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| author | Roger Frank <rfrank@pglaf.org> | 2025-10-15 04:52:49 -0700 |
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If you are not located in the United States, you +will have to check the laws of the country where you are located before +using this eBook. + +Title: A Cidade e as Serras + +Author: Eça Queirós + +Release Date: April 21, 2006 [eBook #18220] +[Most recently updated: December 8, 2022] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: UTF-8 + +Produced by: Rita Farinha and the Online Distributed Proofreading Team + +*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK A CIDADE E AS SERRAS *** + + + + +EÇA DE QUEIROZ + +A CIDADE E AS SERRAS + + +PORTO + +LIVRARIA CHARDRON + +De Lello & Irmão, editores + +1901 + +Todos os direitos reservados + + + + +EÇA DE QUEIROZ + +A CIDADE E AS SERRAS + + +PORTO + +LIVRARIA CHARDRON + +De Lello & Irmão, editores + +1901 + +Todos os direitos reservados + + + + +Pertence no Brazil o direito de propriedade d'esta obra ao cidadão +Francisco Alves, livreiro editor no Rio de Janeiro, que, para a garantia +que lhe offerece a lei n.^o 496 de 1 d'Agosto de 1898, fez o competente +deposito na Bibliotheca nacional, segundo a determinação do art. 13.^o +da mesma Lei. + + +_Porto--Imprensa Moderna_ + + + + +[Figura de Eça de Queirós] + + + + +A CIDADE E AS SERRAS + + + + +Obras do mesmo auctor: + + +*Revista de Portugal.* 4 grossos volumes 12$000 + +*As minas de Salomão.* 1 volume $600 + +*Os Maias.* 2 grossos volumes 2$000 + +*O crime do padre Amaro.* Terceira edição inteiramente refundida, +recomposta, e differente na fórma e na acção da edição primitiva. 1 grosso +volume 1$200 + +*O primo Bazilio.* Quarta edição. 1 grosso volume 1$000 + +*A Reliquia.* 1 grosso volume 1$000 + +*O Mandarim.* Quarta edição. 1 volume $500 + +*Correspondencia de Fradique Mendes.* 1 volume $600 + +*A illustre casa de Ramires.* 1 volume 1$000 + + + + +A CIDADE E AS SERRAS + + + + +I + + +O meu amigo Jacintho nasceu n'um palacio, com cento e nove contos de +renda em terras de semeadura, de vinhedo, de cortiça e d'olival. + +No Alemtejo, pela Extremadura, atravez das duas Beiras, densas sebes +ondulando por collina e valle, muros altos de boa pedra, ribeiras, +estradas, delimitavam os campos d'esta velha familia agricola que já +entulhava grão e plantava cepa em tempos d'el-rei D. Diniz. A sua quinta +e casa senhorial de Tormes, no Baixo Douro, cobriam uma serra. Entre o +Tua e o Tinhela, por cinco fartas legoas, todo o torrão lhe pagava fôro. +E cerrados pinheiraes seus negrejavam desde Arga até ao mar d'Ancora. +Mas o palacio onde Jacintho nascêra, e onde sempre habitára, era em +Paris, nos Campos Elyseos, n.^o 202. + +Seu avô, aquelle gordissimo e riquissimo Jacintho a quem chamavam em +Lisboa o _D. Galião_, descendo uma tarde pela travessa da Trabuqueta, +rente d'um muro de quintal que uma parreira toldava, escorregou n'uma +casca de laranja e desabou no lagedo. Da portinha da horta sahia n'esse +momento um homem moreno, escanhoado, de grosso casaco de baetão verde e +botas altas de picador, que, galhofando e com uma força facil, levantou +o enorme Jacintho--até lhe apanhou a bengala de castão d'ouro que rolára +para o lixo. Depois, demorando n'elle os olhos pestanudos e pretos: + +--Oh Jacintho Galião, que andas tu aqui, a estas horas, a rebolar pelas +pedras? + +E Jacintho, aturdido e deslumbrado, reconheceu o snr. Infante D. Miguel! + +Desde essa tarde amou aquelle bom Infante como nunca amára, apesar de +tão guloso, o seu ventre, e apesar de tão devoto o seu Deus! Na sala +nobre da sua casa (á Pampulha) pendurou sobre os damascos o retrato do +«seu Salvador», enfeitado de palmitos como um retabulo, e por baixo a +bengala que as magnanimas mãos reaes tinham erguido do lixo. Emquanto o +adoravel, desejado Infante penou no desterro de Vienna, o barrigudo +senhor corria, sacudido na sua sege amarella, do botequim do Zé-Maria em +Belem á botica do Placido nos Algibebes, a gemer as saudades do +_anginho_, a tramar o regresso do _anginho_. No dia, entre todos +bemdito, em que a _Perola_ appareceu á barra com o Messias, engrinaldou +a Pampulha, ergueu no Caneiro um monumento de papelão e lona onde D. +Miguel, tornado S. Miguel, branco, d'aureola e azas de Archanjo, furava +de cima do seu corcel d'Alter o Dragão do Liberalismo, que se estorcia +vomitando a Carta. Durante a guerra com o «outro, com o pedreiro livre» +mandava recoveiros a Santo Thyrso, a S. Gens, levar ao Rei fiambres, +caixas de dôce, garrafas do seu vinho de Tarrafal, e bolsas de retroz +atochadas de peças que elle ensaboava para lhes avivar o ouro. E quando +soube que o snr. D. Miguel, com dois velhos bahus amarrados sobre um +macho, tomára o caminho de Sines e do final desterro--Jacintho _Galião_ +correu pela casa, fechou todas as janellas como n'um luto, berrando +furiosamente: + +--Tambem cá não fico! tambem cá não fico! + +Não, não queria ficar na terra perversa d'onde partia, esbulhado e +escorraçado, aquelle Rei de Portugal que levantava na rua os Jacinthos! +Embarcou para França com a mulher, a snr.^a D. Angelina Fafes (da tão +fallada casa dos Fafes da Avellan); com o filho, o 'Cinthinho, menino +amarellinho, mollesinho, coberto de caróços e leicenços; com a aia e com +o moleque. Nas costas da Cantabria o paquete encontrou tão rijos mares +que a snr.^a D. Angelina, esguedelhada, de joelhos na enxerga do +beliche, prometteu ao Senhor dos Passos d'Alcantara uma corôa +d'espinhos, de ouro, com as gottas de sangue em rubis do Pegu. Em +Bayonna, onde arribaram, 'Cinthinho teve ithericia. Na estrada +d'Orleans, n'uma noite agreste, o eixo da berlinda em que jornadeavam +partiu, e o nedio senhor, a delicada senhora da casa da Avellan, o +menino, marcharam tres horas na chuva e na lama do exilio até uma +aldeia, onde, depois de baterem como mendigos a portas mudas, dormiram +nos bancos d'uma taberna. No «Hotel dos Santos Padres», em Paris, +soffreram os terrores d'um fogo que rebentára na cavalhariça, sob o +quarto de _D. Galião_, e o digno fidalgo, rebolando pelas escadas em +camisa, até ao pateo, enterrou o pé nú numa lasca de vidro. Então ergueu +amargamente ao céo o punho cabelludo, e rugiu: + +--Irra! É de mais! + +Logo n'essa semana, sem escolher, Jacintho _Galião_ comprou a um +Principe polaco, que depois da tomada de Varsovia se mettera frade +cartuxo, aquelle palacete dos Campos Elyseos, n.^o 202. E sob o pesado +ouro dos seus estuques, entre as suas ramalhudas sedas se enconchou, +descançando de tantas agitações, n'uma vida de pachorra e de boa mesa, +com alguns companheiros d'emigração (o desembargador Nuno Velho, o conde +de Rabacena, outros menores), até que morreu de indigestão, d'uma +lampreia d'escabeche que lhe mandára o seu procurador em Monte-mór. Os +amigos pensavam que a snr.^a D. Angelina Fafes voltaria ao reino. Mas a +boa senhora temia a jornada, os mares, as caleças que racham. E não se +queria separar do seu Confessor, nem do seu Medico, que tão bem lhe +comprehendiam os escrupulos e a asthma. + +--Eu, por mim, aqui fico no 202 (declarára ella), ainda que me faz falta +a boa agua d'Alcolena... O 'Cinthinho, esse, em crescendo, que decida. + +O 'Cinthinho crescèra. Era um moço mais esguio e livido que um cirio, de +longos cabellos corredios, narigudo, silencioso, encafuado em roupas +pretas, muito largas e bambas; de noite, sem dormir, por causa da tosse +e de suffocações, errava em camisa com uma lamparina atravez do 202; e +os creados na copa sempre lhe chamavam a _Sombra_. N'essa sua mudez e +indecisão de sombra surdira, ao fim do luto do papá, o gosto muito vivo +de tornear madeiras ao torno: depois, mais tarde, com a melada flôr dos +seus vinte annos, brotou n'elle outro sentimento, de desejo e de pasmo, +pela filha do desembargador Velho, uma menina redondinha como uma rôla, +educada n'um convento de Paris, e tão habilidosa que esmaltava, dourava, +concertava relogios e fabricava chapéos de feltro. No outomno de 1851, +quando já se desfolhavam os castanheiros dos Campos Elyseos, o +'Cinthinho cuspilhou sangue. O medico, acarinhando o queixo e com uma +ruga seria na testa immensa, aconselhou que o menino abalasse para o +golfo Juan ou para as tepidas areias d'Arcachon. + +'Cinthinho porém, no seu afèrro de sombra, não se quiz arredar da +Therezinha Velho, de quem se tornára, atravez de Paris, a muda, tardônha +sombra. Como uma sombra, casou; deu mais algumas voltas ao torno; cuspiu +um resto de sangue; e passou, como uma sombra. + +Tres mezes e tres dias depois do seu enterro o meu Jacintho nasceu. + + * * * * * + +Desde o berço, onde a avó espalhava funcho e ambar para afugentar a +_Sorte-Ruim_, Jacintho medrou com a segurança, a rijeza, a seiva rica +d'um pinheiro das dunas. + +Não teve sarampo e não teve lombrigas. As Letras, a Taboada, o Latim +entraram por elle tão facilmente como o sol por uma vidraça. Entre os +camaradas, nos pateos dos collegios, erguendo a sua espada de lata e +lançando um brado de commando, foi logo o vencedor, o Rei que se adula, +e a quem se cede a fructa das merendas. Na edade em que se lê Balzac e +Musset nunca atravessou os tormentos da sensibilidade;--nem crepusculos +quentes o retiveram na solidão d'uma janella, padecendo d'um desejo sem +fórma e sem nome. Todos os seus amigos (eramos tres, contando o seu +velho escudeiro preto, o Grillo) lhe conservaram sempre amizades puras e +certas--sem que jámais a participação do seu luxo as avivasse ou fossem +desanimadas pelas evidencias do seu egoismo. Sem coração bastante forte +para conceber um amor forte, e contente com esta incapacidade que o +libertava, do amor só experimentou o mel--esse mel que o amor reserva +aos que o recolhem, á maneira das abelhas, com ligeireza, mobilidade e +cantando. Rijo, rico, indifferente ao Estado e ao Governo dos Homens, +nunca lhe conhecemos outra ambição além de comprehender bem as Ideias +Geraes; e a sua intelligencia, nos annos alegres de escólas e +controversias, círculava dentro das Philosophias mais densas como enguia +lustrosa na agua limpa d'um tanque. O seu valor, genuino, de fino +quilate, nunca foi desconhecido, nem desapreciado; e toda a opinião, ou +mera facecia que lançasse, logo encontrava uma aragem de sympathia e +concordancia que a erguia, a mantinha emballada e rebrilhando nas +alturas. Era servido pelas cousas com docilidade e carinho;--e não +recordo que jamais lhe estalasse um botão da camisa, ou que um papel +maliciosamente se escondesse dos seus olhos, ou que ante a sua +vivacidade e pressa uma gaveta perfida emperrasse. Quando um dia, rindo +com descrido riso da Fortuna e da sua Roda, comprou a um sachristão +hespanhol um Decimo de Loteria, logo a Fortuna, ligeira e ridente sobre +a sua Roda, correu n'um fulgor, para lhe trazer quatro centas mil +pesetas. E no ceu as Nuvens, pejadas e lentas, se avistavam Jacintho sem +guarda chuva, retinham com reverencia as suas aguas até que elle +passasse... Ah! o ambar e o funcho da snr.^a D. Angelina tinham +escorraçado do seu destino, bem triumphalmente e para sempre, a +_Sorte-Ruim_! A amoravel avó (que eu conheci obesa, com barba) costumava +citar um soneto natalicio do desembargador Nunes Velho contendo um verso +de boa lição: + + Sabei, senhora, que esta Vida é um rio... + +Pois um rio de verão, manso, translucido, harmoniosamente estendido +sobre uma areia macia e alva, por entre arvoredos fragrantes e ditosas +aldeias, não offereceria áquelle que o descesse n'um barco de cedro, bem +toldado e bem almofadado, com fructas e Champagne a refrescar em gelo, +um Anjo governando ao leme, outros Anjos puxando á sirga, mais segurança +e doçura do que a Vida offerecia ao meu amigo Jacintho. + +Por isso nós lhe chamavamos «o Principe da Gran-Ventura»! + + * * * * * + +Jacintho e eu, José Fernandes, ambos nos encontramos e acamaradamos em +Paris, nas Escólas do Bairro Latino--para onde me mandára meu bom tio +Affonso Fernandes Lorena de Noronha e Sande, quando aquelles malvados me +riscaram da Universidade por eu ter esborrachado, n'uma tarde de +procissão, na Sophia, a cara sordida do dr. Paes Pitta. + +Ora n'esse tempo Jacintho concebêra uma Ideia... Este Principe concebêra +a Ideia de que «o homem só é superiormente feliz quando é superiormente +civilisado». E por homem civilisado o meu camarada entendia aquelle que, +robustecendo a sua força pensante com todas as noções adquiridas desde +Aristoteles, e multiplicando a potencia corporal dos seus orgãos com +todos os mechanismos inventados desde Theramenes, creador da roda, se +torna um magnifico Adão, quasí omnipotente, quasí omnisciente, e apto +portanto a recolher dentro d'uma sociedade e nos limites do Progresso +(tal como elle se comportava em 1875) todos os gozos e todos os +proveitos que resultam de Saber e de Poder... Pelo menos assim Jacintho +formulava copiosamente a sua Ideia, quando conversavamos de fins e +destinos humanos, sorvendo bocks poeirentos, sob o toldo das cervejarias +philosophicas, no Boulevard Saint-Michel. + +Este conceito de Jacintho impressionára os nossos camaradas de cenaculo, +que tendo surgido para a vida intellectual, de 1866 a 1875, entre a +batalha de Sadowa e a batalha de Sedan, e ouvindo constantemente, desde +então, aos technicos e aos philosophos, que fôra a Espingarda-de-agulha +que vencêra em Sadowa e fôra o Mestre-de-escóla quem vencêra em Sedan, +estavam largamente preparados a acreditar que a felicidade dos +individuos, como a das nações, se realisa pelo illimitado +desenvolvimento da Mechanica e da Erudição. Um d'esses moços mesmo, o +nosso inventivo Jorge Carlande, reduzíra a theoria de Jacintho, para lhe +facilitar a circulação e lhe condensar o brilho, a uma fórma algebrica: + +Summa sciencia} + X }= Summa felicidade +Summa potencia} + +E durante dias, do Odeon á Sorbonna, foi louvada pela mocidade positiva +a _Equação Metaphysica de Jacintho_. + +Para Jacintho, porém, o seu conceito não era meramente metaphysico e +lançado pelo gozo elegante de exercer a razão especulativa:--mas +constituia uma regra, toda de realidade e de utilidade, determinando a +conducta, modalisando a vida. E já a esse tempo, em concordancia com o +seu preceito--elle se surtira da _Pequena Encyclopedia dos Conhecimentos +Universaes_ em setenta e cinco volumes e installára, sobre os telhados +do 202, n'um mirante envidraçado, um telescopio. Justamente com esse +telescopio me tornou elle palpavel a sua ideia, n'uma noite de agosto, +de molle e dormente calor. Nos céos remotos lampejavam relampagos +languidos. Pela Avenida dos Campos Elyseos, os fiacres rolavam para as +frescuras do Bosque, lentos, abertos, cançados, transbordando de +vestidos claros. + +--Aqui tens tu, Zé Fernandes, (começou Jacintho, encostado á janella do +mirante) a theoria que me governa, bem comprovada. Com estes olhos que +recebemos da Madre natureza, lestos e sãos, nós podemos apenas +distinguir além, atravez da Avenida, n'aquella loja, uma vidraça +alumiada. Mais nada! Se eu porém aos meus olhos juntar os dois vidros +simples d'um binoculo de corridas, percebo, por traz da vidraça, +presuntos, queijos, boiões de gelêa e caixas de ameixa sêcca. Concluo +portanto que é uma mercearia. Obtive uma noção; tenho sobre ti, que com +os olhos desarmados vês só o luzir da vidraça, uma vantagem positiva. Se +agora, em vez d'estes vidros simples, eu usasse os do meu telescopio, de +composição mais scientifica, poderia avistar além, no planeta Marte, os +mares, as neves, os canaes, o recorte dos golphos, toda a geographia +d'um astro que circula a milhares de leguas dos Campos Elyseos. É outra +noção, e tremenda! Tens aqui pois o olho primitivo, o da Natureza, +elevado pela Civilisação á sua maxima potencia de visão. E desde já, +pelo lado do olho portanto, eu, civilisado, sou mais feliz que o +incivilisado, porque descubro realidades do Universo que elle não +suspeita e de que está privado. Applica esta prova a todos os orgãos e +comprehendes o meu principio. Emquanto á intelligencia, e á felicidade +que d'ella se tira pela incançavel accumulação das noções, só te peco +que compares Renan e o Grillo... Claro é portanto que nos devemos cercar +de Civilisação nas maximas proporções para gosar nas maximas proporções +a vantagem de viver. Agora concordas, Zé Fernandes? + +Não me parecia irrecusavelmente certo que Renan fosse mais feliz que o +Grillo; nem eu percebia que vantagem espiritual ou temporal se côlha em +distinguir atravez do espaço manchas n'um astro, ou atravez da Avenida +dos Campos Elyseos presuntos n'uma vidraça. Mas concordei, porque sou +bom, e nunca desalojarei um espirito do conceito onde elle encontra +segurança, disciplina e motivo de energia. Desabotoei o collete, e +lançando um gesto para o lado dos cafés e das luzes: + +--Vamos então beber, nas maximas proporções, _brandy and soda_, com +gelo! + +Por uma conclusão bem natural, a ideia de Civilisação, para Jacintho, +não se separava da imagem de Cidade, d'uma enorme Cidade, com todos os +seus vastos orgãos funccionando poderosamente. Nem este meu +super-civilisado amigo comprehendia que longe de Armazens servidos por +tres mil caixeiros; e de Mercados onde se despejam os vergeis e lezirias +de trinta provincias; e de Bancos em que retine o ouro universal; e de +Fabricas fumegando com ancia, inventando com ancia; e de Bibliothecas +abarrotadas, a estalar, com a papelada dos seculos; e de fundas milhas +de ruas, cortadas, por baixo e por cima, de fios de telegraphos, de fios +de telephones, de canos de gazes, de canos de fezes; e da fila atroante +dos omnibus, tramways, carroças, velocipedes, calhambeques, parelhas de +luxo; e de dois milhões d'uma vaga humanidade, fervilhando, a offegar, +atravez da Policia, na busca dura do pão ou sob a illusão do gozo--o +homem do seculo XIX podesse saborear, plenamente, a delicia de viver! + +Quando Jacintho, no seu quarto do 202, com as varandas abertas sobre os +lilazes, me desenrolava estas imagens, todo elle crescia, illuminado. +Que creação augusta, a da Cidade! Só por ella, Zé-Fernandes, só por +ella, póde o homem soberbamente affirmar a sua alma!... + +--Oh Jacintho, e a religião? Pois a religião não prova a alma? + +Elle encolhia os hombros. A religião! A religião é o desenvolvimento +sumptuoso de um instincto rudimentar, commum a todos os brutos, o +terror. Um cão lambendo a mão do dono, de quem lhe vem o osso ou o +chicote, já constitue toscamente um devoto, o consciente devoto, +prostrado em rezas ante o Deus que distribue o céo ou o inferno!... Mas +o telephone! o phonographo! + +--Ahi tens tu, o phonographo!... Só o phonographo, Zé Fernandes, me faz +verdadeiramente sentir a minha superioridade de sêr pensante e me separa +do bicho. Acredita, não ha senão a Cidade, Zé Fernandes, não ha senão a +Cidade! + +E depois (accrescentava) só a Cidade lhe dava a sensação, tão necessaria +á vida como o calor, da solidariedade humana. E no 202, quando +considerava em redor, nas densas massas do casario de Paris, dois +milhões de sêres arquejando na obra da Civilisação (para manter na +natureza o dominio dos Jacinthos!) sentia um socego, um conchego, só +comparaveis ao do peregrino, que, ao atravessar o deserto, se ergue no +seu dromedario, e avista a longa fila da caravana marchando, cheia de +lumes e de armas... + +Eu murmurava, impressionado: + +--Caramba! + +Ao contrario no campo, entre a inconsciencia e a impassibilidade da +Natureza, elle tremia com o terror da sua fragilidade e da sua solidão. +Estava ahi como perdido n'um mundo que lhe não fosse fraternal; nenhum +silvado encolheria os espinhos para que elle passasse; se gemesse com +fome nenhuma arvore, por mais carregada, lhe estenderia o seu fructo na +ponta compassiva d'um ramo. Depois, em meio da Natureza, elle assistia á +subita e humilhante inutilisação de todas as suas faculdades superiores. +De que servia, entre plantas e bichos--ser um Genio ou ser um Santo? As +searas não comprehendem as _Georgicas_; e fôra necessario o socorro +ancioso de Deus, e a inversão de todas as leis naturaes, e um violento +milagre para que o lobo de Agubio não devorasse S. Francisco d'Assis, +que lhe sorria e lhe estendia os braços e lhe chamava «meu irmão lobo»! +Toda a intellectualidade, nos campos, se esterilisa, e só resta a +bestialidade. N'esses reinos crassos do Vegetal e do Animal duas unicas +funcções se mantêm vivas, a nutritiva e a procreadora. Isolada, sem +occupação, entre focinhos e raizes que não cessam de sugar e de pastar, +suffocando no calido bafo da universal fecundação, a sua pobre alma toda +se engelhava, se reduzia a uma migalha d'alma, uma fagulhasinha +espiritual a tremeluzir, como morta, sobre um naco de materia; e n'essa +materia dois instinctos surdiam, imperiosos e pungentes, o de devorar e +o de gerar. Ao cabo de uma semana rural, de todo o seu sêr tão +nobremente composto só restava um estomago e por baixo um phallus! A +alma? Sumida sob a besta. E necessitava correr, reentrar na Cidade, +mergulhar nas ondas lustraes da Civilisação, para largar n'ellas a +crosta vegetativa, e resurgir re-humanisado, de novo espiritual e +Jacinthico! + +E estas requintadas metaphoras do meu amigo exprimiam sentimentos +reaes--que eu testemunhei, que muito me divertiram, no unico passeio que +fizemos ao campo, á bem amavel e bem sociavel floresta de Montmorency. +Oh delicias d'entremez, Jacintho entre a Natureza! Logo que se afastava +dos pavimentos de madeira, do macadam, qualquer chão que os seus pés +calcassem o enchia de desconfiança e terror. Toda a relva, por mais +crestada, lhe parecia reçumar uma humidade mortal. De sob cada torrão, +da sombra de cada pedra, receava o assalto de lacraus, de viboras, de +fórmas rastejantes e viscosas. No silencio do bosque sentia um lugubre +despovoamento do Universo. Não tolerava a familiaridade dos galhos que +lhe roçassem a manga ou a face. Saltar uma sebe era para elle um acto +degradante que o retrogradava ao macaco inicial. Todas as flôres que não +tivesse já encontrado em jardins, domesticadas por longos seculos de +servidão ornamental, o inquietavam como venenosas. E considerava d'uma +melancolia funambulesca certos modos e fórmas do Sêr inanimado, a pressa +esperta e vã dos regatinhos, a careca dos rochedos, todas as contorsões +do arvoredo e o seu resmungar solemne e tonto. + +Depois d'uma hora, n'aquelle honesto bosque de Montmorency, o meu pobre +amigo abafava, apavorado, experimentando já esse lento mingoar e sumir +d'alma que o tornava como um bicho entre bichos. Só desannuviou quando +penetramos no lagêdo e no gaz de Paris--e a nossa vittoria quasi se +despedaçou contra um omnibus retumbante, atulhado de cidadãos. Mandou +descer pelos Boulevards, para dissipar, na sua grossa sociabilidade, +aquella materialisação em que sentia a cabeça pesada e vaga como a d'um +boi. E reclamou que eu o acompanhasse ao theatro das Variedades para +sacudir, com os estribilhos da _Femme à Papa_, o rumor importuno que lhe +ficára dos melros cantando nos choupos altos. + +Este delicioso Jacintho fizera então vinte e tres annos, e era um +soberbo moço em quem reapparecêra a força dos velhos Jacinthos ruraes. +Só pelo nariz, afilado, com narinas quasi transparentes, d'uma +mobilidade inquieta, como se andasse fariscando perfumes, pertencia ás +delicadezas do seculo XIX. O cabello ainda se conservava, ao modo das +éras rudes, crespo e quasi lanigero: e o bigode, como o d'um Celta, +cahia em fios sedosos, que elle necessitava aparar e frizar. Todo o seu +fato, as espessas gravatas de setim escuro que uma perola prendia, as +luvas de anta branca, o verniz das botas, vinham de Londres em caixotes +de cedro; e usava sempre ao peito uma flôr, não natural, mas composta +destramente pela sua ramalheteira com petalas de flôres dessemelhantes, +cravo, azalea, orchidea ou tulipa, fundidas na mesma haste entre uma +leve folhagem de funcho. + + * * * * * + +Em 1880, em Fevereiro, n'uma cinzenta e arripiada manhã de chuva, recebi +uma carta de meu bom tio Affonso Fernandes, em que, depois de +lamentações sobre os seus setenta annos, os seus males hemorroidaes, e a +pesada gerencia dos seus bens «que pedia homem mais novo, com pernas +mais rijas»--me ordenava que recolhesse á nossa casa de Guiães, no +Douro! Encostado ao marmore partido do fogão, onde na véspera a minha +Nini deixára um espartilho embrulhado no _Jornal dos Debates_, censurei +severamente meu tio que assim cortava em botão, antes de desabrochar, a +flôr do meu Saber Juridico. Depois n'um Post-Scriptum elle +accrescentava--«O tempo aqui está lindo, o que se póde chamar de rosas, +e tua santa tia muito se recommenda, que anda lá pela cozinha, porque +vai hoje em trinta e seis annos que casámos, temos cá o abbade e o +Quintaes a jantar, e ella quiz fazer uma sopa dourada». + +Deitando uma acha ao lume, pensei como devia estar boa a sopa dourada da +tia Vicencia. Ha quantos annos não a provava, nem o leitão assado, nem o +arroz de fôrno da nossa casa! Com o tempo assim tão lindo, já as mimosas +do nosso pateo vergariam sob os seus grandes cachos amarellos. Um pedaço +de céo azul, do azul de Guiães, que outro não ha tão lustroso e macio, +entrou pelo quarto, alumiou, sobre a poida tristeza do tapete, relvas, +ribeirinhos, malmequeres e flôres de trevo de que meus olhos andavam +agoados. E, por entre as bambinellas de sarja, passou um ar fino e forte +e cheiroso de serra e de pinheiral. + +Assobiando um _fado_ meigo tirei debaixo da cama a minha velha mala, e +metti solicitamente entre calças e piugas um Tratado de Direito Civil, +para aprender emfim, nos vagares da aldeia, estendido sob a faia, as +leis que regem os homens. Depois, n'essa tarde, annunciei a Jacintho que +partia para Guiães. O meu camarada recuou com um surdo gemido de espanto +e piedade: + +--Para Guiães!... Oh Zé Fernandes, que horror! + +E toda essa semana me lembrou solicitamente confortos de que eu me +deveria prover para que pudesse conservar, nos ermos silvestres, tão +longe da Cidade, uma pouca d'alma dentro d'um pouco de corpo. «Leva uma +poltrona! Leva a _Encyclopedia Geral_! Leva caixas de aspargos!...» + +Mas para o meu Jacintho, desde que assim me arrancavam da Cidade, eu era +arbusto desarraigado que não reviverá. A magoa com que me acompanhou ao +comboio conviria excellentemente ao meu funeral. E quando fechou sobre +mim a portinhola, gravemente, supremamente, como se cerra uma grade de +sepultura, eu quasi solucei--com saudades minhas. + +Cheguei a Guiães. Ainda restavam flôres nas mimosas do nosso pateo; comi +com delicias a sopa dourada da tia Vicencia; de tamancos nos pés assisti +á ceifa dos milhos. E assim de colheitas a lavras, crestando ao sol das +eiras, caçando a perdiz nos matos geados, rachando a melancia fresca na +poeira dos arraiaes, arranchando a magustos, serandando á candeia, +atiçando fogueiras de S. João, enfeitando presepios de Natal, por alli +me passaram docemente sete annos, tão atarefados que nunca logrei abrir +o Tratado de Direito Civil, e tão singelos que apenas me recordo quando, +em vésperas de S. Nicolau, o abbade cahiu da egua á porta do Braz das +Córtes. De Jacintho só recebia raramente algumas linhas, escrevinhadas á +pressa por entre o tumulto da Civilisação. Depois, n'um Setembro muito +quente, ao lidar da vindima, meu bom tio Affonso Fernandes morreu, tão +quietamente, Deus seja louvado por esta graça, como se cala um +passarinho ao fim do seu bem cantado e bem voado dia. Acabei pela aldeia +a roupa do luto. A minha afilhada Joanninha casou na matança do porco. +Andaram obras no nosso telhado. Voltei a Paris. + + + + +II + + +Era de novo Fevereiro, e um fim de tarde arripiado e cinzento, quando eu +desci os Campos Elyseos em demanda do 202. Adiante de mim caminhava, +levemente curvado, um homem que, desde as botas rebrilhantes até ás abas +recurvas do chapéo d'onde fugiam anneis d'um cabello crespo, reçumava +elegancia e a familiaridade das coisas finas. Nas mãos, cruzadas atraz +das costas, calçadas d'anta branca, sustentava uma bengala grossa com +castão de crystal. E só quando elle parou ao portão do 202 reconheci o +nariz afilado, os fios do bigode corredios e sedosos. + +--Oh Jacintho! + +--Oh Zé Fernandes! + +O abraço que nos enlaçou foi tão alvoroçado que o meu chapéo rolou na +lama. E ambos murmuravamos, commovidos, entrando a grade: + +--Ha sete annos!... + +--Ha sete annos!... + +E, todavia, nada mudára durante esses sete annos no jardim do 202! Ainda +entre as duas aleas bem areadas se arredondava uma relva, mais lisa e +varrida que a lã d'um tapete. No meio o vaso corinthico esperava Abril +para resplandecer com tulipas e depois Junho para transbordar de +margaridas. E ao lado das escadas limiares, que uma vidraçaria toldava, +as duas magras Deusas de pedra, do tempo de D. Galião, sustentavam as +antigas lampadas de globos foscos, onde já silvava o gaz. + +Mas dentro, no peristillo, logo me surprehendeu um elevador installado +por Jacintho--apesar do 202 ter sómente dois andares, e ligados por uma +escadaria tão doce que nunca offendêra a asthma da snr.^a D. Angelina! +Espaçoso, tapetado, elle offerecia, para aquella jornada de sete +segundos, confortos numerosos, um divan, uma pelle d'urso, um roteiro +das ruas de Paris, prateleiras gradeadas com charutos e livros. Na +antecamara, onde desembarcamos, encontrei a temperatura macia e tepida +d'uma tarde de Maio, em Guiães. Um creado, mais attento ao thermometro +que um piloto á agulha, regulava destramente a bocca dourada do +calorifero. E perfumadores entre palmeiras, como n'um terrasso santo de +Benares, esparziam um vapor, aromatisando e salutarmente humedecendo +aquelle ar delicado e superfino. + +Eu murmurei, nas profundidades do meu assombrado sêr: + +--Eis a civilisação! + +Jacintho empurrou uma porta, penetramos n'uma nave cheia de magestade e +sombra, onde reconheci a Bibliotheca por tropeçar n'uma pilha monstruosa +de livros novos. O meu amigo roçou de leve o dedo na parede: e uma corôa +de lumes electricos, refulgindo entre os lavores do tecto, alumiou as +estantes monumentaes, todas d'ebano. N'ellas repousavam mais de trinta +mil volumes, encadernados em branco, em escarlate, em negro, com +retoques d'ouro, hirtos na sua pompa e na sua auctoridade como doutores +n'um concilio. + +Não contive a minha admiração: + +--Oh Jacintho! Que deposito! + +Elle murmurou, n'um sorriso descorado: + +--Ha que lêr, ha que lêr... + +Reparei então que o meu amigo emmagrecera: e que o nariz se lhe afilára +mais entre duas rugas muito fundas, como as d'um comediante cançado. Os +anneis do seu cabello lanigero rareavam sobre a testa, que perdera a +antiga serenidade de marmore bem polido. Não frisava agora o bigode +murcho, cahido em fios pensativos. Tambem notei que corcovava. + +Elle erguêra uma tapeçaria--entramos no seu gabinete de trabalho, que me +inquietou. Sobre a espessura dos tapetes sombrios os nossos passos +perderam logo o som, e como a realidade. O damasco das paredes, os +divans, as madeiras, eram verdes, d'um verde profundo de folha de louro. +Sêdas verdes envolviam as luzes electricas, dispersas em lampadas tão +baixas que lembravam estrellas cahidas por cima das mesas, acabando de +arrefecer e morrer: só uma rebrilhava, núa e clara, no alto d'uma +estante quadrada, esguia, solitaria como uma torre n'uma planicie, e de +que o lume parecia ser o pharol melancolico. Um biombo de laca verde, +fresco verde de relva, resguardava a chaminé de marmore verde, verde de +mar sombrio, onde esmoreciam as brazas d'uma lenha aromatica. E entre +aquelles verdes reluzia, por sobre peanhas e pedestaes, toda uma +Mechanica sumptuosa, apparelhos, laminas, rodas, tubos, engrenagens, +hastes, friezas, rigidezas de metaes... + +Mas Jacintho batia nas almofadas do divan, onde se enterrára com um modo +cançado que eu não lhe conhecia: + +--Para aqui, Zé Fernandes, para aqui! É necessario reatarmos estas +nossas vidas, tão apartadas ha sete annos!... Em Guiães, sete annos! Que +fizeste tu? + +--E tu, que tens feito, Jacintho? + +O meu amigo encolheu mollemente os hombros. Vivêra--cumprira com +serenidade todas as funcções, as que pertencem á materia e as que +pertencem ao espirito... + +--E accumulaste civilisação, Jacintho! Santo Deus... Está tremendo, o +202! + +Elle espalhou em torno um olhar onde já não faiscava a antiga +vivacidade: + +--Sim, ha confortos... Mas falta muito! A humanidade ainda está mal +apetrechada, Zé Fernandes... E a vida conserva resistencias. + +Subitamente, a um canto, repicou a campainha do telephone. E emquanto o +meu amigo, curvado sobre a placa, murmurava impaciente «_Está lá?--Está +lá?_», examinei curiosamente, sobre a sua immensa mesa de trabalho, uma +estranha e miuda legião de instrumentosinhos de nickel, d'aço, de cobre, +de ferro, com gumes, com argolas, com tenazes, com ganchos, com dentes, +expressivos todos, de utilidades misteriosas. Tomei um que tentei +manejar--e logo uma ponta malevola me picou um dedo. N'esse instante +rompeu d'outro canto um «tic-tic-tic» açodado, quasi ancioso. Jacintho +acudiu, com a face no telephone: + +--Vê ahi o telegrapho!... Ao pé do divan. Uma tira de papel que deve +estar a correr. + +E, com effeito, d'uma redôma de vidro posta n'uma columna, e contendo um +apparelho esperto e diligente, escorria para o tapete, como uma tenia, a +longa tira de papel com caracteres impressos, que eu, homem das serras, +apanhei, maravilhado. A linha, traçada em azul, annunciava ao meu amigo +Jacintho que a fragata russa _Azoff_ entrára em Marselha com avaria! + +Já elle abandonára o telephone. Desejei saber, inquieto, se o +prejudicava directamente aquella avaria da _Azoff_. + +--Da _Azoff_?... A avaria? A mim?... Não! É uma noticia. + +Depois, consultando um relogio monumental que, ao fundo da Bibliotheca, +marcava a hora de todas as Capitaes e o curso de todos os Planetas: + +--Eu preciso escrever uma carta, seis linhas... Tu esperas, não, Zé +Fernandes? Tens ahi os jornaes de Paris, da noite; e os de Londres, +d'esta manhã. As Illustrações além, n'aquella pasta de couro com +ferragens. + +Mas eu preferi inventariar o gabinete, que dava á minha profanidade +serrana todos os gostos d'uma iniciação. Aos lados da cadeira de +Jacintho pendiam gordos tubos acusticos, por onde elle decerto soprava +as suas ordens através do 202. Dos pés da mesa cordões tumidos e molles, +colleando sobre o tapete, corriam para os recantos de sombra á maneira +de cobras assustadas. Sobre uma banquinha, e reflectida no seu verniz +como na agua d'um poço, pousava uma Machina-de-escrever: e adiante era +uma immensa Machina-de-calcular, com fileiras de buracos d'onde +espreitavam, esperando, numeros rigidos e de ferro. Depois parei em +frente da estante que me preoccupava, assim solitaria, á maneira d'uma +torre n'uma planicie, com o seu alto pharol. Toda uma das suas faces +estava repleta de Diccionarios; a outra de Manuaes; a outra de Atlas; a +ultima de Guias, e entre elles, abrindo um folio, encontrei o Guia das +ruas de Samarkande. Que macissa torre de informação! Sobre prateleiras +admirei apparelhos que não comprehendia:--um composto de laminas de +gelatina, onde desmaiavam, meio-chupadas, as linhas d'uma carta, talvez +amorosa; outro, que erguia sobre um pobre livro brochado, como para o +decepar, um cutello funesto; outro avançando a bocca d'uma tuba, toda +aberta para as vozes do invisivel. Cingidos aos umbraes, liados ás +cimalhas, luziam arames, que fugiam através do tecto, para o espaço. +Todos mergulhavam em forças universaes, todos transmittiam forças +universaes. A Natureza convergia disciplinada ao serviço do meu amigo e +entrára na sua domesticidade!... + +Jacintho atirou uma exclamação impaciente: + +--Oh, estas pennas electricas!... Que secca! + +Amarrotára com colera a carta começada--eu escapei, respirando, para a +Bibliotheca. Que magestoso armazem dos productos do Raciocinio e da +Imaginação! Alli jaziam mais de trinta mil volumes, e todos decerto +essenciaes a uma cultura humana. Logo á entrada notei, em ouro n'uma +lombada verde, o nome de Adam Smith. Era pois a região dos Economistas. +Avancei--e percorri, espantado, oito metros de Economia Politica. Depois +avistei os Philosophos e os seus commentadores, que revestiam toda uma +parede, desde as escólas Pre-socraticas até ás escólas Neo-pessimistas. +N'aquellas pranchas se acastellavam mais de dois mil systemas--e que +todos se contradiziam. Pelas encadernações logo se deduziam as +doutrinas: Hobbes, em baixo, era pesado, de couro negro; Platão, em +cima, resplandecia, n'uma pellica pura e alva. Para diante começavam as +Historias Universaes. Mas ahi uma immensa pilha de livros brochados, +cheirando a tinta nova e a documentos novos, subia contra a estante, +como fresca terra d'alluvião tapando uma riba secular. Contornei essa +collina, mergulhei na secção das Sciencias Naturaes, peregrinando, n'um +assombro crescente, da Orographia para a Paleontologia, e da Morphologia +para a Crystallographia. Essa estante rematava junto d'uma janella +rasgada sobre os Campos Elyseos. Apartei as cortinas de velludo--e por +traz descobri outra portentosa rima de volumes, todos de Historia +Religiosa, de Exegese Religiosa, que trepavam montanhosamente até aos +ultimos vidros, vedando, nas manhãs mais candidas, o ar e a luz do +Senhor. + +Mas depois rebrilhava, em marroquins claros, a estante amavel dos +Poetas. Como um repouso para o espirito esfalfado de todo aquelle saber +positivo, Jacintho aconchegára ahi um recanto, com um divan e uma mesa +de limoeiro, mais lustrosa que um fino esmalte, coberta de charutos, de +cigarros d'Oriente, de tabaqueiras do seculo XVIII. Sobre um cofre de +madeira lisa pousava ainda, esquecido, um prato de damascos seccos do +Japão. Cedi á seducção das almofadas; trinquei um damasco, abri um +volume; e senti estranhamente, ao lado, um zumbido, como de um insecto +de azas harmoniosas. Sorri á idéa que fossem abelhas, compondo o seu mel +n'aquelle massiço de versos em flôr. Depois percebi que o susurro remoto +e dormente vinha do cofre de mogne, de parecer tão discreto. Arredei uma +_Gazeta de França_; e descornitei um cordão que emergia de um orificio, +escavado no cofre, e rematava n'um funil de marfim. Com curiosidade, +encostei o funil a esta minha confiada orelha, afeita á singeleza dos +rumores da serra. E logo uma Voz, muito mansa, mas muito dicidida, +aproveitando a minha curiosidade para me invadir e se apoderar do meu +entendimento, susurrou capciosamente: + +--...«E assim, pela disposição dos cubos diabolicos, eu chego a +verificar os espaços hypermagicos!...» + +Pulei, com um berro. + +--Oh Jacintho, aqui ha um homem! Está aqui um homem a fallar dentro +d'uma caixa! + +O meu camarada, habituado aos prodigios, não se alvoroçou: + +--É o Conferençophone... Exactamente como o Theatrophone; sómente +applicado ás escólas e ás conferencias. Muito commodo!... Que diz o +homem, Zé Fernandes? + +Eu considerava o cofre, ainda esgazeado: + +--Eu sei! Cubos diabolicos, espaços magicos, toda a sorte de horrores... + +Senti dentro o sorriso superior de Jacintho: + +--Ah, é o coronel Dorchas... Lições de Metaphysica Positiva sobre a +Quarta Dimensão... Conjecturas, uma massada! Ouve lá, tu hoje jantas +commigo e com uns amigos, Zé Fernandes? + +--Não, Jacintho... Estou ainda enfardelado pelo alfaiate da serra! + +E voltei ao gabinete mostrar ao meu camarada o jaquetão de flanella +grossa, a gravata de pintinhas escarlates, com que ao domingo, em +Guiães, visitava o Senhor. Mas Jacintho affirmou que esta simplicidade +montesina interessaria os seus convidados, que eram dois artistas... +Quem? O auctor do _Coração Triplo_, um Psychologo Feminista, d'agudeza +transcendente, Mestre muito experimentado e muito consultado em +Sciencias Sentimentaes; e Vorcan, um pintor mythico, que interpretára +ethereamente, havia um anno, a symbolia rapsodica do cerco de Troia, +n'uma vasta composição, _Helena Devastadora_... + +Eu coçava a barba: + +--Não, Jacintho, não... Eu venho de Guiães, das serras; preciso entrar +em toda esta civilisacão, lentamente, com cautella, senão rebento. Logo +na mesma tarde a electricidade, e o conferençophone, e os espaços +hypermagicos e o feminista, e o ethereo, e a symbolia devastadora, é +excessivo! Volto ámanhã. + +Jacintho dobrava vagarosamente a sua carta, onde mettera sem rebuço +(como convinha á nossa fraternidade) duas violetas brancas tiradas do +ramo que lhe floria o peito. + +--Ámanhã, Zé Fernandes, tu vens antes d'almoço, com as tuas malas dentro +d'um fiacre, para te installares no 202, no teu quarto. No Hotel são +embaraços, privações. Aqui tens o telephone, o teatrophone, livros... + +Acceitei logo, com simplicidade. E Jacintho, embocando um tubo acustico, +murmurou: + +--Grillo! + +Da parede, recoberta de damasco, que subitamente e sem rumor se fendeu, +surdio o seu velho escudeiro (aquelle moleque que viera com _D. +Gallião_), que eu me alegrei de encontrar tão rijo, mais negro, +reluzente e veneravel na sua tesa gravata, no seu collete branco de +botões de ouro. Elle tambem estimou vêr de novo «o siô Fernandes». E, +quando soube que eu occuparia o quarto do avô Jacintho, teve um claro +sorriso de preto, em que envolveu o seu senhor, no contentamento de o +sentir emfim reprovido d'uma familia. + +--Grillo, dizia Jacintho, esta carta a Madame de Oriol... Escuta! +Telephona para casa dos Trèves que os espiritistas só estão livres no +domingo... Escuta! Eu tomo uma douche antes de jantar, tepida, a 17. +Fricção com malva-rosa. + +E cahindo pesadamente para cima do divan, com um bocejo arrastado e +vago: + +--Pois é verdade, meu Zé Fernandes, aqui estamos, como ha sete annos, +n'este velho Paris... + +Mas eu não me arredava da mesa, no desejo de completar a minha +iniciação: + +--Oh Jacintho, para que servem todos estes instrumentosinhos? Houve já +ahi um desavergonhado que me picou. Parecem perversos... São uteis? + +Jacintho esboçou, com languidez, um gesto que os +sublimava.--Providenciaes, meu filho, absolutamente providenciaes, pela +simplificação que dão ao trabalho! Assim... E apontou. Este arrancava as +pennas velhas; o outro numerava rapidamente as paginas d'um manuscripto; +aquell'outro, além, raspava emendas... E ainda os havia para collar +estampilhas, imprimir datas, derreter lacres, cintar documentos... + +--Mas com effeito, accrescentou, é uma sécca. Com as molas, com os +bicos, ás vezes magoam, ferem... Já me succedeu inutilisar cartas por as +ter sujado com dedadas de sangue. É uma massada! + +Então, como o meu amigo espreitára novamente o relogio monumental, não +lhe quiz retardar a consolação da douche e da malva-rosa. + +--Bem, Jacintho, já te revi, já me contentei... Agora até ámanhã, com as +malas. + +--Que diabo, Zé Fernandes, espera um momento... Vamos pela sala de +jantar. Talvez te tentes! + +E, através da Bibliotheca, penetramos na sala de jantar,--que me +encantou pelo seu luxo sereno e fresco. Uma madeira branca, laccada, +mais lustrosa e macia que setim, revestia as paredes, encaixilhando +medalhões de damasco côr de morango, de morango muito maduro e esmagado: +os aparadores, discretamente lavrados em florões e rocalhas, +resplandeciam com a mesma lacca nevada: e damascos amorangados estofavam +tambem as cadeiras, brancas, muito amplas, feitas para a lentidão de +gulas delicadas, de gulas intellectuaes. + +--Viva o meu Principe! Sim senhor... Eis aqui um comedoiro muito +comprehensivel e muito repousante, Jacintho! + +--Então janta, homem! + +Mas já eu me começava a inquietar, reparando que a cada talher +correspondiam seis garfos, e todos de feitios astuciosos. E mais me +impressionei quando Jacintho me desvendou que um era para as ostras, +outro para o peixe, outro para as carnes, outro para os legumes, outro +para as fructas, outro para o queijo! Simultaneamente, com uma +sobriedade que louvaria Salomão, só dois copos, para dois vinhos:--um +Bordeus rosado em infusas de crystal, e Champagne gelando dentro de +baldes de prata. Todo um aparador porém vergava, sob o luxo redundante, +quasi assustador d'aguas--aguas oxigenadas, aguas carbonatadas, aguas +phosphatadas, aguas esterilisadas, aguas de saes, outras ainda, em +garrafas bojudas, com tratados therapeuticos impressos em rotulos. + +--Santissimo nome de Deus, Jacintho! Então és ainda o mesmo tremendo +bebedor d'agua, hein?... _Un aquatico_! como dizia o nosso poeta +chileno, que andava a traduzir Klopstock. + +Elle derramou, por sobre toda aquella garrafaria encarapuçada em metal, +um olhar desconsolado: + +--Não... É por causa das aguas da Cidade, contaminadas, atulhadas de +microbios... Mas ainda não encontrei uma bôa agua que me convenha, que +me satisfaça... Até soffro sêde. + +Desejei então conhecer o jantar do Psychologo e do Symbolista--traçado, +ao lado dos talheres, em tinta vermelha, sobre laminas de marfim. +Começava honradamente por ostras classicas, de Marennes. Depois +apparecia uma sopa d'alcachofras e ovas de carpa... + +--É bom? + +Jacintho encolheu desinteressadamente os hombros: + +--Sim... Eu não tenho nunca appetite, já ha tempos... Já ha annos. + +Do outro prato só comprehendi que continha frangos e tubaras. Depois +saboreariam aquelles senhores um filete de veado, macerado em Xerez, com +gelêa de noz. E por sobremeza simplesmente laranjas geladas em ether. + +--Em ether, Jacintho? + +O meu amigo hesitou, esboçou com os dedos a ondulação d'um aroma que +s'evola. + +--É novo... Parece que o ether desenvolve, faz afflorar a alma das +fructas... + +Curvei a cabeça ignara, murmurei nas minhas profundidades: + +--Eis a Civilisação! + +E, descendo os Campos Elyseos, encolhido no paletot, a cogitar n'este +prato symbolico, considerava a rudeza e atolado atrazo da minha Guiães, +onde desde seculos a alma das laranjas permanece ignorada e +desaproveitada dentro dos gomos sumarentos, por todos aquelles pomares +que ensombram e perfumam o valle, da Roqueirinha a Sandofim! Agora +porém, bemdito Deus, na convivencia de um tão grande iniciado como +Jacintho, eu comprehenderia todas as finuras e todos os poderes da +Civilisação. + +E, (melhor ainda para a minha ternura!) contemplaria a raridade d'um +homem que, concebendo uma idéa da Vida, a realisa--e através d'ella e +por ella recolhe a felicidade perfeita. + +Bem se affirmára este Jacintho, na verdade, como Principe da +Gran-Ventura! + + + + +III + + +No 202, todas as manhãs, ás nove horas, depois do meu chocolate e ainda +em chinelas, penetrava no quarto de Jacintho. Encontrava o meu amigo +banhado, barbeado, friccionado, envolto n'um roupão branco de pello de +cabra do Thibet, diante da sua mesa de toilette, toda de crystal, (por +causa dos microbios) e atulhada com esses utensilios de tartaruga, +marfim, prata, aço e madreperola que o homem do seculo XIX necessita +para não desfeiar o conjuncto sumptuario da Civilisação e manter n'ella +o seu Typo. As escovas sobretudo renovavam, cada dia, o meu regalo e o +meu espanto--porque as havia largas como a roda massiça d'um carro +sabino; estreitas e mais recurvas que o alfange d'um mouro; concavas, em +fórma de telha aldeã; ponteagudas em feitio de folha de hera; rijas que +nem cerdas de javali; macias que nem pennugem de rôla! De todas, +fielmente, como amo que não desdenha nenhum servo, se utilisava o meu +Jacintho. E assim, em face ao espelho emmoldurado de folhedos de prata, +permanecia este Principe passando pellos sobre o seu pello durante +quatorze minutos. + +No emtanto o Grillo e outro escudeiro, por traz dos biombos de Kioto, de +sedas lavradas, manobravam, com pericia e vigor, os apparelhos do +lavatorio--que era apenas um resumo das machinas monumentaes da Sala de +Banho, a mais estremada maravilha do 202. N'estes marmores simplificados +existiam unicamente dois jactos graduados desde _zero_ até _cem_; as +duas duchas, fina e grossa, para a cabeça; a fonte esterilisada para os +dentes; o repuxo borbulhante para a barba; e ainda botões discretos, +que, roçados, desencadeavam esguichos, cascatas cantantes, ou um leve +orvalho estival. D'esse recanto temeroso, onde delgados tubos mantinham +em disciplina e servidão tantas aguas ferventes, tantas aguas violentas, +sahia emfim o meu Jacintho enxugando as mãos a uma toalha de felpo, a +uma toalha de linho, a outra de corda entrançada para restabelecer a +circulação, a outra de sêda frouxa para repolir a pelle. Depois d'este +rito derradeiro que lhe arrancava ora um suspiro, ora um bocejo, +Jacintho, estendido n'um divan, folheava uma Agenda, onde se arrolavam, +inscriptas pelo Grillo ou por elle, as occupações do seu dia, tão +numerosas por vezes que cobriam duas laudas. + +Todas ellas se prendiam á sua sociabilidade, á sua civilisação muito +complexa, ou a interesses que o meu Principe, n'esses sete annos, creára +para viver em mais consciente communhão com todas as funcções da Cidade. +(Jacintho com effeito era presidente do Club da _Espada e Alvo_; +commanditario do Jornal o _Boulevard_; director da _Companhia dos +Telephones de Constantinopla_; socio dos _Bazares unidos da Arte +Espiritualista_; membro do _Comité de Iniciação das Religiões +Esotericas_, etc.) Nenhuma d'estas occupações parecia porém aprazivel ao +meu amigo--porque, apesar da mansidão e harmonia dos seus modos, +frequentemente arremessava para o tapete, n'uma rebellião de homem +livre, aquella Agenda que o escravisava. E n'uma d'essas manhãs (de +vento e neve), apanhando eu o livro oppressivo, encadernado em pellica, +de um carinhoso tom de rosa murcha--descobri que o meu Jacintho devia +depois do almoço fazer uma visita na rua da Universidade, outra no +Parque Monceau, outra entre os arvoredos remotos da Muette; assistir por +fidelidade a uma votação no Club; acompanhar Madame d'Oriol a uma +exposição de leques; escolher um presente de noivado para a sobrinha dos +Trèves; comparecer no funeral do velho conde de Malville; presidir um +tribunal de honra n'uma questão de roubalheira, entre cavalheiros, ao +ecarté... E ainda se acavallavam outras indicações, escrivinhadas por +Jacintho a lapis:--«Carroceiro--Five-oclock dos Ephrains--A pequena das +_Variedades_--Levar a nota ao jornal...» Considerei o meu Principe. +Estirado no divan, d'olhos miserrimamente cerrados, bocejava, n'um +bocejo immenso e mudo. + +Mas os affazeres de Jacintho começavam logo no 202, cedo, depois do +banho. Desde as oito horas a campainha do telephone repicava por elle, +com impaciencia, quasi com colera, como por um escravo tardio. E mal +enxugado, dentro do seu roupão de pello de cabra do Thibet ou de grossas +pyjamas de pelucia côr d'ouro-velho, constantemente sahia ao corredor a +cochichar com sujeitos tão apressados, que conservavam na mão o +guarda-chuva pingando sobre o tapete. Um d'esses, sempre presente (e que +pertencia decerto aos _Telephones de Constantinopla_), era +temeroso--todo elle chupado, tisnado, com maus dentes, sobraçando uma +enorme pasta sebenta, e dardejando, d'entre a alta gola d'uma pelissa +poida, como da abertura d'um covil, dous olhinhos tôrvos e de rapina. +Sem cessar, inexoravelmente, um escudeiro apparecia, com bilhetes n'uma +salva... Depois eram fornecedores d'Industria e d'Arte; negociantes de +cavallos, rubicundos e de paletot branco; inventores com grossos rolos +de papel; alfarrabistas trazendo na algibeira uma edição «unica», quasi +inverosimil, de Ulrich Zell ou do _Lapidanus_. Jacintho circulava +estonteado pelo 202, rabiscando a carteira, repicando o telephone, +desatando nervosamente pacotes, sacudindo ao passar algum embuscado que +surdia das sombras da antecamara, estendia como um trabuco o seu +memorial ou o seu catalogo! + +Ao meio dia, um tam-tam argentino e melancholico ressoava, chamando ao +almoço. Com o _Figaro_ ou as _Novidades_ abertas sobre o prato, eu +esperava sempre meia hora pelo meu Principe, que entrava n'uma rajada, +consultando o relogio, exhalando com a face moída o seu queixume eterno: + +--Que massada! E depois uma noite abominavel, enrodilhada em sonhos... +Tomei sulforal, chamei o Grillo para me esfregar com therebentina... Uma +sécca! + +Espalhava pela mesa um olhar já farto. Nenhum prato, por mais engenhoso, +o seduzia;--e, como através do seu tumulto matinal fumava incontaveis +cigarretes que o resequiam, começava por se encharcar com um immenso +copo d'agua oxygenada, ou carbonatada, ou gazoza, misturada d'um cognac +raro, muito caro, horrendamente adocicado, de moscatel de Syracusa. +Depois, á pressa, sem gosto, com a ponta incerta do garfo, picava aqui e +além uma lasca de fiambre, uma febra de lagosta;--e reclamava +impacientemente o café, um café de Moka, mandado cada mez por um feitor +do Dedjah, fervido á turca, muito espesso, que elle remexia com um pau +de canella! + +--E tu, Zé Fernandes, que vaes tu fazer? + +--Eu? + +Recostado na cadeira, com delicias, os dedos mettidos nas cavas do +collete: + +--Vou vadiar, regaladamente, como um cão natural! + +O meu sollicito amigo, remexendo o café com o pau de canella, rebuscava +através da numerosa Civilisação da Cidade uma occupação que me +encantasse. Mas apenas suggeria uma Exposição, ou uma Conferencia, ou +monumentos, ou passeios, logo encolhia os hombros desconsolados: + +--Por fim nem vale a pena, é uma sécca! + +Accendia outra das cigarretes russas, onde rebrilhava o seu nome, +impresso a ouro na mortalha. Torcendo, n'uma pressa nervosa, os fios do +bigode, ainda escutava, á porta da Bibliotheca, o seu procurador, o +nedio e magestoso Laporte. E emfim, seguido d'um criado, que sobraçava +um maço tremendo de jornaes para lhe abastecer o coupé, o Principe da +Gran-Ventura mergulhava na Cidade. + + * * * * * + +Quando o dia social de Jacintho se apresentava mais desafogado, e o céo +de Março nos concedia caridosamente um pouco de azul agoado, sahiamos +depois d'almoço, a pé, através de Paris. Estes lentos e errantes +passeios eram outr'ora, na nossa edade de Estudantes, um gozo muito +querido de Jacintho--porque n'elles mais intensamente e mais +minuciosamente saboreava a Cidade. Agora porém, apesar da minha +companhia, só lhe davam uma impaciencia e uma fadiga que desoladoramente +destoava do antigo, illuminado extasi. Com espanto (mesmo com dôr, +porque sou bom, e sempre me entristece o desmoronar d'uma crença) +descobri eu, na primeira tarde em que descemos aos Boulevards, que o +denso formigueiro humano sobre o asphalto, e a torrente sombria dos +trens sobre o macadam, affligiam o meu amigo pela brutalidade da sua +pressa, do seu egoismo, e do seu estridor. Encostado e como refugiado no +meu braço, este Jacintho novo começou a lamentar que as ruas, na nossa +Civilisação, não fossem calçadas de gutta-percha! E a gutta-percha +claramente representava, para o meu amigo, a substancia discreta que +amortece o choque e a rudeza das cousas. Oh maravilha! Jacintho querendo +borracha, a borracha isoladora, entre a sua sensibilidade e as funcções +da Cidade! Depois, nem me permittiu pasmar diante d'aquellas dourejadas +e espelhadas lojas que elle outr'ora considerava como os «preciosos +museus do seculo XIX»... + +--Não vale a pena, Zé Fernandes. Ha uma immensa pobreza e seccura +d'invenção! Sempre os mesmos florões Luiz XV, sempre as mesmas +pelucias... Não vale a pena! + +Eu arregalava os olhos para este transformado Jacintho. E sobretudo me +impressionava o seu horror pela Multidão--por certos effeitos da +Multidão, só para elle sensiveis, e a que chamava os «sulcos». + +--Tu não os sentes, Zé Fernandes. Vens das serras... Pois constituem o +rijo inconveniente das Cidades, estes sulcos! É um perfume muito agudo e +petulante que uma mulher larga ao passar, e se installa no olfacto, e +estraga para todo o dia o ar respiravel. É um dito que se surprehende +n'um grupo, que revela um mundo de velhacaria, ou de pedantismo, ou de +estupidez, e que nos fica collado á alma, como um salpico, lembrando a +immensidade da lama a atravessar. Ou então, meu filho, é uma figura +intoleravel pela pretenção, ou pelo mau-gosto, ou pela impertinencia, ou +pela rellice, ou pela dureza, e de que se não póde sacudir mais a visão +repulsiva... Um pavor, estes sulcos, Zé Fernandes! De resto, que diabo, +são as pequeninas miserias d'uma Civilisação deliciosa! + +Tudo isto era especioso, talvez pueril--mas para mim revelava, n'aquelle +chamejante devoto da Cidade, o arrefecimento da devoção. N'essa mesma +tarde, se bem recordo, sob uma luz macia e fina, penetramos nos centros +de Paris, nas ruas longas, nas milhas de casario, todo de caliça parda, +erriçado de chaminés de lata negra, com as janellas sempre fechadas, as +cortininhas sempre corridas, abafando, escondendo a vida. Só tijolo, só +ferro, só argamassa, só estuque: linhas hirtas, angulos asperos: tudo +secco, tudo rigido. E dos chãos aos telhados, por toda a fachada, +tapando as varandas, comendo os muros, Taboletas, Taboletas... + +--Oh, este Paris, Jacintho, este teu Paris! Que enorme, que grosseiro +bazar! + +E, mais para sondar o meu Principe do que por persuasão, insisti na +fealdade e tristeza d'estes predios, duros armazens, cujos andares são +prateleiras onde se apilha humanidade! E uma humanidade impiedosamente +catalogada e arrumada! A mais vistosa e de luxo nas prateleiras baixas, +bem envernisadas. A relles e de trabalho nos altos, nos desvãos, sobre +pranchas de pinho nú, entre o pó e a traça... + +Jacintho murmurou, com a face arripiada: + +--É feio, é muito feio! + +E accudiu logo, sacudindo no ar a luva de anta: + +--Mas que maravilhoso organismo, Zé Fernandes! Que solidez! Que +producção! + +Onde Jacintho me parecia mais renegado era na sua antiga e quasi +religiosa affeição pelo Bosque de Bolonha. Quando moço, elle construira +sobre o Bosque theorias complicadas e consideraveis. E sustentava, com +olhos rutilantes de fanatico, que no Bosque a Cidade cada tarde ia +retemperar salutarmente a sua força, recebendo, pela presença das suas +Duquezas, das suas Cortezãs, dos seus Politicos, dos seus Financeiros, +dos seus Generaes, dos seus Academicos, dos seus Artistas, dos seus +Clubistas, dos seus Judeus, a certeza consoladora de que todo o seu +pessoal se mantinha em numero, em vitalidade, em funcção, e que nenhum +elemento da sua grandeza desapparecera ou deperecera! «Ir ao Bois» +constituia então para o meu Principe um acto de consciencia. E voltava +sempre confirmando com orgulho que a Cidade possuia todos os seus +astros, garantindo a eternidade da sua luz! + +Agora, porém, era sem fervor, arrastadamente, que elle me levava ao +Bosque, onde eu, aproveitando a clemencia d'Abril, tentava enganar a +minha saudade d'arvoredos. Emquanto subiamos, ao trote nobre das suas +egoas lustrosas, a Avenida dos Campos-Elyseos e a do Bosque, +rejuvenescidas pelas relvas tenras e fresco verdejar dos rebentos, +Jacintho, soprando o fumo da cigarrete pelas vidraças abertas do coupé, +permanecia o bom camarada, de veia amavel, com quem era doce philosophar +através de Paris. Mas logo que passavamos as grades douradas do Bosque, +e penetravamos na Avenida das Acacias, e enfiavamos na lenta fila dos +trens de luxo e de praça, sob o silencio decoroso, apenas cortado pelo +tilintar dos freios e pelas rodas vagarosas esmagando a areia,--o meu +Principe emmudecia, mollemente engilhado no fundo das almofadas, d'onde +só despegava a face para escancarar bocejos de fartura. Pelo antigo +habito de verificar a presença confortadora do «pessoal, dos astros», +ainda, por vezes, apontava para algum coupé ou vittoria rodando com +rodar rangente n'outra arrastada fila--e murmurava um nome. E assim fui +conhecendo a encaracolada barba hebraica do banqueiro Ephraim; e o longo +nariz patricio de Madame de Trèves abrigando um sorriso perenne; e as +bochechas flacidas do poeta neo-platonico Dornan, sempre espapado no +fundo de fiacres; e os longos bandòs pre-raphaelitas e negros de Madame +Verghane; e o monoculo defumado do director do _Boulevard_; e o +bigodinho vencedor do Duque de Marizac, reinando de cima do seu phaeton +de guerra; e ainda outros sorrisos immoveis, e barbichas á Renascença, e +palpebras amortecidas, e olhos farejantes, e pelles empoadas d'arroz, +que eram todas illustres e da intimidade do meu Principe. Mas, do topo +da Avenida das Acacias, recomeçavamos a descer, em passo sopeado, +esmagando lentamente a areia; na fila vagarosa que subia, calhambeque +atraz de landau, vittoria atraz de fiacre, fatalmente reviamos o +binoculo sombrio do homem do _Boulevard_, e os bandòs furiosamente +negros de Madame Verghane, e o ventre espapado do neo-platonico, e a +barba talmudica, e todas aquellas figuras, d'uma immobilidade de cera, +super-conhecidas do meu camarada, recruzadas cada tarde através de +revividos annos, sempre com os mesmos sorrisos, sob o mesmo pó d'arroz, +na mesma immobilidade de cera; então Jacintho não se continha, gritava +ao cocheiro: + +--Para casa, depressa! + +E era pela Avenida do Bosque, pelos Campos-Elyseos, uma fuga ardente das +egoas a quem a lentidão sopeada, n'um roer de freios, entre outras egoas +tambem d'ellas super-conhecidas, lançavam n'uma exasperação comparavel á +de Jacintho. + +Para o sondar eu denegria o Bosque: + +--Já não é tão divertido, perdeu o brilho!... + +Elle acudia, timidamente: + +--Não, é agradavel, não ha nada mais agradavel; mas... + +E accusava a friagem das tardes ou o despotismo dos seus affazeres. +Recolhiamos então ao 202, onde, com effeito, em breve embrulhado no seu +roupão branco, diante da mesa de crystal, entre a legião das escovas, +com toda a electricidade refulgindo, o meu Principe se começava a +adornar para o serviço social da noite. + +E foi justamente numa d'essas noites (um sabado) que nós passamos, +n'aquelle quarto tão civilisado e protegido, por um d'esses brutos e +revoltos terrores como só os produz a ferocidade dos Elementos. Já +tarde, á pressa (jantavamos com Marizac no Club para o acompanhar depois +ao _Lohengrin_ na Opera) Jacintho arrocheava o nó da gravata +branca--quando no lavatorio, ou porque se rompesse o tubo, ou se +dessoldasse a torneira, o jacto d'agua a ferver rebentou furiosamente, +fumegando e silvando. Uma nevoa densa de vapor quente abafou as +luzes--e, perdidos n'ella, sentiamos, por entre os gritos do escudeiro e +do Grillo, o jorro devastador batendo os muros, esparrinhando uma chuva +que escaldava. Sob os pés o tapete ensopado era uma lama ardente. E como +se todas as forças da natureza, submettidas ao serviço de Jacintho, se +agitassem, animadas por aquella rebellião da agua--ouvimos roncos surdos +no interior das paredes, e pelos fios dos lumes electricos sulcaram +faiscas ameaçadoras! Eu fugira para o corredor, onde se alargava a nevoa +grossa. Por todo o 202 ia um tumulto de desastre. Diante do portão, +attrahidas pela fumarada que se escapava das janellas, estacionava +policia, uma multidão. E na escada esbarrei com um reporter, de chapéo +para a nuca, a carteira aberta, gritando sofregamente «se havia mortos?» + +Domada a agua, clareada a bruma, vim encontrar Jacintho no meio do +quarto, em ceroulas, livido: + +--Oh Zé Fernandes, esta nossa industria!... Que impotencia, que +impotencia! Pela segunda vez, este desastre! E agora, apparelhos +perfeitos, um processo novo... + +--E eu encharcado por esse processo novo! E sem outra casaca! + +Em redor, as nobres sêdas bordadas, os brocateis Luiz XIII, cobertos de +manchas negras, fumegavam. O meu Principe, enfiado, enchugava uma +photographia de Madame d'Oriol, d'hombros decotados, que o jorro bruto +maculára d'empolas. E eu, com rancor, pensava que na minha Guiães a agua +aquecia em seguras panellas--e subia ao meu lavatorio, pela mão forte da +Catharina, em seguras infusas! Não jantamos com o duque de Marizac, no +Club. E, na Opera, nem saboreei Lohengrin e a sua branca alma e o seu +branco cysne e as suas brancas armas--entallado, aperreado, cortado nos +sovacos pela casaca que Jacintho me emprestára e que rescendia +estonteadoramente a flores de Nessari. + + * * * * * + +No domingo, muito cedo, o Grillo, que na véspera escaldára as mãos e as +trazia embrulhadas em sêda, penetrou no meu quarto, descerrou as +cortinas, e á beira do leito, com o seu radiante sorriso de preto: + +--Vem no _Figaro_! + +Desdobrou triumphalmente o jornal. Eram, nos _Echos_, doze linhas, onde +as nossas aguas rugiam e espadavam, com tanta magnificencia e tanta +publicidade, que tambem sorrí, deleitado. + +--E toda a manhã, o telephone, siô Fernandes! exclamava o Grillo, +rebrilhando em ebano. A quererem saber, a quererem saber... «Está lá? +Está escaldado?» Paris afflicto, siô Fernandes! + +O telephone, com effeito, repicava, insaciavel. E quando desci para o +almoço, a toalha desapparecia sob uma camada de telegrammas, que o meu +Principe fendia com a faca, enrugado, rosnando contra a «massada». Só +desannuviou, ao ler um d'esses papeis azues, que atirou para cima do meu +prato, com o mesmo sorriso agradado com que de manhã sorriramos, o +Grillo e eu: + +--É do Gran-Duque Casimiro... Ratão amavel! Coitado! + +Saboreei, através dos ovos, o telegramma de S. Alteza. «O que! o meu +Jacintho inundado! Muito chic, nos Campos-Elyseos! Não volto ao 202 sem +boia de salvação! Compassivo abraço! Casimiro...» Murmurei tambem com +deferencia:--«Amavel! Coitado!» Depois, revolvendo lentamente o montão +de telegrammas que se alastrava até ao meu copo: + +--Oh Jacintho! Quem é esta Diana que incessantemente te escreve, te +telephona, te telegrapha, te...? + +--Diana?... Diana de Lorge. É uma cocotte. É uma grande cocotte! + +--Tua? + +--Minha, minha... Não! tenho um bocado. + +E como eu lamentava que o meu Principe, senhor tão rico e de tão fino +orgulho, por economia d'uma gamella propria chafurdasse com outros n'uma +gamella publica--Jacintho levantou os hombros, com um camarão espetado +no garfo: + +--Tu vens das serras... Uma cidade como Paris, Zé Fernandes, precisa ter +cortezãs de grande pompa e grande fausto. Ora para montar em Paris, +n'esta tremenda carestia de Paris, uma cocotte com os seus vestidos, os +seus diamantes, os seus cavallos, os seus lacaios, os seus camarotes, as +suas festas, o seu palacete, a sua publicidade, a sua insolencia, é +necessario que se aggremiem umas poucas de fortunas, se forme um +syndicato! Somos uns sete, no Club. Eu pago um bocado... Mas meramente +por Civismo, para dotar a cidade com uma cocotte monumental. De resto +não chafurdo. Pobre Diana!... Dos hombros para baixo nem sei se tem a +pelle côr de neve ou côr de limão. + +Arregalei um olho divertido: + +--Dos hombros para baixo?... E para cima? + +--Oh para cima tem pó d'arroz!... Mas é uma sécca! Sempre bilhetes, +sempre telephones, sempre telegrammas. E tres mil francos por mez, além +das flores... Uma massada! + +E as duas rugas do meu Principe, aos lados do seu afilado nariz, curvado +sobre a salada, eram como dous valles muito tristes, ao entardecer. + +Acabavamos o almoço, quando um escudeiro, muito discretamente, n'um +murmurio, annunciou Madame d'Oriol. Jacintho pousou com tranquillidade o +charuto; eu quasi me engasguei, n'um sorvo alvoroçado de café. Entre os +reposteiros de damasco côr de morango ella appareceu, toda de negro, +d'um negro liso e austero de Semana Santa, lançando com o regalo um +lindo gesto para nos socegar. E immediatamente, n'uma volubilidade +docemente chalrada: + +--É um momento, nem se levantem! Passei, ia para a Magdalena, não me +contive, quiz vêr os estragos... Uma inundação em Paris, nos +Campos-Elyseos! Não ha senão este Jacintho. E vem no _Figaro!_ O que eu +estava assustada, quando telephonei! Imaginem! Agua a ferver, como no +Vesuvio... Mas é d'uma novidade! E os estofos perdidos, naturalmente, os +tapetes... Estou morrendo por admirar as ruinas! + +Jacintho, que não me pareceu commovido, nem agradecido com aquelle +interesse, retomára risonhamente o charuto: + +--Está tudo secco, minha querida senhora, tudo secco! A belleza foi +hontem, quando a agua fumegava e rugia! Ora que pena não ter ao menos +cahido uma parede! + +Mas ella insistia. Nem todos os dias se gozavam em Paris os destroços +d'uma inundação. O _Figaro_ contára... E era uma aventura deliciosa, uma +casa escaldada nos Campos-Elyseos! + +Toda a sua pessoa, desde as plumasinhas que frisavam no chapéo até á +ponta reluzente das botinas de verniz, se agitava, vibrava, como um ramo +tenro sob o boliço do passaro a chalrar. Só o sorriso, por traz do véo +espesso, conservava um brilho immovel. E já no ar se espalhára um aroma, +uma doçura, emanadas de toda a sua mobilidade e de toda a sua graça. + +Jacintho no emtanto cedera, alegremente: e pelo corredor Madame d'Oriol +ainda louvava o _Figaro_ amavel, e confessava quanto tremera... Eu +voltei ao meu café, felicitando mentalmente o Principe da Gran-Ventura +por aquella perfeita flôr de Civilisação que lhe perfumava a vida. +Pensei então na apurada harmonia em que se movia essa flôr. E corri +vivamente á ante-camara, verificar diante do espelho o meu penteado e o +nó da minha gravata. Depois recolhi á sala de jantar, e junto da +janella, folheando languidamente a _Revista do Seculo XIX_, tomei uma +attitude de elegancia e d'alta cultura. Quasi immediatamente elles +reappareceram: e Madame d'Oriol, que, sempre sorrindo, se proclamava +espoliada, nada encontrára que recordasse as agoas furiosas, roçou pela +mesa, onde Jacintho procurava, para lhe offerecer, tangerinas de Malta, +ou castanhas geladas, ou um biscouto molhado em vinho de Tokai. + +Ella recusava com as mãos guardadas no regalo. Não era alta, nem +forte--mas cada prega do vestido, ou curva da capa, cahia e ondulava +harmoniosamente, como perfeições recobrindo perfeições. Sob o véo +cerrado, apenas percebi a brancura da face empoada, e a escuridão dos +olhos largos. E com aquellas sêdas e velludos negros, e um pouco do +cabello louro, d'um louro quente, torcido fortemente sobre as pelles +negras que lhe orlavam o pescoço, toda ella derramava uma sensação de +macio e de fino. Eu teimosamente a considerava como uma flôr de +Civilisação:--e pensava no secular trabalho e na cultura superior que +necessitára o terreno onde ella tão delicadamente brotára, já +desabrochada, em pleno perfume, mais graciosa por ser flôr d'esforço e +d'estufa, e trazendo nas suas pétalas um não sei quê de desbotado e de +ante-murcho. + +No emtanto, com a sua volubilidade de passaro, chalrando para mim, +chalrando para Jacintho, ella mostrava o seu lindo espanto por aquelle +montão de telegrammas sobre a toalha. + +--Tudo esta manhã, por causa da inundação?... Ah, Jacintho é hoje o +homem, o unico homem de Paris! Muitas mulheres n'esses telegrammas? + +Languidamente, com o charuto a fumegar, o meu Principe empurrou para a +sua amiga o telegramma do Gran-duque. Então Madame d'Oriol teve um _ah!_ +muito grave e muito sentido. Releu profundamente o papel de S. A. que os +seus dedos acariciavam com uma reverencia gulosa. E sempre grave, sempre +séria: + +--É brilhante! + +Oh, certamente! n'aquelle desastre tudo se passára com muito brilho, +n'um tom muito Parisiense. E a deliciosa creatura não se podia demorar, +porque fizera marcar um logar na egreja da Magdalena para o sermão! + +Jacintho exclamou com innocencia: + +--Sermão?... É já a estação dos sermões? + +Madame d'Oriol teve um movimento de carinhoso escandalo e dôr. O quê! +pois nem na austera casa dos Trèves dera pela entrada da quaresma? De +resto não se admirava--Jacintho era um turco! E, immediatamente celebrou +o prégador, um frade dominicano, o Père Granon! Oh d'uma eloquencia! +d'uma violencia! No derradeiro sermão prégara sobre o amor, a +fragilidade dos amores mundanos! E tivera coisas d'uma inspiração, d'uma +brutalidade! Depois que gesto, um gesto terrivel que esmagava, em que se +lhe arregaçava toda a manga, mostrando o braço nú, um braço soberbo, +muito branco, muito forte! + +O seu sorriso permanecia claro sob o olhar que negrejára dentro do véo +negro. E Jacintho, rindo: + +--Um bom braço de director espiritual, hein? Para vergar, espancar +almas... + +Ella acudiu: + +--Não! infelizmente o Père Granon não confessa! + +E de repente reconsiderou--aceitava um biscouto, um cálice de Tokai. Era +necessario um cordial para affrontar as emoções do Père Granon! Ambos +nos precipitáramos, um arrebatando a garrafa, outro offerecendo o prato +de bonbons. Franzio o véo para os olhos, chupou á pressa um bolo que +ensopára no Tokai. E como Jacintho, reparando casualmente no chapéo que +ella trazia, se curvára com curiosidade, impressionado, Madame d'Oriol +apagou o sorriso, toda seria, ante uma cousa seria: + +--Elegante, não é verdade?... É uma creação inteiramente nova de Madame +Vial. Muito respeitoso, e muito suggestivo, agora na Quaresma. + +O seu olhar, que me envolvera, tambem me convidava a admirar. Approximei +o meu focinho de homem das serras para contemplar essa creação suprema +do luxo de Quaresma. E era maravilhoso! Sobre o velludo, na sombra das +plumas frizadas, aninhada entre rendas, fixada por um prégo, pousava +delicadamente, feita de azeviche, uma Corôa de Espinhos! + +Ambos nos extasiamos. E Madame d'Oriol, n'um movimento e n'um sorriso +que derramou mais aroma e mais claridade, abalou para a Magdalena. + +O meu Principe arrastou pelo tapete alguns passos pensativos e molles. E +bruscamente, levantando os hombros com uma determinação immensa, como se +deslocasse um mundo: + +--Oh Zé Fernandes, vamos passar este Domingo n'alguma cousa simples e +natural... + +--Em quê? + +Jacintho circumgirou os olhares muito abertos, como se, atravez da Vida +Universal, procurasse anciosamente uma cousa natural e simples. Depois, +descançando sobre mim os mesmos largos olhos que voltavam de muito +longe, cançados e com pouca esperança: + +--Vamos ao Jardim das Plantas, vêr a girafa! + + + + +IV + + +N'essa fecunda semana, uma noite, recolhiamos ambos da Opera, quando +Jacintho, bocejando, me annunciou uma festa no 202. + +--Uma festa?... + +--Por causa do Gran-Duque, coitado, que me vai mandar um peixe delicioso +e muito raro que se pesca na Dalmacia. Eu queria um almoço curto. O +Gran-Duque reclamou uma ceia. É um barbaro, besuntado com litteratura do +seculo XVIII, que ainda acredita em ceias, em Paris! Reuno no domingo +tres ou quatro mulheres, e uns dez homens bem typicos, para o divertir. +Tambem aproveitas. Folheias Paris n'um resumo... Mas é uma massada +amarga! + +Sem interesse pela sua festa, Jacintho não se affadigou em a compôr com +relevo ou brilho. Encommendou apenas uma orchestra de Tziganes (os +Tziganes, as suas jalecas escarlates, a melancolia aspera das Czardas +ainda n'esses tempos remotos emocionavam Paris): e mandou, na +Bibliotheca, ligar o Theatrophone com a Opera, com a Comedia-Franceza, +com o Alcazar e com os Buffos, prevendo todos os gostos desde o tragico +até ao picaro. Depois no domingo, ao entardecer, ambos visitamos a mesa +da ceia, que resplandecia com as velhas baixellas de D. Galião. E a +faustosa profusão de orchideas, em longas sylvas por sobre a toalha +bordada a sêda, enroladas aos fructeiros de Saxe, trasbordando de +crystaes lavrados e filagranados d'ouro, espalhava uma tão fina sensação +de luxo e gosto, que eu murmurei:--«Caramba, bemdito, seja o dinheiro!» +Pela primeira vez, tambem, admirei a copa e a sua installação abundante +e minuciosa--sobretudo os dois ascensores que rolavam das profundidades +da cozinha, um para os peixes e carnes aquecido por tubos d'agua +fervente, o outro para as saladas e gelados revestido de placas +frigorificas. Oh, este 202! + +Ás nove horas, porém, descendo eu ao gabinete de Jacintho para escrever +a minha boa tia Vicencia, em quanto elle ficára no toucador com o +manícuro que lhe polia as unhas, passamos n'esse delicioso palacio, +florido e em gala, por bem corriqueiro susto! Todos os lumes electricos, +subitamente, em todo o 202, se apagaram! Na minha immensa desconfiança +d'aquellas forças universaes, pulei logo para a porta, tropeçando nas +trevas, ganindo um _Aqui d'Elrei_! que tresandava a Guiães. Jacintho em +cima berrava, com o manícuro agarrado ás pyjamas. E de novo, como serva +ralassa que recolhe arrastando as chinellas, a luz resurgiu com +lentidão. Mas o meu Principe, que descera, enfiado, mandou buscar um +engenheiro á Companhia Central da Electricidade Domestica. Por precaução +outro creado correu á mercearia comprar pacotes de velas. E o Grillo +desenterrava já dos armarios os candelabros abandonados, os pesados +castiçaes archaicos dos tempos inscientificos de D. Galião: era uma +reserva de veteranos fortes, para o caso pavoroso em que mais tarde, á +ceia, falhassem perfidamente as forças bisonhas da Civilisação. O +Electricista, que acudira esbaforido, afiançou porém que a Electricidade +se conservaria fiel, sem outro amuo. Eu, cautelosamente, soneguei na +algibeira dous côtos de estearina. + +A Electricidade permaneceu fiel, sem amuos. E quando desci do meu +quarto, tarde (porque perdera o collete de baile e só depois d'uma busca +furiosa e praguejada o encontrei cahido por traz da cama!), todo o 202 +refulgia, e os Tziganes, na antecamara, sacudindo as guedelhas, atiravam +as arcadas d'uma valsa tão arrastadora que, pelas paredes, os immensos +Personagens das tapeçarias, Priamo, Nestor, o engenhoso Ulysses, +arfavam, boliam com os pés venerandos! + +Timidamente, sem rumor, puxando os punhos, penetrei no gabinete de +Jacintho. E fui logo acolhido pelo sorriso da condessa de Treves, que, +acompanhada pelo illustre historiador Danjon (da Academia Franceza), +percorria maravilhada os Apparelhos, os Instrumentos, toda a sumptuosa +Mechanica do meu super-civilisado Principe. Nunca ella me parecera mais +magestosa do que n'aquellas sêdas côr de açafrão, com rendas cruzadas no +peito á Maria-Antonietta, o cabello crespo e ruivo levantado em rolo +sobre a testa dominadora, e o curvo nariz patricio, abrigando o sorriso +sempre luzidio, sempre corrente, como um arco abriga o correr e o luzir +d'um regato. Direita como n'um solio, a longa luneta de tartaruga +acercada dos olhos miudos e turvamente azulados, ella escutava deante do +Graphophono, depois deante do Microphono, como melodias superiores, os +commentarios que o meu Jacintho ia atabalhoando com uma amabilidade +penosa. E ante cada roda, cada mola, eram pasmos, louvores finamente +torneados, em que attribuia a Jacintho, com astuta candura, todas +aquellas invenções do Saber! Os utensilios misteriosos que atulhavam a +mesa d'ebano foram para ella uma iniciação que a enlevou. Oh, o +«numerador de paginas»! oh, o «collador d'estampilhas»! A caricia +demorada dos seus dedos seccos aquecia os metaes. E supplicava os +endereços dos fabricantes para se prover de todas aquellas utilidades +adoraveis! Como a vida, assim apetrechada, se tornava escorregadia e +facil! Mas era necessario o talento, o gosto de Jacintho, para escolher, +para «crear!» E não só ao meu amigo (que o recebia com resignação) ella +offertava o fino mel. Affagando com o cabo da luneta o Telegrapho, achou +a possibilidade de recordar a eloquencia do Historiador. Mesmo para mim +(de quem ignorava o nome) arranjou junto do Phonographo, e ácerca de +«vozes d'amigos que é doce colleccionar», uma lisonjasinha redondinha e +lustrosa, que eu chupei como um rebuçado celeste. Boa casaleira que vae +atirando o grão aos frangos famintos, a cada passo, maternalmente, ella +nutria uma vaidade. Sofrego d'outro rebuçado, acompanhei a sua cauda +sussurrante e côr d'açafrão. Ella parára deante da Machina-de-contar, de +que Jacintho já lhe fornecera pacientemente uma explicação sapiente. E +de novo roçou os buracos d'onde espreitam os numeros negros, e com o seu +enlevado sorriso murmurou:--«Prodigiosa, esta prensa electrica!...» + +Jacintho accudiu: + +--Não! Não! Esta é... + +Mas ella sorria, seguia... Madame de Treves não comprehendera nenhum +apparelho do meu Principe! Madame de Treves não attendera a nenhuma +dissertação do meu Principe! N'aquelle gabinete de sumptuosa Mechanica +ella sómente se occupára em exercer, com proveito e com perfeição, a +Arte de Agradar. Toda ella era uma sublime falsidade. Não escondi a +Danjon a admiração que me penetrava. + +O facundo Academico revirou os olhos bogalhudos: + +--Oh! e um gôsto, uma intelligencia, uma seducção!... E depois como se +janta bem em casa d'ella! Que café!... Mulher superior, meu caro senhor, +verdadeiramente superior! + +Deslisei para a bibliotheca. Logo á entrada da erudita nave, junto da +estante dos Padres da Egreja onde alguns cavalheiros conversavam, parei +a saudar o director do _Boulevard_ e o Psychologo-feminista, o auctor do +_Coração Triple_, com quem na véspera me familiarisára ao almoço, no +202. O seu acolhimento foi paternal: e, como se necessitasse a minha +presença, reteve na sua mão illustre, rutilante de anneis, com força e +com gula, a minha grossa palma serrana. Todos aquelles senhores, com +effeito, celebravam o seu Romance, a _Couraça_, lançado n'essa semana +entre gritinhos de gôzo e um quente rumor de saias alvoroçadas. Um +sobretudo, com uma vasta cabeça arranjada á Van Dick e que parecia +postiça, proclamava, alçado na ponta das botas, que nunca penetrára tão +fundamente, na velha alma humana, a ponta da Psychologia Experimental! +Todos concordavam, se apertavam contra o Psychologo, o tratavam por +«mestre». Eu mesmo, que nem sequer entrevira a capa amarella da +_Couraça_, mas para quem elle voltava os olhos pedinchões e famintos de +mais mel, murmurei com um leve assobio:--«uma delicia!» + +E o Psychologo, reluzindo, com o labio humido, entalado n'um alto +collarinho onde se enroscava uma gravata á 1830, confessava modestamente +que dissecára todas aquellas almas da _Couraça_ com «algum cuidado», +sobre documentos, sobre pedaços de vida ainda quentes, ainda a +sangrar... E foi então que Marizac, o duque de Marizac, notou, com um +sorriso mais afiado que um lampejo de navalha, e sem tirar as mãos dos +bolsos: + +--No emtanto, meu caro, n'esse livro tão profundamente estudado ha um +erro bem estranho, bem curioso!... + +O Psychologo, vivamente, atirára a cabeça para traz: + +--Um erro? + +Oh, sim, um erro! E bem inesperado n'um mestre tão experiente!... Era +attribuir á esplendida amorosa da _Couraça_, uma duqueza, e do gosto +mais puro,--_um collete de setim preto_! Esse collete, assim preto, de +setim, apparecia na bella pagina de analyse e paixão em que ella se +despia no quarto de Ruy d'Alize. E Marizac, sempre com as mãos nos +bolsos, mais grave, appellava para aquelles senhores. Pois era +verosimil, n'uma mulher como a duqueza, esthetica, pre-raphaelitica, que +se vestia no Doucet, no Paquin, nos costureiros intellectuaes, um +collete de setim preto? + +O Psychologo emmudecera, colhido, trespassado! Marizac era uma tão +suprema auctoridade sobre a roupa intima das duquezas, que á tarde, em +quartos de rapazes, por impulsos idealistas e anceios d'alma +dolorida--se põem em collete e saia branca!... De resto o director do +_Boulevard_ condemnára logo sem piedade, com uma experiencia firme, +aquelle collete, só possivel n'alguma mercieira atrazada que ainda +procurasse effeitos de carne nedia sobre setim negro. E eu, para que me +não julgassem alheio ás coisas dos adulterios ducaes e do luxo, acudi, +mettendo os dedos pelo cabello: + +--Realmente, preto, só se estivesse de lucto pesado, pelo pae! + +O pobre mestre da _Couraça_ succumbira. Era a sua gloria de Doutor em +Elegancias-Femininas desmantelada--e Paris suppondo que elle nunca vira +uma duqueza desatacar o collete na sua alcova de Psychologo! Então, +passando o lenço sobre os labios que a angustia ressequira, confessou o +erro, e contrictamente o attribuiu a uma improvisação tumultuosa: + +--Foi um tom falso, um tom perfeitamente falso que me escapou!... Com +effeito! é absurdo, um collete preto!... Mesmo por harmonia com o estado +da alma da duqueza devia ser lilaz, talvez côr de reseda muito +desmaiada, com um frouxo de rendas antigas de Malines... É prodigioso +como me escapou! Pois tenho o meu caderno de entrevistas bem annotadas, +bem documentadas!... + +Na sua amargura, terminou por supplicar a Marizac que espalhasse por +toda a parte, no Club, nas salas, a sua confissão. Fôra um engano de +artista, que trabalha na febre, vasculhando as almas, perdido nas +profundidades negras das almas! Não reparára no collete, confundira os +tons... E gritou, com os braços estendidos para o director do +_Boulevard_: + +--Estou prompto a fazer uma rectificação, n'uma _interview_, meu caro +mestre! Mande um dos seus redactores... Ámanhã, ás dez horas! Fazemos +uma _interview_, fixamos a côr. Evidentemente é lilaz... Mande um dos +seus homens, meu caro mestre! É tambem uma occasião para eu confessar, +bem alto, os serviços que o _Boulevard_ tem feito ás sciencias +psychologicas e feministas! + +Assim elle supplicava, encostado á estante, ás lombadas dos Santos +Padres. E eu abalei, vendo ao fundo da Bibliotheca Jacintho que se +debatia e se recusava entre dous homens. + +Eram os dois homens de Madame de Treves--o marido, conde de Treves, +descendente dos reis de Candia, e o amante, o terrivel banqueiro judeu, +David Ephraim. E tão enfronhadamente assaltavam o meu Principe que nem +me reconheceram, ambos n'um aperto de mão molle e vago me trataram por +«caro conde»! N'um relance, rebuscando charutos sobre a mesa de +limoeiro, comprehendi que se tramava a _Companhia das Esmeraldas da +Birmania_, medonha empreza em que scintillavam milhões, e para que os +dous confederados de bolsa e d'alcôva, desde o começo do anno, pediam o +nome, a influencia, o dinheiro de Jacintho. Elle resistira, n'um enfado +dos negocios, desconfiado d'aquellas esmeraldas soterradas n'um valle da +Asia. E agora o conde de Treves, um homem esgrouviado, de face +rechupada, erriçada de barba rala, sob uma fronte rotunda e amarella +como um melão, assegurava ao meu pobre Principe que no Prospecto já +preparado, demonstrando a grandeza do negocio, perpassava um fulgôr das +_Mil e Uma noites_. Mas sobretudo aquella excavação de esmeraldas +convidava todo o espirito culto pela sua acção civilisadora. Era uma +corrente de idéas occidentaes, invadindo, educando a Birmania. Elle +acceitára a direcção por patriotismo... + +--De resto é um negocio de joias, de arte, de progresso, que deve ser +feito, n'um mundo superior, entre amigos... + +E do outro lado o terrivel Ephraim, passando a mão curta e gorda sobre a +sua bella barba, mais frisada e negra que a d'um Rei Assyrio, affiançava +o triumpho da empreza pelas grossas forças que n'ella entravam, os +Nagayers, os Bolsans, os Saccart... + +Jacintho franzia o nariz, enervado: + +--Mas, ao menos, estão feitos os estudos? Já se provou que ha +esmeraldas? + +Tanta ingenuidade exasperou Ephraim: + +--Esmeraldas! Está claro que ha esmeraldas!... Ha sempre esmeraldas +desde que haja accionistas! + +E eu admirava a grandeza d'aquella maxima--quando appareceu, esbaforido, +desdobrando o lenço muito perfumado, um dos familiares do 202, Todelle +(Antonio de Todelle), moço já calvo, d'infinitas prendas, que conduzia +Cotillons, imitava cantores de Café Concerto, temperava saladas raras, +conhecia todos os enredos de Paris. + +--Já veio?... Já cá está o Gran-Duque? + +Não, S. Alteza ainda não chegára. E Madame de Todelle? + +--Não poude... No sophá... Esfolou uma perna. + +--Oh! + +--Quasi nada... Cahiu do velocipede! + +Jacintho, logo interessado: + +--Ah! Madame de Todelle anda já de velocipede? + +--Aprende. Nem tem velocipede!... Agora, na quaresma, é que se applicou +mais, no velocipede do padre Ernesto, do cura de S. José! Mas hontem, no +Bosque, zás, terra!... Perna esfolada. Aqui. + +E na sua propria côxa, com a unha, vivamente, desenhou o esfolão. +Ephraim, brutal e serio, murmurou:--«Diabo! é no melhor sitio!» Mas +Todelle nem o escutára, correndo para o director do _Boulevard_, que se +avançava, lento e barrigudo, com o seu monoculo negro semelhante a um +pacho. Ambos se collaram contra uma estante, n'um cochichar profundo. + +Jacintho e eu entramos então no bilhar, forrado de velhos couros de +Cordova, onde se fumava. Ao canto d'um divan, o grande Dornan, o poeta +neo-platonico e mystico, o Mestre subtil de todos os rithmos, espapado +nas almofadas, com um dos pés sob a côxa gorda, como um Deus indio, dois +botões do collete desabotoados, a papeira cahida sobre o largo decote do +collarinho, mamava magestosamente um immenso charuto. Ao pé d'elle, +também sentado, um velho que eu nunca encontrára no 202, esbelto, de +cabellos brancos em anneis passados por traz das orelhas, a face coberta +de pó de arroz, um bigodinho muito negro e arrebitado, findára +certamente alguma historia de bom e grosso sal--porque deante do divan, +de pé, Joban, o suprèmo Critico de Theatro, ria com a calva escarlate de +gôso, e um moço muito ruivo (descendente de Colygny), de perfil de +periquito, sacudia os braços curtos como azas, e gania: «delicioso! +divino!» Só o poeta idealista permanecera impassivel, na sua magestade +obesa. Mas, quando nos acercamos, esse Mestre do rythmo perfeito, depois +de soprar uma farta fumarada e me saudar com um pesado mover das +palpebras, começou n'uma voz de rico e sonoro metal: + +--Ha melhor, ha infinitamente melhor... Todos aqui conhecem Madame +Noredal. Madame Noredal tem umas immensas nadegas... + +Desgraçadamente para o meu regalo Todelle invadiu o bilhar, reclamando +Jacintho com alarido. Eram as senhoras que desejavam ouvir no +Phonographo uma aria da Patti! O meu amigo sacudiu logo os hombros, +n'uma surda irritação: + +--Aria da Patti... Eu sei lá! Todos esses rolos estão em confusão. Além +d'isso o Phonographo trabalha mal. Nem trabalha! Tenho tres. Nenhum +trabalha! + +--Bem! exclamou alegremente Todelle. Canto eu a _Pauvre fille_... É mais +de ceia! _Oh, la pauv', pauv', pauv'_... + +Travou do meu braço, e arrastou a minha timidez serrana para o salão côr +de rosa murcha, onde, como Deusas n'um circulo escolhido do Olympo, +resplandeciam Madame d'Oriol, Madame Verghane, a princeza de Carman, o +uma outra loura, com grandes brilhantes nas grandes farripas, e +d'hombros tão nús, e braços tão nús, e peitos tão nús, que o seu vestido +branco com bordados d'ouro pallido parecia uma camisa, a escorregar. +Impressionado, ainda retive Todelle, rugi baixinho:--«Quem é?» Mas já o +festivo homem correra para Madame d'Oriol, com quem riam, n'uma +familiaridade superior e facil, Marizac (o duque de Marizac) e um moço +de barba côr de milho e mais leve que uma penugem, que se balouçava +gracilmente sobre os pés, como uma espiga ao vento. E eu, encalhado +contra o piano, esfregava lentamente as mãos, amassando o meu embaraço, +quando Madame Verghane se ergueu do sophá onde conversava com um velho +(que tinha a Gran-Cruz de Santo André), e avançou, deslizou no tapete, +pequena e nedia, na sua copiosa cauda de velludo verde-negro. Tão fina +era a cinta, entre os encontros fecundos e a vastidão do peito, todo nú +e côr de nacar, que eu receava que ella partisse pelo meio, no seu lento +ondular. Os seus famosos bandós negros, d'um negro furioso, inteiramente +lhe tapavam as orelhas; e, no grande aro d'ouro que os circumdava, +reluzia uma estrella de brilhantes, como na fronte dos anjos de +Boticelli. Conhecendo sem dúvida a minha auctoridade no 202, ella +despediu sobre mim ao passar, como raio benefico, um sorriso que lhe +liquescia mais os olhos liquidos, e murmurou: + +--O Gran-Duque vem, com certeza? + +--Oh com certeza, minha senhora, para o peixe! + +--P'ra o peixe?... + +Mas justamente, na antecamara, rompeu, em rufos e arcadas triumphaes, a +marcha de Rakoczy. Era elle! Na Bibliotheca, o nosso retumbante mordomo +annunciava: + +--S. Alteza o Gran-Duque Casimiro! + +Madame de Verghane, com um curto suspiro d'emoção, alteou o peito, como +para lhe expôr melhor a magnificencia eburnea. E o homem do _Boulevard_, +o velho da Gran-Cruz, Ephraim, quasi me empurraram, investindo para a +porta, na immensa sofreguidão de Pessoa Real. + +Precedido por Jacintho, o Gran-Duque surgiu. Era um possante homem, de +barba em bico, já grisalha, um pouco calvo. Durante um momento hesitou, +com um balanço lento sobre os pés pequeninos, calçados de sapatos rasos, +quasi sumidos sob as pantalonas muito largas. Depois, pesado e risonho, +veio apertar a mão ás senhoras que mergulhavam nos velludos e sêdas, em +mesuras de Côrte. E immediatamente, batendo com carinhosa jovialidade no +hombro de Jacintho: + +--E o peixe?... Preparado pela receita que mandei, hein? + +Um murmurio de Jacintho tranquillisou S. Alteza. + +--Ainda bem, ainda bem! exclamou elle, no seu vozeirão de commando. Que +eu não jantei, absolutamente não jantei! É que se está jantando +deploravelmente em casa do Joseph. Mas porque se vai jantar ainda ao +Joseph? Sempre que chego a Paris, pergunto: «Onde é que se janta agora?» +Em casa do Joseph!... Qual! não se janta! Hoje, por exemplo, +gallinholas... Uma peste! Não tem, não tem a noção da gallinhola! + +Os seus olhos azulados, d'um azul sujo, rebrilhavam, alargados pela +indignação: + +--Paris está perdendo todas as suas superioridades. Já se não janta, em +Paris! + +Então, em redor, aquelles senhores concordaram, desolados. O conde de +Treves defendeu o Bignon, onde se conservavam nobres tradições. E o +director do _Boulevard_, que se empurrava todo para S. Alteza, attribuia +a decadencia da cozinha, em França, á Republica, ao gosto democratico e +torpe pelo barato. + +--No Paillard, todavia...--começou o Ephraim. + +--No Paillard! gritou logo o Gran-Duque. Mas os Borgonhas são tão maus! +os Borgonhas são tão maus!... + +Deixára pender os braços, os hombros, descorçoado. Depois, com o seu +lento andar balançado como o d'um velho piloto, atirando um pouco para +traz as lapellas da casaca, foi saudar Madame d'Oriol, que toda ella +faiscou, no sorriso, nos olhos, nas joias, em cada préga das suas sêdas +côr de salmão. Mas apenas a clara e macia creatura, batendo o leque como +uma aza alegre, começára a chalrar, S. Alteza reparou no apparelho do +Theatrophone, pousado sobre uma mesa entre flôres, e chamou Jacintho: + +--Em communicação com o Alcazar?... O Theatrophone? + +--Certamente, meu senhor. + +Excellente! Muito chic! Elle ficára com pena de não ouvir a Gilberte +n'uma cançoneta nova, as _Casquettes_. Onze e meia! Era justamente a +essa hora que ella cantava, no ultimo acto da _Revista +Electrica_...--Collou ás orelhas os dous «receptores» do Theatrophone, e +quedou embebido, com uma ruga séria na testa dura. De repente, n'um +commando forte: + +--É ella! Chut! Venham ouvir!... É ella! Venham todos! Princeza de +Carman, para aqui! Todos! É ella! Chut... + +Então, como Jacintho installára prodigamente dois Theatrophones, cada um +provido de doze fios, as senhoras, todos aquelles cavalheiros, se +apressaram a acercar submissamente um receptor do ouvido, e a permanecer +immoveis para saborear _Les Casquettes_. E no salão côr de rosa murcha, +na nave da Bibliotheca, onde se espalhára um silencio augusto, só eu +fiquei desligado do Theatrophone, com as mãos nas algibeiras e ocioso. + +No relogio monumental, que marcava a hora de todas as Capitaes e o +movimento de todos os Planetas, o ponteiro rendilhado adormeceu. Sobre a +mudez e a immobilidade pensativa d'aquelles dorsos, d'aquelles decotes, +a Electricidade refulgia com uma tristeza de sol regelado. E de cada +orelha attenta, que a mão tapava, pendia um fio negro, como uma tripa. +Dornan, esbroado sobre a mesa, cerrára as palpebras, n'uma meditação de +monge obeso. O historiador dos Duques d'Anjou, com o «receptor» na ponta +delicada dos dedos, erguendo o nariz agudo e triste, gravemente cumpria +um dever palaciano. Madame d'Oriol sorria, toda languida, como se o fio +lhe murmurasse doçuras. Para desentorpecer arrisquei um passo timido. +Mas cahiu logo sobre mim um _chut_ severo do Gran-Duque! Recuei para +entre as cortinas da janella, a abrigar a minha ociosidade. O Philologo +da _Couraça_, distante da mesa, com o seu comprido fio esticado, mordia +o beiço, n'um esforço de penetração. A beatitude de S. Alteza, enterrado +n'uma vasta poltrona, era perfeita. Ao lado o collo de Madame Verghane +arfava como uma onda de leite. E o meu pobre Jacintho, n'uma applicação +conscienciosa, pendia sobre o Theatrophone tão tristemente como sobre +uma sepultura. + +Então, ante aquelles seres de superior civilisação, sorvendo n'um +silencio devoto as obscenidades que a Gilberte lhes gania, por debaixo +do solo de Paris, atravez de fios mergulhados nos esgotos, cingidos aos +canos das fezes,--pensei na minha aldeia adormecida. O crescente de lua, +que, seguido d'uma estrellinha, corria entre nuvens sobre os telhados e +as chaminés negras dos Campos-Elyseos, tambem andava lá fugindo, mais +lustrosa e mais dôce, por cima dos pinheiraes. As rãs coaxavam ao longe +no Pego da Dona. A ermidinha de S. Joaquim branquejava no cabeço, +nuasinha e candida... + +Uma das senhoras murmurou: + +--Mas, não é a Gilberte!... + +E um dos homens: + +--Parece um cornetim... + +--Agora são palmas... + +--Não, é o Paulin! + +O Gran-Duque lançou um _chut_ feroz... No pateo da nossa casa ladravam +os cães. D'além do ribeiro respondiam os cães do João Saranda. Como me +encontrei descendo por uma quelha, sob as ramadas, com o meu varapau ao +hombro? E sentia, entre a sêda das cortinas, n'um fino ar macio, o +cheiro das pinhas estalando nas lareiras, o calor dos curraes atravez +das sebes altas, e o susurro dormente das levadas... + +Despertei a um brado que não sahia nem dos eidos, nem das sombras. Era o +Gran-Duque que se erguera, encolhia furiosamente os hombros: + +--Não se ouve nada!... Só guinchos! E um zumbido! Que massada!... Pois é +uma belleza, a cançoneta: + +Oh les casquettes, +Oh les casque-e-e-tes!... + +Todos largaram os fios--proclamavam a Gilberte deliciosa. E o mordomo +bemdito, abrindo largamente os dous batentes, annunciou: + +--_Monseigneur est servi_! + +Na mesa, que pelo esplendor das orchideas mereceu os louvores ruidosos +de S. Alteza, fiquei entre o ethereo poeta Dornan e aquelle moço de +pennugem loura que balouçava como uma espiga ao vento. Depois de +desdobrar o guardanapo, de o accomodar regaladamente sobre os joelhos, +Dornan desenvencilhou da corrente do relogio uma enorme luneta para +percorrer o _menu_--que approvou. E inclinando para mim a sua face de +Apostolo obeso: + +--Este Porto de 1834, aqui era casa do Jacintho, deve ser authentico... +Hein? + +Assegurei ao Mestre dos Rythmos que o «Porto» envelhecêra nas adegas +classicas do avô Galião. Elle afastou, n'uma preparação methodica, os +longos, densos fios do bigode que lhe cobriam a bocca grossa. Os +escudeiros serviram um consommé frio com trufas. E o moço côr de milho, +que espalhára pela mesa o seu olhar azul e dôce, murmurou, com uma +desconsolação risonha: + +--Que pena!... Só falta aqui um general e um bispo! + +Com effeito! Todas as Classes Dominantes comiam n'esse momento as trufas +do meu Jacintho... Mas defronte Madame d'Oriol lançára um riso mais +cantado que um gorgeio. O Gran-Duque, n'uma silva de orchideas que +orlava o seu talher, notára uma, sombriamente horrenda, semelhante a um +lacrau esverdinhado, de azas lustrosas, gordo e tumido de veneno: e +muito delicadamente offertára a flôr monstruosa a Madame d'Oriol, que, +com trinado riso, solemnemente, a collocou no seio. Collado áquella +carne macia, d'uma brancura de nata fina, o lacrau inchára, mais verde, +com as azas frementes. Todos os olhos se accendiam, se cravavam no lindo +peito, a que a flôr disforme, de côr venenosa, apimentava o sabor. Ella +reluzia, triumphava. Para ageitar melhor a orchidea os seus dedos +alargaram o decote, aclararam bellezas, guiando aquellas curiosidades +flammejantes que a despiam. A face vincada de Jacintho pendia para o +prato vasio. E o alto lyrico do _Crepusculo Mystico_, passando a mão +pelas barbas, rosnou com desdem: + +--Bella mulher... Mas ancas seccas, e aposto que não tem nadegas! + +No emtanto o moço de loura pennugem voltára á sua estranha mágoa. Não +possuirmos um general com a sua espada, e um bispo com seu baculo!... + +--Para que, meu caro senhor? + +Elle atirou um gesto suave em que todos os seus anneis faiscaram: + +--Para uma bomba de dynamite... Temos aqui um explendido ramalhete de +flôres de Civilisacão, com um Gran-Duque no meio. Imagine uma bomba de +dynamite, atirada da porta!... Que bello fim de ceia, n'um fim de +seculo! + +E como eu o considerava assombrado, elle, bebendo golos de +Chateau-Yquem, declarou que hoje a unica emoção, verdadeiramente fina, +seria aniquillar a Civilisação. Nem a sciencia, nem as artes, nem o +dinheiro, nem o amor, podiam já dar um gosto intenso e real ás nossas +almas saciadas. Todo o prazer que se extrahíra de _crear_ estava +esgotado. Só restava, agora, o divino prazer de _destruir_! + +Desenrolou ainda outras enormidades, com um riso claro nos olhos claros. +Mas eu não attendia o gentil pedante, colhido por outro +cuidado--reparando que em torno, subitamente, todo o serviço estacára +como no conto do Palacio Petrificado. E o prato agora devido era o peixe +famoso da Dalmacia, o peixe de S. Alteza, o peixe inspirador da festa! +Jacintho, nervoso, esmagava entre os dedos uma flôr. E todos os +escudeiros sumidos! + +Felizmente o Gran-Duque contava a historia d'uma caçada, nas coutadas de +Sarvan, em que uma senhora, mulher de um banqueiro, saltára bruscamente +do cavallo, n'um descampado, sem arvores. Elle e todos os caçadores +param--e a galante senhora, livida, com a amazona arregaçada, corre para +traz d'uma pedra... Mas nunca soubemos em que se occupava a banqueira, +n'esse descampado, agachada atraz da pedra--porque justamente o mordomo +appareceu, relusente de suor, e balbuciou uma confidencia a Jacintho, +que mordeu o beiço, trespassado. O Gran-Duque emmudecera. Todos se +entre-olhavam, n'uma anciedade alegre. Então o meu Principe, com +paciencia, com heroicidade, forçando pallidamente o sorriso: + +--Meus amigos, ha uma desgraça... + +Dornan pulou na cadeira: + +--Fogo? + +Não, não era fogo. Fôra o elevador dos pratos, que inesperadamente, ao +subir o peixe de S. Alteza, se desarranjára, e não se movia, encalhado! + +O Gran-Duque arremessou o guardanapo. Toda a sua polidez estalava como +um esmalte mal posto: + +--Essa é forte!... Pois um peixe que me deu tanto trabalho! Para que +estamos nós aqui então a cear? Que estupidez! E porque o não trouxeram á +mão, simplesmente? Encalhado... Quero vêr! Onde é a copa? + +E, furiosamente, investiu para a copa, conduzido pelo mordomo que +tropeçava, vergava os hombros, ante esta esmagadora colera de Principe. +Jacintho seguiu, como uma sombra, levado na rajada de S. Alteza. E eu +não me contive, tambem me atirei para a copa, a contemplar o desastre, +emquanto Dornan, batendo na côxa, clamava que se ceasse sem peixe! + +O Gran-Duque lá estava, debruçado sobre o poço escuro do elevador, onde +mergulhára uma vela que lhe avermelhava mais a face esbraseada. +Espreitei, por sobre o seu hombro real. Em baixo, na treva, sobre uma +larga prancha, o peixe precioso alvejava, deitado na travessa, ainda +fumegando, entre rodellas de limão. Jacintho, branco como a gravata, +torturava desesperadamente a mola complicada do ascensor. Depois foi o +Gran-Duque que, com os pulsos cabelludos, atirou um empuxão tremendo aos +cabos em que elle rolava. Debalde! O apparelho enrijára n'uma inercia de +bronze eterno. + +Sêdas roçagaram á entrada da copa. Era Madame d'Oriol, e atraz Madame +Verghane, com os olhos a faiscar, na curiosidade d'aquelle lance em que +o Principe soltára tanta paixão. Marizac, nosso intimo, surgiu tambem, +risonho, propondo uma descida ao poço com escadas. Depois foi o +Psychologo, que se abeirou, psychologou, attribuindo intenções sagazes +ao peixe que assim se recusava. E a cada um o Gran-Duque, escarlate, +mostrava com dedo tragico, no fundo da cova, o seu peixe! Todos +afundavam a face, murmuravam: «lá está!» Todelle, na sua precipitação, +quasi se despenhou. O periquito descendente de Colygny batia as azas, +ganindo:--«Que cheiro elle deita, que delicia!» Na copa atulhada os +decotes das senhoras roçavam a farda dos lacaios. O velho caiado de pó +d'arroz metteu o pé n'um balde de gelo, com um berro ferino. E o +Historiador dos Duques d'Anjou movia por cima de todos o seu nariz +bicudo e triste. + +De repente, Todelle teve uma idéa! + +--É muito simples... É pescar o peixe! + +O Gran-Duque bateu na côxa uma palmada triumphal. Está claro! Pescar o +peixe! E no gozo d'aquella facecia, tão rara e tão nova, toda a sua +colera se sumíra, de novo se tornára o Principe amavel, de magnifica +polidez, desejando que as senhoras se sentassem para assistir á pesca +miraculosa! Elle mesmo seria o pescador! Nem se necessitava, para a +divertida façanha, mais que uma bengala, uma guita e um gancho. +Immediatamente Madame d'Oriol, excitada, offereceu um dos seus ganchos. +Apinhados em volta d'ella, sentindo o seu perfume, o calor da sua pelle, +todos exaltamos a amoravel dedicação. E o Psychologo proclamou que nunca +se pescára com tão divino anzol! + +Quando dois escudeiros estonteados voltaram, trazendo uma bengala e um +cordel, já o Gran-Duque, radiante, vergára o gancho em anzol. Jacintho, +com uma paciencia livida, erguia uma lampada sobre a escuridão do poço +fundo. E os senhores mais graves, o Historiador, o director do +_Boulevard_, o Conde de Treves, o homem de cabeça á Van-Dick, sorriam, +amontoados á porta, n'um interesse reverente pela phantasia de S. +Alteza. Madame de Treves, essa, examinava serenamente, com a sua nobre +luneta, a installação da copa. Só Dornan não se erguera da mesa, com os +punhos cerrados sobre a toalha, o gordo pescoço encovado, no tedio +sombrio de fera a quem arrancaram a posta. + +No emtanto S. Alteza pescava com fervor! Mas debalde! O gancho, pouco +agudo, sem presa, bamboleando na extremidade da guita frouxa, não +fisgava. + +--Oh Jacintho, erga essa luz! gritava elle, inchado e suado. Mais!... +Agora! Agora! É na guelra! Só na guelra é que o gancho o póde prender. +Agora... Qual! Que diabo! Não vae! + +Tirou a face do poço, resfolgando e affrontado. Não era possivel! Só +carpinteiros, com alavancas!... E todos, anciosamente, bradamos que se +abandonasse o peixe! + +O Principe, risonho, sacudindo as mãos, concordava que por fim «fôra +mais divertido pescal-o do que comêl-o!» E o elegante bando refluiu +sofregamente para a mesa, ao som d'uma valsa de Strauss, que os Tziganes +arremeçaram em arcadas de languido ardôr. Só Madame de Treves se demorou +ainda, retendo o meu pobre Jacintho, para lhe assegurar quanto admirava +o arranjo da sua copa... Oh perfeita! Que comprehensão da vida, que fina +intelligencia do conforto! + +S. Alteza, encalmado pelo esforço, esvasiou poderosamente dous copos de +Chateau-Lagrange. Todos o acclamavam como um pescador genial. E os +escudeiros serviram o _Barão de Pauillac_, cordeiro das lezirias +marinhas, que, preparado com ritos quasi sagrados, toma este grande nome +sonoro e entra no Nobiliario de França. + +Eu comi com o appetite d'um heroe de Homero. Sobre o meu copo e o de +Dornan o Champagne scintillou e jorrou ininterrompidamente como uma +fonte de inverno. Quando se serviram ortolans gelados, que se derretiam +na bocca, o divino poeta murmurou, para meu regalo, o seu soneto sublime +a «Santa Clara». E como, do outro lado, o moço de pennugem loura +insistia pela destruição do velho mundo, tambem concordei, e, sorvendo o +Champagne coalhado em sorvete, maldissemos o Seculo, a Civilisação, +todos os orgulhos da Sciencia! Através das flôres e das luzes, no +emtanto, eu seguia as ondas arfantes do vasto peito de Madame Verghane, +que ria como uma bacchante. E nem me apiedava de Jacintho que, com a +doçura de S. Jacintho sobre o cêpo, esperava o fim do seu martyrio e da +sua festa. + +Ella findou. Ainda recordo, ás tres horas da noite, o Gran-Duque na +antecamara, muito vermelho, mal firme nos pés pequeninos, sem acertar +com as mangas da pelissa que Jacintho e eu lhe ajudamos a +enfiar--convidando o meu amigo, n'uma effusão carinhosa, a ir caçar ás +suas terras da Dalmacia... + +--Devo ao meu Jacintho uma bella pesca, quero que elle me deva uma bella +caçada! + +E emquanto o acompanhavamos, entre as alas dos escudeiros, pela vasta +escada onde o mordomo o precedia erguendo um candelabro de tres lumes, +S. Alteza repisava, pegajoso: + +--Uma bella caçada... E tambem vae Fernandes! Bom Fernandes, Zé +Fernandes! Ceia superior, meu Jacintho! O _Barão de Pauillac_, +divino!... Creio que o devemos nomear Duque... O Senhor Duque de +Pauillac! Mais um bocado da perna do Senhor Duque de Pauillac. Ah! +Ah!... Não venham fóra! Não se constipem! + +E do fundo do coupé, ao rodar, ainda bradou: + +--O peixe, Jacintho, desencalha o peixe! Excellente, ao almoço, frio, +com môlho verde! + +Trepando cançadamente os degraus, n'uma molleza de Champagne e somno em +que os olhos se me cerravam, murmurei para o meu Principe: + +--Foi divertido, Jacintho! Sumptuosa mulher, a Verghane! Grande pena, o +elevador... + +E Jacintho, n'um som cavo que era bocejo e rugido: + +--Uma massada! E tudo falha! + + * * * * * + +Tres dias depois d'esta festa no 202 recebeu o meu Principe +inesperadamente, de Portugal, uma nova consideravel. Sobre a sua quinta +e solar de Tormes, por toda a serra, passára uma tormenta devastadora de +vento, corisco e agua. Com as grossas chuvas, «ou por outras causas que +os peritos dirão» (como exclamava na sua carta angustiada o procurador +Silverio), um pedaço de monte, que se avançava em socalco sobre o valle +da Carriça, desabára, arrastando a velha egreja, uma egrejinha rustica +do seculo XVI, onde jaziam sepultados os avós de Jacintho desde os +tempos de el-rei D. Manoel. Os ossos veneraveis d'esses Jacinthos jaziam +agora soterrados sob um montão informe de terra e pedra. O Silverio já +começára com os moços da quinta a desatulhar dos «preciosos restos». Mas +esperava anciosamente as ordens de sua exc.^a... + +Jacintho empallidecêra, impressionado. Esse velho solo serrano, tão rijo +e firme desde os Godos, que de repente ruia! Esses jazigos de paz +piedosa, precipitados com fragor, na borrasca e na treva, para um negro +fundo de valle! Essas ossadas, que todas conservavam um nome, uma data, +uma historia, confundidas n'um lixo de ruina! + +--Coisa estranha, coisa estranha!... + +E toda a noite me interrogou ácerca da serra e de Tormes, que eu +conhecia desde pequeno, por que o velho solar, com a sua nobre alameda +de faias seculares, se erguia a duas legoas da nossa casa, no antigo +caminho de Guiães á estação e ao rio. O caseiro de Tormes, o bom +Melchior, era cunhado do nosso feitor da Roqueirinha:--e muitas vezes, +depois da minha intimidade com Jacintho, eu entrára no robusto casarão +de granito, e avaliára o grão espalhado pelas salas sonoras, e provára o +vinho novo nas adegas immensas... + +--E a egreja, Zé Fernandes?... Entraste na egreja? + +--Nunca... Mas era pittoresca, com uma torresinha quadrada, toda negra, +onde ha muitos annos vivia uma familia de cegonhas... Terrivel +transtorno para as cegonhas! + +--Coisa estranha! murmurava ainda o meu Principe, agourado. + +E telegraphou ao Silverio que desatulhasse o valle, recolhesse as +ossadas, reedificasse a Egreja, e, para esta obra de piedade e +reverencia, gastasse o dinheiro, sem contar, como a agua d'um rio largo. + + + + +V + + +No emtanto Jacintho, desesperado com tantos desastres humilhadores--as +torneiras que dessoldavam, os elevadores que emperravam, o Vapor que se +encolhia, a Electricidade que se sumia, decidiu valorosamente vencer as +resistencias finaes da Materia e da Força por novas e mais poderosas +accumulacões de Mechanismos. E n'essas semanas de Abril, emquanto as +rosas desabrochavam, a nossa agitada casa, entre aquellas quietas casas +dos Campos-Elyseos que preguiçavam ao sol, incessantemente tremeu, +envolta n'um pó de caliça e d'empreitada, com o bruto picar de pedra, o +retininte martelar de ferro. Nos silenciosos corredores, onde me era +dôce fumar antes do almoço um pensativo cigarro, circulavam agora, desde +madrugada, ranchos d'operarios, de blusas brancas, assobiando o +_Petît-Bleu_, e intimidando os meus passos quando eu atravessava em +fralda e chinellas para o banho ou para outros retiros. Apenas se varava +com pericia algum andaime obstruindo as portas--logo se esbarrava com +uma pilha de taboas, uma ceira de farramentas ou um balde enorme +d'argamassa. E os pedaços de soalho levantado mostravam tristemente, +como n'um cadaver aberto, todos os interiores do 202, a ossatura, os +sensiveis nervos d'arame, os negros intestinos de ferro fundido. + +Cada dia estacava deante do portão alguma lenta carroça, d'onde os +creados, em mangas de camisa, descarregavam caixotes de madeira, fardos +de lona, que se despregavam e se descosiam n'uma sala asphaltada, ao +fundo do jardim, por traz da sebe de lilazes. E eu descia, reclamado +pelo meu Principe, para admirar uma nova Machina que nos tornaria a vida +mais facil, estabelecendo d'um modo mais seguro o nosso dominio sobre a +Substancia. Durante os calores, que apertaram depois da Ascenção, +ensaiamos esperançadamente, para refrescar as aguas mineraes, a +Soda-Water e os Medocs ligeiros, tres geleiras, que se amontoaram na +copa successivamente desprestigiadas. Com os morangos novos appareceu um +instrumentosinho astuto, para lhes arrancar os pés, delicadamente. +Depois recebemos outro, prodigioso, de prata e crystal, para remexer +phreneticamente as saladas; e, na primeira vez que o experimentei, todo +o vinagre esparrinhou sobre os olhos do meu Principe, que fugiu aos +uivos! Mas elle teimava... Nos actos mais elementares, para alliviar ou +apressar o esforço, se soccorria Jacintho da Dynamica. E agora era por +intervenção d'uma machina que abotoava as ceroulas. + +E simultaneamente, ou em obediencia á sua Idéa, ou governado pelo +despotismo do habito, não cessava, ao lado da Mechanica accumulada, de +accumular Erudição. Oh, a invasão dos livros no 202! Solitarios, aos +pares, em pacotes, dentro de caixas, franzinos, gordos e repletos de +auctoridade, envoltos em plebeia capa amarella ou revestidos de +marroquim e ouro, perpetuamente, torrencialmente, invadiam por todas as +largas portas a Bibliotheca, onde se estiravam sobre o tapete, se +repimpavam nas cadeiras macias, se enthronisavam em cima das mesas +robustas, e sobretudo trepavam contra as janellas, em sofregas pilhas, +como se, suffocados pela sua propria multidão, procurassem com ancia +espaço e ar! Na erudita nave, onde apenas alguns vidros mais altos +restavam descobertos, sem tapume de livros, perennemente se adensava um +pensativo crepusculo de outono emquanto fóra Junho refulgia. A +Bibliotheca transbordára através de todo o 202! Não se abria um armario +sem que de dentro se despenhasse, desamparada, uma pilha de livros! Não +se franzia uma cortina sem que de traz surgisse, hirta, uma ruma de +livros! E immensa foi a minha indignação quando uma manhã, correndo +urgentemente, de mãos nas alças, encontrei, vedada por uma tremenda +collecção de Estudos Sociaes, a porta do Water-Closet! + +Mais amargamente porém me lembro da noite historica em que, no meu +quarto, moido e molle d'um passeio a Versalhes, com as palpebras +poeirentas e meio adormecidas, tive de desalojar do meu leito, +praguejando, um pavoroso Diccionario de Industria em trinta e sete +volumes! Senti então a suprema fartura do livro. Ageitando, com murros, +os travesseiros, maldisse a Imprensa, a Facundia humana... E já me +estirára, adormecia, quando topei, quasi parti a preciosa rotula do +joelho, contra a lombada d'um tomo que velhacamente se aninhára entre a +parede e os colchões. Com furor e um berro empolguei, arremessei o tomo +affrontoso--que entornou o jarro, inundou um tapete rico de Daghestan. E +nem sei se depois adormeci--porque os meus pés, a que não sentia nem o +pisar nem o rumor, como se um vento brando me levasse, continuaram a +tropeçar em livros no corredor apagado, depois na areia do jardim que o +luar branqueava, depois na Avenida dos Campos-Elyseos, povoada e ruidosa +como n'uma festa civica. E, oh portento! todas as casas aos lados eram +construidas com livros. Nos ramos dos castanheiros ramalhavam folhas de +livros. E os homens, as finas damas, vestidos de papel impresso, com +titulos nos dorsos, mostravam em vez de rosto um livro aberto, a que a +brisa lenta virava docemente as folhas. Ao fundo, na Praça da Concordia, +avistei uma escarpada montanha de livros, a que tentei trepar, +arquejante, ora enterrando a perna em flacidas camadas de versos, ora +batendo contra a lombada, dura como calhau, de tomos de Exegese e +Critica. A tão vastas alturas subi, para além da terra, para além das +nuvens, que me encontrei, maravilhado, entre os astros. Elles rolavam +serenamente, enormes e mudos, recobertos por espessas crostas de livros, +d'onde surdia, aqui e além, por alguma fenda, entre dois volumes mal +juntos, um raiosinho de luz suffocada e anciada. E assim ascendi ao +Paraiso. Decerto era o Paraiso--porque com meus olhos de mortal argila +avistei o Ancião da Eternidade, aquelle que não tem Manhã nem Tarde. +N'uma claridade que d'elle irradiava mais clara que todas as claridades, +entre fundas estantes d'ouro abarrotadas de codices, sentado em +vetustissimos folios, com os flocos das infinitas barbas espalhados por +sobre resmas de folhetos, brochuras, gazetas e catalogos--o Altissimo +lia. A fronte super-divina que concebera o Mundo pousava sobre a mão +super-forte que o Mundo creára--e o Creador lia e sorria. Ousei, +arrepiado de sagrado horror, espreitar por cima do seu hombro +coruscante. O livro era brochado, de tres francos... O Eterno lia +Voltaire, n'uma edição barata, e sorria. + +Uma porta faiscou e rangeu, como se alguem penetrasse no Paraiso. Pensei +que um Santo novo chegára da Terra. Era Jacintho, com o charuto em +braza, um molho de cravos na lapella, sobraçando tres livros amarellos +que a Princeza de Carman lhe emprestára para lêr! + + * * * * * + +N'uma d'essas activas semanas, porém, a minha attenção subitamente se +despegou d'este interessante Jacintho. Hospede do 202, conservava no 202 +a minha mala e a minha roupa: e, acostado á bandeira do meu Principe, +ainda occasionalmente comia do seu caldeirão sumptuoso. Mas a minha +alma, a minha embrutecida alma, e o meu corpo, o meu embrutecido corpo, +habitavam então na rua do Helder, n.^o 16, quarto andar, porta á +esquerda. + +Descia eu uma tarde, n'uma leda paz de idéas e sensações, o Boulevard da +Magdalena, quando avistei, deante da Estação dos Omnibus, rondando no +asphalto, n'um passo lento e felino, uma creatura secca, muito morena, +quasi tisnada, com dous fundos olhos taciturnos e tristes, e uma matta +de cabellos amarellados, toda crespa e rebelde, sob o chapéo velho de +plumas negras. Parei, como colhido por um repuxão nas entranhas. A +creatura passou--no seu magro rondar de gata negra, sobre um beiral de +telhado, ao luar de Janeiro. Dous poços fundos não luzem mais negra e +taciturnamente do que luziam os seus olhos taciturnos e negros. Não +recordo (Deus louvado!) como rocei o seu vestido de sêda, lustroso e +encebado nas pregas; nem como lhe rosnei uma súpplica por entre os +dentes que rangiam; nem como subimos ambos, morosamente e mais +silenciosos que condemnnados, para um gabinete do Café Durand, safado e +môrno. Deante do espelho, a creatura, com a lentidão d'um rito triste, +tirou o chapéo e a romeira salpicada de vidrilhos. A sêda poida do +corpete esgarçava nos cotovellos agudos. E os seus cabellos eram +immensos, d'uma dureza e espessura de juba brava, em dous tons +amarellos, uns mais dourados, outros mais crestados, como a côdea de uma +torta ao sahir quente do forno. + +Com um riso tremulo, agarrei os seus dedos compridos e frios: + +--E o nomesinho, hein? + +Ella séria, quasi grave: + +--Madame Colombe, 16, rua do Helder, quarto andar, porta á esquerda. + +E eu (miseravel Zé Fernandes!) tambem me senti muito sério, trespassado +por uma emoção grave, como se nos envolvesse, n'aquella alcôva de Café, +a magestade d'um Sacramento. Á porta, empurrada levemente, o creado +avançou a face nedia. Ordenei uma lagosta, pato com pimentões, e +Borgonha. E foi sómente ao findarmos o pato que me ergui, amarfanhando +convulsamente o guardanapo, e a tremer lhe beijei a bocca, todo a +tremer, n'um beijo profundo e terrivel, em que deixei a alma, entre +saliva e gôsto de pimentão! Depois, n'uma tipoia aberta, sob um bafo +molle de leste e de trovoada, subimos a Avenida dos Campos-Elyseos. Em +frente á grade do 202 murmurei, para a deslumbrar com o meu luxo:--«Móro +alli, todo o anno!...» E como ao mirar o Palacete, debruçada, ella +roçára a matta fulva do pello crespo pela minha barba--berrei +desesperadamente ao cocheiro; que galopasse para a rua do Helder, n.^o +16, quarto andar, porta á esquerda! + +Amei aquella creatura. Amei aquella creatura com Amor, com todos os +Amores que estão no Amor, o Amor divino, o Amor humano, o Amor bestial, +como Santo Antonino amava a Virgem, como Romeu amava Julietta, como um +bode ama uma cabra. Era estupida, era triste. Eu deliciosamente apagava +a minha alegria na cinza da sua tristeza; e com ineffavel gôsto afundava +a minha razão na densidade da sua estupidez. Durante sete furiosas +semanas perdi a consciencia da minha personalidade de Zé +Fernandes--Fernandes de Noronha e Sande, de Guiães! Ora se me affigurava +ser um pedaço de cêra que se derretia, com horrenda delicia, n'um forno +rubro e rugidor: ora me parecia ser uma faminta fogueira onde +flammejava, estalava e se consumia um mólho de galhos seccos. D'esses +dias de sublime sordidez só conservo a impressão d'uma alcôva forrada de +cretones sujos, d'uma bata de lã côr de lilaz com sotaches negros, de +vagas garrafas de cerveja no marmore d'um lavatorio, e d'um corpo +tisnado que rangia e tinha cabellos no peito. E tambem me resta a +sensação de incessantemente e com arrobado deleite me despojar, +arremessar para um regaço, que se cavava entre um ventre sumido e uns +joelhos agudos, o meu relogio, os meus berloques, os meus anneis, os +meus botões de punho de saphira, e as cento e noventa e sete libras em +ouro que eu trouxera de Guiães n'uma cinta de camurça. Do solido, +decoroso, bem fornecido Zé Fernandes, só restava uma carcassa errando +atravéz d'um sonho, com as gambias molles e a baba a escorrer. + +Depois, uma tarde, trepando com a costumada gula a escada da rua do +Helder, encontrei a porta fechada--e arrancado da hombreira aquelle +cartão de _Madame Colombe_ que eu lia sempre tão devotamente e que era a +sua taboleta... Tudo no meu ser tremeu como se o chão de Paris tremesse! +Aquella era a porta do Mundo que ante mim se fechára! Para além estavam +as gentes, as cidades, a vida, Deus e Ella. E eu ficára sósinho, +n'aquelle patamar do Não-ser, fóra da porta que se fechára, unico ser +fóra do Mundo! Rolei pelos degraus, com o fragor e a incoherencia d'uma +pedra, até ao cubiculo da porteira e do seu homem que jogavam as cartas +em ditosa pachorra, como se tão pavoroso abalo não tivesse desmantelado +o Universo! + +--Madame Colombe? + +A barbuda comadre recolheu lentamente a vaza: + +--Ja não mora... Abalou esta manhã, para outra terra, com outra porca! + +Para outra terra! com outra porca!... Vasio, negramente vasio de todo o +pensar, de todo o sentir, de todo o querer--boiei aos tombos, como um +tonel vasio, na corrente açodada do Boulevard, até que encalhei n'um +banco da Praça da Magdalena, onde tapei com as mãos, a que não sentia a +febre, os olhos a que não sentia o pranto! Tarde, muito tarde, quando já +se cerravam com estrondo as cortinas de ferro das lojas, surdiu, d'entre +todas estas confusas ruinas do meu ser, a eterna sobrevivente de todas +as ruinas--a ideia de jantar. Penetrei no Durand, com os passos +entorpecidos d'um resuscitado. E, n'uma recordação que m'escaldava a +alma, encommendei a lagosta, o pato, o Borgonha! Mas ao alargar o +collarinho, ensopado pelo ardor d'aquella tarde de Julho, entre a poeira +da Magdalena, pensei com desconfôrto:--«Santissimo Nome de Deus! Que +immensa sêde me fez esta desgraça!...» De manso acenei ao moço:--«Antes +do Borgonha, uma garrafa de Champagne, com muito gêlo, e um grande +copo!...» Creio que aquelle Champagne se engarrafára no Ceu onde corre +perennemente a fresca fonte da Consolação, e que na garrafa bemdita que +me coube penetrára, antes d'arrolhada, um jorro largo d'essa fonte +inneffavel. Jesus! que transcendente regalo, o d'aquelle nobre copo, +embaciado, nevado, a espumar, a picar, n'um brilho d'ouro! E depois, +garrafa de Borgonha! E depois, garrafa de Cognac! E depois +Hortelã-Pimenta granitada em gêlo! E depois um desejo arquejante de +espancar, com o meu rijo marmelleiro de Guiães, a porca que fugira com +outra porca! Dentro da tipoia fechada, que me transportou n'um galope ao +202, não suffoquei este santo impulso, e com os meus punhos serranos +atirei murros retumbantes contra as almofadas, onde _via_, furiosamente +_via_ a matta immensa de pello amarello, em que a minha alma uma tarde +se perdera, e tres mezes se debatera, e para sempre se emporcalhára! +Quando o fiacre estacou no 202 ainda eu espancava tão desesperadamente a +besta ingrata, que, aos berros do cocheiro, dous moços accudiram e me +sustiveram, recebendo pelos hombros, sobre as nucas servis, os restos +cançados da minha colera. + +Em cima, repelli a sollicitude do Grillo que tentava impôr ao _siô_ Zé +Fernandes, a Zé Fernandes de Guiães, a immensa indignidade d'um chá de +macella! E estirado no leito de D. Galião, com as botas sobre o +travesseiro, o chapéo alto sobre os olhos, ri, n'um doloroso riso, +d'este Mundo burlesco e sordido de Jacinthos e de Colombes! E de repente +senti uma angustia horrenda. Era Ella! Era a Madame Colombe, que +esfuziára da chamma da vela, e saltára sobre o meu leito, e desabotoára +o meu collete, e arrombára as minhas costellas, e toda ella, com as +saias sujas, mergulhára dentro do meu peito, e abocára o meu coração, e +chupava a sorvos lentos, como na rua do Helder, o sangue do meu coração! +Então, certo da Morte, ganindo pela tia Vicencia, pendi do leito para +mergulhar na minha sepultura, que, através da nevoa final, eu distinguia +sobre o tapete--redondinha, vidrada, de porcelana e com aza. E, sobre a +minha sepultura, que tão irreverentemente se assimilhava ao meu vaso, +vomitei o Borgonha, vomitei o pato, vomitei a lagosta. Depois, n'um +esforço ultra-humano, com um rugido, sentindo que, não sómente toda a +entranha, mas a alma se esvasiava toda, vomitei Madame Colombe! Recahi +sobre o leito de D. Galião... Recarreguei o chapéo sobre os olhos para +não sentir os raios do sol. Era um sol novo, um sol espiritual, que se +erguia sobre a minha vida. E adormeci, como uma creancinha docemente +embalada n'um berço de verga pelo Anjo da Guarda. + +De manhã, lavei a pelle n'um banho profundo, perfumado com todos os +aromas do 202, desde folhas de limonete da India até essencia de jasmin +de França: e lavei a alma com uma rica carta da Tia Vicencia, em letra +farta, contando da nossa casa, e da linda promessa das vinhas, e da +compota de ginja que nunca lhe sahíra tão fina, e da alegre fogueira do +pateo em noite de S. João, e da menininha muito gorda e cabelluda que +viéra do ceu para a minha afilhada Joanninha. Depois, á janella, bem +limpo de alma e de corpo, n'uma quinzena de sedinha branca, tomando chá +de Naïpò, respirando os rosaes do jardim revividos pela chuva da +madrugada, considerei, em divertido pasmo, que, durante sete semanas, me +emporcalhára, na rua do Helder, com um estardalho muito magro e muito +tisnado! E conclui que padecera d'uma longa sezão, sezão da carne, sezão +da imaginação, apanhada n'um charco de Paris--n'esses charcos que se +formam através da Cidade com as aguas mortas, os limos, os lixos, os +tortulhos e os vermes d'uma Civilisação que apodrece. + + * * * * * + +Então, curado, todo o meu espirito, como uma agulha para o Norte, se +virou logo para o meu complicado Principe, que, nas derradeiras semanas +da minha infecção sentimental, eu entrevira sempre descahido por cima de +sophás, ou vagueando através da Bibliotheca entre os seus trinta mil +volumes, com arrastados bocejos de inercia e de vacuidade. Eu, na minha +pressa indigna, só lhe lançava um distrahido--«que é isso?» Elle, no seu +moroso desalento, só murmurava um sêcco--«é calor!» + +E, n'essa manhã da minha libertação, ao penetrar antes d'almoço no seu +quarto, no sophá o encontrei enterrado, com o _Figaro_ aberto sobre a +barriga, a Agenda cahida sobre o tapete, toda a face envolta em sombra, +e os pés abandonados, n'uma soberana tristeza, ao pedicuro que lhe polia +as unhas. Decerto o meu olhar reallumiado e repurificado, a brancura das +minhas flanellas reproduzindo a quietação das minhas sensações, e a +segura harmonia em que todo o meu ser visivelmente se movia, +impressionaram o meu Principe--a quem a melancolia nunca embotava a +agudeza. Ergueu mollemente um braço molle: + +--Então esse capricho? + +Derramei, sobre elle todo o fulgor d'um riso victorioso: + +--Morto! E, como o Snr. de Malbrouck, «morto e bem enterrado.» Jaz! Ou +antes, rola! Com effeito deve andar agora rolando por dentro do cano do +esgoto! + +Jacintho bocejou, murmurou: + +--Este Zé Fernandes de Noronha e Sande!... + +E, no meu nome, no meu digno nome assim embrulhado n'um bocejo com +desprendida ironia, se resumiu todo o interesse d'aquelle Principe pela +suja tormenta em que se debatera o meu coração! Mas não me melindrou +esse consummado egoismo... Claramente percebia eu que o meu Jacintho +atravessava uma densa nevoa de tedio, tão densa, e elle tão afundado na +sua molle densidade, que as glorias ou os tormentos d'um camarada não o +commoviam, como muito remotas, intangiveis, separadas da sua +sensibilidade por immensas camadas de algodão. Pobre Principe da +Gran-Ventura, tombado para o sophá de inercia, com os pés no regaço do +pedicuro! Em que lodoso fastio cahira, depois de renovar tão bravamente +todo o recheio mechanico e erudito do 202, na sua lucta contra a Força e +a Materia!--E esse fastio não o escondeu mais do seu velho Zé Fernandes +quando recomeçou entre nós a communhão de vida e de alma a que eu tão +torpemente me arrancára, uma tarde, deante da Estação dos Omnibus, no +charco da Magdalena. + +Não eram certamente confissões enunciadas. O elegante e reservado +Jacintho não torcia os braços, gemendo--«Oh vida maldita!» Eram apenas +expressões saciadas; um gesto de repellir com rancôr a importunidade das +coisas; por vezes uma immobilidade determinada, de protesto, no fundo +d'um divan, d'onde se não desenterrava, como para um repouso que +desejasse eterno; depois os bocejos, os ôcos bocejos com que sublinhava +cada passo, continuado por fraqueza ou por dever inilludivel; e +sobretudo aquelle murmurar que se tornára perenne e natural--«Para +que?»--«Não vale a pena!»--«Que massada!...» + +Uma noite no meu quarto, descalçando as botas, consultei o Grillo: + +--Jacintho anda tão mucho, tão corcunda... Que será, Grillo? + +O venerando preto declarou com uma certeza immensa: + +--S. Exc.^a soffre de fartura. + +Era fartura! O meu Principe sentia abafadamente a fartura de Paris:--e +na Cidade, na symbolica Cidade, fóra de cuja vida culta e forte (como +elle outr'ora gritava, illuminado) o homem do seculo XIX nunca poderia +saborear plenamente a «delicia de viver», elle não encontrava agora +fórma de vida, espiritual ou social, que o interessasse, lhe valesse o +esfôrço d'uma corrida curta n'uma tipoia facil. Pobre Jacintho! Um +jornal velho, setenta vezes relido desde a Chronica até aos Annuncios, +com a tinta delida, as dobras roídas, não enfastiaria mais o Solitario, +que só possuisse na sua Solidão esse alimento intellectual, do que o +Parisianismo enfastiava o meu doce camarada! Se eu n'esse verão +capciosamente o arrastava a um Café-Concerto, ou ao festivo Pavilhão +d'Armenonville, o meu bom Jacintho, collado pesadamente á cadeira com um +maravilhoso ramo de orchideas na casaca, as finas mãos abatidas sobre o +castão da bengala, conservava toda a noite uma gravidade tão estafada, +que eu, compadecido, me erguia, o libertava, gozando a sua pressa em +abalar, a sua fuga d'ave solta... Raramente (e então com vehemente +arranque como quem salta um fosso) descia a um dos seus Clubs, ao fundo +dos Campos-Elyseos. Não se occupara mais das suas Sociedades e +Companhias, nem dos _Telephones de Constantinopla_, nem das _Religiões +Esotericas_, nem do _Bazar Espiritualista_, cujas cartas fechadas se +amontoavam sobre a mesa d'ebano, d'onde o Grillo as varria tristemente +como o lixo d'uma vida finda. Tambem lentamente se despegava de todas as +suas convivencias. As paginas da Agenda côr de rosa murcha andavam +desafogadas e brancas. E se ainda cedia a um passeio de Mail-coach, ou a +um convite para algum Castello amigo dos arredores de Paris, era tão +arrastadamente, com um esforço tão saturado ao enfiar o paletot leve, +que me lembrava sempre um homem, depois d'um gordo jantar de provincia, +a estalar, que, por pollidez ou em obediencia a um dogma, devesse ainda +comer uma lamprêa de ovos! + +Jazer, jazer em casa, na segurança das portas bem cerradas e bem +defendidas contra toda a intrusão do mundo, seria uma doçura para o meu +Principe se o seu proprio 202, com todo aquelle tremendo recheio de +Civilisação, não lhe désse uma sensação dolorosa de abafamento, de +atulhamento! Julho escaldava: e os brocados, as alcatifas, tantos moveis +roliços e fôfos, todos os seus metaes e todos os seus livros, tão +espessamente o opprimiam, que escancarava sem cessar as janellas para +prolongar o espaço, a claridade, a frescura. Mas era então a poeira, +suja e acre, rolada em bafos mornos, que o enfurecia: + +--Oh, este pó da Cidade! + +--Mas, oh Jacintho, por que não vamos para Fontainebleau, ou para +Montmorency, ou... + +--P'ra o campo? O que! P'ra o campo?! + +E na sua face enrugada, através d'este berro, lampejava sempre tanta +indignação, que eu curvava os hombros, humilde, no arrependimento de ter +affrontosamente ultrajado o Principe que tanto amava. Desventurado +Principe! Com o seu dourado cigarro d'Yaka a fumegar, errava então pelas +salas, lenta e murchamente, como quem vaga em terra alheia sem affeições +e sem occupações. Esses desaffeiçoados e desoccupados passos +monotonamente o traziam ao seu centro, ao gabinete verde, á Bibliotheca +d'ebano, onde accumulara Civilisação nas maximas proporções para gozar +nas maximas proporções a delicia de viver. Espalhava em tôrno um olhar +farto. Nenhuma curiosidade ou interesse lhe sollicitavam as mãos, +enterradas nas algibeiras das pantalonas de sêda, n'uma inercia de +derrota. Annulado, bocejava com descorçoada molleza. E nada mais +instructivo e doloroso do que este supremo homem do seculo XIX, no meio +de todos os apparelhos reforçadores dos seus orgãos, e de todos os fios +que disciplinavam ao seu serviço as Forças Universaes, e dos seus trinta +mil volumes repletos do saber dos seculos--estacando, com as mãos +derrotadas no fundo das algibeiras, e exprimindo, na face e na indecisão +molle d'um bocejo, o embaraço de viver! + + + + +VI + + +Todas as tardes, cultivando uma d'essas intimidades que entre tudo o que +cança jámais cançam, Jacintho, ás quatro horas, com regularidade devota, +visitava Madame d'Oriol:--por que essa flôr de Parisianismo permanecera +em Paris, mesmo depois do Grand-Prix, a desbotar na calma e no cisco da +Cidade. N'uma d'essas tardes, porém, o Telephone, anciosamente repicado, +avisou Jacintho de que a sua dôce amiga jantava em Enghien com os +Trèves. (Esses senhores gozavam o seu verão á beira do lago, n'uma casa +toda branca e vestida de rosinhas brancas que pertencia a Ephrain). + +Era um domingo silencioso, ennevoado e macio, convidando ás +voluptuosidades da melancolia. E eu (no interesse da minha alma) suggeri +a Jacintho que subissemos á Basilica do _Sacré-Coeur_, em construcção +nos altos de Montmartre. + +--É uma secca, Zé Fernandes... + +--Com mil demonios! Eu nunca vi a Basilica... + +--Bem, bem! Vamos á Basilica, homem fatal de Noronha e Sande! + +E por fim logo que começamos a penetrar, para além de S. Vicente de +Paula, em bairros estreitos e ingremes, d'uma quietação de provincia, +com muros velhos fechando quintalejos rusticos, mulheres despenteadas +cozendo á soleira das portas, carriolas desatreladas descançando diante +das tascas, gallinhas soltas picando o lixo, cueiros molhados seccando +em canas--o meu fastidioso camarada sorriu áquella liberdade e singeleza +das cousas. + +A vittoria parou em frente á larga rua de escadarias que trepa, cortando +viellasinhas campestres, até á esplanada, onde, envolta em andaimes, se +ergue a Basilica immensa. Em cada patamar barracas d'arraial devoto, +forradas de panninho vermelho, transbordavam de Imagens, Bentinhos, +Crucifixos, Corações de Jesus bordados a retroz, claros molhos de +Rosarios. Pelos cantos, velhas agachadas resmungavam a Avè-Maria. Dois +padres desciam, tomando risonhamente uma pitada. Um sino lento tilintava +na doçura cinzenta da tarde. E Jacintho murmurou, com agrado: + +--É curioso! + +Mas a Basilica em cima não nos interessou, abafada em tapumes e +andaimes, toda branca e sêcca, de pedra muito nova, ainda sem alma. E +Jacintho, por um impulso bem Jacinthico, caminhou gulosamente para a +borda do terraço, a contemplar Paris. Sob o ceu cinzento, na planicie +cinzenta, a Cidade jazia, toda cinzenta, como uma vasta e grossa camada +de caliça e telha. E, na sua immobilidade e na sua mudez, algum rolo de +fumo, mais tenue e ralo que o fumear d'um escombro mal apagado, era todo +o vestigio visivel da sua vida magnifica. + +Então chasqueei risonhamente o meu Principe. Ahi estava pois a Cidade, +augusta creação da Humanidade! Eil-a ahi, bello Jacintho! Sobre a crosta +cinzenta da Terra--uma camada de caliça, apenas mais cinzenta! No +emtanto ainda momentos antes a deixaramos prodigiosamente viva, cheia +d'um povo forte, com todos os seus poderosos orgãos funccionando, +abarrotada de riqueza, resplandecente de sapiencia, na triumphal +plenitude do seu orgulho, como Rainha do Mundo coroada de Graça. E agora +eu e o bello Jacintho trepavamos a uma collina, espreitavamos, +escutavamos--e de toda a estridente e radiante Civilisação da Cidade não +percebiamos nem um rumor nem um lampejo! E o 202, o soberbo 202, com os +seus arames, os seus apparelhos, a pompa da sua Mechanica, os seus +trinta mil livros? Sumido, esvaído na confusão de telha e cinza! Para +este esvaecimento pois da obra humana, mal ella se comtempla de cem +metros de altura, arqueja o obreiro humano em tão angustioso esforço? +Hein, Jacintho?... Onde estão os teus Armazens servidos por tres mil +caixeiros? E os Bancos em que retine o ouro universal? E as Bibliothecas +atulhadas com o saber dos seculos? Tudo se fundiu n'uma nodoa parda que +suja a Terra. Aos olhos piscos de um Zé Fernandes, logo que elle suba, +fumando o seu cigarro, a uma arredada collina--a sublime edificação dos +Tempos não é mais que um silencioso monturo da espessura e da côr do pó +final. O que será então aos olhos de Deus! + +E ante estes clamores, lançados com affavel malicia para espicaçar o meu +Principe, elle murmurou, pensativo: + +--Sim, é talvez tudo uma illusão... E a Cidade a maior illusão! + +Tão facilmente victorioso redobrei de facundia. Certamente, meu +Principe, uma Illusão! E a mais amarga, por que o Homem pensa ter na +Cidade a base de toda a sua grandeza e só n'ella tem a fonte de toda a +sua miseria. Vê, Jacintho! Na Cidade perdeu elle a força e belleza +harmoniosa do corpo, e se tornou esse ser resequido e escanifrado ou +obeso e afogado em unto, de ossos molles como trapos, de nervos tremulos +como arames, com cangalhas, com chinós, com dentaduras de chumbo, sem +sangue, sem febra, sem viço, torto, corcunda--esse ser em que Deus, +espantado, mal póde reconhecer o seu esbelto e rijo e nobre Adão! Na +Cidade findou a sua liberdade moral: cada manhã ella lhe impõe uma +necessidade, e cada necessidade o arremessa para uma dependencia: pobre +e subalterno, a sua vida é um constante sollicitar, adular, vergar, +rastejar, aturar; rico e superior como um Jacintho, a Sociedade logo o +enreda em tradições, preceitos, etiquetas, ceremonias, praxes, ritos, +serviços mais disciplinares que os d'um carcere ou d'um quartel... A sua +tranquillidade (bem tão alto que Deus com elle recompensa os Santos) +onde está, meu Jacintho? Sumida para sempre, n'essa batalha desesperada +pelo pão, ou pela fama, ou pelo poder, ou pelo gôzo, ou pela fugidia +rodella d'ouro! Alegria como a haverá na Cidade para esses milhões de +seres que tumultuam na arquejante occupação de _desejar_--e que, nunca +fartando o desejo, incessantemente padecem de desillusão, desesperança +ou derrota? Os sentimentos mais genuinamente humanos logo na Cidade se +deshumanisam! Vê, meu Jacintho! São como luzes que o aspero vento do +viver social não deixa arder com serenidade e limpidez; e aqui abala e +faz tremer; e além brutamente apaga; e adiante obriga a flammejar com +desnaturada violencia. As amizades nunca passam d'allianças que o +interesse, na hora inquieta da defeza ou na hora sofrega do assalto, ata +apressadamente com um cordel apressado, e que estalam ao menor embate da +rivalidade ou do orgulho. E o Amor, na Cidade, meu gentil Jacintho? +Considera esses vastos armazens com espelhos, onde a nobre carne d'Eva +se vende, tarifada ao arratel, como a de vacca! Contempla esse velho +Deus do Hymeneu, que circula trazendo em vez do ondeante facho da Paixão +a apertada carteira do Dote! Espreita essa turba que foge dos largos +caminhos assoalhados em que os Faunos amam as Nymphas na boa lei +natural, e busca tristemente os recantos lobregos de Sodoma ou de +Lesbos!... Mas o que a Cidade mais deteriora no homem é a Intelligencia, +por que ou lh'a arregimenta dentro da banalidade ou lh'a empurra para a +extravagancia. N'esta densa e pairante camada d'Idéas e Formulas que +constitue a atmosphera mental das Cidades, o homem que a respira, n'ella +envolto, só pensa todos os pensamentos já pensados, só exprime todas as +expressões já exprimidas:--ou então, para se destacar na pardacente e +chata Rotina e trepar ao fragil andaime da gloriola, inventa n'um +gemente esforço, inchando o craneo, uma novidade disforme que espante e +que detenha a multidão como um mostrengo n'uma Feira. Todos, +intelectualmente, são carneiros, trilhando o mesmo trilho, balando o +mesmo balido, com o focinho pendido para a poeira onde pisam, em fila, +as pégadas pisadas;--e alguns são macacos, saltando no topo de mastros +vistosos, com esgares e cabriolas. Assim, meu Jacintho, na Cidade, +n'esta creação tão anti-natural onde o solo é de pau e feltro e +alcatrão, e o carvão tapa o ceu, e a gente vive acamada nos predios como +o panninho nas lojas, e a claridade vem pelos canos, e as mentiras se +murmuram através d'arames--o homem apparece como uma creatura +anti-humana, sem belleza, sem força, sem liberdade, sem riso, sem +sentimento, e trazendo em si um espirito que é passivo como um escravo +ou impudente como um histrião... E aqui tem o bello Jacintho o que é a +bella Cidade! + +E ante estas encanecidas e veneraveis invectivas, retumbadas +pontualmente por todos os Moralistas bucolicos, desde Hesiodo, atravez +dos seculos--o meu Principe vergou a nuca docil, como se ellas +brotassem, inesperadas e frescas, d'uma Revelação superior, n'aquelles +cimos de Montmartre: + +--Sim, com effeito, a Cidade... É talvez uma illusão perversa! + +Insisti logo, com abundancia, puchando os punhos, saboreando o meu facil +philosophar. E se ao menos essa illusão da Cidade tornasse feliz a +totalidade dos sêres, que a manteem... Mas não! Só uma estreita e +reluzente casta goza na Cidade os gozos especiaes que ella cria. O +resto, a escura, immensa plebe, só n'ella soffre, e com soffrimentos +especiaes que só n'ella existem! D'este terraço, junto a esta rica +Basilica consagrada ao Coração que amou o Pobre e por elle sangrou, bem +avistamos nós o lobrego casario onde a plebe se curva sob esse antigo +opprobrio de que nem Religiões, nem Philosophias, nem Moraes, nem a sua +propria força brutal a poderão jámais libertar! Ahi jaz, espalhada pela +Cidade, como esterco vil que fecunda a Cidade. Os seculos rolam; e +sempre immutaveis farrapos lhe cobrem o corpo, e sempre debaixo d'elles, +através do longo dia, os homens labutarão e as mulheres chorarão. E com +este labor e este pranto dos pobres, meu Principe, se edifica a +abundancia da Cidade! Eil-a agora coberta de moradas em que elles se não +abrigam; armazenada de estofos, com que elles se não agasalham; +abarrotada de alimentos, com que elles se não saciam! Para elles só a +neve, quando a neve cáe, e entorpece e sepulta as creancinhas aninhadas +pelos bancos das praças ou sob os arcos das pontes de Paris... A neve +cáe, muda e branca na treva: as creancinhas gelam nos seus trapos: e a +policia, em torno, ronda attenta para que não seja perturbado o tépido +somno d'aquelles que amam a neve, para patinar nos lagos do Bosque de +Bolonha com pelliças de tres mil francos. Mas quê, meu Jacintho! a tua +Civilisação reclama insaciavelmente regalos e pompas, que só obterá, +n'esta amarga desharmonia social, se o Capital dér ao Trabalho, por cada +arquejante esfôrço, uma migalha ratinhada. Irremediavel é, pois, que +incessantemente a plebe sirva, a plebe péne! A sua esfalfada miseria é a +condição do esplendor sereno da Cidade. Se nas suas tigellas fumegasse a +justa ração de caldo--não poderia apparecer nas baixellas de prata a +luxuosa porção de _foie-gras_ e tubaras que são o orgulho da +Civilisação. Ha andrajos em trapeiras--para que as bellas Madamas +d'Oriol, resplandecentes de sêdas e rendas, subam, em doce ondulação, a +escadaria da Opera. Ha mãos regeladas que se estendem, e beiços sumidos +que agradecem o dom magnanimo d'um _sou_--para que os Ephrains tenham +dez milhões no Banco de França, se aqueçam á chamma rica da lenha +aromatica, e surtam de collares de saphiras as suas concubinas, netas +dos Duques d'Athenas. E um povo chora de fome, e da fome dos seus +pequeninos--para que os Jacinthos, em janeiro, debiquem, bocejando, +sobre pratos de Saxe, morangos gelados em Champagne e avivados d'um fio +d'ether! + +--E eu comi dos teus morangos, Jacintho! Miseraveis, tu e eu! + +Elle murmurou, desolado: + +--É horrivel, comemos d'esses morangos... E talvez por uma illusão! + +Pensativamente deixou a borda do terraço, como se a presença da Cidade, +estendida na planicie, fosse escandalosa. E caminhamos devagar, sob a +molleza cinzenta da tarde, philosophando--considerando que para esta +iniquidade não havia cura humana, trazida pelo esforço humano. Ah, os +Ephrains, os Trèves, os vorazes e sombrios tubarões do mar humano, só +abandonarão ou affrouxarão a exploração das Plebes, se uma influencia +celeste, por milagre novo, mais alto que os milagres velhos, lhes +converter as almas! O burguez triumpha, muito forte, todo endurecido no +peccado--e contra elle são impotentes os prantos dos Humanitarios, os +raciocinios dos Logicos, as bombas dos Anarchistas. Para amollecer tão +duro granito só uma doçura divina. Eis pois esperança da terra novamente +posta n'um Messias!... Um decerto desceu outrora dos grandes Ceus; e, +para mostrar bem que mandado trazia, penetrou mansamente no mundo pela +porta d'um curral. Mas a sua passagem entre os homens foi tão curta! Um +meigo sermão n'uma montanha, ao fim d'uma tarde meiga; uma reprehensão +moderada aos Phariseus que então redigiam o _Boulevard_; algumas +vergastadas nos Ephrains vendilhões; e logo, através da porta da morte, +a fuga radiosa para o Paraiso! Esse adoravel filho de Deus teve +demasiada pressa em recolher a casa de seu Pae! E os homens a quem elle +incumbira a continuação da sua obra, envolvidos logo pelas influencias +dos Ephrains, dos Trèves, da gente do _Boulevard_, bem depressa +esqueceram a lição da Montanha e do lago de Tiberiade--e eis que por seu +turno revestem a purpura, e são Bispos, e são Papas, e se alliam á +oppressão, e reinam com ella, e edificam a duração do seu Reino sobre a +miseria dos sem-pão e dos sem-lar! Assim tem de ser recomeçada a obra da +Redempção. Jesus, ou Guatama, ou Christna, ou outro d'esses filhos que +Deus por vezes escolhe no seio d'uma Virgem, nos quietos vergeis da +Asia, deverá novamente descer á terra de servidão. Virá elle, o +desejado? Porventura já algum grave rei d'Oriente despertou, e olhou a +estrella, e tomou a myrrha nas suas mãos reaes, e montou pensativamente +sobre o seu dromedario? Já por esses arredores da dura Cidade, de noute, +emquanto Caiphaz e Magdalena ceam lagosta no Paillard, andou um Anjo, +attento, n'um vôo lento, escolhendo um curral? Já de longe, sem moço que +os tanja, na gostosa pressa d'um divino encontro, vem trotando a vacca, +trotando o burrinho? + +--Tu sabes, Jacintho? + +Não, Jacintho não sabia--e queria accender o charuto. Forneci um +phosphoro ao meu Principe. Ainda rondamos no terraço, espalhando pelo ar +outras idéas solidas que no ar se desfaziam. Depois penetravamos na +Basilica--quando um Sachristão nedio, de barrete de velludo, cerrou +fortemente a porta, e um Padre passou, enterrando na algibeira, com um +cançado gesto final e como para sempre, o seu velho Breviario. + +--Estou com uma sêde, Jacintho... Foi esta tremenda Philosophia! + +Descemos a escadaria, armada em arraial devoto. O meu pensativo camarada +comprou uma imagem da Basilica. E saltavamos para a vittoria, quando +alguem gritou rijamente, n'uma surpreza: + +--Eh Jacintho! + +O meu Principe abriu os braços, tambem espantado: + +--Eh Mauricio! + +E, n'um alvoroço, atravessou a rua, para um café, onde, sob o toldo de +riscadinho, um robusto homem, de barba em bico, remexia o seu absintho, +com o chapéo de palha descahido na nuca, a quinzena solta sobre a camisa +de sêda, sem gravata, como se descançasse n'um banco, entre as sombras +do seu jardim. + +E ambos, apertando as mãos, se admiravam d'aquelle encontro, n'um +domingo de verão, sobre as alturas de Montmartre. + +--Oh! eu estou aqui no meu bairro! exclamava alegremente Mauricio. Em +familia, em chinellos... Ha tres mezes que subi para estes cimos da +Verdade... Mas tu na Santa Colina, homem profano da planicie e das ruas +d'Israel! + +O meu Principe mostrou o seu Zé Fernandes: + +--Com este amigo, em peregrinação á Basilica... O meu amigo Fernandes +Lorena... Mauricio de Mayolle, velho camarada. + +Mr. de Mayolle (que, pela face larga e nariz nobremente grosso, lembrava +Francisco de Valois, Rei de França) ergueu o seu chapeu de palha. E +empurrava uma cadeira, insistia que nos accommodassemos para um absintho +ou para um bock. + +--Toma um bock, Zé Fernandes! lembrou Jacintho. Tu estavas a ganir com +sêde! + +Corri lentamente a lingua sobre os beiços, mais sêcos que pergaminhos: + +--Estou a guardar esta sêdesinha para logo, para o jantar, com um +vinhosinho gelado! + +Mauricio saudou, com silenciosa admiração, esta minha avisada malicia. E +immediatamente, para o meu Principe: + +--Ha tres annos que te não vejo, Jacintho... Como tem sido possivel, +n'este Paris que é uma aldeola e que tu atravancas? + +--A vida, Mauricio, a espalhada vida... Com effeito! Ha tres annos, +desde a casa dos Lamotte-Orcel. Tu ainda visitas esse santuario? + +Mauricio atirou um gesto desdenhoso e largo, que sacudia um mundo: + +--Oh! Ha mais d'um anno que me separei d'essa bicharia heretica... Uma +turba indisciplinada, meu Jacintho! Nenhuma fixidez, um dilletantismo +estonteado, carencia completa e comica de toda a base experimental... +Quando tu ias aos Lamotte-Orcel, e á Parola do 37, e á _Cerveja ideal_, +o que reinava?... + +Jacintho catou lentamente as suas recordações por entre os pêllos do +bigode: + +--Eu sei!... Reinava Wagner e a Mithologia Eddica, e o Raganarock, e as +Nornas... Muito Pre-Raphaelismo tambem, e Montagna, e Fra-Angelico... Em +moral, o Renanismo. + +Mauricio sacudia os hombros. Oh, tudo isso pertencia a um passado +archaico, quasi lacustre! Quando Madame de Lamotte-Orcel remobilára a +sala com velludos Morris, grossas alcachofras sobre tons d'açafrão, já o +Renanismo passára, tão esquecido como o Cartesianismo... + +--Tu ainda és do tempo do culto do _Eu_? + +O meu Principe suspirou risonhamente: + +--Ainda o cultivei. + +--Pois bem! Logo depois foi o Hartmanismo, o Inconsciente. Depois o +Nietzismo, o Feudalismo espiritual... Depois grassou o Tolstoïsmo, um +furor immenso de renunciamento neo-cenobitico. Ainda me lembro d'um +jantar em que appareceu um mostrengo d'um slavo, de guedelha sordida, +que atirava olhos medonhos para o decote da pobre condessa d'Arche, e +que grunhia com o dedo espetado:--«Busquemos a luz, muito por baixo, no +pó da terra!»--E á sobremeza bebemos á delicia da humildade e do +trabalho servil, com aquelle Champagne Marceaux granitado que a Mathilde +dava nos grandes dias em copos da fórma do San-Gral! Depois veio +Emersonismo... Mas a praga cruel foi Ibsenismo! Emfim, meu filho, uma +Babel de Ethicas e Estheticas. Paris parecia demente. Já havia uns +desgarrados que tendiam para o Luciferismo. E amiguinhas nossas, +coitadas, iam descambando para o Phallismo, uma moxinifada +mystico-brejeira, prégada por aquelle pobre La Carte que depois se fez +Monge Branco, e que anda no Deserto... Um horror! E uma tarde, de +repente, toda esta massa se precipita com ancia para o Ruskinismo! + +Eu, agarrado á bengala, bem fincada no chão, sentia como um vendaval que +redemoinhava, me torcia o craneo! E até Jacintho balbuciou, esgazeado: + +--O Ruskinismo? + +--Sim, o velho Ruskin,... John Ruskin! + +O meu ditoso Principe comprehendeu: + +--Ah, Ruskin!... _As sete lampadas da Architectura_, _A Corôa de +Oliveira Brava_... É o culto da Belleza. + +--Sim! O culto da Belleza, confirmou Mauricio. Mas a esse tempo eu, +enojado, já descera de todas essas nuvens vãs... Pisava um chão mais +seguro, mais fertil. + +Deu um sorvo lento ao absintho, cerrando as palpebras. Jacintho +esperava, com o seu fino nariz dilatado, como para respirar a Flôr de +Novidade que ia desabrochar: + +--E então? então?... + +Mas o outro murmurou, dispersamente, por entre reticencias em que se +velava: + +--Vim para Montmartre... Tenho aqui um amigo, um homem de genio, que +percorreu toda a India... Viveu com os Toddas, esteve nos mosteiros de +Garma-Khian e de Dashi-Lumbo, e estudou com Gegen-Chutu no retiro santo +de Urga... Gegen-Chutu foi a decima-sexta encarnação de Guatama, e era +portanto um Boddi-sattva... Trabalhamos, procuramos... Não são visões. +Mas factos, experiencias bem antigas, que vem talvez desde os tempos de +Christna... + +Através d'estes nomes, que exhalavam um perfume triste de vetustos +ritos, arredára a cadeira. E de pé, deixando cair sobre a mesa, +distrahidamente, para pagar o absintho, moedas de prata e moedas de +cobre, murmurava com os olhos descançados em Jacintho, mas perdidos +n'outra visão: + +--Por fim tudo se reduz ao supremo desenvolvimento da Vontade dentro da +suprema pureza da Vida. É toda a sciencia e força dos grandes mestres +Hindus... Mas a pureza absoluta da vida, eis a lucta, eis o obstaculo! +Não basta mesmo o Deserto, nem o bosque do mais velho templo no alto +Thibet... Ainda assim, meu Jacintho, já obtivemos resultados bem +extranhos. Sabes as experiencias de Tyndall, com as chammas +sensitivas... O pobre chimico, para demonstrar as vibrações do som, +tocou quasi ás portas da verdade isoterica. Mas què! homem de sciencia, +portanto homem d'estupidez, ficou áquem, entre as suas placas e as suas +retortas! Nós fômos além. Verificámos as _ondulações da Vontade_! Deante +de nós, pela expansão da energia do meu companheiro, e em cadencia com o +seu mandado, uma chamma, a tres metros, ondulou, rastejou, despediu +linguas ardentes, lambeu uma alta parede, rugiu furiosa e negra, +resplandeceu direita e silenciosa, e bruscamente abatida em cinza +morreu! + +E o extranho homem, com o chapeu para a nuca, ficou immovel, de braços +abertos e os olhares esgazeados, como no renovado assombro e no transe +d'aquelle prodigio. Depois, recahindo no seu modo facil e sereno, +accendendo de vagar um cigarro: + +--Uma d'estas manhãs, Jacintho, appareço no 202, para almoçar comtigo, e +levo o meu amigo. Elle só come arrôz, uma pouca de salada, e fructa. E +conversamos... Tu tinhas um exemplar do _Sepher-Zerijah_ e outro do +_Targum d'Onkelus_. Preciso folhear esses livros. + +Apertou a mão do meu Principe, saudou este assombrado Zé Fernandes, e +serenamente seguiu pela quieta rua, com o chapeu de palha para a nuca, +as mãos enterradas nas algibeiras, como um homem natural entre cousas +naturaes. + +--Oh Jacintho! Quem é este bruxo? Conta!... Quem é elle, santissimo nome +de Deus? + +Recostado na vittoria, ageitando o vinco das calças, o meu Principe +contou, concisamente. Era um nobre e leal rapaz, muito rico, muito +intelligente, da antiga casa soberana de Mayolle, descendente dos Duques +de Septimania... E murmurou, através do costumado bocejo: + +--O desenvolvimento supremo da vontade!... Theosophia, Buddhismo +isoterico... Aspirações, decepções... Já experimentei... Uma massada! + +Atravessamos, callados, o rumôr de Paris, sob a molleza abafada do +crepusculo de verão, para jantar no Bosque, no Pavilhão d'Armenonville, +onde os Tziganes, avistando Jacintho, tocaram o _Hymno da Carta_ com +paixão, com langor, n'uma cadencia de _czarda_ dolorosa e aspera. + +E eu, desdobrando regaladamente o guardanapo: + +--Pois venha agora para a minha rica sêde esse vinhosinho gelado! +Grandemente o mereço, caramba, que superiormente philosophei!... E creio +que estabeleci definitivamente no espirito do Snr. D. Jacintho o salutar +horror da cidade! + +O meu Principe percorria, catando o bigode, a Lista-dos-Vinhos, em +quanto o Copeiro, esperava com pensativa reverencia: + +--Mande gelar duas garrafas de champagne S.^t Marceaux... Mas antes, um +Barsac velho, apenas refrescado... Agoa de Evian... Não, de Bussang! +Bem, d'Evian e de Bussang! E, para começar, um bock. + +Depois, bocejando, desabotoando lentamente a sobrecasaca cinzenta: + +--Pois estou com vontade de construir uma casa nos cimos de Montmartre, +com um miradouro no alto, todo de vidro e ferro, para descançar de tarde +e dominar a Cidade... + + + + +VII + + +Julho findára com uma chuva refrescante e consoladora:--e eu pensava em +realisar finalmente a minha romagem ás cidades da Europa, sempre +retardada, através da primavera, pelas surprezas do Mundo e da Carne. +Mas, de repente, Jacintho começou a rogar e a reclamar que o seu Zé +Fernandes o acompanhasse, todas as tardes, a casa de Madame d'Oriol! E +eu comprehendi que o meu Principe (á maneira do divino Achilles, que, +sob a tenda, e junto da branca, insipida e docil Briseis, nunca +dispensava Patoclo) desejava ter, no retiro do Amor, a presença, o +confôrto e o soccorro da Amizade. Pobre Jacintho! Logo pela manhã +combinava pelo telephone com Madame d'Oriol essa hora de quietação e +doçura. E assim encontravamos sempre a superfina Dama prevenida e +solitaria n'aquella sala da rua de Lisbonne, onde Jacintho e eu mal +cabiamos, suffocavamos na confusão, entre os cestos de flôres, e os +ouros rocalhados, e os monstros do Japão, e a galante fragilidade dos +Saxes, e as pelles de feras estiradas aos pés de sophás adormecedores, e +os biombos de Aubusson formando alcôvas favoraveis e languidas... +Aninhada n'uma cadeira de bambú lacada de branco, entre almofadas +aromatisadas de verbena da India, com um romance pousado no regaço, ella +esperava o seu amigo, n'uma certa indolencia passiva e mansa que me +lembrava sempre o Oriente e um Harem. Mas, pelas frescas sedinhas +Pompadour, parecia tambem uma marquezinha de Versalhes cançada do grande +seculo; ou então, com brocados sombrios e largos cintos cravejados, era +como uma veneziana, preparada para um Doge. A minha intrusão, na +intimidade d'aquellas tardes, não a contrariava--antes lhe trazia um +vassallo novo, com dous olhos novos para a contemplar. Eu era já o seu +_cher Fernandez_! + +E apenas descerrava os labios avivados de vermelho, semelhantes a uma +ferida fresca, e começava a chalrar--logo nos envolvia o burburinho e a +murmuração de Paris. Ella só sabia chalrar sobre a sua pessoa que era o +resumo da sua Classe, e sobre a sua existencia que era o resumo do seu +Paris:--e a sua existencia, desde casada, consistira em ornar com +suprema sciencia o seu lindo corpo; entrar com perfeição n'uma sala e +irradiar; remexer em estofos e conferenciar pensativamente com o grande +costureiro; rolar pelo Bois pousada na sua vittoria como uma imagem de +cêra; decotar e branquear o collo; debicar uma perna de gallinhola em +mezas de luxo; fender turbas ricas em bailes espessos; adormecer com a +vaidade esfalfada; percorrer de manhã, tomando chocolate, os «Echos» e +as «Festas» do _Figaro_; e de vez em quando murmurar para o marido--«Ah, +és tu?...» Além d'isso, ao lusco-fusco, n'um sophá, alguns certos +suspiros, entre os braços d'alguem a quem era constante. Ao meu +Principe, n'esse anno, pertencia o sophá. E todos estes deveres de +Cidade e de Casta os cumpria sorrindo. Tanto sorrira, desde casada, que +já duas prégas lhe vincavam os cantos dos beiços, indelevelmente. Mas +nem na alma, nem na pelle, mostrava outras maculas de fadiga. A sua +Agenda de Visitas continha mil e tresentos nomes, todos do Nobiliario. +Através, porém, desta fulgurante sociabilidade arranjára no cerebro +(onde de certo penetrára o pó d'arroz que desde o collegio acamava na +testa) algumas Idéas Geraes. Em Politica era pelos Principes; e todos os +outros «horrores», a Republica, o Socialismo, a Democracia que se não +lava, os sacudia risonhamente, com um bater de leque. Na Semana Santa +juntava ás rendas do chapeu a Corôa amarga de espinhos--por serem esses, +para a gente bem-nascida, dias de penitencia e dôr. E, deante de todo o +Livro ou de todo o Quadro, sentia a emoção e formulava finamente o +juizo, que no seu Mundo, e n'essa Semana, fôsse elegante formular e +sentir. Tinha trinta annos. Nunca se embaraçára nos tormentos d'uma +paixão. Marcava, com rigida regularidade, todas as suas despezas n'um +Livro de Contas encadernado em pellucia verde-mar. A sua religião intíma +(e mais genuina do que a outra, que a levava todos os domingos á missa +de S. Philippe du Roule) era a Ordem. No inverno, logo que na amavel +cidade começavam a morrer de frio, debaixo das pontes, creancinhas sem +abrigo--ella preparava com commovido cuidado os seus vestidos de +patinagem. E preparava tambem os de Caridade--porque era boa, e +concorria para Bazares, Concertos e Tombolas, quando fossem patrocinados +pelas Duquezas do seu «rancho». Depois, na primavera, muito +methodicamente, regateando, vendia a uma adela os vestidos e as capas de +inverno. Paris admirava n'ella uma suprema flôr de Parisianismo. + +Pois respirando esta macia e fina flôr passamos nós as tardes d'esse +julho em quanto as outras flôres pendiam e murchavam na calma e no pó. +Mas, na intimidade do seu perfume, Jacintho não parecia encontrar esse +contentamento d'alma, que entre tudo que cança jámais cança. Era já com +a paciente lentidão com que se sobem todos os Calvarios, os mais bem +tapetados, que elle subia a escadaria de Madame d'Oriol, tão suave e +orlada de tão frescas palmeiras. Quando a appetitosa creatura, com +dedicação, para o entreter, desdobrava a sua vivacidade como um pavão +desdobra a cauda, o meu pobre Principe puxava os pêllos do bigode +murcho, na murcha postura de quem, por uma manhã de Maio, em quanto os +melros cantam nas sebes, assiste, n'uma egreja negra, a um responso +funebre por um Principe. E no beijo que elle chuchurreava sobre a mão da +sua dôce amiga, para se despedir, havia sempre alacridade e allivio. + +Mas ao outro dia, ao começar da tarde, depois de errar através da +Bibliotheca e do Gabinete, puxando sem curiosidade a tira do telegrapho, +atirando algum recado molle pelo telephone, espalhando o olhar +desalentado sobre o saber immenso dos trinta mil livros, remexendo a +collina dos Jornaes e Revistas, terminava por me chamar, já com a +preguiça triste da façanha a que se impellia: + +--Vamos a casa de Madame d'Oriol, Zé Fernandes? Eu tinha marcadas para +hoje seis ou sete coisas, mas não posso, é uma secca! Vamos a casa de +Madame d'Oriol... Ao menos lá, ás vezes, ha um bocado de frescura e paz. + +E foi n'uma d'essas tardes, em que o meu Principe assim procurava +desesperadamente um «bocado de frescura e paz», que encontramos, ao meio +da escadaria suave, entre as palmeiras, o marido de Madame d'Oriol. Eu +já o conhecia--porque Jacintho m'o mostrára uma noite, no Grand Café, +ceiando com dançarinas do _Moulin Rouge_. Era um moço gordalhufo, +indolente, de uma brancura crúa de toucinho, com uma calvice já séria e +já lustrosa, constantemente acariciada pelos seus gordos dedos +carregados de anneis. N'essa tarde, porém, vinha vermelho, todo +emocionado, calçando as luvas com colera. Estacou diante de Jacintho--e +sem mesmo lhe apertar a mão, atirando um gesto para o patamar: + +--Visita lá acima? Vai achar a Joanna em pessima disposição... Tivemos +uma scena, e tremenda. + +Deu outro puxão desesperado á luva côr de palha, já esgaçada: + +--Estamos separados, cada um vive como lhe appetece, é excellente! Mas +em tudo ha medida e fórma... Ella tem o meu nome, não posso consentir +que em Paris, com conhecimento de todo o Paris, seja a amante do +trintanario. Amantes na nossa roda, vá! Um lacaio, não!... Se quer +dormir com os creados que emigre para o fundo da provincia, para a sua +casa de Corbelle. E lá até com os animaes!... Foi o que eu lhe disse! +Ficou como uma fera. + +Sacudiu então a mão do Jacintho que «era da sua roda»--rebolou pela +escadaria florida e nobre. O meu Principe, immovel nos degraus, de face +pendida, cofiava lentamente os fios pendidos do bigode. Depois, olhando +para mim, como um sèr saturado de tedio e em quem nenhum tedio novo póde +caber: + +--Já agora subamos, sim? + + * * * * * + +Parti então, com muita alegria, para a minha appetecida romagem ás +Cidades da Europa. + +Ia viajar!... Viajei. Trinta e quatro vezes, á pressa, bufando, com todo +o sangue na face, desfiz e refiz a mala. Onze vezes passei o dia n'um +wagon, envolto em poeirada e fumo, suffocado, a arquejar, a escorrer de +suor, saltando em cada estação para sorver desesperadamente limonadas +mornas que me escangalhavam a entranha. Quatorze vezes subi +derreadamente, atraz de um creado, a escadaria desconhecida d'um Hotel; +e espalhei o olhar incerto por um quarto desconhecido; e estranhei uma +cama desconhecida, d'onde me erguia, estremunhado, para pedir em linguas +desconhecidas um café com leite que me sabia a fava, um banho de tina +que me cheirava a lôdo. Oito vezes travei bulhas abominaveis na rua com +cocheiros que me espoliavam. Perdi uma chapelleira, quinze lenços, tres +ceroulas, e duas botas, uma branca, outra envernizada, ambas do pé +direito. Em mais de trinta mezas-redondas esperei tristonhamente que me +chegasse o _boeuf-a-la-mode_, já frio, com môlho coalhado--e que o +copeiro me trouxesse a garrafa de Bordeus que eu provava e repellia com +desditosa carantonha. Percorri, na fresca penumbra dos granitos e dos +marmores, com pé respeitoso e abafado, vinte e nove Cathedraes. Trilhei +mollemente, com uma dôr surda na nuca, em quatorze muzeus, cento e +quarenta salas revestidas até aos tectos de Christos, heroes, santos, +nymphas, princezas, batalhas, architecturas, verduras, nudezes, sombrias +manchas de betume, tristezas das formas immoveis!... E o dia mais dôce +foi quando em Veneza, onde chovia desabaladamente, encontrei um velho +inglez de penca flammejante que habitára o Porto, conhecêra o Ricardo, o +José Duarte, o Visconde do Bom Successo, e as Limas da Boa Vista... +Gastei seis mil francos. Tinha viajado. + +Emfim, n'uma bemdita manhã d'outubro, na primeira friagem e nevoa +d'outomno, avistei com enternecido alvoroço as cortinas de seda ainda +fechadas do meu 202! Affaguei o hombro do Porteiro. No patamar, onde +encontrei o ar macio e tepido que deixára em Florença, apertei os ossos +do Grillo excellente: + +--E Jacintho? + +O digno negro murmurou, d'entre os altos, reluzentes collarinhos: + +--S. Exc.^a circula... Pesadote, fartote. Entrou tarde do baile da +Duqueza de Loches. Era o contracto de casamento de Mademoiselle de +Loches... Ainda tomou antes de se deitar um chá gelado... E disse a +coçar a cabeça: «Eh! que massada! Eh! que massada!» + +Depois do banho e do chocolate, ás dez horas, consolado e quentinho +dentro do roupão de velludo, rompi pelo quarto do meu Principe, de +braços abertos e sedentos: + +--Oh Jacintho! + +--Oh viajante!... + +Quando nos estreitamos, fartamente, eu recuei para lhe contemplar a +face--e n'ella a alma. Encolhido n'uma quinzena de panno côr de malva +orlada de pelles de martha, com os pellos do bigode murchos, as suas +duas rugas mais cavadas, uma molleza nos hombros largos, o meu amigo +parecia já vergado sob o pezo e a oppressão e o terror do seu dia. Eu +sorri, para que elle sorrisse: + +--Valente Jacintho... Então como tens vivido? + +Elle respondeu, muito serenamente: + +--Como um morto. + +Forcei uma gargalhada leve, como se o seu mal fôsse leve: + +--Aborrecidote, hein? + +O meu Principe lançou, n'um gesto tão vencido, um _oh_ tão cansado--que +eu compadecido de novo o abracei, o estreitei, como para lhe communicar +uma parte d'esta alegria solida e pura que recebi do meu Deus! + + * * * * * + +Desde essa manhã, Jacintho começou a mostrar claramente, +escancaradamente, ao seu Zé Fernandes, o tédio de que a existencia o +saturava. O seu cuidado realmente e o seu esfôrço consistiram então em +sondar e formular esse tédio--na esperança de o vencer logo que lhe +conhecesse bem a origem e a potencia. E o meu pobre Jacintho reproduziu +a comedia pouco divertida d'um Melancolico que perpetuamente raciocina a +sua Melancolia! N'esse raciocinío, elle partia sempre do facto +irrecusavel e massiço--que a sua vida especial de Jacintho continha +todos os interesses e todas as facilidades, possiveis no seculo XIX, +n'uma vida de homem que não é um Genio, nem um Santo. Com effeito! +Apezar do appetite embotado por doze annos de Champagnes e môlhos ricos +elle conservava a sua rijeza de pinheiro bravo; na luz da sua +intelligencia não apparecêra nem tremor nem morrão; a boa terra de +Portugal, e algumas Companhias macissas, pontualmente lhe forneciam a +sua doce centena de contos; sempre activas e sempre fieis o cercavam as +sympathias d'uma Cidade inconstante e chasqueadora; o 202 estourava de +confôrtos; nenhuma amargura de coração o atormentava;--e todavia era um +Triste. Porque?... E d'aqui saltava, com certeza fulgurante, á conclusão +de que a sua tristeza, esse cinzento burel em que a sua alma andava +amortalhada, não provinham da sua individualidade de Jacintho--mas da +Vida, do lamentavel, do desastroso facto de Viver! E assim o saudavel, +intellectual, riquissimo, bem-acolhido Jacintho tombára no Pessimismo. + +E um Pessimismo irritado! Porque (segundo affirmava) elle nascera para +ser tão naturalmente optimista como um pardal ou um gato. E, até aos +doze annos, emquanto fôra um bicho superiormente amimado, com a sua +pelle sempre bem coberta, o seu prato sempre bem cheio, nunca sentira +fadiga, ou melancolia, ou contrariedade, ou pena--e as lagrimas eram +para elle tão incomprehensiveis que lhe pareciam viciosas. Só quando +crescêra, e da animalidade penetrára na humanidade, despontára n'elle +esse fermento de tristeza, muito tempo indesenvolvido no tumulto das +primeiras curiosidades, e que depois alastrára, o invadira todo, se lhe +tornára consubstancial e como o sangue das suas veias. Soffrer portanto +era inseparavel de Viver. Soffrimentos differentes nos destinos +differentes da Vida. Na turba dos humanos é a angustiada lucta pelo pão, +pelo tecto, pelo lume; n'uma casta, agitada por necessidades mais altas, +é a amargura das desillusões, o mal da imaginação insatisfeita, o +orgulho chocando contra obstaculo; n'elle, que tinha os bens todos e +desejos nenhuns, era o tédio. Miseria do Corpo, tormento da Vontade, +fastio da Intelligencia--eis a Vida! E agora aos trinta e tres annos a +sua occupação era bocejar, correr com os dedos desalentados a face +pendida para n'ella palpar e appetecer a caveira. + +Foi então que o meu Principe começou a ler apaixonadamente, desde o +_Ecclesiastes_ até Schopenhauer, todos os lyricos e todos os theoricos +do Pessimismo. N'estas leituras encontrava a reconfortante comprovação +de que o seu mal não era mesquinhamente «Jacinthico»--mas grandiosamente +resultante d'uma Lei Universal. Já ha quatro mil annos, na remota +Jerusalém, a Vida, mesmo nas suas delicias mais triumphaes, se resumia +em Illusão. Já o Rei incomparavel, de sapiencia divina, summo Vencedor, +summo Edificador, se enfastiava, bocejava, entre os despojos das suas +conquistas, e os marmores novos dos seus Templos, e as suas tres mil +concubinas, e as Rainhas que subiam do fundo da Ethiopia para que elle +as fecundasse e no seu ventre depozésse um Deus! Não ha nada novo sob o +sol, e a eterna repetição das coisas é a eterna repetição dos males. +Quanto mais se sabe mais se pena. E o justo como o perverso, nascidos do +pó, em pó se tornam. Tudo tende ao pó ephemero, em Jerusalém e em Paris! +E elle, obscuro no 202, padecia por ser homem e por viver--como no seu +throno d'ouro, entre os seus quatro leões d'ouro, o filho magnifico de +David. + +Não se separava então do _Ecclesiastes_. E circulava por Paris trazendo +dentro do coupé Salomão, como irmão de dôr, com quem repetia o grito +desolado que é a summa da verdade humana--_Vanitas Vanitatum_! Tudo é +Vaidade! Outras vezes, logo de manhã o encontrava estendido no sophá, +n'um roupão de sêda, absorvendo Schopenhauer--emquanto o pedicuro, +ajoelhado sobre o tapete, lhe polia com respeito e pericia as unhas dos +pés. Ao lado pousava a chavena de Saxe, cheia d'esse café de Moka +enviado por emires do Deserto, que não o contentava nunca, nem pela +força, nem pelo aroma. A espaços pousava o livro no peito, resvalava um +olhar compassivo para o pedicuro, como a procurar que dôr o +torturaria--pois que a todo o viver corresponde um soffrer. Decerto o +remexer assim, perpetuamente, em pés alheios... E quando o pedicuro se +erguia, Jacintho abria para elle um sorriso de confraternidade--com um +«adeus, meu amigo» que era «um adeus, meu irmão!» + +Esse foi o periodo esplendido e soberbamente divertido do seu tédio. +Jacintho encontrára emfim na vida uma occupação grata--maldizer a Vida! +E para que a podésse maldizer em todas as suas fórmas, as mais ricas, as +mais intellectuaes, as mais puras, sobrecarregou a sua vida propria de +novo luxo, de interesses novos d'espirito, e até de fervores +humanitarios, e até de curiosidades supernaturaes. + +O 202, n'esse inverno, refulgiu de magnificencia. Foi então que elle +iniciou em Paris, repetindo Heliogabalo, os Festins de Côr contados na +Historia Augusta: e offereceu ás suas amigas esse sublime jantar côr de +rosa, em que tudo era roseo, as paredes, os moveis, as luzes, as louças, +os crystaes, os gelados, os Champagnes, e até (por uma invenção da +Alta-Cozinha) os peixes, e as carnes, e os legumes, que os escudeiros +serviam, empoados de pó rosado, com librés da côr da rosa, em quanto do +tecto, d'um velario de seda rosada, cahiam petalas frescas de rosas... A +Cidade, deslumbrada, clamou--«Bravo, Jacintho!» E o meu Principe, ao +rematar a festa fulgurante, plantou deante de mim as mãos nas ilhargas e +gritou triumphalmente:--«Hein? Que massada!...» + +Depois foi o Humanitarismo: e fundou um Hospicio no campo, entre +jardins, para velhinhos desamparados, outro para creanças debeis á beira +do Mediterraneo. Depois com o major Dorchas, e Mayolle, e o Hindù de +Mayolle penetrou no Theosophismo: e montou tremendas experiencias para +verificar a mysteriosa _exteriorisação da motilidade_. Depois, +desesperadamente, ligou o 202 com os fios telegraphicos do _Times_, para +que no seu gabinete, como n'um coração, palpitasse toda a vida Social da +Europa. + +E a cada um d'estes esforços da elegancia, do humanitarismo, da +sociabilidade, e da intelligencia indagadora, voltava para mim, de +braços alegres, com um grito victorioso:--«Vês tu, Zé Fernandes? Uma +massada!»--Arrebatava então o seu _Ecclesiastes_, o seu Schopenhauer, e, +estendido no sophá, saboreava voluptuosamente a concordancia da Doutrina +e da Experiencia. Possuia uma Fé--o Pessimismo: era um apostolo rico e +esforçado: e tudo tentava, com sumptuosidade, para provar a verdade da +sua Fé! Muito gozou n'esse anno o meu desgraçado Principe! + +No começo do inverno, porém, notei com inquietação que Jacintho já não +folheava o _Ecclesiastes_, desleixava Schopenhauer. Nem festas, nem +Theosophismos, nem os seus Hospicios, nem os fios do _Times_, pareciam +interessar agora o meu amigo, mesmo como demonstrações gloriosas da sua +Crença. E a sua abominavel funcção de novo se limitou a bocejar, a +passar os dedos molles sobre a face pendida palpando a caveira. +Incessantemente alludia á morte como a uma libertação. Uma tarde mesmo, +no melancolico crepusculo da Bibliotheca, antes de refulgirem as luzes, +consideravelmente me aterrou, fallando n'um tom regelado de mortes +rapidas, sem dôr, pelo choque d'uma vasta pilha electrica ou pela +violencia compassiva do acido cyanidrico. Diabo! O Pessimismo, que +apparecera na Intelligencia do meu Principe como um conceito +elegante--atacára bruscamente a Vontade! + +Todo o seu movimento então foi o d'um boi inconsciente que marcha sob a +canga e o aguilhão. Já não esperava da Vida contentamento--nem mesmo se +lastimava que ella lhe trouxesse tédio ou pena. «Tudo é indifferente, Zé +Fernandes!» E tão indifferentemente sahiria á sua janella para receber +uma Corôa Imperial offerecida por um Povo--como se estenderia n'uma +poltrona rôta para emmudecer e jazer. Sendo tudo inutil, e não +conduzindo senão a maior desillusão, que podia importar a mais rutilante +actividade ou a mais desgostada inercia? O seu gesto constante, que me +irritava, era encolher os hombros. Perante duas ideias, dois caminhos, +dois pratos, encolhia os hombros! Que importava?... E no minimo acto, +raspar um phosphoro ou desdobrar um Jornal, punha uma morosidade tão +desconsolada que todo elle parecia ligado, desde os dedos até á alma, +pelas voltas apertadas d'uma corda que se não via e que o travava. + + * * * * * + +Muito desagradavelmente me recordo do dia dos seus annos, a 10 de +Janeiro. Cêdo, de manhã, recebèra, com uma carta de Madame de Trèves, um +açafate de camelias, azaleas, orchideas e lyrios do valle. E foi este +mimo que lhe recordou a data consideravel. Soprou sobre as petalas o +fumo do cigarro e murmurou com um riso de lento escarneo: + +--Então, ha trinta e quatro annos que eu ando n'esta massada? + +E como eu propunha que telephonassemos aos amigos para beberem no 202 o +Champagne do «Natalicio»--elle recusou, com o nariz enojado. Oh! Não! +Que horrivel sécca!... E bradou mesmo para o Grillo: + +--Eu hoje não estou em Paris para ninguem. Abalei para o campo, abalei +para Marselha... Morri! + +E a sua ironia não cessou até ao almoço perante os bilhetes, os +telegrammas, as cartas, que subiam, se arredondavam em collina sobre a +meza d'ebano, como um preito da Cidade. Outras flôres que vieram, em +vistosos cestos, com vistosos laços, foram por elle comparadas ás que se +depõe sobre uma tumba. E apenas se interessou um momento pelo presente +de Ephraim, uma engenhosa meza, que se abaixava até ao tapete ou se +alteava até ao tecto--para que, senhor Deus meu? + +Depois do almoço, como chovia sombriamente, não arredamos do 202, com os +pés estendidos ao lume, em preguiçoso silencio. Eu terminára por +adormecer beatificamente. Acordei aos passos açodados do Grillo... +Jacintho, enterrado na poltrona, com umas tesouras, recortava um papel! +E nunca eu me compadeci d'aquelle amigo, que cançára a mocidade a +accumular todas as noções formuladas desde Aristoteles e a juntar todos +os inventos realisados desde Tharamenes, como n'essa tarde de festa, em +que elle, cercado de Civilisação nas maximas proporções para gozar nas +maximas proporções a delicia de viver, se encontrava reduzido, junto ao +seu lar, a recortar papeis com uma tesoura! + +O Grillo trazia um presente do Gran-Duque--uma caixa de prata, forrada +de cedro, e cheia d'um chá precioso, colhido, flôr a flôr, nas veigas de +Kiang-Sou por mãos puras de virgens, e conduzido através da Asia, em +caravanas, com a veneração d'uma reliquia. Então, para despertar o nosso +torpôr, lembrei que tomassemos o divino chá--occupação bem harmonica com +a tarde triste, a chuva grossa alagando os vidros, e a clara chamma +bailando no fogão. Jacintho accedeu--e um escudeiro acercou logo a meza +de Ephraim para que nós lhe estreassemos os serviços destros. Mas o meu +Principe, depois de a altear, para meu espanto, até aos crystaes do +lustre, não conseguiu, apezar de uma suada e desesperada batalha com as +molas, que a meza regressasse a uma altura humana e cazeira. E o +escudeiro de novo a levou, levantada como um andaime, chimerica, +unicamente aproveitavel para o gigante Adamastor. Depois veio a caixa do +chá entre chaleiras, lampadas, coadores, filtros, todo um fausto de +alfaias de prata, que communicavam a essa occupação, tão simples e dôce +em caza de minha tia, _fazer chá_, a magestade d'um rito. Prevenido pelo +meu camarada da sublimidade d'aquelle chá de Kiang-Sou, ergui a chavena +aos labios com reverencia. Era uma infusão descorada que sabia a malva e +a formiga. Jacintho provou, cuspiu, blasphemou... Não tomamos chá. + +Ao cabo d'outro pensativo silencio, murmurei, com os olhos perdidos no +lume: + +--E as obras de Tormes? A egreja... Já haverá egreja nova? + +Jacintho retomára o papel e a thesoura: + +--Não sei... Não tornei a receber carta do Silverio... Nem imagino onde +param os ossos... Que lugubre historia! + +Depois chegou a hora das luzes e do jantar. Eu encommendára pelo Grillo +ao nosso magistral cozinheiro uma larga travessa d'arroz dôce, com as +iniciaes de Jacintho e a data ditosa em canella, á moda amavel da nossa +meiga terra. E o meu Principe á meza, percorrendo a lamina de marfim +onde no 202 se inscreviam os pratos a lapis vermelho, louvou com fervôr +a ideia patriarchal: + +--Arrôz dôce! Está escripto com dois _ss_, mas não tem dúvida... +Excellente lembrança! Ha que tempos não cômo arrôz dôce!... Desde a +morte da avó. + +Mas quando o arrôz dôce appareceu triumphalmente, que vexâme! Era um +prato monumental, de grande arte! O arrôz, massiço, moldado em fórma de +pyramide do Egypto, emergia d'uma calda de cereja, e desapparecia sob os +fructos seccos que o revestiam até ao cimo, onde se equilibrava uma +corôa de Conde feita de chocolate e gomos de tangerina gelada! E as +iniciaes, a data, tão lindas e graves na canella ingenua, vinham +traçadas nas bordas da travessa com violetas pralinadas! Repellimos, +n'um mudo horror, o prato acanalhado. E Jacintho, erguendo o copo de +Champagne, murmurou como n'um funeral pagão: + +--_Ad Manes_, aos nossos mortos! + +Recolhemos á Bibliotheca, a tomar o café no conchego e alegria do lume. +Fóra, o vento bramava como n'um êrmo serrano: e as vidraças tremiam, +alagadas, sob as bategas da chuva irada. Que dolorosa noite para os dez +mil pobres que em Paris erram sem pão e sem lar! Na minha aldeia, entre +cêrro e valle, talvez assim rugisse a tormenta. Mas ahi cada pobre, sob +o abrigo da sua telha vã, com a sua panella atestada de couves, se +agacha no seu mantéo ao calor da lareira. E para os que não tenham lenha +ou couve, lá está o João das Quintas, ou a tia Vicencia, ou o abbade, +que conhecem todos os pobres pelos seus nomes, e com elles contam, como +sendo dos seus, quando o carro vae ao matto e a fornada entra no fôrno. +Ah Portugal pequenino, que ainda és dôce aos pequeninos! + +Suspirei, Jacintho preguiçava. E terminamos por remexer languidamente os +jornaes que o mordomo trouxera, n'um monte facundo, sobre uma salva de +prata--jornaes de Paris, jornaes de Londres, Semanarios, Magazines, +Revistas, Illustrações... Jacintho desdobrava, arremessava: das Revistas +espreitava o summario, logo farto; ás Illustrações rasgava as folhas com +o dedo indifferente, bocejando por cima das gravuras. Depois, mais +estirado para o lume: + +--É uma sécca... Não ha que lêr. + +E de repente, revoltado contra este fastio oppressor que o escravisava, +saltou da poltrona com um arranque de quem despedaça algemas, e ficou +erecto, dardejando em torno um olhar imperativo e duro, como se +intimasse aquelle seu 202, tão abarrotado de Civilisação, a que por um +momento sequer fornecesse á sua alma um interesse vivo, á sua vida um +fugitivo gôsto! Mas o 202 permaneceu insensivel: nem uma luz, para o +animar, avivou o seu brilho mudo: só as vidraças tremeram sob o embate +mais rude de agua e vento. + +Então o meu Principe, succumbido, arrastou os passos até ao seu +gabinete, começou a percorrer todos os apparelhos completadores e +facilitadores da Vida--o seu Telegrapho, o seu Telephone, o seu +Phonographo, o seu Radiometro, o seu Graphophono, o seu Microphono, a +sua Machina d'Escrever, a sua Machina de Contar, a sua Imprensa +Electrica, a outra Magnetica, todos os seus utensilios, todos os seus +tubos, todos os seus fios... Assim um Supplicante percorre altares +d'onde espera soccorro. E toda a sua sumptuosa Mechanica se conservou +rigida, reluzindo frigidamente, sem que uma roda girasse, nem uma lamina +vibrasse, para entreter o seu Senhor. + +Só o relogio monumental, que marcava a hora de todas as capitaes e o +curso de todos os planetas, se compadeceu, batendo a meia-noite, +annunciando ao meu amigo que mais um Dia partira levando o seu +pêzo--diminuindo esse sombrio pêzo da Vida, sob que elle gemia, vergado. +O Principe da Gran-Ventura, então, decidiu recolher para a cama--com um +livro... E durante um momento, estacou no meio da Bibliotheca, +considerando os seus setenta mil volumes estabelecidos com pompa e +magestade como Doutores n'um Concilio--depois as pilhas tumultuarias dos +livros novos que esperavam pelos cantos, sobre o tapete, o repouso e a +consagração das estantes d'ebano. Torcendo mollemente o bigode caminhou +por fim para a região dos Historiadores: espreitou seculos, farejou +raças: pareceu attrahido pelo explendor do Imperio Byzantino: penetrou +na Revolução Franceza d'onde se arredou desencantado: e palpou com mão +indeliberada toda a vasta Grecia desde a creação de Athenas até a +aniquilação de Corintho. Mas bruscamente virou para a fila dos Poetas, +que reluziam em marroquins claros, mostrando, sobre a lombada, em ouro, +nos titulos fortes ou languidos, o interior das suas almas. Não +appeteceu nenhuma d'essas seis mil almas--e recuou, desconsolado, até +aos Biologos... Tão massiça e cerrada era a estante de Biologia que o +meu pobre Jacintho estarreceu, como ante uma cidadella inaccessivel! +Rolou a escada--e, fugindo, trepou, até ás alturas da Astronomia: +destacou astros, recollocou mundos: todo um Systema Solar desabou com +fragor. Aturdido, desceu, começou a procurar por sobre as rimas das +obras novas, ainda brochadas, nas suas roupas leves de combate. +Apanhava, folheava, arremessava: para desentulhar um volume, demolia uma +torre de doutrinas: saltava por cima dos Problemas, pisava as Religiões: +e relanceando uma linha, esgravatando além n'um indice, todos +interrogava, de todos se desinteressava, rolando quasi de rastos, nas +grossas vagas de tomos que rolavam, sem se poder deter, na ancia de +encontrar um Livro! Parou então no meio da immensa nave, de cocoras, sem +coragem, contemplando aquelles muros todos forrados, aquelle chão todo +alastrado, os seus setenta mil volumes--e, sem lhes provar a substancia, +já absolutamente saciado, abarrotado, nauseado pela opressão da sua +abundancia. Findou por voltar ao montão de jornaes amarrotados, ergueu +melancholicamente um velho _Diario de Noticias_, e com elle debaixo do +braço subiu ao seu quarto, para dormir, para esquecer. + + + + +VIII + + +Ao fim d'esse inverno escuro e pessimista, uma manhã que eu preguiçava +na cama, sentindo através da vidraça cheia de sol ainda pallido um bafo +de Primavera ainda timido--Jacintho assomou á porta do meu quarto, +revestido de flanellas leves, d'uma alvura de açucena. Parou lentamente +á beira dos colxões, e, com gravidade, como se annunciasse o seu +casamento ou a sua morte, deixou desabar sobre mim esta declaração +formidavel: + +--Zé Fernandes, vou partir para Tormes. + +O pulo com que me sentei abalou o rijo leito de pau preto do velho D. +Galião: + +--Para Tormes? Oh Jacintho, quem assassinaste?... + +Deleitado com a minha emoção, o Principe da Gran Ventura tirou da +algibeira uma carta, e encetou estas linhas, já decerto relidas, +fundamente estudadas: + +--«Ill.^{mo} e exc.^{mo} snr.--Tenho grande satisfação em communicar a +v. exc.^a que por toda esta semana devem ficar promptas as obras da +capella...» + +--É do Silverio? exclamei. + +--É do Silverio. «...as obras da capella nova. Os venerandos restos dos +excelsos avós de v. exc.^a, senhores de todo o meu respeito, podem pois +ser em breve trasladados da egreja de S. José, onde têm estado +depositados por bondade do nosso Abbade, que muito se recommenda a v. +exc.^a... Submisso, aguardo as prestantes ordens de v. exc.^a a respeito +d'esta magestosa e afflictiva ceremonia...» + +Atirei os braços, comprehendendo: + +--Ah! bem! Queres ir assistir á trasladação... + +Jacintho sumiu a carta no bolso. + +--Pois não te parece, Zé Fernandes? Não é por causa dos outros avós, que +são ossos vagos, e que eu não conheci. É por causa do avô Galião... +Tambem não o conheci. Mas este 202 está cheio d'elle; tu estás deitado +na cama d'elle; eu ainda uso o relogio d'elle. Não posso abandonar ao +Silverio e aos caseiros o cuidado de o installarem no seu jazigo novo. +Ha aqui um escrupulo de decencia, de elegancia moral... Emfim, decidi. +Apertei os punhos na cabeça, e gritei--_vou a Tormes_! E vou!... E tu +vens! + +Eu enfiara as chinellas, apertava os cordões do roupão: + +--Mas tu sabes, meu bom Jacintho, que a casa de Tormes está +inhabitavel... + +Elle cravou em mim os olhos aterrados. + +--Medonha, hein? + +--Medonha, medonha, não... É uma bella casa, de bella pedra. Mas os +caseiros, que lá vivem ha trinta annos, dormem em catres, comem o caldo +á lareira, e usam as salas para seccar o milho. Creio que os unicos +moveis de Tormes, se bem recordo, são um armario, e uma espinetta de +charão, côxa, já sem teclas. + +O meu pobre Principe suspirou, com um gesto rendido em que se abandonava +ao Destino: + +--Acabou!... _Alea jact est!_ E como só partimos para abril, ha tempo de +pintar, d'assoalhar, d'envidraçar... Mando d'aqui de Paris tapetes e +camas... Um estofador de Lisboa vae depois forrar e disfarçar algum +buraco... Levamos livros, uma machina para fabricar gelo... E é mesmo +uma occasião de pôr emfim n'uma das minhas casas de Portugal alguma +decencia e ordem. Pois não achas? E então essa! Uma casa que data de +1410... Ainda existia o Imperio Byzantino! + +Eu espalhava, com o pincel, sobre a face, flocos lentos de sabão. O meu +Principe accendeu muito pensativamente um cigarro; e não se arredou do +toucador, considerando o meu preparo com uma attenção triste que me +incommodava. Por fim, como se remoesse uma sentença minha, para lhe +reter bem a moral e o succo: + +--Então, definitivamente, Zé Fernandes, entendes que é um dever, um +absoluto dever, ir eu a Tormes? + +Afastei do espelho a cara ensaboada para encarar com divertido espanto o +meu Principe: + +--Oh Jacintho! foi em ti, só em ti que nasceu a ideia d'esse dever! E +honra te seja, menino... Não cedas a ninguem essa honra! + +Elle atirou o cigarro--e, com as mãos enterradas nas algibeiras das +pantalonas, vagou pelo quarto, topando nas cadeiras, embicando contra os +postes torneados do velho leito de D. Galião, n'um balanço vago, como +barco já desamarrado do seu seguro ancoradouro, e sem rumo no mar +incerto. Depois encalhou sobre a mesa onde eu conservava enfileirada, +por gradações de sentimentos, desde o dagarreotypo do papá até á +photographia do _Carocho_ perdigueiro, a galeria da minha Familia. + +E nunca o meu Principe (que eu contemplava esticando os suspensorios) me +pareceu tão corcovado, tão minguado, como gasto por uma lima que desde +muito o andasse fundamente limando. Assim viera findar, desfeita em +Civilisação, n'aquelle super-requintado magricellas sem musculo e sem +energia, a raça fortissima dos Jacinthos! Esses guedelhudos Jacinthões, +que nas suas altas terras de Tormes, de volta de bater o moiro no Salado +ou o castelhano em Valverde, nem mesmo despiam as fuscas armaduras para +lavrar as suas chans e amarrar a vide ao olmo, edificando o Reino com a +lança e com a enxada, ambas tão rudes e rijas! E agora, alli estava +aquelle ultimo Jacintho, um Jacinthiculo, com a macia pelle embebida em +aromas, a curta alma enrodilhada em Philosophias, travado e suspirando +baixinho na miuda indecisão de viver. + +--Oh Zé Fernandes, quem é esta lavradeirona tão rechonchuda? + +Estendi o pescoço para a Photographia que elle erguera d'entre a minha +galeria, no seu honroso caixilho de pellucia escarlate: + +--Mais respeito, Snr. D. Jacintho... Um pouco mais de respeito, +cavalheiro!... É minha prima Joanninha, de Sandofim, da Casa da Flôr da +Malva. + +--Flôr da Malva, murmurou o meu Principe. É a casa do Condestavel, de +Nun'alvares. + +--Flôr da Rosa, homem! A casa do Condestavel era na Flôr da Rosa, no +Alemtejo... Essa tua ignorancia trapalhona das coisas de Portugal! + +O meu Principe deixou escorregar mollemente a photographia da minha +prima d'entre os dedos molles--que levou á face, no seu gesto horrendo +de palpar atravez da face a caveira. Depois, de repente, com um soberbo +esforço, em que se endireitou e cresceu: + +--Bem! _Alea jacta est!_ Partamos pois para as serras!... E agora nem +reflexão, nem descanço!... Á obra! E a caminho! + +Atirou a mão ao fecho dourado da porta como se fosse o negro loquete que +abre os Destinos--e no corredor gritou pelo Grillo, com uma larga e +açodada voz que eu nunca lhe conhecera, e me lembrou a d'um Chefe +ordenando, n'alvorada, que se levante o Acampamento, e que a Hoste +marche, com pendões e bagagens... + +Logo n'essa manhã (com uma actividade em que eu reconheci a pressa +enjoada de quem bebe oleo-de-ricino), escreveu ao Silverio mandando +caiar, assoalhar, envidraçar o casarão. E depois do almoço appareceu na +Bibliotheca, chamado violentamente pelo telephone, para combinar a +remessa de mobilias e confortos, o director da _Companhia Universal de +Transportes_. + +Era um homem que parecia o cartaz da sua Companhia, apertado n'um +jaquetão de xadrezinho escuro, com polainas de jornada sobre botas +brancas, uma sacola de marroquim a tiracolo, e na botoeira uma roseta +multicor resumindo as suas condecorações exoticas de Madagascar, de +Nicaragua, da Persia, outras ainda, que provavam a universalidade dos +seus serviços. Apenas Jacintho mencionou «Tormes, no Douro...»--elle +logo, atravez d'um sorriso superior, estendeu o braço, detendo outros +esclarecimentos, na sua intimidade minuciosa com essas regiões. + +--Tormes... Perfeitamente! Perfeitamente! + +Sobre o joelho, na carteira, escrevinhou uma fugidia nota--emquanto eu +considerava, assombrado, a vastidão do seu saber Chorographico, assim +familiar com os recantos d'uma serra de Portugal e com todos os seus +velhos solares. Já elle atirára a carteira para o bolso... E «nós, seus +caros senhores, não tinhamos senão a encaixotar as roupas, as mobilias, +as preciosidades! Elle mandaria as suas carroças buscar os caixotes, a +que poria, em grossa letra, com grossa tinta, o endereço...» + +--Tormes, perfeitamente! Linha Norte-Hespanha-Medina-Salamanca... +Perfeitamente! Tormes... Muito pittoresco! E antigo, historico! +Perfeitamente, perfeitamente! + +Desengonçou a cabeça n'uma venia profundissima--e sahiu da Bibliotheca, +com passos que devoravam leguas, annunciavam a presteza dos seus +Transportes. + +--Vê tu, murmurou Jacintho muito serio. Que promptidão, que +facilidade!... Em Portugal era uma tragedia. Não ha senão Paris! + +Começou então no 202 o collossal encaixotamento de todos os confortos +necessarios ao meu Principe para um mez de serra aspera--camas de penna, +banheiras de nickel, lampadas Carcel, divans profundos, cortinas para +vedar as gretas rudes, tapetes para amaciar os soalhos broncos. Os +sotãos, onde se arrecadavam os pesados trastes do avô Galião, foram +esvasiados--porque o casarão medieval de 1410 comportava os tremós +romanticos de 1830. De todos os armazens de Paris chegavam cada manhã +fardos, caixas, temerosos embrulhos que os emmaladores desfaziam, +atulhando os corredores de montes de palha e de papel pardo, onde os +nossos passos açodados se enrodilhavam. O cozinheiro, esbaforido, +organisava a remessa de fornalhas, geleiras, bocaes de trufas, latas de +conservas, bojudas garrafas de aguas mineraes. Jacintho, lembrando as +trovoadas da serra, comprou um immenso pára-raios. Desde o amanhecer, +nos pateos, no jardim, se martellava, se pregava, com vasto fragor, como +na construcção d'uma cidade. E o desfilar das bagagens, através do +portão, lembrava uma pagina de Herodoto contando a marcha dos Persas. + +Das janellas, Jacintho com o braço estendido, saboreava aquella +actividade e aquella disciplina: + +--Vê tu, Zé Fernandes, que facilidade!... Sahimos do 202, chegamos á +serra, encontramos o 202. Não ha senão Paris! + +Recomeçára a amar a Cidade, o meu Principe, emquanto preparava o seu +Exodo. Depois de ter, toda a manhã, apressado os encaixotadores, +descortinado confortos novos para o abandonado solar, telephonado gordas +listas de encommendas a cada loja de Paris--era com delicia que se +vestia, se perfumava, se floria, se enterrava na vittoria ou saltava +para a almofada do phaeton, e corria ao Bosque, e saudava a barba +talmudica do Ephraim, e os bandós furiosamente negros da Verghane, e o +Psychologo de fiacre, e a condessa de Trèves na sua nova caleche de +oito-molas fornecida pelas operações conjunctas da Bolsa e da alcôva. +Depois arrebanhava amigos para jantares de surpreza no Voisin ou no +Bignon, onde desdobrava o guardanapo com a impaciencia d'uma fome +alegre, vigiando fervorosamente que os Bordeus estivessem bem aquecidos +e os Champagnes bem granitados. E no theatro das _Nouveautés_, no +_Palais Royal_, nos _Buffos_, ria, batendo na côxa, com encanecidas +facecias d'encanecidas farças, antiquissimos tregeitos d'antiquissimos +actores, com que já rira na sua infancia, antes da guerra, sob o segundo +Napoleão! + +De novo, em duas semanas, se abarrotaram as paginas da sua Agenda. A +magnificencia do seu trage, como imperador Frederico II de Suabia, +deslumbrou, no baile mascarado da Princesa de Cravon-Rogan (onde tambem +fui, de «moço de forcado».) E na _Associação para o Desenvolvimento das +Religiões Esotericas_ discursou e batalhou bravamente pela construcção +d'um Templo Budhista em Montmartre! + +Com espanto meu recomeçou tambem a conversar, como nos tempos de Escóla, +da «famosa Civilisação nas suas maximas proporções.» Mandou encaixotar o +seu velho telescopio para o usar em Tormes. Receei mesmo que no seu +espirito germinasse a idéa de crear, no cimo da serra, uma Cidade com +todos os seus orgãos. Pelo menos não consentia o meu Jacintho que essas +semanas da silvestre Tormes interrompessem a illimitada accumulação das +noções--porque uma manhã rompeu pelo meu quarto, desolado, gritando que +entre tantos confortos e fórmas de Civilisação esqueceramos os livros! +Assim era--e que vexame para a nossa Intellectualidade! Mas que livros +escolher entre os facundos milhares sob que vergava o 202? O meu +Principe decidiu logo dedicar os seus dias serranos ao estudo da +Historia Natural--e nós mesmos, immediatamente, deitamos para o fundo +d'um vasto caixote novo, como lastro, os vinte e cinco tomos de Plinio. +Despejamos depois para dentro, ás braçadas, Geologia, Mineralogia, +Botanica... Espalhamos por cima uma camada aeria de Astronomia. E, para +fixar bem no caixote estas Sciencias oscillantes, entalamos em redor +cunhas de Metaphysica. + +Mas quando a derradeira caixa, pregada e cintada de ferro, sahiu do +portão do 202 na derradeira carroça da _Companhia dos Transportes_, toda +esta animação de Jacintho se abateu como a efervescencia n'um copo de +Champagne. Era em meados já tepidos de Março. E de novo os seus +desagradaveis bocejos atroaram o 202, e todos os sophás rangeram sob o +peso do corpo que elle lhe atirava para cima, mortalmente vencido pela +fartura e pelo tedio, n'um desejo de repouso eterno, bem envolto de +solidão e silencio. Desesperei. O que! Aturaria eu ainda aquelle +Principe palpando amargamente a caveira, e, quando o crepusculo +entristecia a Bibliotheca, alludindo, n'um tom rouco, á doçura das +mortes rapidas pela violencia misericordiosa do acido cyanhidrico? Ah +não, caramba! E uma tarde em que o encontrei estirado sobre um divan, de +braços em cruz, como se fosse a sua estatua de marmore sobre o seu +jazigo de granito, positivamente o abanei com furor, berrando: + +--Accorda, homem! Vamos para Tormes! O casarão deve estar prompto, a +reluzir, a abarrotar de cousas! Os ossos de teus avós pedem repouso, em +cova sua!... A caminho, a enterrar esses mortos, e a vivermos nós, os +vivos!... Irra! São cinco de Abril!... É o bom tempo da serra! + +O meu Principe resurgiu lentamente da inercia de pedra: + +--O Silverio não me escreveu, nunca me escreveu... Mas, com effeito, +deve estar tudo preparado... Já lá temos certamente creados, o +cosinheiro de Lisboa... Eu só levo o Grillo, e o Anatole que envernisa +bem o calçado, e tem geito como pedicuro... Hoje é Domingo. + +Atirou os pés para o tapete, com heroismo: + +--Bem, partimos no Sabbado!... Avisa tu o Silverio! + +Começou então o laborioso e pensativo estudo dos Horarios--e o dedo +magro de Jacintho, por sobre o mappa, avançando e recuando entre Paris e +Tormes. Para escolher o «salão» que deviamos habitar durante a temida +jornada, duas vezes percorremos o deposito da Estação d'Orleans, +atolados em lama, atraz do Chefe do Trafico que entontecia. O meu +Principe recusava este salão por causa da côr tristonha dos estofos; +depois recusava aquelle por causa da mesquinhez afflictiva do +Water-Closet! Uma das suas inquietações era o banho, nas manhãs que +passariamos rolando. Suggeri uma banheira de borracha. Jacintho, +indeciso, suspirava... Mas nada o aterrou como o trasbordo em Medina del +Campo, de noite, nas trevas da Velha Castella. Debalde a Companhia do +Norte de Hespanha e a de Salamanca, por cartas, por telegrammas, +socegaram o meu camarada, affirmando que, quando elle chegasse no +comboio de Irun dentro do seu salão, já outro salão ligado ao comboio de +Portugal esperaria, bem aquecido, bem allumiado, com uma ceia que lhe +offertava um dos Directores, D. Esteban Castillo, ruidoso e rubicundo +conviva do 202! Jacintho corría os dedos anciosos pela face:--«E os +saccos, as pelles, os livros, quem os transportaria do salão de Irun +para o salão de Salamanca?» Eu berrava, desesperado, que os carregadores +de Medina eram os mais rapidos, os mais destros de toda a Europa! Elle +murmurava:--«Pois sim, mas em Hespanha, de noite!...» A noite, longe da +Cidade, sem telephone, sem luz electrica, sem postos de policia, parecia +ao meu Principe povoada de surprezas e assaltos. Só acalmou depois de +verificar no Observatorio Astronomico, sob a garantia do sabio professor +Bertrand, que a noite da nossa jornada era de lua cheia! + +Emfim, na sexta-feira, findou a tremenda organisação d'aquella viagem +historica! O sabbado predestinado amanheceu com generoso sol, de +affagadora doçura. E eu acabava de guardar na mala, embrulhadas em papel +pardo, as photographias das creaturinhas suaves que, n'esses vinte e +sete mezes de Paris, me tinham chamado «_mon petit chou! mon rat +cheri!_»--quando Jacintho rompeu pelo quarto, com um soberbo ramo de +orchideas na sobrecasaca, pallido e todo nervoso. + +--Vamos ao Bosque, por despedida? + +Fomos--á grande despedida! E que encanto! Até nas almofadas e molas da +vittoria senti logo uma elasticidade mais emballadora. Depois, pela +Avenida do Bosque, quasi me pezava não ficar sempiternamente rolando, ao +trote rimado das eguas perfeitas, no rebrilho rico de metaes e vernizes, +sobre aquelle macadam mais alisado que marmore, entre tão bem regadas +flôres e relvas de tão tentadora frescura, cruzando uma Humanidade fina, +de elegancia bem acabada, que almoçára o seu chocolate em porcellanas de +Sevres ou de Minton, sahira d'entre sèdas e tapetes de tres mil francos, +e respirava a belleza de Abril com vagar, requinte e pensamentos +ligeiros! O Bosque resplandecia n'uma harmonia de verde, azul e ouro. +Nenhuma cova ou terra solta desalisava as polidas alleas que a Arte +traçou e enroscou na espessura--nenhum esgalho desgrenhado desmanchava +as ondulações macias da folhagem que o Estado escóva e lava. O piar das +aves apenas se elevava para espalhar uma graça leve de vida alada;--e +mais natural parecia, entre o arvoredo sociavel, o ranger das sellas +novas, onde pousavam, com balanço esbelto, as amazonas espartilhadas +pelo grande Redfern. Em frente ao Pavilhão de Armenonville cruzamos +Madame de Trèves, que nos envolveu ambos na caricia do seu sorriso, mais +avivado áquella hora pelo vermelhão ainda humido. Logo atraz a barba +talmudica de Ephraim negrejou, fresca tambem da brilhantine da manhã, no +alto d'um phaeton tilintante. Outros amigos de Jacintho circulavam nas +Acacias--e as mãos que lhe acenavam, lentas e affaveis, calçavam luvas +frescas côr de palha, côr de perola, côr de lilaz. Todelle relampejou +rente de nós sobre uma grande bycicleta. Dornan, alastrado n'uma cadeira +de ferro, sob um espinheiro em flôr, mamava o seu immenso charuto, como +perdido na busca de rimas sensuaes e nedias. Adeante foi o Psychologo, +que nos não avistou, conversando com um requebro melancolico para dentro +d'um coupé que rescendia a alcova, e a que um cocheiro obeso imprimia +dignidade e decencia. E rolavamos ainda, quando o Duque de Marizac, a +cavallo, ergueu a bengala, estacou a nossa vittoria para perguntar a +Jacintho se apparecia á noite nos «quadros vivos» dos Verghanes. O meu +Principe rosnou um--«não, parto para o sul...»--que mal lhe passou +d'entre os bigodes murchos... E Marizac lamentou--porque era uma festa +estupenda. Quadros vivos da Historia Sagrada e da Historia Romana!... +Madame Verghane, de Magdalena, de braços nús, peitos nús, pernas núas, +limpando com os cabellos os pés do Christo!--O Christo, um latagão +soberbo, parente dos Trèves, empregado no Ministerio da Guerra, gemendo, +derreado, sob uma cruz de papelão! Havia tambem Lucrecia na cama, e +Tarquinio ao lado, de punhal, a puxar os lençoes! E depois ceia, em +mezas soltas, todos nos seus trajes historicos. Elle já estava +aparceirado com Madame de Malbe, que era Agrippina! Quadro portentoso +esse--Agrippina morta, quando Nero a vem contemplar e lhe estuda as +fórmas, admirando umas, desdenhando outras como imperfeitas. Mas, por +polidez, ficára combinado que Nero admiraria sem reserva todas as fórmas +de Madame de Malbe... Emfim collossal, e estupendamente instructivo! + +Acenamos um longo adeus áquelle alegre Marizac. E recolhemos sem que +Jacintho emergisse do silencio enrugado em que se abysmára, com os +braços rigidamente cruzados, como remoendo pensamentos decisivos e +fortes. Depois, em frente ao Arco de Triumpho, moveu a cabeça, murmurou: + +--É muito grave, deixar a Europa! + + * * * * * + +Emfim, partimos! Sob a doçura do crepusculo que se enublára deixamos o +202. O Grillo e o Anatole seguiam n'um fiacre atulhado de livros, de +estojos, de paletots, de impermeaveis, de travesseiras, de agoas +mineraes, de saccos de couro, de rolos de mantas: e mais atraz um +omnibus rangia sob a carga de vinte e tres malas. Na Estação, Jacintho +ainda comprou todos os Jornaes, todas as Illustrações, Horarios, mais +livros, e um saca-rolhas de fórma complicada e hostil. Guiados pelo +Chefe do Trafico, pelo Secretario da Companhia, occupamos copiosamente o +nosso salão. Eu puz o meu bonet de sêda, calcei as minhas chinellas. Um +silvo varou a noite. Paris lampejou, fugiu n'um derradeiro clarão de +janellas... Para o sorver, Jacintho ainda se arremessou á portinhola. +Mas rolavamos já na treva da Provincia. O meu Principe então recahiu nas +almofadas: + +--Que aventura, Zé Fernandes! + +Até Chartres, em silencio, folheamos as Illustrações. Em Orleans, o +guarda veio arranjar respeitosamente as nossas camas. Derreado com +aquelles quatorze mezes de Civilisação adormeci--e só acordei em Bordeus +quando Grillo, zeloso, nos trouxe o nosso chocolate. Fóra, uma chuva +miudinha pingava mollemente d'um espesso ceu de algodão sujo. Jacintho +não se deitára, desconfiado da aspereza e da humidade dos lençoes. E, +mettido n'um roupão de flanella branco, com a face arripiada e +estremunhada, ensopando um bolo no chocolate, rosnava sombriamente: + +--Este horror!... E agora com chuva! + +Em Biarritz, ambos observamos com uma certeza indolente: + +--É Biarritz. + +Depois Jacintho, que espreitava pela janella embaciada, reconheceu o +lento caminhar pernalto, o nariz bicudo e triste, do Historiador Danjon. +Era elle, o facundo homem, vestido de xadrezinho, ao lado d'uma dama +roliça que levava pela trella uma cadellinha felpuda. Jacintho baixou a +vidraça violentamente, berrou pelo Historiador, na ancia de communicar +ainda, através d'elle, com a Cidade, com o 202!... Mas o comboio +mergulhára na chuva e nevoa. + +Sobre a ponte do Bidassoa, antevendo o termo da vida facil, os abrolhos +da Incivilisação, Jacintho suspirou com desalento: + +--Agora adeus, começa a Hespanha!... + +Indignado, eu, que já saboreava o generoso ar da terra bemdita, saltei +para diante do meu Principe, e n'um saracoteio de tremendo salero, +castanholando os dedos, entoei uma «petenera» condigna: + +A la puerta de mi casa +Ay Soledad, Soleda... á... á... á. + +Elle estendeu os braços, supplicante: + +--Zé Fernandes, tem piedade do enfermo e do triste! + +--_Irun_! _Irun_!... + +N'essa Irun almoçamos com succulencia--por que sobre nós velava, como +Deusa omnipresente, a Companhia do Norte. Depois «el jefe d'Aduana, el +jefe d'Estacion», preciosamente nos installaram n'outro salão, novo, com +setins côr d'azeitona, mas tão pequeno que uma rica porção dos nossos +confortos em mantas, livros, saccos e impermeaveis, passou para o +compartimento do _Sleeping_ onde se repoltreavam o Grillo e o Anatole, +ambos de bonets escocezes, e fumando gordos charutos.--_Buen viaje_! +_Gracias_! _Servidores_!--E entramos silvando nos Pyreneos. + +Sob a influencia da chuva embaciadora, d'aquellas serras sempre eguaes, +que se desenrolavam, arripiadas, diluidas na nevoa, resvalei a uma +somnolencia dôce;--e, quando descerrava as palpebras, encontrava +Jacintho a um canto, esquecido do livro fechado nos joelhos, sobre que +cruzára os magros dedos, considerando valles e montes com a melancolia +de quem penetra nas terras do seu desterro! Um momento veio em que, +arremessando o livro, enterrando mais o chapéo molle, se ergueu com +tanta decisão, que receei detivesse o comboio para saltar á estrada, +correr atravez das Vascongadas e da Navarra, para traz, para o 202! +Sacudi o meu torpôr, exclamei:--«oh menino!...» Não! O pobre amigo ia +apenas continuar o seu tedio para outro canto, enterrado n'outra +almofada, com outro livro fechado. E á maneira que a escuridão da tarde +crescia, e com ella a borrasca de vento e agoa, uma inquietação mais +aterrada se apoderava do meu Principe, assim desgarrado da Civilisação, +arrastado para a Natureza que já o cercava de brutalidade agreste. Não +cessou então de me interrogar sobre Tormes: + +--As noites são horriveis, hein, Zé Fernandes? Tudo negro, enorme +solidão... E medico?... Ha medico? + +Subitamente o comboio estacou. Mais grossa e ruidosa a chuva fustigou as +vidraças. Era um descampado, todo em treva, onde rolava e lufava um +grande vento solto. A machina apitava, com angustia. Uma lanterna +lampejou, correndo. Jacintho batia o pé:--«É medonho! é medonho!»... +Entreabri a portinhola. Da claridade incerta das vidraças surdiam +cabeças esticadas, assustadas.--«_Que hay_? _Que hay_?»--A uma rajada, +que me alagou, recuei:--e esperamos durante lentos, calados minutos, +esfregando desesperadamente os vidros embaciados para sondar a +escuridão. De repente o comboio recomeçou a rolar, muito sereno. + +Em breve appareceram as luzinhas mortas d'uma estação abarracada. Um +conductor, com o casacão de oleado todo a escorrer, trepou ao salão:--e +por elle soubemos, emquanto carimbava apressadamente os bilhetes, que o +trem, muito atrazado, talvez não alcançasse em Medina o comboio de +Salamanca! + +--Mas então?... + +O casaco de oleado escorregára pela portinhola, fundido na noite, +deixando um cheiro de humidade e azeite. E nós encetamos um novo +tormento... Se o trem de Salamanca tivesse abalado? O salão, tomado até +Medina, desengatava em Medina:--e eis os nossos preciosos corpos, com as +nossas preciosas almas, despejados em Medina, para cima da lama, entre +vinte e trez malas, n'uma rude confusão hespanhola, sob a tormenta de +ventania e d'agua! + +--Oh, Zé Fernandes, uma noite em Medina! + +Ao meu Principe apparecia como desventura suprema essa noite em Medina, +n'uma _fonda_ sordida, fedendo a alho, com gordas filas de percevejos +atravez dos lençoes d'estopa encardida!... Não cessei então de fitar, +n'um desassocego, os ponteiros do relogio:--emquanto Jacintho, pela +vidraça escancarada, todo fustigado da chuva clamorosa, furava a +negrura, na esperança de avistar as luzes de Medina e um comboio +paciente fumegando... Depois recahia no divan, limpava os bigodes e os +olhos, maldizia a Hespanha. O trem arquejava, rompendo o vasto vento da +planura desolada. E a cada apito era um alvoroço. Medina?... Não! Algum +sumido apeadeiro, onde o trem se atardava, esfalfado, resfolgando, +emquanto dormentes figuras encarapuçadas, embrulhadas em mantas, +rondavam sob o telheiro do barracão, que as lanternas baças tornavam +mais soturno. Jacintho esmurrava o joelho:--«Mas por que pára este +infame comboio? Não ha trafico, não ha gente! Oh esta Hespanha!...» A +sineta badalava, moribunda. De novo fendiamos a noite e a borrasca. + +Resignadamente comecei a percorrer um _Jornal do Commercio_, antigo, +trazido de Paris. Jacintho esmagava o espesso tapete do salão com +passadas rancorosas, rosnando como uma fera. E ainda assim se escoou, ás +gottas, uma hora cheia de eternidade.--Um silvo, outro silvo!... Luzes +mais fortes, longe, palpitaram na neblina. As rodas trilharam, com rijos +solavancos, os encontros de carris. Emfim, Medina!... Um muro sujo de +barracão alvejou--e bruscamente, á portinhola aberta com violencia, +apparece um cavalheiro barbudo, de capa á hespanhola, gritando pelo snr. +D. Jacintho!... Depressa! depressa! que parte o comboio de Salamanca! + +--«Que no hay un momento, caballeros! Que no hay un momento!» + +Agarro estonteadamente o meu paletot, o _Jornal do Commercio_. Saltamos +com ancia:--e, pela plataforma, por sobre os trilhos, através de +charcos, tropeçando em fardos, empurrados pelo vento, pelo homem da capa +á hespanhola, enfiamos outra portinhola, que se fechou com um estalo +tremendo... Ambos arquejavamos. Era um salão forrado de um panno verde +que comia a luz escassa. E eu estendia o braço, para receber dos +carregadores açodados as nossas malas, os nossos livros, as nossas +mantas--quando, em silencio, sem um apito, o trem despegou e rolou. +Ambos nos atiramos ás vidraças, em brados furiosos: + +--Pare! As nossas malas, as nossas mantas!... P'ra aqui!... Oh Grillo! +Oh Grillo! + +Uma immensa rajada levou os nossos brados. Era de novo o descampado +tenebroso, sob a chuva despenhada. Jacintho ergueu os punhos, n'um furor +que o engasgava: + +--Oh! Que serviço! Oh que canalhas!... Só em Hespanha!... E agora? As +malas perdidas!... Nem uma camisa, nem uma escova! + +Calmei o meu desgraçado amigo: + +--Escuta! eu entrevi dous carregadores arrebanhando as nossas cousas... +Decerto o Grillo fiscalisou. Mas na pressa, naturalmente, atirou com +tudo para o seu compartimento... Foi um erro não trazer o Grillo +comnosco, no salão... Até podiamos jogar a manilha! + +De resto a sollicitude da Companhia, Deusa omnipresente, velava sobre o +nosso conforto--pois que á porta do lavatorio branquejava o cesto da +nossa ceia, mostrando na tampa um bilhete de D. Esteban com estas doces +palavras a lapis--_á D. Jacintho y su egregio amigo, que les dè gusto_! +Farejei um aroma de perdiz. E alguma tranquillidade nos penetrou no +coração sentindo tambem as nossas malas sob a tutella da Deusa +omnipresente. + +--Tens fome Jacintho? + +--Não. Tenho horror, furor, rancor!... E tenho somno. + +Com effeito! depois de tão desencontradas emoções só appeteciamos as +camas que esperavam, macias e abertas. Quando cahi sobre a travesseira, +sem gravata, em ceroulas, já o meu Principe, que não se despira, apenas +embrulhára os pés no _meu_ paletot, nosso unico agasalho, resonava com +magestade. + +Depois, muito tarde e muito longe, percebi junto do meu catre, na +claridadezinha da manhã, coada pelas cortinas verdes, uma fardeta, um +bonet, que murmuravam baixinho com immensa doçura: + +--V. exc.^as não têem nada a declarar?... Não ha malinhas de mão?... + +Era a minha terra! Murmurei baixinho com immensa ternura: + +--Não temos aqui nada... Pergunte v. exc.^a pelo Grillo... Ahi atraz, +n'um compartimento... Elle tem as chaves, tem tudo... É o Grillo. + +A fardeta desappareceu, sem rumor, como sombra benefica. E eu readormeci +com o pensamento em Guiães, onde a tia Vicencia, atarefada, de lenço +branco cruzado no peito, de certo já preparava o leitão. + +Acordei envolto n'um largo e doce silencio. Era uma Estação muito +socegada, muito varrida, com rosinhas brancas trepando pelas paredes--e +outras rosas em moitas, n'um jardim, onde um tanquesinho abafado de +limos dormia sob duas mimosas em flôr que rescendiam. Um moço pallido, +de paletot côr de mel, vergando a bengalinha contra o chão, contemplava +pensativamente o comboio. Agachada rente á grade da horta, uma velha, +diante da sua cesta de ovos, contava moedas de cobre no regaço. Sobre o +telhado seccavam aboboras. Por cima rebrilhava o profundo, rico e macio +azul de que meus olhos andavam agoados. + +Sacudi violentamente Jacintho: + +--Acorda, homem, que estás na tua terra! + +Elle desembrulhou os pés do meu paletot, cofiou o bigode, e veio sem +pressa, á vidraça que eu abrira, conhecer a sua terra. + +--Então é Portugal, hein?... Cheira bem. + +--Está claro que cheira bem, animal! + +A sineta tilintou languidamente. E o comboio deslisou, com descanço, +como se passeasse para seu regalo sobre as duas fitas d'aço, assobiando +e gozando a belleza da terra e do ceu. + +O meu Principe alargava os braços, desolado: + +--E nem uma camisa, nem uma escova, nem uma gotta d'agoa de Colonia!... +Entro em Portugal, immundo! + +--Na Regoa ha uma demora, temos tempo de chamar o Grillo, rehaver os +nossos confortos... Olha para o rio! + +Rolavamos na vertente d'uma serra, sobre penhascos que desabavam até +largos socalcos cultivados de vinhedo. Em baixo, n'uma esplanada, +branquejava uma casa nobre, de opulento repouso, com a capellinha muito +caiada entre um laranjal maduro. Pelo rio, onde a agoa turva e tarda nem +se quebrava contra as rochas, descia, com a vela cheia, um barco lento +carregado de pipas. Para além, outros socalcos, d'um verde pallido de +rezeda, com oliveiras apoucadas pela amplidão dos montes, subiam até +outras penedias que se embebiam, todas brancas e assoalhadas, na fina +abundancia do azul. Jacintho acariciava os pellos corredios do bigode: + +--O Douro, hein?... É interessante, tem grandeza. Mas agora é que eu +estou com uma fome, Zé Fernandes! + +Tambem eu! Destapamos o cesto de D. Esteban d'onde surdiu um bodo +grandioso, de presunto, anho, perdizes, outras viandas frias que o ouro +de duas nobres garrafas d'Amontillado, além de duas garrafas de Rioja, +aqueciam com um calor de sol Andaluz. Durante o presunto, Jacintho +lamentou contrictamente o seu erro. Ter deixado Tormes, um solar +historico, assim abandonado e vasio! Que delicia, por aquella manhã tão +lustrosa e tepida, subir á serra, encontrar a sua casa bem apetrechada, +bem civilisada... Para o animar, lembrei que com as obras do Silverio, +tantos caixotes de Civilisação remettidos de Paris, Tormes estaria +confortavel mesmo para Epicuro. Oh! mas Jacintho entendia um palacio +perfeito, um 202 no deserto!... E, assim discorrendo, atacamos as +perdizes. Eu desarrolhava uma garrafa de Amontillado--quando o comboio, +muito sorrateiramente, penetrou n'uma Estação. Era a Regoa. E o meu +Principe pousou logo a faca para chamar o Grillo, reclamar as malas que +traziam o aceio dos nossos corpos. + +--Espera, Jacintho! Temos muito tempo, O comboio pára aqui uma hora... +Come com tranquillidade. Não escangalhemos este almocinho com arrumações +de maletas... O Grillo não tarda a apparecer. + +E corri mesmo a cortina, porque de fóra um padre muito alto, com uma +ponta de cigarro collada ao beiço, parára a espreitar indiscretamente o +nosso festim. Mas quando acabamos as perdizes, e Jacintho confiadamente +desembrulhava um queijo manchego, sem que Grillo ou Anatole +comparecessem, eu, inquieto, corri á portinhola para apressar esses +servos tardios... E n'esse instante o comboio, largando, deslisou com o +mesmo silencio sorrateiro. Para o meu Principe foi um desgosto: + +--Ahi ficamos outra vez sem um pente, sem uma escova... E eu que queria +mudar de camisa! Por culpa tua, Zé-Fernandes! + +--É espantoso!... Demora sempre uma eternidade. Hoje chega e abala! +Paciencia, Jacintho. Em duas horas estamos na Estação de Tormes... +Tambem não valia a pena mudar de camisa para subir á serra! Em casa +tomamos um banho, antes de jantar... Já deve estar installada a +banheira. + +Ambos nos consolamos com copinhos d'uma divina aguardente Chinchon. +Depois, estendidos nos sophás, saboreando os dois charutos que nos +restavam, com as vidraças abertas ao ar adoravel, conversamos de Tormes. +Na estação certamente estaria o Silverio, com os cavallos... + +--Que tempo leva a subir? + +Uma hora. Depois de lavados sobrava tempo para um demorado passeio pelas +terras com o caseiro, o excellente Melchior, para que o Senhor de +Tormes, solemnemente, tomasse posse do seu Senhorio. E á noite o +primeiro brodio da serra, com os piteus vernaculos do velho Portugal! + +Jacintho sorria, seduzido: + +--Vamos a ver que cozinheiro me arranjou esse Silverio. Eu recommendei +que fosse um soberbo cozinheiro portuguez, classico. Mas que soubesse +trufar um perú, afogar um bife em molho de moella, estas cousas simples +da cozinha de França!... O peor é não te demorares, seguires logo para +Guiães... + +--Ah, menino, annos da tia Vicencia no sabbado... Dia sagrado! Mas +volto. Em duas semanas estou em Tormes, para fazermos uma larga +Bucolica. E, está claro, para assistir á trasladação. + +Jacintho estendera o braço: + +--Que casarão é aquelle, além no outeiro, com a torre? + +Eu não sabia. Algum solar de fidalgote do Douro... Tormes era n'esse +feitio atarracado e massiço. Casa de seculos e para seculos--mas sem +torre. + +--E logo se vê, da estação, Tormes?... + +--Não! Muito no alto, n'uma prega da serra, entre arvoredo. + +No meu Principe já evidentemente nascèra uma curiosidade pela sua rude +casa ancestral. Mirava o relogio, impaciente. Ainda trinta minutos! +Depois, sorvendo o ar e a luz, murmurava, no primeiro encanto de +iniciado: + +--Que doçura, que paz... + +--Trez horas e meia, estamos a chegar, Jacintho! + +Guardei o meu velho _Jornal do Commercio_ dentro do bolso do paletot, +que deitei sobre o braço;--e ambos em pé, ás janellas, esperamos com +alvoroço a pequenina Estação de Tormes, termo ditoso das nossas +provações. Ella appareceu emfim, clara e simples, á beira do rio, entre +rochas, com os seus vistosos girasoes enchendo um jardimsinho breve, as +duas altas figueiras assombreando o pateo, e por traz a serra coberta de +velho e denso arvoredo... Logo na plataforma avistei com gosto a immensa +barriga, as bochechas menineiras do chefe da Estação, o louro Pimenta, +meu condiscipulo em Rhetorica, no Lyceu de Braga. Os cavallos decerto +esperavam, á sombra, sob as figueiras. + +Mal o trem parou ambos saltamos alegremente. A bojuda massa do Pimenta +rebolou para mim com amizade: + +--Viva o amigo Zé Fernandes! + +--Oh bello Pimentão!... + +Apresentei o senhor de Tormes. E immediatamente: + +--Ouve lá, Pimentinha... Não está ahi o Silverio? + +--Não... O Silverio ha quasi dois mezes que partiu para Castello de +Vide, vêr a mãe que apanhou uma cornada d'um boi! + +Atirei a Jacintho um olhar inquieto: + +--Ora essa! E o Melchior, o caseiro?... Pois não estão ahi os cavallos +para subirmos á quinta? + +O digno chefe ergueu com surpreza as sobrancelhas côr de milho: + +--Não!... Nem Melchior, nem cavallos... O Melchior... Ha que tempos eu +não vejo o Melchior! + +O carregador badalou lentamente a sineta para o comboio rolar. Então, +não avistando em torno, na lisa e despovoada Estação, nem creados nem +malas, o meu Principe e eu lançamos o mesmo grito de angustia: + +--E o Grillo? as bagagens?... + +Corremos pela beira do comboio, berrando com desespero: + +--Grillo!... Oh Grillo!... Anatole!... Oh Grillo! + +Na esperança que elle e o Anatole viessem mortalmente adormecidos, +trepavamos aos estribos, atirando a cabeça para dentro dos +compartimentos, espavorindo a gente quieta com o mesmo berro que +retumbava:--«Grillo, estás ahi, Grillo?»--Já d'uma terceira-classe, onde +uma viola repenicava, um jocoso gania, troçando:--«Não ha por ahi um +grillo? Andam por ahi uns senhores a pedir um grillo!»--E nem Anatole, +nem Grillo! + +A sineta tilintou. + +--Oh Pimentinha, espera, homem, não deixes largar o comboio!... As +nossas bagagens, homem! + +E, afflicto, empurrei o enorme chefe para o forgão de carga, a +pesquizar, descortinar as nossas vinte e trez malas! Apenas encontramos +barris, cestos de vime, latas de azeite, um bahú amarrado com cordas... +Jacintho mordia os beiços, livido. E o Pimentinha, esgazeado: + +--Oh filhos, eu não posso atrazar o comboio!... + +A sineta repicou... E com um bello fumo claro o comboio desappareceu por +detraz das fragas altas. Tudo em torno pareceu mais calado e deserto. +Alli ficavamos pois baldeados, perdidos na serra, sem Grillo, sem +procurador, sem caseiro, sem cavallos, sem malas! Eu conservava o +paletot alvadio, d'onde surdia o _Jornal do Commercio_. Jacintho, uma +bengala. Eram todos os nossos bens! + +O Pimentão arregalava para nós os olhinhos papudos e compadecidos. +Contei então áquelle amigo o atarantado trasfêgo em Medina sob a +borrasca, o Grillo desgarrado, encalhado com as vinte e trez malas, ou +rolando talvez para Madrid sem nos deixar um lenço... + +--Eu não tenho um lenço!... Tenho este _Jornal do Commercio_. É toda a +minha roupa branca. + +--Grande arrelia, caramba! murmurava o Pimenta, impressionado. E agora? + +--Agora, exclamei, é trepar, para a quinta, á pata... A não ser que se +arranjassem ahi uns burros. + +Então o carregador lembrou que perto, no casal da Giesta, ainda +pertencente a Tormes, o caseiro, seu compadre, tinha uma boa egua e um +jumento... E o prestante homem enfiou n'uma carreira para a +Giesta--emquanto o meu Principe e eu cahiamos para cima d'um banco, +arquejantes e succumbidos, como naufragos. O vasto Pimentinha, com as +mãos nas algibeiras, não cessava de nos contemplar, de murmurar:--«É de +arrelia».--O rio defronte descia, preguiçoso e como adormentado sob a +calma já pesada de maio, abraçando, sem um sussurro, uma larga ilhota de +pedra que rebrilhava. Para além a serra crescia em corcovas doces, com +uma funda prega onde se aninhava, bem junta e esquecida do mundo, uma +villasinha clara. O espaço immenso repousava n'um immenso silencio. +N'aquellas solidões de monte e penedia os pardaes, revoando no telhado, +pareciam aves consideraveis. E a massa rotunda e rubicunda do Pimentinha +dominava, atulhava a região. + +--Está tudo arranjado, meu senhor! Vêm ahi os bichos!... Só o que não +calhou foi um selimsinho para a jumenta! + +Era o carregador, digno homem, que voltava da Giesta, sacudindo na mão +duas esporas desirmanadas e ferrugentas. E não tardaram a apparecer no +corrego, para nos levarem a Tormes, uma egua ruça, um jumento com +albarda, um rapaz e um podengo. Apertamos a mão suada e amiga do +Pimentinha. Eu cedi a egua ao senhor de Tormes. E começamos a trepar o +caminho, que não se alisára nem se desbravára desde os tempos em que o +trilhavam, com rudes sapatões ferrados, cortando de rio a monte, os +Jacinthos do seculo XIV! Logo depois de atravessarmos uma tremula ponte +de pau, sobre um riacho quebrado por pedregulhos, o meu Principe, com o +olho de dono subitamente aguçado, notou a robustez e a fartura das +oliveiras...--E em breve os nossos males esqueceram ante a incomparavel +belleza d'aquella serra bemdita! + +Com que brilho e inspiração copiosa a compozera o divino Artista que faz +as serras, e que tanto as cuidou, e tão ricamente as dotou, n'este seu +Portugal bem-amado! A grandeza egualava a graça. Para os valles, +poderosamente cavados, desciam bandos de arvoredos, tão copados e +redondos, d'um verde tão môço que eram como um musgo macio onde +appetecia cahir e rolar. Dos pendores, sobranceiros ao carreiro fragoso, +largas ramadas estendiam o seu toldo amavel, a que o esvoaçar leve dos +passaros sacudia a fragrancia. Atravez dos muros seculares, que sustem +as terras liados pelas heras, rompiam grossas raizes colleantes a que +mais hera se enroscava. Em todo o torrão, de cada fenda, brotavam flôres +silvestres. Brancas rochas, pelas encostas, alastravam a solida nudez do +seu ventre polido pelo vento e pelo sol; outras, vestidas de lichen e de +silvados floridos, avançavam como prôas de galeras enfeitadas: e, +d'entre as que se apinhavam nos cimos, algum casebre que para lá +galgára, todo amachucado e torto, espreitava pelos postigos negros, sob +as desgrenhadas farripas de verdura, que o vento lhe semeára nas telhas. +Por toda a parte a agua sussurrante, a agua fecundante... Espertos +regatinhos fugiam, rindo com os seixos, d'entre as patas da egua e do +burro; grossos ribeiros açodados saltavam com fragor de pedra em pedra; +fios direitos e luzidios como cordas de prata vibravam e faiscavam das +alturas aos barrancos; e muita fonte, posta á beira de veredas, jorrava +por uma bica, beneficamente, á espera dos homens e dos gados... Todo um +cabeço por vezes era uma ceára, onde um vasto carvalho ancestral, +solitario, dominava como seu senhor e seu guarda. Em socalcos verdejavam +laranjaes rescendentes. Caminhos de lages soltas circumdavam fartos +prados com carneiros e vaccas retouçando:--ou mais estreitos, entalados +em muros, penetravam sob ramadas de parra espessa, n'uma penumbra de +repouso e frescura. Trepavamos então alguma ruasinha de aldeia, dez ou +doze casebres, sumidos entre figueiras, onde se esgaçava, fugindo do lar +pela telha vã, o fumo branco e cheiroso das pinhas. Nos cerros remotos, +por cima da negrura pensativa dos pinheiraes, branquejavam ermidas. O ar +fino e puro entrava na alma, e n'alma espalhava alegria e força. Um +esparso tilintar de chocalhos de guizos morria pelas quebradas... + +Jacintho adiante, na sua egua ruça, murmurava: + +--Que belleza! + +E eu atraz, no burro de Sancho, murmurava: + +--Que belleza! + +Frescos ramos roçavam os nossos hombros com familiaridade e carinho. Por +traz das sebes, carregadas d'amoras, as macieiras estendidas offereciam +as suas maçãs verdes, porque as não tinham maduras. Todos os vidros +d'uma casa velha, com a sua cruz no topo, refulgiram hospitaleiramente +quando nós passamos. Muito tempo um melro nos seguia, de azinheiro a +olmo, assobiando os nossos louvores. Obrigado, irmão melro! Ramos de +macieira, obrigado! Aqui vimos, aqui vimos! E sempre comtigo fiquemos, +serra tão acolhedora, serra de fartura e de paz, serra bemdita entre as +serras! + +Assim, vagarosamente e maravilhados, chegamos áquella avenida de faias, +que sempre me encantára pela sua fidalga gravidade. Atirando uma +vergastada ao burro e á egua, o nosso rapaz, com o seu podengo sobre os +calcanhares, gritou:--«Aqui é que estêmos, meus amos!» E ao fundo das +faias, com effeito, apparecia o portão da quinta de Tormes, com o seu +brazão de armas, de secular granito, que o musgo retocava e mais +envelhecia. Dentro já os cães ladravam com furor. E quando Jacintho, na +sua suada egua, e eu atraz, no burro de Sancho, transpozemos o limiar +solarengo, desceu para nós, do alto do alpendre, pela escadaria de pedra +gasta, um homem nedio, rapado como um padre, sem collete, sem jaleca, +acalmando os cães que se encarniçavam contra o meu Principe. Era o +Melchior, o caseiro... Apenas me reconheceu, toda a bocca se lhe +escancarou n'um riso hospitaleiro, a que faltavam dentes. Mas apenas eu +lhe revelei, d'aquelle cavalheiro de bigodes louros que descia da egua +esfregando os quadris, o senhor de Tormes--o bom Melchior recuou, +colhido de espanto e terror como diante d'uma avantesma. + +--Ora essa!... Santissimo nome de Deus! Pois então... + +E, entre o rosnar dos cães, n'um bracejar desolado, balbuciou uma +historia que por seu turno apavorava Jacintho, como se o negro muro do +casarão pendesse para desabar. O Melchior não esperava s. ex.^a! Ninguem +esperava s. ex.^a!... (Elle dizia _sua incellencia_)... O snr. Silverio +estava para Castello de Vide desde março, com a mãe, que apanhára uma +cornada na virilha. E de certo houvera engano, cartas perdidas... Porque +o snr. Silverio só contava com s. exc.^a em setembro, para a vindima! Na +casa as obras seguiam devagarinho, devagarinho... O telhado, no sul, +ainda continuava sem telhas; muitas vidraças esperavam, ainda sem +vidros; e, para ficar, Virgem Santa, nem uma cama arranjada!... + +Jacintho cruzou os braços n'uma colera tumultuosa que o suffocava. Por +fim, com um berro: + +--Mas os caixotes? Os caixotes, mandados de Paris, em fevereiro, ha +quatro mezes?... + +O desgraçado Melchior arregalava os olhos miudos, que se embaciavam de +lagrimas. Os caixotes?! Nada chegára, nada apparecera!... E na sua +perturbação mirava pelas arcadas do pateo, palpava na algibeira das +pantalonas. Os caixotes?... Não, não tinha os caixotes! + +--E agora, Zé Fernandes? + +Encolhi os hombros: + +--Agora, meu filho, só vires commigo para Guiães... Mas são duas horas +fartas a cavallo. E não temos cavallos! O melhor é vêr o casarão, comer +a boa gallinha que o nosso amigo Melchior nos assa no espeto, dormir +n'uma enxerga, e ámanha cedo, antes do calor, trotar para cima, para a +tia Vicencia. + +Jacintho replicou, com uma decisão furiosa: + +--Ámanhã troto, mas para baixo, para a estação!... E depois, para +Lisboa! + +E subiu a gasta escadaria do seu solar com amargura e rancor. Em cima +uma larga varanda acompanhava a fachada do casarão, sob um alpendre de +negras vigas, toda ornada, por entre os pilares de granito, com caixas +de pau onde floriam cravos. Colhi um cravo amarello---e penetrei atraz +de Jacintho nas salas nobres, que elle contemplava com um murmurio de +horror. Eram enormes, d'uma sonoridade de casa capitular, com os grossos +muros ennegrecidos pelo tempo e o abandono, e regeladas, desoladamente +núas, conservando apenas aos cantos algum monte de canastras ou alguma +enxada entre paus. Nos tectos remotos, de carvalho apainelado, luziam +através dos rasgões manchas de céo. As janellas, sem vidraças, +conservavam essas macissas portadas, com fechos para as trancas, que, +quando se cerram, espalham a treva. Sob os nossos passos, aqui e além, +uma taboa pôdre rangia e cedia. + +--Inhabitavel! rugia Jacintho surdamente. Um horror! Uma infamia!... + +Mas depois, n'outras salas, o soalho alternava com remendos de taboas +novas. Os mesmos remendos claros mosqueavam os velhissimos tectos de +rico carvalho sombrio. As paredes repelliam pela alvura crúa da cal +fresca. E o sol mal atravessava as vidraças--embaciadas e gordurentas da +massa e das mãos dos vidraceiros. + +Penetramos emfim na ultima, a mais vasta, rasgada por seis janellas, +mobilada com um armario e com uma enxerga parda e curta estirada a um +canto: e junto d'ella paramos, e sobre ella depuzemos tristemente o que +nos restava de vinte e trez malas--o meu paletot alvadio, a bengala de +Jacintho, e o _Jornal do Commercio_ que nos era commum. Através das +janellas escancaradas, sem vidraças, o grande ar da serra entrava e +circulava como n'um eirado, com um cheiro fresco d'horta regada. Mas o +que avistavamos, da beira da enxerga, era um pinheiral cobrindo um +cabeço e descendo pelo pendor suave, á maneira d'uma hoste em marcha, +com pinheiros na frente, destacados, direitos, emplumados de negro; mais +longe as serras d'além rio, d'uma fina e macia côr de violeta; depois a +brancura do céo, todo liso, sem uma nuvem, d'uma magestade divina. E lá +debaixo, dos valles, subia, desgarrada e melancolica, uma voz de +pegureiro cantando. + +Jacintho caminhou lentamente para o poial d'uma janella, onde cahiu +esbarrondado pelo desastre, sem resistencia ante aquelle brusco +desapparecimento de toda a Civilisação! Eu palpava a enxerga, dura e +regelada como um granito de inverno. E pensando nos luxuosos colchões de +pennas e molas, tão prodigamente encaixotados no 202, desafoguei tambem +a minha indignação: + +--Mas os caixotes, caramba?... Como se perdem assim trinta e tantos +caixotes enormes?... + +Jacintho saccudiu amargamente os hombros: + +--Encalhados, por ahi, algures, n'um barracão!... Em Medina, talvez, +n'essa horrenda Medina. Indifferença das Companhias, inercia do +Silverio... Emfim a Peninsula, a barbarie! + +Vim ajoelhar sobre o outro poial, alongando os olhos consolados por céo +e monte: + +--É uma belleza! + +O meu principe, depois de um silencio grave, murmurou, com a face +encostada á mão: + +--É uma lindeza... E que paz! + +Sob a janella vicejava fartamente uma horta, com repolho, feijoal, +talhões de alface, gordas folhas de abobora rastejando. Uma eira, velha +e mal alisada, dominava o valle, d'onde já subia tenuemente a nevoa +d'algum fundo ribeiro. Toda a esquina do casarão d'esse lado se +encravava em laranjal. E d'uma fontinha rustica, meio afogada em rosas +tremedeiras, corria um longo e rutilante fio d'agua. + +--Estou com appetite desesperado d'aquella agoa! declarou Jacintho, +muito sério. + +--Tambem eu... Desçamos ao quintal, hein? E passamos pela cosinha, a +saber do frango. + +Voltamos á varanda. O meu Principe, mais conciliado com o destino +inclemente, colheu um cravo amarello. E por outra porta baixa, de +rigissimas hombreiras, mergulhamos n'uma sala, alastrada de caliça, sem +tecto, coberta apenas de grossas vigas, d'onde s'ergueu uma revoada de +pardaes. + +--Olha para este horror! murmurava Jacintho arripiado. + +E descemos por uma lobrega escada de castello, tenteando depois um +corredor tenebroso de lages asperas, atravancado por profundas arcas, +capazes de guardar todo o grão d'uma provincia. Ao fundo a cozinha, +immensa, era uma massa de fórmas negras, madeira negra, pedra negra, +densas negruras de felugem secular. E n'este negrume refulgia a um +canto, sobre o chão de terra negra, a fogueira vermelha, lambendo tachos +e panellas de ferro, despedindo uma fumarada que fugia pela grade aberta +no muro, depois por entre a folhagem dos limoeiros. Na enorme lareira, +onde se aqueciam e assavam as suas grossas peças de porco e boi os +Jacinthos medievaes, agora desaproveitada pela frugalidade dos caseiros, +negrejava um poeirento montão de cestas e ferramentas; e a claridade +toda entrava por uma porta de castanho, escancarada sobre um quintalejo +rustico em que se misturavam couves lombardas e junquilhos formosos. Em +roda do lume um bando alvoroçado de mulheres depennava frangos, remexia +as caçarolas, picava a cebola, com um fervor afogueado e palreiro. Todas +emmudeceram quando apparecemos--e d'entre ellas o pobre Melchior, +estonteado, com o sangue a espirrar na nedia face d'abbade, correu para +nós, jurando «que o jantarinho de suas Incellencias não demorava um +credo»... + +--E a respeito de camas, oh amigo Melchior? + +O digno homem ciciou uma desculpa encolhida «sobre enxergasinhas no +chão...» + +--É o que basta! acudi eu, para o consolar. Por uma noite, com lençoes +frescos... + +--Ah, lá pelos lençoesinhos respondo eu!... Mas um desgosto assim, meu +senhor! A gente apanhada sem um colxãosinho de lã, sem um lombosinho de +vacca... Que eu já pensei, até lembrei á minha comadre, V. Inc.^{as} +podiam ir dormir aos _Ninhos_, a casa do Silverio. Tinham lá camas de +ferro, lavatorios... Elle sempre é uma legoasita e mau caminho... + +Jacintho, bondoso, accudiu: + +--Não, tudo se arranja, Melchior. Por uma noite!... Até gósto mais de +dormir em Tormes, na minha casa da serra! + +Sahimos ao terreiro, retalho de horta fechado por grossas rochas +encabelladas de verdura, entestando com os socalcos da serra onde +lourejava o centeio. O meu principe bebeu da agua nevada e lusidia da +fonte, regaladamente, com os beiços na bica; appeteceu a alface +rechonchuda e crespa; e atirou pulos aos ramos altos d'uma copada +cerejeira, toda carregada de cereja. Depois, costeando o velho lagar, a +que um bando de pombas branqueava o telhado, deslisámos até ao carreiro, +cortado no costado do monte. E andando, pensativamente, o meu Principe +pasmava para os milheiraes, para os vetustos carvalhos plantados por +vetustos Jacinthos, para os casebres espalhados sobre os cabeços á orla +negra dos pinheiraes. + +De novo penetramos na avenida de faias e transpozemos o portão senhorial +entre o latir dos cães, mais mansos, farejando um dono. Jacintho +reconheceu «certa nobreza» na frontaria do seu lar. Mas sobretudo lhe +agradava a longa alameda, assim direita e larga, como traçada para +n'ella se desenrolar uma cavalgada de Senhores com plumas e pagens. +Depois, de cima da varanda, reparando na telha nova da capella, louvou o +Silverio, «esse ralaço», por cuidar ao menos da morada do Bom-Deus. + +--E esta varanda tambem é agradavel, murmurou elle mergulhando a face no +aroma dos cravos. Precisa grandes poltronas, grandes divans de verga... + +Dentro, na «nossa sala», ambos nos sentamos nos poiaes da janella, +contemplando o doce socego crepuscular que lentamente se estabelecia +sobre valle e monte. No alto tremeluzia uma estrellinha, a Venus +diamantina, languida annunciadora da noite e dos seus contentamentos. +Jacintho nunca considerára demoradamente aquella estrella, de amorosa +refulgencia, que perpetua no nosso Céo catholico a memoria da Deusa +incomparavel:--nem assistira jámais, com a alma attenta, ao magestoso +adormecer da Natureza. E este ennegrecimento dos montes que se embuçam +em sombra; os arvoredos emmudecendo, cançados de susurrar; o rebrilho +dos casaes mansamente apagado; o cobertor de nevoa, sob que se acama e +agasalha a frialdade dos valles; um toque somnolento de sino que rola +pelas quebradas; o segredado cochichar das aguas e das relvas +escuras--eram para elle como iniciações. D'aquella janella, aberta sobre +as serras, entrevia uma outra vida, que não anda sómente cheia do Homem +e do tumulto da sua obra. E senti o meu amigo suspirar como quem emfim +descança. + +D'este enlevo nos arrancou o Melchior com o doce aviso do «jantarinho de +suas Incellencias». Era n'outra sala, mais núa, mais abandonada:--e ahi +logo á porta o meu super-civilisado Principe estacou, estarrecido pelo +desconforto, escassez e rudeza das coisas. Na mesa, encostada ao muro +denegrido, sulcado pelo fumo das candeias, sobre uma toalha de estopa, +duas velas de sêbo em castiçaes de lata alumiavam grossos pratos de +louça amarella, ladeados por colheres de estanho e por garfos de ferro. +Os copos, d'um vidro espesso, conservavam a sombra roxa do vinho que +n'elles passára em fartos annos de fartas vindimas. A malga de barro, +atestada de azeitonas pretas, contentaria Diogenes. Espetado na côdea +d'um immenso pão reluzia um immenso facalhão. E na cadeira senhoreal +reservada ao meu Principe, derradeira alfaia dos velhos Jacinthos, de +hirto espaldar de couro, com a madeira roída de caruncho, a clina fugia +em melenas pelos rasgões do assento poido. + +Uma formidavel moça, de enormes peitos que lhe tremiam dentro das +ramagens do lenço cruzado, ainda suada e esbrazeada do calor da lareira, +entrou esmagando o soalho, com uma terrina a fumegar. E o Melchior, que +seguia erguendo a infusa do vinho, esperava que suas Incellencias lhe +perdoassem porque faltára tempo para o caldinho apurar... Jacintho +occupou a séde ancestral--e, durante momentos (de esgazeada anciedade +para o caseiro excellente) esfregou energicamente, com a ponta da +toalha, o garfo negro, a fusca colhér de estanho. Depois, desconfiado, +provou o caldo, que era de gallinha e rescendia. Provou--e levantou para +mim, seu camarada de miserias, uns olhos que brilharam, surprehendidos. +Tornou a sorver uma colherada mais cheia, mais considerada. E sorriu, +com espanto:--«Está bom!» + +Estava precioso: tinha figado e tinha moela: o seu perfume enternecia: +tres vezes, fervorosamente, ataquei aquelle caldo. + +--Tambem lá volto! exclamava Jacintho com uma convicção immensa. É que +estou com uma fome... Santo Deus! Ha annos que não sinto esta fome. + +Foi elle que rapou avaramente a sopeira. E já espreitava a porta, +esperando a portadora dos piteus, a rija moça de peitos trementes, que +emfim surgiu, mais esbrazeada, abalando o sobrado--e pousou sobre a mesa +uma travessa a trasbordar de arroz com favas. Que desconsolo! Jacintho, +em Paris, sempre abominára favas!... Tentou todavia uma garfada +timida--e de novo aquelles seus olhos, que o pessimismo ennovoára, +luziram, procurando os meus. Outra larga garfada, concentrada, com uma +lentidão de frade que se regala. Depois um brado: + +--Optimo!... Ah, d'estas favas, sim! Oh que fava! Que delicia! + +E por esta santa gula louvava a serra, a arte perfeita das mulheres +palreiras que em baixo remexiam as panellas, o Melchior que presidia ao +brodio... + +--D'este arroz com fava nem em Paris, Melchior amigo! + +O homem optimo sorria, inteiramente desannuviado: + +--Pois é cá a comidinha dos moços da quinta! E cada pratada, que até +suas Incellencias se riam... Mas agora, aqui, o Snr. D. Jacintho, tambem +vae engordar e enrijar! + +O bom caseiro sinceramente cria que, perdido n'esses remotos Parizes, o +Senhor de Tormes, longe da fartura de Tormes, padecia fome e mingava... +E o meu Principe, na verdade, parecia saciar uma velhissima fome e uma +longa saudade da abundancia, rompendo assim, a cada travessa, em +louvores mais copiosos. Diante do louro frango assado no espeto e da +salada que elle appetecera na horta, agora temperada com um azeite da +serra digno dos labios de Platão, terminou por bradar:--«É divino!» Mas +nada o enthusiasmava como o vinho de Tormes, cahindo d'alto, da bojuda +infusa verde--um vinho fresco, esperto, seivoso, e tendo mais alma, +entrando mais na alma, que muito poema ou livro santo. Mirando, á vela +de sèbo, o copo grosso que elle orlava de leve espuma rosea, o meu +Principe, com um resplendôr d'optimismo na face, citou Virgilio: + +--_Quo te carmina dicam, Rethica_? Quem dignamente te cantará, vinho +amavel d'estas serras? + +Eu, que não gosto que me avantagem em saber classico, espanejei logo +tambem o meu Virgilio, louvando as doçuras da vida rural: + +--_Hanc olim veteres vitam coluere Sabini_... Assim viveram os velhos +Sabinos. Assim Romolo e Remo... Assim cresceu a valente Etruria. Assim +Roma se tornou a maravilha do mundo! + +E immovel, com a mão agarrada á infusa, o Melchior arregalava para nós +os olhos em infinito assombro e religiosa reverencia. + + * * * * * + +Ah! Jantamos deliciosissimamente, sob os auspicios do Melchior--que +ainda depois, próvido e tutelar, nos forneceu o tabaco. E, como ante nós +se alongava uma noite de monte, voltamos para as janellas desvidraçadas, +na sala immensa, a contemplar o sumptuoso céo de verão. Philosophámos +então com pachorra e facundia. + +Na Cidade (como notou Jacintho) nunca se olham, nem lembram os +astros--por causa dos candieiros de gaz ou dos globos de electricidade +que os offuscam. Por isso (como eu notei) nunca se entra n'essa +communhão com o Universo que é a unica gloria e unica consolação da +Vida. Mas na serra, sem predios disformes de seis andares, sem a +fumaraça que tapa Deus, sem os cuidados que como pedaços de chumbo puxam +a alma para o pó rasteiro--um Jacintho, um Zé Fernandes, livres, bem +jantados, fumando nos poiaes d'uma janella, olham para os astros e os +astros olham para elles. Uns, certamente, com olhos de sublime +immobilidade ou de subllime indifferença. Mas outros curiosamente, +anciosamente, com uma luz que acena, uma luz que chama, como se +tentassem, de tão longe, revelar os seus segredos, ou de tão longe +comprehender os nossos... + +--Oh Jacintho, que estrella é esta, aqui, tão viva, sobre o beiral do +telhado? + +--Não sei... E aquella, Zé Fernandes, além, por cima do pinheiral? + +--Não sei. + +Não sabiamos. Eu, por causa da espessa crosta de ignorancia com que sahi +do ventre de Coimbra, minha Mãe espiritual. Elle, porque na sua +Bibliotheca possuia trezentos e oito tratados sobre Astronomia, e o +Saber, assim accumulado, fórma um monte que nunca se transpõe nem se +desbasta. Mas que nos importava que aquelle astro além se chamasse +Syrius e aquelle outro Aldebaran? Que lhes importava a elles que um de +nós fosse Jacintho, outro Zé? Elles tão immensos, nós tão pequeninos, +somos a obra da mesma Vontade. E todos, Uranos ou Lorenas de Noronha e +Sande, constituimos modos diversos d'um Sêr unico, e as nossas +diversidades esparsas sommam na mesma compacta Unidade. Molleculas do +mesmo Todo, governadas pela mesma Lei, rolando para o mesmo Fim... Do +astro ao homem, do homem á flôr do trevo, da flôr do trevo ao mar +sonoro--tudo é o mesmo Corpo, onde circula, como um sangue, o mesmo +Deus. E nenhum fremito de vida, por menor, passa n'uma fibra d'esse +sublime Corpo, que se não repercuta em todas, até ás mais humildes, até +ás que parecem inertes e invitaes. Quando um Sol que não avisto, nunca +avistarei, morre de inanição nas profundidades, esse esguio galho de +limoeiro, em baixo na horta, sente um secreto arrepio de morte:--e, +quando eu bato uma patada no soalho de Tormes, além o monstruoso Saturno +estremece, e esse estremecimento percorre o inteiro Universo! Jacintho +abateu rijamente a mão no rebordo da janella. Eu gritei: + +--Acredita!... O sol tremeu. + +E depois (como eu notei) deviamos considerar que, sobre cada um d'esses +grãos de pó luminoso, existia uma creação, que incessantemente nasce, +perece, renasce. N'este instante, outros Jacinthos, outros Zés +Fernandes, sentados ás janellas d'outras Tormes, contemplam o céo +nocturno, e n'elle um pequenininho ponto de luz, que é a nossa possante +Terra por nós tanto sublimada. Não terão todos esta nossa fórma, bem +fragil, bem desconfortavel, e (a não ser no Apollo do Vaticano, na Venus +de Milo e talvez na Princeza, de Carman) singularmente feia e burlesca. +Mas, horrendos ou de ineffavel belleza; collossaes e d'uma carne mais +dura que o granito, ou leves como gazes e ondulando na luz, todos elles +são sêres pensantes e teem consciencia da Vida--porque decerto cada +Mundo possue o seu Descartes, ou já o nosso Descartes os percorreu a +todos com o seu Methodo, a sua escura capa, a sua agudeza elegante, +formulando a unica certeza talvez certa, o grande _Penso logo existo_. +Portanto todos nós, Habitantes dos Mundos, ás janellas dos nossos +casarões, além nos Saturnos, ou aqui na nossa Terricula, constantemente +perfazemos um acto sacrosanto que nos penetra e nos funde--que é +sentirmos no Pensamento o nucleo commum das nossas modalidades, e +portanto realisarmos um momento, dentro da Consciencia, a Unidade do +Universo!--Hein, Jacintho?... + +O meu amigo rosnou: + +--Talvez... Estou a cahir com somno. + +--Tambem eu. «Remontamos muito, Ex.^{mo} Snr.!» como dizia o Pestaninha +em Coimbra. Mas nada mais bello, e mais vão, que uma cavaqueira, no alto +das serras, a olhar para as estrellas!... Tu sempre vaes amanhã? + +--Com certeza, Zé Fernandes! Com a certeza de Descartes. «Penso _logo +fujo_!» Como queres tu, n'este pardieiro, sem uma cama, sem uma +poltrona, sem um livro?... Nem só de arroz com fava vive o Homem! Mas +demoro em Lisboa, para conversar com o Cesimbra, o meu Administrador. E +tambem á espera que estas obras acabem, os caixotes surjam, e eu possa +voltar decentemente, com roupa lavada, para a trasladação... + +--É verdade, os ossos... + +--Mas resta ainda o Grillo... Que animal! Por onde andará esse perdido? + +Então, passeando lentamente na sala enorme, onde a vela de sêbo já +derretida no castiçal de lata era como um lume de cigarro n'um +descampado, meditámos na sorte do Grillo. O estimado negro ou fôra +despejado nas lamas de Medina, com as vinte e sete malas, aos +gritos--ou, regaladamente adormecido, rolára com o Anatole no comboio +para Madrid. Mas ambos os casos appareciam ao meu Principe como +irremediavelmente destruidores do seu conforto... + +--Não, escuta, Jacintho... Se o Grillo encalhou em Medina, dormiu na +Fonda, catou os percevejos, e esta madrugada correu para Tormes. Quando +ámanhã desceres á Estação, ás quatro horas, encontras o teu precioso +homem, com as tuas preciosas malas, mettido n'esse comboio que te leva +ao Porto e á Capital... + +Jacintho saccudiu os braços como quem se debate nas malhas d'uma rede: + +--E se seguiu para Madrid? + +--Então, por esta semana, cá apparece em Tormes, onde encontra ordem +para regressar a Lisboa e reentrar no teu sequito... Resta o +interessante caso das minhas bagagens. Se ámanhã encontrares na Estação +o Grillo, separa a minha mala negra, e o sacco de lona, e a chapelleira. +O Grillo conhece. E pede ao Pimenta, ao gordalhufo, que me avise para +Guiães. Se o Grillo aportar Tormes, esfogueteado de Madrid, com toda +essa malaria, deixa as minhas cousas aqui, ao Melchior... Eu ámanhã +fallo ao Melchior. + +Jacintho sacudiu furiosamente o collarinho: + +--Mas como posso eu partir para Lisboa, ámanhã, com esta camisa de dous +dias, que já me faz uma comichão horrenda? E sem um lenço... Nem ao +menos uma escova de dentes! + +Fertil em idéas, estendi as mãos, n'um bello gesto tutelar: + +--Tudo se arranja, meu Jacintho, tudo se arranja! Eu, largando d'aqui +cedo, pelas seis horas, chego a Guiães ás dez, ainda sem calor. E, mesmo +antes do almoço e da cavaqueira com a tia Vicencia, immediatamente te +mando por um moço um sacco de roupa branca. As minhas camisas e as +minhas ceroulas talvez te estejam largas. Mas um mendigo como tu não tem +direito a elegancias e a roupas bem cortadas. O moço, n'um bom trote, +entra aqui ás duas horas; tens tempo de mudar antes de desceres para a +Estação... Posso metter na mala uma escova de dentes. + +--Oh Zé Fernandes! Então mette tambem uma esponja... E um frasco d'agoa +de colonia! + +--Agoa d'alfazema, excellente, feita pela tia Vicencia... + +O meu Principe suspirou, impressionado com a sua miseria esqualida, e +esta dadiva de roupas: + +--Bem, então vamos dormir, que estou esfalfado de emoções e d'astros... + +Justamente Melchior entreabria a pesada porta, com timidez, a avisar que +«estavam preparadinhas as camas de suas Incellencias.» E seguindo o bom +caseiro, que erguia uma candeia, que avistamos nós, o meu Principe e eu, +ainda ha pouco irmanados com os astros? Em duas saletas, que uma +abertura em arco, lobrego arco de pedra, separava--duas enxergas sobre o +soalho. Junto á cabeceira da mais larga, que pertencia ao senhor de +Tormes, um castiçal de latão sobre um alqueire; aos pés, como lavatorio, +um alguidar vidrado em cima duma tripeça. Para mim, serrano d'aquellas +serras, nem alguidar nem alqueire. + +Lentamente, com o pé, o meu super-civilisado amigo palpou a enxerga. E +decerto lhe sentiu uma dureza intransigente, porque ficou pendido sobre +ella, a correr desoladamente os dedos pela face desmaiada. + +--E o peior não é ainda a enxerga, murmurou emfim com um suspiro. É que +não tenho camisa de dormir, nem chinelas!... E não me posso deitar de +camisa engommada. + +Por inspiração minha reccorremos ao Melchior. De novo, esse benemerito +providenciou, trazendo a Jacintho, para elle desafogar os pés, uns +tamancos--e para embrulhar o corpo uma camisa da comadre, enorme, de +estopa, áspera como uma estamenha de penitente, com folhos mais crespos +e duros do que lavores de madeira. Para consolar o meu Principe lembrei +que Platão quando compunha o _Banquete_, Vasco da Gama quando dobrava o +Cabo, não dormiam em melhores catres! As enxergas rijas fazem as almas +fortes, oh Jacintho!... E é só vestido de estamenha que se penetra no +Paraiso. + +--Tens tu, volveu o meu amigo seccamente, alguma coisa que eu leia? Não +posso adormecer sem um livro. + +Eu? Um livro? Possuia apenas o velho numero do _Jornal do Commercio_, +que escapára á dispersão dos nossos bens. Rasguei a copiosa folha pelo +meio, partilhei com Jacintho fraternalmente. Elle tomou a sua metade, +que era a dos annuncios... E quem não viu então Jacintho, senhor de +Tormes, acaçapado á borda da enxerga, rente da vela de sêbo que se +derretia no alqueire, com os pés encafuados nos sócos, perdido dentro +das ásperas pregas e dos rijos folhos da camisa serrana, percorrendo +n'um pedaço velho de Gazeta, pensativamente, as partidas dos +Paquetes--não póde saber o que é uma intensa e veridica imagem do +Desalento. + +Recolhido á minha alcova espartana, desabotoava o collete, n'um +delicioso cansaço, quando o meu Principe ainda me reclamou: + +--Zé Fernandes... + +--Dize. + +--Manda tambem no sacco um abotoador de botas. + +Estirado commodamente na rija enxerga murmurei, como sempre murmuro ao +penetrar no Somno, que é um primo da Morte, «Deus seja louvado!» Depois +tomei a metade do _Jornal do Commercio_ que me pertencia. + +--Zé Fernandes... + +--Que é? + +--Tambem podias metter no sacco pós dos dentes... E uma lima das +unhas... E um romance! + +Já a meia Gazeta me escapava das mãos dormentes. Mas da sua alcova, +depois de soprar a vela, Jacintho murmurou entre um bocejo: + +--Zé Fernandes... + +--Hein? + +--Escreve para Lisboa, para o Hotel Bragança... Os lençoes ao menos são +frescos, cheiram bem, a sadio! + + + + +IX + + +Cedo, de madrugada, sem rumor, para não despertar o meu Jacintho, que, +com as mãos cruzadas sobre o peito, dormia beatificamente na sua enxerga +de granito--parti para Guiães. + +Ao cabo d'uma semana, recolhendo uma manhã para o almoço, encontrei no +corredor as minhas malas tão desejadas, que um moço do casal da Giesta +trouxera n'um carro com «recados do Snr. Pimentinha». O meu pensamento +pulou para o meu Principe. E lancei pelo telegrapho, para Lisboa, para o +Hotel Bragança, este brado alegre:--«Estás lá? Sei recuperaste Grillo e +Civilisação! Hurrah! Abraço!»--Só depois de sete dias, occupados n'uma +delicada apanha de aspargos com que outr'ora civilisára a horta da tia +Vicencia, notei o silencio de Jacintho. N'um bilhete postal renovei, +desenvolvi o grito amigo:--«Estás lá? São os prazeres da Baixa que assim +te tornam desattento e mudo? Eu, todo aspargos! Responde, quando chegas? +Tempo delicioso! 23^o á sombra. E os ossos?...»--Veio depois a devota +romaria da Senhora da Roqueirinha. Durante a lua nova andei n'um córte +de matto, na minha terra das Corcas. A tia Vicencia vomitou, com uma +indigestão de murcellas. E o silencio do meu Principe era ingrato e +ferrenho. + +Emfim uma tarde, voltando da Flor da Malva, de casa da minha prima +Joanninha, parei em Sandofim, na venda do Manoel Rico, para beber de +certo vinho branco que a minha alma conhece--e sempre pede. + +Defronte, á porta do ferrador, o Severo, sobrinho do Melchior de Tormes +e o mais fino alveitar da serra, picava tabaco, escarranchado n'um +banco. Mandei encher outro quartilho: elle acariciou o pescoço da minha +egua que já salvára d'um esfriamento: e, como eu indagasse do nosso +Melchior, o Severo contou que na véspera jantára com elle em Tormes, e +se abeirára tambem do fidalgo... + +--Ora essa! Então o snr. D. Jacintho está em Tormes? + +O meu espanto divertiu o Severo: + +--Então v. exc.^a... Pois em Tormes é que elle está, ha mais de cinco +semanas, sem arredar! E parece que fica para a vindima, e vai lá uma +grandeza! + +Santissimo nome de Deus! Ao outro dia, domingo, depois da missa e sem me +assustar com a calma que carregava, trotei alvoroçadamente para Tormes. +Ao latir dos rafeiros, quando transpuz o portal solarengo, a comadre do +Melchior accudio dos lados do curral, com um alguidar de lavagem +encostado á cintura.--Então o snr. D. Jacintho?... O snr. D. Jacintho +andava lá para baixo, com o Silverio e com o Melchior, nos campos de +Freixomil... + +--E o Snr. Grillo, o preto? + +--Ha bocadinho tambem o enxerguei no pomar, com o francez, a apanhar +limões doces... + +Todas as janellas do solar rebrilhavam, com vidraças novas, bem polidas. +A um canto do páteo notei baldes de cal e tijellas de tintas. Uma escada +de pedreiro descançára durante o Dia Santo arrimada contra o telhado. E, +rente ao muro da capella, dois gatos dormiam sobre montões de palha +desempacotada de caixotes consideraveis. + +--Bem, pensei eu. Eis a Civilisação! + +Recolhi a egua, galguei a escada. Na varanda, sobre uma pilha de ripas, +reluzia n'um raio de sol uma banheira de zinco. Dentro encontrei todos +os soalhos remendados, esfregados a carqueja. As paredes, muito caiadas +e núas, refrigeravam como as d'um convento. Um quarto, a que me levaram +tres portas escancaradas com franqueza serrana, era certamente o de +Jacintho: a roupa pendia de cabides de pau: o leito de ferro, com +coberta de fustão, encolhia timidamente a sua rigidez virginal a um +canto, entre o muro e a banquinha onde um castiçal de latão resplandecia +sobre um volume do _D. Quichote_; no lavatorio pintado de amarello, +imitando bambú, apenas cabia o jarro, a bacia, um naco gordo de sabão; e +uma prateleirinha bastava ao esmerado alinho da escova, da thesoura, do +pente, do espelhinho de feira, e do frasquinho de agua de alfazema que +eu mandára de Guiães. As tres janellas, sem cortinas, contemplavam a +belleza da serra, respirando um delicado e macio ar, que se perfumava +nas resinas dos pinheiraes, depois nas roseiras da horta. Em frente, no +corredor, outro quarto repetia a mesma simplicidade. Certamente a +previdencia do meu Principe o destinára ao seu Zé Fernandes. Pendurei +logo dentro, no cabide, o meu guarda-pó de lustrina. + +Mas na sala immensa, onde tanto philosopháramos considerando as +estrellas, Jacintho arranjára um centro de repouso e d'estudo--e +desenrolára essa «grandeza» que impressionava o Severo. As cadeiras de +verga da Madeira, amplas e de braços, offereciam o conforto de +almofadinhas de chita. Sobre a mesa enorme de pau branco, carpinteirada +em Tormes, admirei um candieiro de metal de tres bicos, um tinteiro de +frade armado de pennas de pato, um vaso de capella transbordando de +cravos. Entre duas janellas uma commoda antiga, embutida, com ferragens +lavradas, recebera sobre o seu marmore rosado o devoto peso d'um +Presepio, onde Reis Magos, pastores de surrões vistosos, cordeiros +d'esguedelhada lã, se apressavam atravez d'alcantis para o Menino, que +na sua lapinha lhes abria os braços, coroado por uma enorme Corôa Real. +Uma estante de madeira enchia outro pedaço de parede, entre dois +retratos negros com caixilhos negros; sobre uma das suas prateleiras +repousavam duas espingardas; nas outras esperavam, espalhados, como os +primeiros Doutores nas bancadas d'um concilio, alguns nobres livros, um +Plutarcho, um Virgilio, a Odyssea, o Manual de Epictecto, as Chronicas +de Froissart. Depois, em fila decorosa, cadeiras de palhinha, muito +novas, muito envernisadas. E a um canto um mólho de varapaus. + +Tudo resplandecia de asseio e ordem. As portadas das janellas, cerradas, +abrigavam do sol que batia aquelle lado de Tormes, escaldando os +peitoris de pedra. Do soalho, burrifado de agua, subia, na suavisada +penumbra, uma frescura. Os cravos rescendiam. Nem dos campos, nem da +casa, se elevava um rumor. Tormes dormia no esplendor da manhã santa. E, +penetrado por aquella consoladora quietação de convento rural, terminei +por me estender n'uma cadeira de verga, junto da mesa, abrir +languidamente um tomo de Virgilio, e murmurar, appropriando o doce verso +que encontrára: + +Fortunate Jacinthe! Hic, inter arva nota +Et fontes sacros, frigus captabis opacum... + +Afortunado Jacintho, na verdade! Agora, entre campos que são teus e +aguas que te são sagradas, colhes emfim a sombra e a paz! + +Li ainda outros versos. E, na fadiga das duas horas de egua e calor +desde Guiães, irreverentemente adormecia sobre o divino +Bucoliasta--quando me despertou um berro amigo! Era o meu Principe. E +muito decididamente, depois de me soltar do seu rijo abraço, o comparei +a uma planta estiolada, emmurchecida na escuridão, entre tapetes e +sêdas, que, levada para vento e sol, profusamente regada, reverdece, +desabrocha e honra a Natureza! Jacintho já não corcovava. Sobre a sua +arrefecida pallidez de super-civilisado, o ar montesino, ou vida mais +verdadeira, espalhára um rubor trigueiro e quente de sangue renovado que +o virilisava soberbamente. Dos olhos, que na Cidade andavam sempre tão +crepusculares e desviados do Mundo, saltava agora um brilho de meio-dia, +resoluto e largo, contente em se embeber na belleza das coisas. Até o +bigode se lhe encrespára. E já não deslisava a mão desencantada sobre a +face,--mas batia com ella triumphalmente na côxa. Que sei? Era um +Jacintho novissimo. E quasi me assustava, por eu ter de aprender e +penetrar, n'este novo Principe, os modos e as idéas novas. + +--Caramba, Jacintho, mas então...? + +Elle encolheu jovialmente os hombros realargados. E só me soube contar, +trilhando soberanamente com os sapatos brancos e cobertos de pó o soalho +remendado, que, ao acordar em Tormes, depois de se lavar n'uma dorna, e +d'enfiar a minha roupa branca, se sentira de repente como +_desannuviado_, _desenvencilhado_! Almoçára uma pratada de ovos com +chouriço, sublime. Passeára por toda aquella magnificencia da serra com +pensamentos ligeiros de liberdade e de paz. Mandára ao Porto comprar uma +cama, uns cabides... E alli estava... + +--Para todo o verão? + +--Não! Mas um mez... Dois mezes! Emquanto houver chouriços, e a agoa da +fonte, bebida pela telha ou n'uma folha de couve, me souber tão +divinamente! + +Cahi sobre a cadeira de verga, e contemplei, arregalado, quasi +esgazeado, o meu Principe! Elle enrolava n'uma mortalha tabaco picado, +tabaco grosso, guardado n'uma malga vidrada. E exclamava: + +--Ando ahi pelas terras desde o romper d'alva! Pesquei já hoje quatro +trutas, magnificas... Lá em baixo, no Naves, um riachote que se atira +pelo valle da Seranda... Temos logo ao jantar essas trutas! + +Mas eu, avido pela historia d'aquella ressurreição: + +--Então, não estiveste em Lisboa?... Eu telegraphei... + +--Qual telegrapho! Qual Lisboa! Estive lá em cima, ao pé da fonte da +Lira, á sombra d'uma grande arvore, _sub tegmine_ não sei quê, a lêr +esse adorável Virgilio... E tambem a arranjar o meu palacio! Que te +parece, Zé Fernandes? Em tres semanas, tudo soalhado, envidraçado, +caiado, encadeirado!... Trabalhou a freguezia inteira! Até eu pintei, +com uma immensa brocha. Viste o comedoiro? + +--Não. + +--Então vem admirar a belleza na simplicidade, barbaro! + +Era a mesma onde nós tanto exaltaramos o arroz com favas--mas muito +esfregada, muito caiada, com um rodapé bezuntado d'azul estridente onde +logo adivinhei a obra do meu Principe. Uma toalha de linho de Guimarães +cobria a mesa, com as franjas roçando o soalho. No fundo dos pratos de +louça forte reluzia um gallo amarello. Era o mesmo gallo e a mesma louça +em que na nossa casa, em Guiães, se servem os feijões dos cavadores... + +Mas no páteo os cães latiram. E Jacintho correu á varanda, com uma +ligeireza curiosa que me deleitou. Ah, bem definitivamente se +esfrangalhára aquella rede de malha que se não percebia e que outr'ora o +travava!--N'esse momento appareceu o Grillo, de quinzena de linho, +segurando em cada mão uma garrafa de vinho branco. Todo se alegrou «em +vêr na quinta o siô Fernandes». Mas a sua veneranda face já não +resplandecia, como em Paris, com um tão sereno e ditoso brilho de ebano. +Até me pareceu que corcovava... Quando o interroguei sobre aquella +mudança, estendeu duvidosamente o beiço grosso: + +--O menino gosta, eu então tambem gósto... Que o ar aqui é muito bom, +siô Fernandes, o ar é muito bom! + +Depois, mais baixo, envolvendo n'um gesto desolado a louça de Barcellos, +as facas de cabo d'osso, as prateleiras de pinho como n'um refeitorio de +Franciscanos: + +--Mas muita magreza, siô Fernandes, muita magreza! + +Jacintho voltava com um maço de jornaes cintados: + +--Era o carteiro. Já vês que não amuei inteiramente com a Civilisação. +Eis a Imprensa!... Mas nada de _Figaro_, ou da horrenda _Dois-Mundos_! +Jornaes de Agricultura! Para aprender como se produzem as risonhas +messes, e sob que signo se casa a vinha ao olmo, e que cuidados +necessita a abelha provida... _Quid faciat laetas segetes_... De resto +para esta nobre educação, já me bastavam as _Georgicas_, que tu ignoras! + +Eu ri: + +--Alto lá! _Nos quoque gens sumus et nostrum Virgilium sabemus_! + +Mas o meu novissimo amigo, debruçado da janella, batia as palmas--como +Catão para chamar os servos, na Roma simples. E gritava: + +--Anna Vaqueira! Um copo d'agoa, bem lavado, da fonte velha! + +Pulei, immensamente divertido: + +--Oh Jacintho! E as aguas carbonatadas? e as phosphatadas? e as +esterilisadas? e as sodicas?... + +O meu Principe atirou os hombros com um desdem soberbo. E acclamou a +apparição d'um grande copo, todo embaciado pela frescura nevada da agoa +refulgente, que uma bella moça trazia n'um prato. Eu admirei sobretudo a +moça... Que olhos, d'um negro tão liquido e serio! No andar, no quebrar +da cinta, que harmonia e que graça de Nympha latina! + +E apenas pela porta desapparecera a explendida apparição: + +--Oh Jacintho, eu d'aqui a um instante tambem quero agua! E se compete a +esta rapariga trazer as cousas, eu, de cinco em cinco minutos, quero uma +cousa!... Que olhos, que corpo... Caramba, menino! Eis a poesia, toda +viva, da serra... + +O meu Principe sorria, com sinceridade: + +--Não! não nos illudamos, Zé Fernandes, nem façamos Arcadia. É uma bella +moça, mas uma bruta... Não ha alli mais poesia, nem mais sensibilidade, +nem mesmo mais belleza do que n'uma linda vacca tourina. Merece o seu +nome de Anna Vaqueira. Trabalha bem, digere bem, concebe bem. Para isso +a fez a Natureza, assim sã e rija; e ella cumpre. O marido todavia não +parece contente, porque a desanca. Tambem é um bello bruto... Não, meu +filho, a serra é maravilhosa e muito grato lhe estou... Mas temos aqui a +fêmea em toda a sua animalidade e o macho em todo o seu egoismo... São +porém verdadeiros, genuinamente verdadeiros! E esta verdade, Zé +Fernandes, é para mim um repouso. + +Lentamente, gozando a frescura, o silencio, a liberdade do vasto +casarão, retrocedemos á sala que Jacintho já denominára a _Livraria_. E, +de repente, ao avistar n'um canto uma caixa com a tampa meio despregada, +quasi me engasguei, na furiosa curiosidade que me assaltou: + +--E os caixotes? Oh Jacintho?... Toda aquella immensa caixotaria que nós +mandamos, abarrotada de Civilisação? Soubeste? Appareceram? + +O meu Principe parou, bateu alegremente na côxa: + +--Sublime! Tu ainda te lembras d'aquelle homemsinho, de sacco a +tiracollo, que nós admiramos tanto pela sua sagacidade, o seu saber +geographico?... Lembras? Apenas fallei em Tormes, gritou que conhecia, +rabiscou uma nota... Nem era necessario mais! «Oh! Tormes, +perfeitamente, muito antigo, muito curioso!» Pois mandou tudo para +Alba-de-Tormes, em Hespanha! Está tudo em Hespanha! + +Cocei o queixo, desconsolado: + +--Ora, ora... Um homem tão esperto, tão expedito, que fazia tanta honra +ao Progresso! Tudo para Hespanha!... E mandaste vir? + +--Não! Talvez mais tarde... Agora, Zé Fernandes, estou saboreando esta +delicia de me erguer pela manhã, e de ter só uma escova para alisar o +cabello. + +Considerei, cheio de recordações, o meu amigo: + +--Tinhas umas nove... + +--Nove? Tinha vinte! Talvez trinta! E era uma atrapalhação, não me +bastavam!... Nunca em Paris andei bem penteado. Assim com os meus +setenta mil volumes: eram tantos que nunca li nenhum. Assim com as +minhas occupações: tanto me sobrecarregavam, que nunca fui util! + + * * * * * + +De tarde, depois da calma, fomos vaguear pelos caminhos colleantes +d'aquella quinta rica, que, através de duas legoas, ondula por valle e +monte. Não m'encontrára mais com Jacintho em meio da Natureza, desde o +remoto dia d'entremez em que elle tanto soffrera no sociavel e policiado +bosque de Montmorency. Ah, mas agora, com que segurança e idyllico amor +elle se movia através d'essa Natureza, d'onde andára tantos annos +desviado por theoria e por habito! Já não arreceiava a humidade mortal +das relvas; nem repellia como impertinente o roçar das ramagens; nem o +silencio dos altos o inquietava como um despovoamento do Universo. Era +com delicias, com um consolado sentimento de estabilidade recuperada, +que enterrava os grossos sapatos nas terras molles, como no seu elemento +natural e paterno: sem razão, deixava os trilhos faceis, para se +embrenhar através de arbustos emaranhados, e receber na face a caricia +das folhas tenras; sobre os outeiros, parava, immovel, retendo os meus +gestos e quasi o meu halito, para se embeber de silencio e de paz: e +duas vezes o surprehendi attento e sorrindo á beira d'um regatinho +palreiro, como se lhe escutasse a confidencia... + +Depois philosophava, sem descontinuar, com o enthusiasmo d'um +convertido, avido de converter: + +--Como a intelligencia aqui se liberta, hein? E como tudo é animado +d'uma vida forte e profunda!... Dizes tu agora, Zé Fernandes, que não ha +aqui pensamento... + +--Eu?! Eu não digo nada, Jacintho... + +--Pois é uma maneira de reflectir muito estreita e muito grosseira... + +--Ora essa! Mas eu... + +--Não, não percebes. A vida não se limita a pensar, meu caro doutor... + +--Que não sou! + +--A vida é essencialmente Vontade e Movimento: e n'aquelle pedaço de +terra, plantado de milho, vae todo um mundo de impulsos, de forças que +se revelam, e que attingem a sua expressão suprema, que é a Fórma. Não, +essa tua philosophia está ainda extremamente grosseira... + +--Irra! mas eu não... + +--E depois, menino, que inesgotavel, que miraculosa diversidade de +fórmas... E todas bellas! + +Agarrava o meu pobre braço, exigia que eu reparasse com reverencia. Na +Natureza nunca eu descobriria um contorno feio ou repetido! Nunca duas +folhas d'hera, que, na verdura ou recorte, se assemelhassem! Na Cidade, +pelo contrario, cada casa repete servilmente a outra casa; todas as +faces reproduzem a mesma indifferença ou a mesma inquietação; as idéas +teem todas o mesmo valor, o mesmo cunho, a mesma fórma, como as libras; +e até o que ha mais pessoal e intimo, a Illusão, é em todos identica, e +todos a respiram, e todos se perdem n'ella como no mesmo nevoeiro... A +_mesmice_--eis o horror das Cidades! + +--Mas aqui! Olha para aquelle castanheiro. Ha tres semanas que cada +manhã o vejo, e sempre me parece outro... A sombra, o sol, o vento, as +nuvens, a chuva, incessantemente lhe compõem uma expressão diversa e +nova, sempre interessante. Nunca a sua frequentação me poderia fartar... + +Eu murmurei: + +--É pena que não converse! + +O meu Principe recuou, com olhares chammejantes, d'Apostolo: + +--Como que não converse? Mas é justamente um conversador sublime! Está +claro, não tem ditos, nem parola theorias, _ore rotundo_. Mas nunca eu +passo junto d'elle que não me suggira um pensamento ou me não desvende +uma verdade... Ainda hoje quando eu voltava de pescar as trutas... +Parei: e logo elle me fez sentir como toda a sua vida de vegetal é +isenta de trabalho, da anciedade, do esforço que a vida humana impõe; +não tem de se preoccupar com o sustento, nem com o vestido, nem com o +abrigo; filho querido de Deus, Deus o nutre, sem que elle se mova ou se +inquiete... E é esta segurança que lhe dá tanta graça e tanta magestade. +Pois não achas? + +Eu sorria, concordava. Tudo isto era de certo rebuscado e especioso. Mas +que importavam as requintadas metaphoras, e essa metaphysica mal madura, +colhida á pressa nos ramos d'um castanheiro? Sob toda aquella ideologia +transparecia uma excellente realidade--a reconciliação do meu Principe +com a Vida. Segura estava a sua Resurreição depois de tantos annos de +cova, da cova molle em que jazera, enfaixado como uma mumia nas faixas +do Pessimismo! + +E o que esse Principe, n'esta tarde me esfalfou! Farejava, com uma +curiosidade insaciavel, todos os recantos da serra! Galgava os cabeços +correndo, como na esperança de descobrir lá do alto os esplendores nunca +contemplados d'um Mundo inedito. E o seu tormento era não conhecer os +nomes das arvores, da mais rasteira planta brotando das fendas d'um +socalco... Constantemente me folheava como a um Diccionario Botanico. + +--Fiz toda a sorte de cursos, passei pelos professores mais illustres da +Europa, tenho trinta mil volumes, e não sei se aquelle senhor além é um +amieiro ou um sobreiro... + +--É um azinheiro, Jacintho. + +Já a tarde cahia quando recolhemos muito lentamente. E toda essa +adoravel paz do céo, realmente celestial, e dos campos, onde cada +folhinha conservava uma quietação contemplativa, na luz docemente +desmaiada, pousando sobre as cousas com um liso e leve affago, penetrava +tão profundamente Jacintho, que eu o senti, no silencio em que +cahiramos, suspirar de puro allivio. + +Depois, muito gravemente: + +--Tu dizes que na natureza não ha pensamento... + +--Outra vez! Olha que massada! Eu... + +--Mas é por estar n'ella supprimido o pensamento que lhe está poupado o +soffrimento! Nós, desgraçados, não podemos supprimir o pensamento, mas +certamente o podemos disciplinar e impedir que elle se estonteie e se +esfalfe, como na fornalha das cidades, ideando gozos que nunca se +realisam, aspirando a certezas que nunca se attingem!... E é o que +aconselham estas collinas e estas arvores á nossa alma, que vela e se +agita:--que viva na paz d'um sonho vago e nada appeteça, nada tema, +contra nada se insurja, e deixe o Mundo rolar, não esperando d'elle +senão um rumor de harmonia, que a emballe e lhe favoreça o dormir dentro +da mão de Deus. Hein, não te parece, Zé Fernandes? + +--Talvez. Mas é necessario então viver n'um mosteiro, com o temperamento +de S. Bruno, ou ter cento e quarenta contos de renda e o desplante de +certos Jacinthos... E tambem me parece que andamos leguas. Estou +derreado. E que fome! + +--Tanto melhor, para as trutas, e para o cabrito assado que nos +espera... + +--Bravo! Quem te cosinha? + +--Uma afilhada do Melchior. Mulher sublime! Has de ver a canja! Has de +ver a cabidella! Ella é horrenda, quasi anã, com os olhos tortos, um +verde e outro preto. Mas que paladar! Que genio! + +Com effeito! Horacio dedicaria uma ode áquelle cabrito assado n'um +espeto de cerejeira. E com as trutas, e o vinho Melchior, e a cabidella, +em que a sublime anã de olhos tortos puzera inspirações que não são da +terra, e aquella doçura da noite de Junho, que pelas janellas abertas +nos envolveu no seu velludo negro, tão molle e tão consolado fiquei, +que, na sala onde nos esperava o café, cahi n'uma cadeira de verga, na +mais larga, e de melhores almofadas, e atirei um berro de pura delicia. + +Depois, com uma recordação, limpando o café do pello dos bigodes: + +--Ó Jacintho, e quando nós andavamos por Paris com o Pessimismo ás +costas, a gemer que tudo era illusão e dôr? + +O meu Principe, que o cabrito tornára ainda mais alegre, trilhava a +grandes passadas o soalho, enrolando o cigarro: + +--Oh! que engenhosa besta, esse Schopenhauer! E maior besta eu, que o +sorvia, e que me desolava com sinceridade! E todavia,--continuava elle, +remexendo a chavena--o Pessimismo é uma theoria bem consoladora para os +que soffrem, porque desindividualisa o soffrimento, alarga-o até o +tornar uma lei universal, a lei propria da Vida; portanto lhe tira o +caracter pungente d'uma injustiça especial, commettida contra o +soffredor por um Destino inimigo e faccioso! Realmente o nosso mal +sobretudo nos amarga quando contemplamos ou imaginamos o bem do nosso +visinho:--porque nos sentimos escolhidos e destacados para a +infelicidade, podendo, como elle, ter nascido para a Fortuna. Quem se +queixaria de ser côxo--se toda a humanidade coxeasse? E quaes não seriam +os urros, e a furiosa revolta do homem envolto na neve e friagem e +borrasca d'um inverno especial, organisado nos ceus para o envolver a +elle unicamente--em quanto em redor, toda a Humanidade se movesse na +luminosa benignidade d'uma Primavera? + +--Com effeito, murmurei eu, esse sujeito teria immensa razão para +urrar... + +--E depois, clamava ainda o meu amigo, o Pessimismo é excellente para os +Inertes, por que lhes attenua o desgracioso delicto da Inercia. Se toda +a meta é um monte de Dor, onde a alma vae esbarrar, para que marchar +para a meta, atravez dos embaraços do mundo? E de resto todos os Lyricos +e Theoricos do Pessimismo, desde Salomão até o maligno Schopenhauer, +lançam o seu cantico ou a sua doutrina para disfarçar a humilhação das +suas miserias, subordinando-as todas a uma vasta lei de Vida, uma lei +Cosmica, e ornando assim com a aureola de uma origem quasi divina as +suas miudas desgraçazinhas de temperamento ou de Sorte. O bom +Schopenhauer formúla todo o seu schopenhauerismo, quando é um philosopho +sem editor, e um professor sem discipulos; e soffre horrendamente de +terrores e manias; e esconde o seu dinheiro debaixo do sobrado; e redige +as suas contas em grego nos perpetuos lamentos da desconfiança; e vive +nas adegas com o medo de incendios; e viaja com um copo de lata na +algibeira para não beber em vidro que beiços de leproso tivessem +contaminado!... Então Schopenhauer é sombriamente Schopenhauerista. Mas +apenas penetra na celebridade, e os seus miseraveis nervos se acalmam, e +o cerca uma paz amavel, não ha então, em todo Francfort, burguez mais +optimista, de face mais jocunda, e gozando mais regradamente os bens da +intelligencia e da Vida!... E o outro, o Israelita, o muito pedantesco +rei de Jerusalem! quando descobre esse sublime Rhetorico que o mundo é +Illusão e Vaidade? Aos setenta e cinco annos, quando o Poder lhe escapa +das mãos tremulas, e o seu serralho de trezentas concubinas se lhe torna +ridiculamente superfluo. Então rompem os pomposos queixumes! Tudo é +vaidade e afflicção de espirito! nada existe estavel sob o sol! Com +effeito, meu bom Salomão, tudo passa--principalmente o poder de usar +trezentas concubinas! Mas que se restitua a esse velho sultão asiatico, +besuntado de Litteratura, a sua virilidade,--e onde se sumirá o lamento +do Ecclesiastes? Então voltará, em segunda e triumphal edição, o extase +do _Livro dos Cantares_!... + +Assim discursava o meu amigo no nocturno silencio de Tormes. Creio que +ainda estabeleceu sobre o Pessimismo outras coisas joviaes, profundas ou +elegantes;--mas eu adormecera, beatificamente envolto em Optimismo e +doçura. + +Em breve porém, me fez pular, escancarar as palpebras molles, uma rija, +larga, sadia e genuina risada. Era Jacintho, estirado n'uma cadeira, que +lia o D. Quixote... Oh bem aventurado Principe! Conservára elle o agudo +poder de arrancar theorias a uma espiga de milho ainda verde, e por uma +clemencia de Deus, que fizera reflorir o tronco secco, recuperára o dom +divino de rir, com as facecias de Sancho! + +Aproveitando a minha companhia, as duas semanas de bucolica occiosidade +que eu lhe concedera, o meu Jacintho preparou então a ceremonia tão +falada, tão meditada, a trasladação dos ossos dos velhos Jacinthos--dos +«respeitaveis ossos» como murmurava, cumprimentando, o bom Silverio, o +procurador, n'essa manhã de sexta feira, em que almoçava comnosco, +mettido n'um espantoso jaquetão de velludilho amarello debruado de seda +azul! A ceremonia, de resto, reclamava muita singeleza por serem tão +incertos, quasi impessoaes, aquelles restos, que nós estabeleceriamos na +Capellinha do valle da Carriça, na Capellinha toda nova, toda nua e toda +fria, ainda sem alma e sem calor de Deus. + +--Por que emfim v. ex.^a comprehende,--explicava o Silverio passando o +guardanapo por sobre a larga face suada e por sobre as immensas barbas +negras, como as d'um turco--, n'aquella mixordia... Oh! peço desculpa a +v. ex.^a! N'aquella confusão, quando tudo desabou, não pudémos mais +conhecer a quem pertenciam os ossos. Nem sequer, fallando verdade, nós +sabiamos bem que dignos avós de v. ex.^a jaziam na capella velha, assim +tão antigos, com os letreiros apagados, senhores de todo o nosso +respeito, certamente, mas, se v. ex.^a me permitte, senhores já muito +desfeitos... Depois veio o desastre, a mixordia. E aqui está o que +decidi, depois de pensar. Mandei arranjar tantos caixões de chumbo, +quantas as caveiras que se apanharam lá em baixo na Carriça, entre o +lixo e o pedregulho. Havia sete caveiras e meia. Quero dizer, sete +caveiras e uma caveirinha pequenina. Mettemos cada caveira em seu +caixão. Depois... Que quer v. ex.^a? Não havia outro meio! E aqui o Snr. +Fernandes dirá se não acha que procedemos com habilidade. A cada caveira +juntamos uma certa porção d'ossos, uma porção rasoavel... Não havia +outro meio... Nem todos os ossos se acharam. Canellas, por exemplo, +faltavam! E é bem possivel que as costellas d'um d'aquelles senhores +ficasse com a cabeça d'outro... Mas quem podia saber? Só Deus. Emfim +fizemos o que a prudência mandava... Depois, no dia de Juizo, cada um +d'estes fidalgos apresentará os ossos que lhe pertencerem. + +Lançava estas cousas macabras e tremendas, penetrado de respeito, quasi +com magestade, espetando, ora em mim, ora no meu Principe, os olhinhos +agudos e relusentes como vidrilhos. + +Eu approvei o pittoresco homem: + +--Perfeitamente! Andou perfeitamente, amigo Silverio. São tão vagos, tão +anonymos, todos esses avós! Só faz pena, grande pena, que se +tresmalhassem os restos do avô Galião. + +--Não estava cá! accudiu Jacintho. Vim a Tormes expressamente por causa +do avô Galião, e por fim o seu jazigo nunca foi aqui, na Capellinha da +Carriça... Felizmente! + +O Silverio saccudia gravemente a calva trigueira: + +--Nunca tivemos o ex.^{mo} sr. Galião. Ha cem annos, Snr. Fernandes, ha +cem annos que se não depositava na capella velha corpo de cavalheiro cá +da casa. + +--Onde estará então?... + +O meu Principe encolheu os hombros. Por esse Reino... Na egrejinha, no +cemiterio d'alguma das freguezias numerosas, onde elle possuia terras. +Casa tão espalhada! + +--Bem! conclui. Então, como se trata d'ossadas vagas, sem nome, sem +data, convem uma ceremoniasinha muito simples, muito sobria. + +--Quietinha, quietinha! murmurou o Silverio, dando um forte sorvo +assobiado ao café. + +E foi quietinha, d'uma rustica e doce singeleza, a ceremonia d'aquelles +altos senhores. Cedo, por uma manhã, levemente enevoada, os oito caixões +pequeninos, cobertos d'um velludo vermelho mais de festa que de funeral, +com molhos de rosas espalhados, contendo cada um o seu montesinho +d'ossos incertos, sahiram aos hombros dos coveiros de Tormes e dos moços +da quinta, da Egreja de S. José, cujo sino leve tangia, na enevoada +doçura da manhã,--quanto fina e levemente!--como pia um passarinho +triste. Adiante, um airoso moço de sobrepelis, erguia com zelo a velha +cruz prateada; abrigando o pescoço sob um immenso lenço de rapé, de +quadrados azues, o velho e corcovado sacristão segurava pensativamente a +caldeirinha d'agoa benta; e o bom abbade de S. José, com os dedos entre +o breviario fechado, movia os labios, n'uma lenta, murmurosa resa, que +ia, pelo doce ar, espalhando mais doçura. Logo atraz do ultimo cofre, o +mais pequenino, o da caveirinha pequena, Jacintho caminhava; e eu, a +estalar dentro d'um fato preto de Jacintho, tirado á pressa d'uma das +malas de Paris quando, de manhã, já tarde para mandar a Guiães, me +lembrei que toda a minha roupa era de cores festivaes e pastoris. + +Depois marchava o Silverio, solemnissimo, com um immenso peitilho, onde +as barbas immensas se alastravam, negrissimas. De casaca, com o grosso +beiço descahido, descahido todo elle por aquella melancolia de enterro +que se juntava á melancolia da serra, o Grillo enfiava no braço a sua +coroa, enorme, de rosas e d'heras. Por fim seguia o Melchior, entre um +rancho de mulheres, que, sumidas na sombra dos lenços pretos, desfiando +longos rosarios, rosnavam surdas avè-marias, atravez d'espaçados +suspiros, tão doridos como se inconsoladamente lhes doesse a perda +d'aquelles Jacinthos. Assim, pelas varzeas entrecorridas de regueiros, +lenta nos recostos dos mattos, escorregando mais rapida, pelos corregos +pedregosos, seguia a procissão, sempre com a cruz adiante, alta e +prateada, rebrilhando por vezes n'um breve raiosinho de sol que, +vagarosamente, surdia da nevoa desfeita. Ramos baixos de lodão ou de +salgueiro passavam uma derradeira caricia sobre o velludo dos caixões. + +Um regato por vezes nos acompanhava, com discreto fulgir entre as +relvas, sussurrando e como resando tambem, alegremente: e nos +quintalinhos umbrosos, á nossa passagem, os gallos, de cima das pilhas +de matto, faziam soar o seu clarim festivo. Depois, adiante da fonte da +Lira, como o caminho se alongava, e desejassemos poupar o nosso velho +abbade, cortamos atravez d'uma seara, já alta, quasi madura, toda +entremeada de papoulas, O sol radiou: sob a brisa larga, que levára a +nevoa, toda a messe ondulou n'uma lenta vaga dourada, em que se +balouçavam os esquifes; e, como enorme papoula, a mais vermelha, +rutilava o guarda sol de panninho logo aberto pelo sacristão para +abrigar o abbade. + +Jacintho tocou no meu cotovello: + +--Que lindos vamos! Ora vê tu a Natureza... N'um simples enterrar +d'ossos, quanta graça e quanta belleza! + +Na Capellinha, nova, dominando o valle da Carriça, solitaria e muito +nua, no meio d'um adro, ainda mal alisado, sem uma verdura de relva, uma +frescura d'arbusto, dous moços seguravam á porta molhos de tochas, que o +Silverio distribuiu, a passos graves, com cortezias, solemnissimo. +Dentro as curtas chammas, mal luziam, mal derramavam a sua amarellidão +triste, esbatidas na relusente brancura dos muros estucados, na jovial +claridade que cahia das altas vidraças bem polidas. Em torno dos +esquifes, pousados sobre bancos, que pesados velludilhos recobriam, o +abbade murmurava um suave latim, emquanto ao fundo as mulheres, sumidas +na sombra dos seus negros lenços, gemiam _amens_ agudos, abafavam um +respeitoso soluço. Depois, tomando levemente o hyssope, ainda o bom +abbade aspergiu, para uma derradeira purificação, os incertos ossos dos +incertos Jacinthos. E todos desfilamos por diante do meu Principe, +timidamente encostado á umbreira, com o Silverio ao lado esmagando +contra o peitilho as barbas immensas, a face descahida, cerradas as +palpebras como contendo lagrimas. + +No adro, o meu Principe accendeu regaladamente um cigarro pedido ao +Melchior: + +--E então, Zé Fernandes, que te pareceu a ceremoniasinha? + +--Muito campestre, muito suave, muito risonha... Uma delicia. + +Mas o Abbade, que se desvestira na Sachristia, appareceu, já com o seu +grande casaco de lustrina, e seu velho chapeu desabado, trazidos pelo +moço da Residencia, n'um sacco de chita. Jacintho, immediatamente lhe +agradeceu tantos cuidados, a affavel hospitalidade que offerecera aos +ossos, durante a construcção da Capellinha nova. E o suave velho, todo +branquinho, de faces ainda menineiras e coradas, com um claro sorriso de +dentes sadios, louvava Jacintho, que assim viera de tão longe, em tão +longa jornada, para cumprir aquelle dever de bom neto. + +--São avós muito remotos, e agora tão confusos! murmurava Jacintho +sorrindo. + +--Pois mais merito ainda o de v. ex.^a. Respeitar um avô morto, bem é +corrente... Mas respeitar os ossos d'um quinto avô, d'um setimo avô! + +--Sobretudo, Snr. Abbade, quando d'elles nada se sabe, e naturalmente +nada fizeram. + +O velho sacudiu risonhamente o dedo gordo: + +--Ora quem sabe, quem sabe! Talvez fossem excellentes! E por fim, quem +muito se demora no mundo, como eu, termina por se convencer que no mundo +não ha cousa ou ser inutil. Ainda hontem eu lia n'um jornal do Porto, +que por fim, segundo se descobriu, são as minhocas que estrumam e lavram +a terra, antes de chegar o lavrador e os bois com o arado. Até as +minhocas são uteis. Não ha nada inutil... Eu tinha lá na residencia uma +porção de cardos a um canto da horta, que me affligiam. Pois reflecti e +terminei por me regalar com elles em xarope. Os avós de v. ex.^a por cá +andaram, por cá trabalharam, por cá padeceram. Quer dizer: por cá +serviram. E, em todo o caso, que lhes rezemos um Padre-Nosso por alma +não lhes póde fazer senão bem, a elles e a nós. + +E assim, docemente philosophando, paramos n'um souto de carvalheiras, +onde esperava a velhissima egoa do Abbade, por que o santo homem agora, +depois do rheumatismo do ultimo inverno, já não affrontava rijamente +como antes os trilhos duros da serra. Para elle montar, filialmente +Jacintho segurou o estribo. E emquanto a egoa se empurrava pelo corrego +acima, quasi tapada sob o immenso guarda sol vermelho em que se abrigava +o velho, nós recolhemos a casa mettendo pela serra da Lombinha, atravez +dos milhos, e depressa, porque eu estalava, aperreado, dentro da roupa +preta do meu Principe. + +--Estão pois accommodados estes senhores, Zé Fernandes! Só resta rezar +por elles o Padre-Nosso, que recommenda o abbade... Sómente, eu não sei, +já não me lembro do Padre-Nosso. + +--Não te afflijas, Jacintho: peço á tia Vicencia que reze por mim e por +ti. É sempre a tia Vicencia que reza os meus Padre-Nossos. + +Durante essas semanas que preguicei em Tormes, eu assisti, com +internecido interesse, a uma consideravel evolução de Jacintho nas suas +relações com a Natureza. D'aquelle periodo sentimental de contemplação, +em que colhia theorias nos ramos de qualquer cerejeira, e edificava +Systemas sobre o espumar das levadas, o meu Principe lentamente passava +para o desejo da Acção... E d'uma acção directa e material, em que a sua +mão, emfim restituida a uma funcção superior, revolvesse o torrão. + +Depois de tanto _commentar_, o meu Principe, evidentemente, aspirava a +_crear_. + +Uma tardinha, ao anoitecer, sentados no pomar, no rebordo do tanque, em +quanto o Manoel hortelão apanhava laranjas no alto d'uma escada arrimada +a uma alta laranjeira, Jacintho observou, mais para si do que para mim: + +--É curioso... Nunca plantei uma arvore! + +--Pois é um dos tres grandes actos, sem os quaes segundo diz não sei que +Philosopho, nunca se foi um verdadeiro homem... Fazer um filho, plantar +uma arvore, escrever um livro. Tens de te apressar, para ser um homem. É +possivel que talvez nunca prestasses um serviço a uma arvore, como se +presta a um semelhante! + +--Sim... Em Paris, quando era pequeno, regava os lilazes. E no verão é +um bello serviço! Mas nunca semeei. + +E como o Manoel descia da escada, o meu Principe, que nunca acreditára +inteiramente--pobre homem!