidos, e murmurou:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+<span class="pagenum">[80]</span>--O Gr&atilde;o-Duque vem, com
+certeza?<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Oh com certeza, minha senhora, para o peixe!<br>
+
+
+<br>
+
+
+--P'ra o peixe?...<br>
+
+
+<br>
+
+
+Mas justamente, na antec&acirc;mara, rompeu, em rufos e arcadas
+triunfais, a marcha de Rakoczy. Era ele! Na Biblioteca, o nosso
+retumbante mordomo anunciava:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--S. Alteza o Gr&atilde;o-Duque Casimiro!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Madame de Verghane, com um curto suspiro de emo&ccedil;&atilde;o,
+alteou o peito, como para lhe expor melhor a magnific&ecirc;ncia
+eb&uacute;rnea. E o homem do <i>Boulevard</i>, o velho da
+Gr&atilde;-Cruz, Efraim, quase me empurraram, investindo para a
+porta, na imensa sofreguid&atilde;o de Pessoa Real.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Precedido por Jacinto, o Gr&atilde;o-Duque surgiu. Era um possante
+homem, de barba em bico, j&aacute; grisalha, um pouco calvo.
+Durante um momento hesitou, com um balan&ccedil;o lento sobre os
+p&eacute;s pequeninos, cal&ccedil;ados de sapatos rasos, quase
+sumidos sob as pantalonas muito largas. Depois, pesado e risonho,
+veio apertar a m&atilde;o &agrave;s senhoras que mergulhavam nos
+veludos e sedas, em mesuras de Corte. E imediatamente, batendo com
+carinhosa jovialidade no ombro de Jacinto:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--E o peixe?... Preparado pela receita que mandei, hein?<br>
+
+
+<br>
+
+
+<span class="pagenum">[81]</span>Um murm&uacute;rio de Jacinto
+tranquilizou S. Alteza.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Ainda bem, ainda bem! exclamou ele, no seu vozeir&atilde;o de
+comando. Que eu n&atilde;o jantei, absolutamente n&atilde;o jantei!
+&Eacute; que se est&aacute; jantando deploravelmente em casa do
+Joseph. Mas porque se vai jantar ainda ao Joseph? Sempre que chego
+a Paris, pergunto: &laquo;Onde &eacute; que se janta agora?&raquo;
+
+Em casa do Joseph!... Qual! n&atilde;o se janta! Hoje, por exemplo,
+galinholas... Uma peste! N&atilde;o tem, n&atilde;o tem a
+no&ccedil;&atilde;o da galinhola!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Os seus olhos azulados, de um azul sujo, rebrilhavam, alargados
+pela indigna&ccedil;&atilde;o:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Paris est&aacute; perdendo todas as suas superioridades.
+J&aacute; se n&atilde;o janta, em Paris!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Ent&atilde;o, em redor, aqueles senhores concordaram, desolados. O
+conde de Tr&egrave;ves defendeu o Bignon, onde se conservavam
+nobres tradi&ccedil;&otilde;es. E o director do <i>Boulevard</i>,
+que se empurrava todo para S. Alteza, atribu&iacute;a a
+decad&ecirc;ncia da cozinha, em Fran&ccedil;a, &agrave;
+Rep&uacute;blica, ao gosto democr&aacute;tico e torpe pelo
+barato.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--No Paillard, todavia...--come&ccedil;ou o Efraim.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--No Paillard! gritou logo o Gr&atilde;o-Duque. Mas os Borgonhas
+s&atilde;o t&atilde;o maus! os Borgonhas s&atilde;o t&atilde;o
+maus!...<br>
+
+
+<br>
+
+
+<span class="pagenum">[82]</span>Deixara pender os bra&ccedil;os,
+os ombros, descoro&ccedil;oado. Depois, com o seu lento andar
+balan&ccedil;ado como o de um velho piloto, atirando um pouco para
+tr&aacute;s as lapelas da casaca, foi saudar Madame d'Oriol, que
+toda ela faiscou, no sorriso, nos olhos, nas j&oacute;ias, em cada
+prega das suas sedas cor de salm&atilde;o. Mas apenas a clara e
+macia criatura, batendo o leque como uma asa alegre,
+come&ccedil;ara a chalrar, S. Alteza reparou no aparelho do
+Teatrofone, pousado sobre uma mesa entre flores, e chamou
+Jacinto:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Em comunica&ccedil;&atilde;o com o Alcazar?... O Teatrofone?<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Certamente, meu senhor.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Excelente! Muito chic! Ele ficara com pena de n&atilde;o ouvir a
+Gilberte numa can&ccedil;oneta nova, as <i>Casquettes</i>. Onze e
+meia! Era justamente a essa hora que ela cantava, no &uacute;ltimo
+acto da <i>Revista El&eacute;ctrica</i>...--Colou &agrave;s orelhas
+os dois &laquo;receptores&raquo; do Teatrofone, e quedou embebido,
+com uma ruga s&eacute;ria na testa dura. De repente, num comando
+forte:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--&Eacute; ela! Chut! Venham ouvir!... &Eacute; ela! Venham todos!
+Princesa de Carman, para aqui! Todos! &Eacute; ela! Chut...<br>
+
+
+<br>
+
+
+Ent&atilde;o, como Jacinto instalara prodigamente dois Teatrofones,
+cada um provido de doze fios, as senhoras, todos aqueles
+cavalheiros, <span class="pagenum">[83]</span>se apressaram a
+acercar submissamente um receptor do ouvido, e a permanecer
+im&oacute;veis para saborear <i>Les Casquettes</i>. E no
+sal&atilde;o cor de rosa murcha, na nave da Biblioteca, onde se
+espalhara um sil&ecirc;ncio augusto, s&oacute; eu fiquei desligado
+do Teatrofone, com as m&atilde;os nas algibeiras e ocioso.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+No rel&oacute;gio monumental, que marcava a hora de todas as
+Capitais e o movimento de todos os Planetas, o ponteiro rendilhado
+adormeceu. Sobre a mudez e a imobilidade pensativa daqueles dorsos,
+daqueles decotes, a Electricidade refulgia com uma tristeza de sol
+regelado. E de cada orelha atenta, que a m&atilde;o tapava, pendia
+um fio negro, como uma tripa. Dornan, esboroado sobre a mesa,
+cerrara as p&aacute;lpebras, numa medita&ccedil;&atilde;o de monge
+obeso. O historiador dos Duques de Anjou, com o
+&laquo;receptor&raquo; na ponta delicada dos dedos, erguendo o
+nariz agudo e triste, gravemente cumpria um dever palaciano. Madame
+d'Oriol sorria, toda l&acirc;nguida, como se o fio lhe murmurasse
+do&ccedil;uras. Para desentorpecer arrisquei um passo
+t&iacute;mido. Mas caiu logo sobre mim um <i>chut</i> severo do
+Gr&atilde;o-Duque! Recuei para entre as cortinas da janela, a
+abrigar a minha ociosidade. O Fil&oacute;logo da
+
+<i>Coura&ccedil;a</i>, distante da mesa, com o seu comprido fio
+esticado, mordia o bei&ccedil;o, num esfor&ccedil;o de
+penetra&ccedil;&atilde;o. <span class="pagenum">[84]</span>A
+beatitude de S. Alteza, enterrado numa vasta poltrona, era
+perfeita. Ao lado o colo de Madame Verghane arfava como uma onda de
+leite. E o meu pobre Jacinto, numa aplica&ccedil;&atilde;o
+conscienciosa, pendia sobre o Teatrofone t&atilde;o tristemente
+como sobre uma sepultura.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Ent&atilde;o, ante aqueles seres de superior
+civiliza&ccedil;&atilde;o, sorvendo num sil&ecirc;ncio devoto as
+obscenidades que a Gilberte lhes gania, por debaixo do solo de
+Paris, atrav&eacute;s de fios mergulhados nos esgotos, cingidos aos
+canos das fezes,--pensei na minha aldeia adormecida. O crescente de
+lua, que, seguido de uma estrelinha, corria entre nuvens sobre os
+telhados e as chamin&eacute;s negras dos Campos El&iacute;sios,
+tamb&eacute;m andava l&aacute; fugindo, mais lustrosa e mais doce,
+por cima dos pinheirais. As r&atilde;s coaxavam ao longe no Pego da
+Dona. A ermidinha de S. Joaquim branquejava no cabe&ccedil;o,
+nuazinha e c&acirc;ndida...<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Uma das senhoras murmurou:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Mas, n&atilde;o &eacute; a Gilberte!...<br>
+
+
+<br>
+
+
+E um dos homens:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Parece um cornetim...<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Agora s&atilde;o palmas...<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--N&atilde;o, &eacute; o Paulin!<br>
+
+
+<br>
+
+
+O Gr&atilde;o-Duque lan&ccedil;ou um <i>chut</i> feroz... No
+p&aacute;tio da nossa casa ladravam os c&atilde;es. De al&eacute;m
+<span class="pagenum">[85]</span>do ribeiro respondiam os
+c&atilde;es do Jo&atilde;o Saranda. Como me encontrei descendo por
+uma quelha, sob as ramadas, com o meu varapau ao ombro? E sentia,
+entre a seda das cortinas, num fino ar macio, o cheiro das pinhas
+estalando nas lareiras, o calor dos currais atrav&eacute;s das
+sebes altas, e o sussurro dormente das levadas...<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Despertei a um brado que n&atilde;o sa&iacute;a nem dos eidos, nem
+das sombras. Era o Gr&atilde;o-Duque que se erguera, encolhia
+furiosamente os ombros:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--N&atilde;o se ouve nada!... S&oacute; guinchos! E um zumbido! Que
+ma&ccedil;ada!... Pois &eacute; uma beleza, a can&ccedil;oneta:<br>
+
+
+<br>
+
+
+
+<div class="break">Oh les casquettes,<br>
+
+
+Oh les casque-e-e-tes!...</div>
+
+
+<br>
+
+
+Todos largaram os fios--proclamavam a Gilberte deliciosa. E o
+mordomo bendito, abrindo largamente os dois batentes, anunciou:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--<i>Monseigneur est servi</i>!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Na mesa, que pelo esplendor das orqu&iacute;deas mereceu os
+louvores ruidosos de S. Alteza, fiquei entre o et&eacute;reo poeta
+Dornan e aquele mo&ccedil;o de penugem loura que balou&ccedil;ava
+como uma espiga ao vento. Depois de <span class="pagenum">[86]</span> desdobrar o guardanapo, de o acomodar
+regaladamente sobre os joelhos, Dornan desenvencilhou da corrente
+do rel&oacute;gio uma enorme luneta para percorrer o
+
+<i>menu</i>--que aprovou. E inclinando para mim a sua face de
+Ap&oacute;stolo obeso:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Este Porto de 1834, aqui em casa do Jacinto, deve ser
+aut&ecirc;ntico... Hein?<br>
+
+
+<br>
+
+
+Assegurei ao Mestre dos Ritmos que o &laquo;Porto&raquo;
+envelhecera nas adegas cl&aacute;ssicas do av&ocirc; Gale&atilde;o.
+Ele afastou, numa prepara&ccedil;&atilde;o met&oacute;dica, os
+longos, densos fios do bigode que lhe cobriam a boca grossa. Os
+escudeiros serviram um consomm&eacute; frio com trufas. E o
+mo&ccedil;o cor de milho, que espalhara pela mesa o seu olhar azul
+e doce, murmurou, com uma desconsola&ccedil;&atilde;o risonha:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Que pena!... S&oacute; falta aqui um general e um bispo!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Com efeito! Todas as Classes Dominantes comiam nesse momento as
+trufas do meu Jacinto... Mas defronte Madame d'Oriol lan&ccedil;ara
+um riso mais cantado que um gorjeio. O Gr&atilde;o-Duque, numa
+silva de orqu&iacute;deas que orlava o seu talher, notara uma,
+sombriamente horrenda, semelhante a um lacrau esverdinhado, de asas
+lustrosas, gordo e t&uacute;mido de veneno: e muito delicadamente
+ofertara a flor monstruosa a Madame d'Oriol, que, com trinado
+<span class="pagenum">[87]</span>riso, solenemente, a colocou no
+seio. Colado &agrave;quela carne macia, de uma brancura de nata
+fina, o lacrau inchara, mais verde, com as asas frementes. Todos os
+olhos se acendiam, se cravavam no lindo peito, a que a flor
+disforme, de cor venenosa, apimentava o sabor. Ela reluzia,
+triunfava. Para ajeitar melhor a orqu&iacute;dea os seus dedos
+alargaram o decote, aclararam belezas, guiando aquelas curiosidades
+flamejantes que a despiam. A face vincada de Jacinto pendia para o
+prato vazio. E o alto l&iacute;rico do <i>Crep&uacute;sculo
+M&iacute;stico</i>, passando a m&atilde;o pelas barbas, rosnou com
+desd&eacute;m:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Bela mulher... Mas ancas secas, e aposto que n&atilde;o tem
+n&aacute;degas!<br>
+
+
+<br>
+
+
+No entanto o mo&ccedil;o de loura penugem voltara &agrave; sua
+estranha m&aacute;goa. N&atilde;o possuirmos um general com a sua
+espada, e um bispo com seu b&aacute;culo!...<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Para qu&ecirc;, meu caro senhor?<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Ele atirou um gesto suave em que todos os seus an&eacute;is
+faiscaram:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Para uma bomba de dinamite... Temos aqui um espl&ecirc;ndido
+ramalhete de flores de Civiliza&ccedil;&atilde;o, com um
+Gr&atilde;o-Duque no meio. Imagine uma bomba de dinamite, atirada
+da porta!... Que belo fim de ceia, num fim de s&eacute;culo!<br>
+
+
+<br>
+
+
+<span class="pagenum">[88]</span>E como eu o considerava
+assombrado, ele, bebendo golos de Chateau-Yquem, declarou que hoje
+a &uacute;nica emo&ccedil;&atilde;o, verdadeiramente fina, seria
+aniquilar a Civiliza&ccedil;&atilde;o. Nem a ci&ecirc;ncia, nem as
+artes, nem o dinheiro, nem o amor, podiam j&aacute; dar um gosto
+intenso e real &agrave;s nossas almas saciadas. Todo o prazer que
+se extra&iacute;ra de <i>criar</i> estava esgotado. S&oacute;
+
+restava, agora, o divino prazer de <i>destruir</i>!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Desenrolou ainda outras enormidades, com um riso claro nos olhos
+claros. Mas eu n&atilde;o atendia o gentil pedante, colhido por
+outro cuidado--reparando que em torno, subitamente, todo o
+servi&ccedil;o estacara como no conto do Pal&aacute;cio
+Petrificado. E o prato agora devido era o peixe famoso da
+Dalm&aacute;cia, o peixe de S. Alteza, o peixe inspirador da festa!
+Jacinto, nervoso, esmagava entre os dedos uma flor. E todos os
+escudeiros sumidos!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Felizmente o Gr&atilde;o-Duque contava a hist&oacute;ria de uma
+ca&ccedil;ada, nas coutadas de Sarvan, em que uma senhora, mulher
+de um banqueiro, saltara bruscamente do cavalo, num descampado, sem
+&aacute;rvores. Ele e todos os ca&ccedil;adores param--e a galante
+senhora, l&iacute;vida, com a amazona arrega&ccedil;ada, corre para
+tr&aacute;s de uma pedra... Mas nunca soubemos em que se ocupava a
+banqueira, nesse descampado, agachada atr&aacute;s da pedra--porque
+justamente <span class="pagenum">[89]</span>o mordomo apareceu,
+reluzente de suor, e balbuciou uma confid&ecirc;ncia a Jacinto, que
+mordeu o bei&ccedil;o, trespassado. O Gr&atilde;o-Duque emudecera.
+Todos se entreolhavam, numa ansiedade alegre. Ent&atilde;o o meu
+Pr&iacute;ncipe, com paci&ecirc;ncia, com heroicidade,
+for&ccedil;ando palidamente o sorriso:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Meus amigos, h&aacute; uma desgra&ccedil;a...<br>
+
+
+<br>
+
+
+Dornan pulou na cadeira:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Fogo?<br>
+
+
+<br>
+
+
+N&atilde;o, n&atilde;o era fogo. Fora o elevador dos pratos, que
+inesperadamente, ao subir o peixe de S. Alteza, se desarranjara, e
+n&atilde;o se movia, encalhado!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+O Gr&atilde;o-Duque arremessou o guardanapo. Toda a sua polidez
+estalava como um esmalte mal posto:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Essa &eacute; forte!... Pois um peixe que me deu tanto trabalho!
+Para que estamos n&oacute;s aqui ent&atilde;o a cear? Que
+estupidez! E porque o n&atilde;o trouxeram &agrave; m&atilde;o,
+simplesmente? Encalhado... Quero ver! Onde &eacute; a copa?<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+E, furiosamente, investiu para a copa, conduzido pelo mordomo que
+trope&ccedil;ava, vergava os ombros, ante esta esmagadora
+c&oacute;lera de Pr&iacute;ncipe. Jacinto seguiu, como uma sombra,
+levado na rajada de S. Alteza. E eu n&atilde;o me contive,
+tamb&eacute;m me atirei para a copa, a contemplar <span class="pagenum">[90]</span>o desastre, enquanto Dornan, batendo na coxa,
+clamava que se ceasse sem peixe!<br>
+
+
+<br>
+
+
+O Gr&atilde;o-Duque l&aacute; estava, debru&ccedil;ado sobre o
+po&ccedil;o escuro do elevador, onde mergulhara uma vela que lhe
+avermelhava mais a face esbraseada. Espreitei, por sobre o seu
+ombro real. Em baixo, na treva, sobre uma larga prancha, o peixe
+precioso alvejava, deitado na travessa, ainda fumegando, entre
+rodelas de lim&atilde;o. Jacinto, branco como a gravata, torturava
+desesperadamente a mola complicada do ascensor. Depois foi o
+Gr&atilde;o-Duque que, com os pulsos cabeludos, atirou um
+empux&atilde;o tremendo aos cabos em que ele rolava. Debalde! O
+aparelho enrijara numa in&eacute;rcia de bronze eterno.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Sedas ro&ccedil;agaram &agrave; entrada da copa. Era Madame
+d'Oriol, e atr&aacute;s Madame Verghane, com os olhos a faiscar, na
+curiosidade daquele lance em que o Pr&iacute;ncipe soltara tanta
+paix&atilde;o. Marizac, nosso &iacute;ntimo, surgiu tamb&eacute;m,
+risonho, propondo uma descida ao po&ccedil;o com escadas. Depois
+foi o Psic&oacute;logo, que se abeirou, psicologou, atribuindo
+inten&ccedil;&otilde;es sagazes ao peixe que assim se recusava. E a
+cada um o Gr&atilde;o-Duque, escarlate, mostrava com dedo
+tr&aacute;gico, no fundo da cova, o seu peixe! Todos afundavam a
+face, murmuravam: &laquo;l&aacute; est&aacute;!&raquo; Todelle, na
+sua precipita&ccedil;&atilde;o, quase se <span class="pagenum">[91]</span>despenhou. O periquito descendente de Coligny
+batia as asas, ganindo:--&laquo;Que cheiro ele deita, que
+del&iacute;cia!&raquo; Na copa atulhada os decotes das senhoras
+ro&ccedil;avam a farda dos lacaios. O velho caiado de p&oacute; de
+arroz meteu o p&eacute; num balde de gelo, com um berro ferino. E o
+Historiador dos Duques de Anjou movia por cima de todos o seu nariz
+bicudo e triste.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+De repente, Todelle teve uma ideia!<br>
+
+
+<br>
+
+
+--&Eacute; muito simples... &Eacute; pescar o peixe!<br>
+
+
+<br>
+
+
+O Gr&atilde;o-Duque bateu na coxa uma palmada triunfal. Est&aacute;
+claro! Pescar o peixe! E no gozo daquela fac&eacute;cia, t&atilde;o
+rara e t&atilde;o nova, toda a sua c&oacute;lera se sumira, de novo
+se tornara o Pr&iacute;ncipe am&aacute;vel, de magn&iacute;fica
+polidez, desejando que as senhoras se sentassem para assistir
+
+&agrave; pesca miraculosa! Ele mesmo seria o pescador! Nem se
+necessitava, para a divertida fa&ccedil;anha, mais que uma bengala,
+uma guita e um gancho. Imediatamente Madame d'Oriol, excitada,
+ofereceu um dos seus ganchos. Apinhados em volta dela, sentindo o
+seu perfume, o calor da sua pele, todos exalt&aacute;mos a
+amor&aacute;vel dedica&ccedil;&atilde;o. E o Psic&oacute;logo
+proclamou que nunca se pescara com t&atilde;o divino anzol!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Quando dois escudeiros estonteados voltaram, trazendo uma bengala e
+um cordel, j&aacute; o Gr&atilde;o-Duque, radiante, vergara o
+gancho em <span class="pagenum">[92]</span>anzol. Jacinto, com uma
+paci&ecirc;ncia l&iacute;vida, erguia uma l&acirc;mpada sobre a
+escurid&atilde;o do po&ccedil;o fundo. E os senhores mais graves, o
+Historiador, o director do _Boulevard_, o Conde de Tr&egrave;ves, o
+homem de cabe&ccedil;a &agrave; Van-Dick, sorriam, amontoados
+
+&agrave; porta, num interesse reverente pela fantasia de S. Alteza.
+Madame de Tr&egrave;ves, essa, examinava serenamente, com a sua
+nobre luneta, a instala&ccedil;&atilde;o da copa. S&oacute; Dornan
+n&atilde;o se erguera da mesa, com os punhos cerrados sobre a
+toalha, o gordo pesco&ccedil;o encovado, no t&eacute;dio sombrio de
+fera a quem arrancaram a posta.<br>
+
+
+<br>
+
+
+No entanto S. Alteza pescava com fervor! Mas debalde! O gancho,
+pouco agudo, sem presa, bamboleando na extremidade da guita frouxa,
+n&atilde;o fisgava.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Oh Jacinto, erga essa luz! gritava ele, inchado e suado. Mais!...
+Agora! Agora! &Eacute; na guelra! S&oacute; na guelra &eacute; que
+o gancho o pode prender. Agora... Qual! Que diabo! N&atilde;o
+vai!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Tirou a face do po&ccedil;o, resfolgando e afrontado. N&atilde;o
+era poss&iacute;vel! S&oacute; carpinteiros, com alavancas!... E
+todos, ansiosamente, brad&aacute;mos que se abandonasse o
+peixe!<br>
+
+
+<br>
+
+
+O Pr&iacute;ncipe, risonho, sacudindo as m&atilde;os, concordava
+que por fim &laquo;fora mais divertido pesc&aacute;-lo do que
+com&ecirc;-lo!&raquo; E o elegante bando <span class="pagenum">[93]</span>refluiu sofregamente para a mesa, ao som de
+uma valsa de Strauss, que os Tziganes arremessaram em arcadas de
+l&acirc;nguido ardor. S&oacute; Madame de Tr&egrave;ves se demorou
+ainda, retendo o meu pobre Jacinto, para lhe assegurar quanto
+admirava o arranjo da sua copa... Oh perfeita! Que
+compreens&atilde;o da vida, que fina intelig&ecirc;ncia do
+conforto!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+S. Alteza, encalmado pelo esfor&ccedil;o, esvaziou poderosamente
+dois copos de Chateau-Lagrange. Todos o aclamavam como um pescador
+genial. E os escudeiros serviram o _Bar&atilde;o de Pauillac_,
+cordeiro das lez&iacute;rias marinhas, que, preparado com ritos
+quase sagrados, toma este grande nome sonoro e entra no
+Nobili&aacute;rio de Fran&ccedil;a.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Eu comi com o apetite de um her&oacute;i de Homero. Sobre o meu
+copo e o de Dornan o Champanhe cintilou e jorrou
+ininterrompidamente como uma fonte de Inverno. Quando se serviram
+ortolans gelados, que se derretiam na boca, o divino poeta
+murmurou, para meu regalo, o seu soneto sublime a &laquo;Santa
+Clara&raquo;. E como, do outro lado, o mo&ccedil;o de penugem loura
+insistia pela destrui&ccedil;&atilde;o do velho mundo,
+tamb&eacute;m concordei, e, sorvendo o Champanhe coalhado em
+sorvete, maldissemos o S&eacute;culo, a Civiliza&ccedil;&atilde;o,
+todos os orgulhos da Ci&ecirc;ncia! Atrav&eacute;s das flores e das
+luzes, <span class="pagenum">[94]</span>no entanto, eu seguia as
+ondas arfantes do vasto peito de Madame Verghane, que ria como uma
+bacante. E nem me apiedava de Jacinto que, com a do&ccedil;ura de
+S. Jacinto sobre o cepo, esperava o fim do seu mart&iacute;rio e da
+sua festa.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Ela findou. Ainda recordo, &agrave;s tr&ecirc;s horas da noite, o
+Gr&atilde;o-Duque na antec&acirc;mara, muito vermelho, mal firme
+nos p&eacute;s pequeninos, sem acertar com as mangas da
+peli&ccedil;a que Jacinto e eu lhe ajud&aacute;mos a
+enfiar--convidando o meu amigo, numa efus&atilde;o carinhosa, a ir
+ca&ccedil;ar &agrave;s suas terras da Dalm&aacute;cia...<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Devo ao meu Jacinto uma bela pesca, quero que ele me deva uma
+bela ca&ccedil;ada!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+E enquanto o acompanh&aacute;vamos, entre as alas dos escudeiros,
+pela vasta escada onde o mordomo o precedia erguendo um candelabro
+de tr&ecirc;s lumes, S. Alteza repisava, pegajoso:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Uma bela ca&ccedil;ada... E tamb&eacute;m vai Fernandes! Bom
+Fernandes, Z&eacute; Fernandes! Ceia superior, meu Jacinto! O
+_Bar&atilde;o de Pauillac_, divino!... Creio que o devemos nomear
+Duque... O Senhor Duque de Pauillac! Mais um bocado da perna do
+Senhor Duque de Pauillac. Ah! Ah!... N&atilde;o venham fora!
+N&atilde;o se constipem!<br>
+
+
+<br>
+
+
+<span class="pagenum">[95]</span>E do fundo do coup&eacute;, ao
+rodar, ainda bradou:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--O peixe, Jacinto, desencalha o peixe! Excelente, ao
+almo&ccedil;o, frio, com molho verde!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Trepando cansadamente os degraus, numa moleza de Champanhe e sono
+em que os olhos se me cerravam, murmurei para o meu
+Pr&iacute;ncipe:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Foi divertido, Jacinto! Sumptuosa mulher, a Verghane! Grande
+pena, o elevador...<br>
+
+
+<br>
+
+
+E Jacinto, num som cavo que era bocejo e rugido:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Uma ma&ccedil;ada! E tudo falha!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+<div class="break">
+<hr></div>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+Tr&ecirc;s dias depois desta festa no 202 recebeu o meu
+Pr&iacute;ncipe inesperadamente, de Portugal, uma nova
+consider&aacute;vel. Sobre a sua quinta e solar de Tormes, por toda
+a serra, passara uma tormenta devastadora de vento, corisco e
+&aacute;gua. Com as grossas chuvas, &laquo;ou por outras causas que
+os peritos dir&atilde;o&raquo; (como exclamava na sua carta
+angustiada o procurador Silv&eacute;rio), um peda&ccedil;o de
+monte, que se avan&ccedil;ava em socalco sobre o vale da
+Carri&ccedil;a, desabara, arrastando a velha igreja, uma igrejinha
+r&uacute;stica do s&eacute;culo XVI, onde jaziam sepultados os
+av&oacute;s de Jacinto desde os tempos de el-rei D. Manuel. Os
+ossos vener&aacute;veis <span class="pagenum">[96]</span>desses
+Jacintos jaziam agora soterrados sob um mont&atilde;o informe de
+terra e pedra. O Silv&eacute;rio j&aacute; come&ccedil;ara com os
+mo&ccedil;os da quinta a desatulhar dos &laquo;preciosos
+restos&raquo;. Mas esperava ansiosamente as ordens de sua
+exc.&ordf;...<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Jacinto empalidecera, impressionado. Esse velho solo serrano,
+t&atilde;o rijo e firme desde os Godos, que de repente ru&iacute;a!
+Esses jazigos de paz piedosa, precipitados com fragor, na borrasca
+e na treva, para um negro fundo de vale! Essas ossadas, que todas
+conservavam um nome, uma data, uma hist&oacute;ria, confundidas num
+lixo de ru&iacute;na!<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Coisa estranha, coisa estranha!...<br>
+
+
+<br>
+
+
+E toda a noite me interrogou acerca da serra e de Tormes, que eu
+conhecia desde pequeno, por que o velho solar, com a sua nobre
+alameda de faias seculares, se erguia a duas l&eacute;guas da nossa
+casa, no antigo caminho de Gui&atilde;es &agrave;
+esta&ccedil;&atilde;o e ao rio. O caseiro de Tormes, o bom
+Melchior, era cunhado do nosso feitor da Roqueirinha:--e muitas
+vezes, depois da minha intimidade com Jacinto, eu entrara no
+robusto casar&atilde;o de granito, e avaliara o gr&atilde;o
+espalhado pelas salas sonoras, e provara o vinho novo nas adegas
+imensas...<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--E a igreja, Z&eacute; Fernandes?... Entraste na igreja?<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Nunca... Mas era pitoresca, com uma <span class="pagenum">[97]</span>torrezinha quadrada, toda negra, onde
+h&aacute; muitos anos vivia uma fam&iacute;lia de cegonhas...
+Terr&iacute;vel transtorno para as cegonhas!<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Coisa estranha! murmurava ainda o meu Pr&iacute;ncipe,
+agourado.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+E telegrafou ao Silv&eacute;rio que desatulhasse o vale, recolhesse
+as ossadas, reedificasse a Igreja, e, para esta obra de piedade e
+rever&ecirc;ncia, gastasse o dinheiro, sem contar, como a
+&aacute;gua de um rio largo.<br>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+<h2>V</h2>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+No entanto Jacinto, desesperado com tantos desastres
+humilhadores--as torneiras que dessoldavam, os elevadores que
+emperravam, o Vapor que se encolhia, a Electricidade que se sumia,
+decidiu valorosamente vencer as resist&ecirc;ncias finais da
+Mat&eacute;ria e da For&ccedil;a por novas e mais poderosas
+acumula&ccedil;&otilde;es de Mecanismos. E nessas semanas de Abril,
+enquanto as rosas desabrochavam, a nossa agitada casa, entre
+aquelas quietas casas dos Campos El&iacute;sios que
+pregui&ccedil;avam ao sol, incessantemente tremeu, envolta num
+p&oacute; de cali&ccedil;a e de empreitada, com o bruto picar de
+pedra, o retininte martelar de ferro. Nos silenciosos corredores,
+onde me era doce fumar antes do almo&ccedil;o um pensativo cigarro,
+circulavam agora, desde madrugada, ranchos de oper&aacute;rios, de
+blusas brancas, assobiando o <i>Petit-Bleu</i>, e intimidando os
+meus passos <span class="pagenum">[100]</span>quando eu atravessava
+em fralda e chinelas para o banho ou para outros retiros. Apenas se
+varava com per&iacute;cia algum andaime obstruindo as portas--logo
+se esbarrava com uma pilha de t&aacute;buas, uma seira de
+ferramentas ou um balde enorme de argamassa. E os peda&ccedil;os de
+soalho levantado mostravam tristemente, como num cad&aacute;ver
+aberto, todos os interiores do 202, a ossatura, os sens&iacute;veis
+nervos de arame, os negros intestinos de ferro fundido.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Cada dia estacava diante do port&atilde;o alguma lenta
+carro&ccedil;a, donde os criados, em mangas de camisa,
+descarregavam caixotes de madeira, fardos de lona, que se
+despregavam e se descosiam numa sala asfaltada, ao fundo do jardim,
+por tr&aacute;s da sebe de lilases. E eu descia, reclamado pelo meu
+Pr&iacute;ncipe, para admirar uma nova M&aacute;quina que nos
+tornaria a vida mais f&aacute;cil, estabelecendo de um modo mais
+seguro o nosso dom&iacute;nio sobre a Subst&acirc;ncia. Durante os
+calores, que apertaram depois da Ascens&atilde;o, ensai&aacute;mos
+esperan&ccedil;adamente, para refrescar as &aacute;guas minerais, a
+Soda-Water e os Medocs ligeiros, tr&ecirc;s geleiras, que se
+amontoaram na copa sucessivamente desprestigiadas. Com os morangos
+novos apareceu um instrumentozinho astuto, para lhes arrancar os
+p&eacute;s, delicadamente. <span class="pagenum">[101]</span>Depois
+recebemos outro, prodigioso, de prata e cristal, para remexer
+freneticamente as saladas; e, na primeira vez que o experimentei,
+todo o vinagre esparrinhou sobre os olhos do meu Pr&iacute;ncipe,
+que fugiu aos uivos! Mas ele teimava... Nos actos mais elementares,
+para aliviar ou apressar o esfor&ccedil;o, se socorria Jacinto da
+Din&acirc;mica. E agora era por interven&ccedil;&atilde;o de uma
+M&aacute;quina que abotoava as ceroulas.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+E simultaneamente, ou em obedi&ecirc;ncia &agrave; sua Ideia, ou
+governado pelo despotismo do h&aacute;bito, n&atilde;o cessava, ao
+lado da Mec&acirc;nica acumulada, de acumular
+Erudi&ccedil;&atilde;o. Oh, a invas&atilde;o dos livros no 202!
+Solit&aacute;rios, aos pares, em pacotes, dentro de caixas,
+franzinos, gordos e repletos de autoridade, envoltos em plebeia
+capa amarela ou revestidos de marroquim e ouro, perpetuamente,
+torrencialmente, invadiam por todas as largas portas a Biblioteca,
+onde se estiravam sobre o tapete, se repimpavam nas cadeiras
+macias, se entronizavam em cima das mesas robustas, e sobretudo
+trepavam contra as janelas, em s&ocirc;fregas pilhas, como se,
+sufocados pela sua pr&oacute;pria multid&atilde;o, procurassem com
+&acirc;nsia espa&ccedil;o e ar! Na erudita nave, onde apenas alguns
+vidros mais altos restavam descobertos, sem tapume de livros,
+perenemente se adensava um pensativo <span class="pagenum">[102]</span>crep&uacute;sculo de Outono enquanto fora
+Junho refulgia. A Biblioteca transbordara atrav&eacute;s de todo o
+202! N&atilde;o se abria um arm&aacute;rio sem que de dentro se
+despenhasse, desamparada, uma pilha de livros! N&atilde;o se
+franzia uma cortina sem que de tr&aacute;s surgisse, hirta, uma
+ruma de livros! E imensa foi a minha indigna&ccedil;&atilde;o
+quando uma manh&atilde;, correndo urgentemente, de m&atilde;os nas
+al&ccedil;as, encontrei, vedada por uma tremenda
+colec&ccedil;&atilde;o de Estudos Sociais, a porta do
+Water-Closet!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Mais amargamente por&eacute;m me lembro da noite hist&oacute;rica
+em que, no meu quarto, mo&iacute;do e mole de um passeio a
+Versalhes, com as p&aacute;lpebras poeirentas e meio adormecidas,
+tive de desalojar do meu leito, praguejando, um pavoroso
+Dicion&aacute;rio de Ind&uacute;stria em trinta e sete volumes!
+Senti ent&atilde;o a suprema fartura do livro. Ajeitando, com
+murros, os travesseiros, maldisse a Imprensa, a Fac&uacute;ndia
+humana... E j&aacute; me estirara, adormecia, quando topei, quase
+parti a preciosa r&oacute;tula do joelho, contra a lombada de um
+tomo que velhacamente se aninhara entre a parede e os
+colch&otilde;es. Com furor e um berro empolguei, arremessei o tomo
+afrontoso--que entornou o jarro, inundou um tapete rico de
+Daghestan. E nem sei se depois adormeci--porque os meus p&eacute;s,
+a que n&atilde;o sentia nem o pisar nem <span class="pagenum">[103]</span>o rumor, como se um vento brando me levasse,
+continuaram a trope&ccedil;ar em livros no corredor apagado, depois
+na areia do jardim que o luar branqueava, depois na Avenida dos
+Campos El&iacute;sios, povoada e ruidosa como numa festa
+c&iacute;vica. E, oh portento! todas as casas aos lados eram
+constru&iacute;das com livros. Nos ramos dos castanheiros
+ramalhavam folhas de livros. E os homens, as finas damas, vestidos
+de papel impresso, com t&iacute;tulos nos dorsos, mostravam em vez
+de rosto um livro aberto, a que a brisa lenta virava docemente as
+folhas. Ao fundo, na Pra&ccedil;a da Conc&oacute;rdia, avistei uma
+escarpada montanha de livros, a que tentei trepar, arquejante, ora
+enterrando a perna em fl&aacute;cidas camadas de versos, ora
+batendo contra a lombada, dura como calhau, de tomos de Exegese e
+Cr&iacute;tica. A t&atilde;o vastas alturas subi, para al&eacute;m
+da terra, para al&eacute;m das nuvens, que me encontrei,
+maravilhado, entre os astros. Eles rolavam serenamente, enormes e
+mudos, recobertos por espessas crostas de livros, donde surdia,
+aqui e al&eacute;m, por alguma fenda, entre dois volumes mal
+juntos, um raiozinho de luz sufocada e ansiada. E assim ascendi ao
+Para&iacute;so. Decerto era o Para&iacute;so--porque com meus olhos
+de mortal argila avistei o Anci&atilde;o da Eternidade, aquele que
+n&atilde;o tem Manh&atilde; nem Tarde. Numa claridade que dele
+irradiava <span class="pagenum">[104]</span>mais clara que todas as
+claridades, entre fundas estantes de ouro abarrotadas de
+c&oacute;dices, sentado em vetust&iacute;ssimos f&oacute;lios, com
+os flocos das infinitas barbas espalhados por sobre resmas de
+folhetos, brochuras, gazetas e cat&aacute;logos--o Alt&iacute;ssimo
+lia. A fronte superdivina que concebera o Mundo pousava sobre a
+m&atilde;o superforte que o Mundo criara--e o Criador lia e sorria.
+Ousei, arrepiado de sagrado horror, espreitar por cima do seu ombro
+coruscante. O livro era brochado, de tr&ecirc;s francos... O Eterno
+lia Voltaire, numa edi&ccedil;&atilde;o barata, e sorria.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Uma porta faiscou e rangeu, como se algu&eacute;m penetrasse no
+Para&iacute;so. Pensei que um Santo novo chegara da Terra. Era
+Jacinto, com o charuto em brasa, um molho de cravos na lapela,
+sobra&ccedil;ando tr&ecirc;s livros amarelos que a Princesa de
+Carman lhe emprestara para ler!<br>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+<div class="break">
+<hr></div>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+Numa dessas activas semanas, por&eacute;m, a minha
+aten&ccedil;&atilde;o subitamente se despegou deste interessante
+Jacinto. H&oacute;spede do 202, conservava no 202 a minha mala e a
+minha roupa: e, acostado &agrave; bandeira do meu Pr&iacute;ncipe,
+ainda ocasionalmente comia do seu caldeir&atilde;o sumptuoso. Mas a
+minha alma, a minha embrutecida <span class="pagenum">[105]</span>alma, e o meu corpo, o meu embrutecido corpo,
+habitavam ent&atilde;o na rua do H&eacute;lder, n.^o 16, quarto
+andar, porta &agrave; esquerda.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Descia eu uma tarde, numa leda paz de ideias e
+sensa&ccedil;&otilde;es, o Boulevard da Madalena, quando avistei,
+diante da Esta&ccedil;&atilde;o dos &Oacute;nibus, rondando no
+asfalto, num passo lento e felino, uma criatura seca, muito morena,
+quase tisnada, com dois fundos olhos taciturnos e tristes, e uma
+mata de cabelos amarelados, toda crespa e rebelde, sob o
+chap&eacute;u velho de plumas negras. Parei, como colhido por um
+repux&atilde;o nas entranhas. A criatura passou--no seu magro
+rondar de gata negra, sobre um beiral de telhado, ao luar de
+Janeiro. Dois po&ccedil;os fundos n&atilde;o luzem mais negra e
+taciturnamente do que luziam os seus olhos taciturnos e negros.
+N&atilde;o recordo (Deus louvado!) como rocei o seu vestido de
+seda, lustroso e ensebado nas pregas; nem como lhe rosnei uma
+s&uacute;plica por entre os dentes que rangiam; nem como subimos
+ambos, morosamente e mais silenciosos que condenados, para um
+gabinete do Caf&eacute; Durand, safado e morno. Diante do espelho,
+a criatura, com a lentid&atilde;o de um rito triste, tirou o
+chap&eacute;u e a romeira salpicada de vidrilhos. A seda
+pu&iacute;da do corpete esgar&ccedil;ava nos cotovelos agudos. E os
+seus cabelos eram imensos, de uma <span class="pagenum">[106]</span>dureza e espessura de juba brava, em dois
+tons amarelos, uns mais dourados, outros mais crestados, como a
+c&ocirc;dea de uma torta ao sair quente do forno.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Com um riso tr&eacute;mulo, agarrei os seus dedos compridos e
+frios:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--E o nomezinho, hein?<br>
+
+
+<br>
+
+
+Ela s&eacute;ria, quase grave:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Madame Colombe, 16, rua do H&eacute;lder, quarto andar, porta
+&agrave; esquerda.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+E eu (miser&aacute;vel Z&eacute; Fernandes!) tamb&eacute;m me senti
+muito s&eacute;rio, trespassado por uma emo&ccedil;&atilde;o grave,
+como se nos envolvesse, naquela alcova de Caf&eacute;, a majestade
+de um Sacramento. &Agrave; porta, empurrada levemente, o criado
+avan&ccedil;ou a face n&eacute;dia. Ordenei uma lagosta, pato com
+piment&otilde;es, e Borgonha. E foi somente ao findarmos o pato que
+me ergui, amarfanhando convulsamente o guardanapo, e a tremer lhe
+beijei a boca, todo a tremer, num beijo profundo e terr&iacute;vel,
+em que deixei a alma, entre saliva e gosto de piment&atilde;o!
+Depois, numa tip&oacute;ia aberta, sob um bafo mole de leste e de
+trovoada, subimos a Avenida dos Campos El&iacute;sios. Em frente
+
+&agrave; grade do 202 murmurei, para a deslumbrar com o meu
+luxo:--&laquo;Moro ali, todo o ano!...&raquo; E como ao mirar o
+Palacete, debru&ccedil;ada, ela ro&ccedil;ara a mata fulva do
+p&ecirc;lo crespo pela minha barba--berrei<span class="pagenum">[107]</span> desesperadamente ao cocheiro; que galopasse
+para a rua do H&eacute;lder, n.&ordm; 16, quarto andar, porta
+&agrave; esquerda!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Amei aquela criatura. Amei aquela criatura com Amor, com todos os
+Amores que est&atilde;o no Amor, o Amor divino, o Amor humano, o
+Amor bestial, como Santo Antonino amava a Virgem, como Romeu amava
+Julieta, como um bode ama uma cabra. Era est&uacute;pida, era
+triste. Eu deliciosamente apagava a minha alegria na cinza da sua
+tristeza; e com inef&aacute;vel gosto afundava a minha raz&atilde;o
+na densidade da sua estupidez. Durante sete furiosas semanas perdi
+a consci&ecirc;ncia da minha personalidade de Z&eacute;
+Fernandes--Fernandes de Noronha e Sande, de Gui&atilde;es! Ora se
+me afigurava ser um peda&ccedil;o de cera que se derretia, com
+horrenda del&iacute;cia, num forno rubro e rugidor: ora me parecia
+ser uma faminta fogueira onde flamejava, estalava e se consumia um
+molho de galhos secos. Desses dias de sublime sordidez s&oacute;
+conservo a impress&atilde;o de uma alcova forrada de cretones
+sujos, de uma bata de l&atilde; cor de lil&aacute;s com sotaches
+negros, de vagas garrafas de cerveja no m&aacute;rmore de um
+lavat&oacute;rio, e de um corpo tisnado que rangia e tinha cabelos
+no peito. E tamb&eacute;m me resta a sensa&ccedil;&atilde;o de
+incessantemente e com arroubado deleite me despojar, arremessar
+
+<span class="pagenum">[108]</span>para um rega&ccedil;o, que se
+cavava entre um ventre sumido e uns joelhos agudos, o meu
+rel&oacute;gio, os meus berloques, os meus an&eacute;is, os meus
+bot&otilde;es de punho de safira, e as cento e noventa e sete
+libras em ouro que eu trouxera de Gui&atilde;es numa cinta de
+camur&ccedil;a. Do s&oacute;lido, decoroso, bem fornecido Z&eacute;
+Fernandes, s&oacute; restava uma carca&ccedil;a errando
+atrav&eacute;s de um sonho, com as g&acirc;mbias moles e a baba a
+escorrer.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Depois, uma tarde, trepando com a costumada gula a escada da rua do
+H&eacute;lder, encontrei a porta fechada--e arrancado da ombreira
+aquele cart&atilde;o de <i>Madame Colombe</i> que eu lia sempre
+t&atilde;o devotamente e que era a sua tabuleta... Tudo no meu ser
+tremeu como se o ch&atilde;o de Paris tremesse! Aquela era a porta
+do Mundo que ante mim se fechara! Para al&eacute;m estavam as
+gentes, as cidades, a vida, Deus e Ela. E eu ficara sozinho,
+naquele patamar do N&atilde;o-Ser, fora da porta que se fechara,
+&uacute;nico ser fora do Mundo! Rolei pelos degraus, com o fragor e
+a incoer&ecirc;ncia de uma pedra, at&eacute; ao cub&iacute;culo da
+porteira e do seu homem que jogavam as cartas em ditosa pachorra,
+como se t&atilde;o pavoroso abalo n&atilde;o tivesse desmantelado o
+Universo!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Madame Colombe?<br>
+
+
+<br>
+
+
+A barbuda comadre recolheu lentamente a vaza:<br>
+
+
+<br>
+
+
+<span class="pagenum">[109]</span>--J&aacute; n&atilde;o mora...
+Abalou esta manh&atilde;, para outra terra, com outra porca!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Para outra terra! com outra porca!... Vazio, negramente vazio de
+todo o pensar, de todo o sentir, de todo o querer--boiei aos
+tombos, como um tonel vazio, na corrente a&ccedil;odada do
+Boulevard, at&eacute; que encalhei num banco da Pra&ccedil;a da
+Madalena, onde tapei com as m&atilde;os, a que n&atilde;o sentia a
+febre, os olhos a que n&atilde;o sentia o pranto! Tarde, muito
+tarde, quando j&aacute; se cerravam com estrondo as cortinas de
+ferro das lojas, surdiu, dentre todas estas confusas ru&iacute;nas
+do meu ser, a eterna sobrevivente de todas as ru&iacute;nas--a
+ideia de jantar. Penetrei no Durand, com os passos entorpecidos de
+um ressuscitado. E, numa recorda&ccedil;&atilde;o que me escaldava
+a alma, encomendei a lagosta, o pato, o Borgonha! Mas ao alargar o
+colarinho, ensopado pelo ardor daquela tarde de Julho, entre a
+poeira da Madalena, pensei com
+desconforto:--&laquo;Sant&iacute;ssimo Nome de Deus! Que imensa
+sede me fez esta desgra&ccedil;a!...&raquo; De manso acenei ao
+mo&ccedil;o:--&laquo;Antes do Borgonha, uma garrafa de Champanhe,
+com muito gelo, e um grande copo!...&raquo; Creio que aquele
+Champanhe se engarrafara no C&eacute;u onde corre perenemente a
+fresca fonte da Consola&ccedil;&atilde;o, e que na garrafa bendita
+que me coube penetrara, antes de arrolhada, <span class="pagenum">[110</span>um jorro largo dessa fonte inef&aacute;vel.
+Jesus! que transcendente regalo, o daquele nobre copo, embaciado,
+nevado, a espumar, a picar, num brilho de ouro! E depois, garrafa
+de Borgonha! E depois, garrafa de Cognac! E depois
+Hortel&atilde;-Pimenta granitada em gelo! E depois um desejo
+arquejante de espancar, com o meu rijo marmeleiro de Gui&atilde;es,
+a porca que fugira com outra porca! Dentro da tip&oacute;ia
+fechada, que me transportou num galope ao 202, n&atilde;o sufoquei
+este santo impulso, e com os meus punhos serranos atirei murros
+retumbantes contra as almofadas, onde <i>via</i>, furiosamente
+
+<i>via</i> a mata imensa de p&ecirc;lo amarelo, em que a minha alma
+uma tarde se perdera, e tr&ecirc;s meses se debatera, e para sempre
+se emporcalhara! Quando o fiacre estacou no 202 ainda eu espancava
+t&atilde;o desesperadamente a besta ingrata, que, aos berros do
+cocheiro, dois mo&ccedil;os acudiram e me sustiveram, recebendo
+pelos ombros, sobre as nucas servis, os restos cansados da minha
+c&oacute;lera.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Em cima, repeli a solicitude do Grilo que tentava impor ao
+<i>si&ocirc;</i> Z&eacute; Fernandes, a Z&eacute; Fernandes de
+Gui&atilde;es, a imensa indignidade de um ch&aacute; de macela! E
+estirado no leito de D. Gale&atilde;o, com as botas sobre o
+travesseiro, o chap&eacute;u alto sobre os olhos, ri, num doloroso
+
+<span class="pagenum">[111]</span>riso, deste Mundo burlesco e
+s&oacute;rdido de Jacintos e de Colombes! E de repente senti uma
+ang&uacute;stia horrenda. Era Ela! Era a Madame Colombe, que
+esfuziara da chama da vela, e saltara sobre o meu leito, e
+desabotoara o meu colete, e arrombara as minhas costelas, e toda
+ela, com as saias sujas, mergulhara dentro do meu peito, e abocara
+o meu cora&ccedil;&atilde;o, e chupava a sorvos lentos, como na rua
+do H&eacute;lder, o sangue do meu cora&ccedil;&atilde;o!
+Ent&atilde;o, certo da Morte, ganindo pela tia Vic&ecirc;ncia,
+pendi do leito para mergulhar na minha sepultura, que,
+atrav&eacute;s da n&eacute;voa final, eu distinguia sobre o
+tapete--redondinha, vidrada, de porcelana e com asa. E, sobre a
+minha sepultura, que t&atilde;o irreverentemente se assemelhava ao
+meu vaso, vomitei o Borgonha, vomitei o pato, vomitei a lagosta.
+Depois, num esfor&ccedil;o ultrahumano, com um rugido, sentindo
+que, n&atilde;o somente toda a entranha, mas a alma se esvaziava
+toda, vomitei Madame Colombe! Reca&iacute; sobre o leito de D.
+Gale&atilde;o... Recarreguei o chap&eacute;u sobre os olhos para
+n&atilde;o sentir os raios do sol. Era um sol novo, um sol
+espiritual, que se erguia sobre a minha vida. E adormeci, como uma
+criancinha docemente embalada num ber&ccedil;o de verga pelo Anjo
+da Guarda.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+De manh&atilde;, lavei a pele num banho profundo, perfumado com
+todos os aromas do <span class="pagenum">[112]</span>202, desde
+folhas de limonete da &Iacute;ndia at&eacute; ess&ecirc;ncia de
+jasmim de Fran&ccedil;a: e lavei a alma com uma rica carta da Tia
+Vic&ecirc;ncia, em letra farta, contando da nossa casa, e da linda
+promessa das vinhas, e da compota de ginja que nunca lhe
+sa&iacute;ra t&atilde;o fina, e da alegre fogueira do p&aacute;tio
+em noite de S. Jo&atilde;o, e da menininha muito gorda e cabeluda
+que viera do c&eacute;u para a minha afilhada Joaninha. Depois,
+&agrave; janela, bem limpo de alma e de corpo, numa quinzena de
+sedinha branca, tomando ch&aacute; de Na&iuml;p&ograve;, respirando
+os rosais do jardim revividos pela chuva da madrugada, considerei,
+em divertido pasmo, que, durante sete semanas, me emporcalhara, na
+rua do H&eacute;lder, com um estardalho muito magro e muito
+tisnado! E conclui que padecera de uma longa sez&atilde;o,
+sez&atilde;o da carne, sez&atilde;o da imagina&ccedil;&atilde;o,
+apanhada num charco de Paris--nesses charcos que se formam
+atrav&eacute;s da Cidade com as &aacute;guas mortas, os limos, os
+lixos, os tortulhos e os vermes de uma Civiliza&ccedil;&atilde;o
+que apodrece.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+<div class="break">
+<hr></div>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+Ent&atilde;o, curado, todo o meu esp&iacute;rito, como uma agulha
+para o Norte, se virou logo para o meu complicado Pr&iacute;ncipe,
+que, nas derradeiras semanas da minha infec&ccedil;&atilde;o
+sentimental, eu entrevira sempre desca&iacute;do por cima
+<span class="pagenum">[113]</span>de sof&aacute;s, ou vagueando
+atrav&eacute;s da Biblioteca entre os seus trinta mil volumes, com
+arrastados bocejos de in&eacute;rcia e de vacuidade. Eu, na minha
+pressa indigna, s&oacute; lhe lan&ccedil;ava um
+distra&iacute;do--&laquo;que &eacute; isso?&raquo; Ele, no seu
+moroso desalento, s&oacute; murmurava um seco--&laquo;&eacute;
+
+calor!&raquo;<br>
+
+
+<br>
+
+
+E, nessa manh&atilde; da minha liberta&ccedil;&atilde;o, ao
+penetrar antes de almo&ccedil;o no seu quarto, no sof&aacute; o
+encontrei enterrado, com o <i>Figaro</i> aberto sobre a barriga, a
+Agenda ca&iacute;da sobre o tapete, toda a face envolta em sombra,
+e os p&eacute;s abandonados, numa soberana tristeza, ao pedicuro
+que lhe polia as unhas. Decerto o meu olhar realumiado e
+repurificado, a brancura das minhas flanelas reproduzindo a
+quieta&ccedil;&atilde;o das minhas sensa&ccedil;&otilde;es, e a
+segura harmonia em que todo o meu ser visivelmente se movia,
+impressionaram o meu Pr&iacute;ncipe--a quem a melancolia nunca
+embotava a agudeza. Ergueu molemente um bra&ccedil;o mole:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Ent&atilde;o esse capricho?<br>
+
+
+<br>
+
+
+Derramei, sobre ele todo o fulgor de um riso vitorioso:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Morto! E, como o Sr. de Malbrouck, &laquo;morto e bem
+enterrado.&raquo; Jaz! Ou antes, rola! Com efeito deve andar agora
+rolando por dentro do cano do esgoto!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Jacinto bocejou, murmurou:<br>
+
+
+<br>
+
+
+
+<span class="pagenum">[114]</span>--Este Z&eacute; Fernandes de
+Noronha e Sande!...<br>
+
+
+<br>
+
+
+E, no meu nome, no meu digno nome assim embrulhado num bocejo com
+desprendida ironia, se resumiu todo o interesse daquele
+Pr&iacute;ncipe pela suja tormenta em que se debatera o meu
+cora&ccedil;&atilde;o! Mas n&atilde;o me melindrou esse consumado
+ego&iacute;smo... Claramente percebia eu que o meu Jacinto
+atravessava uma densa n&eacute;voa de t&eacute;dio, t&atilde;o
+densa, e ele t&atilde;o afundado na sua mole densidade, que as
+gl&oacute;rias ou os tormentos de um camarada n&atilde;o o
+comoviam, como muito remotas, intang&iacute;veis, separadas da sua
+sensibilidade por imensas camadas de algod&atilde;o. Pobre
+Pr&iacute;ncipe da Gr&atilde;-Ventura, tombado para o sof&aacute;
+
+de in&eacute;rcia, com os p&eacute;s no rega&ccedil;o do pedicuro!
+Em que lodoso fastio ca&iacute;ra, depois de renovar t&atilde;o
+bravamente todo o recheio mec&acirc;nico e erudito do 202, na sua
+luta contra a For&ccedil;a e a Mat&eacute;ria!--E esse fastio
+n&atilde;o o escondeu mais do seu velho Z&eacute; Fernandes quando
+recome&ccedil;ou entre n&oacute;s a comunh&atilde;o de vida e de
+alma a que eu t&atilde;o torpemente me arrancara, uma tarde, diante
+da Esta&ccedil;&atilde;o dos &Oacute;nibus, no charco da
+Madalena.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+N&atilde;o eram certamente confiss&otilde;es enunciadas. O elegante
+e reservado Jacinto n&atilde;o torcia <span class="pagenum">[115]</span>os bra&ccedil;os, gemendo--&laquo;Oh vida
+maldita!&raquo; Eram apenas express&otilde;es saciadas; um gesto de
+repelir com rancor a importunidade das coisas; por vezes uma
+imobilidade determinada, de protesto, no fundo de um div&atilde;,
+donde se n&atilde;o desenterrava, como para um repouso que
+desejasse eterno; depois os bocejos, os ocos bocejos com que
+sublinhava cada passo, continuado por fraqueza ou por dever
+inilud&iacute;vel; e sobretudo aquele murmurar que se tornara
+perene e natural--&laquo;Para qu&ecirc;?&raquo;--&laquo;N&atilde;o
+vale a pena!&raquo;--&laquo;Que ma&ccedil;ada!...&raquo;<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Uma noite no meu quarto, descal&ccedil;ando as botas, consultei o
+Grilo:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Jacinto anda t&atilde;o murcho, t&atilde;o corcunda... Que
+ser&aacute;, Grilo?<br>
+
+
+<br>
+
+
+O venerando preto declarou com uma certeza imensa:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--S. Exc.&ordf; sofre de fartura.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Era fartura! O meu Pr&iacute;ncipe sentia abafadamente a fartura de
+Paris:--e na Cidade, na simb&oacute;lica Cidade, fora de cuja vida
+culta e forte (como ele outrora gritava, iluminado) o homem do
+s&eacute;culo XIX nunca poderia saborear plenamente a
+&laquo;del&iacute;cia de viver&raquo;, ele n&atilde;o encontrava
+agora forma de vida, espiritual ou social, que o interessasse, lhe
+valesse o esfor&ccedil;o de uma corrida curta numa tip&oacute;ia
+<span class="pagenum">[116]</span>f&aacute;cil. Pobre Jacinto! Um
+jornal velho, setenta vezes relido desde a Cr&oacute;nica
+at&eacute; aos An&uacute;ncios, com a tinta delida, as dobras
+ro&iacute;das, n&atilde;o enfastiaria mais o Solit&aacute;rio, que
+s&oacute; possu&iacute;sse na sua Solid&atilde;o esse alimento
+intelectual, do que o Parisianismo enfastiava o meu doce camarada!
+Se eu nesse Ver&atilde;o capciosamente o arrastava a um
+Caf&eacute;-Concerto, ou ao festivo Pavilh&atilde;o d'Armenonville,
+o meu bom Jacinto, colado pesadamente &agrave; cadeira com um
+maravilhoso ramo de orqu&iacute;deas na casaca, as finas
+m&atilde;os abatidas sobre o cast&atilde;o da bengala, conservava
+toda a noite uma gravidade t&atilde;o estafada, que eu,
+compadecido, me erguia, o libertava, gozando a sua pressa em
+abalar, a sua fuga de ave solta... Raramente (e ent&atilde;o com
+veemente arranque como quem salta um fosso) descia a um dos seus
+Clubes, ao fundo dos Campos El&iacute;sios. N&atilde;o se ocupara
+mais das suas Sociedades e Companhias, nem dos <i>Telefones de
+Constantinopla</i>, nem das <i>Religi&otilde;es
+Esot&eacute;ricas</i>, nem do <i>Bazar Espiritualista</i>, cujas
+cartas fechadas se amontoavam sobre a mesa de &eacute;bano, donde o
+Grilo as varria tristemente como o lixo de uma vida finda.
+Tamb&eacute;m lentamente se despegava de todas as suas
+conviv&ecirc;ncias. As p&aacute;ginas da Agenda cor-de-rosa murcha
+andavam desafogadas e brancas. E se ainda cedia a um passeio de
+Mail-Coach, <span class="pagenum">[117]</span>ou a um convite para
+algum Castelo amigo dos arredores de Paris, era t&atilde;o
+arrastadamente, com um esfor&ccedil;o t&atilde;o saturado ao enfiar
+o palet&oacute; leve, que me lembrava sempre um homem, depois de um
+gordo jantar de prov&iacute;ncia, a estalar, que, por polidez ou em
+obedi&ecirc;ncia a um dogma, devesse ainda comer uma lampreia de
+ovos!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Jazer, jazer em casa, na seguran&ccedil;a das portas bem cerradas e
+bem defendidas contra toda a intrus&atilde;o do mundo, seria uma
+do&ccedil;ura para o meu Pr&iacute;ncipe se o seu pr&oacute;prio
+202, com todo aquele tremendo recheio de Civiliza&ccedil;&atilde;o,
+n&atilde;o lhe desse uma sensa&ccedil;&atilde;o dolorosa de
+abafamento, de atulhamento! Julho escaldava: e os brocados, as
+alcatifas, tantos m&oacute;veis roli&ccedil;os e fofos, todos os
+seus metais e todos os seus livros, t&atilde;o espessamente o
+oprimiam, que escancarava sem cessar as janelas para prolongar o
+espa&ccedil;o, a claridade, a frescura. Mas era ent&atilde;o a
+poeira, suja e acre, rolada em bafos mornos, que o enfurecia:<br>
+
+
+<br>
+
+
+
+--Oh, este p&oacute; da Cidade!<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Mas, oh Jacinto, por que n&atilde;o vamos para Fontainebleau, ou
+para Montmorency, ou...<br>
+
+
+<br>
+
+
+--P'ra o campo? O qu&ecirc;! P'ra o campo?!<br>
+
+
+<br>
+
+
+E na sua face enrugada, atrav&eacute;s deste berro, lampejava
+sempre tanta indigna&ccedil;&atilde;o, que <span class="pagenum">[118]</span>eu curvava os ombros, humilde, no
+arrependimento de ter afrontosamente ultrajado o Pr&iacute;ncipe
+que tanto amava. Desventurado Pr&iacute;ncipe! Com o seu dourado
+cigarro de Yaka a fumegar, errava ent&atilde;o pelas salas, lenta e
+murchamente, como quem vaga em terra alheia sem
+afei&ccedil;&otilde;es e sem ocupa&ccedil;&otilde;es. Esses
+desafei&ccedil;oados e desocupados passos monotonamente o traziam
+ao seu centro, ao gabinete verde, &agrave; Biblioteca de
+
+&eacute;bano, onde acumulara Civiliza&ccedil;&atilde;o nas
+m&aacute;ximas propor&ccedil;&otilde;es para gozar nas
+m&aacute;ximas propor&ccedil;&otilde;es a del&iacute;cia de viver.