--no meu saber agricola, immediatamente +reclamou o parecer d'aquella auctoridade: + +--Oh Manoel, ouça lá, o que é que se poderia agora semear? + +Como cesto das laranjas enfiado no braço, o Manoel exclamou, atravez +d'um lento riso, entre respeitoso e divertido: + +--Semear, patrão? Agora é antes colher... Olhe que já se anda a limpar a +eirasinha para a debulha, meu patrão. + +--Pois sim... Mas sem ser milho nem cevada... Então alli no pomar, rente +do muro velho, não se podia plantar uma fila de pecegueiros? + +O riso do Manoel crescia. + +--Isso sim, meu senhor! Isso é lá para os Santos ou para o Natal. Agora +só a couvinha na horta, a beldroega, os espinafres, algum feijãosinho em +terra muito fresca... + +O meu Principe sacudiu com brando gesto estes legumes rasteiros. + +--Bem, boa noite, Manoel. Essas laranjas são da tal laranjeira que diz o +Melchior, muito doces, muito finas? Então leve para os seus pequenos. +Leve muitas para os pequenos. + +Não! o empenho era crear a arvore. Pela arvore contemplada na serra em +sua verdadeira magestade, na beneficencia da sua sombra, na frescura +emballadora do seu rumorejar, na graça e santidade dos ninhos que a +povoam, começára talvez, lentamente, o seu amor novo da Terra. E agora +sonhava uma Tormes toda coberta d'arvores, cujos fructos e verduras, e +sombras, e rumorejos suaves, e abrigados ninhos, fossem a obra e o +cuidado das suas mãos paternaes. + +No silencio grave do crepusculo, que descia, murmurou ainda: + +--Oh Zé Fernandes; quaes são as arvores que crescem mais depressa? + +--Eh, meu Jacintho... A arvore que cresce mais depressa é o eucalypto, o +feiissimo e ridiculo eucalypto. Em seis annos tens ahi Tormes coberta de +eucalyptos... + +--Tudo tão lento, Zé Fernandes... + +Porque o seu sonho, que eu comprehendia, seria plantar caroços que +subissem em fortes troncos, se alargassem em verdes ramarias, antes de +elle voltar ao 202, no começo do inverno... + +--Um carvalho!... Trinta annos, antes que seja bello! Desanímo! É bom +para Deus, que pode esperar... _Patiens quia aeternus_. Trinta annos! +D'aqui a trinta annos, arvores só para me cobrirem a sepultura! + +--Já é um ganho. E depois para teus filhos, Jacintho... + +--Filhos! onde os tenho eu? + +--É o mesmo processo dos castanheiros. Semeia. Não faltam por ahi terras +agradaveis... Em nove mezes tens uma planta feita. E quanto mais +tenrinhas, e mais pequeninas, mais essas plantas encantam. + +Elle murmurou, crusando as mãos sobre o joelho: + +--Tudo leva tanto tempo!... + +E á borda do tanque nos quedamos, calados, na fresca doçura do +anoitecer, entre o cheiro avivado das madresilvas do muro, olhando o +crescente da lua, que surdia dos telhados de Tormes. + +E decerto esta pressa de se tornar entre a Natureza não mais um +sonhador, mas um creador, arremessou vivamente o seu interesse para os +gados! Repetidamente, nos nossos passeios atravez da quinta, elle lhe +notava a solidão. + +--Faltam aqui animaes, Zé Fernandes! + +Imaginava eu, que elle appetecia em Tormes o ornato elegante de veados e +pavões. Mas um domingo, costeando o largo campo da Ribeirinha, sempre +escasso d'agoas, agora mais resequido por verão de tanta seccura, o meu +Principe parou a considerar os tres carneiros do caseiro, que retouçavam +com penuria uma relvagem pobre. + +E, de repente, como magoado: + +--Justamente! Aqui está o espaço para um bello prado, um immenso prado, +muito verde, muito farto, com rebanhos de carneiros brancos, gordissimos +como bolas de algodão pousadas na relva!... Era lindo, hein? É facil, +não é verdade, Zé Fernandes? + +--Sim... Trazes a agoa para o prado. Agoas não faltam, na serra. + +E o meu principe encadeando logo n'esta inspirada idea outra, mais rica +e vasta, lembrou quanta belleza daria a Tormes encher esses prados, +esses verdes ferregiaes, de manadas de vaccas, formosas vaccas inglezas, +bem nedias e bem luzidias. Hein? Uma belleza. Para abrigar esses gados +ricos, construiria curraes perfeitos, d'uma architectura leve e util, +toda em ferro e vidro, fundamente varridos pelo ar, largamente lavados +pela agoa... Hein? Que formosura! Depois, com todas essas vaccas, e o +leite jorrando, nada mais facil e mais divertido, e até mais moral, que +a installação d'uma queijeira, á fresca moda Hollandeza, toda branca e +reluzente, de azulejos e de marmore, para fabricar os Camemberts, os +Bries... os Coulommiers... Para a casa, que conforto! E para toda a +serra, que actividade! + +--Pois não te parece, Zé Fernandes? + +--Com certeza. Tu tens, em abundancia, os quatro Elementos: o ar, a +agoa, a terra, e o dinheiro. Com estes quatro elementos, facilmente se +faz uma grande lavoura. Quanto mais uma queijeira! + +--Pois não é verdade? E até como negocio! Está claro, para mim o lucro é +o deleite moral do trabalho, o emprego fecundo do dia... Mas uma +queijaria, assim perfeita, rende. Rende prodigiosamente. E educa o +paladar, incita a installações eguaes, implanta talvez no paiz uma +industria nova e rica! Ora com essa installação, perfeita, quanto me +poderá custar cada queijo? + +Fechei um olho, calculando: + +--Eu te digo.... Cada queijo, um d'esses queijinhos redondos, como o +Camembert ou o Rabaçal, póde vir a custar-te, a ti Jacintho queijeiro, +entre duzentos e cincoenta e trezentos mil réis. + +O meu Principe recuou, com dous olhos alegres espantados para mim. + +--Como trezentos mil réis? + +--Ponhamos duzentos... Tem a certeza! Com todos esses prados, e os +encanamentos d'agoa e a configuração da serra alterada, e as vaccas +inglezas, e os edificios de porcellana e vidro, e as maquinas, a +extravagancia, e a patuscada bucolica, cada queijo te custa, a ti +productor, duzentos mil réis. Mas com certeza o vendes no Porto por um +tostão. Põe cincoenta réis para a caixa, rotulos, transporte, commissão, +etc. Tens apenas, em cada queijo uma perda de cento e noventa e nove mil +oitocentos e cincoenta réis! + +O meu Principe não desanimou. + +--Perfeitamente! Faço um d'esses espantosos queijos por semana, ao +sabbado, para o comermos nós ambos ao domingo! + +E tanta energia lhe communicava o seu novo Optimismo, tão anciosamente +aspirava a crear, que logo, arrastando o Silverio e o Melchior por +cabeços e barrancos, largou a percorrer a quinta toda, para determinar +onde cresceriam, ao seu mando inspirado, os verdes prados, e se +ergueriam, rebrilhantes no sol de Tormes, os curraes elegantes. Com a +esplendida segurança dos seus cento e nove contos de renda, não surgia +difficuldade, risonhamente murmurada pelo Melchior, ou exclamada, com +respeitoso pasmo, pelo Silverio, que elle não afastasse brandamente, com +geito leve, como um galho de roseira brava atravessado n'uma vereda. + +Aquellas rochas, além, empecendo? Que se arrancassem! Um valle importuno +dividia dous campos? Que se atulhasse! O Silverio suspirava, enxugando +sobre a escura calva um suor quasi d'angustia. Pobre Silverio! Rijamente +sacudido na doce pachorra da sua administração, calculando despezas que +se affiguravam sobrehumanas á sua parcimonia serrana, forçado a +arquejar, sem descanço, sob soalheiras de Junho, o desgraçado retomára +na Serra o geito que Jacintho deixára em Paris,--e era elle que corria +pelas longas barbas tenebrosas os dedos desalentados... Emfim uma tarde +desabafou comigo, a um canto da varanda, em quanto Jacintho, na +livraria, escrevia a um seu amigo de Hollanda, o conde Rylant, Mordomo +Mór da Corte, pedindo desenhos, e planos, e orçamentos d'uma queijeira +perfeita. + +--Pois, Snr. Fernandes, se toda esta grandeza vae por diante, sempre lhe +digo que o Snr. D. Jacintho enterra aqui na serra dezenas de contos... +Dezenas de contos! + +E como eu alludia á fortuna do meu Principe, a quem todas essas obras +tão vastas, que alterariam o antiquissimo rosto da serra, não custavam +mais que a outros o concerto d'um socalco,--o bom Silverio atirou os +longos braços para as coxas gordas, ainda mais desolado: + +--Pois por isso mesmo, Snr. Fernandes! Se o Snr. D. Jacintho não tivesse +a dinheirama, recuava. Assim, é zás zás, para deante; e eu não o censuro +pela ideia. Lograsse eu a renda de S. Ex.^a, que me atirava tambem a uma +lavoura de capricho. Mas não aqui, Snr. Fernandes, n'estas serranias, +entre alcantis. Pois um senhor que possue aquella linda propriedade de +Montemór, nos campos do Mondego, onde até podia plantar jardins de +desbancar os do Palacio de Crystal do Porto! E a Velleira? O Snr. +Fernandes não conhece a Velleira, lá para os lados de Penafiel? Isso é +um condado! E uma terra chã, boa terra, toda junta, alli em volta da +casa, com uma torre. Um regalo, Snr. Fernandes. Mas sobretudo Montemór! +Lá é que eram prados e manadas de vaccas inglezas, e queijeira e horta +rica, de fartar, e ahi trinta perús na capoeira... + +--Então que quer, Silverio? O Jacintho gosta da serra. E depois este é o +solar da familia, e aqui começaram no seculo XIV os Jacinthos... + +O pobre Silverio, no seu desespero, esquecia o respeito devido á secular +nobreza da casa. + +--Ora! até ficam mal ao Snr. Fernandes essas ideias, n'este seculo da +liberdade... Pois estamos lá em tempos de se fallar em fidalguias, agora +que por toda a parte anda tudo em Republica? Leia o _Seculo_, Snr. +Fernandes! leia o _Seculo_, e verá! E depois eu sempre quero vêr o Snr. +D. Jacintho, aqui no inverno, com o nevoeiro a subir do rio logo pela +manhã, e a friagem a trespassar os ossos, e ventanias que atiram +carvalheiras de raizes ao ar, e chuvas e chuvas que se desfaz a +serra!... Olhe, até mesmo por amor da saude o Snr. D. Jacintho, que é +fraquinho e acostumado á cidade, necessita sahir da serra. Em Montemór, +em Montemór é que s. ex.^a estava bem. E o Snr. Fernandes, tão amigo +d'elle e assim com tanta influencia, devia teimar, e berrar, até que o +levasse para Montemór. + +Mas, infelizmente para a quietação do Silverio, Jacintho lançára raizes, +e rijas, e amorosas raizes na sua rude serra. Era realmente como se o +tivessem plantado d'estaca n'aquelle antiquissimo chão, d'onde brotára a +sua raça, e o antiquissimo humus refluisse e o penetrasse todo, e o +andasse transformando n'um Jacintho rural, quasi vegetal, tão do chão, e +preso ao chão, como as arvores que elle tanto amava. + +E depois o que o prendia á serra era o ter n'ella encontrado o que na +Cidade, apesar da sua sociabilidade, não encontrára nunca,--dias tão +cheios, tão deliciosamente occupados, d'um tão saboroso interesse, que +sempre penetrava n'elles, como n'uma festa ou n'uma gloria. + +Logo de manhã, ás seis horas, eu, no meu quarto, mexendo ainda +regaladamente o meu corpo nos colchões de fresco folhelho, sentia os +seus rijos sapatões pelo corredor, e o seu cantarolar, desafinado, mas +ditoso como o d'um melro. Em poucos instantes escancarava com fragor a +minha porta, já de chapeu desabado, já de bengalão de cerejeira, +disposto com reservado fervor para os trilhos conhecidos da serra. E era +sempre a mesma nova, quasi orgulhosa: + +--Dormi hoje deliciosamente, Zé Fernandes. Tão bem, com uma tal +serenidade, que começo a acreditar que sou um justo! Um dia lindo! +Quando abri a janella, ás cinco horas, quasi gritei de puro gosto! + +Na sua pressa, nem me deixava demorar na frescura da banheira; e quando +eu repetia a risca mal começada do cabello, aquelle antigo homem das +trinta e nove escovas, protestava contra esse desbarato effeminado d'um +tempo devido aos fortes gozos da terra. + +Mas quando, depois de acariciar os rafeiros no pateo, desembocavamos da +alameda de platanos, e deante de nós se dividiam matutinamente, mais +brancos entre o verde matutino, os caminhos colleantes da quinta, toda a +sua pressa findava, e penetrava na Natureza, com a reverente lentidão de +quem penetra n'um Templo. E repetidamente sustentava ser «contrario á +Esthetica, á Philosophia e á Religião, andar depressa através dos +campos.» De resto, com aquella subtil sensibilidade bucolica que n'elle +se desenvolvera, e incessantemente se afinava, qualquer breve belleza, +do ar ou da terra, lhe bastava para um longo encanto. Ditosamente +poderia elle entreter toda uma manhã, caminhar por entre um pinheiral, +de tronco a tronco, callado, embebido no silencio, na frescura, no +resinoso aroma, empurrando com o pé as agulhas e as pinhas seccas. +Qualquer agua corrente o retinha, enternecido n'aquella serviçal +actividade, que se apressa, cantando, para o torrão que tem sêde, e +n'elle se some, e se perde. E recordo ainda quando me reteve meio +domingo, depois da Missa, no cabeço, junto a um velho curral +desmantellado, sob uma grande arvore,--só por que em torno havia +quietação, doce aragem, um fino piar d'ave na ramaria, um murmurio de +regato entre canas verdes, e por sobre a sébe, ao lado, um perfume, +muito fino e muito fresco, de flores escondidas. + +Depois, quando eu, velho familiar das serras, me não abandonava aos +mesmos extasis que a elle lhe enchiam a alma ainda noviça--o meu +Principe rugia, com a indignação d'um poeta que descobre um mercieiro +bocejando sobre Shakspeare ou Musset. Eu ria. + +--Meu filho, olha que eu não passo d'um pequeno proprietario. Para mim +não se trata de saber se a terra é _linda_, mas se a terra é _boa_. Olha +o que diz a Biblia! «Trabalharás a quinta com o suor do teu rosto!» E +não diz «contemplarás a quinta com o enlevo da tua imaginação!» + +--Podéra! exclamava o meu Principe. Um livro escripto por Judeos, por +asperos semitas, sempre com o turvo olho posto no lucro! Repára, homem, +para aquelle bocadinho de valle, e consegue não pensar, por um momento, +nos trinta mil reis que elle rende! Verás que pela sua belleza e graça +elle te dá mais contentamento á alma que os trinta mil reis ao corpo. E +na vida só a alma importa. + +Recolhendo ao casarão, já o encontravamos com as janellas meio cerradas, +os soalhos borrifados para aquellas quentes restias de sol de junho, que +depois do almoço docemente nos retinham na livraria, preguiçando. + +Mas realmente a alegre actividade do meu Principe não cessava, nem +amollecia, sob o peso da sésta. A essa hora, em quanto pelo arvoredo +mudo os mais agitados pardaes dormiam, e o sol mesmo parecia repousar, +immovel na rutilancia da sua luz, Jacintho com o espirito +acordado,--ávido de sempre gosar, agora que reconquistára essa +faculdade,--tomava com delicia o _seu livro_. Por que o dono de trinta +mil volumes era agora, na sua casa de Tormes, depois de resuscitado, o +homem que só tem um livro. Essa mesma Natureza, que o desligára das +ligaduras amortalhadoras do tedio, e lhe gritára o seu bello _Ambula_, +caminha!--tambem certamente lhe gritára _et lege_, e lê. E libertado +emfim do envolucro suffocante da sua Bibliotheca immensa, o meu ditoso +amigo comprehendia emfim a incomparavel delicia de _lêr um livro_. +Quando eu correra a Tormes, (depois das revelações do Severo na venda do +Torto,) elle findava o D. Quichote, e ainda eu lhe escutára as +derradeiras risadas com as cousas deliciosas, e de certo profundas, que +o gordo Sancho lhe murmurava, escarranchado no seu burro. Mas agora o +meu Principe mergulhára na _Odyssea_,--e todo elle vivia no espanto e no +deslumbramento de assim ter encontrado no meio do caminho da sua vida, o +velho errante, o velho Homero! + +--Oh Zé Fernandes, como succedeu que eu chegasse a esta edade sem ter +lido Homero?... + +--Outras leituras, mais urgentes... O _Figaro_, George Ohnet... + +--Tu leste a _Illiada_? + +--Menino, sinceramente me gabo de nunca ter lido a _Illiada_. + +Os olhos do meu Principe fuzilavam. + +--Tu sabes o que fez Alcibiades, uma tarde, no Portico, a um sophista, +um desavergonhado d'um sophista, que se gabava de não ter lido a +_Illiada_? + +--Não. + +--Ergueu a mão e atirou-lhe uma bofetada tremenda. + +--Para lá, Alcibiades! Olha que eu li a _Odyssea_! + +Oh! mas de certo eu a lêra, corridamente, com a alma desattenta! E +insistia em me iniciar, elle, e me conduzir, através do Livro sem egual. +Eu ria. E rindo, pesado do almoço, terminava por consentir, e me +estirava no canapé de verga. Elle, deante da mesa, direito na cadeira, +abria o livro gravemente, pontificalmente, como um missal, e começava +n'uma lenta ode sentida. Aquelle grande mar da _Odyssea_,--resplandecente e +sonoro, sempre azul, todo azul, sob o vôo branco das +gaivotas, rolando, e mansamente quebrando sobre a areia fina ou contra +as rochas de marmore das Ilhas divinas,--exhalava logo uma frescura +salina, bem vinda e consoladora n'aquella calma de Junho, em que a serra +se entorpecia. Depois as estupendas manhas do subtil Ulysses e os seus +perigos sobrehumanos, tantas lamurias sublimes, e um anceio tão +espalhado da Patria perdida, e toda aquella intriga, em que embrulhava +os Heroes, lograva as Deusas, illudia o Fado, tinham um delicioso sabôr +ali, nos campos de Tormes, onde nunca se necessitava de subtileza ou de +engenho, e a Vida se desenrolava com a segurança immutavel com que cada +manhã sempre o Sol egual nascia, e sempre centeios e milhos, regados por +agoas eguaes, seguramente medravam, espigavam, amadureciam... Emballado +pela recitação grave e monotona do meu Principe, eu cerrava as palpebras +docemente. Em breve um vasto tumulto, por terra e ceu, me alvoroçava... +E eram os rugidos de Polyphemo, ou a grita dos companheiros d'Ulysses +roubando as vaccas de Apollo. Com os olhos logo esbugalhados para +Jacintho, eu murmurava: _Sublime!_ E sempre, n'esse momento o engenhoso +Ulysses, de carapuço vermelho e o longo remo ao hombro, surprehendia com +a sua facundia a clemencia dos Principes, ou reclamava presentes devidos +ao Hospede, ou surripiava astutamente algum favor aos Deuses. E Tormes +dormia, no esplendor de Junho. Novamente, eu cerrava as palpebras +consoladas, sob a caricia ineffavel do largo dizer homerico... E meio +adormecido, encantado, incessantemente avistava, longe, na divina +Hellade, entre o mar muito azul e o ceu muito azul, a branca vela, +hesitante, procurando Ithaca... + +Depois da sésta o meu Principe de novo se soltava para os campos. E a +essa hora, sempre mais activa, voltava com ardor aos «seus planos», a +essas culturas de luxo e elegantes officinas que cobririam a serra de +magnificencias ruraes. Agora andava todo no esplendido appetite d'uma +horta que elle concebera, immensa horta ajardinada, em que todos os +legumes, classicos ou exoticos, cresceriam, soberbamente, em vistosos +talhões, fechados por sebes de rosas, de cravos, de alfazêma, de +dhalias. A agoa das regas desceria por lindos corrêgos de louça +esmaltada. Nas ruas, a sombra cahiria de densas latadas de moscatel, +pousando em esteios revestidos d'azulejo. E o meu Principe desenhára o +plano d'esta espantosa horta, a lapiz vermelho, n'um papel immenso, que +o Melchior e o Silverio, consultados, longamente contemplaram,--um +coçando risonhamente a nuca, o outro com os braços duramente crusados, e +o sobrôlho tragico. + +Mas este plano, o da queijaria, o da capoeira, e outro, sumptuoso, d'um +pombal tão povoado que todo o ceu de Tormes ás tardes se tornaria branco +e todo fremente d'azas--não sahiam das nossas gostosas palestras, ou dos +papeis em que Jacintho os debuxava, e que se amontoavam sobre a meza, +platonicos, immoveis, entre o tinteiro de latão e o vaso com flôres. + +Nem enxadada fendera terra, nem alavanca deslocára pedra, nem serra +serrára madeira, para encetar estas maravilhas. Contra a resistencia +rebolada e escorregadia do Melchior, contra a respeitosa inercia do +Silverio se quedavam, encalhados, os planos do meu Principe, como +galeras vistosas em rochas ou em lôdo. + +Não convinha bolir em nada, (clamava o Silverio) antes das colheitas e +da vindima! E depois, (acrescentava o Melchior com um sorriso de grande +promessa) «para boas obras mez de Janeiro» porque lá ensina o dictado: + +Em Janeiro--mette obreiro +Mez meante--que não ante. + +E, de resto, o goso de conceber as suas obras e de indicar, estendendo a +bengala por cima de valle e monte, os sitios privilegiados que ellas +aformoseariam, bastava por ora ao meu Principe, ainda mais imaginativo +que operante. E, em quanto meditava estas transformações da terra, muito +progressivamente e com um amavel esforço, se ia familiarisando com os +homens simples que a trabalhavam. Na sua chegada a Tormes, o meu +Principe soffria d'uma estranha timidez diante dos caseiros, dos +jornaleiros, e até de qualquer rapazinho que passasse, tangendo uma +vacca para o pasto. Nunca elle então se demoraria a conversar com os +moços, quando á borda d'um caminho ou n'um campo em monda elles se +endireitavam de chapeu na mão, n'um respeito de velha vassalagem. De +certo o empecia a preguiça, e talvez ainda o pudico recato de transpor +toda a immensa distancia que se alargava desde a sua complicada +super-civilisação até á rude simplicidade d'aquellas almas +naturaes:--mas sobretudo o retinha o medo de mostrar a sua ignorancia da +lavoura e da terra, ou de parecer talvez desdenhoso de occupações e de +interesses, que para os outros eram supremos e quasi religiosos. Remia +então esta reserva com uma profusão de sorrisos, de doces acenos, +tirando tambem o chapeu em cortezias profundas, com uma tal emphase de +polidez que eu por vezes receava que elle murmurasse aos jornaleiros: +«Tenha v. ex.^a muito boas tardes;... Creado de v. ex.^a!» + +Mas agora, depois d'aquellas semanas de serra, e de já saber (com um +saber ainda fragil,) a epocha das sementeiras e das ceifas, e que as +arvores de fructa se semeiam no inverno, já se aprazia em parar junto +dos trabalhadores, contemplar descançadamente o trabalho, dizer cousas +affaveis e vagas. + +--Então, isso vae andando?... Ora ainda bem!... Este bocado de torrão +aqui é rico... O talude ali adeante está precisando concerto... + +E cada um d'estes tão simples dizeres lhe era doce, como se por meio +d'elles penetrasse mais fundamente na intimidade da terra, e +consolidasse a sua encarnação em «homem do campo,» deixando de ser uma +mera sombra circulando entre realidades. Já por isso não crusava no +caminho o mocinho atraz das vaccas, que não o detivesse, o não +interrogasse: «Para onde vaes tu? De quem é o gado? Como te chamas?» E, +contente comsigo, sempre gabava gratamente o desembaraço do rapaz, ou a +esperteza dos seus olhos. Outra satisfação do meu Principe era conhecer +os nomes de todos os campos, as nascentes d'agua, e as delimitações da +sua quinta. + +--Vês acolá, para além do ribeiro, o pinheiral. Já não é meu, é dos +Albuquerques. + +E com a perenne alegria de Jacintho as noites da serra, no vasto +casarão, eram faceis e curtas. O meu Principe era então uma alma que se +simplificava:--e qualquer pequenino goso lhe bastava, desde que n'elle +entrasse paz ou doçura. Com verdadeira delicia ficava, depois do café, +estendido n'uma cadeira, sentindo atravez das janellas abertas, a +nocturna tranquillidade da serra, sob a mudez estrellada do ceu. + +As historias, muito simples e muito caseiras, que eu lhe contava, de +Guiães, do abbade, da tia Vicencia, dos nossos parentes da Flôr da +Malva, tão sinceramente o interessavam que eu encetára, para seu regalo, +a chronica completa de Guiães, com todos os namoricos, e as façanhas de +forças, e as desavenças por causa de servidões ou d'aguas. Tambem por +vezes nos enfronhavamos, com afferro n'uma partida de gamão, sobre um +bello taboleiro de pau preto, com pedras de velho marfim, que nos +emprestára o Silverio. Mas nada de certo o encantava tanto como +atravessar as casas, pé ante pé, até uma saleta que dava para o pomar, e +ahi ficar encostado á janella, sem luz, n'um enlevado socego, a escutar +longamente, languidamente, os rouxinoes que cantavam no laranjal. + + + + +X + + +N'uma dessas manhãs--justamente na vespera do meu regresso a Guiães--, o +tempo, que andára pela serra tão alegre, n'um inalterado riso de luz +rutilante, todo vestido d'azul e ouro, fazendo poeira pelos caminhos, e +alegrando toda a natureza, desde os passaros até os regatos, +subitamente, com uma d'aquellas mudanças que tornam o seu temperamento +tão semelhante ao do homem, appareceu triste, carrancudo, todo +embrulhado no seu manto cinzento, com uma tristeza tão pesada e +contagiosa que toda a serra entristeceu. E não houve mais passaro que +cantasse, e os arroios fugiram para debaixo das hervas com um lento +murmurio de chôro. + +Quando Jacintho entrou no meu quarto, não resisti á malicia de o +aterrar: + +--Sudoeste! gralhas a grasnar por todos esses soutos... Temos muita +agua, Snr. D. Jacintho! Talvez duas semanas d'agua! E agora é se vae +saber quem é aqui o fino amador da Natureza, com esta chuva pegada, com +vendaval, com a serra toda a escorrer! + +O meu Principe caminhou para a janella com as mãos nas algibeiras: + +--Com effeito! Está carregado. Já mandei abrir uma das malas de Paris e +tirar um casacão impermeavel... Não importa! Fica o arvoredo mais verde. +E é bom que eu conheça Tormes nos seus habitos d'inverno. + +Mas como o Melchior lhe affiançára que a «chuvinha só viria para a +tarde», Jacintho decidiu ir antes d'almoço á Corujeira, onde o Silverio +o esperava para decidirem da sorte d'uns castanheiros, muito velhos, +muito pittorescos, inteiramente interessantes, mas já roidos, e +ameaçando desabar. E, confiando nas previsões do Melchior, partimos sem +que Jacintho se vestisse á prova d'agoa. Não andaramos porém meio +caminho, quando, depois d'um arrepio nas arvores, um negrume carregou, +e, bruscamente, desabou sobre nós uma grossa chuva obliqua, vergastada +pelo vento, que nos deixou estonteados, agarrando os chapeus, +enrodilhados na borrasca. Chamados por uma grande voz, que se esganiçava +no vento, avistamos n'um campo mais alto, á beira d'um alpendre, o +Silverio, debaixo d'um guarda-chuva vermelho, que acenava, nos indicava +o trilho mais curto para aquelle abrigo. E para lá rompemos, com a chuva +a escorrer na cara, patinhando na lama, contorcidos, cambaleantes, +atordoados no vendaval, que n'um instante alagára os campos, inchára os +ribeiros, esboroava a terra dos socalcos, lançára n'um desespero todo o +arvoredo, tornára a serra negra, bravamente agreste, hostil, +inhabitavel. + +Quando emfim, debaixo do vasto guarda-chuva com que o Silverio nos +esperava á beira do campo, corremos para o alpendre, nos refugiamos +n'aquelle abrigo inesperado, a escorrer, a arquejar, o meu Principe, +enxugando a face, enxugando o pescoço, murmurou, desfallecido: + +--Apre! que ferocidade! + +Parecia espantado d'aquella brusca, violenta colera d'uma serra tão +amavel e accolhedora, que em dous mezes, inalteradamente, só lhe +offerecera doçura e sombra, e suaves ceus, e quietas ramagens, e +murmurios discretos de ribeirinhos mansos. + +--Santo Deus! Vem muitas vezes assim, estas borrascas? + +Immediatamente o Silverio aterrou o meu Principe: + +--Isto agora são brincadeiras de verão, meu senhor! Mas ha de V. Ex.^a +vêr no inverno, se V. Ex.^a se aguentar por cá! Então é cada temporal, +que até parece que os montes estremecem! + +E contou como fôra tambem apanhado, quando ia para a Corujeira. +Felizmente, logo pela manhã, quando sentiu o ar carrancudo e as +folhinhas dos choupos a tremer, se acautelára com o chapeu de chuva e +calçára as suas grandes botas. + +--Ainda estive para me abrigar em casa do Esgueira, que é um caseiro de +cá. Aquella casa, ali abaixo, onde está a figueira... Mas a mulher tem +estado doente, já ha dias... E como póde ser obra que se pegue, bexigas +ou coisa que o valha, pensei comigo: Nada, o seguro morreu de velho! +Metti para o alpendre... E não passára um credo quando lobriguei a V. +Ex.^a... Coisa assim!... E o Snr. D. Jacintho é voltar para casa, e +mudar-se, que temos um dia e uma noite d'agoa. + +Mas, justamente, a chuva começára a cahir perpendicular, d'um ceu ainda +negro, onde o vento se calára; e para além do rio e dos montes havia uma +claridade, como entre cortinas de pano cinzento que se descerram. + +Jacintho repousava. Eu não cessára de me sacudir, de bater os pés +encharcados, que me arrefeciam. E o bom Silverio, passando a mão +pensativa sobre o negrume das suas barbas, reflectia, emendava os seus +prognosticos: + +--Pois, não senhor... Ainda estía! Nunca pensei. É que tornejou o vento. + +O alpendre que nos cobria assentava sobre duas paredes em angulo, de +pedra solta, restos d'algum casebre desmantelado, e sobre um esteio +fazendo cunhal. N'esse momento só abrigava madeira, um cuculo de cestos +vasios, e um carro de bois, onde o meu Principe se sentára, enrolando um +cigarro confortador. A chuva desabava, copiosa, em longos fios +reluzentes. E todos tres nos callavamos, n'aquella contemplação inerte e +sem pensamento, em que uma chuva grossa e serena sempre immobilisa e +retem olhos e almas. + +--Ó Snr. Silverio, murmurou lentamente o meu Principe, que é que o +senhor esteve ahi a dizer de bexigas? + +O procurador voltou a face surprehendido: + +--Eu, Ex.^{mo} Snr.?... Ah sim! a mulher do Esgueira! É que póde ser, +póde ser... Não imagine V. Ex.^a que faltam por cá doenças. O ar é bom. +Não digo que não! Arsinho são, agoasinha leve. Mas ás vezes, se V. Ex.^a +me dá licença, vae por ahi muita maleita. + +--Mas não ha medico, não ha botica? + +O Silverio teve o riso superior de quem habita regiões civilisadas e bem +providas... + +--Então não havia d'haver? Pois ha um boticario, em Guiães, lá quasi ao +pé da casa aqui do nosso amigo. E homem entendido... o Firmino, hein, +Snr. Fernandes? Homem capaz. Medico é o Dr. Avelino, d'aqui a legoa e +meia, nas Bolsas. Mas já V. Ex.^a vê, esta gentinha é pobre!... Tomaram +elles para pão, quanto mais para remedios! + +E de novo se estabeleceu um silencio, sob o alpendre, onde penetrava a +friagem crescente da serra encharcada. Para além do rio, a promettedora +claridade não se alargára entre as duas espessas cortinas pardacentas. +No campo, em declive deante de nós, ia um longo correr de ribeiros +barrentos. Eu terminára por me sentar na ponta d'um madeiro, enervado, +já com a fome aguçada pela manhã agreste. E Jacintho, na borda do carro, +com os pés no ar, cofiava os bigodes humidos, palpava a face, onde, com +espanto meu, reapparecera a sombra, a sombra triste dos dias passados, a +sombra do 202! + +E, então, surdiu por traz da parede do alpendre um rapasito, muito +rotinho, muito magrinho, com uma carita miuda, toda amarella sob a +porcaria, e onde dous grandes olhos pretos se arregalavam para nós, com +vago pasmo e vago medo. Silverio immediatamente o conheceu. + +--Como vae a tua mãe? Escusas de te chegar para cá, deixa-te estar ahi. +Eu ouço bem. Como vae a tua mãe? + +Não percebi o que os pobres beicitos descorados murmuraram. Mas Jacinto, +interessado: + +--Que diz elle? Deixe vir o rapaz! Quem é a tua mãe? + +Foi o Silverio que informou respeitosamente: + +--É a tal mulher que está doente, a mulher do Esgueira, ali do casal da +figueira. E ainda tem outro abaixo d'este... Filharada não lhe falta. + +--Mas este pequeno tambem parece doente!--exclamou Jacintho. Coitadito, +tão amarello!... Tu tambem estás doente? + +O rapasinho emmudecera, chupando o dedo, com os tristes olhos pasmados. +E o Silverio sorria, com bondade: + +--Nada! este é sãosinho... Coitado, é assim amarellado e enfezadito, por +que... Que quer V. Ex.^a? Mal comido! muita miseria... Quando ha o +bocadito de pão é para todo o rancho. Fomesinha, fomesinha! + +Jacintho pulou bruscamente da borda do carro. + +--Fome? Então elle tem fome? Ha aqui gente com fome? + +Os seus olhos rebrilhavam, n'um espanto commovido, em que pediam, ora a +mim, ora ao Silverio, a confirmação d'esta miseria insuspeitada. E fui +eu que esclareci o meu Principe: + +--Homem! está claro que ha fome! Tu imaginavas talvez que o Paraiso se +tinha perpetuado aqui nas serras, sem trabalho e sem miseria... Em toda +a parte ha pobres, até na Australia, nas minas d'ouro. Onde ha trabalho +ha proletariado, seja em Paris, seja no Douro... + +O meu Principe, teve um gesto d'afflicta impaciencia: + +--Eu não quero saber o que ha no Douro. O que eu pergunto é se aqui, em +Tormes, na minha propriedade, dentro d'estes campos que são meus, ha +gente que trabalhe para mim, e que tenha fome... Se ha creancinhas, como +esta, esfomeadas? É o que eu quero saber. + +O Silverio sorria, respeitosamente, ante aquella candida ignorancia das +realidades da Serra: + +--Pois está bem de vêr, meu senhor, que ha para ahi caseiros que são +muito pobres. Quasi todos... É uma miseria, que se não fosse algum +soccorro que se lhes dá, nem eu sei!... Este Esgueira, com o rancho de +filhos que tem, é uma desgraça... Havia V. Ex.^a de vêr as casitas em +que elles vivem... São chiqueiros. A do Esgueira, acolá... + +--Vamos vêl-a! atalhou Jacintho com uma decisão exaltada. + +E sahiu logo do alpendre, sem attender á chuva, que ainda cahia, mais +leve e mais rala. Mas então Silverio alargou os braços deante d'elle, +com anciedade, como para o salvar d'um precipicio. + +--Não! V. Ex.^a lá na casa do Esgueira é que não entra! Não se sabe o +que a mulher tem, e cautella e caldo de gallinha... + +Jacintho não se alterou na sua polidez paciente: + +--Obrigado pelo seu cuidado, Silverio... Abra o seu chapeu de chuva, e +ávante! + +Então o Procurador vergou os hombros, e, como S. Ex.^a mandava, abriu +com estrondo o immenso pára-agoas, abrigou respeitosamente Jacintho, +através do campo encharcado. Eu segui, pensando na esmola sumptuosa que +o bom Deus mandava áquelle pobre casal por um remoto senhor das Cidades! +Atraz vinha o pequenito perdido n'um immenso pasmo. + +Como todos os casebres da serra, o do Esgueira era de grossa pedra +solta, sem reboco, com um vago telhado, de telha musgosa e negra, um +postigo no alto, e a rude porta que servia para o ar, para a luz, para o +fumo, e para a gente. E em redor, a Natureza e o Trabalho tinham, +através d'annos, accumulado ali trepadeiras e flôres silvestres, e +cantinhos d'horta, e sebes cheirosas, e velhos bancos roidos de musgo, e +panellas com terra onde crescia salsa, e regueiros cantantes, e videiras +enforcadas nos olmos, e sombras e charcos espelhados, que tornavam +deliciosa, para uma Ecloga, aquella morada da Fome, da Doença e da +Tristeza. + +Cautelosamente, com a ponteira do guarda-chuva, Silverio empurrou a +porta, chamando: + +--Eh! tia Maria... Olá rapariga! + +E na fenda entreaberta appareceu uma moça, muito alta, escura e suja, +com uns tristes olhos pisados, que se espantaram para nós, serenamente. + +--Então como vae a tua mãe?--Abre lá a porta, que estão aqui estes +senhores... + +Ella abriu, lentamente, e ia murmurando n'uma voz dolente e arrastada +mas sem queixume, que um vago, resignado sorriso acompanhava: + +--Ora, coitada! como ha de ir? Malzinha... malzinha. + +E dentro, n'um gemido que subia como do chão, d'entre abafos, amodorrado +e lento, a mãe repetiu a desconsolada queixa: + +--Ai! para aqui estou, e malzinha, malzinha!... + +O Silverio, sem passar da porta, com o guarda-chuva em riste, meio +aberto, como um escudo contra a infecção, lançou uma consolação vaga: + +--Não ha de ser nada, tia Maria!... Isso foi friagem! Não foi senão +friagem! + +E, sobre o hombro de Jacintho, encolhido: + +--Já V. Ex.^a vê... Muita miseria! Até lhe chove lá dentro. + +E, no pedaço de chão que viam, chão de terra batida, uma mancha humida +reluzia, da chuva pingada de uma telha rôta. A parede, coberta de +fuligem, das longas fumaraças da lareira, era tão negra como o chão. E +aquella penumbra suja parecia atulhada, n'uma desordem escura, de +trapos, de cacos, de restos de coisas, onde só mostravam fórma +comprehensivel uma arca de pau negro, e por cima, pendurado d'um prego, +entre uma serra e uma candeia, um grosso saiote escarlate. + +Então Jacintho, muito embaraçado, murmurou abstrahidamente: + +--Está bem, está bem... + +E largou pelo campo para o lado do alpendre como se fugisse, emquanto o +Silverio decerto revelava á rapariga, a presença augusta do «fidalgo», +por que a sentimos, da porta, levantar a voz dolorida: + +--Ai! Nosso Senhor lhe dê muito boa sorte! Nosso Senhor o acompanhe! + +Quando o Silverio, com as grandes passadas das suas grandes botas, nos +colheu, no meio do campo, Jacintho parára, olhava para mim, com os dedos +tremulos a torturar o bigode, e murmurava: + +--É horrivel, Zé Fernandes, é horrivel. + +Ao lado, o vozeirão do Silverio trovejou: + +--Que queres tu outra vez, rapaz? Vae para a tua mãe, creatura! + +Era o pequeno rotinho, esfaimadinho, que se prendia a nós, n'um immenso +pasmo das nossas pessoas, e com a confusa esperança, talvez, que +d'ellas, como de Deuses encontrados n'um caminho, lhe viesse affago ou +proveito. E Jacintho, para quem elle mais especialmente arregalava os +olhos tristes, e que aquella miseria, e a sua muda humildade, +embaraçavam, acanhavam horrivelmente, só soube sorrir, murmurar o seu +vago: «Está bem, está bem...» Fui eu que dei ao pequenito um tostão, +para o fartar, o despegar dos nossos passos. Mas como elle, com o seu +tostão bem agarrado, nos seguia ainda, como no sulco da nossa +magnificencia, o Silverio teve de o espantar, como a um passaro, batendo +as mãos, e de lhe gritar: + +--Já para casa! E leve esse dinheiro á mãe. Roda, roda!... + +--E nós vamos almoçar, lembrei eu olhando o relogio. O dia ainda vae +estar lindo. + +Sobre o rio, com effeito, reluzia um pedaço d'azul lavado e lustroso; e +a grossa camada de nuvens já se ia enrolando sob a lenta varredela do +vento, que as levava, despejadas e rôtas, para um canto escuso do ceu. + +Então recolhemos lentamente para casa, por uma vereda ingreme, que +ensinára o Silverio, e onde um leve enchurro vinha ainda, saltando e +chalrando. De cada ramo tocado, rechuvia uma chuva leve. Toda a verdura, +que bebera largamente, reluzia consolada. + +Bruscamente, ao sahirmos da vereda para um caminho mais largo, entre um +socalco e um renque de vinha, Jacintho parou, tirando lentamente a +cigarreira: + +--Pois, Silverio, eu não quero mais estas horriveis miserias na quinta. + +O Procurador deu um geito aos hombros, com um vago _eh_! _eh_! +d'obediencia e dúvida. + +--Antes de tudo, continuava Jacintho, mande já hoje chamar esse Dr. +Avelino para aquella pobre mulher... E os remedios que os vão buscar +logo a Guiães. E recommendação ao medico para voltar ámanhã, e em cada +dia; até que ella melhore... Escute! E quero, Melchior, que lhe leve +dinheiro, para os caldos, para a dieta, uns dez, ou quinze mil réis... +Bastará? + +O Procurador não conteve um riso respeitoso. Quinze mil réis! Uns +tostões bastavam... Nem era bom acostumar assim, a tanta franqueza, +aquella gente. Depois todos queriam, todos pedinchavam... + +--Mas é que todos hão-de ter, disse Jacintho simplesmente. + +--V. Ex.^a manda, murmurou o Silverio. + +Encolhera os hombros, parado no caminho, no espanto d'aquellas +extravagancias. Eu tive de o apressar, impaciente: + +--Vamos conversando e andando! É meio dia! Estou com uma fome de lobo! + +Caminhamos, com o Silverio no meio, pensativo, a fronte enrugada sob a +vasta aba do chapeu, a barba immensa espalhada pelo peito, e a barraca +exorbitante do guarda-chuva vermelho enrolada debaixo do braço. E +Jacintho, puxando nervosamente o bigode, arriscava outras idéas +bemfazejas, cautelosamente, no seu indominavel medo do Silverio: + +--E as casas tambem... Aquella casa é um covil!... Gostava de abrigar +melhor aquella pobre gente... E naturalmente, as dos outros caseiros são +pocilgas eguaes... Era necessario uma reforma! Construir casas novas a +todos os rendeiros da quinta... + +--A todos?...--O Silverio gaguejava,--emudeceu. + +E Jacintho balbuciava aterrado: + +--A todos... Emfim, quero dizer... Quantos serão elles? + +Silverio atirou um gesto enorme: + +--São vinte e coisas... Vinte e tres! se bem lembro. Upa! Upa! Vinte e +sete... + +Então Jacintho emmudeceu tambem, como reconhecendo a vastidão do numero. +Mas desejou saber, por quanto ficaria cada casa!... Oh! uma casa +simples, mas limpa, confortavel, como a que tinha a irmã do Melchior, ao +pé do lagar. Silverio estacou de novo. Uma casa como a da Ermelinda? +Queria Sua Ex.^a saber? E alijou a cifra, muito d'alto, como uma pedra +immensa, para esmagar Jacintho: + +--Duzentos mil réis, Ex^{mo} Senhor! E é para mais que não para menos! + +Eu ria da tragica ameaça do excellente homem. E Jacintho, muito +docemente, para conciliar o Silverio: + +--Bem, meu amigo... Eram uns seis contos de réis! Digamos dez, por que +eu queria dar a todos alguma mobilia e alguma roupa. + +Então o Silverio teve um brado de terror: + +--Mas então, Ex.^{mo} Senhor, é uma revolução! + +E como nós, irresistivelmente, riamos dos seus olhos esgazeados de +horror, dos seus immensos braços abertos para traz, como se visse o +mundo desabar,--o bom Silverio encavacou: + +--Ah! V. Ex.^{as} riem? Casas para todos, mobilias, pratas, bragal, dez +contos de réis! Então tambem eu rio! Ah! ah! ah! Ora viva a bella +chalaça!... Está bôa a risota! + +E subitamente, n'uma profunda mesura, como declinando toda a +responsabilidade n'aquelle disparate magnifico: + +--Emfim, V. Ex.^a é quem manda! + +--Está mandado, Silverio. E tambem quero saber as rendas que paga essa +gente, os contractos que existem, para os melhorar. Ha muito que +melhorar. Venha vossê almoçar comnosco. E conversamos. + +Tão saturado d'espanto estava o Silverio, que nem recebeu mais espanto +com essa «melhoria de rendas». Agradeceu o convite, penhorado. Mas pedia +licença a Sua Ex.^a para passar primeiramente pelo lagar, para ver os +carpinteiros que andavam a concertar a trave do rio. Era um instante, e +estava em seguida ás ordens de S. Ex.^a. + +Metteu a corta matto, saltando um cancello. E nós seguimos, com passos +que eram ligeiros, pela hora do almoço que se retardára, pello azul +alegre que reapparecia, e por toda aquella justiça feita á pobresa da +serra. + +--Não perdeste hoje o teu dia, Jacintho, disse eu, batendo, com uma +ternura que não disfarcei, no hombro do meu amigo. + +--Que miseria, Zé Fernandes! Eu nem sonhava... Haver por ahi, á vista da +minha casa, outras casas, onde creanças teem fome! É horrivel... + +Estavamos entrando na alameda. Um raio de sol, sahindo d'entre duas +grossas, algodoadas nuvens, passou sobre uma esquina do casarão, ao +fundo, uma viva tira d'ouro. O clarim dos gallos soava claro e alto. E +um doce vento, que se erguera, punha nas folhas lavadas e luzidias um +fremito alegre e doce. + +--Sabes o que eu estava pensando, Jacintho?... Que te aconteceu aquella +lenda de Santo Ambrosio... Não, não era Santo Ambrosio... Não me lembra +o santo... Nem era ainda santo... apenas um cavalleiro peccador, que se +enamorára d'uma mulher, puzera toda a sua alma n'essa mulher, só por a +avistar a distancia na rua. Depois, uma tarde que a seguia, enlevado, +ella entrou n'um portal de egreja, e ahi, de repente, ergueu o veu, +entreabriu o vestido, e mostrou ao pobre cavalleiro o seio roido por uma +chaga! Tu, tambem andavas namorado da serra, sem a conhecer, só pela sua +belleza de verão. E a serra, hoje, zás! de repente, descobre a sua +grande ulcera... É talvez a tua preparação para S. Jacintho. + +Elle parou, pensativo, com os dedos nas cavas do collete: + +---É verdade! Vi a chaga! Mas emfim, esta, louvado seja Deus, é das que +eu posso curar! + +Não desilludi o meu Principe. E ambos subimos alegremente a escadaria do +casarão. + + + + +XI + + +No dia que seguiu estas largas caridades recolhi a Guiães. E, desde +então, tantas vezes trotei por aquellas tres legoas entre a nossa e a +velha alameda dos Jacinthos, que a minha egoa, quando a desviava d'essa +estrada familiar, conduzindo a uma cavallariça familiar, (onde ella +privava com o garrano do Melchior) relinchava de pura saudade. Até a tia +Vicencia se mostrava vagamente ciumenta d'aquella Tormes, para onde eu +sempre corria, d'aquelle Principe de quem incessantemente celebrava o +rejuvenescimento, a caridade, os piteus, e as chimeras agricolas. Já um +dia com um grão de sal e ironia,--o unico que cabia n'um coração todo +cheio d'innocencia,--ella me dissera, movendo com mais vivacidade as +agulhas da sua meia: + +--Olha que te podes gabar! Até me tens feito curiosidade de conhecer +esse Jacintho... Traze cá essa maravilha, menino! + +Eu rira: + +--Socegue, tia Vicencia, que o trarei agora, para o dia dos meus annos, +a jantar... Damos uma festa, haverá um bailarico no pateo, e vem ahi +toda essa senhorama dos arredores. Talvez até se arranje uma noiva para +o Jacintho. + +Eu, com effeito, já convidára o meu Principe para este «natalicio». E de +resto convinha que o senhor de Tormes conhecesse todos aquelles senhores +das boas casas da serra... Sobretudo, como eu lhe dizia rindo, convinha +que elle conhecesse algumas mulheres, algumas d'aquellas fortes +raparigas dos solares serranos, por que Tormes tinha uma solidão muito +monastica; e o homem, sem um pouco do Eterno Feminino, facilmente se +enrudece e ganha uma casca aspera como a das arvores, na solidão. + +--E esta Tormes, Jacintho, esta tua reconciliação com a Natureza, e o +renunciamento ás mentiras da Civilisação é uma linda historia... Mas, +caramba, faltam mulheres! + +Elle concordava, rindo, languidamente estendido na cadeira de vime: + +--Com effeito, ha aqui falta de mulher, com M. grande. Mas essas +senhoras ahi das casas dos arredores... Não sei, estou pensando que se +devem parecer com legumes. Sans, nutritivas, excellentes para a +panella--mas, emfim, legumes. As mulheres que os poetas comparam ás +Flores são sempre as mulheres das Côrtes, das Capitaes, ás quaes, +invariavelmente, desde Hesiodo e de Horacio, se rendem os poetas... E +evidentemente não ha perfume, nem graça, nem elegancia, nem requinte, +n'uma cenoura ou n'uma couve... Não devem ser interessantes as senhoras +da minha serra. + +--Eu te digo... A tua visinha mais chegada, a filha do D. Theotonio, com +effeito, salvo o respeito que se deve á casa illustre dos Barbedos, é um +mostrengo! A irmã dos Albergarias, da quinta da Loja, tambem não +tentaria nem mesmo o precisado Santo Antão. Sobretudo se se despisse, +por que é um espinafre infernal! Essa realmente é legume, e não dos +nutritivos. + +--Tu o disseste: espinafre! + +--Temos tambem a D. Beatriz Velloso... Essa é bonita... Mas, menino, que +horrivelmente bem fallante! Falla como as heroinas do Camillo. Tu nunca +leste o Camillo... E depois, um tom de voz que te não sei descrever, o +tom com que se falla em D. Maria, em peças de sentimento. Tu tambem +nunca viste o Theatro de D. Maria... Emfim, um horror! E perguntas +pavorosas. «V. Ex.^a. Snr. Doutor, não se delicia com Lamartine?» Já me +disse esta, a indecente! + +--E tu? + +--Eu! Arregalei os olhos... «Oh Lamartine!». Mas, coitada, é uma +excellente rapariga! Agora, por outro lado, temos as Rojões, as filhas +de João Rojão, duas flores, muito frescas, muito alegres, com um cheiro +e um brilho a sadio, e muito simples... A tia Vicencia morre por ellas. +Depois ha a mulher do Dr. Alypio, que é uma belleza. Oh! uma creatura +esplendida! Mas, emfim, é a mulher do Dr. Alypio, e tu renunciaste aos +deveres da Civilisação... Além disso, mulher muito séria, toda absorvida +nos seus dous pequenos, que parecem dous anjinhos de Murillo... E quem +mais? Já agora, quero completar a lista do pessoal feminino. Temos a +Mello Rebello, de Sandofim, muito engraçada, com cabello lindo... Borda +na perfeição, faz doces como uma freira do antigo Regimen... Havia +tambem uma Julia Lobo, muito linda, mas morreu... Agora não me lembro +mais. Mas falta a flôr da Serra, que é a minha prima Joanninha, da Flôr +da Malva! Essa é uma perfeição de rapariga. + +--E tu, primo Zé, como tens tu resistido? + +--Somos como irmãos, creados de pequeninos, mais acostumados e +familiares que tu e eu... A familiaridade esbate os sexos. A mãe d'ella +era a unica irmã da tia Vicencia, e morreu muito nova. A Joanninha, +quasi desde o berço que se creou em nossa casa, em Guiães. O pae é bom +homem, o tio Adrião. Erudito, antiquario, colleccionador... Collecciona +toda a sorte de cousas exquisitas, campainhas, esporas, sinetes, +fivellas... Tem uma collecção curiosa. Elle ha muito que deseja vir a +Tormes, para te visitar... Mas, coitado, soffre da bexiga, não póde +montar a cavallo. E a estrada da Flôr da Malva aqui é impossivel para +carruagens... + +O meu Principe espreguiçára longamente os braços: + +--Não, está claro! eu é que hei-de visitar teu tio, e a tia Vicencia... +Desejo conhecer os meus visinhos. Mas mais tarde, quando socegar. Agora +ando todo occupado com o meu povo. + +E com effeito! Jacintho era agora como um Rei fundador d'um Reino, e +grande edificador. Por todo o seu dominio de Tormes andavam obras, para +o renovamento das casas dos rendeiros, umas que se concertavam, outras +mais velhas, que se derrubavam para se reconstruirem com uma larguesa +commoda. Pelos caminhos constantemente chiavam carros, carregados de +pedra, ou de madeiras cortadas nos pinheiraes. + +Na taberna do Pedro, á entrada da freguezia, ia um desusado movimento, +de pedreiros e carpinteiros contractados para as obras;--e o Pedro, com +as mangas arregaçadas, por traz do balcão, não cessava de encher os +decilitros com uma vasta enfusa. + +Jacintho, que tinha agora dous cavallos, todas as manhãs cedo percorria +as obras, com amor. Eu, inquieto, sentia outra vez, latejar e irromper +no meu Principe o seu velho, maniaco furor d'accumular Civilisação! O +plano primitivo das obras era incessantemente alargado, aperfeiçoado. +Nas janellas, que deviam ter apenas portadas, segundo o secular costume +da serra, decidira pôr vidraças, apezar do mestre d'obras lhe dizer +honradamente, que depois d'habitadas um mez, não haveria casa com um só +vidro. Para substituir as traves classicas queria estucar os tectos;--e +eu via bem claramente que elle se continha, se retesava dentro do +Bom-senso, para não dotar cada casa com campainhas electricas. Nem +sequer me espantei, quando elle uma manhã me declarou que a porcaria da +gente do campo provinha de elles não terem onde commodamente se lavar, +pelo que andava pensando em dotar cada casa com uma banheira. Desciamos +n'esse momento, com os cavallos á redea, por uma azinhaga precipitada e +escabrosa; um vento leve ramalhava nas arvores, um regato saltava +ruidosamente entre as pedras. Eu não me espantei--mas realmente me +pareceu que as pedras, o arroio, as ramagens e o vento, se riam +alegremente do meu Principe. E além d'estes confortos, a que o João, +mestre d'obras, com os olhos loucamente arregalados chamava «as +grandezas», Jacintho meditava o bem das almas. Já encommendára ao seu +architecto, em Paris, o plano perfeito d'uma escola, que elle queria +erguer, n'aquelle campo da Carriça, junto á capellinha que abrigava «os +ossos». Pouco a pouco, ahi crearia tambem uma bibliotheca, com livros +d'estampas, para entreter, aos domingos, os homens a quem já não era +possivel ensinar a lêr. Eu vergava os hombros, pensando:--«Ahi vem a +terrivel accumulação das Noções! Eis o livro invadindo a Serra!» Mas +outras idéas de Jacintho eram tocantes,--e eu mesmo me enthusiasmei, e +excitei o enthusiasmo da tia Vicencia com o seu plano d'uma Creche, onde +elle esperava ter manhãs muito divertidas vendo as creancinhas a +gatinhar, a correr tropegamente atraz d'uma bola. De resto, o nosso +boticario de Guiães estava já apalavrado para estabelecer uma pequena +pharmacia em Tormes, sob a direcção do seu praticante, um afilhado da +tia Vicencia, que tinha publicado um artigo sobre as festas populares do +Douro no _Almanach de Lembranças_. E já fôra offerecido o partido medico +de Tormes, com ordenado de 600$000 réis. + +--Não te falta senão um Theatro! dizia eu, rindo. + +--Um theatro não. Mas tenho a idéa d'uma sala, com projecções de +lanterna magica, para ensinar a esta pobre gente as cidades d'esse +mundo, e as cousas d'Africa, e um bocado de Historia. + +E tambem me ensoberbeci com esta innovação!--E quando a contei ao tio +Adrião, o digno antiquario bateu, apezar do seu rheumatismo, uma palmada +tremenda na côxa. «Sim, senhor! Bella idéa! Assim se podia ensinar +áquella gente illetrada, vivamente, por imagens, a Historia Santa, a +Historia Romana, até a Historia de Portugal!...» E voltado para a prima +Joanninha, o tio Adrião declarou Jacintho um «homem de coração!» + +E realmente pela Serra crescia a popularidade do meu Principe. +N'aquelle, «guarde-o Deus, meu senhor!» com que as mulheres ao passar o +saudavam, se voltavam para o vêr ainda, havia uma seriedade d'oração, o +bem sincero desejo de que Deus o guardasse sempre. As creanças a quem +elle distribuia tostões, farejavam de longe a sua passagem,--e era em +torno d'elle um escuro formigueiro de caritas trigueiras e sujas, com +grandes olhos arregalados, que se ainda tinham pasmo, já não tinham +medo. Como o cavallo de Jacintho uma tarde se chapára, ao desembocar da +alameda, n'umas grossas pedras que ahi deformavam a estrada, logo ao +outro dia um bando d'homens, sem que Jacintho o ordenasse, veio por +dedicação ensaibrar e alisar aquelle pedaço perigoso de caminho, +aterrados com o risco que correra o bom senhor. Já pela serra se +espalhava esse nome de «bom senhor». Os mais edosos da freguezia não o +encontravam sem exclamarem, uns com gravidade, outros com grandes risos +desdentados:--_Este é o nosso bemfeitor_! Por vezes, alguma velha corria +do fundo do eido, ou vinha á porta do casebre, ao avistal-o no caminho, +para gritar, com grandes gestos dos braços magros: «Ai que Deus o cubra +de bençãos! Que Deus o cubra de bençãos!» + +Aos domingos, o padre José Maria, (bom amigo meu e grande caçador) vinha +de Sandofim, na sua egoa ruça, a Tormes, para celebrar a missa na +Capellinha. Jacintho assistia ao officio na sua tribuna, como os +Jacinthos d'outras eras, para que aquelles simples o não suppuzessem +estranho a Deus. Quasi sempre então elle recebia presentes, que as +filhas dos caseiros, ou os pequenos, vinham muito corados, trazer-lhe á +varanda, e eram vasos de manjaricão, ou um grosso ramalhete de cravos, e +por vezes um gordo pato. Havia então uma distribuição de cavacas e +merengues de Guiães, ás raparigas e ás creanças,--e, no pateo, para os +homens circulavam as infusas de vinho branco. O Silverio já sustentava +com espanto, e redobrado respeito, que o Snr. D. Jacintho em breve +disporia de mais votos nas eleições que o Dr. Alypio. E eu proprio me +impressionei, quando o Melchior me contou que o João Torrado, um velho +singular d'aquelles sitios, de grandes barbas brancas, hervanario, +vagamente alveitar, um pouco adivinho, morador mysterioso d'uma cova no +alto da serra, a todos affirmava que aquelle bom senhor era El-Rei D. +Sebastião, que voltára! + + + + +XII + + +Assim chegou Setembro, e com elle o meu natalicio, que era a 3 e n'um +Domingo. Toda essa semana a passára eu em Guiães, nos preparos da +vindima,--e de manhã cedo, n'esse Domingo illustre, me fui debruçar da +varanda do quarto do saudoso tio Affonso, vigiando a estrada, por onde +devia apparecer o meu Principe, que emfim visitava a casa do seu Zé +Fernandes. A tia Vicencia, desde a madrugada, andava atarefada pela +cosinha e pela copa, porque, desejando mostrar ao meu Principe «o +pessoal» da serra, convidára para jantar algumas familias amigas, dos +arredores, as que tinham carruagens ou carroções, e podiam, pelas +estradas mal seguras, recolher tarde, depois d'um bailarico campestre, +no pateo, já enfeitado para esse effeito de lanternas chinezas. Mas logo +ás dez horas me desesperei, ao receber, por um moço da Flôr da Malva, +uma carta da prima Joanninha, em que dizia «a pena de não poder vir +porque o Papá estava desde a vespera com um leicenço, e ella não o +queria abandonar.» Corri indignado á cosinha, onde a tia Vicencia +presidia a um violento bater de gemas d'ovos dentro d'uma immensa +terrina. + +--A Joanninha não vem! Sempre assim! Diz que o pae tem um leicenço... +Aquelle tio Adrião escolhe sempre os grandes dias para ter leicenços, ou +para ter a pontada... + +A boa face redondinha e corada da tia Vicencia enterneceu-se. + +--Coitado! será em sitio que não se pudesse sentar na carruagem! +Coitado! Olha, se lhe escreveres, dize-lhe que ponha um emplastrosinho +de folhas d'alecrim. É com que teu tio se dava bem. + +Eu gritei simplesmente para o moço, que dava de beber ao burro no pateo: + +--Dize á Snr.^a D. Joanninha que sentimos muito... Que talvez eu lá +appareça ámanhã. + +E voltei á janella, impaciente, por que o relogio do corredor, muito +atrazado, já cantára a meia hora depois das dez e o Principe tardava +para o almoço. Mas, mal eu me chegára á varanda, appareceu justamente na +volta da estrada Jacintho, de grande chapeu de palha, no seu cavallo, +seguido do Grillo que, tambem de chapeu de palha, e abrigado sob um +immenso guarda-sol verde, se escarranchava no albardão da velha egoa do +Melchior. Atraz, um moço com uma maleta á cabeça. E eu, na alegria de +avistar emfim o meu Principe trotando para a minha casa d'aldeia, no dia +dos meus trinta e seis annos, pensava n'outro natalicio, no d'elle, em +Paris, no 202, quando, entre todos os esplendores da Civilização, nós +bebemos tristemente _ad manes_, aos nossos mortos! + +--_Salvè_! gritei da varanda. _Salvè, domine Jacinthi_! + +E entoei, para o accolher, n'um alegre tarantantan, o hymno da carta! + +--Isto por aqui tambem é lindo!--gritou elle de baixo. E o teu palacio +tem um soberbo ar... Por onde é a porta? + +Mas eu já me precipitava para o pateo--onde Jacintho, apeando, contou +alegremente os tormentos do Grillo, que nunca montára a cavallo, e não +cessára de berrar ante os perigos d'aquella aventura. + +E o digno preto, offegante, lustroso de suor, e livido sob o esplendor +da sua negrura, exclamava, apontando com a mão tremula para a pobre +egoa, que solta, de cabeça pensativa, parecia de pedra, sobre as patas +mais immoveis que marcos: + +--Pois se o siô Fernandes visse! Uma fera, que nunca veiu quieta. Sempre +para a esquerda, sempre para a direita, pé aqui, pé além! Só para me +sacudir! Só para me sacudir! + +E não resistiu. Com a ponta do guarda-sol atirou uma pontoada vingativa +contra a egoa, sobre o albardão. + +Subindo a escadaria ligeira, penetrando no alegre corredor, com a sua +janella ao fundo engrinaldada de rosinhas, Jacintho louvava grandemente +a nossa casa, que o repousava das rijas muralhas, das grossas portas +feudaes de Tormes. E no seu quarto agradeceu os cuidados maternaes da +tia Vicencia, que enchera de flores os dois vasos da China sobre a +commoda, e adornára a cama com uma das nossas colxas da India mais +ricas, côr de canario, com grandes aves d'ouro. Eu sorria, enternecido. +Então estreitamos os ossos n'um grande abraço, pelo natalicio... «Trinta +e oito, hein, Zé Fernandes?»--«Trinta e quatro, animal!» E o meu +Principe abrindo a mala, sobria maleta de philosopho, offereceu os +«nobres presentes, que são devidos», como diz sempre o astuto Ulysses na +Odyssea. Era um alfinete de gravata, com uma saphira, uma cigarreira de +aro fosco, adornada de um florido ramo de macieira em delicado esmalte, +e uma faca para livros de velho lavor Chinez. Eu protestava contra a +prodigalidade. + +--É tudo das malas de Paris... Mandei-as abrir hontem á noite. E tomei a +liberdade de trazer esta lembrança á tua tia Vicencia. Não vale nada... +É só por ter pertencido á princeza de Lamballe. + +Era uma caldeirinha d'agoa benta, em prata lavrada, d'um gosto florido e +quasi galante. + +--A tia Vicencia não sabe quem é a princeza de Lamballe, mas ficará +encantada! E é uma garantia, por que ella suspeita da tua religião, como +homem de Paris, da terra das impiedades... E agora, lavar, escovar, e ao +almoço! + +A tia Vicencia pareceu toda surprehendida, e logo encantada com o meu +camarada, que ella suppuzera realmente um Principe, arrogante, escarpado +e difficil. Quando elle lhe offereceu a caldeirinha, com um delicado +pedido «para se lembrar d'elle nas suas orações», duas largas rosas, +mais roseas e frescas que as rosas que enchiam a mesa, cobriram as faces +redondas da boa senhora, que nunca recebera tão piedoso presente, com +tão linda palavra. Mas o que sobretudo a captivou foi o tremendo +appetite de Jacintho, a enthusiasmada convicção com que elle, +accumulando no prato montes de cabidella, depois altas serras d'arroz de +forno, depois bifes de numerosa cebolada, exaltava a nossa cosinha, +jurava nunca ter provado nada tão sublime. Ella resplandecia: + +--Até faz gosto, até faz gosto!... Ora mais uma d'estas batatinhas +recheadas... + +--Com certesa, minha senhora! até duas! As minhas rações, em mesas +d'estas, tão perfeitas, são sempre as de Gargantua. + +--Não cites Rabelais, que a tia Vicencia não conhece os auctores +profanos! exclamava eu, tambem radiante. E prova esse vinho branco cá da +nossa lavra, e louva Deus que amadurece tal uva. + +E o almoço foi muito alegre, muito intimo, muito conversado, sobre as +obras de Jacintho em Tormes, e a sua Creche, que enlevava a tia +Vicencia, e as esperanças da vindima, e a minha prima Joanninha, que +tinha o papá doente, e o pessimo estado dos caminhos. Mas o +enternecimento maior foi quando, ao servir o café, o creado poz ao lado +de Jacintho um pires com um pau de canella, o seu estranho e costumado +pau de canella. Não o esquecera a tia Vicencia! Ali tinha o seu pausinho +de canella!--Queria que elle, em Guiães, continuasse os seus habitos +como em Tormes... E aquelle pau de canella foi o symbolo de adopção do +meu Principe como novo sobrinho da tia Vicencia. + +Ella em breve recolheu á cosinha, aos preparativos do banquete. Nós +fumamos um preguiçoso charuto no jardim, ao pé do repuxo, sob a +recolhida sombra do cedro. Depois, inexoravelmente, como proprietario, +mostrei ao meu Principe a propriedade toda, com desapiedada +minuciosidade, sem lhe perdoar uma leira, um regueiro, uma arvore, um pé +de vinha. Só quando a sua face começou a opar e a empallidecer, de +cançaço, e que do entendimento totalmente atordoado só lhe escorria um +vago--«muito bonito! bella terra!»--é que voltei os passos para casa, +tornejando ainda n'uma volta larga para lhe mostrar o lagar, uma +plantação d'espargos, e o sitio onde existira a ruina d'um velho castro +romano. Ao penetrarmos de novo, pelo jardim, na fresca sala, ainda o +empurrei, como uma rez, para a livraria do meu bom tio Affonso, para lhe +mostrar as preciosidades, uma magnifica chronica de D. João I por Fernão +Lopes, a primeira edição do _Imperador Clarimundo_, uma _Henriada_, com +a assignatura de Voltaire, foraes d'El-Rei D. Manoel, e outras +maravilhas. Elle respirava fechando o derradeiro pergaminho, quando eu o +arrastei á adega, para que admirasse a famosa pipa, que tinha, em +relevo, na madeira do tampo, as complicadas armas dos Sandes. Eram +quatro horas. O meu Principe tinha o ar esgaseado e livido. Cravando +n'elle os olhos inexoraveis, olhos em que eu mesmo sentia reluzir a +ferocidade, declarei «que iriamos agora vêr a tulha.» Mas então, com as +mãos nos rins, elle murmurou, humildemente, n'um murmurio de creança: + +--Não se me dava de me sentar um poucochinho! + +Tive então piedade, abri as garras, deixei que elle se arrastasse, atraz +de mim, para o seu quarto, onde freneticamente descalçou as botas, se +atirou para um fresco canapé forrado de ganga, murmurando n'um +abatimento profundo:--«Bella propriedade!» + +Consenti generosamente que elle adormecesse,--e eu mesmo desci a +verificar se a Gertrudes dispusera bem as escovas, as toalhas de renda, +no quarto onde os convidados, em breve, ao chegar, lavariam as mãos, +escovariam a poeira da estrada. E justamente, uma caleche rodava no +pateo, a velha caleche do D. Theotonio, com a parelha ruça. Espreitando +da janella descobri, com prazer, que chegava só, de gravata branca, sob +o guarda-pó, sem a horrendissima filha. Corri alegremente ao quarto da +tia Vicencia, que, ajudada pela Catharina, abrochava á pressa as suas +pulseiras ricas de topazios. + +--Tia Vicencia! chegou o D. Theotonio! Felizmente vem sem a filha... Não +se demore, os outros não tardam. O Manoel que esteja bem penteado, de +gravata bem teza!... Vamos a vêr como corre a festa! + + + + +XIII + + +Ai de mim! a festa no meu anniversario não se passou com brilho, nem com +alegria! + +Quando o meu Principe entrou na sala, com uma elegancia, (onde eu senti +as malas de Paris, abertas na vespera)--uma rosa branca no jaquetão +preto, collete branco lavrado e trespassado, copiosa gravata de sêda +branca, tufando, e presa por uma perola negra,--já todos os convidados +estavam na sala,--o D. Theotonio, o Ricardo Velloso, o Dr. Alypio, o +gordo Mello Rebello, de Sandofim, os dois manos Albergarias, da quinta +da Loja--; todos de pé, n'um pellotão cerrado. Em torno do sophá onde a +tia Vicencia se installára, um magotesinho de cadeiras reunira as +senhoras,--a Beatriz Velloso, de cassa branca sobre sèda, que a tornava +mais aeria e magra, com a sua trunfa immensa de cabello riçado; as duas +Rojões, (com a tia Adelaide Rojão) vermelhinhas como camoezas, ambas de +branco; e a mulher do Dr. Alypio, de preto, esplendida como uma Venus +Rustica... E foi na sala, como se realmente entrasse um Principe, +d'esses paizes do Norte onde os Principes são magnificos, muito +distantes dos homens, e aterram as gentes. Um silencio, como se o tecto +de carvalho descesse, nos esmagava: e todos os olhos se enristaram +contra o meu desgraçado Jacintho, como n'uma caçada hindú, quando á orla +da floresta surge o Tigre Real. Debalde,--nas confusas, apressadas +apresentações, com que eu o levava atravez da sala,--os seus apertos de +mão, os sorrisos, o vago murmurio, «da sua honra, do seu prazer» foram +repassados de sympathia, de simplicidade. Todos os cavalheiros +permaneciam reservados, observando o Principe, que subira á serra: e as +senhoras mais se aconchegavam á sombra da tia Vicencia, como ovelhas á +volta do pastor, quando na altura assoma o lobo. Eu, já inquieto, lancei +o D. Theotonio, o mais ornamental d'aquelles cavalheiros. + +--O Snr. D. Theotonio foi muito amavel em vir, Jacintho. Raras vezes sae +da sua linda casa da Abrujeira. + +O digno D. Theotonio sorriu, cofiando os espessos bigodes brancos, de +velho brigadeiro: + +--V. Ex.^a chegou directamente de Vienna? + +Não! Jacintho viera directamente de Paris, com o amigo Zé Fernandes. D. +Theotonio insistiu: + +--Mas certamente visita muitas vezes Vienna... + +Jacintho sorria surprehendido: + +--Vienna, porque?... Não. Ha mais de quinze annos que não vou a Vienna. + +O fidalgo murmurou um lento _ah_! e ficou calado, de palpebras baixas, +como revolvendo analyses profundas, com as mãos cruzadas sob as abas da +longa sobrecasaca azul. + +Eu então, vigilante, lancei o Dr. Alypio: + +--O nosso Doutor, meu caro Jacintho, é o mais poderoso influente de todo +o districto. + +O Doutor curvou a cabeça bem feita, com um bello cabello preto, +admiravelmente alisado e lustroso. Mas a tia Vicencia, que se erguera do +sofá, chamava o meu Principe, porque o Manoel annunciára o jantar, +mudamente, mostrando apenas, á porta da sala, a sua corpulenta +pessoa,--inteiriçado e vermelho. + +Á mesa, onde os pudins, as travessas de doce d'ovos, os antigos vinhos +da Madeira e do Porto, nas suas pesadas garrafas de cristal lapidado, +fundiam com felicidade os seus tons ricos e quentes, Jacintho ficou +entre a tia Vicencia e uma das Rojões, a Luizinha, sua afilhada, que, +por costume velho, quando jantava em Guiães, sempre se collocava á +sombra da sua bôa madrinha. E a sôpa, que era de gallinha com macarrão, +foi comida n'um tão largo e pesado silencio que eu, na ancia de o +quebrar, exclamei, ao acaso, sem pensar que me achava em Guiães depois +de tanto tempo e em minha própria casa: + +--Deliciosa, esta sopa! + +Jacintho echoou: + +--Divina!! + +Mas como todos os convidados certamente estranharam este meu brado, e a +excessiva admiração de Jacintho, o silencio, carregado de cerimonia, +mais se carregou de embaraço. Felizmente a tia Vicencia, com aquelle seu +bom sorriso, observou que Jacintho parecia gostar da comida +portugueza... E eu, sempre no intuito d'animar a conversa, nem deixei +que o meu Principe confirmasse o seu amor da cosinha vernacula, e +gritei: + +--Como gostar! Mas é que delira!... Pudera! Tanto tempo em Paris, +privado dos piteus lusitanos... + +E como, ditosamente, me lembrára o prato de arroz doce preparado na +occasião do natalicio de Jacintho, pelo cosinheiro do 202, contei a +historia, profusamente, exaggerando, affirmando que esse arroz doce +continha _foie gras_, e que sobre a sua ornamentada pyramide fluctuava a +bandeira tricolor, por cima do busto do conde de Chambord! Mas o arroz +doce de Paris, assim estragado tão longe da Serra, não interessára +ninguem. Puxou apenas alguns sorrisos de polida condescendencia, quando +eu, alternadamente, me voltava para um cavalheiro, para uma senhora, +insistindo, exclamando:--Extraordinario, hein? + +D. Theotonio observou, mysteriosamente, que o «cosinheiro sabia para +quem cosinhava.» E a bella mulher do Dr. Alypio ousou murmurar, corando: + +--Havia de ser bonito prato, e talvez não fosse mau! + +Eu, sempre na ancia de espiritualisar o banquete, de produzir +conversação, ataquei com desabrida alegria a Snr.^a D. Luiza, por ella +assim defender a profanação do nosso grande acepipe nacional! Mas, pobre +de mim! tão excessiva e ruidosamente interpellei a formosa senhora, que +ella se enconchou, emmudeceu, toda corada, e mais formosa assim. E outro +silencio se abatia sobre a mesa, como uma nevoa, quando a tia Vicencia, +providencial, se desculpou para com Jacintho de não ter peixe! Mas quê! +ali na Serra era impossivel, ainda a peso d'ouro, ter peixe, a não ser a +pescada salgada, ou o bacalhau. O excellente Rojão, com aquelle seu +modo, tão suave que cada syllaba para correr mais docemente parecia +lubrificada com oleos santos, lembrou que o Snr. D. Jacintho possuia uma +larga facha do rio Douro com privilegio para a pesca do savel. Jacintho +não sabia, nem imaginava que houvesse saveis... O Dr. Alypio não se +admirava por que essas pescas tinham sido vendidas ao Cunha brasileiro, +ha vinte annos, na mocidade do Snr. D. Jacintho. E hoje, segundo o D. +Theotonio, não valiam dois mil réis. Se já não ha saveis!... E a +proposito das antigas pescas do Douro se ia formando, em torno da mesa, +entre os homens mais visinhos, lentas cavaqueirinhas ruraes, que as +senhoras aproveitavam para cochichar, no desabafo d'aquelle silencio +cerimonioso, que viera pesando cada vez mais desde a sôpa até os frangos +guisados. Receoso de que essa orla de murmurios lentos, sem brilho e sem +alegria, se estabelecesse de novo, me abalancei (para animar), a +interpellar Jacintho, recordando a famosa aventura do peixe da Dalmacia +encalhado no ascensor. + +--Isso foi uma das melhores historias que nos succederam em Paris! O +Jacintho, por causa d'um peixe muito raro, que lhe mandára o Grão-Duque +Casimiro, dava uma magnifica ceia, a que o Grão-Duque... o Grão-Duque +Casimiro, o irmão do Imperador... + +Todos os olhos se desviaram para o meu Jacintho, que se servia de +ervilhas:--e o Mello Rebello quasi se engasgou, n'um sorvo precipitado +ao copo, para contemplar no meu amigo algum reflexo do Grão-Duque. E eu +contei, com profusão, o peixe encalhado, o Grão-Duque pescando, o anzol +feito com um gancho da Princeza de Carman, o duque de Marizac, cahindo +quasi no poço do elevador... Mas não se produziu um unico riso, e a +attenção mesma era dada com esforço, por cortezia. Debalde eu +arremessava aquelles nomes magnificos de principes e princezas, +misturados a cousas picarescas... Nenhum dos meus convidados +comprehendia o maquinismo do elevador, um prato encalhado n'um poço +negro... Perante o gancho da princeza as Albergarias baixaram os olhos. +E a minha deliciosa historia morreu n'uma reticencia, ainda mais +regelada pela exclamação innocente da tia Vicencia: + +--Oh! filho, que cousas! + +Mas, como Jacintho se enfronhára de repente n'uma larga conversa com a +Luizinha Rojão, que ria, toda luminosa e palradora,--todos, como +libertados do peso cerimonioso da sua presença augusta, se lançaram nas +conversinhas discretas, a que o champagne, agora, depois do assado, dava +mais viveza. Eram os soturnos murmurios, em torno da mesa, que +definitivamente se perpetuavam. Foi então que desisti de animar o +jantar. Mergulhei com a bella mulher do Doutor Alypio na grande questão +social d'esse tempo em Guiães, o casamento da D. Amelia Noronha com o +feitor! E eu defendia a D. Amelia, os direitos do amor, quando se +alargou um silencio,--e era Jacintho, que se debruçava, de copo na mão. + +--Velho amigo Zé Fernandes, á tua! Muitos e bons, e sempre em companhia +de tua tia e minha senhora, a quem peço para saudar. + +Todos os copos, onde a espuma morria sobre um fundo de champagne, se +ergueram n'um largo rumor de amisade, e boa visinhança. Eu acenei ao +Manoel, vivamente, para encher os copos; e logo, tambem de pé, atirando +para traz a sobrecasaca: + +--Meus senhores, peço uma grande saude para o meu velho amigo Jacintho, +que pela primeira vez honra esta casa fraternal... Que digo eu? que pela +primeira vez honra com a sua presença a sua querida patria! E que por cá +fique, pelas serras, muitos annos, todos bons. Á tua, meu velho! + +Outro rumor correu pela mesa, mas ceremonioso e sereno. A nossa +oratoria, positivamente, não incendiára as imaginações! A tia Vicencia +fez tilintar o seu copo, quasi vasio, com o de Jacintho, que tocou no +copo da sua visinha, a Luizinha Rojão, toda resplandecente, e mais +vermelha que uma peonia. Depois foi um encadeamento de saudes, com os +copos quasi vasios, entre todos os convidados, sem esquecer o tio +Adrião, e o Abbade, ambos ausentes, ambos com furunculos. E a tia +Vicencia espalhava aquelle olhar, que prepára o erguer, o arrastar de +cadeiras,--quando D. Theotonio, erguendo o seu copo de vinho do Porto, +com a outra mão apoiada á mesa, meio erguido, chamou Jacintho, e n'uma +voz respeitosa, quasi cava: + +--Esta é toda particular, e entre nós... Brindo o ausente! + +Esvasiou o copo, como em religião, pontificando. Jacintho bebeu +assombrado, sem comprehender. As cadeiras arrastavam,--eu dei o braço á +tia Albergaria. + +E só comprehendi, na sala, quando o Dr. Alypio, com a sua chavena de +café e o charuto fumegante, me disse, n'um d'aquelles seus olhares +finos, que lhe valiam a alcunha de _Dr. Agudo_:--«Espero que ao menos, +cá por Guiães, não se erga de novo a forca!...» E o mesmo fino olhar me +indicava o D. Theotonio, que arrastára Jacintho para entre as cortinas +d'uma janella, e discorria, com um ar de fé e de mysterio. Era o +miguelismo, por Deus! O bom D. Theotonio considerava Jacintho como um +hereditario, ferrenho, miguelista,--e na sua inesperada vinda ao seu +solar de Tormes, entrevia uma missão politica, o começo d'uma propaganda +energica, e o primeiro passo para uma tentativa de Restauração. E na +reserva d'aquelles cavalheiros, ante o meu Principe, eu senti então a +suspeita liberal, o receio d'uma influencia rica, nova, nas Eleições +proximas, e a nascente irritação contra as velhas ideias, representadas +n'aquelle moço, tão rico, de civilisação tão superior. Quasi entornei o +café, na alegre surpreza d'aquella sandice. E retive o Mello Rebello, +que repunha a chavena vasia na bandeja, fitei, com um pouco de riso, o +_Dr. Agudo_. + +--Então, francamente, os amigos imaginam que o Jacintho veio para Tormes +trabalhar no miguelismo? + +Muito serio, Mello Rebello chegou o seu grosso bigode á minha orelha: + +--Até corre, como certo, que o Principe D. Miguel está com elle em +Tormes! + +E como eu os considerava esgazeado, o Dr. Alypio--tão agudo!--confirmou: + +--É o que corre... Disfarçado em creado! + +Em creado? Oh! santo Deus! Era o Baptista! Justamente, Ricardo Velloso +veio, puxando do seu cigarrinho, para o accender no meu charuto. E o bom +Rebello logo invocou o seu testemunho.--Pois não corria, que o filho de +D. Miguel estava em Tormes, escondido?... + +--Disfarçado em lacaio, confirmou logo o digno Rebello. + +Accendeu o cigarro, soprou o fumo, e erguendo muito as sobrancelhas +meditativas: + +--Se assim é, lá me parece desplante... Que eu não desgostava de o vêr. +Dizem que é bonito moço, bem apessoado. Mas emfim, meu tio João Vaz +Rebello foi partido ás postas, a machado, nas prisões d'Almeida... E se +recomeçam essas questões, mau, mau! Ora o seu amigo... + +Emmudeceu. Jacintho, que se libertára do velho D. Theotonio, e ainda +conservava um resto de riso, d'assombro divertido, vinha para mim, +desabafar: + +--Extraordinario! Vejo que, aqui, na serra, ainda se conservam, sem uma +ruga, as velhas e boas ideias... + +Immediatamente, sem se conter, Mello Rebello acudiu: + +--É conforme o que V. Ex.^a chama _boas ideas_. + +E eu agora, furioso com aquella disparatada invenção, que cercava +d'hostilidade o meu pobre Jacintho, estragava aquella amavel noite +d'annos, intervim, vivamente: + +--Tu jogas o voltarete, Jacintho? Não jogas... Então vamos arranjar duas +mesas... O D. Theotonio ha de querer cartas. + +E arrastei Jacintho para as senhoras, que de novo se aninhavam á sombra +da tia Vicencia, estabelecida no seu canto do sofá. Todas se callavam, +parecia encolherem-se ante a apparição do meu Principe, como pombas +avistando o abutre. E deixei o temido homem affirmando á mulher do Dr. +Alypio (um pouco desgarrada do bando das aves timidas) que lhe dera +grande prazer aquella occasião de conhecer as suas visinhas de Tormes... +Ella abrira nervosamente o leque, sorria, e nunca de certo Jacintho +admirára na Cidade uma bocca mais vermelha, dentinhos mais rutilantes. +Mas depois d'organisar a mesa do voltarete, tive de abancar, eu, para +substituir o Manoel Albergaria, que era dispeptico, se declarára +«affrontado», e desejava respirar um momento na varanda. Todos aquelles +cavalheiros, de resto, se queixavam de calor. Mandei abrir as janellas +que davam sobre as mimosas do pateo. O Velloso, ao baralhar, parava, +bufando, como opprimido: + +--Está abafado... Ainda temos trovoada! + +E o Dr. Alypio, inquieto, por que tinha uma hora d'estrada até casa, e +uma das egoas da caleche era escabriada, correu á janella, espreitar o +ceu, que ennegrecera, morno e pesado. + +--Com effeito, vae cahir agoa. + +As hastes das mimosas ramalhavam, arripiadas: e o ar que agitava as +cortinas era intermittente, estonteado. De certo na sala, entre as +senhoras, surgira a mesma inquietação, porque a tia Albergaria +appareceu, avisando o mano Jorge. + +Era prudente pensar em partir, a noite ameaçava... E o Dr. Alypio, +puxando o relogio, propoz que, levantada aquella remissa, se preparasse +a marcha. Justamente o Albergaria recolhia da varanda desaffrontado, +alliviado com um calice de genebra: e rotomou as suas cartas, +annunciando tambem que vinha ahi uma trovoada valente. + +Voltando á sala, encontrei Jacintho muito alegre entre as senhoras, que +se familiarisaram, escutando cheias de riso e gosto, a historia da sua +chegada a Tormes, sem malas, sem creados, tão desprovido que dormira com +a camisa da caseira! Mas a minha pobre noite d'annos findava, +desorganisada. A tia Albergaria rondava de janella em janella, assustada +com a volta á Roqueirinha, espreitando a treva abafada. Calçando +lentamente as luvas, a bella mulher do Dr. Alypio perguntava se ainda +havia a remissa. E a tia Vicencia apressára o chá, que o Manoel seguido +pela Gertrudes, com a bandeja de bolos, já começava a servir ás +senhoras. Jacintho, de pé, offerecendo chavenas, gracejava: + +--Então tanta pressa, tanto medo, por causa d'uma trovoadinha? + +Ellas replicavam, familiarizadas, n'uma crescente sympathia pelo meu +Principe: + +--Ora o senhor falla bem, porque fica debaixo de telhas... + +--Sempre o queriamos vêr... se fosse agora para Tormes, com esta noite +cerrada! + +O voltarete findára nas duas mesas: e aquelles cavalheiros, das +janellas, gritavam ordens para o pateo negro, onde as carroagens +esperavam atreladas: + +--Desce a cabeça da victoria, ó Diogo! + +--Accende o lampeão, Pedro! Sempre ajuda a luz das lanternas. + +A creada Quiteria chegava á porta com os braços carregados de chales, de +mantilhas de renda. Como uma das Albergarias ia no assento de deante na +victoria, eu corri a buscar o meu casaco de borracha, para ella se +abrigar se a chuva viesse. E só o D. Theotonio, que tinha até casa +apenas meia legoa de estrada boa, se não apressava, filado outra vez no +meu Principe, que levava para os cantos mais solitarios, em conversas +profundas, que o seu dedo solemne, espetado, sublinhava gravemente. Mas +a tia Albergaria gritou que já chovia;--e então foi uma pressa das +senhoras, que beijocavam vivamente a tia Vicencia, em quanto os homens, +na ante-camara, enfiavam açodadamente os paletós. + +Jacintho e eu descemos ao pateo para acompanhar aquella debandada,--e +uma a uma, a traquitana do Dr. Alypio, a victoria das Albergarias, a +velha e immensa caleche dos Vellosos, rolaram sob a noite, entre os +nossos desejos de boa jornada. Por fim D. Theotonio calçou as luvas +pretas e entrou para a sua caleche, dizendo a Jacintho: + +--Pois, primo e amigo, Deus permitta que, do nosso encontro, e do mais +que se passar, algum bem resulte a esta terra! + +Subindo a escada, o meu Principe desabafou: + +--Este Theotonio é extraordinario! Sabes o que descobri por fim?... Que +me toma por um miguelista, e imagina que eu vim para Tormes preparar a +restauração de D. Miguel?! + +--E tu? + +--Eu fiquei tão espantado, que nem o desilludi! + +--Pois sabe mais, meu pobre amigo. Todos pensam o mesmo, estão +desconfiados, e receiam vêr de novo erguidas as fôrcas em Guiães! E +corre que tu tens o Principe D. Miguel escondido em Tormes, disfarçado +em creado. E sabes quem elle é? o Baptista! + +--Isso é sublime! murmurou Jacintho, com uns grandes olhos abertos. + +Na sala, a tia Vicencia nos esperava desconsolada, entre todas as luzes, +que ardiam ainda no silencio e paz do serão debandado: + +--Ora uma cousa assim! Nem quererem ficar para tomar um copinho de +gelea, um calice de vinho do Porto! + +--Esteve tudo muito desanimado, tia Vicencia! exclamei desafogando o meu +tedio. Todo esse mulherio emmudeceu; os amigos com um ar desconfiado... + +Jacintho protestou, muito divertido, muito sincero: + +Não! pelo contrario. Gostei immenso. Excellente gente! E tão simples... +Todas estas raparigas me pareceram optimas. E tão frescas, tão alegres! +Vou ter aqui bons amigos, quando verificarem que não sou miguelista. + +Então contamos á tia Vicencia a prodigiosa historia de D. Miguel +escondido em Tormes... Ella ria! Que cousa! E mau seria... + +--Mas o Snr. Jacintho, não é? + +--Eu, minha senhora, sou socialista... + +Acudi, explicando á tia Vicencia, que socialista era ser pelos pobres. A +doce senhora considerava esse partido o melhor, o verdadeiro: + +--O meu Affonso, que Deus haja, era liberal... Meu pae, tambem e até +amigo do Duque da Terceira... + +Mas um rude trovão rolou, atroou a noite negra:--e uma batega d'agoa +cantou nos vidros, e nas pedras da varanda. + +--Santa Barbara! gritou a tia Vicencia! Ai aquella pobre gente!... Até +estou com cuidado... As Rojões, que vão na victoria! + +E correu para o quarto, na sua pressa de accender as duas velas +costumadas no oratorio, ainda antes de ir guardar as pratas, e resar o +terço, com a Gertrudes. + + + + +XIV + + +Ao outro dia, depois d'almoço, eu e Jacintho montamos a cavallo para um +grande passeio até á Flôr da Malva, a saber de meu tio Adrião, e do seu +furunculo. E sentia uma curiosidade interessada, e até inquieta, de +testemunhar a impressão que daria ao meu Principe aquella nossa prima +Joanninha, que era o orgulho da nossa casa. Já n'essa manhã, andando +todos no jardim a escolher uma bella rosa chá para a botoeira do meu +Principe, a tia Vicencia celebrára com tanto fervor a belleza, a graça, +a caridade, e a doçura da sua sobrinha toda-amada, que eu protestei: + +--Oh! tia Vicencia, olhe que esses elogios todos competem apenas á +Virgem Maria! A tia Vicencia está a cahir em peccado de idolatria! O +Jacintho depois vae encontrar uma creatura apenas humana, e tem um +desapontamento tremendo! + +E agora, trotando pela facil estrada de Sandofim, lembrava-me aquella +manhã, no 202, em que Jacintho encontrára o retrato d'ella no meu +quarto, e lhe chamára uma _lavradeirôna_. Com effeito, era grande e +forte a Joanninha. Mas a photographia datava do seu tempo de viço +rustico, quando ella era apenas uma bella forte e sã planta da serra. +Agora entrava nos vinte e cinco, e já pensava, e sentia,--e a alma que +n'ella se formára, afinára, amaciára, e espiritualisava o seu esplendor +rubicundo. + +A manhã, com o ceu todo purificado pela trovoada da vespera, e as terras +reverdecidas e lavadas pelos chuviscos ligeiros, offerecia uma doçura +luminosa, fina, fresca, que tornava doce, como diz o velho Euripedes ou +o velho Sophocles, mover o corpo, e deixar a alma preguiçar, sem pressa +nem cuidados. A estrada não tinha sombra, mas o sol batia muito de leve, +e roçava-nos com uma caricia quasi alada. O valle parecia a Jacintho, +que nunca ali passára, uma pintura da Escola Franceza do seculo XVIII, +tão graciosamente n'elle ondulavam as terras verdes, e com tanta paz e +frescura corria o risonho Serpão, e tão affaveis e promettedores de +fartura e contentamento alvejavam os casaes nas verduras tenras! Os +nossos cavallos caminhavam n'um passo pensativo, gosando tambem a paz da +manhã adoravel. E não sei, nunca soube, que plantasinhas silvestres e +escondidas espalhavam um delicado aroma, que eu tantas vezes sentira, +n'aquelle caminho, ao começar o outomno. + +--Que delicioso dia! murmurou Jacintho. Este caminho para a Flôr da +Malva é o caminho do ceu... Oh Zé Fernandes, de que é este cheirinho tão +doce, tão bom? + +Eu sorri, com certo pensamento: + +--Não sei... É talvez já o cheiro do ceu! + +Depois, parando o cavallo, apontei com o chicote para o valle: + +--Olha, acolá, onde está aquella fila d'olmos, e ha o riacho, já são +terras do tio Adrião. Tem alli um pomar, que dá os pêcegos mais +deliciosos de Portugal... Hei de pedir á prima Joanninha que te mande um +cesto d'elles. E o dôce que ella faz com esses pêcegos, menino, é alguma +cousa de celeste. Tambem lhe hei de pedir que te mande o dôce. + +Elle ria: + +--Será explorar de mais a prima Joanninha. E eu (por que?) recordei e +atirei ao meu Principe estes dous versos d'uma ballada cavalheiresca, +composta em Coimbra pelo meu pobre amigo Procopio: + +--Manda-lhe um servo querido, +Bem hajas dona formosa! +E que lhe entregue um annel +E com um annel uma rosa. + +Jacintho rio alegremente: + +--Zé Fernandes, seria excessivo, só por causa de meia duzia de pêcegos, +e d'um boião de dôce. + +Assim riamos, quando appareceu, á volta da estrada, o longo muro da +quinta dos Vellosos, e depois a capellinha de S. José de Sandofim. E +immediatamente piquei para o largo, para a taverna do Tôrto, por causa +d'aquelle vinhinho branco, que sempre, quando por ali a levo, a minha +alma me pede. O meu Principe reprovou, indignado: + +--Oh! Zé Fernandes, pois tu, a esta hora, depois d'almoço, vaes beber +vinho branco? + +--É um costumesinho antigo... Aqui á taverninha do Tôrto... um +decilitrosinho... A almasinha assim m'o pede. + +E paramos; eu gritei pelo Manoel, que appareceu, rebolando a sua grossa +pansa, sobre as pernas tortas, com a infusa verde, e um copo. + +--Dous copos, Tôrto amigo. Que aqui este cavalheiro tambem aprecia. + +Depois d'um pallido protesto, o meu Principe tambem quiz, mirou o +limpido e dourado vinho ao sol, provou, e esvasiou o copo, com delicia, +e um estalinho de alto apreço. + +--Delicioso vinho!... Hei de querer d'este vinho em Tormes... É +perfeito. + +--Hein? Fresquinho, leve, aromatico, alegrador, todo alma!... Encha lá +outra vez os copos, amigo Tôrto. Este cavalheiro aqui é o Snr. D. +Jacintho, o fidalgo de Tormes. + +Então, de traz da umbreira da taverna, uma grande voz bradou, cavamente, +solemnemente: + +--Bemdito seja o pae dos Pobres! + +E um extranho velho, de longos cabellos brancos, barbas brancas, que lhe +comiam a face côr de tijolo, assomou no vão da porta, apoiado a um +bordão, com uma caixa de lata a tiracolo, e cravou em Jacintho dous +olhinhos d'um brilho negro, que faiscavam. Era o tio João Torrado, o +propheta da Serra... Logo lhe estendi a mão, que elle apertou, sem +despegar de Jacintho os olhos, que se dilatavam mais negros. Mandei vir +outro copo, apresentei Jacintho, que córára, embaraçado. + +--Pois aqui o tem, o senhor de Tormes, que fez por ahi todo esse bem á +pobreza. + +O velho atirou para elle bruscamente o braço, que sahia cabelludo e +quasi negro, d'uma manga muito curta. + +--A mão! + +E quando Jacintho lh'a deu, depois de arrancar vivamente a luva, João +Torrado longamente lh'a reteve com um sacudir lento e pensativo, +murmurando: + +--Mão real, mão de dar, mão que vem de cima, mão já rara! + +Depois tomou o copo, que lhe offerecia o Tôrto, bebeu com immensa +lentidão, limpou as barbas, deu um geito á correia que lhe prendia a +caixa de lata, e batendo com a ponta do cajado no chão: + +--Pois louvado seja nosso Senhor Jesus Christo, que por aqui me trouxe, +que não o meu dia, e vi um homem! + +Eu então debrucei-me para elle, mais em confidencia: + +--Mas, ó tio João, ouça cá! Sempre é certo você dizer por ahi, pelos +sitios, que El-Rei D. Sebastião voltára? + +O pittoresco velho apoiou as duas mãos sobre o cajado, o queixo +d'espalhada barba sobre as mãos, e murmurava, sem nos olhar, como +seguindo a percussão dos seus pensamentos: + +--Talvez voltasse, talvez não voltasse... Não se sabe quem vae, nem quem +vem. A gente vê os corpos, mas não vê as almas que estão dentro. Ha +corpos d'agora com almas d'outr'ora. Corpo é vestido, alma é pessoa... +Na feira da Roqueirinha quem sabe com quantos reis antigos se topa, +quando se anda aos encontrões entre os vaqueiros... Em ruim corpo se +esconde bom senhor! + +E como elle findára n'um murmurio, eu, atirando um olhar a Jacintho, e +para gosarmos aquelles estranhos, pittorescos modos de vidente, insisti: + +--Mas, ó tio João, você realmente, em sua consciencia, pensa que El-Rei +D. Sebastião não morreu na batalha? + +O velho ergueu para mim a face, que se enrugára n'uma desconfiança: + +--Essas cousas são muito antigas. E não calham bem aqui á porta do +Tôrto. O vinho era bom, e V. S.^a tem pressa, meu menino! A flôr da Flôr +da Malva lá tem o paesinho doente... Mas o mal já vae pela serra abaixo +com a inchação ás costas. Dá gosto vêr quem dá gosto aos tristes. Por +cima de Tormes ha uma estrella clara. E é trotar, trotar, que o dia está +lindo! + +Com a magra mão lançou um gesto para que seguissemos. E já passavamos o +cruzeiro quando o seu brado ardente, de novo revoou, com solemnidade +cava: + +--Bemdito seja o Pae dos Pobres. + +Direito, no meio da estrada, erguia o cajado como dirigindo as +acclamações d'um povo. E Jacintho pasmava de que ainda houvesse no reino +um Sebastianista. + +--Todos o somos ainda em Portugal, Jacintho! Na serra ou na cidade cada +um espera o seu D. Sebastião. Até a loteria da Misericordia é uma forma +do Sebastianismo. Eu todas as manhãs, mesmo sem ser de nevoeiro, +espreito, a vêr se chega o meu. Ou antes a minha, por que eu espero uma +D. Sebastiana... E tu, felizardo? + +--Eu? Uma D. Sebastiana? Estou muito velho, Zé Fernandes... Sou o ultimo +Jacintho; Jacintho ponto final... Que casa é aquella com os dous +torreões? + +--A Flôr da Malva. + +Jacintho tirou o relogio: + +--São tres horas. Gastamos hora e meia... Mas foi um bello passeio, e +instructivo. É lindo este sitio. + +Sobre um outeirinho, afastada da estrada por arvoredo, que um muro +cerrava, e dominando, a Flôr da Malva voltava para Oriente e para o Sol +a sua longa fachada com os dous torreões quadrados, onde as janellas, de +varanda, eram emolduradas em azulejos. O grande portão de ferro, ladeado +por dous bancos de pedra, ficava ao fundo do terreirinho, onde um +immenso castanheiro derramava verdura e sombra. Sentado sobre as fortes +raizes descarnadas da grande arvore, um pequeno esperava segurando um +burro pela arreata. + +--Está por ahi o Manoel da Porta? + +--Ainda agora subio pela alameda. + +--Bem: empurra lá o portão. + +E subimos, por uma curta avenida de velhas arvores, até outro terreiro, +com um alpendre, uma casa de moços, toda coberta d'heras, e uma casota +de cão, d'onde saltou, com um rumor de corrente arrastada, um molosso, o +Tritão, que eu logo soceguei fazendo-lhe reconhecer o seu velho amigo Zé +Fernandes. E o Manoel da Porta correu da fonte, onde enchia um grande +balde, para nos segurar os cavallos. + +--Como está o tio Adrião? + +Surdo, o excellente Manoel sorrio, deleitado: + +--E então vossa excellencia, bem? A Snr.^a D. Joanninha ainda agora +andava no laranjal com o pequeno da Josepha. + +Seguimos por ruasinhas bem areadas, orladas d'alfazema e buxo alto, em +quanto eu contava ao meu Principe que aquelle pequenito da Josepha era +um afilhadinho da prima Joanna, e agora o seu encanto e o seu cuidado +todo. + +--Esta minha santa prima, apesar de solteira, tem ahi pela freguezia uma +verdadeira filharada. E não é só dar-lhes roupas e presentes, e ajudar +as mães. Mas até os lava, e os penteia, e lhes trata as tosses. Nunca a +encontro sem alguma creancita ao collo... Agora anda na paixão d'este +Josésinho. + +Mas quando chegamos ao laranjal, á beira da larga rua da quinta que +levava ao tanque, debalde procurei, e me embrenhei, e até gritei:--Eh, +prima Joanninha!... + +--Talvez esteja lá para baixo, para o tanque... + +Descemos a rua, entre arvores, que a cobriam com as densas ramas +encruzadas. Uma fresca, limpida agoa de rega corria e luzia n'um caneiro +de pedra. Entre os troncos, as roseiras bravas ainda tinham uma frescura +de verão. E o pequeno campo, que se avistava para além, rebrilhava com +doçura, todo amarello e branco, dos malmequeres e botões d'ouro. + +O tanque, redondo, fôra esvasiado para se lavar, e agora de novo o +repuxo o ia enchendo d'uma agoa muito clara, ainda baixa, onde os peixes +vermelhos se agitavam na alegria de recuperarem o seu pequeno oceano. +Sobre um dos bancos de pedra que circumdavam o tanque pousava um cesto +cheio de dhalias cortadas. E um moço, que sobre uma escada podava as +camelias, vira a Snr.^a D. Joanna seguir para o lado da parreira. + +Marchamos para a parreira, ainda toda carregada de uva preta. Duas +mulheres, longe, ensaboavam n'um lavadoiro, na sombra de grandes +nogueiras. Gritei:--Eh lá? Vocês viram por ahi a Snr.^a D. Joanna? Uma +das moças esganiçou a voz, que se perdeu no vasto ar luminoso e doce. + +--Bem: vamos a casa! Não podemos farejar assim, toda a tarde. + +--É uma bella quinta, murmurava o meu Principe encantado. + +--Magnifica! E bem tratada... O tio Adrião tem um feitor excellente... +Não é o teu Melchior. Observa, aprende, lavrador! Olha aquelle +cebolinho! + +Passamos pela horta, uma horta ajardinada, como a sonhára o meu +Principe, com os seus talhões debruados d'alfazema, e madresilva +enroscada nos pilares de pedra, que faziam ruasinhas frescas toldadas de +parra densa. E démos volta á capella, onde crescia aos dous lados da +porta uma roseira chá, com uma rosa unica, muito aberta, e uma moita de +baunilha, onde Jacintho apanhou um raminho para cheirar. Depois entramos +no terraço em frente da casa, com a sua balaustrada de pedra, toda +enrodilhada de jasmineiros amarellos. A porta envidraçada estava aberta: +e subimos pela escadaria de pedra, no immenso silencio em que toda a +Flôr da Malva repousava, até á ante-camara, d'altos tectos apainelados, +com longos bancos de pau, onde desmaiavam na sua velha pintura as +complicadas armas dos Cerqueiras. Empurrei a porta d'uma outra sala, que +tinha as janellas da varanda abertas, cada uma com a gaiola d'um +canario. + +--É curioso!--exclamou Jacintho. Parece o meu Presepio... E as minhas +cadeiras. + +E com effeito. Sobre uma commoda antiga, com bronzes antigos, pousava um +presepio semelhante ao da livraria de Jacintho. E as cadeiras de couro +lavrado tinham, como as que elle descobrira no sotão, umas armas sob um +chapéo de Cardeal. + +--Oh senhores! exclamei. Não haverá um creado? + +Bati as mãos, fortemente. E o mesmo doce silencio permaneceu, muito +largo, todo luminoso e arejado pelo macio ar da quinta, apenas cortado +pelo saltitar dos canarios nos poleiros das gaiolas. + +--É o Palacio da Bella adormecida no bosque! murmurou Jacintho, quasi +indignado. Dá um berro! + +--Não, caramba! Vou lá dentro! + +Mas, á porta, que de repente se abrio, appareceu minha prima Joanninha, +córada do passeio e do vivo ar, com um vestido claro um pouco aberto no +pescoço, que fundia mais docemente, n'uma larga claridade, o explendor +branco da sua pelle, e o louro ondeado dos seus bellos +cabellos,--lindamente risonha, na surpreza que alargava os seus largos, +luminosos olhos negros, e trazendo ao collo uma creancinha, gorda e côr +de rosa, apenas coberta com uma camisinha, de grandes laços azues. + +E foi assim que Jacintho, n'essa tarde de Septembro, na Flôr da Malva, +vio aquella com quem casou em Maio, na capellinha d'azulejos, quando o +grande pé de roseira se cobrira todo de rosas. + + + + +XV + + +E agora, entre roseiras que rebentam, e vinhas que se vindimam, já cinco +annos passaram sobre Tormes e a Serra. O meu Principe já não é o ultimo +Jacintho, Jacintho ponto final--por que n'aquelle solar que decahira, +correm agora, com soberba vida, uma gorda e vermelha Theresinha, minha +afilhada, e um Jacinthinho, senhor muito da minha amisade. E, pae de +familia, principiára a fazer-se monotono, pela perfeição da belleza +moral, aquelle homem tão pittoresco pela inquietação philosophica, e +pelos variados tormentos da phantasia insaciada. Quando elle agora, bom +sabedor das cousas da lavoura, percorria comigo a quinta, em solidas +palestras agricolas, prudentes e sem chimeras--eu quasi lamentava esse +outro Jacintho que colhia uma theoria em cada ramo d'arvore, e riscando +o ar com a bengala, planeava queijeiras de cristal e porcellana, para +fabricar queijinhos que custariam duzentos mil réis cada um! + +Tambem a paternidade lhe despertára a responsabilidade. Jacintho possuia +agora um caderno de contas, ainda pequeno, rabiscado a lapis, com +falhas, e papeluchos soltos entremeados, mas onde as suas despezas, as +suas rendas se alinhavam, como duas hostes disciplinadas. Visitára já as +suas propriedades de Montemór, da Beira; e concertava, mobilava as +velhas casas d'essas propriedades para que os seus filhos, mais tarde, +crescidos, encontrassem «ninhos feitos». Mas onde eu reconheci que +definitivamente um perfeito e ditoso equilibrio se estabelecera na alma +do meu Principe, foi quando elle, já sabido d'aquelle primeiro e ardente +fanatismo da Simplicidade--entreabrio a porta de Tormes á Civilisação. +Dous mezes antes de nascer a Theresinha, uma tarde, entrou pela avenida +de platanos uma chiante e longa fila de carros, requisitados por toda a +freguesia, e acuculados de caixotes. Eram os famosos caixotes, por tanto +tempo encalhados em Alba de Tormes, e que chegavam, para despejar a +Cidade sobre a Serra. Eu pensei:--Mau! o meu pobre Jacintho teve uma +recahida! Mas os confortos mais complicados, que continha aquella +caixotaria temerosa, foram, com surpreza minha, desviados para os sotãos +immensos, para o pó da inutilidade: e o velho solar apenas se regalou +com alguns tapetes sobre os seus soalhos, cortinas pelas janellas +desabrigadas, e fundas poltronas, fundos sofás, para que os repousos, +por que elle suspirára, fossem mais lentos e suaves. Attribui esta +moderação a minha prima Joanninha, que amava Tormes na sua nudez rude. +Ella jurou que assim o ordenára o seu Jacintho. Mas, decorridas semanas, +tremi. Apparecera, vindo de Lisboa, um contra-mestre, com operarios, e +mais caixotes, para installar um telephone! + +--Um telephone, em Tormes, Jacintho? + +O meu Principe explicou, com humildade: + +--Para casa de meu sogro!... Bem vês. + +--Era rasoavel e carinhoso. O telephone porém, subtilmente, mudamente, +estendeu outro longo fio, para Valverde. E Jacintho, alargando os +braços, quasi supplicante: + +--Para casa do medico. Comprehendes... + +Era prudente. Mas, certa manhã, em Guiães, accordei aos berros da tia +Vicencia! Um homem chegára, mysterioso, com outros homens, trazendo +arame, para installar na nossa casa o novo invento. Soceguei a tia +Vicencia, jurando que essa machina nem fazia barulho, nem trazia +doenças, nem attrahia as trovoadas. Mas corri a Tormes. Jacintho sorrio, +encolhendo os hombros: + +--Que queres? Em Guiães está o boticario, está o carniceiro... E, +depois, estás tu! + +Era fraternal. Todavia pensei: Estamos perdidos! Dentro d'um mez temos a +pobre Joanna a apertar o vestido por meio d'uma machina! Pois não! o +Progresso, que, á intimação de Jacintho, subira a Tormes a estabelecer +aquella sua maravilha, pensando talvez que conquistára mais um reino +para desfear, desceu, silenciosamente, desilludido, e não avistamos mais +sobre a serra a sua hirta sombra côr de ferro e de fuligem. Então +comprehendi que, verdadeiramente, na alma de Jacintho se estabelecera o +equilibrio da vida, e com elle a Gran-Ventura, de que tanto tempo elle +fôra o principe sem Principado. E uma tarde, no pomar, encontrando o +nosso velho Grillo, agora reconciliado com a serra, desde que a serra +lhe dera meninos para trazer ás cavalleiras, observei ao digno preto, +que lia o seu _Figaro_, armado de immensos oculos redondos: + +--Pois, Grillo, agora realmente bem podemos dizer que o Snr. D. Jacintho +está firme. + +O Grillo arredou os oculos para a testa, e levantando para o ar os cinco +dedos em curva como petalas d'uma tulipa: + +--S. ex.^a brotou! + +Profundo sempre o digno preto! Sim! Aquelle resequido galho de Cidade, +plantado na serra, pegára, chupára o humus do torrão herdado, creára +seiva, afundára raizes, engrossára de tronco, atirára ramos, rebentára +em flôres, forte, sereno, ditoso, benefico, nobre, dando fructos, +derramando sombra. E abrigados pela grande arvore, e por ella nutridos, +cem casaes em redor a bemdiziam. + + + + +XVI + + +Muitas vezes Jacintho, durante esses annos, fallára com prazer n'um +regresso de dous, tres mezes, ao 202, para mostrar Paris á prima +Joanninha. E eu seria o companheiro fiel, para archivar os espantos da +minha serrana ante a Cidade! Depois conveio em esperar que o Jacinthinho +completasse dous annos, para poder jornadear sem desconforto, e +apontando já com o seu dedo para as cousas da Civilisação. Mas, quando +elle, em Outubro, fez esses dous annos desejados, a prima Joanninha +sentiu uma preguiça immensa, quasi aterrada, do comboio, do estridor da +Cidade, do 202, e dos seus esplendores. «Estamos aqui tão bem! está um +tempo tão lindo!» murmurava, deitando os braços, sempre deslumbrada, ao +rijo pescoço do seu Jacintho. Elle desistia logo de Paris, encantado. +«Vamos para Abril, quando os castanheiros dos Campos-Elyseos estiverem +em flôr!» Mas em Abril vieram aquelles cansaços que immobilisavam a +prima Joanninha no divan, ditosa, risonha, com umas pintas na pelle, e o +roupão mais solto. Por todo um longo anno estava desfeita a alegre +aventura. Eu andava então soffrendo de desoccupação. As chuvas de Março +promettiam uma farta colheita. Uma certa Anna Vaqueira, córada e bem +feita, viuva, que surtia as necessidades do meu coração, partira com o +irmão para o Brazil, onde elle dirigia uma venda. Desde o inverno, +sentia tambem no corpo como um começo de ferrugem, que o emperrava, e, +certamente, algures, na minha alma, nascera uma pontinha de bolor. +Depois a minha egoa morreu... Parti eu para Paris. + +Logo em Hendaya, apenas pisei a doce terra de França, o meu pensamento, +como pombo a um velho pombal, voou ao 202,--talvez por eu vêr um enorme +cartaz em que uma mulher nua, com flôres bacchanticas nas tranças, se +estorcia, segurando n'uma das mãos uma garrafa espumante, e brandindo na +outra, para o annunciar ao Mundo, um novo modelo de saca-rolhas. E oh +surpresa! eis que, logo adeante, na estação quieta e clara de Saint +Jean-de-Luz, um moço esbelto, de perfeita elegancia, entra vivamente no +meu compartimento, e, depois de me encarar, grita: + +--Eh, Fernandes! + +Marizac! O duque de Marizac! Era já o 202... Com que reconhecimento lhe +sacudi a mão fina, por elle me ter reconhecido! E, atirando para o canto +do vagon um paletó, um masso de jornaes, que o escudeiro lhe passára, o +bom Marizac exclamava na mesma surpreza alegre: + +--E Jacintho? + +Contei Tormes, a serra, o seu primeiro amor pela Natureza, o seu outro +grande amor por minha prima, e os dous filhos, que elle trazia +escarranchados no pescoço. + +--Ah que canalha! exclamou Marizac com os olhos espetados em mim! É +capaz de ser feliz! + +--Espantosamente, loucamente... Qual! não ha adverbios... + +--Indecentemente--murmurou Marizac muito serio. Que canalha! + +Eu então desejei saber do nosso rancho familiar do 202. Elle encolheu os +hombros, accendendo a cigarette: + +--Todo esse mundo circula... + +--Madame d'Oriol? + +--Continúa. + +--Os Trèves? o Ephraim? + +--Continuam, todos tres. + +Lançou um gesto languido. + +--Durante cinco annos, em Paris, tudo continúa... As mulheres com um +pouco mais de pós d'arroz, e a pelle um pouco mais molle, e melada. Os +homens com um tanto mais de dispepsia. E tudo segue. Tivemos os +Anarchistas. A princeza de Carman abalou com um acrobata do Circo de +Inverno... E--e voilà! + +--Dornan? + +--Continúa... Não o encontrei mais desde o 202. Mas vejo ás vezes o nome +d'elle, no _Boulevard_, com versos preciosos, obscenidades muito +apuradas, muito subtis. + +--E o Psychologo?... Ora, como se chamava elle?... + +--Continúa tambem. Sempre com as feminices a tres francos e cincoenta... +Duquezas em camisa, almas núas... Cousas que se vendem bem! + +Mas quando eu, encantado, ia indagar de Todelle, do Grão-Duque, o +comboio entrou na estação de Biarritz:--e rapidamente, apanhando o +paletot e os jornaes, depois de me apertar a mão, o delicioso Marizac +saltou pela portinhola, que o seu creado abrira, gritando: + +--Até Paris!... Sempre rue Cambori. + +Então, no compartimento solitario, bocejei, com uma estranha sensação de +monotonia, de saciedade, como cercado já de gentes muito vistas, +murmurando historias muito sabidas, e cousas muito ditas, atravez de +sorrisos estafados. Dos dous lados do comboio era a longa planicie +monotona, sem variedade, muito miudamente cultivada, muito miudamente +retalhada, d'um verde de rezeda, verde cinzento e apagado, onde nenhum +lampejo, nem tom alegre de flôr, nem acidente do solo, desmanchavam a +mediocridade discreta e ordeira. Pallidos choupos, em renques pautados e +finos, bordavam canaesinhos muito direitos e claros. Os casaes, todos da +mesma côr pardacenta, mal se elevavam do solo, mal se destacavam da +verdura desbotada, como encolhidos na sua mediocridade e cautella. E o +ceu, por cima, liso, sem uma nuvem, com um sol descórado, parecia um +vasto espelho muito lavado a grande agoa, até que de todo se lhe safasse +o esmalte e o brilho. Adormeci n'uma doce insipidez. + +Com que linda manhã de Maio entrei em Paris! Tão fresca e fina, e já +macia, que, apesar de cansado, mergulhei com repugnancia no profundo, +sombrio leito do Grand-Hotel, todo fechado de espessos velludos, grossos +cordões, pesadas borlas, como um palanque de gala. N'essa profunda cova +de pennas sonhei que em Tormes se construira uma torre Eiffel e que em +volta d'ella as senhoras da Serra, as mais respeitaveis, a propria tia +Albergaria, dançavam, núas, agitando no ar saca-rolhas immensos. Com as +commoções d'este pesadello, e depois o banho, e o desemmalar da mala, já +se acercavam as duas horas quando emfim emergi do grande portão, pisei, +ao cabo de cinco annos, o Boulevard. E immediatamente me pareceu que +todos esses cinco annos eu ali permanecera á porta do Grand-Hotel, tão +estafadamente conhecido me era aquelle estridente rolar da cidade, e as +magras arvores, e as grossas taboletas, e os immensos chapeus emplumados +sobre tranças pintadas d'amarello, e as empertigadas sobrecasacas com +grossas rosetas da legião d'honra, e os garotos, em voz rouca e baixa, +offerecendo baralhos de cartas obscenas, caixas de phosphoros +obscenas... Santo Deus! pensei, ha que annos eu estou em Paris! Comprei +então, n'um kiosque, um jornal, a Voz de Paris, para que elle me +contasse, durante o almoço, as novas da Cidade. A mesa do kiosque +desapparecia, alastrada de jornaes illustrados:--e em todos se repetia a +mesma mulher, sempre núa, ou meia despida, ora mostrando as costellas +magras, de gata faminta, ora voltando para o Leitor duas tremendas +nadegas... Eu outra vez murmurei:--Santo Deus! No café da Paz, o creado +livido, e com um resto de pó de arroz sobre a sua lividez, aconselhou ao +meu appetite, por ser tão tarde, um lingoado frito e uma costelleta. + +--E que vinho, snr. Conde? + +--Chablis, snr. Duque! + +Elle sorrio á minha deliciosa pilheria,--e eu abri, contente, a Voz de +Paris. Na primeira columna, atravez d'uma prosa muito retorcida, toda em +brilhos de joia barata, entrevi uma Princesa núa, e um Capitão de +Dragões, que soluçava. Saltei a outras columnas, onde se contavam feitos +de cocottes de nomes sonoros. Na outra pagina escriptores eloquentes +celebravam vinhos digestivos e tonicos. Depois eram os crimes do +costume.--Não ha nada de novo! Puz de parte a Voz de Paris,--e então +foi, entre mim e o lingoado, uma lucta pavorosa. O miseravel, que se +frigira rancorosamente contra mim, não consentia que eu descollasse da +sua espinha uma febra escassa. Todo elle se ressequira n'uma sola +impenetravel e tostada, onde a faca vergava, impotente e tremula. Gritei +pelo môço livido, o qual, com faca mais rija, fincando no soalho os +sapatos de fivella, arrancou emfim áquelle malvado duas tirinhas, finas +e curtas como palitos, que engoli juntas, e me esfomearam. D'uma garfada +findei a costelleta. E paguei quinze francos com um bom luiz d'ouro. No +trôco, que o moço me deu, com a polidez requintada d'uma civilisação +muito diffundida, havia dous francos falsos. E por aquella dôce tarde de +Maio sahi para tomar no terraço um café côr de chapéo côco, que sabia a +fava. + +Com o charuto acceso contemplei o Boulevard, áquella hora em toda a +pressa e estridor da sua grossa sociabilidade. A densa torrente dos +omnibus, calhambeques, carroças, parelhas de luxo, rolava vivamente, +como toda uma escura humanidade formigando entre patas e rodas, n'uma +pressa inquieta. Aquelle movimento continuado e rude bem depressa +entonteceu este espirito, por cinco annos affeito á quietação das serras +immutaveis. Tentava então, puerilmente, repousar n'alguma forma immovel, +omnibus parado, fiacre que estacára, n'um brusco escorregar da pileca: +mas logo algum dorso apressado se encafuava pela portinhola da tipoia, +ou um cacho de figuras escuras trepava sofregamente para o omnibus:--e, +rapido, recomeçava o rolar retumbante. Immoveis, de certo, estavam os +altos predios hirtos, ribas de pedra e cal, que continham, +disciplinavam, aquella torrente offegante. Mas da rua aos telhados, em +cada varanda, por toda a fachada, eram taboletas encimando taboletas, +que outras taboletas apertavam:--e mais me cançava o perceber a tenaz +incessancia do trabalho latente, a devorante canceira do lucro, +arquejante por traz das frontarias decorosas e mudas. Então, emquanto +fumava o meu charuto, extranhamente se apossaram de mim os sentimentos +que Jacintho outr'ora experimentára no meio da Natureza, e que tanto me +divertiam. Ali, á porta do café, entre a indifferença e a pressa da +Cidade, tambem eu senti, como elle no campo, a vaga tristeza da minha +fragilidade e da minha solidão. Bem certamente estava ali como perdido +n'um mundo, que me não era fraternal. Quem me conhecia? Quem se +interessaria por Zé Fernandes? Se eu sentisse fome, e o confessasse, +ninguem me daria metade do seu pão. Por mais afflictamente que a minha +face revelasse uma angustia, ninguem na sua pressa pararia para me +consolar. De que me serviriam tambem as excellencias d'alma, que só na +alma florescem? Se eu fosse um santo, aquella turba não se importaria +com a minha santidade; e se eu abrisse os braços e gritasse, ali no +Boulevard--«ó homens, meus irmãos!» os homens, mais ferozes que o lôbo +ante o Pobresinho d'Assis, ririam e passariam indifferentes. Dous +impulsos unicos, correspondendo a duas funcções unicas, parecia estarem +vivos n'aquella multidão,--o lucro e o gôso. Isolada entre elles, e ao +contagio ambiente da sua influencia, em breve a minha alma se +contrahiria, se tornaria n'um duro calhau de Egoismo. Do ser que eu +trouxera da Serra só restaria em pouco tempo esse calhau, e n'elle, +vivos, os dous appetites da Cidade,--encher a bolsa, saciar a carne! E +pouco a pouco as mesmas exagerações de Jacintho perante a Natureza me +invadiam perante a Cidade. Aquelle Boulevard reçumava para mim um bafo +mortal, extrahido dos seus milhões de microbios. De cada porta me +parecia sahir um ardil para me roubar. Em cada face, avistada á +portinhola d'um fiacre, suspeitava um bandido em manobra. Todas as +mulheres me pareciam caiadas como sepulchros, tendo só podridão por +dentro. E considerava d'uma melancolia funambulesca as fórmas de toda +aquella Multidão, a sua pressa aspera e vã, a affectação das attitudes, +as immensas plumas das chapeletas, as expressões postiças e falsas, a +pompa dos peitos alteados, o dorso redondo dos velhos olhando as imagens +obscenas das vitrines. Ah! tudo isto era pueril, quasi comico da minha +parte, mas é o que eu sentia no Boulevard, pensando na necessidade de +remergulhar na Serra, para que ao seu puro ar se me despegasse a crosta +da Cidade, e eu resurgisse humano, e Zé-Fernandico! + +Então, para dissipar aquelle pesadume de solidão, paguei o café e parti, +lentamente, a visitar o 202. Ao passar na Magdalena, deante da estação +dos omnibus, pensei:--Que será feito de Madame Colombe? E, oh miseria! +pelo meu miseravel ser subiu uma curta e quente baforada de desejo bruto +por aquella besta suja e magra! Era o charco onde eu me envenenara, e +que me envolvia nas emanações subtis do seu veneno. Depois, ao dobrar da +rue Royale para a Praça da Concordia, topei com um robusto e possante +homem, que estacou, ergueu o braço, ergueu o vozeirão, n'um modo de +commando: + +--Eh, Fernandes! + +O Grão-Duque! O bello Grão-Duque, de jaquetão alvadio e chapeu tyrolez +côr de mel! Apertei com gratidão reverente a mão do Principe, que me +reconhecera. + +--E Jacintho? Em Paris?... + +Contei Tormes, a serra, o rejuvenescimento do nosso amigo entre a +Natureza, a minha dôce prima, e os bravos pequenos, que elle trazia ás +cavalleiras. O Grão-Duque encolheu os hombros, desolado: + +--Oh lá, lá, lá!... Peuh! Casado, na aldeia, com filharada... Homem +perdido! Ora não ha!... E um rapaz util! que nos divertia, e tinha +gosto! Aquelle jantar côr de rosa foi uma festa linda... Não se fez, não +se tornou a fazer nada tão brilhante em Paris... E Madame d'Oriol... +Ainda ha dias a vi no Palacio de Gelo... Potavel, mulher ainda muito +potavel... Não é todavia o meu genero... Adocicada, leitosa, pommadada, +neve á la vanille!... Ora esse Jacintho!... + +--E Vossa Alteza, em Paris com demora? + +O formidavel homem baixou a face, franzida e confidencial: + +--Nenhuma. Paris não se aguenta... Está estragado, positivamente +estragado... Nem se come! Agora é o Ernest, da Praça Gaillon, o Ernest, +que era maitre-d'hotel do Maire... Já lá comeu? Um horror. Tudo é o +Ernest, agora! Onde se come? No Ernest. Qual! Ainda esta manhã lá +almocei... Um horror! Uma salada Chambord... palhada, indecentemente +palhada! Não tem, não tem a noção da salada! Paris foi! Theatros, uma +estopada. Mulheres, hui! Lambidas todas. Não ha nada! Ainda assim, n'um +dos theatritos de Montmartre, na Roulotte, está uma revista, que se vê: +_Para cá as mulheres_!--engraçada, bem despida... A Celestine tem uma +cantiga, meia sentimental, meia porca, o _Amor no Water-Closet_, que +diverte, tem topete... Onde está, Fernandes? + +--No Grand-Hotel, meu senhor. + +--Que barraca!... E o seu Rei sempre bom? + +Curvei a cabeça: + +--Sua Magestade, bem. + +--Estimo! Pois, Fernandes, tive prazer... Esse Jacintho é que me desola! +Vá vêr a Revista... Boas pernas, a Celestine... E tem graça o tal _Amor +no Water-Closet_. + +Um rijissimo aperto de mão,--e S. Alteza subiu pesadamente para a +victoria, ainda com um aceno amavel, que me penhorou... Excellente +homem, este Grão-Duque! Mais reconciliado com Paris, atravessei para os +Campos-Elyseos. Em toda a sua nobre e formosa larguesa, toda verde, com +os castanheiros em flôr, corriam, subindo, descendo, velocipedes. Parei +a contemplar aquella fealdade nova, estes innumeraveis espinhaços +arqueados, e gambias magras, agitando-se desesperadamente sobre duas +rodas. Velhos gordos, de cachaço escarlate, pedalavam, gordamente. +Galfarros esguios, de tibias descarnadas, fugiam n'uma linha esfusiada. +E as mulheres, muito pintadas, de bolero curto, calções bufantes, +giravam, mais rapidamente ainda, no prazer equivoco da carreira, +escarranchadas em hastes de ferro. E a cada instante outras medonhas +machinas passavam, victorias e phaetons a vapor, com uma complicação de +tubos e caldeiras, torneiras e chaminés, rolando n'uma trepidação +estridente e pesada, espalhando um grosso fedor de petroleo. Segui para +o 202, pensando no que diria um grego do tempo de Phidias, se visse esta +nova belleza e graça do caminhar humano!... + +No 202, o porteiro, o velho Vian, quando me reconheceu, mostrou uma +alegria enternecedora. Não se fartou de saber do casamento de Jacintho, +e d'aquelles queridos meninos. E era para elle uma felicidade que eu +apparecesse, justamente quando tudo se andára limpando para a entrada da +primavera. Quando penetrei na amada casa senti mais vivamente a minha +solidão. Não restava em toda ella nem um dos costumados aspectos que +fizessem reviver a velha camaradagem com o meu Principe. Logo na +ante-camara grandes lonas cobriam as tapessarias heroicas, e egual lona +parda escondia os estofos das cadeiras e dos muros, e as largas estantes +d'ebano da Bibliotheca, onde os trinta mil volumes, nobremente +enfileirados como Doutores n'um Concilio, pareciam separados do mundo +por aquelle panno que sobre elles descera depois de finda a comedia da +sua força e da sua auctoridade. No gabinete de Jacintho, de sobre a mesa +d'escripta, desapparecera aquella confusão de instrumentosinhos, de que +eu perdera já a memória: e só a Mechanica sumptuosa, por sobre peanhas e +pedestaes, recentemente espanejada, reluzia, com as suas engrenagens, +tubos, rodas, rigidezes de metaes, n'uma frieza inerte, na inactividade +definitiva das cousas desusadas, como já dispostas n'um Museu, para +exemplificar a instrumentação caduca d'um mundo passado. Tentei mover o +telephone, que se não moveu; a mola da electricidade não accendeu nenhum +lume: todas as forças universaes tinham abandonado o serviço do 202, +como servos despedidos. E então, passeando atravez das salas, realmente +me pareceu que percorria um museu d'antiguidades; e que mais tarde +outros homens, com uma comprehensão mais pura e exacta da Vida e da +Felicidade, percorreriam como eu, longas salas, atulhadas com os +instrumentos da Super-Civilisação, e, como eu, encolheriam +desdenhosamente os hombros ante a grande Illusão que findára, agora para +sempre inutil, arrumada como um lixo historico, guardada debaixo de +lona. + +Quando sahi do 202 tomei um fiacre, subi ao Bosque de Bolonha. E apenas +rolára momentos pela avenida das Acacias, no silencio decoroso, +unicamente cortado pelo tilintar dos freios e pelas rodas vagarosas +esmagando a areia, comecei a reconhecer as velhas figuras, sempre com o +mesmo sorriso, o mesmo pó d'arroz; as mesmas palpebras amortecidas, os +mesmos olhos farejantes, a mesma immobilidade de cêra! O romancista da +_Couraça_ passou n'uma victoria, fixou em mim o monoculo defumado, mas +permaneceu indifferente. Os bandós negros de Madame Verghane, +tapando-lhe as orelhas, pareciam ainda mais furiosamente negros entre a +harmonia de todo o branco que a vestia, chapéo, plumas, flôres, rendas e +corpete, onde o seu peito immenso se empolava como uma onda. No passeio, +sob as Acacias, espapado em duas cadeiras, o director do _Boulevard_ +mamava o resto do seu charuto. E n'um grande landeau, Madame de Trèves +continuava o seu sorriso de ha cinco annos, com duas pregasinhas mais +molles aos cantos dos labios seccos. + +Abalei para o Grand-Hotel, bocejando,--como outr'ora Jacintho. E findei +o meu dia de Paris, no Theatro das Variedades, estonteado com uma +comedia muito fina, muito acclamada, toda faiscante do mais vivo +parisianismo, em que todo o enredo se enrodilhava á volta d'uma Cama, +onde alternadamente se espojavam mulheres em camisa, sujeitos gordos em +ceroulas, um coronel com papas de linhaça nas nadegas, cosinheiras de +meias de sêda bordadas, e ainda mais gente, ruidosa e saltitante, a +esfusiar de cio e de pilheria. Tomei um chá melancolico no Julien, no +meio de um aspero e lugubre namoro de prostitutas, fariscando a preza. +Em duas d'ellas, de pelle oleosa e cobreada, olhos obliquos, cabellos +duros e negros como clinas, senti o Oriente, a sua provocação felina... +Interroguei o creado, um medonho ser, d'uma obesidade balofa e livida, +d'eunuco. O monstro explicou n'uma voz roufenha e surda: + +--Mulheres de Madagascar... Foram importadas quando a França occupou a +ilha! + +Arrastei então por Paris dias d'immenso tedio. Ao longo do Boulevard +revi nas vitrines todo o luxo, que já me enfartára havia cinco annos, +sem uma graça nova, uma curta frescura de invenção. Nas livrarias, sem +descobrir um livro, folheava centenas de volumes amarellos, onde, de +cada pagina que ao acaso abria, se exhalava om cheiro môrno d'alcova e +de pós d'arroz, entre linhas trabalhadas com effeminado arrebique, como +rendas de camisas. Ao jantar, em qualquer restaurante, encontrava, +ornando e disfarçando as carnes ou as aves, o mesmo môlho, de côres e +sabores de pomada, que já de manhã, n'outro restaurante, espelhado e +dourejado, me enjoára no peixe e nos legumes. Paguei por grossos preços +garrafas do nosso adstringente e rustico vinho de Torres, ennobrecido +com o titulo de Château isto, Château aquillo, e pó postiço no gargalo. +Á noite, nos theatros, encontrava a Cama, a costumada cama, como centro +e unico fim da vida, attrahindo, mais fortemente que o monturo attrahe +os moscardos, todo um enxame de gentes, estonteadas, frementes +d'erotismo, zumbindo chacotas senis. Esta sordidez da Planicie me levou +a procurar melhor aragem d'espirito nas alturas da Collina, em +Montmartre; e ahi, no meio d'uma multidão elegante de Senhoras, de +Duquezas, de Generaes, de todo o alto pessoal da Cidade, eu recebia, do +alto do palco, grossos jorros de obscenidades, que faziam estremecer de +goso as orelhas cabelludas de gordos banqueiros, e arfar com delicia os +corpetes de Worms e de Doucet, sobre os peitos postiços das nobres +damas. E recolhia enjoado com tanto relento d'Alcova, vagamente +dispeptico com os môlhos de pomada do jantar, e sobre tudo descontente +comigo, por me não divertir, não comprehender a Cidade, e errar atravez +d'ella e da sua Civilisação Superior, com a reserva ridicula d'um +Censor, d'um Catão austero. Oh senhores!--pensava,--pois eu não me +divertirei nesta deliciosa Cidade? Entrará comigo o bolor da velhice? + +Passei as pontes, que separam em Paris o Temporal do Espiritual, +mergulhei no meu doce Bairro Latino, evoquei, deante de certos cafés, a +memoria da minha Nini; e, como outr'ora, preguiçosamente, subi as +escadas da Sorbonne. N'um amphitheatro, onde sentira um grosso susurro, +um homem magro, com uma testa muito branca e larga, como talhada para +alojar pensamentos altos e puros, ensinava, falando das instituições da +Cidade Antiga. Mas, mal eu entrára, o seu dizer elegante e limpido foi +suffocado por gritos, urros, patadas, um tumulto rancoroso de troça +bestial, que sahia da mocidade apinhada nos bancos, a mocidade das +Escolas, Primavera sagrada, em que eu fôra flôr murcha. O Professor +parou, espalhando em redor um olhar frio, e remexendo as suas notas. +Quando o grosso grunhido se moderou em susurro desconfiado, elle +recomeçou com alta serenidade. Todas as suas ideias eram frias e +substanciaes, expressas n'uma lingoa pura e forte; mas, immediatamente, +rompe uma furiosa rajada de apitos, uivos, relinchos, cacarejos de +gallo, por entre magras mãos, que se estendiam levantadas para +estrangular as ideias. Ao meu lado um velho, encolhido na alta gola d'um +macfrelane de xadrezes, contemplava o tumulto com melancolia, pingando +endefluxado. Perguntei ao velho: + +--Que querem elles? É embirração com o professor... é politica? + +O velho abanou a cabeça, espirrando: + +--Não... É sempre assim, agora, em todos os cursos... Não querem +ideias... Creio que queriam cançonetas. É o amor da porcaria e da troça. + +Então, indignado, berrei: + +--Silencio, brutos! + +E eis que um abortosinho de rapaz, amarellado e sebento, de longas +melenas, umas enormes lunetas rebrilhantes, se arrebita, me fita, e me +berra: + +--_Sale Maure_! + +Ergui o meu grosso punho serrano,--e o desgraçado, n'uma confusão de +melenas, com sangue por toda a face, alluio, como um montão de trapos +molles, ganindo desesperadamente, em quanto o furacão de uivos e +cacarejos, guinchos e silvos, envolvia o Professor, que cruzára os +braços, esperando, com uma serenidade simples. + +Desde esse momento decidi abandonar a fastidiosa Cidade; e o unico dia +alegre e divertido que n'ella passei foi o derradeiro, comprando para os +meus queridinhos de Tormes brinquedos consideraveis, tremendamente +complicados pela Civilisação,--vapores de aço e cobre, providos de +caldeiras para viajar em tanques; leões de pelle veridica rugindo +pavorosamente, bonecas vestidas pela Laferrière, com phonographo no +ventre... + +Finalmente abalei uma tarde, depois de lançar da minha janella, sobre o +Boulevard, as minhas despedidas á Cidade: + +--Pois adeusinho, até nunca mais! Na lama do teu vicio e na poeira da +tua vaidade, outra vez, não me pilhas! O que tens de bom, que é o teu +genio, elegante e claro, lá o receberei na Serra pelo correio. +Adeusinho! + +Na tarde do seguinte Domingo, debruçado da janella do comboio, que +vagarosamente deslisava pela borda do rio lento, n'um silencio todo +feito d'azul e sol, avistei, na plata-forma da quieta estação da minha +aldeia, os Senhores de Tormes, com a minha afilhada Thereza, muito +vermelha, arregalando os seus soberbos olhos, e o bravo Jacinthinho, que +empunhava uma bandeira branca. O alvoroço ditoso com que abracei e +beijei aquella tribu bem amada conviria perfeitamente a quem voltasse +vivo d'uma guerra distante, na Tartaria. Na alegria de recuperar a +Serra, até beijoquei o chefe Pimentinha, que a estalar d'obesidade se +açodava gritando ao carregador todo o cuidado com as minhas malas. + +Jacintho, magnifico, de grande chapéo serrano e jaqueta, de novo me +abraçou: + +--E esse Paris? + +--Medonho! + +Abri depois os braços para o bravo Jacintinho. + +--Então para que é essa bandeira, meu cavalleiro? + +--É a bandeira do Castello! declarou elle, com uma bella seriedade nos +seus grandes olhos. + +A mãe ria. Desde essa manhã, logo que soubera da chegada do Ti-Zé, +appareceu de bandeira, feita pelo Grillo, e não a largára mais; com ella +almoçára, com ella descera de Tormes! + +--Bravo! E, prima Joanninha, olhe que está magnifica! Eu, tambem, venho +d'aquellas pelles meladas de Paris... Mas acho-a triumphal! E o tio +Adrião, e a tia Vicencia? + +--Tudo optimo! gritou Jacintho. A serra, Deos louvado, prospera. E +agora, para cima! Tu hoje ficas em Tormes. Para contar da Civilisação. + +No largo por traz da estação, debaixo dos eucalyptos, que revi com +gosto, esperavam os tres cavallos, e dous bellos burros brancos, um com +cadeirinha para a Thereza, outro com um cesto de verga, para metter +dentro o heroico Jacinthinho, um e outro servidos á estribeira por um +creado. Eu ajudára a prima Joanninha a montar, quando o carregador +appareceu com um masso de jornaes e papeis, que eu esquecera na +carruagem. Era uma papelada, de que me surtira na Estação d'Orleans, +toda recheada de mulheres nuas, de historietas sujas, de parisianismo, +d'erotismo. Jacintho, que as reconhecera, gritou rindo: + +--Deita isso fóra! + +E eu atirei, para um montão de lixo, ao canto do Pateo, aquelle putrido +rebotalho da Civilisação. E montei. Mas ao dobrar para o caminho +empinado da serra, ainda me voltei, para gritar adeus ao Pimenta, de +quem me esquecera. O digno chefe, debruçado sobre o monturo, apanhava, +sacudia, recolhia com amor aquellas bellas estampas, que chegavam de +Paris, contavam as delicias de Paris, derramavam atravez do mundo a +seducção de Paris. + +Em fila começamos a subir para a Serra. A tarde adoçava o seu esplendor +d'estio. Uma aragem trazia, como offertados, perfumes das flôres +silvestres. As ramagens moviam, com um aceno de doce acolhimento, as +suas folhas vivas e relusentes. Toda a passarinhada cantava, n'um +alvoroço de alegria e de louvor. As agoas correntes, saltantes, +lusidias, despediam um brilho mais vivo, n'uma pressa mais animada. +Vidraças distantes de casas amaveis, flammejavam com um fulgor d'ouro. A +serra toda se offertava, na sua belleza eterna e verdadeira. E, sempre +adiante da nossa fila, por entre a verdura, fluctuava no ar a bandeira +branca, que o Jacinthinho não largava, de dentro do seu cesto, com a +haste bem segura na mão. Era _a bandeira do Castello_, affirmára elle. + +E na verdade me parecia que, por aquelles caminhos, atravez da natureza +campestre e mansa,--o meu Principe, atrigueirado nas soalheiras e nos +ventos da serra, a minha prima Joanninha, tão doce e risonha mãe, os +dois primeiros representantes da sua abençoada tribu, e eu--, tão longe +de amarguradas illusões e de falsas delicias, trilhando um solo eterno, +e de eterna solidez, com a alma contente, e Deus contente de nós, +serenamente e seguramente subiamos--para o Castello da Gran-Ventura! + + +Fim + + + + +ADVERTENCIA + + +Desde a pagina 241, até o final, as provas d'este livro não foram +revistas pelo auctor, arrebatado pela morte antes de haver dado a esta +parte da sua escripta aquella ultima demão, em que habitualmente elle +punha a diligencia mais perseverante e mais admiravelmente lucida. + +Aquelle dos seus amigos e companheiro de letras, a quem foi confiado o +trabalho delicado e piedoso de tocar no manuscripto posthumo de Eça de +Queiroz, ao concluir o desempenho de tal missão, beija com o mais +enternecido e saudoso respeito a mão, para todo sempre immobilisada, que +traçou estas paginas encantadoras; e faz votos por que a revisão de que +se incumbiu não deslustre muito grosseiramente a immortal aureola com +que ficará resplandecendo na litteratura portugueza este livro, em que o +espirito do grande escriptor parece exhalar-se da vida n'um terno +suspiro de doçura, de paz, e de puro amor á terra da sua patria. + +24 de abril de 1901. + + + + +*LIVRARIA CHARDRON de Lello & Irmão* + +96--CLERIGOS--98 + + +*Bazillio Telles* + +O problema agricola $600 +Estudos historicos e economicos $600 + +_No prélo_: + +Introducção ao problema do trabalho nacional. + + +*Abel Botelho* + +O barão de Lavos $800 +O livro d'Alda $800 +Sem remedio... $500 + +_No prélo_: + +Amanhã. + + +*José Caldas* + +Humildes $400 +Os Jesuitas; a sua influencia na actual + sociedade portugueza; meio de a conjurar _no prélo_ + + +*Sylvio Romero* + +Martins Penna $400 + + +*Rebello da Silva* + +Mocidade de D. João V. 1$500 + + +*Andrade Corvo* + +Um anno na côrte 1$500 + + +*Antonio C. Louzada* + +Rua escura $500 +Na consciencia $500 + + +*Dumas* + +Jorge ou o capitão dos piratas $500 +Tres mosqueteiros, 2 volumes 1$000 + + +*Lermina* + +Filho do Monte Christo, 2 volumes 1$000 + + +*Eugenio Sue* + +Mysterios de Paris, 3 volumes cart. 2$000 + + +*Zola* + +Naná $500 +Historia da lavadeira Gervasia, 2 vols 1$000 +O Capitão Burle $500 +Ventre de Paris, 2 vols 1$000 + + +*Arnaldo Gama* + +Caldeira de Pero Botelho $500 +Honra ou loucura $500 +Filho do Baldaia $600 + + +*Bruno* + +O Brazil mental $800 +Notas do exilio $500 + + * * * * * + +Historia da Prostituição 1$800 + + +*Camillo Castello Branco* + +Maria da Fonte $500 +Livro de consolação $500 +D. Luiz de Portugal $300 +Brazileira de Prazins $500 +Eusebio Macario $500 +Volcoens da lama $500 +Carta de guia de casados $300 + + +*Grainha* + +Jesuitas $600 + + +*Tolstoi* + +A Sonata de Kreutzer $400 + + + + +*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK A CIDADE E AS SERRAS *** + +Updated editions will replace the previous one--the old editions will +be renamed. + +Creating the works from print editions not protected by U.S. copyright +law means that no one owns a United States copyright in these works, +so the Foundation (and you!) can copy and distribute it in the +United States without permission and without paying copyright +royalties. Special rules, set forth in the General Terms of Use part +of this license, apply to copying and distributing Project +Gutenberg-tm electronic works to protect the PROJECT GUTENBERG-tm +concept and trademark. 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Information about Donations to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation + +Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without +widespread public support and donations to carry out its mission of +increasing the number of public domain and licensed works that can be +freely distributed in machine-readable form accessible by the widest +array of equipment including outdated equipment. Many small donations +($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt +status with the IRS. + +The Foundation is committed to complying with the laws regulating +charities and charitable donations in all 50 states of the United +States. Compliance requirements are not uniform and it takes a +considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up +with these requirements. We do not solicit donations in locations +where we have not received written confirmation of compliance. 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Hart was the originator of the Project +Gutenberg-tm concept of a library of electronic works that could be +freely shared with anyone. For forty years, he produced and +distributed Project Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of +volunteer support. + +Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed +editions, all of which are confirmed as not protected by copyright in +the U.S. unless a copyright notice is included. Thus, we do not +necessarily keep eBooks in compliance with any particular paper +edition. + +Most people start at our website which has the main PG search +facility: www.gutenberg.org + +This website includes information about Project Gutenberg-tm, +including how to make donations to the Project Gutenberg Literary +Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to +subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. + + diff --git a/18220-0.zip b/18220-0.zip Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..987b0c5 --- /dev/null +++ b/18220-0.zip diff --git a/18220-h.zip b/18220-h.zip Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..7119af5 --- /dev/null +++ b/18220-h.zip diff --git a/18220-h/18220-h.htm b/18220-h/18220-h.htm new file mode 100644 index 0000000..459c5ea --- /dev/null +++ b/18220-h/18220-h.htm @@ -0,0 +1,16433 @@ +<!DOCTYPE html PUBLIC "-//W3C//DTD XHTML 1.0 Strict//EN" "http://www.w3.org/TR/xhtml1/DTD/xhtml1-strict.dtd"> +<html xmlns="http://www.w3.org/1999/xhtml"> +<head> +<meta http-equiv="Content-Type" content="text/html; charset=utf-8" /> +<meta http-equiv="Content-Style-Type" content="text/css" /> +<title>The Project Gutenberg eBook of A Cidade e as Serras, by Eça Queirós</title> + +<style type="text/css"> + +body {width: 80%; margin-left:10%; text-align: justify;} +h1, h2, h3, h4 { text-align: center;} +h1 {margin: 2em; text-align: center;} +h2, h4 {margin-top: 2em;} +.bbox {border: solid black 1px; margin-left: 5%; margin-right: 5%;} +.quote {margin-left: 20%;} +.break { +width: 40%; +margin-left:30%;} +.pagenum { position: absolute; +right: 5%; +font-size: 75%; +text-align: right; +text-indent: 0em; +font-style: normal; +font-weight: normal; +color: silver; +background-color: inherit; +font-variant: normal;} + +a:link {color:blue; text-decoration:none} +a:visited {color:blue; text-decoration:none} +a:hover {color:red} + +</style> +</head> + +<body> + +<div style='text-align:center; font-size:1.2em; font-weight:bold'>The Project Gutenberg eBook of A Cidade e as Serras, by Eça Queirós</div> +<div style='display:block; margin:1em 0'> +This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and +most other parts of the world at no cost and with almost no restrictions +whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms +of the Project Gutenberg License included with this eBook or online +at <a href="https://www.gutenberg.org">www.gutenberg.org</a>. If you +are not located in the United States, you will have to check the laws of the +country where you are located before using this eBook. +</div> +<div style='display:block; margin-top:1em; margin-bottom:1em; margin-left:2em; text-indent:-2em'>Title: A Cidade e as Serras</div> +<div style='display:block; margin-top:1em; margin-bottom:1em; margin-left:2em; text-indent:-2em'>Author: Eça Queirós</div> +<div style='display:block; margin:1em 0'>Release Date: April 21, 2006 [eBook #18220]<br /> +[Most recently updated: December 8, 2022]</div> +<div style='display:block; margin:1em 0'>Language: Portuguese</div> +<div style='display:block; margin:1em 0'>Character set encoding: UTF-8</div> +<div style='display:block; margin-left:2em; text-indent:-2em'>Produced by: Rita Farinha and the Online Distributed Proofreading Team</div> +<div style='margin-top:2em; margin-bottom:4em'>*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK A CIDADE E AS SERRAS ***</div> + +<div> +<br /> + +<br /> + +<h1>EÇA DE QUEIROZ </h1> + +<h1>A CIDADE E AS SERRAS </h1> + +<br /> + +<br /> + +<h2>PORTO </h2> + +<h2>LIVRARIA CHARDRON </h2> + +<h2>De Lello & Irmão, editores </h2> + +<h2>1901 </h2> + +<h3> +Todos os direitos reservados </h3> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center;" class="bbox"><br /> + +<br /> + +EÇA +DE QUEIROZ<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<big><big><b>A CIDADE E AS SERRAS</b></big></big><br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<img style="width: 97px; height: 115px;" alt="" src="images/p1.jpg" /><br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +PORTO<br /> + +LIVRARIA CHARDRON<br /> + +De Lello & Irmão, editores<br /> + +1901<br /> + +<br /> + +Todos os direitos reservados<br /> + +<br /> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +Pertence no Brazil o direito de propriedade d'esta obra ao +cidadão Francisco Alves, livreiro editor no Rio de Janeiro, +que, para a +garantia que lhe offerece a lei n.º 496 de 1 d'Agosto de 1898, +fez o competente +deposito na Bibliotheca nacional, segundo a +determinação do art. 13.º da mesma Lei. <br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="break"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"> +<em>Porto―Imprensa Moderna</em></div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"><img style="width: 282px; height: 444px;" alt="" src="images/p2.jpg" /> +</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h1>A CIDADE E AS SERRAS </h1> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h2>Obras do mesmo auctor:</h2> + +<br /> + +<br /> + +<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2"> + + <tbody> + + <tr> + + <td><span style="font-weight: bold;">Revista +de Portugal.</span> 4 grossos volumes</td> + + <td style="text-align: right;">12$000</td> + + </tr> + + <tr> + + <td><span style="font-weight: bold;">As minas +de Salomão.</span> 1 volume</td> + + <td style="text-align: right;">$600</td> + + </tr> + + <tr> + + <td><span style="font-weight: bold;">Os Maias.</span> +2 grossos volumes</td> + + <td style="text-align: right;">2$000</td> + + </tr> + + <tr> + + <td><span style="font-weight: bold;">O crime +do padre Amaro.</span> Terceira edição +inteiramente refundida, recomposta, e differente na fórma e +na acção da edição +primitiva.<br /> + +1 grosso volume</td> + + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;">1$200</td> + + </tr> + + <tr> + + <td><span style="font-weight: bold;">O primo +Bazilio.</span> Quarta edição. 1 grosso +volume</td> + + <td style="text-align: right;">1$000</td> + + </tr> + + <tr> + + <td><span style="font-weight: bold;">A +Reliquia.</span> 1 grosso volume</td> + + <td style="text-align: right;">1$000</td> + + </tr> + + <tr> + + <td><span style="font-weight: bold;">O +Mandarim.</span> Quarta edição. 1 volume</td> + + <td style="text-align: right;">$500 </td> + + </tr> + + <tr> + + <td><span style="font-weight: bold;">Correspondencia +de Fradique Mendes.</span> 1 volume</td> + + <td style="text-align: right;">$600 </td> + + </tr> + + <tr> + + <td><span style="font-weight: bold;">A +illustre casa de Ramires.</span> 1 volume</td> + + <td style="text-align: right;">1$000 </td> + + </tr> + + </tbody> +</table> + +<br /> + +<br /> + +<h1>A CIDADE E AS SERRAS</h1> + +<h2>I</h2> + +<br /> + +<br /> + +O meu amigo Jacintho nasceu n'um palacio, com cento e nove contos de +renda em terras de semeadura, de vinhedo, de cortiça e +d'olival. +No Alemtejo, pela Extremadura, atravez das duas Beiras, densas sebes +ondulando por collina e valle, muros altos de boa pedra, ribeiras, +estradas, delimitavam os campos d'esta velha familia agricola que +já +entulhava grão e plantava cepa em tempos d'el-rei D. Diniz. +A sua quinta e casa senhorial de Tormes, no Baixo Douro, cobriam uma +serra. Entre o Tua e o Tinhela, por cinco fartas legoas, todo o +torrão lhe +pagava fôro. E cerrados pinheiraes seus negrejavam desde Arga +até ao mar +d'Ancora. +Mas o palacio onde Jacintho nascêra, e onde sempre +habitára, era em Paris, nos Campos Elyseos, n.º +202. <span class="pagenum">[2]</span> +Seu avô, aquelle gordissimo e riquissimo Jacintho a quem +chamavam em Lisboa o <em>D. Galião</em>, +descendo uma tarde pela travessa da Trabuqueta, +rente d'um muro de quintal que uma parreira toldava, escorregou n'uma +casca de laranja e desabou no lagedo. Da portinha da horta sahia n'esse +momento um homem moreno, escanhoado, de grosso casaco de +baetão verde e +botas altas de picador, que, galhofando e com uma força +facil, levantou +o enorme Jacintho―até lhe apanhou a bengala de +castão d'ouro que rolára +para o lixo. Depois, demorando n'elle os olhos pestanudos e pretos: <br /> + +<br /> + +―Oh Jacintho Galião, que andas tu aqui, a estas horas, a +rebolar pelas +pedras? <br /> + +<br /> + +E Jacintho, aturdido e deslumbrado, reconheceu o snr. Infante D. +Miguel! <br /> + +<br /> + +Desde essa tarde amou aquelle bom Infante como nunca amára, +apesar de +tão guloso, o seu ventre, e apesar de tão devoto +o seu Deus! Na sala +nobre da sua casa (á Pampulha) pendurou sobre os damascos o +retrato do +«seu Salvador», enfeitado de palmitos como um +retabulo, e por baixo a +bengala que as magnanimas mãos reaes tinham erguido do lixo. +Emquanto o adoravel, desejado Infante penou no desterro de Vienna, o +barrigudo +senhor corria, sacudido na sua sege amarella, do botequim<span class="pagenum">[3]</span> do +Zé-Maria em +Belem á botica do Placido nos Algibebes, a gemer as saudades +do +<em>anginho</em>, a tramar o regresso do +<em>anginho</em>. No dia, entre todos +bemdito, em que a <em>Perola</em> +appareceu +á barra com o Messias, engrinaldou +a Pampulha, ergueu no Caneiro um monumento de papelão e lona +onde D. +Miguel, tornado S. Miguel, branco, d'aureola e azas de Archanjo, furava +de cima do seu corcel d'Alter o Dragão do Liberalismo, que +se estorcia +vomitando a Carta. Durante a guerra com o «outro, com o +pedreiro livre» +mandava recoveiros a Santo Thyrso, a S. Gens, levar ao Rei fiambres, +caixas de dôce, garrafas do seu vinho de Tarrafal, e bolsas +de retroz +atochadas de peças que elle ensaboava para lhes avivar o +ouro. E quando +soube que o snr. D. Miguel, com dois velhos bahus amarrados sobre um +macho, tomára o caminho de Sines e do final +desterro―Jacintho +<em>Galião</em> +correu pela casa, fechou todas as janellas como n'um luto, berrando +furiosamente: <br /> + +<br /> + +―Tambem cá não fico! tambem cá +não fico! <br /> + +<br /> + +Não, não queria ficar na terra perversa d'onde +partia, esbulhado e +escorraçado, aquelle Rei de Portugal que levantava na rua os +Jacinthos! Embarcou para França com a mulher, a +snr.<sup>a</sup> D. Angelina +Fafes (da tão fallada <span class="pagenum">[4]</span>casa +dos Fafes da Avellan); com o filho, o 'Cinthinho, menino amarellinho, +mollesinho, coberto de caróços e +leicenços; com a aia e com o moleque. Nas costas da +Cantabria o +paquete encontrou tão +rijos mares +que a snr.<sup>a</sup> D. Angelina, esguedelhada, de joelhos na enxerga +do +beliche, prometteu ao Senhor dos Passos d'Alcantara uma corôa +d'espinhos, de ouro, com as gottas de sangue em rubis do Pegu. Em +Bayonna, onde arribaram, 'Cinthinho teve ithericia. Na estrada +d'Orleans, n'uma noite agreste, o eixo da berlinda em que jornadeavam +partiu, e o nedio senhor, a delicada senhora da casa da Avellan, o +menino, marcharam tres horas na chuva e na lama do exilio +até uma +aldeia, onde, depois de baterem como mendigos a portas mudas, dormiram +nos bancos d'uma taberna. No «Hotel dos Santos +Padres», em Paris, +soffreram os terrores d'um fogo que rebentára na +cavalhariça, sob o quarto de <em>D. Galião</em>, +e o +digno fidalgo, rebolando pelas escadas em camisa, até ao +pateo, enterrou o pé nú +numa lasca de vidro. Então ergueu amargamente ao +céo o punho cabelludo, e rugiu: <br /> + +<br /> + +―Irra! É de mais! <br /> + +<br /> + +Logo n'essa semana, sem escolher, Jacintho +<em>Galião</em> comprou a um +Principe polaco, que depois da tomada de Varsovia se mettera frade<span class="pagenum">[5]</span>cartuxo, +aquelle palacete dos Campos Elyseos, n.º 202. E sob o +pesado ouro dos seus estuques, entre as suas ramalhudas sedas se +enconchou, descançando de tantas +agitações, n'uma +vida de pachorra e de boa mesa, com alguns companheiros +d'emigração (o +desembargador Nuno Velho, o conde de Rabacena, outros menores), +até que morreu de +indigestão, d'uma lampreia d'escabeche que lhe +mandára o +seu procurador em +Monte-mór. Os amigos pensavam que a snr.<sup>a</sup> D. +Angelina Fafes +voltaria ao reino. Mas a +boa senhora temia a jornada, os mares, as caleças que +racham. E não se queria separar do seu Confessor, nem do seu +Medico, que tão +bem lhe comprehendiam os escrupulos e a asthma. <br /> + +<br /> + +―Eu, por mim, aqui fico no 202 (declarára ella), ainda que +me faz falta a boa agua d'Alcolena... O 'Cinthinho, esse, em crescendo, +que decida. <br /> + +<br /> + +O 'Cinthinho crescèra. Era um moço mais esguio e +livido que um cirio, de longos cabellos corredios, narigudo, +silencioso, encafuado em roupas pretas, muito largas e bambas; de +noite, sem dormir, por causa da tosse +e de suffocações, errava em camisa com uma +lamparina atravez do 202; e os creados na copa sempre lhe chamavam a +<em>Sombra</em>. N'essa sua mudez e indecisão de +sombra surdira, ao fim<span class="pagenum">[6]</span> +do luto do +papá, o gosto muito vivo de tornear madeiras ao torno: +depois, +mais tarde, com a melada +flôr dos seus vinte annos, brotou n'elle outro sentimento, de +desejo e de pasmo, +pela filha do desembargador Velho, uma menina redondinha como uma +rôla, educada n'um convento de Paris, e tão +habilidosa que +esmaltava, dourava, concertava relogios e fabricava chapéos +de +feltro. No +outomno de 1851, quando já se desfolhavam os castanheiros +dos +Campos Elyseos, +o 'Cinthinho cuspilhou sangue. O medico, acarinhando o queixo e com uma +ruga seria na testa immensa, aconselhou que o menino abalasse para o +golfo Juan ou para as tepidas areias d'Arcachon. <br /> + +<br /> + +'Cinthinho porém, no seu afèrro de sombra, +não se quiz arredar da Therezinha Velho, de quem se +tornára, atravez de Paris, a +muda, tardônha sombra. Como uma sombra, casou; deu mais +algumas voltas ao torno; +cuspiu um resto de sangue; e passou, como uma sombra. <br /> + +<br /> + +Tres mezes e tres dias depois do seu enterro o meu Jacintho nasceu. <br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="break"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Desde o berço, onde a avó espalhava funcho e +ambar para afugentar a <em>Sorte-Ruim</em>, Jacintho +medrou com a +segurança, a rijeza, a seiva rica d'um pinheiro das dunas. <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[7]</span>Não teve +sarampo e não +teve lombrigas. As Letras, +a Taboada, o Latim entraram por elle tão facilmente como o +sol +por uma +vidraça. Entre os camaradas, nos pateos dos collegios, +erguendo +a sua espada de lata e lançando um brado de commando, foi +logo o +vencedor, o Rei +que se adula, e a quem se cede a fructa das merendas. Na edade em que +se lê +Balzac e Musset nunca atravessou os tormentos da sensibilidade;―nem +crepusculos +quentes o retiveram na solidão d'uma janella, padecendo d'um +desejo sem fórma e sem nome. Todos os seus amigos (eramos +tres, +contando o seu velho escudeiro preto, o Grillo) lhe conservaram sempre +amizades puras +e certas―sem que jámais a +participação +do seu luxo as avivasse ou fossem desanimadas pelas evidencias do seu +egoismo. Sem +coração bastante forte para conceber um amor +forte, e +contente com esta incapacidade que o libertava, do amor só +experimentou o mel―esse mel que o +amor reserva aos que o recolhem, á maneira das abelhas, com +ligeireza, +mobilidade e cantando. Rijo, rico, indifferente ao Estado e ao Governo +dos Homens, nunca lhe conhecemos outra ambição +além de comprehender bem as Ideias Geraes; e a sua +intelligencia, nos annos alegres de escólas +e controversias, círculava dentro das Philosophias mais <span class="pagenum">[8]</span>densas +como enguia lustrosa na agua limpa d'um tanque. O seu valor, genuino, +de fino quilate, nunca foi desconhecido, nem desapreciado; e toda a +opinião, ou mera facecia que lançasse, logo +encontrava +uma aragem de +sympathia e concordancia que a erguia, a mantinha emballada e +rebrilhando nas alturas. Era servido pelas cousas com docilidade e +carinho;―e +não recordo que jamais lhe estalasse um botão da +camisa, +ou que +um papel maliciosamente se escondesse dos seus olhos, ou que ante a sua +vivacidade e pressa uma gaveta perfida emperrasse. Quando um dia, rindo +com descrido riso da Fortuna e da sua Roda, comprou a um +sachristão hespanhol um Decimo de Loteria, logo a Fortuna, +ligeira e ridente sobre +a sua Roda, correu n'um fulgor, para lhe trazer quatro centas mil +pesetas. E no ceu as Nuvens, pejadas e lentas, se avistavam Jacintho +sem guarda chuva, retinham com reverencia as suas aguas até +que +elle passasse... Ah! o ambar e o funcho da snr.<sup>a</sup> D. Angelina +tinham escorraçado do seu destino, bem triumphalmente e para +sempre, a <em>Sorte-Ruim</em>! A amoravel +avó (que eu conheci obesa, com barba) costumava citar um +soneto natalicio do desembargador Nunes Velho contendo um +verso de boa lição: <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[9]</span> +<div class="break">Sabei, senhora, que esta Vida +é um rio...</div> + +<br /> + +Pois um rio de verão, manso, translucido, harmoniosamente +estendido sobre uma areia macia e alva, por entre arvoredos fragrantes +e ditosas aldeias, não offereceria áquelle que o +descesse +n'um barco de cedro, bem toldado e bem almofadado, com fructas e +Champagne a refrescar em gelo, um Anjo governando ao leme, outros Anjos +puxando á sirga, +mais segurança e doçura do que a Vida offerecia +ao meu +amigo Jacintho. <br /> + +<br /> + +Por isso nós lhe chamavamos «o Principe da +Gran-Ventura»! <br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="break"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Jacintho e eu, José Fernandes, ambos nos encontramos e +acamaradamos em Paris, nas Escólas do Bairro Latino―para +onde +me +mandára meu bom tio Affonso Fernandes Lorena de Noronha e +Sande, +quando aquelles malvados +me riscaram da Universidade por eu ter esborrachado, n'uma tarde de +procissão, na Sophia, a cara sordida do dr. Paes Pitta. <br /> + +<br /> + +Ora n'esse tempo Jacintho concebêra uma Ideia... Este +Principe concebêra a Ideia de que «o homem +só é +superiormente feliz quando é superiormente +civilisado». E por homem civilisado o meu camarada entendia +aquelle <span class="pagenum">[10]</span>que, +robustecendo a sua força pensante com todas as +noções adquiridas desde Aristoteles, e +multiplicando a +potencia corporal dos seus +orgãos com todos os mechanismos inventados desde Theramenes, +creador da roda, se torna um magnifico Adão, +quasí +omnipotente, +quasí omnisciente, e apto portanto a recolher dentro d'uma +sociedade e nos limites do Progresso (tal como elle se comportava em +1875) todos os gozos e todos os proveitos que resultam de Saber e de +Poder... Pelo menos assim Jacintho +formulava copiosamente a sua Ideia, quando conversavamos de fins e +destinos humanos, sorvendo bocks poeirentos, sob o toldo das +cervejarias philosophicas, no Boulevard Saint-Michel. <br /> + +<br /> + +Este conceito de Jacintho impressionára os nossos camaradas +de cenaculo, que tendo surgido para a vida intellectual, de 1866 a +1875, entre a batalha de Sadowa e a batalha de Sedan, e ouvindo +constantemente, desde +então, aos technicos e aos philosophos, que fôra a +Espingarda-de-agulha que vencêra em Sadowa e fôra o +Mestre-de-escóla quem vencêra em Sedan, estavam +largamente +preparados a acreditar que a felicidade dos individuos, como a das +nações, se realisa pelo +illimitado desenvolvimento da Mechanica e da +Erudição. Um +d'esses moços mesmo, o nosso inventivo Jorge <span class="pagenum">[11]</span>Carlande, +reduzíra a theoria de +Jacintho, para lhe facilitar a circulação e lhe +condensar o brilho, +a uma fórma algebrica: <br /> + +<br /> + +<table style="text-align: center; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2"> + + <tbody> + + <tr> + + <td>Summa sciencia</td> + + <td colspan="1" rowspan="3"><big><big><big><big><big>}</big></big></big></big></big></td> + + <td></td> + + </tr> + + <tr> + + <td>X</td> + + <td>Summa potencia</td> + + </tr> + + <tr> + + <td>Summa felicidade</td> + + <td></td> + + </tr> + + </tbody> +</table> + +<br /> + +<br /> + +E durante dias, do Odeon á Sorbonna, foi louvada pela +mocidade positiva a <em>Equação +Metaphysica de +Jacintho</em>. <br /> + +<br /> + +Para Jacintho, porém, o seu conceito não era +meramente metaphysico e lançado pelo gozo elegante de +exercer a +razão +especulativa:―mas constituia uma regra, toda de realidade e de +utilidade, determinando a conducta, modalisando a vida. E já +a +esse tempo, em +concordancia com o seu preceito―elle se surtira da <em>Pequena +Encyclopedia +dos Conhecimentos +Universaes</em> +em setenta e cinco volumes e +installára, sobre os telhados do 202, n'um mirante +envidraçado, um telescopio. Justamente +com esse telescopio me tornou elle palpavel a sua ideia, n'uma noite de +agosto, de molle e dormente calor. Nos céos remotos +lampejavam +relampagos languidos. Pela Avenida dos Campos Elyseos, os fiacres +rolavam para as frescuras do Bosque, lentos, abertos, +cançados, +transbordando de vestidos claros. <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[12]</span>―Aqui tens tu, +Zé Fernandes, +(começou Jacintho, +encostado á janella do mirante) a theoria que me governa, +bem +comprovada. Com estes olhos que recebemos da Madre natureza, lestos e +sãos, nós +podemos apenas distinguir além, atravez da Avenida, +n'aquella +loja, uma +vidraça alumiada. Mais nada! Se eu porém aos meus +olhos +juntar os +dois vidros simples d'um binoculo de corridas, percebo, por traz da +vidraça, presuntos, queijos, boiões de +gelêa e +caixas de +ameixa sêcca. Concluo portanto que é uma +mercearia. Obtive +uma +noção; tenho sobre ti, que com os olhos +desarmados +vês só o luzir da +vidraça, uma vantagem positiva. Se agora, em vez d'estes +vidros +simples, eu usasse os do meu telescopio, +de composição mais scientifica, poderia avistar +além, no planeta Marte, os mares, as neves, os canaes, o +recorte +dos golphos, toda a geographia d'um astro que circula a milhares de +leguas dos Campos Elyseos. +É outra noção, e tremenda! Tens aqui +pois o olho +primitivo, o da Natureza, elevado pela +Civilisação +á sua maxima +potencia de visão. E desde já, pelo lado do olho +portanto, eu, civilisado, sou mais feliz que o incivilisado, porque +descubro realidades do Universo que elle +não suspeita e de que está privado. Applica esta +prova a +todos +os orgãos e comprehendes o meu principio. Emquanto <span class="pagenum">[13]</span>á intelligencia, +e +á felicidade que d'ella se tira pela incançavel +accumulação das noções, +só te peco que compares Renan e o Grillo... Claro +é portanto que nos +devemos cercar de Civilisação nas maximas +proporções para gosar nas maximas +proporções a vantagem de viver. Agora concordas, +Zé Fernandes? <br /> + +<br /> + +Não me parecia irrecusavelmente certo que Renan fosse mais +feliz que o Grillo; nem eu percebia que vantagem espiritual ou temporal +se +côlha em distinguir atravez do espaço manchas n'um +astro, +ou atravez +da Avenida dos Campos Elyseos presuntos n'uma vidraça. Mas +concordei, +porque sou bom, e nunca desalojarei um espirito do conceito onde elle +encontra segurança, disciplina e motivo de energia. +Desabotoei o +collete, e lançando um gesto para o lado dos +cafés e das +luzes: <br /> + +<br /> + +―Vamos então beber, nas maximas +proporções, <em>brandy and +soda</em>, com gelo! <br /> + +<br /> + +Por uma conclusão bem natural, a ideia de +Civilisação, para Jacintho, não se +separava da +imagem de Cidade, d'uma enorme Cidade, +com todos os seus vastos orgãos funccionando poderosamente. +Nem +este meu super-civilisado amigo comprehendia que longe de Armazens +servidos por tres mil caixeiros; e de Mercados onde se despejam os +vergeis e +lezirias de trinta provincias; e de Bancos em que retine <span class="pagenum">[14]</span>o +ouro universal; e de Fabricas fumegando com ancia, inventando com +ancia; e de Bibliothecas abarrotadas, a estalar, com a papelada dos +seculos; e de fundas milhas de ruas, cortadas, por baixo e por cima, de +fios de telegraphos, de +fios de telephones, de canos de gazes, de canos de fezes; e da fila +atroante +dos omnibus, tramways, carroças, velocipedes, calhambeques, +parelhas de luxo; e de dois milhões d'uma vaga humanidade, +fervilhando, +a offegar, atravez da Policia, na busca dura do pão ou sob a +illusão do gozo―o homem do seculo XIX podesse saborear, +plenamente, a delicia de viver! <br /> + +<br /> + +Quando Jacintho, no seu quarto do 202, com as varandas abertas sobre os +lilazes, me desenrolava estas imagens, todo elle crescia, illuminado. +Que creação augusta, a da Cidade! Só +por ella, Zé-Fernandes, só por ella, +póde o homem soberbamente affirmar a sua alma!... <br /> + +<br /> + +―Oh Jacintho, e a religião? Pois a religião +não prova a alma? <br /> + +<br /> + +Elle encolhia os hombros. A religião! A religião +é o desenvolvimento sumptuoso de um instincto rudimentar, +commum +a todos os brutos, o terror. Um cão lambendo a +mão do +dono, de quem +lhe vem o osso ou o chicote, já constitue toscamente um +devoto, +o consciente +devoto, prostrado em rezas ante o Deus que<span class="pagenum">[15]</span> +distribue o céo ou o +inferno!... Mas o telephone! o phonographo! <br /> + +<br /> + +―Ahi tens tu, o phonographo!... Só o phonographo, +Zé Fernandes, me faz verdadeiramente sentir a minha +superioridade de sêr pensante +e me separa do bicho. Acredita, não ha senão a +Cidade, +Zé Fernandes, não ha senão a Cidade! <br /> + +<br /> + +E depois (accrescentava) só a Cidade lhe dava a +sensação, tão necessaria á +vida como o +calor, da solidariedade humana. E no 202, +quando considerava em redor, nas densas massas do casario de Paris, +dois milhões de sêres arquejando na obra da +Civilisação (para manter na natureza o dominio +dos +Jacinthos!) sentia um socego, um conchego, +só comparaveis ao do peregrino, que, ao atravessar o +deserto, se +ergue no seu dromedario, e avista a longa fila da caravana marchando, +cheia de lumes e de armas... <br /> + +<br /> + +Eu murmurava, impressionado: <br /> + +<br /> + +―Caramba! <br /> + +<br /> + +Ao contrario no campo, entre a inconsciencia e a impassibilidade da +Natureza, elle tremia com o terror da sua fragilidade e da sua +solidão. Estava ahi como perdido n'um mundo que lhe +não +fosse +fraternal; nenhum silvado encolheria os espinhos para que elle +passasse; se gemesse com fome nenhuma arvore, <span class="pagenum">[16]</span>por +mais carregada, lhe estenderia o seu fructo na +ponta compassiva d'um ramo. Depois, em meio da Natureza, elle assistia +á subita e humilhante inutilisação de +todas as suas +faculdades superiores. De que servia, entre plantas e bichos―ser um +Genio ou ser um Santo? As +searas não comprehendem as +<em>Georgicas</em>; e fôra +necessario o socorro ancioso de Deus, e a inversão de todas +as +leis naturaes, e +um violento milagre para que o lobo de Agubio não devorasse +S. +Francisco +d'Assis, que lhe sorria e lhe estendia os braços e lhe +chamava +«meu irmão lobo»! Toda a +intellectualidade, nos +campos, se esterilisa, e só +resta a bestialidade. N'esses reinos crassos do Vegetal e do Animal +duas unicas +funcções se mantêm vivas, a nutritiva e +a procreadora. Isolada, sem occupação, entre +focinhos e +raizes que +não cessam de sugar e de pastar, suffocando no calido bafo +da +universal +fecundação, a sua pobre alma toda se engelhava, +se +reduzia a uma migalha d'alma, uma fagulhasinha espiritual a tremeluzir, +como morta, sobre um naco de materia; e n'essa +materia dois instinctos surdiam, imperiosos e pungentes, o de devorar e +o de gerar. Ao cabo de uma semana rural, de todo o seu sêr +tão nobremente composto só restava um estomago e +por +baixo um +phallus! A alma? Sumida sob a besta. E necessitava <span class="pagenum">[17]</span>correr, reentrar na Cidade, +mergulhar nas ondas lustraes da Civilisação, para +largar n'ellas a crosta vegetativa, e resurgir re-humanisado, de novo +espiritual e Jacinthico! <br /> + +<br /> + +E estas requintadas metaphoras do meu amigo exprimiam sentimentos +reaes―que eu testemunhei, que muito me divertiram, no unico passeio +que fizemos ao campo, á bem amavel e bem sociavel floresta +de +Montmorency. Oh delicias d'entremez, Jacintho entre a Natureza! Logo +que se afastava +dos pavimentos de madeira, do macadam, qualquer chão que os +seus pés calcassem o enchia de desconfiança e +terror. +Toda a relva, +por mais crestada, lhe parecia reçumar uma humidade mortal. +De +sob +cada torrão, da sombra de cada pedra, receava o assalto de +lacraus, de viboras, de fórmas rastejantes e viscosas. No +silencio do bosque sentia +um lugubre despovoamento do Universo. Não tolerava a +familiaridade dos +galhos que lhe roçassem a manga ou a face. Saltar uma sebe +era +para +elle um acto degradante que o retrogradava ao macaco inicial. Todas as +flôres que não tivesse já encontrado em +jardins, +domesticadas por longos +seculos de servidão ornamental, o inquietavam como +venenosas. E +considerava d'uma melancolia funambulesca certos modos e +fórmas +do +Sêr inanimado, a pressa esperta e vã dos +regatinhos, <span class="pagenum">[18]</span>a +careca dos rochedos, todas as +contorsões do arvoredo e o seu resmungar solemne e tonto. <br /> + +<br /> + +Depois d'uma hora, n'aquelle honesto bosque de Montmorency, o meu pobre +amigo abafava, apavorado, experimentando já esse lento +mingoar e sumir d'alma que o tornava como um bicho entre bichos. +Só +desannuviou quando penetramos no lagêdo e no gaz de Paris―e +a +nossa vittoria +quasi se despedaçou contra um omnibus retumbante, atulhado +de +cidadãos. Mandou descer pelos Boulevards, para dissipar, na +sua +grossa sociabilidade, aquella materialisação em +que +sentia a +cabeça pesada e vaga como a d'um boi. E reclamou que eu o +acompanhasse ao theatro das Variedades para sacudir, com os estribilhos +da <em>Femme à +Papa</em>, o rumor importuno que lhe ficára dos melros +cantando nos choupos altos. <br /> + +<br /> + +Este delicioso Jacintho fizera então vinte e tres annos, e +era um soberbo moço em quem reapparecêra a +força dos velhos Jacinthos ruraes. Só pelo nariz, +afilado, com narinas quasi transparentes, +d'uma mobilidade inquieta, como se andasse fariscando perfumes, +pertencia +ás delicadezas do seculo XIX. O cabello ainda se conservava, +ao +modo das éras rudes, crespo e quasi lanigero: e o bigode, +como o +d'um +Celta, cahia em fios sedosos, que elle necessitava aparar e frizar. +Todo o seu +fato, as espessas <span class="pagenum">[19]</span>gravatas +de setim escuro que uma perola prendia, as luvas de anta branca, o +verniz das botas, vinham de Londres em caixotes +de cedro; e usava sempre ao peito uma flôr, não +natural, mas composta destramente pela sua ramalheteira com petalas de +flôres +dessemelhantes, cravo, azalea, orchidea ou tulipa, fundidas na mesma +haste entre uma leve folhagem de funcho. <br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="break"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Em 1880, em Fevereiro, n'uma cinzenta e arripiada manhã de +chuva, recebi uma carta de meu bom tio Affonso Fernandes, em que, +depois de lamentações sobre os seus setenta +annos, os +seus +males hemorroidaes, e a pesada gerencia dos seus bens «que +pedia +homem mais novo, com +pernas mais rijas»―me ordenava que recolhesse á +nossa +casa de Guiães, no Douro! Encostado ao marmore partido do +fogão, onde na +véspera a minha Nini deixára um espartilho +embrulhado no +<em>Jornal dos Debates</em>, censurei severamente meu tio +que assim +cortava em botão, antes de +desabrochar, a flôr do meu Saber Juridico. Depois n'um +Post-Scriptum elle accrescentava―«O tempo aqui +está +lindo, o que se +póde chamar de rosas, e tua santa tia muito se recommenda, +que +anda lá pela +cozinha, porque vai hoje em trinta e seis <span class="pagenum">[20]</span>annos +que casámos, temos +cá o abbade e o Quintaes a jantar, e ella quiz fazer uma +sopa dourada». <br /> + +<br /> + +Deitando uma acha ao lume, pensei como devia estar boa a sopa dourada +da tia Vicencia. Ha quantos annos não a provava, nem o +leitão assado, nem o arroz de fôrno da nossa casa! +Com o +tempo assim +tão lindo, já as mimosas do nosso pateo vergariam +sob os +seus grandes cachos amarellos. Um +pedaço de céo azul, do azul de Guiães, +que outro +não ha tão lustroso e macio, entrou pelo quarto, +alumiou, +sobre a poida tristeza do tapete, relvas, ribeirinhos, malmequeres e +flôres de trevo de que meus olhos +andavam agoados. E, por entre as bambinellas de sarja, passou um ar +fino e +forte e cheiroso de serra e de pinheiral. <br /> + +<br /> + +Assobiando um <em>fado</em> meigo tirei +debaixo da cama a minha velha mala, e metti solicitamente entre +calças e piugas um Tratado de +Direito Civil, para aprender emfim, nos vagares da aldeia, estendido +sob a faia, as leis que regem os homens. Depois, n'essa tarde, +annunciei a Jacintho +que partia para Guiães. O meu camarada recuou com um surdo +gemido de espanto e piedade: <br /> + +<br /> + +―Para Guiães!... Oh Zé Fernandes, que horror! <br /> + +<br /> + +E toda essa semana me lembrou solicitamente <span class="pagenum">[21]</span>confortos +de que eu me deveria prover para que pudesse conservar, nos ermos +silvestres, +tão longe da Cidade, uma pouca d'alma dentro d'um pouco de +corpo. +«Leva uma poltrona! Leva a <em>Encyclopedia +Geral</em>! Leva caixas de aspargos!...» <br /> + +<br /> + +Mas para o meu Jacintho, desde que assim me arrancavam da Cidade, eu +era arbusto desarraigado que não reviverá. A +magoa +com que me acompanhou ao comboio conviria excellentemente ao meu +funeral. E quando fechou sobre mim a portinhola, gravemente, +supremamente, como se cerra uma grade de sepultura, eu quasi +solucei―com saudades minhas. <br /> + +<br /> + +Cheguei a Guiães. Ainda restavam flôres nas +mimosas do nosso pateo; comi com delicias a sopa dourada da tia +Vicencia; de tamancos nos +pés assisti á ceifa dos milhos. E assim de +colheitas a lavras, crestando +ao sol das eiras, caçando a perdiz nos matos geados, +rachando a +melancia fresca na poeira dos arraiaes, arranchando a magustos, +serandando á +candeia, atiçando fogueiras de S. João, +enfeitando +presepios de Natal, por alli me passaram docemente sete annos, +tão atarefados que nunca +logrei abrir o Tratado de Direito Civil, e tão singelos que +apenas me +recordo quando, em vésperas de S. Nicolau, o abbade <span class="pagenum">[22]</span>cahiu da egua +á porta do Braz das Córtes. De Jacintho +só recebia raramente algumas +linhas, escrevinhadas á pressa por entre o tumulto da +Civilisação. +Depois, n'um Setembro muito quente, ao lidar da vindima, meu bom tio +Affonso Fernandes morreu, +tão quietamente, Deus seja louvado por esta +graça, como se cala +um passarinho ao fim do seu bem cantado e bem voado dia. Acabei pela +aldeia a roupa do luto. A minha afilhada Joanninha casou na +matança +do porco. Andaram obras no nosso telhado. Voltei a Paris. <br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h2>II</h2> + +<br /> + +<br /> + +Era de novo Fevereiro, e um fim de tarde arripiado e cinzento, quando +eu desci os Campos Elyseos em demanda do 202. Adiante de mim caminhava, +levemente curvado, um homem que, desde as botas rebrilhantes +até ás abas recurvas do chapéo d'onde +fugiam +anneis d'um cabello crespo, +reçumava elegancia e a familiaridade das coisas finas. Nas +mãos, +cruzadas atraz das costas, calçadas d'anta branca, +sustentava +uma bengala +grossa com castão de crystal. E só quando elle +parou ao +portão do 202 reconheci o nariz afilado, os fios do bigode +corredios e sedosos. <br /> + +<br /> + +―Oh Jacintho! <br /> + +<br /> + +―Oh Zé Fernandes! <br /> + +<br /> + +O abraço que nos enlaçou foi tão +alvoroçado que o meu chapéo rolou na lama. E +ambos murmuravamos, commovidos, entrando a grade: <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[24]</span> +―Ha sete annos!... <br /> + +<br /> + +―Ha sete annos!... <br /> + +<br /> + +E, todavia, nada mudára durante esses sete annos no jardim +do 202! Ainda entre as duas aleas bem areadas se arredondava uma relva, +mais lisa e varrida que a lã d'um tapete. No meio o vaso +corinthico +esperava Abril para resplandecer com tulipas e depois Junho para +transbordar de margaridas. E ao lado das escadas limiares, que uma +vidraçaria toldava, as duas magras Deusas de pedra, do tempo +de +D. Galião, +sustentavam as antigas lampadas de globos foscos, onde já +silvava o gaz. <br /> + +<br /> + +Mas dentro, no peristillo, logo me surprehendeu um elevador installado +por Jacintho―apesar do 202 ter sómente dois andares, e +ligados por uma escadaria tão doce que nunca +offendêra a +asthma da +snr.<sup>a</sup> D. Angelina! Espaçoso, tapetado, elle +offerecia, para +aquella jornada de +sete segundos, confortos numerosos, um divan, uma pelle d'urso, um +roteiro das ruas de Paris, prateleiras gradeadas com charutos e livros. +Na antecamara, onde desembarcamos, encontrei a temperatura macia e +tepida d'uma tarde de Maio, em Guiães. Um creado, mais +attento +ao +thermometro que um piloto á agulha, regulava destramente a +bocca +dourada +do calorifero. E perfumadores entre palmeiras, como n'um terrasso santo +de +Benares, <span class="pagenum">[25]</span>esparziam +um vapor, aromatisando e salutarmente humedecendo aquelle ar delicado e +superfino. <br /> + +<br /> + +Eu murmurei, nas profundidades do meu assombrado sêr: <br /> + +<br /> + +―Eis a civilisação! <br /> + +<br /> + +Jacintho empurrou uma porta, penetramos n'uma nave cheia de magestade e +sombra, onde reconheci a Bibliotheca por tropeçar n'uma +pilha monstruosa de livros novos. O meu amigo roçou de leve +o +dedo na parede: +e uma corôa de lumes electricos, refulgindo entre os lavores +do +tecto, alumiou as estantes monumentaes, todas d'ebano. N'ellas +repousavam mais de trinta mil volumes, encadernados em branco, em +escarlate, em negro, com retoques d'ouro, hirtos na sua pompa e na sua +auctoridade como doutores +n'um concilio. <br /> + +<br /> + +Não contive a minha admiração: <br /> + +<br /> + +―Oh Jacintho! Que deposito! <br /> + +<br /> + +Elle murmurou, n'um sorriso descorado: <br /> + +<br /> + +―Ha que lêr, ha que lêr... <br /> + +<br /> + +Reparei então que o meu amigo emmagrecera: e que o nariz se +lhe afilára mais entre duas rugas muito fundas, como as d'um +comediante +cançado. Os anneis do seu cabello lanigero rareavam sobre a +testa, que perdera a antiga serenidade de marmore bem polido. +Não frisava agora o +bigode murcho, cahido <span class="pagenum">[26]</span>em +fios pensativos. Tambem notei que corcovava. <br /> + +<br /> + +Elle erguêra uma tapeçaria―entramos no seu +gabinete de trabalho, que me inquietou. Sobre a espessura dos tapetes +sombrios os nossos passos perderam logo o som, e como a realidade. O +damasco das paredes, os divans, as madeiras, eram verdes, d'um verde +profundo de folha de +louro. Sêdas verdes envolviam as luzes electricas, dispersas +em +lampadas tão baixas que lembravam estrellas cahidas por cima +das +mesas, acabando de arrefecer e morrer: só uma rebrilhava, +núa e +clara, no alto d'uma estante quadrada, esguia, solitaria como uma torre +n'uma planicie, e de +que o lume parecia ser o pharol melancolico. Um biombo de laca verde, +fresco verde de relva, resguardava a chaminé de marmore +verde, verde de mar sombrio, onde esmoreciam as brazas d'uma lenha +aromatica. E entre aquelles verdes reluzia, por sobre peanhas e +pedestaes, toda uma Mechanica sumptuosa, apparelhos, laminas, rodas, +tubos, engrenagens, hastes, friezas, rigidezas de metaes... <br /> + +<br /> + +Mas Jacintho batia nas almofadas do divan, onde se enterrára +com um modo cançado que eu não lhe conhecia: <br /> + +<br /> + +―Para aqui, Zé Fernandes, para aqui! É +necessario reatarmos estas nossas vidas, tão <span class="pagenum">[27]</span>apartadas ha sete annos!... +Em +Guiães, sete annos! Que fizeste tu? <br /> + +<br /> + +―E tu, que tens feito, Jacintho? <br /> + +<br /> + +O meu amigo encolheu mollemente os hombros. Vivêra―cumprira +com serenidade todas as funcções, as que +pertencem +á materia e as que pertencem ao espirito... <br /> + +<br /> + +―E accumulaste civilisação, Jacintho! Santo +Deus... Está tremendo, o 202! <br /> + +<br /> + +Elle espalhou em torno um olhar onde já não +faiscava a antiga vivacidade: <br /> + +<br /> + +―Sim, ha confortos... Mas falta muito! A humanidade ainda +está mal apetrechada, Zé Fernandes... E a vida +conserva resistencias. +<br /> + +<br /> + +Subitamente, a um canto, repicou a campainha do telephone. E emquanto o +meu amigo, curvado sobre a placa, murmurava impaciente +«<em>Está +lá?―Está +lá?</em>», +examinei curiosamente, +sobre a sua immensa mesa de trabalho, uma estranha e miuda +legião de instrumentosinhos de nickel, +d'aço, de cobre, de ferro, com gumes, com argolas, com +tenazes, +com ganchos, com dentes, +expressivos todos, de utilidades misteriosas. Tomei um que tentei +manejar―e logo uma ponta malevola me picou um dedo. N'esse instante +rompeu d'outro canto um «tic-tic-tic» +açodado, quasi ancioso. Jacintho acudiu, com a face no +telephone: <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[28]</span> +―Vê ahi o telegrapho!... Ao pé do divan. Uma tira +de papel que deve estar a correr. <br /> + +<br /> + +E, com effeito, d'uma redôma de vidro posta n'uma columna, e +contendo um apparelho esperto e diligente, escorria para o tapete, como +uma tenia, +a longa tira de papel com caracteres impressos, que eu, homem das +serras, +apanhei, maravilhado. A linha, traçada em azul, annunciava +ao meu amigo Jacintho que a fragata russa <em>Azoff</em> +entrára em Marselha com avaria! <br /> + +<br /> + +Já elle abandonára o telephone. Desejei saber, +inquieto, se o prejudicava directamente aquella avaria da +<em>Azoff</em>. <br /> + +<br /> + +―Da <em>Azoff</em>?... A avaria? A mim?... +Não! É uma noticia. <br /> + +<br /> + +Depois, consultando um relogio monumental que, ao fundo da Bibliotheca, +marcava a hora de todas as Capitaes e o curso de todos os Planetas: <br /> + +<br /> + +―Eu preciso escrever uma carta, seis linhas... Tu esperas, +não, Zé Fernandes? Tens ahi os jornaes de Paris, +da +noite; e os de Londres, d'esta manhã. As +Illustrações +além, n'aquella pasta de couro com ferragens. <br /> + +<br /> + +Mas eu preferi inventariar o gabinete, que dava á minha +profanidade serrana todos os gostos d'uma +iniciação. Aos +lados da cadeira de Jacintho pendiam gordos tubos acusticos, <span class="pagenum">[29]</span>por +onde elle decerto soprava as suas ordens através do 202. Dos +pés da mesa +cordões tumidos e molles, colleando sobre o tapete, corriam +para +os recantos de sombra +á maneira de cobras assustadas. Sobre uma banquinha, e +reflectida no seu verniz como na agua d'um poço, pousava uma +Machina-de-escrever: e +adiante era uma immensa Machina-de-calcular, com fileiras de buracos +d'onde espreitavam, esperando, numeros rigidos e de ferro. Depois parei +em frente da estante que me preoccupava, assim solitaria, á +maneira d'uma torre n'uma planicie, com o seu alto pharol. Toda uma das +suas faces estava repleta de Diccionarios; a outra de Manuaes; a outra +de Atlas; a +ultima de Guias, e entre elles, abrindo um folio, encontrei o Guia das +ruas de Samarkande. Que macissa torre de +informação! Sobre prateleiras admirei apparelhos +que +não comprehendia:―um composto de +laminas de gelatina, onde desmaiavam, meio-chupadas, as linhas d'uma +carta, talvez +amorosa; outro, que erguia sobre um pobre livro brochado, como para o +decepar, um cutello funesto; outro avançando a bocca d'uma +tuba, toda aberta para as vozes do invisivel. Cingidos aos umbraes, +liados +ás cimalhas, luziam arames, que fugiam através do +tecto, +para o +espaço. Todos mergulhavam em forças universaes, +todos <span class="pagenum">[30]</span>transmittiam +forças universaes. A Natureza convergia disciplinada ao +serviço do +meu amigo e entrára na sua domesticidade!... <br /> + +<br /> + +Jacintho atirou uma exclamação impaciente: <br /> + +<br /> + +―Oh, estas pennas electricas!... Que secca! <br /> + +<br /> + +Amarrotára com colera a carta começada―eu +escapei, respirando, para a Bibliotheca. Que magestoso armazem dos +productos do Raciocinio e da Imaginação! Alli +jaziam mais +de trinta mil +volumes, e todos decerto essenciaes a uma cultura humana. Logo +á +entrada notei, em +ouro n'uma lombada verde, o nome de Adam Smith. Era pois a +região dos +Economistas. Avancei―e percorri, espantado, oito metros de Economia +Politica. +Depois avistei os Philosophos e os seus commentadores, que revestiam +toda uma parede, desde as escólas Pre-socraticas +até +ás escólas Neo-pessimistas. N'aquellas pranchas +se +acastellavam mais de dois mil systemas―e que todos se contradiziam. +Pelas encadernações logo +se deduziam as doutrinas: Hobbes, em baixo, era pesado, de couro negro; +Platão, em cima, resplandecia, n'uma pellica pura e alva. +Para +diante +começavam as Historias Universaes. Mas ahi uma immensa pilha +de +livros brochados, cheirando a tinta nova e a documentos <span class="pagenum">[31]</span>novos, +subia contra a estante, como fresca terra d'alluvião tapando +uma +riba secular. +Contornei essa collina, mergulhei na secção das +Sciencias +Naturaes, peregrinando, n'um assombro crescente, da Orographia para a +Paleontologia, e da +Morphologia para a Crystallographia. Essa estante rematava junto d'uma +janella rasgada sobre os Campos Elyseos. Apartei as cortinas de +velludo―e por traz descobri outra portentosa rima de volumes, todos de +Historia Religiosa, de Exegese Religiosa, que trepavam montanhosamente +até aos ultimos vidros, vedando, nas manhãs mais +candidas, o ar e a +luz do Senhor. <br /> + +<br /> + +Mas depois rebrilhava, em marroquins claros, a estante amavel dos +Poetas. Como um repouso para o espirito esfalfado de todo aquelle saber +positivo, Jacintho aconchegára ahi um recanto, com um divan +e uma mesa de limoeiro, mais lustrosa que um fino esmalte, coberta de +charutos, de +cigarros d'Oriente, de tabaqueiras do seculo XVIII. Sobre um cofre de +madeira lisa pousava ainda, esquecido, um prato de damascos seccos do +Japão. Cedi á seducção das +almofadas; trinquei um damasco, abri um volume; e senti estranhamente, +ao lado, um zumbido, como de um insecto de azas harmoniosas. Sorri +á idéa que fossem +abelhas, compondo o seu <span class="pagenum">[32]</span>mel +n'aquelle massiço de versos em flôr. Depois +percebi que o susurro remoto e dormente vinha do cofre de mogne, de +parecer tão discreto. +Arredei uma <em>Gazeta de França</em>; +e +descornitei um cordão que emergia de um orificio, escavado +no +cofre, e rematava n'um funil de marfim. Com curiosidade, encostei o +funil a esta minha confiada orelha, afeita á +singeleza dos rumores da serra. E logo uma Voz, muito mansa, mas muito +dicidida, aproveitando a minha curiosidade para me invadir e se +apoderar do meu entendimento, susurrou capciosamente: <br /> + +<br /> + +―...«E assim, pela disposição dos +cubos diabolicos, eu chego a verificar os espaços +hypermagicos!...» <br /> + +<br /> + +Pulei, com um berro. <br /> + +<br /> + +―Oh Jacintho, aqui ha um homem! Está aqui um homem a fallar +dentro d'uma caixa! <br /> + +<br /> + +O meu camarada, habituado aos prodigios, não se +alvoroçou: <br /> + +<br /> + +―É o Conferençophone... Exactamente como o +Theatrophone; sómente applicado ás +escólas e ás +conferencias. Muito commodo!... Que diz o homem, Zé +Fernandes? <br /> + +<br /> + +Eu considerava o cofre, ainda esgazeado: <br /> + +<br /> + +―Eu sei! Cubos diabolicos, espaços magicos, toda a sorte de +horrores... <br /> + +<br /> + +Senti dentro o sorriso superior de Jacintho: <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[33]</span> +―Ah, é o coronel Dorchas... Lições de +Metaphysica Positiva sobre a Quarta Dimensão... Conjecturas, +uma massada! Ouve +lá, tu hoje jantas commigo e com uns amigos, Zé +Fernandes? <br /> + +<br /> + +―Não, Jacintho... Estou ainda enfardelado pelo alfaiate da +serra! <br /> + +<br /> + +E voltei ao gabinete mostrar ao meu camarada o jaquetão de +flanella grossa, a gravata de pintinhas escarlates, com que ao domingo, +em Guiães, visitava o Senhor. Mas Jacintho affirmou que esta +simplicidade montesina interessaria os seus convidados, que eram dois +artistas... Quem? O auctor do <em>Coração +Triplo</em>, +um Psychologo Feminista, d'agudeza transcendente, Mestre muito +experimentado e muito consultado em Sciencias Sentimentaes; e Vorcan, +um pintor mythico, que +interpretára ethereamente, havia um anno, a symbolia +rapsodica +do cerco de Troia, n'uma vasta composição, <em>Helena +Devastadora</em>... <br /> + +<br /> + +Eu coçava a barba: <br /> + +<br /> + +―Não, Jacintho, não... Eu venho de +Guiães, das serras; preciso entrar em toda esta +civilisacão, lentamente, com cautella, +senão rebento. Logo na mesma tarde a electricidade, e o +conferençophone, e os +espaços hypermagicos e o feminista, e o ethereo, e a +symbolia devastadora, +é excessivo! Volto ámanhã. <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[34]</span>Jacintho dobrava +vagarosamente a sua carta, onde mettera sem +rebuço (como convinha á nossa fraternidade) duas +violetas brancas +tiradas do ramo que lhe floria o peito. <br /> + +<br /> + +―Ámanhã, Zé Fernandes, tu vens antes +d'almoço, com as tuas malas dentro d'um fiacre, para te +installares no 202, no teu quarto. No Hotel +são embaraços, privações. +Aqui tens o +telephone, o teatrophone, livros... <br /> + +<br /> + +Acceitei logo, com simplicidade. E Jacintho, embocando um tubo +acustico, murmurou: <br /> + +<br /> + +―Grillo! <br /> + +<br /> + +Da parede, recoberta de damasco, que subitamente e sem rumor se fendeu, +surdio o seu velho escudeiro (aquelle moleque que viera com +<em>D. +Gallião</em>), que eu me alegrei de encontrar +tão rijo, mais negro, reluzente e veneravel na sua tesa +gravata, +no seu collete branco de botões de ouro. Elle tambem estimou +vêr de novo +«o siô Fernandes». E, quando soube que eu +occuparia o +quarto do avô Jacintho, teve +um claro sorriso de preto, em que envolveu o seu senhor, no +contentamento de o sentir emfim reprovido d'uma familia. <br /> + +<br /> + +―Grillo, dizia Jacintho, esta carta a Madame de Oriol... Escuta! +Telephona para casa dos Trèves que os espiritistas +só estão livres no domingo... Escuta! Eu tomo uma +douche <span class="pagenum">[35]</span>antes de +jantar, tepida, a 17. Fricção com malva-rosa. <br /> + +<br /> + +E cahindo pesadamente para cima do divan, com um bocejo arrastado e +vago: <br /> + +<br /> + +―Pois é verdade, meu Zé Fernandes, aqui estamos, +como ha sete annos, n'este velho Paris... <br /> + +<br /> + +Mas eu não me arredava da mesa, no desejo de completar a +minha iniciação: <br /> + +<br /> + +―Oh Jacintho, para que servem todos estes instrumentosinhos? Houve +já ahi um desavergonhado que me picou. Parecem perversos... +São +uteis? <br /> + +<br /> + +Jacintho esboçou, com languidez, um gesto que os +sublimava.―Providenciaes, meu filho, absolutamente providenciaes, pela +simplificação que dão ao trabalho! +Assim... E apontou. Este arrancava as pennas velhas; o outro numerava +rapidamente as paginas d'um +manuscripto; aquell'outro, além, raspava emendas... E ainda +os havia para +collar estampilhas, imprimir datas, derreter lacres, cintar +documentos... <br /> + +<br /> + +―Mas com effeito, accrescentou, é uma sécca. Com +as molas, com os bicos, ás vezes magoam, ferem... +Já me succedeu +inutilisar cartas por as ter sujado com dedadas de sangue. É +uma massada! <br /> + +<br /> + +Então, como o meu amigo espreitára novamente <span class="pagenum">[36]</span>o +relogio monumental, não lhe quiz retardar a +consolação da douche e da +malva-rosa. <br /> + +<br /> + +―Bem, Jacintho, já te revi, já me contentei... +Agora até ámanhã, com as malas. <br /> + +<br /> + +―Que diabo, Zé Fernandes, espera um momento... Vamos pela +sala de jantar. Talvez te tentes! <br /> + +<br /> + +E, através da Bibliotheca, penetramos na sala de +jantar,―que me encantou pelo seu luxo sereno e fresco. Uma madeira +branca, laccada, mais lustrosa e macia que setim, revestia as paredes, +encaixilhando medalhões de damasco côr de morango, +de +morango +muito maduro e esmagado: os aparadores, discretamente lavrados em +florões e rocalhas, +resplandeciam com a mesma lacca nevada: e damascos amorangados +estofavam tambem as cadeiras, brancas, muito amplas, feitas para a +lentidão de gulas delicadas, de gulas intellectuaes. <br /> + +<br /> + +―Viva o meu Principe! Sim senhor... Eis aqui um comedoiro muito +comprehensivel e muito repousante, Jacintho! <br /> + +<br /> + +―Então janta, homem! <br /> + +<br /> + +Mas já eu me começava a inquietar, reparando que +a cada talher correspondiam seis garfos, e todos de feitios astuciosos. +E mais me impressionei quando Jacintho me desvendou <span class="pagenum">[37]</span>que +um era para as ostras, outro para o peixe, outro para as carnes, outro +para os legumes, outro para as fructas, outro para o queijo! +Simultaneamente, com uma sobriedade que louvaria Salomão, +só dois copos, +para dois vinhos:―um Bordeus rosado em infusas de crystal, e Champagne +gelando dentro de baldes de prata. Todo um aparador porém +vergava, sob o luxo +redundante, quasi assustador d'aguas―aguas oxigenadas, aguas +carbonatadas, aguas phosphatadas, aguas esterilisadas, aguas de saes, +outras ainda, em garrafas bojudas, com tratados therapeuticos impressos +em rotulos. <br /> + +<br /> + +―Santissimo nome de Deus, Jacintho! Então és +ainda o mesmo tremendo bebedor d'agua, hein?... <em>Un +aquatico</em>! como dizia o nosso poeta chileno, que andava a +traduzir Klopstock. <br /> + +<br /> + +Elle derramou, por sobre toda aquella garrafaria +encarapuçada em metal, um olhar desconsolado: <br /> + +<br /> + +―Não... É por causa das aguas da Cidade, +contaminadas, atulhadas de microbios... Mas ainda não +encontrei uma bôa agua +que me convenha, que me satisfaça... Até soffro +sêde. <br /> + +<br /> + +Desejei então conhecer o jantar do Psychologo e do +Symbolista―traçado, ao lado dos <span class="pagenum">[38]</span>talheres, +em tinta vermelha, sobre laminas de marfim. Começava +honradamente por ostras classicas, de Marennes. +Depois apparecia uma sopa d'alcachofras e ovas de carpa... <br /> + +<br /> + +―É bom? <br /> + +<br /> + +Jacintho encolheu desinteressadamente os hombros: <br /> + +<br /> + +―Sim... Eu não tenho nunca appetite, já ha +tempos... Já ha annos. <br /> + +<br /> + +Do outro prato só comprehendi que continha frangos e +tubaras. Depois saboreariam aquelles senhores um filete de veado, +macerado em Xerez, +com gelêa de noz. E por sobremeza simplesmente laranjas +geladas +em ether. <br /> + +<br /> + +―Em ether, Jacintho? <br /> + +<br /> + +O meu amigo hesitou, esboçou com os dedos a +ondulação d'um aroma que s'evola. <br /> + +<br /> + +―É novo... Parece que o ether desenvolve, faz afflorar a +alma das fructas... <br /> + +<br /> + +Curvei a cabeça ignara, murmurei nas minhas profundidades: <br /> + +<br /> + +―Eis a Civilisação! <br /> + +<br /> + +E, descendo os Campos Elyseos, encolhido no paletot, a cogitar n'este +prato symbolico, considerava a rudeza e atolado atrazo da minha +Guiães, onde desde seculos a alma das laranjas permanece +ignorada e desaproveitada dentro dos gomos sumarentos, por todos <span class="pagenum">[39]</span>aquelles +pomares que ensombram e perfumam o valle, da Roqueirinha a Sandofim! +Agora porém, bemdito Deus, na convivencia de um +tão +grande iniciado como Jacintho, eu comprehenderia todas as finuras e +todos os poderes da Civilisação. <br /> + +<br /> + +E, (melhor ainda para a minha ternura!) contemplaria a raridade d'um +homem que, concebendo uma idéa da Vida, a realisa―e +através d'ella e por ella recolhe a felicidade perfeita. <br /> + +<br /> + +Bem se affirmára este Jacintho, na verdade, como Principe da +Gran-Ventura! <br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h2>III</h2> + +<br /> + +<br /> + +No 202, todas as manhãs, ás nove horas, depois do +meu chocolate e ainda em chinelas, penetrava no quarto de Jacintho. +Encontrava o meu amigo banhado, barbeado, friccionado, envolto n'um +roupão branco +de pello de cabra do Thibet, diante da sua mesa de toilette, toda de +crystal, (por causa dos microbios) e atulhada com esses utensilios de +tartaruga, marfim, prata, aço e madreperola que o homem do +seculo XIX +necessita para não desfeiar o conjuncto sumptuario da +Civilisação e manter n'ella o seu Typo. As +escovas +sobretudo renovavam, cada dia, o meu regalo e o meu espanto―porque as +havia largas como a roda massiça d'um +carro sabino; estreitas e mais recurvas que o alfange d'um mouro; +concavas, +em fórma de telha aldeã; ponteagudas em feitio de +folha de hera; rijas que nem cerdas de javali; macias que nem pennugem <span class="pagenum">[42]</span>de rôla! De +todas, fielmente, como amo que não desdenha nenhum servo, se +utilisava o meu Jacintho. E assim, em face ao espelho emmoldurado de +folhedos de prata, +permanecia este Principe passando pellos sobre o seu pello durante +quatorze minutos. <br /> + +<br /> + +No emtanto o Grillo e outro escudeiro, por traz dos biombos de Kioto, +de sedas lavradas, manobravam, com pericia e vigor, os apparelhos do +lavatorio―que era apenas um resumo das machinas monumentaes da Sala de +Banho, a mais estremada maravilha do 202. N'estes marmores +simplificados existiam unicamente dois jactos graduados desde +<em>zero</em> até +<em>cem</em>; as duas duchas, fina e grossa, para a +cabeça; a fonte +esterilisada para os dentes; o repuxo borbulhante para a barba; e ainda +botões +discretos, que, roçados, desencadeavam esguichos, cascatas +cantantes, +ou um leve orvalho estival. D'esse recanto temeroso, onde delgados +tubos mantinham +em disciplina e servidão tantas aguas ferventes, tantas +aguas violentas, sahia emfim o meu Jacintho enxugando as +mãos a uma toalha de +felpo, a uma toalha de linho, a outra de corda entrançada +para +restabelecer a circulação, a outra de +sêda frouxa para +repolir a pelle. Depois d'este rito derradeiro que lhe arrancava ora um +suspiro, ora um bocejo, Jacintho, estendido n'um divan, <span class="pagenum">[43]</span>folheava uma Agenda, onde +se arrolavam, +inscriptas pelo Grillo ou por elle, as occupações +do seu dia, tão numerosas por vezes que cobriam duas laudas. +<br /> + +<br /> + +Todas ellas se prendiam á sua sociabilidade, á +sua civilisação muito complexa, ou a interesses +que o meu Principe, n'esses sete annos, +creára para viver em mais consciente communhão +com todas as +funcções da Cidade. (Jacintho com effeito era +presidente do Club da +<em>Espada e Alvo</em>; commanditario do Jornal o +<em>Boulevard</em>; director da +<em>Companhia dos +Telephones de Constantinopla</em>; socio dos +<em>Bazares unidos da Arte +Espiritualista</em>; membro do +<em>Comité de Iniciação +das Religiões Esotericas</em>, +etc.) Nenhuma d'estas +occupações parecia porém aprazivel ao +meu +amigo―porque, apesar da mansidão e harmonia dos seus +modos, frequentemente arremessava para o tapete, n'uma +rebellião +de +homem livre, aquella Agenda que o escravisava. E n'uma d'essas +manhãs (de vento e neve), apanhando eu o livro oppressivo, +encadernado em pellica, +de um carinhoso tom de rosa murcha―descobri que o meu Jacintho devia +depois do almoço fazer uma visita na rua da Universidade, +outra no Parque Monceau, outra entre os arvoredos remotos da Muette; +assistir +por fidelidade a uma votação no Club; acompanhar +Madame <span class="pagenum">[44]</span>d'Oriol a +uma exposição de leques; escolher um presente de +noivado para a sobrinha dos Trèves; comparecer no funeral do +velho conde de Malville; +presidir um tribunal de honra n'uma questão de roubalheira, +entre +cavalheiros, ao ecarté... E ainda se acavallavam outras +indicações, escrivinhadas por Jacintho a +lapis:―«Carroceiro―Five-oclock dos Ephrains―A +pequena das <em>Variedades</em>―Levar +a nota ao +jornal...» Considerei o meu Principe. Estirado no divan, +d'olhos +miserrimamente cerrados, bocejava, n'um bocejo immenso e mudo. <br /> + +<br /> + +Mas os affazeres de Jacintho começavam logo no 202, cedo, +depois do banho. Desde as oito horas a campainha do telephone repicava +por elle, com impaciencia, quasi com colera, como por um escravo +tardio. E mal enxugado, dentro do seu roupão de pello de +cabra +do Thibet +ou de grossas pyjamas de pelucia côr d'ouro-velho, +constantemente +sahia ao +corredor a cochichar com sujeitos tão apressados, que +conservavam na +mão o guarda-chuva pingando sobre o tapete. Um d'esses, +sempre +presente (e +que pertencia decerto aos <em>Telephones de +Constantinopla</em>), era temeroso―todo elle chupado, tisnado, +com maus dentes, +sobraçando uma enorme pasta sebenta, e dardejando, d'entre a +alta gola d'uma pelissa poida, <span class="pagenum">[45]</span>como +da abertura d'um covil, dous olhinhos tôrvos e de +rapina. Sem cessar, inexoravelmente, um escudeiro apparecia, com +bilhetes n'uma +salva... Depois eram fornecedores d'Industria e d'Arte; negociantes de +cavallos, rubicundos e de paletot branco; inventores com grossos rolos +de papel; alfarrabistas trazendo na algibeira uma +edição «unica», quasi +inverosimil, de Ulrich +Zell ou do +<em>Lapidanus</em>. Jacintho circulava estonteado pelo 202, +rabiscando +a carteira, repicando o telephone, desatando nervosamente pacotes, +sacudindo ao passar algum embuscado que +surdia das sombras da antecamara, estendia como um trabuco o seu +memorial ou o seu catalogo! <br /> + +<br /> + +Ao meio dia, um tam-tam argentino e melancholico ressoava, chamando ao +almoço. Com o <em>Figaro</em> ou +as <em>Novidades</em> +abertas sobre o prato, +eu esperava sempre meia hora pelo meu Principe, que entrava n'uma +rajada, consultando o relogio, exhalando com a face moída o +seu +queixume eterno: <br /> + +<br /> + +―Que massada! E depois uma noite abominavel, enrodilhada em sonhos... +Tomei sulforal, chamei o Grillo para me esfregar com therebentina... +Uma sécca! <br /> + +<br /> + +Espalhava pela mesa um olhar já farto. Nenhum prato, por +mais engenhoso, o seduzia;―e, como através do seu tumulto +matinal fumava +<span class="pagenum">[46]</span>incontaveis +cigarretes que o +resequiam, começava por se encharcar com um +immenso copo d'agua oxygenada, ou carbonatada, ou gazoza, misturada +d'um cognac +raro, muito caro, horrendamente adocicado, de moscatel de Syracusa. +Depois, á pressa, sem gosto, com a ponta incerta do garfo, +picava aqui e além uma lasca de fiambre, uma febra de +lagosta;―e +reclamava impacientemente o café, um café de +Moka, +mandado +cada mez por um feitor do Dedjah, fervido á turca, muito +espesso, que elle remexia +com um pau de canella! <br /> + +<br /> + +―E tu, Zé Fernandes, que vaes tu fazer? <br /> + +<br /> + +―Eu? <br /> + +<br /> + +Recostado na cadeira, com delicias, os dedos mettidos nas cavas do +collete: <br /> + +<br /> + +―Vou vadiar, regaladamente, como um cão natural! <br /> + +<br /> + +O meu sollicito amigo, remexendo o café com o pau de +canella, rebuscava através da numerosa +Civilisação da +Cidade uma occupação que me encantasse. Mas +apenas suggeria uma Exposição, ou +uma Conferencia, ou monumentos, ou passeios, logo encolhia os hombros +desconsolados: <br /> + +<br /> + +―Por fim nem vale a pena, é uma sécca! <br /> + +<br /> + +Accendia outra das cigarretes russas, onde rebrilhava o seu nome, +impresso a ouro na mortalha. Torcendo, n'uma pressa nervosa, os <span class="pagenum">[47]</span>fios do +bigode, ainda escutava, á porta da Bibliotheca, o seu +procurador, o nedio e magestoso Laporte. E emfim, seguido d'um criado, +que +sobraçava um maço tremendo de jornaes para lhe +abastecer o +coupé, o Principe da Gran-Ventura mergulhava na Cidade. <br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="break"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Quando o dia social de Jacintho se apresentava mais desafogado, e o +céo de Março nos concedia caridosamente um pouco +de azul +agoado, +sahiamos depois d'almoço, a pé, +através de +Paris. Estes lentos e errantes passeios eram outr'ora, na nossa edade +de Estudantes, um gozo muito querido de Jacintho―porque n'elles mais +intensamente e mais minuciosamente saboreava a Cidade. Agora +porém, apesar da +minha companhia, só lhe davam uma impaciencia e uma fadiga +que +desoladoramente destoava do antigo, illuminado extasi. Com espanto +(mesmo com +dôr, porque sou bom, e sempre me entristece o desmoronar +d'uma +crença) descobri eu, na primeira tarde em que descemos aos +Boulevards, que o denso formigueiro humano sobre o asphalto, e a +torrente sombria dos trens sobre o macadam, affligiam o meu amigo pela +brutalidade da sua pressa, do seu egoismo, <span class="pagenum">[48]</span>e +do seu estridor. Encostado e como refugiado +no meu braço, este Jacintho novo começou a +lamentar +que as ruas, na nossa Civilisação, não +fossem +calçadas de gutta-percha! E a gutta-percha claramente +representava, para o meu amigo, a substancia discreta que amortece o +choque e a rudeza das cousas. Oh maravilha! Jacintho +querendo borracha, a borracha isoladora, entre a sua sensibilidade e as +funcções da Cidade! Depois, nem me permittiu +pasmar +diante d'aquellas dourejadas +e espelhadas lojas que elle outr'ora considerava como os +«preciosos museus do seculo XIX»... <br /> + +<br /> + +―Não vale a pena, Zé Fernandes. Ha uma immensa +pobreza e seccura d'invenção! Sempre os mesmos +florões +Luiz XV, sempre as mesmas pelucias... Não vale a pena! <br /> + +<br /> + +Eu arregalava os olhos para este transformado Jacintho. E sobretudo me +impressionava o seu horror pela Multidão―por certos +effeitos da Multidão, só para elle sensiveis, e a +que +chamava +os «sulcos». <br /> + +<br /> + +―Tu não os sentes, Zé Fernandes. Vens das +serras... Pois constituem o rijo inconveniente das Cidades, estes +sulcos! É um perfume +muito agudo e petulante que uma mulher larga ao passar, e se installa +no olfacto, e estraga para todo o dia o ar respiravel. É um +dito +que se +surprehende n'um grupo, que <span class="pagenum">[49]</span>revela +um mundo de velhacaria, ou de pedantismo, ou de estupidez, e que nos +fica collado á alma, como um salpico, +lembrando a immensidade da lama a atravessar. Ou então, meu +filho, +é uma figura intoleravel pela +pretenção, ou pelo mau-gosto, ou +pela impertinencia, ou pela rellice, ou pela dureza, e de que se +não +póde sacudir mais a visão repulsiva... Um pavor, +estes sulcos, Zé Fernandes! De resto, +que diabo, são as pequeninas miserias d'uma +Civilisação deliciosa! <br /> + +<br /> + +Tudo isto era especioso, talvez pueril―mas para mim revelava, +n'aquelle chamejante devoto da Cidade, o arrefecimento da +devoção. N'essa mesma tarde, se bem recordo, sob +uma luz macia e fina, penetramos nos centros +de Paris, nas ruas longas, nas milhas de casario, todo de +caliça parda, erriçado de chaminés de +lata negra, com as +janellas sempre fechadas, as cortininhas sempre corridas, abafando, +escondendo a vida. Só +tijolo, só ferro, só argamassa, só +estuque: linhas hirtas, +angulos asperos: tudo secco, tudo rigido. E dos chãos aos +telhados, por toda a +fachada, tapando as varandas, comendo os muros, Taboletas, Taboletas... +<br /> + +<br /> + +―Oh, este Paris, Jacintho, este teu Paris! Que enorme, que grosseiro +bazar! <br /> + +<br /> + +E, mais para sondar o meu Principe do que <span class="pagenum">[50]</span>por +persuasão, +insisti na fealdade e tristeza d'estes predios, duros armazens, cujos +andares +são prateleiras onde se apilha humanidade! E uma humanidade +impiedosamente catalogada e arrumada! A mais vistosa e de luxo nas +prateleiras baixas, +bem envernisadas. A relles e de trabalho nos altos, nos +desvãos, sobre pranchas de pinho nú, entre o +pó e +a +traça... <br /> + +<br /> + +Jacintho murmurou, com a face arripiada: <br /> + +<br /> + +―É feio, é muito feio! <br /> + +<br /> + +E accudiu logo, sacudindo no ar a luva de anta: <br /> + +<br /> + +―Mas que maravilhoso organismo, Zé Fernandes! Que solidez! +Que producção! <br /> + +<br /> + +Onde Jacintho me parecia mais renegado era na sua antiga e quasi +religiosa affeição pelo Bosque de Bolonha. Quando +moço, elle construira sobre o Bosque theorias complicadas e +consideraveis. E sustentava, com olhos rutilantes de fanatico, que no +Bosque a Cidade cada tarde ia retemperar salutarmente a sua +força, recebendo, pela +presença das suas Duquezas, das suas Cortezãs, +dos seus +Politicos, dos seus +Financeiros, dos seus Generaes, dos seus Academicos, dos seus Artistas, +dos seus Clubistas, dos seus Judeus, a certeza consoladora de que todo +o seu pessoal se mantinha em numero, em vitalidade, em +funcção, <span class="pagenum">[51]</span>e +que nenhum elemento da sua grandeza desapparecera ou deperecera! +«Ir ao +Bois» constituia então para o meu Principe um acto +de consciencia. +E voltava sempre confirmando com orgulho que a Cidade possuia todos os +seus astros, garantindo a eternidade da sua luz! <br /> + +<br /> + +Agora, porém, era sem fervor, arrastadamente, que elle me +levava ao Bosque, onde eu, aproveitando a clemencia d'Abril, tentava +enganar a minha saudade d'arvoredos. Emquanto subiamos, ao trote nobre +das suas egoas lustrosas, a Avenida dos Campos-Elyseos e a do Bosque, +rejuvenescidas pelas relvas tenras e fresco verdejar dos rebentos, +Jacintho, soprando o fumo da cigarrete pelas vidraças +abertas do coupé, permanecia o bom camarada, de veia amavel, +com +quem era doce +philosophar através de Paris. Mas logo que passavamos as +grades +douradas +do Bosque, e penetravamos na Avenida das Acacias, e enfiavamos na lenta +fila dos trens de luxo e de praça, sob o silencio decoroso, +apenas +cortado pelo tilintar dos freios e pelas rodas vagarosas esmagando a +areia,―o meu Principe emmudecia, mollemente engilhado no fundo das +almofadas, d'onde +só despegava a face para escancarar bocejos de fartura. Pelo +antigo habito de verificar a presença confortadora <span class="pagenum">[52]</span>do +«pessoal, dos astros», ainda, por vezes, apontava +para +algum coupé ou vittoria +rodando com rodar rangente n'outra arrastada fila―e murmurava um nome. +E assim fui +conhecendo a encaracolada barba hebraica do banqueiro Ephraim; e o +longo nariz patricio de Madame de Trèves abrigando um +sorriso +perenne; e as bochechas flacidas do poeta neo-platonico Dornan, sempre +espapado no fundo de fiacres; e os longos bandòs +pre-raphaelitas +e +negros de Madame Verghane; e o monoculo defumado do director do +<em>Boulevard</em>; e o bigodinho vencedor do Duque de +Marizac, +reinando de cima do seu phaeton +de guerra; e ainda outros sorrisos immoveis, e barbichas á +Renascença, e palpebras amortecidas, e olhos farejantes, e +pelles empoadas d'arroz, que eram todas illustres e da intimidade do +meu Principe. Mas, do topo da Avenida das Acacias, +recomeçavamos +a descer, em passo +sopeado, esmagando lentamente a areia; na fila vagarosa que subia, +calhambeque atraz de landau, vittoria atraz de fiacre, fatalmente +reviamos o binoculo sombrio do homem do +<em>Boulevard</em>, e os bandòs +furiosamente negros de Madame Verghane, e o ventre espapado do +neo-platonico, e a barba talmudica, e todas aquellas figuras, d'uma +immobilidade de cera, super-conhecidas do meu <span class="pagenum">[53]</span>camarada, +recruzadas cada tarde +através de revividos annos, sempre com os mesmos sorrisos, +sob o mesmo +pó d'arroz, na mesma immobilidade de cera; então +Jacintho não +se continha, gritava ao cocheiro: <br /> + +<br /> + +―Para casa, depressa! <br /> + +<br /> + +E era pela Avenida do Bosque, pelos Campos-Elyseos, uma fuga ardente +das egoas a quem a lentidão sopeada, n'um roer de freios, +entre +outras egoas tambem d'ellas super-conhecidas, lançavam n'uma +exasperação comparavel á de Jacintho. <br /> + +<br /> + +Para o sondar eu denegria o Bosque: <br /> + +<br /> + +―Já não é tão divertido, +perdeu o brilho!... <br /> + +<br /> + +Elle acudia, timidamente: <br /> + +<br /> + +―Não, é agradavel, não ha nada mais +agradavel; mas... <br /> + +<br /> + +E accusava a friagem das tardes ou o despotismo dos seus affazeres. +Recolhiamos então ao 202, onde, com effeito, em breve +embrulhado no seu roupão branco, diante da mesa de crystal, +entre a +legião das escovas, com toda a electricidade refulgindo, o +meu Principe se +começava a adornar para o serviço social da +noite. <br /> + +<br /> + +E foi justamente numa d'essas noites (um sabado) que nós +passamos, n'aquelle quarto tão civilisado e protegido, por +um d'esses +brutos <span class="pagenum">[54]</span>e revoltos +terrores como só os produz a ferocidade dos +Elementos. Já tarde, á pressa (jantavamos com +Marizac no Club para o +acompanhar depois ao <em>Lohengrin</em> +na Opera) Jacintho +arrocheava o nó da gravata branca―quando no lavatorio, ou +porque se rompesse o tubo, ou se dessoldasse a torneira, o jacto d'agua +a ferver rebentou furiosamente, fumegando e silvando. Uma nevoa densa +de vapor quente abafou as luzes―e, perdidos n'ella, sentiamos, por +entre os gritos do escudeiro +e do Grillo, o jorro devastador batendo os muros, esparrinhando uma +chuva +que escaldava. Sob os pés o tapete ensopado era uma lama +ardente. E como se todas as forças da natureza, submettidas +ao +serviço de Jacintho, se agitassem, animadas por aquella +rebellião da agua―ouvimos +roncos surdos no interior das paredes, e pelos fios dos lumes +electricos sulcaram faiscas ameaçadoras! Eu fugira para o +corredor, onde se +alargava a nevoa grossa. Por todo o 202 ia um tumulto de desastre. +Diante do +portão, attrahidas pela fumarada que se escapava das +janellas, +estacionava policia, uma multidão. E na escada esbarrei com +um +reporter, +de chapéo para a nuca, a carteira aberta, gritando +sofregamente +«se +havia mortos?» <br /> + +<br /> + +Domada a agua, clareada a bruma, vim <span class="pagenum">[55]</span>encontrar +Jacintho no meio do quarto, em ceroulas, livido: <br /> + +<br /> + +―Oh Zé Fernandes, esta nossa industria!... Que impotencia, +que impotencia! Pela segunda vez, este desastre! E agora, apparelhos +perfeitos, um processo novo... <br /> + +<br /> + +―E eu encharcado por esse processo novo! E sem outra casaca! <br /> + +<br /> + +Em redor, as nobres sêdas bordadas, os brocateis Luiz XIII, +cobertos de manchas negras, fumegavam. O meu Principe, enfiado, +enchugava uma photographia de Madame d'Oriol, d'hombros decotados, que +o jorro bruto maculára d'empolas. E eu, com rancor, pensava +que +na minha +Guiães a agua aquecia em seguras panellas―e subia ao meu +lavatorio, pela +mão forte da Catharina, em seguras infusas! Não +jantamos +com o duque de +Marizac, no Club. E, na Opera, nem saboreei Lohengrin e a sua branca +alma e o seu branco cysne e as suas brancas armas―entallado, +aperreado, cortado nos +sovacos pela casaca que Jacintho me emprestára e que +rescendia estonteadoramente a flores de Nessari. <br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="break"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +No domingo, muito cedo, o Grillo, que na véspera +escaldára as mãos e as trazia embrulhadas em +sêda, penetrou no meu quarto, descerrou +<span class="pagenum">[56]</span>as cortinas, e +á beira do leito, com o seu radiante sorriso de +preto: <br /> + +<br /> + +―Vem no <em>Figaro</em>! <br /> + +<br /> + +Desdobrou triumphalmente o jornal. Eram, nos +<em>Echos</em>, doze linhas, onde as nossas aguas rugiam e +espadavam, +com tanta magnificencia e tanta publicidade, que tambem +sorrí, +deleitado. <br /> + +<br /> + +―E toda a manhã, o telephone, siô Fernandes! +exclamava o Grillo, rebrilhando em ebano. A quererem saber, a quererem +saber... +«Está lá? Está +escaldado?» Paris afflicto, siô +Fernandes! <br /> + +<br /> + +O telephone, com effeito, repicava, insaciavel. E quando desci para o +almoço, a toalha desapparecia sob uma camada de telegrammas, +que o meu Principe fendia com a faca, enrugado, rosnando contra a +«massada». Só desannuviou, ao ler um +d'esses papeis +azues, que atirou para cima do +meu prato, com o mesmo sorriso agradado com que de manhã +sorriramos, o Grillo e eu: <br /> + +<br /> + +―É do Gran-Duque Casimiro... Ratão amavel! +Coitado! <br /> + +<br /> + +Saboreei, através dos ovos, o telegramma de S. Alteza. +«O que! o meu Jacintho inundado! Muito chic, nos +Campos-Elyseos! Não volto +ao 202 sem boia de salvação! Compassivo +abraço! +Casimiro...» Murmurei tambem <span class="pagenum">[57]</span>com +deferencia:―«Amavel! Coitado!» Depois, revolvendo +lentamente o montão de telegrammas que se alastrava +até ao meu copo: <br /> + +<br /> + +―Oh Jacintho! Quem é esta Diana que incessantemente te +escreve, te telephona, te telegrapha, te...? <br /> + +<br /> + +―Diana?... Diana de Lorge. É uma cocotte. É uma +grande cocotte! <br /> + +<br /> + +―Tua? <br /> + +<br /> + +―Minha, minha... Não! tenho um bocado. <br /> + +<br /> + +E como eu lamentava que o meu Principe, senhor tão rico e de +tão fino orgulho, por economia d'uma gamella propria +chafurdasse com outros +n'uma gamella publica―Jacintho levantou os hombros, com um +camarão espetado no garfo: <br /> + +<br /> + +―Tu vens das serras... Uma cidade como Paris, Zé Fernandes, +precisa ter cortezãs de grande pompa e grande fausto. Ora +para +montar em +Paris, n'esta tremenda carestia de Paris, uma cocotte com os seus +vestidos, os +seus diamantes, os seus cavallos, os seus lacaios, os seus camarotes, +as suas festas, o seu palacete, a sua publicidade, a sua insolencia, +é necessario que se aggremiem umas poucas de fortunas, se +forme +um syndicato! Somos uns sete, no Club. Eu pago um bocado... Mas +meramente por Civismo, para dotar a cidade com uma cocotte monumental. <span class="pagenum">[58]</span>De resto não +chafurdo. Pobre Diana!... Dos hombros para baixo nem sei +se tem a pelle côr de neve ou côr de +limão. <br /> + +<br /> + +Arregalei um olho divertido: <br /> + +<br /> + +―Dos hombros para baixo?... E para cima? <br /> + +<br /> + +―Oh para cima tem pó d'arroz!... Mas é uma +sécca! Sempre bilhetes, sempre telephones, sempre +telegrammas. E tres mil francos por mez, +além das flores... Uma massada! <br /> + +<br /> + +E as duas rugas do meu Principe, aos lados do seu afilado nariz, +curvado sobre a salada, eram como dous valles muito tristes, ao +entardecer. <br /> + +<br /> + +Acabavamos o almoço, quando um escudeiro, muito +discretamente, n'um murmurio, annunciou Madame d'Oriol. Jacintho pousou +com tranquillidade +o charuto; eu quasi me engasguei, n'um sorvo alvoroçado de +café. Entre os reposteiros de damasco côr de +morango ella appareceu, toda de +negro, d'um negro liso e austero de Semana Santa, lançando +com o +regalo um lindo gesto para nos socegar. E immediatamente, n'uma +volubilidade docemente chalrada: <br /> + +<br /> + +―É um momento, nem se levantem! Passei, ia para a +Magdalena, não me contive, quiz vêr os estragos... +Uma +inundação em Paris, nos Campos-Elyseos! +Não ha senão este Jacintho. <span class="pagenum">[59]</span>E vem +no <em>Figaro!</em> +O que eu estava assustada, quando telephonei! Imaginem! Agua a ferver, +como no Vesuvio... Mas é d'uma novidade! E os estofos +perdidos, +naturalmente, os tapetes... Estou morrendo por admirar as ruinas! <br /> + +<br /> + +Jacintho, que não me pareceu commovido, nem agradecido com +aquelle interesse, retomára risonhamente o charuto: <br /> + +<br /> + +―Está tudo secco, minha querida senhora, tudo secco! A +belleza foi hontem, quando a agua fumegava e rugia! Ora que pena +não ter +ao menos cahido uma parede! <br /> + +<br /> + +Mas ella insistia. Nem todos os dias se gozavam em Paris os +destroços d'uma inundação. O +<em>Figaro</em> contára... E era +uma aventura deliciosa, uma casa escaldada nos Campos-Elyseos! <br /> + +<br /> + +Toda a sua pessoa, desde as plumasinhas que frisavam no +chapéo até á ponta reluzente das +botinas de verniz, se agitava, vibrava, como um +ramo tenro sob o boliço do passaro a chalrar. Só +o +sorriso, por traz do véo espesso, conservava um brilho +immovel. E já no ar se +espalhára um aroma, uma doçura, emanadas de toda +a sua mobilidade e de toda a +sua graça. <br /> + +<br /> + +Jacintho no emtanto cedera, alegremente: e pelo corredor Madame d'Oriol +ainda louvava <span class="pagenum">[60]</span>o <em>Figaro</em> +amavel, e +confessava quanto tremera... Eu voltei ao meu café, +felicitando mentalmente o Principe da +Gran-Ventura por aquella perfeita flôr de +Civilisação que lhe perfumava a vida. Pensei +então na apurada harmonia em que se movia essa +flôr. E corri vivamente á ante-camara, verificar +diante do espelho o meu +penteado e o nó da minha gravata. Depois recolhi +á sala de +jantar, e junto da janella, folheando languidamente a <em>Revista +do Seculo +XIX</em>, +tomei uma attitude de elegancia e d'alta cultura. Quasi immediatamente +elles reappareceram: e Madame d'Oriol, que, sempre sorrindo, se +proclamava espoliada, nada encontrára que recordasse as +agoas +furiosas, +roçou pela mesa, onde Jacintho procurava, para lhe +offerecer, +tangerinas de Malta, +ou castanhas geladas, ou um biscouto molhado em vinho de Tokai. <br /> + +<br /> + +Ella recusava com as mãos guardadas no regalo. +Não era alta, nem forte―mas cada prega do vestido, ou curva +da +capa, cahia e ondulava harmoniosamente, como +perfeições +recobrindo +perfeições. Sob o véo cerrado, apenas +percebi a +brancura da face empoada, e a +escuridão dos olhos largos. E com aquellas sêdas e +velludos negros, e um +pouco do cabello louro, d'um louro quente, torcido fortemente sobre as +pelles negras que lhe orlavam <span class="pagenum">[61]</span>o +pescoço, toda ella derramava uma +sensação de macio e de fino. Eu teimosamente a +considerava como uma flôr +de Civilisação:―e pensava no secular trabalho e +na +cultura superior que necessitára o terreno onde ella +tão delicadamente +brotára, já desabrochada, em pleno perfume, mais +graciosa por ser flôr +d'esforço e d'estufa, e trazendo nas suas pétalas +um não sei +quê de desbotado e de ante-murcho. <br /> + +<br /> + +No emtanto, com a sua volubilidade de passaro, chalrando para mim, +chalrando para Jacintho, ella mostrava o seu lindo espanto por aquelle +montão de telegrammas sobre a toalha. <br /> + +<br /> + +―Tudo esta manhã, por causa da +inundação?... Ah, Jacintho é hoje o +homem, o unico homem de Paris! Muitas mulheres n'esses telegrammas? <br /> + +<br /> + +Languidamente, com o charuto a fumegar, o meu Principe empurrou para a +sua amiga o telegramma do Gran-duque. Então Madame d'Oriol +teve um <em>ah!</em> muito grave e muito sentido. Releu +profundamente o papel de S. A. que +os seus dedos acariciavam com uma reverencia gulosa. E sempre grave, +sempre séria: <br /> + +<br /> + +―É brilhante! <br /> + +<br /> + +Oh, certamente! n'aquelle desastre tudo <span class="pagenum">[62]</span>se +passára com muito +brilho, n'um tom muito Parisiense. E a deliciosa creatura +não se +podia demorar, porque fizera marcar um logar na egreja da Magdalena +para o +sermão! <br /> + +<br /> + +Jacintho exclamou com innocencia: <br /> + +<br /> + +―Sermão?... É já a +estação dos sermões? <br /> + +<br /> + +Madame d'Oriol teve um movimento de carinhoso escandalo e +dôr. O quê! pois nem na austera casa dos +Trèves dera pela entrada da +quaresma? De resto não se admirava―Jacintho era um turco! +E, +immediatamente celebrou o prégador, um frade dominicano, o +Père Granon! +Oh d'uma eloquencia! d'uma violencia! No derradeiro sermão +prégara +sobre o amor, a fragilidade dos amores mundanos! E tivera coisas d'uma +inspiração, d'uma brutalidade! Depois que gesto, +um gesto terrivel que esmagava, em que +se lhe arregaçava toda a manga, mostrando o braço +nú, um braço soberbo, muito branco, muito forte! <br /> + +<br /> + +O seu sorriso permanecia claro sob o olhar que negrejára +dentro do véo negro. E Jacintho, rindo: <br /> + +<br /> + +―Um bom braço de director espiritual, hein? Para vergar, +espancar almas... <br /> + +<br /> + +Ella acudiu: <br /> + +<br /> + +―Não! infelizmente o Père Granon não +confessa! <br /> + +<br /> + +E de repente reconsiderou―aceitava um <span class="pagenum">[63]</span>biscouto, +um cálice +de Tokai. Era necessario um cordial para affrontar as +emoções +do Père Granon! Ambos nos precipitáramos, um +arrebatando a garrafa, outro +offerecendo o prato de bonbons. Franzio o véo para os olhos, +chupou á +pressa um bolo que ensopára no Tokai. E como Jacintho, +reparando casualmente no +chapéo que ella trazia, se curvára com +curiosidade, impressionado, +Madame d'Oriol apagou o sorriso, toda seria, ante uma cousa seria: <br /> + +<br /> + +―Elegante, não é verdade?... É uma +creação inteiramente nova de Madame Vial. Muito +respeitoso, e muito suggestivo, agora na Quaresma. <br /> + +<br /> + +O seu olhar, que me envolvera, tambem me convidava a admirar. +Approximei o meu focinho de homem das serras para contemplar essa +creação suprema do luxo de Quaresma. E era +maravilhoso! +Sobre o velludo, na sombra das plumas frizadas, aninhada entre rendas, +fixada por um prégo, +pousava delicadamente, feita de azeviche, uma Corôa de +Espinhos! <br /> + +<br /> + +Ambos nos extasiamos. E Madame d'Oriol, n'um movimento e n'um sorriso +que derramou mais aroma e mais claridade, abalou para a Magdalena. <br /> + +<br /> + +O meu Principe arrastou pelo tapete alguns <span class="pagenum">[64]</span>passos +pensativos e molles. +E bruscamente, levantando os hombros com uma +determinação immensa, como se deslocasse um +mundo: <br /> + +<br /> + +―Oh Zé Fernandes, vamos passar este Domingo n'alguma cousa +simples e natural... <br /> + +<br /> + +―Em quê? <br /> + +<br /> + +Jacintho circumgirou os olhares muito abertos, como se, atravez da Vida +Universal, procurasse anciosamente uma cousa natural e simples. Depois, +descançando sobre mim os mesmos largos olhos que voltavam de +muito longe, cançados e com pouca esperança: <br /> + +<br /> + +―Vamos ao Jardim das Plantas, vêr a girafa! <br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h2>IV</h2> + +<br /> + +<br /> + +N'essa fecunda semana, uma noite, recolhiamos ambos da Opera, quando +Jacintho, bocejando, me annunciou uma festa no 202. <br /> + +<br /> + +―Uma festa?... <br /> + +<br /> + +―Por causa do Gran-Duque, coitado, que me vai mandar um peixe +delicioso e muito raro que se pesca na Dalmacia. Eu queria um +almoço +curto. O Gran-Duque reclamou uma ceia. É um barbaro, +besuntado +com +litteratura do seculo XVIII, que ainda acredita em ceias, em Paris! +Reuno no domingo tres ou quatro mulheres, e uns dez homens bem typicos, +para o divertir. +Tambem aproveitas. Folheias Paris n'um resumo... Mas é uma +massada amarga! <br /> + +<br /> + +Sem interesse pela sua festa, Jacintho não se affadigou em a +compôr com relevo ou brilho. Encommendou apenas uma orchestra +de Tziganes (os Tziganes, as suas jalecas escarlates, <span class="pagenum">[66]</span>a +melancolia aspera das Czardas ainda n'esses tempos remotos emocionavam +Paris): e mandou, na Bibliotheca, ligar o Theatrophone com a Opera, com +a Comedia-Franceza, com o Alcazar e com os Buffos, prevendo todos os +gostos desde o tragico +até ao picaro. Depois no domingo, ao entardecer, ambos +visitamos a mesa da ceia, que resplandecia com as velhas baixellas de +D. +Galião. E a faustosa profusão de orchideas, em +longas +sylvas por sobre a +toalha bordada a sêda, enroladas aos fructeiros de Saxe, +trasbordando de crystaes lavrados e filagranados d'ouro, espalhava uma +tão +fina sensação de luxo e gosto, que eu +murmurei:―«Caramba, bemdito, seja o +dinheiro!» Pela primeira vez, tambem, admirei a copa e a sua +installação abundante e minuciosa―sobretudo os +dois +ascensores que rolavam das profundidades +da cozinha, um para os peixes e carnes aquecido por tubos d'agua +fervente, o outro para as saladas e gelados revestido de placas +frigorificas. Oh, este 202! <br /> + +<br /> + +Ás nove horas, porém, descendo eu ao gabinete de +Jacintho para escrever a minha boa tia Vicencia, em quanto elle +ficára no toucador +com o manícuro que lhe polia as unhas, passamos n'esse +delicioso +palacio, florido e em gala, por bem corriqueiro susto! <span class="pagenum">[67]</span>Todos os lumes +electricos, subitamente, em todo o 202, se apagaram! Na minha immensa +desconfiança d'aquellas forças universaes, pulei +logo para a porta, +tropeçando nas trevas, ganindo um <em>Aqui d'Elrei</em>! +que tresandava a Guiães. Jacintho em cima berrava, com o +manícuro agarrado ás pyjamas. +E de novo, como serva ralassa que recolhe arrastando as chinellas, a +luz resurgiu com lentidão. Mas o meu Principe, que descera, +enfiado, mandou +buscar um engenheiro á Companhia Central da Electricidade +Domestica. +Por precaução outro creado correu á +mercearia +comprar pacotes de velas. E +o Grillo desenterrava já dos armarios os candelabros +abandonados, os +pesados castiçaes archaicos dos tempos inscientificos de D. +Galião: era uma reserva de veteranos fortes, para o caso +pavoroso em que mais tarde, +á ceia, falhassem perfidamente as forças bisonhas +da +Civilisação. O Electricista, que acudira +esbaforido, +afiançou +porém que a Electricidade se conservaria fiel, sem outro +amuo. +Eu, cautelosamente, soneguei na algibeira dous côtos de +estearina. <br /> + +<br /> + +A Electricidade permaneceu fiel, sem amuos. E quando desci do meu +quarto, tarde (porque perdera o collete de baile e só depois +d'uma busca furiosa e praguejada o encontrei cahido por traz da cama!), +todo <span class="pagenum">[68]</span>o 202 +refulgia, e os Tziganes, na antecamara, sacudindo as guedelhas, +atiravam as arcadas d'uma valsa tão arrastadora que, pelas +paredes, +os immensos Personagens das tapeçarias, Priamo, Nestor, o +engenhoso +Ulysses, arfavam, boliam com os pés venerandos! <br /> + +<br /> + +Timidamente, sem rumor, puxando os punhos, penetrei no gabinete de +Jacintho. E fui logo acolhido pelo sorriso da condessa de Treves, que, +acompanhada pelo illustre historiador Danjon (da Academia Franceza), +percorria maravilhada os Apparelhos, os Instrumentos, toda a sumptuosa +Mechanica do meu super-civilisado Principe. Nunca ella me parecera mais +magestosa do que n'aquellas sêdas côr de +açafrão, com rendas cruzadas no peito +á +Maria-Antonietta, o cabello crespo e ruivo levantado +em rolo sobre a testa dominadora, e o curvo nariz patricio, abrigando o +sorriso +sempre luzidio, sempre corrente, como um arco abriga o correr e o luzir +d'um regato. Direita como n'um solio, a longa luneta de tartaruga +acercada dos olhos miudos e turvamente azulados, ella escutava deante +do Graphophono, depois deante do Microphono, como melodias superiores, +os commentarios que o meu Jacintho ia atabalhoando com uma amabilidade +penosa. E ante cada roda, cada mola, eram pasmos, louvores finamente +torneados, <span class="pagenum">[69]</span>em +que attribuia a Jacintho, com astuta candura, todas aquellas +invenções do Saber! Os utensilios +misteriosos que atulhavam a mesa d'ebano foram para ella uma +iniciação que a +enlevou. Oh, o «numerador de paginas»! oh, o +«collador +d'estampilhas»! A caricia demorada dos seus dedos seccos +aquecia +os metaes. E supplicava os endereços dos fabricantes para se +prover de todas aquellas +utilidades adoraveis! Como a vida, assim apetrechada, se tornava +escorregadia e facil! Mas era necessario o talento, o gosto de +Jacintho, para +escolher, para «crear!» E não +só ao meu +amigo (que o recebia com resignação) ella +offertava o +fino mel. Affagando com o cabo da luneta o Telegrapho, +achou a possibilidade de recordar a eloquencia do Historiador. Mesmo +para mim +(de quem ignorava o nome) arranjou junto do Phonographo, e +ácerca de «vozes d'amigos que é doce +colleccionar», uma lisonjasinha redondinha e lustrosa, que eu +chupei como um rebuçado celeste. Boa +casaleira que vae atirando o grão aos frangos famintos, a +cada +passo, +maternalmente, ella nutria uma vaidade. Sofrego d'outro +rebuçado, acompanhei a +sua cauda sussurrante e côr d'açafrão. +Ella +parára deante da Machina-de-contar, de que Jacintho +já +lhe fornecera pacientemente uma +explicação sapiente. <span class="pagenum">[70]</span>E +de novo roçou os buracos d'onde espreitam os numeros negros, +e com o seu enlevado sorriso murmurou:―«Prodigiosa, esta +prensa +electrica!...» <br /> + +<br /> + +Jacintho accudiu: <br /> + +<br /> + +―Não! Não! Esta é... <br /> + +<br /> + +Mas ella sorria, seguia... Madame de Treves não +comprehendera nenhum apparelho do meu Principe! Madame de Treves +não attendera a +nenhuma dissertação do meu Principe! N'aquelle +gabinete +de sumptuosa Mechanica ella sómente se occupára +em exercer, com proveito +e com perfeição, a Arte de Agradar. Toda ella era +uma sublime falsidade. Não +escondi a Danjon a admiração que me penetrava. <br /> + +<br /> + +O facundo Academico revirou os olhos bogalhudos: <br /> + +<br /> + +―Oh! e um gôsto, uma intelligencia, uma +seducção!... E depois como se janta bem em casa +d'ella! Que café!... Mulher superior, meu +caro senhor, verdadeiramente superior! <br /> + +<br /> + +Deslisei para a bibliotheca. Logo á entrada da erudita nave, +junto da estante dos Padres da Egreja onde alguns cavalheiros +conversavam, parei +a saudar o director do <em>Boulevard</em> e +o Psychologo-feminista, o auctor do <em>Coração +Triple</em>, com quem na véspera me +familiarisára ao almoço, no 202. O seu +acolhimento foi paternal: e, como se necessitasse a minha <span class="pagenum">[71]</span>presença, +reteve na sua mão illustre, rutilante +de anneis, com força e com gula, a minha grossa palma +serrana. +Todos aquelles senhores, com effeito, celebravam o seu Romance, a +<em>Couraça</em>, +lançado n'essa semana entre gritinhos de gôzo e um +quente +rumor de saias +alvoroçadas. Um sobretudo, com uma vasta cabeça +arranjada +á Van +Dick e que parecia postiça, proclamava, alçado na +ponta +das botas, +que nunca penetrára tão fundamente, na velha alma +humana, +a ponta da Psychologia Experimental! Todos concordavam, se apertavam +contra o Psychologo, o tratavam por «mestre». Eu +mesmo, que +nem sequer entrevira a capa +amarella da <em>Couraça</em>, mas para quem +elle voltava os olhos pedinchões e famintos de mais mel, +murmurei com um leve assobio:―«uma +delicia!» <br /> + +<br /> + +E o Psychologo, reluzindo, com o labio humido, entalado n'um alto +collarinho onde se enroscava uma gravata á 1830, confessava +modestamente que dissecára todas aquellas almas da +<em>Couraça</em> com +«algum cuidado», sobre documentos, sobre +pedaços de vida ainda quentes, ainda +a sangrar... E foi então que Marizac, o duque de Marizac, +notou, com um sorriso mais afiado que um lampejo de navalha, e sem +tirar as +mãos dos bolsos: <br /> + +<br /> + +―No emtanto, meu caro, n'esse livro tão <span class="pagenum">[72]</span>profundamente +estudado ha um erro bem estranho, bem curioso!... <br /> + +<br /> + +O Psychologo, vivamente, atirára a cabeça para +traz: <br /> + +<br /> + +―Um erro? <br /> + +<br /> + +Oh, sim, um erro! E bem inesperado n'um mestre tão +experiente!... Era attribuir á esplendida amorosa da +<em>Couraça</em>, uma duqueza, e +do gosto mais puro,―<em>um collete de setim +preto</em>! +Esse collete, assim preto, de setim, apparecia na bella pagina de +analyse e paixão em que +ella se despia no quarto de Ruy d'Alize. E Marizac, sempre com as +mãos nos bolsos, mais grave, appellava para aquelles +senhores. +Pois era verosimil, n'uma mulher como a duqueza, esthetica, +pre-raphaelitica, +que se vestia no Doucet, no Paquin, nos costureiros intellectuaes, um +collete de setim preto? <br /> + +<br /> + +O Psychologo emmudecera, colhido, trespassado! Marizac era uma +tão suprema auctoridade sobre a roupa intima das duquezas, +que +á +tarde, em quartos de rapazes, por impulsos idealistas e anceios d'alma +dolorida―se põem em collete e saia branca!... De resto o +director do <em>Boulevard</em> condemnára +logo sem piedade, com uma experiencia firme, aquelle collete, +só possivel n'alguma mercieira atrazada que +ainda procurasse effeitos <span class="pagenum">[73]</span>de +carne nedia sobre setim negro. E eu, para que me +não julgassem alheio ás coisas dos adulterios +ducaes e do luxo, acudi, mettendo os dedos pelo cabello: <br /> + +<br /> + +―Realmente, preto, só se estivesse de lucto pesado, pelo +pae! <br /> + +<br /> + +O pobre mestre da +<em>Couraça</em> succumbira. Era +a sua gloria de Doutor em Elegancias-Femininas desmantelada―e Paris +suppondo que elle nunca vira +uma duqueza desatacar o collete na sua alcova de Psychologo! +Então, passando o lenço sobre os labios que a +angustia ressequira, +confessou o erro, e contrictamente o attribuiu a uma +improvisação tumultuosa: <br /> + +<br /> + +―Foi um tom falso, um tom perfeitamente falso que me escapou!... Com +effeito! é absurdo, um collete preto!... Mesmo por harmonia +com o estado da alma da duqueza devia ser lilaz, talvez côr +de +reseda +muito desmaiada, com um frouxo de rendas antigas de Malines... +É +prodigioso como me escapou! Pois tenho o meu caderno de entrevistas bem +annotadas, +bem documentadas!... <br /> + +<br /> + +Na sua amargura, terminou por supplicar a Marizac que espalhasse por +toda a parte, no Club, nas salas, a sua confissão. +Fôra um engano de artista, que trabalha na febre, vasculhando +as almas, perdido nas profundidades <span class="pagenum">[74]</span>negras +das almas! Não reparára no +collete, confundira os tons... E gritou, com os braços +estendidos para o director +do <em>Boulevard</em>: <br /> + +<br /> + +―Estou prompto a fazer uma rectificação, n'uma +<em>interview</em>, meu caro mestre! Mande um dos seus +redactores... Ámanhã, +ás dez horas! Fazemos uma <em>interview</em>, +fixamos a +côr. Evidentemente é lilaz... Mande um dos seus +homens, meu caro mestre! É tambem uma +occasião para eu confessar, bem alto, os serviços +que o +<em>Boulevard</em> tem feito ás +sciencias psychologicas e feministas! <br /> + +<br /> + +Assim elle supplicava, encostado á estante, ás +lombadas dos Santos Padres. E eu abalei, vendo ao fundo da Bibliotheca +Jacintho que se debatia e se recusava entre dous homens. <br /> + +<br /> + +Eram os dois homens de Madame de Treves―o marido, conde de Treves, +descendente dos reis de Candia, e o amante, o terrivel banqueiro judeu, +David Ephraim. E tão enfronhadamente assaltavam o meu +Principe que nem me reconheceram, ambos n'um aperto de mão +molle +e vago me +trataram por «caro conde»! N'um relance, rebuscando +charutos +sobre a mesa de limoeiro, comprehendi que se tramava a <em>Companhia +das +Esmeraldas da +Birmania</em>, medonha empreza em que scintillavam +milhões, e para que os dous confederados <span class="pagenum">[75]</span>de +bolsa e d'alcôva, desde o +começo do anno, pediam o nome, a influencia, o dinheiro de +Jacintho. Elle resistira, n'um enfado +dos negocios, desconfiado d'aquellas esmeraldas soterradas n'um valle +da Asia. E agora o conde de Treves, um homem esgrouviado, de face +rechupada, erriçada de barba rala, sob uma fronte rotunda e +amarella como um melão, assegurava ao meu pobre Principe que +no +Prospecto já preparado, demonstrando a grandeza do negocio, +perpassava um +fulgôr das <em>Mil e Uma noites</em>. Mas +sobretudo +aquella excavação de esmeraldas convidava todo o +espirito culto pela sua acção +civilisadora. Era uma corrente de idéas occidentaes, +invadindo, educando a +Birmania. Elle acceitára a direcção +por +patriotismo... <br /> + +<br /> + +―De resto é um negocio de joias, de arte, de progresso, que +deve ser feito, n'um mundo superior, entre amigos... <br /> + +<br /> + +E do outro lado o terrivel Ephraim, passando a mão curta e +gorda sobre a sua bella barba, mais frisada e negra que a d'um Rei +Assyrio, +affiançava o triumpho da empreza pelas grossas +forças que n'ella +entravam, os Nagayers, os Bolsans, os Saccart... <br /> + +<br /> + +Jacintho franzia o nariz, enervado: <br /> + +<br /> + +―Mas, ao menos, estão feitos os estudos? Já se +provou que ha esmeraldas? <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[76]</span>Tanta ingenuidade +exasperou Ephraim: <br /> + +<br /> + +―Esmeraldas! Está claro que ha esmeraldas!... Ha sempre +esmeraldas desde que haja accionistas! <br /> + +<br /> + +E eu admirava a grandeza d'aquella maxima―quando appareceu, +esbaforido, desdobrando o lenço muito perfumado, um dos +familiares do +202, Todelle (Antonio de Todelle), moço já calvo, +d'infinitas +prendas, que conduzia Cotillons, imitava cantores de Café +Concerto, temperava +saladas raras, conhecia todos os enredos de Paris. <br /> + +<br /> + +―Já veio?... Já cá está o +Gran-Duque? <br /> + +<br /> + +Não, S. Alteza ainda não chegára. E +Madame de Todelle? <br /> + +<br /> + +―Não poude... No sophá... Esfolou uma perna. <br /> + +<br /> + +―Oh! <br /> + +<br /> + +―Quasi nada... Cahiu do velocipede! <br /> + +<br /> + +Jacintho, logo interessado: <br /> + +<br /> + +―Ah! Madame de Todelle anda já de velocipede? <br /> + +<br /> + +―Aprende. Nem tem velocipede!... Agora, na quaresma, é que +se applicou mais, no velocipede do padre Ernesto, do cura de S. +José! +Mas hontem, no Bosque, zás, terra!... Perna esfolada. Aqui. <br /> + +<br /> + +E na sua propria côxa, com a unha, vivamente, desenhou o +esfolão. Ephraim, brutal e <span class="pagenum">[77]</span>serio, +murmurou:―«Diabo! é no +melhor sitio!» Mas Todelle nem o escutára, +correndo para o director do +<em>Boulevard</em>, que se avançava, lento e +barrigudo, com o seu monoculo negro +semelhante a um pacho. Ambos se collaram contra uma estante, n'um +cochichar profundo. <br /> + +<br /> + +Jacintho e eu entramos então no bilhar, forrado de velhos +couros de Cordova, onde se fumava. Ao canto d'um divan, o grande +Dornan, o poeta neo-platonico e mystico, o Mestre subtil de todos os +rithmos, espapado nas almofadas, com um dos pés sob a +côxa +gorda, +como um Deus indio, dois botões do collete desabotoados, a +papeira cahida sobre o +largo decote do collarinho, mamava magestosamente um immenso charuto. +Ao pé +d'elle, também sentado, um velho que eu nunca +encontrára +no 202, esbelto, de cabellos brancos em anneis passados por traz das +orelhas, a face +coberta de pó de arroz, um bigodinho muito negro e +arrebitado, +findára certamente alguma historia de bom e grosso +sal―porque +deante do divan, +de pé, Joban, o suprèmo Critico de Theatro, ria +com a calva escarlate de gôso, e um moço muito +ruivo +(descendente de +Colygny), de perfil de periquito, sacudia os braços curtos +como +azas, e gania: +«delicioso! divino!» Só o poeta +idealista +permanecera +impassivel, na sua magestade obesa. <span class="pagenum">[78]</span>Mas, +quando nos acercamos, esse Mestre do rythmo perfeito, +depois de soprar uma farta fumarada e me saudar com um pesado mover das +palpebras, começou n'uma voz de rico e sonoro metal: <br /> + +<br /> + +―Ha melhor, ha infinitamente melhor... Todos aqui conhecem Madame +Noredal. Madame Noredal tem umas immensas nadegas... <br /> + +<br /> + +Desgraçadamente para o meu regalo Todelle invadiu o bilhar, +reclamando Jacintho com alarido. Eram as senhoras que desejavam ouvir +no Phonographo uma aria da Patti! O meu amigo sacudiu logo os hombros, +n'uma surda irritação: <br /> + +<br /> + +―Aria da Patti... Eu sei lá! Todos esses rolos +estão em confusão. Além d'isso o +Phonographo trabalha mal. Nem trabalha! Tenho tres. Nenhum trabalha! <br /> + +<br /> + +―Bem! exclamou alegremente Todelle. Canto eu a +<em>Pauvre fille</em>... É mais de ceia! <em>Oh, +la pauv', pauv', +pauv'</em>... <br /> + +<br /> + +Travou do meu braço, e arrastou a minha timidez serrana para +o salão côr de rosa murcha, onde, como Deusas n'um +circulo +escolhido do Olympo, resplandeciam Madame d'Oriol, Madame Verghane, a +princeza de Carman, o uma outra loura, com grandes brilhantes nas +grandes farripas, e d'hombros tão nús, e +braços +tão nús, e peitos tão nús, +que o seu vestido <span class="pagenum">[79]</span>branco +com +bordados d'ouro pallido parecia uma camisa, a escorregar. +Impressionado, ainda retive Todelle, rugi baixinho:―«Quem +é?» Mas já o festivo homem correra para +Madame +d'Oriol, com quem riam, n'uma familiaridade superior e facil, Marizac +(o duque de Marizac) e um +moço de barba côr de milho e mais leve que uma +penugem, +que se +balouçava gracilmente sobre os pés, como uma +espiga ao +vento. E eu, +encalhado contra o piano, esfregava lentamente as mãos, +amassando o +meu embaraço, quando Madame Verghane se ergueu do +sophá +onde conversava +com um velho (que tinha a Gran-Cruz de Santo André), e +avançou, deslizou no tapete, pequena e nedia, na sua copiosa +cauda de velludo verde-negro. +Tão fina era a cinta, entre os encontros fecundos e a +vastidão do +peito, todo nú e côr de nacar, que eu receava que +ella +partisse pelo meio, +no seu lento ondular. Os seus famosos bandós negros, d'um +negro +furioso, +inteiramente lhe tapavam as orelhas; e, no grande aro d'ouro que os +circumdava, reluzia uma estrella de brilhantes, como na fronte dos +anjos de Boticelli. Conhecendo sem dúvida a minha +auctoridade no +202, +ella despediu sobre mim ao passar, como raio benefico, um sorriso que +lhe liquescia mais os olhos liquidos, e murmurou: <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[80]</span> +―O Gran-Duque vem, com certeza? <br /> + +<br /> + +―Oh com certeza, minha senhora, para o peixe! <br /> + +<br /> + +―P'ra o peixe?... <br /> + +<br /> + +Mas justamente, na antecamara, rompeu, em rufos e arcadas triumphaes, a +marcha de Rakoczy. Era elle! Na Bibliotheca, o nosso retumbante mordomo +annunciava: <br /> + +<br /> + +―S. Alteza o Gran-Duque Casimiro! <br /> + +<br /> + +Madame de Verghane, com um curto suspiro +d'emoção, alteou o peito, como para lhe +expôr melhor a magnificencia eburnea. E o homem do +<em>Boulevard</em>, o velho da Gran-Cruz, Ephraim, quasi me +empurraram, investindo para a porta, na immensa sofreguidão +de Pessoa Real. <br /> + +<br /> + +Precedido por Jacintho, o Gran-Duque surgiu. Era um possante homem, de +barba em bico, já grisalha, um pouco calvo. Durante um +momento hesitou, com um balanço lento sobre os +pés +pequeninos, +calçados de sapatos rasos, quasi sumidos sob as pantalonas +muito +largas. Depois, pesado e risonho, +veio apertar a mão ás senhoras que mergulhavam +nos velludos e sêdas, em mesuras de Côrte. E +immediatamente, batendo com carinhosa +jovialidade no hombro de Jacintho: <br /> + +<br /> + +―E o peixe?... Preparado pela receita que mandei, hein? <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[81]</span> +Um murmurio de Jacintho tranquillisou S. Alteza. <br /> + +<br /> + +―Ainda bem, ainda bem! exclamou elle, no seu vozeirão de +commando. Que eu não jantei, absolutamente não +jantei! +É que se está jantando deploravelmente em casa do +Joseph. +Mas porque se vai jantar ainda ao Joseph? Sempre que chego a Paris, +pergunto: «Onde +é que se janta agora?» Em casa do Joseph!... Qual! +não se janta! Hoje, por exemplo, +gallinholas... Uma peste! Não tem, não tem a +noção da gallinhola! <br /> + +<br /> + +Os seus olhos azulados, d'um azul sujo, rebrilhavam, alargados pela +indignação: <br /> + +<br /> + +―Paris está perdendo todas as suas superioridades. +Já se não janta, em Paris! <br /> + +<br /> + +Então, em redor, aquelles senhores concordaram, desolados. O +conde de Treves defendeu o Bignon, onde se conservavam nobres +tradições. E o director do <em>Boulevard</em>, +que se +empurrava todo para S. Alteza, attribuia a decadencia da cozinha, em +França, á Republica, +ao gosto democratico e torpe pelo barato. <br /> + +<br /> + +―No Paillard, todavia...―começou o Ephraim. <br /> + +<br /> + +―No Paillard! gritou logo o Gran-Duque. Mas os Borgonhas +são tão maus! os Borgonhas são +tão maus!... <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[82]</span>Deixára +pender os +braços, os hombros, +descorçoado. Depois, com o seu lento andar +balançado como +o d'um velho piloto, atirando um +pouco para traz as lapellas da casaca, foi saudar Madame d'Oriol, que +toda ella faiscou, no sorriso, nos olhos, nas joias, em cada +préga das +suas sêdas côr de salmão. Mas apenas a +clara e macia +creatura, batendo o leque como uma aza alegre, +começára a +chalrar, S. Alteza +reparou no apparelho do Theatrophone, pousado sobre uma mesa entre +flôres, e chamou +Jacintho: <br /> + +<br /> + +―Em communicação com o Alcazar?... O +Theatrophone? <br /> + +<br /> + +―Certamente, meu senhor. <br /> + +<br /> + +Excellente! Muito chic! Elle ficára com pena de +não ouvir a Gilberte n'uma cançoneta nova, as +<em>Casquettes</em>. Onze e meia! Era +justamente a essa hora que ella cantava, no ultimo acto da <em>Revista +Electrica</em>...―Collou ás orelhas os dous +«receptores» do Theatrophone, e quedou embebido, +com uma ruga séria na testa dura. De +repente, n'um commando forte: <br /> + +<br /> + +―É ella! Chut! Venham ouvir!... É ella! Venham +todos! Princeza de Carman, para aqui! Todos! É ella! Chut... +<br /> + +<br /> + +Então, como Jacintho installára prodigamente dois +Theatrophones, cada um provido de doze fios, as senhoras, todos +aquelles cavalheiros, <span class="pagenum">[83]</span>se +apressaram a acercar submissamente um receptor do ouvido, e a +permanecer immoveis para saborear <em>Les +Casquettes</em>. E no salão côr de +rosa murcha, na nave da Bibliotheca, onde se espalhára um +silencio +augusto, só eu fiquei desligado do Theatrophone, com as +mãos nas algibeiras +e ocioso. <br /> + +<br /> + +No relogio monumental, que marcava a hora de todas as Capitaes e o +movimento de todos os Planetas, o ponteiro rendilhado adormeceu. Sobre +a mudez e a immobilidade pensativa d'aquelles dorsos, d'aquelles +decotes, +a Electricidade refulgia com uma tristeza de sol regelado. E de cada +orelha attenta, que a mão tapava, pendia um fio negro, como +uma tripa. Dornan, esbroado sobre a mesa, cerrára as +palpebras, +n'uma +meditação de monge obeso. O historiador dos +Duques +d'Anjou, com o +«receptor» na ponta delicada dos dedos, erguendo o +nariz +agudo e triste, gravemente cumpria +um dever palaciano. Madame d'Oriol sorria, toda languida, como se o fio +lhe murmurasse doçuras. Para desentorpecer arrisquei um +passo timido. Mas cahiu logo sobre mim um <em>chut</em> +severo do Gran-Duque! Recuei para entre as cortinas da janella, a +abrigar a minha ociosidade. O Philologo +da <em>Couraça</em>, distante da +mesa, com o seu comprido fio esticado, mordia o beiço, n'um +esforço de +penetração. <span class="pagenum">[84]</span>A +beatitude de S. Alteza, enterrado n'uma vasta poltrona, era perfeita. +Ao lado o collo de Madame Verghane arfava como uma onda de leite. E o +meu pobre Jacintho, n'uma +applicação conscienciosa, pendia sobre o +Theatrophone +tão tristemente +como sobre uma sepultura. <br /> + +<br /> + +Então, ante aquelles seres de superior +civilisação, sorvendo n'um silencio devoto as +obscenidades que a Gilberte lhes gania, por debaixo do solo de Paris, +atravez de fios mergulhados nos esgotos, cingidos aos +canos das fezes,―pensei na minha aldeia adormecida. O crescente de +lua, que, seguido d'uma estrellinha, corria entre nuvens sobre os +telhados e +as chaminés negras dos Campos-Elyseos, tambem andava +lá fugindo, mais lustrosa e mais dôce, por cima +dos +pinheiraes. As +rãs coaxavam ao longe no Pego da Dona. A ermidinha de S. +Joaquim +branquejava no +cabeço, nuasinha e candida... <br /> + +<br /> + +Uma das senhoras murmurou: <br /> + +<br /> + +―Mas, não é a Gilberte!... <br /> + +<br /> + +E um dos homens: <br /> + +<br /> + +―Parece um cornetim... <br /> + +<br /> + +―Agora são palmas... <br /> + +<br /> + +―Não, é o Paulin! <br /> + +<br /> + +O Gran-Duque lançou um +<em>chut</em> feroz... No pateo da nossa +casa ladravam os cães. D'além <span class="pagenum">[85]</span>do +ribeiro respondiam os +cães do João Saranda. Como me encontrei descendo +por uma +quelha, sob as ramadas, com o meu varapau ao +hombro? E sentia, entre a sêda das cortinas, n'um fino ar +macio, o cheiro das pinhas estalando nas lareiras, o calor dos curraes +atravez das sebes altas, e o susurro dormente das levadas... <br /> + +<br /> + +Despertei a um brado que não sahia nem dos eidos, nem das +sombras. Era o Gran-Duque que se erguera, encolhia furiosamente os +hombros: <br /> + +<br /> + +―Não se ouve nada!... Só guinchos! E um zumbido! +Que massada!... Pois é uma belleza, a cançoneta: <br /> + +<br /> + +<div class="break">Oh les casquettes,<br /> + +Oh les casque-e-e-tes!...</div> + +<br /> + +Todos largaram os fios―proclamavam a Gilberte deliciosa. E o mordomo +bemdito, abrindo largamente os dous batentes, annunciou: <br /> + +<br /> + +―<em>Monseigneur est servi!</em> <br /> + +<br /> + +Na mesa, que pelo esplendor das orchideas mereceu os louvores ruidosos +de S. Alteza, fiquei entre o ethereo poeta Dornan e aquelle +moço de pennugem loura que balouçava como uma +espiga ao +vento. +Depois de <span class="pagenum">[86]</span>desdobrar +o guardanapo, de +o accomodar regaladamente sobre os joelhos, Dornan desenvencilhou da +corrente do relogio uma enorme luneta para percorrer o <em>menu</em>―que +approvou. E +inclinando para mim a sua face de Apostolo obeso: <br /> + +<br /> + +―Este Porto de 1834, aqui era casa do Jacintho, deve ser authentico... +Hein? <br /> + +<br /> + +Assegurei ao Mestre dos Rythmos que o «Porto» +envelhecêra nas adegas classicas do avô +Galião. Elle +afastou, n'uma +preparação methodica, os longos, densos fios do +bigode +que lhe cobriam a bocca grossa. Os escudeiros serviram um +consommé frio com trufas. E o +moço côr de milho, que espalhára pela +mesa o seu +olhar azul e dôce, +murmurou, com uma desconsolação risonha: <br /> + +<br /> + +―Que pena!... Só falta aqui um general e um bispo! <br /> + +<br /> + +Com effeito! Todas as Classes Dominantes comiam n'esse momento as +trufas do meu Jacintho... Mas defronte Madame d'Oriol +lançára um riso mais cantado que um gorgeio. O +Gran-Duque, n'uma silva de orchideas que orlava o seu talher, +notára uma, sombriamente horrenda, +semelhante a um lacrau esverdinhado, de azas lustrosas, gordo e tumido +de veneno: e muito delicadamente offertára a flôr +monstruosa a +Madame d'Oriol, que, com trinado <span class="pagenum">[87]</span>riso, +solemnemente, a collocou no seio. Collado +áquella carne macia, d'uma brancura de nata fina, o lacrau +inchára, +mais verde, com as azas frementes. Todos os olhos se accendiam, se +cravavam no +lindo peito, a que a flôr disforme, de côr +venenosa, +apimentava o sabor. Ella reluzia, triumphava. Para ageitar melhor a +orchidea os seus dedos alargaram o decote, aclararam bellezas, guiando +aquellas curiosidades flammejantes que a despiam. A face vincada de +Jacintho pendia para o prato vasio. E o alto lyrico do <em>Crepusculo +Mystico</em>, passando a mão pelas barbas, rosnou com +desdem: <br /> + +<br /> + +―Bella mulher... Mas ancas seccas, e aposto que não tem +nadegas! <br /> + +<br /> + +No emtanto o moço de loura pennugem voltára +á sua estranha mágoa. Não possuirmos +um general com a sua espada, e um bispo com seu baculo!... <br /> + +<br /> + +―Para que, meu caro senhor? <br /> + +<br /> + +Elle atirou um gesto suave em que todos os seus anneis faiscaram: <br /> + +<br /> + +―Para uma bomba de dynamite... Temos aqui um explendido ramalhete de +flôres de Civilisacão, com um Gran-Duque no meio. +Imagine uma bomba de dynamite, atirada da porta!... Que bello fim de +ceia, n'um fim de seculo! <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[88]</span>E como eu o +considerava assombrado, elle, bebendo golos de Chateau-Yquem, declarou +que hoje a unica emoção, +verdadeiramente fina, seria aniquillar a +Civilisação. Nem a sciencia, +nem as artes, nem o dinheiro, nem o amor, podiam já dar um +gosto intenso e real +ás nossas almas saciadas. Todo o prazer que se +extrahíra de +<em>crear</em> estava esgotado. Só restava, +agora, o divino prazer de +<em>destruir</em>! <br /> + +<br /> + +Desenrolou ainda outras enormidades, com um riso claro nos olhos +claros. Mas eu não attendia o gentil pedante, colhido por +outro +cuidado―reparando que em torno, subitamente, todo o serviço +estacára como no conto do Palacio Petrificado. E o prato +agora +devido era o +peixe famoso da Dalmacia, o peixe de S. Alteza, o peixe inspirador da +festa! Jacintho, nervoso, esmagava entre os dedos uma flôr. E +todos +os escudeiros sumidos! <br /> + +<br /> + +Felizmente o Gran-Duque contava a historia d'uma caçada, nas +coutadas de Sarvan, em que uma senhora, mulher de um banqueiro, +saltára +bruscamente do cavallo, n'um descampado, sem arvores. Elle e todos os +caçadores param―e a galante senhora, livida, com a amazona +arregaçada, corre para traz d'uma pedra... Mas nunca +soubemos em +que se occupava a banqueira, n'esse descampado, agachada atraz da +pedra―porque justamente <span class="pagenum">[89]</span>o +mordomo +appareceu, relusente de suor, e balbuciou uma confidencia a Jacintho, +que mordeu o beiço, trespassado. O Gran-Duque emmudecera. +Todos se entre-olhavam, n'uma anciedade alegre. Então o meu +Principe, +com paciencia, com heroicidade, forçando pallidamente o +sorriso: +<br /> + +<br /> + +―Meus amigos, ha uma desgraça... <br /> + +<br /> + +Dornan pulou na cadeira: <br /> + +<br /> + +―Fogo? <br /> + +<br /> + +Não, não era fogo. Fôra o elevador dos +pratos, que inesperadamente, ao subir o peixe de S. Alteza, se +desarranjára, e +não se movia, encalhado! <br /> + +<br /> + +O Gran-Duque arremessou o guardanapo. Toda a sua polidez estalava como +um esmalte mal posto: <br /> + +<br /> + +―Essa é forte!... Pois um peixe que me deu tanto trabalho! +Para que estamos nós aqui então a cear? Que +estupidez! E +porque o não trouxeram á mão, +simplesmente? Encalhado... Quero vêr! Onde +é a copa? <br /> + +<br /> + +E, furiosamente, investiu para a copa, conduzido pelo mordomo que +tropeçava, vergava os hombros, ante esta esmagadora colera +de Principe. Jacintho seguiu, como uma sombra, levado na rajada de S. +Alteza. E eu não me contive, tambem me atirei para a copa, a +contemplar <span class="pagenum">[90]</span>o +desastre, emquanto Dornan, batendo na côxa, clamava que se +ceasse sem +peixe! <br /> + +<br /> + +O Gran-Duque lá estava, debruçado sobre o +poço escuro do elevador, onde mergulhára uma vela +que lhe +avermelhava mais a face +esbraseada. Espreitei, por sobre o seu hombro real. Em baixo, na treva, +sobre uma larga prancha, o peixe precioso alvejava, deitado na +travessa, ainda fumegando, entre rodellas de limão. +Jacintho, +branco como a +gravata, torturava desesperadamente a mola complicada do ascensor. +Depois foi o Gran-Duque que, com os pulsos cabelludos, atirou um +empuxão +tremendo aos cabos em que elle rolava. Debalde! O apparelho +enrijára +n'uma inercia de bronze eterno. <br /> + +<br /> + +Sêdas roçagaram á entrada da copa. Era +Madame d'Oriol, e atraz Madame Verghane, com os olhos a faiscar, na +curiosidade d'aquelle lance em que +o Principe soltára tanta paixão. Marizac, nosso +intimo, surgiu tambem, risonho, propondo uma descida ao poço +com +escadas. Depois +foi o Psychologo, que se abeirou, psychologou, attribuindo +intenções sagazes ao peixe que assim se recusava. +E a +cada um o Gran-Duque, escarlate, mostrava com dedo tragico, no fundo da +cova, o seu peixe! Todos afundavam a face, murmuravam: +«lá +está!» Todelle, na sua +precipitação, quasi se <span class="pagenum">[91]</span>despenhou. +O periquito descendente de Colygny batia as azas, +ganindo:―«Que cheiro elle deita, que delicia!» Na +copa atulhada os decotes das senhoras roçavam a farda dos +lacaios. O velho +caiado de pó d'arroz metteu o pé n'um balde de +gelo, com um berro ferino. +E o Historiador dos Duques d'Anjou movia por cima de todos o seu nariz +bicudo e triste. <br /> + +<br /> + +De repente, Todelle teve uma idéa! <br /> + +<br /> + +―É muito simples... É pescar o peixe! <br /> + +<br /> + +O Gran-Duque bateu na côxa uma palmada triumphal. +Está claro! Pescar o peixe! E no gozo d'aquella facecia, +tão rara e +tão nova, toda a sua colera se sumíra, de novo se +tornára o Principe +amavel, de magnifica polidez, desejando que as senhoras se sentassem +para assistir +á pesca miraculosa! Elle mesmo seria o pescador! Nem se +necessitava, para a divertida façanha, mais que uma bengala, +uma +guita e um +gancho. Immediatamente Madame d'Oriol, excitada, offereceu um dos seus +ganchos. +Apinhados em volta d'ella, sentindo o seu perfume, o calor da sua +pelle, todos exaltamos a amoravel dedicação. E o +Psychologo proclamou que nunca se pescára com tão +divino +anzol! <br /> + +<br /> + +Quando dois escudeiros estonteados voltaram, trazendo uma bengala e um +cordel, já o Gran-Duque, radiante, vergára o +gancho em <span class="pagenum">[92]</span>anzol. +Jacintho, com uma paciencia livida, erguia uma lampada sobre a +escuridão do poço fundo. E os senhores mais +graves, o Historiador, o director do <em>Boulevard</em>, +o Conde de Treves, o +homem de cabeça á Van-Dick, sorriam, amontoados +á +porta, n'um interesse reverente pela phantasia +de S. Alteza. Madame de Treves, essa, examinava serenamente, com a sua +nobre luneta, a installação da copa. +Só +Dornan não se erguera da mesa, com os punhos cerrados sobre +a +toalha, o gordo pescoço encovado, no +tedio sombrio de fera a quem arrancaram a posta. <br /> + +<br /> + +No emtanto S. Alteza pescava com fervor! Mas debalde! O gancho, pouco +agudo, sem presa, bamboleando na extremidade da guita frouxa, +não fisgava. <br /> + +<br /> + +―Oh Jacintho, erga essa luz! gritava elle, inchado e suado. Mais!... +Agora! Agora! É na guelra! Só na guelra +é que o gancho o póde prender. Agora... Qual! Que +diabo! Não vae! <br /> + +<br /> + +Tirou a face do poço, resfolgando e affrontado. +Não era possivel! Só carpinteiros, com +alavancas!... E todos, anciosamente, bradamos que se abandonasse o +peixe! <br /> + +<br /> + +O Principe, risonho, sacudindo as mãos, concordava que por +fim «fôra mais divertido pescal-o do que +comêl-o!» E o +elegante bando <span class="pagenum">[93]</span>refluiu +sofregamente para a mesa, ao som d'uma valsa de Strauss, que os +Tziganes arremeçaram em arcadas de languido ardôr. +Só Madame de Treves se demorou ainda, retendo o meu pobre +Jacintho, para lhe assegurar quanto admirava +o arranjo da sua copa... Oh perfeita! Que comprehensão da +vida, que fina intelligencia do conforto! <br /> + +<br /> + +S. Alteza, encalmado pelo esforço, esvasiou poderosamente +dous copos de Chateau-Lagrange. Todos o acclamavam como um pescador +genial. E os escudeiros serviram o <em>Barão de +Pauillac</em>, cordeiro das lezirias marinhas, que, preparado com +ritos quasi sagrados, toma este grande +nome sonoro e entra no Nobiliario de França. <br /> + +<br /> + +Eu comi com o appetite d'um heroe de Homero. Sobre o meu copo e o de +Dornan o Champagne scintillou e jorrou ininterrompidamente como uma +fonte de inverno. Quando se serviram ortolans gelados, que se derretiam +na bocca, o divino poeta murmurou, para meu regalo, o seu soneto +sublime a «Santa Clara». E como, do outro lado, o +moço de pennugem loura insistia pela +destruição do +velho mundo, tambem +concordei, e, sorvendo o Champagne coalhado em sorvete, maldissemos o +Seculo, a +Civilisação, todos os orgulhos da Sciencia! +Através das flôres +e das luzes, <span class="pagenum">[94]</span>no +emtanto, eu seguia +as ondas arfantes do vasto peito de Madame Verghane, +que ria como uma bacchante. E nem me apiedava de Jacintho que, com a +doçura de S. Jacintho sobre o cêpo, esperava o fim +do seu martyrio e da sua festa. <br /> + +<br /> + +Ella findou. Ainda recordo, ás tres horas da noite, o +Gran-Duque na antecamara, muito vermelho, mal firme nos pés +pequeninos, +sem acertar com as mangas da pelissa que Jacintho e eu lhe ajudamos a +enfiar―convidando o meu amigo, n'uma effusão carinhosa, a +ir caçar ás suas terras da Dalmacia... <br /> + +<br /> + +―Devo ao meu Jacintho uma bella pesca, quero que elle me deva uma +bella caçada! <br /> + +<br /> + +E emquanto o acompanhavamos, entre as alas dos escudeiros, pela vasta +escada onde o mordomo o precedia erguendo um candelabro de tres lumes, +S. Alteza repisava, pegajoso: <br /> + +<br /> + +―Uma bella caçada... E tambem vae Fernandes! Bom Fernandes, +Zé Fernandes! Ceia superior, meu Jacintho! O +<em>Barão de Pauillac</em>, divino!... Creio que +o devemos +nomear Duque... O Senhor Duque de Pauillac! Mais um bocado da perna do +Senhor Duque de Pauillac. Ah! Ah!... Não venham +fóra! +Não se +constipem! <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[95]</span>E do fundo do +coupé, ao rodar, ainda bradou: <br /> + +<br /> + +―O peixe, Jacintho, desencalha o peixe! Excellente, ao +almoço, frio, com môlho verde! <br /> + +<br /> + +Trepando cançadamente os degraus, n'uma molleza de Champagne +e somno em que os olhos se me cerravam, murmurei para o meu Principe: <br /> + +<br /> + +―Foi divertido, Jacintho! Sumptuosa mulher, a Verghane! Grande pena, o +elevador... <br /> + +<br /> + +E Jacintho, n'um som cavo que era bocejo e rugido: <br /> + +<br /> + +―Uma massada! E tudo falha! <br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="break"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Tres dias depois d'esta festa no 202 recebeu o meu Principe +inesperadamente, de Portugal, uma nova consideravel. Sobre a sua quinta +e solar de Tormes, por toda a serra, passára uma tormenta +devastadora de vento, corisco e agua. Com as grossas chuvas, +«ou +por outras +causas que os peritos dirão» (como exclamava na +sua carta +angustiada o procurador Silverio), um pedaço de monte, que +se +avançava em +socalco sobre o valle da Carriça, desabára, +arrastando a +velha egreja, +uma egrejinha rustica do seculo XVI, onde jaziam sepultados os +avós de Jacintho +desde os tempos de el-rei D. Manoel. Os ossos veneraveis <span class="pagenum">[96]</span>d'esses Jacinthos +jaziam agora soterrados sob um montão informe de terra e +pedra. O +Silverio já começára com os +moços da quinta a +desatulhar dos «preciosos restos». Mas esperava +anciosamente as ordens de sua exc.<sup>a</sup>... <br /> + +<br /> + +Jacintho empallidecêra, impressionado. Esse velho solo +serrano, tão rijo e firme desde os Godos, que de repente +ruia! +Esses jazigos de paz piedosa, precipitados com fragor, na borrasca e na +treva, para um negro +fundo de valle! Essas ossadas, que todas conservavam um nome, uma data, +uma historia, confundidas n'um lixo de ruina! <br /> + +<br /> + +―Coisa estranha, coisa estranha!... <br /> + +<br /> + +E toda a noite me interrogou ácerca da serra e de Tormes, +que eu conhecia desde pequeno, por que o velho solar, com a sua nobre +alameda de faias seculares, se erguia a duas legoas da nossa casa, no +antigo caminho de Guiães á +estação +e ao rio. O caseiro de Tormes, o bom Melchior, era cunhado do nosso +feitor da Roqueirinha:―e muitas vezes, depois da minha intimidade com +Jacintho, eu entrára no +robusto casarão de granito, e avaliára o +grão +espalhado pelas +salas sonoras, e provára o vinho novo nas adegas immensas... +<br /> + +<br /> + +―E a egreja, Zé Fernandes?... Entraste na egreja? <br /> + +<br /> + +―Nunca... Mas era pittoresca, com uma <span class="pagenum">[97]</span>torresinha +quadrada, toda negra, +onde ha muitos annos vivia uma familia de cegonhas... Terrivel +transtorno para as cegonhas! <br /> + +<br /> + +―Coisa estranha! murmurava ainda o meu Principe, agourado. <br /> + +<br /> + +E telegraphou ao Silverio que desatulhasse o valle, recolhesse as +ossadas, reedificasse a Egreja, e, para esta obra de piedade e +reverencia, gastasse o dinheiro, sem contar, como a agua d'um rio +largo. <br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h2>V</h2> + +<br /> + +<br /> + +No emtanto Jacintho, desesperado com tantos desastres humilhadores―as +torneiras que dessoldavam, os elevadores que emperravam, o Vapor que se +encolhia, a Electricidade que se sumia, decidiu valorosamente vencer as +resistencias finaes da Materia e da Força por novas e mais +poderosas accumulacões de Mechanismos. E n'essas semanas de +Abril, +emquanto as rosas desabrochavam, a nossa agitada casa, entre aquellas +quietas casas +dos Campos-Elyseos que preguiçavam ao sol, incessantemente +tremeu, envolta n'um pó de caliça e d'empreitada, +com o +bruto picar de pedra, o retininte martelar de ferro. Nos silenciosos +corredores, onde me era dôce fumar antes do almoço +um +pensativo cigarro, +circulavam agora, desde madrugada, ranchos d'operarios, de blusas +brancas, assobiando o <em>Petît-Bleu</em>, e +intimidando +os meus passos <span class="pagenum">[100]</span>quando +eu atravessava em fralda e chinellas para o banho ou para outros +retiros. Apenas se +varava com pericia algum andaime obstruindo as portas―logo se +esbarrava com uma pilha de taboas, uma ceira de farramentas ou um balde +enorme d'argamassa. E os pedaços de soalho levantado +mostravam +tristemente, como n'um cadaver aberto, todos os interiores do 202, a +ossatura, os sensiveis nervos d'arame, os negros intestinos de ferro +fundido. <br /> + +<br /> + +Cada dia estacava deante do portão alguma lenta +carroça, d'onde os creados, em mangas de camisa, +descarregavam +caixotes de madeira, fardos +de lona, que se despregavam e se descosiam n'uma sala asphaltada, ao +fundo do jardim, por traz da sebe de lilazes. E eu descia, reclamado +pelo meu Principe, para admirar uma nova Machina que nos tornaria a +vida mais facil, estabelecendo d'um modo mais seguro o nosso dominio +sobre a +Substancia. Durante os calores, que apertaram depois da +Ascenção, ensaiamos esperançadamente, +para +refrescar as aguas +mineraes, a Soda-Water e os Medocs ligeiros, tres geleiras, que se +amontoaram na copa successivamente desprestigiadas. Com os morangos +novos appareceu +um instrumentosinho astuto, para lhes arrancar os pés, +delicadamente. <span class="pagenum">[101]</span>Depois +recebemos +outro, prodigioso, de prata e crystal, para remexer phreneticamente as +saladas; e, na primeira vez que o experimentei, todo +o vinagre esparrinhou sobre os olhos do meu Principe, que fugiu aos +uivos! Mas elle teimava... Nos actos mais elementares, para alliviar ou +apressar o esforço, se soccorria Jacintho da Dynamica. E +agora era por intervenção d'uma machina que +abotoava as +ceroulas. <br /> + +<br /> + +E simultaneamente, ou em obediencia á sua Idéa, +ou governado pelo despotismo do habito, não cessava, ao lado +da +Mechanica +accumulada, de accumular Erudição. Oh, a +invasão +dos +livros no 202! Solitarios, aos pares, em pacotes, dentro de caixas, +franzinos, gordos e repletos de auctoridade, envoltos em plebeia capa +amarella ou revestidos de marroquim e ouro, perpetuamente, +torrencialmente, invadiam por todas as +largas portas a Bibliotheca, onde se estiravam sobre o tapete, se +repimpavam nas cadeiras macias, se enthronisavam em cima das mesas +robustas, e sobretudo trepavam contra as janellas, em sofregas pilhas, +como se, suffocados pela sua propria multidão, procurassem +com ancia espaço e ar! Na erudita nave, onde apenas alguns +vidros mais +altos restavam descobertos, sem tapume de livros, perennemente se +adensava um +pensativo <span class="pagenum">[102]</span>crepusculo +de outono +emquanto fóra Junho refulgia. +A Bibliotheca transbordára através de todo o 202! +Não se abria um armario sem que de dentro se despenhasse, +desamparada, uma pilha de livros! +Não se franzia uma cortina sem que de traz surgisse, hirta, +uma +ruma de livros! E immensa foi a minha indignação +quando +uma manhã, correndo urgentemente, de mãos nas +alças, encontrei, +vedada por uma tremenda collecção de Estudos +Sociaes, a +porta do +Water-Closet! <br /> + +<br /> + +Mais amargamente porém me lembro da noite historica em que, +no meu quarto, moido e molle d'um passeio a Versalhes, com as palpebras +poeirentas e meio adormecidas, tive de desalojar do meu leito, +praguejando, um pavoroso Diccionario de Industria em trinta e sete +volumes! Senti então a suprema fartura do livro. Ageitando, +com murros, os travesseiros, maldisse a Imprensa, a Facundia humana... +E +já me estirára, adormecia, quando topei, quasi +parti a +preciosa +rotula do joelho, contra a lombada d'um tomo que velhacamente se +aninhára entre a parede e os colchões. Com furor +e um +berro empolguei, +arremessei o tomo affrontoso―que entornou o jarro, inundou um tapete +rico de Daghestan. +E nem sei se depois adormeci―porque os meus pés, a que +não sentia nem o pisar nem <span class="pagenum">[103]</span>o +rumor, como se um vento brando me levasse, continuaram a +tropeçar em livros no corredor apagado, depois na areia do +jardim que o luar branqueava, depois na Avenida dos Campos-Elyseos, +povoada e +ruidosa como n'uma festa civica. E, oh portento! todas as casas aos +lados eram construidas com livros. Nos ramos dos castanheiros +ramalhavam folhas de +livros. E os homens, as finas damas, vestidos de papel impresso, com +titulos nos dorsos, mostravam em vez de rosto um livro aberto, a que a +brisa lenta virava docemente as folhas. Ao fundo, na Praça +da Concordia, avistei uma escarpada montanha de livros, a que tentei +trepar, arquejante, ora enterrando a perna em flacidas camadas de +versos, ora batendo contra a lombada, dura como calhau, de tomos de +Exegese e Critica. A tão vastas alturas subi, para +além +da +terra, para além das nuvens, que me encontrei, maravilhado, +entre os astros. Elles rolavam serenamente, enormes e mudos, recobertos +por espessas crostas de +livros, d'onde surdia, aqui e além, por alguma fenda, entre +dois +volumes mal juntos, um raiosinho de luz suffocada e anciada. E assim +ascendi ao Paraiso. Decerto era o Paraiso―porque com meus olhos de +mortal argila avistei o Ancião da Eternidade, aquelle que +não +tem Manhã nem Tarde. N'uma claridade que d'elle irradiava <span class="pagenum">[104]</span>mais +clara que todas as +claridades, entre fundas estantes d'ouro abarrotadas de codices, +sentado em vetustissimos folios, com os flocos das infinitas barbas +espalhados por +sobre resmas de folhetos, brochuras, gazetas e catalogos―o Altissimo +lia. A fronte super-divina que concebera o Mundo pousava sobre a +mão super-forte que o Mundo creára―e o Creador +lia e +sorria. +Ousei, arrepiado de sagrado horror, espreitar por cima do seu hombro +coruscante. O livro era brochado, de tres francos... O Eterno lia +Voltaire, n'uma edição barata, e sorria. <br /> + +<br /> + +Uma porta faiscou e rangeu, como se alguem penetrasse no Paraiso. +Pensei que um Santo novo chegára da Terra. Era Jacintho, com +o +charuto em braza, um molho de cravos na lapella, sobraçando +tres livros +amarellos que a Princeza de Carman lhe emprestára para +lêr! <br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="break"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +N'uma d'essas activas semanas, porém, a minha +attenção subitamente se despegou d'este +interessante Jacintho. Hospede do 202, conservava no +202 a minha mala e a minha roupa: e, acostado á bandeira do +meu +Principe, ainda occasionalmente comia do seu caldeirão +sumptuoso. Mas +a minha alma, a minha embrutecida <span class="pagenum">[105]</span>alma, +e o meu corpo, o meu embrutecido corpo, +habitavam então na rua do Helder, n.º 16, quarto +andar, +porta á esquerda. <br /> + +<br /> + +Descia eu uma tarde, n'uma leda paz de idéas e +sensações, o Boulevard da Magdalena, quando +avistei, +deante da Estação dos +Omnibus, rondando no asphalto, n'um passo lento e felino, uma creatura +secca, muito morena, quasi tisnada, com dous fundos olhos taciturnos e +tristes, e uma matta de cabellos amarellados, toda crespa e rebelde, +sob o chapéo +velho de plumas negras. Parei, como colhido por um repuxão +nas +entranhas. A creatura passou―no seu magro rondar de gata negra, sobre +um beiral de telhado, ao luar de Janeiro. Dous poços fundos +não luzem mais negra e taciturnamente do que luziam os seus +olhos taciturnos e negros. +Não recordo (Deus louvado!) como rocei o seu vestido de +sêda, +lustroso e encebado nas pregas; nem como lhe rosnei uma +súpplica +por +entre os dentes que rangiam; nem como subimos ambos, morosamente e mais +silenciosos que condemnnados, para um gabinete do Café +Durand, safado e môrno. Deante do espelho, a creatura, com a +lentidão d'um rito triste, tirou o chapéo e a +romeira +salpicada de vidrilhos. A +sêda poida do corpete esgarçava nos cotovellos +agudos. E +os seus cabellos +eram immensos, d'uma <span class="pagenum">[106]</span>dureza +e espessura de juba brava, em dous tons amarellos, uns mais dourados, +outros mais crestados, como a +côdea de uma torta ao sahir quente do forno. <br /> + +<br /> + +Com um riso tremulo, agarrei os seus dedos compridos e frios: <br /> + +<br /> + +―E o nomesinho, hein? <br /> + +<br /> + +Ella séria, quasi grave: <br /> + +<br /> + +―Madame Colombe, 16, rua do Helder, quarto andar, porta á +esquerda. <br /> + +<br /> + +E eu (miseravel Zé Fernandes!) tambem me senti muito +sério, trespassado por uma emoção +grave, como se +nos envolvesse, +n'aquella alcôva de Café, a magestade d'um +Sacramento. +Á porta, empurrada levemente, o +creado avançou a face nedia. Ordenei uma lagosta, pato com +pimentões, e Borgonha. E foi sómente ao findarmos +o pato +que me ergui, +amarfanhando convulsamente o guardanapo, e a tremer lhe beijei a bocca, +todo a tremer, n'um beijo profundo e terrivel, em que deixei a alma, +entre saliva e gôsto de pimentão! Depois, n'uma +tipoia +aberta, sob um bafo molle de leste e de trovoada, subimos a Avenida dos +Campos-Elyseos. Em frente á grade do 202 murmurei, para a +deslumbrar com o meu +luxo:―«Móro alli, todo o anno!...» E +como ao mirar +o Palacete, +debruçada, ella roçára a matta fulva +do pello +crespo pela minha +barba―berrei<span class="pagenum">[107]</span> +desesperadamente ao cocheiro; que galopasse para a rua do Helder, +n.º 16, quarto andar, porta á esquerda! <br /> + +<br /> + +Amei aquella creatura. Amei aquella creatura com Amor, com todos os +Amores que estão no Amor, o Amor divino, o Amor humano, o +Amor bestial, como Santo Antonino amava a Virgem, como Romeu amava +Julietta, como um bode ama uma cabra. Era estupida, era triste. Eu +deliciosamente apagava +a minha alegria na cinza da sua tristeza; e com ineffavel +gôsto afundava a minha razão na densidade da sua +estupidez. Durante sete +furiosas semanas perdi a consciencia da minha personalidade de +Zé Fernandes―Fernandes de Noronha e Sande, de +Guiães! +Ora se +me affigurava ser um pedaço de cêra que se +derretia, com +horrenda delicia, n'um forno rubro e rugidor: ora me parecia ser uma +faminta fogueira onde flammejava, estalava e se consumia um +mólho de galhos +seccos. D'esses dias de sublime sordidez só conservo a +impressão +d'uma alcôva forrada de cretones sujos, d'uma bata de +lã +côr de lilaz com +sotaches negros, de vagas garrafas de cerveja no marmore d'um +lavatorio, e d'um corpo tisnado que rangia e tinha cabellos no peito. E +tambem me resta a sensação de incessantemente e +com +arrobado +deleite me despojar, arremessar <span class="pagenum">[108]</span>para +um regaço, que se cavava entre um ventre +sumido e uns joelhos agudos, o meu relogio, os meus berloques, os meus +anneis, os meus botões de punho de saphira, e as cento e +noventa +e sete +libras em ouro que eu trouxera de Guiães n'uma cinta de +camurça. Do solido, decoroso, bem fornecido Zé +Fernandes, +só restava +uma carcassa errando atravéz d'um sonho, com as gambias +molles e +a baba a +escorrer. <br /> + +<br /> + +Depois, uma tarde, trepando com a costumada gula a escada da rua do +Helder, encontrei a porta fechada―e arrancado da hombreira aquelle +cartão de <em>Madame Colombe</em> +que eu lia sempre tão devotamente e que era a sua +taboleta... Tudo no meu ser tremeu como se o chão de +Paris tremesse! Aquella era a porta do Mundo que ante mim se +fechára! Para +além estavam as gentes, as cidades, a vida, Deus e Ella. E +eu ficára +sósinho, n'aquelle patamar do Não-ser, +fóra da porta que +se fechára, unico ser fóra do Mundo! Rolei pelos +degraus, com o fragor e a +incoherencia d'uma pedra, até ao cubiculo da porteira e do +seu homem que +jogavam as cartas em ditosa pachorra, como se tão pavoroso +abalo +não tivesse desmantelado o Universo! <br /> + +<br /> + +―Madame Colombe? <br /> + +<br /> + +A barbuda comadre recolheu lentamente a vaza: <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[109]</span> +―Ja não mora... Abalou esta manhã, para outra +terra, com outra porca! <br /> + +<br /> + +Para outra terra! com outra porca!... Vasio, negramente vasio de todo o +pensar, de todo o sentir, de todo o querer―boiei aos tombos, como um +tonel vasio, na corrente açodada do Boulevard, +até que encalhei n'um banco da Praça da +Magdalena, onde +tapei com as +mãos, a que não sentia a febre, os olhos a que +não +sentia o pranto! Tarde, muito +tarde, quando já se cerravam com estrondo as cortinas de +ferro +das lojas, surdiu, +d'entre todas estas confusas ruinas do meu ser, a eterna sobrevivente +de todas as ruinas―a ideia de jantar. Penetrei no Durand, com os +passos entorpecidos d'um resuscitado. E, n'uma +recordação que m'escaldava a alma, encommendei a +lagosta, +o pato, o Borgonha! Mas ao alargar o collarinho, ensopado pelo ardor +d'aquella tarde de Julho, entre a +poeira da Magdalena, pensei com +desconfôrto:―«Santissimo +Nome de Deus! Que immensa sêde me fez esta +desgraça!...» +De manso acenei ao moço:―«Antes do Borgonha, uma +garrafa +de Champagne, com muito gêlo, e um +grande copo!...» Creio que aquelle Champagne se +engarrafára no Ceu onde corre perennemente a fresca fonte da +Consolação, e que +na garrafa bemdita que me coube penetrára, antes +d'arrolhada, <span class="pagenum">[110]</span>um +jorro largo d'essa +fonte inneffavel. Jesus! que transcendente regalo, o d'aquelle nobre +copo, embaciado, nevado, a espumar, a picar, n'um brilho d'ouro! E +depois, garrafa de Borgonha! E depois, garrafa de Cognac! E depois +Hortelã-Pimenta granitada em gêlo! E depois um +desejo arquejante de espancar, com o meu rijo marmelleiro de +Guiães, a porca que +fugira com outra porca! Dentro da tipoia fechada, que me transportou +n'um galope +ao 202, não suffoquei este santo impulso, e com os meus +punhos +serranos atirei murros retumbantes contra as almofadas, onde +<em>via</em>, furiosamente <em>via</em> a +matta immensa de pello +amarello, em que a minha alma uma tarde se perdera, e tres mezes se +debatera, e para sempre se +emporcalhára! Quando o fiacre estacou no 202 ainda eu +espancava tão +desesperadamente a besta ingrata, que, aos berros do cocheiro, dous +moços +accudiram e me sustiveram, recebendo pelos hombros, sobre as nucas +servis, os restos cançados da minha colera. <br /> + +<br /> + +Em cima, repelli a sollicitude do Grillo que tentava impôr ao +<em>siô</em> Zé Fernandes, a +Zé Fernandes de Guiães, a immensa +indignidade d'um chá de macella! E estirado no leito de D. +Galião, com as botas +sobre o travesseiro, o chapéo alto sobre os olhos, ri, n'um +doloroso +<span class="pagenum">[111]</span>riso, d'este Mundo +burlesco e sordido +de Jacinthos e de Colombes! E de +repente senti uma angustia horrenda. Era Ella! Era a Madame Colombe, +que esfuziára da chamma da vela, e saltára sobre +o +meu leito, e desabotoára o meu collete, e +arrombára as +minhas costellas, e toda ella, +com as saias sujas, mergulhára dentro do meu peito, e +abocára o meu coração, e chupava a +sorvos lentos, +como na rua do Helder, o sangue do meu +coração! Então, certo da Morte, +ganindo pela tia +Vicencia, pendi do +leito para mergulhar na minha sepultura, que, através da +nevoa +final, +eu distinguia sobre o tapete―redondinha, vidrada, de porcelana e com +aza. E, sobre a +minha sepultura, que tão irreverentemente se assimilhava ao +meu vaso, vomitei o Borgonha, vomitei o pato, vomitei a lagosta. +Depois, n'um esforço ultra-humano, com um rugido, sentindo +que, +não sómente toda a entranha, mas a alma se +esvasiava +toda, vomitei Madame Colombe! Recahi sobre o leito de D. +Galião... Recarreguei o +chapéo sobre os olhos para não sentir os raios do +sol. +Era um sol novo, um sol +espiritual, que se erguia sobre a minha vida. E adormeci, como uma +creancinha docemente embalada n'um berço de verga pelo Anjo +da +Guarda. <br /> + +<br /> + +De manhã, lavei a pelle n'um banho profundo, perfumado com +todos os aromas do <span class="pagenum">[112]</span>202, +desde folhas de limonete da India até +essencia de jasmin de França: e lavei a alma com uma rica +carta +da Tia +Vicencia, em letra farta, contando da nossa casa, e da linda promessa +das vinhas, e da compota de ginja que nunca lhe sahíra +tão fina, e +da alegre fogueira do pateo em noite de S. João, e da +menininha +muito gorda e +cabelluda que viéra do ceu para a minha afilhada Joanninha. +Depois, +á janella, bem limpo de alma e de corpo, n'uma quinzena de +sedinha branca, tomando +chá de Naïpò, respirando os rosaes do +jardim +revividos +pela chuva da madrugada, considerei, em divertido pasmo, que, durante +sete semanas, +me emporcalhára, na rua do Helder, com um estardalho muito +magro e muito tisnado! E conclui que padecera d'uma longa +sezão, +sezão da carne, sezão da +imaginação, +apanhada n'um charco de +Paris―n'esses charcos que se formam através da Cidade com +as +aguas mortas, os limos, os +lixos, os tortulhos e os vermes d'uma Civilisação +que +apodrece. <br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="break"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Então, curado, todo o meu espirito, como uma agulha para o +Norte, se virou logo para o meu complicado Principe, que, nas +derradeiras semanas +da minha infecção sentimental, eu entrevira +sempre descahido por cima <span class="pagenum">[113]</span>de +sophás, ou vagueando através da Bibliotheca entre +os seus trinta mil volumes, com arrastados bocejos de inercia e de +vacuidade. Eu, na minha +pressa indigna, só lhe lançava um +distrahido―«que é isso?» Elle, no seu +moroso desalento, só murmurava um +sêcco―«é calor!» <br /> + +<br /> + +E, n'essa manhã da minha libertação, +ao penetrar antes d'almoço no seu quarto, no +sophá o encontrei enterrado, com o +<em>Figaro</em> aberto sobre a barriga, a Agenda cahida +sobre o tapete, +toda a face envolta em sombra, +e os pés abandonados, n'uma soberana tristeza, ao pedicuro +que lhe polia as unhas. Decerto o meu olhar reallumiado e repurificado, +a brancura +das minhas flanellas reproduzindo a quietação das +minhas sensações, e a segura harmonia em que todo +o meu +ser visivelmente se movia, impressionaram o meu Principe―a quem a +melancolia nunca embotava a agudeza. Ergueu mollemente um +braço +molle: <br /> + +<br /> + +―Então esse capricho? <br /> + +<br /> + +Derramei, sobre elle todo o fulgor d'um riso victorioso: <br /> + +<br /> + +―Morto! E, como o Snr. de Malbrouck, «morto e bem +enterrado.» Jaz! Ou antes, rola! Com effeito deve andar agora +rolando por dentro do cano do +esgoto! <br /> + +<br /> + +Jacintho bocejou, murmurou: <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[114]</span> +―Este Zé Fernandes de Noronha e Sande!... <br /> + +<br /> + +E, no meu nome, no meu digno nome assim embrulhado n'um bocejo com +desprendida ironia, se resumiu todo o interesse d'aquelle Principe pela +suja tormenta em que se debatera o meu coração! +Mas não me melindrou esse consummado egoismo... Claramente +percebia eu que o meu Jacintho atravessava uma densa nevoa de tedio, +tão densa, e elle +tão afundado na sua molle densidade, que as glorias ou os +tormentos d'um camarada +não o commoviam, como muito remotas, intangiveis, separadas +da +sua sensibilidade por immensas camadas de algodão. Pobre +Principe da Gran-Ventura, tombado para o sophá de inercia, +com +os +pés no regaço do pedicuro! Em que lodoso fastio +cahira, +depois de renovar tão +bravamente todo o recheio mechanico e erudito do 202, na sua lucta +contra a +Força e a Materia!―E esse fastio não o escondeu +mais do +seu velho +Zé Fernandes quando recomeçou entre +nós a +communhão +de vida e de alma a que eu tão torpemente me +arrancára, +uma tarde, deante da +Estação dos Omnibus, no charco da Magdalena. <br /> + +<br /> + +Não eram certamente confissões enunciadas. O +elegante e reservado Jacintho não torcia <span class="pagenum">[115]</span>os +braços, +gemendo―«Oh vida maldita!» Eram apenas +expressões +saciadas; um gesto de repellir com +rancôr a importunidade das coisas; por vezes uma immobilidade +determinada, de protesto, no fundo d'um divan, d'onde se não +desenterrava, como para um repouso +que desejasse eterno; depois os bocejos, os ôcos bocejos com +que +sublinhava cada passo, continuado por fraqueza ou por dever +inilludivel; e sobretudo aquelle murmurar que se tornára +perenne +e +natural―«Para que?»―«Não +vale a +pena!»―«Que massada!...» <br /> + +<br /> + +Uma noite no meu quarto, descalçando as botas, consultei o +Grillo: <br /> + +<br /> + +―Jacintho anda tão mucho, tão corcunda... Que +será, Grillo? <br /> + +<br /> + +O venerando preto declarou com uma certeza immensa: <br /> + +<br /> + +―S. Exc.<sup>a</sup> soffre de fartura. <br /> + +<br /> + +Era fartura! O meu Principe sentia abafadamente a fartura de Paris:―e +na Cidade, na symbolica Cidade, fóra de cuja vida culta e +forte (como elle outr'ora gritava, illuminado) o homem do seculo XIX +nunca poderia saborear plenamente a «delicia de +viver», +elle +não encontrava agora fórma de vida, espiritual ou +social, +que o interessasse, lhe +valesse o esfôrço d'uma corrida curta n'uma tipoia +<span class="pagenum">[116]</span>facil. +Pobre Jacintho! Um jornal velho, setenta vezes relido desde a Chronica +até aos +Annuncios, com a tinta delida, as dobras roídas, +não +enfastiaria mais o Solitario, que só possuisse na sua +Solidão esse alimento +intellectual, do que o Parisianismo enfastiava o meu doce camarada! Se +eu n'esse +verão capciosamente o arrastava a um +Café-Concerto, ou ao +festivo +Pavilhão d'Armenonville, o meu bom Jacintho, collado +pesadamente +á +cadeira com um maravilhoso ramo de orchideas na casaca, as finas +mãos +abatidas sobre o castão da bengala, conservava toda a noite +uma +gravidade +tão estafada, que eu, compadecido, me erguia, o libertava, +gozando a sua pressa em abalar, a sua fuga d'ave solta... Raramente (e +então com +vehemente arranque como quem salta um fosso) descia a um dos seus +Clubs, ao fundo +dos Campos-Elyseos. Não se occupara mais das suas Sociedades +e Companhias, nem dos <em>Telephones de +Constantinopla</em>, nem das +<em>Religiões +Esotericas</em>, nem do <em>Bazar +Espiritualista</em>, +cujas cartas fechadas se amontoavam sobre a mesa d'ebano, d'onde o +Grillo as varria tristemente como o lixo d'uma vida finda. Tambem +lentamente se despegava de todas +as suas convivencias. As paginas da Agenda côr de rosa murcha +andavam desafogadas e brancas. E se ainda cedia a um passeio de +Mail-coach, <span class="pagenum">[117]</span>ou +a um convite para algum Castello amigo dos arredores de Paris, era +tão arrastadamente, com um esforço tão +saturado ao +enfiar o paletot leve, que me lembrava sempre um homem, depois d'um +gordo jantar de provincia, +a estalar, que, por pollidez ou em obediencia a um dogma, devesse ainda +comer uma lamprêa de ovos! <br /> + +<br /> + +Jazer, jazer em casa, na segurança das portas bem cerradas e +bem defendidas contra toda a intrusão do mundo, seria uma +doçura para o meu Principe se o seu proprio 202, com todo +aquelle tremendo recheio de Civilisação, +não lhe +désse +uma sensação dolorosa de abafamento, de +atulhamento! +Julho escaldava: e os brocados, as alcatifas, tantos +moveis roliços e fôfos, todos os seus metaes e +todos os +seus livros, tão espessamente o opprimiam, que escancarava +sem +cessar as janellas para prolongar o espaço, a claridade, a +frescura. Mas era +então a poeira, suja e acre, rolada em bafos mornos, que o +enfurecia: <br /> + +<br /> + +―Oh, este pó da Cidade! <br /> + +<br /> + +―Mas, oh Jacintho, por que não vamos para Fontainebleau, ou +para Montmorency, ou... <br /> + +<br /> + +―P'ra o campo? O que! P'ra o campo?! <br /> + +<br /> + +E na sua face enrugada, através d'este berro, lampejava +sempre tanta indignação, que <span class="pagenum">[118]</span>eu +curvava os hombros, humilde, +no arrependimento de ter affrontosamente ultrajado o Principe que tanto +amava. Desventurado Principe! Com o seu dourado cigarro d'Yaka a +fumegar, errava +então pelas salas, lenta e murchamente, como quem vaga em +terra +alheia sem +affeições e sem occupações. +Esses +desaffeiçoados +e desoccupados passos monotonamente o traziam ao seu centro, ao +gabinete verde, á +Bibliotheca d'ebano, onde accumulara Civilisação +nas +maximas +proporções para gozar nas maximas +proporções a delicia de viver. +Espalhava em tôrno um olhar farto. Nenhuma curiosidade ou +interesse lhe sollicitavam as +mãos, enterradas nas algibeiras das pantalonas de +sêda, +n'uma +inercia de derrota. Annulado, bocejava com descorçoada +molleza. +E nada +mais instructivo e doloroso do que este supremo homem do seculo XIX, no +meio +de todos os apparelhos reforçadores dos seus +orgãos, e de todos os fios que disciplinavam ao seu +serviço as Forças +Universaes, e dos seus trinta mil volumes repletos do saber dos +seculos―estacando, com as +mãos derrotadas no fundo das algibeiras, e exprimindo, na +face e +na +indecisão molle d'um bocejo, o embaraço de viver! +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h2>VI</h2> + +<br /> + +<br /> + +Todas as tardes, cultivando uma d'essas intimidades que entre tudo o +que cança jámais cançam, Jacintho, +ás quatro horas, com regularidade devota, visitava Madame +d'Oriol:―por que essa flôr de Parisianismo +permanecera em Paris, mesmo depois do Grand-Prix, a desbotar na calma e +no cisco da +Cidade. N'uma d'essas tardes, porém, o Telephone, +anciosamente repicado, avisou Jacintho de que a sua dôce +amiga jantava em Enghien +com os Trèves. (Esses senhores gozavam o seu +verão +á beira do lago, n'uma casa toda branca e vestida de +rosinhas brancas que pertencia a Ephrain). <br /> + +<br /> + +Era um domingo silencioso, ennevoado e macio, convidando ás +voluptuosidades da melancolia. E eu (no interesse da minha alma) +suggeri a Jacintho que subissemos á Basilica do +<em>Sacré-Coeur</em>, em +construcção nos altos de Montmartre. <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[120]</span> +―É uma secca, Zé Fernandes... <br /> + +<br /> + +―Com mil demonios! Eu nunca vi a Basilica... <br /> + +<br /> + +―Bem, bem! Vamos á Basilica, homem fatal de Noronha e +Sande! <br /> + +<br /> + +E por fim logo que começamos a penetrar, para +além de S. Vicente de Paula, em bairros estreitos e +ingremes, +d'uma +quietação de provincia, com muros velhos fechando +quintalejos rusticos, mulheres despenteadas cozendo á +soleira +das portas, carriolas desatreladas +descançando diante das tascas, gallinhas soltas picando o +lixo, +cueiros molhados seccando em canas―o meu fastidioso camarada sorriu +áquella liberdade +e singeleza das cousas. <br /> + +<br /> + +A vittoria parou em frente á larga rua de escadarias que +trepa, cortando viellasinhas campestres, até á +esplanada, +onde, +envolta em andaimes, se ergue a Basilica immensa. Em cada patamar +barracas d'arraial devoto, forradas de panninho vermelho, transbordavam +de Imagens, Bentinhos, Crucifixos, Corações de +Jesus +bordados a retroz, +claros molhos de Rosarios. Pelos cantos, velhas agachadas resmungavam a +Avè-Maria. Dois padres desciam, tomando risonhamente uma +pitada. +Um sino lento +tilintava na doçura cinzenta da tarde. E Jacintho murmurou, +com +agrado: <br /> + +<br /> + +―É curioso! <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[121]</span>Mas a Basilica em +cima não nos +interessou, abafada em +tapumes e andaimes, toda branca e sêcca, de pedra muito nova, +ainda sem +alma. E Jacintho, por um impulso bem Jacinthico, caminhou gulosamente +para a borda do terraço, a contemplar Paris. Sob o ceu +cinzento, +na +planicie cinzenta, a Cidade jazia, toda cinzenta, como uma vasta e +grossa camada +de caliça e telha. E, na sua immobilidade e na sua mudez, +algum rolo de fumo, mais tenue e ralo que o fumear d'um escombro mal +apagado, era +todo o vestigio visivel da sua vida magnifica. <br /> + +<br /> + +Então chasqueei risonhamente o meu Principe. Ahi estava pois +a Cidade, augusta creação da Humanidade! Eil-a +ahi, bello +Jacintho! Sobre a crosta cinzenta da Terra―uma camada de +caliça, apenas mais +cinzenta! No emtanto ainda momentos antes a deixaramos prodigiosamente +viva, cheia d'um povo forte, com todos os seus poderosos +orgãos +funccionando, abarrotada de riqueza, resplandecente de sapiencia, na +triumphal plenitude do seu orgulho, como Rainha do Mundo coroada de +Graça. E agora eu e o bello Jacintho trepavamos a uma +collina, +espreitavamos, escutavamos―e de toda a estridente e radiante +Civilisação da Cidade não percebiamos +nem um rumor +nem um lampejo! E o 202, o soberbo <span class="pagenum">[122]</span>202, +com os +seus arames, os seus apparelhos, a pompa da sua Mechanica, os seus +trinta mil livros? Sumido, esvaído na confusão de +telha e cinza! Para este esvaecimento pois da obra humana, mal ella se +comtempla de cem metros de altura, arqueja o obreiro humano em +tão angustioso +esforço? Hein, Jacintho?... Onde estão os teus +Armazens +servidos por +tres mil caixeiros? E os Bancos em que retine o ouro universal? E as +Bibliothecas atulhadas com o saber dos seculos? Tudo se fundiu n'uma +nodoa parda que +suja a Terra. Aos olhos piscos de um Zé Fernandes, logo que +elle suba, fumando o seu cigarro, a uma arredada collina―a sublime +edificação dos Tempos não é +mais que um +silencioso monturo da +espessura e da côr do pó final. O que +será +então aos olhos de Deus! <br /> + +<br /> + +E ante estes clamores, lançados com affavel malicia para +espicaçar o meu Principe, elle murmurou, pensativo: <br /> + +<br /> + +―Sim, é talvez tudo uma illusão... E a Cidade a +maior illusão! <br /> + +<br /> + +Tão facilmente victorioso redobrei de facundia. Certamente, +meu Principe, uma Illusão! E a mais amarga, por que o Homem +pensa ter na Cidade a base de toda a sua grandeza e só +n'ella tem a fonte +de toda a sua miseria. Vê, Jacintho! Na Cidade perdeu <span class="pagenum">[123]</span>elle +a +força e belleza harmoniosa do corpo, e se tornou esse ser +resequido e escanifrado ou obeso e afogado em unto, de ossos molles +como trapos, de nervos +tremulos como arames, com cangalhas, com chinós, com +dentaduras +de +chumbo, sem sangue, sem febra, sem viço, torto, +corcunda―esse +ser em +que Deus, espantado, mal póde reconhecer o seu esbelto e +rijo e +nobre +Adão! Na Cidade findou a sua liberdade moral: cada +manhã +ella lhe +impõe uma necessidade, e cada necessidade o arremessa para +uma +dependencia: pobre +e subalterno, a sua vida é um constante sollicitar, adular, +vergar, rastejar, aturar; rico e superior como um Jacintho, a Sociedade +logo o enreda em tradições, preceitos, etiquetas, +ceremonias, praxes, ritos, serviços mais disciplinares que +os +d'um carcere ou d'um +quartel... A sua tranquillidade (bem tão alto que Deus com +elle +recompensa os +Santos) onde está, meu Jacintho? Sumida para sempre, n'essa +batalha +desesperada pelo pão, ou pela fama, ou pelo poder, ou pelo +gôzo, ou pela fugidia rodella d'ouro! Alegria como a +haverá na Cidade para esses +milhões de seres que tumultuam na arquejante +occupação de +<em>desejar</em>―e que, nunca fartando o desejo, +incessantemente padecem de desillusão, +desesperança ou derrota? Os sentimentos mais genuinamente <span class="pagenum">[124]</span>humanos +logo na Cidade se deshumanisam! Vê, meu Jacintho! +São como +luzes que +o aspero vento do viver social não deixa arder com +serenidade e +limpidez; e +aqui abala e faz tremer; e além brutamente apaga; e adiante +obriga a +flammejar com desnaturada violencia. As amizades nunca passam +d'allianças +que o interesse, na hora inquieta da defeza ou na hora sofrega do +assalto, +ata apressadamente com um cordel apressado, e que estalam ao menor +embate +da rivalidade ou do orgulho. E o Amor, na Cidade, meu gentil Jacintho? +Considera esses vastos armazens com espelhos, onde a nobre carne d'Eva +se vende, tarifada ao arratel, como a de vacca! Contempla esse velho +Deus do Hymeneu, que circula trazendo em vez do ondeante facho da +Paixão a apertada carteira do Dote! Espreita essa turba que +foge +dos largos caminhos assoalhados em que os Faunos amam as Nymphas na boa +lei natural, e busca tristemente os recantos lobregos de Sodoma ou de +Lesbos!... Mas o que a Cidade mais deteriora no homem é a +Intelligencia, por que ou lh'a arregimenta dentro da banalidade ou lh'a +empurra para a +extravagancia. N'esta densa e pairante camada d'Idéas e +Formulas que constitue a atmosphera mental das Cidades, o homem que a +respira, +n'ella envolto, só pensa todos os <span class="pagenum">[125]</span>pensamentos +já +pensados, só exprime todas as expressões +já +exprimidas:―ou então, +para se destacar na pardacente e chata Rotina e trepar ao fragil +andaime da gloriola, inventa n'um gemente esforço, inchando +o +craneo, uma novidade disforme +que espante e que detenha a multidão como um mostrengo n'uma +Feira. Todos, +intelectualmente, são carneiros, trilhando o mesmo trilho, +balando o mesmo balido, com o focinho pendido para a poeira onde pisam, +em fila, as pégadas pisadas;―e alguns são +macacos, +saltando no topo de mastros vistosos, com esgares e cabriolas. Assim, +meu Jacintho, na Cidade, n'esta creação +tão +anti-natural onde o +solo é de pau e feltro e alcatrão, e o +carvão tapa +o ceu, e a gente vive +acamada nos predios como o panninho nas lojas, e a claridade vem pelos +canos, e as mentiras se murmuram através d'arames―o homem +apparece como uma +creatura anti-humana, sem belleza, sem força, sem liberdade, +sem +riso, sem sentimento, e trazendo em si um espirito que é +passivo +como +um escravo ou impudente como um histrião... E aqui tem o +bello +Jacintho +o que é a bella Cidade! <br /> + +<br /> + +E ante estas encanecidas e veneraveis invectivas, retumbadas +pontualmente por todos os Moralistas bucolicos, desde Hesiodo, atravez <span class="pagenum">[126]</span>dos seculos―o meu +Principe vergou a nuca docil, como se ellas brotassem, inesperadas e +frescas, d'uma Revelação +superior, n'aquelles cimos de Montmartre: <br /> + +<br /> + +―Sim, com effeito, a Cidade... É talvez uma +illusão perversa! <br /> + +<br /> + +Insisti logo, com abundancia, puchando os punhos, saboreando o meu +facil philosophar. E se ao menos essa illusão da Cidade +tornasse +feliz a totalidade dos sêres, que a manteem... Mas +não! +Só uma estreita e reluzente casta goza na Cidade os gozos +especiaes que ella cria. O resto, a escura, immensa plebe, +só +n'ella soffre, e com +soffrimentos especiaes que só n'ella existem! D'este +terraço, +junto a esta rica Basilica consagrada ao Coração +que amou +o Pobre e +por elle sangrou, bem avistamos nós o lobrego casario onde a +plebe se curva sob +esse antigo opprobrio de que nem Religiões, nem +Philosophias, +nem +Moraes, nem a sua propria força brutal a poderão +jámais +libertar! Ahi jaz, espalhada pela Cidade, como esterco vil que fecunda +a Cidade. Os seculos rolam; e sempre immutaveis farrapos lhe cobrem o +corpo, e sempre debaixo +d'elles, através do longo dia, os homens +labutarão e as +mulheres chorarão. E com este labor e este pranto dos +pobres, +meu Principe, se edifica a abundancia da Cidade! <span class="pagenum">[127]</span>Eil-a +agora coberta de moradas em que elles se +não abrigam; armazenada de estofos, com que elles se +não +agasalham; abarrotada de alimentos, com que elles se não +saciam! +Para +elles só a neve, quando a neve cáe, e entorpece e +sepulta +as +creancinhas aninhadas pelos bancos das praças ou sob os +arcos +das pontes de +Paris... A neve cáe, muda e branca na treva: as creancinhas +gelam nos seus +trapos: e a policia, em torno, ronda attenta para que não +seja +perturbado o tépido somno d'aquelles que amam a neve, para +patinar nos lagos do Bosque de Bolonha com pelliças de tres +mil +francos. Mas quê, +meu Jacintho! a tua Civilisação reclama +insaciavelmente +regalos e +pompas, que só obterá, n'esta amarga desharmonia +social, +se o Capital dér ao +Trabalho, por cada arquejante esfôrço, uma migalha +ratinhada. +Irremediavel é, pois, que incessantemente a plebe sirva, a +plebe +péne! A sua esfalfada +miseria é a condição do esplendor +sereno da +Cidade. Se nas +suas tigellas fumegasse a justa ração de +caldo―não poderia +apparecer nas baixellas de prata a luxuosa porção +de +<em>foie-gras</em> e tubaras que +são o orgulho da Civilisação. Ha +andrajos em trapeiras―para que +as bellas Madamas d'Oriol, resplandecentes de sêdas e rendas, +subam, em doce +ondulação, a escadaria da Opera. Ha +mãos <span class="pagenum">[128]</span>regeladas +que se estendem, e +beiços sumidos que agradecem o dom magnanimo d'um +<em>sou</em>―para que os Ephrains tenham dez +milhões no Banco +de França, se +aqueçam á chamma rica da lenha aromatica, e +surtam de +collares de saphiras as suas concubinas, netas dos Duques d'Athenas. E +um povo chora de fome, e da fome dos seus pequeninos―para que os +Jacinthos, em janeiro, debiquem, bocejando, sobre pratos de Saxe, +morangos gelados em Champagne e avivados d'um fio +d'ether! <br /> + +<br /> + +―E eu comi dos teus morangos, Jacintho! Miseraveis, tu e eu! <br /> + +<br /> + +Elle murmurou, desolado: <br /> + +<br /> + +―É horrivel, comemos d'esses morangos... E talvez por uma +illusão! <br /> + +<br /> + +Pensativamente deixou a borda do terraço, como se a +presença da Cidade, estendida na planicie, fosse +escandalosa. E +caminhamos devagar, sob a molleza cinzenta da tarde, +philosophando―considerando que para esta iniquidade não +havia +cura humana, trazida pelo +esforço humano. Ah, os Ephrains, os Trèves, os +vorazes e +sombrios +tubarões do mar humano, só abandonarão +ou +affrouxarão a +exploração das Plebes, se uma influencia celeste, +por +milagre novo, mais alto que os milagres velhos, lhes converter as +almas! <span class="pagenum">[129]</span>O +burguez triumpha, muito forte, todo endurecido no +peccado―e contra elle são impotentes os prantos dos +Humanitarios, os raciocinios dos Logicos, as bombas dos Anarchistas. +Para amollecer +tão duro granito só uma doçura divina. +Eis pois +esperança da terra novamente posta n'um Messias!... Um +decerto +desceu outrora dos grandes Ceus; e, para mostrar bem que mandado +trazia, penetrou mansamente no mundo pela porta d'um curral. Mas a sua +passagem entre os homens foi +tão curta! Um meigo sermão n'uma montanha, ao fim +d'uma +tarde meiga; uma +reprehensão moderada aos Phariseus que então +redigiam o +<em>Boulevard</em>; algumas vergastadas nos Ephrains +vendilhões; e logo, +através da porta da morte, a fuga radiosa para o Paraiso! +Esse +adoravel filho de Deus teve demasiada pressa em recolher a casa de seu +Pae! E os homens a quem elle +incumbira a continuação da sua obra, envolvidos +logo pelas influencias dos Ephrains, dos Trèves, da gente do +<em>Boulevard</em>, bem depressa esqueceram a +lição da Montanha e do lago de +Tiberiade―e eis que por seu turno revestem a purpura, e são +Bispos, e são +Papas, e se alliam á oppressão, e reinam com +ella, e edificam a +duração do seu Reino sobre a miseria dos +sem-pão e dos sem-lar! Assim tem de ser +recomeçada a obra <span class="pagenum">[130]</span>da +Redempção. Jesus, ou Guatama, ou Christna, ou +outro d'esses filhos que Deus por vezes escolhe no seio d'uma Virgem, +nos quietos vergeis da Asia, deverá novamente descer +á +terra de +servidão. Virá elle, o desejado? Porventura +já +algum grave rei d'Oriente despertou, +e olhou a estrella, e tomou a myrrha nas suas mãos reaes, e +montou +pensativamente sobre o seu dromedario? Já por esses +arredores da +dura +Cidade, de noute, emquanto Caiphaz e Magdalena ceam lagosta no +Paillard, andou um Anjo, attento, n'um vôo lento, escolhendo +um +curral? Já +de longe, sem moço que os tanja, na gostosa pressa d'um +divino +encontro, vem trotando a vacca, +trotando o burrinho? <br /> + +<br /> + +―Tu sabes, Jacintho? <br /> + +<br /> + +Não, Jacintho não sabia―e queria accender o +charuto. Forneci um phosphoro ao meu Principe. Ainda rondamos no +terraço, +espalhando pelo ar outras idéas solidas que no ar se +desfaziam. +Depois +penetravamos na Basilica―quando um Sachristão nedio, de +barrete +de velludo, +cerrou fortemente a porta, e um Padre passou, enterrando na algibeira, +com um cançado gesto final e como para sempre, o seu velho +Breviario. <br /> + +<br /> + +―Estou com uma sêde, Jacintho... Foi esta tremenda +Philosophia! <br /> + +<br /> + +Descemos a escadaria, armada em arraial <span class="pagenum">[131]</span>devoto. +O meu pensativo +camarada comprou uma imagem da Basilica. E saltavamos para a vittoria, +quando alguem gritou rijamente, n'uma surpreza: <br /> + +<br /> + +―Eh Jacintho! <br /> + +<br /> + +O meu Principe abriu os braços, tambem espantado: <br /> + +<br /> + +―Eh Mauricio! <br /> + +<br /> + +E, n'um alvoroço, atravessou a rua, para um café, +onde, sob o toldo de riscadinho, um robusto homem, de barba em bico, +remexia o seu absintho, +com o chapéo de palha descahido na nuca, a quinzena solta +sobre a camisa de sêda, sem gravata, como se +descançasse n'um +banco, entre as sombras do seu jardim. <br /> + +<br /> + +E ambos, apertando as mãos, se admiravam d'aquelle encontro, +n'um domingo de verão, sobre as alturas de Montmartre. <br /> + +<br /> + +―Oh! eu estou aqui no meu bairro! exclamava alegremente Mauricio. Em +familia, em chinellos... Ha tres mezes que subi para estes cimos da +Verdade... Mas tu na Santa Colina, homem profano da planicie e das ruas +d'Israel! <br /> + +<br /> + +O meu Principe mostrou o seu Zé Fernandes: <br /> + +<br /> + +―Com este amigo, em peregrinação á +Basilica... <span class="pagenum">[132]</span>O meu +amigo Fernandes Lorena... Mauricio de Mayolle, velho camarada. <br /> + +<br /> + +Mr. de Mayolle (que, pela face larga e nariz nobremente grosso, +lembrava Francisco de Valois, Rei de França) ergueu o seu +chapeu de +palha. E empurrava uma cadeira, insistia que nos accommodassemos para +um +absintho ou para um bock. <br /> + +<br /> + +―Toma um bock, Zé Fernandes! lembrou Jacintho. Tu estavas a +ganir com sêde! <br /> + +<br /> + +Corri lentamente a lingua sobre os beiços, mais +sêcos que pergaminhos: <br /> + +<br /> + +―Estou a guardar esta sêdesinha para logo, para o jantar, +com um vinhosinho gelado! <br /> + +<br /> + +Mauricio saudou, com silenciosa admiração, esta +minha avisada malicia. E immediatamente, para o meu Principe: <br /> + +<br /> + +―Ha tres annos que te não vejo, Jacintho... Como tem sido +possivel, n'este Paris que é uma aldeola e que tu +atravancas? <br /> + +<br /> + +―A vida, Mauricio, a espalhada vida... Com effeito! Ha tres annos, +desde a casa dos Lamotte-Orcel. Tu ainda visitas esse santuario? <br /> + +<br /> + +Mauricio atirou um gesto desdenhoso e largo, que sacudia um mundo: <br /> + +<br /> + +―Oh! Ha mais d'um anno que me separei d'essa bicharia heretica... Uma +turba indisciplinada, meu Jacintho! Nenhuma fixidez, um dilletantismo +estonteado, carencia completa e <span class="pagenum">[133]</span>comica +de toda a base experimental... Quando tu ias aos Lamotte-Orcel, e +á Parola do 37, e +á <em>Cerveja ideal</em>, o que reinava?... <br /> + +<br /> + +Jacintho catou lentamente as suas recordações por +entre os pêllos do bigode: <br /> + +<br /> + +―Eu sei!... Reinava Wagner e a Mithologia Eddica, e o Raganarock, e as +Nornas... Muito Pre-Raphaelismo tambem, e Montagna, e Fra-Angelico... +Em moral, o Renanismo. <br /> + +<br /> + +Mauricio sacudia os hombros. Oh, tudo isso pertencia a um passado +archaico, quasi lacustre! Quando Madame de Lamotte-Orcel +remobilára a sala com velludos Morris, grossas alcachofras +sobre tons +d'açafrão, já o Renanismo +passára, tão esquecido como o +Cartesianismo... <br /> + +<br /> + +―Tu ainda és do tempo do culto do +<em>Eu</em>? <br /> + +<br /> + +O meu Principe suspirou risonhamente: <br /> + +<br /> + +―Ainda o cultivei. <br /> + +<br /> + +―Pois bem! Logo depois foi o Hartmanismo, o Inconsciente. Depois o +Nietzismo, o Feudalismo espiritual... Depois grassou o +Tolstoïsmo, um furor immenso de renunciamento neo-cenobitico. +Ainda me lembro d'um jantar em que appareceu um mostrengo d'um slavo, +de guedelha sordida, que atirava olhos medonhos para o decote da pobre +condessa d'Arche, e que grunhia com o dedo +espetado:―«Busquemos +a luz, muito por +baixo, no pó <span class="pagenum">[134]</span>da +terra!»