+Espalhava em torno um olhar farto. Nenhuma curiosidade ou interesse
+lhe solicitavam as m&atilde;os, enterradas nas algibeiras das
+pantalonas de seda, numa in&eacute;rcia de derrota. Anulado,
+bocejava com descoro&ccedil;oada moleza. E nada mais instrutivo e
+doloroso do que este supremo homem do s&eacute;culo XIX, no meio de
+todos os aparelhos refor&ccedil;adores dos seus
+&oacute;rg&atilde;os, e de todos os fios que disciplinavam ao seu
+servi&ccedil;o as For&ccedil;as Universais, e dos seus trinta mil
+volumes repletos do saber dos s&eacute;culos--estacando, com as
+m&atilde;os derrotadas no fundo das algibeiras, e exprimindo, na
+face e na indecis&atilde;o mole de um bocejo, o embara&ccedil;o de
+viver!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+<h2>VI</h2>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+Todas as tardes, cultivando uma dessas intimidades que entre tudo o
+que cansa jamais cansam, Jacinto, &agrave;s quatro horas, com
+regularidade devota, visitava Madame d'Oriol:--porque essa flor de
+Parisianismo permanecera em Paris, mesmo depois do Grand-Prix, a
+desbotar na calma e no cisco da Cidade. Numa dessas tardes,
+por&eacute;m, o Telefone, ansiosamente repicado, avisou Jacinto de
+que a sua doce amiga jantava em Enghien com os Tr&egrave;ves.
+(Esses senhores gozavam o seu Ver&atilde;o &agrave; beira do lago,
+numa casa toda branca e vestida de rosinhas brancas que pertencia a
+Efraim).<br>
+
+
+<br>
+
+
+Era um domingo silencioso, enevoado e macio, convidando &agrave;s
+voluptuosidades da melancolia. E eu (no interesse da minha alma)
+sugeri a Jacinto que sub&iacute;ssemos &agrave; Bas&iacute;lica do
+
+<i>Sacr&eacute;-Coeur</i>, em constru&ccedil;&atilde;o nos altos de
+Montmartre.<br>
+
+
+<br>
+
+
+<span class="pagenum">[120]</span>--&Eacute; uma seca, Z&eacute;
+Fernandes...<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Com mil dem&oacute;nios! Eu nunca vi a Bas&iacute;lica...<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Bem, bem! Vamos &agrave; Bas&iacute;lica, homem fatal de Noronha
+e Sande!<br>
+
+
+<br>
+
+
+E por fim logo que come&ccedil;&aacute;mos a penetrar, para
+al&eacute;m de S. Vicente de Paula, em bairros estreitos e
+&iacute;ngremes, de uma quieta&ccedil;&atilde;o de
+prov&iacute;ncia, com muros velhos fechando quintalejos
+r&uacute;sticos, mulheres despenteadas cosendo &agrave; soleira das
+portas, carriolas desatreladas descansando diante das tascas,
+galinhas soltas picando o lixo, cueiros molhados secando em
+canas--o meu fastidioso camarada sorriu &agrave;quela liberdade e
+singeleza das coisas.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+A vit&oacute;ria parou em frente &agrave; larga rua de escadarias
+que trepa, cortando vielazinhas campestres, at&eacute; &agrave;
+esplanada, onde, envolta em andaimes, se ergue a Bas&iacute;lica
+imensa. Em cada patamar barracas de arraial devoto, forradas de
+paninho vermelho, transbordavam de Imagens, Bentinhos, Crucifixos,
+Cora&ccedil;&otilde;es de Jesus bordados a retr&oacute;s, claros
+molhos de Ros&aacute;rios. Pelos cantos, velhas agachadas
+resmungavam a Ave-Maria. Dois padres desciam, tomando risonhamente
+uma pitada. Um sino lento tilintava na do&ccedil;ura cinzenta da
+tarde. E Jacinto murmurou, com agrado:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--&Eacute; curioso!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+<span class="pagenum">[121]</span>Mas a Bas&iacute;lica em cima
+n&atilde;o nos interessou, abafada em tapumes e andaimes, toda
+branca e seca, de pedra muito nova, ainda sem alma. E Jacinto, por
+um impulso bem Jac&iacute;ntico, caminhou gulosamente para a borda
+do terra&ccedil;o, a contemplar Paris. Sob o c&eacute;u cinzento,
+na plan&iacute;cie cinzenta, a Cidade jazia, toda cinzenta, como
+uma vasta e grossa camada de cali&ccedil;a e telha. E, na sua
+imobilidade e na sua mudez, algum rolo de fumo, mais t&eacute;nue e
+ralo que o fumear de um escombro mal apagado, era todo o
+vest&iacute;gio vis&iacute;vel da sua vida magn&iacute;fica.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Ent&atilde;o chasqueei risonhamente o meu Pr&iacute;ncipe.
+A&iacute; estava pois a Cidade, augusta cria&ccedil;&atilde;o da
+Humanidade! Ei-la a&iacute;, belo Jacinto! Sobre a crosta cinzenta
+da Terra--uma camada de cali&ccedil;a, apenas mais cinzenta! No
+entanto ainda momentos antes a deix&aacute;ramos prodigiosamente
+viva, cheia de um povo forte, com todos os seus poderosos
+
+&oacute;rg&atilde;os funcionando, abarrotada de riqueza,
+resplandecente de sapi&ecirc;ncia, na triunfal plenitude do seu
+orgulho, como Rainha do Mundo coroada de Gra&ccedil;a. E agora eu e
+o belo Jacinto trep&aacute;vamos a uma colina,
+espreit&aacute;vamos, escut&aacute;vamos--e de toda a estridente e
+radiante Civiliza&ccedil;&atilde;o da Cidade n&atilde;o
+perceb&iacute;amos nem um rumor nem um lampejo! E o 202, o soberbo
+<span class="pagenum">[122]</span>202, com os seus arames, os seus
+aparelhos, a pompa da sua Mec&acirc;nica, os seus trinta mil
+livros? Sumido, esva&iacute;do na confus&atilde;o de telha e cinza!
+Para este esvaecimento pois da obra humana, mal ela se contempla de
+cem metros de altura, arqueja o obreiro humano em t&atilde;o
+angustioso esfor&ccedil;o? Hein, Jacinto?... Onde est&atilde;o os
+teus Armaz&eacute;ns servidos por tr&ecirc;s mil caixeiros? E os
+Bancos em que retine o ouro universal? E as Bibliotecas atulhadas
+com o saber dos s&eacute;culos? Tudo se fundiu numa n&oacute;doa
+parda que suja a Terra. Aos olhos piscos de um Z&eacute; Fernandes,
+logo que ele suba, fumando o seu cigarro, a uma arredada colina--a
+sublime edifica&ccedil;&atilde;o dos Tempos n&atilde;o &eacute;
+
+mais que um silencioso monturo da espessura e da cor do p&oacute;
+final. O que ser&aacute; ent&atilde;o aos olhos de Deus!<br>
+
+
+<br>
+
+
+E ante estes clamores, lan&ccedil;ados com af&aacute;vel
+mal&iacute;cia para espica&ccedil;ar o meu Pr&iacute;ncipe, ele
+murmurou, pensativo:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Sim, &eacute; talvez tudo uma ilus&atilde;o... E a Cidade a maior
+ilus&atilde;o!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+T&atilde;o facilmente vitorioso redobrei de fac&uacute;ndia.
+Certamente, meu Pr&iacute;ncipe, uma Ilus&atilde;o! E a mais
+amarga, por que o Homem pensa ter na Cidade a base de toda a sua
+grandeza e s&oacute; nela tem a fonte de toda a sua mis&eacute;ria.
+V&ecirc;, Jacinto! Na Cidade perdeu <span class="pagenum">[123]</span>ele a for&ccedil;a e beleza harmoniosa do
+corpo, e se tornou esse ser ressequido e escanifrado ou obeso e
+afogado em unto, de ossos moles como trapos, de nervos
+tr&eacute;mulos como arames, com cangalhas, com chin&oacute;s, com
+dentaduras de chumbo, sem sangue, sem febra, sem vi&ccedil;o,
+torto, corcunda--esse ser em que Deus, espantado, mal pode
+reconhecer o seu esbelto e rijo e nobre Ad&atilde;o! Na Cidade
+findou a sua liberdade moral: cada manh&atilde; ela lhe
+imp&otilde;e uma necessidade, e cada necessidade o arremessa para
+uma depend&ecirc;ncia: pobre e subalterno, a sua vida &eacute; um
+constante solicitar, adular, vergar, rastejar, aturar; rico e
+superior como um Jacinto, a Sociedade logo o enreda em
+tradi&ccedil;&otilde;es, preceitos, etiquetas, cerim&oacute;nias,
+praxes, ritos, servi&ccedil;os mais disciplinares que os de um
+c&aacute;rcere ou de um quartel... A sua tranquilidade (bem
+t&atilde;o alto que Deus com ele recompensa os Santos) onde
+est&aacute;, meu Jacinto? Sumida para sempre, nessa batalha
+desesperada pelo p&atilde;o, ou pela fama, ou pelo poder, ou pelo
+gozo, ou pela fugidia rodela de ouro! Alegria como a haver&aacute;
+
+na Cidade para esses milh&otilde;es de seres que tumultuam na
+arquejante ocupa&ccedil;&atilde;o de <i>desejar</i>--e que, nunca
+fartando o desejo, incessantemente padecem de desilus&atilde;o,
+desesperan&ccedil;a ou derrota? Os sentimentos mais genuinamente
+<span class="pagenum">[124]</span>humanos logo na Cidade se
+desumanizam! V&ecirc;, meu Jacinto! S&atilde;o como luzes que o
+&aacute;spero vento do viver social n&atilde;o deixa arder com
+serenidade e limpidez; e aqui abala e faz tremer; e al&eacute;m
+brutamente apaga; e adiante obriga a flamejar com desnaturada
+viol&ecirc;ncia. As amizades nunca passam de alian&ccedil;as que o
+interesse, na hora inquieta da defesa ou na hora s&ocirc;frega do
+assalto, ata apressadamente com um cordel apressado, e que estalam
+ao menor embate da rivalidade ou do orgulho. E o Amor, na Cidade,
+meu gentil Jacinto? Considera esses vastos armaz&eacute;ns com
+espelhos, onde a nobre carne de Eva se vende, tarifada ao
+arr&aacute;tel, como a de vaca! Contempla esse velho Deus do
+Himeneu, que circula trazendo em vez do ondeante facho da
+Paix&atilde;o a apertada carteira do Dote! Espreita essa turba que
+foge dos largos caminhos assoalhados em que os Faunos amam as
+Ninfas na boa lei natural, e busca tristemente os recantos
+l&ocirc;bregos de Sodoma ou de Lesbos!... Mas o que a Cidade mais
+deteriora no homem &eacute; a Intelig&ecirc;ncia, porque ou lha
+arregimenta dentro da banalidade ou lha empurra para a
+extravag&acirc;ncia. Nesta densa e pairante camada de Ideias e
+F&oacute;rmulas que constitui a atmosfera mental das Cidades, o
+homem que a respira, nela envolto, s&oacute; pensa todos os
+
+<span class="pagenum">[125]</span>pensamentos j&aacute; pensados,
+s&oacute; exprime todas as express&otilde;es j&aacute;
+exprimidas:--ou ent&atilde;o, para se destacar na pardacenta e
+chata Rotina e trepar ao fr&aacute;gil andaime da glor&iacute;ola,
+inventa num gemente esfor&ccedil;o, inchando o cr&acirc;nio, uma
+novidade disforme que espante e que detenha a multid&atilde;o como
+um mostrengo numa Feira. Todos, intelectualmente, s&atilde;o
+carneiros, trilhando o mesmo trilho, balando o mesmo balido, com o
+focinho pendido para a poeira onde pisam, em fila, as pegadas
+pisadas;--e alguns s&atilde;o macacos, saltando no topo de mastros
+vistosos, com esgares e cabriolas. Assim, meu Jacinto, na Cidade,
+nesta cria&ccedil;&atilde;o t&atilde;o antinatural onde o solo
+
+&eacute; de pau e feltro e alcatr&atilde;o, e o carv&atilde;o tapa
+o c&eacute;u, e a gente vive acamada nos pr&eacute;dios como o
+paninho nas lojas, e a claridade vem pelos canos, e as mentiras se
+murmuram atrav&eacute;s de arames--o homem aparece como uma
+criatura anti-humana, sem beleza, sem for&ccedil;a, sem liberdade,
+sem riso, sem sentimento, e trazendo em si um esp&iacute;rito que
+&eacute; passivo como um escravo ou impudente como um
+histri&atilde;o... E aqui tem o belo Jacinto o que &eacute; a bela
+Cidade!<br>
+
+
+<br>
+
+
+E ante estas encanecidas e vener&aacute;veis invectivas, retumbadas
+pontualmente por todos os Moralistas buc&oacute;licos, desde
+Hes&iacute;odo, atrav&eacute;s <span class="pagenum">[126]</span>dos s&eacute;culos--o meu Pr&iacute;ncipe
+vergou a nuca d&oacute;cil, como se elas brotassem, inesperadas e
+frescas, de uma Revela&ccedil;&atilde;o superior, naqueles cimos de
+Montmartre:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Sim, com efeito, a Cidade... &Eacute; talvez uma ilus&atilde;o
+perversa!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Insisti logo, com abund&acirc;ncia, puxando os punhos, saboreando o
+meu f&aacute;cil filosofar. E se ao menos essa ilus&atilde;o da
+Cidade tornasse feliz a totalidade dos seres, que a mant&ecirc;m...
+Mas n&atilde;o! S&oacute; uma estreita e reluzente casta goza na
+Cidade os gozos especiais que ela cria. O resto, a escura, imensa
+plebe, s&oacute; nela sofre, e com sofrimentos especiais que
+s&oacute; nela existem! Deste terra&ccedil;o, junto a esta rica
+Bas&iacute;lica consagrada ao Cora&ccedil;&atilde;o que amou o
+Pobre e por ele sangrou, bem avistamos n&oacute;s o l&ocirc;brego
+casario onde a plebe se curva sob esse antigo opr&oacute;brio de
+que nem Religi&otilde;es, nem Filosofias, nem Morais, nem a sua
+pr&oacute;pria for&ccedil;a brutal a poder&atilde;o jamais
+libertar! A&iacute; jaz, espalhada pela Cidade, como esterco vil
+que fecunda a Cidade. Os s&eacute;culos rolam; e sempre
+imut&aacute;veis farrapos lhe cobrem o corpo, e sempre debaixo
+deles, atrav&eacute;s do longo dia, os homens labutar&atilde;o e as
+mulheres chorar&atilde;o. E com este labor e este pranto dos
+pobres, meu Pr&iacute;ncipe, se edifica a abund&acirc;ncia da
+Cidade! <span class="pagenum">[127]</span>Ei-la agora coberta de
+moradas em que eles se n&atilde;o abrigam; armazenada de estofos,
+com que eles se n&atilde;o agasalham; abarrotada de alimentos, com
+que eles se n&atilde;o saciam! Para eles s&oacute; a neve, quando a
+neve cai, e entorpece e sepulta as criancinhas aninhadas pelos
+bancos das pra&ccedil;as ou sob os arcos das pontes de Paris... A
+neve cai, muda e branca na treva: as criancinhas gelam nos seus
+trapos: e a pol&iacute;cia, em torno, ronda atenta para que
+n&atilde;o seja perturbado o t&eacute;pido sono daqueles que amam a
+neve, para patinar nos lagos do Bosque de Bolonha com
+peli&ccedil;as de tr&ecirc;s mil francos. Mas qu&ecirc;, meu
+Jacinto! a tua Civiliza&ccedil;&atilde;o reclama insaciavelmente
+regalos e pompas, que s&oacute; obter&aacute;, nesta amarga
+desarmonia social, se o Capital der ao Trabalho, por cada
+arquejante esfor&ccedil;o, uma migalha ratinhada.
+Irremedi&aacute;vel &eacute;, pois, que incessantemente a plebe
+sirva, a plebe pene! A sua esfalfada mis&eacute;ria &eacute; a
+condi&ccedil;&atilde;o do esplendor sereno da Cidade. Se nas suas
+tigelas fumegasse a justa ra&ccedil;&atilde;o de caldo--n&atilde;o
+poderia aparecer nas baixelas de prata a luxuosa
+por&ccedil;&atilde;o de <i>foie-gras</i> e t&uacute;baras que
+s&atilde;o o orgulho da Civiliza&ccedil;&atilde;o. H&aacute;
+
+andrajos em trapeiras--para que as belas Madamas d'Oriol,
+resplandecentes de sedas e rendas, subam, em doce
+ondula&ccedil;&atilde;o, a escadaria da &Oacute;pera. H&aacute;
+m&atilde;os <span class="pagenum">[128]</span>regeladas que se
+estendem, e bei&ccedil;os sumidos que agradecem o dom
+magn&acirc;nimo de um <i>sou</i>--para que os Efrains tenham dez
+milh&otilde;es no Banco de Fran&ccedil;a, se aque&ccedil;am
+&agrave; chama rica da lenha arom&aacute;tica, e surtam de colares
+de safiras as suas concubinas, netas dos Duques de Atenas. E um
+povo chora de fome, e da fome dos seus pequeninos--para que os
+Jacintos, em Janeiro, debiquem, bocejando, sobre pratos de Saxe,
+morangos gelados em Champanhe e avivados de um fio de
+
+&eacute;ter!<br>
+
+
+<br>
+
+
+--E eu comi dos teus morangos, Jacinto! Miser&aacute;veis, tu e
+eu!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Ele murmurou, desolado:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--&Eacute; horr&iacute;vel, comemos desses morangos... E talvez por
+uma ilus&atilde;o!<br>
+
+
+<br>
+
+
+
+Pensativamente deixou a borda do terra&ccedil;o, como se a
+presen&ccedil;a da Cidade, estendida na plan&iacute;cie, fosse
+escandalosa. E caminh&aacute;mos devagar, sob a moleza cinzenta da
+tarde, filosofando--considerando que para esta iniquidade
+n&atilde;o havia cura humana, trazida pelo esfor&ccedil;o humano.
+Ah, os Efrains, os Tr&egrave;ves, os vorazes e sombrios
+tubar&otilde;es do mar humano, s&oacute; abandonar&atilde;o ou
+afrouxar&atilde;o a explora&ccedil;&atilde;o das Plebes, se uma
+influ&ecirc;ncia celeste, por milagre novo, mais alto que os
+milagres velhos, lhes converter as almas! <span class="pagenum">[129]</span>O burgu&ecirc;s triunfa, muito forte, todo
+endurecido no pecado--e contra ele s&atilde;o impotentes os prantos
+dos Humanit&aacute;rios, os racioc&iacute;nios dos L&oacute;gicos,
+as bombas dos Anarquistas. Para amolecer t&atilde;o duro granito
+s&oacute; uma do&ccedil;ura divina. Eis pois esperan&ccedil;a da
+terra novamente posta num Messias!... Um decerto desceu outrora dos
+grandes C&eacute;us; e, para mostrar bem que mandado trazia,
+penetrou mansamente no mundo pela porta de um curral. Mas a sua
+passagem entre os homens foi t&atilde;o curta! Um meigo
+serm&atilde;o numa montanha, ao fim de uma tarde meiga; uma
+repreens&atilde;o moderada aos Fariseus que ent&atilde;o redigiam o
+
+<i>Boulevard</i>; algumas vergastadas nos Efrains
+vendilh&otilde;es; e logo, atrav&eacute;s da porta da morte, a fuga
+radiosa para o Para&iacute;so! Esse ador&aacute;vel filho de Deus
+teve demasiada pressa em recolher a casa de seu Pai! E os homens a
+quem ele incumbira a continua&ccedil;&atilde;o da sua obra,
+envolvidos logo pelas influ&ecirc;ncias dos Efrains, dos
+Tr&egrave;ves, da gente do <i>Boulevard</i>, bem depressa
+esqueceram a li&ccedil;&atilde;o da Montanha e do lago de
+Tiber&iacute;ade--e eis que por seu turno revestem a
+p&uacute;rpura, e s&atilde;o Bispos, e s&atilde;o Papas, e se aliam
+&agrave; opress&atilde;o, e reinam com ela, e edificam a
+dura&ccedil;&atilde;o do seu Reino sobre a mis&eacute;ria dos
+sem-p&atilde;o e dos sem-lar! Assim tem de ser recome&ccedil;ada a
+obra <span class="pagenum">[130]</span>da Reden&ccedil;&atilde;o.
+Jesus, ou Guatama, ou Cristna, ou outro desses filhos que Deus por
+vezes escolhe no seio de uma Virgem, nos quietos verg&eacute;is da
+
+&Aacute;sia, dever&aacute; novamente descer &agrave; terra de
+servid&atilde;o. Vir&aacute; ele, o desejado? Porventura j&aacute;
+algum grave rei do Oriente despertou, e olhou a estrela, e tomou a
+mirra nas suas m&atilde;os reais, e montou pensativamente sobre o
+seu dromed&aacute;rio? J&aacute; por esses arredores da dura
+Cidade, de noite, enquanto Caif&aacute;s e Madalena ceiam lagosta
+no Paillard, andou um Anjo, atento, num voo lento, escolhendo um
+curral? J&aacute; de longe, sem mo&ccedil;o que os tanja, na
+gostosa pressa de um divino encontro, vem trotando a vaca, trotando
+o burrinho?<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Tu sabes, Jacinto?<br>
+
+
+<br>
+
+
+N&atilde;o, Jacinto n&atilde;o sabia--e queria acender o charuto.
+Forneci um f&oacute;sforo ao meu Pr&iacute;ncipe. Ainda
+rond&aacute;mos no terra&ccedil;o, espalhando pelo ar outras ideias
+s&oacute;lidas que no ar se desfaziam. Depois penetr&aacute;vamos
+na Bas&iacute;lica--quando um Sacrist&atilde;o n&eacute;dio, de
+barrete de veludo, cerrou fortemente a porta, e um Padre passou,
+enterrando na algibeira, com um cansado gesto final e como para
+sempre, o seu velho Brevi&aacute;rio.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Estou com uma sede, Jacinto... Foi esta tremenda Filosofia!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Descemos a escadaria, armada em arraial <span class="pagenum">[131]</span>devoto. O meu pensativo camarada comprou uma
+imagem da Bas&iacute;lica. E salt&aacute;vamos para a
+vit&oacute;ria, quando algu&eacute;m gritou rijamente, numa
+surpresa:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Eh Jacinto!<br>
+
+
+<br>
+
+
+O meu Pr&iacute;ncipe abriu os bra&ccedil;os, tamb&eacute;m
+espantado:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Eh Maur&iacute;cio!<br>
+
+
+<br>
+
+
+E, num alvoro&ccedil;o, atravessou a rua, para um caf&eacute;,
+onde, sob o toldo de riscadinho, um robusto homem, de barba em
+bico, remexia o seu absinto, com o chap&eacute;u de palha
+desca&iacute;do na nuca, a quinzena solta sobre a camisa de seda,
+sem gravata, como se descansasse num banco, entre as sombras do seu
+jardim.<br>
+
+
+<br>
+
+
+E ambos, apertando as m&atilde;os, se admiravam daquele encontro,
+num domingo de Ver&atilde;o, sobre as alturas de Montmartre.<br>
+
+
+<br>
+
+
+
+--Oh! eu estou aqui no meu bairro! exclamava alegremente
+Maur&iacute;cio. Em fam&iacute;lia, em chinelos... H&aacute;
+tr&ecirc;s meses que subi para estes cimos da Verdade... Mas tu na
+Santa Colina, homem profano da plan&iacute;cie e das ruas de
+Israel!<br>
+
+
+<br>
+
+
+O meu Pr&iacute;ncipe mostrou o seu Z&eacute; Fernandes:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Com este amigo, em peregrina&ccedil;&atilde;o &agrave;
+
+Bas&iacute;lica... <span class="pagenum">[132]</span>O meu amigo
+Fernandes Lorena... Maur&iacute;cio de Mayolle, velho camarada.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Mr. de Mayolle (que, pela face larga e nariz nobremente grosso,
+lembrava Francisco de Valois, Rei de Fran&ccedil;a) ergueu o seu
+chap&eacute;u de palha. E empurrava uma cadeira, insistia que nos
+acomod&aacute;ssemos para um absinto ou para um bock.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Toma um bock, Z&eacute; Fernandes! lembrou Jacinto. Tu estavas a
+ganir com sede!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Corri lentamente a l&iacute;ngua sobre os bei&ccedil;os, mais secos
+que pergaminhos:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Estou a guardar esta sedezinha para logo, para o jantar, com um
+vinhozinho gelado!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Maur&iacute;cio saudou, com silenciosa admira&ccedil;&atilde;o,
+esta minha avisada mal&iacute;cia. E imediatamente, para o meu
+Pr&iacute;ncipe:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--H&aacute; tr&ecirc;s anos que te n&atilde;o vejo, Jacinto... Como
+tem sido poss&iacute;vel, neste Paris que &eacute; uma aldeola e
+que tu atravancas?<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--A vida, Maur&iacute;cio, a espalhada vida... Com efeito!
+H&aacute; tr&ecirc;s anos, desde a casa dos Lamotte-Orcel. Tu ainda
+visitas esse santu&aacute;rio?<br>
+
+
+<br>
+
+
+Maur&iacute;cio atirou um gesto desdenhoso e largo, que sacudia um
+mundo:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Oh! H&aacute; mais de um ano que me separei dessa bicharia
+her&eacute;tica... Uma turba indisciplinada, meu Jacinto! Nenhuma
+fixidez, um diletantismo estonteado, car&ecirc;ncia completa e
+
+<span class="pagenum">[133]</span>c&oacute;mica de toda a base
+experimental... Quando tu ias aos Lamotte-Orcel, e &agrave; Parola
+do 37, e &agrave; <i>Cerveja Ideal</i>, o que reinava?...<br>
+
+
+<br>
+
+
+Jacinto catou lentamente as suas recorda&ccedil;&otilde;es por
+entre os p&ecirc;los do bigode:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Eu sei!... Reinava Wagner e a Mitologia &Eacute;dica, e o
+Raganarock, e as Nornas... Muito Pr&eacute;-Rafaelismo
+tamb&eacute;m, e Montagna, e Fra Angelico... Em moral, o
+Renanismo.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Maur&iacute;cio sacudia os ombros. Oh, tudo isso pertencia a um
+passado arcaico, quase lacustre! Quando Madame de Lamotte-Orcel
+remobilara a sala com veludos Morris, grossas alcachofras sobre
+tons de a&ccedil;afr&atilde;o, j&aacute; o Renanismo passara,
+t&atilde;o esquecido como o Cartesianismo...<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Tu ainda &eacute;s do tempo do culto do <i>Eu</i>?<br>
+
+
+<br>
+
+
+O meu Pr&iacute;ncipe suspirou risonhamente:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Ainda o cultivei.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Pois bem! Logo depois foi o Hartmanismo, o Inconsciente. Depois o
+Nietzismo, o Feudalismo espiritual... Depois grassou o
+Tolsto&iuml;smo, um furor imenso de renunciamento
+neo-cenob&iacute;tico. Ainda me lembro de um jantar em que apareceu
+um mostrengo de um eslavo, de guedelha s&oacute;rdida, que atirava
+olhos medonhos para o decote da pobre condessa de Arche, e que
+grunhia com o dedo espetado:--&laquo;Busquemos a luz, muito por
+baixo, no p&oacute; da <span class="pagenum">[134]</span>terra!&raquo;--E &agrave; sobremesa bebemos
+&agrave; del&iacute;cia da humildade e do trabalho servil, com
+aquele Champanhe Marceaux granitado que a Matilde dava nos grandes
+dias em copos da forma do San-Gral! Depois veio Emersonismo... Mas
+a praga cruel foi Ibsenismo! Enfim, meu filho, uma Babel de
+
+&Eacute;ticas e Est&eacute;ticas. Paris parecia demente. J&aacute;
+havia uns desgarrados que tendiam para o Luciferismo. E amiguinhas
+nossas, coitadas, iam descambando para o Falismo, uma moxinifada
+m&iacute;stico-brejeira, pregada por aquele pobre La Carte que
+depois se fez Monge Branco, e que anda no Deserto... Um horror! E
+uma tarde, de repente, toda esta massa se precipita com &acirc;nsia
+para o Ruskinismo!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Eu, agarrado &agrave; bengala, bem fincada no ch&atilde;o, sentia
+como um vendaval que redemoinhava, me torcia o cr&acirc;nio! E
+at&eacute; Jacinto balbuciou, esgazeado:<br>
+
+
+<br>
+
+
+
+--O Ruskinismo?<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Sim, o velho Ruskin,... John Ruskin!<br>
+
+
+<br>
+
+
+O meu ditoso Pr&iacute;ncipe compreendeu:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Ah, Ruskin!... <i>As sete l&acirc;mpadas da Arquitectura</i>,
+<i>A Coroa de Oliveira Brava</i>... &Eacute; o culto da Beleza.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Sim! O culto da Beleza, confirmou Maur&iacute;cio. Mas a esse
+tempo eu, enojado, j&aacute; descera <span class="pagenum">[135]</span>de todas essas nuvens v&atilde;s... Pisava um
+ch&atilde;o mais seguro, mais f&eacute;rtil.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Deu um sorvo lento ao absinto, cerrando as p&aacute;lpebras.
+Jacinto esperava, com o seu fino nariz dilatado, como para respirar
+a Flor de Novidade que ia desabrochar:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--E ent&atilde;o? ent&atilde;o?...<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Mas o outro murmurou, dispersamente, por entre retic&ecirc;ncias em
+que se velava:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Vim para Montmartre... Tenho aqui um amigo, um homem de
+g&eacute;nio, que percorreu toda a &Iacute;ndia... Viveu com os
+Toddas, esteve nos mosteiros de Garma-Khian e de Dashi-Lumbo, e
+estudou com Gegen-Chutu no retiro santo de Urga... Gegen-Chutu foi
+a d&eacute;cima sexta encarna&ccedil;&atilde;o de Guatama, e era
+portanto um Boddi-sattva... Trabalhamos, procuramos... N&atilde;o
+s&atilde;o vis&otilde;es. Mas factos, experi&ecirc;ncias bem
+antigas, que v&ecirc;m talvez desde os tempos de Cristna...<br>
+
+
+<br>
+
+
+
+Atrav&eacute;s destes nomes, que exalavam um perfume triste de
+vetustos ritos, arredara a cadeira. E de p&eacute;, deixando cair
+sobre a mesa, distraidamente, para pagar o absinto, moedas de prata
+e moedas de cobre, murmurava com os olhos descansados em Jacinto,
+mas perdidos noutra vis&atilde;o:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Por fim tudo se reduz ao supremo desenvolvimento da Vontade
+dentro da suprema <span class="pagenum">[136]</span>pureza da Vida.
+&Eacute; toda a ci&ecirc;ncia e for&ccedil;a dos grandes mestres
+Hindus... Mas a pureza absoluta da vida, eis a luta, eis o
+obst&aacute;culo! N&atilde;o basta mesmo o Deserto, nem o bosque do
+mais velho templo no alto Tibete... Ainda assim, meu Jacinto,
+j&aacute; obtivemos resultados bem estranhos. Sabes as
+experi&ecirc;ncias de Tyndall, com as chamas sensitivas... O pobre
+qu&iacute;mico, para demonstrar as vibra&ccedil;&otilde;es do som,
+tocou quase &agrave;s portas da verdade esot&eacute;rica. Mas
+qu&ecirc;! homem de ci&ecirc;ncia, portanto homem de estupidez,
+ficou aqu&eacute;m, entre as suas placas e as suas retortas!
+N&oacute;s fomos al&eacute;m. Verific&aacute;mos as
+
+<i>ondula&ccedil;&otilde;es da Vontade</i>! Diante de n&oacute;s,
+pela expans&atilde;o da energia do meu companheiro, e em
+cad&ecirc;ncia com o seu mandado, uma chama, a tr&ecirc;s metros,
+ondulou, rastejou, despediu l&iacute;nguas ardentes, lambeu uma
+alta parede, rugiu furiosa e negra, resplandeceu direita e
+silenciosa, e bruscamente abatida em cinza morreu!<br>
+
+
+<br>
+
+
+E o estranho homem, com o chap&eacute;u para a nuca, ficou
+im&oacute;vel, de bra&ccedil;os abertos e os olhares esgazeados,
+como no renovado assombro e no transe daquele prod&iacute;gio.
+Depois, recaindo no seu modo f&aacute;cil e sereno, acendendo de
+vagar um cigarro:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Uma destas manh&atilde;s, Jacinto, apare&ccedil;o no 202, para
+almo&ccedil;ar contigo, e levo o meu <span class="pagenum">[137]</span>amigo. Ele s&oacute; come arroz, uma pouca de
+salada, e fruta. E conversamos... Tu tinhas um exemplar do
+<i>Sepher-Zerijah</i> e outro do <i>Targum d'Onkelus</i>. Preciso
+folhear esses livros.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Apertou a m&atilde;o do meu Pr&iacute;ncipe, saudou este assombrado
+Z&eacute; Fernandes, e serenamente seguiu pela quieta rua, com o
+chap&eacute;u de palha para a nuca, as m&atilde;os enterradas nas
+algibeiras, como um homem natural entre coisas naturais.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Oh Jacinto! Quem &eacute; este bruxo? Conta!... Quem &eacute;
+ele, sant&iacute;ssimo nome de Deus?<br>
+
+
+<br>
+
+
+Recostado na vit&oacute;ria, ajeitando o vinco das cal&ccedil;as, o
+meu Pr&iacute;ncipe contou, concisamente. Era um nobre e leal
+rapaz, muito rico, muito inteligente, da antiga casa soberana de
+Mayolle, descendente dos Duques de Septim&acirc;nia... E murmurou,
+atrav&eacute;s do costumado bocejo:<br>
+
+
+<br>
+
+
+
+--O desenvolvimento supremo da vontade!... Teosofia, Budismo
+esot&eacute;rico... Aspira&ccedil;&otilde;es,
+decep&ccedil;&otilde;es... J&aacute; experimentei... Uma
+ma&ccedil;ada!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Atravessamos, calados, o rumor de Paris, sob a moleza abafada do
+crep&uacute;sculo de Ver&atilde;o, para jantar no Bosque, no
+Pavilh&atilde;o de Armenonville, onde os Tziganes, avistando
+Jacinto, tocaram o <i>Hino da Carta</i> com paix&atilde;o,
+
+<span class="pagenum">[138]</span>com langor, numa cad&ecirc;ncia
+de <i>czarda</i> dolorosa e &aacute;spera.<br>
+
+
+<br>
+
+
+E eu, desdobrando regaladamente o guardanapo:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Pois venha agora para a minha rica sede esse vinhozinho gelado!
+Grandemente o mere&ccedil;o, caramba, que superiormente
+filosofei!... E creio que estabeleci definitivamente no
+esp&iacute;rito do Sr. D. Jacinto o salutar horror da cidade!<br>
+
+
+<br>
+
+
+
+O meu Pr&iacute;ncipe percorria, catando o bigode, a Lista dos
+Vinhos, enquanto o Copeiro, esperava com pensativa
+rever&ecirc;ncia:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Mande gelar duas garrafas de champanhe S.<sup>t</sup> Marceaux...
+Mas antes, um Barsac velho, apenas refrescado... &Aacute;gua de
+Evian... N&atilde;o, de Bussang! Bem, d'Evian e de Bussang! E, para
+come&ccedil;ar, um bock.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Depois, bocejando, desabotoando lentamente a sobrecasaca
+cinzenta:<br>
+
+
+<br>
+
+
+
+--Pois estou com vontade de construir uma casa nos cimos de
+Montmartre, com um miradouro no alto, todo de vidro e ferro, para
+descansar de tarde e dominar a Cidade...<br>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+<h2>VII</h2>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+Julho findara com uma chuva refrescante e consoladora:--e eu
+pensava em realizar finalmente a minha romagem &agrave;s cidades da
+Europa, sempre retardada, atrav&eacute;s da Primavera, pelas
+surpresas do Mundo e da Carne. Mas, de repente, Jacinto
+come&ccedil;ou a rogar e a reclamar que o seu Z&eacute; Fernandes o
+acompanhasse, todas as tardes, a casa de Madame d'Oriol! E eu
+compreendi que o meu Pr&iacute;ncipe (&agrave; maneira do divino
+Aquiles, que, sob a tenda, e junto da branca, ins&iacute;pida e
+d&oacute;cil Briseis, nunca dispensava P&aacute;troclo) desejava
+ter, no retiro do Amor, a presen&ccedil;a, o conforto e o socorro
+da Amizade. Pobre Jacinto! Logo pela manh&atilde; combinava pelo
+telefone com Madame d'Oriol essa hora de quieta&ccedil;&atilde;o e
+do&ccedil;ura. E assim encontr&aacute;vamos sempre a superfina Dama
+prevenida e solit&aacute;ria naquela sala da rua de Lisbonne, onde
+Jacinto e eu mal <span class="pagenum">[140]</span>cab&iacute;amos,
+sufoc&aacute;vamos na confus&atilde;o, entre os cestos de flores, e
+os ouros rocalhados, e os monstros do Jap&atilde;o, e a galante
+fragilidade dos Saxes, e as peles de feras estiradas aos p&eacute;s
+de sof&aacute;s adormecedores, e os biombos de Aubusson formando
+alcovas favor&aacute;veis e l&acirc;nguidas... Aninhada numa
+cadeira de bambu lacada de branco, entre almofadas aromatizadas de
+verbena da &Iacute;ndia, com um romance pousado no rega&ccedil;o,
+ela esperava o seu amigo, numa certa indol&ecirc;ncia passiva e
+mansa que me lembrava sempre o Oriente e um Har&eacute;m. Mas,
+pelas frescas sedinhas Pompadour, parecia tamb&eacute;m uma
+marquesinha de Versalhes cansada do grande s&eacute;culo; ou
+ent&atilde;o, com brocados sombrios e largos cintos cravejados, era
+como uma veneziana, preparada para um Doge. A minha
+intrus&atilde;o, na intimidade daquelas tardes, n&atilde;o a
+contrariava--antes lhe trazia um vassalo novo, com dois olhos novos
+para a contemplar. Eu era j&aacute; o seu <i>cher
+Fernandez</i>!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+E apenas descerrava os l&aacute;bios avivados de vermelho,
+semelhantes a uma ferida fresca, e come&ccedil;ava a chalrar--logo
+nos envolvia o burburinho e a murmura&ccedil;&atilde;o de Paris.
+Ela s&oacute; sabia chalrar sobre a sua pessoa que era o resumo da
+sua Classe, e sobre a sua exist&ecirc;ncia <span class="pagenum">[141]</span>que era o resumo do seu Paris:--e a sua
+exist&ecirc;ncia, desde casada, consistira em ornar com suprema
+ci&ecirc;ncia o seu lindo corpo; entrar com perfei&ccedil;&atilde;o
+numa sala e irradiar; remexer em estofos e conferenciar
+pensativamente com o grande costureiro; rolar pelo Bois pousada na
+sua vit&oacute;ria como uma imagem de cera; decotar e branquear o
+colo; debicar uma perna de galinhola em mesas de luxo; fender
+turbas ricas em bailes espessos; adormecer com a vaidade esfalfada;
+percorrer de manh&atilde;, tomando chocolate, os
+&laquo;Echos&raquo; e as &laquo;Festas&raquo; do <i>Figaro</i>; e
+de vez em quando murmurar para o marido--&laquo;Ah, &eacute;s
+tu?...&raquo; Al&eacute;m disso, ao lusco-fusco, num sof&aacute;,
+alguns certos suspiros, entre os bra&ccedil;os de algu&eacute;m a
+quem era constante. Ao meu Pr&iacute;ncipe, nesse ano, pertencia o
+sof&aacute;. E todos estes deveres de Cidade e de Casta os cumpria
+sorrindo. Tanto sorrira, desde casada, que j&aacute; duas pregas
+lhe vincavam os cantos dos bei&ccedil;os, indelevelmente. Mas nem
+na alma, nem na pele, mostrava outras m&aacute;culas de fadiga. A
+sua Agenda de Visitas continha mil e trezentos nomes, todos do
+Nobili&aacute;rio. Atrav&eacute;s, por&eacute;m, desta fulgurante
+sociabilidade arranjara no c&eacute;rebro (onde de certo penetrara
+o p&oacute; de arroz que desde o col&eacute;gio acamava na testa)
+algumas Ideias Gerais. Em Pol&iacute;tica era pelos
+Pr&iacute;ncipes; e todos os outros &laquo;horrores&raquo;, a
+Rep&uacute;blica, o Socialismo, <span class="pagenum">[142]</span>a
+Democracia que se n&atilde;o lava, os sacudia risonhamente, com um
+bater de leque. Na Semana Santa juntava &agrave;s rendas do
+chap&eacute;u a Coroa amarga de espinhos--por serem esses, para a
+gente bem-nascida, dias de penit&ecirc;ncia e dor. E, diante de
+todo o Livro ou de todo o Quadro, sentia a emo&ccedil;&atilde;o e
+formulava finamente o ju&iacute;zo, que no seu Mundo, e nessa
+Semana, fosse elegante formular e sentir. Tinha trinta anos. Nunca
+se embara&ccedil;ara nos tormentos de uma paix&atilde;o. Marcava,
+com r&iacute;gida regularidade, todas as suas despesas num Livro de
+Contas encadernado em pel&uacute;cia verde-mar. A sua
+religi&atilde;o &iacute;ntima (e mais genu&iacute;na do que a
+outra, que a levava todos os domingos &agrave; missa de S. Philippe
+du Roule) era a Ordem. No Inverno, logo que na am&aacute;vel cidade
+come&ccedil;avam a morrer de frio, debaixo das pontes, criancinhas
+sem abrigo--ela preparava com comovido cuidado os seus vestidos de
+patinagem. E preparava tamb&eacute;m os de Caridade--porque era
+boa, e concorria para Bazares, Concertos e T&ocirc;mbolas, quando
+fossem patrocinados pelas Duquesas do seu &laquo;rancho&raquo;.
+Depois, na Primavera, muito metodicamente, regateando, vendia a uma
+adela os vestidos e as capas de Inverno. Paris admirava nela uma
+suprema flor de Parisianismo.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Pois respirando esta macia e fina flor pass&aacute;mos <span class="pagenum">[143]</span>n&oacute;s as tardes desse Julho enquanto as
+outras flores pendiam e murchavam na calma e no p&oacute;. Mas, na
+intimidade do seu perfume, Jacinto n&atilde;o parecia encontrar
+esse contentamento de alma, que entre tudo que cansa jamais cansa.
+Era j&aacute; com a paciente lentid&atilde;o com que se sobem todos
+os Calv&aacute;rios, os mais bem tapetados, que ele subia a
+escadaria de Madame d'Oriol, t&atilde;o suave e orlada de
+t&atilde;o frescas palmeiras. Quando a apetitosa criatura, com
+dedica&ccedil;&atilde;o, para o entreter, desdobrava a sua
+vivacidade como um pav&atilde;o desdobra a cauda, o meu pobre
+Pr&iacute;ncipe puxava os p&ecirc;los do bigode murcho, na murcha
+postura de quem, por uma manh&atilde; de Maio, enquanto os melros
+cantam nas sebes, assiste, numa igreja negra, a um responso
+f&uacute;nebre por um Pr&iacute;ncipe. E no beijo que ele
+chuchurreava sobre a m&atilde;o da sua doce amiga, para se
+despedir, havia sempre alacridade e al&iacute;vio.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Mas ao outro dia, ao come&ccedil;ar da tarde, depois de errar
+atrav&eacute;s da Biblioteca e do Gabinete, puxando sem curiosidade
+a tira do tel&eacute;grafo, atirando algum recado mole pelo
+telefone, espalhando o olhar desalentado sobre o saber imenso dos
+trinta mil livros, remexendo a colina dos Jornais e Revistas,
+terminava por me chamar, j&aacute; com a pregui&ccedil;a triste da
+fa&ccedil;anha a que se impelia:<br>
+
+
+<br>
+
+
+<span class="pagenum">[144]</span>--Vamos a casa de Madame d'Oriol,
+Z&eacute; Fernandes? Eu tinha marcadas para hoje seis ou sete
+coisas, mas n&atilde;o posso, &eacute; uma seca! Vamos a casa de
+Madame d'Oriol... Ao menos l&aacute;, &agrave;s vezes, h&aacute; um
+bocado de frescura e paz.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+E foi numa dessas tardes, em que o meu Pr&iacute;ncipe assim
+procurava desesperadamente um &laquo;bocado de frescura e
+paz&raquo;, que encontramos, ao meio da escadaria suave, entre as
+palmeiras, o marido de Madame d'Oriol. Eu j&aacute; o
+conhecia--porque Jacinto mo mostrara uma noite, no Grand
+Caf&eacute;, ceando com dan&ccedil;arinas do _Moulin Rouge_. Era um
+mo&ccedil;o gordalhufo, indolente, de uma brancura crua de
+toucinho, com uma calv&iacute;cie j&aacute; s&eacute;ria e
+j&aacute; lustrosa, constantemente acariciada pelos seus gordos
+dedos carregados de an&eacute;is. Nessa tarde, por&eacute;m, vinha
+vermelho, todo emocionado, cal&ccedil;ando as luvas com
+c&oacute;lera. Estacou diante de Jacinto--e sem mesmo lhe apertar a
+m&atilde;o, atirando um gesto para o patamar:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Visita l&aacute; acima? Vai achar a Joana em p&eacute;ssima
+disposi&ccedil;&atilde;o... Tivemos uma cena, e tremenda.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Deu outro pux&atilde;o desesperado &agrave; luva cor de palha,
+j&aacute; esga&ccedil;ada:<br>
+
+
+<br>
+
+
+
+--Estamos separados, cada um vive como lhe apetece, &eacute;
+excelente! Mas em tudo h&aacute; <span class="pagenum">[145]</span>medida e forma... Ela tem o meu nome,
+n&atilde;o posso consentir que em Paris, com conhecimento de todo o
+Paris, seja a amante do trintan&aacute;rio. Amantes na nossa roda,
+v&aacute;! Um lacaio, n&atilde;o!... Se quer dormir com os criados
+que emigre para o fundo da prov&iacute;ncia, para a sua casa de
+Corbelle. E l&aacute; at&eacute; com os animais!... Foi o que eu
+lhe disse! Ficou como uma fera.<br>
+
+
+<br>
+
+
+
+Sacudiu ent&atilde;o a m&atilde;o do Jacinto que &laquo;era da sua
+roda&raquo;--rebolou pela escadaria florida e nobre. O meu
+Pr&iacute;ncipe, im&oacute;vel nos degraus, de face pendida,
+cofiava lentamente os fios pendidos do bigode. Depois, olhando para
+mim, como um ser saturado de t&eacute;dio e em quem nenhum
+t&eacute;dio novo pode caber:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--J&aacute; agora subamos, sim?<br>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+
+<div class="break">
+<hr></div>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+Parti ent&atilde;o, com muita alegria, para a minha apetecida
+romagem &agrave;s Cidades da Europa.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Ia viajar!... Viajei. Trinta e quatro vezes, &agrave; pressa,
+bufando, com todo o sangue na face, desfiz e refiz a mala. Onze
+vezes passei o dia num vag&atilde;o, envolto em poeirada e fumo,
+sufocado, a arquejar, a escorrer de suor, saltando em cada
+esta&ccedil;&atilde;o para sorver desesperadamente limonadas mornas
+que me escangalhavam <span class="pagenum">[146]</span>a entranha.
+Catorze vezes subi derreadamente, atr&aacute;s de um criado, a
+escadaria desconhecida de um Hotel; e espalhei o olhar incerto por
+um quarto desconhecido; e estranhei uma cama desconhecida, de onde
+me erguia, estremunhado, para pedir em l&iacute;nguas desconhecidas
+um caf&eacute; com leite que me sabia a fava, um banho de tina que
+me cheirava a lodo. Oito vezes travei bulhas abomin&aacute;veis na
+rua com cocheiros que me espoliavam. Perdi uma chapeleira, quinze
+len&ccedil;os, tr&ecirc;s ceroulas, e duas botas, uma branca, outra
+envernizada, ambas do p&eacute; direito. Em mais de trinta
+mesas-redondas esperei tristonhamente que me chegasse o
+
+<i>boeuf-&agrave;-la-mode</i>, j&aacute; frio, com molho
+coalhado--e que o copeiro me trouxesse a garrafa de Bord&eacute;us
+que eu provava e repelia com desditosa carantonha. Percorri, na
+fresca penumbra dos granitos e dos m&aacute;rmores, com p&eacute;
+respeitoso e abafado, vinte e nove Catedrais. Trilhei molemente,
+com uma dor surda na nuca, em catorze museus, cento e quarenta
+salas revestidas at&eacute; aos tectos de Cristos, her&oacute;is,
+santos, ninfas, princesas, batalhas, arquitecturas, verduras,
+nudezas, sombrias manchas de betume, tristezas das formas
+im&oacute;veis!... E o dia mais doce foi quando em Veneza, onde
+chovia desabaladamente, encontrei um velho <span class="pagenum">[147]</span>ingl&ecirc;s de penca flamejante que habitara
+o Porto, conhecera o Ricardo, o Jos&eacute; Duarte, o Visconde do
+Bom Sucesso, e as Limas da Boavista... Gastei seis mil francos.
+Tinha viajado.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Enfim, numa bendita manh&atilde; de Outubro, na primeira friagem e
+n&eacute;voa de Outono, avistei com enternecido alvoro&ccedil;o as
+cortinas de seda ainda fechadas do meu 202! Afaguei o ombro do
+Porteiro. No patamar, onde encontrei o ar macio e t&eacute;pido que
+deixara em Floren&ccedil;a, apertei os ossos do Grilo
+excelente:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--E Jacinto?<br>
+
+
+<br>
+
+
+O digno negro murmurou, de entre os altos, reluzentes
+colarinhos:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--S. Exc.&ordf; circula... Pesadote, fartote. Entrou tarde do baile
+da Duquesa de Loches. Era o contrato de casamento de Mademoiselle
+de Loches... Ainda tomou antes de se deitar um ch&aacute; gelado...
+E disse a co&ccedil;ar a cabe&ccedil;a: &laquo;Eh! que
+ma&ccedil;ada! Eh! que ma&ccedil;ada!&raquo;<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Depois do banho e do chocolate, &agrave;s dez horas, consolado e
+quentinho dentro do roup&atilde;o de veludo, rompi pelo quarto do
+meu Pr&iacute;ncipe, de bra&ccedil;os abertos e sedentos:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Oh Jacinto!<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Oh viajante!...<br>
+
+
+<br>
+
+
+Quando nos estreit&aacute;mos, fartamente, eu recuei para lhe
+contemplar a face--e nela a <span class="pagenum">[148]</span>alma.
+Encolhido numa quinzena de pano cor de malva orlada de peles de
+marta, com os p&ecirc;los do bigode murchos, as suas duas rugas
+mais cavadas, uma moleza nos ombros largos, o meu amigo parecia
+j&aacute; vergado sob o peso e a opress&atilde;o e o terror do seu
+dia. Eu sorri, para que ele sorrisse:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Valente Jacinto... Ent&atilde;o como tens vivido?<br>
+
+
+<br>
+
+
+Ele respondeu, muito serenamente:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Como um morto.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Forcei uma gargalhada leve, como se o seu mal fosse leve:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Aborrecidote, hein?<br>
+
+
+<br>
+
+
+
+O meu Pr&iacute;ncipe lan&ccedil;ou, num gesto t&atilde;o vencido,
+um <i>oh</i> t&atilde;o cansado--que eu compadecido de novo o
+abracei, o estreitei, como para lhe comunicar uma parte desta
+alegria s&oacute;lida e pura que recebi do meu Deus!<br>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+<div class="break">
+<hr></div>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+Desde essa manh&atilde;, Jacinto come&ccedil;ou a mostrar
+claramente, escancaradamente, ao seu Z&eacute; Fernandes, o
+t&eacute;dio de que a exist&ecirc;ncia o saturava. O seu cuidado
+realmente e o seu esfor&ccedil;o consistiram ent&atilde;o em sondar
+e formular esse t&eacute;dio--na esperan&ccedil;a de o vencer logo
+que lhe conhecesse bem a origem e a pot&ecirc;ncia. <span class="pagenum">[149]</span>E o meu pobre Jacinto reproduziu a
+com&eacute;dia pouco divertida de um Melanc&oacute;lico que
+perpetuamente raciocina a sua Melancolia! Nesse racioc&iacute;nio,
+ele partia sempre do facto irrecus&aacute;vel e maci&ccedil;o--que
+a sua vida especial de Jacinto continha todos os interesses e todas
+as facilidades, poss&iacute;veis no s&eacute;culo XIX, numa vida de
+homem que n&atilde;o &eacute; um G&eacute;nio, nem um Santo. Com
+efeito! Apesar do apetite embotado por doze anos de Champanhes e
+molhos ricos ele conservava a sua rijeza de pinheiro bravo; na luz
+da sua intelig&ecirc;ncia n&atilde;o aparecera nem tremor nem
+morr&atilde;o; a boa terra de Portugal, e algumas Companhias
+maci&ccedil;as, pontualmente lhe forneciam a sua doce centena de
+contos; sempre activas e sempre fi&eacute;is o cercavam as
+simpatias de uma Cidade inconstante e chasqueadora; o 202 estourava
+de confortos; nenhuma amargura de cora&ccedil;&atilde;o o
+atormentava;--e todavia era um Triste. Porqu&ecirc;?... E daqui
+saltava, com certeza fulgurante, &agrave; conclus&atilde;o de que a
+sua tristeza, esse cinzento burel em que a sua alma andava
+amortalhada, n&atilde;o provinham da sua individualidade de
+Jacinto--mas da Vida, do lament&aacute;vel, do desastroso facto de
+Viver! E assim o saud&aacute;vel, intelectual, riqu&iacute;ssimo,
+bem-acolhido Jacinto tombara no Pessimismo.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+<span class="pagenum">[150]</span>E um Pessimismo irritado! Porque
+(segundo afirmava) ele nascera para ser t&atilde;o naturalmente
+optimista como um pardal ou um gato. E, at&eacute; aos doze anos,
+enquanto fora um bicho superiormente amimado, com a sua pele sempre
+bem coberta, o seu prato sempre bem cheio, nunca sentira fadiga, ou
+melancolia, ou contrariedade, ou pena--e as l&aacute;grimas eram
+para ele t&atilde;o incompreens&iacute;veis que lhe pareciam
+viciosas. S&oacute; quando crescera, e da animalidade penetrara na
+humanidade, despontara nele esse fermento de tristeza, muito tempo
+indesenvolvido no tumulto das primeiras curiosidades, e que depois
+alastrara, o invadira todo, se lhe tornara consubstancial e como o
+sangue das suas veias. Sofrer portanto era insepar&aacute;vel de
+Viver. Sofrimentos diferentes nos destinos diferentes da Vida. Na
+turba dos humanos &eacute; a angustiada luta pelo p&atilde;o, pelo
+tecto, pelo lume; numa casta, agitada por necessidades mais altas,
+&eacute; a amargura das desilus&otilde;es, o mal da
+imagina&ccedil;&atilde;o insatisfeita, o orgulho chocando contra
+obst&aacute;culo; nele, que tinha os bens todos e desejos nenhuns,
+era o t&eacute;dio. Mis&eacute;ria do Corpo, tormento da Vontade,
+fastio da Intelig&ecirc;ncia--eis a Vida! E agora aos trinta e
+tr&ecirc;s anos a sua ocupa&ccedil;&atilde;o era bocejar, correr
+com os <span class="pagenum">[151]</span>dedos desalentados a face
+pendida para nela palpar e apetecer a caveira.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Foi ent&atilde;o que o meu Pr&iacute;ncipe come&ccedil;ou a ler
+apaixonadamente, desde o <i>Eclesiastes</i> at&eacute;
+Schopenhauer, todos os l&iacute;ricos e todos os te&oacute;ricos do
+Pessimismo. Nestas leituras encontrava a reconfortante
+comprova&ccedil;&atilde;o de que o seu mal n&atilde;o era
+mesquinhamente &laquo;Jac&iacute;ntico&raquo;--mas grandiosamente
+resultante de uma Lei Universal. J&aacute; h&aacute; quatro mil
+anos, na remota Jerusal&eacute;m, a Vida, mesmo nas suas
+del&iacute;cias mais triunfais, se resumia em Ilus&atilde;o.
+J&aacute; o Rei incompar&aacute;vel, de sapi&ecirc;ncia divina,
+sumo Vencedor, sumo Edificador, se enfastiava, bocejava, entre os
+despojos das suas conquistas, e os m&aacute;rmores novos dos seus
+Templos, e as suas tr&ecirc;s mil concubinas, e as Rainhas que
+subiam do fundo da Eti&oacute;pia para que ele as fecundasse e no
+seu ventre depusesse um Deus! N&atilde;o h&aacute; nada novo sob o
+sol, e a eterna repeti&ccedil;&atilde;o das coisas &eacute; a
+eterna repeti&ccedil;&atilde;o dos males. Quanto mais se sabe mais
+se pena. E o justo como o perverso, nascidos do p&oacute;, em
+p&oacute; se tornam. Tudo tende ao p&oacute; ef&eacute;mero, em
+Jerusal&eacute;m e em Paris! E ele, obscuro no 202, padecia por ser
+homem e por viver--como no seu trono de ouro, entre os seus quatro
+le&otilde;es de ouro, o filho magn&iacute;fico de David.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+<span class="pagenum">[152]</span>N&atilde;o se separava
+ent&atilde;o do <i>Eclesiastes</i>. E circulava por Paris trazendo
+dentro do coup&eacute; Salom&atilde;o, como irm&atilde;o de dor,
+com quem repetia o grito desolado que &eacute; a suma da verdade
+humana--<i>Vanitas Vanitatum</i>! Tudo &eacute; Vaidade! Outras
+vezes, logo de manh&atilde; o encontrava estendido no sof&aacute;,
+num roup&atilde;o de seda, absorvendo Schopenhauer--enquanto o
+pedicuro, ajoelhado sobre o tapete, lhe polia com respeito e
+per&iacute;cia as unhas dos p&eacute;s. Ao lado pousava a
+ch&aacute;vena de Saxe, cheia desse caf&eacute; de Moca enviado por
+emires do Deserto, que n&atilde;o o contentava nunca, nem pela
+for&ccedil;a, nem pelo aroma. A espa&ccedil;os pousava o livro no
+peito, resvalava um olhar compassivo para o pedicuro, como a
+procurar que dor o torturaria--pois que a todo o viver corresponde
+um sofrer. Decerto o remexer assim, perpetuamente, em p&eacute;s
+alheios... E quando o pedicuro se erguia, Jacinto abria para ele um
+sorriso de confraternidade--com um &laquo;adeus, meu amigo&raquo;
+
+que era &laquo;um adeus, meu irm&atilde;o!&raquo;<br>
+
+
+<br>
+
+
+Esse foi o per&iacute;odo espl&ecirc;ndido e soberbamente divertido
+do seu t&eacute;dio. Jacinto encontrara enfim na vida uma
+ocupa&ccedil;&atilde;o grata--maldizer a Vida! E para que a pudesse
+maldizer em todas as suas formas, as mais ricas, as mais
+intelectuais, as mais puras, sobrecarregou <span class="pagenum">[153]</span>a sua vida pr&oacute;pria de novo luxo, de
+interesses novos de esp&iacute;rito, e at&eacute; de fervores
+humanit&aacute;rios, e at&eacute; de curiosidades
+supernaturais.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+O 202, nesse Inverno, refulgiu de magnific&ecirc;ncia. Foi
+ent&atilde;o que ele iniciou em Paris, repetindo
+Heliog&aacute;balo, os Festins de Cor contados na Hist&oacute;ria
+Augusta: e ofereceu &agrave;s suas amigas esse sublime jantar
+cor-de-rosa, em que tudo era r&oacute;seo, as paredes, os
+m&oacute;veis, as luzes, as lou&ccedil;as, os cristais, os gelados,
+os Champanhes, e at&eacute; (por uma inven&ccedil;&atilde;o da
+Alta-Cozinha) os peixes, e as carnes, e os legumes, que os
+escudeiros serviam, empoados de p&oacute; rosado, com libr&eacute;s
+da cor da rosa, enquanto do tecto, de um vel&aacute;rio de seda
+rosada, ca&iacute;am p&eacute;talas frescas de rosas... A Cidade,
+deslumbrada, clamou--&laquo;Bravo, Jacinto!&raquo; E o meu
+Pr&iacute;ncipe, ao rematar a festa fulgurante, plantou diante de
+mim as m&atilde;os nas ilhargas e gritou
+triunfalmente:--&laquo;Hein? Que ma&ccedil;ada!...&raquo;<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Depois foi o Humanitarismo: e fundou um Hosp&iacute;cio no campo,
+entre jardins, para velhinhos desamparados, outro para
+crian&ccedil;as d&eacute;beis &agrave; beira do Mediterr&acirc;neo.
+Depois com o major Dorchas, e Mayolle, e o Hindu de Mayolle
+penetrou no Teosofismo: e montou tremendas experi&ecirc;ncias para
+verificar a misteriosa <span class="pagenum">[154]</span><i>exterioriza&ccedil;&atilde;o da
+motilidade</i>. Depois, desesperadamente, ligou o 202 com os fios
+telegr&aacute;ficos do <i>Times</i>, para que no seu gabinete, como
+num cora&ccedil;&atilde;o, palpitasse toda a vida Social da
+Europa.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+E a cada um destes esfor&ccedil;os da eleg&acirc;ncia, do
+humanitarismo, da sociabilidade, e da intelig&ecirc;ncia
+indagadora, voltava para mim, de bra&ccedil;os alegres, com um
+grito vitorioso:--&laquo;V&ecirc;s tu, Z&eacute; Fernandes? Uma
+ma&ccedil;ada!&raquo;--Arrebatava ent&atilde;o o seu
+<i>Eclesiastes</i>, o seu Schopenhauer, e, estendido no
+sof&aacute;, saboreava voluptuosamente a concord&acirc;ncia da
+Doutrina e da Experi&ecirc;ncia. Possu&iacute;a uma F&eacute;--o
+Pessimismo: era um ap&oacute;stolo rico e esfor&ccedil;ado: e tudo
+tentava, com sumptuosidade, para provar a verdade da sua F&eacute;!
+Muito gozou nesse ano o meu desgra&ccedil;ado Pr&iacute;ncipe!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+No come&ccedil;o do Inverno, por&eacute;m, notei com
+inquieta&ccedil;&atilde;o que Jacinto j&aacute; n&atilde;o folheava
+o <i>Eclesiastes</i>, desleixava Schopenhauer. Nem festas, nem
+Teosofismos, nem os seus Hosp&iacute;cios, nem os fios do
+<i>Times</i>, pareciam interessar agora o meu amigo, mesmo como
+demonstra&ccedil;&otilde;es gloriosas da sua Cren&ccedil;a. E a sua
+abomin&aacute;vel fun&ccedil;&atilde;o de novo se limitou a
+bocejar, a passar os dedos moles sobre a face pendida palpando a
+caveira. Incessantemente aludia &agrave; morte como a uma
+liberta&ccedil;&atilde;o. Uma <span class="pagenum">[155]</span>tarde mesmo, no melanc&oacute;lico
+crep&uacute;sculo da Biblioteca, antes de refulgirem as luzes,
+consideravelmente me aterrou, falando num tom regelado de mortes
+r&aacute;pidas, sem dor, pelo choque de uma vasta pilha
+el&eacute;ctrica ou pela viol&ecirc;ncia compassiva do acido
+cian&iacute;drico. Diabo! O Pessimismo, que aparecera na
+Intelig&ecirc;ncia do meu Pr&iacute;ncipe como um conceito
+elegante--atacara bruscamente a Vontade!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Todo o seu movimento ent&atilde;o foi o de um boi inconsciente que
+marcha sob a canga e o aguilh&atilde;o. J&aacute; n&atilde;o
+esperava da Vida contentamento--nem mesmo se lastimava que ela lhe
+trouxesse t&eacute;dio ou pena. &laquo;Tudo &eacute; indiferente,
+Z&eacute; Fernandes!&raquo; E t&atilde;o indiferentemente sairia
+&agrave; sua janela para receber uma Coroa Imperial oferecida por
+um Povo--como se estenderia numa poltrona rota para emudecer e
+jazer. Sendo tudo in&uacute;til, e n&atilde;o conduzindo
+sen&atilde;o a maior desilus&atilde;o, que podia importar a mais
+rutilante actividade ou a mais desgostada in&eacute;rcia? O seu
+gesto constante, que me irritava, era encolher os ombros. Perante
+duas ideias, dois caminhos, dois pratos, encolhia os ombros! Que
+importava?... E no m&iacute;nimo acto, raspar um f&oacute;sforo ou
+desdobrar um Jornal, punha uma morosidade t&atilde;o desconsolada
+que todo ele parecia ligado, desde os dedos at&eacute; &agrave;
+
+alma, <span class="pagenum">[156]</span>pelas voltas apertadas de
+uma corda que se n&atilde;o via e que o travava.<br>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+<div class="break">
+<hr></div>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+Muito desagradavelmente me recordo do dia dos seus anos, a 10 de
+Janeiro. Cedo, de manh&atilde;, recebera, com uma carta de Madame
+de Tr&egrave;ves, um a&ccedil;afate de cam&eacute;lias,
+az&aacute;leas, orqu&iacute;deas e l&iacute;rios do vale. E foi
+este mimo que lhe recordou a data consider&aacute;vel. Soprou sobre
+as p&eacute;talas o fumo do cigarro e murmurou com um riso de lento
+esc&aacute;rnio:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Ent&atilde;o, h&aacute; trinta e quatro anos que eu ando nesta
+ma&ccedil;ada?<br>
+
+
+<br>
+
+
+E como eu propunha que telefon&aacute;ssemos aos amigos para
+beberem no 202 o Champanhe do &laquo;Natal&iacute;cio&raquo;--ele
+recusou, com o nariz enojado. Oh! N&atilde;o! Que horr&iacute;vel
+seca!... E bradou mesmo para o Grilo:<br>
+
+
+<br>
+
+
+
+--Eu hoje n&atilde;o estou em Paris para ningu&eacute;m. Abalei
+para o campo, abalei para Marselha... Morri!<br>
+
+
+<br>
+
+
+E a sua ironia n&atilde;o cessou at&eacute; ao almo&ccedil;o
+perante os bilhetes, os telegramas, as cartas, que subiam, se
+arredondavam em colina sobre a mesa de &eacute;bano, como um preito
+da Cidade. Outras flores que vieram, em vistosos cestos, com
+vistosos la&ccedil;os, foram por ele comparadas &agrave;s que se
+dep&otilde;e sobre uma tumba. <span class="pagenum">[157]</span>E
+apenas se interessou um momento pelo presente de Efraim, uma
+engenhosa mesa, que se abaixava at&eacute; ao tapete ou se alteava
+at&eacute; ao tecto--para qu&ecirc;, senhor Deus meu?<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Depois do almo&ccedil;o, como chovia sombriamente, n&atilde;o
+arred&aacute;mos do 202, com os p&eacute;s estendidos ao lume, em
+pregui&ccedil;oso sil&ecirc;ncio. Eu terminara por adormecer
+beatificamente. Acordei aos passos a&ccedil;odados do Grilo...
+Jacinto, enterrado na poltrona, com umas tesouras, recortava um
+papel! E nunca eu me compadeci daquele amigo, que cansara a
+mocidade a acumular todas as no&ccedil;&otilde;es formuladas desde
+Arist&oacute;teles e a juntar todos os inventos realizados desde
+Tharamenes, como nessa tarde de festa, em que ele, cercado de
+Civiliza&ccedil;&atilde;o nas m&aacute;ximas
+propor&ccedil;&otilde;es para gozar nas m&aacute;ximas
+propor&ccedil;&otilde;es a del&iacute;cia de viver, se encontrava
+reduzido, junto ao seu lar, a recortar pap&eacute;is com uma
+tesoura!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+O Grilo trazia um presente do Gr&atilde;o-Duque--uma caixa de
+prata, forrada de cedro, e cheia de um ch&aacute; precioso,
+colhido, flor a flor, nas veigas de Kiang-Sou por m&atilde;os puras
+de virgens, e conduzido atrav&eacute;s da &Aacute;sia, em
+caravanas, com a venera&ccedil;&atilde;o de uma rel&iacute;quia.
+Ent&atilde;o, para despertar o nosso torpor, lembrei que
+tom&aacute;ssemos o divino ch&aacute;--ocupa&ccedil;&atilde;o bem
+harm&oacute;nica com a tarde triste, a chuva <span class="pagenum">[158]</span>grossa alagando os vidros, e a clara chama
+bailando no fog&atilde;o. Jacinto acedeu--e um escudeiro acercou
+logo a mesa de Efraim para que n&oacute;s lhe estre&aacute;ssemos
+os servi&ccedil;os destros. Mas o meu Pr&iacute;ncipe, depois de a
+altear, para meu espanto, at&eacute; aos cristais do lustre,
+n&atilde;o conseguiu, apesar de uma suada e desesperada batalha com
+as molas, que a mesa regressasse a uma altura humana e caseira. E o
+escudeiro de novo a levou, levantada como um andaime,
+quim&eacute;rica, unicamente aproveit&aacute;vel para o gigante
+Adamastor. Depois veio a caixa do ch&aacute; entre chaleiras,
+l&acirc;mpadas, coadores, filtros, todo um fausto de alfaias de
+prata, que comunicavam a essa ocupa&ccedil;&atilde;o, t&atilde;o
+simples e doce em casa de minha tia, <i>fazer ch&aacute;</i>, a
+majestade de um rito. Prevenido pelo meu camarada da sublimidade
+daquele ch&aacute; de Kiang-Sou, ergui a ch&aacute;vena aos
+l&aacute;bios com rever&ecirc;ncia. Era uma infus&atilde;o
+descorada que sabia a malva e a formiga. Jacinto provou, cuspiu,
+blasfemou... N&atilde;o tom&aacute;mos ch&aacute;.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Ao cabo doutro pensativo sil&ecirc;ncio, murmurei, com os olhos
+perdidos no lume:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--E as obras de Tormes? A igreja... J&aacute; haver&aacute; igreja
+nova?<br>
+
+
+<br>
+
+
+Jacinto retomara o papel e a tesoura:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--N&atilde;o sei... N&atilde;o tornei a receber carta do
+
+<span class="pagenum">[159]</span>Silv&eacute;rio... Nem imagino
+onde param os ossos... Que l&uacute;gubre hist&oacute;ria!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Depois chegou a hora das luzes e do jantar. Eu encomendara pelo
+Grilo ao nosso magistral cozinheiro uma larga travessa de arroz
+doce, com as iniciais de Jacinto e a data ditosa em canela,
+&agrave; moda am&aacute;vel da nossa meiga terra. E o meu
+Pr&iacute;ncipe &agrave; mesa, percorrendo a l&acirc;mina de marfim
+onde no 202 se inscreviam os pratos a l&aacute;pis vermelho, louvou
+com fervor a ideia patriarcal:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Arroz doce! Est&aacute; escrito com dois <i>ss</i>, mas
+n&atilde;o tem d&uacute;vida... Excelente lembran&ccedil;a!
+H&aacute; que tempos n&atilde;o como arroz doce!... Desde a morte
+da av&oacute;.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Mas quando o arroz doce apareceu triunfalmente, que vexame! Era um
+prato monumental, de grande arte! O arroz, maci&ccedil;o, moldado
+em forma de pir&acirc;mide do Egipto, emergia de uma calda de
+cereja, e desaparecia sob os frutos secos que o revestiam
+at&eacute; ao cimo, onde se equilibrava uma coroa de Conde feita de
+chocolate e gomos de tangerina gelada! E as iniciais, a data,
+t&atilde;o lindas e graves na canela ing&eacute;nua, vinham
+tra&ccedil;adas nas bordas da travessa com violetas pralinadas!
+Repelimos, num mudo horror, o prato acanalhado. E Jacinto, erguendo
+o copo de Champanhe, murmurou como num funeral pag&atilde;o:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+<span class="pagenum">[160]</span>--<i>Ad Manes</i>, aos nossos
+mortos!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Recolhemos &agrave; Biblioteca, a tomar o caf&eacute; no conchego e
+alegria do lume. Fora, o vento bramava como num ermo serrano: e as
+vidra&ccedil;as tremiam, alagadas, sob as b&aacute;tegas da chuva
+irada. Que dolorosa noite para os dez mil pobres que em Paris erram
+sem p&atilde;o e sem lar! Na minha aldeia, entre cerro e vale,
+talvez assim rugisse a tormenta. Mas a&iacute; cada pobre, sob o
+abrigo da sua telha v&atilde;, com a sua panela atestada de couves,
+se agacha no seu mant&eacute;u ao calor da lareira. E para os que
+n&atilde;o tenham lenha ou couve, l&aacute; est&aacute; o
+Jo&atilde;o das Quintas, ou a tia Vic&ecirc;ncia, ou o abade, que
+conhecem todos os pobres pelos seus nomes, e com eles contam, como
+sendo dos seus, quando o carro vai ao mato e a fornada entra no
+forno. Ah Portugal pequenino, que ainda &eacute;s doce aos
+pequeninos!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Suspirei, Jacinto pregui&ccedil;ava. E termin&aacute;mos por
+remexer languidamente os jornais que o mordomo trouxera, num monte
+facundo, sobre uma salva de prata--jornais de Paris, jornais de
+Londres, Seman&aacute;rios, Magazines, Revistas,
+Ilustra&ccedil;&otilde;es... Jacinto desdobrava, arremessava: das
+Revistas espreitava o sum&aacute;rio, logo farto; &agrave;s
+Ilustra&ccedil;&otilde;es rasgava as folhas com o dedo indiferente,
+bocejando <span class="pagenum">[161]</span>por cima das gravuras.
+Depois, mais estirado para o lume:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--&Eacute; uma seca... N&atilde;o h&aacute; que ler.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+E de repente, revoltado contra este fastio opressor que o
+escravizava, saltou da poltrona com um arranque de quem
+despeda&ccedil;a algemas, e ficou erecto, dardejando em torno um
+olhar imperativo e duro, como se intimasse aquele seu 202,
+t&atilde;o abarrotado de Civiliza&ccedil;&atilde;o, a que por um
+momento sequer fornecesse &agrave; sua alma um interesse vivo,
+&agrave; sua vida um fugitivo gosto! Mas o 202 permaneceu
+insens&iacute;vel: nem uma luz, para o animar, avivou o seu brilho
+mudo: s&oacute; as vidra&ccedil;as tremeram sob o embate mais rude
+de &aacute;gua e vento.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Ent&atilde;o o meu Pr&iacute;ncipe, sucumbido, arrastou os passos
+at&eacute; ao seu gabinete, come&ccedil;ou a percorrer todos os
+aparelhos completadores e facilitadores da Vida--o seu
+Tel&eacute;grafo, o seu Telefone, o seu Fon&oacute;grafo, o seu
+Radi&oacute;metro, o seu Graf&oacute;fono, o seu Microfone, a sua
+M&aacute;quina de Escrever, a sua M&aacute;quina de Contar, a sua
+Imprensa El&eacute;ctrica, a outra Magn&eacute;tica, todos os seus
+utens&iacute;lios, todos os seus tubos, todos os seus fios... Assim
+um Suplicante percorre altares donde espera socorro. E toda a sua
+sumptuosa Mec&acirc;nica <span class="pagenum">[162]</span>se
+conservou r&iacute;gida, reluzindo frigidamente, sem que uma roda
+girasse, nem uma l&acirc;mina vibrasse, para entreter o seu
+Senhor.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+S&oacute; o rel&oacute;gio monumental, que marcava a hora de todas
+as capitais e o curso de todos os planetas, se compadeceu, batendo
+a meia-noite, anunciando ao meu amigo que mais um Dia partira
+levando o seu peso--diminuindo esse sombrio peso da Vida, sob que
+ele gemia, vergado. O Pr&iacute;ncipe da Gr&atilde;-Ventura,
+ent&atilde;o, decidiu recolher para a cama--com um livro... E
+durante um momento, estacou no meio da Biblioteca, considerando os
+seus setenta mil volumes estabelecidos com pompa e majestade como
+Doutores num Conc&iacute;lio--depois as pilhas tumultu&aacute;rias
+dos livros novos que esperavam pelos cantos, sobre o tapete, o
+repouso e a consagra&ccedil;&atilde;o das estantes de &eacute;bano.
+Torcendo molemente o bigode caminhou por fim para a regi&atilde;o
+dos Historiadores: espreitou s&eacute;culos, farejou ra&ccedil;as:
+pareceu atra&iacute;do pelo esplendor do Imp&eacute;rio Bizantino:
+penetrou na Revolu&ccedil;&atilde;o Francesa donde se arredou
+desencantado: e palpou com m&atilde;o indeliberada toda a vasta
+Gr&eacute;cia desde a cria&ccedil;&atilde;o de Atenas at&eacute; a
+aniquila&ccedil;&atilde;o de Corinto. Mas bruscamente virou para a
+fila dos Poetas, <span class="pagenum">[163]</span>que reluziam em
+marroquins claros, mostrando, sobre a lombada, em ouro, nos
+t&iacute;tulos fortes ou l&acirc;nguidos, o interior das suas
+almas. N&atilde;o apeteceu nenhuma dessas seis mil almas--e recuou,
+desconsolado, at&eacute; aos Bi&oacute;logos... T&atilde;o
+maci&ccedil;a e cerrada era a estante de Biologia que o meu pobre
+Jacinto estarreceu, como ante uma cidadela inacess&iacute;vel!
+Rolou a escada--e, fugindo, trepou, at&eacute; &agrave;s alturas da
+Astronomia: destacou astros, recolocou mundos: todo um Sistema
+Solar desabou com fragor. Aturdido, desceu, come&ccedil;ou a
+procurar por sobre as rimas das obras novas, ainda brochadas, nas
+suas roupas leves de combate. Apanhava, folheava, arremessava: para
+desentulhar um volume, demolia uma torre de doutrinas: saltava por
+cima dos Problemas, pisava as Religi&otilde;es: e relanceando uma
+linha, esgravatando al&eacute;m num &iacute;ndice, todos
+interrogava, de todos se desinteressava, rolando quase de rastos,
+nas grossas vagas de tomos que rolavam, sem se poder deter, na
+
+&acirc;nsia de encontrar um Livro! Parou ent&atilde;o no meio da
+imensa nave, de c&oacute;coras, sem coragem, contemplando aqueles
+muros todos forrados, aquele ch&atilde;o todo alastrado, os seus
+setenta mil volumes--e, sem lhes provar a subst&acirc;ncia,
+j&aacute; absolutamente saciado, abarrotado, nauseado <span class="pagenum">[164]</span>pela opress&atilde;o da sua abund&acirc;ncia.
+Findou por voltar ao mont&atilde;o de jornais amarrotados, ergueu
+melancolicamente um velho <i>Di&aacute;rio de Not&iacute;cias</i>,
+e com ele debaixo do bra&ccedil;o subiu ao seu quarto, para dormir,
+para esquecer.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+<h2>VIII</h2>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+Ao fim desse Inverno escuro e pessimista, uma manh&atilde; que eu
+pregui&ccedil;ava na cama, sentindo atrav&eacute;s da
+vidra&ccedil;a cheia de sol ainda p&aacute;lido um bafo de
+Primavera ainda t&iacute;mido--Jacinto assomou &agrave; porta do
+meu quarto, revestido de flanelas leves, de uma alvura de
+a&ccedil;ucena. Parou lentamente &agrave; beira dos
+colch&otilde;es, e, com gravidade, como se anunciasse o seu
+casamento ou a sua morte, deixou desabar sobre mim esta
+declara&ccedil;&atilde;o formid&aacute;vel:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Z&eacute; Fernandes, vou partir para Tormes.<br>
+
+
+<br>
+
+
+O pulo com que me sentei abalou o rijo leito de pau preto do velho
+D. Gale&atilde;o:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Para Tormes? Oh Jacinto, quem assassinaste?...<br>
+
+
+<br>
+
+
+Deleitado com a minha emo&ccedil;&atilde;o, o Pr&iacute;ncipe da
+Gr&atilde;-Ventura tirou da algibeira uma carta, e encetou estas
+linhas, j&aacute; decerto relidas, fundamente estudadas:<br>
+
+
+
+<span class="pagenum">[166]</span>--&laquo;Il.<sup>mo</sup> e
+Exc.<sup>mo</sup> sr.--Tenho grande satisfa&ccedil;&atilde;o em
+comunicar a V. Exc.&ordf; que por toda esta semana devem ficar
+prontas as obras da capela...&raquo;<br>
+
+
+<br>
+
+
+--&Eacute; do Silv&eacute;rio? exclamei.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--&Eacute; do Silv&eacute;rio. &laquo;...as obras da capela nova.
+Os venerandos restos dos excelsos av&oacute;s de V. Exc.&ordf;,
+senhores de todo o meu respeito, podem pois ser em breve
+trasladados da igreja de S. Jos&eacute;, onde t&ecirc;m estado
+depositados por bondade do nosso Abade, que muito se recomenda a V.
+Exc.&ordf;... Submisso, aguardo as prestantes ordens de V.
+Exc.&ordf; a respeito desta majestosa e aflitiva
+cerim&oacute;nia...&raquo;<br>
+
+
+<br>
+
+
+Atirei os bra&ccedil;os, compreendendo:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Ah! bem! Queres ir assistir &agrave;
+traslada&ccedil;&atilde;o...<br>
+
+
+<br>
+
+
+Jacinto sumiu a carta no bolso.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Pois n&atilde;o te parece, Z&eacute; Fernandes? N&atilde;o
+&eacute; por causa dos outros av&oacute;s, que s&atilde;o ossos
+vagos, e que eu n&atilde;o conheci. &Eacute; por causa do av&ocirc;
+
+Gale&atilde;o... Tamb&eacute;m n&atilde;o o conheci. Mas este 202
+est&aacute; cheio dele; tu est&aacute;s deitado na cama dele; eu
+ainda uso o rel&oacute;gio dele. N&atilde;o posso abandonar ao
+Silv&eacute;rio e aos caseiros o cuidado de o instalarem no seu
+jazigo novo. H&aacute; aqui um escr&uacute;pulo de dec&ecirc;ncia,
+de eleg&acirc;ncia moral... Enfim, decidi. Apertei os <span class="pagenum">[167]</span>punhos na cabe&ccedil;a, e gritei--<i>vou a
+Tormes</i>! E vou!... E tu vens!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Eu enfiara as chinelas, apertava os cord&otilde;es do
+roup&atilde;o:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Mas tu sabes, meu bom Jacinto, que a casa de Tormes est&aacute;
+inabit&aacute;vel...<br>
+
+
+<br>
+
+
+Ele cravou em mim os olhos aterrados.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Medonha, hein?<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Medonha, medonha, n&atilde;o... &Eacute; uma bela casa, de bela
+pedra. Mas os caseiros, que l&aacute; vivem h&aacute; trinta anos,
+dormem em catres, comem o caldo &agrave; lareira, e usam as salas
+para secar o milho. Creio que os &uacute;nicos m&oacute;veis de
+Tormes, se bem recordo, s&atilde;o um arm&aacute;rio, e uma
+espineta de char&atilde;o, coxa, j&aacute; sem teclas.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+O meu pobre Pr&iacute;ncipe suspirou, com um gesto rendido em que
+se abandonava ao Destino:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Acabou!... <i>Alea jacta est!</i> E como s&oacute; partimos para
+Abril, h&aacute; tempo de pintar, de assoalhar, de
+envidra&ccedil;ar... Mando daqui de Paris tapetes e camas... Um
+estofador de Lisboa vai depois forrar e disfar&ccedil;ar algum
+buraco... Levamos livros, uma M&aacute;quina para fabricar gelo...
+E &eacute; mesmo uma ocasi&atilde;o de p&ocirc;r enfim numa das
+minhas casas de Portugal alguma dec&ecirc;ncia e ordem. Pois
+n&atilde;o achas? <span class="pagenum">[168]</span>E ent&atilde;o
+essa! Uma casa que data de 1410... Ainda existia o Imp&eacute;rio
+Bizantino!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Eu espalhava, com o pincel, sobre a face, flocos lentos de
+sab&atilde;o. O meu Pr&iacute;ncipe acendeu muito pensativamente um
+cigarro; e n&atilde;o se arredou do toucador, considerando o meu
+preparo com uma aten&ccedil;&atilde;o triste que me incomodava. Por
+fim, como se remoesse uma senten&ccedil;a minha, para lhe reter bem
+a moral e o suco:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Ent&atilde;o, definitivamente, Z&eacute; Fernandes, entendes que
+&eacute; um dever, um absoluto dever, ir eu a Tormes?<br>
+
+
+<br>
+
+
+
+Afastei do espelho a cara ensaboada para encarar com divertido
+espanto o meu Pr&iacute;ncipe:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Oh Jacinto! foi em ti, s&oacute; em ti que nasceu a ideia desse
+dever! E honra te seja, menino... N&atilde;o cedas a ningu&eacute;m
+essa honra!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Ele atirou o cigarro--e, com as m&atilde;os enterradas nas
+algibeiras das pantalonas, vagou pelo quarto, topando nas cadeiras,
+embicando contra os postes torneados do velho leito de D.
+Gale&atilde;o, num balan&ccedil;o vago, como barco j&aacute;
+desamarrado do seu seguro ancoradouro, e sem rumo no mar incerto.
+Depois encalhou sobre a mesa onde eu conservava enfileirada, por
+grada&ccedil;&otilde;es de sentimentos, desde o
+daguerre&oacute;tipo <span class="pagenum">[169]</span>do
+pap&aacute; at&eacute; &agrave; fotografia do <i>Carocho</i>
+
+perdigueiro, a galeria da minha Fam&iacute;lia.<br>
+
+
+<br>
+
+
+E nunca o meu Pr&iacute;ncipe (que eu contemplava esticando os
+suspens&oacute;rios) me pareceu t&atilde;o corcovado, t&atilde;o
+minguado, como gasto por uma lima que desde muito o andasse
+fundamente limando. Assim viera findar, desfeita em
+Civiliza&ccedil;&atilde;o, naquele super-requintado magricelas sem
+m&uacute;sculo e sem energia, a ra&ccedil;a fort&iacute;ssima dos
+Jacintos! Esses guedelhudos Jacint&otilde;es, que nas suas altas
+terras de Tormes, de volta de bater o moiro no Salado ou o
+castelhano em Valverde, nem mesmo despiam as fuscas armaduras para
+lavrar as suas ch&atilde;s e amarrar a vide ao olmo, edificando o
+Reino com a lan&ccedil;a e com a enxada, ambas t&atilde;o rudes e
+rijas! E agora, ali estava aquele &uacute;ltimo Jacinto, um
+Jacint&iacute;culo, com a macia pele embebida em aromas, a curta
+alma enrodilhada em Filosofias, travado e suspirando baixinho na
+mi&uacute;da indecis&atilde;o de viver.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Oh Z&eacute; Fernandes, quem &eacute; esta lavradeirona
+t&atilde;o rechonchuda?<br>
+
+
+<br>
+
+
+Estendi o pesco&ccedil;o para a Fotografia que ele erguera dentre a
+minha galeria, no seu honroso caixilho de pel&uacute;cia
+escarlate:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Mais respeito, Sr. D. Jacinto... Um pouco mais de respeito,
+cavalheiro!... &Eacute; minha <span class="pagenum">[170]</span>prima Joaninha, de Sandofim, da Casa da Flor
+da Malva.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Flor da Malva, murmurou o meu Pr&iacute;ncipe. &Eacute; a casa do
+Condest&aacute;vel, de Nun'&Aacute;lvares.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Flor da Rosa, homem! A casa do Condest&aacute;vel era na Flor da
+Rosa, no Alentejo... Essa tua ignor&acirc;ncia trapalhona das
+coisas de Portugal!<br>
+
+
+<br>
+
+
+O meu Pr&iacute;ncipe deixou escorregar molemente a fotografia da
+minha prima dentre os dedos moles--que levou &agrave; face, no seu
+gesto horrendo de palpar atrav&eacute;s da face a caveira. Depois,
+de repente, com um soberbo esfor&ccedil;o, em que se endireitou e
+cresceu:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Bem! <i>Alea jacta est!</i> Partamos pois para as serras!... E
+agora nem reflex&atilde;o, nem descanso!... &Agrave; obra! E a
+caminho!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Atirou a m&atilde;o ao fecho dourado da porta como se fosse o negro
+loquete que abre os Destinos--e no corredor gritou pelo Grilo, com
+uma larga e a&ccedil;odada voz que eu nunca lhe conhecera, e me
+lembrou a de um Chefe ordenando, na alvorada, que se levante o
+Acampamento, e que a Hoste marche, com pend&otilde;es e
+bagagens...<br>
+
+
+<br>
+
+
+Logo nessa manh&atilde; (com uma actividade em que eu reconheci a
+pressa enjoada de quem bebe &oacute;leo de r&iacute;cino), escreveu
+ao Silv&eacute;rio mandando caiar, assoalhar, envidra&ccedil;ar o
+
+<span class="pagenum">[171]</span>casar&atilde;o. E depois do
+almo&ccedil;o apareceu na Biblioteca, chamado violentamente pelo
+telefone, para combinar a remessa de mob&iacute;lias e confortos, o
+director da <i>Companhia Universal de Transportes</i>.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Era um homem que parecia o cartaz da sua Companhia, apertado num
+jaquet&atilde;o de xadrezinho escuro, com polainas de jornada sobre
+botas brancas, uma sacola de marroquim a tiracolo, e na botoeira
+uma roseta multicor resumindo as suas condecora&ccedil;&otilde;es
+ex&oacute;ticas de Madag&aacute;scar, de Nicar&aacute;gua, da
+P&eacute;rsia, outras ainda, que provavam a universalidade dos seus
+servi&ccedil;os. Apenas Jacinto mencionou &laquo;Tormes, no
+Douro...&raquo;--ele logo, atrav&eacute;s de um sorriso superior,
+estendeu o bra&ccedil;o, detendo outros esclarecimentos, na sua
+intimidade minuciosa com essas regi&otilde;es.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Tormes... Perfeitamente! Perfeitamente!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Sobre o joelho, na carteira, escrevinhou uma fugidia nota--enquanto
+eu considerava, assombrado, a vastid&atilde;o do seu saber
+Corogr&aacute;fico, assim familiar com os recantos de uma serra de
+Portugal e com todos os seus velhos solares. J&aacute; ele atirara
+a carteira para o bolso... E &laquo;n&oacute;s, seus caros
+senhores, n&atilde;o t&iacute;nhamos sen&atilde;o a encaixotar as
+roupas, as mob&iacute;lias, as preciosidades! Ele mandaria as suas
+carro&ccedil;as buscar os caixotes, a que <span class="pagenum">[172]</span>poria, em grossa letra, com grossa tinta, o
+endere&ccedil;o...&raquo;<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Tormes, perfeitamente! Linha Norte-Espanha-Medina-Salamanca...
+Perfeitamente! Tormes... Muito pitoresco! E antigo,
+hist&oacute;rico! Perfeitamente, perfeitamente!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Desengon&ccedil;ou a cabe&ccedil;a numa v&eacute;nia
+profund&iacute;ssima--e saiu da Biblioteca, com passos que
+devoravam l&eacute;guas, anunciavam a presteza dos seus
+Transportes.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--V&ecirc; tu, murmurou Jacinto muito s&eacute;rio. Que
+prontid&atilde;o, que facilidade!... Em Portugal era uma
+trag&eacute;dia. N&atilde;o h&aacute; sen&atilde;o Paris!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Come&ccedil;ou ent&atilde;o no 202 o colossal encaixotamento de
+todos os confortos necess&aacute;rios ao meu Pr&iacute;ncipe para
+um m&ecirc;s de serra &aacute;spera--camas de pena, banheiras de
+n&iacute;quel, l&acirc;mpadas Carcel, div&atilde;s profundos,
+cortinas para vedar as gretas rudes, tapetes para amaciar os
+soalhos broncos. Os s&oacute;t&atilde;os, onde se arrecadavam os
+pesados trastes do av&ocirc; Gale&atilde;o, foram
+esvaziados--porque o casar&atilde;o medieval de 1410 comportava os
+trem&oacute;s rom&acirc;nticos de 1830. De todos os armaz&eacute;ns
+de Paris chegavam cada manh&atilde; fardos, caixas, temerosos
+embrulhos que os emaladores desfaziam, atulhando os corredores de
+montes de palha e de papel pardo, onde os nossos passos
+a&ccedil;odados se enrodilhavam. O cozinheiro, esbaforido,
+
+<span class="pagenum">[173]</span>organizava a remessa de
+fornalhas, geleiras, bocais de trufas, latas de conservas, bojudas
+garrafas de &aacute;guas minerais. Jacinto, lembrando as trovoadas
+da serra, comprou um imenso p&aacute;ra-raios. Desde o amanhecer,
+nos p&aacute;tios, no jardim, se martelava, se pregava, com vasto
+fragor, como na constru&ccedil;&atilde;o de uma cidade. E o
+desfilar das bagagens, atrav&eacute;s do port&atilde;o, lembrava
+uma p&aacute;gina de Her&oacute;doto contando a marcha dos
+Persas.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Das janelas, Jacinto com o bra&ccedil;o estendido, saboreava aquela
+actividade e aquela disciplina:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--V&ecirc; tu, Z&eacute; Fernandes, que facilidade!...
+Sa&iacute;mos do 202, chegamos &agrave; serra, encontramos o 202.
+N&atilde;o h&aacute; sen&atilde;o Paris!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Recome&ccedil;ara a amar a Cidade, o meu Pr&iacute;ncipe, enquanto
+preparava o seu &Ecirc;xodo. Depois de ter, toda a manh&atilde;,
+apressado os encaixotadores, descortinado confortos novos para o
+abandonado solar, telefonado gordas listas de encomendas a cada
+loja de Paris--era com del&iacute;cia que se vestia, se perfumava,
+se floria, se enterrava na vit&oacute;ria ou saltava para a
+almofada do fa&eacute;ton, e corria ao Bosque, e saudava a barba
+talm&uacute;dica do Efraim, e os band&oacute;s furiosamente negros
+da Verghane, e o Psic&oacute;logo de fiacre, e a <span class="pagenum">[174]</span>condessa de Tr&egrave;ves na sua nova caleche
+de oito molas fornecida pelas opera&ccedil;&otilde;es conjuntas da
+Bolsa e da alcova. Depois arrebanhava amigos para jantares de
+surpresa no Voisin ou no Bignon, onde desdobrava o guardanapo com a
+impaci&ecirc;ncia de uma fome alegre, vigiando fervorosamente que
+os Bord&eacute;us estivessem bem aquecidos e os Champanhes bem
+granitados. E no teatro das <i>Nouveaut&eacute;s</i>, no <i>Palais
+Royal</i>, nos <i>Buffos</i>, ria, batendo na coxa, com encanecidas
+fac&eacute;cias de encanecidas farsas, antiqu&iacute;ssimos
+trejeitos de antiqu&iacute;ssimos actores, com que j&aacute; rira
+na sua inf&acirc;ncia, antes da guerra, sob o segundo
+Napole&atilde;o!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+De novo, em duas semanas, se abarrotaram as p&aacute;ginas da sua
+Agenda. A magnific&ecirc;ncia do seu traje, como imperador
+Frederico II de Su&aacute;bia, deslumbrou, no baile mascarado da
+Princesa de Cravon-Rogan (onde tamb&eacute;m fui, de
+&laquo;mo&ccedil;o de forcado&raquo;.) E na
+<i>Associa&ccedil;&atilde;o para o Desenvolvimento das
+Religi&otilde;es Esot&eacute;ricas</i> discursou e batalhou
+bravamente pela constru&ccedil;&atilde;o de um Templo Budista em
+Montmartre!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Com espanto meu recome&ccedil;ou tamb&eacute;m a conversar, como
+nos tempos de Escola, da &laquo;famosa Civiliza&ccedil;&atilde;o
+nas suas m&aacute;ximas propor&ccedil;&otilde;es.&raquo; Mandou
+encaixotar o seu velho telesc&oacute;pio para o usar em Tormes.
+Receei mesmo que no seu esp&iacute;rito germinasse a ideia de
+<span class="pagenum">[175]</span>criar, no cimo da serra, uma
+Cidade com todos os seus &oacute;rg&atilde;os. Pelo menos
+n&atilde;o consentia o meu Jacinto que essas semanas da silvestre
+Tormes interrompessem a ilimitada acumula&ccedil;&atilde;o das
+no&ccedil;&otilde;es--porque uma manh&atilde; rompeu pelo meu
+quarto, desolado, gritando que entre tantos confortos e formas de
+Civiliza&ccedil;&atilde;o esquec&ecirc;ramos os livros! Assim
+era--e que vexame para a nossa Intelectualidade! Mas que livros
+escolher entre os facundos milhares sob que vergava o 202? O meu
+Pr&iacute;ncipe decidiu logo dedicar os seus dias serranos ao
+estudo da Hist&oacute;ria Natural--e n&oacute;s mesmos,
+imediatamente, deit&aacute;mos para o fundo de um vasto caixote
+novo, como lastro, os vinte e cinco tomos de Pl&iacute;nio.
+Despej&aacute;mos depois para dentro, &agrave;s bra&ccedil;adas,
+Geologia, Mineralogia, Bot&acirc;nica... Espalh&aacute;mos por cima
+uma camada a&eacute;rea de Astronomia. E, para fixar bem no caixote
+estas Ci&ecirc;ncias oscilantes, ental&aacute;mos em redor cunhas
+de Metaf&iacute;sica.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Mas quando a derradeira caixa, pregada e cintada de ferro, saiu do
+port&atilde;o do 202 na derradeira carro&ccedil;a da <i>Companhia
+dos Transportes</i>, toda esta anima&ccedil;&atilde;o de Jacinto se
+abateu como a efervesc&ecirc;ncia num copo de Champanhe. Era em
+meados j&aacute; t&eacute;pidos de Mar&ccedil;o. E de novo os seus
+desagrad&aacute;veis bocejos atroaram <span class="pagenum">[176]</span>o 202, e todos os sof&aacute;s rangeram sob o
+peso do corpo que ele lhe atirava para cima, mortalmente vencido
+pela fartura e pelo t&eacute;dio, num desejo de repouso eterno, bem
+envolto de solid&atilde;o e sil&ecirc;ncio. Desesperei. O
+qu&ecirc;! Aturaria eu ainda aquele Pr&iacute;ncipe palpando
+amargamente a caveira, e, quando o crep&uacute;sculo entristecia a
+Biblioteca, aludindo, num tom rouco, &agrave; do&ccedil;ura das
+mortes r&aacute;pidas pela viol&ecirc;ncia misericordiosa do acido
+cian&iacute;drico? Ah n&atilde;o, caramba! E uma tarde em que o
+encontrei estirado sobre um div&atilde;, de bra&ccedil;os em cruz,
+como se fosse a sua est&aacute;tua de m&aacute;rmore sobre o seu
+jazigo de granito, positivamente o abanei com furor, berrando:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Acorda, homem! Vamos para Tormes! O casar&atilde;o deve estar
+pronto, a reluzir, a abarrotar de coisas! Os ossos de teus
+av&oacute;s pedem repouso, em cova sua!... A caminho, a enterrar
+esses mortos, e a vivermos n&oacute;s, os vivos!... Irra!
+S&atilde;o cinco de Abril!... &Eacute; o bom tempo da serra!<br>
+
+
+<br>
+
+
+O meu Pr&iacute;ncipe ressurgiu lentamente da in&eacute;rcia de
+pedra:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--O Silv&eacute;rio n&atilde;o me escreveu, nunca me escreveu...
+Mas, com efeito, deve estar tudo preparado... J&aacute; l&aacute;
+
+temos certamente criados, o cozinheiro de Lisboa... Eu s&oacute;
+levo o Grilo, e o Anatole que enverniza bem o cal&ccedil;ado, e
+<span class="pagenum">[177]</span>tem jeito como pedicuro... Hoje
+&eacute; Domingo.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Atirou os p&eacute;s para o tapete, com hero&iacute;smo:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Bem, partimos no S&aacute;bado!... Avisa tu o
+Silv&eacute;rio!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Come&ccedil;ou ent&atilde;o o laborioso e pensativo estudo dos
+Hor&aacute;rios--e o dedo magro de Jacinto, por sobre o mapa,
+avan&ccedil;ando e recuando entre Paris e Tormes. Para escolher o
+&laquo;sal&atilde;o&raquo; que dev&iacute;amos habitar durante a
+temida jornada, duas vezes percorremos o dep&oacute;sito da
+Esta&ccedil;&atilde;o de Orl&eacute;ans, atolados em lama,
+atr&aacute;s do Chefe do Tr&aacute;fico que entontecia. O meu
+Pr&iacute;ncipe recusava este sal&atilde;o por causa da cor
+tristonha dos estofos; depois recusava aquele por causa da
+mesquinhez aflitiva do Water-Closet! Uma das suas
+inquieta&ccedil;&otilde;es era o banho, nas manh&atilde;s que
+passar&iacute;amos rolando. Sugeri uma banheira de borracha.
+Jacinto, indeciso, suspirava... Mas nada o aterrou como o
+transbordo em Medina del Campo, de noite, nas trevas da Velha
+Castela. Debalde a Companhia do Norte de Espanha e a de Salamanca,
+por cartas, por telegramas, sossegaram o meu camarada, afirmando
+que, quando ele chegasse no comboio de Irun dentro do seu
+sal&atilde;o, j&aacute; outro sal&atilde;o ligado ao comboio de
+Portugal esperaria, bem aquecido, bem alumiado, com uma ceia que
+lhe ofertava um dos Directores, D. Esteban Castillo, ruidoso
+
+<span class="pagenum">[178]</span>e rubicundo conviva do 202!
+Jacinto corria os dedos ansiosos pela face:--&laquo;E os sacos, as
+peles, os livros, quem os transportaria do sal&atilde;o de Irun
+para o sal&atilde;o de Salamanca?&raquo; Eu berrava, desesperado,
+que os carregadores de Medina eram os mais r&aacute;pidos, os mais
+destros de toda a Europa! Ele murmurava:--&laquo;Pois sim, mas em
+Espanha, de noite!...&raquo; A noite, longe da Cidade, sem
+telefone, sem luz el&eacute;ctrica, sem postos de pol&iacute;cia,
+parecia ao meu Pr&iacute;ncipe povoada de surpresas e assaltos.
+S&oacute; acalmou depois de verificar no Observat&oacute;rio
+Astron&oacute;mico, sob a garantia do s&aacute;bio professor
+Bertrand, que a noite da nossa jornada era de lua cheia!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Enfim, na sexta-feira, findou a tremenda organiza&ccedil;&atilde;o
+daquela viagem hist&oacute;rica! O s&aacute;bado predestinado
+amanheceu com generoso sol, de afagadora do&ccedil;ura. E eu
+acabava de guardar na mala, embrulhadas em papel pardo, as
+fotografias das criaturinhas suaves que, nesses vinte e sete meses
+de Paris, me tinham chamado &laquo;<i>mon petit chou! mon rat
+cheri!</i>&raquo;--quando Jacinto rompeu pelo quarto, com um
+soberbo ramo de orqu&iacute;deas na sobrecasaca, p&aacute;lido e
+todo nervoso.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Vamos ao Bosque, por despedida?<br>
+
+
+<br>
+
+
+Fomos--&agrave; grande despedida! E que encanto! At&eacute; nas
+almofadas e molas da vit&oacute;ria <span class="pagenum">[179]</span>senti logo uma elasticidade mais embaladora.
+Depois, pela Avenida do Bosque, quase me pesava n&atilde;o ficar
+sempiternamente rolando, ao trote rimado das &eacute;guas
+perfeitas, no rebrilho rico de metais e vernizes, sobre aquele
+macadame mais alisado que m&aacute;rmore, entre t&atilde;o bem
+regadas flores e relvas de t&atilde;o tentadora frescura, cruzando
+uma Humanidade fina, de eleg&acirc;ncia bem acabada, que
+almo&ccedil;ara o seu chocolate em porcelanas de S&egrave;vres ou
+de Minton, sa&iacute;ra de entre sedas e tapetes de tr&ecirc;s mil
+francos, e respirava a beleza de Abril com vagar, requinte e
+pensamentos ligeiros! O Bosque resplandecia numa harmonia de verde,
+azul e ouro. Nenhuma cova ou terra solta desalisava as polidas
+
+&aacute;leas que a Arte tra&ccedil;ou e enroscou na
+espessura--nenhum esgalho desgrenhado desmanchava as
+ondula&ccedil;&otilde;es macias da folhagem que o Estado escova e
+lava. O piar das aves apenas se elevava para espalhar uma
+gra&ccedil;a leve de vida alada;--e mais natural parecia, entre o
+arvoredo soci&aacute;vel, o ranger das selas novas, onde pousavam,
+com balan&ccedil;o esbelto, as amazonas espartilhadas pelo grande
+Redfern. Em frente ao Pavilh&atilde;o de Armenonville
+cruz&aacute;mos Madame de Tr&egrave;ves, que nos envolveu ambos na
+car&iacute;cia do seu sorriso, mais avivado &agrave;quela hora pelo
+vermelh&atilde;o ainda h&uacute;mido. Logo atr&aacute;s
+<span class="pagenum">[180]</span>a barba talm&uacute;dica de
+Efraim negrejou, fresca tamb&eacute;m da brilhantina da
+manh&atilde;, no alto de um fa&eacute;ton tilintante. Outros amigos
+de Jacinto circulavam nas Ac&aacute;cias--e as m&atilde;os que lhe
+acenavam, lentas e af&aacute;veis, cal&ccedil;avam luvas frescas
+cor de palha, cor de p&eacute;rola, cor de lil&aacute;s. Todelle
+relampejou rente de n&oacute;s sobre uma grande bicicleta. Dornan,
+alastrado numa cadeira de ferro, sob um espinheiro em flor, mamava
+o seu imenso charuto, como perdido na busca de rimas sensuais e
+n&eacute;dias. Adiante foi o Psic&oacute;logo, que nos n&atilde;o
+avistou, conversando com um requebro melanc&oacute;lico para dentro
+de um coup&eacute; que rescendia a alcova, e a que um cocheiro
+obeso imprimia dignidade e dec&ecirc;ncia. E rol&aacute;vamos
+ainda, quando o Duque de Marizac, a cavalo, ergueu a bengala,
+estacou a nossa vit&oacute;ria para perguntar a Jacinto se aparecia
+
+&agrave; noite nos &laquo;quadros vivos&raquo; dos Verghanes. O meu
+Pr&iacute;ncipe rosnou um--&laquo;n&atilde;o, parto para o
+sul...&raquo;--que mal lhe passou de entre os bigodes murchos... E
+Marizac lamentou--porque era uma festa estupenda. Quadros vivos da
+Hist&oacute;ria Sagrada e da Hist&oacute;ria Romana!... Madame
+Verghane, de Madalena, de bra&ccedil;os nus, peitos nus, pernas
+nuas, limpando com os cabelos os p&eacute;s do Cristo!--O Cristo,
+um latag&atilde;o soberbo, parente dos Tr&egrave;ves, empregado no
+<span class="pagenum">[181]</span>Minist&eacute;rio da Guerra,
+gemendo, derreado, sob uma cruz de papel&atilde;o! Havia
+tamb&eacute;m Lucr&eacute;cia na cama, e Tarqu&iacute;nio ao lado,
+de punhal, a puxar os len&ccedil;&oacute;is! E depois ceia, em
+mesas soltas, todos nos seus trajes hist&oacute;ricos. Ele
+j&aacute; estava aparceirado com Madame de Malbe, que era Agripina!
+Quadro portentoso esse--Agripina morta, quando Nero a vem
+contemplar e lhe estuda as formas, admirando umas, desdenhando
+outras como imperfeitas. Mas, por polidez, ficara combinado que
+Nero admiraria sem reserva todas as formas de Madame de Malbe...
+Enfim colossal, e estupendamente instrutivo!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Acen&aacute;mos um longo adeus &agrave;quele alegre Marizac. E
+recolhemos sem que Jacinto emergisse do sil&ecirc;ncio enrugado em
+que se abismara, com os bra&ccedil;os rigidamente cruzados, como
+remoendo pensamentos decisivos e fortes. Depois, em frente ao Arco
+de Triunfo, moveu a cabe&ccedil;a, murmurou:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--&Eacute; muito grave, deixar a Europa!<br>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+<div class="break">
+<hr></div>
+
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+Enfim, partimos! Sob a do&ccedil;ura do crep&uacute;sculo que se
+enublara deix&aacute;mos o 202. O Grilo e o Anatole seguiam num
+fiacre atulhado de livros, de estojos, de palet&oacute;s, de
+imperme&aacute;veis, de travesseiras, de &aacute;guas minerais,
+<span class="pagenum">[182]</span>de sacos de couro, de rolos de
+mantas: e mais atr&aacute;s um &oacute;nibus rangia sob a carga de
+vinte e tr&ecirc;s malas. Na Esta&ccedil;&atilde;o, Jacinto ainda
+comprou todos os Jornais, todas as Ilustra&ccedil;&otilde;es,
+Hor&aacute;rios, mais livros, e um saca-rolhas de forma complicada
+e hostil. Guiados pelo Chefe do Tr&aacute;fico, pelo
+Secret&aacute;rio da Companhia, ocup&aacute;mos copiosamente o
+nosso sal&atilde;o. Eu pus o meu bon&eacute; de seda, calcei as
+minhas chinelas. Um silvo varou a noite. Paris lampejou, fugiu num
+derradeiro clar&atilde;o de janelas... Para o sorver, Jacinto ainda
+se arremessou &agrave; portinhola. Mas rol&aacute;vamos j&aacute;
+
+na treva da Prov&iacute;ncia. O meu Pr&iacute;ncipe ent&atilde;o
+recaiu nas almofadas:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Que aventura, Z&eacute; Fernandes!<br>
+
+
+<br>
+
+
+At&eacute; Chartres, em sil&ecirc;ncio, folhe&aacute;mos as
+Ilustra&ccedil;&otilde;es. Em Orl&eacute;ans, o guarda veio
+arranjar respeitosamente as nossas camas. Derreado com aqueles
+catorze meses de Civiliza&ccedil;&atilde;o adormeci--e s&oacute;
+
+acordei em Bord&eacute;us quando Grilo, zeloso, nos trouxe o nosso
+chocolate. Fora, uma chuva miudinha pingava molemente de um espesso
+c&eacute;u de algod&atilde;o sujo. Jacinto n&atilde;o se deitara,
+desconfiado da aspereza e da humidade dos len&ccedil;&oacute;is. E,
+metido num roup&atilde;o de flanela branco, com a face arrepiada e
+estremunhada, ensopando um bolo no chocolate, rosnava
+sombriamente:<br>
+
+
+<br>
+
+
+<span class="pagenum">[184]</span>--Este horror!... E agora com
+chuva!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Em Biarritz, ambos observ&aacute;mos com uma certeza indolente:<br>
+
+
+<br>
+
+
+
+--&Eacute; Biarritz.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Depois Jacinto, que espreitava pela janela embaciada, reconheceu o
+lento caminhar pernalto, o nariz bicudo e triste, do Historiador
+Danjon. Era ele, o facundo homem, vestido de xadrezinho, ao lado de
+uma dama roli&ccedil;a que levava pela trela uma cadelinha felpuda.
+Jacinto baixou a vidra&ccedil;a violentamente, berrou pelo
+Historiador, na &acirc;nsia de comunicar ainda, atrav&eacute;s
+dele, com a Cidade, com o 202!... Mas o comboio mergulhara na chuva
+e n&eacute;voa.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Sobre a ponte do Bidassoa, antevendo o termo da vida f&aacute;cil,
+os abrolhos da Inciviliza&ccedil;&atilde;o, Jacinto suspirou com
+desalento:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Agora adeus, come&ccedil;a a Espanha!...<br>
+
+
+<br>
+
+
+Indignado, eu, que j&aacute; saboreava o generoso ar da terra
+bendita, saltei para diante do meu Pr&iacute;ncipe, e num
+saracoteio de tremendo salero, castanholando os dedos, entoei uma
+&laquo;petenera&raquo; condigna:<br>
+
+
+<br>
+
+
+<div class="break">A la puerta de mi casa<br>
+
+
+Ay Soledad, Soleda... &aacute;... &aacute;... &aacute;.</div>
+
+
+
+<br>
+
+
+Ele estendeu os bra&ccedil;os, suplicante:<br>
+
+
+<br>
+
+
+<span class="pagenum">[184]</span>--Z&eacute; Fernandes, tem
+piedade do enfermo e do triste! --<i>Irun! Irun!</i>...<br>
+
+
+<br>
+
+
+Nessa Irun almo&ccedil;&aacute;mos com sucul&ecirc;ncia--porque
+sobre n&oacute;s velava, como Deusa omnipresente, a Companhia do
+Norte. Depois &laquo;el jefe d'Aduana, el jefe d'Estacion&raquo;,
+preciosamente nos instalaram noutro sal&atilde;o, novo, com cetins
+cor de azeitona, mas t&atilde;o pequeno que uma rica
+por&ccedil;&atilde;o dos nossos confortos em mantas, livros, sacos
+e imperme&aacute;veis, passou para o compartimento do
+
+<i>Sleeping</i> onde se repoltreavam o Grilo e o Anatole, ambos de
+bon&eacute;s escoceses, e fumando gordos charutos.--<i>Buen viaje_!
+Gracias! Servidores!</i>--E entr&aacute;mos silvando nos
+Piren&eacute;us.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Sob a influ&ecirc;ncia da chuva embaciadora, daquelas serras sempre
+iguais, que se desenrolavam, arrepiadas, dilu&iacute;das na
+n&eacute;voa, resvalei a uma sonol&ecirc;ncia doce;--e, quando
+descerrava as p&aacute;lpebras, encontrava Jacinto a um canto,
+esquecido do livro fechado nos joelhos, sobre que cruzara os magros
+dedos, considerando vales e montes com a melancolia de quem penetra
+nas terras do seu desterro! Um momento veio em que, arremessando o
+livro, enterrando mais o chap&eacute;u mole, se ergueu com tanta
+decis&atilde;o, que receei detivesse o comboio para saltar &agrave;
+
+estrada, <span class="pagenum">[185]</span> correr atrav&eacute;s
+das Vascongadas e da Navarra, para tr&aacute;s, para o 202! Sacudi
+o meu torpor, exclamei:--&laquo;oh menino!...&raquo; N&atilde;o! O
+pobre amigo ia apenas continuar o seu t&eacute;dio para outro
+canto, enterrado noutra almofada, com outro livro fechado. E
+&agrave; maneira que a escurid&atilde;o da tarde crescia, e com ela
+a borrasca de vento e &aacute;gua, uma inquieta&ccedil;&atilde;o
+mais aterrada se apoderava do meu Pr&iacute;ncipe, assim desgarrado
+da Civiliza&ccedil;&atilde;o, arrastado para a Natureza que
+j&aacute; o cercava de brutalidade agreste. N&atilde;o cessou
+ent&atilde;o de me interrogar sobre Tormes:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--As noites s&atilde;o horr&iacute;veis, hein, Z&eacute; Fernandes?
+Tudo negro, enorme solid&atilde;o... E m&eacute;dico?... H&aacute;
+m&eacute;dico?<br>
+
+
+<br>
+
+
+Subitamente o comboio estacou. Mais grossa e ruidosa a chuva
+fustigou as vidra&ccedil;as. Era um descampado, todo em treva, onde
+rolava e lufava um grande vento solto. A M&aacute;quina apitava,
+com ang&uacute;stia. Uma lanterna lampejou, correndo. Jacinto batia
+o p&eacute;:--&laquo;&Eacute; medonho! &eacute; medonho!&raquo;...
+Entreabri a portinhola. Da claridade incerta das vidra&ccedil;as
+surdiam cabe&ccedil;as esticadas, assustadas.--&laquo;<i>Que hay?
+Que hay?</i>&raquo;--A uma rajada, que me alagou, recuei:--e
+esper&aacute;mos durante lentos, calados minutos, esfregando
+desesperadamente os vidros embaciados para sondar a
+escurid&atilde;o. <span class="pagenum">[186]</span>De repente o
+comboio recome&ccedil;ou a rolar, muito sereno.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Em breve apareceram as luzinhas mortas de uma esta&ccedil;&atilde;o
+abarracada. Um condutor, com o casac&atilde;o de oleado todo a
+escorrer, trepou ao sal&atilde;o:--e por ele soubemos, enquanto
+carimbava apressadamente os bilhetes, que o trem, muito atrasado,
+talvez n&atilde;o alcan&ccedil;asse em Medina o comboio de
+Salamanca!<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Mas ent&atilde;o?...<br>
+
+
+<br>
+
+
+O casaco de oleado escorregara pela portinhola, fundido na noite,
+deixando um cheiro de humidade e azeite. E n&oacute;s
+encet&aacute;mos um novo tormento... Se o trem de Salamanca tivesse
+abalado? O sal&atilde;o, tomado at&eacute; Medina, desengatava em
+Medina:--e eis os nossos preciosos corpos, com as nossas preciosas
+almas, despejados em Medina, para cima da lama, entre vinte e
+tr&ecirc;s malas, numa rude confus&atilde;o espanhola, sob a
+tormenta de ventania e de &aacute;gua!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Oh, Z&eacute; Fernandes, uma noite em Medina!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Ao meu Pr&iacute;ncipe aparecia como desventura suprema essa noite
+em Medina, numa <i>fonda</i> s&oacute;rdida, fedendo a alho, com
+gordas filas de percevejos atrav&eacute;s dos len&ccedil;&oacute;is
+de estopa encardida!... N&atilde;o cessei ent&atilde;o de fitar,
+num desassossego, os ponteiros do rel&oacute;gio:--enquanto
+Jacinto, pela vidra&ccedil;a escancarada, todo fustigado
+
+<span class="pagenum">[187]</span>da chuva clamorosa, furava a
+negrura, na esperan&ccedil;a de avistar as luzes de Medina e um
+comboio paciente fumegando... Depois reca&iacute;a no div&atilde;,
+limpava os bigodes e os olhos, maldizia a Espanha. O trem
+arquejava, rompendo o vasto vento da planura desolada. E a cada
+apito era um alvoro&ccedil;o. Medina?... N&atilde;o! Algum sumido
+apeadeiro, onde o trem se atardava, esfalfado, resfolgando,
+enquanto dormentes figuras encarapu&ccedil;adas, embrulhadas em
+mantas, rondavam sob o telheiro do barrac&atilde;o, que as
+lanternas ba&ccedil;as tornavam mais soturno. Jacinto esmurrava o
+joelho:--&laquo;Mas por que p&aacute;ra este infame comboio?
+N&atilde;o h&aacute; tr&aacute;fico, n&atilde;o h&aacute; gente! Oh
+esta Espanha!...&raquo; A sineta badalava, moribunda. De novo
+fend&iacute;amos a noite e a borrasca.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Resignadamente comecei a percorrer um <i>Jornal do
+Com&eacute;rcio</i>, antigo, trazido de Paris. Jacinto esmagava o
+espesso tapete do sal&atilde;o com passadas rancorosas, rosnando
+como uma fera. E ainda assim se escoou, &agrave;s gotas, uma hora
+cheia de eternidade.--Um silvo, outro silvo!... Luzes mais fortes,
+longe, palpitaram na neblina. As rodas trilharam, com rijos
+solavancos, os encontros de carris. Enfim, Medina!... Um muro sujo
+de barrac&atilde;o alvejou--e bruscamente, &agrave; portinhola
+aberta com viol&ecirc;ncia, aparece um cavalheiro barbudo,
+<span class="pagenum">[188]</span>de capa &agrave; espanhola,
+gritando pelo Sr. D. Jacinto!... Depressa! depressa! que parte o
+comboio de Salamanca!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--&laquo;Que no hay un momento, caballeros! Que no hay un
+momento!&raquo;<br>
+
+
+<br>
+
+
+Agarro estonteadamente o meu palet&oacute;, o <i>Jornal do
+Com&eacute;rcio</i>. Salt&aacute;mos com &acirc;nsia:--e, pela
+plataforma, por sobre os trilhos, atrav&eacute;s de charcos,
+trope&ccedil;ando em fardos, empurrados pelo vento, pelo homem da
+capa &agrave; espanhola, enfi&aacute;mos outra portinhola, que se
+fechou com um estalo tremendo... Ambos arquej&aacute;vamos. Era um
+sal&atilde;o forrado de um pano verde que comia a luz escassa. E eu
+estendia o bra&ccedil;o, para receber dos carregadores
+a&ccedil;odados as nossas malas, os nossos livros, as nossas
+mantas--quando, em sil&ecirc;ncio, sem um apito, o trem despegou e
+rolou. Ambos nos atir&aacute;mos &agrave;s vidra&ccedil;as, em
+brados furiosos:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Pare! As nossas malas, as nossas mantas!... P'ra aqui!... Oh
+Grilo! Oh Grilo!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Uma imensa rajada levou os nossos brados. Era de novo o descampado
+tenebroso, sob a chuva despenhada. Jacinto ergueu os punhos, num
+furor que o engasgava:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Oh! Que servi&ccedil;o! Oh que canalhas!... S&oacute; em
+Espanha!... E agora? As malas perdidas!... Nem uma camisa, nem uma
+escova!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Calmei o meu desgra&ccedil;ado amigo:<br>
+
+
+<br>
+
+
+
+<span class="pagenum">[189]</span>--Escuta! eu entrevi dois
+carregadores arrebanhando as nossas coisas... Decerto o Grilo
+fiscalizou. Mas na pressa, naturalmente, atirou com tudo para o seu
+compartimento... Foi um erro n&atilde;o trazer o Grilo connosco, no
+sal&atilde;o... At&eacute; pod&iacute;amos jogar a manilha!<br>
+
+
+<br>
+
+
+De resto a solicitude da Companhia, Deusa omnipresente, velava
+sobre o nosso conforto--pois que &agrave; porta do lavat&oacute;rio
+branquejava o cesto da nossa ceia, mostrando na tampa um bilhete de
+D. Esteban com estas doces palavras a l&aacute;pis--<i>&agrave; D.
+Jacinto y su egregio amigo, que les d&egrave; gusto!</i> Farejei um
+aroma de perdiz. E alguma tranquilidade nos penetrou no
+cora&ccedil;&atilde;o sentindo tamb&eacute;m as nossas malas sob a
+tutela da Deusa omnipresente.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Tens fome Jacinto?<br>
+
+
+<br>
+
+
+--N&atilde;o. Tenho horror, furor, rancor!... E tenho sono.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Com efeito! depois de t&atilde;o desencontradas
+emo&ccedil;&otilde;es s&oacute; apetec&iacute;amos as camas que
+esperavam, macias e abertas. Quando ca&iacute; sobre a travesseira,
+sem gravata, em ceroulas, j&aacute; o meu Pr&iacute;ncipe, que
+n&atilde;o se despira, apenas embrulhara os p&eacute;s no
+
+<i>meu</i> palet&oacute;, nosso &uacute;nico agasalho, ressonava
+com majestade.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Depois, muito tarde e muito longe, percebi junto do meu catre, na
+claridadezinha da manh&atilde;, coada pelas cortinas verdes, uma
+<span class="pagenum">[190]</span>fardeta, um bon&eacute;, que
+murmuravam baixinho com imensa do&ccedil;ura:<br>
+
+
+--V. Exc.<sup>as</sup> n&atilde;o t&ecirc;m nada a declarar?...
+N&atilde;o h&aacute; malinhas de m&atilde;o?...<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Era a minha terra! Murmurei baixinho com imensa ternura:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--N&atilde;o temos aqui nada... Pergunte V. Exc.&ordf; pelo
+Grilo... A&iacute; atr&aacute;s, num compartimento... Ele tem as
+chaves, tem tudo... &Eacute; o Grilo.<br>
+
+
+<br>
+
+
+A fardeta desapareceu, sem rumor, como sombra ben&eacute;fica. E eu
+readormeci com o pensamento em Gui&atilde;es, onde a tia
+Vic&ecirc;ncia, atarefada, de len&ccedil;o branco cruzado no peito,
+de certo j&aacute; preparava o leit&atilde;o.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Acordei envolto num largo e doce sil&ecirc;ncio. Era uma
+Esta&ccedil;&atilde;o muito sossegada, muito varrida, com rosinhas
+brancas trepando pelas paredes--e outras rosas em moitas, num
+jardim, onde um tanquezinho abafado de limos dormia sob duas
+mimosas em flor que rescendiam. Um mo&ccedil;o p&aacute;lido, de
+palet&oacute; cor de mel, vergando a bengalinha contra o
+ch&atilde;o, contemplava pensativamente o comboio. Agachada rente
+&agrave; grade da horta, uma velha, diante da sua cesta de ovos,
+contava moedas de cobre no rega&ccedil;o. Sobre o telhado secavam
+ab&oacute;boras. Por cima rebrilhava o profundo, <span class="pagenum">[191]</span>rico e macio azul de que meus olhos andavam
+aguados.<br>
+
+
+<br>
+
+
+
+Sacudi violentamente Jacinto:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Acorda, homem, que est&aacute;s na tua terra!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Ele desembrulhou os p&eacute;s do meu palet&oacute;, cofiou o
+bigode, e veio sem pressa, &agrave; vidra&ccedil;a que eu abrira,
+conhecer a sua terra.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Ent&atilde;o &eacute; Portugal, hein?... Cheira bem.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Est&aacute; claro que cheira bem, animal!<br>
+
+
+<br>
+
+
+A sineta tilintou languidamente. E o comboio deslizou, com
+descanso, como se passeasse para seu regalo sobre as duas fitas de
+a&ccedil;o, assobiando e gozando a beleza da terra e do
+c&eacute;u.<br>
+
+
+<br>
+
+
+O meu Pr&iacute;ncipe alargava os bra&ccedil;os, desolado:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--E nem uma camisa, nem uma escova, nem uma gota de
+
+&aacute;gua-de-col&oacute;nia!... Entro em Portugal, imundo!<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Na R&eacute;gua h&aacute; uma demora, temos tempo de chamar o
+Grilo, reaver os nossos confortos... Olha para o rio!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Rol&aacute;vamos na vertente de uma serra, sobre penhascos que
+desabavam at&eacute; largos socalcos cultivados de vinhedo. Em
+baixo, numa esplanada, branquejava uma casa nobre, de opulento
+repouso, com a capelinha muito caiada entre um laranjal maduro.