―E á sobremeza bebemos +á delicia da humildade e do trabalho servil, com aquelle +Champagne Marceaux granitado que a +Mathilde dava nos grandes dias em copos da fórma do +San-Gral! +Depois +veio Emersonismo... Mas a praga cruel foi Ibsenismo! Emfim, meu filho, +uma Babel de Ethicas e Estheticas. Paris parecia demente. Já +havia uns desgarrados que tendiam para o Luciferismo. E amiguinhas +nossas, coitadas, iam descambando para o Phallismo, uma moxinifada +mystico-brejeira, prégada por aquelle pobre La Carte que +depois se fez Monge Branco, e que anda no Deserto... Um horror! E uma +tarde, de repente, toda esta massa se precipita com ancia para o +Ruskinismo! <br /> + +<br /> + +Eu, agarrado á bengala, bem fincada no chão, +sentia como um vendaval que redemoinhava, me torcia o craneo! E +até Jacintho balbuciou, +esgazeado: <br /> + +<br /> + +―O Ruskinismo? <br /> + +<br /> + +―Sim, o velho Ruskin,... John Ruskin! <br /> + +<br /> + +O meu ditoso Principe comprehendeu: <br /> + +<br /> + +―Ah, Ruskin!... <em>As sete lampadas da +Architectura</em>, <em>A Corôa de +Oliveira Brava</em>... É o culto da Belleza. <br /> + +<br /> + +―Sim! O culto da Belleza, confirmou Mauricio. Mas a esse tempo eu, +enojado, já descera <span class="pagenum">[135]</span>de +todas essas nuvens vãs... +Pisava um chão mais seguro, mais fertil. <br /> + +<br /> + +Deu um sorvo lento ao absintho, cerrando as palpebras. Jacintho +esperava, com o seu fino nariz dilatado, como para respirar a +Flôr de Novidade que ia desabrochar: <br /> + +<br /> + +―E então? então?... <br /> + +<br /> + +Mas o outro murmurou, dispersamente, por entre reticencias em que se +velava: <br /> + +<br /> + +―Vim para Montmartre... Tenho aqui um amigo, um homem de genio, que +percorreu toda a India... Viveu com os Toddas, esteve nos mosteiros de +Garma-Khian e de Dashi-Lumbo, e estudou com Gegen-Chutu no retiro santo +de Urga... Gegen-Chutu foi a decima-sexta +encarnação de Guatama, e era portanto um +Boddi-sattva... +Trabalhamos, procuramos... Não +são visões. Mas factos, experiencias bem antigas, +que vem +talvez desde os tempos de +Christna... <br /> + +<br /> + +Através d'estes nomes, que exhalavam um perfume triste de +vetustos ritos, arredára a cadeira. E de pé, +deixando +cair +sobre a mesa, distrahidamente, para pagar o absintho, moedas de prata e +moedas de cobre, murmurava com os olhos descançados em +Jacintho, +mas +perdidos n'outra visão: <br /> + +<br /> + +―Por fim tudo se reduz ao supremo desenvolvimento da Vontade dentro da +suprema <span class="pagenum">[136]</span>pureza +da Vida. É toda a sciencia e força +dos grandes mestres Hindus... Mas a pureza absoluta da vida, eis a +lucta, eis o obstaculo! Não basta mesmo o Deserto, nem o +bosque +do mais velho templo +no alto Thibet... Ainda assim, meu Jacintho, já obtivemos +resultados +bem extranhos. Sabes as experiencias de Tyndall, com as chammas +sensitivas... O pobre chimico, para demonstrar as +vibrações do som, tocou quasi ás +portas da verdade +isoterica. Mas +què! homem de sciencia, portanto homem d'estupidez, ficou +áquem, entre as suas +placas e as suas retortas! Nós fômos +além. +Verificámos as +<em>ondulações da +Vontade</em>! Deante de nós, +pela expansão da energia do meu +companheiro, e em cadencia com o seu mandado, uma chamma, a tres +metros, ondulou, rastejou, despediu linguas ardentes, lambeu uma alta +parede, rugiu furiosa e negra, resplandeceu direita e silenciosa, e +bruscamente abatida em cinza morreu! <br /> + +<br /> + +E o extranho homem, com o chapeu para a nuca, ficou immovel, de +braços abertos e os olhares esgazeados, como no renovado +assombro e no transe d'aquelle prodigio. Depois, recahindo no seu modo +facil e sereno, accendendo de vagar um cigarro: <br /> + +<br /> + +―Uma d'estas manhãs, Jacintho, appareço no 202, +para almoçar comtigo, e levo o meu <span class="pagenum">[137]</span>amigo. +Elle só come arrôz, uma pouca de +salada, e fructa. E conversamos... Tu tinhas um exemplar do +<em>Sepher-Zerijah</em> e outro do <em>Targum +d'Onkelus</em>. Preciso folhear +esses livros. <br /> + +<br /> + +Apertou a mão do meu Principe, saudou este assombrado +Zé Fernandes, e serenamente seguiu pela quieta rua, com o +chapeu +de palha para a nuca, as mãos enterradas nas algibeiras, +como um +homem natural +entre cousas naturaes. <br /> + +<br /> + +―Oh Jacintho! Quem é este bruxo? Conta!... Quem +é elle, santissimo nome de Deus? <br /> + +<br /> + +Recostado na vittoria, ageitando o vinco das calças, o meu +Principe contou, concisamente. Era um nobre e leal rapaz, muito rico, +muito intelligente, da antiga casa soberana de Mayolle, descendente dos +Duques de Septimania... E murmurou, através do costumado +bocejo: +<br /> + +<br /> + +―O desenvolvimento supremo da vontade!... Theosophia, Buddhismo +isoterico... Aspirações, +decepções... Já experimentei... Uma +massada! <br /> + +<br /> + +Atravessamos, callados, o rumôr de Paris, sob a molleza +abafada do crepusculo de verão, para jantar no Bosque, no +Pavilhão d'Armenonville, onde os Tziganes, avistando +Jacintho, tocaram o <em>Hymno +da Carta</em> com paixão, <span class="pagenum">[138]</span>com +langor, n'uma cadencia de +<em>czarda</em> dolorosa e aspera. <br /> + +<br /> + +E eu, desdobrando regaladamente o guardanapo: <br /> + +<br /> + +―Pois venha agora para a minha rica sêde esse vinhosinho +gelado! Grandemente o mereço, caramba, que superiormente +philosophei!... E creio que estabeleci definitivamente no espirito do +Snr. D. Jacintho o +salutar horror da cidade! <br /> + +<br /> + +O meu Principe percorria, catando o bigode, a Lista-dos-Vinhos, em +quanto o Copeiro, esperava com pensativa reverencia: <br /> + +<br /> + +―Mande gelar duas garrafas de champagne S.<sup>t</sup> +Marceaux... Mas antes, um +Barsac velho, apenas refrescado... Agoa de Evian... Não, de +Bussang! Bem, d'Evian e de Bussang! E, para começar, um +bock. <br /> + +<br /> + +Depois, bocejando, desabotoando lentamente a sobrecasaca cinzenta: <br /> + +<br /> + +―Pois estou com vontade de construir uma casa nos cimos de Montmartre, +com um miradouro no alto, todo de vidro e ferro, para +descançar de tarde e dominar a Cidade... <br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h2>VII</h2> + +<br /> + +<br /> + +Julho findára com uma chuva refrescante e consoladora:―e eu +pensava em realisar finalmente a minha romagem ás cidades da +Europa, +sempre retardada, através da primavera, pelas surprezas do +Mundo +e +da Carne. Mas, de repente, Jacintho começou a rogar e a +reclamar +que o +seu Zé Fernandes o acompanhasse, todas as tardes, a casa de +Madame d'Oriol! E eu comprehendi que o meu Principe (á +maneira +do divino +Achilles, que, sob a tenda, e junto da branca, insipida e docil +Briseis, nunca dispensava Patoclo) desejava ter, no retiro do Amor, a +presença, o confôrto e o soccorro da Amizade. +Pobre +Jacintho! Logo pela +manhã combinava pelo telephone com Madame d'Oriol essa hora +de +quietação e doçura. E assim +encontravamos sempre a +superfina Dama +prevenida e solitaria n'aquella sala da rua de Lisbonne, onde Jacintho +e eu mal <span class="pagenum">[140]</span>cabiamos, +suffocavamos na confusão, entre os cestos de +flôres, e os ouros rocalhados, e os monstros do +Japão, e a +galante +fragilidade dos Saxes, e as pelles de feras estiradas aos +pés de +sophás adormecedores, e os biombos de Aubusson formando +alcôvas favoraveis e +languidas... Aninhada n'uma cadeira de bambú lacada de +branco, +entre +almofadas aromatisadas de verbena da India, com um romance pousado no +regaço, ella esperava o seu amigo, n'uma certa indolencia +passiva e mansa que me lembrava sempre o Oriente e um Harem. Mas, pelas +frescas sedinhas Pompadour, parecia tambem uma marquezinha de Versalhes +cançada do grande seculo; ou então, com brocados +sombrios +e largos cintos +cravejados, era como uma veneziana, preparada para um Doge. A minha +intrusão, na intimidade d'aquellas tardes, não a +contrariava―antes lhe +trazia um vassallo novo, com dous olhos novos para a contemplar. Eu era +já o seu <em>cher Fernandez!</em> <br /> + +<br /> + +E apenas descerrava os labios avivados de vermelho, semelhantes a uma +ferida fresca, e começava a chalrar―logo nos envolvia o +burburinho e a murmuração de Paris. Ella +só sabia +chalrar sobre a sua pessoa que era o resumo da sua Classe, e sobre a +sua existencia que era o resumo do seu Paris:―e a sua existencia, <span class="pagenum">[141]</span>desde +casada, consistira em ornar com suprema sciencia o seu lindo corpo; +entrar com +perfeição n'uma sala e irradiar; remexer em +estofos e +conferenciar pensativamente com o grande +costureiro; rolar pelo Bois pousada na sua vittoria como uma imagem de +cêra; decotar e branquear o collo; debicar uma perna de +gallinhola em mezas de luxo; fender turbas ricas em bailes espessos; +adormecer com a vaidade esfalfada; percorrer de manhã, +tomando +chocolate, os +«Echos» e as «Festas» do +<em>Figaro</em>; e de vez em quando murmurar +para o marido―«Ah, és tu?...» +Além d'isso, +ao lusco-fusco, +n'um sophá, alguns certos suspiros, entre os +braços +d'alguem a quem era constante. Ao +meu Principe, n'esse anno, pertencia o sophá. E todos estes +deveres de Cidade e de Casta os cumpria sorrindo. Tanto sorrira, desde +casada, que +já duas prégas lhe vincavam os cantos dos +beiços, indelevelmente. Mas nem na alma, nem na pelle, +mostrava +outras maculas de fadiga. A sua Agenda de Visitas continha mil e +tresentos nomes, todos do Nobiliario. Através, +porém, +desta fulgurante sociabilidade +arranjára no cerebro (onde de certo penetrára o +pó +d'arroz que desde o +collegio acamava na testa) algumas Idéas Geraes. Em Politica +era +pelos +Principes; e todos os outros «horrores», a +Republica, o +Socialismo, <span class="pagenum">[142]</span>a +Democracia que se não lava, os sacudia risonhamente, com um +bater de leque. Na Semana Santa juntava ás rendas do chapeu +a +Corôa amarga de +espinhos―por serem esses, para a gente bem-nascida, dias de penitencia +e dôr. E, deante +de todo o Livro ou de todo o Quadro, sentia a +emoção e +formulava finamente o juizo, que no seu Mundo, e n'essa Semana, +fôsse elegante +formular e sentir. Tinha trinta annos. Nunca se +embaraçára +nos tormentos d'uma paixão. Marcava, com rigida +regularidade, +todas as suas +despezas n'um Livro de Contas encadernado em pellucia verde-mar. A sua +religião intíma (e mais genuina do que a outra, +que a +levava todos os domingos +á missa de S. Philippe du Roule) era a Ordem. No inverno, +logo +que na amavel cidade começavam a morrer de frio, debaixo das +pontes, +creancinhas sem abrigo―ella preparava com commovido cuidado os seus +vestidos de patinagem. E preparava tambem os de Caridade―porque era +boa, e concorria para Bazares, Concertos e Tombolas, quando fossem +patrocinados pelas Duquezas do seu «rancho». +Depois, na +primavera, muito methodicamente, regateando, vendia a uma adela os +vestidos e as capas +de inverno. Paris admirava n'ella uma suprema flôr de +Parisianismo. <br /> + +<br /> + +Pois respirando esta macia e fina flôr passamos +<span class="pagenum">[143]</span>nós as +tardes d'esse julho em +quanto as outras flôres pendiam e murchavam na calma +e no pó. Mas, na intimidade do seu perfume, Jacintho +não +parecia +encontrar esse contentamento d'alma, que entre tudo que +cança +jámais cança. Era já com a paciente +lentidão com que se sobem todos os Calvarios, os +mais bem tapetados, que elle subia a escadaria de Madame d'Oriol, +tão +suave e orlada de tão frescas palmeiras. Quando a appetitosa +creatura, com dedicação, para o entreter, +desdobrava a +sua +vivacidade como um pavão desdobra a cauda, o meu pobre +Principe +puxava os pêllos do +bigode murcho, na murcha postura de quem, por uma manhã de +Maio, +em +quanto os melros cantam nas sebes, assiste, n'uma egreja negra, a um +responso funebre por um Principe. E no beijo que elle chuchurreava +sobre a +mão da sua dôce amiga, para se despedir, havia +sempre +alacridade e +allivio. <br /> + +<br /> + +Mas ao outro dia, ao começar da tarde, depois de errar +através da Bibliotheca e do Gabinete, puxando sem +curiosidade a +tira do +telegrapho, atirando algum recado molle pelo telephone, espalhando o +olhar desalentado sobre o saber immenso dos trinta mil livros, +remexendo a collina dos Jornaes e Revistas, terminava por me chamar, +já +com a preguiça triste da façanha a que se +impellia: <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[144]</span> +―Vamos a casa de Madame d'Oriol, Zé Fernandes? Eu tinha +marcadas para hoje seis ou sete coisas, mas não posso, +é uma +secca! Vamos a casa de Madame d'Oriol... Ao menos lá, +ás vezes, ha um +bocado de frescura e paz. <br /> + +<br /> + +E foi n'uma d'essas tardes, em que o meu Principe assim procurava +desesperadamente um «bocado de frescura e paz», que +encontramos, ao meio da escadaria suave, entre as palmeiras, o marido +de Madame d'Oriol. Eu já o conhecia―porque Jacintho m'o +mostrára uma +noite, no Grand Café, ceiando com dançarinas do <em>Moulin +Rouge</em>. Era um moço gordalhufo, indolente, de uma +brancura crúa de toucinho, com uma calvice +já séria e já lustrosa, constantemente +acariciada pelos seus gordos +dedos carregados de anneis. N'essa tarde, porém, vinha +vermelho, +todo emocionado, calçando as luvas com colera. Estacou +diante de +Jacintho―e sem mesmo lhe apertar a mão, atirando um gesto +para o +patamar: <br /> + +<br /> + +―Visita lá acima? Vai achar a Joanna em pessima +disposição... Tivemos uma scena, e tremenda. <br /> + +<br /> + +Deu outro puxão desesperado á luva côr +de palha, já esgaçada: <br /> + +<br /> + +―Estamos separados, cada um vive como lhe appetece, é +excellente! Mas em tudo ha <span class="pagenum">[145]</span>medida +e fórma... Ella tem o meu nome, +não posso consentir que em Paris, com conhecimento de todo o +Paris, seja a amante do trintanario. Amantes na nossa roda, +vá! +Um lacaio, +não!... Se quer dormir com os creados que emigre para o +fundo da +provincia, para a sua casa de Corbelle. E lá até +com os +animaes!... Foi +o que eu lhe disse! Ficou como uma fera. <br /> + +<br /> + +Sacudiu então a mão do Jacintho que +«era da sua roda»―rebolou pela escadaria florida e +nobre. O meu Principe, immovel nos degraus, de face +pendida, cofiava lentamente os fios pendidos do bigode. Depois, olhando +para mim, como um sèr saturado de tedio e em quem nenhum +tedio novo póde caber: <br /> + +<br /> + +―Já agora subamos, sim? <br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="break"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Parti então, com muita alegria, para a minha appetecida +romagem ás Cidades da Europa. <br /> + +<br /> + +Ia viajar!... Viajei. Trinta e quatro vezes, á pressa, +bufando, com todo o sangue na face, desfiz e refiz a mala. Onze vezes +passei o dia n'um wagon, envolto em poeirada e fumo, suffocado, a +arquejar, a escorrer de +suor, saltando em cada estação para sorver +desesperadamente limonadas mornas que me escangalhavam <span class="pagenum">[146]</span>a +entranha. Quatorze vezes subi derreadamente, atraz de um creado, a +escadaria desconhecida d'um Hotel; +e espalhei o olhar incerto por um quarto desconhecido; e estranhei uma +cama desconhecida, d'onde me erguia, estremunhado, para pedir em +linguas desconhecidas um café com leite que me sabia a fava, +um +banho de tina que me cheirava a lôdo. Oito vezes travei +bulhas +abominaveis +na rua com cocheiros que me espoliavam. Perdi uma chapelleira, quinze +lenços, tres ceroulas, e duas botas, uma branca, outra +envernizada, ambas do +pé direito. Em mais de trinta mezas-redondas esperei +tristonhamente que me +chegasse o <em>boeuf-a-la-mode</em>, +já frio, com môlho coalhado―e que o copeiro me +trouxesse a garrafa de Bordeus que eu provava e repellia com +desditosa carantonha. Percorri, na fresca penumbra dos granitos e dos +marmores, com pé respeitoso e abafado, vinte e nove +Cathedraes. Trilhei mollemente, com uma dôr surda na nuca, em +quatorze muzeus, +cento e quarenta salas revestidas até aos tectos de +Christos, +heroes, santos, nymphas, princezas, batalhas, architecturas, verduras, +nudezes, +sombrias manchas de betume, tristezas das formas immoveis!... E o dia +mais +dôce foi quando em Veneza, onde chovia desabaladamente, +encontrei um velho <span class="pagenum">[147]</span> +inglez de penca flammejante que habitára o Porto, +conhecêra o Ricardo, o José Duarte, o Visconde do +Bom Successo, e as Limas da Boa +Vista... Gastei seis mil francos. Tinha viajado. <br /> + +<br /> + +Emfim, n'uma bemdita manhã d'outubro, na primeira friagem e +nevoa d'outomno, avistei com enternecido alvoroço as +cortinas de +seda ainda fechadas do meu 202! Affaguei o hombro do Porteiro. No +patamar, onde encontrei o ar macio e tepido que deixára em +Florença, apertei os ossos do Grillo excellente: <br /> + +<br /> + +―E Jacintho? <br /> + +<br /> + +O digno negro murmurou, d'entre os altos, reluzentes collarinhos: <br /> + +<br /> + +―S. Exc.<sup>a</sup> circula... Pesadote, fartote. Entrou tarde do baile +da +Duqueza de Loches. Era o contracto de casamento de Mademoiselle de +Loches... Ainda tomou antes de se deitar um chá gelado... E +disse a coçar a cabeça: «Eh! que +massada! Eh! +que massada!» <br /> + +<br /> + +Depois do banho e do chocolate, ás dez horas, consolado e +quentinho dentro do roupão de velludo, rompi pelo quarto do +meu +Principe, de braços abertos e sedentos: <br /> + +<br /> + +―Oh Jacintho! <br /> + +<br /> + +―Oh viajante!... <br /> + +<br /> + +Quando nos estreitamos, fartamente, eu recuei para lhe contemplar a +face―e n'ella a <span class="pagenum">[148]</span>alma. +Encolhido n'uma quinzena de panno côr +de malva orlada de pelles de martha, com os pellos do bigode murchos, +as suas duas rugas mais cavadas, uma molleza nos hombros largos, o meu +amigo parecia já vergado sob o pezo e a oppressão +e o +terror do seu dia. Eu sorri, para que elle sorrisse: <br /> + +<br /> + +―Valente Jacintho... Então como tens vivido? <br /> + +<br /> + +Elle respondeu, muito serenamente: <br /> + +<br /> + +―Como um morto. <br /> + +<br /> + +Forcei uma gargalhada leve, como se o seu mal fôsse leve: <br /> + +<br /> + +―Aborrecidote, hein? <br /> + +<br /> + +O meu Principe lançou, n'um gesto tão vencido, um +<em>oh</em> tão cansado―que eu compadecido de +novo o abracei, o estreitei, como para lhe communicar +uma parte d'esta alegria solida e pura que recebi do meu Deus! <br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="break"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Desde essa manhã, Jacintho começou a mostrar +claramente, escancaradamente, ao seu Zé Fernandes, o +tédio de +que a existencia o saturava. O seu cuidado realmente e o seu +esfôrço +consistiram então em sondar e formular esse +tédio―na esperança de o +vencer logo que lhe conhecesse bem a origem e a potencia. <span class="pagenum">[149]</span>E +o meu pobre Jacintho reproduziu +a comedia pouco divertida d'um Melancolico que perpetuamente raciocina +a sua Melancolia! N'esse raciocinío, elle partia sempre do +facto irrecusavel e massiço―que a sua vida especial de +Jacintho +continha todos os interesses e todas as facilidades, possiveis no +seculo XIX, n'uma vida de homem que não é um +Genio, nem +um +Santo. Com effeito! Apezar do appetite embotado por doze annos de +Champagnes e +môlhos ricos elle conservava a sua rijeza de pinheiro bravo; +na +luz da sua intelligencia não apparecêra nem tremor +nem +morrão; a boa terra de Portugal, e algumas Companhias +macissas, +pontualmente lhe forneciam a sua doce centena de contos; sempre activas +e sempre fieis o cercavam as +sympathias d'uma Cidade inconstante e chasqueadora; o 202 estourava de +confôrtos; nenhuma amargura de coração +o atormentava;―e todavia era um Triste. Porque?... E d'aqui saltava, +com certeza fulgurante, +á conclusão de que a sua tristeza, esse cinzento +burel em +que a sua alma andava amortalhada, não provinham da sua +individualidade de +Jacintho―mas da Vida, do lamentavel, do desastroso facto de Viver! E +assim o saudavel, intellectual, riquissimo, bem-acolhido Jacintho +tombára no +Pessimismo. <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[150]</span>E um Pessimismo +irritado! Porque +(segundo affirmava) elle nascera para ser tão naturalmente +optimista como um pardal ou um gato. E, +até aos doze annos, emquanto fôra um bicho +superiormente +amimado, com +a sua pelle sempre bem coberta, o seu prato sempre bem cheio, nunca +sentira fadiga, ou melancolia, ou contrariedade, ou pena―e as lagrimas +eram para elle tão incomprehensiveis que lhe pareciam +viciosas. +Só quando crescêra, e da animalidade +penetrára na +humanidade, despontára n'elle esse fermento de tristeza, +muito +tempo indesenvolvido no tumulto das primeiras curiosidades, e que +depois alastrára, o invadira +todo, se lhe tornára consubstancial e como o sangue das suas +veias. +Soffrer portanto era inseparavel de Viver. Soffrimentos differentes nos +destinos differentes da Vida. Na turba dos humanos é a +angustiada +lucta pelo pão, pelo tecto, pelo lume; n'uma casta, agitada +por +necessidades mais +altas, é a amargura das desillusões, o mal da +imaginação insatisfeita, o orgulho chocando +contra +obstaculo; n'elle, que tinha os bens todos e desejos nenhuns, era o +tédio. Miseria do Corpo, tormento da +Vontade, fastio da Intelligencia―eis a Vida! E agora aos trinta e tres +annos a sua occupação era bocejar, correr com <span class="pagenum">[151]</span>os dedos +desalentados a face pendida para n'ella palpar e appetecer a caveira. <br /> + +<br /> + +Foi então que o meu Principe começou a ler +apaixonadamente, desde o <em>Ecclesiastes</em> +até +Schopenhauer, todos os lyricos e todos os theoricos do Pessimismo. +N'estas leituras encontrava a reconfortante +comprovação de que o seu mal não era +mesquinhamente +«Jacinthico»―mas grandiosamente resultante d'uma +Lei +Universal. Já ha quatro mil annos, na +remota Jerusalém, a Vida, mesmo nas suas delicias mais +triumphaes, +se resumia em Illusão. Já o Rei incomparavel, de +sapiencia +divina, summo Vencedor, summo Edificador, se enfastiava, bocejava, +entre os despojos das suas conquistas, e os marmores novos dos seus +Templos, e as suas tres mil concubinas, e as Rainhas que subiam do +fundo da Ethiopia para que elle as fecundasse e no seu ventre +depozésse um Deus! +Não ha nada novo sob o sol, e a eterna +repetição +das coisas é +a eterna repetição dos males. Quanto mais se sabe +mais se +pena. E o justo como o perverso, nascidos +do pó, em pó se tornam. Tudo tende ao +pó +ephemero, em Jerusalém e em Paris! E elle, obscuro no 202, +padecia por ser homem e por viver―como no seu throno d'ouro, entre os +seus quatro leões d'ouro, o filho +magnifico de David. <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[152]</span> +Não se separava então do +<em>Ecclesiastes</em>. E circulava por Paris +trazendo dentro do coupé Salomão, como +irmão de +dôr, com quem repetia o grito desolado que é a +summa da verdade +humana―<em>Vanitas Vanitatum!</em> +Tudo +é Vaidade! Outras vezes, logo de manhã o +encontrava +estendido +no sophá, n'um roupão de sêda, +absorvendo +Schopenhauer―emquanto o pedicuro, ajoelhado sobre o tapete, lhe polia +com respeito e pericia as unhas dos +pés. Ao lado pousava a chavena de Saxe, cheia d'esse +café de Moka enviado por emires do Deserto, que +não o +contentava nunca, +nem pela força, nem pelo aroma. A espaços pousava +o livro +no peito, resvalava um olhar compassivo para o pedicuro, como a +procurar que dôr o torturaria―pois que a todo o viver +corresponde um soffrer. Decerto o remexer assim, perpetuamente, em +pés alheios... E quando o +pedicuro se erguia, Jacintho abria para elle um sorriso de +confraternidade―com um «adeus, meu amigo» que era +«um adeus, meu +irmão!» <br /> + +<br /> + +Esse foi o periodo esplendido e soberbamente divertido do seu +tédio. Jacintho encontrára emfim na vida uma +occupação grata―maldizer a Vida! E para que a +podésse maldizer em todas as suas +fórmas, as mais ricas, as mais intellectuaes, as mais puras, +sobrecarregou <span class="pagenum">[153]</span>a +sua vida propria de novo luxo, de interesses novos d'espirito, e +até de fervores +humanitarios, e até de curiosidades supernaturaes. <br /> + +<br /> + +O 202, n'esse inverno, refulgiu de magnificencia. Foi então +que elle iniciou em Paris, repetindo Heliogabalo, os Festins de +Côr +contados na Historia Augusta: e offereceu ás suas amigas +esse +sublime +jantar côr de rosa, em que tudo era roseo, as paredes, os +moveis, +as luzes, as +louças, os crystaes, os gelados, os Champagnes, e +até +(por uma +invenção da Alta-Cozinha) os peixes, e as carnes, +e os +legumes, que os escudeiros serviam, empoados de pó rosado, +com +librés da +côr da rosa, em quanto do tecto, d'um velario de seda rosada, +cahiam petalas frescas de rosas... +A Cidade, deslumbrada, clamou―«Bravo, Jacintho!» E +o +meu Principe, ao rematar a festa fulgurante, plantou deante de mim as +mãos +nas ilhargas e gritou triumphalmente:―«Hein? Que +massada!...» <br /> + +<br /> + +Depois foi o Humanitarismo: e fundou um Hospicio no campo, entre +jardins, para velhinhos desamparados, outro para creanças +debeis á beira do Mediterraneo. Depois com o major Dorchas, +e +Mayolle, e o +Hindù de Mayolle penetrou no Theosophismo: e montou +tremendas +experiencias para verificar a mysteriosa +<span class="pagenum">[154]</span><em>exteriorisação +da +motilidade</em>. Depois, desesperadamente, ligou o 202 com os +fios telegraphicos do +<em>Times</em>, para que no seu gabinete, como n'um +coração, +palpitasse toda a vida Social da Europa. <br /> + +<br /> + +E a cada um d'estes esforços da elegancia, do humanitarismo, +da sociabilidade, e da intelligencia indagadora, voltava para mim, de +braços alegres, com um grito +victorioso:―«Vês tu, Zé Fernandes? Uma +massada!»―Arrebatava então o seu +<em>Ecclesiastes</em>, o seu Schopenhauer, +e, estendido no sophá, saboreava voluptuosamente a +concordancia +da Doutrina e da Experiencia. Possuia uma Fé―o Pessimismo: +era um +apostolo rico e esforçado: e tudo tentava, com +sumptuosidade, para provar a +verdade da sua Fé! Muito gozou n'esse anno o meu +desgraçado +Principe! <br /> + +<br /> + +No começo do inverno, porém, notei com +inquietação que Jacintho já +não folheava o <em>Ecclesiastes</em>, +desleixava +Schopenhauer. Nem festas, nem Theosophismos, nem os seus Hospicios, nem +os fios do +<em>Times</em>, pareciam interessar agora o meu amigo, +mesmo como +demonstrações gloriosas da sua Crença. +E a sua +abominavel funcção de +novo se limitou a bocejar, a passar os dedos molles sobre a face +pendida palpando a caveira. Incessantemente alludia á morte +como +a uma +libertação. Uma <span class="pagenum">[155]</span>tarde +mesmo, no melancolico crepusculo da Bibliotheca, antes de refulgirem as +luzes, +consideravelmente me aterrou, fallando n'um tom regelado de mortes +rapidas, sem dôr, pelo choque d'uma vasta pilha electrica ou +pela violencia compassiva do acido cyanidrico. Diabo! O Pessimismo, que +apparecera na Intelligencia do meu Principe como um conceito +elegante―atacára bruscamente a Vontade! <br /> + +<br /> + +Todo o seu movimento então foi o d'um boi inconsciente que +marcha sob a canga e o aguilhão. Já +não esperava +da +Vida contentamento―nem mesmo se lastimava que ella lhe trouxesse +tédio ou pena. +«Tudo é indifferente, Zé +Fernandes!» E +tão indifferentemente sahiria +á sua janella para receber uma Corôa Imperial +offerecida +por um Povo―como se estenderia +n'uma poltrona rôta para emmudecer e jazer. Sendo tudo +inutil, e +não conduzindo senão a maior +desillusão, que podia +importar a mais rutilante actividade ou a mais desgostada inercia? O +seu gesto constante, que me irritava, era encolher os hombros. Perante +duas ideias, dois caminhos, dois pratos, encolhia os hombros! Que +importava?... E no minimo acto, raspar um phosphoro ou desdobrar um +Jornal, punha uma morosidade +tão desconsolada que todo elle parecia ligado, desde os +dedos +até á alma, <span class="pagenum">[156]</span> +pelas voltas apertadas d'uma corda que se não via e que o +travava. <br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="break"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Muito desagradavelmente me recordo do dia dos seus annos, a 10 de +Janeiro. Cêdo, de manhã, recebèra, com +uma carta de Madame de Trèves, um açafate de +camelias, +azaleas, orchideas e lyrios do valle. E +foi este mimo que lhe recordou a data consideravel. Soprou sobre as +petalas o fumo do cigarro e murmurou com um riso de lento escarneo: <br /> + +<br /> + +―Então, ha trinta e quatro annos que eu ando n'esta +massada? <br /> + +<br /> + +E como eu propunha que telephonassemos aos amigos para beberem no 202 o +Champagne do «Natalicio»―elle recusou, com o nariz +enojado. Oh! Não! Que horrivel sécca!... E bradou +mesmo para o Grillo: <br /> + +<br /> + +―Eu hoje não estou em Paris para ninguem. Abalei para o +campo, abalei para Marselha... Morri! <br /> + +<br /> + +E a sua ironia não cessou até ao +almoço perante os bilhetes, os telegrammas, as cartas, que +subiam, se arredondavam em collina sobre a meza d'ebano, como um preito +da Cidade. Outras flôres que +vieram, em vistosos cestos, com vistosos laços, foram por +elle +comparadas ás que se depõe sobre uma tumba. <span class="pagenum">[157]</span>E apenas se interessou um +momento +pelo presente de Ephraim, uma engenhosa meza, que se abaixava +até ao +tapete ou se alteava até ao tecto―para que, senhor Deus +meu? <br /> + +<br /> + +Depois do almoço, como chovia sombriamente, não +arredamos do 202, com os pés estendidos ao lume, em +preguiçoso silencio. +Eu terminára por adormecer beatificamente. Acordei aos +passos açodados do +Grillo... Jacintho, enterrado na poltrona, com umas tesouras, recortava +um papel! +E nunca eu me compadeci d'aquelle amigo, que +cançára a mocidade a accumular todas as +noções formuladas desde +Aristoteles e a juntar todos os inventos realisados desde Tharamenes, +como n'essa tarde de festa, em +que elle, cercado de Civilisação nas maximas +proporções para gozar nas maximas +proporções a delicia de viver, se +encontrava reduzido, junto ao seu lar, a recortar papeis com uma +tesoura! <br /> + +<br /> + +O Grillo trazia um presente do Gran-Duque―uma caixa de prata, forrada +de cedro, e cheia d'um chá precioso, colhido, flôr +a flôr, nas veigas de Kiang-Sou por mãos puras de +virgens, +e conduzido +através da Asia, em caravanas, com a +veneração +d'uma reliquia. +Então, para despertar o nosso torpôr, lembrei que +tomassemos o divino +chá―occupação bem harmonica com a +tarde triste, a +chuva <span class="pagenum">[158]</span>grossa +alagando os vidros, e a clara chamma bailando no fogão. +Jacintho +accedeu―e um escudeiro acercou +logo a meza de Ephraim para que nós lhe estreassemos os +serviços destros. Mas o meu Principe, depois de a altear, +para +meu espanto, até aos +crystaes do lustre, não conseguiu, apezar de uma suada e +desesperada +batalha com as molas, que a meza regressasse a uma altura humana e +cazeira. E o escudeiro de novo a levou, levantada como um andaime, +chimerica, unicamente aproveitavel para o gigante Adamastor. Depois +veio a caixa +do chá entre chaleiras, lampadas, coadores, filtros, todo um +fausto de alfaias de prata, que communicavam a essa +occupação, tão simples e +dôce em caza de minha tia, <em>fazer +chá</em>, a magestade d'um rito. Prevenido pelo +meu camarada da sublimidade d'aquelle chá de Kiang-Sou, +ergui a chavena aos labios com reverencia. Era uma infusão +descorada que +sabia a malva e a formiga. Jacintho provou, cuspiu, blasphemou... +Não +tomamos chá. <br /> + +<br /> + +Ao cabo d'outro pensativo silencio, murmurei, com os olhos perdidos no +lume: <br /> + +<br /> + +―E as obras de Tormes? A egreja... Já haverá +egreja nova? <br /> + +<br /> + +Jacintho retomára o papel e a thesoura: <br /> + +<br /> + +―Não sei... Não tornei a receber carta +<span class="pagenum">[159]</span> +do +Silverio... Nem imagino onde param os ossos... Que lugubre historia! <br /> + +<br /> + +Depois chegou a hora das luzes e do jantar. Eu encommendára +pelo Grillo ao nosso magistral cozinheiro uma larga travessa d'arroz +dôce, com as iniciaes de Jacintho e a data ditosa em canella, +á moda +amavel da nossa meiga terra. E o meu Principe á meza, +percorrendo a lamina +de marfim onde no 202 se inscreviam os pratos a lapis vermelho, louvou +com +fervôr a ideia patriarchal: <br /> + +<br /> + +―Arrôz dôce! Está escripto com dois +<em>ss</em>, mas não tem +dúvida... Excellente lembrança! Ha que tempos +não +cômo arrôz dôce!... Desde a morte da +avó. <br /> + +<br /> + +Mas quando o arrôz dôce appareceu triumphalmente, +que vexâme! Era um prato monumental, de grande arte! O +arrôz, +massiço, moldado em fórma de pyramide do Egypto, +emergia +d'uma calda de cereja, e desapparecia sob +os fructos seccos que o revestiam até ao cimo, onde se +equilibrava uma corôa de Conde feita de chocolate e gomos de +tangerina +gelada! E as iniciaes, a data, tão lindas e graves na +canella +ingenua, +vinham traçadas nas bordas da travessa com violetas +pralinadas! +Repellimos, n'um mudo horror, o prato acanalhado. E Jacintho, erguendo +o copo de Champagne, murmurou como n'um funeral pagão: <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[160]</span> +―<em>Ad Manes</em>, aos nossos mortos! <br /> + +<br /> + +Recolhemos á Bibliotheca, a tomar o café no +conchego e alegria do lume. Fóra, o vento bramava como n'um +êrmo serrano: e as +vidraças tremiam, alagadas, sob as bategas da chuva irada. +Que dolorosa noite para os dez +mil pobres que em Paris erram sem pão e sem lar! Na minha +aldeia, entre cêrro e valle, talvez assim rugisse a tormenta. +Mas ahi cada +pobre, sob o abrigo da sua telha vã, com a sua panella +atestada de +couves, se agacha no seu mantéo ao calor da lareira. E para +os que +não tenham lenha ou couve, lá está o +João das Quintas, +ou a tia Vicencia, ou o abbade, que conhecem todos os pobres pelos seus +nomes, e com elles contam, como +sendo dos seus, quando o carro vae ao matto e a fornada entra no +fôrno. Ah Portugal pequenino, que ainda és +dôce aos +pequeninos! <br /> + +<br /> + +Suspirei, Jacintho preguiçava. E terminamos por remexer +languidamente os jornaes que o mordomo trouxera, n'um monte facundo, +sobre uma salva de prata―jornaes de Paris, jornaes de Londres, +Semanarios, Magazines, Revistas, Illustrações... +Jacintho +desdobrava, +arremessava: das Revistas espreitava o summario, logo farto; +ás +Illustrações rasgava as folhas com o dedo +indifferente, +bocejando <span class="pagenum">[161]</span>por +cima das gravuras. Depois, mais estirado para o lume: <br /> + +<br /> + +―É uma sécca... Não ha que +lêr. <br /> + +<br /> + +E de repente, revoltado contra este fastio oppressor que o escravisava, +saltou da poltrona com um arranque de quem despedaça +algemas, e ficou erecto, dardejando em torno um olhar imperativo e +duro, como se intimasse aquelle seu 202, tão abarrotado de +Civilisação, a que por um momento sequer +fornecesse +á sua alma um interesse vivo, +á sua vida um fugitivo gôsto! Mas o 202 permaneceu +insensivel: nem uma luz, +para o animar, avivou o seu brilho mudo: só as +vidraças +tremeram sob o embate mais rude de agua e vento. <br /> + +<br /> + +Então o meu Principe, succumbido, arrastou os passos +até ao seu gabinete, começou a percorrer todos os +apparelhos +completadores e facilitadores da Vida―o seu Telegrapho, o seu +Telephone, o seu Phonographo, o seu Radiometro, o seu Graphophono, o +seu Microphono, a sua Machina d'Escrever, a sua Machina de Contar, a +sua Imprensa Electrica, a outra Magnetica, todos os seus utensilios, +todos os seus tubos, todos os seus fios... Assim um Supplicante +percorre altares d'onde espera soccorro. E toda a sua sumptuosa +Mechanica <span class="pagenum">[162]</span>se +conservou rigida, reluzindo frigidamente, sem que uma roda girasse, nem +uma +lamina vibrasse, para entreter o seu Senhor. <br /> + +<br /> + +Só o relogio monumental, que marcava a hora de todas as +capitaes e o curso de todos os planetas, se compadeceu, batendo a +meia-noite, annunciando ao meu amigo que mais um Dia partira levando o +seu pêzo―diminuindo esse sombrio pêzo da Vida, sob +que +elle gemia, vergado. O Principe da Gran-Ventura, então, +decidiu +recolher para a +cama―com um livro... E durante um momento, estacou no meio da +Bibliotheca, considerando os seus setenta mil volumes estabelecidos com +pompa e magestade como Doutores n'um Concilio―depois as pilhas +tumultuarias +dos livros novos que esperavam pelos cantos, sobre o tapete, o repouso +e a consagração das estantes d'ebano. Torcendo +mollemente o bigode caminhou por fim para a região dos +Historiadores: espreitou seculos, +farejou raças: pareceu attrahido pelo explendor do Imperio +Byzantino: penetrou na Revolução Franceza d'onde +se +arredou +desencantado: e palpou com mão indeliberada toda a vasta +Grecia +desde a creação +de Athenas até a aniquilação de +Corintho. Mas +bruscamente virou +para a fila dos Poetas, <span class="pagenum">[163]</span> +que reluziam em marroquins claros, mostrando, sobre a lombada, em ouro, +nos titulos fortes ou languidos, o interior das suas almas. +Não appeteceu nenhuma d'essas seis mil almas―e recuou, +desconsolado, +até aos Biologos... Tão massiça e +cerrada era a +estante de Biologia que o meu pobre Jacintho estarreceu, como ante uma +cidadella inaccessivel! Rolou a escada―e, fugindo, trepou, +até +ás +alturas da Astronomia: destacou astros, recollocou mundos: todo um +Systema Solar desabou com fragor. Aturdido, desceu, começou +a +procurar por sobre as +rimas das obras novas, ainda brochadas, nas suas roupas leves de +combate. Apanhava, folheava, arremessava: para desentulhar um volume, +demolia +uma torre de doutrinas: saltava por cima dos Problemas, pisava as +Religiões: e relanceando uma linha, esgravatando +além +n'um indice, +todos interrogava, de todos se desinteressava, rolando quasi de rastos, +nas grossas vagas de tomos que rolavam, sem se poder deter, na ancia de +encontrar um Livro! Parou então no meio da immensa nave, de +cocoras, sem coragem, contemplando aquelles muros todos forrados, +aquelle +chão todo alastrado, os seus setenta mil volumes―e, sem +lhes +provar a +substancia, já absolutamente saciado, abarrotado, nauseado <span class="pagenum">[164]</span>pela +opressão da sua abundancia. Findou por voltar ao +montão de jornaes +amarrotados, ergueu melancholicamente um velho <em>Diario de +Noticias</em>, e com elle debaixo do braço subiu ao +seu quarto, para dormir, para esquecer. <br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h2>VIII</h2> + +<br /> + +<br /> + +Ao fim d'esse inverno escuro e pessimista, uma manhã que eu +preguiçava na cama, sentindo através da +vidraça cheia de sol +ainda pallido um bafo de Primavera ainda timido―Jacintho assomou +á porta do meu +quarto, revestido de flanellas leves, d'uma alvura de +açucena. Parou +lentamente á beira dos colxões, e, com gravidade, +como se +annunciasse o seu casamento ou a sua morte, deixou desabar sobre mim +esta +declaração formidavel: <br /> + +<br /> + +―Zé Fernandes, vou partir para Tormes. <br /> + +<br /> + +O pulo com que me sentei abalou o rijo leito de pau preto do velho D. +Galião: <br /> + +<br /> + +―Para Tormes? Oh Jacintho, quem assassinaste?... <br /> + +<br /> + +Deleitado com a minha emoção, o Principe da Gran +Ventura tirou da algibeira uma carta, e encetou estas linhas, +já decerto +relidas, fundamente estudadas: <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[166]</span> +―«Ill.<sup>mo</sup> e exc.<sup>mo</sup> +snr.―Tenho grande +satisfação em communicar a v. exc.<sup>a</sup> que +por toda +esta semana devem ficar promptas as obras da capella...» <br /> + +<br /> + +―É do Silverio? exclamei. <br /> + +<br /> + +―É do Silverio. «...as obras da capella nova. Os +venerandos restos dos excelsos avós de v. exc.<sup>a</sup>, +senhores +de todo o meu respeito, +podem pois ser em breve trasladados da egreja de S. José, +onde +têm estado depositados por bondade do nosso Abbade, que muito +se +recommenda a v. exc.<sup>a</sup>... Submisso, aguardo as prestantes +ordens de +v. exc.<sup>a</sup> a +respeito d'esta magestosa e afflictiva ceremonia...» <br /> + +<br /> + +Atirei os braços, comprehendendo: <br /> + +<br /> + +―Ah! bem! Queres ir assistir á +trasladação... <br /> + +<br /> + +Jacintho sumiu a carta no bolso. <br /> + +<br /> + +―Pois não te parece, Zé Fernandes? +Não é por causa dos outros avós, que +são +ossos vagos, e que eu não conheci. +É por causa do avô Galião... Tambem +não o +conheci. Mas este 202 está cheio +d'elle; tu estás deitado na cama d'elle; eu ainda uso o +relogio +d'elle. Não posso +abandonar ao Silverio e aos caseiros o cuidado de o installarem no seu +jazigo novo. Ha aqui um escrupulo de decencia, de elegancia moral... +Emfim, decidi. Apertei os <span class="pagenum">[167]</span>punhos +na cabeça, e gritei―<em>vou +a Tormes</em>! E vou!... E tu vens! <br /> + +<br /> + +Eu enfiara as chinellas, apertava os cordões do +roupão: <br /> + +<br /> + +―Mas tu sabes, meu bom Jacintho, que a casa de Tormes está +inhabitavel... <br /> + +<br /> + +Elle cravou em mim os olhos aterrados. <br /> + +<br /> + +―Medonha, hein? <br /> + +<br /> + +―Medonha, medonha, não... É uma bella casa, de +bella pedra. Mas os caseiros, que lá vivem ha trinta annos, +dormem em catres, +comem o caldo á lareira, e usam as salas para seccar o +milho. Creio que os +unicos moveis de Tormes, se bem recordo, são um armario, e +uma +espinetta de charão, côxa, já sem +teclas. <br /> + +<br /> + +O meu pobre Principe suspirou, com um gesto rendido em que se +abandonava ao Destino: <br /> + +<br /> + +―Acabou!... <em>Alea jact est!</em> E como +só partimos para abril, ha tempo de pintar, d'assoalhar, +d'envidraçar... Mando d'aqui de Paris +tapetes e camas... Um estofador de Lisboa vae depois forrar e +disfarçar algum buraco... Levamos livros, uma machina para +fabricar gelo... E +é mesmo uma occasião de pôr emfim n'uma +das minhas casas +de Portugal alguma decencia e ordem. Pois não achas? <span class="pagenum">[168]</span>E então essa! +Uma casa que data de 1410... Ainda existia o Imperio Byzantino! <br /> + +<br /> + +Eu espalhava, com o pincel, sobre a face, flocos lentos de +sabão. O meu Principe accendeu muito pensativamente um +cigarro; e não se +arredou do toucador, considerando o meu preparo com uma +attenção triste que me incommodava. Por fim, como +se remoesse uma sentença minha, +para lhe reter bem a moral e o succo: <br /> + +<br /> + +―Então, definitivamente, Zé Fernandes, entendes +que é um dever, um absoluto dever, ir eu a Tormes? <br /> + +<br /> + +Afastei do espelho a cara ensaboada para encarar com divertido espanto +o meu Principe: <br /> + +<br /> + +―Oh Jacintho! foi em ti, só em ti que nasceu a ideia d'esse +dever! E honra te seja, menino... Não cedas a ninguem essa +honra! <br /> + +<br /> + +Elle atirou o cigarro―e, com as mãos enterradas nas +algibeiras das pantalonas, vagou pelo quarto, topando nas cadeiras, +embicando contra +os postes torneados do velho leito de D. Galião, n'um +balanço vago, como barco já desamarrado do seu +seguro ancoradouro, e sem rumo +no mar incerto. Depois encalhou sobre a mesa onde eu conservava +enfileirada, por gradações de sentimentos, desde +o +dagarreotypo <span class="pagenum">[169]</span>do +papá até á photographia do <em>Carocho</em> +perdigueiro, a galeria da minha Familia. <br /> + +<br /> + +E nunca o meu Principe (que eu contemplava esticando os suspensorios) +me pareceu tão corcovado, tão minguado, como +gasto +por uma lima que desde muito o andasse fundamente limando. Assim viera +findar, desfeita em Civilisação, n'aquelle +super-requintado +magricellas sem musculo e sem energia, a raça fortissima dos +Jacinthos! Esses guedelhudos +Jacinthões, que nas suas altas terras de Tormes, de volta de +bater o moiro no +Salado ou o castelhano em Valverde, nem mesmo despiam as fuscas +armaduras para +lavrar as suas chans e amarrar a vide ao olmo, edificando o Reino com a +lança e com a enxada, ambas tão rudes e rijas! E +agora, alli estava aquelle ultimo Jacintho, um Jacinthiculo, com a +macia pelle embebida em +aromas, a curta alma enrodilhada em Philosophias, travado e suspirando +baixinho na miuda indecisão de viver. <br /> + +<br /> + +―Oh Zé Fernandes, quem é esta lavradeirona +tão rechonchuda? <br /> + +<br /> + +Estendi o pescoço para a Photographia que elle erguera +d'entre a minha galeria, no seu honroso caixilho de pellucia escarlate: +<br /> + +<br /> + +―Mais respeito, Snr. D. Jacintho... Um pouco mais de respeito, +cavalheiro!... É minha <span class="pagenum">[170]</span>prima +Joanninha, de Sandofim, da Casa +da Flôr da Malva. <br /> + +<br /> + +―Flôr da Malva, murmurou o meu Principe. É a casa +do Condestavel, de Nun'alvares. <br /> + +<br /> + +―Flôr da Rosa, homem! A casa do Condestavel era na +Flôr da Rosa, no Alemtejo... Essa tua ignorancia trapalhona +das coisas de Portugal! <br /> + +<br /> + +O meu Principe deixou escorregar mollemente a photographia da minha +prima d'entre os dedos molles―que levou á face, no seu +gesto horrendo de palpar atravez da face a caveira. Depois, de repente, +com um soberbo +esforço, em que se endireitou e cresceu: <br /> + +<br /> + +―Bem! <em>Alea jacta est!</em> Partamos +pois para as serras!... E agora nem reflexão, nem +descanço!... Á obra! E a +caminho! <br /> + +<br /> + +Atirou a mão ao fecho dourado da porta como se fosse o negro +loquete que abre os Destinos―e no corredor gritou pelo Grillo, com uma +larga e açodada voz que eu nunca lhe conhecera, e me lembrou +a +d'um +Chefe ordenando, n'alvorada, que se levante o Acampamento, e que a +Hoste marche, com pendões e bagagens... <br /> + +<br /> + +Logo n'essa manhã (com uma actividade em que eu reconheci a +pressa enjoada de quem bebe oleo-de-ricino), escreveu ao Silverio +mandando caiar, assoalhar, envidraçar o <span class="pagenum">[171]</span>casarão. +E depois +do almoço appareceu na Bibliotheca, chamado violentamente +pelo +telephone, para combinar a remessa de mobilias e confortos, o director +da +<em>Companhia Universal de +Transportes</em>. <br /> + +<br /> + +Era um homem que parecia o cartaz da sua Companhia, apertado n'um +jaquetão de xadrezinho escuro, com polainas de jornada sobre +botas brancas, uma sacola de marroquim a tiracolo, e na botoeira uma +roseta multicor resumindo as suas condecorações +exoticas +de Madagascar, de Nicaragua, da Persia, outras ainda, que provavam a +universalidade dos seus serviços. Apenas Jacintho mencionou +«Tormes, +no Douro...»―elle logo, atravez d'um sorriso superior, +estendeu +o braço, +detendo outros esclarecimentos, na sua intimidade minuciosa com essas +regiões. <br /> + +<br /> + +―Tormes... Perfeitamente! Perfeitamente! <br /> + +<br /> + +Sobre o joelho, na carteira, escrevinhou uma fugidia nota―emquanto eu +considerava, assombrado, a vastidão do seu saber +Chorographico, assim familiar com os recantos d'uma serra de Portugal e +com todos os seus velhos solares. Já elle atirára +a +carteira para o +bolso... E «nós, seus caros senhores, +não tinhamos +senão a encaixotar +as roupas, as mobilias, as preciosidades! Elle mandaria as suas +carroças buscar os +caixotes, a que <span class="pagenum">[172]</span>poria, +em grossa letra, com grossa tinta, o +endereço...» <br /> + +<br /> + +―Tormes, perfeitamente! Linha Norte-Hespanha-Medina-Salamanca... +Perfeitamente! Tormes... Muito pittoresco! E antigo, historico! +Perfeitamente, perfeitamente! <br /> + +<br /> + +Desengonçou a cabeça n'uma venia profundissima―e +sahiu da Bibliotheca, com passos que devoravam leguas, annunciavam a +presteza dos seus Transportes. <br /> + +<br /> + +―Vê tu, murmurou Jacintho muito serio. Que +promptidão, que facilidade!... Em Portugal era uma tragedia. +Não ha +senão Paris! <br /> + +<br /> + +Começou então no 202 o collossal encaixotamento +de todos os confortos necessarios ao meu Principe para um mez de serra +aspera―camas de +penna, banheiras de nickel, lampadas Carcel, divans profundos, cortinas +para vedar as gretas rudes, tapetes para amaciar os soalhos broncos. Os +sotãos, onde se arrecadavam os pesados trastes do +avô Galião, foram esvasiados―porque o +casarão +medieval de 1410 comportava os +tremós romanticos de 1830. De todos os armazens de Paris +chegavam cada +manhã fardos, caixas, temerosos embrulhos que os emmaladores +desfaziam, atulhando os corredores de montes de palha e de papel pardo, +onde os nossos passos açodados se enrodilhavam. O +cozinheiro, +esbaforido, <span class="pagenum">[173]</span> +organisava a remessa de fornalhas, geleiras, bocaes de trufas, latas de +conservas, bojudas garrafas de aguas mineraes. Jacintho, lembrando as +trovoadas da serra, comprou um immenso pára-raios. Desde o +amanhecer, nos pateos, no jardim, se martellava, se pregava, com vasto +fragor, +como na construcção d'uma cidade. E o desfilar +das +bagagens, através do portão, lembrava uma pagina +de +Herodoto contando a marcha +dos Persas. <br /> + +<br /> + +Das janellas, Jacintho com o braço estendido, saboreava +aquella actividade e aquella disciplina: <br /> + +<br /> + +―Vê tu, Zé Fernandes, que facilidade!... Sahimos +do 202, chegamos á serra, encontramos o 202. Não +ha senão Paris! <br /> + +<br /> + +Recomeçára a amar a Cidade, o meu Principe, +emquanto preparava o seu Exodo. Depois de ter, toda a manhã, +apressado os +encaixotadores, descortinado confortos novos para o abandonado solar, +telephonado +gordas listas de encommendas a cada loja de Paris―era com delicia que +se vestia, se perfumava, se floria, se enterrava na vittoria ou saltava +para a almofada do phaeton, e corria ao Bosque, e saudava a barba +talmudica do Ephraim, e os bandós furiosamente negros da +Verghane, e o Psychologo de fiacre, e a <span class="pagenum">[174]</span>condessa +de Trèves na sua nova +caleche de oito-molas fornecida pelas operações +conjunctas +da Bolsa e da alcôva. Depois arrebanhava amigos para jantares +de +surpreza no Voisin ou no Bignon, onde desdobrava o guardanapo com a +impaciencia d'uma fome alegre, vigiando fervorosamente que os Bordeus +estivessem bem aquecidos +e os Champagnes bem granitados. E no theatro das +<em>Nouveautés</em>, no <em>Palais Royal</em>, +nos +<em>Buffos</em>, ria, batendo na +côxa, com encanecidas facecias d'encanecidas +farças, antiquissimos tregeitos +d'antiquissimos actores, com que já rira na sua infancia, +antes da guerra, +sob o segundo Napoleão! <br /> + +<br /> + +De novo, em duas semanas, se abarrotaram as paginas da sua Agenda. A +magnificencia do seu trage, como imperador Frederico II de Suabia, +deslumbrou, no baile mascarado da Princesa de Cravon-Rogan (onde tambem +fui, de «moço de forcado».) E na +<em>Associação para o +Desenvolvimento das +Religiões Esotericas</em> discursou e batalhou +bravamente pela construcção d'um Templo Budhista +em Montmartre! <br /> + +<br /> + +Com espanto meu recomeçou tambem a conversar, como nos +tempos de Escóla, da «famosa +Civilisação nas +suas maximas +proporções.» Mandou encaixotar o seu +velho +telescopio para o usar em Tormes. Receei mesmo que no seu espirito +germinasse a idéa de <span class="pagenum">[175]</span>crear, +no cimo da serra, uma +Cidade com todos os seus orgãos. Pelo menos não +consentia +o +meu Jacintho que essas semanas da silvestre Tormes interrompessem a +illimitada +accumulação das +noções―porque uma +manhã rompeu pelo +meu quarto, desolado, gritando que entre tantos confortos e +fórmas de +Civilisação esqueceramos os livros! Assim era―e +que +vexame para a nossa Intellectualidade! Mas que livros escolher entre os +facundos milhares sob que vergava o 202? O meu Principe decidiu logo +dedicar os seus dias serranos ao estudo da Historia Natural―e +nós mesmos, immediatamente, deitamos +para o fundo d'um vasto caixote novo, como lastro, os vinte e cinco +tomos de Plinio. +Despejamos depois para dentro, ás braçadas, +Geologia, Mineralogia, Botanica... Espalhamos por cima uma camada aeria +de Astronomia. E, para +fixar bem no caixote estas Sciencias oscillantes, entalamos em redor +cunhas de Metaphysica. <br /> + +<br /> + +Mas quando a derradeira caixa, pregada e cintada de ferro, sahiu do +portão do 202 na derradeira carroça da +<em>Companhia dos Transportes</em>, toda esta +animação de Jacintho se abateu como a +efervescencia n'um copo de Champagne. Era em meados já +tepidos de Março. E +de novo os seus desagradaveis bocejos atroaram <span class="pagenum">[176]</span>o +202, e todos os sophás +rangeram sob o peso do corpo que elle lhe atirava para cima, +mortalmente vencido pela fartura e pelo tedio, n'um desejo de repouso +eterno, bem envolto de solidão e silencio. Desesperei. O +que! +Aturaria eu ainda +aquelle Principe palpando amargamente a caveira, e, quando o crepusculo +entristecia a Bibliotheca, alludindo, n'um tom rouco, á +doçura das mortes rapidas pela violencia misericordiosa do +acido +cyanhidrico? Ah não, caramba! E uma tarde em que o encontrei +estirado sobre +um divan, de braços em cruz, como se fosse a sua estatua de +marmore sobre +o seu jazigo de granito, positivamente o abanei com furor, berrando: <br /> + +<br /> + +―Accorda, homem! Vamos para Tormes! O casarão deve estar +prompto, a reluzir, a abarrotar de cousas! Os ossos de teus +avós pedem +repouso, em cova sua!... A caminho, a enterrar esses mortos, e a +vivermos +nós, os vivos!... Irra! São cinco de Abril!... +É o bom +tempo da serra! <br /> + +<br /> + +O meu Principe resurgiu lentamente da inercia de pedra: <br /> + +<br /> + +―O Silverio não me escreveu, nunca me escreveu... Mas, com +effeito, deve estar tudo preparado... Já lá temos +certamente creados, o cosinheiro de Lisboa... Eu só levo o +Grillo, e o Anatole que +envernisa bem o calçado, e <span class="pagenum">[177]</span>tem +geito como pedicuro... Hoje +é Domingo. <br /> + +<br /> + +Atirou os pés para o tapete, com heroismo: <br /> + +<br /> + +―Bem, partimos no Sabbado!... Avisa tu o Silverio! <br /> + +<br /> + +Começou então o laborioso e pensativo estudo dos +Horarios―e o dedo magro de Jacintho, por sobre o mappa, +avançando e recuando +entre Paris e Tormes. Para escolher o +«salão» que +deviamos habitar durante a temida jornada, duas vezes percorremos o +deposito da +Estação d'Orleans, atolados em lama, atraz do +Chefe do +Trafico que entontecia. O meu Principe recusava este salão +por +causa da côr +tristonha dos estofos; depois recusava aquelle por causa da mesquinhez +afflictiva do Water-Closet! Uma das suas +inquietações era +o +banho, nas manhãs que passariamos rolando. Suggeri uma +banheira +de borracha. Jacintho, indeciso, suspirava... Mas nada o aterrou como o +trasbordo em Medina +del Campo, de noite, nas trevas da Velha Castella. Debalde a Companhia +do Norte de Hespanha e a de Salamanca, por cartas, por telegrammas, +socegaram o meu camarada, affirmando que, quando elle chegasse no +comboio de Irun dentro do seu salão, já outro +salão ligado ao comboio de Portugal esperaria, bem aquecido, +bem +allumiado, com uma ceia que lhe offertava um dos Directores, D. Esteban +Castillo, ruidoso <span class="pagenum">[178]</span>e +rubicundo conviva do 202! Jacintho corría os dedos anciosos +pela +face:―«E os saccos, as pelles, os livros, quem os +transportaria +do salão +de Irun para o salão de Salamanca?» Eu berrava, +desesperado, que os carregadores de Medina eram os mais rapidos, os +mais destros de toda a Europa! Elle murmurava:―«Pois sim, +mas em +Hespanha, de +noite!...» A noite, longe da Cidade, sem telephone, sem luz +electrica, sem postos de policia, +parecia ao meu Principe povoada de surprezas e assaltos. Só +acalmou +depois de verificar no Observatorio Astronomico, sob a garantia do +sabio +professor Bertrand, que a noite da nossa jornada era de lua cheia! <br /> + +<br /> + +Emfim, na sexta-feira, findou a tremenda +organisação d'aquella viagem historica! O sabbado +predestinado amanheceu com generoso sol, de affagadora +doçura. E +eu acabava de guardar na mala, +embrulhadas em papel pardo, as photographias das creaturinhas suaves +que, n'esses vinte e sete mezes de Paris, me tinham chamado «<em>mon +petit chou! mon rat +cheri!</em>»―quando Jacintho rompeu pelo +quarto, com um soberbo ramo de orchideas na sobrecasaca, pallido e todo +nervoso. <br /> + +<br /> + +―Vamos ao Bosque, por despedida? <br /> + +<br /> + +Fomos―á grande despedida! E que encanto! Até nas +almofadas e molas da vittoria <span class="pagenum">[179]</span>senti +logo uma elasticidade mais emballadora. Depois, pela Avenida do Bosque, +quasi me pezava não ficar sempiternamente +rolando, ao trote rimado das eguas perfeitas, no rebrilho rico de +metaes e +vernizes, sobre aquelle macadam mais alisado que marmore, entre +tão +bem regadas flôres e relvas de tão tentadora +frescura, +cruzando uma Humanidade fina, de elegancia bem acabada, que +almoçára o seu +chocolate em porcellanas de Sevres ou de Minton, sahira d'entre +sèdas e tapetes de tres +mil francos, e respirava a belleza de Abril com vagar, requinte e +pensamentos ligeiros! O Bosque resplandecia n'uma harmonia de verde, +azul e ouro. Nenhuma cova ou terra solta desalisava as polidas alleas +que a Arte traçou e enroscou na espessura―nenhum esgalho +desgrenhado +desmanchava as ondulações macias da folhagem que +o Estado +escóva e lava. O piar das aves apenas se elevava para +espalhar +uma graça leve de vida +alada;―e mais natural parecia, entre o arvoredo sociavel, o ranger das +sellas novas, onde pousavam, com balanço esbelto, as +amazonas +espartilhadas pelo grande Redfern. Em frente ao Pavilhão de +Armenonville +cruzamos Madame de Trèves, que nos envolveu ambos na caricia +do +seu +sorriso, mais avivado áquella hora pelo vermelhão +ainda +humido. +Logo atraz <span class="pagenum">[180]</span>a +barba talmudica de +Ephraim negrejou, fresca tambem da brilhantine da +manhã, no alto d'um phaeton tilintante. Outros amigos de +Jacintho circulavam nas Acacias―e as mãos que lhe acenavam, +lentas e affaveis, +calçavam luvas frescas côr de palha, côr +de perola, +côr +de lilaz. Todelle relampejou rente de nós sobre uma grande +bycicleta. Dornan, alastrado +n'uma cadeira de ferro, sob um espinheiro em flôr, mamava o +seu +immenso +charuto, como perdido na busca de rimas sensuaes e nedias. Adeante foi +o Psychologo, que nos não avistou, conversando com um +requebro +melancolico +para dentro d'um coupé que rescendia a alcova, e a que um +cocheiro obeso +imprimia dignidade e decencia. E rolavamos ainda, quando o Duque de +Marizac, a cavallo, ergueu a bengala, estacou a nossa vittoria para +perguntar a Jacintho se apparecia á noite nos +«quadros +vivos» dos Verghanes. O meu Principe rosnou +um―«não, parto para o +sul...»―que mal lhe passou d'entre os bigodes murchos... E +Marizac lamentou―porque era uma festa estupenda. Quadros vivos da +Historia Sagrada e da Historia Romana!... Madame Verghane, de +Magdalena, de braços nús, +peitos nús, pernas núas, limpando com os cabellos +os +pés do Christo!―O Christo, um +latagão soberbo, parente dos Trèves, empregado no +<span class="pagenum">[181]</span>Ministerio +da +Guerra, gemendo, derreado, sob uma cruz de papelão! Havia +tambem +Lucrecia na +cama, e Tarquinio ao lado, de punhal, a puxar os lençoes! E +depois +ceia, em mezas soltas, todos nos seus trajes historicos. Elle +já +estava aparceirado com Madame de Malbe, que era Agrippina! Quadro +portentoso esse―Agrippina morta, quando Nero a vem contemplar e lhe +estuda as fórmas, admirando umas, desdenhando outras como +imperfeitas. +Mas, por polidez, ficára combinado que Nero admiraria sem +reserva +todas as fórmas de Madame de Malbe... Emfim collossal, e +estupendamente instructivo! <br /> + +<br /> + +Acenamos um longo adeus áquelle alegre Marizac. E recolhemos +sem que Jacintho emergisse do silencio enrugado em que se +abysmára, +com os braços rigidamente cruzados, como remoendo +pensamentos +decisivos e fortes. Depois, em frente ao Arco de Triumpho, moveu a +cabeça, murmurou: <br /> + +<br /> + +―É muito grave, deixar a Europa! <br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="break"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Emfim, partimos! Sob a doçura do crepusculo que se +enublára deixamos o 202. O Grillo e o Anatole seguiam n'um +fiacre atulhado de livros, de estojos, de paletots, de impermeaveis, de +travesseiras, de agoas mineraes, <span class="pagenum">[182]</span>de +saccos de couro, de rolos de mantas: e mais atraz um omnibus rangia sob +a carga de vinte e tres malas. Na +Estação, Jacintho ainda comprou todos os Jornaes, +todas as +Illustrações, Horarios, mais livros, e um +saca-rolhas de fórma complicada e hostil. +Guiados pelo Chefe do Trafico, pelo Secretario da Companhia, occupamos +copiosamente +o nosso salão. Eu puz o meu bonet de sêda, calcei +as +minhas chinellas. Um silvo varou a noite. Paris lampejou, fugiu n'um +derradeiro +clarão de janellas... Para o sorver, Jacintho ainda se +arremessou á +portinhola. Mas rolavamos já na treva da Provincia. O meu +Principe +então recahiu nas almofadas: <br /> + +<br /> + +―Que aventura, Zé Fernandes! <br /> + +<br /> + +Até Chartres, em silencio, folheamos as +Illustrações. Em Orleans, o guarda veio arranjar +respeitosamente as nossas camas. Derreado com aquelles quatorze mezes +de Civilisação +adormeci―e só acordei em Bordeus quando Grillo, zeloso, nos +trouxe o nosso chocolate. Fóra, +uma chuva miudinha pingava mollemente d'um espesso ceu de +algodão +sujo. Jacintho não se deitára, desconfiado da +aspereza e +da +humidade dos lençoes. E, mettido n'um roupão de +flanella +branco, com a face arripiada +e estremunhada, ensopando um bolo no chocolate, rosnava sombriamente: <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[183]</span> +―Este horror!... E agora com chuva! <br /> + +<br /> + +Em Biarritz, ambos observamos com uma certeza indolente: <br /> + +<br /> + +―É Biarritz. <br /> + +<br /> + +Depois Jacintho, que espreitava pela janella embaciada, reconheceu o +lento caminhar pernalto, o nariz bicudo e triste, do Historiador +Danjon. Era elle, o facundo homem, vestido de xadrezinho, ao lado d'uma +dama roliça que levava pela trella uma cadellinha felpuda. +Jacintho baixou a vidraça violentamente, berrou pelo +Historiador, na ancia de +communicar ainda, através d'elle, com a Cidade, com o +202!... +Mas o +comboio mergulhára na chuva e nevoa. <br /> + +<br /> + +Sobre a ponte do Bidassoa, antevendo o termo da vida facil, os abrolhos +da Incivilisação, Jacintho suspirou com +desalento: <br /> + +<br /> + +―Agora adeus, começa a Hespanha!... <br /> + +<br /> + +Indignado, eu, que já saboreava o generoso ar da terra +bemdita, saltei para diante do meu Principe, e n'um saracoteio de +tremendo salero, castanholando os dedos, entoei uma +«petenera» +condigna: <br /> + +<br /> + +<div class="break">A la puerta de mi casa<br /> + +Ay Soledad, Soleda... á... á... á.</div> + +<br /> + +Elle estendeu os braços, supplicante: <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[184]</span> +―Zé Fernandes, tem piedade do enfermo e do triste! <br /> + +<br /> + +―<em>Irun</em>! +<em>Irun</em>!... <br /> + +<br /> + +N'essa Irun almoçamos com succulencia―por que sobre +nós velava, como Deusa omnipresente, a Companhia do Norte. +Depois «el jefe +d'Aduana, el jefe d'Estacion», preciosamente nos installaram +n'outro +salão, novo, com setins côr d'azeitona, mas +tão pequeno que uma +rica porção dos nossos confortos em mantas, +livros, saccos e impermeaveis, passou para o compartimento do <em>Sleeping</em> +onde se +repoltreavam o Grillo e o Anatole, ambos de bonets escocezes, e fumando +gordos +charutos.―<em>Buen viaje</em>! <em>Gracias</em>! +<em>Servidores</em>!―E entramos silvando +nos Pyreneos. <br /> + +<br /> + +Sob a influencia da chuva embaciadora, d'aquellas serras sempre eguaes, +que se desenrolavam, arripiadas, diluidas na nevoa, resvalei a uma +somnolencia dôce;―e, quando descerrava as palpebras, +encontrava Jacintho a um canto, esquecido do livro fechado nos joelhos, +sobre que cruzára os magros dedos, considerando valles e +montes +com a +melancolia de quem penetra nas terras do seu desterro! Um momento veio +em que, arremessando o livro, enterrando mais o chapéo +molle, se +ergueu com tanta decisão, que receei detivesse o comboio +para +saltar +á estrada, <span class="pagenum">[185]</span> +correr atravez das Vascongadas e da Navarra, para traz, para o 202! +Sacudi o meu torpôr, exclamei:―«oh +menino!...» Não! O pobre amigo ia apenas continuar +o seu +tedio para outro canto, enterrado n'outra almofada, com outro livro +fechado. E á maneira que a +escuridão da tarde crescia, e com ella a borrasca de vento e +agoa, uma +inquietação mais aterrada se apoderava do meu +Principe, +assim desgarrado da +Civilisação, arrastado para a Natureza que +já o +cercava de brutalidade +agreste. Não cessou então de me interrogar sobre +Tormes: <br /> + +<br /> + +―As noites são horriveis, hein, Zé Fernandes? +Tudo negro, enorme solidão... E medico?... Ha medico? <br /> + +<br /> + +Subitamente o comboio estacou. Mais grossa e ruidosa a chuva fustigou +as vidraças. Era um descampado, todo em treva, onde rolava e +lufava um grande vento solto. A machina apitava, com angustia. Uma +lanterna lampejou, correndo. Jacintho batia o +pé:―«É medonho! é +medonho!»... Entreabri a portinhola. Da claridade incerta das +vidraças +surdiam cabeças esticadas, +assustadas.―«<em>Que hay</em>? +<em>Que hay</em>?»―A uma rajada, que me alagou, +recuei:―e +esperamos durante lentos, calados minutos, esfregando desesperadamente +os vidros embaciados para sondar a escuridão. <span class="pagenum">[186]</span>De repente o comboio +recomeçou a +rolar, muito sereno. <br /> + +<br /> + +Em breve appareceram as luzinhas mortas d'uma +estação abarracada. Um conductor, com o +casacão de oleado todo a escorrer, trepou +ao salão:―e por elle soubemos, emquanto carimbava +apressadamente os bilhetes, que o +trem, muito atrazado, talvez não alcançasse em +Medina o comboio de Salamanca! <br /> + +<br /> + +―Mas então?... <br /> + +<br /> + +O casaco de oleado escorregára pela portinhola, fundido na +noite, deixando um cheiro de humidade e azeite. E nós +encetamos +um +novo tormento... Se o trem de Salamanca tivesse abalado? O +salão, +tomado até Medina, desengatava em Medina:―e eis os nossos +preciosos corpos, com +as nossas preciosas almas, despejados em Medina, para cima da lama, +entre vinte e trez malas, n'uma rude confusão hespanhola, +sob a +tormenta de ventania e d'agua! <br /> + +<br /> + +―Oh, Zé Fernandes, uma noite em Medina! <br /> + +<br /> + +Ao meu Principe apparecia como desventura suprema essa noite em Medina, +n'uma <em>fonda</em> +sordida, fedendo a +alho, com gordas filas de percevejos atravez dos lençoes +d'estopa encardida!... Não +cessei então de fitar, n'um desassocego, os ponteiros do +relogio:―emquanto Jacintho, pela vidraça escancarada, todo +fustigado <span class="pagenum">[187]</span>da +chuva clamorosa, +furava a negrura, na esperança de avistar as luzes de Medina +e +um +comboio paciente fumegando... Depois recahia no divan, limpava os +bigodes e os olhos, maldizia a Hespanha. O trem arquejava, rompendo o +vasto vento da +planura desolada. E a cada apito era um alvoroço. Medina?... +Não! Algum sumido apeadeiro, onde o trem se atardava, +esfalfado, +resfolgando, emquanto dormentes figuras encarapuçadas, +embrulhadas em +mantas, rondavam sob o telheiro do barracão, que as +lanternas +baças tornavam mais soturno. Jacintho esmurrava o +joelho:―«Mas por que +pára este infame comboio? Não ha trafico, +não ha +gente! Oh +esta Hespanha!...» A sineta badalava, moribunda. De novo +fendiamos a noite e a borrasca. <br /> + +<br /> + +Resignadamente comecei a percorrer um <em>Jornal do +Commercio</em>, +antigo, trazido de Paris. Jacintho esmagava o espesso tapete do +salão com passadas rancorosas, rosnando como uma fera. E +ainda +assim se escoou, +ás gottas, uma hora cheia de eternidade.―Um silvo, outro +silvo!... Luzes mais fortes, longe, palpitaram na neblina. As rodas +trilharam, com +rijos solavancos, os encontros de carris. Emfim, Medina!... Um muro +sujo de barracão alvejou―e bruscamente, á +portinhola +aberta com violencia, apparece um cavalheiro barbudo, <span class="pagenum">[188]</span>de capa á +hespanhola, +gritando pelo snr. D. Jacintho!... Depressa! depressa! que parte o +comboio de Salamanca! <br /> + +<br /> + +―«Que no hay un momento, caballeros! Que no hay un +momento!» <br /> + +<br /> + +Agarro estonteadamente o meu paletot, o <em>Jornal do +Commercio</em>. +Saltamos com ancia:―e, pela plataforma, por sobre os trilhos, +através de charcos, tropeçando em fardos, +empurrados pelo +vento, pelo +homem da capa á hespanhola, enfiamos outra portinhola, que +se +fechou com +um estalo tremendo... Ambos arquejavamos. Era um salão +forrado +de um +panno verde que comia a luz escassa. E eu estendia o braço, +para +receber +dos carregadores açodados as nossas malas, os nossos livros, +as +nossas mantas―quando, em silencio, sem um apito, o trem despegou e +rolou. Ambos nos atiramos ás vidraças, em brados +furiosos: <br /> + +<br /> + +―Pare! As nossas malas, as nossas mantas!... P'ra aqui!... Oh Grillo! +Oh Grillo! <br /> + +<br /> + +Uma immensa rajada levou os nossos brados. Era de novo o descampado +tenebroso, sob a chuva despenhada. Jacintho ergueu os punhos, n'um +furor que o engasgava: <br /> + +<br /> + +―Oh! Que serviço! Oh que canalhas!... Só em +Hespanha!... E agora? As malas perdidas!... Nem uma camisa, nem uma +escova! <br /> + +<br /> + +Calmei o meu desgraçado amigo: <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[189]</span>―Escuta! eu +entrevi dous +carregadores arrebanhando as nossas cousas... +Decerto o Grillo fiscalisou. Mas na pressa, naturalmente, atirou com +tudo para o seu compartimento... Foi um erro não trazer o +Grillo comnosco, no salão... Até podiamos jogar a +manilha! <br /> + +<br /> + +De resto a sollicitude da Companhia, Deusa omnipresente, velava sobre o +nosso conforto―pois que á porta do lavatorio branquejava o +cesto da nossa ceia, mostrando na tampa um bilhete de D. Esteban com +estas doces +palavras a lapis―<em>á D. Jacintho y su +egregio amigo, que les dè gusto</em>! +Farejei um aroma de perdiz. E alguma tranquillidade nos penetrou no +coração sentindo tambem as nossas malas sob a +tutella da Deusa omnipresente. <br /> + +<br /> + +―Tens fome Jacintho? <br /> + +<br /> + +―Não. Tenho horror, furor, rancor!... E tenho somno. <br /> + +<br /> + +Com effeito! depois de tão desencontradas +emoções só appeteciamos as camas que +esperavam, macias e abertas. Quando cahi sobre a travesseira, +sem gravata, em ceroulas, já o meu Principe, que +não se despira, apenas embrulhára os +pés no +<em>meu</em> paletot, nosso unico agasalho, +resonava com magestade. <br /> + +<br /> + +Depois, muito tarde e muito longe, percebi junto do meu catre, na +claridadezinha da manhã, coada pelas cortinas verdes, uma +<span class="pagenum">[190]</span>fardeta, um bonet, +que murmuravam baixinho com immensa doçura: <br /> + +<br /> + +―V. exc.<sup>a</sup>s não têem nada a declarar?... +Não ha malinhas de mão?... <br /> + +<br /> + +Era a minha terra! Murmurei baixinho com immensa ternura: <br /> + +<br /> + +―Não temos aqui nada... Pergunte v. exc.<sup>a</sup> pelo +Grillo... +Ahi atraz, n'um compartimento... Elle tem as chaves, tem tudo... +É o +Grillo. <br /> + +<br /> + +A fardeta desappareceu, sem rumor, como sombra benefica. E eu +readormeci com o pensamento em Guiães, onde a tia Vicencia, +atarefada, +de lenço branco cruzado no peito, de certo já +preparava o +leitão. <br /> + +<br /> + +Acordei envolto n'um largo e doce silencio. Era uma +Estação muito socegada, muito varrida, com +rosinhas +brancas trepando pelas paredes―e +outras rosas em moitas, n'um jardim, onde um tanquesinho abafado de +limos dormia sob duas mimosas em flôr que rescendiam. Um +moço pallido, de paletot côr de mel, vergando a +bengalinha +contra o +chão, contemplava pensativamente o comboio. Agachada rente +á grade da horta, +uma velha, diante da sua cesta de ovos, contava moedas de cobre no +regaço. Sobre o telhado seccavam aboboras. Por cima +rebrilhava o +profundo, <span class="pagenum">[191]</span>rico e +macio azul de que meus olhos andavam agoados. <br /> + +<br /> + +Sacudi violentamente Jacintho: <br /> + +<br /> + +―Acorda, homem, que estás na tua terra! <br /> + +<br /> + +Elle desembrulhou os pés do meu paletot, cofiou o bigode, e +veio sem pressa, á vidraça que eu abrira, +conhecer a sua +terra. <br /> + +<br /> + +―Então é Portugal, hein?... Cheira bem. <br /> + +<br /> + +―Está claro que cheira bem, animal! <br /> + +<br /> + +A sineta tilintou languidamente. E o comboio deslisou, com +descanço, como se passeasse para seu regalo sobre as duas +fitas d'aço, +assobiando e gozando a belleza da terra e do ceu. <br /> + +<br /> + +O meu Principe alargava os braços, desolado: <br /> + +<br /> + +―E nem uma camisa, nem uma escova, nem uma gotta d'agoa de Colonia!... +Entro em Portugal, immundo! <br /> + +<br /> + +―Na Regoa ha uma demora, temos tempo de chamar o Grillo, rehaver os +nossos confortos... Olha para o rio! <br /> + +<br /> + +Rolavamos na vertente d'uma serra, sobre penhascos que desabavam +até largos socalcos cultivados de vinhedo. Em baixo, n'uma +esplanada, branquejava uma casa nobre, de opulento repouso, com a +capellinha muito +caiada entre um laranjal maduro. Pelo rio, onde a agoa turva e tarda +nem se quebrava contra <span class="pagenum">[192]</span>as +rochas, +descia, com a vela cheia, um barco lento carregado de pipas. Para +além, outros socalcos, d'um verde +pallido de rezeda, com oliveiras apoucadas pela amplidão dos +montes, +subiam até outras penedias que se embebiam, todas brancas e +assoalhadas, na fina abundancia do azul. Jacintho acariciava os pellos +corredios do bigode: <br /> + +<br /> + +―O Douro, hein?... É interessante, tem grandeza. Mas agora +é que eu estou com uma fome, Zé Fernandes! <br /> + +<br /> + +Tambem eu! Destapamos o cesto de D. Esteban d'onde surdiu um bodo +grandioso, de presunto, anho, perdizes, outras viandas frias que o ouro +de duas nobres garrafas d'Amontillado, além de duas garrafas +de Rioja, aqueciam com um calor de sol Andaluz. Durante o presunto, +Jacintho lamentou contrictamente o seu erro. Ter deixado Tormes, um +solar historico, assim abandonado e vasio! Que delicia, por aquella +manhã tão lustrosa e tepida, subir á +serra, +encontrar a sua casa bem +apetrechada, bem civilisada... Para o animar, lembrei que com as obras +do Silverio, tantos caixotes de Civilisação +remettidos de +Paris, Tormes estaria confortavel mesmo para Epicuro. Oh! mas Jacintho +entendia um palacio perfeito, um 202 no deserto!... E, assim +discorrendo, atacamos as perdizes. Eu desarrolhava <span class="pagenum">[193]</span>uma garrafa de +Amontillado―quando o comboio, +muito sorrateiramente, penetrou n'uma Estação. +Era a Regoa. E o meu Principe pousou logo a faca para chamar o Grillo, +reclamar as malas que +traziam o aceio dos nossos corpos. <br /> + +<br /> + +―Espera, Jacintho! Temos muito tempo, O comboio pára aqui +uma hora... Come com tranquillidade. Não escangalhemos este +almocinho +com arrumações de maletas... O Grillo +não tarda a apparecer. <br /> + +<br /> + +E corri mesmo a cortina, porque de fóra um padre muito alto, +com uma ponta de cigarro collada ao beiço, parára +a +espreitar indiscretamente o nosso festim. Mas quando acabamos as +perdizes, e Jacintho confiadamente +desembrulhava um queijo manchego, sem que Grillo ou Anatole +comparecessem, eu, inquieto, corri á portinhola para +apressar esses servos tardios... E n'esse instante o comboio, largando, +deslisou com o +mesmo silencio sorrateiro. Para o meu Principe foi um desgosto: <br /> + +<br /> + +―Ahi ficamos outra vez sem um pente, sem uma escova... E eu que queria +mudar de camisa! Por culpa tua, Zé-Fernandes! <br /> + +<br /> + +―É espantoso!... Demora sempre uma eternidade. Hoje chega e +abala! Paciencia, Jacintho. Em duas horas estamos na +Estação de Tormes... Tambem não valia +a pena mudar <span class="pagenum">[194]</span>de +camisa para subir +á serra! Em casa tomamos um banho, antes de jantar... +Já deve estar +installada a banheira. <br /> + +<br /> + +Ambos nos consolamos com copinhos d'uma divina aguardente Chinchon. +Depois, estendidos nos sophás, saboreando os dois charutos +que nos restavam, com as vidraças abertas ao ar adoravel, +conversamos de Tormes. Na estação certamente +estaria o +Silverio, com os +cavallos... <br /> + +<br /> + +―Que tempo leva a subir? <br /> + +<br /> + +Uma hora. Depois de lavados sobrava tempo para um demorado passeio +pelas terras com o caseiro, o excellente Melchior, para que o Senhor de +Tormes, solemnemente, tomasse posse do seu Senhorio. E á +noite o primeiro brodio da serra, com os piteus vernaculos do velho +Portugal! <br /> + +<br /> + +Jacintho sorria, seduzido: <br /> + +<br /> + +―Vamos a ver que cozinheiro me arranjou esse Silverio. Eu recommendei +que fosse um soberbo cozinheiro portuguez, classico. Mas que soubesse +trufar um perú, afogar um bife em molho de moella, estas +cousas simples da cozinha de França!... O peor é +não +te demorares, seguires logo para Guiães... <br /> + +<br /> + +―Ah, menino, annos da tia Vicencia no sabbado... Dia sagrado! Mas +volto. Em duas semanas estou em Tormes, para fazermos uma <span class="pagenum">[195]</span>larga Bucolica. E, +está claro, para assistir á +trasladação. <br /> + +<br /> + +Jacintho estendera o braço: <br /> + +<br /> + +―Que casarão é aquelle, além no +outeiro, com a torre? <br /> + +<br /> + +Eu não sabia. Algum solar de fidalgote do Douro... Tormes +era n'esse feitio atarracado e massiço. Casa de seculos e +para +seculos―mas sem torre. <br /> + +<br /> + +―E logo se vê, da estação, Tormes?... <br /> + +<br /> + +―Não! Muito no alto, n'uma prega da serra, entre arvoredo. <br /> + +<br /> + +No meu Principe já evidentemente nascèra uma +curiosidade pela sua rude casa ancestral. Mirava o relogio, impaciente. +Ainda trinta minutos! Depois, sorvendo o ar e a luz, murmurava, no +primeiro encanto de iniciado: <br /> + +<br /> + +―Que doçura, que paz... <br /> + +<br /> + +―Trez horas e meia, estamos a chegar, Jacintho! <br /> + +<br /> + +Guardei o meu velho <em>Jornal do +Commercio</em> dentro do bolso do paletot, que deitei sobre o +braço;―e ambos em pé, +ás janellas, esperamos com alvoroço a pequenina +Estação de +Tormes, termo ditoso das nossas provações. Ella +appareceu emfim, clara e simples, +á beira do rio, entre rochas, com os seus vistosos girasoes +enchendo um jardimsinho breve, as +duas altas figueiras assombreando o pateo, <span class="pagenum">[196]</span>e +por traz a serra coberta de velho e denso arvoredo... Logo na +plataforma avistei com gosto a +immensa barriga, as bochechas menineiras do chefe da +Estação, o louro Pimenta, meu condiscipulo em +Rhetorica, +no Lyceu de Braga. Os cavallos decerto esperavam, á sombra, +sob +as figueiras. <br /> + +<br /> + +Mal o trem parou ambos saltamos alegremente. A bojuda massa do Pimenta +rebolou para mim com amizade: <br /> + +<br /> + +―Viva o amigo Zé Fernandes! <br /> + +<br /> + +―Oh bello Pimentão!... <br /> + +<br /> + +Apresentei o senhor de Tormes. E immediatamente: <br /> + +<br /> + +―Ouve lá, Pimentinha... Não está ahi +o Silverio? <br /> + +<br /> + +―Não... O Silverio ha quasi dois mezes que partiu para +Castello de Vide, vêr a mãe que apanhou uma +cornada d'um boi! <br /> + +<br /> + +Atirei a Jacintho um olhar inquieto: <br /> + +<br /> + +―Ora essa! E o Melchior, o caseiro?... Pois não +estão ahi os cavallos para subirmos á quinta? <br /> + +<br /> + +O digno chefe ergueu com surpreza as sobrancelhas côr de +milho: <br /> + +<br /> + +―Não!... Nem Melchior, nem cavallos... O Melchior... Ha que +tempos eu não vejo o Melchior! <br /> + +<br /> + +O carregador badalou lentamente a sineta <span class="pagenum">[197]</span>para +o comboio rolar. +Então, não avistando em torno, na lisa e +despovoada +Estação, nem creados nem malas, o meu Principe e +eu lançamos o mesmo grito de +angustia: <br /> + +<br /> + +―E o Grillo? as bagagens?... <br /> + +<br /> + +Corremos pela beira do comboio, berrando com desespero: <br /> + +<br /> + +―Grillo!... Oh Grillo!... Anatole!... Oh Grillo! <br /> + +<br /> + +Na esperança que elle e o Anatole viessem mortalmente +adormecidos, trepavamos aos estribos, atirando a cabeça para +dentro dos compartimentos, espavorindo a gente quieta com o mesmo berro +que retumbava:―«Grillo, estás ahi, +Grillo?»―Já d'uma terceira-classe, onde uma viola +repenicava, um jocoso gania, +troçando:―«Não ha por ahi um grillo? +Andam por ahi +uns senhores a pedir um grillo!»―E nem +Anatole, nem Grillo! <br /> + +<br /> + +A sineta tilintou. <br /> + +<br /> + +―Oh Pimentinha, espera, homem, não deixes largar o +comboio!... As nossas bagagens, homem! <br /> + +<br /> + +E, afflicto, empurrei o enorme chefe para o forgão de carga, +a pesquizar, descortinar as nossas vinte e trez malas! Apenas +encontramos +barris, cestos de vime, latas de azeite, um bahú amarrado +com cordas... Jacintho <span class="pagenum">[198]</span>mordia +os beiços, livido. E o Pimentinha, +esgazeado: <br /> + +<br /> + +―Oh filhos, eu não posso atrazar o comboio!... <br /> + +<br /> + +A sineta repicou... E com um bello fumo claro o comboio desappareceu +por detraz das fragas altas. Tudo em torno pareceu mais calado e +deserto. Alli ficavamos pois baldeados, perdidos na serra, sem Grillo, +sem procurador, sem caseiro, sem cavallos, sem malas! Eu conservava o +paletot alvadio, d'onde surdia o <em>Jornal do +Commercio</em>. Jacintho, uma bengala. Eram todos os nossos bens! +<br /> + +<br /> + +O Pimentão arregalava para nós os olhinhos +papudos e compadecidos. Contei então áquelle +amigo o +atarantado +trasfêgo em Medina sob a borrasca, o Grillo desgarrado, +encalhado +com as vinte e trez malas, ou rolando talvez para Madrid sem nos deixar +um lenço... <br /> + +<br /> + +―Eu não tenho um lenço!... Tenho este +<em>Jornal do Commercio</em>. É +toda a minha roupa branca. <br /> + +<br /> + +―Grande arrelia, caramba! murmurava o Pimenta, impressionado. E agora? +<br /> + +<br /> + +―Agora, exclamei, é trepar, para a quinta, á +pata... A não ser que se arranjassem ahi uns burros. <br /> + +<br /> + +Então o carregador lembrou que perto, no casal da Giesta, +ainda pertencente a Tormes, <span class="pagenum">[199]</span>o +caseiro, seu compadre, tinha uma boa egua e um jumento... E o prestante +homem enfiou n'uma carreira para a Giesta―emquanto o meu Principe e eu +cahiamos para cima d'um banco, arquejantes e succumbidos, como +naufragos. O vasto Pimentinha, com as mãos nas algibeiras, +não cessava de nos +contemplar, de murmurar:―«É de +arrelia».―O rio +defronte descia, preguiçoso e +como adormentado sob a calma já pesada de maio, +abraçando, sem um +sussurro, uma larga ilhota de pedra que rebrilhava. Para +além a +serra crescia em corcovas +doces, com uma funda prega onde se aninhava, bem junta e esquecida do +mundo, uma villasinha clara. O espaço immenso repousava n'um +immenso +silencio. N'aquellas solidões de monte e penedia os pardaes, +revoando +no telhado, pareciam aves consideraveis. E a massa rotunda e rubicunda +do +Pimentinha dominava, atulhava a região. <br /> + +<br /> + +―Está tudo arranjado, meu senhor! Vêm ahi os +bichos!... Só o que não calhou foi um selimsinho +para a jumenta! <br /> + +<br /> + +Era o carregador, digno homem, que voltava da Giesta, sacudindo na +mão duas esporas desirmanadas e ferrugentas. E +não tardaram a +apparecer no corrego, para nos levarem a Tormes, uma egua +ruça, um +jumento com albarda, um rapaz e um podengo. Apertamos <span class="pagenum">[200]</span>a mão suada e +amiga do Pimentinha. Eu cedi a egua ao senhor de Tormes. E +começamos +a trepar o caminho, que não se alisára nem se +desbravára desde os tempos em que o trilhavam, com rudes +sapatões ferrados, cortando de rio a +monte, os Jacinthos do seculo XIV! Logo depois de atravessarmos uma +tremula ponte +de pau, sobre um riacho quebrado por pedregulhos, o meu Principe, com o +olho de dono subitamente aguçado, notou a robustez e a +fartura das oliveiras...―E em breve os nossos males esqueceram ante a +incomparavel +belleza d'aquella serra bemdita! <br /> + +<br /> + +Com que brilho e inspiração copiosa a compozera o +divino Artista que faz as serras, e que tanto as cuidou, e +tão +ricamente as dotou, +n'este seu Portugal bem-amado! A grandeza egualava a graça. +Para +os +valles, poderosamente cavados, desciam bandos de arvoredos, +tão +copados e redondos, d'um verde tão môço +que eram +como um musgo macio onde appetecia cahir e rolar. Dos pendores, +sobranceiros ao carreiro +fragoso, largas ramadas estendiam o seu toldo amavel, a que o +esvoaçar leve dos passaros sacudia a fragrancia. Atravez dos +muros seculares, que sustem as terras liados pelas heras, rompiam +grossas raizes colleantes a que mais hera se enroscava. Em todo o +torrão, de cada fenda, +brotavam <span class="pagenum">[201]</span>flôres +silvestres. +Brancas rochas, pelas encostas, alastravam a solida nudez +do seu ventre polido pelo vento e pelo sol; outras, vestidas de lichen +e +de silvados floridos, avançavam como prôas de +galeras +enfeitadas: e, d'entre as que se apinhavam nos cimos, algum casebre que +para +lá galgára, todo amachucado e torto, espreitava +pelos +postigos +negros, sob as desgrenhadas farripas de verdura, que o vento lhe +semeára +nas telhas. Por toda a parte a agua sussurrante, a agua fecundante... +Espertos regatinhos fugiam, rindo com os seixos, d'entre as patas da +egua e do burro; grossos ribeiros açodados saltavam com +fragor +de +pedra em pedra; fios direitos e luzidios como cordas de prata vibravam +e faiscavam das alturas aos barrancos; e muita fonte, posta +á +beira de +veredas, jorrava por uma bica, beneficamente, á espera dos +homens e dos +gados... Todo um cabeço por vezes era uma ceára, +onde um +vasto +carvalho ancestral, solitario, dominava como seu senhor e seu guarda. +Em socalcos +verdejavam laranjaes rescendentes. Caminhos de lages soltas circumdavam +fartos prados com carneiros e vaccas retouçando:―ou mais +estreitos, entalados em muros, penetravam sob ramadas de parra espessa, +n'uma penumbra de repouso e frescura. Trepavamos então +alguma +ruasinha de +aldeia, dez ou doze <span class="pagenum">[202]</span>casebres, +sumidos entre figueiras, onde se esgaçava, +fugindo do lar pela telha vã, o fumo branco e cheiroso das +pinhas. Nos +cerros remotos, por cima da negrura pensativa dos pinheiraes, +branquejavam ermidas. O +ar fino e puro entrava na alma, e n'alma espalhava alegria e +força. Um esparso tilintar de chocalhos de guizos morria +pelas quebradas... <br /> + +<br /> + +Jacintho adiante, na sua egua ruça, murmurava: <br /> + +<br /> + +―Que belleza! <br /> + +<br /> + +E eu atraz, no burro de Sancho, murmurava: <br /> + +<br /> + +―Que belleza! <br /> + +<br /> + +Frescos ramos roçavam os nossos hombros com familiaridade e +carinho. Por traz das sebes, carregadas d'amoras, as macieiras +estendidas offereciam +as suas maçãs verdes, porque as não +tinham maduras. Todos os vidros d'uma casa velha, com a sua cruz no +topo, refulgiram hospitaleiramente quando nós passamos. +Muito +tempo um melro nos seguia, de +azinheiro a olmo, assobiando os nossos louvores. Obrigado, +irmão +melro! +Ramos de macieira, obrigado! Aqui vimos, aqui vimos! E sempre comtigo +fiquemos, serra tão acolhedora, serra de fartura e de paz, +serra +bemdita entre as serras! <br /> + +<br /> + +Assim, vagarosamente e maravilhados, chegamos <span class="pagenum">[203]</span>áquella +avenida de faias, que sempre me encantára pela sua fidalga +gravidade. Atirando +uma vergastada ao burro e á egua, o nosso rapaz, com o seu +podengo sobre os calcanhares, gritou:―«Aqui é que +estêmos, meus amos!» E ao fundo das faias, com +effeito, +apparecia o portão da quinta de Tormes, +com o seu brazão de armas, de secular granito, que o musgo +retocava e +mais envelhecia. Dentro já os cães ladravam com +furor. +E quando Jacintho, na sua suada egua, e eu atraz, no burro de Sancho, +transpozemos o limiar solarengo, desceu para nós, do alto do +alpendre, pela +escadaria de pedra gasta, um homem nedio, rapado como um padre, sem +collete, sem jaleca, acalmando os cães que se +encarniçavam contra o +meu Principe. Era o Melchior, o caseiro... Apenas me reconheceu, toda a +bocca se lhe escancarou n'um riso hospitaleiro, a que faltavam dentes. +Mas apenas eu +lhe revelei, d'aquelle cavalheiro de bigodes louros que descia da egua +esfregando os quadris, o senhor de Tormes―o bom Melchior recuou, +colhido de espanto e terror como diante d'uma avantesma. <br /> + +<br /> + +―Ora essa!... Santissimo nome de Deus! Pois então... <br /> + +<br /> + +E, entre o rosnar dos cães, n'um bracejar desolado, +balbuciou uma historia que por <span class="pagenum">[204]</span>seu +turno apavorava Jacintho, como se o negro muro do casarão +pendesse para desabar. O Melchior não +esperava s. ex.<sup>a</sup>! Ninguem esperava s. ex.<sup>a</sup>!... +(Elle +dizia <em>sua +incellencia</em>)... +O snr. Silverio estava para Castello de Vide desde março, +com a +mãe, que apanhára uma cornada na virilha. E de +certo +houvera engano, cartas perdidas... +Porque o snr. Silverio só contava com s. exc.<sup>a</sup> em +setembro, +para a +vindima! Na casa as obras seguiam devagarinho, devagarinho... O +telhado, no sul, ainda continuava sem telhas; muitas +vidraças +esperavam, +ainda sem vidros; e, para ficar, Virgem Santa, nem uma cama +arranjada!... <br /> + +<br /> + +Jacintho cruzou os braços n'uma colera tumultuosa que o +suffocava. Por fim, com um berro: <br /> + +<br /> + +―Mas os caixotes? Os caixotes, mandados de Paris, em fevereiro, ha +quatro mezes?... <br /> + +<br /> + +O desgraçado Melchior arregalava os olhos miudos, que se +embaciavam de lagrimas. Os caixotes?! Nada chegára, nada +apparecera!... E +na sua perturbação mirava pelas arcadas do pateo, +palpava na algibeira das pantalonas. Os caixotes?... Não, +não tinha os +caixotes! <br /> + +<br /> + +―E agora, Zé Fernandes? <br /> + +<br /> + +Encolhi os hombros: <br /> + +<br /> + +―Agora, meu filho, só vires commigo para +Guiães... Mas são duas horas fartas a cavallo. <span class="pagenum">[205]</span>E +não temos cavallos! O melhor +é vêr o casarão, comer a boa gallinha +que o nosso +amigo Melchior nos assa no espeto, dormir n'uma enxerga, e +ámanha cedo, antes do calor, trotar para +cima, para a tia Vicencia. <br /> + +<br /> + +Jacintho replicou, com uma decisão furiosa: <br /> + +<br /> + +―Ámanhã troto, mas para baixo, para a +estação!... E depois, para Lisboa! <br /> + +<br /> + +E subiu a gasta escadaria do seu solar com amargura e rancor. Em cima +uma larga varanda acompanhava a fachada do casarão, sob um +alpendre de negras vigas, toda ornada, por entre os pilares de granito, +com caixas de pau onde floriam cravos. Colhi um cravo amarello―-e +penetrei atraz de Jacintho nas salas nobres, que elle contemplava com +um murmurio de horror. Eram enormes, d'uma sonoridade de casa +capitular, com os +grossos muros ennegrecidos pelo tempo e o abandono, e regeladas, +desoladamente núas, conservando apenas aos cantos algum +monte de +canastras +ou alguma enxada entre paus. Nos tectos remotos, de carvalho +apainelado, luziam através dos rasgões manchas de +céo. As +janellas, sem vidraças, conservavam essas macissas portadas, +com +fechos para as trancas, que, quando se cerram, espalham a treva. <span class="pagenum">[206]</span>Sob os nossos passos, aqui +e +além, uma taboa pôdre rangia e cedia. <br /> + +<br /> + +―Inhabitavel! rugia Jacintho surdamente. Um horror! Uma infamia!... <br /> + +<br /> + +Mas depois, n'outras salas, o soalho alternava com remendos de taboas +novas. Os mesmos remendos claros mosqueavam os velhissimos tectos de +rico carvalho sombrio. As paredes repelliam pela alvura crúa +da cal fresca. E o sol mal atravessava as +vidraças―embaciadas e +gordurentas da massa e das mãos dos vidraceiros. <br /> + +<br /> + +Penetramos emfim na ultima, a mais vasta, rasgada por seis janellas, +mobilada com um armario e com uma enxerga parda e curta estirada a um +canto: e junto d'ella paramos, e sobre ella depuzemos tristemente o que +nos restava de vinte e trez malas―o meu paletot alvadio, a bengala de +Jacintho, e o <em>Jornal do Commercio</em> +que nos era commum. Através das janellas escancaradas, sem +vidraças, o grande ar da serra +entrava e circulava como n'um eirado, com um cheiro fresco d'horta +regada. Mas o que avistavamos, da beira da enxerga, era um pinheiral +cobrindo um cabeço e descendo pelo pendor suave, +á +maneira +d'uma hoste em marcha, com pinheiros na frente, destacados, direitos, +emplumados de negro; +mais longe as serras <span class="pagenum">[207]</span>d'além +rio, d'uma fina e macia côr +de violeta; depois a brancura do céo, todo liso, sem uma +nuvem, d'uma magestade +divina. E lá debaixo, dos valles, subia, desgarrada e +melancolica, uma voz de pegureiro cantando. <br /> + +<br /> + +Jacintho caminhou lentamente para o poial d'uma janella, onde cahiu +esbarrondado pelo desastre, sem resistencia ante aquelle brusco +desapparecimento de toda a Civilisação! Eu +palpava a enxerga, dura e regelada como um granito de inverno. E +pensando nos luxuosos +colchões de pennas e molas, tão prodigamente +encaixotados +no 202, +desafoguei tambem a minha indignação: <br /> + +<br /> + +―Mas os caixotes, caramba?... Como se perdem assim trinta e tantos +caixotes enormes?... <br /> + +<br /> + +Jacintho saccudiu amargamente os hombros: <br /> + +<br /> + +―Encalhados, por ahi, algures, n'um barracão!... Em Medina, +talvez, n'essa horrenda Medina. Indifferença das Companhias, +inercia +do Silverio... +Emfim a Peninsula, a barbarie! <br /> + +<br /> + +Vim ajoelhar sobre o outro poial, alongando os olhos consolados por +céo e monte: <br /> + +<br /> + +―É uma belleza! <br /> + +<br /> + +O meu principe, depois de um silencio grave, murmurou, com a face +encostada á mão: <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[208]</span> +―É uma lindeza... E que paz! <br /> + +<br /> + +Sob a janella vicejava fartamente uma horta, com repolho, feijoal, +talhões de alface, gordas folhas de abobora rastejando. Uma +eira, velha e mal alisada, dominava o valle, d'onde já subia +tenuemente +a nevoa d'algum fundo ribeiro. Toda a esquina do casarão +d'esse +lado +se encravava em laranjal. E d'uma fontinha rustica, meio afogada em +rosas tremedeiras, corria um longo e rutilante fio d'agua. <br /> + +<br /> + +―Estou com appetite desesperado d'aquella agoa! declarou Jacintho, +muito sério. <br /> + +<br /> + +―Tambem eu... Desçamos ao quintal, hein? E passamos pela +cosinha, a saber do frango. <br /> + +<br /> + +Voltamos á varanda. O meu Principe, mais conciliado com o +destino inclemente, colheu um cravo amarello. E por outra porta baixa, +de rigissimas hombreiras, mergulhamos n'uma sala, alastrada de +caliça, sem tecto, coberta apenas de grossas vigas, d'onde +s'ergueu uma revoada de pardaes. <br /> + +<br /> + +―Olha para este horror! murmurava Jacintho arripiado. <br /> + +<br /> + +E descemos por uma lobrega escada de castello, tenteando depois um +corredor tenebroso de lages asperas, atravancado por profundas arcas, +capazes de guardar todo o grão d'uma provincia. Ao fundo a +cozinha, immensa, <span class="pagenum">[209]</span>era +uma massa de +fórmas negras, madeira negra, +pedra negra, densas negruras de felugem secular. E n'este negrume +refulgia a um canto, sobre o chão de terra negra, a fogueira +vermelha, +lambendo tachos e panellas de ferro, despedindo uma fumarada que fugia +pela grade +aberta no muro, depois por entre a folhagem dos limoeiros. Na enorme +lareira, onde se aqueciam e assavam as suas grossas peças de +porco e +boi os Jacinthos medievaes, agora desaproveitada pela frugalidade dos +caseiros, negrejava um poeirento montão de cestas e +ferramentas; +e a +claridade toda entrava por uma porta de castanho, escancarada sobre um +quintalejo +rustico em que se misturavam couves lombardas e junquilhos formosos. Em +roda do lume um bando alvoroçado de mulheres depennava +frangos, remexia as caçarolas, picava a cebola, com um +fervor +afogueado e +palreiro. Todas emmudeceram quando apparecemos―e d'entre ellas o pobre +Melchior, estonteado, com o sangue a espirrar na nedia face d'abbade, +correu para +nós, jurando «que o jantarinho de suas +Incellencias não demorava um credo»... <br /> + +<br /> + +―E a respeito de camas, oh amigo Melchior? <br /> + +<br /> + +O digno homem ciciou uma desculpa encolhida «sobre +enxergasinhas no chão...» <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[210]</span> +―É o que basta! acudi eu, para o consolar. Por uma noite, +com lençoes frescos... <br /> + +<br /> + +―Ah, lá pelos lençoesinhos respondo eu!... Mas +um desgosto assim, meu senhor! A gente apanhada sem um +colxãosinho de +lã, sem um lombosinho de vacca... Que eu já +pensei, até lembrei +á minha comadre, V. Inc.<sup>as</sup> podiam ir +dormir aos <em>Ninhos</em>, a casa +do Silverio. Tinham lá camas de ferro, lavatorios... Elle +sempre é uma legoasita e mau +caminho... <br /> + +<br /> + +Jacintho, bondoso, accudiu: <br /> + +<br /> + +―Não, tudo se arranja, Melchior. Por uma noite!... +Até gósto mais de dormir em Tormes, na minha casa +da serra! <br /> + +<br /> + +Sahimos ao terreiro, retalho de horta fechado por grossas rochas +encabelladas de verdura, entestando com os socalcos da serra onde +lourejava o centeio. O meu principe bebeu da agua nevada e lusidia da +fonte, regaladamente, com os beiços na bica; appeteceu a +alface rechonchuda e crespa; e atirou pulos aos ramos altos d'uma +copada cerejeira, toda carregada de cereja. Depois, costeando o velho +lagar, a +que um bando de pombas branqueava o telhado, deslisámos +até ao carreiro, cortado no costado do monte. E andando, +pensativamente, o meu Principe pasmava para os milheiraes, para os +vetustos carvalhos plantados por vetustos Jacinthos, para os casebres <span class="pagenum">[211]</span>espalhados sobre os +cabeços á orla negra dos pinheiraes. <br /> + +<br /> + +De novo penetramos na avenida de faias e transpozemos o +portão senhorial entre o latir dos cães, mais +mansos, +farejando um dono. +Jacintho reconheceu «certa nobreza» na frontaria do +seu +lar. +Mas sobretudo lhe agradava a longa alameda, assim direita e larga, como +traçada para n'ella se desenrolar uma cavalgada de Senhores +com +plumas e pagens. Depois, de cima da varanda, reparando na telha nova da +capella, louvou +o Silverio, «esse ralaço», por cuidar ao +menos da morada do Bom-Deus. <br /> + +<br /> + +―E esta varanda tambem é agradavel, murmurou elle +mergulhando a face no aroma dos cravos. Precisa grandes poltronas, +grandes divans de verga... +<br /> + +<br /> + +Dentro, na «nossa sala», ambos nos sentamos nos +poiaes da janella, contemplando o doce socego crepuscular que +lentamente se estabelecia sobre valle e monte. No alto tremeluzia uma +estrellinha, a Venus diamantina, languida annunciadora da noite e dos +seus contentamentos. Jacintho nunca considerára +demoradamente +aquella estrella, +de amorosa refulgencia, que perpetua no nosso Céo catholico +a +memoria +da Deusa incomparavel:―nem assistira jámais, com a alma +attenta, ao +magestoso adormecer da Natureza. E este <span class="pagenum">[212]</span>ennegrecimento +dos montes que se +embuçam em sombra; os arvoredos emmudecendo, +cançados de +susurrar; o +rebrilho dos casaes mansamente apagado; o cobertor de nevoa, sob que se +acama e agasalha a frialdade dos valles; um toque somnolento de sino +que rola pelas quebradas; o segredado cochichar das aguas e das relvas +escuras―eram para elle como iniciações. +D'aquella janella, aberta sobre as serras, entrevia uma outra vida, que +não anda +sómente cheia do Homem e do tumulto da sua obra. E senti o +meu +amigo suspirar como quem emfim descança. <br /> + +<br /> + +D'este enlevo nos arrancou o Melchior com o doce aviso do +«jantarinho de suas Incellencias». Era n'outra +sala, mais +núa, +mais abandonada:―e ahi logo á porta o meu super-civilisado +Principe estacou, +estarrecido pelo desconforto, escassez e rudeza das coisas. Na mesa, +encostada ao muro denegrido, sulcado pelo fumo das candeias, sobre uma +toalha de estopa, duas velas de sêbo em castiçaes +de lata +alumiavam +grossos pratos de louça amarella, ladeados por colheres de +estanho e por +garfos de ferro. Os copos, d'um vidro espesso, conservavam a sombra +roxa do vinho que n'elles passára em fartos annos de fartas +vindimas. A malga +de barro, atestada de azeitonas pretas, contentaria Diogenes. Espetado <span class="pagenum">[213]</span>na +côdea d'um immenso pão reluzia um immenso +facalhão. +E +na cadeira senhoreal reservada ao meu Principe, derradeira alfaia dos +velhos Jacinthos, de hirto espaldar de couro, com a madeira +roída de caruncho, a +clina fugia em melenas pelos rasgões do assento poido. <br /> + +<br /> + +Uma formidavel moça, de enormes peitos que lhe tremiam +dentro das ramagens do lenço cruzado, ainda suada e +esbrazeada +do calor +da lareira, entrou esmagando o soalho, com uma terrina a fumegar. E o +Melchior, que +seguia erguendo a infusa do vinho, esperava que suas Incellencias lhe +perdoassem porque faltára tempo para o caldinho apurar... +Jacintho occupou a séde ancestral―e, durante momentos (de +esgazeada +anciedade para o caseiro excellente) esfregou energicamente, com a +ponta da toalha, o garfo negro, a fusca colhér de estanho. +Depois, +desconfiado, provou o caldo, que era de gallinha e rescendia. Provou―e +levantou +para mim, seu camarada de miserias, uns olhos que brilharam, +surprehendidos. +Tornou a sorver uma colherada mais cheia, mais considerada. E sorriu, +com espanto:―«Está bom!» <br /> + +<br /> + +Estava precioso: tinha figado e tinha moela: o seu perfume enternecia: +tres vezes, fervorosamente, ataquei aquelle caldo. <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[214]</span> +―Tambem lá volto! exclamava Jacintho com uma +convicção immensa. É que estou com uma +fome... Santo Deus! Ha annos que não sinto +esta fome. <br /> + +<br /> + +Foi elle que rapou avaramente a sopeira. E já espreitava a +porta, esperando a portadora dos piteus, a rija moça de +peitos +trementes, que emfim surgiu, mais esbrazeada, abalando o sobrado―e +pousou sobre a +mesa uma travessa a trasbordar de arroz com favas. Que desconsolo! +Jacintho, +em Paris, sempre abominára favas!... Tentou todavia uma +garfada timida―e de novo aquelles seus olhos, que o pessimismo +ennovoára, luziram, procurando os meus. Outra larga garfada, +concentrada, com uma lentidão de frade que se regala. Depois +um +brado: <br /> + +<br /> + +―Optimo!... Ah, d'estas favas, sim! Oh que fava! Que delicia! <br /> + +<br /> + +E por esta santa gula louvava a serra, a arte perfeita das mulheres +palreiras que em baixo remexiam as panellas, o Melchior que presidia ao +brodio... <br /> + +<br /> + +―D'este arroz com fava nem em Paris, Melchior amigo! <br /> + +<br /> + +O homem optimo sorria, inteiramente desannuviado: <br /> + +<br /> + +―Pois é cá a comidinha dos moços da +quinta! E cada pratada, que até suas Incellencias <span class="pagenum">[215]</span>se riam... Mas agora, +aqui, o Snr. D. Jacintho, +tambem vae engordar e enrijar! <br /> + +<br /> + +O bom caseiro sinceramente cria que, perdido n'esses remotos Parizes, o +Senhor de Tormes, longe da fartura de Tormes, padecia fome e mingava... +E o meu Principe, na verdade, parecia saciar uma velhissima fome e uma +longa saudade da abundancia, rompendo assim, a cada travessa, em +louvores mais copiosos. Diante do louro frango assado no espeto e da +salada que elle appetecera na horta, agora temperada com um azeite da +serra digno dos labios de Platão, terminou por +bradar:―«É divino!» Mas nada o +enthusiasmava como o +vinho de Tormes, cahindo d'alto, da bojuda infusa verde―um vinho +fresco, esperto, seivoso, e tendo mais alma, entrando mais na alma, que +muito poema ou livro santo. Mirando, +á vela de sèbo, o copo grosso que elle orlava de +leve +espuma rosea, +o meu Principe, com um resplendôr d'optimismo na face, citou +Virgilio: <br /> + +<br /> + +―<em>Quo te carmina dicam, Rethica</em>? +Quem dignamente te cantará, vinho amavel d'estas serras? <br /> + +<br /> + +Eu, que não gosto que me avantagem em saber classico, +espanejei logo tambem o meu Virgilio, louvando as doçuras da +vida rural: <br /> + +<br /> + +―<em>Hanc olim veteres vitam coluere +Sabini</em>... <span class="pagenum">[216]</span>Assim +viveram os velhos Sabinos. Assim Romolo e Remo... Assim cresceu a +valente Etruria. Assim Roma se tornou a maravilha do mundo! <br /> + +<br /> + +E immovel, com a mão agarrada á infusa, o +Melchior arregalava para nós os olhos em infinito assombro e +religiosa reverencia. <br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="break"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Ah! Jantamos deliciosissimamente, sob os auspicios do Melchior―que +ainda depois, próvido e tutelar, nos forneceu o tabaco. E, +como ante nós se alongava uma noite de monte, voltamos para +as +janellas +desvidraçadas, na sala immensa, a contemplar o sumptuoso +céo de +verão. Philosophámos então com +pachorra e +facundia. <br /> + +<br /> + +Na Cidade (como notou Jacintho) nunca se olham, nem lembram os +astros―por causa dos candieiros de gaz ou dos globos de electricidade +que os offuscam. Por isso (como eu notei) nunca se entra n'essa +communhão com o Universo que é a unica gloria e +unica consolação da Vida. Mas na serra, sem +predios +disformes de seis andares, sem a fumaraça que tapa Deus, sem +os +cuidados que como +pedaços de chumbo puxam a alma para o pó +rasteiro―um +Jacintho, um Zé +Fernandes, livres, bem jantados, fumando nos poiaes <span class="pagenum">[217]</span>d'uma +janella, olham para os astros e os astros olham para elles. Uns, +certamente, com olhos de sublime immobilidade ou de subllime +indifferença. Mas outros +curiosamente, anciosamente, com uma luz que acena, uma luz que chama, +como se tentassem, de tão longe, revelar os seus segredos, +ou de +tão longe comprehender os nossos... <br /> + +<br /> + +―Oh Jacintho, que estrella é esta, aqui, tão +viva, sobre o beiral do telhado? <br /> + +<br /> + +―Não sei... E aquella, Zé Fernandes, +além, por cima do pinheiral? <br /> + +<br /> + +―Não sei. <br /> + +<br /> + +Não sabiamos. Eu, por causa da espessa crosta de ignorancia +com que sahi do ventre de Coimbra, minha Mãe espiritual. +Elle, +porque na +sua Bibliotheca possuia trezentos e oito tratados sobre Astronomia, e o +Saber, assim accumulado, fórma um monte que nunca se +transpõe nem se desbasta. Mas que nos importava que aquelle +astro além se +chamasse Syrius e aquelle outro Aldebaran? Que lhes importava a elles +que um de nós fosse Jacintho, outro Zé? Elles +tão immensos, nós tão pequeninos, +somos a obra da +mesma Vontade. E todos, Uranos ou Lorenas de Noronha e Sande, +constituimos modos diversos d'um Sêr unico, e as +nossas diversidades esparsas sommam na mesma compacta Unidade. +Molleculas <span class="pagenum">[218]</span>do +mesmo Todo, governadas pela mesma Lei, rolando para o mesmo Fim... Do +astro ao homem, do homem á flôr do trevo, da +flôr do trevo ao mar sonoro―tudo é o mesmo Corpo, +onde +circula, como um sangue, +o mesmo Deus. E nenhum fremito de vida, por menor, passa n'uma fibra +d'esse sublime Corpo, que se não repercuta em todas, +até +ás mais humildes, até ás que parecem +inertes e +invitaes. Quando um Sol que +não avisto, nunca avistarei, morre de +inanição nas +profundidades, +esse esguio galho de limoeiro, em baixo na horta, sente um secreto +arrepio de morte:―e, quando eu bato uma patada no soalho de Tormes, +além o +monstruoso Saturno estremece, e esse estremecimento percorre o inteiro +Universo! Jacintho abateu rijamente a mão no rebordo da +janella. +Eu gritei: <br /> + +<br /> + +―Acredita!... O sol tremeu. <br /> + +<br /> + +E depois (como eu notei) deviamos considerar que, sobre cada um d'esses +grãos de pó luminoso, existia uma +creação, que incessantemente nasce, perece, +renasce. N'este instante, outros Jacinthos, outros +Zés Fernandes, sentados ás janellas d'outras +Tormes, contemplam +o céo nocturno, e n'elle um pequenininho ponto de luz, que +é a +nossa possante Terra por nós tanto sublimada. Não +terão todos esta nossa fórma, bem fragil, bem <span class="pagenum">[219]</span>desconfortavel, +e (a não ser no Apollo do +Vaticano, na Venus de Milo e talvez na Princeza, de Carman) +singularmente feia e burlesca. +Mas, horrendos ou de ineffavel belleza; collossaes e d'uma carne mais +dura que o granito, ou leves como gazes e ondulando na luz, todos elles +são sêres pensantes e teem consciencia da +Vida―porque decerto cada Mundo possue o seu Descartes, ou +já o +nosso Descartes os +percorreu a todos com o seu Methodo, a sua escura capa, a sua agudeza +elegante, formulando a unica certeza talvez certa, o grande +<em>Penso logo existo</em>. Portanto todos nós, +Habitantes dos +Mundos, ás +janellas dos nossos casarões, além nos Saturnos, +ou aqui +na nossa +Terricula, constantemente perfazemos um acto sacrosanto que nos penetra +e nos funde―que +é sentirmos no Pensamento o nucleo commum das nossas +modalidades, e portanto realisarmos um momento, dentro da Consciencia, +a Unidade do Universo!―Hein, Jacintho?... <br /> + +<br /> + +O meu amigo rosnou: <br /> + +<br /> + +―Talvez... Estou a cahir com somno. <br /> + +<br /> + +> +―Tambem eu. «Remontamos muito, Ex.<sup>mo</sup> +Snr.!» +como dizia o Pestaninha em Coimbra. Mas nada mais bello, e mais +vão, que uma +cavaqueira, no alto das serras, a olhar para as estrellas!... Tu sempre +vaes +amanhã? <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[220]</span> +―Com certeza, Zé Fernandes! Com a certeza de Descartes. +«Penso <em>logo +fujo</em>!» Como queres tu, n'este pardieiro, +sem uma cama, sem uma poltrona, sem um livro?... Nem só de +arroz com fava vive o +Homem! Mas demoro em Lisboa, para conversar com o Cesimbra, o meu +Administrador. E +tambem á espera que estas obras acabem, os caixotes surjam, +e eu possa voltar decentemente, com roupa lavada, para a +trasladação... <br /> + +<br /> + +―É verdade, os ossos... <br /> + +<br /> + +―Mas resta ainda o Grillo... Que animal! Por onde andará +esse perdido? <br /> + +<br /> + +Então, passeando lentamente na sala enorme, onde a vela de +sêbo já derretida no castiçal de lata +era como um +lume de cigarro +n'um descampado, meditámos na sorte do Grillo. O estimado +negro +ou fôra despejado nas lamas de Medina, com as vinte e sete +malas, +aos gritos―ou, regaladamente adormecido, rolára com o +Anatole +no comboio para Madrid. Mas ambos os casos appareciam ao meu Principe +como irremediavelmente destruidores do seu conforto... <br /> + +<br /> + +―Não, escuta, Jacintho... Se o Grillo encalhou em Medina, +dormiu na Fonda, catou os percevejos, e esta madrugada correu para +Tormes. Quando +ámanhã desceres á +Estação, ás quatro horas, encontras o +teu precioso homem, <span class="pagenum">[221]</span>com +as tuas preciosas malas, mettido n'esse comboio que te leva ao Porto e +á Capital... <br /> + +<br /> + +Jacintho saccudiu os braços como quem se debate nas malhas +d'uma rede: <br /> + +<br /> + +―E se seguiu para Madrid? <br /> + +<br /> + +―Então, por esta semana, cá apparece em Tormes, +onde encontra ordem para regressar a Lisboa e reentrar no teu +sequito... Resta o interessante caso das minhas bagagens. Se +ámanhã +encontrares na Estação o Grillo, separa a minha +mala +negra, e o sacco de lona, e a +chapelleira. O Grillo conhece. E pede ao Pimenta, ao gordalhufo, que me +avise para Guiães. Se o Grillo aportar Tormes, esfogueteado +de +Madrid, +com toda essa malaria, deixa as minhas cousas aqui, ao Melchior... Eu +ámanhã fallo ao Melchior. <br /> + +<br /> + +Jacintho sacudiu furiosamente o collarinho: <br /> + +<br /> + +―Mas como posso eu partir para Lisboa, ámanhã, +com esta camisa de dous dias, que já me faz uma +comichão horrenda? E sem +um lenço... Nem ao menos uma escova de dentes! <br /> + +<br /> + +Fertil em idéas, estendi as mãos, n'um bello +gesto tutelar: <br /> + +<br /> + +―Tudo se arranja, meu Jacintho, tudo se arranja! Eu, largando d'aqui +cedo, pelas seis <span class="pagenum">[222]</span>horas, +chego a Guiães ás dez, +ainda sem calor. E, mesmo antes do almoço e da cavaqueira +com a tia Vicencia, +immediatamente te mando por um moço um sacco de roupa +branca. As minhas +camisas e as minhas ceroulas talvez te estejam largas. Mas um mendigo +como tu +não tem direito a elegancias e a roupas bem cortadas. O +moço, n'um +bom trote, entra aqui ás duas horas; tens tempo de mudar +antes de +desceres para a Estação... Posso metter na mala +uma escova de +dentes. <br /> + +<br /> + +―Oh Zé Fernandes! Então mette tambem uma +esponja... E um frasco d'agoa de colonia! <br /> + +<br /> + +―Agoa d'alfazema, excellente, feita pela tia Vicencia... <br /> + +<br /> + +O meu Principe suspirou, impressionado com a sua miseria esqualida, e +esta dadiva de roupas: <br /> + +<br /> + +―Bem, então vamos dormir, que estou esfalfado de +emoções e d'astros... <br /> + +<br /> + +Justamente Melchior entreabria a pesada porta, com timidez, a avisar +que «estavam preparadinhas as camas de suas +Incellencias.» E seguindo o bom caseiro, que erguia uma +candeia, +que avistamos nós, o meu +Principe e eu, ainda ha pouco irmanados com os astros? Em duas saletas, +que uma abertura em arco, lobrego arco de pedra, separava―duas +enxergas sobre +o soalho. Junto á cabeceira <span class="pagenum">[223]</span>da +mais larga, que pertencia ao +senhor de Tormes, um castiçal de latão sobre um +alqueire; +aos pés, como lavatorio, um alguidar vidrado em cima duma +tripeça. Para mim, serrano +d'aquellas serras, nem alguidar nem alqueire. <br /> + +<br /> + +Lentamente, com o pé, o meu super-civilisado amigo palpou a +enxerga. E decerto lhe sentiu uma dureza intransigente, porque ficou +pendido sobre +ella, a correr desoladamente os dedos pela face desmaiada. <br /> + +<br /> + +―E o peior não é ainda a enxerga, murmurou emfim +com um suspiro. É que não tenho camisa de dormir, +nem chinelas!... E +não me posso deitar de camisa engommada. <br /> + +<br /> + +Por inspiração minha reccorremos ao Melchior. De +novo, esse benemerito providenciou, trazendo a Jacintho, para elle +desafogar os +pés, uns tamancos―e para embrulhar o corpo uma camisa da +comadre, enorme, de estopa, áspera como uma estamenha de +penitente, com folhos +mais crespos e duros do que lavores de madeira. Para consolar o meu +Principe lembrei +que Platão quando compunha o +<em>Banquete</em>, Vasco da Gama quando +dobrava o Cabo, não dormiam em melhores catres! As enxergas +rijas +fazem as almas fortes, oh Jacintho!... E é só +vestido de +estamenha que se penetra no Paraiso. <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[224]</span> +―Tens tu, volveu o meu amigo seccamente, alguma coisa que eu leia? +Não posso adormecer sem um livro. <br /> + +<br /> + +Eu? Um livro? Possuia apenas o velho numero do <em>Jornal +do Commercio</em>, +que escapára á dispersão dos nossos +bens. Rasguei a copiosa folha pelo meio, partilhei com Jacintho +fraternalmente. Elle tomou a sua metade, que era a dos annuncios... E +quem não viu então +Jacintho, senhor de Tormes, acaçapado á borda da +enxerga, +rente da +vela de sêbo que se derretia no alqueire, com os +pés +encafuados nos +sócos, perdido dentro das ásperas pregas e dos +rijos +folhos da camisa serrana, +percorrendo n'um pedaço velho de Gazeta, pensativamente, as +partidas dos +Paquetes―não póde saber o que é uma +intensa e veridica imagem do Desalento. <br /> + +<br /> + +Recolhido á minha alcova espartana, desabotoava o collete, +n'um delicioso cansaço, quando o meu Principe ainda me +reclamou: <br /> + +<br /> + +―Zé Fernandes... <br /> + +<br /> + +―Dize. <br /> + +<br /> + +―Manda tambem no sacco um abotoador de botas. <br /> + +<br /> + +Estirado commodamente na rija enxerga murmurei, como sempre murmuro ao +penetrar no Somno, que é um primo da Morte, <span class="pagenum">[225]</span>«Deus +seja louvado!» Depois tomei a metade do <em>Jornal do +Commercio</em> que me pertencia. <br /> + +<br /> + +―Zé Fernandes... <br /> + +<br /> + +―Que é? <br /> + +<br /> + +―Tambem podias metter no sacco pós dos dentes... E uma lima +das unhas... E um romance! <br /> + +<br /> + +Já a meia Gazeta me escapava das mãos dormentes. +Mas da sua alcova, depois de soprar a vela, Jacintho murmurou entre um +bocejo: <br /> + +<br /> + +―Zé Fernandes... <br /> + +<br /> + +―Hein? <br /> + +<br /> + +―Escreve para Lisboa, para o Hotel Bragança... Os +lençoes ao menos são frescos, cheiram bem, a +sadio! <br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h2>IX</h2> + +<br /> + +<br /> + +Cedo, de madrugada, sem rumor, para não despertar o meu +Jacintho, que, com as mãos cruzadas sobre o peito, dormia +beatificamente na +sua enxerga de granito―parti para Guiães. <br /> + +<br /> + +Ao cabo d'uma semana, recolhendo uma manhã para o +almoço, encontrei no corredor as minhas malas tão +desejadas, que um +moço do casal da Giesta trouxera n'um carro com +«recados +do Snr. +Pimentinha». O meu pensamento pulou para o meu Principe. E +lancei +pelo telegrapho, para Lisboa, para +o Hotel Bragança, este brado +alegre:―«Estás lá? Sei recuperaste +Grillo e Civilisação! Hurrah! +Abraço!»―Só depois de sete dias, +occupados n'uma delicada apanha de aspargos com que outr'ora +civilisára a +horta da tia Vicencia, notei o silencio de Jacintho. N'um bilhete +postal renovei, desenvolvi o grito amigo:―«Estás +lá? +São os prazeres da Baixa que assim te <span class="pagenum">[228]</span>tornam +desattento e mudo? Eu, todo aspargos! Responde, quando +chegas? Tempo delicioso! 23º á sombra. E os +ossos?...»―Veio depois a devota romaria da Senhora da +Roqueirinha. Durante a lua nova andei n'um +córte de matto, na minha terra das Corcas. A tia Vicencia +vomitou, com uma indigestão de murcellas. E o silencio do +meu +Principe era +ingrato e ferrenho. <br /> + +<br /> + +Emfim uma tarde, voltando da Flor da Malva, de casa da minha prima +Joanninha, parei em Sandofim, na venda do Manoel Rico, para beber de +certo vinho branco que a minha alma conhece―e sempre pede. <br /> + +<br /> + +Defronte, á porta do ferrador, o Severo, sobrinho do +Melchior de Tormes e o mais fino alveitar da serra, picava tabaco, +escarranchado n'um banco. Mandei encher outro quartilho: elle acariciou +o +pescoço da minha egua que já salvára +d'um +esfriamento: e, como eu +indagasse do nosso Melchior, o Severo contou que na véspera +jantára +com elle em Tormes, e se abeirára tambem do fidalgo... <br /> + +<br /> + +―Ora essa! Então o snr. D. Jacintho está em +Tormes? <br /> + +<br /> + +O meu espanto divertiu o Severo: <br /> + +<br /> + +―Então v. exc.<sup>a</sup>... Pois em Tormes é que +elle +está, ha mais de cinco semanas, sem arredar! <span class="pagenum">[229]</span>E parece que fica para a +vindima, e vai +lá uma grandeza! <br /> + +<br /> + +Santissimo nome de Deus! Ao outro dia, domingo, depois da missa e sem +me assustar com a calma que carregava, trotei +alvoroçadamente +para Tormes. Ao latir dos rafeiros, quando transpuz o portal solarengo, +a comadre do +Melchior accudio dos lados do curral, com um alguidar de lavagem +encostado á cintura.―Então o snr. D. +Jacintho?... O snr. D. Jacintho andava lá para baixo, com o +Silverio e com o Melchior, nos +campos de Freixomil... <br /> + +<br /> + +―E o Snr. Grillo, o preto? <br /> + +<br /> + +―Ha bocadinho tambem o enxerguei no pomar, com o francez, a apanhar +limões doces... <br /> + +<br /> + +Todas as janellas do solar rebrilhavam, com vidraças novas, +bem polidas. A um canto do páteo notei baldes de cal e +tijellas de +tintas. Uma escada de pedreiro descançára durante +o Dia Santo +arrimada contra o telhado. E, rente ao muro da capella, dois gatos +dormiam sobre montões +de palha desempacotada de caixotes consideraveis. <br /> + +<br /> + +―Bem, pensei eu. Eis a Civilisação! <br /> + +<br /> + +Recolhi a egua, galguei a escada. Na varanda, sobre uma pilha de ripas, +reluzia n'um raio de sol uma banheira de zinco. Dentro <span class="pagenum">[230]</span>encontrei +todos os soalhos remendados, esfregados a carqueja. As paredes, muito +caiadas +e núas, refrigeravam como as d'um convento. Um quarto, a que +me levaram tres portas escancaradas com franqueza serrana, era +certamente o de Jacintho: a roupa pendia de cabides de pau: o leito de +ferro, com coberta de fustão, encolhia timidamente a sua +rigidez +virginal a um canto, entre o muro e a banquinha onde um +castiçal +de +latão resplandecia sobre um volume do <em>D. Quichote</em>; +no +lavatorio pintado de amarello, imitando bambú, apenas cabia +o +jarro, a bacia, um naco gordo +de sabão; e uma prateleirinha bastava ao esmerado alinho da +escova, da thesoura, do +pente, do espelhinho de feira, e do frasquinho de agua de alfazema que +eu mandára de Guiães. As tres janellas, sem +cortinas, contemplavam a belleza da serra, respirando um delicado e +macio ar, que se perfumava nas resinas dos pinheiraes, depois nas +roseiras da horta. Em frente, no +corredor, outro quarto repetia a mesma simplicidade. Certamente a +previdencia do meu Principe o destinára ao seu Zé +Fernandes. Pendurei logo dentro, no cabide, o meu guarda-pó +de +lustrina. <br /> + +<br /> + +Mas na sala immensa, onde tanto philosopháramos considerando +as estrellas, Jacintho arranjára um centro de repouso e +d'estudo―e <span class="pagenum">[231]</span>desenrolára +essa «grandeza» que +impressionava o Severo. As cadeiras de verga da Madeira, amplas e de +braços, offereciam o conforto +de almofadinhas de chita. Sobre a mesa enorme de pau branco, +carpinteirada +em Tormes, admirei um candieiro de metal de tres bicos, um tinteiro de +frade armado de pennas de pato, um vaso de capella transbordando de +cravos. Entre duas janellas uma commoda antiga, embutida, com ferragens +lavradas, recebera sobre o seu marmore rosado o devoto peso d'um +Presepio, onde Reis Magos, pastores de surrões vistosos, +cordeiros d'esguedelhada lã, se apressavam atravez +d'alcantis +para o +Menino, que na sua lapinha lhes abria os braços, coroado por +uma +enorme +Corôa Real. Uma estante de madeira enchia outro +pedaço de +parede, entre +dois retratos negros com caixilhos negros; sobre uma das suas +prateleiras repousavam duas espingardas; nas outras esperavam, +espalhados, como os primeiros Doutores nas bancadas d'um concilio, +alguns nobres livros, um +Plutarcho, um Virgilio, a Odyssea, o Manual de Epictecto, as Chronicas +de Froissart. Depois, em fila decorosa, cadeiras de palhinha, muito +novas, muito envernisadas. E a um canto um mólho de +varapaus. <br /> + +<br /> + +Tudo resplandecia de asseio e ordem. As <span class="pagenum">[232]</span>portadas +das janellas, +cerradas, abrigavam do sol que batia aquelle lado de Tormes, escaldando +os peitoris de pedra. Do soalho, burrifado de agua, subia, na suavisada +penumbra, uma frescura. Os cravos rescendiam. Nem dos campos, nem da +casa, se elevava um rumor. Tormes dormia no esplendor da +manhã santa. E, penetrado por aquella consoladora +quietação de +convento rural, terminei por me estender n'uma cadeira de verga, junto +da mesa, abrir languidamente um tomo de Virgilio, e murmurar, +appropriando o doce +verso que encontrára: <br /> + +<br /> + +<div class="quote">Fortunate Jacinthe! Hic, inter arva nota<br /> + +Et fontes sacros, frigus captabis opacum... </div> + +<br /> + +Afortunado Jacintho, na verdade! Agora, entre campos que são +teus e aguas que te são sagradas, colhes emfim a sombra e a +paz! <br /> + +<br /> + +Li ainda outros versos. E, na fadiga das duas horas de egua e calor +desde Guiães, irreverentemente adormecia sobre o divino +Bucoliasta―quando me despertou um berro amigo! Era o meu Principe. E +muito decididamente, depois de me soltar do seu rijo abraço, +o comparei a uma planta estiolada, emmurchecida na +escuridão, +entre +tapetes e sêdas, que, levada para vento e sol, profusamente <span class="pagenum">[233]</span>regada, +reverdece, desabrocha e honra a Natureza! Jacintho já +não +corcovava. Sobre a sua arrefecida pallidez de super-civilisado, o ar +montesino, ou vida mais verdadeira, espalhára um rubor +trigueiro +e quente de sangue +renovado que o virilisava soberbamente. Dos olhos, que na Cidade +andavam sempre +tão crepusculares e desviados do Mundo, saltava agora um +brilho +de +meio-dia, resoluto e largo, contente em se embeber na belleza das +coisas. +Até o bigode se lhe encrespára. E já +não +deslisava a mão desencantada sobre a face,―mas batia com +ella +triumphalmente na côxa. Que sei? +Era um Jacintho novissimo. E quasi me assustava, por eu ter de aprender +e penetrar, n'este novo Principe, os modos e as idéas novas. +<br /> + +<br /> + +―Caramba, Jacintho, mas então...? <br /> + +<br /> + +Elle encolheu jovialmente os hombros realargados. E só me +soube contar, trilhando soberanamente com os sapatos brancos e cobertos +de +pó o soalho remendado, que, ao acordar em Tormes, depois de +se lavar n'uma dorna, e +d'enfiar a minha roupa branca, se sentira de repente como <em>desannuviado</em>, +<em>desenvencilhado</em>! +Almoçára uma pratada de ovos com +chouriço, sublime. Passeára por toda aquella +magnificencia da serra com pensamentos ligeiros de liberdade e de paz. +Mandára <span class="pagenum">[234]</span>ao +Porto comprar uma cama, uns cabides... E alli estava... <br /> + +<br /> + +―Para todo o verão? <br /> + +<br /> + +―Não! Mas um mez... Dois mezes! Emquanto houver +chouriços, e a agoa da fonte, bebida pela telha ou n'uma +folha de couve, me souber +tão divinamente! <br /> + +<br /> + +Cahi sobre a cadeira de verga, e contemplei, arregalado, quasi +esgazeado, o meu Principe! Elle enrolava n'uma mortalha tabaco picado, +tabaco grosso, guardado n'uma malga vidrada. E exclamava: <br /> + +<br /> + +―Ando ahi pelas terras desde o romper d'alva! Pesquei já +hoje quatro trutas, magnificas... Lá em baixo, no Naves, um +riachote que +se atira pelo valle da Seranda... Temos logo ao jantar essas trutas! <br /> + +<br /> + +Mas eu, avido pela historia d'aquella +ressurreição: <br /> + +<br /> + +―Então, não estiveste em Lisboa?... Eu +telegraphei... <br /> + +<br /> + +―Qual telegrapho! Qual Lisboa! Estive lá em cima, ao +pé da fonte da Lira, á sombra d'uma grande +arvore, <em>sub +tegmine</em> não sei quê, a +lêr esse adorável Virgilio... E tambem a arranjar +o meu palacio! +Que te parece, Zé Fernandes? Em tres semanas, tudo soalhado, +envidraçado, caiado, encadeirado!... Trabalhou <span class="pagenum">[235]</span>a freguezia inteira! +Até +eu pintei, com uma immensa brocha. Viste o comedoiro? <br /> + +<br /> + +―Não. <br /> + +<br /> + +―Então vem admirar a belleza na simplicidade, barbaro! <br /> + +<br /> + +Era a mesma onde nós tanto exaltaramos o arroz com +favas―mas muito esfregada, muito caiada, com um rodapé +bezuntado d'azul +estridente onde logo adivinhei a obra do meu Principe. Uma toalha de +linho de +Guimarães cobria a mesa, com as franjas roçando o +soalho. No fundo dos +pratos de louça forte reluzia um gallo amarello. Era o mesmo +gallo e a +mesma louça em que na nossa casa, em Guiães, se +servem os +feijões dos cavadores... <br /> + +<br /> + +Mas no páteo os cães latiram. E Jacintho correu +á varanda, com uma ligeireza curiosa que me deleitou. Ah, +bem +definitivamente se esfrangalhára aquella rede de malha que +se +não +percebia e que outr'ora o travava!―N'esse momento appareceu o Grillo, +de quinzena de linho, segurando em cada mão uma garrafa de +vinho +branco. Todo se +alegrou «em vêr na quinta o siô +Fernandes». Mas +a sua +veneranda face já não resplandecia, como em +Paris, com um +tão sereno e ditoso +brilho de ebano. Até me pareceu que corcovava... Quando o +interroguei sobre +aquella mudança, estendeu duvidosamente o beiço +grosso: <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[236]</span> +―O menino gosta, eu então tambem gósto... Que o +ar aqui é muito bom, siô Fernandes, o ar +é muito bom! <br /> + +<br /> + +Depois, mais baixo, envolvendo n'um gesto desolado a louça +de Barcellos, as facas de cabo d'osso, as prateleiras de pinho como +n'um refeitorio +de Franciscanos: <br /> + +<br /> + +―Mas muita magreza, siô Fernandes, muita magreza! <br /> + +<br /> + +Jacintho voltava com um maço de jornaes cintados: <br /> + +<br /> + +―Era o carteiro. Já vês que não amuei +inteiramente com a Civilisação. Eis a +Imprensa!... Mas nada de +<em>Figaro</em>, ou da horrenda +<em>Dois-Mundos</em>! Jornaes de Agricultura! Para aprender +como se +produzem as risonhas messes, e sob que signo se casa a vinha ao olmo, e +que cuidados necessita a abelha provida... <em>Quid faciat +laetas +segetes</em>... De resto para esta nobre +educação, já me +bastavam as <em>Georgicas</em>, que tu +ignoras! <br /> + +<br /> + +Eu ri: <br /> + +<br /> + +―Alto lá! <em>Nos quoque gens sumus et +nostrum Virgilium sabemus</em>! <br /> + +<br /> + +Mas o meu novissimo amigo, debruçado da janella, batia as +palmas―como Catão para chamar os servos, na Roma simples. E +gritava: <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[237]</span> +―Anna Vaqueira! Um copo d'agoa, bem lavado, da fonte velha! <br /> + +<br /> + +Pulei, immensamente divertido: <br /> + +<br /> + +―Oh Jacintho! E as aguas carbonatadas? e as phosphatadas? e as +esterilisadas? e as sodicas?... <br /> + +<br /> + +O meu Principe atirou os hombros com um desdem soberbo. E acclamou a +apparição d'um grande copo, todo embaciado pela +frescura nevada da agoa refulgente, que uma bella moça +trazia +n'um prato. Eu admirei +sobretudo a moça... Que olhos, d'um negro tão +liquido e +serio! No andar, no quebrar da cinta, que harmonia e que +graça +de Nympha latina! <br /> + +<br /> + +E apenas pela porta desapparecera a explendida +apparição: <br /> + +<br /> + +―Oh Jacintho, eu d'aqui a um instante tambem quero agua! E se compete +a esta rapariga trazer as cousas, eu, de cinco em cinco minutos, quero +uma cousa!... Que olhos, que corpo... Caramba, menino! Eis a poesia, +toda viva, da serra... <br /> + +<br /> + +O meu Principe sorria, com sinceridade: <br /> + +<br /> + +―Não! não nos illudamos, Zé +Fernandes, nem façamos Arcadia. É uma bella +moça, mas uma bruta... Não ha alli mais poesia, +nem mais sensibilidade, nem mesmo mais belleza do que n'uma linda vacca +tourina. Merece o <span class="pagenum">[238]</span>seu +nome de Anna Vaqueira. Trabalha bem, digere bem, concebe bem. Para isso +a fez a Natureza, assim sã e rija; e ella cumpre. O marido +todavia não parece contente, porque a desanca. Tambem +é +um bello +bruto... Não, meu filho, a serra é maravilhosa e +muito +grato lhe estou... Mas +temos aqui a fêmea em toda a sua animalidade e o macho em +todo o +seu +egoismo... São porém verdadeiros, genuinamente +verdadeiros! E esta verdade, +Zé Fernandes, é para mim um repouso. <br /> + +<br /> + +Lentamente, gozando a frescura, o silencio, a liberdade do vasto +casarão, retrocedemos á sala que Jacintho +já denominára a +<em>Livraria</em>. E, de repente, ao avistar n'um canto uma +caixa com a tampa meio +despregada, quasi me engasguei, na furiosa curiosidade que me assaltou: +<br /> + +<br /> + +―E os caixotes? Oh Jacintho?... Toda aquella immensa caixotaria que +nós mandamos, abarrotada de +Civilisação? Soubeste? +Appareceram? <br /> + +<br /> + +O meu Principe parou, bateu alegremente na côxa: <br /> + +<br /> + +―Sublime! Tu ainda te lembras d'aquelle homemsinho, de sacco a +tiracollo, que nós admiramos tanto pela sua sagacidade, o +seu saber geographico?... Lembras? Apenas fallei em Tormes, gritou que +conhecia, rabiscou <span class="pagenum">[239]</span>uma +nota... Nem era necessario mais! «Oh! Tormes, perfeitamente, +muito antigo, muito curioso!» Pois mandou tudo +para Alba-de-Tormes, em Hespanha! Está tudo em Hespanha! <br /> + +<br /> + +Cocei o queixo, desconsolado: <br /> + +<br /> + +―Ora, ora... Um homem tão esperto, tão expedito, +que fazia tanta honra ao Progresso! Tudo para Hespanha!... E mandaste +vir? <br /> + +<br /> + +―Não! Talvez mais tarde... Agora, Zé Fernandes, +estou saboreando esta delicia de me erguer pela manhã, e de +ter só uma +escova para alisar o cabello. <br /> + +<br /> + +Considerei, cheio de recordações, o meu amigo: <br /> + +<br /> + +―Tinhas umas nove... <br /> + +<br /> + +―Nove? Tinha vinte! Talvez trinta! E era uma +atrapalhação, não me bastavam!... +Nunca em Paris +andei bem penteado. Assim com os meus setenta mil volumes: eram tantos +que nunca li nenhum. Assim com as minhas +occupações: +tanto me sobrecarregavam, que +nunca fui util! <br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="break"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +De tarde, depois da calma, fomos vaguear pelos caminhos colleantes +d'aquella quinta rica, que, através de duas legoas, ondula +por valle e monte. Não m'encontrára mais com +Jacintho em +meio +da Natureza, desde o <span class="pagenum">[240]</span>remoto +dia +d'entremez em que elle tanto soffrera no sociavel e +policiado bosque de Montmorency. Ah, mas agora, com que +segurança e +idyllico amor elle se movia através d'essa Natureza, d'onde +andára tantos annos desviado por theoria e por habito! +Já +não +arreceiava a humidade mortal das relvas; nem repellia como impertinente +o roçar das +ramagens; nem o silencio dos altos o inquietava como um despovoamento +do Universo. Era com delicias, com um consolado sentimento de +estabilidade recuperada, que enterrava os grossos sapatos nas terras +molles, como no seu +elemento natural e paterno: sem razão, deixava os trilhos +faceis, +para se embrenhar através de arbustos emaranhados, e receber +na +face +a caricia das folhas tenras; sobre os outeiros, parava, immovel, +retendo os meus gestos e quasi o meu halito, para se embeber de +silencio e de paz: e duas vezes o surprehendi attento e sorrindo +á beira d'um +regatinho palreiro, como se lhe escutasse a confidencia... <br /> + +<br /> + +Depois philosophava, sem descontinuar, com o enthusiasmo d'um +convertido, avido de converter: <br /> + +<br /> + +―Como a intelligencia aqui se liberta, hein? E como tudo é +animado d'uma vida <span class="pagenum">[241]</span>forte +e profunda!... Dizes tu agora, Zé +Fernandes, que não ha aqui pensamento... <br /> + +<br /> + +―Eu?! Eu não digo nada, Jacintho... <br /> + +<br /> + +―Pois é uma maneira de reflectir muito estreita e muito +grosseira... <br /> + +<br /> + +―Ora essa! Mas eu... <br /> + +<br /> + +―Não, não percebes. A vida não se +limita a pensar, meu caro doutor... <br /> + +<br /> + +―Que não sou! <br /> + +<br /> + +―A vida é essencialmente Vontade e Movimento: e n'aquelle +pedaço de terra, plantado de milho, vae todo um mundo de +impulsos, de +forças que se revelam, e que attingem a sua +expressão suprema, que +é a Fórma. Não, essa tua philosophia +está ainda extremamente grosseira... <br /> + +<br /> + +―Irra! mas eu não... <br /> + +<br /> + +―E depois, menino, que inesgotavel, que miraculosa diversidade de +fórmas... E todas bellas! <br /> + +<br /> + +Agarrava o meu pobre braço, exigia que eu reparasse com +reverencia. Na Natureza nunca eu descobriria um contorno feio ou +repetido! Nunca duas folhas d'hera, que, na verdura ou recorte, se +assemelhassem! Na Cidade, pelo contrario, cada casa repete servilmente +a outra casa; todas as faces reproduzem a mesma indifferença +ou +a mesma +inquietação; as idéas teem todas o +mesmo valor, <span class="pagenum">[242]</span>o +mesmo cunho, a mesma fórma, como +as libras; e até o que ha mais pessoal e intimo, a +Illusão, +é em todos identica, e todos a respiram, e todos se perdem +n'ella como no mesmo nevoeiro... A <em>mesmice</em>―eis o +horror das Cidades! <br /> + +<br /> + +―Mas aqui! Olha para aquelle castanheiro. Ha tres semanas que cada +manhã o vejo, e sempre me parece outro... A sombra, o sol, o +vento, as nuvens, a chuva, incessantemente lhe compõem uma +expressão diversa e nova, sempre interessante. Nunca a sua +frequentação me poderia fartar... <br /> + +<br /> + +Eu murmurei: <br /> + +<br /> + +―É pena que não converse! <br /> + +<br /> + +O meu Principe recuou, com olhares chammejantes, d'Apostolo: <br /> + +<br /> + +―Como que não converse? Mas é justamente um +conversador sublime! Está claro, não tem ditos, +nem parola theorias, +<em>ore rotundo</em>. Mas nunca eu passo junto d'elle que +não me +suggira um pensamento ou me +não desvende uma verdade... Ainda hoje quando eu voltava de +pescar as trutas... Parei: e logo elle me fez sentir como toda a sua +vida de vegetal +é isenta de trabalho, da anciedade, do esforço +que a vida +humana impõe; não tem de se preoccupar com o +sustento, +nem com o vestido, +nem com o abrigo; filho querido <span class="pagenum">[243]</span>de +Deus, Deus o nutre, sem que elle se mova ou se inquiete... E +é +esta segurança que lhe dá tanta graça +e tanta +magestade. Pois não achas? <br /> + +<br /> + +Eu sorria, concordava. Tudo isto era de certo rebuscado e especioso. +Mas que importavam as requintadas metaphoras, e essa metaphysica mal +madura, colhida á pressa nos ramos d'um castanheiro? Sob +toda +aquella ideologia transparecia uma excellente realidade―a +reconciliação do meu Principe com a Vida. Segura +estava a sua Resurreição +depois de tantos annos de cova, da cova molle em que jazera, enfaixado +como uma mumia nas faixas do Pessimismo! <br /> + +<br /> + +E o que esse Principe, n'esta tarde me esfalfou! Farejava, com uma +curiosidade insaciavel, todos os recantos da serra! Galgava os +cabeços correndo, como na esperança de descobrir +lá do +alto os esplendores nunca contemplados d'um Mundo inedito. E o seu +tormento era não +conhecer os nomes das arvores, da mais rasteira planta brotando das +fendas d'um socalco... Constantemente me folheava como a um Diccionario +Botanico. <br /> + +<br /> + +―Fiz toda a sorte de cursos, passei pelos professores mais illustres +da Europa, tenho trinta mil volumes, e não sei se aquelle +senhor além é um amieiro ou um sobreiro... <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[244]</span> +―É um azinheiro, Jacintho. <br /> + +<br /> + +Já a tarde cahia quando recolhemos muito lentamente. E toda +essa adoravel paz do céo, realmente celestial, e dos campos, +onde +cada folhinha conservava uma quietação +contemplativa, +na luz docemente desmaiada, pousando sobre as cousas com um liso e leve +affago, +penetrava tão profundamente Jacintho, que eu o senti, no +silencio em +que cahiramos, suspirar de puro allivio. <br /> + +<br /> + +Depois, muito gravemente: <br /> + +<br /> + +―Tu dizes que na natureza não ha pensamento... <br /> + +<br /> + +―Outra vez! Olha que massada! Eu... <br /> + +<br /> + +―Mas é por estar n'ella supprimido o pensamento que lhe +está poupado o soffrimento! Nós, +desgraçados, +não +podemos supprimir o pensamento, mas certamente o podemos disciplinar e +impedir que elle se estonteie e se esfalfe, como na fornalha das +cidades, ideando gozos que nunca se realisam, aspirando a certezas que +nunca se attingem!... E é +o que aconselham estas collinas e estas arvores á nossa +alma, +que +vela e se agita:―que viva na paz d'um sonho vago e nada +appeteça, +nada tema, contra nada se insurja, e deixe o Mundo rolar, +não +esperando +d'elle senão um rumor de harmonia, que a emballe e lhe +favoreça o <span class="pagenum">[245]</span>dormir +dentro da mão de Deus. Hein, não te parece, +Zé Fernandes? <br /> + +<br /> + +―Talvez. Mas é necessario então viver n'um +mosteiro, com o temperamento de S. Bruno, ou ter cento e quarenta +contos de renda e o desplante de certos Jacinthos... E tambem me parece +que andamos leguas. Estou derreado. E que fome! <br /> + +<br /> + +―Tanto melhor, para as trutas, e para o cabrito assado que nos +espera... <br /> + +<br /> + +―Bravo! Quem te cosinha? <br /> + +<br /> + +―Uma afilhada do Melchior. Mulher sublime! Has de ver a canja! Has de +ver a cabidella! Ella é horrenda, quasi anã, com +os olhos tortos, um verde e outro preto. Mas que paladar! Que genio! <br /> + +<br /> + +Com effeito! Horacio dedicaria uma ode áquelle cabrito +assado n'um espeto de cerejeira. E com as trutas, e o vinho Melchior, e +a +cabidella, em que a sublime anã de olhos tortos puzera +inspirações que não são da +terra, e aquella doçura da noite de Junho, que pelas +janellas abertas nos envolveu no seu velludo negro, tão +molle e +tão consolado fiquei, que, na sala onde nos esperava o +café, cahi n'uma cadeira de +verga, na mais larga, e de melhores almofadas, e atirei um berro de +pura delicia. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[246]</span> +Depois, com uma recordação, limpando o +café do pello dos bigodes: <br /> + +<br /> + +―Ó Jacintho, e quando nós andavamos por Paris +com o Pessimismo ás costas, a gemer que tudo era +illusão e dôr? <br /> + +<br /> + +O meu Principe, que o cabrito tornára ainda mais alegre, +trilhava a grandes passadas o soalho, enrolando o cigarro: <br /> + +<br /> + +―Oh! que engenhosa besta, esse Schopenhauer! E maior besta eu, que o +sorvia, e que me desolava com sinceridade! E todavia,―continuava elle, +remexendo a chavena―o Pessimismo é uma theoria bem +consoladora para os que soffrem, porque desindividualisa o soffrimento, +alarga-o +até o tornar uma lei universal, a lei propria da Vida; +portanto +lhe tira o caracter pungente d'uma injustiça especial, +commettida +contra o soffredor por um Destino inimigo e faccioso! Realmente o nosso +mal sobretudo nos amarga quando contemplamos ou imaginamos o bem do +nosso visinho:―porque nos sentimos escolhidos e destacados para a +infelicidade, podendo, como elle, ter nascido para a Fortuna. Quem se +queixaria de ser côxo―se toda a humanidade coxeasse? E quaes +não seriam os urros, e a furiosa revolta do homem envolto na +neve e friagem e borrasca d'um inverno especial, organisado <span class="pagenum">[247]</span>nos +ceus para o envolver a elle unicamente―em quanto em redor, toda a +Humanidade se movesse na luminosa benignidade d'uma Primavera? <br /> + +<br /> + +―Com effeito, murmurei eu, esse sujeito teria immensa razão +para urrar... <br /> + +<br /> + +―E depois, clamava ainda o meu amigo, o Pessimismo é +excellente +para os Inertes, por que lhes attenua o desgracioso delicto da Inercia. +Se toda a meta é um monte de Dor, onde a alma vae esbarrar, +para +que marchar para a meta, atravez dos embaraços do mundo? E +de +resto todos os Lyricos e Theoricos do Pessimismo, desde +Salomão +até o maligno Schopenhauer, lançam o seu cantico +ou a sua +doutrina para +disfarçar a humilhação das suas +miserias, +subordinando-as todas a uma vasta lei de Vida, uma lei Cosmica, e +ornando assim com a aureola de uma origem quasi divina as suas miudas +desgraçazinhas de temperamento ou de Sorte. O +bom Schopenhauer formúla todo o seu schopenhauerismo, quando +é um philosopho sem editor, e um professor sem discipulos; e +soffre horrendamente de terrores e manias; e esconde o seu dinheiro +debaixo do sobrado; e +redige as suas contas em grego nos perpetuos lamentos da +desconfiança; e vive nas adegas com o medo de incendios; e +viaja +com um copo de lata na algibeira para <span class="pagenum">[248]</span>não +beber em vidro que beiços de +leproso tivessem contaminado!... Então Schopenhauer +é +sombriamente +Schopenhauerista. Mas apenas penetra na celebridade, e os seus +miseraveis nervos se acalmam, +e o cerca uma paz amavel, não ha então, em todo +Francfort, burguez mais optimista, de face mais jocunda, e gozando mais +regradamente os bens da +intelligencia e da Vida!... E o outro, o Israelita, o muito pedantesco +rei de Jerusalem! quando descobre esse sublime Rhetorico que o mundo +é Illusão e Vaidade? Aos setenta e cinco annos, +quando o +Poder +lhe escapa das mãos tremulas, e o seu serralho de trezentas +concubinas +se lhe torna ridiculamente superfluo. Então rompem os +pomposos +queixumes! +Tudo é vaidade e afflicção de +espirito! nada +existe +estavel sob o sol! Com effeito, meu bom Salomão, tudo +passa―principalmente o poder +de usar trezentas concubinas! Mas que se restitua a esse velho +sultão asiatico, besuntado de Litteratura, a sua +virilidade,―e +onde se +sumirá o lamento do Ecclesiastes? Então +voltará, +em segunda e +triumphal edição, o extase do <em>Livro +dos Cantares</em>!... <br /> + +<br /> + +Assim discursava o meu amigo no nocturno silencio de Tormes. Creio que +ainda estabeleceu sobre o Pessimismo outras coisas joviaes, profundas +ou elegantes;―mas eu <span class="pagenum">[249]</span>adormecera, +beatificamente envolto em Optimismo e doçura. <br /> + +<br /> + +Em breve porém, me fez pular, escancarar as palpebras +molles, uma rija, larga, sadia e genuina risada. Era Jacintho, estirado +n'uma cadeira, +que lia o D. Quixote... Oh bem aventurado Principe! +Conservára +elle o agudo poder de arrancar theorias a uma espiga de milho ainda +verde, e por uma +clemencia de Deus, que fizera reflorir o tronco secco, +recuperára o dom divino de rir, com as facecias de Sancho! <br /> + +<br /> + +Aproveitando a minha companhia, as duas semanas de bucolica occiosidade +que eu lhe concedera, o meu Jacintho preparou então a +ceremonia tão falada, tão meditada, a +trasladação +dos ossos dos velhos Jacinthos―dos «respeitaveis +ossos» como murmurava, +cumprimentando, o bom Silverio, o procurador, n'essa manhã +de sexta feira, em que +almoçava comnosco, mettido n'um espantoso +jaquetão de velludilho amarello +debruado de seda azul! A ceremonia, de resto, reclamava muita singeleza +por serem +tão incertos, quasi impessoaes, aquelles restos, que +nós +estabeleceriamos na Capellinha do valle da Carriça, na +Capellinha toda nova, +toda nua e toda fria, ainda sem alma e sem calor de Deus. <br /> + +<br /> + +―Por que emfim v. ex.<sup>a</sup> comprehende,―explicava <span class="pagenum">[250]</span>o +Silverio passando o guardanapo por sobre a larga face suada e por sobre +as immensas barbas negras, como as d'um turco―, n'aquella mixordia... +Oh! peço +desculpa a v. ex.<sup>a</sup>! N'aquella confusão, quando tudo +desabou, +não pudémos mais conhecer a quem pertenciam os +ossos. Nem +sequer, fallando verdade, +nós sabiamos bem que dignos avós de v. +ex.<sup>a</sup> jaziam +na capella +velha, assim tão antigos, com os letreiros apagados, +senhores de +todo o +nosso respeito, certamente, mas, se v. ex.<sup>a</sup> me permitte, +senhores +já muito desfeitos... Depois veio o desastre, a mixordia. E +aqui +está +o que decidi, depois de pensar. Mandei arranjar tantos +caixões +de +chumbo, quantas as caveiras que se apanharam lá em baixo na +Carriça, entre o lixo e o pedregulho. Havia sete caveiras e +meia. Quero dizer, sete caveiras e uma caveirinha pequenina. Mettemos +cada caveira em seu caixão. Depois... Que quer v. +ex.<sup>a</sup>? +Não havia +outro meio! E aqui o Snr. Fernandes dirá se não +acha que +procedemos com +habilidade. A cada caveira juntamos uma certa +porção +d'ossos, uma +porção rasoavel... Não havia outro +meio... Nem +todos os ossos se acharam. Canellas, por exemplo, faltavam! E +é +bem possivel que as costellas d'um d'aquelles +senhores ficasse com a cabeça d'outro... Mas quem podia +saber? +Só Deus. Emfim <span class="pagenum">[251]</span>fizemos +o que a prudência mandava... Depois, no dia de Juizo, +cada um d'estes fidalgos apresentará os ossos que lhe +pertencerem. <br /> + +<br /> + +Lançava estas cousas macabras e tremendas, penetrado de +respeito, quasi com magestade, espetando, ora em mim, ora no meu +Principe, os olhinhos agudos e relusentes como vidrilhos. <br /> + +<br /> + +Eu approvei o pittoresco homem: <br /> + +<br /> + +―Perfeitamente! Andou perfeitamente, amigo Silverio. São +tão vagos, tão anonymos, todos esses +avós! Só faz pena, grande +pena, que se tresmalhassem os restos do avô +Galião. <br /> + +<br /> + +―Não estava cá! accudiu Jacintho. Vim a Tormes +expressamente por causa do avô Galião, e por fim o +seu jazigo nunca foi +aqui, na Capellinha da Carriça... Felizmente! <br /> + +<br /> + +O Silverio saccudia gravemente a calva trigueira: <br /> + +<br /> + +―Nunca tivemos o ex.<sup>mo</sup> sr. Galião. +Ha cem annos, Snr. +Fernandes, ha cem annos que se não depositava na capella +velha corpo de +cavalheiro cá da casa. <br /> + +<br /> + +―Onde estará então?... <br /> + +<br /> + +O meu Principe encolheu os hombros. Por esse Reino... Na egrejinha, no +cemiterio d'alguma das freguezias numerosas, onde elle possuia terras. +Casa tão espalhada! <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[252]</span> +―Bem! conclui. Então, como se trata d'ossadas vagas, sem +nome, sem data, convem uma ceremoniasinha muito simples, muito sobria. <br /> + +<br /> + +―Quietinha, quietinha! murmurou o Silverio, dando um forte sorvo +assobiado ao café. <br /> + +<br /> + +E foi quietinha, d'uma rustica e doce singeleza, a ceremonia d'aquelles +altos senhores. Cedo, por uma manhã, levemente enevoada, os +oito caixões pequeninos, cobertos d'um velludo vermelho mais +de +festa que de +funeral, com molhos de rosas espalhados, contendo cada um o seu +montesinho d'ossos incertos, sahiram aos hombros dos coveiros de Tormes +e dos +moços da quinta, da Egreja de S. José, cujo sino +leve +tangia, na +enevoada doçura da manhã,―quanto fina e +levemente!―como +pia um passarinho triste. Adiante, um airoso moço de +sobrepelis, +erguia com +zelo a velha cruz prateada; abrigando o pescoço sob um +immenso +lenço de rapé, de quadrados azues, o velho e +corcovado +sacristão segurava +pensativamente a caldeirinha d'agoa benta; e o bom abbade de S. +José, com os +dedos entre o breviario fechado, movia os labios, n'uma lenta, +murmurosa resa, que ia, pelo doce ar, espalhando mais +doçura. +Logo atraz do +ultimo cofre, o mais pequenino, o da caveirinha pequena, Jacintho +caminhava; e eu, <span class="pagenum">[253]</span>a +estalar dentro d'um fato preto de Jacintho, tirado á pressa +d'uma das malas de Paris quando, de manhã, já +tarde para +mandar a Guiães, me lembrei que toda a minha roupa era de +cores +festivaes e pastoris. <br /> + +<br /> + +Depois marchava o Silverio, solemnissimo, com um immenso peitilho, onde +as barbas immensas se alastravam, negrissimas. De casaca, com o grosso +beiço descahido, descahido todo elle por aquella melancolia +de enterro que se juntava á melancolia da serra, o Grillo +enfiava no +braço a sua coroa, enorme, de rosas e d'heras. Por fim +seguia o +Melchior, entre um rancho de mulheres, que, sumidas na sombra dos +lenços +pretos, desfiando longos rosarios, rosnavam surdas +avè-marias, +atravez +d'espaçados suspiros, tão doridos como se +inconsoladamente lhes doesse a +perda d'aquelles Jacinthos. Assim, pelas varzeas entrecorridas de +regueiros, lenta nos recostos dos mattos, escorregando mais rapida, +pelos corregos +pedregosos, seguia a procissão, sempre com a cruz adiante, +alta e prateada, rebrilhando por vezes n'um breve raiosinho de sol que, +vagarosamente, surdia da nevoa desfeita. Ramos baixos de +lodão ou de salgueiro passavam uma derradeira caricia sobre +o +velludo dos +caixões. <br /> + +<br /> + +Um regato por vezes nos acompanhava, <span class="pagenum">[254]</span>com +discreto fulgir entre as relvas, sussurrando e como resando tambem, +alegremente: e nos quintalinhos umbrosos, á nossa passagem, +os +gallos, de cima das pilhas de matto, faziam soar o seu clarim festivo. +Depois, adiante da fonte da Lira, como o caminho se alongava, e +desejassemos poupar o nosso velho abbade, cortamos atravez d'uma seara, +já alta, quasi madura, toda entremeada de papoulas, O sol +radiou: sob a brisa larga, que +levára a nevoa, toda a messe ondulou n'uma lenta vaga +dourada, +em que se balouçavam os esquifes; e, como enorme papoula, a +mais +vermelha, rutilava o guarda sol de panninho logo aberto pelo +sacristão +para abrigar o abbade. <br /> + +<br /> + +Jacintho tocou no meu cotovello: <br /> + +<br /> + +―Que lindos vamos! Ora vê tu a Natureza... N'um simples +enterrar d'ossos, quanta graça e quanta belleza! <br /> + +<br /> + +Na Capellinha, nova, dominando o valle da Carriça, solitaria +e muito nua, no meio d'um adro, ainda mal alisado, sem uma verdura de +relva, +uma frescura d'arbusto, dous moços seguravam á +porta +molhos de tochas, que o Silverio distribuiu, a passos graves, com +cortezias, solemnissimo. Dentro as curtas chammas, mal luziam, mal +derramavam a sua +amarellidão triste, esbatidas na relusente brancura <span class="pagenum">[255]</span>dos +muros estucados, na jovial claridade que cahia das altas +vidraças bem polidas. Em torno +dos esquifes, pousados sobre bancos, que pesados velludilhos recobriam, +o abbade murmurava um suave latim, emquanto ao fundo as mulheres, +sumidas +na sombra dos seus negros lenços, gemiam +<em>amens</em> agudos, abafavam um respeitoso +soluço. Depois, +tomando levemente o hyssope, +ainda o bom abbade aspergiu, para uma derradeira +purificação, +os incertos ossos dos incertos Jacinthos. E todos desfilamos por diante +do meu Principe, timidamente encostado á umbreira, com o +Silverio ao lado +esmagando contra o peitilho as barbas immensas, a face descahida, +cerradas as palpebras como contendo lagrimas. <br /> + +<br /> + +No adro, o meu Principe accendeu regaladamente um cigarro pedido ao +Melchior: <br /> + +<br /> + +―E então, Zé Fernandes, que te pareceu a +ceremoniasinha? <br /> + +<br /> + +―Muito campestre, muito suave, muito risonha... Uma delicia. <br /> + +<br /> + +Mas o Abbade, que se desvestira na Sachristia, appareceu, já +com o seu grande casaco de lustrina, e seu velho chapeu desabado, +trazidos pelo moço da Residencia, n'um sacco de chita. +Jacintho, +immediatamente lhe agradeceu tantos cuidados, a affavel hospitalidade <span class="pagenum">[256]</span>que offerecera aos ossos, +durante a construcção da Capellinha nova. +E o suave velho, todo branquinho, de faces ainda menineiras e coradas, +com um claro sorriso +de dentes sadios, louvava Jacintho, que assim viera de tão +longe, em tão longa jornada, para cumprir aquelle dever de +bom neto. <br /> + +<br /> + +―São avós muito remotos, e agora tão +confusos! murmurava Jacintho sorrindo. <br /> + +<br /> + +―Pois mais merito ainda o de v. ex.<sup>a</sup>. Respeitar um +avô +morto, bem é corrente... Mas respeitar os ossos d'um quinto +avô, d'um +setimo avô! <br /> + +<br /> + +―Sobretudo, Snr. Abbade, quando d'elles nada se sabe, e naturalmente +nada fizeram. <br /> + +<br /> + +O velho sacudiu risonhamente o dedo gordo: <br /> + +<br /> + +―Ora quem sabe, quem sabe! Talvez fossem excellentes! E por fim, quem +muito se demora no mundo, como eu, termina por se convencer que no +mundo não ha cousa ou ser inutil. Ainda hontem eu lia n'um +jornal +do Porto, que por fim, segundo se descobriu, são as minhocas +que +estrumam e lavram a terra, antes de chegar o lavrador e os bois com o +arado. +Até as minhocas são uteis. Não ha nada +inutil... +Eu +tinha lá na residencia uma porção de +cardos a um +canto da horta, que me +affligiam. Pois reflecti e terminei por me regalar com elles em xarope. +Os avós de <span class="pagenum">[257]</span>v. +ex.<sup>a</sup> por cá andaram, por cá trabalharam, +por +cá padeceram. +Quer dizer: por cá serviram. E, em todo o caso, que lhes +rezemos +um Padre-Nosso por alma não lhes póde fazer +senão +bem, a elles +e a nós. <br /> + +<br /> + +E assim, docemente philosophando, paramos n'um souto de carvalheiras, +onde esperava a velhissima egoa do Abbade, por que o santo homem agora, +depois do rheumatismo do ultimo inverno, já não +affrontava rijamente como antes os trilhos duros da serra. Para elle +montar, filialmente Jacintho segurou o estribo. E emquanto a egoa se +empurrava pelo corrego +acima, quasi tapada sob o immenso guarda sol vermelho em que se +abrigava o velho, nós recolhemos a casa mettendo pela serra +da +Lombinha, atravez dos milhos, e depressa, porque eu estalava, +aperreado, dentro da roupa preta do meu Principe. <br /> + +<br /> + +―Estão pois accommodados estes senhores, Zé +Fernandes! Só resta rezar por elles o Padre-Nosso, que +recommenda o abbade... Sómente, +eu não sei, já não me lembro do +Padre-Nosso. <br /> + +<br /> + +―Não te afflijas, Jacintho: peço á +tia Vicencia que reze por mim e por ti. É sempre a tia +Vicencia que reza os meus Padre-Nossos. <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[258]</span>Durante essas +semanas que preguicei +em Tormes, eu assisti, com internecido interesse, a uma consideravel +evolução de Jacintho nas suas +relações com +a Natureza. D'aquelle periodo +sentimental de contemplação, em que colhia +theorias nos +ramos de qualquer cerejeira, e edificava Systemas sobre o espumar das +levadas, o meu Principe lentamente passava +para o desejo da Acção... E d'uma +acção directa e material, em que a sua +mão, emfim +restituida a uma funcção +superior, revolvesse o torrão. <br /> + +<br /> + +Depois de tanto <em>commentar</em>, o meu +Principe, evidentemente, aspirava a <em>crear</em>. <br /> + +<br /> + +Uma tardinha, ao anoitecer, sentados no pomar, no rebordo do tanque, em +quanto o Manoel hortelão apanhava laranjas no alto d'uma +escada arrimada a uma alta laranjeira, Jacintho observou, mais para si +do que para mim: +<br /> + +<br /> + +―É curioso... Nunca plantei uma arvore! <br /> + +<br /> + +―Pois é um dos tres grandes actos, sem os quaes segundo diz +não sei que Philosopho, nunca se foi um verdadeiro homem... +Fazer um filho, plantar +uma arvore, escrever um livro. Tens de te apressar, para ser um homem. +É possivel que talvez nunca prestasses um serviço +a uma arvore, como se presta a um semelhante! <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[259]</span> +―Sim... Em Paris, quando era pequeno, regava os lilazes. E no +verão é um bello serviço! Mas nunca +semeei. <br /> + +<br /> + +E como o Manoel descia da escada, o meu Principe, que nunca +acreditára inteiramente―pobre homem!―no meu saber +agricola, immediatamente reclamou o parecer d'aquella auctoridade: <br /> + +<br /> + +―Oh Manoel, ouça lá, o que é que se +poderia agora semear? <br /> + +<br /> + +Como cesto das laranjas enfiado no braço, o Manoel exclamou, +atravez d'um lento riso, entre respeitoso e divertido: <br /> + +<br /> + +―Semear, patrão? Agora é antes colher... Olhe +que já se anda a limpar a eirasinha para a debulha, meu +patrão. <br /> + +<br /> + +―Pois sim... Mas sem ser milho nem cevada... Então alli no +pomar, rente do muro velho, não se podia plantar uma fila de +pecegueiros? +<br /> + +<br /> + +O riso do Manoel crescia. <br /> + +<br /> + +―Isso sim, meu senhor! Isso é lá para os Santos +ou para o Natal. Agora só a couvinha na horta, a beldroega, +os espinafres, algum +feijãosinho em terra muito fresca... <br /> + +<br /> + +O meu Principe sacudiu com brando gesto estes legumes rasteiros. <br /> + +<br /> + +―Bem, boa noite, Manoel. Essas laranjas são da tal +laranjeira que diz o Melchior, muito <span class="pagenum">[260]</span>doces, +muito finas? Então leve para os seus +pequenos. Leve muitas para os pequenos. <br /> + +<br /> + +Não! o empenho era crear a arvore. Pela arvore contemplada +na +serra em sua verdadeira magestade, na beneficencia da sua sombra, na +frescura emballadora do seu rumorejar, na graça e santidade +dos +ninhos que a povoam, começára talvez, lentamente, +o seu +amor +novo da Terra. E agora sonhava uma Tormes toda coberta d'arvores, cujos +fructos e verduras, e sombras, e rumorejos suaves, e abrigados ninhos, +fossem a obra e o cuidado das suas mãos paternaes. <br /> + +<br /> + +No silencio grave do crepusculo, que descia, murmurou ainda: <br /> + +<br /> + +―Oh Zé Fernandes; quaes são as arvores que +crescem mais depressa? <br /> + +<br /> + +―Eh, meu Jacintho... A arvore que cresce mais depressa é o +eucalypto, o feiissimo e ridiculo eucalypto. Em seis annos tens ahi +Tormes coberta +de eucalyptos... <br /> + +<br /> + +―Tudo tão lento, Zé Fernandes... <br /> + +<br /> + +Porque o seu sonho, que eu comprehendia, seria plantar +caroços que subissem em fortes troncos, se alargassem em +verdes +ramarias, antes de elle voltar ao 202, no começo do +inverno... <br /> + +<br /> + +―Um carvalho!... Trinta annos, antes que seja bello! +Desanímo! É bom para Deus, <span class="pagenum">[261]</span>que pode esperar... <em>Patiens +quia aeternus</em>. Trinta annos! D'aqui a trinta annos, arvores +só para me cobrirem a +sepultura! <br /> + +<br /> + +―Já é um ganho. E depois para teus filhos, +Jacintho... <br /> + +<br /> + +―Filhos! onde os tenho eu? <br /> + +<br /> + +―É o mesmo processo dos castanheiros. Semeia. +Não faltam por ahi terras agradaveis... Em nove mezes tens +uma +planta feita. E quanto mais tenrinhas, e mais pequeninas, mais essas +plantas encantam. <br /> + +<br /> + +Elle murmurou, crusando as mãos sobre o joelho: <br /> + +<br /> + +―Tudo leva tanto tempo!... <br /> + +<br /> + +E á borda do tanque nos quedamos, calados, na fresca +doçura do anoitecer, entre o cheiro avivado das madresilvas +do +muro, olhando o crescente da lua, que surdia dos telhados de Tormes. <br /> + +<br /> + +E decerto esta pressa de se tornar entre a Natureza não mais +um sonhador, mas um creador, arremessou vivamente o seu interesse para +os gados! Repetidamente, nos nossos passeios atravez da quinta, elle +lhe notava a solidão. <br /> + +<br /> + +―Faltam aqui animaes, Zé Fernandes! <br /> + +<br /> + +Imaginava eu, que elle appetecia em Tormes o ornato elegante de veados +e pavões. Mas um domingo, costeando o largo campo da +<span class="pagenum">[262]</span>Ribeirinha, sempre +escasso d'agoas, agora mais resequido por verão de tanta +seccura, o meu Principe parou a considerar os tres carneiros do +caseiro, que +retouçavam com penuria uma relvagem pobre. <br /> + +<br /> + +E, de repente, como magoado: <br /> + +<br /> + +―Justamente! Aqui está o espaço para um bello +prado, um immenso prado, muito verde, muito farto, com rebanhos de +carneiros brancos, +gordissimos como bolas de algodão pousadas na relva!... Era +lindo, hein? +É facil, não é verdade, Zé +Fernandes? <br /> + +<br /> + +―Sim... Trazes a agoa para o prado. Agoas não faltam, na +serra. <br /> + +<br /> + +E o meu principe encadeando logo n'esta inspirada idea outra, mais rica +e vasta, lembrou quanta belleza daria a Tormes encher esses prados, +esses verdes ferregiaes, de manadas de vaccas, formosas vaccas +inglezas, bem nedias e bem luzidias. Hein? Uma belleza. Para abrigar +esses gados ricos, construiria curraes perfeitos, d'uma architectura +leve e util, toda em ferro e vidro, fundamente varridos pelo ar, +largamente lavados pela agoa... Hein? Que formosura! Depois, com todas +essas vaccas, e o leite jorrando, nada mais facil e mais divertido, e +até mais +moral, que a installação d'uma queijeira, +á +fresca moda Hollandeza, toda branca e reluzente, de azulejos <span class="pagenum">[263]</span>e +de marmore, para fabricar os Camemberts, os Bries... os Coulommiers... +Para a casa, que conforto! E para toda a serra, que actividade! <br /> + +<br /> + +―Pois não te parece, Zé Fernandes? <br /> + +<br /> + +―Com certeza. Tu tens, em abundancia, os quatro Elementos: o ar, a +agoa, a terra, e o dinheiro. Com estes quatro elementos, facilmente se +faz uma grande lavoura. Quanto mais uma queijeira! <br /> + +<br /> + +―Pois não é verdade? E até como +negocio! Está claro, para mim o lucro é o deleite +moral +do trabalho, o emprego fecundo do dia... Mas uma queijaria, assim +perfeita, rende. Rende prodigiosamente. E educa o paladar, incita a +installações eguaes, implanta +talvez no paiz uma industria nova e rica! Ora com essa +installação, +perfeita, quanto me poderá custar cada queijo? <br /> + +<br /> + +Fechei um olho, calculando: <br /> + +<br /> + +―Eu te digo.... Cada queijo, um d'esses queijinhos redondos, como o +Camembert ou o Rabaçal, póde vir a custar-te, a +ti Jacintho queijeiro, entre duzentos e cincoenta e trezentos mil +réis. <br /> + +<br /> + +O meu Principe recuou, com dous olhos alegres espantados para mim. <br /> + +<br /> + +―Como trezentos mil réis? <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[264]</span>―Ponhamos +duzentos... Tem a certeza! +Com todos esses prados, e os encanamentos d'agoa e a +configuração da serra +alterada, e as vaccas inglezas, e os edificios de porcellana e vidro, e +as maquinas, a extravagancia, e a patuscada bucolica, cada queijo te +custa, a ti productor, duzentos mil réis. Mas com certeza o +vendes no +Porto por um tostão. Põe cincoenta +réis para a +caixa, rotulos, transporte, commissão, etc. Tens apenas, em +cada +queijo uma perda de cento e noventa e nove +mil oitocentos e cincoenta réis! <br /> + +<br /> + +O meu Principe não desanimou. <br /> + +<br /> + +―Perfeitamente! Faço um d'esses espantosos queijos por +semana, ao sabbado, para o comermos nós ambos ao domingo! <br /> + +<br /> + +E tanta energia lhe communicava o seu novo Optimismo, tão +anciosamente aspirava a crear, que logo, arrastando o Silverio e o +Melchior por cabeços e barrancos, largou a percorrer a +quinta +toda, para +determinar onde cresceriam, ao seu mando inspirado, os verdes prados, e +se ergueriam, rebrilhantes no sol de Tormes, os curraes elegantes. Com +a esplendida segurança dos seus cento e nove contos de +renda, +não surgia difficuldade, risonhamente murmurada pelo +Melchior, +ou exclamada, com respeitoso pasmo, pelo Silverio, <span class="pagenum">[265]</span>que elle não +afastasse brandamente, com geito leve, como um galho de roseira brava +atravessado n'uma vereda. <br /> + +<br /> + +Aquellas rochas, além, empecendo? Que se arrancassem! Um +valle importuno dividia dous campos? Que se atulhasse! O Silverio +suspirava, enxugando sobre a escura calva um suor quasi d'angustia. +Pobre Silverio! +Rijamente sacudido na doce pachorra da sua +administração, +calculando despezas que se affiguravam sobrehumanas á sua +parcimonia serrana, +forçado a arquejar, sem descanço, sob soalheiras +de +Junho, o +desgraçado retomára na Serra o geito que Jacintho +deixára em Paris,―e era elle +que corria pelas longas barbas tenebrosas os dedos desalentados... +Emfim uma tarde +desabafou comigo, a um canto da varanda, em quanto Jacintho, na +livraria, escrevia a um seu amigo de Hollanda, o conde Rylant, Mordomo +Mór da Corte, pedindo desenhos, e planos, e +orçamentos d'uma queijeira perfeita. <br /> + +<br /> + +―Pois, Snr. Fernandes, se toda esta grandeza vae por diante, sempre +lhe digo que o Snr. D. Jacintho enterra aqui na serra dezenas de +contos... Dezenas de contos! <br /> + +<br /> + +E como eu alludia á fortuna do meu Principe, a quem todas +essas obras tão vastas, que alterariam o antiquissimo rosto +da serra, <span class="pagenum">[266]</span>não +custavam mais que a outros o concerto d'um socalco,―o bom Silverio +atirou os longos braços para as coxas gordas, ainda mais +desolado: <br /> + +<br /> + +―Pois por isso mesmo, Snr. Fernandes! Se o Snr. D. Jacintho +não +tivesse a dinheirama, recuava. Assim, é zás +zás, para deante; e eu não o censuro pela ideia. +Lograsse +eu a renda de S. Ex.<sup>a</sup>, que me atirava tambem a +uma lavoura de capricho. Mas não aqui, Snr. Fernandes, +n'estas +serranias, entre alcantis. Pois um senhor que possue aquella linda +propriedade de Montemór, nos campos do Mondego, onde +até +podia +plantar jardins de desbancar os do Palacio de Crystal do Porto! E a +Velleira? O Snr. Fernandes não conhece a Velleira, +lá +para os +lados de Penafiel? Isso é um condado! E uma terra +chã, +boa terra, toda junta, alli em +volta da casa, com uma torre. Um regalo, Snr. Fernandes. Mas sobretudo +Montemór! Lá é que eram prados e +manadas de vaccas +inglezas, e queijeira e horta rica, de fartar, e ahi trinta +perús na capoeira... <br /> + +<br /> + +―Então que quer, Silverio? O Jacintho gosta da serra. E +depois este é o solar da familia, e aqui +começaram no seculo XIV os +Jacinthos... <br /> + +<br /> + +O pobre Silverio, no seu desespero, esquecia <span class="pagenum">[267]</span>o +respeito devido +á secular nobreza da casa. <br /> + +<br /> + +―Ora! até ficam mal ao Snr. Fernandes essas ideias, n'este +seculo da liberdade... Pois estamos lá em tempos de se +fallar em +fidalguias, agora que por toda a parte anda tudo em Republica? Leia o +<em>Seculo</em>, Snr. Fernandes! leia o <em>Seculo</em>, +e +verá! E depois eu sempre quero vêr o Snr. D. +Jacintho, +aqui no inverno, com o nevoeiro a subir do rio logo pela +manhã, +e a friagem a trespassar os ossos, e ventanias que +atiram carvalheiras de raizes ao ar, e chuvas e chuvas que se desfaz a +serra!... Olhe, até mesmo por amor da saude o Snr. D. +Jacintho, que é fraquinho e acostumado á cidade, +necessita sahir da serra. +Em Montemór, em Montemór é que s. +ex.<sup>a</sup> estava +bem. E o Snr. +Fernandes, tão amigo d'elle e assim com tanta influencia, +devia +teimar, e berrar, +até que o levasse para Montemór. <br /> + +<br /> + +Mas, infelizmente para a quietação do Silverio, +Jacintho lançára raizes, e rijas, e amorosas +raizes na +sua rude serra. Era realmente como se o tivessem plantado d'estaca +n'aquelle antiquissimo chão, +d'onde brotára a sua raça, e o antiquissimo humus +refluisse e o penetrasse +todo, e o andasse transformando n'um Jacintho rural, quasi vegetal, +tão do <span class="pagenum">[268]</span>chão, +e preso ao chão, como as arvores que elle tanto amava. <br /> + +<br /> + +E depois o que o prendia á serra era o ter n'ella encontrado +o que na Cidade, apesar da sua sociabilidade, não +encontrára nunca,―dias tão cheios, +tão deliciosamente occupados, d'um tão +saboroso interesse, que sempre penetrava n'elles, como n'uma festa ou +n'uma gloria. <br /> + +<br /> + +Logo de manhã, ás seis horas, eu, no meu quarto, +mexendo ainda regaladamente o meu corpo nos colchões de +fresco +folhelho, +sentia os seus rijos sapatões pelo corredor, e o seu +cantarolar, +desafinado, mas ditoso como o d'um melro. Em poucos instantes +escancarava com fragor a minha porta, já de chapeu desabado, +já de +bengalão de cerejeira, disposto com reservado fervor para os +trilhos conhecidos da serra. E +era sempre a mesma nova, quasi orgulhosa: <br /> + +<br /> + +―Dormi hoje deliciosamente, Zé Fernandes. Tão +bem, com uma tal serenidade, que começo a acreditar que sou +um justo! Um dia +lindo! Quando abri a janella, ás cinco horas, quasi gritei +de puro +gosto! <br /> + +<br /> + +Na sua pressa, nem me deixava demorar na frescura da banheira; e quando +eu repetia a risca mal começada do cabello, aquelle antigo +homem das trinta e nove escovas, protestava <span class="pagenum">[269]</span>contra +esse desbarato effeminado d'um tempo devido aos fortes gozos da terra. <br /> + +<br /> + +Mas quando, depois de acariciar os rafeiros no pateo, desembocavamos da +alameda de platanos, e deante de nós se dividiam +matutinamente, mais brancos entre o verde matutino, os caminhos +colleantes da quinta, toda +a sua pressa findava, e penetrava na Natureza, com a reverente +lentidão de quem penetra n'um Templo. E repetidamente +sustentava +ser +«contrario á Esthetica, á Philosophia e +á +Religião, +andar depressa através dos campos.» De resto, com +aquella +subtil sensibilidade bucolica +que n'elle se desenvolvera, e incessantemente se afinava, qualquer +breve belleza, do ar ou da terra, lhe bastava para um longo encanto. +Ditosamente poderia elle entreter toda uma manhã, caminhar +por +entre um +pinheiral, de tronco a tronco, callado, embebido no silencio, na +frescura, no resinoso aroma, empurrando com o pé as agulhas +e as +pinhas +seccas. Qualquer agua corrente o retinha, enternecido n'aquella +serviçal actividade, que se apressa, cantando, para o +torrão que tem +sêde, e n'elle se some, e se perde. E recordo ainda quando me +reteve meio domingo, depois da Missa, no cabeço, junto a um +velho curral +desmantellado, sob uma grande arvore,―só por que em torno +havia quietação, <span class="pagenum">[270]</span>doce +aragem, um fino piar d'ave na +ramaria, um murmurio de regato entre canas verdes, e por sobre a +sébe, ao lado, um +perfume, muito fino e muito fresco, de flores escondidas. <br /> + +<br /> + +Depois, quando eu, velho familiar das serras, me não +abandonava aos mesmos extasis que a elle lhe enchiam a alma ainda +noviça―o +meu Principe rugia, com a indignação d'um poeta +que +descobre um mercieiro bocejando sobre Shakspeare ou Musset. Eu ria. <br /> + +<br /> + +―Meu filho, olha que eu não passo d'um pequeno +proprietario. Para mim não se trata de saber se a terra +é +<em>linda</em>, mas se a terra é +<em>boa</em>. Olha o que diz a Biblia! +«Trabalharás a quinta com o +suor do teu rosto!» E não diz +«contemplarás a quinta com o +enlevo da tua imaginação!» <br /> + +<br /> + +―Podéra! exclamava o meu Principe. Um livro escripto por +Judeos, por asperos semitas, sempre com o turvo olho posto no lucro! +Repára, homem, para aquelle bocadinho de valle, e consegue +não pensar, por +um momento, nos trinta mil reis que elle rende! Verás que +pela sua +belleza e graça elle te dá mais contentamento +á alma que os +trinta mil reis ao corpo. E na vida só a alma importa. <br /> + +<br /> + +Recolhendo ao casarão, já o encontravamos com as +janellas meio cerradas, os soalhos <span class="pagenum">[271]</span>borrifados +para aquellas quentes restias de sol de junho, +que depois do almoço docemente nos retinham na livraria, +preguiçando. <br /> + +<br /> + +Mas realmente a alegre actividade do meu Principe não +cessava, nem amollecia, sob o peso da sésta. A essa hora, em +quanto pelo +arvoredo mudo os mais agitados pardaes dormiam, e o sol mesmo parecia +repousar, immovel na rutilancia da sua luz, Jacintho com o espirito +acordado,―ávido de sempre gosar, agora que +reconquistára essa faculdade,―tomava com delicia o <em>seu +livro</em>. +Por que o dono de trinta mil volumes era agora, na sua casa de Tormes, +depois de resuscitado, o homem que só tem um livro. Essa +mesma +Natureza, que o +desligára das ligaduras amortalhadoras do tedio, e lhe +gritára o seu bello +<em>Ambula</em>, caminha!―tambem certamente lhe +gritára <em>et +lege</em>, +e lê. E libertado emfim do envolucro suffocante da sua +Bibliotheca immensa, o meu ditoso amigo comprehendia emfim a +incomparavel delicia de +<em>lêr um livro</em>. Quando eu correra a +Tormes, (depois das +revelações do Severo na venda do Torto,) elle +findava o D. Quichote, e ainda eu lhe escutára +as derradeiras risadas com as cousas deliciosas, e de certo profundas, +que +o gordo Sancho lhe murmurava, escarranchado no seu burro. Mas agora o +meu Principe mergulhára na +<em>Odyssea</em>,―e todo <span class="pagenum">[272]</span>elle +vivia no +espanto e no deslumbramento de assim ter encontrado no meio do caminho +da sua vida, +o velho errante, o velho Homero! <br /> + +<br /> + +―Oh Zé Fernandes, como succedeu que eu chegasse a esta +edade sem ter lido Homero?... <br /> + +<br /> + +―Outras leituras, mais urgentes... O +<em>Figaro</em>, George Ohnet... <br /> + +<br /> + +―Tu leste a <em>Illiada</em>? <br /> + +<br /> + +―Menino, sinceramente me gabo de nunca ter lido a +<em>Illiada</em>. <br /> + +<br /> + +Os olhos do meu Principe fuzilavam. <br /> + +<br /> + +―Tu sabes o que fez Alcibiades, uma tarde, no Portico, a um sophista, +um desavergonhado d'um sophista, que se gabava de não ter +lido a <em>Illiada</em>? <br /> + +<br /> + +―Não. <br /> + +<br /> + +―Ergueu a mão e atirou-lhe uma bofetada tremenda. <br /> + +<br /> + +―Para lá, Alcibiades! Olha que eu li a +<em>Odyssea</em>! <br /> + +<br /> + +Oh! mas de certo eu a lêra, corridamente, com a alma +desattenta! E insistia em me iniciar, elle, e me conduzir, +através do +Livro sem egual. Eu ria. E rindo, pesado do almoço, +terminava por consentir, +e me estirava no canapé de verga. Elle, deante da mesa, +direito +na cadeira, abria o livro gravemente, pontificalmente, como um missal, +e +começava <span class="pagenum">[273]</span>n'uma +lenta ode sentida. Aquelle grande mar da +<em>Odyssea</em>,―resplandecente e sonoro, sempre azul, +todo azul, sob +o vôo +branco das gaivotas, rolando, e mansamente quebrando sobre a areia fina +ou contra as rochas de marmore das Ilhas divinas,―exhalava logo uma +frescura salina, bem vinda e consoladora n'aquella calma de Junho, em +que a +serra se entorpecia. Depois as estupendas manhas do subtil Ulysses e os +seus perigos sobrehumanos, tantas lamurias sublimes, e um anceio +tão espalhado da Patria perdida, e toda aquella intriga, em +que +embrulhava os Heroes, lograva as Deusas, illudia o Fado, tinham um +delicioso +sabôr ali, nos campos de Tormes, onde nunca se necessitava de +subtileza ou de +engenho, e a Vida se desenrolava com a segurança immutavel +com que cada manhã sempre o Sol egual nascia, e sempre +centeios +e milhos, +regados por agoas eguaes, seguramente medravam, espigavam, +amadureciam... Emballado +pela recitação grave e monotona do meu Principe, +eu cerrava as palpebras docemente. Em breve um vasto tumulto, por terra +e ceu, me +alvoroçava... E eram os rugidos de Polyphemo, ou a grita dos +companheiros d'Ulysses roubando as vaccas de Apollo. Com os olhos logo +esbugalhados para Jacintho, eu murmurava: <span class="pagenum">[274]</span><em>Sublime</em>! +E +sempre, n'esse momento o engenhoso Ulysses, de carapuço +vermelho +e o longo remo ao hombro, +surprehendia com a sua facundia a clemencia dos Principes, ou reclamava +presentes +devidos ao Hospede, ou surripiava astutamente algum favor aos Deuses. E +Tormes dormia, no esplendor de Junho. Novamente, eu cerrava as +palpebras consoladas, sob a caricia ineffavel do largo dizer +homerico... E meio adormecido, encantado, incessantemente avistava, +longe, na divina Hellade, entre o mar muito azul e o ceu muito azul, a +branca vela, hesitante, procurando Ithaca... <br /> + +<br /> + +Depois da sésta o meu Principe de novo se soltava para os +campos. E a essa hora, sempre mais activa, voltava com ardor aos +«seus +planos», a essas culturas de luxo e elegantes officinas que +cobririam a serra de magnificencias ruraes. Agora andava todo no +esplendido appetite d'uma horta que elle concebera, immensa horta +ajardinada, em que todos os legumes, classicos ou exoticos, cresceriam, +soberbamente, em vistosos talhões, fechados por sebes de +rosas, +de cravos, de +alfazêma, de dhalias. A agoa das regas desceria por lindos +corrêgos de +louça esmaltada. Nas ruas, a sombra cahiria de densas +latadas <span class="pagenum">[275]</span>de +moscatel, pousando em esteios revestidos d'azulejo. E o meu Principe +desenhára o plano d'esta espantosa horta, a lapiz vermelho, +n'um +papel immenso, que +o Melchior e o Silverio, consultados, longamente contemplaram,―um +coçando risonhamente a nuca, o outro com os +braços duramente crusados, e o sobrôlho tragico. <br /> + +<br /> + +Mas este plano, o da queijaria, o da capoeira, e outro, sumptuoso, d'um +pombal tão povoado que todo o ceu de Tormes ás +tardes se tornaria branco e todo fremente d'azas―não sahiam +das +nossas gostosas +palestras, ou dos papeis em que Jacintho os debuxava, e que se +amontoavam sobre a meza, platonicos, immoveis, entre o tinteiro de +latão e o vaso com +flôres. <br /> + +<br /> + +Nem enxadada fendera terra, nem alavanca deslocára pedra, +nem serra serrára madeira, para encetar estas maravilhas. +Contra +a +resistencia rebolada e escorregadia do Melchior, contra a respeitosa +inercia do Silverio se quedavam, encalhados, os planos do meu Principe, +como galeras vistosas em rochas ou em lôdo. <br /> + +<br /> + +Não convinha bolir em nada, (clamava o Silverio) antes das +colheitas e da vindima! E depois, (acrescentava o Melchior com um +sorriso <span class="pagenum">[276]</span>de grande +promessa) «para boas obras mez de Janeiro» porque +lá ensina o dictado: <br /> + +<br /> + +<div class="break">Em Janeiro―mette obreiro<br /> + +Mez meante―que não ante.</div> + +<br /> + +E, de resto, o goso de conceber as suas obras e de indicar, estendendo +a bengala por cima de valle e monte, os sitios privilegiados que ellas +aformoseariam, bastava por ora ao meu Principe, ainda mais imaginativo +que operante. E, em quanto meditava estas +transformações da terra, muito progressivamente e +com um +amavel esforço, se ia +familiarisando com os homens simples que a trabalhavam. Na sua chegada +a Tormes, o meu Principe soffria d'uma estranha timidez diante dos +caseiros, dos jornaleiros, e até de qualquer rapazinho que +passasse, +tangendo uma vacca para o pasto. Nunca elle então se +demoraria a +conversar com os moços, quando á borda d'um +caminho ou +n'um campo +em monda elles se endireitavam de chapeu na mão, n'um +respeito +de velha +vassalagem. De certo o empecia a preguiça, e talvez ainda o +pudico recato +de transpor toda a immensa distancia que se alargava desde a sua +complicada super-civilisação até +á +rude simplicidade d'aquellas <span class="pagenum">[277]</span>almas +naturaes:―mas sobretudo o retinha o medo de mostrar a sua ignorancia +da lavoura e da terra, ou de parecer talvez desdenhoso de +occupações e de interesses, que para os outros +eram +supremos e quasi religiosos. Remia então esta reserva com +uma +profusão de sorrisos, +de doces acenos, tirando tambem o chapeu em cortezias profundas, com +uma tal emphase de polidez que eu por vezes receava que elle murmurasse +aos jornaleiros: «Tenha v. ex.<sup>a</sup> muito boas +tardes;... Creado +de v. +ex.<sup>a</sup>!» <br /> + +<br /> + +Mas agora, depois d'aquellas semanas de serra, e de já saber +(com um saber ainda fragil,) a epocha das sementeiras e das ceifas, e +que as arvores de fructa se semeiam no inverno, já se +aprazia em +parar junto dos trabalhadores, contemplar descançadamente o +trabalho, +dizer cousas affaveis e vagas. <br /> + +<br /> + +―Então, isso vae andando?... Ora ainda bem!... Este bocado +de torrão aqui é rico... O talude ali adeante +está +precisando concerto... <br /> + +<br /> + +E cada um d'estes tão simples dizeres lhe era doce, como se +por meio d'elles penetrasse mais fundamente na intimidade da terra, e +consolidasse a sua encarnação em «homem +do campo,» deixando de ser uma mera sombra circulando entre +realidades. Já por isso +<span class="pagenum">[278]</span>não +crusava no caminho o mocinho atraz das vaccas, que não o +detivesse, o +não interrogasse: «Para onde vaes tu? De quem +é o +gado? Como te chamas?» E, contente comsigo, sempre gabava +gratamente o desembaraço do +rapaz, ou a esperteza dos seus olhos. Outra +satisfação do meu +Principe era conhecer os nomes de todos os campos, as nascentes d'agua, +e as +delimitações da sua quinta. <br /> + +<br /> + +―Vês acolá, para além do ribeiro, o +pinheiral. Já não é meu, é +dos Albuquerques. <br /> + +<br /> + +E com a perenne alegria de Jacintho as noites da serra, no vasto +casarão, eram faceis e curtas. O meu Principe era +então uma alma que se simplificava:―e qualquer pequenino +goso +lhe bastava, desde que n'elle entrasse paz ou doçura. Com +verdadeira delicia ficava, +depois do café, estendido n'uma cadeira, sentindo atravez +das +janellas abertas, a nocturna tranquillidade da serra, sob a mudez +estrellada do ceu. <br /> + +<br /> + +As historias, muito simples e muito caseiras, que eu lhe contava, de +Guiães, do abbade, da tia Vicencia, dos nossos parentes da +Flôr da Malva, tão sinceramente o interessavam que +eu +encetára, para seu regalo, a chronica completa de +Guiães, +com todos os namoricos, e as +façanhas de forças, e as desavenças +por causa de +servidões ou d'aguas. Tambem <span class="pagenum">[279]</span>por +vezes nos enfronhavamos, com afferro n'uma partida de gamão, +sobre um bello taboleiro de pau preto, com pedras de velho marfim, que +nos emprestára o Silverio. Mas nada de certo o encantava +tanto +como atravessar as casas, pé ante pé, +até +uma saleta que dava para o pomar, e ahi ficar encostado á +janella, sem luz, n'um enlevado +socego, a escutar longamente, languidamente, os rouxinoes que cantavam +no laranjal. <br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h2>X</h2> + +<br /> + +<br /> + +N'uma dessas manhãs―justamente na vespera do meu regresso a +Guiães―, o tempo, que andára pela serra +tão alegre, n'um +inalterado riso de luz rutilante, todo vestido d'azul e ouro, fazendo +poeira pelos caminhos, e +alegrando toda a natureza, desde os passaros até os regatos, +subitamente, com uma d'aquellas mudanças que tornam o seu +temperamento tão semelhante ao do homem, appareceu triste, +carrancudo, +todo embrulhado no seu manto cinzento, com uma tristeza tão +pesada e contagiosa que toda a serra entristeceu. E não +houve mais +passaro que cantasse, e os arroios fugiram para debaixo das hervas com +um lento murmurio de chôro. <br /> + +<br /> + +Quando Jacintho entrou no meu quarto, não resisti +á malicia de o aterrar: <br /> + +<br /> + +―Sudoeste! gralhas a grasnar por todos esses soutos... Temos muita +agua, Snr. D. Jacintho! <span class="pagenum">[282]</span>Talvez +duas semanas d'agua! E agora +é se vae saber quem é aqui o fino amador da +Natureza, com esta chuva +pegada, com vendaval, com a serra toda a escorrer! <br /> + +<br /> + +O meu Principe caminhou para a janella com as mãos nas +algibeiras: <br /> + +<br /> + +―Com effeito! Está carregado. Já mandei abrir +uma das malas de Paris e tirar um casacão impermeavel... +Não importa! Fica +o arvoredo mais verde. E é bom que eu conheça +Tormes nos seus habitos +d'inverno. <br /> + +<br /> + +Mas como o Melchior lhe affiançára que a +«chuvinha só viria para a tarde», +Jacintho decidiu +ir antes d'almoço +á Corujeira, onde o Silverio o esperava para decidirem da +sorte +d'uns castanheiros, muito velhos, muito pittorescos, inteiramente +interessantes, mas já +roidos, e ameaçando desabar. E, confiando nas +previsões +do +Melchior, partimos sem que Jacintho se vestisse á prova +d'agoa. +Não +andaramos porém meio caminho, quando, depois d'um arrepio +nas +arvores, um negrume carregou, e, bruscamente, desabou sobre +nós +uma grossa chuva obliqua, +vergastada pelo vento, que nos deixou estonteados, agarrando os +chapeus, enrodilhados na borrasca. Chamados por uma grande voz, que se +esganiçava no vento, avistamos n'um campo mais alto, +á +beira d'um +alpendre, o Silverio, debaixo d'um <span class="pagenum">[283]</span>guarda-chuva +vermelho, que acenava, nos indicava +o trilho mais curto para aquelle abrigo. E para lá rompemos, +com a chuva a escorrer na cara, patinhando na lama, contorcidos, +cambaleantes, atordoados no vendaval, que n'um instante +alagára +os campos, +inchára os ribeiros, esboroava a terra dos socalcos, +lançára +n'um desespero todo o arvoredo, tornára a serra negra, +bravamente agreste, hostil, +inhabitavel. <br /> + +<br /> + +Quando emfim, debaixo do vasto guarda-chuva com que o Silverio nos +esperava á beira do campo, corremos para o alpendre, nos +refugiamos n'aquelle abrigo inesperado, a escorrer, a arquejar, o meu +Principe, enxugando a face, enxugando o pescoço, murmurou, +desfallecido: <br /> + +<br /> + +―Apre! que ferocidade! <br /> + +<br /> + +Parecia espantado d'aquella brusca, violenta colera d'uma serra +tão amavel e accolhedora, que em dous mezes, +inalteradamente, só +lhe offerecera doçura e sombra, e suaves ceus, e quietas +ramagens, e murmurios discretos de ribeirinhos mansos. <br /> + +<br /> + +―Santo Deus! Vem muitas vezes assim, estas borrascas? <br /> + +<br /> + +Immediatamente o Silverio aterrou o meu Principe: <br /> + +<br /> + +―Isto agora são brincadeiras de verão, <span class="pagenum">[284]</span>meu +senhor! Mas ha de V. Ex.<sup>a</sup> vêr no inverno, se V. +Ex.<sup>a</sup> se aguentar por cá! +Então é cada temporal, que até parece +que os montes estremecem! <br /> + +<br /> + +E contou como fôra tambem apanhado, quando ia para a +Corujeira. Felizmente, logo pela manhã, quando sentiu o ar +carrancudo e +as folhinhas dos choupos a tremer, se acautelára com o +chapeu +de chuva e calçára as suas grandes botas. <br /> + +<br /> + +―Ainda estive para me abrigar em casa do Esgueira, que é um +caseiro de cá. Aquella casa, ali abaixo, onde +está a +figueira... Mas a mulher tem estado doente, já ha dias... E +como +póde ser obra +que se pegue, bexigas ou coisa que o valha, pensei comigo: Nada, o +seguro morreu de velho! Metti para o alpendre... E não +passára um credo +quando lobriguei a V. Ex.<sup>a</sup>... Coisa assim!... E o Snr. D. +Jacintho +é voltar para +casa, e mudar-se, que temos um dia e uma noite d'agoa. <br /> + +<br /> + +Mas, justamente, a chuva começára a cahir +perpendicular, d'um ceu ainda negro, onde o vento se calára; +e para além do rio +e dos montes havia uma claridade, como entre cortinas de pano cinzento +que se descerram. <br /> + +<br /> + +Jacintho repousava. Eu não cessára de me sacudir, +de bater os pés encharcados, que me arrefeciam. E o bom +Silverio, passando <span class="pagenum">[285]</span>a +mão pensativa sobre o negrume das suas barbas, reflectia, +emendava os seus prognosticos: <br /> + +<br /> + +―Pois, não senhor... Ainda estía! Nunca pensei. +É que tornejou o vento. <br /> + +<br /> + +O alpendre que nos cobria assentava sobre duas paredes em angulo, de +pedra solta, restos d'algum casebre desmantelado, e sobre um esteio +fazendo cunhal. N'esse momento só abrigava madeira, um +cuculo de cestos vasios, e um carro de bois, onde o meu Principe se +sentára, +enrolando um cigarro confortador. A chuva desabava, copiosa, em longos +fios reluzentes. E todos tres nos callavamos, n'aquella +contemplação inerte e sem pensamento, em que uma +chuva +grossa e serena sempre immobilisa e retem olhos e almas. <br /> + +<br /> + +―Ó Snr. Silverio, murmurou lentamente o meu Principe, que +é que o senhor esteve ahi a dizer de bexigas? <br /> + +<br /> + +O procurador voltou a face surprehendido: <br /> + +<br /> + +―Eu, Ex.<sup>mo</sup> Snr.?... Ah sim! a mulher do +Esgueira! É que +póde ser, póde ser... Não imagine V. +Ex.<sup>a</sup> que faltam por +cá doenças. O ar é bom. Não +digo que não! Arsinho são, +agoasinha leve. Mas ás vezes, se V. Ex.<sup>a</sup> me +dá licença, vae por ahi muita maleita. <br /> + +<br /> + +―Mas não ha medico, não ha botica? <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[286]</span> +O Silverio teve o riso superior de quem habita regiões +civilisadas e bem providas... <br /> + +<br /> + +―Então não havia d'haver? Pois ha um boticario, +em Guiães, lá quasi ao pé da casa aqui +do nosso amigo. E homem entendido... o +Firmino, hein, Snr. Fernandes? Homem capaz. Medico é o Dr. +Avelino, d'aqui +a legoa e meia, nas Bolsas. Mas já V. Ex.<sup>a</sup> +vê, esta +gentinha é pobre!... Tomaram elles para pão, +quanto mais para remedios! <br /> + +<br /> + +E de novo se estabeleceu um silencio, sob o alpendre, onde penetrava a +friagem crescente da serra encharcada. Para além do rio, a +promettedora claridade não se alargára entre as +duas +espessas +cortinas pardacentas. No campo, em declive deante de nós, ia +um +longo correr de +ribeiros barrentos. Eu terminára por me sentar na ponta d'um +madeiro, +enervado, já com a fome aguçada pela +manhã +agreste. E Jacintho, na borda do carro, com os pés no ar, +cofiava os bigodes humidos, palpava a +face, onde, com espanto meu, reapparecera a sombra, a sombra triste dos +dias passados, +a sombra do 202! <br /> + +<br /> + +E, então, surdiu por traz da parede do alpendre um rapasito, +muito rotinho, muito magrinho, com uma carita miuda, toda amarella sob +a porcaria, e onde dous grandes olhos pretos se arregalavam para +nós, com <span class="pagenum">[287]</span> +vago pasmo e vago medo. Silverio immediatamente o conheceu. <br /> + +<br /> + +―Como vae a tua mãe? Escusas de te chegar para +cá, deixa-te estar ahi. Eu ouço bem. Como vae a +tua mãe? <br /> + +<br /> + +Não percebi o que os pobres beicitos descorados murmuraram. +Mas Jacinto, interessado: <br /> + +<br /> + +―Que diz elle? Deixe vir o rapaz! Quem é a tua +mãe? <br /> + +<br /> + +Foi o Silverio que informou respeitosamente: <br /> + +<br /> + +―É a tal mulher que está doente, a mulher do +Esgueira, ali do casal da figueira. E ainda tem outro abaixo d'este... +Filharada não +lhe falta. <br /> + +<br /> + +―Mas este pequeno tambem parece doente!―exclamou Jacintho. Coitadito, +tão amarello!... Tu tambem estás doente? <br /> + +<br /> + +O rapasinho emmudecera, chupando o dedo, com os tristes olhos pasmados. +E o Silverio sorria, com bondade: <br /> + +<br /> + +―Nada! este é sãosinho... Coitado, é +assim amarellado e enfezadito, por que... Que quer V. Ex.<sup>a</sup>? +Mal +comido! muita miseria... Quando ha o bocadito de pão +é +para todo o rancho. Fomesinha, +fomesinha! <br /> + +<br /> + +Jacintho pulou bruscamente da borda do carro. <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[288]</span> +―Fome? Então elle tem fome? Ha aqui gente com fome? <br /> + +<br /> + +Os seus olhos rebrilhavam, n'um espanto commovido, em que pediam, ora a +mim, ora ao Silverio, a confirmação d'esta +miseria insuspeitada. E fui eu que esclareci o meu Principe: <br /> + +<br /> + +―Homem! está claro que ha fome! Tu imaginavas talvez que o +Paraiso se tinha perpetuado aqui nas serras, sem trabalho e sem +miseria... Em toda +a parte ha pobres, até na Australia, nas minas d'ouro. Onde +ha trabalho ha proletariado, seja em Paris, seja no Douro... <br /> + +<br /> + +O meu Principe, teve um gesto d'afflicta impaciencia: <br /> + +<br /> + +―Eu não quero saber o que ha no Douro. O que eu pergunto +é se aqui, em Tormes, na minha propriedade, dentro d'estes +campos que são +meus, ha gente que trabalhe para mim, e que tenha fome... Se ha +creancinhas, +como esta, esfomeadas? É o que eu quero saber. <br /> + +<br /> + +O Silverio sorria, respeitosamente, ante aquella candida ignorancia das +realidades da Serra: <br /> + +<br /> + +―Pois está bem de vêr, meu senhor, que ha para +ahi caseiros que são muito pobres. Quasi todos... +É uma miseria, que se +não fosse algum soccorro que se lhes dá, nem eu <span class="pagenum">[289]</span>sei!... Este Esgueira, com +o +rancho de filhos que tem, é uma desgraça... Havia +V. Ex.<sup>a</sup> +de vêr as casitas em que elles vivem... São +chiqueiros. A do Esgueira, +acolá... <br /> + +<br /> + +―Vamos vêl-a! atalhou Jacintho com uma decisão +exaltada. <br /> + +<br /> + +E sahiu logo do alpendre, sem attender á chuva, que ainda +cahia, mais leve e mais rala. Mas então Silverio alargou os +braços deante d'elle, com anciedade, como para o salvar d'um +precipicio. <br /> + +<br /> + +―Não! V. Ex.<sup>a</sup> lá na casa do Esgueira +é que não entra! Não se sabe o que a +mulher tem, e cautella e caldo de gallinha... <br /> + +<br /> + +Jacintho não se alterou na sua polidez paciente: <br /> + +<br /> + +―Obrigado pelo seu cuidado, Silverio... Abra o seu chapeu de chuva, e +ávante! <br /> + +<br /> + +Então o Procurador vergou os hombros, e, como S. +Ex.<sup>a</sup> +mandava, abriu com estrondo o immenso pára-agoas, abrigou +respeitosamente +Jacintho, através do campo encharcado. Eu segui, pensando na +esmola +sumptuosa que o bom Deus mandava áquelle pobre casal por um +remoto senhor +das Cidades! Atraz vinha o pequenito perdido n'um immenso pasmo. <br /> + +<br /> + +Como todos os casebres da serra, o do Esgueira era de grossa pedra +solta, sem reboco, <span class="pagenum">[290]</span>com +um vago telhado, de telha musgosa e negra, um postigo no alto, e a rude +porta que servia para o ar, para a luz, para +o fumo, e para a gente. E em redor, a Natureza e o Trabalho tinham, +através d'annos, accumulado ali trepadeiras e +flôres silvestres, e cantinhos d'horta, e sebes cheirosas, e +velhos bancos roidos de musgo, +e panellas com terra onde crescia salsa, e regueiros cantantes, e +videiras enforcadas nos olmos, e sombras e charcos espelhados, que +tornavam deliciosa, para uma Ecloga, aquella morada da Fome, da +Doença e da Tristeza. <br /> + +<br /> + +Cautelosamente, com a ponteira do guarda-chuva, Silverio empurrou a +porta, chamando: <br /> + +<br /> + +―Eh! tia Maria... Olá rapariga! <br /> + +<br /> + +E na fenda entreaberta appareceu uma moça, muito alta, +escura e suja, com uns tristes olhos pisados, que se espantaram para +nós, +serenamente. <br /> + +<br /> + +―Então como vae a tua mãe?―Abre lá a +porta, que estão aqui estes senhores... <br /> + +<br /> + +Ella abriu, lentamente, e ia murmurando n'uma voz dolente e arrastada +mas sem queixume, que um vago, resignado sorriso acompanhava: <br /> + +<br /> + +―Ora, coitada! como ha de ir? Malzinha... malzinha. <br /> + +<br /> + +E dentro, n'um gemido que subia como <span class="pagenum">[291]</span>do +chão, d'entre +abafos, amodorrado e lento, a mãe repetiu a desconsolada +queixa: <br /> + +<br /> + +―Ai! para aqui estou, e malzinha, malzinha!... <br /> + +<br /> + +O Silverio, sem passar da porta, com o guarda-chuva em riste, meio +aberto, como um escudo contra a infecção, +lançou uma consolação vaga: <br /> + +<br /> + +―Não ha de ser nada, tia Maria!... Isso foi friagem! +Não foi senão friagem! <br /> + +<br /> + +E, sobre o hombro de Jacintho, encolhido: <br /> + +<br /> + +―Já V. Ex.<sup>a</sup> vê... Muita miseria! +Até +lhe chove lá dentro. <br /> + +<br /> + +E, no pedaço de chão que viam, chão de +terra batida, uma mancha humida reluzia, da chuva pingada de uma telha +rôta. A parede, +coberta de fuligem, das longas fumaraças da lareira, era +tão +negra como o chão. E aquella penumbra suja parecia atulhada, +n'uma desordem escura, de trapos, de cacos, de restos de coisas, onde +só mostravam +fórma comprehensivel uma arca de pau negro, e por cima, +pendurado d'um prego, +entre uma serra e uma candeia, um grosso saiote escarlate. <br /> + +<br /> + +Então Jacintho, muito embaraçado, murmurou +abstrahidamente: <br /> + +<br /> + +―Está bem, está bem... <br /> + +<br /> + +E largou pelo campo para o lado do alpendre como se fugisse, emquanto o +Silverio decerto <span class="pagenum">[292]</span>revelava +á rapariga, a presença +augusta do «fidalgo», por que a sentimos, da porta, +levantar a voz dolorida: <br /> + +<br /> + +―Ai! Nosso Senhor lhe dê muito boa sorte! Nosso Senhor o +acompanhe! <br /> + +<br /> + +Quando o Silverio, com as grandes passadas das suas grandes botas, nos +colheu, no meio do campo, Jacintho parára, olhava para mim, +com os dedos tremulos a torturar o bigode, e murmurava: <br /> + +<br /> + +―É horrivel, Zé Fernandes, é +horrivel. <br /> + +<br /> + +Ao lado, o vozeirão do Silverio trovejou: <br /> + +<br /> + +―Que queres tu outra vez, rapaz? Vae para a tua mãe, +creatura! <br /> + +<br /> + +Era o pequeno rotinho, esfaimadinho, que se prendia a nós, +n'um immenso pasmo das nossas pessoas, e com a confusa +esperança, talvez, +que d'ellas, como de Deuses encontrados n'um caminho, lhe viesse affago +ou proveito. E Jacintho, para quem elle mais especialmente arregalava +os olhos tristes, e que aquella miseria, e a sua muda humildade, +embaraçavam, acanhavam horrivelmente, só soube +sorrir, murmurar o seu vago: «Está bem, +está +bem...» +Fui eu que dei ao pequenito um tostão, para o fartar, o +despegar +dos nossos passos. Mas como elle, com o seu tostão bem +agarrado, +nos seguia ainda, como no sulco da +nossa magnificencia, o Silverio teve de o espantar, <span class="pagenum">[293]</span>como a um passaro, +batendo as mãos, e de lhe gritar: <br /> + +<br /> + +―Já para casa! E leve esse dinheiro á +mãe. Roda, roda!... <br /> + +<br /> + +―E nós vamos almoçar, lembrei eu olhando o +relogio. O dia ainda vae estar lindo. <br /> + +<br /> + +Sobre o rio, com effeito, reluzia um pedaço d'azul lavado e +lustroso; e a grossa camada de nuvens já se ia enrolando sob +a lenta +varredela do vento, que as levava, despejadas e rôtas, para +um canto +escuso do ceu. <br /> + +<br /> + +Então recolhemos lentamente para casa, por uma vereda +ingreme, que ensinára o Silverio, e onde um leve enchurro +vinha ainda, +saltando e chalrando. De cada ramo tocado, rechuvia uma chuva leve. +Toda a +verdura, que bebera largamente, reluzia consolada. <br /> + +<br /> + +Bruscamente, ao sahirmos da vereda para um caminho mais largo, entre um +socalco e um renque de vinha, Jacintho parou, tirando lentamente a +cigarreira: <br /> + +<br /> + +―Pois, Silverio, eu não quero mais estas horriveis miserias +na quinta. <br /> + +<br /> + +O Procurador deu um geito aos hombros, com um vago +<em>eh</em>! +<em>eh</em>! d'obediencia e dúvida. <br /> + +<br /> + +―Antes de tudo, continuava Jacintho, mande já hoje chamar +esse Dr. Avelino para aquella pobre mulher... E os remedios que os +vão buscar logo a Guiães. E +recommendação ao +medico <span class="pagenum">[294]</span>para +voltar ámanhã, e em cada dia; até que +ella melhore... Escute! E quero, Melchior, que +lhe leve dinheiro, para os caldos, para a dieta, uns dez, ou quinze mil +réis... Bastará? <br /> + +<br /> + +O Procurador não conteve um riso respeitoso. Quinze mil +réis! Uns tostões bastavam... Nem era bom +acostumar assim, a tanta +franqueza, aquella gente. Depois todos queriam, todos pedinchavam... <br /> + +<br /> + +―Mas é que todos hão-de ter, disse Jacintho +simplesmente. <br /> + +<br /> + +―V. Ex.<sup>a</sup> manda, murmurou o Silverio. <br /> + +<br /> + +Encolhera os hombros, parado no caminho, no espanto d'aquellas +extravagancias. Eu tive de o apressar, impaciente: <br /> + +<br /> + +―Vamos conversando e andando! É meio dia! Estou com uma +fome de lobo! <br /> + +<br /> + +Caminhamos, com o Silverio no meio, pensativo, a fronte enrugada sob a +vasta aba do chapeu, a barba immensa espalhada pelo peito, e a barraca +exorbitante do guarda-chuva vermelho enrolada debaixo do +braço. E Jacintho, puxando nervosamente o bigode, arriscava +outras +idéas bemfazejas, cautelosamente, no seu indominavel medo do +Silverio: <br /> + +<br /> + +―E as casas tambem... Aquella casa é um covil!... Gostava +de abrigar melhor aquella pobre gente... E naturalmente, as dos outros <span class="pagenum">[295]</span>caseiros +são pocilgas eguaes... Era necessario uma reforma! Construir +casas novas a todos os rendeiros da quinta... <br /> + +<br /> + +―A todos?...―O Silverio gaguejava,―emudeceu. <br /> + +<br /> + +E Jacintho balbuciava aterrado: <br /> + +<br /> + +―A todos... Emfim, quero dizer... Quantos serão elles? <br /> + +<br /> + +Silverio atirou um gesto enorme: <br /> + +<br /> + +―São vinte e coisas... Vinte e tres! se bem lembro. Upa! +Upa! Vinte e sete... <br /> + +<br /> + +Então Jacintho emmudeceu tambem, como reconhecendo a +vastidão do numero. Mas desejou saber, por quanto ficaria +cada +casa!... Oh! uma casa simples, mas limpa, confortavel, como a que tinha +a irmã do +Melchior, ao pé do lagar. Silverio estacou de novo. Uma casa +como a da +Ermelinda? Queria Sua Ex.<sup>a</sup> saber? E alijou a cifra, muito +d'alto, +como uma pedra immensa, para esmagar Jacintho: <br /> + +<br /> + +―Duzentos mil réis, Ex<sup>mo</sup> Senhor! E +é para mais +que não para menos! <br /> + +<br /> + +Eu ria da tragica ameaça do excellente homem. E Jacintho, +muito docemente, para conciliar o Silverio: <br /> + +<br /> + +―Bem, meu amigo... Eram uns seis contos de réis! Digamos +dez, por que eu queria dar a todos alguma mobilia e alguma roupa. <br /> + +<br /> + +Então o Silverio teve um brado de terror: <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[296]</span> +―Mas então, Ex.<sup>mo</sup> Senhor, +é uma +revolução! <br /> + +<br /> + +E como nós, irresistivelmente, riamos dos seus olhos +esgazeados de horror, dos seus immensos braços abertos para +traz, como se +visse o mundo desabar,―o bom Silverio encavacou: <br /> + +<br /> + +―Ah! V. Ex.<sup>as</sup> riem? Casas para todos, mobilias, +pratas, bragal, dez +contos de réis! Então tambem eu rio! Ah! ah! ah! +Ora viva a bella chalaça!... Está bôa a +risota! <br /> + +<br /> + +E subitamente, n'uma profunda mesura, como declinando toda a +responsabilidade n'aquelle disparate magnifico: <br /> + +<br /> + +―Emfim, V. Ex.<sup>a</sup> é quem manda! <br /> + +<br /> + +―Está mandado, Silverio. E tambem quero saber as rendas que +paga essa gente, os contractos que existem, para os melhorar. Ha muito +que melhorar. Venha vossê almoçar comnosco. E +conversamos. <br /> + +<br /> + +Tão saturado d'espanto estava o Silverio, que nem recebeu +mais espanto com essa «melhoria de rendas». +Agradeceu o convite, +penhorado. Mas pedia licença a Sua Ex.<sup>a</sup> para passar +primeiramente pelo lagar, +para ver os carpinteiros que andavam a concertar a trave do rio. Era um +instante, e +estava em seguida ás ordens de S. Ex.<sup>a</sup>. <br /> + +<br /> + +Metteu a corta matto, saltando um cancello. <span class="pagenum">[297]</span>E +nós seguimos, +com passos que eram ligeiros, pela hora do almoço que se +retardára, pello azul alegre que reapparecia, e por toda +aquella justiça feita +á pobresa da serra. <br /> + +<br /> + +―Não perdeste hoje o teu dia, Jacintho, disse eu, batendo, +com uma ternura que não disfarcei, no hombro do meu amigo. <br /> + +<br /> + +―Que miseria, Zé Fernandes! Eu nem sonhava... Haver por +ahi, á vista da minha casa, outras casas, onde +creanças teem fome! +É horrivel... <br /> + +<br /> + +Estavamos entrando na alameda. Um raio de sol, sahindo d'entre duas +grossas, algodoadas nuvens, passou sobre uma esquina do +casarão, ao fundo, uma viva tira d'ouro. O clarim dos gallos +soava claro e alto. E um doce vento, que se erguera, punha nas folhas +lavadas e luzidias um fremito alegre e doce. <br /> + +<br /> + +―Sabes o que eu estava pensando, Jacintho?... Que te aconteceu aquella +lenda de Santo Ambrosio... Não, não era Santo +Ambrosio... Não me lembra o santo... Nem era ainda santo... +apenas um cavalleiro peccador, que se +enamorára d'uma mulher, puzera toda a sua alma n'essa +mulher, só por a avistar a distancia na rua. Depois, uma +tarde +que a seguia, enlevado, ella entrou n'um portal de egreja, e ahi, de +repente, ergueu o veu, entreabriu o vestido, e mostrou ao pobre +cavalleiro <span class="pagenum">[298]</span>o seio +roido por +uma chaga! Tu, tambem andavas namorado da serra, sem a conhecer, +só pela sua belleza de verão. E a serra, hoje, +zás! de +repente, descobre a sua grande ulcera... É talvez a tua +preparação para S. Jacintho. <br /> + +<br /> + +Elle parou, pensativo, com os dedos nas cavas do collete: <br /> + +<br /> + +―-É verdade! Vi a chaga! Mas emfim, esta, louvado seja +Deus, é das que eu posso curar! <br /> + +<br /> + +Não desilludi o meu Principe. E ambos subimos alegremente a +escadaria do casarão. <br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h2>XI</h2> + +<br /> + +<br /> + +No dia que seguiu estas largas caridades recolhi a Guiães. +E, desde então, tantas vezes trotei por aquellas tres legoas +entre a +nossa e a velha alameda dos Jacinthos, que a minha egoa, quando a +desviava d'essa +estrada familiar, conduzindo a uma cavallariça familiar, +(onde ella privava com o garrano do Melchior) relinchava de pura +saudade. +Até a tia Vicencia se mostrava vagamente ciumenta d'aquella +Tormes, para onde eu sempre corria, d'aquelle Principe de quem +incessantemente celebrava o rejuvenescimento, a caridade, os piteus, e +as chimeras agricolas. +Já um dia com um grão de sal e ironia,―o unico +que cabia +n'um +coração todo cheio d'innocencia,―ella me +dissera, +movendo com mais vivacidade as agulhas da sua meia: <br /> + +<br /> + +―Olha que te podes gabar! Até me tens <span class="pagenum">[300]</span>feito curiosidade de +conhecer esse Jacintho... Traze cá essa maravilha, menino! <br /> + +<br /> + +Eu rira: <br /> + +<br /> + +―Socegue, tia Vicencia, que o trarei agora, para o dia dos meus annos, +a jantar... Damos uma festa, haverá um bailarico no pateo, e +vem ahi toda essa senhorama dos arredores. Talvez até se +arranje uma +noiva para o Jacintho. <br /> + +<br /> + +Eu, com effeito, já convidára o meu Principe para +este «natalicio». E de resto convinha que o senhor +de +Tormes conhecesse todos aquelles +senhores das boas casas da serra... Sobretudo, como eu lhe dizia rindo, +convinha +que elle conhecesse algumas mulheres, algumas d'aquellas fortes +raparigas dos solares serranos, por que Tormes tinha uma +solidão muito monastica; e o homem, sem um pouco do Eterno +Feminino, facilmente se enrudece e ganha uma casca aspera como a das +arvores, na +solidão. <br /> + +<br /> + +―E esta Tormes, Jacintho, esta tua reconciliação +com a Natureza, e o renunciamento ás mentiras da +Civilisação é uma linda historia... +Mas, caramba, faltam mulheres! <br /> + +<br /> + +Elle concordava, rindo, languidamente estendido na cadeira de vime: <br /> + +<br /> + +―Com effeito, ha aqui falta de mulher, com M. grande. Mas essas +senhoras ahi das <span class="pagenum">[301]</span>casas +dos arredores... Não sei, estou +pensando que se devem parecer com legumes. Sans, nutritivas, +excellentes para a panella―mas, emfim, legumes. As mulheres que os +poetas comparam +ás Flores são sempre as mulheres das +Côrtes, das +Capitaes, ás quaes, invariavelmente, desde Hesiodo e de +Horacio, +se rendem os poetas... E evidentemente não ha perfume, nem +graça, nem +elegancia, nem requinte, n'uma cenoura ou n'uma couve... Não +devem ser interessantes +as senhoras da minha serra. <br /> + +<br /> + +―Eu te digo... A tua visinha mais chegada, a filha do D. Theotonio, +com effeito, salvo o respeito que se deve á casa illustre +dos +Barbedos, é um mostrengo! A irmã dos Albergarias, +da quinta da Loja, tambem +não tentaria nem mesmo o precisado Santo Antão. +Sobretudo se se +despisse, por que é um espinafre infernal! Essa realmente +é +legume, e não dos nutritivos. <br /> + +<br /> + +―Tu o disseste: espinafre! <br /> + +<br /> + +―Temos tambem a D. Beatriz Velloso... Essa é bonita... Mas, +menino, que horrivelmente bem fallante! Falla como as heroinas do +Camillo. Tu nunca +leste o Camillo... E depois, um tom de voz que te não sei +descrever, o tom com que se falla em D. Maria, em peças de +sentimento. Tu +tambem nunca viste o Theatro <span class="pagenum">[302]</span>de +D. Maria... Emfim, um horror! E perguntas pavorosas. «V. +Ex.<sup>a</sup>. Snr. Doutor, não se delicia +com Lamartine?» Já me disse esta, a indecente! <br /> + +<br /> + +―E tu? <br /> + +<br /> + +―Eu! Arregalei os olhos... «Oh Lamartine!». Mas, +coitada, é uma excellente rapariga! Agora, por outro lado, +temos +as Rojões, +as filhas de João Rojão, duas flores, muito +frescas, +muito +alegres, com um cheiro e um brilho a sadio, e muito simples... A tia +Vicencia morre por ellas. +Depois ha a mulher do Dr. Alypio, que é uma belleza. Oh! uma +creatura esplendida! Mas, emfim, é a mulher do Dr. Alypio, e +tu +renunciaste aos deveres da Civilisação... +Além +disso, +mulher muito séria, toda absorvida nos seus dous pequenos, +que +parecem dous anjinhos de Murillo... E quem mais? Já agora, +quero +completar a lista do pessoal feminino. +Temos a Mello Rebello, de Sandofim, muito engraçada, com +cabello +lindo... Borda na perfeição, faz doces como uma +freira do +antigo +Regimen... Havia tambem uma Julia Lobo, muito linda, mas morreu... +Agora não +me lembro mais. Mas falta a flôr da Serra, que é a +minha +prima Joanninha, da Flôr da Malva! Essa é uma +perfeição de +rapariga. <br /> + +<br /> + +―E tu, primo Zé, como tens tu resistido? <br /> + +<br /> + +―Somos como irmãos, creados de pequeninos, <span class="pagenum">[303]</span>mais +acostumados +e familiares que tu e eu... A familiaridade esbate os sexos. A +mãe d'ella era a unica irmã da tia Vicencia, e +morreu +muito nova. A +Joanninha, quasi desde o berço que se creou em nossa casa, +em +Guiães. O pae é bom homem, o tio +Adrião. Erudito, +antiquario, colleccionador... +Collecciona toda a sorte de cousas exquisitas, campainhas, esporas, +sinetes, fivellas... Tem uma collecção curiosa. +Elle ha +muito que deseja vir a Tormes, para te visitar... Mas, coitado, soffre +da bexiga, +não póde montar a cavallo. E a estrada da +Flôr da +Malva aqui +é impossivel para carruagens... <br /> + +<br /> + +O meu Principe espreguiçára longamente os +braços: <br /> + +<br /> + +―Não, está claro! eu é que hei-de +visitar teu tio, e a tia Vicencia... Desejo conhecer os meus visinhos. +Mas mais tarde, quando socegar. Agora +ando todo occupado com o meu povo. <br /> + +<br /> + +E com effeito! Jacintho era agora como um Rei fundador d'um Reino, e +grande edificador. Por todo o seu dominio de Tormes andavam obras, para +o renovamento das casas dos rendeiros, umas que se concertavam, outras +mais velhas, que se derrubavam para se reconstruirem com uma larguesa +commoda. Pelos caminhos constantemente chiavam carros, <span class="pagenum">[304]</span>carregados de pedra, ou de +madeiras cortadas nos pinheiraes. <br /> + +<br /> + +Na taberna do Pedro, á entrada da freguezia, ia um desusado +movimento, de pedreiros e carpinteiros contractados para as obras;―e o +Pedro, com +as mangas arregaçadas, por traz do balcão, +não cessava de encher os decilitros com uma vasta enfusa. <br /> + +<br /> + +Jacintho, que tinha agora dous cavallos, todas as manhãs +cedo percorria as obras, com amor. Eu, inquieto, sentia outra vez, +latejar e irromper no meu Principe o seu velho, maniaco furor +d'accumular +Civilisação! O plano primitivo das obras era +incessantemente alargado, +aperfeiçoado. Nas janellas, que deviam ter apenas portadas, +segundo o secular costume +da serra, decidira pôr vidraças, apezar do mestre +d'obras lhe dizer honradamente, que depois d'habitadas um mez, +não haveria +casa com um só vidro. Para substituir as traves classicas +queria +estucar os tectos;―e +eu via bem claramente que elle se continha, se retesava dentro do +Bom-senso, para não dotar cada casa com campainhas +electricas. Nem sequer me espantei, quando elle uma manhã me +declarou que a +porcaria da gente do campo provinha de elles não terem onde +commodamente +se lavar, pelo que andava pensando em dotar cada casa com uma banheira. +<span class="pagenum">[305]</span>Desciamos +n'esse momento, com os cavallos á redea, por uma azinhaga +precipitada e escabrosa; um vento leve ramalhava nas arvores, um regato +saltava ruidosamente entre as pedras. Eu não me +espantei―mas +realmente me pareceu que as pedras, o arroio, as ramagens e o vento, se +riam alegremente do meu Principe. E além d'estes confortos, +a +que +o João, mestre d'obras, com os olhos loucamente arregalados +chamava +«as grandezas», Jacintho meditava o bem das almas. +Já +encommendára ao seu architecto, em Paris, o plano perfeito +d'uma +escola, que elle queria erguer, n'aquelle campo da Carriça, +junto á +capellinha que abrigava «os ossos». Pouco a pouco, +ahi +crearia tambem uma bibliotheca, +com livros d'estampas, para entreter, aos domingos, os homens a quem +já +não era possivel ensinar a lêr. Eu vergava os +hombros, +pensando:―«Ahi vem a terrivel +accumulação das +Noções! Eis o livro invadindo a Serra!» +Mas outras idéas de Jacintho eram tocantes,―e eu mesmo me +enthusiasmei, e excitei o enthusiasmo da tia Vicencia com o seu plano +d'uma Creche, +onde elle esperava ter manhãs muito divertidas vendo as +creancinhas a gatinhar, a correr tropegamente atraz d'uma bola. De +resto, o nosso boticario de Guiães estava já +apalavrado +para +estabelecer uma pequena pharmacia em Tormes, <span class="pagenum">[306]</span>sob +a direcção do seu +praticante, um afilhado da tia Vicencia, que tinha publicado um artigo +sobre as festas populares +do Douro no <em>Almanach de +Lembranças</em>. E já fôra +offerecido o partido medico de Tormes, com ordenado de 600$000 +réis. <br /> + +<br /> + +―Não te falta senão um Theatro! dizia eu, rindo. +<br /> + +<br /> + +―Um theatro não. Mas tenho a idéa d'uma sala, +com projecções de lanterna magica, para ensinar a +esta +pobre gente as cidades d'esse mundo, e as cousas d'Africa, e um bocado +de Historia. <br /> + +<br /> + +E tambem me ensoberbeci com esta innovação!―E +quando a contei ao tio Adrião, o digno antiquario bateu, +apezar do seu rheumatismo, +uma palmada tremenda na côxa. «Sim, senhor! Bella +idéa! Assim se podia ensinar áquella gente +illetrada, vivamente, por imagens, a Historia +Santa, a Historia Romana, até a Historia de +Portugal!...» E +voltado para a prima Joanninha, o tio Adrião declarou +Jacintho um +«homem de coração!» <br /> + +<br /> + +E realmente pela Serra crescia a popularidade do meu Principe. +N'aquelle, «guarde-o Deus, meu senhor!» com que as +mulheres ao passar o saudavam, se voltavam para o vêr ainda, +havia uma seriedade +d'oração, o bem sincero desejo de que Deus o +guardasse <span class="pagenum">[307]</span>sempre. +As +creanças a quem elle distribuia tostões, +farejavam de +longe a sua +passagem,―e era em torno d'elle um escuro formigueiro de caritas +trigueiras e sujas, com grandes olhos arregalados, que se ainda tinham +pasmo, já +não tinham medo. Como o cavallo de Jacintho uma tarde se +chapára, ao +desembocar da alameda, n'umas grossas pedras que ahi deformavam a +estrada, logo ao outro dia um bando d'homens, sem que Jacintho o +ordenasse, veio por dedicação ensaibrar e alisar +aquelle +pedaço perigoso de caminho, aterrados com o risco que +correra o +bom senhor. Já pela +serra se espalhava esse nome de «bom senhor». Os +mais +edosos +da freguezia não o encontravam sem exclamarem, uns com +gravidade, outros com grandes risos +desdentados:―<em>Este é o nosso +bemfeitor</em>! Por vezes, alguma velha corria do fundo do eido, +ou vinha á porta do casebre, ao avistal-o +no caminho, para gritar, com grandes gestos dos braços +magros: +«Ai que Deus o cubra de bençãos! Que +Deus o cubra de +bençãos!» <br /> + +<br /> + +Aos domingos, o padre José Maria, (bom amigo meu e grande +caçador) vinha de Sandofim, na sua egoa ruça, a +Tormes, +para celebrar a +missa na Capellinha. Jacintho assistia ao officio na sua tribuna, como +os Jacinthos d'outras eras, para que aquelles simples o não +<span class="pagenum">[308]</span>suppuzessem +estranho a Deus. Quasi +sempre então elle recebia presentes, +que as filhas dos caseiros, ou os pequenos, vinham muito corados, +trazer-lhe +á varanda, e eram vasos de manjaricão, ou um +grosso +ramalhete +de cravos, e por vezes um gordo pato. Havia então uma +distribuição de cavacas e merengues de +Guiães, +ás raparigas e ás +creanças,―e, no pateo, para os homens circulavam as infusas +de +vinho branco. O Silverio já +sustentava com espanto, e redobrado respeito, que o Snr. D. Jacintho em +breve disporia de mais votos nas eleições que o +Dr. +Alypio. E eu proprio me impressionei, quando o Melchior me contou que o +João +Torrado, um velho singular d'aquelles sitios, de grandes barbas +brancas, hervanario, vagamente alveitar, um pouco adivinho, morador +mysterioso d'uma cova no +alto da serra, a todos affirmava que aquelle bom senhor era El-Rei D. +Sebastião, que voltára! <br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h2>XII</h2> + +<br /> + +<br /> + +Assim chegou Setembro, e com elle o meu natalicio, que era a 3 e n'um +Domingo. Toda essa semana a passára eu em Guiães, +nos preparos da vindima,―e de manhã cedo, n'esse Domingo +illustre, me fui +debruçar da varanda do quarto do saudoso tio Affonso, +vigiando a +estrada, por onde devia apparecer o meu Principe, que emfim visitava a +casa do seu +Zé Fernandes. A tia Vicencia, desde a madrugada, andava +atarefada pela cosinha e pela copa, porque, desejando mostrar ao meu +Principe +«o pessoal» da serra, convidára para +jantar algumas +familias amigas, dos arredores, as que tinham carruagens ou +carroções, +e podiam, pelas estradas mal seguras, recolher tarde, depois d'um +bailarico campestre, no <span class="pagenum">[310]</span>pateo, +já enfeitado para esse effeito de lanternas +chinezas. Mas logo ás dez horas me desesperei, ao receber, +por um +moço da Flôr da Malva, uma carta da prima +Joanninha, em que dizia «a pena de +não poder vir porque o Papá estava desde a +vespera com um +leicenço, e ella não o queria +abandonar.» Corri indignado á cosinha, onde +a tia Vicencia presidia a um violento bater de gemas d'ovos dentro +d'uma immensa terrina. <br /> + +<br /> + +―A Joanninha não vem! Sempre assim! Diz que o pae tem um +leicenço... Aquelle tio Adrião escolhe sempre os +grandes dias para ter +leicenços, ou para ter a pontada... <br /> + +<br /> + +A boa face redondinha e corada da tia Vicencia enterneceu-se. <br /> + +<br /> + +―Coitado! será em sitio que não se pudesse +sentar na carruagem! Coitado! Olha, se lhe escreveres, dize-lhe que +ponha um emplastrosinho de folhas d'alecrim. É com que teu +tio +se dava bem. <br /> + +<br /> + +Eu gritei simplesmente para o moço, que dava de beber ao +burro no pateo: <br /> + +<br /> + +―Dize á Snr.<sup>a</sup> D. Joanninha que sentimos muito... +Que +talvez eu lá appareça +ámanhã. <br /> + +<br /> + +E voltei á janella, impaciente, por que o relogio do +corredor, muito atrazado, já cantára a meia hora +depois das dez e +o Principe tardava <span class="pagenum">[311]</span>para +o almoço. Mas, mal eu me chegára +á varanda, appareceu justamente na volta da estrada +Jacintho, de +grande chapeu de palha, no seu cavallo, seguido do Grillo que, tambem +de chapeu de palha, e abrigado sob um immenso guarda-sol verde, se +escarranchava no albardão da +velha egoa do Melchior. Atraz, um moço com uma maleta +á +cabeça. E eu, na alegria de avistar emfim o meu Principe +trotando para a minha casa d'aldeia, no +dia dos meus trinta e seis annos, pensava n'outro natalicio, no d'elle, +em Paris, no 202, quando, entre todos os esplendores da +Civilização, nós bebemos tristemente <em>ad +manes</em>, aos +nossos mortos! <br /> + +<br /> + +―<em>Salvè</em>! gritei da +varanda. <em>Salvè, domine +Jacinthi</em>! <br /> + +<br /> + +E entoei, para o accolher, n'um alegre tarantantan, o hymno da carta! <br /> + +<br /> + +―Isto por aqui tambem é lindo!―gritou elle de baixo. E o +teu palacio tem um soberbo ar... Por onde é a porta? <br /> + +<br /> + +Mas eu já me precipitava para o pateo―onde Jacintho, +apeando, contou alegremente os tormentos do Grillo, que nunca +montára a +cavallo, e não cessára de berrar ante os perigos +d'aquella aventura. <br /> + +<br /> + +E o digno preto, offegante, lustroso de suor, e livido sob o esplendor +da sua negrura, exclamava, <span class="pagenum">[312]</span>apontando +com a mão tremula para +a pobre egoa, que solta, de cabeça pensativa, parecia de +pedra, +sobre as patas mais immoveis que marcos: <br /> + +<br /> + +―Pois se o siô Fernandes visse! Uma fera, que nunca veiu +quieta. Sempre para a esquerda, sempre para a direita, pé +aqui, +pé além! Só para me sacudir! +Só para me sacudir! <br /> + +<br /> + +E não resistiu. Com a ponta do guarda-sol atirou uma +pontoada vingativa contra a egoa, sobre o albardão. <br /> + +<br /> + +Subindo a escadaria ligeira, penetrando no alegre corredor, com a sua +janella ao fundo engrinaldada de rosinhas, Jacintho louvava grandemente +a nossa casa, que o repousava das rijas muralhas, das grossas portas +feudaes de Tormes. E no seu quarto agradeceu os cuidados maternaes da +tia Vicencia, que enchera de flores os dois vasos da China sobre a +commoda, e adornára a cama com uma das nossas colxas da +India mais ricas, côr de canario, com grandes aves d'ouro. Eu +sorria, +enternecido. Então estreitamos os ossos n'um grande +abraço, +pelo natalicio... «Trinta e oito, hein, Zé +Fernandes?»―«Trinta e +quatro, animal!» E o meu Principe abrindo a mala, sobria +maleta +de philosopho, offereceu os «nobres presentes, que +são +devidos», +como diz sempre o astuto Ulysses na Odyssea. Era um alfinete de +gravata, <span class="pagenum">[313]</span>com uma +saphira, uma cigarreira de +aro fosco, adornada de um florido ramo de macieira em delicado esmalte, +e uma faca para livros de velho lavor Chinez. Eu protestava contra a +prodigalidade. <br /> + +<br /> + +―É tudo das malas de Paris... Mandei-as abrir hontem +á noite. E tomei a liberdade de trazer esta +lembrança á tua tia +Vicencia. Não vale nada... É só por +ter pertencido á princeza de +Lamballe. <br /> + +<br /> + +Era uma caldeirinha d'agoa benta, em prata lavrada, d'um gosto florido +e quasi galante. <br /> + +<br /> + +―A tia Vicencia não sabe quem é a princeza de +Lamballe, mas ficará encantada! E é uma garantia, +por que ella suspeita da tua +religião, como homem de Paris, da terra das impiedades... E +agora, lavar, escovar, e +ao almoço! <br /> + +<br /> + +A tia Vicencia pareceu toda surprehendida, e logo encantada com o meu +camarada, que ella suppuzera realmente um Principe, arrogante, +escarpado e difficil. Quando elle lhe offereceu a caldeirinha, com um +delicado pedido «para se lembrar d'elle nas suas +orações», duas largas rosas, mais +roseas e frescas +que as rosas que enchiam a mesa, cobriram as +faces redondas da boa senhora, que nunca recebera tão +piedoso +presente, com tão linda palavra. Mas o que sobretudo a +captivou <span class="pagenum">[314]</span>foi o +tremendo appetite de Jacintho, a enthusiasmada +convicção +com que elle, accumulando no prato montes de cabidella, depois altas +serras d'arroz +de forno, depois bifes de numerosa cebolada, exaltava a nossa cosinha, +jurava nunca ter provado nada tão sublime. Ella +resplandecia: <br /> + +<br /> + +―Até faz gosto, até faz gosto!... Ora mais uma +d'estas batatinhas recheadas... <br /> + +<br /> + +―Com certesa, minha senhora! até duas! As minhas +rações, em mesas d'estas, tão +perfeitas, são sempre as de +Gargantua. <br /> + +<br /> + +―Não cites Rabelais, que a tia Vicencia não +conhece os auctores profanos! exclamava eu, tambem radiante. E prova +esse vinho branco +cá da nossa lavra, e louva Deus que amadurece tal uva. <br /> + +<br /> + +E o almoço foi muito alegre, muito intimo, muito conversado, +sobre as obras de Jacintho em Tormes, e a sua Creche, que enlevava a +tia Vicencia, e as esperanças da vindima, e a minha prima +Joanninha, que tinha o papá doente, e o pessimo estado dos +caminhos. Mas o enternecimento maior foi quando, ao servir o +café, o creado +poz ao lado de Jacintho um pires com um pau de canella, o seu estranho +e costumado pau de canella. Não o esquecera a tia Vicencia! +Ali +tinha o +seu pausinho de canella!―Queria que elle, em <span class="pagenum">[315]</span>Guiães, +continuasse os seus +habitos como em Tormes... E aquelle pau de canella foi o symbolo de +adopção do meu Principe como novo sobrinho da tia +Vicencia. <br /> + +<br /> + +Ella em breve recolheu á cosinha, aos preparativos do +banquete. Nós fumamos um preguiçoso charuto no +jardim, ao +pé do +repuxo, sob a recolhida sombra do cedro. Depois, inexoravelmente, como +proprietario, mostrei ao meu Principe a propriedade toda, com +desapiedada minuciosidade, sem lhe perdoar uma leira, um regueiro, uma +arvore, um +pé de vinha. Só quando a sua face +começou a opar e +a +empallidecer, de cançaço, e que do entendimento +totalmente +atordoado só lhe escorria um vago―«muito bonito! +bella +terra!»―é +que voltei os passos para casa, tornejando ainda n'uma volta larga para +lhe mostrar o lagar, uma plantação d'espargos, e +o sitio +onde existira a +ruina d'um velho castro romano. Ao penetrarmos de novo, pelo jardim, na +fresca sala, ainda o empurrei, como uma rez, para a livraria do meu bom +tio Affonso, para +lhe mostrar as preciosidades, uma magnifica chronica de D. +João +I por Fernão Lopes, a primeira edição +do +<em>Imperador Clarimundo</em>, uma +<em>Henriada</em>, com a assignatura de Voltaire, foraes +d'El-Rei D. +Manoel, e outras maravilhas. Elle respirava fechando o derradeiro +pergaminho, <span class="pagenum">[316]</span>quando +eu +o arrastei á adega, para que admirasse a famosa pipa, que +tinha, em relevo, na madeira do tampo, as complicadas armas dos Sandes. +Eram quatro horas. O meu Principe tinha o ar esgaseado e livido. +Cravando n'elle os olhos inexoraveis, olhos em que eu mesmo sentia +reluzir a ferocidade, declarei «que iriamos agora +vêr a +tulha.» Mas então, com as mãos nos +rins, elle +murmurou, humildemente, n'um murmurio de +creança: <br /> + +<br /> + +―Não se me dava de me sentar um poucochinho! <br /> + +<br /> + +Tive então piedade, abri as garras, deixei que elle se +arrastasse, atraz de mim, para o seu quarto, onde freneticamente +descalçou as +botas, se atirou para um fresco canapé forrado de ganga, +murmurando +n'um abatimento profundo:―«Bella propriedade!» <br /> + +<br /> + +Consenti generosamente que elle adormecesse,―e eu mesmo desci a +verificar se a Gertrudes dispusera bem as escovas, as toalhas de renda, +no quarto onde os convidados, em breve, ao chegar, lavariam as +mãos, escovariam a poeira da estrada. E justamente, uma +caleche +rodava no pateo, a velha caleche do D. Theotonio, com a parelha +ruça. +Espreitando da janella descobri, com prazer, que chegava só, +de +gravata +branca, sob o guarda-pó, sem a horrendissima filha. Corri <span class="pagenum">[317]</span>alegremente ao +quarto da tia Vicencia, que, ajudada pela Catharina, abrochava +á +pressa as suas pulseiras ricas de topazios. <br /> + +<br /> + +―Tia Vicencia! chegou o D. Theotonio! Felizmente vem sem a filha... +Não se demore, os outros não tardam. O Manoel que +esteja bem +penteado, de gravata bem teza!... Vamos a vêr como corre a +festa! <br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h2>XIII</h2> + +<br /> + +<br /> + +Ai de mim! a festa no meu anniversario não se passou com +brilho, nem com alegria! <br /> + +<br /> + +Quando o meu Principe entrou na sala, com uma elegancia, (onde eu senti +as malas de Paris, abertas na vespera)―uma rosa branca no +jaquetão preto, collete branco lavrado e trespassado, +copiosa +gravata de +sêda branca, tufando, e presa por uma perola +negra,―já +todos os +convidados estavam na sala,―o D. Theotonio, o Ricardo Velloso, o Dr. +Alypio, o gordo Mello Rebello, de Sandofim, os dois manos Albergarias, +da quinta da Loja―; todos de pé, n'um pellotão +cerrado. +Em +torno do sophá onde a tia Vicencia se installára, +um +magotesinho de cadeiras +reunira as senhoras,―a Beatriz Velloso, de cassa branca sobre <span class="pagenum">[320]</span>sèda, +que a tornava mais aeria e magra, com a sua trunfa immensa de cabello +riçado; as duas Rojões, (com a tia Adelaide +Rojão) +vermelhinhas +como camoezas, ambas de branco; e a mulher do Dr. Alypio, de preto, +esplendida como uma Venus Rustica... E foi na sala, como se realmente +entrasse um Principe, d'esses paizes do Norte onde os Principes +são magnificos, +muito distantes dos homens, e aterram as gentes. Um silencio, como se o +tecto +de carvalho descesse, nos esmagava: e todos os olhos se enristaram +contra o meu desgraçado Jacintho, como n'uma +caçada hindú, quando á orla da +floresta surge o +Tigre Real. Debalde,―nas confusas, apressadas +apresentações, com que eu o levava atravez da +sala,―os seus apertos de mão, os sorrisos, o vago murmurio, +«da sua honra, +do seu prazer» foram repassados de sympathia, de +simplicidade. +Todos os cavalheiros permaneciam reservados, observando o Principe, que +subira á +serra: e as senhoras mais se aconchegavam á sombra da tia +Vicencia, como +ovelhas á volta do pastor, quando na altura assoma o lobo. +Eu, +já +inquieto, lancei o D. Theotonio, o mais ornamental d'aquelles +cavalheiros. <br /> + +<br /> + +―O Snr. D. Theotonio foi muito amavel em vir, Jacintho. Raras vezes +sae da sua linda casa da Abrujeira. <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[321]</span> +O digno D. Theotonio sorriu, cofiando os espessos bigodes brancos, de +velho brigadeiro: <br /> + +<br /> + +―V. Ex.<sup>a</sup> chegou directamente de Vienna? <br /> + +<br /> + +Não! Jacintho viera directamente de Paris, com o amigo +Zé Fernandes. D. Theotonio insistiu: <br /> + +<br /> + +―Mas certamente visita muitas vezes Vienna... <br /> + +<br /> + +Jacintho sorria surprehendido: <br /> + +<br /> + +―Vienna, porque?... Não. Ha mais de quinze annos que +não vou a Vienna. <br /> + +<br /> + +O fidalgo murmurou um lento <em>ah</em>! e +ficou calado, de palpebras baixas, como revolvendo analyses profundas, +com as mãos cruzadas sob +as abas da longa sobrecasaca azul. <br /> + +<br /> + +Eu então, vigilante, lancei o Dr. Alypio: <br /> + +<br /> + +―O nosso Doutor, meu caro Jacintho, é o mais poderoso +influente de todo o districto. <br /> + +<br /> + +O Doutor curvou a cabeça bem feita, com um bello cabello +preto, admiravelmente alisado e lustroso. Mas a tia Vicencia, que se +erguera +do sofá, chamava o meu Principe, porque o Manoel +annunciára o jantar, mudamente, mostrando apenas, +á porta da sala, a sua +corpulenta pessoa,―inteiriçado e vermelho. <br /> + +<br /> + +Á mesa, onde os pudins, as travessas de doce d'ovos, os +antigos vinhos da Madeira e do Porto, nas suas pesadas garrafas de +cristal lapidado, fundiam com felicidade os seus <span class="pagenum">[322]</span>tons ricos e quentes, +Jacintho ficou entre a tia Vicencia e uma das Rojões, a +Luizinha, sua +afilhada, que, por costume velho, quando jantava em Guiães, +sempre se +collocava á sombra da sua bôa madrinha. E a +sôpa, que era de +gallinha com macarrão, foi comida n'um tão largo +e pesado silencio que eu, na ancia +de o quebrar, exclamei, ao acaso, sem pensar que me achava em +Guiães depois de tanto tempo e em minha própria +casa: <br /> + +<br /> + +―Deliciosa, esta sopa! <br /> + +<br /> + +Jacintho echoou: <br /> + +<br /> + +―Divina!! <br /> + +<br /> + +Mas como todos os convidados certamente estranharam este meu brado, e a +excessiva admiração de Jacintho, o silencio, +carregado de cerimonia, mais se carregou de embaraço. +Felizmente +a tia Vicencia, com +aquelle seu bom sorriso, observou que Jacintho parecia gostar da comida +portugueza... E eu, sempre no intuito d'animar a conversa, nem deixei +que o meu Principe confirmasse o seu amor da cosinha vernacula, e +gritei: <br /> + +<br /> + +―Como gostar! Mas é que delira!... Pudera! Tanto tempo em +Paris, privado dos piteus lusitanos... <br /> + +<br /> + +E como, ditosamente, me lembrára o prato de arroz doce +preparado na occasião do natalicio de Jacintho, pelo +cosinheiro do 202, +<span class="pagenum">[323]</span>contei a historia, +profusamente, exaggerando, affirmando que esse arroz doce continha <em>foie +gras</em>, +e que sobre a +sua ornamentada pyramide fluctuava a bandeira tricolor, por cima do +busto do conde de Chambord! Mas o arroz doce de Paris, assim estragado +tão longe da Serra, +não interessára ninguem. Puxou apenas alguns +sorrisos de +polida condescendencia, quando +eu, alternadamente, me voltava para um cavalheiro, para uma senhora, +insistindo, exclamando:―Extraordinario, hein? <br /> + +<br /> + +D. Theotonio observou, mysteriosamente, que o «cosinheiro +sabia para quem cosinhava.» E a bella mulher do Dr. Alypio +ousou +murmurar, corando: <br /> + +<br /> + +―Havia de ser bonito prato, e talvez não fosse mau! <br /> + +<br /> + +Eu, sempre na ancia de espiritualisar o banquete, de produzir +conversação, ataquei com desabrida alegria a +Snr.<sup>a</sup> D. Luiza, por ella assim defender a +profanação do nosso grande +acepipe nacional! Mas, pobre de mim! tão excessiva e +ruidosamente interpellei a formosa +senhora, que ella se enconchou, emmudeceu, toda corada, e mais formosa +assim. E +outro silencio se abatia sobre a mesa, como uma nevoa, quando a tia +Vicencia, +providencial, se desculpou para com Jacintho de não ter +peixe! Mas quê! ali na Serra era impossivel, <span class="pagenum">[324]</span>ainda +a peso d'ouro, ter peixe, a +não ser a pescada salgada, ou o bacalhau. O excellente +Rojão, com +aquelle seu modo, tão suave que cada syllaba para correr +mais +docemente +parecia lubrificada com oleos santos, lembrou que o Snr. D. Jacintho +possuia +uma larga facha do rio Douro com privilegio para a pesca do savel. +Jacintho +não sabia, nem imaginava que houvesse saveis... O Dr. Alypio +não se admirava por que essas pescas tinham sido vendidas ao +Cunha brasileiro, +ha vinte annos, na mocidade do Snr. D. Jacintho. E hoje, segundo o D. +Theotonio, não valiam dois mil réis. Se +já não ha saveis!... E a proposito das antigas +pescas do +Douro se ia formando, em torno da mesa, +entre os homens mais visinhos, lentas cavaqueirinhas ruraes, que as +senhoras aproveitavam para cochichar, no desabafo d'aquelle silencio +cerimonioso, que viera pesando cada vez mais desde a sôpa +até os frangos guisados. Receoso de que essa orla de +murmurios +lentos, sem brilho e +sem alegria, se estabelecesse de novo, me abalancei (para animar), a +interpellar Jacintho, recordando a famosa aventura do peixe da Dalmacia +encalhado no ascensor. <br /> + +<br /> + +―Isso foi uma das melhores historias que nos succederam em Paris! O +Jacintho, por causa d'um peixe muito raro, que lhe mandára <span class="pagenum">[325]</span>o +Grão-Duque Casimiro, dava uma magnifica ceia, a que o +Grão-Duque... o +Grão-Duque Casimiro, o irmão do Imperador... <br /> + +<br /> + +Todos os olhos se desviaram para o meu Jacintho, que se servia de +ervilhas:―e o Mello Rebello quasi se engasgou, n'um sorvo precipitado +ao copo, para contemplar no meu amigo algum reflexo do +Grão-Duque. E eu contei, com profusão, o peixe +encalhado, +o +Grão-Duque pescando, o anzol feito com um gancho da Princeza +de +Carman, o duque de Marizac, cahindo quasi no poço do +elevador... +Mas não se produziu +um unico riso, e a attenção mesma era dada com +esforço, +por cortezia. Debalde eu arremessava aquelles nomes magnificos de +principes e princezas, misturados a cousas picarescas... Nenhum dos +meus convidados comprehendia o maquinismo do elevador, um prato +encalhado n'um +poço negro... Perante o gancho da princeza as Albergarias +baixaram os olhos. +E a minha deliciosa historia morreu n'uma reticencia, ainda mais +regelada pela exclamação innocente da tia +Vicencia: <br /> + +<br /> + +―Oh! filho, que cousas! <br /> + +<br /> + +Mas, como Jacintho se enfronhára de repente n'uma larga +conversa com a Luizinha Rojão, que ria, toda luminosa e +palradora,―todos, +como libertados do peso cerimonioso <span class="pagenum">[326]</span>da +sua presença augusta, se +lançaram nas conversinhas discretas, a que o champagne, +agora, +depois do assado, +dava mais viveza. Eram os soturnos murmurios, em torno da mesa, que +definitivamente se perpetuavam. Foi então que desisti de +animar o jantar. Mergulhei com a bella mulher do Doutor Alypio na +grande +questão social d'esse tempo em Guiães, o +casamento da D. +Amelia +Noronha com o feitor! E eu defendia a D. Amelia, os direitos do amor, +quando se alargou um silencio,―e era Jacintho, que se +debruçava, de +copo na mão. <br /> + +<br /> + +―Velho amigo Zé Fernandes, á tua! Muitos e bons, +e sempre em companhia de tua tia e minha senhora, a quem +peço para saudar. <br /> + +<br /> + +Todos os copos, onde a espuma morria sobre um fundo de champagne, se +ergueram n'um largo rumor de amisade, e boa visinhança. Eu +acenei ao Manoel, vivamente, para encher os copos; e logo, tambem de +pé, atirando para traz a sobrecasaca: <br /> + +<br /> + +―Meus senhores, peço uma grande saude para o meu velho +amigo Jacintho, que pela primeira vez honra esta casa fraternal... Que +digo eu? que +pela primeira vez honra com a sua presença a sua querida +patria! +E que por cá fique, pelas serras, muitos annos, todos bons. +Á tua, meu +velho! <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[327]</span>Outro rumor correu +pela mesa, mas +ceremonioso e sereno. A nossa oratoria, positivamente, não +incendiára as +imaginações! A tia Vicencia fez tilintar o seu +copo, +quasi vasio, com o de Jacintho, que tocou no copo da sua visinha, a +Luizinha Rojão, toda resplandecente, +e mais vermelha que uma peonia. Depois foi um encadeamento de saudes, +com os copos quasi vasios, entre todos os convidados, sem esquecer o +tio Adrião, e o Abbade, ambos ausentes, ambos com +furunculos. E +a tia Vicencia espalhava aquelle olhar, que prepára o +erguer, o +arrastar de cadeiras,―quando D. Theotonio, erguendo o seu copo de +vinho do Porto, com a outra mão apoiada á mesa, +meio +erguido, +chamou Jacintho, e n'uma voz respeitosa, quasi cava: <br /> + +<br /> + +―Esta é toda particular, e entre nós... Brindo o +ausente! <br /> + +<br /> + +Esvasiou o copo, como em religião, pontificando. Jacintho +bebeu assombrado, sem comprehender. As cadeiras arrastavam,―eu dei o +braço á tia Albergaria. <br /> + +<br /> + +E só comprehendi, na sala, quando o Dr. Alypio, com a sua +chavena de café e o charuto fumegante, me disse, n'um +d'aquelles seus +olhares finos, que lhe valiam a alcunha de <em>Dr. +Agudo</em>:―«Espero que ao menos, cá por +Guiães, não se erga de novo a +forca!...» <span class="pagenum">[328]</span>E +o mesmo fino olhar me indicava o D. Theotonio, que arrastára +Jacintho para entre +as cortinas d'uma janella, e discorria, com um ar de fé e de +mysterio. +Era o miguelismo, por Deus! O bom D. Theotonio considerava Jacintho +como um hereditario, ferrenho, miguelista,―e na sua inesperada vinda +ao seu solar de Tormes, entrevia uma missão politica, o +começo d'uma propaganda energica, e o primeiro passo para +uma +tentativa de +Restauração. E na reserva d'aquelles cavalheiros, +ante o +meu Principe, eu senti +então a suspeita liberal, o receio d'uma influencia rica, +nova, +nas +Eleições proximas, e a nascente +irritação +contra as velhas +ideias, representadas n'aquelle moço, tão rico, +de +civilisação tão superior. Quasi +entornei o café, na alegre surpreza d'aquella sandice. E +retive +o Mello +Rebello, que repunha a chavena vasia na bandeja, fitei, com um pouco de +riso, o <em>Dr. Agudo</em>. <br /> + +<br /> + +―Então, francamente, os amigos imaginam que o Jacintho veio +para Tormes trabalhar no miguelismo? <br /> + +<br /> + +Muito serio, Mello Rebello chegou o seu grosso bigode á +minha orelha: <br /> + +<br /> + +―Até corre, como certo, que o Principe D. Miguel +está com elle em Tormes! <br /> + +<br /> + +E como eu os considerava esgazeado, o Dr. Alypio―tão +agudo!―confirmou: <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[329]</span> +―É o que corre... Disfarçado em creado! <br /> + +<br /> + +Em creado? Oh! santo Deus! Era o Baptista! Justamente, Ricardo Velloso +veio, puxando do seu cigarrinho, para o accender no meu charuto. E o +bom Rebello logo invocou o seu testemunho.―Pois não corria, +que +o filho de D. Miguel estava em Tormes, escondido?... <br /> + +<br /> + +―Disfarçado em lacaio, confirmou logo o digno Rebello. <br /> + +<br /> + +Accendeu o cigarro, soprou o fumo, e erguendo muito as sobrancelhas +meditativas: <br /> + +<br /> + +―Se assim é, lá me parece desplante... Que eu +não desgostava de o vêr. Dizem que é +bonito moço, bem apessoado. Mas +emfim, meu tio João Vaz Rebello foi partido ás +postas, a machado, nas +prisões d'Almeida... E se recomeçam essas +questões, mau, mau! Ora o seu +amigo... <br /> + +<br /> + +Emmudeceu. Jacintho, que se libertára do velho D. Theotonio, +e ainda conservava um resto de riso, d'assombro divertido, vinha para +mim, desabafar: <br /> + +<br /> + +―Extraordinario! Vejo que, aqui, na serra, ainda se conservam, sem uma +ruga, as velhas e boas ideias... <br /> + +<br /> + +Immediatamente, sem se conter, Mello Rebello acudiu: <br /> + +<br /> + +―É conforme o que V. Ex.<sup>a</sup> chama <em>boas +ideas</em>. <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[330]</span>E eu agora, +furioso com aquella +disparatada +invenção, que cercava d'hostilidade o meu pobre +Jacintho, +estragava aquella amavel noite d'annos, intervim, vivamente: <br /> + +<br /> + +―Tu jogas o voltarete, Jacintho? Não jogas... +Então vamos arranjar duas mesas... O D. Theotonio ha de +querer cartas. <br /> + +<br /> + +E arrastei Jacintho para as senhoras, que de novo se aninhavam +á sombra da tia Vicencia, estabelecida no seu canto do +sofá. Todas se +callavam, parecia encolherem-se ante a apparição +do meu +Principe, como pombas avistando o abutre. E deixei o temido homem +affirmando á +mulher do Dr. Alypio (um pouco desgarrada do bando das aves timidas) +que lhe dera grande prazer aquella occasião de conhecer as +suas +visinhas +de Tormes... Ella abrira nervosamente o leque, sorria, e nunca de certo +Jacintho admirára na Cidade uma bocca mais vermelha, +dentinhos +mais +rutilantes. Mas depois d'organisar a mesa do voltarete, tive de +abancar, eu, para substituir o Manoel Albergaria, que era dispeptico, +se +declarára «affrontado», e desejava +respirar um +momento na +varanda. Todos aquelles cavalheiros, de resto, se queixavam de calor. +Mandei abrir as janellas que davam sobre as mimosas do pateo. O +Velloso, ao baralhar, parava, bufando, como opprimido: <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[331]</span> +―Está abafado... Ainda temos trovoada! <br /> + +<br /> + +E o Dr. Alypio, inquieto, por que tinha uma hora d'estrada +até casa, e uma das egoas da caleche era escabriada, correu +á janella, +espreitar o ceu, que ennegrecera, morno e pesado. <br /> + +<br /> + +―Com effeito, vae cahir agoa. <br /> + +<br /> + +As hastes das mimosas ramalhavam, arripiadas: e o ar que agitava as +cortinas era intermittente, estonteado. De certo na sala, entre as +senhoras, surgira a mesma inquietação, porque a +tia Albergaria appareceu, avisando o mano Jorge. <br /> + +<br /> + +Era prudente pensar em partir, a noite ameaçava... E o Dr. +Alypio, puxando o relogio, propoz que, levantada aquella remissa, se +preparasse +a marcha. Justamente o Albergaria recolhia da varanda desaffrontado, +alliviado com um calice de genebra: e rotomou as suas cartas, +annunciando tambem que vinha ahi uma trovoada valente. <br /> + +<br /> + +Voltando á sala, encontrei Jacintho muito alegre entre as +senhoras, que se familiarisaram, escutando cheias de riso e gosto, a +historia da sua chegada a Tormes, sem malas, sem creados, +tão +desprovido que +dormira com a camisa da caseira! Mas a minha pobre noite d'annos +findava, desorganisada. A tia Albergaria rondava de janella em janella, +assustada <span class="pagenum">[332]</span>com a +volta á +Roqueirinha, espreitando a treva abafada. +Calçando lentamente as luvas, a bella mulher do Dr. Alypio +perguntava se ainda havia a remissa. E a tia Vicencia +apressára +o +chá, que o Manoel seguido pela Gertrudes, com a bandeja de +bolos, já +começava a servir ás senhoras. Jacintho, de +pé, +offerecendo chavenas, gracejava: <br /> + +<br /> + +―Então tanta pressa, tanto medo, por causa d'uma +trovoadinha? <br /> + +<br /> + +Ellas replicavam, familiarizadas, n'uma crescente sympathia pelo meu +Principe: <br /> + +<br /> + +―Ora o senhor falla bem, porque fica debaixo de telhas... <br /> + +<br /> + +―Sempre o queriamos vêr... se fosse agora para Tormes, com +esta noite cerrada! <br /> + +<br /> + +O voltarete findára nas duas mesas: e aquelles cavalheiros, +das janellas, gritavam ordens para o pateo negro, onde as carroagens +esperavam atreladas: <br /> + +<br /> + +―Desce a cabeça da victoria, ó Diogo! <br /> + +<br /> + +―Accende o lampeão, Pedro! Sempre ajuda a luz das +lanternas. <br /> + +<br /> + +A creada Quiteria chegava á porta com os braços +carregados de chales, de mantilhas de renda. Como uma das Albergarias +ia no assento de deante na +victoria, eu corri a buscar o meu casaco de borracha, para ella se +abrigar se a chuva viesse. E só o D. Theotonio, que <span class="pagenum">[333]</span>tinha +até casa apenas meia legoa de estrada boa, se não +apressava, filado +outra vez no meu Principe, que levava para os cantos mais solitarios, +em conversas profundas, que o seu dedo solemne, espetado, sublinhava +gravemente. Mas +a tia Albergaria gritou que já chovia;―e então +foi uma pressa das senhoras, que beijocavam vivamente a tia Vicencia, +em quanto os homens, +na ante-camara, enfiavam açodadamente os paletós. +<br /> + +<br /> + +Jacintho e eu descemos ao pateo para acompanhar aquella debandada,―e +uma a uma, a traquitana do Dr. Alypio, a victoria das Albergarias, a +velha e immensa caleche dos Vellosos, rolaram sob a noite, entre os +nossos desejos de boa jornada. Por fim D. Theotonio calçou +as luvas pretas e entrou para a sua caleche, dizendo a Jacintho: <br /> + +<br /> + +―Pois, primo e amigo, Deus permitta que, do nosso encontro, e do mais +que se passar, algum bem resulte a esta terra! <br /> + +<br /> + +Subindo a escada, o meu Principe desabafou: <br /> + +<br /> + +―Este Theotonio é extraordinario! Sabes o que descobri por +fim?... Que me toma por um miguelista, e imagina que eu vim para Tormes +preparar a restauração de D. Miguel?! <br /> + +<br /> + +―E tu? <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[334]</span> +―Eu fiquei tão espantado, que nem o desilludi! <br /> + +<br /> + +―Pois sabe mais, meu pobre amigo. Todos pensam o mesmo, +estão desconfiados, e receiam vêr de novo erguidas +as +fôrcas em Guiães! E corre que tu tens o Principe +D. Miguel escondido em Tormes, +disfarçado em creado. E sabes quem elle é? o +Baptista! <br /> + +<br /> + +―Isso é sublime! murmurou Jacintho, com uns grandes olhos +abertos. <br /> + +<br /> + +Na sala, a tia Vicencia nos esperava desconsolada, entre todas as +luzes, que ardiam ainda no silencio e paz do serão +debandado: <br /> + +<br /> + +―Ora uma cousa assim! Nem quererem ficar para tomar um copinho de +gelea, um calice de vinho do Porto! <br /> + +<br /> + +―Esteve tudo muito desanimado, tia Vicencia! exclamei desafogando o +meu tedio. Todo esse mulherio emmudeceu; os amigos com um ar +desconfiado... +<br /> + +<br /> + +Jacintho protestou, muito divertido, muito sincero: <br /> + +<br /> + +Não! pelo contrario. Gostei immenso. Excellente gente! E +tão simples... Todas estas raparigas me pareceram optimas. E +tão frescas, +tão alegres! Vou ter aqui bons amigos, quando verificarem +que não sou +miguelista. <br /> + +<br /> + +Então contamos á tia Vicencia a prodigiosa +<span class="pagenum">[335]</span>historia de D. +Miguel escondido em Tormes... Ella ria! Que cousa! E mau seria... <br /> + +<br /> + +―Mas o Snr. Jacintho, não é? <br /> + +<br /> + +―Eu, minha senhora, sou socialista... <br /> + +<br /> + +Acudi, explicando á tia Vicencia, que socialista era ser +pelos pobres. A doce senhora considerava esse partido o melhor, o +verdadeiro: <br /> + +<br /> + +―O meu Affonso, que Deus haja, era liberal... Meu pae, tambem e +até amigo do Duque da Terceira... <br /> + +<br /> + +Mas um rude trovão rolou, atroou a noite negra:―e uma +batega d'agoa cantou nos vidros, e nas pedras da varanda. <br /> + +<br /> + +―Santa Barbara! gritou a tia Vicencia! Ai aquella pobre gente!... +Até estou com cuidado... As Rojões, que +vão na +victoria! <br /> + +<br /> + +E correu para o quarto, na sua pressa de accender as duas velas +costumadas no oratorio, ainda antes de ir guardar as pratas, e resar o +terço, com a Gertrudes. <br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h2>XIV</h2> + +<br /> + +<br /> + +Ao outro dia, depois d'almoço, eu e Jacintho montamos a +cavallo para um grande passeio até á +Flôr da Malva, a +saber de meu tio Adrião, e do seu furunculo. E sentia uma +curiosidade interessada, e até +inquieta, de testemunhar a impressão que daria ao meu +Principe aquella +nossa prima Joanninha, que era o orgulho da nossa casa. Já +n'essa +manhã, andando todos no jardim a escolher uma bella rosa +chá para a +botoeira do meu Principe, a tia Vicencia celebrára com tanto +fervor a +belleza, a graça, a caridade, e a doçura da sua +sobrinha toda-amada, que eu +protestei: <br /> + +<br /> + +―Oh! tia Vicencia, olhe que esses elogios todos competem apenas +á Virgem Maria! A tia Vicencia está a cahir em +peccado de +idolatria! O Jacintho depois vae encontrar uma creatura apenas humana, +e tem um desapontamento tremendo! <br /> + +<br /> + +E agora, trotando pela facil estrada de Sandofim, <span class="pagenum">[338]</span>lembrava-me aquella +manhã, no 202, em que Jacintho encontrára o +retrato d'ella no meu quarto, e lhe chamára uma +<em>lavradeirôna</em>. Com +effeito, era grande e forte a Joanninha. Mas a photographia datava do +seu tempo de +viço rustico, quando ella era apenas uma bella forte e +sã planta +da serra. Agora entrava nos vinte e cinco, e já pensava, e +sentia,―e +a alma que n'ella se formára, afinára, +amaciára, +e espiritualisava o seu esplendor rubicundo. <br /> + +<br /> + +A manhã, com o ceu todo purificado pela trovoada da vespera, +e as terras reverdecidas e lavadas pelos chuviscos ligeiros, offerecia +uma +doçura luminosa, fina, fresca, que tornava doce, como diz o +velho Euripedes ou +o velho Sophocles, mover o corpo, e deixar a alma preguiçar, +sem pressa nem cuidados. A estrada não tinha sombra, mas o +sol +batia +muito de leve, e roçava-nos com uma caricia quasi alada. O +valle +parecia a +Jacintho, que nunca ali passára, uma pintura da Escola +Franceza +do +seculo XVIII, tão graciosamente n'elle ondulavam as terras +verdes, e com +tanta paz e frescura corria o risonho Serpão, e +tão +affaveis +e promettedores de fartura e contentamento alvejavam os casaes nas +verduras tenras! Os nossos cavallos caminhavam n'um passo pensativo, +gosando tambem a paz +da manhã adoravel. E não sei, nunca soube, que +plantasinhas <span class="pagenum">[339]</span>silvestres +e +escondidas espalhavam um delicado aroma, que eu tantas vezes sentira, +n'aquelle caminho, ao começar o outomno. <br /> + +<br /> + +―Que delicioso dia! murmurou Jacintho. Este caminho para a +Flôr da Malva é o caminho do ceu... Oh +Zé Fernandes, de +que é este cheirinho tão doce, tão +bom? <br /> + +<br /> + +Eu sorri, com certo pensamento: <br /> + +<br /> + +―Não sei... É talvez já o cheiro do +ceu! <br /> + +<br /> + +Depois, parando o cavallo, apontei com o chicote para o valle: <br /> + +<br /> + +―Olha, acolá, onde está aquella fila d'olmos, e +ha o riacho, já são terras do tio +Adrião. Tem alli um pomar, que dá +os pêcegos mais deliciosos de Portugal... Hei de pedir +á prima Joanninha que +te mande um cesto d'elles. E o dôce que ella faz com esses +pêcegos, menino, é alguma cousa de celeste. Tambem +lhe hei de pedir que te mande o +dôce. <br /> + +<br /> + +Elle ria: <br /> + +<br /> + +―Será explorar de mais a prima Joanninha. E eu (por que?) +recordei e atirei ao meu Principe estes dous versos d'uma ballada +cavalheiresca, composta em Coimbra pelo meu pobre amigo Procopio: <br /> + +<br /> + +<div class="break">―Manda-lhe um servo querido,<br /> + +Bem hajas dona formosa!<br /> + +E que lhe entregue um annel<br /> + +E com um annel uma rosa. </div> + +<br /> + +<span class="pagenum">[340]</span>Jacintho rio +alegremente: <br /> + +<br /> + +―Zé Fernandes, seria excessivo, só por causa de +meia duzia de pêcegos, e d'um boião de +dôce. <br /> + +<br /> + +Assim riamos, quando appareceu, á volta da estrada, o longo +muro da quinta dos Vellosos, e depois a capellinha de S. +José de +Sandofim. E immediatamente piquei para o largo, para a taverna do +Tôrto, +por causa d'aquelle vinhinho branco, que sempre, quando por ali a levo, +a minha alma me pede. O meu Principe reprovou, indignado: <br /> + +<br /> + +―Oh! Zé Fernandes, pois tu, a esta hora, depois +d'almoço, vaes beber vinho branco? <br /> + +<br /> + +―É um costumesinho antigo... Aqui á taverninha +do Tôrto... um decilitrosinho... A almasinha assim m'o pede. <br /> + +<br /> + +E paramos; eu gritei pelo Manoel, que appareceu, rebolando a sua grossa +pansa, sobre as pernas tortas, com a infusa verde, e um copo. <br /> + +<br /> + +―Dous copos, Tôrto amigo. Que aqui este cavalheiro tambem +aprecia. <br /> + +<br /> + +Depois d'um pallido protesto, o meu Principe tambem quiz, mirou o +limpido e dourado vinho ao sol, provou, e esvasiou o copo, com delicia, +e um estalinho de alto apreço. <br /> + +<br /> + +―Delicioso vinho!... Hei de querer d'este vinho em Tormes... +É perfeito. <br /> + +<br /> + +―Hein? Fresquinho, leve, aromatico, alegrador, <span class="pagenum">[341]</span>todo +alma!... Encha +lá outra vez os copos, amigo Tôrto. Este +cavalheiro aqui +é o Snr. D. Jacintho, o fidalgo de Tormes. <br /> + +<br /> + +Então, de traz da umbreira da taverna, uma grande voz +bradou, cavamente, solemnemente: <br /> + +<br /> + +―Bemdito seja o pae dos Pobres! <br /> + +<br /> + +E um extranho velho, de longos cabellos brancos, barbas brancas, que +lhe comiam a face côr de tijolo, assomou no vão da +porta, apoiado a um bordão, com uma caixa de lata a +tiracolo, e cravou em +Jacintho dous olhinhos d'um brilho negro, que faiscavam. Era o tio +João +Torrado, o propheta da Serra... Logo lhe estendi a mão, que +elle +apertou, sem despegar de Jacintho os olhos, que se dilatavam mais +negros. Mandei vir +outro copo, apresentei Jacintho, que córára, +embaraçado. <br /> + +<br /> + +―Pois aqui o tem, o senhor de Tormes, que fez por ahi todo esse bem +á pobreza. <br /> + +<br /> + +O velho atirou para elle bruscamente o braço, que sahia +cabelludo e quasi negro, d'uma manga muito curta. <br /> + +<br /> + +―A mão! <br /> + +<br /> + +E quando Jacintho lh'a deu, depois de arrancar vivamente a luva, +João Torrado longamente lh'a reteve com um sacudir lento e +pensativo, murmurando: <br /> + +<br /> + +―Mão real, mão de dar, mão que vem de +cima, mão já rara! <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[342]</span> +Depois tomou o copo, que lhe offerecia o Tôrto, bebeu com +immensa lentidão, limpou as barbas, deu um geito +á +correia que lhe prendia a caixa de lata, e batendo com a ponta do +cajado no chão: <br /> + +<br /> + +―Pois louvado seja nosso Senhor Jesus Christo, que por aqui me trouxe, +que não o meu dia, e vi um homem! <br /> + +<br /> + +Eu então debrucei-me para elle, mais em confidencia: <br /> + +<br /> + +―Mas, ó tio João, ouça cá! +Sempre é certo você dizer por ahi, pelos sitios, +que El-Rei D. Sebastião voltára? <br /> + +<br /> + +O pittoresco velho apoiou as duas mãos sobre o cajado, o +queixo d'espalhada barba sobre as mãos, e murmurava, sem nos +olhar, +como seguindo a percussão dos seus pensamentos: <br /> + +<br /> + +―Talvez voltasse, talvez não voltasse... Não se +sabe quem vae, nem quem vem. A gente vê os corpos, mas +não +vê as +almas que estão dentro. Ha corpos d'agora com almas +d'outr'ora. +Corpo é vestido, alma +é pessoa... Na feira da Roqueirinha quem sabe com quantos +reis +antigos se topa, quando se anda aos encontrões entre os +vaqueiros... Em ruim +corpo se esconde bom senhor! <br /> + +<br /> + +E como elle findára n'um murmurio, eu, atirando um olhar a +Jacintho, e para gosarmos <span class="pagenum">[343]</span>aquelles +estranhos, pittorescos modos de vidente, +insisti: <br /> + +<br /> + +―Mas, ó tio João, você realmente, em +sua consciencia, pensa que El-Rei D. Sebastião +não morreu na batalha? <br /> + +<br /> + +O velho ergueu para mim a face, que se enrugára n'uma +desconfiança: <br /> + +<br /> + +―Essas cousas são muito antigas. E não calham +bem aqui á porta do Tôrto. O vinho era bom, e V. +S.<sup>a</sup> tem pressa, meu menino! A +flôr da Flôr da Malva lá tem o paesinho +doente... Mas o mal já +vae pela serra abaixo com a inchação +ás costas. +Dá gosto vêr quem dá gosto aos tristes. +Por cima de Tormes ha uma estrella clara. E é trotar, +trotar, +que o dia está lindo! <br /> + +<br /> + +Com a magra mão lançou um gesto para que +seguissemos. E já passavamos o cruzeiro quando o seu brado +ardente, de novo revoou, com solemnidade cava: <br /> + +<br /> + +―Bemdito seja o Pae dos Pobres. <br /> + +<br /> + +Direito, no meio da estrada, erguia o cajado como dirigindo as +acclamações d'um povo. E Jacintho pasmava de que +ainda houvesse no reino um Sebastianista. <br /> + +<br /> + +―Todos o somos ainda em Portugal, Jacintho! Na serra ou na cidade cada +um espera o seu D. Sebastião. Até a loteria da +Misericordia é uma forma do Sebastianismo. <span class="pagenum">[344]</span>Eu todas as +manhãs, mesmo sem ser de +nevoeiro, espreito, a vêr se chega o meu. Ou antes a minha, +por que eu +espero uma D. Sebastiana... E tu, felizardo? <br /> + +<br /> + +―Eu? Uma D. Sebastiana? Estou muito velho, Zé Fernandes... +Sou o ultimo Jacintho; Jacintho ponto final... Que casa é +aquella com os +dous torreões? <br /> + +<br /> + +―A Flôr da Malva. <br /> + +<br /> + +Jacintho tirou o relogio: <br /> + +<br /> + +―São tres horas. Gastamos hora e meia... Mas foi um bello +passeio, e instructivo. É lindo este sitio. <br /> + +<br /> + +Sobre um outeirinho, afastada da estrada por arvoredo, que um muro +cerrava, e dominando, a Flôr da Malva voltava para Oriente e +para o Sol a sua longa fachada com os dous torreões +quadrados, +onde as +janellas, de varanda, eram emolduradas em azulejos. O grande +portão de +ferro, ladeado por dous bancos de pedra, ficava ao fundo do +terreirinho, onde um immenso castanheiro derramava verdura e sombra. +Sentado sobre as fortes +raizes descarnadas da grande arvore, um pequeno esperava segurando um +burro pela arreata. <br /> + +<br /> + +―Está por ahi o Manoel da Porta? <br /> + +<br /> + +―Ainda agora subio pela alameda. <br /> + +<br /> + +―Bem: empurra lá o portão. <br /> + +<br /> + +E subimos, por uma curta avenida de velhas <span class="pagenum">[345]</span>arvores, +até +outro terreiro, com um alpendre, uma casa de moços, toda +coberta +d'heras, e +uma casota de cão, d'onde saltou, com um rumor de corrente +arrastada, +um molosso, o Tritão, que eu logo soceguei fazendo-lhe +reconhecer o seu +velho amigo Zé Fernandes. E o Manoel da Porta correu da +fonte, +onde enchia um grande balde, para nos segurar os cavallos. <br /> + +<br /> + +―Como está o tio Adrião? <br /> + +<br /> + +Surdo, o excellente Manoel sorrio, deleitado: <br /> + +<br /> + +―E então vossa excellencia, bem? A Snr.<sup>a</sup> D. +Joanninha +ainda agora andava no laranjal com o pequeno da Josepha. <br /> + +<br /> + +Seguimos por ruasinhas bem areadas, orladas d'alfazema e buxo alto, em +quanto eu contava ao meu Principe que aquelle pequenito da Josepha era +um afilhadinho da prima Joanna, e agora o seu encanto e o seu cuidado +todo. <br /> + +<br /> + +―Esta minha santa prima, apesar de solteira, tem ahi pela freguezia +uma verdadeira filharada. E não é só +dar-lhes roupas e presentes, e ajudar as mães. Mas +até os lava, e os penteia, e lhes +trata as tosses. Nunca a encontro sem alguma creancita ao collo... +Agora anda na +paixão d'este Josésinho. <br /> + +<br /> + +Mas quando chegamos ao laranjal, á beira <span class="pagenum">[346]</span>da larga rua da +quinta que levava ao tanque, debalde procurei, e me embrenhei, e +até +gritei:―Eh, prima Joanninha!... <br /> + +<br /> + +―Talvez esteja lá para baixo, para o tanque... <br /> + +<br /> + +Descemos a rua, entre arvores, que a cobriam com as densas ramas +encruzadas. Uma fresca, limpida agoa de rega corria e luzia n'um +caneiro de pedra. Entre os troncos, as roseiras bravas ainda tinham uma +frescura de verão. E o pequeno campo, que se avistava para +além, rebrilhava com doçura, todo amarello e +branco, dos +malmequeres e +botões d'ouro. <br /> + +<br /> + +O tanque, redondo, fôra esvasiado para se lavar, e agora de +novo o repuxo o ia enchendo d'uma agoa muito clara, ainda baixa, onde +os +peixes vermelhos se agitavam na alegria de recuperarem o seu pequeno +oceano. Sobre um dos bancos de pedra que circumdavam o tanque pousava +um cesto cheio de dhalias cortadas. E um moço, que sobre uma +escada +podava as camelias, vira a Snr.<sup>a</sup> D. Joanna seguir para o lado +da +parreira. <br /> + +<br /> + +Marchamos para a parreira, ainda toda carregada de uva preta. Duas +mulheres, longe, ensaboavam n'um lavadoiro, na sombra de grandes +nogueiras. Gritei:―Eh lá? Vocês viram por ahi a +Snr.<sup>a</sup> D. Joanna? Uma das moças <span class="pagenum">[347]</span>esganiçou a +voz, que se perdeu no vasto +ar luminoso e doce. <br /> + +<br /> + +―Bem: vamos a casa! Não podemos farejar assim, toda a +tarde. <br /> + +<br /> + +―É uma bella quinta, murmurava o meu Principe encantado. <br /> + +<br /> + +―Magnifica! E bem tratada... O tio Adrião tem um feitor +excellente... Não é o teu Melchior. Observa, +aprende, lavrador! +Olha aquelle cebolinho! <br /> + +<br /> + +Passamos pela horta, uma horta ajardinada, como a sonhára o +meu Principe, com os seus talhões debruados d'alfazema, e +madresilva enroscada nos pilares de pedra, que faziam ruasinhas frescas +toldadas +de parra densa. E démos volta á capella, onde +crescia aos dous lados da porta uma roseira chá, com uma +rosa +unica, muito aberta, e +uma moita de baunilha, onde Jacintho apanhou um raminho para cheirar. +Depois +entramos no terraço em frente da casa, com a sua balaustrada +de +pedra, toda enrodilhada de jasmineiros amarellos. A porta +envidraçada +estava aberta: e subimos pela escadaria de pedra, no immenso silencio +em que toda a Flôr da Malva repousava, até +á +ante-camara, d'altos tectos apainelados, com longos bancos de pau, onde +desmaiavam na sua velha pintura as complicadas armas dos Cerqueiras. +Empurrei a porta <span class="pagenum">[348]</span>d'uma +outra sala, +que tinha as janellas da varanda abertas, cada uma com a gaiola d'um +canario. <br /> + +<br /> + +―É curioso!―exclamou Jacintho. Parece o meu Presepio... E +as minhas cadeiras. <br /> + +<br /> + +E com effeito. Sobre uma commoda antiga, com bronzes antigos, pousava +um presepio semelhante ao da livraria de Jacintho. E as cadeiras de +couro lavrado tinham, como as que elle descobrira no sotão, +umas +armas sob um chapéo de Cardeal. <br /> + +<br /> + +―Oh senhores! exclamei. Não haverá um creado? <br /> + +<br /> + +Bati as mãos, fortemente. E o mesmo doce silencio +permaneceu, muito largo, todo luminoso e arejado pelo macio ar da +quinta, apenas cortado pelo saltitar dos canarios nos poleiros das +gaiolas. <br /> + +<br /> + +―É o Palacio da Bella adormecida no bosque! murmurou +Jacintho, quasi indignado. Dá um berro! <br /> + +<br /> + +―Não, caramba! Vou lá dentro! <br /> + +<br /> + +Mas, á porta, que de repente se abrio, appareceu minha prima +Joanninha, córada do passeio e do vivo ar, com um vestido +claro um +pouco aberto no pescoço, que fundia mais docemente, n'uma +larga claridade, o +explendor branco da sua pelle, e o louro ondeado dos seus bellos +cabellos,―lindamente risonha, na <span class="pagenum">[349]</span>surpreza +que alargava os seus largos, +luminosos olhos negros, e trazendo ao collo uma creancinha, gorda e +côr de rosa, apenas coberta com uma camisinha, de grandes +laços +azues. <br /> + +<br /> + +E foi assim que Jacintho, n'essa tarde de Septembro, na Flôr +da Malva, vio aquella com quem casou em Maio, na capellinha d'azulejos, +quando o grande pé de roseira se cobrira todo de rosas. <br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h2>XV</h2> + +<br /> + +<br /> + +E agora, entre roseiras que rebentam, e vinhas que se vindimam, +já cinco annos passaram sobre Tormes e a Serra. O meu +Principe +já +não é o ultimo Jacintho, Jacintho ponto +final―por que +n'aquelle solar que decahira, correm agora, com soberba vida, uma gorda +e vermelha Theresinha, minha afilhada, e um Jacinthinho, senhor muito +da minha amisade. E, pae de familia, principiára a fazer-se +monotono, pela +perfeição da belleza moral, aquelle homem +tão +pittoresco pela +inquietação philosophica, e pelos variados +tormentos da +phantasia insaciada. Quando elle agora, bom +sabedor das cousas da lavoura, percorria comigo a quinta, em solidas +palestras agricolas, prudentes e sem chimeras―eu quasi lamentava esse +outro Jacintho que colhia uma theoria em cada ramo d'arvore, e riscando +o ar com a bengala, planeava queijeiras de cristal e <span class="pagenum">[352]</span>porcellana, para fabricar +queijinhos que custariam duzentos mil réis cada um! +<br /> + +<br /> + +Tambem a paternidade lhe despertára a responsabilidade. +Jacintho possuia agora um caderno de contas, ainda pequeno, rabiscado a +lapis, com falhas, e papeluchos soltos entremeados, mas onde as suas +despezas, as suas rendas se alinhavam, como duas hostes disciplinadas. +Visitára já as suas propriedades de +Montemór, da +Beira; e concertava, +mobilava as velhas casas d'essas propriedades para que os seus filhos, +mais tarde, crescidos, encontrassem «ninhos +feitos». Mas +onde +eu reconheci que definitivamente um perfeito e ditoso equilibrio se +estabelecera na alma +do meu Principe, foi quando elle, já sabido d'aquelle +primeiro e ardente fanatismo da Simplicidade―entreabrio a porta de +Tormes á +Civilisação. Dous mezes antes de nascer a +Theresinha, uma +tarde, entrou pela avenida +de platanos uma chiante e longa fila de carros, requisitados por toda a +freguesia, e acuculados de caixotes. Eram os famosos caixotes, por +tanto tempo encalhados em Alba de Tormes, e que chegavam, para despejar +a Cidade sobre a Serra. Eu pensei:―Mau! o meu pobre Jacintho teve uma +recahida! Mas os confortos mais complicados, que continha aquella +caixotaria temerosa, foram, com surpreza minha, desviados <span class="pagenum">[353]</span>para +os +sotãos immensos, para o pó da inutilidade: e o +velho +solar apenas +se regalou com alguns tapetes sobre os seus soalhos, cortinas pelas +janellas desabrigadas, e fundas poltronas, fundos sofás, +para +que os +repousos, por que elle suspirára, fossem mais lentos e +suaves. +Attribui esta moderação a minha prima Joanninha, +que +amava +Tormes na sua nudez rude. Ella jurou que assim o ordenára o +seu +Jacintho. Mas, +decorridas semanas, tremi. Apparecera, vindo de Lisboa, um +contra-mestre, com operarios, e mais caixotes, para installar um +telephone! <br /> + +<br /> + +―Um telephone, em Tormes, Jacintho? <br /> + +<br /> + +O meu Principe explicou, com humildade: <br /> + +<br /> + +―Para casa de meu sogro!... Bem vês. <br /> + +<br /> + +―Era rasoavel e carinhoso. O telephone porém, subtilmente, +mudamente, estendeu outro longo fio, para Valverde. E Jacintho, +alargando os braços, quasi supplicante: <br /> + +<br /> + +―Para casa do medico. Comprehendes... <br /> + +<br /> + +Era prudente. Mas, certa manhã, em Guiães, +accordei aos berros da tia Vicencia! Um homem chegára, +mysterioso, com outros homens, +trazendo arame, para installar na nossa casa o novo invento. Soceguei a +tia Vicencia, jurando que essa machina nem fazia barulho, nem trazia +doenças, nem attrahia as trovoadas. Mas <span class="pagenum">[354]</span>corri a Tormes. +Jacintho sorrio, encolhendo os hombros: <br /> + +<br /> + +―Que queres? Em Guiães está o boticario, +está o carniceiro... E, depois, estás tu! <br /> + +<br /> + +Era fraternal. Todavia pensei: Estamos perdidos! Dentro d'um mez temos +a pobre Joanna a apertar o vestido por meio d'uma machina! Pois +não! o Progresso, que, á +intimação de +Jacintho, subira a Tormes a estabelecer aquella sua maravilha, pensando +talvez que conquistára mais +um reino para desfear, desceu, silenciosamente, desilludido, e +não +avistamos mais sobre a serra a sua hirta sombra côr de ferro +e de +fuligem. +Então comprehendi que, verdadeiramente, na alma de Jacintho +se +estabelecera o +equilibrio da vida, e com elle a Gran-Ventura, de que tanto tempo elle +fôra o principe sem Principado. E uma tarde, no pomar, +encontrando o nosso velho Grillo, agora reconciliado com a serra, desde +que a serra lhe dera meninos para trazer ás cavalleiras, +observei ao +digno preto, que lia o seu <em>Figaro</em>, armado de +immensos oculos redondos: <br /> + +<br /> + +―Pois, Grillo, agora realmente bem podemos dizer que o Snr. D. +Jacintho está firme. <br /> + +<br /> + +O Grillo arredou os oculos para a testa, e levantando para o ar os +cinco dedos em curva como petalas d'uma tulipa: <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[355]</span> +―S. ex.<sup>a</sup> brotou! <br /> + +<br /> + +Profundo sempre o digno preto! Sim! Aquelle resequido galho de Cidade, +plantado na serra, pegára, chupára o humus do +torrão herdado, creára seiva, afundára +raizes, +engrossára de tronco, +atirára ramos, rebentára em flôres, +forte, sereno, +ditoso, benefico, nobre, dando +fructos, derramando sombra. E abrigados pela grande arvore, e por ella +nutridos, +cem casaes em redor a bemdiziam. <br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h2>XVI</h2> + +<br /> + +<br /> + +Muitas vezes Jacintho, durante esses annos, fallára com +prazer n'um regresso de dous, tres mezes, ao 202, para mostrar Paris +á +prima Joanninha. E eu seria o companheiro fiel, para archivar os +espantos da minha serrana ante a Cidade! Depois conveio em esperar que +o +Jacinthinho completasse dous annos, para poder jornadear sem +desconforto, e apontando já com o seu dedo para as cousas da +Civilisação. Mas, quando elle, em Outubro, fez +esses dous +annos desejados, a prima Joanninha sentiu uma preguiça +immensa, +quasi aterrada, do comboio, do +estridor da Cidade, do 202, e dos seus esplendores. «Estamos +aqui +tão bem! está um tempo tão +lindo!» +murmurava, deitando os +braços, sempre deslumbrada, ao rijo pescoço do +seu +Jacintho. Elle desistia logo de Paris, +encantado. «Vamos para Abril, quando os castanheiros dos +Campos-Elyseos +<span class="pagenum">[358]</span>estiverem em +flôr!» Mas +em Abril vieram aquelles +cansaços que immobilisavam a prima Joanninha no divan, +ditosa, +risonha, com umas pintas na pelle, e +o roupão mais solto. Por todo um longo anno estava desfeita +a +alegre aventura. Eu andava então soffrendo de +desoccupação. As chuvas de Março +promettiam uma +farta colheita. Uma certa Anna Vaqueira, +córada e bem feita, viuva, que surtia as necessidades do meu +coração, partira com o irmão para o +Brazil, onde +elle dirigia uma venda. Desde o +inverno, sentia tambem no corpo como um começo de ferrugem, +que +o +emperrava, e, certamente, algures, na minha alma, nascera uma pontinha +de bolor. Depois a minha egoa morreu... Parti eu para Paris. <br /> + +<br /> + +Logo em Hendaya, apenas pisei a doce terra de França, o meu +pensamento, como pombo a um velho pombal, voou ao 202,―talvez por eu +vêr +um enorme cartaz em que uma mulher nua, com flôres +bacchanticas +nas +tranças, se estorcia, segurando n'uma das mãos +uma +garrafa espumante, e +brandindo na outra, para o annunciar ao Mundo, um novo modelo de +saca-rolhas. E oh surpresa! eis que, logo adeante, na +estação +quieta e clara de Saint Jean-de-Luz, um moço esbelto, de +perfeita elegancia, entra +vivamente no meu compartimento, e, depois de me encarar, grita: <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[359]</span> +―Eh, Fernandes! <br /> + +<br /> + +Marizac! O duque de Marizac! Era já o 202... Com que +reconhecimento lhe sacudi a mão fina, por elle me ter +reconhecido! E, atirando +para o canto do vagon um paletó, um masso de jornaes, que o +escudeiro lhe +passára, o bom Marizac exclamava na mesma surpreza alegre: <br /> + +<br /> + +―E Jacintho? <br /> + +<br /> + +Contei Tormes, a serra, o seu primeiro amor pela Natureza, o seu outro +grande amor por minha prima, e os dous filhos, que elle trazia +escarranchados no pescoço. <br /> + +<br /> + +―Ah que canalha! exclamou Marizac com os olhos espetados em mim! +É capaz de ser feliz! <br /> + +<br /> + +―Espantosamente, loucamente... Qual! não ha adverbios... <br /> + +<br /> + +―Indecentemente―murmurou Marizac muito serio. Que canalha! <br /> + +<br /> + +Eu então desejei saber do nosso rancho familiar do 202. Elle +encolheu os hombros, accendendo a cigarette: <br /> + +<br /> + +―Todo esse mundo circula... <br /> + +<br /> + +―Madame d'Oriol? <br /> + +<br /> + +―Continúa. <br /> + +<br /> + +―Os Trèves? o Ephraim? <br /> + +<br /> + +―Continuam, todos tres. <br /> + +<br /> + +Lançou um gesto languido. <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[360]</span>―Durante cinco +annos, em Paris, tudo +continúa... As +mulheres com um pouco mais de pós d'arroz, e a pelle um +pouco +mais molle, e +melada. Os homens com um tanto mais de dispepsia. E tudo segue. Tivemos +os Anarchistas. A princeza de Carman abalou com um acrobata do Circo de +Inverno... E―e voilà! <br /> + +<br /> + +―Dornan? <br /> + +<br /> + +―Continúa... Não o encontrei mais desde o 202. +Mas vejo ás vezes o nome d'elle, no <em>Boulevard</em>, +com versos +preciosos, obscenidades muito apuradas, muito subtis. <br /> + +<br /> + +―E o Psychologo?... Ora, como se chamava elle?... <br /> + +<br /> + +―Continúa tambem. Sempre com as feminices a tres francos e +cincoenta... Duquezas em camisa, almas núas... Cousas que se +vendem bem! <br /> + +<br /> + +Mas quando eu, encantado, ia indagar de Todelle, do +Grão-Duque, o comboio entrou na +estação de Biarritz:―e +rapidamente, apanhando o paletot e os jornaes, depois de me apertar a +mão, o +delicioso Marizac saltou pela portinhola, que o seu creado abrira, +gritando: <br /> + +<br /> + +―Até Paris!... Sempre rue Cambori. <br /> + +<br /> + +Então, no compartimento solitario, bocejei, com uma estranha +sensação de monotonia, de saciedade, como cercado +já de gentes <span class="pagenum">[361]</span>muito +vistas, murmurando historias muito sabidas, e cousas muito ditas, +atravez de sorrisos estafados. Dos dous lados do comboio era a longa +planicie monotona, sem variedade, muito miudamente cultivada, muito +miudamente retalhada, d'um verde de rezeda, verde cinzento e apagado, +onde nenhum lampejo, nem tom alegre de flôr, nem acidente do +solo, +desmanchavam a mediocridade discreta e ordeira. Pallidos choupos, em +renques pautados +e finos, bordavam canaesinhos muito direitos e claros. Os casaes, todos +da mesma côr pardacenta, mal se elevavam do solo, mal se +destacavam da verdura desbotada, como encolhidos na sua mediocridade e +cautella. E o ceu, por cima, liso, sem uma nuvem, com um sol +descórado, +parecia um vasto espelho muito lavado a grande agoa, até que +de +todo se +lhe safasse o esmalte e o brilho. Adormeci n'uma doce insipidez. <br /> + +<br /> + +Com que linda manhã de Maio entrei em Paris! Tão +fresca e fina, e já macia, que, apesar de cansado, mergulhei +com +repugnancia no profundo, sombrio leito do Grand-Hotel, todo fechado de +espessos velludos, +grossos cordões, pesadas borlas, como um palanque de gala. +N'essa +profunda cova de pennas sonhei que em Tormes se construira uma torre +Eiffel e que em volta d'ella as senhoras da Serra, <span class="pagenum">[362]</span>as +mais respeitaveis, a propria tia Albergaria, dançavam, +núas, agitando no ar +saca-rolhas immensos. Com as commoções d'este +pesadello, +e depois o banho, e o +desemmalar da mala, já se acercavam as duas horas quando +emfim +emergi do grande +portão, pisei, ao cabo de cinco annos, o Boulevard. E +immediatamente me pareceu que todos esses cinco annos eu ali +permanecera á porta do +Grand-Hotel, tão estafadamente conhecido me era aquelle +estridente rolar da cidade, e as +magras arvores, e as grossas taboletas, e os immensos chapeus +emplumados sobre tranças pintadas d'amarello, e as +empertigadas +sobrecasacas com grossas rosetas da legião d'honra, e os +garotos, em voz +rouca e baixa, offerecendo baralhos de cartas obscenas, caixas de +phosphoros obscenas... Santo Deus! pensei, ha que annos eu estou em +Paris! Comprei +então, n'um kiosque, um jornal, a Voz de Paris, para que +elle me contasse, durante o almoço, as novas da Cidade. A +mesa +do +kiosque desapparecia, alastrada de jornaes illustrados:―e em todos se +repetia +a mesma mulher, sempre núa, ou meia despida, ora mostrando +as +costellas magras, de gata faminta, ora voltando para o Leitor duas +tremendas nadegas... Eu outra vez murmurei:―Santo Deus! No +café +da +Paz, o creado livido, e com um resto de pó de arroz <span class="pagenum">[363]</span>sobre a sua lividez, +aconselhou ao meu appetite, por ser tão tarde, um lingoado +frito e uma +costelleta. <br /> + +<br /> + +―E que vinho, snr. Conde? <br /> + +<br /> + +―Chablis, snr. Duque! <br /> + +<br /> + +Elle sorrio á minha deliciosa pilheria,―e eu abri, +contente, a Voz de Paris. Na primeira columna, atravez d'uma prosa +muito retorcida, toda +em brilhos de joia barata, entrevi uma Princesa núa, e um +Capitão de Dragões, que soluçava. +Saltei a outras +columnas, +onde se contavam feitos de cocottes de nomes sonoros. Na outra pagina +escriptores eloquentes celebravam vinhos digestivos e tonicos. Depois +eram os crimes do costume.―Não ha nada de novo! Puz de +parte a +Voz de +Paris,―e então foi, entre mim e o lingoado, uma lucta +pavorosa. +O miseravel, que se frigira rancorosamente contra mim, não +consentia que eu +descollasse da sua espinha uma febra escassa. Todo elle se ressequira +n'uma sola impenetravel e tostada, onde a faca vergava, impotente e +tremula. +Gritei pelo môço livido, o qual, com faca mais +rija, +fincando no soalho os sapatos de fivella, arrancou emfim +áquelle +malvado duas +tirinhas, finas e curtas como palitos, que engoli juntas, e me +esfomearam. D'uma +garfada findei a costelleta. E paguei quinze francos com um bom luiz +d'ouro. No +trôco, que o <span class="pagenum">[364]</span>moço +me deu, com a polidez requintada +d'uma civilisação muito diffundida, havia dous +francos falsos. E por aquella +dôce tarde de Maio sahi para tomar no terraço um +café +côr de chapéo côco, que sabia a fava. <br /> + +<br /> + +Com o charuto acceso contemplei o Boulevard, áquella hora em +toda a pressa e estridor da sua grossa sociabilidade. A densa torrente +dos omnibus, calhambeques, carroças, parelhas de luxo, +rolava +vivamente, como toda uma escura humanidade formigando entre patas e +rodas, n'uma pressa inquieta. Aquelle movimento continuado e rude bem +depressa entonteceu este espirito, por cinco annos affeito á +quietação das serras immutaveis. Tentava +então, +puerilmente, repousar n'alguma +forma immovel, omnibus parado, fiacre que estacára, n'um +brusco +escorregar +da pileca: mas logo algum dorso apressado se encafuava pela portinhola +da tipoia, ou um cacho de figuras escuras trepava sofregamente para o +omnibus:―e, +rapido, recomeçava o rolar retumbante. Immoveis, de certo, +estavam os altos predios hirtos, ribas de pedra e cal, que continham, +disciplinavam, aquella torrente offegante. Mas da rua aos telhados, em +cada varanda, por toda a fachada, eram taboletas encimando taboletas, +que outras taboletas apertavam:―e mais me cançava o +perceber <span class="pagenum">[365]</span>a tenaz +incessancia do +trabalho latente, a devorante canceira do lucro, arquejante por traz +das frontarias decorosas e mudas. Então, +emquanto fumava o meu charuto, extranhamente se apossaram de mim os +sentimentos que Jacintho outr'ora experimentára no meio da +Natureza, e +que tanto me divertiam. Ali, á porta do café, +entre a +indifferença e a pressa da Cidade, tambem eu senti, como +elle no +campo, a vaga tristeza da minha fragilidade e da minha +solidão. +Bem certamente estava ali +como perdido n'um mundo, que me não era fraternal. Quem me +conhecia? Quem +se interessaria por Zé Fernandes? Se eu sentisse fome, e o +confessasse, ninguem me daria metade do seu pão. Por mais +afflictamente +que a minha face revelasse uma angustia, ninguem na sua pressa pararia +para me consolar. De que me serviriam tambem as excellencias d'alma, +que +só na alma florescem? Se eu fosse um santo, aquella turba +não se +importaria com a minha santidade; e se eu abrisse os braços +e +gritasse, +ali no Boulevard―«ó homens, meus +irmãos!» os homens, mais ferozes que o +lôbo ante o Pobresinho d'Assis, ririam e passariam +indifferentes. +Dous impulsos unicos, correspondendo a duas +funcções +unicas, parecia estarem vivos n'aquella multidão,―o lucro e +o +gôso. +Isolada entre elles, e ao contagio <span class="pagenum">[366]</span>ambiente +da sua influencia, em breve a minha alma se contrahiria, se tornaria +n'um duro calhau de Egoismo. Do ser que eu trouxera da Serra +só +restaria em pouco tempo esse calhau, e +n'elle, vivos, os dous appetites da Cidade,―encher a bolsa, saciar a +carne! E pouco a pouco as mesmas exagerações de +Jacintho +perante a Natureza me invadiam perante a Cidade. Aquelle Boulevard +reçumava para +mim um bafo mortal, extrahido dos seus milhões de microbios. +De +cada +porta me parecia sahir um ardil para me roubar. Em cada face, avistada +á portinhola d'um fiacre, suspeitava um bandido em manobra. +Todas as mulheres me pareciam caiadas como sepulchros, tendo +só +podridão por dentro. E considerava d'uma melancolia +funambulesca +as +fórmas de toda aquella Multidão, a sua pressa +aspera e +vã, a +affectação das attitudes, as immensas plumas das +chapeletas, as expressões +postiças e falsas, a pompa dos peitos alteados, o dorso +redondo +dos velhos olhando as +imagens obscenas das vitrines. Ah! tudo isto era pueril, quasi comico +da minha parte, mas é o que eu sentia no Boulevard, pensando +na +necessidade de remergulhar na Serra, para que ao seu puro ar se me +despegasse a crosta +da Cidade, e eu resurgisse humano, e Zé-Fernandico! <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[367]</span>Então, +para dissipar aquelle +pesadume de solidão, +paguei o café e parti, lentamente, a visitar o 202. Ao +passar na +Magdalena, deante da +estação dos omnibus, pensei:―Que será +feito de +Madame Colombe? E, +oh miseria! pelo meu miseravel ser subiu uma curta e quente baforada de +desejo +bruto por aquella besta suja e magra! Era o charco onde eu me +envenenara, e que me envolvia nas emanações +subtis do seu +veneno. Depois, ao dobrar da rue Royale para a Praça da +Concordia, topei com um robusto e +possante homem, que estacou, ergueu o braço, ergueu o +vozeirão, n'um modo de commando: <br /> + +<br /> + +―Eh, Fernandes! <br /> + +<br /> + +O Grão-Duque! O bello Grão-Duque, de +jaquetão alvadio e chapeu tyrolez côr de mel! +Apertei com gratidão reverente a +mão do Principe, que me reconhecera. <br /> + +<br /> + +―E Jacintho? Em Paris?... <br /> + +<br /> + +Contei Tormes, a serra, o rejuvenescimento do nosso amigo entre a +Natureza, a minha dôce prima, e os bravos pequenos, que elle +trazia ás cavalleiras. O Grão-Duque encolheu os +hombros, +desolado: <br /> + +<br /> + +―Oh lá, lá, lá!... Peuh! Casado, na +aldeia, com filharada... Homem perdido! Ora não ha!... E um +rapaz util! que nos divertia, e +tinha gosto! Aquelle jantar côr de rosa foi uma <span class="pagenum">[368]</span>festa +linda... +Não se fez, não se tornou a fazer nada +tão +brilhante em Paris... E Madame +d'Oriol... Ainda ha dias a vi no Palacio de Gelo... Potavel, mulher +ainda muito potavel... Não é todavia o meu +genero... +Adocicada, leitosa, pommadada, neve á la vanille!... Ora +esse +Jacintho!... <br /> + +<br /> + +―E Vossa Alteza, em Paris com demora? <br /> + +<br /> + +O formidavel homem baixou a face, franzida e confidencial: <br /> + +<br /> + +―Nenhuma. Paris não se aguenta... Está +estragado, positivamente estragado... Nem se come! Agora é o +Ernest, da +Praça Gaillon, o Ernest, que era maitre-d'hotel do Maire... +Já lá comeu? +Um horror. Tudo é o Ernest, agora! Onde se come? No Ernest. +Qual! Ainda esta +manhã lá almocei... Um horror! Uma salada +Chambord... +palhada, indecentemente palhada! Não tem, não tem +a +noção da salada! Paris foi! Theatros, uma +estopada. +Mulheres, hui! Lambidas todas. Não ha nada! Ainda +assim, n'um dos theatritos de Montmartre, na Roulotte, está +uma +revista, +que se vê: <em>Para cá as +mulheres</em>!