+Pelo rio, onde a &aacute;gua turva e tarda nem se quebrava contra
+<span class="pagenum">[192]</span>as rochas, descia, com a vela
+cheia, um barco lento carregado de pipas. Para al&eacute;m, outros
+socalcos, de um verde p&aacute;lido de reseda, com oliveiras
+apoucadas pela amplid&atilde;o dos montes, subiam at&eacute; outras
+penedias que se embebiam, todas brancas e assoalhadas, na fina
+abund&acirc;ncia do azul. Jacinto acariciava os p&ecirc;los
+corredios do bigode:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--O Douro, hein?... &Eacute; interessante, tem grandeza. Mas agora
+&eacute; que eu estou com uma fome, Z&eacute; Fernandes!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Tamb&eacute;m eu! Destapamos o cesto de D. Esteban donde surdiu um
+bodo grandioso, de presunto, anho, perdizes, outras viandas frias
+que o ouro de duas nobres garrafas de Amontillado, al&eacute;m de
+duas garrafas de Rioja, aqueciam com um calor de sol Andaluz.
+Durante o presunto, Jacinto lamentou contritamente o seu erro. Ter
+deixado Tormes, um solar hist&oacute;rico, assim abandonado e
+vazio! Que del&iacute;cia, por aquela manh&atilde; t&atilde;o
+lustrosa e t&eacute;pida, subir &agrave; serra, encontrar a sua
+casa bem apetrechada, bem civilizada... Para o animar, lembrei que
+com as obras do Silv&eacute;rio, tantos caixotes de
+Civiliza&ccedil;&atilde;o remetidos de Paris, Tormes estaria
+confort&aacute;vel mesmo para Epicuro. Oh! mas Jacinto entendia um
+pal&aacute;cio perfeito, um 202 no deserto!... E, assim
+discorrendo, atac&aacute;mos as perdizes. Eu desarrolhava
+
+<span class="pagenum">[193]</span>uma garrafa de
+Amontillado--quando o comboio, muito sorrateiramente, penetrou numa
+Esta&ccedil;&atilde;o. Era a R&eacute;gua. E o meu Pr&iacute;ncipe
+pousou logo a faca para chamar o Grilo, reclamar as malas que
+traziam o asseio dos nossos corpos.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Espera, Jacinto! Temos muito tempo, O comboio p&aacute;ra aqui
+uma hora... Come com tranquilidade. N&atilde;o escangalhemos este
+almocinho com arruma&ccedil;&otilde;es de maletas... O Grilo
+n&atilde;o tarda a aparecer.<br>
+
+
+<br>
+
+
+E corri mesmo a cortina, porque de fora um padre muito alto, com
+uma ponta de cigarro colada ao bei&ccedil;o, parara a espreitar
+indiscretamente o nosso festim. Mas quando acab&aacute;mos as
+perdizes, e Jacinto confiadamente desembrulhava um queijo manchego,
+sem que Grilo ou Anatole comparecessem, eu, inquieto, corri
+
+&agrave; portinhola para apressar esses servos tardios... E nesse
+instante o comboio, largando, deslizou com o mesmo sil&ecirc;ncio
+sorrateiro. Para o meu Pr&iacute;ncipe foi um desgosto:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--A&iacute; ficamos outra vez sem um pente, sem uma escova... E eu
+que queria mudar de camisa! Por culpa tua, Z&eacute; Fernandes!<br>
+
+
+<br>
+
+
+--&Eacute; espantoso!... Demora sempre uma eternidade. Hoje chega e
+abala! Paci&ecirc;ncia, Jacinto. Em duas horas estamos na
+Esta&ccedil;&atilde;o de Tormes... Tamb&eacute;m n&atilde;o valia a
+pena mudar <span class="pagenum">[194]</span>de camisa para subir
+
+&agrave; serra! Em casa tomamos um banho, antes de jantar...
+J&aacute; deve estar instalada a banheira.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Ambos nos consol&aacute;mos com copinhos de uma divina aguardente
+Chinchon. Depois, estendidos nos sof&aacute;s, saboreando os dois
+charutos que nos restavam, com as vidra&ccedil;as abertas ao ar
+ador&aacute;vel, convers&aacute;mos de Tormes. Na
+esta&ccedil;&atilde;o certamente estaria o Silv&eacute;rio, com os
+cavalos...<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Que tempo leva a subir?<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Uma hora. Depois de lavados sobrava tempo para um demorado passeio
+pelas terras com o caseiro, o excelente Melchior, para que o Senhor
+de Tormes, solenemente, tomasse posse do seu Senhorio. E &agrave;
+noite o primeiro br&oacute;dio da serra, com os pit&eacute;us
+vern&aacute;culos do velho Portugal!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Jacinto sorria, seduzido:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Vamos a ver que cozinheiro me arranjou esse Silv&eacute;rio. Eu
+recomendei que fosse um soberbo cozinheiro portugu&ecirc;s,
+cl&aacute;ssico. Mas que soubesse trufar um peru, afogar um bife em
+molho de moela, estas coisas simples da cozinha de
+Fran&ccedil;a!... O pior &eacute; n&atilde;o te demorares, seguires
+logo para Gui&atilde;es...<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Ah, menino, anos da tia Vic&ecirc;ncia no s&aacute;bado... Dia
+sagrado! Mas volto. Em duas semanas estou em Tormes, para fazermos
+uma <span class="pagenum">[195]</span>larga Buc&oacute;lica. E,
+est&aacute; claro, para assistir &agrave;
+traslada&ccedil;&atilde;o.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Jacinto estendera o bra&ccedil;o:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Que casar&atilde;o &eacute; aquele, al&eacute;m no outeiro, com a
+torre?<br>
+
+
+<br>
+
+
+Eu n&atilde;o sabia. Algum solar de fidalgote do Douro... Tormes
+era nesse feitio atarracado e maci&ccedil;o. Casa de s&eacute;culos
+e para s&eacute;culos--mas sem torre.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--E logo se v&ecirc;, da esta&ccedil;&atilde;o, Tormes?...<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--N&atilde;o! Muito no alto, numa prega da serra, entre
+arvoredo.<br>
+
+
+<br>
+
+
+No meu Pr&iacute;ncipe j&aacute; evidentemente nascera uma
+curiosidade pela sua rude casa ancestral. Mirava o rel&oacute;gio,
+impaciente. Ainda trinta minutos! Depois, sorvendo o ar e a luz,
+murmurava, no primeiro encanto de iniciado:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Que do&ccedil;ura, que paz...<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Tr&ecirc;s horas e meia, estamos a chegar, Jacinto!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Guardei o meu velho <i>Jornal do Com&eacute;rcio</i> dentro do
+bolso do palet&oacute;, que deitei sobre o bra&ccedil;o;--e ambos
+em p&eacute;, &agrave;s janelas, esper&aacute;mos com
+alvoro&ccedil;o a pequenina Esta&ccedil;&atilde;o de Tormes, termo
+ditoso das nossas prova&ccedil;&otilde;es. Ela apareceu enfim,
+clara e simples, &agrave; beira do rio, entre rochas, com os seus
+vistosos girass&oacute;is enchendo um jardinzinho breve, as duas
+altas figueiras assombreando o p&aacute;tio, <span class="pagenum">[196]</span>e por tr&aacute;s a serra coberta de velho e
+denso arvoredo... Logo na plataforma avistei com gosto a imensa
+barriga, as bochechas menineiras do chefe da Esta&ccedil;&atilde;o,
+o louro Pimenta, meu condisc&iacute;pulo em Ret&oacute;rica, no
+Liceu de Braga. Os cavalos decerto esperavam, &agrave; sombra, sob
+as figueiras.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Mal o trem parou ambos salt&aacute;mos alegremente. A bojuda massa
+do Pimenta rebolou para mim com amizade:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Viva o amigo Z&eacute; Fernandes!<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Oh belo Piment&atilde;o!...<br>
+
+
+<br>
+
+
+Apresentei o senhor de Tormes. E imediatamente:<br>
+
+
+<br>
+
+
+
+--Ouve l&aacute;, Pimentinha... N&atilde;o est&aacute; a&iacute; o
+Silv&eacute;rio?<br>
+
+
+<br>
+
+
+--N&atilde;o... O Silv&eacute;rio h&aacute; quase dois meses que
+partiu para Castelo de Vide, ver a m&atilde;e que apanhou uma
+cornada de um boi!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Atirei a Jacinto um olhar inquieto:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Ora essa! E o Melchior, o caseiro?... Pois n&atilde;o
+est&atilde;o a&iacute; os cavalos para subirmos &agrave;
+quinta?<br>
+
+
+<br>
+
+
+O digno chefe ergueu com surpresa as sobrancelhas cor de milho:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--N&atilde;o!... Nem Melchior, nem cavalos... O Melchior...
+H&aacute; que tempos eu n&atilde;o vejo o Melchior!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+O carregador badalou lentamente a sineta <span class="pagenum">[197]</span>para o comboio rolar. Ent&atilde;o,
+n&atilde;o avistando em torno, na lisa e despovoada
+Esta&ccedil;&atilde;o, nem criados nem malas, o meu Pr&iacute;ncipe
+e eu lan&ccedil;&aacute;mos o mesmo grito de ang&uacute;stia:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--E o Grilo? as bagagens?...<br>
+
+
+<br>
+
+
+Corremos pela beira do comboio, berrando com desespero:<br>
+
+
+
+--Grilo!... Oh Grilo!... Anatole!... Oh Grilo!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Na esperan&ccedil;a que ele e o Anatole viessem mortalmente
+adormecidos, trep&aacute;vamos aos estribos, atirando a
+cabe&ccedil;a para dentro dos compartimentos, espavorindo a gente
+quieta com o mesmo berro que retumbava:--&laquo;Grilo, est&aacute;s
+a&iacute;, Grilo?&raquo;--J&aacute; de uma terceira classe, onde
+uma viola repenicava, um jocoso gania,
+tro&ccedil;ando:--&laquo;N&atilde;o h&aacute; por a&iacute; um
+grilo? Andam por a&iacute; uns senhores a pedir um grilo!&raquo;--E
+nem Anatole, nem Grilo!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+A sineta tilintou.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Oh Pimentinha, espera, homem, n&atilde;o deixes largar o
+comboio!... As nossas bagagens, homem!<br>
+
+
+<br>
+
+
+E, aflito, empurrei o enorme chefe para o furg&atilde;o de carga, a
+pesquisar, descortinar as nossas vinte e tr&ecirc;s malas! Apenas
+encontr&aacute;mos barris, cestos de vime, latas de azeite, um
+ba&uacute; amarrado com cordas... Jacinto <span class="pagenum">[198]</span>mordia os bei&ccedil;os, l&iacute;vido. E o
+Pimentinha, esgazeado:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Oh filhos, eu n&atilde;o posso atrasar o comboio!...<br>
+
+
+<br>
+
+
+A sineta repicou... E com um belo fumo claro o comboio desapareceu
+por detr&aacute;s das fragas altas. Tudo em torno pareceu mais
+calado e deserto. Ali fic&aacute;vamos pois baldeados, perdidos na
+serra, sem Grilo, sem procurador, sem caseiro, sem cavalos, sem
+malas! Eu conservava o palet&oacute; alvadio, donde surdia o
+<i>Jornal do Com&eacute;rcio</i>. Jacinto, uma bengala. Eram todos
+os nossos bens!<br>
+
+
+<br>
+
+
+O Piment&atilde;o arregalava para n&oacute;s os olhinhos papudos e
+compadecidos. Contei ent&atilde;o &agrave;quele amigo o atarantado
+trasfego em Medina sob a borrasca, o Grilo desgarrado, encalhado
+com as vinte e tr&ecirc;s malas, ou rolando talvez para Madrid sem
+nos deixar um len&ccedil;o...<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Eu n&atilde;o tenho um len&ccedil;o!... Tenho este <i>Jornal do
+Com&eacute;rcio</i>. &Eacute; toda a minha roupa branca.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Grande arrelia, caramba! murmurava o Pimenta, impressionado. E
+agora?<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Agora, exclamei, &eacute; trepar, para a quinta, &agrave; pata...
+A n&atilde;o ser que se arranjassem a&iacute; uns burros.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Ent&atilde;o o carregador lembrou que perto, no casal da Giesta,
+ainda pertencente a Tormes, <span class="pagenum">[199]</span>o
+caseiro, seu compadre, tinha uma boa &eacute;gua e um jumento... E
+o prestante homem enfiou numa carreira para a Giesta--enquanto o
+meu Pr&iacute;ncipe e eu ca&iacute;amos para cima de um banco,
+arquejantes e sucumbidos, como n&aacute;ufragos. O vasto
+Pimentinha, com as m&atilde;os nas algibeiras, n&atilde;o cessava
+de nos contemplar, de murmurar:--&laquo;&Eacute; de
+arrelia&raquo;.--O rio defronte descia, pregui&ccedil;oso e como
+adormentado sob a calma j&aacute; pesada de Maio, abra&ccedil;ando,
+sem um sussurro, uma larga ilhota de pedra que rebrilhava. Para
+al&eacute;m a serra crescia em corcovas doces, com uma funda prega
+onde se aninhava, bem junta e esquecida do mundo, uma vilazinha
+clara. O espa&ccedil;o imenso repousava num imenso sil&ecirc;ncio.
+Naquelas solid&otilde;es de monte e penedia os pardais, revoando no
+telhado, pareciam aves consider&aacute;veis. E a massa rotunda e
+rubicunda do Pimentinha dominava, atulhava a regi&atilde;o.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Est&aacute; tudo arranjado, meu senhor! V&ecirc;m a&iacute; os
+bichos!... S&oacute; o que n&atilde;o calhou foi um selinzinho para
+a jumenta!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Era o carregador, digno homem, que voltava da Giesta, sacudindo na
+m&atilde;o duas esporas desirmanadas e ferrugentas. E n&atilde;o
+tardaram a aparecer no c&oacute;rrego, para nos levarem a Tormes,
+uma &eacute;gua ru&ccedil;a, um jumento com albarda, um rapaz e um
+podengo. Apert&aacute;mos <span class="pagenum">[200]</span>a
+m&atilde;o suada e amiga do Pimentinha. Eu cedi a &eacute;gua ao
+senhor de Tormes. E come&ccedil;&aacute;mos a trepar o caminho, que
+n&atilde;o se alisara nem se desbravara desde os tempos em que o
+trilhavam, com rudes sapat&otilde;es ferrados, cortando de rio a
+monte, os Jacintos do s&eacute;culo XIV! Logo depois de
+atravessarmos uma tr&eacute;mula ponte de pau, sobre um riacho
+quebrado por pedregulhos, o meu Pr&iacute;ncipe, com o olho de dono
+subitamente agu&ccedil;ado, notou a robustez e a fartura das
+oliveiras...--E em breve os nossos males esqueceram ante a
+incompar&aacute;vel beleza daquela serra bendita!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Com que brilho e inspira&ccedil;&atilde;o copiosa a compusera o
+divino Artista que faz as serras, e que tanto as cuidou, e
+t&atilde;o ricamente as dotou, neste seu Portugal bem-amado! A
+grandeza igualava a gra&ccedil;a. Para os vales, poderosamente
+cavados, desciam bandos de arvoredos, t&atilde;o copados e
+redondos, de um verde t&atilde;o mo&ccedil;o que eram como um musgo
+macio onde apetecia cair e rolar. Dos pendores, sobranceiros ao
+carreiro fragoso, largas ramadas estendiam o seu toldo
+am&aacute;vel, a que o esvoa&ccedil;ar leve dos p&aacute;ssaros
+sacudia a fragr&acirc;ncia. Atrav&eacute;s dos muros seculares, que
+sust&ecirc;m as terras liados pelas heras, rompiam grossas
+ra&iacute;zes coleantes a que mais hera se enroscava. Em todo o
+torr&atilde;o, de cada fenda, brotavam <span class="pagenum">[201]</span>flores silvestres. Brancas rochas, pelas
+encostas, alastravam a s&oacute;lida nudez do seu ventre polido
+pelo vento e pelo sol; outras, vestidas de l&iacute;quen e de
+silvados floridos, avan&ccedil;avam como proas de galeras
+enfeitadas: e, dentre as que se apinhavam nos cimos, algum casebre
+que para l&aacute; galgara, todo amachucado e torto, espreitava
+pelos postigos negros, sob as desgrenhadas farripas de verdura, que
+o vento lhe semeara nas telhas. Por toda a parte a &aacute;gua
+sussurrante, a &aacute;gua fecundante... Espertos regatinhos
+fugiam, rindo com os seixos, dentre as patas da &eacute;gua e do
+burro; grossos ribeiros a&ccedil;odados saltavam com fragor de
+pedra em pedra; fios direitos e luzidios como cordas de prata
+vibravam e faiscavam das alturas aos barrancos; e muita fonte,
+posta &agrave; beira de veredas, jorrava por uma bica,
+beneficamente, &agrave; espera dos homens e dos gados... Todo um
+cabe&ccedil;o por vezes era uma seara, onde um vasto carvalho
+ancestral, solit&aacute;rio, dominava como seu senhor e seu guarda.
+Em socalcos verdejavam laranjais rescendentes. Caminhos de lajes
+soltas circundavam fartos prados com carneiros e vacas
+retou&ccedil;ando:--ou mais estreitos, entalados em muros,
+penetravam sob ramadas de parra espessa, numa penumbra de repouso e
+frescura. Trep&aacute;vamos ent&atilde;o alguma ruazinha de aldeia,
+dez ou doze <span class="pagenum">[202]</span>casebres, sumidos
+entre figueiras, onde se esga&ccedil;ava, fugindo do lar pela telha
+v&atilde;, o fumo branco e cheiroso das pinhas. Nos cerros remotos,
+por cima da negrura pensativa dos pinheirais, branquejavam ermidas.
+O ar fino e puro entrava na alma, e na alma espalhava alegria e
+for&ccedil;a. Um esparso tilintar de chocalhos de guizos morria
+pelas quebradas...<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Jacinto adiante, na sua &eacute;gua ru&ccedil;a, murmurava:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Que beleza!<br>
+
+
+<br>
+
+
+E eu atr&aacute;s, no burro de Sancho, murmurava:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Que beleza!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Frescos ramos ro&ccedil;avam os nossos ombros com familiaridade e
+carinho. Por tr&aacute;s das sebes, carregadas de amoras, as
+macieiras estendidas ofereciam as suas ma&ccedil;&atilde;s verdes,
+porque as n&atilde;o tinham maduras. Todos os vidros de uma casa
+velha, com a sua cruz no topo, refulgiram hospitaleiramente quando
+n&oacute;s pass&aacute;mos. Muito tempo um melro nos seguia, de
+azinheiro a olmo, assobiando os nossos louvores. Obrigado,
+irm&atilde;o melro! Ramos de macieira, obrigado! Aqui vimos, aqui
+vimos! E sempre contigo fiquemos, serra t&atilde;o acolhedora,
+serra de fartura e de paz, serra bendita entre as serras!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Assim, vagarosamente e maravilhados, cheg&aacute;mos <span class="pagenum">[203]</span>&agrave;quela avenida de faias, que sempre me
+encantara pela sua fidalga gravidade. Atirando uma vergastada ao
+burro e &agrave; &eacute;gua, o nosso rapaz, com o seu podengo
+sobre os calcanhares, gritou:--&laquo;Aqui &eacute; que estemos,
+meus amos!&raquo; E ao fundo das faias, com efeito, aparecia o
+port&atilde;o da quinta de Tormes, com o seu bras&atilde;o de
+armas, de secular granito, que o musgo retocava e mais envelhecia.
+Dentro j&aacute; os c&atilde;es ladravam com furor. E quando
+Jacinto, na sua suada &eacute;gua, e eu atr&aacute;s, no burro de
+Sancho, transpusemos o limiar solarengo, desceu para n&oacute;s, do
+alto do alpendre, pela escadaria de pedra gasta, um homem
+n&eacute;dio, rapado como um padre, sem colete, sem jaleca,
+acalmando os c&atilde;es que se encarni&ccedil;avam contra o meu
+Pr&iacute;ncipe. Era o Melchior, o caseiro... Apenas me reconheceu,
+toda a boca se lhe escancarou num riso hospitaleiro, a que faltavam
+dentes. Mas apenas eu lhe revelei, daquele cavalheiro de bigodes
+louros que descia da &eacute;gua esfregando os quadris, o senhor de
+Tormes--o bom Melchior recuou, colhido de espanto e terror como
+diante de uma avantesma.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Ora essa!... Sant&iacute;ssimo nome de Deus! Pois
+ent&atilde;o...<br>
+
+
+<br>
+
+
+E, entre o rosnar dos c&atilde;es, num bracejar desolado, balbuciou
+uma hist&oacute;ria que por <span class="pagenum">[204]</span>seu
+turno apavorava Jacinto, como se o negro muro do casar&atilde;o
+pendesse para desabar. O Melchior n&atilde;o esperava S. Ex.&ordf;!
+Ningu&eacute;m esperava S. Ex.&ordf;!... (Ele dizia <i>sua
+incel&ecirc;ncia</i>)... O Sr. Silv&eacute;rio estava para Castelo
+de Vide desde Mar&ccedil;o, com a m&atilde;e, que apanhara uma
+cornada na virilha. E de certo houvera engano, cartas perdidas...
+Porque o Sr. Silv&eacute;rio s&oacute; contava com S. Exc.&ordf; em
+Setembro, para a vindima! Na casa as obras seguiam devagarinho,
+devagarinho... O telhado, no sul, ainda continuava sem telhas;
+muitas vidra&ccedil;as esperavam, ainda sem vidros; e, para ficar,
+Virgem Santa, nem uma cama arranjada!...<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Jacinto cruzou os bra&ccedil;os numa c&oacute;lera tumultuosa que o
+sufocava. Por fim, com um berro:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Mas os caixotes? Os caixotes, mandados de Paris, em Fevereiro,
+h&aacute; quatro meses?...<br>
+
+
+<br>
+
+
+O desgra&ccedil;ado Melchior arregalava os olhos mi&uacute;dos, que
+se embaciavam de l&aacute;grimas. Os caixotes?! Nada chegara, nada
+aparecera!... E na sua perturba&ccedil;&atilde;o mirava pelas
+arcadas do p&aacute;tio, palpava na algibeira das pantalonas. Os
+caixotes?... N&atilde;o, n&atilde;o tinha os caixotes!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--E agora, Z&eacute; Fernandes?<br>
+
+
+<br>
+
+
+Encolhi os ombros:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Agora, meu filho, s&oacute; vires comigo para Gui&atilde;es...
+Mas s&atilde;o duas horas fartas a cavalo. <span class="pagenum">[205]</span>E n&atilde;o temos cavalos! O melhor &eacute;
+
+ver o casar&atilde;o, comer a boa galinha que o nosso amigo
+Melchior nos assa no espeto, dormir numa enxerga, e amanh&atilde;
+cedo, antes do calor, trotar para cima, para a tia
+Vic&ecirc;ncia.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Jacinto replicou, com uma decis&atilde;o furiosa:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Amanh&atilde; troto, mas para baixo, para a
+esta&ccedil;&atilde;o!... E depois, para Lisboa!<br>
+
+
+<br>
+
+
+
+E subiu a gasta escadaria do seu solar com amargura e rancor. Em
+cima uma larga varanda acompanhava a fachada do casar&atilde;o, sob
+um alpendre de negras vigas, toda ornada, por entre os pilares de
+granito, com caixas de pau onde floriam cravos. Colhi um cravo
+amarelo---e penetrei atr&aacute;s de Jacinto nas salas nobres, que
+ele contemplava com um murm&uacute;rio de horror. Eram enormes, de
+uma sonoridade de casa capitular, com os grossos muros enegrecidos
+pelo tempo e o abandono, e regeladas, desoladamente nuas,
+conservando apenas aos cantos algum monte de canastras ou alguma
+enxada entre paus. Nos tectos remotos, de carvalho apainelado,
+luziam atrav&eacute;s dos rasg&otilde;es manchas de c&eacute;u. As
+janelas, sem vidra&ccedil;as, conservavam essas maci&ccedil;as
+portadas, com fechos para as trancas, que, quando se cerram,
+espalham a treva. <span class="pagenum">[206]</span>Sob os nossos
+passos, aqui e al&eacute;m, uma t&aacute;bua podre rangia e
+cedia.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Inabit&aacute;vel! rugia Jacinto surdamente. Um horror! Uma
+inf&acirc;mia!...<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Mas depois, noutras salas, o soalho alternava com remendos de
+t&aacute;buas novas. Os mesmos remendos claros mosqueavam os
+velh&iacute;ssimos tectos de rico carvalho sombrio. As paredes
+repeliam pela alvura crua da cal fresca. E o sol mal atravessava as
+vidra&ccedil;as--embaciadas e gordurentas da massa e das
+m&atilde;os dos vidraceiros.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Penetr&aacute;mos enfim na &uacute;ltima, a mais vasta, rasgada por
+seis janelas, mobilada com um arm&aacute;rio e com uma enxerga
+parda e curta estirada a um canto: e junto dela par&aacute;mos, e
+sobre ela depusemos tristemente o que nos restava de vinte e
+tr&ecirc;s malas--o meu palet&oacute; alvadio, a bengala de
+Jacinto, e o <i>Jornal do Com&eacute;rcio</i> que nos era comum.
+Atrav&eacute;s das janelas escancaradas, sem vidra&ccedil;as, o
+grande ar da serra entrava e circulava como num eirado, com um
+cheiro fresco de horta regada. Mas o que avist&aacute;vamos, da
+beira da enxerga, era um pinheiral cobrindo um cabe&ccedil;o e
+descendo pelo pendor suave, &agrave; maneira de uma hoste em
+marcha, com pinheiros na frente, destacados, direitos, emplumados
+de negro; mais longe as serras <span class="pagenum">[207]</span>de
+al&eacute;m rio, de uma fina e macia cor de violeta; depois a
+brancura do c&eacute;u, todo liso, sem uma nuvem, de uma majestade
+divina. E l&aacute; debaixo, dos vales, subia, desgarrada e
+melanc&oacute;lica, uma voz de pegureiro cantando.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Jacinto caminhou lentamente para o poial de uma janela, onde caiu
+esbarrondado pelo desastre, sem resist&ecirc;ncia ante aquele
+brusco desaparecimento de toda a Civiliza&ccedil;&atilde;o! Eu
+palpava a enxerga, dura e regelada como um granito de Inverno. E
+pensando nos luxuosos colch&otilde;es de penas e molas, t&atilde;o
+prodigamente encaixotados no 202, desafoguei tamb&eacute;m a minha
+indigna&ccedil;&atilde;o:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Mas os caixotes, caramba?... Como se perdem assim trinta e tantos
+caixotes enormes?...<br>
+
+
+<br>
+
+
+Jacinto sacudiu amargamente os ombros:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Encalhados, por a&iacute;, algures, num barrac&atilde;o!... Em
+Medina, talvez, nessa horrenda Medina. Indiferen&ccedil;a das
+Companhias, in&eacute;rcia do Silv&eacute;rio... Enfim a
+Pen&iacute;nsula, a barb&aacute;rie!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Vim ajoelhar sobre o outro poial, alongando os olhos consolados por
+c&eacute;u e monte:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--&Eacute; uma beleza!<br>
+
+
+<br>
+
+
+O meu Pr&iacute;ncipe, depois de um sil&ecirc;ncio grave, murmurou,
+com a face encostada &agrave; m&atilde;o:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+<span class="pagenum">[208]</span>--&Eacute; uma lindeza... E que
+paz!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Sob a janela vicejava fartamente uma horta, com repolho, feijoal,
+talh&otilde;es de alface, gordas folhas de ab&oacute;bora
+rastejando. Uma eira, velha e mal alisada, dominava o vale, donde
+j&aacute; subia tenuemente a n&eacute;voa de algum fundo ribeiro.
+Toda a esquina do casar&atilde;o desse lado se encravava em
+laranjal. E de uma fontinha r&uacute;stica, meio afogada em rosas
+tremedeiras, corria um longo e rutilante fio de &aacute;gua.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Estou com apetite desesperado daquela &aacute;gua! declarou
+Jacinto, muito s&eacute;rio.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Tamb&eacute;m eu... Des&ccedil;amos ao quintal, hein? E passamos
+pela cozinha, a saber do frango.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Volt&aacute;mos &agrave; varanda. O meu Pr&iacute;ncipe, mais
+conciliado com o destino inclemente, colheu um cravo amarelo. E por
+outra porta baixa, de rij&iacute;ssimas ombreiras,
+mergulh&aacute;mos numa sala, alastrada de cali&ccedil;a, sem
+tecto, coberta apenas de grossas vigas, donde se ergueu uma revoada
+de pardais.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Olha para este horror! murmurava Jacinto arrepiado.<br>
+
+
+<br>
+
+
+E descemos por uma l&ocirc;brega escada de castelo, tenteando
+depois um corredor tenebroso de lajes &aacute;speras, atravancado
+por profundas arcas, capazes de guardar todo o gr&atilde;o de uma
+prov&iacute;ncia. Ao fundo a cozinha, imensa, <span class="pagenum">[209]</span>era uma massa de formas negras, madeira
+negra, pedra negra, densas negruras de felugem secular. E neste
+negrume refulgia a um canto, sobre o ch&atilde;o de terra negra, a
+fogueira vermelha, lambendo tachos e panelas de ferro, despedindo
+uma fumarada que fugia pela grade aberta no muro, depois por entre
+a folhagem dos limoeiros. Na enorme lareira, onde se aqueciam e
+assavam as suas grossas pe&ccedil;as de porco e boi os Jacintos
+medievais, agora desaproveitada pela frugalidade dos caseiros,
+negrejava um poeirento mont&atilde;o de cestas e ferramentas; e a
+claridade toda entrava por uma porta de castanho, escancarada sobre
+um quintalejo r&uacute;stico em que se misturavam couves lombardas
+e junquilhos formosos. Em roda do lume um bando alvoro&ccedil;ado
+de mulheres depenava frangos, remexia as ca&ccedil;arolas, picava a
+cebola, com um fervor afogueado e palreiro. Todas emudeceram quando
+aparecemos--e dentre elas o pobre Melchior, estonteado, com o
+sangue a espirrar na n&eacute;dia face de abade, correu para
+n&oacute;s, jurando &laquo;que o jantarinho de suas
+Incel&ecirc;ncias n&atilde;o demorava um credo&raquo;...<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--E a respeito de camas, oh amigo Melchior?<br>
+
+
+<br>
+
+
+O digno homem ciciou uma desculpa encolhida &laquo;sobre
+enxergazinhas no ch&atilde;o...&raquo;<br>
+
+
+<br>
+
+
+<span class="pagenum">[210]</span>--&Eacute; o que basta! acudi eu,
+para o consolar. Por uma noite, com len&ccedil;&oacute;is
+frescos...<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Ah, l&aacute; pelos len&ccedil;oizinhos respondo eu!... Mas um
+desgosto assim, meu senhor! A gente apanhada sem um
+colch&atilde;ozinho de l&atilde;, sem um lombozinho de vaca... Que
+eu j&aacute; pensei, at&eacute; lembrei &agrave; minha comadre, V.
+Inc.<sup>as</sup> podiam ir dormir aos <i>Ninhos</i>, a casa do
+Silv&eacute;rio. Tinham l&aacute; camas de ferro,
+lavat&oacute;rios... Ele sempre &eacute; uma leguazita e mau
+caminho...<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Jacinto, bondoso, acudiu:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--N&atilde;o, tudo se arranja, Melchior. Por uma noite!...
+At&eacute; gosto mais de dormir em Tormes, na minha casa da
+serra!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Sa&iacute;mos ao terreiro, retalho de horta fechado por grossas
+rochas encabeladas de verdura, entestando com os socalcos da serra
+onde lourejava o centeio. O meu Pr&iacute;ncipe bebeu da
+&aacute;gua nevada e luzidia da fonte, regaladamente, com os
+bei&ccedil;os na bica; apeteceu a alface rechonchuda e crespa; e
+atirou pulos aos ramos altos de uma copada cerejeira, toda
+carregada de cereja. Depois, costeando o velho lagar, a que um
+bando de pombas branqueava o telhado, desliz&aacute;mos at&eacute;
+
+ao carreiro, cortado no costado do monte. E andando,
+pensativamente, o meu Pr&iacute;ncipe pasmava para os milheirais,
+para os vetustos carvalhos plantados por vetustos Jacintos, para os
+casebres <span class="pagenum">[211]</span>espalhados sobre os
+cabe&ccedil;os &agrave; orla negra dos pinheirais.<br>
+
+
+<br>
+
+
+De novo penetr&aacute;mos na avenida de faias e transpusemos o
+port&atilde;o senhorial entre o latir dos c&atilde;es, mais mansos,
+farejando um dono. Jacinto reconheceu &laquo;certa nobreza&raquo;
+na frontaria do seu lar. Mas sobretudo lhe agradava a longa
+alameda, assim direita e larga, como tra&ccedil;ada para nela se
+desenrolar uma cavalgada de Senhores com plumas e pajens. Depois,
+de cima da varanda, reparando na telha nova da capela, louvou o
+Silv&eacute;rio, &laquo;esse rala&ccedil;o&raquo;, por cuidar ao
+menos da morada do Bom-Deus.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--E esta varanda tamb&eacute;m &eacute; agrad&aacute;vel, murmurou
+ele mergulhando a face no aroma dos cravos. Precisa grandes
+poltronas, grandes div&atilde;s de verga...<br>
+
+
+<br>
+
+
+Dentro, na &laquo;nossa sala&raquo;, ambos nos sent&aacute;mos nos
+poiais da janela, contemplando o doce sossego crepuscular que
+lentamente se estabelecia sobre vale e monte. No alto tremeluzia
+uma estrelinha, a V&eacute;nus diamantina, l&acirc;nguida
+anunciadora da noite e dos seus contentamentos. Jacinto nunca
+considerara demoradamente aquela estrela, de amorosa
+refulg&ecirc;ncia, que perpetua no nosso C&eacute;u cat&oacute;lico
+a mem&oacute;ria da Deusa incompar&aacute;vel:--nem assistira
+jamais, com a alma atenta, ao majestoso adormecer da Natureza. E
+este <span class="pagenum">[212]</span>enegrecimento dos montes que
+se embu&ccedil;am em sombra; os arvoredos emudecendo, cansados de
+sussurrar; o rebrilho dos casais mansamente apagado; o cobertor de
+n&eacute;voa, sob que se acama e agasalha a frialdade dos vales; um
+toque sonolento de sino que rola pelas quebradas; o segredado
+cochichar das &aacute;guas e das relvas escuras--eram para ele como
+inicia&ccedil;&otilde;es. Daquela janela, aberta sobre as serras,
+entrevia uma outra vida, que n&atilde;o anda somente cheia do Homem
+e do tumulto da sua obra. E senti o meu amigo suspirar como quem
+enfim descansa.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Deste enlevo nos arrancou o Melchior com o doce aviso do
+&laquo;jantarinho de suas Incel&ecirc;ncias&raquo;. Era noutra
+sala, mais nua, mais abandonada:--e a&iacute; logo &agrave; porta o
+meu supercivilizado Pr&iacute;ncipe estacou, estarrecido pelo
+desconforto, escassez e rudeza das coisas. Na mesa, encostada ao
+muro denegrido, sulcado pelo fumo das candeias, sobre uma toalha de
+estopa, duas velas de sebo em casti&ccedil;ais de lata alumiavam
+grossos pratos de lou&ccedil;a amarela, ladeados por colheres de
+estanho e por garfos de ferro. Os copos, de um vidro espesso,
+conservavam a sombra roxa do vinho que neles passara em fartos anos
+de fartas vindimas. A malga de barro, atestada de azeitonas pretas,
+contentaria Di&oacute;genes. Espetado <span class="pagenum">[213]</span>na c&ocirc;dea de um imenso p&atilde;o
+reluzia um imenso facalh&atilde;o. E na cadeira senhorial reservada
+ao meu Pr&iacute;ncipe, derradeira alfaia dos velhos Jacintos, de
+hirto espaldar de couro, com a madeira ro&iacute;da de caruncho, a
+clina fugia em melenas pelos rasg&otilde;es do assento
+pu&iacute;do.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Uma formid&aacute;vel mo&ccedil;a, de enormes peitos que lhe
+tremiam dentro das ramagens do len&ccedil;o cruzado, ainda suada e
+esbraseada do calor da lareira, entrou esmagando o soalho, com uma
+terrina a fumegar. E o Melchior, que seguia erguendo a infusa do
+vinho, esperava que suas Incel&ecirc;ncias lhe perdoassem porque
+faltara tempo para o caldinho apurar... Jacinto ocupou a sede
+ancestral--e, durante momentos (de esgazeada ansiedade para o
+caseiro excelente) esfregou energicamente, com a ponta da toalha, o
+garfo negro, a fusca colher de estanho. Depois, desconfiado, provou
+o caldo, que era de galinha e rescendia. Provou--e levantou para
+mim, seu camarada de mis&eacute;rias, uns olhos que brilharam,
+surpreendidos. Tornou a sorver uma colherada mais cheia, mais
+considerada. E sorriu, com espanto:--&laquo;Est&aacute;
+bom!&raquo;<br>
+
+
+<br>
+
+
+Estava precioso: tinha f&iacute;gado e tinha moela: o seu perfume
+enternecia: tr&ecirc;s vezes, fervorosamente, ataquei aquele
+caldo.<br>
+
+
+<br>
+
+
+
+<span class="pagenum">[214]</span>--Tamb&eacute;m l&aacute; volto!
+exclamava Jacinto com uma convic&ccedil;&atilde;o imensa. &Eacute;
+que estou com uma fome... Santo Deus! H&aacute; anos que n&atilde;o
+sinto esta fome.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Foi ele que rapou avaramente a sopeira. E j&aacute; espreitava a
+porta, esperando a portadora dos pit&eacute;us, a rija mo&ccedil;a
+de peitos trementes, que enfim surgiu, mais esbraseada, abalando o
+sobrado--e pousou sobre a mesa uma travessa a transbordar de arroz
+com favas. Que desconsolo! Jacinto, em Paris, sempre abominara
+favas!... Tentou todavia uma garfada t&iacute;mida--e de novo
+aqueles seus olhos, que o pessimismo enevoara, luziram, procurando
+os meus. Outra larga garfada, concentrada, com uma lentid&atilde;o
+de frade que se regala. Depois um brado:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--&Oacute;ptimo!... Ah, destas favas, sim! Oh que fava! Que
+del&iacute;cia!<br>
+
+
+<br>
+
+
+E por esta santa gula louvava a serra, a arte perfeita das mulheres
+palreiras que em baixo remexiam as panelas, o Melchior que presidia
+ao br&oacute;dio...<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Deste arroz com fava nem em Paris, Melchior amigo!<br>
+
+
+<br>
+
+
+O homem &oacute;ptimo sorria, inteiramente desanuviado:<br>
+
+
+<br>
+
+
+
+--Pois &eacute; c&aacute; a comidinha dos mo&ccedil;os da quinta! E
+cada pratada, que at&eacute; suas Incel&ecirc;ncias <span class="pagenum">[215]</span>se riam... Mas agora, aqui, o Sr. D. Jacinto,
+tamb&eacute;m vai engordar e enrijar!<br>
+
+
+<br>
+
+
+O bom caseiro sinceramente cria que, perdido nesses remotos
+Parises, o Senhor de Tormes, longe da fartura de Tormes, padecia
+fome e mingava... E o meu Pr&iacute;ncipe, na verdade, parecia
+saciar uma velh&iacute;ssima fome e uma longa saudade da
+abund&acirc;ncia, rompendo assim, a cada travessa, em louvores mais
+copiosos. Diante do louro frango assado no espeto e da salada que
+ele apetecera na horta, agora temperada com um azeite da serra
+digno dos l&aacute;bios de Plat&atilde;o, terminou por
+bradar:--&laquo;&Eacute; divino!&raquo; Mas nada o entusiasmava
+como o vinho de Tormes, caindo de alto, da bojuda infusa verde--um
+vinho fresco, esperto, seivoso, e tendo mais alma, entrando mais na
+alma, que muito poema ou livro santo. Mirando, &agrave; vela de
+sebo, o copo grosso que ele orlava de leve espuma r&oacute;sea, o
+meu Pr&iacute;ncipe, com um resplendor de optimismo na face, citou
+Virg&iacute;lio:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--<i>Quo te carmina dicam, Rethica?</i> Quem dignamente te
+cantar&aacute;, vinho am&aacute;vel destas serras?<br>
+
+
+<br>
+
+
+Eu, que n&atilde;o gosto que me avantajem em saber cl&aacute;ssico,
+espanejei logo tamb&eacute;m o meu Virg&iacute;lio, louvando as
+do&ccedil;uras da vida rural:<br>
+
+
+<br>
+
+
+
+--<i>Hanc olim veteres vitam coluere Sabini</i>... <span class="pagenum">[216]</span>Assim viveram os velhos Sabinos. Assim
+R&oacute;mulo e Remo... Assim cresceu a valente Etr&uacute;ria.
+Assim Roma se tornou a maravilha do mundo!<br>
+
+
+<br>
+
+
+E im&oacute;vel, com a m&atilde;o agarrada &agrave; infusa, o
+Melchior arregalava para n&oacute;s os olhos em infinito assombro e
+religiosa rever&ecirc;ncia.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+<div class="break">
+<hr></div>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+Ah! Jant&aacute;mos deliciosissimamente, sob os ausp&iacute;cios do
+Melchior--que ainda depois, pr&oacute;vido e tutelar, nos forneceu
+o tabaco. E, como ante n&oacute;s se alongava uma noite de monte,
+volt&aacute;mos para as janelas desvidra&ccedil;adas, na sala
+imensa, a contemplar o sumptuoso c&eacute;u de Ver&atilde;o.
+Filosof&aacute;mos ent&atilde;o com pachorra e fac&uacute;ndia.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Na Cidade (como notou Jacinto) nunca se olham, nem lembram os
+astros--por causa dos candeeiros de g&aacute;s ou dos globos de
+electricidade que os ofuscam. Por isso (como eu notei) nunca se
+entra nessa comunh&atilde;o com o Universo que &eacute; a
+&uacute;nica gl&oacute;ria e &uacute;nica consola&ccedil;&atilde;o
+da Vida. Mas na serra, sem pr&eacute;dios disformes de seis
+andares, sem a fumara&ccedil;a que tapa Deus, sem os cuidados que
+como peda&ccedil;os de chumbo puxam a alma para o p&oacute;
+rasteiro--um Jacinto, um Z&eacute; Fernandes, livres, bem jantados,
+fumando nos poiais <span class="pagenum">[217]</span>de uma janela,
+olham para os astros e os astros olham para eles. Uns, certamente,
+com olhos de sublime imobilidade ou de sublime indiferen&ccedil;a.
+Mas outros curiosamente, ansiosamente, com uma luz que acena, uma
+luz que chama, como se tentassem, de t&atilde;o longe, revelar os
+seus segredos, ou de t&atilde;o longe compreender os nossos...<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Oh Jacinto, que estrela &eacute; esta, aqui, t&atilde;o viva,
+sobre o beiral do telhado?<br>
+
+
+<br>
+
+
+--N&atilde;o sei... E aquela, Z&eacute; Fernandes, al&eacute;m, por
+cima do pinheiral?<br>
+
+
+<br>
+
+
+--N&atilde;o sei.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+N&atilde;o sab&iacute;amos. Eu, por causa da espessa crosta de
+ignor&acirc;ncia com que sa&iacute; do ventre de Coimbra, minha
+M&atilde;e espiritual. Ele, porque na sua Biblioteca possu&iacute;a
+trezentos e oito tratados sobre Astronomia, e o Saber, assim
+acumulado, forma um monte que nunca se transp&otilde;e nem se
+desbasta. Mas que nos importava que aquele astro al&eacute;m se
+chamasse S&iacute;rio e aquele outro Aldebar&atilde;? Que lhes
+importava a eles que um de n&oacute;s fosse Jacinto, outro
+Z&eacute;? Eles t&atilde;o imensos, n&oacute;s t&atilde;o
+pequeninos, somos a obra da mesma Vontade. E todos, Uranos ou
+Lorenas de Noronha e Sande, constitu&iacute;mos modos diversos de
+um Ser &uacute;nico, e as nossas diversidades esparsas somam na
+mesma compacta Unidade. Mol&eacute;culas <span class="pagenum">[218]</span>do mesmo Todo, governadas pela mesma Lei,
+rolando para o mesmo Fim... Do astro ao homem, do homem &agrave;
+
+flor do trevo, da flor do trevo ao mar sonoro--tudo &eacute; o
+mesmo Corpo, onde circula, como um sangue, o mesmo Deus. E nenhum
+fr&eacute;mito de vida, por menor, passa numa fibra desse sublime
+Corpo, que se n&atilde;o repercuta em todas, at&eacute; &agrave;s
+mais humildes, at&eacute; &agrave;s que parecem inertes e invitais.
+Quando um Sol que n&atilde;o avisto, nunca avistarei, morre de
+inani&ccedil;&atilde;o nas profundidades, esse esguio galho de
+limoeiro, em baixo na horta, sente um secreto arrepio de morte:--e,
+quando eu bato uma patada no soalho de Tormes, al&eacute;m o
+monstruoso Saturno estremece, e esse estremecimento percorre o
+inteiro Universo! Jacinto abateu rijamente a m&atilde;o no rebordo
+da janela. Eu gritei:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Acredita!... O sol tremeu.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+E depois (como eu notei) dev&iacute;amos considerar que, sobre cada
+um desses gr&atilde;os de p&oacute; luminoso, existia uma
+cria&ccedil;&atilde;o, que incessantemente nasce, perece, renasce.
+Neste instante, outros Jacintos, outros Z&eacute;s Fernandes,
+sentados &agrave;s janelas doutras Tormes, contemplam o c&eacute;u
+nocturno, e nele um pequenininho ponto de luz, que &eacute; a nossa
+possante Terra por n&oacute;s tanto sublimada. N&atilde;o
+ter&atilde;o todos esta nossa forma, bem fr&aacute;gil, bem
+<span class="pagenum">[219]</span>desconfort&aacute;vel, e (a
+n&atilde;o ser no Apolo do Vaticano, na V&eacute;nus de Milo e
+talvez na Princesa, de Carman) singularmente feia e burlesca. Mas,
+horrendos ou de inef&aacute;vel beleza; colossais e de uma carne
+mais dura que o granito, ou leves como gazes e ondulando na luz,
+todos eles s&atilde;o seres pensantes e t&ecirc;m consci&ecirc;ncia
+da Vida--porque decerto cada Mundo possui o seu Descartes, ou
+j&aacute; o nosso Descartes os percorreu a todos com o seu
+M&eacute;todo, a sua escura capa, a sua agudeza elegante,
+formulando a &uacute;nica certeza talvez certa, o grande <i>Penso
+logo existo</i>. Portanto todos n&oacute;s, Habitantes dos Mundos,
+
+&agrave;s janelas dos nossos casar&otilde;es, al&eacute;m nos
+Saturnos, ou aqui na nossa Terr&iacute;cula, constantemente
+perfazemos um acto sacrossanto que nos penetra e nos funde--que
+&eacute; sentirmos no Pensamento o n&uacute;cleo comum das nossas
+modalidades, e portanto realizarmos um momento, dentro da
+Consci&ecirc;ncia, a Unidade do Universo!--Hein, Jacinto?...<br>
+
+
+<br>
+
+
+O meu amigo rosnou:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Talvez... Estou a cair com sono.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Tamb&eacute;m eu. &laquo;Remont&aacute;mos muito,
+Ex.<sup>mo</sup> Sr.!&raquo; como dizia o Pestaninha em Coimbra.
+Mas nada mais belo, e mais v&atilde;o, que uma cavaqueira, no alto
+das serras, a olhar para as estrelas!... Tu sempre vais
+amanh&atilde;?<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+<span class="pagenum">[220]</span>--Concerteza, Z&eacute;
+Fernandes! Com a certeza de Descartes. &laquo;Penso <i>logo
+fujo</i>!&raquo; Como queres tu, neste pardieiro, sem uma cama, sem
+uma poltrona, sem um livro?... Nem s&oacute; de arroz com fava vive
+o Homem! Mas demoro em Lisboa, para conversar com o Sesimbra, o meu
+Administrador. E tamb&eacute;m &agrave; espera que estas obras
+acabem, os caixotes surjam, e eu possa voltar decentemente, com
+roupa lavada, para a traslada&ccedil;&atilde;o...<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--&Eacute; verdade, os ossos...<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Mas resta ainda o Grilo... Que animal! Por onde andar&aacute;
+esse perdido?<br>
+
+
+<br>
+
+
+Ent&atilde;o, passeando lentamente na sala enorme, onde a vela de
+sebo j&aacute; derretida no casti&ccedil;al de lata era como um
+lume de cigarro num descampado, medit&aacute;mos na sorte do Grilo.
+O estimado negro ou fora despejado nas lamas de Medina, com as
+vinte e sete malas, aos gritos--ou, regaladamente adormecido,
+rolara com o Anatole no comboio para Madrid. Mas ambos os casos
+apareciam ao meu Pr&iacute;ncipe como irremediavelmente
+destruidores do seu conforto...<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--N&atilde;o, escuta, Jacinto... Se o Grilo encalhou em Medina,
+dormiu na Fonda, catou os percevejos, e esta madrugada correu para
+Tormes. Quando amanh&atilde; desceres &agrave;
+Esta&ccedil;&atilde;o, &agrave;s quatro horas, encontras o teu
+precioso homem, <span class="pagenum">[221]</span>com as tuas
+preciosas malas, metido nesse comboio que te leva ao Porto e
+&agrave; Capital...<br>
+
+
+<br>
+
+
+Jacinto sacudiu os bra&ccedil;os como quem se debate nas malhas de
+uma rede:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--E se seguiu para Madrid?<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Ent&atilde;o, por esta semana, c&aacute; aparece em Tormes, onde
+encontra ordem para regressar a Lisboa e reentrar no teu
+s&eacute;quito... Resta o interessante caso das minhas bagagens. Se
+amanh&atilde; encontrares na Esta&ccedil;&atilde;o o Grilo, separa
+a minha mala negra, e o saco de lona, e a chapeleira. O Grilo
+conhece. E pede ao Pimenta, ao gordalhufo, que me avise para
+Gui&atilde;es. Se o Grilo aportar Tormes, esfogueteado de Madrid,
+com toda essa malaria, deixa as minhas coisas aqui, ao Melchior...
+Eu amanh&atilde; falo ao Melchior.<br>
+
+
+<br>
+
+
+
+Jacinto sacudiu furiosamente o colarinho:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Mas como posso eu partir para Lisboa, amanh&atilde;, com esta
+camisa de dois dias, que j&aacute; me faz uma comich&atilde;o
+horrenda? E sem um len&ccedil;o... Nem ao menos uma escova de
+dentes!<br>
+
+
+<br>
+
+
+F&eacute;rtil em ideias, estendi as m&atilde;os, num belo gesto
+tutelar:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Tudo se arranja, meu Jacinto, tudo se arranja! Eu, largando daqui
+cedo, pelas seis <span class="pagenum">[222]</span>horas, chego a
+Gui&atilde;es &agrave;s dez, ainda sem calor. E, mesmo antes do
+almo&ccedil;o e da cavaqueira com a tia Vic&ecirc;ncia,
+imediatamente te mando por um mo&ccedil;o um saco de roupa branca.
+As minhas camisas e as minhas ceroulas talvez te estejam largas.
+Mas um mendigo como tu n&atilde;o tem direito a eleg&acirc;ncias e
+a roupas bem cortadas. O mo&ccedil;o, num bom trote, entra aqui
+
+&agrave;s duas horas; tens tempo de mudar antes de desceres para a
+Esta&ccedil;&atilde;o... Posso meter na mala uma escova de
+dentes.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Oh Z&eacute; Fernandes! Ent&atilde;o mete tamb&eacute;m uma
+esponja... E um frasco de &aacute;gua-de-col&oacute;nia!<br>
+
+
+<br>
+
+
+--&Aacute;gua de alfazema, excelente, feita pela tia
+Vic&ecirc;ncia...<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+O meu Pr&iacute;ncipe suspirou, impressionado com a sua
+mis&eacute;ria esqu&aacute;lida, e esta d&aacute;diva de
+roupas:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Bem, ent&atilde;o vamos dormir, que estou esfalfado de
+emo&ccedil;&otilde;es e de astros...<br>
+
+
+<br>
+
+
+Justamente Melchior entreabria a pesada porta, com timidez, a
+avisar que &laquo;estavam preparadinhas as camas de suas
+Incel&ecirc;ncias.&raquo; E seguindo o bom caseiro, que erguia uma
+candeia, que avistamos n&oacute;s, o meu Pr&iacute;ncipe e eu,
+ainda h&aacute; pouco irmanados com os astros? Em duas saletas, que
+uma abertura em arco, l&ocirc;brego arco de pedra, separava--duas
+enxergas sobre o soalho. Junto &agrave; cabeceira <span class="pagenum">[223]</span>da mais larga, que pertencia ao senhor de
+Tormes, um casti&ccedil;al de lat&atilde;o sobre um alqueire; aos
+p&eacute;s, como lavat&oacute;rio, um alguidar vidrado em cima de
+uma tripe&ccedil;a. Para mim, serrano daquelas serras, nem alguidar
+nem alqueire.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Lentamente, com o p&eacute;, o meu supercivilizado amigo palpou a
+enxerga. E decerto lhe sentiu uma dureza intransigente, porque
+ficou pendido sobre ela, a correr desoladamente os dedos pela face
+desmaiada.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--E o pior n&atilde;o &eacute; ainda a enxerga, murmurou enfim com
+um suspiro. &Eacute; que n&atilde;o tenho camisa de dormir, nem
+chinelas!... E n&atilde;o me posso deitar de camisa engomada.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Por inspira&ccedil;&atilde;o minha recorremos ao Melchior. De novo,
+esse benem&eacute;rito providenciou, trazendo a Jacinto, para ele
+desafogar os p&eacute;s, uns tamancos--e para embrulhar o corpo uma
+camisa da comadre, enorme, de estopa, &aacute;spera como uma
+estamenha de penitente, com folhos mais crespos e duros do que
+lavores de madeira. Para consolar o meu Pr&iacute;ncipe lembrei que
+Plat&atilde;o quando compunha o <i>Banquete</i>, Vasco da Gama
+quando dobrava o Cabo, n&atilde;o dormiam em melhores catres! As
+enxergas rijas fazem as almas fortes, oh Jacinto!... E &eacute;
+
+s&oacute; vestido de estamenha que se penetra no
+Para&iacute;so.<br>
+
+
+<br>
+
+
+<span class="pagenum">[224]</span>--Tens tu, volveu o meu amigo
+secamente, alguma coisa que eu leia? N&atilde;o posso adormecer sem
+um livro.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Eu? Um livro? Possu&iacute;a apenas o velho numero do <i>Jornal do
+Com&eacute;rcio</i>, que escapara &agrave; dispers&atilde;o dos
+nossos bens. Rasguei a copiosa folha pelo meio, partilhei com
+Jacinto fraternalmente. Ele tomou a sua metade, que era a dos
+an&uacute;ncios... E quem n&atilde;o viu ent&atilde;o Jacinto,
+senhor de Tormes, aca&ccedil;apado &agrave; borda da enxerga, rente
+da vela de sebo que se derretia no alqueire, com os p&eacute;s
+encafuados nos socos, perdido dentro das &aacute;speras pregas e
+dos rijos folhos da camisa serrana, percorrendo num peda&ccedil;o
+velho de Gazeta, pensativamente, as partidas dos
+Paquetes--n&atilde;o pode saber o que &eacute; uma intensa e
+ver&iacute;dica imagem do Desalento.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Recolhido &agrave; minha alcova espartana, desabotoava o colete,
+num delicioso cansa&ccedil;o, quando o meu Pr&iacute;ncipe ainda me
+reclamou:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Z&eacute; Fernandes...<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Diz.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Manda tamb&eacute;m no saco um abotoador de botas.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Estirado comodamente na rija enxerga murmurei, como sempre murmuro
+ao penetrar no Sono, que &eacute; um primo da Morte, <span class="pagenum">[225]</span>&laquo;Deus seja louvado!&raquo; Depois tomei
+a metade do <i>Jornal do Com&eacute;rcio</i> que me pertencia.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Z&eacute; Fernandes...<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Que &eacute;?<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Tamb&eacute;m podias meter no saco p&oacute;s dos dentes... E uma
+lima das unhas... E um romance!<br>
+
+
+<br>
+
+
+J&aacute; a meia Gazeta me escapava das m&atilde;os dormentes. Mas
+da sua alcova, depois de soprar a vela, Jacinto murmurou entre um
+bocejo:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Z&eacute; Fernandes...<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Hein?<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Escreve para Lisboa, para o Hotel Bragan&ccedil;a... Os
+len&ccedil;&oacute;is ao menos s&atilde;o frescos, cheiram bem, a
+sadio!<br>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+<h2>IX</h2>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+Cedo, de madrugada, sem rumor, para n&atilde;o despertar o meu
+Jacinto, que, com as m&atilde;os cruzadas sobre o peito, dormia
+beatificamente na sua enxerga de granito--parti para
+Gui&atilde;es.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Ao cabo de uma semana, recolhendo uma manh&atilde; para o
+almo&ccedil;o, encontrei no corredor as minhas malas t&atilde;o
+desejadas, que um mo&ccedil;o do casal da Giesta trouxera num carro
+com &laquo;recados do Sr. Pimentinha&raquo;. O meu pensamento pulou
+para o meu Pr&iacute;ncipe. E lancei pelo tel&eacute;grafo, para
+Lisboa, para o Hotel Bragan&ccedil;a, este brado
+alegre:--&laquo;Est&aacute;s l&aacute;? Sei recuperaste Grilo e
+Civiliza&ccedil;&atilde;o! Hurrah! Abra&ccedil;o!&raquo;--S&oacute;
+
+depois de sete dias, ocupados numa delicada apanha de espargos com
+que outrora civilizara a horta da tia Vic&ecirc;ncia, notei o
+sil&ecirc;ncio de Jacinto. Num bilhete postal renovei, desenvolvi o
+grito amigo:--&laquo;Est&aacute;s l&aacute;? S&atilde;o os prazeres
+da Baixa que assim te <span class="pagenum">[228]</span>tornam
+desatento e mudo? Eu, todo espargos! Responde, quando chegas? Tempo
+delicioso! 23&ordm; &agrave; sombra. E os ossos?...&raquo;--Veio
+depois a devota romaria da Senhora da Roqueirinha. Durante a lua
+nova andei num corte de mato, na minha terra das Corcas. A tia
+Vic&ecirc;ncia vomitou, com uma indigest&atilde;o de morcelas. E o
+sil&ecirc;ncio do meu Pr&iacute;ncipe era ingrato e ferrenho.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Enfim uma tarde, voltando da Flor da Malva, de casa da minha prima
+Joaninha, parei em Sandofim, na venda do Manuel Rico, para beber de
+certo vinho branco que a minha alma conhece--e sempre pede.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Defronte, &agrave; porta do ferrador, o Severo, sobrinho do
+Melchior de Tormes e o mais fino alveitar da serra, picava tabaco,
+escarranchado num banco. Mandei encher outro quartilho: ele
+acariciou o pesco&ccedil;o da minha &eacute;gua que j&aacute;
+salvara de um esfriamento: e, como eu indagasse do nosso Melchior,
+o Severo contou que na v&eacute;spera jantara com ele em Tormes, e
+se abeirara tamb&eacute;m do fidalgo...<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Ora essa! Ent&atilde;o o Sr. D. Jacinto est&aacute; em
+Tormes?<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+O meu espanto divertiu o Severo:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Ent&atilde;o V. Exc.&ordf;... Pois em Tormes &eacute; que ele
+est&aacute;, h&aacute; mais de cinco semanas, sem arredar!
+<span class="pagenum">[229]</span>E parece que fica para a vindima,
+e vai l&aacute; uma grandeza!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Sant&iacute;ssimo nome de Deus! Ao outro dia, domingo, depois da
+missa e sem me assustar com a calma que carregava, trotei
+alvoro&ccedil;adamente para Tormes. Ao latir dos rafeiros, quando
+transpus o portal solarengo, a comadre do Melchior acudiu dos lados
+do curral, com um alguidar de lavagem encostado &agrave;
+cintura.--Ent&atilde;o o Sr. D. Jacinto?... O Sr. D. Jacinto andava
+l&aacute; para baixo, com o Silv&eacute;rio e com o Melchior, nos
+campos de Freixomil...<br>
+
+
+<br>
+
+
+--E o Sr. Grilo, o preto?<br>
+
+
+<br>
+
+
+--H&aacute; bocadinho tamb&eacute;m o enxerguei no pomar, com o
+franc&ecirc;s, a apanhar lim&otilde;es doces..<br>
+
+
+
+.<br>
+
+
+Todas as janelas do solar rebrilhavam, com vidra&ccedil;as novas,
+bem polidas. A um canto do p&aacute;tio notei baldes de cal e
+tigelas de tintas. Uma escada de pedreiro descansara durante o Dia
+Santo arrimada contra o telhado. E, rente ao muro da capela, dois
+gatos dormiam sobre mont&otilde;es de palha desempacotada de
+caixotes consider&aacute;veis.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Bem, pensei eu. Eis a Civiliza&ccedil;&atilde;o!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Recolhi a &eacute;gua, galguei a escada. Na varanda, sobre uma
+pilha de ripas, reluzia num raio de sol uma banheira de zinco.
+Dentro <span class="pagenum">[230]</span>encontrei todos os soalhos
+remendados, esfregados a carqueja. As paredes, muito caiadas e
+nuas, refrigeravam como as de um convento. Um quarto, a que me
+levaram tr&ecirc;s portas escancaradas com franqueza serrana, era
+certamente o de Jacinto: a roupa pendia de cabides de pau: o leito
+de ferro, com coberta de fust&atilde;o, encolhia timidamente a sua
+rigidez virginal a um canto, entre o muro e a banquinha onde um
+casti&ccedil;al de lat&atilde;o resplandecia sobre um volume do
+
+<i>D. Quixote</i> no lavat&oacute;rio pintado de amarelo, imitando
+bambu, apenas cabia o jarro, a bacia, um naco gordo de
+sab&atilde;o; e uma prateleirinha bastava ao esmerado alinho da
+escova, da tesoura, do pente, do espelhinho de feira, e do
+frasquinho de &aacute;gua de alfazema que eu mandara de
+Gui&atilde;es. As tr&ecirc;s janelas, sem cortinas, contemplavam a
+beleza da serra, respirando um delicado e macio ar, que se
+perfumava nas resinas dos pinheirais, depois nas roseiras da horta.
+Em frente, no corredor, outro quarto repetia a mesma simplicidade.
+Certamente a previd&ecirc;ncia do meu Pr&iacute;ncipe o destinara
+ao seu Z&eacute; Fernandes. Pendurei logo dentro, no cabide, o meu
+guarda-p&oacute; de lustrina.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Mas na sala imensa, onde tanto filosof&aacute;ramos considerando as
+estrelas, Jacinto arranjara um centro de repouso e de
+estudo--e<span class="pagenum">[231]</span> desenrolara essa
+
+&laquo;grandeza&raquo; que impressionava o Severo. As cadeiras de
+verga da Madeira, amplas e de bra&ccedil;os, ofereciam o conforto
+de almofadinhas de chita. Sobre a mesa enorme de pau branco,
+carpinteirada em Tormes, admirei um candeeiro de metal de
+tr&ecirc;s bicos, um tinteiro de frade armado de penas de pato, um
+vaso de capela transbordando de cravos. Entre duas janelas uma
+c&oacute;moda antiga, embutida, com ferragens lavradas, recebera
+sobre o seu m&aacute;rmore rosado o devoto peso de um
+Pres&eacute;pio, onde Reis Magos, pastores de surr&otilde;es
+vistosos, cordeiros de esguedelhada l&atilde;, se apressavam
+atrav&eacute;s de alcantis para o Menino, que na sua lapinha lhes
+abria os bra&ccedil;os, coroado por uma enorme Coroa Real. Uma
+estante de madeira enchia outro peda&ccedil;o de parede, entre dois
+retratos negros com caixilhos negros; sobre uma das suas
+prateleiras repousavam duas espingardas; nas outras esperavam,
+espalhados, como os primeiros Doutores nas bancadas de um
+conc&iacute;lio, alguns nobres livros, um Plutarco, um
+Virg&iacute;lio, a Odisseia, o Manual de Epicteto, as
+Cr&oacute;nicas de Froissart. Depois, em fila decorosa, cadeiras de
+palhinha, muito novas, muito envernizadas. E a um canto um molho de
+varapaus.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Tudo resplandecia de asseio e ordem. As <span class="pagenum">[232]</span>portadas das janelas, cerradas, abrigavam do
+sol que batia aquele lado de Tormes, escaldando os peitoris de
+pedra. Do soalho, borrifado de &aacute;gua, subia, na suavizada
+penumbra, uma frescura. Os cravos rescendiam. Nem dos campos, nem
+da casa, se elevava um rumor. Tormes dormia no esplendor da
+manh&atilde; santa. E, penetrado por aquela consoladora
+quieta&ccedil;&atilde;o de convento rural, terminei por me estender
+numa cadeira de verga, junto da mesa, abrir languidamente um tomo
+de Virg&iacute;lio, e murmurar, apropriando o doce verso que
+encontrara:<br>
+
+
+<div class="quote">Fortunate Jacinthe! Hic, inter arva nota<br>
+
+
+Et fontes sacros, frigus captabis opacum...</div>
+
+
+<br>
+
+
+Afortunado Jacinto, na verdade! Agora, entre campos que s&atilde;o
+teus e &aacute;guas que te s&atilde;o sagradas, colhes enfim a
+sombra e a paz!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Li ainda outros versos. E, na fadiga das duas horas de &eacute;gua
+e calor desde Gui&atilde;es, irreverentemente adormecia sobre o
+divino Bucoliasta--quando me despertou um berro amigo! Era o meu
+Pr&iacute;ncipe. E muito decididamente, depois de me soltar do seu
+rijo abra&ccedil;o, o comparei a uma planta estiolada, emurchecida
+na escurid&atilde;o, entre tapetes e sedas, que, levada para vento
+e sol, profusamente <span class="pagenum">[233]</span>regada,
+reverdece, desabrocha e honra a Natureza! Jacinto j&aacute;
+n&atilde;o corcovava. Sobre a sua arrefecida palidez de
+supercivilizado, o ar montesino, ou vida mais verdadeira, espalhara
+um rubor trigueiro e quente de sangue renovado que o virilizava
+soberbamente. Dos olhos, que na Cidade andavam sempre t&atilde;o
+crepusculares e desviados do Mundo, saltava agora um brilho de
+meio-dia, resoluto e largo, contente em se embeber na beleza das
+coisas. At&eacute; o bigode se lhe encrespara. E j&aacute;
+n&atilde;o deslizava a m&atilde;o desencantada sobre a face,--mas
+batia com ela triunfalmente na coxa. Que sei? Era um Jacinto
+nov&iacute;ssimo. E quase me assustava, por eu ter de aprender e
+penetrar, neste novo Pr&iacute;ncipe, os modos e as ideias
+novas.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Caramba, Jacinto, mas ent&atilde;o...?<br>
+
+
+<br>
+
+
+Ele encolheu jovialmente os ombros realargados. E s&oacute; me
+soube contar, trilhando soberanamente com os sapatos brancos e
+cobertos de p&oacute; o soalho remendado, que, ao acordar em
+Tormes, depois de se lavar numa dorna, e de enfiar a minha roupa
+branca, se sentira de repente como
+<i>desanuviado</i>,desenvencilhado! Almo&ccedil;ara uma pratada de
+ovos com chouri&ccedil;o, sublime. Passeara por toda aquela
+magnific&ecirc;ncia da serra com pensamentos ligeiros de liberdade
+e de paz. Mandara <span class="pagenum">[234]</span>ao Porto
+comprar uma cama, uns cabides... E ali estava...<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Para todo o Ver&atilde;o?<br>
+
+
+<br>
+
+
+--N&atilde;o! Mas um m&ecirc;s... Dois meses! Enquanto houver
+chouri&ccedil;os, e a &aacute;gua da fonte, bebida pela telha ou
+numa folha de couve, me souber t&atilde;o divinamente!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Ca&iacute; sobre a cadeira de verga, e contemplei, arregalado,
+quase esgazeado, o meu Pr&iacute;ncipe! Ele enrolava numa mortalha
+tabaco picado, tabaco grosso, guardado numa malga vidrada. E
+exclamava:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Ando a&iacute; pelas terras desde o romper de alva! Pesquei
+j&aacute; hoje quatro trutas, magn&iacute;ficas... L&aacute; em
+baixo, no Naves, um riachote que se atira pelo vale da Seranda...
+Temos logo ao jantar essas trutas!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Mas eu, &aacute;vido pela hist&oacute;ria daquela
+ressurrei&ccedil;&atilde;o:<br>
+
+
+<br>
+
+
+
+--Ent&atilde;o, n&atilde;o estiveste em Lisboa?... Eu
+telegrafei...<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Qual tel&eacute;grafo! Qual Lisboa! Estive l&aacute; em cima, ao
+p&eacute; da fonte da Lira, &agrave; sombra de uma grande
+&aacute;rvore, <i>sub tegmine</i> n&atilde;o sei qu&ecirc;, a ler
+esse ador&aacute;vel Virg&iacute;lio... E tamb&eacute;m a arranjar
+o meu pal&aacute;cio! Que te parece, Z&eacute; Fernandes? Em
+tr&ecirc;s semanas, tudo soalhado, envidra&ccedil;ado, caiado,
+encadeirado!... Trabalhou <span class="pagenum">[235]</span>a
+freguesia inteira! At&eacute; eu pintei, com uma imensa brocha.
+Viste o comedouro?<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--N&atilde;o.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Ent&atilde;o vem admirar a beleza na simplicidade,
+b&aacute;rbaro!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Era a mesma onde n&oacute;s tanto exalt&aacute;ramos o arroz com
+favas--mas muito esfregada, muito caiada, com um rodap&eacute;
+besuntado de azul estridente onde logo adivinhei a obra do meu
+Pr&iacute;ncipe. Uma toalha de linho de Guimar&atilde;es cobria a
+mesa, com as franjas ro&ccedil;ando o soalho. No fundo dos pratos
+de lou&ccedil;a forte reluzia um galo amarelo. Era o mesmo galo e a
+mesma lou&ccedil;a em que na nossa casa, em Gui&atilde;es, se
+servem os feij&otilde;es dos cavadores...<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Mas no p&aacute;tio os c&atilde;es latiram. E Jacinto correu
+&agrave; varanda, com uma ligeireza curiosa que me deleitou. Ah,
+bem definitivamente se esfrangalhara aquela rede de malha que se
+n&atilde;o percebia e que outrora o travava!--Nesse momento
+apareceu o Grilo, de quinzena de linho, segurando em cada
+m&atilde;o uma garrafa de vinho branco. Todo se alegrou &laquo;em
+ver na quinta o si&ocirc; Fernandes&raquo;. Mas a sua veneranda
+face j&aacute; n&atilde;o resplandecia, como em Paris, com um
+t&atilde;o sereno e ditoso brilho de &eacute;bano. At&eacute; me
+pareceu que corcovava... Quando o interroguei sobre aquela
+mudan&ccedil;a, estendeu duvidosamente o bei&ccedil;o grosso:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+<span class="pagenum">[236]</span>--O menino gosta, eu ent&atilde;o
+tamb&eacute;m gosto... Que o ar aqui &eacute; muito bom, si&ocirc;
+Fernandes, o ar &eacute; muito bom!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Depois, mais baixo, envolvendo num gesto desolado a lou&ccedil;a de
+Barcelos, as facas de cabo de osso, as prateleiras de pinho como
+num refeit&oacute;rio de Franciscanos:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Mas muita magreza, si&ocirc; Fernandes, muita magreza!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Jacinto voltava com um ma&ccedil;o de jornais cintados:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Era o carteiro. J&aacute; v&ecirc;s que n&atilde;o amuei
+inteiramente com a Civiliza&ccedil;&atilde;o. Eis a Imprensa!...
+Mas nada de <i>Figaro</i>_, ou da horrenda <i>Dois-Mundos</i>!
+Jornais de Agricultura! Para aprender como se produzem as risonhas
+messes, e sob que signo se casa a vinha ao olmo, e que cuidados
+necessita a abelha provida... <i>Quid faciat laetas segetes</i>...
+De resto para esta nobre educa&ccedil;&atilde;o, j&aacute; me
+bastavam as <i>Ge&oacute;rgicas</i>, que tu ignoras!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Eu ri:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Alto l&aacute;! <i>Nos quoque gens sumus et nostrum Virgilium
+sabemus!</i><br>
+
+
+<br>
+
+
+Mas o meu nov&iacute;ssimo amigo, debru&ccedil;ado da janela, batia
+as palmas--como Cat&atilde;o para chamar os servos, na Roma
+simples. E gritava:<br>
+
+
+<br>
+
+
+<span class="pagenum">[237]</span>--Ana Vaqueira! Um copo de
+
+&aacute;gua, bem lavado, da fonte velha!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Pulei, imensamente divertido:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Oh Jacinto! E as &aacute;guas carbonatadas? e as fosfatadas? e as
+esterilizadas? e as s&oacute;dicas?...<br>
+
+
+<br>
+
+
+O meu Pr&iacute;ncipe atirou os ombros com um desd&eacute;m
+soberbo. E aclamou a apari&ccedil;&atilde;o de um grande copo, todo
+embaciado pela frescura nevada da &aacute;gua refulgente, que uma
+bela mo&ccedil;a trazia num prato. Eu admirei sobretudo a
+mo&ccedil;a... Que olhos, de um negro t&atilde;o l&iacute;quido e
+s&eacute;rio! No andar, no quebrar da cinta, que harmonia e que
+gra&ccedil;a de Ninfa latina!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+E apenas pela porta desaparecera a espl&ecirc;ndida
+apari&ccedil;&atilde;o:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Oh Jacinto, eu daqui a um instante tamb&eacute;m quero
+&aacute;gua! E se compete a esta rapariga trazer as coisas, eu, de
+cinco em cinco minutos, quero uma coisa!... Que olhos, que corpo...
+Caramba, menino! Eis a poesia, toda viva, da serra...<br>
+
+
+<br>
+
+
+O meu Pr&iacute;ncipe sorria, com sinceridade:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--N&atilde;o! n&atilde;o nos iludamos, Z&eacute; Fernandes, nem
+fa&ccedil;amos Arc&aacute;dia. &Eacute; uma bela mo&ccedil;a, mas
+uma bruta... N&atilde;o h&aacute; ali mais poesia, nem mais
+sensibilidade, nem mesmo mais beleza do que numa linda vaca
+taurina. Merece o <span class="pagenum">[238]</span>seu nome de Ana
+Vaqueira. Trabalha bem, digere bem, concebe bem. Para isso a fez a
+Natureza, assim s&atilde; e rija; e ela cumpre. O marido todavia
+n&atilde;o parece contente, porque a desanca. Tamb&eacute;m
+
+&eacute; um belo bruto... N&atilde;o, meu filho, a serra &eacute;
+maravilhosa e muito grato lhe estou... Mas temos aqui a f&ecirc;mea
+em toda a sua animalidade e o macho em todo o seu ego&iacute;smo...
+S&atilde;o por&eacute;m verdadeiros, genuinamente verdadeiros! E
+esta verdade, Z&eacute; Fernandes, &eacute; para mim um
+repouso.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Lentamente, gozando a frescura, o sil&ecirc;ncio, a liberdade do
+vasto casar&atilde;o, retrocedemos &agrave; sala que Jacinto
+j&aacute; denominara a <i>Livraria</i>. E, de repente, ao avistar
+num canto uma caixa com a tampa meio despregada, quase me
+engasguei, na furiosa curiosidade que me assaltou:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--E os caixotes? Oh Jacinto?... Toda aquela imensa caixotaria que
+n&oacute;s mand&aacute;mos, abarrotada de
+Civiliza&ccedil;&atilde;o? Soubeste? Apareceram?<br>
+
+
+<br>
+
+
+O meu Pr&iacute;ncipe parou, bateu alegremente na coxa:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Sublime! Tu ainda te lembras daquele homenzinho, de saco a
+tiracolo, que n&oacute;s admir&aacute;mos tanto pela sua
+sagacidade, o seu saber geogr&aacute;fico?... Lembras? Apenas falei
+em Tormes, gritou que conhecia, rabiscou <span class="pagenum">[239]</span>uma nota... Nem era necess&aacute;rio mais!
+
+&laquo;Oh! Tormes, perfeitamente, muito antigo, muito
+curioso!&raquo; Pois mandou tudo para Alba-de-Tormes, em Espanha!
+Est&aacute; tudo em Espanha!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Cocei o queixo, desconsolado:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Ora, ora... Um homem t&atilde;o esperto, t&atilde;o expedito, que
+fazia tanta honra ao Progresso! Tudo para Espanha!... E mandaste
+vir?<br>
+
+
+<br>
+
+
+--N&atilde;o! Talvez mais tarde... Agora, Z&eacute; Fernandes,
+estou saboreando esta del&iacute;cia de me erguer pela
+manh&atilde;, e de ter s&oacute; uma escova para alisar o
+cabelo.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Considerei, cheio de recorda&ccedil;&otilde;es, o meu amigo:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Tinhas umas nove...<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Nove? Tinha vinte! Talvez trinta! E era uma
+atrapalha&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o me bastavam!... Nunca em
+Paris andei bem penteado. Assim com os meus setenta mil volumes:
+eram tantos que nunca li nenhum. Assim com as minhas
+ocupa&ccedil;&otilde;es: tanto me sobrecarregavam, que nunca fui
+&uacute;til!<br>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+<div class="break">
+
+<hr></div>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+De tarde, depois da calma, fomos vaguear pelos caminhos coleantes
+daquela quinta rica, que, atrav&eacute;s de duas l&eacute;guas,
+ondula por vale e monte. N&atilde;o me encontrara mais com Jacinto
+em meio da Natureza, desde o <span class="pagenum">[240]</span>remoto dia de entremez em que ele tanto
+sofrera no soci&aacute;vel e policiado bosque de Montmorency. Ah,
+mas agora, com que seguran&ccedil;a e id&iacute;lico amor ele se
+movia atrav&eacute;s dessa Natureza, donde andara tantos anos
+desviado por teoria e por h&aacute;bito! J&aacute; n&atilde;o
+arreceava a humidade mortal das relvas; nem repelia como
+impertinente o ro&ccedil;ar das ramagens; nem o sil&ecirc;ncio dos
+altos o inquietava como um despovoamento do Universo. Era com
+del&iacute;cias, com um consolado sentimento de estabilidade
+recuperada, que enterrava os grossos sapatos nas terras moles, como
+no seu elemento natural e paterno: sem raz&atilde;o, deixava os
+trilhos f&aacute;ceis, para se embrenhar atrav&eacute;s de arbustos
+emaranhados, e receber na face a car&iacute;cia das folhas tenras;
+sobre os outeiros, parava, im&oacute;vel, retendo os meus gestos e
+quase o meu h&aacute;lito, para se embeber de sil&ecirc;ncio e de
+paz: e duas vezes o surpreendi atento e sorrindo &agrave; beira de
+um regatinho palreiro, como se lhe escutasse a
+confid&ecirc;ncia...<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Depois filosofava, sem descontinuar, com o entusiasmo de um
+convertido, &aacute;vido de converter:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Como a intelig&ecirc;ncia aqui se liberta, hein? E como tudo
+&eacute; animado de uma vida <span class="pagenum">[241]</span>forte e profunda!... Dizes tu agora,
+Z&eacute; Fernandes, que n&atilde;o h&aacute; aqui
+pensamento...<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Eu?! Eu n&atilde;o digo nada, Jacinto...<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Pois &eacute; uma maneira de reflectir muito estreita e muito
+grosseira...<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Ora essa! Mas eu...<br>
+
+
+<br>
+
+
+--N&atilde;o, n&atilde;o percebes. A vida n&atilde;o se limita a
+pensar, meu caro doutor...<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Que n&atilde;o sou!<br>
+
+
+<br>
+
+
+--A vida &eacute; essencialmente Vontade e Movimento: e naquele
+peda&ccedil;o de terra, plantado de milho, vai todo um mundo de
+impulsos, de for&ccedil;as que se revelam, e que atingem a sua
+express&atilde;o suprema, que &eacute; a Forma. N&atilde;o, essa
+tua filosofia est&aacute; ainda extremamente grosseira...<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Irra! mas eu n&atilde;o...<br>
+
+
+<br>
+
+
+--E depois, menino, que inesgot&aacute;vel, que miraculosa
+diversidade de formas... E todas belas!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Agarrava o meu pobre bra&ccedil;o, exigia que eu reparasse com
+rever&ecirc;ncia. Na Natureza nunca eu descobriria um contorno feio
+ou repetido! Nunca duas folhas de hera, que, na verdura ou recorte,
+se assemelhassem! Na Cidade, pelo contr&aacute;rio, cada casa
+repete servilmente a outra casa; todas as faces reproduzem a mesma
+indiferen&ccedil;a ou a mesma inquieta&ccedil;&atilde;o; as ideias
+t&ecirc;m todas o mesmo valor, <span class="pagenum">[242]</span>o
+mesmo cunho, a mesma forma, como as libras; e at&eacute; o que
+h&aacute; mais pessoal e &iacute;ntimo, a Ilus&atilde;o, &eacute;
+
+em todos id&ecirc;ntica, e todos a respiram, e todos se perdem nela
+como no mesmo nevoeiro... A <i>mesmice</i>_--eis o horror das
+Cidades!<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Mas aqui! Olha para aquele castanheiro. H&aacute; tr&ecirc;s
+semanas que cada manh&atilde; o vejo, e sempre me parece outro... A
+sombra, o sol, o vento, as nuvens, a chuva, incessantemente lhe
+comp&otilde;em uma express&atilde;o diversa e nova, sempre
+interessante. Nunca a sua frequenta&ccedil;&atilde;o me poderia
+fartar...<br>
+
+
+<br>
+
+
+
+Eu murmurei:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--&Eacute; pena que n&atilde;o converse!<br>
+
+
+<br>
+
+
+O meu Pr&iacute;ncipe recuou, com olhares chamejantes, de
+Ap&oacute;stolo:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Como que n&atilde;o converse? Mas &eacute; justamente um
+conversador sublime! Est&aacute; claro, n&atilde;o tem ditos, nem
+parola teorias, <i>ore rotundo</i>. Mas nunca eu passo junto dele
+que n&atilde;o me sugira um pensamento ou me n&atilde;o desvende
+uma verdade... Ainda hoje quando eu voltava de pescar as trutas...
+Parei: e logo ele me fez sentir como toda a sua vida de vegetal
+
+&eacute; isenta de trabalho, da ansiedade, do esfor&ccedil;o que a
+vida humana imp&otilde;e; n&atilde;o tem de se preocupar com o
+sustento, nem com o vestido, nem com o abrigo; filho querido
+<span class="pagenum">[243]</span>de Deus, Deus o nutre, sem que
+ele se mova ou se inquiete... E &eacute; esta seguran&ccedil;a que
+lhe d&aacute; tanta gra&ccedil;a e tanta majestade. Pois n&atilde;o
+achas?<br>
+
+
+<br>
+
+
+Eu sorria, concordava. Tudo isto era de certo rebuscado e
+especioso. Mas que importavam as requintadas met&aacute;foras, e
+essa Metaf&iacute;sica mal madura, colhida &agrave; pressa nos
+ramos de um castanheiro? Sob toda aquela ideologia transparecia uma
+excelente realidade--a reconcilia&ccedil;&atilde;o do meu
+Pr&iacute;ncipe com a Vida. Segura estava a sua
+Ressurrei&ccedil;&atilde;o depois de tantos anos de cova, da cova
+mole em que jazera, enfaixado como uma m&uacute;mia nas faixas do
+Pessimismo!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+E o que esse Pr&iacute;ncipe, nesta tarde me esfalfou! Farejava,
+com uma curiosidade insaci&aacute;vel, todos os recantos da serra!
+Galgava os cabe&ccedil;os correndo, como na esperan&ccedil;a de
+descobrir l&aacute; do alto os esplendores nunca contemplados de um
+Mundo in&eacute;dito. E o seu tormento era n&atilde;o conhecer os
+nomes das &aacute;rvores, da mais rasteira planta brotando das
+fendas de um socalco... Constantemente me folheava como a um
+Dicion&aacute;rio Bot&acirc;nico.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Fiz toda a sorte de cursos, passei pelos professores mais
+ilustres da Europa, tenho trinta mil volumes, e n&atilde;o sei se
+aquele senhor al&eacute;m &eacute; um amieiro ou um sobreiro...<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+<span class="pagenum">[244]</span>--&Eacute; um azinheiro,
+Jacinto.<br>
+
+
+<br>
+
+
+J&aacute; a tarde ca&iacute;a quando recolhemos muito lentamente. E
+toda essa ador&aacute;vel paz do c&eacute;u, realmente celestial, e
+dos campos, onde cada folhinha conservava uma
+quieta&ccedil;&atilde;o contemplativa, na luz docemente desmaiada,
+pousando sobre as coisas com um liso e leve afago, penetrava
+t&atilde;o profundamente Jacinto, que eu o senti, no sil&ecirc;ncio
+em que ca&iacute;ramos, suspirar de puro al&iacute;vio.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Depois, muito gravemente:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Tu dizes que na natureza n&atilde;o h&aacute; pensamento...<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Outra vez! Olha que ma&ccedil;ada! Eu...<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Mas &eacute; por estar nela suprimido o pensamento que lhe
+est&aacute; poupado o sofrimento! N&oacute;s, desgra&ccedil;ados,
+n&atilde;o podemos suprimir o pensamento, mas certamente o podemos
+disciplinar e impedir que ele se estonteie e se esfalfe, como na
+fornalha das cidades, ideando gozos que nunca se realizam,
+aspirando a certezas que nunca se atingem!... E &eacute; o que
+aconselham estas colinas e estas &aacute;rvores &agrave; nossa
+alma, que vela e se agita:--que viva na paz de um sonho vago e nada
+apete&ccedil;a, nada tema, contra nada se insurja, e deixe o Mundo
+rolar, n&atilde;o esperando dele sen&atilde;o um rumor de harmonia,
+que a embale e lhe favore&ccedil;a o <span class="pagenum">[245]</span>dormir dentro da m&atilde;o de Deus. Hein,
+n&atilde;o te parece, Z&eacute; Fernandes?<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Talvez. Mas &eacute; necess&aacute;rio ent&atilde;o viver num
+mosteiro, com o temperamento de S. Bruno, ou ter cento e quarenta
+contos de renda e o desplante de certos Jacintos... E tamb&eacute;m
+me parece que and&aacute;mos l&eacute;guas. Estou derreado. E que
+fome!<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Tanto melhor, para as trutas, e para o cabrito assado que nos
+espera...<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Bravo! Quem te cozinha?<br>
+
+
+<br>
+
+
+
+--Uma afilhada do Melchior. Mulher sublime! H&aacute;s-de ver a
+canja! H&aacute;s-de ver a cabidela! Ela &eacute; horrenda, quase
+an&atilde;, com os olhos tortos, um verde e outro preto. Mas que
+paladar! Que g&eacute;nio!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Com efeito! Hor&aacute;cio dedicaria uma ode &agrave;quele cabrito
+assado num espeto de cerejeira. E com as trutas, e o vinho
+Melchior, e a cabidela, em que a sublime an&atilde; de olhos tortos
+pusera inspira&ccedil;&otilde;es que n&atilde;o s&atilde;o da
+terra, e aquela do&ccedil;ura da noite de Junho, que pelas janelas
+abertas nos envolveu no seu veludo negro, t&atilde;o mole e
+t&atilde;o consolado fiquei, que, na sala onde nos esperava o
+caf&eacute;, ca&iacute; numa cadeira de verga, na mais larga, e de
+melhores almofadas, e atirei um berro de pura del&iacute;cia.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+<span class="pagenum">[246]</span>Depois, com uma
+recorda&ccedil;&atilde;o, limpando o caf&eacute; do p&ecirc;lo dos
+bigodes:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--&Oacute; Jacinto, e quando n&oacute;s and&aacute;vamos por Paris
+com o Pessimismo &agrave;s costas, a gemer que tudo era
+ilus&atilde;o e dor?<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+O meu Pr&iacute;ncipe, que o cabrito tornara ainda mais alegre,
+trilhava a grandes passadas o soalho, enrolando o cigarro:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Oh! que engenhosa besta, esse Schopenhauer! E maior besta eu, que
+o sorvia, e que me desolava com sinceridade! E todavia,--continuava
+ele, remexendo a ch&aacute;vena--o Pessimismo &eacute; uma teoria
+bem consoladora para os que sofrem, porque desindividualiza o
+sofrimento, alarga-o at&eacute; o tornar uma lei universal, a lei
+pr&oacute;pria da Vida; portanto lhe tira o car&aacute;cter
+pungente de uma injusti&ccedil;a especial, cometida contra o
+sofredor por um Destino inimigo e faccioso! Realmente o nosso mal
+sobretudo nos amarga quando contemplamos ou imaginamos o bem do
+nosso vizinho:--porque nos sentimos escolhidos e destacados para a
+infelicidade, podendo, como ele, ter nascido para a Fortuna. Quem
+se queixaria de ser coxo--se toda a humanidade coxeasse? E quais
+n&atilde;o seriam os urros, e a furiosa revolta do homem envolto na
+neve e friagem e borrasca de um Inverno especial, organizado
+<span class="pagenum">[247]</span>nos c&eacute;us para o envolver a
+ele unicamente--enquanto em redor, toda a Humanidade se movesse na
+luminosa benignidade de uma Primavera?<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Com efeito, murmurei eu, esse sujeito teria imensa raz&atilde;o
+para urrar..<br>
+
+
+.<br>
+
+
+--E depois, clamava ainda o meu amigo, o Pessimismo &eacute;
+excelente para os Inertes, por que lhes atenua o desgracioso delito
+da In&eacute;rcia. Se toda a meta &eacute; um monte de Dor, onde a
+alma vai esbarrar, para qu&ecirc; marchar para a meta,
+atrav&eacute;s dos embara&ccedil;os do mundo? E de resto todos os
+L&iacute;ricos e Te&oacute;ricos do Pessimismo, desde
+Salom&atilde;o at&eacute; o maligno Schopenhauer, lan&ccedil;am o
+seu c&acirc;ntico ou a sua doutrina para disfar&ccedil;ar a
+humilha&ccedil;&atilde;o das suas mis&eacute;rias, subordinando-as
+todas a uma vasta lei de Vida, uma lei C&oacute;smica, e ornando
+assim com a aur&eacute;ola de uma origem quase divina as suas
+mi&uacute;das desgra&ccedil;azinhas de temperamento ou de Sorte. O
+bom Schopenhauer formula todo o seu schopenhauerismo, quando
+
+&eacute; um fil&oacute;sofo sem editor, e um professor sem
+disc&iacute;pulos; e sofre horrendamente de terrores e manias; e
+esconde o seu dinheiro debaixo do sobrado; e redige as suas contas
+em grego nos perp&eacute;tuos lamentos da desconfian&ccedil;a; e
+vive nas adegas com o medo de inc&ecirc;ndios; e viaja com um copo
+de lata na algibeira para <span class="pagenum">[248]</span>n&atilde;o beber em vidro que bei&ccedil;os
+de leproso tivessem contaminado!... Ent&atilde;o Schopenhauer
+&eacute; sombriamente Schopenhauerista. Mas apenas penetra na
+celebridade, e os seus miser&aacute;veis nervos se acalmam, e o
+cerca uma paz am&aacute;vel, n&atilde;o h&aacute; ent&atilde;o, em
+todo Francfort, burgu&ecirc;s mais optimista, de face mais jucunda,
+e gozando mais regradamente os bens da intelig&ecirc;ncia e da
+Vida!... E o outro, o Israelita, o muito pedantesco rei de
+Jerusal&eacute;m! quando descobre esse sublime Ret&oacute;rico que
+o mundo &eacute; Ilus&atilde;o e Vaidade? Aos setenta e cinco anos,
+quando o Poder lhe escapa das m&atilde;os tr&eacute;mulas, e o seu
+serralho de trezentas concubinas se lhe torna ridiculamente
+sup&eacute;rfluo. Ent&atilde;o rompem os pomposos queixumes! Tudo
+
+&eacute; vaidade e afli&ccedil;&atilde;o de esp&iacute;rito! nada
+existe est&aacute;vel sob o sol! Com efeito, meu bom
+Salom&atilde;o, tudo passa--principalmente o poder de usar
+trezentas concubinas! Mas que se restitua a esse velho
+sult&atilde;o asi&aacute;tico, besuntado de Literatura, a sua
+virilidade,--e onde se sumir&aacute; o lamento do Eclesiastes?
+Ent&atilde;o voltar&aacute;, em segunda e triunfal
+edi&ccedil;&atilde;o, o &ecirc;xtase do <i>Livro dos
+Cantares</i>!...<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Assim discursava o meu amigo no nocturno sil&ecirc;ncio de Tormes.
+Creio que ainda estabeleceu sobre o Pessimismo outras coisas
+joviais, profundas ou elegantes;--mas eu <span class="pagenum">[249]</span>adormecera, beatificamente envolto em
+Optimismo e do&ccedil;ura.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Em breve por&eacute;m, me fez pular, escancarar as p&aacute;lpebras
+moles, uma rija, larga, sadia e genu&iacute;na risada. Era Jacinto,
+estirado numa cadeira, que lia o D. Quixote... Oh bem aventurado
+Pr&iacute;ncipe! Conservara ele o agudo poder de arrancar teorias a
+uma espiga de milho ainda verde, e por uma clem&ecirc;ncia de Deus,
+que fizera reflorir o tronco seco, recuperara o dom divino de rir,
+com as fac&eacute;cias de Sancho!<br>
+
+
+<br>
+
+
+
+Aproveitando a minha companhia, as duas semanas de buc&oacute;lica
+ociosidade que eu lhe concedera, o meu Jacinto preparou
+ent&atilde;o a cerim&oacute;nia t&atilde;o falada, t&atilde;o
+meditada, a traslada&ccedil;&atilde;o dos ossos dos velhos
+Jacintos--dos &laquo;respeit&aacute;veis ossos&raquo; como
+murmurava, cumprimentando, o bom Silv&eacute;rio, o procurador,
+nessa manh&atilde; de sexta-feira, em que almo&ccedil;ava connosco,
+metido num espantoso jaquet&atilde;o de veludilho amarelo debruado
+de seda azul! A cerim&oacute;nia, de resto, reclamava muita
+singeleza por serem t&atilde;o incertos, quase impessoais, aqueles
+restos, que n&oacute;s estabelecer&iacute;amos na Capelinha do vale
+da Carri&ccedil;a, na Capelinha toda nova, toda nua e toda fria,
+ainda sem alma e sem calor de Deus.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Por que enfim V. Ex.&ordf; compreende,--explicava <span class="pagenum">[250]</span>o Silv&eacute;rio passando o guardanapo por
+sobre a larga face suada e por sobre as imensas barbas negras, como
+as de um turco--, naquela mix&oacute;rdia... Oh! pe&ccedil;o
+desculpa a V. Ex.&ordf;! Naquela confus&atilde;o, quando tudo
+desabou, n&atilde;o pudemos mais conhecer a quem pertenciam os
+ossos. Nem sequer, falando verdade, n&oacute;s sab&iacute;amos bem
+que dignos av&oacute;s de V. Ex.&ordf; jaziam na capela velha,
+assim t&atilde;o antigos, com os letreiros apagados, senhores de
+todo o nosso respeito, certamente, mas, se V. Ex.&ordf; me permite,
+senhores j&aacute; muito desfeitos... Depois veio o desastre, a
+mix&oacute;rdia. E aqui est&aacute; o que decidi, depois de pensar.
+Mandei arranjar tantos caix&otilde;es de chumbo, quantas as
+caveiras que se apanharam l&aacute; em baixo na Carri&ccedil;a,
+entre o lixo e o pedregulho. Havia sete caveiras e meia. Quero
+dizer, sete caveiras e uma caveirinha pequenina. Metemos cada
+caveira em seu caix&atilde;o. Depois... Que quer V. Ex.&ordf;?
+N&atilde;o havia outro meio! E aqui o Sr. Fernandes dir&aacute; se
+n&atilde;o acha que procedemos com habilidade. A cada caveira
+juntamos uma certa por&ccedil;&atilde;o de ossos, uma
+por&ccedil;&atilde;o razo&aacute;vel... N&atilde;o havia outro
+meio... Nem todos os ossos se acharam. Canelas, por exemplo,
+faltavam! E &eacute; bem poss&iacute;vel que as costelas de um
+daqueles senhores ficasse com a cabe&ccedil;a de outro... Mas quem
+podia saber? S&oacute; Deus. Enfim <span class="pagenum">[251]</span>fizemos o que a prud&ecirc;ncia mandava...
+Depois, no dia de Ju&iacute;zo, cada um destes fidalgos
+apresentar&aacute; os ossos que lhe pertencerem.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Lan&ccedil;ava estas coisas macabras e tremendas, penetrado de
+respeito, quase com majestade, espetando, ora em mim, ora no meu
+Pr&iacute;ncipe, os olhinhos agudos e reluzentes como
+vidrilhos.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Eu aprovei o pitoresco homem:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Perfeitamente! Andou perfeitamente, amigo Silv&eacute;rio.
+S&atilde;o t&atilde;o vagos, t&atilde;o an&oacute;nimos, todos
+esses av&oacute;s! S&oacute; faz pena, grande pena, que se
+tresmalhassem os restos do av&ocirc; Gale&atilde;o.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--N&atilde;o estava c&aacute;! acudiu Jacinto. Vim a Tormes
+expressamente por causa do av&ocirc; Gale&atilde;o, e por fim o seu
+jazigo nunca foi aqui, na Capelinha da Carri&ccedil;a...
+Felizmente!<br>
+
+
+<br>
+
+
+O Silv&eacute;rio sacudia gravemente a calva trigueira:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Nunca tivemos o Ex.^<sup>mo</sup> Sr. Gale&atilde;o. H&aacute;
+
+cem anos, Sr. Fernandes, h&aacute; cem anos que se n&atilde;o
+depositava na capela velha corpo de cavalheiro c&aacute; da
+casa.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Onde estar&aacute; ent&atilde;o?...<br>
+
+
+<br>
+
+
+O meu Pr&iacute;ncipe encolheu os ombros. Por esse Reino... Na
+igrejinha, no cemit&eacute;rio de alguma das freguesias numerosas,
+onde ele possu&iacute;a terras. Casa t&atilde;o espalhada!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+<span class="pagenum">[252]</span>--Bem! conclu&iacute;.
+Ent&atilde;o, como se trata de ossadas vagas, sem nome, sem data,
+conv&eacute;m uma ceremoniazinha muito simples, muito
+s&oacute;bria.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Quietinha, quietinha! murmurou o Silv&eacute;rio, dando um forte
+sorvo assobiado ao caf&eacute;.<br>
+
+
+<br>
+
+
+E foi quietinha, de uma r&uacute;stica e doce singeleza, a
+cerim&oacute;nia daqueles altos senhores. Cedo, por uma
+manh&atilde;, levemente enevoada, os oito caix&otilde;es
+pequeninos, cobertos de um veludo vermelho mais de festa que de
+funeral, com molhos de rosas espalhados, contendo cada um o seu
+montezinho de ossos incertos, sa&iacute;ram aos ombros dos coveiros
+de Tormes e dos mo&ccedil;os da quinta, da Igreja de S.
+Jos&eacute;, cujo sino leve tangia, na enevoada do&ccedil;ura da
+manh&atilde;,--quanto fina e levemente!--como pia um passarinho
+triste. Adiante, um airoso mo&ccedil;o de sobrepeliz, erguia com
+zelo a velha cruz prateada; abrigando o pesco&ccedil;o sob um
+imenso len&ccedil;o de rap&eacute;, de quadrados azuis, o velho e
+corcovado sacrist&atilde;o segurava pensativamente a caldeirinha de
+
+&aacute;gua benta; e o bom abade de S. Jos&eacute;, com os dedos
+entre o brevi&aacute;rio fechado, movia os l&aacute;bios, numa
+lenta, murmurosa reza, que ia, pelo doce ar, espalhando mais
+do&ccedil;ura. Logo atr&aacute;s do &uacute;ltimo cofre, o mais
+pequenino, o da caveirinha pequena, Jacinto caminhava; e eu,
+<span class="pagenum">[253]</span>a estalar dentro de um fato preto
+de Jacinto, tirado &agrave; pressa de uma das malas de Paris
+quando, de manh&atilde;, j&aacute; tarde para mandar a
+Gui&atilde;es, me lembrei que toda a minha roupa era de cores
+festivais e pastoris.<br>
+
+
+<br>
+
+
+
+Depois marchava o Silv&eacute;rio, solen&iacute;ssimo, com um
+imenso peitilho, onde as barbas imensas se alastravam,
+negr&iacute;ssimas. De casaca, com o grosso bei&ccedil;o
+desca&iacute;do, desca&iacute;do todo ele por aquela melancolia de
+enterro que se juntava &agrave; melancolia da serra, o Grilo
+enfiava no bra&ccedil;o a sua coroa, enorme, de rosas e de heras.
+Por fim seguia o Melchior, entre um rancho de mulheres, que,
+sumidas na sombra dos len&ccedil;os pretos, desfiando longos
+ros&aacute;rios, rosnavam surdas ave-marias, atrav&eacute;s de
+espa&ccedil;ados suspiros, t&atilde;o doridos como se
+inconsoladamente lhes doesse a perda daqueles Jacintos. Assim,
+pelas v&aacute;rzeas entrecorridas de regueiros, lenta nos recostos
+dos matos, escorregando mais r&aacute;pida, pelos c&oacute;rregos
+pedregosos, seguia a prociss&atilde;o, sempre com a cruz adiante,
+alta e prateada, rebrilhando por vezes num breve raiozinho de sol
+que, vagarosamente, surdia da n&eacute;voa desfeita. Ramos baixos
+de lod&atilde;o ou de salgueiro passavam uma derradeira
+car&iacute;cia sobre o veludo dos caix&otilde;es.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Um regato por vezes nos acompanhava, <span class="pagenum">[254]</span>com discreto fulgir entre as relvas,
+sussurrando e como rezando tamb&eacute;m, alegremente: e nos
+quintalinhos umbrosos, &agrave; nossa passagem, os galos, de cima
+das pilhas de mato, faziam soar o seu clarim festivo. Depois,
+adiante da fonte da Lira, como o caminho se alongava, e
+desej&aacute;ssemos poupar o nosso velho abade, cort&aacute;mos
+atrav&eacute;s de uma seara, j&aacute; alta, quase madura, toda
+entremeada de papoilas, O sol radiou: sob a brisa larga, que levara
+a n&eacute;voa, toda a messe ondulou numa lenta vaga dourada, em
+que se balou&ccedil;avam os esquifes; e, como enorme papoila, a
+mais vermelha, rutilava o guarda-sol de paninho logo aberto pelo
+sacrist&atilde;o para abrigar o abade.<br>
+
+
+<br>
+
+
+
+Jacinto tocou no meu cotovelo:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Que lindos vamos! Ora v&ecirc; tu a Natureza... Num simples
+enterrar de ossos, quanta gra&ccedil;a e quanta beleza!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Na Capelinha, nova, dominando o vale da Carri&ccedil;a,
+solit&aacute;ria e muito nua, no meio de um adro, ainda mal
+alisado, sem uma verdura de relva, uma frescura de arbusto, dois
+mo&ccedil;os seguravam &agrave; porta molhos de tochas, que o
+Silv&eacute;rio distribuiu, a passos graves, com cortesias,
+solen&iacute;ssimo. Dentro as curtas chamas, mal luziam, mal
+derramavam a sua amarelid&atilde;o triste, esbatidas na reluzente
+brancura <span class="pagenum">[255]</span>dos muros estacados, na
+jovial claridade que ca&iacute;a das altas vidra&ccedil;as bem
+polidas. Em torno dos esquifes, pousados sobre bancos, que pesados
+veludilhos recobriam, o abade murmurava um suave latim, enquanto ao
+fundo as mulheres, sumidas na sombra dos seus negros len&ccedil;os,
+gemiam <i>amens</i> agudos, abafavam um respeitoso solu&ccedil;o.
+Depois, tomando levemente o hissope, ainda o bom abade aspergiu,
+para uma derradeira purifica&ccedil;&atilde;o, os incertos ossos
+dos incertos Jacintos. E todos desfil&aacute;mos por diante do meu
+Pr&iacute;ncipe, timidamente encostado &agrave; ombreira, com o
+Silv&eacute;rio ao lado esmagando contra o peitilho as barbas
+imensas, a face desca&iacute;da, cerradas as p&aacute;lpebras como
+contendo l&aacute;grimas.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+No adro, o meu Pr&iacute;ncipe acendeu regaladamente um cigarro
+pedido ao Melchior:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--E ent&atilde;o, Z&eacute; Fernandes, que te pareceu a
+cerimoniazinha?<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Muito campestre, muito suave, muito risonha... Uma
+del&iacute;cia.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Mas o Abade, que se desvestira na Sacristia, apareceu, j&aacute;
+
+com o seu grande casaco de lustrina, e seu velho chap&eacute;u
+desabado, trazidos pelo mo&ccedil;o da Resid&ecirc;ncia, num saco
+de chita. Jacinto, imediatamente lhe agradeceu tantos cuidados, a
+af&aacute;vel hospitalidade <span class="pagenum">[256]</span>que
+oferecera aos ossos, durante a constru&ccedil;&atilde;o da
+Capelinha nova. E o suave velho, todo branquinho, de faces ainda
+menineiras e coradas, com um claro sorriso de dentes sadios,
+louvava Jacinto, que assim viera de t&atilde;o longe, em t&atilde;o
+longa jornada, para cumprir aquele dever de bom neto.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--S&atilde;o av&oacute;s muito remotos, e agora t&atilde;o
+confusos! murmurava Jacinto sorrindo.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Pois mais m&eacute;rito ainda o de V. Ex.&ordf;. Respeitar um
+av&ocirc; morto, bem &eacute; corrente... Mas respeitar os ossos de
+um quinto av&ocirc;, de um s&eacute;timo av&ocirc;!<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Sobretudo, Sr. Abade, quando deles nada se sabe, e naturalmente
+nada fizeram.<br>
+
+
+<br>
+
+
+O velho sacudiu risonhamente o dedo gordo:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Ora quem sabe, quem sabe! Talvez fossem excelentes! E por fim,
+quem muito se demora no mundo, como eu, termina por se convencer
+que no mundo n&atilde;o h&aacute; coisa ou ser in&uacute;til. Ainda
+ontem eu lia num jornal do Porto, que por fim, segundo se
+descobriu, s&atilde;o as minhocas que estrumam e lavram a terra,
+antes de chegar o lavrador e os bois com o arado. At&eacute; as
+minhocas s&atilde;o &uacute;teis. N&atilde;o h&aacute; nada
+in&uacute;til... Eu tinha l&aacute; na resid&ecirc;ncia uma
+por&ccedil;&atilde;o de cardos a um canto da horta, que me
+afligiam. Pois reflecti e terminei por me regalar com eles em
+xarope. Os av&oacute;s de <span class="pagenum">[257]</span>V.
+Ex.&ordf; por c&aacute; andaram, por c&aacute; trabalharam, por
+c&aacute; padeceram. Quer dizer: por c&aacute; serviram. E, em todo
+o caso, que lhes rezemos um Padre-Nosso por alma n&atilde;o lhes
+pode fazer sen&atilde;o bem, a eles e a n&oacute;s.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+E assim, docemente filosofando, par&aacute;mos num souto de
+carvalheiras, onde esperava a velh&iacute;ssima &eacute;gua do
+Abade, por que o santo homem agora, depois do reumatismo do
+&uacute;ltimo Inverno, j&aacute; n&atilde;o afrontava rijamente
+como antes os trilhos duros da serra. Para ele montar, filialmente
+Jacinto segurou o estribo. E enquanto a &eacute;gua se empurrava
+pelo c&oacute;rrego acima, quase tapada sob o imenso guarda-sol
+vermelho em que se abrigava o velho, n&oacute;s recolhemos a casa
+metendo pela serra da Lombinha, atrav&eacute;s dos milhos, e
+depressa, porque eu estalava, aperreado, dentro da roupa preta do
+meu Pr&iacute;ncipe.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Est&atilde;o pois acomodados estes senhores, Z&eacute; Fernandes!
+S&oacute; resta rezar por eles o Padre-Nosso, que recomenda o
+abade... Somente, eu n&atilde;o sei, j&aacute; n&atilde;o me lembro
+do Padre-Nosso.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--N&atilde;o te aflijas, Jacinto: pe&ccedil;o &agrave; tia
+Vic&ecirc;ncia que reze por mim e por ti. &Eacute; sempre a tia
+Vic&ecirc;ncia que reza os meus Padres-Nossos.<br>
+
+
+<br>
+
+
+<span class="pagenum">[258]</span>Durante essas semanas que
+preguicei em Tormes, eu assisti, com enternecido interesse, a uma
+consider&aacute;vel evolu&ccedil;&atilde;o de Jacinto nas suas
+rela&ccedil;&otilde;es com a Natureza. Daquele per&iacute;odo
+sentimental de contempla&ccedil;&atilde;o, em que colhia teorias
+nos ramos de qualquer cerejeira, e edificava Sistemas sobre o
+espumar das levadas, o meu Pr&iacute;ncipe lentamente passava para
+o desejo da Ac&ccedil;&atilde;o... E de uma ac&ccedil;&atilde;o
+directa e material, em que a sua m&atilde;o, enfim
+restitu&iacute;da a uma fun&ccedil;&atilde;o superior, revolvesse o
+torr&atilde;o.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Depois de tanto _comentar_, o meu Pr&iacute;ncipe, evidentemente,
+aspirava a <i>criar</i>.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Uma tardinha, ao anoitecer, sentados no pomar, no rebordo do
+tanque, enquanto o Manuel hortel&atilde;o apanhava laranjas no alto
+de uma escada arrimada a uma alta laranjeira, Jacinto observou,
+mais para si do que para mim:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--&Eacute; curioso... Nunca plantei uma &aacute;rvore!<br>
+
+
+<br>
+
+
+
+--Pois &eacute; um dos tr&ecirc;s grandes actos, sem os quais
+segundo diz n&atilde;o sei que Fil&oacute;sofo, nunca se foi um
+verdadeiro homem... Fazer um filho, plantar uma &aacute;rvore,
+escrever um livro. Tens de te apressar, para ser um homem. &Eacute;
+poss&iacute;vel que talvez nunca prestasses um servi&ccedil;o a uma
+&aacute;rvore, como se presta a um semelhante!<br>
+
+
+<br>
+
+
+<span class="pagenum">[259]</span>--Sim... Em Paris, quando era
+pequeno, regava os lilases. E no Ver&atilde;o &eacute; um belo
+servi&ccedil;o! Mas nunca semeei.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+E como o Manuel descia da escada, o meu Pr&iacute;ncipe, que nunca
+acreditara inteiramente--pobre homem!--no meu saber
+agr&iacute;cola, imediatamente reclamou o parecer daquela
+autoridade:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Oh Manuel, ou&ccedil;a l&aacute;, o que &eacute; que se poderia
+agora semear?<br>
+
+
+<br>
+
+
+Com o cesto das laranjas enfiado no bra&ccedil;o, o Manuel
+exclamou, atrav&eacute;s de um lento riso, entre respeitoso e
+divertido:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Semear, patr&atilde;o? Agora &eacute; antes colher... Olhe que
+j&aacute; se anda a limpar a eirazinha para a debulha, meu
+patr&atilde;o.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Pois sim... Mas sem ser milho nem cevada... Ent&atilde;o ali no
+pomar, rente do muro velho, n&atilde;o se podia plantar uma fila de
+pessegueiros?<br>
+
+
+<br>
+
+
+O riso do Manuel crescia.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Isso sim, meu senhor! Isso &eacute; l&aacute; para os Santos ou
+para o Natal. Agora s&oacute; a couvinha na horta, a beldroega, os
+espinafres, algum feij&atilde;ozinho em terra muito fresca...<br>
+
+
+<br>
+
+
+O meu Pr&iacute;ncipe sacudiu com brando gesto estes legumes
+rasteiros.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Bem, boa noite, Manuel. Essas laranjas s&atilde;o da tal
+laranjeira que diz o Melchior, muito <span class="pagenum">[260]</span>doces, muito finas? Ent&atilde;o leve para os
+seus pequenos. Leve muitas para os pequenos.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+N&atilde;o! o empenho era criar a &aacute;rvore. Pela &aacute;rvore
+contemplada na serra em sua verdadeira majestade, na
+benefic&ecirc;ncia da sua sombra, na frescura embaladora do seu
+rumorejar, na gra&ccedil;a e santidade dos ninhos que a povoam,
+come&ccedil;ara talvez, lentamente, o seu amor novo da Terra. E
+agora sonhava uma Tormes toda coberta de &aacute;rvores, cujos
+frutos e verduras, e sombras, e rumorejos suaves, e abrigados
+ninhos, fossem a obra e o cuidado das suas m&atilde;os
+paternais.<br>
+
+
+<br>
+
+
+No sil&ecirc;ncio grave do crep&uacute;sculo, que descia, murmurou
+ainda:<br>
+
+
+<br>
+
+
+
+--Oh Z&eacute; Fernandes; quais s&atilde;o as &aacute;rvores que
+crescem mais depressa?<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Eh, meu Jacinto... A &aacute;rvore que cresce mais depressa
+&eacute; o eucalipto, o fei&iacute;ssimo e rid&iacute;culo
+eucalipto. Em seis anos tens a&iacute; Tormes coberta de
+eucaliptos...<br>
+
+
+<br>
+
+
+
+--Tudo t&atilde;o lento, Z&eacute; Fernandes...<br>
+
+
+<br>
+
+
+Porque o seu sonho, que eu compreendia, seria plantar
+caro&ccedil;os que subissem em fortes troncos, se alargassem em
+verdes ramarias, antes de ele voltar ao 202, no come&ccedil;o do
+Inverno...<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Um carvalho!... Trinta anos, antes que seja belo! Desanimo!
+&Eacute; bom para Deus, <span class="pagenum">[261]</span>que pode
+esperar... <i>Patiens quia aeternus.</i> Trinta anos! Daqui a
+trinta anos, &aacute;rvores s&oacute; para me cobrirem a
+sepultura!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--J&aacute; &eacute; um ganho. E depois para teus filhos,
+Jacinto...<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Filhos! onde os tenho eu?<br>
+
+
+<br>
+
+
+--&Eacute; o mesmo processo dos castanheiros. Semeia. N&atilde;o
+faltam por a&iacute; terras agrad&aacute;veis... Em nove meses tens
+uma planta feita. E quanto mais tenrinhas, e mais pequeninas, mais
+essas plantas encantam.<br>
+
+
+
+Ele murmurou, cruzando as m&atilde;os sobre o joelho:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Tudo leva tanto tempo!...<br>
+
+
+<br>
+
+
+E &agrave; borda do tanque nos qued&aacute;mos, calados, na fresca
+do&ccedil;ura do anoitecer, entre o cheiro avivado das madressilvas
+do muro, olhando o crescente da lua, que surdia dos telhados de
+Tormes. E decerto esta pressa de se tornar entre a Natureza
+n&atilde;o mais um sonhador, mas um criador, arremessou vivamente o
+seu interesse para os gados! Repetidamente, nos nossos passeios
+atrav&eacute;s da quinta, ele lhe notava a solid&atilde;o.<br>
+
+
+<br>
+
+
+
+--Faltam aqui animais, Z&eacute; Fernandes!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Imaginava eu, que ele apetecia em Tormes o ornato elegante de
+veados e pav&otilde;es. Mas um domingo, costeando o largo campo da
+<span class="pagenum">[262]</span>Ribeirinha, sempre escasso de
+&aacute;guas, agora mais ressequido por Ver&atilde;o de tanta
+secura, o meu Pr&iacute;ncipe parou a considerar os tr&ecirc;s
+carneiros do caseiro, que retou&ccedil;avam com pen&uacute;ria uma
+relvagem pobre.<br>
+
+
+<br>
+
+
+
+E, de repente, como magoado:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Justamente! Aqui est&aacute; o espa&ccedil;o para um belo prado,
+um imenso prado, muito verde, muito farto, com rebanhos de
+carneiros brancos, gord&iacute;ssimos como bolas de algod&atilde;o
+pousadas na relva!... Era lindo, hein? &Eacute; f&aacute;cil,
+n&atilde;o &eacute; verdade, Z&eacute; Fernandes?<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Sim... Trazes a &aacute;gua para o prado. &Aacute;guas n&atilde;o
+faltam, na serra.<br>
+
+
+<br>
+
+
+E o meu Pr&iacute;ncipe encadeando logo nesta inspirada ideia
+outra, mais rica e vasta, lembrou quanta beleza daria a Tormes
+encher esses prados, esses verdes ferragiais, de manadas de vacas,
+formosas vacas inglesas, bem n&eacute;dias e bem luzidias. Hein?
+Uma beleza. Para abrigar esses gados ricos, construiria currais
+perfeitos, de uma arquitectura leve e &uacute;til, toda em ferro e
+vidro, fundamente varridos pelo ar, largamente lavados pela
+&aacute;gua... Hein? Que formosura! Depois, com todas essas vacas,
+e o leite jorrando, nada mais f&aacute;cil e mais divertido, e
+at&eacute; mais moral, que a instala&ccedil;&atilde;o de uma
+queijeira, &agrave; fresca moda Holandesa, toda branca e reluzente,
+de azulejos <span class="pagenum">[263]</span>e de m&aacute;rmore,
+para fabricar os Camemberts, os Bries... os Coulommiers... Para a
+casa, que conforto! E para toda a serra, que actividade!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Pois n&atilde;o te parece, Z&eacute; Fernandes?<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Concerteza. Tu tens, em abund&acirc;ncia, os quatro Elementos: o
+ar, a &aacute;gua, a terra, e o dinheiro. Com estes quatro
+elementos, facilmente se faz uma grande lavoura. Quanto mais uma
+queijeira!<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Pois n&atilde;o &eacute; verdade? E at&eacute; como
+neg&oacute;cio! Est&aacute; claro, para mim o lucro &eacute; o
+deleite moral do trabalho, o emprego fecundo do dia... Mas uma
+queijaria, assim perfeita, rende. Rende prodigiosamente. E educa o
+paladar, incita a instala&ccedil;&otilde;es iguais, implanta talvez
+no pa&iacute;s uma ind&uacute;stria nova e rica! Ora com essa
+instala&ccedil;&atilde;o, perfeita, quanto me poder&aacute; custar
+cada queijo?<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Fechei um olho, calculando:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Eu te digo.... Cada queijo, um desses queijinhos redondos, como o
+Camembert ou o Raba&ccedil;al, pode vir a custar-te, a ti Jacinto
+queijeiro, entre duzentos e cinquenta e trezentos mil
+r&eacute;is.<br>
+
+
+<br>
+
+
+O meu Pr&iacute;ncipe recuou, com dois olhos alegres espantados
+para mim.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Como trezentos mil r&eacute;is?<br>
+
+
+<br>
+
+
+
+<span class="pagenum">[264]</span>--Ponhamos duzentos... Tem a
+certeza! Com todos esses prados, e os encanamentos de &aacute;gua e
+a configura&ccedil;&atilde;o da serra alterada, e as vacas
+inglesas, e os edif&iacute;cios de porcelana e vidro, e as
+m&aacute;quinas, a extravag&acirc;ncia, e a patuscada
+buc&oacute;lica, cada queijo te custa, a ti produtor, duzentos mil
+r&eacute;is. Mas com certeza o vendes no Porto por um
+tost&atilde;o. P&otilde;e cinquenta r&eacute;is para a caixa,
+r&oacute;tulos, transporte, comiss&atilde;o, etc. Tens apenas, em
+cada queijo uma perda de cento e noventa e nove mil oitocentos e
+cinquenta r&eacute;is!<br>
+
+
+<br>
+
+
+
+O meu Pr&iacute;ncipe n&atilde;o desanimou.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Perfeitamente! Fa&ccedil;o um desses espantosos queijos por
+semana, ao s&aacute;bado, para o comermos n&oacute;s ambos ao
+domingo!<br>
+
+
+<br>
+
+
+E tanta energia lhe comunicava o seu novo Optimismo, t&atilde;o
+ansiosamente aspirava a criar, que logo, arrastando o
+Silv&eacute;rio e o Melchior por cabe&ccedil;os e barrancos, largou
+a percorrer a quinta toda, para determinar onde cresceriam, ao seu
+mando inspirado, os verdes prados, e se ergueriam, rebrilhantes no
+sol de Tormes, os currais elegantes. Com a espl&ecirc;ndida
+seguran&ccedil;a dos seus cento e nove contos de renda, n&atilde;o
+surgia dificuldade, risonhamente murmurada pelo Melchior, ou
+exclamada, com respeitoso pasmo, pelo Silv&eacute;rio, <span class="pagenum">[265]</span>que ele n&atilde;o afastasse brandamente, com
+jeito leve, como um galho de roseira brava atravessado numa
+vereda.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Aquelas rochas, al&eacute;m, empecendo? Que se arrancassem! Um vale
+importuno dividia dois campos? Que se atulhasse! O Silv&eacute;rio
+suspirava, enxugando sobre a escura calva um suor quase de
+ang&uacute;stia. Pobre Silv&eacute;rio! Rijamente sacudido na doce
+pachorra da sua administra&ccedil;&atilde;o, calculando despesas
+que se afiguravam sobre-humanas &agrave; sua parcim&oacute;nia
+serrana, for&ccedil;ado a arquejar, sem descanso, sob soalheiras de
+Junho, o desgra&ccedil;ado retomara na Serra o jeito que Jacinto
+deixara em Paris,--e era ele que corria pelas longas barbas
+tenebrosas os dedos desalentados... Enfim uma tarde desabafou
+comigo, a um canto da varanda, enquanto Jacinto, na livraria,
+escrevia a um seu amigo de Holanda, o conde Rylant, Mordomo-Mor da
+Corte, pedindo desenhos, e planos, e or&ccedil;amentos de uma
+queijeira perfeita.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Pois, Sr. Fernandes, se toda esta grandeza vai por diante, sempre
+lhe digo que o Sr. D. Jacinto enterra aqui na serra dezenas de
+contos... Dezenas de contos!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+E como eu aludia &agrave; fortuna do meu Pr&iacute;ncipe, a quem
+todas essas obras t&atilde;o vastas, que alterariam o
+antiqu&iacute;ssimo rosto da serra, <span class="pagenum">[266]</span>n&atilde;o custavam mais que a outros o
+concerto de um socalco,--o bom Silv&eacute;rio atirou os longos
+bra&ccedil;os para as coxas gordas, ainda mais desolado:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Pois por isso mesmo, Sr. Fernandes! Se o Sr. D. Jacinto
+n&atilde;o tivesse a dinheirama, recuava. Assim, &eacute;
+
+z&aacute;s z&aacute;s, para diante; e eu n&atilde;o o censuro pela
+ideia. Lograsse eu a renda de S. Ex.&ordf;, que me atirava
+tamb&eacute;m a uma lavoura de capricho. Mas n&atilde;o aqui, Sr.
+Fernandes, nestas serranias, entre alcantis. Pois um senhor que
+possui aquela linda propriedade de Montemor, nos campos do Mondego,
+onde at&eacute; podia plantar jardins de desbancar os do
+Pal&aacute;cio de Cristal do Porto! E a Veleira? O Sr. Fernandes
+n&atilde;o conhece a Veleira, l&aacute; para os lados de Penafiel?
+Isso &eacute; um condado! E uma terra ch&atilde;, boa terra, toda
+junta, ali em volta da casa, com uma torre. Um regalo, Sr.
+Fernandes. Mas sobretudo Montemor! L&aacute; &eacute; que eram
+prados e manadas de vacas inglesas, e queijeira e horta rica, de
+fartar, e a&iacute; trinta perus na capoeira...<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Ent&atilde;o que quer, Silv&eacute;rio? O Jacinto gosta da serra.
+E depois este &eacute; o solar da fam&iacute;lia, e aqui
+come&ccedil;aram no s&eacute;culo XIV os Jacintos...<br>
+
+
+<br>
+
+
+O pobre Silv&eacute;rio, no seu desespero, esquecia <span class="pagenum">[267]</span>o respeito devido &agrave; secular nobreza da
+casa.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Ora! at&eacute; ficam mal ao Sr. Fernandes essas ideias, neste
+s&eacute;culo da liberdade... Pois estamos l&aacute; em tempos de
+se falar em fidalguias, agora que por toda a parte anda tudo em
+Rep&uacute;blica? Leia o <i>S&eacute;culo</i>, Sr. Fernandes! leia
+o <i>S&eacute;culo</i>, e ver&aacute;! E depois eu sempre quero ver
+o Sr. D. Jacinto, aqui no Inverno, com o nevoeiro a subir do rio
+logo pela manh&atilde;, e a friagem a trespassar os ossos, e
+ventanias que atiram carvalheiras de ra&iacute;zes ao ar, e chuvas
+e chuvas que se desfaz a serra!... Olhe, at&eacute; mesmo por amor
+da sa&uacute;de o Sr. D. Jacinto, que &eacute; fraquinho e
+acostumado &agrave; cidade, necessita sair da serra. Em Montemor,
+em Montemor &eacute; que S. Ex.&ordf; estava bem. E o Sr.