―engraçada, bem despida... A +Celestine tem uma cantiga, meia sentimental, meia porca, o <em>Amor +no +Water-Closet</em>, que diverte, tem topete... Onde +está, Fernandes? <br /> + +<br /> + +―No Grand-Hotel, meu senhor. <br /> + +<br /> + +―Que barraca!... E o seu Rei sempre bom? <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[369]</span> +Curvei a cabeça: <br /> + +<br /> + +―Sua Magestade, bem. <br /> + +<br /> + +―Estimo! Pois, Fernandes, tive prazer... Esse Jacintho é +que me desola! Vá vêr a Revista... Boas pernas, a +Celestine... E +tem graça o tal <em>Amor no Water-Closet</em>. <br /> + +<br /> + +Um rijissimo aperto de mão,―e S. Alteza subiu pesadamente +para a victoria, ainda com um aceno amavel, que me penhorou... +Excellente homem, este Grão-Duque! Mais reconciliado com +Paris, +atravessei para os Campos-Elyseos. Em toda a sua nobre e formosa +larguesa, toda verde, com +os castanheiros em flôr, corriam, subindo, descendo, +velocipedes. Parei a contemplar aquella fealdade nova, estes +innumeraveis +espinhaços arqueados, e gambias magras, agitando-se +desesperadamente sobre duas rodas. Velhos gordos, de cachaço +escarlate, pedalavam, +gordamente. Galfarros esguios, de tibias descarnadas, fugiam n'uma +linha esfusiada. +E as mulheres, muito pintadas, de bolero curto, +calções bufantes, giravam, mais rapidamente +ainda, no +prazer equivoco da carreira, escarranchadas em hastes de ferro. E a +cada instante outras medonhas machinas passavam, victorias e phaetons a +vapor, com uma +complicação de tubos e caldeiras, torneiras e +chaminés, rolando n'uma +trepidação estridente e pesada, espalhando <span class="pagenum">[370]</span>um grosso fedor de +petroleo. Segui para +o 202, pensando no que diria um grego do tempo de Phidias, se visse +esta nova belleza e graça do caminhar humano!... <br /> + +<br /> + +No 202, o porteiro, o velho Vian, quando me reconheceu, mostrou uma +alegria enternecedora. Não se fartou de saber do casamento +de Jacintho, e d'aquelles queridos meninos. E era para elle uma +felicidade que eu apparecesse, justamente quando tudo se +andára +limpando para +a entrada da primavera. Quando penetrei na amada casa senti mais +vivamente a minha solidão. Não restava em toda +ella nem +um dos +costumados aspectos que fizessem reviver a velha camaradagem com o meu +Principe. Logo na ante-camara grandes lonas cobriam as tapessarias +heroicas, e egual lona +parda escondia os estofos das cadeiras e dos muros, e as largas +estantes d'ebano da Bibliotheca, onde os trinta mil volumes, nobremente +enfileirados como Doutores n'um Concilio, pareciam separados do mundo +por aquelle panno que sobre elles descera depois de finda a comedia da +sua força e da sua auctoridade. No gabinete de Jacintho, de +sobre a mesa d'escripta, desapparecera aquella confusão de +instrumentosinhos, de que eu perdera já a +memória: e +só a +Mechanica sumptuosa, por sobre peanhas e pedestaes, <span class="pagenum">[371]</span>recentemente +espanejada, reluzia, com as suas engrenagens, tubos, rodas, rigidezes +de metaes, n'uma frieza inerte, na inactividade +definitiva das cousas desusadas, como já dispostas n'um +Museu, para exemplificar a instrumentação caduca +d'um +mundo +passado. Tentei mover o telephone, que se não moveu; a mola +da +electricidade +não accendeu nenhum lume: todas as forças +universaes +tinham abandonado o +serviço do 202, como servos despedidos. E então, +passeando atravez das +salas, realmente me pareceu que percorria um museu d'antiguidades; e +que mais tarde outros homens, com uma comprehensão mais pura +e +exacta da +Vida e da Felicidade, percorreriam como eu, longas salas, atulhadas com +os instrumentos da Super-Civilisação, e, como eu, +encolheriam desdenhosamente os hombros ante a grande Illusão +que +findára, agora para sempre inutil, arrumada como um lixo +historico, guardada debaixo de lona. <br /> + +<br /> + +Quando sahi do 202 tomei um fiacre, subi ao Bosque de Bolonha. E apenas +rolára momentos pela avenida das Acacias, no silencio +decoroso, unicamente cortado pelo tilintar dos freios e pelas rodas +vagarosas esmagando a areia, comecei a reconhecer as velhas figuras, +sempre com o +mesmo sorriso, o mesmo pó d'arroz; as mesmas palpebras +amortecidas, <span class="pagenum">[372]</span>os +mesmos olhos farejantes, a mesma immobilidade de cêra! O +romancista da <em>Couraça</em> passou n'uma +victoria, fixou em mim o monoculo defumado, mas permaneceu +indifferente. Os bandós negros de Madame +Verghane, tapando-lhe as orelhas, pareciam ainda mais furiosamente +negros entre a +harmonia de todo o branco que a vestia, chapéo, plumas, +flôres, rendas e corpete, onde o seu peito immenso se +empolava como uma onda. No +passeio, sob as Acacias, espapado em duas cadeiras, o director do +<em>Boulevard</em> mamava o resto do seu charuto. E n'um +grande landeau, Madame de +Trèves continuava o seu sorriso de ha cinco annos, com duas +pregasinhas mais molles aos cantos dos labios seccos. <br /> + +<br /> + +Abalei para o Grand-Hotel, bocejando,―como outr'ora Jacintho. E findei +o meu dia de Paris, no Theatro das Variedades, estonteado com uma +comedia muito fina, muito acclamada, toda faiscante do mais vivo +parisianismo, em que todo o enredo se enrodilhava á volta +d'uma Cama, onde alternadamente se espojavam mulheres em camisa, +sujeitos gordos em +ceroulas, um coronel com papas de linhaça nas nadegas, +cosinheiras de meias de sêda bordadas, e ainda mais gente, +ruidosa e +saltitante, a esfusiar de cio e de pilheria. Tomei um chá +melancolico no +Julien, no meio de <span class="pagenum">[373]</span>um +aspero e +lugubre namoro de prostitutas, fariscando a preza. Em duas d'ellas, de +pelle oleosa e cobreada, olhos obliquos, cabellos duros e negros como +clinas, senti o Oriente, a sua +provocação felina... Interroguei o creado, um +medonho +ser, d'uma obesidade balofa e livida, d'eunuco. O monstro explicou +n'uma voz roufenha e surda: <br /> + +<br /> + +―Mulheres de Madagascar... Foram importadas quando a França +occupou a ilha! <br /> + +<br /> + +Arrastei então por Paris dias d'immenso tedio. Ao longo do +Boulevard revi nas vitrines todo o luxo, que já me +enfartára havia cinco annos, sem uma graça nova, +uma +curta frescura de +invenção. Nas livrarias, sem descobrir um livro, +folheava +centenas de volumes amarellos, onde, de cada pagina que ao acaso abria, +se exhalava om cheiro môrno +d'alcova e de pós d'arroz, entre linhas trabalhadas com +effeminado +arrebique, como rendas de camisas. Ao jantar, em qualquer restaurante, +encontrava, ornando e disfarçando as carnes ou as aves, o +mesmo +môlho, de côres e sabores de pomada, que +já de +manhã, n'outro +restaurante, espelhado e dourejado, me enjoára no peixe e +nos +legumes. Paguei por +grossos preços garrafas do nosso adstringente e rustico +vinho de +Torres, ennobrecido com o titulo de Château isto, +Château +aquillo, e +pó postiço no <span class="pagenum">[374]</span>gargalo. +Á noite, nos theatros, encontrava a Cama, a costumada cama, +como centro e unico fim da vida, attrahindo, mais fortemente que o +monturo attrahe os moscardos, todo um enxame de gentes, estonteadas, +frementes d'erotismo, zumbindo chacotas senis. Esta sordidez da +Planicie me levou +a procurar melhor aragem d'espirito nas alturas da Collina, em +Montmartre; e ahi, no meio d'uma multidão elegante de +Senhoras, de Duquezas, de Generaes, de todo o alto pessoal da Cidade, +eu recebia, do +alto do palco, grossos jorros de obscenidades, que faziam estremecer de +goso as orelhas cabelludas de gordos banqueiros, e arfar com delicia os +corpetes de Worms e de Doucet, sobre os peitos postiços das +nobres damas. E recolhia enjoado com tanto relento d'Alcova, vagamente +dispeptico com os môlhos de pomada do jantar, e sobre tudo +descontente comigo, por me não divertir, não +comprehender +a +Cidade, e errar atravez d'ella e da sua +Civilisação +Superior, com a +reserva ridicula d'um Censor, d'um Catão austero. Oh +senhores!―pensava,―pois eu +não me divertirei nesta deliciosa Cidade? Entrará +comigo +o bolor da +velhice? <br /> + +<br /> + +Passei as pontes, que separam em Paris o Temporal do Espiritual, +mergulhei no meu doce Bairro Latino, evoquei, deante de certos +<span class="pagenum">[375]</span>cafés, +a memoria da minha +Nini; e, como outr'ora, preguiçosamente, +subi as escadas da Sorbonne. N'um amphitheatro, onde sentira um grosso +susurro, +um homem magro, com uma testa muito branca e larga, como talhada para +alojar pensamentos altos e puros, ensinava, falando das +instituições da Cidade Antiga. Mas, mal eu +entrára, o seu dizer elegante e +limpido foi suffocado por gritos, urros, patadas, um tumulto rancoroso +de +troça bestial, que sahia da mocidade apinhada nos bancos, a +mocidade das Escolas, Primavera sagrada, em que eu fôra +flôr +murcha. O Professor parou, espalhando em redor um olhar frio, e +remexendo as suas notas. Quando o grosso grunhido se moderou em susurro +desconfiado, elle recomeçou com alta serenidade. Todas as +suas +ideias eram +frias e substanciaes, expressas n'uma lingoa pura e forte; mas, +immediatamente, +rompe uma furiosa rajada de apitos, uivos, relinchos, cacarejos de +gallo, por entre magras mãos, que se estendiam levantadas +para estrangular as ideias. Ao meu lado um velho, encolhido na alta +gola +d'um macfrelane de xadrezes, contemplava o tumulto com melancolia, +pingando endefluxado. Perguntei ao velho: <br /> + +<br /> + +―Que querem elles? É embirração com o +professor... é politica? <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[376]</span> +O velho abanou a cabeça, espirrando: <br /> + +<br /> + +―Não... É sempre assim, agora, em todos os +cursos... Não querem ideias... Creio que queriam +cançonetas. É o amor +da porcaria e da troça. <br /> + +<br /> + +Então, indignado, berrei: <br /> + +<br /> + +―Silencio, brutos! <br /> + +<br /> + +E eis que um abortosinho de rapaz, amarellado e sebento, de longas +melenas, umas enormes lunetas rebrilhantes, se arrebita, me fita, e me +berra: <br /> + +<br /> + +―<em>Sale Maure</em>! <br /> + +<br /> + +Ergui o meu grosso punho serrano,―e o desgraçado, n'uma +confusão de melenas, com sangue por toda a face, alluio, +como um montão +de trapos molles, ganindo desesperadamente, em quanto o +furacão de +uivos e cacarejos, guinchos e silvos, envolvia o Professor, que +cruzára os braços, esperando, com uma serenidade +simples. <br /> + +<br /> + +Desde esse momento decidi abandonar a fastidiosa Cidade; e o unico dia +alegre e divertido que n'ella passei foi o derradeiro, comprando para +os meus queridinhos de Tormes brinquedos consideraveis, tremendamente +complicados pela Civilisação,―vapores de +aço e cobre, providos de caldeiras para viajar em tanques; +leões de pelle veridica +rugindo pavorosamente, bonecas vestidas <span class="pagenum">[377]</span>pela +Laferrière, com +phonographo no ventre... <br /> + +<br /> + +Finalmente abalei uma tarde, depois de lançar da minha +janella, sobre o Boulevard, as minhas despedidas á Cidade: <br /> + +<br /> + +―Pois adeusinho, até nunca mais! Na lama do teu vicio e na +poeira da tua vaidade, outra vez, não me pilhas! O que tens +de bom, +que é o teu genio, elegante e claro, lá o +receberei na Serra pelo +correio. Adeusinho! <br /> + +<br /> + +Na tarde do seguinte Domingo, debruçado da janella do +comboio, que vagarosamente deslisava pela borda do rio lento, n'um +silencio todo feito d'azul e sol, avistei, na plata-forma da quieta +estação da minha aldeia, os Senhores de Tormes, +com a +minha afilhada Thereza, muito vermelha, arregalando os seus soberbos +olhos, e o bravo Jacinthinho, +que empunhava uma bandeira branca. O alvoroço ditoso com que +abracei e beijei aquella tribu bem amada conviria perfeitamente a quem +voltasse vivo d'uma guerra distante, na Tartaria. Na alegria de +recuperar a Serra, até beijoquei o chefe Pimentinha, que a +estalar +d'obesidade se açodava gritando ao carregador todo o cuidado +com +as minhas +malas. <br /> + +<br /> + +Jacintho, magnifico, de grande chapéo serrano e jaqueta, de +novo me abraçou: <br /> + +<br /> + +―E esse Paris? <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[378]</span> +―Medonho! <br /> + +<br /> + +Abri depois os braços para o bravo Jacintinho. <br /> + +<br /> + +―Então para que é essa bandeira, meu cavalleiro? +<br /> + +<br /> + +―É a bandeira do Castello! declarou elle, com uma bella +seriedade nos seus grandes olhos. <br /> + +<br /> + +A mãe ria. Desde essa manhã, logo que soubera da +chegada do Ti-Zé, appareceu de bandeira, feita pelo Grillo, +e não a +largára mais; com ella almoçára, com +ella descera de Tormes! <br /> + +<br /> + +―Bravo! E, prima Joanninha, olhe que está magnifica! Eu, +tambem, venho d'aquellas pelles meladas de Paris... Mas acho-a +triumphal! E o tio Adrião, e a tia Vicencia? <br /> + +<br /> + +―Tudo optimo! gritou Jacintho. A serra, Deos louvado, prospera. E +agora, para cima! Tu hoje ficas em Tormes. Para contar da +Civilisação. <br /> + +<br /> + +No largo por traz da estação, debaixo dos +eucalyptos, que revi com gosto, esperavam os tres cavallos, e dous +bellos burros brancos, um com +cadeirinha para a Thereza, outro com um cesto de verga, para metter +dentro o heroico Jacinthinho, um e outro servidos á +estribeira por um creado. Eu ajudára a prima Joanninha a +montar, quando o +carregador <span class="pagenum">[379]</span>appareceu +com um masso de jornaes e papeis, que eu esquecera na carruagem. Era +uma papelada, de que me surtira na +Estação d'Orleans, toda recheada de mulheres +nuas, de +historietas sujas, de parisianismo, d'erotismo. Jacintho, que as +reconhecera, gritou rindo: <br /> + +<br /> + +―Deita isso fóra! <br /> + +<br /> + +E eu atirei, para um montão de lixo, ao canto do Pateo, +aquelle putrido rebotalho da Civilisação. E +montei. Mas +ao dobrar +para o caminho empinado da serra, ainda me voltei, para gritar adeus ao +Pimenta, de quem me esquecera. O digno chefe, debruçado +sobre o +monturo, +apanhava, sacudia, recolhia com amor aquellas bellas estampas, que +chegavam de Paris, contavam as delicias de Paris, derramavam atravez do +mundo a seducção de Paris. <br /> + +<br /> + +Em fila começamos a subir para a Serra. A tarde +adoçava o seu esplendor d'estio. Uma aragem trazia, como +offertados, perfumes das +flôres silvestres. As ramagens moviam, com um aceno de doce +acolhimento, as suas folhas vivas e relusentes. Toda a passarinhada +cantava, n'um alvoroço de alegria e de louvor. As agoas +correntes, +saltantes, lusidias, despediam um brilho mais vivo, n'uma pressa mais +animada. Vidraças distantes de casas <span class="pagenum">[380]</span>amaveis, +flammejavam com um +fulgor d'ouro. A serra toda se offertava, na sua belleza eterna e +verdadeira. E, sempre adiante da nossa fila, por entre a verdura, +fluctuava no ar a bandeira branca, que o Jacinthinho não +largava, de dentro do seu +cesto, com a haste bem segura na mão. Era <em>a +bandeira do +Castello</em>, affirmára elle. <br /> + +<br /> + +E na verdade me parecia que, por aquelles caminhos, atravez da natureza +campestre e mansa,―o meu Principe, atrigueirado nas soalheiras e nos +ventos da serra, a minha prima Joanninha, tão doce e risonha +mãe, os dois primeiros representantes da sua +abençoada +tribu, e +eu―, tão longe de amarguradas illusões e de +falsas +delicias, trilhando um +solo eterno, e de eterna solidez, com a alma contente, e Deus contente +de +nós, serenamente e seguramente subiamos―para o Castello da +Gran-Ventura! <br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"> +<h4>Fim </h4> +</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h2>ADVERTENCIA</h2> + +<br /> + +<br /> + +Desde a pagina 241, até o final, as provas d'este livro +não foram revistas pelo auctor, arrebatado pela morte antes +de +haver dado a esta parte da sua escripta aquella ultima +demão, em +que +habitualmente elle punha a diligencia mais perseverante e mais +admiravelmente lucida. <br /> + +<br /> + +Aquelle dos seus amigos e companheiro de letras, a quem foi confiado o +trabalho delicado e piedoso de tocar no manuscripto posthumo de +Eça de Queiroz, ao concluir o desempenho de tal +missão, +beija com o +mais enternecido e saudoso respeito a mão, para todo sempre +immobilisada, que traçou estas paginas encantadoras; e faz +votos +por que a +revisão de que se incumbiu não deslustre muito +grosseiramente a immortal +aureola com que ficará resplandecendo na litteratura +portugueza +este +livro, em que o espirito do grande escriptor parece exhalar-se da vida +n'um terno suspiro de doçura, de paz, e de puro amor +á +terra +da sua patria. <br /> + +<br /> + +24 de abril de 1901. <br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="4" cellspacing="4"> + + <tbody> + + <tr align="center"> + + <td style="width: 100%;" colspan="4" rowspan="1"><b>LIVRARIA +CHARDRON de Lello & Irmão<br /> + + </b>96―CLERIGOS―98 + <hr /></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 45%;"><b>Bazillio Telles<br /> + + </b>O problema agricola</td> + + <td style="width: 5%; vertical-align: bottom; text-align: right;">$600</td> + + <td style="width: 45%;"><b>Lermina</b> + <br /> + +Filho do Monte Christo, 2 +volumes</td> + + <td style="vertical-align: bottom; width: 5%;">1$000</td> + + </tr> + + <tr> + + <td>Estudos historicos e +economicos</td> + + <td style="text-align: right;">$600</td> + + <td></td> + + <td></td> + + </tr> + + <tr> + + <td> + <div style="margin-left: 5%;"><em>No +prélo</em>:</div> + + </td> + + <td style="text-align: right;"></td> + + <td><b>Eugenio Sue</b> + <br /> + +Mysterios de Paris, 3 volumes +cart.</td> + + <td style="vertical-align: bottom;">2$000</td> + + </tr> + + <tr> + + <td>Introducção +ao problema do trabalho nacional. </td> + + <td style="text-align: right;"></td> + + <td></td> + + <td></td> + + </tr> + + <tr> + + <td></td> + + <td style="text-align: right;"></td> + + <td><b>Zola</b> <br /> + +Naná</td> + + <td style="vertical-align: bottom; text-align: right;">$500</td> + + </tr> + + <tr> + + <td><b>Abel Botelho<br /> + + </b>O barão de +Lavos</td> + + <td style="vertical-align: bottom; text-align: right;">$800</td> + + <td style="vertical-align: bottom;">Historia +da lavadeira Gervasia, 2 +vols</td> + + <td style="vertical-align: bottom; text-align: right;">1$000</td> + + </tr> + + <tr> + + <td>O livro +d'Alda</td> + + <td style="text-align: right;">$800</td> + + <td>O +Capitão +Burle</td> + + <td style="text-align: right;">$500</td> + + </tr> + + <tr> + + <td>Sem +remedio...</td> + + <td style="text-align: right;">$500</td> + + <td>Ventre de +Paris, 2 +vols</td> + + <td style="text-align: right;">1$000</td> + + </tr> + + <tr> + + <td> + <div style="margin-left: 5%;"><em>No +prélo</em>: </div> + + </td> + + <td style="text-align: right;"></td> + + <td></td> + + <td style="text-align: right;"></td> + + </tr> + + <tr> + + <td>Amanhã. </td> + + <td style="text-align: right;"></td> + + <td><b>Arnaldo Gama</b> + <br /> + +Caldeira de Pero +Botelho</td> + + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;">$500</td> + + </tr> + + <tr> + + <td></td> + + <td style="text-align: right;"></td> + + <td>Honra ou +loucura</td> + + <td style="text-align: right;">$500</td> + + </tr> + + <tr> + + <td><b>José +Caldas<br /> + + </b>Humildes</td> + + <td style="vertical-align: bottom; text-align: right;">$400</td> + + <td style="vertical-align: top;">Filho +do Baldaia</td> + + <td style="text-align: right; vertical-align: top;">$600</td> + + </tr> + + <tr> + + <td>Os +Jesuitas; a sua influencia na actual sociedade portugueza; +meio de a +conjurar</td> + + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;"><em>no +prélo</em></td> + + <td></td> + + <td></td> + + </tr> + + <tr> + + <td></td> + + <td style="text-align: right;"></td> + + <td><b>Bruno</b> <br /> + +O Brazil mental</td> + + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;">$800</td> + + </tr> + + <tr> + + <td><b>Sylvio Romero<br /> + + </b>Martins Penna</td> + + <td style="vertical-align: bottom; text-align: right;">$400 + </td> + + <td style="vertical-align: top;">Notas +do exilio<br /> + +Historia da +Prostituição</td> + + <td style="vertical-align: top; text-align: right;">$500<br /> + +1$800</td> + + </tr> + + <tr> + + <td></td> + + <td style="text-align: right;"></td> + + <td> + <hr /></td> + + <td style="text-align: right; vertical-align: top;"><br /> + + </td> + + </tr> + + <tr> + + <td><b>Rebello da Silva<br /> + + </b>Mocidade de D. João +V.</td> + + <td style="vertical-align: bottom; text-align: right;">1$500</td> + + <td> <b>Camillo +Castello +Branco</b> <br /> + +Maria da Fonte</td> + + <td style="text-align: right;">$500</td> + + </tr> + + <tr> + + <td></td> + + <td style="text-align: right;"></td> + + <td>Livro de +consolação</td> + + <td style="text-align: right;">$500</td> + + </tr> + + <tr> + + <td><b>Andrade Corvo<br /> + + </b>Um anno na +côrte</td> + + <td style="vertical-align: bottom; text-align: right;">1$500</td> + + <td>D. Luiz de +Portugal<br /> + +Brazileira de +Prazins</td> + + <td style="text-align: right;">$300<br /> + +$500</td> + + </tr> + + <tr> + + <td><br /> + + </td> + + <td style="text-align: right;"></td> + + <td>Eusebio Macario</td> + + <td style="text-align: right;">$500</td> + + </tr> + + <tr> + + <td><b>Antonio C. Louzada<br /> + + </b>Rua escura</td> + + <td style="text-align: right;">$500</td> + + <td>Volcoens da lama<br /> + +Carta de guia de +casados</td> + + <td style="text-align: right;">$500<br /> + +$300</td> + + </tr> + + <tr> + + <td>Na +consciencia</td> + + <td style="text-align: right;">$500</td> + + <td><br /> + + </td> + + <td style="text-align: right;"></td> + + </tr> + + <tr> + + <td></td> + + <td></td> + + <td><b>Grainha</b> + <br /> + +Jesuitas</td> + + <td style="vertical-align: bottom; text-align: right;">$600</td> + + </tr> + + <tr> + + <td><b>Dumas<br /> + + </b>Jorge ou o capitão dos +piratas</td> + + <td style="vertical-align: bottom; text-align: right;">$500</td> + + <td><b><br /> + + </b></td> + + <td style="text-align: right;"><br /> + + </td> + + </tr> + + <tr> + + <td>Tres +mosqueteiros, 2 +volumes</td> + + <td style="text-align: right;">1$000</td> + + <td><b>Tolstoi</b> + <br /> + +A Sonata de Kreutzer</td> + + <td style="vertical-align: bottom; text-align: right;">$400<br /> + + </td> + + </tr> + + </tbody> +</table> + +</div> + +<div style='display:block; margin-top:4em'>*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK A CIDADE E AS SERRAS ***</div> +<div style='text-align:left'> + +<div style='display:block; margin:1em 0'> +Updated editions will replace the previous one—the old editions will +be renamed. +</div> + +<div style='display:block; margin:1em 0'> +Creating the works from print editions not protected by U.S. copyright +law means that no one owns a United States copyright in these works, +so the Foundation (and you!) can copy and distribute it in the United +States without permission and without paying copyright +royalties. 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Information about Donations to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +</div> + +<div style='display:block; margin:1em 0'> +Project Gutenberg™ depends upon and cannot survive without widespread +public support and donations to carry out its mission of +increasing the number of public domain and licensed works that can be +freely distributed in machine-readable form accessible by the widest +array of equipment including outdated equipment. Many small donations +($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt +status with the IRS. +</div> + +<div style='display:block; margin:1em 0'> +The Foundation is committed to complying with the laws regulating +charities and charitable donations in all 50 states of the United +States. Compliance requirements are not uniform and it takes a +considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up +with these requirements. 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Donations are accepted in a number of other +ways including checks, online payments and credit card donations. To +donate, please visit: www.gutenberg.org/donate +</div> + +<div style='display:block; font-size:1.1em; margin:1em 0; font-weight:bold'> +Section 5. General Information About Project Gutenberg™ electronic works +</div> + +<div style='display:block; margin:1em 0'> +Professor Michael S. Hart was the originator of the Project +Gutenberg™ concept of a library of electronic works that could be +freely shared with anyone. For forty years, he produced and +distributed Project Gutenberg™ eBooks with only a loose network of +volunteer support. +</div> + +<div style='display:block; margin:1em 0'> +Project Gutenberg™ eBooks are often created from several printed +editions, all of which are confirmed as not protected by copyright in +the U.S. unless a copyright notice is included. Thus, we do not +necessarily keep eBooks in compliance with any particular paper +edition. +</div> + +<div style='display:block; margin:1em 0'> +Most people start at our website which has the main PG search +facility: <a href="https://www.gutenberg.org">www.gutenberg.org</a>. +</div> + +<div style='display:block; margin:1em 0'> +This website includes information about Project Gutenberg™, +including how to make donations to the Project Gutenberg Literary +Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to +subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. +</div> + +</div> + +</body> +</html> diff --git a/18220-h/images/p1.jpg b/18220-h/images/p1.jpg Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..b753d40 --- /dev/null +++ b/18220-h/images/p1.jpg diff --git a/18220-h/images/p2.jpg b/18220-h/images/p2.jpg Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..bb0d12b --- /dev/null +++ b/18220-h/images/p2.jpg diff --git a/LICENSE.txt b/LICENSE.txt new file mode 100644 index 0000000..6312041 --- /dev/null +++ b/LICENSE.txt @@ -0,0 +1,11 @@ +This eBook, including all associated images, markup, improvements, +metadata, and any other content or labor, has been confirmed to be +in the PUBLIC DOMAIN IN THE UNITED STATES. + +Procedures for determining public domain status are described in +the "Copyright How-To" at https://www.gutenberg.org. + +No investigation has been made concerning possible copyrights in +jurisdictions other than the United States. Anyone seeking to utilize +this eBook outside of the United States should confirm copyright +status under the laws that apply to them. diff --git a/README.md b/README.md new file mode 100644 index 0000000..021813e --- /dev/null +++ b/README.md @@ -0,0 +1,2 @@ +Project Gutenberg (https://www.gutenberg.org) public repository for +eBook #18220 (https://www.gutenberg.org/ebooks/18220) diff --git a/old/18220-8.txt b/old/18220-8.txt new file mode 100644 index 0000000..f68adcd --- /dev/null +++ b/old/18220-8.txt @@ -0,0 +1,8783 @@ +The Project Gutenberg EBook of A Cidade e as Serras, by Ea Queirs + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: A Cidade e as Serras + +Author: Ea Queirs + +Release Date: February 28, 2008 [EBook #18220] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A CIDADE E AS SERRAS *** + + + + +Produced by Rita Farinha and the Online Distributed +Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This file was +produced from images generously made available by National +Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).) + + + + + + + + + +EA DE QUEIROZ + +A CIDADE E AS SERRAS + + +PORTO + +LIVRARIA CHARDRON + +De Lello & Irmo, editores + +1901 + +Todos os direitos reservados + + + + +EA DE QUEIROZ + +A CIDADE E AS SERRAS + + +PORTO + +LIVRARIA CHARDRON + +De Lello & Irmo, editores + +1901 + +Todos os direitos reservados + + + + +Pertence no Brazil o direito de propriedade d'esta obra ao cidado +Francisco Alves, livreiro editor no Rio de Janeiro, que, para a garantia +que lhe offerece a lei n.^o 496 de 1 d'Agosto de 1898, fez o competente +deposito na Bibliotheca nacional, segundo a determinao do art. 13.^o +da mesma Lei. + + +_Porto--Imprensa Moderna_ + + + + +[Figura de Ea de Queirs] + + + + +A CIDADE E AS SERRAS + + + + +Obras do mesmo auctor: + + +*Revista de Portugal.* 4 grossos volumes 12$000 + +*As minas de Salomo.* 1 volume $600 + +*Os Maias.* 2 grossos volumes 2$000 + +*O crime do padre Amaro.* Terceira edio inteiramente refundida, +recomposta, e differente na frma e na aco da edio primitiva. 1 grosso +volume 1$200 + +*O primo Bazilio.* Quarta edio. 1 grosso volume 1$000 + +*A Reliquia.* 1 grosso volume 1$000 + +*O Mandarim.* Quarta edio. 1 volume $500 + +*Correspondencia de Fradique Mendes.* 1 volume $600 + +*A illustre casa de Ramires.* 1 volume 1$000 + + + + +A CIDADE E AS SERRAS + + + + +I + + +O meu amigo Jacintho nasceu n'um palacio, com cento e nove contos de +renda em terras de semeadura, de vinhedo, de cortia e d'olival. + +No Alemtejo, pela Extremadura, atravez das duas Beiras, densas sebes +ondulando por collina e valle, muros altos de boa pedra, ribeiras, +estradas, delimitavam os campos d'esta velha familia agricola que j +entulhava gro e plantava cepa em tempos d'el-rei D. Diniz. A sua quinta +e casa senhorial de Tormes, no Baixo Douro, cobriam uma serra. Entre o +Tua e o Tinhela, por cinco fartas legoas, todo o torro lhe pagava fro. +E cerrados pinheiraes seus negrejavam desde Arga at ao mar d'Ancora. +Mas o palacio onde Jacintho nascra, e onde sempre habitra, era em +Paris, nos Campos Elyseos, n.^o 202. + +Seu av, aquelle gordissimo e riquissimo Jacintho a quem chamavam em +Lisboa o _D. Galio_, descendo uma tarde pela travessa da Trabuqueta, +rente d'um muro de quintal que uma parreira toldava, escorregou n'uma +casca de laranja e desabou no lagedo. Da portinha da horta sahia n'esse +momento um homem moreno, escanhoado, de grosso casaco de baeto verde e +botas altas de picador, que, galhofando e com uma fora facil, levantou +o enorme Jacintho--at lhe apanhou a bengala de casto d'ouro que rolra +para o lixo. Depois, demorando n'elle os olhos pestanudos e pretos: + +--Oh Jacintho Galio, que andas tu aqui, a estas horas, a rebolar pelas +pedras? + +E Jacintho, aturdido e deslumbrado, reconheceu o snr. Infante D. Miguel! + +Desde essa tarde amou aquelle bom Infante como nunca amra, apesar de +to guloso, o seu ventre, e apesar de to devoto o seu Deus! Na sala +nobre da sua casa ( Pampulha) pendurou sobre os damascos o retrato do +seu Salvador, enfeitado de palmitos como um retabulo, e por baixo a +bengala que as magnanimas mos reaes tinham erguido do lixo. Emquanto o +adoravel, desejado Infante penou no desterro de Vienna, o barrigudo +senhor corria, sacudido na sua sege amarella, do botequim do Z-Maria em +Belem botica do Placido nos Algibebes, a gemer as saudades do +_anginho_, a tramar o regresso do _anginho_. No dia, entre todos +bemdito, em que a _Perola_ appareceu barra com o Messias, engrinaldou +a Pampulha, ergueu no Caneiro um monumento de papelo e lona onde D. +Miguel, tornado S. Miguel, branco, d'aureola e azas de Archanjo, furava +de cima do seu corcel d'Alter o Drago do Liberalismo, que se estorcia +vomitando a Carta. Durante a guerra com o outro, com o pedreiro livre +mandava recoveiros a Santo Thyrso, a S. Gens, levar ao Rei fiambres, +caixas de dce, garrafas do seu vinho de Tarrafal, e bolsas de retroz +atochadas de peas que elle ensaboava para lhes avivar o ouro. E quando +soube que o snr. D. Miguel, com dois velhos bahus amarrados sobre um +macho, tomra o caminho de Sines e do final desterro--Jacintho _Galio_ +correu pela casa, fechou todas as janellas como n'um luto, berrando +furiosamente: + +--Tambem c no fico! tambem c no fico! + +No, no queria ficar na terra perversa d'onde partia, esbulhado e +escorraado, aquelle Rei de Portugal que levantava na rua os Jacinthos! +Embarcou para Frana com a mulher, a snr.^a D. Angelina Fafes (da to +fallada casa dos Fafes da Avellan); com o filho, o 'Cinthinho, menino +amarellinho, mollesinho, coberto de caros e leicenos; com a aia e com +o moleque. Nas costas da Cantabria o paquete encontrou to rijos mares +que a snr.^a D. Angelina, esguedelhada, de joelhos na enxerga do +beliche, prometteu ao Senhor dos Passos d'Alcantara uma cora +d'espinhos, de ouro, com as gottas de sangue em rubis do Pegu. Em +Bayonna, onde arribaram, 'Cinthinho teve ithericia. Na estrada +d'Orleans, n'uma noite agreste, o eixo da berlinda em que jornadeavam +partiu, e o nedio senhor, a delicada senhora da casa da Avellan, o +menino, marcharam tres horas na chuva e na lama do exilio at uma +aldeia, onde, depois de baterem como mendigos a portas mudas, dormiram +nos bancos d'uma taberna. No Hotel dos Santos Padres, em Paris, +soffreram os terrores d'um fogo que rebentra na cavalharia, sob o +quarto de _D. Galio_, e o digno fidalgo, rebolando pelas escadas em +camisa, at ao pateo, enterrou o p n numa lasca de vidro. Ento ergueu +amargamente ao co o punho cabelludo, e rugiu: + +--Irra! de mais! + +Logo n'essa semana, sem escolher, Jacintho _Galio_ comprou a um +Principe polaco, que depois da tomada de Varsovia se mettera frade +cartuxo, aquelle palacete dos Campos Elyseos, n.^o 202. E sob o pesado +ouro dos seus estuques, entre as suas ramalhudas sedas se enconchou, +descanando de tantas agitaes, n'uma vida de pachorra e de boa mesa, +com alguns companheiros d'emigrao (o desembargador Nuno Velho, o conde +de Rabacena, outros menores), at que morreu de indigesto, d'uma +lampreia d'escabeche que lhe mandra o seu procurador em Monte-mr. Os +amigos pensavam que a snr.^a D. Angelina Fafes voltaria ao reino. Mas a +boa senhora temia a jornada, os mares, as caleas que racham. E no se +queria separar do seu Confessor, nem do seu Medico, que to bem lhe +comprehendiam os escrupulos e a asthma. + +--Eu, por mim, aqui fico no 202 (declarra ella), ainda que me faz falta +a boa agua d'Alcolena... O 'Cinthinho, esse, em crescendo, que decida. + +O 'Cinthinho crescra. Era um moo mais esguio e livido que um cirio, de +longos cabellos corredios, narigudo, silencioso, encafuado em roupas +pretas, muito largas e bambas; de noite, sem dormir, por causa da tosse +e de suffocaes, errava em camisa com uma lamparina atravez do 202; e +os creados na copa sempre lhe chamavam a _Sombra_. N'essa sua mudez e +indeciso de sombra surdira, ao fim do luto do pap, o gosto muito vivo +de tornear madeiras ao torno: depois, mais tarde, com a melada flr dos +seus vinte annos, brotou n'elle outro sentimento, de desejo e de pasmo, +pela filha do desembargador Velho, uma menina redondinha como uma rla, +educada n'um convento de Paris, e to habilidosa que esmaltava, dourava, +concertava relogios e fabricava chapos de feltro. No outomno de 1851, +quando j se desfolhavam os castanheiros dos Campos Elyseos, o +'Cinthinho cuspilhou sangue. O medico, acarinhando o queixo e com uma +ruga seria na testa immensa, aconselhou que o menino abalasse para o +golfo Juan ou para as tepidas areias d'Arcachon. + +'Cinthinho porm, no seu afrro de sombra, no se quiz arredar da +Therezinha Velho, de quem se tornra, atravez de Paris, a muda, tardnha +sombra. Como uma sombra, casou; deu mais algumas voltas ao torno; cuspiu +um resto de sangue; e passou, como uma sombra. + +Tres mezes e tres dias depois do seu enterro o meu Jacintho nasceu. + + * * * * * + +Desde o bero, onde a av espalhava funcho e ambar para afugentar a +_Sorte-Ruim_, Jacintho medrou com a segurana, a rijeza, a seiva rica +d'um pinheiro das dunas. + +No teve sarampo e no teve lombrigas. As Letras, a Taboada, o Latim +entraram por elle to facilmente como o sol por uma vidraa. Entre os +camaradas, nos pateos dos collegios, erguendo a sua espada de lata e +lanando um brado de commando, foi logo o vencedor, o Rei que se adula, +e a quem se cede a fructa das merendas. Na edade em que se l Balzac e +Musset nunca atravessou os tormentos da sensibilidade;--nem crepusculos +quentes o retiveram na solido d'uma janella, padecendo d'um desejo sem +frma e sem nome. Todos os seus amigos (eramos tres, contando o seu +velho escudeiro preto, o Grillo) lhe conservaram sempre amizades puras e +certas--sem que jmais a participao do seu luxo as avivasse ou fossem +desanimadas pelas evidencias do seu egoismo. Sem corao bastante forte +para conceber um amor forte, e contente com esta incapacidade que o +libertava, do amor s experimentou o mel--esse mel que o amor reserva +aos que o recolhem, maneira das abelhas, com ligeireza, mobilidade e +cantando. Rijo, rico, indifferente ao Estado e ao Governo dos Homens, +nunca lhe conhecemos outra ambio alm de comprehender bem as Ideias +Geraes; e a sua intelligencia, nos annos alegres de esclas e +controversias, crculava dentro das Philosophias mais densas como enguia +lustrosa na agua limpa d'um tanque. O seu valor, genuino, de fino +quilate, nunca foi desconhecido, nem desapreciado; e toda a opinio, ou +mera facecia que lanasse, logo encontrava uma aragem de sympathia e +concordancia que a erguia, a mantinha emballada e rebrilhando nas +alturas. Era servido pelas cousas com docilidade e carinho;--e no +recordo que jamais lhe estalasse um boto da camisa, ou que um papel +maliciosamente se escondesse dos seus olhos, ou que ante a sua +vivacidade e pressa uma gaveta perfida emperrasse. Quando um dia, rindo +com descrido riso da Fortuna e da sua Roda, comprou a um sachristo +hespanhol um Decimo de Loteria, logo a Fortuna, ligeira e ridente sobre +a sua Roda, correu n'um fulgor, para lhe trazer quatro centas mil +pesetas. E no ceu as Nuvens, pejadas e lentas, se avistavam Jacintho sem +guarda chuva, retinham com reverencia as suas aguas at que elle +passasse... Ah! o ambar e o funcho da snr.^a D. Angelina tinham +escorraado do seu destino, bem triumphalmente e para sempre, a +_Sorte-Ruim_! A amoravel av (que eu conheci obesa, com barba) costumava +citar um soneto natalicio do desembargador Nunes Velho contendo um verso +de boa lio: + + Sabei, senhora, que esta Vida um rio... + +Pois um rio de vero, manso, translucido, harmoniosamente estendido +sobre uma areia macia e alva, por entre arvoredos fragrantes e ditosas +aldeias, no offereceria quelle que o descesse n'um barco de cedro, bem +toldado e bem almofadado, com fructas e Champagne a refrescar em gelo, +um Anjo governando ao leme, outros Anjos puxando sirga, mais segurana +e doura do que a Vida offerecia ao meu amigo Jacintho. + +Por isso ns lhe chamavamos o Principe da Gran-Ventura! + + * * * * * + +Jacintho e eu, Jos Fernandes, ambos nos encontramos e acamaradamos em +Paris, nas Esclas do Bairro Latino--para onde me mandra meu bom tio +Affonso Fernandes Lorena de Noronha e Sande, quando aquelles malvados me +riscaram da Universidade por eu ter esborrachado, n'uma tarde de +procisso, na Sophia, a cara sordida do dr. Paes Pitta. + +Ora n'esse tempo Jacintho concebra uma Ideia... Este Principe concebra +a Ideia de que o homem s superiormente feliz quando superiormente +civilisado. E por homem civilisado o meu camarada entendia aquelle que, +robustecendo a sua fora pensante com todas as noes adquiridas desde +Aristoteles, e multiplicando a potencia corporal dos seus orgos com +todos os mechanismos inventados desde Theramenes, creador da roda, se +torna um magnifico Ado, quas omnipotente, quas omnisciente, e apto +portanto a recolher dentro d'uma sociedade e nos limites do Progresso +(tal como elle se comportava em 1875) todos os gozos e todos os +proveitos que resultam de Saber e de Poder... Pelo menos assim Jacintho +formulava copiosamente a sua Ideia, quando conversavamos de fins e +destinos humanos, sorvendo bocks poeirentos, sob o toldo das cervejarias +philosophicas, no Boulevard Saint-Michel. + +Este conceito de Jacintho impressionra os nossos camaradas de cenaculo, +que tendo surgido para a vida intellectual, de 1866 a 1875, entre a +batalha de Sadowa e a batalha de Sedan, e ouvindo constantemente, desde +ento, aos technicos e aos philosophos, que fra a Espingarda-de-agulha +que vencra em Sadowa e fra o Mestre-de-escla quem vencra em Sedan, +estavam largamente preparados a acreditar que a felicidade dos +individuos, como a das naes, se realisa pelo illimitado +desenvolvimento da Mechanica e da Erudio. Um d'esses moos mesmo, o +nosso inventivo Jorge Carlande, reduzra a theoria de Jacintho, para lhe +facilitar a circulao e lhe condensar o brilho, a uma frma algebrica: + +Summa sciencia} + X }= Summa felicidade +Summa potencia} + +E durante dias, do Odeon Sorbonna, foi louvada pela mocidade positiva +a _Equao Metaphysica de Jacintho_. + +Para Jacintho, porm, o seu conceito no era meramente metaphysico e +lanado pelo gozo elegante de exercer a razo especulativa:--mas +constituia uma regra, toda de realidade e de utilidade, determinando a +conducta, modalisando a vida. E j a esse tempo, em concordancia com o +seu preceito--elle se surtira da _Pequena Encyclopedia dos Conhecimentos +Universaes_ em setenta e cinco volumes e installra, sobre os telhados +do 202, n'um mirante envidraado, um telescopio. Justamente com esse +telescopio me tornou elle palpavel a sua ideia, n'uma noite de agosto, +de molle e dormente calor. Nos cos remotos lampejavam relampagos +languidos. Pela Avenida dos Campos Elyseos, os fiacres rolavam para as +frescuras do Bosque, lentos, abertos, canados, transbordando de +vestidos claros. + +--Aqui tens tu, Z Fernandes, (comeou Jacintho, encostado janella do +mirante) a theoria que me governa, bem comprovada. Com estes olhos que +recebemos da Madre natureza, lestos e sos, ns podemos apenas +distinguir alm, atravez da Avenida, n'aquella loja, uma vidraa +alumiada. Mais nada! Se eu porm aos meus olhos juntar os dois vidros +simples d'um binoculo de corridas, percebo, por traz da vidraa, +presuntos, queijos, boies de gela e caixas de ameixa scca. Concluo +portanto que uma mercearia. Obtive uma noo; tenho sobre ti, que com +os olhos desarmados vs s o luzir da vidraa, uma vantagem positiva. Se +agora, em vez d'estes vidros simples, eu usasse os do meu telescopio, de +composio mais scientifica, poderia avistar alm, no planeta Marte, os +mares, as neves, os canaes, o recorte dos golphos, toda a geographia +d'um astro que circula a milhares de leguas dos Campos Elyseos. outra +noo, e tremenda! Tens aqui pois o olho primitivo, o da Natureza, +elevado pela Civilisao sua maxima potencia de viso. E desde j, +pelo lado do olho portanto, eu, civilisado, sou mais feliz que o +incivilisado, porque descubro realidades do Universo que elle no +suspeita e de que est privado. Applica esta prova a todos os orgos e +comprehendes o meu principio. Emquanto intelligencia, e felicidade +que d'ella se tira pela incanavel accumulao das noes, s te peco +que compares Renan e o Grillo... Claro portanto que nos devemos cercar +de Civilisao nas maximas propores para gosar nas maximas propores +a vantagem de viver. Agora concordas, Z Fernandes? + +No me parecia irrecusavelmente certo que Renan fosse mais feliz que o +Grillo; nem eu percebia que vantagem espiritual ou temporal se clha em +distinguir atravez do espao manchas n'um astro, ou atravez da Avenida +dos Campos Elyseos presuntos n'uma vidraa. Mas concordei, porque sou +bom, e nunca desalojarei um espirito do conceito onde elle encontra +segurana, disciplina e motivo de energia. Desabotoei o collete, e +lanando um gesto para o lado dos cafs e das luzes: + +--Vamos ento beber, nas maximas propores, _brandy and soda_, com +gelo! + +Por uma concluso bem natural, a ideia de Civilisao, para Jacintho, +no se separava da imagem de Cidade, d'uma enorme Cidade, com todos os +seus vastos orgos funccionando poderosamente. Nem este meu +super-civilisado amigo comprehendia que longe de Armazens servidos por +tres mil caixeiros; e de Mercados onde se despejam os vergeis e lezirias +de trinta provincias; e de Bancos em que retine o ouro universal; e de +Fabricas fumegando com ancia, inventando com ancia; e de Bibliothecas +abarrotadas, a estalar, com a papelada dos seculos; e de fundas milhas +de ruas, cortadas, por baixo e por cima, de fios de telegraphos, de fios +de telephones, de canos de gazes, de canos de fezes; e da fila atroante +dos omnibus, tramways, carroas, velocipedes, calhambeques, parelhas de +luxo; e de dois milhes d'uma vaga humanidade, fervilhando, a offegar, +atravez da Policia, na busca dura do po ou sob a illuso do gozo--o +homem do seculo XIX podesse saborear, plenamente, a delicia de viver! + +Quando Jacintho, no seu quarto do 202, com as varandas abertas sobre os +lilazes, me desenrolava estas imagens, todo elle crescia, illuminado. +Que creao augusta, a da Cidade! S por ella, Z-Fernandes, s por +ella, pde o homem soberbamente affirmar a sua alma!... + +--Oh Jacintho, e a religio? Pois a religio no prova a alma? + +Elle encolhia os hombros. A religio! A religio o desenvolvimento +sumptuoso de um instincto rudimentar, commum a todos os brutos, o +terror. Um co lambendo a mo do dono, de quem lhe vem o osso ou o +chicote, j constitue toscamente um devoto, o consciente devoto, +prostrado em rezas ante o Deus que distribue o co ou o inferno!... Mas +o telephone! o phonographo! + +--Ahi tens tu, o phonographo!... S o phonographo, Z Fernandes, me faz +verdadeiramente sentir a minha superioridade de sr pensante e me separa +do bicho. Acredita, no ha seno a Cidade, Z Fernandes, no ha seno a +Cidade! + +E depois (accrescentava) s a Cidade lhe dava a sensao, to necessaria + vida como o calor, da solidariedade humana. E no 202, quando +considerava em redor, nas densas massas do casario de Paris, dois +milhes de sres arquejando na obra da Civilisao (para manter na +natureza o dominio dos Jacinthos!) sentia um socego, um conchego, s +comparaveis ao do peregrino, que, ao atravessar o deserto, se ergue no +seu dromedario, e avista a longa fila da caravana marchando, cheia de +lumes e de armas... + +Eu murmurava, impressionado: + +--Caramba! + +Ao contrario no campo, entre a inconsciencia e a impassibilidade da +Natureza, elle tremia com o terror da sua fragilidade e da sua solido. +Estava ahi como perdido n'um mundo que lhe no fosse fraternal; nenhum +silvado encolheria os espinhos para que elle passasse; se gemesse com +fome nenhuma arvore, por mais carregada, lhe estenderia o seu fructo na +ponta compassiva d'um ramo. Depois, em meio da Natureza, elle assistia +subita e humilhante inutilisao de todas as suas faculdades superiores. +De que servia, entre plantas e bichos--ser um Genio ou ser um Santo? As +searas no comprehendem as _Georgicas_; e fra necessario o socorro +ancioso de Deus, e a inverso de todas as leis naturaes, e um violento +milagre para que o lobo de Agubio no devorasse S. Francisco d'Assis, +que lhe sorria e lhe estendia os braos e lhe chamava meu irmo lobo! +Toda a intellectualidade, nos campos, se esterilisa, e s resta a +bestialidade. N'esses reinos crassos do Vegetal e do Animal duas unicas +funces se mantm vivas, a nutritiva e a procreadora. Isolada, sem +occupao, entre focinhos e raizes que no cessam de sugar e de pastar, +suffocando no calido bafo da universal fecundao, a sua pobre alma toda +se engelhava, se reduzia a uma migalha d'alma, uma fagulhasinha +espiritual a tremeluzir, como morta, sobre um naco de materia; e n'essa +materia dois instinctos surdiam, imperiosos e pungentes, o de devorar e +o de gerar. Ao cabo de uma semana rural, de todo o seu sr to +nobremente composto s restava um estomago e por baixo um phallus! A +alma? Sumida sob a besta. E necessitava correr, reentrar na Cidade, +mergulhar nas ondas lustraes da Civilisao, para largar n'ellas a +crosta vegetativa, e resurgir re-humanisado, de novo espiritual e +Jacinthico! + +E estas requintadas metaphoras do meu amigo exprimiam sentimentos +reaes--que eu testemunhei, que muito me divertiram, no unico passeio que +fizemos ao campo, bem amavel e bem sociavel floresta de Montmorency. +Oh delicias d'entremez, Jacintho entre a Natureza! Logo que se afastava +dos pavimentos de madeira, do macadam, qualquer cho que os seus ps +calcassem o enchia de desconfiana e terror. Toda a relva, por mais +crestada, lhe parecia reumar uma humidade mortal. De sob cada torro, +da sombra de cada pedra, receava o assalto de lacraus, de viboras, de +frmas rastejantes e viscosas. No silencio do bosque sentia um lugubre +despovoamento do Universo. No tolerava a familiaridade dos galhos que +lhe roassem a manga ou a face. Saltar uma sebe era para elle um acto +degradante que o retrogradava ao macaco inicial. Todas as flres que no +tivesse j encontrado em jardins, domesticadas por longos seculos de +servido ornamental, o inquietavam como venenosas. E considerava d'uma +melancolia funambulesca certos modos e frmas do Sr inanimado, a pressa +esperta e v dos regatinhos, a careca dos rochedos, todas as contorses +do arvoredo e o seu resmungar solemne e tonto. + +Depois d'uma hora, n'aquelle honesto bosque de Montmorency, o meu pobre +amigo abafava, apavorado, experimentando j esse lento mingoar e sumir +d'alma que o tornava como um bicho entre bichos. S desannuviou quando +penetramos no lagdo e no gaz de Paris--e a nossa vittoria quasi se +despedaou contra um omnibus retumbante, atulhado de cidados. Mandou +descer pelos Boulevards, para dissipar, na sua grossa sociabilidade, +aquella materialisao em que sentia a cabea pesada e vaga como a d'um +boi. E reclamou que eu o acompanhasse ao theatro das Variedades para +sacudir, com os estribilhos da _Femme Papa_, o rumor importuno que lhe +ficra dos melros cantando nos choupos altos. + +Este delicioso Jacintho fizera ento vinte e tres annos, e era um +soberbo moo em quem reapparecra a fora dos velhos Jacinthos ruraes. +S pelo nariz, afilado, com narinas quasi transparentes, d'uma +mobilidade inquieta, como se andasse fariscando perfumes, pertencia s +delicadezas do seculo XIX. O cabello ainda se conservava, ao modo das +ras rudes, crespo e quasi lanigero: e o bigode, como o d'um Celta, +cahia em fios sedosos, que elle necessitava aparar e frizar. Todo o seu +fato, as espessas gravatas de setim escuro que uma perola prendia, as +luvas de anta branca, o verniz das botas, vinham de Londres em caixotes +de cedro; e usava sempre ao peito uma flr, no natural, mas composta +destramente pela sua ramalheteira com petalas de flres dessemelhantes, +cravo, azalea, orchidea ou tulipa, fundidas na mesma haste entre uma +leve folhagem de funcho. + + * * * * * + +Em 1880, em Fevereiro, n'uma cinzenta e arripiada manh de chuva, recebi +uma carta de meu bom tio Affonso Fernandes, em que, depois de +lamentaes sobre os seus setenta annos, os seus males hemorroidaes, e a +pesada gerencia dos seus bens que pedia homem mais novo, com pernas +mais rijas--me ordenava que recolhesse nossa casa de Guies, no +Douro! Encostado ao marmore partido do fogo, onde na vspera a minha +Nini deixra um espartilho embrulhado no _Jornal dos Debates_, censurei +severamente meu tio que assim cortava em boto, antes de desabrochar, a +flr do meu Saber Juridico. Depois n'um Post-Scriptum elle +accrescentava--O tempo aqui est lindo, o que se pde chamar de rosas, +e tua santa tia muito se recommenda, que anda l pela cozinha, porque +vai hoje em trinta e seis annos que casmos, temos c o abbade e o +Quintaes a jantar, e ella quiz fazer uma sopa dourada. + +Deitando uma acha ao lume, pensei como devia estar boa a sopa dourada da +tia Vicencia. Ha quantos annos no a provava, nem o leito assado, nem o +arroz de frno da nossa casa! Com o tempo assim to lindo, j as mimosas +do nosso pateo vergariam sob os seus grandes cachos amarellos. Um pedao +de co azul, do azul de Guies, que outro no ha to lustroso e macio, +entrou pelo quarto, alumiou, sobre a poida tristeza do tapete, relvas, +ribeirinhos, malmequeres e flres de trevo de que meus olhos andavam +agoados. E, por entre as bambinellas de sarja, passou um ar fino e forte +e cheiroso de serra e de pinheiral. + +Assobiando um _fado_ meigo tirei debaixo da cama a minha velha mala, e +metti solicitamente entre calas e piugas um Tratado de Direito Civil, +para aprender emfim, nos vagares da aldeia, estendido sob a faia, as +leis que regem os homens. Depois, n'essa tarde, annunciei a Jacintho que +partia para Guies. O meu camarada recuou com um surdo gemido de espanto +e piedade: + +--Para Guies!... Oh Z Fernandes, que horror! + +E toda essa semana me lembrou solicitamente confortos de que eu me +deveria prover para que pudesse conservar, nos ermos silvestres, to +longe da Cidade, uma pouca d'alma dentro d'um pouco de corpo. Leva uma +poltrona! Leva a _Encyclopedia Geral_! Leva caixas de aspargos!... + +Mas para o meu Jacintho, desde que assim me arrancavam da Cidade, eu era +arbusto desarraigado que no reviver. A magoa com que me acompanhou ao +comboio conviria excellentemente ao meu funeral. E quando fechou sobre +mim a portinhola, gravemente, supremamente, como se cerra uma grade de +sepultura, eu quasi solucei--com saudades minhas. + +Cheguei a Guies. Ainda restavam flres nas mimosas do nosso pateo; comi +com delicias a sopa dourada da tia Vicencia; de tamancos nos ps assisti + ceifa dos milhos. E assim de colheitas a lavras, crestando ao sol das +eiras, caando a perdiz nos matos geados, rachando a melancia fresca na +poeira dos arraiaes, arranchando a magustos, serandando candeia, +atiando fogueiras de S. Joo, enfeitando presepios de Natal, por alli +me passaram docemente sete annos, to atarefados que nunca logrei abrir +o Tratado de Direito Civil, e to singelos que apenas me recordo quando, +em vsperas de S. Nicolau, o abbade cahiu da egua porta do Braz das +Crtes. De Jacintho s recebia raramente algumas linhas, escrevinhadas +pressa por entre o tumulto da Civilisao. Depois, n'um Setembro muito +quente, ao lidar da vindima, meu bom tio Affonso Fernandes morreu, to +quietamente, Deus seja louvado por esta graa, como se cala um +passarinho ao fim do seu bem cantado e bem voado dia. Acabei pela aldeia +a roupa do luto. A minha afilhada Joanninha casou na matana do porco. +Andaram obras no nosso telhado. Voltei a Paris. + + + + +II + + +Era de novo Fevereiro, e um fim de tarde arripiado e cinzento, quando eu +desci os Campos Elyseos em demanda do 202. Adiante de mim caminhava, +levemente curvado, um homem que, desde as botas rebrilhantes at s abas +recurvas do chapo d'onde fugiam anneis d'um cabello crespo, reumava +elegancia e a familiaridade das coisas finas. Nas mos, cruzadas atraz +das costas, caladas d'anta branca, sustentava uma bengala grossa com +casto de crystal. E s quando elle parou ao porto do 202 reconheci o +nariz afilado, os fios do bigode corredios e sedosos. + +--Oh Jacintho! + +--Oh Z Fernandes! + +O abrao que nos enlaou foi to alvoroado que o meu chapo rolou na +lama. E ambos murmuravamos, commovidos, entrando a grade: + +--Ha sete annos!... + +--Ha sete annos!... + +E, todavia, nada mudra durante esses sete annos no jardim do 202! Ainda +entre as duas aleas bem areadas se arredondava uma relva, mais lisa e +varrida que a l d'um tapete. No meio o vaso corinthico esperava Abril +para resplandecer com tulipas e depois Junho para transbordar de +margaridas. E ao lado das escadas limiares, que uma vidraaria toldava, +as duas magras Deusas de pedra, do tempo de D. Galio, sustentavam as +antigas lampadas de globos foscos, onde j silvava o gaz. + +Mas dentro, no peristillo, logo me surprehendeu um elevador installado +por Jacintho--apesar do 202 ter smente dois andares, e ligados por uma +escadaria to doce que nunca offendra a asthma da snr.^a D. Angelina! +Espaoso, tapetado, elle offerecia, para aquella jornada de sete +segundos, confortos numerosos, um divan, uma pelle d'urso, um roteiro +das ruas de Paris, prateleiras gradeadas com charutos e livros. Na +antecamara, onde desembarcamos, encontrei a temperatura macia e tepida +d'uma tarde de Maio, em Guies. Um creado, mais attento ao thermometro +que um piloto agulha, regulava destramente a bocca dourada do +calorifero. E perfumadores entre palmeiras, como n'um terrasso santo de +Benares, esparziam um vapor, aromatisando e salutarmente humedecendo +aquelle ar delicado e superfino. + +Eu murmurei, nas profundidades do meu assombrado sr: + +--Eis a civilisao! + +Jacintho empurrou uma porta, penetramos n'uma nave cheia de magestade e +sombra, onde reconheci a Bibliotheca por tropear n'uma pilha monstruosa +de livros novos. O meu amigo roou de leve o dedo na parede: e uma cora +de lumes electricos, refulgindo entre os lavores do tecto, alumiou as +estantes monumentaes, todas d'ebano. N'ellas repousavam mais de trinta +mil volumes, encadernados em branco, em escarlate, em negro, com +retoques d'ouro, hirtos na sua pompa e na sua auctoridade como doutores +n'um concilio. + +No contive a minha admirao: + +--Oh Jacintho! Que deposito! + +Elle murmurou, n'um sorriso descorado: + +--Ha que lr, ha que lr... + +Reparei ento que o meu amigo emmagrecera: e que o nariz se lhe afilra +mais entre duas rugas muito fundas, como as d'um comediante canado. Os +anneis do seu cabello lanigero rareavam sobre a testa, que perdera a +antiga serenidade de marmore bem polido. No frisava agora o bigode +murcho, cahido em fios pensativos. Tambem notei que corcovava. + +Elle ergura uma tapearia--entramos no seu gabinete de trabalho, que me +inquietou. Sobre a espessura dos tapetes sombrios os nossos passos +perderam logo o som, e como a realidade. O damasco das paredes, os +divans, as madeiras, eram verdes, d'um verde profundo de folha de louro. +Sdas verdes envolviam as luzes electricas, dispersas em lampadas to +baixas que lembravam estrellas cahidas por cima das mesas, acabando de +arrefecer e morrer: s uma rebrilhava, na e clara, no alto d'uma +estante quadrada, esguia, solitaria como uma torre n'uma planicie, e de +que o lume parecia ser o pharol melancolico. Um biombo de laca verde, +fresco verde de relva, resguardava a chamin de marmore verde, verde de +mar sombrio, onde esmoreciam as brazas d'uma lenha aromatica. E entre +aquelles verdes reluzia, por sobre peanhas e pedestaes, toda uma +Mechanica sumptuosa, apparelhos, laminas, rodas, tubos, engrenagens, +hastes, friezas, rigidezas de metaes... + +Mas Jacintho batia nas almofadas do divan, onde se enterrra com um modo +canado que eu no lhe conhecia: + +--Para aqui, Z Fernandes, para aqui! necessario reatarmos estas +nossas vidas, to apartadas ha sete annos!... Em Guies, sete annos! Que +fizeste tu? + +--E tu, que tens feito, Jacintho? + +O meu amigo encolheu mollemente os hombros. Vivra--cumprira com +serenidade todas as funces, as que pertencem materia e as que +pertencem ao espirito... + +--E accumulaste civilisao, Jacintho! Santo Deus... Est tremendo, o +202! + +Elle espalhou em torno um olhar onde j no faiscava a antiga +vivacidade: + +--Sim, ha confortos... Mas falta muito! A humanidade ainda est mal +apetrechada, Z Fernandes... E a vida conserva resistencias. + +Subitamente, a um canto, repicou a campainha do telephone. E emquanto o +meu amigo, curvado sobre a placa, murmurava impaciente _Est l?--Est +l?_, examinei curiosamente, sobre a sua immensa mesa de trabalho, uma +estranha e miuda legio de instrumentosinhos de nickel, d'ao, de cobre, +de ferro, com gumes, com argolas, com tenazes, com ganchos, com dentes, +expressivos todos, de utilidades misteriosas. Tomei um que tentei +manejar--e logo uma ponta malevola me picou um dedo. N'esse instante +rompeu d'outro canto um tic-tic-tic aodado, quasi ancioso. Jacintho +acudiu, com a face no telephone: + +--V ahi o telegrapho!... Ao p do divan. Uma tira de papel que deve +estar a correr. + +E, com effeito, d'uma redma de vidro posta n'uma columna, e contendo um +apparelho esperto e diligente, escorria para o tapete, como uma tenia, a +longa tira de papel com caracteres impressos, que eu, homem das serras, +apanhei, maravilhado. A linha, traada em azul, annunciava ao meu amigo +Jacintho que a fragata russa _Azoff_ entrra em Marselha com avaria! + +J elle abandonra o telephone. Desejei saber, inquieto, se o +prejudicava directamente aquella avaria da _Azoff_. + +--Da _Azoff_?... A avaria? A mim?... No! uma noticia. + +Depois, consultando um relogio monumental que, ao fundo da Bibliotheca, +marcava a hora de todas as Capitaes e o curso de todos os Planetas: + +--Eu preciso escrever uma carta, seis linhas... Tu esperas, no, Z +Fernandes? Tens ahi os jornaes de Paris, da noite; e os de Londres, +d'esta manh. As Illustraes alm, n'aquella pasta de couro com +ferragens. + +Mas eu preferi inventariar o gabinete, que dava minha profanidade +serrana todos os gostos d'uma iniciao. Aos lados da cadeira de +Jacintho pendiam gordos tubos acusticos, por onde elle decerto soprava +as suas ordens atravs do 202. Dos ps da mesa cordes tumidos e molles, +colleando sobre o tapete, corriam para os recantos de sombra maneira +de cobras assustadas. Sobre uma banquinha, e reflectida no seu verniz +como na agua d'um poo, pousava uma Machina-de-escrever: e adiante era +uma immensa Machina-de-calcular, com fileiras de buracos d'onde +espreitavam, esperando, numeros rigidos e de ferro. Depois parei em +frente da estante que me preoccupava, assim solitaria, maneira d'uma +torre n'uma planicie, com o seu alto pharol. Toda uma das suas faces +estava repleta de Diccionarios; a outra de Manuaes; a outra de Atlas; a +ultima de Guias, e entre elles, abrindo um folio, encontrei o Guia das +ruas de Samarkande. Que macissa torre de informao! Sobre prateleiras +admirei apparelhos que no comprehendia:--um composto de laminas de +gelatina, onde desmaiavam, meio-chupadas, as linhas d'uma carta, talvez +amorosa; outro, que erguia sobre um pobre livro brochado, como para o +decepar, um cutello funesto; outro avanando a bocca d'uma tuba, toda +aberta para as vozes do invisivel. Cingidos aos umbraes, liados s +cimalhas, luziam arames, que fugiam atravs do tecto, para o espao. +Todos mergulhavam em foras universaes, todos transmittiam foras +universaes. A Natureza convergia disciplinada ao servio do meu amigo e +entrra na sua domesticidade!... + +Jacintho atirou uma exclamao impaciente: + +--Oh, estas pennas electricas!... Que secca! + +Amarrotra com colera a carta comeada--eu escapei, respirando, para a +Bibliotheca. Que magestoso armazem dos productos do Raciocinio e da +Imaginao! Alli jaziam mais de trinta mil volumes, e todos decerto +essenciaes a uma cultura humana. Logo entrada notei, em ouro n'uma +lombada verde, o nome de Adam Smith. Era pois a regio dos Economistas. +Avancei--e percorri, espantado, oito metros de Economia Politica. Depois +avistei os Philosophos e os seus commentadores, que revestiam toda uma +parede, desde as esclas Pre-socraticas at s esclas Neo-pessimistas. +N'aquellas pranchas se acastellavam mais de dois mil systemas--e que +todos se contradiziam. Pelas encadernaes logo se deduziam as +doutrinas: Hobbes, em baixo, era pesado, de couro negro; Plato, em +cima, resplandecia, n'uma pellica pura e alva. Para diante comeavam as +Historias Universaes. Mas ahi uma immensa pilha de livros brochados, +cheirando a tinta nova e a documentos novos, subia contra a estante, +como fresca terra d'alluvio tapando uma riba secular. Contornei essa +collina, mergulhei na seco das Sciencias Naturaes, peregrinando, n'um +assombro crescente, da Orographia para a Paleontologia, e da Morphologia +para a Crystallographia. Essa estante rematava junto d'uma janella +rasgada sobre os Campos Elyseos. Apartei as cortinas de velludo--e por +traz descobri outra portentosa rima de volumes, todos de Historia +Religiosa, de Exegese Religiosa, que trepavam montanhosamente at aos +ultimos vidros, vedando, nas manhs mais candidas, o ar e a luz do +Senhor. + +Mas depois rebrilhava, em marroquins claros, a estante amavel dos +Poetas. Como um repouso para o espirito esfalfado de todo aquelle saber +positivo, Jacintho aconchegra ahi um recanto, com um divan e uma mesa +de limoeiro, mais lustrosa que um fino esmalte, coberta de charutos, de +cigarros d'Oriente, de tabaqueiras do seculo XVIII. Sobre um cofre de +madeira lisa pousava ainda, esquecido, um prato de damascos seccos do +Japo. Cedi seduco das almofadas; trinquei um damasco, abri um +volume; e senti estranhamente, ao lado, um zumbido, como de um insecto +de azas harmoniosas. Sorri ida que fossem abelhas, compondo o seu mel +n'aquelle massio de versos em flr. Depois percebi que o susurro remoto +e dormente vinha do cofre de mogne, de parecer to discreto. Arredei uma +_Gazeta de Frana_; e descornitei um cordo que emergia de um orificio, +escavado no cofre, e rematava n'um funil de marfim. Com curiosidade, +encostei o funil a esta minha confiada orelha, afeita singeleza dos +rumores da serra. E logo uma Voz, muito mansa, mas muito dicidida, +aproveitando a minha curiosidade para me invadir e se apoderar do meu +entendimento, susurrou capciosamente: + +--...E assim, pela disposio dos cubos diabolicos, eu chego a +verificar os espaos hypermagicos!... + +Pulei, com um berro. + +--Oh Jacintho, aqui ha um homem! Est aqui um homem a fallar dentro +d'uma caixa! + +O meu camarada, habituado aos prodigios, no se alvoroou: + +-- o Conferenophone... Exactamente como o Theatrophone; smente +applicado s esclas e s conferencias. Muito commodo!... Que diz o +homem, Z Fernandes? + +Eu considerava o cofre, ainda esgazeado: + +--Eu sei! Cubos diabolicos, espaos magicos, toda a sorte de horrores... + +Senti dentro o sorriso superior de Jacintho: + +--Ah, o coronel Dorchas... Lies de Metaphysica Positiva sobre a +Quarta Dimenso... Conjecturas, uma massada! Ouve l, tu hoje jantas +commigo e com uns amigos, Z Fernandes? + +--No, Jacintho... Estou ainda enfardelado pelo alfaiate da serra! + +E voltei ao gabinete mostrar ao meu camarada o jaqueto de flanella +grossa, a gravata de pintinhas escarlates, com que ao domingo, em +Guies, visitava o Senhor. Mas Jacintho affirmou que esta simplicidade +montesina interessaria os seus convidados, que eram dois artistas... +Quem? O auctor do _Corao Triplo_, um Psychologo Feminista, d'agudeza +transcendente, Mestre muito experimentado e muito consultado em +Sciencias Sentimentaes; e Vorcan, um pintor mythico, que interpretra +ethereamente, havia um anno, a symbolia rapsodica do cerco de Troia, +n'uma vasta composio, _Helena Devastadora_... + +Eu coava a barba: + +--No, Jacintho, no... Eu venho de Guies, das serras; preciso entrar +em toda esta civilisaco, lentamente, com cautella, seno rebento. Logo +na mesma tarde a electricidade, e o conferenophone, e os espaos +hypermagicos e o feminista, e o ethereo, e a symbolia devastadora, +excessivo! Volto manh. + +Jacintho dobrava vagarosamente a sua carta, onde mettera sem rebuo +(como convinha nossa fraternidade) duas violetas brancas tiradas do +ramo que lhe floria o peito. + +--manh, Z Fernandes, tu vens antes d'almoo, com as tuas malas dentro +d'um fiacre, para te installares no 202, no teu quarto. No Hotel so +embaraos, privaes. Aqui tens o telephone, o teatrophone, livros... + +Acceitei logo, com simplicidade. E Jacintho, embocando um tubo acustico, +murmurou: + +--Grillo! + +Da parede, recoberta de damasco, que subitamente e sem rumor se fendeu, +surdio o seu velho escudeiro (aquelle moleque que viera com _D. +Gallio_), que eu me alegrei de encontrar to rijo, mais negro, +reluzente e veneravel na sua tesa gravata, no seu collete branco de +botes de ouro. Elle tambem estimou vr de novo o si Fernandes. E, +quando soube que eu occuparia o quarto do av Jacintho, teve um claro +sorriso de preto, em que envolveu o seu senhor, no contentamento de o +sentir emfim reprovido d'uma familia. + +--Grillo, dizia Jacintho, esta carta a Madame de Oriol... Escuta! +Telephona para casa dos Trves que os espiritistas s esto livres no +domingo... Escuta! Eu tomo uma douche antes de jantar, tepida, a 17. +Frico com malva-rosa. + +E cahindo pesadamente para cima do divan, com um bocejo arrastado e +vago: + +--Pois verdade, meu Z Fernandes, aqui estamos, como ha sete annos, +n'este velho Paris... + +Mas eu no me arredava da mesa, no desejo de completar a minha +iniciao: + +--Oh Jacintho, para que servem todos estes instrumentosinhos? Houve j +ahi um desavergonhado que me picou. Parecem perversos... So uteis? + +Jacintho esboou, com languidez, um gesto que os +sublimava.--Providenciaes, meu filho, absolutamente providenciaes, pela +simplificao que do ao trabalho! Assim... E apontou. Este arrancava as +pennas velhas; o outro numerava rapidamente as paginas d'um manuscripto; +aquell'outro, alm, raspava emendas... E ainda os havia para collar +estampilhas, imprimir datas, derreter lacres, cintar documentos... + +--Mas com effeito, accrescentou, uma scca. Com as molas, com os +bicos, s vezes magoam, ferem... J me succedeu inutilisar cartas por as +ter sujado com dedadas de sangue. uma massada! + +Ento, como o meu amigo espreitra novamente o relogio monumental, no +lhe quiz retardar a consolao da douche e da malva-rosa. + +--Bem, Jacintho, j te revi, j me contentei... Agora at manh, com as +malas. + +--Que diabo, Z Fernandes, espera um momento... Vamos pela sala de +jantar. Talvez te tentes! + +E, atravs da Bibliotheca, penetramos na sala de jantar,--que me +encantou pelo seu luxo sereno e fresco. Uma madeira branca, laccada, +mais lustrosa e macia que setim, revestia as paredes, encaixilhando +medalhes de damasco cr de morango, de morango muito maduro e esmagado: +os aparadores, discretamente lavrados em flores e rocalhas, +resplandeciam com a mesma lacca nevada: e damascos amorangados estofavam +tambem as cadeiras, brancas, muito amplas, feitas para a lentido de +gulas delicadas, de gulas intellectuaes. + +--Viva o meu Principe! Sim senhor... Eis aqui um comedoiro muito +comprehensivel e muito repousante, Jacintho! + +--Ento janta, homem! + +Mas j eu me comeava a inquietar, reparando que a cada talher +correspondiam seis garfos, e todos de feitios astuciosos. E mais me +impressionei quando Jacintho me desvendou que um era para as ostras, +outro para o peixe, outro para as carnes, outro para os legumes, outro +para as fructas, outro para o queijo! Simultaneamente, com uma +sobriedade que louvaria Salomo, s dois copos, para dois vinhos:--um +Bordeus rosado em infusas de crystal, e Champagne gelando dentro de +baldes de prata. Todo um aparador porm vergava, sob o luxo redundante, +quasi assustador d'aguas--aguas oxigenadas, aguas carbonatadas, aguas +phosphatadas, aguas esterilisadas, aguas de saes, outras ainda, em +garrafas bojudas, com tratados therapeuticos impressos em rotulos. + +--Santissimo nome de Deus, Jacintho! Ento s ainda o mesmo tremendo +bebedor d'agua, hein?... _Un aquatico_! como dizia o nosso poeta +chileno, que andava a traduzir Klopstock. + +Elle derramou, por sobre toda aquella garrafaria encarapuada em metal, +um olhar desconsolado: + +--No... por causa das aguas da Cidade, contaminadas, atulhadas de +microbios... Mas ainda no encontrei uma ba agua que me convenha, que +me satisfaa... At soffro sde. + +Desejei ento conhecer o jantar do Psychologo e do Symbolista--traado, +ao lado dos talheres, em tinta vermelha, sobre laminas de marfim. +Comeava honradamente por ostras classicas, de Marennes. Depois +apparecia uma sopa d'alcachofras e ovas de carpa... + +-- bom? + +Jacintho encolheu desinteressadamente os hombros: + +--Sim... Eu no tenho nunca appetite, j ha tempos... J ha annos. + +Do outro prato s comprehendi que continha frangos e tubaras. Depois +saboreariam aquelles senhores um filete de veado, macerado em Xerez, com +gela de noz. E por sobremeza simplesmente laranjas geladas em ether. + +--Em ether, Jacintho? + +O meu amigo hesitou, esboou com os dedos a ondulao d'um aroma que +s'evola. + +-- novo... Parece que o ether desenvolve, faz afflorar a alma das +fructas... + +Curvei a cabea ignara, murmurei nas minhas profundidades: + +--Eis a Civilisao! + +E, descendo os Campos Elyseos, encolhido no paletot, a cogitar n'este +prato symbolico, considerava a rudeza e atolado atrazo da minha Guies, +onde desde seculos a alma das laranjas permanece ignorada e +desaproveitada dentro dos gomos sumarentos, por todos aquelles pomares +que ensombram e perfumam o valle, da Roqueirinha a Sandofim! Agora +porm, bemdito Deus, na convivencia de um to grande iniciado como +Jacintho, eu comprehenderia todas as finuras e todos os poderes da +Civilisao. + +E, (melhor ainda para a minha ternura!) contemplaria a raridade d'um +homem que, concebendo uma ida da Vida, a realisa--e atravs d'ella e +por ella recolhe a felicidade perfeita. + +Bem se affirmra este Jacintho, na verdade, como Principe da +Gran-Ventura! + + + + +III + + +No 202, todas as manhs, s nove horas, depois do meu chocolate e ainda +em chinelas, penetrava no quarto de Jacintho. Encontrava o meu amigo +banhado, barbeado, friccionado, envolto n'um roupo branco de pello de +cabra do Thibet, diante da sua mesa de toilette, toda de crystal, (por +causa dos microbios) e atulhada com esses utensilios de tartaruga, +marfim, prata, ao e madreperola que o homem do seculo XIX necessita +para no desfeiar o conjuncto sumptuario da Civilisao e manter n'ella +o seu Typo. As escovas sobretudo renovavam, cada dia, o meu regalo e o +meu espanto--porque as havia largas como a roda massia d'um carro +sabino; estreitas e mais recurvas que o alfange d'um mouro; concavas, em +frma de telha alde; ponteagudas em feitio de folha de hera; rijas que +nem cerdas de javali; macias que nem pennugem de rla! De todas, +fielmente, como amo que no desdenha nenhum servo, se utilisava o meu +Jacintho. E assim, em face ao espelho emmoldurado de folhedos de prata, +permanecia este Principe passando pellos sobre o seu pello durante +quatorze minutos. + +No emtanto o Grillo e outro escudeiro, por traz dos biombos de Kioto, de +sedas lavradas, manobravam, com pericia e vigor, os apparelhos do +lavatorio--que era apenas um resumo das machinas monumentaes da Sala de +Banho, a mais estremada maravilha do 202. N'estes marmores simplificados +existiam unicamente dois jactos graduados desde _zero_ at _cem_; as +duas duchas, fina e grossa, para a cabea; a fonte esterilisada para os +dentes; o repuxo borbulhante para a barba; e ainda botes discretos, +que, roados, desencadeavam esguichos, cascatas cantantes, ou um leve +orvalho estival. D'esse recanto temeroso, onde delgados tubos mantinham +em disciplina e servido tantas aguas ferventes, tantas aguas violentas, +sahia emfim o meu Jacintho enxugando as mos a uma toalha de felpo, a +uma toalha de linho, a outra de corda entranada para restabelecer a +circulao, a outra de sda frouxa para repolir a pelle. Depois d'este +rito derradeiro que lhe arrancava ora um suspiro, ora um bocejo, +Jacintho, estendido n'um divan, folheava uma Agenda, onde se arrolavam, +inscriptas pelo Grillo ou por elle, as occupaes do seu dia, to +numerosas por vezes que cobriam duas laudas. + +Todas ellas se prendiam sua sociabilidade, sua civilisao muito +complexa, ou a interesses que o meu Principe, n'esses sete annos, crera +para viver em mais consciente communho com todas as funces da Cidade. +(Jacintho com effeito era presidente do Club da _Espada e Alvo_; +commanditario do Jornal o _Boulevard_; director da _Companhia dos +Telephones de Constantinopla_; socio dos _Bazares unidos da Arte +Espiritualista_; membro do _Comit de Iniciao das Religies +Esotericas_, etc.) Nenhuma d'estas occupaes parecia porm aprazivel ao +meu amigo--porque, apesar da mansido e harmonia dos seus modos, +frequentemente arremessava para o tapete, n'uma rebellio de homem +livre, aquella Agenda que o escravisava. E n'uma d'essas manhs (de +vento e neve), apanhando eu o livro oppressivo, encadernado em pellica, +de um carinhoso tom de rosa murcha--descobri que o meu Jacintho devia +depois do almoo fazer uma visita na rua da Universidade, outra no +Parque Monceau, outra entre os arvoredos remotos da Muette; assistir por +fidelidade a uma votao no Club; acompanhar Madame d'Oriol a uma +exposio de leques; escolher um presente de noivado para a sobrinha dos +Trves; comparecer no funeral do velho conde de Malville; presidir um +tribunal de honra n'uma questo de roubalheira, entre cavalheiros, ao +ecart... E ainda se acavallavam outras indicaes, escrivinhadas por +Jacintho a lapis:--Carroceiro--Five-oclock dos Ephrains--A pequena das +_Variedades_--Levar a nota ao jornal... Considerei o meu Principe. +Estirado no divan, d'olhos miserrimamente cerrados, bocejava, n'um +bocejo immenso e mudo. + +Mas os affazeres de Jacintho comeavam logo no 202, cedo, depois do +banho. Desde as oito horas a campainha do telephone repicava por elle, +com impaciencia, quasi com colera, como por um escravo tardio. E mal +enxugado, dentro do seu roupo de pello de cabra do Thibet ou de grossas +pyjamas de pelucia cr d'ouro-velho, constantemente sahia ao corredor a +cochichar com sujeitos to apressados, que conservavam na mo o +guarda-chuva pingando sobre o tapete. Um d'esses, sempre presente (e que +pertencia decerto aos _Telephones de Constantinopla_), era +temeroso--todo elle chupado, tisnado, com maus dentes, sobraando uma +enorme pasta sebenta, e dardejando, d'entre a alta gola d'uma pelissa +poida, como da abertura d'um covil, dous olhinhos trvos e de rapina. +Sem cessar, inexoravelmente, um escudeiro apparecia, com bilhetes n'uma +salva... Depois eram fornecedores d'Industria e d'Arte; negociantes de +cavallos, rubicundos e de paletot branco; inventores com grossos rolos +de papel; alfarrabistas trazendo na algibeira uma edio unica, quasi +inverosimil, de Ulrich Zell ou do _Lapidanus_. Jacintho circulava +estonteado pelo 202, rabiscando a carteira, repicando o telephone, +desatando nervosamente pacotes, sacudindo ao passar algum embuscado que +surdia das sombras da antecamara, estendia como um trabuco o seu +memorial ou o seu catalogo! + +Ao meio dia, um tam-tam argentino e melancholico ressoava, chamando ao +almoo. Com o _Figaro_ ou as _Novidades_ abertas sobre o prato, eu +esperava sempre meia hora pelo meu Principe, que entrava n'uma rajada, +consultando o relogio, exhalando com a face moda o seu queixume eterno: + +--Que massada! E depois uma noite abominavel, enrodilhada em sonhos... +Tomei sulforal, chamei o Grillo para me esfregar com therebentina... Uma +scca! + +Espalhava pela mesa um olhar j farto. Nenhum prato, por mais engenhoso, +o seduzia;--e, como atravs do seu tumulto matinal fumava incontaveis +cigarretes que o resequiam, comeava por se encharcar com um immenso +copo d'agua oxygenada, ou carbonatada, ou gazoza, misturada d'um cognac +raro, muito caro, horrendamente adocicado, de moscatel de Syracusa. +Depois, pressa, sem gosto, com a ponta incerta do garfo, picava aqui e +alm uma lasca de fiambre, uma febra de lagosta;--e reclamava +impacientemente o caf, um caf de Moka, mandado cada mez por um feitor +do Dedjah, fervido turca, muito espesso, que elle remexia com um pau +de canella! + +--E tu, Z Fernandes, que vaes tu fazer? + +--Eu? + +Recostado na cadeira, com delicias, os dedos mettidos nas cavas do +collete: + +--Vou vadiar, regaladamente, como um co natural! + +O meu sollicito amigo, remexendo o caf com o pau de canella, rebuscava +atravs da numerosa Civilisao da Cidade uma occupao que me +encantasse. Mas apenas suggeria uma Exposio, ou uma Conferencia, ou +monumentos, ou passeios, logo encolhia os hombros desconsolados: + +--Por fim nem vale a pena, uma scca! + +Accendia outra das cigarretes russas, onde rebrilhava o seu nome, +impresso a ouro na mortalha. Torcendo, n'uma pressa nervosa, os fios do +bigode, ainda escutava, porta da Bibliotheca, o seu procurador, o +nedio e magestoso Laporte. E emfim, seguido d'um criado, que sobraava +um mao tremendo de jornaes para lhe abastecer o coup, o Principe da +Gran-Ventura mergulhava na Cidade. + + * * * * * + +Quando o dia social de Jacintho se apresentava mais desafogado, e o co +de Maro nos concedia caridosamente um pouco de azul agoado, sahiamos +depois d'almoo, a p, atravs de Paris. Estes lentos e errantes +passeios eram outr'ora, na nossa edade de Estudantes, um gozo muito +querido de Jacintho--porque n'elles mais intensamente e mais +minuciosamente saboreava a Cidade. Agora porm, apesar da minha +companhia, s lhe davam uma impaciencia e uma fadiga que desoladoramente +destoava do antigo, illuminado extasi. Com espanto (mesmo com dr, +porque sou bom, e sempre me entristece o desmoronar d'uma crena) +descobri eu, na primeira tarde em que descemos aos Boulevards, que o +denso formigueiro humano sobre o asphalto, e a torrente sombria dos +trens sobre o macadam, affligiam o meu amigo pela brutalidade da sua +pressa, do seu egoismo, e do seu estridor. Encostado e como refugiado no +meu brao, este Jacintho novo comeou a lamentar que as ruas, na nossa +Civilisao, no fossem caladas de gutta-percha! E a gutta-percha +claramente representava, para o meu amigo, a substancia discreta que +amortece o choque e a rudeza das cousas. Oh maravilha! Jacintho querendo +borracha, a borracha isoladora, entre a sua sensibilidade e as funces +da Cidade! Depois, nem me permittiu pasmar diante d'aquellas dourejadas +e espelhadas lojas que elle outr'ora considerava como os preciosos +museus do seculo XIX... + +--No vale a pena, Z Fernandes. Ha uma immensa pobreza e seccura +d'inveno! Sempre os mesmos flores Luiz XV, sempre as mesmas +pelucias... No vale a pena! + +Eu arregalava os olhos para este transformado Jacintho. E sobretudo me +impressionava o seu horror pela Multido--por certos effeitos da +Multido, s para elle sensiveis, e a que chamava os sulcos. + +--Tu no os sentes, Z Fernandes. Vens das serras... Pois constituem o +rijo inconveniente das Cidades, estes sulcos! um perfume muito agudo e +petulante que uma mulher larga ao passar, e se installa no olfacto, e +estraga para todo o dia o ar respiravel. um dito que se surprehende +n'um grupo, que revela um mundo de velhacaria, ou de pedantismo, ou de +estupidez, e que nos fica collado alma, como um salpico, lembrando a +immensidade da lama a atravessar. Ou ento, meu filho, uma figura +intoleravel pela preteno, ou pelo mau-gosto, ou pela impertinencia, ou +pela rellice, ou pela dureza, e de que se no pde sacudir mais a viso +repulsiva... Um pavor, estes sulcos, Z Fernandes! De resto, que diabo, +so as pequeninas miserias d'uma Civilisao deliciosa! + +Tudo isto era especioso, talvez pueril--mas para mim revelava, n'aquelle +chamejante devoto da Cidade, o arrefecimento da devoo. N'essa mesma +tarde, se bem recordo, sob uma luz macia e fina, penetramos nos centros +de Paris, nas ruas longas, nas milhas de casario, todo de calia parda, +erriado de chamins de lata negra, com as janellas sempre fechadas, as +cortininhas sempre corridas, abafando, escondendo a vida. S tijolo, s +ferro, s argamassa, s estuque: linhas hirtas, angulos asperos: tudo +secco, tudo rigido. E dos chos aos telhados, por toda a fachada, +tapando as varandas, comendo os muros, Taboletas, Taboletas... + +--Oh, este Paris, Jacintho, este teu Paris! Que enorme, que grosseiro +bazar! + +E, mais para sondar o meu Principe do que por persuaso, insisti na +fealdade e tristeza d'estes predios, duros armazens, cujos andares so +prateleiras onde se apilha humanidade! E uma humanidade impiedosamente +catalogada e arrumada! A mais vistosa e de luxo nas prateleiras baixas, +bem envernisadas. A relles e de trabalho nos altos, nos desvos, sobre +pranchas de pinho n, entre o p e a traa... + +Jacintho murmurou, com a face arripiada: + +-- feio, muito feio! + +E accudiu logo, sacudindo no ar a luva de anta: + +--Mas que maravilhoso organismo, Z Fernandes! Que solidez! Que +produco! + +Onde Jacintho me parecia mais renegado era na sua antiga e quasi +religiosa affeio pelo Bosque de Bolonha. Quando moo, elle construira +sobre o Bosque theorias complicadas e consideraveis. E sustentava, com +olhos rutilantes de fanatico, que no Bosque a Cidade cada tarde ia +retemperar salutarmente a sua fora, recebendo, pela presena das suas +Duquezas, das suas Cortezs, dos seus Politicos, dos seus Financeiros, +dos seus Generaes, dos seus Academicos, dos seus Artistas, dos seus +Clubistas, dos seus Judeus, a certeza consoladora de que todo o seu +pessoal se mantinha em numero, em vitalidade, em funco, e que nenhum +elemento da sua grandeza desapparecera ou deperecera! Ir ao Bois +constituia ento para o meu Principe um acto de consciencia. E voltava +sempre confirmando com orgulho que a Cidade possuia todos os seus +astros, garantindo a eternidade da sua luz! + +Agora, porm, era sem fervor, arrastadamente, que elle me levava ao +Bosque, onde eu, aproveitando a clemencia d'Abril, tentava enganar a +minha saudade d'arvoredos. Emquanto subiamos, ao trote nobre das suas +egoas lustrosas, a Avenida dos Campos-Elyseos e a do Bosque, +rejuvenescidas pelas relvas tenras e fresco verdejar dos rebentos, +Jacintho, soprando o fumo da cigarrete pelas vidraas abertas do coup, +permanecia o bom camarada, de veia amavel, com quem era doce philosophar +atravs de Paris. Mas logo que passavamos as grades douradas do Bosque, +e penetravamos na Avenida das Acacias, e enfiavamos na lenta fila dos +trens de luxo e de praa, sob o silencio decoroso, apenas cortado pelo +tilintar dos freios e pelas rodas vagarosas esmagando a areia,--o meu +Principe emmudecia, mollemente engilhado no fundo das almofadas, d'onde +s despegava a face para escancarar bocejos de fartura. Pelo antigo +habito de verificar a presena confortadora do pessoal, dos astros, +ainda, por vezes, apontava para algum coup ou vittoria rodando com +rodar rangente n'outra arrastada fila--e murmurava um nome. E assim fui +conhecendo a encaracolada barba hebraica do banqueiro Ephraim; e o longo +nariz patricio de Madame de Trves abrigando um sorriso perenne; e as +bochechas flacidas do poeta neo-platonico Dornan, sempre espapado no +fundo de fiacres; e os longos bands pre-raphaelitas e negros de Madame +Verghane; e o monoculo defumado do director do _Boulevard_; e o +bigodinho vencedor do Duque de Marizac, reinando de cima do seu phaeton +de guerra; e ainda outros sorrisos immoveis, e barbichas Renascena, e +palpebras amortecidas, e olhos farejantes, e pelles empoadas d'arroz, +que eram todas illustres e da intimidade do meu Principe. Mas, do topo +da Avenida das Acacias, recomeavamos a descer, em passo sopeado, +esmagando lentamente a areia; na fila vagarosa que subia, calhambeque +atraz de landau, vittoria atraz de fiacre, fatalmente reviamos o +binoculo sombrio do homem do _Boulevard_, e os bands furiosamente +negros de Madame Verghane, e o ventre espapado do neo-platonico, e a +barba talmudica, e todas aquellas figuras, d'uma immobilidade de cera, +super-conhecidas do meu camarada, recruzadas cada tarde atravs de +revividos annos, sempre com os mesmos sorrisos, sob o mesmo p d'arroz, +na mesma immobilidade de cera; ento Jacintho no se continha, gritava +ao cocheiro: + +--Para casa, depressa! + +E era pela Avenida do Bosque, pelos Campos-Elyseos, uma fuga ardente das +egoas a quem a lentido sopeada, n'um roer de freios, entre outras egoas +tambem d'ellas super-conhecidas, lanavam n'uma exasperao comparavel +de Jacintho. + +Para o sondar eu denegria o Bosque: + +--J no to divertido, perdeu o brilho!... + +Elle acudia, timidamente: + +--No, agradavel, no ha nada mais agradavel; mas... + +E accusava a friagem das tardes ou o despotismo dos seus affazeres. +Recolhiamos ento ao 202, onde, com effeito, em breve embrulhado no seu +roupo branco, diante da mesa de crystal, entre a legio das escovas, +com toda a electricidade refulgindo, o meu Principe se comeava a +adornar para o servio social da noite. + +E foi justamente numa d'essas noites (um sabado) que ns passamos, +n'aquelle quarto to civilisado e protegido, por um d'esses brutos e +revoltos terrores como s os produz a ferocidade dos Elementos. J +tarde, pressa (jantavamos com Marizac no Club para o acompanhar depois +ao _Lohengrin_ na Opera) Jacintho arrocheava o n da gravata +branca--quando no lavatorio, ou porque se rompesse o tubo, ou se +dessoldasse a torneira, o jacto d'agua a ferver rebentou furiosamente, +fumegando e silvando. Uma nevoa densa de vapor quente abafou as +luzes--e, perdidos n'ella, sentiamos, por entre os gritos do escudeiro e +do Grillo, o jorro devastador batendo os muros, esparrinhando uma chuva +que escaldava. Sob os ps o tapete ensopado era uma lama ardente. E como +se todas as foras da natureza, submettidas ao servio de Jacintho, se +agitassem, animadas por aquella rebellio da agua--ouvimos roncos surdos +no interior das paredes, e pelos fios dos lumes electricos sulcaram +faiscas ameaadoras! Eu fugira para o corredor, onde se alargava a nevoa +grossa. Por todo o 202 ia um tumulto de desastre. Diante do porto, +attrahidas pela fumarada que se escapava das janellas, estacionava +policia, uma multido. E na escada esbarrei com um reporter, de chapo +para a nuca, a carteira aberta, gritando sofregamente se havia mortos? + +Domada a agua, clareada a bruma, vim encontrar Jacintho no meio do +quarto, em ceroulas, livido: + +--Oh Z Fernandes, esta nossa industria!... Que impotencia, que +impotencia! Pela segunda vez, este desastre! E agora, apparelhos +perfeitos, um processo novo... + +--E eu encharcado por esse processo novo! E sem outra casaca! + +Em redor, as nobres sdas bordadas, os brocateis Luiz XIII, cobertos de +manchas negras, fumegavam. O meu Principe, enfiado, enchugava uma +photographia de Madame d'Oriol, d'hombros decotados, que o jorro bruto +maculra d'empolas. E eu, com rancor, pensava que na minha Guies a agua +aquecia em seguras panellas--e subia ao meu lavatorio, pela mo forte da +Catharina, em seguras infusas! No jantamos com o duque de Marizac, no +Club. E, na Opera, nem saboreei Lohengrin e a sua branca alma e o seu +branco cysne e as suas brancas armas--entallado, aperreado, cortado nos +sovacos pela casaca que Jacintho me emprestra e que rescendia +estonteadoramente a flores de Nessari. + + * * * * * + +No domingo, muito cedo, o Grillo, que na vspera escaldra as mos e as +trazia embrulhadas em sda, penetrou no meu quarto, descerrou as +cortinas, e beira do leito, com o seu radiante sorriso de preto: + +--Vem no _Figaro_! + +Desdobrou triumphalmente o jornal. Eram, nos _Echos_, doze linhas, onde +as nossas aguas rugiam e espadavam, com tanta magnificencia e tanta +publicidade, que tambem sorr, deleitado. + +--E toda a manh, o telephone, si Fernandes! exclamava o Grillo, +rebrilhando em ebano. A quererem saber, a quererem saber... Est l? +Est escaldado? Paris afflicto, si Fernandes! + +O telephone, com effeito, repicava, insaciavel. E quando desci para o +almoo, a toalha desapparecia sob uma camada de telegrammas, que o meu +Principe fendia com a faca, enrugado, rosnando contra a massada. S +desannuviou, ao ler um d'esses papeis azues, que atirou para cima do meu +prato, com o mesmo sorriso agradado com que de manh sorriramos, o +Grillo e eu: + +-- do Gran-Duque Casimiro... Rato amavel! Coitado! + +Saboreei, atravs dos ovos, o telegramma de S. Alteza. O que! o meu +Jacintho inundado! Muito chic, nos Campos-Elyseos! No volto ao 202 sem +boia de salvao! Compassivo abrao! Casimiro... Murmurei tambem com +deferencia:--Amavel! Coitado! Depois, revolvendo lentamente o monto +de telegrammas que se alastrava at ao meu copo: + +--Oh Jacintho! Quem esta Diana que incessantemente te escreve, te +telephona, te telegrapha, te...? + +--Diana?... Diana de Lorge. uma cocotte. uma grande cocotte! + +--Tua? + +--Minha, minha... No! tenho um bocado. + +E como eu lamentava que o meu Principe, senhor to rico e de to fino +orgulho, por economia d'uma gamella propria chafurdasse com outros n'uma +gamella publica--Jacintho levantou os hombros, com um camaro espetado +no garfo: + +--Tu vens das serras... Uma cidade como Paris, Z Fernandes, precisa ter +cortezs de grande pompa e grande fausto. Ora para montar em Paris, +n'esta tremenda carestia de Paris, uma cocotte com os seus vestidos, os +seus diamantes, os seus cavallos, os seus lacaios, os seus camarotes, as +suas festas, o seu palacete, a sua publicidade, a sua insolencia, +necessario que se aggremiem umas poucas de fortunas, se forme um +syndicato! Somos uns sete, no Club. Eu pago um bocado... Mas meramente +por Civismo, para dotar a cidade com uma cocotte monumental. De resto +no chafurdo. Pobre Diana!... Dos hombros para baixo nem sei se tem a +pelle cr de neve ou cr de limo. + +Arregalei um olho divertido: + +--Dos hombros para baixo?... E para cima? + +--Oh para cima tem p d'arroz!... Mas uma scca! Sempre bilhetes, +sempre telephones, sempre telegrammas. E tres mil francos por mez, alm +das flores... Uma massada! + +E as duas rugas do meu Principe, aos lados do seu afilado nariz, curvado +sobre a salada, eram como dous valles muito tristes, ao entardecer. + +Acabavamos o almoo, quando um escudeiro, muito discretamente, n'um +murmurio, annunciou Madame d'Oriol. Jacintho pousou com tranquillidade o +charuto; eu quasi me engasguei, n'um sorvo alvoroado de caf. Entre os +reposteiros de damasco cr de morango ella appareceu, toda de negro, +d'um negro liso e austero de Semana Santa, lanando com o regalo um +lindo gesto para nos socegar. E immediatamente, n'uma volubilidade +docemente chalrada: + +-- um momento, nem se levantem! Passei, ia para a Magdalena, no me +contive, quiz vr os estragos... Uma inundao em Paris, nos +Campos-Elyseos! No ha seno este Jacintho. E vem no _Figaro!_ O que eu +estava assustada, quando telephonei! Imaginem! Agua a ferver, como no +Vesuvio... Mas d'uma novidade! E os estofos perdidos, naturalmente, os +tapetes... Estou morrendo por admirar as ruinas! + +Jacintho, que no me pareceu commovido, nem agradecido com aquelle +interesse, retomra risonhamente o charuto: + +--Est tudo secco, minha querida senhora, tudo secco! A belleza foi +hontem, quando a agua fumegava e rugia! Ora que pena no ter ao menos +cahido uma parede! + +Mas ella insistia. Nem todos os dias se gozavam em Paris os destroos +d'uma inundao. O _Figaro_ contra... E era uma aventura deliciosa, uma +casa escaldada nos Campos-Elyseos! + +Toda a sua pessoa, desde as plumasinhas que frisavam no chapo at +ponta reluzente das botinas de verniz, se agitava, vibrava, como um ramo +tenro sob o bolio do passaro a chalrar. S o sorriso, por traz do vo +espesso, conservava um brilho immovel. E j no ar se espalhra um aroma, +uma doura, emanadas de toda a sua mobilidade e de toda a sua graa. + +Jacintho no emtanto cedera, alegremente: e pelo corredor Madame d'Oriol +ainda louvava o _Figaro_ amavel, e confessava quanto tremera... Eu +voltei ao meu caf, felicitando mentalmente o Principe da Gran-Ventura +por aquella perfeita flr de Civilisao que lhe perfumava a vida. +Pensei ento na apurada harmonia em que se movia essa flr. E corri +vivamente ante-camara, verificar diante do espelho o meu penteado e o +n da minha gravata. Depois recolhi sala de jantar, e junto da +janella, folheando languidamente a _Revista do Seculo XIX_, tomei uma +attitude de elegancia e d'alta cultura. Quasi immediatamente elles +reappareceram: e Madame d'Oriol, que, sempre sorrindo, se proclamava +espoliada, nada encontrra que recordasse as agoas furiosas, roou pela +mesa, onde Jacintho procurava, para lhe offerecer, tangerinas de Malta, +ou castanhas geladas, ou um biscouto molhado em vinho de Tokai. + +Ella recusava com as mos guardadas no regalo. No era alta, nem +forte--mas cada prega do vestido, ou curva da capa, cahia e ondulava +harmoniosamente, como perfeies recobrindo perfeies. Sob o vo +cerrado, apenas percebi a brancura da face empoada, e a escurido dos +olhos largos. E com aquellas sdas e velludos negros, e um pouco do +cabello louro, d'um louro quente, torcido fortemente sobre as pelles +negras que lhe orlavam o pescoo, toda ella derramava uma sensao de +macio e de fino. Eu teimosamente a considerava como uma flr de +Civilisao:--e pensava no secular trabalho e na cultura superior que +necessitra o terreno onde ella to delicadamente brotra, j +desabrochada, em pleno perfume, mais graciosa por ser flr d'esforo e +d'estufa, e trazendo nas suas ptalas um no sei qu de desbotado e de +ante-murcho. + +No emtanto, com a sua volubilidade de passaro, chalrando para mim, +chalrando para Jacintho, ella mostrava o seu lindo espanto por aquelle +monto de telegrammas sobre a toalha. + +--Tudo esta manh, por causa da inundao?... Ah, Jacintho hoje o +homem, o unico homem de Paris! Muitas mulheres n'esses telegrammas? + +Languidamente, com o charuto a fumegar, o meu Principe empurrou para a +sua amiga o telegramma do Gran-duque. Ento Madame d'Oriol teve um _ah!_ +muito grave e muito sentido. Releu profundamente o papel de S. A. que os +seus dedos acariciavam com uma reverencia gulosa. E sempre grave, sempre +sria: + +-- brilhante! + +Oh, certamente! n'aquelle desastre tudo se passra com muito brilho, +n'um tom muito Parisiense. E a deliciosa creatura no se podia demorar, +porque fizera marcar um logar na egreja da Magdalena para o sermo! + +Jacintho exclamou com innocencia: + +--Sermo?... j a estao dos sermes? + +Madame d'Oriol teve um movimento de carinhoso escandalo e dr. O qu! +pois nem na austera casa dos Trves dera pela entrada da quaresma? De +resto no se admirava--Jacintho era um turco! E, immediatamente celebrou +o prgador, um frade dominicano, o Pre Granon! Oh d'uma eloquencia! +d'uma violencia! No derradeiro sermo prgara sobre o amor, a +fragilidade dos amores mundanos! E tivera coisas d'uma inspirao, d'uma +brutalidade! Depois que gesto, um gesto terrivel que esmagava, em que se +lhe arregaava toda a manga, mostrando o brao n, um brao soberbo, +muito branco, muito forte! + +O seu sorriso permanecia claro sob o olhar que negrejra dentro do vo +negro. E Jacintho, rindo: + +--Um bom brao de director espiritual, hein? Para vergar, espancar +almas... + +Ella acudiu: + +--No! infelizmente o Pre Granon no confessa! + +E de repente reconsiderou--aceitava um biscouto, um clice de Tokai. Era +necessario um cordial para affrontar as emoes do Pre Granon! Ambos +nos precipitramos, um arrebatando a garrafa, outro offerecendo o prato +de bonbons. Franzio o vo para os olhos, chupou pressa um bolo que +ensopra no Tokai. E como Jacintho, reparando casualmente no chapo que +ella trazia, se curvra com curiosidade, impressionado, Madame d'Oriol +apagou o sorriso, toda seria, ante uma cousa seria: + +--Elegante, no verdade?... uma creao inteiramente nova de Madame +Vial. Muito respeitoso, e muito suggestivo, agora na Quaresma. + +O seu olhar, que me envolvera, tambem me convidava a admirar. Approximei +o meu focinho de homem das serras para contemplar essa creao suprema +do luxo de Quaresma. E era maravilhoso! Sobre o velludo, na sombra das +plumas frizadas, aninhada entre rendas, fixada por um prgo, pousava +delicadamente, feita de azeviche, uma Cora de Espinhos! + +Ambos nos extasiamos. E Madame d'Oriol, n'um movimento e n'um sorriso +que derramou mais aroma e mais claridade, abalou para a Magdalena. + +O meu Principe arrastou pelo tapete alguns passos pensativos e molles. E +bruscamente, levantando os hombros com uma determinao immensa, como se +deslocasse um mundo: + +--Oh Z Fernandes, vamos passar este Domingo n'alguma cousa simples e +natural... + +--Em qu? + +Jacintho circumgirou os olhares muito abertos, como se, atravez da Vida +Universal, procurasse anciosamente uma cousa natural e simples. Depois, +descanando sobre mim os mesmos largos olhos que voltavam de muito +longe, canados e com pouca esperana: + +--Vamos ao Jardim das Plantas, vr a girafa! + + + + +IV + + +N'essa fecunda semana, uma noite, recolhiamos ambos da Opera, quando +Jacintho, bocejando, me annunciou uma festa no 202. + +--Uma festa?... + +--Por causa do Gran-Duque, coitado, que me vai mandar um peixe delicioso +e muito raro que se pesca na Dalmacia. Eu queria um almoo curto. O +Gran-Duque reclamou uma ceia. um barbaro, besuntado com litteratura do +seculo XVIII, que ainda acredita em ceias, em Paris! Reuno no domingo +tres ou quatro mulheres, e uns dez homens bem typicos, para o divertir. +Tambem aproveitas. Folheias Paris n'um resumo... Mas uma massada +amarga! + +Sem interesse pela sua festa, Jacintho no se affadigou em a compr com +relevo ou brilho. Encommendou apenas uma orchestra de Tziganes (os +Tziganes, as suas jalecas escarlates, a melancolia aspera das Czardas +ainda n'esses tempos remotos emocionavam Paris): e mandou, na +Bibliotheca, ligar o Theatrophone com a Opera, com a Comedia-Franceza, +com o Alcazar e com os Buffos, prevendo todos os gostos desde o tragico +at ao picaro. Depois no domingo, ao entardecer, ambos visitamos a mesa +da ceia, que resplandecia com as velhas baixellas de D. Galio. E a +faustosa profuso de orchideas, em longas sylvas por sobre a toalha +bordada a sda, enroladas aos fructeiros de Saxe, trasbordando de +crystaes lavrados e filagranados d'ouro, espalhava uma to fina sensao +de luxo e gosto, que eu murmurei:--Caramba, bemdito, seja o dinheiro! +Pela primeira vez, tambem, admirei a copa e a sua installao abundante +e minuciosa--sobretudo os dois ascensores que rolavam das profundidades +da cozinha, um para os peixes e carnes aquecido por tubos d'agua +fervente, o outro para as saladas e gelados revestido de placas +frigorificas. Oh, este 202! + +s nove horas, porm, descendo eu ao gabinete de Jacintho para escrever +a minha boa tia Vicencia, em quanto elle ficra no toucador com o +mancuro que lhe polia as unhas, passamos n'esse delicioso palacio, +florido e em gala, por bem corriqueiro susto! Todos os lumes electricos, +subitamente, em todo o 202, se apagaram! Na minha immensa desconfiana +d'aquellas foras universaes, pulei logo para a porta, tropeando nas +trevas, ganindo um _Aqui d'Elrei_! que tresandava a Guies. Jacintho em +cima berrava, com o mancuro agarrado s pyjamas. E de novo, como serva +ralassa que recolhe arrastando as chinellas, a luz resurgiu com +lentido. Mas o meu Principe, que descera, enfiado, mandou buscar um +engenheiro Companhia Central da Electricidade Domestica. Por precauo +outro creado correu mercearia comprar pacotes de velas. E o Grillo +desenterrava j dos armarios os candelabros abandonados, os pesados +castiaes archaicos dos tempos inscientificos de D. Galio: era uma +reserva de veteranos fortes, para o caso pavoroso em que mais tarde, +ceia, falhassem perfidamente as foras bisonhas da Civilisao. O +Electricista, que acudira esbaforido, afianou porm que a Electricidade +se conservaria fiel, sem outro amuo. Eu, cautelosamente, soneguei na +algibeira dous ctos de estearina. + +A Electricidade permaneceu fiel, sem amuos. E quando desci do meu +quarto, tarde (porque perdera o collete de baile e s depois d'uma busca +furiosa e praguejada o encontrei cahido por traz da cama!), todo o 202 +refulgia, e os Tziganes, na antecamara, sacudindo as guedelhas, atiravam +as arcadas d'uma valsa to arrastadora que, pelas paredes, os immensos +Personagens das tapearias, Priamo, Nestor, o engenhoso Ulysses, +arfavam, boliam com os ps venerandos! + +Timidamente, sem rumor, puxando os punhos, penetrei no gabinete de +Jacintho. E fui logo acolhido pelo sorriso da condessa de Treves, que, +acompanhada pelo illustre historiador Danjon (da Academia Franceza), +percorria maravilhada os Apparelhos, os Instrumentos, toda a sumptuosa +Mechanica do meu super-civilisado Principe. Nunca ella me parecera mais +magestosa do que n'aquellas sdas cr de aafro, com rendas cruzadas no +peito Maria-Antonietta, o cabello crespo e ruivo levantado em rolo +sobre a testa dominadora, e o curvo nariz patricio, abrigando o sorriso +sempre luzidio, sempre corrente, como um arco abriga o correr e o luzir +d'um regato. Direita como n'um solio, a longa luneta de tartaruga +acercada dos olhos miudos e turvamente azulados, ella escutava deante do +Graphophono, depois deante do Microphono, como melodias superiores, os +commentarios que o meu Jacintho ia atabalhoando com uma amabilidade +penosa. E ante cada roda, cada mola, eram pasmos, louvores finamente +torneados, em que attribuia a Jacintho, com astuta candura, todas +aquellas invenes do Saber! Os utensilios misteriosos que atulhavam a +mesa d'ebano foram para ella uma iniciao que a enlevou. Oh, o +numerador de paginas! oh, o collador d'estampilhas! A caricia +demorada dos seus dedos seccos aquecia os metaes. E supplicava os +endereos dos fabricantes para se prover de todas aquellas utilidades +adoraveis! Como a vida, assim apetrechada, se tornava escorregadia e +facil! Mas era necessario o talento, o gosto de Jacintho, para escolher, +para crear! E no s ao meu amigo (que o recebia com resignao) ella +offertava o fino mel. Affagando com o cabo da luneta o Telegrapho, achou +a possibilidade de recordar a eloquencia do Historiador. Mesmo para mim +(de quem ignorava o nome) arranjou junto do Phonographo, e cerca de +vozes d'amigos que doce colleccionar, uma lisonjasinha redondinha e +lustrosa, que eu chupei como um rebuado celeste. Boa casaleira que vae +atirando o gro aos frangos famintos, a cada passo, maternalmente, ella +nutria uma vaidade. Sofrego d'outro rebuado, acompanhei a sua cauda +sussurrante e cr d'aafro. Ella parra deante da Machina-de-contar, de +que Jacintho j lhe fornecera pacientemente uma explicao sapiente. E +de novo roou os buracos d'onde espreitam os numeros negros, e com o seu +enlevado sorriso murmurou:--Prodigiosa, esta prensa electrica!... + +Jacintho accudiu: + +--No! No! Esta ... + +Mas ella sorria, seguia... Madame de Treves no comprehendera nenhum +apparelho do meu Principe! Madame de Treves no attendera a nenhuma +dissertao do meu Principe! N'aquelle gabinete de sumptuosa Mechanica +ella smente se occupra em exercer, com proveito e com perfeio, a +Arte de Agradar. Toda ella era uma sublime falsidade. No escondi a +Danjon a admirao que me penetrava. + +O facundo Academico revirou os olhos bogalhudos: + +--Oh! e um gsto, uma intelligencia, uma seduco!... E depois como se +janta bem em casa d'ella! Que caf!... Mulher superior, meu caro senhor, +verdadeiramente superior! + +Deslisei para a bibliotheca. Logo entrada da erudita nave, junto da +estante dos Padres da Egreja onde alguns cavalheiros conversavam, parei +a saudar o director do _Boulevard_ e o Psychologo-feminista, o auctor do +_Corao Triple_, com quem na vspera me familiarisra ao almoo, no +202. O seu acolhimento foi paternal: e, como se necessitasse a minha +presena, reteve na sua mo illustre, rutilante de anneis, com fora e +com gula, a minha grossa palma serrana. Todos aquelles senhores, com +effeito, celebravam o seu Romance, a _Couraa_, lanado n'essa semana +entre gritinhos de gzo e um quente rumor de saias alvoroadas. Um +sobretudo, com uma vasta cabea arranjada Van Dick e que parecia +postia, proclamava, alado na ponta das botas, que nunca penetrra to +fundamente, na velha alma humana, a ponta da Psychologia Experimental! +Todos concordavam, se apertavam contra o Psychologo, o tratavam por +mestre. Eu mesmo, que nem sequer entrevira a capa amarella da +_Couraa_, mas para quem elle voltava os olhos pedinches e famintos de +mais mel, murmurei com um leve assobio:--uma delicia! + +E o Psychologo, reluzindo, com o labio humido, entalado n'um alto +collarinho onde se enroscava uma gravata 1830, confessava modestamente +que dissecra todas aquellas almas da _Couraa_ com algum cuidado, +sobre documentos, sobre pedaos de vida ainda quentes, ainda a +sangrar... E foi ento que Marizac, o duque de Marizac, notou, com um +sorriso mais afiado que um lampejo de navalha, e sem tirar as mos dos +bolsos: + +--No emtanto, meu caro, n'esse livro to profundamente estudado ha um +erro bem estranho, bem curioso!... + +O Psychologo, vivamente, atirra a cabea para traz: + +--Um erro? + +Oh, sim, um erro! E bem inesperado n'um mestre to experiente!... Era +attribuir esplendida amorosa da _Couraa_, uma duqueza, e do gosto +mais puro,--_um collete de setim preto_! Esse collete, assim preto, de +setim, apparecia na bella pagina de analyse e paixo em que ella se +despia no quarto de Ruy d'Alize. E Marizac, sempre com as mos nos +bolsos, mais grave, appellava para aquelles senhores. Pois era +verosimil, n'uma mulher como a duqueza, esthetica, pre-raphaelitica, que +se vestia no Doucet, no Paquin, nos costureiros intellectuaes, um +collete de setim preto? + +O Psychologo emmudecera, colhido, trespassado! Marizac era uma to +suprema auctoridade sobre a roupa intima das duquezas, que tarde, em +quartos de rapazes, por impulsos idealistas e anceios d'alma +dolorida--se pem em collete e saia branca!... De resto o director do +_Boulevard_ condemnra logo sem piedade, com uma experiencia firme, +aquelle collete, s possivel n'alguma mercieira atrazada que ainda +procurasse effeitos de carne nedia sobre setim negro. E eu, para que me +no julgassem alheio s coisas dos adulterios ducaes e do luxo, acudi, +mettendo os dedos pelo cabello: + +--Realmente, preto, s se estivesse de lucto pesado, pelo pae! + +O pobre mestre da _Couraa_ succumbira. Era a sua gloria de Doutor em +Elegancias-Femininas desmantelada--e Paris suppondo que elle nunca vira +uma duqueza desatacar o collete na sua alcova de Psychologo! Ento, +passando o leno sobre os labios que a angustia ressequira, confessou o +erro, e contrictamente o attribuiu a uma improvisao tumultuosa: + +--Foi um tom falso, um tom perfeitamente falso que me escapou!... Com +effeito! absurdo, um collete preto!... Mesmo por harmonia com o estado +da alma da duqueza devia ser lilaz, talvez cr de reseda muito +desmaiada, com um frouxo de rendas antigas de Malines... prodigioso +como me escapou! Pois tenho o meu caderno de entrevistas bem annotadas, +bem documentadas!... + +Na sua amargura, terminou por supplicar a Marizac que espalhasse por +toda a parte, no Club, nas salas, a sua confisso. Fra um engano de +artista, que trabalha na febre, vasculhando as almas, perdido nas +profundidades negras das almas! No reparra no collete, confundira os +tons... E gritou, com os braos estendidos para o director do +_Boulevard_: + +--Estou prompto a fazer uma rectificao, n'uma _interview_, meu caro +mestre! Mande um dos seus redactores... manh, s dez horas! Fazemos +uma _interview_, fixamos a cr. Evidentemente lilaz... Mande um dos +seus homens, meu caro mestre! tambem uma occasio para eu confessar, +bem alto, os servios que o _Boulevard_ tem feito s sciencias +psychologicas e feministas! + +Assim elle supplicava, encostado estante, s lombadas dos Santos +Padres. E eu abalei, vendo ao fundo da Bibliotheca Jacintho que se +debatia e se recusava entre dous homens. + +Eram os dois homens de Madame de Treves--o marido, conde de Treves, +descendente dos reis de Candia, e o amante, o terrivel banqueiro judeu, +David Ephraim. E to enfronhadamente assaltavam o meu Principe que nem +me reconheceram, ambos n'um aperto de mo molle e vago me trataram por +caro conde! N'um relance, rebuscando charutos sobre a mesa de +limoeiro, comprehendi que se tramava a _Companhia das Esmeraldas da +Birmania_, medonha empreza em que scintillavam milhes, e para que os +dous confederados de bolsa e d'alcva, desde o comeo do anno, pediam o +nome, a influencia, o dinheiro de Jacintho. Elle resistira, n'um enfado +dos negocios, desconfiado d'aquellas esmeraldas soterradas n'um valle da +Asia. E agora o conde de Treves, um homem esgrouviado, de face +rechupada, erriada de barba rala, sob uma fronte rotunda e amarella +como um melo, assegurava ao meu pobre Principe que no Prospecto j +preparado, demonstrando a grandeza do negocio, perpassava um fulgr das +_Mil e Uma noites_. Mas sobretudo aquella excavao de esmeraldas +convidava todo o espirito culto pela sua aco civilisadora. Era uma +corrente de idas occidentaes, invadindo, educando a Birmania. Elle +acceitra a direco por patriotismo... + +--De resto um negocio de joias, de arte, de progresso, que deve ser +feito, n'um mundo superior, entre amigos... + +E do outro lado o terrivel Ephraim, passando a mo curta e gorda sobre a +sua bella barba, mais frisada e negra que a d'um Rei Assyrio, affianava +o triumpho da empreza pelas grossas foras que n'ella entravam, os +Nagayers, os Bolsans, os Saccart... + +Jacintho franzia o nariz, enervado: + +--Mas, ao menos, esto feitos os estudos? J se provou que ha +esmeraldas? + +Tanta ingenuidade exasperou Ephraim: + +--Esmeraldas! Est claro que ha esmeraldas!... Ha sempre esmeraldas +desde que haja accionistas! + +E eu admirava a grandeza d'aquella maxima--quando appareceu, esbaforido, +desdobrando o leno muito perfumado, um dos familiares do 202, Todelle +(Antonio de Todelle), moo j calvo, d'infinitas prendas, que conduzia +Cotillons, imitava cantores de Caf Concerto, temperava saladas raras, +conhecia todos os enredos de Paris. + +--J veio?... J c est o Gran-Duque? + +No, S. Alteza ainda no chegra. E Madame de Todelle? + +--No poude... No soph... Esfolou uma perna. + +--Oh! + +--Quasi nada... Cahiu do velocipede! + +Jacintho, logo interessado: + +--Ah! Madame de Todelle anda j de velocipede? + +--Aprende. Nem tem velocipede!... Agora, na quaresma, que se applicou +mais, no velocipede do padre Ernesto, do cura de S. Jos! Mas hontem, no +Bosque, zs, terra!... Perna esfolada. Aqui. + +E na sua propria cxa, com a unha, vivamente, desenhou o esfolo. +Ephraim, brutal e serio, murmurou:--Diabo! no melhor sitio! Mas +Todelle nem o escutra, correndo para o director do _Boulevard_, que se +avanava, lento e barrigudo, com o seu monoculo negro semelhante a um +pacho. Ambos se collaram contra uma estante, n'um cochichar profundo. + +Jacintho e eu entramos ento no bilhar, forrado de velhos couros de +Cordova, onde se fumava. Ao canto d'um divan, o grande Dornan, o poeta +neo-platonico e mystico, o Mestre subtil de todos os rithmos, espapado +nas almofadas, com um dos ps sob a cxa gorda, como um Deus indio, dois +botes do collete desabotoados, a papeira cahida sobre o largo decote do +collarinho, mamava magestosamente um immenso charuto. Ao p d'elle, +tambm sentado, um velho que eu nunca encontrra no 202, esbelto, de +cabellos brancos em anneis passados por traz das orelhas, a face coberta +de p de arroz, um bigodinho muito negro e arrebitado, findra +certamente alguma historia de bom e grosso sal--porque deante do divan, +de p, Joban, o suprmo Critico de Theatro, ria com a calva escarlate de +gso, e um moo muito ruivo (descendente de Colygny), de perfil de +periquito, sacudia os braos curtos como azas, e gania: delicioso! +divino! S o poeta idealista permanecera impassivel, na sua magestade +obesa. Mas, quando nos acercamos, esse Mestre do rythmo perfeito, depois +de soprar uma farta fumarada e me saudar com um pesado mover das +palpebras, comeou n'uma voz de rico e sonoro metal: + +--Ha melhor, ha infinitamente melhor... Todos aqui conhecem Madame +Noredal. Madame Noredal tem umas immensas nadegas... + +Desgraadamente para o meu regalo Todelle invadiu o bilhar, reclamando +Jacintho com alarido. Eram as senhoras que desejavam ouvir no +Phonographo uma aria da Patti! O meu amigo sacudiu logo os hombros, +n'uma surda irritao: + +--Aria da Patti... Eu sei l! Todos esses rolos esto em confuso. Alm +d'isso o Phonographo trabalha mal. Nem trabalha! Tenho tres. Nenhum +trabalha! + +--Bem! exclamou alegremente Todelle. Canto eu a _Pauvre fille_... mais +de ceia! _Oh, la pauv', pauv', pauv'_... + +Travou do meu brao, e arrastou a minha timidez serrana para o salo cr +de rosa murcha, onde, como Deusas n'um circulo escolhido do Olympo, +resplandeciam Madame d'Oriol, Madame Verghane, a princeza de Carman, o +uma outra loura, com grandes brilhantes nas grandes farripas, e +d'hombros to ns, e braos to ns, e peitos to ns, que o seu vestido +branco com bordados d'ouro pallido parecia uma camisa, a escorregar. +Impressionado, ainda retive Todelle, rugi baixinho:--Quem ? Mas j o +festivo homem correra para Madame d'Oriol, com quem riam, n'uma +familiaridade superior e facil, Marizac (o duque de Marizac) e um moo +de barba cr de milho e mais leve que uma penugem, que se balouava +gracilmente sobre os ps, como uma espiga ao vento. E eu, encalhado +contra o piano, esfregava lentamente as mos, amassando o meu embarao, +quando Madame Verghane se ergueu do soph onde conversava com um velho +(que tinha a Gran-Cruz de Santo Andr), e avanou, deslizou no tapete, +pequena e nedia, na sua copiosa cauda de velludo verde-negro. To fina +era a cinta, entre os encontros fecundos e a vastido do peito, todo n +e cr de nacar, que eu receava que ella partisse pelo meio, no seu lento +ondular. Os seus famosos bands negros, d'um negro furioso, inteiramente +lhe tapavam as orelhas; e, no grande aro d'ouro que os circumdava, +reluzia uma estrella de brilhantes, como na fronte dos anjos de +Boticelli. Conhecendo sem dvida a minha auctoridade no 202, ella +despediu sobre mim ao passar, como raio benefico, um sorriso que lhe +liquescia mais os olhos liquidos, e murmurou: + +--O Gran-Duque vem, com certeza? + +--Oh com certeza, minha senhora, para o peixe! + +--P'ra o peixe?... + +Mas justamente, na antecamara, rompeu, em rufos e arcadas triumphaes, a +marcha de Rakoczy. Era elle! Na Bibliotheca, o nosso retumbante mordomo +annunciava: + +--S. Alteza o Gran-Duque Casimiro! + +Madame de Verghane, com um curto suspiro d'emoo, alteou o peito, como +para lhe expr melhor a magnificencia eburnea. E o homem do _Boulevard_, +o velho da Gran-Cruz, Ephraim, quasi me empurraram, investindo para a +porta, na immensa sofreguido de Pessoa Real. + +Precedido por Jacintho, o Gran-Duque surgiu. Era um possante homem, de +barba em bico, j grisalha, um pouco calvo. Durante um momento hesitou, +com um balano lento sobre os ps pequeninos, calados de sapatos rasos, +quasi sumidos sob as pantalonas muito largas. Depois, pesado e risonho, +veio apertar a mo s senhoras que mergulhavam nos velludos e sdas, em +mesuras de Crte. E immediatamente, batendo com carinhosa jovialidade no +hombro de Jacintho: + +--E o peixe?... Preparado pela receita que mandei, hein? + +Um murmurio de Jacintho tranquillisou S. Alteza. + +--Ainda bem, ainda bem! exclamou elle, no seu vozeiro de commando. Que +eu no jantei, absolutamente no jantei! que se est jantando +deploravelmente em casa do Joseph. Mas porque se vai jantar ainda ao +Joseph? Sempre que chego a Paris, pergunto: Onde que se janta agora? +Em casa do Joseph!... Qual! no se janta! Hoje, por exemplo, +gallinholas... Uma peste! No tem, no tem a noo da gallinhola! + +Os seus olhos azulados, d'um azul sujo, rebrilhavam, alargados pela +indignao: + +--Paris est perdendo todas as suas superioridades. J se no janta, em +Paris! + +Ento, em redor, aquelles senhores concordaram, desolados. O conde de +Treves defendeu o Bignon, onde se conservavam nobres tradies. E o +director do _Boulevard_, que se empurrava todo para S. Alteza, attribuia +a decadencia da cozinha, em Frana, Republica, ao gosto democratico e +torpe pelo barato. + +--No Paillard, todavia...--comeou o Ephraim. + +--No Paillard! gritou logo o Gran-Duque. Mas os Borgonhas so to maus! +os Borgonhas so to maus!... + +Deixra pender os braos, os hombros, descoroado. Depois, com o seu +lento andar balanado como o d'um velho piloto, atirando um pouco para +traz as lapellas da casaca, foi saudar Madame d'Oriol, que toda ella +faiscou, no sorriso, nos olhos, nas joias, em cada prga das suas sdas +cr de salmo. Mas apenas a clara e macia creatura, batendo o leque como +uma aza alegre, comera a chalrar, S. Alteza reparou no apparelho do +Theatrophone, pousado sobre uma mesa entre flres, e chamou Jacintho: + +--Em communicao com o Alcazar?... O Theatrophone? + +--Certamente, meu senhor. + +Excellente! Muito chic! Elle ficra com pena de no ouvir a Gilberte +n'uma canoneta nova, as _Casquettes_. Onze e meia! Era justamente a +essa hora que ella cantava, no ultimo acto da _Revista +Electrica_...--Collou s orelhas os dous receptores do Theatrophone, e +quedou embebido, com uma ruga sria na testa dura. De repente, n'um +commando forte: + +-- ella! Chut! Venham ouvir!... ella! Venham todos! Princeza de +Carman, para aqui! Todos! ella! Chut... + +Ento, como Jacintho installra prodigamente dois Theatrophones, cada um +provido de doze fios, as senhoras, todos aquelles cavalheiros, se +apressaram a acercar submissamente um receptor do ouvido, e a permanecer +immoveis para saborear _Les Casquettes_. E no salo cr de rosa murcha, +na nave da Bibliotheca, onde se espalhra um silencio augusto, s eu +fiquei desligado do Theatrophone, com as mos nas algibeiras e ocioso. + +No relogio monumental, que marcava a hora de todas as Capitaes e o +movimento de todos os Planetas, o ponteiro rendilhado adormeceu. Sobre a +mudez e a immobilidade pensativa d'aquelles dorsos, d'aquelles decotes, +a Electricidade refulgia com uma tristeza de sol regelado. E de cada +orelha attenta, que a mo tapava, pendia um fio negro, como uma tripa. +Dornan, esbroado sobre a mesa, cerrra as palpebras, n'uma meditao de +monge obeso. O historiador dos Duques d'Anjou, com o receptor na ponta +delicada dos dedos, erguendo o nariz agudo e triste, gravemente cumpria +um dever palaciano. Madame d'Oriol sorria, toda languida, como se o fio +lhe murmurasse douras. Para desentorpecer arrisquei um passo timido. +Mas cahiu logo sobre mim um _chut_ severo do Gran-Duque! Recuei para +entre as cortinas da janella, a abrigar a minha ociosidade. O Philologo +da _Couraa_, distante da mesa, com o seu comprido fio esticado, mordia +o beio, n'um esforo de penetrao. A beatitude de S. Alteza, enterrado +n'uma vasta poltrona, era perfeita. Ao lado o collo de Madame Verghane +arfava como uma onda de leite. E o meu pobre Jacintho, n'uma applicao +conscienciosa, pendia sobre o Theatrophone to tristemente como sobre +uma sepultura. + +Ento, ante aquelles seres de superior civilisao, sorvendo n'um +silencio devoto as obscenidades que a Gilberte lhes gania, por debaixo +do solo de Paris, atravez de fios mergulhados nos esgotos, cingidos aos +canos das fezes,--pensei na minha aldeia adormecida. O crescente de lua, +que, seguido d'uma estrellinha, corria entre nuvens sobre os telhados e +as chamins negras dos Campos-Elyseos, tambem andava l fugindo, mais +lustrosa e mais dce, por cima dos pinheiraes. As rs coaxavam ao longe +no Pego da Dona. A ermidinha de S. Joaquim branquejava no cabeo, +nuasinha e candida... + +Uma das senhoras murmurou: + +--Mas, no a Gilberte!... + +E um dos homens: + +--Parece um cornetim... + +--Agora so palmas... + +--No, o Paulin! + +O Gran-Duque lanou um _chut_ feroz... No pateo da nossa casa ladravam +os ces. D'alm do ribeiro respondiam os ces do Joo Saranda. Como me +encontrei descendo por uma quelha, sob as ramadas, com o meu varapau ao +hombro? E sentia, entre a sda das cortinas, n'um fino ar macio, o +cheiro das pinhas estalando nas lareiras, o calor dos curraes atravez +das sebes altas, e o susurro dormente das levadas... + +Despertei a um brado que no sahia nem dos eidos, nem das sombras. Era o +Gran-Duque que se erguera, encolhia furiosamente os hombros: + +--No se ouve nada!... S guinchos! E um zumbido! Que massada!... Pois +uma belleza, a canoneta: + +Oh les casquettes, +Oh les casque-e-e-tes!... + +Todos largaram os fios--proclamavam a Gilberte deliciosa. E o mordomo +bemdito, abrindo largamente os dous batentes, annunciou: + +--_Monseigneur est servi_! + +Na mesa, que pelo esplendor das orchideas mereceu os louvores ruidosos +de S. Alteza, fiquei entre o ethereo poeta Dornan e aquelle moo de +pennugem loura que balouava como uma espiga ao vento. Depois de +desdobrar o guardanapo, de o accomodar regaladamente sobre os joelhos, +Dornan desenvencilhou da corrente do relogio uma enorme luneta para +percorrer o _menu_--que approvou. E inclinando para mim a sua face de +Apostolo obeso: + +--Este Porto de 1834, aqui era casa do Jacintho, deve ser authentico... +Hein? + +Assegurei ao Mestre dos Rythmos que o Porto envelhecra nas adegas +classicas do av Galio. Elle afastou, n'uma preparao methodica, os +longos, densos fios do bigode que lhe cobriam a bocca grossa. Os +escudeiros serviram um consomm frio com trufas. E o moo cr de milho, +que espalhra pela mesa o seu olhar azul e dce, murmurou, com uma +desconsolao risonha: + +--Que pena!... S falta aqui um general e um bispo! + +Com effeito! Todas as Classes Dominantes comiam n'esse momento as trufas +do meu Jacintho... Mas defronte Madame d'Oriol lanra um riso mais +cantado que um gorgeio. O Gran-Duque, n'uma silva de orchideas que +orlava o seu talher, notra uma, sombriamente horrenda, semelhante a um +lacrau esverdinhado, de azas lustrosas, gordo e tumido de veneno: e +muito delicadamente offertra a flr monstruosa a Madame d'Oriol, que, +com trinado riso, solemnemente, a collocou no seio. Collado quella +carne macia, d'uma brancura de nata fina, o lacrau inchra, mais verde, +com as azas frementes. Todos os olhos se accendiam, se cravavam no lindo +peito, a que a flr disforme, de cr venenosa, apimentava o sabor. Ella +reluzia, triumphava. Para ageitar melhor a orchidea os seus dedos +alargaram o decote, aclararam bellezas, guiando aquellas curiosidades +flammejantes que a despiam. A face vincada de Jacintho pendia para o +prato vasio. E o alto lyrico do _Crepusculo Mystico_, passando a mo +pelas barbas, rosnou com desdem: + +--Bella mulher... Mas ancas seccas, e aposto que no tem nadegas! + +No emtanto o moo de loura pennugem voltra sua estranha mgoa. No +possuirmos um general com a sua espada, e um bispo com seu baculo!... + +--Para que, meu caro senhor? + +Elle atirou um gesto suave em que todos os seus anneis faiscaram: + +--Para uma bomba de dynamite... Temos aqui um explendido ramalhete de +flres de Civilisaco, com um Gran-Duque no meio. Imagine uma bomba de +dynamite, atirada da porta!... Que bello fim de ceia, n'um fim de +seculo! + +E como eu o considerava assombrado, elle, bebendo golos de +Chateau-Yquem, declarou que hoje a unica emoo, verdadeiramente fina, +seria aniquillar a Civilisao. Nem a sciencia, nem as artes, nem o +dinheiro, nem o amor, podiam j dar um gosto intenso e real s nossas +almas saciadas. Todo o prazer que se extrahra de _crear_ estava +esgotado. S restava, agora, o divino prazer de _destruir_! + +Desenrolou ainda outras enormidades, com um riso claro nos olhos claros. +Mas eu no attendia o gentil pedante, colhido por outro +cuidado--reparando que em torno, subitamente, todo o servio estacra +como no conto do Palacio Petrificado. E o prato agora devido era o peixe +famoso da Dalmacia, o peixe de S. Alteza, o peixe inspirador da festa! +Jacintho, nervoso, esmagava entre os dedos uma flr. E todos os +escudeiros sumidos! + +Felizmente o Gran-Duque contava a historia d'uma caada, nas coutadas de +Sarvan, em que uma senhora, mulher de um banqueiro, saltra bruscamente +do cavallo, n'um descampado, sem arvores. Elle e todos os caadores +param--e a galante senhora, livida, com a amazona arregaada, corre para +traz d'uma pedra... Mas nunca soubemos em que se occupava a banqueira, +n'esse descampado, agachada atraz da pedra--porque justamente o mordomo +appareceu, relusente de suor, e balbuciou uma confidencia a Jacintho, +que mordeu o beio, trespassado. O Gran-Duque emmudecera. Todos se +entre-olhavam, n'uma anciedade alegre. Ento o meu Principe, com +paciencia, com heroicidade, forando pallidamente o sorriso: + +--Meus amigos, ha uma desgraa... + +Dornan pulou na cadeira: + +--Fogo? + +No, no era fogo. Fra o elevador dos pratos, que inesperadamente, ao +subir o peixe de S. Alteza, se desarranjra, e no se movia, encalhado! + +O Gran-Duque arremessou o guardanapo. Toda a sua polidez estalava como +um esmalte mal posto: + +--Essa forte!... Pois um peixe que me deu tanto trabalho! Para que +estamos ns aqui ento a cear? Que estupidez! E porque o no trouxeram +mo, simplesmente? Encalhado... Quero vr! Onde a copa? + +E, furiosamente, investiu para a copa, conduzido pelo mordomo que +tropeava, vergava os hombros, ante esta esmagadora colera de Principe. +Jacintho seguiu, como uma sombra, levado na rajada de S. Alteza. E eu +no me contive, tambem me atirei para a copa, a contemplar o desastre, +emquanto Dornan, batendo na cxa, clamava que se ceasse sem peixe! + +O Gran-Duque l estava, debruado sobre o poo escuro do elevador, onde +mergulhra uma vela que lhe avermelhava mais a face esbraseada. +Espreitei, por sobre o seu hombro real. Em baixo, na treva, sobre uma +larga prancha, o peixe precioso alvejava, deitado na travessa, ainda +fumegando, entre rodellas de limo. Jacintho, branco como a gravata, +torturava desesperadamente a mola complicada do ascensor. Depois foi o +Gran-Duque que, com os pulsos cabelludos, atirou um empuxo tremendo aos +cabos em que elle rolava. Debalde! O apparelho enrijra n'uma inercia de +bronze eterno. + +Sdas roagaram entrada da copa. Era Madame d'Oriol, e atraz Madame +Verghane, com os olhos a faiscar, na curiosidade d'aquelle lance em que +o Principe soltra tanta paixo. Marizac, nosso intimo, surgiu tambem, +risonho, propondo uma descida ao poo com escadas. Depois foi o +Psychologo, que se abeirou, psychologou, attribuindo intenes sagazes +ao peixe que assim se recusava. E a cada um o Gran-Duque, escarlate, +mostrava com dedo tragico, no fundo da cova, o seu peixe! Todos +afundavam a face, murmuravam: l est! Todelle, na sua precipitao, +quasi se despenhou. O periquito descendente de Colygny batia as azas, +ganindo:--Que cheiro elle deita, que delicia! Na copa atulhada os +decotes das senhoras roavam a farda dos lacaios. O velho caiado de p +d'arroz metteu o p n'um balde de gelo, com um berro ferino. E o +Historiador dos Duques d'Anjou movia por cima de todos o seu nariz +bicudo e triste. + +De repente, Todelle teve uma ida! + +-- muito simples... pescar o peixe! + +O Gran-Duque bateu na cxa uma palmada triumphal. Est claro! Pescar o +peixe! E no gozo d'aquella facecia, to rara e to nova, toda a sua +colera se sumra, de novo se tornra o Principe amavel, de magnifica +polidez, desejando que as senhoras se sentassem para assistir pesca +miraculosa! Elle mesmo seria o pescador! Nem se necessitava, para a +divertida faanha, mais que uma bengala, uma guita e um gancho. +Immediatamente Madame d'Oriol, excitada, offereceu um dos seus ganchos. +Apinhados em volta d'ella, sentindo o seu perfume, o calor da sua pelle, +todos exaltamos a amoravel dedicao. E o Psychologo proclamou que nunca +se pescra com to divino anzol! + +Quando dois escudeiros estonteados voltaram, trazendo uma bengala e um +cordel, j o Gran-Duque, radiante, vergra o gancho em anzol. Jacintho, +com uma paciencia livida, erguia uma lampada sobre a escurido do poo +fundo. E os senhores mais graves, o Historiador, o director do +_Boulevard_, o Conde de Treves, o homem de cabea Van-Dick, sorriam, +amontoados porta, n'um interesse reverente pela phantasia de S. +Alteza. Madame de Treves, essa, examinava serenamente, com a sua nobre +luneta, a installao da copa. S Dornan no se erguera da mesa, com os +punhos cerrados sobre a toalha, o gordo pescoo encovado, no tedio +sombrio de fera a quem arrancaram a posta. + +No emtanto S. Alteza pescava com fervor! Mas debalde! O gancho, pouco +agudo, sem presa, bamboleando na extremidade da guita frouxa, no +fisgava. + +--Oh Jacintho, erga essa luz! gritava elle, inchado e suado. Mais!... +Agora! Agora! na guelra! S na guelra que o gancho o pde prender. +Agora... Qual! Que diabo! No vae! + +Tirou a face do poo, resfolgando e affrontado. No era possivel! S +carpinteiros, com alavancas!... E todos, anciosamente, bradamos que se +abandonasse o peixe! + +O Principe, risonho, sacudindo as mos, concordava que por fim fra +mais divertido pescal-o do que coml-o! E o elegante bando refluiu +sofregamente para a mesa, ao som d'uma valsa de Strauss, que os Tziganes +arremearam em arcadas de languido ardr. S Madame de Treves se demorou +ainda, retendo o meu pobre Jacintho, para lhe assegurar quanto admirava +o arranjo da sua copa... Oh perfeita! Que comprehenso da vida, que fina +intelligencia do conforto! + +S. Alteza, encalmado pelo esforo, esvasiou poderosamente dous copos de +Chateau-Lagrange. Todos o acclamavam como um pescador genial. E os +escudeiros serviram o _Baro de Pauillac_, cordeiro das lezirias +marinhas, que, preparado com ritos quasi sagrados, toma este grande nome +sonoro e entra no Nobiliario de Frana. + +Eu comi com o appetite d'um heroe de Homero. Sobre o meu copo e o de +Dornan o Champagne scintillou e jorrou ininterrompidamente como uma +fonte de inverno. Quando se serviram ortolans gelados, que se derretiam +na bocca, o divino poeta murmurou, para meu regalo, o seu soneto sublime +a Santa Clara. E como, do outro lado, o moo de pennugem loura +insistia pela destruio do velho mundo, tambem concordei, e, sorvendo o +Champagne coalhado em sorvete, maldissemos o Seculo, a Civilisao, +todos os orgulhos da Sciencia! Atravs das flres e das luzes, no +emtanto, eu seguia as ondas arfantes do vasto peito de Madame Verghane, +que ria como uma bacchante. E nem me apiedava de Jacintho que, com a +doura de S. Jacintho sobre o cpo, esperava o fim do seu martyrio e da +sua festa. + +Ella findou. Ainda recordo, s tres horas da noite, o Gran-Duque na +antecamara, muito vermelho, mal firme nos ps pequeninos, sem acertar +com as mangas da pelissa que Jacintho e eu lhe ajudamos a +enfiar--convidando o meu amigo, n'uma effuso carinhosa, a ir caar s +suas terras da Dalmacia... + +--Devo ao meu Jacintho uma bella pesca, quero que elle me deva uma bella +caada! + +E emquanto o acompanhavamos, entre as alas dos escudeiros, pela vasta +escada onde o mordomo o precedia erguendo um candelabro de tres lumes, +S. Alteza repisava, pegajoso: + +--Uma bella caada... E tambem vae Fernandes! Bom Fernandes, Z +Fernandes! Ceia superior, meu Jacintho! O _Baro de Pauillac_, +divino!... Creio que o devemos nomear Duque... O Senhor Duque de +Pauillac! Mais um bocado da perna do Senhor Duque de Pauillac. Ah! +Ah!... No venham fra! No se constipem! + +E do fundo do coup, ao rodar, ainda bradou: + +--O peixe, Jacintho, desencalha o peixe! Excellente, ao almoo, frio, +com mlho verde! + +Trepando canadamente os degraus, n'uma molleza de Champagne e somno em +que os olhos se me cerravam, murmurei para o meu Principe: + +--Foi divertido, Jacintho! Sumptuosa mulher, a Verghane! Grande pena, o +elevador... + +E Jacintho, n'um som cavo que era bocejo e rugido: + +--Uma massada! E tudo falha! + + * * * * * + +Tres dias depois d'esta festa no 202 recebeu o meu Principe +inesperadamente, de Portugal, uma nova consideravel. Sobre a sua quinta +e solar de Tormes, por toda a serra, passra uma tormenta devastadora de +vento, corisco e agua. Com as grossas chuvas, ou por outras causas que +os peritos diro (como exclamava na sua carta angustiada o procurador +Silverio), um pedao de monte, que se avanava em socalco sobre o valle +da Carria, desabra, arrastando a velha egreja, uma egrejinha rustica +do seculo XVI, onde jaziam sepultados os avs de Jacintho desde os +tempos de el-rei D. Manoel. Os ossos veneraveis d'esses Jacinthos jaziam +agora soterrados sob um monto informe de terra e pedra. O Silverio j +comera com os moos da quinta a desatulhar dos preciosos restos. Mas +esperava anciosamente as ordens de sua exc.^a... + +Jacintho empallidecra, impressionado. Esse velho solo serrano, to rijo +e firme desde os Godos, que de repente ruia! Esses jazigos de paz +piedosa, precipitados com fragor, na borrasca e na treva, para um negro +fundo de valle! Essas ossadas, que todas conservavam um nome, uma data, +uma historia, confundidas n'um lixo de ruina! + +--Coisa estranha, coisa estranha!... + +E toda a noite me interrogou cerca da serra e de Tormes, que eu +conhecia desde pequeno, por que o velho solar, com a sua nobre alameda +de faias seculares, se erguia a duas legoas da nossa casa, no antigo +caminho de Guies estao e ao rio. O caseiro de Tormes, o bom +Melchior, era cunhado do nosso feitor da Roqueirinha:--e muitas vezes, +depois da minha intimidade com Jacintho, eu entrra no robusto casaro +de granito, e avalira o gro espalhado pelas salas sonoras, e provra o +vinho novo nas adegas immensas... + +--E a egreja, Z Fernandes?... Entraste na egreja? + +--Nunca... Mas era pittoresca, com uma torresinha quadrada, toda negra, +onde ha muitos annos vivia uma familia de cegonhas... Terrivel +transtorno para as cegonhas! + +--Coisa estranha! murmurava ainda o meu Principe, agourado. + +E telegraphou ao Silverio que desatulhasse o valle, recolhesse as +ossadas, reedificasse a Egreja, e, para esta obra de piedade e +reverencia, gastasse o dinheiro, sem contar, como a agua d'um rio largo. + + + + +V + + +No emtanto Jacintho, desesperado com tantos desastres humilhadores--as +torneiras que dessoldavam, os elevadores que emperravam, o Vapor que se +encolhia, a Electricidade que se sumia, decidiu valorosamente vencer as +resistencias finaes da Materia e da Fora por novas e mais poderosas +accumulaces de Mechanismos. E n'essas semanas de Abril, emquanto as +rosas desabrochavam, a nossa agitada casa, entre aquellas quietas casas +dos Campos-Elyseos que preguiavam ao sol, incessantemente tremeu, +envolta n'um p de calia e d'empreitada, com o bruto picar de pedra, o +retininte martelar de ferro. Nos silenciosos corredores, onde me era +dce fumar antes do almoo um pensativo cigarro, circulavam agora, desde +madrugada, ranchos d'operarios, de blusas brancas, assobiando o +_Pett-Bleu_, e intimidando os meus passos quando eu atravessava em +fralda e chinellas para o banho ou para outros retiros. Apenas se varava +com pericia algum andaime obstruindo as portas--logo se esbarrava com +uma pilha de taboas, uma ceira de farramentas ou um balde enorme +d'argamassa. E os pedaos de soalho levantado mostravam tristemente, +como n'um cadaver aberto, todos os interiores do 202, a ossatura, os +sensiveis nervos d'arame, os negros intestinos de ferro fundido. + +Cada dia estacava deante do porto alguma lenta carroa, d'onde os +creados, em mangas de camisa, descarregavam caixotes de madeira, fardos +de lona, que se despregavam e se descosiam n'uma sala asphaltada, ao +fundo do jardim, por traz da sebe de lilazes. E eu descia, reclamado +pelo meu Principe, para admirar uma nova Machina que nos tornaria a vida +mais facil, estabelecendo d'um modo mais seguro o nosso dominio sobre a +Substancia. Durante os calores, que apertaram depois da Asceno, +ensaiamos esperanadamente, para refrescar as aguas mineraes, a +Soda-Water e os Medocs ligeiros, tres geleiras, que se amontoaram na +copa successivamente desprestigiadas. Com os morangos novos appareceu um +instrumentosinho astuto, para lhes arrancar os ps, delicadamente. +Depois recebemos outro, prodigioso, de prata e crystal, para remexer +phreneticamente as saladas; e, na primeira vez que o experimentei, todo +o vinagre esparrinhou sobre os olhos do meu Principe, que fugiu aos +uivos! Mas elle teimava... Nos actos mais elementares, para alliviar ou +apressar o esforo, se soccorria Jacintho da Dynamica. E agora era por +interveno d'uma machina que abotoava as ceroulas. + +E simultaneamente, ou em obediencia sua Ida, ou governado pelo +despotismo do habito, no cessava, ao lado da Mechanica accumulada, de +accumular Erudio. Oh, a invaso dos livros no 202! Solitarios, aos +pares, em pacotes, dentro de caixas, franzinos, gordos e repletos de +auctoridade, envoltos em plebeia capa amarella ou revestidos de +marroquim e ouro, perpetuamente, torrencialmente, invadiam por todas as +largas portas a Bibliotheca, onde se estiravam sobre o tapete, se +repimpavam nas cadeiras macias, se enthronisavam em cima das mesas +robustas, e sobretudo trepavam contra as janellas, em sofregas pilhas, +como se, suffocados pela sua propria multido, procurassem com ancia +espao e ar! Na erudita nave, onde apenas alguns vidros mais altos +restavam descobertos, sem tapume de livros, perennemente se adensava um +pensativo crepusculo de outono emquanto fra Junho refulgia. A +Bibliotheca transbordra atravs de todo o 202! No se abria um armario +sem que de dentro se despenhasse, desamparada, uma pilha de livros! No +se franzia uma cortina sem que de traz surgisse, hirta, uma ruma de +livros! E immensa foi a minha indignao quando uma manh, correndo +urgentemente, de mos nas alas, encontrei, vedada por uma tremenda +colleco de Estudos Sociaes, a porta do Water-Closet! + +Mais amargamente porm me lembro da noite historica em que, no meu +quarto, moido e molle d'um passeio a Versalhes, com as palpebras +poeirentas e meio adormecidas, tive de desalojar do meu leito, +praguejando, um pavoroso Diccionario de Industria em trinta e sete +volumes! Senti ento a suprema fartura do livro. Ageitando, com murros, +os travesseiros, maldisse a Imprensa, a Facundia humana... E j me +estirra, adormecia, quando topei, quasi parti a preciosa rotula do +joelho, contra a lombada d'um tomo que velhacamente se aninhra entre a +parede e os colches. Com furor e um berro empolguei, arremessei o tomo +affrontoso--que entornou o jarro, inundou um tapete rico de Daghestan. E +nem sei se depois adormeci--porque os meus ps, a que no sentia nem o +pisar nem o rumor, como se um vento brando me levasse, continuaram a +tropear em livros no corredor apagado, depois na areia do jardim que o +luar branqueava, depois na Avenida dos Campos-Elyseos, povoada e ruidosa +como n'uma festa civica. E, oh portento! todas as casas aos lados eram +construidas com livros. Nos ramos dos castanheiros ramalhavam folhas de +livros. E os homens, as finas damas, vestidos de papel impresso, com +titulos nos dorsos, mostravam em vez de rosto um livro aberto, a que a +brisa lenta virava docemente as folhas. Ao fundo, na Praa da Concordia, +avistei uma escarpada montanha de livros, a que tentei trepar, +arquejante, ora enterrando a perna em flacidas camadas de versos, ora +batendo contra a lombada, dura como calhau, de tomos de Exegese e +Critica. A to vastas alturas subi, para alm da terra, para alm das +nuvens, que me encontrei, maravilhado, entre os astros. Elles rolavam +serenamente, enormes e mudos, recobertos por espessas crostas de livros, +d'onde surdia, aqui e alm, por alguma fenda, entre dois volumes mal +juntos, um raiosinho de luz suffocada e anciada. E assim ascendi ao +Paraiso. Decerto era o Paraiso--porque com meus olhos de mortal argila +avistei o Ancio da Eternidade, aquelle que no tem Manh nem Tarde. +N'uma claridade que d'elle irradiava mais clara que todas as claridades, +entre fundas estantes d'ouro abarrotadas de codices, sentado em +vetustissimos folios, com os flocos das infinitas barbas espalhados por +sobre resmas de folhetos, brochuras, gazetas e catalogos--o Altissimo +lia. A fronte super-divina que concebera o Mundo pousava sobre a mo +super-forte que o Mundo crera--e o Creador lia e sorria. Ousei, +arrepiado de sagrado horror, espreitar por cima do seu hombro +coruscante. O livro era brochado, de tres francos... O Eterno lia +Voltaire, n'uma edio barata, e sorria. + +Uma porta faiscou e rangeu, como se alguem penetrasse no Paraiso. Pensei +que um Santo novo chegra da Terra. Era Jacintho, com o charuto em +braza, um molho de cravos na lapella, sobraando tres livros amarellos +que a Princeza de Carman lhe emprestra para lr! + + * * * * * + +N'uma d'essas activas semanas, porm, a minha atteno subitamente se +despegou d'este interessante Jacintho. Hospede do 202, conservava no 202 +a minha mala e a minha roupa: e, acostado bandeira do meu Principe, +ainda occasionalmente comia do seu caldeiro sumptuoso. Mas a minha +alma, a minha embrutecida alma, e o meu corpo, o meu embrutecido corpo, +habitavam ento na rua do Helder, n.^o 16, quarto andar, porta +esquerda. + +Descia eu uma tarde, n'uma leda paz de idas e sensaes, o Boulevard da +Magdalena, quando avistei, deante da Estao dos Omnibus, rondando no +asphalto, n'um passo lento e felino, uma creatura secca, muito morena, +quasi tisnada, com dous fundos olhos taciturnos e tristes, e uma matta +de cabellos amarellados, toda crespa e rebelde, sob o chapo velho de +plumas negras. Parei, como colhido por um repuxo nas entranhas. A +creatura passou--no seu magro rondar de gata negra, sobre um beiral de +telhado, ao luar de Janeiro. Dous poos fundos no luzem mais negra e +taciturnamente do que luziam os seus olhos taciturnos e negros. No +recordo (Deus louvado!) como rocei o seu vestido de sda, lustroso e +encebado nas pregas; nem como lhe rosnei uma spplica por entre os +dentes que rangiam; nem como subimos ambos, morosamente e mais +silenciosos que condemnnados, para um gabinete do Caf Durand, safado e +mrno. Deante do espelho, a creatura, com a lentido d'um rito triste, +tirou o chapo e a romeira salpicada de vidrilhos. A sda poida do +corpete esgarava nos cotovellos agudos. E os seus cabellos eram +immensos, d'uma dureza e espessura de juba brava, em dous tons +amarellos, uns mais dourados, outros mais crestados, como a cdea de uma +torta ao sahir quente do forno. + +Com um riso tremulo, agarrei os seus dedos compridos e frios: + +--E o nomesinho, hein? + +Ella sria, quasi grave: + +--Madame Colombe, 16, rua do Helder, quarto andar, porta esquerda. + +E eu (miseravel Z Fernandes!) tambem me senti muito srio, trespassado +por uma emoo grave, como se nos envolvesse, n'aquella alcva de Caf, +a magestade d'um Sacramento. porta, empurrada levemente, o creado +avanou a face nedia. Ordenei uma lagosta, pato com pimentes, e +Borgonha. E foi smente ao findarmos o pato que me ergui, amarfanhando +convulsamente o guardanapo, e a tremer lhe beijei a bocca, todo a +tremer, n'um beijo profundo e terrivel, em que deixei a alma, entre +saliva e gsto de pimento! Depois, n'uma tipoia aberta, sob um bafo +molle de leste e de trovoada, subimos a Avenida dos Campos-Elyseos. Em +frente grade do 202 murmurei, para a deslumbrar com o meu luxo:--Mro +alli, todo o anno!... E como ao mirar o Palacete, debruada, ella +rora a matta fulva do pello crespo pela minha barba--berrei +desesperadamente ao cocheiro; que galopasse para a rua do Helder, n.^o +16, quarto andar, porta esquerda! + +Amei aquella creatura. Amei aquella creatura com Amor, com todos os +Amores que esto no Amor, o Amor divino, o Amor humano, o Amor bestial, +como Santo Antonino amava a Virgem, como Romeu amava Julietta, como um +bode ama uma cabra. Era estupida, era triste. Eu deliciosamente apagava +a minha alegria na cinza da sua tristeza; e com ineffavel gsto afundava +a minha razo na densidade da sua estupidez. Durante sete furiosas +semanas perdi a consciencia da minha personalidade de Z +Fernandes--Fernandes de Noronha e Sande, de Guies! Ora se me affigurava +ser um pedao de cra que se derretia, com horrenda delicia, n'um forno +rubro e rugidor: ora me parecia ser uma faminta fogueira onde +flammejava, estalava e se consumia um mlho de galhos seccos. D'esses +dias de sublime sordidez s conservo a impresso d'uma alcva forrada de +cretones sujos, d'uma bata de l cr de lilaz com sotaches negros, de +vagas garrafas de cerveja no marmore d'um lavatorio, e d'um corpo +tisnado que rangia e tinha cabellos no peito. E tambem me resta a +sensao de incessantemente e com arrobado deleite me despojar, +arremessar para um regao, que se cavava entre um ventre sumido e uns +joelhos agudos, o meu relogio, os meus berloques, os meus anneis, os +meus botes de punho de saphira, e as cento e noventa e sete libras em +ouro que eu trouxera de Guies n'uma cinta de camura. Do solido, +decoroso, bem fornecido Z Fernandes, s restava uma carcassa errando +atravz d'um sonho, com as gambias molles e a baba a escorrer. + +Depois, uma tarde, trepando com a costumada gula a escada da rua do +Helder, encontrei a porta fechada--e arrancado da hombreira aquelle +carto de _Madame Colombe_ que eu lia sempre to devotamente e que era a +sua taboleta... Tudo no meu ser tremeu como se o cho de Paris tremesse! +Aquella era a porta do Mundo que ante mim se fechra! Para alm estavam +as gentes, as cidades, a vida, Deus e Ella. E eu ficra ssinho, +n'aquelle patamar do No-ser, fra da porta que se fechra, unico ser +fra do Mundo! Rolei pelos degraus, com o fragor e a incoherencia d'uma +pedra, at ao cubiculo da porteira e do seu homem que jogavam as cartas +em ditosa pachorra, como se to pavoroso abalo no tivesse desmantelado +o Universo! + +--Madame Colombe? + +A barbuda comadre recolheu lentamente a vaza: + +--Ja no mora... Abalou esta manh, para outra terra, com outra porca! + +Para outra terra! com outra porca!... Vasio, negramente vasio de todo o +pensar, de todo o sentir, de todo o querer--boiei aos tombos, como um +tonel vasio, na corrente aodada do Boulevard, at que encalhei n'um +banco da Praa da Magdalena, onde tapei com as mos, a que no sentia a +febre, os olhos a que no sentia o pranto! Tarde, muito tarde, quando j +se cerravam com estrondo as cortinas de ferro das lojas, surdiu, d'entre +todas estas confusas ruinas do meu ser, a eterna sobrevivente de todas +as ruinas--a ideia de jantar. Penetrei no Durand, com os passos +entorpecidos d'um resuscitado. E, n'uma recordao que m'escaldava a +alma, encommendei a lagosta, o pato, o Borgonha! Mas ao alargar o +collarinho, ensopado pelo ardor d'aquella tarde de Julho, entre a poeira +da Magdalena, pensei com desconfrto:--Santissimo Nome de Deus! Que +immensa sde me fez esta desgraa!... De manso acenei ao moo:--Antes +do Borgonha, uma garrafa de Champagne, com muito glo, e um grande +copo!... Creio que aquelle Champagne se engarrafra no Ceu onde corre +perennemente a fresca fonte da Consolao, e que na garrafa bemdita que +me coube penetrra, antes d'arrolhada, um jorro largo d'essa fonte +inneffavel. Jesus! que transcendente regalo, o d'aquelle nobre copo, +embaciado, nevado, a espumar, a picar, n'um brilho d'ouro! E depois, +garrafa de Borgonha! E depois, garrafa de Cognac! E depois +Hortel-Pimenta granitada em glo! E depois um desejo arquejante de +espancar, com o meu rijo marmelleiro de Guies, a porca que fugira com +outra porca! Dentro da tipoia fechada, que me transportou n'um galope ao +202, no suffoquei este santo impulso, e com os meus punhos serranos +atirei murros retumbantes contra as almofadas, onde _via_, furiosamente +_via_ a matta immensa de pello amarello, em que a minha alma uma tarde +se perdera, e tres mezes se debatera, e para sempre se emporcalhra! +Quando o fiacre estacou no 202 ainda eu espancava to desesperadamente a +besta ingrata, que, aos berros do cocheiro, dous moos accudiram e me +sustiveram, recebendo pelos hombros, sobre as nucas servis, os restos +canados da minha colera. + +Em cima, repelli a sollicitude do Grillo que tentava impr ao _si_ Z +Fernandes, a Z Fernandes de Guies, a immensa indignidade d'um ch de +macella! E estirado no leito de D. Galio, com as botas sobre o +travesseiro, o chapo alto sobre os olhos, ri, n'um doloroso riso, +d'este Mundo burlesco e sordido de Jacinthos e de Colombes! E de repente +senti uma angustia horrenda. Era Ella! Era a Madame Colombe, que +esfuzira da chamma da vela, e saltra sobre o meu leito, e desabotora +o meu collete, e arrombra as minhas costellas, e toda ella, com as +saias sujas, mergulhra dentro do meu peito, e abocra o meu corao, e +chupava a sorvos lentos, como na rua do Helder, o sangue do meu corao! +Ento, certo da Morte, ganindo pela tia Vicencia, pendi do leito para +mergulhar na minha sepultura, que, atravs da nevoa final, eu distinguia +sobre o tapete--redondinha, vidrada, de porcelana e com aza. E, sobre a +minha sepultura, que to irreverentemente se assimilhava ao meu vaso, +vomitei o Borgonha, vomitei o pato, vomitei a lagosta. Depois, n'um +esforo ultra-humano, com um rugido, sentindo que, no smente toda a +entranha, mas a alma se esvasiava toda, vomitei Madame Colombe! Recahi +sobre o leito de D. Galio... Recarreguei o chapo sobre os olhos para +no sentir os raios do sol. Era um sol novo, um sol espiritual, que se +erguia sobre a minha vida. E adormeci, como uma creancinha docemente +embalada n'um bero de verga pelo Anjo da Guarda. + +De manh, lavei a pelle n'um banho profundo, perfumado com todos os +aromas do 202, desde folhas de limonete da India at essencia de jasmin +de Frana: e lavei a alma com uma rica carta da Tia Vicencia, em letra +farta, contando da nossa casa, e da linda promessa das vinhas, e da +compota de ginja que nunca lhe sahra to fina, e da alegre fogueira do +pateo em noite de S. Joo, e da menininha muito gorda e cabelluda que +vira do ceu para a minha afilhada Joanninha. Depois, janella, bem +limpo de alma e de corpo, n'uma quinzena de sedinha branca, tomando ch +de Nap, respirando os rosaes do jardim revividos pela chuva da +madrugada, considerei, em divertido pasmo, que, durante sete semanas, me +emporcalhra, na rua do Helder, com um estardalho muito magro e muito +tisnado! E conclui que padecera d'uma longa sezo, sezo da carne, sezo +da imaginao, apanhada n'um charco de Paris--n'esses charcos que se +formam atravs da Cidade com as aguas mortas, os limos, os lixos, os +tortulhos e os vermes d'uma Civilisao que apodrece. + + * * * * * + +Ento, curado, todo o meu espirito, como uma agulha para o Norte, se +virou logo para o meu complicado Principe, que, nas derradeiras semanas +da minha infeco sentimental, eu entrevira sempre descahido por cima de +sophs, ou vagueando atravs da Bibliotheca entre os seus trinta mil +volumes, com arrastados bocejos de inercia e de vacuidade. Eu, na minha +pressa indigna, s lhe lanava um distrahido--que isso? Elle, no seu +moroso desalento, s murmurava um scco-- calor! + +E, n'essa manh da minha libertao, ao penetrar antes d'almoo no seu +quarto, no soph o encontrei enterrado, com o _Figaro_ aberto sobre a +barriga, a Agenda cahida sobre o tapete, toda a face envolta em sombra, +e os ps abandonados, n'uma soberana tristeza, ao pedicuro que lhe polia +as unhas. Decerto o meu olhar reallumiado e repurificado, a brancura das +minhas flanellas reproduzindo a quietao das minhas sensaes, e a +segura harmonia em que todo o meu ser visivelmente se movia, +impressionaram o meu Principe--a quem a melancolia nunca embotava a +agudeza. Ergueu mollemente um brao molle: + +--Ento esse capricho? + +Derramei, sobre elle todo o fulgor d'um riso victorioso: + +--Morto! E, como o Snr. de Malbrouck, morto e bem enterrado. Jaz! Ou +antes, rola! Com effeito deve andar agora rolando por dentro do cano do +esgoto! + +Jacintho bocejou, murmurou: + +--Este Z Fernandes de Noronha e Sande!... + +E, no meu nome, no meu digno nome assim embrulhado n'um bocejo com +desprendida ironia, se resumiu todo o interesse d'aquelle Principe pela +suja tormenta em que se debatera o meu corao! Mas no me melindrou +esse consummado egoismo... Claramente percebia eu que o meu Jacintho +atravessava uma densa nevoa de tedio, to densa, e elle to afundado na +sua molle densidade, que as glorias ou os tormentos d'um camarada no o +commoviam, como muito remotas, intangiveis, separadas da sua +sensibilidade por immensas camadas de algodo. Pobre Principe da +Gran-Ventura, tombado para o soph de inercia, com os ps no regao do +pedicuro! Em que lodoso fastio cahira, depois de renovar to bravamente +todo o recheio mechanico e erudito do 202, na sua lucta contra a Fora e +a Materia!--E esse fastio no o escondeu mais do seu velho Z Fernandes +quando recomeou entre ns a communho de vida e de alma a que eu to +torpemente me arrancra, uma tarde, deante da Estao dos Omnibus, no +charco da Magdalena. + +No eram certamente confisses enunciadas. O elegante e reservado +Jacintho no torcia os braos, gemendo--Oh vida maldita! Eram apenas +expresses saciadas; um gesto de repellir com rancr a importunidade das +coisas; por vezes uma immobilidade determinada, de protesto, no fundo +d'um divan, d'onde se no desenterrava, como para um repouso que +desejasse eterno; depois os bocejos, os cos bocejos com que sublinhava +cada passo, continuado por fraqueza ou por dever inilludivel; e +sobretudo aquelle murmurar que se tornra perenne e natural--Para +que?--No vale a pena!--Que massada!... + +Uma noite no meu quarto, descalando as botas, consultei o Grillo: + +--Jacintho anda to mucho, to corcunda... Que ser, Grillo? + +O venerando preto declarou com uma certeza immensa: + +--S. Exc.^a soffre de fartura. + +Era fartura! O meu Principe sentia abafadamente a fartura de Paris:--e +na Cidade, na symbolica Cidade, fra de cuja vida culta e forte (como +elle outr'ora gritava, illuminado) o homem do seculo XIX nunca poderia +saborear plenamente a delicia de viver, elle no encontrava agora +frma de vida, espiritual ou social, que o interessasse, lhe valesse o +esfro d'uma corrida curta n'uma tipoia facil. Pobre Jacintho! Um +jornal velho, setenta vezes relido desde a Chronica at aos Annuncios, +com a tinta delida, as dobras rodas, no enfastiaria mais o Solitario, +que s possuisse na sua Solido esse alimento intellectual, do que o +Parisianismo enfastiava o meu doce camarada! Se eu n'esse vero +capciosamente o arrastava a um Caf-Concerto, ou ao festivo Pavilho +d'Armenonville, o meu bom Jacintho, collado pesadamente cadeira com um +maravilhoso ramo de orchideas na casaca, as finas mos abatidas sobre o +casto da bengala, conservava toda a noite uma gravidade to estafada, +que eu, compadecido, me erguia, o libertava, gozando a sua pressa em +abalar, a sua fuga d'ave solta... Raramente (e ento com vehemente +arranque como quem salta um fosso) descia a um dos seus Clubs, ao fundo +dos Campos-Elyseos. No se occupara mais das suas Sociedades e +Companhias, nem dos _Telephones de Constantinopla_, nem das _Religies +Esotericas_, nem do _Bazar Espiritualista_, cujas cartas fechadas se +amontoavam sobre a mesa d'ebano, d'onde o Grillo as varria tristemente +como o lixo d'uma vida finda. Tambem lentamente se despegava de todas as +suas convivencias. As paginas da Agenda cr de rosa murcha andavam +desafogadas e brancas. E se ainda cedia a um passeio de Mail-coach, ou a +um convite para algum Castello amigo dos arredores de Paris, era to +arrastadamente, com um esforo to saturado ao enfiar o paletot leve, +que me lembrava sempre um homem, depois d'um gordo jantar de provincia, +a estalar, que, por pollidez ou em obediencia a um dogma, devesse ainda +comer uma lampra de ovos! + +Jazer, jazer em casa, na segurana das portas bem cerradas e bem +defendidas contra toda a intruso do mundo, seria uma doura para o meu +Principe se o seu proprio 202, com todo aquelle tremendo recheio de +Civilisao, no lhe dsse uma sensao dolorosa de abafamento, de +atulhamento! Julho escaldava: e os brocados, as alcatifas, tantos moveis +rolios e ffos, todos os seus metaes e todos os seus livros, to +espessamente o opprimiam, que escancarava sem cessar as janellas para +prolongar o espao, a claridade, a frescura. Mas era ento a poeira, +suja e acre, rolada em bafos mornos, que o enfurecia: + +--Oh, este p da Cidade! + +--Mas, oh Jacintho, por que no vamos para Fontainebleau, ou para +Montmorency, ou... + +--P'ra o campo? O que! P'ra o campo?! + +E na sua face enrugada, atravs d'este berro, lampejava sempre tanta +indignao, que eu curvava os hombros, humilde, no arrependimento de ter +affrontosamente ultrajado o Principe que tanto amava. Desventurado +Principe! Com o seu dourado cigarro d'Yaka a fumegar, errava ento pelas +salas, lenta e murchamente, como quem vaga em terra alheia sem affeies +e sem occupaes. Esses desaffeioados e desoccupados passos +monotonamente o traziam ao seu centro, ao gabinete verde, Bibliotheca +d'ebano, onde accumulara Civilisao nas maximas propores para gozar +nas maximas propores a delicia de viver. Espalhava em trno um olhar +farto. Nenhuma curiosidade ou interesse lhe sollicitavam as mos, +enterradas nas algibeiras das pantalonas de sda, n'uma inercia de +derrota. Annulado, bocejava com descoroada molleza. E nada mais +instructivo e doloroso do que este supremo homem do seculo XIX, no meio +de todos os apparelhos reforadores dos seus orgos, e de todos os fios +que disciplinavam ao seu servio as Foras Universaes, e dos seus trinta +mil volumes repletos do saber dos seculos--estacando, com as mos +derrotadas no fundo das algibeiras, e exprimindo, na face e na indeciso +molle d'um bocejo, o embarao de viver! + + + + +VI + + +Todas as tardes, cultivando uma d'essas intimidades que entre tudo o que +cana jmais canam, Jacintho, s quatro horas, com regularidade devota, +visitava Madame d'Oriol:--por que essa flr de Parisianismo permanecera +em Paris, mesmo depois do Grand-Prix, a desbotar na calma e no cisco da +Cidade. N'uma d'essas tardes, porm, o Telephone, anciosamente repicado, +avisou Jacintho de que a sua dce amiga jantava em Enghien com os +Trves. (Esses senhores gozavam o seu vero beira do lago, n'uma casa +toda branca e vestida de rosinhas brancas que pertencia a Ephrain). + +Era um domingo silencioso, ennevoado e macio, convidando s +voluptuosidades da melancolia. E eu (no interesse da minha alma) suggeri +a Jacintho que subissemos Basilica do _Sacr-Coeur_, em construco +nos altos de Montmartre. + +-- uma secca, Z Fernandes... + +--Com mil demonios! Eu nunca vi a Basilica... + +--Bem, bem! Vamos Basilica, homem fatal de Noronha e Sande! + +E por fim logo que comeamos a penetrar, para alm de S. Vicente de +Paula, em bairros estreitos e ingremes, d'uma quietao de provincia, +com muros velhos fechando quintalejos rusticos, mulheres despenteadas +cozendo soleira das portas, carriolas desatreladas descanando diante +das tascas, gallinhas soltas picando o lixo, cueiros molhados seccando +em canas--o meu fastidioso camarada sorriu quella liberdade e singeleza +das cousas. + +A vittoria parou em frente larga rua de escadarias que trepa, cortando +viellasinhas campestres, at esplanada, onde, envolta em andaimes, se +ergue a Basilica immensa. Em cada patamar barracas d'arraial devoto, +forradas de panninho vermelho, transbordavam de Imagens, Bentinhos, +Crucifixos, Coraes de Jesus bordados a retroz, claros molhos de +Rosarios. Pelos cantos, velhas agachadas resmungavam a Av-Maria. Dois +padres desciam, tomando risonhamente uma pitada. Um sino lento tilintava +na doura cinzenta da tarde. E Jacintho murmurou, com agrado: + +-- curioso! + +Mas a Basilica em cima no nos interessou, abafada em tapumes e +andaimes, toda branca e scca, de pedra muito nova, ainda sem alma. E +Jacintho, por um impulso bem Jacinthico, caminhou gulosamente para a +borda do terrao, a contemplar Paris. Sob o ceu cinzento, na planicie +cinzenta, a Cidade jazia, toda cinzenta, como uma vasta e grossa camada +de calia e telha. E, na sua immobilidade e na sua mudez, algum rolo de +fumo, mais tenue e ralo que o fumear d'um escombro mal apagado, era todo +o vestigio visivel da sua vida magnifica. + +Ento chasqueei risonhamente o meu Principe. Ahi estava pois a Cidade, +augusta creao da Humanidade! Eil-a ahi, bello Jacintho! Sobre a crosta +cinzenta da Terra--uma camada de calia, apenas mais cinzenta! No +emtanto ainda momentos antes a deixaramos prodigiosamente viva, cheia +d'um povo forte, com todos os seus poderosos orgos funccionando, +abarrotada de riqueza, resplandecente de sapiencia, na triumphal +plenitude do seu orgulho, como Rainha do Mundo coroada de Graa. E agora +eu e o bello Jacintho trepavamos a uma collina, espreitavamos, +escutavamos--e de toda a estridente e radiante Civilisao da Cidade no +percebiamos nem um rumor nem um lampejo! E o 202, o soberbo 202, com os +seus arames, os seus apparelhos, a pompa da sua Mechanica, os seus +trinta mil livros? Sumido, esvado na confuso de telha e cinza! Para +este esvaecimento pois da obra humana, mal ella se comtempla de cem +metros de altura, arqueja o obreiro humano em to angustioso esforo? +Hein, Jacintho?... Onde esto os teus Armazens servidos por tres mil +caixeiros? E os Bancos em que retine o ouro universal? E as Bibliothecas +atulhadas com o saber dos seculos? Tudo se fundiu n'uma nodoa parda que +suja a Terra. Aos olhos piscos de um Z Fernandes, logo que elle suba, +fumando o seu cigarro, a uma arredada collina--a sublime edificao dos +Tempos no mais que um silencioso monturo da espessura e da cr do p +final. O que ser ento aos olhos de Deus! + +E ante estes clamores, lanados com affavel malicia para espicaar o meu +Principe, elle murmurou, pensativo: + +--Sim, talvez tudo uma illuso... E a Cidade a maior illuso! + +To facilmente victorioso redobrei de facundia. Certamente, meu +Principe, uma Illuso! E a mais amarga, por que o Homem pensa ter na +Cidade a base de toda a sua grandeza e s n'ella tem a fonte de toda a +sua miseria. V, Jacintho! Na Cidade perdeu elle a fora e belleza +harmoniosa do corpo, e se tornou esse ser resequido e escanifrado ou +obeso e afogado em unto, de ossos molles como trapos, de nervos tremulos +como arames, com cangalhas, com chins, com dentaduras de chumbo, sem +sangue, sem febra, sem vio, torto, corcunda--esse ser em que Deus, +espantado, mal pde reconhecer o seu esbelto e rijo e nobre Ado! Na +Cidade findou a sua liberdade moral: cada manh ella lhe impe uma +necessidade, e cada necessidade o arremessa para uma dependencia: pobre +e subalterno, a sua vida um constante sollicitar, adular, vergar, +rastejar, aturar; rico e superior como um Jacintho, a Sociedade logo o +enreda em tradies, preceitos, etiquetas, ceremonias, praxes, ritos, +servios mais disciplinares que os d'um carcere ou d'um quartel... A sua +tranquillidade (bem to alto que Deus com elle recompensa os Santos) +onde est, meu Jacintho? Sumida para sempre, n'essa batalha desesperada +pelo po, ou pela fama, ou pelo poder, ou pelo gzo, ou pela fugidia +rodella d'ouro! Alegria como a haver na Cidade para esses milhes de +seres que tumultuam na arquejante occupao de _desejar_--e que, nunca +fartando o desejo, incessantemente padecem de desilluso, desesperana +ou derrota? Os sentimentos mais genuinamente humanos logo na Cidade se +deshumanisam! V, meu Jacintho! So como luzes que o aspero vento do +viver social no deixa arder com serenidade e limpidez; e aqui abala e +faz tremer; e alm brutamente apaga; e adiante obriga a flammejar com +desnaturada violencia. As amizades nunca passam d'allianas que o +interesse, na hora inquieta da defeza ou na hora sofrega do assalto, ata +apressadamente com um cordel apressado, e que estalam ao menor embate da +rivalidade ou do orgulho. E o Amor, na Cidade, meu gentil Jacintho? +Considera esses vastos armazens com espelhos, onde a nobre carne d'Eva +se vende, tarifada ao arratel, como a de vacca! Contempla esse velho +Deus do Hymeneu, que circula trazendo em vez do ondeante facho da Paixo +a apertada carteira do Dote! Espreita essa turba que foge dos largos +caminhos assoalhados em que os Faunos amam as Nymphas na boa lei +natural, e busca tristemente os recantos lobregos de Sodoma ou de +Lesbos!... Mas o que a Cidade mais deteriora no homem a Intelligencia, +por que ou lh'a arregimenta dentro da banalidade ou lh'a empurra para a +extravagancia. N'esta densa e pairante camada d'Idas e Formulas que +constitue a atmosphera mental das Cidades, o homem que a respira, n'ella +envolto, s pensa todos os pensamentos j pensados, s exprime todas as +expresses j exprimidas:--ou ento, para se destacar na pardacente e +chata Rotina e trepar ao fragil andaime da gloriola, inventa n'um +gemente esforo, inchando o craneo, uma novidade disforme que espante e +que detenha a multido como um mostrengo n'uma Feira. Todos, +intelectualmente, so carneiros, trilhando o mesmo trilho, balando o +mesmo balido, com o focinho pendido para a poeira onde pisam, em fila, +as pgadas pisadas;--e alguns so macacos, saltando no topo de mastros +vistosos, com esgares e cabriolas. Assim, meu Jacintho, na Cidade, +n'esta creao to anti-natural onde o solo de pau e feltro e +alcatro, e o carvo tapa o ceu, e a gente vive acamada nos predios como +o panninho nas lojas, e a claridade vem pelos canos, e as mentiras se +murmuram atravs d'arames--o homem apparece como uma creatura +anti-humana, sem belleza, sem fora, sem liberdade, sem riso, sem +sentimento, e trazendo em si um espirito que passivo como um escravo +ou impudente como um histrio... E aqui tem o bello Jacintho o que a +bella Cidade! + +E ante estas encanecidas e veneraveis invectivas, retumbadas +pontualmente por todos os Moralistas bucolicos, desde Hesiodo, atravez +dos seculos--o meu Principe vergou a nuca docil, como se ellas +brotassem, inesperadas e frescas, d'uma Revelao superior, n'aquelles +cimos de Montmartre: + +--Sim, com effeito, a Cidade... talvez uma illuso perversa! + +Insisti logo, com abundancia, puchando os punhos, saboreando o meu facil +philosophar. E se ao menos essa illuso da Cidade tornasse feliz a +totalidade dos sres, que a manteem... Mas no! S uma estreita e +reluzente casta goza na Cidade os gozos especiaes que ella cria. O +resto, a escura, immensa plebe, s n'ella soffre, e com soffrimentos +especiaes que s n'ella existem! D'este terrao, junto a esta rica +Basilica consagrada ao Corao que amou o Pobre e por elle sangrou, bem +avistamos ns o lobrego casario onde a plebe se curva sob esse antigo +opprobrio de que nem Religies, nem Philosophias, nem Moraes, nem a sua +propria fora brutal a podero jmais libertar! Ahi jaz, espalhada pela +Cidade, como esterco vil que fecunda a Cidade. Os seculos rolam; e +sempre immutaveis farrapos lhe cobrem o corpo, e sempre debaixo d'elles, +atravs do longo dia, os homens labutaro e as mulheres choraro. E com +este labor e este pranto dos pobres, meu Principe, se edifica a +abundancia da Cidade! Eil-a agora coberta de moradas em que elles se no +abrigam; armazenada de estofos, com que elles se no agasalham; +abarrotada de alimentos, com que elles se no saciam! Para elles s a +neve, quando a neve ce, e entorpece e sepulta as creancinhas aninhadas +pelos bancos das praas ou sob os arcos das pontes de Paris... A neve +ce, muda e branca na treva: as creancinhas gelam nos seus trapos: e a +policia, em torno, ronda attenta para que no seja perturbado o tpido +somno d'aquelles que amam a neve, para patinar nos lagos do Bosque de +Bolonha com pellias de tres mil francos. Mas qu, meu Jacintho! a tua +Civilisao reclama insaciavelmente regalos e pompas, que s obter, +n'esta amarga desharmonia social, se o Capital dr ao Trabalho, por cada +arquejante esfro, uma migalha ratinhada. Irremediavel , pois, que +incessantemente a plebe sirva, a plebe pne! A sua esfalfada miseria a +condio do esplendor sereno da Cidade. Se nas suas tigellas fumegasse a +justa rao de caldo--no poderia apparecer nas baixellas de prata a +luxuosa poro de _foie-gras_ e tubaras que so o orgulho da +Civilisao. Ha andrajos em trapeiras--para que as bellas Madamas +d'Oriol, resplandecentes de sdas e rendas, subam, em doce ondulao, a +escadaria da Opera. Ha mos regeladas que se estendem, e beios sumidos +que agradecem o dom magnanimo d'um _sou_--para que os Ephrains tenham +dez milhes no Banco de Frana, se aqueam chamma rica da lenha +aromatica, e surtam de collares de saphiras as suas concubinas, netas +dos Duques d'Athenas. E um povo chora de fome, e da fome dos seus +pequeninos--para que os Jacinthos, em janeiro, debiquem, bocejando, +sobre pratos de Saxe, morangos gelados em Champagne e avivados d'um fio +d'ether! + +--E eu comi dos teus morangos, Jacintho! Miseraveis, tu e eu! + +Elle murmurou, desolado: + +-- horrivel, comemos d'esses morangos... E talvez por uma illuso! + +Pensativamente deixou a borda do terrao, como se a presena da Cidade, +estendida na planicie, fosse escandalosa. E caminhamos devagar, sob a +molleza cinzenta da tarde, philosophando--considerando que para esta +iniquidade no havia cura humana, trazida pelo esforo humano. Ah, os +Ephrains, os Trves, os vorazes e sombrios tubares do mar humano, s +abandonaro ou affrouxaro a explorao das Plebes, se uma influencia +celeste, por milagre novo, mais alto que os milagres velhos, lhes +converter as almas! O burguez triumpha, muito forte, todo endurecido no +peccado--e contra elle so impotentes os prantos dos Humanitarios, os +raciocinios dos Logicos, as bombas dos Anarchistas. Para amollecer to +duro granito s uma doura divina. Eis pois esperana da terra novamente +posta n'um Messias!... Um decerto desceu outrora dos grandes Ceus; e, +para mostrar bem que mandado trazia, penetrou mansamente no mundo pela +porta d'um curral. Mas a sua passagem entre os homens foi to curta! Um +meigo sermo n'uma montanha, ao fim d'uma tarde meiga; uma reprehenso +moderada aos Phariseus que ento redigiam o _Boulevard_; algumas +vergastadas nos Ephrains vendilhes; e logo, atravs da porta da morte, +a fuga radiosa para o Paraiso! Esse adoravel filho de Deus teve +demasiada pressa em recolher a casa de seu Pae! E os homens a quem elle +incumbira a continuao da sua obra, envolvidos logo pelas influencias +dos Ephrains, dos Trves, da gente do _Boulevard_, bem depressa +esqueceram a lio da Montanha e do lago de Tiberiade--e eis que por seu +turno revestem a purpura, e so Bispos, e so Papas, e se alliam +oppresso, e reinam com ella, e edificam a durao do seu Reino sobre a +miseria dos sem-po e dos sem-lar! Assim tem de ser recomeada a obra da +Redempo. Jesus, ou Guatama, ou Christna, ou outro d'esses filhos que +Deus por vezes escolhe no seio d'uma Virgem, nos quietos vergeis da +Asia, dever novamente descer terra de servido. Vir elle, o +desejado? Porventura j algum grave rei d'Oriente despertou, e olhou a +estrella, e tomou a myrrha nas suas mos reaes, e montou pensativamente +sobre o seu dromedario? J por esses arredores da dura Cidade, de noute, +emquanto Caiphaz e Magdalena ceam lagosta no Paillard, andou um Anjo, +attento, n'um vo lento, escolhendo um curral? J de longe, sem moo que +os tanja, na gostosa pressa d'um divino encontro, vem trotando a vacca, +trotando o burrinho? + +--Tu sabes, Jacintho? + +No, Jacintho no sabia--e queria accender o charuto. Forneci um +phosphoro ao meu Principe. Ainda rondamos no terrao, espalhando pelo ar +outras idas solidas que no ar se desfaziam. Depois penetravamos na +Basilica--quando um Sachristo nedio, de barrete de velludo, cerrou +fortemente a porta, e um Padre passou, enterrando na algibeira, com um +canado gesto final e como para sempre, o seu velho Breviario. + +--Estou com uma sde, Jacintho... Foi esta tremenda Philosophia! + +Descemos a escadaria, armada em arraial devoto. O meu pensativo camarada +comprou uma imagem da Basilica. E saltavamos para a vittoria, quando +alguem gritou rijamente, n'uma surpreza: + +--Eh Jacintho! + +O meu Principe abriu os braos, tambem espantado: + +--Eh Mauricio! + +E, n'um alvoroo, atravessou a rua, para um caf, onde, sob o toldo de +riscadinho, um robusto homem, de barba em bico, remexia o seu absintho, +com o chapo de palha descahido na nuca, a quinzena solta sobre a camisa +de sda, sem gravata, como se descanasse n'um banco, entre as sombras +do seu jardim. + +E ambos, apertando as mos, se admiravam d'aquelle encontro, n'um +domingo de vero, sobre as alturas de Montmartre. + +--Oh! eu estou aqui no meu bairro! exclamava alegremente Mauricio. Em +familia, em chinellos... Ha tres mezes que subi para estes cimos da +Verdade... Mas tu na Santa Colina, homem profano da planicie e das ruas +d'Israel! + +O meu Principe mostrou o seu Z Fernandes: + +--Com este amigo, em peregrinao Basilica... O meu amigo Fernandes +Lorena... Mauricio de Mayolle, velho camarada. + +Mr. de Mayolle (que, pela face larga e nariz nobremente grosso, lembrava +Francisco de Valois, Rei de Frana) ergueu o seu chapeu de palha. E +empurrava uma cadeira, insistia que nos accommodassemos para um absintho +ou para um bock. + +--Toma um bock, Z Fernandes! lembrou Jacintho. Tu estavas a ganir com +sde! + +Corri lentamente a lingua sobre os beios, mais scos que pergaminhos: + +--Estou a guardar esta sdesinha para logo, para o jantar, com um +vinhosinho gelado! + +Mauricio saudou, com silenciosa admirao, esta minha avisada malicia. E +immediatamente, para o meu Principe: + +--Ha tres annos que te no vejo, Jacintho... Como tem sido possivel, +n'este Paris que uma aldeola e que tu atravancas? + +--A vida, Mauricio, a espalhada vida... Com effeito! Ha tres annos, +desde a casa dos Lamotte-Orcel. Tu ainda visitas esse santuario? + +Mauricio atirou um gesto desdenhoso e largo, que sacudia um mundo: + +--Oh! Ha mais d'um anno que me separei d'essa bicharia heretica... Uma +turba indisciplinada, meu Jacintho! Nenhuma fixidez, um dilletantismo +estonteado, carencia completa e comica de toda a base experimental... +Quando tu ias aos Lamotte-Orcel, e Parola do 37, e _Cerveja ideal_, +o que reinava?... + +Jacintho catou lentamente as suas recordaes por entre os pllos do +bigode: + +--Eu sei!... Reinava Wagner e a Mithologia Eddica, e o Raganarock, e as +Nornas... Muito Pre-Raphaelismo tambem, e Montagna, e Fra-Angelico... Em +moral, o Renanismo. + +Mauricio sacudia os hombros. Oh, tudo isso pertencia a um passado +archaico, quasi lacustre! Quando Madame de Lamotte-Orcel remobilra a +sala com velludos Morris, grossas alcachofras sobre tons d'aafro, j o +Renanismo passra, to esquecido como o Cartesianismo... + +--Tu ainda s do tempo do culto do _Eu_? + +O meu Principe suspirou risonhamente: + +--Ainda o cultivei. + +--Pois bem! Logo depois foi o Hartmanismo, o Inconsciente. Depois o +Nietzismo, o Feudalismo espiritual... Depois grassou o Tolstosmo, um +furor immenso de renunciamento neo-cenobitico. Ainda me lembro d'um +jantar em que appareceu um mostrengo d'um slavo, de guedelha sordida, +que atirava olhos medonhos para o decote da pobre condessa d'Arche, e +que grunhia com o dedo espetado:--Busquemos a luz, muito por baixo, no +p da terra!--E sobremeza bebemos delicia da humildade e do +trabalho servil, com aquelle Champagne Marceaux granitado que a Mathilde +dava nos grandes dias em copos da frma do San-Gral! Depois veio +Emersonismo... Mas a praga cruel foi Ibsenismo! Emfim, meu filho, uma +Babel de Ethicas e Estheticas. Paris parecia demente. J havia uns +desgarrados que tendiam para o Luciferismo. E amiguinhas nossas, +coitadas, iam descambando para o Phallismo, uma moxinifada +mystico-brejeira, prgada por aquelle pobre La Carte que depois se fez +Monge Branco, e que anda no Deserto... Um horror! E uma tarde, de +repente, toda esta massa se precipita com ancia para o Ruskinismo! + +Eu, agarrado bengala, bem fincada no cho, sentia como um vendaval que +redemoinhava, me torcia o craneo! E at Jacintho balbuciou, esgazeado: + +--O Ruskinismo? + +--Sim, o velho Ruskin,... John Ruskin! + +O meu ditoso Principe comprehendeu: + +--Ah, Ruskin!... _As sete lampadas da Architectura_, _A Cora de +Oliveira Brava_... o culto da Belleza. + +--Sim! O culto da Belleza, confirmou Mauricio. Mas a esse tempo eu, +enojado, j descera de todas essas nuvens vs... Pisava um cho mais +seguro, mais fertil. + +Deu um sorvo lento ao absintho, cerrando as palpebras. Jacintho +esperava, com o seu fino nariz dilatado, como para respirar a Flr de +Novidade que ia desabrochar: + +--E ento? ento?... + +Mas o outro murmurou, dispersamente, por entre reticencias em que se +velava: + +--Vim para Montmartre... Tenho aqui um amigo, um homem de genio, que +percorreu toda a India... Viveu com os Toddas, esteve nos mosteiros de +Garma-Khian e de Dashi-Lumbo, e estudou com Gegen-Chutu no retiro santo +de Urga... Gegen-Chutu foi a decima-sexta encarnao de Guatama, e era +portanto um Boddi-sattva... Trabalhamos, procuramos... No so vises. +Mas factos, experiencias bem antigas, que vem talvez desde os tempos de +Christna... + +Atravs d'estes nomes, que exhalavam um perfume triste de vetustos +ritos, arredra a cadeira. E de p, deixando cair sobre a mesa, +distrahidamente, para pagar o absintho, moedas de prata e moedas de +cobre, murmurava com os olhos descanados em Jacintho, mas perdidos +n'outra viso: + +--Por fim tudo se reduz ao supremo desenvolvimento da Vontade dentro da +suprema pureza da Vida. toda a sciencia e fora dos grandes mestres +Hindus... Mas a pureza absoluta da vida, eis a lucta, eis o obstaculo! +No basta mesmo o Deserto, nem o bosque do mais velho templo no alto +Thibet... Ainda assim, meu Jacintho, j obtivemos resultados bem +extranhos. Sabes as experiencias de Tyndall, com as chammas +sensitivas... O pobre chimico, para demonstrar as vibraes do som, +tocou quasi s portas da verdade isoterica. Mas qu! homem de sciencia, +portanto homem d'estupidez, ficou quem, entre as suas placas e as suas +retortas! Ns fmos alm. Verificmos as _ondulaes da Vontade_! Deante +de ns, pela expanso da energia do meu companheiro, e em cadencia com o +seu mandado, uma chamma, a tres metros, ondulou, rastejou, despediu +linguas ardentes, lambeu uma alta parede, rugiu furiosa e negra, +resplandeceu direita e silenciosa, e bruscamente abatida em cinza +morreu! + +E o extranho homem, com o chapeu para a nuca, ficou immovel, de braos +abertos e os olhares esgazeados, como no renovado assombro e no transe +d'aquelle prodigio. Depois, recahindo no seu modo facil e sereno, +accendendo de vagar um cigarro: + +--Uma d'estas manhs, Jacintho, appareo no 202, para almoar comtigo, e +levo o meu amigo. Elle s come arrz, uma pouca de salada, e fructa. E +conversamos... Tu tinhas um exemplar do _Sepher-Zerijah_ e outro do +_Targum d'Onkelus_. Preciso folhear esses livros. + +Apertou a mo do meu Principe, saudou este assombrado Z Fernandes, e +serenamente seguiu pela quieta rua, com o chapeu de palha para a nuca, +as mos enterradas nas algibeiras, como um homem natural entre cousas +naturaes. + +--Oh Jacintho! Quem este bruxo? Conta!... Quem elle, santissimo nome +de Deus? + +Recostado na vittoria, ageitando o vinco das calas, o meu Principe +contou, concisamente. Era um nobre e leal rapaz, muito rico, muito +intelligente, da antiga casa soberana de Mayolle, descendente dos Duques +de Septimania... E murmurou, atravs do costumado bocejo: + +--O desenvolvimento supremo da vontade!... Theosophia, Buddhismo +isoterico... Aspiraes, decepes... J experimentei... Uma massada! + +Atravessamos, callados, o rumr de Paris, sob a molleza abafada do +crepusculo de vero, para jantar no Bosque, no Pavilho d'Armenonville, +onde os Tziganes, avistando Jacintho, tocaram o _Hymno da Carta_ com +paixo, com langor, n'uma cadencia de _czarda_ dolorosa e aspera. + +E eu, desdobrando regaladamente o guardanapo: + +--Pois venha agora para a minha rica sde esse vinhosinho gelado! +Grandemente o mereo, caramba, que superiormente philosophei!... E creio +que estabeleci definitivamente no espirito do Snr. D. Jacintho o salutar +horror da cidade! + +O meu Principe percorria, catando o bigode, a Lista-dos-Vinhos, em +quanto o Copeiro, esperava com pensativa reverencia: + +--Mande gelar duas garrafas de champagne S.^t Marceaux... Mas antes, um +Barsac velho, apenas refrescado... Agoa de Evian... No, de Bussang! +Bem, d'Evian e de Bussang! E, para comear, um bock. + +Depois, bocejando, desabotoando lentamente a sobrecasaca cinzenta: + +--Pois estou com vontade de construir uma casa nos cimos de Montmartre, +com um miradouro no alto, todo de vidro e ferro, para descanar de tarde +e dominar a Cidade... + + + + +VII + + +Julho findra com uma chuva refrescante e consoladora:--e eu pensava em +realisar finalmente a minha romagem s cidades da Europa, sempre +retardada, atravs da primavera, pelas surprezas do Mundo e da Carne. +Mas, de repente, Jacintho comeou a rogar e a reclamar que o seu Z +Fernandes o acompanhasse, todas as tardes, a casa de Madame d'Oriol! E +eu comprehendi que o meu Principe ( maneira do divino Achilles, que, +sob a tenda, e junto da branca, insipida e docil Briseis, nunca +dispensava Patoclo) desejava ter, no retiro do Amor, a presena, o +confrto e o soccorro da Amizade. Pobre Jacintho! Logo pela manh +combinava pelo telephone com Madame d'Oriol essa hora de quietao e +doura. E assim encontravamos sempre a superfina Dama prevenida e +solitaria n'aquella sala da rua de Lisbonne, onde Jacintho e eu mal +cabiamos, suffocavamos na confuso, entre os cestos de flres, e os +ouros rocalhados, e os monstros do Japo, e a galante fragilidade dos +Saxes, e as pelles de feras estiradas aos ps de sophs adormecedores, e +os biombos de Aubusson formando alcvas favoraveis e languidas... +Aninhada n'uma cadeira de bamb lacada de branco, entre almofadas +aromatisadas de verbena da India, com um romance pousado no regao, ella +esperava o seu amigo, n'uma certa indolencia passiva e mansa que me +lembrava sempre o Oriente e um Harem. Mas, pelas frescas sedinhas +Pompadour, parecia tambem uma marquezinha de Versalhes canada do grande +seculo; ou ento, com brocados sombrios e largos cintos cravejados, era +como uma veneziana, preparada para um Doge. A minha intruso, na +intimidade d'aquellas tardes, no a contrariava--antes lhe trazia um +vassallo novo, com dous olhos novos para a contemplar. Eu era j o seu +_cher Fernandez_! + +E apenas descerrava os labios avivados de vermelho, semelhantes a uma +ferida fresca, e comeava a chalrar--logo nos envolvia o burburinho e a +murmurao de Paris. Ella s sabia chalrar sobre a sua pessoa que era o +resumo da sua Classe, e sobre a sua existencia que era o resumo do seu +Paris:--e a sua existencia, desde casada, consistira em ornar com +suprema sciencia o seu lindo corpo; entrar com perfeio n'uma sala e +irradiar; remexer em estofos e conferenciar pensativamente com o grande +costureiro; rolar pelo Bois pousada na sua vittoria como uma imagem de +cra; decotar e branquear o collo; debicar uma perna de gallinhola em +mezas de luxo; fender turbas ricas em bailes espessos; adormecer com a +vaidade esfalfada; percorrer de manh, tomando chocolate, os Echos e +as Festas do _Figaro_; e de vez em quando murmurar para o marido--Ah, +s tu?... Alm d'isso, ao lusco-fusco, n'um soph, alguns certos +suspiros, entre os braos d'alguem a quem era constante. Ao meu +Principe, n'esse anno, pertencia o soph. E todos estes deveres de +Cidade e de Casta os cumpria sorrindo. Tanto sorrira, desde casada, que +j duas prgas lhe vincavam os cantos dos beios, indelevelmente. Mas +nem na alma, nem na pelle, mostrava outras maculas de fadiga. A sua +Agenda de Visitas continha mil e tresentos nomes, todos do Nobiliario. +Atravs, porm, desta fulgurante sociabilidade arranjra no cerebro +(onde de certo penetrra o p d'arroz que desde o collegio acamava na +testa) algumas Idas Geraes. Em Politica era pelos Principes; e todos os +outros horrores, a Republica, o Socialismo, a Democracia que se no +lava, os sacudia risonhamente, com um bater de leque. Na Semana Santa +juntava s rendas do chapeu a Cora amarga de espinhos--por serem esses, +para a gente bem-nascida, dias de penitencia e dr. E, deante de todo o +Livro ou de todo o Quadro, sentia a emoo e formulava finamente o +juizo, que no seu Mundo, e n'essa Semana, fsse elegante formular e +sentir. Tinha trinta annos. Nunca se embarara nos tormentos d'uma +paixo. Marcava, com rigida regularidade, todas as suas despezas n'um +Livro de Contas encadernado em pellucia verde-mar. A sua religio intma +(e mais genuina do que a outra, que a levava todos os domingos missa +de S. Philippe du Roule) era a Ordem. No inverno, logo que na amavel +cidade comeavam a morrer de frio, debaixo das pontes, creancinhas sem +abrigo--ella preparava com commovido cuidado os seus vestidos de +patinagem. E preparava tambem os de Caridade--porque era boa, e +concorria para Bazares, Concertos e Tombolas, quando fossem patrocinados +pelas Duquezas do seu rancho. Depois, na primavera, muito +methodicamente, regateando, vendia a uma adela os vestidos e as capas de +inverno. Paris admirava n'ella uma suprema flr de Parisianismo. + +Pois respirando esta macia e fina flr passamos ns as tardes d'esse +julho em quanto as outras flres pendiam e murchavam na calma e no p. +Mas, na intimidade do seu perfume, Jacintho no parecia encontrar esse +contentamento d'alma, que entre tudo que cana jmais cana. Era j com +a paciente lentido com que se sobem todos os Calvarios, os mais bem +tapetados, que elle subia a escadaria de Madame d'Oriol, to suave e +orlada de to frescas palmeiras. Quando a appetitosa creatura, com +dedicao, para o entreter, desdobrava a sua vivacidade como um pavo +desdobra a cauda, o meu pobre Principe puxava os pllos do bigode +murcho, na murcha postura de quem, por uma manh de Maio, em quanto os +melros cantam nas sebes, assiste, n'uma egreja negra, a um responso +funebre por um Principe. E no beijo que elle chuchurreava sobre a mo da +sua dce amiga, para se despedir, havia sempre alacridade e allivio. + +Mas ao outro dia, ao comear da tarde, depois de errar atravs da +Bibliotheca e do Gabinete, puxando sem curiosidade a tira do telegrapho, +atirando algum recado molle pelo telephone, espalhando o olhar +desalentado sobre o saber immenso dos trinta mil livros, remexendo a +collina dos Jornaes e Revistas, terminava por me chamar, j com a +preguia triste da faanha a que se impellia: + +--Vamos a casa de Madame d'Oriol, Z Fernandes? Eu tinha marcadas para +hoje seis ou sete coisas, mas no posso, uma secca! Vamos a casa de +Madame d'Oriol... Ao menos l, s vezes, ha um bocado de frescura e paz. + +E foi n'uma d'essas tardes, em que o meu Principe assim procurava +desesperadamente um bocado de frescura e paz, que encontramos, ao meio +da escadaria suave, entre as palmeiras, o marido de Madame d'Oriol. Eu +j o conhecia--porque Jacintho m'o mostrra uma noite, no Grand Caf, +ceiando com danarinas do _Moulin Rouge_. Era um moo gordalhufo, +indolente, de uma brancura cra de toucinho, com uma calvice j sria e +j lustrosa, constantemente acariciada pelos seus gordos dedos +carregados de anneis. N'essa tarde, porm, vinha vermelho, todo +emocionado, calando as luvas com colera. Estacou diante de Jacintho--e +sem mesmo lhe apertar a mo, atirando um gesto para o patamar: + +--Visita l acima? Vai achar a Joanna em pessima disposio... Tivemos +uma scena, e tremenda. + +Deu outro puxo desesperado luva cr de palha, j esgaada: + +--Estamos separados, cada um vive como lhe appetece, excellente! Mas +em tudo ha medida e frma... Ella tem o meu nome, no posso consentir +que em Paris, com conhecimento de todo o Paris, seja a amante do +trintanario. Amantes na nossa roda, v! Um lacaio, no!... Se quer +dormir com os creados que emigre para o fundo da provincia, para a sua +casa de Corbelle. E l at com os animaes!... Foi o que eu lhe disse! +Ficou como uma fera. + +Sacudiu ento a mo do Jacintho que era da sua roda--rebolou pela +escadaria florida e nobre. O meu Principe, immovel nos degraus, de face +pendida, cofiava lentamente os fios pendidos do bigode. Depois, olhando +para mim, como um sr saturado de tedio e em quem nenhum tedio novo pde +caber: + +--J agora subamos, sim? + + * * * * * + +Parti ento, com muita alegria, para a minha appetecida romagem s +Cidades da Europa. + +Ia viajar!... Viajei. Trinta e quatro vezes, pressa, bufando, com todo +o sangue na face, desfiz e refiz a mala. Onze vezes passei o dia n'um +wagon, envolto em poeirada e fumo, suffocado, a arquejar, a escorrer de +suor, saltando em cada estao para sorver desesperadamente limonadas +mornas que me escangalhavam a entranha. Quatorze vezes subi +derreadamente, atraz de um creado, a escadaria desconhecida d'um Hotel; +e espalhei o olhar incerto por um quarto desconhecido; e estranhei uma +cama desconhecida, d'onde me erguia, estremunhado, para pedir em linguas +desconhecidas um caf com leite que me sabia a fava, um banho de tina +que me cheirava a ldo. Oito vezes travei bulhas abominaveis na rua com +cocheiros que me espoliavam. Perdi uma chapelleira, quinze lenos, tres +ceroulas, e duas botas, uma branca, outra envernizada, ambas do p +direito. Em mais de trinta mezas-redondas esperei tristonhamente que me +chegasse o _boeuf-a-la-mode_, j frio, com mlho coalhado--e que o +copeiro me trouxesse a garrafa de Bordeus que eu provava e repellia com +desditosa carantonha. Percorri, na fresca penumbra dos granitos e dos +marmores, com p respeitoso e abafado, vinte e nove Cathedraes. Trilhei +mollemente, com uma dr surda na nuca, em quatorze muzeus, cento e +quarenta salas revestidas at aos tectos de Christos, heroes, santos, +nymphas, princezas, batalhas, architecturas, verduras, nudezes, sombrias +manchas de betume, tristezas das formas immoveis!... E o dia mais dce +foi quando em Veneza, onde chovia desabaladamente, encontrei um velho +inglez de penca flammejante que habitra o Porto, conhecra o Ricardo, o +Jos Duarte, o Visconde do Bom Successo, e as Limas da Boa Vista... +Gastei seis mil francos. Tinha viajado. + +Emfim, n'uma bemdita manh d'outubro, na primeira friagem e nevoa +d'outomno, avistei com enternecido alvoroo as cortinas de seda ainda +fechadas do meu 202! Affaguei o hombro do Porteiro. No patamar, onde +encontrei o ar macio e tepido que deixra em Florena, apertei os ossos +do Grillo excellente: + +--E Jacintho? + +O digno negro murmurou, d'entre os altos, reluzentes collarinhos: + +--S. Exc.^a circula... Pesadote, fartote. Entrou tarde do baile da +Duqueza de Loches. Era o contracto de casamento de Mademoiselle de +Loches... Ainda tomou antes de se deitar um ch gelado... E disse a +coar a cabea: Eh! que massada! Eh! que massada! + +Depois do banho e do chocolate, s dez horas, consolado e quentinho +dentro do roupo de velludo, rompi pelo quarto do meu Principe, de +braos abertos e sedentos: + +--Oh Jacintho! + +--Oh viajante!... + +Quando nos estreitamos, fartamente, eu recuei para lhe contemplar a +face--e n'ella a alma. Encolhido n'uma quinzena de panno cr de malva +orlada de pelles de martha, com os pellos do bigode murchos, as suas +duas rugas mais cavadas, uma molleza nos hombros largos, o meu amigo +parecia j vergado sob o pezo e a oppresso e o terror do seu dia. Eu +sorri, para que elle sorrisse: + +--Valente Jacintho... Ento como tens vivido? + +Elle respondeu, muito serenamente: + +--Como um morto. + +Forcei uma gargalhada leve, como se o seu mal fsse leve: + +--Aborrecidote, hein? + +O meu Principe lanou, n'um gesto to vencido, um _oh_ to cansado--que +eu compadecido de novo o abracei, o estreitei, como para lhe communicar +uma parte d'esta alegria solida e pura que recebi do meu Deus! + + * * * * * + +Desde essa manh, Jacintho comeou a mostrar claramente, +escancaradamente, ao seu Z Fernandes, o tdio de que a existencia o +saturava. O seu cuidado realmente e o seu esfro consistiram ento em +sondar e formular esse tdio--na esperana de o vencer logo que lhe +conhecesse bem a origem e a potencia. E o meu pobre Jacintho reproduziu +a comedia pouco divertida d'um Melancolico que perpetuamente raciocina a +sua Melancolia! N'esse raciocino, elle partia sempre do facto +irrecusavel e massio--que a sua vida especial de Jacintho continha +todos os interesses e todas as facilidades, possiveis no seculo XIX, +n'uma vida de homem que no um Genio, nem um Santo. Com effeito! +Apezar do appetite embotado por doze annos de Champagnes e mlhos ricos +elle conservava a sua rijeza de pinheiro bravo; na luz da sua +intelligencia no apparecra nem tremor nem morro; a boa terra de +Portugal, e algumas Companhias macissas, pontualmente lhe forneciam a +sua doce centena de contos; sempre activas e sempre fieis o cercavam as +sympathias d'uma Cidade inconstante e chasqueadora; o 202 estourava de +confrtos; nenhuma amargura de corao o atormentava;--e todavia era um +Triste. Porque?... E d'aqui saltava, com certeza fulgurante, concluso +de que a sua tristeza, esse cinzento burel em que a sua alma andava +amortalhada, no provinham da sua individualidade de Jacintho--mas da +Vida, do lamentavel, do desastroso facto de Viver! E assim o saudavel, +intellectual, riquissimo, bem-acolhido Jacintho tombra no Pessimismo. + +E um Pessimismo irritado! Porque (segundo affirmava) elle nascera para +ser to naturalmente optimista como um pardal ou um gato. E, at aos +doze annos, emquanto fra um bicho superiormente amimado, com a sua +pelle sempre bem coberta, o seu prato sempre bem cheio, nunca sentira +fadiga, ou melancolia, ou contrariedade, ou pena--e as lagrimas eram +para elle to incomprehensiveis que lhe pareciam viciosas. S quando +crescra, e da animalidade penetrra na humanidade, despontra n'elle +esse fermento de tristeza, muito tempo indesenvolvido no tumulto das +primeiras curiosidades, e que depois alastrra, o invadira todo, se lhe +tornra consubstancial e como o sangue das suas veias. Soffrer portanto +era inseparavel de Viver. Soffrimentos differentes nos destinos +differentes da Vida. Na turba dos humanos a angustiada lucta pelo po, +pelo tecto, pelo lume; n'uma casta, agitada por necessidades mais altas, + a amargura das desilluses, o mal da imaginao insatisfeita, o +orgulho chocando contra obstaculo; n'elle, que tinha os bens todos e +desejos nenhuns, era o tdio. Miseria do Corpo, tormento da Vontade, +fastio da Intelligencia--eis a Vida! E agora aos trinta e tres annos a +sua occupao era bocejar, correr com os dedos desalentados a face +pendida para n'ella palpar e appetecer a caveira. + +Foi ento que o meu Principe comeou a ler apaixonadamente, desde o +_Ecclesiastes_ at Schopenhauer, todos os lyricos e todos os theoricos +do Pessimismo. N'estas leituras encontrava a reconfortante comprovao +de que o seu mal no era mesquinhamente Jacinthico--mas grandiosamente +resultante d'uma Lei Universal. J ha quatro mil annos, na remota +Jerusalm, a Vida, mesmo nas suas delicias mais triumphaes, se resumia +em Illuso. J o Rei incomparavel, de sapiencia divina, summo Vencedor, +summo Edificador, se enfastiava, bocejava, entre os despojos das suas +conquistas, e os marmores novos dos seus Templos, e as suas tres mil +concubinas, e as Rainhas que subiam do fundo da Ethiopia para que elle +as fecundasse e no seu ventre depozsse um Deus! No ha nada novo sob o +sol, e a eterna repetio das coisas a eterna repetio dos males. +Quanto mais se sabe mais se pena. E o justo como o perverso, nascidos do +p, em p se tornam. Tudo tende ao p ephemero, em Jerusalm e em Paris! +E elle, obscuro no 202, padecia por ser homem e por viver--como no seu +throno d'ouro, entre os seus quatro lees d'ouro, o filho magnifico de +David. + +No se separava ento do _Ecclesiastes_. E circulava por Paris trazendo +dentro do coup Salomo, como irmo de dr, com quem repetia o grito +desolado que a summa da verdade humana--_Vanitas Vanitatum_! Tudo +Vaidade! Outras vezes, logo de manh o encontrava estendido no soph, +n'um roupo de sda, absorvendo Schopenhauer--emquanto o pedicuro, +ajoelhado sobre o tapete, lhe polia com respeito e pericia as unhas dos +ps. Ao lado pousava a chavena de Saxe, cheia d'esse caf de Moka +enviado por emires do Deserto, que no o contentava nunca, nem pela +fora, nem pelo aroma. A espaos pousava o livro no peito, resvalava um +olhar compassivo para o pedicuro, como a procurar que dr o +torturaria--pois que a todo o viver corresponde um soffrer. Decerto o +remexer assim, perpetuamente, em ps alheios... E quando o pedicuro se +erguia, Jacintho abria para elle um sorriso de confraternidade--com um +adeus, meu amigo que era um adeus, meu irmo! + +Esse foi o periodo esplendido e soberbamente divertido do seu tdio. +Jacintho encontrra emfim na vida uma occupao grata--maldizer a Vida! +E para que a podsse maldizer em todas as suas frmas, as mais ricas, as +mais intellectuaes, as mais puras, sobrecarregou a sua vida propria de +novo luxo, de interesses novos d'espirito, e at de fervores +humanitarios, e at de curiosidades supernaturaes. + +O 202, n'esse inverno, refulgiu de magnificencia. Foi ento que elle +iniciou em Paris, repetindo Heliogabalo, os Festins de Cr contados na +Historia Augusta: e offereceu s suas amigas esse sublime jantar cr de +rosa, em que tudo era roseo, as paredes, os moveis, as luzes, as louas, +os crystaes, os gelados, os Champagnes, e at (por uma inveno da +Alta-Cozinha) os peixes, e as carnes, e os legumes, que os escudeiros +serviam, empoados de p rosado, com librs da cr da rosa, em quanto do +tecto, d'um velario de seda rosada, cahiam petalas frescas de rosas... A +Cidade, deslumbrada, clamou--Bravo, Jacintho! E o meu Principe, ao +rematar a festa fulgurante, plantou deante de mim as mos nas ilhargas e +gritou triumphalmente:--Hein? Que massada!... + +Depois foi o Humanitarismo: e fundou um Hospicio no campo, entre +jardins, para velhinhos desamparados, outro para creanas debeis beira +do Mediterraneo. Depois com o major Dorchas, e Mayolle, e o Hind de +Mayolle penetrou no Theosophismo: e montou tremendas experiencias para +verificar a mysteriosa _exteriorisao da motilidade_. Depois, +desesperadamente, ligou o 202 com os fios telegraphicos do _Times_, para +que no seu gabinete, como n'um corao, palpitasse toda a vida Social da +Europa. + +E a cada um d'estes esforos da elegancia, do humanitarismo, da +sociabilidade, e da intelligencia indagadora, voltava para mim, de +braos alegres, com um grito victorioso:--Vs tu, Z Fernandes? Uma +massada!--Arrebatava ento o seu _Ecclesiastes_, o seu Schopenhauer, e, +estendido no soph, saboreava voluptuosamente a concordancia da Doutrina +e da Experiencia. Possuia uma F--o Pessimismo: era um apostolo rico e +esforado: e tudo tentava, com sumptuosidade, para provar a verdade da +sua F! Muito gozou n'esse anno o meu desgraado Principe! + +No comeo do inverno, porm, notei com inquietao que Jacintho j no +folheava o _Ecclesiastes_, desleixava Schopenhauer. Nem festas, nem +Theosophismos, nem os seus Hospicios, nem os fios do _Times_, pareciam +interessar agora o meu amigo, mesmo como demonstraes gloriosas da sua +Crena. E a sua abominavel funco de novo se limitou a bocejar, a +passar os dedos molles sobre a face pendida palpando a caveira. +Incessantemente alludia morte como a uma libertao. Uma tarde mesmo, +no melancolico crepusculo da Bibliotheca, antes de refulgirem as luzes, +consideravelmente me aterrou, fallando n'um tom regelado de mortes +rapidas, sem dr, pelo choque d'uma vasta pilha electrica ou pela +violencia compassiva do acido cyanidrico. Diabo! O Pessimismo, que +apparecera na Intelligencia do meu Principe como um conceito +elegante--atacra bruscamente a Vontade! + +Todo o seu movimento ento foi o d'um boi inconsciente que marcha sob a +canga e o aguilho. J no esperava da Vida contentamento--nem mesmo se +lastimava que ella lhe trouxesse tdio ou pena. Tudo indifferente, Z +Fernandes! E to indifferentemente sahiria sua janella para receber +uma Cora Imperial offerecida por um Povo--como se estenderia n'uma +poltrona rta para emmudecer e jazer. Sendo tudo inutil, e no +conduzindo seno a maior desilluso, que podia importar a mais rutilante +actividade ou a mais desgostada inercia? O seu gesto constante, que me +irritava, era encolher os hombros. Perante duas ideias, dois caminhos, +dois pratos, encolhia os hombros! Que importava?... E no minimo acto, +raspar um phosphoro ou desdobrar um Jornal, punha uma morosidade to +desconsolada que todo elle parecia ligado, desde os dedos at alma, +pelas voltas apertadas d'uma corda que se no via e que o travava. + + * * * * * + +Muito desagradavelmente me recordo do dia dos seus annos, a 10 de +Janeiro. Cdo, de manh, recebra, com uma carta de Madame de Trves, um +aafate de camelias, azaleas, orchideas e lyrios do valle. E foi este +mimo que lhe recordou a data consideravel. Soprou sobre as petalas o +fumo do cigarro e murmurou com um riso de lento escarneo: + +--Ento, ha trinta e quatro annos que eu ando n'esta massada? + +E como eu propunha que telephonassemos aos amigos para beberem no 202 o +Champagne do Natalicio--elle recusou, com o nariz enojado. Oh! No! +Que horrivel scca!... E bradou mesmo para o Grillo: + +--Eu hoje no estou em Paris para ninguem. Abalei para o campo, abalei +para Marselha... Morri! + +E a sua ironia no cessou at ao almoo perante os bilhetes, os +telegrammas, as cartas, que subiam, se arredondavam em collina sobre a +meza d'ebano, como um preito da Cidade. Outras flres que vieram, em +vistosos cestos, com vistosos laos, foram por elle comparadas s que se +depe sobre uma tumba. E apenas se interessou um momento pelo presente +de Ephraim, uma engenhosa meza, que se abaixava at ao tapete ou se +alteava at ao tecto--para que, senhor Deus meu? + +Depois do almoo, como chovia sombriamente, no arredamos do 202, com os +ps estendidos ao lume, em preguioso silencio. Eu terminra por +adormecer beatificamente. Acordei aos passos aodados do Grillo... +Jacintho, enterrado na poltrona, com umas tesouras, recortava um papel! +E nunca eu me compadeci d'aquelle amigo, que canra a mocidade a +accumular todas as noes formuladas desde Aristoteles e a juntar todos +os inventos realisados desde Tharamenes, como n'essa tarde de festa, em +que elle, cercado de Civilisao nas maximas propores para gozar nas +maximas propores a delicia de viver, se encontrava reduzido, junto ao +seu lar, a recortar papeis com uma tesoura! + +O Grillo trazia um presente do Gran-Duque--uma caixa de prata, forrada +de cedro, e cheia d'um ch precioso, colhido, flr a flr, nas veigas de +Kiang-Sou por mos puras de virgens, e conduzido atravs da Asia, em +caravanas, com a venerao d'uma reliquia. Ento, para despertar o nosso +torpr, lembrei que tomassemos o divino ch--occupao bem harmonica com +a tarde triste, a chuva grossa alagando os vidros, e a clara chamma +bailando no fogo. Jacintho accedeu--e um escudeiro acercou logo a meza +de Ephraim para que ns lhe estreassemos os servios destros. Mas o meu +Principe, depois de a altear, para meu espanto, at aos crystaes do +lustre, no conseguiu, apezar de uma suada e desesperada batalha com as +molas, que a meza regressasse a uma altura humana e cazeira. E o +escudeiro de novo a levou, levantada como um andaime, chimerica, +unicamente aproveitavel para o gigante Adamastor. Depois veio a caixa do +ch entre chaleiras, lampadas, coadores, filtros, todo um fausto de +alfaias de prata, que communicavam a essa occupao, to simples e dce +em caza de minha tia, _fazer ch_, a magestade d'um rito. Prevenido pelo +meu camarada da sublimidade d'aquelle ch de Kiang-Sou, ergui a chavena +aos labios com reverencia. Era uma infuso descorada que sabia a malva e +a formiga. Jacintho provou, cuspiu, blasphemou... No tomamos ch. + +Ao cabo d'outro pensativo silencio, murmurei, com os olhos perdidos no +lume: + +--E as obras de Tormes? A egreja... J haver egreja nova? + +Jacintho retomra o papel e a thesoura: + +--No sei... No tornei a receber carta do Silverio... Nem imagino onde +param os ossos... Que lugubre historia! + +Depois chegou a hora das luzes e do jantar. Eu encommendra pelo Grillo +ao nosso magistral cozinheiro uma larga travessa d'arroz dce, com as +iniciaes de Jacintho e a data ditosa em canella, moda amavel da nossa +meiga terra. E o meu Principe meza, percorrendo a lamina de marfim +onde no 202 se inscreviam os pratos a lapis vermelho, louvou com fervr +a ideia patriarchal: + +--Arrz dce! Est escripto com dois _ss_, mas no tem dvida... +Excellente lembrana! Ha que tempos no cmo arrz dce!... Desde a +morte da av. + +Mas quando o arrz dce appareceu triumphalmente, que vexme! Era um +prato monumental, de grande arte! O arrz, massio, moldado em frma de +pyramide do Egypto, emergia d'uma calda de cereja, e desapparecia sob os +fructos seccos que o revestiam at ao cimo, onde se equilibrava uma +cora de Conde feita de chocolate e gomos de tangerina gelada! E as +iniciaes, a data, to lindas e graves na canella ingenua, vinham +traadas nas bordas da travessa com violetas pralinadas! Repellimos, +n'um mudo horror, o prato acanalhado. E Jacintho, erguendo o copo de +Champagne, murmurou como n'um funeral pago: + +--_Ad Manes_, aos nossos mortos! + +Recolhemos Bibliotheca, a tomar o caf no conchego e alegria do lume. +Fra, o vento bramava como n'um rmo serrano: e as vidraas tremiam, +alagadas, sob as bategas da chuva irada. Que dolorosa noite para os dez +mil pobres que em Paris erram sem po e sem lar! Na minha aldeia, entre +crro e valle, talvez assim rugisse a tormenta. Mas ahi cada pobre, sob +o abrigo da sua telha v, com a sua panella atestada de couves, se +agacha no seu manto ao calor da lareira. E para os que no tenham lenha +ou couve, l est o Joo das Quintas, ou a tia Vicencia, ou o abbade, +que conhecem todos os pobres pelos seus nomes, e com elles contam, como +sendo dos seus, quando o carro vae ao matto e a fornada entra no frno. +Ah Portugal pequenino, que ainda s dce aos pequeninos! + +Suspirei, Jacintho preguiava. E terminamos por remexer languidamente os +jornaes que o mordomo trouxera, n'um monte facundo, sobre uma salva de +prata--jornaes de Paris, jornaes de Londres, Semanarios, Magazines, +Revistas, Illustraes... Jacintho desdobrava, arremessava: das Revistas +espreitava o summario, logo farto; s Illustraes rasgava as folhas com +o dedo indifferente, bocejando por cima das gravuras. Depois, mais +estirado para o lume: + +-- uma scca... No ha que lr. + +E de repente, revoltado contra este fastio oppressor que o escravisava, +saltou da poltrona com um arranque de quem despedaa algemas, e ficou +erecto, dardejando em torno um olhar imperativo e duro, como se +intimasse aquelle seu 202, to abarrotado de Civilisao, a que por um +momento sequer fornecesse sua alma um interesse vivo, sua vida um +fugitivo gsto! Mas o 202 permaneceu insensivel: nem uma luz, para o +animar, avivou o seu brilho mudo: s as vidraas tremeram sob o embate +mais rude de agua e vento. + +Ento o meu Principe, succumbido, arrastou os passos at ao seu +gabinete, comeou a percorrer todos os apparelhos completadores e +facilitadores da Vida--o seu Telegrapho, o seu Telephone, o seu +Phonographo, o seu Radiometro, o seu Graphophono, o seu Microphono, a +sua Machina d'Escrever, a sua Machina de Contar, a sua Imprensa +Electrica, a outra Magnetica, todos os seus utensilios, todos os seus +tubos, todos os seus fios... Assim um Supplicante percorre altares +d'onde espera soccorro. E toda a sua sumptuosa Mechanica se conservou +rigida, reluzindo frigidamente, sem que uma roda girasse, nem uma lamina +vibrasse, para entreter o seu Senhor. + +S o relogio monumental, que marcava a hora de todas as capitaes e o +curso de todos os planetas, se compadeceu, batendo a meia-noite, +annunciando ao meu amigo que mais um Dia partira levando o seu +pzo--diminuindo esse sombrio pzo da Vida, sob que elle gemia, vergado. +O Principe da Gran-Ventura, ento, decidiu recolher para a cama--com um +livro... E durante um momento, estacou no meio da Bibliotheca, +considerando os seus setenta mil volumes estabelecidos com pompa e +magestade como Doutores n'um Concilio--depois as pilhas tumultuarias dos +livros novos que esperavam pelos cantos, sobre o tapete, o repouso e a +consagrao das estantes d'ebano. Torcendo mollemente o bigode caminhou +por fim para a regio dos Historiadores: espreitou seculos, farejou +raas: pareceu attrahido pelo explendor do Imperio Byzantino: penetrou +na Revoluo Franceza d'onde se arredou desencantado: e palpou com mo +indeliberada toda a vasta Grecia desde a creao de Athenas at a +aniquilao de Corintho. Mas bruscamente virou para a fila dos Poetas, +que reluziam em marroquins claros, mostrando, sobre a lombada, em ouro, +nos titulos fortes ou languidos, o interior das suas almas. No +appeteceu nenhuma d'essas seis mil almas--e recuou, desconsolado, at +aos Biologos... To massia e cerrada era a estante de Biologia que o +meu pobre Jacintho estarreceu, como ante uma cidadella inaccessivel! +Rolou a escada--e, fugindo, trepou, at s alturas da Astronomia: +destacou astros, recollocou mundos: todo um Systema Solar desabou com +fragor. Aturdido, desceu, comeou a procurar por sobre as rimas das +obras novas, ainda brochadas, nas suas roupas leves de combate. +Apanhava, folheava, arremessava: para desentulhar um volume, demolia uma +torre de doutrinas: saltava por cima dos Problemas, pisava as Religies: +e relanceando uma linha, esgravatando alm n'um indice, todos +interrogava, de todos se desinteressava, rolando quasi de rastos, nas +grossas vagas de tomos que rolavam, sem se poder deter, na ancia de +encontrar um Livro! Parou ento no meio da immensa nave, de cocoras, sem +coragem, contemplando aquelles muros todos forrados, aquelle cho todo +alastrado, os seus setenta mil volumes--e, sem lhes provar a substancia, +j absolutamente saciado, abarrotado, nauseado pela opresso da sua +abundancia. Findou por voltar ao monto de jornaes amarrotados, ergueu +melancholicamente um velho _Diario de Noticias_, e com elle debaixo do +brao subiu ao seu quarto, para dormir, para esquecer. + + + + +VIII + + +Ao fim d'esse inverno escuro e pessimista, uma manh que eu preguiava +na cama, sentindo atravs da vidraa cheia de sol ainda pallido um bafo +de Primavera ainda timido--Jacintho assomou porta do meu quarto, +revestido de flanellas leves, d'uma alvura de aucena. Parou lentamente + beira dos colxes, e, com gravidade, como se annunciasse o seu +casamento ou a sua morte, deixou desabar sobre mim esta declarao +formidavel: + +--Z Fernandes, vou partir para Tormes. + +O pulo com que me sentei abalou o rijo leito de pau preto do velho D. +Galio: + +--Para Tormes? Oh Jacintho, quem assassinaste?... + +Deleitado com a minha emoo, o Principe da Gran Ventura tirou da +algibeira uma carta, e encetou estas linhas, j decerto relidas, +fundamente estudadas: + +--Ill.^{mo} e exc.^{mo} snr.--Tenho grande satisfao em communicar a +v. exc.^a que por toda esta semana devem ficar promptas as obras da +capella... + +-- do Silverio? exclamei. + +-- do Silverio. ...as obras da capella nova. Os venerandos restos dos +excelsos avs de v. exc.^a, senhores de todo o meu respeito, podem pois +ser em breve trasladados da egreja de S. Jos, onde tm estado +depositados por bondade do nosso Abbade, que muito se recommenda a v. +exc.^a... Submisso, aguardo as prestantes ordens de v. exc.^a a respeito +d'esta magestosa e afflictiva ceremonia... + +Atirei os braos, comprehendendo: + +--Ah! bem! Queres ir assistir trasladao... + +Jacintho sumiu a carta no bolso. + +--Pois no te parece, Z Fernandes? No por causa dos outros avs, que +so ossos vagos, e que eu no conheci. por causa do av Galio... +Tambem no o conheci. Mas este 202 est cheio d'elle; tu ests deitado +na cama d'elle; eu ainda uso o relogio d'elle. No posso abandonar ao +Silverio e aos caseiros o cuidado de o installarem no seu jazigo novo. +Ha aqui um escrupulo de decencia, de elegancia moral... Emfim, decidi. +Apertei os punhos na cabea, e gritei--_vou a Tormes_! E vou!... E tu +vens! + +Eu enfiara as chinellas, apertava os cordes do roupo: + +--Mas tu sabes, meu bom Jacintho, que a casa de Tormes est +inhabitavel... + +Elle cravou em mim os olhos aterrados. + +--Medonha, hein? + +--Medonha, medonha, no... uma bella casa, de bella pedra. Mas os +caseiros, que l vivem ha trinta annos, dormem em catres, comem o caldo + lareira, e usam as salas para seccar o milho. Creio que os unicos +moveis de Tormes, se bem recordo, so um armario, e uma espinetta de +charo, cxa, j sem teclas. + +O meu pobre Principe suspirou, com um gesto rendido em que se abandonava +ao Destino: + +--Acabou!... _Alea jact est!_ E como s partimos para abril, ha tempo de +pintar, d'assoalhar, d'envidraar... Mando d'aqui de Paris tapetes e +camas... Um estofador de Lisboa vae depois forrar e disfarar algum +buraco... Levamos livros, uma machina para fabricar gelo... E mesmo +uma occasio de pr emfim n'uma das minhas casas de Portugal alguma +decencia e ordem. Pois no achas? E ento essa! Uma casa que data de +1410... Ainda existia o Imperio Byzantino! + +Eu espalhava, com o pincel, sobre a face, flocos lentos de sabo. O meu +Principe accendeu muito pensativamente um cigarro; e no se arredou do +toucador, considerando o meu preparo com uma atteno triste que me +incommodava. Por fim, como se remoesse uma sentena minha, para lhe +reter bem a moral e o succo: + +--Ento, definitivamente, Z Fernandes, entendes que um dever, um +absoluto dever, ir eu a Tormes? + +Afastei do espelho a cara ensaboada para encarar com divertido espanto o +meu Principe: + +--Oh Jacintho! foi em ti, s em ti que nasceu a ideia d'esse dever! E +honra te seja, menino... No cedas a ninguem essa honra! + +Elle atirou o cigarro--e, com as mos enterradas nas algibeiras das +pantalonas, vagou pelo quarto, topando nas cadeiras, embicando contra os +postes torneados do velho leito de D. Galio, n'um balano vago, como +barco j desamarrado do seu seguro ancoradouro, e sem rumo no mar +incerto. Depois encalhou sobre a mesa onde eu conservava enfileirada, +por gradaes de sentimentos, desde o dagarreotypo do pap at +photographia do _Carocho_ perdigueiro, a galeria da minha Familia. + +E nunca o meu Principe (que eu contemplava esticando os suspensorios) me +pareceu to corcovado, to minguado, como gasto por uma lima que desde +muito o andasse fundamente limando. Assim viera findar, desfeita em +Civilisao, n'aquelle super-requintado magricellas sem musculo e sem +energia, a raa fortissima dos Jacinthos! Esses guedelhudos Jacinthes, +que nas suas altas terras de Tormes, de volta de bater o moiro no Salado +ou o castelhano em Valverde, nem mesmo despiam as fuscas armaduras para +lavrar as suas chans e amarrar a vide ao olmo, edificando o Reino com a +lana e com a enxada, ambas to rudes e rijas! E agora, alli estava +aquelle ultimo Jacintho, um Jacinthiculo, com a macia pelle embebida em +aromas, a curta alma enrodilhada em Philosophias, travado e suspirando +baixinho na miuda indeciso de viver. + +--Oh Z Fernandes, quem esta lavradeirona to rechonchuda? + +Estendi o pescoo para a Photographia que elle erguera d'entre a minha +galeria, no seu honroso caixilho de pellucia escarlate: + +--Mais respeito, Snr. D. Jacintho... Um pouco mais de respeito, +cavalheiro!... minha prima Joanninha, de Sandofim, da Casa da Flr da +Malva. + +--Flr da Malva, murmurou o meu Principe. a casa do Condestavel, de +Nun'alvares. + +--Flr da Rosa, homem! A casa do Condestavel era na Flr da Rosa, no +Alemtejo... Essa tua ignorancia trapalhona das coisas de Portugal! + +O meu Principe deixou escorregar mollemente a photographia da minha +prima d'entre os dedos molles--que levou face, no seu gesto horrendo +de palpar atravez da face a caveira. Depois, de repente, com um soberbo +esforo, em que se endireitou e cresceu: + +--Bem! _Alea jacta est!_ Partamos pois para as serras!... E agora nem +reflexo, nem descano!... obra! E a caminho! + +Atirou a mo ao fecho dourado da porta como se fosse o negro loquete que +abre os Destinos--e no corredor gritou pelo Grillo, com uma larga e +aodada voz que eu nunca lhe conhecera, e me lembrou a d'um Chefe +ordenando, n'alvorada, que se levante o Acampamento, e que a Hoste +marche, com pendes e bagagens... + +Logo n'essa manh (com uma actividade em que eu reconheci a pressa +enjoada de quem bebe oleo-de-ricino), escreveu ao Silverio mandando +caiar, assoalhar, envidraar o casaro. E depois do almoo appareceu na +Bibliotheca, chamado violentamente pelo telephone, para combinar a +remessa de mobilias e confortos, o director da _Companhia Universal de +Transportes_. + +Era um homem que parecia o cartaz da sua Companhia, apertado n'um +jaqueto de xadrezinho escuro, com polainas de jornada sobre botas +brancas, uma sacola de marroquim a tiracolo, e na botoeira uma roseta +multicor resumindo as suas condecoraes exoticas de Madagascar, de +Nicaragua, da Persia, outras ainda, que provavam a universalidade dos +seus servios. Apenas Jacintho mencionou Tormes, no Douro...--elle +logo, atravez d'um sorriso superior, estendeu o brao, detendo outros +esclarecimentos, na sua intimidade minuciosa com essas regies. + +--Tormes... Perfeitamente! Perfeitamente! + +Sobre o joelho, na carteira, escrevinhou uma fugidia nota--emquanto eu +considerava, assombrado, a vastido do seu saber Chorographico, assim +familiar com os recantos d'uma serra de Portugal e com todos os seus +velhos solares. J elle atirra a carteira para o bolso... E ns, seus +caros senhores, no tinhamos seno a encaixotar as roupas, as mobilias, +as preciosidades! Elle mandaria as suas carroas buscar os caixotes, a +que poria, em grossa letra, com grossa tinta, o endereo... + +--Tormes, perfeitamente! Linha Norte-Hespanha-Medina-Salamanca... +Perfeitamente! Tormes... Muito pittoresco! E antigo, historico! +Perfeitamente, perfeitamente! + +Desengonou a cabea n'uma venia profundissima--e sahiu da Bibliotheca, +com passos que devoravam leguas, annunciavam a presteza dos seus +Transportes. + +--V tu, murmurou Jacintho muito serio. Que promptido, que +facilidade!... Em Portugal era uma tragedia. No ha seno Paris! + +Comeou ento no 202 o collossal encaixotamento de todos os confortos +necessarios ao meu Principe para um mez de serra aspera--camas de penna, +banheiras de nickel, lampadas Carcel, divans profundos, cortinas para +vedar as gretas rudes, tapetes para amaciar os soalhos broncos. Os +sotos, onde se arrecadavam os pesados trastes do av Galio, foram +esvasiados--porque o casaro medieval de 1410 comportava os trems +romanticos de 1830. De todos os armazens de Paris chegavam cada manh +fardos, caixas, temerosos embrulhos que os emmaladores desfaziam, +atulhando os corredores de montes de palha e de papel pardo, onde os +nossos passos aodados se enrodilhavam. O cozinheiro, esbaforido, +organisava a remessa de fornalhas, geleiras, bocaes de trufas, latas de +conservas, bojudas garrafas de aguas mineraes. Jacintho, lembrando as +trovoadas da serra, comprou um immenso pra-raios. Desde o amanhecer, +nos pateos, no jardim, se martellava, se pregava, com vasto fragor, como +na construco d'uma cidade. E o desfilar das bagagens, atravs do +porto, lembrava uma pagina de Herodoto contando a marcha dos Persas. + +Das janellas, Jacintho com o brao estendido, saboreava aquella +actividade e aquella disciplina: + +--V tu, Z Fernandes, que facilidade!... Sahimos do 202, chegamos +serra, encontramos o 202. No ha seno Paris! + +Recomera a amar a Cidade, o meu Principe, emquanto preparava o seu +Exodo. Depois de ter, toda a manh, apressado os encaixotadores, +descortinado confortos novos para o abandonado solar, telephonado gordas +listas de encommendas a cada loja de Paris--era com delicia que se +vestia, se perfumava, se floria, se enterrava na vittoria ou saltava +para a almofada do phaeton, e corria ao Bosque, e saudava a barba +talmudica do Ephraim, e os bands furiosamente negros da Verghane, e o +Psychologo de fiacre, e a condessa de Trves na sua nova caleche de +oito-molas fornecida pelas operaes conjunctas da Bolsa e da alcva. +Depois arrebanhava amigos para jantares de surpreza no Voisin ou no +Bignon, onde desdobrava o guardanapo com a impaciencia d'uma fome +alegre, vigiando fervorosamente que os Bordeus estivessem bem aquecidos +e os Champagnes bem granitados. E no theatro das _Nouveauts_, no +_Palais Royal_, nos _Buffos_, ria, batendo na cxa, com encanecidas +facecias d'encanecidas faras, antiquissimos tregeitos d'antiquissimos +actores, com que j rira na sua infancia, antes da guerra, sob o segundo +Napoleo! + +De novo, em duas semanas, se abarrotaram as paginas da sua Agenda. A +magnificencia do seu trage, como imperador Frederico II de Suabia, +deslumbrou, no baile mascarado da Princesa de Cravon-Rogan (onde tambem +fui, de moo de forcado.) E na _Associao para o Desenvolvimento das +Religies Esotericas_ discursou e batalhou bravamente pela construco +d'um Templo Budhista em Montmartre! + +Com espanto meu recomeou tambem a conversar, como nos tempos de Escla, +da famosa Civilisao nas suas maximas propores. Mandou encaixotar o +seu velho telescopio para o usar em Tormes. Receei mesmo que no seu +espirito germinasse a ida de crear, no cimo da serra, uma Cidade com +todos os seus orgos. Pelo menos no consentia o meu Jacintho que essas +semanas da silvestre Tormes interrompessem a illimitada accumulao das +noes--porque uma manh rompeu pelo meu quarto, desolado, gritando que +entre tantos confortos e frmas de Civilisao esqueceramos os livros! +Assim era--e que vexame para a nossa Intellectualidade! Mas que livros +escolher entre os facundos milhares sob que vergava o 202? O meu +Principe decidiu logo dedicar os seus dias serranos ao estudo da +Historia Natural--e ns mesmos, immediatamente, deitamos para o fundo +d'um vasto caixote novo, como lastro, os vinte e cinco tomos de Plinio. +Despejamos depois para dentro, s braadas, Geologia, Mineralogia, +Botanica... Espalhamos por cima uma camada aeria de Astronomia. E, para +fixar bem no caixote estas Sciencias oscillantes, entalamos em redor +cunhas de Metaphysica. + +Mas quando a derradeira caixa, pregada e cintada de ferro, sahiu do +porto do 202 na derradeira carroa da _Companhia dos Transportes_, toda +esta animao de Jacintho se abateu como a efervescencia n'um copo de +Champagne. Era em meados j tepidos de Maro. E de novo os seus +desagradaveis bocejos atroaram o 202, e todos os sophs rangeram sob o +peso do corpo que elle lhe atirava para cima, mortalmente vencido pela +fartura e pelo tedio, n'um desejo de repouso eterno, bem envolto de +solido e silencio. Desesperei. O que! Aturaria eu ainda aquelle +Principe palpando amargamente a caveira, e, quando o crepusculo +entristecia a Bibliotheca, alludindo, n'um tom rouco, doura das +mortes rapidas pela violencia misericordiosa do acido cyanhidrico? Ah +no, caramba! E uma tarde em que o encontrei estirado sobre um divan, de +braos em cruz, como se fosse a sua estatua de marmore sobre o seu +jazigo de granito, positivamente o abanei com furor, berrando: + +--Accorda, homem! Vamos para Tormes! O casaro deve estar prompto, a +reluzir, a abarrotar de cousas! Os ossos de teus avs pedem repouso, em +cova sua!... A caminho, a enterrar esses mortos, e a vivermos ns, os +vivos!... Irra! So cinco de Abril!... o bom tempo da serra! + +O meu Principe resurgiu lentamente da inercia de pedra: + +--O Silverio no me escreveu, nunca me escreveu... Mas, com effeito, +deve estar tudo preparado... J l temos certamente creados, o +cosinheiro de Lisboa... Eu s levo o Grillo, e o Anatole que envernisa +bem o calado, e tem geito como pedicuro... Hoje Domingo. + +Atirou os ps para o tapete, com heroismo: + +--Bem, partimos no Sabbado!... Avisa tu o Silverio! + +Comeou ento o laborioso e pensativo estudo dos Horarios--e o dedo +magro de Jacintho, por sobre o mappa, avanando e recuando entre Paris e +Tormes. Para escolher o salo que deviamos habitar durante a temida +jornada, duas vezes percorremos o deposito da Estao d'Orleans, +atolados em lama, atraz do Chefe do Trafico que entontecia. O meu +Principe recusava este salo por causa da cr tristonha dos estofos; +depois recusava aquelle por causa da mesquinhez afflictiva do +Water-Closet! Uma das suas inquietaes era o banho, nas manhs que +passariamos rolando. Suggeri uma banheira de borracha. Jacintho, +indeciso, suspirava... Mas nada o aterrou como o trasbordo em Medina del +Campo, de noite, nas trevas da Velha Castella. Debalde a Companhia do +Norte de Hespanha e a de Salamanca, por cartas, por telegrammas, +socegaram o meu camarada, affirmando que, quando elle chegasse no +comboio de Irun dentro do seu salo, j outro salo ligado ao comboio de +Portugal esperaria, bem aquecido, bem allumiado, com uma ceia que lhe +offertava um dos Directores, D. Esteban Castillo, ruidoso e rubicundo +conviva do 202! Jacintho corra os dedos anciosos pela face:--E os +saccos, as pelles, os livros, quem os transportaria do salo de Irun +para o salo de Salamanca? Eu berrava, desesperado, que os carregadores +de Medina eram os mais rapidos, os mais destros de toda a Europa! Elle +murmurava:--Pois sim, mas em Hespanha, de noite!... A noite, longe da +Cidade, sem telephone, sem luz electrica, sem postos de policia, parecia +ao meu Principe povoada de surprezas e assaltos. S acalmou depois de +verificar no Observatorio Astronomico, sob a garantia do sabio professor +Bertrand, que a noite da nossa jornada era de lua cheia! + +Emfim, na sexta-feira, findou a tremenda organisao d'aquella viagem +historica! O sabbado predestinado amanheceu com generoso sol, de +affagadora doura. E eu acabava de guardar na mala, embrulhadas em papel +pardo, as photographias das creaturinhas suaves que, n'esses vinte e +sete mezes de Paris, me tinham chamado _mon petit chou! mon rat +cheri!_--quando Jacintho rompeu pelo quarto, com um soberbo ramo de +orchideas na sobrecasaca, pallido e todo nervoso. + +--Vamos ao Bosque, por despedida? + +Fomos-- grande despedida! E que encanto! At nas almofadas e molas da +vittoria senti logo uma elasticidade mais emballadora. Depois, pela +Avenida do Bosque, quasi me pezava no ficar sempiternamente rolando, ao +trote rimado das eguas perfeitas, no rebrilho rico de metaes e vernizes, +sobre aquelle macadam mais alisado que marmore, entre to bem regadas +flres e relvas de to tentadora frescura, cruzando uma Humanidade fina, +de elegancia bem acabada, que almora o seu chocolate em porcellanas de +Sevres ou de Minton, sahira d'entre sdas e tapetes de tres mil francos, +e respirava a belleza de Abril com vagar, requinte e pensamentos +ligeiros! O Bosque resplandecia n'uma harmonia de verde, azul e ouro. +Nenhuma cova ou terra solta desalisava as polidas alleas que a Arte +traou e enroscou na espessura--nenhum esgalho desgrenhado desmanchava +as ondulaes macias da folhagem que o Estado escva e lava. O piar das +aves apenas se elevava para espalhar uma graa leve de vida alada;--e +mais natural parecia, entre o arvoredo sociavel, o ranger das sellas +novas, onde pousavam, com balano esbelto, as amazonas espartilhadas +pelo grande Redfern. Em frente ao Pavilho de Armenonville cruzamos +Madame de Trves, que nos envolveu ambos na caricia do seu sorriso, mais +avivado quella hora pelo vermelho ainda humido. Logo atraz a barba +talmudica de Ephraim negrejou, fresca tambem da brilhantine da manh, no +alto d'um phaeton tilintante. Outros amigos de Jacintho circulavam nas +Acacias--e as mos que lhe acenavam, lentas e affaveis, calavam luvas +frescas cr de palha, cr de perola, cr de lilaz. Todelle relampejou +rente de ns sobre uma grande bycicleta. Dornan, alastrado n'uma cadeira +de ferro, sob um espinheiro em flr, mamava o seu immenso charuto, como +perdido na busca de rimas sensuaes e nedias. Adeante foi o Psychologo, +que nos no avistou, conversando com um requebro melancolico para dentro +d'um coup que rescendia a alcova, e a que um cocheiro obeso imprimia +dignidade e decencia. E rolavamos ainda, quando o Duque de Marizac, a +cavallo, ergueu a bengala, estacou a nossa vittoria para perguntar a +Jacintho se apparecia noite nos quadros vivos dos Verghanes. O meu +Principe rosnou um--no, parto para o sul...--que mal lhe passou +d'entre os bigodes murchos... E Marizac lamentou--porque era uma festa +estupenda. Quadros vivos da Historia Sagrada e da Historia Romana!... +Madame Verghane, de Magdalena, de braos ns, peitos ns, pernas nas, +limpando com os cabellos os ps do Christo!--O Christo, um latago +soberbo, parente dos Trves, empregado no Ministerio da Guerra, gemendo, +derreado, sob uma cruz de papelo! Havia tambem Lucrecia na cama, e +Tarquinio ao lado, de punhal, a puxar os lenoes! E depois ceia, em +mezas soltas, todos nos seus trajes historicos. Elle j estava +aparceirado com Madame de Malbe, que era Agrippina! Quadro portentoso +esse--Agrippina morta, quando Nero a vem contemplar e lhe estuda as +frmas, admirando umas, desdenhando outras como imperfeitas. Mas, por +polidez, ficra combinado que Nero admiraria sem reserva todas as frmas +de Madame de Malbe... Emfim collossal, e estupendamente instructivo! + +Acenamos um longo adeus quelle alegre Marizac. E recolhemos sem que +Jacintho emergisse do silencio enrugado em que se abysmra, com os +braos rigidamente cruzados, como remoendo pensamentos decisivos e +fortes. Depois, em frente ao Arco de Triumpho, moveu a cabea, murmurou: + +-- muito grave, deixar a Europa! + + * * * * * + +Emfim, partimos! Sob a doura do crepusculo que se enublra deixamos o +202. O Grillo e o Anatole seguiam n'um fiacre atulhado de livros, de +estojos, de paletots, de impermeaveis, de travesseiras, de agoas +mineraes, de saccos de couro, de rolos de mantas: e mais atraz um +omnibus rangia sob a carga de vinte e tres malas. Na Estao, Jacintho +ainda comprou todos os Jornaes, todas as Illustraes, Horarios, mais +livros, e um saca-rolhas de frma complicada e hostil. Guiados pelo +Chefe do Trafico, pelo Secretario da Companhia, occupamos copiosamente o +nosso salo. Eu puz o meu bonet de sda, calcei as minhas chinellas. Um +silvo varou a noite. Paris lampejou, fugiu n'um derradeiro claro de +janellas... Para o sorver, Jacintho ainda se arremessou portinhola. +Mas rolavamos j na treva da Provincia. O meu Principe ento recahiu nas +almofadas: + +--Que aventura, Z Fernandes! + +At Chartres, em silencio, folheamos as Illustraes. Em Orleans, o +guarda veio arranjar respeitosamente as nossas camas. Derreado com +aquelles quatorze mezes de Civilisao adormeci--e s acordei em Bordeus +quando Grillo, zeloso, nos trouxe o nosso chocolate. Fra, uma chuva +miudinha pingava mollemente d'um espesso ceu de algodo sujo. Jacintho +no se deitra, desconfiado da aspereza e da humidade dos lenoes. E, +mettido n'um roupo de flanella branco, com a face arripiada e +estremunhada, ensopando um bolo no chocolate, rosnava sombriamente: + +--Este horror!... E agora com chuva! + +Em Biarritz, ambos observamos com uma certeza indolente: + +-- Biarritz. + +Depois Jacintho, que espreitava pela janella embaciada, reconheceu o +lento caminhar pernalto, o nariz bicudo e triste, do Historiador Danjon. +Era elle, o facundo homem, vestido de xadrezinho, ao lado d'uma dama +rolia que levava pela trella uma cadellinha felpuda. Jacintho baixou a +vidraa violentamente, berrou pelo Historiador, na ancia de communicar +ainda, atravs d'elle, com a Cidade, com o 202!... Mas o comboio +mergulhra na chuva e nevoa. + +Sobre a ponte do Bidassoa, antevendo o termo da vida facil, os abrolhos +da Incivilisao, Jacintho suspirou com desalento: + +--Agora adeus, comea a Hespanha!... + +Indignado, eu, que j saboreava o generoso ar da terra bemdita, saltei +para diante do meu Principe, e n'um saracoteio de tremendo salero, +castanholando os dedos, entoei uma petenera condigna: + +A la puerta de mi casa +Ay Soledad, Soleda... ... ... . + +Elle estendeu os braos, supplicante: + +--Z Fernandes, tem piedade do enfermo e do triste! + +--_Irun_! _Irun_!... + +N'essa Irun almoamos com succulencia--por que sobre ns velava, como +Deusa omnipresente, a Companhia do Norte. Depois el jefe d'Aduana, el +jefe d'Estacion, preciosamente nos installaram n'outro salo, novo, com +setins cr d'azeitona, mas to pequeno que uma rica poro dos nossos +confortos em mantas, livros, saccos e impermeaveis, passou para o +compartimento do _Sleeping_ onde se repoltreavam o Grillo e o Anatole, +ambos de bonets escocezes, e fumando gordos charutos.--_Buen viaje_! +_Gracias_! _Servidores_!--E entramos silvando nos Pyreneos. + +Sob a influencia da chuva embaciadora, d'aquellas serras sempre eguaes, +que se desenrolavam, arripiadas, diluidas na nevoa, resvalei a uma +somnolencia dce;--e, quando descerrava as palpebras, encontrava +Jacintho a um canto, esquecido do livro fechado nos joelhos, sobre que +cruzra os magros dedos, considerando valles e montes com a melancolia +de quem penetra nas terras do seu desterro! Um momento veio em que, +arremessando o livro, enterrando mais o chapo molle, se ergueu com +tanta deciso, que receei detivesse o comboio para saltar estrada, +correr atravez das Vascongadas e da Navarra, para traz, para o 202! +Sacudi o meu torpr, exclamei:--oh menino!... No! O pobre amigo ia +apenas continuar o seu tedio para outro canto, enterrado n'outra +almofada, com outro livro fechado. E maneira que a escurido da tarde +crescia, e com ella a borrasca de vento e agoa, uma inquietao mais +aterrada se apoderava do meu Principe, assim desgarrado da Civilisao, +arrastado para a Natureza que j o cercava de brutalidade agreste. No +cessou ento de me interrogar sobre Tormes: + +--As noites so horriveis, hein, Z Fernandes? Tudo negro, enorme +solido... E medico?... Ha medico? + +Subitamente o comboio estacou. Mais grossa e ruidosa a chuva fustigou as +vidraas. Era um descampado, todo em treva, onde rolava e lufava um +grande vento solto. A machina apitava, com angustia. Uma lanterna +lampejou, correndo. Jacintho batia o p:-- medonho! medonho!... +Entreabri a portinhola. Da claridade incerta das vidraas surdiam +cabeas esticadas, assustadas.--_Que hay_? _Que hay_?--A uma rajada, +que me alagou, recuei:--e esperamos durante lentos, calados minutos, +esfregando desesperadamente os vidros embaciados para sondar a +escurido. De repente o comboio recomeou a rolar, muito sereno. + +Em breve appareceram as luzinhas mortas d'uma estao abarracada. Um +conductor, com o casaco de oleado todo a escorrer, trepou ao salo:--e +por elle soubemos, emquanto carimbava apressadamente os bilhetes, que o +trem, muito atrazado, talvez no alcanasse em Medina o comboio de +Salamanca! + +--Mas ento?... + +O casaco de oleado escorregra pela portinhola, fundido na noite, +deixando um cheiro de humidade e azeite. E ns encetamos um novo +tormento... Se o trem de Salamanca tivesse abalado? O salo, tomado at +Medina, desengatava em Medina:--e eis os nossos preciosos corpos, com as +nossas preciosas almas, despejados em Medina, para cima da lama, entre +vinte e trez malas, n'uma rude confuso hespanhola, sob a tormenta de +ventania e d'agua! + +--Oh, Z Fernandes, uma noite em Medina! + +Ao meu Principe apparecia como desventura suprema essa noite em Medina, +n'uma _fonda_ sordida, fedendo a alho, com gordas filas de percevejos +atravez dos lenoes d'estopa encardida!... No cessei ento de fitar, +n'um desassocego, os ponteiros do relogio:--emquanto Jacintho, pela +vidraa escancarada, todo fustigado da chuva clamorosa, furava a +negrura, na esperana de avistar as luzes de Medina e um comboio +paciente fumegando... Depois recahia no divan, limpava os bigodes e os +olhos, maldizia a Hespanha. O trem arquejava, rompendo o vasto vento da +planura desolada. E a cada apito era um alvoroo. Medina?... No! Algum +sumido apeadeiro, onde o trem se atardava, esfalfado, resfolgando, +emquanto dormentes figuras encarapuadas, embrulhadas em mantas, +rondavam sob o telheiro do barraco, que as lanternas baas tornavam +mais soturno. Jacintho esmurrava o joelho:--Mas por que pra este +infame comboio? No ha trafico, no ha gente! Oh esta Hespanha!... A +sineta badalava, moribunda. De novo fendiamos a noite e a borrasca. + +Resignadamente comecei a percorrer um _Jornal do Commercio_, antigo, +trazido de Paris. Jacintho esmagava o espesso tapete do salo com +passadas rancorosas, rosnando como uma fera. E ainda assim se escoou, s +gottas, uma hora cheia de eternidade.--Um silvo, outro silvo!... Luzes +mais fortes, longe, palpitaram na neblina. As rodas trilharam, com rijos +solavancos, os encontros de carris. Emfim, Medina!... Um muro sujo de +barraco alvejou--e bruscamente, portinhola aberta com violencia, +apparece um cavalheiro barbudo, de capa hespanhola, gritando pelo snr. +D. Jacintho!... Depressa! depressa! que parte o comboio de Salamanca! + +--Que no hay un momento, caballeros! Que no hay un momento! + +Agarro estonteadamente o meu paletot, o _Jornal do Commercio_. Saltamos +com ancia:--e, pela plataforma, por sobre os trilhos, atravs de +charcos, tropeando em fardos, empurrados pelo vento, pelo homem da capa + hespanhola, enfiamos outra portinhola, que se fechou com um estalo +tremendo... Ambos arquejavamos. Era um salo forrado de um panno verde +que comia a luz escassa. E eu estendia o brao, para receber dos +carregadores aodados as nossas malas, os nossos livros, as nossas +mantas--quando, em silencio, sem um apito, o trem despegou e rolou. +Ambos nos atiramos s vidraas, em brados furiosos: + +--Pare! As nossas malas, as nossas mantas!... P'ra aqui!... Oh Grillo! +Oh Grillo! + +Uma immensa rajada levou os nossos brados. Era de novo o descampado +tenebroso, sob a chuva despenhada. Jacintho ergueu os punhos, n'um furor +que o engasgava: + +--Oh! Que servio! Oh que canalhas!... S em Hespanha!... E agora? As +malas perdidas!... Nem uma camisa, nem uma escova! + +Calmei o meu desgraado amigo: + +--Escuta! eu entrevi dous carregadores arrebanhando as nossas cousas... +Decerto o Grillo fiscalisou. Mas na pressa, naturalmente, atirou com +tudo para o seu compartimento... Foi um erro no trazer o Grillo +comnosco, no salo... At podiamos jogar a manilha! + +De resto a sollicitude da Companhia, Deusa omnipresente, velava sobre o +nosso conforto--pois que porta do lavatorio branquejava o cesto da +nossa ceia, mostrando na tampa um bilhete de D. Esteban com estas doces +palavras a lapis--_ D. Jacintho y su egregio amigo, que les d gusto_! +Farejei um aroma de perdiz. E alguma tranquillidade nos penetrou no +corao sentindo tambem as nossas malas sob a tutella da Deusa +omnipresente. + +--Tens fome Jacintho? + +--No. Tenho horror, furor, rancor!... E tenho somno. + +Com effeito! depois de to desencontradas emoes s appeteciamos as +camas que esperavam, macias e abertas. Quando cahi sobre a travesseira, +sem gravata, em ceroulas, j o meu Principe, que no se despira, apenas +embrulhra os ps no _meu_ paletot, nosso unico agasalho, resonava com +magestade. + +Depois, muito tarde e muito longe, percebi junto do meu catre, na +claridadezinha da manh, coada pelas cortinas verdes, uma fardeta, um +bonet, que murmuravam baixinho com immensa doura: + +--V. exc.^as no tem nada a declarar?... No ha malinhas de mo?... + +Era a minha terra! Murmurei baixinho com immensa ternura: + +--No temos aqui nada... Pergunte v. exc.^a pelo Grillo... Ahi atraz, +n'um compartimento... Elle tem as chaves, tem tudo... o Grillo. + +A fardeta desappareceu, sem rumor, como sombra benefica. E eu readormeci +com o pensamento em Guies, onde a tia Vicencia, atarefada, de leno +branco cruzado no peito, de certo j preparava o leito. + +Acordei envolto n'um largo e doce silencio. Era uma Estao muito +socegada, muito varrida, com rosinhas brancas trepando pelas paredes--e +outras rosas em moitas, n'um jardim, onde um tanquesinho abafado de +limos dormia sob duas mimosas em flr que rescendiam. Um moo pallido, +de paletot cr de mel, vergando a bengalinha contra o cho, contemplava +pensativamente o comboio. Agachada rente grade da horta, uma velha, +diante da sua cesta de ovos, contava moedas de cobre no regao. Sobre o +telhado seccavam aboboras. Por cima rebrilhava o profundo, rico e macio +azul de que meus olhos andavam agoados. + +Sacudi violentamente Jacintho: + +--Acorda, homem, que ests na tua terra! + +Elle desembrulhou os ps do meu paletot, cofiou o bigode, e veio sem +pressa, vidraa que eu abrira, conhecer a sua terra. + +--Ento Portugal, hein?... Cheira bem. + +--Est claro que cheira bem, animal! + +A sineta tilintou languidamente. E o comboio deslisou, com descano, +como se passeasse para seu regalo sobre as duas fitas d'ao, assobiando +e gozando a belleza da terra e do ceu. + +O meu Principe alargava os braos, desolado: + +--E nem uma camisa, nem uma escova, nem uma gotta d'agoa de Colonia!... +Entro em Portugal, immundo! + +--Na Regoa ha uma demora, temos tempo de chamar o Grillo, rehaver os +nossos confortos... Olha para o rio! + +Rolavamos na vertente d'uma serra, sobre penhascos que desabavam at +largos socalcos cultivados de vinhedo. Em baixo, n'uma esplanada, +branquejava uma casa nobre, de opulento repouso, com a capellinha muito +caiada entre um laranjal maduro. Pelo rio, onde a agoa turva e tarda nem +se quebrava contra as rochas, descia, com a vela cheia, um barco lento +carregado de pipas. Para alm, outros socalcos, d'um verde pallido de +rezeda, com oliveiras apoucadas pela amplido dos montes, subiam at +outras penedias que se embebiam, todas brancas e assoalhadas, na fina +abundancia do azul. Jacintho acariciava os pellos corredios do bigode: + +--O Douro, hein?... interessante, tem grandeza. Mas agora que eu +estou com uma fome, Z Fernandes! + +Tambem eu! Destapamos o cesto de D. Esteban d'onde surdiu um bodo +grandioso, de presunto, anho, perdizes, outras viandas frias que o ouro +de duas nobres garrafas d'Amontillado, alm de duas garrafas de Rioja, +aqueciam com um calor de sol Andaluz. Durante o presunto, Jacintho +lamentou contrictamente o seu erro. Ter deixado Tormes, um solar +historico, assim abandonado e vasio! Que delicia, por aquella manh to +lustrosa e tepida, subir serra, encontrar a sua casa bem apetrechada, +bem civilisada... Para o animar, lembrei que com as obras do Silverio, +tantos caixotes de Civilisao remettidos de Paris, Tormes estaria +confortavel mesmo para Epicuro. Oh! mas Jacintho entendia um palacio +perfeito, um 202 no deserto!... E, assim discorrendo, atacamos as +perdizes. Eu desarrolhava uma garrafa de Amontillado--quando o comboio, +muito sorrateiramente, penetrou n'uma Estao. Era a Regoa. E o meu +Principe pousou logo a faca para chamar o Grillo, reclamar as malas que +traziam o aceio dos nossos corpos. + +--Espera, Jacintho! Temos muito tempo, O comboio pra aqui uma hora... +Come com tranquillidade. No escangalhemos este almocinho com arrumaes +de maletas... O Grillo no tarda a apparecer. + +E corri mesmo a cortina, porque de fra um padre muito alto, com uma +ponta de cigarro collada ao beio, parra a espreitar indiscretamente o +nosso festim. Mas quando acabamos as perdizes, e Jacintho confiadamente +desembrulhava um queijo manchego, sem que Grillo ou Anatole +comparecessem, eu, inquieto, corri portinhola para apressar esses +servos tardios... E n'esse instante o comboio, largando, deslisou com o +mesmo silencio sorrateiro. Para o meu Principe foi um desgosto: + +--Ahi ficamos outra vez sem um pente, sem uma escova... E eu que queria +mudar de camisa! Por culpa tua, Z-Fernandes! + +-- espantoso!... Demora sempre uma eternidade. Hoje chega e abala! +Paciencia, Jacintho. Em duas horas estamos na Estao de Tormes... +Tambem no valia a pena mudar de camisa para subir serra! Em casa +tomamos um banho, antes de jantar... J deve estar installada a +banheira. + +Ambos nos consolamos com copinhos d'uma divina aguardente Chinchon. +Depois, estendidos nos sophs, saboreando os dois charutos que nos +restavam, com as vidraas abertas ao ar adoravel, conversamos de Tormes. +Na estao certamente estaria o Silverio, com os cavallos... + +--Que tempo leva a subir? + +Uma hora. Depois de lavados sobrava tempo para um demorado passeio pelas +terras com o caseiro, o excellente Melchior, para que o Senhor de +Tormes, solemnemente, tomasse posse do seu Senhorio. E noite o +primeiro brodio da serra, com os piteus vernaculos do velho Portugal! + +Jacintho sorria, seduzido: + +--Vamos a ver que cozinheiro me arranjou esse Silverio. Eu recommendei +que fosse um soberbo cozinheiro portuguez, classico. Mas que soubesse +trufar um per, afogar um bife em molho de moella, estas cousas simples +da cozinha de Frana!... O peor no te demorares, seguires logo para +Guies... + +--Ah, menino, annos da tia Vicencia no sabbado... Dia sagrado! Mas +volto. Em duas semanas estou em Tormes, para fazermos uma larga +Bucolica. E, est claro, para assistir trasladao. + +Jacintho estendera o brao: + +--Que casaro aquelle, alm no outeiro, com a torre? + +Eu no sabia. Algum solar de fidalgote do Douro... Tormes era n'esse +feitio atarracado e massio. Casa de seculos e para seculos--mas sem +torre. + +--E logo se v, da estao, Tormes?... + +--No! Muito no alto, n'uma prega da serra, entre arvoredo. + +No meu Principe j evidentemente nascra uma curiosidade pela sua rude +casa ancestral. Mirava o relogio, impaciente. Ainda trinta minutos! +Depois, sorvendo o ar e a luz, murmurava, no primeiro encanto de +iniciado: + +--Que doura, que paz... + +--Trez horas e meia, estamos a chegar, Jacintho! + +Guardei o meu velho _Jornal do Commercio_ dentro do bolso do paletot, +que deitei sobre o brao;--e ambos em p, s janellas, esperamos com +alvoroo a pequenina Estao de Tormes, termo ditoso das nossas +provaes. Ella appareceu emfim, clara e simples, beira do rio, entre +rochas, com os seus vistosos girasoes enchendo um jardimsinho breve, as +duas altas figueiras assombreando o pateo, e por traz a serra coberta de +velho e denso arvoredo... Logo na plataforma avistei com gosto a immensa +barriga, as bochechas menineiras do chefe da Estao, o louro Pimenta, +meu condiscipulo em Rhetorica, no Lyceu de Braga. Os cavallos decerto +esperavam, sombra, sob as figueiras. + +Mal o trem parou ambos saltamos alegremente. A bojuda massa do Pimenta +rebolou para mim com amizade: + +--Viva o amigo Z Fernandes! + +--Oh bello Pimento!... + +Apresentei o senhor de Tormes. E immediatamente: + +--Ouve l, Pimentinha... No est ahi o Silverio? + +--No... O Silverio ha quasi dois mezes que partiu para Castello de +Vide, vr a me que apanhou uma cornada d'um boi! + +Atirei a Jacintho um olhar inquieto: + +--Ora essa! E o Melchior, o caseiro?... Pois no esto ahi os cavallos +para subirmos quinta? + +O digno chefe ergueu com surpreza as sobrancelhas cr de milho: + +--No!... Nem Melchior, nem cavallos... O Melchior... Ha que tempos eu +no vejo o Melchior! + +O carregador badalou lentamente a sineta para o comboio rolar. Ento, +no avistando em torno, na lisa e despovoada Estao, nem creados nem +malas, o meu Principe e eu lanamos o mesmo grito de angustia: + +--E o Grillo? as bagagens?... + +Corremos pela beira do comboio, berrando com desespero: + +--Grillo!... Oh Grillo!... Anatole!... Oh Grillo! + +Na esperana que elle e o Anatole viessem mortalmente adormecidos, +trepavamos aos estribos, atirando a cabea para dentro dos +compartimentos, espavorindo a gente quieta com o mesmo berro que +retumbava:--Grillo, ests ahi, Grillo?--J d'uma terceira-classe, onde +uma viola repenicava, um jocoso gania, troando:--No ha por ahi um +grillo? Andam por ahi uns senhores a pedir um grillo!--E nem Anatole, +nem Grillo! + +A sineta tilintou. + +--Oh Pimentinha, espera, homem, no deixes largar o comboio!... As +nossas bagagens, homem! + +E, afflicto, empurrei o enorme chefe para o forgo de carga, a +pesquizar, descortinar as nossas vinte e trez malas! Apenas encontramos +barris, cestos de vime, latas de azeite, um bah amarrado com cordas... +Jacintho mordia os beios, livido. E o Pimentinha, esgazeado: + +--Oh filhos, eu no posso atrazar o comboio!... + +A sineta repicou... E com um bello fumo claro o comboio desappareceu por +detraz das fragas altas. Tudo em torno pareceu mais calado e deserto. +Alli ficavamos pois baldeados, perdidos na serra, sem Grillo, sem +procurador, sem caseiro, sem cavallos, sem malas! Eu conservava o +paletot alvadio, d'onde surdia o _Jornal do Commercio_. Jacintho, uma +bengala. Eram todos os nossos bens! + +O Pimento arregalava para ns os olhinhos papudos e compadecidos. +Contei ento quelle amigo o atarantado trasfgo em Medina sob a +borrasca, o Grillo desgarrado, encalhado com as vinte e trez malas, ou +rolando talvez para Madrid sem nos deixar um leno... + +--Eu no tenho um leno!... Tenho este _Jornal do Commercio_. toda a +minha roupa branca. + +--Grande arrelia, caramba! murmurava o Pimenta, impressionado. E agora? + +--Agora, exclamei, trepar, para a quinta, pata... A no ser que se +arranjassem ahi uns burros. + +Ento o carregador lembrou que perto, no casal da Giesta, ainda +pertencente a Tormes, o caseiro, seu compadre, tinha uma boa egua e um +jumento... E o prestante homem enfiou n'uma carreira para a +Giesta--emquanto o meu Principe e eu cahiamos para cima d'um banco, +arquejantes e succumbidos, como naufragos. O vasto Pimentinha, com as +mos nas algibeiras, no cessava de nos contemplar, de murmurar:-- de +arrelia.--O rio defronte descia, preguioso e como adormentado sob a +calma j pesada de maio, abraando, sem um sussurro, uma larga ilhota de +pedra que rebrilhava. Para alm a serra crescia em corcovas doces, com +uma funda prega onde se aninhava, bem junta e esquecida do mundo, uma +villasinha clara. O espao immenso repousava n'um immenso silencio. +N'aquellas solides de monte e penedia os pardaes, revoando no telhado, +pareciam aves consideraveis. E a massa rotunda e rubicunda do Pimentinha +dominava, atulhava a regio. + +--Est tudo arranjado, meu senhor! Vm ahi os bichos!... S o que no +calhou foi um selimsinho para a jumenta! + +Era o carregador, digno homem, que voltava da Giesta, sacudindo na mo +duas esporas desirmanadas e ferrugentas. E no tardaram a apparecer no +corrego, para nos levarem a Tormes, uma egua rua, um jumento com +albarda, um rapaz e um podengo. Apertamos a mo suada e amiga do +Pimentinha. Eu cedi a egua ao senhor de Tormes. E comeamos a trepar o +caminho, que no se alisra nem se desbravra desde os tempos em que o +trilhavam, com rudes sapates ferrados, cortando de rio a monte, os +Jacinthos do seculo XIV! Logo depois de atravessarmos uma tremula ponte +de pau, sobre um riacho quebrado por pedregulhos, o meu Principe, com o +olho de dono subitamente aguado, notou a robustez e a fartura das +oliveiras...--E em breve os nossos males esqueceram ante a incomparavel +belleza d'aquella serra bemdita! + +Com que brilho e inspirao copiosa a compozera o divino Artista que faz +as serras, e que tanto as cuidou, e to ricamente as dotou, n'este seu +Portugal bem-amado! A grandeza egualava a graa. Para os valles, +poderosamente cavados, desciam bandos de arvoredos, to copados e +redondos, d'um verde to mo que eram como um musgo macio onde +appetecia cahir e rolar. Dos pendores, sobranceiros ao carreiro fragoso, +largas ramadas estendiam o seu toldo amavel, a que o esvoaar leve dos +passaros sacudia a fragrancia. Atravez dos muros seculares, que sustem +as terras liados pelas heras, rompiam grossas raizes colleantes a que +mais hera se enroscava. Em todo o torro, de cada fenda, brotavam flres +silvestres. Brancas rochas, pelas encostas, alastravam a solida nudez do +seu ventre polido pelo vento e pelo sol; outras, vestidas de lichen e de +silvados floridos, avanavam como pras de galeras enfeitadas: e, +d'entre as que se apinhavam nos cimos, algum casebre que para l +galgra, todo amachucado e torto, espreitava pelos postigos negros, sob +as desgrenhadas farripas de verdura, que o vento lhe semera nas telhas. +Por toda a parte a agua sussurrante, a agua fecundante... Espertos +regatinhos fugiam, rindo com os seixos, d'entre as patas da egua e do +burro; grossos ribeiros aodados saltavam com fragor de pedra em pedra; +fios direitos e luzidios como cordas de prata vibravam e faiscavam das +alturas aos barrancos; e muita fonte, posta beira de veredas, jorrava +por uma bica, beneficamente, espera dos homens e dos gados... Todo um +cabeo por vezes era uma cera, onde um vasto carvalho ancestral, +solitario, dominava como seu senhor e seu guarda. Em socalcos verdejavam +laranjaes rescendentes. Caminhos de lages soltas circumdavam fartos +prados com carneiros e vaccas retouando:--ou mais estreitos, entalados +em muros, penetravam sob ramadas de parra espessa, n'uma penumbra de +repouso e frescura. Trepavamos ento alguma ruasinha de aldeia, dez ou +doze casebres, sumidos entre figueiras, onde se esgaava, fugindo do lar +pela telha v, o fumo branco e cheiroso das pinhas. Nos cerros remotos, +por cima da negrura pensativa dos pinheiraes, branquejavam ermidas. O ar +fino e puro entrava na alma, e n'alma espalhava alegria e fora. Um +esparso tilintar de chocalhos de guizos morria pelas quebradas... + +Jacintho adiante, na sua egua rua, murmurava: + +--Que belleza! + +E eu atraz, no burro de Sancho, murmurava: + +--Que belleza! + +Frescos ramos roavam os nossos hombros com familiaridade e carinho. Por +traz das sebes, carregadas d'amoras, as macieiras estendidas offereciam +as suas mas verdes, porque as no tinham maduras. Todos os vidros +d'uma casa velha, com a sua cruz no topo, refulgiram hospitaleiramente +quando ns passamos. Muito tempo um melro nos seguia, de azinheiro a +olmo, assobiando os nossos louvores. Obrigado, irmo melro! Ramos de +macieira, obrigado! Aqui vimos, aqui vimos! E sempre comtigo fiquemos, +serra to acolhedora, serra de fartura e de paz, serra bemdita entre as +serras! + +Assim, vagarosamente e maravilhados, chegamos quella avenida de faias, +que sempre me encantra pela sua fidalga gravidade. Atirando uma +vergastada ao burro e egua, o nosso rapaz, com o seu podengo sobre os +calcanhares, gritou:--Aqui que estmos, meus amos! E ao fundo das +faias, com effeito, apparecia o porto da quinta de Tormes, com o seu +brazo de armas, de secular granito, que o musgo retocava e mais +envelhecia. Dentro j os ces ladravam com furor. E quando Jacintho, na +sua suada egua, e eu atraz, no burro de Sancho, transpozemos o limiar +solarengo, desceu para ns, do alto do alpendre, pela escadaria de pedra +gasta, um homem nedio, rapado como um padre, sem collete, sem jaleca, +acalmando os ces que se encarniavam contra o meu Principe. Era o +Melchior, o caseiro... Apenas me reconheceu, toda a bocca se lhe +escancarou n'um riso hospitaleiro, a que faltavam dentes. Mas apenas eu +lhe revelei, d'aquelle cavalheiro de bigodes louros que descia da egua +esfregando os quadris, o senhor de Tormes--o bom Melchior recuou, +colhido de espanto e terror como diante d'uma avantesma. + +--Ora essa!... Santissimo nome de Deus! Pois ento... + +E, entre o rosnar dos ces, n'um bracejar desolado, balbuciou uma +historia que por seu turno apavorava Jacintho, como se o negro muro do +casaro pendesse para desabar. O Melchior no esperava s. ex.^a! Ninguem +esperava s. ex.^a!... (Elle dizia _sua incellencia_)... O snr. Silverio +estava para Castello de Vide desde maro, com a me, que apanhra uma +cornada na virilha. E de certo houvera engano, cartas perdidas... Porque +o snr. Silverio s contava com s. exc.^a em setembro, para a vindima! Na +casa as obras seguiam devagarinho, devagarinho... O telhado, no sul, +ainda continuava sem telhas; muitas vidraas esperavam, ainda sem +vidros; e, para ficar, Virgem Santa, nem uma cama arranjada!... + +Jacintho cruzou os braos n'uma colera tumultuosa que o suffocava. Por +fim, com um berro: + +--Mas os caixotes? Os caixotes, mandados de Paris, em fevereiro, ha +quatro mezes?... + +O desgraado Melchior arregalava os olhos miudos, que se embaciavam de +lagrimas. Os caixotes?! Nada chegra, nada apparecera!... E na sua +perturbao mirava pelas arcadas do pateo, palpava na algibeira das +pantalonas. Os caixotes?... No, no tinha os caixotes! + +--E agora, Z Fernandes? + +Encolhi os hombros: + +--Agora, meu filho, s vires commigo para Guies... Mas so duas horas +fartas a cavallo. E no temos cavallos! O melhor vr o casaro, comer +a boa gallinha que o nosso amigo Melchior nos assa no espeto, dormir +n'uma enxerga, e manha cedo, antes do calor, trotar para cima, para a +tia Vicencia. + +Jacintho replicou, com uma deciso furiosa: + +--manh troto, mas para baixo, para a estao!... E depois, para +Lisboa! + +E subiu a gasta escadaria do seu solar com amargura e rancor. Em cima +uma larga varanda acompanhava a fachada do casaro, sob um alpendre de +negras vigas, toda ornada, por entre os pilares de granito, com caixas +de pau onde floriam cravos. Colhi um cravo amarello---e penetrei atraz +de Jacintho nas salas nobres, que elle contemplava com um murmurio de +horror. Eram enormes, d'uma sonoridade de casa capitular, com os grossos +muros ennegrecidos pelo tempo e o abandono, e regeladas, desoladamente +nas, conservando apenas aos cantos algum monte de canastras ou alguma +enxada entre paus. Nos tectos remotos, de carvalho apainelado, luziam +atravs dos rasges manchas de co. As janellas, sem vidraas, +conservavam essas macissas portadas, com fechos para as trancas, que, +quando se cerram, espalham a treva. Sob os nossos passos, aqui e alm, +uma taboa pdre rangia e cedia. + +--Inhabitavel! rugia Jacintho surdamente. Um horror! Uma infamia!... + +Mas depois, n'outras salas, o soalho alternava com remendos de taboas +novas. Os mesmos remendos claros mosqueavam os velhissimos tectos de +rico carvalho sombrio. As paredes repelliam pela alvura cra da cal +fresca. E o sol mal atravessava as vidraas--embaciadas e gordurentas da +massa e das mos dos vidraceiros. + +Penetramos emfim na ultima, a mais vasta, rasgada por seis janellas, +mobilada com um armario e com uma enxerga parda e curta estirada a um +canto: e junto d'ella paramos, e sobre ella depuzemos tristemente o que +nos restava de vinte e trez malas--o meu paletot alvadio, a bengala de +Jacintho, e o _Jornal do Commercio_ que nos era commum. Atravs das +janellas escancaradas, sem vidraas, o grande ar da serra entrava e +circulava como n'um eirado, com um cheiro fresco d'horta regada. Mas o +que avistavamos, da beira da enxerga, era um pinheiral cobrindo um +cabeo e descendo pelo pendor suave, maneira d'uma hoste em marcha, +com pinheiros na frente, destacados, direitos, emplumados de negro; mais +longe as serras d'alm rio, d'uma fina e macia cr de violeta; depois a +brancura do co, todo liso, sem uma nuvem, d'uma magestade divina. E l +debaixo, dos valles, subia, desgarrada e melancolica, uma voz de +pegureiro cantando. + +Jacintho caminhou lentamente para o poial d'uma janella, onde cahiu +esbarrondado pelo desastre, sem resistencia ante aquelle brusco +desapparecimento de toda a Civilisao! Eu palpava a enxerga, dura e +regelada como um granito de inverno. E pensando nos luxuosos colches de +pennas e molas, to prodigamente encaixotados no 202, desafoguei tambem +a minha indignao: + +--Mas os caixotes, caramba?... Como se perdem assim trinta e tantos +caixotes enormes?... + +Jacintho saccudiu amargamente os hombros: + +--Encalhados, por ahi, algures, n'um barraco!... Em Medina, talvez, +n'essa horrenda Medina. Indifferena das Companhias, inercia do +Silverio... Emfim a Peninsula, a barbarie! + +Vim ajoelhar sobre o outro poial, alongando os olhos consolados por co +e monte: + +-- uma belleza! + +O meu principe, depois de um silencio grave, murmurou, com a face +encostada mo: + +-- uma lindeza... E que paz! + +Sob a janella vicejava fartamente uma horta, com repolho, feijoal, +talhes de alface, gordas folhas de abobora rastejando. Uma eira, velha +e mal alisada, dominava o valle, d'onde j subia tenuemente a nevoa +d'algum fundo ribeiro. Toda a esquina do casaro d'esse lado se +encravava em laranjal. E d'uma fontinha rustica, meio afogada em rosas +tremedeiras, corria um longo e rutilante fio d'agua. + +--Estou com appetite desesperado d'aquella agoa! declarou Jacintho, +muito srio. + +--Tambem eu... Desamos ao quintal, hein? E passamos pela cosinha, a +saber do frango. + +Voltamos varanda. O meu Principe, mais conciliado com o destino +inclemente, colheu um cravo amarello. E por outra porta baixa, de +rigissimas hombreiras, mergulhamos n'uma sala, alastrada de calia, sem +tecto, coberta apenas de grossas vigas, d'onde s'ergueu uma revoada de +pardaes. + +--Olha para este horror! murmurava Jacintho arripiado. + +E descemos por uma lobrega escada de castello, tenteando depois um +corredor tenebroso de lages asperas, atravancado por profundas arcas, +capazes de guardar todo o gro d'uma provincia. Ao fundo a cozinha, +immensa, era uma massa de frmas negras, madeira negra, pedra negra, +densas negruras de felugem secular. E n'este negrume refulgia a um +canto, sobre o cho de terra negra, a fogueira vermelha, lambendo tachos +e panellas de ferro, despedindo uma fumarada que fugia pela grade aberta +no muro, depois por entre a folhagem dos limoeiros. Na enorme lareira, +onde se aqueciam e assavam as suas grossas peas de porco e boi os +Jacinthos medievaes, agora desaproveitada pela frugalidade dos caseiros, +negrejava um poeirento monto de cestas e ferramentas; e a claridade +toda entrava por uma porta de castanho, escancarada sobre um quintalejo +rustico em que se misturavam couves lombardas e junquilhos formosos. Em +roda do lume um bando alvoroado de mulheres depennava frangos, remexia +as caarolas, picava a cebola, com um fervor afogueado e palreiro. Todas +emmudeceram quando apparecemos--e d'entre ellas o pobre Melchior, +estonteado, com o sangue a espirrar na nedia face d'abbade, correu para +ns, jurando que o jantarinho de suas Incellencias no demorava um +credo... + +--E a respeito de camas, oh amigo Melchior? + +O digno homem ciciou uma desculpa encolhida sobre enxergasinhas no +cho... + +-- o que basta! acudi eu, para o consolar. Por uma noite, com lenoes +frescos... + +--Ah, l pelos lenoesinhos respondo eu!... Mas um desgosto assim, meu +senhor! A gente apanhada sem um colxosinho de l, sem um lombosinho de +vacca... Que eu j pensei, at lembrei minha comadre, V. Inc.^{as} +podiam ir dormir aos _Ninhos_, a casa do Silverio. Tinham l camas de +ferro, lavatorios... Elle sempre uma legoasita e mau caminho... + +Jacintho, bondoso, accudiu: + +--No, tudo se arranja, Melchior. Por uma noite!... At gsto mais de +dormir em Tormes, na minha casa da serra! + +Sahimos ao terreiro, retalho de horta fechado por grossas rochas +encabelladas de verdura, entestando com os socalcos da serra onde +lourejava o centeio. O meu principe bebeu da agua nevada e lusidia da +fonte, regaladamente, com os beios na bica; appeteceu a alface +rechonchuda e crespa; e atirou pulos aos ramos altos d'uma copada +cerejeira, toda carregada de cereja. Depois, costeando o velho lagar, a +que um bando de pombas branqueava o telhado, deslismos at ao carreiro, +cortado no costado do monte. E andando, pensativamente, o meu Principe +pasmava para os milheiraes, para os vetustos carvalhos plantados por +vetustos Jacinthos, para os casebres espalhados sobre os cabeos orla +negra dos pinheiraes. + +De novo penetramos na avenida de faias e transpozemos o porto senhorial +entre o latir dos ces, mais mansos, farejando um dono. Jacintho +reconheceu certa nobreza na frontaria do seu lar. Mas sobretudo lhe +agradava a longa alameda, assim direita e larga, como traada para +n'ella se desenrolar uma cavalgada de Senhores com plumas e pagens. +Depois, de cima da varanda, reparando na telha nova da capella, louvou o +Silverio, esse ralao, por cuidar ao menos da morada do Bom-Deus. + +--E esta varanda tambem agradavel, murmurou elle mergulhando a face no +aroma dos cravos. Precisa grandes poltronas, grandes divans de verga... + +Dentro, na nossa sala, ambos nos sentamos nos poiaes da janella, +contemplando o doce socego crepuscular que lentamente se estabelecia +sobre valle e monte. No alto tremeluzia uma estrellinha, a Venus +diamantina, languida annunciadora da noite e dos seus contentamentos. +Jacintho nunca considerra demoradamente aquella estrella, de amorosa +refulgencia, que perpetua no nosso Co catholico a memoria da Deusa +incomparavel:--nem assistira jmais, com a alma attenta, ao magestoso +adormecer da Natureza. E este ennegrecimento dos montes que se embuam +em sombra; os arvoredos emmudecendo, canados de susurrar; o rebrilho +dos casaes mansamente apagado; o cobertor de nevoa, sob que se acama e +agasalha a frialdade dos valles; um toque somnolento de sino que rola +pelas quebradas; o segredado cochichar das aguas e das relvas +escuras--eram para elle como iniciaes. D'aquella janella, aberta sobre +as serras, entrevia uma outra vida, que no anda smente cheia do Homem +e do tumulto da sua obra. E senti o meu amigo suspirar como quem emfim +descana. + +D'este enlevo nos arrancou o Melchior com o doce aviso do jantarinho de +suas Incellencias. Era n'outra sala, mais na, mais abandonada:--e ahi +logo porta o meu super-civilisado Principe estacou, estarrecido pelo +desconforto, escassez e rudeza das coisas. Na mesa, encostada ao muro +denegrido, sulcado pelo fumo das candeias, sobre uma toalha de estopa, +duas velas de sbo em castiaes de lata alumiavam grossos pratos de +loua amarella, ladeados por colheres de estanho e por garfos de ferro. +Os copos, d'um vidro espesso, conservavam a sombra roxa do vinho que +n'elles passra em fartos annos de fartas vindimas. A malga de barro, +atestada de azeitonas pretas, contentaria Diogenes. Espetado na cdea +d'um immenso po reluzia um immenso facalho. E na cadeira senhoreal +reservada ao meu Principe, derradeira alfaia dos velhos Jacinthos, de +hirto espaldar de couro, com a madeira roda de caruncho, a clina fugia +em melenas pelos rasges do assento poido. + +Uma formidavel moa, de enormes peitos que lhe tremiam dentro das +ramagens do leno cruzado, ainda suada e esbrazeada do calor da lareira, +entrou esmagando o soalho, com uma terrina a fumegar. E o Melchior, que +seguia erguendo a infusa do vinho, esperava que suas Incellencias lhe +perdoassem porque faltra tempo para o caldinho apurar... Jacintho +occupou a sde ancestral--e, durante momentos (de esgazeada anciedade +para o caseiro excellente) esfregou energicamente, com a ponta da +toalha, o garfo negro, a fusca colhr de estanho. Depois, desconfiado, +provou o caldo, que era de gallinha e rescendia. Provou--e levantou para +mim, seu camarada de miserias, uns olhos que brilharam, surprehendidos. +Tornou a sorver uma colherada mais cheia, mais considerada. E sorriu, +com espanto:--Est bom! + +Estava precioso: tinha figado e tinha moela: o seu perfume enternecia: +tres vezes, fervorosamente, ataquei aquelle caldo. + +--Tambem l volto! exclamava Jacintho com uma convico immensa. que +estou com uma fome... Santo Deus! Ha annos que no sinto esta fome. + +Foi elle que rapou avaramente a sopeira. E j espreitava a porta, +esperando a portadora dos piteus, a rija moa de peitos trementes, que +emfim surgiu, mais esbrazeada, abalando o sobrado--e pousou sobre a mesa +uma travessa a trasbordar de arroz com favas. Que desconsolo! Jacintho, +em Paris, sempre abominra favas!... Tentou todavia uma garfada +timida--e de novo aquelles seus olhos, que o pessimismo ennovora, +luziram, procurando os meus. Outra larga garfada, concentrada, com uma +lentido de frade que se regala. Depois um brado: + +--Optimo!... Ah, d'estas favas, sim! Oh que fava! Que delicia! + +E por esta santa gula louvava a serra, a arte perfeita das mulheres +palreiras que em baixo remexiam as panellas, o Melchior que presidia ao +brodio... + +--D'este arroz com fava nem em Paris, Melchior amigo! + +O homem optimo sorria, inteiramente desannuviado: + +--Pois c a comidinha dos moos da quinta! E cada pratada, que at +suas Incellencias se riam... Mas agora, aqui, o Snr. D. Jacintho, tambem +vae engordar e enrijar! + +O bom caseiro sinceramente cria que, perdido n'esses remotos Parizes, o +Senhor de Tormes, longe da fartura de Tormes, padecia fome e mingava... +E o meu Principe, na verdade, parecia saciar uma velhissima fome e uma +longa saudade da abundancia, rompendo assim, a cada travessa, em +louvores mais copiosos. Diante do louro frango assado no espeto e da +salada que elle appetecera na horta, agora temperada com um azeite da +serra digno dos labios de Plato, terminou por bradar:-- divino! Mas +nada o enthusiasmava como o vinho de Tormes, cahindo d'alto, da bojuda +infusa verde--um vinho fresco, esperto, seivoso, e tendo mais alma, +entrando mais na alma, que muito poema ou livro santo. Mirando, vela +de sbo, o copo grosso que elle orlava de leve espuma rosea, o meu +Principe, com um resplendr d'optimismo na face, citou Virgilio: + +--_Quo te carmina dicam, Rethica_? Quem dignamente te cantar, vinho +amavel d'estas serras? + +Eu, que no gosto que me avantagem em saber classico, espanejei logo +tambem o meu Virgilio, louvando as douras da vida rural: + +--_Hanc olim veteres vitam coluere Sabini_... Assim viveram os velhos +Sabinos. Assim Romolo e Remo... Assim cresceu a valente Etruria. Assim +Roma se tornou a maravilha do mundo! + +E immovel, com a mo agarrada infusa, o Melchior arregalava para ns +os olhos em infinito assombro e religiosa reverencia. + + * * * * * + +Ah! Jantamos deliciosissimamente, sob os auspicios do Melchior--que +ainda depois, prvido e tutelar, nos forneceu o tabaco. E, como ante ns +se alongava uma noite de monte, voltamos para as janellas desvidraadas, +na sala immensa, a contemplar o sumptuoso co de vero. Philosophmos +ento com pachorra e facundia. + +Na Cidade (como notou Jacintho) nunca se olham, nem lembram os +astros--por causa dos candieiros de gaz ou dos globos de electricidade +que os offuscam. Por isso (como eu notei) nunca se entra n'essa +communho com o Universo que a unica gloria e unica consolao da +Vida. Mas na serra, sem predios disformes de seis andares, sem a +fumaraa que tapa Deus, sem os cuidados que como pedaos de chumbo puxam +a alma para o p rasteiro--um Jacintho, um Z Fernandes, livres, bem +jantados, fumando nos poiaes d'uma janella, olham para os astros e os +astros olham para elles. Uns, certamente, com olhos de sublime +immobilidade ou de subllime indifferena. Mas outros curiosamente, +anciosamente, com uma luz que acena, uma luz que chama, como se +tentassem, de to longe, revelar os seus segredos, ou de to longe +comprehender os nossos... + +--Oh Jacintho, que estrella esta, aqui, to viva, sobre o beiral do +telhado? + +--No sei... E aquella, Z Fernandes, alm, por cima do pinheiral? + +--No sei. + +No sabiamos. Eu, por causa da espessa crosta de ignorancia com que sahi +do ventre de Coimbra, minha Me espiritual. Elle, porque na sua +Bibliotheca possuia trezentos e oito tratados sobre Astronomia, e o +Saber, assim accumulado, frma um monte que nunca se transpe nem se +desbasta. Mas que nos importava que aquelle astro alm se chamasse +Syrius e aquelle outro Aldebaran? Que lhes importava a elles que um de +ns fosse Jacintho, outro Z? Elles to immensos, ns to pequeninos, +somos a obra da mesma Vontade. E todos, Uranos ou Lorenas de Noronha e +Sande, constituimos modos diversos d'um Sr unico, e as nossas +diversidades esparsas sommam na mesma compacta Unidade. Molleculas do +mesmo Todo, governadas pela mesma Lei, rolando para o mesmo Fim... Do +astro ao homem, do homem flr do trevo, da flr do trevo ao mar +sonoro--tudo o mesmo Corpo, onde circula, como um sangue, o mesmo +Deus. E nenhum fremito de vida, por menor, passa n'uma fibra d'esse +sublime Corpo, que se no repercuta em todas, at s mais humildes, at +s que parecem inertes e invitaes. Quando um Sol que no avisto, nunca +avistarei, morre de inanio nas profundidades, esse esguio galho de +limoeiro, em baixo na horta, sente um secreto arrepio de morte:--e, +quando eu bato uma patada no soalho de Tormes, alm o monstruoso Saturno +estremece, e esse estremecimento percorre o inteiro Universo! Jacintho +abateu rijamente a mo no rebordo da janella. Eu gritei: + +--Acredita!... O sol tremeu. + +E depois (como eu notei) deviamos considerar que, sobre cada um d'esses +gros de p luminoso, existia uma creao, que incessantemente nasce, +perece, renasce. N'este instante, outros Jacinthos, outros Zs +Fernandes, sentados s janellas d'outras Tormes, contemplam o co +nocturno, e n'elle um pequenininho ponto de luz, que a nossa possante +Terra por ns tanto sublimada. No tero todos esta nossa frma, bem +fragil, bem desconfortavel, e (a no ser no Apollo do Vaticano, na Venus +de Milo e talvez na Princeza, de Carman) singularmente feia e burlesca. +Mas, horrendos ou de ineffavel belleza; collossaes e d'uma carne mais +dura que o granito, ou leves como gazes e ondulando na luz, todos elles +so sres pensantes e teem consciencia da Vida--porque decerto cada +Mundo possue o seu Descartes, ou j o nosso Descartes os percorreu a +todos com o seu Methodo, a sua escura capa, a sua agudeza elegante, +formulando a unica certeza talvez certa, o grande _Penso logo existo_. +Portanto todos ns, Habitantes dos Mundos, s janellas dos nossos +casares, alm nos Saturnos, ou aqui na nossa Terricula, constantemente +perfazemos um acto sacrosanto que nos penetra e nos funde--que +sentirmos no Pensamento o nucleo commum das nossas modalidades, e +portanto realisarmos um momento, dentro da Consciencia, a Unidade do +Universo!--Hein, Jacintho?... + +O meu amigo rosnou: + +--Talvez... Estou a cahir com somno. + +--Tambem eu. Remontamos muito, Ex.^{mo} Snr.! como dizia o Pestaninha +em Coimbra. Mas nada mais bello, e mais vo, que uma cavaqueira, no alto +das serras, a olhar para as estrellas!... Tu sempre vaes amanh? + +--Com certeza, Z Fernandes! Com a certeza de Descartes. Penso _logo +fujo_! Como queres tu, n'este pardieiro, sem uma cama, sem uma +poltrona, sem um livro?... Nem s de arroz com fava vive o Homem! Mas +demoro em Lisboa, para conversar com o Cesimbra, o meu Administrador. E +tambem espera que estas obras acabem, os caixotes surjam, e eu possa +voltar decentemente, com roupa lavada, para a trasladao... + +-- verdade, os ossos... + +--Mas resta ainda o Grillo... Que animal! Por onde andar esse perdido? + +Ento, passeando lentamente na sala enorme, onde a vela de sbo j +derretida no castial de lata era como um lume de cigarro n'um +descampado, meditmos na sorte do Grillo. O estimado negro ou fra +despejado nas lamas de Medina, com as vinte e sete malas, aos +gritos--ou, regaladamente adormecido, rolra com o Anatole no comboio +para Madrid. Mas ambos os casos appareciam ao meu Principe como +irremediavelmente destruidores do seu conforto... + +--No, escuta, Jacintho... Se o Grillo encalhou em Medina, dormiu na +Fonda, catou os percevejos, e esta madrugada correu para Tormes. Quando +manh desceres Estao, s quatro horas, encontras o teu precioso +homem, com as tuas preciosas malas, mettido n'esse comboio que te leva +ao Porto e Capital... + +Jacintho saccudiu os braos como quem se debate nas malhas d'uma rede: + +--E se seguiu para Madrid? + +--Ento, por esta semana, c apparece em Tormes, onde encontra ordem +para regressar a Lisboa e reentrar no teu sequito... Resta o +interessante caso das minhas bagagens. Se manh encontrares na Estao +o Grillo, separa a minha mala negra, e o sacco de lona, e a chapelleira. +O Grillo conhece. E pede ao Pimenta, ao gordalhufo, que me avise para +Guies. Se o Grillo aportar Tormes, esfogueteado de Madrid, com toda +essa malaria, deixa as minhas cousas aqui, ao Melchior... Eu manh +fallo ao Melchior. + +Jacintho sacudiu furiosamente o collarinho: + +--Mas como posso eu partir para Lisboa, manh, com esta camisa de dous +dias, que j me faz uma comicho horrenda? E sem um leno... Nem ao +menos uma escova de dentes! + +Fertil em idas, estendi as mos, n'um bello gesto tutelar: + +--Tudo se arranja, meu Jacintho, tudo se arranja! Eu, largando d'aqui +cedo, pelas seis horas, chego a Guies s dez, ainda sem calor. E, mesmo +antes do almoo e da cavaqueira com a tia Vicencia, immediatamente te +mando por um moo um sacco de roupa branca. As minhas camisas e as +minhas ceroulas talvez te estejam largas. Mas um mendigo como tu no tem +direito a elegancias e a roupas bem cortadas. O moo, n'um bom trote, +entra aqui s duas horas; tens tempo de mudar antes de desceres para a +Estao... Posso metter na mala uma escova de dentes. + +--Oh Z Fernandes! Ento mette tambem uma esponja... E um frasco d'agoa +de colonia! + +--Agoa d'alfazema, excellente, feita pela tia Vicencia... + +O meu Principe suspirou, impressionado com a sua miseria esqualida, e +esta dadiva de roupas: + +--Bem, ento vamos dormir, que estou esfalfado de emoes e d'astros... + +Justamente Melchior entreabria a pesada porta, com timidez, a avisar que +estavam preparadinhas as camas de suas Incellencias. E seguindo o bom +caseiro, que erguia uma candeia, que avistamos ns, o meu Principe e eu, +ainda ha pouco irmanados com os astros? Em duas saletas, que uma +abertura em arco, lobrego arco de pedra, separava--duas enxergas sobre o +soalho. Junto cabeceira da mais larga, que pertencia ao senhor de +Tormes, um castial de lato sobre um alqueire; aos ps, como lavatorio, +um alguidar vidrado em cima duma tripea. Para mim, serrano d'aquellas +serras, nem alguidar nem alqueire. + +Lentamente, com o p, o meu super-civilisado amigo palpou a enxerga. E +decerto lhe sentiu uma dureza intransigente, porque ficou pendido sobre +ella, a correr desoladamente os dedos pela face desmaiada. + +--E o peior no ainda a enxerga, murmurou emfim com um suspiro. que +no tenho camisa de dormir, nem chinelas!... E no me posso deitar de +camisa engommada. + +Por inspirao minha reccorremos ao Melchior. De novo, esse benemerito +providenciou, trazendo a Jacintho, para elle desafogar os ps, uns +tamancos--e para embrulhar o corpo uma camisa da comadre, enorme, de +estopa, spera como uma estamenha de penitente, com folhos mais crespos +e duros do que lavores de madeira. Para consolar o meu Principe lembrei +que Plato quando compunha o _Banquete_, Vasco da Gama quando dobrava o +Cabo, no dormiam em melhores catres! As enxergas rijas fazem as almas +fortes, oh Jacintho!... E s vestido de estamenha que se penetra no +Paraiso. + +--Tens tu, volveu o meu amigo seccamente, alguma coisa que eu leia? No +posso adormecer sem um livro. + +Eu? Um livro? Possuia apenas o velho numero do _Jornal do Commercio_, +que escapra disperso dos nossos bens. Rasguei a copiosa folha pelo +meio, partilhei com Jacintho fraternalmente. Elle tomou a sua metade, +que era a dos annuncios... E quem no viu ento Jacintho, senhor de +Tormes, acaapado borda da enxerga, rente da vela de sbo que se +derretia no alqueire, com os ps encafuados nos scos, perdido dentro +das speras pregas e dos rijos folhos da camisa serrana, percorrendo +n'um pedao velho de Gazeta, pensativamente, as partidas dos +Paquetes--no pde saber o que uma intensa e veridica imagem do +Desalento. + +Recolhido minha alcova espartana, desabotoava o collete, n'um +delicioso cansao, quando o meu Principe ainda me reclamou: + +--Z Fernandes... + +--Dize. + +--Manda tambem no sacco um abotoador de botas. + +Estirado commodamente na rija enxerga murmurei, como sempre murmuro ao +penetrar no Somno, que um primo da Morte, Deus seja louvado! Depois +tomei a metade do _Jornal do Commercio_ que me pertencia. + +--Z Fernandes... + +--Que ? + +--Tambem podias metter no sacco ps dos dentes... E uma lima das +unhas... E um romance! + +J a meia Gazeta me escapava das mos dormentes. Mas da sua alcova, +depois de soprar a vela, Jacintho murmurou entre um bocejo: + +--Z Fernandes... + +--Hein? + +--Escreve para Lisboa, para o Hotel Bragana... Os lenoes ao menos so +frescos, cheiram bem, a sadio! + + + + +IX + + +Cedo, de madrugada, sem rumor, para no despertar o meu Jacintho, que, +com as mos cruzadas sobre o peito, dormia beatificamente na sua enxerga +de granito--parti para Guies. + +Ao cabo d'uma semana, recolhendo uma manh para o almoo, encontrei no +corredor as minhas malas to desejadas, que um moo do casal da Giesta +trouxera n'um carro com recados do Snr. Pimentinha. O meu pensamento +pulou para o meu Principe. E lancei pelo telegrapho, para Lisboa, para o +Hotel Bragana, este brado alegre:--Ests l? Sei recuperaste Grillo e +Civilisao! Hurrah! Abrao!--S depois de sete dias, occupados n'uma +delicada apanha de aspargos com que outr'ora civilisra a horta da tia +Vicencia, notei o silencio de Jacintho. N'um bilhete postal renovei, +desenvolvi o grito amigo:--Ests l? So os prazeres da Baixa que assim +te tornam desattento e mudo? Eu, todo aspargos! Responde, quando chegas? +Tempo delicioso! 23^o sombra. E os ossos?...--Veio depois a devota +romaria da Senhora da Roqueirinha. Durante a lua nova andei n'um crte +de matto, na minha terra das Corcas. A tia Vicencia vomitou, com uma +indigesto de murcellas. E o silencio do meu Principe era ingrato e +ferrenho. + +Emfim uma tarde, voltando da Flor da Malva, de casa da minha prima +Joanninha, parei em Sandofim, na venda do Manoel Rico, para beber de +certo vinho branco que a minha alma conhece--e sempre pede. + +Defronte, porta do ferrador, o Severo, sobrinho do Melchior de Tormes +e o mais fino alveitar da serra, picava tabaco, escarranchado n'um +banco. Mandei encher outro quartilho: elle acariciou o pescoo da minha +egua que j salvra d'um esfriamento: e, como eu indagasse do nosso +Melchior, o Severo contou que na vspera jantra com elle em Tormes, e +se abeirra tambem do fidalgo... + +--Ora essa! Ento o snr. D. Jacintho est em Tormes? + +O meu espanto divertiu o Severo: + +--Ento v. exc.^a... Pois em Tormes que elle est, ha mais de cinco +semanas, sem arredar! E parece que fica para a vindima, e vai l uma +grandeza! + +Santissimo nome de Deus! Ao outro dia, domingo, depois da missa e sem me +assustar com a calma que carregava, trotei alvoroadamente para Tormes. +Ao latir dos rafeiros, quando transpuz o portal solarengo, a comadre do +Melchior accudio dos lados do curral, com um alguidar de lavagem +encostado cintura.--Ento o snr. D. Jacintho?... O snr. D. Jacintho +andava l para baixo, com o Silverio e com o Melchior, nos campos de +Freixomil... + +--E o Snr. Grillo, o preto? + +--Ha bocadinho tambem o enxerguei no pomar, com o francez, a apanhar +limes doces... + +Todas as janellas do solar rebrilhavam, com vidraas novas, bem polidas. +A um canto do pteo notei baldes de cal e tijellas de tintas. Uma escada +de pedreiro descanra durante o Dia Santo arrimada contra o telhado. E, +rente ao muro da capella, dois gatos dormiam sobre montes de palha +desempacotada de caixotes consideraveis. + +--Bem, pensei eu. Eis a Civilisao! + +Recolhi a egua, galguei a escada. Na varanda, sobre uma pilha de ripas, +reluzia n'um raio de sol uma banheira de zinco. Dentro encontrei todos +os soalhos remendados, esfregados a carqueja. As paredes, muito caiadas +e nas, refrigeravam como as d'um convento. Um quarto, a que me levaram +tres portas escancaradas com franqueza serrana, era certamente o de +Jacintho: a roupa pendia de cabides de pau: o leito de ferro, com +coberta de fusto, encolhia timidamente a sua rigidez virginal a um +canto, entre o muro e a banquinha onde um castial de lato resplandecia +sobre um volume do _D. Quichote_; no lavatorio pintado de amarello, +imitando bamb, apenas cabia o jarro, a bacia, um naco gordo de sabo; e +uma prateleirinha bastava ao esmerado alinho da escova, da thesoura, do +pente, do espelhinho de feira, e do frasquinho de agua de alfazema que +eu mandra de Guies. As tres janellas, sem cortinas, contemplavam a +belleza da serra, respirando um delicado e macio ar, que se perfumava +nas resinas dos pinheiraes, depois nas roseiras da horta. Em frente, no +corredor, outro quarto repetia a mesma simplicidade. Certamente a +previdencia do meu Principe o destinra ao seu Z Fernandes. Pendurei +logo dentro, no cabide, o meu guarda-p de lustrina. + +Mas na sala immensa, onde tanto philosophramos considerando as +estrellas, Jacintho arranjra um centro de repouso e d'estudo--e +desenrolra essa grandeza que impressionava o Severo. As cadeiras de +verga da Madeira, amplas e de braos, offereciam o conforto de +almofadinhas de chita. Sobre a mesa enorme de pau branco, carpinteirada +em Tormes, admirei um candieiro de metal de tres bicos, um tinteiro de +frade armado de pennas de pato, um vaso de capella transbordando de +cravos. Entre duas janellas uma commoda antiga, embutida, com ferragens +lavradas, recebera sobre o seu marmore rosado o devoto peso d'um +Presepio, onde Reis Magos, pastores de surres vistosos, cordeiros +d'esguedelhada l, se apressavam atravez d'alcantis para o Menino, que +na sua lapinha lhes abria os braos, coroado por uma enorme Cora Real. +Uma estante de madeira enchia outro pedao de parede, entre dois +retratos negros com caixilhos negros; sobre uma das suas prateleiras +repousavam duas espingardas; nas outras esperavam, espalhados, como os +primeiros Doutores nas bancadas d'um concilio, alguns nobres livros, um +Plutarcho, um Virgilio, a Odyssea, o Manual de Epictecto, as Chronicas +de Froissart. Depois, em fila decorosa, cadeiras de palhinha, muito +novas, muito envernisadas. E a um canto um mlho de varapaus. + +Tudo resplandecia de asseio e ordem. As portadas das janellas, cerradas, +abrigavam do sol que batia aquelle lado de Tormes, escaldando os +peitoris de pedra. Do soalho, burrifado de agua, subia, na suavisada +penumbra, uma frescura. Os cravos rescendiam. Nem dos campos, nem da +casa, se elevava um rumor. Tormes dormia no esplendor da manh santa. E, +penetrado por aquella consoladora quietao de convento rural, terminei +por me estender n'uma cadeira de verga, junto da mesa, abrir +languidamente um tomo de Virgilio, e murmurar, appropriando o doce verso +que encontrra: + +Fortunate Jacinthe! Hic, inter arva nota +Et fontes sacros, frigus captabis opacum... + +Afortunado Jacintho, na verdade! Agora, entre campos que so teus e +aguas que te so sagradas, colhes emfim a sombra e a paz! + +Li ainda outros versos. E, na fadiga das duas horas de egua e calor +desde Guies, irreverentemente adormecia sobre o divino +Bucoliasta--quando me despertou um berro amigo! Era o meu Principe. E +muito decididamente, depois de me soltar do seu rijo abrao, o comparei +a uma planta estiolada, emmurchecida na escurido, entre tapetes e +sdas, que, levada para vento e sol, profusamente regada, reverdece, +desabrocha e honra a Natureza! Jacintho j no corcovava. Sobre a sua +arrefecida pallidez de super-civilisado, o ar montesino, ou vida mais +verdadeira, espalhra um rubor trigueiro e quente de sangue renovado que +o virilisava soberbamente. Dos olhos, que na Cidade andavam sempre to +crepusculares e desviados do Mundo, saltava agora um brilho de meio-dia, +resoluto e largo, contente em se embeber na belleza das coisas. At o +bigode se lhe encrespra. E j no deslisava a mo desencantada sobre a +face,--mas batia com ella triumphalmente na cxa. Que sei? Era um +Jacintho novissimo. E quasi me assustava, por eu ter de aprender e +penetrar, n'este novo Principe, os modos e as idas novas. + +--Caramba, Jacintho, mas ento...? + +Elle encolheu jovialmente os hombros realargados. E s me soube contar, +trilhando soberanamente com os sapatos brancos e cobertos de p o soalho +remendado, que, ao acordar em Tormes, depois de se lavar n'uma dorna, e +d'enfiar a minha roupa branca, se sentira de repente como +_desannuviado_, _desenvencilhado_! Almora uma pratada de ovos com +chourio, sublime. Passera por toda aquella magnificencia da serra com +pensamentos ligeiros de liberdade e de paz. Mandra ao Porto comprar uma +cama, uns cabides... E alli estava... + +--Para todo o vero? + +--No! Mas um mez... Dois mezes! Emquanto houver chourios, e a agoa da +fonte, bebida pela telha ou n'uma folha de couve, me souber to +divinamente! + +Cahi sobre a cadeira de verga, e contemplei, arregalado, quasi +esgazeado, o meu Principe! Elle enrolava n'uma mortalha tabaco picado, +tabaco grosso, guardado n'uma malga vidrada. E exclamava: + +--Ando ahi pelas terras desde o romper d'alva! Pesquei j hoje quatro +trutas, magnificas... L em baixo, no Naves, um riachote que se atira +pelo valle da Seranda... Temos logo ao jantar essas trutas! + +Mas eu, avido pela historia d'aquella ressurreio: + +--Ento, no estiveste em Lisboa?... Eu telegraphei... + +--Qual telegrapho! Qual Lisboa! Estive l em cima, ao p da fonte da +Lira, sombra d'uma grande arvore, _sub tegmine_ no sei qu, a lr +esse adorvel Virgilio... E tambem a arranjar o meu palacio! Que te +parece, Z Fernandes? Em tres semanas, tudo soalhado, envidraado, +caiado, encadeirado!... Trabalhou a freguezia inteira! At eu pintei, +com uma immensa brocha. Viste o comedoiro? + +--No. + +--Ento vem admirar a belleza na simplicidade, barbaro! + +Era a mesma onde ns tanto exaltaramos o arroz com favas--mas muito +esfregada, muito caiada, com um rodap bezuntado d'azul estridente onde +logo adivinhei a obra do meu Principe. Uma toalha de linho de Guimares +cobria a mesa, com as franjas roando o soalho. No fundo dos pratos de +loua forte reluzia um gallo amarello. Era o mesmo gallo e a mesma loua +em que na nossa casa, em Guies, se servem os feijes dos cavadores... + +Mas no pteo os ces latiram. E Jacintho correu varanda, com uma +ligeireza curiosa que me deleitou. Ah, bem definitivamente se +esfrangalhra aquella rede de malha que se no percebia e que outr'ora o +travava!