+Fernandes, t&atilde;o amigo dele e assim com tanta
+influ&ecirc;ncia, devia teimar, e berrar, at&eacute; que o levasse
+para Montemor.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Mas, infelizmente para a quieta&ccedil;&atilde;o do
+Silv&eacute;rio, Jacinto lan&ccedil;ara ra&iacute;zes, e rijas, e
+amorosas ra&iacute;zes na sua rude serra. Era realmente como se o
+tivessem plantado de estaca naquele antiqu&iacute;ssimo
+ch&atilde;o, donde brotara a sua ra&ccedil;a, e o
+antiqu&iacute;ssimo h&uacute;mus reflu&iacute;sse e o penetrasse
+todo, e o andasse transformando num Jacinto rural, quase vegetal,
+t&atilde;o do <span class="pagenum">[261]</span>ch&atilde;o, e
+preso ao ch&atilde;o, como as &aacute;rvores que ele tanto
+amava.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+E depois o que o prendia &agrave; serra era o ter nela encontrado o
+que na Cidade, apesar da sua sociabilidade, n&atilde;o encontrara
+nunca,--dias t&atilde;o cheios, t&atilde;o deliciosamente ocupados,
+de um t&atilde;o saboroso interesse, que sempre penetrava neles,
+como numa festa ou numa gl&oacute;ria.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Logo de manh&atilde;, &agrave;s seis horas, eu, no meu quarto,
+mexendo ainda regaladamente o meu corpo nos colch&otilde;es de
+fresco folhelho, sentia os seus rijos sapat&otilde;es pelo
+corredor, e o seu cantarolar, desafinado, mas ditoso como o de um
+melro. Em poucos instantes escancarava com fragor a minha porta,
+j&aacute; de chap&eacute;u desabado, j&aacute; de bengal&atilde;o
+de cerejeira, disposto com reservado fervor para os trilhos
+conhecidos da serra. E era sempre a mesma nova, quase
+orgulhosa:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Dormi hoje deliciosamente, Z&eacute; Fernandes. T&atilde;o bem,
+com uma tal serenidade, que come&ccedil;o a acreditar que sou um
+justo! Um dia lindo! Quando abri a janela, &agrave;s cinco horas,
+quase gritei de puro gosto!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Na sua pressa, nem me deixava demorar na frescura da banheira; e
+quando eu repetia a risca mal come&ccedil;ada do cabelo, aquele
+antigo homem das trinta e nove escovas, protestava <span class="pagenum">[269]</span>contra esse desbarato efeminado de um tempo
+devido aos fortes gozos da terra.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Mas quando, depois de acariciar os rafeiros no p&aacute;tio,
+desemboc&aacute;vamos da alameda de pl&aacute;tanos, e diante de
+n&oacute;s se dividiam matutinamente, mais brancos entre o verde
+matutino, os caminhos coleantes da quinta, toda a sua pressa
+findava, e penetrava na Natureza, com a reverente lentid&atilde;o
+de quem penetra num Templo. E repetidamente sustentava ser
+
+&laquo;contr&aacute;rio &agrave; Est&eacute;tica, &agrave;
+Filosofia e &agrave; Religi&atilde;o, andar depressa atrav&eacute;s
+dos campos.&raquo; De resto, com aquela subtil sensibilidade
+buc&oacute;lica que nele se desenvolvera, e incessantemente se
+afinava, qualquer breve beleza, do ar ou da terra, lhe bastava para
+um longo encanto. Ditosamente poderia ele entreter toda uma
+manh&atilde;, caminhar por entre um pinheiral, de tronco a tronco,
+calado, embebido no sil&ecirc;ncio, na frescura, no resinoso aroma,
+empurrando com o p&eacute; as agulhas e as pinhas secas. Qualquer
+
+&aacute;gua corrente o retinha, enternecido naquela servi&ccedil;al
+actividade, que se apressa, cantando, para o torr&atilde;o que tem
+sede, e nele se some, e se perde. E recordo ainda quando me reteve
+meio domingo, depois da Missa, no cabe&ccedil;o, junto a um velho
+curral desmantelado, sob uma grande &aacute;rvore,--s&oacute; por
+que em torno havia quieta&ccedil;&atilde;o, <span class="pagenum">[270]</span>doce aragem, um fino piar de ave na ramaria,
+um murm&uacute;rio de regato entre canas verdes, e por sobre a
+sebe, ao lado, um perfume, muito fino e muito fresco, de flores
+escondidas.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Depois, quando eu, velho familiar das serras, me n&atilde;o
+abandonava aos mesmos &ecirc;xtases que a ele lhe enchiam a alma
+ainda novi&ccedil;a--o meu Pr&iacute;ncipe rugia, com a
+indigna&ccedil;&atilde;o de um poeta que descobre um merceeiro
+bocejando sobre Shakespeare ou Musset. Eu ria.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Meu filho, olha que eu n&atilde;o passo de um pequeno
+propriet&aacute;rio. Para mim n&atilde;o se trata de saber se a
+terra &eacute; <i>linda</i>, mas se a terra &eacute; <i>boa</i>.
+Olha o que diz a B&iacute;blia! &laquo;Trabalhar&aacute;s a quinta
+com o suor do teu rosto!&raquo; E n&atilde;o diz
+
+&laquo;contemplar&aacute;s a quinta com o enlevo da tua
+imagina&ccedil;&atilde;o!&raquo;<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Pudera! exclamava o meu Pr&iacute;ncipe. Um livro escrito por
+Judeus, por &aacute;speros semitas, sempre com o turvo olho posto
+no lucro! Repara, homem, para aquele bocadinho de vale, e consegue
+n&atilde;o pensar, por um momento, nos trinta mil r&eacute;is que
+ele rende! Ver&aacute;s que pela sua beleza e gra&ccedil;a ele te
+d&aacute; mais contentamento &agrave; alma que os trinta mil
+r&eacute;is ao corpo. E na vida s&oacute; a alma importa.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Recolhendo ao casar&atilde;o, j&aacute; o encontr&aacute;vamos com
+as janelas meio cerradas, os soalhos <span class="pagenum">[271]</span>borrifados para aquelas quentes
+r&eacute;stias de sol de Junho, que depois do almo&ccedil;o
+docemente nos retinham na livraria, pregui&ccedil;ando.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Mas realmente a alegre actividade do meu Pr&iacute;ncipe n&atilde;o
+cessava, nem amolecia, sob o peso da sesta. A essa hora, enquanto
+pelo arvoredo mudo os mais agitados pardais dormiam, e o sol mesmo
+parecia repousar, im&oacute;vel na rutil&acirc;ncia da sua luz,
+Jacinto com o esp&iacute;rito acordado,--&aacute;vido de sempre
+gozar, agora que reconquistara essa faculdade,--tomava com
+del&iacute;cia o <i>seu livro</i>. Por que o dono de trinta mil
+volumes era agora, na sua casa de Tormes, depois de ressuscitado, o
+homem que s&oacute; tem um livro. Essa mesma Natureza, que o
+desligara das ligaduras amortalhadoras do t&eacute;dio, e lhe
+gritara o seu belo <i>Ambula</i>, caminha!--tamb&eacute;m
+certamente lhe gritara <i>et lege</i>, e l&ecirc;. E libertado
+enfim do inv&oacute;lucro sufocante da sua Biblioteca imensa, o meu
+ditoso amigo compreendia enfim a incompar&aacute;vel del&iacute;cia
+de <i>ler um livro</i>. Quando eu correra a Tormes, (depois das
+revela&ccedil;&otilde;es do Severo na venda do Torto,) ele findava
+o D. Quixote, e ainda eu lhe escutara as derradeiras risadas com as
+coisas deliciosas, e de certo profundas, que o gordo Sancho lhe
+murmurava, escarranchado no seu burro. Mas agora o meu
+Pr&iacute;ncipe mergulhara na <i>Odisseia</i>,--e todo <span class="pagenum">[272]</span>ele vivia no espanto e no deslumbramento de
+assim ter encontrado no meio do caminho da sua vida, o velho
+errante, o velho Homero!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Oh Z&eacute; Fernandes, como sucedeu que eu chegasse a esta idade
+sem ter lido Homero?...<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Outras leituras, mais urgentes... O <i>Figaro</i>, George
+Ohnet...<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Tu leste a <i>Il&iacute;ada</i>?<br>
+
+
+<br>
+
+
+
+--Menino, sinceramente me gabo de nunca ter lido a
+<i>Il&iacute;ada</i>.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Os olhos do meu Pr&iacute;ncipe fuzilavam.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Tu sabes o que fez Alcib&iacute;ades, uma tarde, no
+P&oacute;rtico, a um sofista, um desavergonhado de um sofista, que
+se gabava de n&atilde;o ter lido a <i>Il&iacute;ada</i>?<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--N&atilde;o.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Ergueu a m&atilde;o e atirou-lhe uma bofetada tremenda.<br>
+
+
+--Para l&aacute;, Alcib&iacute;ades! Olha que eu li a
+<i>Odisseia</i>!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Oh! mas decerto eu a lera, corridamente, com a alma desatenta! E
+insistia em me iniciar, ele, e me conduzir, atrav&eacute;s do Livro
+sem igual. Eu ria. E rindo, pesado do almo&ccedil;o, terminava por
+consentir, e me estirava no canap&eacute; de verga. Ele, diante da
+mesa, direito na cadeira, abria o livro gravemente,
+pontificalmente, como um missal, e come&ccedil;ava <span class="pagenum">[273]</span>numa lenta ode sentida. Aquele grande mar da
+
+<i>Odisseia</i>,-- resplandecente e sonoro, sempre azul, todo azul,
+sob o voo branco das gaivotas, rolando, e mansamente quebrando
+sobre a areia fina ou contra as rochas de m&aacute;rmore das Ilhas
+divinas,--exalava logo uma frescura salina, bem-vinda e consoladora
+naquela calma de Junho, em que a serra se entorpecia. Depois as
+estupendas manhas do subtil Ulisses e os seus perigos
+sobre-humanos, tantas lam&uacute;rias sublimes, e um anseio
+t&atilde;o espalhado da P&aacute;tria perdida, e toda aquela
+intriga, em que embrulhava os Her&oacute;is, lograva as Deusas,
+iludia o Fado, tinham um delicioso sabor ali, nos campos de Tormes,
+onde nunca se necessitava de subtileza ou de engenho, e a Vida se
+desenrolava com a seguran&ccedil;a imut&aacute;vel com que cada
+manh&atilde; sempre o Sol igual nascia, e sempre centeios e milhos,
+regados por &aacute;guas iguais, seguramente medravam, espigavam,
+amadureciam... Embalado pela recita&ccedil;&atilde;o grave e
+mon&oacute;tona do meu Pr&iacute;ncipe, eu cerrava as
+p&aacute;lpebras docemente. Em breve um vasto tumulto, por terra e
+c&eacute;u, me alvoro&ccedil;ava... E eram os rugidos de Polifemo,
+ou a grita dos companheiros de Ulisses roubando as vacas de Apolo.
+Com os olhos logo esbugalhados para Jacinto, eu murmurava:
+
+<span class="pagenum">[274]</span><i>Sublime!</i> E sempre, nesse
+momento o engenhoso Ulisses, de carapu&ccedil;o vermelho e o longo
+remo ao ombro, surpreendia com a sua fac&uacute;ndia a
+clem&ecirc;ncia dos Pr&iacute;ncipes, ou reclamava presentes
+devidos ao H&oacute;spede, ou surripiava astutamente algum favor
+aos Deuses. E Tormes dormia, no esplendor de Junho. Novamente, eu
+cerrava as p&aacute;lpebras consoladas, sob a car&iacute;cia
+inef&aacute;vel do largo dizer hom&eacute;rico... E meio
+adormecido, encantado, incessantemente avistava, longe, na divina
+H&eacute;lade, entre o mar muito azul e o ceu muito azul, a branca
+vela, hesitante, procurando &Iacute;taca...<br>
+
+
+<br>
+
+
+
+Depois da sesta o meu Pr&iacute;ncipe de novo se soltava para os
+campos. E a essa hora, sempre mais activa, voltava com ardor aos
+&laquo;seus planos&raquo;, a essas culturas de luxo e elegantes
+oficinas que cobririam a serra de magnific&ecirc;ncias rurais.
+Agora andava todo no espl&ecirc;ndido apetite de uma horta que ele
+concebera, imensa horta ajardinada, em que todos os legumes,
+cl&aacute;ssicos ou ex&oacute;ticos, cresceriam, soberbamente, em
+vistosos talh&otilde;es, fechados por sebes de rosas, de cravos, de
+alfazema, de d&aacute;lias. A &aacute;gua das regas desceria por
+lindos c&oacute;rregos de lou&ccedil;a esmaltada. Nas ruas, a
+sombra cairia de densas latadas <span class="pagenum">[275]</span>de moscatel, pousando em esteios revestidos
+de azulejo. E o meu Pr&iacute;ncipe desenhara o plano desta
+espantosa horta, a l&aacute;pis vermelho, num papel imenso, que o
+Melchior e o Silv&eacute;rio, consultados, longamente
+contemplaram,--um co&ccedil;ando risonhamente a nuca, o outro com
+os bra&ccedil;os duramente cruzados, e o sobrolho
+tr&aacute;gico.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Mas este plano, o da queijaria, o da capoeira, e outro, sumptuoso,
+de um pombal t&atilde;o povoado que todo o c&eacute;u de Tormes
+&agrave;s tardes se tornaria branco e todo fremente de
+asas--n&atilde;o sa&iacute;am das nossas gostosas palestras, ou dos
+pap&eacute;is em que Jacinto os debuxava, e que se amontoavam sobre
+a mesa, plat&oacute;nicos, im&oacute;veis, entre o tinteiro de
+lat&atilde;o e o vaso com flores.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Nem enxadada fendera terra, nem alavanca deslocara pedra, nem serra
+serrara madeira, para encetar estas maravilhas. Contra a
+resist&ecirc;ncia rebolada e escorregadia do Melchior, contra a
+respeitosa in&eacute;rcia do Silv&eacute;rio se quedavam,
+encalhados, os planos do meu Pr&iacute;ncipe, como galeras vistosas
+em rochas ou em lodo.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+N&atilde;o convinha bulir em nada, (clamava o Silv&eacute;rio)
+antes das colheitas e da vindima! E depois, (acrescentava o
+Melchior com um sorriso <span class="pagenum">[276]</span>de grande
+promessa) &laquo;para boas obras m&ecirc;s de Janeiro&raquo; porque
+l&aacute; ensina o ditado:<br>
+
+
+<br>
+
+
+<div class="quote">Em Janeiro--mete obreiro<br>
+
+
+M&ecirc;s meante--que n&atilde;o ante.</div>
+
+
+
+<br>
+
+
+E, de resto, o gozo de conceber as suas obras e de indicar,
+estendendo a bengala por cima de vale e monte, os s&iacute;tios
+privilegiados que elas aformoseariam, bastava por ora ao meu
+Pr&iacute;ncipe, ainda mais imaginativo que operante. E, enquanto
+meditava estas transforma&ccedil;&otilde;es da terra, muito
+progressivamente e com um am&aacute;vel esfor&ccedil;o, se ia
+familiarizando com os homens simples que a trabalhavam. Na sua
+chegada a Tormes, o meu Pr&iacute;ncipe sofria de uma estranha
+timidez diante dos caseiros, dos jornaleiros, e at&eacute; de
+qualquer rapazinho que passasse, tangendo uma vaca para o pasto.
+Nunca ele ent&atilde;o se demoraria a conversar com os
+mo&ccedil;os, quando &agrave; borda de um caminho ou num campo em
+monda eles se endireitavam de chap&eacute;u na m&atilde;o, num
+respeito de velha vassalagem. De certo o empecia a pregui&ccedil;a,
+e talvez ainda o p&uacute;dico recato de transpor toda a imensa
+dist&acirc;ncia que se alargava desde a sua complicada
+super-civiliza&ccedil;&atilde;o at&eacute; &agrave; rude
+simplicidade daquelas <span class="pagenum">[277]</span>almas
+naturais:--mas sobretudo o retinha o medo de mostrar a sua
+ignor&acirc;ncia da lavoura e da terra, ou de parecer talvez
+desdenhoso de ocupa&ccedil;&otilde;es e de interesses, que para os
+outros eram supremos e quase religiosos. Remia ent&atilde;o esta
+reserva com uma profus&atilde;o de sorrisos, de doces acenos,
+tirando tamb&eacute;m o chap&eacute;u em cortesias profundas, com
+uma tal &ecirc;nfase de polidez que eu por vezes receava que ele
+murmurasse aos jornaleiros: &laquo;Tenha V. Ex.&ordf; muito boas
+tardes;... Criado de V. Ex.&ordf;!&raquo;<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Mas agora, depois daquelas semanas de serra, e de j&aacute; saber
+(com um saber ainda fr&aacute;gil,) a &eacute;poca das sementeiras
+e das ceifas, e que as &aacute;rvores de fruta se semeiam no
+Inverno, j&aacute; se aprazia em parar junto dos trabalhadores,
+contemplar descansadamente o trabalho, dizer coisas af&aacute;veis
+e vagas.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Ent&atilde;o, isso vai andando?... Ora ainda bem!... Este bocado
+de torr&atilde;o aqui &eacute; rico... O talude ali adiante
+est&aacute; precisando conserto...<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+E cada um destes t&atilde;o simples dizeres lhe era doce, como se
+por meio deles penetrasse mais fundamente na intimidade da terra, e
+consolidasse a sua encarna&ccedil;&atilde;o em &laquo;homem do
+campo,&raquo; deixando de ser uma mera sombra circulando entre
+realidades. J&aacute; por isso <span class="pagenum">[278]</span>n&atilde;o cruzava no caminho o mocinho
+atr&aacute;s das vacas, que n&atilde;o o detivesse, o n&atilde;o
+interrogasse: &laquo;Para onde vais tu? De quem &eacute; o gado?
+Como te chamas?&raquo; E, contente consigo, sempre gabava
+gratamente o desembara&ccedil;o do rapaz, ou a esperteza dos seus
+olhos. Outra satisfa&ccedil;&atilde;o do meu Pr&iacute;ncipe era
+conhecer os nomes de todos os campos, as nascentes de &aacute;gua,
+e as delimita&ccedil;&otilde;es da sua quinta.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--V&ecirc;s acol&aacute;, para al&eacute;m do ribeiro, o pinheiral.
+J&aacute; n&atilde;o &eacute; meu, &eacute; dos Albuquerques.<br>
+
+
+<br>
+
+
+E com a perene alegria de Jacinto as noites da serra, no vasto
+casar&atilde;o, eram f&aacute;ceis e curtas. O meu Pr&iacute;ncipe
+era ent&atilde;o uma alma que se simplificava:--e qualquer
+pequenino gozo lhe bastava, desde que nele entrasse paz ou
+do&ccedil;ura. Com verdadeira del&iacute;cia ficava, depois do
+caf&eacute;, estendido numa cadeira, sentindo atrav&eacute;s das
+janelas abertas, a nocturna tranquilidade da serra, sob a mudez
+estrelada do c&eacute;u.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+As hist&oacute;rias, muito simples e muito caseiras, que eu lhe
+contava, de Gui&atilde;es, do abade, da tia Vic&ecirc;ncia, dos
+nossos parentes da Flor da Malva, t&atilde;o sinceramente o
+interessavam que eu encetara, para seu regalo, a cr&oacute;nica
+completa de Gui&atilde;es, com todos os namoricos, e as
+fa&ccedil;anhas de for&ccedil;as, e as desaven&ccedil;as por causa
+de servid&otilde;es ou de &aacute;guas. Tamb&eacute;m <span class="pagenum">[279]</span>por vezes nos enfronh&aacute;vamos, com
+aferro numa partida de gam&atilde;o, sobre um belo tabuleiro de pau
+preto, com pedras de velho marfim, que nos emprestara o
+Silv&eacute;rio. Mas nada de certo o encantava tanto como
+atravessar as casas, p&eacute; ante p&eacute;, at&eacute; uma
+saleta que dava para o pomar, e a&iacute; ficar encostado &agrave;
+
+janela, sem luz, num enlevado sossego, a escutar longamente,
+languidamente, os rouxin&oacute;is que cantavam no laranjal.<br>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+<h2>X</h2>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+Numa dessas manh&atilde;s--justamente na v&eacute;spera do meu
+regresso a Gui&atilde;es--, o tempo, que andara pela serra
+t&atilde;o alegre, num inalterado riso de luz rutilante, todo
+vestido de azul e ouro, fazendo poeira pelos caminhos, e alegrando
+toda a natureza, desde os p&aacute;ssaros at&eacute; os regatos,
+subitamente, com uma daquelas mudan&ccedil;as que tornam o seu
+temperamento t&atilde;o semelhante ao do homem, apareceu triste,
+carrancudo, todo embrulhado no seu manto cinzento, com uma tristeza
+t&atilde;o pesada e contagiosa que toda a serra entristeceu. E
+n&atilde;o houve mais p&aacute;ssaro que cantasse, e os arroios
+fugiram para debaixo das ervas com um lento murm&uacute;rio de
+choro.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Quando Jacinto entrou no meu quarto, n&atilde;o resisti &agrave;
+mal&iacute;cia de o aterrar:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Sudoeste! gralhas a grasnar por todos esses soutos... Temos muita
+&aacute;gua, Sr. D. Jacinto! <span class="pagenum">[282]</span>Talvez duas semanas de &aacute;gua! E agora
+&eacute; se vai saber quem &eacute; aqui o fino amador da Natureza,
+com esta chuva pegada, com vendaval, com a serra toda a
+escorrer!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+O meu Pr&iacute;ncipe caminhou para a janela com as m&atilde;os nas
+algibeiras:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Com efeito! Est&aacute; carregado. J&aacute; mandei abrir uma das
+malas de Paris e tirar um casac&atilde;o imperme&aacute;vel...
+N&atilde;o importa! Fica o arvoredo mais verde. E &eacute; bom que
+eu conhe&ccedil;a Tormes nos seus h&aacute;bitos de Inverno.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Mas como o Melchior lhe afian&ccedil;ara que a &laquo;chuvinha
+s&oacute; viria para a tarde&raquo;, Jacinto decidiu ir antes de
+almo&ccedil;o &agrave; Corujeira, onde o Silv&eacute;rio o esperava
+para decidirem da sorte de uns castanheiros, muito velhos, muito
+pitorescos, inteiramente interessantes, mas j&aacute;
+ro&iacute;dos, e amea&ccedil;ando desabar. E, confiando nas
+previs&otilde;es do Melchior, partimos sem que Jacinto se vestisse
+&agrave; prova de &aacute;gua. N&atilde;o and&aacute;ramos
+por&eacute;m meio caminho, quando, depois de um arrepio nas
+
+&aacute;rvores, um negrume carregou, e, bruscamente, desabou sobre
+n&oacute;s uma grossa chuva obl&iacute;qua, vergastada pelo vento,
+que nos deixou estonteados, agarrando os chap&eacute;us,
+enrodilhados na borrasca. Chamados por uma grande voz, que se
+esgani&ccedil;ava no vento, avist&aacute;mos num campo mais alto,
+&agrave; beira de um alpendre, o Silv&eacute;rio, debaixo de um
+<span class="pagenum">[283]</span>guarda-chuva vermelho, que
+acenava, nos indicava o trilho mais curto para aquele abrigo. E
+para l&aacute; rompemos, com a chuva a escorrer na cara, patinhando
+na lama, contorcidos, cambaleantes, atordoados no vendaval, que num
+instante alagara os campos, inchara os ribeiros, esboroava a terra
+dos socalcos, lan&ccedil;ara num desespero todo o arvoredo, tornara
+a serra negra, bravamente agreste, hostil, inabit&aacute;vel.<br>
+
+
+<br>
+
+
+
+Quando enfim, debaixo do vasto guarda-chuva com que o
+Silv&eacute;rio nos esperava &agrave; beira do campo, corremos para
+o alpendre, nos refugi&aacute;mos naquele abrigo inesperado, a
+escorrer, a arquejar, o meu Pr&iacute;ncipe, enxugando a face,
+enxugando o pesco&ccedil;o, murmurou, desfalecido:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Apre! que ferocidade!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Parecia espantado daquela brusca, violenta c&oacute;lera de uma
+serra t&atilde;o am&aacute;vel e acolhedora, que em dois meses,
+inalteradamente, s&oacute; lhe oferecera do&ccedil;ura e sombra, e
+suaves c&eacute;us, e quietas ramagens, e murm&uacute;rios
+discretos de ribeirinhos mansos.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Santo Deus! Vem muitas vezes assim, estas borrascas?<br>
+
+
+<br>
+
+
+Imediatamente o Silv&eacute;rio aterrou o meu Pr&iacute;ncipe:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Isto agora s&atilde;o brincadeiras de Ver&atilde;o, <span class="pagenum">[284]</span>meu senhor! Mas h&aacute;-de V. Ex.&ordf; ver
+no Inverno, se V. Ex.&ordf; se aguentar por c&aacute;! Ent&atilde;o
+
+&eacute; cada temporal, que at&eacute; parece que os montes
+estremecem!<br>
+
+
+<br>
+
+
+E contou como fora tamb&eacute;m apanhado, quando ia para a
+Corujeira. Felizmente, logo pela manh&atilde;, quando sentiu o ar
+carrancudo e as folhinhas dos choupos a tremer, se acautelara com o
+chap&eacute;u de chuva e cal&ccedil;ara as suas grandes botas.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Ainda estive para me abrigar em casa do Esgueira, que &eacute; um
+caseiro de c&aacute;. Aquela casa, ali abaixo, onde est&aacute; a
+figueira... Mas a mulher tem estado doente, j&aacute; h&aacute;
+
+dias... E como pode ser obra que se pegue, bexigas ou coisa que o
+valha, pensei comigo: Nada, o seguro morreu de velho! Meti para o
+alpendre... E n&atilde;o passara um credo quando lobriguei a V.
+Ex.&ordf;... Coisa assim!... E o Sr. D. Jacinto &eacute; voltar
+para casa, e mudar-se, que temos um dia e uma noite de
+&aacute;gua.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Mas, justamente, a chuva come&ccedil;ara a cair perpendicular, de
+um c&eacute;u ainda negro, onde o vento se calara; e para
+al&eacute;m do rio e dos montes havia uma claridade, como entre
+cortinas de pano cinzento que se descerram.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Jacinto repousava. Eu n&atilde;o cessara de me sacudir, de bater os
+p&eacute;s encharcados, que me arrefeciam. E o bom Silv&eacute;rio,
+passando <span class="pagenum">[285]</span>a m&atilde;o pensativa
+sobre o negrume das suas barbas, reflectia, emendava os seus
+progn&oacute;sticos:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Pois, n&atilde;o senhor... Ainda estia! Nunca pensei. &Eacute;
+que tornejou o vento.<br>
+
+
+<br>
+
+
+O alpendre que nos cobria assentava sobre duas paredes em
+&acirc;ngulo, de pedra solta, restos de algum casebre desmantelado,
+e sobre um esteio fazendo cunhal. Nesse momento s&oacute; abrigava
+madeira, um cuculo de cestos vazios, e um carro de bois, onde o meu
+Pr&iacute;ncipe se sentara, enrolando um cigarro confortador. A
+chuva desabava, copiosa, em longos fios reluzentes. E todos
+tr&ecirc;s nos cal&aacute;vamos, naquela contempla&ccedil;&atilde;o
+inerte e sem pensamento, em que uma chuva grossa e serena sempre
+imobiliza e ret&eacute;m olhos e almas.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--&Oacute; Sr. Silv&eacute;rio, murmurou lentamente o meu
+Pr&iacute;ncipe, que &eacute; que o senhor esteve a&iacute; a dizer
+de bexigas?<br>
+
+
+<br>
+
+
+O procurador voltou a face surpreendido:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Eu, Ex.<sup>mo</sup> Sr.?... Ah sim! a mulher do Esgueira!
+
+&Eacute; que pode ser, pode ser... N&atilde;o imagine V. Ex.&ordf;
+que faltam por c&aacute; doen&ccedil;as. O ar &eacute; bom.
+N&atilde;o digo que n&atilde;o! Arzinho s&atilde;o, aguazinha leve.
+Mas &agrave;s vezes, se V. Ex.&ordf; me d&aacute; licen&ccedil;a,
+vai por a&iacute; muita maleita.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Mas n&atilde;o h&aacute; m&eacute;dico, n&atilde;o h&aacute;
+botica?<br>
+
+
+<br>
+
+
+<span class="pagenum">[286]</span>O Silv&eacute;rio teve o riso
+superior de quem habita regi&otilde;es civilizadas e bem
+providas...<br>
+
+
+<br>
+
+
+
+--Ent&atilde;o n&atilde;o havia de haver? Pois h&aacute; um
+botic&aacute;rio, em Gui&atilde;es, l&aacute; quase ao p&eacute; da
+casa aqui do nosso amigo. E homem entendido... o Firmino, hein, Sr.
+Fernandes? Homem capaz. M&eacute;dico &eacute; o Dr. Avelino, daqui
+a l&eacute;gua e meia, nas Bolsas. Mas j&aacute; V. Ex.&ordf;
+
+v&ecirc;, esta gentinha &eacute; pobre!... Tomaram eles para
+p&atilde;o, quanto mais para rem&eacute;dios!<br>
+
+
+<br>
+
+
+E de novo se estabeleceu um sil&ecirc;ncio, sob o alpendre, onde
+penetrava a friagem crescente da serra encharcada. Para al&eacute;m
+do rio, a prometedora claridade n&atilde;o se alargara entre as
+duas espessas cortinas pardacentas. No campo, em declive diante de
+n&oacute;s, ia um longo correr de ribeiros barrentos. Eu terminara
+por me sentar na ponta de um madeiro, enervado, j&aacute; com a
+fome agu&ccedil;ada pela manh&atilde; agreste. E Jacinto, na borda
+do carro, com os p&eacute;s no ar, cofiava os bigodes
+h&uacute;midos, palpava a face, onde, com espanto meu, reaparecera
+a sombra, a sombra triste dos dias passados, a sombra do 202!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+E, ent&atilde;o, surdiu por tr&aacute;s da parede do alpendre um
+rapazito, muito rotinho, muito magrinho, com uma carita
+mi&uacute;da, toda amarela sob a porcaria, e onde dois grandes
+olhos pretos se arregalavam para n&oacute;s, com <span class="pagenum">[287]</span>vago pasmo e vago medo. Silv&eacute;rio
+imediatamente o conheceu.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Como vai a tua m&atilde;e? Escusas de te chegar para c&aacute;,
+deixa-te estar a&iacute;. Eu ou&ccedil;o bem. Como vai a tua
+m&atilde;e?<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+N&atilde;o percebi o que os pobres beicitos descorados murmuraram.
+Mas Jacinto, interessado:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Que diz ele? Deixe vir o rapaz! Quem &eacute; a tua
+m&atilde;e?<br>
+
+
+<br>
+
+
+Foi o Silv&eacute;rio que informou respeitosamente:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--&Eacute; a tal mulher que est&aacute; doente, a mulher do
+Esgueira, ali do casal da figueira. E ainda tem outro abaixo
+deste... Filharada n&atilde;o lhe falta.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Mas este pequeno tamb&eacute;m parece doente!--exclamou Jacinto.
+Coitadito, t&atilde;o amarelo!... Tu tamb&eacute;m est&aacute;s
+doente?<br>
+
+
+<br>
+
+
+O rapazinho emudecera, chupando o dedo, com os tristes olhos
+pasmados. E o Silv&eacute;rio sorria, com bondade:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Nada! este &eacute; s&atilde;ozinho... Coitado, &eacute; assim
+amarelado e enfezadito, por que... Que quer V. Ex.&ordf;? Mal
+comido! muita mis&eacute;ria... Quando h&aacute; o bocadito de
+p&atilde;o &eacute; para todo o rancho. Fomezinha, fomezinha!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Jacinto pulou bruscamente da borda do carro.<br>
+
+
+<br>
+
+
+<span class="pagenum">[288]</span>--Fome? Ent&atilde;o ele tem
+fome? H&aacute; aqui gente com fome?<br>
+
+
+<br>
+
+
+Os seus olhos rebrilhavam, num espanto comovido, em que pediam, ora
+a mim, ora ao Silv&eacute;rio, a confirma&ccedil;&atilde;o desta
+mis&eacute;ria insuspeitada. E fui eu que esclareci o meu
+Pr&iacute;ncipe:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Homem! est&aacute; claro que h&aacute; fome! Tu imaginavas talvez
+que o Para&iacute;so se tinha perpetuado aqui nas serras, sem
+trabalho e sem mis&eacute;ria... Em toda a parte h&aacute; pobres,
+at&eacute; na Austr&aacute;lia, nas minas de ouro. Onde h&aacute;
+trabalho h&aacute; proletariado, seja em Paris, seja no
+Douro...<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+O meu Pr&iacute;ncipe, teve um gesto de aflita
+impaci&ecirc;ncia:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Eu n&atilde;o quero saber o que h&aacute; no Douro. O que eu
+pergunto &eacute; se aqui, em Tormes, na minha propriedade, dentro
+destes campos que s&atilde;o meus, h&aacute; gente que trabalhe
+para mim, e que tenha fome... Se h&aacute; criancinhas, como esta,
+esfomeadas? &Eacute; o que eu quero saber.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+O Silv&eacute;rio sorria, respeitosamente, ante aquela
+c&acirc;ndida ignor&acirc;ncia das realidades da Serra:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Pois est&aacute; bem de ver, meu senhor, que h&aacute; para
+a&iacute; caseiros que s&atilde;o muito pobres. Quase todos...
+&Eacute; uma mis&eacute;ria, que se n&atilde;o fosse algum socorro
+que se lhes d&aacute;, nem eu <span class="pagenum">[289]</span>sei!... Este Esgueira, com o rancho de filhos
+que tem, &eacute; uma desgra&ccedil;a... Havia V. Ex.&ordf; de ver
+as casitas em que eles vivem... S&atilde;o chiqueiros. A do
+Esgueira, acol&aacute;...<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Vamos v&ecirc;-la! atalhou Jacinto com uma decis&atilde;o
+exaltada.<br>
+
+
+<br>
+
+
+E saiu logo do alpendre, sem atender &agrave; chuva, que ainda
+ca&iacute;a, mais leve e mais rala. Mas ent&atilde;o
+Silv&eacute;rio alargou os bra&ccedil;os diante dele, com
+ansiedade, como para o salvar de um precip&iacute;cio.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--N&atilde;o! V. Ex.&ordf; l&aacute; na casa do Esgueira &eacute;
+
+que n&atilde;o entra! N&atilde;o se sabe o que a mulher tem, e
+cautela e caldo de galinha...<br>
+
+
+<br>
+
+
+Jacinto n&atilde;o se alterou na sua polidez paciente:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Obrigado pelo seu cuidado, Silv&eacute;rio... Abra o seu
+chap&eacute;u de chuva, e avante!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Ent&atilde;o o Procurador vergou os ombros, e, como S. Ex.&ordf;
+
+mandava, abriu com estrondo o imenso p&aacute;ra-&aacute;guas,
+abrigou respeitosamente Jacinto, atrav&eacute;s do campo
+encharcado. Eu segui, pensando na esmola sumptuosa que o bom Deus
+mandava &agrave;quele pobre casal por um remoto senhor das Cidades!
+Atr&aacute;s vinha o pequenito perdido num imenso pasmo.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Como todos os casebres da serra, o do Esgueira era de grossa pedra
+solta, sem reboco, <span class="pagenum">[290]</span>com um vago
+telhado, de telha musgosa e negra, um postigo no alto, e a rude
+porta que servia para o ar, para a luz, para o fumo, e para a
+gente. E em redor, a Natureza e o Trabalho tinham, atrav&eacute;s
+de anos, acumulado ali trepadeiras e flores silvestres, e cantinhos
+de horta, e sebes cheirosas, e velhos bancos ro&iacute;dos de
+musgo, e panelas com terra onde crescia salsa, e regueiros
+cantantes, e videiras enforcadas nos olmos, e sombras e charcos
+espelhados, que tornavam deliciosa, para uma &Eacute;cloga, aquela
+morada da Fome, da Doen&ccedil;a e da Tristeza.<br>
+
+
+<br>
+
+
+
+Cautelosamente, com a ponteira do guarda-chuva, Silv&eacute;rio
+empurrou a porta, chamando:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Eh! tia Maria... Ol&aacute; rapariga!<br>
+
+
+<br>
+
+
+E na fenda entreaberta apareceu uma mo&ccedil;a, muito alta, escura
+e suja, com uns tristes olhos pisados, que se espantaram para
+n&oacute;s, serenamente.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Ent&atilde;o como vai a tua m&atilde;e?--Abre l&aacute; a porta,
+que est&atilde;o aqui estes senhores...<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Ela abriu, lentamente, e ia murmurando numa voz dolente e arrastada
+mas sem queixume, que um vago, resignado sorriso acompanhava:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Ora, coitada! como h&aacute;-de ir? Malzinha... malzinha.<br>
+
+
+<br>
+
+
+E dentro, num gemido que subia como <span class="pagenum">[291]</span>do ch&atilde;o, dentre abafos, amodorrado e
+lento, a m&atilde;e repetiu a desconsolada queixa:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Ai! para aqui estou, e malzinha, malzinha!...<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+O Silv&eacute;rio, sem passar da porta, com o guarda-chuva em
+riste, meio aberto, como um escudo contra a infec&ccedil;&atilde;o,
+lan&ccedil;ou uma consola&ccedil;&atilde;o vaga:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--N&atilde;o h&aacute;-de ser nada, tia Maria!... Isso foi friagem!
+N&atilde;o foi sen&atilde;o friagem!<br>
+
+
+<br>
+
+
+E, sobre o ombro de Jacinto, encolhido:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--J&aacute; V. Ex.&ordf; v&ecirc;... Muita mis&eacute;ria!
+At&eacute; lhe chove l&aacute; dentro.<br>
+
+
+<br>
+
+
+E, no peda&ccedil;o de ch&atilde;o que viam, ch&atilde;o de terra
+batida, uma mancha h&uacute;mida reluzia, da chuva pingada de uma
+telha rota. A parede, coberta de fuligem, das longas
+fumara&ccedil;as da lareira, era t&atilde;o negra como o
+ch&atilde;o. E aquela penumbra suja parecia atulhada, numa desordem
+escura, de trapos, de cacos, de restos de coisas, onde s&oacute;
+
+mostravam forma compreens&iacute;vel uma arca de pau negro, e por
+cima, pendurado de um prego, entre uma serra e uma candeia, um
+grosso saiote escarlate.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Ent&atilde;o Jacinto, muito embara&ccedil;ado, murmurou
+abstraidamente:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Est&aacute; bem, est&aacute; bem...<br>
+
+
+<br>
+
+
+E largou pelo campo para o lado do alpendre como se fugisse,
+enquanto o Silv&eacute;rio decerto <span class="pagenum">[292]</span>revelava &agrave; rapariga, a presen&ccedil;a
+augusta do &laquo;fidalgo&raquo;, porque a sentimos, da porta,
+levantar a voz dolorida:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Ai! Nosso Senhor lhe d&ecirc; muito boa sorte! Nosso Senhor o
+acompanhe!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Quando o Silv&eacute;rio, com as grandes passadas das suas grandes
+botas, nos colheu, no meio do campo, Jacinto parara, olhava para
+mim, com os dedos tr&eacute;mulos a torturar o bigode, e
+murmurava:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--&Eacute; horr&iacute;vel, Z&eacute; Fernandes, &eacute;
+
+horr&iacute;vel.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Ao lado, o vozeir&atilde;o do Silv&eacute;rio trovejou:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Que queres tu outra vez, rapaz? Vai para a tua m&atilde;e,
+criatura!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Era o pequeno rotinho, esfaimadinho, que se prendia a n&oacute;s,
+num imenso pasmo das nossas pessoas, e com a confusa
+esperan&ccedil;a, talvez, que delas, como de Deuses encontrados num
+caminho, lhe viesse afago ou proveito. E Jacinto, para quem ele
+mais especialmente arregalava os olhos tristes, e que aquela
+mis&eacute;ria, e a sua muda humildade, embara&ccedil;avam,
+acanhavam horrivelmente, s&oacute; soube sorrir, murmurar o seu
+vago: &laquo;Est&aacute; bem, est&aacute; bem...&raquo; Fui eu que
+dei ao pequenito um tost&atilde;o, para o fartar, o despegar dos
+nossos passos. Mas como ele, com o seu tost&atilde;o bem agarrado,
+nos seguia ainda, como no sulco da nossa magnific&ecirc;ncia, o
+Silv&eacute;rio teve de o espantar, <span class="pagenum">[293]</span>como a um p&aacute;ssaro, batendo as
+m&atilde;os, e de lhe gritar:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--J&aacute; para casa! E leve esse dinheiro &agrave; m&atilde;e.
+Roda, roda!...<br>
+
+
+<br>
+
+
+--E n&oacute;s vamos almo&ccedil;ar, lembrei eu olhando o
+rel&oacute;gio. O dia ainda vai estar lindo.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Sobre o rio, com efeito, reluzia um peda&ccedil;o de azul lavado e
+lustroso; e a grossa camada de nuvens j&aacute; se ia enrolando sob
+a lenta varredela do vento, que as levava, despejadas e rotas, para
+um canto escuso do c&eacute;u.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Ent&atilde;o recolhemos lentamente para casa, por uma vereda
+&iacute;ngreme, que ensinara o Silv&eacute;rio, e onde um leve
+enxurro vinha ainda, saltando e chalrando. De cada ramo tocado,
+rechovia uma chuva leve. Toda a verdura, que bebera largamente,
+reluzia consolada.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Bruscamente, ao sairmos da vereda para um caminho mais largo, entre
+um socalco e um renque de vinha, Jacinto parou, tirando lentamente
+a cigarreira:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Pois, Silv&eacute;rio, eu n&atilde;o quero mais estas
+horr&iacute;veis mis&eacute;rias na quinta.<br>
+
+
+<br>
+
+
+
+O Procurador deu um jeito aos ombros, com um vago <i>eh!
+eh!</i><br>
+
+
+--Antes de tudo, continuava Jacinto, mande j&aacute; hoje chamar
+esse Dr. Avelino para aquela pobre mulher... E os rem&eacute;dios
+que os v&atilde;o buscar logo a Gui&atilde;es. E
+recomenda&ccedil;&atilde;o ao m&eacute;dico <span class="pagenum">[294]</span>para voltar amanh&atilde;, e em cada dia;
+at&eacute; que ela melhore... Escute! E quero, Melchior, que lhe
+leve dinheiro, para os caldos, para a dieta, uns dez, ou quinze mil
+r&eacute;is... Bastar&aacute;?<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+O Procurador n&atilde;o conteve um riso respeitoso. Quinze mil
+r&eacute;is! Uns tost&otilde;es bastavam... Nem era bom acostumar
+assim, a tanta franqueza, aquela gente. Depois todos queriam, todos
+pedinchavam...<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Mas &eacute; que todos h&atilde;o-de ter, disse Jacinto
+simplesmente.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--V. Ex.&ordf; manda, murmurou o Silv&eacute;rio.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Encolhera os ombros, parado no caminho, no espanto daquelas
+extravag&acirc;ncias. Eu tive de o apressar, impaciente:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Vamos conversando e andando! &Eacute; meio-dia! Estou com uma
+fome de lobo!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Caminh&aacute;mos, com o Silv&eacute;rio no meio, pensativo, a
+fronte enrugada sob a vasta aba do chap&eacute;u, a barba imensa
+espalhada pelo peito, e a barraca exorbitante do guarda-chuva
+vermelho enrolada debaixo do bra&ccedil;o. E Jacinto, puxando
+nervosamente o bigode, arriscava outras ideias benfazejas,
+cautelosamente, no seu indomin&aacute;vel medo do
+Silv&eacute;rio:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--E as casas tamb&eacute;m... Aquela casa &eacute; um covil!...
+Gostava de abrigar melhor aquela pobre gente... E naturalmente, as
+dos outros <span class="pagenum">[295]</span>caseiros s&atilde;o
+pocilgas iguais... Era necess&aacute;rio uma reforma! Construir
+casas novas a todos os rendeiros da quinta...<br>
+
+
+<br>
+
+
+--A todos?...--O Silv&eacute;rio gaguejava,--emudeceu.<br>
+
+
+<br>
+
+
+E Jacinto balbuciava aterrado:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--A todos... Enfim, quero dizer... Quantos ser&atilde;o eles?<br>
+
+
+<br>
+
+
+Silv&eacute;rio atirou um gesto enorme:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--S&atilde;o vinte e coisas... Vinte e tr&ecirc;s! se bem lembro.
+Upa! Upa! Vinte e sete...<br>
+
+
+<br>
+
+
+Ent&atilde;o Jacinto emudeceu tamb&eacute;m, como reconhecendo a
+vastid&atilde;o do n&uacute;mero. Mas desejou saber, por quanto
+ficaria cada casa!... Oh! uma casa simples, mas limpa,
+confort&aacute;vel, como a que tinha a irm&atilde; do Melchior, ao
+p&eacute; do lagar. Silv&eacute;rio estacou de novo. Uma casa como
+a da Ermelinda? Queria Sua Ex.&ordf; saber? E alijou a cifra, muito
+de alto, como uma pedra imensa, para esmagar Jacinto:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Duzentos mil r&eacute;is, Ex^mo Senhor! E &eacute; para mais que
+n&atilde;o para menos!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Eu ria da tr&aacute;gica amea&ccedil;a do excelente homem. E
+Jacinto, muito docemente, para conciliar o Silv&eacute;rio:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Bem, meu amigo... Eram uns seis contos de r&eacute;is! Digamos
+dez, por que eu queria dar a todos alguma mob&iacute;lia e alguma
+roupa.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Ent&atilde;o o Silv&eacute;rio teve um brado de terror:<br>
+
+
+<br>
+
+
+<span class="pagenum">[296]</span>--Mas ent&atilde;o,
+Ex.<sup>mo</sup> Senhor, &eacute; uma revolu&ccedil;&atilde;o!<br>
+
+
+<br>
+
+
+
+E como n&oacute;s, irresistivelmente, r&iacute;amos dos seus olhos
+esgazeados de horror, dos seus imensos bra&ccedil;os abertos para
+tr&aacute;s, como se visse o mundo desabar,--o bom Silv&eacute;rio
+encavacou:<br>
+
+
+--Ah! V. Ex.<sup>as</sup> riem? Casas para todos, mob&iacute;lias,
+pratas, bragal, dez contos de r&eacute;is! Ent&atilde;o
+tamb&eacute;m eu rio! Ah! ah! ah! Ora viva a bela
+chala&ccedil;a!... Est&aacute; boa a risota!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+E subitamente, numa profunda mesura, como declinando toda a
+responsabilidade naquele disparate magn&iacute;fico:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Enfim, V. Ex.&ordf; &eacute; quem manda!<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Est&aacute; mandado, Silv&eacute;rio. E tamb&eacute;m quero saber
+as rendas que paga essa gente, os contratos que existem, para os
+melhorar. H&aacute; muito que melhorar. Venha voc&ecirc;
+
+almo&ccedil;ar connosco. E conversamos.<br>
+
+
+<br>
+
+
+T&atilde;o saturado de espanto estava o Silv&eacute;rio, que nem
+recebeu mais espanto com essa &laquo;melhoria de rendas&raquo;.
+Agradeceu o convite, penhorado. Mas pedia licen&ccedil;a a Sua
+Ex.&ordf; para passar primeiramente pelo lagar, para ver os
+carpinteiros que andavam a concertar a trave do rio. Era um
+instante, e estava em seguida &agrave;s ordens de S. Ex.&ordf;.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Meteu a corta-mato, saltando um cancelo. <span class="pagenum">[297]</span>E n&oacute;s seguimos, com passos que eram
+ligeiros, pela hora do almo&ccedil;o que se retardara, pelo azul
+alegre que reaparecia, e por toda aquela justi&ccedil;a feita
+
+&agrave; pobreza da serra.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--N&atilde;o perdeste hoje o teu dia, Jacinto, disse eu, batendo,
+com uma ternura que n&atilde;o disfarcei, no ombro do meu
+amigo.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Que mis&eacute;ria, Z&eacute; Fernandes! Eu nem sonhava... Haver
+por a&iacute;, &agrave; vista da minha casa, outras casas, onde
+crian&ccedil;as t&ecirc;m fome! &Eacute; horr&iacute;vel...<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Est&aacute;vamos entrando na alameda. Um raio de sol, saindo dentre
+duas grossas, algodoadas nuvens, passou sobre uma esquina do
+casar&atilde;o, ao fundo, uma viva tira de ouro. O clarim dos galos
+soava claro e alto. E um doce vento, que se erguera, punha nas
+folhas lavadas e luzidias um fr&eacute;mito alegre e doce.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Sabes o que eu estava pensando, Jacinto?... Que te aconteceu
+aquela lenda de Santo Ambr&oacute;sio... N&atilde;o, n&atilde;o era
+Santo Ambr&oacute;sio... N&atilde;o me lembra o santo... Nem era
+ainda santo... apenas um cavaleiro <span class="pagenum">[298]</span>pecador, que se enamorara de uma mulher,
+pusera toda a sua alma nessa mulher, s&oacute; por a avistar a
+dist&acirc;ncia na rua. Depois, uma tarde que a seguia, enlevado,
+ela entrou num portal de igreja, e a&iacute;, de repente, ergueu o
+v&eacute;u, entreabriu o vestido, e mostrou ao pobre cavaleiro o
+seio ro&iacute;do por uma chaga! Tu, tamb&eacute;m andavas namorado
+da serra, sem a conhecer, s&oacute; pela sua beleza de
+Ver&atilde;o. E a serra, hoje, z&aacute;s! de repente, descobre a
+sua grande &uacute;lcera... &Eacute; talvez a tua
+prepara&ccedil;&atilde;o para S. Jacinto.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Ele parou, pensativo, com os dedos nas cavas do colete:<br>
+
+
+<br>
+
+
+---&Eacute; verdade! Vi a chaga! Mas enfim, esta, louvado seja
+Deus, &eacute; das que eu posso curar!<br>
+
+
+<br>
+
+
+N&atilde;o desiludi o meu Pr&iacute;ncipe. E ambos subimos
+alegremente a escadaria do casar&atilde;o.<br>
+
+
+<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+<h2>XI</h2>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+No dia que seguiu estas largas caridades recolhi a Gui&atilde;es.
+E, desde ent&atilde;o, tantas vezes trotei por aquelas tr&ecirc;s
+l&eacute;guas entre a nossa e a velha alameda dos Jacintos, que a
+minha &eacute;gua, quando a desviava dessa estrada familiar,
+conduzindo a uma cavalari&ccedil;a familiar, (onde ela privava com
+o garrano do Melchior) relinchava de pura saudade. At&eacute; a tia
+Vic&ecirc;ncia se mostrava vagamente ciumenta daquela Tormes, para
+onde eu sempre corria, daquele Pr&iacute;ncipe de quem
+incessantemente celebrava o rejuvenescimento, a caridade, os
+pit&eacute;us, e as quimeras agr&iacute;colas. J&aacute; um dia com
+um gr&atilde;o de sal e ironia,--o &uacute;nico que cabia num
+cora&ccedil;&atilde;o todo cheio de inoc&ecirc;ncia,--ela me
+dissera, movendo com mais vivacidade as agulhas da sua meia:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Olha que te podes gabar! <span class="pagenum">[300]</span>At&eacute; me tens feito curiosidade de
+conhecer esse Jacinto... Traz c&aacute; essa maravilha, menino!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Eu rira:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Sossegue, tia Vic&ecirc;ncia, que o trarei agora, para o dia dos
+meus anos, a jantar... Damos uma festa, haver&aacute; um bailarico
+no p&aacute;tio, e vem a&iacute; toda essa senhorama dos arredores.
+Talvez at&eacute; se arranje uma noiva para o Jacinto.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Eu, com efeito, j&aacute; convidara o meu Pr&iacute;ncipe para este
+&laquo;natal&iacute;cio&raquo;. E de resto convinha que o senhor de
+Tormes conhecesse todos aqueles senhores das boas casas da serra...
+Sobretudo, como eu lhe dizia rindo, convinha que ele conhecesse
+algumas mulheres, algumas daquelas fortes raparigas dos solares
+serranos, porque Tormes tinha uma solid&atilde;o muito
+mon&aacute;stica; e o homem, sem um pouco do Eterno Feminino,
+facilmente se enrudece e ganha uma casca &aacute;spera como a das
+&aacute;rvores, na solid&atilde;o.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--E esta Tormes, Jacinto, esta tua reconcilia&ccedil;&atilde;o com
+a Natureza, e o renunciamento &agrave;s mentiras da
+Civiliza&ccedil;&atilde;o &eacute; uma linda hist&oacute;ria...
+Mas, caramba, faltam mulheres!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Ele concordava, rindo, languidamente estendido na cadeira de
+vime:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Com efeito, h&aacute; aqui falta de mulher, com M. grande. Mas
+essas senhoras a&iacute; das <span class="pagenum">[301]</span>casas dos arredores... N&atilde;o sei, estou
+pensando que se devem parecer com legumes. S&atilde;s, nutritivas,
+excelentes para a panela--mas, enfim, legumes. As mulheres que os
+poetas comparam &agrave;s Flores s&atilde;o sempre as mulheres das
+Cortes, das Capitais, &agrave;s quais, invariavelmente, desde
+Hes&iacute;odo e de Hor&aacute;cio, se rendem os poetas... E
+evidentemente n&atilde;o h&aacute; perfume, nem gra&ccedil;a, nem
+eleg&acirc;ncia, nem requinte, numa cenoura ou numa couve...
+N&atilde;o devem ser interessantes as senhoras da minha serra.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Eu te digo... A tua vizinha mais chegada, a filha do D.
+Teot&oacute;nio, com efeito, salvo o respeito que se deve &agrave;
+casa ilustre dos Barbedos, &eacute; um mostrengo! A irm&atilde; dos
+Albergarias, da quinta da Loja, tamb&eacute;m n&atilde;o tentaria
+nem mesmo o precisado Santo Ant&atilde;o. Sobretudo se se despisse,
+por que &eacute; um espinafre infernal! Essa realmente &eacute;
+legume, e n&atilde;o dos nutritivos.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Tu o disseste: espinafre!<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Temos tamb&eacute;m a D. Beatriz Veloso... Essa &eacute;
+bonita... Mas, menino, que horrivelmente bem falante! Fala como as
+hero&iacute;nas do Camilo. Tu nunca leste o Camilo... E depois, um
+tom de voz que te n&atilde;o sei descrever, o tom com que se fala
+em D. Maria, em pe&ccedil;as de sentimento. Tu tamb&eacute;m nunca
+viste o Teatro <span class="pagenum">[302]</span>de D. Maria...
+Enfim, um horror! E perguntas pavorosas. &laquo;V. Ex.&ordf; Sr.
+Doutor, n&atilde;o se delicia com Lamartine?&raquo; J&aacute; me
+disse esta, a indecente!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--E tu?<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Eu! Arregalei os olhos... &laquo;Oh Lamartine!&raquo;. Mas,
+coitada, &eacute; uma excelente rapariga! Agora, por outro lado,
+temos as Roj&otilde;es, as filhas de Jo&atilde;o Roj&atilde;o, duas
+flores, muito frescas, muito alegres, com um cheiro e um brilho a
+sadio, e muito simples... A tia Vic&ecirc;ncia morre por elas.
+Depois h&aacute; a mulher do Dr. Al&iacute;pio, que &eacute; uma
+beleza. Oh! uma criatura espl&ecirc;ndida! Mas, enfim, &eacute; a
+mulher do Dr. Al&iacute;pio, e tu renunciaste aos deveres da
+Civiliza&ccedil;&atilde;o... Al&eacute;m disso, mulher muito
+s&eacute;ria, toda absorvida nos seus dois pequenos, que parecem
+dois anjinhos de Murillo... E quem mais? J&aacute; agora, quero
+completar a lista do pessoal feminino. Temos a Melo Rebelo, de
+Sandofim, muito engra&ccedil;ada, com cabelo lindo... Borda na
+perfei&ccedil;&atilde;o, faz doces como uma freira do antigo
+Regime... Havia tamb&eacute;m uma J&uacute;lia Lobo, muito linda,
+mas morreu... Agora n&atilde;o me lembro mais. Mas falta a flor da
+Serra, que &eacute; a minha prima Joaninha, da Flor da Malva! Essa
+
+&eacute; uma perfei&ccedil;&atilde;o de rapariga.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--E tu, primo Z&eacute;, como tens tu resistido?<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Somos como irm&atilde;os, criados de pequeninos, <span class="pagenum">[303]</span>mais acostumados e familiares que tu e eu...
+A familiaridade esbate os sexos. A m&atilde;e dela era a
+&uacute;nica irm&atilde; da tia Vic&ecirc;ncia, e morreu muito
+nova. A Joaninha, quase desde o ber&ccedil;o que se criou em nossa
+casa, em Gui&atilde;es. O pai &eacute; bom homem, o tio
+Adri&atilde;o. Erudito, antiqu&aacute;rio, coleccionador...
+Colecciona toda a sorte de coisas esquisitas, campainhas, esporas,
+sinetes, fivelas... Tem uma colec&ccedil;&atilde;o curiosa. Ele
+h&aacute; muito que deseja vir a Tormes, para te visitar... Mas,
+coitado, sofre da bexiga, n&atilde;o pode montar a cavalo. E a
+estrada da Flor da Malva aqui &eacute; imposs&iacute;vel para
+carruagens...<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+O meu Pr&iacute;ncipe espregui&ccedil;ara longamente os
+bra&ccedil;os:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--N&atilde;o, est&aacute; claro! eu &eacute; que hei-de visitar teu
+tio, e a tia Vic&ecirc;ncia... Desejo conhecer os meus vizinhos.
+Mas mais tarde, quando sossegar. Agora ando todo ocupado com o meu
+povo.<br>
+
+
+<br>
+
+
+E com efeito! Jacinto era agora como um Rei fundador de um Reino, e
+grande edificador. Por todo o seu dom&iacute;nio de Tormes andavam
+obras, para o renovamento das casas dos rendeiros, umas que se
+concertavam, outras mais velhas, que se derrubavam para se
+reconstru&iacute;rem com uma largueza c&oacute;moda. Pelos caminhos
+constantemente chiavam carros, <span class="pagenum">[304]</span>carregados de pedra, ou de madeiras cortadas
+nos pinheirais.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Na taberna do Pedro, &agrave; entrada da freguesia, ia um desusado
+movimento, de pedreiros e carpinteiros contratados para as
+obras;--e o Pedro, com as mangas arrega&ccedil;adas, por
+tr&aacute;s do balc&atilde;o, n&atilde;o cessava de encher os
+decilitros com uma vasta infusa.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Jacinto, que tinha agora dois cavalos, todas as manh&atilde;s cedo
+percorria as obras, com amor. Eu, inquieto, sentia outra vez,
+latejar e irromper no meu Pr&iacute;ncipe o seu velho,
+man&iacute;aco furor de acumular Civiliza&ccedil;&atilde;o! O plano
+primitivo das obras era incessantemente alargado,
+aperfei&ccedil;oado. Nas janelas, que deviam ter apenas portadas,
+segundo o secular costume da serra, decidira p&ocirc;r
+vidra&ccedil;as, apesar do mestre de obras lhe dizer honradamente,
+que depois de habitadas um m&ecirc;s, n&atilde;o haveria casa com
+um s&oacute; vidro. Para substituir as traves cl&aacute;ssicas
+queria estucar os tectos;--e eu via bem claramente que ele se
+continha, se retesava dentro do Bom-Senso, para n&atilde;o dotar
+cada casa com campainhas el&eacute;ctricas. Nem sequer me espantei,
+quando ele uma manh&atilde; me declarou que a porcaria da gente do
+campo provinha de eles n&atilde;o terem onde comodamente se lavar,
+pelo que andava pensando em dotar cada casa com uma banheira.
+
+<span class="pagenum">[305]</span>Desc&iacute;amos nesse momento,
+com os cavalos &agrave; r&eacute;dea, por uma azinhaga precipitada
+e escabrosa; um vento leve ramalhava nas &aacute;rvores, um regato
+saltava ruidosamente entre as pedras. Eu n&atilde;o me
+espantei--mas realmente me pareceu que as pedras, o arroio, as
+ramagens e o vento, se riam alegremente do meu Pr&iacute;ncipe. E
+al&eacute;m destes confortos, a que o Jo&atilde;o, mestre de obras,
+com os olhos loucamente arregalados chamava &laquo;as
+grandezas&raquo;, Jacinto meditava o bem das almas. J&aacute;
+encomendara ao seu arquitecto, em Paris, o plano perfeito de uma
+escola, que ele queria erguer, naquele campo da Carri&ccedil;a,
+junto &agrave; capelinha que abrigava &laquo;os ossos&raquo;. Pouco
+a pouco, a&iacute; criaria tamb&eacute;m uma biblioteca, com livros
+de estampas, para entreter, aos domingos, os homens a quem
+j&aacute; n&atilde;o era poss&iacute;vel ensinar a ler. Eu vergava
+os ombros, pensando:--&laquo;A&iacute; vem a terr&iacute;vel
+acumula&ccedil;&atilde;o das No&ccedil;&otilde;es! Eis o livro
+invadindo a Serra!&raquo; Mas outras ideias de Jacinto eram
+tocantes,--e eu mesmo me entusiasmei, e excitei o entusiasmo da tia
+Vic&ecirc;ncia com o seu plano de uma Creche, onde ele esperava ter
+manh&atilde;s muito divertidas vendo as criancinhas a gatinhar, a
+correr tropegamente atr&aacute;s de uma bola. De resto, o nosso
+botic&aacute;rio de Gui&atilde;es estava j&aacute; apalavrado para
+estabelecer uma pequena farm&aacute;cia em Tormes, <span class="pagenum">[306]</span>sob a direc&ccedil;&atilde;o do seu
+praticante, um afilhado da tia Vic&ecirc;ncia, que tinha publicado
+um artigo sobre as festas populares do Douro no <i>Almanaque de
+Lembran&ccedil;as</i>. E j&aacute; fora oferecido o partido
+m&eacute;dico de Tormes, com ordenado de 600$000 r&eacute;is.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--N&atilde;o te falta sen&atilde;o um Teatro! dizia eu, rindo.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Um teatro n&atilde;o. Mas tenho a ideia de uma sala, com
+projec&ccedil;&otilde;es de lanterna m&aacute;gica, para ensinar a
+esta pobre gente as cidades desse mundo, e as coisas de
+&Aacute;frica, e um bocado de Hist&oacute;ria.<br>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+E tamb&eacute;m me ensoberbeci com esta inova&ccedil;&atilde;o!--E
+quando a contei ao tio Adri&atilde;o, o digno antiqu&aacute;rio
+bateu, apesar do seu reumatismo, uma palmada tremenda na coxa.
+
+&laquo;Sim, senhor! Bela ideia! Assim se podia ensinar
+&agrave;quela gente iletrada, vivamente, por imagens, a
+Hist&oacute;ria Santa, a Hist&oacute;ria Romana, at&eacute; a
+Hist&oacute;ria de Portugal!...&raquo; E voltado para a prima
+Joaninha, o tio Adri&atilde;o declarou Jacinto um &laquo;homem de
+cora&ccedil;&atilde;o!&raquo;<br>
+
+
+<br>
+
+
+E realmente pela Serra crescia a popularidade do meu
+Pr&iacute;ncipe. Naquele, &laquo;guarde-o Deus, meu senhor!&raquo;
+
+com que as mulheres ao passar o saudavam, se voltavam para o ver
+ainda, havia uma seriedade de ora&ccedil;&atilde;o, o bem sincero
+desejo de que Deus o guardasse <span class="pagenum">[307]</span>sempre. As crian&ccedil;as a quem ele
+distribu&iacute;a tost&otilde;es, farejavam de longe a sua
+passagem,--e era em torno dele um escuro formigueiro de caritas
+trigueiras e sujas, com grandes olhos arregalados, que se ainda
+tinham pasmo, j&aacute; n&atilde;o tinham medo. Como o cavalo de
+Jacinto uma tarde se chapara, ao desembocar da alameda, numas
+grossas pedras que a&iacute; deformavam a estrada, logo ao outro
+dia um bando de homens, sem que Jacinto o ordenasse, veio por
+dedica&ccedil;&atilde;o ensaibrar e alisar aquele peda&ccedil;o
+perigoso de caminho, aterrados com o risco que correra o bom
+senhor. J&aacute; pela serra se espalhava esse nome de &laquo;bom
+senhor&raquo;. Os mais idosos da freguesia n&atilde;o o encontravam
+sem exclamarem, uns com gravidade, outros com grandes risos
+desdentados:--<i>Este &eacute; o nosso benfeitor!</i> Por vezes,
+alguma velha corria do fundo do eido, ou vinha &agrave; porta do
+casebre, ao avist&aacute;-lo no caminho, para gritar, com grandes
+gestos dos bra&ccedil;os magros: &laquo;Ai que Deus o cubra de
+b&ecirc;n&ccedil;&atilde;os! Que Deus o cubra de
+b&ecirc;n&ccedil;&atilde;os!&raquo;<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Aos domingos, o padre Jos&eacute; Maria, (bom amigo meu e grande
+ca&ccedil;ador) vinha de Sandofim, na sua &eacute;gua ru&ccedil;a,
+a Tormes, para celebrar a missa na Capelinha. Jacinto assistia ao
+of&iacute;cio na sua tribuna, como os Jacintos doutras eras, para
+que aqueles simples o n&atilde;o <span class="pagenum">[308]</span>supusessem estranho a Deus. Quase sempre
+ent&atilde;o ele recebia presentes, que as filhas dos caseiros, ou
+os pequenos, vinham muito corados, trazer-lhe &agrave; varanda, e
+eram vasos de manjeric&atilde;o, ou um grosso ramalhete de cravos,
+e por vezes um gordo pato. Havia ent&atilde;o uma
+distribui&ccedil;&atilde;o de cavacas e merengues de Gui&atilde;es,
+
+&agrave;s raparigas e &agrave;s crian&ccedil;as,--e, no
+p&aacute;tio, para os homens circulavam as infusas de vinho branco.
+O Silv&eacute;rio j&aacute; sustentava com espanto, e redobrado
+respeito, que o Sr. D. Jacinto em breve disporia de mais votos nas
+elei&ccedil;&otilde;es que o Dr. Al&iacute;pio. E eu pr&oacute;prio
+me impressionei, quando o Melchior me contou que o Jo&atilde;o
+Torrado, um velho singular daqueles s&iacute;tios, de grandes
+barbas brancas, ervan&aacute;rio, vagamente alveitar, um pouco
+adivinho, morador misterioso de uma cova no alto da serra, a todos
+afirmava que aquele bom senhor era El-Rei D. Sebasti&atilde;o, que
+voltara!<br>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+<h2>XII</h2>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+Assim chegou Setembro, e com ele o meu natal&iacute;cio, que era a
+3 e num Domingo. Toda essa semana a passara eu em Gui&atilde;es,
+nos preparos da vindima,--e de manh&atilde; cedo, nesse Domingo
+ilustre, me fui debru&ccedil;ar da varanda do quarto do saudoso tio
+Afonso, vigiando a estrada, por onde devia aparecer o meu
+Pr&iacute;ncipe, que enfim visitava a casa do seu Z&eacute;
+Fernandes. A tia Vic&ecirc;ncia, desde a madrugada, andava
+atarefada pela cozinha e pela copa, porque, desejando mostrar ao
+meu Pr&iacute;ncipe &laquo;o pessoal&raquo; da serra, convidara
+para jantar algumas fam&iacute;lias amigas, dos arredores, as que
+tinham carruagens ou carro&ccedil;&otilde;es, e podiam, pelas
+estradas mal seguras, recolher tarde, depois de um bailarico
+campestre, no <span class="pagenum">[310]</span>p&aacute;tio,
+j&aacute; enfeitado para esse efeito de lanternas chinesas. Mas
+logo &agrave;s dez horas me desesperei, ao receber, por um
+mo&ccedil;o da Flor da Malva, uma carta da prima Joaninha, em que
+dizia &laquo;a pena de n&atilde;o poder vir porque o Pap&aacute;
+
+estava desde a v&eacute;spera com um leicen&ccedil;o, e ela
+n&atilde;o o queria abandonar.&raquo; Corri indignado &agrave;
+cozinha, onde a tia Vic&ecirc;ncia presidia a um violento bater de
+gemas de ovos dentro de uma imensa terrina.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--A Joaninha n&atilde;o vem! Sempre assim! Diz que o pai tem um
+leicen&ccedil;o... Aquele tio Adri&atilde;o escolhe sempre os
+grandes dias para ter leicen&ccedil;os, ou para ter a
+pontada...<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+A boa face redondinha e corada da tia Vic&ecirc;ncia
+enterneceu-se.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Coitado! ser&aacute; em s&iacute;tio que n&atilde;o se pudesse
+sentar na carruagem! Coitado! Olha, se lhe escreveres, diz-lhe que
+ponha um emplastrozinho de folhas de alecrim. &Eacute; com que teu
+tio se dava bem.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Eu gritei simplesmente para o mo&ccedil;o, que dava de beber ao
+burro no p&aacute;tio:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Diz &agrave; Sr.<sup>a</sup> D. Joaninha que sentimos muito...
+Que talvez eu l&aacute; apare&ccedil;a amanh&atilde;.<br>
+
+
+<br>
+
+
+E voltei &agrave; janela, impaciente, por que o rel&oacute;gio do
+corredor, muito atrasado, j&aacute; cantara a meia hora depois das
+dez e o Pr&iacute;ncipe tardava <span class="pagenum">[311]</span>para o almo&ccedil;o. Mas, mal eu me chegara
+
+&agrave; varanda, apareceu justamente na volta da estrada Jacinto,
+de grande chap&eacute;u de palha, no seu cavalo, seguido do Grilo
+que, tamb&eacute;m de chap&eacute;u de palha, e abrigado sob um
+imenso guarda-sol verde, se escarranchava no albard&atilde;o da
+velha &eacute;gua do Melchior. Atr&aacute;s, um mo&ccedil;o com uma
+maleta &agrave; cabe&ccedil;a. E eu, na alegria de avistar enfim o
+meu Pr&iacute;ncipe trotando para a minha casa de aldeia, no dia
+dos meus trinta e seis anos, pensava noutro natal&iacute;cio, no
+dele, em Paris, no 202, quando, entre todos os esplendores da
+Civiliza&ccedil;&atilde;o, n&oacute;s bebemos tristemente <i>ad
+manes</i>, aos nossos mortos!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--<i>Salv&eacute;!</i> gritei da varanda. <i>Salv&egrave;, domine
+Jacinthi!</i><br>
+
+
+<br>
+
+
+E entoei, para o acolher, num alegre tarantantan, o Hino da
+Carta!<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Isto por aqui tamb&eacute;m &eacute; lindo!--gritou ele de baixo.
+E o teu pal&aacute;cio tem um soberbo ar... Por onde &eacute; a
+porta?<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Mas eu j&aacute; me precipitava para o p&aacute;tio--onde Jacinto,
+apeando, contou alegremente os tormentos do Grilo, que nunca
+montara a cavalo, e n&atilde;o cessara de berrar ante os perigos
+daquela aventura.<br>
+
+
+<br>
+
+
+E o digno preto, ofegante, lustroso de suor, e l&iacute;vido sob o
+esplendor da sua negrura, exclamava, <span class="pagenum">[312]</span>apontando com a m&atilde;o tr&eacute;mula
+para a pobre &eacute;gua, que solta, de cabe&ccedil;a pensativa,
+parecia de pedra, sobre as patas mais im&oacute;veis que
+marcos:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Pois se o si&ocirc; Fernandes visse! Uma fera, que nunca veio
+quieta. Sempre para a esquerda, sempre para a direita, p&eacute;
+aqui, p&eacute; al&eacute;m! S&oacute; para me sacudir! S&oacute;
+para me sacudir!<br>
+
+
+<br>
+
+
+E n&atilde;o resistiu. Com a ponta do guarda-sol atirou uma
+pontoada vingativa contra a &eacute;gua, sobre o
+albard&atilde;o.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Subindo a escadaria ligeira, penetrando no alegre corredor, com a
+sua janela ao fundo engrinaldada de rosinhas, Jacinto louvava
+grandemente a nossa casa, que o repousava das rijas muralhas, das
+grossas portas feudais de Tormes. E no seu quarto agradeceu os
+cuidados maternais da tia Vic&ecirc;ncia, que enchera de flores os
+dois vasos da China sobre a c&oacute;moda, e adornara a cama com
+uma das nossas colchas da &Iacute;ndia mais ricas, cor de
+can&aacute;rio, com grandes aves de ouro. Eu sorria, enternecido.
+Ent&atilde;o estreit&aacute;mos os ossos num grande abra&ccedil;o,
+pelo natal&iacute;cio... &laquo;Trinta e oito, hein, Z&eacute;
+Fernandes?&raquo;--&laquo;Trinta e quatro, animal!&raquo; E o meu
+Pr&iacute;ncipe abrindo a mala, s&oacute;bria maleta de
+fil&oacute;sofo, ofereceu os &laquo;nobres presentes, que
+s&atilde;o devidos&raquo;, como diz sempre o astuto Ulisses na
+Odisseia. Era um alfinete de gravata, <span class="pagenum">[313]</span>com uma safira, uma cigarreira de aro fosco,
+adornada de um florido ramo de macieira em delicado esmalte, e uma
+faca para livros de velho lavor Chin&ecirc;s. Eu protestava contra
+a prodigalidade.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--&Eacute; tudo das malas de Paris... Mandei-as abrir ontem
+&agrave; noite. E tomei a liberdade de trazer esta lembran&ccedil;a
+&agrave; tua tia Vic&ecirc;ncia. N&atilde;o vale nada... &Eacute;
+s&oacute; por ter pertencido &agrave; princesa de Lamballe.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Era uma caldeirinha de &aacute;gua benta, em prata lavrada, de um
+gosto florido e quase galante.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--A tia Vic&ecirc;ncia n&atilde;o sabe quem &eacute; a princesa de
+Lamballe, mas ficar&aacute; encantada! E &eacute; uma garantia, por
+que ela suspeita da tua religi&atilde;o, como homem de Paris, da
+terra das impiedades... E agora, lavar, escovar, e ao
+almo&ccedil;o!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+A tia Vic&ecirc;ncia pareceu toda surpreendida, e logo encantada
+com o meu camarada, que ela supusera realmente um Pr&iacute;ncipe,
+arrogante, escarpado e dif&iacute;cil. Quando ele lhe ofereceu a
+caldeirinha, com um delicado pedido &laquo;para se lembrar dele nas
+suas ora&ccedil;&otilde;es&raquo;, duas largas rosas, mais
+r&oacute;seas e frescas que as rosas que enchiam a mesa, cobriram
+as faces redondas da boa senhora, que nunca recebera t&atilde;o
+piedoso presente, com t&atilde;o linda palavra. Mas o que sobretudo
+a cativou <span class="pagenum">[314]</span>foi o tremendo apetite
+de Jacinto, a entusiasmada convic&ccedil;&atilde;o com que ele,
+acumulando no prato montes de cabidela, depois altas serras de
+arroz de forno, depois bifes de numerosa cebolada, exaltava a nossa
+cozinha, jurava nunca ter provado nada t&atilde;o sublime. Ela
+resplandecia:<br>
+
+
+<br>
+
+
+
+--At&eacute; faz gosto, at&eacute; faz gosto!... Ora mais uma
+destas batatinhas recheadas...<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Concerteza, minha senhora! at&eacute; duas! As minhas
+ra&ccedil;&otilde;es, em mesas destas, t&atilde;o perfeitas,
+s&atilde;o sempre as de Garg&acirc;ntua.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--N&atilde;o cites Rabelais, que a tia Vic&ecirc;ncia n&atilde;o
+conhece os autores profanos! exclamava eu, tamb&eacute;m radiante.
+E prova esse vinho branco c&aacute; da nossa lavra, e louva Deus
+que amadurece tal uva.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+E o almo&ccedil;o foi muito alegre, muito &iacute;ntimo, muito
+conversado, sobre as obras de Jacinto em Tormes, e a sua Creche,
+que enlevava a tia Vic&ecirc;ncia, e as esperan&ccedil;as da
+vindima, e a minha prima Joaninha, que tinha o pap&aacute; doente,
+e o p&eacute;ssimo estado dos caminhos. Mas o enternecimento maior
+foi quando, ao servir o caf&eacute;, o criado p&ocirc;s ao lado de
+Jacinto um pires com um pau de canela, o seu estranho e costumado
+pau de canela. N&atilde;o o esquecera a tia Vic&ecirc;ncia! Ali
+tinha o seu pauzinho de canela!--Queria que ele, em <span class="pagenum">[315]</span>Gui&atilde;es, continuasse os seus
+h&aacute;bitos como em Tormes... E aquele pau de canela foi o
+s&iacute;mbolo de adop&ccedil;&atilde;o do meu Pr&iacute;ncipe como
+novo sobrinho da tia Vic&ecirc;ncia.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Ela em breve recolheu &agrave; cozinha, aos preparativos do
+banquete. N&oacute;s fum&aacute;mos um pregui&ccedil;oso charuto no
+jardim, ao p&eacute; do repuxo, sob a recolhida sombra do cedro.
+Depois, inexoravelmente, como propriet&aacute;rio, mostrei ao meu
+Pr&iacute;ncipe a propriedade toda, com desapiedada minuciosidade,
+sem lhe perdoar uma leira, um regueiro, uma &aacute;rvore, um
+p&eacute; de vinha. S&oacute; quando a sua face come&ccedil;ou a
+opar e a empalidecer, de cansa&ccedil;o, e que do entendimento
+totalmente atordoado s&oacute; lhe escorria um vago--&laquo;muito
+bonito! bela terra!&raquo;--&eacute; que voltei os passos para
+casa, tornejando ainda numa volta larga para lhe mostrar o lagar,
+uma planta&ccedil;&atilde;o de espargos, e o s&iacute;tio onde
+existira a ru&iacute;na de um velho castro romano. Ao penetrarmos
+de novo, pelo jardim, na fresca sala, ainda o empurrei, como uma
+r&ecirc;s, para a livraria do meu bom tio Afonso, para lhe mostrar
+as preciosidades, uma magn&iacute;fica cr&oacute;nica de D.
+Jo&atilde;o I por Fern&atilde;o Lopes, a primeira
+edi&ccedil;&atilde;o do <i>Imperador Clarimundo</i>, uma
+
+<i>Henriada</i>, com a assinatura de Voltaire, forais de El-Rei D.
+Manuel, e outras maravilhas. Ele respirava fechando o derradeiro
+pergaminho, <span class="pagenum">[316]</span>quando eu o arrastei
+&agrave; adega, para que admirasse a famosa pipa, que tinha, em
+relevo, na madeira do tampo, as complicadas armas dos Sandes. Eram
+quatro horas. O meu Pr&iacute;ncipe tinha o ar esgazeado e
+l&iacute;vido. Cravando nele os olhos inexor&aacute;veis, olhos em
+que eu mesmo sentia reluzir a ferocidade, declarei &laquo;que
+ir&iacute;amos agora ver a tulha.&raquo; Mas ent&atilde;o, com as
+m&atilde;os nos rins, ele murmurou, humildemente, num
+murm&uacute;rio de crian&ccedil;a:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--N&atilde;o se me dava de me sentar um poucochinho!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Tive ent&atilde;o piedade, abri as garras, deixei que ele se
+arrastasse, atr&aacute;s de mim, para o seu quarto, onde
+freneticamente descal&ccedil;ou as botas, se atirou para um fresco
+canap&eacute; forrado de ganga, murmurando num abatimento
+profundo:--&laquo;Bela propriedade!&raquo;<br>
+
+
+<br>
+
+
+Consenti generosamente que ele adormecesse,--e eu mesmo desci a
+verificar se a Gertrudes dispusera bem as escovas, as toalhas de
+renda, no quarto onde os convidados, em breve, ao chegar, lavariam
+as m&atilde;os, escovariam a poeira da estrada. E justamente, uma
+caleche rodava no p&aacute;tio, a velha caleche do D.
+Teot&oacute;nio, com a parelha ru&ccedil;a. Espreitando da janela
+descobri, com prazer, que chegava s&oacute;, de gravata branca, sob
+o guarda-p&oacute;, sem a horrend&iacute;ssima filha. Corri
+
+<span class="pagenum">[317]</span>alegremente ao quarto da tia
+Vic&ecirc;ncia, que, ajudada pela Catarina, abrochava &agrave;
+pressa as suas pulseiras ricas de top&aacute;zios.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Tia Vic&ecirc;ncia! chegou o D. Teot&oacute;nio! Felizmente vem
+sem a filha... N&atilde;o se demore, os outros n&atilde;o tardam. O
+Manuel que esteja bem penteado, de gravata bem tesa!... Vamos a ver
+como corre a festa!<br>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+
+<h2>XIII</h2>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+Ai de mim! a festa no meu anivers&aacute;rio n&atilde;o se passou
+com brilho, nem com alegria!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Quando o meu Pr&iacute;ncipe entrou na sala, com uma
+eleg&acirc;ncia, (onde eu senti as malas de Paris, abertas na
+v&eacute;spera)--uma rosa branca no jaquet&atilde;o preto, colete
+branco lavrado e trespassado, copiosa gravata de seda branca,
+tufando, e presa por uma p&eacute;rola negra,--j&aacute; todos os
+convidados estavam na sala,--o D. Teot&oacute;nio, o Ricardo
+Veloso, o Dr. Al&iacute;pio, o gordo Melo Rebelo, de Sandofim, os
+dois manos Albergarias, da quinta da Loja--; todos de p&eacute;,
+num pelot&atilde;o cerrado. Em torno do sof&aacute; onde a tia
+Vic&ecirc;ncia se instalara, um magotezinho de cadeiras reunira as
+senhoras,--a Beatriz Veloso, de cassa branca sobre <span class="pagenum">[320]</span>seda, que a tornava mais a&eacute;rea e
+magra, com a sua trunfa imensa de cabelo ri&ccedil;ado; as duas
+Roj&otilde;es, (com a tia Adelaide Roj&atilde;o) vermelhinhas como
+camoesas, ambas de branco; e a mulher do Dr. Al&iacute;pio, de
+preto, espl&ecirc;ndida como uma V&eacute;nus R&uacute;stica... E
+foi na sala, como se realmente entrasse um Pr&iacute;ncipe, desses
+pa&iacute;ses do Norte onde os Pr&iacute;ncipes s&atilde;o
+magn&iacute;ficos, muito distantes dos homens, e aterram as gentes.
+Um sil&ecirc;ncio, como se o tecto de carvalho descesse, nos
+esmagava: e todos os olhos se enristaram contra o meu
+desgra&ccedil;ado Jacinto, como numa ca&ccedil;ada hindu, quando
+
+&agrave; orla da floresta surge o Tigre Real. Debalde,--nas
+confusas, apressadas apresenta&ccedil;&otilde;es, com que eu o
+levava atrav&eacute;s da sala,--os seus apertos de m&atilde;o, os
+sorrisos, o vago murm&uacute;rio, &laquo;da sua honra, do seu
+prazer&raquo; foram repassados de simpatia, de simplicidade. Todos
+os cavalheiros permaneciam reservados, observando o
+Pr&iacute;ncipe, que subira &agrave; serra: e as senhoras mais se
+aconchegavam &agrave; sombra da tia Vic&ecirc;ncia, como ovelhas
+&agrave; volta do pastor, quando na altura assoma o lobo. Eu,
+j&aacute; inquieto, lancei o D. Teot&oacute;nio, o mais ornamental
+daqueles cavalheiros.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--O Sr. D. Teot&oacute;nio foi muito am&aacute;vel em vir, Jacinto.
+Raras vezes sai da sua linda casa da Abrujeira.<br>
+
+
+<br>
+
+
+<span class="pagenum">[321]</span>O digno D. Teot&oacute;nio
+sorriu, cofiando os espessos bigodes brancos, de velho
+brigadeiro:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--V. Ex.&ordf; chegou directamente de Viena?<br>
+
+
+<br>
+
+
+N&atilde;o! Jacinto viera directamente de Paris, com o amigo
+Z&eacute; Fernandes. D. Teot&oacute;nio insistiu:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Mas certamente visita muitas vezes Viena...<br>
+
+
+<br>
+
+
+Jacinto sorria surpreendido:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Viena, porqu&ecirc;?... N&atilde;o. H&aacute; mais de quinze anos
+que n&atilde;o vou a Viena.<br>
+
+
+<br>
+
+
+O fidalgo murmurou um lento <i>ah!</i> e ficou calado, de
+p&aacute;lpebras baixas, como revolvendo an&aacute;lises profundas,
+com as m&atilde;os cruzadas sob as abas da longa sobrecasaca
+azul.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Eu ent&atilde;o, vigilante, lancei o Dr. Al&iacute;pio:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--O nosso Doutor, meu caro Jacinto, &eacute; o mais poderoso
+influente de todo o distrito.<br>
+
+
+<br>
+
+
+O Doutor curvou a cabe&ccedil;a bem feita, com um belo cabelo
+preto, admiravelmente alisado e lustroso. Mas a tia Vic&ecirc;ncia,
+que se erguera do sof&aacute;, chamava o meu Pr&iacute;ncipe,
+porque o Manuel anunciara o jantar, mudamente, mostrando apenas,
+&agrave; porta da sala, a sua corpulenta
+pessoa,--inteiri&ccedil;ado e vermelho.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+&Agrave; mesa, onde os pudins, as travessas de doce de ovos, os
+antigos vinhos da Madeira e do Porto, nas suas pesadas garrafas de
+cristal lapidado, fundiam com felicidade os seus <span class="pagenum">[322]</span>tons ricos e quentes, Jacinto ficou entre a
+tia Vic&ecirc;ncia e uma das Roj&otilde;es, a Luizinha, sua
+afilhada, que, por costume velho, quando jantava em Gui&atilde;es,
+sempre se colocava &agrave; sombra da sua boa madrinha. E a sopa,
+que era de galinha com macarr&atilde;o, foi comida num t&atilde;o
+largo e pesado sil&ecirc;ncio que eu, na &acirc;nsia de o quebrar,
+exclamei, ao acaso, sem pensar que me achava em Gui&atilde;es
+depois de tanto tempo e em minha pr&oacute;pria casa:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Deliciosa, esta sopa!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Jacinto ecoou:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Divina!!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Mas como todos os convidados certamente estranharam este meu brado,
+e a excessiva admira&ccedil;&atilde;o de Jacinto, o sil&ecirc;ncio,
+carregado de cerim&oacute;nia, mais se carregou de embara&ccedil;o.
+Felizmente a tia Vic&ecirc;ncia, com aquele seu bom sorriso,
+observou que Jacinto parecia gostar da comida portuguesa... E eu,
+sempre no intuito de animar a conversa, nem deixei que o meu
+Pr&iacute;ncipe confirmasse o seu amor da cozinha vern&aacute;cula,
+e gritei:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Como gostar! Mas &eacute; que delira!... Pudera! Tanto tempo em
+Paris, privado dos pit&eacute;us lusitanos...<br>
+
+
+<br>
+
+
+E como, ditosamente, me lembrara o prato de arroz doce preparado na
+ocasi&atilde;o do natal&iacute;cio de Jacinto, pelo cozinheiro do
+202, <span class="pagenum">[323]</span>contei a hist&oacute;ria,
+profusamente, exagerando, afirmando que esse arroz doce continha
+<i>foie gras</i>, e que sobre a sua ornamentada pir&acirc;mide
+flutuava a bandeira tricolor, por cima do busto do conde de
+Chambord! Mas o arroz doce de Paris, assim estragado t&atilde;o
+longe da Serra, n&atilde;o interessara ningu&eacute;m. Puxou apenas
+alguns sorrisos de polida condescend&ecirc;ncia, quando eu,
+alternadamente, me voltava para um cavalheiro, para uma senhora,
+insistindo, exclamando:--Extraordin&aacute;rio, hein?<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+D. Teot&oacute;nio observou, misteriosamente, que o
+&laquo;cozinheiro sabia para quem cozinhava.&raquo; E a bela mulher
+do Dr. Al&iacute;pio ousou murmurar, corando:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Havia de ser bonito prato, e talvez n&atilde;o fosse mau!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Eu, sempre na &acirc;nsia de espiritualizar o banquete, de produzir
+conversa&ccedil;&atilde;o, ataquei com desabrida alegria a
+Sr.<sup>a</sup> D. Lu&iacute;sa, por ela assim defender a
+profana&ccedil;&atilde;o do nosso grande acepipe nacional! Mas,
+pobre de mim! t&atilde;o excessiva e ruidosamente interpelei a
+formosa senhora, que ela se enconchou, emudeceu, toda corada, e
+mais formosa assim. E outro sil&ecirc;ncio se abatia sobre a mesa,
+como uma n&eacute;voa, quando a tia Vic&ecirc;ncia, providencial,
+se desculpou para com Jacinto de n&atilde;o ter peixe! Mas
+qu&ecirc;! ali na Serra era imposs&iacute;vel, <span class="pagenum">[324]</span>ainda a peso de ouro, ter peixe, a n&atilde;o
+ser a pescada salgada, ou o bacalhau. O excelente Roj&atilde;o, com
+aquele seu modo, t&atilde;o suave que cada s&iacute;laba para
+correr mais docemente parecia lubrificada com &oacute;leos santos,
+lembrou que o Sr. D. Jacinto possu&iacute;a uma larga faixa do rio
+Douro com privil&eacute;gio para a pesca do s&aacute;vel. Jacinto
+n&atilde;o sabia, nem imaginava que houvesse s&aacute;veis... O Dr.
+Al&iacute;pio n&atilde;o se admirava por que essas pescas tinham
+sido vendidas ao Cunha brasileiro, h&aacute; vinte anos, na
+mocidade do Sr. D. Jacinto. E hoje, segundo o D. Teot&oacute;nio,
+n&atilde;o valiam dois mil r&eacute;is. Se j&aacute; n&atilde;o
+h&aacute; s&aacute;veis!... E a prop&oacute;sito das antigas pescas
+do Douro se ia formando, em torno da mesa, entre os homens mais
+vizinhos, lentas cavaqueirinhas rurais, que as senhoras
+aproveitavam para cochichar, no desabafo daquele sil&ecirc;ncio
+cerimonioso, que viera pesando cada vez mais desde a sopa
+at&eacute; os frangos guisados. Receoso de que essa orla de
+murm&uacute;rios lentos, sem brilho e sem alegria, se estabelecesse
+de novo, me abalancei (para animar), a interpelar Jacinto,
+recordando a famosa aventura do peixe da Dalm&aacute;cia encalhado
+no ascensor.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Isso foi uma das melhores hist&oacute;rias que nos sucederam em
+Paris! O Jacinto, por causa de um peixe muito raro, que lhe mandara
+<span class="pagenum">[325]</span>o Gr&atilde;o-Duque Casimiro,
+dava uma magn&iacute;fica ceia, a que o Gr&atilde;o-Duque... o
+Gr&atilde;o-Duque Casimiro, o irm&atilde;o do Imperador...<br>
+
+
+<br>
+
+
+Todos os olhos se desviaram para o meu Jacinto, que se servia de
+ervilhas:--e o Melo Rebelo quase se engasgou, num sorvo precipitado
+ao copo, para contemplar no meu amigo algum reflexo do
+Gr&atilde;o-Duque. E eu contei, com profus&atilde;o, o peixe
+encalhado, o Gr&atilde;o-Duque pescando, o anzol feito com um
+gancho da Princesa de Carman, o duque de Marizac, caindo quase no
+po&ccedil;o do elevador... Mas n&atilde;o se produziu um
+
+&uacute;nico riso, e a aten&ccedil;&atilde;o mesma era dada com
+esfor&ccedil;o, por cortesia. Debalde eu arremessava aqueles nomes
+magn&iacute;ficos de Pr&iacute;ncipes e princesas, misturados a
+coisas picarescas... Nenhum dos meus convidados compreendia o
+maquinismo do elevador, um prato encalhado num po&ccedil;o negro...
+Perante o gancho da princesa as Albergarias baixaram os olhos. E a
+minha deliciosa hist&oacute;ria morreu numa retic&ecirc;ncia, ainda
+mais regelada pela exclama&ccedil;&atilde;o inocente da tia
+Vic&ecirc;ncia:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Oh! filho, que coisas!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Mas, como Jacinto se enfronhara de repente numa larga conversa com
+a Luisinha Roj&atilde;o, que ria, toda luminosa e
+palradora,--todos, como libertados do peso cerimonioso <span class="pagenum">[326]</span>da sua presen&ccedil;a augusta, se
+lan&ccedil;aram nas conversinhas discretas, a que o champanhe,
+agora, depois do assado, dava mais viveza. Eram os soturnos
+murm&uacute;rios, em torno da mesa, que definitivamente se
+perpetuavam. Foi ent&atilde;o que desisti de animar o jantar.
+Mergulhei com a bela mulher do Doutor Al&iacute;pio na grande
+quest&atilde;o social desse tempo em Gui&atilde;es, o casamento da
+D. Am&eacute;lia Noronha com o feitor! E eu defendia a D.
+Am&eacute;lia, os direitos do amor, quando se alargou um
+sil&ecirc;ncio,--e era Jacinto, que se debru&ccedil;ava, de copo na
+m&atilde;o.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Velho amigo Z&eacute; Fernandes, &agrave; tua! Muitos e bons, e
+sempre em companhia de tua tia e minha senhora, a quem pe&ccedil;o
+para saudar.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Todos os copos, onde a espuma morria sobre um fundo de champanhe,
+se ergueram num largo rumor de amizade, e boa vizinhan&ccedil;a. Eu
+acenei ao Manuel, vivamente, para encher os copos; e logo,
+tamb&eacute;m de p&eacute;, atirando para tr&aacute;s a
+sobrecasaca:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Meus senhores, pe&ccedil;o uma grande sa&uacute;de para o meu
+velho amigo Jacinto, que pela primeira vez honra esta casa
+fraternal... Que digo eu? que pela primeira vez honra com a sua
+presen&ccedil;a a sua querida p&aacute;tria! E que por c&aacute;
+
+fique, pelas serras, muitos anos, todos bons. &Agrave; tua, meu
+velho!<br>
+
+
+<br>
+
+
+<span class="pagenum">[327]</span>Outro rumor correu pela mesa, mas
+cerimonioso e sereno. A nossa orat&oacute;ria, positivamente,
+n&atilde;o incendiara as imagina&ccedil;&otilde;es! A tia
+Vic&ecirc;ncia fez tilintar o seu copo, quase vazio, com o de
+Jacinto, que tocou no copo da sua vizinha, a Luisinha Roj&atilde;o,
+toda resplandecente, e mais vermelha que uma pe&oacute;nia. Depois
+foi um encadeamento de sa&uacute;des, com os copos quase vazios,
+entre todos os convidados, sem esquecer o tio Adri&atilde;o, e o
+Abade, ambos ausentes, ambos com fur&uacute;nculos. E a tia
+Vic&ecirc;ncia espalhava aquele olhar, que prepara o erguer, o
+arrastar de cadeiras,--quando D. Teot&oacute;nio, erguendo o seu
+copo de vinho do Porto, com a outra m&atilde;o apoiada &agrave;
+
+mesa, meio erguido, chamou Jacinto, e numa voz respeitosa, quase
+cava:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Esta &eacute; toda particular, e entre n&oacute;s... Brindo o
+ausente!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Esvaziou o copo, como em religi&atilde;o, pontificando. Jacinto
+bebeu assombrado, sem compreender. As cadeiras arrastavam,--eu dei
+o bra&ccedil;o &agrave; tia Albergaria.<br>
+
+
+<br>
+
+
+E s&oacute; compreendi, na sala, quando o Dr. Al&iacute;pio, com a
+sua ch&aacute;vena de caf&eacute; e o charuto fumegante, me disse,
+num daqueles seus olhares finos, que lhe valiam a alcunha de <i>Dr.
+Agudo</i>:--&laquo;Espero que ao menos, c&aacute; por
+Gui&atilde;es, n&atilde;o se erga de novo a forca!...&raquo;
+
+<span class="pagenum">[328]</span>E o mesmo fino olhar me indicava
+o D. Teot&oacute;nio, que arrastara Jacinto para entre as cortinas
+de uma janela, e discorria, com um ar de f&eacute; e de
+mist&eacute;rio. Era o miguelismo, por Deus! O bom D.
+Teot&oacute;nio considerava Jacinto como um heredit&aacute;rio,
+ferrenho, miguelista,--e na sua inesperada vinda ao seu solar de
+Tormes, entrevia uma miss&atilde;o pol&iacute;tica, o come&ccedil;o
+de uma propaganda en&eacute;rgica, e o primeiro passo para uma
+tentativa de Restaura&ccedil;&atilde;o. E na reserva daqueles
+cavalheiros, ante o meu Pr&iacute;ncipe, eu senti ent&atilde;o a
+suspeita liberal, o receio de uma influ&ecirc;ncia rica, nova, nas
+Elei&ccedil;&otilde;es pr&oacute;ximas, e a nascente
+irrita&ccedil;&atilde;o contra as velhas ideias, representadas
+naquele mo&ccedil;o, t&atilde;o rico, de civiliza&ccedil;&atilde;o
+t&atilde;o superior. Quase entornei o caf&eacute;, na alegre
+surpresa daquela sandice. E retive o Melo Rebelo, que repunha a
+ch&aacute;vena vazia na bandeja, fitei, com um pouco de riso, o
+
+<i>Dr. Agudo</i>.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Ent&atilde;o, francamente, os amigos imaginam que o Jacinto veio
+para Tormes trabalhar no miguelismo?<br>
+
+
+<br>
+
+
+Muito s&eacute;rio, Melo Rebelo chegou o seu grosso bigode &agrave;
+minha orelha:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--At&eacute; corre, como certo, que o Pr&iacute;ncipe D. Miguel
+est&aacute; com ele em Tormes!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+E como eu os considerava esgazeado, o Dr. Al&iacute;pio--t&atilde;o
+agudo!--confirmou:<br>
+
+
+<br>
+
+
+<span class="pagenum">[329]</span>--&Eacute; o que corre...
+Disfar&ccedil;ado em criado!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Em criado? Oh! santo Deus! Era o Baptista! Justamente, Ricardo
+Veloso veio, puxando do seu cigarrinho, para o acender no meu
+charuto. E o bom Rebelo logo invocou o seu testemunho.--Pois
+n&atilde;o corria, que o filho de D. Miguel estava em Tormes,
+escondido?...<br>
+
+
+<br>
+
+
+
+--Disfar&ccedil;ado em lacaio, confirmou logo o digno Rebelo.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Acendeu o cigarro, soprou o fumo, e erguendo muito as sobrancelhas
+meditativas:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Se assim &eacute;, l&aacute; me parece desplante... Que eu
+n&atilde;o desgostava de o ver. Dizem que &eacute; bonito
+mo&ccedil;o, bem apessoado. Mas enfim, meu tio Jo&atilde;o Vaz
+Rebelo foi partido &agrave;s postas, a machado, nas pris&otilde;es
+de Almeida... E se recome&ccedil;am essas quest&otilde;es, mau,
+mau! Ora o seu amigo...<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Emudeceu. Jacinto, que se libertara do velho D. Teot&oacute;nio, e
+ainda conservava um resto de riso, de assombro divertido, vinha
+para mim, desabafar:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Extraordin&aacute;rio! Vejo que, aqui, na serra, ainda se
+conservam, sem uma ruga, as velhas e boas ideias...<br>
+
+
+<br>
+
+
+Imediatamente, sem se conter, Melo Rebelo acudiu:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--&Eacute; conforme o que V. Ex.&ordf; chama <i>boas
+ideias</i>.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+<span class="pagenum">[330]</span>E eu agora, furioso com aquela
+disparatada inven&ccedil;&atilde;o, que cercava de hostilidade o
+meu pobre Jacinto, estragava aquela am&aacute;vel noite de anos,
+intervim, vivamente:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Tu jogas o voltarete, Jacinto? N&atilde;o jogas... Ent&atilde;o
+vamos arranjar duas mesas... O D. Teot&oacute;nio h&aacute;-de
+querer cartas.<br>
+
+
+<br>
+
+
+E arrastei Jacinto para as senhoras, que de novo se aninhavam
+&agrave; sombra da tia Vic&ecirc;ncia, estabelecida no seu canto do
+sof&aacute;. Todas se calavam, parecia encolherem-se ante a
+apari&ccedil;&atilde;o do meu Pr&iacute;ncipe, como pombas
+avistando o abutre. E deixei o temido homem afirmando &agrave;
+
+mulher do Dr. Al&iacute;pio (um pouco desgarrada do bando das aves
+t&iacute;midas) que lhe dera grande prazer aquela ocasi&atilde;o de
+conhecer as suas vizinhas de Tormes... Ela abrira nervosamente o
+leque, sorria, e nunca de certo Jacinto admirara na Cidade uma boca
+mais vermelha, dentinhos mais rutilantes. Mas depois de organizar a
+mesa do voltarete, tive de abancar, eu, para substituir o Manuel
+Albergaria, que era disp&eacute;ptico, se declarara
+&laquo;afrontado&raquo;, e desejava respirar um momento na varanda.
+Todos aqueles cavalheiros, de resto, se queixavam de calor. Mandei
+abrir as janelas que davam sobre as mimosas do p&aacute;tio. O
+Veloso, ao baralhar, parava, bufando, como oprimido:<br>
+
+
+<br>
+
+
+<span class="pagenum">[331]</span>--Est&aacute; abafado... Ainda
+temos trovoada!<br>
+
+
+<br>
+
+
+E o Dr. Al&iacute;pio, inquieto, porque tinha uma hora de estrada
+at&eacute; casa, e uma das &eacute;guas da caleche era escabriada,
+correu &agrave; janela, espreitar o c&eacute;u, que enegrecera,
+morno e pesado.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Com efeito, vai cair &aacute;gua.<br>
+
+
+<br>
+
+
+As hastes das mimosas ramalhavam, arrepiadas: e o ar que agitava as
+cortinas era intermitente, estonteado. De certo na sala, entre as
+senhoras, surgira a mesma inquieta&ccedil;&atilde;o, porque a tia
+Albergaria apareceu, avisando o mano Jorge.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Era prudente pensar em partir, a noite amea&ccedil;ava... E o Dr.
+Al&iacute;pio, puxando o rel&oacute;gio, prop&ocirc;s que,
+levantada aquela remissa, se preparasse a marcha. Justamente o
+Albergaria recolhia da varanda desafrontado, aliviado com um
+c&aacute;lice de genebra: e retomou as suas cartas, anunciando
+tamb&eacute;m que vinha a&iacute; uma trovoada valente.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Voltando &agrave; sala, encontrei Jacinto muito alegre entre as
+senhoras, que se familiarizaram, escutando cheias de riso e gosto,
+a hist&oacute;ria da sua chegada a Tormes, sem malas, sem criados,
+t&atilde;o desprovido que dormira com a camisa da caseira! Mas a
+minha pobre noite de anos findava, desorganizada. A tia Albergaria
+rondava de janela em janela, assustada <span class="pagenum">[332]</span>com a volta &agrave; Roqueirinha, espreitando
+a treva abafada. Cal&ccedil;ando lentamente as luvas, a bela mulher
+do Dr. Al&iacute;pio perguntava se ainda havia a remissa. E a tia
+Vic&ecirc;ncia apressara o ch&aacute;, que o Manuel seguido pela
+Gertrudes, com a bandeja de bolos, j&aacute; come&ccedil;ava a
+servir &agrave;s senhoras. Jacinto, de p&eacute;, oferecendo
+ch&aacute;venas, gracejava:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Ent&atilde;o tanta pressa, tanto medo, por causa de uma
+trovoadinha?<br>
+
+
+<br>
+
+
+Elas replicavam, familiarizadas, numa crescente simpatia pelo meu
+Pr&iacute;ncipe:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Ora o senhor fala bem, porque fica debaixo de telhas...<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Sempre o quer&iacute;amos ver... se fosse agora para Tormes, com
+esta noite cerrada!<br>
+
+
+<br>
+
+
+O voltarete findara nas duas mesas: e aqueles cavalheiros, das
+janelas, gritavam ordens para o p&aacute;tio negro, onde as
+carruagens esperavam atreladas:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Desce a cabe&ccedil;a da vit&oacute;ria, &oacute; Diogo!<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Acende o lampi&atilde;o, Pedro! Sempre ajuda a luz das
+lanternas.<br>
+
+
+<br>
+
+
+A criada Quit&eacute;ria chegava &agrave; porta com os
+bra&ccedil;os carregados de xales, de mantilhas de renda. Como uma
+das Albergarias ia no assento de diante na vit&oacute;ria, eu corri
+a buscar o meu casaco de borracha, para ela se abrigar se a chuva
+viesse. E s&oacute; o D. Teot&oacute;nio, que <span class="pagenum">[333]</span>tinha at&eacute; casa apenas meia
+l&eacute;gua de estrada boa, se n&atilde;o apressava, filado outra
+vez no meu Pr&iacute;ncipe, que levava para os cantos mais
+solit&aacute;rios, em conversas profundas, que o seu dedo solene,
+espetado, sublinhava gravemente. Mas a tia Albergaria gritou que
+j&aacute; chovia;--e ent&atilde;o foi uma pressa das senhoras, que
+beijocavam vivamente a tia Vic&ecirc;ncia, enquanto os homens, na
+antec&acirc;mara, enfiavam a&ccedil;odadamente os
+palet&oacute;s.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Jacinto e eu descemos ao p&aacute;tio para acompanhar aquela
+debandada,--e uma a uma, a traquitana do Dr. Al&iacute;pio, a
+vit&oacute;ria das Albergarias, a velha e imensa caleche dos
+Velosos, rolaram sob a noite, entre os nossos desejos de boa
+jornada. Por fim D. Teot&oacute;nio cal&ccedil;ou as luvas pretas e
+entrou para a sua caleche, dizendo a Jacinto:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Pois, primo e amigo, Deus permita que, do nosso encontro, e do
+mais que se passar, algum bem resulte a esta terra!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Subindo a escada, o meu Pr&iacute;ncipe desabafou:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Este Teot&oacute;nio &eacute; extraordin&aacute;rio! Sabes o que
+descobri por fim?... Que me toma por um miguelista, e imagina que
+eu vim para Tormes preparar a restaura&ccedil;&atilde;o de D.
+Miguel?!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--E tu?<br>
+
+
+<br>
+
+
+<span class="pagenum">[334]</span>--Eu fiquei t&atilde;o espantado,
+que nem o desiludi!<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Pois sabe mais, meu pobre amigo. Todos pensam o mesmo,
+est&atilde;o desconfiados, e receiam ver de novo erguidas as forcas
+em Gui&atilde;es! E corre que tu tens o Pr&iacute;ncipe D. Miguel
+escondido em Tormes, disfar&ccedil;ado em criado. E sabes quem ele
+&eacute;? o Baptista!<br>
+
+
+<br>
+
+
+
+--Isso &eacute; sublime! murmurou Jacinto, com uns grandes olhos
+abertos.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Na sala, a tia Vic&ecirc;ncia nos esperava desconsolada, entre
+todas as luzes, que ardiam ainda no sil&ecirc;ncio e paz do
+ser&atilde;o debandado:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Ora uma coisa assim! Nem quererem ficar para tomar um copinho de
+geleia, um c&aacute;lice de vinho do Porto!<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Esteve tudo muito desanimado, tia Vic&ecirc;ncia! exclamei
+desafogando o meu t&eacute;dio. Todo esse mulherio emudeceu; os
+amigos com um ar desconfiado...<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Jacinto protestou, muito divertido, muito sincero:<br>
+
+
+<br>
+
+
+N&atilde;o! pelo contr&aacute;rio. Gostei imenso. Excelente gente!
+E t&atilde;o simples... Todas estas raparigas me pareceram
+&oacute;ptimas. E t&atilde;o frescas, t&atilde;o alegres! Vou ter
+aqui bons amigos, quando verificarem que n&atilde;o sou
+miguelista.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Ent&atilde;o cont&aacute;mos &agrave; tia Vic&ecirc;ncia a
+prodigiosa <span class="pagenum">[335]</span>hist&oacute;ria de D.
+Miguel escondido em Tormes... Ela ria! Que coisa! E mau
+seria...<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Mas o Sr. Jacinto, n&atilde;o &eacute;?<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Eu, minha senhora, sou socialista...<br>
+
+
+<br>
+
+
+Acudi, explicando &agrave; tia Vic&ecirc;ncia, que socialista era
+ser pelos pobres. A doce senhora considerava esse partido o melhor,
+o verdadeiro:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--O meu Afonso, que Deus haja, era liberal... Meu pai,
+tamb&eacute;m e at&eacute; amigo do Duque da Terceira...<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Mas um rude trov&atilde;o rolou, atroou a noite negra:--e uma
+b&aacute;tega de &aacute;gua cantou nos vidros, e nas pedras da
+varanda.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Santa B&aacute;rbara! gritou a tia Vic&ecirc;ncia! Ai aquela
+pobre gente!... At&eacute; estou com cuidado... As Roj&otilde;es,
+que v&atilde;o na vit&oacute;ria!<br>
+
+
+<br>
+
+
+
+E correu para o quarto, na sua pressa de acender as duas velas
+costumadas no orat&oacute;rio, ainda antes de ir guardar as pratas,
+e rezar o ter&ccedil;o, com a Gertrudes.<br>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+<h2>XIV</h2>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+Ao outro dia, depois de almo&ccedil;o, eu e Jacinto mont&aacute;mos
+a cavalo para um grande passeio at&eacute; &agrave; Flor da Malva,
+a saber de meu tio Adri&atilde;o, e do seu fur&uacute;nculo. E
+sentia uma curiosidade interessada, e at&eacute; inquieta, de
+testemunhar a impress&atilde;o que daria ao meu Pr&iacute;ncipe
+aquela nossa prima Joaninha, que era o orgulho da nossa casa.
+J&aacute; nessa manh&atilde;, andando todos no jardim a escolher
+uma bela rosa-ch&aacute; para a botoeira do meu Pr&iacute;ncipe, a
+tia Vic&ecirc;ncia celebrara com tanto fervor a beleza, a
+gra&ccedil;a, a caridade, e a do&ccedil;ura da sua sobrinha
+toda-amada, que eu protestei:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Oh! tia Vic&ecirc;ncia, olhe que esses elogios todos competem
+apenas &agrave; Virgem Maria! A tia Vic&ecirc;ncia est&aacute; a
+cair em pecado de idolatria! O Jacinto depois vai encontrar uma
+criatura apenas humana, e tem um desapontamento tremendo!<br>
+
+
+<br>
+
+
+E agora, trotando pela f&aacute;cil estrada de Sandofim,
+<span class="pagenum">[338]</span>lembrava-me aquela manh&atilde;,
+no 202, em que Jacinto encontrara o retrato dela no meu quarto, e
+lhe chamara uma <i>lavradeirona</i>. Com efeito, era grande e forte
+a Joaninha. Mas a fotografia datava do seu tempo de vi&ccedil;o
+r&uacute;stico, quando ela era apenas uma bela forte e s&atilde;
+
+planta da serra. Agora entrava nos vinte e cinco, e j&aacute;
+pensava, e sentia,--e a alma que nela se formara, afinara,
+amaciara, e espiritualizava o seu esplendor rubicundo.<br>
+
+
+<br>
+
+
+A manh&atilde;, com o c&eacute;u todo purificado pela trovoada da
+v&eacute;spera, e as terras reverdecidas e lavadas pelos chuviscos
+ligeiros, oferecia uma do&ccedil;ura luminosa, fina, fresca, que
+tornava doce, como diz o velho Eur&iacute;pedes ou o velho
+S&oacute;focles, mover o corpo, e deixar a alma pregui&ccedil;ar,
+sem pressa nem cuidados. A estrada n&atilde;o tinha sombra, mas o
+sol batia muito de leve, e ro&ccedil;ava-nos com uma car&iacute;cia
+quase alada. O vale parecia a Jacinto, que nunca ali passara, uma
+pintura da Escola Francesa do s&eacute;culo XVIII, t&atilde;o
+graciosamente nele ondulavam as terras verdes, e com tanta paz e
+frescura corria o risonho Serp&atilde;o, e t&atilde;o
+af&aacute;veis e prometedores de fartura e contentamento alvejavam
+os casais nas verduras tenras! Os nossos cavalos caminhavam num
+passo pensativo, gozando tamb&eacute;m a paz da manh&atilde;
+
+ador&aacute;vel. E n&atilde;o sei, nunca soube, que plantazinhas
+<span class="pagenum">[339]</span>silvestres e escondidas
+espalhavam um delicado aroma, que eu tantas vezes sentira, naquele
+caminho, ao come&ccedil;ar o Outono.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Que delicioso dia! murmurou Jacinto. Este caminho para a Flor da
+Malva &eacute; o caminho do c&eacute;u... Oh Z&eacute; Fernandes,
+de que &eacute; este cheirinho t&atilde;o doce, t&atilde;o bom?<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Eu sorri, com certo pensamento:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--N&atilde;o sei... &Eacute; talvez j&aacute; o cheiro do
+c&eacute;u!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Depois, parando o cavalo, apontei com o chicote para o vale:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Olha, acol&aacute;, onde est&aacute; aquela fila de olmos, e
+h&aacute; o riacho, j&aacute; s&atilde;o terras do tio
+Adri&atilde;o. Tem ali um pomar, que d&aacute; os p&ecirc;ssegos
+mais deliciosos de Portugal... Hei-de pedir &agrave; prima Joaninha
+que te mande um cesto deles. E o doce que ela faz com esses
+p&ecirc;ssegos, menino, &eacute; alguma coisa de celeste.
+Tamb&eacute;m lhe hei-de pedir que te mande o doce.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Ele ria:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Ser&aacute; explorar de mais a prima Joaninha. E eu
+(porqu&ecirc;?) recordei e atirei ao meu Pr&iacute;ncipe estes dois
+versos de uma balada cavalheiresca, composta em Coimbra pelo meu
+pobre amigo Proc&oacute;pio:<br>
+
+
+<br>
+
+
+<div class="break">--Manda-lhe um servo querido, Bem hajas dona
+formosa! E que lhe entregue um anel E com um anel uma rosa.</div>
+
+
+<br>
+
+
+<span class="pagenum">[340]</span>Jacinto riu alegremente:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Z&eacute; Fernandes, seria excessivo, s&oacute; por causa de meia
+d&uacute;zia de p&ecirc;ssegos, e de um boi&atilde;o de doce.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Assim r&iacute;amos, quando apareceu, &agrave; volta da estrada, o
+longo muro da quinta dos Velosos, e depois a capelinha de S.
+Jos&eacute; de Sandofim. E imediatamente piquei para o largo, para
+a taverna do Torto, por causa daquele vinhinho branco, que sempre,
+quando por ali a levo, a minha alma me pede. O meu Pr&iacute;ncipe
+reprovou, indignado:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Oh! Z&eacute; Fernandes, pois tu, a esta hora, depois de
+almo&ccedil;o, vais beber vinho branco?<br>
+
+
+<br>
+
+
+--&Eacute; um costumezinho antigo... Aqui &agrave; taverninha do
+Torto... um decilitrozinho... A almazinha assim mo pede.<br>
+
+
+<br>
+
+
+E par&aacute;mos; eu gritei pelo Manuel, que apareceu, rebolando a
+sua grossa pan&ccedil;a, sobre as pernas tortas, com a infusa
+verde, e um copo.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Dois copos, Torto amigo. Que aqui este cavalheiro tamb&eacute;m
+aprecia.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Depois de um p&aacute;lido protesto, o meu Pr&iacute;ncipe
+tamb&eacute;m quis, mirou o l&iacute;mpido e dourado vinho ao sol,
+provou, e esvaziou o copo, com del&iacute;cia, e um estalinho de
+alto apre&ccedil;o.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Delicioso vinho!... Hei-de querer deste vinho em Tormes...
+&Eacute; perfeito.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Hein? Fresquinho, leve, arom&aacute;tico, alegrador, <span class="pagenum">[341]</span>todo alma!... Encha l&aacute; outra vez os
+copos, amigo Torto. Este cavalheiro aqui &eacute; o Sr. D. Jacinto,
+o fidalgo de Tormes.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Ent&atilde;o, de tr&aacute;s da ombreira da taverna, uma grande voz
+bradou, cavamente, solenemente:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Bendito seja o pai dos Pobres!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+E um estranho velho, de longos cabelos brancos, barbas brancas, que
+lhe comiam a face cor de tijolo, assomou no v&atilde;o da porta,
+apoiado a um bord&atilde;o, com uma caixa de lata a tiracolo, e
+cravou em Jacinto dois olhinhos de um brilho negro, que faiscavam.
+Era o tio Jo&atilde;o Torrado, o profeta da Serra... Logo lhe
+estendi a m&atilde;o, que ele apertou, sem despegar de Jacinto os
+olhos, que se dilatavam mais negros. Mandei vir outro copo,
+apresentei Jacinto, que corara, embara&ccedil;ado.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Pois aqui o tem, o senhor de Tormes, que fez por a&iacute; todo
+esse bem &agrave; pobreza.<br>
+
+
+<br>
+
+
+O velho atirou para ele bruscamente o bra&ccedil;o, que sa&iacute;a
+cabeludo e quase negro, de uma manga muito curta.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--A m&atilde;o!<br>
+
+
+<br>
+
+
+E quando Jacinto lha deu, depois de arrancar vivamente a luva,
+Jo&atilde;o Torrado longamente lha reteve com um sacudir lento e
+pensativo, murmurando:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--M&atilde;o real, m&atilde;o de dar, m&atilde;o que vem de cima,
+m&atilde;o j&aacute; rara!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+<span class="pagenum">[342]</span>Depois tomou o copo, que lhe
+oferecia o Torto, bebeu com imensa lentid&atilde;o, limpou as
+barbas, deu um jeito &agrave; correia que lhe prendia a caixa de
+lata, e batendo com a ponta do cajado no ch&atilde;o:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Pois louvado seja nosso Senhor Jesus Cristo, que por aqui me
+trouxe, que n&atilde;o o meu dia, e vi um homem!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Eu ent&atilde;o debrucei-me para ele, mais em
+confid&ecirc;ncia:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Mas, &oacute; tio Jo&atilde;o, ou&ccedil;a c&aacute;! Sempre
+&eacute; certo voc&ecirc; dizer por a&iacute;, pelos s&iacute;tios,
+que El-Rei D. Sebasti&atilde;o voltara?<br>
+
+
+<br>
+
+
+O pitoresco velho apoiou as duas m&atilde;os sobre o cajado, o
+queixo de espalhada barba sobre as m&atilde;os, e murmurava, sem
+nos olhar, como seguindo a percuss&atilde;o dos seus
+pensamentos:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Talvez voltasse, talvez n&atilde;o voltasse... N&atilde;o se sabe
+quem vai, nem quem vem. A gente v&ecirc; os corpos, mas n&atilde;o
+v&ecirc; as almas que est&atilde;o dentro. H&aacute; corpos de
+agora com almas de outrora. Corpo &eacute; vestido, alma &eacute;
+pessoa... Na feira da Roqueirinha quem sabe com quantos reis
+antigos se topa, quando se anda aos encontr&otilde;es entre os
+vaqueiros... Em ruim corpo se esconde bom senhor!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+E como ele findara num murm&uacute;rio, eu, atirando um olhar a
+Jacinto, e para gozarmos <span class="pagenum">[343]</span>aqueles
+estranhos, pitorescos modos de vidente, insisti:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Mas, &oacute; tio Jo&atilde;o, voc&ecirc; realmente, em sua
+consci&ecirc;ncia, pensa que El-Rei D. Sebasti&atilde;o n&atilde;o
+morreu na batalha?<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+O velho ergueu para mim a face, que se enrugara numa
+desconfian&ccedil;a:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Essas coisas s&atilde;o muito antigas. E n&atilde;o calham bem
+aqui &agrave; porta do Torto. O vinho era bom, e V. S.&ordf; tem
+pressa, meu menino! A flor da Flor da Malva l&aacute; tem o
+paizinho doente... Mas o mal j&aacute; vai pela serra abaixo com a
+incha&ccedil;&atilde;o &agrave;s costas. D&aacute; gosto ver quem
+d&aacute; gosto aos tristes. Por cima de Tormes h&aacute; uma
+estrela clara. E &eacute; trotar, trotar, que o dia est&aacute;
+
+lindo!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Com a magra m&atilde;o lan&ccedil;ou um gesto para que
+segu&iacute;ssemos. E j&aacute; pass&aacute;vamos o cruzeiro quando
+o seu brado ardente, de novo reboou, com solenidade cava:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Bendito seja o Pai dos Pobres.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Direito, no meio da estrada, erguia o cajado como dirigindo as
+aclama&ccedil;&otilde;es de um povo. E Jacinto pasmava de que ainda
+houvesse no reino um Sebastianista.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Todos o somos ainda em Portugal, Jacinto! Na serra ou na cidade
+cada um espera o seu D. Sebasti&atilde;o. At&eacute; a lotaria da
+Miseric&oacute;rdia &eacute; uma forma do Sebastianismo.
+<span class="pagenum">[344]</span>Eu todas as manh&atilde;s, mesmo
+sem ser de nevoeiro, espreito, a ver se chega o meu. Ou antes a
+minha, por que eu espero uma D. Sebastiana... E tu, felizardo?<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Eu? Uma D. Sebastiana? Estou muito velho, Z&eacute; Fernandes...
+Sou o &uacute;ltimo Jacinto; Jacinto ponto final... Que casa
+
+&eacute; aquela com os dois torre&otilde;es?<br>
+
+
+<br>
+
+
+--A Flor da Malva.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Jacinto tirou o rel&oacute;gio:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--S&atilde;o tr&ecirc;s horas. Gast&aacute;mos hora e meia... Mas
+foi um belo passeio, e instrutivo. &Eacute; lindo este
+s&iacute;tio.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Sobre um outeirinho, afastada da estrada por arvoredo, que um muro
+cerrava, e dominando, a Flor da Malva voltava para Oriente e para o
+Sol a sua longa fachada com os dois torre&otilde;es quadrados, onde
+as janelas, de varanda, eram emolduradas em azulejos. O grande
+port&atilde;o de ferro, ladeado por dois bancos de pedra, ficava ao
+fundo do terreirinho, onde um imenso castanheiro derramava verdura
+e sombra. Sentado sobre as fortes ra&iacute;zes descarnadas da
+grande &aacute;rvore, um pequeno esperava segurando um burro pela
+arreata.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Est&aacute; por a&iacute; o Manuel da Porta?<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Ainda agora subiu pela alameda.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Bem: empurra l&aacute; o port&atilde;o.<br>
+
+
+<br>
+
+
+E subimos, por uma curta avenida de velhas <span class="pagenum">[345]</span>&aacute;rvores, at&eacute; outro terreiro,
+com um alpendre, uma casa de mo&ccedil;os, toda coberta de heras, e
+uma casota de c&atilde;o, de onde saltou, com um rumor de corrente
+arrastada, um molosso, o Trit&atilde;o, que eu logo sosseguei
+fazendo-lhe reconhecer o seu velho amigo Z&eacute; Fernandes. E o
+Manuel da Porta correu da fonte, onde enchia um grande balde, para
+nos segurar os cavalos.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Como est&aacute; o tio Adri&atilde;o?<br>
+
+
+<br>
+
+
+Surdo, o excelente Manuel sorriu, deleitado:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--E ent&atilde;o vossa excel&ecirc;ncia, bem? A Sr.<sup>a</sup> D.
+Joaninha ainda agora andava no laranjal com o pequeno da
+Josefa.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Seguimos por ruazinhas bem areadas, orladas de alfazema e buxo
+alto, enquanto eu contava ao meu Pr&iacute;ncipe que aquele
+pequenito da Josefa era um afilhadinho da prima Joana, e agora o
+seu encanto e o seu cuidado todo.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Esta minha santa prima, apesar de solteira, tem a&iacute; pela
+freguesia uma verdadeira filharada. E n&atilde;o &eacute; s&oacute;
+dar-lhes roupas e presentes, e ajudar as m&atilde;es. Mas
+at&eacute; os lava, e os penteia, e lhes trata as tosses. Nunca a
+encontro sem alguma criancita ao colo... Agora anda na
+paix&atilde;o deste Josezinho.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Mas quando cheg&aacute;mos ao laranjal, &agrave; beira <span class="pagenum">[346]</span>da larga rua da quinta que levava ao tanque,
+debalde procurei, e me embrenhei, e at&eacute; gritei:--Eh, prima
+Joaninha!...<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Talvez esteja l&aacute; para baixo, para o tanque...<br>
+
+
+<br>
+
+
+Descemos a rua, entre &aacute;rvores, que a cobriam com as densas
+ramas encruzadas. Uma fresca, l&iacute;mpida &aacute;gua de rega
+corria e luzia num caneiro de pedra. Entre os troncos, as roseiras
+bravas ainda tinham uma frescura de Ver&atilde;o. E o pequeno
+campo, que se avistava para al&eacute;m, rebrilhava com
+do&ccedil;ura, todo amarelo e branco, dos malmequeres e
+bot&otilde;es de ouro.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+O tanque, redondo, fora esvaziado para se lavar, e agora de novo o
+repuxo o ia enchendo de uma &aacute;gua muito clara, ainda baixa,
+onde os peixes vermelhos se agitavam na alegria de recuperarem o
+seu pequeno oceano. Sobre um dos bancos de pedra que circundavam o
+tanque pousava um cesto cheio de d&aacute;lias cortadas. E um
+mo&ccedil;o, que sobre uma escada podava as cam&eacute;lias, vira a
+Sr.<sup>a</sup> D. Joana seguir para o lado da parreira.<br>
+
+
+<br>
+
+
+March&aacute;mos para a parreira, ainda toda carregada de uva
+preta. Duas mulheres, longe, ensaboavam num lavadouro, na sombra de
+grandes nogueiras. Gritei:--Eh l&aacute;? Voc&ecirc;s viram por
+a&iacute; a Sr.<sup>a</sup> D. Joana? Uma das mo&ccedil;as
+
+<span class="pagenum">[347]</span>esgani&ccedil;ou a voz, que se
+perdeu no vasto ar luminoso e doce.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Bem: vamos a casa! N&atilde;o podemos farejar assim, toda a
+tarde.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--&Eacute; uma bela quinta, murmurava o meu Pr&iacute;ncipe
+encantado.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Magn&iacute;fica! E bem tratada... O tio Adri&atilde;o tem um
+feitor excelente... N&atilde;o &eacute; o teu Melchior. Observa,
+aprende, lavrador! Olha aquele cebolinho!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Pass&aacute;mos pela horta, uma horta ajardinada, como a sonhara o
+meu Pr&iacute;ncipe, com os seus talh&otilde;es debruados de
+alfazema, e madressilva enroscada nos pilares de pedra, que faziam
+ruazinhas frescas toldadas de parra densa. E demos volta &agrave;
+capela, onde crescia aos dois lados da porta uma
+roseira-ch&aacute;, com uma rosa &uacute;nica, muito aberta, e uma
+moita de baunilha, onde Jacinto apanhou um raminho para cheirar.