--N'esse momento appareceu o Grillo, de quinzena de linho, +segurando em cada mo uma garrafa de vinho branco. Todo se alegrou em +vr na quinta o si Fernandes. Mas a sua veneranda face j no +resplandecia, como em Paris, com um to sereno e ditoso brilho de ebano. +At me pareceu que corcovava... Quando o interroguei sobre aquella +mudana, estendeu duvidosamente o beio grosso: + +--O menino gosta, eu ento tambem gsto... Que o ar aqui muito bom, +si Fernandes, o ar muito bom! + +Depois, mais baixo, envolvendo n'um gesto desolado a loua de Barcellos, +as facas de cabo d'osso, as prateleiras de pinho como n'um refeitorio de +Franciscanos: + +--Mas muita magreza, si Fernandes, muita magreza! + +Jacintho voltava com um mao de jornaes cintados: + +--Era o carteiro. J vs que no amuei inteiramente com a Civilisao. +Eis a Imprensa!... Mas nada de _Figaro_, ou da horrenda _Dois-Mundos_! +Jornaes de Agricultura! Para aprender como se produzem as risonhas +messes, e sob que signo se casa a vinha ao olmo, e que cuidados +necessita a abelha provida... _Quid faciat laetas segetes_... De resto +para esta nobre educao, j me bastavam as _Georgicas_, que tu ignoras! + +Eu ri: + +--Alto l! _Nos quoque gens sumus et nostrum Virgilium sabemus_! + +Mas o meu novissimo amigo, debruado da janella, batia as palmas--como +Cato para chamar os servos, na Roma simples. E gritava: + +--Anna Vaqueira! Um copo d'agoa, bem lavado, da fonte velha! + +Pulei, immensamente divertido: + +--Oh Jacintho! E as aguas carbonatadas? e as phosphatadas? e as +esterilisadas? e as sodicas?... + +O meu Principe atirou os hombros com um desdem soberbo. E acclamou a +appario d'um grande copo, todo embaciado pela frescura nevada da agoa +refulgente, que uma bella moa trazia n'um prato. Eu admirei sobretudo a +moa... Que olhos, d'um negro to liquido e serio! No andar, no quebrar +da cinta, que harmonia e que graa de Nympha latina! + +E apenas pela porta desapparecera a explendida appario: + +--Oh Jacintho, eu d'aqui a um instante tambem quero agua! E se compete a +esta rapariga trazer as cousas, eu, de cinco em cinco minutos, quero uma +cousa!... Que olhos, que corpo... Caramba, menino! Eis a poesia, toda +viva, da serra... + +O meu Principe sorria, com sinceridade: + +--No! no nos illudamos, Z Fernandes, nem faamos Arcadia. uma bella +moa, mas uma bruta... No ha alli mais poesia, nem mais sensibilidade, +nem mesmo mais belleza do que n'uma linda vacca tourina. Merece o seu +nome de Anna Vaqueira. Trabalha bem, digere bem, concebe bem. Para isso +a fez a Natureza, assim s e rija; e ella cumpre. O marido todavia no +parece contente, porque a desanca. Tambem um bello bruto... No, meu +filho, a serra maravilhosa e muito grato lhe estou... Mas temos aqui a +fmea em toda a sua animalidade e o macho em todo o seu egoismo... So +porm verdadeiros, genuinamente verdadeiros! E esta verdade, Z +Fernandes, para mim um repouso. + +Lentamente, gozando a frescura, o silencio, a liberdade do vasto +casaro, retrocedemos sala que Jacintho j denominra a _Livraria_. E, +de repente, ao avistar n'um canto uma caixa com a tampa meio despregada, +quasi me engasguei, na furiosa curiosidade que me assaltou: + +--E os caixotes? Oh Jacintho?... Toda aquella immensa caixotaria que ns +mandamos, abarrotada de Civilisao? Soubeste? Appareceram? + +O meu Principe parou, bateu alegremente na cxa: + +--Sublime! Tu ainda te lembras d'aquelle homemsinho, de sacco a +tiracollo, que ns admiramos tanto pela sua sagacidade, o seu saber +geographico?... Lembras? Apenas fallei em Tormes, gritou que conhecia, +rabiscou uma nota... Nem era necessario mais! Oh! Tormes, +perfeitamente, muito antigo, muito curioso! Pois mandou tudo para +Alba-de-Tormes, em Hespanha! Est tudo em Hespanha! + +Cocei o queixo, desconsolado: + +--Ora, ora... Um homem to esperto, to expedito, que fazia tanta honra +ao Progresso! Tudo para Hespanha!... E mandaste vir? + +--No! Talvez mais tarde... Agora, Z Fernandes, estou saboreando esta +delicia de me erguer pela manh, e de ter s uma escova para alisar o +cabello. + +Considerei, cheio de recordaes, o meu amigo: + +--Tinhas umas nove... + +--Nove? Tinha vinte! Talvez trinta! E era uma atrapalhao, no me +bastavam!... Nunca em Paris andei bem penteado. Assim com os meus +setenta mil volumes: eram tantos que nunca li nenhum. Assim com as +minhas occupaes: tanto me sobrecarregavam, que nunca fui util! + + * * * * * + +De tarde, depois da calma, fomos vaguear pelos caminhos colleantes +d'aquella quinta rica, que, atravs de duas legoas, ondula por valle e +monte. No m'encontrra mais com Jacintho em meio da Natureza, desde o +remoto dia d'entremez em que elle tanto soffrera no sociavel e policiado +bosque de Montmorency. Ah, mas agora, com que segurana e idyllico amor +elle se movia atravs d'essa Natureza, d'onde andra tantos annos +desviado por theoria e por habito! J no arreceiava a humidade mortal +das relvas; nem repellia como impertinente o roar das ramagens; nem o +silencio dos altos o inquietava como um despovoamento do Universo. Era +com delicias, com um consolado sentimento de estabilidade recuperada, +que enterrava os grossos sapatos nas terras molles, como no seu elemento +natural e paterno: sem razo, deixava os trilhos faceis, para se +embrenhar atravs de arbustos emaranhados, e receber na face a caricia +das folhas tenras; sobre os outeiros, parava, immovel, retendo os meus +gestos e quasi o meu halito, para se embeber de silencio e de paz: e +duas vezes o surprehendi attento e sorrindo beira d'um regatinho +palreiro, como se lhe escutasse a confidencia... + +Depois philosophava, sem descontinuar, com o enthusiasmo d'um +convertido, avido de converter: + +--Como a intelligencia aqui se liberta, hein? E como tudo animado +d'uma vida forte e profunda!... Dizes tu agora, Z Fernandes, que no ha +aqui pensamento... + +--Eu?! Eu no digo nada, Jacintho... + +--Pois uma maneira de reflectir muito estreita e muito grosseira... + +--Ora essa! Mas eu... + +--No, no percebes. A vida no se limita a pensar, meu caro doutor... + +--Que no sou! + +--A vida essencialmente Vontade e Movimento: e n'aquelle pedao de +terra, plantado de milho, vae todo um mundo de impulsos, de foras que +se revelam, e que attingem a sua expresso suprema, que a Frma. No, +essa tua philosophia est ainda extremamente grosseira... + +--Irra! mas eu no... + +--E depois, menino, que inesgotavel, que miraculosa diversidade de +frmas... E todas bellas! + +Agarrava o meu pobre brao, exigia que eu reparasse com reverencia. Na +Natureza nunca eu descobriria um contorno feio ou repetido! Nunca duas +folhas d'hera, que, na verdura ou recorte, se assemelhassem! Na Cidade, +pelo contrario, cada casa repete servilmente a outra casa; todas as +faces reproduzem a mesma indifferena ou a mesma inquietao; as idas +teem todas o mesmo valor, o mesmo cunho, a mesma frma, como as libras; +e at o que ha mais pessoal e intimo, a Illuso, em todos identica, e +todos a respiram, e todos se perdem n'ella como no mesmo nevoeiro... A +_mesmice_--eis o horror das Cidades! + +--Mas aqui! Olha para aquelle castanheiro. Ha tres semanas que cada +manh o vejo, e sempre me parece outro... A sombra, o sol, o vento, as +nuvens, a chuva, incessantemente lhe compem uma expresso diversa e +nova, sempre interessante. Nunca a sua frequentao me poderia fartar... + +Eu murmurei: + +-- pena que no converse! + +O meu Principe recuou, com olhares chammejantes, d'Apostolo: + +--Como que no converse? Mas justamente um conversador sublime! Est +claro, no tem ditos, nem parola theorias, _ore rotundo_. Mas nunca eu +passo junto d'elle que no me suggira um pensamento ou me no desvende +uma verdade... Ainda hoje quando eu voltava de pescar as trutas... +Parei: e logo elle me fez sentir como toda a sua vida de vegetal +isenta de trabalho, da anciedade, do esforo que a vida humana impe; +no tem de se preoccupar com o sustento, nem com o vestido, nem com o +abrigo; filho querido de Deus, Deus o nutre, sem que elle se mova ou se +inquiete... E esta segurana que lhe d tanta graa e tanta magestade. +Pois no achas? + +Eu sorria, concordava. Tudo isto era de certo rebuscado e especioso. Mas +que importavam as requintadas metaphoras, e essa metaphysica mal madura, +colhida pressa nos ramos d'um castanheiro? Sob toda aquella ideologia +transparecia uma excellente realidade--a reconciliao do meu Principe +com a Vida. Segura estava a sua Resurreio depois de tantos annos de +cova, da cova molle em que jazera, enfaixado como uma mumia nas faixas +do Pessimismo! + +E o que esse Principe, n'esta tarde me esfalfou! Farejava, com uma +curiosidade insaciavel, todos os recantos da serra! Galgava os cabeos +correndo, como na esperana de descobrir l do alto os esplendores nunca +contemplados d'um Mundo inedito. E o seu tormento era no conhecer os +nomes das arvores, da mais rasteira planta brotando das fendas d'um +socalco... Constantemente me folheava como a um Diccionario Botanico. + +--Fiz toda a sorte de cursos, passei pelos professores mais illustres da +Europa, tenho trinta mil volumes, e no sei se aquelle senhor alm um +amieiro ou um sobreiro... + +-- um azinheiro, Jacintho. + +J a tarde cahia quando recolhemos muito lentamente. E toda essa +adoravel paz do co, realmente celestial, e dos campos, onde cada +folhinha conservava uma quietao contemplativa, na luz docemente +desmaiada, pousando sobre as cousas com um liso e leve affago, penetrava +to profundamente Jacintho, que eu o senti, no silencio em que +cahiramos, suspirar de puro allivio. + +Depois, muito gravemente: + +--Tu dizes que na natureza no ha pensamento... + +--Outra vez! Olha que massada! Eu... + +--Mas por estar n'ella supprimido o pensamento que lhe est poupado o +soffrimento! Ns, desgraados, no podemos supprimir o pensamento, mas +certamente o podemos disciplinar e impedir que elle se estonteie e se +esfalfe, como na fornalha das cidades, ideando gozos que nunca se +realisam, aspirando a certezas que nunca se attingem!... E o que +aconselham estas collinas e estas arvores nossa alma, que vela e se +agita:--que viva na paz d'um sonho vago e nada appetea, nada tema, +contra nada se insurja, e deixe o Mundo rolar, no esperando d'elle +seno um rumor de harmonia, que a emballe e lhe favorea o dormir dentro +da mo de Deus. Hein, no te parece, Z Fernandes? + +--Talvez. Mas necessario ento viver n'um mosteiro, com o temperamento +de S. Bruno, ou ter cento e quarenta contos de renda e o desplante de +certos Jacinthos... E tambem me parece que andamos leguas. Estou +derreado. E que fome! + +--Tanto melhor, para as trutas, e para o cabrito assado que nos +espera... + +--Bravo! Quem te cosinha? + +--Uma afilhada do Melchior. Mulher sublime! Has de ver a canja! Has de +ver a cabidella! Ella horrenda, quasi an, com os olhos tortos, um +verde e outro preto. Mas que paladar! Que genio! + +Com effeito! Horacio dedicaria uma ode quelle cabrito assado n'um +espeto de cerejeira. E com as trutas, e o vinho Melchior, e a cabidella, +em que a sublime an de olhos tortos puzera inspiraes que no so da +terra, e aquella doura da noite de Junho, que pelas janellas abertas +nos envolveu no seu velludo negro, to molle e to consolado fiquei, +que, na sala onde nos esperava o caf, cahi n'uma cadeira de verga, na +mais larga, e de melhores almofadas, e atirei um berro de pura delicia. + +Depois, com uma recordao, limpando o caf do pello dos bigodes: + +-- Jacintho, e quando ns andavamos por Paris com o Pessimismo s +costas, a gemer que tudo era illuso e dr? + +O meu Principe, que o cabrito tornra ainda mais alegre, trilhava a +grandes passadas o soalho, enrolando o cigarro: + +--Oh! que engenhosa besta, esse Schopenhauer! E maior besta eu, que o +sorvia, e que me desolava com sinceridade! E todavia,--continuava elle, +remexendo a chavena--o Pessimismo uma theoria bem consoladora para os +que soffrem, porque desindividualisa o soffrimento, alarga-o at o +tornar uma lei universal, a lei propria da Vida; portanto lhe tira o +caracter pungente d'uma injustia especial, commettida contra o +soffredor por um Destino inimigo e faccioso! Realmente o nosso mal +sobretudo nos amarga quando contemplamos ou imaginamos o bem do nosso +visinho:--porque nos sentimos escolhidos e destacados para a +infelicidade, podendo, como elle, ter nascido para a Fortuna. Quem se +queixaria de ser cxo--se toda a humanidade coxeasse? E quaes no seriam +os urros, e a furiosa revolta do homem envolto na neve e friagem e +borrasca d'um inverno especial, organisado nos ceus para o envolver a +elle unicamente--em quanto em redor, toda a Humanidade se movesse na +luminosa benignidade d'uma Primavera? + +--Com effeito, murmurei eu, esse sujeito teria immensa razo para +urrar... + +--E depois, clamava ainda o meu amigo, o Pessimismo excellente para os +Inertes, por que lhes attenua o desgracioso delicto da Inercia. Se toda +a meta um monte de Dor, onde a alma vae esbarrar, para que marchar +para a meta, atravez dos embaraos do mundo? E de resto todos os Lyricos +e Theoricos do Pessimismo, desde Salomo at o maligno Schopenhauer, +lanam o seu cantico ou a sua doutrina para disfarar a humilhao das +suas miserias, subordinando-as todas a uma vasta lei de Vida, uma lei +Cosmica, e ornando assim com a aureola de uma origem quasi divina as +suas miudas desgraazinhas de temperamento ou de Sorte. O bom +Schopenhauer formla todo o seu schopenhauerismo, quando um philosopho +sem editor, e um professor sem discipulos; e soffre horrendamente de +terrores e manias; e esconde o seu dinheiro debaixo do sobrado; e redige +as suas contas em grego nos perpetuos lamentos da desconfiana; e vive +nas adegas com o medo de incendios; e viaja com um copo de lata na +algibeira para no beber em vidro que beios de leproso tivessem +contaminado!... Ento Schopenhauer sombriamente Schopenhauerista. Mas +apenas penetra na celebridade, e os seus miseraveis nervos se acalmam, e +o cerca uma paz amavel, no ha ento, em todo Francfort, burguez mais +optimista, de face mais jocunda, e gozando mais regradamente os bens da +intelligencia e da Vida!... E o outro, o Israelita, o muito pedantesco +rei de Jerusalem! quando descobre esse sublime Rhetorico que o mundo +Illuso e Vaidade? Aos setenta e cinco annos, quando o Poder lhe escapa +das mos tremulas, e o seu serralho de trezentas concubinas se lhe torna +ridiculamente superfluo. Ento rompem os pomposos queixumes! Tudo +vaidade e afflico de espirito! nada existe estavel sob o sol! Com +effeito, meu bom Salomo, tudo passa--principalmente o poder de usar +trezentas concubinas! Mas que se restitua a esse velho sulto asiatico, +besuntado de Litteratura, a sua virilidade,--e onde se sumir o lamento +do Ecclesiastes? Ento voltar, em segunda e triumphal edio, o extase +do _Livro dos Cantares_!... + +Assim discursava o meu amigo no nocturno silencio de Tormes. Creio que +ainda estabeleceu sobre o Pessimismo outras coisas joviaes, profundas ou +elegantes;--mas eu adormecera, beatificamente envolto em Optimismo e +doura. + +Em breve porm, me fez pular, escancarar as palpebras molles, uma rija, +larga, sadia e genuina risada. Era Jacintho, estirado n'uma cadeira, que +lia o D. Quixote... Oh bem aventurado Principe! Conservra elle o agudo +poder de arrancar theorias a uma espiga de milho ainda verde, e por uma +clemencia de Deus, que fizera reflorir o tronco secco, recuperra o dom +divino de rir, com as facecias de Sancho! + +Aproveitando a minha companhia, as duas semanas de bucolica occiosidade +que eu lhe concedera, o meu Jacintho preparou ento a ceremonia to +falada, to meditada, a trasladao dos ossos dos velhos Jacinthos--dos +respeitaveis ossos como murmurava, cumprimentando, o bom Silverio, o +procurador, n'essa manh de sexta feira, em que almoava comnosco, +mettido n'um espantoso jaqueto de velludilho amarello debruado de seda +azul! A ceremonia, de resto, reclamava muita singeleza por serem to +incertos, quasi impessoaes, aquelles restos, que ns estabeleceriamos na +Capellinha do valle da Carria, na Capellinha toda nova, toda nua e toda +fria, ainda sem alma e sem calor de Deus. + +--Por que emfim v. ex.^a comprehende,--explicava o Silverio passando o +guardanapo por sobre a larga face suada e por sobre as immensas barbas +negras, como as d'um turco--, n'aquella mixordia... Oh! peo desculpa a +v. ex.^a! N'aquella confuso, quando tudo desabou, no pudmos mais +conhecer a quem pertenciam os ossos. Nem sequer, fallando verdade, ns +sabiamos bem que dignos avs de v. ex.^a jaziam na capella velha, assim +to antigos, com os letreiros apagados, senhores de todo o nosso +respeito, certamente, mas, se v. ex.^a me permitte, senhores j muito +desfeitos... Depois veio o desastre, a mixordia. E aqui est o que +decidi, depois de pensar. Mandei arranjar tantos caixes de chumbo, +quantas as caveiras que se apanharam l em baixo na Carria, entre o +lixo e o pedregulho. Havia sete caveiras e meia. Quero dizer, sete +caveiras e uma caveirinha pequenina. Mettemos cada caveira em seu +caixo. Depois... Que quer v. ex.^a? No havia outro meio! E aqui o Snr. +Fernandes dir se no acha que procedemos com habilidade. A cada caveira +juntamos uma certa poro d'ossos, uma poro rasoavel... No havia +outro meio... Nem todos os ossos se acharam. Canellas, por exemplo, +faltavam! E bem possivel que as costellas d'um d'aquelles senhores +ficasse com a cabea d'outro... Mas quem podia saber? S Deus. Emfim +fizemos o que a prudncia mandava... Depois, no dia de Juizo, cada um +d'estes fidalgos apresentar os ossos que lhe pertencerem. + +Lanava estas cousas macabras e tremendas, penetrado de respeito, quasi +com magestade, espetando, ora em mim, ora no meu Principe, os olhinhos +agudos e relusentes como vidrilhos. + +Eu approvei o pittoresco homem: + +--Perfeitamente! Andou perfeitamente, amigo Silverio. So to vagos, to +anonymos, todos esses avs! S faz pena, grande pena, que se +tresmalhassem os restos do av Galio. + +--No estava c! accudiu Jacintho. Vim a Tormes expressamente por causa +do av Galio, e por fim o seu jazigo nunca foi aqui, na Capellinha da +Carria... Felizmente! + +O Silverio saccudia gravemente a calva trigueira: + +--Nunca tivemos o ex.^{mo} sr. Galio. Ha cem annos, Snr. Fernandes, ha +cem annos que se no depositava na capella velha corpo de cavalheiro c +da casa. + +--Onde estar ento?... + +O meu Principe encolheu os hombros. Por esse Reino... Na egrejinha, no +cemiterio d'alguma das freguezias numerosas, onde elle possuia terras. +Casa to espalhada! + +--Bem! conclui. Ento, como se trata d'ossadas vagas, sem nome, sem +data, convem uma ceremoniasinha muito simples, muito sobria. + +--Quietinha, quietinha! murmurou o Silverio, dando um forte sorvo +assobiado ao caf. + +E foi quietinha, d'uma rustica e doce singeleza, a ceremonia d'aquelles +altos senhores. Cedo, por uma manh, levemente enevoada, os oito caixes +pequeninos, cobertos d'um velludo vermelho mais de festa que de funeral, +com molhos de rosas espalhados, contendo cada um o seu montesinho +d'ossos incertos, sahiram aos hombros dos coveiros de Tormes e dos moos +da quinta, da Egreja de S. Jos, cujo sino leve tangia, na enevoada +doura da manh,--quanto fina e levemente!--como pia um passarinho +triste. Adiante, um airoso moo de sobrepelis, erguia com zelo a velha +cruz prateada; abrigando o pescoo sob um immenso leno de rap, de +quadrados azues, o velho e corcovado sacristo segurava pensativamente a +caldeirinha d'agoa benta; e o bom abbade de S. Jos, com os dedos entre +o breviario fechado, movia os labios, n'uma lenta, murmurosa resa, que +ia, pelo doce ar, espalhando mais doura. Logo atraz do ultimo cofre, o +mais pequenino, o da caveirinha pequena, Jacintho caminhava; e eu, a +estalar dentro d'um fato preto de Jacintho, tirado pressa d'uma das +malas de Paris quando, de manh, j tarde para mandar a Guies, me +lembrei que toda a minha roupa era de cores festivaes e pastoris. + +Depois marchava o Silverio, solemnissimo, com um immenso peitilho, onde +as barbas immensas se alastravam, negrissimas. De casaca, com o grosso +beio descahido, descahido todo elle por aquella melancolia de enterro +que se juntava melancolia da serra, o Grillo enfiava no brao a sua +coroa, enorme, de rosas e d'heras. Por fim seguia o Melchior, entre um +rancho de mulheres, que, sumidas na sombra dos lenos pretos, desfiando +longos rosarios, rosnavam surdas av-marias, atravez d'espaados +suspiros, to doridos como se inconsoladamente lhes doesse a perda +d'aquelles Jacinthos. Assim, pelas varzeas entrecorridas de regueiros, +lenta nos recostos dos mattos, escorregando mais rapida, pelos corregos +pedregosos, seguia a procisso, sempre com a cruz adiante, alta e +prateada, rebrilhando por vezes n'um breve raiosinho de sol que, +vagarosamente, surdia da nevoa desfeita. Ramos baixos de lodo ou de +salgueiro passavam uma derradeira caricia sobre o velludo dos caixes. + +Um regato por vezes nos acompanhava, com discreto fulgir entre as +relvas, sussurrando e como resando tambem, alegremente: e nos +quintalinhos umbrosos, nossa passagem, os gallos, de cima das pilhas +de matto, faziam soar o seu clarim festivo. Depois, adiante da fonte da +Lira, como o caminho se alongava, e desejassemos poupar o nosso velho +abbade, cortamos atravez d'uma seara, j alta, quasi madura, toda +entremeada de papoulas, O sol radiou: sob a brisa larga, que levra a +nevoa, toda a messe ondulou n'uma lenta vaga dourada, em que se +balouavam os esquifes; e, como enorme papoula, a mais vermelha, +rutilava o guarda sol de panninho logo aberto pelo sacristo para +abrigar o abbade. + +Jacintho tocou no meu cotovello: + +--Que lindos vamos! Ora v tu a Natureza... N'um simples enterrar +d'ossos, quanta graa e quanta belleza! + +Na Capellinha, nova, dominando o valle da Carria, solitaria e muito +nua, no meio d'um adro, ainda mal alisado, sem uma verdura de relva, uma +frescura d'arbusto, dous moos seguravam porta molhos de tochas, que o +Silverio distribuiu, a passos graves, com cortezias, solemnissimo. +Dentro as curtas chammas, mal luziam, mal derramavam a sua amarellido +triste, esbatidas na relusente brancura dos muros estucados, na jovial +claridade que cahia das altas vidraas bem polidas. Em torno dos +esquifes, pousados sobre bancos, que pesados velludilhos recobriam, o +abbade murmurava um suave latim, emquanto ao fundo as mulheres, sumidas +na sombra dos seus negros lenos, gemiam _amens_ agudos, abafavam um +respeitoso soluo. Depois, tomando levemente o hyssope, ainda o bom +abbade aspergiu, para uma derradeira purificao, os incertos ossos dos +incertos Jacinthos. E todos desfilamos por diante do meu Principe, +timidamente encostado umbreira, com o Silverio ao lado esmagando +contra o peitilho as barbas immensas, a face descahida, cerradas as +palpebras como contendo lagrimas. + +No adro, o meu Principe accendeu regaladamente um cigarro pedido ao +Melchior: + +--E ento, Z Fernandes, que te pareceu a ceremoniasinha? + +--Muito campestre, muito suave, muito risonha... Uma delicia. + +Mas o Abbade, que se desvestira na Sachristia, appareceu, j com o seu +grande casaco de lustrina, e seu velho chapeu desabado, trazidos pelo +moo da Residencia, n'um sacco de chita. Jacintho, immediatamente lhe +agradeceu tantos cuidados, a affavel hospitalidade que offerecera aos +ossos, durante a construco da Capellinha nova. E o suave velho, todo +branquinho, de faces ainda menineiras e coradas, com um claro sorriso de +dentes sadios, louvava Jacintho, que assim viera de to longe, em to +longa jornada, para cumprir aquelle dever de bom neto. + +--So avs muito remotos, e agora to confusos! murmurava Jacintho +sorrindo. + +--Pois mais merito ainda o de v. ex.^a. Respeitar um av morto, bem +corrente... Mas respeitar os ossos d'um quinto av, d'um setimo av! + +--Sobretudo, Snr. Abbade, quando d'elles nada se sabe, e naturalmente +nada fizeram. + +O velho sacudiu risonhamente o dedo gordo: + +--Ora quem sabe, quem sabe! Talvez fossem excellentes! E por fim, quem +muito se demora no mundo, como eu, termina por se convencer que no mundo +no ha cousa ou ser inutil. Ainda hontem eu lia n'um jornal do Porto, +que por fim, segundo se descobriu, so as minhocas que estrumam e lavram +a terra, antes de chegar o lavrador e os bois com o arado. At as +minhocas so uteis. No ha nada inutil... Eu tinha l na residencia uma +poro de cardos a um canto da horta, que me affligiam. Pois reflecti e +terminei por me regalar com elles em xarope. Os avs de v. ex.^a por c +andaram, por c trabalharam, por c padeceram. Quer dizer: por c +serviram. E, em todo o caso, que lhes rezemos um Padre-Nosso por alma +no lhes pde fazer seno bem, a elles e a ns. + +E assim, docemente philosophando, paramos n'um souto de carvalheiras, +onde esperava a velhissima egoa do Abbade, por que o santo homem agora, +depois do rheumatismo do ultimo inverno, j no affrontava rijamente +como antes os trilhos duros da serra. Para elle montar, filialmente +Jacintho segurou o estribo. E emquanto a egoa se empurrava pelo corrego +acima, quasi tapada sob o immenso guarda sol vermelho em que se abrigava +o velho, ns recolhemos a casa mettendo pela serra da Lombinha, atravez +dos milhos, e depressa, porque eu estalava, aperreado, dentro da roupa +preta do meu Principe. + +--Esto pois accommodados estes senhores, Z Fernandes! S resta rezar +por elles o Padre-Nosso, que recommenda o abbade... Smente, eu no sei, +j no me lembro do Padre-Nosso. + +--No te afflijas, Jacintho: peo tia Vicencia que reze por mim e por +ti. sempre a tia Vicencia que reza os meus Padre-Nossos. + +Durante essas semanas que preguicei em Tormes, eu assisti, com +internecido interesse, a uma consideravel evoluo de Jacintho nas suas +relaes com a Natureza. D'aquelle periodo sentimental de contemplao, +em que colhia theorias nos ramos de qualquer cerejeira, e edificava +Systemas sobre o espumar das levadas, o meu Principe lentamente passava +para o desejo da Aco... E d'uma aco directa e material, em que a sua +mo, emfim restituida a uma funco superior, revolvesse o torro. + +Depois de tanto _commentar_, o meu Principe, evidentemente, aspirava a +_crear_. + +Uma tardinha, ao anoitecer, sentados no pomar, no rebordo do tanque, em +quanto o Manoel hortelo apanhava laranjas no alto d'uma escada arrimada +a uma alta laranjeira, Jacintho observou, mais para si do que para mim: + +-- curioso... Nunca plantei uma arvore! + +--Pois um dos tres grandes actos, sem os quaes segundo diz no sei que +Philosopho, nunca se foi um verdadeiro homem... Fazer um filho, plantar +uma arvore, escrever um livro. Tens de te apressar, para ser um homem. +possivel que talvez nunca prestasses um servio a uma arvore, como se +presta a um semelhante! + +--Sim... Em Paris, quando era pequeno, regava os lilazes. E no vero +um bello servio! Mas nunca semeei. + +E como o Manoel descia da escada, o meu Principe, que nunca acreditra +inteiramente--pobre homem!--no meu saber agricola, immediatamente +reclamou o parecer d'aquella auctoridade: + +--Oh Manoel, oua l, o que que se poderia agora semear? + +Como cesto das laranjas enfiado no brao, o Manoel exclamou, atravez +d'um lento riso, entre respeitoso e divertido: + +--Semear, patro? Agora antes colher... Olhe que j se anda a limpar a +eirasinha para a debulha, meu patro. + +--Pois sim... Mas sem ser milho nem cevada... Ento alli no pomar, rente +do muro velho, no se podia plantar uma fila de pecegueiros? + +O riso do Manoel crescia. + +--Isso sim, meu senhor! Isso l para os Santos ou para o Natal. Agora +s a couvinha na horta, a beldroega, os espinafres, algum feijosinho em +terra muito fresca... + +O meu Principe sacudiu com brando gesto estes legumes rasteiros. + +--Bem, boa noite, Manoel. Essas laranjas so da tal laranjeira que diz o +Melchior, muito doces, muito finas? Ento leve para os seus pequenos. +Leve muitas para os pequenos. + +No! o empenho era crear a arvore. Pela arvore contemplada na serra em +sua verdadeira magestade, na beneficencia da sua sombra, na frescura +emballadora do seu rumorejar, na graa e santidade dos ninhos que a +povoam, comera talvez, lentamente, o seu amor novo da Terra. E agora +sonhava uma Tormes toda coberta d'arvores, cujos fructos e verduras, e +sombras, e rumorejos suaves, e abrigados ninhos, fossem a obra e o +cuidado das suas mos paternaes. + +No silencio grave do crepusculo, que descia, murmurou ainda: + +--Oh Z Fernandes; quaes so as arvores que crescem mais depressa? + +--Eh, meu Jacintho... A arvore que cresce mais depressa o eucalypto, o +feiissimo e ridiculo eucalypto. Em seis annos tens ahi Tormes coberta de +eucalyptos... + +--Tudo to lento, Z Fernandes... + +Porque o seu sonho, que eu comprehendia, seria plantar caroos que +subissem em fortes troncos, se alargassem em verdes ramarias, antes de +elle voltar ao 202, no comeo do inverno... + +--Um carvalho!... Trinta annos, antes que seja bello! Desanmo! bom +para Deus, que pode esperar... _Patiens quia aeternus_. Trinta annos! +D'aqui a trinta annos, arvores s para me cobrirem a sepultura! + +--J um ganho. E depois para teus filhos, Jacintho... + +--Filhos! onde os tenho eu? + +-- o mesmo processo dos castanheiros. Semeia. No faltam por ahi terras +agradaveis... Em nove mezes tens uma planta feita. E quanto mais +tenrinhas, e mais pequeninas, mais essas plantas encantam. + +Elle murmurou, crusando as mos sobre o joelho: + +--Tudo leva tanto tempo!... + +E borda do tanque nos quedamos, calados, na fresca doura do +anoitecer, entre o cheiro avivado das madresilvas do muro, olhando o +crescente da lua, que surdia dos telhados de Tormes. + +E decerto esta pressa de se tornar entre a Natureza no mais um +sonhador, mas um creador, arremessou vivamente o seu interesse para os +gados! Repetidamente, nos nossos passeios atravez da quinta, elle lhe +notava a solido. + +--Faltam aqui animaes, Z Fernandes! + +Imaginava eu, que elle appetecia em Tormes o ornato elegante de veados e +paves. Mas um domingo, costeando o largo campo da Ribeirinha, sempre +escasso d'agoas, agora mais resequido por vero de tanta seccura, o meu +Principe parou a considerar os tres carneiros do caseiro, que retouavam +com penuria uma relvagem pobre. + +E, de repente, como magoado: + +--Justamente! Aqui est o espao para um bello prado, um immenso prado, +muito verde, muito farto, com rebanhos de carneiros brancos, gordissimos +como bolas de algodo pousadas na relva!... Era lindo, hein? facil, +no verdade, Z Fernandes? + +--Sim... Trazes a agoa para o prado. Agoas no faltam, na serra. + +E o meu principe encadeando logo n'esta inspirada idea outra, mais rica +e vasta, lembrou quanta belleza daria a Tormes encher esses prados, +esses verdes ferregiaes, de manadas de vaccas, formosas vaccas inglezas, +bem nedias e bem luzidias. Hein? Uma belleza. Para abrigar esses gados +ricos, construiria curraes perfeitos, d'uma architectura leve e util, +toda em ferro e vidro, fundamente varridos pelo ar, largamente lavados +pela agoa... Hein? Que formosura! Depois, com todas essas vaccas, e o +leite jorrando, nada mais facil e mais divertido, e at mais moral, que +a installao d'uma queijeira, fresca moda Hollandeza, toda branca e +reluzente, de azulejos e de marmore, para fabricar os Camemberts, os +Bries... os Coulommiers... Para a casa, que conforto! E para toda a +serra, que actividade! + +--Pois no te parece, Z Fernandes? + +--Com certeza. Tu tens, em abundancia, os quatro Elementos: o ar, a +agoa, a terra, e o dinheiro. Com estes quatro elementos, facilmente se +faz uma grande lavoura. Quanto mais uma queijeira! + +--Pois no verdade? E at como negocio! Est claro, para mim o lucro +o deleite moral do trabalho, o emprego fecundo do dia... Mas uma +queijaria, assim perfeita, rende. Rende prodigiosamente. E educa o +paladar, incita a installaes eguaes, implanta talvez no paiz uma +industria nova e rica! Ora com essa installao, perfeita, quanto me +poder custar cada queijo? + +Fechei um olho, calculando: + +--Eu te digo.... Cada queijo, um d'esses queijinhos redondos, como o +Camembert ou o Rabaal, pde vir a custar-te, a ti Jacintho queijeiro, +entre duzentos e cincoenta e trezentos mil ris. + +O meu Principe recuou, com dous olhos alegres espantados para mim. + +--Como trezentos mil ris? + +--Ponhamos duzentos... Tem a certeza! Com todos esses prados, e os +encanamentos d'agoa e a configurao da serra alterada, e as vaccas +inglezas, e os edificios de porcellana e vidro, e as maquinas, a +extravagancia, e a patuscada bucolica, cada queijo te custa, a ti +productor, duzentos mil ris. Mas com certeza o vendes no Porto por um +tosto. Pe cincoenta ris para a caixa, rotulos, transporte, commisso, +etc. Tens apenas, em cada queijo uma perda de cento e noventa e nove mil +oitocentos e cincoenta ris! + +O meu Principe no desanimou. + +--Perfeitamente! Fao um d'esses espantosos queijos por semana, ao +sabbado, para o comermos ns ambos ao domingo! + +E tanta energia lhe communicava o seu novo Optimismo, to anciosamente +aspirava a crear, que logo, arrastando o Silverio e o Melchior por +cabeos e barrancos, largou a percorrer a quinta toda, para determinar +onde cresceriam, ao seu mando inspirado, os verdes prados, e se +ergueriam, rebrilhantes no sol de Tormes, os curraes elegantes. Com a +esplendida segurana dos seus cento e nove contos de renda, no surgia +difficuldade, risonhamente murmurada pelo Melchior, ou exclamada, com +respeitoso pasmo, pelo Silverio, que elle no afastasse brandamente, com +geito leve, como um galho de roseira brava atravessado n'uma vereda. + +Aquellas rochas, alm, empecendo? Que se arrancassem! Um valle importuno +dividia dous campos? Que se atulhasse! O Silverio suspirava, enxugando +sobre a escura calva um suor quasi d'angustia. Pobre Silverio! Rijamente +sacudido na doce pachorra da sua administrao, calculando despezas que +se affiguravam sobrehumanas sua parcimonia serrana, forado a +arquejar, sem descano, sob soalheiras de Junho, o desgraado retomra +na Serra o geito que Jacintho deixra em Paris,--e era elle que corria +pelas longas barbas tenebrosas os dedos desalentados... Emfim uma tarde +desabafou comigo, a um canto da varanda, em quanto Jacintho, na +livraria, escrevia a um seu amigo de Hollanda, o conde Rylant, Mordomo +Mr da Corte, pedindo desenhos, e planos, e oramentos d'uma queijeira +perfeita. + +--Pois, Snr. Fernandes, se toda esta grandeza vae por diante, sempre lhe +digo que o Snr. D. Jacintho enterra aqui na serra dezenas de contos... +Dezenas de contos! + +E como eu alludia fortuna do meu Principe, a quem todas essas obras +to vastas, que alterariam o antiquissimo rosto da serra, no custavam +mais que a outros o concerto d'um socalco,--o bom Silverio atirou os +longos braos para as coxas gordas, ainda mais desolado: + +--Pois por isso mesmo, Snr. Fernandes! Se o Snr. D. Jacintho no tivesse +a dinheirama, recuava. Assim, zs zs, para deante; e eu no o censuro +pela ideia. Lograsse eu a renda de S. Ex.^a, que me atirava tambem a uma +lavoura de capricho. Mas no aqui, Snr. Fernandes, n'estas serranias, +entre alcantis. Pois um senhor que possue aquella linda propriedade de +Montemr, nos campos do Mondego, onde at podia plantar jardins de +desbancar os do Palacio de Crystal do Porto! E a Velleira? O Snr. +Fernandes no conhece a Velleira, l para os lados de Penafiel? Isso +um condado! E uma terra ch, boa terra, toda junta, alli em volta da +casa, com uma torre. Um regalo, Snr. Fernandes. Mas sobretudo Montemr! +L que eram prados e manadas de vaccas inglezas, e queijeira e horta +rica, de fartar, e ahi trinta pers na capoeira... + +--Ento que quer, Silverio? O Jacintho gosta da serra. E depois este o +solar da familia, e aqui comearam no seculo XIV os Jacinthos... + +O pobre Silverio, no seu desespero, esquecia o respeito devido secular +nobreza da casa. + +--Ora! at ficam mal ao Snr. Fernandes essas ideias, n'este seculo da +liberdade... Pois estamos l em tempos de se fallar em fidalguias, agora +que por toda a parte anda tudo em Republica? Leia o _Seculo_, Snr. +Fernandes! leia o _Seculo_, e ver! E depois eu sempre quero vr o Snr. +D. Jacintho, aqui no inverno, com o nevoeiro a subir do rio logo pela +manh, e a friagem a trespassar os ossos, e ventanias que atiram +carvalheiras de raizes ao ar, e chuvas e chuvas que se desfaz a +serra!... Olhe, at mesmo por amor da saude o Snr. D. Jacintho, que +fraquinho e acostumado cidade, necessita sahir da serra. Em Montemr, +em Montemr que s. ex.^a estava bem. E o Snr. Fernandes, to amigo +d'elle e assim com tanta influencia, devia teimar, e berrar, at que o +levasse para Montemr. + +Mas, infelizmente para a quietao do Silverio, Jacintho lanra raizes, +e rijas, e amorosas raizes na sua rude serra. Era realmente como se o +tivessem plantado d'estaca n'aquelle antiquissimo cho, d'onde brotra a +sua raa, e o antiquissimo humus refluisse e o penetrasse todo, e o +andasse transformando n'um Jacintho rural, quasi vegetal, to do cho, e +preso ao cho, como as arvores que elle tanto amava. + +E depois o que o prendia serra era o ter n'ella encontrado o que na +Cidade, apesar da sua sociabilidade, no encontrra nunca,--dias to +cheios, to deliciosamente occupados, d'um to saboroso interesse, que +sempre penetrava n'elles, como n'uma festa ou n'uma gloria. + +Logo de manh, s seis horas, eu, no meu quarto, mexendo ainda +regaladamente o meu corpo nos colches de fresco folhelho, sentia os +seus rijos sapates pelo corredor, e o seu cantarolar, desafinado, mas +ditoso como o d'um melro. Em poucos instantes escancarava com fragor a +minha porta, j de chapeu desabado, j de bengalo de cerejeira, +disposto com reservado fervor para os trilhos conhecidos da serra. E era +sempre a mesma nova, quasi orgulhosa: + +--Dormi hoje deliciosamente, Z Fernandes. To bem, com uma tal +serenidade, que comeo a acreditar que sou um justo! Um dia lindo! +Quando abri a janella, s cinco horas, quasi gritei de puro gosto! + +Na sua pressa, nem me deixava demorar na frescura da banheira; e quando +eu repetia a risca mal comeada do cabello, aquelle antigo homem das +trinta e nove escovas, protestava contra esse desbarato effeminado d'um +tempo devido aos fortes gozos da terra. + +Mas quando, depois de acariciar os rafeiros no pateo, desembocavamos da +alameda de platanos, e deante de ns se dividiam matutinamente, mais +brancos entre o verde matutino, os caminhos colleantes da quinta, toda a +sua pressa findava, e penetrava na Natureza, com a reverente lentido de +quem penetra n'um Templo. E repetidamente sustentava ser contrario +Esthetica, Philosophia e Religio, andar depressa atravs dos +campos. De resto, com aquella subtil sensibilidade bucolica que n'elle +se desenvolvera, e incessantemente se afinava, qualquer breve belleza, +do ar ou da terra, lhe bastava para um longo encanto. Ditosamente +poderia elle entreter toda uma manh, caminhar por entre um pinheiral, +de tronco a tronco, callado, embebido no silencio, na frescura, no +resinoso aroma, empurrando com o p as agulhas e as pinhas seccas. +Qualquer agua corrente o retinha, enternecido n'aquella servial +actividade, que se apressa, cantando, para o torro que tem sde, e +n'elle se some, e se perde. E recordo ainda quando me reteve meio +domingo, depois da Missa, no cabeo, junto a um velho curral +desmantellado, sob uma grande arvore,--s por que em torno havia +quietao, doce aragem, um fino piar d'ave na ramaria, um murmurio de +regato entre canas verdes, e por sobre a sbe, ao lado, um perfume, +muito fino e muito fresco, de flores escondidas. + +Depois, quando eu, velho familiar das serras, me no abandonava aos +mesmos extasis que a elle lhe enchiam a alma ainda novia--o meu +Principe rugia, com a indignao d'um poeta que descobre um mercieiro +bocejando sobre Shakspeare ou Musset. Eu ria. + +--Meu filho, olha que eu no passo d'um pequeno proprietario. Para mim +no se trata de saber se a terra _linda_, mas se a terra _boa_. Olha +o que diz a Biblia! Trabalhars a quinta com o suor do teu rosto! E +no diz contemplars a quinta com o enlevo da tua imaginao! + +--Podra! exclamava o meu Principe. Um livro escripto por Judeos, por +asperos semitas, sempre com o turvo olho posto no lucro! Repra, homem, +para aquelle bocadinho de valle, e consegue no pensar, por um momento, +nos trinta mil reis que elle rende! Vers que pela sua belleza e graa +elle te d mais contentamento alma que os trinta mil reis ao corpo. E +na vida s a alma importa. + +Recolhendo ao casaro, j o encontravamos com as janellas meio cerradas, +os soalhos borrifados para aquellas quentes restias de sol de junho, que +depois do almoo docemente nos retinham na livraria, preguiando. + +Mas realmente a alegre actividade do meu Principe no cessava, nem +amollecia, sob o peso da ssta. A essa hora, em quanto pelo arvoredo +mudo os mais agitados pardaes dormiam, e o sol mesmo parecia repousar, +immovel na rutilancia da sua luz, Jacintho com o espirito +acordado,--vido de sempre gosar, agora que reconquistra essa +faculdade,--tomava com delicia o _seu livro_. Por que o dono de trinta +mil volumes era agora, na sua casa de Tormes, depois de resuscitado, o +homem que s tem um livro. Essa mesma Natureza, que o desligra das +ligaduras amortalhadoras do tedio, e lhe gritra o seu bello _Ambula_, +caminha!--tambem certamente lhe gritra _et lege_, e l. E libertado +emfim do envolucro suffocante da sua Bibliotheca immensa, o meu ditoso +amigo comprehendia emfim a incomparavel delicia de _lr um livro_. +Quando eu correra a Tormes, (depois das revelaes do Severo na venda do +Torto,) elle findava o D. Quichote, e ainda eu lhe escutra as +derradeiras risadas com as cousas deliciosas, e de certo profundas, que +o gordo Sancho lhe murmurava, escarranchado no seu burro. Mas agora o +meu Principe mergulhra na _Odyssea_,--e todo elle vivia no espanto e no +deslumbramento de assim ter encontrado no meio do caminho da sua vida, o +velho errante, o velho Homero! + +--Oh Z Fernandes, como succedeu que eu chegasse a esta edade sem ter +lido Homero?... + +--Outras leituras, mais urgentes... O _Figaro_, George Ohnet... + +--Tu leste a _Illiada_? + +--Menino, sinceramente me gabo de nunca ter lido a _Illiada_. + +Os olhos do meu Principe fuzilavam. + +--Tu sabes o que fez Alcibiades, uma tarde, no Portico, a um sophista, +um desavergonhado d'um sophista, que se gabava de no ter lido a +_Illiada_? + +--No. + +--Ergueu a mo e atirou-lhe uma bofetada tremenda. + +--Para l, Alcibiades! Olha que eu li a _Odyssea_! + +Oh! mas de certo eu a lra, corridamente, com a alma desattenta! E +insistia em me iniciar, elle, e me conduzir, atravs do Livro sem egual. +Eu ria. E rindo, pesado do almoo, terminava por consentir, e me +estirava no canap de verga. Elle, deante da mesa, direito na cadeira, +abria o livro gravemente, pontificalmente, como um missal, e comeava +n'uma lenta ode sentida. Aquelle grande mar da _Odyssea_,--resplandecente e +sonoro, sempre azul, todo azul, sob o vo branco das +gaivotas, rolando, e mansamente quebrando sobre a areia fina ou contra +as rochas de marmore das Ilhas divinas,--exhalava logo uma frescura +salina, bem vinda e consoladora n'aquella calma de Junho, em que a serra +se entorpecia. Depois as estupendas manhas do subtil Ulysses e os seus +perigos sobrehumanos, tantas lamurias sublimes, e um anceio to +espalhado da Patria perdida, e toda aquella intriga, em que embrulhava +os Heroes, lograva as Deusas, illudia o Fado, tinham um delicioso sabr +ali, nos campos de Tormes, onde nunca se necessitava de subtileza ou de +engenho, e a Vida se desenrolava com a segurana immutavel com que cada +manh sempre o Sol egual nascia, e sempre centeios e milhos, regados por +agoas eguaes, seguramente medravam, espigavam, amadureciam... Emballado +pela recitao grave e monotona do meu Principe, eu cerrava as palpebras +docemente. Em breve um vasto tumulto, por terra e ceu, me alvoroava... +E eram os rugidos de Polyphemo, ou a grita dos companheiros d'Ulysses +roubando as vaccas de Apollo. Com os olhos logo esbugalhados para +Jacintho, eu murmurava: _Sublime!_ E sempre, n'esse momento o engenhoso +Ulysses, de carapuo vermelho e o longo remo ao hombro, surprehendia com +a sua facundia a clemencia dos Principes, ou reclamava presentes devidos +ao Hospede, ou surripiava astutamente algum favor aos Deuses. E Tormes +dormia, no esplendor de Junho. Novamente, eu cerrava as palpebras +consoladas, sob a caricia ineffavel do largo dizer homerico... E meio +adormecido, encantado, incessantemente avistava, longe, na divina +Hellade, entre o mar muito azul e o ceu muito azul, a branca vela, +hesitante, procurando Ithaca... + +Depois da ssta o meu Principe de novo se soltava para os campos. E a +essa hora, sempre mais activa, voltava com ardor aos seus planos, a +essas culturas de luxo e elegantes officinas que cobririam a serra de +magnificencias ruraes. Agora andava todo no esplendido appetite d'uma +horta que elle concebera, immensa horta ajardinada, em que todos os +legumes, classicos ou exoticos, cresceriam, soberbamente, em vistosos +talhes, fechados por sebes de rosas, de cravos, de alfazma, de +dhalias. A agoa das regas desceria por lindos corrgos de loua +esmaltada. Nas ruas, a sombra cahiria de densas latadas de moscatel, +pousando em esteios revestidos d'azulejo. E o meu Principe desenhra o +plano d'esta espantosa horta, a lapiz vermelho, n'um papel immenso, que +o Melchior e o Silverio, consultados, longamente contemplaram,--um +coando risonhamente a nuca, o outro com os braos duramente crusados, e +o sobrlho tragico. + +Mas este plano, o da queijaria, o da capoeira, e outro, sumptuoso, d'um +pombal to povoado que todo o ceu de Tormes s tardes se tornaria branco +e todo fremente d'azas--no sahiam das nossas gostosas palestras, ou dos +papeis em que Jacintho os debuxava, e que se amontoavam sobre a meza, +platonicos, immoveis, entre o tinteiro de lato e o vaso com flres. + +Nem enxadada fendera terra, nem alavanca deslocra pedra, nem serra +serrra madeira, para encetar estas maravilhas. Contra a resistencia +rebolada e escorregadia do Melchior, contra a respeitosa inercia do +Silverio se quedavam, encalhados, os planos do meu Principe, como +galeras vistosas em rochas ou em ldo. + +No convinha bolir em nada, (clamava o Silverio) antes das colheitas e +da vindima! E depois, (acrescentava o Melchior com um sorriso de grande +promessa) para boas obras mez de Janeiro porque l ensina o dictado: + +Em Janeiro--mette obreiro +Mez meante--que no ante. + +E, de resto, o goso de conceber as suas obras e de indicar, estendendo a +bengala por cima de valle e monte, os sitios privilegiados que ellas +aformoseariam, bastava por ora ao meu Principe, ainda mais imaginativo +que operante. E, em quanto meditava estas transformaes da terra, muito +progressivamente e com um amavel esforo, se ia familiarisando com os +homens simples que a trabalhavam. Na sua chegada a Tormes, o meu +Principe soffria d'uma estranha timidez diante dos caseiros, dos +jornaleiros, e at de qualquer rapazinho que passasse, tangendo uma +vacca para o pasto. Nunca elle ento se demoraria a conversar com os +moos, quando borda d'um caminho ou n'um campo em monda elles se +endireitavam de chapeu na mo, n'um respeito de velha vassalagem. De +certo o empecia a preguia, e talvez ainda o pudico recato de transpor +toda a immensa distancia que se alargava desde a sua complicada +super-civilisao at rude simplicidade d'aquellas almas +naturaes:--mas sobretudo o retinha o medo de mostrar a sua ignorancia da +lavoura e da terra, ou de parecer talvez desdenhoso de occupaes e de +interesses, que para os outros eram supremos e quasi religiosos. Remia +ento esta reserva com uma profuso de sorrisos, de doces acenos, +tirando tambem o chapeu em cortezias profundas, com uma tal emphase de +polidez que eu por vezes receava que elle murmurasse aos jornaleiros: +Tenha v. ex.^a muito boas tardes;... Creado de v. ex.^a! + +Mas agora, depois d'aquellas semanas de serra, e de j saber (com um +saber ainda fragil,) a epocha das sementeiras e das ceifas, e que as +arvores de fructa se semeiam no inverno, j se aprazia em parar junto +dos trabalhadores, contemplar descanadamente o trabalho, dizer cousas +affaveis e vagas. + +--Ento, isso vae andando?... Ora ainda bem!... Este bocado de torro +aqui rico... O talude ali adeante est precisando concerto... + +E cada um d'estes to simples dizeres lhe era doce, como se por meio +d'elles penetrasse mais fundamente na intimidade da terra, e +consolidasse a sua encarnao em homem do campo, deixando de ser uma +mera sombra circulando entre realidades. J por isso no crusava no +caminho o mocinho atraz das vaccas, que no o detivesse, o no +interrogasse: Para onde vaes tu? De quem o gado? Como te chamas? E, +contente comsigo, sempre gabava gratamente o desembarao do rapaz, ou a +esperteza dos seus olhos. Outra satisfao do meu Principe era conhecer +os nomes de todos os campos, as nascentes d'agua, e as delimitaes da +sua quinta. + +--Vs acol, para alm do ribeiro, o pinheiral. J no meu, dos +Albuquerques. + +E com a perenne alegria de Jacintho as noites da serra, no vasto +casaro, eram faceis e curtas. O meu Principe era ento uma alma que se +simplificava:--e qualquer pequenino goso lhe bastava, desde que n'elle +entrasse paz ou doura. Com verdadeira delicia ficava, depois do caf, +estendido n'uma cadeira, sentindo atravez das janellas abertas, a +nocturna tranquillidade da serra, sob a mudez estrellada do ceu. + +As historias, muito simples e muito caseiras, que eu lhe contava, de +Guies, do abbade, da tia Vicencia, dos nossos parentes da Flr da +Malva, to sinceramente o interessavam que eu encetra, para seu regalo, +a chronica completa de Guies, com todos os namoricos, e as faanhas de +foras, e as desavenas por causa de servides ou d'aguas. Tambem por +vezes nos enfronhavamos, com afferro n'uma partida de gamo, sobre um +bello taboleiro de pau preto, com pedras de velho marfim, que nos +emprestra o Silverio. Mas nada de certo o encantava tanto como +atravessar as casas, p ante p, at uma saleta que dava para o pomar, e +ahi ficar encostado janella, sem luz, n'um enlevado socego, a escutar +longamente, languidamente, os rouxinoes que cantavam no laranjal. + + + + +X + + +N'uma dessas manhs--justamente na vespera do meu regresso a Guies--, o +tempo, que andra pela serra to alegre, n'um inalterado riso de luz +rutilante, todo vestido d'azul e ouro, fazendo poeira pelos caminhos, e +alegrando toda a natureza, desde os passaros at os regatos, +subitamente, com uma d'aquellas mudanas que tornam o seu temperamento +to semelhante ao do homem, appareceu triste, carrancudo, todo +embrulhado no seu manto cinzento, com uma tristeza to pesada e +contagiosa que toda a serra entristeceu. E no houve mais passaro que +cantasse, e os arroios fugiram para debaixo das hervas com um lento +murmurio de chro. + +Quando Jacintho entrou no meu quarto, no resisti malicia de o +aterrar: + +--Sudoeste! gralhas a grasnar por todos esses soutos... Temos muita +agua, Snr. D. Jacintho! Talvez duas semanas d'agua! E agora se vae +saber quem aqui o fino amador da Natureza, com esta chuva pegada, com +vendaval, com a serra toda a escorrer! + +O meu Principe caminhou para a janella com as mos nas algibeiras: + +--Com effeito! Est carregado. J mandei abrir uma das malas de Paris e +tirar um casaco impermeavel... No importa! Fica o arvoredo mais verde. +E bom que eu conhea Tormes nos seus habitos d'inverno. + +Mas como o Melchior lhe affianra que a chuvinha s viria para a +tarde, Jacintho decidiu ir antes d'almoo Corujeira, onde o Silverio +o esperava para decidirem da sorte d'uns castanheiros, muito velhos, +muito pittorescos, inteiramente interessantes, mas j roidos, e +ameaando desabar. E, confiando nas previses do Melchior, partimos sem +que Jacintho se vestisse prova d'agoa. No andaramos porm meio +caminho, quando, depois d'um arrepio nas arvores, um negrume carregou, +e, bruscamente, desabou sobre ns uma grossa chuva obliqua, vergastada +pelo vento, que nos deixou estonteados, agarrando os chapeus, +enrodilhados na borrasca. Chamados por uma grande voz, que se esganiava +no vento, avistamos n'um campo mais alto, beira d'um alpendre, o +Silverio, debaixo d'um guarda-chuva vermelho, que acenava, nos indicava +o trilho mais curto para aquelle abrigo. E para l rompemos, com a chuva +a escorrer na cara, patinhando na lama, contorcidos, cambaleantes, +atordoados no vendaval, que n'um instante alagra os campos, inchra os +ribeiros, esboroava a terra dos socalcos, lanra n'um desespero todo o +arvoredo, tornra a serra negra, bravamente agreste, hostil, +inhabitavel. + +Quando emfim, debaixo do vasto guarda-chuva com que o Silverio nos +esperava beira do campo, corremos para o alpendre, nos refugiamos +n'aquelle abrigo inesperado, a escorrer, a arquejar, o meu Principe, +enxugando a face, enxugando o pescoo, murmurou, desfallecido: + +--Apre! que ferocidade! + +Parecia espantado d'aquella brusca, violenta colera d'uma serra to +amavel e accolhedora, que em dous mezes, inalteradamente, s lhe +offerecera doura e sombra, e suaves ceus, e quietas ramagens, e +murmurios discretos de ribeirinhos mansos. + +--Santo Deus! Vem muitas vezes assim, estas borrascas? + +Immediatamente o Silverio aterrou o meu Principe: + +--Isto agora so brincadeiras de vero, meu senhor! Mas ha de V. Ex.^a +vr no inverno, se V. Ex.^a se aguentar por c! Ento cada temporal, +que at parece que os montes estremecem! + +E contou como fra tambem apanhado, quando ia para a Corujeira. +Felizmente, logo pela manh, quando sentiu o ar carrancudo e as +folhinhas dos choupos a tremer, se acautelra com o chapeu de chuva e +calra as suas grandes botas. + +--Ainda estive para me abrigar em casa do Esgueira, que um caseiro de +c. Aquella casa, ali abaixo, onde est a figueira... Mas a mulher tem +estado doente, j ha dias... E como pde ser obra que se pegue, bexigas +ou coisa que o valha, pensei comigo: Nada, o seguro morreu de velho! +Metti para o alpendre... E no passra um credo quando lobriguei a V. +Ex.^a... Coisa assim!... E o Snr. D. Jacintho voltar para casa, e +mudar-se, que temos um dia e uma noite d'agoa. + +Mas, justamente, a chuva comera a cahir perpendicular, d'um ceu ainda +negro, onde o vento se calra; e para alm do rio e dos montes havia uma +claridade, como entre cortinas de pano cinzento que se descerram. + +Jacintho repousava. Eu no cessra de me sacudir, de bater os ps +encharcados, que me arrefeciam. E o bom Silverio, passando a mo +pensativa sobre o negrume das suas barbas, reflectia, emendava os seus +prognosticos: + +--Pois, no senhor... Ainda esta! Nunca pensei. que tornejou o vento. + +O alpendre que nos cobria assentava sobre duas paredes em angulo, de +pedra solta, restos d'algum casebre desmantelado, e sobre um esteio +fazendo cunhal. N'esse momento s abrigava madeira, um cuculo de cestos +vasios, e um carro de bois, onde o meu Principe se sentra, enrolando um +cigarro confortador. A chuva desabava, copiosa, em longos fios +reluzentes. E todos tres nos callavamos, n'aquella contemplao inerte e +sem pensamento, em que uma chuva grossa e serena sempre immobilisa e +retem olhos e almas. + +-- Snr. Silverio, murmurou lentamente o meu Principe, que que o +senhor esteve ahi a dizer de bexigas? + +O procurador voltou a face surprehendido: + +--Eu, Ex.^{mo} Snr.?... Ah sim! a mulher do Esgueira! que pde ser, +pde ser... No imagine V. Ex.^a que faltam por c doenas. O ar bom. +No digo que no! Arsinho so, agoasinha leve. Mas s vezes, se V. Ex.^a +me d licena, vae por ahi muita maleita. + +--Mas no ha medico, no ha botica? + +O Silverio teve o riso superior de quem habita regies civilisadas e bem +providas... + +--Ento no havia d'haver? Pois ha um boticario, em Guies, l quasi ao +p da casa aqui do nosso amigo. E homem entendido... o Firmino, hein, +Snr. Fernandes? Homem capaz. Medico o Dr. Avelino, d'aqui a legoa e +meia, nas Bolsas. Mas j V. Ex.^a v, esta gentinha pobre!... Tomaram +elles para po, quanto mais para remedios! + +E de novo se estabeleceu um silencio, sob o alpendre, onde penetrava a +friagem crescente da serra encharcada. Para alm do rio, a promettedora +claridade no se alargra entre as duas espessas cortinas pardacentas. +No campo, em declive deante de ns, ia um longo correr de ribeiros +barrentos. Eu terminra por me sentar na ponta d'um madeiro, enervado, +j com a fome aguada pela manh agreste. E Jacintho, na borda do carro, +com os ps no ar, cofiava os bigodes humidos, palpava a face, onde, com +espanto meu, reapparecera a sombra, a sombra triste dos dias passados, a +sombra do 202! + +E, ento, surdiu por traz da parede do alpendre um rapasito, muito +rotinho, muito magrinho, com uma carita miuda, toda amarella sob a +porcaria, e onde dous grandes olhos pretos se arregalavam para ns, com +vago pasmo e vago medo. Silverio immediatamente o conheceu. + +--Como vae a tua me? Escusas de te chegar para c, deixa-te estar ahi. +Eu ouo bem. Como vae a tua me? + +No percebi o que os pobres beicitos descorados murmuraram. Mas Jacinto, +interessado: + +--Que diz elle? Deixe vir o rapaz! Quem a tua me? + +Foi o Silverio que informou respeitosamente: + +-- a tal mulher que est doente, a mulher do Esgueira, ali do casal da +figueira. E ainda tem outro abaixo d'este... Filharada no lhe falta. + +--Mas este pequeno tambem parece doente!--exclamou Jacintho. Coitadito, +to amarello!... Tu tambem ests doente? + +O rapasinho emmudecera, chupando o dedo, com os tristes olhos pasmados. +E o Silverio sorria, com bondade: + +--Nada! este sosinho... Coitado, assim amarellado e enfezadito, por +que... Que quer V. Ex.^a? Mal comido! muita miseria... Quando ha o +bocadito de po para todo o rancho. Fomesinha, fomesinha! + +Jacintho pulou bruscamente da borda do carro. + +--Fome? Ento elle tem fome? Ha aqui gente com fome? + +Os seus olhos rebrilhavam, n'um espanto commovido, em que pediam, ora a +mim, ora ao Silverio, a confirmao d'esta miseria insuspeitada. E fui +eu que esclareci o meu Principe: + +--Homem! est claro que ha fome! Tu imaginavas talvez que o Paraiso se +tinha perpetuado aqui nas serras, sem trabalho e sem miseria... Em toda +a parte ha pobres, at na Australia, nas minas d'ouro. Onde ha trabalho +ha proletariado, seja em Paris, seja no Douro... + +O meu Principe, teve um gesto d'afflicta impaciencia: + +--Eu no quero saber o que ha no Douro. O que eu pergunto se aqui, em +Tormes, na minha propriedade, dentro d'estes campos que so meus, ha +gente que trabalhe para mim, e que tenha fome... Se ha creancinhas, como +esta, esfomeadas? o que eu quero saber. + +O Silverio sorria, respeitosamente, ante aquella candida ignorancia das +realidades da Serra: + +--Pois est bem de vr, meu senhor, que ha para ahi caseiros que so +muito pobres. Quasi todos... uma miseria, que se no fosse algum +soccorro que se lhes d, nem eu sei!... Este Esgueira, com o rancho de +filhos que tem, uma desgraa... Havia V. Ex.^a de vr as casitas em +que elles vivem... So chiqueiros. A do Esgueira, acol... + +--Vamos vl-a! atalhou Jacintho com uma deciso exaltada. + +E sahiu logo do alpendre, sem attender chuva, que ainda cahia, mais +leve e mais rala. Mas ento Silverio alargou os braos deante d'elle, +com anciedade, como para o salvar d'um precipicio. + +--No! V. Ex.^a l na casa do Esgueira que no entra! No se sabe o +que a mulher tem, e cautella e caldo de gallinha... + +Jacintho no se alterou na sua polidez paciente: + +--Obrigado pelo seu cuidado, Silverio... Abra o seu chapeu de chuva, e +vante! + +Ento o Procurador vergou os hombros, e, como S. Ex.^a mandava, abriu +com estrondo o immenso pra-agoas, abrigou respeitosamente Jacintho, +atravs do campo encharcado. Eu segui, pensando na esmola sumptuosa que +o bom Deus mandava quelle pobre casal por um remoto senhor das Cidades! +Atraz vinha o pequenito perdido n'um immenso pasmo. + +Como todos os casebres da serra, o do Esgueira era de grossa pedra +solta, sem reboco, com um vago telhado, de telha musgosa e negra, um +postigo no alto, e a rude porta que servia para o ar, para a luz, para o +fumo, e para a gente. E em redor, a Natureza e o Trabalho tinham, +atravs d'annos, accumulado ali trepadeiras e flres silvestres, e +cantinhos d'horta, e sebes cheirosas, e velhos bancos roidos de musgo, e +panellas com terra onde crescia salsa, e regueiros cantantes, e videiras +enforcadas nos olmos, e sombras e charcos espelhados, que tornavam +deliciosa, para uma Ecloga, aquella morada da Fome, da Doena e da +Tristeza. + +Cautelosamente, com a ponteira do guarda-chuva, Silverio empurrou a +porta, chamando: + +--Eh! tia Maria... Ol rapariga! + +E na fenda entreaberta appareceu uma moa, muito alta, escura e suja, +com uns tristes olhos pisados, que se espantaram para ns, serenamente. + +--Ento como vae a tua me?--Abre l a porta, que esto aqui estes +senhores... + +Ella abriu, lentamente, e ia murmurando n'uma voz dolente e arrastada +mas sem queixume, que um vago, resignado sorriso acompanhava: + +--Ora, coitada! como ha de ir? Malzinha... malzinha. + +E dentro, n'um gemido que subia como do cho, d'entre abafos, amodorrado +e lento, a me repetiu a desconsolada queixa: + +--Ai! para aqui estou, e malzinha, malzinha!... + +O Silverio, sem passar da porta, com o guarda-chuva em riste, meio +aberto, como um escudo contra a infeco, lanou uma consolao vaga: + +--No ha de ser nada, tia Maria!... Isso foi friagem! No foi seno +friagem! + +E, sobre o hombro de Jacintho, encolhido: + +--J V. Ex.^a v... Muita miseria! At lhe chove l dentro. + +E, no pedao de cho que viam, cho de terra batida, uma mancha humida +reluzia, da chuva pingada de uma telha rta. A parede, coberta de +fuligem, das longas fumaraas da lareira, era to negra como o cho. E +aquella penumbra suja parecia atulhada, n'uma desordem escura, de +trapos, de cacos, de restos de coisas, onde s mostravam frma +comprehensivel uma arca de pau negro, e por cima, pendurado d'um prego, +entre uma serra e uma candeia, um grosso saiote escarlate. + +Ento Jacintho, muito embaraado, murmurou abstrahidamente: + +--Est bem, est bem... + +E largou pelo campo para o lado do alpendre como se fugisse, emquanto o +Silverio decerto revelava rapariga, a presena augusta do fidalgo, +por que a sentimos, da porta, levantar a voz dolorida: + +--Ai! Nosso Senhor lhe d muito boa sorte! Nosso Senhor o acompanhe! + +Quando o Silverio, com as grandes passadas das suas grandes botas, nos +colheu, no meio do campo, Jacintho parra, olhava para mim, com os dedos +tremulos a torturar o bigode, e murmurava: + +-- horrivel, Z Fernandes, horrivel. + +Ao lado, o vozeiro do Silverio trovejou: + +--Que queres tu outra vez, rapaz? Vae para a tua me, creatura! + +Era o pequeno rotinho, esfaimadinho, que se prendia a ns, n'um immenso +pasmo das nossas pessoas, e com a confusa esperana, talvez, que +d'ellas, como de Deuses encontrados n'um caminho, lhe viesse affago ou +proveito. E Jacintho, para quem elle mais especialmente arregalava os +olhos tristes, e que aquella miseria, e a sua muda humildade, +embaraavam, acanhavam horrivelmente, s soube sorrir, murmurar o seu +vago: Est bem, est bem... Fui eu que dei ao pequenito um tosto, +para o fartar, o despegar dos nossos passos. Mas como elle, com o seu +tosto bem agarrado, nos seguia ainda, como no sulco da nossa +magnificencia, o Silverio teve de o espantar, como a um passaro, batendo +as mos, e de lhe gritar: + +--J para casa! E leve esse dinheiro me. Roda, roda!... + +--E ns vamos almoar, lembrei eu olhando o relogio. O dia ainda vae +estar lindo. + +Sobre o rio, com effeito, reluzia um pedao d'azul lavado e lustroso; e +a grossa camada de nuvens j se ia enrolando sob a lenta varredela do +vento, que as levava, despejadas e rtas, para um canto escuso do ceu. + +Ento recolhemos lentamente para casa, por uma vereda ingreme, que +ensinra o Silverio, e onde um leve enchurro vinha ainda, saltando e +chalrando. De cada ramo tocado, rechuvia uma chuva leve. Toda a verdura, +que bebera largamente, reluzia consolada. + +Bruscamente, ao sahirmos da vereda para um caminho mais largo, entre um +socalco e um renque de vinha, Jacintho parou, tirando lentamente a +cigarreira: + +--Pois, Silverio, eu no quero mais estas horriveis miserias na quinta. + +O Procurador deu um geito aos hombros, com um vago _eh_! _eh_! +d'obediencia e dvida. + +--Antes de tudo, continuava Jacintho, mande j hoje chamar esse Dr. +Avelino para aquella pobre mulher... E os remedios que os vo buscar +logo a Guies. E recommendao ao medico para voltar manh, e em cada +dia; at que ella melhore... Escute! E quero, Melchior, que lhe leve +dinheiro, para os caldos, para a dieta, uns dez, ou quinze mil ris... +Bastar? + +O Procurador no conteve um riso respeitoso. Quinze mil ris! Uns +tostes bastavam... Nem era bom acostumar assim, a tanta franqueza, +aquella gente. Depois todos queriam, todos pedinchavam... + +--Mas que todos ho-de ter, disse Jacintho simplesmente. + +--V. Ex.^a manda, murmurou o Silverio. + +Encolhera os hombros, parado no caminho, no espanto d'aquellas +extravagancias. Eu tive de o apressar, impaciente: + +--Vamos conversando e andando! meio dia! Estou com uma fome de lobo! + +Caminhamos, com o Silverio no meio, pensativo, a fronte enrugada sob a +vasta aba do chapeu, a barba immensa espalhada pelo peito, e a barraca +exorbitante do guarda-chuva vermelho enrolada debaixo do brao. E +Jacintho, puxando nervosamente o bigode, arriscava outras idas +bemfazejas, cautelosamente, no seu indominavel medo do Silverio: + +--E as casas tambem... Aquella casa um covil!... Gostava de abrigar +melhor aquella pobre gente... E naturalmente, as dos outros caseiros so +pocilgas eguaes... Era necessario uma reforma! Construir casas novas a +todos os rendeiros da quinta... + +--A todos?...--O Silverio gaguejava,--emudeceu. + +E Jacintho balbuciava aterrado: + +--A todos... Emfim, quero dizer... Quantos sero elles? + +Silverio atirou um gesto enorme: + +--So vinte e coisas... Vinte e tres! se bem lembro. Upa! Upa! Vinte e +sete... + +Ento Jacintho emmudeceu tambem, como reconhecendo a vastido do numero. +Mas desejou saber, por quanto ficaria cada casa!... Oh! uma casa +simples, mas limpa, confortavel, como a que tinha a irm do Melchior, ao +p do lagar. Silverio estacou de novo. Uma casa como a da Ermelinda? +Queria Sua Ex.^a saber? E alijou a cifra, muito d'alto, como uma pedra +immensa, para esmagar Jacintho: + +--Duzentos mil ris, Ex^{mo} Senhor! E para mais que no para menos! + +Eu ria da tragica ameaa do excellente homem. E Jacintho, muito +docemente, para conciliar o Silverio: + +--Bem, meu amigo... Eram uns seis contos de ris! Digamos dez, por que +eu queria dar a todos alguma mobilia e alguma roupa. + +Ento o Silverio teve um brado de terror: + +--Mas ento, Ex.^{mo} Senhor, uma revoluo! + +E como ns, irresistivelmente, riamos dos seus olhos esgazeados de +horror, dos seus immensos braos abertos para traz, como se visse o +mundo desabar,--o bom Silverio encavacou: + +--Ah! V. Ex.^{as} riem? Casas para todos, mobilias, pratas, bragal, dez +contos de ris! Ento tambem eu rio! Ah! ah! ah! Ora viva a bella +chalaa!... Est ba a risota! + +E subitamente, n'uma profunda mesura, como declinando toda a +responsabilidade n'aquelle disparate magnifico: + +--Emfim, V. Ex.^a quem manda! + +--Est mandado, Silverio. E tambem quero saber as rendas que paga essa +gente, os contractos que existem, para os melhorar. Ha muito que +melhorar. Venha voss almoar comnosco. E conversamos. + +To saturado d'espanto estava o Silverio, que nem recebeu mais espanto +com essa melhoria de rendas. Agradeceu o convite, penhorado. Mas pedia +licena a Sua Ex.^a para passar primeiramente pelo lagar, para ver os +carpinteiros que andavam a concertar a trave do rio. Era um instante, e +estava em seguida s ordens de S. Ex.^a. + +Metteu a corta matto, saltando um cancello. E ns seguimos, com passos +que eram ligeiros, pela hora do almoo que se retardra, pello azul +alegre que reapparecia, e por toda aquella justia feita pobresa da +serra. + +--No perdeste hoje o teu dia, Jacintho, disse eu, batendo, com uma +ternura que no disfarcei, no hombro do meu amigo. + +--Que miseria, Z Fernandes! Eu nem sonhava... Haver por ahi, vista da +minha casa, outras casas, onde creanas teem fome! horrivel... + +Estavamos entrando na alameda. Um raio de sol, sahindo d'entre duas +grossas, algodoadas nuvens, passou sobre uma esquina do casaro, ao +fundo, uma viva tira d'ouro. O clarim dos gallos soava claro e alto. E +um doce vento, que se erguera, punha nas folhas lavadas e luzidias um +fremito alegre e doce. + +--Sabes o que eu estava pensando, Jacintho?... Que te aconteceu aquella +lenda de Santo Ambrosio... No, no era Santo Ambrosio... No me lembra +o santo... Nem era ainda santo... apenas um cavalleiro peccador, que se +enamorra d'uma mulher, puzera toda a sua alma n'essa mulher, s por a +avistar a distancia na rua. Depois, uma tarde que a seguia, enlevado, +ella entrou n'um portal de egreja, e ahi, de repente, ergueu o veu, +entreabriu o vestido, e mostrou ao pobre cavalleiro o seio roido por uma +chaga! Tu, tambem andavas namorado da serra, sem a conhecer, s pela sua +belleza de vero. E a serra, hoje, zs! de repente, descobre a sua +grande ulcera... talvez a tua preparao para S. Jacintho. + +Elle parou, pensativo, com os dedos nas cavas do collete: + +--- verdade! Vi a chaga! Mas emfim, esta, louvado seja Deus, das que +eu posso curar! + +No desilludi o meu Principe. E ambos subimos alegremente a escadaria do +casaro. + + + + +XI + + +No dia que seguiu estas largas caridades recolhi a Guies. E, desde +ento, tantas vezes trotei por aquellas tres legoas entre a nossa e a +velha alameda dos Jacinthos, que a minha egoa, quando a desviava d'essa +estrada familiar, conduzindo a uma cavallaria familiar, (onde ella +privava com o garrano do Melchior) relinchava de pura saudade. At a tia +Vicencia se mostrava vagamente ciumenta d'aquella Tormes, para onde eu +sempre corria, d'aquelle Principe de quem incessantemente celebrava o +rejuvenescimento, a caridade, os piteus, e as chimeras agricolas. J um +dia com um gro de sal e ironia,--o unico que cabia n'um corao todo +cheio d'innocencia,--ella me dissera, movendo com mais vivacidade as +agulhas da sua meia: + +--Olha que te podes gabar! At me tens feito curiosidade de conhecer +esse Jacintho... Traze c essa maravilha, menino! + +Eu rira: + +--Socegue, tia Vicencia, que o trarei agora, para o dia dos meus annos, +a jantar... Damos uma festa, haver um bailarico no pateo, e vem ahi +toda essa senhorama dos arredores. Talvez at se arranje uma noiva para +o Jacintho. + +Eu, com effeito, j convidra o meu Principe para este natalicio. E de +resto convinha que o senhor de Tormes conhecesse todos aquelles senhores +das boas casas da serra... Sobretudo, como eu lhe dizia rindo, convinha +que elle conhecesse algumas mulheres, algumas d'aquellas fortes +raparigas dos solares serranos, por que Tormes tinha uma solido muito +monastica; e o homem, sem um pouco do Eterno Feminino, facilmente se +enrudece e ganha uma casca aspera como a das arvores, na solido. + +--E esta Tormes, Jacintho, esta tua reconciliao com a Natureza, e o +renunciamento s mentiras da Civilisao uma linda historia... Mas, +caramba, faltam mulheres! + +Elle concordava, rindo, languidamente estendido na cadeira de vime: + +--Com effeito, ha aqui falta de mulher, com M. grande. Mas essas +senhoras ahi das casas dos arredores... No sei, estou pensando que se +devem parecer com legumes. Sans, nutritivas, excellentes para a +panella--mas, emfim, legumes. As mulheres que os poetas comparam s +Flores so sempre as mulheres das Crtes, das Capitaes, s quaes, +invariavelmente, desde Hesiodo e de Horacio, se rendem os poetas... E +evidentemente no ha perfume, nem graa, nem elegancia, nem requinte, +n'uma cenoura ou n'uma couve... No devem ser interessantes as senhoras +da minha serra. + +--Eu te digo... A tua visinha mais chegada, a filha do D. Theotonio, com +effeito, salvo o respeito que se deve casa illustre dos Barbedos, um +mostrengo! A irm dos Albergarias, da quinta da Loja, tambem no +tentaria nem mesmo o precisado Santo Anto. Sobretudo se se despisse, +por que um espinafre infernal! Essa realmente legume, e no dos +nutritivos. + +--Tu o disseste: espinafre! + +--Temos tambem a D. Beatriz Velloso... Essa bonita... Mas, menino, que +horrivelmente bem fallante! Falla como as heroinas do Camillo. Tu nunca +leste o Camillo... E depois, um tom de voz que te no sei descrever, o +tom com que se falla em D. Maria, em peas de sentimento. Tu tambem +nunca viste o Theatro de D. Maria... Emfim, um horror! E perguntas +pavorosas. V. Ex.^a. Snr. Doutor, no se delicia com Lamartine? J me +disse esta, a indecente! + +--E tu? + +--Eu! Arregalei os olhos... Oh Lamartine!. Mas, coitada, uma +excellente rapariga! Agora, por outro lado, temos as Rojes, as filhas +de Joo Rojo, duas flores, muito frescas, muito alegres, com um cheiro +e um brilho a sadio, e muito simples... A tia Vicencia morre por ellas. +Depois ha a mulher do Dr. Alypio, que uma belleza. Oh! uma creatura +esplendida! Mas, emfim, a mulher do Dr. Alypio, e tu renunciaste aos +deveres da Civilisao... Alm disso, mulher muito sria, toda absorvida +nos seus dous pequenos, que parecem dous anjinhos de Murillo... E quem +mais? J agora, quero completar a lista do pessoal feminino. Temos a +Mello Rebello, de Sandofim, muito engraada, com cabello lindo... Borda +na perfeio, faz doces como uma freira do antigo Regimen... Havia +tambem uma Julia Lobo, muito linda, mas morreu... Agora no me lembro +mais. Mas falta a flr da Serra, que a minha prima Joanninha, da Flr +da Malva! Essa uma perfeio de rapariga. + +--E tu, primo Z, como tens tu resistido? + +--Somos como irmos, creados de pequeninos, mais acostumados e +familiares que tu e eu... A familiaridade esbate os sexos. A me d'ella +era a unica irm da tia Vicencia, e morreu muito nova. A Joanninha, +quasi desde o bero que se creou em nossa casa, em Guies. O pae bom +homem, o tio Adrio. Erudito, antiquario, colleccionador... Collecciona +toda a sorte de cousas exquisitas, campainhas, esporas, sinetes, +fivellas... Tem uma colleco curiosa. Elle ha muito que deseja vir a +Tormes, para te visitar... Mas, coitado, soffre da bexiga, no pde +montar a cavallo. E a estrada da Flr da Malva aqui impossivel para +carruagens... + +O meu Principe espreguira longamente os braos: + +--No, est claro! eu que hei-de visitar teu tio, e a tia Vicencia... +Desejo conhecer os meus visinhos. Mas mais tarde, quando socegar. Agora +ando todo occupado com o meu povo. + +E com effeito! Jacintho era agora como um Rei fundador d'um Reino, e +grande edificador. Por todo o seu dominio de Tormes andavam obras, para +o renovamento das casas dos rendeiros, umas que se concertavam, outras +mais velhas, que se derrubavam para se reconstruirem com uma larguesa +commoda. Pelos caminhos constantemente chiavam carros, carregados de +pedra, ou de madeiras cortadas nos pinheiraes. + +Na taberna do Pedro, entrada da freguezia, ia um desusado movimento, +de pedreiros e carpinteiros contractados para as obras;--e o Pedro, com +as mangas arregaadas, por traz do balco, no cessava de encher os +decilitros com uma vasta enfusa. + +Jacintho, que tinha agora dous cavallos, todas as manhs cedo percorria +as obras, com amor. Eu, inquieto, sentia outra vez, latejar e irromper +no meu Principe o seu velho, maniaco furor d'accumular Civilisao! O +plano primitivo das obras era incessantemente alargado, aperfeioado. +Nas janellas, que deviam ter apenas portadas, segundo o secular costume +da serra, decidira pr vidraas, apezar do mestre d'obras lhe dizer +honradamente, que depois d'habitadas um mez, no haveria casa com um s +vidro. Para substituir as traves classicas queria estucar os tectos;--e +eu via bem claramente que elle se continha, se retesava dentro do +Bom-senso, para no dotar cada casa com campainhas electricas. Nem +sequer me espantei, quando elle uma manh me declarou que a porcaria da +gente do campo provinha de elles no terem onde commodamente se lavar, +pelo que andava pensando em dotar cada casa com uma banheira. Desciamos +n'esse momento, com os cavallos redea, por uma azinhaga precipitada e +escabrosa; um vento leve ramalhava nas arvores, um regato saltava +ruidosamente entre as pedras. Eu no me espantei--mas realmente me +pareceu que as pedras, o arroio, as ramagens e o vento, se riam +alegremente do meu Principe. E alm d'estes confortos, a que o Joo, +mestre d'obras, com os olhos loucamente arregalados chamava as +grandezas, Jacintho meditava o bem das almas. J encommendra ao seu +architecto, em Paris, o plano perfeito d'uma escola, que elle queria +erguer, n'aquelle campo da Carria, junto capellinha que abrigava os +ossos. Pouco a pouco, ahi crearia tambem uma bibliotheca, com livros +d'estampas, para entreter, aos domingos, os homens a quem j no era +possivel ensinar a lr. Eu vergava os hombros, pensando:--Ahi vem a +terrivel accumulao das Noes! Eis o livro invadindo a Serra! Mas +outras idas de Jacintho eram tocantes,--e eu mesmo me enthusiasmei, e +excitei o enthusiasmo da tia Vicencia com o seu plano d'uma Creche, onde +elle esperava ter manhs muito divertidas vendo as creancinhas a +gatinhar, a correr tropegamente atraz d'uma bola. De resto, o nosso +boticario de Guies estava j apalavrado para estabelecer uma pequena +pharmacia em Tormes, sob a direco do seu praticante, um afilhado da +tia Vicencia, que tinha publicado um artigo sobre as festas populares do +Douro no _Almanach de Lembranas_. E j fra offerecido o partido medico +de Tormes, com ordenado de 600$000 ris. + +--No te falta seno um Theatro! dizia eu, rindo. + +--Um theatro no. Mas tenho a ida d'uma sala, com projeces de +lanterna magica, para ensinar a esta pobre gente as cidades d'esse +mundo, e as cousas d'Africa, e um bocado de Historia. + +E tambem me ensoberbeci com esta innovao!--E quando a contei ao tio +Adrio, o digno antiquario bateu, apezar do seu rheumatismo, uma palmada +tremenda na cxa. Sim, senhor! Bella ida! Assim se podia ensinar +quella gente illetrada, vivamente, por imagens, a Historia Santa, a +Historia Romana, at a Historia de Portugal!... E voltado para a prima +Joanninha, o tio Adrio declarou Jacintho um homem de corao! + +E realmente pela Serra crescia a popularidade do meu Principe. +N'aquelle, guarde-o Deus, meu senhor! com que as mulheres ao passar o +saudavam, se voltavam para o vr ainda, havia uma seriedade d'orao, o +bem sincero desejo de que Deus o guardasse sempre. As creanas a quem +elle distribuia tostes, farejavam de longe a sua passagem,--e era em +torno d'elle um escuro formigueiro de caritas trigueiras e sujas, com +grandes olhos arregalados, que se ainda tinham pasmo, j no tinham +medo. Como o cavallo de Jacintho uma tarde se chapra, ao desembocar da +alameda, n'umas grossas pedras que ahi deformavam a estrada, logo ao +outro dia um bando d'homens, sem que Jacintho o ordenasse, veio por +dedicao ensaibrar e alisar aquelle pedao perigoso de caminho, +aterrados com o risco que correra o bom senhor. J pela serra se +espalhava esse nome de bom senhor. Os mais edosos da freguezia no o +encontravam sem exclamarem, uns com gravidade, outros com grandes risos +desdentados:--_Este o nosso bemfeitor_! Por vezes, alguma velha corria +do fundo do eido, ou vinha porta do casebre, ao avistal-o no caminho, +para gritar, com grandes gestos dos braos magros: Ai que Deus o cubra +de benos! Que Deus o cubra de benos! + +Aos domingos, o padre Jos Maria, (bom amigo meu e grande caador) vinha +de Sandofim, na sua egoa rua, a Tormes, para celebrar a missa na +Capellinha. Jacintho assistia ao officio na sua tribuna, como os +Jacinthos d'outras eras, para que aquelles simples o no suppuzessem +estranho a Deus. Quasi sempre ento elle recebia presentes, que as +filhas dos caseiros, ou os pequenos, vinham muito corados, trazer-lhe +varanda, e eram vasos de manjarico, ou um grosso ramalhete de cravos, e +por vezes um gordo pato. Havia ento uma distribuio de cavacas e +merengues de Guies, s raparigas e s creanas,--e, no pateo, para os +homens circulavam as infusas de vinho branco. O Silverio j sustentava +com espanto, e redobrado respeito, que o Snr. D. Jacintho em breve +disporia de mais votos nas eleies que o Dr. Alypio. E eu proprio me +impressionei, quando o Melchior me contou que o Joo Torrado, um velho +singular d'aquelles sitios, de grandes barbas brancas, hervanario, +vagamente alveitar, um pouco adivinho, morador mysterioso d'uma cova no +alto da serra, a todos affirmava que aquelle bom senhor era El-Rei D. +Sebastio, que voltra! + + + + +XII + + +Assim chegou Setembro, e com elle o meu natalicio, que era a 3 e n'um +Domingo. Toda essa semana a passra eu em Guies, nos preparos da +vindima,--e de manh cedo, n'esse Domingo illustre, me fui debruar da +varanda do quarto do saudoso tio Affonso, vigiando a estrada, por onde +devia apparecer o meu Principe, que emfim visitava a casa do seu Z +Fernandes. A tia Vicencia, desde a madrugada, andava atarefada pela +cosinha e pela copa, porque, desejando mostrar ao meu Principe o +pessoal da serra, convidra para jantar algumas familias amigas, dos +arredores, as que tinham carruagens ou carroes, e podiam, pelas +estradas mal seguras, recolher tarde, depois d'um bailarico campestre, +no pateo, j enfeitado para esse effeito de lanternas chinezas. Mas logo +s dez horas me desesperei, ao receber, por um moo da Flr da Malva, +uma carta da prima Joanninha, em que dizia a pena de no poder vir +porque o Pap estava desde a vespera com um leiceno, e ella no o +queria abandonar. Corri indignado cosinha, onde a tia Vicencia +presidia a um violento bater de gemas d'ovos dentro d'uma immensa +terrina. + +--A Joanninha no vem! Sempre assim! Diz que o pae tem um leiceno... +Aquelle tio Adrio escolhe sempre os grandes dias para ter leicenos, ou +para ter a pontada... + +A boa face redondinha e corada da tia Vicencia enterneceu-se. + +--Coitado! ser em sitio que no se pudesse sentar na carruagem! +Coitado! Olha, se lhe escreveres, dize-lhe que ponha um emplastrosinho +de folhas d'alecrim. com que teu tio se dava bem. + +Eu gritei simplesmente para o moo, que dava de beber ao burro no pateo: + +--Dize Snr.^a D. Joanninha que sentimos muito... Que talvez eu l +apparea manh. + +E voltei janella, impaciente, por que o relogio do corredor, muito +atrazado, j cantra a meia hora depois das dez e o Principe tardava +para o almoo. Mas, mal eu me chegra varanda, appareceu justamente na +volta da estrada Jacintho, de grande chapeu de palha, no seu cavallo, +seguido do Grillo que, tambem de chapeu de palha, e abrigado sob um +immenso guarda-sol verde, se escarranchava no albardo da velha egoa do +Melchior. Atraz, um moo com uma maleta cabea. E eu, na alegria de +avistar emfim o meu Principe trotando para a minha casa d'aldeia, no dia +dos meus trinta e seis annos, pensava n'outro natalicio, no d'elle, em +Paris, no 202, quando, entre todos os esplendores da Civilizao, ns +bebemos tristemente _ad manes_, aos nossos mortos! + +--_Salv_! gritei da varanda. _Salv, domine Jacinthi_! + +E entoei, para o accolher, n'um alegre tarantantan, o hymno da carta! + +--Isto por aqui tambem lindo!--gritou elle de baixo. E o teu palacio +tem um soberbo ar... Por onde a porta? + +Mas eu j me precipitava para o pateo--onde Jacintho, apeando, contou +alegremente os tormentos do Grillo, que nunca montra a cavallo, e no +cessra de berrar ante os perigos d'aquella aventura. + +E o digno preto, offegante, lustroso de suor, e livido sob o esplendor +da sua negrura, exclamava, apontando com a mo tremula para a pobre +egoa, que solta, de cabea pensativa, parecia de pedra, sobre as patas +mais immoveis que marcos: + +--Pois se o si Fernandes visse! Uma fera, que nunca veiu quieta. Sempre +para a esquerda, sempre para a direita, p aqui, p alm! S para me +sacudir! S para me sacudir! + +E no resistiu. Com a ponta do guarda-sol atirou uma pontoada vingativa +contra a egoa, sobre o albardo. + +Subindo a escadaria ligeira, penetrando no alegre corredor, com a sua +janella ao fundo engrinaldada de rosinhas, Jacintho louvava grandemente +a nossa casa, que o repousava das rijas muralhas, das grossas portas +feudaes de Tormes. E no seu quarto agradeceu os cuidados maternaes da +tia Vicencia, que enchera de flores os dois vasos da China sobre a +commoda, e adornra a cama com uma das nossas colxas da India mais +ricas, cr de canario, com grandes aves d'ouro. Eu sorria, enternecido. +Ento estreitamos os ossos n'um grande abrao, pelo natalicio... Trinta +e oito, hein, Z Fernandes?--Trinta e quatro, animal! E o meu +Principe abrindo a mala, sobria maleta de philosopho, offereceu os +nobres presentes, que so devidos, como diz sempre o astuto Ulysses na +Odyssea. Era um alfinete de gravata, com uma saphira, uma cigarreira de +aro fosco, adornada de um florido ramo de macieira em delicado esmalte, +e uma faca para livros de velho lavor Chinez. Eu protestava contra a +prodigalidade. + +-- tudo das malas de Paris... Mandei-as abrir hontem noite. E tomei a +liberdade de trazer esta lembrana tua tia Vicencia. No vale nada... + s por ter pertencido princeza de Lamballe. + +Era uma caldeirinha d'agoa benta, em prata lavrada, d'um gosto florido e +quasi galante. + +--A tia Vicencia no sabe quem a princeza de Lamballe, mas ficar +encantada! E uma garantia, por que ella suspeita da tua religio, como +homem de Paris, da terra das impiedades... E agora, lavar, escovar, e ao +almoo! + +A tia Vicencia pareceu toda surprehendida, e logo encantada com o meu +camarada, que ella suppuzera realmente um Principe, arrogante, escarpado +e difficil. Quando elle lhe offereceu a caldeirinha, com um delicado +pedido para se lembrar d'elle nas suas oraes, duas largas rosas, +mais roseas e frescas que as rosas que enchiam a mesa, cobriram as faces +redondas da boa senhora, que nunca recebera to piedoso presente, com +to linda palavra. Mas o que sobretudo a captivou foi o tremendo +appetite de Jacintho, a enthusiasmada convico com que elle, +accumulando no prato montes de cabidella, depois altas serras d'arroz de +forno, depois bifes de numerosa cebolada, exaltava a nossa cosinha, +jurava nunca ter provado nada to sublime. Ella resplandecia: + +--At faz gosto, at faz gosto!... Ora mais uma d'estas batatinhas +recheadas... + +--Com certesa, minha senhora! at duas! As minhas raes, em mesas +d'estas, to perfeitas, so sempre as de Gargantua. + +--No cites Rabelais, que a tia Vicencia no conhece os auctores +profanos! exclamava eu, tambem radiante. E prova esse vinho branco c da +nossa lavra, e louva Deus que amadurece tal uva. + +E o almoo foi muito alegre, muito intimo, muito conversado, sobre as +obras de Jacintho em Tormes, e a sua Creche, que enlevava a tia +Vicencia, e as esperanas da vindima, e a minha prima Joanninha, que +tinha o pap doente, e o pessimo estado dos caminhos. Mas o +enternecimento maior foi quando, ao servir o caf, o creado poz ao lado +de Jacintho um pires com um pau de canella, o seu estranho e costumado +pau de canella. No o esquecera a tia Vicencia! Ali tinha o seu pausinho +de canella!--Queria que elle, em Guies, continuasse os seus habitos +como em Tormes... E aquelle pau de canella foi o symbolo de adopo do +meu Principe como novo sobrinho da tia Vicencia. + +Ella em breve recolheu cosinha, aos preparativos do banquete. Ns +fumamos um preguioso charuto no jardim, ao p do repuxo, sob a +recolhida sombra do cedro. Depois, inexoravelmente, como proprietario, +mostrei ao meu Principe a propriedade toda, com desapiedada +minuciosidade, sem lhe perdoar uma leira, um regueiro, uma arvore, um p +de vinha. S quando a sua face comeou a opar e a empallidecer, de +canao, e que do entendimento totalmente atordoado s lhe escorria um +vago--muito bonito! bella terra!-- que voltei os passos para casa, +tornejando ainda n'uma volta larga para lhe mostrar o lagar, uma +plantao d'espargos, e o sitio onde existira a ruina d'um velho castro +romano. Ao penetrarmos de novo, pelo jardim, na fresca sala, ainda o +empurrei, como uma rez, para a livraria do meu bom tio Affonso, para lhe +mostrar as preciosidades, uma magnifica chronica de D. Joo I por Ferno +Lopes, a primeira edio do _Imperador Clarimundo_, uma _Henriada_, com +a assignatura de Voltaire, foraes d'El-Rei D. Manoel, e outras +maravilhas. Elle respirava fechando o derradeiro pergaminho, quando eu o +arrastei adega, para que admirasse a famosa pipa, que tinha, em +relevo, na madeira do tampo, as complicadas armas dos Sandes. Eram +quatro horas. O meu Principe tinha o ar esgaseado e livido. Cravando +n'elle os olhos inexoraveis, olhos em que eu mesmo sentia reluzir a +ferocidade, declarei que iriamos agora vr a tulha. Mas ento, com as +mos nos rins, elle murmurou, humildemente, n'um murmurio de creana: + +--No se me dava de me sentar um poucochinho! + +Tive ento piedade, abri as garras, deixei que elle se arrastasse, atraz +de mim, para o seu quarto, onde freneticamente descalou as botas, se +atirou para um fresco canap forrado de ganga, murmurando n'um +abatimento profundo:--Bella propriedade! + +Consenti generosamente que elle adormecesse,--e eu mesmo desci a +verificar se a Gertrudes dispusera bem as escovas, as toalhas de renda, +no quarto onde os convidados, em breve, ao chegar, lavariam as mos, +escovariam a poeira da estrada. E justamente, uma caleche rodava no +pateo, a velha caleche do D. Theotonio, com a parelha rua. Espreitando +da janella descobri, com prazer, que chegava s, de gravata branca, sob +o guarda-p, sem a horrendissima filha. Corri alegremente ao quarto da +tia Vicencia, que, ajudada pela Catharina, abrochava pressa as suas +pulseiras ricas de topazios. + +--Tia Vicencia! chegou o D. Theotonio! Felizmente vem sem a filha... No +se demore, os outros no tardam. O Manoel que esteja bem penteado, de +gravata bem teza!... Vamos a vr como corre a festa! + + + + +XIII + + +Ai de mim! a festa no meu anniversario no se passou com brilho, nem com +alegria! + +Quando o meu Principe entrou na sala, com uma elegancia, (onde eu senti +as malas de Paris, abertas na vespera)--uma rosa branca no jaqueto +preto, collete branco lavrado e trespassado, copiosa gravata de sda +branca, tufando, e presa por uma perola negra,--j todos os convidados +estavam na sala,--o D. Theotonio, o Ricardo Velloso, o Dr. Alypio, o +gordo Mello Rebello, de Sandofim, os dois manos Albergarias, da quinta +da Loja--; todos de p, n'um pelloto cerrado. Em torno do soph onde a +tia Vicencia se installra, um magotesinho de cadeiras reunira as +senhoras,--a Beatriz Velloso, de cassa branca sobre sda, que a tornava +mais aeria e magra, com a sua trunfa immensa de cabello riado; as duas +Rojes, (com a tia Adelaide Rojo) vermelhinhas como camoezas, ambas de +branco; e a mulher do Dr. Alypio, de preto, esplendida como uma Venus +Rustica... E foi na sala, como se realmente entrasse um Principe, +d'esses paizes do Norte onde os Principes so magnificos, muito +distantes dos homens, e aterram as gentes. Um silencio, como se o tecto +de carvalho descesse, nos esmagava: e todos os olhos se enristaram +contra o meu desgraado Jacintho, como n'uma caada hind, quando orla +da floresta surge o Tigre Real. Debalde,--nas confusas, apressadas +apresentaes, com que eu o levava atravez da sala,--os seus apertos de +mo, os sorrisos, o vago murmurio, da sua honra, do seu prazer foram +repassados de sympathia, de simplicidade. Todos os cavalheiros +permaneciam reservados, observando o Principe, que subira serra: e as +senhoras mais se aconchegavam sombra da tia Vicencia, como ovelhas +volta do pastor, quando na altura assoma o lobo. Eu, j inquieto, lancei +o D. Theotonio, o mais ornamental d'aquelles cavalheiros. + +--O Snr. D. Theotonio foi muito amavel em vir, Jacintho. Raras vezes sae +da sua linda casa da Abrujeira. + +O digno D. Theotonio sorriu, cofiando os espessos bigodes brancos, de +velho brigadeiro: + +--V. Ex.^a chegou directamente de Vienna? + +No! Jacintho viera directamente de Paris, com o amigo Z Fernandes. D. +Theotonio insistiu: + +--Mas certamente visita muitas vezes Vienna... + +Jacintho sorria surprehendido: + +--Vienna, porque?... No. Ha mais de quinze annos que no vou a Vienna. + +O fidalgo murmurou um lento _ah_! e ficou calado, de palpebras baixas, +como revolvendo analyses profundas, com as mos cruzadas sob as abas da +longa sobrecasaca azul. + +Eu ento, vigilante, lancei o Dr. Alypio: + +--O nosso Doutor, meu caro Jacintho, o mais poderoso influente de todo +o districto. + +O Doutor curvou a cabea bem feita, com um bello cabello preto, +admiravelmente alisado e lustroso. Mas a tia Vicencia, que se erguera do +sof, chamava o meu Principe, porque o Manoel annuncira o jantar, +mudamente, mostrando apenas, porta da sala, a sua corpulenta +pessoa,--inteiriado e vermelho. + + mesa, onde os pudins, as travessas de doce d'ovos, os antigos vinhos +da Madeira e do Porto, nas suas pesadas garrafas de cristal lapidado, +fundiam com felicidade os seus tons ricos e quentes, Jacintho ficou +entre a tia Vicencia e uma das Rojes, a Luizinha, sua afilhada, que, +por costume velho, quando jantava em Guies, sempre se collocava +sombra da sua ba madrinha. E a spa, que era de gallinha com macarro, +foi comida n'um to largo e pesado silencio que eu, na ancia de o +quebrar, exclamei, ao acaso, sem pensar que me achava em Guies depois +de tanto tempo e em minha prpria casa: + +--Deliciosa, esta sopa! + +Jacintho echoou: + +--Divina!! + +Mas como todos os convidados certamente estranharam este meu brado, e a +excessiva admirao de Jacintho, o silencio, carregado de cerimonia, +mais se carregou de embarao. Felizmente a tia Vicencia, com aquelle seu +bom sorriso, observou que Jacintho parecia gostar da comida +portugueza... E eu, sempre no intuito d'animar a conversa, nem deixei +que o meu Principe confirmasse o seu amor da cosinha vernacula, e +gritei: + +--Como gostar! Mas que delira!... Pudera! Tanto tempo em Paris, +privado dos piteus lusitanos... + +E como, ditosamente, me lembrra o prato de arroz doce preparado na +occasio do natalicio de Jacintho, pelo cosinheiro do 202, contei a +historia, profusamente, exaggerando, affirmando que esse arroz doce +continha _foie gras_, e que sobre a sua ornamentada pyramide fluctuava a +bandeira tricolor, por cima do busto do conde de Chambord! Mas o arroz +doce de Paris, assim estragado to longe da Serra, no interessra +ninguem. Puxou apenas alguns sorrisos de polida condescendencia, quando +eu, alternadamente, me voltava para um cavalheiro, para uma senhora, +insistindo, exclamando:--Extraordinario, hein? + +D. Theotonio observou, mysteriosamente, que o cosinheiro sabia para +quem cosinhava. E a bella mulher do Dr. Alypio ousou murmurar, corando: + +--Havia de ser bonito prato, e talvez no fosse mau! + +Eu, sempre na ancia de espiritualisar o banquete, de produzir +conversao, ataquei com desabrida alegria a Snr.^a D. Luiza, por ella +assim defender a profanao do nosso grande acepipe nacional! Mas, pobre +de mim! to excessiva e ruidosamente interpellei a formosa senhora, que +ella se enconchou, emmudeceu, toda corada, e mais formosa assim. E outro +silencio se abatia sobre a mesa, como uma nevoa, quando a tia Vicencia, +providencial, se desculpou para com Jacintho de no ter peixe! Mas qu! +ali na Serra era impossivel, ainda a peso d'ouro, ter peixe, a no ser a +pescada salgada, ou o bacalhau. O excellente Rojo, com aquelle seu +modo, to suave que cada syllaba para correr mais docemente parecia +lubrificada com oleos santos, lembrou que o Snr. D. Jacintho possuia uma +larga facha do rio Douro com privilegio para a pesca do savel. Jacintho +no sabia, nem imaginava que houvesse saveis... O Dr. Alypio no se +admirava por que essas pescas tinham sido vendidas ao Cunha brasileiro, +ha vinte annos, na mocidade do Snr. D. Jacintho. E hoje, segundo o D. +Theotonio, no valiam dois mil ris. Se j no ha saveis!... E a +proposito das antigas pescas do Douro se ia formando, em torno da mesa, +entre os homens mais visinhos, lentas cavaqueirinhas ruraes, que as +senhoras aproveitavam para cochichar, no desabafo d'aquelle silencio +cerimonioso, que viera pesando cada vez mais desde a spa at os frangos +guisados. Receoso de que essa orla de murmurios lentos, sem brilho e sem +alegria, se estabelecesse de novo, me abalancei (para animar), a +interpellar Jacintho, recordando a famosa aventura do peixe da Dalmacia +encalhado no ascensor. + +--Isso foi uma das melhores historias que nos succederam em Paris! O +Jacintho, por causa d'um peixe muito raro, que lhe mandra o Gro-Duque +Casimiro, dava uma magnifica ceia, a que o Gro-Duque... o Gro-Duque +Casimiro, o irmo do Imperador... + +Todos os olhos se desviaram para o meu Jacintho, que se servia de +ervilhas:--e o Mello Rebello quasi se engasgou, n'um sorvo precipitado +ao copo, para contemplar no meu amigo algum reflexo do Gro-Duque. E eu +contei, com profuso, o peixe encalhado, o Gro-Duque pescando, o anzol +feito com um gancho da Princeza de Carman, o duque de Marizac, cahindo +quasi no poo do elevador... Mas no se produziu um unico riso, e a +atteno mesma era dada com esforo, por cortezia. Debalde eu +arremessava aquelles nomes magnificos de principes e princezas, +misturados a cousas picarescas... Nenhum dos meus convidados +comprehendia o maquinismo do elevador, um prato encalhado n'um poo +negro... Perante o gancho da princeza as Albergarias baixaram os olhos. +E a minha deliciosa historia morreu n'uma reticencia, ainda mais +regelada pela exclamao innocente da tia Vicencia: + +--Oh! filho, que cousas! + +Mas, como Jacintho se enfronhra de repente n'uma larga conversa com a +Luizinha Rojo, que ria, toda luminosa e palradora,--todos, como +libertados do peso cerimonioso da sua presena augusta, se lanaram nas +conversinhas discretas, a que o champagne, agora, depois do assado, dava +mais viveza. Eram os soturnos murmurios, em torno da mesa, que +definitivamente se perpetuavam. Foi ento que desisti de animar o +jantar. Mergulhei com a bella mulher do Doutor Alypio na grande questo +social d'esse tempo em Guies, o casamento da D. Amelia Noronha com o +feitor! E eu defendia a D. Amelia, os direitos do amor, quando se +alargou um silencio,--e era Jacintho, que se debruava, de copo na mo. + +--Velho amigo Z Fernandes, tua! Muitos e bons, e sempre em companhia +de tua tia e minha senhora, a quem peo para saudar. + +Todos os copos, onde a espuma morria sobre um fundo de champagne, se +ergueram n'um largo rumor de amisade, e boa visinhana. Eu acenei ao +Manoel, vivamente, para encher os copos; e logo, tambem de p, atirando +para traz a sobrecasaca: + +--Meus senhores, peo uma grande saude para o meu velho amigo Jacintho, +que pela primeira vez honra esta casa fraternal... Que digo eu? que pela +primeira vez honra com a sua presena a sua querida patria! E que por c +fique, pelas serras, muitos annos, todos bons. tua, meu velho! + +Outro rumor correu pela mesa, mas ceremonioso e sereno. A nossa +oratoria, positivamente, no incendira as imaginaes! A tia Vicencia +fez tilintar o seu copo, quasi vasio, com o de Jacintho, que tocou no +copo da sua visinha, a Luizinha Rojo, toda resplandecente, e mais +vermelha que uma peonia. Depois foi um encadeamento de saudes, com os +copos quasi vasios, entre todos os convidados, sem esquecer o tio +Adrio, e o Abbade, ambos ausentes, ambos com furunculos. E a tia +Vicencia espalhava aquelle olhar, que prepra o erguer, o arrastar de +cadeiras,--quando D. Theotonio, erguendo o seu copo de vinho do Porto, +com a outra mo apoiada mesa, meio erguido, chamou Jacintho, e n'uma +voz respeitosa, quasi cava: + +--Esta toda particular, e entre ns... Brindo o ausente! + +Esvasiou o copo, como em religio, pontificando. Jacintho bebeu +assombrado, sem comprehender. As cadeiras arrastavam,--eu dei o brao +tia Albergaria. + +E s comprehendi, na sala, quando o Dr. Alypio, com a sua chavena de +caf e o charuto fumegante, me disse, n'um d'aquelles seus olhares +finos, que lhe valiam a alcunha de _Dr. Agudo_:--Espero que ao menos, +c por Guies, no se erga de novo a forca!... E o mesmo fino olhar me +indicava o D. Theotonio, que arrastra Jacintho para entre as cortinas +d'uma janella, e discorria, com um ar de f e de mysterio. Era o +miguelismo, por Deus! O bom D. Theotonio considerava Jacintho como um +hereditario, ferrenho, miguelista,--e na sua inesperada vinda ao seu +solar de Tormes, entrevia uma misso politica, o comeo d'uma propaganda +energica, e o primeiro passo para uma tentativa de Restaurao. E na +reserva d'aquelles cavalheiros, ante o meu Principe, eu senti ento a +suspeita liberal, o receio d'uma influencia rica, nova, nas Eleies +proximas, e a nascente irritao contra as velhas ideias, representadas +n'aquelle moo, to rico, de civilisao to superior. Quasi entornei o +caf, na alegre surpreza d'aquella sandice. E retive o Mello Rebello, +que repunha a chavena vasia na bandeja, fitei, com um pouco de riso, o +_Dr. Agudo_. + +--Ento, francamente, os amigos imaginam que o Jacintho veio para Tormes +trabalhar no miguelismo? + +Muito serio, Mello Rebello chegou o seu grosso bigode minha orelha: + +--At corre, como certo, que o Principe D. Miguel est com elle em +Tormes! + +E como eu os considerava esgazeado, o Dr. Alypio--to agudo!--confirmou: + +-- o que corre... Disfarado em creado! + +Em creado? Oh! santo Deus! Era o Baptista! Justamente, Ricardo Velloso +veio, puxando do seu cigarrinho, para o accender no meu charuto. E o bom +Rebello logo invocou o seu testemunho.--Pois no corria, que o filho de +D. Miguel estava em Tormes, escondido?... + +--Disfarado em lacaio, confirmou logo o digno Rebello. + +Accendeu o cigarro, soprou o fumo, e erguendo muito as sobrancelhas +meditativas: + +--Se assim , l me parece desplante... Que eu no desgostava de o vr. +Dizem que bonito moo, bem apessoado. Mas emfim, meu tio Joo Vaz +Rebello foi partido s postas, a machado, nas prises d'Almeida... E se +recomeam essas questes, mau, mau! Ora o seu amigo... + +Emmudeceu. Jacintho, que se libertra do velho D. Theotonio, e ainda +conservava um resto de riso, d'assombro divertido, vinha para mim, +desabafar: + +--Extraordinario! Vejo que, aqui, na serra, ainda se conservam, sem uma +ruga, as velhas e boas ideias... + +Immediatamente, sem se conter, Mello Rebello acudiu: + +-- conforme o que V. Ex.^a chama _boas ideas_. + +E eu agora, furioso com aquella disparatada inveno, que cercava +d'hostilidade o meu pobre Jacintho, estragava aquella amavel noite +d'annos, intervim, vivamente: + +--Tu jogas o voltarete, Jacintho? No jogas... Ento vamos arranjar duas +mesas... O D. Theotonio ha de querer cartas. + +E arrastei Jacintho para as senhoras, que de novo se aninhavam sombra +da tia Vicencia, estabelecida no seu canto do sof. Todas se callavam, +parecia encolherem-se ante a appario do meu Principe, como pombas +avistando o abutre. E deixei o temido homem affirmando mulher do Dr. +Alypio (um pouco desgarrada do bando das aves timidas) que lhe dera +grande prazer aquella occasio de conhecer as suas visinhas de Tormes... +Ella abrira nervosamente o leque, sorria, e nunca de certo Jacintho +admirra na Cidade uma bocca mais vermelha, dentinhos mais rutilantes. +Mas depois d'organisar a mesa do voltarete, tive de abancar, eu, para +substituir o Manoel Albergaria, que era dispeptico, se declarra +affrontado, e desejava respirar um momento na varanda. Todos aquelles +cavalheiros, de resto, se queixavam de calor. Mandei abrir as janellas +que davam sobre as mimosas do pateo. O Velloso, ao baralhar, parava, +bufando, como opprimido: + +--Est abafado... Ainda temos trovoada! + +E o Dr. Alypio, inquieto, por que tinha uma hora d'estrada at casa, e +uma das egoas da caleche era escabriada, correu janella, espreitar o +ceu, que ennegrecera, morno e pesado. + +--Com effeito, vae cahir agoa. + +As hastes das mimosas ramalhavam, arripiadas: e o ar que agitava as +cortinas era intermittente, estonteado. De certo na sala, entre as +senhoras, surgira a mesma inquietao, porque a tia Albergaria +appareceu, avisando o mano Jorge. + +Era prudente pensar em partir, a noite ameaava... E o Dr. Alypio, +puxando o relogio, propoz que, levantada aquella remissa, se preparasse +a marcha. Justamente o Albergaria recolhia da varanda desaffrontado, +alliviado com um calice de genebra: e rotomou as suas cartas, +annunciando tambem que vinha ahi uma trovoada valente. + +Voltando sala, encontrei Jacintho muito alegre entre as senhoras, que +se familiarisaram, escutando cheias de riso e gosto, a historia da sua +chegada a Tormes, sem malas, sem creados, to desprovido que dormira com +a camisa da caseira! Mas a minha pobre noite d'annos findava, +desorganisada. A tia Albergaria rondava de janella em janella, assustada +com a volta Roqueirinha, espreitando a treva abafada. Calando +lentamente as luvas, a bella mulher do Dr. Alypio perguntava se ainda +havia a remissa. E a tia Vicencia apressra o ch, que o Manoel seguido +pela Gertrudes, com a bandeja de bolos, j comeava a servir s +senhoras. Jacintho, de p, offerecendo chavenas, gracejava: + +--Ento tanta pressa, tanto medo, por causa d'uma trovoadinha? + +Ellas replicavam, familiarizadas, n'uma crescente sympathia pelo meu +Principe: + +--Ora o senhor falla bem, porque fica debaixo de telhas... + +--Sempre o queriamos vr... se fosse agora para Tormes, com esta noite +cerrada! + +O voltarete findra nas duas mesas: e aquelles cavalheiros, das +janellas, gritavam ordens para o pateo negro, onde as carroagens +esperavam atreladas: + +--Desce a cabea da victoria, Diogo! + +--Accende o lampeo, Pedro! Sempre ajuda a luz das lanternas. + +A creada Quiteria chegava porta com os braos carregados de chales, de +mantilhas de renda. Como uma das Albergarias ia no assento de deante na +victoria, eu corri a buscar o meu casaco de borracha, para ella se +abrigar se a chuva viesse. E s o D. Theotonio, que tinha at casa +apenas meia legoa de estrada boa, se no apressava, filado outra vez no +meu Principe, que levava para os cantos mais solitarios, em conversas +profundas, que o seu dedo solemne, espetado, sublinhava gravemente. Mas +a tia Albergaria gritou que j chovia;--e ento foi uma pressa das +senhoras, que beijocavam vivamente a tia Vicencia, em quanto os homens, +na ante-camara, enfiavam aodadamente os palets. + +Jacintho e eu descemos ao pateo para acompanhar aquella debandada,--e +uma a uma, a traquitana do Dr. Alypio, a victoria das Albergarias, a +velha e immensa caleche dos Vellosos, rolaram sob a noite, entre os +nossos desejos de boa jornada. Por fim D. Theotonio calou as luvas +pretas e entrou para a sua caleche, dizendo a Jacintho: + +--Pois, primo e amigo, Deus permitta que, do nosso encontro, e do mais +que se passar, algum bem resulte a esta terra! + +Subindo a escada, o meu Principe desabafou: + +--Este Theotonio extraordinario! Sabes o que descobri por fim?... Que +me toma por um miguelista, e imagina que eu vim para Tormes preparar a +restaurao de D. Miguel?! + +--E tu? + +--Eu fiquei to espantado, que nem o desilludi! + +--Pois sabe mais, meu pobre amigo. Todos pensam o mesmo, esto +desconfiados, e receiam vr de novo erguidas as frcas em Guies! E +corre que tu tens o Principe D. Miguel escondido em Tormes, disfarado +em creado. E sabes quem elle ? o Baptista! + +--Isso sublime! murmurou Jacintho, com uns grandes olhos abertos. + +Na sala, a tia Vicencia nos esperava desconsolada, entre todas as luzes, +que ardiam ainda no silencio e paz do sero debandado: + +--Ora uma cousa assim! Nem quererem ficar para tomar um copinho de +gelea, um calice de vinho do Porto! + +--Esteve tudo muito desanimado, tia Vicencia! exclamei desafogando o meu +tedio. Todo esse mulherio emmudeceu; os amigos com um ar desconfiado... + +Jacintho protestou, muito divertido, muito sincero: + +No! pelo contrario. Gostei immenso. Excellente gente! E to simples... +Todas estas raparigas me pareceram optimas. E to frescas, to alegres! +Vou ter aqui bons amigos, quando verificarem que no sou miguelista. + +Ento contamos tia Vicencia a prodigiosa historia de D. Miguel +escondido em Tormes... Ella ria! Que cousa! E mau seria... + +--Mas o Snr. Jacintho, no ? + +--Eu, minha senhora, sou socialista... + +Acudi, explicando tia Vicencia, que socialista era ser pelos pobres. A +doce senhora considerava esse partido o melhor, o verdadeiro: + +--O meu Affonso, que Deus haja, era liberal... Meu pae, tambem e at +amigo do Duque da Terceira... + +Mas um rude trovo rolou, atroou a noite negra:--e uma batega d'agoa +cantou nos vidros, e nas pedras da varanda. + +--Santa Barbara! gritou a tia Vicencia! Ai aquella pobre gente!... At +estou com cuidado... As Rojes, que vo na victoria! + +E correu para o quarto, na sua pressa de accender as duas velas +costumadas no oratorio, ainda antes de ir guardar as pratas, e resar o +tero, com a Gertrudes. + + + + +XIV + + +Ao outro dia, depois d'almoo, eu e Jacintho montamos a cavallo para um +grande passeio at Flr da Malva, a saber de meu tio Adrio, e do seu +furunculo. E sentia uma curiosidade interessada, e at inquieta, de +testemunhar a impresso que daria ao meu Principe aquella nossa prima +Joanninha, que era o orgulho da nossa casa. J n'essa manh, andando +todos no jardim a escolher uma bella rosa ch para a botoeira do meu +Principe, a tia Vicencia celebrra com tanto fervor a belleza, a graa, +a caridade, e a doura da sua sobrinha toda-amada, que eu protestei: + +--Oh! tia Vicencia, olhe que esses elogios todos competem apenas +Virgem Maria! A tia Vicencia est a cahir em peccado de idolatria! O +Jacintho depois vae encontrar uma creatura apenas humana, e tem um +desapontamento tremendo! + +E agora, trotando pela facil estrada de Sandofim, lembrava-me aquella +manh, no 202, em que Jacintho encontrra o retrato d'ella no meu +quarto, e lhe chamra uma _lavradeirna_. Com effeito, era grande e +forte a Joanninha. Mas a photographia datava do seu tempo de vio +rustico, quando ella era apenas uma bella forte e s planta da serra. +Agora entrava nos vinte e cinco, e j pensava, e sentia,--e a alma que +n'ella se formra, afinra, amacira, e espiritualisava o seu esplendor +rubicundo. + +A manh, com o ceu todo purificado pela trovoada da vespera, e as terras +reverdecidas e lavadas pelos chuviscos ligeiros, offerecia uma doura +luminosa, fina, fresca, que tornava doce, como diz o velho Euripedes ou +o velho Sophocles, mover o corpo, e deixar a alma preguiar, sem pressa +nem cuidados. A estrada no tinha sombra, mas o sol batia muito de leve, +e roava-nos com uma caricia quasi alada. O valle parecia a Jacintho, +que nunca ali passra, uma pintura da Escola Franceza do seculo XVIII, +to graciosamente n'elle ondulavam as terras verdes, e com tanta paz e +frescura corria o risonho Serpo, e to affaveis e promettedores de +fartura e contentamento alvejavam os casaes nas verduras tenras! Os +nossos cavallos caminhavam n'um passo pensativo, gosando tambem a paz da +manh adoravel. E no sei, nunca soube, que plantasinhas silvestres e +escondidas espalhavam um delicado aroma, que eu tantas vezes sentira, +n'aquelle caminho, ao comear o outomno. + +--Que delicioso dia! murmurou Jacintho. Este caminho para a Flr da +Malva o caminho do ceu... Oh Z Fernandes, de que este cheirinho to +doce, to bom? + +Eu sorri, com certo pensamento: + +--No sei... talvez j o cheiro do ceu! + +Depois, parando o cavallo, apontei com o chicote para o valle: + +--Olha, acol, onde est aquella fila d'olmos, e ha o riacho, j so +terras do tio Adrio. Tem alli um pomar, que d os pcegos mais +deliciosos de Portugal... Hei de pedir prima Joanninha que te mande um +cesto d'elles. E o dce que ella faz com esses pcegos, menino, alguma +cousa de celeste. Tambem lhe hei de pedir que te mande o dce. + +Elle ria: + +--Ser explorar de mais a prima Joanninha. E eu (por que?) recordei e +atirei ao meu Principe estes dous versos d'uma ballada cavalheiresca, +composta em Coimbra pelo meu pobre amigo Procopio: + +--Manda-lhe um servo querido, +Bem hajas dona formosa! +E que lhe entregue um annel +E com um annel uma rosa. + +Jacintho rio alegremente: + +--Z Fernandes, seria excessivo, s por causa de meia duzia de pcegos, +e d'um boio de dce. + +Assim riamos, quando appareceu, volta da estrada, o longo muro da +quinta dos Vellosos, e depois a capellinha de S. Jos de Sandofim. E +immediatamente piquei para o largo, para a taverna do Trto, por causa +d'aquelle vinhinho branco, que sempre, quando por ali a levo, a minha +alma me pede. O meu Principe reprovou, indignado: + +--Oh! Z Fernandes, pois tu, a esta hora, depois d'almoo, vaes beber +vinho branco? + +-- um costumesinho antigo... Aqui taverninha do Trto... um +decilitrosinho... A almasinha assim m'o pede. + +E paramos; eu gritei pelo Manoel, que appareceu, rebolando a sua grossa +pansa, sobre as pernas tortas, com a infusa verde, e um copo. + +--Dous copos, Trto amigo. Que aqui este cavalheiro tambem aprecia. + +Depois d'um pallido protesto, o meu Principe tambem quiz, mirou o +limpido e dourado vinho ao sol, provou, e esvasiou o copo, com delicia, +e um estalinho de alto apreo. + +--Delicioso vinho!... Hei de querer d'este vinho em Tormes... +perfeito. + +--Hein? Fresquinho, leve, aromatico, alegrador, todo alma!... Encha l +outra vez os copos, amigo Trto. Este cavalheiro aqui o Snr. D. +Jacintho, o fidalgo de Tormes. + +Ento, de traz da umbreira da taverna, uma grande voz bradou, cavamente, +solemnemente: + +--Bemdito seja o pae dos Pobres! + +E um extranho velho, de longos cabellos brancos, barbas brancas, que lhe +comiam a face cr de tijolo, assomou no vo da porta, apoiado a um +bordo, com uma caixa de lata a tiracolo, e cravou em Jacintho dous +olhinhos d'um brilho negro, que faiscavam. Era o tio Joo Torrado, o +propheta da Serra... Logo lhe estendi a mo, que elle apertou, sem +despegar de Jacintho os olhos, que se dilatavam mais negros. Mandei vir +outro copo, apresentei Jacintho, que crra, embaraado. + +--Pois aqui o tem, o senhor de Tormes, que fez por ahi todo esse bem +pobreza. + +O velho atirou para elle bruscamente o brao, que sahia cabelludo e +quasi negro, d'uma manga muito curta. + +--A mo! + +E quando Jacintho lh'a deu, depois de arrancar vivamente a luva, Joo +Torrado longamente lh'a reteve com um sacudir lento e pensativo, +murmurando: + +--Mo real, mo de dar, mo que vem de cima, mo j rara! + +Depois tomou o copo, que lhe offerecia o Trto, bebeu com immensa +lentido, limpou as barbas, deu um geito correia que lhe prendia a +caixa de lata, e batendo com a ponta do cajado no cho: + +--Pois louvado seja nosso Senhor Jesus Christo, que por aqui me trouxe, +que no o meu dia, e vi um homem! + +Eu ento debrucei-me para elle, mais em confidencia: + +--Mas, tio Joo, oua c! Sempre certo voc dizer por ahi, pelos +sitios, que El-Rei D. Sebastio voltra? + +O pittoresco velho apoiou as duas mos sobre o cajado, o queixo +d'espalhada barba sobre as mos, e murmurava, sem nos olhar, como +seguindo a percusso dos seus pensamentos: + +--Talvez voltasse, talvez no voltasse... No se sabe quem vae, nem quem +vem. A gente v os corpos, mas no v as almas que esto dentro. Ha +corpos d'agora com almas d'outr'ora. Corpo vestido, alma pessoa... +Na feira da Roqueirinha quem sabe com quantos reis antigos se topa, +quando se anda aos encontres entre os vaqueiros... Em ruim corpo se +esconde bom senhor! + +E como elle findra n'um murmurio, eu, atirando um olhar a Jacintho, e +para gosarmos aquelles estranhos, pittorescos modos de vidente, insisti: + +--Mas, tio Joo, voc realmente, em sua consciencia, pensa que El-Rei +D. Sebastio no morreu na batalha? + +O velho ergueu para mim a face, que se enrugra n'uma desconfiana: + +--Essas cousas so muito antigas. E no calham bem aqui porta do +Trto. O vinho era bom, e V. S.^a tem pressa, meu menino! A flr da Flr +da Malva l tem o paesinho doente... Mas o mal j vae pela serra abaixo +com a inchao s costas. D gosto vr quem d gosto aos tristes. Por +cima de Tormes ha uma estrella clara. E trotar, trotar, que o dia est +lindo! + +Com a magra mo lanou um gesto para que seguissemos. E j passavamos o +cruzeiro quando o seu brado ardente, de novo revoou, com solemnidade +cava: + +--Bemdito seja o Pae dos Pobres. + +Direito, no meio da estrada, erguia o cajado como dirigindo as +acclamaes d'um povo. E Jacintho pasmava de que ainda houvesse no reino +um Sebastianista. + +--Todos o somos ainda em Portugal, Jacintho! Na serra ou na cidade cada +um espera o seu D. Sebastio. At a loteria da Misericordia uma forma +do Sebastianismo. Eu todas as manhs, mesmo sem ser de nevoeiro, +espreito, a vr se chega o meu. Ou antes a minha, por que eu espero uma +D. Sebastiana... E tu, felizardo? + +--Eu? Uma D. Sebastiana? Estou muito velho, Z Fernandes... Sou o ultimo +Jacintho; Jacintho ponto final... Que casa aquella com os dous +torrees? + +--A Flr da Malva. + +Jacintho tirou o relogio: + +--So tres horas. Gastamos hora e meia... Mas foi um bello passeio, e +instructivo. lindo este sitio. + +Sobre um outeirinho, afastada da estrada por arvoredo, que um muro +cerrava, e dominando, a Flr da Malva voltava para Oriente e para o Sol +a sua longa fachada com os dous torrees quadrados, onde as janellas, de +varanda, eram emolduradas em azulejos. O grande porto de ferro, ladeado +por dous bancos de pedra, ficava ao fundo do terreirinho, onde um +immenso castanheiro derramava verdura e sombra. Sentado sobre as fortes +raizes descarnadas da grande arvore, um pequeno esperava segurando um +burro pela arreata. + +--Est por ahi o Manoel da Porta? + +--Ainda agora subio pela alameda. + +--Bem: empurra l o porto. + +E subimos, por uma curta avenida de velhas arvores, at outro terreiro, +com um alpendre, uma casa de moos, toda coberta d'heras, e uma casota +de co, d'onde saltou, com um rumor de corrente arrastada, um molosso, o +Trito, que eu logo soceguei fazendo-lhe reconhecer o seu velho amigo Z +Fernandes. E o Manoel da Porta correu da fonte, onde enchia um grande +balde, para nos segurar os cavallos. + +--Como est o tio Adrio? + +Surdo, o excellente Manoel sorrio, deleitado: + +--E ento vossa excellencia, bem? A Snr.^a D. Joanninha ainda agora +andava no laranjal com o pequeno da Josepha. + +Seguimos por ruasinhas bem areadas, orladas d'alfazema e buxo alto, em +quanto eu contava ao meu Principe que aquelle pequenito da Josepha era +um afilhadinho da prima Joanna, e agora o seu encanto e o seu cuidado +todo. + +--Esta minha santa prima, apesar de solteira, tem ahi pela freguezia uma +verdadeira filharada. E no s dar-lhes roupas e presentes, e ajudar +as mes. Mas at os lava, e os penteia, e lhes trata as tosses. Nunca a +encontro sem alguma creancita ao collo... Agora anda na paixo d'este +Jossinho. + +Mas quando chegamos ao laranjal, beira da larga rua da quinta que +levava ao tanque, debalde procurei, e me embrenhei, e at gritei:--Eh, +prima Joanninha!... + +--Talvez esteja l para baixo, para o tanque... + +Descemos a rua, entre arvores, que a cobriam com as densas ramas +encruzadas. Uma fresca, limpida agoa de rega corria e luzia n'um caneiro +de pedra. Entre os troncos, as roseiras bravas ainda tinham uma frescura +de vero. E o pequeno campo, que se avistava para alm, rebrilhava com +doura, todo amarello e branco, dos malmequeres e botes d'ouro. + +O tanque, redondo, fra esvasiado para se lavar, e agora de novo o +repuxo o ia enchendo d'uma agoa muito clara, ainda baixa, onde os peixes +vermelhos se agitavam na alegria de recuperarem o seu pequeno oceano. +Sobre um dos bancos de pedra que circumdavam o tanque pousava um cesto +cheio de dhalias cortadas. E um moo, que sobre uma escada podava as +camelias, vira a Snr.^a D. Joanna seguir para o lado da parreira. + +Marchamos para a parreira, ainda toda carregada de uva preta. Duas +mulheres, longe, ensaboavam n'um lavadoiro, na sombra de grandes +nogueiras. Gritei:--Eh l? Vocs viram por ahi a Snr.^a D. Joanna? Uma +das moas esganiou a voz, que se perdeu no vasto ar luminoso e doce. + +--Bem: vamos a casa! No podemos farejar assim, toda a tarde. + +-- uma bella quinta, murmurava o meu Principe encantado. + +--Magnifica! E bem tratada... O tio Adrio tem um feitor excellente... +No o teu Melchior. Observa, aprende, lavrador! Olha aquelle +cebolinho! + +Passamos pela horta, uma horta ajardinada, como a sonhra o meu +Principe, com os seus talhes debruados d'alfazema, e madresilva +enroscada nos pilares de pedra, que faziam ruasinhas frescas toldadas de +parra densa. E dmos volta capella, onde crescia aos dous lados da +porta uma roseira ch, com uma rosa unica, muito aberta, e uma moita de +baunilha, onde Jacintho apanhou um raminho para cheirar. Depois entramos +no terrao em frente da casa, com a sua balaustrada de pedra, toda +enrodilhada de jasmineiros amarellos. A porta envidraada estava aberta: +e subimos pela escadaria de pedra, no immenso silencio em que toda a +Flr da Malva repousava, at ante-camara, d'altos tectos apainelados, +com longos bancos de pau, onde desmaiavam na sua velha pintura as +complicadas armas dos Cerqueiras. Empurrei a porta d'uma outra sala, que +tinha as janellas da varanda abertas, cada uma com a gaiola d'um +canario. + +-- curioso!--exclamou Jacintho. Parece o meu Presepio... E as minhas +cadeiras. + +E com effeito. Sobre uma commoda antiga, com bronzes antigos, pousava um +presepio semelhante ao da livraria de Jacintho. E as cadeiras de couro +lavrado tinham, como as que elle descobrira no soto, umas armas sob um +chapo de Cardeal. + +--Oh senhores! exclamei. No haver um creado? + +Bati as mos, fortemente. E o mesmo doce silencio permaneceu, muito +largo, todo luminoso e arejado pelo macio ar da quinta, apenas cortado +pelo saltitar dos canarios nos poleiros das gaiolas. + +-- o Palacio da Bella adormecida no bosque! murmurou Jacintho, quasi +indignado. D um berro! + +--No, caramba! Vou l dentro! + +Mas, porta, que de repente se abrio, appareceu minha prima Joanninha, +crada do passeio e do vivo ar, com um vestido claro um pouco aberto no +pescoo, que fundia mais docemente, n'uma larga claridade, o explendor +branco da sua pelle, e o louro ondeado dos seus bellos +cabellos,--lindamente risonha, na surpreza que alargava os seus largos, +luminosos olhos negros, e trazendo ao collo uma creancinha, gorda e cr +de rosa, apenas coberta com uma camisinha, de grandes laos azues. + +E foi assim que Jacintho, n'essa tarde de Septembro, na Flr da Malva, +vio aquella com quem casou em Maio, na capellinha d'azulejos, quando o +grande p de roseira se cobrira todo de rosas. + + + + +XV + + +E agora, entre roseiras que rebentam, e vinhas que se vindimam, j cinco +annos passaram sobre Tormes e a Serra. O meu Principe j no o ultimo +Jacintho, Jacintho ponto final--por que n'aquelle solar que decahira, +correm agora, com soberba vida, uma gorda e vermelha Theresinha, minha +afilhada, e um Jacinthinho, senhor muito da minha amisade. E, pae de +familia, principira a fazer-se monotono, pela perfeio da belleza +moral, aquelle homem to pittoresco pela inquietao philosophica, e +pelos variados tormentos da phantasia insaciada. Quando elle agora, bom +sabedor das cousas da lavoura, percorria comigo a quinta, em solidas +palestras agricolas, prudentes e sem chimeras--eu quasi lamentava esse +outro Jacintho que colhia uma theoria em cada ramo d'arvore, e riscando +o ar com a bengala, planeava queijeiras de cristal e porcellana, para +fabricar queijinhos que custariam duzentos mil ris cada um! + +Tambem a paternidade lhe despertra a responsabilidade. Jacintho possuia +agora um caderno de contas, ainda pequeno, rabiscado a lapis, com +falhas, e papeluchos soltos entremeados, mas onde as suas despezas, as +suas rendas se alinhavam, como duas hostes disciplinadas. Visitra j as +suas propriedades de Montemr, da Beira; e concertava, mobilava as +velhas casas d'essas propriedades para que os seus filhos, mais tarde, +crescidos, encontrassem ninhos feitos. Mas onde eu reconheci que +definitivamente um perfeito e ditoso equilibrio se estabelecera na alma +do meu Principe, foi quando elle, j sabido d'aquelle primeiro e ardente +fanatismo da Simplicidade--entreabrio a porta de Tormes Civilisao. +Dous mezes antes de nascer a Theresinha, uma tarde, entrou pela avenida +de platanos uma chiante e longa fila de carros, requisitados por toda a +freguesia, e acuculados de caixotes. Eram os famosos caixotes, por tanto +tempo encalhados em Alba de Tormes, e que chegavam, para despejar a +Cidade sobre a Serra. Eu pensei:--Mau! o meu pobre Jacintho teve uma +recahida! Mas os confortos mais complicados, que continha aquella +caixotaria temerosa, foram, com surpreza minha, desviados para os sotos +immensos, para o p da inutilidade: e o velho solar apenas se regalou +com alguns tapetes sobre os seus soalhos, cortinas pelas janellas +desabrigadas, e fundas poltronas, fundos sofs, para que os repousos, +por que elle suspirra, fossem mais lentos e suaves. Attribui esta +moderao a minha prima Joanninha, que amava Tormes na sua nudez rude. +Ella jurou que assim o ordenra o seu Jacintho. Mas, decorridas semanas, +tremi. Apparecera, vindo de Lisboa, um contra-mestre, com operarios, e +mais caixotes, para installar um telephone! + +--Um telephone, em Tormes, Jacintho? + +O meu Principe explicou, com humildade: + +--Para casa de meu sogro!... Bem vs. + +--Era rasoavel e carinhoso. O telephone porm, subtilmente, mudamente, +estendeu outro longo fio, para Valverde. E Jacintho, alargando os +braos, quasi supplicante: + +--Para casa do medico. Comprehendes... + +Era prudente. Mas, certa manh, em Guies, accordei aos berros da tia +Vicencia! Um homem chegra, mysterioso, com outros homens, trazendo +arame, para installar na nossa casa o novo invento. Soceguei a tia +Vicencia, jurando que essa machina nem fazia barulho, nem trazia +doenas, nem attrahia as trovoadas. Mas corri a Tormes. Jacintho sorrio, +encolhendo os hombros: + +--Que queres? Em Guies est o boticario, est o carniceiro... E, +depois, ests tu! + +Era fraternal. Todavia pensei: Estamos perdidos! Dentro d'um mez temos a +pobre Joanna a apertar o vestido por meio d'uma machina! Pois no! o +Progresso, que, intimao de Jacintho, subira a Tormes a estabelecer +aquella sua maravilha, pensando talvez que conquistra mais um reino +para desfear, desceu, silenciosamente, desilludido, e no avistamos mais +sobre a serra a sua hirta sombra cr de ferro e de fuligem. Ento +comprehendi que, verdadeiramente, na alma de Jacintho se estabelecera o +equilibrio da vida, e com elle a Gran-Ventura, de que tanto tempo elle +fra o principe sem Principado. E uma tarde, no pomar, encontrando o +nosso velho Grillo, agora reconciliado com a serra, desde que a serra +lhe dera meninos para trazer s cavalleiras, observei ao digno preto, +que lia o seu _Figaro_, armado de immensos oculos redondos: + +--Pois, Grillo, agora realmente bem podemos dizer que o Snr. D. Jacintho +est firme. + +O Grillo arredou os oculos para a testa, e levantando para o ar os cinco +dedos em curva como petalas d'uma tulipa: + +--S. ex.^a brotou! + +Profundo sempre o digno preto! Sim! Aquelle resequido galho de Cidade, +plantado na serra, pegra, chupra o humus do torro herdado, crera +seiva, afundra raizes, engrossra de tronco, atirra ramos, rebentra +em flres, forte, sereno, ditoso, benefico, nobre, dando fructos, +derramando sombra. E abrigados pela grande arvore, e por ella nutridos, +cem casaes em redor a bemdiziam. + + + + +XVI + + +Muitas vezes Jacintho, durante esses annos, fallra com prazer n'um +regresso de dous, tres mezes, ao 202, para mostrar Paris prima +Joanninha. E eu seria o companheiro fiel, para archivar os espantos da +minha serrana ante a Cidade! Depois conveio em esperar que o Jacinthinho +completasse dous annos, para poder jornadear sem desconforto, e +apontando j com o seu dedo para as cousas da Civilisao. Mas, quando +elle, em Outubro, fez esses dous annos desejados, a prima Joanninha +sentiu uma preguia immensa, quasi aterrada, do comboio, do estridor da +Cidade, do 202, e dos seus esplendores. Estamos aqui to bem! est um +tempo to lindo! murmurava, deitando os braos, sempre deslumbrada, ao +rijo pescoo do seu Jacintho. Elle desistia logo de Paris, encantado. +Vamos para Abril, quando os castanheiros dos Campos-Elyseos estiverem +em flr! Mas em Abril vieram aquelles cansaos que immobilisavam a +prima Joanninha no divan, ditosa, risonha, com umas pintas na pelle, e o +roupo mais solto. Por todo um longo anno estava desfeita a alegre +aventura. Eu andava ento soffrendo de desoccupao. As chuvas de Maro +promettiam uma farta colheita. Uma certa Anna Vaqueira, crada e bem +feita, viuva, que surtia as necessidades do meu corao, partira com o +irmo para o Brazil, onde elle dirigia uma venda. Desde o inverno, +sentia tambem no corpo como um comeo de ferrugem, que o emperrava, e, +certamente, algures, na minha alma, nascera uma pontinha de bolor. +Depois a minha egoa morreu... Parti eu para Paris. + +Logo em Hendaya, apenas pisei a doce terra de Frana, o meu pensamento, +como pombo a um velho pombal, voou ao 202,--talvez por eu vr um enorme +cartaz em que uma mulher nua, com flres bacchanticas nas tranas, se +estorcia, segurando n'uma das mos uma garrafa espumante, e brandindo na +outra, para o annunciar ao Mundo, um novo modelo de saca-rolhas. E oh +surpresa! eis que, logo adeante, na estao quieta e clara de Saint +Jean-de-Luz, um moo esbelto, de perfeita elegancia, entra vivamente no +meu compartimento, e, depois de me encarar, grita: + +--Eh, Fernandes! + +Marizac! O duque de Marizac! Era j o 202... Com que reconhecimento lhe +sacudi a mo fina, por elle me ter reconhecido! E, atirando para o canto +do vagon um palet, um masso de jornaes, que o escudeiro lhe passra, o +bom Marizac exclamava na mesma surpreza alegre: + +--E Jacintho? + +Contei Tormes, a serra, o seu primeiro amor pela Natureza, o seu outro +grande amor por minha prima, e os dous filhos, que elle trazia +escarranchados no pescoo. + +--Ah que canalha! exclamou Marizac com os olhos espetados em mim! +capaz de ser feliz! + +--Espantosamente, loucamente... Qual! no ha adverbios... + +--Indecentemente--murmurou Marizac muito serio. Que canalha! + +Eu ento desejei saber do nosso rancho familiar do 202. Elle encolheu os +hombros, accendendo a cigarette: + +--Todo esse mundo circula... + +--Madame d'Oriol? + +--Contina. + +--Os Trves? o Ephraim? + +--Continuam, todos tres. + +Lanou um gesto languido. + +--Durante cinco annos, em Paris, tudo contina... As mulheres com um +pouco mais de ps d'arroz, e a pelle um pouco mais molle, e melada. Os +homens com um tanto mais de dispepsia. E tudo segue. Tivemos os +Anarchistas. A princeza de Carman abalou com um acrobata do Circo de +Inverno... E--e voil! + +--Dornan? + +--Contina... No o encontrei mais desde o 202. Mas vejo s vezes o nome +d'elle, no _Boulevard_, com versos preciosos, obscenidades muito +apuradas, muito subtis. + +--E o Psychologo?... Ora, como se chamava elle?... + +--Contina tambem. Sempre com as feminices a tres francos e cincoenta... +Duquezas em camisa, almas nas... Cousas que se vendem bem! + +Mas quando eu, encantado, ia indagar de Todelle, do Gro-Duque, o +comboio entrou na estao de Biarritz:--e rapidamente, apanhando o +paletot e os jornaes, depois de me apertar a mo, o delicioso Marizac +saltou pela portinhola, que o seu creado abrira, gritando: + +--At Paris!... Sempre rue Cambori. + +Ento, no compartimento solitario, bocejei, com uma estranha sensao de +monotonia, de saciedade, como cercado j de gentes muito vistas, +murmurando historias muito sabidas, e cousas muito ditas, atravez de +sorrisos estafados. Dos dous lados do comboio era a longa planicie +monotona, sem variedade, muito miudamente cultivada, muito miudamente +retalhada, d'um verde de rezeda, verde cinzento e apagado, onde nenhum +lampejo, nem tom alegre de flr, nem acidente do solo, desmanchavam a +mediocridade discreta e ordeira. Pallidos choupos, em renques pautados e +finos, bordavam canaesinhos muito direitos e claros. Os casaes, todos da +mesma cr pardacenta, mal se elevavam do solo, mal se destacavam da +verdura desbotada, como encolhidos na sua mediocridade e cautella. E o +ceu, por cima, liso, sem uma nuvem, com um sol descrado, parecia um +vasto espelho muito lavado a grande agoa, at que de todo se lhe safasse +o esmalte e o brilho. Adormeci n'uma doce insipidez. + +Com que linda manh de Maio entrei em Paris! To fresca e fina, e j +macia, que, apesar de cansado, mergulhei com repugnancia no profundo, +sombrio leito do Grand-Hotel, todo fechado de espessos velludos, grossos +cordes, pesadas borlas, como um palanque de gala. N'essa profunda cova +de pennas sonhei que em Tormes se construira uma torre Eiffel e que em +volta d'ella as senhoras da Serra, as mais respeitaveis, a propria tia +Albergaria, danavam, nas, agitando no ar saca-rolhas immensos. Com as +commoes d'este pesadello, e depois o banho, e o desemmalar da mala, j +se acercavam as duas horas quando emfim emergi do grande porto, pisei, +ao cabo de cinco annos, o Boulevard. E immediatamente me pareceu que +todos esses cinco annos eu ali permanecera porta do Grand-Hotel, to +estafadamente conhecido me era aquelle estridente rolar da cidade, e as +magras arvores, e as grossas taboletas, e os immensos chapeus emplumados +sobre tranas pintadas d'amarello, e as empertigadas sobrecasacas com +grossas rosetas da legio d'honra, e os garotos, em voz rouca e baixa, +offerecendo baralhos de cartas obscenas, caixas de phosphoros +obscenas... Santo Deus! pensei, ha que annos eu estou em Paris! Comprei +ento, n'um kiosque, um jornal, a Voz de Paris, para que elle me +contasse, durante o almoo, as novas da Cidade. A mesa do kiosque +desapparecia, alastrada de jornaes illustrados:--e em todos se repetia a +mesma mulher, sempre na, ou meia despida, ora mostrando as costellas +magras, de gata faminta, ora voltando para o Leitor duas tremendas +nadegas... Eu outra vez murmurei:--Santo Deus! No caf da Paz, o creado +livido, e com um resto de p de arroz sobre a sua lividez, aconselhou ao +meu appetite, por ser to tarde, um lingoado frito e uma costelleta. + +--E que vinho, snr. Conde? + +--Chablis, snr. Duque! + +Elle sorrio minha deliciosa pilheria,--e eu abri, contente, a Voz de +Paris. Na primeira columna, atravez d'uma prosa muito retorcida, toda em +brilhos de joia barata, entrevi uma Princesa na, e um Capito de +Drages, que soluava. Saltei a outras columnas, onde se contavam feitos +de cocottes de nomes sonoros. Na outra pagina escriptores eloquentes +celebravam vinhos digestivos e tonicos. Depois eram os crimes do +costume.--No ha nada de novo! Puz de parte a Voz de Paris,--e ento +foi, entre mim e o lingoado, uma lucta pavorosa. O miseravel, que se +frigira rancorosamente contra mim, no consentia que eu descollasse da +sua espinha uma febra escassa. Todo elle se ressequira n'uma sola +impenetravel e tostada, onde a faca vergava, impotente e tremula. Gritei +pelo mo livido, o qual, com faca mais rija, fincando no soalho os +sapatos de fivella, arrancou emfim quelle malvado duas tirinhas, finas +e curtas como palitos, que engoli juntas, e me esfomearam. D'uma garfada +findei a costelleta. E paguei quinze francos com um bom luiz d'ouro. No +trco, que o moo me deu, com a polidez requintada d'uma civilisao +muito diffundida, havia dous francos falsos. E por aquella dce tarde de +Maio sahi para tomar no terrao um caf cr de chapo cco, que sabia a +fava. + +Com o charuto acceso contemplei o Boulevard, quella hora em toda a +pressa e estridor da sua grossa sociabilidade. A densa torrente dos +omnibus, calhambeques, carroas, parelhas de luxo, rolava vivamente, +como toda uma escura humanidade formigando entre patas e rodas, n'uma +pressa inquieta. Aquelle movimento continuado e rude bem depressa +entonteceu este espirito, por cinco annos affeito quietao das serras +immutaveis. Tentava ento, puerilmente, repousar n'alguma forma immovel, +omnibus parado, fiacre que estacra, n'um brusco escorregar da pileca: +mas logo algum dorso apressado se encafuava pela portinhola da tipoia, +ou um cacho de figuras escuras trepava sofregamente para o omnibus:--e, +rapido, recomeava o rolar retumbante. Immoveis, de certo, estavam os +altos predios hirtos, ribas de pedra e cal, que continham, +disciplinavam, aquella torrente offegante. Mas da rua aos telhados, em +cada varanda, por toda a fachada, eram taboletas encimando taboletas, +que outras taboletas apertavam:--e mais me canava o perceber a tenaz +incessancia do trabalho latente, a devorante canceira do lucro, +arquejante por traz das frontarias decorosas e mudas. Ento, emquanto +fumava o meu charuto, extranhamente se apossaram de mim os sentimentos +que Jacintho outr'ora experimentra no meio da Natureza, e que tanto me +divertiam. Ali, porta do caf, entre a indifferena e a pressa da +Cidade, tambem eu senti, como elle no campo, a vaga tristeza da minha +fragilidade e da minha solido. Bem certamente estava ali como perdido +n'um mundo, que me no era fraternal. Quem me conhecia? Quem se +interessaria por Z Fernandes? Se eu sentisse fome, e o confessasse, +ninguem me daria metade do seu po. Por mais afflictamente que a minha +face revelasse uma angustia, ninguem na sua pressa pararia para me +consolar. De que me serviriam tambem as excellencias d'alma, que s na +alma florescem? Se eu fosse um santo, aquella turba no se importaria +com a minha santidade; e se eu abrisse os braos e gritasse, ali no +Boulevard-- homens, meus irmos! os homens, mais ferozes que o lbo +ante o Pobresinho d'Assis, ririam e passariam indifferentes. Dous +impulsos unicos, correspondendo a duas funces unicas, parecia estarem +vivos n'aquella multido,--o lucro e o gso. Isolada entre elles, e ao +contagio ambiente da sua influencia, em breve a minha alma se +contrahiria, se tornaria n'um duro calhau de Egoismo. Do ser que eu +trouxera da Serra s restaria em pouco tempo esse calhau, e n'elle, +vivos, os dous appetites da Cidade,--encher a bolsa, saciar a carne! E +pouco a pouco as mesmas exageraes de Jacintho perante a Natureza me +invadiam perante a Cidade. Aquelle Boulevard reumava para mim um bafo +mortal, extrahido dos seus milhes de microbios. De cada porta me +parecia sahir um ardil para me roubar. Em cada face, avistada +portinhola d'um fiacre, suspeitava um bandido em manobra. Todas as +mulheres me pareciam caiadas como sepulchros, tendo s podrido por +dentro. E considerava d'uma melancolia funambulesca as frmas de toda +aquella Multido, a sua pressa aspera e v, a affectao das attitudes, +as immensas plumas das chapeletas, as expresses postias e falsas, a +pompa dos peitos alteados, o dorso redondo dos velhos olhando as imagens +obscenas das vitrines. Ah! tudo isto era pueril, quasi comico da minha +parte, mas o que eu sentia no Boulevard, pensando na necessidade de +remergulhar na Serra, para que ao seu puro ar se me despegasse a crosta +da Cidade, e eu resurgisse humano, e Z-Fernandico! + +Ento, para dissipar aquelle pesadume de solido, paguei o caf e parti, +lentamente, a visitar o 202. Ao passar na Magdalena, deante da estao +dos omnibus, pensei:--Que ser feito de Madame Colombe? E, oh miseria! +pelo meu miseravel ser subiu uma curta e quente baforada de desejo bruto +por aquella besta suja e magra! Era o charco onde eu me envenenara, e +que me envolvia nas emanaes subtis do seu veneno. Depois, ao dobrar da +rue Royale para a Praa da Concordia, topei com um robusto e possante +homem, que estacou, ergueu o brao, ergueu o vozeiro, n'um modo de +commando: + +--Eh, Fernandes! + +O Gro-Duque! O bello Gro-Duque, de jaqueto alvadio e chapeu tyrolez +cr de mel! Apertei com gratido reverente a mo do Principe, que me +reconhecera. + +--E Jacintho? Em Paris?... + +Contei Tormes, a serra, o rejuvenescimento do nosso amigo entre a +Natureza, a minha dce prima, e os bravos pequenos, que elle trazia s +cavalleiras. O Gro-Duque encolheu os hombros, desolado: + +--Oh l, l, l!... Peuh! Casado, na aldeia, com filharada... Homem +perdido! Ora no ha!... E um rapaz util! que nos divertia, e tinha +gosto! Aquelle jantar cr de rosa foi uma festa linda... No se fez, no +se tornou a fazer nada to brilhante em Paris... E Madame d'Oriol... +Ainda ha dias a vi no Palacio de Gelo... Potavel, mulher ainda muito +potavel... No todavia o meu genero... Adocicada, leitosa, pommadada, +neve la vanille!... Ora esse Jacintho!... + +--E Vossa Alteza, em Paris com demora? + +O formidavel homem baixou a face, franzida e confidencial: + +--Nenhuma. Paris no se aguenta... Est estragado, positivamente +estragado... Nem se come! Agora o Ernest, da Praa Gaillon, o Ernest, +que era maitre-d'hotel do Maire... J l comeu? Um horror. Tudo o +Ernest, agora! Onde se come? No Ernest. Qual! Ainda esta manh l +almocei... Um horror! Uma salada Chambord... palhada, indecentemente +palhada! No tem, no tem a noo da salada! Paris foi! Theatros, uma +estopada. Mulheres, hui! Lambidas todas. No ha nada! Ainda assim, n'um +dos theatritos de Montmartre, na Roulotte, est uma revista, que se v: +_Para c as mulheres_!--engraada, bem despida... A Celestine tem uma +cantiga, meia sentimental, meia porca, o _Amor no Water-Closet_, que +diverte, tem topete... Onde est, Fernandes? + +--No Grand-Hotel, meu senhor. + +--Que barraca!... E o seu Rei sempre bom? + +Curvei a cabea: + +--Sua Magestade, bem. + +--Estimo! Pois, Fernandes, tive prazer... Esse Jacintho que me desola! +V vr a Revista... Boas pernas, a Celestine... E tem graa o tal _Amor +no Water-Closet_. + +Um rijissimo aperto de mo,--e S. Alteza subiu pesadamente para a +victoria, ainda com um aceno amavel, que me penhorou... Excellente +homem, este Gro-Duque! Mais reconciliado com Paris, atravessei para os +Campos-Elyseos. Em toda a sua nobre e formosa larguesa, toda verde, com +os castanheiros em flr, corriam, subindo, descendo, velocipedes. Parei +a contemplar aquella fealdade nova, estes innumeraveis espinhaos +arqueados, e gambias magras, agitando-se desesperadamente sobre duas +rodas. Velhos gordos, de cachao escarlate, pedalavam, gordamente. +Galfarros esguios, de tibias descarnadas, fugiam n'uma linha esfusiada. +E as mulheres, muito pintadas, de bolero curto, cales bufantes, +giravam, mais rapidamente ainda, no prazer equivoco da carreira, +escarranchadas em hastes de ferro. E a cada instante outras medonhas +machinas passavam, victorias e phaetons a vapor, com uma complicao de +tubos e caldeiras, torneiras e chamins, rolando n'uma trepidao +estridente e pesada, espalhando um grosso fedor de petroleo. Segui para +o 202, pensando no que diria um grego do tempo de Phidias, se visse esta +nova belleza e graa do caminhar humano!... + +No 202, o porteiro, o velho Vian, quando me reconheceu, mostrou uma +alegria enternecedora. No se fartou de saber do casamento de Jacintho, +e d'aquelles queridos meninos. E era para elle uma felicidade que eu +apparecesse, justamente quando tudo se andra limpando para a entrada da +primavera. Quando penetrei na amada casa senti mais vivamente a minha +solido. No restava em toda ella nem um dos costumados aspectos que +fizessem reviver a velha camaradagem com o meu Principe. Logo na +ante-camara grandes lonas cobriam as tapessarias heroicas, e egual lona +parda escondia os estofos das cadeiras e dos muros, e as largas estantes +d'ebano da Bibliotheca, onde os trinta mil volumes, nobremente +enfileirados como Doutores n'um Concilio, pareciam separados do mundo +por aquelle panno que sobre elles descera depois de finda a comedia da +sua fora e da sua auctoridade. No gabinete de Jacintho, de sobre a mesa +d'escripta, desapparecera aquella confuso de instrumentosinhos, de que +eu perdera j a memria: e s a Mechanica sumptuosa, por sobre peanhas e +pedestaes, recentemente espanejada, reluzia, com as suas engrenagens, +tubos, rodas, rigidezes de metaes, n'uma frieza inerte, na inactividade +definitiva das cousas desusadas, como j dispostas n'um Museu, para +exemplificar a instrumentao caduca d'um mundo passado. Tentei mover o +telephone, que se no moveu; a mola da electricidade no accendeu nenhum +lume: todas as foras universaes tinham abandonado o servio do 202, +como servos despedidos. E ento, passeando atravez das salas, realmente +me pareceu que percorria um museu d'antiguidades; e que mais tarde +outros homens, com uma comprehenso mais pura e exacta da Vida e da +Felicidade, percorreriam como eu, longas salas, atulhadas com os +instrumentos da Super-Civilisao, e, como eu, encolheriam +desdenhosamente os hombros ante a grande Illuso que findra, agora para +sempre inutil, arrumada como um lixo historico, guardada debaixo de +lona. + +Quando sahi do 202 tomei um fiacre, subi ao Bosque de Bolonha. E apenas +rolra momentos pela avenida das Acacias, no silencio decoroso, +unicamente cortado pelo tilintar dos freios e pelas rodas vagarosas +esmagando a areia, comecei a reconhecer as velhas figuras, sempre com o +mesmo sorriso, o mesmo p d'arroz; as mesmas palpebras amortecidas, os +mesmos olhos farejantes, a mesma immobilidade de cra! O romancista da +_Couraa_ passou n'uma victoria, fixou em mim o monoculo defumado, mas +permaneceu indifferente. Os bands negros de Madame Verghane, +tapando-lhe as orelhas, pareciam ainda mais furiosamente negros entre a +harmonia de todo o branco que a vestia, chapo, plumas, flres, rendas e +corpete, onde o seu peito immenso se empolava como uma onda. No passeio, +sob as Acacias, espapado em duas cadeiras, o director do _Boulevard_ +mamava o resto do seu charuto. E n'um grande landeau, Madame de Trves +continuava o seu sorriso de ha cinco annos, com duas pregasinhas mais +molles aos cantos dos labios seccos. + +Abalei para o Grand-Hotel, bocejando,--como outr'ora Jacintho. E findei +o meu dia de Paris, no Theatro das Variedades, estonteado com uma +comedia muito fina, muito acclamada, toda faiscante do mais vivo +parisianismo, em que todo o enredo se enrodilhava volta d'uma Cama, +onde alternadamente se espojavam mulheres em camisa, sujeitos gordos em +ceroulas, um coronel com papas de linhaa nas nadegas, cosinheiras de +meias de sda bordadas, e ainda mais gente, ruidosa e saltitante, a +esfusiar de cio e de pilheria. Tomei um ch melancolico no Julien, no +meio de um aspero e lugubre namoro de prostitutas, fariscando a preza. +Em duas d'ellas, de pelle oleosa e cobreada, olhos obliquos, cabellos +duros e negros como clinas, senti o Oriente, a sua provocao felina... +Interroguei o creado, um medonho ser, d'uma obesidade balofa e livida, +d'eunuco. O monstro explicou n'uma voz roufenha e surda: + +--Mulheres de Madagascar... Foram importadas quando a Frana occupou a +ilha! + +Arrastei ento por Paris dias d'immenso tedio. Ao longo do Boulevard +revi nas vitrines todo o luxo, que j me enfartra havia cinco annos, +sem uma graa nova, uma curta frescura de inveno. Nas livrarias, sem +descobrir um livro, folheava centenas de volumes amarellos, onde, de +cada pagina que ao acaso abria, se exhalava om cheiro mrno d'alcova e +de ps d'arroz, entre linhas trabalhadas com effeminado arrebique, como +rendas de camisas. Ao jantar, em qualquer restaurante, encontrava, +ornando e disfarando as carnes ou as aves, o mesmo mlho, de cres e +sabores de pomada, que j de manh, n'outro restaurante, espelhado e +dourejado, me enjora no peixe e nos legumes. Paguei por grossos preos +garrafas do nosso adstringente e rustico vinho de Torres, ennobrecido +com o titulo de Chteau isto, Chteau aquillo, e p postio no gargalo. + noite, nos theatros, encontrava a Cama, a costumada cama, como centro +e unico fim da vida, attrahindo, mais fortemente que o monturo attrahe +os moscardos, todo um enxame de gentes, estonteadas, frementes +d'erotismo, zumbindo chacotas senis. Esta sordidez da Planicie me levou +a procurar melhor aragem d'espirito nas alturas da Collina, em +Montmartre; e ahi, no meio d'uma multido elegante de Senhoras, de +Duquezas, de Generaes, de todo o alto pessoal da Cidade, eu recebia, do +alto do palco, grossos jorros de obscenidades, que faziam estremecer de +goso as orelhas cabelludas de gordos banqueiros, e arfar com delicia os +corpetes de Worms e de Doucet, sobre os peitos postios das nobres +damas. E recolhia enjoado com tanto relento d'Alcova, vagamente +dispeptico com os mlhos de pomada do jantar, e sobre tudo descontente +comigo, por me no divertir, no comprehender a Cidade, e errar atravez +d'ella e da sua Civilisao Superior, com a reserva ridicula d'um +Censor, d'um Cato austero. Oh senhores!--pensava,--pois eu no me +divertirei nesta deliciosa Cidade? Entrar comigo o bolor da velhice? + +Passei as pontes, que separam em Paris o Temporal do Espiritual, +mergulhei no meu doce Bairro Latino, evoquei, deante de certos cafs, a +memoria da minha Nini; e, como outr'ora, preguiosamente, subi as +escadas da Sorbonne. N'um amphitheatro, onde sentira um grosso susurro, +um homem magro, com uma testa muito branca e larga, como talhada para +alojar pensamentos altos e puros, ensinava, falando das instituies da +Cidade Antiga. Mas, mal eu entrra, o seu dizer elegante e limpido foi +suffocado por gritos, urros, patadas, um tumulto rancoroso de troa +bestial, que sahia da mocidade apinhada nos bancos, a mocidade das +Escolas, Primavera sagrada, em que eu fra flr murcha. O Professor +parou, espalhando em redor um olhar frio, e remexendo as suas notas. +Quando o grosso grunhido se moderou em susurro desconfiado, elle +recomeou com alta serenidade. Todas as suas ideias eram frias e +substanciaes, expressas n'uma lingoa pura e forte; mas, immediatamente, +rompe uma furiosa rajada de apitos, uivos, relinchos, cacarejos de +gallo, por entre magras mos, que se estendiam levantadas para +estrangular as ideias. Ao meu lado um velho, encolhido na alta gola d'um +macfrelane de xadrezes, contemplava o tumulto com melancolia, pingando +endefluxado. Perguntei ao velho: + +--Que querem elles? embirrao com o professor... politica? + +O velho abanou a cabea, espirrando: + +--No... sempre assim, agora, em todos os cursos... No querem +ideias... Creio que queriam canonetas. o amor da porcaria e da troa. + +Ento, indignado, berrei: + +--Silencio, brutos! + +E eis que um abortosinho de rapaz, amarellado e sebento, de longas +melenas, umas enormes lunetas rebrilhantes, se arrebita, me fita, e me +berra: + +--_Sale Maure_! + +Ergui o meu grosso punho serrano,--e o desgraado, n'uma confuso de +melenas, com sangue por toda a face, alluio, como um monto de trapos +molles, ganindo desesperadamente, em quanto o furaco de uivos e +cacarejos, guinchos e silvos, envolvia o Professor, que cruzra os +braos, esperando, com uma serenidade simples. + +Desde esse momento decidi abandonar a fastidiosa Cidade; e o unico dia +alegre e divertido que n'ella passei foi o derradeiro, comprando para os +meus queridinhos de Tormes brinquedos consideraveis, tremendamente +complicados pela Civilisao,--vapores de ao e cobre, providos de +caldeiras para viajar em tanques; lees de pelle veridica rugindo +pavorosamente, bonecas vestidas pela Laferrire, com phonographo no +ventre... + +Finalmente abalei uma tarde, depois de lanar da minha janella, sobre o +Boulevard, as minhas despedidas Cidade: + +--Pois adeusinho, at nunca mais! Na lama do teu vicio e na poeira da +tua vaidade, outra vez, no me pilhas! O que tens de bom, que o teu +genio, elegante e claro, l o receberei na Serra pelo correio. +Adeusinho! + +Na tarde do seguinte Domingo, debruado da janella do comboio, que +vagarosamente deslisava pela borda do rio lento, n'um silencio todo +feito d'azul e sol, avistei, na plata-forma da quieta estao da minha +aldeia, os Senhores de Tormes, com a minha afilhada Thereza, muito +vermelha, arregalando os seus soberbos olhos, e o bravo Jacinthinho, que +empunhava uma bandeira branca. O alvoroo ditoso com que abracei e +beijei aquella tribu bem amada conviria perfeitamente a quem voltasse +vivo d'uma guerra distante, na Tartaria. Na alegria de recuperar a +Serra, at beijoquei o chefe Pimentinha, que a estalar d'obesidade se +aodava gritando ao carregador todo o cuidado com as minhas malas. + +Jacintho, magnifico, de grande chapo serrano e jaqueta, de novo me +abraou: + +--E esse Paris? + +--Medonho! + +Abri depois os braos para o bravo Jacintinho. + +--Ento para que essa bandeira, meu cavalleiro? + +-- a bandeira do Castello! declarou elle, com uma bella seriedade nos +seus grandes olhos. + +A me ria. Desde essa manh, logo que soubera da chegada do Ti-Z, +appareceu de bandeira, feita pelo Grillo, e no a largra mais; com ella +almora, com ella descera de Tormes! + +--Bravo! E, prima Joanninha, olhe que est magnifica! Eu, tambem, venho +d'aquellas pelles meladas de Paris... Mas acho-a triumphal! E o tio +Adrio, e a tia Vicencia? + +--Tudo optimo! gritou Jacintho. A serra, Deos louvado, prospera. E +agora, para cima! Tu hoje ficas em Tormes. Para contar da Civilisao. + +No largo por traz da estao, debaixo dos eucalyptos, que revi com +gosto, esperavam os tres cavallos, e dous bellos burros brancos, um com +cadeirinha para a Thereza, outro com um cesto de verga, para metter +dentro o heroico Jacinthinho, um e outro servidos estribeira por um +creado. Eu ajudra a prima Joanninha a montar, quando o carregador +appareceu com um masso de jornaes e papeis, que eu esquecera na +carruagem. Era uma papelada, de que me surtira na Estao d'Orleans, +toda recheada de mulheres nuas, de historietas sujas, de parisianismo, +d'erotismo. Jacintho, que as reconhecera, gritou rindo: + +--Deita isso fra! + +E eu atirei, para um monto de lixo, ao canto do Pateo, aquelle putrido +rebotalho da Civilisao. E montei. Mas ao dobrar para o caminho +empinado da serra, ainda me voltei, para gritar adeus ao Pimenta, de +quem me esquecera. O digno chefe, debruado sobre o monturo, apanhava, +sacudia, recolhia com amor aquellas bellas estampas, que chegavam de +Paris, contavam as delicias de Paris, derramavam atravez do mundo a +seduco de Paris. + +Em fila comeamos a subir para a Serra. A tarde adoava o seu esplendor +d'estio. Uma aragem trazia, como offertados, perfumes das flres +silvestres. As ramagens moviam, com um aceno de doce acolhimento, as +suas folhas vivas e relusentes. Toda a passarinhada cantava, n'um +alvoroo de alegria e de louvor. As agoas correntes, saltantes, +lusidias, despediam um brilho mais vivo, n'uma pressa mais animada. +Vidraas distantes de casas amaveis, flammejavam com um fulgor d'ouro. A +serra toda se offertava, na sua belleza eterna e verdadeira. E, sempre +adiante da nossa fila, por entre a verdura, fluctuava no ar a bandeira +branca, que o Jacinthinho no largava, de dentro do seu cesto, com a +haste bem segura na mo. Era _a bandeira do Castello_, affirmra elle. + +E na verdade me parecia que, por aquelles caminhos, atravez da natureza +campestre e mansa,--o meu Principe, atrigueirado nas soalheiras e nos +ventos da serra, a minha prima Joanninha, to doce e risonha me, os +dois primeiros representantes da sua abenoada tribu, e eu--, to longe +de amarguradas illuses e de falsas delicias, trilhando um solo eterno, +e de eterna solidez, com a alma contente, e Deus contente de ns, +serenamente e seguramente subiamos--para o Castello da Gran-Ventura! + + +Fim + + + + +ADVERTENCIA + + +Desde a pagina 241, at o final, as provas d'este livro no foram +revistas pelo auctor, arrebatado pela morte antes de haver dado a esta +parte da sua escripta aquella ultima demo, em que habitualmente elle +punha a diligencia mais perseverante e mais admiravelmente lucida. + +Aquelle dos seus amigos e companheiro de letras, a quem foi confiado o +trabalho delicado e piedoso de tocar no manuscripto posthumo de Ea de +Queiroz, ao concluir o desempenho de tal misso, beija com o mais +enternecido e saudoso respeito a mo, para todo sempre immobilisada, que +traou estas paginas encantadoras; e faz votos por que a reviso de que +se incumbiu no deslustre muito grosseiramente a immortal aureola com +que ficar resplandecendo na litteratura portugueza este livro, em que o +espirito do grande escriptor parece exhalar-se da vida n'um terno +suspiro de doura, de paz, e de puro amor terra da sua patria. + +24 de abril de 1901. + + + + +*LIVRARIA CHARDRON de Lello & Irmo* + +96--CLERIGOS--98 + + +*Bazillio Telles* + +O problema agricola $600 +Estudos historicos e economicos $600 + +_No prlo_: + +Introduco ao problema do trabalho nacional. + + +*Abel Botelho* + +O baro de Lavos $800 +O livro d'Alda $800 +Sem remedio... $500 + +_No prlo_: + +Amanh. + + +*Jos Caldas* + +Humildes $400 +Os Jesuitas; a sua influencia na actual + sociedade portugueza; meio de a conjurar _no prlo_ + + +*Sylvio Romero* + +Martins Penna $400 + + +*Rebello da Silva* + +Mocidade de D. Joo V. 1$500 + + +*Andrade Corvo* + +Um anno na crte 1$500 + + +*Antonio C. Louzada* + +Rua escura $500 +Na consciencia $500 + + +*Dumas* + +Jorge ou o capito dos piratas $500 +Tres mosqueteiros, 2 volumes 1$000 + + +*Lermina* + +Filho do Monte Christo, 2 volumes 1$000 + + +*Eugenio Sue* + +Mysterios de Paris, 3 volumes cart. 2$000 + + +*Zola* + +Nan $500 +Historia da lavadeira Gervasia, 2 vols 1$000 +O Capito Burle $500 +Ventre de Paris, 2 vols 1$000 + + +*Arnaldo Gama* + +Caldeira de Pero Botelho $500 +Honra ou loucura $500 +Filho do Baldaia $600 + + +*Bruno* + +O Brazil mental $800 +Notas do exilio $500 + + * * * * * + +Historia da Prostituio 1$800 + + +*Camillo Castello Branco* + +Maria da Fonte $500 +Livro de consolao $500 +D. Luiz de Portugal $300 +Brazileira de Prazins $500 +Eusebio Macario $500 +Volcoens da lama $500 +Carta de guia de casados $300 + + +*Grainha* + +Jesuitas $600 + + +*Tolstoi* + +A Sonata de Kreutzer $400 + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of A Cidade e as Serras, by Ea Queirs + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A CIDADE E AS SERRAS *** + +***** This file should be named 18220-8.txt or 18220-8.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + http://www.gutenberg.org/1/8/2/2/18220/ + +Produced by Rita Farinha and the Online Distributed +Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This file was +produced from images generously made available by National +Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. Special rules, +set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to +copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to +protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project +Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you +charge for the eBooks, unless you receive specific permission. If you +do not charge anything for copies of this eBook, complying with the +rules is very easy. You may use this eBook for nearly any purpose +such as creation of derivative works, reports, performances and +research. They may be modified and printed and given away--you may do +practically ANYTHING with public domain eBooks. Redistribution is +subject to the trademark license, especially commercial +redistribution. + + + +*** START: FULL LICENSE *** + +THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE +PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK + +To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free +distribution of electronic works, by using or distributing this work +(or any other work associated in any way with the phrase "Project +Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full Project +Gutenberg-tm License (available with this file or online at +http://gutenberg.org/license). + + +Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg-tm +electronic works + +1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm +electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to +and accept all the terms of this license and intellectual property +(trademark/copyright) agreement. 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It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at http://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact +information can be found at the Foundation's web site and official +page at http://pglaf.org + +For additional contact information: + Dr. Gregory B. Newby + Chief Executive and Director + gbnewby@pglaf.org + + +Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation + +Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide +spread public support and donations to carry out its mission of +increasing the number of public domain and licensed works that can be +freely distributed in machine readable form accessible by the widest +array of equipment including outdated equipment. Many small donations +($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt +status with the IRS. + +The Foundation is committed to complying with the laws regulating +charities and charitable donations in all 50 states of the United +States. 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Thus, we do not necessarily +keep eBooks in compliance with any particular paper edition. + + +Most people start at our Web site which has the main PG search facility: + + http://www.gutenberg.org + +This Web site includes information about Project Gutenberg-tm, +including how to make donations to the Project Gutenberg Literary +Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to +subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. diff --git a/old/18220-8.zip b/old/18220-8.zip Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..a46f719 --- /dev/null +++ b/old/18220-8.zip diff --git a/old/20060421.18220-8.txt b/old/20060421.18220-8.txt new file mode 100644 index 0000000..1c3e8ec --- /dev/null +++ b/old/20060421.18220-8.txt @@ -0,0 +1,8784 @@ +The Project Gutenberg EBook of A Cidade e as Serras, by Ea de Queirs + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: A Cidade e as Serras + +Author: Ea de Queirs + +Release Date: April 21, 2006 [EBook #18220] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A CIDADE E AS SERRAS *** + + + + +Produced by Rita Farinha and the Online Distributed +Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This file was +produced from images generously made available by National +Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).) + + + + + + + + + +EA DE QUEIROZ + +A CIDADE E AS SERRAS + + +PORTO + +LIVRARIA CHARDRON + +De Lello & Irmo, editores + +1901 + +Todos os direitos reservados + + + + +EA DE QUEIROZ + +A CIDADE E AS SERRAS + + +PORTO + +LIVRARIA CHARDRON + +De Lello & Irmo, editores + +1901 + +Todos os direitos reservados + + + + +Pertence no Brazil o direito de propriedade d'esta obra ao cidado +Francisco Alves, livreiro editor no Rio de Janeiro, que, para a garantia +que lhe offerece a lei n.^o 496 de 1 d'Agosto de 1898, fez o competente +deposito na Bibliotheca nacional, segundo a determinao do art. 13.^o +da mesma Lei. + + +_Porto--Imprensa Moderna_ + + + + +[Figura de Ea de Queirs] + + + + +A CIDADE E AS SERRAS + + + + +Obras do mesmo auctor: + + +*Revista de Portugal.* 4 grossos volumes 12$000 + +*As minas de Salomo.* 1 volume $600 + +*Os Maias.* 2 grossos volumes 2$000 + +*O crime do padre Amaro.* Terceira edio inteiramente refundida, +recomposta, e differente na frma e na aco da edio primitiva. 1 grosso +volume 1$200 + +*O primo Bazilio.* Quarta edio. 1 grosso volume 1$000 + +*A Reliquia.* 1 grosso volume 1$000 + +*O Mandarim.* Quarta edio. 1 volume $500 + +*Correspondencia de Fradique Mendes.* 1 volume $600 + +*A illustre casa de Ramires.* 1 volume 1$000 + + + + +A CIDADE E AS SERRAS + + + + +I + + +O meu amigo Jacintho nasceu n'um palacio, com cento e nove contos de +renda em terras de semeadura, de vinhedo, de cortia e d'olival. + +No Alemtejo, pela Extremadura, atravez das duas Beiras, densas sebes +ondulando por collina e valle, muros altos de boa pedra, ribeiras, +estradas, delimitavam os campos d'esta velha familia agricola que j +entulhava gro e plantava cepa em tempos d'el-rei D. Diniz. A sua quinta +e casa senhorial de Tormes, no Baixo Douro, cobriam uma serra. Entre o +Tua e o Tinhela, por cinco fartas legoas, todo o torro lhe pagava fro. +E cerrados pinheiraes seus negrejavam desde Arga at ao mar d'Ancora. +Mas o palacio onde Jacintho nascra, e onde sempre habitra, era em +Paris, nos Campos Elyseos, n.^o 202. + +Seu av, aquelle gordissimo e riquissimo Jacintho a quem chamavam em +Lisboa o _D. Galio_, descendo uma tarde pela travessa da Trabuqueta, +rente d'um muro de quintal que uma parreira toldava, escorregou n'uma +casca de laranja e desabou no lagedo. Da portinha da horta sahia n'esse +momento um homem moreno, escanhoado, de grosso casaco de baeto verde e +botas altas de picador, que, galhofando e com uma fora facil, levantou +o enorme Jacintho--at lhe apanhou a bengala de casto d'ouro que rolra +para o lixo. Depois, demorando n'elle os olhos pestanudos e pretos: + +--Oh Jacintho Galio, que andas tu aqui, a estas horas, a rebolar pelas +pedras? + +E Jacintho, aturdido e deslumbrado, reconheceu o snr. Infante D. Miguel! + +Desde essa tarde amou aquelle bom Infante como nunca amra, apesar de +to guloso, o seu ventre, e apesar de to devoto o seu Deus! Na sala +nobre da sua casa ( Pampulha) pendurou sobre os damascos o retrato do +seu Salvador, enfeitado de palmitos como um retabulo, e por baixo a +bengala que as magnanimas mos reaes tinham erguido do lixo. Emquanto o +adoravel, desejado Infante penou no desterro de Vienna, o barrigudo +senhor corria, sacudido na sua sege amarella, do botequim do Z-Maria em +Belem botica do Placido nos Algibebes, a gemer as saudades do +_anginho_, a tramar o regresso do _anginho_. No dia, entre todos +bemdito, em que a _Perola_ appareceu barra com o Messias, engrinaldou +a Pampulha, ergueu no Caneiro um monumento de papelo e lona onde D. +Miguel, tornado S. Miguel, branco, d'aureola e azas de Archanjo, furava +de cima do seu corcel d'Alter o Drago do Liberalismo, que se estorcia +vomitando a Carta. Durante a guerra com o outro, com o pedreiro livre +mandava recoveiros a Santo Thyrso, a S. Gens, levar ao Rei fiambres, +caixas de dce, garrafas do seu vinho de Tarrafal, e bolsas de retroz +atochadas de peas que elle ensaboava para lhes avivar o ouro. E quando +soube que o snr. D. Miguel, com dois velhos bahus amarrados sobre um +macho, tomra o caminho de Sines e do final desterro--Jacintho _Galio_ +correu pela casa, fechou todas as janellas como n'um luto, berrando +furiosamente: + +--Tambem c no fico! tambem c no fico! + +No, no queria ficar na terra perversa d'onde partia, esbulhado e +escorraado, aquelle Rei de Portugal que levantava na rua os Jacinthos! +Embarcou para Frana com a mulher, a snr.^a D. Angelina Fafes (da to +fallada casa dos Fafes da Avellan); com o filho, o 'Cinthinho, menino +amarellinho, mollesinho, coberto de caros e leicenos; com a aia e com +o moleque. Nas costas da Cantabria o paquete encontrou to rijos mares +que a snr.^a D. Angelina, esguedelhada, de joelhos na enxerga do +beliche, prometteu ao Senhor dos Passos d'Alcantara uma cora +d'espinhos, de ouro, com as gottas de sangue em rubis do Pegu. Em +Bayonna, onde arribaram, 'Cinthinho teve ithericia. Na estrada +d'Orleans, n'uma noite agreste, o eixo da berlinda em que jornadeavam +partiu, e o nedio senhor, a delicada senhora da casa da Avellan, o +menino, marcharam tres horas na chuva e na lama do exilio at uma +aldeia, onde, depois de baterem como mendigos a portas mudas, dormiram +nos bancos d'uma taberna. No Hotel dos Santos Padres, em Paris, +soffreram os terrores d'um fogo que rebentra na cavalharia, sob o +quarto de _D. Galio_, e o digno fidalgo, rebolando pelas escadas em +camisa, at ao pateo, enterrou o p n numa lasca de vidro. Ento ergueu +amargamente ao co o punho cabelludo, e rugiu: + +--Irra! de mais! + +Logo n'essa semana, sem escolher, Jacintho _Galio_ comprou a um +Principe polaco, que depois da tomada de Varsovia se mettera frade +cartuxo, aquelle palacete dos Campos Elyseos, n.^o 202. E sob o pesado +ouro dos seus estuques, entre as suas ramalhudas sedas se enconchou, +descanando de tantas agitaes, n'uma vida de pachorra e de boa mesa, +com alguns companheiros d'emigrao (o desembargador Nuno Velho, o conde +de Rabacena, outros menores), at que morreu de indigesto, d'uma +lampreia d'escabeche que lhe mandra o seu procurador em Monte-mr. Os +amigos pensavam que a snr.^a D. Angelina Fafes voltaria ao reino. Mas a +boa senhora temia a jornada, os mares, as caleas que racham. E no se +queria separar do seu Confessor, nem do seu Medico, que to bem lhe +comprehendiam os escrupulos e a asthma. + +--Eu, por mim, aqui fico no 202 (declarra ella), ainda que me faz falta +a boa agua d'Alcolena... O 'Cinthinho, esse, em crescendo, que decida. + +O 'Cinthinho crescra. Era um moo mais esguio e livido que um cirio, de +longos cabellos corredios, narigudo, silencioso, encafuado em roupas +pretas, muito largas e bambas; de noite, sem dormir, por causa da tosse +e de suffocaes, errava em camisa com uma lamparina atravez do 202; e +os creados na copa sempre lhe chamavam a _Sombra_. N'essa sua mudez e +indeciso de sombra surdira, ao fim do luto do pap, o gosto muito vivo +de tornear madeiras ao torno: depois, mais tarde, com a melada flr dos +seus vinte annos, brotou n'elle outro sentimento, de desejo e de pasmo, +pela filha do desembargador Velho, uma menina redondinha como uma rla, +educada n'um convento de Paris, e to habilidosa que esmaltava, dourava, +concertava relogios e fabricava chapos de feltro. No outomno de 1851, +quando j se desfolhavam os castanheiros dos Campos Elyseos, o +'Cinthinho cuspilhou sangue. O medico, acarinhando o queixo e com uma +ruga seria na testa immensa, aconselhou que o menino abalasse para o +golfo Juan ou para as tepidas areias d'Arcachon. + +'Cinthinho porm, no seu afrro de sombra, no se quiz arredar da +Therezinha Velho, de quem se tornra, atravez de Paris, a muda, tardnha +sombra. Como uma sombra, casou; deu mais algumas voltas ao torno; cuspiu +um resto de sangue; e passou, como uma sombra. + +Tres mezes e tres dias depois do seu enterro o meu Jacintho nasceu. + + * * * * * + +Desde o bero, onde a av espalhava funcho e ambar para afugentar a +_Sorte-Ruim_, Jacintho medrou com a segurana, a rijeza, a seiva rica +d'um pinheiro das dunas. + +No teve sarampo e no teve lombrigas. As Letras, a Taboada, o Latim +entraram por elle to facilmente como o sol por uma vidraa. Entre os +camaradas, nos pateos dos collegios, erguendo a sua espada de lata e +lanando um brado de commando, foi logo o vencedor, o Rei que se adula, +e a quem se cede a fructa das merendas. Na edade em que se l Balzac e +Musset nunca atravessou os tormentos da sensibilidade;--nem crepusculos +quentes o retiveram na solido d'uma janella, padecendo d'um desejo sem +frma e sem nome. Todos os seus amigos (eramos tres, contando o seu +velho escudeiro preto, o Grillo) lhe conservaram sempre amizades puras e +certas--sem que jmais a participao do seu luxo as avivasse ou fossem +desanimadas pelas evidencias do seu egoismo. Sem corao bastante forte +para conceber um amor forte, e contente com esta incapacidade que o +libertava, do amor s experimentou o mel--esse mel que o amor reserva +aos que o recolhem, maneira das abelhas, com ligeireza, mobilidade e +cantando. Rijo, rico, indifferente ao Estado e ao Governo dos Homens, +nunca lhe conhecemos outra ambio alm de comprehender bem as Ideias +Geraes; e a sua intelligencia, nos annos alegres de esclas e +controversias, crculava dentro das Philosophias mais densas como enguia +lustrosa na agua limpa d'um tanque. O seu valor, genuino, de fino +quilate, nunca foi desconhecido, nem desapreciado; e toda a opinio, ou +mera facecia que lanasse, logo encontrava uma aragem de sympathia e +concordancia que a erguia, a mantinha emballada e rebrilhando nas +alturas. Era servido pelas cousas com docilidade e carinho;--e no +recordo que jamais lhe estalasse um boto da camisa, ou que um papel +maliciosamente se escondesse dos seus olhos, ou que ante a sua +vivacidade e pressa uma gaveta perfida emperrasse. Quando um dia, rindo +com descrido riso da Fortuna e da sua Roda, comprou a um sachristo +hespanhol um Decimo de Loteria, logo a Fortuna, ligeira e ridente sobre +a sua Roda, correu n'um fulgor, para lhe trazer quatro centas mil +pesetas. E no ceu as Nuvens, pejadas e lentas, se avistavam Jacintho sem +guarda chuva, retinham com reverencia as suas aguas at que elle +passasse... Ah! o ambar e o funcho da snr.^a D. Angelina tinham +escorraado do seu destino, bem triumphalmente e para sempre, a +_Sorte-Ruim_! A amoravel av (que eu conheci obesa, com barba) costumava +citar um soneto natalicio do desembargador Nunes Velho contendo um verso +de boa lio: + + Sabei, senhora, que esta Vida um rio... + +Pois um rio de vero, manso, translucido, harmoniosamente estendido +sobre uma areia macia e alva, por entre arvoredos fragrantes e ditosas +aldeias, no offereceria quelle que o descesse n'um barco de cedro, bem +toldado e bem almofadado, com fructas e Champagne a refrescar em gelo, +um Anjo governando ao leme, outros Anjos puxando sirga, mais segurana +e doura do que a Vida offerecia ao meu amigo Jacintho. + +Por isso ns lhe chamavamos o Principe da Gran-Ventura! + + * * * * * + +Jacintho e eu, Jos Fernandes, ambos nos encontramos e acamaradamos em +Paris, nas Esclas do Bairro Latino--para onde me mandra meu bom tio +Affonso Fernandes Lorena de Noronha e Sande, quando aquelles malvados me +riscaram da Universidade por eu ter esborrachado, n'uma tarde de +procisso, na Sophia, a cara sordida do dr. Paes Pitta. + +Ora n'esse tempo Jacintho concebra uma Ideia... Este Principe concebra +a Ideia de que o homem s superiormente feliz quando superiormente +civilisado. E por homem civilisado o meu camarada entendia aquelle que, +robustecendo a sua fora pensante com todas as noes adquiridas desde +Aristoteles, e multiplicando a potencia corporal dos seus orgos com +todos os mechanismos inventados desde Theramenes, creador da roda, se +torna um magnifico Ado, quas omnipotente, quas omnisciente, e apto +portanto a recolher dentro d'uma sociedade e nos limites do Progresso +(tal como elle se comportava em 1875) todos os gozos e todos os +proveitos que resultam de Saber e de Poder... Pelo menos assim Jacintho +formulava copiosamente a sua Ideia, quando conversavamos de fins e +destinos humanos, sorvendo bocks poeirentos, sob o toldo das cervejarias +philosophicas, no Boulevard Saint-Michel. + +Este conceito de Jacintho impressionra os nossos camaradas de cenaculo, +que tendo surgido para a vida intellectual, de 1866 a 1875, entre a +batalha de Sadowa e a batalha de Sedan, e ouvindo constantemente, desde +ento, aos technicos e aos philosophos, que fra a Espingarda-de-agulha +que vencra em Sadowa e fra o Mestre-de-escla quem vencra em Sedan, +estavam largamente preparados a acreditar que a felicidade dos +individuos, como a das naes, se realisa pelo illimitado +desenvolvimento da Mechanica e da Erudio. Um d'esses moos mesmo, o +nosso inventivo Jorge Carlande, reduzra a theoria de Jacintho, para lhe +facilitar a circulao e lhe condensar o brilho, a uma frma algebrica: + +Summa sciencia} + X }= Summa felicidade +Summa potencia} + +E durante dias, do Odeon Sorbonna, foi louvada pela mocidade positiva +a _Equao Metaphysica de Jacintho_. + +Para Jacintho, porm, o seu conceito no era meramente metaphysico e +lanado pelo gozo elegante de exercer a razo especulativa:--mas +constituia uma regra, toda de realidade e de utilidade, determinando a +conducta, modalisando a vida. E j a esse tempo, em concordancia com o +seu preceito--elle se surtira da _Pequena Encyclopedia dos Conhecimentos +Universaes_ em setenta e cinco volumes e installra, sobre os telhados +do 202, n'um mirante envidraado, um telescopio. Justamente com esse +telescopio me tornou elle palpavel a sua ideia, n'uma noite de agosto, +de molle e dormente calor. Nos cos remotos lampejavam relampagos +languidos. Pela Avenida dos Campos Elyseos, os fiacres rolavam para as +frescuras do Bosque, lentos, abertos, canados, transbordando de +vestidos claros. + +--Aqui tens tu, Z Fernandes, (comeou Jacintho, encostado janella do +mirante) a theoria que me governa, bem comprovada. Com estes olhos que +recebemos da Madre natureza, lestos e sos, ns podemos apenas +distinguir alm, atravez da Avenida, n'aquella loja, uma vidraa +alumiada. Mais nada! Se eu porm aos meus olhos juntar os dois vidros +simples d'um binoculo de corridas, percebo, por traz da vidraa, +presuntos, queijos, boies de gela e caixas de ameixa scca. Concluo +portanto que uma mercearia. Obtive uma noo; tenho sobre ti, que com +os olhos desarmados vs s o luzir da vidraa, uma vantagem positiva. Se +agora, em vez d'estes vidros simples, eu usasse os do meu telescopio, de +composio mais scientifica, poderia avistar alm, no planeta Marte, os +mares, as neves, os canaes, o recorte dos golphos, toda a geographia +d'um astro que circula a milhares de leguas dos Campos Elyseos. outra +noo, e tremenda! Tens aqui pois o olho primitivo, o da Natureza, +elevado pela Civilisao sua maxima potencia de viso. E desde j, +pelo lado do olho portanto, eu, civilisado, sou mais feliz que o +incivilisado, porque descubro realidades do Universo que elle no +suspeita e de que est privado. Applica esta prova a todos os orgos e +comprehendes o meu principio. Emquanto intelligencia, e felicidade +que d'ella se tira pela incanavel accumulao das noes, s te peco +que compares Renan e o Grillo... Claro portanto que nos devemos cercar +de Civilisao nas maximas propores para gosar nas maximas propores +a vantagem de viver. Agora concordas, Z Fernandes? + +No me parecia irrecusavelmente certo que Renan fosse mais feliz que o +Grillo; nem eu percebia que vantagem espiritual ou temporal se clha em +distinguir atravez do espao manchas n'um astro, ou atravez da Avenida +dos Campos Elyseos presuntos n'uma vidraa. Mas concordei, porque sou +bom, e nunca desalojarei um espirito do conceito onde elle encontra +segurana, disciplina e motivo de energia. Desabotoei o collete, e +lanando um gesto para o lado dos cafs e das luzes: + +--Vamos ento beber, nas maximas propores, _brandy and soda_, com +gelo! + +Por uma concluso bem natural, a ideia de Civilisao, para Jacintho, +no se separava da imagem de Cidade, d'uma enorme Cidade, com todos os +seus vastos orgos funccionando poderosamente. Nem este meu +super-civilisado amigo comprehendia que longe de Armazens servidos por +tres mil caixeiros; e de Mercados onde se despejam os vergeis e lezirias +de trinta provincias; e de Bancos em que retine o ouro universal; e de +Fabricas fumegando com ancia, inventando com ancia; e de Bibliothecas +abarrotadas, a estalar, com a papelada dos seculos; e de fundas milhas +de ruas, cortadas, por baixo e por cima, de fios de telegraphos, de fios +de telephones, de canos de gazes, de canos de fezes; e da fila atroante +dos omnibus, tramways, carroas, velocipedes, calhambeques, parelhas de +luxo; e de dois milhes d'uma vaga humanidade, fervilhando, a offegar, +atravez da Policia, na busca dura do po ou sob a illuso do gozo--o +homem do seculo XIX podesse saborear, plenamente, a delicia de viver! + +Quando Jacintho, no seu quarto do 202, com as varandas abertas sobre os +lilazes, me desenrolava estas imagens, todo elle crescia, illuminado. +Que creao augusta, a da Cidade! S por ella, Z-Fernandes, s por +ella, pde o homem soberbamente affirmar a sua alma!... + +--Oh Jacintho, e a religio? Pois a religio no prova a alma? + +Elle encolhia os hombros. A religio! A religio o desenvolvimento +sumptuoso de um instincto rudimentar, commum a todos os brutos, o +terror. Um co lambendo a mo do dono, de quem lhe vem o osso ou o +chicote, j constitue toscamente um devoto, o consciente devoto, +prostrado em rezas ante o Deus que distribue o co ou o inferno!... Mas +o telephone! o phonographo! + +--Ahi tens tu, o phonographo!... S o phonographo, Z Fernandes, me faz +verdadeiramente sentir a minha superioridade de sr pensante e me separa +do bicho. Acredita, no ha seno a Cidade, Z Fernandes, no ha seno a +Cidade! + +E depois (accrescentava) s a Cidade lhe dava a sensao, to necessaria + vida como o calor, da solidariedade humana. E no 202, quando +considerava em redor, nas densas massas do casario de Paris, dois +milhes de sres arquejando na obra da Civilisao (para manter na +natureza o dominio dos Jacinthos!) sentia um socego, um conchego, s +comparaveis ao do peregrino, que, ao atravessar o deserto, se ergue no +seu dromedario, e avista a longa fila da caravana marchando, cheia de +lumes e de armas... + +Eu murmurava, impressionado: + +--Caramba! + +Ao contrario no campo, entre a inconsciencia e a impassibilidade da +Natureza, elle tremia com o terror da sua fragilidade e da sua solido. +Estava ahi como perdido n'um mundo que lhe no fosse fraternal; nenhum +silvado encolheria os espinhos para que elle passasse; se gemesse com +fome nenhuma arvore, por mais carregada, lhe estenderia o seu fructo na +ponta compassiva d'um ramo. Depois, em meio da Natureza, elle assistia +subita e humilhante inutilisao de todas as suas faculdades superiores. +De que servia, entre plantas e bichos--ser um Genio ou ser um Santo? As +searas no comprehendem as _Georgicas_; e fra necessario o socorro +ancioso de Deus, e a inverso de todas as leis naturaes, e um violento +milagre para que o lobo de Agubio no devorasse S. Francisco d'Assis, +que lhe sorria e lhe estendia os braos e lhe chamava meu irmo lobo! +Toda a intellectualidade, nos campos, se esterilisa, e s resta a +bestialidade. N'esses reinos crassos do Vegetal e do Animal duas unicas +funces se mantm vivas, a nutritiva e a procreadora. Isolada, sem +occupao, entre focinhos e raizes que no cessam de sugar e de pastar, +suffocando no calido bafo da universal fecundao, a sua pobre alma toda +se engelhava, se reduzia a uma migalha d'alma, uma fagulhasinha +espiritual a tremeluzir, como morta, sobre um naco de materia; e n'essa +materia dois instinctos surdiam, imperiosos e pungentes, o de devorar e +o de gerar. Ao cabo de uma semana rural, de todo o seu sr to +nobremente composto s restava um estomago e por baixo um phallus! A +alma? Sumida sob a besta. E necessitava correr, reentrar na Cidade, +mergulhar nas ondas lustraes da Civilisao, para largar n'ellas a +crosta vegetativa, e resurgir re-humanisado, de novo espiritual e +Jacinthico! + +E estas requintadas metaphoras do meu amigo exprimiam sentimentos +reaes--que eu testemunhei, que muito me divertiram, no unico passeio que +fizemos ao campo, bem amavel e bem sociavel floresta de Montmorency. +Oh delicias d'entremez, Jacintho entre a Natureza! Logo que se afastava +dos pavimentos de madeira, do macadam, qualquer cho que os seus ps +calcassem o enchia de desconfiana e terror. Toda a relva, por mais +crestada, lhe parecia reumar uma humidade mortal. De sob cada torro, +da sombra de cada pedra, receava o assalto de lacraus, de viboras, de +frmas rastejantes e viscosas. No silencio do bosque sentia um lugubre +despovoamento do Universo. No tolerava a familiaridade dos galhos que +lhe roassem a manga ou a face. Saltar uma sebe era para elle um acto +degradante que o retrogradava ao macaco inicial. Todas as flres que no +tivesse j encontrado em jardins, domesticadas por longos seculos de +servido ornamental, o inquietavam como venenosas. E considerava d'uma +melancolia funambulesca certos modos e frmas do Sr inanimado, a pressa +esperta e v dos regatinhos, a careca dos rochedos, todas as contorses +do arvoredo e o seu resmungar solemne e tonto. + +Depois d'uma hora, n'aquelle honesto bosque de Montmorency, o meu pobre +amigo abafava, apavorado, experimentando j esse lento mingoar e sumir +d'alma que o tornava como um bicho entre bichos. S desannuviou quando +penetramos no lagdo e no gaz de Paris--e a nossa vittoria quasi se +despedaou contra um omnibus retumbante, atulhado de cidados. Mandou +descer pelos Boulevards, para dissipar, na sua grossa sociabilidade, +aquella materialisao em que sentia a cabea pesada e vaga como a d'um +boi. E reclamou que eu o acompanhasse ao theatro das Variedades para +sacudir, com os estribilhos da _Femme Papa_, o rumor importuno que lhe +ficra dos melros cantando nos choupos altos. + +Este delicioso Jacintho fizera ento vinte e tres annos, e era um +soberbo moo em quem reapparecra a fora dos velhos Jacinthos ruraes. +S pelo nariz, afilado, com narinas quasi transparentes, d'uma +mobilidade inquieta, como se andasse fariscando perfumes, pertencia s +delicadezas do seculo XIX. O cabello ainda se conservava, ao modo das +ras rudes, crespo e quasi lanigero: e o bigode, como o d'um Celta, +cahia em fios sedosos, que elle necessitava aparar e frizar. Todo o seu +fato, as espessas gravatas de setim escuro que uma perola prendia, as +luvas de anta branca, o verniz das botas, vinham de Londres em caixotes +de cedro; e usava sempre ao peito uma flr, no natural, mas composta +destramente pela sua ramalheteira com petalas de flres dessemelhantes, +cravo, azalea, orchidea ou tulipa, fundidas na mesma haste entre uma +leve folhagem de funcho. + + * * * * * + +Em 1880, em Fevereiro, n'uma cinzenta e arripiada manh de chuva, recebi +uma carta de meu bom tio Affonso Fernandes, em que, depois de +lamentaes sobre os seus setenta annos, os seus males hemorroidaes, e a +pesada gerencia dos seus bens que pedia homem mais novo, com pernas +mais rijas--me ordenava que recolhesse nossa casa de Guies, no +Douro! Encostado ao marmore partido do fogo, onde na vspera a minha +Nini deixra um espartilho embrulhado no _Jornal dos Debates_, censurei +severamente meu tio que assim cortava em boto, antes de desabrochar, a +flr do meu Saber Juridico. Depois n'um Post-Scriptum elle +accrescentava--O tempo aqui est lindo, o que se pde chamar de rosas, +e tua santa tia muito se recommenda, que anda l pela cozinha, porque +vai hoje em trinta e seis annos que casmos, temos c o abbade e o +Quintaes a jantar, e ella quiz fazer uma sopa dourada. + +Deitando uma acha ao lume, pensei como devia estar boa a sopa dourada da +tia Vicencia. Ha quantos annos no a provava, nem o leito assado, nem o +arroz de frno da nossa casa! Com o tempo assim to lindo, j as mimosas +do nosso pateo vergariam sob os seus grandes cachos amarellos. Um pedao +de co azul, do azul de Guies, que outro no ha to lustroso e macio, +entrou pelo quarto, alumiou, sobre a poida tristeza do tapete, relvas, +ribeirinhos, malmequeres e flres de trevo de que meus olhos andavam +agoados. E, por entre as bambinellas de sarja, passou um ar fino e forte +e cheiroso de serra e de pinheiral. + +Assobiando um _fado_ meigo tirei debaixo da cama a minha velha mala, e +metti solicitamente entre calas e piugas um Tratado de Direito Civil, +para aprender emfim, nos vagares da aldeia, estendido sob a faia, as +leis que regem os homens. Depois, n'essa tarde, annunciei a Jacintho que +partia para Guies. O meu camarada recuou com um surdo gemido de espanto +e piedade: + +--Para Guies!... Oh Z Fernandes, que horror! + +E toda essa semana me lembrou solicitamente confortos de que eu me +deveria prover para que pudesse conservar, nos ermos silvestres, to +longe da Cidade, uma pouca d'alma dentro d'um pouco de corpo. Leva uma +poltrona! Leva a _Encyclopedia Geral_! Leva caixas de aspargos!... + +Mas para o meu Jacintho, desde que assim me arrancavam da Cidade, eu era +arbusto desarraigado que no reviver. A magoa com que me acompanhou ao +comboio conviria excellentemente ao meu funeral. E quando fechou sobre +mim a portinhola, gravemente, supremamente, como se cerra uma grade de +sepultura, eu quasi solucei--com saudades minhas. + +Cheguei a Guies. Ainda restavam flres nas mimosas do nosso pateo; comi +com delicias a sopa dourada da tia Vicencia; de tamancos nos ps assisti + ceifa dos milhos. E assim de colheitas a lavras, crestando ao sol das +eiras, caando a perdiz nos matos geados, rachando a melancia fresca na +poeira dos arraiaes, arranchando a magustos, serandando candeia, +atiando fogueiras de S. Joo, enfeitando presepios de Natal, por alli +me passaram docemente sete annos, to atarefados que nunca logrei abrir +o Tratado de Direito Civil, e to singelos que apenas me recordo quando, +em vsperas de S. Nicolau, o abbade cahiu da egua porta do Braz das +Crtes. De Jacintho s recebia raramente algumas linhas, escrevinhadas +pressa por entre o tumulto da Civilisao. Depois, n'um Setembro muito +quente, ao lidar da vindima, meu bom tio Affonso Fernandes morreu, to +quietamente, Deus seja louvado por esta graa, como se cala um +passarinho ao fim do seu bem cantado e bem voado dia. Acabei pela aldeia +a roupa do luto. A minha afilhada Joanninha casou na matana do porco. +Andaram obras no nosso telhado. Voltei a Paris. + + + + +II + + +Era de novo Fevereiro, e um fim de tarde arripiado e cinzento, quando eu +desci os Campos Elyseos em demanda do 202. Adiante de mim caminhava, +levemente curvado, um homem que, desde as botas rebrilhantes at s abas +recurvas do chapo d'onde fugiam anneis d'um cabello crespo, reumava +elegancia e a familiaridade das coisas finas. Nas mos, cruzadas atraz +das costas, caladas d'anta branca, sustentava uma bengala grossa com +casto de crystal. E s quando elle parou ao porto do 202 reconheci o +nariz afilado, os fios do bigode corredios e sedosos. + +--Oh Jacintho! + +--Oh Z Fernandes! + +O abrao que nos enlaou foi to alvoroado que o meu chapo rolou na +lama. E ambos murmuravamos, commovidos, entrando a grade: + +--Ha sete annos!... + +--Ha sete annos!... + +E, todavia, nada mudra durante esses sete annos no jardim do 202! Ainda +entre as duas aleas bem areadas se arredondava uma relva, mais lisa e +varrida que a l d'um tapete. No meio o vaso corinthico esperava Abril +para resplandecer com tulipas e depois Junho para transbordar de +margaridas. E ao lado das escadas limiares, que uma vidraaria toldava, +as duas magras Deusas de pedra, do tempo de D. Galio, sustentavam as +antigas lampadas de globos foscos, onde j silvava o gaz. + +Mas dentro, no peristillo, logo me surprehendeu um elevador installado +por Jacintho--apesar do 202 ter smente dois andares, e ligados por uma +escadaria to doce que nunca offendra a asthma da snr.^a D. Angelina! +Espaoso, tapetado, elle offerecia, para aquella jornada de sete +segundos, confortos numerosos, um divan, uma pelle d'urso, um roteiro +das ruas de Paris, prateleiras gradeadas com charutos e livros. Na +antecamara, onde desembarcamos, encontrei a temperatura macia e tepida +d'uma tarde de Maio, em Guies. Um creado, mais attento ao thermometro +que um piloto agulha, regulava destramente a bocca dourada do +calorifero. E perfumadores entre palmeiras, como n'um terrasso santo de +Benares, esparziam um vapor, aromatisando e salutarmente humedecendo +aquelle ar delicado e superfino. + +Eu murmurei, nas profundidades do meu assombrado sr: + +--Eis a civilisao! + +Jacintho empurrou uma porta, penetramos n'uma nave cheia de magestade e +sombra, onde reconheci a Bibliotheca por tropear n'uma pilha monstruosa +de livros novos. O meu amigo roou de leve o dedo na parede: e uma cora +de lumes electricos, refulgindo entre os lavores do tecto, alumiou as +estantes monumentaes, todas d'ebano. N'ellas repousavam mais de trinta +mil volumes, encadernados em branco, em escarlate, em negro, com +retoques d'ouro, hirtos na sua pompa e na sua auctoridade como doutores +n'um concilio. + +No contive a minha admirao: + +--Oh Jacintho! Que deposito! + +Elle murmurou, n'um sorriso descorado: + +--Ha que lr, ha que lr... + +Reparei ento que o meu amigo emmagrecera: e que o nariz se lhe afilra +mais entre duas rugas muito fundas, como as d'um comediante canado. Os +anneis do seu cabello lanigero rareavam sobre a testa, que perdera a +antiga serenidade de marmore bem polido. No frisava agora o bigode +murcho, cahido em fios pensativos. Tambem notei que corcovava. + +Elle ergura uma tapearia--entramos no seu gabinete de trabalho, que me +inquietou. Sobre a espessura dos tapetes sombrios os nossos passos +perderam logo o som, e como a realidade. O damasco das paredes, os +divans, as madeiras, eram verdes, d'um verde profundo de folha de louro. +Sdas verdes envolviam as luzes electricas, dispersas em lampadas to +baixas que lembravam estrellas cahidas por cima das mesas, acabando de +arrefecer e morrer: s uma rebrilhava, na e clara, no alto d'uma +estante quadrada, esguia, solitaria como uma torre n'uma planicie, e de +que o lume parecia ser o pharol melancolico. Um biombo de laca verde, +fresco verde de relva, resguardava a chamin de marmore verde, verde de +mar sombrio, onde esmoreciam as brazas d'uma lenha aromatica. E entre +aquelles verdes reluzia, por sobre peanhas e pedestaes, toda uma +Mechanica sumptuosa, apparelhos, laminas, rodas, tubos, engrenagens, +hastes, friezas, rigidezas de metaes... + +Mas Jacintho batia nas almofadas do divan, onde se enterrra com um modo +canado que eu no lhe conhecia: + +--Para aqui, Z Fernandes, para aqui! necessario reatarmos estas +nossas vidas, to apartadas ha sete annos!... Em Guies, sete annos! Que +fizeste tu? + +--E tu, que tens feito, Jacintho? + +O meu amigo encolheu mollemente os hombros. Vivra--cumprira com +serenidade todas as funces, as que pertencem materia e as que +pertencem ao espirito... + +--E accumulaste civilisao, Jacintho! Santo Deus... Est tremendo, o +202! + +Elle espalhou em torno um olhar onde j no faiscava a antiga +vivacidade: + +--Sim, ha confortos... Mas falta muito! A humanidade ainda est mal +apetrechada, Z Fernandes... E a vida conserva resistencias. + +Subitamente, a um canto, repicou a campainha do telephone. E emquanto o +meu amigo, curvado sobre a placa, murmurava impaciente _Est l?--Est +l?_, examinei curiosamente, sobre a sua immensa mesa de trabalho, uma +estranha e miuda legio de instrumentosinhos de nickel, d'ao, de cobre, +de ferro, com gumes, com argolas, com tenazes, com ganchos, com dentes, +expressivos todos, de utilidades misteriosas. Tomei um que tentei +manejar--e logo uma ponta malevola me picou um dedo. N'esse instante +rompeu d'outro canto um tic-tic-tic aodado, quasi ancioso. Jacintho +acudiu, com a face no telephone: + +--V ahi o telegrapho!... Ao p do divan. Uma tira de papel que deve +estar a correr. + +E, com effeito, d'uma redma de vidro posta n'uma columna, e contendo um +apparelho esperto e diligente, escorria para o tapete, como uma tenia, a +longa tira de papel com caracteres impressos, que eu, homem das serras, +apanhei, maravilhado. A linha, traada em azul, annunciava ao meu amigo +Jacintho que a fragata russa _Azoff_ entrra em Marselha com avaria! + +J elle abandonra o telephone. Desejei saber, inquieto, se o +prejudicava directamente aquella avaria da _Azoff_. + +--Da _Azoff_?... A avaria? A mim?... No! uma noticia. + +Depois, consultando um relogio monumental que, ao fundo da Bibliotheca, +marcava a hora de todas as Capitaes e o curso de todos os Planetas: + +--Eu preciso escrever uma carta, seis linhas... Tu esperas, no, Z +Fernandes? Tens ahi os jornaes de Paris, da noite; e os de Londres, +d'esta manh. As Illustraes alm, n'aquella pasta de couro com +ferragens. + +Mas eu preferi inventariar o gabinete, que dava minha profanidade +serrana todos os gostos d'uma iniciao. Aos lados da cadeira de +Jacintho pendiam gordos tubos acusticos, por onde elle decerto soprava +as suas ordens atravs do 202. Dos ps da mesa cordes tumidos e molles, +colleando sobre o tapete, corriam para os recantos de sombra maneira +de cobras assustadas. Sobre uma banquinha, e reflectida no seu verniz +como na agua d'um poo, pousava uma Machina-de-escrever: e adiante era +uma immensa Machina-de-calcular, com fileiras de buracos d'onde +espreitavam, esperando, numeros rigidos e de ferro. Depois parei em +frente da estante que me preoccupava, assim solitaria, maneira d'uma +torre n'uma planicie, com o seu alto pharol. Toda uma das suas faces +estava repleta de Diccionarios; a outra de Manuaes; a outra de Atlas; a +ultima de Guias, e entre elles, abrindo um folio, encontrei o Guia das +ruas de Samarkande. Que macissa torre de informao! Sobre prateleiras +admirei apparelhos que no comprehendia:--um composto de laminas de +gelatina, onde desmaiavam, meio-chupadas, as linhas d'uma carta, talvez +amorosa; outro, que erguia sobre um pobre livro brochado, como para o +decepar, um cutello funesto; outro avanando a bocca d'uma tuba, toda +aberta para as vozes do invisivel. Cingidos aos umbraes, liados s +cimalhas, luziam arames, que fugiam atravs do tecto, para o espao. +Todos mergulhavam em foras universaes, todos transmittiam foras +universaes. A Natureza convergia disciplinada ao servio do meu amigo e +entrra na sua domesticidade!... + +Jacintho atirou uma exclamao impaciente: + +--Oh, estas pennas electricas!... Que secca! + +Amarrotra com colera a carta comeada--eu escapei, respirando, para a +Bibliotheca. Que magestoso armazem dos productos do Raciocinio e da +Imaginao! Alli jaziam mais de trinta mil volumes, e todos decerto +essenciaes a uma cultura humana. Logo entrada notei, em ouro n'uma +lombada verde, o nome de Adam Smith. Era pois a regio dos Economistas. +Avancei--e percorri, espantado, oito metros de Economia Politica. Depois +avistei os Philosophos e os seus commentadores, que revestiam toda uma +parede, desde as esclas Pre-socraticas at s esclas Neo-pessimistas. +N'aquellas pranchas se acastellavam mais de dois mil systemas--e que +todos se contradiziam. Pelas encadernaes logo se deduziam as +doutrinas: Hobbes, em baixo, era pesado, de couro negro; Plato, em +cima, resplandecia, n'uma pellica pura e alva. Para diante comeavam as +Historias Universaes. Mas ahi uma immensa pilha de livros brochados, +cheirando a tinta nova e a documentos novos, subia contra a estante, +como fresca terra d'alluvio tapando uma riba secular. Contornei essa +collina, mergulhei na seco das Sciencias Naturaes, peregrinando, n'um +assombro crescente, da Orographia para a Paleontologia, e da Morphologia +para a Crystallographia. Essa estante rematava junto d'uma janella +rasgada sobre os Campos Elyseos. Apartei as cortinas de velludo--e por +traz descobri outra portentosa rima de volumes, todos de Historia +Religiosa, de Exegese Religiosa, que trepavam montanhosamente at aos +ultimos vidros, vedando, nas manhs mais candidas, o ar e a luz do +Senhor. + +Mas depois rebrilhava, era marroquins claros, a estante amavel dos +Poetas. Como um repouso para o espirito esfalfado de todo aquelle saber +positivo, Jacintho aconchegra ahi um recanto, com um divan e uma mesa +de limoeiro, mais lustrosa que um fino esmalte, coberta de charutos, de +cigarros d'Oriente, de tabaqueiras do seculo XVIII. Sobre um cofre de +madeira lisa pousava ainda, esquecido, um prato de damascos seccos do +Japo. Cedi seduco das almofadas; trinquei um damasco, abri um +volume; e senti estranhamente, ao lado, um zumbido, como de um insecto +de azas harmoniosas. Sorri ida que fossem abelhas, compondo o seu mel +n'aquelle massio de versos em flr. Depois percebi que o susurro remoto +e dormente vinha do cofre de mogne, de parecer to discreto. Arredei uma +_Gazeta de Frana_; e descornitei um cordo que emergia de um orificio, +escavado no cofre, e rematava n'um funil de marfim. Com curiosidade, +encostei o funil a esta minha confiada orelha, afeita singeleza dos +rumores da serra. E logo uma Voz, muito mansa, mas muito dicidida, +aproveitando a minha curiosidade para me invadir e se apoderar do meu +entendimento, susurrou capciosamente: + +--...E assim, pela disposio dos cubos diabolicos, eu chego a +verificar os espaos hypermagicos!... + +Pulei, com um berro. + +--Oh Jacintho, aqui ha um homem! Est aqui um homem a fallar dentro +d'uma caixa! + +O meu camarada, habituado aos prodigios, no se alvoroou: + +-- o Conferenophone... Exactamente como o Theatrophone; smente +applicado s esclas e s conferencias. Muito commodo!... Que diz o +homem, Z Fernandes? + +Eu considerava o cofre, ainda esgazeado: + +--Eu sei! Cubos diabolicos, espaos magicos, toda a sorte de horrores... + +Senti dentro o sorriso superior de Jacintho: + +--Ah, o coronel Dorchas... Lies de Metaphysica Positiva sobre a +Quarta Dimenso... Conjecturas, uma massada! Ouve l, tu hoje jantas +commigo e com uns amigos, Z Fernandes? + +--No, Jacintho... Estou ainda enfardelado pelo alfaiate da serra! + +E voltei ao gabinete mostrar ao meu camarada o jaqueto de flanella +grossa, a gravata de pintinhas escarlates, com que ao domingo, em +Guies, visitava o Senhor. Mas Jacintho affirmou que esta simplicidade +montesina interessaria os seus convidados, que eram dois artistas... +Quem? O auctor do _Corao Triplo_, um Psychologo Feminista, d'agudeza +transcendente, Mestre muito experimentado e muito consultado em +Sciencias Sentimentaes; e Vorcan, um pintor mythico, que interpretra +ethereamente, havia um anno, a symbolia rapsodica do cerco de Troia, +n'uma vasta composio, _Helena Devastadora_... + +Eu coava a barba: + +--No, Jacintho, no... Eu venho de Guies, das serras; preciso entrar +em toda esta civilisaco, lentamente, com cautella, seno rebento. Logo +na mesma tarde a electricidade, e o conferenophone, e os espaos +hypermagicos e o feminista, e o ethereo, e a symbolia devastadora, +excessivo! Volto manh. + +Jacintho dobrava vagarosamente a sua carta, onde mettera sem rebuo +(como convinha nossa fraternidade) duas violetas brancas tiradas do +ramo que lhe floria o peito. + +--manh, Z Fernandes, tu vens antes d'almoo, com as tuas malas dentro +d'um fiacre, para te installares no 202, no teu quarto. No Hotel so +embaraos, privaes. Aqui tens o telephone, o teatrophone, livros... + +Acceitei logo, com simplicidade. E Jacintho, embocando um tubo acustico, +murmurou: + +--Grillo! + +Da parede, recoberta de damasco, que subitamente e sem rumor se fendeu, +surdio o seu velho escudeiro (aquelle moleque que viera com _D. +Gallio_), que eu me alegrei de encontrar to rijo, mais negro, +reluzente e veneravel na sua tesa gravata, no seu collete branco de +botes de ouro. Elle tambem estimou vr de novo o si Fernandes. E, +quando soube que eu occuparia o quarto do av Jacintho, teve um claro +sorriso de preto, em que envolveu o seu senhor, no contentamento de o +sentir emfim reprovido d'uma familia. + +--Grillo, dizia Jacintho, esta carta a Madame de Oriol... Escuta! +Telephona para casa dos Trves que os espiritistas s esto livres no +domingo... Escuta! Eu tomo uma douche antes de jantar, tepida, a 17. +Frico com malva-rosa. + +E cahindo pesadamente para cima do divan, com um bocejo arrastado e +vago: + +--Pois verdade, meu Z Fernandes, aqui estamos, como ha sete annos, +n'este velho Paris... + +Mas eu no me arredava da mesa, no desejo de completar a minha +iniciao: + +--Oh Jacintho, para que servem todos estes instrumentosinhos? Houve j +ahi um desavergonhado que me picou. Parecem perversos... So uteis? + +Jacintho esboou, com languidez, um gesto que os +sublimava.--Providenciaes, meu filho, absolutamente providenciaes, pela +simplificao que do ao trabalho! Assim... E apontou. Este arrancava as +pennas velhas; o outro numerava rapidamente as paginas d'um manuscripto; +aquell'outro, alm, raspava emendas... E ainda os havia para collar +estampilhas, imprimir datas, derreter lacres, cintar documentos... + +--Mas com effeito, accrescentou, uma scca. Com as molas, com os +bicos, s vezes magoam, ferem... J me succedeu inutilisar cartas por as +ter sujado com dedadas de sangue. uma massada! + +Ento, como o meu amigo espreitra novamente o relogio monumental, no +lhe quiz retardar a consolao da douche e da malva-rosa. + +--Bem, Jacintho, j te revi, j me contentei... Agora at manh, com as +malas. + +--Que diabo, Z Fernandes, espera um momento... Vamos pela sala de +jantar. Talvez te tentes! + +E, atravs da Bibliotheca, penetramos na sala de jantar,--que me +encantou pelo seu luxo sereno e fresco. Uma madeira branca, laccada, +mais lustrosa e macia que setim, revestia as paredes, encaixilhando +medalhes de damasco cr de morango, de morango muito maduro e esmagado: +os aparadores, discretamente lavrados em flores e rocalhas, +resplandeciam com a mesma lacca nevada: e damascos amorangados estofavam +tambem as cadeiras, brancas, muito amplas, feitas para a lentido de +gulas delicadas, de gulas intellectuaes. + +--Viva o meu Principe! Sim senhor... Eis aqui um comedoiro muito +comprehensivel e muito repousante, Jacintho! + +--Ento janta, homem! + +Mas j eu me comeava a inquietar, reparando que a cada talher +correspondiam seis garfos, e todos de feitios astuciosos. E mais me +impressionei quando Jacintho me desvendou que um era para as ostras, +outro para o peixe, outro para as carnes, outro para os legumes, outro +para as fructas, outro para o queijo! Simultaneamente, com uma +sobriedade que louvaria Salomo, s dois copos, para dois vinhos:--um +Bordeus rosado em infusas de crystal, e Champagne gelando dentro de +baldes de prata. Todo um aparador porm vergava, sob o luxo redundante, +quasi assustador d'aguas--aguas oxigenadas, aguas carbonatadas, aguas +phosphatadas, aguas esterilisadas, aguas de saes, outras ainda, em +garrafas bojudas, com tratados therapeuticos impressos em rotulos. + +--Santissimo nome de Deus, Jacintho! Ento s ainda o mesmo tremendo +bebedor d'agua, hein?... _Un aquatico_! como dizia o nosso poeta +chileno, que andava a traduzir Klopstock. + +Elle derramou, por sobre toda aquella garrafaria encarapuada em metal, +um olhar desconsolado: + +--No... por causa das aguas da Cidade, contaminadas, atulhadas de +microbios... Mas ainda no encontrei uma ba agua que me convenha, que +me satisfaa... At soffro sde. + +Desejei ento conhecer o jantar do Psychologo e do Symbolista--traado, +ao lado dos talheres, em tinta vermelha, sobre laminas de marfim. +Comeava honradamente por ostras classicas, de Marennes. Depois +apparecia uma sopa d'alcachofras e ovas de carpa... + +-- bom? + +Jacintho encolheu desinteressadamente os hombros: + +--Sim... Ea no tenho nunca appetite, j ha tempos... J ha annos. + +Do outro prato s comprehendi que continha frangos e tubaras. Depois +saboreariam aquelles senhores um filete de veado, macerado em Xerez, com +gela de noz. E por sobremeza simplesmente laranjas geladas em ether. + +--Em ether, Jacintho? + +O meu amigo hesitou, esboou com os dedos a ondulao d'um aroma que +s'evola. + +-- novo... Parece que o ether desenvolve, faz afflorar a alma das +fructas... + +Curvei a cabea ignara, murmurei nas minhas profundidades: + +--Eis a Civilisao! + +E, descendo os Campos Elyseos, encolhido no paletot, a cogitar n'este +prato symbolico, considerava a rudeza e atolado atrazo da minha Guies, +onde desde seculos a alma das laranjas permanece ignorada e +desaproveitada dentro dos gomos sumarentos, por todos aquelles pomares +que ensombram e perfumam o valle, da Roqueirinha a Sandofim! Agora +porm, bemdito Deus, na convivencia de um to grande iniciado como +Jacintho, eu comprehenderia todas as finuras e todos os poderes da +Civilisao. + +E, (melhor ainda para a minha ternura!) contemplaria a raridade d'um +homem que, concebendo uma ida da Vida, a realisa--e atravs d'ella e +por ella recolhe a felicidade perfeita. + +Bem se affirmra este Jacintho, na verdade, como Principe da +Gran-Ventura! + + + + +III + + +No 202, todas as manhs, s nove horas, depois do meu chocolate e ainda +em chinelas, penetrava no quarto de Jacintho. Encontrava o meu amigo +banhado, barbeado, friccionado, envolto n'um roupo branco de pello de +cabra do Thibet, diante da sua mesa de toilette, toda de crystal, (por +causa dos microbios) e atulhada com esses utensilios de tartaruga, +marfim, prata, ao e madreperola que o homem do seculo XIX necessita +para no desfeiar o conjuncto sumptuario da Civilisao e manter n'ella +o seu Typo. As escovas sobretudo renovavam, cada dia, o meu regalo e o +meu espanto--porque as havia largas como a roda massia d'um carro +sabino; estreitas e mais recurvas que o alfange d'um mouro; concavas, em +frma de telha alde; ponteagudas em feitio de folha de hera; rijas que +nem cerdas de javali; macias que nem pennugem de rla! De todas, +fielmente, como amo que no desdenha nenhum servo, se utilisava o meu +Jacintho. E assim, em face ao espelho emmoldurado de folhedos de prata, +permanecia este Principe passando pellos sobre o seu pello durante +quatorze minutos. + +No emtanto o Grillo e outro escudeiro, por traz dos biombos de Kioto, de +sedas lavradas, manobravam, com pericia e vigor, os apparelhos do +lavatorio--que era apenas um resumo das machinas monumentaes da Sala de +Banho, a mais estremada maravilha do 202. N'estes marmores simplificados +existiam unicamente dois jactos graduados desde _zero_ at _cem_; as +duas duchas, fina e grossa, para a cabea; a fonte esterilisada para os +dentes; o repuxo borbulhante para a barba; e ainda botes discretos, +que, roados, desencadeavam esguichos, cascatas cantantes, ou um leve +orvalho estival. D'esse recanto temeroso, onde delgados tubos mantinham +em disciplina e servido tantas aguas ferventes, tantas aguas violentas, +sahia emfim o meu Jacintho enxugando as mos a uma toalha de felpo, a +uma toalha de linho, a outra de corda entranada para restabelecer a +circulao, a outra de sda frouxa para repolir a pelle. Depois d'este +rito derradeiro que lhe arrancava ora um suspiro, ora um bocejo, +Jacintho, estendido n'um divan, folheava uma Agenda, onde se arrolavam, +inscriptas pelo Grillo ou por elle, as occupaes do seu dia, to +numerosas por vezes que cobriam duas laudas. + +Todas ellas se prendiam sua sociabilidade, sua civilisao muito +complexa, ou a interesses que o meu Principe, n'esses sete annos, crera +para viver em mais consciente communho com todas as funces da Cidade. +(Jacintho com effeito era presidente do Club da _Espada e Alvo_; +commanditario do Jornal o _Boulevard_; director da _Companhia dos +Telephones de Constantinopla_; socio dos _Bazares unidos da Arte +Espiritualista_; membro do _Comit de Iniciao das Religies +Esotericas_, etc.) Nenhuma d'estas occupaes parecia porm aprazivel ao +meu amigo--porque, apesar da mansido e harmonia dos seus modos, +frequentemente arremessava para o tapete, n'uma rebellio de homem +livre, aquella Agenda que o escravisava. E n'uma d'essas manhs (de +vento e neve), apanhando eu o livro oppressivo, encadernado em pellica, +de um carinhoso tom de rosa murcha--descobri que o meu Jacintho devia +depois do almoo fazer uma visita na rua da Universidade, outra no +Parque Monceau, outra entre os arvoredos remotos da Muette; assistir por +fidelidade a uma votao no Club; acompanhar Madame d'Oriol a uma +exposio de leques; escolher um presente de noivado para a sobrinha dos +Trves; comparecer no funeral do velho, conde de Malville; presidir um +tribunal de honra n'uma questo de roubalheira, entre cavalheiros, ao +ecart... E ainda se acavallavam outras indicaes, escrivinhadas por +Jacintho a lapis:--Carroceiro--Five-oclock dos Ephrains--A pequena das +_Variedades_--Levar a nota ao jornal... Considerei o meu Principe. +Estirado no divan, d'olhos miserrimamente cerrados, bocejava, n'um +bocejo immenso e mudo. + +Mas os affazeres de Jacintho comeavam logo no 202, cedo, depois do +banho. Desde as oito horas a campainha do telephone repicava por elle, +com impaciencia, quasi com colera, como por um escravo tardio. E mal +enxugado, dentro do seu roupo de pello de cabra do Thibet ou de grossas +pyjamas de pelucia cr d'ouro-velho, constantemente sahia ao corredor a +cochichar com sujeitos to apressados, que conservavam na mo o +guarda-chuva pingando sobre o tapete. Um d'esses, sempre presente (e que +pertencia decerto aos _Telephones de Constantinopla_), era +temeroso--todo elle chupado, tisnado, com maus dentes, sobraando uma +enorme pasta sebenta, e dardejando, d'entre a alta gola d'uma pelissa +poida, como da abertura d'um covil, dous olhinhos trvos e de rapina. +Sem cessar, inexoravelmente, um escudeiro apparecia, com bilhetes n'uma +salva... Depois eram fornecedores d'Industria e d'Arte; negociantes de +cavallos, rubicundos e de paletot branco; inventores com grossos rolos +de papel; alfarrabistas trazendo na algibeira uma edio unica, quasi +inverosimil, de Ulrich Zell ou do _Lapidanus_. Jacintho circulava +estonteado pelo 202, rabiscando a carteira, repicando o telephone, +desatando nervosamente pacotes, sacudindo ao passar algum embuscado que +surdia das sombras da antecamara, estendia como um trabuco o seu +memorial ou o seu catalogo! + +Ao meio dia, um tam-tam argentino e melancholico ressoava, chamando ao +almoo. Com o _Figaro_ ou as _Novidades_ abertas sobre o prato, eu +esperava sempre meia hora pelo meu Principe, que entrava n'uma rajada, +consultando o relogio, exhalando com a face moda o seu queixume eterno: + +--Que massada! E depois uma noite abominavel, enrodilhada em sonhos... +Tomei sulforal, chamei o Grillo para me esfregar com therebentina... Uma +scca! + +Espalhava pela mesa um olhar j farto. Nenhum prato, por mais engenhoso, +o seduzia;--e, como atravs do seu tumulto matinal fumava incontaveis +cigarretes que o resequiam, comeava por se encharcar com um immenso +copo d'agua oxygenada, ou carbonatada, ou gazoza, misturada d'um cognac +raro, muito caro, horrendamente adocicado, de moscatel de Syracusa. +Depois, pressa, sem gosto, com a ponta incerta do garfo, picava aqui e +alm uma lasca de fiambre, uma febra de lagosta;--e reclamava +impacientemente o caf, um caf de Moka, mandado cada mez por um feitor +do Dedjah, fervido turca, muito espesso, que elle remexia com um pau +de canella! + +--E tu, Z Fernandes, que vaes tu fazer? + +--Eu? + +Recostado na cadeira, com delicias, os dedos mettidos nas cavas do +collete: + +--Vou vadiar, regaladamente, como um co natural! + +O meu sollicito amigo, remexendo o caf com o pau de canella, rebuscava +atravs da numerosa Civilisao da Cidade uma occupao que me +encantasse. Mas apenas suggeria uma Exposio, ou uma Conferencia, ou +monumentos, ou passeios, logo encolhia os hombros desconsolados: + +--Por fim nem vale a pena, uma scca! + +Accendia outra das cigarretes russas, onde rebrilhava o seu nome, +impresso a ouro na mortalha. Torcendo, n'uma pressa nervosa, os fios do +bigode, ainda escutava, porta da Bibliotheca, o seu procurador, o +nedio e magestoso Laporte. E emfim, seguido d'um criado, que sobraava +um mao tremendo de jornaes para lhe abastecer o coup, o Principe da +Gran-Ventura mergulhava na Cidade. + + * * * * * + +Quando o dia social de Jacintho se apresentava mais desafogado, e o co +de Maro nos concedia caridosamente um pouco de azul agoado, sahiamos +depois d'almoo, a p, atravs de Paris. Estes lentos e errantes +passeios eram outr'ora, na nossa edade de Estudantes, um gozo muito +querido de Jacintho--porque n'elles mais intensamente e mais +minuciosamente saboreava a Cidade. Agora porm, apesar da minha +companhia, s lhe davam uma impaciencia e uma fadiga que desoladoramente +destoava do antigo, illuminado extasi. Com espanto (mesmo com dr, +porque sou bom, e sempre me entristece o desmoronar d'uma crena) +descobri eu, na primeira tarde em que descemos aos Boulevards, que o +denso formigueiro humano sobre o asphalto, e a torrente sombria dos +trens sobre o macadam, affligiam o meu amigo pela brutalidade da sua +pressa, do seu egoismo, e do seu estridor. Encostado e como refugiado no +meu brao, este Jacintho novo comeou a lamentar que as ruas, na nossa +Civilisao, no fossem caladas de gutta-percha! E a gutta-percha +claramente representava, para o meu amigo, a substancia discreta que +amortece o choque e a rudeza das cousas. Oh maravilha! Jacintho querendo +borracha, a borracha isoladora, entre a sua sensibilidade e as funces +da Cidade! Depois, nem me permittiu pasmar diante d'aquellas dourejadas +e espelhadas lojas que elle outr'ora considerava como os preciosos +museus do seculo XIX... + +--No vale a pena, Z Fernandes. Ha uma immensa pobreza e seccura +d'inveno! Sempre os mesmos flores Luiz XV, sempre as mesmas +pelucias... No vale a pena! + +Eu arregalava os olhos para este transformado Jacintho. E sobretudo me +impressionava o seu horror pela Multido--por certos effeitos da +Multido, s para elle sensiveis, e a que chamava os sulcos. + +--Tu no os sentes, Z Fernandes. Vens das serras... Pois constituem o +rijo inconveniente das Cidades, estes sulcos! um perfume muito agudo e +petulante que uma mulher larga ao passar, e se installa no olfacto, e +estraga para todo o dia o ar respiravel. um dito que se surprehende +n'um grupo, que revela um mundo de velhacaria, ou de pedantismo, ou de +estupidez, e que nos fica collado alma, como um salpico, lembrando a +immensidade da lama a atravessar. Ou ento, meu filho, uma figura +intoleravel pela preteno, ou pelo mau-gosto, ou pela impertinencia, ou +pela rellice, ou pela dureza, e de que se no pde sacudir mais a viso +repulsiva... Um pavor, estes sulcos, Z Fernandes! De resto, que diabo, +so as pequeninas miserias d'uma Civilisao deliciosa! + +Tudo isto era especioso, talvez pueril--mas para mim revelava, n'aquelle +chamejante devoto da Cidade, o arrefecimento da devoo. N'essa mesma +tarde, se bem recordo, sob uma luz macia e fina, penetramos nos centros +de Paris, nas ruas longas, nas milhas de casario, todo de calia parda, +erriado de chamins de lata negra, com as janellas sempre fechadas, as +cortininhas sempre corridas, abafando, escondendo a vida. S tijolo, s +ferro, s argamassa, s estuque: linhas hirtas, angulos asperos: tudo +secco, tudo rigido. E dos chos aos telhados, por toda a fachada, +tapando as varandas, comendo os muros, Taboletas, Taboletas... + +--Oh, este Paris, Jacintho, este teu Paris! Que enorme, que grosseiro +bazar! + +E, mais para sondar o meu Principe do que por persuaso, insisti na +fealdade e tristeza d'estes predios, duros armazens, cujos andares so +prateleiras onde se apilha humanidade! E uma humanidade impiedosamente +catalogada e arrumada! A mais vistosa e de luxo nas prateleiras baixas, +bem envernisadas. A relles e de trabalho nos altos, nos desvos, sobre +pranchas de pinho n, entre o p e a traa... + +Jacintho murmurou, com a face arripiada: + +-- feio, muito feio! + +E accudiu logo, sacudindo no ar a luva de anta: + +--Mas que maravilhoso organismo, Z Fernandes! Que solidez! Que +produco! + +Onde Jacintho me parecia mais renegado era na sua antiga e quasi +religiosa affeio pelo Bosque de Bolonha. Quando moo, elle construira +sobre o Bosque theorias complicadas e consideraveis. E sustentava, com +olhos rutilantes de fanatico, que no Bosque a Cidade cada tarde ia +retemperar salutarmente a sua fora, recebendo, pela presena das suas +Duquezas, das suas Cortezs, dos seus Politicos, dos seus Financeiros, +dos seus Generaes, dos seus Academicos, dos seus Artistas, dos seus +Clubistas, dos seus Judeus, a certeza consoladora de que todo o seu +pessoal se mantinha em numero, em vitalidade, em funco, e que nenhum +elemento da sua grandeza desapparecera ou deperecera! Ir ao Bois +constituia ento para o meu Principe um acto de consciencia. E voltava +sempre confirmando com orgulho que a Cidade possuia todos os seus +astros, garantindo a eternidade da sua luz! + +Agora, porm, era sem fervor, arrastadamente, que elle me levava ao +Bosque, onde eu, aproveitando a clemencia d'Abril, tentava enganar a +minha saudade d'arvoredos. Emquanto subiamos, ao trote nobre das suas +egoas lustrosas, a Avenida dos Campos-Elyseos e a do Bosque, +rejuvenescidas pelas relvas tenras e fresco verdejar dos rebentos, +Jacintho, soprando o fumo da cigarrete pelas vidraas abertas do coup, +permanecia o bom camarada, de veia amavel, com quem era doce philosophar +atravs de Paris. Mas logo que passavamos as grades douradas do Bosque, +e penetravamos na Avenida das Acacias, e enfiavamos na lenta fila dos +trens de luxo e de praa, sob o silencio decoroso, apenas cortado pelo +tilintar dos freios e pelas rodas vagarosas esmagando a areia,--o meu +Principe emmudecia, mollemente engilhado no fundo das almofadas, d'onde +s despegava a face para escancarar bocejos de fartura. Pelo antigo +habito de verificar a presena confortadora do pessoal, dos astros, +ainda, por vezes, apontava para algum coup ou vittoria rodando com +rodar rangente n'outra arrastada fila--e murmurava um nome. E assim fui +conhecendo a encaracolada barba hebraica do banqueiro Ephraim; e o longo +nariz patricio de Madame de Trves abrigando um sorriso perenne; e as +bochechas flacidas do poeta neo-platonico Dornan, sempre espapado no +fundo de fiacres; e os longos bands pre-raphaelitas e negros de Madame +Verghane; e o monoculo defumado do director do _Boulevard_; e o +bigodinho vencedor do Duque de Marizac, reinando de cima do seu phaeton +de guerra; e ainda outros sorrisos immoveis, e barbichas Renascena, e +palpebras amortecidas, e olhos farejantes, e pelles empoadas d'arroz, +que eram todas illustres e da intimidade do meu Principe. Mas, do topo +da Avenida das Acacias, recomeavamos a descer, em passo sopeado, +esmagando lentamente a areia; na fila vagarosa que subia, calhambeque +atraz de landau, vittoria atraz de fiacre, fatalmente reviamos o +binoculo sombrio do homem do _Boulevard_, e os bands furiosamente +negros de Madame Verghane, e o ventre espapado do neo-platonico, e a +barba talmudica, e todas aquellas figuras, d'uma immobilidade de cera, +super-conhecidas do meu camarada, recruzadas cada tarde atravs de +revividos annos, sempre com os mesmos sorrisos, sob o mesmo p d'arroz, +na mesma immobilidade de cera; ento Jacintho no se continha, gritava +ao cocheiro: + +--Para casa, depressa! + +E era pela Avenida do Bosque, pelos Campos-Elyseos, uma fuga ardente das +egoas a quem a lentido sopeada, n'um roer de freios, entre outras egoas +tambem d'ellas super-conhecidas, lanavam n'uma exasperao comparavel +de Jacintho. + +Para o sondar eu denegria o Bosque: + +--J no to divertido, perdeu o brilho!... + +Elle acudia, timidamente: + +--No, agradavel, no ha nada mais agradavel; mas... + +E accusava a friagem das tardes ou o despotismo dos seus affazeres. +Recolhiamos ento ao 202, onde, com effeito, em breve embrulhado no seu +roupo branco, diante da mesa de crystal, entre a legio das escovas, +com toda a electricidade refulgindo, o meu Principe se comeava a +adornar para o servio social da noite. + +E foi justamente numa d'essas noites (um sabado) que ns passamos, +n'aquelle quarto to civilisado e protegido, por um d'esses brutos e +revoltos terrores como s os produz a ferocidade dos Elementos. J +tarde, pressa (jantavamos com Marizac no Club para o acompanhar depois +ao _Lohengrin_ na Opera) Jacintho arrocheava o n da gravata +branca--quando no lavatorio, ou porque se rompesse o tubo, ou se +dessoldasse a torneira, o jacto d'agua a ferver rebentou furiosamente, +fumegando e silvando. Uma nevoa densa de vapor quente abafou as +luzes--e, perdidos n'ella, sentiamos, por entre os gritos do escudeiro e +do Grillo, o jorro devastador batendo os muros, esparrinhando uma chuva +que escaldava. Sob os ps o tapete ensopado era uma lama ardente. E como +se todas as foras da natureza, submettidas ao servio de Jacintho, se +agitassem, animadas por aquella rebellio da agua--ouvimos roncos surdos +no interior das paredes, e pelos fios dos lumes electricos sulcaram +faiscas ameaadoras! Eu fugira para o corredor, onde se alargava a nevoa +grossa. Por todo o 202 ia um tumulto de desastre. Diante do porto, +attrahidas pela fumarada que se escapava das janellas, estacionava +policia, uma multido. E na escada esbarrei com um reporter, de chapo +para a nuca, a carteira aberta, gritando sofregamente se havia mortos? + +Domada a agua, clareada a bruma, vim encontrar Jacintho no meio do +quarto, em ceroulas, livido: + +--Oh Z Fernandes, esta nossa industria!... Que impotencia, que +impotencia! Pela segunda vez, este desastre! E agora, apparelhos +perfeitos, um processo novo... + +--E eu encharcado por esse processo novo! E sem outra casaca! + +Em redor, as nobres sdas bordadas, os brocateis Luiz XIII, cobertos de +manchas negras, fumegavam. O meu Principe, enfiado, enchugava uma +photographia de Madame d'Oriol, d'hombros decotados, que o jorro bruto +maculra d'empolas. E eu, com rancor, pensava que na minha Guies a agua +aquecia em seguras panellas--e subia ao meu lavatorio, pela mo forte da +Catharina, em seguras infusas! No jantamos com o duque de Marizac, no +Club. E, na Opera, nem saboreei Lohengrin e a sua branca alma e o seu +branco cysne e as suas brancas armas--entallado, aperreado, cortado nos +sovacos pela casaca que Jacintho me emprestra e que rescendia +estonteadoramente a flores de Nessari. + + * * * * * + +No domingo, muito cedo, o Grillo, que na vspera escaldra as mos e as +trazia embrulhadas em sda, penetrou no meu quarto, descerrou as +cortinas, e beira do leito, com o seu radiante sorriso de preto: + +--Vem no _Figaro_! + +Desdobrou triumphalmente o jornal. Eram, nos _Echos_, doze linhas, onde +as nossas aguas rugiam e espadavam, com tanta magnificencia e tanta +publicidade, que tambem sorr, deleitado. + +--E toda a manh, o telephone, si Fernandes! exclamava o Grillo, +rebrilhando em ebano. A quererem saber, a quererem saber... Est l? +Est escaldado? Paris afflicto, si Fernandes! + +O telephone, com effeito, repicava, insaciavel. E quando desci para o +almoo, a toalha desapparecia sob uma camada de telegrammas, que o meu +Principe fendia com a faca, enrugado, rosnando contra a massada. S +desannuviou, ao ler um d'esses papeis azues, que atirou para cima do meu +prato, com o mesmo sorriso agradado com que de manh sorriramos, o +Grillo e eu: + +-- do Gran-Duque Casimiro... Rato amavel! Coitado! + +Saboreei, atravs dos ovos, o telegramma de S. Alteza. O que! o meu +Jacintho inundado! Muito chic, nos Campos-Elyseos! No volto ao 202 sem +boia de salvao! Compassivo abrao! Casimiro... Murmurei tambem com +deferencia:--Amavel! Coitado! Depois, revolvendo lentamente o monto +de telegrammas que se alastrava at ao meu copo: + +--Oh Jacintho! Quem esta Diana que incessantemente te escreve, te +telephona, te telegrapha, te...? + +--Diana?... Diana de Lorge. uma cocotte. uma grande cocotte! + +--Tua? + +--Minha, minha... No! tenho um bocado. + +E como eu lamentava que o meu Principe, senhor to rico e de to fino +orgulho, por economia d'uma gamella propria chafurdasse com outros n'uma +gamella publica--Jacintho levantou os hombros, com um camaro espetado +no garfo: + +--Tu vens das serras... Uma cidade como Paris, Z Fernandes, precisa ter +cortezs de grande pompa e grande fausto. Ora para montar em Paris, +n'esta tremenda carestia de Paris, uma cocotte com os seus vestidos, os +seus diamantes, os seus cavallos, os seus lacaios, os seus camarotes, as +suas festas, o seu palacete, a sua publicidade, a sua insolencia, +necessario que se aggremiem umas poucas de fortunas, se forme um +syndicato! Somos uns sete, no Club. Eu pago um bocado... Mas meramente +por Civismo, para dotar a cidade com uma cocotte monumental. De resto +no chafurdo. Pobre Diana!... Dos hombros para baixo nem sei se tem a +pelle cr de neve ou cr de limo. + +Arregalei um olho divertido: + +--Dos hombros para baixo?... E para cima? + +--Oh para cima tem p d'arroz!... Mas uma scca! Sempre bilhetes, +sempre telephones, sempre telegrammas. E tres mil francos por mez, alm +das flores... Uma massada! + +E as duas rugas do meu Principe, aos lados do seu afilado nariz, curvado +sobre a salada, eram como dous valles muito tristes, ao entardecer. + +Acabavamos o almoo, quando um escudeiro, muito discretamente, n'um +murmurio, annunciou Madame d'Oriol. Jacintho pousou com tranquillidade o +charuto; eu quasi me engasguei, n'um sorvo alvoroado de caf. Entre os +reposteiros de damasco cr de morango ella appareceu, toda de negro, +d'um negro liso e austero de Semana Santa, lanando com o regalo um +lindo gesto para nos socegar. E immediatamente, n'uma volubilidade +docemente chalrada: + +-- um momento, nem se levantem! Passei, ia para a Magdalena, no me +contive, quiz vr os estragos... Uma inundao em Paris, nos +Campos-Elyseos! No ha seno este Jacintho. E vem no _Figaro!_ O que eu +estava assustada, quando telephonei! Imaginem! Agua a ferver, como no +Vesuvio... Mas d'uma novidade! E os estofos perdidos, naturalmente, os +tapetes... Estou morrendo por admirar as ruinas! + +Jacintho, que no me pareceu commovido, nem agradecido com aquelle +interesse, retomra risonhamente o charuto: + +--Est tudo secco, minha querida senhora, tudo secco! A belleza foi +hontem, quando a agua fumegava e rugia! Ora que pena no ter ao menos +cahido uma parede! + +Mas ella insistia. Nem todos os dias se gozavam em Paris os destroos +d'uma inundao. O _Figaro_ contra... E era uma aventura deliciosa, uma +casa escaldada nos Campos-Elyseos! + +Toda a sua pessoa, desde as plumasinhas que frisavam no chapo at +ponta reluzente das botinas de verniz, se agitava, vibrava, como um ramo +tenro sob o bolio do passaro a chalrar. S o sorriso, por traz do vo +espesso, conservava um brilho immovel. E j no ar se espalhra um aroma, +uma doura, emanadas de toda a sua mobilidade e de toda a sua graa. + +Jacintho no emtanto cedera, alegremente: e pelo corredor Madame d'Oriol +ainda louvava o _Figaro_ amavel, e confessava quanto tremera... Eu +voltei ao meu caf, felicitando mentalmente o Principe da Gran-Ventura +por aquella perfeita flr de Civilisao que lhe perfumava a vida. +Pensei ento na apurada harmonia em que se movia essa flr. E corri +vivamente ante-camara, verificar diante do espelho o meu penteado e o +n da minha gravata. Depois recolhi sala de jantar, e junto da +janella, folheando languidamente a _Revista do Seculo XIX_, tomei uma +attitude de elegancia e d'alta cultura. Quasi immediatamente elles +reappareceram: e Madame d'Oriol, que, sempre sorrindo, se proclamava +espoliada, nada encontrra que recordasse as agoas furiosas, roou pela +mesa, onde Jacintho procurava, para lhe offerecer, tangerinas de Malta, +ou castanhas geladas, ou um biscouto molhado em vinho de Tokai. + +Ella recusava com as mos guardadas no regalo. No era alta, nem +forte--mas cada prega do vestido, ou curva da capa, cahia e ondulava +harmoniosamente, como perfeies recobrindo perfeies. Sob o vo +cerrado, apenas percebi a brancura da face empoada, e a escurido dos +olhos largos. E com aquellas sdas e velludos negros, e um pouco do +cabello louro, d'um louro quente, torcido fortemente sobre as pelles +negras que lhe orlavam o pescoo, toda ella derramava uma sensao de +macio e de fino. Eu teimosamente a considerava como uma flr de +Civilisao:--e pensava no secular trabalho e na cultura superior que +necessitra o terreno onde ella to delicadamente brotra, j +desabrochada, em pleno perfume, mais graciosa por ser flr d'esforo e +d'estufa, e trazendo nas suas ptalas um no sei qu de desbotado e de +ante-murcho. + +No emtanto, com a sua volubilidade de passaro, chalrando para mim, +chalrando para Jacintho, ella mostrava o seu lindo espanto por aquelle +monto de telegrammas sobre a toalha. + +--Tudo esta manh, por causa da inundao?... Ah, Jacintho hoje o +homem, o unico homem de Paris! Muitas mulheres n'esses telegrammas? + +Languidamente, com o charuto a fumegar, o meu Principe empurrou para a +sua amiga o telegramma do Gran-duque. Ento Madame d'Oriol teve um _ah!_ +muito grave e muito sentido. Releu profundamente o papel de S. A. que os +seus dedos acariciavam com uma reverencia gulosa. E sempre grave, sempre +sria: + +-- brilhante! + +Oh, certamente! n'aquelle desastre tudo se passra com muito brilho, +n'um tom muito Parisiense. E a deliciosa creatura no se podia demorar, +porque fizera marcar um logar na egreja da Magdalena para o sermo! + +Jacintho exclamou com innocencia: + +--Sermo?... j a estao dos sermes? + +Madame d'Oriol teve um movimento de carinhoso escandalo e dr. O qu! +pois nem na austera casa dos Trves dera pela entrada da quaresma? De +resto no se admirava--Jacintho era um turco! E, immediatamente celebrou +o prgador, um frade dominicano, o Pre Granon! Oh d'uma eloquencia! +d'uma violencia! No derradeiro sermo prgara sobre o amor, a +fragilidade dos amores mundanos! E tivera coisas d'uma inspirao, d'uma +brutalidade! Depois que gesto, um gesto terrivel que esmagava, em que se +lhe arregaava toda a manga, mostrando o brao n, um brao soberbo, +muito branco, muito forte! + +O seu sorriso permanecia claro sob o olhar que negrejra dentro do vo +negro. E Jacintho, rindo: + +--Um bom brao de director espiritual, hein? Para vergar, espancar +almas... + +Ella acudiu: + +--No! infelizmente o Pre Granon no confessa! + +E de repente reconsiderou--aceitava um biscouto, um clice de Tokai. Era +necessario um cordial para affrontar as emoes do Pre Granon! Ambos +nos precipitramos, um arrebatando a garrafa, outro offerecendo o prato +de bonbons. Franzio o vo para os olhos, chupou pressa um bolo que +ensopra no Tokai. E como Jacintho, reparando casualmente no chapo que +ella trazia, se curvra com curiosidade, impressionado, Madame d'Oriol +apagou o sorriso, toda seria, ante uma cousa seria: + +--Elegante, no verdade?... uma creao inteiramente nova de Madame +Vial. Muito respeitoso, e muito suggestivo, agora na Quaresma. + +O seu olhar, que me envolvera, tambem me convidava a admirar. Approximei +o meu focinho de homem das serras para contemplar essa creao suprema +do luxo de Quaresma. E era maravilhoso! Sobre o velludo, na sombra das +plumas frizadas, aninhada entre rendas, fixada por um prgo, pousava +delicadamente, feita de azeviche, uma Cora de Espinhos! + +Ambos nos extasiamos. E Madame d'Oriol, n'um movimento e n'um sorriso +que derramou mais aroma e mais claridade, abalou para a Magdalena. + +O meu Principe arrastou pelo tapete alguns passos pensativos e molles. E +bruscamente, levantando os hombros com uma determinao immensa, como se +deslocasse um mundo: + +--Oh Z Fernandes, vamos passar este Domingo n'alguma cousa simples e +natural... + +--Em qu? + +Jacintho circumgirou os olhares muito abertos, como se, atravez da Vida +Universal, procurasse anciosamente uma cousa natural e simples. Depois, +descanando sobre mim os mesmos largos olhos que voltavam de muito +longe, canados e com pouca esperana: + +--Vamos ao Jardim das Plantas, vr a girafa! + + + + +IV + + +N'essa fecunda semana, uma noite, recolhiamos ambos da Opera, quando +Jacintho, bocejando, me annunciou uma festa no 202. + +--Uma festa?... + +--Por causa do Gran-Duque, coitado, que me vai mandar um peixe delicioso +e muito raro que se pesca na Dalmacia. Eu queria um almoo curto. O +Gran-Duque reclamou uma ceia. um barbaro, besuntado com litteratura do +seculo XVIII, que ainda acredita em ceias, em Paris! Reuno no domingo +tres ou quatro mulheres, e uns dez homens bem typicos, para o divertir. +Tambem aproveitas. Folheias Paris n'um resumo... Mas uma massada +amarga! + +Sem interesse pela sua festa, Jacintho no se affadigou em a compr com +relevo ou brilho. Encommendou apenas uma orchestra de Tziganes (os +Tziganes, as suas jalecas escarlates; a melancolia aspera das Czardas +ainda n'esses tempos remotos emocionavam Paris): e mandou, na +Bibliotheca, ligar o Theatrophone com a Opera, com a Comedia-Franceza, +com o Alcazar e com os Buffos, prevendo todos os gostos desde o tragico +at ao picaro. Depois no domingo, ao entardecer, ambos visitamos a mesa +da ceia, que resplandecia com as velhas baixellas de D. Galio. E a +faustosa profuso de orchideas, em longas sylvas por sobre a toalha +bordada a sda, enroladas aos fructeiros de Saxe, trasbordando de +crystaes lavrados e filagranados d'ouro, espalhava uma to fina sensao +de luxo e gosto, que eu murmurei:--Caramba, bemdito, seja o dinheiro! +Pela primeira vez, tambem, admirei a copa e a sua installao abundante +e minuciosa--sobretudo os dois ascensores que rolavam das profundidades +da cozinha, um para os peixes e carnes aquecido por tubos d'agua +fervente, o outro para as saladas e gelados revestido de placas +frigorificas. Oh, este 202! + +s nove horas, porm, descendo eu ao gabinete de Jacintho para escrever +a minha boa tia Vicencia, em quanto elle ficra no toucador com o +mancuro que lhe polia as unhas, passamos n'esse delicioso palacio, +florido e em gala, por bem corriqueiro susto! Todos os lumes electricos, +subitamente, em todo o 202, se apagaram! Na minha immensa desconfiana +d'aquellas foras universaes, pulei logo para a porta, tropeando nas +trevas, ganindo um _Aqui d'Elrei_! que tresandava a Guies. Jacintho em +cima berrava, com o mancuro agarrado s pyjamas. E de novo, como serva +ralassa que recolhe arrastando as chinellas, a luz resurgiu com +lentido. Mas o meu Principe, que descera, enfiado, mandou buscar um +engenheiro Companhia Central da Electricidade Domestica. Por precauo +outro creado correu mercearia comprar pacotes de velas. E o Grillo +desenterrava j dos armarios os candelabros abandonados, os pesados +castiaes archaicos dos tempos inscientificos de D. Galio: era uma +reserva de veteranos fortes, para o caso pavoroso em que mais tarde, +ceia, falhassem perfidamente as foras bisonhas da Civilisao. O +Electricista, que acudira esbaforido, afianou porm que a Electricidade +se conservaria fiel, sem outro amuo. Eu, cautelosamente, soneguei na +algibeira dous ctos de estearina. + +A Electricidade permaneceu fiel, sem amuos. E quando desci do meu +quarto, tarde (porque perdera o collete de baile e s depois d'uma busca +furiosa e praguejada o encontrei cahido por traz da cama!), todo o 202 +refulgia, e os Tziganes, na antecamara, sacudindo as guedelhas, atiravam +as arcadas d'uma valsa to arrastadora que, pelas paredes, os immensos +Personagens das tapearias, Priamo, Nestor, o engenhoso Ulysses, +arfavam, boliam com os ps venerandos! + +Timidamente, sem rumor, puxando os punhos, penetrei no gabinete de +Jacintho. E fui logo acolhido pelo sorriso da condessa de Treves, que, +acompanhada pelo illustre historiador Danjon (da Academia Franceza), +percorria maravilhada os Apparelhos, os Instrumentos, toda a sumptuosa +Mechanica do meu super-civilisado Principe. Nunca ella me parecera mais +magestosa do que n'aquellas sdas cr de aafro, com rendas cruzadas no +peito Maria-Antonietta, o cabello crespo e ruivo levantado em rolo +sobre a testa dominadora, e o curvo nariz patricio, abrigando o sorriso +sempre luzidio, sempre corrente, como um arco abriga o correr e o luzir +d'um regato. Direita como n'um solio, a longa luneta de tartaruga +acercada dos olhos miudos e turvamente azulados, ella escutava deante do +Graphophono, depois deante do Microphono, como melodias superiores, os +commentarios que o meu Jacintho ia atabalhoando com uma amabilidade +penosa. E ante cada roda, cada mola, eram pasmos, louvores finamente +torneados, em que attribuia a Jacintho, com astuta candura, todas +aquellas invenes do Saber! Os utensilios misteriosos que atulhavam a +mesa d'ebano foram para ella uma iniciao que a enlevou. Oh, o +numerador de paginas! oh, o collador d'estampilhas! A caricia +demorada dos seus dedos seccos aquecia os metaes. E supplicava os +endereos dos fabricantes para se prover de todas aquellas utilidades +adoraveis! Como a vida, assim apetrechada, se tornava escorregadia e +facil! Mas era necessario o talento, o gosto de Jacintho, para escolher, +para crear! E no s ao meu amigo (que o recebia com resignao) ella +offertava o fino mel. Affagando com o cabo da luneta o Telegrapho, achou +a possibilidade de recordar a eloquencia do Historiador. Mesmo para mim +(de quem ignorava o nome) arranjou junto do Phonographo, e cerca de +vozes d'amigos que doce colleccionar, uma lisonjasinha redondinha e +lustrosa, que eu chupei como um rebuado celeste. Boa casaleira que vae +atirando o gro aos frangos famintos, a cada passo, maternalmente, ella +nutria uma vaidade. Sofrego d'outro rebuado, acompanhei a sua cauda +sussurrante e cr d'aafro. Ella parra deante da Machina-de-contar, de +que Jacintho j lhe fornecera pacientemente uma explicao sapiente. E +de novo roou os buracos d'onde espreitam os numeros negros, e com o seu +enlevado sorriso murmurou:--Prodigiosa, esta prensa electrica!... + +Jacintho accudiu: + +--No! No! Esta ... + +Mas ella sorria, seguia... Madame de Treves no comprehendera nenhum +apparelho do meu Principe! Madame de Treves no attendera a nenhuma +dissertao do meu Principe! N'aquelle gabinete de sumptuosa Mechanica +ella smente se occupra em exercer, com proveito e com perfeio, a +Arte de Agradar. Toda ella era uma sublime falsidade. No escondi a +Danjon a admirao que me penetrava. + +O facundo Academico revirou os olhos bogalhudos: + +--Oh! e um gsto, uma intelligencia, uma seduco!... E depois como se +janta bem em casa d'ella! Que caf!... Mulher superior, meu caro senhor, +verdadeiramente superior! + +Deslisei para a bibliotheca. Logo entrada da erudita nave, junto da +estante dos Padres da Egreja onde alguns cavalheiros conversavam, parei +a saudar o director do _Boulevard_ e o Psychologo-feminista, o auctor do +_Corao Triple_, com quem na vspera me familiarisra ao almoo, no +202. O seu acolhimento foi paternal: e, como se necessitasse a minha +presena, reteve na sua mo illustre, rutilante de anneis, com fora e +com gula, a minha grossa palma serrana. Todos aquelles senhores, com +effeito, celebravam o seu Romance, a _Couraa_, lanado n'essa semana +entre gritinhos de gzo e um quente rumor de saias alvoroadas. Um +sobretudo, com uma vasta cabea arranjada Van Dick e que parecia +postia, proclamava, alado na ponta das botas, que nunca penetrra to +fundamente, na velha alma humana, a ponta da Psychologia Experimental! +Todos concordavam, se apertavam contra o Psychologo, o tratavam por +mestre. Eu mesmo, que nem sequer entrevira a capa amarella da +_Couraa_, mas para quem elle voltava os olhos pedinches e famintos de +mais mel, murmurei com um leve assobio:--uma delicia! + +E o Psychologo, reluzindo, com o labio humido, entalado n'um alto +collarinho onde se enroscava uma gravata 1830, confessava modestamente +que dissecra todas aquellas almas da _Couraa_ com algum cuidado, +sobre documentos, sobre pedaos de vida ainda quentes, ainda a +sangrar... E foi ento que Marizac, o duque de Marizac, notou, com um +sorriso mais afiado que um lampejo de navalha, e sem tirar as mos dos +bolsos: + +--No emtanto, meu caro, n'esse livro to profundamente estudado ha um +erro bem estranho, bem curioso!... + +O Psychologo, vivamente, atirra a cabea para traz: + +--Um erro? + +Oh, sim, um erro! E bem inesperado n'um mestre to experiente!... Era +attribuir esplendida amorosa da _Couraa_, uma duqueza, e do gosto +mais puro,--_um collete de setim preto_! Esse collete, assim preto, de +setim, apparecia na bella pagina de analyse e paixo em que ella se +despia no quarto de Ruy d'Alize. E Marizac, sempre com as mos nos +bolsos, mais grave, appellava para aquelles senhores. Pois era +verosimil, n'uma mulher como a duqueza, esthetica, pre-raphaelitica, que +se vestia no Doucet, no Paquin, nos costureiros intellectuaes, um +collete de setim preto? + +O Psychologo emmudecera, colhido, trespassado! Marizac era uma to +suprema auctoridade sobre a roupa intima das duquezas, que tarde, em +quartos de rapazes, por impulsos idealistas e anceios d'alma +dolorida--se pem em collete e saia branca!... De resto o director do +_Boulevard_ condemnra logo sem piedade, com uma experiencia firme, +aquelle collete, s possivel n'alguma mercieira atrazada que ainda +procurasse effeitos de carne nedia sobre setim negro. E eu, para que me +no julgassem alheio s coisas dos adulterios ducaes e do luxo, acudi, +mettendo os dedos pelo cabello: + +--Realmente, preto, s se estivesse de lucto pesado, pelo pae! + +O pobre mestre da _Couraa_ succumbira. Era a sua gloria de Doutor em +Elegancias-Femininas desmantelada--e Paris suppondo que elle nunca vira +uma duqueza desatacar o collete na sua alcova de Psychologo! Ento, +passando o leno sobre os labios que a angustia ressequira, confessou o +erro, e contrictamente o attribuiu a uma improvisao tumultuosa: + +--Foi um tom falso, um tom perfeitamente falso que me escapou!... Com +effeito! absurdo, um collete preto!... Mesmo por harmonia com o estado +da alma da duqueza devia ser lilaz, talvez cr de reseda muito +desmaiada, com um frouxo de rendas antigas de Malines... prodigioso +como me escapou! Pois tenho o meu caderno de entrevistas bem annotadas, +bem documentadas!... + +Na sua amargura, terminou por supplicar a Marizac que espalhasse por +toda a parte, no Club, nas salas, a sua confisso. Fra um engano de +artista, que trabalha na febre, vasculhando as almas, perdido nas +profundidades negras das almas! No reparra no collete, confundira os +tons... E gritou, com os braos estendidos para o director do +_Boulevard_: + +--Estou prompto a fazer uma rectificao, n'uma _interview_, meu caro +mestre! Mande um dos seus redactores... manh, s dez horas! Fazemos +uma _interview_, fixamos a cr. Evidentemente lilaz... Mande um dos +seus homens, meu caro mestre! tambem uma occasio para eu confessar, +bem alto, os servios que o _Boulevard_ tem feito s sciencias +psychologicas e feministas! + +Assim elle supplicava, encostado estante, s lombadas dos Santos +Padres. E eu abalei, vendo ao fundo da Bibliotheca Jacintho que se +debatia e se recusava entre dous homens. + +Eram os dois homens de Madame de Treves--o marido, conde de Treves, +descendente dos reis de Candia, e o amante, o terrivel banqueiro judeu, +David Ephraim. E to enfronhadamente assaltavam o meu Principe que nem +me reconheceram, ambos n'um aperto de mo molle e vago me trataram por +caro conde! N'um relance, rebuscando charutos sobre a mesa de +limoeiro, comprehendi que se tramava a _Companhia das Esmeraldas da +Birmania_, medonha empreza em que scintillavam milhes, e para que os +dous confederados de bolsa e d'alcva, desde o comeo do anno, pediam o +nome, a influencia, o dinheiro de Jacintho. Elle resistira, n'um enfado +dos negocios, desconfiado d'aquellas esmeraldas soterradas n'um valle da +Asia. E agora o conde de Treves, um homem esgrouviado, de face +rechupada, erriada de barba rala, sob uma fronte rotunda e amarella +como um melo, assegurava ao meu pobre Principe que no Prospecto j +preparado, demonstrando a grandeza do negocio, perpassava um fulgr das +_Mil e Uma noites_. Mas sobretudo aquella excavao de esmeraldas +convidava todo o espirito culto pela sua aco civilisadora. Era uma +corrente de idas occidentaes, invadindo, educando a Birmania. Elle +acceitra a direco por patriotismo... + +--De resto um negocio de joias, de arte, de progresso, que deve ser +feito, n'um mundo superior, entre amigos... + +E do outro lado o terrivel Ephraim, passando a mo curta e gorda sobre a +sua bella barba, mais frisada e negra que a d'um Rei Assyrio, affianava +o triumpho da empreza pelas grossas foras que n'ella entravam, os +Nagayers, os Bolsans, os Saccart... + +Jacintho franzia o nariz, enervado: + +--Mas, ao menos, esto feitos os estudos? J se provou que ha +esmeraldas? + +Tanta ingenuidade exasperou Ephraim: + +--Esmeraldas! Est claro que ha esmeraldas!... Ha sempre esmeraldas +desde que haja accionistas! + +E eu admirava a grandeza d'aquella maxima--quando appareceu, esbaforido, +desdobrando o leno muito perfumado, um dos familiares do 202, Todelle +(Antonio de Todelle), moo j calvo, d'infinitas prendas, que conduzia +Cotillons, imitava cantores de Caf Concerto, temperava saladas raras, +conhecia todos os enredos de Paris. + +--J veio?... J c est o Gran-Duque? + +No, S. Alteza ainda no chegra. E Madame de Todelle? + +--No poude... No soph... Esfolou uma perna. + +--Oh! + +--Quasi nada... Cahiu do velocipede! + +Jacintho, logo interessado: + +--Ah! Madame de Todelle anda j de velocipede? + +--Aprende. Nem tem velocipede!... Agora, na quaresma, que se applicou +mais, no velocipede do padre Ernesto, do cura de S. Jos! Mas hontem, no +Bosque, zs, terra!... Perna esfolada. Aqui. + +E na sua propria cxa, com a unha, vivamente, desenhou o esfolo. +Ephraim, brutal e serio, murmurou:--Diabo! no melhor sitio! Mas +Todelle nem o escutra, correndo para o director do _Boulevard_, que se +avanava, lento e barrigudo, com o seu monoculo negro semelhante a um +pacho. Ambos se collaram contra uma estante, n'um cochichar profundo. + +Jacintho e eu entramos ento no bilhar, forrado de velhos couros de +Cordova, onde se fumava. Ao canto d'um divan, o grande Dornan, o poeta +neo-platonico e mystico, o Mestre subtil de todos os rithmos, espapado +nas almofadas, com um dos ps sob a cxa gorda, como um Deus indio, dois +botes do collete desabotoados, a papeira cahida sobre o largo decote do +collarinho, mamava magestosamente um immenso charuto. Ao p d'elle, +tambm sentado, um velho que eu nunca encontrra no 202, esbelto, de +cabellos brancos em anneis passados por traz das orelhas, a face coberta +de p de arroz, um bigodinho muito negro e arrebitado, findra +certamente alguma historia de bom e grosso sal--porque deante do divan, +de p, Joban, o suprmo Critico de Theatro, ria com a calva escarlate de +gso, e um moo muito ruivo (descendente de Colygny), de perfil de +periquito, sacudia os braos curtos como azas, e gania: delicioso! +divino! S o poeta idealista permanecera impassivel, na sua magestade +obesa. Mas, quando nos acercamos, esse Mestre do rythmo perfeito, depois +de soprar uma farta fumarada e me saudar com um pesado mover das +palpebras, comeou n'uma voz de rico e sonoro metal: + +--Ha melhor, ha infinitamente melhor... Todos aqui conhecem Madame +Noredal. Madame Noredal tem umas immensas nadegas... + +Desgraadamente para o meu regalo Todelle invadiu o bilhar, reclamando +Jacintho com alarido. Eram as senhoras que desejavam ouvir no +Phonographo uma aria da Patti! O meu amigo sacudiu logo os hombros, +n'uma surda irritao: + +--Aria da Patti... Eu sei l! Todos esses rolos esto em confuso. Alm +d'isso o Phonographo trabalha mal. Nem trabalha! Tenho tres. Nenhum +trabalha! + +--Bem! exclamou alegremente Todelle. Canto eu a _Pauvre fille_... mais +de ceia! _Oh, la pauv', pauv', pauv'_... + +Travou do meu brao, e arrastou a minha timidez serrana para o salo cr +de rosa murcha, onde, como Deusas n'um circulo escolhido do Olympo, +resplandeciam Madame d'Oriol, Madame Verghane, a princeza de Carman, o +uma outra loura, com grandes brilhantes nas grandes farripas, e +d'hombros to ns, e braos to ns, e peitos to ns, que o seu vestido +branco com bordados d'ouro pallido parecia uma camisa, a escorregar. +Impressionado, ainda retive Todelle, rugi baixinho:--Quem ? Mas j o +festivo homem correra para Madame d'Oriol, com quem riam, n'uma +familiaridade superior e facil, Marizac (o duque de Marizac) e um moo +de barba cr de milho e mais leve que uma penugem, que se balouava +gracilmente sobre os ps, como uma espiga ao vento. E eu, encalhado +contra o piano, esfregava lentamente as mos, amassando o meu embarao, +quando Madame Verghane se ergueu do soph onde conversava com um velho +(que tinha a Gran-Cruz de Santo Andr), e avanou, deslizou no tapete, +pequena e nedia, na sua copiosa cauda de velludo verde-negro. To fina +era a cinta, entre os encontros fecundos e a vastido do peito, todo n +e cr de nacar, que eu receava que ella partisse pelo meio, no seu lento +ondular. Os seus famosos bands negros, d'um negro furioso, inteiramente +lhe tapavam as orelhas; e, no grande aro d'ouro que os circumdava, +reluzia uma estrella de brilhantes, como na fronte dos anjos de +Boticelli. Conhecendo sem dvida a minha auctoridade no 202, ella +despediu sobre mim ao passar, como raio benefico, um sorriso que lhe +liquescia mais os olhos liquidos, e murmurou: + +--O Gran-Duque vem, com certeza? + +--Oh com certeza, minha senhora, para o peixe! + +--P'ra o peixe?... + +Mas justamente, na antecamara, rompeu, em rufos e arcadas triumphaes, a +marcha de Rakoczy. Era elle! Na Bibliotheca, o nosso retumbante mordomo +annunciava: + +--S. Alteza o Gran-Duque Casimiro! + +Madame de Verghane, com um curto suspiro d'emoo, alteou o peito, como +para lhe expr melhor a magnificencia eburnea. E o homem do _Boulevard_, +o velho da Gran-Cruz, Ephraim, quasi me empurraram, investindo para a +porta, na immensa sofreguido de Pessoa Real. + +Precedido por Jacintho, o Gran-Duque surgiu. Era um possante homem, de +barba em bico, j grisalha, um pouco calvo. Durante um momento hesitou, +com um balano lento sobre os ps pequeninos, calados de sapatos rasos, +quasi sumidos sob as pantalonas muito largas. Depois, pesado e risonho, +veio apertar a mo s senhoras que mergulhavam nos velludos e sdas, em +mesuras de Crte. E immediatamente, batendo com carinhosa jovialidade no +hombro de Jacintho: + +--E o peixe?... Preparado pela receita que mandei, hein? + +Um murmurio de Jacintho tranquillisou S. Alteza. + +--Ainda bem, ainda bem! exclamou elle, no seu vozeiro de commando. Que +eu no jantei, absolutamente no jantei! que se est jantando +deploravelmente em casa do Joseph. Mas porque se vai jantar ainda ao +Joseph? Sempre que chego a Paris, pergunto: Onde que se janta agora? +Em casa do Joseph!... Qual! no se janta! Hoje, por exemplo, +gallinholas... Uma peste! No tem, no tem a noo da gallinhola! + +Os seus olhos azulados, d'um azul sujo, rebrilhavam, alargados pela +indignao: + +--Paris est perdendo todas as suas superioridades. J se no janta, em +Paris! + +Ento, em redor, aquelles senhores concordaram, desolados. O conde de +Treves defendeu o Bignon, onde se conservavam nobres tradies. E o +director do _Boulevard_, que se empurrava todo para S. Alteza, attribuia +a decadencia da cozinha, em Frana, Republica, ao gosto democratico e +torpe pelo barato. + +--No Paillard, todavia...--comeou o Ephraim. + +--No Paillard! gritou logo o Gran-Duque. Mas os Borgonhas so to maus! +os Borgonhas so to maus!... + +Deixra pender os braos, os hombros, descoroado. Depois, com o seu +lento andar balanado como o d'um velho piloto, atirando um pouco para +traz as lapellas da casaca, foi saudar Madame d'Oriol, que toda ella +faiscou, no sorriso, nos olhos, nas joias, em cada prga das suas sdas +cr de salmo. Mas apenas a clara e macia creatura, batendo o leque como +uma aza alegre, comera a chalrar, S. Alteza reparou no apparelho do +Theatrophone, pousado sobre uma mesa entre flres, e chamou Jacintho: + +--Em communicao com o Alcazar?... O Theatrophone? + +--Certamente, meu senhor. + +Excellente! Muito chic! Elle ficra com pena de no ouvir a Gilberte +n'uma canoneta nova, as _Casquettes_. Onze e meia! Era justamente a +essa hora que ella cantava, no ultimo acto da _Revista +Electrica_...--Collou s orelhas os dous receptores do Theatrophone, e +quedou embebido, com uma ruga sria na testa dura. De repente, n'um +commando forte: + +-- ella! Chut! Venham ouvir!... ella! Venham todos! Princeza de +Carman, para aqui! Todos! ella! Chut... + +Ento, como Jacintho installra prodigamente dois Theatrophones, cada um +provido de doze fios, as senhoras, todos aquelles cavalheiros, se +apressaram a acercar submissamente um receptor do ouvido, e a permanecer +immoveis para saborear _Les Casquettes_. E no salo cr de rosa murcha, +na nave da Bibliotheca, onde se espalhra um silencio augusto, s eu +fiquei desligado do Theatrophone, com as mos nas algibeiras e ocioso. + +No relogio monumental, que marcava a hora de todas as Capitaes e o +movimento de todos os Planetas, o ponteiro rendilhado adormeceu. Sobre a +mudez e a immobilidade pensativa d'aquelles dorsos, d'aquelles decotes, +a Electricidade refulgia com uma tristeza de sol regelado. E de cada +orelha attenta, que a mo tapava, pendia um fio negro, como uma tripa. +Dornan, esbroado sobre a mesa, cerrra as palpebras, n'uma meditao de +monge obeso. O historiador dos Duques d'Anjou, com o receptor na ponta +delicada dos dedos, erguendo o nariz agudo e triste, gravemente cumpria +um dever palaciano. Madame d'Oriol sorria, toda languida, como se o fio +lhe murmurasse douras. Para desentorpecer arrisquei um passo timido. +Mas cahiu logo sobre mim um _chut_ severo do Gran-Duque! Recuei para +entre as cortinas da janella, a abrigar a minha ociosidade. O Philologo +da _Couraa_, distante da mesa, com o seu comprido fio esticado, mordia +o beio, n'um esforo de penetrao. A beatitude de S. Alteza, enterrado +n'uma vasta poltrona, era perfeita. Ao lado o collo de Madame Verghane +arfava como uma onda de leite. E o meu pobre Jacintho, n'uma applicao +conscienciosa, pendia sobre o Theatrophone to tristemente como sobre +uma sepultura. + +Ento, ante aquelles seres de superior civilisao, sorvendo n'um +silencio devoto as obscenidades que a Gilberte lhes gania, por debaixo +do solo de Paris, atravez de fios mergulhados nos esgotos, cingidos aos +canos das fezes,--pensei na minha aldeia adormecida. O crescente de lua, +que, seguido d'uma estrellinha, corria entre nuvens sobre os telhados e +as chamins negras dos Campos-Elyseos, tambem andava l fugindo, mais +lustrosa e mais dce, por cima dos pinheiraes. As rs coaxavam ao longe +no Pego da Dona. A ermidinha de S. Joaquim branquejava no cabeo, +nuasinha e candida... + +Uma das senhoras murmurou: + +--Mas, no a Gilberte!... + +E um dos homens: + +--Parece um cornetim... + +--Agora so palmas... + +--No, o Paulin! + +O Gran-Duque lanou um _chut_ feroz... No pateo da nossa casa ladravam +os ces. D'alm do ribeiro respondiam os ces do Joo Saranda. Como me +encontrei descendo por uma quelha, sob as ramadas, com o meu varapau ao +hombro? E sentia, entre a sda das cortinas, n'um fino ar macio, o +cheiro das pinhas estalando nas lareiras, o calor dos curraes atravez +das sebes altas, e o susurro dormente das levadas... + +Despertei a um brado que no sahia nem dos eidos, nem das sombras. Era o +Gran-Duque que se erguera, encolhia furiosamente os hombros: + +--No se ouve nada!... S guinchos! E um zumbido! Que massada!... Pois +uma belleza, a canoneta: + +Oh les casquettes, +Oh les casque-e-e-tes!... + +Todos largaram os fios--proclamavam a Gilberte deliciosa. E o mordomo +bemdito, abrindo largamente os dous batentes, annunciou: + +--_Monseigneur est servi_! + +Na mesa, que pelo esplendor das orchideas mereceu os louvores ruidosos +de S. Alteza, fiquei entre o ethereo poeta Dornan e aquelle moo de +pennugem loura que balouava como uma espiga ao vento. Depois de +desdobrar o guardanapo, de o accomodar regaladamente sobre os joelhos, +Dornan desenvencilhou da corrente do relogio uma enorme luneta para +percorrer o _menu_--que approvou. E inclinando para mim a sua face de +Apostolo obeso: + +--Este Porto de 1834, aqui era casa do Jacintho, deve ser authentico... +Hein? + +Assegurei ao Mestre dos Rythmos que o Porto envelhecra nas adegas +classicas do av Galio. Elle afastou, n'uma preparao methodica, os +longos, densos fios do bigode que lhe cobriam a bocca grossa. Os +escudeiros serviram um consomm frio com trufas. E o moo cr de milho, +que espalhra pela mesa o seu olhar azul e dce, murmurou, com uma +desconsolao risonha: + +--Que pena!... S falta aqui um general e um bispo! + +Com effeito! Todas as Classes Dominantes comiam n'esse momento as trufas +do meu Jacintho... Mas defronte Madame d'Oriol lanra um riso mais +cantado que um gorgeio. O Gran-Duque, n'uma silva de orchideas que +orlava o seu talher, notra uma, sombriamente horrenda, semelhante a um +lacrau esverdinhado, de azas lustrosas, gordo e tumido de veneno: e +muito delicadamente offertra a flr monstruosa a Madame d'Oriol, que, +com trinado riso, solemnemente, a collocou no seio. Collado quella +carne macia, d'uma brancura de nata fina, o lacrau inchra, mais verde, +com as azas frementes. Todos os olhos se accendiam, se cravavam no lindo +peito, a que a flr disforme, de cr venenosa, apimentava o sabor. Ella +reluzia, triumphava. Para ageitar melhor a orchidea os seus dedos +alargaram o decote, aclararam bellezas, guiando aquellas curiosidades +flammejantes que a despiam. A face vincada de Jacintho pendia para o +prato vasio. E o alto lyrico do _Crepusculo Mystico_, passando a mo +pelas barbas, rosnou com desdem: + +--Bella mulher... Mas ancas seccas, e aposto que no tem nadegas! + +No emtanto o moo de loura pennugem voltra sua estranha mgoa. No +possuirmos um general com a sua espada, e um bispo com seu baculo!... + +--Para que, meu caro senhor? + +Elle atirou um gesto suave em que todos os seus anneis faiscaram: + +--Para uma bomba de dynamite... Temos aqui um explendido ramalhete de +flres de Civilisaco, com um Gran-Duque no meio. Imagine uma bomba de +dynamite, atirada da porta!... Que bello fim de ceia, n'um fim de +seculo! + +E como eu o considerava assombrado, elle, bebendo golos de +Chateau-Yquem, declarou que hoje a unica emoo, verdadeiramente fina, +seria aniquillar a Civilisao. Nem a sciencia, nem as artes, nem o +dinheiro, nem o amor, podiam j dar um gosto intenso e real s nossas +almas saciadas. Todo o prazer que se extrahra de _crear_ estava +esgotado. S restava, agora, o divino prazer de _destruir_! + +Desenrolou ainda outras enormidades, com um riso claro nos olhos claros. +Mas eu no attendia o gentil pedante, colhido por outro +cuidado--reparando que em torno, subitamente, todo o servio estacra +como no conto do Palacio Petrificado. E o prato agora devido era o peixe +famoso da Dalmacia, o peixe de S. Alteza, o peixe inspirador da festa! +Jacintho, nervoso, esmagava entre os dedos uma flr. E todos os +escudeiros sumidos! + +Felizmente o Gran-Duque contava a historia d'uma caada, nas coutadas de +Sarvan, em que uma senhora, mulher de um banqueiro, saltra bruscamente +do cavallo, n'um descampado, sem arvores. Elle e todos os caadores +param--e a galante senhora, livida, com a amazona arregaada, corre para +traz d'uma pedra... Mas nunca soubemos em que se occupava a banqueira, +n'esse descampado, agachada atraz da pedra--porque justamente o mordomo +appareceu, relusente de suor, e balbuciou uma confidencia a Jacintho, +que mordeu o beio, trespassado. O Gran-Duque emmudecera. Todos se +entre-olhavam, n'uma anciedade alegre. Ento o meu Principe, com +paciencia, com heroicidade, forando pallidamente o sorriso: + +--Meus amigos, ha uma desgraa... + +Dornan pulou na cadeira: + +--Fogo? + +No, no era fogo. Fra o elevador dos pratos, que inesperadamente, ao +subir o peixe de S. Alteza, se desarranjra, e no se movia, encalhado! + +O Gran-Duque arremessou o guardanapo. Toda a sua polidez estalava como +um esmalte mal posto: + +--Essa forte!... Pois um peixe que me deu tanto trabalho! Para que +estamos ns aqui ento a cear? Que estupidez! E porque o no trouxeram +mo, simplesmente? Encalhado... Quero vr! Onde a copa? + +E, furiosamente, investiu para a copa, conduzido pelo mordomo que +tropeava, vergava os hombros, ante esta esmagadora colera de Principe. +Jacintho seguiu, como uma sombra, levado na rajada de S. Alteza. E eu +no me contive, tambem me atirei para a copa, a contemplar o desastre, +emquanto Dornan, batendo na cxa, clamava que se ceasse sem peixe! + +O Gran-Duque l estava, debruado sobre o poo escuro do elevador, onde +mergulhra uma vela que lhe avermelhava mais a face esbraseada. +Espreitei, por sobre o seu hombro real. Em baixo, na treva, sobre uma +larga prancha, o peixe precioso alvejava, deitado na travessa, ainda +fumegando, entre rodellas de limo. Jacintho, branco como a gravata, +torturava desesperadamente a mola complicada do ascensor. Depois foi o +Gran-Duque que, com os pulsos cabelludos, atirou um empuxo tremendo aos +cabos em que elle rolava. Debalde! O apparelho enrijra n'uma inercia de +bronze eterno. + +Sdas roagaram entrada da copa. Era Madame d'Oriol, e atraz Madame +Verghane, com os olhos a faiscar, na curiosidade d'aquelle lance em que +o Principe soltra tanta paixo. Marizac, nosso intimo, surgiu tambem, +risonho, propondo uma descida ao poo com escadas. Depois foi o +Psychologo, que se abeirou, psychologou, attribuindo intenes sagazes +ao peixe que assim se recusava. E a cada um o Gran-Duque, escarlate, +mostrava com dedo tragico, no fundo da cova, o seu peixe! Todos +afundavam a face, murmuravam: l est! Todelle, na sua precipitao, +quasi se despenhou. O periquito descendente de Colygny batia as azas, +ganindo:--Que cheiro elle deita, que delicia! Na copa atulhada os +decotes das senhoras roavam a farda dos lacaios. O velho caiado de p +d'arroz metteu o p n'um balde de gelo, com um berro ferino. E o +Historiador dos Duques d'Anjou movia por cima de todos o seu nariz +bicudo e triste. + +De repente, Todelle teve uma ida! + +-- muito simples... pescar o peixe! + +O Gran-Duque bateu na cxa uma palmada triumphal. Est claro! Pescar o +peixe! E no gozo d'aquella facecia, to rara e to nova, toda a sua +colera se sumra, de novo se tornra o Principe amavel, de magnifica +polidez, desejando que as senhoras se sentassem para assistir pesca +miraculosa! Elle mesmo seria o pescador! Nem se necessitava, para a +divertida faanha, mais que uma bengala, uma guita e um gancho. +Immediatamente Madame d'Oriol, excitada, offereceu um dos seus ganchos. +Apinhados em volta d'ella, sentindo o seu perfume, o calor da sua pelle, +todos exaltamos a amoravel dedicao. E o Psychologo proclamou que nunca +se pescra com to divino anzol! + +Quando dois escudeiros estonteados voltaram, trazendo uma bengala e um +cordel, j o Gran-Duque, radiante, vergra o gancho em anzol. Jacintho, +com uma paciencia livida, erguia uma lampada sobre a escurido do poo +fundo. E os senhores mais graves, o Historiador, o director do +_Boulevard_, o Conde de Treves, o homem de cabea Van-Dick, sorriam, +amontoados porta, n'um interesse reverente pela phantasia de S. +Alteza. Madame de Treves, essa, examinava serenamente, com a sua nobre +luneta, a installao da copa. S Dornan no se erguera da mesa, com os +punhos cerrados sobre a toalha, o gordo pescoo encovado, no tedio +sombrio de fera a quem arrancaram a posta. + +No emtanto S. Alteza pescava com fervor! Mas debalde! O gancho, pouco +agudo, sem presa, bamboleando na extremidade da guita frouxa, no +fisgava. + +--Oh Jacintho, erga essa luz! gritava elle, inchado e suado. Mais!... +Agora! Agora! na guelra! S na guelra que o gancho o pde prender. +Agora... Qual! Que diabo! No vae! + +Tirou a face do poo, resfolgando e affrontado. No era possivel! S +carpinteiros, com alavancas!... E todos, anciosamente, bradamos que se +abandonasse o peixe! + +O Principe, risonho, sacudindo as mos, concordava que por fim fra +mais divertido pescal-o do que coml-o! E o elegante bando refluiu +sofregamente para a mesa, ao som d'uma valsa de Strauss, que os Tziganes +arremearam em arcadas de languido ardr. S Madame de Treves se demorou +ainda, retendo o meu pobre Jacintho, para lhe assegurar quanto admirava +o arranjo da sua copa... Oh perfeita! Que comprehenso da vida, que fina +intelligencia do conforto! + +S. Alteza, encalmado pelo esforo, esvasiou poderosamente dous copos de +Chateau-Lagrange. Todos o acclamavam como um pescador genial. E os +escudeiros serviram o _Baro de Pauillac_, cordeiro das lezirias +marinhas, que, preparado com ritos quasi sagrados, toma este grande nome +sonoro e entra no Nobiliario de Frana. + +Eu comi com o appetite d'um heroe de Homero. Sobre o meu copo e o de +Dornan o Champagne scintillou e jorrou ininterrompidamente como uma +fonte de inverno. Quando se serviram ortolans gelados, que se derretiam +na bocca, o divino poeta murmurou, para meu regalo, o seu soneto sublime +a Santa Clara. E como, do outro lado, o moo de pennugem loura +insistia pela destruio do velho mundo, tambem concordei, e, sorvendo o +Champagne coalhado em sorvete, maldissemos o Seculo, a Civilisao, +todos os orgulhos da Sciencia! Atravs das flres e das luzes, no +emtanto, eu seguia as ondas arfantes do vasto peito de Madame Verghane, +que ria como uma bacchante. E nem me apiedava de Jacintho que, com a +doura de S. Jacintho sobre o cpo, esperava o fim do seu martyrio e da +sua festa. + +Ella findou. Ainda recordo, s tres horas da noite, o Gran-Duque na +antecamara, muito vermelho, mal firme nos ps pequeninos, sem acertar +com as mangas da pelissa que Jacintho e eu lhe ajudamos a +enfiar--convidando o meu amigo, n'uma effuso carinhosa, a ir caar s +suas terras da Dalmacia... + +--Devo ao meu Jacintho uma bella pesca, quero que elle me deva uma bella +caada! + +E emquanto o acompanhavamos, entre as alas dos escudeiros, pela vasta +escada onde o mordomo o precedia erguendo um candelabro de tres lumes, +S. Alteza repisava, pegajoso: + +--Uma bella caada... E tambem vae Fernandes! Bom Fernandes, Z +Fernandes! Ceia superior, meu Jacintho! O _Baro de Pauillac_, +divino!... Creio que o devemos nomear Duque... O Senhor Duque de +Pauillac! Mais um bocado da perna do Senhor Duque de Pauillac. Ah! +Ah!... No venham fra! No se constipem! + +E do fundo do coup, ao rodar, ainda bradou: + +--O peixe, Jacintho, desencalha o peixe! Excellente, ao almoo, frio, +com mlho verde! + +Trepando canadamente os degraus, n'uma molleza de Champagne e somno em +que os olhos se me cerravam, murmurei para o meu Principe: + +--Foi divertido, Jacintho! Sumptuosa mulher, a Verghane! Grande pena, o +elevador... + +E Jacintho, n'um som cavo que era bocejo e rugido: + +--Uma massada! E tudo falha! + + * * * * * + +Tres dias depois d'esta festa no 202 recebeu o meu Principe +inesperadamente, de Portugal, uma nova consideravel. Sobre a sua quinta +e solar de Tormes, por toda a serra, passra uma tormenta devastadora de +vento, corisco e agua. Com as grossas chuvas, ou por outras causas que +os peritos diro (como exclamava na sua carta angustiada o procurador +Silverio), um pedao de monte, que se avanava em socalco sobre o valle +da Carria, desabra, arrastando a velha egreja, uma egrejinha rustica +do seculo XVI, onde jaziam sepultados os avs de Jacintho desde os +tempos de el-rei D. Manoel. Os ossos veneraveis d'esses Jacinthos jaziam +agora soterrados sob um monto informe de terra e pedra. O Silverio j +comera com os moos da quinta a desatulhar dos preciosos restos. Mas +esperava anciosamente as ordens de sua exc.^a... + +Jacintho empallidecra, impressionado. Esse velho solo serrano, to rijo +e firme desde os Godos, que de repente ruia! Esses jazigos de paz +piedosa, precipitados com fragor, na borrasca e na treva, para um negro +fundo de valle! Essas ossadas, que todas conservavam um nome, uma data, +uma historia, confundidas n'um lixo de ruina! + +--Coisa estranha, coisa estranha!... + +E toda a noite me interrogou cerca da serra e de Tormes, que eu +conhecia desde pequeno, por que o velho solar, com a sua nobre alameda +de faias seculares, se erguia a duas legoas da nossa casa, no antigo +caminho de Guies estao e ao rio. O caseiro de Tormes, o bom +Melchior, era cunhado do nosso feitor da Roqueirinha:--e muitas vezes, +depois da minha intimidade com Jacintho, eu entrra no robusto casaro +de granito, e avalira o gro espalhado pelas salas sonoras, e provra o +vinho novo nas adegas immensas... + +--E a egreja, Z Fernandes?... Entraste na egreja? + +--Nunca... Mas era pittoresca, com uma torresinha quadrada, toda negra, +onde ha muitos annos vivia uma familia de cegonhas... Terrivel +transtorno para as cegonhas! + +--Coisa estranha! murmurava ainda o meu Principe, agourado. + +E telegraphou ao Silverio que desatulhasse o valle, recolhesse as +ossadas, reedificasse a Egreja, e, para esta obra de piedade e +reverencia, gastasse o dinheiro, sem contar, como a agua d'um rio largo. + + + + +V + + +No emtanto Jacintho, desesperado com tantos desastres humilhadores--as +torneiras que dessoldavam, os elevadores que emperravam, o Vapor que se +encolhia, a Electricidade que se sumia, decidiu valorosamente vencer as +resistencias finaes da Materia e da Fora por novas e mais poderosas +accumulaces de Mechanismos. E n'essas semanas de Abril, emquanto as +rosas desabrochavam, a nossa agitada casa, entre aquellas quietas casas +dos Campos-Elyseos que preguiavam ao sol, incessantemente tremeu, +envolta n'um p de calia e d'empreitada, com o bruto picar de pedra, o +retininte martelar de ferro. Nos silenciosos corredores, onde me era +dce fumar antes do almoo um pensativo cigarro, circulavam agora, desde +madrugada, ranchos d'operarios, de blusas brancas, assobiando o +_Pett-Bleu_, e intimidando os meus passos quando eu atravessava em +fralda e chinellas para o banho ou para outros retiros. Apenas se varava +com pericia algum andaime obstruindo as portas--logo se esbarrava com +uma pilha de taboas, uma ceira de farramentas ou um balde enorme +d'argamassa. E os pedaos de soalho levantado mostravam tristemente, +como n'um cadaver aberto, todos os interiores do 202, a ossatura, os +sensiveis nervos d'arame, os negros intestinos de ferro fundido. + +Cada dia estacava deante do porto alguma lenta carroa, d'onde os +creados, em mangas de camisa, descarregavam caixotes de madeira, fardos +de lona, que se despregavam e se descosiam n'uma sala asphaltada, ao +fundo do jardim, por traz da sebe de lilazes. E eu descia, reclamado +pelo meu Principe, para admirar uma nova Machina que nos tornaria a vida +mais facil, estabelecendo d'um modo mais seguro o nosso dominio sobre a +Substancia. Durante os calores, que apertaram depois da Asceno, +ensaiamos esperanadamente, para refrescar as aguas mineraes, a +Soda-Water e os Medocs ligeiros, tres geleiras, que se amontoaram na +copa successivamente desprestigiadas. Com os morangos novos appareceu um +instrumentosinho astuto, para lhes arrancar os ps, delicadamente. +Depois recebemos outro, prodigioso, de prata e crystal, para remexer +phreneticamente as saladas; e, na primeira vez que o experimentei, todo +o vinagre esparrinhou sobre os olhos do meu Principe, que fugiu aos +uivos! Mas elle teimava... Nos actos mais elementares, para alliviar ou +apressar o esforo, se soccorria Jacintho da Dynamica. E agora era por +interveno d'uma machina que abotoava as ceroulas. + +E simultaneamente, ou em obediencia sua Ida, ou governado pelo +despotismo do habito, no cessava, ao lado da Mechanica accumulada, de +accumular Erudio. Oh, a invaso dos livros no 202! Solitarios, aos +pares, em pacotes, dentro de caixas, franzinos, gordos e repletos de +auctoridade, envoltos em plebeia capa amarella ou revestidos de +marroquim e ouro, perpetuamente, torrencialmente, invadiam por todas as +largas portas a Bibliotheca, onde se estiravam sobre o tapete, se +repimpavam nas cadeiras macias, se enthronisavam em cima das mesas +robustas, e sobretudo trepavam contra as janellas, em sofregas pilhas, +como se, suffocados pela sua propria multido, procurassem com ancia +espao e ar! Na erudita nave, onde apenas alguns vidros mais altos +restavam descobertos, sem tapume de livros, perennemente se adensava um +pensativo crepusculo de outono emquanto fra Junho refulgia. A +Bibliotheca transbordra atravs de todo o 202! No se abria um armario +sem que de dentro se despenhasse, desamparada, uma pilha de livros! No +se franzia uma cortina sem que de traz surgisse, hirta, uma ruma de +livros! E immensa foi a minha indignao quando uma manh, correndo +urgentemente, de mos nas alas, encontrei, vedada por uma tremenda +colleco de Estudos Sociaes, a porta do Water-Closet! + +Mais amargamente porm me lembro da noite historica em que, no meu +quarto, moido e molle d'um passeio a Versalhes, com as palpebras +poeirentas e meio adormecidas, tive de desalojar do meu leito, +praguejando, um pavoroso Diccionario de Industria em trinta e sete +volumes! Senti ento a suprema fartura do livro. Ageitando, com murros, +os travesseiros, maldisse a Imprensa, a Facundia humana... E j me +estirra, adormecia, quando topei, quasi parti a preciosa rotula do +joelho, contra a lombada d'um tomo que velhacamente se aninhra entre a +parede e os colches. Com furor e um berro empolguei, arremessei o tomo +affrontoso--que entornou o jarro, inundou um tapete rico de Daghestan. E +nem sei se depois adormeci--porque os meus ps, a que no sentia nem o +pisar nem o rumor, como se um vento brando me levasse, continuaram a +tropear em livros no corredor apagado, depois na areia do jardim que o +luar branqueava, depois na Avenida dos Campos-Elyseos, povoada e ruidosa +como n'uma festa civica. E, oh portento! todas as casas aos lados eram +construidas com livros. Nos ramos dos castanheiros ramalhavam folhas de +livros. E os homens, as finas damas, vestidos de papel impresso, com +titulos nos dorsos, mostravam em vez de rosto um livro aberto, a que a +brisa lenta virava docemente as folhas. Ao fundo, na Praa da Concordia, +avistei uma escarpada montanha de livros, a que tentei trepar, +arquejante, ora enterrando a perna em flacidas camadas de versos, ora +batendo contra a lombada, dura como calhau, de tomos de Exegese e +Critica. A to vastas alturas subi, para alm da terra, para alm das +nuvens, que me encontrei, maravilhado, entre os astros. Elles rolavam +serenamente, enormes e mudos, recobertos por espessas crostas de livros, +d'onde surdia, aqui e alm, por alguma fenda, entre dois volumes mal +juntos, um raiosinho de luz suffocada e anciada. E assim ascendi ao +Paraiso. Decerto era o Paraiso--porque com meus olhos de mortal argila +avistei o Ancio da Eternidade, aquelle que no tem Manh nem Tarde. +N'uma claridade que d'elle irradiava mais clara que todas as claridades, +entre fundas estantes d'ouro abarrotadas de codices, sentado em +vetustissimos folios, com os flocos das infinitas barbas espalhados por +sobre resmas de folhetos, brochuras, gazetas e catalogos--o Altissimo +lia. A fronte super-divina que concebera o Mundo pousava sobre a mo +super-forte que o Mundo crera--e o Creador lia e sorria. Ousei, +arrepiado de sagrado horror, espreitar por cima do seu hombro +coruscante. O livro era brochado, de tres francos... O Eterno lia +Voltaire, n'uma edio barata, e sorria. + +Uma porta faiscou e rangeu, como se alguem penetrasse no Paraiso. Pensei +que um Santo novo chegra da Terra. Era Jacintho, com o charuto em +braza, um molho de cravos na lapella, sobraando tres livros amarellos +que a Princeza de Carman lhe emprestra para lr! + + * * * * * + +N'uma d'essas activas semanas, porm, a minha atteno subitamente se +despegou d'este interessante Jacintho. Hospede do 202, conservava no 202 +a minha mala e a minha roupa: e, acostado bandeira do meu Principe, +ainda occasionalmente comia do seu caldeiro sumptuoso. Mas a minha +alma, a minha embrutecida alma, e o meu corpo, o meu embrutecido corpo, +habitavam ento na rua do Helder, n.^o 16, quarto andar, porta +esquerda. + +Descia eu uma tarde, n'uma leda paz de idas e sensaes, o Boulevard da +Magdalena, quando avistei, deante da Estao dos Omnibus, rondando no +asphalto, n'um passo lento e felino, uma creatura secca, muito morena, +quasi tisnada, com dous fundos olhos taciturnos e tristes, e uma matta +de cabellos amarellados, toda crespa e rebelde, sob o chapo velho de +plumas negras. Parei, como colhido por um repuxo nas entranhas. A +creatura passou--no seu magro rondar de gata negra, sobre um beiral de +telhado, ao luar de Janeiro. Dous poos fundos no luzem mais negra e +taciturnamente do que luziam os seus olhos taciturnos e negros. No +recordo (Deus louvado!) como rocei o seu vestido de sda, lustroso e +encebado nas pregas; nem como lhe rosnei uma spplica por entre os +dentes que rangiam; nem como subimos ambos, morosamente e mais +silenciosos que condemnnados, para um gabinete do Caf Durand, safado e +mrno. Deante do espelho, a creatura, com a lentido d'um rito triste, +tirou o chapo e a romeira salpicada de vidrilhos. A sda poida do +corpete esgarava nos cotovellos agudos. E os seus cabellos eram +immensos, d'uma dureza e espessura de juba brava, em dous tons +amarellos, uns mais dourados, outros mais crestados, como a cdea de uma +torta ao sahir quente do forno. + +Com um riso tremulo, agarrei os seus dedos compridos e frios: + +--E o nomesinho, hein? + +Ella sria, quasi grave: + +--Madame Colombe, 16, rua do Helder, quarto andar, porta esquerda. + +E eu (miseravel Z Fernandes!) tambem me senti muito srio, trespassado +por uma emoo grave, como se nos envolvesse, n'aquella alcva de Caf, +a magestade d'um Sacramento. porta, empurrada levemente, o creado +avanou a face nedia. Ordenei uma lagosta, pato com pimentes, e +Borgonha. E foi smente ao findarmos o pato que me ergui, amarfanhando +convulsamente o guardanapo, e a tremer lhe beijei a bocca, todo a +tremer, n'um beijo profundo e terrivel, em que deixei a alma, entre +saliva e gsto de pimento! Depois, n'uma tipoia aberta, sob um bafo +molle de leste e de trovoada, subimos a Avenida dos Campos-Elyseos. Em +frente grade do 202 murmurei, para a deslumbrar com o meu luxo:--Mro +alli, todo o anno!... E como ao mirar o Palacete, debruada, ella +rora a matta fulva do pello crespo pela minha barba--berrei +desesperadamente ao cocheiro; que galopasse para a rua do Helder, n.^o +16, quarto andar, porta esquerda! + +Amei aquella creatura. Amei aquella creatura com Amor, com todos os +Amores que esto no Amor, o Amor divino, o Amor humano, o Amor bestial, +como Santo Antonino amava a Virgem, como Romeu amava Julietta, como um +bode ama uma cabra. Era estupida, era triste. Eu deliciosamente apagava +a minha alegria na cinza da sua tristeza; e com ineffavel gsto afundava +a minha razo na densidade da sua estupidez. Durante sete furiosas +semanas perdi a consciencia da minha personalidade de Z +Fernandes--Fernandes de Noronha e Sande, de Guies! Ora se me affigurava +ser um pedao de cra que se derretia, com horrenda delicia, n'um forno +rubro e rugidor: ora me parecia ser uma faminta fogueira onde +flammejava, estalava e se consumia um mlho de galhos seccos. D'esses +dias de sublime sordidez s conservo a impresso d'uma alcva forrada de +cretones sujos, d'uma bata de l cr de lilaz com sotaches negros, de +vagas garrafas de cerveja no marmore d'um lavatorio, e d'um corpo +tisnado que rangia e tinha cabellos no peito. E tambem me resta a +sensao de incessantemente e com arrobado deleite me despojar, +arremessar para um regao, que se cavava entre um ventre sumido e uns +joelhos agudos, o meu relogio, os meus berloques, os meus anneis, os +meus botes de punho de saphira, e as cento e noventa e sete libras em +ouro que eu trouxera de Guies n'uma cinta de camura. Do solido, +decoroso, bem fornecido Z Fernandes, s restava uma carcassa errando +atravz d'um sonho, com as gambias molles e a baba a escorrer. + +Depois, uma tarde, trepando com a costumada gula a escada da rua do +Helder, encontrei a porta fechada--e arrancado da hombreira aquelle +carto de _Madame Colombe_ que eu lia sempre to devotamente e que era a +sua taboleta... Tudo no meu ser tremeu como se o cho de Paris tremesse! +Aquella era a porta do Mundo que ante mim se fechra! Para alm estavam +as gentes, as cidades, a vida, Deus e Ella. E eu ficra ssinho, +n'aquelle patamar do No-ser, fra da porta que se fechra, unico ser +fra do Mundo! Rolei pelos degraus, com o fragor e a incoherencia d'uma +pedra, at ao cubiculo da porteira e do seu homem que jogavam as cartas +em ditosa pachorra, como se to pavoroso abalo no tivesse desmantelado +o Universo! + +--Madame Colombe? + +A barbuda comadre recolheu lentamente a vaza: + +--Ja no mora... Abalou esta manh, para outra terra, com outra porca! + +Para outra terra! com outra porca!... Vasio, negramente vasio de todo o +pensar, de todo o sentir, de todo o querer--boiei aos tombos, como um +tonel vasio, na corrente aodada do Boulevard, at que encalhei n'um +banco da Praa da Magdalena, onde tapei com as mos, a que no sentia a +febre, os olhos a que no sentia o pranto! Tarde, muito tarde, quando j +se cerravam com estrondo as cortinas de ferro das lojas, surdiu, d'entre +todas estas confusas ruinas do meu ser, a eterna sobrevivente de todas +as ruinas--a ideia de jantar. Penetrei no Durand, com os passos +entorpecidos d'um resuscitado. E, n'uma recordao que m'escaldava a +alma, encommendei a lagosta, o pato, o Borgonha! Mas ao alargar o +collarinho, ensopado pelo ardor d'aquella tarde de Julho, entre a poeira +da Magdalena, pensei com desconfrto:--Santissimo Nome de Deus! Que +immensa sde me fez esta desgraa!... De manso acenei ao moo:--Antes +do Borgonha, uma garrafa de Champagne, com muito glo, e um grande +copo!... Creio que aquelle Champagne se engarrafra no Ceu onde corre +perennemente a fresca fonte da Consolao, e que na garrafa bemdita que +me coube penetrra, antes d'arrolhada, um jorro largo d'essa fonte +inneffavel. Jesus! que transcendente regalo, o d'aquelle nobre copo, +embaciado, nevado, a espumar, a picar, n'um brilho d'ouro! E depois, +garrafa de Borgonha! E depois, garrafa de Cognac! E depois +Hortel-Pimenta granitada em glo! E depois um desejo arquejante de +espancar, com o meu rijo marmelleiro de Guies, a porca que fugira com +outra porca! Dentro da tipoia fechada, que me transportou n'um galope ao +202, no suffoquei este santo impulso, e com os meus punhos serranos +atirei murros retumbantes contra as almofadas, onde _via_, furiosamente +_via_ a matta immensa de pello amarello, em que a minha alma uma tarde +se perdera, e tres mezes se debatera, e para sempre se emporcalhra! +Quando o fiacre estacou no 202 ainda eu espancava to desesperadamente a +besta ingrata, que, aos berros do cocheiro, dous moos accudiram e me +sustiveram, recebendo pelos hombros, sobre as nucas servis, os restos +canados da minha colera. + +Em cima, repelli a sollicitude do Grillo que tentava impr ao _si_ Z +Fernandes, a Z Fernandes de Guies, a immensa indignidade d'um ch de +macella! E estirado no leito de D. Galio, com as botas sobre o +travesseiro, o chapo alto sobre os olhos, ri, n'um doloroso riso, +d'este Mundo burlesco e sordido de Jacinthos e de Colombes! E de repente +senti uma angustia horrenda. Era Ella! Era a Madame Colombe, que +esfuzira da chamma da vela, e saltra sobre o meu leito, e desabotora +o meu collete, e arrombra as minhas costellas, e toda ella, com as +saias sujas, mergulhra dentro do meu peito, e abocra o meu corao, e +chupava a sorvos lentos, como na rua do Helder, o sangue do meu corao! +Ento, certo da Morte, ganindo pela tia Vicencia, pendi do leito para +mergulhar na minha sepultura, que, atravs da nevoa final, eu distinguia +sobre o tapete--redondinha, vidrada, de porcelana e com aza. E, sobre a +minha sepultura, que to irreverentemente se assimilhava ao meu vaso, +vomitei o Borgonha, vomitei o pato, vomitei a lagosta. Depois, n'um +esforo ultra-humano, com um rugido, sentindo que, no smente toda a +entranha, mas a alma se esvasiava toda, vomitei Madame Colombe! Recahi +sobre o leito de D. Galio... Recarreguei o chapo sobre os olhos para +no sentir os raios do sol. Era um sol novo, um sol espiritual, que se +erguia sobre a minha vida. E adormeci, como uma creancinha docemente +embalada n'um bero de verga pelo Anjo da Guarda. + +De manh, lavei a pelle n'um banho profundo, perfumado com todos os +aromas do 202, desde folhas de limonete da India at essencia de jasmin +de Frana: e lavei a alma com uma rica carta da Tia Vicencia, em letra +farta, contando da nossa casa, e da linda promessa das vinhas, e da +compota de ginja que nunca lhe sahra to fina, e da alegre fogueira do +pateo em noite de S. Joo, e da menininha muito gorda e cabelluda que +vira do ceu para a minha afilhada Joanninha. Depois, janella, bem +limpo de alma e de corpo, n'uma quinzena de sedinha branca, tomando ch +de Nap, respirando os rosaes do jardim revividos pela chuva da +madrugada, considerei, em divertido pasmo, que, durante sete semanas, me +emporcalhra, na rua do Helder, com um estardalho muito magro e muito +tisnado! E conclui que padecera d'uma longa sezo, sezo da carne, sezo +da imaginao, apanhada n'um charco de Paris--n'esses charcos que se +formam atravs da Cidade com as aguas mortas, os limos, os lixos, os +tortulhos e os vermes d'uma Civilisao que apodrece. + + * * * * * + +Ento, curado, todo o meu espirito, como uma agulha para o Norte, se +virou logo para o meu complicado Principe, que, nas derradeiras semanas +da minha infeco sentimental, eu entrevira sempre descahido por cima de +sophs, ou vagueando atravs da Bibliotheca entre os seus trinta mil +volumes, com arrastados bocejos de inercia e de vacuidade. Eu, na minha +pressa indigna, s lhe lanava um distrahido--que isso? Elle, no seu +moroso desalento, s murmurava um scco-- calor! + +E, n'essa manh da minha libertao, ao penetrar antes d'almoo no seu +quarto, no soph o encontrei enterrado, com o _Figaro_ aberto sobre a +barriga, a Agenda cahida sobre o tapete, toda a face envolta em sombra, +e os ps abandonados, n'uma soberana tristeza, ao pedicuro que lhe polia +as unhas. Decerto o meu olhar reallumiado e repurificado, a brancura das +minhas flanellas reproduzindo a quietao das minhas sensaes, e a +segura harmonia em que todo o meu ser visivelmente se movia, +impressionaram o meu Principe--a quem a melancolia nunca embotava a +agudeza. Ergueu mollemente um brao molle: + +--Ento esse capricho? + +Derramei, sobre elle todo o fulgor d'um riso victorioso: + +--Morto! E, como o Snr. de Malbrouck, morto e bem enterrado. Jaz! Ou +antes, rola! Com effeito deve andar agora rolando por dentro do cano do +esgoto! + +Jacintho bocejou, murmurou: + +--Este Z Fernandes de Noronha e Sande!... + +E, no meu nome, no meu digno nome assim embrulhado n'um bocejo com +desprendida ironia, se resumiu todo o interesse d'aquelle Principe pela +suja tormenta em que se debatera o meu corao! Mas no me melindrou +esse consummado egoismo... Claramente percebia eu que o meu Jacintho +atravessava uma densa nevoa de tedio, to densa, e elle to afundado na +sua molle densidade, que as glorias ou os tormentos d'um camarada no o +commoviam, como muito remotas, intangiveis, separadas da sua +sensibilidade por immensas camadas de algodo. Pobre Principe da +Gran-Ventura, tombado para o soph de inercia, com os ps no regao do +pedicuro! Em que lodoso fastio cahira, depois de renovar to bravamente +todo o recheio mechanico e erudito do 202, na sua lucta contra a Fora e +a Materia!--E esse fastio no o escondeu mais do seu velho Z Fernandes +quando recomeou entre ns a communho de vida e de alma a que eu to +torpemente me arrancra, uma tarde, deante da Estao dos Omnibus, no +charco da Magdalena. + +No eram certamente confisses enunciadas. O elegante e reservado +Jacintho no torcia os braos, gemendo--Oh vida maldita! Eram apenas +expresses saciadas; um gesto de repellir com rancr a importunidade das +coisas; por vezes uma immobilidade determinada, de protesto, no fundo +d'um divan, d'onde se no desenterrava, como para um repouso que +desejasse eterno; depois os bocejos, os cos bocejos com que sublinhava +cada passo, continuado por fraqueza ou por dever inilludivel; e +sobretudo aquelle murmurar que se tornra perenne e natural--Para +que?--No vale a pena!--Que massada!... + +Uma noite no meu quarto, descalando as botas, consultei o Grillo: + +--Jacintho anda to mucho, to corcunda... Que ser, Grillo? + +O venerando preto declarou com uma certeza immensa: + +--S. Exc.^a soffre de fartura. + +Era fartura! O meu Principe sentia abafadamente a fartura de Paris:--e +na Cidade, na symbolica Cidade, fra de cuja vida culta e forte (como +elle outr'ora gritava, illuminado) o homem do seculo XIX nunca poderia +saborear plenamente a delicia de viver, elle no encontrava agora +frma de vida, espiritual ou social, que o interessasse, lhe valesse o +esfro d'uma corrida curta n'uma tipoia facil. Pobre Jacintho! Um +jornal velho, setenta vezes relido desde a Chronica at aos Annuncios, +com a tinta delida, as dobras rodas, no enfastiaria mais o Solitario, +que s possuisse na sua Solido esse alimento intellectual, do que o +Parisianismo enfastiava o meu doce camarada! Se eu n'esse vero +capciosamente o arrastava a um Caf-Concerto, ou ao festivo Pavilho +d'Armenonville, o meu bom Jacintho, collado pesadamente cadeira com um +maravilhoso ramo de orchideas na casaca, as finas mos abatidas sobre o +casto da bengala, conservava toda a noite uma gravidade to estafada, +que eu, compadecido, me erguia, o libertava, gozando a sua pressa em +abalar, a sua fuga d'ave solta... Raramente (e ento com vehemente +arranque como quem salta um fosso) descia a um dos seus Clubs, ao fundo +dos Campos-Elyseos. No se occupara mais das suas Sociedades e +Companhias, nem dos _Telephones de Constantinopla_, nem das _Religies +Esotericas_, nem do _Bazar Espiritualista_, cujas cartas fechadas se +amontoavam sobre a mesa d'ebano, d'onde o Grillo as varria tristemente +como o lixo d'uma vida finda. Tambem lentamente se despegava de todas as +suas convivencias. As paginas da Agenda cr de rosa murcha andavam +desafogadas e brancas. E se ainda cedia a um passeio de Mail-coach, ou a +um convite para algum Castello amigo dos arredores de Paris, era to +arrastadamente, com um esforo to saturado ao enfiar o paletot leve, +que me lembrava sempre um homem, depois d'um gordo jantar de provincia, +a estalar, que, por pollidez ou em obediencia a um dogma, devesse ainda +comer uma lampra de ovos! + +Jazer, jazer em casa, na segurana das portas bem cerradas e bem +defendidas contra toda a intruso do mundo, seria uma doura para o meu +Principe se o seu proprio 202, com todo aquelle tremendo recheio de +Civilisao, no lhe dsse uma sensao dolorosa de abafamento, de +atulhamento! Julho escaldava: e os brocados, as alcatifas, tantos moveis +rolios e ffos, todos os seus metaes e todos os seus livros, to +espessamente o opprimiam, que escancarava sem cessar as janellas para +prolongar o espao, a claridade, a frescura. Mas era ento a poeira, +suja e acre, rolada em bafos mornos, que o enfurecia: + +--Oh, este p da Cidade! + +--Mas, oh Jacintho, por que no vamos para Fontainebleau, ou para +Montmorency, ou... + +--P'ra o campo? O que! P'ra o campo?! + +E na sua face enrugada, atravs d'este berro, lampejava sempre tanta +indignao, que eu curvava os hombros, humilde, no arrependimento de ter +affrontosamente ultrajado o Principe que tanto amava. Desventurado +Principe! Com o seu dourado cigarro d'Yaka a fumegar, errava ento pelas +salas, lenta e murchamente, como quem vaga em terra alheia sem affeies +e sem occupaes. Esses desaffeioados e desoccupados passos +monotonamente o traziam ao seu centro, ao gabinete verde, Bibliotheca +d'ebano, onde accumulara Civilisao nas maximas propores para gozar +nas maximas propores a delicia de viver. Espalhava em trno um olhar +farto. Nenhuma curiosidade ou interesse lhe sollicitavam as mos, +enterradas nas algibeiras das pantalonas de sda, n'uma inercia de +derrota. Annulado, bocejava com descoroada molleza. E nada mais +instructivo e doloroso do que este supremo homem do seculo XIX, no meio +de todos os apparelhos reforadores dos seus orgos, e de todos os fios +que disciplinavam ao seu servio as Foras Universaes, e dos seus trinta +mil volumes repletos do saber dos seculos--estacando, com as mos +derrotadas no fundo das algibeiras, e exprimindo, na face e na indeciso +molle d'um bocejo, o embarao de viver! + + + + +VI + + +Todas as tardes, cultivando uma d'essas intimidades que entre tudo o que +cana jmais canam, Jacintho, s quatro horas, com regularidade devota, +visitava Madame d'Oriol:--por que essa flr de Parisianismo permanecera +em Paris, mesmo depois do Grand-Prix, a desbotar na calma e no cisco da +Cidade. N'uma d'essas tardes, porm, o Telephone, anciosamente repicado, +avisou Jacintho de que a sua dce amiga jantava em Enghien com os +Trves. (Esses senhores gozavam o seu vero beira do lago, n'uma casa +toda branca e vestida de rosinhas brancas que pertencia a Ephrain). + +Era um domingo silencioso, ennevoado e macio, convidando s +voluptuosidades da melancolia. E eu (no interesse da minha alma) suggeri +a Jacintho que subissemos Basilica do _Sacr-Coeur_, em construco +nos altos de Montmartre. + +-- uma secca, Z Fernandes... + +--Com mil demonios! Eu nunca vi a Basilica... + +--Bem, bem! Vamos Basilica, homem fatal de Noronha e Sande! + +E por fim logo que comeamos a penetrar, para alm de S. Vicente de +Paula, em bairros estreitos e ingremes, d'uma quietao de provincia, +com muros velhos fechando quintalejos rusticos, mulheres despenteadas +cozendo soleira das portas, carriolas desatreladas descanando diante +das tascas, gallinhas soltas picando o lixo, cueiros molhados seccando +em canas--o meu fastidioso camarada sorriu quella liberdade e singeleza +das cousas. + +A vittoria parou em frente larga rua de escadarias que trepa, cortando +viellasinhas campestres, at esplanada, onde, envolta em andaimes, se +ergue a Basilica immensa. Em cada patamar barracas d'arraial devoto, +forradas de panninho vermelho, transbordavam de Imagens, Bentinhos, +Crucifixos, Coraes de Jesus bordados a retroz, claros molhos de +Rosarios. Pelos cantos, velhas agachadas resmungavam a Av-Maria. Dois +padres desciam, tomando risonhamente uma pitada. Um sino lento tilintava +na doura cinzenta da tarde. E Jacintho murmurou, com agrado: + +-- curioso! + +Mas a Basilica em cima no nos interessou, abafada em tapumes e +andaimes, toda branca e scca, de pedra muito nova, ainda sem alma. E +Jacintho, por um impulso bem Jacinthico, caminhou gulosamente para a +borda do terrao, a contemplar Paris. Sob o ceu cinzento, na planicie +cinzenta, a Cidade jazia, toda cinzenta, como uma vasta e grossa camada +de calia e telha. E, na sua immobilidade e na sua mudez, algum rolo de +fumo, mais tenue e ralo que o fumear d'um escombro mal apagado, era todo +o vestigio visivel da sua vida magnifica. + +Ento chasqueei risonhamente o meu Principe. Ahi estava pois a Cidade, +augusta creao da Humanidade! Eil-a ahi, bello Jacintho! Sobre a crosta +cinzenta da Terra--uma camada de calia, apenas mais cinzenta! No +emtanto ainda momentos antes a deixaramos prodigiosamente viva, cheia +d'um povo forte, com todos os seus poderosos orgos funccionando, +abarrotada de riqueza, resplandecente de sapiencia, na triumphal +plenitude do seu orgulho, como Rainha do Mundo coroada de Graa. E agora +eu e o bello Jacintho trepavamos a uma collina, espreitavamos, +escutavamos--e de toda a estridente e radiante Civilisao da Cidade no +percebiamos nem um rumor nem um lampejo! E o 202, o soberbo 202, com os +seus arames, os seus apparelhos, a pompa da sua Mechanica, os seus +trinta mil livros? Sumido, esvado na confuso de telha e cinza! Para +este esvaecimento pois da obra humana, mal ella se comtempla de cem +metros de altura, arqueja o obreiro humano em to angustioso esforo? +Hein, Jacintho?... Onde esto os teus Armazens servidos por tres mil +caixeiros? E os Bancos em que retine o ouro universal? E as Bibliothecas +atulhadas com o saber dos seculos? Tudo se fundiu n'uma nodoa parda que +suja a Terra. Aos olhos piscos de um Z Fernandes, logo que elle suba, +fumando o seu cigarro, a uma arredada collina--a sublime edificao dos +Tempos no mais que um silencioso monturo da espessura e da cr do p +final. O que ser ento aos olhos de Deus! + +E ante estes clamores, lanados com affavel malicia para espicaar o meu +Principe, elle murmurou, pensativo: + +--Sim, talvez tudo uma illuso... E a Cidade a maior illuso! + +To facilmente victorioso redobrei de facundia. Certamente, meu +Principe, uma Illuso! E a mais amarga, por que o Homem pensa ter na +Cidade a base de toda a sua grandeza e s n'ella tem a fonte de toda a +sua miseria. V, Jacintho! Na Cidade perdeu elle a fora e belleza +harmoniosa do corpo, e se tornou esse ser resequido e escanifrado ou +obeso e afogado em unto, de ossos molles como trapos, de nervos tremulos +como arames, com cangalhas, com chins, com dentaduras de chumbo, sem +sangue, sem febra, sem vio, torto, corcunda--esse ser em que Deus, +espantado, mal pde reconhecer o seu esbelto e rijo e nobre Ado! Na +Cidade findou a sua liberdade moral: cada manh ella lhe impe uma +necessidade, e cada necessidade o arremessa para uma dependencia: pobre +e subalterno, a sua vida um constante sollicitar, adular, vergar, +rastejar, aturar; rico e superior como um Jacintho, a Sociedade logo o +enreda em tradies, preceitos, etiquetas, ceremonias, praxes, ritos, +servios mais disciplinares que os d'um carcere ou d'um quartel... A sua +tranquillidade (bem to alto que Deus com elle recompensa os Santos) +onde est, meu Jacintho? Sumida para sempre, n'essa batalha desesperada +pelo po, ou pela fama, ou pelo poder, ou pelo gzo, ou pela fugidia +rodella d'ouro! Alegria como a haver na Cidade para esses milhes de +seres que tumultuam na arquejante occupao de _desejar_--e que, nunca +fartando o desejo, incessantemente padecem de desilluso, desesperana +ou derrota? Os sentimentos mais genuinamente humanos logo na Cidade se +deshumanisam! V, meu Jacintho! So como luzes que o aspero vento do +viver social no deixa arder com serenidade e limpidez; e aqui abala e +faz tremer; e alm brutamente apaga; e adiante obriga a flammejar com +desnaturada violencia. As amizades nunca passam d'allianas que o +interesse, na hora inquieta da defeza ou na hora sofrega do assalto, ata +apressadamente com um cordel apressado, e que estalam ao menor embate da +rivalidade ou do orgulho. E o Amor, na Cidade, meu gentil Jacintho? +Considera esses vastos armazens com espelhos, onde a nobre carne d'Eva +se vende, tarifada ao arratel, como a de vacca! Contempla esse velho +Deus do Hymeneu, que circula trazendo em vez do ondeante facho da Paixo +a apertada carteira do Dote! Espreita essa turba que foge dos largos +caminhos assoalhados em que os Faunos amam as Nymphas na boa lei +natural, e busca tristemente os recantos lobregos de Sodoma ou de +Lesbos!... Mas o que a Cidade mais deteriora no homem a Intelligencia, +por que ou lh'a arregimenta dentro da banalidade ou lh'a empurra para a +extravagancia. N'esta densa e pairante camada d'Idas e Formulas que +constitue a atmosphera mental das Cidades, o homem que a respira, n'ella +envolto, s pensa todos os pensamentos j pensados, s exprime todas as +expresses j exprimidas:--ou ento, para se destacar na pardacente e +chata Rotina e trepar ao fragil andaime da gloriola, inventa n'um +gemente esforo, inchando o craneo, uma novidade disforme que espante e +que detenha a multido como um mostrengo n'uma Feira. Todos, +intelectualmente, so carneiros, trilhando o mesmo trilho, balando o +mesmo balido, com o focinho pendido para a poeira onde pisam, em fila, +as pgadas pisadas;--e alguns so macacos, saltando no topo de mastros +vistosos, com esgares e cabriolas. Assim, meu Jacintho, na Cidade, +n'esta creao to anti-natural onde o solo de pau e feltro e +alcatro, e o carvo tapa o ceu, e a gente vive acamada nos predios como +o panninho nas lojas, e a claridade vem pelos canos, e as mentiras se +murmuram atravs d'arames--o homem apparece como uma creatura +anti-humana, sem belleza, sem fora, sem liberdade, sem riso, sem +sentimento, e trazendo em si um espirito que passivo como um escravo +ou impudente como um histrio... E aqui tem o bello Jacintho o que a +bella Cidade! + +E ante estas encanecidas e veneraveis invectivas, retumbadas +pontualmente por todos os Moralistas bucolicos, desde Hesiodo, atravez +dos seculos--o meu Principe vergou a nuca docil, como se ellas +brotassem, inesperadas e frescas, d'uma Revelao superior, n'aquelles +cimos de Montmartre: + +--Sim, com effeito, a Cidade... talvez uma illuso perversa! + +Insisti logo, com abundancia, puchando os punhos, saboreando o meu facil +philosophar. E se ao menos essa illuso da Cidade tornasse feliz a +totalidade dos sres, que a manteem... Mas no! S uma estreita e +reluzente casta goza na Cidade os gozos especiaes que ella cria. O +resto, a escura, immensa plebe, s n'ella soffre, e com soffrimentos +especiaes que s n'ella existem! D'este terrao, junto a esta rica +Basilica consagrada ao Corao que amou o Pobre e por elle sangrou, bem +avistamos ns o lobrego casario onde a plebe se curva sob esse antigo +opprobrio de que nem Religies, nem Philosophias, nem Moraes, nem a sua +propria fora brutal a podero jmais libertar! Ahi jaz, espalhada pela +Cidade, como esterco vil que fecunda a Cidade. Os seculos rolam; e +sempre immutaveis farrapos lhe cobrem o corpo, e sempre debaixo d'elles, +atravs do longo dia, os homens labutaro e as mulheres choraro. E com +este labor e este pranto dos pobres, meu Principe, se edifica a +abundancia da Cidade! Eil-a agora coberta de moradas em que elles se no +abrigam; armazenada de estofos, com que elles se no agasalham; +abarrotada de alimentos, com que elles se no saciam! Para elles s a +neve, quando a neve ce, e entorpece e sepulta as creancinhas aninhadas +pelos bancos das praas ou sob os arcos das pontes de Paris... A neve +ce, muda e branca na treva: as creancinhas gelam nos seus trapos: e a +policia, em torno, ronda attenta para que no seja perturbado o tpido +somno d'aquelles que amam a neve, para patinar nos lagos do Bosque de +Bolonha com pellias de tres mil francos. Mas qu, meu Jacintho! a tua +Civilisao reclama insaciavelmente regalos e pompas, que s obter, +n'esta amarga desharmonia social, se o Capital dr ao Trabalho, por cada +arquejante esfro, uma migalha ratinhada. Irremediavel , pois, que +incessantemente a plebe sirva, a plebe pne! A sua esfalfada miseria a +condio do esplendor sereno da Cidade. Se nas suas tigellas fumegasse a +justa rao de caldo--no poderia apparecer nas baixellas de prata a +luxuosa poro de _foie-gras_ e tubaras que so o orgulho da +Civilisao. Ha andrajos em trapeiras--para que as bellas Madamas +d'Oriol, resplandecentes de sdas e rendas, subam, em doce ondulao, a +escadaria da Opera. Ha mos regeladas que se estendem, e beios sumidos +que agradecem o dom magnanimo d'um _sou_--para que os Ephrains tenham +dez milhes no Banco de Frana, se aqueam chamma rica da lenha +aromatica, e surtam de collares de saphiras as suas concubinas, netas +dos Duques d'Athenas. E um povo chora de fome, e da fome dos seus +pequeninos--para que os Jacinthos, em janeiro, debiquem, bocejando, +sobre pratos de Saxe, morangos gelados em Champagne e avivados d'um fio +d'ether! + +--E eu comi dos teus morangos, Jacintho! Miseraveis, tu e eu! + +Elle murmurou, desolado: + +-- horrivel, comemos d'esses morangos... E talvez por uma illuso! + +Pensativamente deixou a borda do terrao, como se a presena da Cidade, +estendida na planicie, fosse escandalosa. E caminhamos devagar, sob a +molleza cinzenta da tarde, philosophando--considerando que para esta +iniquidade no havia cura humana, trazida pelo esforo humano. Ah, os +Ephrains, os Trves, os vorazes e sombrios tubares do mar humano, s +abandonaro ou affrouxaro a explorao das Plebes, se uma influencia +celeste, por milagre novo, mais alto que os milagres velhos, lhes +converter as almas! O burguez triumpha, muito forte, todo endurecido no +peccado--e contra elle so impotentes os prantos dos Humanitarios, os +raciocinios dos Logicos, as bombas dos Anarchistas. Para amollecer to +duro granito s uma doura divina. Eis pois esperana da terra novamente +posta n'um Messias!... Um decerto desceu outrora dos grandes Ceus; e, +para mostrar bem que mandado trazia, penetrou mansamente no mundo pela +porta d'um curral. Mas a sua passagem entre os homens foi to curta! Um +meigo sermo n'uma montanha, ao fim d'uma tarde meiga; uma reprehenso +moderada aos Phariseus que ento redigiam o _Boulevard_; algumas +vergastadas nos Ephrains vendilhes; e logo, atravs da porta da morte, +a fuga radiosa para o Paraiso! Esse adoravel filho de Deus teve +demasiada pressa em recolher a casa de seu Pae! E os homens a quem elle +incumbira a continuao da sua obra, envolvidos logo pelas influencias +dos Ephrains, dos Trves, da gente do _Boulevard_, bem depressa +esqueceram a lio da Montanha e do lago de Tiberiade--e eis que por seu +turno revestem a purpura, e so Bispos, e so Papas, e se alliam +oppresso, e reinam com ella, e edificam a durao do seu Reino sobre a +miseria dos sem-po e dos sem-lar! Assim tem de ser recomeada a obra da +Redempo. Jesus, ou Guatama, ou Christna, ou outro d'esses filhos que +Deus por vezes escolhe no seio d'uma Virgem, nos quietos vergeis da +Asia, dever novamente descer terra de servido. Vir elle, o +desejado? Porventura j algum grave rei d'Oriente despertou, e olhou a +estrella, e tomou a myrrha nas suas mos reaes, e montou pensativamente +sobre o seu dromedario? J por esses arredores da dura Cidade, de noute, +emquanto Caiphaz e Magdalena ceam lagosta no Paillard, andou um Anjo, +attento, n'um vo lento, escolhendo um curral? J de longe, sem moo que +os tanja, na gostosa pressa d'um divino encontro, vem trotando a vacca, +trotando o burrinho? + +--Tu sabes, Jacintho? + +No, Jacintho no sabia--e queria accender o charuto. Forneci um +phosphoro ao meu Principe. Ainda rondamos no terrao, espalhando pelo ar +outras idas solidas que no ar se desfaziam. Depois penetravamos na +Basilica--quando um Sachristo nedio, de barrete de velludo, cerrou +fortemente a porta, e um Padre passou, enterrando na algibeira, com um +canado gesto final e como para sempre, o seu velho Breviario. + +--Estou com uma sde, Jacintho... Foi esta tremenda Philosophia! + +Descemos a escadaria, armada em arraial devoto. O meu pensativo camarada +comprou uma imagem da Basilica. E saltavamos para a vittoria, quando +alguem gritou rijamente, n'uma surpreza: + +--Eh Jacintho! + +O meu Principe abriu os braos, tambem espantado: + +--Eh Mauricio! + +E, n'um alvoroo, atravessou a rua, para um caf, onde, sob o toldo de +riscadinho, um robusto homem, de barba em bico, remexia o seu absintho, +com o chapo de palha descahido na nuca, a quinzena solta sobre a camisa +de sda, sem gravata, como se descanasse n'um banco, entre as sombras +do seu jardim. + +E ambos, apertando as mos, se admiravam d'aquelle encontro, n'um +domingo de vero, sobre as alturas de Montmartre. + +--Oh! eu estou aqui no meu bairro! exclamava alegremente Mauricio. Em +familia, em chinellos... Ha tres mezes que subi para estes cimos da +Verdade... Mas tu na Santa Colina, homem profano da planicie e das ruas +d'Israel! + +O meu Principe mostrou o seu Z Fernandes: + +--Com este amigo, em peregrinao Basilica... O meu amigo Fernandes +Lorena... Mauricio de Mayolle, velho camarada. + +Mr. de Mayolle (que, pela face larga e nariz nobremente grosso, lembrava +Francisco de Valois, Rei de Frana) ergueu o seu chapeu de palha. E +empurrava uma cadeira, insistia que nos accommodassemos para um absintho +ou para um bock. + +--Toma um bock, Z Fernandes! lembrou Jacintho. Tu estavas a ganir com +sde! + +Corri lentamente a lingua sobre os beios, mais scos que pergaminhos: + +--Estou a guardar esta sdesinha para logo, para o jantar, com um +vinhosinho gelado! + +Mauricio saudou, com silenciosa admirao, esta minha avisada malicia. E +immediatamente, para o meu Principe: + +--Ha tres annos que te no vejo, Jacintho... Como tem sido possivel, +n'este Paris que uma aldeola e que tu atravancas? + +--A vida, Mauricio, a espalhada vida... Com effeito! Ha tres annos, +desde a casa dos Lamotte-Orcel. Tu ainda visitas esse santuario? + +Mauricio atirou um gesto desdenhoso e largo, que sacudia um mundo: + +--Oh! Ha mais d'um anno que me separei d'essa bicharia heretica... Uma +turba indisciplinada, meu Jacintho! Nenhuma fixidez, um dilletantismo +estonteado, carencia completa e comica de toda a base experimental... +Quando tu ias aos Lamotte-Orcel, e Parola do 37, e _Cerveja ideal_, +o que reinava?... + +Jacintho catou lentamente as suas recordaes por entre os pllos do +bigode: + +--Eu sei!... Reinava Wagner e a Mithologia Eddica, e o Raganarock, e as +Nornas... Muito Pre-Raphaelismo tambem, e Montagna, e Fra-Angelico... Em +moral, o Renanismo. + +Mauricio sacudia os hombros. Oh, tudo isso pertencia a um passado +archaico, quasi lacustre! Quando Madame de Lamotte-Orcel remobilra a +sala com velludos Morris, grossas alcachofras sobre tons d'aafro, j o +Renanismo passra, to esquecido como o Cartesianismo... + +--Tu ainda s do tempo do culto do _Eu_? + +O meu Principe suspirou risonhamente: + +--Ainda o cultivei. + +--Pois bem! Logo depois foi o Hartmanismo, o Inconsciente. Depois o +Nietzismo, o Feudalismo espiritual... Depois grassou o Tolstosmo, um +furor immenso de renunciamento neo-cenobitico. Ainda me lembro d'um +jantar em que appareceu um mostrengo d'um slavo, de guedelha sordida, +que atirava olhos medonhos para o decote da pobre condessa d'Arche, e +que grunhia com o dedo espetado:--Busquemos a luz, muito por baixo, no +p da terra!--E sobremeza bebemos delicia da humildade e do +trabalho servil, com aquelle Champagne Marceaux granitado que a Mathilde +dava nos grandes dias em copos da frma do San-Gral! Depois veio +Emersonismo... Mas a praga cruel foi Ibsenismo! Emfim, meu filho, uma +Babel de Ethicas e Estheticas. Paris parecia demente. J havia uns +desgarrados que tendiam para o Luciferismo. E amiguinhas nossas, +coitadas, iam descambando para o Phallismo, uma moxinifada +mystico-brejeira, prgada por aquelle pobre La Carte que depois se fez +Monge Branco, e que anda no Deserto... Um horror! E uma tarde, de +repente, toda esta massa se precipita com ancia para o Ruskinismo! + +Eu, agarrado bengala, bem fincada no cho, sentia como um vendaval que +redemoinhava, me torcia o craneo! E at Jacintho balbuciou, esgazeado: + +--O Ruskinismo? + +--Sim, o velho Ruskin,... John Ruskin! + +O meu ditoso Principe comprehendeu: + +--Ah, Ruskin!... _As sete lampadas da Architectura_, _A Cora de +Oliveira Brava_... o culto da Belleza. + +--Sim! O culto da Belleza, confirmou Mauricio. Mas a esse tempo eu, +enojado, j descera de todas essas nuvens vs... Pisava um cho mais +seguro, mais fertil. + +Deu um sorvo lento ao absintho, cerrando as palpebras. Jacintho +esperava, com o seu fino nariz dilatado, como para respirar a Flr de +Novidade que ia desabrochar: + +--E ento? ento?... + +Mas o outro murmurou, dispersamente, por entre reticencias em que se +velava: + +--Vim para Montmartre... Tenho aqui um amigo, um homem de genio, que +percorreu toda a India... Viveu com os Toddas, esteve nos mosteiros de +Garma-Khian e de Dashi-Lumbo, e estudou com Gegen-Chutu no retiro santo +de Urga... Gegen-Chutu foi a decima-sexta encarnao de Guatama, e era +portanto um Boddi-sattva... Trabalhamos, procuramos... No so vises. +Mas factos, experiencias bem antigas, que vem talvez desde os tempos de +Christna... + +Atravs d'estes nomes, que exhalavam um perfume triste de vetustos +ritos, arredra a cadeira. E de p, deixando cair sobre a mesa, +distrahidamente, para pagar o absintho, moedas de prata e moedas de +cobre, murmurava com os olhos descanados em Jacintho, mas perdidos +n'outra viso: + +--Por fim tudo se reduz ao supremo desenvolvimento da Vontade dentro da +suprema pureza da Vida. toda a sciencia e fora dos grandes mestres +Hindus... Mas a pureza absoluta da vida, eis a lucta, eis o obstaculo! +No basta mesmo o Deserto, nem o bosque do mais velho templo no alto +Thibet... Ainda assim, meu Jacintho, j obtivemos resultados bem +extranhos. Sabes as experiencias de Tyndall, com as chammas +sensitivas... O pobre chimico, para demonstrar as vibraes do som, +tocou quasi s portas da verdade isoterica. Mas qu! homem de sciencia, +portanto homem d'estupidez, ficou quem, entre as suas placas e as suas +retortas! Ns fmos alm. Verificmos as _ondulaes da Vontade_! Deante +de ns, pela expanso da energia do meu companheiro, e em cadencia com o +seu mandado, uma chamma, a tres metros, ondulou, rastejou, despediu +linguas ardentes, lambeu uma alta parede, rugiu furiosa e negra, +resplandeceu direita e silenciosa, e bruscamente abatida em cinza +morreu! + +E o extranho homem, com o chapeu para a nuca, ficou immovel, de braos +abertos e os olhares esgazeados, como no renovado assombro e no transe +d'aquelle prodigio. Depois, recahindo no seu modo facil e sereno, +accendendo de vagar um cigarro: + +--Uma d'estas manhs, Jacintho, appareo no 202, para almoar comtigo, e +levo o meu amigo. Elle s come arrz, uma pouca de salada, e fructa. E +conversamos... Tu tinhas um exemplar do _Sepher-Zerijah_ e outro do +_Targum d'Onkelus_. Preciso folhear esses livros. + +Apertou a mo do meu Principe, saudou este assombrado Z Fernandes, e +serenamente seguiu pela quieta rua, com o chapeu de palha para a nuca, +as mos enterradas nas algibeiras, como um homem natural entre cousas +naturaes. + +--Oh Jacintho! Quem este bruxo? Conta!... Quem elle, santissimo nome +de Deus? + +Recostado na vittoria, ageitando o vinco das calas, o meu Principe +contou, concisamente. Era um nobre e leal rapaz, muito rico, muito +intelligente, da antiga casa soberana de Mayolle, descendente dos Duques +de Septimania... E murmurou, atravs do costumado bocejo: + +--O desenvolvimento supremo da vontade!... Theosophia, Buddhismo +isoterico... Aspiraes, decepes... J experimentei... Uma massada! + +Atravessamos, callados, o rumr de Paris, sob a molleza abafada do +crepusculo de vero, para jantar no Bosque, no Pavilho d'Armenonville, +onde os Tziganes, avistando Jacintho, tocaram o _Hymno da Carta_ com +paixo, com langor, n'uma cadencia de _czarda_ dolorosa e aspera. + +E eu, desdobrando regaladamente o guardanapo: + +--Pois venha agora para a minha rica sde esse vinhosinho gelado! +Grandemente o mereo, caramba, que superiormente philosophei!... E creio +que estabeleci definitivamente no espirito do Snr. D. Jacintho o salutar +horror da cidade! + +O meu Principe percorria, catando o bigode, a Lista-dos-Vinhos, em +quanto o Copeiro, esperava com pensativa reverencia: + +--Mande gelar duas garrafas de champagne S.^t Marceaux... Mas antes, um +Barsac velho, apenas refrescado... Agoa de Evian... No, de Bussang! +Bem, d'Evian e de Bussang! E, para comear, um bock. + +Depois, bocejando, desabotoando lentamente a sobrecasaca cinzenta: + +--Pois estou com vontade de construir uma casa nos cimos de Montmartre, +com um miradouro no alto, todo de vidro e ferro, para descanar de tarde +e dominar a Cidade... + + + + +VII + + +Julho findra com uma chuva refrescante e consoladora:--e eu pensava em +realisar finalmente a minha romagem s cidades da Europa, sempre +retardada, atravs da primavera, pelas surprezas do Mundo e da Carne. +Mas, de repente, Jacintho comeou a rogar e a reclamar que o seu Z +Fernandes o acompanhasse, todas as tardes, a casa de Madame d'Oriol! E +eu comprehendi que o meu Principe ( maneira do divino Achilles, que, +sob a tenda, e junto da branca, insipida e docil Briseis, nunca +dispensava Patoclo) desejava ter, no retiro do Amor, a presena, o +confrto e o soccorro da Amizade. Pobre Jacintho! Logo pela manh +combinava pelo telephone com Madame d'Oriol essa hora de quietao e +doura. E assim encontravamos sempre a superfina Dama prevenida e +solitaria n'aquella sala da rua de Lisbonne, onde Jacintho e eu mal +cabiamos, suffocavamos na confuso, entre os cestos de flres, e os +ouros rocalhados, e os monstros do Japo, e a galante fragilidade dos +Saxes, e as pelles de feras estiradas aos ps de sophs adormecedores, e +os biombos de Aubusson formando alcvas favoraveis e languidas... +Aninhada n'uma cadeira de bamb lacada de branco, entre almofadas +aromatisadas de verbena da India, com um romance pousado no regao, ella +esperava o seu amigo, n'uma certa indolencia passiva e mansa que me +lembrava sempre o Oriente e um Harem. Mas, pelas frescas sedinhas +Pompadour, parecia tambem uma marquezinha de Versalhes canada do grande +seculo; ou ento, com brocados sombrios e largos cintos cravejados, era +como uma veneziana, preparada para um Doge. A minha intruso, na +intimidade d'aquellas tardes, no a contrariava--antes lhe trazia um +vassallo novo, com dous olhos novos para a contemplar. Eu era j o seu +_cher Fernandez_! + +E apenas descerrava os labios avivados de vermelho, semelhantes a uma +ferida fresca, e comeava a chalrar--logo nos envolvia o burburinho e a +murmurao de Paris. Ella s sabia chalrar sobre a sua pessoa que era o +resumo da sua Classe, e sobre a sua existencia que era o resumo do seu +Paris:--e a sua existencia, desde casada, consistira em ornar com +suprema sciencia o seu lindo corpo; entrar com perfeio n'uma sala e +irradiar; remexer em estofos e conferenciar pensativamente com o grande +costureiro; rolar pelo Bois pousada na sua vittoria como uma imagem de +cra; decotar e branquear o collo; debicar uma perna de gallinhola em +mezas de luxo; fender turbas ricas em bailes espessos; adormecer com a +vaidade esfalfada; percorrer de manh, tomando chocolate, os Echos e +as Festas do _Figaro_; e de vez em quando murmurar para o marido--Ah, +s tu?... Alm d'isso, ao lusco-fusco, n'um soph, alguns certos +suspiros, entre os braos d'alguem a quem era constante. Ao meu +Principe, n'esse anno, pertencia o soph. E todos estes deveres de +Cidade e de Casta os cumpria sorrindo. Tanto sorrira, desde casada, que +j duas prgas lhe vincavam os cantos dos beios, indelevelmente. Mas +nem na alma, nem na pelle, mostrava outras maculas de fadiga. A sua +Agenda de Visitas continha mil e tresentos nomes, todos do Nobiliario. +Atravs, porm, desta fulgurante sociabilidade arranjra no cerebro +(onde de certo penetrra o p d'arroz que desde o collegio acamava na +testa) algumas Idas Geraes. Em Politica era pelos Principes; e todos os +outros horrores, a Republica, o Socialismo, a Democracia que se no +lava, os sacudia risonhamente, com um bater de leque. Na Semana Santa +juntava s rendas do chapeu a Cora amarga de espinhos--por serem esses, +para a gente bem-nascida, dias de penitencia e dr. E, deante de todo o +Livro ou de todo o Quadro, sentia a emoo e formulava finamente o +juizo, que no seu Mundo, e n'essa Semana, fsse elegante formular e +sentir. Tinha trinta annos. Nunca se embarara nos tormentos d'uma +paixo. Marcava, com rigida regularidade, todas as suas despezas n'um +Livro de Contas encadernado em pellucia verde-mar. A sua religio intma +(e mais genuina do que a outra, que a levava todos os domingos missa +de S. Philippe du Roule) era a Ordem. No inverno, logo que na amavel +cidade comeavam a morrer de frio, debaixo das pontes, creancinhas sem +abrigo--ella preparava com commovido cuidado os seus vestidos de +patinagem. E preparava tambem os de Caridade--porque era boa, e +concorria para Bazares, Concertos e Tombolas, quando fossem patrocinados +pelas Duquezas do seu rancho. Depois, na primavera, muito +methodicamente, regateando, vendia a uma adela os vestidos e as capas de +inverno. Paris admirava n'ella uma suprema flr de Parisianismo. + +Pois respirando esta macia e fina flr passamos ns as tardes d'esse +julho em quanto as outras flres pendiam e murchavam na calma e no p. +Mas, na intimidade do seu perfume, Jacintho no parecia encontrar esse +contentamento d'alma, que entre tudo que cana jmais cana. Era j com +a paciente lentido com que se sobem todos os Calvarios, os mais bem +tapetados, que elle subia a escadaria de Madame d'Oriol, to suave e +orlada de to frescas palmeiras. Quando a appetitosa creatura, com +dedicao, para o entreter, desdobrava a sua vivacidade como um pavo +desdobra a cauda, o meu pobre Principe puxava os pllos do bigode +murcho, na murcha postura de quem, por uma manh de Maio, em quanto os +melros cantam nas sebes, assiste, n'uma egreja negra, a um responso +funebre por um Principe. E no beijo que elle chuchurreava sobre a mo da +sua dce amiga, para se despedir, havia sempre alacridade e allivio. + +Mas ao outro dia, ao comear da tarde, depois de errar atravs da +Bibliotheca e do Gabinete, puxando sem curiosidade a tira do telegrapho, +atirando algum recado molle pelo telephone, espalhando o olhar +desalentado sobre o saber immenso dos trinta mil livros, remexendo a +collina dos Jornaes e Revistas, terminava por me chamar, j com a +preguia triste da faanha a que se impellia: + +--Vamos a casa de Madame d'Oriol, Z Fernandes? Eu tinha marcadas para +hoje seis ou sete coisas, mas no posso, uma secca! Vamos a casa de +Madame d'Oriol... Ao menos l, s vezes, ha um bocado de frescura e paz. + +E foi n'uma d'essas tardes, em que o meu Principe assim procurava +desesperadamente um bocado de frescura e paz, que encontramos, ao meio +da escadaria suave, entre as palmeiras, o marido de Madame d'Oriol. Eu +j o conhecia--porque Jacintho m'o mostrra uma noite, no Grand Caf, +ceiando com danarinas do _Moulin Rouge_. Era um moo gordalhufo, +indolente, de uma brancura cra de toucinho, com uma calvice j sria e +j lustrosa, constantemente acariciada pelos seus gordos dedos +carregados de anneis. N'essa tarde, porm, vinha vermelho, todo +emocionado, calando as luvas com colera. Estacou diante de Jacintho--e +sem mesmo lhe apertar a mo, atirando um gesto para o patamar: + +--Visita l acima? Vai achar a Joanna em pessima disposio... Tivemos +uma scena, e tremenda. + +Deu outro puxo desesperado luva cr de palha, j esgaada: + +--Estamos separados, cada um vive como lhe appetece, excellente! Mas +em tudo ha medida e frma... Ella tem o meu nome, no posso consentir +que em Paris, com conhecimento de todo o Paris, seja a amante do +trintanario. Amantes na nossa roda, v! Um lacaio, no!... Se quer +dormir com os creados que emigre para o fundo da provincia, para a sua +casa de Corbelle. E l at com os animaes!... Foi o que eu lhe disse! +Ficou como uma fera. + +Sacudiu ento a mo do Jacintho que era da sua roda--rebolou pela +escadaria florida e nobre. O meu Principe, immovel nos degraus, de face +pendida, cofiava lentamente os fios pendidos do bigode. Depois, olhando +para mim, como um sr saturado de tedio e em quem nenhum tedio novo pde +caber: + +--J agora subamos, sim? + + * * * * * + +Parti ento, com muita alegria, para a minha appetecida romagem s +Cidades da Europa. + +Ia viajar!... Viajei. Trinta e quatro vezes, pressa, bufando, com todo +o sangue na face, desfiz e refiz a mala. Onze vezes passei o dia n'um +wagon, envolto em poeirada e fumo, suffocado, a arquejar, a escorrer de +suor, saltando em cada estao para sorver desesperadamente limonadas +mornas que me escangalhavam a entranha. Quatorze vezes subi +derreadamente, atraz de um creado, a escadaria desconhecida d'um Hotel; +e espalhei o olhar incerto por um quarto desconhecido; e estranhei uma +cama desconhecida, d'onde me erguia, estremunhado, para pedir em linguas +desconhecidas um caf com leite que me sabia a fava, um banho de tina +que me cheirava a ldo. Oito vezes travei bulhas abominaveis na rua com +cocheiros que me espoliavam. Perdi uma chapelleira, quinze lenos, tres +ceroulas, e duas botas, uma branca, outra envernizada, ambas do p +direito. Em mais de trinta mezas-redondas esperei tristonhamente que me +chegasse o _boeuf-a-la-mode_, j frio, com mlho coalhado--e que o +copeiro me trouxesse a garrafa de Bordeus que eu provava e repellia com +desditosa carantonha. Percorri, na fresca penumbra dos granitos e dos +marmores, com p respeitoso e abafado, vinte e nove Cathedraes. Trilhei +mollemente, com uma dr surda na nuca, em quatorze muzeus, cento e +quarenta salas revestidas at aos tectos de Christos, heroes, santos, +nymphas, princezas, batalhas, architecturas, verduras, nudezes, sombrias +manchas de betume, tristezas das formas immoveis!... E o dia mais dce +foi quando em Veneza, onde chovia desabaladamente, encontrei um velho +inglez de penca flammejante que habitra o Porto, conhecra o Ricardo, o +Jos Duarte, o Visconde do Bom Successo, e as Limas da Boa Vista... +Gastei seis mil francos. Tinha viajado. + +Emfim, n'uma bemdita manh d'outubro, na primeira friagem e nevoa +d'outomno, avistei com enternecido alvoroo as cortinas de seda ainda +fechadas do meu 202! Affaguei o hombro do Porteiro. No patamar, onde +encontrei o ar macio e tepido que deixra em Florena, apertei os ossos +do Grillo excellente: + +--E Jacintho? + +O digno negro murmurou, d'entre os altos, reluzentes collarinhos: + +--S. Exc.^a circula... Pesadote, fartote. Entrou tarde do baile da +Duqueza de Loches. Era o contracto de casamento de Mademoiselle de +Loches... Ainda tomou antes de se deitar um ch gelado... E disse a +coar a cabea: Eh! que massada! Eh! que massada! + +Depois do banho e do chocolate, s dez horas, consolado e quentinho +dentro do roupo de velludo, rompi pelo quarto do meu Principe, de +braos abertos e sedentos: + +--Oh Jacintho! + +--Oh viajante!... + +Quando nos estreitamos, fartamente, eu recuei para lhe contemplar a +face--e n'ella a alma. Encolhido n'uma quinzena de panno cr de malva +orlada de pelles de martha, com os pellos do bigode murchos, as suas +duas rugas mais cavadas, uma molleza nos hombros largos, o meu amigo +parecia j vergado sob o pezo e a oppresso e o terror do seu dia. Eu +sorri, para que elle sorrisse: + +--Valente Jacintho... Ento como tens vivido? + +Elle respondeu, muito serenamente: + +--Como um morto. + +Forcei uma gargalhada leve, como se o seu mal fsse leve: + +--Aborrecidote, hein? + +O meu Principe lanou, n'um gesto to vencido, um _oh_ to cansado--que +eu compadecido de novo o abracei, o estreitei, como para lhe communicar +uma parte d'esta alegria solida e pura que recebi do meu Deus! + + * * * * * + +Desde essa manh, Jacintho comeou a mostrar claramente, +escancaradamente, ao seu Z Fernandes, o tdio de que a existencia o +saturava. O seu cuidado realmente e o seu esfro consistiram ento em +sondar e formular esse tdio--na esperana de o vencer logo que lhe +conhecesse bem a origem e a potencia. E o meu pobre Jacintho reproduziu +a comedia pouco divertida d'um Melancolico que perpetuamente raciocina a +sua Melancolia! N'esse raciocino, elle partia sempre do facto +irrecusavel e massio--que a sua vida especial de Jacintho continha +todos os interesses e todas as facilidades, possiveis no seculo XIX, +n'uma vida de homem que no um Genio, nem um Santo. Com effeito! +Apezar do appetite embotado por doze annos de Champagnes e mlhos ricos +elle conservava a sua rijeza de pinheiro bravo; na luz da sua +intelligencia no apparecra nem tremor nem morro; a boa terra de +Portugal, e algumas Companhias macissas, pontualmente lhe forneciam a +sua doce centena de contos; sempre activas e sempre fieis o cercavam as +sympathias d'uma Cidade inconstante e chasqueadora; o 202 estourava de +confrtos; nenhuma amargura de corao o atormentava;--e todavia era um +Triste. Porque?... E d'aqui saltava, com certeza fulgurante, concluso +de que a sua tristeza, esse cinzento burel em que a sua alma andava +amortalhada, no provinham da sua individualidade de Jacintho--mas da +Vida, do lamentavel, do desastroso facto de Viver! E assim o saudavel, +intellectual, riquissimo, bem-acolhido Jacintho tombra no Pessimismo. + +E um Pessimismo irritado! Porque (segundo affirmava) elle nascera para +ser to naturalmente optimista como um pardal ou um gato. E, at aos +doze annos, emquanto fra um bicho superiormente amimado, com a sua +pelle sempre bem coberta, o seu prato sempre bem cheio, nunca sentira +fadiga, ou melancolia, ou contrariedade, ou pena--e as lagrimas eram +para elle to incomprehensiveis que lhe pareciam viciosas. S quando +crescra, e da animalidade penetrra na humanidade, despontra n'elle +esse fermento de tristeza, muito tempo indesenvolvido no tumulto das +primeiras curiosidades, e que depois alastrra, o invadira todo, se lhe +tornra consubstancial e como o sangue das suas veias. Soffrer portanto +era inseparavel de Viver. Soffrimentos differentes nos destinos +differentes da Vida. Na turba dos humanos a angustiada lucta pelo po, +pelo tecto, pelo lume; n'uma casta, agitada por necessidades mais altas, + a amargura das desilluses, o mal da imaginao insatisfeita, o +orgulho chocando contra obstaculo; n'elle, que tinha os bens todos e +desejos nenhuns, era o tdio. Miseria do Corpo, tormento da Vontade, +fastio da Intelligencia--eis a Vida! E agora aos trinta e tres annos a +sua occupao era bocejar, correr com os dedos desalentados a face +pendida para n'ella palpar e appetecer a caveira. + +Foi ento que o meu Principe comeou a ler apaixonadamente, desde o +_Ecclesiastes_ at Schopenhauer, todos os lyricos e todos os theoricos +do Pessimismo. N'estas leituras encontrava a reconfortante comprovao +de que o seu mal no era mesquinhamente Jacinthico--mas grandiosamente +resultante d'uma Lei Universal. J ha quatro mil annos, na remota +Jerusalm, a Vida, mesmo nas suas delicias mais triumphaes, se resumia +em Illuso. J o Rei incomparavel, de sapiencia divina, summo Vencedor, +summo Edificador, se enfastiava, bocejava, entre os despojos das suas +conquistas, e os marmores novos dos seus Templos, e as suas tres mil +concubinas, e as Rainhas que subiam do fundo da Ethiopia para que elle +as fecundasse e no seu ventre depozsse um Deus! No ha nada novo sob o +sol, e a eterna repetio das coisas a eterna repetio dos males. +Quanto mais se sabe mais se pena. E o justo como o perverso, nascidos do +p, em p se tornam. Tudo tende ao p ephemero, em Jerusalm e em Paris! +E elle, obscuro no 202, padecia por ser homem e por viver--como no seu +throno d'ouro, entre os seus quatro lees d'ouro, o filho magnifico de +David. + +No se separava ento do _Ecclesiastes_. E circulava por Paris trazendo +dentro do coup Salomo, como irmo de dr, com quem repetia o grito +desolado que a summa da verdade humana--_Vanitas Vanitatum_! Tudo +Vaidade! Outras vezes, logo de manh o encontrava estendido no soph, +n'um roupo de sda, absorvendo Schopenhauer--emquanto o pedicuro, +ajoelhado sobre o tapete, lhe polia com respeito e pericia as unhas dos +ps. Ao lado pousava a chavena de Saxe, cheia d'esse caf de Moka +enviado por emires do Deserto, que no o contentava nunca, nem pela +fora, nem pelo aroma. A espaos pousava o livro no peito, resvalava um +olhar compassivo para o pedicuro, como a procurar que dr o +torturaria--pois que a todo o viver corresponde um soffrer. Decerto o +remexer assim, perpetuamente, em ps alheios... E quando o pedicuro se +erguia, Jacintho abria para elle um sorriso de confraternidade--com um +adeus, meu amigo que era um adeus, meu irmo! + +Esse foi o periodo esplendido e soberbamente divertido do seu tdio. +Jacintho encontrra emfim na vida uma occupao grata--maldizer a Vida! +E para que a podsse maldizer em todas as suas frmas, as mais ricas, as +mais intellectuaes, as mais puras, sobrecarregou a sua vida propria de +novo luxo, de interesses novos d'espirito, e at de fervores +humanitarios, e at de curiosidades supernaturaes. + +O 202, n'esse inverno, refulgiu de magnificencia. Foi ento que elle +iniciou em Paris, repetindo Heliogabalo, os Festins de Cr contados na +Historia Augusta: e offereceu s suas amigas esse sublime jantar cr de +rosa, em que tudo era roseo, as paredes, os moveis, as luzes, as louas, +os crystaes, os gelados, os Champagnes, e at (por uma inveno da +Alta-Cozinha) os peixes, e as carnes, e os legumes, que os escudeiros +serviam, empoados de p rosado, com librs da cr da rosa, em quanto do +tecto, d'um velario de seda rosada, cahiam petalas frescas de rosas... A +Cidade, deslumbrada, clamou--Bravo, Jacintho! E o meu Principe, ao +rematar a festa fulgurante, plantou deante de mim as mos nas ilhargas e +gritou triumphalmente:--Hein? Que massada!... + +Depois foi o Humanitarismo: e fundou um Hospicio no campo, entre +jardins, para velhinhos desamparados, outro para creanas debeis beira +do Mediterraneo. Depois com o major Dorchas, e Mayolle, e o Hind de +Mayolle penetrou no Theosophismo: e montou tremendas experiencias para +verificar a mysteriosa _exteriorisao da motilidade_. Depois, +desesperadamente, ligou o 202 com os fios telegraphicos do _Times_, para +que no seu gabinete, como n'um corao, palpitasse toda a vida Social da +Europa. + +E a cada um d'estes esforos da elegancia, do humanitarismo, da +sociabilidade, e da intelligencia indagadora, voltava para mim, de +braos alegres, com um grito victorioso:--Vs tu, Z Fernandes? Uma +massada!--Arrebatava ento o seu _Ecclesiastes_, o seu Schopenhauer, e, +estendido no soph, saboreava voluptuosamente a concordancia da Doutrina +e da Experiencia. Possuia uma F--o Pessimismo: era um apostolo rico e +esforado: e tudo tentava, com sumptuosidade, para provar a verdade da +sua F! Muito gozou n'esse anno o meu desgraado Principe! + +No comeo do inverno, porm, notei com inquietao que Jacintho j no +folheava o _Ecclesiastes_, desleixava Schopenhauer. Nem festas, nem +Theosophismos, nem os seus Hospicios, nem os fios do _Times_, pareciam +interessar agora o meu amigo, mesmo como demonstraes gloriosas da sua +Crena. E a sua abominavel funco de novo se limitou a bocejar, a +passar os dedos molles sobre a face pendida palpando a caveira. +Incessantemente alludia morte como a uma libertao. Uma tarde mesmo, +no melancolico crepusculo da Bibliotheca, antes de refulgirem as luzes, +consideravelmente me aterrou, fallando n'um tom regelado de mortes +rapidas, sem dr, pelo choque d'uma vasta pilha electrica ou pela +violencia compassiva do acido cyanidrico. Diabo! O Pessimismo, que +apparecera na Intelligencia do meu Principe como um conceito +elegante--atacra bruscamente a Vontade! + +Todo o seu movimento ento foi o d'um boi inconsciente que marcha sob a +canga e o aguilho. J no esperava da Vida contentamento--nem mesmo se +lastimava que ella lhe trouxesse tdio ou pena. Tudo indifferente, Z +Fernandes! E to indifferentemente sahiria sua janella para receber +uma Cora Imperial offerecida por um Povo--como se estenderia n'uma +poltrona rta para emmudecer e jazer. Sendo tudo inutil, e no +conduzindo seno a maior desilluso, que podia importar a mais rutilante +actividade ou a mais desgostada inercia? O seu gesto constante, que me +irritava, era encolher os hombros. Perante duas ideias, dois caminhos, +dois pratos, encolhia os hombros! Que importava?... E no minimo acto, +raspar um phosphoro ou desdobrar um Jornal, punha uma morosidade to +desconsolada que todo elle parecia ligado, desde os dedos at alma, +pelas voltas apertadas d'uma corda que se no via e que o travava. + + * * * * * + +Muito desagradavelmente me recordo do dia dos seus annos, a 10 de +Janeiro. Cdo, de manh, recebra, com uma carta de Madame de Trves, um +aafate de camelias, azaleas, orchideas e lyrios do valle. E foi este +mimo que lhe recordou a data consideravel. Soprou sobre as petalas o +fumo do cigarro e murmurou com um riso de lento escarneo: + +--Ento, ha trinta e quatro annos que eu ando n'esta massada? + +E como eu propunha que telephonassemos aos amigos para beberem no 202 o +Champagne do Natalicio--elle recusou, com o nariz enojado. Oh! No! +Que horrivel scca!... E bradou mesmo para o Grillo: + +--Eu hoje no estou em Paris para ninguem. Abalei para o campo, abalei +para Marselha... Morri! + +E a sua ironia no cessou at ao almoo perante os bilhetes, os +telegrammas, as cartas, que subiam, se arredondavam em collina sobre a +meza d'ebano, como um preito da Cidade. Outras flres que vieram, em +vistosos cestos, com vistosos laos, foram por elle comparadas s que se +depe sobre uma tumba. E apenas se interessou um momento pelo presente +de Ephraim, uma engenhosa meza, que se abaixava at ao tapete ou se +alteava at ao tecto--para que, senhor Deus meu? + +Depois do almoo, como chovia sombriamente, no arredamos do 202, com os +ps estendidos ao lume, em preguioso silencio. Eu terminra por +adormecer beatificamente. Acordei aos passos aodados do Grillo... +Jacintho, enterrado na poltrona, com umas tesouras, recortava um papel! +E nunca eu me compadeci d'aquelle amigo, que canra a mocidade a +accumular todas as noes formuladas desde Aristoteles e a juntar todos +os inventos realisados desde Tharamenes, como n'essa tarde de festa, em +que elle, cercado de Civilisao nas maximas propores para gozar nas +maximas propores a delicia de viver, se encontrava reduzido, junto ao +seu lar, a recortar papeis com uma tesoura! + +O Grillo trazia um presente do Gran-Duque--uma caixa de prata, forrada +de cedro, e cheia d'um ch precioso, colhido, flr a flr, nas veigas de +Kiang-Sou por mos puras de virgens, e conduzido atravs da Asia, em +caravanas, com a venerao d'uma reliquia. Ento, para despertar o nosso +torpr, lembrei que tomassemos o divino ch--occupao bem harmonica com +a tarde triste, a chuva grossa alagando os vidros, e a clara chamma +bailando no fogo. Jacintho accedeu--e um escudeiro acercou logo a meza +de Ephraim para que ns lhe estreassemos os servios destros. Mas o meu +Principe, depois de a altear, para meu espanto, at aos crystaes do +lustre, no conseguiu, apezar de uma suada e desesperada batalha com as +molas, que a meza regressasse a uma altura humana e cazeira. E o +escudeiro de novo a levou, levantada como um andaime, chimerica, +unicamente aproveitavel para o gigante Adamastor. Depois veio a caixa do +ch entre chaleiras, lampadas, coadores, filtros, todo um fausto de +alfaias de prata, que communicavam a essa occupao, to simples e dce +em caza de minha tia, _fazer ch_, a magestade d'um rito. Prevenido pelo +meu camarada da sublimidade d'aquelle ch de Kiang-Sou, ergui a chavena +aos labios com reverencia. Era uma infuso descorada que sabia a malva e +a formiga. Jacintho provou, cuspiu, blasphemou... No tomamos ch. + +Ao cabo d'outro pensativo silencio, murmurei, com os olhos perdidos no +lume: + +--E as obras de Tormes? A egreja... J haver egreja nova? + +Jacintho retomra o papel e a thesoura: + +--No sei... No tornei a receber carta do Silverio... Nem imagino onde +param os ossos... Que lugubre historia! + +Depois chegou a hora das luzes e do jantar. Eu encommendra pelo Grillo +ao nosso magistral cozinheiro uma larga travessa d'arroz dce, com as +iniciaes de Jacintho e a data ditosa em canella, moda amavel da nossa +meiga terra. E o meu Principe meza, percorrendo a lamina de marfim +onde no 202 se inscreviam os pratos a lapis vermelho, louvou com fervr +a ideia patriarchal: + +--Arrz dce! Est escripto com dois _ss_, mas no tem dvida... +Excellente lembrana! Ha que tempos no cmo arrz dce!... Desde a +morte da av. + +Mas quando o arrz dce appareceu triumphalmente, que vexme! Era um +prato monumental, de grande arte! O arrz, massio, moldado em frma de +pyramide do Egypto, emergia d'uma calda de cereja, e desapparecia sob os +fructos seccos que o revestiam at ao cimo, onde se equilibrava uma +cora de Conde feita de chocolate e gomos de tangerina gelada! E as +iniciaes, a data, to lindas e graves na canella ingenua, vinham +traadas nas bordas da travessa com violetas pralinadas! Repellimos, +n'um mudo horror, o prato acanalhado. E Jacintho, erguendo o copo de +Champagne, murmurou como n'um funeral pago: + +--_Ad Manes_, aos nossos mortos! + +Recolhemos Bibliotheca, a tomar o caf no conchego e alegria do lume. +Fra, o vento bramava como n'um rmo serrano: e as vidraas tremiam, +alagadas, sob as bategas da chuva irada. Que dolorosa noite para os dez +mil pobres que em Paris erram sem po e sem lar! Na minha aldeia, entre +crro e valle, talvez assim rugisse a tormenta. Mas ahi cada pobre, sob +o abrigo da sua telha v, com a sua panella atestada de couves, se +agacha no seu manto ao calor da lareira. E para os que no tenham lenha +ou couve, l est o Joo das Quintas, ou a tia Vicencia, ou o abbade, +que conhecem todos os pobres pelos seus nomes, e com elles contam, como +sendo dos seus, quando o carro vae ao matto e a fornada entra no frno. +Ah Portugal pequenino, que ainda s dce aos pequeninos! + +Suspirei, Jacintho preguiava. E terminamos por remexer languidamente os +jornaes que o mordomo trouxera, n'um monte facundo, sobre uma salva de +prata--jornaes de Paris, jornaes de Londres, Semanarios, Magazines, +Revistas, Illustraes... Jacintho desdobrava, arremessava: das Revistas +espreitava o summario, logo farto; s Illustraes rasgava as folhas com +o dedo indifferente, bocejando por cima das gravuras. Depois, mais +estirado para o lume: + +-- uma scca... No ha que lr. + +E de repente, revoltado contra este fastio oppressor que o escravisava, +saltou da poltrona com um arranque de quem despedaa algemas, e ficou +erecto, dardejando em torno um olhar imperativo e duro, como se +intimasse aquelle seu 202, to abarrotado de Civilisao, a que por um +momento sequer fornecesse sua alma um interesse vivo, sua vida um +fugitivo gsto! Mas o 202 permaneceu insensivel: nem uma luz, para o +animar, avivou o seu brilho mudo: s as vidraas tremeram sob o embate +mais rude de agua e vento. + +Ento o meu Principe, succumbido, arrastou os passos at ao seu +gabinete, comeou a percorrer todos os apparelhos completadores e +facilitadores da Vida--o seu Telegrapho, o seu Telephone, o seu +Phonographo, o seu Radiometro, o seu Graphophono, o seu Microphono, a +sua Machina d'Escrever, a sua Machina de Contar, a sua Imprensa +Electrica, a outra Magnetica, todos os seus utensilios, todos os seus +tubos, todos os seus fios... Assim um Supplicante percorre altares +d'onde espera soccorro. E toda a sua sumptuosa Mechanica se conservou +rigida, reluzindo frigidamente, sem que uma roda girasse, nem uma lamina +vibrasse, para entreter o seu Senhor. + +S o relogio monumental, que marcava a hora de todas as capitaes e o +curso de todos os planetas, se compadeceu, batendo a meia-noite, +annunciando ao meu amigo que mais um Dia partira levando o seu +pzo--diminuindo esse sombrio pzo da Vida, sob que elle gemia, vergado. +O Principe da Gran-Ventura, ento, decidiu recolher para a cama--com um +livro... E durante um momento, estacou no meio da Bibliotheca, +considerando os seus setenta mil volumes estabelecidos com pompa e +magestade como Doutores n'um Concilio--depois as pilhas tumultuarias dos +livros novos que esperavam pelos cantos, sobre o tapete, o repouso e a +consagrao das estantes d'ebano. Torcendo mollemente o bigode caminhou +por fim para a regio dos Historiadores: espreitou seculos, farejou +raas: pareceu attrahido pelo explendor do Imperio Byzantino: penetrou +na Revoluo Franceza d'onde se arredou desencantado: e palpou com mo +indeliberada toda a vasta Grecia desde a creao de Athenas at a +aniquilao de Corintho. Mas bruscamente virou para a fila dos Poetas, +que reluziam em marroquins claros, mostrando, sobre a lombada, em ouro, +nos titulos fortes ou languidos, o interior das suas almas. No +appeteceu nenhuma d'essas seis mil almas--e recuou, desconsolado, at +aos Biologos... To massia e cerrada era a estante de Biologia que o +meu pobre Jacintho estarreceu, como ante uma cidadella inaccessivel! +Rolou a escada--e, fugindo, trepou, at s alturas da Astronomia: +destacou astros, recollocou mundos: todo um Systema Solar desabou com +fragor. Aturdido, desceu, comeou a procurar por sobre as rimas das +obras novas, ainda brochadas, nas suas roupas leves de combate. +Apanhava, folheava, arremessava: para desentulhar um volume, demolia uma +torre de doutrinas: saltava por cima dos Problemas, pisava as Religies: +e relanceando uma linha, esgravatando alm n'um indice, todos +interrogava, de todos se desinteressava, rolando quasi de rastos, nas +grossas vagas de tomos que rolavam, sem se poder deter, na ancia de +encontrar um Livro! Parou ento no meio da immensa nave, de cocoras, sem +coragem, contemplando aquelles muros todos forrados, aquelle cho todo +alastrado, os seus setenta mil volumes--e, sem lhes provar a substancia, +j absolutamente saciado, abarrotado, nauseado pela opresso da sua +abundancia. Findou por voltar ao monto de jornaes amarrotados, ergueu +melancholicamente um velho _Diario de Noticias_, e com elle debaixo do +brao subiu ao seu quarto, para dormir, para esquecer. + + + + +VIII + + +Ao fim d'esse inverno escuro e pessimista, uma manh que eu preguiava +na cama, sentindo atravs da vidraa cheia de sol ainda pallido um bafo +de Primavera ainda timido--Jacintho assomou porta do meu quarto, +revestido de flanellas leves, d'uma alvura de aucena. Parou lentamente + beira dos colxes, e, com gravidade, como se annunciasse o seu +casamento ou a sua morte, deixou desabar sobre mim esta declarao +formidavel: + +--Z Fernandes, vou partir para Tormes. + +O pulo com que me sentei abalou o rijo leito de pau preto do velho D. +Galio: + +--Para Tormes? Oh Jacintho, quem assassinaste?... + +Deleitado com a minha emoo, o Principe da Gran Ventura tirou da +algibeira uma carta, e encetou estas linhas, j decerto relidas, +fundamente estudadas: + +--Ill.^{mo} e exc.^{mo} snr.--Tenho grande satisfao em communicar a +v. exc.^a que por toda esta semana devem ficar promptas as obras da +capella... + +-- do Silverio? exclamei. + +-- do Silverio. ...as obras da capella nova. Os venerandos restos dos +excelsos avs de v. exc.^a, senhores de todo o meu respeito, podem pois +ser em breve trasladados da egreja de S. Jos, onde tm estado +depositados por bondade do nosso Abbade, que muito se recommenda a v. +exc.^a... Submisso, aguardo as prestantes ordens de v. exc.^a a respeito +d'esta magestosa e afflictiva ceremonia... + +Atirei os braos, comprehendendo: + +--Ah! bem! Queres ir assistir trasladao... + +Jacintho sumiu a carta no bolso. + +--Pois no te parece, Z Fernandes? No por causa dos outros avs, que +so ossos vagos, e que eu no conheci. por causa do av Galio... +Tambem no o conheci. Mas este 202 est cheio d'elle; tu ests deitado +na cama d'elle; eu ainda uso o relogio d'elle. No posso abandonar ao +Silverio e aos caseiros o cuidado de o installarem no seu jazigo novo. +Ha aqui um escrupulo de decencia, de elegancia moral... Emfim, decidi. +Apertei os punhos na cabea, e gritei--_vou a Tormes_! E vou!... E tu +vens! + +Eu enfiara as chinellas, apertava os cordes do roupo: + +--Mas tu sabes, meu bom Jacintho, que a casa de Tormes est +inhabitavel... + +Elle cravou em mim os olhos aterrados. + +--Medonha, hein? + +--Medonha, medonha, no... uma bella casa, de bella pedra. Mas os +caseiros, que l vivem ha trinta annos, dormem em catres, comem o caldo + lareira, e usam as salas para seccar o milho. Creio que os unicos +moveis de Tormes, se bem recordo, so um armario, e uma espinetta de +charo, cxa, j sem teclas. + +O meu pobre Principe suspirou, com um gesto rendido em que se abandonava +ao Destino: + +--Acabou!... _Alea jact est!_ E como s partimos para abril, ha tempo de +pintar, d'assoalhar, d'envidraar... Mando d'aqui de Paris tapetes e +camas... Um estofador de Lisboa vae depois forrar e disfarar algum +buraco... Levamos livros, uma machina para fabricar gelo... E mesmo +uma occasio de pr emfim n'uma das minhas casas de Portugal alguma +decencia e ordem. Pois no achas? E ento essa! Uma casa que data de +1410... Ainda existia o Imperio Byzantino! + +Eu espalhava, com o pincel, sobre a face, flocos lentos de sabo. O meu +Principe accendeu muito pensativamente um cigarro; e no se arredou do +toucador, considerando o meu preparo com uma atteno triste que me +incommodava. Por fim, como se remoesse uma sentena minha, para lhe +reter bem a moral e o succo: + +--Ento, definitivamente, Z Fernandes, entendes que um dever, um +absoluto dever, ir eu a Tormes? + +Afastei do espelho a cara ensaboada para encarar com divertido espanto o +meu Principe: + +--Oh Jacintho! foi em ti, s em ti que nasceu a ideia d'esse dever! E +honra te seja, menino... No cedas a ninguem essa honra! + +Elle atirou o cigarro--e, com as mos enterradas nas algibeiras das +pantalonas, vagou pelo quarto, topando nas cadeiras, embicando contra os +postes torneados do velho leito de D. Galio, n'um balano vago, como +barco j desamarrado do seu seguro ancoradouro, e sem rumo no mar +incerto. Depois encalhou sobre a mesa onde eu conservava enfileirada, +por gradaes de sentimentos, desde o dagarreotypo do pap at +photographia do _Carocho_ perdigueiro, a galeria da minha Familia. + +E nunca o meu Principe (que eu contemplava esticando os suspensorios) me +pareceu to corcovado, to minguado, como gasto por uma lima que desde +muito o andasse fundamente limando. Assim viera findar, desfeita em +Civilisao, n'aquelle super-requintado magricellas sem musculo e sem +energia, a raa fortissima dos Jacinthos! Esses guedelhudos Jacinthes, +que nas suas altas terras de Tormes, de volta de bater o moiro no Salado +ou o castelhano em Valverde, nem mesmo despiam as fuscas armaduras para +lavrar as suas chans e amarrar a vide ao olmo, edificando o Reino com a +lana e com a enxada, ambas to rudes e rijas! E agora, alli estava +aquelle ultimo Jacintho, um Jacinthiculo, com a macia pelle embebida em +aromas, a curta alma enrodilhada em Philosophias, travado e suspirando +baixinho na miuda indeciso de viver. + +--Oh Z Fernandes, quem esta lavradeirona to rechonchuda? + +Estendi o pescoo para a Photographia que elle erguera d'entre a minha +galeria, no seu honroso caixilho de pellucia escarlate: + +--Mais respeito, Snr. D. Jacintho... Um pouco mais de respeito, +cavalheiro!... minha prima Joanninha, de Sandofim, da Casa da Flr da +Malva. + +--Flr da Malva, murmurou o meu Principe. a casa do Condestavel, de +Nun'alvares. + +--Flr da Rosa, homem! A casa do Condestavel era na Flr da Rosa, no +Alemtejo... Essa tua ignorancia trapalhona das coisas de Portugal! + +O meu Principe deixou escorregar mollemente a photographia da minha +prima d'entre os dedos molles--que levou face, no seu gesto horrendo +de palpar atravez da face a caveira. Depois, de repente, com um soberbo +esforo, em que se endireitou e cresceu: + +--Bem! _Alea jacta est!_ Partamos pois para as serras!... E agora nem +reflexo, nem descano!... obra! E a caminho! + +Atirou a mo ao fecho dourado da porta como se fosse o negro loquete que +abre os Destinos--e no corredor gritou pelo Grillo, com uma larga e +aodada voz que eu nunca lhe conhecera, e me lembrou a d'um Chefe +ordenando, n'alvorada, que se levante o Acampamento, e que a Hoste +marche, com pendes e bagagens... + +Logo n'essa manh (com uma actividade em que eu reconheci a pressa +enjoada de quem bebe oleo-de-ricino), escreveu ao Silverio mandando +caiar, assoalhar, envidraar o casaro. E depois do almoo appareceu na +Bibliotheca, chamado violentamente pelo telephone, para combinar a +remessa de mobilias e confortos, o director da _Companhia Universal de +Transportes_. + +Era um homem que parecia o cartaz da sua Companhia, apertado n'um +jaqueto de xadrezinho escuro, com polainas de jornada sobre botas +brancas, uma sacola de marroquim a tiracolo, e na botoeira uma roseta +multicor resumindo as suas condecoraes exoticas de Madagascar, de +Nicaragua, da Persia, outras ainda, que provavam a universalidade dos +seus servios. Apenas Jacintho mencionou Tormes, no Douro...--elle +logo, atravez d'um sorriso superior, estendeu o brao, detendo outros +esclarecimentos, na sua intimidade minuciosa com essas regies. + +--Tormes... Perfeitamente! Perfeitamente! + +Sobre o joelho, na carteira, escrevinhou uma fugidia nota--emquanto eu +considerava, assombrado, a vastido do seu saber Chorographico, assim +familiar com os recantos d'uma serra de Portugal e com todos os seus +velhos solares. J elle atirra a carteira para o bolso... E ns, seus +caros senhores, no tinhamos seno a encaixotar as roupas, as mobilias, +as preciosidades! Elle mandaria as suas carroas buscar os caixotes, a +que poria, em grossa letra, com grossa tinta, o endereo... + +--Tormes, perfeitamente! Linha Norte-Hespanha-Medina-Salamanca... +Perfeitamente! Tormes... Muito pittoresco! E antigo, historico! +Perfeitamente, perfeitamente! + +Desengonou a cabea n'uma venia profundissima--e sahiu da Bibliotheca, +com passos que devoravam leguas, annunciavam a presteza dos seus +Transportes. + +--V tu, murmurou Jacintho muito serio. Que promptido, que +facilidade!... Em Portugal era uma tragedia. No ha seno Paris! + +Comeou ento no 202 o collossal encaixotamento de todos os confortos +necessarios ao meu Principe para um mez de serra aspera--camas de penna, +banheiras de nickel, lampadas Carcel, divans profundos, cortinas para +vedar as gretas rudes, tapetes para amaciar os soalhos broncos. Os +sotos, onde se arrecadavam os pesados trastes do av Galio, foram +esvasiados--porque o casaro medieval de 1410 comportava os trems +romanticos de 1830. De todos os armazens de Paris chegavam cada manh +fardos, caixas, temerosos embrulhos que os emmaladores desfaziam, +atulhando os corredores de montes de palha e de papel pardo, onde os +nossos passos aodados se enrodilhavam. O cozinheiro, esbaforido, +organisava a remessa de fornalhas, geleiras, bocaes de trufas, latas de +conservas, bojudas garrafas de aguas mineraes. Jacintho, lembrando as +trovoadas da serra, comprou um immenso pra-raios. Desde o amanhecer, +nos pateos, no jardim, se martellava, se pregava, com vasto fragor, como +na construco d'uma cidade. E o desfilar das bagagens, atravs do +porto, lembrava uma pagina de Herodoto contando a marcha dos Persas. + +Das janellas, Jacintho com o brao estendido, saboreava aquella +actividade e aquella disciplina: + +--V tu, Z Fernandes, que facilidade!... Sahimos do 202, chegamos +serra, encontramos o 202. No ha seno Paris! + +Recomera a amar a Cidade, o meu Principe, emquanto preparava o seu +Exodo. Depois de ter, toda a manh, apressado os encaixotadores, +descortinado confortos novos para o abandonado solar, telephonado gordas +listas de encommendas a cada loja de Paris--era com delicia que se +vestia, se perfumava, se floria, se enterrava na vittoria ou saltava +para a almofada do phaeton, e corria ao Bosque, e saudava a barba +talmudica do Ephraim, e os bands furiosamente negros da Verghane, e o +Psychologo de fiacre, e a condessa de Trves na sua nova caleche de +oito-molas fornecida pelas operaes conjunctas da Bolsa e da alcva. +Depois arrebanhava amigos para jantares de surpreza no Voisin ou no +Bignon, onde desdobrava o guardanapo com a impaciencia d'uma fome +alegre, vigiando fervorosamente que os Bordeus estivessem bem aquecidos +e os Champagnes bem granitados. E no theatro das _Nouveauts_, no +_Palais Royal_, nos _Buffos_, ria, batendo na cxa, com encanecidas +facecias d'encanecidas faras, antiquissimos tregeitos d'antiquissimos +actores, com que j rira na sua infancia, antes da guerra, sob o segundo +Napoleo! + +De novo, em duas semanas, se abarrotaram as paginas da sua Agenda. A +magnificencia do seu trage, como imperador Frederico II de Suabia, +deslumbrou, no baile mascarado da Princesa de Cravon-Rogan (onde tambem +fui, de moo de forcado.) E na _Associao para o Desenvolvimento das +Religies Esotericas_ discursou e batalhou bravamente pela construco +d'um Templo Budhista em Montmartre! + +Com espanto meu recomeou tambem a conversar, como nos tempos de Escla, +da famosa Civilisao nas suas maximas propores. Mandou encaixotar o +seu velho telescopio para o usar em Tormes. Receei mesmo que no seu +espirito germinasse a ida de crear, no cimo da serra, uma Cidade com +todos os seus orgos. Pelo menos no consentia o meu Jacintho que essas +semanas da silvestre Tormes interrompessem a illimitada accumulao das +noes--porque uma manh rompeu pelo meu quarto, desolado, gritando que +entre tantos confortos e frmas de Civilisao esqueceramos os livros! +Assim era--e que vexame para a nossa Intellectualidade! Mas que livros +escolher entre os facundos milhares sob que vergava o 202? O meu +Principe decidiu logo dedicar os seus dias serranos ao estudo da +Historia Natural--e ns mesmos, immediatamente, deitamos para o fundo +d'um vasto caixote novo, como lastro, os vinte e cinco tomos de Plinio. +Despejamos depois para dentro, s braadas, Geologia, Mineralogia, +Botanica... Espalhamos por cima uma camada aeria de Astronomia. E, para +fixar bem no caixote estas Sciencias oscillantes, entalamos em redor +cunhas de Metaphysica. + +Mas quando a derradeira caixa, pregada e cintada de ferro, sahiu do +porto do 202 na derradeira carroa da _Companhia dos Transportes_, toda +esta animao de Jacintho se abateu como a efervescencia n'um copo de +Champagne. Era em meados j tepidos de Maro. E de novo os seus +desagradaveis bocejos atroaram o 202, e todos os sophs rangeram sob o +peso do corpo que elle lhe atirava para cima, mortalmente vencido pela +fartura e pelo tedio, n'um desejo de repouso eterno, bem envolto de +solido e silencio. Desesperei. O que! Aturaria eu ainda aquelle +Principe palpando amargamente a caveira, e, quando o crepusculo +entristecia a Bibliotheca, alludindo, n'um tom rouco, doura das +mortes rapidas pela violencia misericordiosa do acido cyanhidrico? Ah +no, caramba! E uma tarde em que o encontrei estirado sobre um divan, de +braos em cruz, como se fosse a sua estatua de marmore sobre o seu +jazigo de granito, positivamente o abanei com furor, berrando: + +--Accorda, homem! Vamos para Tormes! O casaro deve estar prompto, a +reluzir, a abarrotar de cousas! Os ossos de teus avs pedem repouso, em +cova sua!... A caminho, a enterrar esses mortos, e a vivermos ns, os +vivos!... Irra! So cinco de Abril!... o bom tempo da serra! + +O meu Principe resurgiu lentamente da inercia de pedra: + +--O Silverio no me escreveu, nunca me escreveu... Mas, com effeito, +deve estar tudo preparado... J l temos certamente creados, o +cosinheiro de Lisboa... Eu s levo o Grillo, e o Anatole que envernisa +bem o calado, e tem geito como pedicuro... Hoje Domingo. + +Atirou os ps para o tapete, com heroismo: + +--Bem, partimos no Sabbado!... Avisa tu o Silverio! + +Comeou ento o laborioso e pensativo estudo dos Horarios--e o dedo +magro de Jacintho, por sobre o mappa, avanando e recuando entre Paris e +Tormes. Para escolher o salo que deviamos habitar durante a temida +jornada, duas vezes percorremos o deposito da Estao d'Orleans, +atolados em lama, atraz do Chefe do Trafico que entontecia. O meu +Principe recusava este salo por causa da cr tristonha dos estofos; +depois recusava aquelle por causa da mesquinhez afflictiva do +Water-Closet! Uma das suas inquietaes era o banho, nas manhs que +passariamos rolando. Suggeri uma banheira de borracha. Jacintho, +indeciso, suspirava... Mas nada o aterrou como o trasbordo em Medina del +Campo, de noite, nas trevas da Velha Castella. Debalde a Companhia do +Norte de Hespanha e a de Salamanca, por cartas, por telegrammas, +socegaram o meu camarada, affirmando que, quando elle chegasse no +comboio de Irun dentro do seu salo, j outro salo ligado ao comboio de +Portugal esperaria, bem aquecido, bem allumiado, com uma ceia que lhe +offertava um dos Directores, D. Esteban Castillo, ruidoso e rubicundo +conviva do 202! Jacintho corra os dedos anciosos pela face:--E os +saccos, as pelles, os livros, quem os transportaria do salo de Irun +para o salo de Salamanca? Eu berrava, desesperado, que os carregadores +de Medina eram os mais rapidos, os mais destros de toda a Europa! Elle +murmurava:--Pois sim, mas em Hespanha, de noite!... A noite, longe da +Cidade, sem telephone, sem luz electrica, sem postos de policia, parecia +ao meu Principe povoada de surprezas e assaltos. S acalmou depois de +verificar no Observatorio Astronomico, sob a garantia do sabio professor +Bertrand, que a noite da nossa jornada era de lua cheia! + +Emfim, na sexta-feira, findou a tremenda organisao d'aquella viagem +historica! O sabbado predestinado amanheceu com generoso sol, de +affagadora doura. E eu acabava de guardar na mala, embrulhadas em papel +pardo, as photographias das creaturinhas suaves que, n'esses vinte e +sete mezes de Paris, me tinham chamado _mon petit chou! mon rat +cheri!_--quando Jacintho rompeu pelo quarto, com um soberbo ramo de +orchideas na sobrecasaca, pallido e todo nervoso. + +--Vamos ao Bosque, por despedida? + +Fomos-- grande despedida! E que encanto! At nas almofadas e molas da +vittoria senti logo uma elasticidade mais emballadora. Depois, pela +Avenida do Bosque, quasi me pezava no ficar sempiternamente rolando, ao +trote rimado das eguas perfeitas, no rebrilho rico de metaes e vernizes, +sobre aquelle macadam mais alisado que marmore, entre to bem regadas +flres e relvas de to tentadora frescura, cruzando uma Humanidade fina, +de elegancia bem acabada, que almora o seu chocolate em porcellanas de +Sevres ou de Minton, sahira d'entre sdas e tapetes de tres mil francos, +e respirava a belleza de Abril com vagar, requinte e pensamentos +ligeiros! O Bosque resplandecia n'uma harmonia de verde, azul e ouro. +Nenhuma cova ou terra solta desalisava as polidas alleas que a Arte +traou e enroscou na espessura--nenhum esgalho desgrenhado desmanchava +as ondulaes macias da folhagem que o Estado escva e lava. O piar das +aves apenas se elevava para espalhar uma graa leve de vida alada;--e +mais natural parecia, entre o arvoredo sociavel, o ranger das sellas +novas, onde pousavam, com balano esbelto, as amazonas espartilhadas +pelo grande Redfern. Em frente ao Pavilho de Armenonville cruzamos +Madame de Trves, que nos envolveu ambos na caricia do seu sorriso, mais +avivado quella hora pelo vermelho ainda humido. Logo atraz a barba +talmudica de Ephraim negrejou, fresca tambem da brilhantine da manh, no +alto d'um phaeton tilintante. Outros amigos de Jacintho circulavam nas +Acacias--e as mos que lhe acenavam, lentas e affaveis, calavam luvas +frescas cr de palha, cr de perola, cr de lilaz. Todelle relampejou +rente de ns sobre uma grande bycicleta. Dornan, alastrado n'uma cadeira +de ferro, sob um espinheiro em flr, mamava o seu immenso charuto, como +perdido na busca de rimas sensuaes e nedias. Adeante foi o Psychologo, +que nos no avistou, conversando com um requebro melancolico para dentro +d'um coup que rescendia a alcova, e a que um cocheiro obeso imprimia +dignidade e decencia. E rolavamos ainda, quando o Duque de Marizac, a +cavallo, ergueu a bengala, estacou a nossa vittoria para perguntar a +Jacintho se apparecia noite nos quadros vivos dos Verghanes. O meu +Principe rosnou um--no, parto para o sul...--que mal lhe passou +d'entre os bigodes murchos... E Marizac lamentou--porque era uma festa +estupenda. Quadros vivos da Historia Sagrada e da Historia Romana!... +Madame Verghane, de Magdalena, de braos ns, peitos ns, pernas nas, +limpando com os cabellos os ps do Christo!--O Christo, um latago +soberbo, parente dos Trves, empregado no Ministerio da Guerra, gemendo, +derreado, sob uma cruz de papelo! Havia tambem Lucrecia na cama, e +Tarquinio ao lado, de punhal, a puxar os lenoes! E depois ceia, em +mezas soltas, todos nos seus trajes historicos. Elle j estava +aparceirado com Madame de Malbe, que era Agrippina! Quadro portentoso +esse--Agrippina morta, quando Nero a vem contemplar e lhe estuda as +frmas, admirando umas, desdenhando outras como imperfeitas. Mas, por +polidez, ficra combinado que Nero admiraria sem reserva todas as frmas +de Madame de Malbe... Emfim collossal, e estupendamente instructivo! + +Acenamos um longo adeus quelle alegre Marizac. E recolhemos sem que +Jacintho emergisse do silencio enrugado em que se abysmra, com os +braos rigidamente cruzados, como remoendo pensamentos decisivos e +fortes. Depois, em frente ao Arco de Triumpho, moveu a cabea, murmurou: + +-- muito grave, deixar a Europa! + + * * * * * + +Emfim, partimos! Sob a doura do crepusculo que se enublra deixamos o +202. O Grillo e o Anatole seguiam n'um fiacre atulhado de livros, de +estojos, de paletots, de impermeaveis, de travesseiras, de agoas +mineraes, de saccos de couro, de rolos de mantas: e mais atraz um +omnibus rangia sob a carga de vinte e tres malas. Na Estao, Jacintho +ainda comprou todos os Jornaes, todas as Illustraes, Horarios, mais +livros, e um saca-rolhas de frma complicada e hostil. Guiados pelo +Chefe do Trafico, pelo Secretario da Companhia, occupamos copiosamente o +nosso salo. Eu puz o meu bonet de sda, calcei as minhas chinellas. Um +silvo varou a noite. Paris lampejou, fugiu n'um derradeiro claro de +janellas... Para o sorver, Jacintho ainda se arremessou portinhola. +Mas rolavamos j na treva da Provincia. O meu Principe ento recahiu nas +almofadas: + +--Que aventura, Z Fernandes! + +At Chartres, em silencio, folheamos as Illustraes. Em Orleans, o +guarda veio arranjar respeitosamente as nossas camas. Derreado com +aquelles quatorze mezes de Civilisao adormeci--e s acordei em Bordeus +quando Grillo, zeloso, nos trouxe o nosso chocolate. Fra, uma chuva +miudinha pingava mollemente d'um espesso ceu de algodo sujo. Jacintho +no se deitra, desconfiado da aspereza e da humidade dos lenoes. E, +mettido n'um roupo de flanella branco, com a face arripiada e +estremunhada, ensopando um bolo no chocolate, rosnava sombriamente: + +--Este horror!... E agora com chuva! + +Em Biarritz, ambos observamos com uma certeza indolente: + +-- Biarritz. + +Depois Jacintho, que espreitava pela janella embaciada, reconheceu o +lento caminhar pernalto, o nariz bicudo e triste, do Historiador Danjon. +Era elle, o facundo homem, vestido de xadrezinho, ao lado d'uma dama +rolia que levava pela trella uma cadellinha felpuda. Jacintho baixou a +vidraa violentamente, berrou pelo Historiador, na ancia de communicar +ainda, atravs d'elle, com a Cidade, com o 202!... Mas o comboio +mergulhra na chuva e nevoa. + +Sobre a ponte do Bidassoa, antevendo o termo da vida facil, os abrolhos +da Incivilisao, Jacintho suspirou com desalento: + +--Agora adeus, comea a Hespanha!... + +Indignado, eu, que j saboreava o generoso ar da terra bemdita, saltei +para diante do meu Principe, e n'um saracoteio de tremendo salero, +castanholando os dedos, entoei uma petenera condigna: + +A la puerta de mi casa +Ay Soledad, Soleda... ... ... . + +Elle estendeu os braos, supplicante: + +--Z Fernandes, tem piedade do enfermo e do triste! + +--_Irun_! _Irun_!... + +N'essa Irun almoamos com succulencia--por que sobre ns velava, como +Deusa omnipresente, a Companhia do Norte. Depois el jefe d'Aduana, el +jefe d'Estacion, preciosamente nos installaram n'outro salo, novo, com +setins cr d'azeitona, mas to pequeno que uma rica poro dos nossos +confortos em mantas, livros, saccos e impermeaveis, passou para o +compartimento do _Sleeping_ onde se repoltreavam o Grillo e o Anatole, +ambos de bonets escocezes, e fumando gordos charutos.--_Buen viaje_! +_Gracias_! _Servidores_!--E entramos silvando nos Pyreneos. + +Sob a influencia da chuva embaciadora, d'aquellas serras sempre eguaes, +que se desenrolavam, arripiadas, diluidas na nevoa, resvalei a uma +somnolencia dce;--e, quando descerrava as palpebras, encontrava +Jacintho a um canto, esquecido do livro fechado nos joelhos, sobre que +cruzra os magros dedos, considerando valles e montes com a melancolia +de quem penetra nas terras do seu desterro! Um momento veio em que, +arremessando o livro, enterrando mais o chapo molle, se ergueu com +tanta deciso, que receei detivesse o comboio para saltar estrada, +correr atravez das Vascongadas e da Navarra, para traz, para o 202! +Sacudi o meu torpr, exclamei:--oh menino!... No! O pobre amigo ia +apenas continuar o seu tedio para outro canto, enterrado n'outra +almofada, com outro livro fechado. E maneira que a escurido da tarde +crescia, e com ella a borrasca de vento e agoa, uma inquietao mais +aterrada se apoderava do meu Principe, assim desgarrado da Civilisao, +arrastado para a Natureza que j o cercava de brutalidade agreste. No +cessou ento de me interrogar sobre Tormes: + +--As noites so horriveis, hein, Z Fernandes? Tudo negro, enorme +solido... E medico?... Ha medico? + +Subitamente o comboio estacou. Mais grossa e ruidosa a chuva fustigou as +vidraas. Era um descampado, todo em treva, onde rolava e lufava um +grande vento solto. A machina apitava, com angustia. Uma lanterna +lampejou, correndo. Jacintho batia o p:-- medonho! medonho!... +Entreabri a portinhola. Da claridade incerta das vidraas surdiam +cabeas esticadas, assustadas.--_Que hay_? _Que hay_?--A uma rajada, +que me alagou, recuei:--e esperamos durante lentos, calados minutos, +esfregando desesperadamente os vidros embaciados para sondar a +escurido. De repente o comboio recomeou a rolar, muito sereno. + +Em breve appareceram as luzinhas mortas d'uma estao abarracada. Um +conductor, com o casaco de oleado todo a escorrer, trepou ao salo:--e +por elle soubemos, emquanto carimbava apressadamente os bilhetes, que o +trem, muito atrazado, talvez no alcanasse em Medina o comboio de +Salamanca! + +--Mas ento?... + +O casaco de oleado escorregra pela portinhola, fundido na noite, +deixando um cheiro de humidade e azeite. E ns encetamos um novo +tormento... Se o trem de Salamanca tivesse abalado? O salo, tomado at +Medina, desengatava em Medina:--e eis os nossos preciosos corpos, com as +nossas preciosas almas, despejados em Medina, para cima da lama, entre +vinte e trez malas, n'uma rude confuso hespanhola, sob a tormenta de +ventania e d'agua! + +--Oh, Z Fernandes, uma noite em Medina! + +Ao meu Principe apparecia como desventura suprema essa noite em Medina, +n'uma _fonda_ sordida, fedendo a alho, com gordas filas de percevejos +atravez dos lenoes d'estopa encardida!... No cessei ento de fitar, +n'um desassocego, os ponteiros do relogio:--emquanto Jacintho, pela +vidraa escancarada, todo fustigado da chuva clamorosa, furava a +negrura, na esperana de avistar as luzes de Medina e um comboio +paciente fumegando... Depois recahia no divan, limpava os bigodes e os +olhos, maldizia a Hespanha. O trem arquejava, rompendo o vasto vento da +planura desolada. E a cada apito era um alvoroo. Medina?... No! Algum +sumido apeadeiro, onde o trem se atardava, esfalfado, resfolgando, +emquanto dormentes figuras encarapuadas, embrulhadas em mantas, +rondavam sob o telheiro do barraco, que as lanternas baas tornavam +mais soturno. Jacintho esmurrava o joelho:--Mas por que pra este +infame comboio? No ha trafico, no ha gente! Oh esta Hespanha!... A +sineta badalava, moribunda. De novo fendiamos a noite e a borrasca. + +Resignadamente comecei a percorrer um _Jornal do Commercio_, antigo, +trazido de Paris. Jacintho esmagava o espesso tapete do salo com +passadas rancorosas, rosnando como uma fera. E ainda assim se escoou, s +gottas, uma hora cheia de eternidade.--Um silvo, outro silvo!... Luzes +mais fortes, longe, palpitaram na neblina. As rodas trilharam, com rijos +solavancos, os encontros de carris. Emfim, Medina!... Um muro sujo de +barraco alvejou--e bruscamente, portinhola aberta com violencia, +apparece um cavalheiro barbudo, de capa hespanhola, gritando pelo snr. +D. Jacintho!... Depressa! depressa! que parte o comboio de Salamanca! + +--Que no hay un momento, caballeros! Que no hay un momento! + +Agarro estonteadamente o meu paletot, o _Jornal ao Commercio_. Saltamos +com ancia:--e, pela plataforma, por sobre os trilhos, atravs de +charcos, tropeando em fardos, empurrados pelo vento, pelo homem da capa + hespanhola, enfiamos outra portinhola, que se fechou com um estalo +tremendo... Ambos arquejavamos. Era um salo forrado de um panno verde +que comia a luz escassa. E eu estendia o brao, para receber dos +carregadores aodados as nossas malas, os nossos livros, as nossas +mantas--quando, em silencio, sem um apito, o trem despegou e rolou. +Ambos nos atiramos s vidraas, em brados furiosos: + +--Pare! As nossas malas, as nossas mantas!... P'ra aqui!... Oh Grillo! +Oh Grillo! + +Uma immensa rajada levou os nossos brados. Era de novo o descampado +tenebroso, sob a chuva despenhada. Jacintho ergueu os punhos, n'um furor +que o engasgava: + +--Oh! Que servio! Oh que canalhas!... S em Hespanha!... E agora? As +malas perdidas!... Nem uma camisa, nem uma escova! + +Calmei o meu desgraado amigo: + +--Escuta! eu entrevi dous carregadores arrebanhando as nossas cousas... +Decerto o Grillo fiscalisou. Mas na pressa, naturalmente, atirou com +tudo para o seu compartimento... Foi um erro no trazer o Grillo +comnosco, no salo... At podiamos jogar a manilha! + +De resto a sollicitude da Companhia, Deusa omnipresente, velava sobre o +nosso conforto--pois que porta do lavatorio branquejava o cesto da +nossa ceia, mostrando na tampa um bilhete de D. Esteban com estas doces +palavras a lapis--_ D. Jacintho y su egregio amigo, que les d gusto_! +Farejei um aroma de perdiz. E alguma tranquillidade nos penetrou no +corao sentindo tambem as nossas malas sob a tutella da Deusa +omnipresente. + +--Tens fome Jacintho? + +--No. Tenho horror, furor, rancor!... E tenho somno. + +Com effeito! depois de to desencontradas emoes s appeteciamos as +camas que esperavam, macias e abertas. Quando cahi sobre a travesseira, +sem gravata, em ceroulas, j o meu Principe, que no se despira, apenas +embrulhra os ps no _meu_ paletot, nosso unico agasalho, resonava com +magestade. + +Depois, muito tarde e muito longe, percebi junto do meu catre, na +claridadezinha da manh, coada pelas cortinas verdes, uma fardeta, um +bonet, que murmuravam baixinho com immensa doura: + +--V. exc.^as no tem nada a declarar?... No ha malinhas de mo?... + +Era a minha terra! Murmurei baixinho com immensa ternura: + +--No temos aqui nada... Pergunte v. exc.^a pelo Grillo... Ahi atraz, +n'um compartimento... Elle tem as chaves, tem tudo... o Grillo. + +A fardeta desappareceu, sem rumor, como sombra benefica. E eu readormeci +com o pensamento em Guies, onde a tia Vicencia, atarefada, de leno +branco cruzado no peito, de certo j preparava o leito. + +Acordei envolto n'um largo e doce silencio. Era uma Estao muito +socegada, muito varrida, com rosinhas brancas trepando pelas paredes--e +outras rosas em moitas, n'um jardim, onde um tanquesinho abafado de +limos dormia sob duas mimosas em flr que rescendiam. Um moo pallido, +de paletot cr de mel, vergando a bengalinha contra o cho, contemplava +pensativamente o comboio. Agachada rente grade da horta, uma velha, +diante da sua cesta de ovos, contava moedas de cobre no regao. Sobre o +telhado seccavam aboboras. Por cima rebrilhava o profundo, rico e macio +azul de que meus olhos andavam agoados. + +Sacudi violentamente Jacintho: + +--Acorda, homem, que ests na tua terra! + +Elle desembrulhou os ps do meu paletot, cofiou o bigode, e veio sem +pressa, vidraa que eu abrira, conhecer a sua terra. + +--Ento Portugal, hein?... Cheira bem. + +--Est claro que cheira bem, animal! + +A sineta tilintou languidamente. E o comboio deslisou, com descano, +como se passeasse para seu regalo sobre as duas fitas d'ao, assobiando +e gozando a belleza da terra e do ceu. + +O meu Principe alargava os braos, desolado: + +--E nem uma camisa, nem uma escova, nem uma gotta d'agoa de Colonia!... +Entro em Portugal, immundo! + +--Na Regoa ha uma demora, temos tempo de chamar o Grillo, rehaver os +nossos confortos... Olha para o rio! + +Rolavamos na vertente d'uma serra, sobre penhascos que desabavam at +largos socalcos cultivados de vinhedo. Em baixo, n'uma esplanada, +branquejava uma casa nobre, de opulento repouso, com a capellinha muito +caiada entre um laranjal maduro. Pelo rio, onde a agoa turva e tarda nem +se quebrava contra as rochas, descia, com a vela cheia, um barco lento +carregado de pipas. Para alm, outros socalcos, d'um verde pallido de +rezeda, com oliveiras apoucadas pela amplido dos montes, subiam at +outras penedias que se embebiam, todas brancas e assoalhadas, na fina +abundancia do azul. Jacintho acariciava os pellos corredios do bigode: + +--O Douro, hein?... interessante, tem grandeza. Mas agora que eu +estou com uma fome, Z Fernandes! + +Tambem eu! Destapamos o cesto de D. Esteban d'onde surdiu um bodo +grandioso, de presunto, anho, perdizes, outras viandas frias que o ouro +de duas nobres garrafas d'Amontillado, alm de duas garrafas de Rioja, +aqueciam com um calor de sol Andaluz. Durante o presunto, Jacintho +lamentou contrictamente o seu erro. Ter deixado Tormes, um solar +historico, assim abandonado e vasio! Que delicia, por aquella manh to +lustrosa e tepida, subir serra, encontrar a sua casa bem apetrechada, +bem civilisada... Para o animar, lembrei que com as obras do Silverio, +tantos caixotes de Civilisao remettidos de Paris, Tormes estaria +confortavel mesmo para Epicuro. Oh! mas Jacintho entendia um palacio +perfeito, um 202 no deserto!... E, assim discorrendo, atacamos as +perdizes. Eu desarrolhava uma garrafa de Amontillado--quando o comboio, +muito sorrateiramente, penetrou n'uma Estao. Era a Regoa. E o meu +Principe pousou logo a faca para chamar o Grillo, reclamar as malas que +traziam o aceio dos nossos corpos. + +--Espera, Jacintho! Temos muito tempo, O comboio pra aqui uma hora... +Come com tranquillidade. No escangalhemos este almocinho com arrumaes +de maletas... O Grillo no tarda a apparecer. + +E corri mesmo a cortina, porque de fra um padre muito alto, com uma +ponta de cigarro collada ao beio, parra a espreitar indiscretamente o +nosso festim. Mas quando acabamos as perdizes, e Jacintho confiadamente +desembrulhava um queijo manchego, sem que Grillo ou Anatole +comparecessem, eu, inquieto, corri portinhola para apressar esses +servos tardios... E n'esse instante o comboio, largando, deslisou com o +mesmo silencio sorrateiro. Para o meu Principe foi um desgosto: + +--Ahi ficamos outra vez sem um pente, sem uma escova... E eu que queria +mudar de camisa! Por culpa tua, Z-Fernandes! + +-- espantoso!... Demora sempre uma eternidade. Hoje chega e abala! +Paciencia, Jacintho. Em duas horas estamos na Estao de Tormes... +Tambem no valia a pena mudar de camisa para subir serra! Em casa +tomamos um banho, antes de jantar... J deve estar installada a +banheira. + +Ambos nos consolamos com copinhos d'uma divina aguardente Chinchon. +Depois, estendidos nos sophs, saboreando os dois charutos que nos +restavam, com as vidraas abertas ao ar adoravel, conversamos de Tormes. +Na estao certamente estaria o Silverio, com os cavallos... + +--Que tempo leva a subir? + +Uma hora. Depois de lavados sobrava tempo para um demorado passeio pelas +terras com o caseiro, o excellente Melchior, para que o Senhor de +Tormes, solemnemente, tomasse posse do seu Senhorio. E noite o +primeiro brodio da serra, com os piteus vernaculos do velho Portugal! + +Jacintho sorria, seduzido: + +--Vamos a ver que cozinheiro me arranjou esse Silverio. Eu recommendei +que fosse um soberbo cozinheiro portuguez, classico. Mas que soubesse +trufar um per, afogar um bife em molho de moella, estas cousas simples +da cozinha de Frana!... O peor no te demorares, seguires logo para +Guies... + +--Ah, menino, annos da tia Vicencia no sabbado... Dia sagrado! Mas +volto. Em duas semanas estou em Tormes, para fazermos uma larga +Bucolica. E, est claro, para assistir trasladao. + +Jacintho estendera o brao: + +--Que casaro aquelle, alm no outeiro, com a torre? + +Eu no sabia. Algum solar de fidalgote do Douro... Tormes era n'esse +feitio atarracado e massio. Casa de seculos e para seculos--mas sem +torre. + +--E logo se v, da estao, Tormes?... + +--No! Muito no alto, n'uma prega da serra, entre arvoredo. + +No meu Principe j evidentemente nascra uma curiosidade pela sua rude +casa ancestral. Mirava o relogio, impaciente. Ainda trinta minutos! +Depois, sorvendo o ar e a luz, murmurava, no primeiro encanto de +iniciado: + +--Que doura, que paz... + +--Trez horas e meia, estamos a chegar, Jacintho! + +Guardei o meu velho _Jornal do Commercio_ dentro do bolso do paletot, +que deitei sobre o brao;--e ambos em p, s janellas, esperamos com +alvoroo a pequenina Estao de Tormes, termo ditoso das nossas +provaes. Ella appareceu emfim, clara e simples, beira do rio, entre +rochas, com os seus vistosos girasoes enchendo um jardimsinho breve, as +duas altas figueiras assombreando o pateo, e por traz a serra coberta de +velho e denso arvoredo... Logo na plataforma avistei com gosto a immensa +barriga, as bochechas menineiras do chefe da Estao, o louro Pimenta, +meu condiscipulo em Rhetorica, no Lyceu de Braga. Os cavallos decerto +esperavam, sombra, sob as figueiras. + +Mal o trem parou ambos saltamos alegremente. A bojuda massa do Pimenta +rebolou para mim com amizade: + +--Viva o amigo Z Fernandes! + +--Oh bello Pimento!... + +Apresentei o senhor de Tormes. E immediatamente: + +--Ouve l, Pimentinha... No est ahi o Silverio? + +--No... O Silverio ha quasi dois mezes que partiu para Castello de +Vide, vr a me que apanhou uma cornada d'um boi! + +Atirei a Jacintho um olhar inquieto: + +--Ora essa! E o Melchior, o caseiro?... Pois no esto ahi os cavallos +para subirmos quinta? + +O digno chefe ergueu com surpreza as sobrancelhas cr de milho: + +--No!... Nem Melchior, nem cavallos... O Melchior... Ha que tempos eu +no vejo o Melchior! + +O carregador badalou lentamente a sineta para o comboio rolar. Ento, +no avistando em torno, na lisa e despovoada Estao, nem creados nem +malas, o meu Principe e eu lanamos o mesmo grito de angustia: + +--E o Grillo? as bagagens?... + +Corremos pela beira do comboio, berrando com desespero: + +--Grillo!... Oh Grillo!... Anatole!... Oh Grillo! + +Na esperana que elle e o Anatole viessem mortalmente adormecidos, +trepavamos aos estribos, atirando a cabea para dentro dos +compartimentos, espavorindo a gente quieta com o mesmo berro que +retumbava:--Grillo, ests ahi, Grillo?--J d'uma terceira-classe, onde +uma viola repenicava, um jocoso gania, troando:--No ha por ahi um +grillo? Andam por ahi uns senhores a pedir um grillo!--E nem Anatole, +nem Grillo! + +A sineta tilintou. + +--Oh Pimentinha, espera, homem, no deixes largar o comboio!... As +nossas bagagens, homem! + +E, afflicto, empurrei o enorme chefe para o forgo de carga, a +pesquizar, descortinar as nossas vinte e trez malas! Apenas encontramos +barris, cestos de vime, latas de azeite, um bah amarrado com cordas... +Jacintho mordia os beios, livido. E o Pimentinha, esgazeado: + +--Oh filhos, eu no posso atrazar o comboio!... + +A sineta repicou... E com um bello fumo claro o comboio desappareceu por +detraz das fragas altas. Tudo em torno pareceu mais calado e deserto. +Alli ficavamos pois baldeados, perdidos na serra, sem Grillo, sem +procurador, sem caseiro, sem cavallos, sem malas! Eu conservava o +paletot alvadio, d'onde surdia o _Jornal do Commercio_. Jacintho, uma +bengala. Eram todos os nossos bens! + +O Pimento arregalava para ns os olhinhos papudos e compadecidos. +Contei ento quelle amigo o atarantado trasfgo em Medina sob a +borrasca, o Grillo desgarrado, encalhado com as vinte e trez malas, ou +rolando talvez para Madrid sem nos deixar um leno... + +--Eu no tenho um leno!... Tenho este _Jornal do Commercio_. toda a +minha roupa branca. + +--Grande arrelia, caramba! murmurava o Pimenta, impressionado. E agora? + +--Agora, exclamei, trepar, para a quinta, pata... A no ser que se +arranjassem ahi uns burros. + +Ento o carregador lembrou que perto, no casal da Giesta, ainda +pertencente a Tormes, o caseiro, seu compadre, tinha uma boa egua e um +jumento... E o prestante homem enfiou n'uma carreira para a +Giesta--emquanto o meu Principe e eu cahiamos para cima d'um banco, +arquejantes e succumbidos, como naufragos. O vasto Pimentinha, com as +mos nas algibeiras, no cessava de nos contemplar, de murmurar:-- de +arrelia.--O rio defronte descia, preguioso e como adormentado sob a +calma j pesada de maio, abraando, sem um sussurro, uma larga ilhota de +pedra que rebrilhava. Para alm a serra crescia em corcovas doces, com +uma funda prega onde se aninhava, bem junta e esquecida do mundo, uma +villasinha clara. O espao immenso repousava n'um immenso silencio. +N'aquellas solides de monte e penedia os pardaes, revoando no telhado, +pareciam aves consideraveis. E a massa rotunda e rubicunda do Pimentinha +dominava, atulhava a regio. + +--Est tudo arranjado, meu senhor! Vm ahi os bichos!... S o que no +calhou foi um selimsinho para a jumenta! + +Era o carregador, digno homem, que voltava da Giesta, sacudindo na mo +duas esporas desirmanadas e ferrugentas. E no tardaram a apparecer no +corrego, para nos levarem a Tormes, uma egua rua, um jumento com +albarda, um rapaz e um podengo. Apertamos a mo suada e amiga do +Pimentinha. Eu cedi a egua ao senhor de Tormes. E comeamos a trepar o +caminho, que no se alisra nem se desbravra desde os tempos em que o +trilhavam, com rudes sapates ferrados, cortando de rio a monte, os +Jacinthos do seculo XIV! Logo depois de atravessarmos uma tremula ponte +de pau, sobre um riacho quebrado por pedregulhos, o meu Principe, com o +olho de dono subitamente aguado, notou a robustez e a fartura das +oliveiras...--E em breve os nossos males esqueceram ante a incomparavel +belleza d'aquella serra bemdita! + +Com que brilho e inspirao copiosa a compozera o divino Artista que faz +as serras, e que tanto as cuidou, e to ricamente as dotou, n'este seu +Portugal bem-amado! A grandeza egualava a graa. Para os valles, +poderosamente cavados, desciam bandos de arvoredos, to copados e +redondos, d'um verde to mo que eram como um musgo macio onde +appetecia cahir e rolar. Dos pendores, sobranceiros ao carreiro fragoso, +largas ramadas estendiam o seu toldo amavel, a que o esvoaar leve dos +passaros sacudia a fragrancia. Atravez dos muros seculares, que sustem +as terras liados pelas heras, rompiam grossas raizes colleantes a que +mais hera se enroscava. Em todo o torro, de cada fenda, brotavam flres +silvestres. Brancas rochas, pelas encostas, alastravam a solida nudez do +seu ventre polido pelo vento e pelo sol; outras, vestidas de lichen e de +silvados floridos, avanavam como pras de galeras enfeitadas: e, +d'entre as que se apinhavam nos cimos, algum casebre que para l +galgra, todo amachucado e torto, espreitava pelos postigos negros, sob +as desgrenhadas farripas de verdura, que o vento lhe semera nas telhas. +Por toda a parte a agua sussurrante, a agua fecundante... Espertos +regatinhos fugiam, rindo com os seixos, d'entre as patas da egua e do +burro; grossos ribeiros aodados saltavam com fragor de pedra em pedra; +fios direitos e luzidios como cordas de prata vibravam e faiscavam das +alturas aos barrancos; e muita fonte, posta beira de veredas, jorrava +por uma bica, beneficamente, espera dos homens e dos gados... Todo um +cabeo por vezes era uma cera, onde um vasto carvalho ancestral, +solitario, dominava como seu senhor e seu guarda. Em socalcos verdejavam +laranjaes rescendentes. Caminhos de lages soltas circumdavam fartos +prados com carneiros e vaccas retouando:--ou mais estreitos, entalados +em muros, penetravam sob ramadas de parra espessa, n'uma penumbra de +repouso e frescura. Trepavamos ento alguma ruasinha de aldeia, dez ou +doze casebres, sumidos entre figueiras, onde se esgaava, fugindo do lar +pela telha v, o fumo branco e cheiroso das pinhas. Nos cerros remotos, +por cima da negrura pensativa dos pinheiraes, branquejavam ermidas. O ar +fino e puro entrava na alma, e n'alma espalhava alegria e fora. Um +esparso tilintar de chocalhos de guizos morria pelas quebradas... + +Jacintho adiante, na sua egua rua, murmurava: + +--Que belleza! + +E eu atraz, no burro de Sancho, murmurava: + +--Que belleza! + +Frescos ramos roavam os nossos hombros com familiaridade e carinho. Por +traz das sebes, carregadas d'amoras, as macieiras estendidas offereciam +as suas mas verdes, porque as no tinham maduras. Todos os vidros +d'uma casa velha, com a sua cruz no topo, refulgiram hospitaleiramente +quando ns passamos. Muito tempo um melro nos seguia, de azinheiro a +olmo, assobiando os nossos louvores. Obrigado, irmo melro! Ramos de +macieira, obrigado! Aqui vimos, aqui vimos! E sempre comtigo fiquemos, +serra to acolhedora, serra de fartura e de paz, serra bemdita entre as +serras! + +Assim, vagarosamente e maravilhados, chegamos quella avenida de faias, +que sempre me encantra pela sua fidalga gravidade. Atirando uma +vergastada ao burro e egua, o nosso rapaz, com o seu podengo sobre os +calcanhares, gritou:--Aqui que estmos, meus amos! E ao fundo das +faias, com effeito, apparecia o porto da quinta de Tormes, com o seu +brazo de armas, de secular granito, que o musgo retocava e mais +envelhecia. Dentro j os ces ladravam com furor. E quando Jacintho, na +sua suada egua, e eu atraz, no burro de Sancho, transpozemos o limiar +solarengo, desceu para ns, do alto do alpendre, pela escadaria de pedra +gasta, um homem nedio, rapado como um padre, sem collete, sem jaleca, +acalmando os ces que se encarniavam contra o meu Principe. Era o +Melchior, o caseiro... Apenas me reconheceu, toda a bocca se lhe +escancarou n'um riso hospitaleiro, a que faltavam dentes. Mas apenas eu +lhe revelei, d'aquelle cavalheiro de bigodes louros que descia da egua +esfregando os quadris, o senhor de Tormes--o bom Melchior recuou, +colhido de espanto e terror como diante d'uma avantesma. + +--Ora essa!... Santissimo nome de Deus! Pois ento... + +E, entre o rosnar dos ces, n'um bracejar desolado, balbuciou uma +historia que por seu turno apavorava Jacintho, como se o negro muro do +casaro pendesse para desabar. O Melchior no esperava s. ex.^a! Ninguem +esperava s. ex.^a!... (Elle dizia _sua incellencia_)... O snr. Silverio +estava para Castello de Vide desde maro, com a me, que apanhra uma +cornada na virilha. E de certo houvera engano, cartas perdidas... Porque +o snr. Silverio s contava com s. exc.^a em setembro, para a vindima! Na +casa as obras seguiam devagarinho, devagarinho... O telhado, no sul, +ainda continuava sem telhas; muitas vidraas esperavam, ainda sem +vidros; e, para ficar, Virgem Santa, nem uma cama arranjada!... + +Jacintho cruzou os braos n'uma colera tumultuosa que o suffocava. Por +fim, com um berro: + +--Mas os caixotes? Os caixotes, mandados de Paris, em fevereiro, ha +quatro mezes?... + +O desgraado Melchior arregalava os olhos miudos, que se embaciavam de +lagrimas. Os caixotes?! Nada chegra, nada apparecera!... E na sua +perturbao mirava pelas arcadas do pateo, palpava na algibeira das +pantalonas. Os caixotes?... No, no tinha os caixotes! + +--E agora, Z Fernandes? + +Encolhi os hombros: + +--Agora, meu filho, s vires commigo para Guies... Mas so duas horas +fartas a cavallo. E no temos cavallos! O melhor vr o casaro, comer +a boa gallinha que o nosso amigo Melchior nos assa no espeto, dormir +n'uma enxerga, e manha cedo, antes do calor, trotar para cima, para a +tia Vicencia. + +Jacintho replicou, com uma deciso furiosa: + +--manh troto, mas para baixo, para a estao!... E depois, para +Lisboa! + +E subiu a gasta escadaria do seu solar com amargura e rancor. Em cima +uma larga varanda acompanhava a fachada do casaro, sob um alpendre de +negras vigas, toda ornada, por entre os pilares de granito, com caixas +de pau onde floriam cravos. Colhi um cravo amarello---e penetrei atraz +de Jacintho nas salas nobres, que elle contemplava com um murmurio de +horror. Eram enormes, d'uma sonoridade de casa capitular, com os grossos +muros ennegrecidos pelo tempo e o abandono, e regeladas, desoladamente +nas, conservando apenas aos cantos algum monte de canastras ou alguma +enxada entre paus. Nos tectos remotos, de carvalho apainelado, luziam +atravs dos rasges manchas de co. As janellas, sem vidraas, +conservavam essas macissas portadas, com fechos para as trancas, que, +quando se cerram, espalham a treva. Sob os nossos passos, aqui e alm, +uma taboa pdre rangia e cedia. + +--Inhabitavel! rugia Jacintho surdamente. Um horror! Uma infamia!... + +Mas depois, n'outras salas, o soalho alternava com remendos de taboas +novas. Os mesmos remendos claros mosqueavam os velhissimos tectos de +rico carvalho sombrio. As paredes repelliam pela alvura cra da cal +fresca. E o sol mal atravessava as vidraas--embaciadas e gordurentas da +massa e das mos dos vidraceiros. + +Penetramos emfim na ultima, a mais vasta, rasgada por seis janellas, +mobilada com um armario e com uma enxerga parda e curta estirada a um +canto: e junto d'ella paramos, e sobre ella depuzemos tristemente o que +nos restava de vinte e trez malas--o meu paletot alvadio, a bengala de +Jacintho, e o _Jornal do Commercio_ que nos era commum. Atravs das +janellas escancaradas, sem vidraas, o grande ar da serra entrava e +circulava como n'um eirado, com um cheiro fresco d'horta regada. Mas o +que avistavamos, da beira da enxerga, era um pinheiral cobrindo um +cabeo e descendo pelo pendor suave, maneira d'uma hoste em marcha, +com pinheiros na frente, destacados, direitos, emplumados de negro; mais +longe as serras d'alm rio, d'uma fina e macia cr de violeta; depois a +brancura do co, todo liso, sem uma nuvem, d'uma magestade divina. E l +debaixo, dos valles, subia, desgarrada e melancolica, uma voz de +pegureiro cantando. + +Jacintho caminhou lentamente para o poial d'uma janella, onde cahiu +esbarrondado pelo desastre, sem resistencia ante aquelle brusco +desapparecimento de toda a Civilisao! Eu palpava a enxerga, dura e +regelada como um granito de inverno. E pensando nos luxuosos colches de +pennas e molas, to prodigamente encaixotados no 202, desafoguei tambem +a minha indignao: + +--Mas os caixotes, caramba?... Como se perdem assim trinta e tantos +caixotes enormes?... + +Jacintho saccudiu amargamente os hombros: + +--Encalhados, por ahi, algures, n'um barraco!... Em Medina, talvez, +n'essa horrenda Medina. Indifferena das Companhias, inercia do +Silverio... Emfim a Peninsula, a barbarie! + +Vim ajoelhar sobre o outro poial, alongando os olhos consolados por co +e monte: + +-- uma belleza! + +O meu principe, depois de um silencio grave, murmurou, com a face +encostada mo: + +-- uma lindeza... E que paz! + +Sob a janella vicejava fartamente uma horta, com repolho, feijoal, +talhes de alface, gordas folhas de abobora rastejando. Uma eira, velha +e mal alisada, dominava o valle, d'onde j subia tenuemente a nevoa +d'algum fundo ribeiro. Toda a esquina do casaro d'esse lado se +encravava em laranjal. E d'uma fontinha rustica, meio afogada em rosas +tremedeiras, corria um longo e rutilante fio d'agua. + +--Estou com appetite desesperado d'aquella agoa! declarou Jacintho, +muito srio. + +--Tambem eu... Desamos ao quintal, hein? E passamos pela cosinha, a +saber do frango. + +Voltamos varanda. O meu Principe, mais conciliado com o destino +inclemente, colheu um cravo amarello. E por outra porta baixa, de +rigissimas hombreiras, mergulhamos n'uma sala, alastrada de calia, sem +tecto, coberta apenas de grossas vigas, d'onde s'ergueu uma revoada de +pardaes. + +--Olha para este horror! murmurava Jacintho arripiado. + +E descemos por uma lobrega escada de castello, tenteando depois um +corredor tenebroso de lages asperas, atravancado por profundas arcas, +capazes de guardar todo o gro d'uma provincia. Ao fundo a cozinha, +immensa, era uma massa de frmas negras, madeira negra, pedra negra, +densas negruras de felugem secular. E n'este negrume refulgia a um +canto, sobre o cho de terra negra, a fogueira vermelha, lambendo tachos +e panellas de ferro, despedindo uma fumarada que fugia pela grade aberta +no muro, depois por entre a folhagem dos limoeiros. Na enorme lareira, +onde se aqueciam e assavam as suas grossas peas de porco e boi os +Jacinthos medievaes, agora desaproveitada pela frugalidade dos caseiros, +negrejava um poeirento monto de cestas e ferramentas; e a claridade +toda entrava por uma porta de castanho, escancarada sobre um quintalejo +rustico em que se misturavam couves lombardas e junquilhos formosos. Em +roda do lume um bando alvoroado de mulheres depennava frangos, remexia +as caarolas, picava a cebola, com um fervor afogueado e palreiro. Todas +emmudeceram quando apparecemos--e d'entre ellas o pobre Melchior, +estonteado, com o sangue a espirrar na nedia face d'abbade, correu para +ns, jurando que o jantarinho de suas Incellencias no demorava um +credo... + +--E a respeito de camas, oh amigo Melchior? + +O digno homem ciciou uma desculpa encolhida sobre enxergasinhas no +cho... + +-- o que basta! acudi eu, para o consolar. Por uma noite, com lenoes +frescos... + +--Ah, l pelos lenoesinhos respondo eu!... Mas um desgosto assim, meu +senhor! A gente apanhada sem um colxosinho de l, sem um lombosinho de +vacca... Que eu j pensei, at lembrei minha comadre, V. Inc.^{as} +podiam ir dormir aos _Ninhos_, a casa do Silverio. Tinham l camas de +ferro, lavatorios... Elle sempre uma legoasita e mau caminho... + +Jacintho, bondoso, accudiu: + +--No, tudo se arranja, Melchior. Por uma noite!... At gsto mais de +dormir em Tormes, na minha casa da serra! + +Sahimos ao terreiro, retalho de horta fechado por grossas rochas +encabelladas de verdura, entestando com os socalcos da serra onde +lourejava o centeio. O meu principe bebeu da agua nevada e lusidia da +fonte, regaladamente, com os beios na bica; appeteceu a alface +rechonchuda e crespa; e atirou pulos aos ramos altos d'uma copada +cerejeira, toda carregada de cereja. Depois, costeando o velho lagar, a +que um bando de pombas branqueava o telhado, deslismos at ao carreiro, +cortado no costado do monte. E andando, pensativamente, o meu Principe +pasmava para os milheiraes, para os vetustos carvalhos plantados por +vetustos Jacinthos, para os casebres espalhados sobre os cabeos orla +negra dos pinheiraes. + +De novo penetramos na avenida de faias e transpozemos o porto senhorial +entre o latir dos ces, mais mansos, farejando um dono. Jacintho +reconheceu certa nobreza na frontaria do seu lar. Mas sobretudo lhe +agradava a longa alameda, assim direita e larga, como traada para +n'ella se desenrolar uma cavalgada de Senhores com plumas e pagens. +Depois, de cima da varanda, reparando na telha nova da capella, louvou o +Silverio, esse ralao, por cuidar ao menos da morada do Bom-Deus. + +--E esta varanda tambem agradavel, murmurou elle mergulhando a face no +aroma dos cravos. Precisa grandes poltronas, grandes divans de verga... + +Dentro, na nossa sala, ambos nos sentamos nos poiaes da janella, +contemplando o doce socego crepuscular que lentamente se estabelecia +sobre valle e monte. No alto tremeluzia uma estrellinha, a Venus +diamantina, languida annunciadora da noite e dos seus contentamentos. +Jacintho nunca considerra demoradamente aquella estrella, de amorosa +refulgencia, que perpetua no nosso Co catholico a memoria da Deusa +incomparavel:--nem assistira jmais, com a alma attenta, ao magestoso +adormecer da Natureza. E este ennegrecimento dos montes que se embuam +em sombra; os arvoredos emmudecendo, canados de susurrar; o rebrilho +dos casaes mansamente apagado; o cobertor de nevoa, sob que se acama e +agasalha a frialdade dos valles; um toque somnolento de sino que rola +pelas quebradas; o segredado cochichar das aguas e das relvas +escuras--eram para elle como iniciaes. D'aquella janella, aberta sobre +as serras, entrevia uma outra vida, que no anda smente cheia do Homem +e do tumulto da sua obra. E senti o meu amigo suspirar como quem emfim +descana. + +D'este enlevo nos arrancou o Melchior com o doce aviso do jantarinho de +suas Incellencias. Era n'outra sala, mais na, mais abandonada:--e ahi +logo porta o meu super-civilisado Principe estacou, estarrecido pelo +desconforto, escassez e rudeza das coisas. Na mesa, encostada ao muro +denegrido, sulcado pelo fumo das candeias, sobre uma toalha de estopa, +duas velas de sbo em castiaes de lata alumiavam grossos pratos de +loua amarella, ladeados por colheres de estanho e por garfos de ferro. +Os copos, d'um vidro espesso, conservavam a sombra roxa do vinho que +n'elles passra em fartos annos de fartas vindimas. A malga de barro, +atestada de azeitonas pretas, contentaria Diogenes. Espetado na cdea +d'um immenso po reluzia um immenso facalho. E na cadeira senhoreal +reservada ao meu Principe, derradeira alfaia dos velhos Jacinthos, de +hirto espaldar de couro, com a madeira roda de caruncho, a clina fugia +em melenas pelos rasges do assento poido. + +Uma formidavel moa, de enormes peitos que lhe tremiam dentro das +ramagens do leno cruzado, ainda suada e esbrazeada do calor da lareira, +entrou esmagando o soalho, com uma terrina a fumegar. E o Melchior, que +seguia erguendo a infusa do vinho, esperava que suas Incellencias lhe +perdoassem porque faltra tempo para o caldinho apurar... Jacintho +occupou a sde ancestral--e, durante momentos (de esgazeada anciedade +para o caseiro excellente) esfregou energicamente, com a ponta da +toalha, o garfo negro, a fusca colhr de estanho. Depois, desconfiado, +provou o caldo, que era de gallinha e rescendia. Provou--e levantou para +mim, seu camarada de miserias, uns olhos que brilharam, surprehendidos. +Tornou a sorver uma colherada mais cheia, mais considerada. E sorriu, +com espanto:--Est bom! + +Estava precioso: tinha figado e tinha moela: o seu perfume enternecia: +tres vezes, fervorosamente, ataquei aquelle caldo. + +--Tambem l volto! exclamava Jacintho com uma convico immensa. que +estou com uma fome... Santo Deus! Ha annos que no sinto esta fome. + +Foi elle que rapou avaramente a sopeira. E j espreitava a porta, +esperando a portadora dos piteus, a rija moa de peitos trementes, que +emfim surgiu, mais esbrazeada, abalando o sobrado--e pousou sobre a mesa +uma travessa a trasbordar de arroz com favas. Que desconsolo! Jacintho, +em Paris, sempre abominra favas!... Tentou todavia uma garfada +timida--e de novo aquelles seus olhos, que o pessimismo ennovora, +luziram, procurando os meus. Outra larga garfada, concentrada, com uma +lentido de frade que se regala. Depois um brado: + +--Optimo!... Ah, d'estas favas, sim! Oh que fava! Que delicia! + +E por esta santa gula louvava a serra, a arte perfeita das mulheres +palreiras que em baixo remexiam as panellas, o Melchior que presidia ao +brodio... + +--D'este arroz com fava nem em Paris, Melchior amigo! + +O homem optimo sorria, inteiramente desannuviado: + +--Pois c a comidinha dos moos da quinta! E cada pratada, que at +suas Incellencias se riam... Mas agora, aqui, o Snr. D. Jacintho, tambem +vae engordar e enrijar! + +O bom caseiro sinceramente cria que, perdido n'esses remotos Parizes, o +Senhor de Tormes, longe da fartura de Tormes, padecia fome e mingava... +E o meu Principe, na verdade, parecia saciar uma velhissima fome e uma +longa saudade da abundancia, rompendo assim, a cada travessa, em +louvores mais copiosos. Diante do louro frango assado no espeto e da +salada que elle appetecera na horta, agora temperada com um azeite da +serra digno dos labios de Plato, terminou por bradar:-- divino! Mas +nada o enthusiasmava como o vinho de Tormes, cahindo d'alto, da bojuda +infusa verde--um vinho fresco, esperto, seivoso, e tendo mais alma, +entrando mais na alma, que muito poema ou livro santo. Mirando, vela +de sbo, o copo grosso que elle orlava de leve espuma rosea, o meu +Principe, com um resplendr d'optimismo na face, citou Virgilio: + +--_Quo te carmina dicam, Rethica_? Quem dignamente te cantar, vinho +amavel d'estas serras? + +Eu, que no gosto que me avantagem em saber classico, espanejei logo +tambem o meu Virgilio, louvando as douras da vida rural: + +--_Hanc olim veteres vitam coluere Sabini_... Assim viveram os velhos +Sabinos. Assim Romolo e Remo... Assim cresceu a valente Etruria. Assim +Roma se tornou a maravilha do mundo! + +E immovel, com a mo agarrada infusa, o Melchior arregalava para ns +os olhos em infinito assombro e religiosa reverencia. + + * * * * * + +Ah! Jantamos deliciosissimamente, sob os auspicios do Melchior--que +ainda depois, prvido e tutelar, nos forneceu o tabaco. E, como ante ns +se alongava uma noite de monte, voltamos para as janellas desvidraadas, +na sala immensa, a contemplar o sumptuoso co de vero. Philosophmos +ento com pachorra e facundia. + +Na Cidade (como notou Jacintho) nunca se olham, nem lembram os +astros--por causa dos candieiros de gaz ou dos globos de electricidade +que os offuscam. Por isso (como eu notei) nunca se entra n'essa +communho com o Universo que a unica gloria e unica consolao da +Vida. Mas na serra, sem predios disformes de seis andares, sem a +fumaraa que tapa Deus, sem os cuidados que como pedaos de chumbo puxam +a alma para o p rasteiro--um Jacintho, um Z Fernandes, livres, bem +jantados, fumando nos poiaes d'uma janella, olham para os astros e os +astros olham para elles. Uns, certamente, com olhos de sublime +immobilidade ou de subllime indifferena. Mas outros curiosamente, +anciosamente, com uma luz que acena, uma luz que chama, como se +tentassem, de to longe, revelar os seus segredos, ou de to longe +comprehender os nossos... + +--Oh Jacintho, que estrella esta, aqui, to viva, sobre o beiral do +telhado? + +--No sei... E aquella, Z Fernandes, alm, por cima do pinheiral? + +--No sei. + +No sabiamos. Eu, por causa da espessa crosta de ignorancia com que sahi +do ventre de Coimbra, minha Me espiritual. Elle, porque na sua +Bibliotheca possuia trezentos e oito tratados sobre Astronomia, e o +Saber, assim accumulado, frma um monte que nunca se transpe nem se +desbasta. Mas que nos importava que aquelle astro alm se chamasse +Syrius e aquelle outro Aldebaran? Que lhes importava a elles que um de +ns fosse Jacintho, outro Z? Elles to immensos, ns to pequeninos, +somos a obra da mesma Vontade. E todos, Uranos ou Lorenas de Noronha e +Sande, constituimos modos diversos d'um Sr unico, e as nossas +diversidades esparsas sommam na mesma compacta Unidade. Molleculas do +mesmo Todo, governadas pela mesma Lei, rolando para o mesmo Fim... Do +astro ao homem, do homem flr do trevo, da flr do trevo ao mar +sonoro--tudo o mesmo Corpo, onde circula, como um sangue, o mesmo +Deus. E nenhum fremito de vida, por menor, passa n'uma fibra d'esse +sublime Corpo, que se no repercuta em todas, at s mais humildes, at +s que parecem inertes e invitaes. Quando um Sol que no avisto, nunca +avistarei, morre de inanio nas profundidades, esse esguio galho de +limoeiro, em baixo na horta, sente um secreto arrepio de morte:--e, +quando eu bato uma patada no soalho de Tormes, alm o monstruoso Saturno +estremece, e esse estremecimento percorre o inteiro Universo! Jacintho +abateu rijamente a mo no rebordo da janella. Eu gritei: + +--Acredita!... O sol tremeu. + +E depois (como eu notei) deviamos considerar que, sobre cada um d'esses +gros de p luminoso, existia uma creao, que incessantemente nasce, +perece, renasce. N'este instante, outros Jacinthos, outros Zs +Fernandes, sentados s janellas d'outras Tormes, contemplam o co +nocturno, e n'elle um pequenininho ponto de luz, que a nossa possante +Terra por ns tanto sublimada. No tero todos esta nossa frma, bem +fragil, bem desconfortavel, e (a no ser no Apollo do Vaticano, na Venus +de Milo e talvez na Princeza, de Carman) singularmente feia e burlesca. +Mas, horrendos ou de ineffavel belleza; collossaes e d'uma carne mais +dura que o granito, ou leves como gazes e ondulando na luz, todos elles +so sres pensantes e teem consciencia da Vida--porque decerto cada +Mundo possue o seu Descartes, ou j o nosso Descartes os percorreu a +todos com o seu Methodo, a sua escura capa, a sua agudeza elegante, +formulando a unica certeza talvez certa, o grande _Penso logo existo_. +Portanto todos ns, Habitantes dos Mundos, s janellas dos nossos +casares, alm nos Saturnos, ou aqui na nossa Terricula, constantemente +perfazemos um acto sacrosanto que nos penetra e nos funde--que +sentirmos no Pensamento o nucleo commum das nossas modalidades, e +portanto realisarmos um momento, dentro da Consciencia, a Unidade do +Universo!--Hein, Jacintho?... + +O meu amigo rosnou: + +--Talvez... Estou a cahir com somno. + +--Tambem eu. Remontamos muito, Ex.^{mo} Snr.! como dizia o Pestaninha +em Coimbra. Mas nada mais bello, e mais vo, que uma cavaqueira, no alto +das serras, a olhar para as estrellas!... Tu sempre vaes amanh? + +--Com certeza, Z Fernandes! Com a certeza de Descartes. Penso _logo +fujo_! Como queres tu, n'este pardieiro, sem uma cama, sem uma +poltrona, sem um livro?... Nem s de arroz com fava vive o Homem! Mas +demoro em Lisboa, para conversar com o Cesimbra, o meu Administrador. E +tambem espera que estas obras acabem, os caixotes surjam, e eu possa +voltar decentemente, com roupa lavada, para a trasladao... + +-- verdade, os ossos... + +--Mas resta ainda o Grillo... Que animal! Por onde andar esse perdido? + +Ento, passeando lentamente na sala enorme, onde a vela de sbo j +derretida no castial de lata era como um lume de cigarro n'um +descampado, meditmos na sorte do Grillo. O estimado negro ou fra +despejado nas lamas de Medina, com as vinte e sete malas, aos +gritos--ou, regaladamente adormecido, rolra com o Anatole no comboio +para Madrid. Mas ambos os casos appareciam ao meu Principe como +irremediavelmente destruidores do seu conforto... + +--No, escuta, Jacintho... Se o Grillo encalhou em Medina, dormiu na +Fonda, catou os percevejos, e esta madrugada correu para Tormes. Quando +manh desceres Estao, s quatro horas, encontras o teu precioso +homem, com as tuas preciosas malas, mettido n'esse comboio que te leva +ao Porto e Capital... + +Jacintho saccudiu os braos como quem se debate nas malhas d'uma rede: + +--E se seguiu para Madrid? + +--Ento, por esta semana, c apparece em Tormes, onde encontra ordem +para regressar a Lisboa e reentrar no teu sequito... Resta o +interessante caso das minhas bagagens. Se manh encontrares na Estao +o Grillo, separa a minha mala negra, e o sacco de lona, e a chapelleira. +O Grillo conhece. E pede ao Pimenta, ao gordalhufo, que me avise para +Guies. Se o Grillo aportar Tormes, esfogueteado de Madrid, com toda +essa malaria, deixa as minhas cousas aqui, ao Melchior... Eu manh +fallo ao Melchior. + +Jacintho sacudiu furiosamente o collarinho: + +--Mas como posso eu partir para Lisboa, manh, com esta camisa de dous +dias, que j me faz uma comicho horrenda? E sem um leno... Nem ao +menos uma escova de dentes! + +Fertil em idas, estendi as mos, n'um bello gesto tutelar: + +--Tudo se arranja, meu Jacintho, tudo se arranja! Eu, largando d'aqui +cedo, pelas seis horas, chego a Guies s dez, ainda sem calor. E, mesmo +antes do almoo e da cavaqueira com a tia Vicencia, immediatamente te +mando por um moo um sacco de roupa branca. As minhas camisas e as +minhas ceroulas talvez te estejam largas. Mas um mendigo como tu no tem +direito a elegancias e a roupas bem cortadas. O moo, n'um bom trote, +entra aqui s duas horas; tens tempo de mudar antes de desceres para a +Estao... Posso metter na mala uma escova de dentes. + +--Oh Z Fernandes! Ento mette tambem uma esponja... E um frasco d'agoa +de colonia! + +--Agoa d'alfazema, excellente, feita pela tia Vicencia... + +O meu Principe suspirou, impressionado com a sua miseria esqualida, e +esta dadiva de roupas: + +--Bem, ento vamos dormir, que estou esfalfado de emoes e d'astros... + +Justamente Melchior entreabria a pesada porta, com timidez, a avisar que +estavam preparadinhas as camas de suas Incellencias. E seguindo o bom +caseiro, que erguia uma candeia, que avistamos ns, o meu Principe e eu, +ainda ha pouco irmanados com os astros? Em duas saletas, que uma +abertura em arco, lobrego arco de pedra, separava--duas enxergas sobre o +soalho. Junto cabeceira da mais larga, que pertencia ao senhor de +Tormes, um castial de lato sobre um alqueire; aos ps, como lavatorio, +um alguidar vidrado em cima duma tripea. Para mim, serrano d'aquellas +serras, nem alguidar nem alqueire. + +Lentamente, com o p, o meu super-civilisado amigo palpou a enxerga. E +decerto lhe sentiu uma dureza intransigente, porque ficou pendido sobre +ella, a correr desoladamente os dedos pela face desmaiada. + +--E o peior no ainda a enxerga, murmurou emfim com um suspiro. que +no tenho camisa de dormir, nem chinelas!... E no me posso deitar de +camisa engommada. + +Por inspirao minha reccorremos ao Melchior. De novo, esse benemerito +providenciou, trazendo a Jacintho, para elle desafogar os ps, uns +tamancos--e para embrulhar o corpo uma camisa da comadre, enorme, de +estopa, spera como uma estamenha de penitente, com folhos mais crespos +e duros do que lavores de madeira. Para consolar o meu Principe lembrei +que Plato quando compunha o _Banquete_, Vasco da Gama quando dobrava o +Cabo, no dormiam em melhores catres! As enxergas rijas fazem as almas +fortes, oh Jacintho!... E s vestido de estamenha que se penetra no +Paraiso. + +--Tens tu, volveu o meu amigo seccamente, alguma coisa que eu leia? No +posso adormecer sem um livro. + +Eu? Um livro? Possuia apenas o velho numero do _Jornal do Commercio_, +que escapra disperso dos nossos bens. Rasguei a copiosa folha pelo +meio, partilhei com Jacintho fraternalmente. Elle tomou a sua metade, +que era a dos annuncios... E quem no viu ento Jacintho, senhor de +Tormes, acaapado borda da enxerga, rente da vela de sbo que se +derretia no alqueire, com os ps encafuados nos scos, perdido dentro +das speras pregas e dos rijos folhos da camisa serrana, percorrendo +n'um pedao velho de Gazeta, pensativamente, as partidas dos +Paquetes--no pde saber o que uma intensa e veridica imagem do +Desalento. + +Recolhido minha alcova espartana, desabotoava o collete, n'um +delicioso cansao, quando o meu Principe ainda me reclamou: + +--Z Fernandes... + +--Dize. + +--Manda tambem no sacco um abotoador de botas. + +Estirado commodamente na rija enxerga murmurei, como sempre murmuro ao +penetrar no Somno, que um primo da Morte, Deus seja louvado! Depois +tomei a metade do _Jornal do Commercio_ que me pertencia. + +--Z Fernandes... + +--Que ? + +--Tambem podias metter no sacco ps dos dentes... E uma lima das +unhas... E um romance! + +J a meia Gazeta me escapava das mos dormentes. Mas da sua alcova, +depois de soprar a vela, Jacintho murmurou entre um bocejo: + +--Z Fernandes... + +--Hein? + +--Escreve para Lisboa, para o Hotel Bragana... Os lenoes ao menos so +frescos, cheiram bem, a sadio! + + + + +IX + + +Cedo, de madrugada, sem rumor, para no despertar o meu Jacintho, que, +com as mos cruzadas sobre o peito, dormia beatificamente na sua enxerga +de granito--parti para Guies. + +Ao cabo d'uma semana, recolhendo uma manh para o almoo, encontrei no +corredor as minhas malas to desejadas, que um moo do casal da Giesta +trouxera n'um carro com recados do Snr. Pimentinha. O meu pensamento +pulou para o meu Principe. E lancei pelo telegrapho, para Lisboa, para o +Hotel Bragana, este brado alegre:--Ests l? Sei recuperaste Grillo e +Civilisao! Hurrah! Abrao!--S depois de sete dias, occupados n'uma +delicada apanha de aspargos com que outr'ora civilisra a horta da tia +Vicencia, notei o silencio de Jacintho. N'um bilhete postal renovei, +desenvolvi o grito amigo:--Ests l? So os prazeres da Baixa que assim +te tornam desattento e mudo? Eu, todo aspargos! Responde, quando chegas? +Tempo delicioso! 23^o sombra. E os ossos?...--Veio depois a devota +romaria da Senhora da Roqueirinha. Durante a lua nova andei n'um crte +de matto, na minha terra das Corcas. A tia Vicencia vomitou, com uma +indigesto de murcellas. E o silencio do meu Principe era ingrato e +ferrenho. + +Emfim uma tarde, voltando da Flor da Malva, de casa da minha prima +Joanninha, parei em Sandofim, na venda do Manoel Rico, para beber de +certo vinho branco que a minha alma conhece--e sempre pede. + +Defronte, porta do ferrador, o Severo, sobrinho do Melchior de Tormes +e o mais fino alveitar da serra, picava tabaco, escarranchado n'um +banco. Mandei encher outro quartilho: elle acariciou o pescoo da minha +egua que j salvra d'um esfriamento: e, como eu indagasse do nosso +Melchior, o Severo contou que na vspera jantra com elle em Tormes, e +se abeirra tambem do fidalgo... + +--Ora essa! Ento o snr. D. Jacintho est em Tormes? + +O meu espanto divertiu o Severo: + +--Ento v. exc.^a... Pois em Tormes que elle est, ha mais de cinco +semanas, sem arredar! E parece que fica para a vindima, e vai l uma +grandeza! + +Santissimo nome de Deus! Ao outro dia, domingo, depois da missa e sem me +assustar com a calma que carregava, trotei alvoroadamente para Tormes. +Ao latir dos rafeiros, quando transpuz o portal solarengo, a comadre do +Melchior accudio dos lados do curral, com um alguidar de lavagem +encostado cintura.--Ento o snr. D. Jacintho?... O snr. D. Jacintho +andava l para baixo, com o Silverio e com o Melchior, nos campos de +Freixomil... + +--E o Snr. Grillo, o preto? + +--Ha bocadinho tambem o enxerguei no pomar, com o francez, a apanhar +limes doces... + +Todas as janellas do solar rebrilhavam, com vidraas novas, bem polidas. +A um canto do pteo notei baldes de cal e tijellas de tintas. Uma escada +de pedreiro descanra durante o Dia Santo arrimada contra o telhado. E, +rente ao muro da capella, dois gatos dormiam sobre montes de palha +desempacotada de caixotes consideraveis. + +--Bem, pensei eu. Eis a Civilisao! + +Recolhi a egua, galguei a escada. Na varanda, sobre uma pilha de ripas, +reluzia n'um raio de sol uma banheira de zinco. Dentro encontrei todos +os soalhos remendados, esfregados a carqueja. As paredes, muito caiadas +e nas, refrigeravam como as d'um convento. Um quarto, a que me levaram +tres portas escancaradas com franqueza serrana, era certamente o de +Jacintho: a roupa pendia de cabides de pau: o leito de ferro, com +coberta de fusto, encolhia timidamente a sua rigidez virginal a um +canto, entre o muro e a banquinha onde um castial de lato resplandecia +sobre um volume do _D. Quichote_; no lavatorio pintado de amarello, +imitando bamb, apenas cabia o jarro, a bacia, um naco gordo de sabo; e +uma prateleirinha bastava ao esmerado alinho da escova, da thesoura, do +pente, do espelhinho de feira, e do frasquinho de agua de alfazema que +eu mandra de Guies. As tres janellas, sem cortinas, contemplavam a +belleza da serra, respirando um delicado e macio ar, que se perfumava +nas resinas dos pinheiraes, depois nas roseiras da horta. Em frente, no +corredor, outro quarto repetia a mesma simplicidade. Certamente a +previdencia do meu Principe o destinra ao seu Z Fernandes. Pendurei +logo dentro, no cabide, o meu guarda-p de lustrina. + +Mas na sala immensa, onde tanto philosophramos considerando as +estrellas, Jacintho arranjra um centro de repouso e d'estudo--e +desenrolra essa grandeza que impressionava o Severo. As cadeiras de +verga da Madeira, amplas e de braos, offereciam o conforto de +almofadinhas de chita. Sobre a mesa enorme de pau branco, carpinteirada +em Tormes, admirei um candieiro de metal de tres bicos, um tinteiro de +frade armado de pennas de pato, um vaso de capella transbordando de +cravos. Entre duas janellas uma commoda antiga, embutida, com ferragens +lavradas, recebera sobre o seu marmore rosado o devoto peso d'um +Presepio, onde Reis Magos, pastores de surres vistosos, cordeiros +d'esguedelhada l, se apressavam atravez d'alcantis para o Menino, que +na sua lapinha lhes abria os braos, coroado por uma enorme Cora Real. +Uma estante de madeira enchia outro pedao de parede, entre dois +retratos negros com caixilhos negros; sobre uma das suas prateleiras +repousavam duas espingardas; nas outras esperavam, espalhados, como os +primeiros Doutores nas bancadas d'um concilio, alguns nobres livros, um +Plutarcho, um Virgilio, a Odyssea, o Manual de Epictecto, as Chronicas +de Froissart. Depois, em fila decorosa, cadeiras de palhinha, muito +novas, muito envernisadas. E a um canto um mlho de varapaus. + +Tudo resplandecia de asseio e ordem. As portadas das janellas, cerradas, +abrigavam do sol que batia aquelle lado de Tormes, escaldando os +peitoris de pedra. Do soalho, burrifado de agua, subia, na suavisada +penumbra, uma frescura. Os cravos rescendiam. Nem dos campos, nem da +casa, se elevava um rumor. Tormes dormia no esplendor da manh santa. E, +penetrado por aquella consoladora quietao de convento rural, terminei +por me estender n'uma cadeira de verga, junto da mesa, abrir +languidamente um tomo de Virgilio, e murmurar, appropriando o doce verso +que encontrra: + +Fortunate Jacinthe! Hic, inter arva nota +Et fontes sacros, frigus captabis opacum... + +Afortunado Jacintho, na verdade! Agora, entre campos que so teus e +aguas que te so sagradas, colhes emfim a sombra e a paz! + +Li ainda outros versos. E, na fadiga das duas horas de egua e calor +desde Guies, irreverentemente adormecia sobre o divino +Bucoliasta--quando me despertou um berro amigo! Era o meu Principe. E +muito decididamente, depois de me soltar do seu rijo abrao, o comparei +a uma planta estiolada, emmurchecida na escurido, entre tapetes e +sdas, que, levada para vento e sol, profusamente regada, reverdece, +desabrocha e honra a Natureza! Jacintho j no corcovava. Sobre a sua +arrefecida pallidez de super-civilisado, o ar montesino, ou vida mais +verdadeira, espalhra um rubor trigueiro e quente de sangue renovado que +o virilisava soberbamente. Dos olhos, que na Cidade andavam sempre to +crepusculares e desviados do Mundo, saltava agora um brilho de meio-dia, +resoluto e largo, contente em se embeber na belleza das coisas. At o +bigode se lhe encrespra. E j no deslisava a mo desencantada sobre a +face,--mas batia com ella triumphalmente na cxa. Que sei? Era um +Jacintho novissimo. E quasi me assustava, por eu ter de aprender e +penetrar, n'este novo Principe, os modos e as idas novas. + +--Caramba, Jacintho, mas ento...? + +Elle encolheu jovialmente os hombros realargados. E s me soube contar, +trilhando soberanamente com os sapatos brancos e cobertos de p o soalho +remendado, que, ao acordar em Tormes, depois de se lavar n'uma dorna, e +d'enfiar a minha roupa branca, se sentira de repente como +_desannuviado_, _desenvencilhado_! Almora uma pratada de ovos com +chourio, sublime. Passera por toda aquella magnificencia da serra com +pensamentos ligeiros de liberdade e de paz. Mandra ao Porto comprar uma +cama, uns cabides... E alli estava... + +--Para todo o vero? + +--No! Mas um mez... Dois mezes! Emquanto houver chourios, e a agoa da +fonte, bebida pela telha ou n'uma folha de couve, me souber to +divinamente! + +Cahi sobre a cadeira de verga, e contemplei, arregalado, quasi +esgazeado, o meu Principe! Elle enrolava n'uma mortalha tabaco picado, +tabaco grosso, guardado n'uma malga vidrada. E exclamava: + +--Ando ahi pelas terras desde o romper d'alva! Pesquei j hoje quatro +trutas, magnificas... L em baixo, no Naves, um riachote que se atira +pelo valle da Seranda... Temos logo ao jantar essas trutas! + +Mas eu, avido pela historia d'aquella ressurreio: + +--Ento, no estiveste em Lisboa?... Eu telegraphei... + +--Qual telegrapho! Qual Lisboa! Estive l em cima, ao p da fonte da +Lira, sombra d'uma grande arvore, _sub tegmine_ no sei qu, a lr +esse adorvel Virgilio... E tambem a arranjar o meu palacio! Que te +parece, Z Fernandes? Em tres semanas, tudo soalhado, envidraado, +caiado, encadeirado!... Trabalhou a freguezia inteira! At eu pintei, +com uma immensa brocha. Viste o comedoiro? + +--No. + +--Ento vem admirar a belleza na simplicidade, barbaro! + +Era a mesma onde ns tanto exaltaramos o arroz com favas--mas muito +esfregada, muito caiada, com um rodap bezuntado d'azul estridente onde +logo adivinhei a obra do meu Principe. Uma toalha de linho de Guimares +cobria a mesa, com as franjas roando o soalho. No fundo dos pratos de +loua forte reluzia um gallo amarello. Era o mesmo gallo e a mesma loua +em que na nossa casa, em Guies, se servem os feijes dos cavadores... + +Mas no pteo os ces latiram. E Jacintho correu varanda, com uma +ligeireza curiosa que me deleitou. Ah, bem definitivamente se +esfrangalhra aquella rede de malha que se no percebia e que outr'ora o +travava!--N'esse momento appareceu o Grillo, de quinzena de linho, +segurando em cada mo uma garrafa de vinho branco. Todo se alegrou em +vr na quinta o si Fernandes. Mas a sua veneranda face j no +resplandecia, como em Paris, com um to sereno e ditoso brilho de ebano. +At me pareceu que corcovava... Quando o interroguei sobre aquella +mudana, estendeu duvidosamente o beio grosso: + +--O menino gosta, eu ento tambem gsto... Que o ar aqui muito bom, +si Fernandes, o ar muito bom! + +Depois, mais baixo, envolvendo n'um gesto desolado a loua de Barcellos, +as facas de cabo d'osso, as prateleiras de pinho como n'um refeitorio de +Franciscanos: + +--Mas muita magreza, si Fernandes, muita magreza! + +Jacintho voltava com um mao de jornaes cintados: + +--Era o carteiro. J vs que no amuei inteiramente com a Civilisao. +Eis a Imprensa!... Mas nada de _Figaro_, ou da horrenda _Dois-Mundos_! +Jornaes de Agricultura! Para aprender como se produzem as risonhas +messes, e sob que signo se casa a vinha ao olmo, e que cuidados +necessita a abelha provida... _Quid faciat laetas segetes_... De resto +para esta nobre educao, j me bastavam as _Georgicas_, que tu ignoras! + +Eu ri: + +--Alto l! _Nos quoque gens sumus et nostrum Virgilium sabemus_! + +Mas o meu novissimo amigo, debruado da janella, batia as palmas--como +Cato para chamar os servos, na Roma simples. E gritava: + +--Anna Vaqueira! Um copo d'agoa, bem lavado, da fonte velha! + +Pulei, immensamente divertido: + +--Oh Jacintho! E as aguas carbonatadas? e as phosphatadas? e as +esterilisadas? e as sodicas?... + +O meu Principe atirou os hombros com um desdem soberbo. E acclamou a +appario d'um grande copo, todo embaciado pela frescura nevada da agoa +refulgente, que uma bella moa trazia n'um prato. Eu admirei sobretudo a +moa... Que olhos, d'um negro to liquido e serio! No andar, no quebrar +da cinta, que harmonia e que graa de Nympha latina! + +E apenas pela porta desapparecera a explendida appario: + +--Oh Jacintho, eu d'aqui a um instante tambem quero agua! E se compete a +esta rapariga trazer as cousas, eu, de cinco em cinco minutos, quero uma +cousa!... Que olhos, que corpo... Caramba, menino! Eis a poesia, toda +viva, da serra... + +O meu Principe sorria, com sinceridade: + +--No! no nos illudamos, Z Fernandes, nem faamos Arcadia. uma bella +moa, mas uma bruta... No ha alli mais poesia, nem mais sensibilidade, +nem mesmo mais belleza do que n'uma linda vacca tourina. Merece o seu +nome de Anna Vaqueira. Trabalha bem, digere bem, concebe bem. Para isso +a fez a Natureza, assim s e rija; e ella cumpre. O marido todavia no +parece contente, porque a desanca. Tambem um bello bruto... No, meu +filho, a serra maravilhosa e muito grato lhe estou... Mas temos aqui a +fmea em toda a sua animalidade e o macho em todo o seu egoismo... So +porm verdadeiros, genuinamente verdadeiros! E esta verdade, Z +Fernandes, para mim um repouso. + +Lentamente, gozando a frescura, o silencio, a liberdade do vasto +casaro, retrocedemos sala que Jacintho j denominra a _Livraria_. E, +de repente, ao avistar n'um canto uma caixa com a tampa meio despregada, +quasi me engasguei, na furiosa curiosidade que me assaltou: + +--E os caixotes? Oh Jacintho?... Toda aquella immensa caixotaria que ns +mandamos, abarrotada de Civilisao? Soubeste? Appareceram? + +O meu Principe parou, bateu alegremente na cxa: + +--Sublime! Tu ainda te lembras d'aquelle homemsinho, de sacco a +tiracollo, que ns admiramos tanto pela sua sagacidade, o seu saber +geographico?... Lembras? Apenas fallei em Tormes, gritou que conhecia, +rabiscou uma nota... Nem era necessario mais! Oh! Tormes, +perfeitamente, muito antigo, muito curioso! Pois mandou tudo para +Alba-de-Tormes, em Hespanha! Est tudo em Hespanha! + +Cocei o queixo, desconsolado: + +--Ora, ora... Um homem to esperto, to expedito, que fazia tanta honra +ao Progresso! Tudo para Hespanha!... E mandaste vir? + +--No! Talvez mais tarde... Agora, Z Fernandes, estou saboreando esta +delicia de me erguer pela manh, e de ter s uma escova para alisar o +cabello. + +Considerei, cheio de recordaes, o meu amigo: + +--Tinhas umas nove... + +--Nove? Tinha vinte! Talvez trinta! E era uma atrapalhao, no me +bastavam!... Nunca em Paris andei bem penteado. Assim com os meus +setenta mil volumes: eram tantos que nunca li nenhum. Assim com as +minhas occupaes: tanto me sobrecarregavam, que nunca fui util! + + * * * * * + +De tarde, depois da calma, fomos vaguear pelos caminhos colleantes +d'aquella quinta rica, que, atravs de duas legoas, ondula por valle e +monte. No m'encontrra mais com Jacintho em meio da Natureza, desde o +remoto dia d'entremez em que elle tanto soffrera no sociavel e policiado +bosque de Montmorency. Ah, mas agora, com que segurana e idyllico amor +elle se movia atravs d'essa Natureza, d'onde andra tantos annos +desviado por theoria e por habito! J no arreceiava a humidade mortal +das relvas; nem repellia como impertinente o roar das ramagens; nem o +silencio dos altos o inquietava como um despovoamento do Universo. Era +com delicias, com um consolado sentimento de estabilidade recuperada, +que enterrava os grossos sapatos nas terras molles, como no seu elemento +natural e paterno: sem razo, deixava os trilhos faceis, para se +embrenhar atravs de arbustos emaranhados, e receber na face a caricia +das folhas tenras; sobre os outeiros, parava, immovel, retendo os meus +gestos e quasi o meu halito, para se embeber de silencio e de paz: e +duas vezes o surprehendi attento e sorrindo beira d'um regatinho +palreiro, como se lhe escutasse a confidencia... + +Depois philosophava, sem descontinuar, com o enthusiasmo d'um +convertido, avido de converter: + +--Como a intelligencia aqui se liberta, hein? E como tudo animado +d'uma vida forte o profunda!... Dizes tu agora, Z Fernandes, que no ha +aqui pensamento... + +--Eu?! Eu no digo nada, Jacintho... + +--Pois uma maneira de reflectir muito estreita e muito grosseira... + +--Ora essa! Mas eu... + +--No, no percebes. A vida no se limita a pensar, meu caro doutor... + +--Que no sou! + +--A vida essencialmente Vontade e Movimento: e n'aquelle pedao de +terra, plantado de milho, vae todo um mundo de impulsos, de foras que +se revelam, e que attingem a sua expresso suprema, que a Frma. No, +essa tua philosophia est ainda extremamente grosseira... + +--Irra! mas eu no... + +--E depois, menino, que inesgotavel, que miraculosa diversidade de +frmas... E todas bellas! + +Agarrava o meu pobre brao, exigia que eu reparasse com reverencia. Na +Natureza nunca eu descobriria um contorno feio ou repetido! Nunca duas +folhas d'hera, que, na verdura ou recorte, se assemelhassem! Na Cidade, +pelo contrario, cada casa repete servilmente a outra casa; todas as +faces reproduzem a mesma indifferena ou a mesma inquietao; as idas +teem todas o mesmo valor, o mesmo cunho, a mesma frma, como as libras; +e at o que ha mais pessoal e intimo, a Illuso, em todos identica, e +todos a respiram, e todos se perdem n'ella como no mesmo nevoeiro... A +_mesmice_--eis o horror das Cidades! + +--Mas aqui! Olha para aquelle castanheiro. Ha tres semanas que cada +manh o vejo, e sempre me parece outro... A sombra, o sol, o vento, as +nuvens, a chuva, incessantemente lhe compem uma expresso diversa e +nova, sempre interessante. Nunca a sua frequentao me poderia fartar... + +Eu murmurei: + +-- pena que no converse! + +O meu Principe recuou, com olhares chammejantes, d'Apostolo: + +--Como que no converse? Mas justamente um conversador sublime! Est +claro, no tem ditos, nem parola theorias, _ore rotundo_. Mas nunca eu +passo junto d'elle que no me suggira um pensamento ou me no desvende +uma verdade... Ainda hoje quando eu voltava de pescar as trutas... +Parei: e logo elle me fez sentir como toda a sua vida de vegetal +isenta de trabalho, da anciedade, do esforo que a vida humana impe; +no tem de se preoccupar com o sustento, nem com o vestido, nem com o +abrigo; filho querido de Deus, Deus o nutre, sem que elle se mova ou se +inquiete... E esta segurana que lhe d tanta graa e tanta magestade. +Pois no achas? + +Eu sorria, concordava. Tudo isto era de certo rebuscado e especioso. Mas +que importavam as requintadas metaphoras, e essa metaphysica mal madura, +colhida pressa nos ramos d'um castanheiro? Sob toda aquella ideologia +transparecia uma excellente realidade--a reconciliao do meu Principe +com a Vida. Segura estava a sua Resurreio depois de tantos annos de +cova, da cova molle em que jazera, enfaixado como uma mumia nas faixas +do Pessimismo! + +E o que esse Principe, n'esta tarde me esfalfou! Farejava, com uma +curiosidade insaciavel, todos os recantos da serra! Galgava os cabeos +correndo, como na esperana de descobrir l do alto os esplendores nunca +contemplados d'um Mundo inedito. E o seu tormento era no conhecer os +nomes das arvores, da mais rasteira planta brotando das fendas d'um +socalco... Constantemente me folheava como a um Diccionario Botanico. + +--Fiz toda a sorte de cursos, passei pelos professores mais illustres da +Europa, tenho trinta mil volumes, e no sei se aquelle senhor alm um +amieiro ou um sobreiro... + +-- um azinheiro, Jacintho. + +J a tarde cahia quando recolhemos muito lentamente. E toda essa +adoravel paz do co, realmente celestial, e dos campos, onde cada +folhinha conservava uma quietao contemplativa, na luz docemente +desmaiada, pousando sobre as cousas com um liso e leve affago, penetrava +to profundamente Jacintho, que eu o senti, no silencio em que +cahiramos, suspirar de puro allivio. + +Depois, muito gravemente: + +--Tu dizes que na natureza no ha pensamento... + +--Outra vez! Olha que massada! Eu... + +--Mas por estar n'ella supprimido o pensamento que lhe est poupado o +soffrimento! Ns, desgraados, no podemos supprimir o pensamento, mas +certamente o podemos disciplinar e impedir que elle se estonteie e se +esfalfe, como na fornalha das cidades, ideando gozos que nunca se +realisam, aspirando a certezas que nunca se attingem!... E o que +aconselham estas collinas e estas arvores nossa alma, que vela e se +agita:--que viva na paz d'um sonho vago e nada appetea, nada tema, +contra nada se insurja, e deixe o Mundo rolar, no esperando d'elle +seno um rumor de harmonia, que a emballe e lhe favorea o dormir dentro +da mo de Deus. Hein, no te parece, Z Fernandes? + +--Talvez. Mas necessario ento viver n'um mosteiro, com o temperamento +de S. Bruno, ou ter cento e quarenta contos de renda e o desplante de +certos Jacinthos... E tambem me parece que andamos leguas. Estou +derreado. E que fome! + +--Tanto melhor, para as trutas, e para o cabrito assado que nos +espera... + +--Bravo! Quem te cosinha? + +--Uma afilhada do Melchior. Mulher sublime! Has de ver a canja! Has de +ver a cabidella! Ella horrenda, quasi an, com os olhos tortos, um +verde e outro preto. Mas que paladar! Que genio! + +Com effeito! Horacio dedicaria uma ode quelle cabrito assado n'um +espeto de cerejeira. E com as trutas, e o vinho Melchior, e a cabidella, +em que a sublime an de olhos tortos puzera inspiraes que no so da +terra, e aquella doura da noite de Junho, que pelas janellas abertas +nos envolveu no seu velludo negro, to molle e to consolado fiquei, +que, na sala onde nos esperava o caf, cahi n'uma cadeira de verga, na +mais larga, e de melhores almofadas, e atirei um berro de pura delicia. + +Depois, com uma recordao, limpando o caf do pello dos bigodes: + +-- Jacintho, e quando ns andavamos por Paris com o Pessimismo s +costas, a gemer que tudo era illuso e dr? + +O meu Principe, que o cabrito tornra ainda mais alegre, trilhava a +grandes passadas o soalho, enrolando o cigarro: + +--Oh! que engenhosa besta, esse Schopenhauer! E maior besta eu, que o +sorvia, e que me desolava com sinceridade! E todavia,--continuava elle, +remexendo a chavena--o Pessimismo uma theoria bem consoladora para os +que soffrem, porque desindividualisa o soffrimento, alarga-o at o +tornar uma lei universal, a lei propria da Vida; portanto lhe tira o +caracter pungente d'uma injustia especial, commettida contra o +soffredor por um Destino inimigo e faccioso! Realmente o nosso mal +sobretudo nos amarga quando contemplamos ou imaginamos o bem do nosso +visinho:--porque nos sentimos escolhidos e destacados para a +infelicidade, podendo, como elle, ter nascido para a Fortuna. Quem se +queixaria de ser cxo--se toda a humanidade coxeasse? E quaes no seriam +os urros, e a furiosa revolta do homem envolto na neve e friagem e +borrasca d'um inverno especial, organisado nos ceus para o envolver a +elle unicamente--em quanto em redor, toda a Humanidade se movesse na +luminosa benignidade d'uma Primavera? + +--Com effeito, murmurei eu, esse sujeito teria immensa razo para +urrar... + +--E depois, clamava ainda o meu amigo, o Pessimismo excellente para os +Inertes, por que lhes attenua o desgracioso delicto da Inercia. Se toda +a meta um monte de Dor, onde a alma vae esbarrar, para que marchar +para a meta, atravez dos embaraos do mundo? E de resto todos os Lyricos +e Theoricos do Pessimismo, desde Salomo at o maligno Schopenhauer, +lanam o seu cantico ou a sua doutrina para disfarar a humilhao das +suas miserias, subordinando-as todas a uma vasta lei de Vida, uma lei +Cosmica, e ornando assim com a aureola de uma origem quasi divina as +suas miudas desgraazinhas de temperamento ou de Sorte. O bom +Schopenhauer formla todo o seu schopenhauerismo, quando um philosopho +sem editor, e um professor sem discipulos; e soffre horrendamente de +terrores e manias; e esconde o seu dinheiro debaixo do sobrado; e redige +as suas contas em grego nos perpetuos lamentos da desconfiana; e vive +nas adegas com o medo de incendios; e viaja com um copo de lata na +algibeira para no beber em vidro que beios de leproso tivessem +contaminado!... Ento Schopenhauer sombriamente Schopenhauerista. Mas +apenas penetra na celebridade, e os seus miseraveis nervos se acalmam, e +o cerca uma paz amavel, no ha ento, em todo Francfort, burguez mais +optimista, de face mais jocunda, e gozando mais regradamente os bens da +intelligencia e da Vida!... E o outro, o Israelita, o muito pedantesco +rei de Jerusalem! quando descobre esse sublime Rhetorico que o mundo +Illuso e Vaidade? Aos setenta e cinco annos, quando o Poder lhe escapa +das mos tremulas, e o seu serralho de trezentas concubinas se lhe torna +ridiculamente superfluo. Ento rompem os pomposos queixumes! Tudo +vaidade e afflico de espirito! nada existe estavel sob o sol! Com +effeito, meu bom Salomo, tudo passa--principalmente o poder de usar +trezentas concubinas! Mas que se restitua a esse velho sulto asiatico, +besuntado de Litteratura, a sua virilidade,--e onde se sumir o lamento +do Ecclesiastes? Ento voltar, em segunda e triumphal edio, o extase +do _Livro dos Cantares_!... + +Assim discursava o meu amigo no nocturno silencio de Tormes. Creio que +ainda estabeleceu sobre o Pessimismo outras coisas joviaes, profundas ou +elegantes;--mas eu adormecera, beatificamente envolto em Optimismo e +doura. + +Em breve porm, me fez pular, escancarar as palpebras molles, uma rija, +larga, sadia e genuina risada. Era Jacintho, estirado n'uma cadeira, que +lia o D. Quixote... Oh bem aventurado Principe! Conservra elle o agudo +poder de arrancar theorias a uma espiga de milho ainda verde, e por uma +clemencia de Deus, que fizera reflorir o tronco secco, recuperra o dom +divino de rir, com as facecias de Sancho! + +Aproveitando a minha companhia, as duas semanas de bucolica occiosidade +que eu lhe concedera, o meu Jacintho preparou ento a ceremonia to +falada, to meditada, a trasladao dos ossos dos velhos Jacinthos--dos +respeitaveis ossos como murmurava, cumprimentando, o bom Silverio, o +procurador, n'essa manh de sexta feira, em que almoava comnosco, +mettido n'um espantoso jaqueto de velludilho amarello debruado de seda +azul! A ceremonia, de resto, reclamava muita singeleza por serem to +incertos, quasi impessoaes, aquelles restos, que ns estabeleceriamos na +Capellinha do valle da Carria, na Capellinha toda nova, toda nua e toda +fria, ainda sem alma e sem calor de Deus. + +--Por que emfim v. ex.^a comprehende,--explicava o Silverio passando o +guardanapo por sobre a larga face suada e por sobre as immensas barbas +negras, como as d'um turco--, n'aquella mixordia... Oh! peo desculpa a +v. ex.^a! N'aquella confuso, quando tudo desabou, no pudmos mais +conhecer a quem pertenciam os ossos. Nem sequer, fallando verdade, ns +sabiamos bem que dignos avs de v. ex.^a jaziam na capella velha, assim +to antigos, com os letreiros apagados, senhores de todo o nosso +respeito, certamente, mas, se v. ex.^a me permitte, senhores j muito +desfeitos... Depois veio o desastre, a mixordia. E aqui est o que +decidi, depois de pensar. Mandei arranjar tantos caixes de chumbo, +quantas as caveiras que se apanharam l em baixo na Carria, entre o +lixo e o pedregulho. Havia sete caveiras e meia. Quero dizer, sete +caveiras e uma caveirinha pequenina. Mettemos cada caveira em seu +caixo. Depois... Que quer v. ex.^a? No havia outro meio! E aqui o Snr. +Fernandes dir se no acha que procedemos com habilidade. A cada caveira +juntamos uma certa poro d'ossos, uma poro rasoavel... No havia +outro meio... Nem todos os ossos se acharam. Canellas, por exemplo, +faltavam! E bem possivel que as costellas d'um d'aquelles senhores +ficasse com a cabea d'outro... Mas quem podia saber? S Deus. Emfim +fizemos o que a prudncia mandava... Depois, no dia de Juizo, cada um +d'estes fidalgos apresentar os ossos que lhe pertencerem. + +Lanava estas cousas macabras e tremendas, penetrado de respeito, quasi +com magestade, espetando, ora em mim, ora no meu Principe, os olhinhos +agudos e relusentes como vidrilhos. + +Eu approvei o pittoresco homem: + +--Perfeitamente! Andou perfeitamente, amigo Silverio. So to vagos, to +anonymos, todos esses avs! S faz pena, grande pena, que se +tresmalhassem os restos do av Galio. + +--No estava c! accudiu Jacintho. Vim a Tormes expressamente por causa +do av Galio, e por fim o seu jazigo nunca foi aqui, na Capellinha da +Carria... Felizmente! + +O Silverio saccudia gravemente a calva trigueira: + +--Nunca tivemos o ex.^{mo} sr. Galio. Ha cem annos, Snr. Fernandes, ha +cem annos que se no depositava na capella velha corpo de cavalheiro c +da casa. + +--Onde estar ento?... + +O meu Principe encolheu os hombros. Por esse Reino... Na egrejinha, no +cemiterio d'alguma das freguezias numerosas, onde elle possuia terras. +Casa to espalhada! + +--Bem! conclui. Ento, como se trata d'ossadas vagas, sem nome, sem +data, convem uma ceremoniasinha muito simples, muito sobria. + +--Quietinha, quietinha! murmurou o Silverio, dando um forte sorvo +assobiado ao caf. + +E foi quietinha, d'uma rustica e doce singeleza, a ceremonia d'aquelles +altos senhores. Cedo, por uma manh, levemente enevoada, os oito caixes +pequeninos, cobertos d'um velludo vermelho mais de festa que de funeral, +com molhos de rosas espalhados, contendo cada um o seu montesinho +d'ossos incertos, sahiram aos hombros dos coveiros de Tormes e dos moos +da quinta, da Egreja de S. Jos, cujo sino leve tangia, na enevoada +doura da manh,--quanto fina e levemente!--como pia um passarinho +triste. Adiante, um airoso moo de sobrepelis, erguia com zelo a velha +cruz prateada; abrigando o pescoo sob um immenso leno de rap, de +quadrados azues, o velho e corcovado sacristo segurava pensativamente a +caldeirinha d'agoa benta; e o bom abbade de S. Jos, com os dedos entre +o breviario fechado, movia os labios, n'uma lenta, murmurosa resa, que +ia, pelo doce ar, espalhando mais doura. Logo atraz do ultimo cofre, o +mais pequenino, o da caveirinha pequena, Jacintho caminhava; e eu, a +estalar dentro d'um fato preto de Jacintho, tirado pressa d'uma das +malas de Paris quando, de manh, j tarde para mandar a Guies, me +lembrei que toda a minha roupa era de cores festivaes e pastoris. + +Depois marchava o Silverio, solemnissimo, com um immenso peitilho, onde +as barbas immensas se alastravam, negrissimas. De casaca, com o grosso +beio descahido, descahido todo elle por aquella melancolia de enterro +que se juntava melancolia da serra, o Grillo enfiava no brao a sua +coroa, enorme, de rosas e d'heras. Por fim seguia o Melchior, entre um +rancho de mulheres, que, sumidas na sombra dos lenos pretos, desfiando +longos rosarios, rosnavam surdas av-marias, atravez d'espaados +suspiros, to doridos como se inconsoladamente lhes doesse a perda +d'aquelles Jacinthos. Assim, pelas varzeas entrecorridas de regueiros, +lenta nos recostos dos mattos, escorregando mais rapida, pelos corregos +pedregosos, seguia a procisso, sempre com a cruz adiante, alta e +prateada, rebrilhando por vezes n'um breve raiosinho de sol que, +vagarosamente, surdia da nevoa desfeita. Ramos baixos de lodo ou de +salgueiro passavam uma derradeira caricia sobre o velludo dos caixes. + +Um regato por vezes nos acompanhava, com discreto fulgir entre as +relvas, sussurrando e como resando tambem, alegremente: e nos +quintalinhos umbrosos, nossa passagem, os gallos, de cima das pilhas +de matto, faziam soar o seu clarim festivo. Depois, adiante da fonte da +Lira, como o caminho se alongava, e desejassemos poupar o nosso velho +abbade, cortamos atravez d'uma seara, j alta, quasi madura, toda +entremeada de papoulas, O sol radiou: sob a brisa larga, que levra a +nevoa, toda a messe ondulou n'uma lenta vaga dourada, em que se +balouavam os esquifes; e, como enorme papoula, a mais vermelha, +rutilava o guarda sol de panninho logo aberto pelo sacristo para +abrigar o abbade. + +Jacintho tocou no meu cotovello: + +--Que lindos vamos! Ora v tu a Natureza... N'um simples enterrar +d'ossos, quanta graa e quanta belleza! + +Na Capellinha, nova, dominando o valle da Carria, solitaria e muito +nua, no meio d'um adro, ainda mal alisado, sem uma verdura de relva, uma +frescura d'arbusto, dous moos seguravam porta molhos de tochas, que o +Silverio distribuiu, a passos graves, com cortezias, solemnissimo. +Dentro as curtas chammas, mal luziam, mal derramavam a sua amarellido +triste, esbatidas na relusente brancura dos muros estacados, na jovial +claridade que cahia das altas vidraas bem polidas. Em torno dos +esquifes, pousados sobre bancos, que pesados velludilhos recobriam, o +abbade murmurava um suave latim, emquanto ao fundo as mulheres, sumidas +na sombra dos seus negros lenos, gemiam _amens_ agudos, abafavam um +respeitoso soluo. Depois, tomando levemente o hyssope, ainda o bom +abbade aspergiu, para uma derradeira purificao, os incertos ossos dos +incertos Jacinthos. E todos desfilamos por diante do meu Principe, +timidamente encostado umbreira, com o Silverio ao lado esmagando +contra o peitilho as barbas inamensas, a face descahida, cerradas as +palpebras como contendo lagrimas. + +No adro, o meu Principe accendeu regaladamente um cigarro pedido ao +Melchior: + +--E ento, Z Fernandes, que te pareceu a ceremoniasinha? + +--Muito campestre, muito suave, muito risonha... Uma delicia. + +Mas o Abbade, que se desvestira na Sachristia, appareceu, j com o seu +grande casaco de lustrina, e seu velho chapeu desabado, trazidos pelo +moo da Residencia, n'um sacco de chita. Jacintho, immediatamente lhe +agradeceu tantos cuidados, a affavel hospitalidade que offerecera aos +ossos, durante a construco da Capellinha nova. E o suave velho, todo +branquinho, de faces ainda menineiras e coradas, com um claro sorriso de +dentes sadios, louvava Jacintho, que assim viera de to longe, em to +longa jornada, para cumprir aquelle dever de bom neto. + +--So avs muito remotos, e agora to confusos! murmurava Jacintho +sorrindo. + +--Pois mais merito ainda o de v. ex.^a. Respeitar um av morto, bem +corrente... Mas respeitar os ossos d'um quinto av, d'um setimo av! + +--Sobretudo, Snr. Abbade, quando d'elles nada se sabe, e naturalmente +nada fizeram. + +O velho sacudiu risonhamente o dedo gordo: + +--Ora quem sabe, quem sabe! Talvez fossem excellentes! E por fim, quem +muito se demora no mundo, como eu, termina por se convencer que no mundo +no ha cousa ou ser inutil. Ainda hontem eu lia n'um jornal do Porto, +que por fim, segundo se descobriu, so as minhocas que estrumam e lavram +a terra, antes de chegar o lavrador e os bois com o arado. At as +minhocas so uteis. No ha nada inutil... Eu tinha l na residencia uma +poro de cardos a um canto da horta, que me affligiam. Pois reflecti e +terminei por me regalar com elles em xarope. Os avs de v. ex.^a por c +andaram, por c trabalharam, por c padeceram. Quer dizer: por c +serviram. E, em todo o caso, que lhes rezemos um Padre-Nosso por alma +no lhes pde fazer seno bem, a elles e a ns. + +E assim, docemente philosophando, paramos n'um souto de carvalheiras, +onde esperava a velhissima egoa do Abbade, por que o santo homem agora, +depois do rheumatismo do ultimo inverno, j no affrontava rijamente +como antes os trilhos duros da serra. Para elle montar, filialmente +Jacintho segurou o estribo. E emquanto a egoa se empurrava pelo corrego +acima, quasi tapada sob o immenso guarda sol vermelho em que se abrigava +o velho, ns recolhemos a casa mettendo pela serra da Lombinha, atravez +dos milhos, e depressa, porque eu estalava, aperreado, dentro da roupa +preta do meu Principe. + +--Esto pois accommodados estes senhores, Z Fernandes! S resta rezar +por elles o Padre-Nosso, que recommenda o abbade... Smente, eu no sei, +j no me lembro do Padre-Nosso. + +--No te afflijas, Jacintho: peo tia Vicencia que reze por mim e por +ti. sempre a tia Vicencia que reza os meus Padre-Nossos. + +Durante essas semanas que preguicei em Tormes, eu assisti, com +internecido interesse, a uma consideravel evoluo de Jacintho nas suas +relaes com a Natureza. D'aquelle periodo sentimental de contemplao, +em que colhia theorias nos ramos de qualquer cerejeira, e edificava +Systemas sobre o espumar das levadas, o meu Principe lentamente passava +para o desejo da Aco... E d'uma aco directa e material, em que a sua +mo, emfim restituida a uma funco superior, revolvesse o torro. + +Depois de tanto _commentar_, o meu Principe, evidentemente, aspirava a +_crear_. + +Uma tardinha, ao anoitecer, sentados no pomar, no rebordo do tanque, em +quanto o Manoel hortelo apanhava laranjas no alto d'uma escada arrimada +a uma alta laranjeira, Jacintho observou, mais para si do que para mim: + +-- curioso... Nunca plantei uma arvore! + +--Pois um dos tres grandes actos, sem os quaes segundo diz no sei que +Philosopho, nunca se foi um verdadeiro homem... Fazer um filho, plantar +uma arvore, escrever um livro. Tens de te apressar, para ser um homem. +possivel que talvez nunca prestasses um servio a uma arvore, como se +presta a um semelhante! + +--Sim... Em Paris, quando era pequeno, regava os lilazes. E no vero +um bello servio! Mas nunca semeei. + +E como o Manoel descia da escada, o meu Principe, que nunca acreditra +inteiramente--pobre homem!--no meu saber agricola, immediatamente +reclamou o parecer d'aquella auctoridade: + +--Oh Manoel, oua l, o que que se poderia agora semear? + +Como cesto das laranjas enfiado no brao, o Manoel exclamou, atravez +d'um lento riso, entre respeitoso e divertido: + +--Semear, patro? Agora antes colher... Olhe que j se anda a limpar a +eirasinha para a debulha, meu patro. + +--Pois sim... Mas sem ser milho nem cevada... Ento alli no pomar, rente +do muro velho, no se podia plantar uma fila de pecegueiros? + +O riso do Manoel crescia. + +--Isso sim, meu senhor! Isso l para os Santos ou para o Natal. Agora +s a couvinha na horta, a beldroega, os espinafres, algum feijosinho em +terra muito fresca... + +O meu Principe sacudiu com brando gesto estes legumes rasteiros. + +--Bem, boa noite, Manoel. Essas laranjas so da tal laranjeira que diz o +Melchior, muito doces, muito finas? Ento leve para os seus pequenos. +Leve muitas para os pequenos. + +No! o empenho era crear a arvore. Pela arvore contemplada na serra em +sua verdadeira magestade, na beneficencia da sua sombra, na frescura +emballadora do seu rumorejar, na graa e santidade dos ninhos que a +povoam, comera talvez, lentamente, o seu amor novo da Terra. E agora +sonhava uma Tormes toda coberta d'arvores, cujos fructos e verduras, e +sombras, e rumorejos suaves, e abrigados ninhos, fossem a obra e o +cuidado das suas mos paternaes. + +No silencio grave do crepusculo, que descia, murmurou ainda: + +--Oh Z Fernandes; quaes so as arvores que crescem mais depressa? + +--Eh, meu Jacintho... A arvore que cresce mais depressa o eucalypto, o +feiissimo e ridiculo eucalypto. Em seis annos tens ahi Tormes coberta de +eucalyptos... + +--Tudo to lento, Z Fernandes... + +Porque o seu sonho, que eu comprehendia, seria plantar caroos que +subissem em fortes troncos, se alargassem em verdes ramarias, antes de +elle voltar ao 202, no comeo do inverno... + +--Um carvalho!... Trinta annos, antes que seja bello! Desanmo! bom +para Deus, que pode esperar... _Patiens quia aeternus_. Trinta annos! +D'aqui a trinta annos, arvores s para me cobrirem a sepultura! + +--J um ganho. E depois para teus filhos, Jacintho... + +--Filhos! onde os tenho eu? + +-- o mesmo processo dos castanheiros. Semeia. No faltam por ahi terras +agradaveis... Em nove mezes tens uma planta feita. E quanto mais +tenrinhas, e mais pequeninas, mais essas plantas encantam. + +Elle murmurou, crusando as mos sobre o joelho: + +--Tudo leva tanto tempo!... + +E borda do tanque nos quedamos, calados, na fresca doura do +anoitecer, entre o cheiro avivado das madresilvas do muro, olhando o +crescente da lua, que surdia dos telhados de Tormes. + +E decerto esta pressa de se tornar entre a Natureza no mais um +sonhador, mas um creador, arremessou vivamente o seu interesse para os +gados! Repetidamente, nos nossos passeios atravez da quinta, elle lhe +notava a solido. + +--Faltam aqui animaes, Z Fernandes! + +Imaginava eu, que elle appetecia em Tormes o ornato elegante de veados e +paves. Mas um domingo, costeando o largo campo da Ribeirinha, sempre +escasso d'agoas, agora mais resequido por vero de tanta seccura, o meu +Principe parou a considerar os tres carneiros do caseiro, que retouavam +com penuria uma relvagem pobre. + +E, de repente, como magoado: + +--Justamente! Aqui est o espao para um bello prado, um immenso prado, +muito verde, muito farto, com rebanhos de carneiros brancos, gordissimos +como bolas de algodo pousadas na relva!... Era lindo, hein? facil, +no verdade, Z Fernandes? + +--Sim... Trazes a agoa para o prado. Agoas no faltam, na serra. + +E o meu principe encadeando logo n'esta inspirada idea outra, mais rica +e vasta, lembrou quanta belleza daria a Tormes encher esses prados, +esses verdes ferregiaes, de manadas de vaccas, formosas vaccas inglezas, +bem nedias e bem luzidias. Hein? Uma belleza. Para abrigar esses gados +ricos, construiria curraes perfeitos, d'uma architectura leve e util, +toda em ferro e vidro, fundamente varridos pelo ar, largamente lavados +pela agoa... Hein? Que formosura! Depois, com todas essas vaccas, e o +leite jorrando, nada mais facil e mais divertido, e at mais moral, que +a installao d'uma queijeira, fresca moda Hollandeza, toda branca e +reluzente, de azulejos e de marmore, para fabricar os Camemberts, os +Bries... os Coulommiers... Para a casa, que conforto! E para toda a +serra, que actividade! + +--Pois no te parece, Z Fernandes? + +--Com certeza. Tu tens, em abundancia, os quatro Elementos: o ar, a +agoa, a terra, e o dinheiro. Com estes quatro elementos, facilmente se +faz uma grande lavoura. Quanto mais uma queijeira! + +--Pois no verdade? E at como negocio! Est claro, para mim o lucro +o deleite moral do trabalho, o emprego fecundo do dia... Mas uma +queijaria, assim perfeita, rende. Rende prodigiosamente. E educa o +paladar, incita a installaes eguaes, implanta talvez no paiz uma +industria nova e rica! Ora com essa installao, perfeita, quanto me +poder custar cada queijo? + +Fechei um olho, calculando: + +--Eu te digo.... Cada queijo, um d'esses queijinhos redondos, como o +Camembert ou o Rabaal, pde vir a custar-te, a ti Jacintho queijeiro, +entre duzentos e cincoenta e trezentos mil ris. + +O meu Principe recuou, com dous olhos alegres espantados para mim. + +--Como trezentos mil ris? + +--Ponhamos duzentos... Tem a certeza! Com todos esses prados, e os +encanamentos d'agoa e a configurao da serra alterada, e as vaccas +inglezas, e os edificios de porcellana e vidro, e as maquinas, a +extravagancia, e a patuscada bucolica, cada queijo te custa, a ti +productor, duzentos mil ris. Mas com certeza o vendes no Porto por um +tosto. Pe cincoenta ris para a caixa, rotulos, transporte, commisso, +etc. Tens apenas, em cada queijo uma perda de cento e noventa e nove mil +oitocentos e cincoenta ris! + +O meu Principe no desanimou. + +--Perfeitamente! Fao um d'esses espantosos queijos por semana, ao +sabbado, para o comermos ns ambos ao domingo! + +E tanta energia lhe communicava o seu novo Optimismo, to anciosamente +aspirava a crear, que logo, arrastando o Silverio e o Melchior por +cabeos e barrancos, largou a percorrer a quinta toda, para determinar +onde cresceriam, ao seu mando inspirado, os verdes prados, e se +ergueriam, rebrilhantes no sol de Tormes, os curraes elegantes. Com a +esplendida segurana dos seus cento e nove contos de renda, no surgia +difficuldade, risonhamente murmurada pelo Melchior, ou exclamada, com +respeitoso pasmo, pelo Silverio, que elle no afastasse brandamente, com +geito leve, como um galho de roseira brava atravessado n'uma vereda. + +Aquellas rochas, alm, empecendo? Que se arrancassem! Um valle importuno +dividia dous campos? Que se atulhasse! O Silverio suspirava, enxugando +sobre a escura calva um suor quasi d'angustia. Pobre Silverio! Rijamente +sacudido na doce pachorra da sua administrao, calculando despezas que +se affiguravam sobrehumanas sua parcimonia serrana, forado a +arquejar, sem descano, sob soalheiras de Junho, o desgraado retomra +na Serra o geito que Jacintho deixra em Paris,--e era elle que corria +pelas longas barbas tenebrosas os dedos desalentados... Emfim uma tarde +desabafou comigo, a um canto da varanda, em quanto Jacintho, na +livraria, escrevia a um seu amigo de Hollanda, o conde Rylant, Mordomo +Mr da Corte, pedindo desenhos, e planos, e oramentos d'uma queijeira +perfeita. + +--Pois, Snr. Fernandes, se toda esta grandeza vae por diante, sempre lhe +digo que o Snr. D. Jacintho enterra aqui na serra dezenas de contos... +Dezenas de contos! + +E como eu alludia fortuna do meu Principe, a quem todas essas obras +to vastas, que alterariam o antiquissimo rosto da serra, no custavam +mais que a outros o concerto d'um socalco,--o bom Silverio atirou os +longos braos para as coxas gordas, ainda mais desolado: + +--Pois por isso mesmo, Snr. Fernandes! Se o Snr. D. Jacintho no tivesse +a dinheirama, recuava. Assim, zs zs, para deante; e eu no o censuro +pela ideia. Lograsse eu a renda de S. Ex.^a, que me atirava tambem a uma +lavoura de capricho. Mas no aqui, Snr. Fernandes, n'estas serranias, +entre alcantis. Pois um senhor que possue aquella linda propriedade de +Montemr, nos campos do Mondego, onde at podia plantar jardins de +desbancar os do Palacio de Crystal do Porto! E a Velleira? O Snr. +Fernandes no conhece a Velleira, l para os lados de Penafiel? Isso +um condado! E uma terra ch, boa terra, toda junta, alli em volta da +casa, com uma torre. Um regalo, Snr. Fernandes. Mas sobretudo Montemr! +L que eram prados e manadas de vaccas inglezas, e queijeira e horta +rica, de fartar, e ahi trinta pers na capoeira... + +--Ento que quer, Silverio? O Jacintho gosta da serra. E depois este o +solar da familia, e aqui comearam no seculo XIV os Jacinthos... + +O pobre Silverio, no seu desespero, esquecia o respeito devido secular +nobreza da casa. + +--Ora! at ficam mal ao Snr. Fernandes essas ideias, n'este seculo da +liberdade... Pois estamos l em tempos de se fallar em fidalguias, agora +que por toda a parte anda tudo em Republica? Leia o _Seculo_, Snr. +Fernandes! leia o _Seculo_, e ver! E depois eu sempre quero vr o Snr. +D. Jacintho, aqui no inverno, com o nevoeiro a subir do rio logo pela +manh, e a friagem a trespassar os ossos, e ventanias que atiram +carvalheiras de raizes ao ar, e chuvas e chuvas que se desfaz a +serra!... Olhe, at mesmo por amor da saude o Snr. D. Jacintho, que +fraquinho e acostumado cidade, necessita sahir da serra. Em Montemr, +em Montemr que s. ex.^a estava bem. E o Snr. Fernandes, to amigo +d'elle e assim com tanta influencia, devia teimar, e berrar, at que o +levasse para Montemr. + +Mas, infelizmente para a quietao do Silverio, Jacintho lanra raizes, +e rijas, e amorosas raizes na sua rude serra. Era realmente como se o +tivessem plantado d'estaca n'aquelle antiquissimo cho, d'onde brotra a +sua raa, e o antiquissimo humus refluisse e o penetrasse todo, e o +andasse transformando n'um Jacintho rural, quasi vegetal, to do cho, e +preso ao cho, como as arvores que elle tanto amava. + +E depois o que o prendia serra era o ter n'ella encontrado o que na +Cidade, apesar da sua sociabilidade, no encontrra nunca,--dias to +cheios, to deliciosamente occupados, d'um to saboroso interesse, que +sempre penetrava n'elles, como n'uma festa ou n'uma gloria. + +Logo de manh, s seis horas, eu, no meu quarto, mexendo ainda +regaladamente o meu corpo nos colches de fresco folhelho, sentia os +seus rijos sapates pelo corredor, e o seu cantarolar, desafinado, mas +ditoso como o d'um melro. Em poucos instantes escancarava com fragor a +minha porta, j de chapeu desabado, j de bengalo de cerejeira, +disposto com reservado fervor para os trilhos conhecidos da serra. E era +sempre a mesma nova, quasi orgulhosa: + +--Dormi hoje deliciosamente, Z Fernandes. To bem, com uma tal +serenidade, que comeo a acreditar que sou um justo! Um dia lindo! +Quando abri a janella, s cinco horas, quasi gritei de puro gosto! + +Na sua pressa, nem me deixava demorar na frescura da banheira; e quando +eu repetia a risca mal comeada do cabello, aquelle antigo homem das +trinta e nove escovas, protestava contra esse desbarato effeminado d'um +tempo devido aos fortes gozos da terra. + +Mas quando, depois de acariciar os rafeiros no pateo, desembocavamos da +alameda de platanos, e deante de ns se dividiam matutinamente, mais +brancos entre o verde matutino, os caminhos colleantes da quinta, toda a +sua pressa findava, e penetrava na Natureza, com a reverente lentido de +quem penetra n'um Templo. E repetidamente sustentava ser contrario +Esthetica, Philosophia e Religio, andar depressa atravs dos +campos. De resto, com aquella subtil sensibilidade bucolica que n'elle +se desenvolvera, e incessantemente se afinava, qualquer breve belleza, +do ar ou da terra, lhe bastava para um longo encanto. Ditosamente +poderia elle entreter toda uma manh, caminhar por entre um pinheiral, +de tronco a tronco, callado, embebido no silencio, na frescura, no +resinoso aroma, empurrando com o p as agulhas e as pinhas seccas. +Qualquer agua corrente o retinha, enternecido n'aquella servial +actividade, que se apressa, cantando, para o torro que tem sde, e +n'elle se some, e se perde. E recordo ainda quando me reteve meio +domingo, depois da Missa, no cabeo, junto a um velho curral +desmantellado, sob uma grande arvore,--s por que em torno havia +quietao, doce aragem, um fino piar d'ave na ramaria, um murmurio de +regato entre canas verdes, e por sobre a sbe, ao lado, um perfume, +muito fino e muito fresco, de flores escondidas. + +Depois, quando eu, velho familiar das serras, me no abandonava aos +mesmos extasis que a elle lhe enchiam a alma ainda novia--o meu +Principe rugia, com a indignao d'um poeta que descobre um mercieiro +bocejando sobre Shakspeare ou Musset. Eu ria. + +--Meu filho, olha que eu no passo d'um pequeno proprietario. Para mim +no se trata de saber se a terra _linda_, mas se a terra _boa_. Olha +o que diz a Biblia! Trabalhars a quinta com o suor do teu rosto! E +no diz contemplars a quinta com o enlevo da tua imaginao! + +--Podra! exclamava o meu Principe. Um livro escripto por Judeos, por +asperos semitas, sempre com o turvo olho posto no lucro! Repra, homem, +para aquelle bocadinho de valle, e consegue no pensar, por um momento, +nos trinta mil reis que elle rende! Vers que pela sua belleza e graa +elle te d mais contentamento alma que os trinta mil reis ao corpo. E +na vida s a alma importa. + +Recolhendo ao casaro, j o encontravamos com as janellas meio cerradas, +os soalhos borrifados para aquellas quentes restias de sol de junho, que +depois do almoo docemente nos retinham na livraria, preguiando. + +Mas realmente a alegre actividade do meu Principe no cessava, nem +amollecia, sob o peso da ssta. A essa hora, em quanto pelo arvoredo +mudo os mais agitados pardaes dormiam, e o sol mesmo parecia repousar, +immovel na rutilancia da sua luz, Jacintho com o espirito +acordado,--vido de sempre gosar, agora que reconquistra essa +faculdade,--tomava com delicia o _seu livro_. Por que o dono de trinta +mil volumes era agora, na sua casa de Tormes, depois de resuscitado, o +homem que s tem um livro. Essa mesma Natureza, que o desligra das +ligaduras amortalhadoras do tedio, e lhe gritra o seu bello _Ambula_, +caminha!--tambem certamente lhe gritra _et lege_, e l. E libertado +emfim do envolucro suffocante da sua Bibliotheca immensa, o meu ditoso +amigo comprehendia emfim a incomparavel delicia de _lr um livro_. +Quando eu correra a Tormes, (depois das revelaes do Severo na venda do +Torto,) elle findava o D. Quichote, e ainda eu lhe escutra as +derradeiras risadas com as cousas deliciosas, e de certo profundas, que +o gordo Sancho lhe murmurava, escarranchado no seu burro. Mas agora o +meu Principe mergulhra na _Odyssea_,--e todo elle vivia no espanto e no +deslumbramento de assim ter encontrado no meio do caminho da sua vida, o +velho errante, o velho Homero! + +--Oh Z Fernandes, como succedeu que eu chegasse a esta edade sem ter +lido Homero?... + +--Outras leituras, mais urgentes... O _Figaro_, George Ohnet... + +--Tu leste a _Illiada_? + +--Menino, sinceramente me gabo de nunca ter lido a _Illiada_. + +Os olhos do meu Principe fuzilavam. + +--Tu sabes o que fez Alcibiades, uma tarde, no Portico, a um sophista, +um desavergonhado d'um sophista, que se gabava de no ter lido a +_Illiada_? + +--No. + +--Ergueu a mo e atirou-lhe uma bofetada tremenda. + +--Para l, Alcibiades! Olha que eu li a _Odyssea_! + +Oh! mas de certo eu a lra, corridamente, com a alma desattenta! E +insistia em me iniciar, elle, e me conduzir, atravs do Livro sem egual. +Eu ria. E rindo, pesado do almoo, terminava por consentir, e me +estirava no canap de verga. Elle, deante da mesa, direito na cadeira, +abria o livro gravemente, pontificalmente, como um missal, e comeava +n'uma lenta ode sentida. Aquelle grande mar da _Odyssea_,-- +resplandecente e sonoro, sempre azul, todo azul, sob o vo branco das +gaivotas, rolando, e mansamente quebrando sobre a areia fina ou contra +as rochas de marmore das Ilhas divinas,--exhalava logo uma frescura +salina, bem vinda e consoladora n'aquella calma de Junho, em que a serra +se entorpecia. Depois as estupendas manhas do subtil Ulysses e os seus +perigos sobrehumanos, tantas lamurias sublimes, e um anceio to +espalhado da Patria perdida, e toda aquella intriga, em que embrulhava +os Heroes, lograva as Deusas, illudia o Fado, tinham um delicioso sabr +ali, nos campos de Tormes, onde nunca se necessitava de subtileza ou de +engenho, e a Vida se desenrolava com a segurana immutavel com que cada +manh sempre o Sol egual nascia, e sempre centeios e milhos, regados por +agoas eguaes, seguramente medravam, espigavam, amadureciam... Emballado +pela recitao grave e monotona do meu Principe, eu cerrava as palpebras +docemente. Em breve um vasto tumulto, por terra e ceu, me alvoroava... +E eram os rugidos de Polyphemo, ou a grita dos companheiros d'Ulysses +roubando as vaccas de Apollo. Com os olhos logo esbugalhados para +Jacintho, eu murmurava: _Sublime!_ E sempre, n'esse momento o engenhoso +Ulysses, de carapuo vermelho e o longo remo ao hombro, surprehendia com +a sua facundia a clemencia dos Principes, ou reclamava presentes devidos +ao Hospede, ou surripiava astutamente algum favor aos Deuses. E Tormes +dormia, no esplendor de Junho. Novamente, eu cerrava as palpebras +consoladas, sob a caricia ineffavel do largo dizer homerico... E meio +adormecido, encantado, incessantemente avistava, longe, na divina +Hellade, entre o mar muito azul e o ceu muito azul, a branca vela, +hesitante, procurando Ithaca... + +Depois da ssta o meu Principe de novo se soltava para os campos. E a +essa hora, sempre mais activa, voltava com ardor aos seus planos, a +essas culturas de luxo e elegantes officinas que cobririam a serra de +magnificencias ruraes. Agora andava todo no esplendido appetite d'uma +horta que elle concebera, immensa horta ajardinada, em que todos os +legumes, classicos ou exoticos, cresceriam, soberbamente, em vistosos +talhes, fechados por sebes de rosas, de cravos, de alfazma, de +dhalias. A agoa das regas desceria por lindos corrgos de loua +esmaltada. Nas ruas, a sombra cahiria de densas latadas de moscatel, +pousando em esteios revestidos d'azulejo. E o meu Principe desenhra o +plano d'esta espantosa horta, a lapiz vermelho, n'um papel immenso, que +o Melchior e o Silverio, consultados, longamente contemplaram,--um +coando risonhamente a nuca, o outro com os braos duramente crusados, e +o sobrlho tragico. + +Mas este plano, o da queijaria, o da capoeira, e outro, sumptuoso, d'um +pombal to povoado que todo o ceu de Tormes s tardes se tornaria branco +e todo fremente d'azas--no sahiam das nossas gostosas palestras, ou dos +papeis em que Jacintho os debuxava, e que se amontoavam sobre a meza, +platonicos, immoveis, entre o tinteiro de lato e o vaso com flres. + +Nem enxadada fendera terra, nem alavanca deslocra pedra, nem serra +serrra madeira, para encetar estas maravilhas. Contra a resistencia +rebolada e escorregadia do Melchior, contra a respeitosa inercia do +Silverio se quedavam, encalhados, os planos do meu Principe, como +galeras vistosas em rochas ou em ldo. + +No convinha bolir em nada, (clamava o Silverio) antes das colheitas e +da vindima! E depois, (acrescentava o Melchior com um sorriso de grande +promessa) para boas obras mez de Janeiro porque l ensina o dictado: + +Em Janeiro--mette obreiro +Mez meante--que no ante. + +E, de resto, o goso de conceber as suas obras e de indicar, estendendo a +bengala por cima de valle e monte, os sitios privilegiados que ellas +aformoseariam, bastava por ora ao meu Principe, ainda mais imaginativo +que operante. E, em quanto meditava estas transformaes da terra, muito +progressivamente e com um amavel esforo, se ia familiarisando com os +homens simples que a trabalhavam. Na sua chegada a Tormes, o meu +Principe soffria d'uma estranha timidez diante dos caseiros, dos +jornaleiros, e at de qualquer rapazinho que passasse, tangendo uma +vacca para o pasto. Nunca elle ento se demoraria a conversar com os +moos, quando borda d'um caminho ou n'um campo em monda elles se +endireitavam de chapeu na mo, n'um respeito de velha vassalagem. De +certo o empecia a preguia, e talvez ainda o pudico recato de transpor +toda a immensa distancia que se alargava desde a sua complicada +super-civilisao at rude simplicidade d'aquellas almas +naturaes:--mas sobretudo o retinha o medo de mostrar a sua ignorancia da +lavoura e da terra, ou de parecer talvez desdenhoso de occupaes e de +interesses, que para os outros eram supremos e quasi religiosos. Remia +ento esta reserva com uma profuso de sorrisos, de doces acenos, +tirando tambem o chapeu em cortezias profundas, com uma tal emphase de +polidez que eu por vezes receava que elle murmurasse aos jornaleiros: +Tenha v. ex.^a muito boas tardes;... Creado de v. ex.^a! + +Mas agora, depois d'aquellas semanas de serra, e de j saber (com um +saber ainda fragil,) a epocha das sementeiras e das ceifas, e que as +arvores de fructa se semeiam no inverno, j se aprazia em parar junto +dos trabalhadores, contemplar descanadamente o trabalho, dizer cousas +affaveis e vagas. + +--Ento, isso vae andando?... Ora ainda bem!... Este bocado de torro +aqui rico... O talude ali adeante est precisando concerto... + +E cada um d'estes to simples dizeres lhe era doce, como se por meio +d'elles penetrasse mais fundamente na intimidade da terra, e +consolidasse a sua encarnao em homem do campo, deixando de ser uma +mera sombra circulando entre realidades. J por isso no crusava no +caminho o mocinho atraz das vaccas, que no o detivesse, o no +interrogasse: Para onde vaes tu? De quem o gado? Como te chamas? E, +contente comsigo, sempre gabava gratamente o desembarao do rapaz, ou a +esperteza dos seus olhos. Outra satisfao do meu Principe era conhecer +os nomes de todos os campos, as nascentes d'agua, e as delimitaes da +sua quinta. + +--Vs acol, para alm do ribeiro, o pinheiral. J no meu, dos +Albuquerques. + +E com a perenne alegria de Jacintho as noites da serra, no vasto +casaro, eram faceis e curtas. O meu Principe era ento uma alma que se +simplificava:--e qualquer pequenino goso lhe bastava, desde que n'elle +entrasse paz ou doura. Com verdadeira delicia ficava, depois do caf, +estendido n'uma cadeira, sentindo atravez das janellas abertas, a +nocturna tranquillidade da serra, sob a mudez estrellada do ceu. + +As historias, muito simples e muito caseiras, que eu lhe contava, de +Guies, do abbade, da tia Vicencia, dos nossos parentes da Flr da +Malva, to sinceramente o interessavam que eu encetra, para seu regalo, +a chronica completa de Guies, com todos os namoricos, e as faanhas de +foras, e as desavenas por causa de servides ou d'aguas. Tambem por +vezes nos enfronhavamos, com afferro n'uma partida de gamo, sobre um +bello taboleiro de pau preto, com pedras de velho marfim, que nos +emprestra o Silverio. Mas nada de certo o encantava tanto como +atravessar as casas, p ante p, at uma saleta que dava para o pomar, e +ahi ficar encostado janella, sem luz, n'um enlevado socego, a escutar +longamente, languidamente, os rouxinoes que cantavam no laranjal. + + + + +X + + +N'uma dessas manhs--justamente na vespera do meu regresso a Guies--, o +tempo, que andra pela serra to alegre, n'um inalterado riso de luz +rutilante, todo vestido d'azul e ouro, fazendo poeira pelos caminhos, e +alegrando toda a natureza, desde os passaros at os regatos, +subitamente, com uma d'aquellas mudanas que tornam o seu temperamento +to semelhante ao do homem, appareceu triste, carrancudo, todo +embrulhado no seu manto cinzento, com uma tristeza to pesada e +contagiosa que toda a serra entristeceu. E no houve mais passaro que +cantasse, e os arroios fugiram para debaixo das hervas com um lento +murmurio de chro. + +Quando Jacintho entrou no meu quarto, no resisti malicia de o +aterrar: + +--Sudoeste! gralhas a grasnar por todos esses soutos... Temos muita +agua, Snr. D. Jacintho! Talvez duas semanas d'agua! E agora se vae +saber quem aqui o fino amador da Natureza, com esta chuva pegada, com +vendaval, com a serra toda a escorrer! + +O meu Principe caminhou para a janella com as mos nas algibeiras: + +--Com effeito! Est carregado. J mandei abrir uma das malas de Paris e +tirar um casaco impermeavel... No importa! Fica o arvoredo mais verde. +E bom que eu conhea Tormes nos seus habitos d'inverno. + +Mas como o Melchior lhe affianra que a chuvinha s viria para a +tarde, Jacintho decidiu ir antes d'almoo Corujeira, onde o Silverio +o esperava para decidirem da sorte d'uns castanheiros, muito velhos, +muito pittorescos, inteiramente interessantes, mas j roidos, e +ameaando desabar. E, confiando nas previses do Melchior, partimos sem +que Jacintho se vestisse prova d'agoa. No andaramos porm meio +caminho, quando, depois d'um arrepio nas arvores, um negrume carregou, +e, bruscamente, desabou sobre ns uma grossa chuva obliqua, vergastada +pelo vento, que nos deixou estonteados, agarrando os chapeus, +enrodilhados na borrasca. Chamados por uma grande voz, que se esganiava +no vento, avistamos n'um campo mais alto, beira d'um alpendre, o +Silverio, debaixo d'um guarda-chuva vermelho, que acenava, nos indicava +o trilho mais curto para aquelle abrigo. E para l rompemos, com a chuva +a escorrer na cara, patinhando na lama, contorcidos, cambaleantes, +atordoados no vendaval, que n'um instante alagra os campos, inchra os +ribeiros, esboroava a terra dos socalcos, lanra n'um desespero todo o +arvoredo, tornra a serra negra, bravamente agreste, hostil, +inhabitavel. + +Quando emfim, debaixo do vasto guarda-chuva com que o Silverio nos +esperava beira do campo, corremos para o alpendre, nos refugiamos +n'aquelle abrigo inesperado, a escorrer, a arquejar, o meu Principe, +enxugando a face, enxugando o pescoo, murmurou, desfallecido: + +--Apre! que ferocidade! + +Parecia espantado d'aquella brusca, violenta colera d'uma serra to +amavel e accolhedora, que em dous mezes, inalteradamente, s lhe +offerecera doura e sombra, e suaves ceus, e quietas ramagens, e +murmurios discretos de ribeirinhos mansos. + +--Santo Deus! Vem muitas vezes assim, estas borrascas? + +Immediatamente o Silverio aterrou o meu Principe: + +--Isto agora so brincadeiras de vero, meu senhor! Mas ha de V. Ex.^a +vr no inverno, se V. Ex.^a se aguentar por c! Ento cada temporal, +que at parece que os montes estremecem! + +E contou como fra tambem apanhado, quando ia para a Corujeira. +Felizmente, logo pela manh, quando sentiu o ar carrancudo e as +folhinhas dos choupos a tremer, se acautelra com o chapeu de chuva e +calra as suas grandes botas. + +--Ainda estive para me abrigar em casa do Esgueira, que um caseiro de +c. Aquella casa, ali abaixo, onde est a figueira... Mas a mulher tem +estado doente, j ha dias... E como pde ser obra que se pegue, bexigas +ou coisa que o valha, pensei comigo: Nada, o seguro morreu de velho! +Metti para o alpendre... E no passra um credo quando lobriguei a V. +Ex.^a... Coisa assim!... E o Snr. D. Jacintho voltar para casa, e +mudar-se, que temos um dia e uma noite d'agoa. + +Mas, justamente, a chuva comera a cahir perpendicular, d'um ceu ainda +negro, onde o vento se calra; e para alm do rio e dos montes havia uma +claridade, como entre cortinas de pano cinzento que se descerram. + +Jacintho repousava. Eu no cessra de me sacudir, de bater os ps +encharcados, que me arrefeciam. E o bom Silverio, passando a mo +pensativa sobre o negrume das suas barbas, reflectia, emendava os seus +prognosticos: + +--Pois, no senhor... Ainda esta! Nunca pensei. que tornejou o vento. + +O alpendre que nos cobria assentava sobre duas paredes em angulo, de +pedra solta, restos d'algum casebre desmantelado, e sobre um esteio +fazendo cunhal. N'esse momento s abrigava madeira, um cuculo de cestos +vasios, e um carro de bois, onde o meu Principe se sentra, enrolando um +cigarro confortador. A chuva desabava, copiosa, em longos fios +reluzentes. E todos tres nos callavamos, n'aquella contemplao inerte e +sem pensamento, em que uma chuva grossa e serena sempre immobilisa e +retem olhos e almas. + +-- Snr. Silverio, murmurou lentamente o meu Principe, que que o +senhor esteve ahi a dizer de bexigas? + +O procurador voltou a face surprehendido: + +--Eu, Ex.^{mo} Snr.?... Ah sim! a mulher do Esgueira! que pde ser, +pde ser... No imagine V. Ex.^a que faltam por c doenas. O ar bom. +No digo que no! Arsinho so, agoasinha leve. Mas s vezes, se V. Ex.^a +me d licena, vae por ahi muita maleita. + +--Mas no ha medico, no ha botica? + +O Silverio teve o riso superior de quem habita regies civilisadas e bem +providas... + +--Ento no havia d'haver? Pois ha um boticario, em Guies, l quasi ao +p da casa aqui do nosso amigo. E homem entendido... o Firmino, hein, +Snr. Fernandes? Homem capaz. Medico o Dr. Avelino, d'aqui a legoa e +meia, nas Bolsas. Mas j V. Ex.^a v, esta gentinha pobre!... Tomaram +elles para po, quanto mais para remedios! + +E de novo se estabeleceu um silencio, sob o alpendre, onde penetrava a +friagem crescente da serra encharcada. Para alm do rio, a promettedora +claridade no se alargra entre as duas espessas cortinas pardacentas. +No campo, em declive deante de ns, ia um longo correr de ribeiros +barrentos. Eu terminra por me sentar na ponta d'um madeiro, enervado, +j com a fome aguada pela manh agreste. E Jacintho, na borda do carro, +com os ps no ar, cofiava os bigodes humidos, palpava a face, onde, com +espanto meu, reapparecera a sombra, a sombra triste dos dias passados, a +sombra do 202! + +E, ento, surdiu por traz da parede do alpendre um rapasito, muito +rotinho, muito magrinho, com uma carita miuda, toda amarella sob a +porcaria, e onde dous grandes olhos pretos se arregalavam para ns, com +vago pasmo e vago medo. Silverio immediatamente o conheceu. + +--Como vae a tua me? Escusas de te chegar para c, deixa-te estar ahi. +Eu ouo bem. Como vae a tua me? + +No percebi o que os pobres beicitos descorados murmuraram. Mas Jacinto, +interessado: + +--Que diz elle? Deixe vir o rapaz! Quem a tua me? + +Foi o Silverio que informou respeitosamente: + +-- a tal mulher que est doente, a mulher do Esgueira, ali do casal da +figueira. E ainda tem outro abaixo d'este... Filharada no lhe falta. + +--Mas este pequeno tambem parece doente!--exclamou Jacintho. Coitadito, +to amarello!... Tu tambem ests doente? + +O rapasinho emmudecera, chupando o dedo, com os tristes olhos pasmados. +E o Silverio sorria, com bondade: + +--Nada! este sosinho... Coitado, assim amarellado e enfezadito, por +que... Que quer V. Ex.^a? Mal comido! muita miseria... Quando ha o +bocadito de po para todo o rancho. Fomesinha, fomesinha! + +Jacintho pulou bruscamente da borda do carro. + +--Fome? Ento elle tem fome? Ha aqui gente com fome? + +Os seus olhos rebrilhavam, n'um espanto commovido, em que pediam, ora a +mim, ora ao Silverio, a confirmao d'esta miseria insuspeitada. E fui +eu que esclareci o meu Principe: + +--Homem! est claro que ha fome! Tu imaginavas talvez que o Paraiso se +tinha perpetuado aqui nas serras, sem trabalho e sem miseria... Em toda +a parte ha pobres, at na Australia, nas minas d'ouro. Onde ha trabalho +ha proletariado, seja em Paris, seja no Douro... + +O meu Principe, teve um gesto d'afflicta impaciencia: + +--Eu no quero saber o que ha no Douro. O que eu pergunto se aqui, em +Tormes, na minha propriedade, dentro d'estes campos que so meus, ha +gente que trabalhe para mim, e que tenha fome... Se ha creancinhas, como +esta, esfomeadas? o que eu quero saber. + +O Silverio sorria, respeitosamente, ante aquella candida ignorancia das +realidades da Serra: + +--Pois est bem de vr, meu senhor, que ha para ahi caseiros que so +muito pobres. Quasi todos... uma miseria, que se no fosse algum +soccorro que se lhes d, nem eu sei!... Este Esgueira, com o rancho de +filhos que tem, uma desgraa... Havia V. Ex.^a de vr as casitas em +que elles vivem... So chiqueiros. A do Esgueira, acol... + +--Vamos vl-a! atalhou Jacintho com uma deciso exaltada. + +E sahiu logo do alpendre, sem attender chuva, que ainda cahia, mais +leve e mais rala. Mas ento Silverio alargou os braos deante d'elle, +com anciedade, como para o salvar d'um precipicio. + +--No! V. Ex.^a l na casa do Esgueira que no entra! No se sabe o +que a mulher tem, e cautella e caldo de gallinha... + +Jacintho no se alterou na sua polidez paciente: + +--Obrigado pelo seu cuidado, Silverio... Abra o seu chapeu de chuva, e +vante! + +Ento o Procurador vergou os hombros, e, como S. Ex.^a mandava, abriu +com estrondo o immenso pra-agoas, abrigou respeitosamente Jacintho, +atravs do campo encharcado. Eu segui, pensando na esmola sumptuosa que +o bom Deus mandava quelle pobre casal por um remoto senhor das Cidades! +Atraz vinha o pequenito perdido n'um immenso pasmo. + +Como todos os casebres da serra, o do Esgueira era de grossa pedra +solta, sem reboco, com um vago telhado, de telha musgosa e negra, um +postigo no alto, e a rude porta que servia para o ar, para a luz, para o +fumo, e para a gente. E em redor, a Natureza e o Trabalho tinham, +atravs d'annos, accumulado ali trepadeiras e flres silvestres, e +cantinhos d'horta, e sebes cheirosas, e velhos bancos roidos de musgo, e +panellas com terra onde crescia salsa, e regueiros cantantes, e videiras +enforcadas nos olmos, e sombras e charcos espelhados, que tornavam +deliciosa, para uma Ecloga, aquella morada da Fome, da Doena e da +Tristeza. + +Cautelosamente, com a ponteira do guarda-chuva, Silverio empurrou a +porta, chamando: + +--Eh! tia Maria... Ol rapariga! + +E na fenda entreaberta appareceu uma moa, muito alta, escura e suja, +com uns tristes olhos pisados, que se espantaram para ns, serenamente. + +--Ento como vae a tua me?--Abre l a porta, que esto aqui estes +senhores... + +Ella abriu, lentamente, e ia murmurando n'uma voz dolente e arrastada +mas sem queixume, que um vago, resignado sorriso acompanhava: + +--Ora, coitada! como ha de ir? Malzinha... malzinha. + +E dentro, n'um gemido que subia como do cho, d'entre abafos, amodorrado +e lento, a me repetiu a desconsolada queixa: + +--Ai! para aqui estou, e malzinha, malzinha!... + +O Silverio, sem passar da porta, com o guarda-chuva em riste, meio +aberto, como um escudo contra a infeco, lanou uma consolao vaga: + +--No ha de ser nada, tia Maria!... Isso foi friagem! No foi seno +friagem! + +E, sobre o hombro de Jacintho, encolhido: + +--J V. Ex.^a v... Muita miseria! At lhe chove l dentro. + +E, no pedao de cho que viam, cho de terra batida, uma mancha humida +reluzia, da chuva pingada de uma telha rta. A parede, coberta de +fuligem, das longas fumaraas da lareira, era to negra como o cho. E +aquella penumbra suja parecia atulhada, n'uma desordem escura, de +trapos, de cacos, de restos de coisas, onde s mostravam frma +comprehensivel uma arca de pau negro, e por cima, pendurado d'um prego, +entre uma serra e uma candeia, um grosso saiote escarlate. + +Ento Jacintho, muito embaraado, murmurou abstrahidamente: + +--Est bem, est bem... + +E largou pelo campo para o lado do alpendre como se fugisse, emquanto o +Silverio decerto revelava rapariga, a presena augusta do fidalgo, +por que a sentimos, da porta, levantar a voz dolorida: + +--Ai! Nosso Senhor lhe d muito boa sorte! Nosso Senhor o acompanhe! + +Quando o Silverio, com as grandes passadas das suas grandes botas, nos +colheu, no meio do campo, Jacintho parra, olhava para mim, com os dedos +tremulos a torturar o bigode, e murmurava: + +-- horrivel, Z Fernandes, horrivel. + +Ao lado, o vozeiro do Silverio trovejou: + +--Que queres tu outra vez, rapaz? Vae para a tua me, creatura! + +Era o pequeno rotinho, esfaimadinho, que se prendia a ns, n'um immenso +pasmo das nossas pessoas, e com a confusa esperana, talvez, que +d'ellas, como de Deuses encontrados n'um caminho, lhe viesse affago ou +proveito. E Jacintho, para quem elle mais especialmente arregalava os +olhos tristes, e que aquella miseria, e a sua muda humildade, +embaraavam, acanhavam horrivelmente, s soube sorrir, murmurar o seu +vago: Est bem, est bem... Fui eu que dei ao pequenito um tosto, +para o fartar, o despegar dos nossos passos. Mas como elle, com o seu +tosto bem agarrado, nos seguia ainda, como no sulco da nossa +magnificencia, o Silverio teve de o espantar, como a um passaro, batendo +as mos, e de lhe gritar: + +--J para casa! E leve esse dinheiro me. Roda, roda!... + +--E ns vamos almoar, lembrei eu olhando o relogio. O dia ainda vae +estar lindo. + +Sobre o rio, com effeito, reluzia um pedao d'azul lavado e lustroso; e +a grossa camada de nuvens j se ia enrolando sob a lenta varredela do +vento, que as levava, despejadas e rtas, para um canto escuso do ceu. + +Ento recolhemos lentamente para casa, por uma vereda ingreme, que +ensinra o Silverio, e onde um leve enchurro vinha ainda, saltando e +chalrando. De cada ramo tocado, rechuvia uma chuva leve. Toda a verdura, +que bebera largamente, reluzia consolada. + +Bruscamente, ao sahirmos da vereda para um caminho mais largo, entre um +socalco e um renque de vinha, Jacintho parou, tirando lentamente a +cigarreira: + +--Pois, Silverio, eu no quero mais estas horriveis miserias na quinta. + +O Procurador deu um geito aos hombros, com um vago _eh_! _eh_! +d'obediencia e dvida. + +--Antes de tudo, continuava Jacintho, mande j hoje chamar esse Dr. +Avelino para aquella pobre mulher... E os remedios que os vo buscar +logo a Guies. E recommendao ao medico para voltar manh, e em cada +dia; at que ella melhore... Escute! E quero, Melchior, que lhe leve +dinheiro, para os caldos, para a dieta, uns dez, ou quinze mil ris... +Bastar? + +O Procurador no conteve um riso respeitoso. Quinze mil ris! Uns +tostes bastavam... Nem era bom acostumar assim, a tanta franqueza, +aquella gente. Depois todos queriam, todos pedinchavam... + +--Mas que todos ho-de ter, disse Jacintho simplesmente. + +--V. Ex.^a manda, murmurou o Silverio. + +Encolhera os hombros, parado no caminho, no espanto d'aquellas +extravagancias. Eu tive de o apressar, impaciente: + +--Vamos conversando e andando! meio dia! Estou com uma fome de lobo! + +Caminhamos, com o Silverio no meio, pensativo, a fronte enrugada sob a +vasta aba do chapeu, a barba immensa espalhada pelo peito, e a barraca +exorbitante do guarda-chuva vermelho enrolada debaixo do brao. E +Jacintho, puxando nervosamente o bigode, arriscava outras idas +bemfazejas, cautelosamente, no seu indominavel medo do Silverio: + +--E as casas tambem... Aquella casa um covil!... Gostava de abrigar +melhor aquella pobre gente... E naturalmente, as dos outros caseiros so +pocilgas eguaes... Era necessario uma reforma! Construir casas novas a +todos os rendeiros da quinta... + +--A todos?...--O Silverio gaguejava,--emudeceu. + +E Jacintho balbuciava aterrado: + +--A todos... Emfim, quero dizer... Quantos sero elles? + +Silverio atirou um gesto enorme: + +--So vinte e coisas... Vinte e tres! se bem lembro. Upa! Upa! Vinte e +sete... + +Ento Jacintho emmudeceu tambem, como reconhecendo a vastido do numero. +Mas desejou saber, por quanto ficaria cada casa!... Oh! uma casa +simples, mas limpa, confortavel, como a que tinha a irm do Melchior, ao +p do lagar. Silverio estacou de novo. Uma casa como a da Ermelinda? +Queria Sua Ex.^a saber? E alijou a cifra, muito d'alto, como uma pedra +immensa, para esmagar Jacintho: + +--Duzentos mil ris, Ex^mo Senhor! E para mais que no para menos! + +Eu ria da tragica ameaa do excellente homem. E Jacintho, muito +docemente, para conciliar o Silverio: + +--Bem, meu amigo... Eram uns seis contos de ris! Digamos dez, por que +eu queria dar a todos alguma mobilia e alguma roupa. + +Ento o Silverio teve um brado de terror: + +--Mas ento, Ex.^mo Senhor, uma revoluo! + +E como ns, irresistivelmente, riamos dos seus olhos esgazeados de +horror, dos seus immensos braos abertos para traz, como se visse o +mundo desabar,--o bom Silverio encavacou: + +--Ah! V. Ex.^{as} riem? Casas para todos, mobilias, pratas, bragal, dez +contos de ris! Ento tambem eu rio! Ah! ah! ah! Ora viva a bella +chalaa!... Est ba a risota! + +E subitamente, n'uma profunda mesura, como declinando toda a +responsabilidade n'aquelle disparate magnifico: + +--Emfim, V. Ex.^a quem manda! + +--Est mandado, Silverio. E tambem quero saber as rendas que paga essa +gente, os contractos que existem, para os melhorar. Ha muito que +melhorar. Venha voss almoar comnosco. E conversamos. + +To saturado d'espanto estava o Silverio, que nem recebeu mais espanto +com essa melhoria de rendas. Agradeceu o convite, penhorado. Mas pedia +licena a Sua Ex.^a para passar primeiramente pelo lagar, para ver os +carpinteiros que andavam a concertar a trave do rio. Era um instante, e +estava em seguida s ordens de S. Ex.^a. + +Metteu a corta matto, saltando um cancello. E ns seguimos, com passos +que eram ligeiros, pela hora do almoo que se retardra, pelio azul +alegre que reapparecia, e por toda aquella justia feita pobresa da +serra. + +--No perdeste hoje o teu dia, Jacintho, disse eu, batendo, com uma +ternura que no disfarcei, no hombro do meu amigo. + +--Que miseria, Z Fernandes! Eu nem sonhava... Haver por ahi, vista da +minha casa, outras casas, onde creanas teem fome! horrivel... + +Estavamos entrando na alameda. Um raio de sol, sahindo d'entre duas +grossas, algodoadas nuvens, passou sobre uma esquina do casaro, ao +fundo, uma viva tira d'ouro. O clarim dos gallos soava claro e alto. E +um doce vento, que se erguera, punha nas folhas lavadas e luzidias um +fremito alegre e doce. + +--Sabes o que eu estava pensando, Jacintho?... Que te aconteceu aquella +lenda de Santo Ambrosio... No, no era Santo Ambrosio... No me lembra +o santo... Nem era ainda santo... apenas um cavalleiro peccador, que se +enamorra d'uma mulher, puzera toda a sua alma n'essa mulher, s por a +avistar a distancia na rua. Depois, uma tarde que a seguia, enlevado, +ella entrou n'um portal de egreja, e ahi, de repente, ergueu o veu, +entreabriu o vestido, e mostrou ao pobre cavalleiro o seio roido por uma +chaga! Tu, tambem andavas namorado da serra, sem a conhecer, s pela sua +belleza de vero. E a serra, hoje, zs! de repente, descobre a sua +grande ulcera... talvez a tua prepararo para S. Jacintho. + +Elle parou, pensativo, com os dedos nas cavas do collete: + +--- verdade! Vi a chaga! Mas emfim, esta, louvado seja Deus, das que +eu posso curar! + +No desilludi o meu Principe. E ambos subimos alegremente a escadaria do +casaro. + + + + +XI + + +No dia que seguiu estas largas caridades recolhi a Guies. E, desde +ento, tantas vezes trotei por aquellas tres legoas entre a nossa e a +velha alameda dos Jacinthos, que a minha egoa, quando a desviava d'essa +estrada familiar, conduzindo a uma cavallaria familiar, (onde ella +privava com o garrano do Melchior) relinchava de pura saudade. At a tia +Vicencia se mostrava vagamente ciumenta d'aquella Tormes, para onde eu +sempre corria, d'aquelle Principe de quem incessantemente celebrava o +rejuvenescimento, a caridade, os piteus, e as chimeras agricolas. J um +dia com um gro de sal e ironia,--o unico que cabia n'um corao todo +cheio d'innocencia,--ella me dissera, movendo com mais vivacidade as +agulhas da sua meia: + +--Olha que te podes gabar! At me tens feito curiosidade de conhecer +esse Jacintho... Traze c essa maravilha, menino! + +Eu rira: + +--Socegue, tia Vicencia, que o trarei agora, para o dia dos meus annos, +a jantar... Damos uma festa, haver um bailarico no pateo, e vem ahi +toda essa senhorama dos arredores. Talvez at se arranje uma noiva para +o Jacintho. + +Eu, com effeito, j convidra o meu Principe para este natalicio. E de +resto convinha que o senhor de Tormes conhecesse todos aquelles senhores +das boas casas da serra... Sobretudo, como eu lhe dizia rindo, convinha +que elle conhecesse algumas mulheres, algumas d'aquellas fortes +raparigas dos solares serranos, por que Tormes tinha uma solido muito +monastica; e o homem, sem um pouco do Eterno Feminino, facilmente se +enrudece e ganha uma casca aspera como a das arvores, na solido. + +--E esta Tormes, Jacintho, esta tua reconciliao com a Natureza, e o +renunciamento s mentiras da Civilisao uma linda historia... Mas, +caramba, faltam mulheres! + +Elle concordava, rindo, languidamente estendido na cadeira de vime: + +--Com effeito, ha aqui falta de mulher, com M. grande. Mas essas +senhoras ahi das casas dos arredores... No sei, estou pensando que se +devem parecer com legumes. Sans, nutritivas, excellentes para a +panella--mas, emfim, legumes. As mulheres que os poetas comparam s +Flores so sempre as mulheres das Crtes, das Capitaes, s quaes, +invariavelmente, desde Hesiodo e de Horacio, se rendem os poetas... E +evidentemente no ha perfume, nem graa, nem elegancia, nem requinte, +n'uma cenoura ou n'uma couve... No devem ser interessantes as senhoras +da minha serra. + +--Eu te digo... A tua visinha mais chegada, a filha do D. Theotonio, com +effeito, salvo o respeito que se deve casa illustre dos Barbedos, um +mostrengo! A irm dos Albergarias, da quinta da Loja, tambem no +tentaria nem mesmo o precisado Santo Anto. Sobretudo se se despisse, +por que um espinafre infernal! Essa realmente legume, e no dos +nutritivos. + +--Tu o disseste: espinafre! + +--Temos tambem a D. Beatriz Velloso... Essa bonita... Mas, menino, que +horrivelmente bem fallante! Falla como as heroinas do Camillo. Tu nunca +leste o Camillo... E depois, um tom de voz que te no sei descrever, o +tom com que se falla em D. Maria, em peas de sentimento. Tu tambem +nunca viste o Theatro de D. Maria... Emfim, um horror! E perguntas +pavorosas. V. Ex.^a. Snr. Doutor, no se delicia com Lamartine? J me +disse esta, a indecente! + +--E tu? + +--Eu! Arregalei os olhos... Oh Lamartine!. Mas, coitada, uma +excellente rapariga! Agora, por outro lado, temos as Rojes, as filhas +de Joo Rojo, duas flores, muito frescas, muito alegres, com um cheiro +e um brilho a sadio, e muito simples... A tia Vicencia morre por ellas. +Depois ha a mulher do Dr. Alypio, que uma belleza. Oh! uma creatura +esplendida! Mas, emfim, a mulher do Dr. Alypio, e tu renunciaste aos +deveres da Civilisao... Alm disso, mulher muito sria, toda absorvida +nos seus dous pequenos, que parecem dous anjinhos de Murillo... E quem +mais? J agora, quero completar a lista do pessoal feminino. Temos a +Mello Rebello, de Sandofim, muito engraada, com cabello lindo... Borda +na perfeio, faz doces como uma freira do antigo Regimen... Havia +tambem uma Julia Lobo, muito linda, mas morreu... Agora no me lembro +mais. Mas falta a flr da Serra, que a minha prima Joanninha, da Flr +da Malva! Essa uma perfeio de rapariga. + +--E tu, primo Z, como tens tu resistido? + +--Somos como irmos, creados de pequeninos, mais acostumados e +familiares que tu e eu... A familiaridade esbate os sexos. A me d'ella +era a unica irm da tia Vicencia, e morreu muito nova. A Joanninha, +quasi desde o bero que se creou em nossa casa, em Guies. O pae bom +homem, o tio Adrio. Erudito, antiquario, colleccionador... Collecciona +toda a sorte de cousas exquisitas, campainhas, esporas, sinetes, +fivellas... Tem uma colleco curiosa. Elle ha muito que deseja vir a +Tormes, para te visitar... Mas, coitado, soffre da bexiga, no pde +montar a cavallo. E a estrada da Flr da Malva aqui impossivel para +carruagens... + +O meu Principe espreguira longamente os braos: + +--No, est claro! eu que hei-de visitar teu tio, e a tia Vicencia... +Desejo conhecer os meus visinhos. Mas mais tarde, quando socegar. Agora +ando todo occupado com o meu povo. + +E com effeito! Jacintho era agora como um Rei fundador d'um Reino, e +grande edificador. Por todo o seu dominio de Tormes andavam obras, para +o renovamento das casas dos rendeiros, umas que se concertavam, outras +mais velhas, que se derrubavam para se reconstruirem com uma larguesa +commoda. Pelos caminhos constantemente chiavam carros, carregados de +pedra, ou de madeiras cortadas nos pinheiraes. + +Na taberna do Pedro, entrada da freguezia, ia um desusado movimento, +de pedreiros e carpinteiros contractados para as obras;--e o Pedro, com +as mangas arregaadas, por traz do balco, no cessava de encher os +decilitros com uma vasta enfusa. + +Jacintho, que tinha agora dous cavallos, todas as manhs cedo percorria +as obras, com amor. Eu, inquieto, sentia outra vez, latejar e irromper +no meu Principe o seu velho, maniaco furor d'accumular Civilisao! O +plano primitivo das obras era incessantemente alargado, aperfeioado. +Nas janellas, que deviam ter apenas portadas, segundo o secular costume +da serra, decidira pr vidraas, apezar do mestre d'obras lhe dizer +honradamente, que depois d'habitadas um mez, no haveria casa com um s +vidro. Para substituir as traves classicas queria estucar os tectos;--e +eu via bem claramente que elle se continha, se retesava dentro do +Bom-senso, para no dotar cada casa com campainhas electricas. Nem +sequer me espantei, quando elle uma manh me declarou que a porcaria da +gente do campo provinha de elles no terem onde commodamente se lavar, +pelo que andava pensando em dotar cada casa com uma banheira. Desciamos +n'esse momento, com os cavallos redea, por uma azinhaga precipitada e +escabrosa; um vento leve ramalhava nas arvores, um regato saltava +ruidosamente entre as pedras. Eu no me espantei--mas realmente me +pareceu que as pedras, o arroio, as ramagens e o vento, se riam +alegremente do meu Principe. E alm d'estes confortos, a que o Joo, +mestre d'obras, com os olhos loucamente arregalados chamava as +grandezas, Jacintho meditava o bem das almas. J encommendra ao seu +architecto, em Paris, o plano perfeito d'uma escola, que elle queria +erguer, n'aquelle campo da Carria, junto capellinha que abrigava os +ossos. Pouco a pouco, ahi crearia tambem uma bibliotheca, com livros +d'estampas, para entreter, aos domingos, os homens a quem j no era +possivel ensinar a lr. Eu vergava os hombros, pensando:--Ahi vem a +terrivel accumulao das Noes! Eis o livro invadindo a Serra! Mas +outras idas de Jacintho eram tocantes,--e eu mesmo me enthusiasmei, e +excitei o enthusiasmo da tia Vicencia com o seu plano d'uma Creche, onde +elle esperava ter manhs muito divertidas vendo as creancinhas a +gatinhar, a correr tropegamente atraz d'uma bola. De resto, o nosso +boticario de Guies estava j apalavrado para estabelecer uma pequena +pharmacia em Tormes, sob a direco do seu praticante, um afilhado da +tia Vicencia, que tinha publicado um artigo sobre as festas populares do +Douro no _Almanach de Lembranas_. E j fra offerecido o partido medico +de Tormes, com ordenado de 600$000 ris. + +--No te falta seno um Theatro! dizia eu, rindo. + +--Um theatro no. Mas tenho a ida d'uma sala, com projeces de +lanterna magica, para ensinar a esta pobre gente as cidades d'esse +mundo, e as cousas d'Africa, e um bocado de Historia. + +E tambem me ensoberbeci com esta innovao!--E quando a contei ao tio +Adrio, o digno antiquario bateu, apezar do seu rheumatismo, uma palmada +tremenda na cxa. Sim, senhor! Bella ida! Assim se podia ensinar +quella gente illetrada, vivamente, por imagens, a Historia Santa, a +Historia Romana, at a Historia de Portugal!... E voltado para a prima +Joanninha, o tio Adrio declarou Jacintho um homem de corao! + +E realmente pela Serra crescia a popularidade do meu Principe. +N'aquelle, guarde-o Deus, meu senhor! com que as mulheres ao passar o +saudavam, se voltavam para o vr ainda, havia uma seriedade d'orao, o +bem sincero desejo de que Deus o guardasse sempre. As creanas a quem +elle distribuia tostes, farejavam de longe a sua passagem,--e era em +torno d'elle um escuro formigueiro de caritas trigueiras e sujas, com +grandes olhos arregalados, que se ainda tinham pasmo, j no tinham +medo. Como o cavallo de Jacintho uma tarde se chapra, ao desembocar da +alameda, n'umas grossas pedras que ahi deformavam a estrada, logo ao +outro dia um bando d'homens, sem que Jacintho o ordenasse, veio por +dedicao ensaibrar e alisar aquelle pedao perigoso de caminho, +aterrados com o risco que correra o bom senhor. J pela serra se +espalhava esse nome de bom senhor. Os mais edosos da freguezia no o +encontravam sem exclamarem, uns com gravidade, outros com grandes risos +desdentados:--_Este o nosso bemfeitor_! Por vezes, alguma velha corria +do fundo do eido, ou vinha porta do casebre, ao avistal-o no caminho, +para gritar, com grandes gestos dos braos magros: Ai que Deus o cubra +de benos! Que Deus o cubra de benos! + +Aos domingos, o padre Jos Maria, (bom amigo meu e grande caador) vinha +de Sandofim, na sua egoa rua, a Tormes, para celebrar a missa na +Capellinha. Jacintho assistia ao officio na sua tribuna, como os +Jacinthos d'outras eras, para que aquelles simples o no suppuzessem +estranho a Deus. Quasi sempre ento elle recebia presentes, que as +filhas dos caseiros, ou os pequenos, vinham muito corados, trazer-lhe +varanda, e eram vasos de manjarico, ou um grosso ramalhete de cravos, e +por vezes um gordo pato. Havia ento uma distribuio de cavacas e +merengues de Guies, s raparigas e s creanas,--e, no pateo, para os +homens circulavam as infusas de vinho branco. O Silverio j sustentava +com espanto, e redobrado respeito, que o Snr. D. Jacintho em breve +disporia de mais votos nas eleies que o Dr. Alypio. E eu proprio me +impressionei, quando o Melchior me contou que o Joo Torrado, um velho +singular d'aquelles sitios, de grandes barbas brancas, hervanario, +vagamente alveitar, um pouco adivinho, morador mysterioso d'uma cova no +alto da serra, a todos affirmava que aquelle bom senhor era El-Rei D. +Sebastio, que voltra! + + + + +XII + + +Assim chegou Setembro, e com elle o meu natalicio, que era a 3 e n'um +Domingo. Toda essa semana a passra eu em Guies, nos preparos da +vindima,--e de manh cedo, n'esse Domingo illustre, me fui debruar da +varanda do quarto do saudoso tio Affonso, vigiando a estrada, por onde +devia apparecer o meu Principe, que emfim visitava a casa do seu Z +Fernandes. A tia Vicencia, desde a madrugada, andava atarefada pela +cosinha e pela copa, porque, desejando mostrar ao meu Principe o +pessoal da serra, convidra para jantar algumas familias amigas, dos +arredores, as que tinham carruagens ou carroes, e podiam, pelas +estradas mal seguras, recolher tarde, depois d'um bailarico campestre, +no pateo, j enfeitado para esse effeito de lanternas chinezas. Mas logo +s dez horas me desesperei, ao receber, por um moo da Flr da Malva, +uma carta da prima Joanninha, em que dizia a pena de no poder vir +porque o Pap estava desde a vespera com um leiceno, e ella no o +queria abandonar. Corri indignado cosinha, onde a tia Vicencia +presidia a um violento bater de gemas d'ovos dentro d'uma immensa +terrina. + +--A Joanninha no vem! Sempre assim! Diz que o pae tem um leiceno... +Aquelle tio Adrio escolhe sempre os grandes dias para ter leicenos, ou +para ter a pontada... + +A boa face redondinha e corada da tia Vicencia enterneceu-se. + +--Coitado! ser em sitio que no se pudesse sentar na carruagem! +Coitado! Olha, se lhe escreveres, dize-lhe que ponha um emplastrosinho +de folhas d'alecrim. com que teu tio se dava bem. + +Eu gritei simplesmente para o moo, que dava de beber ao burro no pateo: + +--Dize Snr.^a D. Joanninha que sentimos muito... Que talvez eu l +apparea manh. + +E voltei janella, impaciente, por que o relogio do corredor, muito +atrazado, j cantra a meia hora depois das dez e o Principe tardava +para o almoo. Mas, mal eu me chegra varanda, appareceu justamente na +volta da estrada Jacintho, de grande chapeu de palha, no seu cavallo, +seguido do Grillo que, tambem de chapeu de palha, e abrigado sob um +immenso guarda-sol verde, se escarranchava no albardo da velha egoa do +Melchior. Atraz, um moo com uma maleta cabea. E eu, na alegria de +avistar emfim o meu Principe trotando para a minha casa d'aldeia, no dia +dos meus trinta e seis annos, pensava n'outro natalicio, no d'elle, em +Paris, no 202, quando, entre todos os esplendores da Civilizao, ns +bebemos tristemente _ad manes_, aos nossos mortos! + +--_Salv_! gritei da varanda. _Salv, domine Jacinthi_! + +E entoei, para o accolher, n'um alegre tarantantan, o hymno da carta! + +--Isto por aqui tambem lindo!--gritou elle de baixo. E o teu palacio +tem um soberbo ar... Por onde a porta? + +Mas eu j me precipitava para o pateo--onde Jacintho, apeando, contou +alegremente os tormentos do Grillo, que nunca montra a cavallo, e no +cessra de berrar ante os perigos d'aquella aventura. + +E o digno preto, offegante, lustroso de suor, e livido sob o esplendor +da sua negrura, exclamava, apontando com a mo tremula para a pobre +egoa, que solta, de cabea pensativa, parecia de pedra, sobre as patas +mais immoveis que marcos: + +--Pois se o si Fernandes visse! Uma fera, que nunca veiu quieta. Sempre +para a esquerda, sempre para a direita, p aqui, p alm! S para me +sacudir! S para me sacudir! + +E no resistiu. Com a ponta do guarda-sol atirou uma pontoada vingativa +contra a egoa, sobre o albardo. + +Subindo a escadaria ligeira, penetrando no alegre corredor, com a sua +janella ao fundo engrinaldada de rosinhas, Jacintho louvava grandemente +a nossa casa, que o repousava das rijas muralhas, das grossas portas +feudaes de Tormes. E no seu quarto agradeceu os cuidados maternaes da +tia Vicencia, que enchera de flores os dois vasos da China sobre a +commoda, e adornra a cama com uma das nossas colxas da India mais +ricas, cr de canario, com grandes aves d'ouro. Eu sorria, enternecido. +Ento estreitamos os ossos n'um grande abrao, pelo natalicio... Trinta +e oito, hein, Z Fernandes?--Trinta e quatro, animal! E o meu +Principe abrindo a mala, sobria maleta de philosopho, offereceu os +nobres presentes, que so devidos, como diz sempre o astuto Ulysses na +Odyssea. Era um alfinete de gravata, com uma saphira, uma cigarreira de +aro fosco, adornada de um florido ramo de macieira em delicado esmalte, +e uma faca para livros de velho lavor Chinez. Eu protestava contra a +prodigalidade. + +-- tudo das malas de Paris... Mandei-as abrir hontem noite. E tomei a +liberdade de trazer esta lembrana tua tia Vicencia. No vale nada... + s por ter pertencido princeza de Lamballe. + +Era uma caldeirinha d'agoa benta, em prata lavrada, d'um gosto florido e +quasi galante. + +--A tia Vicencia no sabe quem a princeza de Lamballe, mas ficar +encantada! E uma garantia, por que ella suspeita da tua religio, como +homem de Paris, da terra das impiedades... E agora, lavar, escovar, e ao +almoo! + +A tia Vicencia pareceu toda surprehendida, e logo encantada com o meu +camarada, que ella suppuzera realmente um Principe, arrogante, escarpado +e difficil. Quando elle lhe offereceu a caldeirinha, com um delicado +pedido para se lembrar d'elle nas suas oraes, duas largas rosas, +mais roseas e frescas que as rosas que enchiam a mesa, cobriram as faces +redondas da boa senhora, que nunca recebera to piedoso presente, com +to linda palavra. Mas o que sobretudo a captivou foi o tremendo +appetite de Jacintho, a enthusiasmada convico com que elle, +accumulando no prato montes de cabidella, depois altas serras d'arroz de +forno, depois bifes de numerosa cebolada, exaltava a nossa cosinha, +jurava nunca ter provado nada to sublime. Ella resplandecia: + +--At faz gosto, at faz gosto!... Ora mais uma d'estas batatinhas +recheadas... + +--Com certesa, minha senhora! at duas! As minhas raes, em mesas +d'estas, to perfeitas, so sempre as de Gargantua. + +--No cites Rabelais, que a tia Vicencia no conhece os auctores +profanos! exclamava eu, tambem radiante. E prova esse vinho branco c da +nossa lavra, e louva Deus que amadurece tal uva. + +E o almoo foi muito alegre, muito intimo, muito conversado, sobre as +obras de Jacintho em Tormes, e a sua Creche, que enlevava a tia +Vicencia, e as esperanas da vindima, e a minha prima Joanninha, que +tinha o pap doente, e o pessimo estado dos caminhos. Mas o +enternecimento maior foi quando, ao servir o caf, o creado poz ao lado +de Jacintho um pires com um pau de canella, o seu estranho e costumado +pau de canella. No o esquecera a tia Vicencia! Ali tinha o seu pausinho +de canella!--Queria que elle, em Guies, continuasse os seus habitos +como em Tormes... E aquelle pau de canella foi o symbolo de adopo do +meu Principe como novo sobrinho da tia Vicencia. + +Ella em breve recolheu cosinha, aos preparativos do banquete. Ns +fumamos um preguioso charuto no jardim, ao p do repuxo, sob a +recolhida sombra do cedro. Depois, inexoravelmente, como proprietario, +mostrei ao meu Principe a propriedade toda, com desapiedada +minuciosidade, sem lhe perdoar uma leira, um regueiro, uma arvore, um p +de vinha. S quando a sua face comeou a opar e a empallidecer, de +canao, e que do entendimento totalmente atordoado s lhe escorria um +vago--muito bonito! bella terra!-- que voltei os passos para casa, +tornejando ainda n'uma volta larga para lhe mostrar o lagar, uma +plantao d'espargos, e o sitio onde existira a ruina d'um velho castro +romano. Ao penetrarmos de novo, pelo jardim, na fresca sala, ainda o +empurrei, como uma rez, para a livraria do meu bom tio Affonso, para lhe +mostrar as preciosidades, uma magnifica chronica de D. Joo I por Ferno +Lopes, a primeira edio do _Imperador Clarimundo_, uma _Henriada_, com +a assignatura de Voltaire, foraes d'El-Rei D. Manoel, e outras +maravilhas. Elle respirava fechando o derradeiro pergaminho, quando eu o +arrastei adega, para que admirasse a famosa pipa, que tinha, em +relevo, na madeira do tampo, as complicadas armas dos Sandes. Eram +quatro horas. O meu Principe tinha o ar esgaseado e livido. Cravando +n'elle os olhos inexoraveis, olhos em que eu mesmo sentia reluzir a +ferocidade, declarei que iriamos agora vr a tulha. Mas ento, com as +mos nos rins, elle murmurou, humildemente, n'um murmurio de creana: + +--No se me dava de me sentar um poucochinho! + +Tive ento piedade, abri as garras, deixei que elle se arrastasse, atraz +de mim, para o seu quarto, onde freneticamente descalou as botas, se +atirou para um fresco canap forrado de ganga, murmurando n'um +abatimento profundo:--Bella propriedade! + +Consenti generosamente que elle adormecesse,--e eu mesmo desci a +verificar se a Gertrudes dispusera bem as escovas, as toalhas de renda, +no quarto onde os convidados, em breve, ao chegar, lavariam as mos, +escovariam a poeira da estrada. E justamente, uma caleche rodava no +pateo, a velha caleche do D. Theotonio, com a parelha rua. Espreitando +da janella descobri, com prazer, que chegava s, de gravata branca, sob +o guarda-p, sem a horrendissima filha. Corri alegremente ao quarto da +tia Vicencia, que, ajudada pela Catharina, abrochava pressa as suas +pulseiras ricas de topazios. + +--Tia Vicencia! chegou o D. Theotonio! Felizmente vem sem a filha... No +se demore, os outros no tardam. O Manoel que esteja bem penteado, de +gravata bem teza!... Vamos a vr como corre a festa! + + + + +XIII + + +Ai de mim! a festa no meu anniversario no se passou com brilho, nem com +alegria! + +Quando o meu Principe entrou na sala, com uma elegancia, (onde eu senti +as malas de Paris, abertas na vespera)--uma rosa branca no jaqueto +preto, collete branco lavrado e trespassado, copiosa gravata de sda +branca, tufando, e presa por uma perola negra,--j todos os convidados +estavam na sala,--o D. Theotonio, o Ricardo Velloso, o Dr. Alypio, o +gordo Mello Rebello, de Sandofim, os dois manos Albergarias, da quinta +da Loja--; todos de p, n'um pelloto cerrado. Em torno do soph onde a +tia Vicencia se installra, um magotesinho de cadeiras reunira as +senhoras,--a Beatriz Velloso, de cassa branca sobre sda, que a tornava +mais aeria e magra, com a sua trunfa immensa de cabello riado; as duas +Rojes, (com a tia Adelaide Rojo) vermelhinhas como camoezas, ambas de +branco; e a mulher do Dr. Alypio, de preto, esplendida como uma Venus +Rustica... E foi na sala, como se realmente entrasse um Principe, +d'esses paizes do Norte onde os Principes so magnificos, muito +distantes dos homens, e aterram as gentes. Um silencio, como se o tecto +de carvalho descesse, nos esmagava: e todos os olhos se enristaram +contra o meu desgraado Jacintho, como n'uma caada hind, quando orla +da floresta surge o Tigre Real. Debalde,--nas confusas, apressadas +apresentaes, com que eu o levava atravez da sala,--os seus apertos de +mo, os sorrisos, o vago murmurio, da sua honra, do seu prazer foram +repassados de sympathia, de simplicidade. Todos os cavalheiros +permaneciam reservados, observando o Principe, que subira serra: e as +senhoras mais se aconchegavam sombra da tia Vicencia, como ovelhas +volta do pastor, quando na altura assoma o lobo. Eu, j inquieto, lancei +o D. Theotonio, o mais ornamental d'aquelles cavalheiros. + +--O Snr. D. Theotonio foi muito amavel em vir, Jacintho. Raras vezes sae +da sua linda casa da Abrujeira. + +O digno D. Theotonio sorriu, cofiando os espessos bigodes brancos, de +velho brigadeiro: + +--V. Ex.^a chegou directamente de Vienna? + +No! Jacintho viera directamente de Paris, com o amigo Z Fernandes. D. +Theotonio insistiu: + +--Mas certamente visita muitas vezes Vienna... + +Jacintho sorria surprehendido: + +--Vienna, porque?... No. Ha mais de quinze annos que no vou a Vienna. + +O fidalgo murmurou um lento _ah_! e ficou calado, de palpebras baixas, +como revolvendo analyses profundas, com as mos cruzadas sob as abas da +longa sobrecasaca azul. + +Eu ento, vigilante, lancei o Dr. Alypio: + +--O nosso Doutor, meu caro Jacintho, o mais poderoso influente de todo +o districto. + +O Doutor curvou a cabea bem feita, com um bello cabello preto, +admiravelmente alisado e lustroso. Mas a tia Vicencia, que se erguera do +sof, chamava o meu Principe, porque o Manoel annuncira o jantar, +mudamente, mostrando apenas, porta da sala, a sua corpulenta +pessoa,--inteiriado e vermelho. + + mesa, onde os pudins, as travessas de doce d'ovos, os antigos vinhos +da Madeira e do Porto, nas suas pesadas garrafas de cristal lapidado, +fundiam com felicidade os seus tons ricos e quentes, Jacintho ficou +entre a tia Vicencia e uma das Rojes, a Luizinha, sua afilhada, que, +por costume velho, quando jantava em Guies, sempre se collocava +sombra da sua ba madrinha. E a spa, que era de gallinha com macarro, +foi comida n'um to largo e pesado silencio que eu, na ancia de o +quebrar, exclamei, ao acaso, sem pensar que me achava em Guies depois +de tanto tempo e em minha prpria casa: + +--Deliciosa, esta sopa! + +Jacintho echoou: + +--Divina!! + +Mas como todos os convidados certamente estranharam este meu brado, e a +excessiva admirao de Jacintho, o silencio, carregado de cerimonia, +mais se carregou de embarao. Felizmente a tia Vicencia, com aquelle seu +bom sorriso, observou que Jacintho parecia gostar da comida +portugueza... E eu, sempre no intuito d'animar a conversa, nem deixei +que o meu Principe confirmasse o seu amor da cosinha vernacula, e +gritei: + +--Como gostar! Mas que delira!... Pudera! Tanto tempo em Paris, +privado dos piteus lusitanos... + +E como, ditosamente, me lembrra o prato de arroz doce preparado na +occasio do natalicio de Jacintho, pelo cosinheiro do 202, contei a +historia, profusamente, exaggerando, affirmando que esse arroz doce +continha _foie gras_, e que sobre a sua ornamentada pyramide fluctuava a +bandeira tricolor, por cima do busto do conde de Chambord! Mas o arroz +doce de Paris, assim estragado to longe da Serra, no interessra +ninguem. Puxou apenas alguns sorrisos de polida condescendencia, quando +eu, alternadamente, me voltava para um cavalheiro, para uma senhora, +insistindo, exclamando:--Extraordinario, hein? + +D. Theotonio observou, mysteriosamente, que o cosinheiro sabia para +quem cosinhava. E a bella mulher do Dr. Alypio ousou murmurar, corando: + +--Havia de ser bonito prato, e talvez no fosse mau! + +Eu, sempre na ancia de espiritualisar o banquete, de produzir +conversao, ataquei com desabrida alegria a Snr.^a D. Luiza, por ella +assim defender a profanao do nosso grande acepipe nacional! Mas, pobre +de mim! to excessiva e ruidosamente interpellei a formosa senhora, que +ella se enconchou, emmudeceu, toda corada, e mais formosa assim. E outro +silencio se abatia sobre a mesa, como uma nevoa, quando a tia Vicencia, +providencial, se desculpou para com Jacintho de no ter peixe! Mas qu! +ali na Serra era impossivel, ainda a peso d'ouro, ter peixe, a no ser a +pescada salgada, ou o bacalhau. O excellente Rojo, com aquelle seu +modo, to suave que cada syllaba para correr mais docemente parecia +lubrificada com oleos santos, lembrou que o Snr. D. Jacintho possuia uma +larga facha do rio Douro com privilegio para a pesca do savel. Jacintho +no sabia, nem imaginava que houvesse saveis... O Dr. Alypio no se +admirava por que essas pescas tinham sido vendidas ao Cunha brasileiro, +ha vinte annos, na mocidade do Snr. D. Jacintho. E hoje, segundo o D. +Theotonio, no valiam dois mil ris. Se j no ha saveis!... E a +proposito das antigas pescas do Douro se ia formando, em torno da mesa, +entre os homens mais visinhos, lentas cavaqueirinhas ruraes, que as +senhoras aproveitavam para cochichar, no desabafo d'aquelle silencio +cerimonioso, que viera pesando cada vez mais desde a spa at os frangos +guisados. Receoso de que essa orla de murmurios lentos, sem brilho e sem +alegria, se estabelecesse de novo, me abalancei (para animar), a +interpellar Jacintho, recordando a famosa aventura do peixe da Dalmacia +encalhado no ascensor. + +--Isso foi uma das melhores historias que nos succederam em Paris! O +Jacintho, por causa d'um peixe muito raro, que lhe mandra o Gro-Duque +Casimiro, dava uma magnifica ceia, a que o Gro-Duque... o Gro-Duque +Casimiro, o irmo do Imperador... + +Todos os olhos se desviaram para o meu Jacintho, que se servia de +ervilhas:--e o Mello Rebello quasi se engasgou, n'um sorvo precipitado +ao copo, para contemplar no meu amigo algum reflexo do Gro-Duque. E eu +contei, com profuso, o peixe encalhado, o Gro-Duque pescando, o anzol +feito com um gancho da Princeza de Carman, o duque de Marizac, cahindo +quasi no poo do elevador... Mas no se produziu um unico riso, e a +atteno mesma era dada com esforo, por cortezia. Debalde eu +arremessava aquelles nomes magnificos de principes e princezas, +misturados a cousas picarescas... Nenhum dos meus convidados +comprehendia o maquinismo do elevador, um prato encalhado n'um poo +negro... Perante o gancho da princeza as Albergarias baixaram os olhos. +E a minha deliciosa historia morreu n'uma reticencia, ainda mais +regelada pela exclamao innocente da tia Vicencia: + +--Oh! filho, que cousas! + +Mas, como Jacintho se enfronhra de repente n'uma larga conversa com a +Luizinha Rojo, que ria, toda luminosa e palradora,--todos, como +libertados do peso cerimonioso da sua presena augusta, se lanaram nas +conversinhas discretas, a que o champagne, agora, depois do assado, dava +mais viveza. Eram os soturnos murmurios, em torno da mesa, que +definitivamente se perpetuavam. Foi ento que desisti de animar o +jantar. Mergulhei com a bella mulher do Doutor Alypio na grande questo +social d'esse tempo em Guies, o casamento da D. Amelia Noronha com o +feitor! E eu defendia a D. Amelia, os direitos do amor, quando se +alargou um silencio,--e era Jacintho, que se debruava, de copo na mo. + +--Velho amigo Z Fernandes, tua! Muitos e bons, e sempre em companhia +de tua tia e minha senhora, a quem peo para saudar. + +Todos os copos, onde a espuma morria sobre um fundo de champagne, se +ergueram n'um largo rumor de amisade, e boa visinhana. Eu acenei ao +Manoel, vivamente, para encher os copos; e logo, tambem de p, atirando +para traz a sobrecasaca: + +--Meus senhores, peo uma grande saude para o meu velho amigo Jacintho, +que pela primeira vez honra esta casa fraternal... Que digo eu? que pela +primeira vez honra com a sua presena a sua querida patria! E que por c +fique, pelas serras, muitos annos, todos bons. tua, meu velho! + +Outro rumor correu pela mesa, mas ceremonioso e sereno. A nossa +oratoria, positivamente, no incendira as imaginaes! A tia Vicencia +fez tilintar o seu copo, quasi vasio, com o de Jacintho, que tocou no +copo da sua visinha, a Luizinha Rojo, toda resplandecente, e mais +vermelha que uma peonia. Depois foi um encadeamento de saudes, com os +copos quasi vasios, entre todos os convidados, sem esquecer o tio +Adrio, e o Abbade, ambos ausentes, ambos com furunculos. E a tia +Vicencia espalhava aquelle olhar, que prepra o erguer, o arrastar de +cadeiras,--quando D. Theotonio, erguendo o seu copo de vinho do Porto, +com a outra mo apoiada mesa, meio erguido, chamou Jacintho, e n'uma +voz respeitosa, quasi cava: + +--Esta toda particular, e entre ns... Brindo o ausente! + +Esvasiou o copo, como em religio, pontificando. Jacintho bebeu +assombrado, sem comprehender. As cadeiras arrastavam,--eu dei o brao +tia Albergaria. + +E s comprehendi, na sala, quando o Dr. Alypio, com a sua chavena de +caf e o charuto fumegante, me disse, n'um d'aquelles seus olhares +finos, que lhe valiam a alcunha de _Dr. Agudo_:--Espero que ao menos, +c por Guies, no se erga de novo a forca!... E o mesmo fino olhar me +indicava o D. Theotonio, que arrastra Jacintho para entre as cortinas +d'uma janella, e discorria, com um ar de f e de mysterio. Era o +miguelismo, por Deus! O bom D. Theotonio considerava Jacintho como um +hereditario, ferrenho, miguelista,--e na sua inesperada vinda ao seu +solar de Tormes, entrevia uma misso politica, o comeo d'uma propaganda +energica, e o primeiro passo para uma tentativa de Restaurao. E na +reserva d'aquelles cavalheiros, ante o meu Principe, eu senti ento a +suspeita liberal, o receio d'uma influencia rica, nova, nas Eleies +proximas, e a nascente irritao contra as velhas ideias, representadas +n'aquelle moo, to rico, de civilisao to superior. Quasi entornei o +caf, na alegre surpreza d'aquella sandice. E retive o Mello Rebello, +que repunha a chavena vasia na bandeja, fitei, com um pouco de riso, o +_Dr. Agudo_. + +--Ento, francamente, os amigos imaginam que o Jacintho veio para Tormes +trabalhar no miguelismo? + +Muito serio, Mello Rebello chegou o seu grosso bigode minha orelha: + +--At corre, como certo, que o Principe D. Miguel est com elle em +Tormes! + +E como eu os considerava esgazeado, o Dr. Alypio--to agudo!--confirmou: + +-- o que corre... Disfarado em creado! + +Em creado? Oh! santo Deus! Era o Baptista! Justamente, Ricardo Velloso +veio, puxando do seu cigarrinho, para o accender no meu charuto. E o bom +Rebello logo invocou o seu testemunho.--Pois no corria, que o filho de +D. Miguel estava em Tormes, escondido?... + +--Disfarado em lacaio, confirmou logo o digno Rebello. + +Accendeu o cigarro, soprou o fumo, e erguendo muito as sobrancelhas +meditativas: + +--Se assim , l me parece desplante... Que eu no desgostava de o vr. +Dizem que bonito moo, bem apessoado. Mas emfim, meu tio Joo Vaz +Rebello foi partido s postas, a machado, nas prises d'Almeida... E se +recomeam essas questes, mau, mau! Ora o seu amigo... + +Emmudeceu. Jacintho, que se libertra do velho D. Theotonio, e ainda +conservava um resto de riso, d'assombro divertido, vinha para mim, +desabafar: + +--Extraordinario! Vejo que, aqui, na serra, ainda se conservam, sem uma +ruga, as velhas e boas ideias... + +Immediatamente, sem se conter, Mello Rebello acudiu: + +-- conforme o que V. Ex.^a chama _boas ideas_. + +E eu agora, furioso com aquella disparatada inveno, que cercava +d'hostilidade o meu pobre Jacintho, estragava aquella amavel noite +d'annos, intervim, vivamente: + +--Tu jogas o voltarete, Jacintho? No jogas... Ento vamos arranjar duas +mesas... O D. Theotonio ha de querer cartas. + +E arrastei Jacintho para as senhoras, que de novo se aninhavam sombra +da tia Vicencia, estabelecida no seu canto do sof. Todas se callavam, +parecia encolherem-se ante a appario do meu Principe, como pombas +avistando o abutre. E deixei o temido homem affirmando mulher do Dr. +Alypio (um pouco desgarrada do bando das aves timidas) que lhe dera +grande prazer aquella occasio de conhecer as suas visinhas de Tormes... +Ella abrira nervosamente o leque, sorria, e nunca de certo Jacintho +admirra na Cidade uma bocca mais vermelha, dentinhos mais rutilantes. +Mas depois d'organisar a mesa do voltarete, tive de abancar, eu, para +substituir o Manoel Albergaria, que era dispeptico, se declarra +affrontado, e desejava respirar um momento na varanda. Todos aquelles +cavalheiros, de resto, se queixavam de calor. Mandei abrir as janellas +que davam sobre as mimosas do pateo. O Velloso, ao baralhar, parava, +bufando, como opprimido: + +--Est abafado... Ainda temos trovoada! + +E o Dr. Alypio, inquieto, por que tinha uma hora d'estrada at casa, e +uma das egoas da caleche era escabriada, correu janella, espreitar o +ceu, que ennegrecera, morno e pesado. + +--Com effeito, vae cahir agoa. + +As hastes das mimosas ramalhavam, arripiadas: e o ar que agitava as +cortinas era intermittente, estonteado. De certo na sala, entre as +senhoras, surgira a mesma inquietao, porque a tia Albergaria +appareceu, avisando o mano Jorge. + +Era prudente pensar em partir, a noite ameaava... E o Dr. Alypio, +puxando o relogio, propoz que, levantada aquella remissa, se preparasse +a marcha. Justamente o Albergaria recolhia da varanda desaffrontado, +alliviado com um calice de genebra: e rotomou as suas cartas, +annunciando tambem que vinha ahi uma trovoada valente. + +Voltando sala, encontrei Jacintho muito alegre entre as senhoras, que +se familiarisaram, escutando cheias de riso e gosto, a historia da sua +chegada a Tormes, sem malas, sem creados, to desprovido que dormira com +a camisa da caseira! Mas a minha pobre noite d'annos findava, +desorganisada. A tia Albergaria rondava de janella em janella, assustada +com a volta Roqueirinha, espreitando a treva abafada. Calando +lentamente as luvas, a bella mulher do Dr. Alypio perguntava se ainda +havia a remissa. E a tia Vicencia apressra o ch, que o Manoel seguido +pela Gertrudes, com a bandeja de bolos, j comeava a servir s +senhoras. Jacintho, de p, offerecendo chavenas, gracejava: + +--Ento tanta pressa, tanto medo, por causa d'uma trovoadinha? + +Ellas replicavam, familiarizadas, n'uma crescente sympathia pelo meu +Principe: + +--Ora o senhor falla bem, porque fica debaixo de telhas... + +--Sempre o queriamos vr... se fosse agora para Tormes, com esta noite +cerrada! + +O voltarete findra nas duas mesas: e aquelles cavalheiros, das +janellas, gritavam ordens para o pateo negro, onde as carroagens +esperavam atreladas: + +--Desce a cabea da victoria, Diogo! + +--Accende o lampeo, Pedro! Sempre ajuda a luz das lanternas. + +A creada Quiteria chegava porta com os braos carregados de chales, de +mantilhas de renda. Como uma das Albergarias ia no assento de deante na +victoria, eu corri a buscar o meu casaco de borracha, para ella se +abrigar se a chuva viesse. E s o D. Theotonio, que tinha at casa +apenas meia legoa de estrada boa, se no apressava, filado outra vez no +meu Principe, que levava para os cantos mais solitarios, em conversas +profundas, que o seu dedo solemne, espetado, sublinhava gravemente. Mas +a tia Albergaria gritou que j chovia;--e ento foi uma pressa das +senhoras, que beijocavam vivamente a tia Vicencia, em quanto os homens, +na ante-camara, enfiavam aodadamente os palets. + +Jacintho e eu descemos ao pateo para acompanhar aquella debandada,--e +uma a uma, a traquitana do Dr. Alypio, a victoria das Albergarias, a +velha e immensa caleche dos Vellosos, rolaram sob a noite, entre os +nossos desejos de boa jornada. Por fim D. Theotonio calou as luvas +pretas e entrou para a sua caleche, dizendo a Jacintho: + +--Pois, primo e amigo, Deus permitta que, do nosso encontro, e do mais +que se passar, algum bem resulte a esta terra! + +Subindo a escada, o meu Principe desabafou: + +--Este Theotonio extraordinario! Sabes o que descobri por fim?... Que +me toma por um miguelista, e imagina que eu vim para Tormes preparar a +restaurao de D. Miguel?! + +--E tu? + +--Eu fiquei to espantado, que nem o desilludi! + +--Pois sabe mais, meu pobre amigo. Todos pensam o mesmo, esto +desconfiados, e receiam vr de novo erguidas as frcas em Guies! E +corre que tu tens o Principe D. Miguel escondido em Tormes, disfarado +em creado. E sabes quem elle ? o Baptista! + +--Isso sublime! murmurou Jacintho, com uns grandes olhos abertos. + +Na sala, a tia Vicencia nos esperava desconsolada, entre todas as luzes, +que ardiam ainda no silencio e paz do sero debandado: + +--Ora uma cousa assim! Nem quererem ficar para tomar um copinho de +gelea, um calice de vinho do Porto! + +--Esteve tudo muito desanimado, tia Vicencia! exclamei desafogando o meu +tedio. Todo esse mulherio emmudeceu; os amigos com um ar desconfiado... + +Jacintho protestou, muito divertido, muito sincero: + +No! pelo contrario. Gostei immenso. Excellente gente! E to simples... +Todas estas raparigas me pareceram optimas. E to frescas, to alegres! +Vou ter aqui bons amigos, quando verificarem que no sou miguelista. + +Ento contamos tia Vicencia a prodigiosa historia de D. Miguel +escondido em Tormes... Ella ria! Que cousa! E mau seria... + +--Mas o Snr. Jacintho, no ? + +--Eu, minha senhora, sou socialista... + +Acudi, explicando tia Vicencia, que socialista era ser pelos pobres. A +doce senhora considerava esse partido o melhor, o verdadeiro: + +--O meu Affonso, que Deus haja, era liberal... Meu pae, tambem e at +amigo do Duque da Terceira... + +Mas um rude trovo rolou, atroou a noite negra:--e uma batega d'agoa +cantou nos vidros, e nas pedras da varanda. + +--Santa Barbara! gritou a tia Vicencia! Ai aquella pobre gente!... At +estou com cuidado... As Rojes, que vo na victoria! + +E correu para o quarto, na sua pressa de accender as duas velas +costumadas no oratorio, ainda antes de ir guardar as pratas, a resar o +tero, com a Gertrudes. + + + + +XIV + + +Ao outro dia, depois d'almoo, eu e Jacintho montamos a cavallo para um +grande passeio at Flr da Malva, a saber de meu tio Adrio, e do seu +furunculo. E sentia uma curiosidade interessada, e at inquieta, de +testemunhar a impresso que daria ao meu Principe aquella nossa prima +Joanninha, que era o orgulho da nossa casa. J n'essa manh, andando +todos no jardim a escolher uma bella rosa ch para a botoeira do meu +Principe, a tia Vicencia celebrra com tanto fervor a belleza, a graa, +a caridade, e a doura da sua sobrinha toda-amada, que eu protestei: + +--Oh! tia Vicencia, olhe que esses elogios todos competem apenas +Virgem Maria! A tia Vicencia est a cahir em peccado de idolatria! O +Jacintho depois vae encontrar uma creatura apenas humana, e tem um +desapontamento tremendo! + +E agora, trotando pela facil estrada de Sandofim, lembrava-me aquella +manh, no 202, em que Jacintho encontrra o retrato d'ella no meu +quarto, e lhe chamra uma _lavradeirna_. Com effeito, era grande e +forte a Joanninha. Mas a photographia datava do seu tempo de vio +rustico, quando ella era apenas uma bella forte e s planta da serra. +Agora entrava nos vinte e cinco, e j pensava, e sentia,--e a alma que +n'ella se formra, afinra, amacira, e espiritualisava o seu esplendor +rubicundo. + +A manh, com o ceu todo purificado pela trovoada da vespera, e as terras +reverdecidas e lavadas pelos chuviscos ligeiros, offerecia uma doura +luminosa, fina, fresca, que tornava doce, como diz o velho Euripedes ou +o velho Sophocles, mover o corpo, e deixar a alma preguiar, sem pressa +nem cuidados. A estrada no tinha sombra, mas o sol batia muito de leve, +e roava-nos com uma caricia quasi alada. O valle parecia a Jacintho, +que nunca ali passra, uma pintura da Escola Franceza do seculo XVIII, +to graciosamente n'elle ondulavam as terras verdes, e com tanta paz e +frescura corria o risonho Serpo, e to affaveis e promettedores de +fartura e contentamento alvejavam os casaes nas verduras tenras! Os +nossos cavallos caminhavam n'um passo pensativo, gosando tambem a paz da +manh adoravel. E no sei, nunca soube, que plantasinhas silvestres e +escondidas espalhavam um delicado aroma, que eu tantas vezes sentira, +n'aquelle caminho, ao comear o outomno. + +--Que delicioso dia! murmurou Jacintho. Este caminho para a Flr da +Malva o caminho do ceu... Oh Z Fernandes, de que este cheirinho to +doce, to bom? + +Eu sorri, com certo pensamento: + +--No sei... talvez j o cheiro do ceu! + +Depois, parando o cavallo, apontei com o chicote para o valle: + +--Olha, acol, onde est aquella fila d'olmos, e ha o riacho, j so +terras do tio Adrio. Tem alli um pomar, que d os pcegos mais +deliciosos de Portugal... Hei de pedir prima Joanninha que te mande um +cesto d'elles. E o dce que ella faz com esses pcegos, menino, alguma +cousa de celeste. Tambem lhe hei de pedir que te mande o dce. + +Elle ria: + +--Ser explorar de mais a prima Joanninha. E eu (por que?) recordei e +atirei ao meu Principe estes dous versos d'uma ballada cavalheiresca, +composta em Coimbra pelo meu pobre amigo Procopio: + +--Manda-lhe um servo querido, +Bem hajas dona formosa! +E que lhe entregue um annel +E com um annel uma rosa. + +Jacintho rio alegremente: + +--Z Fernandes, seria excessivo, s por causa de meia duzia de pcegos, +e d'um boio de dce. + +Assim riamos, quando appareceu, volta da estrada, o longo muro da +quinta dos Vellosos, e depois a capellinha de S. Jos de Sandofim. E +immediatamente piquei para o largo, para a taverna do Trto, por causa +d'aquelle vinhinho branco, que sempre, quando por ali a levo, a minha +alma me pede. O meu Principe reprovou, indignado: + +--Oh! Z Fernandes, pois tu, a esta hora, depois d'almoo, vaes beber +vinho branco? + +-- um costumesinho antigo... Aqui taverninha do Trto... um +decilitrosinho... A almasinha assim m'o pede. + +E paramos; eu gritei pelo Manoel, que appareceu, rebolando a sua grossa +pansa, sobre as pernas tortas, com a infusa verde, e um copo. + +--Dous copos, Trto amigo. Que aqui este cavalheiro tambem aprecia. + +Depois d'um pallido protesto, o meu Principe tambem quiz, mirou o +limpido e dourado vinho ao sol, provou, e esvasiou o copo, com delicia, +e um estalinho de alto apreo. + +--Delicioso vinho!... Hei de querer d'este vinho em Tormes... +perfeito. + +--Hein? Fresquinho, leve, aromatico, alegrador, todo alma!... Encha l +outra vez os copos, amigo Trto. Este cavalheiro aqui o Snr. D. +Jacintho, o fidalgo de Tormes. + +Ento, de traz da umbreira da taverna, uma grande voz bradou, cavamente, +solemnemente: + +--Bemdito seja o pae dos Pobres! + +E um extranho velho, de longos cabellos brancos, barbas brancas, que lhe +comiam a face cr de tijolo, assomou no vo da porta, apoiado a um +bordo, com uma caixa de lata a tiracolo, e cravou em Jacintho dous +olhinhos d'um brilho negro, que faiscavam. Era o tio Joo Torrado, o +propheta da Serra... Logo lhe estendi a mo, que elle apertou, sem +despegar de Jacintho os olhos, que se dilatavam mais negros. Mandei vir +outro copo, apresentei Jacintho, que crra, embaraado. + +--Pois aqui o tem, o senhor de Tormes, que fez por ahi todo esse bem +pobreza. + +O velho atirou para elle bruscamente o brao, que sahia cabelludo e +quasi negro, d'uma manga muito curta. + +--A mo! + +E quando Jacintho lh'a deu, depois de arrancar vivamente a luva, Joo +Torrado longamente lh'a reteve com um sacudir lento e pensativo, +murmurando: + +--Mo real, mo de dar, mo que vem de cima, mo j rara! + +Depois tomou o copo, que lhe offerecia o Trto, bebeu com immensa +lentido, limpou as barbas, deu um geito correia que lhe prendia a +caixa de lata, e batendo com a ponta do cajado no cho: + +--Pois louvado seja nosso Senhor Jesus Christo, que por aqui me trouxe, +que no o meu dia, e vi um homem! + +Eu ento debrucei-me para elle, mais em confidencia: + +--Mas, tio Joo, oua c! Sempre certo voc dizer por ahi, pelos +sitios, que El-Rei D. Sebastio voltra? + +O pittoresco velho apoiou as duas mos sobre o cajado, o queixo +d'espalhada barba sobre as mos, e murmurava, sem nos olhar, como +seguindo a percusso dos seus pensamentos: + +--Talvez voltasse, talvez no voltasse... No se sabe quem vae, nem quem +vem. A gente v os corpos, mas no v as almas que esto dentro. Ha +corpos d'agora com almas d'outr'ora. Corpo vestido, alma pessoa... +Na feira da Roqueirinha quem sabe com quantos reis antigos se topa, +quando se anda aos encontres entre os vaqueiros... Em ruim corpo se +esconde bom senhor! + +E como elle findra n'um murmurio, eu, atirando um olhar a Jacintho, e +para gosarmos aquelles estranhos, pittorescos modos de vidente, insisti: + +--Mas, tio Joo, voc realmente, em sua consciencia, pensa que El-Rei +D. Sebastio no morreu na batalha? + +O velho ergueu para mim a face, que se enrugra n'uma desconfiana: + +--Essas cousas so muito antigas. E no calham bem aqui porta do +Trto. O vinho era bom, e V. S.^a tem pressa, meu menino! A flr da Flr +da Malva l tem o paesinho doente... Mas o mal j vae pela serra abaixo +com a inchao s costas. D gosto vr quem d gosto aos tristes. Por +cima de Tormes ha uma estrella clara. E trotar, trotar, que o dia est +lindo! + +Com a magra mo lanou um gesto para que seguissemos. E j passavamos o +cruzeiro quando o seu brado ardente, de novo revoou, com solemnidade +cava: + +--Bemdito seja o Pae dos Pobres. + +Direito, no meio da estrada, erguia o cajado como dirigindo as +acclamaes d'um povo. E Jacintho pasmava de que ainda houvesse no reino +um Sebastianista. + +--Todos o somos ainda em Portugal, Jacintho! Na serra ou na cidade cada +um espera o seu D. Sebastio. At a loteria da Misericordia uma forma +do Sebastianismo. Eu todas as manhs, mesmo sem ser de nevoeiro, +espreito, a vr se chega o meu. Ou antes a minha, por que eu espero uma +D. Sebastiana... E tu, felizardo? + +--Eu? Uma D. Sebastiana? Estou muito velho, Z Fernandes... Sou o ultimo +Jacintho; Jacintho ponto final... Que casa aquella com os dous +torrees? + +--A Flr da Malva. + +Jacintho tirou o relogio: + +--So tres horas. Gastamos hora e meia... Mas foi um bello passeio, e +instructivo. lindo este sitio. + +Sobre um outeirinho, afastada da estrada por arvoredo, que um muro +cerrava, e dominando, a Flr da Malva voltava para Oriente e para o Sol +a sua longa fachada com os dous torrees quadrados, onde as janellas, de +varanda, eram emolduradas em azulejos. O grande porto de ferro, ladeado +por dous bancos de pedra, ficava ao fundo do terreirinho, onde um +immenso castanheiro derramava verdura e sombra. Sentado sobre as fortes +raizes descarnadas da grande arvore, um pequeno esperava segurando um +burro pela arreata. + +--Est por ahi o Manoel da Porta? + +--Ainda agora subio pela alameda. + +--Bem: empurra l o porto. + +E subimos, por uma curta avenida de velhas arvores, at outro terreiro, +com um alpendre, uma casa de moos, toda coberta d'heras, e uma casota +de co, d'onde saltou, com um rumor de corrente arrastada, um molosso, o +Trito, que eu logo soceguei fazendo-lhe reconhecer o seu velho amigo Z +Fernandes. E o Manoel da Porta correu da fonte, onde enchia um grande +balde, para nos segurar os cavallos. + +--Como est o tio Adrio? + +Surdo, o excellente Manoel sorrio, deleitado: + +--E ento vossa excellencia, bem? A Snr.^a D. Joanninha ainda agora +andava no laranjal com o pequeno da Josepha. + +Seguimos por ruasinhas bem areadas, orladas d'alfazema e buxo alto, em +quanto eu contava ao meu Principe que aquelle pequenito da Josepha era +um afilhadinho da prima Joanna, e agora o seu encanto e o seu cuidado +todo. + +--Esta minha santa prima, apesar de solteira, tem ahi pela freguezia uma +verdadeira filharada. E no s dar-lhes roupas e presentes, e ajudar +as mes. Mas at os lava, e os penteia, e lhes trata as tosses. Nunca a +encontro sem alguma creancita ao collo... Agora anda na paixo d'este +Jossinho. + +Mas quando chegamos ao laranjal, beira da larga rua da quinta que +levava ao tanque, debalde procurei, e me embrenhei, e at gritei:--Eh, +prima Joanninha!... + +--Talvez esteja l para baixo, para o tanque... + +Descemos a rua, entre arvores, que a cobriam com as densas ramas +encruzadas. Uma fresca, limpida agoa de rega corria e luzia n'um caneiro +de pedra. Entre os troncos, as roseiras bravas ainda tinham uma frescura +de vero. E o pequeno campo, que se avistava para alm, rebrilhava com +doura, todo amarello e branco, dos malmequeres e botes d'ouro. + +O tanque, redondo, fra esvasiado para se lavar, e agora de novo o +repuxo o ia enchendo d'uma agoa muito clara, ainda baixa, onde os peixes +vermelhos se agitavam na alegria de recuperarem o seu pequeno oceano. +Sobre um dos bancos de pedra que circumdavam o tanque pousava um cesto +cheio de dhalias cortadas. E um moo, que sobre uma escada podava as +camelias, vira a Snr.^a D. Joanna seguir para o lado da parreira. + +Marchamos para a parreira, ainda toda carregada de uva preta. Duas +mulheres, longe, ensaboavam n'um lavadoiro, na sombra de grandes +nogueiras. Gritei:--Eh l? Vocs viram por ahi a Snr.^a D. Joanna? Uma +das moas esganiou a voz, que se perdeu no vasto ar luminoso e doce. + +--Bem: vamos a casa! No podemos farejar assim, toda a tarde. + +-- uma bella quinta, murmurava o meu Principe encantado. + +--Magnifica! E bem tratada... O tio Adrio tem um feitor excellente... +No o teu Melchior. Observa, aprende, lavrador! Olha aquelle +cebolinho! + +Passamos pela horta, uma horta ajardinada, como a sonhra o meu +Principe, com os seus talhes debruados d'alfazema, e madresilva +enroscada nos pilares de pedra, que faziam ruasinhas frescas toldadas de +parra densa. E dmos volta capella, onde crescia aos dous lados da +porta uma roseira ch, com uma rosa unica, muito aberta, e uma moita de +baunilha, onde Jacintho apanhou um raminho para cheirar. Depois entramos +no terrao em frente da casa, com a sua balaustrada de pedra, toda +enrodilhada de jasmineiros amarellos. A porta envidraada estava aberta: +e subimos pela escadaria de pedra, no immenso silencio em que toda a +Flr da Malva repousava, at ante-camara, d'altos tectos apainelados, +com longos bancos de pau, onde desmaiavam na sua velha pintura as +complicadas armas dos Cerqueiras. Empurrei a porta d'uma outra sala, que +tinha as janellas da varanda abertas, cada uma com a gaiola d'um +canario. + +-- curioso!--exclamou Jacintho. Parece o meu Presepio... E as minhas +cadeiras. + +E com effeito. Sobre uma commoda antiga, com bronzes antigos, pousava um +presepio semelhante ao da livraria de Jacintho. E as cadeiras de couro +lavrado tinham, como as que elle descobrira no soto, umas armas sob um +chapo de Cardeal. + +--Oh senhores! exclamei. No haver um creado? + +Bati as mos, fortemente. E o mesmo doce silencio permaneceu, muito +largo, todo luminoso e arejado pelo macio ar da quinta, apenas cortado +pelo saltitar dos canarios nos poleiros das gaiolas. + +-- o Palacio da Bella adormecida no bosque! murmurou Jacintho, quasi +indignado. D um berro! + +--No, caramba! Vou l dentro! + +Mas, porta, que de repente se abrio, appareceu minha prima Joanninha, +crada do passeio e do vivo ar, com um vestido claro um pouco aberto no +pescoo, que fundia mais docemente, n'uma larga claridade, o explendor +branco da sua pelle, e o louro ondeado dos seus bellos +cabellos,--lindamente risonha, na surpreza que alargava os seus largos, +luminosos olhos negros, e trazendo ao collo uma creancinha, gorda e cr +de rosa, apenas coberta com uma camisinha, de grandes laos azues. + +E foi assim que Jacintho, n'essa tarde de Septembro, na Flr da Malva, +vio aquella com quem casou em Maio, na capellinha d'azulejos, quando o +grande p de roseira se cobrira todo de rosas. + + + + +XV + + +E agora, entre roseiras que rebentam, e vinhas que se vindimam, j cinco +annos passaram sobre Tormes e a Serra. O meu Principe j no o ultimo +Jacintho, Jacintho ponto final--por que n'aquelle solar que decahira, +correm agora, com soberba vida, uma gorda e vermelha Theresinha, minha +afilhada, e um Jacinthinho, senhor muito da minha amisade. E, pae de +familia, principira a fazer-se monotono, pela perfeio da belleza +moral, aquelle homem to pittoresco pela inquietao philosophica, e +pelos variados tormentos da phantasia insaciada. Quando elle agora, bom +sabedor das cousas da lavoura, percorria comigo a quinta, em solidas +palestras agricolas, prudentes e sem chimeras--eu quasi lamentava esse +outro Jacintho que colhia uma theoria em cada ramo d'arvore, e riscando +o ar com a bengala, planeava queijeiras de cristal e porcellana, para +fabricar queijinhos que custariam duzentos mil ris cada um! + +Tambem a paternidade lhe despertra a responsabilidade. Jacintho possuia +agora um caderno de contas, ainda pequeno, rabiscado a lapis, com +falhas, e papeluchos soltos entremeados, mas onde as suas despezas, as +suas rendas se alinhavam, como duas hostes disciplinadas. Visitra j as +suas propriedades de Montemr, da Beira; e concertava, mobilava as +velhas casas d'essas propriedades para que os seus filhos, mais tarde, +crescidos, encontrassem ninhos feitos. Mas onde eu reconheci que +definitivamente um perfeito e ditoso equilibrio se estabelecera na alma +do meu Principe, foi quando elle, j sabido d'aquelle primeiro e ardente +fanatismo da Simplicidade--entreabrio a porta de Tormes Civilisao. +Dous mezes antes de nascer a Theresinha, uma tarde, entrou pela avenida +de platanos uma chiante e longa fila de carros, requisitados por toda a +freguesia, e acuculados de caixotes. Eram os famosos caixotes, por tanto +tempo encalhados em Alba de Tormes, e que chegavam, para despejar a +Cidade sobre a Serra. Eu pensei:--Mau! o meu pobre Jacintho teve uma +recahida! Mas os confortos mais complicados, que continha aquella +caixotaria temerosa, foram, com surpreza minha, desviados para os sotos +immensos, para o p da inutilidade: e o velho solar apenas se regalou +com alguns tapetes sobre os seus soalhos, cortinas pelas janellas +desabrigadas, e fundas poltronas, fundos sofs, para que os repousos, +por que elle suspirra, fossem mais lentos e suaves. Attribui esta +moderao a minha prima Joanninha, que amava Tormes na sua nudez rude. +Ella jurou que assim o ordenra o seu Jacintho. Mas, decorridas semanas, +tremi. Apparecera, vindo de Lisboa, um contra-mestre, com operarios, e +mais caixotes, para installar um telephone! + +--Um telephone, em Tormes, Jacintho? + +O meu Principe explicou, com humildade: + +--Para casa de meu sogro!... Bem vs. + +--Era rasoavel e carinhoso. O telephone porm, subtilmente, mudamente, +estendeu outro longo fio, para Valverde. E Jacintho, alargando os +braos, quasi supplicante: + +--Para casa do medico. Comprehendes... + +Era prudente. Mas, certa manh, em Guies, accordei aos berros da tia +Vicencia! Um homem chegra, mysterioso, com outros homens, trazendo +arame, para installar na nossa casa o novo invento. Soceguei a tia +Vicencia, jurando que essa machina nem fazia barulho, nem trazia +doenas, nem attrahia as trovoadas. Mas corri a Tormes. Jacintho sorrio, +encolhendo os hombros: + +--Que queres? Em Guies est o boticario, est o carniceiro... E, +depois, ests tu! + +Era fraternal. Todavia pensei: Estamos perdidos! Dentro d'um mez temos a +pobre Joanna a apertar o vestido por meio d'uma machina! Pois no! o +Progresso, que, intimao de Jacintho, subira a Tormes a estabelecer +aquella sua maravilha, pensando talvez que conquistra mais um reino +para desfear, desceu, silenciosamente, desilludido, e no avistamos mais +sobre a serra a sua hirta sombra cr de ferro e de fuligem. Ento +comprehendi que, verdadeiramente, na alma de Jacintho se estabelecera o +equilibrio da vida, e com elle a Gran-Ventura, de que tanto tempo elle +fra o principe sem Principado. E uma tarde, no pomar, encontrando o +nosso velho Grillo, agora reconciliado com a serra, desde que a serra +lhe dera meninos para trazer s cavalleiras, observei ao digno preto, +que lia o seu _Figaro_, armado de immensos oculos redondos: + +--Pois, Grillo, agora realmente bem podemos dizer que o Snr. D. Jacintho +est firme. + +O Grillo arredou os oculos para a testa, e levantando para o ar os cinco +dedos em curva como petalas d'uma tulipa: + +--S. ex.^a brotou! + +Profundo sempre o digno preto! Sim! Aquelle resequido galho de Cidade, +plantado na serra, pegra, chupra o humus do torro herdado, crera +seiva, afundra raizes, engrossra de tronco, atirra ramos, rebentra +em flres, forte, sereno, ditoso, benefico, nobre, dando fructos, +derramando sombra. E abrigados pela grande arvore, e por ella nutridos, +cem casaes em redor a bemdiziam. + + + + +XVI + + +Muitas vezes Jacintho, durante esses annos, fallra com prazer n'um +regresso de dous, tres mezes, ao 202, para mostrar Paris prima +Joanninha. E eu seria o companheiro fiel, para archivar os espantos da +minha serrana ante a Cidade! Depois conveio em esperar que o Jacinthinho +completasse dous annos, para poder jornadear sem desconforto, e +apontando j com o seu dedo para as cousas da Civilisao. Mas, quando +elle, em Outubro, fez esses dous annos desejados, a prima Joanninha +sentiu uma preguia immensa, quasi aterrada, do comboio, do estridor da +Cidade, do 202, e dos seus esplendores. Estamos aqui to bem! est um +tempo to lindo! murmurava, deitando os braos, sempre deslumbrada, ao +rijo pescoo do seu Jacintho. Elle desistia logo de Paris, encantado. +Vamos para Abril, quando os castanheiros dos Campos-Elyseos estiverem +em flr! Mas em Abril vieram aquelles cansaos que immobilisavam a +prima Joanninha no divan, ditosa, risonha, com umas pintas na pelle, e o +roupo mais solto. Por todo um longo anno estava desfeita a alegre +aventura. Eu andava ento soffrendo de desoccupao. As chuvas de Maro +promettiam uma farta colheita. Uma certa Anna Vaqueira, crada e bem +feita, viuva, que surtia as necessidades do meu corao, partira com o +irmo para o Brazil, onde elle dirigia uma venda. Desde o inverno, +sentia tambem no corpo como um comeo de ferrugem, que o emperrava, e, +certamente, algures, na minha alma, nascera uma pontinha de bolor. +Depois a minha egoa morreu... Parti eu para Paris. + +Logo em Hendaya, apenas pisei a doce terra de Frana, o meu pensamento, +como pombo a um velho pombal, voou ao 202,--talvez por eu vr um enorme +cartaz em que uma mulher nua, com flres bacchanticas nas tranas, se +estorcia, segurando n'uma das mos uma garrafa espumante, e brandindo na +outra, para o annunciar ao Mundo, um novo modelo de saca-rolhas. E oh +surpresa! eis que, logo adeante, na estao quieta e clara de Saint +Jean-de-Luz, um moo esbelto, de perfeita elegancia, entra vivamente no +meu compartimento, e, depois de me encarar, grita: + +--Eh, Fernandes! + +Marizac! O duque de Marizac! Era j o 202... Com que reconhecimento lhe +sacudi a mo fina, por elle me ter reconhecido! E, atirando para o canto +do vagon um palet, um masso de jornaes, que o escudeiro lhe passra, o +bom Marizac exclamava na mesma surpreza alegre: + +--E Jacintho? + +Contei Tormes, a serra, o seu primeiro amor pela Natureza, o seu outro +grande amor por minha prima, e os dous filhos, que elle trazia +escarranchados no pescoo. + +--Ah que canalha! exclamou Marizac com os olhos espetados em mim! +capaz de ser feliz! + +--Espantosamente, loucamente... Qual! no ha adverbios... + +--Indecentemente--murmurou Marizac muito serio. Que canalha! + +Eu ento desejei saber do nosso rancho familiar do 202. Elle encolheu os +hombros, accendendo a cigarette: + +--Todo esse mundo circula... + +--Madame d'Oriol? + +--Contina. + +--Os Trves? o Ephraim? + +--Continuam, todos tres. + +Lanou um gesto languido. + +--Durante cinco annos, em Paris, tudo contina... As mulheres com um +pouco mais de ps d'arroz, e a pelle um pouco mais molle, e melada. Os +homens com um tanto mais de dispepsia. E tudo segue. Tivemos os +Anarchistas. A princeza de Carman abalou com um acrobata do Circo de +Inverno... E--e voil! + +--Dornan? + +--Contina... No o encontrei mais desde o 202. Mas vejo s vezes o nome +d'elle, no _Boulevard_, com versos preciosos, obscenidades muito +apuradas, muito subtis. + +--E o Psychologo?... Ora, como se chamava elle?... + +--Contina tambem. Sempre com as feminices a tres francos e cincoenta... +Duquezas em camisa, almas nas... Cousas que se vendem bem! + +Mas quando eu, encantado, ia indagar de Todelle, do Gro-Duque, o +comboio entrou na estao de Biarritz:--e rapidamente, apanhando o +paletot e os jornaes, depois de me apertar a mo, o delicioso Marizac +saltou pela portinhola, que o seu creado abrira, gritando: + +--At Paris!... Sempre rue Cambori. + +Ento, no compartimento solitario, bocejei, com uma estranha sensao de +monotonia, de saciedade, como cercado j de gentes muito vistas, +murmurando historias muito sabidas, e cousas muito ditas, atravez de +sorrisos estafados. Dos dous lados do comboio era a longa planicie +monotona, sem variedade, muito miudamente cultivada, muito miudamente +retalhada, d'um verde de rezeda, verde cinzento e apagado, onde nenhum +lampejo, nem tom alegre de flr, nem acidente do solo, desmanchavam a +mediocridade discreta e ordeira. Pallidos choupos, em renques pautados e +finos, bordavam canaesinhos muito direitos e claros. Os casaes, todos da +mesma cr pardacenta, mal se elevavam do solo, mal se destacavam da +verdura desbotada, como encolhidos na sua mediocridade e cautella. E o +ceu, por cima, liso, sem uma nuvem, com um sol descrado, parecia um +vasto espelho muito lavado a grande agoa, at que de todo se lhe safasse +o esmalte e o brilho. Adormeci n'uma doce insipidez. + +Com que linda manh de Maio entrei em Paris! To fresca e fina, e j +macia, que, apesar de cansado, mergulhei com repugnancia no profundo, +sombrio leito do Grand-Hotel, todo fechado de espessos velludos, grossos +cordes, pesadas borlas, como um palanque de gala. N'essa profunda cova +de pennas sonhei que em Tormes se construira uma torre Eiffel e que em +volta d'ella as senhoras da Serra, as mais respeitaveis, a propria tia +Albergaria, danavam, nas, agitando no ar saca-rolhas immensos. Com as +commoes d'este pesadello, e depois o banho, e o desemmalar da mala, j +se acercavam as duas horas quando emfim emergi do grande porto, pisei, +ao cabo de cinco annos, o Boulevard. E immediatamente me pareceu que +todos esses cinco annos eu ali permanecera porta do Grand-Hotel, to +estafadamente conhecido me era aquelle estridente rolar da cidade, e as +magras arvores, e as grossas taboletas, e os immensos chapeus emplumados +sobre tranas pintadas d'amarello, e as empertigadas sobrecasacas com +grossas rosetas da legio d'honra, e os garotos, em voz rouca e baixa, +offerecendo baralhos de cartas obscenas, caixas de phosphoros +obscenas... Santo Deus! pensei, ha que annos eu estou em Paris! Comprei +ento, n'um kiosque, um jornal, a Voz de Paris, para que elle me +contasse, durante o almoo, as novas da Cidade. A mesa do kiosque +desapparecia, alastrada de jornaes illustrados:--e em todos se repetia a +mesma mulher, sempre na, ou meia despida, ora mostrando as costellas +magras, de gata faminta, ora voltando para o Leitor duas tremendas +nadegas... Eu outra vez murmurei:--Santo Deus! No caf da Paz, o creado +livido, e com um resto de p de arroz sobre a sua lividez, aconselhou ao +meu appetite, por ser to tarde, um lingoado frito e uma costelleta. + +--E que vinho, snr. Conde? + +--Chablis, snr. Duque! + +Elle sorrio minha deliciosa pilheria,--e eu abri, contente, a Voz de +Paris. Na primeira columna, atravez d'uma prosa muito retorcida, toda em +brilhos de joia barata, entrevi uma Princesa na, e um Capito de +Drages, que soluava. Saltei a outras columnas, onde se contavam feitos +de cocottes de nomes sonoros. Na outra pagina escriptores eloquentes +celebravam vinhos digestivos e tonicos. Depois eram os crimes do +costume.--No ha nada de novo! Puz de parte a Voz de Paris,--e ento +foi, entre mim e o lingoado, uma lucta pavorosa. O miseravel, que se +frigira rancorosamente contra mim, no consentia que eu descollasse da +sua espinha uma febra escassa. Todo elle se ressequira n'uma sola +impenetravel e tostada, onde a faca vergava, impotente e tremula. Gritei +pelo mo livido, o qual, com faca mais rija, fincando no soalho os +sapatos de fivella, arrancou emfim quelle malvado duas tirinhas, finas +e curtas como palitos, que engoli juntas, e me esfomearam. D'uma garfada +findei a costelleta. E paguei quinze francos com um bom luiz d'ouro. No +trco, que o moo me deu, com a polidez requintada d'uma civilisao +muito diffundida, havia dous francos falsos. E por aquella dce tarde de +Maio sahi para tomar no terrao um caf cr de chapo cco, que sabia a +fava. + +Com o charuto acceso contemplei o Boulevard, quella hora em toda a +pressa e estridor da sua grossa sociabilidade. A densa torrente dos +omnibus, calhambeques, carroas, parelhas de luxo, rolava vivamente, +como toda uma escura humanidade formigando entre patas e rodas, n'uma +pressa inquieta. Aquelle movimento continuado e rude bem depressa +entonteceu este espirito, por cinco annos affeito quietao das serras +immutaveis. Tentava ento, puerilmente, repousar n'alguma forma immovel, +omnibus parado, fiacre que estacra, n'um brusco escorregar da pileca: +mas logo algum dorso apressado se encafuava pela portinhola da tipoia, +ou um cacho de figuras escuras trepava sofregamente para o omnibus:--e, +rapido, recomeava o rolar retumbante. Immoveis, de certo, estavam os +altos predios hirtos, ribas de pedra e cal, que continham, +disciplinavam, aquella torrente offegante. Mas da rua aos telhados, em +cada varanda, por toda a fachada, eram taboletas encimando taboletas, +que outras taboletas apertavam:--e mais me canava o perceber a tenaz +incessancia do trabalho latente, a devorante canceira do lucro, +arquejante por traz das frontarias decorosas e mudas. Ento, emquanto +fumava o meu charuto, extranhamente se apossaram de mim os sentimentos +que Jacintho outr'ora experimentra no meio da Natureza, e que tanto me +divertiam. Ali, porta do caf, entre a indifferena e a pressa da +Cidade, tambem eu senti, como elle no campo, a vaga tristeza da minha +fragilidade e da minha solido. Bem certamente estava ali como perdido +n'um mundo, que me no era fraternal. Quem me conhecia? Quem se +interessaria por Z Fernandes? Se eu sentisse fome, e o confessasse, +ninguem me daria metade do seu po. Por mais afflictamente que a minha +face revelasse uma angustia, ninguem na sua pressa pararia para me +consolar. De que me serviriam tambem as excellencias d'alma, que s na +alma florescem? Se eu fosse um santo, aquella turba no se importaria +com a minha santidade; e se eu abrisse os braos e gritasse, ali no +Boulevard-- homens, meus irmos! os homens, mais ferozes que o lbo +ante o Pobresinho d'Assis, ririam e passariam indifferentes. Dous +impulsos unicos, correspondendo a duas funces unicas, parecia estarem +vivos n'aquella multido,--o lucro e o gso. Isolada entre elles, e ao +contagio ambiente da sua influencia, em breve a minha alma se +contrahiria, se tornaria n'um duro calhau de Egoismo. Do ser que eu +trouxera da Serra s restaria em pouco tempo esse calhau, e n'elle, +vivos, os dous appetites da Cidade,--encher a bolsa, saciar a carne! E +pouco a pouco as mesmas exageraes de Jacintho perante a Natureza me +invadiam perante a Cidade. Aquelle Boulevard reumava para mim um bafo +mortal, extrahido dos seus milhes de microbios. De cada porta me +parecia sahir um ardil para me roubar. Em cada face, avistada +portinhola d'um fiacre, suspeitava um bandido em manobra. Todas as +mulheres me pareciam caiadas como sepulchros, tendo s podrido por +dentro. E considerava d'uma melancolia funambulesca as frmas de toda +aquella Multido, a sua pressa aspera e v, a affectao das attitudes, +as immensas plumas das chapeletas, as expresses postias e falsas, a +pompa dos peitos alteados, o dorso redondo dos velhos olhando as imagens +obscenas das vitrines. Ah! tudo isto era pueril, quasi comico da minha +parte, mas o que eu sentia no Boulevard, pensando na necessidade de +remergulhar na Serra, para que ao seu puro ar se me despegasse a crosta +da Cidade, e eu resurgisse humano, e Z-Fernandico! + +Ento, para dissipar aquelle pesadume de solido, paguei o caf e parti, +lentamente, a visitar o 202. Ao passar na Magdalena, deante da estao +dos omnibus, pensei:--Que ser feito de Madame Colombe? E, oh miseria! +pelo meu miseravel ser subiu uma curta e quente baforada de desejo bruto +por aquella besta suja e magra! Era o charco onde eu me envenenara, e +que me envolvia nas emanaes subtis do seu veneno. Depois, ao dobrar da +rue Royale para a Praa da Concordia, topei com um robusto e possante +homem, que estacou, ergueu o brao, ergueu o vozeiro, n'um modo de +commando: + +--Eh, Fernandes! + +O Gro-Duque! O bello Gro-Duque, de jaqueto alvadio e chapeu tyrolez +cr de mel! Apertei com gratido reverente a mo do Principe, que me +reconhecera. + +--E Jacintho? Em Paris?... + +Contei Tormes, a serra, o rejuvenescimento do nosso amigo entre a +Natureza, a minha dce prima, e os bravos pequenos, que elle trazia s +cavalleiras. O Gro-Duque encolheu os hombros, desolado: + +--Oh l, l, l!... Peuh! Casado, na aldeia, com filharada... Homem +perdido! Ora no ha!... E um rapaz util! que nos divertia, e tinha +gosto! Aquelle jantar cr de rosa foi uma festa linda... No se fez, no +se tornou a fazer nada to brilhante em Paris... E Madame d'Oriol... +Ainda ha dias a vi no Palacio de Gelo... Potavel, mulher ainda muito +potavel... No todavia o meu genero... Adocicada, leitosa, pommadada, +neve la vanille!... Ora esse Jacintho!... + +--E Vossa Alteza, em Paris com demora? + +O formidavel homem baixou a face, franzida e confidencial: + +--Nenhuma. Paris no se aguenta... Est estragado, positivamente +estragado... Nem se come! Agora o Ernest, da Praa Gaillon, o Ernest, +que era maitre-d'hotel do Maire... J l comeu? Um horror. Tudo o +Ernest, agora! Onde se come? No Ernest. Qual! Ainda esta manh l +almocei... Um horror! Uma salada Chambord... palhada, indecentemente +palhada! No tem, no tem a noo da salada! Paris foi! Theatros, uma +estopada. Mulheres, hui! Lambidas todas. No ha nada! Ainda assim, n'um +dos theatritos de Montmartre, na Roulotte, est uma revista, que se v: +_Para c as mulheres_!--engraada, bem despida... A Celestine tem uma +cantiga, meia sentimental, meia porca, o _Amor no Water-Closet_, que +diverte, tem topete... Onde est, Fernandes? + +--No Grand-Hotel, meu senhor. + +--Que barraca!... E o seu Rei sempre bom? + +Curvei a cabea: + +--Sua Magestade, bem. + +--Estimo! Pois, Fernandes, tive prazer... Esse Jacintho que me desola! +V vr a Revista... Boas pernas, a Celestine... E tem graa o tal _Amor +no Water-Closet_. + +Um rijissimo aperto de mo,--e S. Alteza subiu pesadamente para a +victoria, ainda com um aceno amavel, que me penhorou... Excellente +homem, este Gro-Duque! Mais reconciliado com Paris, atravessei para os +Campos-Elyseos. Em toda a sua nobre e formosa larguesa, toda verde, com +os castanheiros em flr, corriam, subindo, descendo, velocipedes. Parei +a contemplar aquella fealdade nova, estes innumeraveis espinhaos +arqueados, e gambias magras, agitando-se desesperadamente sobre duas +rodas. Velhos gordos, de cachao escarlate, pedalavam, gordamente. +Galfarros esguios, de tibias descarnadas, fugiam n'uma linha esfusiada. +E as mulheres, muito pintadas, de bolero curto, cales bufantes, +giravam, mais rapidamente ainda, no prazer equivoco da carreira, +escarranchadas em hastes de ferro. E a cada instante outras medonhas +machinas passavam, victorias e phaetons a vapor, com uma complicao de +tubos e caldeiras, torneiras e chamins, rolando n'uma trepidao +estridente e pesada, espalhando um grosso fedor de petroleo. Segui para +o 202, pensando no que diria um grego do tempo de Phidias, se visse esta +nova belleza e graa do caminhar humano!... + +No 202, o porteiro, o velho Vian, quando me reconheceu, mostrou uma +alegria enternecedora. No se fartou de saber do casamento de Jacintho, +e d'aquelles queridos meninos. E era para elle uma felicidade que eu +apparecesse, justamente quando tudo se andra limpando para a entrada da +primavera. Quando penetrei na amada casa senti mais vivamente a minha +solido. No restava em toda ella nem um dos costumados aspectos que +fizessem reviver a velha camaradagem com o meu Principe. Logo na +ante-camara grandes lonas cobriam as tapessarias heroicas, e egual lona +parda escondia os estofos das cadeiras e dos muros, e as largas estantes +d'ebano da Bibliotheca, onde os trinta mil volumes, nobremente +enfileirados como Doutores n'um Concilio, pareciam separados do mundo +por aquelle panno que sobre elles descera depois de finda a comedia da +sua fora e da sua auctoridade. No gabinete de Jacintho, de sobre a mesa +d'escripta, desapparecera aquella confuso de instrumentosinhos, de que +eu perdera j a memria: e s a Mechanica sumptuosa, por sobre peanhas e +pedestaes, recentemente espanejada, reluzia, com as suas engrenagens, +tubos, rodas, rigidezes de metaes, n'uma frieza inerte, na inactividade +definitiva das cousas desusadas, como j dispostas n'um Museu, para +exemplificar a instrumentao caduca d'um mundo passado. Tentei mover o +telephone, que se no moveu; a mola da electricidade no accendeu nenhum +lume: todas as foras universaes tinham abandonado o servio do 202, +como servos despedidos. E ento, passeando atravez das salas, realmente +me pareceu que percorria um museu d'antiguidades; e que mais tarde +outros homens, com uma comprehenso mais pura e exacta da Vida e da +Felicidade, percorreriam como eu, longas salas, atulhadas com os +instrumentos da Super-Civilisao, e, como eu, encolheriam +desdenhosamente os hombros ante a grande Illuso que findra, agora para +sempre inutil, arrumada como um lixo historico, guardada debaixo de +lona. + +Quando sahi do 202 tomei um fiacre, subi ao Bosque de Bolonha. E apenas +rolra momentos pela avenida das Acacias, no silencio decoroso, +unicamente cortado pelo tilintar dos freios e pelas rodas vagarosas +esmagando a areia, comecei a reconhecer as velhas figuras, sempre com o +mesmo sorriso, o mesmo p d'arroz; as mesmas palpebras amortecidas, os +mesmos olhos farejantes, a mesma immobilidade de cra! O romancista da +_Couraa_ passou n'uma victoria, fixou em mim o monoculo defumado, mas +permaneceu indifferente. Os bands negros de Madame Verghane, +tapando-lhe as orelhas, pareciam ainda mais furiosamente negros entre a +harmonia de todo o branco que a vestia, chapo, plumas, flres, rendas e +corpete, onde o seu peito immenso se empolava como uma onda. No passeio, +sob as Acacias, espapado em duas cadeiras, o director do _Boulevard_ +mamava o resto do seu charuto. E n'um grande landeau, Madame de Trves +continuava o seu sorriso de ha cinco annos, com duas pregasinhas mais +molles aos cantos dos labios seccos. + +Abalei para o Grand-Hotel, bocejando,--como outr'ora Jacintho. E findei +o meu dia de Paris, no Theatro das Variedades, estonteado com uma +comedia muito fina, muito acclamada, toda faiscante do mais vivo +parisianismo, em que todo o enredo se enrodilhava volta d'uma Cama, +onde alternadamente se espojavam mulheres em camisa, sujeitos gordos em +ceroulas, um coronel com papas de linhaa nas nadegas, cosinheiras de +meias de sda bordadas, e ainda mais gente, ruidosa e saltitante, a +esfusiar de cio e de pilheria. Tomei um ch melancolico no Julien, no +meio de um aspero e lugubre namoro de prostitutas, fariscando a preza. +Em duas d'ellas, de pelle oleosa e cobreada, olhos obliquos, cabellos +duros e negros como clinas, senti o Oriente, a sua provocao felina... +Interroguei o creado, um medonho ser, d'uma obesidade balofa e livida, +d'eunuco. O monstro explicou n'uma voz roufenha e surda: + +--Mulheres de Madagascar... Foram importadas quando a Frana occupou a +ilha! + +Arrastei ento por Paris dias d'immenso tedio. Ao longo do Boulevard +revi nas vitrines todo o luxo, que j me enfartra havia cinco annos, +sem uma graa nova, uma curta frescura de inveno. Nas livrarias, sem +descobrir um livro, folheava centenas de volumes amarellos, onde, de +cada pagina que ao acaso abria, se exhalava om cheiro mrno d'alcova e +de ps d'arroz, entre linhas trabalhadas com effeminado arrebique, como +rendas de camisas. Ao jantar, em qualquer restaurante, encontrava, +ornando e disfarando as carnes ou as aves, o mesmo mlho, de cres e +sabores de pomada, que j de manh, n'outro restaurante, espelhado e +dourejado, me enjora no peixe e nos legumes. Paguei por grossos preos +garrafas do nosso adstringente e rustico vinho de Torres, ennobrecido +com o titulo de Chteau isto, Chteau aquillo, e p postio no gargalo. + noite, nos theatros, encontrava a Cama, a costumada cama, como centro +e unico fim da vida, attrahindo, mais fortemente que o monturo attrahe +os moscardos, todo um enxame de gentes, estonteadas, frementes +d'erotismo, zumbindo chacotas senis. Esta sordidez da Planicie me levou +a procurar melhor aragem d'espirito nas alturas da Collina, em +Montmartre; e ahi, no meio d'uma multido elegante de Senhoras, de +Duquezas, de Generaes, de todo o alto pessoal da Cidade, eu recebia, do +alto do palco, grossos jorros de obscenidades, que faziam estremecer de +goso as orelhas cabelludas de gordos banqueiros, e arfar com delicia os +corpetes de Worms e de Doucet, sobre os peitos postios das nobres +damas. E recolhia enjoado com tanto relento d'Alcova, vagamente +dispeptico com os mlhos de pomada do jantar, e sobre tudo descontente +comigo, por me no divertir, no comprehender a Cidade, e errar atravez +d'ella e da sua Civilisao Superior, com a reserva ridicula d'um +Censor, d'um Cato austero. Oh senhores!--pensava,--pois eu no me +divertirei nesta deliciosa Cidade? Entrar comigo o bolor da velhice? + +Passei as pontes, que separam em Paris o Temporal do Espiritual, +mergulhei no meu doce Bairro Latino, evoquei, deante de certos cafs, a +memoria da minha Nini; e, como outr'ora, preguiosamente, subi as +escadas da Sorbonne. N'um amphitheatro, onde sentira um grosso susurro, +um homem magro, com uma testa muito branca e larga, como talhada para +alojar pensamentos altos e puros, ensinava, falando das instituies da +Cidade Antiga. Mas, mal eu entrra, o seu dizer elegante e limpido foi +suffocado por gritos, urros, patadas, um tumulto rancoroso de troa +bestial, que sahia da mocidade apinhada nos bancos, a mocidade das +Escolas, Primavera sagrada, em que eu fra flr murcha. O Professor +parou, espalhando em redor um olhar frio, e remexendo as suas notas. +Quando o grosso grunhido se moderou em susurro desconfiado, elle +recomeou com alta serenidade. Todas as suas ideias eram frias e +substanciaes, expressas n'uma lingoa pura e forte; mas, immediatamente, +rompe uma furiosa rajada de apitos, uivos, relinchos, cacarejos de +gallo, por entre magras mos, que se estendiam levantadas para +estrangular as ideias. Ao meu lado um velho, encolhido na alta gola d'um +macfrelane de xadrezes, contemplava o tumulto com melancolia, pingando +endefluxado. Perguntei ao velho: + +--Que querem elles? embirrao com o professor... politica? + +O velho abanou a cabea, espirrando: + +--No... sempre assim, agora, em todos os cursos... No querem +ideias... Creio que queriam canonetas. o amor da porcaria e da troa. + +Ento, indignado, berrei: + +--Silencio, brutos! + +E eis que um abortosinho de rapaz, amarellado e sebento, de longas +melenas, umas enormes lunetas rebrilhantes, se arrebita, me fita, e me +berra: + +--_Sale Maure_! + +Ergui o meu grosso punho serrano,--e o desgraado, n'uma confuso de +melenas, com sangue por toda a face, alluio, como um monto de trapos +molles, ganindo desesperadamente, em quanto o furaco de uivos e +cacarejos, guinchos e silvos, envolvia o Professor, que cruzra os +braos, esperando, com uma serenidade simples. + +Desde esse momento decidi abandonar a fastidiosa Cidade; e o unico dia +alegre e divertido que n'ella passei foi o derradeiro, comprando para os +meus queridinhos de Tormes brinquedos consideraveis, tremendamente +complicados pela Civilisao,--vapores de ao e cobre, providos de +caldeiras para viajar em tanques; lees de pelle veridica rugindo +pavorosamente, bonecas vestidas pela Laferrire, com phonographo no +ventre... + +Finalmente abalei uma tarde, depois de lanar da minha janella, sobre o +Boulevard, as minhas despedidas Cidade: + +--Pois adeusinho, at nunca mais! Na lama do teu vicio e na poeira da +tua vaidade, outra vez, no me pilhas! O que tens de bom, que o teu +genio, elegante e claro, l o receberei na Serra pelo correio. +Adeusinho! + +Na tarde do seguinte Domingo, debruado da janella do comboio, que +vagarosamente deslisava pela borda do rio lento, n'um silencio todo +feito d'azul e sol, avistei, na plata-forma da quieta estao da minha +aldeia, os Senhores de Tormes, com a minha afilhada Thereza, muito +vermelha, arregalando os seus soberbos olhos, e o bravo Jacinthinho, que +empunhava uma bandeira branca. O alvoroo ditoso com que abracei e +beijei aquella tribu bem amada conviria perfeitamente a quem voltasse +vivo d'uma guerra distante, na Tartaria. Na alegria de recuperar a +Serra, at beijoquei o chefe Pimentinha, que a estalar d'obesidade se +aodava gritando ao carregador todo o cuidado com as minhas malas. + +Jacintho, magnifico, de grande chapo serrano e jaqueta, de novo me +abraou: + +--E esse Paris? + +--Medonho! + +Abri depois os braos para o bravo Jacintinho. + +--Ento para que essa bandeira, meu cavalleiro? + +-- a bandeira do Castello! declarou elle, com uma bella seriedade nos +seus grandes olhos. + +A me ria. Desde essa manh, logo que soubera da chegada do Ti-Z, +appareceu de bandeira, feita pelo Grillo, e no a largra mais; com ella +almora, com ella descera de Tormes! + +--Bravo! E, prima Joanninha, olhe que est magnifica! Eu, tambem, venho +d'aquellas pelles meladas de Paris... Mas acho-a triumphal! E o tio +Adrio, e a tia Vicencia? + +--Tudo optimo! gritou Jacintho. A serra, Deos louvado, prospera. E +agora, para cima! Tu hoje ficas em Tormes. Para contar da Civilisao. + +No largo por traz da estao, debaixo dos eucalyptos, que revi com +gosto, esperavam os tres cavallos, e dous bellos burros brancos, um com +cadeirinha para a Thereza, outro com um cesto de verga, para metter +dentro o heroico Jacinthinho, um e outro servidos estribeira por um +creado. Eu ajudra a prima Joanninha a montar, quando o carregador +appareceu com um masso de jornaes e papeis, que eu esquecera na +carruagem. Era uma papelada, de que me surtira na Estao d'Orleans, +toda recheada de mulheres nuas, de historietas sujas, de parisianismo, +d'erotismo. Jacintho, que as reconhecera, gritou rindo: + +--Deita isso fra! + +E eu atirei, para um monto de lixo, ao canto do Pateo, aquelle putrido +rebotalho da Civilisao. E montei. Mas ao dobrar para o caminho +empinado da serra, ainda me voltei, para gritar adeus ao Pimenta, de +quem me esquecera. O digno chefe, debruado sobre o monturo, apanhava, +sacudia, recolhia com amor aquellas bellas estampas, que chegavam de +Paris, contavam as delicias de Paris, derramavam atravez do mundo a +seduco de Paris. + +Em fila comeamos a subir para a Serra. A tarde adoava o seu esplendor +d'estio. Uma aragem trazia, como offertados, perfumes das flres +silvestres. As ramagens moviam, com um aceno de doce acolhimento, as +suas folhas vivas e relusentes. Toda a passarinhada cantava, n'um +alvoroo de alegria e de louvor. As agoas correntes, saltantes, +lusidias, despediam um brilho mais vivo, n'uma pressa mais animada. +Vidraas distantes de casas amaveis, flammejavam com um fulgor d'ouro. A +serra toda se offertava, na sua belleza eterna e verdadeira. E, sempre +adiante da nossa fila, por entre a verdura, fluctuava no ar a bandeira +branca, que o Jacinthinho no largava, de dentro do seu cesto, com a +haste bem segura na mo. Era _a bandeira do Castello_, affirmra elle. + +E na verdade me parecia que, por aquelles caminhos, atravez da natureza +campestre e mansa,--o meu Principe, atrigueirado nas soalheiras e nos +ventos da serra, a minha prima Joanninha, to doce e risonha me, os +dois primeiros representantes da sua abenoada tribu, e eu--, to longe +de amarguradas illuses e de falsas delicias, trilhando um solo eterno, +e de eterna solidez, com a alma contente, e Deus contente de ns, +serenamente e seguramente subiamos--para o Castello da Gran-Ventura! + + +Fim + + + + +ADVERTENCIA + + +Desde a pagina 241, at o final, as provas d'este livro no foram +revistas pelo auctor, arrebatado pela morte antes de haver dado a esta +parte da sua escripta aquella ultima demo, em que habitualmente elle +punha a diligencia mais perseverante e mais admiravelmente lucida. + +Aquelle dos seus amigos e companheiro de letras, a quem foi confiado o +trabalho delicado e piedoso de tocar no manuscripto posthumo de Ea de +Queiroz, ao concluir o desempenho de tal misso, beija com o mais +enternecido e saudoso respeito a mo, para todo sempre immobilisada, que +traou estas paginas encantadoras; e faz votos por que a reviso de que +se incumbiu no deslustre muito grosseiramente a immortal aureola com +que ficar resplandecendo na litteratura portugueza este livro, em que o +espirito do grande escriptor parece exhalar-se da vida n'um terno +suspiro de doura, de paz, e de puro amor terra da sua patria. + +24 de abril de 1901. + + + + +*LIVRARIA CHARDRON de Lello & Irmo* + +96--CLERIGOS--98 + + +*Bazillio Telles* + +O problema agricola $600 +Estudos historicos e economicos $600 + +_No prlo_: + +Introduco ao problema do trabalho nacional. + + +*Abel Botelho* + +O baro de Lavos $800 +O livro d'Alda $800 +Sem remedio... $500 + +_No prlo_: + +Amanh. + + +*Jos Caldas* + +Humildes $400 +Os Jesuitas; a sua influencia na actual + sociedade portugueza; meio de a conjurar _no prlo_ + + +*Sylvio Romero* + +Martins Penna $400 + + +*Rebello da Silva* + +Mocidade de D. Joo V. 1$500 + + +*Andrade Corvo* + +Um anno na crte 1$500 + + +*Antonio C. Louzada* + +Rua escura $500 +Na consciencia $500 + + +*Dumas* + +Jorge ou o capito dos piratas $500 +Tres mosqueteiros, 2 volumes 1$000 + + +*Lermina* + +Filho do Monte Christo, 2 volumes 1$000 + + +*Eugenio Sue* + +Mysterios de Paris, 3 volumes cart. 2$000 + + +*Zola* + +Nan $500 +Historia da lavadeira Gervasia, 2 vols 1$000 +O Capito Burle $500 +Ventre de Paris, 2 vols 1$000 + + +*Arnaldo Gama* + +Caldeira de Pero Botelho $500 +Honra ou loucura $500 +Filho do Baldaia $600 + + +*Bruno* + +O Brazil mental $800 +Notas do exilio $500 + + * * * * * + +Historia da Prostituio 1$800 + + +*Camillo Castello Branco* + +Maria da Fonte $500 +Livro de consolao $500 +D. Luiz de Portugal $300 +Brazileira de Prazins $500 +Eusebio Macario $500 +Volcoens da lama $500 +Carta de guia de casados $300 + + +*Grainha* + +Jesuitas $600 + + +*Tolstoi* + +A Sonata de Kreutzer $400 + + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of A Cidade e as Serras, by Ea de Queirs + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A CIDADE E AS SERRAS *** + +***** This file should be named 18220-8.txt or 18220-8.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + http://www.gutenberg.org/1/8/2/2/18220/ + +Produced by Rita Farinha and the Online Distributed +Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This file was +produced from images generously made available by National +Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: A Cidade e as Serras + +Author: Ea Queirs + +Release Date: October 12, 2007 [EBook #18220] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A CIDADE E AS SERRAS *** + + + + +Produced by Rita Farinha and the Online Distributed +Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This file was +produced from images generously made available by National +Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).) + + + + + + + + + +EA DE QUEIROZ + +A CIDADE E AS SERRAS + + +PORTO + +LIVRARIA CHARDRON + +De Lello & Irmo, editores + +1901 + +Todos os direitos reservados + + + + +EA DE QUEIROZ + +A CIDADE E AS SERRAS + + +PORTO + +LIVRARIA CHARDRON + +De Lello & Irmo, editores + +1901 + +Todos os direitos reservados + + + + +Pertence no Brazil o direito de propriedade d'esta obra ao cidado +Francisco Alves, livreiro editor no Rio de Janeiro, que, para a garantia +que lhe offerece a lei n.^o 496 de 1 d'Agosto de 1898, fez o competente +deposito na Bibliotheca nacional, segundo a determinao do art. 13.^o +da mesma Lei. + + +_Porto--Imprensa Moderna_ + + + + +[Figura de Ea de Queirs] + + + + +A CIDADE E AS SERRAS + + + + +Obras do mesmo auctor: + + +*Revista de Portugal.* 4 grossos volumes 12$000 + +*As minas de Salomo.* 1 volume $600 + +*Os Maias.* 2 grossos volumes 2$000 + +*O crime do padre Amaro.* Terceira edio inteiramente refundida, +recomposta, e differente na frma e na aco da edio primitiva. 1 grosso +volume 1$200 + +*O primo Bazilio.* Quarta edio. 1 grosso volume 1$000 + +*A Reliquia.* 1 grosso volume 1$000 + +*O Mandarim.* Quarta edio. 1 volume $500 + +*Correspondencia de Fradique Mendes.* 1 volume $600 + +*A illustre casa de Ramires.* 1 volume 1$000 + + + + +A CIDADE E AS SERRAS + + + + +I + + +O meu amigo Jacintho nasceu n'um palacio, com cento e nove contos de +renda em terras de semeadura, de vinhedo, de cortia e d'olival. + +No Alemtejo, pela Extremadura, atravez das duas Beiras, densas sebes +ondulando por collina e valle, muros altos de boa pedra, ribeiras, +estradas, delimitavam os campos d'esta velha familia agricola que j +entulhava gro e plantava cepa em tempos d'el-rei D. Diniz. A sua quinta +e casa senhorial de Tormes, no Baixo Douro, cobriam uma serra. Entre o +Tua e o Tinhela, por cinco fartas legoas, todo o torro lhe pagava fro. +E cerrados pinheiraes seus negrejavam desde Arga at ao mar d'Ancora. +Mas o palacio onde Jacintho nascra, e onde sempre habitra, era em +Paris, nos Campos Elyseos, n.^o 202. + +Seu av, aquelle gordissimo e riquissimo Jacintho a quem chamavam em +Lisboa o _D. Galio_, descendo uma tarde pela travessa da Trabuqueta, +rente d'um muro de quintal que uma parreira toldava, escorregou n'uma +casca de laranja e desabou no lagedo. Da portinha da horta sahia n'esse +momento um homem moreno, escanhoado, de grosso casaco de baeto verde e +botas altas de picador, que, galhofando e com uma fora facil, levantou +o enorme Jacintho--at lhe apanhou a bengala de casto d'ouro que rolra +para o lixo. Depois, demorando n'elle os olhos pestanudos e pretos: + +--Oh Jacintho Galio, que andas tu aqui, a estas horas, a rebolar pelas +pedras? + +E Jacintho, aturdido e deslumbrado, reconheceu o snr. Infante D. Miguel! + +Desde essa tarde amou aquelle bom Infante como nunca amra, apesar de +to guloso, o seu ventre, e apesar de to devoto o seu Deus! Na sala +nobre da sua casa ( Pampulha) pendurou sobre os damascos o retrato do +seu Salvador, enfeitado de palmitos como um retabulo, e por baixo a +bengala que as magnanimas mos reaes tinham erguido do lixo. Emquanto o +adoravel, desejado Infante penou no desterro de Vienna, o barrigudo +senhor corria, sacudido na sua sege amarella, do botequim do Z-Maria em +Belem botica do Placido nos Algibebes, a gemer as saudades do +_anginho_, a tramar o regresso do _anginho_. No dia, entre todos +bemdito, em que a _Perola_ appareceu barra com o Messias, engrinaldou +a Pampulha, ergueu no Caneiro um monumento de papelo e lona onde D. +Miguel, tornado S. Miguel, branco, d'aureola e azas de Archanjo, furava +de cima do seu corcel d'Alter o Drago do Liberalismo, que se estorcia +vomitando a Carta. Durante a guerra com o outro, com o pedreiro livre +mandava recoveiros a Santo Thyrso, a S. Gens, levar ao Rei fiambres, +caixas de dce, garrafas do seu vinho de Tarrafal, e bolsas de retroz +atochadas de peas que elle ensaboava para lhes avivar o ouro. E quando +soube que o snr. D. Miguel, com dois velhos bahus amarrados sobre um +macho, tomra o caminho de Sines e do final desterro--Jacintho _Galio_ +correu pela casa, fechou todas as janellas como n'um luto, berrando +furiosamente: + +--Tambem c no fico! tambem c no fico! + +No, no queria ficar na terra perversa d'onde partia, esbulhado e +escorraado, aquelle Rei de Portugal que levantava na rua os Jacinthos! +Embarcou para Frana com a mulher, a snr.^a D. Angelina Fafes (da to +fallada casa dos Fafes da Avellan); com o filho, o 'Cinthinho, menino +amarellinho, mollesinho, coberto de caros e leicenos; com a aia e com +o moleque. Nas costas da Cantabria o paquete encontrou to rijos mares +que a snr.^a D. Angelina, esguedelhada, de joelhos na enxerga do +beliche, prometteu ao Senhor dos Passos d'Alcantara uma cora +d'espinhos, de ouro, com as gottas de sangue em rubis do Pegu. Em +Bayonna, onde arribaram, 'Cinthinho teve ithericia. Na estrada +d'Orleans, n'uma noite agreste, o eixo da berlinda em que jornadeavam +partiu, e o nedio senhor, a delicada senhora da casa da Avellan, o +menino, marcharam tres horas na chuva e na lama do exilio at uma +aldeia, onde, depois de baterem como mendigos a portas mudas, dormiram +nos bancos d'uma taberna. No Hotel dos Santos Padres, em Paris, +soffreram os terrores d'um fogo que rebentra na cavalharia, sob o +quarto de _D. Galio_, e o digno fidalgo, rebolando pelas escadas em +camisa, at ao pateo, enterrou o p n numa lasca de vidro. Ento ergueu +amargamente ao co o punho cabelludo, e rugiu: + +--Irra! de mais! + +Logo n'essa semana, sem escolher, Jacintho _Galio_ comprou a um +Principe polaco, que depois da tomada de Varsovia se mettera frade +cartuxo, aquelle palacete dos Campos Elyseos, n.^o 202. E sob o pesado +ouro dos seus estuques, entre as suas ramalhudas sedas se enconchou, +descanando de tantas agitaes, n'uma vida de pachorra e de boa mesa, +com alguns companheiros d'emigrao (o desembargador Nuno Velho, o conde +de Rabacena, outros menores), at que morreu de indigesto, d'uma +lampreia d'escabeche que lhe mandra o seu procurador em Monte-mr. Os +amigos pensavam que a snr.^a D. Angelina Fafes voltaria ao reino. Mas a +boa senhora temia a jornada, os mares, as caleas que racham. E no se +queria separar do seu Confessor, nem do seu Medico, que to bem lhe +comprehendiam os escrupulos e a asthma. + +--Eu, por mim, aqui fico no 202 (declarra ella), ainda que me faz falta +a boa agua d'Alcolena... O 'Cinthinho, esse, em crescendo, que decida. + +O 'Cinthinho crescra. Era um moo mais esguio e livido que um cirio, de +longos cabellos corredios, narigudo, silencioso, encafuado em roupas +pretas, muito largas e bambas; de noite, sem dormir, por causa da tosse +e de suffocaes, errava em camisa com uma lamparina atravez do 202; e +os creados na copa sempre lhe chamavam a _Sombra_. N'essa sua mudez e +indeciso de sombra surdira, ao fim do luto do pap, o gosto muito vivo +de tornear madeiras ao torno: depois, mais tarde, com a melada flr dos +seus vinte annos, brotou n'elle outro sentimento, de desejo e de pasmo, +pela filha do desembargador Velho, uma menina redondinha como uma rla, +educada n'um convento de Paris, e to habilidosa que esmaltava, dourava, +concertava relogios e fabricava chapos de feltro. No outomno de 1851, +quando j se desfolhavam os castanheiros dos Campos Elyseos, o +'Cinthinho cuspilhou sangue. O medico, acarinhando o queixo e com uma +ruga seria na testa immensa, aconselhou que o menino abalasse para o +golfo Juan ou para as tepidas areias d'Arcachon. + +'Cinthinho porm, no seu afrro de sombra, no se quiz arredar da +Therezinha Velho, de quem se tornra, atravez de Paris, a muda, tardnha +sombra. Como uma sombra, casou; deu mais algumas voltas ao torno; cuspiu +um resto de sangue; e passou, como uma sombra. + +Tres mezes e tres dias depois do seu enterro o meu Jacintho nasceu. + + * * * * * + +Desde o bero, onde a av espalhava funcho e ambar para afugentar a +_Sorte-Ruim_, Jacintho medrou com a segurana, a rijeza, a seiva rica +d'um pinheiro das dunas. + +No teve sarampo e no teve lombrigas. As Letras, a Taboada, o Latim +entraram por elle to facilmente como o sol por uma vidraa. Entre os +camaradas, nos pateos dos collegios, erguendo a sua espada de lata e +lanando um brado de commando, foi logo o vencedor, o Rei que se adula, +e a quem se cede a fructa das merendas. Na edade em que se l Balzac e +Musset nunca atravessou os tormentos da sensibilidade;--nem crepusculos +quentes o retiveram na solido d'uma janella, padecendo d'um desejo sem +frma e sem nome. Todos os seus amigos (eramos tres, contando o seu +velho escudeiro preto, o Grillo) lhe conservaram sempre amizades puras e +certas--sem que jmais a participao do seu luxo as avivasse ou fossem +desanimadas pelas evidencias do seu egoismo. Sem corao bastante forte +para conceber um amor forte, e contente com esta incapacidade que o +libertava, do amor s experimentou o mel--esse mel que o amor reserva +aos que o recolhem, maneira das abelhas, com ligeireza, mobilidade e +cantando. Rijo, rico, indifferente ao Estado e ao Governo dos Homens, +nunca lhe conhecemos outra ambio alm de comprehender bem as Ideias +Geraes; e a sua intelligencia, nos annos alegres de esclas e +controversias, crculava dentro das Philosophias mais densas como enguia +lustrosa na agua limpa d'um tanque. O seu valor, genuino, de fino +quilate, nunca foi desconhecido, nem desapreciado; e toda a opinio, ou +mera facecia que lanasse, logo encontrava uma aragem de sympathia e +concordancia que a erguia, a mantinha emballada e rebrilhando nas +alturas. Era servido pelas cousas com docilidade e carinho;--e no +recordo que jamais lhe estalasse um boto da camisa, ou que um papel +maliciosamente se escondesse dos seus olhos, ou que ante a sua +vivacidade e pressa uma gaveta perfida emperrasse. Quando um dia, rindo +com descrido riso da Fortuna e da sua Roda, comprou a um sachristo +hespanhol um Decimo de Loteria, logo a Fortuna, ligeira e ridente sobre +a sua Roda, correu n'um fulgor, para lhe trazer quatro centas mil +pesetas. E no ceu as Nuvens, pejadas e lentas, se avistavam Jacintho sem +guarda chuva, retinham com reverencia as suas aguas at que elle +passasse... Ah! o ambar e o funcho da snr.