+Depois entr&aacute;mos no terra&ccedil;o em frente da casa, com a
+sua balaustrada de pedra, toda enrodilhada de jasmineiros amarelos.
+A porta envidra&ccedil;ada estava aberta: e subimos pela escadaria
+de pedra, no imenso sil&ecirc;ncio em que toda a Flor da Malva
+repousava, at&eacute; &agrave; antec&acirc;mara, de altos tectos
+apainelados, com longos bancos de pau, onde desmaiavam na sua velha
+pintura as complicadas armas dos Cerqueiras. Empurrei a porta
+
+<span class="pagenum">[340]</span>de uma outra sala, que tinha as
+janelas da varanda abertas, cada uma com a gaiola de um
+can&aacute;rio.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--&Eacute; curioso!--exclamou Jacinto. Parece o meu
+Pres&eacute;pio... E as minhas cadeiras.<br>
+
+
+<br>
+
+
+E com efeito. Sobre uma c&oacute;moda antiga, com bronzes antigos,
+pousava um pres&eacute;pio semelhante ao da livraria de Jacinto. E
+as cadeiras de couro lavrado tinham, como as que ele descobrira no
+s&oacute;t&atilde;o, umas armas sob um chap&eacute;u de
+Cardeal.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Oh senhores! exclamei. N&atilde;o haver&aacute; um criado?<br>
+
+
+<br>
+
+
+Bati as m&atilde;os, fortemente. E o mesmo doce sil&ecirc;ncio
+permaneceu, muito largo, todo luminoso e arejado pelo macio ar da
+quinta, apenas cortado pelo saltitar dos can&aacute;rios nos
+poleiros das gaiolas.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--&Eacute; o Pal&aacute;cio da Bela Adormecida no bosque! murmurou
+Jacinto, quase indignado. D&aacute; um berro!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--N&atilde;o, caramba! Vou l&aacute; dentro!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Mas, &agrave; porta, que de repente se abriu, apareceu minha prima
+Joaninha, corada do passeio e do vivo ar, com um vestido claro um
+pouco aberto no pesco&ccedil;o, que fundia mais docemente, numa
+larga claridade, o esplendor branco da sua pele, e o louro ondeado
+dos seus belos cabelos,--lindamente risonha, na <span class="pagenum">[349]</span>surpresa que alargava os seus largos,
+luminosos olhos negros, e trazendo ao colo uma criancinha, gorda e
+cor-de-rosa, apenas coberta com uma camisinha, de grandes
+la&ccedil;os azuis.<br>
+
+
+<br>
+
+
+E foi assim que Jacinto, nessa tarde de Setembro, na Flor da Malva,
+viu aquela com quem casou em Maio, na capelinha de azulejos, quando
+o grande p&eacute; de roseira se cobrira todo de rosas.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+<h2>XV</h2>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+E agora, entre roseiras que rebentam, e vinhas que se vindimam,
+j&aacute; cinco anos passaram sobre Tormes e a Serra. O meu
+Pr&iacute;ncipe j&aacute; n&atilde;o &eacute; o &uacute;ltimo
+Jacinto, Jacinto ponto final--porque naquele solar que
+deca&iacute;ra, correm agora, com soberba vida, uma gorda e
+vermelha Teresinha, minha afilhada, e um Jacintinho, senhor muito
+da minha amizade. E, pai de fam&iacute;lia, principiara a fazer-se
+mon&oacute;tono, pela perfei&ccedil;&atilde;o da beleza moral,
+aquele homem t&atilde;o pitoresco pela inquieta&ccedil;&atilde;o
+filos&oacute;fica, e pelos variados tormentos da fantasia
+insaciada. Quando ele agora, bom sabedor das coisas da lavoura,
+percorria comigo a quinta, em s&oacute;lidas palestras
+agr&iacute;colas, prudentes e sem quimeras--eu quase lamentava esse
+outro Jacinto que colhia uma teoria em cada ramo de &aacute;rvore,
+e riscando o ar com a bengala, planeava queijeiras de cristal e
+
+<span class="pagenum">[352]</span>porcelana, para fabricar
+queijinhos que custariam duzentos mil r&eacute;is cada um!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Tamb&eacute;m a paternidade lhe despertara a responsabilidade.
+Jacinto possu&iacute;a agora um caderno de contas, ainda pequeno,
+rabiscado a l&aacute;pis, com falhas, e papeluchos soltos
+entremeados, mas onde as suas despesas, as suas rendas se
+alinhavam, como duas hostes disciplinadas. Visitara j&aacute; as
+suas propriedades de Montemor, da Beira; e concertava, mobilava as
+velhas casas dessas propriedades para que os seus filhos, mais
+tarde, crescidos, encontrassem &laquo;ninhos feitos&raquo;. Mas
+onde eu reconheci que definitivamente um perfeito e ditoso
+equil&iacute;brio se estabelecera na alma do meu Pr&iacute;ncipe,
+foi quando ele, j&aacute; sabido daquele primeiro e ardente
+fanatismo da Simplicidade--entreabriu a porta de Tormes &agrave;
+
+Civiliza&ccedil;&atilde;o. Dois meses antes de nascer a Teresinha,
+uma tarde, entrou pela avenida de pl&aacute;tanos uma chiante e
+longa fila de carros, requisitados por toda a freguesia, e
+acuculados de caixotes. Eram os famosos caixotes, por tanto tempo
+encalhados em Alba de Tormes, e que chegavam, para despejar a
+Cidade sobre a Serra. Eu pensei:--Mau! o meu pobre Jacinto teve uma
+reca&iacute;da! Mas os confortos mais complicados, que continha
+aquela caixotaria temerosa, foram, com surpresa minha, desviados
+<span class="pagenum">[353]</span>para os s&oacute;t&atilde;os
+imensos, para o p&oacute; da inutilidade: e o velho solar apenas se
+regalou com alguns tapetes sobre os seus soalhos, cortinas pelas
+janelas desabrigadas, e fundas poltronas, fundos sof&aacute;s, para
+que os repousos, por que ele suspirara, fossem mais lentos e
+suaves. Atribu&iacute; esta modera&ccedil;&atilde;o a minha prima
+Joaninha, que amava Tormes na sua nudez rude. Ela jurou que assim o
+ordenara o seu Jacinto. Mas, decorridas semanas, tremi. Aparecera,
+vindo de Lisboa, um contramestre, com oper&aacute;rios, e mais
+caixotes, para instalar um telefone!<br>
+
+
+<br>
+
+
+
+--Um telefone, em Tormes, Jacinto?<br>
+
+
+<br>
+
+
+O meu Pr&iacute;ncipe explicou, com humildade:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Para casa de meu sogro!... Bem v&ecirc;s.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Era razo&aacute;vel e carinhoso. O telefone por&eacute;m,
+subtilmente, mudamente, estendeu outro longo fio, para Valverde. E
+Jacinto, alargando os bra&ccedil;os, quase suplicante:<br>
+
+
+<br>
+
+
+
+--Para casa do m&eacute;dico. Compreendes...<br>
+
+
+<br>
+
+
+Era prudente. Mas, certa manh&atilde;, em Gui&atilde;es, acordei
+aos berros da tia Vic&ecirc;ncia! Um homem chegara, misterioso, com
+outros homens, trazendo arame, para instalar na nossa casa o novo
+invento. Sosseguei a tia Vic&ecirc;ncia, jurando que essa
+m&aacute;quina nem fazia barulho, nem trazia doen&ccedil;as, nem
+atra&iacute;a as trovoadas. Mas <span class="pagenum">[354]</span>corri a Tormes. Jacinto sorriu, encolhendo os
+ombros:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Que queres? Em Gui&atilde;es est&aacute; o botic&aacute;rio,
+est&aacute; o carniceiro... E, depois, est&aacute;s tu!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Era fraternal. Todavia pensei: Estamos perdidos! Dentro de um
+m&ecirc;s temos a pobre Joana a apertar o vestido por meio de uma
+m&aacute;quina! Pois n&atilde;o! o Progresso, que, &agrave;
+intima&ccedil;&atilde;o de Jacinto, subira a Tormes a estabelecer
+aquela sua maravilha, pensando talvez que conquistara mais um reino
+para desfear, desceu, silenciosamente, desiludido, e n&atilde;o
+avist&aacute;mos mais sobre a serra a sua hirta sombra cor de ferro
+e de fuligem. Ent&atilde;o compreendi que, verdadeiramente, na alma
+de Jacinto se estabelecera o equil&iacute;brio da vida, e com ele a
+Gr&atilde;-Ventura, de que tanto tempo ele fora o Pr&iacute;ncipe
+sem Principado. E uma tarde, no pomar, encontrando o nosso velho
+Grilo, agora reconciliado com a serra, desde que a serra lhe dera
+meninos para trazer &agrave;s cavaleiras, observei ao digno preto,
+que lia o seu <i>Figaro</i>, armado de imensos &oacute;culos
+redondos:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Pois, Grilo, agora realmente bem podemos dizer que o Sr. D.
+Jacinto est&aacute; firme.<br>
+
+
+<br>
+
+
+O Grilo arredou os &oacute;culos para a testa, e levantando para o
+ar os cinco dedos em curva como p&eacute;talas de uma tulipa:<br>
+
+
+<br>
+
+
+<span class="pagenum">[355]</span>--S. Ex.&ordf; brotou!<br>
+
+
+<br>
+
+
+
+Profundo sempre o digno preto! Sim! Aquele ressequido galho de
+Cidade, plantado na serra, pegara, chupara o h&uacute;mus do
+torr&atilde;o herdado, criara seiva, afundara ra&iacute;zes,
+engrossara de tronco, atirara ramos, rebentara em flores, forte,
+sereno, ditoso, ben&eacute;fico, nobre, dando frutos, derramando
+sombra. E abrigados pela grande &aacute;rvore, e por ela nutridos,
+cem casais em redor a bendiziam.<br>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+<h2>XVI</h2>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+Muitas vezes Jacinto, durante esses anos, falara com prazer num
+regresso de dois, tr&ecirc;s meses, ao 202, para mostrar Paris
+&agrave; prima Joaninha. E eu seria o companheiro fiel, para
+arquivar os espantos da minha serrana ante a Cidade! Depois conveio
+em esperar que o Jacintinho completasse dois anos, para poder
+jornadear sem desconforto, e apontando j&aacute; com o seu dedo
+para as coisas da Civiliza&ccedil;&atilde;o. Mas, quando ele, em
+Outubro, fez esses dois anos desejados, a prima Joaninha sentiu uma
+pregui&ccedil;a imensa, quase aterrada, do comboio, do estridor da
+Cidade, do 202, e dos seus esplendores. &laquo;Estamos aqui
+t&atilde;o bem! est&aacute; um tempo t&atilde;o lindo!&raquo;
+
+murmurava, deitando os bra&ccedil;os, sempre deslumbrada, ao rijo
+pesco&ccedil;o do seu Jacinto. Ele desistia logo de Paris,
+encantado. &laquo;Vamos para Abril, quando os castanheiros dos
+Campos El&iacute;sios <span class="pagenum">[358]</span>estiverem
+em flor!&raquo; Mas em Abril vieram aqueles cansa&ccedil;os que
+imobilizavam a prima Joaninha no div&atilde;, ditosa, risonha, com
+umas pintas na pele, e o roup&atilde;o mais solto. Por todo um
+longo ano estava desfeita a alegre aventura. Eu andava ent&atilde;o
+sofrendo de desocupa&ccedil;&atilde;o. As chuvas de Mar&ccedil;o
+prometiam uma farta colheita. Uma certa Ana Vaqueira, corada e bem
+feita, vi&uacute;va, que surtia as necessidades do meu
+cora&ccedil;&atilde;o, partira com o irm&atilde;o para o Brasil,
+onde ele dirigia uma venda. Desde o Inverno, sentia tamb&eacute;m
+no corpo como um come&ccedil;o de ferrugem, que o emperrava, e,
+certamente, algures, na minha alma, nascera uma pontinha de bolor.
+Depois a minha &eacute;gua morreu... Parti eu para Paris.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Logo em Hendaia, apenas pisei a doce terra de Fran&ccedil;a, o meu
+pensamento, como pombo a um velho pombal, voou ao 202,--talvez por
+eu ver um enorme cartaz em que uma mulher nua, com flores
+bac&acirc;nticas nas tran&ccedil;as, se estorcia, segurando numa
+das m&atilde;os uma garrafa espumante, e brandindo na outra, para o
+anunciar ao Mundo, um novo modelo de saca-rolhas. E oh surpresa!
+eis que, logo adiante, na esta&ccedil;&atilde;o quieta e clara de
+Saint Jean-de-Luz, um mo&ccedil;o esbelto, de perfeita
+eleg&acirc;ncia, entra vivamente no meu compartimento, e, depois de
+me encarar, grita:<br>
+
+
+<br>
+
+
+<span class="pagenum">[359]</span>--Eh, Fernandes!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Marizac! O duque de Marizac! Era j&aacute; o 202... Com que
+reconhecimento lhe sacudi a m&atilde;o fina, por ele me ter
+reconhecido! E, atirando para o canto do vag&atilde;o um
+palet&oacute;, um ma&ccedil;o de jornais, que o escudeiro lhe
+passara, o bom Marizac exclamava na mesma surpresa alegre:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--E Jacinto?<br>
+
+
+<br>
+
+
+Contei Tormes, a serra, o seu primeiro amor pela Natureza, o seu
+outro grande amor por minha prima, e os dois filhos, que ele trazia
+escarranchados no pesco&ccedil;o.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Ah que canalha! exclamou Marizac com os olhos espetados em mim!
+&Eacute; capaz de ser feliz!<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Espantosamente, loucamente... Qual! n&atilde;o h&aacute;
+adv&eacute;rbios...<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Indecentemente--murmurou Marizac muito s&eacute;rio. Que
+canalha!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Eu ent&atilde;o desejei saber do nosso rancho familiar do 202. Ele
+encolheu os ombros, acendendo a cigarette:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Todo esse mundo circula...<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Madame d'Oriol?<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Continua.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Os Tr&egrave;ves? o Efraim?<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Continuam, todos tr&ecirc;s.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Lan&ccedil;ou um gesto l&acirc;nguido.<br>
+
+
+<br>
+
+
+<span class="pagenum">[360]</span>--Durante cinco anos, em Paris,
+tudo continua... As mulheres com um pouco mais de p&oacute;s de
+arroz, e a pele um pouco mais mole, e melada. Os homens com um
+tanto mais de dispepsia. E tudo segue. Tivemos os Anarquistas. A
+princesa de Carman abalou com um acrobata do Circo de Inverno...
+E--e voil&agrave;!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Dornan? --Continua... N&atilde;o o encontrei mais desde o 202.
+Mas vejo &agrave;s vezes o nome dele, no <i>Boulevard</i>, com
+versos preciosos, obscenidades muito apuradas, muito subtis.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--E o Psic&oacute;logo?... Ora, como se chamava ele?...<br>
+
+
+--Continua tamb&eacute;m. Sempre com as feminices a tr&ecirc;s
+francos e cinquenta... Duquesas em camisa, almas nuas... Coisas que
+se vendem bem!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Mas quando eu, encantado, ia indagar de Todelle, do
+Gr&atilde;o-Duque, o comboio entrou na esta&ccedil;&atilde;o de
+Biarritz:--e rapidamente, apanhando o palet&oacute; e os jornais,
+depois de me apertar a m&atilde;o, o delicioso Marizac saltou pela
+portinhola, que o seu criado abrira, gritando:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--At&eacute; Paris!... Sempre rue Cambori.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Ent&atilde;o, no compartimento solit&aacute;rio, bocejei, com uma
+estranha sensa&ccedil;&atilde;o de monotonia, de saciedade, como
+cercado j&aacute; de gentes <span class="pagenum">[361]</span>muito
+vistas, murmurando hist&oacute;rias muito sabidas, e coisas muito
+ditas, atrav&eacute;s de sorrisos estafados. Dos dois lados do
+comboio era a longa plan&iacute;cie mon&oacute;tona, sem variedade,
+muito miudamente cultivada, muito miudamente retalhada, de um verde
+de reseda, verde cinzento e apagado, onde nenhum lampejo, nem tom
+alegre de flor, nem acidente do solo, desmanchavam a mediocridade
+discreta e ordeira. P&aacute;lidos choupos, em renques pautados e
+finos, bordavam canaizinhos muito direitos e claros. Os casais,
+todos da mesma cor pardacenta, mal se elevavam do solo, mal se
+destacavam da verdura desbotada, como encolhidos na sua
+mediocridade e cautela. E o c&eacute;u, por cima, liso, sem uma
+nuvem, com um sol descorado, parecia um vasto espelho muito lavado
+a grande &aacute;gua, at&eacute; que de todo se lhe safasse o
+esmalte e o brilho. Adormeci numa doce insipidez.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Com que linda manh&atilde; de Maio entrei em Paris! T&atilde;o
+fresca e fina, e j&aacute; macia, que, apesar de cansado, mergulhei
+com repugn&acirc;ncia no profundo, sombrio leito do Grand-Hotel,
+todo fechado de espessos veludos, grossos cord&otilde;es, pesadas
+borlas, como um palanque de gala. Nessa profunda cova de penas
+sonhei que em Tormes se constru&iacute;ra uma Torre Eiffel e que em
+volta dela as senhoras da Serra, <span class="pagenum">[362]</span>as mais respeit&aacute;veis, a pr&oacute;pria
+tia Albergaria, dan&ccedil;avam, nuas, agitando no ar saca-rolhas
+imensos. Com as como&ccedil;&otilde;es deste pesadelo, e depois o
+banho, e o desemalar da mala, j&aacute; se acercavam as duas horas
+quando enfim emergi do grande port&atilde;o, pisei, ao cabo de
+cinco anos, o Boulevard. E imediatamente me pareceu que todos esses
+cinco anos eu ali permanecera &agrave; porta do Grand-Hotel,
+t&atilde;o estafadamente conhecido me era aquele estridente rolar
+da cidade, e as magras &aacute;rvores, e as grossas tabuletas, e os
+imensos chap&eacute;us emplumados sobre tran&ccedil;as pintadas de
+amarelo, e as empertigadas sobrecasacas com grossas rosetas da
+legi&atilde;o de honra, e os garotos, em voz rouca e baixa,
+oferecendo baralhos de cartas obscenas, caixas de f&oacute;sforos
+obscenas... Santo Deus! pensei, h&aacute; que anos eu estou em
+Paris! Comprei ent&atilde;o, num quiosque, um jornal, a Voz de
+Paris, para que ele me contasse, durante o almo&ccedil;o, as novas
+da Cidade. A mesa do quiosque desaparecia, alastrada de jornais
+ilustrados:--e em todos se repetia a mesma mulher, sempre nua, ou
+meia despida, ora mostrando as costelas magras, de gata faminta,
+ora voltando para o Leitor duas tremendas n&aacute;degas... Eu
+outra vez murmurei:--Santo Deus! No Caf&eacute; da Paz, o criado
+l&iacute;vido, e com um resto de p&oacute; de arroz <span class="pagenum">[363]</span>sobre a sua lividez, aconselhou ao meu
+apetite, por ser t&atilde;o tarde, um linguado frito e uma
+costeleta.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--E que vinho, Sr. Conde?<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Chablis, Sr. Duque!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Ele sorriu &agrave; minha deliciosa pilh&eacute;ria,--e eu abri,
+contente, a Voz de Paris. Na primeira coluna, atrav&eacute;s de uma
+prosa muito retorcida, toda em brilhos de j&oacute;ia barata,
+entrevi uma Princesa nua, e um Capit&atilde;o de Drag&otilde;es,
+que solu&ccedil;ava. Saltei a outras colunas, onde se contavam
+feitos de cocottes de nomes sonoros. Na outra p&aacute;gina
+escritores eloquentes celebravam vinhos digestivos e
+t&oacute;nicos. Depois eram os crimes do costume.--N&atilde;o
+h&aacute; nada de novo! Pus de parte a Voz de Paris,--e
+ent&atilde;o foi, entre mim e o linguado, uma luta pavorosa. O
+miser&aacute;vel, que se frigira rancorosamente contra mim,
+n&atilde;o consentia que eu descolasse da sua espinha uma febra
+escassa. Todo ele se ressequira numa sola impenetr&aacute;vel e
+tostada, onde a faca vergava, impotente e tr&eacute;mula. Gritei
+pelo mo&ccedil;o l&iacute;vido, o qual, com faca mais rija,
+fincando no soalho os sapatos de fivela, arrancou enfim
+
+&agrave;quele malvado duas tirinhas, finas e curtas como palitos,
+que engoli juntas, e me esfomearam. De uma garfada findei a
+costeleta. E paguei quinze francos com um bom lu&iacute;s de ouro.
+No troco, que o <span class="pagenum">[364]</span>mo&ccedil;o me
+deu, com a polidez requintada de uma civiliza&ccedil;&atilde;o
+muito difundida, havia dois francos falsos. E por aquela doce tarde
+de Maio sa&iacute; para tomar no terra&ccedil;o um caf&eacute; cor
+de chap&eacute;u coco, que sabia a fava.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Com o charuto aceso contemplei o Boulevard, &agrave;quela hora em
+toda a pressa e estridor da sua grossa sociabilidade. A densa
+torrente dos &oacute;nibus, calhambeques, carro&ccedil;as, parelhas
+de luxo, rolava vivamente, como toda uma escura humanidade
+formigando entre patas e rodas, numa pressa inquieta. Aquele
+movimento continuado e rude bem depressa entonteceu este
+esp&iacute;rito, por cinco anos afeito &agrave;
+
+quieta&ccedil;&atilde;o das serras imut&aacute;veis. Tentava
+ent&atilde;o, puerilmente, repousar nalguma forma im&oacute;vel,
+&oacute;nibus parado, fiacre que estacara, num brusco escorregar da
+pileca: mas logo algum dorso apressado se encafuava pela portinhola
+da tip&oacute;ia, ou um cacho de figuras escuras trepava
+sofregamente para o &oacute;nibus:--e, r&aacute;pido,
+recome&ccedil;ava o rolar retumbante. Im&oacute;veis, de certo,
+estavam os altos pr&eacute;dios hirtos, ribas de pedra e cal, que
+continham, disciplinavam, aquela torrente ofegante. Mas da rua aos
+telhados, em cada varanda, por toda a fachada, eram tabuletas
+encimando tabuletas, que outras tabuletas apertavam:--e mais me
+cansava o perceber <span class="pagenum">[365]</span>a tenaz
+incess&acirc;ncia do trabalho latente, a devorante canseira do
+lucro, arquejante por tr&aacute;s das frontarias decorosas e mudas.
+Ent&atilde;o, enquanto fumava o meu charuto, estranhamente se
+apossaram de mim os sentimentos que Jacinto outrora experimentara
+no meio da Natureza, e que tanto me divertiam. Ali, &agrave; porta
+do caf&eacute;, entre a indiferen&ccedil;a e a pressa da Cidade,
+tamb&eacute;m eu senti, como ele no campo, a vaga tristeza da minha
+fragilidade e da minha solid&atilde;o. Bem certamente estava ali
+como perdido num mundo, que me n&atilde;o era fraternal. Quem me
+conhecia? Quem se interessaria por Z&eacute; Fernandes? Se eu
+sentisse fome, e o confessasse, ningu&eacute;m me daria metade do
+seu p&atilde;o. Por mais aflitamente que a minha face revelasse uma
+ang&uacute;stia, ningu&eacute;m na sua pressa pararia para me
+consolar. De que me serviriam tamb&eacute;m as excel&ecirc;ncias de
+alma, que s&oacute; na alma florescem? Se eu fosse um santo, aquela
+turba n&atilde;o se importaria com a minha santidade; e se eu
+abrisse os bra&ccedil;os e gritasse, ali no
+Boulevard--&laquo;&oacute; homens, meus irm&atilde;os!&raquo; os
+homens, mais ferozes que o lobo ante o Pobrezinho de Assis, ririam
+e passariam indiferentes. Dois impulsos &uacute;nicos,
+correspondendo a duas fun&ccedil;&otilde;es &uacute;nicas, parecia
+estarem vivos naquela multid&atilde;o,--o lucro e o gozo. Isolada
+entre eles, e ao cont&aacute;gio <span class="pagenum">[366]</span>ambiente da sua influ&ecirc;ncia, em breve a
+minha alma se contrairia, se tornaria num duro calhau de
+Ego&iacute;smo. Do ser que eu trouxera da Serra s&oacute; restaria
+em pouco tempo esse calhau, e nele, vivos, os dois apetites da
+Cidade,--encher a bolsa, saciar a carne! E pouco a pouco as mesmas
+exagera&ccedil;&otilde;es de Jacinto perante a Natureza me invadiam
+perante a Cidade. Aquele Boulevard ressumava para mim um bafo
+mortal, extra&iacute;do dos seus milh&otilde;es de
+micr&oacute;bios. De cada porta me parecia sair um ardil para me
+roubar. Em cada face, avistada &agrave; portinhola de um fiacre,
+suspeitava um bandido em manobra. Todas as mulheres me pareciam
+caiadas como sepulcros, tendo s&oacute; podrid&atilde;o por dentro.
+E considerava de uma melancolia funambulesca as formas de toda
+aquela Multid&atilde;o, a sua pressa &aacute;spera e v&atilde;, a
+afecta&ccedil;&atilde;o das atitudes, as imensas plumas das
+chapeletas, as express&otilde;es posti&ccedil;as e falsas, a pompa
+dos peitos alteados, o dorso redondo dos velhos olhando as imagens
+obscenas das vitrinas. Ah! tudo isto era pueril, quase
+c&oacute;mico da minha parte, mas &eacute; o que eu sentia no
+Boulevard, pensando na necessidade de remergulhar na Serra, para
+que ao seu puro ar se me despegasse a crosta da Cidade, e eu
+ressurgisse humano, e Z&eacute;-Fern&acirc;ndico!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+<span class="pagenum">[367]</span>Ent&atilde;o, para dissipar
+aquele pesadume de solid&atilde;o, paguei o caf&eacute; e parti,
+lentamente, a visitar o 202. Ao passar na Madalena, diante da
+esta&ccedil;&atilde;o dos &oacute;nibus, pensei:--Que ser&aacute;
+feito de Madame Colombe? E, oh mis&eacute;ria! pelo meu
+miser&aacute;vel ser subiu uma curta e quente baforada de desejo
+bruto por aquela besta suja e magra! Era o charco onde eu me
+envenenara, e que me envolvia nas emana&ccedil;&otilde;es subtis do
+seu veneno. Depois, ao dobrar da rue Royale para a Pra&ccedil;a da
+Conc&oacute;rdia, topei com um robusto e possante homem, que
+estacou, ergueu o bra&ccedil;o, ergueu o vozeir&atilde;o, num modo
+de comando:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Eh, Fernandes!<br>
+
+
+<br>
+
+
+O Gr&atilde;o-Duque! O belo Gr&atilde;o-Duque, de jaquet&atilde;o
+alvadio e chap&eacute;u tirol&ecirc;s cor de mel! Apertei com
+gratid&atilde;o reverente a m&atilde;o do Pr&iacute;ncipe, que me
+reconhecera.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--E Jacinto? Em Paris?...<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Contei Tormes, a serra, o rejuvenescimento do nosso amigo entre a
+Natureza, a minha doce prima, e os bravos pequenos, que ele trazia
+&agrave;s cavaleiras. O Gr&atilde;o-Duque encolheu os ombros,
+desolado:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Oh l&aacute;, l&aacute;, l&aacute;!... Peuh! Casado, na aldeia,
+com filharada... Homem perdido! Ora n&atilde;o h&aacute;!... E um
+rapaz &uacute;til! que nos divertia, e tinha gosto! Aquele jantar
+cor-de-rosa foi uma festa <span class="pagenum">[368]</span>linda... N&atilde;o se fez, n&atilde;o se
+tornou a fazer nada t&atilde;o brilhante em Paris... E Madame
+d'Oriol... Ainda h&aacute; dias a vi no Pal&aacute;cio de Gelo...
+Pot&aacute;vel, mulher ainda muito pot&aacute;vel... N&atilde;o
+
+&eacute; todavia o meu g&eacute;nero... Adocicada, leitosa,
+pomadada, neve &agrave; la vanille!... Ora esse Jacinto!...<br>
+
+
+<br>
+
+
+--E Vossa Alteza, em Paris com demora?<br>
+
+
+<br>
+
+
+O formid&aacute;vel homem baixou a face, franzida e
+confidencial:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Nenhuma. Paris n&atilde;o se aguenta... Est&aacute; estragado,
+positivamente estragado... Nem se come! Agora &eacute; o Ernest, da
+Pra&ccedil;a Gaillon, o Ernest, que era maitre-d'hotel do Maire...
+J&aacute; l&aacute; comeu? Um horror. Tudo &eacute; o Ernest,
+agora! Onde se come? No Ernest. Qual! Ainda esta manh&atilde;
+
+l&aacute; almocei... Um horror! Uma salada Chambord... palhada,
+indecentemente palhada! N&atilde;o tem, n&atilde;o tem a
+no&ccedil;&atilde;o da salada! Paris foi! Teatros, uma estopada.
+Mulheres, hui! Lambidas todas. N&atilde;o h&aacute; nada! Ainda
+assim, num dos teatritos de Montmartre, na Roulotte, est&aacute;
+uma revista, que se v&ecirc;: <i>Para c&aacute; as
+mulheres!</i>--engra&ccedil;ada, bem despida... A Celestine tem uma
+cantiga, meia sentimental, meia porca, o <i>Amor no
+Water-Closet</i>, que diverte, tem topete... Onde est&aacute;,
+Fernandes?<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--No Grand-Hotel, meu senhor.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Que barraca!... E o seu Rei sempre bom?<br>
+
+
+<br>
+
+
+<span class="pagenum">[369]</span>Curvei a cabe&ccedil;a:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Sua Majestade, bem.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Estimo! Pois, Fernandes, tive prazer... Esse Jacinto &eacute; que
+me desola! V&aacute; v&ecirc;r a Revista... Boas pernas, a
+Celestine... E tem gra&ccedil;a o tal <i>Amor no
+Water-Closet</i>.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Um rij&iacute;ssimo aperto de m&atilde;o,--e S. Alteza subiu
+pesadamente para a vit&oacute;ria, ainda com um aceno
+am&aacute;vel, que me penhorou... Excelente homem, este
+Gr&atilde;o-Duque! Mais reconciliado com Paris, atravessei para os
+Campos El&iacute;sios. Em toda a sua nobre e formosa largueza, toda
+verde, com os castanheiros em flor, corriam, subindo, descendo,
+veloc&iacute;pedes. Parei a contemplar aquela fealdade nova, estes
+inumer&aacute;veis espinha&ccedil;os arqueados, e g&acirc;mbias
+magras, agitando-se desesperadamente sobre duas rodas. Velhos
+gordos, de cacha&ccedil;o escarlate, pedalavam, gordamente.
+Galfarros esguios, de t&iacute;bias descarnadas, fugiam numa linha
+esfuziada. E as mulheres, muito pintadas, de bolero curto,
+cal&ccedil;&otilde;es bufantes, giravam, mais rapidamente ainda, no
+prazer equ&iacute;voco da carreira, escarranchadas em hastes de
+ferro. E a cada instante outras medonhas m&aacute;quinas passavam,
+vit&oacute;rias e fa&eacute;tons a vapor, com uma
+complica&ccedil;&atilde;o de tubos e caldeiras, torneiras e
+chamin&eacute;s, rolando numa trepida&ccedil;&atilde;o estridente e
+pesada, espalhando <span class="pagenum">[370]</span>um grosso
+fedor de petr&oacute;leo. Segui para o 202, pensando no que diria
+um grego do tempo de F&iacute;dias, se visse esta nova beleza e
+gra&ccedil;a do caminhar humano!...<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+No 202, o porteiro, o velho Vian, quando me reconheceu, mostrou uma
+alegria enternecedora. N&atilde;o se fartou de saber do casamento
+de Jacinto, e daqueles queridos meninos. E era para ele uma
+felicidade que eu aparecesse, justamente quando tudo se andara
+limpando para a entrada da Primavera. Quando penetrei na amada casa
+senti mais vivamente a minha solid&atilde;o. N&atilde;o restava em
+toda ela nem um dos costumados aspectos que fizessem reviver a
+velha camaradagem com o meu Pr&iacute;ncipe. Logo na
+antec&acirc;mara grandes lonas cobriam as tape&ccedil;arias
+her&oacute;icas, e igual lona parda escondia os estofos das
+cadeiras e dos muros, e as largas estantes de &eacute;bano da
+Biblioteca, onde os trinta mil volumes, nobremente enfileirados
+como Doutores num Conc&iacute;lio, pareciam separados do mundo por
+aquele pano que sobre eles descera depois de finda a com&eacute;dia
+da sua for&ccedil;a e da sua autoridade. No gabinete de Jacinto, de
+sobre a mesa de escrita, desaparecera aquela confus&atilde;o de
+instrumentozinhos, de que eu perdera j&aacute; a mem&oacute;ria: e
+s&oacute; a Mec&acirc;nica sumptuosa, por sobre peanhas e
+pedestais, <span class="pagenum">[371]</span>recentemente
+espanejada, reluzia, com as suas engrenagens, tubos, rodas,
+rigidezes de metais, numa frieza inerte, na inactividade definitiva
+das coisas desusadas, como j&aacute; dispostas num Museu, para
+exemplificar a instrumenta&ccedil;&atilde;o caduca de um mundo
+passado. Tentei mover o telefone, que se n&atilde;o moveu; a mola
+da electricidade n&atilde;o acendeu nenhum lume: todas as
+for&ccedil;as universais tinham abandonado o servi&ccedil;o do 202,
+como servos despedidos. E ent&atilde;o, passeando atrav&eacute;s
+das salas, realmente me pareceu que percorria um museu de
+antiguidades; e que mais tarde outros homens, com uma
+compreens&atilde;o mais pura e exacta da Vida e da Felicidade,
+percorreriam como eu, longas salas, atulhadas com os instrumentos
+da Super-Civiliza&ccedil;&atilde;o, e, como eu, encolheriam
+desdenhosamente os ombros ante a grande Ilus&atilde;o que findara,
+agora para sempre in&uacute;til, arrumada como um lixo
+hist&oacute;rico, guardada debaixo de lona.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Quando sa&iacute; do 202 tomei um fiacre, subi ao Bosque de
+Bolonha. E apenas rolara momentos pela avenida das Ac&aacute;cias,
+no sil&ecirc;ncio decoroso, unicamente cortado pelo tilintar dos
+freios e pelas rodas vagarosas esmagando a areia, comecei a
+reconhecer as velhas figuras, sempre com o mesmo sorriso, o mesmo
+p&oacute; de arroz; as mesmas p&aacute;lpebras amortecidas,
+<span class="pagenum">[372]</span>os mesmos olhos farejantes, a
+mesma imobilidade de cera! O romancista da <i>Coura&ccedil;a</i>
+passou numa vit&oacute;ria, fixou em mim o mon&oacute;culo
+defumado, mas permaneceu indiferente. Os band&oacute;s negros de
+Madame Verghane, tapando-lhe as orelhas, pareciam ainda mais
+furiosamente negros entre a harmonia de todo o branco que a vestia,
+chap&eacute;u, plumas, flores, rendas e corpete, onde o seu peito
+imenso se empolava como uma onda. No passeio, sob as
+Ac&aacute;cias, espapado em duas cadeiras, o director do
+
+<i>Boulevard</i> mamava o resto do seu charuto. E num grande
+landeau, Madame de Tr&egrave;ves continuava o seu sorriso de
+h&aacute; cinco anos, com duas pregazinhas mais moles aos cantos
+dos l&aacute;bios secos.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Abalei para o Grand-Hotel, bocejando,--como outrora Jacinto. E
+findei o meu dia de Paris, no Teatro das Variedades, estonteado com
+uma com&eacute;dia muito fina, muito aclamada, toda faiscante do
+mais vivo parisianismo, em que todo o enredo se enrodilhava
+&agrave; volta de uma Cama, onde alternadamente se espojavam
+mulheres em camisa, sujeitos gordos em ceroulas, um coronel com
+papas de linha&ccedil;a nas n&aacute;degas, cozinheiras de meias de
+seda bordadas, e ainda mais gente, ruidosa e saltitante, a esfuziar
+de cio e de pilh&eacute;ria. Tomei um ch&aacute; melanc&oacute;lico
+no Julien, no meio de <span class="pagenum">[373]</span>um
+
+&aacute;spero e l&uacute;gubre namoro de prostitutas, fariscando a
+presa. Em duas delas, de pele oleosa e cobreada, olhos
+obl&iacute;quos, cabelos duros e negros como clinas, senti o
+Oriente, a sua provoca&ccedil;&atilde;o felina... Interroguei o
+criado, um medonho ser, de uma obesidade balofa e l&iacute;vida, de
+eunuco. O monstro explicou numa voz roufenha e surda:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Mulheres de Madag&aacute;scar... Foram importadas quando a
+Fran&ccedil;a ocupou a ilha!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Arrastei ent&atilde;o por Paris dias de imenso t&eacute;dio. Ao
+longo do Boulevard revi nas vitrinas todo o luxo, que j&aacute; me
+enfartara havia cinco anos, sem uma gra&ccedil;a nova, uma curta
+frescura de inven&ccedil;&atilde;o. Nas livrarias, sem descobrir um
+livro, folheava centenas de volumes amarelos, onde, de cada
+p&aacute;gina que ao acaso abria, se exalava um cheiro morno de
+alcova e de p&oacute;s- de-arroz, entre linhas trabalhadas com
+efeminado arrebique, como rendas de camisas. Ao jantar, em qualquer
+restaurante, encontrava, ornando e disfar&ccedil;ando as carnes ou
+as aves, o mesmo molho, de cores e sabores de pomada, que j&aacute;
+
+de manh&atilde;, noutro restaurante, espelhado e dourejado, me
+enjoara no peixe e nos legumes. Paguei por grossos pre&ccedil;os
+garrafas do nosso adstringente e r&uacute;stico vinho de Torres,
+enobrecido com o t&iacute;tulo de Ch&acirc;teau isto, Ch&acirc;teau
+aquilo, e p&oacute; posti&ccedil;o no <span class="pagenum">[374]</span>gargalo. &Agrave; noite, nos teatros,
+encontrava a Cama, a costumada cama, como centro e &uacute;nico fim
+da vida, atraindo, mais fortemente que o monturo atrai os
+moscardos, todo um enxame de gentes, estonteadas, frementes de
+erotismo, zumbindo chacotas senis. Esta sordidez da Plan&iacute;cie
+me levou a procurar melhor aragem de esp&iacute;rito nas alturas da
+Colina, em Montmartre; e a&iacute;, no meio de uma multid&atilde;o
+elegante de Senhoras, de Duquesas, de Generais, de todo o alto
+pessoal da Cidade, eu recebia, do alto do palco, grossos jorros de
+obscenidades, que faziam estremecer de gozo as orelhas cabeludas de
+gordos banqueiros, e arfar com del&iacute;cia os corpetes de Worms
+e de Doucet, sobre os peitos posti&ccedil;os das nobres damas. E
+recolhia enjoado com tanto relento de Alcova, vagamente
+disp&eacute;ptico com os molhos de pomada do jantar, e sobretudo
+descontente comigo, por me n&atilde;o divertir, n&atilde;o
+compreender a Cidade, e errar atrav&eacute;s dela e da sua
+Civiliza&ccedil;&atilde;o Superior, com a reserva rid&iacute;cula
+de um Censor, de um Cat&atilde;o austero. Oh
+senhores!--pensava,--pois eu n&atilde;o me divertirei nesta
+deliciosa Cidade? Entrar&aacute; comigo o bolor da velhice?<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Passei as pontes, que separam em Paris o Temporal do Espiritual,
+mergulhei no meu doce Bairro Latino, evoquei, diante de certos
+<span class="pagenum">[375]</span>caf&eacute;s, a mem&oacute;ria da
+minha Nini; e, como outrora, pregui&ccedil;osamente, subi as
+escadas da Sorbonne. Num anfiteatro, onde sentira um grosso
+sussurro, um homem magro, com uma testa muito branca e larga, como
+talhada para alojar pensamentos altos e puros, ensinava, falando
+das institui&ccedil;&otilde;es da Cidade Antiga. Mas, mal eu
+entrara, o seu dizer elegante e l&iacute;mpido foi sufocado por
+gritos, urros, patadas, um tumulto rancoroso de tro&ccedil;a
+bestial, que sa&iacute;a da mocidade apinhada nos bancos, a
+mocidade das Escolas, Primavera sagrada, em que eu fora flor
+murcha. O Professor parou, espalhando em redor um olhar frio, e
+remexendo as suas notas. Quando o grosso grunhido se moderou em
+sussurro desconfiado, ele recome&ccedil;ou com alta serenidade.
+Todas as suas ideias eram frias e substanciais, expressas numa
+l&iacute;ngua pura e forte; mas, imediatamente, rompe uma furiosa
+rajada de apitos, uivos, relinchos, cacarejos de galo, por entre
+magras m&atilde;os, que se estendiam levantadas para estrangular as
+ideias. Ao meu lado um velho, encolhido na alta gola de um
+macfrelane de xadrezes, contemplava o tumulto com melancolia,
+pingando endefluxado. Perguntei ao velho:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Que querem eles? &Eacute; embirra&ccedil;&atilde;o com o
+professor... &eacute; pol&iacute;tica?<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+<span class="pagenum">[376]</span>O velho abanou a cabe&ccedil;a,
+espirrando:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--N&atilde;o... &Eacute; sempre assim, agora, em todos os cursos...
+N&atilde;o querem ideias... Creio que queriam can&ccedil;onetas.
+&Eacute; o amor da porcaria e da tro&ccedil;a.<br>
+
+
+<br>
+
+
+
+Ent&atilde;o, indignado, berrei:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Sil&ecirc;ncio, brutos!<br>
+
+
+<br>
+
+
+E eis que um abortozinho de rapaz, amarelado e sebento, de longas
+melenas, umas enormes lunetas rebrilhantes, se arrebita, me fita, e
+me berra:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--<i>Sale Maure!</i><br>
+
+
+Ergui o meu grosso punho serrano,--e o desgra&ccedil;ado, numa
+confus&atilde;o de melenas, com sangue por toda a face, aluiu, como
+um mont&atilde;o de trapos moles, ganindo desesperadamente,
+enquanto o furac&atilde;o de uivos e cacarejos, guinchos e silvos,
+envolvia o Professor, que cruzara os bra&ccedil;os, esperando, com
+uma serenidade simples.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Desde esse momento decidi abandonar a fastidiosa Cidade; e o
+&uacute;nico dia alegre e divertido que nela passei foi o
+derradeiro, comprando para os meus queridinhos de Tormes brinquedos
+consider&aacute;veis, tremendamente complicados pela
+Civiliza&ccedil;&atilde;o,--vapores de a&ccedil;o e cobre, providos
+de caldeiras para viajar em tanques; le&otilde;es de pele
+ver&iacute;dica rugindo pavorosamente, bonecas vestidas
+<span class="pagenum">[377]</span>pela Laferri&egrave;re, com
+fon&oacute;grafo no ventre...<br>
+
+
+<br>
+
+
+Finalmente abalei uma tarde, depois de lan&ccedil;ar da minha
+janela, sobre o Boulevard, as minhas despedidas &agrave;
+
+Cidade:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Pois adeusinho, at&eacute; nunca mais! Na lama do teu
+v&iacute;cio e na poeira da tua vaidade, outra vez, n&atilde;o me
+pilhas! O que tens de bom, que &eacute; o teu g&eacute;nio,
+elegante e claro, l&aacute; o receberei na Serra pelo correio.
+Adeusinho!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Na tarde do seguinte Domingo, debru&ccedil;ado da janela do
+comboio, que vagarosamente deslizava pela borda do rio lento, num
+sil&ecirc;ncio todo feito de azul e sol, avistei, na plataforma da
+quieta esta&ccedil;&atilde;o da minha aldeia, os Senhores de
+Tormes, com a minha afilhada Teresa, muito vermelha, arregalando os
+seus soberbos olhos, e o bravo Jacintinho, que empunhava uma
+bandeira branca. O alvoro&ccedil;o ditoso com que abracei e beijei
+aquela tribo bem amada conviria perfeitamente a quem voltasse vivo
+de uma guerra distante, na Tart&aacute;ria. Na alegria de recuperar
+a Serra, at&eacute; beijoquei o chefe Pimentinha, que a estalar de
+obesidade se a&ccedil;odava gritando ao carregador todo o cuidado
+com as minhas malas.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Jacinto, magn&iacute;fico, de grande chap&eacute;u serrano e
+jaqueta, de novo me abra&ccedil;ou:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--E esse Paris?<br>
+
+
+<br>
+
+
+<span class="pagenum">[378]</span>--Medonho!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Abri depois os bra&ccedil;os para o bravo Jacintinho.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Ent&atilde;o para que &eacute; essa bandeira, meu cavaleiro?<br>
+
+
+<br>
+
+
+--&Eacute; a bandeira do Castelo! declarou ele, com uma bela
+seriedade nos seus grandes olhos.<br>
+
+
+<br>
+
+
+A m&atilde;e ria. Desde essa manh&atilde;, logo que soubera da
+chegada do Ti-Z&eacute;, apareceu de bandeira, feita pelo Grilo, e
+n&atilde;o a largara mais; com ela almo&ccedil;ara, com ela descera
+de Tormes!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Bravo! E, prima Joaninha, olhe que est&aacute; magn&iacute;fica!
+Eu, tamb&eacute;m, venho daquelas peles meladas de Paris... Mas
+acho-a triunfal! E o tio Adri&atilde;o, e a tia Vic&ecirc;ncia?<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Tudo &oacute;ptimo! gritou Jacinto. A serra, Deus louvado,
+prospera. E agora, para cima! Tu hoje ficas em Tormes. Para contar
+da Civiliza&ccedil;&atilde;o.<br>
+
+
+<br>
+
+
+No largo por tr&aacute;s da esta&ccedil;&atilde;o, debaixo dos
+eucaliptos, que revi com gosto, esperavam os tr&ecirc;s cavalos, e
+dois belos burros brancos, um com cadeirinha para a Teresa, outro
+com um cesto de verga, para meter dentro o her&oacute;ico
+Jacintinho, um e outro servidos &agrave; estribeira por um criado.
+Eu ajudara a prima Joaninha a montar, quando o carregador
+
+<span class="pagenum">[379]</span>apareceu com um ma&ccedil;o de
+jornais e pap&eacute;is, que eu esquecera na carruagem. Era uma
+papelada, de que me sortira na Esta&ccedil;&atilde;o de Orleans,
+toda recheada de mulheres nuas, de historietas sujas, de
+parisianismo, de erotismo. Jacinto, que as reconhecera, gritou
+rindo:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Deita isso fora!<br>
+
+
+<br>
+
+
+E eu atirei, para um mont&atilde;o de lixo, ao canto do
+P&aacute;tio, aquele p&uacute;trido rebotalho da
+Civiliza&ccedil;&atilde;o. E montei. Mas ao dobrar para o caminho
+empinado da serra, ainda me voltei, para gritar adeus ao Pimenta,
+de quem me esquecera. O digno chefe, debru&ccedil;ado sobre o
+monturo, apanhava, sacudia, recolhia com amor aquelas belas
+estampas, que chegavam de Paris, contavam as del&iacute;cias de
+Paris, derramavam atrav&eacute;s do mundo a sedu&ccedil;&atilde;o
+de Paris.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Em fila come&ccedil;&aacute;mos a subir para a Serra. A tarde
+ado&ccedil;ava o seu esplendor de estio. Uma aragem trazia, como
+ofertados, perfumes das flores silvestres. As ramagens moviam, com
+um aceno de doce acolhimento, as suas folhas vivas e reluzentes.
+Toda a passarinhada cantava, num alvoro&ccedil;o de alegria e de
+louvor. As &aacute;guas correntes, saltantes, luzidias, despediam
+um brilho mais vivo, numa pressa mais animada. Vidra&ccedil;as
+distantes de casas <span class="pagenum">[380]</span>am&aacute;veis, flamejavam com um fulgor de
+ouro. A serra toda se ofertava, na sua beleza eterna e verdadeira.
+E, sempre adiante da nossa fila, por entre a verdura, flutuava no
+ar a bandeira branca, que o Jacintinho n&atilde;o largava, de
+dentro do seu cesto, com a haste bem segura na m&atilde;o. Era <i>a
+bandeira do Castelo</i>, afirmara ele.<br>
+
+
+<br>
+
+
+E na verdade me parecia que, por aqueles caminhos, atrav&eacute;s
+da natureza campestre e mansa,--o meu Pr&iacute;ncipe, atrigueirado
+nas soalheiras e nos ventos da serra, a minha prima Joaninha,
+t&atilde;o doce e risonha m&atilde;e, os dois primeiros
+representantes da sua aben&ccedil;oada tribo, e eu--, t&atilde;o
+longe de amarguradas ilus&otilde;es e de falsas del&iacute;cias,
+trilhando um solo eterno, e de eterna solidez, com a alma contente,
+e Deus contente de n&oacute;s, serenamente e seguramente
+sub&iacute;amos--para o Castelo da Gr&atilde;-Ventura!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+<div class="c2">Fim</div>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+<h2>ADVERT&Ecirc;NCIA</h2>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+Desde a p&aacute;gina 241, at&eacute; o final, as provas deste
+livro n&atilde;o foram revistas pelo autor, arrebatado pela morte
+antes de haver dado a esta parte da sua escrita aquela
+
+&uacute;ltima dem&atilde;o, em que habitualmente ele punha a
+dilig&ecirc;ncia mais perseverante e mais admiravelmente
+l&uacute;cida.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Aquele dos seus amigos e companheiro de letras, a quem foi confiado
+o trabalho delicado e piedoso de tocar no manuscrito p&oacute;stumo
+de E&ccedil;a de Queir&oacute;s, ao concluir o desempenho de tal
+miss&atilde;o, beija com o mais enternecido e saudoso respeito a
+m&atilde;o, para todo sempre imobilizada, que tra&ccedil;ou estas
+p&aacute;ginas encantadoras; e faz votos por que a revis&atilde;o
+de que se incumbiu n&atilde;o deslustre muito grosseiramente a
+imortal aur&eacute;ola com que ficar&aacute; resplandecendo na
+literatura portuguesa este livro, em que o esp&iacute;rito do
+grande escritor parece exalar-se da vida num terno suspiro de
+do&ccedil;ura, de paz, e de puro amor &agrave; terra da sua
+p&aacute;tria.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+24 de Abril de 1901.<br>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+<table class="c7" border="0" cellpadding="4" cellspacing="4">
+
+
+ <tbody>
+
+
+ <tr align="center">
+
+
+ <td class="c9" colspan="4" rowspan="1"><b>LIVRARIA CHARDRON de
+Lello &amp; Irm&atilde;o<br>
+
+ </b> 96--CL&Eacute;RIGOS--98
+
+ <hr></td>
+
+
+ </tr>
+
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td class="c10"><b>Bas&iacute;lio Teles<br>
+
+ </b> O problema
+agr&iacute;cola</td>
+
+
+ <td class="c11">$600</td>
+
+
+ <td class="c12"><b>Lermina</b><br>
+
+
+Filho do Monte Cristo, 2 volumes</td>
+
+
+ <td class="c13">1$000</td>
+
+
+ </tr>
+
+
+ <tr>
+
+
+
+ <td class="c10">Estudos hist&oacute;ricos e econ&oacute;micos</td>
+
+
+ <td class="c14">$600</td>
+
+
+ <td class="c12"></td>
+
+
+ <td class="c15"></td>
+
+
+ </tr>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td class="c10">
+
+ <div class="c16"><i>No prelo</i>:</div>
+
+
+ </td>
+
+
+ <td class="c14"></td>
+
+
+ <td class="c12"><b>Eug&eacute;nio Sue</b><br>
+
+
+
+Mist&eacute;rios de Paris, 3 volumes cart.&nbsp;</td>
+
+
+ <td class="c13">2$000</td>
+
+
+ </tr>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td class="c10">Introdu&ccedil;&atilde;o ao problema do trabalho
+nacional.</td>
+
+
+ <td class="c14"></td>
+
+
+ <td class="c12"></td>
+
+
+ <td class="c15"></td>
+
+
+ </tr>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td class="c10"></td>
+
+
+ <td class="c14"></td>
+
+
+
+ <td class="c12"><b>Zola</b><br>
+
+
+Nan&aacute;</td>
+
+
+ <td class="c17">$500</td>
+
+
+ </tr>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td class="c10"><b>Abel Botelho<br>
+
+ </b> O bar&atilde;o de
+Lavos</td>
+
+
+ <td class="c11">$800</td>
+
+
+ <td class="c18">Hist&oacute;ria da lavadeira Gerv&aacute;sia, 2
+vols</td>
+
+
+
+ <td class="c17">1$000</td>
+
+
+ </tr>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td class="c10">O livro de Alda</td>
+
+
+ <td class="c14">$800</td>
+
+
+ <td class="c12">O Capit&atilde;o Burle</td>
+
+
+ <td class="c19">$500</td>
+
+
+ </tr>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td class="c10">Sem rem&eacute;dio...</td>
+
+
+
+ <td class="c14">$500</td>
+
+
+ <td class="c12">Ventre de Paris, 2 vols</td>
+
+
+ <td class="c19">1$000</td>
+
+
+ </tr>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td class="c10">
+
+ <div class="c16"><i>No prelo</i>:</div>
+
+
+ </td>
+
+
+ <td class="c14"></td>
+
+
+ <td class="c12"></td>
+
+
+ <td class="c19"></td>
+
+
+ </tr>
+
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td class="c10">Amanh&atilde;.</td>
+
+
+ <td class="c14"></td>
+
+
+ <td class="c12"><b>Arnaldo Gama</b><br>
+
+
+Caldeira de Pero Botelho</td>
+
+
+ <td class="c20">$500</td>
+
+
+ </tr>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td class="c10"></td>
+
+
+ <td class="c14"></td>
+
+
+ <td class="c12">Honra ou loucura</td>
+
+
+
+ <td class="c19">$500</td>
+
+
+ </tr>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td class="c10"><b>Jos&eacute; Caldas<br>
+
+ </b> Humildes</td>
+
+
+ <td class="c11">$400</td>
+
+
+ <td class="c21">Filho do Baldaia</td>
+
+
+ <td class="c22">$600</td>
+
+
+ </tr>
+
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td class="c10">Os Jesu&iacute;tas; a sua influ&ecirc;ncia na
+actual sociedade portuguesa; meio de a conjurar&nbsp;</td>
+
+
+ <td class="c23"><i>no prelo</i></td>
+
+
+ <td class="c12"></td>
+
+
+ <td class="c19"></td>
+
+
+ </tr>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td class="c10"></td>
+
+
+ <td class="c14"></td>
+
+
+ <td class="c12"><b>Bruno</b><br>
+
+
+O Brasil mental</td>
+
+
+
+ <td class="c20">$800</td>
+
+
+ </tr>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td class="c10"><b>S&iacute;lvio Romero<br>
+
+ </b> Martins Pena</td>
+
+
+ <td class="c11">$400</td>
+
+
+ <td class="c21">Notas do ex&iacute;lio<br>
+
+
+Hist&oacute;ria da Prostitui&ccedil;&atilde;o</td>
+
+
+
+ <td class="c24">$500<br>
+
+
+1$800</td>
+
+
+ </tr>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td class="c10"></td>
+
+
+ <td class="c14"></td>
+
+
+ <td class="c12">
+
+ <hr></td>
+
+
+ <td class="c22"><br>
+
+ </td>
+
+
+ </tr>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td class="c10"><b>Rebelo da Silva<br>
+
+ </b> Mocidade de D.
+Jo&atilde;o V.</td>
+
+
+
+ <td class="c11">1$500</td>
+
+
+ <td class="c12"><b>Camilo Castelo Branco</b><br>
+
+
+Maria da Fonte</td>
+
+
+ <td class="c19">$500</td>
+
+
+ </tr>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td class="c10"></td>
+
+
+ <td class="c14"></td>
+
+
+ <td class="c12">Livro de consola&ccedil;&atilde;o</td>
+
+
+ <td class="c19">$500</td>
+
+
+
+ </tr>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td class="c10"><b>Andrade Corvo<br>
+
+ </b> Um anno na corte</td>
+
+
+ <td class="c11">1$500</td>
+
+
+ <td class="c12">D. Lu&iacute;s de Portugal<br>
+
+
+Brasileira de Prazins</td>
+
+
+ <td class="c19">$300<br>
+
+
+$500</td>
+
+
+
+ </tr>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td class="c10"><br>
+
+ </td>
+
+
+ <td class="c14"></td>
+
+
+ <td class="c12">Eus&eacute;bio Mac&aacute;rio</td>
+
+
+ <td class="c19">$500</td>
+
+
+ </tr>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td class="c10"><b>Ant&oacute;nio C. Lousada<br>
+
+ </b> Rua
+escura</td>
+
+
+
+ <td class="c14">$500</td>
+
+
+ <td class="c12">Vulc&otilde;es da lama<br>
+
+
+Carta de guia de casados</td>
+
+
+ <td class="c19">$500<br>
+
+
+$300</td>
+
+
+ </tr>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td class="c10">Na consci&ecirc;ncia</td>
+
+
+ <td class="c14">$500</td>
+
+
+
+ <td class="c12"><br>
+
+ </td>
+
+
+ <td class="c19"></td>
+
+
+ </tr>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td class="c10"></td>
+
+
+ <td class="c9"></td>
+
+
+ <td class="c12"><b>Grainha</b><br>
+
+
+Jesu&iacute;tas</td>
+
+
+ <td class="c17">$600</td>
+
+
+ </tr>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td class="c10"><b>Dumas<br>
+
+ </b> Jorge ou o capit&atilde;o dos
+piratas</td>
+
+
+
+ <td class="c11">$500</td>
+
+
+ <td class="c12"><b><br>
+
+ </b></td>
+
+
+ <td class="c19"><br>
+
+ </td>
+
+
+ </tr>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td class="c10">Tr&ecirc;s mosqueteiros, 2 volumes</td>
+
+
+ <td class="c14">1$000</td>
+
+
+ <td class="c12"><b>Tolstoi</b><br>
+
+
+A Sonata de Kreutzer</td>
+
+
+ <td class="c17">$400<br>
+
+ </td>
+
+
+
+ </tr>
+
+
+
+ </tbody>
+</table>
+
+
+</div>
+
+
+<pre>
+
+ End of Project Gutenberg's A Cidade e as Serras, by Jos&eacute; Maria E&ccedil;a de Queir&oacute;s
+
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+the terms of this agreement, you must cease using and return or destroy
+all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your possession.
+If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a Project
+Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the
+terms of this agreement, you may obtain a refund from the person or
+entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8.
+
+1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be
+used on or associated in any way with an electronic work by people who
+agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few
+things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works
+even without complying with the full terms of this agreement. See
+paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project
+Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
+and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
+works. See paragraph 1.E below.
+
+1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
+or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
+Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the
+collection are in the public domain in the United States. If an
+individual work is in the public domain in the United States and you are
+located in the United States, we do not claim a right to prevent you from
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+1.D. The copyright laws of the place where you are located also govern<br>what you can do with this work. Copyright laws in most countries are in<br>a constant state of change. If you are outside the United States, check<br>the laws of your country in addition to the terms of this agreement<br>before downloading, copying, displaying, performing, distributing or<br>creating derivative works based on this work or any other Project<br>Gutenberg-tm work. The Foundation makes no representations concerning<br>the copyright status of any work in any country outside the United<br>States.<br><br>1.E. Unless you have removed all references to Project Gutenberg:<br><br>1.E.1. The following sentence, with active links to, or other immediate<br>access to, the full Project Gutenberg-tm License must appear prominently<br>whenever any copy of a Project Gutenberg-tm work (any work on which the<br>phrase "Project Gutenberg" appears, or with which the phrase "Project<br>Gutenberg" is associated) is accessed, displayed, performed, viewed,<br>copied or distributed:<br><br>This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with<br>almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or<br>re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included<br>with this eBook or online at www.gutenberg.org<br><br>1.E.2. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is derived<br>from the public domain (does not contain a notice indicating that it is<br>posted with permission of the copyright holder), the work can be copied<br>and distributed to anyone in the United States without paying any fees<br>or charges. 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INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the<br>trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone<br>providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance<br>with this agreement, and any volunteers associated with the production,<br>promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works,<br>harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,<br>that arise directly or indirectly from any of the following which you do<br>or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm<br>work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any<br>Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.<br><br><br>Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm<br><br>Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of<br>electronic works in formats readable by the widest variety of computers<br>including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists<br>because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from<br>people in all walks of life.<br><br>Volunteers and financial support to provide volunteers with the<br>assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's<br>goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will<br>remain freely available for generations to come. In 2001, the Project<br>Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure<br>and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.<br>To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation<br>and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4<br>and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.<br><br><br>Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive<br>Foundation<br><br>The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit<br>501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the<br>state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal<br>Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification<br>number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at<br>http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg<br>Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent<br>permitted by U.S. federal laws and your state's laws.<br><br>The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.<br>Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered<br>throughout numerous locations. Its business office is located at<br>809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email<br>business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact<br>information can be found at the Foundation's web site and official<br>page at http://pglaf.org<br><br>For additional contact information:<br> Dr. Gregory B. Newby<br> Chief Executive and Director<br> gbnewby@pglaf.org<br><br><br>Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg<br>Literary Archive Foundation<br><br>Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide<br>spread public support and donations to carry out its mission of<br>increasing the number of public domain and licensed works that can be<br>freely distributed in machine readable form accessible by the widest<br>array of equipment including outdated equipment. Many small donations<br>($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt<br>status with the IRS.<br><br>The Foundation is committed to complying with the laws regulating<br>charities and charitable donations in all 50 states of the United<br>States. Compliance requirements are not uniform and it takes a<br>considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up<br>with these requirements. We do not solicit donations in locations<br>where we have not received written confirmation of compliance. To<br>SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any<br>particular state visit http://pglaf.org<br><br>While we cannot and do not solicit contributions from states where we<br>have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition<br>against accepting unsolicited donations from donors in such states who<br>approach us with offers to donate.<br><br>International donations are gratefully accepted, but we cannot make<br>any statements concerning tax treatment of donations received from<br>outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.<br><br>Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation<br>methods and addresses. Donations are accepted in a number of other<br>ways including checks, online payments and credit card donations.<br>To donate, please visit: http://pglaf.org/donate<br><br><br>Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic<br>works.<br><br>Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm<br>concept of a library of electronic works that could be freely shared<br>with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project<br>Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.<br><br><br>Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed<br>editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.<br>unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily<br>keep eBooks in compliance with any particular paper edition.<br><br><br>Most people start at our Web site which has the main PG search facility:<br><br> http://www.gutenberg.org<br><br>This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,<br>including how to make donations to the Project Gutenberg Literary<br>Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to<br>subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.<br><br></pre>
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