^a D. Angelina tinham +escorraado do seu destino, bem triumphalmente e para sempre, a +_Sorte-Ruim_! A amoravel av (que eu conheci obesa, com barba) costumava +citar um soneto natalicio do desembargador Nunes Velho contendo um verso +de boa lio: + + Sabei, senhora, que esta Vida um rio... + +Pois um rio de vero, manso, translucido, harmoniosamente estendido +sobre uma areia macia e alva, por entre arvoredos fragrantes e ditosas +aldeias, no offereceria quelle que o descesse n'um barco de cedro, bem +toldado e bem almofadado, com fructas e Champagne a refrescar em gelo, +um Anjo governando ao leme, outros Anjos puxando sirga, mais segurana +e doura do que a Vida offerecia ao meu amigo Jacintho. + +Por isso ns lhe chamavamos o Principe da Gran-Ventura! + + * * * * * + +Jacintho e eu, Jos Fernandes, ambos nos encontramos e acamaradamos em +Paris, nas Esclas do Bairro Latino--para onde me mandra meu bom tio +Affonso Fernandes Lorena de Noronha e Sande, quando aquelles malvados me +riscaram da Universidade por eu ter esborrachado, n'uma tarde de +procisso, na Sophia, a cara sordida do dr. Paes Pitta. + +Ora n'esse tempo Jacintho concebra uma Ideia... Este Principe concebra +a Ideia de que o homem s superiormente feliz quando superiormente +civilisado. E por homem civilisado o meu camarada entendia aquelle que, +robustecendo a sua fora pensante com todas as noes adquiridas desde +Aristoteles, e multiplicando a potencia corporal dos seus orgos com +todos os mechanismos inventados desde Theramenes, creador da roda, se +torna um magnifico Ado, quas omnipotente, quas omnisciente, e apto +portanto a recolher dentro d'uma sociedade e nos limites do Progresso +(tal como elle se comportava em 1875) todos os gozos e todos os +proveitos que resultam de Saber e de Poder... Pelo menos assim Jacintho +formulava copiosamente a sua Ideia, quando conversavamos de fins e +destinos humanos, sorvendo bocks poeirentos, sob o toldo das cervejarias +philosophicas, no Boulevard Saint-Michel. + +Este conceito de Jacintho impressionra os nossos camaradas de cenaculo, +que tendo surgido para a vida intellectual, de 1866 a 1875, entre a +batalha de Sadowa e a batalha de Sedan, e ouvindo constantemente, desde +ento, aos technicos e aos philosophos, que fra a Espingarda-de-agulha +que vencra em Sadowa e fra o Mestre-de-escla quem vencra em Sedan, +estavam largamente preparados a acreditar que a felicidade dos +individuos, como a das naes, se realisa pelo illimitado +desenvolvimento da Mechanica e da Erudio. Um d'esses moos mesmo, o +nosso inventivo Jorge Carlande, reduzra a theoria de Jacintho, para lhe +facilitar a circulao e lhe condensar o brilho, a uma frma algebrica: + +Summa sciencia} + X }= Summa felicidade +Summa potencia} + +E durante dias, do Odeon Sorbonna, foi louvada pela mocidade positiva +a _Equao Metaphysica de Jacintho_. + +Para Jacintho, porm, o seu conceito no era meramente metaphysico e +lanado pelo gozo elegante de exercer a razo especulativa:--mas +constituia uma regra, toda de realidade e de utilidade, determinando a +conducta, modalisando a vida. E j a esse tempo, em concordancia com o +seu preceito--elle se surtira da _Pequena Encyclopedia dos Conhecimentos +Universaes_ em setenta e cinco volumes e installra, sobre os telhados +do 202, n'um mirante envidraado, um telescopio. Justamente com esse +telescopio me tornou elle palpavel a sua ideia, n'uma noite de agosto, +de molle e dormente calor. Nos cos remotos lampejavam relampagos +languidos. Pela Avenida dos Campos Elyseos, os fiacres rolavam para as +frescuras do Bosque, lentos, abertos, canados, transbordando de +vestidos claros. + +--Aqui tens tu, Z Fernandes, (comeou Jacintho, encostado janella do +mirante) a theoria que me governa, bem comprovada. Com estes olhos que +recebemos da Madre natureza, lestos e sos, ns podemos apenas +distinguir alm, atravez da Avenida, n'aquella loja, uma vidraa +alumiada. Mais nada! Se eu porm aos meus olhos juntar os dois vidros +simples d'um binoculo de corridas, percebo, por traz da vidraa, +presuntos, queijos, boies de gela e caixas de ameixa scca. Concluo +portanto que uma mercearia. Obtive uma noo; tenho sobre ti, que com +os olhos desarmados vs s o luzir da vidraa, uma vantagem positiva. Se +agora, em vez d'estes vidros simples, eu usasse os do meu telescopio, de +composio mais scientifica, poderia avistar alm, no planeta Marte, os +mares, as neves, os canaes, o recorte dos golphos, toda a geographia +d'um astro que circula a milhares de leguas dos Campos Elyseos. outra +noo, e tremenda! Tens aqui pois o olho primitivo, o da Natureza, +elevado pela Civilisao sua maxima potencia de viso. E desde j, +pelo lado do olho portanto, eu, civilisado, sou mais feliz que o +incivilisado, porque descubro realidades do Universo que elle no +suspeita e de que est privado. Applica esta prova a todos os orgos e +comprehendes o meu principio. Emquanto intelligencia, e felicidade +que d'ella se tira pela incanavel accumulao das noes, s te peco +que compares Renan e o Grillo... Claro portanto que nos devemos cercar +de Civilisao nas maximas propores para gosar nas maximas propores +a vantagem de viver. Agora concordas, Z Fernandes? + +No me parecia irrecusavelmente certo que Renan fosse mais feliz que o +Grillo; nem eu percebia que vantagem espiritual ou temporal se clha em +distinguir atravez do espao manchas n'um astro, ou atravez da Avenida +dos Campos Elyseos presuntos n'uma vidraa. Mas concordei, porque sou +bom, e nunca desalojarei um espirito do conceito onde elle encontra +segurana, disciplina e motivo de energia. Desabotoei o collete, e +lanando um gesto para o lado dos cafs e das luzes: + +--Vamos ento beber, nas maximas propores, _brandy and soda_, com +gelo! + +Por uma concluso bem natural, a ideia de Civilisao, para Jacintho, +no se separava da imagem de Cidade, d'uma enorme Cidade, com todos os +seus vastos orgos funccionando poderosamente. Nem este meu +super-civilisado amigo comprehendia que longe de Armazens servidos por +tres mil caixeiros; e de Mercados onde se despejam os vergeis e lezirias +de trinta provincias; e de Bancos em que retine o ouro universal; e de +Fabricas fumegando com ancia, inventando com ancia; e de Bibliothecas +abarrotadas, a estalar, com a papelada dos seculos; e de fundas milhas +de ruas, cortadas, por baixo e por cima, de fios de telegraphos, de fios +de telephones, de canos de gazes, de canos de fezes; e da fila atroante +dos omnibus, tramways, carroas, velocipedes, calhambeques, parelhas de +luxo; e de dois milhes d'uma vaga humanidade, fervilhando, a offegar, +atravez da Policia, na busca dura do po ou sob a illuso do gozo--o +homem do seculo XIX podesse saborear, plenamente, a delicia de viver! + +Quando Jacintho, no seu quarto do 202, com as varandas abertas sobre os +lilazes, me desenrolava estas imagens, todo elle crescia, illuminado. +Que creao augusta, a da Cidade! S por ella, Z-Fernandes, s por +ella, pde o homem soberbamente affirmar a sua alma!... + +--Oh Jacintho, e a religio? Pois a religio no prova a alma? + +Elle encolhia os hombros. A religio! A religio o desenvolvimento +sumptuoso de um instincto rudimentar, commum a todos os brutos, o +terror. Um co lambendo a mo do dono, de quem lhe vem o osso ou o +chicote, j constitue toscamente um devoto, o consciente devoto, +prostrado em rezas ante o Deus que distribue o co ou o inferno!... Mas +o telephone! o phonographo! + +--Ahi tens tu, o phonographo!... S o phonographo, Z Fernandes, me faz +verdadeiramente sentir a minha superioridade de sr pensante e me separa +do bicho. Acredita, no ha seno a Cidade, Z Fernandes, no ha seno a +Cidade! + +E depois (accrescentava) s a Cidade lhe dava a sensao, to necessaria + vida como o calor, da solidariedade humana. E no 202, quando +considerava em redor, nas densas massas do casario de Paris, dois +milhes de sres arquejando na obra da Civilisao (para manter na +natureza o dominio dos Jacinthos!) sentia um socego, um conchego, s +comparaveis ao do peregrino, que, ao atravessar o deserto, se ergue no +seu dromedario, e avista a longa fila da caravana marchando, cheia de +lumes e de armas... + +Eu murmurava, impressionado: + +--Caramba! + +Ao contrario no campo, entre a inconsciencia e a impassibilidade da +Natureza, elle tremia com o terror da sua fragilidade e da sua solido. +Estava ahi como perdido n'um mundo que lhe no fosse fraternal; nenhum +silvado encolheria os espinhos para que elle passasse; se gemesse com +fome nenhuma arvore, por mais carregada, lhe estenderia o seu fructo na +ponta compassiva d'um ramo. Depois, em meio da Natureza, elle assistia +subita e humilhante inutilisao de todas as suas faculdades superiores. +De que servia, entre plantas e bichos--ser um Genio ou ser um Santo? As +searas no comprehendem as _Georgicas_; e fra necessario o socorro +ancioso de Deus, e a inverso de todas as leis naturaes, e um violento +milagre para que o lobo de Agubio no devorasse S. Francisco d'Assis, +que lhe sorria e lhe estendia os braos e lhe chamava meu irmo lobo! +Toda a intellectualidade, nos campos, se esterilisa, e s resta a +bestialidade. N'esses reinos crassos do Vegetal e do Animal duas unicas +funces se mantm vivas, a nutritiva e a procreadora. Isolada, sem +occupao, entre focinhos e raizes que no cessam de sugar e de pastar, +suffocando no calido bafo da universal fecundao, a sua pobre alma toda +se engelhava, se reduzia a uma migalha d'alma, uma fagulhasinha +espiritual a tremeluzir, como morta, sobre um naco de materia; e n'essa +materia dois instinctos surdiam, imperiosos e pungentes, o de devorar e +o de gerar. Ao cabo de uma semana rural, de todo o seu sr to +nobremente composto s restava um estomago e por baixo um phallus! A +alma? Sumida sob a besta. E necessitava correr, reentrar na Cidade, +mergulhar nas ondas lustraes da Civilisao, para largar n'ellas a +crosta vegetativa, e resurgir re-humanisado, de novo espiritual e +Jacinthico! + +E estas requintadas metaphoras do meu amigo exprimiam sentimentos +reaes--que eu testemunhei, que muito me divertiram, no unico passeio que +fizemos ao campo, bem amavel e bem sociavel floresta de Montmorency. +Oh delicias d'entremez, Jacintho entre a Natureza! Logo que se afastava +dos pavimentos de madeira, do macadam, qualquer cho que os seus ps +calcassem o enchia de desconfiana e terror. Toda a relva, por mais +crestada, lhe parecia reumar uma humidade mortal. De sob cada torro, +da sombra de cada pedra, receava o assalto de lacraus, de viboras, de +frmas rastejantes e viscosas. No silencio do bosque sentia um lugubre +despovoamento do Universo. No tolerava a familiaridade dos galhos que +lhe roassem a manga ou a face. Saltar uma sebe era para elle um acto +degradante que o retrogradava ao macaco inicial. Todas as flres que no +tivesse j encontrado em jardins, domesticadas por longos seculos de +servido ornamental, o inquietavam como venenosas. E considerava d'uma +melancolia funambulesca certos modos e frmas do Sr inanimado, a pressa +esperta e v dos regatinhos, a careca dos rochedos, todas as contorses +do arvoredo e o seu resmungar solemne e tonto. + +Depois d'uma hora, n'aquelle honesto bosque de Montmorency, o meu pobre +amigo abafava, apavorado, experimentando j esse lento mingoar e sumir +d'alma que o tornava como um bicho entre bichos. S desannuviou quando +penetramos no lagdo e no gaz de Paris--e a nossa vittoria quasi se +despedaou contra um omnibus retumbante, atulhado de cidados. Mandou +descer pelos Boulevards, para dissipar, na sua grossa sociabilidade, +aquella materialisao em que sentia a cabea pesada e vaga como a d'um +boi. E reclamou que eu o acompanhasse ao theatro das Variedades para +sacudir, com os estribilhos da _Femme Papa_, o rumor importuno que lhe +ficra dos melros cantando nos choupos altos. + +Este delicioso Jacintho fizera ento vinte e tres annos, e era um +soberbo moo em quem reapparecra a fora dos velhos Jacinthos ruraes. +S pelo nariz, afilado, com narinas quasi transparentes, d'uma +mobilidade inquieta, como se andasse fariscando perfumes, pertencia s +delicadezas do seculo XIX. O cabello ainda se conservava, ao modo das +ras rudes, crespo e quasi lanigero: e o bigode, como o d'um Celta, +cahia em fios sedosos, que elle necessitava aparar e frizar. Todo o seu +fato, as espessas gravatas de setim escuro que uma perola prendia, as +luvas de anta branca, o verniz das botas, vinham de Londres em caixotes +de cedro; e usava sempre ao peito uma flr, no natural, mas composta +destramente pela sua ramalheteira com petalas de flres dessemelhantes, +cravo, azalea, orchidea ou tulipa, fundidas na mesma haste entre uma +leve folhagem de funcho. + + * * * * * + +Em 1880, em Fevereiro, n'uma cinzenta e arripiada manh de chuva, recebi +uma carta de meu bom tio Affonso Fernandes, em que, depois de +lamentaes sobre os seus setenta annos, os seus males hemorroidaes, e a +pesada gerencia dos seus bens que pedia homem mais novo, com pernas +mais rijas--me ordenava que recolhesse nossa casa de Guies, no +Douro! Encostado ao marmore partido do fogo, onde na vspera a minha +Nini deixra um espartilho embrulhado no _Jornal dos Debates_, censurei +severamente meu tio que assim cortava em boto, antes de desabrochar, a +flr do meu Saber Juridico. Depois n'um Post-Scriptum elle +accrescentava--O tempo aqui est lindo, o que se pde chamar de rosas, +e tua santa tia muito se recommenda, que anda l pela cozinha, porque +vai hoje em trinta e seis annos que casmos, temos c o abbade e o +Quintaes a jantar, e ella quiz fazer uma sopa dourada. + +Deitando uma acha ao lume, pensei como devia estar boa a sopa dourada da +tia Vicencia. Ha quantos annos no a provava, nem o leito assado, nem o +arroz de frno da nossa casa! Com o tempo assim to lindo, j as mimosas +do nosso pateo vergariam sob os seus grandes cachos amarellos. Um pedao +de co azul, do azul de Guies, que outro no ha to lustroso e macio, +entrou pelo quarto, alumiou, sobre a poida tristeza do tapete, relvas, +ribeirinhos, malmequeres e flres de trevo de que meus olhos andavam +agoados. E, por entre as bambinellas de sarja, passou um ar fino e forte +e cheiroso de serra e de pinheiral. + +Assobiando um _fado_ meigo tirei debaixo da cama a minha velha mala, e +metti solicitamente entre calas e piugas um Tratado de Direito Civil, +para aprender emfim, nos vagares da aldeia, estendido sob a faia, as +leis que regem os homens. Depois, n'essa tarde, annunciei a Jacintho que +partia para Guies. O meu camarada recuou com um surdo gemido de espanto +e piedade: + +--Para Guies!... Oh Z Fernandes, que horror! + +E toda essa semana me lembrou solicitamente confortos de que eu me +deveria prover para que pudesse conservar, nos ermos silvestres, to +longe da Cidade, uma pouca d'alma dentro d'um pouco de corpo. Leva uma +poltrona! Leva a _Encyclopedia Geral_! Leva caixas de aspargos!... + +Mas para o meu Jacintho, desde que assim me arrancavam da Cidade, eu era +arbusto desarraigado que no reviver. A magoa com que me acompanhou ao +comboio conviria excellentemente ao meu funeral. E quando fechou sobre +mim a portinhola, gravemente, supremamente, como se cerra uma grade de +sepultura, eu quasi solucei--com saudades minhas. + +Cheguei a Guies. Ainda restavam flres nas mimosas do nosso pateo; comi +com delicias a sopa dourada da tia Vicencia; de tamancos nos ps assisti + ceifa dos milhos. E assim de colheitas a lavras, crestando ao sol das +eiras, caando a perdiz nos matos geados, rachando a melancia fresca na +poeira dos arraiaes, arranchando a magustos, serandando candeia, +atiando fogueiras de S. Joo, enfeitando presepios de Natal, por alli +me passaram docemente sete annos, to atarefados que nunca logrei abrir +o Tratado de Direito Civil, e to singelos que apenas me recordo quando, +em vsperas de S. Nicolau, o abbade cahiu da egua porta do Braz das +Crtes. De Jacintho s recebia raramente algumas linhas, escrevinhadas +pressa por entre o tumulto da Civilisao. Depois, n'um Setembro muito +quente, ao lidar da vindima, meu bom tio Affonso Fernandes morreu, to +quietamente, Deus seja louvado por esta graa, como se cala um +passarinho ao fim do seu bem cantado e bem voado dia. Acabei pela aldeia +a roupa do luto. A minha afilhada Joanninha casou na matana do porco. +Andaram obras no nosso telhado. Voltei a Paris. + + + + +II + + +Era de novo Fevereiro, e um fim de tarde arripiado e cinzento, quando eu +desci os Campos Elyseos em demanda do 202. Adiante de mim caminhava, +levemente curvado, um homem que, desde as botas rebrilhantes at s abas +recurvas do chapo d'onde fugiam anneis d'um cabello crespo, reumava +elegancia e a familiaridade das coisas finas. Nas mos, cruzadas atraz +das costas, caladas d'anta branca, sustentava uma bengala grossa com +casto de crystal. E s quando elle parou ao porto do 202 reconheci o +nariz afilado, os fios do bigode corredios e sedosos. + +--Oh Jacintho! + +--Oh Z Fernandes! + +O abrao que nos enlaou foi to alvoroado que o meu chapo rolou na +lama. E ambos murmuravamos, commovidos, entrando a grade: + +--Ha sete annos!... + +--Ha sete annos!... + +E, todavia, nada mudra durante esses sete annos no jardim do 202! Ainda +entre as duas aleas bem areadas se arredondava uma relva, mais lisa e +varrida que a l d'um tapete. No meio o vaso corinthico esperava Abril +para resplandecer com tulipas e depois Junho para transbordar de +margaridas. E ao lado das escadas limiares, que uma vidraaria toldava, +as duas magras Deusas de pedra, do tempo de D. Galio, sustentavam as +antigas lampadas de globos foscos, onde j silvava o gaz. + +Mas dentro, no peristillo, logo me surprehendeu um elevador installado +por Jacintho--apesar do 202 ter smente dois andares, e ligados por uma +escadaria to doce que nunca offendra a asthma da snr.^a D. Angelina! +Espaoso, tapetado, elle offerecia, para aquella jornada de sete +segundos, confortos numerosos, um divan, uma pelle d'urso, um roteiro +das ruas de Paris, prateleiras gradeadas com charutos e livros. Na +antecamara, onde desembarcamos, encontrei a temperatura macia e tepida +d'uma tarde de Maio, em Guies. Um creado, mais attento ao thermometro +que um piloto agulha, regulava destramente a bocca dourada do +calorifero. E perfumadores entre palmeiras, como n'um terrasso santo de +Benares, esparziam um vapor, aromatisando e salutarmente humedecendo +aquelle ar delicado e superfino. + +Eu murmurei, nas profundidades do meu assombrado sr: + +--Eis a civilisao! + +Jacintho empurrou uma porta, penetramos n'uma nave cheia de magestade e +sombra, onde reconheci a Bibliotheca por tropear n'uma pilha monstruosa +de livros novos. O meu amigo roou de leve o dedo na parede: e uma cora +de lumes electricos, refulgindo entre os lavores do tecto, alumiou as +estantes monumentaes, todas d'ebano. N'ellas repousavam mais de trinta +mil volumes, encadernados em branco, em escarlate, em negro, com +retoques d'ouro, hirtos na sua pompa e na sua auctoridade como doutores +n'um concilio. + +No contive a minha admirao: + +--Oh Jacintho! Que deposito! + +Elle murmurou, n'um sorriso descorado: + +--Ha que lr, ha que lr... + +Reparei ento que o meu amigo emmagrecera: e que o nariz se lhe afilra +mais entre duas rugas muito fundas, como as d'um comediante canado. Os +anneis do seu cabello lanigero rareavam sobre a testa, que perdera a +antiga serenidade de marmore bem polido. No frisava agora o bigode +murcho, cahido em fios pensativos. Tambem notei que corcovava. + +Elle ergura uma tapearia--entramos no seu gabinete de trabalho, que me +inquietou. Sobre a espessura dos tapetes sombrios os nossos passos +perderam logo o som, e como a realidade. O damasco das paredes, os +divans, as madeiras, eram verdes, d'um verde profundo de folha de louro. +Sdas verdes envolviam as luzes electricas, dispersas em lampadas to +baixas que lembravam estrellas cahidas por cima das mesas, acabando de +arrefecer e morrer: s uma rebrilhava, na e clara, no alto d'uma +estante quadrada, esguia, solitaria como uma torre n'uma planicie, e de +que o lume parecia ser o pharol melancolico. Um biombo de laca verde, +fresco verde de relva, resguardava a chamin de marmore verde, verde de +mar sombrio, onde esmoreciam as brazas d'uma lenha aromatica. E entre +aquelles verdes reluzia, por sobre peanhas e pedestaes, toda uma +Mechanica sumptuosa, apparelhos, laminas, rodas, tubos, engrenagens, +hastes, friezas, rigidezas de metaes... + +Mas Jacintho batia nas almofadas do divan, onde se enterrra com um modo +canado que eu no lhe conhecia: + +--Para aqui, Z Fernandes, para aqui! necessario reatarmos estas +nossas vidas, to apartadas ha sete annos!... Em Guies, sete annos! Que +fizeste tu? + +--E tu, que tens feito, Jacintho? + +O meu amigo encolheu mollemente os hombros. Vivra--cumprira com +serenidade todas as funces, as que pertencem materia e as que +pertencem ao espirito... + +--E accumulaste civilisao, Jacintho! Santo Deus... Est tremendo, o +202! + +Elle espalhou em torno um olhar onde j no faiscava a antiga +vivacidade: + +--Sim, ha confortos... Mas falta muito! A humanidade ainda est mal +apetrechada, Z Fernandes... E a vida conserva resistencias. + +Subitamente, a um canto, repicou a campainha do telephone. E emquanto o +meu amigo, curvado sobre a placa, murmurava impaciente _Est l?--Est +l?_, examinei curiosamente, sobre a sua immensa mesa de trabalho, uma +estranha e miuda legio de instrumentosinhos de nickel, d'ao, de cobre, +de ferro, com gumes, com argolas, com tenazes, com ganchos, com dentes, +expressivos todos, de utilidades misteriosas. Tomei um que tentei +manejar--e logo uma ponta malevola me picou um dedo. N'esse instante +rompeu d'outro canto um tic-tic-tic aodado, quasi ancioso. Jacintho +acudiu, com a face no telephone: + +--V ahi o telegrapho!... Ao p do divan. Uma tira de papel que deve +estar a correr. + +E, com effeito, d'uma redma de vidro posta n'uma columna, e contendo um +apparelho esperto e diligente, escorria para o tapete, como uma tenia, a +longa tira de papel com caracteres impressos, que eu, homem das serras, +apanhei, maravilhado. A linha, traada em azul, annunciava ao meu amigo +Jacintho que a fragata russa _Azoff_ entrra em Marselha com avaria! + +J elle abandonra o telephone. Desejei saber, inquieto, se o +prejudicava directamente aquella avaria da _Azoff_. + +--Da _Azoff_?... A avaria? A mim?... No! uma noticia. + +Depois, consultando um relogio monumental que, ao fundo da Bibliotheca, +marcava a hora de todas as Capitaes e o curso de todos os Planetas: + +--Eu preciso escrever uma carta, seis linhas... Tu esperas, no, Z +Fernandes? Tens ahi os jornaes de Paris, da noite; e os de Londres, +d'esta manh. As Illustraes alm, n'aquella pasta de couro com +ferragens. + +Mas eu preferi inventariar o gabinete, que dava minha profanidade +serrana todos os gostos d'uma iniciao. Aos lados da cadeira de +Jacintho pendiam gordos tubos acusticos, por onde elle decerto soprava +as suas ordens atravs do 202. Dos ps da mesa cordes tumidos e molles, +colleando sobre o tapete, corriam para os recantos de sombra maneira +de cobras assustadas. Sobre uma banquinha, e reflectida no seu verniz +como na agua d'um poo, pousava uma Machina-de-escrever: e adiante era +uma immensa Machina-de-calcular, com fileiras de buracos d'onde +espreitavam, esperando, numeros rigidos e de ferro. Depois parei em +frente da estante que me preoccupava, assim solitaria, maneira d'uma +torre n'uma planicie, com o seu alto pharol. Toda uma das suas faces +estava repleta de Diccionarios; a outra de Manuaes; a outra de Atlas; a +ultima de Guias, e entre elles, abrindo um folio, encontrei o Guia das +ruas de Samarkande. Que macissa torre de informao! Sobre prateleiras +admirei apparelhos que no comprehendia:--um composto de laminas de +gelatina, onde desmaiavam, meio-chupadas, as linhas d'uma carta, talvez +amorosa; outro, que erguia sobre um pobre livro brochado, como para o +decepar, um cutello funesto; outro avanando a bocca d'uma tuba, toda +aberta para as vozes do invisivel. Cingidos aos umbraes, liados s +cimalhas, luziam arames, que fugiam atravs do tecto, para o espao. +Todos mergulhavam em foras universaes, todos transmittiam foras +universaes. A Natureza convergia disciplinada ao servio do meu amigo e +entrra na sua domesticidade!... + +Jacintho atirou uma exclamao impaciente: + +--Oh, estas pennas electricas!... Que secca! + +Amarrotra com colera a carta comeada--eu escapei, respirando, para a +Bibliotheca. Que magestoso armazem dos productos do Raciocinio e da +Imaginao! Alli jaziam mais de trinta mil volumes, e todos decerto +essenciaes a uma cultura humana. Logo entrada notei, em ouro n'uma +lombada verde, o nome de Adam Smith. Era pois a regio dos Economistas. +Avancei--e percorri, espantado, oito metros de Economia Politica. Depois +avistei os Philosophos e os seus commentadores, que revestiam toda uma +parede, desde as esclas Pre-socraticas at s esclas Neo-pessimistas. +N'aquellas pranchas se acastellavam mais de dois mil systemas--e que +todos se contradiziam. Pelas encadernaes logo se deduziam as +doutrinas: Hobbes, em baixo, era pesado, de couro negro; Plato, em +cima, resplandecia, n'uma pellica pura e alva. Para diante comeavam as +Historias Universaes. Mas ahi uma immensa pilha de livros brochados, +cheirando a tinta nova e a documentos novos, subia contra a estante, +como fresca terra d'alluvio tapando uma riba secular. Contornei essa +collina, mergulhei na seco das Sciencias Naturaes, peregrinando, n'um +assombro crescente, da Orographia para a Paleontologia, e da Morphologia +para a Crystallographia. Essa estante rematava junto d'uma janella +rasgada sobre os Campos Elyseos. Apartei as cortinas de velludo--e por +traz descobri outra portentosa rima de volumes, todos de Historia +Religiosa, de Exegese Religiosa, que trepavam montanhosamente at aos +ultimos vidros, vedando, nas manhs mais candidas, o ar e a luz do +Senhor. + +Mas depois rebrilhava, em marroquins claros, a estante amavel dos +Poetas. Como um repouso para o espirito esfalfado de todo aquelle saber +positivo, Jacintho aconchegra ahi um recanto, com um divan e uma mesa +de limoeiro, mais lustrosa que um fino esmalte, coberta de charutos, de +cigarros d'Oriente, de tabaqueiras do seculo XVIII. Sobre um cofre de +madeira lisa pousava ainda, esquecido, um prato de damascos seccos do +Japo. Cedi seduco das almofadas; trinquei um damasco, abri um +volume; e senti estranhamente, ao lado, um zumbido, como de um insecto +de azas harmoniosas. Sorri ida que fossem abelhas, compondo o seu mel +n'aquelle massio de versos em flr. Depois percebi que o susurro remoto +e dormente vinha do cofre de mogne, de parecer to discreto. Arredei uma +_Gazeta de Frana_; e descornitei um cordo que emergia de um orificio, +escavado no cofre, e rematava n'um funil de marfim. Com curiosidade, +encostei o funil a esta minha confiada orelha, afeita singeleza dos +rumores da serra. E logo uma Voz, muito mansa, mas muito dicidida, +aproveitando a minha curiosidade para me invadir e se apoderar do meu +entendimento, susurrou capciosamente: + +--...E assim, pela disposio dos cubos diabolicos, eu chego a +verificar os espaos hypermagicos!... + +Pulei, com um berro. + +--Oh Jacintho, aqui ha um homem! Est aqui um homem a fallar dentro +d'uma caixa! + +O meu camarada, habituado aos prodigios, no se alvoroou: + +-- o Conferenophone... Exactamente como o Theatrophone; smente +applicado s esclas e s conferencias. Muito commodo!... Que diz o +homem, Z Fernandes? + +Eu considerava o cofre, ainda esgazeado: + +--Eu sei! Cubos diabolicos, espaos magicos, toda a sorte de horrores... + +Senti dentro o sorriso superior de Jacintho: + +--Ah, o coronel Dorchas... Lies de Metaphysica Positiva sobre a +Quarta Dimenso... Conjecturas, uma massada! Ouve l, tu hoje jantas +commigo e com uns amigos, Z Fernandes? + +--No, Jacintho... Estou ainda enfardelado pelo alfaiate da serra! + +E voltei ao gabinete mostrar ao meu camarada o jaqueto de flanella +grossa, a gravata de pintinhas escarlates, com que ao domingo, em +Guies, visitava o Senhor. Mas Jacintho affirmou que esta simplicidade +montesina interessaria os seus convidados, que eram dois artistas... +Quem? O auctor do _Corao Triplo_, um Psychologo Feminista, d'agudeza +transcendente, Mestre muito experimentado e muito consultado em +Sciencias Sentimentaes; e Vorcan, um pintor mythico, que interpretra +ethereamente, havia um anno, a symbolia rapsodica do cerco de Troia, +n'uma vasta composio, _Helena Devastadora_... + +Eu coava a barba: + +--No, Jacintho, no... Eu venho de Guies, das serras; preciso entrar +em toda esta civilisaco, lentamente, com cautella, seno rebento. Logo +na mesma tarde a electricidade, e o conferenophone, e os espaos +hypermagicos e o feminista, e o ethereo, e a symbolia devastadora, +excessivo! Volto manh. + +Jacintho dobrava vagarosamente a sua carta, onde mettera sem rebuo +(como convinha nossa fraternidade) duas violetas brancas tiradas do +ramo que lhe floria o peito. + +--manh, Z Fernandes, tu vens antes d'almoo, com as tuas malas dentro +d'um fiacre, para te installares no 202, no teu quarto. No Hotel so +embaraos, privaes. Aqui tens o telephone, o teatrophone, livros... + +Acceitei logo, com simplicidade. E Jacintho, embocando um tubo acustico, +murmurou: + +--Grillo! + +Da parede, recoberta de damasco, que subitamente e sem rumor se fendeu, +surdio o seu velho escudeiro (aquelle moleque que viera com _D. +Gallio_), que eu me alegrei de encontrar to rijo, mais negro, +reluzente e veneravel na sua tesa gravata, no seu collete branco de +botes de ouro. Elle tambem estimou vr de novo o si Fernandes. E, +quando soube que eu occuparia o quarto do av Jacintho, teve um claro +sorriso de preto, em que envolveu o seu senhor, no contentamento de o +sentir emfim reprovido d'uma familia. + +--Grillo, dizia Jacintho, esta carta a Madame de Oriol... Escuta! +Telephona para casa dos Trves que os espiritistas s esto livres no +domingo... Escuta! Eu tomo uma douche antes de jantar, tepida, a 17. +Frico com malva-rosa. + +E cahindo pesadamente para cima do divan, com um bocejo arrastado e +vago: + +--Pois verdade, meu Z Fernandes, aqui estamos, como ha sete annos, +n'este velho Paris... + +Mas eu no me arredava da mesa, no desejo de completar a minha +iniciao: + +--Oh Jacintho, para que servem todos estes instrumentosinhos? Houve j +ahi um desavergonhado que me picou. Parecem perversos... So uteis? + +Jacintho esboou, com languidez, um gesto que os +sublimava.--Providenciaes, meu filho, absolutamente providenciaes, pela +simplificao que do ao trabalho! Assim... E apontou. Este arrancava as +pennas velhas; o outro numerava rapidamente as paginas d'um manuscripto; +aquell'outro, alm, raspava emendas... E ainda os havia para collar +estampilhas, imprimir datas, derreter lacres, cintar documentos... + +--Mas com effeito, accrescentou, uma scca. Com as molas, com os +bicos, s vezes magoam, ferem... J me succedeu inutilisar cartas por as +ter sujado com dedadas de sangue. uma massada! + +Ento, como o meu amigo espreitra novamente o relogio monumental, no +lhe quiz retardar a consolao da douche e da malva-rosa. + +--Bem, Jacintho, j te revi, j me contentei... Agora at manh, com as +malas. + +--Que diabo, Z Fernandes, espera um momento... Vamos pela sala de +jantar. Talvez te tentes! + +E, atravs da Bibliotheca, penetramos na sala de jantar,--que me +encantou pelo seu luxo sereno e fresco. Uma madeira branca, laccada, +mais lustrosa e macia que setim, revestia as paredes, encaixilhando +medalhes de damasco cr de morango, de morango muito maduro e esmagado: +os aparadores, discretamente lavrados em flores e rocalhas, +resplandeciam com a mesma lacca nevada: e damascos amorangados estofavam +tambem as cadeiras, brancas, muito amplas, feitas para a lentido de +gulas delicadas, de gulas intellectuaes. + +--Viva o meu Principe! Sim senhor... Eis aqui um comedoiro muito +comprehensivel e muito repousante, Jacintho! + +--Ento janta, homem! + +Mas j eu me comeava a inquietar, reparando que a cada talher +correspondiam seis garfos, e todos de feitios astuciosos. E mais me +impressionei quando Jacintho me desvendou que um era para as ostras, +outro para o peixe, outro para as carnes, outro para os legumes, outro +para as fructas, outro para o queijo! Simultaneamente, com uma +sobriedade que louvaria Salomo, s dois copos, para dois vinhos:--um +Bordeus rosado em infusas de crystal, e Champagne gelando dentro de +baldes de prata. Todo um aparador porm vergava, sob o luxo redundante, +quasi assustador d'aguas--aguas oxigenadas, aguas carbonatadas, aguas +phosphatadas, aguas esterilisadas, aguas de saes, outras ainda, em +garrafas bojudas, com tratados therapeuticos impressos em rotulos. + +--Santissimo nome de Deus, Jacintho! Ento s ainda o mesmo tremendo +bebedor d'agua, hein?... _Un aquatico_! como dizia o nosso poeta +chileno, que andava a traduzir Klopstock. + +Elle derramou, por sobre toda aquella garrafaria encarapuada em metal, +um olhar desconsolado: + +--No... por causa das aguas da Cidade, contaminadas, atulhadas de +microbios... Mas ainda no encontrei uma ba agua que me convenha, que +me satisfaa... At soffro sde. + +Desejei ento conhecer o jantar do Psychologo e do Symbolista--traado, +ao lado dos talheres, em tinta vermelha, sobre laminas de marfim. +Comeava honradamente por ostras classicas, de Marennes. Depois +apparecia uma sopa d'alcachofras e ovas de carpa... + +-- bom? + +Jacintho encolheu desinteressadamente os hombros: + +--Sim... Eu no tenho nunca appetite, j ha tempos... J ha annos. + +Do outro prato s comprehendi que continha frangos e tubaras. Depois +saboreariam aquelles senhores um filete de veado, macerado em Xerez, com +gela de noz. E por sobremeza simplesmente laranjas geladas em ether. + +--Em ether, Jacintho? + +O meu amigo hesitou, esboou com os dedos a ondulao d'um aroma que +s'evola. + +-- novo... Parece que o ether desenvolve, faz afflorar a alma das +fructas... + +Curvei a cabea ignara, murmurei nas minhas profundidades: + +--Eis a Civilisao! + +E, descendo os Campos Elyseos, encolhido no paletot, a cogitar n'este +prato symbolico, considerava a rudeza e atolado atrazo da minha Guies, +onde desde seculos a alma das laranjas permanece ignorada e +desaproveitada dentro dos gomos sumarentos, por todos aquelles pomares +que ensombram e perfumam o valle, da Roqueirinha a Sandofim! Agora +porm, bemdito Deus, na convivencia de um to grande iniciado como +Jacintho, eu comprehenderia todas as finuras e todos os poderes da +Civilisao. + +E, (melhor ainda para a minha ternura!) contemplaria a raridade d'um +homem que, concebendo uma ida da Vida, a realisa--e atravs d'ella e +por ella recolhe a felicidade perfeita. + +Bem se affirmra este Jacintho, na verdade, como Principe da +Gran-Ventura! + + + + +III + + +No 202, todas as manhs, s nove horas, depois do meu chocolate e ainda +em chinelas, penetrava no quarto de Jacintho. Encontrava o meu amigo +banhado, barbeado, friccionado, envolto n'um roupo branco de pello de +cabra do Thibet, diante da sua mesa de toilette, toda de crystal, (por +causa dos microbios) e atulhada com esses utensilios de tartaruga, +marfim, prata, ao e madreperola que o homem do seculo XIX necessita +para no desfeiar o conjuncto sumptuario da Civilisao e manter n'ella +o seu Typo. As escovas sobretudo renovavam, cada dia, o meu regalo e o +meu espanto--porque as havia largas como a roda massia d'um carro +sabino; estreitas e mais recurvas que o alfange d'um mouro; concavas, em +frma de telha alde; ponteagudas em feitio de folha de hera; rijas que +nem cerdas de javali; macias que nem pennugem de rla! De todas, +fielmente, como amo que no desdenha nenhum servo, se utilisava o meu +Jacintho. E assim, em face ao espelho emmoldurado de folhedos de prata, +permanecia este Principe passando pellos sobre o seu pello durante +quatorze minutos. + +No emtanto o Grillo e outro escudeiro, por traz dos biombos de Kioto, de +sedas lavradas, manobravam, com pericia e vigor, os apparelhos do +lavatorio--que era apenas um resumo das machinas monumentaes da Sala de +Banho, a mais estremada maravilha do 202. N'estes marmores simplificados +existiam unicamente dois jactos graduados desde _zero_ at _cem_; as +duas duchas, fina e grossa, para a cabea; a fonte esterilisada para os +dentes; o repuxo borbulhante para a barba; e ainda botes discretos, +que, roados, desencadeavam esguichos, cascatas cantantes, ou um leve +orvalho estival. D'esse recanto temeroso, onde delgados tubos mantinham +em disciplina e servido tantas aguas ferventes, tantas aguas violentas, +sahia emfim o meu Jacintho enxugando as mos a uma toalha de felpo, a +uma toalha de linho, a outra de corda entranada para restabelecer a +circulao, a outra de sda frouxa para repolir a pelle. Depois d'este +rito derradeiro que lhe arrancava ora um suspiro, ora um bocejo, +Jacintho, estendido n'um divan, folheava uma Agenda, onde se arrolavam, +inscriptas pelo Grillo ou por elle, as occupaes do seu dia, to +numerosas por vezes que cobriam duas laudas. + +Todas ellas se prendiam sua sociabilidade, sua civilisao muito +complexa, ou a interesses que o meu Principe, n'esses sete annos, crera +para viver em mais consciente communho com todas as funces da Cidade. +(Jacintho com effeito era presidente do Club da _Espada e Alvo_; +commanditario do Jornal o _Boulevard_; director da _Companhia dos +Telephones de Constantinopla_; socio dos _Bazares unidos da Arte +Espiritualista_; membro do _Comit de Iniciao das Religies +Esotericas_, etc.) Nenhuma d'estas occupaes parecia porm aprazivel ao +meu amigo--porque, apesar da mansido e harmonia dos seus modos, +frequentemente arremessava para o tapete, n'uma rebellio de homem +livre, aquella Agenda que o escravisava. E n'uma d'essas manhs (de +vento e neve), apanhando eu o livro oppressivo, encadernado em pellica, +de um carinhoso tom de rosa murcha--descobri que o meu Jacintho devia +depois do almoo fazer uma visita na rua da Universidade, outra no +Parque Monceau, outra entre os arvoredos remotos da Muette; assistir por +fidelidade a uma votao no Club; acompanhar Madame d'Oriol a uma +exposio de leques; escolher um presente de noivado para a sobrinha dos +Trves; comparecer no funeral do velho conde de Malville; presidir um +tribunal de honra n'uma questo de roubalheira, entre cavalheiros, ao +ecart... E ainda se acavallavam outras indicaes, escrivinhadas por +Jacintho a lapis:--Carroceiro--Five-oclock dos Ephrains--A pequena das +_Variedades_--Levar a nota ao jornal... Considerei o meu Principe. +Estirado no divan, d'olhos miserrimamente cerrados, bocejava, n'um +bocejo immenso e mudo. + +Mas os affazeres de Jacintho comeavam logo no 202, cedo, depois do +banho. Desde as oito horas a campainha do telephone repicava por elle, +com impaciencia, quasi com colera, como por um escravo tardio. E mal +enxugado, dentro do seu roupo de pello de cabra do Thibet ou de grossas +pyjamas de pelucia cr d'ouro-velho, constantemente sahia ao corredor a +cochichar com sujeitos to apressados, que conservavam na mo o +guarda-chuva pingando sobre o tapete. Um d'esses, sempre presente (e que +pertencia decerto aos _Telephones de Constantinopla_), era +temeroso--todo elle chupado, tisnado, com maus dentes, sobraando uma +enorme pasta sebenta, e dardejando, d'entre a alta gola d'uma pelissa +poida, como da abertura d'um covil, dous olhinhos trvos e de rapina. +Sem cessar, inexoravelmente, um escudeiro apparecia, com bilhetes n'uma +salva... Depois eram fornecedores d'Industria e d'Arte; negociantes de +cavallos, rubicundos e de paletot branco; inventores com grossos rolos +de papel; alfarrabistas trazendo na algibeira uma edio unica, quasi +inverosimil, de Ulrich Zell ou do _Lapidanus_. Jacintho circulava +estonteado pelo 202, rabiscando a carteira, repicando o telephone, +desatando nervosamente pacotes, sacudindo ao passar algum embuscado que +surdia das sombras da antecamara, estendia como um trabuco o seu +memorial ou o seu catalogo! + +Ao meio dia, um tam-tam argentino e melancholico ressoava, chamando ao +almoo. Com o _Figaro_ ou as _Novidades_ abertas sobre o prato, eu +esperava sempre meia hora pelo meu Principe, que entrava n'uma rajada, +consultando o relogio, exhalando com a face moda o seu queixume eterno: + +--Que massada! E depois uma noite abominavel, enrodilhada em sonhos... +Tomei sulforal, chamei o Grillo para me esfregar com therebentina... Uma +scca! + +Espalhava pela mesa um olhar j farto. Nenhum prato, por mais engenhoso, +o seduzia;--e, como atravs do seu tumulto matinal fumava incontaveis +cigarretes que o resequiam, comeava por se encharcar com um immenso +copo d'agua oxygenada, ou carbonatada, ou gazoza, misturada d'um cognac +raro, muito caro, horrendamente adocicado, de moscatel de Syracusa. +Depois, pressa, sem gosto, com a ponta incerta do garfo, picava aqui e +alm uma lasca de fiambre, uma febra de lagosta;--e reclamava +impacientemente o caf, um caf de Moka, mandado cada mez por um feitor +do Dedjah, fervido turca, muito espesso, que elle remexia com um pau +de canella! + +--E tu, Z Fernandes, que vaes tu fazer? + +--Eu? + +Recostado na cadeira, com delicias, os dedos mettidos nas cavas do +collete: + +--Vou vadiar, regaladamente, como um co natural! + +O meu sollicito amigo, remexendo o caf com o pau de canella, rebuscava +atravs da numerosa Civilisao da Cidade uma occupao que me +encantasse. Mas apenas suggeria uma Exposio, ou uma Conferencia, ou +monumentos, ou passeios, logo encolhia os hombros desconsolados: + +--Por fim nem vale a pena, uma scca! + +Accendia outra das cigarretes russas, onde rebrilhava o seu nome, +impresso a ouro na mortalha. Torcendo, n'uma pressa nervosa, os fios do +bigode, ainda escutava, porta da Bibliotheca, o seu procurador, o +nedio e magestoso Laporte. E emfim, seguido d'um criado, que sobraava +um mao tremendo de jornaes para lhe abastecer o coup, o Principe da +Gran-Ventura mergulhava na Cidade. + + * * * * * + +Quando o dia social de Jacintho se apresentava mais desafogado, e o co +de Maro nos concedia caridosamente um pouco de azul agoado, sahiamos +depois d'almoo, a p, atravs de Paris. Estes lentos e errantes +passeios eram outr'ora, na nossa edade de Estudantes, um gozo muito +querido de Jacintho--porque n'elles mais intensamente e mais +minuciosamente saboreava a Cidade. Agora porm, apesar da minha +companhia, s lhe davam uma impaciencia e uma fadiga que desoladoramente +destoava do antigo, illuminado extasi. Com espanto (mesmo com dr, +porque sou bom, e sempre me entristece o desmoronar d'uma crena) +descobri eu, na primeira tarde em que descemos aos Boulevards, que o +denso formigueiro humano sobre o asphalto, e a torrente sombria dos +trens sobre o macadam, affligiam o meu amigo pela brutalidade da sua +pressa, do seu egoismo, e do seu estridor. Encostado e como refugiado no +meu brao, este Jacintho novo comeou a lamentar que as ruas, na nossa +Civilisao, no fossem caladas de gutta-percha! E a gutta-percha +claramente representava, para o meu amigo, a substancia discreta que +amortece o choque e a rudeza das cousas. Oh maravilha! Jacintho querendo +borracha, a borracha isoladora, entre a sua sensibilidade e as funces +da Cidade! Depois, nem me permittiu pasmar diante d'aquellas dourejadas +e espelhadas lojas que elle outr'ora considerava como os preciosos +museus do seculo XIX... + +--No vale a pena, Z Fernandes. Ha uma immensa pobreza e seccura +d'inveno! Sempre os mesmos flores Luiz XV, sempre as mesmas +pelucias... No vale a pena! + +Eu arregalava os olhos para este transformado Jacintho. E sobretudo me +impressionava o seu horror pela Multido--por certos effeitos da +Multido, s para elle sensiveis, e a que chamava os sulcos. + +--Tu no os sentes, Z Fernandes. Vens das serras... Pois constituem o +rijo inconveniente das Cidades, estes sulcos! um perfume muito agudo e +petulante que uma mulher larga ao passar, e se installa no olfacto, e +estraga para todo o dia o ar respiravel. um dito que se surprehende +n'um grupo, que revela um mundo de velhacaria, ou de pedantismo, ou de +estupidez, e que nos fica collado alma, como um salpico, lembrando a +immensidade da lama a atravessar. Ou ento, meu filho, uma figura +intoleravel pela preteno, ou pelo mau-gosto, ou pela impertinencia, ou +pela rellice, ou pela dureza, e de que se no pde sacudir mais a viso +repulsiva... Um pavor, estes sulcos, Z Fernandes! De resto, que diabo, +so as pequeninas miserias d'uma Civilisao deliciosa! + +Tudo isto era especioso, talvez pueril--mas para mim revelava, n'aquelle +chamejante devoto da Cidade, o arrefecimento da devoo. N'essa mesma +tarde, se bem recordo, sob uma luz macia e fina, penetramos nos centros +de Paris, nas ruas longas, nas milhas de casario, todo de calia parda, +erriado de chamins de lata negra, com as janellas sempre fechadas, as +cortininhas sempre corridas, abafando, escondendo a vida. S tijolo, s +ferro, s argamassa, s estuque: linhas hirtas, angulos asperos: tudo +secco, tudo rigido. E dos chos aos telhados, por toda a fachada, +tapando as varandas, comendo os muros, Taboletas, Taboletas... + +--Oh, este Paris, Jacintho, este teu Paris! Que enorme, que grosseiro +bazar! + +E, mais para sondar o meu Principe do que por persuaso, insisti na +fealdade e tristeza d'estes predios, duros armazens, cujos andares so +prateleiras onde se apilha humanidade! E uma humanidade impiedosamente +catalogada e arrumada! A mais vistosa e de luxo nas prateleiras baixas, +bem envernisadas. A relles e de trabalho nos altos, nos desvos, sobre +pranchas de pinho n, entre o p e a traa... + +Jacintho murmurou, com a face arripiada: + +-- feio, muito feio! + +E accudiu logo, sacudindo no ar a luva de anta: + +--Mas que maravilhoso organismo, Z Fernandes! Que solidez! Que +produco! + +Onde Jacintho me parecia mais renegado era na sua antiga e quasi +religiosa affeio pelo Bosque de Bolonha. Quando moo, elle construira +sobre o Bosque theorias complicadas e consideraveis. E sustentava, com +olhos rutilantes de fanatico, que no Bosque a Cidade cada tarde ia +retemperar salutarmente a sua fora, recebendo, pela presena das suas +Duquezas, das suas Cortezs, dos seus Politicos, dos seus Financeiros, +dos seus Generaes, dos seus Academicos, dos seus Artistas, dos seus +Clubistas, dos seus Judeus, a certeza consoladora de que todo o seu +pessoal se mantinha em numero, em vitalidade, em funco, e que nenhum +elemento da sua grandeza desapparecera ou deperecera! Ir ao Bois +constituia ento para o meu Principe um acto de consciencia. E voltava +sempre confirmando com orgulho que a Cidade possuia todos os seus +astros, garantindo a eternidade da sua luz! + +Agora, porm, era sem fervor, arrastadamente, que elle me levava ao +Bosque, onde eu, aproveitando a clemencia d'Abril, tentava enganar a +minha saudade d'arvoredos. Emquanto subiamos, ao trote nobre das suas +egoas lustrosas, a Avenida dos Campos-Elyseos e a do Bosque, +rejuvenescidas pelas relvas tenras e fresco verdejar dos rebentos, +Jacintho, soprando o fumo da cigarrete pelas vidraas abertas do coup, +permanecia o bom camarada, de veia amavel, com quem era doce philosophar +atravs de Paris. Mas logo que passavamos as grades douradas do Bosque, +e penetravamos na Avenida das Acacias, e enfiavamos na lenta fila dos +trens de luxo e de praa, sob o silencio decoroso, apenas cortado pelo +tilintar dos freios e pelas rodas vagarosas esmagando a areia,--o meu +Principe emmudecia, mollemente engilhado no fundo das almofadas, d'onde +s despegava a face para escancarar bocejos de fartura. Pelo antigo +habito de verificar a presena confortadora do pessoal, dos astros, +ainda, por vezes, apontava para algum coup ou vittoria rodando com +rodar rangente n'outra arrastada fila--e murmurava um nome. E assim fui +conhecendo a encaracolada barba hebraica do banqueiro Ephraim; e o longo +nariz patricio de Madame de Trves abrigando um sorriso perenne; e as +bochechas flacidas do poeta neo-platonico Dornan, sempre espapado no +fundo de fiacres; e os longos bands pre-raphaelitas e negros de Madame +Verghane; e o monoculo defumado do director do _Boulevard_; e o +bigodinho vencedor do Duque de Marizac, reinando de cima do seu phaeton +de guerra; e ainda outros sorrisos immoveis, e barbichas Renascena, e +palpebras amortecidas, e olhos farejantes, e pelles empoadas d'arroz, +que eram todas illustres e da intimidade do meu Principe. Mas, do topo +da Avenida das Acacias, recomeavamos a descer, em passo sopeado, +esmagando lentamente a areia; na fila vagarosa que subia, calhambeque +atraz de landau, vittoria atraz de fiacre, fatalmente reviamos o +binoculo sombrio do homem do _Boulevard_, e os bands furiosamente +negros de Madame Verghane, e o ventre espapado do neo-platonico, e a +barba talmudica, e todas aquellas figuras, d'uma immobilidade de cera, +super-conhecidas do meu camarada, recruzadas cada tarde atravs de +revividos annos, sempre com os mesmos sorrisos, sob o mesmo p d'arroz, +na mesma immobilidade de cera; ento Jacintho no se continha, gritava +ao cocheiro: + +--Para casa, depressa! + +E era pela Avenida do Bosque, pelos Campos-Elyseos, uma fuga ardente das +egoas a quem a lentido sopeada, n'um roer de freios, entre outras egoas +tambem d'ellas super-conhecidas, lanavam n'uma exasperao comparavel +de Jacintho. + +Para o sondar eu denegria o Bosque: + +--J no to divertido, perdeu o brilho!... + +Elle acudia, timidamente: + +--No, agradavel, no ha nada mais agradavel; mas... + +E accusava a friagem das tardes ou o despotismo dos seus affazeres. +Recolhiamos ento ao 202, onde, com effeito, em breve embrulhado no seu +roupo branco, diante da mesa de crystal, entre a legio das escovas, +com toda a electricidade refulgindo, o meu Principe se comeava a +adornar para o servio social da noite. + +E foi justamente numa d'essas noites (um sabado) que ns passamos, +n'aquelle quarto to civilisado e protegido, por um d'esses brutos e +revoltos terrores como s os produz a ferocidade dos Elementos. J +tarde, pressa (jantavamos com Marizac no Club para o acompanhar depois +ao _Lohengrin_ na Opera) Jacintho arrocheava o n da gravata +branca--quando no lavatorio, ou porque se rompesse o tubo, ou se +dessoldasse a torneira, o jacto d'agua a ferver rebentou furiosamente, +fumegando e silvando. Uma nevoa densa de vapor quente abafou as +luzes--e, perdidos n'ella, sentiamos, por entre os gritos do escudeiro e +do Grillo, o jorro devastador batendo os muros, esparrinhando uma chuva +que escaldava. Sob os ps o tapete ensopado era uma lama ardente. E como +se todas as foras da natureza, submettidas ao servio de Jacintho, se +agitassem, animadas por aquella rebellio da agua--ouvimos roncos surdos +no interior das paredes, e pelos fios dos lumes electricos sulcaram +faiscas ameaadoras! Eu fugira para o corredor, onde se alargava a nevoa +grossa. Por todo o 202 ia um tumulto de desastre. Diante do porto, +attrahidas pela fumarada que se escapava das janellas, estacionava +policia, uma multido. E na escada esbarrei com um reporter, de chapo +para a nuca, a carteira aberta, gritando sofregamente se havia mortos? + +Domada a agua, clareada a bruma, vim encontrar Jacintho no meio do +quarto, em ceroulas, livido: + +--Oh Z Fernandes, esta nossa industria!... Que impotencia, que +impotencia! Pela segunda vez, este desastre! E agora, apparelhos +perfeitos, um processo novo... + +--E eu encharcado por esse processo novo! E sem outra casaca! + +Em redor, as nobres sdas bordadas, os brocateis Luiz XIII, cobertos de +manchas negras, fumegavam. O meu Principe, enfiado, enchugava uma +photographia de Madame d'Oriol, d'hombros decotados, que o jorro bruto +maculra d'empolas. E eu, com rancor, pensava que na minha Guies a agua +aquecia em seguras panellas--e subia ao meu lavatorio, pela mo forte da +Catharina, em seguras infusas! No jantamos com o duque de Marizac, no +Club. E, na Opera, nem saboreei Lohengrin e a sua branca alma e o seu +branco cysne e as suas brancas armas--entallado, aperreado, cortado nos +sovacos pela casaca que Jacintho me emprestra e que rescendia +estonteadoramente a flores de Nessari. + + * * * * * + +No domingo, muito cedo, o Grillo, que na vspera escaldra as mos e as +trazia embrulhadas em sda, penetrou no meu quarto, descerrou as +cortinas, e beira do leito, com o seu radiante sorriso de preto: + +--Vem no _Figaro_! + +Desdobrou triumphalmente o jornal. Eram, nos _Echos_, doze linhas, onde +as nossas aguas rugiam e espadavam, com tanta magnificencia e tanta +publicidade, que tambem sorr, deleitado. + +--E toda a manh, o telephone, si Fernandes! exclamava o Grillo, +rebrilhando em ebano. A quererem saber, a quererem saber... Est l? +Est escaldado? Paris afflicto, si Fernandes! + +O telephone, com effeito, repicava, insaciavel. E quando desci para o +almoo, a toalha desapparecia sob uma camada de telegrammas, que o meu +Principe fendia com a faca, enrugado, rosnando contra a massada. S +desannuviou, ao ler um d'esses papeis azues, que atirou para cima do meu +prato, com o mesmo sorriso agradado com que de manh sorriramos, o +Grillo e eu: + +-- do Gran-Duque Casimiro... Rato amavel! Coitado! + +Saboreei, atravs dos ovos, o telegramma de S. Alteza. O que! o meu +Jacintho inundado! Muito chic, nos Campos-Elyseos! No volto ao 202 sem +boia de salvao! Compassivo abrao! Casimiro... Murmurei tambem com +deferencia:--Amavel! Coitado! Depois, revolvendo lentamente o monto +de telegrammas que se alastrava at ao meu copo: + +--Oh Jacintho! Quem esta Diana que incessantemente te escreve, te +telephona, te telegrapha, te...? + +--Diana?... Diana de Lorge. uma cocotte. uma grande cocotte! + +--Tua? + +--Minha, minha... No! tenho um bocado. + +E como eu lamentava que o meu Principe, senhor to rico e de to fino +orgulho, por economia d'uma gamella propria chafurdasse com outros n'uma +gamella publica--Jacintho levantou os hombros, com um camaro espetado +no garfo: + +--Tu vens das serras... Uma cidade como Paris, Z Fernandes, precisa ter +cortezs de grande pompa e grande fausto. Ora para montar em Paris, +n'esta tremenda carestia de Paris, uma cocotte com os seus vestidos, os +seus diamantes, os seus cavallos, os seus lacaios, os seus camarotes, as +suas festas, o seu palacete, a sua publicidade, a sua insolencia, +necessario que se aggremiem umas poucas de fortunas, se forme um +syndicato! Somos uns sete, no Club. Eu pago um bocado... Mas meramente +por Civismo, para dotar a cidade com uma cocotte monumental. De resto +no chafurdo. Pobre Diana!... Dos hombros para baixo nem sei se tem a +pelle cr de neve ou cr de limo. + +Arregalei um olho divertido: + +--Dos hombros para baixo?... E para cima? + +--Oh para cima tem p d'arroz!... Mas uma scca! Sempre bilhetes, +sempre telephones, sempre telegrammas. E tres mil francos por mez, alm +das flores... Uma massada! + +E as duas rugas do meu Principe, aos lados do seu afilado nariz, curvado +sobre a salada, eram como dous valles muito tristes, ao entardecer. + +Acabavamos o almoo, quando um escudeiro, muito discretamente, n'um +murmurio, annunciou Madame d'Oriol. Jacintho pousou com tranquillidade o +charuto; eu quasi me engasguei, n'um sorvo alvoroado de caf. Entre os +reposteiros de damasco cr de morango ella appareceu, toda de negro, +d'um negro liso e austero de Semana Santa, lanando com o regalo um +lindo gesto para nos socegar. E immediatamente, n'uma volubilidade +docemente chalrada: + +-- um momento, nem se levantem! Passei, ia para a Magdalena, no me +contive, quiz vr os estragos... Uma inundao em Paris, nos +Campos-Elyseos! No ha seno este Jacintho. E vem no _Figaro!_ O que eu +estava assustada, quando telephonei! Imaginem! Agua a ferver, como no +Vesuvio... Mas d'uma novidade! E os estofos perdidos, naturalmente, os +tapetes... Estou morrendo por admirar as ruinas! + +Jacintho, que no me pareceu commovido, nem agradecido com aquelle +interesse, retomra risonhamente o charuto: + +--Est tudo secco, minha querida senhora, tudo secco! A belleza foi +hontem, quando a agua fumegava e rugia! Ora que pena no ter ao menos +cahido uma parede! + +Mas ella insistia. Nem todos os dias se gozavam em Paris os destroos +d'uma inundao. O _Figaro_ contra... E era uma aventura deliciosa, uma +casa escaldada nos Campos-Elyseos! + +Toda a sua pessoa, desde as plumasinhas que frisavam no chapo at +ponta reluzente das botinas de verniz, se agitava, vibrava, como um ramo +tenro sob o bolio do passaro a chalrar. S o sorriso, por traz do vo +espesso, conservava um brilho immovel. E j no ar se espalhra um aroma, +uma doura, emanadas de toda a sua mobilidade e de toda a sua graa. + +Jacintho no emtanto cedera, alegremente: e pelo corredor Madame d'Oriol +ainda louvava o _Figaro_ amavel, e confessava quanto tremera... Eu +voltei ao meu caf, felicitando mentalmente o Principe da Gran-Ventura +por aquella perfeita flr de Civilisao que lhe perfumava a vida. +Pensei ento na apurada harmonia em que se movia essa flr. E corri +vivamente ante-camara, verificar diante do espelho o meu penteado e o +n da minha gravata. Depois recolhi sala de jantar, e junto da +janella, folheando languidamente a _Revista do Seculo XIX_, tomei uma +attitude de elegancia e d'alta cultura. Quasi immediatamente elles +reappareceram: e Madame d'Oriol, que, sempre sorrindo, se proclamava +espoliada, nada encontrra que recordasse as agoas furiosas, roou pela +mesa, onde Jacintho procurava, para lhe offerecer, tangerinas de Malta, +ou castanhas geladas, ou um biscouto molhado em vinho de Tokai. + +Ella recusava com as mos guardadas no regalo. No era alta, nem +forte--mas cada prega do vestido, ou curva da capa, cahia e ondulava +harmoniosamente, como perfeies recobrindo perfeies. Sob o vo +cerrado, apenas percebi a brancura da face empoada, e a escurido dos +olhos largos. E com aquellas sdas e velludos negros, e um pouco do +cabello louro, d'um louro quente, torcido fortemente sobre as pelles +negras que lhe orlavam o pescoo, toda ella derramava uma sensao de +macio e de fino. Eu teimosamente a considerava como uma flr de +Civilisao:--e pensava no secular trabalho e na cultura superior que +necessitra o terreno onde ella to delicadamente brotra, j +desabrochada, em pleno perfume, mais graciosa por ser flr d'esforo e +d'estufa, e trazendo nas suas ptalas um no sei qu de desbotado e de +ante-murcho. + +No emtanto, com a sua volubilidade de passaro, chalrando para mim, +chalrando para Jacintho, ella mostrava o seu lindo espanto por aquelle +monto de telegrammas sobre a toalha. + +--Tudo esta manh, por causa da inundao?... Ah, Jacintho hoje o +homem, o unico homem de Paris! Muitas mulheres n'esses telegrammas? + +Languidamente, com o charuto a fumegar, o meu Principe empurrou para a +sua amiga o telegramma do Gran-duque. Ento Madame d'Oriol teve um _ah!_ +muito grave e muito sentido. Releu profundamente o papel de S. A. que os +seus dedos acariciavam com uma reverencia gulosa. E sempre grave, sempre +sria: + +-- brilhante! + +Oh, certamente! n'aquelle desastre tudo se passra com muito brilho, +n'um tom muito Parisiense. E a deliciosa creatura no se podia demorar, +porque fizera marcar um logar na egreja da Magdalena para o sermo! + +Jacintho exclamou com innocencia: + +--Sermo?... j a estao dos sermes? + +Madame d'Oriol teve um movimento de carinhoso escandalo e dr. O qu! +pois nem na austera casa dos Trves dera pela entrada da quaresma? De +resto no se admirava--Jacintho era um turco! E, immediatamente celebrou +o prgador, um frade dominicano, o Pre Granon! Oh d'uma eloquencia! +d'uma violencia! No derradeiro sermo prgara sobre o amor, a +fragilidade dos amores mundanos! E tivera coisas d'uma inspirao, d'uma +brutalidade! Depois que gesto, um gesto terrivel que esmagava, em que se +lhe arregaava toda a manga, mostrando o brao n, um brao soberbo, +muito branco, muito forte! + +O seu sorriso permanecia claro sob o olhar que negrejra dentro do vo +negro. E Jacintho, rindo: + +--Um bom brao de director espiritual, hein? Para vergar, espancar +almas... + +Ella acudiu: + +--No! infelizmente o Pre Granon no confessa! + +E de repente reconsiderou--aceitava um biscouto, um clice de Tokai. Era +necessario um cordial para affrontar as emoes do Pre Granon! Ambos +nos precipitramos, um arrebatando a garrafa, outro offerecendo o prato +de bonbons. Franzio o vo para os olhos, chupou pressa um bolo que +ensopra no Tokai. E como Jacintho, reparando casualmente no chapo que +ella trazia, se curvra com curiosidade, impressionado, Madame d'Oriol +apagou o sorriso, toda seria, ante uma cousa seria: + +--Elegante, no verdade?... uma creao inteiramente nova de Madame +Vial. Muito respeitoso, e muito suggestivo, agora na Quaresma. + +O seu olhar, que me envolvera, tambem me convidava a admirar. Approximei +o meu focinho de homem das serras para contemplar essa creao suprema +do luxo de Quaresma. E era maravilhoso! Sobre o velludo, na sombra das +plumas frizadas, aninhada entre rendas, fixada por um prgo, pousava +delicadamente, feita de azeviche, uma Cora de Espinhos! + +Ambos nos extasiamos. E Madame d'Oriol, n'um movimento e n'um sorriso +que derramou mais aroma e mais claridade, abalou para a Magdalena. + +O meu Principe arrastou pelo tapete alguns passos pensativos e molles. E +bruscamente, levantando os hombros com uma determinao immensa, como se +deslocasse um mundo: + +--Oh Z Fernandes, vamos passar este Domingo n'alguma cousa simples e +natural... + +--Em qu? + +Jacintho circumgirou os olhares muito abertos, como se, atravez da Vida +Universal, procurasse anciosamente uma cousa natural e simples. Depois, +descanando sobre mim os mesmos largos olhos que voltavam de muito +longe, canados e com pouca esperana: + +--Vamos ao Jardim das Plantas, vr a girafa! + + + + +IV + + +N'essa fecunda semana, uma noite, recolhiamos ambos da Opera, quando +Jacintho, bocejando, me annunciou uma festa no 202. + +--Uma festa?... + +--Por causa do Gran-Duque, coitado, que me vai mandar um peixe delicioso +e muito raro que se pesca na Dalmacia. Eu queria um almoo curto. O +Gran-Duque reclamou uma ceia. um barbaro, besuntado com litteratura do +seculo XVIII, que ainda acredita em ceias, em Paris! Reuno no domingo +tres ou quatro mulheres, e uns dez homens bem typicos, para o divertir. +Tambem aproveitas. Folheias Paris n'um resumo... Mas uma massada +amarga! + +Sem interesse pela sua festa, Jacintho no se affadigou em a compr com +relevo ou brilho. Encommendou apenas uma orchestra de Tziganes (os +Tziganes, as suas jalecas escarlates, a melancolia aspera das Czardas +ainda n'esses tempos remotos emocionavam Paris): e mandou, na +Bibliotheca, ligar o Theatrophone com a Opera, com a Comedia-Franceza, +com o Alcazar e com os Buffos, prevendo todos os gostos desde o tragico +at ao picaro. Depois no domingo, ao entardecer, ambos visitamos a mesa +da ceia, que resplandecia com as velhas baixellas de D. Galio. E a +faustosa profuso de orchideas, em longas sylvas por sobre a toalha +bordada a sda, enroladas aos fructeiros de Saxe, trasbordando de +crystaes lavrados e filagranados d'ouro, espalhava uma to fina sensao +de luxo e gosto, que eu murmurei:--Caramba, bemdito, seja o dinheiro! +Pela primeira vez, tambem, admirei a copa e a sua installao abundante +e minuciosa--sobretudo os dois ascensores que rolavam das profundidades +da cozinha, um para os peixes e carnes aquecido por tubos d'agua +fervente, o outro para as saladas e gelados revestido de placas +frigorificas. Oh, este 202! + +s nove horas, porm, descendo eu ao gabinete de Jacintho para escrever +a minha boa tia Vicencia, em quanto elle ficra no toucador com o +mancuro que lhe polia as unhas, passamos n'esse delicioso palacio, +florido e em gala, por bem corriqueiro susto! Todos os lumes electricos, +subitamente, em todo o 202, se apagaram! Na minha immensa desconfiana +d'aquellas foras universaes, pulei logo para a porta, tropeando nas +trevas, ganindo um _Aqui d'Elrei_! que tresandava a Guies. Jacintho em +cima berrava, com o mancuro agarrado s pyjamas. E de novo, como serva +ralassa que recolhe arrastando as chinellas, a luz resurgiu com +lentido. Mas o meu Principe, que descera, enfiado, mandou buscar um +engenheiro Companhia Central da Electricidade Domestica. Por precauo +outro creado correu mercearia comprar pacotes de velas. E o Grillo +desenterrava j dos armarios os candelabros abandonados, os pesados +castiaes archaicos dos tempos inscientificos de D. Galio: era uma +reserva de veteranos fortes, para o caso pavoroso em que mais tarde, +ceia, falhassem perfidamente as foras bisonhas da Civilisao. O +Electricista, que acudira esbaforido, afianou porm que a Electricidade +se conservaria fiel, sem outro amuo. Eu, cautelosamente, soneguei na +algibeira dous ctos de estearina. + +A Electricidade permaneceu fiel, sem amuos. E quando desci do meu +quarto, tarde (porque perdera o collete de baile e s depois d'uma busca +furiosa e praguejada o encontrei cahido por traz da cama!), todo o 202 +refulgia, e os Tziganes, na antecamara, sacudindo as guedelhas, atiravam +as arcadas d'uma valsa to arrastadora que, pelas paredes, os immensos +Personagens das tapearias, Priamo, Nestor, o engenhoso Ulysses, +arfavam, boliam com os ps venerandos! + +Timidamente, sem rumor, puxando os punhos, penetrei no gabinete de +Jacintho. E fui logo acolhido pelo sorriso da condessa de Treves, que, +acompanhada pelo illustre historiador Danjon (da Academia Franceza), +percorria maravilhada os Apparelhos, os Instrumentos, toda a sumptuosa +Mechanica do meu super-civilisado Principe. Nunca ella me parecera mais +magestosa do que n'aquellas sdas cr de aafro, com rendas cruzadas no +peito Maria-Antonietta, o cabello crespo e ruivo levantado em rolo +sobre a testa dominadora, e o curvo nariz patricio, abrigando o sorriso +sempre luzidio, sempre corrente, como um arco abriga o correr e o luzir +d'um regato. Direita como n'um solio, a longa luneta de tartaruga +acercada dos olhos miudos e turvamente azulados, ella escutava deante do +Graphophono, depois deante do Microphono, como melodias superiores, os +commentarios que o meu Jacintho ia atabalhoando com uma amabilidade +penosa. E ante cada roda, cada mola, eram pasmos, louvores finamente +torneados, em que attribuia a Jacintho, com astuta candura, todas +aquellas invenes do Saber! Os utensilios misteriosos que atulhavam a +mesa d'ebano foram para ella uma iniciao que a enlevou. Oh, o +numerador de paginas! oh, o collador d'estampilhas! A caricia +demorada dos seus dedos seccos aquecia os metaes. E supplicava os +endereos dos fabricantes para se prover de todas aquellas utilidades +adoraveis! Como a vida, assim apetrechada, se tornava escorregadia e +facil! Mas era necessario o talento, o gosto de Jacintho, para escolher, +para crear! E no s ao meu amigo (que o recebia com resignao) ella +offertava o fino mel. Affagando com o cabo da luneta o Telegrapho, achou +a possibilidade de recordar a eloquencia do Historiador. Mesmo para mim +(de quem ignorava o nome) arranjou junto do Phonographo, e cerca de +vozes d'amigos que doce colleccionar, uma lisonjasinha redondinha e +lustrosa, que eu chupei como um rebuado celeste. Boa casaleira que vae +atirando o gro aos frangos famintos, a cada passo, maternalmente, ella +nutria uma vaidade. Sofrego d'outro rebuado, acompanhei a sua cauda +sussurrante e cr d'aafro. Ella parra deante da Machina-de-contar, de +que Jacintho j lhe fornecera pacientemente uma explicao sapiente. E +de novo roou os buracos d'onde espreitam os numeros negros, e com o seu +enlevado sorriso murmurou:--Prodigiosa, esta prensa electrica!... + +Jacintho accudiu: + +--No! No! Esta ... + +Mas ella sorria, seguia... Madame de Treves no comprehendera nenhum +apparelho do meu Principe! Madame de Treves no attendera a nenhuma +dissertao do meu Principe! N'aquelle gabinete de sumptuosa Mechanica +ella smente se occupra em exercer, com proveito e com perfeio, a +Arte de Agradar. Toda ella era uma sublime falsidade. No escondi a +Danjon a admirao que me penetrava. + +O facundo Academico revirou os olhos bogalhudos: + +--Oh! e um gsto, uma intelligencia, uma seduco!... E depois como se +janta bem em casa d'ella! Que caf!... Mulher superior, meu caro senhor, +verdadeiramente superior! + +Deslisei para a bibliotheca. Logo entrada da erudita nave, junto da +estante dos Padres da Egreja onde alguns cavalheiros conversavam, parei +a saudar o director do _Boulevard_ e o Psychologo-feminista, o auctor do +_Corao Triple_, com quem na vspera me familiarisra ao almoo, no +202. O seu acolhimento foi paternal: e, como se necessitasse a minha +presena, reteve na sua mo illustre, rutilante de anneis, com fora e +com gula, a minha grossa palma serrana. Todos aquelles senhores, com +effeito, celebravam o seu Romance, a _Couraa_, lanado n'essa semana +entre gritinhos de gzo e um quente rumor de saias alvoroadas. Um +sobretudo, com uma vasta cabea arranjada Van Dick e que parecia +postia, proclamava, alado na ponta das botas, que nunca penetrra to +fundamente, na velha alma humana, a ponta da Psychologia Experimental! +Todos concordavam, se apertavam contra o Psychologo, o tratavam por +mestre. Eu mesmo, que nem sequer entrevira a capa amarella da +_Couraa_, mas para quem elle voltava os olhos pedinches e famintos de +mais mel, murmurei com um leve assobio:--uma delicia! + +E o Psychologo, reluzindo, com o labio humido, entalado n'um alto +collarinho onde se enroscava uma gravata 1830, confessava modestamente +que dissecra todas aquellas almas da _Couraa_ com algum cuidado, +sobre documentos, sobre pedaos de vida ainda quentes, ainda a +sangrar... E foi ento que Marizac, o duque de Marizac, notou, com um +sorriso mais afiado que um lampejo de navalha, e sem tirar as mos dos +bolsos: + +--No emtanto, meu caro, n'esse livro to profundamente estudado ha um +erro bem estranho, bem curioso!... + +O Psychologo, vivamente, atirra a cabea para traz: + +--Um erro? + +Oh, sim, um erro! E bem inesperado n'um mestre to experiente!... Era +attribuir esplendida amorosa da _Couraa_, uma duqueza, e do gosto +mais puro,--_um collete de setim preto_! Esse collete, assim preto, de +setim, apparecia na bella pagina de analyse e paixo em que ella se +despia no quarto de Ruy d'Alize. E Marizac, sempre com as mos nos +bolsos, mais grave, appellava para aquelles senhores. Pois era +verosimil, n'uma mulher como a duqueza, esthetica, pre-raphaelitica, que +se vestia no Doucet, no Paquin, nos costureiros intellectuaes, um +collete de setim preto? + +O Psychologo emmudecera, colhido, trespassado! Marizac era uma to +suprema auctoridade sobre a roupa intima das duquezas, que tarde, em +quartos de rapazes, por impulsos idealistas e anceios d'alma +dolorida--se pem em collete e saia branca!... De resto o director do +_Boulevard_ condemnra logo sem piedade, com uma experiencia firme, +aquelle collete, s possivel n'alguma mercieira atrazada que ainda +procurasse effeitos de carne nedia sobre setim negro. E eu, para que me +no julgassem alheio s coisas dos adulterios ducaes e do luxo, acudi, +mettendo os dedos pelo cabello: + +--Realmente, preto, s se estivesse de lucto pesado, pelo pae! + +O pobre mestre da _Couraa_ succumbira. Era a sua gloria de Doutor em +Elegancias-Femininas desmantelada--e Paris suppondo que elle nunca vira +uma duqueza desatacar o collete na sua alcova de Psychologo! Ento, +passando o leno sobre os labios que a angustia ressequira, confessou o +erro, e contrictamente o attribuiu a uma improvisao tumultuosa: + +--Foi um tom falso, um tom perfeitamente falso que me escapou!... Com +effeito! absurdo, um collete preto!... Mesmo por harmonia com o estado +da alma da duqueza devia ser lilaz, talvez cr de reseda muito +desmaiada, com um frouxo de rendas antigas de Malines... prodigioso +como me escapou! Pois tenho o meu caderno de entrevistas bem annotadas, +bem documentadas!... + +Na sua amargura, terminou por supplicar a Marizac que espalhasse por +toda a parte, no Club, nas salas, a sua confisso. Fra um engano de +artista, que trabalha na febre, vasculhando as almas, perdido nas +profundidades negras das almas! No reparra no collete, confundira os +tons... E gritou, com os braos estendidos para o director do +_Boulevard_: + +--Estou prompto a fazer uma rectificao, n'uma _interview_, meu caro +mestre! Mande um dos seus redactores... manh, s dez horas! Fazemos +uma _interview_, fixamos a cr. Evidentemente lilaz... Mande um dos +seus homens, meu caro mestre! tambem uma occasio para eu confessar, +bem alto, os servios que o _Boulevard_ tem feito s sciencias +psychologicas e feministas! + +Assim elle supplicava, encostado estante, s lombadas dos Santos +Padres. E eu abalei, vendo ao fundo da Bibliotheca Jacintho que se +debatia e se recusava entre dous homens. + +Eram os dois homens de Madame de Treves--o marido, conde de Treves, +descendente dos reis de Candia, e o amante, o terrivel banqueiro judeu, +David Ephraim. E to enfronhadamente assaltavam o meu Principe que nem +me reconheceram, ambos n'um aperto de mo molle e vago me trataram por +caro conde! N'um relance, rebuscando charutos sobre a mesa de +limoeiro, comprehendi que se tramava a _Companhia das Esmeraldas da +Birmania_, medonha empreza em que scintillavam milhes, e para que os +dous confederados de bolsa e d'alcva, desde o comeo do anno, pediam o +nome, a influencia, o dinheiro de Jacintho. Elle resistira, n'um enfado +dos negocios, desconfiado d'aquellas esmeraldas soterradas n'um valle da +Asia. E agora o conde de Treves, um homem esgrouviado, de face +rechupada, erriada de barba rala, sob uma fronte rotunda e amarella +como um melo, assegurava ao meu pobre Principe que no Prospecto j +preparado, demonstrando a grandeza do negocio, perpassava um fulgr das +_Mil e Uma noites_. Mas sobretudo aquella excavao de esmeraldas +convidava todo o espirito culto pela sua aco civilisadora. Era uma +corrente de idas occidentaes, invadindo, educando a Birmania. Elle +acceitra a direco por patriotismo... + +--De resto um negocio de joias, de arte, de progresso, que deve ser +feito, n'um mundo superior, entre amigos... + +E do outro lado o terrivel Ephraim, passando a mo curta e gorda sobre a +sua bella barba, mais frisada e negra que a d'um Rei Assyrio, affianava +o triumpho da empreza pelas grossas foras que n'ella entravam, os +Nagayers, os Bolsans, os Saccart... + +Jacintho franzia o nariz, enervado: + +--Mas, ao menos, esto feitos os estudos? J se provou que ha +esmeraldas? + +Tanta ingenuidade exasperou Ephraim: + +--Esmeraldas! Est claro que ha esmeraldas!... Ha sempre esmeraldas +desde que haja accionistas! + +E eu admirava a grandeza d'aquella maxima--quando appareceu, esbaforido, +desdobrando o leno muito perfumado, um dos familiares do 202, Todelle +(Antonio de Todelle), moo j calvo, d'infinitas prendas, que conduzia +Cotillons, imitava cantores de Caf Concerto, temperava saladas raras, +conhecia todos os enredos de Paris. + +--J veio?... J c est o Gran-Duque? + +No, S. Alteza ainda no chegra. E Madame de Todelle? + +--No poude... No soph... Esfolou uma perna. + +--Oh! + +--Quasi nada... Cahiu do velocipede! + +Jacintho, logo interessado: + +--Ah! Madame de Todelle anda j de velocipede? + +--Aprende. Nem tem velocipede!... Agora, na quaresma, que se applicou +mais, no velocipede do padre Ernesto, do cura de S. Jos! Mas hontem, no +Bosque, zs, terra!... Perna esfolada. Aqui. + +E na sua propria cxa, com a unha, vivamente, desenhou o esfolo. +Ephraim, brutal e serio, murmurou:--Diabo! no melhor sitio! Mas +Todelle nem o escutra, correndo para o director do _Boulevard_, que se +avanava, lento e barrigudo, com o seu monoculo negro semelhante a um +pacho. Ambos se collaram contra uma estante, n'um cochichar profundo. + +Jacintho e eu entramos ento no bilhar, forrado de velhos couros de +Cordova, onde se fumava. Ao canto d'um divan, o grande Dornan, o poeta +neo-platonico e mystico, o Mestre subtil de todos os rithmos, espapado +nas almofadas, com um dos ps sob a cxa gorda, como um Deus indio, dois +botes do collete desabotoados, a papeira cahida sobre o largo decote do +collarinho, mamava magestosamente um immenso charuto. Ao p d'elle, +tambm sentado, um velho que eu nunca encontrra no 202, esbelto, de +cabellos brancos em anneis passados por traz das orelhas, a face coberta +de p de arroz, um bigodinho muito negro e arrebitado, findra +certamente alguma historia de bom e grosso sal--porque deante do divan, +de p, Joban, o suprmo Critico de Theatro, ria com a calva escarlate de +gso, e um moo muito ruivo (descendente de Colygny), de perfil de +periquito, sacudia os braos curtos como azas, e gania: delicioso! +divino! S o poeta idealista permanecera impassivel, na sua magestade +obesa. Mas, quando nos acercamos, esse Mestre do rythmo perfeito, depois +de soprar uma farta fumarada e me saudar com um pesado mover das +palpebras, comeou n'uma voz de rico e sonoro metal: + +--Ha melhor, ha infinitamente melhor... Todos aqui conhecem Madame +Noredal. Madame Noredal tem umas immensas nadegas... + +Desgraadamente para o meu regalo Todelle invadiu o bilhar, reclamando +Jacintho com alarido. Eram as senhoras que desejavam ouvir no +Phonographo uma aria da Patti! O meu amigo sacudiu logo os hombros, +n'uma surda irritao: + +--Aria da Patti... Eu sei l! Todos esses rolos esto em confuso. Alm +d'isso o Phonographo trabalha mal. Nem trabalha! Tenho tres. Nenhum +trabalha! + +--Bem! exclamou alegremente Todelle. Canto eu a _Pauvre fille_... mais +de ceia! _Oh, la pauv', pauv', pauv'_... + +Travou do meu brao, e arrastou a minha timidez serrana para o salo cr +de rosa murcha, onde, como Deusas n'um circulo escolhido do Olympo, +resplandeciam Madame d'Oriol, Madame Verghane, a princeza de Carman, o +uma outra loura, com grandes brilhantes nas grandes farripas, e +d'hombros to ns, e braos to ns, e peitos to ns, que o seu vestido +branco com bordados d'ouro pallido parecia uma camisa, a escorregar. +Impressionado, ainda retive Todelle, rugi baixinho:--Quem ? Mas j o +festivo homem correra para Madame d'Oriol, com quem riam, n'uma +familiaridade superior e facil, Marizac (o duque de Marizac) e um moo +de barba cr de milho e mais leve que uma penugem, que se balouava +gracilmente sobre os ps, como uma espiga ao vento. E eu, encalhado +contra o piano, esfregava lentamente as mos, amassando o meu embarao, +quando Madame Verghane se ergueu do soph onde conversava com um velho +(que tinha a Gran-Cruz de Santo Andr), e avanou, deslizou no tapete, +pequena e nedia, na sua copiosa cauda de velludo verde-negro. To fina +era a cinta, entre os encontros fecundos e a vastido do peito, todo n +e cr de nacar, que eu receava que ella partisse pelo meio, no seu lento +ondular. Os seus famosos bands negros, d'um negro furioso, inteiramente +lhe tapavam as orelhas; e, no grande aro d'ouro que os circumdava, +reluzia uma estrella de brilhantes, como na fronte dos anjos de +Boticelli. Conhecendo sem dvida a minha auctoridade no 202, ella +despediu sobre mim ao passar, como raio benefico, um sorriso que lhe +liquescia mais os olhos liquidos, e murmurou: + +--O Gran-Duque vem, com certeza? + +--Oh com certeza, minha senhora, para o peixe! + +--P'ra o peixe?... + +Mas justamente, na antecamara, rompeu, em rufos e arcadas triumphaes, a +marcha de Rakoczy. Era elle! Na Bibliotheca, o nosso retumbante mordomo +annunciava: + +--S. Alteza o Gran-Duque Casimiro! + +Madame de Verghane, com um curto suspiro d'emoo, alteou o peito, como +para lhe expr melhor a magnificencia eburnea. E o homem do _Boulevard_, +o velho da Gran-Cruz, Ephraim, quasi me empurraram, investindo para a +porta, na immensa sofreguido de Pessoa Real. + +Precedido por Jacintho, o Gran-Duque surgiu. Era um possante homem, de +barba em bico, j grisalha, um pouco calvo. Durante um momento hesitou, +com um balano lento sobre os ps pequeninos, calados de sapatos rasos, +quasi sumidos sob as pantalonas muito largas. Depois, pesado e risonho, +veio apertar a mo s senhoras que mergulhavam nos velludos e sdas, em +mesuras de Crte. E immediatamente, batendo com carinhosa jovialidade no +hombro de Jacintho: + +--E o peixe?... Preparado pela receita que mandei, hein? + +Um murmurio de Jacintho tranquillisou S. Alteza. + +--Ainda bem, ainda bem! exclamou elle, no seu vozeiro de commando. Que +eu no jantei, absolutamente no jantei! que se est jantando +deploravelmente em casa do Joseph. Mas porque se vai jantar ainda ao +Joseph? Sempre que chego a Paris, pergunto: Onde que se janta agora? +Em casa do Joseph!... Qual! no se janta! Hoje, por exemplo, +gallinholas... Uma peste! No tem, no tem a noo da gallinhola! + +Os seus olhos azulados, d'um azul sujo, rebrilhavam, alargados pela +indignao: + +--Paris est perdendo todas as suas superioridades. J se no janta, em +Paris! + +Ento, em redor, aquelles senhores concordaram, desolados. O conde de +Treves defendeu o Bignon, onde se conservavam nobres tradies. E o +director do _Boulevard_, que se empurrava todo para S. Alteza, attribuia +a decadencia da cozinha, em Frana, Republica, ao gosto democratico e +torpe pelo barato. + +--No Paillard, todavia...--comeou o Ephraim. + +--No Paillard! gritou logo o Gran-Duque. Mas os Borgonhas so to maus! +os Borgonhas so to maus!... + +Deixra pender os braos, os hombros, descoroado. Depois, com o seu +lento andar balanado como o d'um velho piloto, atirando um pouco para +traz as lapellas da casaca, foi saudar Madame d'Oriol, que toda ella +faiscou, no sorriso, nos olhos, nas joias, em cada prga das suas sdas +cr de salmo. Mas apenas a clara e macia creatura, batendo o leque como +uma aza alegre, comera a chalrar, S. Alteza reparou no apparelho do +Theatrophone, pousado sobre uma mesa entre flres, e chamou Jacintho: + +--Em communicao com o Alcazar?... O Theatrophone? + +--Certamente, meu senhor. + +Excellente! Muito chic! Elle ficra com pena de no ouvir a Gilberte +n'uma canoneta nova, as _Casquettes_. Onze e meia! Era justamente a +essa hora que ella cantava, no ultimo acto da _Revista +Electrica_...--Collou s orelhas os dous receptores do Theatrophone, e +quedou embebido, com uma ruga sria na testa dura. De repente, n'um +commando forte: + +-- ella! Chut! Venham ouvir!... ella! Venham todos! Princeza de +Carman, para aqui! Todos! ella! Chut... + +Ento, como Jacintho installra prodigamente dois Theatrophones, cada um +provido de doze fios, as senhoras, todos aquelles cavalheiros, se +apressaram a acercar submissamente um receptor do ouvido, e a permanecer +immoveis para saborear _Les Casquettes_. E no salo cr de rosa murcha, +na nave da Bibliotheca, onde se espalhra um silencio augusto, s eu +fiquei desligado do Theatrophone, com as mos nas algibeiras e ocioso. + +No relogio monumental, que marcava a hora de todas as Capitaes e o +movimento de todos os Planetas, o ponteiro rendilhado adormeceu. Sobre a +mudez e a immobilidade pensativa d'aquelles dorsos, d'aquelles decotes, +a Electricidade refulgia com uma tristeza de sol regelado. E de cada +orelha attenta, que a mo tapava, pendia um fio negro, como uma tripa. +Dornan, esbroado sobre a mesa, cerrra as palpebras, n'uma meditao de +monge obeso. O historiador dos Duques d'Anjou, com o receptor na ponta +delicada dos dedos, erguendo o nariz agudo e triste, gravemente cumpria +um dever palaciano. Madame d'Oriol sorria, toda languida, como se o fio +lhe murmurasse douras. Para desentorpecer arrisquei um passo timido. +Mas cahiu logo sobre mim um _chut_ severo do Gran-Duque! Recuei para +entre as cortinas da janella, a abrigar a minha ociosidade. O Philologo +da _Couraa_, distante da mesa, com o seu comprido fio esticado, mordia +o beio, n'um esforo de penetrao. A beatitude de S. Alteza, enterrado +n'uma vasta poltrona, era perfeita. Ao lado o collo de Madame Verghane +arfava como uma onda de leite. E o meu pobre Jacintho, n'uma applicao +conscienciosa, pendia sobre o Theatrophone to tristemente como sobre +uma sepultura. + +Ento, ante aquelles seres de superior civilisao, sorvendo n'um +silencio devoto as obscenidades que a Gilberte lhes gania, por debaixo +do solo de Paris, atravez de fios mergulhados nos esgotos, cingidos aos +canos das fezes,--pensei na minha aldeia adormecida. O crescente de lua, +que, seguido d'uma estrellinha, corria entre nuvens sobre os telhados e +as chamins negras dos Campos-Elyseos, tambem andava l fugindo, mais +lustrosa e mais dce, por cima dos pinheiraes. As rs coaxavam ao longe +no Pego da Dona. A ermidinha de S. Joaquim branquejava no cabeo, +nuasinha e candida... + +Uma das senhoras murmurou: + +--Mas, no a Gilberte!... + +E um dos homens: + +--Parece um cornetim... + +--Agora so palmas... + +--No, o Paulin! + +O Gran-Duque lanou um _chut_ feroz... No pateo da nossa casa ladravam +os ces. D'alm do ribeiro respondiam os ces do Joo Saranda. Como me +encontrei descendo por uma quelha, sob as ramadas, com o meu varapau ao +hombro? E sentia, entre a sda das cortinas, n'um fino ar macio, o +cheiro das pinhas estalando nas lareiras, o calor dos curraes atravez +das sebes altas, e o susurro dormente das levadas... + +Despertei a um brado que no sahia nem dos eidos, nem das sombras. Era o +Gran-Duque que se erguera, encolhia furiosamente os hombros: + +--No se ouve nada!... S guinchos! E um zumbido! Que massada!... Pois +uma belleza, a canoneta: + +Oh les casquettes, +Oh les casque-e-e-tes!... + +Todos largaram os fios--proclamavam a Gilberte deliciosa. E o mordomo +bemdito, abrindo largamente os dous batentes, annunciou: + +--_Monseigneur est servi_! + +Na mesa, que pelo esplendor das orchideas mereceu os louvores ruidosos +de S. Alteza, fiquei entre o ethereo poeta Dornan e aquelle moo de +pennugem loura que balouava como uma espiga ao vento. Depois de +desdobrar o guardanapo, de o accomodar regaladamente sobre os joelhos, +Dornan desenvencilhou da corrente do relogio uma enorme luneta para +percorrer o _menu_--que approvou. E inclinando para mim a sua face de +Apostolo obeso: + +--Este Porto de 1834, aqui era casa do Jacintho, deve ser authentico... +Hein? + +Assegurei ao Mestre dos Rythmos que o Porto envelhecra nas adegas +classicas do av Galio. Elle afastou, n'uma preparao methodica, os +longos, densos fios do bigode que lhe cobriam a bocca grossa. Os +escudeiros serviram um consomm frio com trufas. E o moo cr de milho, +que espalhra pela mesa o seu olhar azul e dce, murmurou, com uma +desconsolao risonha: + +--Que pena!... S falta aqui um general e um bispo! + +Com effeito! Todas as Classes Dominantes comiam n'esse momento as trufas +do meu Jacintho... Mas defronte Madame d'Oriol lanra um riso mais +cantado que um gorgeio. O Gran-Duque, n'uma silva de orchideas que +orlava o seu talher, notra uma, sombriamente horrenda, semelhante a um +lacrau esverdinhado, de azas lustrosas, gordo e tumido de veneno: e +muito delicadamente offertra a flr monstruosa a Madame d'Oriol, que, +com trinado riso, solemnemente, a collocou no seio. Collado quella +carne macia, d'uma brancura de nata fina, o lacrau inchra, mais verde, +com as azas frementes. Todos os olhos se accendiam, se cravavam no lindo +peito, a que a flr disforme, de cr venenosa, apimentava o sabor. Ella +reluzia, triumphava. Para ageitar melhor a orchidea os seus dedos +alargaram o decote, aclararam bellezas, guiando aquellas curiosidades +flammejantes que a despiam. A face vincada de Jacintho pendia para o +prato vasio. E o alto lyrico do _Crepusculo Mystico_, passando a mo +pelas barbas, rosnou com desdem: + +--Bella mulher... Mas ancas seccas, e aposto que no tem nadegas! + +No emtanto o moo de loura pennugem voltra sua estranha mgoa. No +possuirmos um general com a sua espada, e um bispo com seu baculo!... + +--Para que, meu caro senhor? + +Elle atirou um gesto suave em que todos os seus anneis faiscaram: + +--Para uma bomba de dynamite... Temos aqui um explendido ramalhete de +flres de Civilisaco, com um Gran-Duque no meio. Imagine uma bomba de +dynamite, atirada da porta!... Que bello fim de ceia, n'um fim de +seculo! + +E como eu o considerava assombrado, elle, bebendo golos de +Chateau-Yquem, declarou que hoje a unica emoo, verdadeiramente fina, +seria aniquillar a Civilisao. Nem a sciencia, nem as artes, nem o +dinheiro, nem o amor, podiam j dar um gosto intenso e real s nossas +almas saciadas. Todo o prazer que se extrahra de _crear_ estava +esgotado. S restava, agora, o divino prazer de _destruir_! + +Desenrolou ainda outras enormidades, com um riso claro nos olhos claros. +Mas eu no attendia o gentil pedante, colhido por outro +cuidado--reparando que em torno, subitamente, todo o servio estacra +como no conto do Palacio Petrificado. E o prato agora devido era o peixe +famoso da Dalmacia, o peixe de S. Alteza, o peixe inspirador da festa! +Jacintho, nervoso, esmagava entre os dedos uma flr. E todos os +escudeiros sumidos! + +Felizmente o Gran-Duque contava a historia d'uma caada, nas coutadas de +Sarvan, em que uma senhora, mulher de um banqueiro, saltra bruscamente +do cavallo, n'um descampado, sem arvores. Elle e todos os caadores +param--e a galante senhora, livida, com a amazona arregaada, corre para +traz d'uma pedra... Mas nunca soubemos em que se occupava a banqueira, +n'esse descampado, agachada atraz da pedra--porque justamente o mordomo +appareceu, relusente de suor, e balbuciou uma confidencia a Jacintho, +que mordeu o beio, trespassado. O Gran-Duque emmudecera. Todos se +entre-olhavam, n'uma anciedade alegre. Ento o meu Principe, com +paciencia, com heroicidade, forando pallidamente o sorriso: + +--Meus amigos, ha uma desgraa... + +Dornan pulou na cadeira: + +--Fogo? + +No, no era fogo. Fra o elevador dos pratos, que inesperadamente, ao +subir o peixe de S. Alteza, se desarranjra, e no se movia, encalhado! + +O Gran-Duque arremessou o guardanapo. Toda a sua polidez estalava como +um esmalte mal posto: + +--Essa forte!... Pois um peixe que me deu tanto trabalho! Para que +estamos ns aqui ento a cear? Que estupidez! E porque o no trouxeram +mo, simplesmente? Encalhado... Quero vr! Onde a copa? + +E, furiosamente, investiu para a copa, conduzido pelo mordomo que +tropeava, vergava os hombros, ante esta esmagadora colera de Principe. +Jacintho seguiu, como uma sombra, levado na rajada de S. Alteza. E eu +no me contive, tambem me atirei para a copa, a contemplar o desastre, +emquanto Dornan, batendo na cxa, clamava que se ceasse sem peixe! + +O Gran-Duque l estava, debruado sobre o poo escuro do elevador, onde +mergulhra uma vela que lhe avermelhava mais a face esbraseada. +Espreitei, por sobre o seu hombro real. Em baixo, na treva, sobre uma +larga prancha, o peixe precioso alvejava, deitado na travessa, ainda +fumegando, entre rodellas de limo. Jacintho, branco como a gravata, +torturava desesperadamente a mola complicada do ascensor. Depois foi o +Gran-Duque que, com os pulsos cabelludos, atirou um empuxo tremendo aos +cabos em que elle rolava. Debalde! O apparelho enrijra n'uma inercia de +bronze eterno. + +Sdas roagaram entrada da copa. Era Madame d'Oriol, e atraz Madame +Verghane, com os olhos a faiscar, na curiosidade d'aquelle lance em que +o Principe soltra tanta paixo. Marizac, nosso intimo, surgiu tambem, +risonho, propondo uma descida ao poo com escadas. Depois foi o +Psychologo, que se abeirou, psychologou, attribuindo intenes sagazes +ao peixe que assim se recusava. E a cada um o Gran-Duque, escarlate, +mostrava com dedo tragico, no fundo da cova, o seu peixe! Todos +afundavam a face, murmuravam: l est! Todelle, na sua precipitao, +quasi se despenhou. O periquito descendente de Colygny batia as azas, +ganindo:--Que cheiro elle deita, que delicia! Na copa atulhada os +decotes das senhoras roavam a farda dos lacaios. O velho caiado de p +d'arroz metteu o p n'um balde de gelo, com um berro ferino. E o +Historiador dos Duques d'Anjou movia por cima de todos o seu nariz +bicudo e triste. + +De repente, Todelle teve uma ida! + +-- muito simples... pescar o peixe! + +O Gran-Duque bateu na cxa uma palmada triumphal. Est claro! Pescar o +peixe! E no gozo d'aquella facecia, to rara e to nova, toda a sua +colera se sumra, de novo se tornra o Principe amavel, de magnifica +polidez, desejando que as senhoras se sentassem para assistir pesca +miraculosa! Elle mesmo seria o pescador! Nem se necessitava, para a +divertida faanha, mais que uma bengala, uma guita e um gancho. +Immediatamente Madame d'Oriol, excitada, offereceu um dos seus ganchos. +Apinhados em volta d'ella, sentindo o seu perfume, o calor da sua pelle, +todos exaltamos a amoravel dedicao. E o Psychologo proclamou que nunca +se pescra com to divino anzol! + +Quando dois escudeiros estonteados voltaram, trazendo uma bengala e um +cordel, j o Gran-Duque, radiante, vergra o gancho em anzol. Jacintho, +com uma paciencia livida, erguia uma lampada sobre a escurido do poo +fundo. E os senhores mais graves, o Historiador, o director do +_Boulevard_, o Conde de Treves, o homem de cabea Van-Dick, sorriam, +amontoados porta, n'um interesse reverente pela phantasia de S. +Alteza. Madame de Treves, essa, examinava serenamente, com a sua nobre +luneta, a installao da copa. S Dornan no se erguera da mesa, com os +punhos cerrados sobre a toalha, o gordo pescoo encovado, no tedio +sombrio de fera a quem arrancaram a posta. + +No emtanto S. Alteza pescava com fervor! Mas debalde! O gancho, pouco +agudo, sem presa, bamboleando na extremidade da guita frouxa, no +fisgava. + +--Oh Jacintho, erga essa luz! gritava elle, inchado e suado. Mais!... +Agora! Agora! na guelra! S na guelra que o gancho o pde prender. +Agora... Qual! Que diabo! No vae! + +Tirou a face do poo, resfolgando e affrontado. No era possivel! S +carpinteiros, com alavancas!... E todos, anciosamente, bradamos que se +abandonasse o peixe! + +O Principe, risonho, sacudindo as mos, concordava que por fim fra +mais divertido pescal-o do que coml-o! E o elegante bando refluiu +sofregamente para a mesa, ao som d'uma valsa de Strauss, que os Tziganes +arremearam em arcadas de languido ardr. S Madame de Treves se demorou +ainda, retendo o meu pobre Jacintho, para lhe assegurar quanto admirava +o arranjo da sua copa... Oh perfeita! Que comprehenso da vida, que fina +intelligencia do conforto! + +S. Alteza, encalmado pelo esforo, esvasiou poderosamente dous copos de +Chateau-Lagrange. Todos o acclamavam como um pescador genial. E os +escudeiros serviram o _Baro de Pauillac_, cordeiro das lezirias +marinhas, que, preparado com ritos quasi sagrados, toma este grande nome +sonoro e entra no Nobiliario de Frana. + +Eu comi com o appetite d'um heroe de Homero. Sobre o meu copo e o de +Dornan o Champagne scintillou e jorrou ininterrompidamente como uma +fonte de inverno. Quando se serviram ortolans gelados, que se derretiam +na bocca, o divino poeta murmurou, para meu regalo, o seu soneto sublime +a Santa Clara. E como, do outro lado, o moo de pennugem loura +insistia pela destruio do velho mundo, tambem concordei, e, sorvendo o +Champagne coalhado em sorvete, maldissemos o Seculo, a Civilisao, +todos os orgulhos da Sciencia! Atravs das flres e das luzes, no +emtanto, eu seguia as ondas arfantes do vasto peito de Madame Verghane, +que ria como uma bacchante. E nem me apiedava de Jacintho que, com a +doura de S. Jacintho sobre o cpo, esperava o fim do seu martyrio e da +sua festa. + +Ella findou. Ainda recordo, s tres horas da noite, o Gran-Duque na +antecamara, muito vermelho, mal firme nos ps pequeninos, sem acertar +com as mangas da pelissa que Jacintho e eu lhe ajudamos a +enfiar--convidando o meu amigo, n'uma effuso carinhosa, a ir caar s +suas terras da Dalmacia... + +--Devo ao meu Jacintho uma bella pesca, quero que elle me deva uma bella +caada! + +E emquanto o acompanhavamos, entre as alas dos escudeiros, pela vasta +escada onde o mordomo o precedia erguendo um candelabro de tres lumes, +S. Alteza repisava, pegajoso: + +--Uma bella caada... E tambem vae Fernandes! Bom Fernandes, Z +Fernandes! Ceia superior, meu Jacintho! O _Baro de Pauillac_, +divino!... Creio que o devemos nomear Duque... O Senhor Duque de +Pauillac! Mais um bocado da perna do Senhor Duque de Pauillac. Ah! +Ah!... No venham fra! No se constipem! + +E do fundo do coup, ao rodar, ainda bradou: + +--O peixe, Jacintho, desencalha o peixe! Excellente, ao almoo, frio, +com mlho verde! + +Trepando canadamente os degraus, n'uma molleza de Champagne e somno em +que os olhos se me cerravam, murmurei para o meu Principe: + +--Foi divertido, Jacintho! Sumptuosa mulher, a Verghane! Grande pena, o +elevador... + +E Jacintho, n'um som cavo que era bocejo e rugido: + +--Uma massada! E tudo falha! + + * * * * * + +Tres dias depois d'esta festa no 202 recebeu o meu Principe +inesperadamente, de Portugal, uma nova consideravel. Sobre a sua quinta +e solar de Tormes, por toda a serra, passra uma tormenta devastadora de +vento, corisco e agua. Com as grossas chuvas, ou por outras causas que +os peritos diro (como exclamava na sua carta angustiada o procurador +Silverio), um pedao de monte, que se avanava em socalco sobre o valle +da Carria, desabra, arrastando a velha egreja, uma egrejinha rustica +do seculo XVI, onde jaziam sepultados os avs de Jacintho desde os +tempos de el-rei D. Manoel. Os ossos veneraveis d'esses Jacinthos jaziam +agora soterrados sob um monto informe de terra e pedra. O Silverio j +comera com os moos da quinta a desatulhar dos preciosos restos. Mas +esperava anciosamente as ordens de sua exc.^a... + +Jacintho empallidecra, impressionado. Esse velho solo serrano, to rijo +e firme desde os Godos, que de repente ruia! Esses jazigos de paz +piedosa, precipitados com fragor, na borrasca e na treva, para um negro +fundo de valle! Essas ossadas, que todas conservavam um nome, uma data, +uma historia, confundidas n'um lixo de ruina! + +--Coisa estranha, coisa estranha!... + +E toda a noite me interrogou cerca da serra e de Tormes, que eu +conhecia desde pequeno, por que o velho solar, com a sua nobre alameda +de faias seculares, se erguia a duas legoas da nossa casa, no antigo +caminho de Guies estao e ao rio. O caseiro de Tormes, o bom +Melchior, era cunhado do nosso feitor da Roqueirinha:--e muitas vezes, +depois da minha intimidade com Jacintho, eu entrra no robusto casaro +de granito, e avalira o gro espalhado pelas salas sonoras, e provra o +vinho novo nas adegas immensas... + +--E a egreja, Z Fernandes?... Entraste na egreja? + +--Nunca... Mas era pittoresca, com uma torresinha quadrada, toda negra, +onde ha muitos annos vivia uma familia de cegonhas... Terrivel +transtorno para as cegonhas! + +--Coisa estranha! murmurava ainda o meu Principe, agourado. + +E telegraphou ao Silverio que desatulhasse o valle, recolhesse as +ossadas, reedificasse a Egreja, e, para esta obra de piedade e +reverencia, gastasse o dinheiro, sem contar, como a agua d'um rio largo. + + + + +V + + +No emtanto Jacintho, desesperado com tantos desastres humilhadores--as +torneiras que dessoldavam, os elevadores que emperravam, o Vapor que se +encolhia, a Electricidade que se sumia, decidiu valorosamente vencer as +resistencias finaes da Materia e da Fora por novas e mais poderosas +accumulaces de Mechanismos. E n'essas semanas de Abril, emquanto as +rosas desabrochavam, a nossa agitada casa, entre aquellas quietas casas +dos Campos-Elyseos que preguiavam ao sol, incessantemente tremeu, +envolta n'um p de calia e d'empreitada, com o bruto picar de pedra, o +retininte martelar de ferro. Nos silenciosos corredores, onde me era +dce fumar antes do almoo um pensativo cigarro, circulavam agora, desde +madrugada, ranchos d'operarios, de blusas brancas, assobiando o +_Pett-Bleu_, e intimidando os meus passos quando eu atravessava em +fralda e chinellas para o banho ou para outros retiros. Apenas se varava +com pericia algum andaime obstruindo as portas--logo se esbarrava com +uma pilha de taboas, uma ceira de farramentas ou um balde enorme +d'argamassa. E os pedaos de soalho levantado mostravam tristemente, +como n'um cadaver aberto, todos os interiores do 202, a ossatura, os +sensiveis nervos d'arame, os negros intestinos de ferro fundido. + +Cada dia estacava deante do porto alguma lenta carroa, d'onde os +creados, em mangas de camisa, descarregavam caixotes de madeira, fardos +de lona, que se despregavam e se descosiam n'uma sala asphaltada, ao +fundo do jardim, por traz da sebe de lilazes. E eu descia, reclamado +pelo meu Principe, para admirar uma nova Machina que nos tornaria a vida +mais facil, estabelecendo d'um modo mais seguro o nosso dominio sobre a +Substancia. Durante os calores, que apertaram depois da Asceno, +ensaiamos esperanadamente, para refrescar as aguas mineraes, a +Soda-Water e os Medocs ligeiros, tres geleiras, que se amontoaram na +copa successivamente desprestigiadas. Com os morangos novos appareceu um +instrumentosinho astuto, para lhes arrancar os ps, delicadamente. +Depois recebemos outro, prodigioso, de prata e crystal, para remexer +phreneticamente as saladas; e, na primeira vez que o experimentei, todo +o vinagre esparrinhou sobre os olhos do meu Principe, que fugiu aos +uivos! Mas elle teimava... Nos actos mais elementares, para alliviar ou +apressar o esforo, se soccorria Jacintho da Dynamica. E agora era por +interveno d'uma machina que abotoava as ceroulas. + +E simultaneamente, ou em obediencia sua Ida, ou governado pelo +despotismo do habito, no cessava, ao lado da Mechanica accumulada, de +accumular Erudio. Oh, a invaso dos livros no 202! Solitarios, aos +pares, em pacotes, dentro de caixas, franzinos, gordos e repletos de +auctoridade, envoltos em plebeia capa amarella ou revestidos de +marroquim e ouro, perpetuamente, torrencialmente, invadiam por todas as +largas portas a Bibliotheca, onde se estiravam sobre o tapete, se +repimpavam nas cadeiras macias, se enthronisavam em cima das mesas +robustas, e sobretudo trepavam contra as janellas, em sofregas pilhas, +como se, suffocados pela sua propria multido, procurassem com ancia +espao e ar! Na erudita nave, onde apenas alguns vidros mais altos +restavam descobertos, sem tapume de livros, perennemente se adensava um +pensativo crepusculo de outono emquanto fra Junho refulgia. A +Bibliotheca transbordra atravs de todo o 202! No se abria um armario +sem que de dentro se despenhasse, desamparada, uma pilha de livros! No +se franzia uma cortina sem que de traz surgisse, hirta, uma ruma de +livros! E immensa foi a minha indignao quando uma manh, correndo +urgentemente, de mos nas alas, encontrei, vedada por uma tremenda +colleco de Estudos Sociaes, a porta do Water-Closet! + +Mais amargamente porm me lembro da noite historica em que, no meu +quarto, moido e molle d'um passeio a Versalhes, com as palpebras +poeirentas e meio adormecidas, tive de desalojar do meu leito, +praguejando, um pavoroso Diccionario de Industria em trinta e sete +volumes! Senti ento a suprema fartura do livro. Ageitando, com murros, +os travesseiros, maldisse a Imprensa, a Facundia humana... E j me +estirra, adormecia, quando topei, quasi parti a preciosa rotula do +joelho, contra a lombada d'um tomo que velhacamente se aninhra entre a +parede e os colches. Com furor e um berro empolguei, arremessei o tomo +affrontoso--que entornou o jarro, inundou um tapete rico de Daghestan. E +nem sei se depois adormeci--porque os meus ps, a que no sentia nem o +pisar nem o rumor, como se um vento brando me levasse, continuaram a +tropear em livros no corredor apagado, depois na areia do jardim que o +luar branqueava, depois na Avenida dos Campos-Elyseos, povoada e ruidosa +como n'uma festa civica. E, oh portento! todas as casas aos lados eram +construidas com livros. Nos ramos dos castanheiros ramalhavam folhas de +livros. E os homens, as finas damas, vestidos de papel impresso, com +titulos nos dorsos, mostravam em vez de rosto um livro aberto, a que a +brisa lenta virava docemente as folhas. Ao fundo, na Praa da Concordia, +avistei uma escarpada montanha de livros, a que tentei trepar, +arquejante, ora enterrando a perna em flacidas camadas de versos, ora +batendo contra a lombada, dura como calhau, de tomos de Exegese e +Critica. A to vastas alturas subi, para alm da terra, para alm das +nuvens, que me encontrei, maravilhado, entre os astros. Elles rolavam +serenamente, enormes e mudos, recobertos por espessas crostas de livros, +d'onde surdia, aqui e alm, por alguma fenda, entre dois volumes mal +juntos, um raiosinho de luz suffocada e anciada. E assim ascendi ao +Paraiso. Decerto era o Paraiso--porque com meus olhos de mortal argila +avistei o Ancio da Eternidade, aquelle que no tem Manh nem Tarde. +N'uma claridade que d'elle irradiava mais clara que todas as claridades, +entre fundas estantes d'ouro abarrotadas de codices, sentado em +vetustissimos folios, com os flocos das infinitas barbas espalhados por +sobre resmas de folhetos, brochuras, gazetas e catalogos--o Altissimo +lia. A fronte super-divina que concebera o Mundo pousava sobre a mo +super-forte que o Mundo crera--e o Creador lia e sorria. Ousei, +arrepiado de sagrado horror, espreitar por cima do seu hombro +coruscante. O livro era brochado, de tres francos... O Eterno lia +Voltaire, n'uma edio barata, e sorria. + +Uma porta faiscou e rangeu, como se alguem penetrasse no Paraiso. Pensei +que um Santo novo chegra da Terra. Era Jacintho, com o charuto em +braza, um molho de cravos na lapella, sobraando tres livros amarellos +que a Princeza de Carman lhe emprestra para lr! + + * * * * * + +N'uma d'essas activas semanas, porm, a minha atteno subitamente se +despegou d'este interessante Jacintho. Hospede do 202, conservava no 202 +a minha mala e a minha roupa: e, acostado bandeira do meu Principe, +ainda occasionalmente comia do seu caldeiro sumptuoso. Mas a minha +alma, a minha embrutecida alma, e o meu corpo, o meu embrutecido corpo, +habitavam ento na rua do Helder, n.^o 16, quarto andar, porta +esquerda. + +Descia eu uma tarde, n'uma leda paz de idas e sensaes, o Boulevard da +Magdalena, quando avistei, deante da Estao dos Omnibus, rondando no +asphalto, n'um passo lento e felino, uma creatura secca, muito morena, +quasi tisnada, com dous fundos olhos taciturnos e tristes, e uma matta +de cabellos amarellados, toda crespa e rebelde, sob o chapo velho de +plumas negras. Parei, como colhido por um repuxo nas entranhas. A +creatura passou--no seu magro rondar de gata negra, sobre um beiral de +telhado, ao luar de Janeiro. Dous poos fundos no luzem mais negra e +taciturnamente do que luziam os seus olhos taciturnos e negros. No +recordo (Deus louvado!) como rocei o seu vestido de sda, lustroso e +encebado nas pregas; nem como lhe rosnei uma spplica por entre os +dentes que rangiam; nem como subimos ambos, morosamente e mais +silenciosos que condemnnados, para um gabinete do Caf Durand, safado e +mrno. Deante do espelho, a creatura, com a lentido d'um rito triste, +tirou o chapo e a romeira salpicada de vidrilhos. A sda poida do +corpete esgarava nos cotovellos agudos. E os seus cabellos eram +immensos, d'uma dureza e espessura de juba brava, em dous tons +amarellos, uns mais dourados, outros mais crestados, como a cdea de uma +torta ao sahir quente do forno. + +Com um riso tremulo, agarrei os seus dedos compridos e frios: + +--E o nomesinho, hein? + +Ella sria, quasi grave: + +--Madame Colombe, 16, rua do Helder, quarto andar, porta esquerda. + +E eu (miseravel Z Fernandes!) tambem me senti muito srio, trespassado +por uma emoo grave, como se nos envolvesse, n'aquella alcva de Caf, +a magestade d'um Sacramento. porta, empurrada levemente, o creado +avanou a face nedia. Ordenei uma lagosta, pato com pimentes, e +Borgonha. E foi smente ao findarmos o pato que me ergui, amarfanhando +convulsamente o guardanapo, e a tremer lhe beijei a bocca, todo a +tremer, n'um beijo profundo e terrivel, em que deixei a alma, entre +saliva e gsto de pimento! Depois, n'uma tipoia aberta, sob um bafo +molle de leste e de trovoada, subimos a Avenida dos Campos-Elyseos. Em +frente grade do 202 murmurei, para a deslumbrar com o meu luxo:--Mro +alli, todo o anno!... E como ao mirar o Palacete, debruada, ella +rora a matta fulva do pello crespo pela minha barba--berrei +desesperadamente ao cocheiro; que galopasse para a rua do Helder, n.^o +16, quarto andar, porta esquerda! + +Amei aquella creatura. Amei aquella creatura com Amor, com todos os +Amores que esto no Amor, o Amor divino, o Amor humano, o Amor bestial, +como Santo Antonino amava a Virgem, como Romeu amava Julietta, como um +bode ama uma cabra. Era estupida, era triste. Eu deliciosamente apagava +a minha alegria na cinza da sua tristeza; e com ineffavel gsto afundava +a minha razo na densidade da sua estupidez. Durante sete furiosas +semanas perdi a consciencia da minha personalidade de Z +Fernandes--Fernandes de Noronha e Sande, de Guies! Ora se me affigurava +ser um pedao de cra que se derretia, com horrenda delicia, n'um forno +rubro e rugidor: ora me parecia ser uma faminta fogueira onde +flammejava, estalava e se consumia um mlho de galhos seccos. D'esses +dias de sublime sordidez s conservo a impresso d'uma alcva forrada de +cretones sujos, d'uma bata de l cr de lilaz com sotaches negros, de +vagas garrafas de cerveja no marmore d'um lavatorio, e d'um corpo +tisnado que rangia e tinha cabellos no peito. E tambem me resta a +sensao de incessantemente e com arrobado deleite me despojar, +arremessar para um regao, que se cavava entre um ventre sumido e uns +joelhos agudos, o meu relogio, os meus berloques, os meus anneis, os +meus botes de punho de saphira, e as cento e noventa e sete libras em +ouro que eu trouxera de Guies n'uma cinta de camura. Do solido, +decoroso, bem fornecido Z Fernandes, s restava uma carcassa errando +atravz d'um sonho, com as gambias molles e a baba a escorrer. + +Depois, uma tarde, trepando com a costumada gula a escada da rua do +Helder, encontrei a porta fechada--e arrancado da hombreira aquelle +carto de _Madame Colombe_ que eu lia sempre to devotamente e que era a +sua taboleta... Tudo no meu ser tremeu como se o cho de Paris tremesse! +Aquella era a porta do Mundo que ante mim se fechra! Para alm estavam +as gentes, as cidades, a vida, Deus e Ella. E eu ficra ssinho, +n'aquelle patamar do No-ser, fra da porta que se fechra, unico ser +fra do Mundo! Rolei pelos degraus, com o fragor e a incoherencia d'uma +pedra, at ao cubiculo da porteira e do seu homem que jogavam as cartas +em ditosa pachorra, como se to pavoroso abalo no tivesse desmantelado +o Universo! + +--Madame Colombe? + +A barbuda comadre recolheu lentamente a vaza: + +--Ja no mora... Abalou esta manh, para outra terra, com outra porca! + +Para outra terra! com outra porca!... Vasio, negramente vasio de todo o +pensar, de todo o sentir, de todo o querer--boiei aos tombos, como um +tonel vasio, na corrente aodada do Boulevard, at que encalhei n'um +banco da Praa da Magdalena, onde tapei com as mos, a que no sentia a +febre, os olhos a que no sentia o pranto! Tarde, muito tarde, quando j +se cerravam com estrondo as cortinas de ferro das lojas, surdiu, d'entre +todas estas confusas ruinas do meu ser, a eterna sobrevivente de todas +as ruinas--a ideia de jantar. Penetrei no Durand, com os passos +entorpecidos d'um resuscitado. E, n'uma recordao que m'escaldava a +alma, encommendei a lagosta, o pato, o Borgonha! Mas ao alargar o +collarinho, ensopado pelo ardor d'aquella tarde de Julho, entre a poeira +da Magdalena, pensei com desconfrto:--Santissimo Nome de Deus! Que +immensa sde me fez esta desgraa!... De manso acenei ao moo:--Antes +do Borgonha, uma garrafa de Champagne, com muito glo, e um grande +copo!... Creio que aquelle Champagne se engarrafra no Ceu onde corre +perennemente a fresca fonte da Consolao, e que na garrafa bemdita que +me coube penetrra, antes d'arrolhada, um jorro largo d'essa fonte +inneffavel. Jesus! que transcendente regalo, o d'aquelle nobre copo, +embaciado, nevado, a espumar, a picar, n'um brilho d'ouro! E depois, +garrafa de Borgonha! E depois, garrafa de Cognac! E depois +Hortel-Pimenta granitada em glo! E depois um desejo arquejante de +espancar, com o meu rijo marmelleiro de Guies, a porca que fugira com +outra porca! Dentro da tipoia fechada, que me transportou n'um galope ao +202, no suffoquei este santo impulso, e com os meus punhos serranos +atirei murros retumbantes contra as almofadas, onde _via_, furiosamente +_via_ a matta immensa de pello amarello, em que a minha alma uma tarde +se perdera, e tres mezes se debatera, e para sempre se emporcalhra! +Quando o fiacre estacou no 202 ainda eu espancava to desesperadamente a +besta ingrata, que, aos berros do cocheiro, dous moos accudiram e me +sustiveram, recebendo pelos hombros, sobre as nucas servis, os restos +canados da minha colera. + +Em cima, repelli a sollicitude do Grillo que tentava impr ao _si_ Z +Fernandes, a Z Fernandes de Guies, a immensa indignidade d'um ch de +macella! E estirado no leito de D. Galio, com as botas sobre o +travesseiro, o chapo alto sobre os olhos, ri, n'um doloroso riso, +d'este Mundo burlesco e sordido de Jacinthos e de Colombes! E de repente +senti uma angustia horrenda. Era Ella! Era a Madame Colombe, que +esfuzira da chamma da vela, e saltra sobre o meu leito, e desabotora +o meu collete, e arrombra as minhas costellas, e toda ella, com as +saias sujas, mergulhra dentro do meu peito, e abocra o meu corao, e +chupava a sorvos lentos, como na rua do Helder, o sangue do meu corao! +Ento, certo da Morte, ganindo pela tia Vicencia, pendi do leito para +mergulhar na minha sepultura, que, atravs da nevoa final, eu distinguia +sobre o tapete--redondinha, vidrada, de porcelana e com aza. E, sobre a +minha sepultura, que to irreverentemente se assimilhava ao meu vaso, +vomitei o Borgonha, vomitei o pato, vomitei a lagosta. Depois, n'um +esforo ultra-humano, com um rugido, sentindo que, no smente toda a +entranha, mas a alma se esvasiava toda, vomitei Madame Colombe! Recahi +sobre o leito de D. Galio... Recarreguei o chapo sobre os olhos para +no sentir os raios do sol. Era um sol novo, um sol espiritual, que se +erguia sobre a minha vida. E adormeci, como uma creancinha docemente +embalada n'um bero de verga pelo Anjo da Guarda. + +De manh, lavei a pelle n'um banho profundo, perfumado com todos os +aromas do 202, desde folhas de limonete da India at essencia de jasmin +de Frana: e lavei a alma com uma rica carta da Tia Vicencia, em letra +farta, contando da nossa casa, e da linda promessa das vinhas, e da +compota de ginja que nunca lhe sahra to fina, e da alegre fogueira do +pateo em noite de S. Joo, e da menininha muito gorda e cabelluda que +vira do ceu para a minha afilhada Joanninha. Depois, janella, bem +limpo de alma e de corpo, n'uma quinzena de sedinha branca, tomando ch +de Nap, respirando os rosaes do jardim revividos pela chuva da +madrugada, considerei, em divertido pasmo, que, durante sete semanas, me +emporcalhra, na rua do Helder, com um estardalho muito magro e muito +tisnado! E conclui que padecera d'uma longa sezo, sezo da carne, sezo +da imaginao, apanhada n'um charco de Paris--n'esses charcos que se +formam atravs da Cidade com as aguas mortas, os limos, os lixos, os +tortulhos e os vermes d'uma Civilisao que apodrece. + + * * * * * + +Ento, curado, todo o meu espirito, como uma agulha para o Norte, se +virou logo para o meu complicado Principe, que, nas derradeiras semanas +da minha infeco sentimental, eu entrevira sempre descahido por cima de +sophs, ou vagueando atravs da Bibliotheca entre os seus trinta mil +volumes, com arrastados bocejos de inercia e de vacuidade. Eu, na minha +pressa indigna, s lhe lanava um distrahido--que isso? Elle, no seu +moroso desalento, s murmurava um scco-- calor! + +E, n'essa manh da minha libertao, ao penetrar antes d'almoo no seu +quarto, no soph o encontrei enterrado, com o _Figaro_ aberto sobre a +barriga, a Agenda cahida sobre o tapete, toda a face envolta em sombra, +e os ps abandonados, n'uma soberana tristeza, ao pedicuro que lhe polia +as unhas. Decerto o meu olhar reallumiado e repurificado, a brancura das +minhas flanellas reproduzindo a quietao das minhas sensaes, e a +segura harmonia em que todo o meu ser visivelmente se movia, +impressionaram o meu Principe--a quem a melancolia nunca embotava a +agudeza. Ergueu mollemente um brao molle: + +--Ento esse capricho? + +Derramei, sobre elle todo o fulgor d'um riso victorioso: + +--Morto! E, como o Snr. de Malbrouck, morto e bem enterrado. Jaz! Ou +antes, rola! Com effeito deve andar agora rolando por dentro do cano do +esgoto! + +Jacintho bocejou, murmurou: + +--Este Z Fernandes de Noronha e Sande!... + +E, no meu nome, no meu digno nome assim embrulhado n'um bocejo com +desprendida ironia, se resumiu todo o interesse d'aquelle Principe pela +suja tormenta em que se debatera o meu corao! Mas no me melindrou +esse consummado egoismo... Claramente percebia eu que o meu Jacintho +atravessava uma densa nevoa de tedio, to densa, e elle to afundado na +sua molle densidade, que as glorias ou os tormentos d'um camarada no o +commoviam, como muito remotas, intangiveis, separadas da sua +sensibilidade por immensas camadas de algodo. Pobre Principe da +Gran-Ventura, tombado para o soph de inercia, com os ps no regao do +pedicuro! Em que lodoso fastio cahira, depois de renovar to bravamente +todo o recheio mechanico e erudito do 202, na sua lucta contra a Fora e +a Materia!--E esse fastio no o escondeu mais do seu velho Z Fernandes +quando recomeou entre ns a communho de vida e de alma a que eu to +torpemente me arrancra, uma tarde, deante da Estao dos Omnibus, no +charco da Magdalena. + +No eram certamente confisses enunciadas. O elegante e reservado +Jacintho no torcia os braos, gemendo--Oh vida maldita! Eram apenas +expresses saciadas; um gesto de repellir com rancr a importunidade das +coisas; por vezes uma immobilidade determinada, de protesto, no fundo +d'um divan, d'onde se no desenterrava, como para um repouso que +desejasse eterno; depois os bocejos, os cos bocejos com que sublinhava +cada passo, continuado por fraqueza ou por dever inilludivel; e +sobretudo aquelle murmurar que se tornra perenne e natural--Para +que?--No vale a pena!--Que massada!... + +Uma noite no meu quarto, descalando as botas, consultei o Grillo: + +--Jacintho anda to mucho, to corcunda... Que ser, Grillo? + +O venerando preto declarou com uma certeza immensa: + +--S. Exc.^a soffre de fartura. + +Era fartura! O meu Principe sentia abafadamente a fartura de Paris:--e +na Cidade, na symbolica Cidade, fra de cuja vida culta e forte (como +elle outr'ora gritava, illuminado) o homem do seculo XIX nunca poderia +saborear plenamente a delicia de viver, elle no encontrava agora +frma de vida, espiritual ou social, que o interessasse, lhe valesse o +esfro d'uma corrida curta n'uma tipoia facil. Pobre Jacintho! Um +jornal velho, setenta vezes relido desde a Chronica at aos Annuncios, +com a tinta delida, as dobras rodas, no enfastiaria mais o Solitario, +que s possuisse na sua Solido esse alimento intellectual, do que o +Parisianismo enfastiava o meu doce camarada! Se eu n'esse vero +capciosamente o arrastava a um Caf-Concerto, ou ao festivo Pavilho +d'Armenonville, o meu bom Jacintho, collado pesadamente cadeira com um +maravilhoso ramo de orchideas na casaca, as finas mos abatidas sobre o +casto da bengala, conservava toda a noite uma gravidade to estafada, +que eu, compadecido, me erguia, o libertava, gozando a sua pressa em +abalar, a sua fuga d'ave solta... Raramente (e ento com vehemente +arranque como quem salta um fosso) descia a um dos seus Clubs, ao fundo +dos Campos-Elyseos. No se occupara mais das suas Sociedades e +Companhias, nem dos _Telephones de Constantinopla_, nem das _Religies +Esotericas_, nem do _Bazar Espiritualista_, cujas cartas fechadas se +amontoavam sobre a mesa d'ebano, d'onde o Grillo as varria tristemente +como o lixo d'uma vida finda. Tambem lentamente se despegava de todas as +suas convivencias. As paginas da Agenda cr de rosa murcha andavam +desafogadas e brancas. E se ainda cedia a um passeio de Mail-coach, ou a +um convite para algum Castello amigo dos arredores de Paris, era to +arrastadamente, com um esforo to saturado ao enfiar o paletot leve, +que me lembrava sempre um homem, depois d'um gordo jantar de provincia, +a estalar, que, por pollidez ou em obediencia a um dogma, devesse ainda +comer uma lampra de ovos! + +Jazer, jazer em casa, na segurana das portas bem cerradas e bem +defendidas contra toda a intruso do mundo, seria uma doura para o meu +Principe se o seu proprio 202, com todo aquelle tremendo recheio de +Civilisao, no lhe dsse uma sensao dolorosa de abafamento, de +atulhamento! Julho escaldava: e os brocados, as alcatifas, tantos moveis +rolios e ffos, todos os seus metaes e todos os seus livros, to +espessamente o opprimiam, que escancarava sem cessar as janellas para +prolongar o espao, a claridade, a frescura. Mas era ento a poeira, +suja e acre, rolada em bafos mornos, que o enfurecia: + +--Oh, este p da Cidade! + +--Mas, oh Jacintho, por que no vamos para Fontainebleau, ou para +Montmorency, ou... + +--P'ra o campo? O que! P'ra o campo?! + +E na sua face enrugada, atravs d'este berro, lampejava sempre tanta +indignao, que eu curvava os hombros, humilde, no arrependimento de ter +affrontosamente ultrajado o Principe que tanto amava. Desventurado +Principe! Com o seu dourado cigarro d'Yaka a fumegar, errava ento pelas +salas, lenta e murchamente, como quem vaga em terra alheia sem affeies +e sem occupaes. Esses desaffeioados e desoccupados passos +monotonamente o traziam ao seu centro, ao gabinete verde, Bibliotheca +d'ebano, onde accumulara Civilisao nas maximas propores para gozar +nas maximas propores a delicia de viver. Espalhava em trno um olhar +farto. Nenhuma curiosidade ou interesse lhe sollicitavam as mos, +enterradas nas algibeiras das pantalonas de sda, n'uma inercia de +derrota. Annulado, bocejava com descoroada molleza. E nada mais +instructivo e doloroso do que este supremo homem do seculo XIX, no meio +de todos os apparelhos reforadores dos seus orgos, e de todos os fios +que disciplinavam ao seu servio as Foras Universaes, e dos seus trinta +mil volumes repletos do saber dos seculos--estacando, com as mos +derrotadas no fundo das algibeiras, e exprimindo, na face e na indeciso +molle d'um bocejo, o embarao de viver! + + + + +VI + + +Todas as tardes, cultivando uma d'essas intimidades que entre tudo o que +cana jmais canam, Jacintho, s quatro horas, com regularidade devota, +visitava Madame d'Oriol:--por que essa flr de Parisianismo permanecera +em Paris, mesmo depois do Grand-Prix, a desbotar na calma e no cisco da +Cidade. N'uma d'essas tardes, porm, o Telephone, anciosamente repicado, +avisou Jacintho de que a sua dce amiga jantava em Enghien com os +Trves. (Esses senhores gozavam o seu vero beira do lago, n'uma casa +toda branca e vestida de rosinhas brancas que pertencia a Ephrain). + +Era um domingo silencioso, ennevoado e macio, convidando s +voluptuosidades da melancolia. E eu (no interesse da minha alma) suggeri +a Jacintho que subissemos Basilica do _Sacr-Coeur_, em construco +nos altos de Montmartre. + +-- uma secca, Z Fernandes... + +--Com mil demonios! Eu nunca vi a Basilica... + +--Bem, bem! Vamos Basilica, homem fatal de Noronha e Sande! + +E por fim logo que comeamos a penetrar, para alm de S. Vicente de +Paula, em bairros estreitos e ingremes, d'uma quietao de provincia, +com muros velhos fechando quintalejos rusticos, mulheres despenteadas +cozendo soleira das portas, carriolas desatreladas descanando diante +das tascas, gallinhas soltas picando o lixo, cueiros molhados seccando +em canas--o meu fastidioso camarada sorriu quella liberdade e singeleza +das cousas. + +A vittoria parou em frente larga rua de escadarias que trepa, cortando +viellasinhas campestres, at esplanada, onde, envolta em andaimes, se +ergue a Basilica immensa. Em cada patamar barracas d'arraial devoto, +forradas de panninho vermelho, transbordavam de Imagens, Bentinhos, +Crucifixos, Coraes de Jesus bordados a retroz, claros molhos de +Rosarios. Pelos cantos, velhas agachadas resmungavam a Av-Maria. Dois +padres desciam, tomando risonhamente uma pitada. Um sino lento tilintava +na doura cinzenta da tarde. E Jacintho murmurou, com agrado: + +-- curioso! + +Mas a Basilica em cima no nos interessou, abafada em tapumes e +andaimes, toda branca e scca, de pedra muito nova, ainda sem alma. E +Jacintho, por um impulso bem Jacinthico, caminhou gulosamente para a +borda do terrao, a contemplar Paris. Sob o ceu cinzento, na planicie +cinzenta, a Cidade jazia, toda cinzenta, como uma vasta e grossa camada +de calia e telha. E, na sua immobilidade e na sua mudez, algum rolo de +fumo, mais tenue e ralo que o fumear d'um escombro mal apagado, era todo +o vestigio visivel da sua vida magnifica. + +Ento chasqueei risonhamente o meu Principe. Ahi estava pois a Cidade, +augusta creao da Humanidade! Eil-a ahi, bello Jacintho! Sobre a crosta +cinzenta da Terra--uma camada de calia, apenas mais cinzenta! No +emtanto ainda momentos antes a deixaramos prodigiosamente viva, cheia +d'um povo forte, com todos os seus poderosos orgos funccionando, +abarrotada de riqueza, resplandecente de sapiencia, na triumphal +plenitude do seu orgulho, como Rainha do Mundo coroada de Graa. E agora +eu e o bello Jacintho trepavamos a uma collina, espreitavamos, +escutavamos--e de toda a estridente e radiante Civilisao da Cidade no +percebiamos nem um rumor nem um lampejo! E o 202, o soberbo 202, com os +seus arames, os seus apparelhos, a pompa da sua Mechanica, os seus +trinta mil livros? Sumido, esvado na confuso de telha e cinza! Para +este esvaecimento pois da obra humana, mal ella se comtempla de cem +metros de altura, arqueja o obreiro humano em to angustioso esforo? +Hein, Jacintho?... Onde esto os teus Armazens servidos por tres mil +caixeiros? E os Bancos em que retine o ouro universal? E as Bibliothecas +atulhadas com o saber dos seculos? Tudo se fundiu n'uma nodoa parda que +suja a Terra. Aos olhos piscos de um Z Fernandes, logo que elle suba, +fumando o seu cigarro, a uma arredada collina--a sublime edificao dos +Tempos no mais que um silencioso monturo da espessura e da cr do p +final. O que ser ento aos olhos de Deus! + +E ante estes clamores, lanados com affavel malicia para espicaar o meu +Principe, elle murmurou, pensativo: + +--Sim, talvez tudo uma illuso... E a Cidade a maior illuso! + +To facilmente victorioso redobrei de facundia. Certamente, meu +Principe, uma Illuso! E a mais amarga, por que o Homem pensa ter na +Cidade a base de toda a sua grandeza e s n'ella tem a fonte de toda a +sua miseria. V, Jacintho! Na Cidade perdeu elle a fora e belleza +harmoniosa do corpo, e se tornou esse ser resequido e escanifrado ou +obeso e afogado em unto, de ossos molles como trapos, de nervos tremulos +como arames, com cangalhas, com chins, com dentaduras de chumbo, sem +sangue, sem febra, sem vio, torto, corcunda--esse ser em que Deus, +espantado, mal pde reconhecer o seu esbelto e rijo e nobre Ado! Na +Cidade findou a sua liberdade moral: cada manh ella lhe impe uma +necessidade, e cada necessidade o arremessa para uma dependencia: pobre +e subalterno, a sua vida um constante sollicitar, adular, vergar, +rastejar, aturar; rico e superior como um Jacintho, a Sociedade logo o +enreda em tradies, preceitos, etiquetas, ceremonias, praxes, ritos, +servios mais disciplinares que os d'um carcere ou d'um quartel... A sua +tranquillidade (bem to alto que Deus com elle recompensa os Santos) +onde est, meu Jacintho? Sumida para sempre, n'essa batalha desesperada +pelo po, ou pela fama, ou pelo poder, ou pelo gzo, ou pela fugidia +rodella d'ouro! Alegria como a haver na Cidade para esses milhes de +seres que tumultuam na arquejante occupao de _desejar_--e que, nunca +fartando o desejo, incessantemente padecem de desilluso, desesperana +ou derrota? Os sentimentos mais genuinamente humanos logo na Cidade se +deshumanisam! V, meu Jacintho! So como luzes que o aspero vento do +viver social no deixa arder com serenidade e limpidez; e aqui abala e +faz tremer; e alm brutamente apaga; e adiante obriga a flammejar com +desnaturada violencia. As amizades nunca passam d'allianas que o +interesse, na hora inquieta da defeza ou na hora sofrega do assalto, ata +apressadamente com um cordel apressado, e que estalam ao menor embate da +rivalidade ou do orgulho. E o Amor, na Cidade, meu gentil Jacintho? +Considera esses vastos armazens com espelhos, onde a nobre carne d'Eva +se vende, tarifada ao arratel, como a de vacca! Contempla esse velho +Deus do Hymeneu, que circula trazendo em vez do ondeante facho da Paixo +a apertada carteira do Dote! Espreita essa turba que foge dos largos +caminhos assoalhados em que os Faunos amam as Nymphas na boa lei +natural, e busca tristemente os recantos lobregos de Sodoma ou de +Lesbos!... Mas o que a Cidade mais deteriora no homem a Intelligencia, +por que ou lh'a arregimenta dentro da banalidade ou lh'a empurra para a +extravagancia. N'esta densa e pairante camada d'Idas e Formulas que +constitue a atmosphera mental das Cidades, o homem que a respira, n'ella +envolto, s pensa todos os pensamentos j pensados, s exprime todas as +expresses j exprimidas:--ou ento, para se destacar na pardacente e +chata Rotina e trepar ao fragil andaime da gloriola, inventa n'um +gemente esforo, inchando o craneo, uma novidade disforme que espante e +que detenha a multido como um mostrengo n'uma Feira. Todos, +intelectualmente, so carneiros, trilhando o mesmo trilho, balando o +mesmo balido, com o focinho pendido para a poeira onde pisam, em fila, +as pgadas pisadas;--e alguns so macacos, saltando no topo de mastros +vistosos, com esgares e cabriolas. Assim, meu Jacintho, na Cidade, +n'esta creao to anti-natural onde o solo de pau e feltro e +alcatro, e o carvo tapa o ceu, e a gente vive acamada nos predios como +o panninho nas lojas, e a claridade vem pelos canos, e as mentiras se +murmuram atravs d'arames--o homem apparece como uma creatura +anti-humana, sem belleza, sem fora, sem liberdade, sem riso, sem +sentimento, e trazendo em si um espirito que passivo como um escravo +ou impudente como um histrio... E aqui tem o bello Jacintho o que a +bella Cidade! + +E ante estas encanecidas e veneraveis invectivas, retumbadas +pontualmente por todos os Moralistas bucolicos, desde Hesiodo, atravez +dos seculos--o meu Principe vergou a nuca docil, como se ellas +brotassem, inesperadas e frescas, d'uma Revelao superior, n'aquelles +cimos de Montmartre: + +--Sim, com effeito, a Cidade... talvez uma illuso perversa! + +Insisti logo, com abundancia, puchando os punhos, saboreando o meu facil +philosophar. E se ao menos essa illuso da Cidade tornasse feliz a +totalidade dos sres, que a manteem... Mas no! S uma estreita e +reluzente casta goza na Cidade os gozos especiaes que ella cria. O +resto, a escura, immensa plebe, s n'ella soffre, e com soffrimentos +especiaes que s n'ella existem! D'este terrao, junto a esta rica +Basilica consagrada ao Corao que amou o Pobre e por elle sangrou, bem +avistamos ns o lobrego casario onde a plebe se curva sob esse antigo +opprobrio de que nem Religies, nem Philosophias, nem Moraes, nem a sua +propria fora brutal a podero jmais libertar! Ahi jaz, espalhada pela +Cidade, como esterco vil que fecunda a Cidade. Os seculos rolam; e +sempre immutaveis farrapos lhe cobrem o corpo, e sempre debaixo d'elles, +atravs do longo dia, os homens labutaro e as mulheres choraro. E com +este labor e este pranto dos pobres, meu Principe, se edifica a +abundancia da Cidade! Eil-a agora coberta de moradas em que elles se no +abrigam; armazenada de estofos, com que elles se no agasalham; +abarrotada de alimentos, com que elles se no saciam! Para elles s a +neve, quando a neve ce, e entorpece e sepulta as creancinhas aninhadas +pelos bancos das praas ou sob os arcos das pontes de Paris... A neve +ce, muda e branca na treva: as creancinhas gelam nos seus trapos: e a +policia, em torno, ronda attenta para que no seja perturbado o tpido +somno d'aquelles que amam a neve, para patinar nos lagos do Bosque de +Bolonha com pellias de tres mil francos. Mas qu, meu Jacintho! a tua +Civilisao reclama insaciavelmente regalos e pompas, que s obter, +n'esta amarga desharmonia social, se o Capital dr ao Trabalho, por cada +arquejante esfro, uma migalha ratinhada. Irremediavel , pois, que +incessantemente a plebe sirva, a plebe pne! A sua esfalfada miseria a +condio do esplendor sereno da Cidade. Se nas suas tigellas fumegasse a +justa rao de caldo--no poderia apparecer nas baixellas de prata a +luxuosa poro de _foie-gras_ e tubaras que so o orgulho da +Civilisao. Ha andrajos em trapeiras--para que as bellas Madamas +d'Oriol, resplandecentes de sdas e rendas, subam, em doce ondulao, a +escadaria da Opera. Ha mos regeladas que se estendem, e beios sumidos +que agradecem o dom magnanimo d'um _sou_--para que os Ephrains tenham +dez milhes no Banco de Frana, se aqueam chamma rica da lenha +aromatica, e surtam de collares de saphiras as suas concubinas, netas +dos Duques d'Athenas. E um povo chora de fome, e da fome dos seus +pequeninos--para que os Jacinthos, em janeiro, debiquem, bocejando, +sobre pratos de Saxe, morangos gelados em Champagne e avivados d'um fio +d'ether! + +--E eu comi dos teus morangos, Jacintho! Miseraveis, tu e eu! + +Elle murmurou, desolado: + +-- horrivel, comemos d'esses morangos... E talvez por uma illuso! + +Pensativamente deixou a borda do terrao, como se a presena da Cidade, +estendida na planicie, fosse escandalosa. E caminhamos devagar, sob a +molleza cinzenta da tarde, philosophando--considerando que para esta +iniquidade no havia cura humana, trazida pelo esforo humano. Ah, os +Ephrains, os Trves, os vorazes e sombrios tubares do mar humano, s +abandonaro ou affrouxaro a explorao das Plebes, se uma influencia +celeste, por milagre novo, mais alto que os milagres velhos, lhes +converter as almas! O burguez triumpha, muito forte, todo endurecido no +peccado--e contra elle so impotentes os prantos dos Humanitarios, os +raciocinios dos Logicos, as bombas dos Anarchistas. Para amollecer to +duro granito s uma doura divina. Eis pois esperana da terra novamente +posta n'um Messias!... Um decerto desceu outrora dos grandes Ceus; e, +para mostrar bem que mandado trazia, penetrou mansamente no mundo pela +porta d'um curral. Mas a sua passagem entre os homens foi to curta! Um +meigo sermo n'uma montanha, ao fim d'uma tarde meiga; uma reprehenso +moderada aos Phariseus que ento redigiam o _Boulevard_; algumas +vergastadas nos Ephrains vendilhes; e logo, atravs da porta da morte, +a fuga radiosa para o Paraiso! Esse adoravel filho de Deus teve +demasiada pressa em recolher a casa de seu Pae! E os homens a quem elle +incumbira a continuao da sua obra, envolvidos logo pelas influencias +dos Ephrains, dos Trves, da gente do _Boulevard_, bem depressa +esqueceram a lio da Montanha e do lago de Tiberiade--e eis que por seu +turno revestem a purpura, e so Bispos, e so Papas, e se alliam +oppresso, e reinam com ella, e edificam a durao do seu Reino sobre a +miseria dos sem-po e dos sem-lar! Assim tem de ser recomeada a obra da +Redempo. Jesus, ou Guatama, ou Christna, ou outro d'esses filhos que +Deus por vezes escolhe no seio d'uma Virgem, nos quietos vergeis da +Asia, dever novamente descer terra de servido. Vir elle, o +desejado? Porventura j algum grave rei d'Oriente despertou, e olhou a +estrella, e tomou a myrrha nas suas mos reaes, e montou pensativamente +sobre o seu dromedario? J por esses arredores da dura Cidade, de noute, +emquanto Caiphaz e Magdalena ceam lagosta no Paillard, andou um Anjo, +attento, n'um vo lento, escolhendo um curral? J de longe, sem moo que +os tanja, na gostosa pressa d'um divino encontro, vem trotando a vacca, +trotando o burrinho? + +--Tu sabes, Jacintho? + +No, Jacintho no sabia--e queria accender o charuto. Forneci um +phosphoro ao meu Principe. Ainda rondamos no terrao, espalhando pelo ar +outras idas solidas que no ar se desfaziam. Depois penetravamos na +Basilica--quando um Sachristo nedio, de barrete de velludo, cerrou +fortemente a porta, e um Padre passou, enterrando na algibeira, com um +canado gesto final e como para sempre, o seu velho Breviario. + +--Estou com uma sde, Jacintho... Foi esta tremenda Philosophia! + +Descemos a escadaria, armada em arraial devoto. O meu pensativo camarada +comprou uma imagem da Basilica. E saltavamos para a vittoria, quando +alguem gritou rijamente, n'uma surpreza: + +--Eh Jacintho! + +O meu Principe abriu os braos, tambem espantado: + +--Eh Mauricio! + +E, n'um alvoroo, atravessou a rua, para um caf, onde, sob o toldo de +riscadinho, um robusto homem, de barba em bico, remexia o seu absintho, +com o chapo de palha descahido na nuca, a quinzena solta sobre a camisa +de sda, sem gravata, como se descanasse n'um banco, entre as sombras +do seu jardim. + +E ambos, apertando as mos, se admiravam d'aquelle encontro, n'um +domingo de vero, sobre as alturas de Montmartre. + +--Oh! eu estou aqui no meu bairro! exclamava alegremente Mauricio. Em +familia, em chinellos... Ha tres mezes que subi para estes cimos da +Verdade... Mas tu na Santa Colina, homem profano da planicie e das ruas +d'Israel! + +O meu Principe mostrou o seu Z Fernandes: + +--Com este amigo, em peregrinao Basilica... O meu amigo Fernandes +Lorena... Mauricio de Mayolle, velho camarada. + +Mr. de Mayolle (que, pela face larga e nariz nobremente grosso, lembrava +Francisco de Valois, Rei de Frana) ergueu o seu chapeu de palha. E +empurrava uma cadeira, insistia que nos accommodassemos para um absintho +ou para um bock. + +--Toma um bock, Z Fernandes! lembrou Jacintho. Tu estavas a ganir com +sde! + +Corri lentamente a lingua sobre os beios, mais scos que pergaminhos: + +--Estou a guardar esta sdesinha para logo, para o jantar, com um +vinhosinho gelado! + +Mauricio saudou, com silenciosa admirao, esta minha avisada malicia. E +immediatamente, para o meu Principe: + +--Ha tres annos que te no vejo, Jacintho... Como tem sido possivel, +n'este Paris que uma aldeola e que tu atravancas? + +--A vida, Mauricio, a espalhada vida... Com effeito! Ha tres annos, +desde a casa dos Lamotte-Orcel. Tu ainda visitas esse santuario? + +Mauricio atirou um gesto desdenhoso e largo, que sacudia um mundo: + +--Oh! Ha mais d'um anno que me separei d'essa bicharia heretica... Uma +turba indisciplinada, meu Jacintho! Nenhuma fixidez, um dilletantismo +estonteado, carencia completa e comica de toda a base experimental... +Quando tu ias aos Lamotte-Orcel, e Parola do 37, e _Cerveja ideal_, +o que reinava?... + +Jacintho catou lentamente as suas recordaes por entre os pllos do +bigode: + +--Eu sei!... Reinava Wagner e a Mithologia Eddica, e o Raganarock, e as +Nornas... Muito Pre-Raphaelismo tambem, e Montagna, e Fra-Angelico... Em +moral, o Renanismo. + +Mauricio sacudia os hombros. Oh, tudo isso pertencia a um passado +archaico, quasi lacustre! Quando Madame de Lamotte-Orcel remobilra a +sala com velludos Morris, grossas alcachofras sobre tons d'aafro, j o +Renanismo passra, to esquecido como o Cartesianismo... + +--Tu ainda s do tempo do culto do _Eu_? + +O meu Principe suspirou risonhamente: + +--Ainda o cultivei. + +--Pois bem! Logo depois foi o Hartmanismo, o Inconsciente. Depois o +Nietzismo, o Feudalismo espiritual... Depois grassou o Tolstosmo, um +furor immenso de renunciamento neo-cenobitico. Ainda me lembro d'um +jantar em que appareceu um mostrengo d'um slavo, de guedelha sordida, +que atirava olhos medonhos para o decote da pobre condessa d'Arche, e +que grunhia com o dedo espetado:--Busquemos a luz, muito por baixo, no +p da terra!--E sobremeza bebemos delicia da humildade e do +trabalho servil, com aquelle Champagne Marceaux granitado que a Mathilde +dava nos grandes dias em copos da frma do San-Gral! Depois veio +Emersonismo... Mas a praga cruel foi Ibsenismo! Emfim, meu filho, uma +Babel de Ethicas e Estheticas. Paris parecia demente. J havia uns +desgarrados que tendiam para o Luciferismo. E amiguinhas nossas, +coitadas, iam descambando para o Phallismo, uma moxinifada +mystico-brejeira, prgada por aquelle pobre La Carte que depois se fez +Monge Branco, e que anda no Deserto... Um horror! E uma tarde, de +repente, toda esta massa se precipita com ancia para o Ruskinismo! + +Eu, agarrado bengala, bem fincada no cho, sentia como um vendaval que +redemoinhava, me torcia o craneo! E at Jacintho balbuciou, esgazeado: + +--O Ruskinismo? + +--Sim, o velho Ruskin,... John Ruskin! + +O meu ditoso Principe comprehendeu: + +--Ah, Ruskin!... _As sete lampadas da Architectura_, _A Cora de +Oliveira Brava_... o culto da Belleza. + +--Sim! O culto da Belleza, confirmou Mauricio. Mas a esse tempo eu, +enojado, j descera de todas essas nuvens vs... Pisava um cho mais +seguro, mais fertil. + +Deu um sorvo lento ao absintho, cerrando as palpebras. Jacintho +esperava, com o seu fino nariz dilatado, como para respirar a Flr de +Novidade que ia desabrochar: + +--E ento? ento?... + +Mas o outro murmurou, dispersamente, por entre reticencias em que se +velava: + +--Vim para Montmartre... Tenho aqui um amigo, um homem de genio, que +percorreu toda a India... Viveu com os Toddas, esteve nos mosteiros de +Garma-Khian e de Dashi-Lumbo, e estudou com Gegen-Chutu no retiro santo +de Urga... Gegen-Chutu foi a decima-sexta encarnao de Guatama, e era +portanto um Boddi-sattva... Trabalhamos, procuramos... No so vises. +Mas factos, experiencias bem antigas, que vem talvez desde os tempos de +Christna... + +Atravs d'estes nomes, que exhalavam um perfume triste de vetustos +ritos, arredra a cadeira. E de p, deixando cair sobre a mesa, +distrahidamente, para pagar o absintho, moedas de prata e moedas de +cobre, murmurava com os olhos descanados em Jacintho, mas perdidos +n'outra viso: + +--Por fim tudo se reduz ao supremo desenvolvimento da Vontade dentro da +suprema pureza da Vida. toda a sciencia e fora dos grandes mestres +Hindus... Mas a pureza absoluta da vida, eis a lucta, eis o obstaculo! +No basta mesmo o Deserto, nem o bosque do mais velho templo no alto +Thibet... Ainda assim, meu Jacintho, j obtivemos resultados bem +extranhos. Sabes as experiencias de Tyndall, com as chammas +sensitivas... O pobre chimico, para demonstrar as vibraes do som, +tocou quasi s portas da verdade isoterica. Mas qu! homem de sciencia, +portanto homem d'estupidez, ficou quem, entre as suas placas e as suas +retortas! Ns fmos alm. Verificmos as _ondulaes da Vontade_! Deante +de ns, pela expanso da energia do meu companheiro, e em cadencia com o +seu mandado, uma chamma, a tres metros, ondulou, rastejou, despediu +linguas ardentes, lambeu uma alta parede, rugiu furiosa e negra, +resplandeceu direita e silenciosa, e bruscamente abatida em cinza +morreu! + +E o extranho homem, com o chapeu para a nuca, ficou immovel, de braos +abertos e os olhares esgazeados, como no renovado assombro e no transe +d'aquelle prodigio. Depois, recahindo no seu modo facil e sereno, +accendendo de vagar um cigarro: + +--Uma d'estas manhs, Jacintho, appareo no 202, para almoar comtigo, e +levo o meu amigo. Elle s come arrz, uma pouca de salada, e fructa. E +conversamos... Tu tinhas um exemplar do _Sepher-Zerijah_ e outro do +_Targum d'Onkelus_. Preciso folhear esses livros. + +Apertou a mo do meu Principe, saudou este assombrado Z Fernandes, e +serenamente seguiu pela quieta rua, com o chapeu de palha para a nuca, +as mos enterradas nas algibeiras, como um homem natural entre cousas +naturaes. + +--Oh Jacintho! Quem este bruxo? Conta!... Quem elle, santissimo nome +de Deus? + +Recostado na vittoria, ageitando o vinco das calas, o meu Principe +contou, concisamente. Era um nobre e leal rapaz, muito rico, muito +intelligente, da antiga casa soberana de Mayolle, descendente dos Duques +de Septimania... E murmurou, atravs do costumado bocejo: + +--O desenvolvimento supremo da vontade!... Theosophia, Buddhismo +isoterico... Aspiraes, decepes... J experimentei... Uma massada! + +Atravessamos, callados, o rumr de Paris, sob a molleza abafada do +crepusculo de vero, para jantar no Bosque, no Pavilho d'Armenonville, +onde os Tziganes, avistando Jacintho, tocaram o _Hymno da Carta_ com +paixo, com langor, n'uma cadencia de _czarda_ dolorosa e aspera. + +E eu, desdobrando regaladamente o guardanapo: + +--Pois venha agora para a minha rica sde esse vinhosinho gelado! +Grandemente o mereo, caramba, que superiormente philosophei!... E creio +que estabeleci definitivamente no espirito do Snr. D. Jacintho o salutar +horror da cidade! + +O meu Principe percorria, catando o bigode, a Lista-dos-Vinhos, em +quanto o Copeiro, esperava com pensativa reverencia: + +--Mande gelar duas garrafas de champagne S.^t Marceaux... Mas antes, um +Barsac velho, apenas refrescado... Agoa de Evian... No, de Bussang! +Bem, d'Evian e de Bussang! E, para comear, um bock. + +Depois, bocejando, desabotoando lentamente a sobrecasaca cinzenta: + +--Pois estou com vontade de construir uma casa nos cimos de Montmartre, +com um miradouro no alto, todo de vidro e ferro, para descanar de tarde +e dominar a Cidade... + + + + +VII + + +Julho findra com uma chuva refrescante e consoladora:--e eu pensava em +realisar finalmente a minha romagem s cidades da Europa, sempre +retardada, atravs da primavera, pelas surprezas do Mundo e da Carne. +Mas, de repente, Jacintho comeou a rogar e a reclamar que o seu Z +Fernandes o acompanhasse, todas as tardes, a casa de Madame d'Oriol! E +eu comprehendi que o meu Principe ( maneira do divino Achilles, que, +sob a tenda, e junto da branca, insipida e docil Briseis, nunca +dispensava Patoclo) desejava ter, no retiro do Amor, a presena, o +confrto e o soccorro da Amizade. Pobre Jacintho! Logo pela manh +combinava pelo telephone com Madame d'Oriol essa hora de quietao e +doura. E assim encontravamos sempre a superfina Dama prevenida e +solitaria n'aquella sala da rua de Lisbonne, onde Jacintho e eu mal +cabiamos, suffocavamos na confuso, entre os cestos de flres, e os +ouros rocalhados, e os monstros do Japo, e a galante fragilidade dos +Saxes, e as pelles de feras estiradas aos ps de sophs adormecedores, e +os biombos de Aubusson formando alcvas favoraveis e languidas... +Aninhada n'uma cadeira de bamb lacada de branco, entre almofadas +aromatisadas de verbena da India, com um romance pousado no regao, ella +esperava o seu amigo, n'uma certa indolencia passiva e mansa que me +lembrava sempre o Oriente e um Harem. Mas, pelas frescas sedinhas +Pompadour, parecia tambem uma marquezinha de Versalhes canada do grande +seculo; ou ento, com brocados sombrios e largos cintos cravejados, era +como uma veneziana, preparada para um Doge. A minha intruso, na +intimidade d'aquellas tardes, no a contrariava--antes lhe trazia um +vassallo novo, com dous olhos novos para a contemplar. Eu era j o seu +_cher Fernandez_! + +E apenas descerrava os labios avivados de vermelho, semelhantes a uma +ferida fresca, e comeava a chalrar--logo nos envolvia o burburinho e a +murmurao de Paris. Ella s sabia chalrar sobre a sua pessoa que era o +resumo da sua Classe, e sobre a sua existencia que era o resumo do seu +Paris:--e a sua existencia, desde casada, consistira em ornar com +suprema sciencia o seu lindo corpo; entrar com perfeio n'uma sala e +irradiar; remexer em estofos e conferenciar pensativamente com o grande +costureiro; rolar pelo Bois pousada na sua vittoria como uma imagem de +cra; decotar e branquear o collo; debicar uma perna de gallinhola em +mezas de luxo; fender turbas ricas em bailes espessos; adormecer com a +vaidade esfalfada; percorrer de manh, tomando chocolate, os Echos e +as Festas do _Figaro_; e de vez em quando murmurar para o marido--Ah, +s tu?... Alm d'isso, ao lusco-fusco, n'um soph, alguns certos +suspiros, entre os braos d'alguem a quem era constante. Ao meu +Principe, n'esse anno, pertencia o soph. E todos estes deveres de +Cidade e de Casta os cumpria sorrindo. Tanto sorrira, desde casada, que +j duas prgas lhe vincavam os cantos dos beios, indelevelmente. Mas +nem na alma, nem na pelle, mostrava outras maculas de fadiga. A sua +Agenda de Visitas continha mil e tresentos nomes, todos do Nobiliario. +Atravs, porm, desta fulgurante sociabilidade arranjra no cerebro +(onde de certo penetrra o p d'arroz que desde o collegio acamava na +testa) algumas Idas Geraes. Em Politica era pelos Principes; e todos os +outros horrores, a Republica, o Socialismo, a Democracia que se no +lava, os sacudia risonhamente, com um bater de leque. Na Semana Santa +juntava s rendas do chapeu a Cora amarga de espinhos--por serem esses, +para a gente bem-nascida, dias de penitencia e dr. E, deante de todo o +Livro ou de todo o Quadro, sentia a emoo e formulava finamente o +juizo, que no seu Mundo, e n'essa Semana, fsse elegante formular e +sentir. Tinha trinta annos. Nunca se embarara nos tormentos d'uma +paixo. Marcava, com rigida regularidade, todas as suas despezas n'um +Livro de Contas encadernado em pellucia verde-mar. A sua religio intma +(e mais genuina do que a outra, que a levava todos os domingos missa +de S. Philippe du Roule) era a Ordem. No inverno, logo que na amavel +cidade comeavam a morrer de frio, debaixo das pontes, creancinhas sem +abrigo--ella preparava com commovido cuidado os seus vestidos de +patinagem. E preparava tambem os de Caridade--porque era boa, e +concorria para Bazares, Concertos e Tombolas, quando fossem patrocinados +pelas Duquezas do seu rancho. Depois, na primavera, muito +methodicamente, regateando, vendia a uma adela os vestidos e as capas de +inverno. Paris admirava n'ella uma suprema flr de Parisianismo. + +Pois respirando esta macia e fina flr passamos ns as tardes d'esse +julho em quanto as outras flres pendiam e murchavam na calma e no p. +Mas, na intimidade do seu perfume, Jacintho no parecia encontrar esse +contentamento d'alma, que entre tudo que cana jmais cana. Era j com +a paciente lentido com que se sobem todos os Calvarios, os mais bem +tapetados, que elle subia a escadaria de Madame d'Oriol, to suave e +orlada de to frescas palmeiras. Quando a appetitosa creatura, com +dedicao, para o entreter, desdobrava a sua vivacidade como um pavo +desdobra a cauda, o meu pobre Principe puxava os pllos do bigode +murcho, na murcha postura de quem, por uma manh de Maio, em quanto os +melros cantam nas sebes, assiste, n'uma egreja negra, a um responso +funebre por um Principe. E no beijo que elle chuchurreava sobre a mo da +sua dce amiga, para se despedir, havia sempre alacridade e allivio. + +Mas ao outro dia, ao comear da tarde, depois de errar atravs da +Bibliotheca e do Gabinete, puxando sem curiosidade a tira do telegrapho, +atirando algum recado molle pelo telephone, espalhando o olhar +desalentado sobre o saber immenso dos trinta mil livros, remexendo a +collina dos Jornaes e Revistas, terminava por me chamar, j com a +preguia triste da faanha a que se impellia: + +--Vamos a casa de Madame d'Oriol, Z Fernandes? Eu tinha marcadas para +hoje seis ou sete coisas, mas no posso, uma secca! Vamos a casa de +Madame d'Oriol... Ao menos l, s vezes, ha um bocado de frescura e paz. + +E foi n'uma d'essas tardes, em que o meu Principe assim procurava +desesperadamente um bocado de frescura e paz, que encontramos, ao meio +da escadaria suave, entre as palmeiras, o marido de Madame d'Oriol. Eu +j o conhecia--porque Jacintho m'o mostrra uma noite, no Grand Caf, +ceiando com danarinas do _Moulin Rouge_. Era um moo gordalhufo, +indolente, de uma brancura cra de toucinho, com uma calvice j sria e +j lustrosa, constantemente acariciada pelos seus gordos dedos +carregados de anneis. N'essa tarde, porm, vinha vermelho, todo +emocionado, calando as luvas com colera. Estacou diante de Jacintho--e +sem mesmo lhe apertar a mo, atirando um gesto para o patamar: + +--Visita l acima? Vai achar a Joanna em pessima disposio... Tivemos +uma scena, e tremenda. + +Deu outro puxo desesperado luva cr de palha, j esgaada: + +--Estamos separados, cada um vive como lhe appetece, excellente! Mas +em tudo ha medida e frma... Ella tem o meu nome, no posso consentir +que em Paris, com conhecimento de todo o Paris, seja a amante do +trintanario. Amantes na nossa roda, v! Um lacaio, no!... Se quer +dormir com os creados que emigre para o fundo da provincia, para a sua +casa de Corbelle. E l at com os animaes!... Foi o que eu lhe disse! +Ficou como uma fera. + +Sacudiu ento a mo do Jacintho que era da sua roda--rebolou pela +escadaria florida e nobre. O meu Principe, immovel nos degraus, de face +pendida, cofiava lentamente os fios pendidos do bigode. Depois, olhando +para mim, como um sr saturado de tedio e em quem nenhum tedio novo pde +caber: + +--J agora subamos, sim? + + * * * * * + +Parti ento, com muita alegria, para a minha appetecida romagem s +Cidades da Europa. + +Ia viajar!... Viajei. Trinta e quatro vezes, pressa, bufando, com todo +o sangue na face, desfiz e refiz a mala. Onze vezes passei o dia n'um +wagon, envolto em poeirada e fumo, suffocado, a arquejar, a escorrer de +suor, saltando em cada estao para sorver desesperadamente limonadas +mornas que me escangalhavam a entranha. Quatorze vezes subi +derreadamente, atraz de um creado, a escadaria desconhecida d'um Hotel; +e espalhei o olhar incerto por um quarto desconhecido; e estranhei uma +cama desconhecida, d'onde me erguia, estremunhado, para pedir em linguas +desconhecidas um caf com leite que me sabia a fava, um banho de tina +que me cheirava a ldo. Oito vezes travei bulhas abominaveis na rua com +cocheiros que me espoliavam. Perdi uma chapelleira, quinze lenos, tres +ceroulas, e duas botas, uma branca, outra envernizada, ambas do p +direito. Em mais de trinta mezas-redondas esperei tristonhamente que me +chegasse o _boeuf-a-la-mode_, j frio, com mlho coalhado--e que o +copeiro me trouxesse a garrafa de Bordeus que eu provava e repellia com +desditosa carantonha. Percorri, na fresca penumbra dos granitos e dos +marmores, com p respeitoso e abafado, vinte e nove Cathedraes. Trilhei +mollemente, com uma dr surda na nuca, em quatorze muzeus, cento e +quarenta salas revestidas at aos tectos de Christos, heroes, santos, +nymphas, princezas, batalhas, architecturas, verduras, nudezes, sombrias +manchas de betume, tristezas das formas immoveis!... E o dia mais dce +foi quando em Veneza, onde chovia desabaladamente, encontrei um velho +inglez de penca flammejante que habitra o Porto, conhecra o Ricardo, o +Jos Duarte, o Visconde do Bom Successo, e as Limas da Boa Vista... +Gastei seis mil francos. Tinha viajado. + +Emfim, n'uma bemdita manh d'outubro, na primeira friagem e nevoa +d'outomno, avistei com enternecido alvoroo as cortinas de seda ainda +fechadas do meu 202! Affaguei o hombro do Porteiro. No patamar, onde +encontrei o ar macio e tepido que deixra em Florena, apertei os ossos +do Grillo excellente: + +--E Jacintho? + +O digno negro murmurou, d'entre os altos, reluzentes collarinhos: + +--S. Exc.^a circula... Pesadote, fartote. Entrou tarde do baile da +Duqueza de Loches. Era o contracto de casamento de Mademoiselle de +Loches... Ainda tomou antes de se deitar um ch gelado... E disse a +coar a cabea: Eh! que massada! Eh! que massada! + +Depois do banho e do chocolate, s dez horas, consolado e quentinho +dentro do roupo de velludo, rompi pelo quarto do meu Principe, de +braos abertos e sedentos: + +--Oh Jacintho! + +--Oh viajante!... + +Quando nos estreitamos, fartamente, eu recuei para lhe contemplar a +face--e n'ella a alma. Encolhido n'uma quinzena de panno cr de malva +orlada de pelles de martha, com os pellos do bigode murchos, as suas +duas rugas mais cavadas, uma molleza nos hombros largos, o meu amigo +parecia j vergado sob o pezo e a oppresso e o terror do seu dia. Eu +sorri, para que elle sorrisse: + +--Valente Jacintho... Ento como tens vivido? + +Elle respondeu, muito serenamente: + +--Como um morto. + +Forcei uma gargalhada leve, como se o seu mal fsse leve: + +--Aborrecidote, hein? + +O meu Principe lanou, n'um gesto to vencido, um _oh_ to cansado--que +eu compadecido de novo o abracei, o estreitei, como para lhe communicar +uma parte d'esta alegria solida e pura que recebi do meu Deus! + + * * * * * + +Desde essa manh, Jacintho comeou a mostrar claramente, +escancaradamente, ao seu Z Fernandes, o tdio de que a existencia o +saturava. O seu cuidado realmente e o seu esfro consistiram ento em +sondar e formular esse tdio--na esperana de o vencer logo que lhe +conhecesse bem a origem e a potencia. E o meu pobre Jacintho reproduziu +a comedia pouco divertida d'um Melancolico que perpetuamente raciocina a +sua Melancolia! N'esse raciocino, elle partia sempre do facto +irrecusavel e massio--que a sua vida especial de Jacintho continha +todos os interesses e todas as facilidades, possiveis no seculo XIX, +n'uma vida de homem que no um Genio, nem um Santo. Com effeito! +Apezar do appetite embotado por doze annos de Champagnes e mlhos ricos +elle conservava a sua rijeza de pinheiro bravo; na luz da sua +intelligencia no apparecra nem tremor nem morro; a boa terra de +Portugal, e algumas Companhias macissas, pontualmente lhe forneciam a +sua doce centena de contos; sempre activas e sempre fieis o cercavam as +sympathias d'uma Cidade inconstante e chasqueadora; o 202 estourava de +confrtos; nenhuma amargura de corao o atormentava;--e todavia era um +Triste. Porque?... E d'aqui saltava, com certeza fulgurante, concluso +de que a sua tristeza, esse cinzento burel em que a sua alma andava +amortalhada, no provinham da sua individualidade de Jacintho--mas da +Vida, do lamentavel, do desastroso facto de Viver! E assim o saudavel, +intellectual, riquissimo, bem-acolhido Jacintho tombra no Pessimismo. + +E um Pessimismo irritado! Porque (segundo affirmava) elle nascera para +ser to naturalmente optimista como um pardal ou um gato. E, at aos +doze annos, emquanto fra um bicho superiormente amimado, com a sua +pelle sempre bem coberta, o seu prato sempre bem cheio, nunca sentira +fadiga, ou melancolia, ou contrariedade, ou pena--e as lagrimas eram +para elle to incomprehensiveis que lhe pareciam viciosas. S quando +crescra, e da animalidade penetrra na humanidade, despontra n'elle +esse fermento de tristeza, muito tempo indesenvolvido no tumulto das +primeiras curiosidades, e que depois alastrra, o invadira todo, se lhe +tornra consubstancial e como o sangue das suas veias. Soffrer portanto +era inseparavel de Viver. Soffrimentos differentes nos destinos +differentes da Vida. Na turba dos humanos a angustiada lucta pelo po, +pelo tecto, pelo lume; n'uma casta, agitada por necessidades mais altas, + a amargura das desilluses, o mal da imaginao insatisfeita, o +orgulho chocando contra obstaculo; n'elle, que tinha os bens todos e +desejos nenhuns, era o tdio. Miseria do Corpo, tormento da Vontade, +fastio da Intelligencia--eis a Vida! E agora aos trinta e tres annos a +sua occupao era bocejar, correr com os dedos desalentados a face +pendida para n'ella palpar e appetecer a caveira. + +Foi ento que o meu Principe comeou a ler apaixonadamente, desde o +_Ecclesiastes_ at Schopenhauer, todos os lyricos e todos os theoricos +do Pessimismo. N'estas leituras encontrava a reconfortante comprovao +de que o seu mal no era mesquinhamente Jacinthico--mas grandiosamente +resultante d'uma Lei Universal. J ha quatro mil annos, na remota +Jerusalm, a Vida, mesmo nas suas delicias mais triumphaes, se resumia +em Illuso. J o Rei incomparavel, de sapiencia divina, summo Vencedor, +summo Edificador, se enfastiava, bocejava, entre os despojos das suas +conquistas, e os marmores novos dos seus Templos, e as suas tres mil +concubinas, e as Rainhas que subiam do fundo da Ethiopia para que elle +as fecundasse e no seu ventre depozsse um Deus! No ha nada novo sob o +sol, e a eterna repetio das coisas a eterna repetio dos males. +Quanto mais se sabe mais se pena. E o justo como o perverso, nascidos do +p, em p se tornam. Tudo tende ao p ephemero, em Jerusalm e em Paris! +E elle, obscuro no 202, padecia por ser homem e por viver--como no seu +throno d'ouro, entre os seus quatro lees d'ouro, o filho magnifico de +David. + +No se separava ento do _Ecclesiastes_. E circulava por Paris trazendo +dentro do coup Salomo, como irmo de dr, com quem repetia o grito +desolado que a summa da verdade humana--_Vanitas Vanitatum_! Tudo +Vaidade! Outras vezes, logo de manh o encontrava estendido no soph, +n'um roupo de sda, absorvendo Schopenhauer--emquanto o pedicuro, +ajoelhado sobre o tapete, lhe polia com respeito e pericia as unhas dos +ps. Ao lado pousava a chavena de Saxe, cheia d'esse caf de Moka +enviado por emires do Deserto, que no o contentava nunca, nem pela +fora, nem pelo aroma. A espaos pousava o livro no peito, resvalava um +olhar compassivo para o pedicuro, como a procurar que dr o +torturaria--pois que a todo o viver corresponde um soffrer. Decerto o +remexer assim, perpetuamente, em ps alheios... E quando o pedicuro se +erguia, Jacintho abria para elle um sorriso de confraternidade--com um +adeus, meu amigo que era um adeus, meu irmo! + +Esse foi o periodo esplendido e soberbamente divertido do seu tdio. +Jacintho encontrra emfim na vida uma occupao grata--maldizer a Vida! +E para que a podsse maldizer em todas as suas frmas, as mais ricas, as +mais intellectuaes, as mais puras, sobrecarregou a sua vida propria de +novo luxo, de interesses novos d'espirito, e at de fervores +humanitarios, e at de curiosidades supernaturaes. + +O 202, n'esse inverno, refulgiu de magnificencia. Foi ento que elle +iniciou em Paris, repetindo Heliogabalo, os Festins de Cr contados na +Historia Augusta: e offereceu s suas amigas esse sublime jantar cr de +rosa, em que tudo era roseo, as paredes, os moveis, as luzes, as louas, +os crystaes, os gelados, os Champagnes, e at (por uma inveno da +Alta-Cozinha) os peixes, e as carnes, e os legumes, que os escudeiros +serviam, empoados de p rosado, com librs da cr da rosa, em quanto do +tecto, d'um velario de seda rosada, cahiam petalas frescas de rosas... A +Cidade, deslumbrada, clamou--Bravo, Jacintho! E o meu Principe, ao +rematar a festa fulgurante, plantou deante de mim as mos nas ilhargas e +gritou triumphalmente:--Hein? Que massada!... + +Depois foi o Humanitarismo: e fundou um Hospicio no campo, entre +jardins, para velhinhos desamparados, outro para creanas debeis beira +do Mediterraneo. Depois com o major Dorchas, e Mayolle, e o Hind de +Mayolle penetrou no Theosophismo: e montou tremendas experiencias para +verificar a mysteriosa _exteriorisao da motilidade_. Depois, +desesperadamente, ligou o 202 com os fios telegraphicos do _Times_, para +que no seu gabinete, como n'um corao, palpitasse toda a vida Social da +Europa. + +E a cada um d'estes esforos da elegancia, do humanitarismo, da +sociabilidade, e da intelligencia indagadora, voltava para mim, de +braos alegres, com um grito victorioso:--Vs tu, Z Fernandes? Uma +massada!--Arrebatava ento o seu _Ecclesiastes_, o seu Schopenhauer, e, +estendido no soph, saboreava voluptuosamente a concordancia da Doutrina +e da Experiencia. Possuia uma F--o Pessimismo: era um apostolo rico e +esforado: e tudo tentava, com sumptuosidade, para provar a verdade da +sua F! Muito gozou n'esse anno o meu desgraado Principe! + +No comeo do inverno, porm, notei com inquietao que Jacintho j no +folheava o _Ecclesiastes_, desleixava Schopenhauer. Nem festas, nem +Theosophismos, nem os seus Hospicios, nem os fios do _Times_, pareciam +interessar agora o meu amigo, mesmo como demonstraes gloriosas da sua +Crena. E a sua abominavel funco de novo se limitou a bocejar, a +passar os dedos molles sobre a face pendida palpando a caveira. +Incessantemente alludia morte como a uma libertao. Uma tarde mesmo, +no melancolico crepusculo da Bibliotheca, antes de refulgirem as luzes, +consideravelmente me aterrou, fallando n'um tom regelado de mortes +rapidas, sem dr, pelo choque d'uma vasta pilha electrica ou pela +violencia compassiva do acido cyanidrico. Diabo! O Pessimismo, que +apparecera na Intelligencia do meu Principe como um conceito +elegante--atacra bruscamente a Vontade! + +Todo o seu movimento ento foi o d'um boi inconsciente que marcha sob a +canga e o aguilho. J no esperava da Vida contentamento--nem mesmo se +lastimava que ella lhe trouxesse tdio ou pena. Tudo indifferente, Z +Fernandes! E to indifferentemente sahiria sua janella para receber +uma Cora Imperial offerecida por um Povo--como se estenderia n'uma +poltrona rta para emmudecer e jazer. Sendo tudo inutil, e no +conduzindo seno a maior desilluso, que podia importar a mais rutilante +actividade ou a mais desgostada inercia? O seu gesto constante, que me +irritava, era encolher os hombros. Perante duas ideias, dois caminhos, +dois pratos, encolhia os hombros! Que importava?... E no minimo acto, +raspar um phosphoro ou desdobrar um Jornal, punha uma morosidade to +desconsolada que todo elle parecia ligado, desde os dedos at alma, +pelas voltas apertadas d'uma corda que se no via e que o travava. + + * * * * * + +Muito desagradavelmente me recordo do dia dos seus annos, a 10 de +Janeiro. Cdo, de manh, recebra, com uma carta de Madame de Trves, um +aafate de camelias, azaleas, orchideas e lyrios do valle. E foi este +mimo que lhe recordou a data consideravel. Soprou sobre as petalas o +fumo do cigarro e murmurou com um riso de lento escarneo: + +--Ento, ha trinta e quatro annos que eu ando n'esta massada? + +E como eu propunha que telephonassemos aos amigos para beberem no 202 o +Champagne do Natalicio--elle recusou, com o nariz enojado. Oh! No! +Que horrivel scca!... E bradou mesmo para o Grillo: + +--Eu hoje no estou em Paris para ninguem. Abalei para o campo, abalei +para Marselha... Morri! + +E a sua ironia no cessou at ao almoo perante os bilhetes, os +telegrammas, as cartas, que subiam, se arredondavam em collina sobre a +meza d'ebano, como um preito da Cidade. Outras flres que vieram, em +vistosos cestos, com vistosos laos, foram por elle comparadas s que se +depe sobre uma tumba. E apenas se interessou um momento pelo presente +de Ephraim, uma engenhosa meza, que se abaixava at ao tapete ou se +alteava at ao tecto--para que, senhor Deus meu? + +Depois do almoo, como chovia sombriamente, no arredamos do 202, com os +ps estendidos ao lume, em preguioso silencio. Eu terminra por +adormecer beatificamente. Acordei aos passos aodados do Grillo... +Jacintho, enterrado na poltrona, com umas tesouras, recortava um papel! +E nunca eu me compadeci d'aquelle amigo, que canra a mocidade a +accumular todas as noes formuladas desde Aristoteles e a juntar todos +os inventos realisados desde Tharamenes, como n'essa tarde de festa, em +que elle, cercado de Civilisao nas maximas propores para gozar nas +maximas propores a delicia de viver, se encontrava reduzido, junto ao +seu lar, a recortar papeis com uma tesoura! + +O Grillo trazia um presente do Gran-Duque--uma caixa de prata, forrada +de cedro, e cheia d'um ch precioso, colhido, flr a flr, nas veigas de +Kiang-Sou por mos puras de virgens, e conduzido atravs da Asia, em +caravanas, com a venerao d'uma reliquia. Ento, para despertar o nosso +torpr, lembrei que tomassemos o divino ch--occupao bem harmonica com +a tarde triste, a chuva grossa alagando os vidros, e a clara chamma +bailando no fogo. Jacintho accedeu--e um escudeiro acercou logo a meza +de Ephraim para que ns lhe estreassemos os servios destros. Mas o meu +Principe, depois de a altear, para meu espanto, at aos crystaes do +lustre, no conseguiu, apezar de uma suada e desesperada batalha com as +molas, que a meza regressasse a uma altura humana e cazeira. E o +escudeiro de novo a levou, levantada como um andaime, chimerica, +unicamente aproveitavel para o gigante Adamastor. Depois veio a caixa do +ch entre chaleiras, lampadas, coadores, filtros, todo um fausto de +alfaias de prata, que communicavam a essa occupao, to simples e dce +em caza de minha tia, _fazer ch_, a magestade d'um rito. Prevenido pelo +meu camarada da sublimidade d'aquelle ch de Kiang-Sou, ergui a chavena +aos labios com reverencia. Era uma infuso descorada que sabia a malva e +a formiga. Jacintho provou, cuspiu, blasphemou... No tomamos ch. + +Ao cabo d'outro pensativo silencio, murmurei, com os olhos perdidos no +lume: + +--E as obras de Tormes? A egreja... J haver egreja nova? + +Jacintho retomra o papel e a thesoura: + +--No sei... No tornei a receber carta do Silverio... Nem imagino onde +param os ossos... Que lugubre historia! + +Depois chegou a hora das luzes e do jantar. Eu encommendra pelo Grillo +ao nosso magistral cozinheiro uma larga travessa d'arroz dce, com as +iniciaes de Jacintho e a data ditosa em canella, moda amavel da nossa +meiga terra. E o meu Principe meza, percorrendo a lamina de marfim +onde no 202 se inscreviam os pratos a lapis vermelho, louvou com fervr +a ideia patriarchal: + +--Arrz dce! Est escripto com dois _ss_, mas no tem dvida... +Excellente lembrana! Ha que tempos no cmo arrz dce!... Desde a +morte da av. + +Mas quando o arrz dce appareceu triumphalmente, que vexme! Era um +prato monumental, de grande arte! O arrz, massio, moldado em frma de +pyramide do Egypto, emergia d'uma calda de cereja, e desapparecia sob os +fructos seccos que o revestiam at ao cimo, onde se equilibrava uma +cora de Conde feita de chocolate e gomos de tangerina gelada! E as +iniciaes, a data, to lindas e graves na canella ingenua, vinham +traadas nas bordas da travessa com violetas pralinadas! Repellimos, +n'um mudo horror, o prato acanalhado. E Jacintho, erguendo o copo de +Champagne, murmurou como n'um funeral pago: + +--_Ad Manes_, aos nossos mortos! + +Recolhemos Bibliotheca, a tomar o caf no conchego e alegria do lume. +Fra, o vento bramava como n'um rmo serrano: e as vidraas tremiam, +alagadas, sob as bategas da chuva irada. Que dolorosa noite para os dez +mil pobres que em Paris erram sem po e sem lar! Na minha aldeia, entre +crro e valle, talvez assim rugisse a tormenta. Mas ahi cada pobre, sob +o abrigo da sua telha v, com a sua panella atestada de couves, se +agacha no seu manto ao calor da lareira. E para os que no tenham lenha +ou couve, l est o Joo das Quintas, ou a tia Vicencia, ou o abbade, +que conhecem todos os pobres pelos seus nomes, e com elles contam, como +sendo dos seus, quando o carro vae ao matto e a fornada entra no frno. +Ah Portugal pequenino, que ainda s dce aos pequeninos! + +Suspirei, Jacintho preguiava. E terminamos por remexer languidamente os +jornaes que o mordomo trouxera, n'um monte facundo, sobre uma salva de +prata--jornaes de Paris, jornaes de Londres, Semanarios, Magazines, +Revistas, Illustraes... Jacintho desdobrava, arremessava: das Revistas +espreitava o summario, logo farto; s Illustraes rasgava as folhas com +o dedo indifferente, bocejando por cima das gravuras. Depois, mais +estirado para o lume: + +-- uma scca... No ha que lr. + +E de repente, revoltado contra este fastio oppressor que o escravisava, +saltou da poltrona com um arranque de quem despedaa algemas, e ficou +erecto, dardejando em torno um olhar imperativo e duro, como se +intimasse aquelle seu 202, to abarrotado de Civilisao, a que por um +momento sequer fornecesse sua alma um interesse vivo, sua vida um +fugitivo gsto! Mas o 202 permaneceu insensivel: nem uma luz, para o +animar, avivou o seu brilho mudo: s as vidraas tremeram sob o embate +mais rude de agua e vento. + +Ento o meu Principe, succumbido, arrastou os passos at ao seu +gabinete, comeou a percorrer todos os apparelhos completadores e +facilitadores da Vida--o seu Telegrapho, o seu Telephone, o seu +Phonographo, o seu Radiometro, o seu Graphophono, o seu Microphono, a +sua Machina d'Escrever, a sua Machina de Contar, a sua Imprensa +Electrica, a outra Magnetica, todos os seus utensilios, todos os seus +tubos, todos os seus fios... Assim um Supplicante percorre altares +d'onde espera soccorro. E toda a sua sumptuosa Mechanica se conservou +rigida, reluzindo frigidamente, sem que uma roda girasse, nem uma lamina +vibrasse, para entreter o seu Senhor. + +S o relogio monumental, que marcava a hora de todas as capitaes e o +curso de todos os planetas, se compadeceu, batendo a meia-noite, +annunciando ao meu amigo que mais um Dia partira levando o seu +pzo--diminuindo esse sombrio pzo da Vida, sob que elle gemia, vergado. +O Principe da Gran-Ventura, ento, decidiu recolher para a cama--com um +livro... E durante um momento, estacou no meio da Bibliotheca, +considerando os seus setenta mil volumes estabelecidos com pompa e +magestade como Doutores n'um Concilio--depois as pilhas tumultuarias dos +livros novos que esperavam pelos cantos, sobre o tapete, o repouso e a +consagrao das estantes d'ebano. Torcendo mollemente o bigode caminhou +por fim para a regio dos Historiadores: espreitou seculos, farejou +raas: pareceu attrahido pelo explendor do Imperio Byzantino: penetrou +na Revoluo Franceza d'onde se arredou desencantado: e palpou com mo +indeliberada toda a vasta Grecia desde a creao de Athenas at a +aniquilao de Corintho. Mas bruscamente virou para a fila dos Poetas, +que reluziam em marroquins claros, mostrando, sobre a lombada, em ouro, +nos titulos fortes ou languidos, o interior das suas almas. No +appeteceu nenhuma d'essas seis mil almas--e recuou, desconsolado, at +aos Biologos... To massia e cerrada era a estante de Biologia que o +meu pobre Jacintho estarreceu, como ante uma cidadella inaccessivel! +Rolou a escada--e, fugindo, trepou, at s alturas da Astronomia: +destacou astros, recollocou mundos: todo um Systema Solar desabou com +fragor. Aturdido, desceu, comeou a procurar por sobre as rimas das +obras novas, ainda brochadas, nas suas roupas leves de combate. +Apanhava, folheava, arremessava: para desentulhar um volume, demolia uma +torre de doutrinas: saltava por cima dos Problemas, pisava as Religies: +e relanceando uma linha, esgravatando alm n'um indice, todos +interrogava, de todos se desinteressava, rolando quasi de rastos, nas +grossas vagas de tomos que rolavam, sem se poder deter, na ancia de +encontrar um Livro! Parou ento no meio da immensa nave, de cocoras, sem +coragem, contemplando aquelles muros todos forrados, aquelle cho todo +alastrado, os seus setenta mil volumes--e, sem lhes provar a substancia, +j absolutamente saciado, abarrotado, nauseado pela opresso da sua +abundancia. Findou por voltar ao monto de jornaes amarrotados, ergueu +melancholicamente um velho _Diario de Noticias_, e com elle debaixo do +brao subiu ao seu quarto, para dormir, para esquecer. + + + + +VIII + + +Ao fim d'esse inverno escuro e pessimista, uma manh que eu preguiava +na cama, sentindo atravs da vidraa cheia de sol ainda pallido um bafo +de Primavera ainda timido--Jacintho assomou porta do meu quarto, +revestido de flanellas leves, d'uma alvura de aucena. Parou lentamente + beira dos colxes, e, com gravidade, como se annunciasse o seu +casamento ou a sua morte, deixou desabar sobre mim esta declarao +formidavel: + +--Z Fernandes, vou partir para Tormes. + +O pulo com que me sentei abalou o rijo leito de pau preto do velho D. +Galio: + +--Para Tormes? Oh Jacintho, quem assassinaste?... + +Deleitado com a minha emoo, o Principe da Gran Ventura tirou da +algibeira uma carta, e encetou estas linhas, j decerto relidas, +fundamente estudadas: + +--Ill.^{mo} e exc.^{mo} snr.--Tenho grande satisfao em communicar a +v. exc.^a que por toda esta semana devem ficar promptas as obras da +capella... + +-- do Silverio? exclamei. + +-- do Silverio. ...as obras da capella nova. Os venerandos restos dos +excelsos avs de v. exc.^a, senhores de todo o meu respeito, podem pois +ser em breve trasladados da egreja de S. Jos, onde tm estado +depositados por bondade do nosso Abbade, que muito se recommenda a v. +exc.^a... Submisso, aguardo as prestantes ordens de v. exc.^a a respeito +d'esta magestosa e afflictiva ceremonia... + +Atirei os braos, comprehendendo: + +--Ah! bem! Queres ir assistir trasladao... + +Jacintho sumiu a carta no bolso. + +--Pois no te parece, Z Fernandes? No por causa dos outros avs, que +so ossos vagos, e que eu no conheci. por causa do av Galio... +Tambem no o conheci. Mas este 202 est cheio d'elle; tu ests deitado +na cama d'elle; eu ainda uso o relogio d'elle. No posso abandonar ao +Silverio e aos caseiros o cuidado de o installarem no seu jazigo novo. +Ha aqui um escrupulo de decencia, de elegancia moral... Emfim, decidi. +Apertei os punhos na cabea, e gritei--_vou a Tormes_! E vou!... E tu +vens! + +Eu enfiara as chinellas, apertava os cordes do roupo: + +--Mas tu sabes, meu bom Jacintho, que a casa de Tormes est +inhabitavel... + +Elle cravou em mim os olhos aterrados. + +--Medonha, hein? + +--Medonha, medonha, no... uma bella casa, de bella pedra. Mas os +caseiros, que l vivem ha trinta annos, dormem em catres, comem o caldo + lareira, e usam as salas para seccar o milho. Creio que os unicos +moveis de Tormes, se bem recordo, so um armario, e uma espinetta de +charo, cxa, j sem teclas. + +O meu pobre Principe suspirou, com um gesto rendido em que se abandonava +ao Destino: + +--Acabou!... _Alea jact est!_ E como s partimos para abril, ha tempo de +pintar, d'assoalhar, d'envidraar... Mando d'aqui de Paris tapetes e +camas... Um estofador de Lisboa vae depois forrar e disfarar algum +buraco... Levamos livros, uma machina para fabricar gelo... E mesmo +uma occasio de pr emfim n'uma das minhas casas de Portugal alguma +decencia e ordem. Pois no achas? E ento essa! Uma casa que data de +1410... Ainda existia o Imperio Byzantino! + +Eu espalhava, com o pincel, sobre a face, flocos lentos de sabo. O meu +Principe accendeu muito pensativamente um cigarro; e no se arredou do +toucador, considerando o meu preparo com uma atteno triste que me +incommodava. Por fim, como se remoesse uma sentena minha, para lhe +reter bem a moral e o succo: + +--Ento, definitivamente, Z Fernandes, entendes que um dever, um +absoluto dever, ir eu a Tormes? + +Afastei do espelho a cara ensaboada para encarar com divertido espanto o +meu Principe: + +--Oh Jacintho! foi em ti, s em ti que nasceu a ideia d'esse dever! E +honra te seja, menino... No cedas a ninguem essa honra! + +Elle atirou o cigarro--e, com as mos enterradas nas algibeiras das +pantalonas, vagou pelo quarto, topando nas cadeiras, embicando contra os +postes torneados do velho leito de D. Galio, n'um balano vago, como +barco j desamarrado do seu seguro ancoradouro, e sem rumo no mar +incerto. Depois encalhou sobre a mesa onde eu conservava enfileirada, +por gradaes de sentimentos, desde o dagarreotypo do pap at +photographia do _Carocho_ perdigueiro, a galeria da minha Familia. + +E nunca o meu Principe (que eu contemplava esticando os suspensorios) me +pareceu to corcovado, to minguado, como gasto por uma lima que desde +muito o andasse fundamente limando. Assim viera findar, desfeita em +Civilisao, n'aquelle super-requintado magricellas sem musculo e sem +energia, a raa fortissima dos Jacinthos! Esses guedelhudos Jacinthes, +que nas suas altas terras de Tormes, de volta de bater o moiro no Salado +ou o castelhano em Valverde, nem mesmo despiam as fuscas armaduras para +lavrar as suas chans e amarrar a vide ao olmo, edificando o Reino com a +lana e com a enxada, ambas to rudes e rijas! E agora, alli estava +aquelle ultimo Jacintho, um Jacinthiculo, com a macia pelle embebida em +aromas, a curta alma enrodilhada em Philosophias, travado e suspirando +baixinho na miuda indeciso de viver. + +--Oh Z Fernandes, quem esta lavradeirona to rechonchuda? + +Estendi o pescoo para a Photographia que elle erguera d'entre a minha +galeria, no seu honroso caixilho de pellucia escarlate: + +--Mais respeito, Snr. D. Jacintho... Um pouco mais de respeito, +cavalheiro!... minha prima Joanninha, de Sandofim, da Casa da Flr da +Malva. + +--Flr da Malva, murmurou o meu Principe. a casa do Condestavel, de +Nun'alvares. + +--Flr da Rosa, homem! A casa do Condestavel era na Flr da Rosa, no +Alemtejo... Essa tua ignorancia trapalhona das coisas de Portugal! + +O meu Principe deixou escorregar mollemente a photographia da minha +prima d'entre os dedos molles--que levou face, no seu gesto horrendo +de palpar atravez da face a caveira. Depois, de repente, com um soberbo +esforo, em que se endireitou e cresceu: + +--Bem! _Alea jacta est!_ Partamos pois para as serras!... E agora nem +reflexo, nem descano!... obra! E a caminho! + +Atirou a mo ao fecho dourado da porta como se fosse o negro loquete que +abre os Destinos--e no corredor gritou pelo Grillo, com uma larga e +aodada voz que eu nunca lhe conhecera, e me lembrou a d'um Chefe +ordenando, n'alvorada, que se levante o Acampamento, e que a Hoste +marche, com pendes e bagagens... + +Logo n'essa manh (com uma actividade em que eu reconheci a pressa +enjoada de quem bebe oleo-de-ricino), escreveu ao Silverio mandando +caiar, assoalhar, envidraar o casaro. E depois do almoo appareceu na +Bibliotheca, chamado violentamente pelo telephone, para combinar a +remessa de mobilias e confortos, o director da _Companhia Universal de +Transportes_. + +Era um homem que parecia o cartaz da sua Companhia, apertado n'um +jaqueto de xadrezinho escuro, com polainas de jornada sobre botas +brancas, uma sacola de marroquim a tiracolo, e na botoeira uma roseta +multicor resumindo as suas condecoraes exoticas de Madagascar, de +Nicaragua, da Persia, outras ainda, que provavam a universalidade dos +seus servios. Apenas Jacintho mencionou Tormes, no Douro...--elle +logo, atravez d'um sorriso superior, estendeu o brao, detendo outros +esclarecimentos, na sua intimidade minuciosa com essas regies. + +--Tormes... Perfeitamente! Perfeitamente! + +Sobre o joelho, na carteira, escrevinhou uma fugidia nota--emquanto eu +considerava, assombrado, a vastido do seu saber Chorographico, assim +familiar com os recantos d'uma serra de Portugal e com todos os seus +velhos solares. J elle atirra a carteira para o bolso... E ns, seus +caros senhores, no tinhamos seno a encaixotar as roupas, as mobilias, +as preciosidades! Elle mandaria as suas carroas buscar os caixotes, a +que poria, em grossa letra, com grossa tinta, o endereo... + +--Tormes, perfeitamente! Linha Norte-Hespanha-Medina-Salamanca... +Perfeitamente! Tormes... Muito pittoresco! E antigo, historico! +Perfeitamente, perfeitamente! + +Desengonou a cabea n'uma venia profundissima--e sahiu da Bibliotheca, +com passos que devoravam leguas, annunciavam a presteza dos seus +Transportes. + +--V tu, murmurou Jacintho muito serio. Que promptido, que +facilidade!... Em Portugal era uma tragedia. No ha seno Paris! + +Comeou ento no 202 o collossal encaixotamento de todos os confortos +necessarios ao meu Principe para um mez de serra aspera--camas de penna, +banheiras de nickel, lampadas Carcel, divans profundos, cortinas para +vedar as gretas rudes, tapetes para amaciar os soalhos broncos. Os +sotos, onde se arrecadavam os pesados trastes do av Galio, foram +esvasiados--porque o casaro medieval de 1410 comportava os trems +romanticos de 1830. De todos os armazens de Paris chegavam cada manh +fardos, caixas, temerosos embrulhos que os emmaladores desfaziam, +atulhando os corredores de montes de palha e de papel pardo, onde os +nossos passos aodados se enrodilhavam. O cozinheiro, esbaforido, +organisava a remessa de fornalhas, geleiras, bocaes de trufas, latas de +conservas, bojudas garrafas de aguas mineraes. Jacintho, lembrando as +trovoadas da serra, comprou um immenso pra-raios. Desde o amanhecer, +nos pateos, no jardim, se martellava, se pregava, com vasto fragor, como +na construco d'uma cidade. E o desfilar das bagagens, atravs do +porto, lembrava uma pagina de Herodoto contando a marcha dos Persas. + +Das janellas, Jacintho com o brao estendido, saboreava aquella +actividade e aquella disciplina: + +--V tu, Z Fernandes, que facilidade!... Sahimos do 202, chegamos +serra, encontramos o 202. No ha seno Paris! + +Recomera a amar a Cidade, o meu Principe, emquanto preparava o seu +Exodo. Depois de ter, toda a manh, apressado os encaixotadores, +descortinado confortos novos para o abandonado solar, telephonado gordas +listas de encommendas a cada loja de Paris--era com delicia que se +vestia, se perfumava, se floria, se enterrava na vittoria ou saltava +para a almofada do phaeton, e corria ao Bosque, e saudava a barba +talmudica do Ephraim, e os bands furiosamente negros da Verghane, e o +Psychologo de fiacre, e a condessa de Trves na sua nova caleche de +oito-molas fornecida pelas operaes conjunctas da Bolsa e da alcva. +Depois arrebanhava amigos para jantares de surpreza no Voisin ou no +Bignon, onde desdobrava o guardanapo com a impaciencia d'uma fome +alegre, vigiando fervorosamente que os Bordeus estivessem bem aquecidos +e os Champagnes bem granitados. E no theatro das _Nouveauts_, no +_Palais Royal_, nos _Buffos_, ria, batendo na cxa, com encanecidas +facecias d'encanecidas faras, antiquissimos tregeitos d'antiquissimos +actores, com que j rira na sua infancia, antes da guerra, sob o segundo +Napoleo! + +De novo, em duas semanas, se abarrotaram as paginas da sua Agenda. A +magnificencia do seu trage, como imperador Frederico II de Suabia, +deslumbrou, no baile mascarado da Princesa de Cravon-Rogan (onde tambem +fui, de moo de forcado.) E na _Associao para o Desenvolvimento das +Religies Esotericas_ discursou e batalhou bravamente pela construco +d'um Templo Budhista em Montmartre! + +Com espanto meu recomeou tambem a conversar, como nos tempos de Escla, +da famosa Civilisao nas suas maximas propores. Mandou encaixotar o +seu velho telescopio para o usar em Tormes. Receei mesmo que no seu +espirito germinasse a ida de crear, no cimo da serra, uma Cidade com +todos os seus orgos. Pelo menos no consentia o meu Jacintho que essas +semanas da silvestre Tormes interrompessem a illimitada accumulao das +noes--porque uma manh rompeu pelo meu quarto, desolado, gritando que +entre tantos confortos e frmas de Civilisao esqueceramos os livros! +Assim era--e que vexame para a nossa Intellectualidade! Mas que livros +escolher entre os facundos milhares sob que vergava o 202? O meu +Principe decidiu logo dedicar os seus dias serranos ao estudo da +Historia Natural--e ns mesmos, immediatamente, deitamos para o fundo +d'um vasto caixote novo, como lastro, os vinte e cinco tomos de Plinio. +Despejamos depois para dentro, s braadas, Geologia, Mineralogia, +Botanica... Espalhamos por cima uma camada aeria de Astronomia. E, para +fixar bem no caixote estas Sciencias oscillantes, entalamos em redor +cunhas de Metaphysica. + +Mas quando a derradeira caixa, pregada e cintada de ferro, sahiu do +porto do 202 na derradeira carroa da _Companhia dos Transportes_, toda +esta animao de Jacintho se abateu como a efervescencia n'um copo de +Champagne. Era em meados j tepidos de Maro. E de novo os seus +desagradaveis bocejos atroaram o 202, e todos os sophs rangeram sob o +peso do corpo que elle lhe atirava para cima, mortalmente vencido pela +fartura e pelo tedio, n'um desejo de repouso eterno, bem envolto de +solido e silencio. Desesperei. O que! Aturaria eu ainda aquelle +Principe palpando amargamente a caveira, e, quando o crepusculo +entristecia a Bibliotheca, alludindo, n'um tom rouco, doura das +mortes rapidas pela violencia misericordiosa do acido cyanhidrico? Ah +no, caramba! E uma tarde em que o encontrei estirado sobre um divan, de +braos em cruz, como se fosse a sua estatua de marmore sobre o seu +jazigo de granito, positivamente o abanei com furor, berrando: + +--Accorda, homem! Vamos para Tormes! O casaro deve estar prompto, a +reluzir, a abarrotar de cousas! Os ossos de teus avs pedem repouso, em +cova sua!... A caminho, a enterrar esses mortos, e a vivermos ns, os +vivos!... Irra! So cinco de Abril!... o bom tempo da serra! + +O meu Principe resurgiu lentamente da inercia de pedra: + +--O Silverio no me escreveu, nunca me escreveu... Mas, com effeito, +deve estar tudo preparado... J l temos certamente creados, o +cosinheiro de Lisboa... Eu s levo o Grillo, e o Anatole que envernisa +bem o calado, e tem geito como pedicuro... Hoje Domingo. + +Atirou os ps para o tapete, com heroismo: + +--Bem, partimos no Sabbado!... Avisa tu o Silverio! + +Comeou ento o laborioso e pensativo estudo dos Horarios--e o dedo +magro de Jacintho, por sobre o mappa, avanando e recuando entre Paris e +Tormes. Para escolher o salo que deviamos habitar durante a temida +jornada, duas vezes percorremos o deposito da Estao d'Orleans, +atolados em lama, atraz do Chefe do Trafico que entontecia. O meu +Principe recusava este salo por causa da cr tristonha dos estofos; +depois recusava aquelle por causa da mesquinhez afflictiva do +Water-Closet! Uma das suas inquietaes era o banho, nas manhs que +passariamos rolando. Suggeri uma banheira de borracha. Jacintho, +indeciso, suspirava... Mas nada o aterrou como o trasbordo em Medina del +Campo, de noite, nas trevas da Velha Castella. Debalde a Companhia do +Norte de Hespanha e a de Salamanca, por cartas, por telegrammas, +socegaram o meu camarada, affirmando que, quando elle chegasse no +comboio de Irun dentro do seu salo, j outro salo ligado ao comboio de +Portugal esperaria, bem aquecido, bem allumiado, com uma ceia que lhe +offertava um dos Directores, D. Esteban Castillo, ruidoso e rubicundo +conviva do 202! Jacintho corra os dedos anciosos pela face:--E os +saccos, as pelles, os livros, quem os transportaria do salo de Irun +para o salo de Salamanca? Eu berrava, desesperado, que os carregadores +de Medina eram os mais rapidos, os mais destros de toda a Europa! Elle +murmurava:--Pois sim, mas em Hespanha, de noite!... A noite, longe da +Cidade, sem telephone, sem luz electrica, sem postos de policia, parecia +ao meu Principe povoada de surprezas e assaltos. S acalmou depois de +verificar no Observatorio Astronomico, sob a garantia do sabio professor +Bertrand, que a noite da nossa jornada era de lua cheia! + +Emfim, na sexta-feira, findou a tremenda organisao d'aquella viagem +historica! O sabbado predestinado amanheceu com generoso sol, de +affagadora doura. E eu acabava de guardar na mala, embrulhadas em papel +pardo, as photographias das creaturinhas suaves que, n'esses vinte e +sete mezes de Paris, me tinham chamado _mon petit chou! mon rat +cheri!_--quando Jacintho rompeu pelo quarto, com um soberbo ramo de +orchideas na sobrecasaca, pallido e todo nervoso. + +--Vamos ao Bosque, por despedida? + +Fomos-- grande despedida! E que encanto! At nas almofadas e molas da +vittoria senti logo uma elasticidade mais emballadora. Depois, pela +Avenida do Bosque, quasi me pezava no ficar sempiternamente rolando, ao +trote rimado das eguas perfeitas, no rebrilho rico de metaes e vernizes, +sobre aquelle macadam mais alisado que marmore, entre to bem regadas +flres e relvas de to tentadora frescura, cruzando uma Humanidade fina, +de elegancia bem acabada, que almora o seu chocolate em porcellanas de +Sevres ou de Minton, sahira d'entre sdas e tapetes de tres mil francos, +e respirava a belleza de Abril com vagar, requinte e pensamentos +ligeiros! O Bosque resplandecia n'uma harmonia de verde, azul e ouro. +Nenhuma cova ou terra solta desalisava as polidas alleas que a Arte +traou e enroscou na espessura--nenhum esgalho desgrenhado desmanchava +as ondulaes macias da folhagem que o Estado escva e lava. O piar das +aves apenas se elevava para espalhar uma graa leve de vida alada;--e +mais natural parecia, entre o arvoredo sociavel, o ranger das sellas +novas, onde pousavam, com balano esbelto, as amazonas espartilhadas +pelo grande Redfern. Em frente ao Pavilho de Armenonville cruzamos +Madame de Trves, que nos envolveu ambos na caricia do seu sorriso, mais +avivado quella hora pelo vermelho ainda humido. Logo atraz a barba +talmudica de Ephraim negrejou, fresca tambem da brilhantine da manh, no +alto d'um phaeton tilintante. Outros amigos de Jacintho circulavam nas +Acacias--e as mos que lhe acenavam, lentas e affaveis, calavam luvas +frescas cr de palha, cr de perola, cr de lilaz. Todelle relampejou +rente de ns sobre uma grande bycicleta. Dornan, alastrado n'uma cadeira +de ferro, sob um espinheiro em flr, mamava o seu immenso charuto, como +perdido na busca de rimas sensuaes e nedias. Adeante foi o Psychologo, +que nos no avistou, conversando com um requebro melancolico para dentro +d'um coup que rescendia a alcova, e a que um cocheiro obeso imprimia +dignidade e decencia. E rolavamos ainda, quando o Duque de Marizac, a +cavallo, ergueu a bengala, estacou a nossa vittoria para perguntar a +Jacintho se apparecia noite nos quadros vivos dos Verghanes. O meu +Principe rosnou um--no, parto para o sul...--que mal lhe passou +d'entre os bigodes murchos... E Marizac lamentou--porque era uma festa +estupenda. Quadros vivos da Historia Sagrada e da Historia Romana!... +Madame Verghane, de Magdalena, de braos ns, peitos ns, pernas nas, +limpando com os cabellos os ps do Christo!--O Christo, um latago +soberbo, parente dos Trves, empregado no Ministerio da Guerra, gemendo, +derreado, sob uma cruz de papelo! Havia tambem Lucrecia na cama, e +Tarquinio ao lado, de punhal, a puxar os lenoes! E depois ceia, em +mezas soltas, todos nos seus trajes historicos. Elle j estava +aparceirado com Madame de Malbe, que era Agrippina! Quadro portentoso +esse--Agrippina morta, quando Nero a vem contemplar e lhe estuda as +frmas, admirando umas, desdenhando outras como imperfeitas. Mas, por +polidez, ficra combinado que Nero admiraria sem reserva todas as frmas +de Madame de Malbe... Emfim collossal, e estupendamente instructivo! + +Acenamos um longo adeus quelle alegre Marizac. E recolhemos sem que +Jacintho emergisse do silencio enrugado em que se abysmra, com os +braos rigidamente cruzados, como remoendo pensamentos decisivos e +fortes. Depois, em frente ao Arco de Triumpho, moveu a cabea, murmurou: + +-- muito grave, deixar a Europa! + + * * * * * + +Emfim, partimos! Sob a doura do crepusculo que se enublra deixamos o +202. O Grillo e o Anatole seguiam n'um fiacre atulhado de livros, de +estojos, de paletots, de impermeaveis, de travesseiras, de agoas +mineraes, de saccos de couro, de rolos de mantas: e mais atraz um +omnibus rangia sob a carga de vinte e tres malas. Na Estao, Jacintho +ainda comprou todos os Jornaes, todas as Illustraes, Horarios, mais +livros, e um saca-rolhas de frma complicada e hostil. Guiados pelo +Chefe do Trafico, pelo Secretario da Companhia, occupamos copiosamente o +nosso salo. Eu puz o meu bonet de sda, calcei as minhas chinellas. Um +silvo varou a noite. Paris lampejou, fugiu n'um derradeiro claro de +janellas... Para o sorver, Jacintho ainda se arremessou portinhola. +Mas rolavamos j na treva da Provincia. O meu Principe ento recahiu nas +almofadas: + +--Que aventura, Z Fernandes! + +At Chartres, em silencio, folheamos as Illustraes. Em Orleans, o +guarda veio arranjar respeitosamente as nossas camas. Derreado com +aquelles quatorze mezes de Civilisao adormeci--e s acordei em Bordeus +quando Grillo, zeloso, nos trouxe o nosso chocolate. Fra, uma chuva +miudinha pingava mollemente d'um espesso ceu de algodo sujo. Jacintho +no se deitra, desconfiado da aspereza e da humidade dos lenoes. E, +mettido n'um roupo de flanella branco, com a face arripiada e +estremunhada, ensopando um bolo no chocolate, rosnava sombriamente: + +--Este horror!... E agora com chuva! + +Em Biarritz, ambos observamos com uma certeza indolente: + +-- Biarritz. + +Depois Jacintho, que espreitava pela janella embaciada, reconheceu o +lento caminhar pernalto, o nariz bicudo e triste, do Historiador Danjon. +Era elle, o facundo homem, vestido de xadrezinho, ao lado d'uma dama +rolia que levava pela trella uma cadellinha felpuda. Jacintho baixou a +vidraa violentamente, berrou pelo Historiador, na ancia de communicar +ainda, atravs d'elle, com a Cidade, com o 202!... Mas o comboio +mergulhra na chuva e nevoa. + +Sobre a ponte do Bidassoa, antevendo o termo da vida facil, os abrolhos +da Incivilisao, Jacintho suspirou com desalento: + +--Agora adeus, comea a Hespanha!... + +Indignado, eu, que j saboreava o generoso ar da terra bemdita, saltei +para diante do meu Principe, e n'um saracoteio de tremendo salero, +castanholando os dedos, entoei uma petenera condigna: + +A la puerta de mi casa +Ay Soledad, Soleda... ... ... . + +Elle estendeu os braos, supplicante: + +--Z Fernandes, tem piedade do enfermo e do triste! + +--_Irun_! _Irun_!... + +N'essa Irun almoamos com succulencia--por que sobre ns velava, como +Deusa omnipresente, a Companhia do Norte. Depois el jefe d'Aduana, el +jefe d'Estacion, preciosamente nos installaram n'outro salo, novo, com +setins cr d'azeitona, mas to pequeno que uma rica poro dos nossos +confortos em mantas, livros, saccos e impermeaveis, passou para o +compartimento do _Sleeping_ onde se repoltreavam o Grillo e o Anatole, +ambos de bonets escocezes, e fumando gordos charutos.--_Buen viaje_! +_Gracias_! _Servidores_!--E entramos silvando nos Pyreneos. + +Sob a influencia da chuva embaciadora, d'aquellas serras sempre eguaes, +que se desenrolavam, arripiadas, diluidas na nevoa, resvalei a uma +somnolencia dce;--e, quando descerrava as palpebras, encontrava +Jacintho a um canto, esquecido do livro fechado nos joelhos, sobre que +cruzra os magros dedos, considerando valles e montes com a melancolia +de quem penetra nas terras do seu desterro! Um momento veio em que, +arremessando o livro, enterrando mais o chapo molle, se ergueu com +tanta deciso, que receei detivesse o comboio para saltar estrada, +correr atravez das Vascongadas e da Navarra, para traz, para o 202! +Sacudi o meu torpr, exclamei:--oh menino!... No! O pobre amigo ia +apenas continuar o seu tedio para outro canto, enterrado n'outra +almofada, com outro livro fechado. E maneira que a escurido da tarde +crescia, e com ella a borrasca de vento e agoa, uma inquietao mais +aterrada se apoderava do meu Principe, assim desgarrado da Civilisao, +arrastado para a Natureza que j o cercava de brutalidade agreste. No +cessou ento de me interrogar sobre Tormes: + +--As noites so horriveis, hein, Z Fernandes? Tudo negro, enorme +solido... E medico?... Ha medico? + +Subitamente o comboio estacou. Mais grossa e ruidosa a chuva fustigou as +vidraas. Era um descampado, todo em treva, onde rolava e lufava um +grande vento solto. A machina apitava, com angustia. Uma lanterna +lampejou, correndo. Jacintho batia o p:-- medonho! medonho!... +Entreabri a portinhola. Da claridade incerta das vidraas surdiam +cabeas esticadas, assustadas.--_Que hay_? _Que hay_?--A uma rajada, +que me alagou, recuei:--e esperamos durante lentos, calados minutos, +esfregando desesperadamente os vidros embaciados para sondar a +escurido. De repente o comboio recomeou a rolar, muito sereno. + +Em breve appareceram as luzinhas mortas d'uma estao abarracada. Um +conductor, com o casaco de oleado todo a escorrer, trepou ao salo:--e +por elle soubemos, emquanto carimbava apressadamente os bilhetes, que o +trem, muito atrazado, talvez no alcanasse em Medina o comboio de +Salamanca! + +--Mas ento?... + +O casaco de oleado escorregra pela portinhola, fundido na noite, +deixando um cheiro de humidade e azeite. E ns encetamos um novo +tormento... Se o trem de Salamanca tivesse abalado? O salo, tomado at +Medina, desengatava em Medina:--e eis os nossos preciosos corpos, com as +nossas preciosas almas, despejados em Medina, para cima da lama, entre +vinte e trez malas, n'uma rude confuso hespanhola, sob a tormenta de +ventania e d'agua! + +--Oh, Z Fernandes, uma noite em Medina! + +Ao meu Principe apparecia como desventura suprema essa noite em Medina, +n'uma _fonda_ sordida, fedendo a alho, com gordas filas de percevejos +atravez dos lenoes d'estopa encardida!... No cessei ento de fitar, +n'um desassocego, os ponteiros do relogio:--emquanto Jacintho, pela +vidraa escancarada, todo fustigado da chuva clamorosa, furava a +negrura, na esperana de avistar as luzes de Medina e um comboio +paciente fumegando... Depois recahia no divan, limpava os bigodes e os +olhos, maldizia a Hespanha. O trem arquejava, rompendo o vasto vento da +planura desolada. E a cada apito era um alvoroo. Medina?... No! Algum +sumido apeadeiro, onde o trem se atardava, esfalfado, resfolgando, +emquanto dormentes figuras encarapuadas, embrulhadas em mantas, +rondavam sob o telheiro do barraco, que as lanternas baas tornavam +mais soturno. Jacintho esmurrava o joelho:--Mas por que pra este +infame comboio? No ha trafico, no ha gente! Oh esta Hespanha!... A +sineta badalava, moribunda. De novo fendiamos a noite e a borrasca. + +Resignadamente comecei a percorrer um _Jornal do Commercio_, antigo, +trazido de Paris. Jacintho esmagava o espesso tapete do salo com +passadas rancorosas, rosnando como uma fera. E ainda assim se escoou, s +gottas, uma hora cheia de eternidade.--Um silvo, outro silvo!... Luzes +mais fortes, longe, palpitaram na neblina. As rodas trilharam, com rijos +solavancos, os encontros de carris. Emfim, Medina!... Um muro sujo de +barraco alvejou--e bruscamente, portinhola aberta com violencia, +apparece um cavalheiro barbudo, de capa hespanhola, gritando pelo snr. +D. Jacintho!... Depressa! depressa! que parte o comboio de Salamanca! + +--Que no hay un momento, caballeros! Que no hay un momento! + +Agarro estonteadamente o meu paletot, o _Jornal do Commercio_. Saltamos +com ancia:--e, pela plataforma, por sobre os trilhos, atravs de +charcos, tropeando em fardos, empurrados pelo vento, pelo homem da capa + hespanhola, enfiamos outra portinhola, que se fechou com um estalo +tremendo... Ambos arquejavamos. Era um salo forrado de um panno verde +que comia a luz escassa. E eu estendia o brao, para receber dos +carregadores aodados as nossas malas, os nossos livros, as nossas +mantas--quando, em silencio, sem um apito, o trem despegou e rolou. +Ambos nos atiramos s vidraas, em brados furiosos: + +--Pare! As nossas malas, as nossas mantas!... P'ra aqui!... Oh Grillo! +Oh Grillo! + +Uma immensa rajada levou os nossos brados. Era de novo o descampado +tenebroso, sob a chuva despenhada. Jacintho ergueu os punhos, n'um furor +que o engasgava: + +--Oh! Que servio! Oh que canalhas!... S em Hespanha!... E agora? As +malas perdidas!... Nem uma camisa, nem uma escova! + +Calmei o meu desgraado amigo: + +--Escuta! eu entrevi dous carregadores arrebanhando as nossas cousas... +Decerto o Grillo fiscalisou. Mas na pressa, naturalmente, atirou com +tudo para o seu compartimento... Foi um erro no trazer o Grillo +comnosco, no salo... At podiamos jogar a manilha! + +De resto a sollicitude da Companhia, Deusa omnipresente, velava sobre o +nosso conforto--pois que porta do lavatorio branquejava o cesto da +nossa ceia, mostrando na tampa um bilhete de D. Esteban com estas doces +palavras a lapis--_ D. Jacintho y su egregio amigo, que les d gusto_! +Farejei um aroma de perdiz. E alguma tranquillidade nos penetrou no +corao sentindo tambem as nossas malas sob a tutella da Deusa +omnipresente. + +--Tens fome Jacintho? + +--No. Tenho horror, furor, rancor!... E tenho somno. + +Com effeito! depois de to desencontradas emoes s appeteciamos as +camas que esperavam, macias e abertas. Quando cahi sobre a travesseira, +sem gravata, em ceroulas, j o meu Principe, que no se despira, apenas +embrulhra os ps no _meu_ paletot, nosso unico agasalho, resonava com +magestade. + +Depois, muito tarde e muito longe, percebi junto do meu catre, na +claridadezinha da manh, coada pelas cortinas verdes, uma fardeta, um +bonet, que murmuravam baixinho com immensa doura: + +--V. exc.^as no tem nada a declarar?... No ha malinhas de mo?... + +Era a minha terra! Murmurei baixinho com immensa ternura: + +--No temos aqui nada... Pergunte v. exc.^a pelo Grillo... Ahi atraz, +n'um compartimento... Elle tem as chaves, tem tudo... o Grillo. + +A fardeta desappareceu, sem rumor, como sombra benefica. E eu readormeci +com o pensamento em Guies, onde a tia Vicencia, atarefada, de leno +branco cruzado no peito, de certo j preparava o leito. + +Acordei envolto n'um largo e doce silencio. Era uma Estao muito +socegada, muito varrida, com rosinhas brancas trepando pelas paredes--e +outras rosas em moitas, n'um jardim, onde um tanquesinho abafado de +limos dormia sob duas mimosas em flr que rescendiam. Um moo pallido, +de paletot cr de mel, vergando a bengalinha contra o cho, contemplava +pensativamente o comboio. Agachada rente grade da horta, uma velha, +diante da sua cesta de ovos, contava moedas de cobre no regao. Sobre o +telhado seccavam aboboras. Por cima rebrilhava o profundo, rico e macio +azul de que meus olhos andavam agoados. + +Sacudi violentamente Jacintho: + +--Acorda, homem, que ests na tua terra! + +Elle desembrulhou os ps do meu paletot, cofiou o bigode, e veio sem +pressa, vidraa que eu abrira, conhecer a sua terra. + +--Ento Portugal, hein?... Cheira bem. + +--Est claro que cheira bem, animal! + +A sineta tilintou languidamente. E o comboio deslisou, com descano, +como se passeasse para seu regalo sobre as duas fitas d'ao, assobiando +e gozando a belleza da terra e do ceu. + +O meu Principe alargava os braos, desolado: + +--E nem uma camisa, nem uma escova, nem uma gotta d'agoa de Colonia!... +Entro em Portugal, immundo! + +--Na Regoa ha uma demora, temos tempo de chamar o Grillo, rehaver os +nossos confortos... Olha para o rio! + +Rolavamos na vertente d'uma serra, sobre penhascos que desabavam at +largos socalcos cultivados de vinhedo. Em baixo, n'uma esplanada, +branquejava uma casa nobre, de opulento repouso, com a capellinha muito +caiada entre um laranjal maduro. Pelo rio, onde a agoa turva e tarda nem +se quebrava contra as rochas, descia, com a vela cheia, um barco lento +carregado de pipas. Para alm, outros socalcos, d'um verde pallido de +rezeda, com oliveiras apoucadas pela amplido dos montes, subiam at +outras penedias que se embebiam, todas brancas e assoalhadas, na fina +abundancia do azul. Jacintho acariciava os pellos corredios do bigode: + +--O Douro, hein?... interessante, tem grandeza. Mas agora que eu +estou com uma fome, Z Fernandes! + +Tambem eu! Destapamos o cesto de D. Esteban d'onde surdiu um bodo +grandioso, de presunto, anho, perdizes, outras viandas frias que o ouro +de duas nobres garrafas d'Amontillado, alm de duas garrafas de Rioja, +aqueciam com um calor de sol Andaluz. Durante o presunto, Jacintho +lamentou contrictamente o seu erro. Ter deixado Tormes, um solar +historico, assim abandonado e vasio! Que delicia, por aquella manh to +lustrosa e tepida, subir serra, encontrar a sua casa bem apetrechada, +bem civilisada... Para o animar, lembrei que com as obras do Silverio, +tantos caixotes de Civilisao remettidos de Paris, Tormes estaria +confortavel mesmo para Epicuro. Oh! mas Jacintho entendia um palacio +perfeito, um 202 no deserto!... E, assim discorrendo, atacamos as +perdizes. Eu desarrolhava uma garrafa de Amontillado--quando o comboio, +muito sorrateiramente, penetrou n'uma Estao. Era a Regoa. E o meu +Principe pousou logo a faca para chamar o Grillo, reclamar as malas que +traziam o aceio dos nossos corpos. + +--Espera, Jacintho! Temos muito tempo, O comboio pra aqui uma hora... +Come com tranquillidade. No escangalhemos este almocinho com arrumaes +de maletas... O Grillo no tarda a apparecer. + +E corri mesmo a cortina, porque de fra um padre muito alto, com uma +ponta de cigarro collada ao beio, parra a espreitar indiscretamente o +nosso festim. Mas quando acabamos as perdizes, e Jacintho confiadamente +desembrulhava um queijo manchego, sem que Grillo ou Anatole +comparecessem, eu, inquieto, corri portinhola para apressar esses +servos tardios... E n'esse instante o comboio, largando, deslisou com o +mesmo silencio sorrateiro. Para o meu Principe foi um desgosto: + +--Ahi ficamos outra vez sem um pente, sem uma escova... E eu que queria +mudar de camisa! Por culpa tua, Z-Fernandes! + +-- espantoso!... Demora sempre uma eternidade. Hoje chega e abala! +Paciencia, Jacintho. Em duas horas estamos na Estao de Tormes... +Tambem no valia a pena mudar de camisa para subir serra! Em casa +tomamos um banho, antes de jantar... J deve estar installada a +banheira. + +Ambos nos consolamos com copinhos d'uma divina aguardente Chinchon. +Depois, estendidos nos sophs, saboreando os dois charutos que nos +restavam, com as vidraas abertas ao ar adoravel, conversamos de Tormes. +Na estao certamente estaria o Silverio, com os cavallos... + +--Que tempo leva a subir? + +Uma hora. Depois de lavados sobrava tempo para um demorado passeio pelas +terras com o caseiro, o excellente Melchior, para que o Senhor de +Tormes, solemnemente, tomasse posse do seu Senhorio. E noite o +primeiro brodio da serra, com os piteus vernaculos do velho Portugal! + +Jacintho sorria, seduzido: + +--Vamos a ver que cozinheiro me arranjou esse Silverio. Eu recommendei +que fosse um soberbo cozinheiro portuguez, classico. Mas que soubesse +trufar um per, afogar um bife em molho de moella, estas cousas simples +da cozinha de Frana!... O peor no te demorares, seguires logo para +Guies... + +--Ah, menino, annos da tia Vicencia no sabbado... Dia sagrado! Mas +volto. Em duas semanas estou em Tormes, para fazermos uma larga +Bucolica. E, est claro, para assistir trasladao. + +Jacintho estendera o brao: + +--Que casaro aquelle, alm no outeiro, com a torre? + +Eu no sabia. Algum solar de fidalgote do Douro... Tormes era n'esse +feitio atarracado e massio. Casa de seculos e para seculos--mas sem +torre. + +--E logo se v, da estao, Tormes?... + +--No! Muito no alto, n'uma prega da serra, entre arvoredo. + +No meu Principe j evidentemente nascra uma curiosidade pela sua rude +casa ancestral. Mirava o relogio, impaciente. Ainda trinta minutos! +Depois, sorvendo o ar e a luz, murmurava, no primeiro encanto de +iniciado: + +--Que doura, que paz... + +--Trez horas e meia, estamos a chegar, Jacintho! + +Guardei o meu velho _Jornal do Commercio_ dentro do bolso do paletot, +que deitei sobre o brao;--e ambos em p, s janellas, esperamos com +alvoroo a pequenina Estao de Tormes, termo ditoso das nossas +provaes. Ella appareceu emfim, clara e simples, beira do rio, entre +rochas, com os seus vistosos girasoes enchendo um jardimsinho breve, as +duas altas figueiras assombreando o pateo, e por traz a serra coberta de +velho e denso arvoredo... Logo na plataforma avistei com gosto a immensa +barriga, as bochechas menineiras do chefe da Estao, o louro Pimenta, +meu condiscipulo em Rhetorica, no Lyceu de Braga. Os cavallos decerto +esperavam, sombra, sob as figueiras. + +Mal o trem parou ambos saltamos alegremente. A bojuda massa do Pimenta +rebolou para mim com amizade: + +--Viva o amigo Z Fernandes! + +--Oh bello Pimento!... + +Apresentei o senhor de Tormes. E immediatamente: + +--Ouve l, Pimentinha... No est ahi o Silverio? + +--No... O Silverio ha quasi dois mezes que partiu para Castello de +Vide, vr a me que apanhou uma cornada d'um boi! + +Atirei a Jacintho um olhar inquieto: + +--Ora essa! E o Melchior, o caseiro?... Pois no esto ahi os cavallos +para subirmos quinta? + +O digno chefe ergueu com surpreza as sobrancelhas cr de milho: + +--No!... Nem Melchior, nem cavallos... O Melchior... Ha que tempos eu +no vejo o Melchior! + +O carregador badalou lentamente a sineta para o comboio rolar. Ento, +no avistando em torno, na lisa e despovoada Estao, nem creados nem +malas, o meu Principe e eu lanamos o mesmo grito de angustia: + +--E o Grillo? as bagagens?... + +Corremos pela beira do comboio, berrando com desespero: + +--Grillo!... Oh Grillo!... Anatole!... Oh Grillo! + +Na esperana que elle e o Anatole viessem mortalmente adormecidos, +trepavamos aos estribos, atirando a cabea para dentro dos +compartimentos, espavorindo a gente quieta com o mesmo berro que +retumbava:--Grillo, ests ahi, Grillo?--J d'uma terceira-classe, onde +uma viola repenicava, um jocoso gania, troando:--No ha por ahi um +grillo? Andam por ahi uns senhores a pedir um grillo!--E nem Anatole, +nem Grillo! + +A sineta tilintou. + +--Oh Pimentinha, espera, homem, no deixes largar o comboio!... As +nossas bagagens, homem! + +E, afflicto, empurrei o enorme chefe para o forgo de carga, a +pesquizar, descortinar as nossas vinte e trez malas! Apenas encontramos +barris, cestos de vime, latas de azeite, um bah amarrado com cordas... +Jacintho mordia os beios, livido. E o Pimentinha, esgazeado: + +--Oh filhos, eu no posso atrazar o comboio!... + +A sineta repicou... E com um bello fumo claro o comboio desappareceu por +detraz das fragas altas. Tudo em torno pareceu mais calado e deserto. +Alli ficavamos pois baldeados, perdidos na serra, sem Grillo, sem +procurador, sem caseiro, sem cavallos, sem malas! Eu conservava o +paletot alvadio, d'onde surdia o _Jornal do Commercio_. Jacintho, uma +bengala. Eram todos os nossos bens! + +O Pimento arregalava para ns os olhinhos papudos e compadecidos. +Contei ento quelle amigo o atarantado trasfgo em Medina sob a +borrasca, o Grillo desgarrado, encalhado com as vinte e trez malas, ou +rolando talvez para Madrid sem nos deixar um leno... + +--Eu no tenho um leno!... Tenho este _Jornal do Commercio_. toda a +minha roupa branca. + +--Grande arrelia, caramba! murmurava o Pimenta, impressionado. E agora? + +--Agora, exclamei, trepar, para a quinta, pata... A no ser que se +arranjassem ahi uns burros. + +Ento o carregador lembrou que perto, no casal da Giesta, ainda +pertencente a Tormes, o caseiro, seu compadre, tinha uma boa egua e um +jumento... E o prestante homem enfiou n'uma carreira para a +Giesta--emquanto o meu Principe e eu cahiamos para cima d'um banco, +arquejantes e succumbidos, como naufragos. O vasto Pimentinha, com as +mos nas algibeiras, no cessava de nos contemplar, de murmurar:-- de +arrelia.--O rio defronte descia, preguioso e como adormentado sob a +calma j pesada de maio, abraando, sem um sussurro, uma larga ilhota de +pedra que rebrilhava. Para alm a serra crescia em corcovas doces, com +uma funda prega onde se aninhava, bem junta e esquecida do mundo, uma +villasinha clara. O espao immenso repousava n'um immenso silencio. +N'aquellas solides de monte e penedia os pardaes, revoando no telhado, +pareciam aves consideraveis. E a massa rotunda e rubicunda do Pimentinha +dominava, atulhava a regio. + +--Est tudo arranjado, meu senhor! Vm ahi os bichos!... S o que no +calhou foi um selimsinho para a jumenta! + +Era o carregador, digno homem, que voltava da Giesta, sacudindo na mo +duas esporas desirmanadas e ferrugentas. E no tardaram a apparecer no +corrego, para nos levarem a Tormes, uma egua rua, um jumento com +albarda, um rapaz e um podengo. Apertamos a mo suada e amiga do +Pimentinha. Eu cedi a egua ao senhor de Tormes. E comeamos a trepar o +caminho, que no se alisra nem se desbravra desde os tempos em que o +trilhavam, com rudes sapates ferrados, cortando de rio a monte, os +Jacinthos do seculo XIV! Logo depois de atravessarmos uma tremula ponte +de pau, sobre um riacho quebrado por pedregulhos, o meu Principe, com o +olho de dono subitamente aguado, notou a robustez e a fartura das +oliveiras...--E em breve os nossos males esqueceram ante a incomparavel +belleza d'aquella serra bemdita! + +Com que brilho e inspirao copiosa a compozera o divino Artista que faz +as serras, e que tanto as cuidou, e to ricamente as dotou, n'este seu +Portugal bem-amado! A grandeza egualava a graa. Para os valles, +poderosamente cavados, desciam bandos de arvoredos, to copados e +redondos, d'um verde to mo que eram como um musgo macio onde +appetecia cahir e rolar. Dos pendores, sobranceiros ao carreiro fragoso, +largas ramadas estendiam o seu toldo amavel, a que o esvoaar leve dos +passaros sacudia a fragrancia. Atravez dos muros seculares, que sustem +as terras liados pelas heras, rompiam grossas raizes colleantes a que +mais hera se enroscava. Em todo o torro, de cada fenda, brotavam flres +silvestres. Brancas rochas, pelas encostas, alastravam a solida nudez do +seu ventre polido pelo vento e pelo sol; outras, vestidas de lichen e de +silvados floridos, avanavam como pras de galeras enfeitadas: e, +d'entre as que se apinhavam nos cimos, algum casebre que para l +galgra, todo amachucado e torto, espreitava pelos postigos negros, sob +as desgrenhadas farripas de verdura, que o vento lhe semera nas telhas. +Por toda a parte a agua sussurrante, a agua fecundante... Espertos +regatinhos fugiam, rindo com os seixos, d'entre as patas da egua e do +burro; grossos ribeiros aodados saltavam com fragor de pedra em pedra; +fios direitos e luzidios como cordas de prata vibravam e faiscavam das +alturas aos barrancos; e muita fonte, posta beira de veredas, jorrava +por uma bica, beneficamente, espera dos homens e dos gados... Todo um +cabeo por vezes era uma cera, onde um vasto carvalho ancestral, +solitario, dominava como seu senhor e seu guarda. Em socalcos verdejavam +laranjaes rescendentes. Caminhos de lages soltas circumdavam fartos +prados com carneiros e vaccas retouando:--ou mais estreitos, entalados +em muros, penetravam sob ramadas de parra espessa, n'uma penumbra de +repouso e frescura. Trepavamos ento alguma ruasinha de aldeia, dez ou +doze casebres, sumidos entre figueiras, onde se esgaava, fugindo do lar +pela telha v, o fumo branco e cheiroso das pinhas. Nos cerros remotos, +por cima da negrura pensativa dos pinheiraes, branquejavam ermidas. O ar +fino e puro entrava na alma, e n'alma espalhava alegria e fora. Um +esparso tilintar de chocalhos de guizos morria pelas quebradas... + +Jacintho adiante, na sua egua rua, murmurava: + +--Que belleza! + +E eu atraz, no burro de Sancho, murmurava: + +--Que belleza! + +Frescos ramos roavam os nossos hombros com familiaridade e carinho. Por +traz das sebes, carregadas d'amoras, as macieiras estendidas offereciam +as suas mas verdes, porque as no tinham maduras. Todos os vidros +d'uma casa velha, com a sua cruz no topo, refulgiram hospitaleiramente +quando ns passamos. Muito tempo um melro nos seguia, de azinheiro a +olmo, assobiando os nossos louvores. Obrigado, irmo melro! Ramos de +macieira, obrigado! Aqui vimos, aqui vimos! E sempre comtigo fiquemos, +serra to acolhedora, serra de fartura e de paz, serra bemdita entre as +serras! + +Assim, vagarosamente e maravilhados, chegamos quella avenida de faias, +que sempre me encantra pela sua fidalga gravidade. Atirando uma +vergastada ao burro e egua, o nosso rapaz, com o seu podengo sobre os +calcanhares, gritou:--Aqui que estmos, meus amos! E ao fundo das +faias, com effeito, apparecia o porto da quinta de Tormes, com o seu +brazo de armas, de secular granito, que o musgo retocava e mais +envelhecia. Dentro j os ces ladravam com furor. E quando Jacintho, na +sua suada egua, e eu atraz, no burro de Sancho, transpozemos o limiar +solarengo, desceu para ns, do alto do alpendre, pela escadaria de pedra +gasta, um homem nedio, rapado como um padre, sem collete, sem jaleca, +acalmando os ces que se encarniavam contra o meu Principe. Era o +Melchior, o caseiro... Apenas me reconheceu, toda a bocca se lhe +escancarou n'um riso hospitaleiro, a que faltavam dentes. Mas apenas eu +lhe revelei, d'aquelle cavalheiro de bigodes louros que descia da egua +esfregando os quadris, o senhor de Tormes--o bom Melchior recuou, +colhido de espanto e terror como diante d'uma avantesma. + +--Ora essa!... Santissimo nome de Deus! Pois ento... + +E, entre o rosnar dos ces, n'um bracejar desolado, balbuciou uma +historia que por seu turno apavorava Jacintho, como se o negro muro do +casaro pendesse para desabar. O Melchior no esperava s. ex.^a! Ninguem +esperava s. ex.^a!... (Elle dizia _sua incellencia_)... O snr. Silverio +estava para Castello de Vide desde maro, com a me, que apanhra uma +cornada na virilha. E de certo houvera engano, cartas perdidas... Porque +o snr. Silverio s contava com s. exc.^a em setembro, para a vindima! Na +casa as obras seguiam devagarinho, devagarinho... O telhado, no sul, +ainda continuava sem telhas; muitas vidraas esperavam, ainda sem +vidros; e, para ficar, Virgem Santa, nem uma cama arranjada!... + +Jacintho cruzou os braos n'uma colera tumultuosa que o suffocava. Por +fim, com um berro: + +--Mas os caixotes? Os caixotes, mandados de Paris, em fevereiro, ha +quatro mezes?... + +O desgraado Melchior arregalava os olhos miudos, que se embaciavam de +lagrimas. Os caixotes?! Nada chegra, nada apparecera!... E na sua +perturbao mirava pelas arcadas do pateo, palpava na algibeira das +pantalonas. Os caixotes?... No, no tinha os caixotes! + +--E agora, Z Fernandes? + +Encolhi os hombros: + +--Agora, meu filho, s vires commigo para Guies... Mas so duas horas +fartas a cavallo. E no temos cavallos! O melhor vr o casaro, comer +a boa gallinha que o nosso amigo Melchior nos assa no espeto, dormir +n'uma enxerga, e manha cedo, antes do calor, trotar para cima, para a +tia Vicencia. + +Jacintho replicou, com uma deciso furiosa: + +--manh troto, mas para baixo, para a estao!... E depois, para +Lisboa! + +E subiu a gasta escadaria do seu solar com amargura e rancor. Em cima +uma larga varanda acompanhava a fachada do casaro, sob um alpendre de +negras vigas, toda ornada, por entre os pilares de granito, com caixas +de pau onde floriam cravos. Colhi um cravo amarello---e penetrei atraz +de Jacintho nas salas nobres, que elle contemplava com um murmurio de +horror. Eram enormes, d'uma sonoridade de casa capitular, com os grossos +muros ennegrecidos pelo tempo e o abandono, e regeladas, desoladamente +nas, conservando apenas aos cantos algum monte de canastras ou alguma +enxada entre paus. Nos tectos remotos, de carvalho apainelado, luziam +atravs dos rasges manchas de co. As janellas, sem vidraas, +conservavam essas macissas portadas, com fechos para as trancas, que, +quando se cerram, espalham a treva. Sob os nossos passos, aqui e alm, +uma taboa pdre rangia e cedia. + +--Inhabitavel! rugia Jacintho surdamente. Um horror! Uma infamia!... + +Mas depois, n'outras salas, o soalho alternava com remendos de taboas +novas. Os mesmos remendos claros mosqueavam os velhissimos tectos de +rico carvalho sombrio. As paredes repelliam pela alvura cra da cal +fresca. E o sol mal atravessava as vidraas--embaciadas e gordurentas da +massa e das mos dos vidraceiros. + +Penetramos emfim na ultima, a mais vasta, rasgada por seis janellas, +mobilada com um armario e com uma enxerga parda e curta estirada a um +canto: e junto d'ella paramos, e sobre ella depuzemos tristemente o que +nos restava de vinte e trez malas--o meu paletot alvadio, a bengala de +Jacintho, e o _Jornal do Commercio_ que nos era commum. Atravs das +janellas escancaradas, sem vidraas, o grande ar da serra entrava e +circulava como n'um eirado, com um cheiro fresco d'horta regada. Mas o +que avistavamos, da beira da enxerga, era um pinheiral cobrindo um +cabeo e descendo pelo pendor suave, maneira d'uma hoste em marcha, +com pinheiros na frente, destacados, direitos, emplumados de negro; mais +longe as serras d'alm rio, d'uma fina e macia cr de violeta; depois a +brancura do co, todo liso, sem uma nuvem, d'uma magestade divina. E l +debaixo, dos valles, subia, desgarrada e melancolica, uma voz de +pegureiro cantando. + +Jacintho caminhou lentamente para o poial d'uma janella, onde cahiu +esbarrondado pelo desastre, sem resistencia ante aquelle brusco +desapparecimento de toda a Civilisao! Eu palpava a enxerga, dura e +regelada como um granito de inverno. E pensando nos luxuosos colches de +pennas e molas, to prodigamente encaixotados no 202, desafoguei tambem +a minha indignao: + +--Mas os caixotes, caramba?... Como se perdem assim trinta e tantos +caixotes enormes?... + +Jacintho saccudiu amargamente os hombros: + +--Encalhados, por ahi, algures, n'um barraco!... Em Medina, talvez, +n'essa horrenda Medina. Indifferena das Companhias, inercia do +Silverio... Emfim a Peninsula, a barbarie! + +Vim ajoelhar sobre o outro poial, alongando os olhos consolados por co +e monte: + +-- uma belleza! + +O meu principe, depois de um silencio grave, murmurou, com a face +encostada mo: + +-- uma lindeza... E que paz! + +Sob a janella vicejava fartamente uma horta, com repolho, feijoal, +talhes de alface, gordas folhas de abobora rastejando. Uma eira, velha +e mal alisada, dominava o valle, d'onde j subia tenuemente a nevoa +d'algum fundo ribeiro. Toda a esquina do casaro d'esse lado se +encravava em laranjal. E d'uma fontinha rustica, meio afogada em rosas +tremedeiras, corria um longo e rutilante fio d'agua. + +--Estou com appetite desesperado d'aquella agoa! declarou Jacintho, +muito srio. + +--Tambem eu... Desamos ao quintal, hein? E passamos pela cosinha, a +saber do frango. + +Voltamos varanda. O meu Principe, mais conciliado com o destino +inclemente, colheu um cravo amarello. E por outra porta baixa, de +rigissimas hombreiras, mergulhamos n'uma sala, alastrada de calia, sem +tecto, coberta apenas de grossas vigas, d'onde s'ergueu uma revoada de +pardaes. + +--Olha para este horror! murmurava Jacintho arripiado. + +E descemos por uma lobrega escada de castello, tenteando depois um +corredor tenebroso de lages asperas, atravancado por profundas arcas, +capazes de guardar todo o gro d'uma provincia. Ao fundo a cozinha, +immensa, era uma massa de frmas negras, madeira negra, pedra negra, +densas negruras de felugem secular. E n'este negrume refulgia a um +canto, sobre o cho de terra negra, a fogueira vermelha, lambendo tachos +e panellas de ferro, despedindo uma fumarada que fugia pela grade aberta +no muro, depois por entre a folhagem dos limoeiros. Na enorme lareira, +onde se aqueciam e assavam as suas grossas peas de porco e boi os +Jacinthos medievaes, agora desaproveitada pela frugalidade dos caseiros, +negrejava um poeirento monto de cestas e ferramentas; e a claridade +toda entrava por uma porta de castanho, escancarada sobre um quintalejo +rustico em que se misturavam couves lombardas e junquilhos formosos. Em +roda do lume um bando alvoroado de mulheres depennava frangos, remexia +as caarolas, picava a cebola, com um fervor afogueado e palreiro. Todas +emmudeceram quando apparecemos--e d'entre ellas o pobre Melchior, +estonteado, com o sangue a espirrar na nedia face d'abbade, correu para +ns, jurando que o jantarinho de suas Incellencias no demorava um +credo... + +--E a respeito de camas, oh amigo Melchior? + +O digno homem ciciou uma desculpa encolhida sobre enxergasinhas no +cho... + +-- o que basta! acudi eu, para o consolar. Por uma noite, com lenoes +frescos... + +--Ah, l pelos lenoesinhos respondo eu!... Mas um desgosto assim, meu +senhor! A gente apanhada sem um colxosinho de l, sem um lombosinho de +vacca... Que eu j pensei, at lembrei minha comadre, V. Inc.^{as} +podiam ir dormir aos _Ninhos_, a casa do Silverio. Tinham l camas de +ferro, lavatorios... Elle sempre uma legoasita e mau caminho... + +Jacintho, bondoso, accudiu: + +--No, tudo se arranja, Melchior. Por uma noite!... At gsto mais de +dormir em Tormes, na minha casa da serra! + +Sahimos ao terreiro, retalho de horta fechado por grossas rochas +encabelladas de verdura, entestando com os socalcos da serra onde +lourejava o centeio. O meu principe bebeu da agua nevada e lusidia da +fonte, regaladamente, com os beios na bica; appeteceu a alface +rechonchuda e crespa; e atirou pulos aos ramos altos d'uma copada +cerejeira, toda carregada de cereja. Depois, costeando o velho lagar, a +que um bando de pombas branqueava o telhado, deslismos at ao carreiro, +cortado no costado do monte. E andando, pensativamente, o meu Principe +pasmava para os milheiraes, para os vetustos carvalhos plantados por +vetustos Jacinthos, para os casebres espalhados sobre os cabeos orla +negra dos pinheiraes. + +De novo penetramos na avenida de faias e transpozemos o porto senhorial +entre o latir dos ces, mais mansos, farejando um dono. Jacintho +reconheceu certa nobreza na frontaria do seu lar. Mas sobretudo lhe +agradava a longa alameda, assim direita e larga, como traada para +n'ella se desenrolar uma cavalgada de Senhores com plumas e pagens. +Depois, de cima da varanda, reparando na telha nova da capella, louvou o +Silverio, esse ralao, por cuidar ao menos da morada do Bom-Deus. + +--E esta varanda tambem agradavel, murmurou elle mergulhando a face no +aroma dos cravos. Precisa grandes poltronas, grandes divans de verga... + +Dentro, na nossa sala, ambos nos sentamos nos poiaes da janella, +contemplando o doce socego crepuscular que lentamente se estabelecia +sobre valle e monte. No alto tremeluzia uma estrellinha, a Venus +diamantina, languida annunciadora da noite e dos seus contentamentos. +Jacintho nunca considerra demoradamente aquella estrella, de amorosa +refulgencia, que perpetua no nosso Co catholico a memoria da Deusa +incomparavel:--nem assistira jmais, com a alma attenta, ao magestoso +adormecer da Natureza. E este ennegrecimento dos montes que se embuam +em sombra; os arvoredos emmudecendo, canados de susurrar; o rebrilho +dos casaes mansamente apagado; o cobertor de nevoa, sob que se acama e +agasalha a frialdade dos valles; um toque somnolento de sino que rola +pelas quebradas; o segredado cochichar das aguas e das relvas +escuras--eram para elle como iniciaes. D'aquella janella, aberta sobre +as serras, entrevia uma outra vida, que no anda smente cheia do Homem +e do tumulto da sua obra. E senti o meu amigo suspirar como quem emfim +descana. + +D'este enlevo nos arrancou o Melchior com o doce aviso do jantarinho de +suas Incellencias. Era n'outra sala, mais na, mais abandonada:--e ahi +logo porta o meu super-civilisado Principe estacou, estarrecido pelo +desconforto, escassez e rudeza das coisas. Na mesa, encostada ao muro +denegrido, sulcado pelo fumo das candeias, sobre uma toalha de estopa, +duas velas de sbo em castiaes de lata alumiavam grossos pratos de +loua amarella, ladeados por colheres de estanho e por garfos de ferro. +Os copos, d'um vidro espesso, conservavam a sombra roxa do vinho que +n'elles passra em fartos annos de fartas vindimas. A malga de barro, +atestada de azeitonas pretas, contentaria Diogenes. Espetado na cdea +d'um immenso po reluzia um immenso facalho. E na cadeira senhoreal +reservada ao meu Principe, derradeira alfaia dos velhos Jacinthos, de +hirto espaldar de couro, com a madeira roda de caruncho, a clina fugia +em melenas pelos rasges do assento poido. + +Uma formidavel moa, de enormes peitos que lhe tremiam dentro das +ramagens do leno cruzado, ainda suada e esbrazeada do calor da lareira, +entrou esmagando o soalho, com uma terrina a fumegar. E o Melchior, que +seguia erguendo a infusa do vinho, esperava que suas Incellencias lhe +perdoassem porque faltra tempo para o caldinho apurar... Jacintho +occupou a sde ancestral--e, durante momentos (de esgazeada anciedade +para o caseiro excellente) esfregou energicamente, com a ponta da +toalha, o garfo negro, a fusca colhr de estanho. Depois, desconfiado, +provou o caldo, que era de gallinha e rescendia. Provou--e levantou para +mim, seu camarada de miserias, uns olhos que brilharam, surprehendidos. +Tornou a sorver uma colherada mais cheia, mais considerada. E sorriu, +com espanto:--Est bom! + +Estava precioso: tinha figado e tinha moela: o seu perfume enternecia: +tres vezes, fervorosamente, ataquei aquelle caldo. + +--Tambem l volto! exclamava Jacintho com uma convico immensa. que +estou com uma fome... Santo Deus! Ha annos que no sinto esta fome. + +Foi elle que rapou avaramente a sopeira. E j espreitava a porta, +esperando a portadora dos piteus, a rija moa de peitos trementes, que +emfim surgiu, mais esbrazeada, abalando o sobrado--e pousou sobre a mesa +uma travessa a trasbordar de arroz com favas. Que desconsolo! Jacintho, +em Paris, sempre abominra favas!... Tentou todavia uma garfada +timida--e de novo aquelles seus olhos, que o pessimismo ennovora, +luziram, procurando os meus. Outra larga garfada, concentrada, com uma +lentido de frade que se regala. Depois um brado: + +--Optimo!... Ah, d'estas favas, sim! Oh que fava! Que delicia! + +E por esta santa gula louvava a serra, a arte perfeita das mulheres +palreiras que em baixo remexiam as panellas, o Melchior que presidia ao +brodio... + +--D'este arroz com fava nem em Paris, Melchior amigo! + +O homem optimo sorria, inteiramente desannuviado: + +--Pois c a comidinha dos moos da quinta! E cada pratada, que at +suas Incellencias se riam... Mas agora, aqui, o Snr. D. Jacintho, tambem +vae engordar e enrijar! + +O bom caseiro sinceramente cria que, perdido n'esses remotos Parizes, o +Senhor de Tormes, longe da fartura de Tormes, padecia fome e mingava... +E o meu Principe, na verdade, parecia saciar uma velhissima fome e uma +longa saudade da abundancia, rompendo assim, a cada travessa, em +louvores mais copiosos. Diante do louro frango assado no espeto e da +salada que elle appetecera na horta, agora temperada com um azeite da +serra digno dos labios de Plato, terminou por bradar:-- divino! Mas +nada o enthusiasmava como o vinho de Tormes, cahindo d'alto, da bojuda +infusa verde--um vinho fresco, esperto, seivoso, e tendo mais alma, +entrando mais na alma, que muito poema ou livro santo. Mirando, vela +de sbo, o copo grosso que elle orlava de leve espuma rosea, o meu +Principe, com um resplendr d'optimismo na face, citou Virgilio: + +--_Quo te carmina dicam, Rethica_? Quem dignamente te cantar, vinho +amavel d'estas serras? + +Eu, que no gosto que me avantagem em saber classico, espanejei logo +tambem o meu Virgilio, louvando as douras da vida rural: + +--_Hanc olim veteres vitam coluere Sabini_... Assim viveram os velhos +Sabinos. Assim Romolo e Remo... Assim cresceu a valente Etruria. Assim +Roma se tornou a maravilha do mundo! + +E immovel, com a mo agarrada infusa, o Melchior arregalava para ns +os olhos em infinito assombro e religiosa reverencia. + + * * * * * + +Ah! Jantamos deliciosissimamente, sob os auspicios do Melchior--que +ainda depois, prvido e tutelar, nos forneceu o tabaco. E, como ante ns +se alongava uma noite de monte, voltamos para as janellas desvidraadas, +na sala immensa, a contemplar o sumptuoso co de vero. Philosophmos +ento com pachorra e facundia. + +Na Cidade (como notou Jacintho) nunca se olham, nem lembram os +astros--por causa dos candieiros de gaz ou dos globos de electricidade +que os offuscam. Por isso (como eu notei) nunca se entra n'essa +communho com o Universo que a unica gloria e unica consolao da +Vida. Mas na serra, sem predios disformes de seis andares, sem a +fumaraa que tapa Deus, sem os cuidados que como pedaos de chumbo puxam +a alma para o p rasteiro--um Jacintho, um Z Fernandes, livres, bem +jantados, fumando nos poiaes d'uma janella, olham para os astros e os +astros olham para elles. Uns, certamente, com olhos de sublime +immobilidade ou de subllime indifferena. Mas outros curiosamente, +anciosamente, com uma luz que acena, uma luz que chama, como se +tentassem, de to longe, revelar os seus segredos, ou de to longe +comprehender os nossos... + +--Oh Jacintho, que estrella esta, aqui, to viva, sobre o beiral do +telhado? + +--No sei... E aquella, Z Fernandes, alm, por cima do pinheiral? + +--No sei. + +No sabiamos. Eu, por causa da espessa crosta de ignorancia com que sahi +do ventre de Coimbra, minha Me espiritual. Elle, porque na sua +Bibliotheca possuia trezentos e oito tratados sobre Astronomia, e o +Saber, assim accumulado, frma um monte que nunca se transpe nem se +desbasta. Mas que nos importava que aquelle astro alm se chamasse +Syrius e aquelle outro Aldebaran? Que lhes importava a elles que um de +ns fosse Jacintho, outro Z? Elles to immensos, ns to pequeninos, +somos a obra da mesma Vontade. E todos, Uranos ou Lorenas de Noronha e +Sande, constituimos modos diversos d'um Sr unico, e as nossas +diversidades esparsas sommam na mesma compacta Unidade. Molleculas do +mesmo Todo, governadas pela mesma Lei, rolando para o mesmo Fim... Do +astro ao homem, do homem flr do trevo, da flr do trevo ao mar +sonoro--tudo o mesmo Corpo, onde circula, como um sangue, o mesmo +Deus. E nenhum fremito de vida, por menor, passa n'uma fibra d'esse +sublime Corpo, que se no repercuta em todas, at s mais humildes, at +s que parecem inertes e invitaes. Quando um Sol que no avisto, nunca +avistarei, morre de inanio nas profundidades, esse esguio galho de +limoeiro, em baixo na horta, sente um secreto arrepio de morte:--e, +quando eu bato uma patada no soalho de Tormes, alm o monstruoso Saturno +estremece, e esse estremecimento percorre o inteiro Universo! Jacintho +abateu rijamente a mo no rebordo da janella. Eu gritei: + +--Acredita!... O sol tremeu. + +E depois (como eu notei) deviamos considerar que, sobre cada um d'esses +gros de p luminoso, existia uma creao, que incessantemente nasce, +perece, renasce. N'este instante, outros Jacinthos, outros Zs +Fernandes, sentados s janellas d'outras Tormes, contemplam o co +nocturno, e n'elle um pequenininho ponto de luz, que a nossa possante +Terra por ns tanto sublimada. No tero todos esta nossa frma, bem +fragil, bem desconfortavel, e (a no ser no Apollo do Vaticano, na Venus +de Milo e talvez na Princeza, de Carman) singularmente feia e burlesca. +Mas, horrendos ou de ineffavel belleza; collossaes e d'uma carne mais +dura que o granito, ou leves como gazes e ondulando na luz, todos elles +so sres pensantes e teem consciencia da Vida--porque decerto cada +Mundo possue o seu Descartes, ou j o nosso Descartes os percorreu a +todos com o seu Methodo, a sua escura capa, a sua agudeza elegante, +formulando a unica certeza talvez certa, o grande _Penso logo existo_. +Portanto todos ns, Habitantes dos Mundos, s janellas dos nossos +casares, alm nos Saturnos, ou aqui na nossa Terricula, constantemente +perfazemos um acto sacrosanto que nos penetra e nos funde--que +sentirmos no Pensamento o nucleo commum das nossas modalidades, e +portanto realisarmos um momento, dentro da Consciencia, a Unidade do +Universo!--Hein, Jacintho?... + +O meu amigo rosnou: + +--Talvez... Estou a cahir com somno. + +--Tambem eu. Remontamos muito, Ex.^{mo} Snr.! como dizia o Pestaninha +em Coimbra. Mas nada mais bello, e mais vo, que uma cavaqueira, no alto +das serras, a olhar para as estrellas!... Tu sempre vaes amanh? + +--Com certeza, Z Fernandes! Com a certeza de Descartes. Penso _logo +fujo_! Como queres tu, n'este pardieiro, sem uma cama, sem uma +poltrona, sem um livro?... Nem s de arroz com fava vive o Homem! Mas +demoro em Lisboa, para conversar com o Cesimbra, o meu Administrador. E +tambem espera que estas obras acabem, os caixotes surjam, e eu possa +voltar decentemente, com roupa lavada, para a trasladao... + +-- verdade, os ossos... + +--Mas resta ainda o Grillo... Que animal! Por onde andar esse perdido? + +Ento, passeando lentamente na sala enorme, onde a vela de sbo j +derretida no castial de lata era como um lume de cigarro n'um +descampado, meditmos na sorte do Grillo. O estimado negro ou fra +despejado nas lamas de Medina, com as vinte e sete malas, aos +gritos--ou, regaladamente adormecido, rolra com o Anatole no comboio +para Madrid. Mas ambos os casos appareciam ao meu Principe como +irremediavelmente destruidores do seu conforto... + +--No, escuta, Jacintho... Se o Grillo encalhou em Medina, dormiu na +Fonda, catou os percevejos, e esta madrugada correu para Tormes. Quando +manh desceres Estao, s quatro horas, encontras o teu precioso +homem, com as tuas preciosas malas, mettido n'esse comboio que te leva +ao Porto e Capital... + +Jacintho saccudiu os braos como quem se debate nas malhas d'uma rede: + +--E se seguiu para Madrid? + +--Ento, por esta semana, c apparece em Tormes, onde encontra ordem +para regressar a Lisboa e reentrar no teu sequito... Resta o +interessante caso das minhas bagagens. Se manh encontrares na Estao +o Grillo, separa a minha mala negra, e o sacco de lona, e a chapelleira. +O Grillo conhece. E pede ao Pimenta, ao gordalhufo, que me avise para +Guies. Se o Grillo aportar Tormes, esfogueteado de Madrid, com toda +essa malaria, deixa as minhas cousas aqui, ao Melchior... Eu manh +fallo ao Melchior. + +Jacintho sacudiu furiosamente o collarinho: + +--Mas como posso eu partir para Lisboa, manh, com esta camisa de dous +dias, que j me faz uma comicho horrenda? E sem um leno... Nem ao +menos uma escova de dentes! + +Fertil em idas, estendi as mos, n'um bello gesto tutelar: + +--Tudo se arranja, meu Jacintho, tudo se arranja! Eu, largando d'aqui +cedo, pelas seis horas, chego a Guies s dez, ainda sem calor. E, mesmo +antes do almoo e da cavaqueira com a tia Vicencia, immediatamente te +mando por um moo um sacco de roupa branca. As minhas camisas e as +minhas ceroulas talvez te estejam largas. Mas um mendigo como tu no tem +direito a elegancias e a roupas bem cortadas. O moo, n'um bom trote, +entra aqui s duas horas; tens tempo de mudar antes de desceres para a +Estao... Posso metter na mala uma escova de dentes. + +--Oh Z Fernandes! Ento mette tambem uma esponja... E um frasco d'agoa +de colonia! + +--Agoa d'alfazema, excellente, feita pela tia Vicencia... + +O meu Principe suspirou, impressionado com a sua miseria esqualida, e +esta dadiva de roupas: + +--Bem, ento vamos dormir, que estou esfalfado de emoes e d'astros... + +Justamente Melchior entreabria a pesada porta, com timidez, a avisar que +estavam preparadinhas as camas de suas Incellencias. E seguindo o bom +caseiro, que erguia uma candeia, que avistamos ns, o meu Principe e eu, +ainda ha pouco irmanados com os astros? Em duas saletas, que uma +abertura em arco, lobrego arco de pedra, separava--duas enxergas sobre o +soalho. Junto cabeceira da mais larga, que pertencia ao senhor de +Tormes, um castial de lato sobre um alqueire; aos ps, como lavatorio, +um alguidar vidrado em cima duma tripea. Para mim, serrano d'aquellas +serras, nem alguidar nem alqueire. + +Lentamente, com o p, o meu super-civilisado amigo palpou a enxerga. E +decerto lhe sentiu uma dureza intransigente, porque ficou pendido sobre +ella, a correr desoladamente os dedos pela face desmaiada. + +--E o peior no ainda a enxerga, murmurou emfim com um suspiro. que +no tenho camisa de dormir, nem chinelas!... E no me posso deitar de +camisa engommada. + +Por inspirao minha reccorremos ao Melchior. De novo, esse benemerito +providenciou, trazendo a Jacintho, para elle desafogar os ps, uns +tamancos--e para embrulhar o corpo uma camisa da comadre, enorme, de +estopa, spera como uma estamenha de penitente, com folhos mais crespos +e duros do que lavores de madeira. Para consolar o meu Principe lembrei +que Plato quando compunha o _Banquete_, Vasco da Gama quando dobrava o +Cabo, no dormiam em melhores catres! As enxergas rijas fazem as almas +fortes, oh Jacintho!... E s vestido de estamenha que se penetra no +Paraiso. + +--Tens tu, volveu o meu amigo seccamente, alguma coisa que eu leia? No +posso adormecer sem um livro. + +Eu? Um livro? Possuia apenas o velho numero do _Jornal do Commercio_, +que escapra disperso dos nossos bens. Rasguei a copiosa folha pelo +meio, partilhei com Jacintho fraternalmente. Elle tomou a sua metade, +que era a dos annuncios... E quem no viu ento Jacintho, senhor de +Tormes, acaapado borda da enxerga, rente da vela de sbo que se +derretia no alqueire, com os ps encafuados nos scos, perdido dentro +das speras pregas e dos rijos folhos da camisa serrana, percorrendo +n'um pedao velho de Gazeta, pensativamente, as partidas dos +Paquetes--no pde saber o que uma intensa e veridica imagem do +Desalento. + +Recolhido minha alcova espartana, desabotoava o collete, n'um +delicioso cansao, quando o meu Principe ainda me reclamou: + +--Z Fernandes... + +--Dize. + +--Manda tambem no sacco um abotoador de botas. + +Estirado commodamente na rija enxerga murmurei, como sempre murmuro ao +penetrar no Somno, que um primo da Morte, Deus seja louvado! Depois +tomei a metade do _Jornal do Commercio_ que me pertencia. + +--Z Fernandes... + +--Que ? + +--Tambem podias metter no sacco ps dos dentes... E uma lima das +unhas... E um romance! + +J a meia Gazeta me escapava das mos dormentes. Mas da sua alcova, +depois de soprar a vela, Jacintho murmurou entre um bocejo: + +--Z Fernandes... + +--Hein? + +--Escreve para Lisboa, para o Hotel Bragana... Os lenoes ao menos so +frescos, cheiram bem, a sadio! + + + + +IX + + +Cedo, de madrugada, sem rumor, para no despertar o meu Jacintho, que, +com as mos cruzadas sobre o peito, dormia beatificamente na sua enxerga +de granito--parti para Guies. + +Ao cabo d'uma semana, recolhendo uma manh para o almoo, encontrei no +corredor as minhas malas to desejadas, que um moo do casal da Giesta +trouxera n'um carro com recados do Snr. Pimentinha. O meu pensamento +pulou para o meu Principe. E lancei pelo telegrapho, para Lisboa, para o +Hotel Bragana, este brado alegre:--Ests l? Sei recuperaste Grillo e +Civilisao! Hurrah! Abrao!--S depois de sete dias, occupados n'uma +delicada apanha de aspargos com que outr'ora civilisra a horta da tia +Vicencia, notei o silencio de Jacintho. N'um bilhete postal renovei, +desenvolvi o grito amigo:--Ests l? So os prazeres da Baixa que assim +te tornam desattento e mudo? Eu, todo aspargos! Responde, quando chegas? +Tempo delicioso! 23^o sombra. E os ossos?...--Veio depois a devota +romaria da Senhora da Roqueirinha. Durante a lua nova andei n'um crte +de matto, na minha terra das Corcas. A tia Vicencia vomitou, com uma +indigesto de murcellas. E o silencio do meu Principe era ingrato e +ferrenho. + +Emfim uma tarde, voltando da Flor da Malva, de casa da minha prima +Joanninha, parei em Sandofim, na venda do Manoel Rico, para beber de +certo vinho branco que a minha alma conhece--e sempre pede. + +Defronte, porta do ferrador, o Severo, sobrinho do Melchior de Tormes +e o mais fino alveitar da serra, picava tabaco, escarranchado n'um +banco. Mandei encher outro quartilho: elle acariciou o pescoo da minha +egua que j salvra d'um esfriamento: e, como eu indagasse do nosso +Melchior, o Severo contou que na vspera jantra com elle em Tormes, e +se abeirra tambem do fidalgo... + +--Ora essa! Ento o snr. D. Jacintho est em Tormes? + +O meu espanto divertiu o Severo: + +--Ento v. exc.^a... Pois em Tormes que elle est, ha mais de cinco +semanas, sem arredar! E parece que fica para a vindima, e vai l uma +grandeza! + +Santissimo nome de Deus! Ao outro dia, domingo, depois da missa e sem me +assustar com a calma que carregava, trotei alvoroadamente para Tormes. +Ao latir dos rafeiros, quando transpuz o portal solarengo, a comadre do +Melchior accudio dos lados do curral, com um alguidar de lavagem +encostado cintura.--Ento o snr. D. Jacintho?... O snr. D. Jacintho +andava l para baixo, com o Silverio e com o Melchior, nos campos de +Freixomil... + +--E o Snr. Grillo, o preto? + +--Ha bocadinho tambem o enxerguei no pomar, com o francez, a apanhar +limes doces... + +Todas as janellas do solar rebrilhavam, com vidraas novas, bem polidas. +A um canto do pteo notei baldes de cal e tijellas de tintas. Uma escada +de pedreiro descanra durante o Dia Santo arrimada contra o telhado. E, +rente ao muro da capella, dois gatos dormiam sobre montes de palha +desempacotada de caixotes consideraveis. + +--Bem, pensei eu. Eis a Civilisao! + +Recolhi a egua, galguei a escada. Na varanda, sobre uma pilha de ripas, +reluzia n'um raio de sol uma banheira de zinco. Dentro encontrei todos +os soalhos remendados, esfregados a carqueja. As paredes, muito caiadas +e nas, refrigeravam como as d'um convento. Um quarto, a que me levaram +tres portas escancaradas com franqueza serrana, era certamente o de +Jacintho: a roupa pendia de cabides de pau: o leito de ferro, com +coberta de fusto, encolhia timidamente a sua rigidez virginal a um +canto, entre o muro e a banquinha onde um castial de lato resplandecia +sobre um volume do _D. Quichote_; no lavatorio pintado de amarello, +imitando bamb, apenas cabia o jarro, a bacia, um naco gordo de sabo; e +uma prateleirinha bastava ao esmerado alinho da escova, da thesoura, do +pente, do espelhinho de feira, e do frasquinho de agua de alfazema que +eu mandra de Guies. As tres janellas, sem cortinas, contemplavam a +belleza da serra, respirando um delicado e macio ar, que se perfumava +nas resinas dos pinheiraes, depois nas roseiras da horta. Em frente, no +corredor, outro quarto repetia a mesma simplicidade. Certamente a +previdencia do meu Principe o destinra ao seu Z Fernandes. Pendurei +logo dentro, no cabide, o meu guarda-p de lustrina. + +Mas na sala immensa, onde tanto philosophramos considerando as +estrellas, Jacintho arranjra um centro de repouso e d'estudo--e +desenrolra essa grandeza que impressionava o Severo. As cadeiras de +verga da Madeira, amplas e de braos, offereciam o conforto de +almofadinhas de chita. Sobre a mesa enorme de pau branco, carpinteirada +em Tormes, admirei um candieiro de metal de tres bicos, um tinteiro de +frade armado de pennas de pato, um vaso de capella transbordando de +cravos. Entre duas janellas uma commoda antiga, embutida, com ferragens +lavradas, recebera sobre o seu marmore rosado o devoto peso d'um +Presepio, onde Reis Magos, pastores de surres vistosos, cordeiros +d'esguedelhada l, se apressavam atravez d'alcantis para o Menino, que +na sua lapinha lhes abria os braos, coroado por uma enorme Cora Real. +Uma estante de madeira enchia outro pedao de parede, entre dois +retratos negros com caixilhos negros; sobre uma das suas prateleiras +repousavam duas espingardas; nas outras esperavam, espalhados, como os +primeiros Doutores nas bancadas d'um concilio, alguns nobres livros, um +Plutarcho, um Virgilio, a Odyssea, o Manual de Epictecto, as Chronicas +de Froissart. Depois, em fila decorosa, cadeiras de palhinha, muito +novas, muito envernisadas. E a um canto um mlho de varapaus. + +Tudo resplandecia de asseio e ordem. As portadas das janellas, cerradas, +abrigavam do sol que batia aquelle lado de Tormes, escaldando os +peitoris de pedra. Do soalho, burrifado de agua, subia, na suavisada +penumbra, uma frescura. Os cravos rescendiam. Nem dos campos, nem da +casa, se elevava um rumor. Tormes dormia no esplendor da manh santa. E, +penetrado por aquella consoladora quietao de convento rural, terminei +por me estender n'uma cadeira de verga, junto da mesa, abrir +languidamente um tomo de Virgilio, e murmurar, appropriando o doce verso +que encontrra: + +Fortunate Jacinthe! Hic, inter arva nota +Et fontes sacros, frigus captabis opacum... + +Afortunado Jacintho, na verdade! Agora, entre campos que so teus e +aguas que te so sagradas, colhes emfim a sombra e a paz! + +Li ainda outros versos. E, na fadiga das duas horas de egua e calor +desde Guies, irreverentemente adormecia sobre o divino +Bucoliasta--quando me despertou um berro amigo! Era o meu Principe. E +muito decididamente, depois de me soltar do seu rijo abrao, o comparei +a uma planta estiolada, emmurchecida na escurido, entre tapetes e +sdas, que, levada para vento e sol, profusamente regada, reverdece, +desabrocha e honra a Natureza! Jacintho j no corcovava. Sobre a sua +arrefecida pallidez de super-civilisado, o ar montesino, ou vida mais +verdadeira, espalhra um rubor trigueiro e quente de sangue renovado que +o virilisava soberbamente. Dos olhos, que na Cidade andavam sempre to +crepusculares e desviados do Mundo, saltava agora um brilho de meio-dia, +resoluto e largo, contente em se embeber na belleza das coisas. At o +bigode se lhe encrespra. E j no deslisava a mo desencantada sobre a +face,--mas batia com ella triumphalmente na cxa. Que sei? Era um +Jacintho novissimo. E quasi me assustava, por eu ter de aprender e +penetrar, n'este novo Principe, os modos e as idas novas. + +--Caramba, Jacintho, mas ento...? + +Elle encolheu jovialmente os hombros realargados. E s me soube contar, +trilhando soberanamente com os sapatos brancos e cobertos de p o soalho +remendado, que, ao acordar em Tormes, depois de se lavar n'uma dorna, e +d'enfiar a minha roupa branca, se sentira de repente como +_desannuviado_, _desenvencilhado_! Almora uma pratada de ovos com +chourio, sublime. Passera por toda aquella magnificencia da serra com +pensamentos ligeiros de liberdade e de paz. Mandra ao Porto comprar uma +cama, uns cabides... E alli estava... + +--Para todo o vero? + +--No! Mas um mez... Dois mezes! Emquanto houver chourios, e a agoa da +fonte, bebida pela telha ou n'uma folha de couve, me souber to +divinamente! + +Cahi sobre a cadeira de verga, e contemplei, arregalado, quasi +esgazeado, o meu Principe! Elle enrolava n'uma mortalha tabaco picado, +tabaco grosso, guardado n'uma malga vidrada. E exclamava: + +--Ando ahi pelas terras desde o romper d'alva! Pesquei j hoje quatro +trutas, magnificas... L em baixo, no Naves, um riachote que se atira +pelo valle da Seranda... Temos logo ao jantar essas trutas! + +Mas eu, avido pela historia d'aquella ressurreio: + +--Ento, no estiveste em Lisboa?... Eu telegraphei... + +--Qual telegrapho! Qual Lisboa! Estive l em cima, ao p da fonte da +Lira, sombra d'uma grande arvore, _sub tegmine_ no sei qu, a lr +esse adorvel Virgilio... E tambem a arranjar o meu palacio! Que te +parece, Z Fernandes? Em tres semanas, tudo soalhado, envidraado, +caiado, encadeirado!... Trabalhou a freguezia inteira! At eu pintei, +com uma immensa brocha. Viste o comedoiro? + +--No. + +--Ento vem admirar a belleza na simplicidade, barbaro! + +Era a mesma onde ns tanto exaltaramos o arroz com favas--mas muito +esfregada, muito caiada, com um rodap bezuntado d'azul estridente onde +logo adivinhei a obra do meu Principe. Uma toalha de linho de Guimares +cobria a mesa, com as franjas roando o soalho. No fundo dos pratos de +loua forte reluzia um gallo amarello. Era o mesmo gallo e a mesma loua +em que na nossa casa, em Guies, se servem os feijes dos cavadores... + +Mas no pteo os ces latiram. E Jacintho correu varanda, com uma +ligeireza curiosa que me deleitou. Ah, bem definitivamente se +esfrangalhra aquella rede de malha que se no percebia e que outr'ora o +travava!--N'esse momento appareceu o Grillo, de quinzena de linho, +segurando em cada mo uma garrafa de vinho branco. Todo se alegrou em +vr na quinta o si Fernandes. Mas a sua veneranda face j no +resplandecia, como em Paris, com um to sereno e ditoso brilho de ebano. +At me pareceu que corcovava... Quando o interroguei sobre aquella +mudana, estendeu duvidosamente o beio grosso: + +--O menino gosta, eu ento tambem gsto... Que o ar aqui muito bom, +si Fernandes, o ar muito bom! + +Depois, mais baixo, envolvendo n'um gesto desolado a loua de Barcellos, +as facas de cabo d'osso, as prateleiras de pinho como n'um refeitorio de +Franciscanos: + +--Mas muita magreza, si Fernandes, muita magreza! + +Jacintho voltava com um mao de jornaes cintados: + +--Era o carteiro. J vs que no amuei inteiramente com a Civilisao. +Eis a Imprensa!... Mas nada de _Figaro_, ou da horrenda _Dois-Mundos_! +Jornaes de Agricultura! Para aprender como se produzem as risonhas +messes, e sob que signo se casa a vinha ao olmo, e que cuidados +necessita a abelha provida... _Quid faciat laetas segetes_... De resto +para esta nobre educao, j me bastavam as _Georgicas_, que tu ignoras! + +Eu ri: + +--Alto l! _Nos quoque gens sumus et nostrum Virgilium sabemus_! + +Mas o meu novissimo amigo, debruado da janella, batia as palmas--como +Cato para chamar os servos, na Roma simples. E gritava: + +--Anna Vaqueira! Um copo d'agoa, bem lavado, da fonte velha! + +Pulei, immensamente divertido: + +--Oh Jacintho! E as aguas carbonatadas? e as phosphatadas? e as +esterilisadas? e as sodicas?... + +O meu Principe atirou os hombros com um desdem soberbo. E acclamou a +appario d'um grande copo, todo embaciado pela frescura nevada da agoa +refulgente, que uma bella moa trazia n'um prato. Eu admirei sobretudo a +moa... Que olhos, d'um negro to liquido e serio! No andar, no quebrar +da cinta, que harmonia e que graa de Nympha latina! + +E apenas pela porta desapparecera a explendida appario: + +--Oh Jacintho, eu d'aqui a um instante tambem quero agua! E se compete a +esta rapariga trazer as cousas, eu, de cinco em cinco minutos, quero uma +cousa!... Que olhos, que corpo... Caramba, menino! Eis a poesia, toda +viva, da serra... + +O meu Principe sorria, com sinceridade: + +--No! no nos illudamos, Z Fernandes, nem faamos Arcadia. uma bella +moa, mas uma bruta... No ha alli mais poesia, nem mais sensibilidade, +nem mesmo mais belleza do que n'uma linda vacca tourina. Merece o seu +nome de Anna Vaqueira. Trabalha bem, digere bem, concebe bem. Para isso +a fez a Natureza, assim s e rija; e ella cumpre. O marido todavia no +parece contente, porque a desanca. Tambem um bello bruto... No, meu +filho, a serra maravilhosa e muito grato lhe estou... Mas temos aqui a +fmea em toda a sua animalidade e o macho em todo o seu egoismo... So +porm verdadeiros, genuinamente verdadeiros! E esta verdade, Z +Fernandes, para mim um repouso. + +Lentamente, gozando a frescura, o silencio, a liberdade do vasto +casaro, retrocedemos sala que Jacintho j denominra a _Livraria_. E, +de repente, ao avistar n'um canto uma caixa com a tampa meio despregada, +quasi me engasguei, na furiosa curiosidade que me assaltou: + +--E os caixotes? Oh Jacintho?... Toda aquella immensa caixotaria que ns +mandamos, abarrotada de Civilisao? Soubeste? Appareceram? + +O meu Principe parou, bateu alegremente na cxa: + +--Sublime! Tu ainda te lembras d'aquelle homemsinho, de sacco a +tiracollo, que ns admiramos tanto pela sua sagacidade, o seu saber +geographico?... Lembras? Apenas fallei em Tormes, gritou que conhecia, +rabiscou uma nota... Nem era necessario mais! Oh! Tormes, +perfeitamente, muito antigo, muito curioso! Pois mandou tudo para +Alba-de-Tormes, em Hespanha! Est tudo em Hespanha! + +Cocei o queixo, desconsolado: + +--Ora, ora... Um homem to esperto, to expedito, que fazia tanta honra +ao Progresso! Tudo para Hespanha!... E mandaste vir? + +--No! Talvez mais tarde... Agora, Z Fernandes, estou saboreando esta +delicia de me erguer pela manh, e de ter s uma escova para alisar o +cabello. + +Considerei, cheio de recordaes, o meu amigo: + +--Tinhas umas nove... + +--Nove? Tinha vinte! Talvez trinta! E era uma atrapalhao, no me +bastavam!... Nunca em Paris andei bem penteado. Assim com os meus +setenta mil volumes: eram tantos que nunca li nenhum. Assim com as +minhas occupaes: tanto me sobrecarregavam, que nunca fui util! + + * * * * * + +De tarde, depois da calma, fomos vaguear pelos caminhos colleantes +d'aquella quinta rica, que, atravs de duas legoas, ondula por valle e +monte. No m'encontrra mais com Jacintho em meio da Natureza, desde o +remoto dia d'entremez em que elle tanto soffrera no sociavel e policiado +bosque de Montmorency. Ah, mas agora, com que segurana e idyllico amor +elle se movia atravs d'essa Natureza, d'onde andra tantos annos +desviado por theoria e por habito! J no arreceiava a humidade mortal +das relvas; nem repellia como impertinente o roar das ramagens; nem o +silencio dos altos o inquietava como um despovoamento do Universo. Era +com delicias, com um consolado sentimento de estabilidade recuperada, +que enterrava os grossos sapatos nas terras molles, como no seu elemento +natural e paterno: sem razo, deixava os trilhos faceis, para se +embrenhar atravs de arbustos emaranhados, e receber na face a caricia +das folhas tenras; sobre os outeiros, parava, immovel, retendo os meus +gestos e quasi o meu halito, para se embeber de silencio e de paz: e +duas vezes o surprehendi attento e sorrindo beira d'um regatinho +palreiro, como se lhe escutasse a confidencia... + +Depois philosophava, sem descontinuar, com o enthusiasmo d'um +convertido, avido de converter: + +--Como a intelligencia aqui se liberta, hein? E como tudo animado +d'uma vida forte o profunda!... Dizes tu agora, Z Fernandes, que no ha +aqui pensamento... + +--Eu?! Eu no digo nada, Jacintho... + +--Pois uma maneira de reflectir muito estreita e muito grosseira... + +--Ora essa! Mas eu... + +--No, no percebes. A vida no se limita a pensar, meu caro doutor... + +--Que no sou! + +--A vida essencialmente Vontade e Movimento: e n'aquelle pedao de +terra, plantado de milho, vae todo um mundo de impulsos, de foras que +se revelam, e que attingem a sua expresso suprema, que a Frma. No, +essa tua philosophia est ainda extremamente grosseira... + +--Irra! mas eu no... + +--E depois, menino, que inesgotavel, que miraculosa diversidade de +frmas... E todas bellas! + +Agarrava o meu pobre brao, exigia que eu reparasse com reverencia. Na +Natureza nunca eu descobriria um contorno feio ou repetido! Nunca duas +folhas d'hera, que, na verdura ou recorte, se assemelhassem! Na Cidade, +pelo contrario, cada casa repete servilmente a outra casa; todas as +faces reproduzem a mesma indifferena ou a mesma inquietao; as idas +teem todas o mesmo valor, o mesmo cunho, a mesma frma, como as libras; +e at o que ha mais pessoal e intimo, a Illuso, em todos identica, e +todos a respiram, e todos se perdem n'ella como no mesmo nevoeiro... A +_mesmice_--eis o horror das Cidades! + +--Mas aqui! Olha para aquelle castanheiro. Ha tres semanas que cada +manh o vejo, e sempre me parece outro... A sombra, o sol, o vento, as +nuvens, a chuva, incessantemente lhe compem uma expresso diversa e +nova, sempre interessante. Nunca a sua frequentao me poderia fartar... + +Eu murmurei: + +-- pena que no converse! + +O meu Principe recuou, com olhares chammejantes, d'Apostolo: + +--Como que no converse? Mas justamente um conversador sublime! Est +claro, no tem ditos, nem parola theorias, _ore rotundo_. Mas nunca eu +passo junto d'elle que no me suggira um pensamento ou me no desvende +uma verdade... Ainda hoje quando eu voltava de pescar as trutas... +Parei: e logo elle me fez sentir como toda a sua vida de vegetal +isenta de trabalho, da anciedade, do esforo que a vida humana impe; +no tem de se preoccupar com o sustento, nem com o vestido, nem com o +abrigo; filho querido de Deus, Deus o nutre, sem que elle se mova ou se +inquiete... E esta segurana que lhe d tanta graa e tanta magestade. +Pois no achas? + +Eu sorria, concordava. Tudo isto era de certo rebuscado e especioso. Mas +que importavam as requintadas metaphoras, e essa metaphysica mal madura, +colhida pressa nos ramos d'um castanheiro? Sob toda aquella ideologia +transparecia uma excellente realidade--a reconciliao do meu Principe +com a Vida. Segura estava a sua Resurreio depois de tantos annos de +cova, da cova molle em que jazera, enfaixado como uma mumia nas faixas +do Pessimismo! + +E o que esse Principe, n'esta tarde me esfalfou! Farejava, com uma +curiosidade insaciavel, todos os recantos da serra! Galgava os cabeos +correndo, como na esperana de descobrir l do alto os esplendores nunca +contemplados d'um Mundo inedito. E o seu tormento era no conhecer os +nomes das arvores, da mais rasteira planta brotando das fendas d'um +socalco... Constantemente me folheava como a um Diccionario Botanico. + +--Fiz toda a sorte de cursos, passei pelos professores mais illustres da +Europa, tenho trinta mil volumes, e no sei se aquelle senhor alm um +amieiro ou um sobreiro... + +-- um azinheiro, Jacintho. + +J a tarde cahia quando recolhemos muito lentamente. E toda essa +adoravel paz do co, realmente celestial, e dos campos, onde cada +folhinha conservava uma quietao contemplativa, na luz docemente +desmaiada, pousando sobre as cousas com um liso e leve affago, penetrava +to profundamente Jacintho, que eu o senti, no silencio em que +cahiramos, suspirar de puro allivio. + +Depois, muito gravemente: + +--Tu dizes que na natureza no ha pensamento... + +--Outra vez! Olha que massada! Eu... + +--Mas por estar n'ella supprimido o pensamento que lhe est poupado o +soffrimento! Ns, desgraados, no podemos supprimir o pensamento, mas +certamente o podemos disciplinar e impedir que elle se estonteie e se +esfalfe, como na fornalha das cidades, ideando gozos que nunca se +realisam, aspirando a certezas que nunca se attingem!... E o que +aconselham estas collinas e estas arvores nossa alma, que vela e se +agita:--que viva na paz d'um sonho vago e nada appetea, nada tema, +contra nada se insurja, e deixe o Mundo rolar, no esperando d'elle +seno um rumor de harmonia, que a emballe e lhe favorea o dormir dentro +da mo de Deus. Hein, no te parece, Z Fernandes? + +--Talvez. Mas necessario ento viver n'um mosteiro, com o temperamento +de S. Bruno, ou ter cento e quarenta contos de renda e o desplante de +certos Jacinthos... E tambem me parece que andamos leguas. Estou +derreado. E que fome! + +--Tanto melhor, para as trutas, e para o cabrito assado que nos +espera... + +--Bravo! Quem te cosinha? + +--Uma afilhada do Melchior. Mulher sublime! Has de ver a canja! Has de +ver a cabidella! Ella horrenda, quasi an, com os olhos tortos, um +verde e outro preto. Mas que paladar! Que genio! + +Com effeito! Horacio dedicaria uma ode quelle cabrito assado n'um +espeto de cerejeira. E com as trutas, e o vinho Melchior, e a cabidella, +em que a sublime an de olhos tortos puzera inspiraes que no so da +terra, e aquella doura da noite de Junho, que pelas janellas abertas +nos envolveu no seu velludo negro, to molle e to consolado fiquei, +que, na sala onde nos esperava o caf, cahi n'uma cadeira de verga, na +mais larga, e de melhores almofadas, e atirei um berro de pura delicia. + +Depois, com uma recordao, limpando o caf do pello dos bigodes: + +-- Jacintho, e quando ns andavamos por Paris com o Pessimismo s +costas, a gemer que tudo era illuso e dr? + +O meu Principe, que o cabrito tornra ainda mais alegre, trilhava a +grandes passadas o soalho, enrolando o cigarro: + +--Oh! que engenhosa besta, esse Schopenhauer! E maior besta eu, que o +sorvia, e que me desolava com sinceridade! E todavia,--continuava elle, +remexendo a chavena--o Pessimismo uma theoria bem consoladora para os +que soffrem, porque desindividualisa o soffrimento, alarga-o at o +tornar uma lei universal, a lei propria da Vida; portanto lhe tira o +caracter pungente d'uma injustia especial, commettida contra o +soffredor por um Destino inimigo e faccioso! Realmente o nosso mal +sobretudo nos amarga quando contemplamos ou imaginamos o bem do nosso +visinho:--porque nos sentimos escolhidos e destacados para a +infelicidade, podendo, como elle, ter nascido para a Fortuna. Quem se +queixaria de ser cxo--se toda a humanidade coxeasse? E quaes no seriam +os urros, e a furiosa revolta do homem envolto na neve e friagem e +borrasca d'um inverno especial, organisado nos ceus para o envolver a +elle unicamente--em quanto em redor, toda a Humanidade se movesse na +luminosa benignidade d'uma Primavera? + +--Com effeito, murmurei eu, esse sujeito teria immensa razo para +urrar... + +--E depois, clamava ainda o meu amigo, o Pessimismo excellente para os +Inertes, por que lhes attenua o desgracioso delicto da Inercia. Se toda +a meta um monte de Dor, onde a alma vae esbarrar, para que marchar +para a meta, atravez dos embaraos do mundo? E de resto todos os Lyricos +e Theoricos do Pessimismo, desde Salomo at o maligno Schopenhauer, +lanam o seu cantico ou a sua doutrina para disfarar a humilhao das +suas miserias, subordinando-as todas a uma vasta lei de Vida, uma lei +Cosmica, e ornando assim com a aureola de uma origem quasi divina as +suas miudas desgraazinhas de temperamento ou de Sorte. O bom +Schopenhauer formla todo o seu schopenhauerismo, quando um philosopho +sem editor, e um professor sem discipulos; e soffre horrendamente de +terrores e manias; e esconde o seu dinheiro debaixo do sobrado; e redige +as suas contas em grego nos perpetuos lamentos da desconfiana; e vive +nas adegas com o medo de incendios; e viaja com um copo de lata na +algibeira para no beber em vidro que beios de leproso tivessem +contaminado!... Ento Schopenhauer sombriamente Schopenhauerista. Mas +apenas penetra na celebridade, e os seus miseraveis nervos se acalmam, e +o cerca uma paz amavel, no ha ento, em todo Francfort, burguez mais +optimista, de face mais jocunda, e gozando mais regradamente os bens da +intelligencia e da Vida!... E o outro, o Israelita, o muito pedantesco +rei de Jerusalem! quando descobre esse sublime Rhetorico que o mundo +Illuso e Vaidade? Aos setenta e cinco annos, quando o Poder lhe escapa +das mos tremulas, e o seu serralho de trezentas concubinas se lhe torna +ridiculamente superfluo. Ento rompem os pomposos queixumes! Tudo +vaidade e afflico de espirito! nada existe estavel sob o sol! Com +effeito, meu bom Salomo, tudo passa--principalmente o poder de usar +trezentas concubinas! Mas que se restitua a esse velho sulto asiatico, +besuntado de Litteratura, a sua virilidade,--e onde se sumir o lamento +do Ecclesiastes? Ento voltar, em segunda e triumphal edio, o extase +do _Livro dos Cantares_!... + +Assim discursava o meu amigo no nocturno silencio de Tormes. Creio que +ainda estabeleceu sobre o Pessimismo outras coisas joviaes, profundas ou +elegantes;--mas eu adormecera, beatificamente envolto em Optimismo e +doura. + +Em breve porm, me fez pular, escancarar as palpebras molles, uma rija, +larga, sadia e genuina risada. Era Jacintho, estirado n'uma cadeira, que +lia o D. Quixote... Oh bem aventurado Principe! Conservra elle o agudo +poder de arrancar theorias a uma espiga de milho ainda verde, e por uma +clemencia de Deus, que fizera reflorir o tronco secco, recuperra o dom +divino de rir, com as facecias de Sancho! + +Aproveitando a minha companhia, as duas semanas de bucolica occiosidade +que eu lhe concedera, o meu Jacintho preparou ento a ceremonia to +falada, to meditada, a trasladao dos ossos dos velhos Jacinthos--dos +respeitaveis ossos como murmurava, cumprimentando, o bom Silverio, o +procurador, n'essa manh de sexta feira, em que almoava comnosco, +mettido n'um espantoso jaqueto de velludilho amarello debruado de seda +azul! A ceremonia, de resto, reclamava muita singeleza por serem to +incertos, quasi impessoaes, aquelles restos, que ns estabeleceriamos na +Capellinha do valle da Carria, na Capellinha toda nova, toda nua e toda +fria, ainda sem alma e sem calor de Deus. + +--Por que emfim v. ex.^a comprehende,--explicava o Silverio passando o +guardanapo por sobre a larga face suada e por sobre as immensas barbas +negras, como as d'um turco--, n'aquella mixordia... Oh! peo desculpa a +v. ex.^a! N'aquella confuso, quando tudo desabou, no pudmos mais +conhecer a quem pertenciam os ossos. Nem sequer, fallando verdade, ns +sabiamos bem que dignos avs de v. ex.^a jaziam na capella velha, assim +to antigos, com os letreiros apagados, senhores de todo o nosso +respeito, certamente, mas, se v. ex.^a me permitte, senhores j muito +desfeitos... Depois veio o desastre, a mixordia. E aqui est o que +decidi, depois de pensar. Mandei arranjar tantos caixes de chumbo, +quantas as caveiras que se apanharam l em baixo na Carria, entre o +lixo e o pedregulho. Havia sete caveiras e meia. Quero dizer, sete +caveiras e uma caveirinha pequenina. Mettemos cada caveira em seu +caixo. Depois... Que quer v. ex.^a? No havia outro meio! E aqui o Snr. +Fernandes dir se no acha que procedemos com habilidade. A cada caveira +juntamos uma certa poro d'ossos, uma poro rasoavel... No havia +outro meio... Nem todos os ossos se acharam. Canellas, por exemplo, +faltavam! E bem possivel que as costellas d'um d'aquelles senhores +ficasse com a cabea d'outro... Mas quem podia saber? S Deus. Emfim +fizemos o que a prudncia mandava... Depois, no dia de Juizo, cada um +d'estes fidalgos apresentar os ossos que lhe pertencerem. + +Lanava estas cousas macabras e tremendas, penetrado de respeito, quasi +com magestade, espetando, ora em mim, ora no meu Principe, os olhinhos +agudos e relusentes como vidrilhos. + +Eu approvei o pittoresco homem: + +--Perfeitamente! Andou perfeitamente, amigo Silverio. So to vagos, to +anonymos, todos esses avs! S faz pena, grande pena, que se +tresmalhassem os restos do av Galio. + +--No estava c! accudiu Jacintho. Vim a Tormes expressamente por causa +do av Galio, e por fim o seu jazigo nunca foi aqui, na Capellinha da +Carria... Felizmente! + +O Silverio saccudia gravemente a calva trigueira: + +--Nunca tivemos o ex.^{mo} sr. Galio. Ha cem annos, Snr. Fernandes, ha +cem annos que se no depositava na capella velha corpo de cavalheiro c +da casa. + +--Onde estar ento?... + +O meu Principe encolheu os hombros. Por esse Reino... Na egrejinha, no +cemiterio d'alguma das freguezias numerosas, onde elle possuia terras. +Casa to espalhada! + +--Bem! conclui. Ento, como se trata d'ossadas vagas, sem nome, sem +data, convem uma ceremoniasinha muito simples, muito sobria. + +--Quietinha, quietinha! murmurou o Silverio, dando um forte sorvo +assobiado ao caf. + +E foi quietinha, d'uma rustica e doce singeleza, a ceremonia d'aquelles +altos senhores. Cedo, por uma manh, levemente enevoada, os oito caixes +pequeninos, cobertos d'um velludo vermelho mais de festa que de funeral, +com molhos de rosas espalhados, contendo cada um o seu montesinho +d'ossos incertos, sahiram aos hombros dos coveiros de Tormes e dos moos +da quinta, da Egreja de S. Jos, cujo sino leve tangia, na enevoada +doura da manh,--quanto fina e levemente!--como pia um passarinho +triste. Adiante, um airoso moo de sobrepelis, erguia com zelo a velha +cruz prateada; abrigando o pescoo sob um immenso leno de rap, de +quadrados azues, o velho e corcovado sacristo segurava pensativamente a +caldeirinha d'agoa benta; e o bom abbade de S. Jos, com os dedos entre +o breviario fechado, movia os labios, n'uma lenta, murmurosa resa, que +ia, pelo doce ar, espalhando mais doura. Logo atraz do ultimo cofre, o +mais pequenino, o da caveirinha pequena, Jacintho caminhava; e eu, a +estalar dentro d'um fato preto de Jacintho, tirado pressa d'uma das +malas de Paris quando, de manh, j tarde para mandar a Guies, me +lembrei que toda a minha roupa era de cores festivaes e pastoris. + +Depois marchava o Silverio, solemnissimo, com um immenso peitilho, onde +as barbas immensas se alastravam, negrissimas. De casaca, com o grosso +beio descahido, descahido todo elle por aquella melancolia de enterro +que se juntava melancolia da serra, o Grillo enfiava no brao a sua +coroa, enorme, de rosas e d'heras. Por fim seguia o Melchior, entre um +rancho de mulheres, que, sumidas na sombra dos lenos pretos, desfiando +longos rosarios, rosnavam surdas av-marias, atravez d'espaados +suspiros, to doridos como se inconsoladamente lhes doesse a perda +d'aquelles Jacinthos. Assim, pelas varzeas entrecorridas de regueiros, +lenta nos recostos dos mattos, escorregando mais rapida, pelos corregos +pedregosos, seguia a procisso, sempre com a cruz adiante, alta e +prateada, rebrilhando por vezes n'um breve raiosinho de sol que, +vagarosamente, surdia da nevoa desfeita. Ramos baixos de lodo ou de +salgueiro passavam uma derradeira caricia sobre o velludo dos caixes. + +Um regato por vezes nos acompanhava, com discreto fulgir entre as +relvas, sussurrando e como resando tambem, alegremente: e nos +quintalinhos umbrosos, nossa passagem, os gallos, de cima das pilhas +de matto, faziam soar o seu clarim festivo. Depois, adiante da fonte da +Lira, como o caminho se alongava, e desejassemos poupar o nosso velho +abbade, cortamos atravez d'uma seara, j alta, quasi madura, toda +entremeada de papoulas, O sol radiou: sob a brisa larga, que levra a +nevoa, toda a messe ondulou n'uma lenta vaga dourada, em que se +balouavam os esquifes; e, como enorme papoula, a mais vermelha, +rutilava o guarda sol de panninho logo aberto pelo sacristo para +abrigar o abbade. + +Jacintho tocou no meu cotovello: + +--Que lindos vamos! Ora v tu a Natureza... N'um simples enterrar +d'ossos, quanta graa e quanta belleza! + +Na Capellinha, nova, dominando o valle da Carria, solitaria e muito +nua, no meio d'um adro, ainda mal alisado, sem uma verdura de relva, uma +frescura d'arbusto, dous moos seguravam porta molhos de tochas, que o +Silverio distribuiu, a passos graves, com cortezias, solemnissimo. +Dentro as curtas chammas, mal luziam, mal derramavam a sua amarellido +triste, esbatidas na relusente brancura dos muros estucados, na jovial +claridade que cahia das altas vidraas bem polidas. Em torno dos +esquifes, pousados sobre bancos, que pesados velludilhos recobriam, o +abbade murmurava um suave latim, emquanto ao fundo as mulheres, sumidas +na sombra dos seus negros lenos, gemiam _amens_ agudos, abafavam um +respeitoso soluo. Depois, tomando levemente o hyssope, ainda o bom +abbade aspergiu, para uma derradeira purificao, os incertos ossos dos +incertos Jacinthos. E todos desfilamos por diante do meu Principe, +timidamente encostado umbreira, com o Silverio ao lado esmagando +contra o peitilho as barbas immensas, a face descahida, cerradas as +palpebras como contendo lagrimas. + +No adro, o meu Principe accendeu regaladamente um cigarro pedido ao +Melchior: + +--E ento, Z Fernandes, que te pareceu a ceremoniasinha? + +--Muito campestre, muito suave, muito risonha... Uma delicia. + +Mas o Abbade, que se desvestira na Sachristia, appareceu, j com o seu +grande casaco de lustrina, e seu velho chapeu desabado, trazidos pelo +moo da Residencia, n'um sacco de chita. Jacintho, immediatamente lhe +agradeceu tantos cuidados, a affavel hospitalidade que offerecera aos +ossos, durante a construco da Capellinha nova. E o suave velho, todo +branquinho, de faces ainda menineiras e coradas, com um claro sorriso de +dentes sadios, louvava Jacintho, que assim viera de to longe, em to +longa jornada, para cumprir aquelle dever de bom neto. + +--So avs muito remotos, e agora to confusos! murmurava Jacintho +sorrindo. + +--Pois mais merito ainda o de v. ex.^a. Respeitar um av morto, bem +corrente... Mas respeitar os ossos d'um quinto av, d'um setimo av! + +--Sobretudo, Snr. Abbade, quando d'elles nada se sabe, e naturalmente +nada fizeram. + +O velho sacudiu risonhamente o dedo gordo: + +--Ora quem sabe, quem sabe! Talvez fossem excellentes! E por fim, quem +muito se demora no mundo, como eu, termina por se convencer que no mundo +no ha cousa ou ser inutil. Ainda hontem eu lia n'um jornal do Porto, +que por fim, segundo se descobriu, so as minhocas que estrumam e lavram +a terra, antes de chegar o lavrador e os bois com o arado. At as +minhocas so uteis. No ha nada inutil... Eu tinha l na residencia uma +poro de cardos a um canto da horta, que me affligiam. Pois reflecti e +terminei por me regalar com elles em xarope. Os avs de v. ex.^a por c +andaram, por c trabalharam, por c padeceram. Quer dizer: por c +serviram. E, em todo o caso, que lhes rezemos um Padre-Nosso por alma +no lhes pde fazer seno bem, a elles e a ns. + +E assim, docemente philosophando, paramos n'um souto de carvalheiras, +onde esperava a velhissima egoa do Abbade, por que o santo homem agora, +depois do rheumatismo do ultimo inverno, j no affrontava rijamente +como antes os trilhos duros da serra. Para elle montar, filialmente +Jacintho segurou o estribo. E emquanto a egoa se empurrava pelo corrego +acima, quasi tapada sob o immenso guarda sol vermelho em que se abrigava +o velho, ns recolhemos a casa mettendo pela serra da Lombinha, atravez +dos milhos, e depressa, porque eu estalava, aperreado, dentro da roupa +preta do meu Principe. + +--Esto pois accommodados estes senhores, Z Fernandes! S resta rezar +por elles o Padre-Nosso, que recommenda o abbade... Smente, eu no sei, +j no me lembro do Padre-Nosso. + +--No te afflijas, Jacintho: peo tia Vicencia que reze por mim e por +ti. sempre a tia Vicencia que reza os meus Padre-Nossos. + +Durante essas semanas que preguicei em Tormes, eu assisti, com +internecido interesse, a uma consideravel evoluo de Jacintho nas suas +relaes com a Natureza. D'aquelle periodo sentimental de contemplao, +em que colhia theorias nos ramos de qualquer cerejeira, e edificava +Systemas sobre o espumar das levadas, o meu Principe lentamente passava +para o desejo da Aco... E d'uma aco directa e material, em que a sua +mo, emfim restituida a uma funco superior, revolvesse o torro. + +Depois de tanto _commentar_, o meu Principe, evidentemente, aspirava a +_crear_. + +Uma tardinha, ao anoitecer, sentados no pomar, no rebordo do tanque, em +quanto o Manoel hortelo apanhava laranjas no alto d'uma escada arrimada +a uma alta laranjeira, Jacintho observou, mais para si do que para mim: + +-- curioso... Nunca plantei uma arvore! + +--Pois um dos tres grandes actos, sem os quaes segundo diz no sei que +Philosopho, nunca se foi um verdadeiro homem... Fazer um filho, plantar +uma arvore, escrever um livro. Tens de te apressar, para ser um homem. +possivel que talvez nunca prestasses um servio a uma arvore, como se +presta a um semelhante! + +--Sim... Em Paris, quando era pequeno, regava os lilazes. E no vero +um bello servio! Mas nunca semeei. + +E como o Manoel descia da escada, o meu Principe, que nunca acreditra +inteiramente--pobre homem!--no meu saber agricola, immediatamente +reclamou o parecer d'aquella auctoridade: + +--Oh Manoel, oua l, o que que se poderia agora semear? + +Como cesto das laranjas enfiado no brao, o Manoel exclamou, atravez +d'um lento riso, entre respeitoso e divertido: + +--Semear, patro? Agora antes colher... Olhe que j se anda a limpar a +eirasinha para a debulha, meu patro. + +--Pois sim... Mas sem ser milho nem cevada... Ento alli no pomar, rente +do muro velho, no se podia plantar uma fila de pecegueiros? + +O riso do Manoel crescia. + +--Isso sim, meu senhor! Isso l para os Santos ou para o Natal. Agora +s a couvinha na horta, a beldroega, os espinafres, algum feijosinho em +terra muito fresca... + +O meu Principe sacudiu com brando gesto estes legumes rasteiros. + +--Bem, boa noite, Manoel. Essas laranjas so da tal laranjeira que diz o +Melchior, muito doces, muito finas? Ento leve para os seus pequenos. +Leve muitas para os pequenos. + +No! o empenho era crear a arvore. Pela arvore contemplada na serra em +sua verdadeira magestade, na beneficencia da sua sombra, na frescura +emballadora do seu rumorejar, na graa e santidade dos ninhos que a +povoam, comera talvez, lentamente, o seu amor novo da Terra. E agora +sonhava uma Tormes toda coberta d'arvores, cujos fructos e verduras, e +sombras, e rumorejos suaves, e abrigados ninhos, fossem a obra e o +cuidado das suas mos paternaes. + +No silencio grave do crepusculo, que descia, murmurou ainda: + +--Oh Z Fernandes; quaes so as arvores que crescem mais depressa? + +--Eh, meu Jacintho... A arvore que cresce mais depressa o eucalypto, o +feiissimo e ridiculo eucalypto. Em seis annos tens ahi Tormes coberta de +eucalyptos... + +--Tudo to lento, Z Fernandes... + +Porque o seu sonho, que eu comprehendia, seria plantar caroos que +subissem em fortes troncos, se alargassem em verdes ramarias, antes de +elle voltar ao 202, no comeo do inverno... + +--Um carvalho!... Trinta annos, antes que seja bello! Desanmo! bom +para Deus, que pode esperar... _Patiens quia aeternus_. Trinta annos! +D'aqui a trinta annos, arvores s para me cobrirem a sepultura! + +--J um ganho. E depois para teus filhos, Jacintho... + +--Filhos! onde os tenho eu? + +-- o mesmo processo dos castanheiros. Semeia. No faltam por ahi terras +agradaveis... Em nove mezes tens uma planta feita. E quanto mais +tenrinhas, e mais pequeninas, mais essas plantas encantam. + +Elle murmurou, crusando as mos sobre o joelho: + +--Tudo leva tanto tempo!... + +E borda do tanque nos quedamos, calados, na fresca doura do +anoitecer, entre o cheiro avivado das madresilvas do muro, olhando o +crescente da lua, que surdia dos telhados de Tormes. + +E decerto esta pressa de se tornar entre a Natureza no mais um +sonhador, mas um creador, arremessou vivamente o seu interesse para os +gados! Repetidamente, nos nossos passeios atravez da quinta, elle lhe +notava a solido. + +--Faltam aqui animaes, Z Fernandes! + +Imaginava eu, que elle appetecia em Tormes o ornato elegante de veados e +paves. Mas um domingo, costeando o largo campo da Ribeirinha, sempre +escasso d'agoas, agora mais resequido por vero de tanta seccura, o meu +Principe parou a considerar os tres carneiros do caseiro, que retouavam +com penuria uma relvagem pobre. + +E, de repente, como magoado: + +--Justamente! Aqui est o espao para um bello prado, um immenso prado, +muito verde, muito farto, com rebanhos de carneiros brancos, gordissimos +como bolas de algodo pousadas na relva!... Era lindo, hein? facil, +no verdade, Z Fernandes? + +--Sim... Trazes a agoa para o prado. Agoas no faltam, na serra. + +E o meu principe encadeando logo n'esta inspirada idea outra, mais rica +e vasta, lembrou quanta belleza daria a Tormes encher esses prados, +esses verdes ferregiaes, de manadas de vaccas, formosas vaccas inglezas, +bem nedias e bem luzidias. Hein? Uma belleza. Para abrigar esses gados +ricos, construiria curraes perfeitos, d'uma architectura leve e util, +toda em ferro e vidro, fundamente varridos pelo ar, largamente lavados +pela agoa... Hein? Que formosura! Depois, com todas essas vaccas, e o +leite jorrando, nada mais facil e mais divertido, e at mais moral, que +a installao d'uma queijeira, fresca moda Hollandeza, toda branca e +reluzente, de azulejos e de marmore, para fabricar os Camemberts, os +Bries... os Coulommiers... Para a casa, que conforto! E para toda a +serra, que actividade! + +--Pois no te parece, Z Fernandes? + +--Com certeza. Tu tens, em abundancia, os quatro Elementos: o ar, a +agoa, a terra, e o dinheiro. Com estes quatro elementos, facilmente se +faz uma grande lavoura. Quanto mais uma queijeira! + +--Pois no verdade? E at como negocio! Est claro, para mim o lucro +o deleite moral do trabalho, o emprego fecundo do dia... Mas uma +queijaria, assim perfeita, rende. Rende prodigiosamente. E educa o +paladar, incita a installaes eguaes, implanta talvez no paiz uma +industria nova e rica! Ora com essa installao, perfeita, quanto me +poder custar cada queijo? + +Fechei um olho, calculando: + +--Eu te digo.... Cada queijo, um d'esses queijinhos redondos, como o +Camembert ou o Rabaal, pde vir a custar-te, a ti Jacintho queijeiro, +entre duzentos e cincoenta e trezentos mil ris. + +O meu Principe recuou, com dous olhos alegres espantados para mim. + +--Como trezentos mil ris? + +--Ponhamos duzentos... Tem a certeza! Com todos esses prados, e os +encanamentos d'agoa e a configurao da serra alterada, e as vaccas +inglezas, e os edificios de porcellana e vidro, e as maquinas, a +extravagancia, e a patuscada bucolica, cada queijo te custa, a ti +productor, duzentos mil ris. Mas com certeza o vendes no Porto por um +tosto. Pe cincoenta ris para a caixa, rotulos, transporte, commisso, +etc. Tens apenas, em cada queijo uma perda de cento e noventa e nove mil +oitocentos e cincoenta ris! + +O meu Principe no desanimou. + +--Perfeitamente! Fao um d'esses espantosos queijos por semana, ao +sabbado, para o comermos ns ambos ao domingo! + +E tanta energia lhe communicava o seu novo Optimismo, to anciosamente +aspirava a crear, que logo, arrastando o Silverio e o Melchior por +cabeos e barrancos, largou a percorrer a quinta toda, para determinar +onde cresceriam, ao seu mando inspirado, os verdes prados, e se +ergueriam, rebrilhantes no sol de Tormes, os curraes elegantes. Com a +esplendida segurana dos seus cento e nove contos de renda, no surgia +difficuldade, risonhamente murmurada pelo Melchior, ou exclamada, com +respeitoso pasmo, pelo Silverio, que elle no afastasse brandamente, com +geito leve, como um galho de roseira brava atravessado n'uma vereda. + +Aquellas rochas, alm, empecendo? Que se arrancassem! Um valle importuno +dividia dous campos? Que se atulhasse! O Silverio suspirava, enxugando +sobre a escura calva um suor quasi d'angustia. Pobre Silverio! Rijamente +sacudido na doce pachorra da sua administrao, calculando despezas que +se affiguravam sobrehumanas sua parcimonia serrana, forado a +arquejar, sem descano, sob soalheiras de Junho, o desgraado retomra +na Serra o geito que Jacintho deixra em Paris,--e era elle que corria +pelas longas barbas tenebrosas os dedos desalentados... Emfim uma tarde +desabafou comigo, a um canto da varanda, em quanto Jacintho, na +livraria, escrevia a um seu amigo de Hollanda, o conde Rylant, Mordomo +Mr da Corte, pedindo desenhos, e planos, e oramentos d'uma queijeira +perfeita. + +--Pois, Snr. Fernandes, se toda esta grandeza vae por diante, sempre lhe +digo que o Snr. D. Jacintho enterra aqui na serra dezenas de contos... +Dezenas de contos! + +E como eu alludia fortuna do meu Principe, a quem todas essas obras +to vastas, que alterariam o antiquissimo rosto da serra, no custavam +mais que a outros o concerto d'um socalco,--o bom Silverio atirou os +longos braos para as coxas gordas, ainda mais desolado: + +--Pois por isso mesmo, Snr. Fernandes! Se o Snr. D. Jacintho no tivesse +a dinheirama, recuava. Assim, zs zs, para deante; e eu no o censuro +pela ideia. Lograsse eu a renda de S. Ex.^a, que me atirava tambem a uma +lavoura de capricho. Mas no aqui, Snr. Fernandes, n'estas serranias, +entre alcantis. Pois um senhor que possue aquella linda propriedade de +Montemr, nos campos do Mondego, onde at podia plantar jardins de +desbancar os do Palacio de Crystal do Porto! E a Velleira? O Snr. +Fernandes no conhece a Velleira, l para os lados de Penafiel? Isso +um condado! E uma terra ch, boa terra, toda junta, alli em volta da +casa, com uma torre. Um regalo, Snr. Fernandes. Mas sobretudo Montemr! +L que eram prados e manadas de vaccas inglezas, e queijeira e horta +rica, de fartar, e ahi trinta pers na capoeira... + +--Ento que quer, Silverio? O Jacintho gosta da serra. E depois este o +solar da familia, e aqui comearam no seculo XIV os Jacinthos... + +O pobre Silverio, no seu desespero, esquecia o respeito devido secular +nobreza da casa. + +--Ora! at ficam mal ao Snr. Fernandes essas ideias, n'este seculo da +liberdade... Pois estamos l em tempos de se fallar em fidalguias, agora +que por toda a parte anda tudo em Republica? Leia o _Seculo_, Snr. +Fernandes! leia o _Seculo_, e ver! E depois eu sempre quero vr o Snr. +D. Jacintho, aqui no inverno, com o nevoeiro a subir do rio logo pela +manh, e a friagem a trespassar os ossos, e ventanias que atiram +carvalheiras de raizes ao ar, e chuvas e chuvas que se desfaz a +serra!... Olhe, at mesmo por amor da saude o Snr. D. Jacintho, que +fraquinho e acostumado cidade, necessita sahir da serra. Em Montemr, +em Montemr que s. ex.^a estava bem. E o Snr. Fernandes, to amigo +d'elle e assim com tanta influencia, devia teimar, e berrar, at que o +levasse para Montemr. + +Mas, infelizmente para a quietao do Silverio, Jacintho lanra raizes, +e rijas, e amorosas raizes na sua rude serra. Era realmente como se o +tivessem plantado d'estaca n'aquelle antiquissimo cho, d'onde brotra a +sua raa, e o antiquissimo humus refluisse e o penetrasse todo, e o +andasse transformando n'um Jacintho rural, quasi vegetal, to do cho, e +preso ao cho, como as arvores que elle tanto amava. + +E depois o que o prendia serra era o ter n'ella encontrado o que na +Cidade, apesar da sua sociabilidade, no encontrra nunca,--dias to +cheios, to deliciosamente occupados, d'um to saboroso interesse, que +sempre penetrava n'elles, como n'uma festa ou n'uma gloria. + +Logo de manh, s seis horas, eu, no meu quarto, mexendo ainda +regaladamente o meu corpo nos colches de fresco folhelho, sentia os +seus rijos sapates pelo corredor, e o seu cantarolar, desafinado, mas +ditoso como o d'um melro. Em poucos instantes escancarava com fragor a +minha porta, j de chapeu desabado, j de bengalo de cerejeira, +disposto com reservado fervor para os trilhos conhecidos da serra. E era +sempre a mesma nova, quasi orgulhosa: + +--Dormi hoje deliciosamente, Z Fernandes. To bem, com uma tal +serenidade, que comeo a acreditar que sou um justo! Um dia lindo! +Quando abri a janella, s cinco horas, quasi gritei de puro gosto! + +Na sua pressa, nem me deixava demorar na frescura da banheira; e quando +eu repetia a risca mal comeada do cabello, aquelle antigo homem das +trinta e nove escovas, protestava contra esse desbarato effeminado d'um +tempo devido aos fortes gozos da terra. + +Mas quando, depois de acariciar os rafeiros no pateo, desembocavamos da +alameda de platanos, e deante de ns se dividiam matutinamente, mais +brancos entre o verde matutino, os caminhos colleantes da quinta, toda a +sua pressa findava, e penetrava na Natureza, com a reverente lentido de +quem penetra n'um Templo. E repetidamente sustentava ser contrario +Esthetica, Philosophia e Religio, andar depressa atravs dos +campos. De resto, com aquella subtil sensibilidade bucolica que n'elle +se desenvolvera, e incessantemente se afinava, qualquer breve belleza, +do ar ou da terra, lhe bastava para um longo encanto. Ditosamente +poderia elle entreter toda uma manh, caminhar por entre um pinheiral, +de tronco a tronco, callado, embebido no silencio, na frescura, no +resinoso aroma, empurrando com o p as agulhas e as pinhas seccas. +Qualquer agua corrente o retinha, enternecido n'aquella servial +actividade, que se apressa, cantando, para o torro que tem sde, e +n'elle se some, e se perde. E recordo ainda quando me reteve meio +domingo, depois da Missa, no cabeo, junto a um velho curral +desmantellado, sob uma grande arvore,--s por que em torno havia +quietao, doce aragem, um fino piar d'ave na ramaria, um murmurio de +regato entre canas verdes, e por sobre a sbe, ao lado, um perfume, +muito fino e muito fresco, de flores escondidas. + +Depois, quando eu, velho familiar das serras, me no abandonava aos +mesmos extasis que a elle lhe enchiam a alma ainda novia--o meu +Principe rugia, com a indignao d'um poeta que descobre um mercieiro +bocejando sobre Shakspeare ou Musset. Eu ria. + +--Meu filho, olha que eu no passo d'um pequeno proprietario. Para mim +no se trata de saber se a terra _linda_, mas se a terra _boa_. Olha +o que diz a Biblia! Trabalhars a quinta com o suor do teu rosto! E +no diz contemplars a quinta com o enlevo da tua imaginao! + +--Podra! exclamava o meu Principe. Um livro escripto por Judeos, por +asperos semitas, sempre com o turvo olho posto no lucro! Repra, homem, +para aquelle bocadinho de valle, e consegue no pensar, por um momento, +nos trinta mil reis que elle rende! Vers que pela sua belleza e graa +elle te d mais contentamento alma que os trinta mil reis ao corpo. E +na vida s a alma importa. + +Recolhendo ao casaro, j o encontravamos com as janellas meio cerradas, +os soalhos borrifados para aquellas quentes restias de sol de junho, que +depois do almoo docemente nos retinham na livraria, preguiando. + +Mas realmente a alegre actividade do meu Principe no cessava, nem +amollecia, sob o peso da ssta. A essa hora, em quanto pelo arvoredo +mudo os mais agitados pardaes dormiam, e o sol mesmo parecia repousar, +immovel na rutilancia da sua luz, Jacintho com o espirito +acordado,--vido de sempre gosar, agora que reconquistra essa +faculdade,--tomava com delicia o _seu livro_. Por que o dono de trinta +mil volumes era agora, na sua casa de Tormes, depois de resuscitado, o +homem que s tem um livro. Essa mesma Natureza, que o desligra das +ligaduras amortalhadoras do tedio, e lhe gritra o seu bello _Ambula_, +caminha!--tambem certamente lhe gritra _et lege_, e l. E libertado +emfim do envolucro suffocante da sua Bibliotheca immensa, o meu ditoso +amigo comprehendia emfim a incomparavel delicia de _lr um livro_. +Quando eu correra a Tormes, (depois das revelaes do Severo na venda do +Torto,) elle findava o D. Quichote, e ainda eu lhe escutra as +derradeiras risadas com as cousas deliciosas, e de certo profundas, que +o gordo Sancho lhe murmurava, escarranchado no seu burro. Mas agora o +meu Principe mergulhra na _Odyssea_,--e todo elle vivia no espanto e no +deslumbramento de assim ter encontrado no meio do caminho da sua vida, o +velho errante, o velho Homero! + +--Oh Z Fernandes, como succedeu que eu chegasse a esta edade sem ter +lido Homero?... + +--Outras leituras, mais urgentes... O _Figaro_, George Ohnet... + +--Tu leste a _Illiada_? + +--Menino, sinceramente me gabo de nunca ter lido a _Illiada_. + +Os olhos do meu Principe fuzilavam. + +--Tu sabes o que fez Alcibiades, uma tarde, no Portico, a um sophista, +um desavergonhado d'um sophista, que se gabava de no ter lido a +_Illiada_? + +--No. + +--Ergueu a mo e atirou-lhe uma bofetada tremenda. + +--Para l, Alcibiades! Olha que eu li a _Odyssea_! + +Oh! mas de certo eu a lra, corridamente, com a alma desattenta! E +insistia em me iniciar, elle, e me conduzir, atravs do Livro sem egual. +Eu ria. E rindo, pesado do almoo, terminava por consentir, e me +estirava no canap de verga. Elle, deante da mesa, direito na cadeira, +abria o livro gravemente, pontificalmente, como um missal, e comeava +n'uma lenta ode sentida. Aquelle grande mar da _Odyssea_,--resplandecente e +sonoro, sempre azul, todo azul, sob o vo branco das +gaivotas, rolando, e mansamente quebrando sobre a areia fina ou contra +as rochas de marmore das Ilhas divinas,--exhalava logo uma frescura +salina, bem vinda e consoladora n'aquella calma de Junho, em que a serra +se entorpecia. Depois as estupendas manhas do subtil Ulysses e os seus +perigos sobrehumanos, tantas lamurias sublimes, e um anceio to +espalhado da Patria perdida, e toda aquella intriga, em que embrulhava +os Heroes, lograva as Deusas, illudia o Fado, tinham um delicioso sabr +ali, nos campos de Tormes, onde nunca se necessitava de subtileza ou de +engenho, e a Vida se desenrolava com a segurana immutavel com que cada +manh sempre o Sol egual nascia, e sempre centeios e milhos, regados por +agoas eguaes, seguramente medravam, espigavam, amadureciam... Emballado +pela recitao grave e monotona do meu Principe, eu cerrava as palpebras +docemente. Em breve um vasto tumulto, por terra e ceu, me alvoroava... +E eram os rugidos de Polyphemo, ou a grita dos companheiros d'Ulysses +roubando as vaccas de Apollo. Com os olhos logo esbugalhados para +Jacintho, eu murmurava: _Sublime!_ E sempre, n'esse momento o engenhoso +Ulysses, de carapuo vermelho e o longo remo ao hombro, surprehendia com +a sua facundia a clemencia dos Principes, ou reclamava presentes devidos +ao Hospede, ou surripiava astutamente algum favor aos Deuses. E Tormes +dormia, no esplendor de Junho. Novamente, eu cerrava as palpebras +consoladas, sob a caricia ineffavel do largo dizer homerico... E meio +adormecido, encantado, incessantemente avistava, longe, na divina +Hellade, entre o mar muito azul e o ceu muito azul, a branca vela, +hesitante, procurando Ithaca... + +Depois da ssta o meu Principe de novo se soltava para os campos. E a +essa hora, sempre mais activa, voltava com ardor aos seus planos, a +essas culturas de luxo e elegantes officinas que cobririam a serra de +magnificencias ruraes. Agora andava todo no esplendido appetite d'uma +horta que elle concebera, immensa horta ajardinada, em que todos os +legumes, classicos ou exoticos, cresceriam, soberbamente, em vistosos +talhes, fechados por sebes de rosas, de cravos, de alfazma, de +dhalias. A agoa das regas desceria por lindos corrgos de loua +esmaltada. Nas ruas, a sombra cahiria de densas latadas de moscatel, +pousando em esteios revestidos d'azulejo. E o meu Principe desenhra o +plano d'esta espantosa horta, a lapiz vermelho, n'um papel immenso, que +o Melchior e o Silverio, consultados, longamente contemplaram,--um +coando risonhamente a nuca, o outro com os braos duramente crusados, e +o sobrlho tragico. + +Mas este plano, o da queijaria, o da capoeira, e outro, sumptuoso, d'um +pombal to povoado que todo o ceu de Tormes s tardes se tornaria branco +e todo fremente d'azas--no sahiam das nossas gostosas palestras, ou dos +papeis em que Jacintho os debuxava, e que se amontoavam sobre a meza, +platonicos, immoveis, entre o tinteiro de lato e o vaso com flres. + +Nem enxadada fendera terra, nem alavanca deslocra pedra, nem serra +serrra madeira, para encetar estas maravilhas. Contra a resistencia +rebolada e escorregadia do Melchior, contra a respeitosa inercia do +Silverio se quedavam, encalhados, os planos do meu Principe, como +galeras vistosas em rochas ou em ldo. + +No convinha bolir em nada, (clamava o Silverio) antes das colheitas e +da vindima! E depois, (acrescentava o Melchior com um sorriso de grande +promessa) para boas obras mez de Janeiro porque l ensina o dictado: + +Em Janeiro--mette obreiro +Mez meante--que no ante. + +E, de resto, o goso de conceber as suas obras e de indicar, estendendo a +bengala por cima de valle e monte, os sitios privilegiados que ellas +aformoseariam, bastava por ora ao meu Principe, ainda mais imaginativo +que operante. E, em quanto meditava estas transformaes da terra, muito +progressivamente e com um amavel esforo, se ia familiarisando com os +homens simples que a trabalhavam. Na sua chegada a Tormes, o meu +Principe soffria d'uma estranha timidez diante dos caseiros, dos +jornaleiros, e at de qualquer rapazinho que passasse, tangendo uma +vacca para o pasto. Nunca elle ento se demoraria a conversar com os +moos, quando borda d'um caminho ou n'um campo em monda elles se +endireitavam de chapeu na mo, n'um respeito de velha vassalagem. De +certo o empecia a preguia, e talvez ainda o pudico recato de transpor +toda a immensa distancia que se alargava desde a sua complicada +super-civilisao at rude simplicidade d'aquellas almas +naturaes:--mas sobretudo o retinha o medo de mostrar a sua ignorancia da +lavoura e da terra, ou de parecer talvez desdenhoso de occupaes e de +interesses, que para os outros eram supremos e quasi religiosos. Remia +ento esta reserva com uma profuso de sorrisos, de doces acenos, +tirando tambem o chapeu em cortezias profundas, com uma tal emphase de +polidez que eu por vezes receava que elle murmurasse aos jornaleiros: +Tenha v. ex.^a muito boas tardes;... Creado de v. ex.^a! + +Mas agora, depois d'aquellas semanas de serra, e de j saber (com um +saber ainda fragil,) a epocha das sementeiras e das ceifas, e que as +arvores de fructa se semeiam no inverno, j se aprazia em parar junto +dos trabalhadores, contemplar descanadamente o trabalho, dizer cousas +affaveis e vagas. + +--Ento, isso vae andando?... Ora ainda bem!... Este bocado de torro +aqui rico... O talude ali adeante est precisando concerto... + +E cada um d'estes to simples dizeres lhe era doce, como se por meio +d'elles penetrasse mais fundamente na intimidade da terra, e +consolidasse a sua encarnao em homem do campo, deixando de ser uma +mera sombra circulando entre realidades. J por isso no crusava no +caminho o mocinho atraz das vaccas, que no o detivesse, o no +interrogasse: Para onde vaes tu? De quem o gado? Como te chamas? E, +contente comsigo, sempre gabava gratamente o desembarao do rapaz, ou a +esperteza dos seus olhos. Outra satisfao do meu Principe era conhecer +os nomes de todos os campos, as nascentes d'agua, e as delimitaes da +sua quinta. + +--Vs acol, para alm do ribeiro, o pinheiral. J no meu, dos +Albuquerques. + +E com a perenne alegria de Jacintho as noites da serra, no vasto +casaro, eram faceis e curtas. O meu Principe era ento uma alma que se +simplificava:--e qualquer pequenino goso lhe bastava, desde que n'elle +entrasse paz ou doura. Com verdadeira delicia ficava, depois do caf, +estendido n'uma cadeira, sentindo atravez das janellas abertas, a +nocturna tranquillidade da serra, sob a mudez estrellada do ceu. + +As historias, muito simples e muito caseiras, que eu lhe contava, de +Guies, do abbade, da tia Vicencia, dos nossos parentes da Flr da +Malva, to sinceramente o interessavam que eu encetra, para seu regalo, +a chronica completa de Guies, com todos os namoricos, e as faanhas de +foras, e as desavenas por causa de servides ou d'aguas. Tambem por +vezes nos enfronhavamos, com afferro n'uma partida de gamo, sobre um +bello taboleiro de pau preto, com pedras de velho marfim, que nos +emprestra o Silverio. Mas nada de certo o encantava tanto como +atravessar as casas, p ante p, at uma saleta que dava para o pomar, e +ahi ficar encostado janella, sem luz, n'um enlevado socego, a escutar +longamente, languidamente, os rouxinoes que cantavam no laranjal. + + + + +X + + +N'uma dessas manhs--justamente na vespera do meu regresso a Guies--, o +tempo, que andra pela serra to alegre, n'um inalterado riso de luz +rutilante, todo vestido d'azul e ouro, fazendo poeira pelos caminhos, e +alegrando toda a natureza, desde os passaros at os regatos, +subitamente, com uma d'aquellas mudanas que tornam o seu temperamento +to semelhante ao do homem, appareceu triste, carrancudo, todo +embrulhado no seu manto cinzento, com uma tristeza to pesada e +contagiosa que toda a serra entristeceu. E no houve mais passaro que +cantasse, e os arroios fugiram para debaixo das hervas com um lento +murmurio de chro. + +Quando Jacintho entrou no meu quarto, no resisti malicia de o +aterrar: + +--Sudoeste! gralhas a grasnar por todos esses soutos... Temos muita +agua, Snr. D. Jacintho! Talvez duas semanas d'agua! E agora se vae +saber quem aqui o fino amador da Natureza, com esta chuva pegada, com +vendaval, com a serra toda a escorrer! + +O meu Principe caminhou para a janella com as mos nas algibeiras: + +--Com effeito! Est carregado. J mandei abrir uma das malas de Paris e +tirar um casaco impermeavel... No importa! Fica o arvoredo mais verde. +E bom que eu conhea Tormes nos seus habitos d'inverno. + +Mas como o Melchior lhe affianra que a chuvinha s viria para a +tarde, Jacintho decidiu ir antes d'almoo Corujeira, onde o Silverio +o esperava para decidirem da sorte d'uns castanheiros, muito velhos, +muito pittorescos, inteiramente interessantes, mas j roidos, e +ameaando desabar. E, confiando nas previses do Melchior, partimos sem +que Jacintho se vestisse prova d'agoa. No andaramos porm meio +caminho, quando, depois d'um arrepio nas arvores, um negrume carregou, +e, bruscamente, desabou sobre ns uma grossa chuva obliqua, vergastada +pelo vento, que nos deixou estonteados, agarrando os chapeus, +enrodilhados na borrasca. Chamados por uma grande voz, que se esganiava +no vento, avistamos n'um campo mais alto, beira d'um alpendre, o +Silverio, debaixo d'um guarda-chuva vermelho, que acenava, nos indicava +o trilho mais curto para aquelle abrigo. E para l rompemos, com a chuva +a escorrer na cara, patinhando na lama, contorcidos, cambaleantes, +atordoados no vendaval, que n'um instante alagra os campos, inchra os +ribeiros, esboroava a terra dos socalcos, lanra n'um desespero todo o +arvoredo, tornra a serra negra, bravamente agreste, hostil, +inhabitavel. + +Quando emfim, debaixo do vasto guarda-chuva com que o Silverio nos +esperava beira do campo, corremos para o alpendre, nos refugiamos +n'aquelle abrigo inesperado, a escorrer, a arquejar, o meu Principe, +enxugando a face, enxugando o pescoo, murmurou, desfallecido: + +--Apre! que ferocidade! + +Parecia espantado d'aquella brusca, violenta colera d'uma serra to +amavel e accolhedora, que em dous mezes, inalteradamente, s lhe +offerecera doura e sombra, e suaves ceus, e quietas ramagens, e +murmurios discretos de ribeirinhos mansos. + +--Santo Deus! Vem muitas vezes assim, estas borrascas? + +Immediatamente o Silverio aterrou o meu Principe: + +--Isto agora so brincadeiras de vero, meu senhor! Mas ha de V. Ex.^a +vr no inverno, se V. Ex.^a se aguentar por c! Ento cada temporal, +que at parece que os montes estremecem! + +E contou como fra tambem apanhado, quando ia para a Corujeira. +Felizmente, logo pela manh, quando sentiu o ar carrancudo e as +folhinhas dos choupos a tremer, se acautelra com o chapeu de chuva e +calra as suas grandes botas. + +--Ainda estive para me abrigar em casa do Esgueira, que um caseiro de +c. Aquella casa, ali abaixo, onde est a figueira... Mas a mulher tem +estado doente, j ha dias... E como pde ser obra que se pegue, bexigas +ou coisa que o valha, pensei comigo: Nada, o seguro morreu de velho! +Metti para o alpendre... E no passra um credo quando lobriguei a V. +Ex.^a... Coisa assim!... E o Snr. D. Jacintho voltar para casa, e +mudar-se, que temos um dia e uma noite d'agoa. + +Mas, justamente, a chuva comera a cahir perpendicular, d'um ceu ainda +negro, onde o vento se calra; e para alm do rio e dos montes havia uma +claridade, como entre cortinas de pano cinzento que se descerram. + +Jacintho repousava. Eu no cessra de me sacudir, de bater os ps +encharcados, que me arrefeciam. E o bom Silverio, passando a mo +pensativa sobre o negrume das suas barbas, reflectia, emendava os seus +prognosticos: + +--Pois, no senhor... Ainda esta! Nunca pensei. que tornejou o vento. + +O alpendre que nos cobria assentava sobre duas paredes em angulo, de +pedra solta, restos d'algum casebre desmantelado, e sobre um esteio +fazendo cunhal. N'esse momento s abrigava madeira, um cuculo de cestos +vasios, e um carro de bois, onde o meu Principe se sentra, enrolando um +cigarro confortador. A chuva desabava, copiosa, em longos fios +reluzentes. E todos tres nos callavamos, n'aquella contemplao inerte e +sem pensamento, em que uma chuva grossa e serena sempre immobilisa e +retem olhos e almas. + +-- Snr. Silverio, murmurou lentamente o meu Principe, que que o +senhor esteve ahi a dizer de bexigas? + +O procurador voltou a face surprehendido: + +--Eu, Ex.^{mo} Snr.?... Ah sim! a mulher do Esgueira! que pde ser, +pde ser... No imagine V. Ex.^a que faltam por c doenas. O ar bom. +No digo que no! Arsinho so, agoasinha leve. Mas s vezes, se V. Ex.^a +me d licena, vae por ahi muita maleita. + +--Mas no ha medico, no ha botica? + +O Silverio teve o riso superior de quem habita regies civilisadas e bem +providas... + +--Ento no havia d'haver? Pois ha um boticario, em Guies, l quasi ao +p da casa aqui do nosso amigo. E homem entendido... o Firmino, hein, +Snr. Fernandes? Homem capaz. Medico o Dr. Avelino, d'aqui a legoa e +meia, nas Bolsas. Mas j V. Ex.^a v, esta gentinha pobre!... Tomaram +elles para po, quanto mais para remedios! + +E de novo se estabeleceu um silencio, sob o alpendre, onde penetrava a +friagem crescente da serra encharcada. Para alm do rio, a promettedora +claridade no se alargra entre as duas espessas cortinas pardacentas. +No campo, em declive deante de ns, ia um longo correr de ribeiros +barrentos. Eu terminra por me sentar na ponta d'um madeiro, enervado, +j com a fome aguada pela manh agreste. E Jacintho, na borda do carro, +com os ps no ar, cofiava os bigodes humidos, palpava a face, onde, com +espanto meu, reapparecera a sombra, a sombra triste dos dias passados, a +sombra do 202! + +E, ento, surdiu por traz da parede do alpendre um rapasito, muito +rotinho, muito magrinho, com uma carita miuda, toda amarella sob a +porcaria, e onde dous grandes olhos pretos se arregalavam para ns, com +vago pasmo e vago medo. Silverio immediatamente o conheceu. + +--Como vae a tua me? Escusas de te chegar para c, deixa-te estar ahi. +Eu ouo bem. Como vae a tua me? + +No percebi o que os pobres beicitos descorados murmuraram. Mas Jacinto, +interessado: + +--Que diz elle? Deixe vir o rapaz! Quem a tua me? + +Foi o Silverio que informou respeitosamente: + +-- a tal mulher que est doente, a mulher do Esgueira, ali do casal da +figueira. E ainda tem outro abaixo d'este... Filharada no lhe falta. + +--Mas este pequeno tambem parece doente!--exclamou Jacintho. Coitadito, +to amarello!... Tu tambem ests doente? + +O rapasinho emmudecera, chupando o dedo, com os tristes olhos pasmados. +E o Silverio sorria, com bondade: + +--Nada! este sosinho... Coitado, assim amarellado e enfezadito, por +que... Que quer V. Ex.^a? Mal comido! muita miseria... Quando ha o +bocadito de po para todo o rancho. Fomesinha, fomesinha! + +Jacintho pulou bruscamente da borda do carro. + +--Fome? Ento elle tem fome? Ha aqui gente com fome? + +Os seus olhos rebrilhavam, n'um espanto commovido, em que pediam, ora a +mim, ora ao Silverio, a confirmao d'esta miseria insuspeitada. E fui +eu que esclareci o meu Principe: + +--Homem! est claro que ha fome! Tu imaginavas talvez que o Paraiso se +tinha perpetuado aqui nas serras, sem trabalho e sem miseria... Em toda +a parte ha pobres, at na Australia, nas minas d'ouro. Onde ha trabalho +ha proletariado, seja em Paris, seja no Douro... + +O meu Principe, teve um gesto d'afflicta impaciencia: + +--Eu no quero saber o que ha no Douro. O que eu pergunto se aqui, em +Tormes, na minha propriedade, dentro d'estes campos que so meus, ha +gente que trabalhe para mim, e que tenha fome... Se ha creancinhas, como +esta, esfomeadas? o que eu quero saber. + +O Silverio sorria, respeitosamente, ante aquella candida ignorancia das +realidades da Serra: + +--Pois est bem de vr, meu senhor, que ha para ahi caseiros que so +muito pobres. Quasi todos... uma miseria, que se no fosse algum +soccorro que se lhes d, nem eu sei!... Este Esgueira, com o rancho de +filhos que tem, uma desgraa... Havia V. Ex.^a de vr as casitas em +que elles vivem... So chiqueiros. A do Esgueira, acol... + +--Vamos vl-a! atalhou Jacintho com uma deciso exaltada. + +E sahiu logo do alpendre, sem attender chuva, que ainda cahia, mais +leve e mais rala. Mas ento Silverio alargou os braos deante d'elle, +com anciedade, como para o salvar d'um precipicio. + +--No! V. Ex.^a l na casa do Esgueira que no entra! No se sabe o +que a mulher tem, e cautella e caldo de gallinha... + +Jacintho no se alterou na sua polidez paciente: + +--Obrigado pelo seu cuidado, Silverio... Abra o seu chapeu de chuva, e +vante! + +Ento o Procurador vergou os hombros, e, como S. Ex.^a mandava, abriu +com estrondo o immenso pra-agoas, abrigou respeitosamente Jacintho, +atravs do campo encharcado. Eu segui, pensando na esmola sumptuosa que +o bom Deus mandava quelle pobre casal por um remoto senhor das Cidades! +Atraz vinha o pequenito perdido n'um immenso pasmo. + +Como todos os casebres da serra, o do Esgueira era de grossa pedra +solta, sem reboco, com um vago telhado, de telha musgosa e negra, um +postigo no alto, e a rude porta que servia para o ar, para a luz, para o +fumo, e para a gente. E em redor, a Natureza e o Trabalho tinham, +atravs d'annos, accumulado ali trepadeiras e flres silvestres, e +cantinhos d'horta, e sebes cheirosas, e velhos bancos roidos de musgo, e +panellas com terra onde crescia salsa, e regueiros cantantes, e videiras +enforcadas nos olmos, e sombras e charcos espelhados, que tornavam +deliciosa, para uma Ecloga, aquella morada da Fome, da Doena e da +Tristeza. + +Cautelosamente, com a ponteira do guarda-chuva, Silverio empurrou a +porta, chamando: + +--Eh! tia Maria... Ol rapariga! + +E na fenda entreaberta appareceu uma moa, muito alta, escura e suja, +com uns tristes olhos pisados, que se espantaram para ns, serenamente. + +--Ento como vae a tua me?--Abre l a porta, que esto aqui estes +senhores... + +Ella abriu, lentamente, e ia murmurando n'uma voz dolente e arrastada +mas sem queixume, que um vago, resignado sorriso acompanhava: + +--Ora, coitada! como ha de ir? Malzinha... malzinha. + +E dentro, n'um gemido que subia como do cho, d'entre abafos, amodorrado +e lento, a me repetiu a desconsolada queixa: + +--Ai! para aqui estou, e malzinha, malzinha!... + +O Silverio, sem passar da porta, com o guarda-chuva em riste, meio +aberto, como um escudo contra a infeco, lanou uma consolao vaga: + +--No ha de ser nada, tia Maria!... Isso foi friagem! No foi seno +friagem! + +E, sobre o hombro de Jacintho, encolhido: + +--J V. Ex.^a v... Muita miseria! At lhe chove l dentro. + +E, no pedao de cho que viam, cho de terra batida, uma mancha humida +reluzia, da chuva pingada de uma telha rta. A parede, coberta de +fuligem, das longas fumaraas da lareira, era to negra como o cho. E +aquella penumbra suja parecia atulhada, n'uma desordem escura, de +trapos, de cacos, de restos de coisas, onde s mostravam frma +comprehensivel uma arca de pau negro, e por cima, pendurado d'um prego, +entre uma serra e uma candeia, um grosso saiote escarlate. + +Ento Jacintho, muito embaraado, murmurou abstrahidamente: + +--Est bem, est bem... + +E largou pelo campo para o lado do alpendre como se fugisse, emquanto o +Silverio decerto revelava rapariga, a presena augusta do fidalgo, +por que a sentimos, da porta, levantar a voz dolorida: + +--Ai! Nosso Senhor lhe d muito boa sorte! Nosso Senhor o acompanhe! + +Quando o Silverio, com as grandes passadas das suas grandes botas, nos +colheu, no meio do campo, Jacintho parra, olhava para mim, com os dedos +tremulos a torturar o bigode, e murmurava: + +-- horrivel, Z Fernandes, horrivel. + +Ao lado, o vozeiro do Silverio trovejou: + +--Que queres tu outra vez, rapaz? Vae para a tua me, creatura! + +Era o pequeno rotinho, esfaimadinho, que se prendia a ns, n'um immenso +pasmo das nossas pessoas, e com a confusa esperana, talvez, que +d'ellas, como de Deuses encontrados n'um caminho, lhe viesse affago ou +proveito. E Jacintho, para quem elle mais especialmente arregalava os +olhos tristes, e que aquella miseria, e a sua muda humildade, +embaraavam, acanhavam horrivelmente, s soube sorrir, murmurar o seu +vago: Est bem, est bem... Fui eu que dei ao pequenito um tosto, +para o fartar, o despegar dos nossos passos. Mas como elle, com o seu +tosto bem agarrado, nos seguia ainda, como no sulco da nossa +magnificencia, o Silverio teve de o espantar, como a um passaro, batendo +as mos, e de lhe gritar: + +--J para casa! E leve esse dinheiro me. Roda, roda!... + +--E ns vamos almoar, lembrei eu olhando o relogio. O dia ainda vae +estar lindo. + +Sobre o rio, com effeito, reluzia um pedao d'azul lavado e lustroso; e +a grossa camada de nuvens j se ia enrolando sob a lenta varredela do +vento, que as levava, despejadas e rtas, para um canto escuso do ceu. + +Ento recolhemos lentamente para casa, por uma vereda ingreme, que +ensinra o Silverio, e onde um leve enchurro vinha ainda, saltando e +chalrando. De cada ramo tocado, rechuvia uma chuva leve. Toda a verdura, +que bebera largamente, reluzia consolada. + +Bruscamente, ao sahirmos da vereda para um caminho mais largo, entre um +socalco e um renque de vinha, Jacintho parou, tirando lentamente a +cigarreira: + +--Pois, Silverio, eu no quero mais estas horriveis miserias na quinta. + +O Procurador deu um geito aos hombros, com um vago _eh_! _eh_! +d'obediencia e dvida. + +--Antes de tudo, continuava Jacintho, mande j hoje chamar esse Dr. +Avelino para aquella pobre mulher... E os remedios que os vo buscar +logo a Guies. E recommendao ao medico para voltar manh, e em cada +dia; at que ella melhore... Escute! E quero, Melchior, que lhe leve +dinheiro, para os caldos, para a dieta, uns dez, ou quinze mil ris... +Bastar? + +O Procurador no conteve um riso respeitoso. Quinze mil ris! Uns +tostes bastavam... Nem era bom acostumar assim, a tanta franqueza, +aquella gente. Depois todos queriam, todos pedinchavam... + +--Mas que todos ho-de ter, disse Jacintho simplesmente. + +--V. Ex.^a manda, murmurou o Silverio. + +Encolhera os hombros, parado no caminho, no espanto d'aquellas +extravagancias. Eu tive de o apressar, impaciente: + +--Vamos conversando e andando! meio dia! Estou com uma fome de lobo! + +Caminhamos, com o Silverio no meio, pensativo, a fronte enrugada sob a +vasta aba do chapeu, a barba immensa espalhada pelo peito, e a barraca +exorbitante do guarda-chuva vermelho enrolada debaixo do brao. E +Jacintho, puxando nervosamente o bigode, arriscava outras idas +bemfazejas, cautelosamente, no seu indominavel medo do Silverio: + +--E as casas tambem... Aquella casa um covil!... Gostava de abrigar +melhor aquella pobre gente... E naturalmente, as dos outros caseiros so +pocilgas eguaes... Era necessario uma reforma! Construir casas novas a +todos os rendeiros da quinta... + +--A todos?...--O Silverio gaguejava,--emudeceu. + +E Jacintho balbuciava aterrado: + +--A todos... Emfim, quero dizer... Quantos sero elles? + +Silverio atirou um gesto enorme: + +--So vinte e coisas... Vinte e tres! se bem lembro. Upa! Upa! Vinte e +sete... + +Ento Jacintho emmudeceu tambem, como reconhecendo a vastido do numero. +Mas desejou saber, por quanto ficaria cada casa!... Oh! uma casa +simples, mas limpa, confortavel, como a que tinha a irm do Melchior, ao +p do lagar. Silverio estacou de novo. Uma casa como a da Ermelinda? +Queria Sua Ex.^a saber? E alijou a cifra, muito d'alto, como uma pedra +immensa, para esmagar Jacintho: + +--Duzentos mil ris, Ex^{mo} Senhor! E para mais que no para menos! + +Eu ria da tragica ameaa do excellente homem. E Jacintho, muito +docemente, para conciliar o Silverio: + +--Bem, meu amigo... Eram uns seis contos de ris! Digamos dez, por que +eu queria dar a todos alguma mobilia e alguma roupa. + +Ento o Silverio teve um brado de terror: + +--Mas ento, Ex.^{mo} Senhor, uma revoluo! + +E como ns, irresistivelmente, riamos dos seus olhos esgazeados de +horror, dos seus immensos braos abertos para traz, como se visse o +mundo desabar,--o bom Silverio encavacou: + +--Ah! V. Ex.^{as} riem? Casas para todos, mobilias, pratas, bragal, dez +contos de ris! Ento tambem eu rio! Ah! ah! ah! Ora viva a bella +chalaa!... Est ba a risota! + +E subitamente, n'uma profunda mesura, como declinando toda a +responsabilidade n'aquelle disparate magnifico: + +--Emfim, V. Ex.^a quem manda! + +--Est mandado, Silverio. E tambem quero saber as rendas que paga essa +gente, os contractos que existem, para os melhorar. Ha muito que +melhorar. Venha voss almoar comnosco. E conversamos. + +To saturado d'espanto estava o Silverio, que nem recebeu mais espanto +com essa melhoria de rendas. Agradeceu o convite, penhorado. Mas pedia +licena a Sua Ex.^a para passar primeiramente pelo lagar, para ver os +carpinteiros que andavam a concertar a trave do rio. Era um instante, e +estava em seguida s ordens de S. Ex.^a. + +Metteu a corta matto, saltando um cancello. E ns seguimos, com passos +que eram ligeiros, pela hora do almoo que se retardra, pello azul +alegre que reapparecia, e por toda aquella justia feita pobresa da +serra. + +--No perdeste hoje o teu dia, Jacintho, disse eu, batendo, com uma +ternura que no disfarcei, no hombro do meu amigo. + +--Que miseria, Z Fernandes! Eu nem sonhava... Haver por ahi, vista da +minha casa, outras casas, onde creanas teem fome! horrivel... + +Estavamos entrando na alameda. Um raio de sol, sahindo d'entre duas +grossas, algodoadas nuvens, passou sobre uma esquina do casaro, ao +fundo, uma viva tira d'ouro. O clarim dos gallos soava claro e alto. E +um doce vento, que se erguera, punha nas folhas lavadas e luzidias um +fremito alegre e doce. + +--Sabes o que eu estava pensando, Jacintho?... Que te aconteceu aquella +lenda de Santo Ambrosio... No, no era Santo Ambrosio... No me lembra +o santo... Nem era ainda santo... apenas um cavalleiro peccador, que se +enamorra d'uma mulher, puzera toda a sua alma n'essa mulher, s por a +avistar a distancia na rua. Depois, uma tarde que a seguia, enlevado, +ella entrou n'um portal de egreja, e ahi, de repente, ergueu o veu, +entreabriu o vestido, e mostrou ao pobre cavalleiro o seio roido por uma +chaga! Tu, tambem andavas namorado da serra, sem a conhecer, s pela sua +belleza de vero. E a serra, hoje, zs! de repente, descobre a sua +grande ulcera... talvez a tua preparao para S. Jacintho. + +Elle parou, pensativo, com os dedos nas cavas do collete: + +--- verdade! Vi a chaga! Mas emfim, esta, louvado seja Deus, das que +eu posso curar! + +No desilludi o meu Principe. E ambos subimos alegremente a escadaria do +casaro. + + + + +XI + + +No dia que seguiu estas largas caridades recolhi a Guies. E, desde +ento, tantas vezes trotei por aquellas tres legoas entre a nossa e a +velha alameda dos Jacinthos, que a minha egoa, quando a desviava d'essa +estrada familiar, conduzindo a uma cavallaria familiar, (onde ella +privava com o garrano do Melchior) relinchava de pura saudade. At a tia +Vicencia se mostrava vagamente ciumenta d'aquella Tormes, para onde eu +sempre corria, d'aquelle Principe de quem incessantemente celebrava o +rejuvenescimento, a caridade, os piteus, e as chimeras agricolas. J um +dia com um gro de sal e ironia,--o unico que cabia n'um corao todo +cheio d'innocencia,--ella me dissera, movendo com mais vivacidade as +agulhas da sua meia: + +--Olha que te podes gabar! At me tens feito curiosidade de conhecer +esse Jacintho... Traze c essa maravilha, menino! + +Eu rira: + +--Socegue, tia Vicencia, que o trarei agora, para o dia dos meus annos, +a jantar... Damos uma festa, haver um bailarico no pateo, e vem ahi +toda essa senhorama dos arredores. Talvez at se arranje uma noiva para +o Jacintho. + +Eu, com effeito, j convidra o meu Principe para este natalicio. E de +resto convinha que o senhor de Tormes conhecesse todos aquelles senhores +das boas casas da serra... Sobretudo, como eu lhe dizia rindo, convinha +que elle conhecesse algumas mulheres, algumas d'aquellas fortes +raparigas dos solares serranos, por que Tormes tinha uma solido muito +monastica; e o homem, sem um pouco do Eterno Feminino, facilmente se +enrudece e ganha uma casca aspera como a das arvores, na solido. + +--E esta Tormes, Jacintho, esta tua reconciliao com a Natureza, e o +renunciamento s mentiras da Civilisao uma linda historia... Mas, +caramba, faltam mulheres! + +Elle concordava, rindo, languidamente estendido na cadeira de vime: + +--Com effeito, ha aqui falta de mulher, com M. grande. Mas essas +senhoras ahi das casas dos arredores... No sei, estou pensando que se +devem parecer com legumes. Sans, nutritivas, excellentes para a +panella--mas, emfim, legumes. As mulheres que os poetas comparam s +Flores so sempre as mulheres das Crtes, das Capitaes, s quaes, +invariavelmente, desde Hesiodo e de Horacio, se rendem os poetas... E +evidentemente no ha perfume, nem graa, nem elegancia, nem requinte, +n'uma cenoura ou n'uma couve... No devem ser interessantes as senhoras +da minha serra. + +--Eu te digo... A tua visinha mais chegada, a filha do D. Theotonio, com +effeito, salvo o respeito que se deve casa illustre dos Barbedos, um +mostrengo! A irm dos Albergarias, da quinta da Loja, tambem no +tentaria nem mesmo o precisado Santo Anto. Sobretudo se se despisse, +por que um espinafre infernal! Essa realmente legume, e no dos +nutritivos. + +--Tu o disseste: espinafre! + +--Temos tambem a D. Beatriz Velloso... Essa bonita... Mas, menino, que +horrivelmente bem fallante! Falla como as heroinas do Camillo. Tu nunca +leste o Camillo... E depois, um tom de voz que te no sei descrever, o +tom com que se falla em D. Maria, em peas de sentimento. Tu tambem +nunca viste o Theatro de D. Maria... Emfim, um horror! E perguntas +pavorosas. V. Ex.^a. Snr. Doutor, no se delicia com Lamartine? J me +disse esta, a indecente! + +--E tu? + +--Eu! Arregalei os olhos... Oh Lamartine!. Mas, coitada, uma +excellente rapariga! Agora, por outro lado, temos as Rojes, as filhas +de Joo Rojo, duas flores, muito frescas, muito alegres, com um cheiro +e um brilho a sadio, e muito simples... A tia Vicencia morre por ellas. +Depois ha a mulher do Dr. Alypio, que uma belleza. Oh! uma creatura +esplendida! Mas, emfim, a mulher do Dr. Alypio, e tu renunciaste aos +deveres da Civilisao... Alm disso, mulher muito sria, toda absorvida +nos seus dous pequenos, que parecem dous anjinhos de Murillo... E quem +mais? J agora, quero completar a lista do pessoal feminino. Temos a +Mello Rebello, de Sandofim, muito engraada, com cabello lindo... Borda +na perfeio, faz doces como uma freira do antigo Regimen... Havia +tambem uma Julia Lobo, muito linda, mas morreu... Agora no me lembro +mais. Mas falta a flr da Serra, que a minha prima Joanninha, da Flr +da Malva! Essa uma perfeio de rapariga. + +--E tu, primo Z, como tens tu resistido? + +--Somos como irmos, creados de pequeninos, mais acostumados e +familiares que tu e eu... A familiaridade esbate os sexos. A me d'ella +era a unica irm da tia Vicencia, e morreu muito nova. A Joanninha, +quasi desde o bero que se creou em nossa casa, em Guies. O pae bom +homem, o tio Adrio. Erudito, antiquario, colleccionador... Collecciona +toda a sorte de cousas exquisitas, campainhas, esporas, sinetes, +fivellas... Tem uma colleco curiosa. Elle ha muito que deseja vir a +Tormes, para te visitar... Mas, coitado, soffre da bexiga, no pde +montar a cavallo. E a estrada da Flr da Malva aqui impossivel para +carruagens... + +O meu Principe espreguira longamente os braos: + +--No, est claro! eu que hei-de visitar teu tio, e a tia Vicencia... +Desejo conhecer os meus visinhos. Mas mais tarde, quando socegar. Agora +ando todo occupado com o meu povo. + +E com effeito! Jacintho era agora como um Rei fundador d'um Reino, e +grande edificador. Por todo o seu dominio de Tormes andavam obras, para +o renovamento das casas dos rendeiros, umas que se concertavam, outras +mais velhas, que se derrubavam para se reconstruirem com uma larguesa +commoda. Pelos caminhos constantemente chiavam carros, carregados de +pedra, ou de madeiras cortadas nos pinheiraes. + +Na taberna do Pedro, entrada da freguezia, ia um desusado movimento, +de pedreiros e carpinteiros contractados para as obras;--e o Pedro, com +as mangas arregaadas, por traz do balco, no cessava de encher os +decilitros com uma vasta enfusa. + +Jacintho, que tinha agora dous cavallos, todas as manhs cedo percorria +as obras, com amor. Eu, inquieto, sentia outra vez, latejar e irromper +no meu Principe o seu velho, maniaco furor d'accumular Civilisao! O +plano primitivo das obras era incessantemente alargado, aperfeioado. +Nas janellas, que deviam ter apenas portadas, segundo o secular costume +da serra, decidira pr vidraas, apezar do mestre d'obras lhe dizer +honradamente, que depois d'habitadas um mez, no haveria casa com um s +vidro. Para substituir as traves classicas queria estucar os tectos;--e +eu via bem claramente que elle se continha, se retesava dentro do +Bom-senso, para no dotar cada casa com campainhas electricas. Nem +sequer me espantei, quando elle uma manh me declarou que a porcaria da +gente do campo provinha de elles no terem onde commodamente se lavar, +pelo que andava pensando em dotar cada casa com uma banheira. Desciamos +n'esse momento, com os cavallos redea, por uma azinhaga precipitada e +escabrosa; um vento leve ramalhava nas arvores, um regato saltava +ruidosamente entre as pedras. Eu no me espantei--mas realmente me +pareceu que as pedras, o arroio, as ramagens e o vento, se riam +alegremente do meu Principe. E alm d'estes confortos, a que o Joo, +mestre d'obras, com os olhos loucamente arregalados chamava as +grandezas, Jacintho meditava o bem das almas. J encommendra ao seu +architecto, em Paris, o plano perfeito d'uma escola, que elle queria +erguer, n'aquelle campo da Carria, junto capellinha que abrigava os +ossos. Pouco a pouco, ahi crearia tambem uma bibliotheca, com livros +d'estampas, para entreter, aos domingos, os homens a quem j no era +possivel ensinar a lr. Eu vergava os hombros, pensando:--Ahi vem a +terrivel accumulao das Noes! Eis o livro invadindo a Serra! Mas +outras idas de Jacintho eram tocantes,--e eu mesmo me enthusiasmei, e +excitei o enthusiasmo da tia Vicencia com o seu plano d'uma Creche, onde +elle esperava ter manhs muito divertidas vendo as creancinhas a +gatinhar, a correr tropegamente atraz d'uma bola. De resto, o nosso +boticario de Guies estava j apalavrado para estabelecer uma pequena +pharmacia em Tormes, sob a direco do seu praticante, um afilhado da +tia Vicencia, que tinha publicado um artigo sobre as festas populares do +Douro no _Almanach de Lembranas_. E j fra offerecido o partido medico +de Tormes, com ordenado de 600$000 ris. + +--No te falta seno um Theatro! dizia eu, rindo. + +--Um theatro no. Mas tenho a ida d'uma sala, com projeces de +lanterna magica, para ensinar a esta pobre gente as cidades d'esse +mundo, e as cousas d'Africa, e um bocado de Historia. + +E tambem me ensoberbeci com esta innovao!--E quando a contei ao tio +Adrio, o digno antiquario bateu, apezar do seu rheumatismo, uma palmada +tremenda na cxa. Sim, senhor! Bella ida! Assim se podia ensinar +quella gente illetrada, vivamente, por imagens, a Historia Santa, a +Historia Romana, at a Historia de Portugal!... E voltado para a prima +Joanninha, o tio Adrio declarou Jacintho um homem de corao! + +E realmente pela Serra crescia a popularidade do meu Principe. +N'aquelle, guarde-o Deus, meu senhor! com que as mulheres ao passar o +saudavam, se voltavam para o vr ainda, havia uma seriedade d'orao, o +bem sincero desejo de que Deus o guardasse sempre. As creanas a quem +elle distribuia tostes, farejavam de longe a sua passagem,--e era em +torno d'elle um escuro formigueiro de caritas trigueiras e sujas, com +grandes olhos arregalados, que se ainda tinham pasmo, j no tinham +medo. Como o cavallo de Jacintho uma tarde se chapra, ao desembocar da +alameda, n'umas grossas pedras que ahi deformavam a estrada, logo ao +outro dia um bando d'homens, sem que Jacintho o ordenasse, veio por +dedicao ensaibrar e alisar aquelle pedao perigoso de caminho, +aterrados com o risco que correra o bom senhor. J pela serra se +espalhava esse nome de bom senhor. Os mais edosos da freguezia no o +encontravam sem exclamarem, uns com gravidade, outros com grandes risos +desdentados:--_Este o nosso bemfeitor_! Por vezes, alguma velha corria +do fundo do eido, ou vinha porta do casebre, ao avistal-o no caminho, +para gritar, com grandes gestos dos braos magros: Ai que Deus o cubra +de benos! Que Deus o cubra de benos! + +Aos domingos, o padre Jos Maria, (bom amigo meu e grande caador) vinha +de Sandofim, na sua egoa rua, a Tormes, para celebrar a missa na +Capellinha. Jacintho assistia ao officio na sua tribuna, como os +Jacinthos d'outras eras, para que aquelles simples o no suppuzessem +estranho a Deus. Quasi sempre ento elle recebia presentes, que as +filhas dos caseiros, ou os pequenos, vinham muito corados, trazer-lhe +varanda, e eram vasos de manjarico, ou um grosso ramalhete de cravos, e +por vezes um gordo pato. Havia ento uma distribuio de cavacas e +merengues de Guies, s raparigas e s creanas,--e, no pateo, para os +homens circulavam as infusas de vinho branco. O Silverio j sustentava +com espanto, e redobrado respeito, que o Snr. D. Jacintho em breve +disporia de mais votos nas eleies que o Dr. Alypio. E eu proprio me +impressionei, quando o Melchior me contou que o Joo Torrado, um velho +singular d'aquelles sitios, de grandes barbas brancas, hervanario, +vagamente alveitar, um pouco adivinho, morador mysterioso d'uma cova no +alto da serra, a todos affirmava que aquelle bom senhor era El-Rei D. +Sebastio, que voltra! + + + + +XII + + +Assim chegou Setembro, e com elle o meu natalicio, que era a 3 e n'um +Domingo. Toda essa semana a passra eu em Guies, nos preparos da +vindima,--e de manh cedo, n'esse Domingo illustre, me fui debruar da +varanda do quarto do saudoso tio Affonso, vigiando a estrada, por onde +devia apparecer o meu Principe, que emfim visitava a casa do seu Z +Fernandes. A tia Vicencia, desde a madrugada, andava atarefada pela +cosinha e pela copa, porque, desejando mostrar ao meu Principe o +pessoal da serra, convidra para jantar algumas familias amigas, dos +arredores, as que tinham carruagens ou carroes, e podiam, pelas +estradas mal seguras, recolher tarde, depois d'um bailarico campestre, +no pateo, j enfeitado para esse effeito de lanternas chinezas. Mas logo +s dez horas me desesperei, ao receber, por um moo da Flr da Malva, +uma carta da prima Joanninha, em que dizia a pena de no poder vir +porque o Pap estava desde a vespera com um leiceno, e ella no o +queria abandonar. Corri indignado cosinha, onde a tia Vicencia +presidia a um violento bater de gemas d'ovos dentro d'uma immensa +terrina. + +--A Joanninha no vem! Sempre assim! Diz que o pae tem um leiceno... +Aquelle tio Adrio escolhe sempre os grandes dias para ter leicenos, ou +para ter a pontada... + +A boa face redondinha e corada da tia Vicencia enterneceu-se. + +--Coitado! ser em sitio que no se pudesse sentar na carruagem! +Coitado! Olha, se lhe escreveres, dize-lhe que ponha um emplastrosinho +de folhas d'alecrim. com que teu tio se dava bem. + +Eu gritei simplesmente para o moo, que dava de beber ao burro no pateo: + +--Dize Snr.^a D. Joanninha que sentimos muito... Que talvez eu l +apparea manh. + +E voltei janella, impaciente, por que o relogio do corredor, muito +atrazado, j cantra a meia hora depois das dez e o Principe tardava +para o almoo. Mas, mal eu me chegra varanda, appareceu justamente na +volta da estrada Jacintho, de grande chapeu de palha, no seu cavallo, +seguido do Grillo que, tambem de chapeu de palha, e abrigado sob um +immenso guarda-sol verde, se escarranchava no albardo da velha egoa do +Melchior. Atraz, um moo com uma maleta cabea. E eu, na alegria de +avistar emfim o meu Principe trotando para a minha casa d'aldeia, no dia +dos meus trinta e seis annos, pensava n'outro natalicio, no d'elle, em +Paris, no 202, quando, entre todos os esplendores da Civilizao, ns +bebemos tristemente _ad manes_, aos nossos mortos! + +--_Salv_! gritei da varanda. _Salv, domine Jacinthi_! + +E entoei, para o accolher, n'um alegre tarantantan, o hymno da carta! + +--Isto por aqui tambem lindo!--gritou elle de baixo. E o teu palacio +tem um soberbo ar... Por onde a porta? + +Mas eu j me precipitava para o pateo--onde Jacintho, apeando, contou +alegremente os tormentos do Grillo, que nunca montra a cavallo, e no +cessra de berrar ante os perigos d'aquella aventura. + +E o digno preto, offegante, lustroso de suor, e livido sob o esplendor +da sua negrura, exclamava, apontando com a mo tremula para a pobre +egoa, que solta, de cabea pensativa, parecia de pedra, sobre as patas +mais immoveis que marcos: + +--Pois se o si Fernandes visse! Uma fera, que nunca veiu quieta. Sempre +para a esquerda, sempre para a direita, p aqui, p alm! S para me +sacudir! S para me sacudir! + +E no resistiu. Com a ponta do guarda-sol atirou uma pontoada vingativa +contra a egoa, sobre o albardo. + +Subindo a escadaria ligeira, penetrando no alegre corredor, com a sua +janella ao fundo engrinaldada de rosinhas, Jacintho louvava grandemente +a nossa casa, que o repousava das rijas muralhas, das grossas portas +feudaes de Tormes. E no seu quarto agradeceu os cuidados maternaes da +tia Vicencia, que enchera de flores os dois vasos da China sobre a +commoda, e adornra a cama com uma das nossas colxas da India mais +ricas, cr de canario, com grandes aves d'ouro. Eu sorria, enternecido. +Ento estreitamos os ossos n'um grande abrao, pelo natalicio... Trinta +e oito, hein, Z Fernandes?--Trinta e quatro, animal! E o meu +Principe abrindo a mala, sobria maleta de philosopho, offereceu os +nobres presentes, que so devidos, como diz sempre o astuto Ulysses na +Odyssea. Era um alfinete de gravata, com uma saphira, uma cigarreira de +aro fosco, adornada de um florido ramo de macieira em delicado esmalte, +e uma faca para livros de velho lavor Chinez. Eu protestava contra a +prodigalidade. + +-- tudo das malas de Paris... Mandei-as abrir hontem noite. E tomei a +liberdade de trazer esta lembrana tua tia Vicencia. No vale nada... + s por ter pertencido princeza de Lamballe. + +Era uma caldeirinha d'agoa benta, em prata lavrada, d'um gosto florido e +quasi galante. + +--A tia Vicencia no sabe quem a princeza de Lamballe, mas ficar +encantada! E uma garantia, por que ella suspeita da tua religio, como +homem de Paris, da terra das impiedades... E agora, lavar, escovar, e ao +almoo! + +A tia Vicencia pareceu toda surprehendida, e logo encantada com o meu +camarada, que ella suppuzera realmente um Principe, arrogante, escarpado +e difficil. Quando elle lhe offereceu a caldeirinha, com um delicado +pedido para se lembrar d'elle nas suas oraes, duas largas rosas, +mais roseas e frescas que as rosas que enchiam a mesa, cobriram as faces +redondas da boa senhora, que nunca recebera to piedoso presente, com +to linda palavra. Mas o que sobretudo a captivou foi o tremendo +appetite de Jacintho, a enthusiasmada convico com que elle, +accumulando no prato montes de cabidella, depois altas serras d'arroz de +forno, depois bifes de numerosa cebolada, exaltava a nossa cosinha, +jurava nunca ter provado nada to sublime. Ella resplandecia: + +--At faz gosto, at faz gosto!... Ora mais uma d'estas batatinhas +recheadas... + +--Com certesa, minha senhora! at duas! As minhas raes, em mesas +d'estas, to perfeitas, so sempre as de Gargantua. + +--No cites Rabelais, que a tia Vicencia no conhece os auctores +profanos! exclamava eu, tambem radiante. E prova esse vinho branco c da +nossa lavra, e louva Deus que amadurece tal uva. + +E o almoo foi muito alegre, muito intimo, muito conversado, sobre as +obras de Jacintho em Tormes, e a sua Creche, que enlevava a tia +Vicencia, e as esperanas da vindima, e a minha prima Joanninha, que +tinha o pap doente, e o pessimo estado dos caminhos. Mas o +enternecimento maior foi quando, ao servir o caf, o creado poz ao lado +de Jacintho um pires com um pau de canella, o seu estranho e costumado +pau de canella. No o esquecera a tia Vicencia! Ali tinha o seu pausinho +de canella!--Queria que elle, em Guies, continuasse os seus habitos +como em Tormes... E aquelle pau de canella foi o symbolo de adopo do +meu Principe como novo sobrinho da tia Vicencia. + +Ella em breve recolheu cosinha, aos preparativos do banquete. Ns +fumamos um preguioso charuto no jardim, ao p do repuxo, sob a +recolhida sombra do cedro. Depois, inexoravelmente, como proprietario, +mostrei ao meu Principe a propriedade toda, com desapiedada +minuciosidade, sem lhe perdoar uma leira, um regueiro, uma arvore, um p +de vinha. S quando a sua face comeou a opar e a empallidecer, de +canao, e que do entendimento totalmente atordoado s lhe escorria um +vago--muito bonito! bella terra!-- que voltei os passos para casa, +tornejando ainda n'uma volta larga para lhe mostrar o lagar, uma +plantao d'espargos, e o sitio onde existira a ruina d'um velho castro +romano. Ao penetrarmos de novo, pelo jardim, na fresca sala, ainda o +empurrei, como uma rez, para a livraria do meu bom tio Affonso, para lhe +mostrar as preciosidades, uma magnifica chronica de D. Joo I por Ferno +Lopes, a primeira edio do _Imperador Clarimundo_, uma _Henriada_, com +a assignatura de Voltaire, foraes d'El-Rei D. Manoel, e outras +maravilhas. Elle respirava fechando o derradeiro pergaminho, quando eu o +arrastei adega, para que admirasse a famosa pipa, que tinha, em +relevo, na madeira do tampo, as complicadas armas dos Sandes. Eram +quatro horas. O meu Principe tinha o ar esgaseado e livido. Cravando +n'elle os olhos inexoraveis, olhos em que eu mesmo sentia reluzir a +ferocidade, declarei que iriamos agora vr a tulha. Mas ento, com as +mos nos rins, elle murmurou, humildemente, n'um murmurio de creana: + +--No se me dava de me sentar um poucochinho! + +Tive ento piedade, abri as garras, deixei que elle se arrastasse, atraz +de mim, para o seu quarto, onde freneticamente descalou as botas, se +atirou para um fresco canap forrado de ganga, murmurando n'um +abatimento profundo:--Bella propriedade! + +Consenti generosamente que elle adormecesse,--e eu mesmo desci a +verificar se a Gertrudes dispusera bem as escovas, as toalhas de renda, +no quarto onde os convidados, em breve, ao chegar, lavariam as mos, +escovariam a poeira da estrada. E justamente, uma caleche rodava no +pateo, a velha caleche do D. Theotonio, com a parelha rua. Espreitando +da janella descobri, com prazer, que chegava s, de gravata branca, sob +o guarda-p, sem a horrendissima filha. Corri alegremente ao quarto da +tia Vicencia, que, ajudada pela Catharina, abrochava pressa as suas +pulseiras ricas de topazios. + +--Tia Vicencia! chegou o D. Theotonio! Felizmente vem sem a filha... No +se demore, os outros no tardam. O Manoel que esteja bem penteado, de +gravata bem teza!... Vamos a vr como corre a festa! + + + + +XIII + + +Ai de mim! a festa no meu anniversario no se passou com brilho, nem com +alegria! + +Quando o meu Principe entrou na sala, com uma elegancia, (onde eu senti +as malas de Paris, abertas na vespera)--uma rosa branca no jaqueto +preto, collete branco lavrado e trespassado, copiosa gravata de sda +branca, tufando, e presa por uma perola negra,--j todos os convidados +estavam na sala,--o D. Theotonio, o Ricardo Velloso, o Dr. Alypio, o +gordo Mello Rebello, de Sandofim, os dois manos Albergarias, da quinta +da Loja--; todos de p, n'um pelloto cerrado. Em torno do soph onde a +tia Vicencia se installra, um magotesinho de cadeiras reunira as +senhoras,--a Beatriz Velloso, de cassa branca sobre sda, que a tornava +mais aeria e magra, com a sua trunfa immensa de cabello riado; as duas +Rojes, (com a tia Adelaide Rojo) vermelhinhas como camoezas, ambas de +branco; e a mulher do Dr. Alypio, de preto, esplendida como uma Venus +Rustica... E foi na sala, como se realmente entrasse um Principe, +d'esses paizes do Norte onde os Principes so magnificos, muito +distantes dos homens, e aterram as gentes. Um silencio, como se o tecto +de carvalho descesse, nos esmagava: e todos os olhos se enristaram +contra o meu desgraado Jacintho, como n'uma caada hind, quando orla +da floresta surge o Tigre Real. Debalde,--nas confusas, apressadas +apresentaes, com que eu o levava atravez da sala,--os seus apertos de +mo, os sorrisos, o vago murmurio, da sua honra, do seu prazer foram +repassados de sympathia, de simplicidade. Todos os cavalheiros +permaneciam reservados, observando o Principe, que subira serra: e as +senhoras mais se aconchegavam sombra da tia Vicencia, como ovelhas +volta do pastor, quando na altura assoma o lobo. Eu, j inquieto, lancei +o D. Theotonio, o mais ornamental d'aquelles cavalheiros. + +--O Snr. D. Theotonio foi muito amavel em vir, Jacintho. Raras vezes sae +da sua linda casa da Abrujeira. + +O digno D. Theotonio sorriu, cofiando os espessos bigodes brancos, de +velho brigadeiro: + +--V. Ex.^a chegou directamente de Vienna? + +No! Jacintho viera directamente de Paris, com o amigo Z Fernandes. D. +Theotonio insistiu: + +--Mas certamente visita muitas vezes Vienna... + +Jacintho sorria surprehendido: + +--Vienna, porque?... No. Ha mais de quinze annos que no vou a Vienna. + +O fidalgo murmurou um lento _ah_! e ficou calado, de palpebras baixas, +como revolvendo analyses profundas, com as mos cruzadas sob as abas da +longa sobrecasaca azul. + +Eu ento, vigilante, lancei o Dr. Alypio: + +--O nosso Doutor, meu caro Jacintho, o mais poderoso influente de todo +o districto. + +O Doutor curvou a cabea bem feita, com um bello cabello preto, +admiravelmente alisado e lustroso. Mas a tia Vicencia, que se erguera do +sof, chamava o meu Principe, porque o Manoel annuncira o jantar, +mudamente, mostrando apenas, porta da sala, a sua corpulenta +pessoa,--inteiriado e vermelho. + + mesa, onde os pudins, as travessas de doce d'ovos, os antigos vinhos +da Madeira e do Porto, nas suas pesadas garrafas de cristal lapidado, +fundiam com felicidade os seus tons ricos e quentes, Jacintho ficou +entre a tia Vicencia e uma das Rojes, a Luizinha, sua afilhada, que, +por costume velho, quando jantava em Guies, sempre se collocava +sombra da sua ba madrinha. E a spa, que era de gallinha com macarro, +foi comida n'um to largo e pesado silencio que eu, na ancia de o +quebrar, exclamei, ao acaso, sem pensar que me achava em Guies depois +de tanto tempo e em minha prpria casa: + +--Deliciosa, esta sopa! + +Jacintho echoou: + +--Divina!! + +Mas como todos os convidados certamente estranharam este meu brado, e a +excessiva admirao de Jacintho, o silencio, carregado de cerimonia, +mais se carregou de embarao. Felizmente a tia Vicencia, com aquelle seu +bom sorriso, observou que Jacintho parecia gostar da comida +portugueza... E eu, sempre no intuito d'animar a conversa, nem deixei +que o meu Principe confirmasse o seu amor da cosinha vernacula, e +gritei: + +--Como gostar! Mas que delira!... Pudera! Tanto tempo em Paris, +privado dos piteus lusitanos... + +E como, ditosamente, me lembrra o prato de arroz doce preparado na +occasio do natalicio de Jacintho, pelo cosinheiro do 202, contei a +historia, profusamente, exaggerando, affirmando que esse arroz doce +continha _foie gras_, e que sobre a sua ornamentada pyramide fluctuava a +bandeira tricolor, por cima do busto do conde de Chambord! Mas o arroz +doce de Paris, assim estragado to longe da Serra, no interessra +ninguem. Puxou apenas alguns sorrisos de polida condescendencia, quando +eu, alternadamente, me voltava para um cavalheiro, para uma senhora, +insistindo, exclamando:--Extraordinario, hein? + +D. Theotonio observou, mysteriosamente, que o cosinheiro sabia para +quem cosinhava. E a bella mulher do Dr. Alypio ousou murmurar, corando: + +--Havia de ser bonito prato, e talvez no fosse mau! + +Eu, sempre na ancia de espiritualisar o banquete, de produzir +conversao, ataquei com desabrida alegria a Snr.^a D. Luiza, por ella +assim defender a profanao do nosso grande acepipe nacional! Mas, pobre +de mim! to excessiva e ruidosamente interpellei a formosa senhora, que +ella se enconchou, emmudeceu, toda corada, e mais formosa assim. E outro +silencio se abatia sobre a mesa, como uma nevoa, quando a tia Vicencia, +providencial, se desculpou para com Jacintho de no ter peixe! Mas qu! +ali na Serra era impossivel, ainda a peso d'ouro, ter peixe, a no ser a +pescada salgada, ou o bacalhau. O excellente Rojo, com aquelle seu +modo, to suave que cada syllaba para correr mais docemente parecia +lubrificada com oleos santos, lembrou que o Snr. D. Jacintho possuia uma +larga facha do rio Douro com privilegio para a pesca do savel. Jacintho +no sabia, nem imaginava que houvesse saveis... O Dr. Alypio no se +admirava por que essas pescas tinham sido vendidas ao Cunha brasileiro, +ha vinte annos, na mocidade do Snr. D. Jacintho. E hoje, segundo o D. +Theotonio, no valiam dois mil ris. Se j no ha saveis!... E a +proposito das antigas pescas do Douro se ia formando, em torno da mesa, +entre os homens mais visinhos, lentas cavaqueirinhas ruraes, que as +senhoras aproveitavam para cochichar, no desabafo d'aquelle silencio +cerimonioso, que viera pesando cada vez mais desde a spa at os frangos +guisados. Receoso de que essa orla de murmurios lentos, sem brilho e sem +alegria, se estabelecesse de novo, me abalancei (para animar), a +interpellar Jacintho, recordando a famosa aventura do peixe da Dalmacia +encalhado no ascensor. + +--Isso foi uma das melhores historias que nos succederam em Paris! O +Jacintho, por causa d'um peixe muito raro, que lhe mandra o Gro-Duque +Casimiro, dava uma magnifica ceia, a que o Gro-Duque... o Gro-Duque +Casimiro, o irmo do Imperador... + +Todos os olhos se desviaram para o meu Jacintho, que se servia de +ervilhas:--e o Mello Rebello quasi se engasgou, n'um sorvo precipitado +ao copo, para contemplar no meu amigo algum reflexo do Gro-Duque. E eu +contei, com profuso, o peixe encalhado, o Gro-Duque pescando, o anzol +feito com um gancho da Princeza de Carman, o duque de Marizac, cahindo +quasi no poo do elevador... Mas no se produziu um unico riso, e a +atteno mesma era dada com esforo, por cortezia. Debalde eu +arremessava aquelles nomes magnificos de principes e princezas, +misturados a cousas picarescas... Nenhum dos meus convidados +comprehendia o maquinismo do elevador, um prato encalhado n'um poo +negro... Perante o gancho da princeza as Albergarias baixaram os olhos. +E a minha deliciosa historia morreu n'uma reticencia, ainda mais +regelada pela exclamao innocente da tia Vicencia: + +--Oh! filho, que cousas! + +Mas, como Jacintho se enfronhra de repente n'uma larga conversa com a +Luizinha Rojo, que ria, toda luminosa e palradora,--todos, como +libertados do peso cerimonioso da sua presena augusta, se lanaram nas +conversinhas discretas, a que o champagne, agora, depois do assado, dava +mais viveza. Eram os soturnos murmurios, em torno da mesa, que +definitivamente se perpetuavam. Foi ento que desisti de animar o +jantar. Mergulhei com a bella mulher do Doutor Alypio na grande questo +social d'esse tempo em Guies, o casamento da D. Amelia Noronha com o +feitor! E eu defendia a D. Amelia, os direitos do amor, quando se +alargou um silencio,--e era Jacintho, que se debruava, de copo na mo. + +--Velho amigo Z Fernandes, tua! Muitos e bons, e sempre em companhia +de tua tia e minha senhora, a quem peo para saudar. + +Todos os copos, onde a espuma morria sobre um fundo de champagne, se +ergueram n'um largo rumor de amisade, e boa visinhana. Eu acenei ao +Manoel, vivamente, para encher os copos; e logo, tambem de p, atirando +para traz a sobrecasaca: + +--Meus senhores, peo uma grande saude para o meu velho amigo Jacintho, +que pela primeira vez honra esta casa fraternal... Que digo eu? que pela +primeira vez honra com a sua presena a sua querida patria! E que por c +fique, pelas serras, muitos annos, todos bons. tua, meu velho! + +Outro rumor correu pela mesa, mas ceremonioso e sereno. A nossa +oratoria, positivamente, no incendira as imaginaes! A tia Vicencia +fez tilintar o seu copo, quasi vasio, com o de Jacintho, que tocou no +copo da sua visinha, a Luizinha Rojo, toda resplandecente, e mais +vermelha que uma peonia. Depois foi um encadeamento de saudes, com os +copos quasi vasios, entre todos os convidados, sem esquecer o tio +Adrio, e o Abbade, ambos ausentes, ambos com furunculos. E a tia +Vicencia espalhava aquelle olhar, que prepra o erguer, o arrastar de +cadeiras,--quando D. Theotonio, erguendo o seu copo de vinho do Porto, +com a outra mo apoiada mesa, meio erguido, chamou Jacintho, e n'uma +voz respeitosa, quasi cava: + +--Esta toda particular, e entre ns... Brindo o ausente! + +Esvasiou o copo, como em religio, pontificando. Jacintho bebeu +assombrado, sem comprehender. As cadeiras arrastavam,--eu dei o brao +tia Albergaria. + +E s comprehendi, na sala, quando o Dr. Alypio, com a sua chavena de +caf e o charuto fumegante, me disse, n'um d'aquelles seus olhares +finos, que lhe valiam a alcunha de _Dr. Agudo_:--Espero que ao menos, +c por Guies, no se erga de novo a forca!... E o mesmo fino olhar me +indicava o D. Theotonio, que arrastra Jacintho para entre as cortinas +d'uma janella, e discorria, com um ar de f e de mysterio. Era o +miguelismo, por Deus! O bom D. Theotonio considerava Jacintho como um +hereditario, ferrenho, miguelista,--e na sua inesperada vinda ao seu +solar de Tormes, entrevia uma misso politica, o comeo d'uma propaganda +energica, e o primeiro passo para uma tentativa de Restaurao. E na +reserva d'aquelles cavalheiros, ante o meu Principe, eu senti ento a +suspeita liberal, o receio d'uma influencia rica, nova, nas Eleies +proximas, e a nascente irritao contra as velhas ideias, representadas +n'aquelle moo, to rico, de civilisao to superior. Quasi entornei o +caf, na alegre surpreza d'aquella sandice. E retive o Mello Rebello, +que repunha a chavena vasia na bandeja, fitei, com um pouco de riso, o +_Dr. Agudo_. + +--Ento, francamente, os amigos imaginam que o Jacintho veio para Tormes +trabalhar no miguelismo? + +Muito serio, Mello Rebello chegou o seu grosso bigode minha orelha: + +--At corre, como certo, que o Principe D. Miguel est com elle em +Tormes! + +E como eu os considerava esgazeado, o Dr. Alypio--to agudo!--confirmou: + +-- o que corre... Disfarado em creado! + +Em creado? Oh! santo Deus! Era o Baptista! Justamente, Ricardo Velloso +veio, puxando do seu cigarrinho, para o accender no meu charuto. E o bom +Rebello logo invocou o seu testemunho.--Pois no corria, que o filho de +D. Miguel estava em Tormes, escondido?... + +--Disfarado em lacaio, confirmou logo o digno Rebello. + +Accendeu o cigarro, soprou o fumo, e erguendo muito as sobrancelhas +meditativas: + +--Se assim , l me parece desplante... Que eu no desgostava de o vr. +Dizem que bonito moo, bem apessoado. Mas emfim, meu tio Joo Vaz +Rebello foi partido s postas, a machado, nas prises d'Almeida... E se +recomeam essas questes, mau, mau! Ora o seu amigo... + +Emmudeceu. Jacintho, que se libertra do velho D. Theotonio, e ainda +conservava um resto de riso, d'assombro divertido, vinha para mim, +desabafar: + +--Extraordinario! Vejo que, aqui, na serra, ainda se conservam, sem uma +ruga, as velhas e boas ideias... + +Immediatamente, sem se conter, Mello Rebello acudiu: + +-- conforme o que V. Ex.^a chama _boas ideas_. + +E eu agora, furioso com aquella disparatada inveno, que cercava +d'hostilidade o meu pobre Jacintho, estragava aquella amavel noite +d'annos, intervim, vivamente: + +--Tu jogas o voltarete, Jacintho? No jogas... Ento vamos arranjar duas +mesas... O D. Theotonio ha de querer cartas. + +E arrastei Jacintho para as senhoras, que de novo se aninhavam sombra +da tia Vicencia, estabelecida no seu canto do sof. Todas se callavam, +parecia encolherem-se ante a appario do meu Principe, como pombas +avistando o abutre. E deixei o temido homem affirmando mulher do Dr. +Alypio (um pouco desgarrada do bando das aves timidas) que lhe dera +grande prazer aquella occasio de conhecer as suas visinhas de Tormes... +Ella abrira nervosamente o leque, sorria, e nunca de certo Jacintho +admirra na Cidade uma bocca mais vermelha, dentinhos mais rutilantes. +Mas depois d'organisar a mesa do voltarete, tive de abancar, eu, para +substituir o Manoel Albergaria, que era dispeptico, se declarra +affrontado, e desejava respirar um momento na varanda. Todos aquelles +cavalheiros, de resto, se queixavam de calor. Mandei abrir as janellas +que davam sobre as mimosas do pateo. O Velloso, ao baralhar, parava, +bufando, como opprimido: + +--Est abafado... Ainda temos trovoada! + +E o Dr. Alypio, inquieto, por que tinha uma hora d'estrada at casa, e +uma das egoas da caleche era escabriada, correu janella, espreitar o +ceu, que ennegrecera, morno e pesado. + +--Com effeito, vae cahir agoa. + +As hastes das mimosas ramalhavam, arripiadas: e o ar que agitava as +cortinas era intermittente, estonteado. De certo na sala, entre as +senhoras, surgira a mesma inquietao, porque a tia Albergaria +appareceu, avisando o mano Jorge. + +Era prudente pensar em partir, a noite ameaava... E o Dr. Alypio, +puxando o relogio, propoz que, levantada aquella remissa, se preparasse +a marcha. Justamente o Albergaria recolhia da varanda desaffrontado, +alliviado com um calice de genebra: e rotomou as suas cartas, +annunciando tambem que vinha ahi uma trovoada valente. + +Voltando sala, encontrei Jacintho muito alegre entre as senhoras, que +se familiarisaram, escutando cheias de riso e gosto, a historia da sua +chegada a Tormes, sem malas, sem creados, to desprovido que dormira com +a camisa da caseira! Mas a minha pobre noite d'annos findava, +desorganisada. A tia Albergaria rondava de janella em janella, assustada +com a volta Roqueirinha, espreitando a treva abafada. Calando +lentamente as luvas, a bella mulher do Dr. Alypio perguntava se ainda +havia a remissa. E a tia Vicencia apressra o ch, que o Manoel seguido +pela Gertrudes, com a bandeja de bolos, j comeava a servir s +senhoras. Jacintho, de p, offerecendo chavenas, gracejava: + +--Ento tanta pressa, tanto medo, por causa d'uma trovoadinha? + +Ellas replicavam, familiarizadas, n'uma crescente sympathia pelo meu +Principe: + +--Ora o senhor falla bem, porque fica debaixo de telhas... + +--Sempre o queriamos vr... se fosse agora para Tormes, com esta noite +cerrada! + +O voltarete findra nas duas mesas: e aquelles cavalheiros, das +janellas, gritavam ordens para o pateo negro, onde as carroagens +esperavam atreladas: + +--Desce a cabea da victoria, Diogo! + +--Accende o lampeo, Pedro! Sempre ajuda a luz das lanternas. + +A creada Quiteria chegava porta com os braos carregados de chales, de +mantilhas de renda. Como uma das Albergarias ia no assento de deante na +victoria, eu corri a buscar o meu casaco de borracha, para ella se +abrigar se a chuva viesse. E s o D. Theotonio, que tinha at casa +apenas meia legoa de estrada boa, se no apressava, filado outra vez no +meu Principe, que levava para os cantos mais solitarios, em conversas +profundas, que o seu dedo solemne, espetado, sublinhava gravemente. Mas +a tia Albergaria gritou que j chovia;--e ento foi uma pressa das +senhoras, que beijocavam vivamente a tia Vicencia, em quanto os homens, +na ante-camara, enfiavam aodadamente os palets. + +Jacintho e eu descemos ao pateo para acompanhar aquella debandada,--e +uma a uma, a traquitana do Dr. Alypio, a victoria das Albergarias, a +velha e immensa caleche dos Vellosos, rolaram sob a noite, entre os +nossos desejos de boa jornada. Por fim D. Theotonio calou as luvas +pretas e entrou para a sua caleche, dizendo a Jacintho: + +--Pois, primo e amigo, Deus permitta que, do nosso encontro, e do mais +que se passar, algum bem resulte a esta terra! + +Subindo a escada, o meu Principe desabafou: + +--Este Theotonio extraordinario! Sabes o que descobri por fim?... Que +me toma por um miguelista, e imagina que eu vim para Tormes preparar a +restaurao de D. Miguel?! + +--E tu? + +--Eu fiquei to espantado, que nem o desilludi! + +--Pois sabe mais, meu pobre amigo. Todos pensam o mesmo, esto +desconfiados, e receiam vr de novo erguidas as frcas em Guies! E +corre que tu tens o Principe D. Miguel escondido em Tormes, disfarado +em creado. E sabes quem elle ? o Baptista! + +--Isso sublime! murmurou Jacintho, com uns grandes olhos abertos. + +Na sala, a tia Vicencia nos esperava desconsolada, entre todas as luzes, +que ardiam ainda no silencio e paz do sero debandado: + +--Ora uma cousa assim! Nem quererem ficar para tomar um copinho de +gelea, um calice de vinho do Porto! + +--Esteve tudo muito desanimado, tia Vicencia! exclamei desafogando o meu +tedio. Todo esse mulherio emmudeceu; os amigos com um ar desconfiado... + +Jacintho protestou, muito divertido, muito sincero: + +No! pelo contrario. Gostei immenso. Excellente gente! E to simples... +Todas estas raparigas me pareceram optimas. E to frescas, to alegres! +Vou ter aqui bons amigos, quando verificarem que no sou miguelista. + +Ento contamos tia Vicencia a prodigiosa historia de D. Miguel +escondido em Tormes... Ella ria! Que cousa! E mau seria... + +--Mas o Snr. Jacintho, no ? + +--Eu, minha senhora, sou socialista... + +Acudi, explicando tia Vicencia, que socialista era ser pelos pobres. A +doce senhora considerava esse partido o melhor, o verdadeiro: + +--O meu Affonso, que Deus haja, era liberal... Meu pae, tambem e at +amigo do Duque da Terceira... + +Mas um rude trovo rolou, atroou a noite negra:--e uma batega d'agoa +cantou nos vidros, e nas pedras da varanda. + +--Santa Barbara! gritou a tia Vicencia! Ai aquella pobre gente!... At +estou com cuidado... As Rojes, que vo na victoria! + +E correu para o quarto, na sua pressa de accender as duas velas +costumadas no oratorio, ainda antes de ir guardar as pratas, e resar o +tero, com a Gertrudes. + + + + +XIV + + +Ao outro dia, depois d'almoo, eu e Jacintho montamos a cavallo para um +grande passeio at Flr da Malva, a saber de meu tio Adrio, e do seu +furunculo. E sentia uma curiosidade interessada, e at inquieta, de +testemunhar a impresso que daria ao meu Principe aquella nossa prima +Joanninha, que era o orgulho da nossa casa. J n'essa manh, andando +todos no jardim a escolher uma bella rosa ch para a botoeira do meu +Principe, a tia Vicencia celebrra com tanto fervor a belleza, a graa, +a caridade, e a doura da sua sobrinha toda-amada, que eu protestei: + +--Oh! tia Vicencia, olhe que esses elogios todos competem apenas +Virgem Maria! A tia Vicencia est a cahir em peccado de idolatria! O +Jacintho depois vae encontrar uma creatura apenas humana, e tem um +desapontamento tremendo! + +E agora, trotando pela facil estrada de Sandofim, lembrava-me aquella +manh, no 202, em que Jacintho encontrra o retrato d'ella no meu +quarto, e lhe chamra uma _lavradeirna_. Com effeito, era grande e +forte a Joanninha. Mas a photographia datava do seu tempo de vio +rustico, quando ella era apenas uma bella forte e s planta da serra. +Agora entrava nos vinte e cinco, e j pensava, e sentia,--e a alma que +n'ella se formra, afinra, amacira, e espiritualisava o seu esplendor +rubicundo. + +A manh, com o ceu todo purificado pela trovoada da vespera, e as terras +reverdecidas e lavadas pelos chuviscos ligeiros, offerecia uma doura +luminosa, fina, fresca, que tornava doce, como diz o velho Euripedes ou +o velho Sophocles, mover o corpo, e deixar a alma preguiar, sem pressa +nem cuidados. A estrada no tinha sombra, mas o sol batia muito de leve, +e roava-nos com uma caricia quasi alada. O valle parecia a Jacintho, +que nunca ali passra, uma pintura da Escola Franceza do seculo XVIII, +to graciosamente n'elle ondulavam as terras verdes, e com tanta paz e +frescura corria o risonho Serpo, e to affaveis e promettedores de +fartura e contentamento alvejavam os casaes nas verduras tenras! Os +nossos cavallos caminhavam n'um passo pensativo, gosando tambem a paz da +manh adoravel. E no sei, nunca soube, que plantasinhas silvestres e +escondidas espalhavam um delicado aroma, que eu tantas vezes sentira, +n'aquelle caminho, ao comear o outomno. + +--Que delicioso dia! murmurou Jacintho. Este caminho para a Flr da +Malva o caminho do ceu... Oh Z Fernandes, de que este cheirinho to +doce, to bom? + +Eu sorri, com certo pensamento: + +--No sei... talvez j o cheiro do ceu! + +Depois, parando o cavallo, apontei com o chicote para o valle: + +--Olha, acol, onde est aquella fila d'olmos, e ha o riacho, j so +terras do tio Adrio. Tem alli um pomar, que d os pcegos mais +deliciosos de Portugal... Hei de pedir prima Joanninha que te mande um +cesto d'elles. E o dce que ella faz com esses pcegos, menino, alguma +cousa de celeste. Tambem lhe hei de pedir que te mande o dce. + +Elle ria: + +--Ser explorar de mais a prima Joanninha. E eu (por que?) recordei e +atirei ao meu Principe estes dous versos d'uma ballada cavalheiresca, +composta em Coimbra pelo meu pobre amigo Procopio: + +--Manda-lhe um servo querido, +Bem hajas dona formosa! +E que lhe entregue um annel +E com um annel uma rosa. + +Jacintho rio alegremente: + +--Z Fernandes, seria excessivo, s por causa de meia duzia de pcegos, +e d'um boio de dce. + +Assim riamos, quando appareceu, volta da estrada, o longo muro da +quinta dos Vellosos, e depois a capellinha de S. Jos de Sandofim. E +immediatamente piquei para o largo, para a taverna do Trto, por causa +d'aquelle vinhinho branco, que sempre, quando por ali a levo, a minha +alma me pede. O meu Principe reprovou, indignado: + +--Oh! Z Fernandes, pois tu, a esta hora, depois d'almoo, vaes beber +vinho branco? + +-- um costumesinho antigo... Aqui taverninha do Trto... um +decilitrosinho... A almasinha assim m'o pede. + +E paramos; eu gritei pelo Manoel, que appareceu, rebolando a sua grossa +pansa, sobre as pernas tortas, com a infusa verde, e um copo. + +--Dous copos, Trto amigo. Que aqui este cavalheiro tambem aprecia. + +Depois d'um pallido protesto, o meu Principe tambem quiz, mirou o +limpido e dourado vinho ao sol, provou, e esvasiou o copo, com delicia, +e um estalinho de alto apreo. + +--Delicioso vinho!... Hei de querer d'este vinho em Tormes... +perfeito. + +--Hein? Fresquinho, leve, aromatico, alegrador, todo alma!... Encha l +outra vez os copos, amigo Trto. Este cavalheiro aqui o Snr. D. +Jacintho, o fidalgo de Tormes. + +Ento, de traz da umbreira da taverna, uma grande voz bradou, cavamente, +solemnemente: + +--Bemdito seja o pae dos Pobres! + +E um extranho velho, de longos cabellos brancos, barbas brancas, que lhe +comiam a face cr de tijolo, assomou no vo da porta, apoiado a um +bordo, com uma caixa de lata a tiracolo, e cravou em Jacintho dous +olhinhos d'um brilho negro, que faiscavam. Era o tio Joo Torrado, o +propheta da Serra... Logo lhe estendi a mo, que elle apertou, sem +despegar de Jacintho os olhos, que se dilatavam mais negros. Mandei vir +outro copo, apresentei Jacintho, que crra, embaraado. + +--Pois aqui o tem, o senhor de Tormes, que fez por ahi todo esse bem +pobreza. + +O velho atirou para elle bruscamente o brao, que sahia cabelludo e +quasi negro, d'uma manga muito curta. + +--A mo! + +E quando Jacintho lh'a deu, depois de arrancar vivamente a luva, Joo +Torrado longamente lh'a reteve com um sacudir lento e pensativo, +murmurando: + +--Mo real, mo de dar, mo que vem de cima, mo j rara! + +Depois tomou o copo, que lhe offerecia o Trto, bebeu com immensa +lentido, limpou as barbas, deu um geito correia que lhe prendia a +caixa de lata, e batendo com a ponta do cajado no cho: + +--Pois louvado seja nosso Senhor Jesus Christo, que por aqui me trouxe, +que no o meu dia, e vi um homem! + +Eu ento debrucei-me para elle, mais em confidencia: + +--Mas, tio Joo, oua c! Sempre certo voc dizer por ahi, pelos +sitios, que El-Rei D. Sebastio voltra? + +O pittoresco velho apoiou as duas mos sobre o cajado, o queixo +d'espalhada barba sobre as mos, e murmurava, sem nos olhar, como +seguindo a percusso dos seus pensamentos: + +--Talvez voltasse, talvez no voltasse... No se sabe quem vae, nem quem +vem. A gente v os corpos, mas no v as almas que esto dentro. Ha +corpos d'agora com almas d'outr'ora. Corpo vestido, alma pessoa... +Na feira da Roqueirinha quem sabe com quantos reis antigos se topa, +quando se anda aos encontres entre os vaqueiros... Em ruim corpo se +esconde bom senhor! + +E como elle findra n'um murmurio, eu, atirando um olhar a Jacintho, e +para gosarmos aquelles estranhos, pittorescos modos de vidente, insisti: + +--Mas, tio Joo, voc realmente, em sua consciencia, pensa que El-Rei +D. Sebastio no morreu na batalha? + +O velho ergueu para mim a face, que se enrugra n'uma desconfiana: + +--Essas cousas so muito antigas. E no calham bem aqui porta do +Trto. O vinho era bom, e V. S.^a tem pressa, meu menino! A flr da Flr +da Malva l tem o paesinho doente... Mas o mal j vae pela serra abaixo +com a inchao s costas. D gosto vr quem d gosto aos tristes. Por +cima de Tormes ha uma estrella clara. E trotar, trotar, que o dia est +lindo! + +Com a magra mo lanou um gesto para que seguissemos. E j passavamos o +cruzeiro quando o seu brado ardente, de novo revoou, com solemnidade +cava: + +--Bemdito seja o Pae dos Pobres. + +Direito, no meio da estrada, erguia o cajado como dirigindo as +acclamaes d'um povo. E Jacintho pasmava de que ainda houvesse no reino +um Sebastianista. + +--Todos o somos ainda em Portugal, Jacintho! Na serra ou na cidade cada +um espera o seu D. Sebastio. At a loteria da Misericordia uma forma +do Sebastianismo. Eu todas as manhs, mesmo sem ser de nevoeiro, +espreito, a vr se chega o meu. Ou antes a minha, por que eu espero uma +D. Sebastiana... E tu, felizardo? + +--Eu? Uma D. Sebastiana? Estou muito velho, Z Fernandes... Sou o ultimo +Jacintho; Jacintho ponto final... Que casa aquella com os dous +torrees? + +--A Flr da Malva. + +Jacintho tirou o relogio: + +--So tres horas. Gastamos hora e meia... Mas foi um bello passeio, e +instructivo. lindo este sitio. + +Sobre um outeirinho, afastada da estrada por arvoredo, que um muro +cerrava, e dominando, a Flr da Malva voltava para Oriente e para o Sol +a sua longa fachada com os dous torrees quadrados, onde as janellas, de +varanda, eram emolduradas em azulejos. O grande porto de ferro, ladeado +por dous bancos de pedra, ficava ao fundo do terreirinho, onde um +immenso castanheiro derramava verdura e sombra. Sentado sobre as fortes +raizes descarnadas da grande arvore, um pequeno esperava segurando um +burro pela arreata. + +--Est por ahi o Manoel da Porta? + +--Ainda agora subio pela alameda. + +--Bem: empurra l o porto. + +E subimos, por uma curta avenida de velhas arvores, at outro terreiro, +com um alpendre, uma casa de moos, toda coberta d'heras, e uma casota +de co, d'onde saltou, com um rumor de corrente arrastada, um molosso, o +Trito, que eu logo soceguei fazendo-lhe reconhecer o seu velho amigo Z +Fernandes. E o Manoel da Porta correu da fonte, onde enchia um grande +balde, para nos segurar os cavallos. + +--Como est o tio Adrio? + +Surdo, o excellente Manoel sorrio, deleitado: + +--E ento vossa excellencia, bem? A Snr.^a D. Joanninha ainda agora +andava no laranjal com o pequeno da Josepha. + +Seguimos por ruasinhas bem areadas, orladas d'alfazema e buxo alto, em +quanto eu contava ao meu Principe que aquelle pequenito da Josepha era +um afilhadinho da prima Joanna, e agora o seu encanto e o seu cuidado +todo. + +--Esta minha santa prima, apesar de solteira, tem ahi pela freguezia uma +verdadeira filharada. E no s dar-lhes roupas e presentes, e ajudar +as mes. Mas at os lava, e os penteia, e lhes trata as tosses. Nunca a +encontro sem alguma creancita ao collo... Agora anda na paixo d'este +Jossinho. + +Mas quando chegamos ao laranjal, beira da larga rua da quinta que +levava ao tanque, debalde procurei, e me embrenhei, e at gritei:--Eh, +prima Joanninha!... + +--Talvez esteja l para baixo, para o tanque... + +Descemos a rua, entre arvores, que a cobriam com as densas ramas +encruzadas. Uma fresca, limpida agoa de rega corria e luzia n'um caneiro +de pedra. Entre os troncos, as roseiras bravas ainda tinham uma frescura +de vero. E o pequeno campo, que se avistava para alm, rebrilhava com +doura, todo amarello e branco, dos malmequeres e botes d'ouro. + +O tanque, redondo, fra esvasiado para se lavar, e agora de novo o +repuxo o ia enchendo d'uma agoa muito clara, ainda baixa, onde os peixes +vermelhos se agitavam na alegria de recuperarem o seu pequeno oceano. +Sobre um dos bancos de pedra que circumdavam o tanque pousava um cesto +cheio de dhalias cortadas. E um moo, que sobre uma escada podava as +camelias, vira a Snr.^a D. Joanna seguir para o lado da parreira. + +Marchamos para a parreira, ainda toda carregada de uva preta. Duas +mulheres, longe, ensaboavam n'um lavadoiro, na sombra de grandes +nogueiras. Gritei:--Eh l? Vocs viram por ahi a Snr.^a D. Joanna? Uma +das moas esganiou a voz, que se perdeu no vasto ar luminoso e doce. + +--Bem: vamos a casa! No podemos farejar assim, toda a tarde. + +-- uma bella quinta, murmurava o meu Principe encantado. + +--Magnifica! E bem tratada... O tio Adrio tem um feitor excellente... +No o teu Melchior. Observa, aprende, lavrador! Olha aquelle +cebolinho! + +Passamos pela horta, uma horta ajardinada, como a sonhra o meu +Principe, com os seus talhes debruados d'alfazema, e madresilva +enroscada nos pilares de pedra, que faziam ruasinhas frescas toldadas de +parra densa. E dmos volta capella, onde crescia aos dous lados da +porta uma roseira ch, com uma rosa unica, muito aberta, e uma moita de +baunilha, onde Jacintho apanhou um raminho para cheirar. Depois entramos +no terrao em frente da casa, com a sua balaustrada de pedra, toda +enrodilhada de jasmineiros amarellos. A porta envidraada estava aberta: +e subimos pela escadaria de pedra, no immenso silencio em que toda a +Flr da Malva repousava, at ante-camara, d'altos tectos apainelados, +com longos bancos de pau, onde desmaiavam na sua velha pintura as +complicadas armas dos Cerqueiras. Empurrei a porta d'uma outra sala, que +tinha as janellas da varanda abertas, cada uma com a gaiola d'um +canario. + +-- curioso!--exclamou Jacintho. Parece o meu Presepio... E as minhas +cadeiras. + +E com effeito. Sobre uma commoda antiga, com bronzes antigos, pousava um +presepio semelhante ao da livraria de Jacintho. E as cadeiras de couro +lavrado tinham, como as que elle descobrira no soto, umas armas sob um +chapo de Cardeal. + +--Oh senhores! exclamei. No haver um creado? + +Bati as mos, fortemente. E o mesmo doce silencio permaneceu, muito +largo, todo luminoso e arejado pelo macio ar da quinta, apenas cortado +pelo saltitar dos canarios nos poleiros das gaiolas. + +-- o Palacio da Bella adormecida no bosque! murmurou Jacintho, quasi +indignado. D um berro! + +--No, caramba! Vou l dentro! + +Mas, porta, que de repente se abrio, appareceu minha prima Joanninha, +crada do passeio e do vivo ar, com um vestido claro um pouco aberto no +pescoo, que fundia mais docemente, n'uma larga claridade, o explendor +branco da sua pelle, e o louro ondeado dos seus bellos +cabellos,--lindamente risonha, na surpreza que alargava os seus largos, +luminosos olhos negros, e trazendo ao collo uma creancinha, gorda e cr +de rosa, apenas coberta com uma camisinha, de grandes laos azues. + +E foi assim que Jacintho, n'essa tarde de Septembro, na Flr da Malva, +vio aquella com quem casou em Maio, na capellinha d'azulejos, quando o +grande p de roseira se cobrira todo de rosas. + + + + +XV + + +E agora, entre roseiras que rebentam, e vinhas que se vindimam, j cinco +annos passaram sobre Tormes e a Serra. O meu Principe j no o ultimo +Jacintho, Jacintho ponto final--por que n'aquelle solar que decahira, +correm agora, com soberba vida, uma gorda e vermelha Theresinha, minha +afilhada, e um Jacinthinho, senhor muito da minha amisade. E, pae de +familia, principira a fazer-se monotono, pela perfeio da belleza +moral, aquelle homem to pittoresco pela inquietao philosophica, e +pelos variados tormentos da phantasia insaciada. Quando elle agora, bom +sabedor das cousas da lavoura, percorria comigo a quinta, em solidas +palestras agricolas, prudentes e sem chimeras--eu quasi lamentava esse +outro Jacintho que colhia uma theoria em cada ramo d'arvore, e riscando +o ar com a bengala, planeava queijeiras de cristal e porcellana, para +fabricar queijinhos que custariam duzentos mil ris cada um! + +Tambem a paternidade lhe despertra a responsabilidade. Jacintho possuia +agora um caderno de contas, ainda pequeno, rabiscado a lapis, com +falhas, e papeluchos soltos entremeados, mas onde as suas despezas, as +suas rendas se alinhavam, como duas hostes disciplinadas. Visitra j as +suas propriedades de Montemr, da Beira; e concertava, mobilava as +velhas casas d'essas propriedades para que os seus filhos, mais tarde, +crescidos, encontrassem ninhos feitos. Mas onde eu reconheci que +definitivamente um perfeito e ditoso equilibrio se estabelecera na alma +do meu Principe, foi quando elle, j sabido d'aquelle primeiro e ardente +fanatismo da Simplicidade--entreabrio a porta de Tormes Civilisao. +Dous mezes antes de nascer a Theresinha, uma tarde, entrou pela avenida +de platanos uma chiante e longa fila de carros, requisitados por toda a +freguesia, e acuculados de caixotes. Eram os famosos caixotes, por tanto +tempo encalhados em Alba de Tormes, e que chegavam, para despejar a +Cidade sobre a Serra. Eu pensei:--Mau! o meu pobre Jacintho teve uma +recahida! Mas os confortos mais complicados, que continha aquella +caixotaria temerosa, foram, com surpreza minha, desviados para os sotos +immensos, para o p da inutilidade: e o velho solar apenas se regalou +com alguns tapetes sobre os seus soalhos, cortinas pelas janellas +desabrigadas, e fundas poltronas, fundos sofs, para que os repousos, +por que elle suspirra, fossem mais lentos e suaves. Attribui esta +moderao a minha prima Joanninha, que amava Tormes na sua nudez rude. +Ella jurou que assim o ordenra o seu Jacintho. Mas, decorridas semanas, +tremi. Apparecera, vindo de Lisboa, um contra-mestre, com operarios, e +mais caixotes, para installar um telephone! + +--Um telephone, em Tormes, Jacintho? + +O meu Principe explicou, com humildade: + +--Para casa de meu sogro!... Bem vs. + +--Era rasoavel e carinhoso. O telephone porm, subtilmente, mudamente, +estendeu outro longo fio, para Valverde. E Jacintho, alargando os +braos, quasi supplicante: + +--Para casa do medico. Comprehendes... + +Era prudente. Mas, certa manh, em Guies, accordei aos berros da tia +Vicencia! Um homem chegra, mysterioso, com outros homens, trazendo +arame, para installar na nossa casa o novo invento. Soceguei a tia +Vicencia, jurando que essa machina nem fazia barulho, nem trazia +doenas, nem attrahia as trovoadas. Mas corri a Tormes. Jacintho sorrio, +encolhendo os hombros: + +--Que queres? Em Guies est o boticario, est o carniceiro... E, +depois, ests tu! + +Era fraternal. Todavia pensei: Estamos perdidos! Dentro d'um mez temos a +pobre Joanna a apertar o vestido por meio d'uma machina! Pois no! o +Progresso, que, intimao de Jacintho, subira a Tormes a estabelecer +aquella sua maravilha, pensando talvez que conquistra mais um reino +para desfear, desceu, silenciosamente, desilludido, e no avistamos mais +sobre a serra a sua hirta sombra cr de ferro e de fuligem. Ento +comprehendi que, verdadeiramente, na alma de Jacintho se estabelecera o +equilibrio da vida, e com elle a Gran-Ventura, de que tanto tempo elle +fra o principe sem Principado. E uma tarde, no pomar, encontrando o +nosso velho Grillo, agora reconciliado com a serra, desde que a serra +lhe dera meninos para trazer s cavalleiras, observei ao digno preto, +que lia o seu _Figaro_, armado de immensos oculos redondos: + +--Pois, Grillo, agora realmente bem podemos dizer que o Snr. D. Jacintho +est firme. + +O Grillo arredou os oculos para a testa, e levantando para o ar os cinco +dedos em curva como petalas d'uma tulipa: + +--S. ex.^a brotou! + +Profundo sempre o digno preto! Sim! Aquelle resequido galho de Cidade, +plantado na serra, pegra, chupra o humus do torro herdado, crera +seiva, afundra raizes, engrossra de tronco, atirra ramos, rebentra +em flres, forte, sereno, ditoso, benefico, nobre, dando fructos, +derramando sombra. E abrigados pela grande arvore, e por ella nutridos, +cem casaes em redor a bemdiziam. + + + + +XVI + + +Muitas vezes Jacintho, durante esses annos, fallra com prazer n'um +regresso de dous, tres mezes, ao 202, para mostrar Paris prima +Joanninha. E eu seria o companheiro fiel, para archivar os espantos da +minha serrana ante a Cidade! Depois conveio em esperar que o Jacinthinho +completasse dous annos, para poder jornadear sem desconforto, e +apontando j com o seu dedo para as cousas da Civilisao. Mas, quando +elle, em Outubro, fez esses dous annos desejados, a prima Joanninha +sentiu uma preguia immensa, quasi aterrada, do comboio, do estridor da +Cidade, do 202, e dos seus esplendores. Estamos aqui to bem! est um +tempo to lindo! murmurava, deitando os braos, sempre deslumbrada, ao +rijo pescoo do seu Jacintho. Elle desistia logo de Paris, encantado. +Vamos para Abril, quando os castanheiros dos Campos-Elyseos estiverem +em flr! Mas em Abril vieram aquelles cansaos que immobilisavam a +prima Joanninha no divan, ditosa, risonha, com umas pintas na pelle, e o +roupo mais solto. Por todo um longo anno estava desfeita a alegre +aventura. Eu andava ento soffrendo de desoccupao. As chuvas de Maro +promettiam uma farta colheita. Uma certa Anna Vaqueira, crada e bem +feita, viuva, que surtia as necessidades do meu corao, partira com o +irmo para o Brazil, onde elle dirigia uma venda. Desde o inverno, +sentia tambem no corpo como um comeo de ferrugem, que o emperrava, e, +certamente, algures, na minha alma, nascera uma pontinha de bolor. +Depois a minha egoa morreu... Parti eu para Paris. + +Logo em Hendaya, apenas pisei a doce terra de Frana, o meu pensamento, +como pombo a um velho pombal, voou ao 202,--talvez por eu vr um enorme +cartaz em que uma mulher nua, com flres bacchanticas nas tranas, se +estorcia, segurando n'uma das mos uma garrafa espumante, e brandindo na +outra, para o annunciar ao Mundo, um novo modelo de saca-rolhas. E oh +surpresa! eis que, logo adeante, na estao quieta e clara de Saint +Jean-de-Luz, um moo esbelto, de perfeita elegancia, entra vivamente no +meu compartimento, e, depois de me encarar, grita: + +--Eh, Fernandes! + +Marizac! O duque de Marizac! Era j o 202... Com que reconhecimento lhe +sacudi a mo fina, por elle me ter reconhecido! E, atirando para o canto +do vagon um palet, um masso de jornaes, que o escudeiro lhe passra, o +bom Marizac exclamava na mesma surpreza alegre: + +--E Jacintho? + +Contei Tormes, a serra, o seu primeiro amor pela Natureza, o seu outro +grande amor por minha prima, e os dous filhos, que elle trazia +escarranchados no pescoo. + +--Ah que canalha! exclamou Marizac com os olhos espetados em mim! +capaz de ser feliz! + +--Espantosamente, loucamente... Qual! no ha adverbios... + +--Indecentemente--murmurou Marizac muito serio. Que canalha! + +Eu ento desejei saber do nosso rancho familiar do 202. Elle encolheu os +hombros, accendendo a cigarette: + +--Todo esse mundo circula... + +--Madame d'Oriol? + +--Contina. + +--Os Trves? o Ephraim? + +--Continuam, todos tres. + +Lanou um gesto languido. + +--Durante cinco annos, em Paris, tudo contina... As mulheres com um +pouco mais de ps d'arroz, e a pelle um pouco mais molle, e melada. Os +homens com um tanto mais de dispepsia. E tudo segue. Tivemos os +Anarchistas. A princeza de Carman abalou com um acrobata do Circo de +Inverno... E--e voil! + +--Dornan? + +--Contina... No o encontrei mais desde o 202. Mas vejo s vezes o nome +d'elle, no _Boulevard_, com versos preciosos, obscenidades muito +apuradas, muito subtis. + +--E o Psychologo?... Ora, como se chamava elle?... + +--Contina tambem. Sempre com as feminices a tres francos e cincoenta... +Duquezas em camisa, almas nas... Cousas que se vendem bem! + +Mas quando eu, encantado, ia indagar de Todelle, do Gro-Duque, o +comboio entrou na estao de Biarritz:--e rapidamente, apanhando o +paletot e os jornaes, depois de me apertar a mo, o delicioso Marizac +saltou pela portinhola, que o seu creado abrira, gritando: + +--At Paris!... Sempre rue Cambori. + +Ento, no compartimento solitario, bocejei, com uma estranha sensao de +monotonia, de saciedade, como cercado j de gentes muito vistas, +murmurando historias muito sabidas, e cousas muito ditas, atravez de +sorrisos estafados. Dos dous lados do comboio era a longa planicie +monotona, sem variedade, muito miudamente cultivada, muito miudamente +retalhada, d'um verde de rezeda, verde cinzento e apagado, onde nenhum +lampejo, nem tom alegre de flr, nem acidente do solo, desmanchavam a +mediocridade discreta e ordeira. Pallidos choupos, em renques pautados e +finos, bordavam canaesinhos muito direitos e claros. Os casaes, todos da +mesma cr pardacenta, mal se elevavam do solo, mal se destacavam da +verdura desbotada, como encolhidos na sua mediocridade e cautella. E o +ceu, por cima, liso, sem uma nuvem, com um sol descrado, parecia um +vasto espelho muito lavado a grande agoa, at que de todo se lhe safasse +o esmalte e o brilho. Adormeci n'uma doce insipidez. + +Com que linda manh de Maio entrei em Paris! To fresca e fina, e j +macia, que, apesar de cansado, mergulhei com repugnancia no profundo, +sombrio leito do Grand-Hotel, todo fechado de espessos velludos, grossos +cordes, pesadas borlas, como um palanque de gala. N'essa profunda cova +de pennas sonhei que em Tormes se construira uma torre Eiffel e que em +volta d'ella as senhoras da Serra, as mais respeitaveis, a propria tia +Albergaria, danavam, nas, agitando no ar saca-rolhas immensos. Com as +commoes d'este pesadello, e depois o banho, e o desemmalar da mala, j +se acercavam as duas horas quando emfim emergi do grande porto, pisei, +ao cabo de cinco annos, o Boulevard. E immediatamente me pareceu que +todos esses cinco annos eu ali permanecera porta do Grand-Hotel, to +estafadamente conhecido me era aquelle estridente rolar da cidade, e as +magras arvores, e as grossas taboletas, e os immensos chapeus emplumados +sobre tranas pintadas d'amarello, e as empertigadas sobrecasacas com +grossas rosetas da legio d'honra, e os garotos, em voz rouca e baixa, +offerecendo baralhos de cartas obscenas, caixas de phosphoros +obscenas... Santo Deus! pensei, ha que annos eu estou em Paris! Comprei +ento, n'um kiosque, um jornal, a Voz de Paris, para que elle me +contasse, durante o almoo, as novas da Cidade. A mesa do kiosque +desapparecia, alastrada de jornaes illustrados:--e em todos se repetia a +mesma mulher, sempre na, ou meia despida, ora mostrando as costellas +magras, de gata faminta, ora voltando para o Leitor duas tremendas +nadegas... Eu outra vez murmurei:--Santo Deus! No caf da Paz, o creado +livido, e com um resto de p de arroz sobre a sua lividez, aconselhou ao +meu appetite, por ser to tarde, um lingoado frito e uma costelleta. + +--E que vinho, snr. Conde? + +--Chablis, snr. Duque! + +Elle sorrio minha deliciosa pilheria,--e eu abri, contente, a Voz de +Paris. Na primeira columna, atravez d'uma prosa muito retorcida, toda em +brilhos de joia barata, entrevi uma Princesa na, e um Capito de +Drages, que soluava. Saltei a outras columnas, onde se contavam feitos +de cocottes de nomes sonoros. Na outra pagina escriptores eloquentes +celebravam vinhos digestivos e tonicos. Depois eram os crimes do +costume.--No ha nada de novo! Puz de parte a Voz de Paris,--e ento +foi, entre mim e o lingoado, uma lucta pavorosa. O miseravel, que se +frigira rancorosamente contra mim, no consentia que eu descollasse da +sua espinha uma febra escassa. Todo elle se ressequira n'uma sola +impenetravel e tostada, onde a faca vergava, impotente e tremula. Gritei +pelo mo livido, o qual, com faca mais rija, fincando no soalho os +sapatos de fivella, arrancou emfim quelle malvado duas tirinhas, finas +e curtas como palitos, que engoli juntas, e me esfomearam. D'uma garfada +findei a costelleta. E paguei quinze francos com um bom luiz d'ouro. No +trco, que o moo me deu, com a polidez requintada d'uma civilisao +muito diffundida, havia dous francos falsos. E por aquella dce tarde de +Maio sahi para tomar no terrao um caf cr de chapo cco, que sabia a +fava. + +Com o charuto acceso contemplei o Boulevard, quella hora em toda a +pressa e estridor da sua grossa sociabilidade. A densa torrente dos +omnibus, calhambeques, carroas, parelhas de luxo, rolava vivamente, +como toda uma escura humanidade formigando entre patas e rodas, n'uma +pressa inquieta. Aquelle movimento continuado e rude bem depressa +entonteceu este espirito, por cinco annos affeito quietao das serras +immutaveis. Tentava ento, puerilmente, repousar n'alguma forma immovel, +omnibus parado, fiacre que estacra, n'um brusco escorregar da pileca: +mas logo algum dorso apressado se encafuava pela portinhola da tipoia, +ou um cacho de figuras escuras trepava sofregamente para o omnibus:--e, +rapido, recomeava o rolar retumbante. Immoveis, de certo, estavam os +altos predios hirtos, ribas de pedra e cal, que continham, +disciplinavam, aquella torrente offegante. Mas da rua aos telhados, em +cada varanda, por toda a fachada, eram taboletas encimando taboletas, +que outras taboletas apertavam:--e mais me canava o perceber a tenaz +incessancia do trabalho latente, a devorante canceira do lucro, +arquejante por traz das frontarias decorosas e mudas. Ento, emquanto +fumava o meu charuto, extranhamente se apossaram de mim os sentimentos +que Jacintho outr'ora experimentra no meio da Natureza, e que tanto me +divertiam. Ali, porta do caf, entre a indifferena e a pressa da +Cidade, tambem eu senti, como elle no campo, a vaga tristeza da minha +fragilidade e da minha solido. Bem certamente estava ali como perdido +n'um mundo, que me no era fraternal. Quem me conhecia? Quem se +interessaria por Z Fernandes? Se eu sentisse fome, e o confessasse, +ninguem me daria metade do seu po. Por mais afflictamente que a minha +face revelasse uma angustia, ninguem na sua pressa pararia para me +consolar. De que me serviriam tambem as excellencias d'alma, que s na +alma florescem? Se eu fosse um santo, aquella turba no se importaria +com a minha santidade; e se eu abrisse os braos e gritasse, ali no +Boulevard-- homens, meus irmos! os homens, mais ferozes que o lbo +ante o Pobresinho d'Assis, ririam e passariam indifferentes. Dous +impulsos unicos, correspondendo a duas funces unicas, parecia estarem +vivos n'aquella multido,--o lucro e o gso. Isolada entre elles, e ao +contagio ambiente da sua influencia, em breve a minha alma se +contrahiria, se tornaria n'um duro calhau de Egoismo. Do ser que eu +trouxera da Serra s restaria em pouco tempo esse calhau, e n'elle, +vivos, os dous appetites da Cidade,--encher a bolsa, saciar a carne! E +pouco a pouco as mesmas exageraes de Jacintho perante a Natureza me +invadiam perante a Cidade. Aquelle Boulevard reumava para mim um bafo +mortal, extrahido dos seus milhes de microbios. De cada porta me +parecia sahir um ardil para me roubar. Em cada face, avistada +portinhola d'um fiacre, suspeitava um bandido em manobra. Todas as +mulheres me pareciam caiadas como sepulchros, tendo s podrido por +dentro. E considerava d'uma melancolia funambulesca as frmas de toda +aquella Multido, a sua pressa aspera e v, a affectao das attitudes, +as immensas plumas das chapeletas, as expresses postias e falsas, a +pompa dos peitos alteados, o dorso redondo dos velhos olhando as imagens +obscenas das vitrines. Ah! tudo isto era pueril, quasi comico da minha +parte, mas o que eu sentia no Boulevard, pensando na necessidade de +remergulhar na Serra, para que ao seu puro ar se me despegasse a crosta +da Cidade, e eu resurgisse humano, e Z-Fernandico! + +Ento, para dissipar aquelle pesadume de solido, paguei o caf e parti, +lentamente, a visitar o 202. Ao passar na Magdalena, deante da estao +dos omnibus, pensei:--Que ser feito de Madame Colombe? E, oh miseria! +pelo meu miseravel ser subiu uma curta e quente baforada de desejo bruto +por aquella besta suja e magra! Era o charco onde eu me envenenara, e +que me envolvia nas emanaes subtis do seu veneno. Depois, ao dobrar da +rue Royale para a Praa da Concordia, topei com um robusto e possante +homem, que estacou, ergueu o brao, ergueu o vozeiro, n'um modo de +commando: + +--Eh, Fernandes! + +O Gro-Duque! O bello Gro-Duque, de jaqueto alvadio e chapeu tyrolez +cr de mel! Apertei com gratido reverente a mo do Principe, que me +reconhecera. + +--E Jacintho? Em Paris?... + +Contei Tormes, a serra, o rejuvenescimento do nosso amigo entre a +Natureza, a minha dce prima, e os bravos pequenos, que elle trazia s +cavalleiras. O Gro-Duque encolheu os hombros, desolado: + +--Oh l, l, l!... Peuh! Casado, na aldeia, com filharada... Homem +perdido! Ora no ha!... E um rapaz util! que nos divertia, e tinha +gosto! Aquelle jantar cr de rosa foi uma festa linda... No se fez, no +se tornou a fazer nada to brilhante em Paris... E Madame d'Oriol... +Ainda ha dias a vi no Palacio de Gelo... Potavel, mulher ainda muito +potavel... No todavia o meu genero... Adocicada, leitosa, pommadada, +neve la vanille!... Ora esse Jacintho!... + +--E Vossa Alteza, em Paris com demora? + +O formidavel homem baixou a face, franzida e confidencial: + +--Nenhuma. Paris no se aguenta... Est estragado, positivamente +estragado... Nem se come! Agora o Ernest, da Praa Gaillon, o Ernest, +que era maitre-d'hotel do Maire... J l comeu? Um horror. Tudo o +Ernest, agora! Onde se come? No Ernest. Qual! Ainda esta manh l +almocei... Um horror! Uma salada Chambord... palhada, indecentemente +palhada! No tem, no tem a noo da salada! Paris foi! Theatros, uma +estopada. Mulheres, hui! Lambidas todas. No ha nada! Ainda assim, n'um +dos theatritos de Montmartre, na Roulotte, est uma revista, que se v: +_Para c as mulheres_!--engraada, bem despida... A Celestine tem uma +cantiga, meia sentimental, meia porca, o _Amor no Water-Closet_, que +diverte, tem topete... Onde est, Fernandes? + +--No Grand-Hotel, meu senhor. + +--Que barraca!... E o seu Rei sempre bom? + +Curvei a cabea: + +--Sua Magestade, bem. + +--Estimo! Pois, Fernandes, tive prazer... Esse Jacintho que me desola! +V vr a Revista... Boas pernas, a Celestine... E tem graa o tal _Amor +no Water-Closet_. + +Um rijissimo aperto de mo,--e S. Alteza subiu pesadamente para a +victoria, ainda com um aceno amavel, que me penhorou... Excellente +homem, este Gro-Duque! Mais reconciliado com Paris, atravessei para os +Campos-Elyseos. Em toda a sua nobre e formosa larguesa, toda verde, com +os castanheiros em flr, corriam, subindo, descendo, velocipedes. Parei +a contemplar aquella fealdade nova, estes innumeraveis espinhaos +arqueados, e gambias magras, agitando-se desesperadamente sobre duas +rodas. Velhos gordos, de cachao escarlate, pedalavam, gordamente. +Galfarros esguios, de tibias descarnadas, fugiam n'uma linha esfusiada. +E as mulheres, muito pintadas, de bolero curto, cales bufantes, +giravam, mais rapidamente ainda, no prazer equivoco da carreira, +escarranchadas em hastes de ferro. E a cada instante outras medonhas +machinas passavam, victorias e phaetons a vapor, com uma complicao de +tubos e caldeiras, torneiras e chamins, rolando n'uma trepidao +estridente e pesada, espalhando um grosso fedor de petroleo. Segui para +o 202, pensando no que diria um grego do tempo de Phidias, se visse esta +nova belleza e graa do caminhar humano!... + +No 202, o porteiro, o velho Vian, quando me reconheceu, mostrou uma +alegria enternecedora. No se fartou de saber do casamento de Jacintho, +e d'aquelles queridos meninos. E era para elle uma felicidade que eu +apparecesse, justamente quando tudo se andra limpando para a entrada da +primavera. Quando penetrei na amada casa senti mais vivamente a minha +solido. No restava em toda ella nem um dos costumados aspectos que +fizessem reviver a velha camaradagem com o meu Principe. Logo na +ante-camara grandes lonas cobriam as tapessarias heroicas, e egual lona +parda escondia os estofos das cadeiras e dos muros, e as largas estantes +d'ebano da Bibliotheca, onde os trinta mil volumes, nobremente +enfileirados como Doutores n'um Concilio, pareciam separados do mundo +por aquelle panno que sobre elles descera depois de finda a comedia da +sua fora e da sua auctoridade. No gabinete de Jacintho, de sobre a mesa +d'escripta, desapparecera aquella confuso de instrumentosinhos, de que +eu perdera j a memria: e s a Mechanica sumptuosa, por sobre peanhas e +pedestaes, recentemente espanejada, reluzia, com as suas engrenagens, +tubos, rodas, rigidezes de metaes, n'uma frieza inerte, na inactividade +definitiva das cousas desusadas, como j dispostas n'um Museu, para +exemplificar a instrumentao caduca d'um mundo passado. Tentei mover o +telephone, que se no moveu; a mola da electricidade no accendeu nenhum +lume: todas as foras universaes tinham abandonado o servio do 202, +como servos despedidos. E ento, passeando atravez das salas, realmente +me pareceu que percorria um museu d'antiguidades; e que mais tarde +outros homens, com uma comprehenso mais pura e exacta da Vida e da +Felicidade, percorreriam como eu, longas salas, atulhadas com os +instrumentos da Super-Civilisao, e, como eu, encolheriam +desdenhosamente os hombros ante a grande Illuso que findra, agora para +sempre inutil, arrumada como um lixo historico, guardada debaixo de +lona. + +Quando sahi do 202 tomei um fiacre, subi ao Bosque de Bolonha. E apenas +rolra momentos pela avenida das Acacias, no silencio decoroso, +unicamente cortado pelo tilintar dos freios e pelas rodas vagarosas +esmagando a areia, comecei a reconhecer as velhas figuras, sempre com o +mesmo sorriso, o mesmo p d'arroz; as mesmas palpebras amortecidas, os +mesmos olhos farejantes, a mesma immobilidade de cra! O romancista da +_Couraa_ passou n'uma victoria, fixou em mim o monoculo defumado, mas +permaneceu indifferente. Os bands negros de Madame Verghane, +tapando-lhe as orelhas, pareciam ainda mais furiosamente negros entre a +harmonia de todo o branco que a vestia, chapo, plumas, flres, rendas e +corpete, onde o seu peito immenso se empolava como uma onda. No passeio, +sob as Acacias, espapado em duas cadeiras, o director do _Boulevard_ +mamava o resto do seu charuto. E n'um grande landeau, Madame de Trves +continuava o seu sorriso de ha cinco annos, com duas pregasinhas mais +molles aos cantos dos labios seccos. + +Abalei para o Grand-Hotel, bocejando,--como outr'ora Jacintho. E findei +o meu dia de Paris, no Theatro das Variedades, estonteado com uma +comedia muito fina, muito acclamada, toda faiscante do mais vivo +parisianismo, em que todo o enredo se enrodilhava volta d'uma Cama, +onde alternadamente se espojavam mulheres em camisa, sujeitos gordos em +ceroulas, um coronel com papas de linhaa nas nadegas, cosinheiras de +meias de sda bordadas, e ainda mais gente, ruidosa e saltitante, a +esfusiar de cio e de pilheria. Tomei um ch melancolico no Julien, no +meio de um aspero e lugubre namoro de prostitutas, fariscando a preza. +Em duas d'ellas, de pelle oleosa e cobreada, olhos obliquos, cabellos +duros e negros como clinas, senti o Oriente, a sua provocao felina... +Interroguei o creado, um medonho ser, d'uma obesidade balofa e livida, +d'eunuco. O monstro explicou n'uma voz roufenha e surda: + +--Mulheres de Madagascar... Foram importadas quando a Frana occupou a +ilha! + +Arrastei ento por Paris dias d'immenso tedio. Ao longo do Boulevard +revi nas vitrines todo o luxo, que j me enfartra havia cinco annos, +sem uma graa nova, uma curta frescura de inveno. Nas livrarias, sem +descobrir um livro, folheava centenas de volumes amarellos, onde, de +cada pagina que ao acaso abria, se exhalava om cheiro mrno d'alcova e +de ps d'arroz, entre linhas trabalhadas com effeminado arrebique, como +rendas de camisas. Ao jantar, em qualquer restaurante, encontrava, +ornando e disfarando as carnes ou as aves, o mesmo mlho, de cres e +sabores de pomada, que j de manh, n'outro restaurante, espelhado e +dourejado, me enjora no peixe e nos legumes. Paguei por grossos preos +garrafas do nosso adstringente e rustico vinho de Torres, ennobrecido +com o titulo de Chteau isto, Chteau aquillo, e p postio no gargalo. + noite, nos theatros, encontrava a Cama, a costumada cama, como centro +e unico fim da vida, attrahindo, mais fortemente que o monturo attrahe +os moscardos, todo um enxame de gentes, estonteadas, frementes +d'erotismo, zumbindo chacotas senis. Esta sordidez da Planicie me levou +a procurar melhor aragem d'espirito nas alturas da Collina, em +Montmartre; e ahi, no meio d'uma multido elegante de Senhoras, de +Duquezas, de Generaes, de todo o alto pessoal da Cidade, eu recebia, do +alto do palco, grossos jorros de obscenidades, que faziam estremecer de +goso as orelhas cabelludas de gordos banqueiros, e arfar com delicia os +corpetes de Worms e de Doucet, sobre os peitos postios das nobres +damas. E recolhia enjoado com tanto relento d'Alcova, vagamente +dispeptico com os mlhos de pomada do jantar, e sobre tudo descontente +comigo, por me no divertir, no comprehender a Cidade, e errar atravez +d'ella e da sua Civilisao Superior, com a reserva ridicula d'um +Censor, d'um Cato austero. Oh senhores!--pensava,--pois eu no me +divertirei nesta deliciosa Cidade? Entrar comigo o bolor da velhice? + +Passei as pontes, que separam em Paris o Temporal do Espiritual, +mergulhei no meu doce Bairro Latino, evoquei, deante de certos cafs, a +memoria da minha Nini; e, como outr'ora, preguiosamente, subi as +escadas da Sorbonne. N'um amphitheatro, onde sentira um grosso susurro, +um homem magro, com uma testa muito branca e larga, como talhada para +alojar pensamentos altos e puros, ensinava, falando das instituies da +Cidade Antiga. Mas, mal eu entrra, o seu dizer elegante e limpido foi +suffocado por gritos, urros, patadas, um tumulto rancoroso de troa +bestial, que sahia da mocidade apinhada nos bancos, a mocidade das +Escolas, Primavera sagrada, em que eu fra flr murcha. O Professor +parou, espalhando em redor um olhar frio, e remexendo as suas notas. +Quando o grosso grunhido se moderou em susurro desconfiado, elle +recomeou com alta serenidade. Todas as suas ideias eram frias e +substanciaes, expressas n'uma lingoa pura e forte; mas, immediatamente, +rompe uma furiosa rajada de apitos, uivos, relinchos, cacarejos de +gallo, por entre magras mos, que se estendiam levantadas para +estrangular as ideias. Ao meu lado um velho, encolhido na alta gola d'um +macfrelane de xadrezes, contemplava o tumulto com melancolia, pingando +endefluxado. Perguntei ao velho: + +--Que querem elles? embirrao com o professor... politica? + +O velho abanou a cabea, espirrando: + +--No... sempre assim, agora, em todos os cursos... No querem +ideias... Creio que queriam canonetas. o amor da porcaria e da troa. + +Ento, indignado, berrei: + +--Silencio, brutos! + +E eis que um abortosinho de rapaz, amarellado e sebento, de longas +melenas, umas enormes lunetas rebrilhantes, se arrebita, me fita, e me +berra: + +--_Sale Maure_! + +Ergui o meu grosso punho serrano,--e o desgraado, n'uma confuso de +melenas, com sangue por toda a face, alluio, como um monto de trapos +molles, ganindo desesperadamente, em quanto o furaco de uivos e +cacarejos, guinchos e silvos, envolvia o Professor, que cruzra os +braos, esperando, com uma serenidade simples. + +Desde esse momento decidi abandonar a fastidiosa Cidade; e o unico dia +alegre e divertido que n'ella passei foi o derradeiro, comprando para os +meus queridinhos de Tormes brinquedos consideraveis, tremendamente +complicados pela Civilisao,--vapores de ao e cobre, providos de +caldeiras para viajar em tanques; lees de pelle veridica rugindo +pavorosamente, bonecas vestidas pela Laferrire, com phonographo no +ventre... + +Finalmente abalei uma tarde, depois de lanar da minha janella, sobre o +Boulevard, as minhas despedidas Cidade: + +--Pois adeusinho, at nunca mais! Na lama do teu vicio e na poeira da +tua vaidade, outra vez, no me pilhas! O que tens de bom, que o teu +genio, elegante e claro, l o receberei na Serra pelo correio. +Adeusinho! + +Na tarde do seguinte Domingo, debruado da janella do comboio, que +vagarosamente deslisava pela borda do rio lento, n'um silencio todo +feito d'azul e sol, avistei, na plata-forma da quieta estao da minha +aldeia, os Senhores de Tormes, com a minha afilhada Thereza, muito +vermelha, arregalando os seus soberbos olhos, e o bravo Jacinthinho, que +empunhava uma bandeira branca. O alvoroo ditoso com que abracei e +beijei aquella tribu bem amada conviria perfeitamente a quem voltasse +vivo d'uma guerra distante, na Tartaria. Na alegria de recuperar a +Serra, at beijoquei o chefe Pimentinha, que a estalar d'obesidade se +aodava gritando ao carregador todo o cuidado com as minhas malas. + +Jacintho, magnifico, de grande chapo serrano e jaqueta, de novo me +abraou: + +--E esse Paris? + +--Medonho! + +Abri depois os braos para o bravo Jacintinho. + +--Ento para que essa bandeira, meu cavalleiro? + +-- a bandeira do Castello! declarou elle, com uma bella seriedade nos +seus grandes olhos. + +A me ria. Desde essa manh, logo que soubera da chegada do Ti-Z, +appareceu de bandeira, feita pelo Grillo, e no a largra mais; com ella +almora, com ella descera de Tormes! + +--Bravo! E, prima Joanninha, olhe que est magnifica! Eu, tambem, venho +d'aquellas pelles meladas de Paris... Mas acho-a triumphal! E o tio +Adrio, e a tia Vicencia? + +--Tudo optimo! gritou Jacintho. A serra, Deos louvado, prospera. E +agora, para cima! Tu hoje ficas em Tormes. Para contar da Civilisao. + +No largo por traz da estao, debaixo dos eucalyptos, que revi com +gosto, esperavam os tres cavallos, e dous bellos burros brancos, um com +cadeirinha para a Thereza, outro com um cesto de verga, para metter +dentro o heroico Jacinthinho, um e outro servidos estribeira por um +creado. Eu ajudra a prima Joanninha a montar, quando o carregador +appareceu com um masso de jornaes e papeis, que eu esquecera na +carruagem. Era uma papelada, de que me surtira na Estao d'Orleans, +toda recheada de mulheres nuas, de historietas sujas, de parisianismo, +d'erotismo. Jacintho, que as reconhecera, gritou rindo: + +--Deita isso fra! + +E eu atirei, para um monto de lixo, ao canto do Pateo, aquelle putrido +rebotalho da Civilisao. E montei. Mas ao dobrar para o caminho +empinado da serra, ainda me voltei, para gritar adeus ao Pimenta, de +quem me esquecera. O digno chefe, debruado sobre o monturo, apanhava, +sacudia, recolhia com amor aquellas bellas estampas, que chegavam de +Paris, contavam as delicias de Paris, derramavam atravez do mundo a +seduco de Paris. + +Em fila comeamos a subir para a Serra. A tarde adoava o seu esplendor +d'estio. Uma aragem trazia, como offertados, perfumes das flres +silvestres. As ramagens moviam, com um aceno de doce acolhimento, as +suas folhas vivas e relusentes. Toda a passarinhada cantava, n'um +alvoroo de alegria e de louvor. As agoas correntes, saltantes, +lusidias, despediam um brilho mais vivo, n'uma pressa mais animada. +Vidraas distantes de casas amaveis, flammejavam com um fulgor d'ouro. A +serra toda se offertava, na sua belleza eterna e verdadeira. E, sempre +adiante da nossa fila, por entre a verdura, fluctuava no ar a bandeira +branca, que o Jacinthinho no largava, de dentro do seu cesto, com a +haste bem segura na mo. Era _a bandeira do Castello_, affirmra elle. + +E na verdade me parecia que, por aquelles caminhos, atravez da natureza +campestre e mansa,--o meu Principe, atrigueirado nas soalheiras e nos +ventos da serra, a minha prima Joanninha, to doce e risonha me, os +dois primeiros representantes da sua abenoada tribu, e eu--, to longe +de amarguradas illuses e de falsas delicias, trilhando um solo eterno, +e de eterna solidez, com a alma contente, e Deus contente de ns, +serenamente e seguramente subiamos--para o Castello da Gran-Ventura! + + +Fim + + + + +ADVERTENCIA + + +Desde a pagina 241, at o final, as provas d'este livro no foram +revistas pelo auctor, arrebatado pela morte antes de haver dado a esta +parte da sua escripta aquella ultima demo, em que habitualmente elle +punha a diligencia mais perseverante e mais admiravelmente lucida. + +Aquelle dos seus amigos e companheiro de letras, a quem foi confiado o +trabalho delicado e piedoso de tocar no manuscripto posthumo de Ea de +Queiroz, ao concluir o desempenho de tal misso, beija com o mais +enternecido e saudoso respeito a mo, para todo sempre immobilisada, que +traou estas paginas encantadoras; e faz votos por que a reviso de que +se incumbiu no deslustre muito grosseiramente a immortal aureola com +que ficar resplandecendo na litteratura portugueza este livro, em que o +espirito do grande escriptor parece exhalar-se da vida n'um terno +suspiro de doura, de paz, e de puro amor terra da sua patria. + +24 de abril de 1901. + + + + +*LIVRARIA CHARDRON de Lello & Irmo* + +96--CLERIGOS--98 + + +*Bazillio Telles* + +O problema agricola $600 +Estudos historicos e economicos $600 + +_No prlo_: + +Introduco ao problema do trabalho nacional. + + +*Abel Botelho* + +O baro de Lavos $800 +O livro d'Alda $800 +Sem remedio... $500 + +_No prlo_: + +Amanh. + + +*Jos Caldas* + +Humildes $400 +Os Jesuitas; a sua influencia na actual + sociedade portugueza; meio de a conjurar _no prlo_ + + +*Sylvio Romero* + +Martins Penna $400 + + +*Rebello da Silva* + +Mocidade de D. Joo V. 1$500 + + +*Andrade Corvo* + +Um anno na crte 1$500 + + +*Antonio C. Louzada* + +Rua escura $500 +Na consciencia $500 + + +*Dumas* + +Jorge ou o capito dos piratas $500 +Tres mosqueteiros, 2 volumes 1$000 + + +*Lermina* + +Filho do Monte Christo, 2 volumes 1$000 + + +*Eugenio Sue* + +Mysterios de Paris, 3 volumes cart. 2$000 + + +*Zola* + +Nan $500 +Historia da lavadeira Gervasia, 2 vols 1$000 +O Capito Burle $500 +Ventre de Paris, 2 vols 1$000 + + +*Arnaldo Gama* + +Caldeira de Pero Botelho $500 +Honra ou loucura $500 +Filho do Baldaia $600 + + +*Bruno* + +O Brazil mental $800 +Notas do exilio $500 + + * * * * * + +Historia da Prostituio 1$800 + + +*Camillo Castello Branco* + +Maria da Fonte $500 +Livro de consolao $500 +D. Luiz de Portugal $300 +Brazileira de Prazins $500 +Eusebio Macario $500 +Volcoens da lama $500 +Carta de guia de casados $300 + + +*Grainha* + +Jesuitas $600 + + +*Tolstoi* + +A Sonata de Kreutzer $400 + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of A Cidade e as Serras, by Ea Queirs + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A CIDADE E AS SERRAS *** + +***** This file should be named 18220-8.txt or 18220-8.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + http://www.gutenberg.org/1/8/2/2/18220/ + +Produced by Rita Farinha and the Online Distributed +Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This file was +produced from images generously made available by National +Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at http://www.pglaf.org. + + +Section 3. 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Thus, we do not necessarily +keep eBooks in compliance with any particular paper edition. + + +Most people start at our Web site which has the main PG search facility: + + http://www.gutenberg.org + +This Web site includes information about Project Gutenberg-tm, +including how to make donations to the Project Gutenberg Literary +Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to +subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. diff --git a/old/20071012.18220-8.zip b/old/20071012.18220-8.zip Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..ef4e9e8 --- /dev/null +++ b/old/20071012.18220-8.zip diff --git a/old/20071012.18220-h.zip b/old/20071012.18220-h.zip Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..e601e72 --- /dev/null +++ b/old/20071012.18220-h.zip diff --git a/old/20080228-18220-h.zip b/old/20080228-18220-h.zip Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..a06dd13 --- /dev/null +++ b/old/20080228-18220-h.zip diff --git a/old/modern/cidade-8.txt b/old/modern/cidade-8.txt new file mode 100644 index 0000000..2b67db9 --- /dev/null +++ b/old/modern/cidade-8.txt @@ -0,0 +1,8769 @@ +Project Gutenberg's A Cidade e as Serras, by Jos Maria Ea de Queirs + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: A Cidade e as Serras + +Author: Jos Maria Ea de Queirs + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A CIDADE E AS SERRAS *** + + + +Produced by Manuela Alves and Ricardo F. Diogo; Nota dos transcritores: +Actualizao ortogrfica da verso original, j disponvel no Project Gutenberg + + + + +EA DE QUEIRS + +A CIDADE E AS SERRAS + + +PORTO + +LIVRARIA CHARDRON + +De Lello & Irmo, editores + +1901 + +Todos os direitos reservados + + + + +EA DE QUEIRS + +A CIDADE E AS SERRAS + + +PORTO + +LIVRARIA CHARDRON + +De Lello & Irmo, editores + +1901 + +Todos os direitos reservados + + + + +Pertence no Brasil o direito de propriedade desta obra ao cidado +Francisco Alves, livreiro editor no Rio de Janeiro, que, para a garantia +que lhe oferece a lei n.^o 496 de 1 de Agosto de 1898, fez o competente +depsito na Biblioteca Nacional, segundo a determinao do art. 13.^o +da mesma Lei. + + +_Porto--Imprensa Moderna_ + + + + +[Figura de Ea de Queirs] + + + + +A CIDADE E AS SERRAS + + + + +Obras do mesmo autor: + + +*Revista de Portugal.* 4 grossos volumes 12$000 + +*As minas de Salomo.* 1 volume $600 + +*Os Maias.* 2 grossos volumes 2$000 + +*O crime do padre Amaro.* Terceira edio inteiramente refundida, +recomposta, e diferente na forma e na aco da edio primitiva. 1 grosso +volume 1$200 + +*O primo Baslio.* Quarta edio. 1 grosso volume 1$000 + +*A Relquia.* 1 grosso volume 1$000 + +*O Mandarim.* Quarta edio. 1 volume $500 + +*Correspondncia de Fradique Mendes.* 1 volume $600 + +*A ilustre casa de Ramires.* 1 volume 1$000 + + + + +A CIDADE E AS SERRAS + + + + +I + + +O meu amigo Jacinto nasceu num palcio, com cento e nove contos de +renda em terras de semeadura, de vinhedo, de cortia e de olival. + +No Alentejo, pela Estremadura, atravs das duas Beiras, densas sebes +ondulando por colina e vale, muros altos de boa pedra, ribeiras, +estradas, delimitavam os campos desta velha famlia agrcola que j +entulhava gro e plantava cepa em tempos de el-rei D. Dinis. A sua quinta +e casa senhorial de Tormes, no Baixo Douro, cobriam uma serra. Entre o +Tua e o Tinhela, por cinco fartas lguas, todo o torro lhe pagava foro. +E cerrados pinheirais seus negrejavam desde Arga at ao mar de ncora. +Mas o palcio onde Jacinto nascera, e onde sempre habitara, era em +Paris, nos Campos Elsios, n.^o 202. + +Seu av, aquele gordssimo e riqussimo Jacinto a quem chamavam em +Lisboa o _D. Galeo_, descendo uma tarde pela travessa da Trabuqueta, +rente de um muro de quintal que uma parreira toldava, escorregou numa +casca de laranja e desabou no lajedo. Da portinha da horta saa nesse +momento um homem moreno, escanhoado, de grosso casaco de baeto verde e +botas altas de picador, que, galhofando e com uma fora fcil, levantou +o enorme Jacinto--at lhe apanhou a bengala de casto de ouro que rolara +para o lixo. Depois, demorando nele os olhos pestanudos e pretos: + +--Oh Jacinto Galeo, que andas tu aqui, a estas horas, a rebolar pelas +pedras? + +E Jacinto, aturdido e deslumbrado, reconheceu o Sr. Infante D. Miguel! + +Desde essa tarde amou aquele bom Infante como nunca amara, apesar de +to guloso, o seu ventre, e apesar de to devoto o seu Deus! Na sala +nobre da sua casa ( Pampulha) pendurou sobre os damascos o retrato do +seu Salvador, enfeitado de palmitos como um retbulo, e por baixo a +bengala que as magnnimas mos reais tinham erguido do lixo. Enquanto o +adorvel, desejado Infante penou no desterro de Viena, o barrigudo +senhor corria, sacudido na sua sege amarela, do botequim do Z Maria em +Belm botica do Plcido nos Algibebes, a gemer as saudades do +_anjinho_, a tramar o regresso do _anjinho_. No dia, entre todos +bendito, em que a _Prola_ apareceu barra com o Messias, engrinaldou +a Pampulha, ergueu no Caneiro um monumento de papelo e lona onde D. +Miguel, tornado S. Miguel, branco, de aurola e asas de Arcanjo, furava +de cima do seu corcel de Alter o Drago do Liberalismo, que se estorcia +vomitando a Carta. Durante a guerra com o outro, com o pedreiro livre +mandava recoveiros a Santo Tirso, a S. Gens, levar ao Rei fiambres, +caixas de doce, garrafas do seu vinho de Tarrafal, e bolsas de retrs +atochadas de peas que ele ensaboava para lhes avivar o ouro. E quando +soube que o Sr. D. Miguel, com dois velhos bas amarrados sobre um +macho, tomara o caminho de Sines e do final desterro--Jacinto _Galeo_ +correu pela casa, fechou todas as janelas como num luto, berrando +furiosamente: + +--Tambm c no fico! tambm c no fico! + +No, no queria ficar na terra perversa donde partia, esbulhado e +escorraado, aquele Rei de Portugal que levantava na rua os Jacintos! +Embarcou para Frana com a mulher, a Sr.^a D. Angelina Fafes (da to +falada casa dos Fafes da Avel); com o filho, o 'Cintinho, menino +amarelinho, molezinho, coberto de caroos e leicenos; com a aia e com +o moleque. Nas costas da Cantbria o paquete encontrou to rijos mares +que a Sr.^a D. Angelina, esguedelhada, de joelhos na enxerga do +beliche, prometeu ao Senhor dos Passos de Alcntara uma coroa +de espinhos, de ouro, com as gotas de sangue em rubis do Pegu. Em +Baiona, onde arribaram, 'Cintinho teve ictercia. Na estrada +de Orlees, numa noite agreste, o eixo da berlinda em que jornadeavam +partiu, e o ndio senhor, a delicada senhora da casa da Avel, o +menino, marcharam trs horas na chuva e na lama do exlio at uma +aldeia, onde, depois de baterem como mendigos a portas mudas, dormiram +nos bancos de uma taberna. No Hotel dos Santos Padres, em Paris, +sofreram os terrores de um fogo que rebentara na cavalaria, sob o +quarto de _D. Galeo_, e o digno fidalgo, rebolando pelas escadas em +camisa, at ao ptio, enterrou o p nu numa lasca de vidro. Ento ergueu +amargamente ao cu o punho cabeludo, e rugiu: + +--Irra! de mais! + +Logo nessa semana, sem escolher, Jacinto _Galeo_ comprou a um +Prncipe polaco, que depois da tomada de Varsvia se metera frade +cartuxo, aquele palacete dos Campos Elsios, n.^o 202. E sob o pesado +ouro dos seus estuques, entre as suas ramalhudas sedas se enconchou, +descansando de tantas agitaes, numa vida de pachorra e de boa mesa, +com alguns companheiros de emigrao (o desembargador Nuno Velho, o conde +de Rabacena, outros menores), at que morreu de indigesto, de uma +lampreia de escabeche que lhe mandara o seu procurador em Montemor. Os +amigos pensavam que a Sr.^a D. Angelina Fafes voltaria ao reino. Mas a +boa senhora temia a jornada, os mares, as caleas que racham. E no se +queria separar do seu Confessor, nem do seu Mdico, que to bem lhe +compreendiam os escrpulos e a asma. + +--Eu, por mim, aqui fico no 202 (declarara ela), ainda que me faz falta +a boa gua de Alcolena... O 'Cintinho, esse, em crescendo, que decida. + +O 'Cintinho crescera. Era um moo mais esguio e lvido que um crio, de +longos cabelos corredios, narigudo, silencioso, encafuado em roupas +pretas, muito largas e bambas; de noite, sem dormir, por causa da tosse +e de sufocaes, errava em camisa com uma lamparina atravs do 202; e +os criados na copa sempre lhe chamavam a _Sombra_. Nessa sua mudez e +indeciso de sombra surdira, ao fim do luto do pap, o gosto muito vivo +de tornear madeiras ao torno: depois, mais tarde, com a melada flor dos +seus vinte anos, brotou nele outro sentimento, de desejo e de pasmo, +pela filha do desembargador Velho, uma menina redondinha como uma rola, +educada num convento de Paris, e to habilidosa que esmaltava, dourava, +concertava relgios e fabricava chapus de feltro. No Outono de 1851, +quando j se desfolhavam os castanheiros dos Campos Elsios, o +'Cintinho cuspilhou sangue. O mdico, acarinhando o queixo e com uma +ruga sria na testa imensa, aconselhou que o menino abalasse para o +golfo Juan ou para as tpidas areias de Arcachon. + +'Cintinho porm, no seu aferro de sombra, no se quis arredar da +Teresinha Velho, de quem se tornara, atravs de Paris, a muda, tardonha +sombra. Como uma sombra, casou; deu mais algumas voltas ao torno; cuspiu +um resto de sangue; e passou, como uma sombra. + +Trs meses e trs dias depois do seu enterro o meu Jacinto nasceu. + + * * * * * + +Desde o bero, onde a av espalhava funcho e mbar para afugentar a +_Sorte-Ruim_, Jacinto medrou com a segurana, a rijeza, a seiva rica +de um pinheiro das dunas. + +No teve sarampo e no teve lombrigas. As Letras, a Tabuada, o Latim +entraram por ele to facilmente como o sol por uma vidraa. Entre os +camaradas, nos ptios dos colgios, erguendo a sua espada de lata e +lanando um brado de comando, foi logo o vencedor, o Rei que se adula, +e a quem se cede a fruta das merendas. Na idade em que se l Balzac e +Musset nunca atravessou os tormentos da sensibilidade;--nem crepsculos +quentes o retiveram na solido de uma janela, padecendo de um desejo sem +forma e sem nome. Todos os seus amigos (ramos trs, contando o seu +velho escudeiro preto, o Grilo) lhe conservaram sempre amizades puras e +certas--sem que jamais a participao do seu luxo as avivasse ou fossem +desanimadas pelas evidncias do seu egosmo. Sem corao bastante forte +para conceber um amor forte, e contente com esta incapacidade que o +libertava, do amor s experimentou o mel--esse mel que o amor reserva +aos que o recolhem, maneira das abelhas, com ligeireza, mobilidade e +cantando. Rijo, rico, indiferente ao Estado e ao Governo dos Homens, +nunca lhe conhecemos outra ambio alm de compreender bem as Ideias +Gerais; e a sua inteligncia, nos anos alegres de escolas e +controvrsias, circulava dentro das Filosofias mais densas como enguia +lustrosa na gua limpa de um tanque. O seu valor, genuno, de fino +quilate, nunca foi desconhecido, nem desapreciado; e toda a opinio, ou +mera faccia que lanasse, logo encontrava uma aragem de simpatia e +concordncia que a erguia, a mantinha embalada e rebrilhando nas +alturas. Era servido pelas coisas com docilidade e carinho;--e no +recordo que jamais lhe estalasse um boto da camisa, ou que um papel +maliciosamente se escondesse dos seus olhos, ou que ante a sua +vivacidade e pressa uma gaveta prfida emperrasse. Quando um dia, rindo +com descrido riso da Fortuna e da sua Roda, comprou a um sacristo +espanhol um Dcimo de Lotaria, logo a Fortuna, ligeira e ridente sobre +a sua Roda, correu num fulgor, para lhe trazer quatrocentas mil +pesetas. E no cu as Nuvens, pejadas e lentas, se avistavam Jacinto sem +guarda-chuva, retinham com reverncia as suas guas at que ele +passasse... Ah! o mbar e o funcho da Sr.^a D. Angelina tinham +escorraado do seu destino, bem triunfalmente e para sempre, a +_Sorte-Ruim_! A amorvel av (que eu conheci obesa, com barba) costumava +citar um soneto natalcio do desembargador Nunes Velho contendo um verso +de boa lio: + + Sabei, senhora, que esta Vida um rio... + +Pois um rio de Vero, manso, translcido, harmoniosamente estendido +sobre uma areia macia e alva, por entre arvoredos fragrantes e ditosas +aldeias, no ofereceria quele que o descesse num barco de cedro, bem +toldado e bem almofadado, com frutas e Champanhe a refrescar em gelo, +um Anjo governando ao leme, outros Anjos puxando sirga, mais segurana +e doura do que a Vida oferecia ao meu amigo Jacinto. + +Por isso ns lhe chamvamos o Prncipe da Gr-Ventura! + + * * * * * + +Jacinto e eu, Jos Fernandes, ambos nos encontrmos e acamaradmos em +Paris, nas Escolas do Bairro Latino--para onde me mandara meu bom tio +Afonso Fernandes Lorena de Noronha e Sande, quando aqueles malvados me +riscaram da Universidade por eu ter esborrachado, numa tarde de +procisso, na Sofia, a cara srdida do dr. Pais Pita. + +Ora nesse tempo Jacinto concebera uma Ideia... Este Prncipe concebera +a Ideia de que o homem s superiormente feliz quando superiormente +civilizado. E por homem civilizado o meu camarada entendia aquele que, +robustecendo a sua fora pensante com todas as noes adquiridas desde +Aristteles, e multiplicando a potncia corporal dos seus rgos com +todos os mecanismos inventados desde Termenes, criador da roda, se +torna um magnfico Ado, quase omnipotente, quase omnisciente, e apto +portanto a recolher dentro de uma sociedade e nos limites do Progresso +(tal como ele se comportava em 1875) todos os gozos e todos os +proveitos que resultam de Saber e de Poder... Pelo menos assim Jacinto +formulava copiosamente a sua Ideia, quando conversvamos de fins e +destinos humanos, sorvendo bocks poeirentos, sob o toldo das cervejarias +filosficas, no Boulevard Saint-Michel. + +Este conceito de Jacinto impressionara os nossos camaradas de cenculo, +que tendo surgido para a vida intelectual, de 1866 a 1875, entre a +batalha de Sadova e a batalha de Sedan, e ouvindo constantemente, desde +ento, aos tcnicos e aos filsofos, que fora a Espingarda-de-Agulha +que vencera em Sadova e fora o Mestre-de-Escola quem vencera em Sedan, +estavam largamente preparados a acreditar que a felicidade dos +indivduos, como a das naes, se realiza pelo ilimitado +desenvolvimento da Mecnica e da Erudio. Um desses moos mesmo, o +nosso inventivo Jorge Carlande, reduzira a teoria de Jacinto, para lhe +facilitar a circulao e lhe condensar o brilho, a uma forma algbrica: + +Suma cincia} + X }= Suma felicidade +Suma potncia} + +E durante dias, do Odeon Sorbona, foi louvada pela mocidade positiva +a _Equao Metafsica de Jacinto_. + +Para Jacinto, porm, o seu conceito no era meramente metafsico e +lanado pelo gozo elegante de exercer a razo especulativa:--mas +constitua uma regra, toda de realidade e de utilidade, determinando a +conduta, modalizando a vida. E j a esse tempo, em concordncia com o +seu preceito--ele se surtira da _Pequena Enciclopdia dos Conhecimentos +Universais_ em setenta e cinco volumes e instalara, sobre os telhados +do 202, num mirante envidraado, um telescpio. Justamente com esse +telescpio me tornou ele palpvel a sua ideia, numa noite de Agosto, +de mole e dormente calor. Nos cus remotos lampejavam relmpagos +lnguidos. Pela Avenida dos Campos Elsios, os fiacres rolavam para as +frescuras do Bosque, lentos, abertos, cansados, transbordando de +vestidos claros. + +--Aqui tens tu, Z Fernandes, (comeou Jacinto, encostado janela do +mirante) a teoria que me governa, bem comprovada. Com estes olhos que +recebemos da Madre natureza, lestos e sos, ns podemos apenas +distinguir alm, atravs da Avenida, naquela loja, uma vidraa +alumiada. Mais nada! Se eu porm aos meus olhos juntar os dois vidros +simples de um binculo de corridas, percebo, por trs da vidraa, +presuntos, queijos, boies de geleia e caixas de ameixa seca. Concluo +portanto que uma mercearia. Obtive uma noo; tenho sobre ti, que com +os olhos desarmados vs s o luzir da vidraa, uma vantagem positiva. Se +agora, em vez destes vidros simples, eu usasse os do meu telescpio, de +composio mais cientfica, poderia avistar alm, no planeta Marte, os +mares, as neves, os canais, o recorte dos golfos, toda a geografia +de um astro que circula a milhares de lguas dos Campos Elsios. outra +noo, e tremenda! Tens aqui pois o olho primitivo, o da Natureza, +elevado pela Civilizao sua mxima potncia de viso. E desde j, +pelo lado do olho portanto, eu, civilizado, sou mais feliz que o +incivilizado, porque descubro realidades do Universo que ele no +suspeita e de que est privado. Aplica esta prova a todos os rgos e +compreendes o meu princpio. Enquanto inteligncia, e felicidade +que dela se tira pela incansvel acumulao das noes, s te peo +que compares Renan e o Grilo... Claro portanto que nos devemos cercar +de Civilizao nas mximas propores para gozar nas mximas propores +a vantagem de viver. Agora concordas, Z Fernandes? + +No me parecia irrecusavelmente certo que Renan fosse mais feliz que o +Grilo; nem eu percebia que vantagem espiritual ou temporal se colha em +distinguir atravs do espao manchas num astro, ou atravs da Avenida +dos Campos Elsios presuntos numa vidraa. Mas concordei, porque sou +bom, e nunca desalojarei um esprito do conceito onde ele encontra +segurana, disciplina e motivo de energia. Desabotoei o colete, e +lanando um gesto para o lado dos cafs e das luzes: + +--Vamos ento beber, nas mximas propores, _brandy and soda_, com +gelo! + +Por uma concluso bem natural, a ideia de Civilizao, para Jacinto, +no se separava da imagem de Cidade, de uma enorme Cidade, com todos os +seus vastos rgos funcionando poderosamente. Nem este meu +supercivilizado amigo compreendia que longe de Armazns servidos por +trs mil caixeiros; e de Mercados onde se despejam os vergis e lezrias +de trinta provncias; e de Bancos em que retine o ouro universal; e de +Fbricas fumegando com nsia, inventando com nsia; e de Bibliotecas +abarrotadas, a estalar, com a papelada dos sculos; e de fundas milhas +de ruas, cortadas, por baixo e por cima, de fios de telgrafos, de fios +de telefones, de canos de gases, de canos de fezes; e da fila atroante +dos nibus, tramways, carroas, velocpedes, calhambeques, parelhas de +luxo; e de dois milhes de uma vaga humanidade, fervilhando, a ofegar, +atravs da Polcia, na busca dura do po ou sob a iluso do gozo--o +homem do sculo XIX pudesse saborear, plenamente, a delcia de viver! + +Quando Jacinto, no seu quarto do 202, com as varandas abertas sobre os +lilases, me desenrolava estas imagens, todo ele crescia, iluminado. +Que criao augusta, a da Cidade! S por ela, Z Fernandes, s por +ela, pode o homem soberbamente afirmar a sua alma!... + +--Oh Jacinto, e a religio? Pois a religio no prova a alma? + +Ele encolhia os ombros. A religio! A religio o desenvolvimento +sumptuoso de um instinto rudimentar, comum a todos os brutos, o +terror. Um co lambendo a mo do dono, de quem lhe vem o osso ou o +chicote, j constitui toscamente um devoto, o consciente devoto, +prostrado em rezas ante o Deus que distribui o cu ou o inferno!... Mas +o telefone! o fongrafo! + +--A tens tu, o fongrafo!... S o fongrafo, Z Fernandes, me faz +verdadeiramente sentir a minha superioridade de ser pensante e me separa +do bicho. Acredita, no h seno a Cidade, Z Fernandes, no h seno a +Cidade! + +E depois (acrescentava) s a Cidade lhe dava a sensao, to necessria + vida como o calor, da solidariedade humana. E no 202, quando +considerava em redor, nas densas massas do casario de Paris, dois +milhes de seres arquejando na obra da Civilizao (para manter na +natureza o domnio dos Jacintos!) sentia um sossego, um conchego, s +comparveis ao do peregrino, que, ao atravessar o deserto, se ergue no +seu dromedrio, e avista a longa fila da caravana marchando, cheia de +lumes e de armas... + +Eu murmurava, impressionado: + +--Caramba! + +Ao contrrio no campo, entre a inconscincia e a impassibilidade da +Natureza, ele tremia com o terror da sua fragilidade e da sua solido. +Estava a como perdido num mundo que lhe no fosse fraternal; nenhum +silvado encolheria os espinhos para que ele passasse; se gemesse com +fome nenhuma rvore, por mais carregada, lhe estenderia o seu fruto na +ponta compassiva de um ramo. Depois, em meio da Natureza, ele assistia +sbita e humilhante inutilizao de todas as suas faculdades superiores. +De que servia, entre plantas e bichos--ser um Gnio ou ser um Santo? As +searas no compreendem as _Gergicas_; e fora necessrio o socorro +ansioso de Deus, e a inverso de todas as leis naturais, e um violento +milagre para que o lobo de Agubio no devorasse S. Francisco de Assis, +que lhe sorria e lhe estendia os braos e lhe chamava meu irmo lobo! +Toda a intelectualidade, nos campos, se esteriliza, e s resta a +bestialidade. Nesses reinos crassos do Vegetal e do Animal duas nicas +funes se mantm vivas, a nutritiva e a procriadora. Isolada, sem +ocupao, entre focinhos e razes que no cessam de sugar e de pastar, +sufocando no clido bafo da universal fecundao, a sua pobre alma toda +se engelhava, se reduzia a uma migalha de alma, uma fagulhazinha +espiritual a tremeluzir, como morta, sobre um naco de matria; e nessa +matria dois instintos surdiam, imperiosos e pungentes, o de devorar e +o de gerar. Ao cabo de uma semana rural, de todo o seu ser to +nobremente composto s restava um estmago e por baixo um falo! A +alma? Sumida sob a besta. E necessitava correr, reentrar na Cidade, +mergulhar nas ondas lustrais da Civilizao, para largar nelas a +crosta vegetativa, e ressurgir reumanizado, de novo espiritual e +Jacntico! + +E estas requintadas metforas do meu amigo exprimiam sentimentos +reais--que eu testemunhei, que muito me divertiram, no nico passeio que +fizemos ao campo, bem amvel e bem socivel floresta de Montmorency. +Oh delcias de entremez, Jacinto entre a Natureza! Logo que se afastava +dos pavimentos de madeira, do macadame, qualquer cho que os seus ps +calcassem o enchia de desconfiana e terror. Toda a relva, por mais +crestada, lhe parecia ressumar uma humidade mortal. De sob cada torro, +da sombra de cada pedra, receava o assalto de lacraus, de vboras, de +formas rastejantes e viscosas. No silncio do bosque sentia um lgubre +despovoamento do Universo. No tolerava a familiaridade dos galhos que +lhe roassem a manga ou a face. Saltar uma sebe era para ele um acto +degradante que o retrogradava ao macaco inicial. Todas as flores que no +tivesse j encontrado em jardins, domesticadas por longos sculos de +servido ornamental, o inquietavam como venenosas. E considerava de uma +melancolia funambulesca certos modos e formas do Ser inanimado, a pressa +esperta e v dos regatinhos, a careca dos rochedos, todas as contores +do arvoredo e o seu resmungar solene e tonto. + +Depois de uma hora, naquele honesto bosque de Montmorency, o meu pobre +amigo abafava, apavorado, experimentando j esse lento minguar e sumir +de alma que o tornava como um bicho entre bichos. S desanuviou quando +penetramos no lajedo e no gs de Paris--e a nossa vitria quase se +despedaou contra um nibus retumbante, atulhado de cidados. Mandou +descer pelos Boulevards, para dissipar, na sua grossa sociabilidade, +aquela materializao em que sentia a cabea pesada e vaga como a de um +boi. E reclamou que eu o acompanhasse ao teatro das Variedades para +sacudir, com os estribilhos da _Femme Papa_, o rumor importuno que lhe +ficara dos melros cantando nos choupos altos. + +Este delicioso Jacinto fizera ento vinte e trs anos, e era um +soberbo moo em quem reaparecera a fora dos velhos Jacintos rurais. +S pelo nariz, afilado, com narinas quase transparentes, de uma +mobilidade inquieta, como se andasse fariscando perfumes, pertencia s +delicadezas do sculo XIX. O cabelo ainda se conservava, ao modo das +eras rudes, crespo e quase langero: e o bigode, como o de um Celta, +caa em fios sedosos, que ele necessitava aparar e frisar. Todo o seu +fato, as espessas gravatas de cetim escuro que uma prola prendia, as +luvas de anta branca, o verniz das botas, vinham de Londres em caixotes +de cedro; e usava sempre ao peito uma flor, no natural, mas composta +destramente pela sua ramalheteira com ptalas de flores dissemelhantes, +cravo, azlea, orqudea ou tulipa, fundidas na mesma haste entre uma +leve folhagem de funcho. + + * * * * * + +Em 1880, em Fevereiro, numa cinzenta e arrepiada manh de chuva, recebi +uma carta de meu bom tio Afonso Fernandes, em que, depois de +lamentaes sobre os seus setenta anos, os seus males hemorroidais, e a +pesada gerncia dos seus bens que pedia homem mais novo, com pernas +mais rijas--me ordenava que recolhesse nossa casa de Guies, no +Douro! Encostado ao mrmore partido do fogo, onde na vspera a minha +Nini deixara um espartilho embrulhado no _Jornal dos Debates_, censurei +severamente meu tio que assim cortava em boto, antes de desabrochar, a +flor do meu Saber Jurdico. Depois num Post-Scriptum ele +acrescentava--O tempo aqui est lindo, o que se pode chamar de rosas, +e tua santa tia muito se recomenda, que anda l pela cozinha, porque +vai hoje em trinta e seis anos que casmos, temos c o abade e o +Quintais a jantar, e ela quis fazer uma sopa dourada. + +Deitando uma acha ao lume, pensei como devia estar boa a sopa dourada da +tia Vicncia. H quantos anos no a provava, nem o leito assado, nem o +arroz de forno da nossa casa! Com o tempo assim to lindo, j as mimosas +do nosso ptio vergariam sob os seus grandes cachos amarelos. Um pedao +de cu azul, do azul de Guies, que outro no h to lustroso e macio, +entrou pelo quarto, alumiou, sobre a puda tristeza do tapete, relvas, +ribeirinhos, malmequeres e flores de trevo de que meus olhos andavam +aguados. E, por entre as bambinelas de sarja, passou um ar fino e forte +e cheiroso de serra e de pinheiral. + +Assobiando um _fado_ meigo tirei debaixo da cama a minha velha mala, e +meti solicitamente entre calas e pegas um Tratado de Direito Civil, +para aprender enfim, nos vagares da aldeia, estendido sob a faia, as +leis que regem os homens. Depois, nessa tarde, anunciei a Jacinto que +partia para Guies. O meu camarada recuou com um surdo gemido de espanto +e piedade: + +--Para Guies!... Oh Z Fernandes, que horror! + +E toda essa semana me lembrou solicitamente confortos de que eu me +deveria prover para que pudesse conservar, nos ermos silvestres, to +longe da Cidade, uma pouca de alma dentro de um pouco de corpo. Leva uma +poltrona! Leva a _Enciclopdia Geral_! Leva caixas de aspragos!... + +Mas para o meu Jacinto, desde que assim me arrancavam da Cidade, eu era +arbusto desarreigado que no reviver. A mgoa com que me acompanhou ao +comboio conviria excelentemente ao meu funeral. E quando fechou sobre +mim a portinhola, gravemente, supremamente, como se cerra uma grade de +sepultura, eu quase solucei--com saudades minhas. + +Cheguei a Guies. Ainda restavam flores nas mimosas do nosso ptio; comi +com delcias a sopa dourada da tia Vicncia; de tamancos nos ps assisti + ceifa dos milhos. E assim de colheitas a lavras, crestando ao sol das +eiras, caando a perdiz nos matos geados, rachando a melancia fresca na +poeira dos arraiais, arranchando a magustos, serandando candeia, +atiando fogueiras de S. Joo, enfeitando prespios de Natal, por ali +me passaram docemente sete anos, to atarefados que nunca logrei abrir +o Tratado de Direito Civil, e to singelos que apenas me recordo quando, +em vsperas de S. Nicolau, o abade caiu da gua porta do Brs das +Cortes. De Jacinto s recebia raramente algumas linhas, escrevinhadas +pressa por entre o tumulto da Civilizao. Depois, num Setembro muito +quente, ao lidar da vindima, meu bom tio Afonso Fernandes morreu, to +quietamente, Deus seja louvado por esta graa, como se cala um +passarinho ao fim do seu bem cantado e bem voado dia. Acabei pela aldeia +a roupa do luto. A minha afilhada Joaninha casou na matana do porco. +Andaram obras no nosso telhado. Voltei a Paris. + + + + +II + + +Era de novo Fevereiro, e um fim de tarde arrepiado e cinzento, quando eu +desci os Campos Elsios em demanda do 202. Adiante de mim caminhava, +levemente curvado, um homem que, desde as botas rebrilhantes at s abas +recurvas do chapu donde fugiam anis de um cabelo crespo, ressumava +elegncia e a familiaridade das coisas finas. Nas mos, cruzadas atrs +das costas, caladas de anta branca, sustentava uma bengala grossa com +casto de cristal. E s quando ele parou ao porto do 202 reconheci o +nariz afilado, os fios do bigode corredios e sedosos. + +--Oh Jacinto! + +--Oh Z Fernandes! + +O abrao que nos enlaou foi to alvoroado que o meu chapu rolou na +lama. E ambos murmurvamos, comovidos, entrando a grade: + +--H sete anos!... + +--H sete anos!... + +E, todavia, nada mudara durante esses sete anos no jardim do 202! Ainda +entre as duas leas bem areadas se arredondava uma relva, mais lisa e +varrida que a l de um tapete. No meio o vaso corntico esperava Abril +para resplandecer com tulipas e depois Junho para transbordar de +margaridas. E ao lado das escadas limiares, que uma vidraaria toldava, +as duas magras Deusas de pedra, do tempo de D. Galeo, sustentavam as +antigas lmpadas de globos foscos, onde j silvava o gs. + +Mas dentro, no peristilo, logo me surpreendeu um elevador instalado +por Jacinto--apesar do 202 ter somente dois andares, e ligados por uma +escadaria to doce que nunca ofendera a asma da Sr.^a D. Angelina! +Espaoso, tapetado, ele oferecia, para aquela jornada de sete +segundos, confortos numerosos, um div, uma pele de urso, um roteiro +das ruas de Paris, prateleiras gradeadas com charutos e livros. Na +antecmara, onde desembarcmos, encontrei a temperatura macia e tpida +de uma tarde de Maio, em Guies. Um criado, mais atento ao termmetro +que um piloto agulha, regulava destramente a boca dourada do +calorfero. E perfumadores entre palmeiras, como num terrao santo de +Benares, esparziam um vapor, aromatizando e salutarmente humedecendo +aquele ar delicado e superfino. + +Eu murmurei, nas profundidades do meu assombrado ser: + +--Eis a Civilizao! + +Jacinto empurrou uma porta, penetrmos numa nave cheia de majestade e +sombra, onde reconheci a Biblioteca por tropear numa pilha monstruosa +de livros novos. O meu amigo roou de leve o dedo na parede: e uma coroa +de lumes elctricos, refulgindo entre os lavores do tecto, alumiou as +estantes monumentais, todas de bano. Nelas repousavam mais de trinta +mil volumes, encadernados em branco, em escarlate, em negro, com +retoques de ouro, hirtos na sua pompa e na sua autoridade como doutores +num conclio. + +No contive a minha admirao: + +--Oh Jacinto! Que depsito! + +Ele murmurou, num sorriso descorado: + +--H que ler, h que ler... + +Reparei ento que o meu amigo emagrecera: e que o nariz se lhe afilara +mais entre duas rugas muito fundas, como as de um comediante cansado. Os +anis do seu cabelo langero rareavam sobre a testa, que perdera a +antiga serenidade de mrmore bem polido. No frisava agora o bigode +murcho, cado em fios pensativos. Tambm notei que corcovava. + +Ele erguera uma tapearia--entrmos no seu gabinete de trabalho, que me +inquietou. Sobre a espessura dos tapetes sombrios os nossos passos +perderam logo o som, e como a realidade. O damasco das paredes, os +divs, as madeiras, eram verdes, de um verde profundo de folha de louro. +Sedas verdes envolviam as luzes elctricas, dispersas em lmpadas to +baixas que lembravam estrelas cadas por cima das mesas, acabando de +arrefecer e morrer: s uma rebrilhava, nua e clara, no alto de uma +estante quadrada, esguia, solitria como uma torre numa plancie, e de +que o lume parecia ser o farol melanclico. Um biombo de laca verde, +fresco verde de relva, resguardava a chamin de mrmore verde, verde de +mar sombrio, onde esmoreciam as brasas de uma lenha aromtica. E entre +aqueles verdes reluzia, por sobre peanhas e pedestais, toda uma +Mecnica sumptuosa, aparelhos, lminas, rodas, tubos, engrenagens, +hastes, friezas, rigidezes de metais... + +Mas Jacinto batia nas almofadas do div, onde se enterrara com um modo +cansado que eu no lhe conhecia: + +--Para aqui, Z Fernandes, para aqui! necessrio reatarmos estas +nossas vidas, to apartadas h sete anos!... Em Guies, sete anos! Que +fizeste tu? + +--E tu, que tens feito, Jacinto? + +O meu amigo encolheu molemente os ombros. Vivera--cumprira com +serenidade todas as funes, as que pertencem matria e as que +pertencem ao esprito... + +--E acumulaste Civilizao, Jacinto! Santo Deus... Est tremendo, o +202! + +Ele espalhou em torno um olhar onde j no faiscava a antiga +vivacidade: + +--Sim, h confortos... Mas falta muito! A humanidade ainda est mal +apetrechada, Z Fernandes... E a vida conserva resistncias. + +Subitamente, a um canto, repicou a campainha do telefone. E enquanto o +meu amigo, curvado sobre a placa, murmurava impaciente _Est l?--Est +l?_, examinei curiosamente, sobre a sua imensa mesa de trabalho, uma +estranha e mida legio de instrumentozinhos de nquel, de ao, de cobre, +de ferro, com gumes, com argolas, com tenazes, com ganchos, com dentes, +expressivos todos, de utilidades misteriosas. Tomei um que tentei +manejar--e logo uma ponta malvola me picou um dedo. Nesse instante +rompeu doutro canto um tic-tic-tic aodado, quase ansioso. Jacinto +acudiu, com a face no telefone: + +--V a o telgrafo!... Ao p do div. Uma tira de papel que deve +estar a correr. + +E, com efeito, de uma redoma de vidro posta numa coluna, e contendo um +aparelho esperto e diligente, escorria para o tapete, como uma tnia, a +longa tira de papel com caracteres impressos, que eu, homem das serras, +apanhei, maravilhado. A linha, traada em azul, anunciava ao meu amigo +Jacinto que a fragata russa _Azoff_ entrara em Marselha com avaria! + +J ele abandonara o telefone. Desejei saber, inquieto, se o +prejudicava directamente aquela avaria da _Azoff_. + +--Da _Azoff_?... A avaria? A mim?... No! uma notcia. + +Depois, consultando um relgio monumental que, ao fundo da Biblioteca, +marcava a hora de todas as Capitais e o curso de todos os Planetas: + +--Eu preciso escrever uma carta, seis linhas... Tu esperas, no, Z +Fernandes? Tens a os jornais de Paris, da noite; e os de Londres, +desta manh. As Ilustraes alm, naquela pasta de couro com +ferragens. + +Mas eu preferi inventariar o gabinete, que dava minha profanidade +serrana todos os gostos de uma iniciao. Aos lados da cadeira de +Jacinto pendiam gordos tubos acsticos, por onde ele decerto soprava +as suas ordens atravs do 202. Dos ps da mesa cordes tmidos e moles, +coleando sobre o tapete, corriam para os recantos de sombra maneira +de cobras assustadas. Sobre uma banquinha, e reflectida no seu verniz +como na gua de um poo, pousava uma Mquina de escrever: e adiante era +uma imensa Mquina de calcular, com fileiras de buracos donde +espreitavam, esperando, nmeros rgidos e de ferro. Depois parei em +frente da estante que me preocupava, assim solitria, maneira de uma +torre numa plancie, com o seu alto farol. Toda uma das suas faces +estava repleta de Dicionrios; a outra de Manuais; a outra de Atlas; a +ltima de Guias, e entre eles, abrindo um flio, encontrei o Guia das +ruas de Samarcanda. Que macia torre de informao! Sobre prateleiras +admirei aparelhos que no compreendia:--um composto de lminas de +gelatina, onde desmaiavam, meio-chupadas, as linhas de uma carta, talvez +amorosa; outro, que erguia sobre um pobre livro brochado, como para o +decepar, um cutelo funesto; outro avanando a boca de uma tuba, toda +aberta para as vozes do invisvel. Cingidos aos umbrais, liados s +cimalhas, luziam arames, que fugiam atravs do tecto, para o espao. +Todos mergulhavam em foras universais, todos transmitiam foras +universais. A Natureza convergia disciplinada ao servio do meu amigo e +entrara na sua domesticidade!... + +Jacinto atirou uma exclamao impaciente: + +--Oh, estas penas elctricas!... Que seca! + +Amarrotara com clera a carta comeada--eu escapei, respirando, para a +Biblioteca. Que majestoso armazm dos produtos do Raciocnio e da +Imaginao! Ali jaziam mais de trinta mil volumes, e todos decerto +essenciais a uma cultura humana. Logo entrada notei, em ouro numa +lombada verde, o nome de Adam Smith. Era pois a regio dos Economistas. +Avancei--e percorri, espantado, oito metros de Economia Poltica. Depois +avistei os Filsofos e os seus comentadores, que revestiam toda uma +parede, desde as escolas Pr-Socrticas at s escolas Neopessimistas. +Naquelas pranchas se acastelavam mais de dois mil sistemas--e que +todos se contradiziam. Pelas encadernaes logo se deduziam as +doutrinas: Hobbes, em baixo, era pesado, de couro negro; Plato, em +cima, resplandecia, numa pelica pura e alva. Para diante comeavam as +Histrias Universais. Mas a uma imensa pilha de livros brochados, +cheirando a tinta nova e a documentos novos, subia contra a estante, +como fresca terra de aluvio tapando uma riba secular. Contornei essa +colina, mergulhei na seco das Cincias Naturais, peregrinando, num +assombro crescente, da Orografia para a Paleontologia, e da Morfologia +para a Cristalografia. Essa estante rematava junto de uma janela +rasgada sobre os Campos Elsios. Apartei as cortinas de veludo--e por +trs descobri outra portentosa rima de volumes, todos de Histria +Religiosa, de Exegese Religiosa, que trepavam montanhosamente at aos +ltimos vidros, vedando, nas manhs mais cndidas, o ar e a luz do +Senhor. + +Mas depois rebrilhava, em marroquins claros, a estante amvel dos +Poetas. Como um repouso para o esprito esfalfado de todo aquele saber +positivo, Jacinto aconchegara a um recanto, com um div e uma mesa +de limoeiro, mais lustrosa que um fino esmalte, coberta de charutos, de +cigarros do Oriente, de tabaqueiras do sculo XVIII. Sobre um cofre de +madeira lisa pousava ainda, esquecido, um prato de damascos secos do +Japo. Cedi seduo das almofadas; trinquei um damasco, abri um +volume; e senti estranhamente, ao lado, um zumbido, como de um insecto +de asas harmoniosas. Sorri ideia que fossem abelhas, compondo o seu mel +naquele macio de versos em flor. Depois percebi que o sussurro remoto +e dormente vinha do cofre de mogno, de parecer to discreto. Arredei uma +_Gazeta de Frana_; e descortinei um cordo que emergia de um orifcio, +escavado no cofre, e rematava num funil de marfim. Com curiosidade, +encostei o funil a esta minha confiada orelha, afeita singeleza dos +rumores da serra. E logo uma Voz, muito mansa, mas muito decidida, +aproveitando a minha curiosidade para me invadir e se apoderar do meu +entendimento, sussurrou capciosamente: + +--...E assim, pela disposio dos cubos diablicos, eu chego a +verificar os espaos hipermgicos!... + +Pulei, com um berro. + +--Oh Jacinto, aqui h um homem! Est aqui um homem a falar dentro +de uma caixa! + +O meu camarada, habituado aos prodgios, no se alvoroou: + +-- o Conferenofone... Exactamente como o Teatrofone; somente +aplicado s escolas e s conferncias. Muito cmodo!... Que diz o +homem, Z Fernandes? + +Eu considerava o cofre, ainda esgazeado: + +--Eu sei! Cubos diablicos, espaos mgicos, toda a sorte de horrores... + +Senti dentro o sorriso superior de Jacinto: + +--Ah, o coronel Dorchas... Lies de Metafsica Positiva sobre a +Quarta Dimenso... Conjecturas, uma maada! Ouve l, tu hoje jantas +comigo e com uns amigos, Z Fernandes? + +--No, Jacinto... Estou ainda enfardelado pelo alfaiate da serra! + +E voltei ao gabinete mostrar ao meu camarada o jaqueto de flanela +grossa, a gravata de pintinhas escarlates, com que ao domingo, em +Guies, visitava o Senhor. Mas Jacinto afirmou que esta simplicidade +montesina interessaria os seus convidados, que eram dois artistas... +Quem? O autor do _Corao Triplo_, um Psiclogo Feminista, de agudeza +transcendente, Mestre muito experimentado e muito consultado em +Cincias Sentimentais; e Vorcan, um pintor mtico, que interpretara +etereamente, havia um ano, a simbolia rapsdica do cerco de Tria, +numa vasta composio, _Helena Devastadora_... + +Eu coava a barba: + +--No, Jacinto, no... Eu venho de Guies, das serras; preciso entrar +em toda esta civilizao, lentamente, com cautela, seno rebento. Logo +na mesma tarde a electricidade, e o conferenofone, e os espaos +hipermgicos e o feminista, e o etreo, e a simbolia devastadora, +excessivo! Volto amanh. + +Jacinto dobrava vagarosamente a sua carta, onde metera sem rebuo +(como convinha nossa fraternidade) duas violetas brancas tiradas do +ramo que lhe floria o peito. + +--Amanh, Z Fernandes, tu vens antes de almoo, com as tuas malas dentro +de um fiacre, para te instalares no 202, no teu quarto. No Hotel so +embaraos, privaes. Aqui tens o telefone, o teatrofone, livros... + +Aceitei logo, com simplicidade. E Jacinto, embocando um tubo acstico, +murmurou: + +--Grilo! + +Da parede, recoberta de damasco, que subitamente e sem rumor se fendeu, +surdiu o seu velho escudeiro (aquele moleque que viera com _D. +Galeo_), que eu me alegrei de encontrar to rijo, mais negro, +reluzente e venervel na sua tesa gravata, no seu colete branco de +botes de ouro. Ele tambm estimou ver de novo o si Fernandes. E, +quando soube que eu ocuparia o quarto do av Jacinto, teve um claro +sorriso de preto, em que envolveu o seu senhor, no contentamento de o +sentir enfim reprovido de uma famlia. + +--Grilo, dizia Jacinto, esta carta a Madame de Oriol... Escuta! +Telefona para casa dos Trves que os espiritistas s esto livres no +domingo... Escuta! Eu tomo uma duche antes de jantar, tpida, a 17. +Frico com malva-rosa. + +E caindo pesadamente para cima do div, com um bocejo arrastado e +vago: + +--Pois verdade, meu Z Fernandes, aqui estamos, como h sete anos, +neste velho Paris... + +Mas eu no me arredava da mesa, no desejo de completar a minha +iniciao: + +--Oh Jacinto, para que servem todos estes instrumentozinhos? Houve j +a um desavergonhado que me picou. Parecem perversos... So teis? + +Jacinto esboou, com languidez, um gesto que os +sublimava.--Providenciais, meu filho, absolutamente providenciais, pela +simplificao que do ao trabalho! Assim... E apontou. Este arrancava as +penas velhas; o outro numerava rapidamente as pginas de um manuscrito; +aqueloutro, alm, raspava emendas... E ainda os havia para colar +estampilhas, imprimir datas, derreter lacres, cintar documentos... + +--Mas com efeito, acrescentou, uma seca. Com as molas, com os +bicos, s vezes magoam, ferem... J me sucedeu inutilizar cartas por as +ter sujado com dedadas de sangue. uma maada! + +Ento, como o meu amigo espreitara novamente o relgio monumental, no +lhe quis retardar a consolao da ducha e da malva-rosa. + +--Bem, Jacinto, j te revi, j me contentei... Agora at amanh, com as +malas. + +--Que diabo, Z Fernandes, espera um momento... Vamos pela sala de +jantar. Talvez te tentes! + +E, atravs da Biblioteca, penetramos na sala de jantar,--que me +encantou pelo seu luxo sereno e fresco. Uma madeira branca, lacada, +mais lustrosa e macia que cetim, revestia as paredes, encaixilhando +medalhes de damasco cor de morango, de morango muito maduro e esmagado: +os aparadores, discretamente lavrados em flores e rocalhas, +resplandeciam com a mesma laca nevada: e damascos amorangados estofavam +tambm as cadeiras, brancas, muito amplas, feitas para a lentido de +gulas delicadas, de gulas intelectuais. + +--Viva o meu Prncipe! Sim senhor... Eis aqui um comedouro muito +compreensvel e muito repousante, Jacinto! + +--Ento janta, homem! + +Mas j eu me comeava a inquietar, reparando que a cada talher +correspondiam seis garfos, e todos de feitios astuciosos. E mais me +impressionei quando Jacinto me desvendou que um era para as ostras, +outro para o peixe, outro para as carnes, outro para os legumes, outro +para as frutas, outro para o queijo! Simultaneamente, com uma +sobriedade que louvaria Salomo, s dois copos, para dois vinhos:--um +Bordus rosado em infusas de cristal, e Champanhe gelando dentro de +baldes de prata. Todo um aparador porm vergava, sob o luxo redundante, +quase assustador de guas--guas oxigenadas, guas carbonatadas, guas +fosfatadas, guas esterilizadas, guas de sais, outras ainda, em +garrafas bojudas, com tratados teraputicos impressos em rtulos. + +--Santssimo nome de Deus, Jacinto! Ento s ainda o mesmo tremendo +bebedor de gua, hein?... _Un aquatico!_ como dizia o nosso poeta +chileno, que andava a traduzir Klopstock. + +Ele derramou, por sobre toda aquela garrafaria encarapuada em metal, +um olhar desconsolado: + +--No... por causa das guas da Cidade, contaminadas, atulhadas de +micrbios... Mas ainda no encontrei uma boa gua que me convenha, que +me satisfaa... At sofro sede. + +Desejei ento conhecer o jantar do Psiclogo e do Simbolista--traado, +ao lado dos talheres, em tinta vermelha, sobre lminas de marfim. +Comeava honradamente por ostras clssicas, de Marennes. Depois +aparecia uma sopa de alcachofras e ovas de carpa... + +-- bom? + +Jacinto encolheu desinteressadamente os ombros: + +--Sim... Eu no tenho nunca apetite, j h tempos... J h anos. + +Do outro prato s compreendi que continha frangos e tbaras. Depois +saboreariam aqueles senhores um filete de veado, macerado em Xerez, com +geleia de noz. E por sobremesa simplesmente laranjas geladas em ter. + +--Em ter, Jacinto? + +O meu amigo hesitou, esboou com os dedos a ondulao de um aroma que +se evola. + +-- novo... Parece que o ter desenvolve, faz aflorar a alma das +frutas... + +Curvei a cabea ignara, murmurei nas minhas profundidades: + +--Eis a Civilizao! + +E, descendo os Campos Elsios, encolhido no palet a cogitar neste +prato simblico, considerava a rudeza e atolado atraso da minha Guies, +onde desde sculos a alma das laranjas permanece ignorada e +desaproveitada dentro dos gomos sumarentos, por todos aqueles pomares +que ensombram e perfumam o vale, da Roqueirinha a Sandofim! Agora +porm, bendito Deus, na convivncia de um to grande iniciado como +Jacinto, eu compreenderia todas as finuras e todos os poderes da +Civilizao. + +E, (melhor ainda para a minha ternura!) contemplaria a raridade de um +homem que, concebendo uma ideia da Vida, a realiza--e atravs dela e +por ela recolhe a felicidade perfeita. + +Bem se afirmara este Jacinto, na verdade, como Prncipe da +Gr-Ventura! + + + + +III + + +No 202, todas as manhs, s nove horas, depois do meu chocolate e ainda +em chinelas, penetrava no quarto de Jacinto. Encontrava o meu amigo +banhado, barbeado, friccionado, envolto num roupo branco de plo de +cabra do Tibete, diante da sua mesa de toilette, toda de cristal, (por +causa dos micrbios) e atulhada com esses utenslios de tartaruga, +marfim, prata, ao e madreprola que o homem do sculo XIX necessita +para no desfeiar o conjunto sumpturio da Civilizao e manter nela +o seu Tipo. As escovas sobretudo renovavam, cada dia, o meu regalo e o +meu espanto--porque as havia largas como a roda macia de um carro +sabino; estreitas e mais recurvas que o alfange de um mouro; cncavas, em +forma de telha alde; pontiagudas em feitio de folha de hera; rijas que +nem cerdas de javali; macias que nem penugem de rola! De todas, +fielmente, como amo que no desdenha nenhum servo, se utilizava o meu +Jacinto. E assim, em face ao espelho emoldurado de folhedos de prata, +permanecia este Prncipe passando plos sobre o seu plo durante +catorze minutos. + +No entanto o Grilo e outro escudeiro, por trs dos biombos de Quioto, de +sedas lavradas, manobravam, com percia e vigor, os aparelhos do +lavatrio--que era apenas um resumo das Mquinas monumentais da Sala de +Banho, a mais estremada maravilha do 202. Nestes mrmores simplificados +existiam unicamente dois jactos graduados desde _zero_ at _cem_; as +duas duchas, fina e grossa, para a cabea; a fonte esterilizada para os +dentes; o repuxo borbulhante para a barba; e ainda botes discretos, +que, roados, desencadeavam esguichos, cascatas cantantes, ou um leve +orvalho estival. Desse recanto temeroso, onde delgados tubos mantinham +em disciplina e servido tantas guas ferventes, tantas guas violentas, +saa enfim o meu Jacinto enxugando as mos a uma toalha de felpo, a +uma toalha de linho, a outra de corda entranada para restabelecer a +circulao, a outra de seda frouxa para repolir a pele. Depois deste +rito derradeiro que lhe arrancava ora um suspiro, ora um bocejo, +Jacinto, estendido num div, folheava uma Agenda, onde se arrolavam, +inscritas pelo Grilo ou por ele, as ocupaes do seu dia, to +numerosas por vezes que cobriam duas laudas. + +Todas elas se prendiam sua sociabilidade, sua Civilizao muito +complexa, ou a interesses que o meu Prncipe, nesses sete anos, criara +para viver em mais consciente comunho com todas as funes da Cidade. +(Jacinto com efeito era presidente do Clube da _Espada e Alvo_; +comanditrio do Jornal o _Boulevard_; director da _Companhia dos +Telefones de Constantinopla_; scio dos _Bazares unidos da Arte +Espiritualista_; membro do _Comit de Iniciao das Religies +Esotricas_, etc.) Nenhuma destas ocupaes parecia porm aprazvel ao +meu amigo--porque, apesar da mansido e harmonia dos seus modos, +frequentemente arremessava para o tapete, numa rebelio de homem +livre, aquela Agenda que o escravizava. E numa dessas manhs (de +vento e neve), apanhando eu o livro opressivo, encadernado em pelica, +de um carinhoso tom de rosa murcha--descobri que o meu Jacinto devia +depois do almoo fazer uma visita na rua da Universidade, outra no +Parque Monceau, outra entre os arvoredos remotos da Muette; assistir por +fidelidade a uma votao no Clube; acompanhar Madame d'Oriol a uma +exposio de leques; escolher um presente de noivado para a sobrinha dos +Trves; comparecer no funeral do velho conde de Malville; presidir um +tribunal de honra numa questo de roubalheira, entre cavalheiros, ao +ecart... E ainda se acavalavam outras indicaes, escrevinhadas por +Jacinto a lpis:--Carroceiro--Five-oclock dos Efrains--A pequena das +_Variedades_--Levar a nota ao jornal... Considerei o meu Prncipe. +Estirado no div, de olhos miserrimamente cerrados, bocejava, num +bocejo imenso e mudo. + +Mas os afazeres de Jacinto comeavam logo no 202, cedo, depois do +banho. Desde as oito horas a campainha do telefone repicava por ele, +com impacincia, quase com clera, como por um escravo tardio. E mal +enxugado, dentro do seu roupo de plo de cabra do Tibete ou de grossas +pijamas de pelcia cor de ouro velho, constantemente saa ao corredor a +cochichar com sujeitos to apressados, que conservavam na mo o +guarda-chuva pingando sobre o tapete. Um desses, sempre presente (e que +pertencia decerto aos _Telefones de Constantinopla_), era +temeroso--todo ele chupado, tisnado, com maus dentes, sobraando uma +enorme pasta sebenta, e dardejando, de entre a alta gola de uma pelia +puda, como da abertura de um covil, dois olhinhos torvos e de rapina. +Sem cessar, inexoravelmente, um escudeiro aparecia, com bilhetes numa +salva... Depois eram fornecedores de Indstria e de Arte; negociantes de +cavalos, rubicundos e de palet branco; inventores com grossos rolos +de papel; alfarrabistas trazendo na algibeira uma edio nica, quase +inverosmil, de Ulrich Zell ou do _Lapidanus_. Jacinto circulava +estonteado pelo 202, rabiscando a carteira, repicando o telefone, +desatando nervosamente pacotes, sacudindo ao passar algum emboscado que +surdia das sombras da antecmara, estendia como um trabuco o seu +memorial ou o seu catlogo! + +Ao meio-dia, um tant argentino e melanclico ressoava, chamando ao +almoo. Com o _Figaro_ ou as _Novidades_ abertas sobre o prato, eu +esperava sempre meia hora pelo meu Prncipe, que entrava numa rajada, +consultando o relgio, exalando com a face moda o seu queixume eterno: + +--Que maada! E depois uma noite abominvel, enrodilhada em sonhos... +Tomei sulforal, chamei o Grilo para me esfregar com terebintina... Uma +seca! + +Espalhava pela mesa um olhar j farto. Nenhum prato, por mais engenhoso, +o seduzia;--e, como atravs do seu tumulto matinal fumava incontveis +cigarretes que o ressequiam, comeava por se encharcar com um imenso +copo de gua oxigenada, ou carbonatada, ou gasosa, misturada de um cognac +raro, muito caro, horrendamente adocicado, de moscatel de Siracusa. +Depois, pressa, sem gosto, com a ponta incerta do garfo, picava aqui e +alm uma lasca de fiambre, uma febra de lagosta;--e reclamava +impacientemente o caf, um caf de Moca, mandado cada ms por um feitor +do Dedjah, fervido turca, muito espesso, que ele remexia com um pau +de canela! + +--E tu, Z Fernandes, que vais tu fazer? + +--Eu? + +Recostado na cadeira, com delcias, os dedos metidos nas cavas do +colete: + +--Vou vadiar, regaladamente, como um co natural! + +O meu solcito amigo, remexendo o caf com o pau de canela, rebuscava +atravs da numerosa Civilizao da Cidade uma ocupao que me +encantasse. Mas apenas sugeria uma Exposio, ou uma Conferncia, ou +monumentos, ou passeios, logo encolhia os ombros desconsolados: + +--Por fim nem vale a pena, uma seca! + +Acendia outra das cigarretes russas, onde rebrilhava o seu nome, +impresso a ouro na mortalha. Torcendo, numa pressa nervosa, os fios do +bigode, ainda escutava, porta da Biblioteca, o seu procurador, o +ndio e majestoso Laporte. E enfim, seguido de um criado, que sobraava +um mao tremendo de jornais para lhe abastecer o coup, o Prncipe da +Gr-Ventura mergulhava na Cidade. + + * * * * * + +Quando o dia social de Jacinto se apresentava mais desafogado, e o cu +de Maro nos concedia caridosamente um pouco de azul aguado, saamos +depois de almoo, a p, atravs de Paris. Estes lentos e errantes +passeios eram outrora, na nossa idade de Estudantes, um gozo muito +querido de Jacinto--porque neles mais intensamente e mais +minuciosamente saboreava a Cidade. Agora porm, apesar da minha +companhia, s lhe davam uma impacincia e uma fadiga que desoladoramente +destoava do antigo, iluminado xtase. Com espanto (mesmo com dor, +porque sou bom, e sempre me entristece o desmoronar de uma crena) +descobri eu, na primeira tarde em que descemos aos Boulevards, que o +denso formigueiro humano sobre o asfalto, e a torrente sombria dos +trens sobre o macadame, afligiam o meu amigo pela brutalidade da sua +pressa, do seu egosmo, e do seu estridor. Encostado e como refugiado no +meu brao, este Jacinto novo comeou a lamentar que as ruas, na nossa +Civilizao, no fossem caladas de guta-percha! E a guta-percha +claramente representava, para o meu amigo, a substncia discreta que +amortece o choque e a rudeza das coisas. Oh maravilha! Jacinto querendo +borracha, a borracha isoladora, entre a sua sensibilidade e as funes +da Cidade! Depois, nem me permitiu pasmar diante daquelas dourejadas +e espelhadas lojas que ele outrora considerava como os preciosos +museus do sculo XIX... + +--No vale a pena, Z Fernandes. H uma imensa pobreza e secura +de inveno! Sempre os mesmos flores Lus XV, sempre as mesmas +pelcias... No vale a pena! + +Eu arregalava os olhos para este transformado Jacinto. E sobretudo me +impressionava o seu horror pela Multido--por certos efeitos da +Multido, s para ele sensveis, e a que chamava os sulcos. + +--Tu no os sentes, Z Fernandes. Vens das serras... Pois constituem o +rijo inconveniente das Cidades, estes sulcos! um perfume muito agudo e +petulante que uma mulher larga ao passar, e se instala no olfacto, e +estraga para todo o dia o ar respirvel. um dito que se surpreende +num grupo, que revela um mundo de velhacaria, ou de pedantismo, ou de +estupidez, e que nos fica colado alma, como um salpico, lembrando a +imensidade da lama a atravessar. Ou ento, meu filho, uma figura +intolervel pela pretenso, ou pelo mau gosto, ou pela impertinncia, ou +pela relice, ou pela dureza, e de que se no pode sacudir mais a viso +repulsiva... Um pavor, estes sulcos, Z Fernandes! De resto, que diabo, +so as pequeninas misrias de uma Civilizao deliciosa! + +Tudo isto era especioso, talvez pueril--mas para mim revelava, naquele +chamejante devoto da Cidade, o arrefecimento da devoo. Nessa mesma +tarde, se bem recordo, sob uma luz macia e fina, penetrmos nos centros +de Paris, nas ruas longas, nas milhas de casario, todo de calia parda, +eriado de chamins de lata negra, com as janelas sempre fechadas, as +cortininhas sempre corridas, abafando, escondendo a vida. S tijolo, s +ferro, s argamassa, s estuque: linhas hirtas, ngulos speros: tudo +seco, tudo rgido. E dos chos aos telhados, por toda a fachada, +tapando as varandas, comendo os muros, Tabuletas, Tabuletas... + +--Oh, este Paris, Jacinto, este teu Paris! Que enorme, que grosseiro +bazar! + +E, mais para sondar o meu Prncipe do que por persuaso, insisti na +fealdade e tristeza destes prdios, duros armazns, cujos andares so +prateleiras onde se apilha humanidade! E uma humanidade impiedosamente +catalogada e arrumada! A mais vistosa e de luxo nas prateleiras baixas, +bem envernizadas. A reles e de trabalho nos altos, nos desvos, sobre +pranchas de pinho nu, entre o p e a traa... + +Jacinto murmurou, com a face arrepiada: + +-- feio, muito feio! + +E acudiu logo, sacudindo no ar a luva de anta: + +--Mas que maravilhoso organismo, Z Fernandes! Que solidez! Que +produo! + +Onde Jacinto me parecia mais renegado era na sua antiga e quase +religiosa afeio pelo Bosque de Bolonha. Quando moo, ele construra +sobre o Bosque teorias complicadas e considerveis. E sustentava, com +olhos rutilantes de fantico, que no Bosque a Cidade cada tarde ia +retemperar salutarmente a sua fora, recebendo, pela presena das suas +Duquesas, das suas Cortess, dos seus Polticos, dos seus Financeiros, +dos seus Generais, dos seus Acadmicos, dos seus Artistas, dos seus +Clubistas, dos seus Judeus, a certeza consoladora de que todo o seu +pessoal se mantinha em nmero, em vitalidade, em funo, e que nenhum +elemento da sua grandeza desaparecera ou deperecera! Ir ao Bois +constitua ento para o meu Prncipe um acto de conscincia. E voltava +sempre confirmando com orgulho que a Cidade possua todos os seus +astros, garantindo a eternidade da sua luz! + +Agora, porm, era sem fervor, arrastadamente, que ele me levava ao +Bosque, onde eu, aproveitando a clemncia de Abril, tentava enganar a +minha saudade de arvoredos. Enquanto subamos, ao trote nobre das suas +guas lustrosas, a Avenida dos Campos Elsios e a do Bosque, +rejuvenescidas pelas relvas tenras e fresco verdejar dos rebentos, +Jacinto, soprando o fumo da cigarrete pelas vidraas abertas do coup, +permanecia o bom camarada, de veia amvel, com quem era doce filosofar +atravs de Paris. Mas logo que passvamos as grades douradas do Bosque, +e penetrvamos na Avenida das Accias, e enfivamos na lenta fila dos +trens de luxo e de praa, sob o silncio decoroso, apenas cortado pelo +tilintar dos freios e pelas rodas vagarosas esmagando a areia,--o meu +Prncipe emudecia, molemente engelhado no fundo das almofadas, de onde +s despegava a face para escancarar bocejos de fartura. Pelo antigo +hbito de verificar a presena confortadora do pessoal, dos astros, +ainda, por vezes, apontava para algum coup ou vitria rodando com +rodar rangente noutra arrastada fila--e murmurava um nome. E assim fui +conhecendo a encaracolada barba hebraica do banqueiro Efraim; e o longo +nariz patrcio de Madame de Trves abrigando um sorriso perene; e as +bochechas flcidas do poeta neoplatnico Dornan, sempre espapado no +fundo de fiacres; e os longos bands pr-rafaelitas e negros de Madame +Verghane; e o monculo defumado do director do _Boulevard_; e o +bigodinho vencedor do Duque de Marizac, reinando de cima do seu faton +de guerra; e ainda outros sorrisos imveis, e barbichas Renascena, e +plpebras amortecidas, e olhos farejantes, e peles empoadas de arroz, +que eram todas ilustres e da intimidade do meu Prncipe. Mas, do topo +da Avenida das Accias, recomevamos a descer, em passo sopeado, +esmagando lentamente a areia; na fila vagarosa que subia, calhambeque +atrs de landau, vitria atrs de fiacre, fatalmente revamos o +binculo sombrio do homem do _Boulevard_, e os bands furiosamente +negros de Madame Verghane, e o ventre espapado do neoplatnico, e a +barba talmdica, e todas aquelas figuras, de uma imobilidade de cera, +super-conhecidas do meu camarada, recruzadas cada tarde atravs de +revividos anos, sempre com os mesmos sorrisos, sob o mesmo p de arroz, +na mesma imobilidade de cera; ento Jacinto no se continha, gritava +ao cocheiro: + +--Para casa, depressa! + +E era pela Avenida do Bosque, pelos Campos Elsios, uma fuga ardente das +guas a quem a lentido sopeada, num roer de freios, entre outras guas +tambm delas superconhecidas, lanavam numa exasperao comparvel +de Jacinto. + +Para o sondar eu denegria o Bosque: + +--J no to divertido, perdeu o brilho!... + +Ele acudia, timidamente: + +--No, agradvel, no h nada mais agradvel; mas... + +E acusava a friagem das tardes ou o despotismo dos seus afazeres. +Recolhamos ento ao 202, onde, com efeito, em breve embrulhado no seu +roupo branco, diante da mesa de cristal, entre a legio das escovas, +com toda a electricidade refulgindo, o meu Prncipe se comeava a +adornar para o servio social da noite. + +E foi justamente numa dessas noites (um sbado) que ns passmos, +naquele quarto to civilizado e protegido, por um desses brutos e +revoltos terrores como s os produz a ferocidade dos Elementos. J +tarde, pressa (jantvamos com Marizac no Clube para o acompanhar depois +ao _Lohengrin_ na pera) Jacinto arrocheava o n da gravata +branca--quando no lavatrio, ou porque se rompesse o tubo, ou se +dessoldasse a torneira, o jacto de gua a ferver rebentou furiosamente, +fumegando e silvando. Uma nvoa densa de vapor quente abafou as +luzes--e, perdidos nela, sentamos, por entre os gritos do escudeiro e +do Grilo, o jorro devastador batendo os muros, esparrinhando uma chuva +que escaldava. Sob os ps o tapete ensopado era uma lama ardente. E como +se todas as foras da natureza, submetidas ao servio de Jacinto, se +agitassem, animadas por aquela rebelio da gua--ouvimos roncos surdos +no interior das paredes, e pelos fios dos lumes elctricos sulcaram +fascas ameaadoras! Eu fugira para o corredor, onde se alargava a nvoa +grossa. Por todo o 202 ia um tumulto de desastre. Diante do porto, +atradas pela fumarada que se escapava das janelas, estacionava +polcia, uma multido. E na escada esbarrei com um reprter, de chapu +para a nuca, a carteira aberta, gritando sofregamente se havia mortos? + +Domada a gua, clareada a bruma, vim encontrar Jacinto no meio do +quarto, em ceroulas, lvido: + +--Oh Z Fernandes, esta nossa indstria!... Que impotncia, que +impotncia! Pela segunda vez, este desastre! E agora, aparelhos +perfeitos, um processo novo... + +--E eu encharcado por esse processo novo! E sem outra casaca! + +Em redor, as nobres sedas bordadas, os brocatis Lus XIII, cobertos de +manchas negras, fumegavam. O meu Prncipe, enfiado, enxugava uma +fotografia de Madame d'Oriol, de ombros decotados, que o jorro bruto +maculara de empolas. E eu, com rancor, pensava que na minha Guies a gua +aquecia em seguras panelas--e subia ao meu lavatrio, pela mo forte da +Catarina, em seguras infusas! No jantmos com o duque de Marizac, no +Clube. E, na pera, nem saboreei Lohengrin e a sua branca alma e o seu +branco cisne e as suas brancas armas--entalado, aperreado, cortado nos +sovacos pela casaca que Jacinto me emprestara e que rescendia +estonteadoramente a flores de Nessari. + + * * * * * + +No domingo, muito cedo, o Grilo, que na vspera escaldara as mos e as +trazia embrulhadas em seda, penetrou no meu quarto, descerrou as +cortinas, e beira do leito, com o seu radiante sorriso de preto: + +--Vem no _Figaro_! + +Desdobrou triunfalmente o jornal. Eram, nos _Ecos, doze linhas, onde +as nossas guas rugiam e espadavam, com tanta magnificncia e tanta +publicidade, que tambm sorri, deleitado. + +--E toda a manh, o telefone, si Fernandes! exclamava o Grilo, +rebrilhando em bano. A quererem saber, a quererem saber... Est l? +Est escaldado? Paris aflito, si Fernandes! + +O telefone, com efeito, repicava, insacivel. E quando desci para o +almoo, a toalha desaparecia sob uma camada de telegramas, que o meu +Prncipe fendia com a faca, enrugado, rosnando contra a maada. S +desanuviou, ao ler um desses papis azuis, que atirou para cima do meu +prato, com o mesmo sorriso agradado com que de manh sorrramos, o +Grilo e eu: + +-- do Gro-Duque Casimiro... Rato amvel! Coitado! + +Saboreei, atravs dos ovos, o telegrama de S. Alteza. O qu! o meu +Jacinto inundado! Muito chic, nos Campos Elsios! No volto ao 202 sem +bia de salvao! Compassivo abrao! Casimiro... Murmurei tambm com +deferncia:--Amvel! Coitado! Depois, revolvendo lentamente o monto +de telegramas que se alastrava at ao meu copo: + +--Oh Jacinto! Quem esta Diana que incessantemente te escreve, te +telefona, te telegrafa, te...? + +--Diana?... Diana de Lorge. uma cocotte. uma grande cocotte! + +--Tua? + +--Minha, minha... No! tenho um bocado. + +E como eu lamentava que o meu Prncipe, senhor to rico e de to fino +orgulho, por economia de uma gamela prpria chafurdasse com outros numa +gamela pblica--Jacinto levantou os ombros, com um camaro espetado +no garfo: + +--Tu vens das serras... Uma cidade como Paris, Z Fernandes, precisa ter +cortess de grande pompa e grande fausto. Ora para montar em Paris, +nesta tremenda carestia de Paris, uma cocotte com os seus vestidos, os +seus diamantes, os seus cavalos, os seus lacaios, os seus camarotes, as +suas festas, o seu palacete, a sua publicidade, a sua insolncia, +necessrio que se agremiem umas poucas de fortunas, se forme um +sindicato! Somos uns sete, no Clube. Eu pago um bocado... Mas meramente +por Civismo, para dotar a cidade com uma cocotte monumental. De resto +no chafurdo. Pobre Diana!... Dos ombros para baixo nem sei se tem a +pele cor de neve ou cor de limo. + +Arregalei um olho divertido: + +--Dos ombros para baixo?... E para cima? + +--Oh para cima tem p de arroz!... Mas uma seca! Sempre bilhetes, +sempre telefones, sempre telegramas. E trs mil francos por ms, alm +das flores... Uma maada! + +E as duas rugas do meu Prncipe, aos lados do seu afilado nariz, curvado +sobre a salada, eram como dois vales muito tristes, ao entardecer. + +Acabvamos o almoo, quando um escudeiro, muito discretamente, num +murmrio, anunciou Madame d'Oriol. Jacinto pousou com tranquilidade o +charuto; eu quase me engasguei, num sorvo alvoroado de caf. Entre os +reposteiros de damasco cor de morango ela apareceu, toda de negro, +de um negro liso e austero de Semana Santa, lanando com o regalo um +lindo gesto para nos sossegar. E imediatamente, numa volubilidade +docemente chalrada: + +-- um momento, nem se levantem! Passei, ia para a Madalena, no me +contive, quis ver os estragos... Uma inundao em Paris, nos +Campos Elsios! No h seno este Jacinto. E vem no _Figaro!_ O que eu +estava assustada, quando telefonei! Imaginem! gua a ferver, como no +Vesvio... Mas de uma novidade! E os estofos perdidos, naturalmente, os +tapetes... Estou morrendo por admirar as runas! + +Jacinto, que no me pareceu comovido, nem agradecido com aquele +interesse, retomara risonhamente o charuto: + +--Est tudo seco, minha querida senhora, tudo seco! A beleza foi +ontem, quando a gua fumegava e rugia! Ora que pena no ter ao menos +cado uma parede! + +Mas ela insistia. Nem todos os dias se gozavam em Paris os destroos +de uma inundao. O _Figaro_ contara... E era uma aventura deliciosa, uma +casa escaldada nos Campos Elsios! + +Toda a sua pessoa, desde as plumazinhas que frisavam no chapu at +ponta reluzente das botinas de verniz, se agitava, vibrava, como um ramo +tenro sob o bolio do pssaro a chalrar. S o sorriso, por trs do vu +espesso, conservava um brilho imvel. E j no ar se espalhara um aroma, +uma doura, emanadas de toda a sua mobilidade e de toda a sua graa. + +Jacinto no entanto cedera, alegremente: e pelo corredor Madame d'Oriol +ainda louvava o _Figaro_ amvel, e confessava quanto tremera... Eu +voltei ao meu caf, felicitando mentalmente o Prncipe da Gr-Ventura +por aquela perfeita flor de Civilizao que lhe perfumava a vida. +Pensei ento na apurada harmonia em que se movia essa flor. E corri +vivamente antecmara, verificar diante do espelho o meu penteado e o +n da minha gravata. Depois recolhi sala de jantar, e junto da +janela, folheando languidamente a _Revista do Sculo XIX_, tomei uma +atitude de elegncia e de alta cultura. Quase imediatamente eles +reapareceram: e Madame d'Oriol, que, sempre sorrindo, se proclamava +espoliada, nada encontrara que recordasse as guas furiosas, roou pela +mesa, onde Jacinto procurava, para lhe oferecer, tangerinas de Malta, +ou castanhas geladas, ou um biscoito molhado em vinho de Tokai. + +Ela recusava com as mos guardadas no regalo. No era alta, nem +forte--mas cada prega do vestido, ou curva da capa, caa e ondulava +harmoniosamente, como perfeies recobrindo perfeies. Sob o vu +cerrado, apenas percebi a brancura da face empoada, e a escurido dos +olhos largos. E com aquelas sedas e veludos negros, e um pouco do +cabelo louro, de um louro quente, torcido fortemente sobre as peles +negras que lhe orlavam o pescoo, toda ela derramava uma sensao de +macio e de fino. Eu teimosamente a considerava como uma flor de +Civilizao:--e pensava no secular trabalho e na cultura superior que +necessitara o terreno onde ela to delicadamente brotara, j +desabrochada, em pleno perfume, mais graciosa por ser flor de esforo e +de estufa, e trazendo nas suas ptalas um no sei qu de desbotado e de +antemurcho. + +No entanto, com a sua volubilidade de pssaro, chalrando para mim, +chalrando para Jacinto, ela mostrava o seu lindo espanto por aquele +monto de telegramas sobre a toalha. + +--Tudo esta manh, por causa da inundao?... Ah, Jacinto hoje o +homem, o nico homem de Paris! Muitas mulheres nesses telegramas? + +Languidamente, com o charuto a fumegar, o meu Prncipe empurrou para a +sua amiga o telegrama do Gro-Duque. Ento Madame d'Oriol teve um _ah!_ +muito grave e muito sentido. Releu profundamente o papel de S. A. que os +seus dedos acariciavam com uma reverncia gulosa. E sempre grave, sempre +sria: + +-- brilhante! + +Oh, certamente! naquele desastre tudo se passara com muito brilho, +num tom muito Parisiense. E a deliciosa criatura no se podia demorar, +porque fizera marcar um lugar na igreja da Madalena para o sermo! + +Jacinto exclamou com inocncia: + +--Sermo?... j a estao dos sermes? + +Madame d'Oriol teve um movimento de carinhoso escndalo e dor. O qu! +pois nem na austera casa dos Trves dera pela entrada da Quaresma? De +resto no se admirava--Jacinto era um turco! E, imediatamente celebrou +o pregador, um frade dominicano, o Pre Granon! Oh de uma eloquncia! +de uma violncia! No derradeiro sermo pregara sobre o amor, a +fragilidade dos amores mundanos! E tivera coisas de uma inspirao, de uma brutalidade! Depois que gesto, um gesto terrvel que esmagava, em que se lhe arregaava toda a manga, mostrando o brao nu, um brao soberbo, +muito branco, muito forte! + +O seu sorriso permanecia claro sob o olhar que negrejara dentro do vu +negro. E Jacinto, rindo: + +--Um bom brao de director espiritual, hein? Para vergar, espancar +almas... + +Ela acudiu: + +--No! infelizmente o Pre Granon no confessa! + +E de repente reconsiderou--aceitava um biscoito, um clice de Tokai. Era +necessrio um cordial para afrontar as emoes do Pre Granon! Ambos +nos precipitramos, um arrebatando a garrafa, outro oferecendo o prato +de bombons. Franziu o vu para os olhos, chupou pressa um bolo que +ensopara no Tokai. E como Jacinto, reparando casualmente no chapu que +ela trazia, se curvara com curiosidade, impressionado, Madame d'Oriol +apagou o sorriso, toda sria, ante uma coisa sria: + +--Elegante, no verdade?... uma criao inteiramente nova de Madame +Vial. Muito respeitoso, e muito sugestivo, agora na Quaresma. + +O seu olhar, que me envolvera, tambm me convidava a admirar. Aproximei +o meu focinho de homem das serras para contemplar essa criao suprema +do luxo de Quaresma. E era maravilhoso! Sobre o veludo, na sombra das +plumas frisadas, aninhada entre rendas, fixada por um prego, pousava +delicadamente, feita de azeviche, uma Coroa de Espinhos! + +Ambos nos extasimos. E Madame d'Oriol, num movimento e num sorriso +que derramou mais aroma e mais claridade, abalou para a Madalena. + +O meu Prncipe arrastou pelo tapete alguns passos pensativos e moles. E +bruscamente, levantando os ombros com uma determinao imensa, como se +deslocasse um mundo: + +--Oh Z Fernandes, vamos passar este Domingo nalguma coisa simples e +natural... + +--Em qu? + +Jacinto circungirou os olhares muito abertos, como se, atravs da Vida +Universal, procurasse ansiosamente uma coisa natural e simples. Depois, +descansando sobre mim os mesmos largos olhos que voltavam de muito +longe, cansados e com pouca esperana: + +--Vamos ao Jardim das Plantas, ver a girafa! + + + + +IV + + +Nessa fecunda semana, uma noite, recolhamos ambos da pera, quando +Jacinto, bocejando, me anunciou uma festa no 202. + +--Uma festa?... + +--Por causa do Gro-Duque, coitado, que me vai mandar um peixe delicioso +e muito raro que se pesca na Dalmcia. Eu queria um almoo curto. O +Gro-Duque reclamou uma ceia. um brbaro, besuntado com literatura do +sculo XVIII, que ainda acredita em ceias, em Paris! Reno no domingo +trs ou quatro mulheres, e uns dez homens bem tpicos, para o divertir. +Tambm aproveitas. Folheias Paris num resumo... Mas uma maada +amarga! + +Sem interesse pela sua festa, Jacinto no se afadigou em a compor com +relevo ou brilho. Encomendou apenas uma orquestra de Tziganes (os +Tziganes, as suas jalecas escarlates; a melancolia spera das Czardas +ainda nesses tempos remotos emocionavam Paris): e mandou, na +Biblioteca, ligar o Teatrofone com a pera, com a Comdia Francesa, +com o Alcazar e com os Bufos, prevendo todos os gostos desde o trgico +at ao pcaro. Depois no domingo, ao entardecer, ambos visitmos a mesa +da ceia, que resplandecia com as velhas baixelas de D. Galeo. E a +faustosa profuso de orqudeas, em longas silvas por sobre a toalha +bordada a seda, enroladas aos fruteiros de Saxe, transbordando de +cristais lavrados e filagranados de ouro, espalhava uma to fina sensao +de luxo e gosto, que eu murmurei:--Caramba, bendito, seja o dinheiro! +Pela primeira vez, tambm, admirei a copa e a sua instalao abundante +e minuciosa--sobretudo os dois ascensores que rolavam das profundidades +da cozinha, um para os peixes e carnes aquecido por tubos de gua +fervente, o outro para as saladas e gelados revestido de placas +frigorficas. Oh, este 202! + +s nove horas, porm, descendo eu ao gabinete de Jacinto para escrever +a minha boa tia Vicncia, enquanto ele ficara no toucador com o +manicuro que lhe polia as unhas, passmos nesse delicioso palcio, +florido e em gala, por bem corriqueiro susto! Todos os lumes elctricos, +subitamente, em todo o 202, se apagaram! Na minha imensa desconfiana +daquelas foras universais, pulei logo para a porta, tropeando nas +trevas, ganindo um _Aqui d'El-Rei!_ que tresandava a Guies. Jacinto em +cima berrava, com o manicuro agarrado ao pijama. E de novo, como serva +ralaa que recolhe arrastando as chinelas, a luz ressurgiu com +lentido. Mas o meu Prncipe, que descera, enfiado, mandou buscar um +engenheiro Companhia Central da Electricidade Domstica. Por precauo +outro criado correu mercearia comprar pacotes de velas. E o Grilo +desenterrava j dos armrios os candelabros abandonados, os pesados +castiais arcaicos dos tempos incientficos de D. Galeo: era uma +reserva de veteranos fortes, para o caso pavoroso em que mais tarde, +ceia, falhassem perfidamente as foras bisonhas da Civilizao. O +Electricista, que acudira esbaforido, afianou porm que a Electricidade +se conservaria fiel, sem outro amuo. Eu, cautelosamente, soneguei na +algibeira dois cotos de estearina. + +A Electricidade permaneceu fiel, sem amuos. E quando desci do meu +quarto, tarde (porque perdera o colete de baile e s depois de uma busca +furiosa e praguejada o encontrei cado por trs da cama!), todo o 202 +refulgia, e os Tziganes, na antecmara, sacudindo as guedelhas, atiravam +as arcadas de uma valsa to arrastadora que, pelas paredes, os imensos +Personagens das tapearias, Pramo, Nestor, o engenhoso Ulisses, +arfavam, buliam com os ps venerandos! + +Timidamente, sem rumor, puxando os punhos, penetrei no gabinete de +Jacinto. E fui logo acolhido pelo sorriso da condessa de Trves, que, +acompanhada pelo ilustre historiador Danjon (da Academia Francesa), +percorria maravilhada os Aparelhos, os Instrumentos, toda a sumptuosa +Mecnica do meu supercivilizado Prncipe. Nunca ela me parecera mais +majestosa do que naquelas sedas cor de aafro, com rendas cruzadas no +peito Maria Antonieta, o cabelo crespo e ruivo levantado em rolo +sobre a testa dominadora, e o curvo nariz patrcio, abrigando o sorriso +sempre luzidio, sempre corrente, como um arco abriga o correr e o luzir +de um regato. Direita como num slio, a longa luneta de tartaruga +acercada dos olhos midos e turvamente azulados, ela escutava diante do +Grafofono, depois diante do Microfono, como melodias superiores, os +comentrios que o meu Jacinto ia atabalhoando com uma amabilidade +penosa. E ante cada roda, cada mola, eram pasmos, louvores finamente +torneados, em que atribua a Jacinto, com astuta candura, todas +aquelas invenes do Saber! Os utenslios misteriosos que atulhavam a +mesa de bano foram para ela uma iniciao que a enlevou. Oh, o +numerador de pginas! oh, o colador de estampilhas! A carcia +demorada dos seus dedos secos aquecia os metais. E suplicava os +endereos dos fabricantes para se prover de todas aquelas utilidades +adorveis! Como a vida, assim apetrechada, se tornava escorregadia e +fcil! Mas era necessrio o talento, o gosto de Jacinto, para escolher, +para criar! E no s ao meu amigo (que o recebia com resignao) ela +ofertava o fino mel. Afagando com o cabo da luneta o Telgrafo, achou +a possibilidade de recordar a eloquncia do Historiador. Mesmo para mim +(de quem ignorava o nome) arranjou junto do Fongrafo, e acerca de +vozes de amigos que doce coleccionar, uma lisonjazinha redondinha e +lustrosa, que eu chupei como um rebuado celeste. Boa casaleira que vai +atirando o gro aos frangos famintos, a cada passo, maternalmente, ela +nutria uma vaidade. Sfrego de outro rebuado, acompanhei a sua cauda +sussurrante e cor de aafro. Ela parara diante da Mquina de contar, de +que Jacinto j lhe fornecera pacientemente uma explicao sapiente. E +de novo roou os buracos de onde espreitam os nmeros negros, e com o seu +enlevado sorriso murmurou:--Prodigiosa, esta prensa elctrica!... + +Jacinto acudiu: + +--No! No! Esta ... + +Mas ela sorria, seguia... Madame de Trves no compreendera nenhum +aparelho do meu Prncipe! Madame de Trves no atendera a nenhuma +dissertao do meu Prncipe! Naquele gabinete de sumptuosa Mecnica +ela somente se ocupara em exercer, com proveito e com perfeio, a +Arte de Agradar. Toda ela era uma sublime falsidade. No escondi a +Danjon a admirao que me penetrava. + +O facundo Acadmico revirou os olhos bogalhudos: + +--Oh! e um gosto, uma inteligncia, uma seduo!... E depois como se +janta bem em casa dela! Que caf!... Mulher superior, meu caro senhor, +verdadeiramente superior! + +Deslizei para a biblioteca. Logo entrada da erudita nave, junto da +estante dos Padres da Igreja onde alguns cavalheiros conversavam, parei +a saudar o director do _Boulevard_ e o Psiclogo feminista, o autor do +_Corao Triplo_, com quem na vspera me familiarizara ao almoo, no +202. O seu acolhimento foi paternal: e, como se necessitasse a minha +presena, reteve na sua mo ilustre, rutilante de anis, com fora e +com gula, a minha grossa palma serrana. Todos aqueles senhores, com +efeito, celebravam o seu Romance, a _Couraa_, lanado nessa semana +entre gritinhos de gozo e um quente rumor de saias alvoroadas. Um +sobretudo, com uma vasta cabea arranjada Van Dick e que parecia +postia, proclamava, alado na ponta das botas, que nunca penetrara to +fundamente, na velha alma humana, a ponta da Psicologia Experimental! +Todos concordavam, se apertavam contra o Psiclogo, o tratavam por +mestre. Eu mesmo, que nem sequer entrevira a capa amarela da +_Couraa_, mas para quem ele voltava os olhos pedinches e famintos de +mais mel, murmurei com um leve assobio:--uma delcia! + +E o Psiclogo, reluzindo, com o lbio hmido, entalado num alto +colarinho onde se enroscava uma gravata 1830, confessava modestamente +que dissecara todas aquelas almas da _Couraa_ com algum cuidado, +sobre documentos, sobre pedaos de vida ainda quentes, ainda a +sangrar... E foi ento que Marizac, o duque de Marizac, notou, com um +sorriso mais afiado que um lampejo de navalha, e sem tirar as mos dos +bolsos: + +--No entanto, meu caro, nesse livro to profundamente estudado h um +erro bem estranho, bem curioso!... + +O Psiclogo, vivamente, atirara a cabea para trs: + +--Um erro? + +Oh, sim, um erro! E bem inesperado num mestre to experiente!... Era +atribuir esplndida amorosa da _Couraa_, uma duquesa, e do gosto +mais puro,--_um colete de cetim preto_! Esse colete, assim preto, de +cetim, aparecia na bela pgina de anlise e paixo em que ela se +despia no quarto de Rui d'Alize. E Marizac, sempre com as mos nos +bolsos, mais grave, apelava para aqueles senhores. Pois era +verosmil, numa mulher como a duquesa, esttica, pr-rafaeltica, que +se vestia no Doucet, no Paquin, nos costureiros intelectuais, um +colete de cetim preto? + +O Psiclogo emudecera, colhido, trespassado! Marizac era uma to +suprema autoridade sobre a roupa ntima das duquesas, que tarde, em +quartos de rapazes, por impulsos idealistas e anseios de alma +dolorida--se pem em colete e saia branca!... De resto o director do +_Boulevard_ condenara logo sem piedade, com uma experincia firme, +aquele colete, s possvel nalguma merceeira atrasada que ainda +procurasse efeitos de carne ndia sobre cetim negro. E eu, para que me +no julgassem alheio s coisas dos adultrios ducais e do luxo, acudi, +metendo os dedos pelo cabelo: + +--Realmente, preto, s se estivesse de luto pesado, pelo pai! + +O pobre mestre da _Couraa_ sucumbira. Era a sua glria de Doutor em +Elegncias Femininas desmantelada--e Paris supondo que ele nunca vira +uma duquesa desatacar o colete na sua alcova de Psiclogo! Ento, +passando o leno sobre os lbios que a angstia ressequira, confessou o +erro, e contritamente o atribuiu a uma improvisao tumultuosa: + +--Foi um tom falso, um tom perfeitamente falso que me escapou!... Com +efeito! absurdo, um colete preto!... Mesmo por harmonia com o estado +da alma da duquesa devia ser lils, talvez cor de reseda muito +desmaiada, com um frouxo de rendas antigas de Malines... prodigioso +como me escapou! Pois tenho o meu caderno de entrevistas bem anotadas, +bem documentadas!... + +Na sua amargura, terminou por suplicar a Marizac que espalhasse por +toda a parte, no Clube, nas salas, a sua confisso. Fora um engano de +artista, que trabalha na febre, vasculhando as almas, perdido nas +profundidades negras das almas! No reparara no colete, confundira os +tons... E gritou, com os braos estendidos para o director do +_Boulevard_: + +--Estou pronto a fazer uma rectificao, numa _interview_, meu caro +mestre! Mande um dos seus redactores... Amanh, s dez horas! Fazemos +uma _interview_, fixamos a cor. Evidentemente lils... Mande um dos +seus homens, meu caro mestre! tambm uma ocasio para eu confessar, +bem alto, os servios que o _Boulevard_ tem feito s cincias +psicolgicas e feministas! + +Assim ele suplicava, encostado estante, s lombadas dos Santos +Padres. E eu abalei, vendo ao fundo da Biblioteca Jacinto que se +debatia e se recusava entre dois homens. + +Eram os dois homens de Madame de Trves--o marido, conde de Trves, +descendente dos reis de Cndia, e o amante, o terrvel banqueiro judeu, +David Efraim. E to enfronhadamente assaltavam o meu Prncipe que nem +me reconheceram, ambos num aperto de mo mole e vago me trataram por +caro conde! Num relance, rebuscando charutos sobre a mesa de +limoeiro, compreendi que se tramava a _Companhia das Esmeraldas da +Birmnia_, medonha empresa em que cintilavam milhes, e para que os +dois confederados de bolsa e de alcova, desde o comeo do ano, pediam o +nome, a influncia, o dinheiro de Jacinto. Ele resistira, num enfado +dos negcios, desconfiado daquelas esmeraldas soterradas num vale da +sia. E agora o conde de Trves, um homem esgrouviado, de face +rechupada, eriada de barba rala, sob uma fronte rotunda e amarela +como um melo, assegurava ao meu pobre Prncipe que no Prospecto j +preparado, demonstrando a grandeza do negcio, perpassava um fulgor das +_Mil e Uma Noites_. Mas sobretudo aquela escavao de esmeraldas +convidava todo o esprito culto pela sua aco civilizadora. Era uma +corrente de ideias ocidentais, invadindo, educando a Birmnia. Ele +aceitara a direco por patriotismo... + +--De resto um negcio de jias, de arte, de progresso, que deve ser +feito, num mundo superior, entre amigos... + +E do outro lado o terrvel Efraim, passando a mo curta e gorda sobre a +sua bela barba, mais frisada e negra que a de um Rei Assrio, afianava +o triunfo da empresa pelas grossas foras que nela entravam, os +Nagayers, os Bolsans, os Saccart... + +Jacinto franzia o nariz, enervado: + +--Mas, ao menos, esto feitos os estudos? J se provou que h +esmeraldas? + +Tanta ingenuidade exasperou Efraim: + +--Esmeraldas! Est claro que h esmeraldas!... H sempre esmeraldas +desde que haja accionistas! + +E eu admirava a grandeza daquela mxima--quando apareceu, esbaforido, +desdobrando o leno muito perfumado, um dos familiares do 202, Todelle +(Antnio de Todelle), moo j calvo, de infinitas prendas, que conduzia +Cotillons, imitava cantores de Caf Concerto, temperava saladas raras, +conhecia todos os enredos de Paris. + +--J veio?... J c est o Gro-Duque? + +No, S. Alteza ainda no chegara. E Madame de Todelle? + +--No pde... No sof... Esfolou uma perna. + +--Oh! + +--Quase nada... Caiu do velocpede! + +Jacinto, logo interessado: + +--Ah! Madame de Todelle anda j de velocpede? + +--Aprende. Nem tem velocpede!... Agora, na Quaresma, que se aplicou +mais, no velocpede do padre Ernesto, do cura de S. Jos! Mas ontem, no +Bosque, zs, terra!... Perna esfolada. Aqui. + +E na sua prpria coxa, com a unha, vivamente, desenhou o esfolo. +Efraim, brutal e srio, murmurou:--Diabo! no melhor stio! Mas +Todelle nem o escutara, correndo para o director do _Boulevard_, que se +avanava, lento e barrigudo, com o seu monculo negro semelhante a um +pacho. Ambos se colaram contra uma estante, num cochichar profundo. + +Jacinto e eu entrmos ento no bilhar, forrado de velhos couros de +Crdova, onde se fumava. Ao canto de um div, o grande Dornan, o poeta +neoplatnico e mstico, o Mestre subtil de todos os ritmos, espapado +nas almofadas, com um dos ps sob a coxa gorda, como um Deus ndio, dois +botes do colete desabotoados, a papeira cada sobre o largo decote do +colarinho, mamava majestosamente um imenso charuto. Ao p dele, +tambm sentado, um velho que eu nunca encontrara no 202, esbelto, de +cabelos brancos em anis passados por trs das orelhas, a face coberta +de p de arroz, um bigodinho muito negro e arrebitado, findara +certamente alguma histria de bom e grosso sal--porque diante do div, +de p, Joban, o supremo Crtico de Teatro, ria com a calva escarlate de +gozo, e um moo muito ruivo (descendente de Coligny), de perfil de +periquito, sacudia os braos curtos como asas, e gania: delicioso! +divino! S o poeta idealista permanecera impassvel, na sua majestade +obesa. Mas, quando nos acercmos, esse Mestre do ritmo perfeito, depois +de soprar uma farta fumarada e me saudar com um pesado mover das +plpebras, comeou numa voz de rico e sonoro metal: + +--H melhor, h infinitamente melhor... Todos aqui conhecem Madame +Noredal. Madame Noredal tem umas imensas ndegas... + +Desgraadamente para o meu regalo Todelle invadiu o bilhar, reclamando +Jacinto com alarido. Eram as senhoras que desejavam ouvir no +Fongrafo uma ria da Patti! O meu amigo sacudiu logo os ombros, +numa surda irritao: + +--ria da Patti... Eu sei l! Todos esses rolos esto em confuso. Alm +disso o Fongrafo trabalha mal. Nem trabalha! Tenho trs. Nenhum +trabalha! + +--Bem! exclamou alegremente Todelle. Canto eu a _Pauvre fille_... mais +de ceia! _Oh, la pauv', pauv', pauv'_... + +Travou do meu brao, e arrastou a minha timidez serrana para o salo cor +de rosa murcha, onde, como Deusas num crculo escolhido do Olimpo, +resplandeciam Madame d'Oriol, Madame Verghane, a princesa de Carman, e +uma outra loura, com grandes brilhantes nas grandes farripas, e +de ombros to nus, e braos to nus, e peitos to nus, que o seu vestido +branco com bordados de ouro plido parecia uma camisa, a escorregar. +Impressionado, ainda retive Todelle, rugi baixinho:--Quem ? Mas j o +festivo homem correra para Madame d'Oriol, com quem riam, numa +familiaridade superior e fcil, Marizac (o duque de Marizac) e um moo +de barba cor de milho e mais leve que uma penugem, que se balouava +gracilmente sobre os ps, como uma espiga ao vento. E eu, encalhado +contra o piano, esfregava lentamente as mos, amassando o meu embarao, +quando Madame Verghane se ergueu do sof onde conversava com um velho +(que tinha a Gr-Cruz de Santo Andr), e avanou, deslizou no tapete, +pequena e ndia, na sua copiosa cauda de veludo verde-negro. To fina +era a cinta, entre os encontros fecundos e a vastido do peito, todo nu +e cor de ncar, que eu receava que ela partisse pelo meio, no seu lento +ondular. Os seus famosos bands negros, de um negro furioso, inteiramente +lhe tapavam as orelhas; e, no grande aro de ouro que os circundava, +reluzia uma estrela de brilhantes, como na fronte dos anjos de +Boticelli. Conhecendo sem dvida a minha autoridade no 202, ela +despediu sobre mim ao passar, como raio benfico, um sorriso que lhe +liquescia mais os olhos lquidos, e murmurou: + +--O Gro-Duque vem, com certeza? + +--Oh com certeza, minha senhora, para o peixe! + +--P'ra o peixe?... + +Mas justamente, na antecmara, rompeu, em rufos e arcadas triunfais, a +marcha de Rakoczy. Era ele! Na Biblioteca, o nosso retumbante mordomo +anunciava: + +--S. Alteza o Gro-Duque Casimiro! + +Madame de Verghane, com um curto suspiro de emoo, alteou o peito, como +para lhe expor melhor a magnificncia ebrnea. E o homem do _Boulevard_, +o velho da Gr-Cruz, Efraim, quase me empurraram, investindo para a +porta, na imensa sofreguido de Pessoa Real. + +Precedido por Jacinto, o Gro-Duque surgiu. Era um possante homem, de +barba em bico, j grisalha, um pouco calvo. Durante um momento hesitou, +com um balano lento sobre os ps pequeninos, calados de sapatos rasos, +quase sumidos sob as pantalonas muito largas. Depois, pesado e risonho, +veio apertar a mo s senhoras que mergulhavam nos veludos e sedas, em +mesuras de Corte. E imediatamente, batendo com carinhosa jovialidade no +ombro de Jacinto: + +--E o peixe?... Preparado pela receita que mandei, hein? + +Um murmrio de Jacinto tranquilizou S. Alteza. + +--Ainda bem, ainda bem! exclamou ele, no seu vozeiro de comando. Que +eu no jantei, absolutamente no jantei! que se est jantando +deploravelmente em casa do Joseph. Mas porque se vai jantar ainda ao +Joseph? Sempre que chego a Paris, pergunto: Onde que se janta agora? +Em casa do Joseph!... Qual! no se janta! Hoje, por exemplo, +galinholas... Uma peste! No tem, no tem a noo da galinhola! + +Os seus olhos azulados, de um azul sujo, rebrilhavam, alargados pela +indignao: + +--Paris est perdendo todas as suas superioridades. J se no janta, em +Paris! + +Ento, em redor, aqueles senhores concordaram, desolados. O conde de +Trves defendeu o Bignon, onde se conservavam nobres tradies. E o +director do _Boulevard_, que se empurrava todo para S. Alteza, atribua +a decadncia da cozinha, em Frana, Repblica, ao gosto democrtico e +torpe pelo barato. + +--No Paillard, todavia...--comeou o Efraim. + +--No Paillard! gritou logo o Gro-Duque. Mas os Borgonhas so to maus! +os Borgonhas so to maus!... + +Deixara pender os braos, os ombros, descorooado. Depois, com o seu +lento andar balanado como o de um velho piloto, atirando um pouco para +trs as lapelas da casaca, foi saudar Madame d'Oriol, que toda ela +faiscou, no sorriso, nos olhos, nas jias, em cada prega das suas sedas +cor de salmo. Mas apenas a clara e macia criatura, batendo o leque como +uma asa alegre, comeara a chalrar, S. Alteza reparou no aparelho do +Teatrofone, pousado sobre uma mesa entre flores, e chamou Jacinto: + +--Em comunicao com o Alcazar?... O Teatrofone? + +--Certamente, meu senhor. + +Excelente! Muito chic! Ele ficara com pena de no ouvir a Gilberte +numa canoneta nova, as _Casquettes_. Onze e meia! Era justamente a +essa hora que ela cantava, no ltimo acto da _Revista +Elctrica_...--Colou s orelhas os dois receptores do Teatrofone, e +quedou embebido, com uma ruga sria na testa dura. De repente, num +comando forte: + +-- ela! Chut! Venham ouvir!... ela! Venham todos! Princesa de +Carman, para aqui! Todos! ela! Chut... + +Ento, como Jacinto instalara prodigamente dois Teatrofones, cada um +provido de doze fios, as senhoras, todos aqueles cavalheiros, se +apressaram a acercar submissamente um receptor do ouvido, e a permanecer +imveis para saborear _Les Casquettes_. E no salo cor de rosa murcha, +na nave da Biblioteca, onde se espalhara um silncio augusto, s eu +fiquei desligado do Teatrofone, com as mos nas algibeiras e ocioso. + +No relgio monumental, que marcava a hora de todas as Capitais e o +movimento de todos os Planetas, o ponteiro rendilhado adormeceu. Sobre a +mudez e a imobilidade pensativa daqueles dorsos, daqueles decotes, +a Electricidade refulgia com uma tristeza de sol regelado. E de cada +orelha atenta, que a mo tapava, pendia um fio negro, como uma tripa. +Dornan, esboroado sobre a mesa, cerrara as plpebras, numa meditao de +monge obeso. O historiador dos Duques de Anjou, com o receptor na ponta +delicada dos dedos, erguendo o nariz agudo e triste, gravemente cumpria +um dever palaciano. Madame d'Oriol sorria, toda lnguida, como se o fio +lhe murmurasse douras. Para desentorpecer arrisquei um passo tmido. +Mas caiu logo sobre mim um _chut_ severo do Gro-Duque! Recuei para +entre as cortinas da janela, a abrigar a minha ociosidade. O Fillogo +da _Couraa_, distante da mesa, com o seu comprido fio esticado, mordia +o beio, num esforo de penetrao. A beatitude de S. Alteza, enterrado +numa vasta poltrona, era perfeita. Ao lado o colo de Madame Verghane +arfava como uma onda de leite. E o meu pobre Jacinto, numa aplicao +conscienciosa, pendia sobre o Teatrofone to tristemente como sobre +uma sepultura. + +Ento, ante aqueles seres de superior civilizao, sorvendo num +silncio devoto as obscenidades que a Gilberte lhes gania, por debaixo +do solo de Paris, atravs de fios mergulhados nos esgotos, cingidos aos +canos das fezes,--pensei na minha aldeia adormecida. O crescente de lua, +que, seguido de uma estrelinha, corria entre nuvens sobre os telhados e +as chamins negras dos Campos Elsios, tambm andava l fugindo, mais +lustrosa e mais doce, por cima dos pinheirais. As rs coaxavam ao longe +no Pego da Dona. A ermidinha de S. Joaquim branquejava no cabeo, +nuazinha e cndida... + +Uma das senhoras murmurou: + +--Mas, no a Gilberte!... + +E um dos homens: + +--Parece um cornetim... + +--Agora so palmas... + +--No, o Paulin! + +O Gro-Duque lanou um _chut_ feroz... No ptio da nossa casa ladravam +os ces. De alm do ribeiro respondiam os ces do Joo Saranda. Como me +encontrei descendo por uma quelha, sob as ramadas, com o meu varapau ao +ombro? E sentia, entre a seda das cortinas, num fino ar macio, o +cheiro das pinhas estalando nas lareiras, o calor dos currais atravs +das sebes altas, e o sussurro dormente das levadas... + +Despertei a um brado que no saa nem dos eidos, nem das sombras. Era o +Gro-Duque que se erguera, encolhia furiosamente os ombros: + +--No se ouve nada!... S guinchos! E um zumbido! Que maada!... Pois +uma beleza, a canoneta: + +Oh les casquettes, +Oh les casque-e-e-tes!... + +Todos largaram os fios--proclamavam a Gilberte deliciosa. E o mordomo +bendito, abrindo largamente os dois batentes, anunciou: + +--_Monseigneur est servi_! + +Na mesa, que pelo esplendor das orqudeas mereceu os louvores ruidosos +de S. Alteza, fiquei entre o etreo poeta Dornan e aquele moo de +penugem loura que balouava como uma espiga ao vento. Depois de +desdobrar o guardanapo, de o acomodar regaladamente sobre os joelhos, +Dornan desenvencilhou da corrente do relgio uma enorme luneta para +percorrer o _menu_--que aprovou. E inclinando para mim a sua face de +Apstolo obeso: + +--Este Porto de 1834, aqui em casa do Jacinto, deve ser autntico... +Hein? + +Assegurei ao Mestre dos Ritmos que o Porto envelhecera nas adegas +clssicas do av Galeo. Ele afastou, numa preparao metdica, os +longos, densos fios do bigode que lhe cobriam a boca grossa. Os +escudeiros serviram um consomm frio com trufas. E o moo cor de milho, +que espalhara pela mesa o seu olhar azul e doce, murmurou, com uma +desconsolao risonha: + +--Que pena!... S falta aqui um general e um bispo! + +Com efeito! Todas as Classes Dominantes comiam nesse momento as trufas +do meu Jacinto... Mas defronte Madame d'Oriol lanara um riso mais +cantado que um gorjeio. O Gro-Duque, numa silva de orqudeas que +orlava o seu talher, notara uma, sombriamente horrenda, semelhante a um +lacrau esverdinhado, de asas lustrosas, gordo e tmido de veneno: e +muito delicadamente ofertara a flor monstruosa a Madame d'Oriol, que, +com trinado riso, solenemente, a colocou no seio. Colado quela +carne macia, de uma brancura de nata fina, o lacrau inchara, mais verde, +com as asas frementes. Todos os olhos se acendiam, se cravavam no lindo +peito, a que a flor disforme, de cor venenosa, apimentava o sabor. Ela +reluzia, triunfava. Para ajeitar melhor a orqudea os seus dedos +alargaram o decote, aclararam belezas, guiando aquelas curiosidades +flamejantes que a despiam. A face vincada de Jacinto pendia para o +prato vazio. E o alto lrico do _Crepsculo Mstico_, passando a mo +pelas barbas, rosnou com desdm: + +--Bela mulher... Mas ancas secas, e aposto que no tem ndegas! + +No entanto o moo de loura penugem voltara sua estranha mgoa. No +possuirmos um general com a sua espada, e um bispo com seu bculo!... + +--Para qu, meu caro senhor? + +Ele atirou um gesto suave em que todos os seus anis faiscaram: + +--Para uma bomba de dinamite... Temos aqui um esplndido ramalhete de +flores de Civilizao, com um Gro-Duque no meio. Imagine uma bomba de +dinamite, atirada da porta!... Que belo fim de ceia, num fim de +sculo! + +E como eu o considerava assombrado, ele, bebendo golos de +Chateau-Yquem, declarou que hoje a nica emoo, verdadeiramente fina, +seria aniquilar a Civilizao. Nem a cincia, nem as artes, nem o +dinheiro, nem o amor, podiam j dar um gosto intenso e real s nossas +almas saciadas. Todo o prazer que se extrara de _criar_ estava +esgotado. S restava, agora, o divino prazer de _destruir_! + +Desenrolou ainda outras enormidades, com um riso claro nos olhos claros. +Mas eu no atendia o gentil pedante, colhido por outro +cuidado--reparando que em torno, subitamente, todo o servio estacara +como no conto do Palcio Petrificado. E o prato agora devido era o peixe +famoso da Dalmcia, o peixe de S. Alteza, o peixe inspirador da festa! +Jacinto, nervoso, esmagava entre os dedos uma flor. E todos os +escudeiros sumidos! + +Felizmente o Gro-Duque contava a histria de uma caada, nas coutadas de +Sarvan, em que uma senhora, mulher de um banqueiro, saltara bruscamente +do cavalo, num descampado, sem rvores. Ele e todos os caadores +param--e a galante senhora, lvida, com a amazona arregaada, corre para +trs de uma pedra... Mas nunca soubemos em que se ocupava a banqueira, +nesse descampado, agachada atrs da pedra--porque justamente o mordomo +apareceu, reluzente de suor, e balbuciou uma confidncia a Jacinto, +que mordeu o beio, trespassado. O Gro-Duque emudecera. Todos se +entreolhavam, numa ansiedade alegre. Ento o meu Prncipe, com +pacincia, com heroicidade, forando palidamente o sorriso: + +--Meus amigos, h uma desgraa... + +Dornan pulou na cadeira: + +--Fogo? + +No, no era fogo. Fora o elevador dos pratos, que inesperadamente, ao +subir o peixe de S. Alteza, se desarranjara, e no se movia, encalhado! + +O Gro-Duque arremessou o guardanapo. Toda a sua polidez estalava como +um esmalte mal posto: + +--Essa forte!... Pois um peixe que me deu tanto trabalho! Para que +estamos ns aqui ento a cear? Que estupidez! E porque o no trouxeram +mo, simplesmente? Encalhado... Quero ver! Onde a copa? + +E, furiosamente, investiu para a copa, conduzido pelo mordomo que +tropeava, vergava os ombros, ante esta esmagadora clera de Prncipe. +Jacinto seguiu, como uma sombra, levado na rajada de S. Alteza. E eu +no me contive, tambm me atirei para a copa, a contemplar o desastre, +enquanto Dornan, batendo na coxa, clamava que se ceasse sem peixe! + +O Gro-Duque l estava, debruado sobre o poo escuro do elevador, onde +mergulhara uma vela que lhe avermelhava mais a face esbraseada. +Espreitei, por sobre o seu ombro real. Em baixo, na treva, sobre uma +larga prancha, o peixe precioso alvejava, deitado na travessa, ainda +fumegando, entre rodelas de limo. Jacinto, branco como a gravata, +torturava desesperadamente a mola complicada do ascensor. Depois foi o +Gro-Duque que, com os pulsos cabeludos, atirou um empuxo tremendo aos +cabos em que ele rolava. Debalde! O aparelho enrijara numa inrcia de +bronze eterno. + +Sedas roagaram entrada da copa. Era Madame d'Oriol, e atrs Madame +Verghane, com os olhos a faiscar, na curiosidade daquele lance em que +o Prncipe soltara tanta paixo. Marizac, nosso ntimo, surgiu tambm, +risonho, propondo uma descida ao poo com escadas. Depois foi o +Psiclogo, que se abeirou, psicologou, atribuindo intenes sagazes +ao peixe que assim se recusava. E a cada um o Gro-Duque, escarlate, +mostrava com dedo trgico, no fundo da cova, o seu peixe! Todos +afundavam a face, murmuravam: l est! Todelle, na sua precipitao, +quase se despenhou. O periquito descendente de Coligny batia as asas, +ganindo:--Que cheiro ele deita, que delcia! Na copa atulhada os +decotes das senhoras roavam a farda dos lacaios. O velho caiado de p +de arroz meteu o p num balde de gelo, com um berro ferino. E o +Historiador dos Duques de Anjou movia por cima de todos o seu nariz +bicudo e triste. + +De repente, Todelle teve uma ideia! + +-- muito simples... pescar o peixe! + +O Gro-Duque bateu na coxa uma palmada triunfal. Est claro! Pescar o +peixe! E no gozo daquela faccia, to rara e to nova, toda a sua +clera se sumira, de novo se tornara o Prncipe amvel, de magnfica +polidez, desejando que as senhoras se sentassem para assistir pesca +miraculosa! Ele mesmo seria o pescador! Nem se necessitava, para a +divertida faanha, mais que uma bengala, uma guita e um gancho. +Imediatamente Madame d'Oriol, excitada, ofereceu um dos seus ganchos. +Apinhados em volta dela, sentindo o seu perfume, o calor da sua pele, +todos exaltmos a amorvel dedicao. E o Psiclogo proclamou que nunca +se pescara com to divino anzol! + +Quando dois escudeiros estonteados voltaram, trazendo uma bengala e um +cordel, j o Gro-Duque, radiante, vergara o gancho em anzol. Jacinto, +com uma pacincia lvida, erguia uma lmpada sobre a escurido do poo +fundo. E os senhores mais graves, o Historiador, o director do +_Boulevard_, o Conde de Trves, o homem de cabea Van-Dick, sorriam, +amontoados porta, num interesse reverente pela fantasia de S. +Alteza. Madame de Trves, essa, examinava serenamente, com a sua nobre +luneta, a instalao da copa. S Dornan no se erguera da mesa, com os +punhos cerrados sobre a toalha, o gordo pescoo encovado, no tdio +sombrio de fera a quem arrancaram a posta. + +No entanto S. Alteza pescava com fervor! Mas debalde! O gancho, pouco +agudo, sem presa, bamboleando na extremidade da guita frouxa, no +fisgava. + +--Oh Jacinto, erga essa luz! gritava ele, inchado e suado. Mais!... +Agora! Agora! na guelra! S na guelra que o gancho o pode prender. +Agora... Qual! Que diabo! No vai! + +Tirou a face do poo, resfolgando e afrontado. No era possvel! S +carpinteiros, com alavancas!... E todos, ansiosamente, bradmos que se +abandonasse o peixe! + +O Prncipe, risonho, sacudindo as mos, concordava que por fim fora +mais divertido pesc-lo do que com-lo! E o elegante bando refluiu +sofregamente para a mesa, ao som de uma valsa de Strauss, que os Tziganes +arremessaram em arcadas de lnguido ardor. S Madame de Trves se demorou +ainda, retendo o meu pobre Jacinto, para lhe assegurar quanto admirava +o arranjo da sua copa... Oh perfeita! Que compreenso da vida, que fina +inteligncia do conforto! + +S. Alteza, encalmado pelo esforo, esvaziou poderosamente dois copos de +Chateau-Lagrange. Todos o aclamavam como um pescador genial. E os +escudeiros serviram o _Baro de Pauillac_, cordeiro das lezrias +marinhas, que, preparado com ritos quase sagrados, toma este grande nome +sonoro e entra no Nobilirio de Frana. + +Eu comi com o apetite de um heri de Homero. Sobre o meu copo e o de +Dornan o Champanhe cintilou e jorrou ininterrompidamente como uma +fonte de Inverno. Quando se serviram ortolans gelados, que se derretiam +na boca, o divino poeta murmurou, para meu regalo, o seu soneto sublime +a Santa Clara. E como, do outro lado, o moo de penugem loura +insistia pela destruio do velho mundo, tambm concordei, e, sorvendo o +Champanhe coalhado em sorvete, maldissemos o Sculo, a Civilizao, +todos os orgulhos da Cincia! Atravs das flores e das luzes, no +entanto, eu seguia as ondas arfantes do vasto peito de Madame Verghane, +que ria como uma bacante. E nem me apiedava de Jacinto que, com a +doura de S. Jacinto sobre o cepo, esperava o fim do seu martrio e da +sua festa. + +Ela findou. Ainda recordo, s trs horas da noite, o Gro-Duque na +antecmara, muito vermelho, mal firme nos ps pequeninos, sem acertar +com as mangas da pelia que Jacinto e eu lhe ajudmos a +enfiar--convidando o meu amigo, numa efuso carinhosa, a ir caar s +suas terras da Dalmcia... + +--Devo ao meu Jacinto uma bela pesca, quero que ele me deva uma bela +caada! + +E enquanto o acompanhvamos, entre as alas dos escudeiros, pela vasta +escada onde o mordomo o precedia erguendo um candelabro de trs lumes, +S. Alteza repisava, pegajoso: + +--Uma bela caada... E tambm vai Fernandes! Bom Fernandes, Z +Fernandes! Ceia superior, meu Jacinto! O _Baro de Pauillac_, +divino!... Creio que o devemos nomear Duque... O Senhor Duque de +Pauillac! Mais um bocado da perna do Senhor Duque de Pauillac. Ah! +Ah!... No venham fora! No se constipem! + +E do fundo do coup, ao rodar, ainda bradou: + +--O peixe, Jacinto, desencalha o peixe! Excelente, ao almoo, frio, +com molho verde! + +Trepando cansadamente os degraus, numa moleza de Champanhe e sono em +que os olhos se me cerravam, murmurei para o meu Prncipe: + +--Foi divertido, Jacinto! Sumptuosa mulher, a Verghane! Grande pena, o +elevador... + +E Jacinto, num som cavo que era bocejo e rugido: + +--Uma maada! E tudo falha! + + * * * * * + +Trs dias depois desta festa no 202 recebeu o meu Prncipe +inesperadamente, de Portugal, uma nova considervel. Sobre a sua quinta +e solar de Tormes, por toda a serra, passara uma tormenta devastadora de +vento, corisco e gua. Com as grossas chuvas, ou por outras causas que +os peritos diro (como exclamava na sua carta angustiada o procurador +Silvrio), um pedao de monte, que se avanava em socalco sobre o vale +da Carria, desabara, arrastando a velha igreja, uma igrejinha rstica +do sculo XVI, onde jaziam sepultados os avs de Jacinto desde os +tempos de el-rei D. Manuel. Os ossos venerveis desses Jacintos jaziam +agora soterrados sob um monto informe de terra e pedra. O Silvrio j +comeara com os moos da quinta a desatulhar dos preciosos restos. Mas +esperava ansiosamente as ordens de sua exc.^a... + +Jacinto empalidecera, impressionado. Esse velho solo serrano, to rijo +e firme desde os Godos, que de repente rua! Esses jazigos de paz +piedosa, precipitados com fragor, na borrasca e na treva, para um negro +fundo de vale! Essas ossadas, que todas conservavam um nome, uma data, +uma histria, confundidas num lixo de runa! + +--Coisa estranha, coisa estranha!... + +E toda a noite me interrogou acerca da serra e de Tormes, que eu +conhecia desde pequeno, por que o velho solar, com a sua nobre alameda +de faias seculares, se erguia a duas lguas da nossa casa, no antigo +caminho de Guies estao e ao rio. O caseiro de Tormes, o bom +Melchior, era cunhado do nosso feitor da Roqueirinha:--e muitas vezes, +depois da minha intimidade com Jacinto, eu entrara no robusto casaro +de granito, e avaliara o gro espalhado pelas salas sonoras, e provara o +vinho novo nas adegas imensas... + +--E a igreja, Z Fernandes?... Entraste na igreja? + +--Nunca... Mas era pitoresca, com uma torrezinha quadrada, toda negra, +onde h muitos anos vivia uma famlia de cegonhas... Terrvel +transtorno para as cegonhas! + +--Coisa estranha! murmurava ainda o meu Prncipe, agourado. + +E telegrafou ao Silvrio que desatulhasse o vale, recolhesse as +ossadas, reedificasse a Igreja, e, para esta obra de piedade e +reverncia, gastasse o dinheiro, sem contar, como a gua de um rio largo. + + + + +V + + +No entanto Jacinto, desesperado com tantos desastres humilhadores--as +torneiras que dessoldavam, os elevadores que emperravam, o Vapor que se +encolhia, a Electricidade que se sumia, decidiu valorosamente vencer as +resistncias finais da Matria e da Fora por novas e mais poderosas +acumulaes de Mecanismos. E nessas semanas de Abril, enquanto as +rosas desabrochavam, a nossa agitada casa, entre aquelas quietas casas +dos Campos Elsios que preguiavam ao sol, incessantemente tremeu, +envolta num p de calia e de empreitada, com o bruto picar de pedra, o +retininte martelar de ferro. Nos silenciosos corredores, onde me era +doce fumar antes do almoo um pensativo cigarro, circulavam agora, desde +madrugada, ranchos de operrios, de blusas brancas, assobiando o +_Petit-Bleu_, e intimidando os meus passos quando eu atravessava em +fralda e chinelas para o banho ou para outros retiros. Apenas se varava +com percia algum andaime obstruindo as portas--logo se esbarrava com +uma pilha de tbuas, uma seira de ferramentas ou um balde enorme +de argamassa. E os pedaos de soalho levantado mostravam tristemente, +como num cadver aberto, todos os interiores do 202, a ossatura, os +sensveis nervos de arame, os negros intestinos de ferro fundido. + +Cada dia estacava diante do porto alguma lenta carroa, donde os +criados, em mangas de camisa, descarregavam caixotes de madeira, fardos +de lona, que se despregavam e se descosiam numa sala asfaltada, ao +fundo do jardim, por trs da sebe de lilases. E eu descia, reclamado +pelo meu Prncipe, para admirar uma nova Mquina que nos tornaria a vida +mais fcil, estabelecendo de um modo mais seguro o nosso domnio sobre a +Substncia. Durante os calores, que apertaram depois da Ascenso, +ensaimos esperanadamente, para refrescar as guas minerais, a +Soda-Water e os Medocs ligeiros, trs geleiras, que se amontoaram na +copa sucessivamente desprestigiadas. Com os morangos novos apareceu um +instrumentozinho astuto, para lhes arrancar os ps, delicadamente. +Depois recebemos outro, prodigioso, de prata e cristal, para remexer +freneticamente as saladas; e, na primeira vez que o experimentei, todo +o vinagre esparrinhou sobre os olhos do meu Prncipe, que fugiu aos +uivos! Mas ele teimava... Nos actos mais elementares, para aliviar ou +apressar o esforo, se socorria Jacinto da Dinmica. E agora era por +interveno de uma Mquina que abotoava as ceroulas. + +E simultaneamente, ou em obedincia sua Ideia, ou governado pelo +despotismo do hbito, no cessava, ao lado da Mecnica acumulada, de +acumular Erudio. Oh, a invaso dos livros no 202! Solitrios, aos +pares, em pacotes, dentro de caixas, franzinos, gordos e repletos de +autoridade, envoltos em plebeia capa amarela ou revestidos de +marroquim e ouro, perpetuamente, torrencialmente, invadiam por todas as +largas portas a Biblioteca, onde se estiravam sobre o tapete, se +repimpavam nas cadeiras macias, se entronizavam em cima das mesas +robustas, e sobretudo trepavam contra as janelas, em sfregas pilhas, +como se, sufocados pela sua prpria multido, procurassem com nsia +espao e ar! Na erudita nave, onde apenas alguns vidros mais altos +restavam descobertos, sem tapume de livros, perenemente se adensava um +pensativo crepsculo de Outono enquanto fora Junho refulgia. A +Biblioteca transbordara atravs de todo o 202! No se abria um armrio +sem que de dentro se despenhasse, desamparada, uma pilha de livros! No +se franzia uma cortina sem que de trs surgisse, hirta, uma ruma de +livros! E imensa foi a minha indignao quando uma manh, correndo +urgentemente, de mos nas alas, encontrei, vedada por uma tremenda +coleco de Estudos Sociais, a porta do Water-Closet! + +Mais amargamente porm me lembro da noite histrica em que, no meu +quarto, modo e mole de um passeio a Versalhes, com as plpebras +poeirentas e meio adormecidas, tive de desalojar do meu leito, +praguejando, um pavoroso Dicionrio de Indstria em trinta e sete +volumes! Senti ento a suprema fartura do livro. Ajeitando, com murros, +os travesseiros, maldisse a Imprensa, a Facndia humana... E j me +estirara, adormecia, quando topei, quase parti a preciosa rtula do +joelho, contra a lombada de um tomo que velhacamente se aninhara entre a +parede e os colches. Com furor e um berro empolguei, arremessei o tomo +afrontoso--que entornou o jarro, inundou um tapete rico de Daghestan. E +nem sei se depois adormeci--porque os meus ps, a que no sentia nem o +pisar nem o rumor, como se um vento brando me levasse, continuaram a +tropear em livros no corredor apagado, depois na areia do jardim que o +luar branqueava, depois na Avenida dos Campos Elsios, povoada e ruidosa +como numa festa cvica. E, oh portento! todas as casas aos lados eram +construdas com livros. Nos ramos dos castanheiros ramalhavam folhas de +livros. E os homens, as finas damas, vestidos de papel impresso, com +ttulos nos dorsos, mostravam em vez de rosto um livro aberto, a que a +brisa lenta virava docemente as folhas. Ao fundo, na Praa da Concrdia, +avistei uma escarpada montanha de livros, a que tentei trepar, +arquejante, ora enterrando a perna em flcidas camadas de versos, ora +batendo contra a lombada, dura como calhau, de tomos de Exegese e +Crtica. A to vastas alturas subi, para alm da terra, para alm das +nuvens, que me encontrei, maravilhado, entre os astros. Eles rolavam +serenamente, enormes e mudos, recobertos por espessas crostas de livros, +donde surdia, aqui e alm, por alguma fenda, entre dois volumes mal +juntos, um raiozinho de luz sufocada e ansiada. E assim ascendi ao +Paraso. Decerto era o Paraso--porque com meus olhos de mortal argila +avistei o Ancio da Eternidade, aquele que no tem Manh nem Tarde. +Numa claridade que dele irradiava mais clara que todas as claridades, +entre fundas estantes de ouro abarrotadas de cdices, sentado em +vetustssimos flios, com os flocos das infinitas barbas espalhados por +sobre resmas de folhetos, brochuras, gazetas e catlogos--o Altssimo +lia. A fronte superdivina que concebera o Mundo pousava sobre a mo +superforte que o Mundo criara--e o Criador lia e sorria. Ousei, +arrepiado de sagrado horror, espreitar por cima do seu ombro +coruscante. O livro era brochado, de trs francos... O Eterno lia +Voltaire, numa edio barata, e sorria. + +Uma porta faiscou e rangeu, como se algum penetrasse no Paraso. Pensei +que um Santo novo chegara da Terra. Era Jacinto, com o charuto em +brasa, um molho de cravos na lapela, sobraando trs livros amarelos +que a Princesa de Carman lhe emprestara para ler! + + * * * * * + +Numa dessas activas semanas, porm, a minha ateno subitamente se +despegou deste interessante Jacinto. Hspede do 202, conservava no 202 +a minha mala e a minha roupa: e, acostado bandeira do meu Prncipe, +ainda ocasionalmente comia do seu caldeiro sumptuoso. Mas a minha +alma, a minha embrutecida alma, e o meu corpo, o meu embrutecido corpo, +habitavam ento na rua do Hlder, n.^o 16, quarto andar, porta +esquerda. + +Descia eu uma tarde, numa leda paz de ideias e sensaes, o Boulevard da +Madalena, quando avistei, diante da Estao dos nibus, rondando no +asfalto, num passo lento e felino, uma criatura seca, muito morena, +quase tisnada, com dois fundos olhos taciturnos e tristes, e uma mata +de cabelos amarelados, toda crespa e rebelde, sob o chapu velho de +plumas negras. Parei, como colhido por um repuxo nas entranhas. A +criatura passou--no seu magro rondar de gata negra, sobre um beiral de +telhado, ao luar de Janeiro. Dois poos fundos no luzem mais negra e +taciturnamente do que luziam os seus olhos taciturnos e negros. No +recordo (Deus louvado!) como rocei o seu vestido de seda, lustroso e +ensebado nas pregas; nem como lhe rosnei uma splica por entre os +dentes que rangiam; nem como subimos ambos, morosamente e mais +silenciosos que condenados, para um gabinete do Caf Durand, safado e +morno. Diante do espelho, a criatura, com a lentido de um rito triste, +tirou o chapu e a romeira salpicada de vidrilhos. A seda puda do +corpete esgarava nos cotovelos agudos. E os seus cabelos eram +imensos, de uma dureza e espessura de juba brava, em dois tons +amarelos, uns mais dourados, outros mais crestados, como a cdea de uma +torta ao sair quente do forno. + +Com um riso trmulo, agarrei os seus dedos compridos e frios: + +--E o nomezinho, hein? + +Ela sria, quase grave: + +--Madame Colombe, 16, rua do Hlder, quarto andar, porta esquerda. + +E eu (miservel Z Fernandes!) tambm me senti muito srio, trespassado +por uma emoo grave, como se nos envolvesse, naquela alcova de Caf, +a majestade de um Sacramento. porta, empurrada levemente, o criado +avanou a face ndia. Ordenei uma lagosta, pato com pimentes, e +Borgonha. E foi somente ao findarmos o pato que me ergui, amarfanhando +convulsamente o guardanapo, e a tremer lhe beijei a boca, todo a +tremer, num beijo profundo e terrvel, em que deixei a alma, entre +saliva e gosto de pimento! Depois, numa tipia aberta, sob um bafo +mole de leste e de trovoada, subimos a Avenida dos Campos Elsios. Em +frente grade do 202 murmurei, para a deslumbrar com o meu luxo:--Moro +ali, todo o ano!... E como ao mirar o Palacete, debruada, ela +roara a mata fulva do plo crespo pela minha barba--berrei +desesperadamente ao cocheiro; que galopasse para a rua do Hlder, n.^o +16, quarto andar, porta esquerda! + +Amei aquela criatura. Amei aquela criatura com Amor, com todos os +Amores que esto no Amor, o Amor divino, o Amor humano, o Amor bestial, +como Santo Antonino amava a Virgem, como Romeu amava Julieta, como um +bode ama uma cabra. Era estpida, era triste. Eu deliciosamente apagava +a minha alegria na cinza da sua tristeza; e com inefvel gosto afundava +a minha razo na densidade da sua estupidez. Durante sete furiosas +semanas perdi a conscincia da minha personalidade de Z +Fernandes--Fernandes de Noronha e Sande, de Guies! Ora se me afigurava +ser um pedao de cera que se derretia, com horrenda delcia, num forno +rubro e rugidor: ora me parecia ser uma faminta fogueira onde +flamejava, estalava e se consumia um molho de galhos secos. Desses +dias de sublime sordidez s conservo a impresso de uma alcova forrada de +cretones sujos, de uma bata de l cor de lils com sotaches negros, de +vagas garrafas de cerveja no mrmore de um lavatrio, e de um corpo +tisnado que rangia e tinha cabelos no peito. E tambm me resta a +sensao de incessantemente e com arroubado deleite me despojar, +arremessar para um regao, que se cavava entre um ventre sumido e uns +joelhos agudos, o meu relgio, os meus berloques, os meus anis, os +meus botes de punho de safira, e as cento e noventa e sete libras em +ouro que eu trouxera de Guies numa cinta de camura. Do slido, +decoroso, bem fornecido Z Fernandes, s restava uma carcaa errando +atravs de um sonho, com as gmbias moles e a baba a escorrer. + +Depois, uma tarde, trepando com a costumada gula a escada da rua do +Hlder, encontrei a porta fechada--e arrancado da ombreira aquele +carto de _Madame Colombe_ que eu lia sempre to devotamente e que era a +sua tabuleta... Tudo no meu ser tremeu como se o cho de Paris tremesse! +Aquela era a porta do Mundo que ante mim se fechara! Para alm estavam +as gentes, as cidades, a vida, Deus e Ela. E eu ficara sozinho, +naquele patamar do No-Ser, fora da porta que se fechara, nico ser +fora do Mundo! Rolei pelos degraus, com o fragor e a incoerncia de uma +pedra, at ao cubculo da porteira e do seu homem que jogavam as cartas +em ditosa pachorra, como se to pavoroso abalo no tivesse desmantelado +o Universo! + +--Madame Colombe? + +A barbuda comadre recolheu lentamente a vaza: + +--J no mora... Abalou esta manh, para outra terra, com outra porca! + +Para outra terra! com outra porca!... Vazio, negramente vazio de todo o +pensar, de todo o sentir, de todo o querer--boiei aos tombos, como um +tonel vazio, na corrente aodada do Boulevard, at que encalhei num +banco da Praa da Madalena, onde tapei com as mos, a que no sentia a +febre, os olhos a que no sentia o pranto! Tarde, muito tarde, quando j +se cerravam com estrondo as cortinas de ferro das lojas, surdiu, dentre +todas estas confusas runas do meu ser, a eterna sobrevivente de todas +as runas--a ideia de jantar. Penetrei no Durand, com os passos +entorpecidos de um ressuscitado. E, numa recordao que me escaldava a +alma, encomendei a lagosta, o pato, o Borgonha! Mas ao alargar o +colarinho, ensopado pelo ardor daquela tarde de Julho, entre a poeira +da Madalena, pensei com desconforto:--Santssimo Nome de Deus! Que +imensa sede me fez esta desgraa!... De manso acenei ao moo:--Antes +do Borgonha, uma garrafa de Champanhe, com muito gelo, e um grande +copo!... Creio que aquele Champanhe se engarrafara no Cu onde corre +perenemente a fresca fonte da Consolao, e que na garrafa bendita que +me coube penetrara, antes de arrolhada, um jorro largo dessa fonte +inefvel. Jesus! que transcendente regalo, o daquele nobre copo, +embaciado, nevado, a espumar, a picar, num brilho de ouro! E depois, +garrafa de Borgonha! E depois, garrafa de Cognac! E depois +Hortel-Pimenta granitada em gelo! E depois um desejo arquejante de +espancar, com o meu rijo marmeleiro de Guies, a porca que fugira com +outra porca! Dentro da tipia fechada, que me transportou num galope ao +202, no sufoquei este santo impulso, e com os meus punhos serranos +atirei murros retumbantes contra as almofadas, onde _via_, furiosamente +_via_ a mata imensa de plo amarelo, em que a minha alma uma tarde +se perdera, e trs meses se debatera, e para sempre se emporcalhara! +Quando o fiacre estacou no 202 ainda eu espancava to desesperadamente a +besta ingrata, que, aos berros do cocheiro, dois moos acudiram e me +sustiveram, recebendo pelos ombros, sobre as nucas servis, os restos +cansados da minha clera. + +Em cima, repeli a solicitude do Grilo que tentava impor ao _si_ Z +Fernandes, a Z Fernandes de Guies, a imensa indignidade de um ch de +macela! E estirado no leito de D. Galeo, com as botas sobre o +travesseiro, o chapu alto sobre os olhos, ri, num doloroso riso, +deste Mundo burlesco e srdido de Jacintos e de Colombes! E de repente +senti uma angstia horrenda. Era Ela! Era a Madame Colombe, que +esfuziara da chama da vela, e saltara sobre o meu leito, e desabotoara +o meu colete, e arrombara as minhas costelas, e toda ela, com as +saias sujas, mergulhara dentro do meu peito, e abocara o meu corao, e +chupava a sorvos lentos, como na rua do Hlder, o sangue do meu corao! +Ento, certo da Morte, ganindo pela tia Vicncia, pendi do leito para +mergulhar na minha sepultura, que, atravs da nvoa final, eu distinguia +sobre o tapete--redondinha, vidrada, de porcelana e com asa. E, sobre a +minha sepultura, que to irreverentemente se assemelhava ao meu vaso, +vomitei o Borgonha, vomitei o pato, vomitei a lagosta. Depois, num +esforo ultrahumano, com um rugido, sentindo que, no somente toda a +entranha, mas a alma se esvaziava toda, vomitei Madame Colombe! Reca +sobre o leito de D. Galeo... Recarreguei o chapu sobre os olhos para +no sentir os raios do sol. Era um sol novo, um sol espiritual, que se +erguia sobre a minha vida. E adormeci, como uma criancinha docemente +embalada num bero de verga pelo Anjo da Guarda. + +De manh, lavei a pele num banho profundo, perfumado com todos os +aromas do 202, desde folhas de limonete da ndia at essncia de jasmim +de Frana: e lavei a alma com uma rica carta da Tia Vicncia, em letra +farta, contando da nossa casa, e da linda promessa das vinhas, e da +compota de ginja que nunca lhe sara to fina, e da alegre fogueira do +ptio em noite de S. Joo, e da menininha muito gorda e cabeluda que +viera do cu para a minha afilhada Joaninha. Depois, janela, bem +limpo de alma e de corpo, numa quinzena de sedinha branca, tomando ch +de Nap, respirando os rosais do jardim revividos pela chuva da +madrugada, considerei, em divertido pasmo, que, durante sete semanas, me +emporcalhara, na rua do Hlder, com um estardalho muito magro e muito +tisnado! E conclui que padecera de uma longa sezo, sezo da carne, sezo +da imaginao, apanhada num charco de Paris--nesses charcos que se +formam atravs da Cidade com as guas mortas, os limos, os lixos, os +tortulhos e os vermes de uma Civilizao que apodrece. + + * * * * * + +Ento, curado, todo o meu esprito, como uma agulha para o Norte, se +virou logo para o meu complicado Prncipe, que, nas derradeiras semanas +da minha infeco sentimental, eu entrevira sempre descado por cima de +sofs, ou vagueando atravs da Biblioteca entre os seus trinta mil +volumes, com arrastados bocejos de inrcia e de vacuidade. Eu, na minha +pressa indigna, s lhe lanava um distrado--que isso? Ele, no seu +moroso desalento, s murmurava um seco-- calor! + +E, nessa manh da minha libertao, ao penetrar antes de almoo no seu +quarto, no sof o encontrei enterrado, com o _Figaro_ aberto sobre a +barriga, a Agenda cada sobre o tapete, toda a face envolta em sombra, +e os ps abandonados, numa soberana tristeza, ao pedicuro que lhe polia +as unhas. Decerto o meu olhar realumiado e repurificado, a brancura das +minhas flanelas reproduzindo a quietao das minhas sensaes, e a +segura harmonia em que todo o meu ser visivelmente se movia, +impressionaram o meu Prncipe--a quem a melancolia nunca embotava a +agudeza. Ergueu molemente um brao mole: + +--Ento esse capricho? + +Derramei, sobre ele todo o fulgor de um riso vitorioso: + +--Morto! E, como o Sr. de Malbrouck, morto e bem enterrado. Jaz! Ou +antes, rola! Com efeito deve andar agora rolando por dentro do cano do +esgoto! + +Jacinto bocejou, murmurou: + +--Este Z Fernandes de Noronha e Sande!... + +E, no meu nome, no meu digno nome assim embrulhado num bocejo com +desprendida ironia, se resumiu todo o interesse daquele Prncipe pela +suja tormenta em que se debatera o meu corao! Mas no me melindrou +esse consumado egosmo... Claramente percebia eu que o meu Jacinto +atravessava uma densa nvoa de tdio, to densa, e ele to afundado na +sua mole densidade, que as glrias ou os tormentos de um camarada no o +comoviam, como muito remotas, intangveis, separadas da sua +sensibilidade por imensas camadas de algodo. Pobre Prncipe da +Gr-Ventura, tombado para o sof de inrcia, com os ps no regao do +pedicuro! Em que lodoso fastio cara, depois de renovar to bravamente +todo o recheio mecnico e erudito do 202, na sua luta contra a Fora e +a Matria!--E esse fastio no o escondeu mais do seu velho Z Fernandes +quando recomeou entre ns a comunho de vida e de alma a que eu to +torpemente me arrancara, uma tarde, diante da Estao dos nibus, no +charco da Madalena. + +No eram certamente confisses enunciadas. O elegante e reservado +Jacinto no torcia os braos, gemendo--Oh vida maldita! Eram apenas +expresses saciadas; um gesto de repelir com rancor a importunidade das +coisas; por vezes uma imobilidade determinada, de protesto, no fundo +de um div, donde se no desenterrava, como para um repouso que +desejasse eterno; depois os bocejos, os ocos bocejos com que sublinhava +cada passo, continuado por fraqueza ou por dever iniludvel; e +sobretudo aquele murmurar que se tornara perene e natural--Para +qu?--No vale a pena!--Que maada!... + +Uma noite no meu quarto, descalando as botas, consultei o Grilo: + +--Jacinto anda to murcho, to corcunda... Que ser, Grilo? + +O venerando preto declarou com uma certeza imensa: + +--S. Exc.^a sofre de fartura. + +Era fartura! O meu Prncipe sentia abafadamente a fartura de Paris:--e +na Cidade, na simblica Cidade, fora de cuja vida culta e forte (como +ele outrora gritava, iluminado) o homem do sculo XIX nunca poderia +saborear plenamente a delcia de viver, ele no encontrava agora +forma de vida, espiritual ou social, que o interessasse, lhe valesse o +esforo de uma corrida curta numa tipia fcil. Pobre Jacinto! Um +jornal velho, setenta vezes relido desde a Crnica at aos Anncios, +com a tinta delida, as dobras rodas, no enfastiaria mais o Solitrio, +que s possusse na sua Solido esse alimento intelectual, do que o +Parisianismo enfastiava o meu doce camarada! Se eu nesse Vero +capciosamente o arrastava a um Caf-Concerto, ou ao festivo Pavilho +d'Armenonville, o meu bom Jacinto, colado pesadamente cadeira com um +maravilhoso ramo de orqudeas na casaca, as finas mos abatidas sobre o +casto da bengala, conservava toda a noite uma gravidade to estafada, +que eu, compadecido, me erguia, o libertava, gozando a sua pressa em +abalar, a sua fuga de ave solta... Raramente (e ento com veemente +arranque como quem salta um fosso) descia a um dos seus Clubes, ao fundo +dos Campos Elsios. No se ocupara mais das suas Sociedades e +Companhias, nem dos _Telefones de Constantinopla_, nem das _Religies +Esotricas_, nem do _Bazar Espiritualista_, cujas cartas fechadas se +amontoavam sobre a mesa de bano, donde o Grilo as varria tristemente +como o lixo de uma vida finda. Tambm lentamente se despegava de todas as +suas convivncias. As pginas da Agenda cor-de-rosa murcha andavam +desafogadas e brancas. E se ainda cedia a um passeio de Mail-Coach, ou a +um convite para algum Castelo amigo dos arredores de Paris, era to +arrastadamente, com um esforo to saturado ao enfiar o palet leve, +que me lembrava sempre um homem, depois de um gordo jantar de provncia, +a estalar, que, por polidez ou em obedincia a um dogma, devesse ainda +comer uma lampreia de ovos! + +Jazer, jazer em casa, na segurana das portas bem cerradas e bem +defendidas contra toda a intruso do mundo, seria uma doura para o meu +Prncipe se o seu prprio 202, com todo aquele tremendo recheio de +Civilizao, no lhe desse uma sensao dolorosa de abafamento, de +atulhamento! Julho escaldava: e os brocados, as alcatifas, tantos mveis +rolios e fofos, todos os seus metais e todos os seus livros, to +espessamente o oprimiam, que escancarava sem cessar as janelas para +prolongar o espao, a claridade, a frescura. Mas era ento a poeira, +suja e acre, rolada em bafos mornos, que o enfurecia: + +--Oh, este p da Cidade! + +--Mas, oh Jacinto, por que no vamos para Fontainebleau, ou para +Montmorency, ou... + +--P'ra o campo? O qu! P'ra o campo?! + +E na sua face enrugada, atravs deste berro, lampejava sempre tanta +indignao, que eu curvava os ombros, humilde, no arrependimento de ter +afrontosamente ultrajado o Prncipe que tanto amava. Desventurado +Prncipe! Com o seu dourado cigarro de Yaka a fumegar, errava ento pelas +salas, lenta e murchamente, como quem vaga em terra alheia sem afeies +e sem ocupaes. Esses desafeioados e desocupados passos +monotonamente o traziam ao seu centro, ao gabinete verde, Biblioteca +de bano, onde acumulara Civilizao nas mximas propores para gozar +nas mximas propores a delcia de viver. Espalhava em torno um olhar +farto. Nenhuma curiosidade ou interesse lhe solicitavam as mos, +enterradas nas algibeiras das pantalonas de seda, numa inrcia de +derrota. Anulado, bocejava com descorooada moleza. E nada mais +instrutivo e doloroso do que este supremo homem do sculo XIX, no meio +de todos os aparelhos reforadores dos seus rgos, e de todos os fios +que disciplinavam ao seu servio as Foras Universais, e dos seus trinta +mil volumes repletos do saber dos sculos--estacando, com as mos +derrotadas no fundo das algibeiras, e exprimindo, na face e na indeciso +mole de um bocejo, o embarao de viver! + + + + +VI + + +Todas as tardes, cultivando uma dessas intimidades que entre tudo o que +cansa jamais cansam, Jacinto, s quatro horas, com regularidade devota, +visitava Madame d'Oriol:--porque essa flor de Parisianismo permanecera +em Paris, mesmo depois do Grand-Prix, a desbotar na calma e no cisco da +Cidade. Numa dessas tardes, porm, o Telefone, ansiosamente repicado, +avisou Jacinto de que a sua doce amiga jantava em Enghien com os +Trves. (Esses senhores gozavam o seu Vero beira do lago, numa casa +toda branca e vestida de rosinhas brancas que pertencia a Efraim). + +Era um domingo silencioso, enevoado e macio, convidando s +voluptuosidades da melancolia. E eu (no interesse da minha alma) sugeri +a Jacinto que subssemos Baslica do _Sacr-Coeur_, em construo +nos altos de Montmartre. + +-- uma seca, Z Fernandes... + +--Com mil demnios! Eu nunca vi a Baslica... + +--Bem, bem! Vamos Baslica, homem fatal de Noronha e Sande! + +E por fim logo que comemos a penetrar, para alm de S. Vicente de +Paula, em bairros estreitos e ngremes, de uma quietao de provncia, +com muros velhos fechando quintalejos rsticos, mulheres despenteadas +cosendo soleira das portas, carriolas desatreladas descansando diante +das tascas, galinhas soltas picando o lixo, cueiros molhados secando +em canas--o meu fastidioso camarada sorriu quela liberdade e singeleza +das coisas. + +A vitria parou em frente larga rua de escadarias que trepa, cortando +vielazinhas campestres, at esplanada, onde, envolta em andaimes, se +ergue a Baslica imensa. Em cada patamar barracas de arraial devoto, +forradas de paninho vermelho, transbordavam de Imagens, Bentinhos, +Crucifixos, Coraes de Jesus bordados a retrs, claros molhos de +Rosrios. Pelos cantos, velhas agachadas resmungavam a Ave-Maria. Dois +padres desciam, tomando risonhamente uma pitada. Um sino lento tilintava +na doura cinzenta da tarde. E Jacinto murmurou, com agrado: + +-- curioso! + +Mas a Baslica em cima no nos interessou, abafada em tapumes e +andaimes, toda branca e seca, de pedra muito nova, ainda sem alma. E +Jacinto, por um impulso bem Jacntico, caminhou gulosamente para a +borda do terrao, a contemplar Paris. Sob o cu cinzento, na plancie +cinzenta, a Cidade jazia, toda cinzenta, como uma vasta e grossa camada +de calia e telha. E, na sua imobilidade e na sua mudez, algum rolo de +fumo, mais tnue e ralo que o fumear de um escombro mal apagado, era todo +o vestgio visvel da sua vida magnfica. + +Ento chasqueei risonhamente o meu Prncipe. A estava pois a Cidade, +augusta criao da Humanidade! Ei-la a, belo Jacinto! Sobre a crosta +cinzenta da Terra--uma camada de calia, apenas mais cinzenta! No +entanto ainda momentos antes a deixramos prodigiosamente viva, cheia +de um povo forte, com todos os seus poderosos rgos funcionando, +abarrotada de riqueza, resplandecente de sapincia, na triunfal +plenitude do seu orgulho, como Rainha do Mundo coroada de Graa. E agora +eu e o belo Jacinto trepvamos a uma colina, espreitvamos, +escutvamos--e de toda a estridente e radiante Civilizao da Cidade no +percebamos nem um rumor nem um lampejo! E o 202, o soberbo 202, com os +seus arames, os seus aparelhos, a pompa da sua Mecnica, os seus +trinta mil livros? Sumido, esvado na confuso de telha e cinza! Para +este esvaecimento pois da obra humana, mal ela se contempla de cem +metros de altura, arqueja o obreiro humano em to angustioso esforo? +Hein, Jacinto?... Onde esto os teus Armazns servidos por trs mil +caixeiros? E os Bancos em que retine o ouro universal? E as Bibliotecas +atulhadas com o saber dos sculos? Tudo se fundiu numa ndoa parda que +suja a Terra. Aos olhos piscos de um Z Fernandes, logo que ele suba, +fumando o seu cigarro, a uma arredada colina--a sublime edificao dos +Tempos no mais que um silencioso monturo da espessura e da cor do p +final. O que ser ento aos olhos de Deus! + +E ante estes clamores, lanados com afvel malcia para espicaar o meu +Prncipe, ele murmurou, pensativo: + +--Sim, talvez tudo uma iluso... E a Cidade a maior iluso! + +To facilmente vitorioso redobrei de facndia. Certamente, meu +Prncipe, uma Iluso! E a mais amarga, por que o Homem pensa ter na +Cidade a base de toda a sua grandeza e s nela tem a fonte de toda a +sua misria. V, Jacinto! Na Cidade perdeu ele a fora e beleza +harmoniosa do corpo, e se tornou esse ser ressequido e escanifrado ou +obeso e afogado em unto, de ossos moles como trapos, de nervos trmulos +como arames, com cangalhas, com chins, com dentaduras de chumbo, sem +sangue, sem febra, sem vio, torto, corcunda--esse ser em que Deus, +espantado, mal pode reconhecer o seu esbelto e rijo e nobre Ado! Na +Cidade findou a sua liberdade moral: cada manh ela lhe impe uma +necessidade, e cada necessidade o arremessa para uma dependncia: pobre +e subalterno, a sua vida um constante solicitar, adular, vergar, +rastejar, aturar; rico e superior como um Jacinto, a Sociedade logo o +enreda em tradies, preceitos, etiquetas, cerimnias, praxes, ritos, +servios mais disciplinares que os de um crcere ou de um quartel... A +sua tranquilidade (bem to alto que Deus com ele recompensa os Santos) +onde est, meu Jacinto? Sumida para sempre, nessa batalha desesperada +pelo po, ou pela fama, ou pelo poder, ou pelo gozo, ou pela fugidia +rodela de ouro! Alegria como a haver na Cidade para esses milhes de +seres que tumultuam na arquejante ocupao de _desejar_--e que, nunca +fartando o desejo, incessantemente padecem de desiluso, desesperana +ou derrota? Os sentimentos mais genuinamente humanos logo na Cidade se +desumanizam! V, meu Jacinto! So como luzes que o spero vento do +viver social no deixa arder com serenidade e limpidez; e aqui abala e +faz tremer; e alm brutamente apaga; e adiante obriga a flamejar com +desnaturada violncia. As amizades nunca passam de alianas que o +interesse, na hora inquieta da defesa ou na hora sfrega do assalto, ata +apressadamente com um cordel apressado, e que estalam ao menor embate da +rivalidade ou do orgulho. E o Amor, na Cidade, meu gentil Jacinto? +Considera esses vastos armazns com espelhos, onde a nobre carne de Eva +se vende, tarifada ao arrtel, como a de vaca! Contempla esse velho +Deus do Himeneu, que circula trazendo em vez do ondeante facho da Paixo +a apertada carteira do Dote! Espreita essa turba que foge dos largos +caminhos assoalhados em que os Faunos amam as Ninfas na boa lei +natural, e busca tristemente os recantos lbregos de Sodoma ou de +Lesbos!... Mas o que a Cidade mais deteriora no homem a Inteligncia, +porque ou lha arregimenta dentro da banalidade ou lha empurra para a +extravagncia. Nesta densa e pairante camada de Ideias e Frmulas que +constitui a atmosfera mental das Cidades, o homem que a respira, nela +envolto, s pensa todos os pensamentos j pensados, s exprime todas as +expresses j exprimidas:--ou ento, para se destacar na pardacenta e +chata Rotina e trepar ao frgil andaime da glorola, inventa num +gemente esforo, inchando o crnio, uma novidade disforme que espante e +que detenha a multido como um mostrengo numa Feira. Todos, +intelectualmente, so carneiros, trilhando o mesmo trilho, balando o +mesmo balido, com o focinho pendido para a poeira onde pisam, em fila, +as pegadas pisadas;--e alguns so macacos, saltando no topo de mastros +vistosos, com esgares e cabriolas. Assim, meu Jacinto, na Cidade, +nesta criao to antinatural onde o solo de pau e feltro e +alcatro, e o carvo tapa o cu, e a gente vive acamada nos prdios como +o paninho nas lojas, e a claridade vem pelos canos, e as mentiras se +murmuram atravs de arames--o homem aparece como uma criatura +anti-humana, sem beleza, sem fora, sem liberdade, sem riso, sem +sentimento, e trazendo em si um esprito que passivo como um escravo +ou impudente como um histrio... E aqui tem o belo Jacinto o que a +bela Cidade! + +E ante estas encanecidas e venerveis invectivas, retumbadas +pontualmente por todos os Moralistas buclicos, desde Hesodo, atravs +dos sculos--o meu Prncipe vergou a nuca dcil, como se elas +brotassem, inesperadas e frescas, de uma Revelao superior, naqueles +cimos de Montmartre: + +--Sim, com efeito, a Cidade... talvez uma iluso perversa! + +Insisti logo, com abundncia, puxando os punhos, saboreando o meu fcil +filosofar. E se ao menos essa iluso da Cidade tornasse feliz a +totalidade dos seres, que a mantm... Mas no! S uma estreita e +reluzente casta goza na Cidade os gozos especiais que ela cria. O +resto, a escura, imensa plebe, s nela sofre, e com sofrimentos +especiais que s nela existem! Deste terrao, junto a esta rica +Baslica consagrada ao Corao que amou o Pobre e por ele sangrou, bem +avistamos ns o lbrego casario onde a plebe se curva sob esse antigo +oprbrio de que nem Religies, nem Filosofias, nem Morais, nem a sua +prpria fora brutal a podero jamais libertar! A jaz, espalhada pela +Cidade, como esterco vil que fecunda a Cidade. Os sculos rolam; e +sempre imutveis farrapos lhe cobrem o corpo, e sempre debaixo deles, +atravs do longo dia, os homens labutaro e as mulheres choraro. E com +este labor e este pranto dos pobres, meu Prncipe, se edifica a +abundncia da Cidade! Ei-la agora coberta de moradas em que eles se no +abrigam; armazenada de estofos, com que eles se no agasalham; +abarrotada de alimentos, com que eles se no saciam! Para eles s a +neve, quando a neve cai, e entorpece e sepulta as criancinhas aninhadas +pelos bancos das praas ou sob os arcos das pontes de Paris... A neve +cai, muda e branca na treva: as criancinhas gelam nos seus trapos: e a +polcia, em torno, ronda atenta para que no seja perturbado o tpido +sono daqueles que amam a neve, para patinar nos lagos do Bosque de +Bolonha com pelias de trs mil francos. Mas qu, meu Jacinto! a tua +Civilizao reclama insaciavelmente regalos e pompas, que s obter, +nesta amarga desarmonia social, se o Capital der ao Trabalho, por cada +arquejante esforo, uma migalha ratinhada. Irremedivel , pois, que +incessantemente a plebe sirva, a plebe pene! A sua esfalfada misria a +condio do esplendor sereno da Cidade. Se nas suas tigelas fumegasse a +justa rao de caldo--no poderia aparecer nas baixelas de prata a +luxuosa poro de _foie-gras_ e tbaras que so o orgulho da +Civilizao. H andrajos em trapeiras--para que as belas Madamas +d'Oriol, resplandecentes de sedas e rendas, subam, em doce ondulao, a +escadaria da pera. H mos regeladas que se estendem, e beios sumidos +que agradecem o dom magnnimo de um _sou_--para que os Efrains tenham +dez milhes no Banco de Frana, se aqueam chama rica da lenha +aromtica, e surtam de colares de safiras as suas concubinas, netas +dos Duques de Atenas. E um povo chora de fome, e da fome dos seus +pequeninos--para que os Jacintos, em Janeiro, debiquem, bocejando, +sobre pratos de Saxe, morangos gelados em Champanhe e avivados de um fio +de ter! + +--E eu comi dos teus morangos, Jacinto! Miserveis, tu e eu! + +Ele murmurou, desolado: + +-- horrvel, comemos desses morangos... E talvez por uma iluso! + +Pensativamente deixou a borda do terrao, como se a presena da Cidade, +estendida na plancie, fosse escandalosa. E caminhmos devagar, sob a +moleza cinzenta da tarde, filosofando--considerando que para esta +iniquidade no havia cura humana, trazida pelo esforo humano. Ah, os +Efrains, os Trves, os vorazes e sombrios tubares do mar humano, s +abandonaro ou afrouxaro a explorao das Plebes, se uma influncia +celeste, por milagre novo, mais alto que os milagres velhos, lhes +converter as almas! O burgus triunfa, muito forte, todo endurecido no +pecado--e contra ele so impotentes os prantos dos Humanitrios, os +raciocnios dos Lgicos, as bombas dos Anarquistas. Para amolecer to +duro granito s uma doura divina. Eis pois esperana da terra novamente +posta num Messias!... Um decerto desceu outrora dos grandes Cus; e, +para mostrar bem que mandado trazia, penetrou mansamente no mundo pela +porta de um curral. Mas a sua passagem entre os homens foi to curta! Um +meigo sermo numa montanha, ao fim de uma tarde meiga; uma repreenso +moderada aos Fariseus que ento redigiam o _Boulevard_; algumas +vergastadas nos Efrains vendilhes; e logo, atravs da porta da morte, +a fuga radiosa para o Paraso! Esse adorvel filho de Deus teve +demasiada pressa em recolher a casa de seu Pai! E os homens a quem ele +incumbira a continuao da sua obra, envolvidos logo pelas influncias +dos Efrains, dos Trves, da gente do _Boulevard_, bem depressa +esqueceram a lio da Montanha e do lago de Tiberade--e eis que por seu +turno revestem a prpura, e so Bispos, e so Papas, e se aliam +opresso, e reinam com ela, e edificam a durao do seu Reino sobre a +misria dos sem-po e dos sem-lar! Assim tem de ser recomeada a obra da +Redeno. Jesus, ou Guatama, ou Cristna, ou outro desses filhos que +Deus por vezes escolhe no seio de uma Virgem, nos quietos vergis da +sia, dever novamente descer terra de servido. Vir ele, o +desejado? Porventura j algum grave rei do Oriente despertou, e olhou a +estrela, e tomou a mirra nas suas mos reais, e montou pensativamente +sobre o seu dromedrio? J por esses arredores da dura Cidade, de noite, +enquanto Caifs e Madalena ceiam lagosta no Paillard, andou um Anjo, +atento, num voo lento, escolhendo um curral? J de longe, sem moo que +os tanja, na gostosa pressa de um divino encontro, vem trotando a vaca, +trotando o burrinho? + +--Tu sabes, Jacinto? + +No, Jacinto no sabia--e queria acender o charuto. Forneci um +fsforo ao meu Prncipe. Ainda rondmos no terrao, espalhando pelo ar +outras ideias slidas que no ar se desfaziam. Depois penetrvamos na +Baslica--quando um Sacristo ndio, de barrete de veludo, cerrou +fortemente a porta, e um Padre passou, enterrando na algibeira, com um +cansado gesto final e como para sempre, o seu velho Brevirio. + +--Estou com uma sede, Jacinto... Foi esta tremenda Filosofia! + +Descemos a escadaria, armada em arraial devoto. O meu pensativo camarada +comprou uma imagem da Baslica. E saltvamos para a vitria, quando +algum gritou rijamente, numa surpresa: + +--Eh Jacinto! + +O meu Prncipe abriu os braos, tambm espantado: + +--Eh Maurcio! + +E, num alvoroo, atravessou a rua, para um caf, onde, sob o toldo de +riscadinho, um robusto homem, de barba em bico, remexia o seu absinto, +com o chapu de palha descado na nuca, a quinzena solta sobre a camisa +de seda, sem gravata, como se descansasse num banco, entre as sombras +do seu jardim. + +E ambos, apertando as mos, se admiravam daquele encontro, num +domingo de Vero, sobre as alturas de Montmartre. + +--Oh! eu estou aqui no meu bairro! exclamava alegremente Maurcio. Em +famlia, em chinelos... H trs meses que subi para estes cimos da +Verdade... Mas tu na Santa Colina, homem profano da plancie e das ruas +de Israel! + +O meu Prncipe mostrou o seu Z Fernandes: + +--Com este amigo, em peregrinao Baslica... O meu amigo Fernandes +Lorena... Maurcio de Mayolle, velho camarada. + +Mr. de Mayolle (que, pela face larga e nariz nobremente grosso, lembrava +Francisco de Valois, Rei de Frana) ergueu o seu chapu de palha. E +empurrava uma cadeira, insistia que nos acomodssemos para um absinto +ou para um bock. + +--Toma um bock, Z Fernandes! lembrou Jacinto. Tu estavas a ganir com +sede! + +Corri lentamente a lngua sobre os beios, mais secos que pergaminhos: + +--Estou a guardar esta sedezinha para logo, para o jantar, com um +vinhozinho gelado! + +Maurcio saudou, com silenciosa admirao, esta minha avisada malcia. E +imediatamente, para o meu Prncipe: + +--H trs anos que te no vejo, Jacinto... Como tem sido possvel, +neste Paris que uma aldeola e que tu atravancas? + +--A vida, Maurcio, a espalhada vida... Com efeito! H trs anos, +desde a casa dos Lamotte-Orcel. Tu ainda visitas esse santurio? + +Maurcio atirou um gesto desdenhoso e largo, que sacudia um mundo: + +--Oh! H mais de um ano que me separei dessa bicharia hertica... Uma +turba indisciplinada, meu Jacinto! Nenhuma fixidez, um diletantismo +estonteado, carncia completa e cmica de toda a base experimental... +Quando tu ias aos Lamotte-Orcel, e Parola do 37, e _Cerveja Ideal_, +o que reinava?... + +Jacinto catou lentamente as suas recordaes por entre os plos do +bigode: + +--Eu sei!... Reinava Wagner e a Mitologia dica, e o Raganarock, e as +Nornas... Muito Pr-Rafaelismo tambm, e Montagna, e Fra Angelico... Em +moral, o Renanismo. + +Maurcio sacudia os ombros. Oh, tudo isso pertencia a um passado +arcaico, quase lacustre! Quando Madame de Lamotte-Orcel remobilara a +sala com veludos Morris, grossas alcachofras sobre tons de aafro, j o +Renanismo passara, to esquecido como o Cartesianismo... + +--Tu ainda s do tempo do culto do _Eu_? + +O meu Prncipe suspirou risonhamente: + +--Ainda o cultivei. + +--Pois bem! Logo depois foi o Hartmanismo, o Inconsciente. Depois o +Nietzismo, o Feudalismo espiritual... Depois grassou o Tolstosmo, um +furor imenso de renunciamento neo-cenobtico. Ainda me lembro de um +jantar em que apareceu um mostrengo de um eslavo, de guedelha srdida, +que atirava olhos medonhos para o decote da pobre condessa de Arche, e +que grunhia com o dedo espetado:--Busquemos a luz, muito por baixo, no +p da terra!--E sobremesa bebemos delcia da humildade e do +trabalho servil, com aquele Champanhe Marceaux granitado que a Matilde +dava nos grandes dias em copos da forma do San-Gral! Depois veio +Emersonismo... Mas a praga cruel foi Ibsenismo! Enfim, meu filho, uma +Babel de ticas e Estticas. Paris parecia demente. J havia uns +desgarrados que tendiam para o Luciferismo. E amiguinhas nossas, +coitadas, iam descambando para o Falismo, uma moxinifada +mstico-brejeira, pregada por aquele pobre La Carte que depois se fez +Monge Branco, e que anda no Deserto... Um horror! E uma tarde, de +repente, toda esta massa se precipita com nsia para o Ruskinismo! + +Eu, agarrado bengala, bem fincada no cho, sentia como um vendaval que +redemoinhava, me torcia o crnio! E at Jacinto balbuciou, esgazeado: + +--O Ruskinismo? + +--Sim, o velho Ruskin,... John Ruskin! + +O meu ditoso Prncipe compreendeu: + +--Ah, Ruskin!... _As sete lmpadas da Arquitectura_, _A Coroa de +Oliveira Brava_... o culto da Beleza. + +--Sim! O culto da Beleza, confirmou Maurcio. Mas a esse tempo eu, +enojado, j descera de todas essas nuvens vs... Pisava um cho mais +seguro, mais frtil. + +Deu um sorvo lento ao absinto, cerrando as plpebras. Jacinto +esperava, com o seu fino nariz dilatado, como para respirar a Flor de +Novidade que ia desabrochar: + +--E ento? ento?... + +Mas o outro murmurou, dispersamente, por entre reticncias em que se +velava: + +--Vim para Montmartre... Tenho aqui um amigo, um homem de gnio, que +percorreu toda a ndia... Viveu com os Toddas, esteve nos mosteiros de +Garma-Khian e de Dashi-Lumbo, e estudou com Gegen-Chutu no retiro santo +de Urga... Gegen-Chutu foi a dcima sexta encarnao de Guatama, e era +portanto um Boddi-sattva... Trabalhamos, procuramos... No so vises. +Mas factos, experincias bem antigas, que vm talvez desde os tempos de +Cristna... + +Atravs destes nomes, que exalavam um perfume triste de vetustos +ritos, arredara a cadeira. E de p, deixando cair sobre a mesa, +distraidamente, para pagar o absinto, moedas de prata e moedas de +cobre, murmurava com os olhos descansados em Jacinto, mas perdidos +noutra viso: + +--Por fim tudo se reduz ao supremo desenvolvimento da Vontade dentro da +suprema pureza da Vida. toda a cincia e fora dos grandes mestres +Hindus... Mas a pureza absoluta da vida, eis a luta, eis o obstculo! +No basta mesmo o Deserto, nem o bosque do mais velho templo no alto +Tibete... Ainda assim, meu Jacinto, j obtivemos resultados bem +estranhos. Sabes as experincias de Tyndall, com as chamas +sensitivas... O pobre qumico, para demonstrar as vibraes do som, +tocou quase s portas da verdade esotrica. Mas qu! homem de cincia, +portanto homem de estupidez, ficou aqum, entre as suas placas e as suas +retortas! Ns fomos alm. Verificmos as _ondulaes da Vontade_! Diante +de ns, pela expanso da energia do meu companheiro, e em cadncia com o +seu mandado, uma chama, a trs metros, ondulou, rastejou, despediu +lnguas ardentes, lambeu uma alta parede, rugiu furiosa e negra, +resplandeceu direita e silenciosa, e bruscamente abatida em cinza +morreu! + +E o estranho homem, com o chapu para a nuca, ficou imvel, de braos +abertos e os olhares esgazeados, como no renovado assombro e no transe +daquele prodgio. Depois, recaindo no seu modo fcil e sereno, +acendendo de vagar um cigarro: + +--Uma destas manhs, Jacinto, apareo no 202, para almoar contigo, e +levo o meu amigo. Ele s come arroz, uma pouca de salada, e fruta. E +conversamos... Tu tinhas um exemplar do _Sepher-Zerijah_ e outro do +_Targum d'Onkelus_. Preciso folhear esses livros. + +Apertou a mo do meu Prncipe, saudou este assombrado Z Fernandes, e +serenamente seguiu pela quieta rua, com o chapu de palha para a nuca, +as mos enterradas nas algibeiras, como um homem natural entre coisas +naturais. + +--Oh Jacinto! Quem este bruxo? Conta!... Quem ele, santssimo nome +de Deus? + +Recostado na vitria, ajeitando o vinco das calas, o meu Prncipe +contou, concisamente. Era um nobre e leal rapaz, muito rico, muito +inteligente, da antiga casa soberana de Mayolle, descendente dos Duques +de Septimnia... E murmurou, atravs do costumado bocejo: + +--O desenvolvimento supremo da vontade!... Teosofia, Budismo +esotrico... Aspiraes, decepes... J experimentei... Uma maada! + +Atravessamos, calados, o rumor de Paris, sob a moleza abafada do +crepsculo de Vero, para jantar no Bosque, no Pavilho de Armenonville, +onde os Tziganes, avistando Jacinto, tocaram o _Hino da Carta_ com +paixo, com langor, numa cadncia de _czarda_ dolorosa e spera. + +E eu, desdobrando regaladamente o guardanapo: + +--Pois venha agora para a minha rica sede esse vinhozinho gelado! +Grandemente o mereo, caramba, que superiormente filosofei!... E creio +que estabeleci definitivamente no esprito do Sr. D. Jacinto o salutar +horror da cidade! + +O meu Prncipe percorria, catando o bigode, a Lista dos Vinhos, enquanto +o Copeiro, esperava com pensativa reverncia: + +--Mande gelar duas garrafas de champanhe S.^t Marceaux... Mas antes, um +Barsac velho, apenas refrescado... gua de Evian... No, de Bussang! +Bem, d'Evian e de Bussang! E, para comear, um bock. + +Depois, bocejando, desabotoando lentamente a sobrecasaca cinzenta: + +--Pois estou com vontade de construir uma casa nos cimos de Montmartre, +com um miradouro no alto, todo de vidro e ferro, para descansar de tarde +e dominar a Cidade... + + + + +VII + + +Julho findara com uma chuva refrescante e consoladora:--e eu pensava em +realizar finalmente a minha romagem s cidades da Europa, sempre +retardada, atravs da Primavera, pelas surpresas do Mundo e da Carne. +Mas, de repente, Jacinto comeou a rogar e a reclamar que o seu Z +Fernandes o acompanhasse, todas as tardes, a casa de Madame d'Oriol! E +eu compreendi que o meu Prncipe ( maneira do divino Aquiles, que, +sob a tenda, e junto da branca, inspida e dcil Briseis, nunca +dispensava Ptroclo) desejava ter, no retiro do Amor, a presena, o +conforto e o socorro da Amizade. Pobre Jacinto! Logo pela manh +combinava pelo telefone com Madame d'Oriol essa hora de quietao e +doura. E assim encontrvamos sempre a superfina Dama prevenida e +solitria naquela sala da rua de Lisbonne, onde Jacinto e eu mal +cabamos, sufocvamos na confuso, entre os cestos de flores, e os +ouros rocalhados, e os monstros do Japo, e a galante fragilidade dos +Saxes, e as peles de feras estiradas aos ps de sofs adormecedores, e +os biombos de Aubusson formando alcovas favorveis e lnguidas... +Aninhada numa cadeira de bambu lacada de branco, entre almofadas +aromatizadas de verbena da ndia, com um romance pousado no regao, ela +esperava o seu amigo, numa certa indolncia passiva e mansa que me +lembrava sempre o Oriente e um Harm. Mas, pelas frescas sedinhas +Pompadour, parecia tambm uma marquesinha de Versalhes cansada do grande +sculo; ou ento, com brocados sombrios e largos cintos cravejados, era +como uma veneziana, preparada para um Doge. A minha intruso, na +intimidade daquelas tardes, no a contrariava--antes lhe trazia um +vassalo novo, com dois olhos novos para a contemplar. Eu era j o seu +_cher Fernandez_! + +E apenas descerrava os lbios avivados de vermelho, semelhantes a uma +ferida fresca, e comeava a chalrar--logo nos envolvia o burburinho e a +murmurao de Paris. Ela s sabia chalrar sobre a sua pessoa que era o +resumo da sua Classe, e sobre a sua existncia que era o resumo do seu +Paris:--e a sua existncia, desde casada, consistira em ornar com +suprema cincia o seu lindo corpo; entrar com perfeio numa sala e +irradiar; remexer em estofos e conferenciar pensativamente com o grande +costureiro; rolar pelo Bois pousada na sua vitria como uma imagem de +cera; decotar e branquear o colo; debicar uma perna de galinhola em +mesas de luxo; fender turbas ricas em bailes espessos; adormecer com a +vaidade esfalfada; percorrer de manh, tomando chocolate, os Echos e +as Festas do _Figaro_; e de vez em quando murmurar para o marido--Ah, +s tu?... Alm disso, ao lusco-fusco, num sof, alguns certos +suspiros, entre os braos de algum a quem era constante. Ao meu +Prncipe, nesse ano, pertencia o sof. E todos estes deveres de +Cidade e de Casta os cumpria sorrindo. Tanto sorrira, desde casada, que +j duas pregas lhe vincavam os cantos dos beios, indelevelmente. Mas +nem na alma, nem na pele, mostrava outras mculas de fadiga. A sua +Agenda de Visitas continha mil e trezentos nomes, todos do Nobilirio. +Atravs, porm, desta fulgurante sociabilidade arranjara no crebro +(onde de certo penetrara o p de arroz que desde o colgio acamava na +testa) algumas Ideias Gerais. Em Poltica era pelos Prncipes; e todos os +outros horrores, a Repblica, o Socialismo, a Democracia que se no +lava, os sacudia risonhamente, com um bater de leque. Na Semana Santa +juntava s rendas do chapu a Coroa amarga de espinhos--por serem esses, +para a gente bem-nascida, dias de penitncia e dor. E, diante de todo o +Livro ou de todo o Quadro, sentia a emoo e formulava finamente o +juzo, que no seu Mundo, e nessa Semana, fosse elegante formular e +sentir. Tinha trinta anos. Nunca se embaraara nos tormentos de uma +paixo. Marcava, com rgida regularidade, todas as suas despesas num +Livro de Contas encadernado em pelcia verde-mar. A sua religio ntima +(e mais genuna do que a outra, que a levava todos os domingos missa +de S. Philippe du Roule) era a Ordem. No Inverno, logo que na amvel +cidade comeavam a morrer de frio, debaixo das pontes, criancinhas sem +abrigo--ela preparava com comovido cuidado os seus vestidos de +patinagem. E preparava tambm os de Caridade--porque era boa, e +concorria para Bazares, Concertos e Tmbolas, quando fossem patrocinados +pelas Duquesas do seu rancho. Depois, na Primavera, muito +metodicamente, regateando, vendia a uma adela os vestidos e as capas de +Inverno. Paris admirava nela uma suprema flor de Parisianismo. + +Pois respirando esta macia e fina flor passmos ns as tardes desse +Julho enquanto as outras flores pendiam e murchavam na calma e no p. +Mas, na intimidade do seu perfume, Jacinto no parecia encontrar esse +contentamento de alma, que entre tudo que cansa jamais cansa. Era j com +a paciente lentido com que se sobem todos os Calvrios, os mais bem +tapetados, que ele subia a escadaria de Madame d'Oriol, to suave e +orlada de to frescas palmeiras. Quando a apetitosa criatura, com +dedicao, para o entreter, desdobrava a sua vivacidade como um pavo +desdobra a cauda, o meu pobre Prncipe puxava os plos do bigode +murcho, na murcha postura de quem, por uma manh de Maio, enquanto os +melros cantam nas sebes, assiste, numa igreja negra, a um responso +fnebre por um Prncipe. E no beijo que ele chuchurreava sobre a mo da +sua doce amiga, para se despedir, havia sempre alacridade e alvio. + +Mas ao outro dia, ao comear da tarde, depois de errar atravs da +Biblioteca e do Gabinete, puxando sem curiosidade a tira do telgrafo, +atirando algum recado mole pelo telefone, espalhando o olhar +desalentado sobre o saber imenso dos trinta mil livros, remexendo a +colina dos Jornais e Revistas, terminava por me chamar, j com a +preguia triste da faanha a que se impelia: + +--Vamos a casa de Madame d'Oriol, Z Fernandes? Eu tinha marcadas para +hoje seis ou sete coisas, mas no posso, uma seca! Vamos a casa de +Madame d'Oriol... Ao menos l, s vezes, h um bocado de frescura e paz. + +E foi numa dessas tardes, em que o meu Prncipe assim procurava +desesperadamente um bocado de frescura e paz, que encontramos, ao meio +da escadaria suave, entre as palmeiras, o marido de Madame d'Oriol. Eu +j o conhecia--porque Jacinto mo mostrara uma noite, no Grand Caf, +ceando com danarinas do _Moulin Rouge_. Era um moo gordalhufo, +indolente, de uma brancura crua de toucinho, com uma calvcie j sria e +j lustrosa, constantemente acariciada pelos seus gordos dedos +carregados de anis. Nessa tarde, porm, vinha vermelho, todo +emocionado, calando as luvas com clera. Estacou diante de Jacinto--e +sem mesmo lhe apertar a mo, atirando um gesto para o patamar: + +--Visita l acima? Vai achar a Joana em pssima disposio... Tivemos +uma cena, e tremenda. + +Deu outro puxo desesperado luva cor de palha, j esgaada: + +--Estamos separados, cada um vive como lhe apetece, excelente! Mas +em tudo h medida e forma... Ela tem o meu nome, no posso consentir +que em Paris, com conhecimento de todo o Paris, seja a amante do +trintanrio. Amantes na nossa roda, v! Um lacaio, no!... Se quer +dormir com os criados que emigre para o fundo da provncia, para a sua +casa de Corbelle. E l at com os animais!... Foi o que eu lhe disse! +Ficou como uma fera. + +Sacudiu ento a mo do Jacinto que era da sua roda--rebolou pela +escadaria florida e nobre. O meu Prncipe, imvel nos degraus, de face +pendida, cofiava lentamente os fios pendidos do bigode. Depois, olhando +para mim, como um ser saturado de tdio e em quem nenhum tdio novo pode +caber: + +--J agora subamos, sim? + + * * * * * + +Parti ento, com muita alegria, para a minha apetecida romagem s +Cidades da Europa. + +Ia viajar!... Viajei. Trinta e quatro vezes, pressa, bufando, com todo +o sangue na face, desfiz e refiz a mala. Onze vezes passei o dia num +vago, envolto em poeirada e fumo, sufocado, a arquejar, a escorrer de +suor, saltando em cada estao para sorver desesperadamente limonadas +mornas que me escangalhavam a entranha. Catorze vezes subi +derreadamente, atrs de um criado, a escadaria desconhecida de um Hotel; +e espalhei o olhar incerto por um quarto desconhecido; e estranhei uma +cama desconhecida, de onde me erguia, estremunhado, para pedir em lnguas +desconhecidas um caf com leite que me sabia a fava, um banho de tina +que me cheirava a lodo. Oito vezes travei bulhas abominveis na rua com +cocheiros que me espoliavam. Perdi uma chapeleira, quinze lenos, trs +ceroulas, e duas botas, uma branca, outra envernizada, ambas do p +direito. Em mais de trinta mesas-redondas esperei tristonhamente que me +chegasse o _boeuf--la-mode_, j frio, com molho coalhado--e que o +copeiro me trouxesse a garrafa de Bordus que eu provava e repelia com +desditosa carantonha. Percorri, na fresca penumbra dos granitos e dos +mrmores, com p respeitoso e abafado, vinte e nove Catedrais. Trilhei +molemente, com uma dor surda na nuca, em catorze museus, cento e +quarenta salas revestidas at aos tectos de Cristos, heris, santos, +ninfas, princesas, batalhas, arquitecturas, verduras, nudezas, sombrias +manchas de betume, tristezas das formas imveis!... E o dia mais doce +foi quando em Veneza, onde chovia desabaladamente, encontrei um velho +ingls de penca flamejante que habitara o Porto, conhecera o Ricardo, o +Jos Duarte, o Visconde do Bom Sucesso, e as Limas da Boavista... +Gastei seis mil francos. Tinha viajado. + +Enfim, numa bendita manh de Outubro, na primeira friagem e nvoa +de Outono, avistei com enternecido alvoroo as cortinas de seda ainda +fechadas do meu 202! Afaguei o ombro do Porteiro. No patamar, onde +encontrei o ar macio e tpido que deixara em Florena, apertei os ossos +do Grilo excelente: + +--E Jacinto? + +O digno negro murmurou, de entre os altos, reluzentes colarinhos: + +--S. Exc.^a circula... Pesadote, fartote. Entrou tarde do baile da +Duquesa de Loches. Era o contrato de casamento de Mademoiselle de +Loches... Ainda tomou antes de se deitar um ch gelado... E disse a +coar a cabea: Eh! que maada! Eh! que maada! + +Depois do banho e do chocolate, s dez horas, consolado e quentinho +dentro do roupo de veludo, rompi pelo quarto do meu Prncipe, de +braos abertos e sedentos: + +--Oh Jacinto! + +--Oh viajante!... + +Quando nos estreitmos, fartamente, eu recuei para lhe contemplar a +face--e nela a alma. Encolhido numa quinzena de pano cor de malva +orlada de peles de marta, com os plos do bigode murchos, as suas +duas rugas mais cavadas, uma moleza nos ombros largos, o meu amigo +parecia j vergado sob o peso e a opresso e o terror do seu dia. Eu +sorri, para que ele sorrisse: + +--Valente Jacinto... Ento como tens vivido? + +Ele respondeu, muito serenamente: + +--Como um morto. + +Forcei uma gargalhada leve, como se o seu mal fosse leve: + +--Aborrecidote, hein? + +O meu Prncipe lanou, num gesto to vencido, um _oh_ to cansado--que +eu compadecido de novo o abracei, o estreitei, como para lhe comunicar +uma parte desta alegria slida e pura que recebi do meu Deus! + + * * * * * + +Desde essa manh, Jacinto comeou a mostrar claramente, +escancaradamente, ao seu Z Fernandes, o tdio de que a existncia o +saturava. O seu cuidado realmente e o seu esforo consistiram ento em +sondar e formular esse tdio--na esperana de o vencer logo que lhe +conhecesse bem a origem e a potncia. E o meu pobre Jacinto reproduziu +a comdia pouco divertida de um Melanclico que perpetuamente raciocina a +sua Melancolia! Nesse raciocnio, ele partia sempre do facto +irrecusvel e macio--que a sua vida especial de Jacinto continha +todos os interesses e todas as facilidades, possveis no sculo XIX, +numa vida de homem que no um Gnio, nem um Santo. Com efeito! +Apesar do apetite embotado por doze anos de Champanhes e molhos ricos +ele conservava a sua rijeza de pinheiro bravo; na luz da sua +inteligncia no aparecera nem tremor nem morro; a boa terra de +Portugal, e algumas Companhias macias, pontualmente lhe forneciam a +sua doce centena de contos; sempre activas e sempre fiis o cercavam as +simpatias de uma Cidade inconstante e chasqueadora; o 202 estourava de +confortos; nenhuma amargura de corao o atormentava;--e todavia era um +Triste. Porqu?... E daqui saltava, com certeza fulgurante, concluso +de que a sua tristeza, esse cinzento burel em que a sua alma andava +amortalhada, no provinham da sua individualidade de Jacinto--mas da +Vida, do lamentvel, do desastroso facto de Viver! E assim o saudvel, +intelectual, riqussimo, bem-acolhido Jacinto tombara no Pessimismo. + +E um Pessimismo irritado! Porque (segundo afirmava) ele nascera para +ser to naturalmente optimista como um pardal ou um gato. E, at aos +doze anos, enquanto fora um bicho superiormente amimado, com a sua +pele sempre bem coberta, o seu prato sempre bem cheio, nunca sentira +fadiga, ou melancolia, ou contrariedade, ou pena--e as lgrimas eram +para ele to incompreensveis que lhe pareciam viciosas. S quando +crescera, e da animalidade penetrara na humanidade, despontara nele +esse fermento de tristeza, muito tempo indesenvolvido no tumulto das +primeiras curiosidades, e que depois alastrara, o invadira todo, se lhe +tornara consubstancial e como o sangue das suas veias. Sofrer portanto +era inseparvel de Viver. Sofrimentos diferentes nos destinos +diferentes da Vida. Na turba dos humanos a angustiada luta pelo po, +pelo tecto, pelo lume; numa casta, agitada por necessidades mais altas, + a amargura das desiluses, o mal da imaginao insatisfeita, o +orgulho chocando contra obstculo; nele, que tinha os bens todos e +desejos nenhuns, era o tdio. Misria do Corpo, tormento da Vontade, +fastio da Inteligncia--eis a Vida! E agora aos trinta e trs anos a +sua ocupao era bocejar, correr com os dedos desalentados a face +pendida para nela palpar e apetecer a caveira. + +Foi ento que o meu Prncipe comeou a ler apaixonadamente, desde o +_Eclesiastes_ at Schopenhauer, todos os lricos e todos os tericos +do Pessimismo. Nestas leituras encontrava a reconfortante comprovao +de que o seu mal no era mesquinhamente Jacntico--mas grandiosamente +resultante de uma Lei Universal. J h quatro mil anos, na remota +Jerusalm, a Vida, mesmo nas suas delcias mais triunfais, se resumia +em Iluso. J o Rei incomparvel, de sapincia divina, sumo Vencedor, +sumo Edificador, se enfastiava, bocejava, entre os despojos das suas +conquistas, e os mrmores novos dos seus Templos, e as suas trs mil +concubinas, e as Rainhas que subiam do fundo da Etipia para que ele +as fecundasse e no seu ventre depusesse um Deus! No h nada novo sob o +sol, e a eterna repetio das coisas a eterna repetio dos males. +Quanto mais se sabe mais se pena. E o justo como o perverso, nascidos do +p, em p se tornam. Tudo tende ao p efmero, em Jerusalm e em Paris! +E ele, obscuro no 202, padecia por ser homem e por viver--como no seu +trono de ouro, entre os seus quatro lees de ouro, o filho magnfico de +David. + +No se separava ento do _Eclesiastes_. E circulava por Paris trazendo +dentro do coup Salomo, como irmo de dor, com quem repetia o grito +desolado que a suma da verdade humana--_Vanitas Vanitatum_! Tudo +Vaidade! Outras vezes, logo de manh o encontrava estendido no sof, +num roupo de seda, absorvendo Schopenhauer--enquanto o pedicuro, +ajoelhado sobre o tapete, lhe polia com respeito e percia as unhas dos +ps. Ao lado pousava a chvena de Saxe, cheia desse caf de Moca +enviado por emires do Deserto, que no o contentava nunca, nem pela +fora, nem pelo aroma. A espaos pousava o livro no peito, resvalava um +olhar compassivo para o pedicuro, como a procurar que dor o +torturaria--pois que a todo o viver corresponde um sofrer. Decerto o +remexer assim, perpetuamente, em ps alheios... E quando o pedicuro se +erguia, Jacinto abria para ele um sorriso de confraternidade--com um +adeus, meu amigo que era um adeus, meu irmo! + +Esse foi o perodo esplndido e soberbamente divertido do seu tdio. +Jacinto encontrara enfim na vida uma ocupao grata--maldizer a Vida! +E para que a pudesse maldizer em todas as suas formas, as mais ricas, as +mais intelectuais, as mais puras, sobrecarregou a sua vida prpria de +novo luxo, de interesses novos de esprito, e at de fervores +humanitrios, e at de curiosidades supernaturais. + +O 202, nesse Inverno, refulgiu de magnificncia. Foi ento que ele +iniciou em Paris, repetindo Heliogbalo, os Festins de Cor contados na +Histria Augusta: e ofereceu s suas amigas esse sublime jantar cor-de-rosa, +em que tudo era rseo, as paredes, os mveis, as luzes, as louas, +os cristais, os gelados, os Champanhes, e at (por uma inveno da +Alta-Cozinha) os peixes, e as carnes, e os legumes, que os escudeiros +serviam, empoados de p rosado, com librs da cor da rosa, enquanto do +tecto, de um velrio de seda rosada, caam ptalas frescas de rosas... A +Cidade, deslumbrada, clamou--Bravo, Jacinto! E o meu Prncipe, ao +rematar a festa fulgurante, plantou diante de mim as mos nas ilhargas e +gritou triunfalmente:--Hein? Que maada!... + +Depois foi o Humanitarismo: e fundou um Hospcio no campo, entre +jardins, para velhinhos desamparados, outro para crianas dbeis beira +do Mediterrneo. Depois com o major Dorchas, e Mayolle, e o Hindu de +Mayolle penetrou no Teosofismo: e montou tremendas experincias para +verificar a misteriosa _exteriorizao da motilidade_. Depois, +desesperadamente, ligou o 202 com os fios telegrficos do _Times_, para +que no seu gabinete, como num corao, palpitasse toda a vida Social da +Europa. + +E a cada um destes esforos da elegncia, do humanitarismo, da +sociabilidade, e da inteligncia indagadora, voltava para mim, de +braos alegres, com um grito vitorioso:--Vs tu, Z Fernandes? Uma +maada!--Arrebatava ento o seu _Eclesiastes_, o seu Schopenhauer, e, +estendido no sof, saboreava voluptuosamente a concordncia da Doutrina +e da Experincia. Possua uma F--o Pessimismo: era um apstolo rico e +esforado: e tudo tentava, com sumptuosidade, para provar a verdade da +sua F! Muito gozou nesse ano o meu desgraado Prncipe! + +No comeo do Inverno, porm, notei com inquietao que Jacinto j no +folheava o _Eclesiastes_, desleixava Schopenhauer. Nem festas, nem +Teosofismos, nem os seus Hospcios, nem os fios do _Times_, pareciam +interessar agora o meu amigo, mesmo como demonstraes gloriosas da sua +Crena. E a sua abominvel funo de novo se limitou a bocejar, a +passar os dedos moles sobre a face pendida palpando a caveira. +Incessantemente aludia morte como a uma libertao. Uma tarde mesmo, +no melanclico crepsculo da Biblioteca, antes de refulgirem as luzes, +consideravelmente me aterrou, falando num tom regelado de mortes +rpidas, sem dor, pelo choque de uma vasta pilha elctrica ou pela +violncia compassiva do acido ciandrico. Diabo! O Pessimismo, que +aparecera na Inteligncia do meu Prncipe como um conceito +elegante--atacara bruscamente a Vontade! + +Todo o seu movimento ento foi o de um boi inconsciente que marcha sob a +canga e o aguilho. J no esperava da Vida contentamento--nem mesmo se +lastimava que ela lhe trouxesse tdio ou pena. Tudo indiferente, Z +Fernandes! E to indiferentemente sairia sua janela para receber +uma Coroa Imperial oferecida por um Povo--como se estenderia numa +poltrona rota para emudecer e jazer. Sendo tudo intil, e no +conduzindo seno a maior desiluso, que podia importar a mais rutilante +actividade ou a mais desgostada inrcia? O seu gesto constante, que me +irritava, era encolher os ombros. Perante duas ideias, dois caminhos, +dois pratos, encolhia os ombros! Que importava?... E no mnimo acto, +raspar um fsforo ou desdobrar um Jornal, punha uma morosidade to +desconsolada que todo ele parecia ligado, desde os dedos at alma, +pelas voltas apertadas de uma corda que se no via e que o travava. + + * * * * * + +Muito desagradavelmente me recordo do dia dos seus anos, a 10 de +Janeiro. Cedo, de manh, recebera, com uma carta de Madame de Trves, um +aafate de camlias, azleas, orqudeas e lrios do vale. E foi este +mimo que lhe recordou a data considervel. Soprou sobre as ptalas o +fumo do cigarro e murmurou com um riso de lento escrnio: + +--Ento, h trinta e quatro anos que eu ando nesta maada? + +E como eu propunha que telefonssemos aos amigos para beberem no 202 o +Champanhe do Natalcio--ele recusou, com o nariz enojado. Oh! No! +Que horrvel seca!... E bradou mesmo para o Grilo: + +--Eu hoje no estou em Paris para ningum. Abalei para o campo, abalei +para Marselha... Morri! + +E a sua ironia no cessou at ao almoo perante os bilhetes, os +telegramas, as cartas, que subiam, se arredondavam em colina sobre a +mesa de bano, como um preito da Cidade. Outras flores que vieram, em +vistosos cestos, com vistosos laos, foram por ele comparadas s que se +depe sobre uma tumba. E apenas se interessou um momento pelo presente +de Efraim, uma engenhosa mesa, que se abaixava at ao tapete ou se +alteava at ao tecto--para qu, senhor Deus meu? + +Depois do almoo, como chovia sombriamente, no arredmos do 202, com os +ps estendidos ao lume, em preguioso silncio. Eu terminara por +adormecer beatificamente. Acordei aos passos aodados do Grilo... +Jacinto, enterrado na poltrona, com umas tesouras, recortava um papel! +E nunca eu me compadeci daquele amigo, que cansara a mocidade a +acumular todas as noes formuladas desde Aristteles e a juntar todos +os inventos realizados desde Tharamenes, como nessa tarde de festa, em +que ele, cercado de Civilizao nas mximas propores para gozar nas +mximas propores a delcia de viver, se encontrava reduzido, junto ao +seu lar, a recortar papis com uma tesoura! + +O Grilo trazia um presente do Gro-Duque--uma caixa de prata, forrada +de cedro, e cheia de um ch precioso, colhido, flor a flor, nas veigas de +Kiang-Sou por mos puras de virgens, e conduzido atravs da sia, em +caravanas, com a venerao de uma relquia. Ento, para despertar o nosso +torpor, lembrei que tomssemos o divino ch--ocupao bem harmnica com +a tarde triste, a chuva grossa alagando os vidros, e a clara chama +bailando no fogo. Jacinto acedeu--e um escudeiro acercou logo a mesa +de Efraim para que ns lhe estressemos os servios destros. Mas o meu +Prncipe, depois de a altear, para meu espanto, at aos cristais do +lustre, no conseguiu, apesar de uma suada e desesperada batalha com as +molas, que a mesa regressasse a uma altura humana e caseira. E o +escudeiro de novo a levou, levantada como um andaime, quimrica, +unicamente aproveitvel para o gigante Adamastor. Depois veio a caixa do +ch entre chaleiras, lmpadas, coadores, filtros, todo um fausto de +alfaias de prata, que comunicavam a essa ocupao, to simples e doce +em casa de minha tia, _fazer ch_, a majestade de um rito. Prevenido pelo +meu camarada da sublimidade daquele ch de Kiang-Sou, ergui a chvena +aos lbios com reverncia. Era uma infuso descorada que sabia a malva e +a formiga. Jacinto provou, cuspiu, blasfemou... No tommos ch. + +Ao cabo doutro pensativo silncio, murmurei, com os olhos perdidos no +lume: + +--E as obras de Tormes? A igreja... J haver igreja nova? + +Jacinto retomara o papel e a tesoura: + +--No sei... No tornei a receber carta do Silvrio... Nem imagino onde +param os ossos... Que lgubre histria! + +Depois chegou a hora das luzes e do jantar. Eu encomendara pelo Grilo +ao nosso magistral cozinheiro uma larga travessa de arroz doce, com as +iniciais de Jacinto e a data ditosa em canela, moda amvel da nossa +meiga terra. E o meu Prncipe mesa, percorrendo a lmina de marfim +onde no 202 se inscreviam os pratos a lpis vermelho, louvou com fervor +a ideia patriarcal: + +--Arroz doce! Est escrito com dois _ss_, mas no tem dvida... +Excelente lembrana! H que tempos no como arroz doce!... Desde a +morte da av. + +Mas quando o arroz doce apareceu triunfalmente, que vexame! Era um +prato monumental, de grande arte! O arroz, macio, moldado em forma de +pirmide do Egipto, emergia de uma calda de cereja, e desaparecia sob os +frutos secos que o revestiam at ao cimo, onde se equilibrava uma +coroa de Conde feita de chocolate e gomos de tangerina gelada! E as +iniciais, a data, to lindas e graves na canela ingnua, vinham +traadas nas bordas da travessa com violetas pralinadas! Repelimos, +num mudo horror, o prato acanalhado. E Jacinto, erguendo o copo de +Champanhe, murmurou como num funeral pago: + +--_Ad Manes_, aos nossos mortos! + +Recolhemos Biblioteca, a tomar o caf no conchego e alegria do lume. +Fora, o vento bramava como num ermo serrano: e as vidraas tremiam, +alagadas, sob as btegas da chuva irada. Que dolorosa noite para os dez +mil pobres que em Paris erram sem po e sem lar! Na minha aldeia, entre +cerro e vale, talvez assim rugisse a tormenta. Mas a cada pobre, sob +o abrigo da sua telha v, com a sua panela atestada de couves, se +agacha no seu mantu ao calor da lareira. E para os que no tenham lenha +ou couve, l est o Joo das Quintas, ou a tia Vicncia, ou o abade, +que conhecem todos os pobres pelos seus nomes, e com eles contam, como +sendo dos seus, quando o carro vai ao mato e a fornada entra no forno. +Ah Portugal pequenino, que ainda s doce aos pequeninos! + +Suspirei, Jacinto preguiava. E terminmos por remexer languidamente os +jornais que o mordomo trouxera, num monte facundo, sobre uma salva de +prata--jornais de Paris, jornais de Londres, Semanrios, Magazines, +Revistas, Ilustraes... Jacinto desdobrava, arremessava: das Revistas +espreitava o sumrio, logo farto; s Ilustraes rasgava as folhas com +o dedo indiferente, bocejando por cima das gravuras. Depois, mais +estirado para o lume: + +-- uma seca... No h que ler. + +E de repente, revoltado contra este fastio opressor que o escravizava, +saltou da poltrona com um arranque de quem despedaa algemas, e ficou +erecto, dardejando em torno um olhar imperativo e duro, como se +intimasse aquele seu 202, to abarrotado de Civilizao, a que por um +momento sequer fornecesse sua alma um interesse vivo, sua vida um +fugitivo gosto! Mas o 202 permaneceu insensvel: nem uma luz, para o +animar, avivou o seu brilho mudo: s as vidraas tremeram sob o embate +mais rude de gua e vento. + +Ento o meu Prncipe, sucumbido, arrastou os passos at ao seu +gabinete, comeou a percorrer todos os aparelhos completadores e +facilitadores da Vida--o seu Telgrafo, o seu Telefone, o seu +Fongrafo, o seu Radimetro, o seu Graffono, o seu Microfone, a +sua Mquina de Escrever, a sua Mquina de Contar, a sua Imprensa +Elctrica, a outra Magntica, todos os seus utenslios, todos os seus +tubos, todos os seus fios... Assim um Suplicante percorre altares +donde espera socorro. E toda a sua sumptuosa Mecnica se conservou +rgida, reluzindo frigidamente, sem que uma roda girasse, nem uma lmina +vibrasse, para entreter o seu Senhor. + +S o relgio monumental, que marcava a hora de todas as capitais e o +curso de todos os planetas, se compadeceu, batendo a meia-noite, +anunciando ao meu amigo que mais um Dia partira levando o seu +peso--diminuindo esse sombrio peso da Vida, sob que ele gemia, vergado. +O Prncipe da Gr-Ventura, ento, decidiu recolher para a cama--com um +livro... E durante um momento, estacou no meio da Biblioteca, +considerando os seus setenta mil volumes estabelecidos com pompa e +majestade como Doutores num Conclio--depois as pilhas tumulturias dos +livros novos que esperavam pelos cantos, sobre o tapete, o repouso e a +consagrao das estantes de bano. Torcendo molemente o bigode caminhou +por fim para a regio dos Historiadores: espreitou sculos, farejou +raas: pareceu atrado pelo esplendor do Imprio Bizantino: penetrou +na Revoluo Francesa donde se arredou desencantado: e palpou com mo +indeliberada toda a vasta Grcia desde a criao de Atenas at a +aniquilao de Corinto. Mas bruscamente virou para a fila dos Poetas, +que reluziam em marroquins claros, mostrando, sobre a lombada, em ouro, +nos ttulos fortes ou lnguidos, o interior das suas almas. No +apeteceu nenhuma dessas seis mil almas--e recuou, desconsolado, at +aos Bilogos... To macia e cerrada era a estante de Biologia que o +meu pobre Jacinto estarreceu, como ante uma cidadela inacessvel! +Rolou a escada--e, fugindo, trepou, at s alturas da Astronomia: +destacou astros, recolocou mundos: todo um Sistema Solar desabou com +fragor. Aturdido, desceu, comeou a procurar por sobre as rimas das +obras novas, ainda brochadas, nas suas roupas leves de combate. +Apanhava, folheava, arremessava: para desentulhar um volume, demolia uma +torre de doutrinas: saltava por cima dos Problemas, pisava as Religies: +e relanceando uma linha, esgravatando alm num ndice, todos +interrogava, de todos se desinteressava, rolando quase de rastos, nas +grossas vagas de tomos que rolavam, sem se poder deter, na nsia de +encontrar um Livro! Parou ento no meio da imensa nave, de ccoras, sem +coragem, contemplando aqueles muros todos forrados, aquele cho todo +alastrado, os seus setenta mil volumes--e, sem lhes provar a substncia, +j absolutamente saciado, abarrotado, nauseado pela opresso da sua +abundncia. Findou por voltar ao monto de jornais amarrotados, ergueu +melancolicamente um velho _Dirio de Notcias_, e com ele debaixo do +brao subiu ao seu quarto, para dormir, para esquecer. + + + + +VIII + + +Ao fim desse Inverno escuro e pessimista, uma manh que eu preguiava +na cama, sentindo atravs da vidraa cheia de sol ainda plido um bafo +de Primavera ainda tmido--Jacinto assomou porta do meu quarto, +revestido de flanelas leves, de uma alvura de aucena. Parou lentamente + beira dos colches, e, com gravidade, como se anunciasse o seu +casamento ou a sua morte, deixou desabar sobre mim esta declarao +formidvel: + +--Z Fernandes, vou partir para Tormes. + +O pulo com que me sentei abalou o rijo leito de pau preto do velho D. +Galeo: + +--Para Tormes? Oh Jacinto, quem assassinaste?... + +Deleitado com a minha emoo, o Prncipe da Gr-Ventura tirou da +algibeira uma carta, e encetou estas linhas, j decerto relidas, +fundamente estudadas: + +--Il.^{mo} e Exc.^{mo} sr.--Tenho grande satisfao em comunicar a +V. Exc.^a que por toda esta semana devem ficar prontas as obras da +capela... + +-- do Silvrio? exclamei. + +-- do Silvrio. ...as obras da capela nova. Os venerandos restos dos +excelsos avs de V. Exc.^a, senhores de todo o meu respeito, podem pois +ser em breve trasladados da igreja de S. Jos, onde tm estado +depositados por bondade do nosso Abade, que muito se recomenda a V. +Exc.^a... Submisso, aguardo as prestantes ordens de V. Exc.^a a respeito +desta majestosa e aflitiva cerimnia... + +Atirei os braos, compreendendo: + +--Ah! bem! Queres ir assistir trasladao... + +Jacinto sumiu a carta no bolso. + +--Pois no te parece, Z Fernandes? No por causa dos outros avs, que +so ossos vagos, e que eu no conheci. por causa do av Galeo... +Tambm no o conheci. Mas este 202 est cheio dele; tu ests deitado +na cama dele; eu ainda uso o relgio dele. No posso abandonar ao +Silvrio e aos caseiros o cuidado de o instalarem no seu jazigo novo. +H aqui um escrpulo de decncia, de elegncia moral... Enfim, decidi. +Apertei os punhos na cabea, e gritei--_vou a Tormes_! E vou!... E tu +vens! + +Eu enfiara as chinelas, apertava os cordes do roupo: + +--Mas tu sabes, meu bom Jacinto, que a casa de Tormes est +inabitvel... + +Ele cravou em mim os olhos aterrados. + +--Medonha, hein? + +--Medonha, medonha, no... uma bela casa, de bela pedra. Mas os +caseiros, que l vivem h trinta anos, dormem em catres, comem o caldo + lareira, e usam as salas para secar o milho. Creio que os nicos +mveis de Tormes, se bem recordo, so um armrio, e uma espineta de +charo, coxa, j sem teclas. + +O meu pobre Prncipe suspirou, com um gesto rendido em que se abandonava +ao Destino: + +--Acabou!... _Alea jacta est!_ E como s partimos para Abril, h tempo de +pintar, de assoalhar, de envidraar... Mando daqui de Paris tapetes e +camas... Um estofador de Lisboa vai depois forrar e disfarar algum +buraco... Levamos livros, uma Mquina para fabricar gelo... E mesmo +uma ocasio de pr enfim numa das minhas casas de Portugal alguma +decncia e ordem. Pois no achas? E ento essa! Uma casa que data de +1410... Ainda existia o Imprio Bizantino! + +Eu espalhava, com o pincel, sobre a face, flocos lentos de sabo. O meu +Prncipe acendeu muito pensativamente um cigarro; e no se arredou do +toucador, considerando o meu preparo com uma ateno triste que me +incomodava. Por fim, como se remoesse uma sentena minha, para lhe +reter bem a moral e o suco: + +--Ento, definitivamente, Z Fernandes, entendes que um dever, um +absoluto dever, ir eu a Tormes? + +Afastei do espelho a cara ensaboada para encarar com divertido espanto o +meu Prncipe: + +--Oh Jacinto! foi em ti, s em ti que nasceu a ideia desse dever! E +honra te seja, menino... No cedas a ningum essa honra! + +Ele atirou o cigarro--e, com as mos enterradas nas algibeiras das +pantalonas, vagou pelo quarto, topando nas cadeiras, embicando contra os +postes torneados do velho leito de D. Galeo, num balano vago, como +barco j desamarrado do seu seguro ancoradouro, e sem rumo no mar +incerto. Depois encalhou sobre a mesa onde eu conservava enfileirada, +por gradaes de sentimentos, desde o daguerretipo do pap at +fotografia do _Carocho_ perdigueiro, a galeria da minha Famlia. + +E nunca o meu Prncipe (que eu contemplava esticando os suspensrios) me +pareceu to corcovado, to minguado, como gasto por uma lima que desde +muito o andasse fundamente limando. Assim viera findar, desfeita em +Civilizao, naquele super-requintado magricelas sem msculo e sem +energia, a raa fortssima dos Jacintos! Esses guedelhudos Jacintes, +que nas suas altas terras de Tormes, de volta de bater o moiro no Salado +ou o castelhano em Valverde, nem mesmo despiam as fuscas armaduras para +lavrar as suas chs e amarrar a vide ao olmo, edificando o Reino com a +lana e com a enxada, ambas to rudes e rijas! E agora, ali estava +aquele ltimo Jacinto, um Jacintculo, com a macia pele embebida em +aromas, a curta alma enrodilhada em Filosofias, travado e suspirando +baixinho na mida indeciso de viver. + +--Oh Z Fernandes, quem esta lavradeirona to rechonchuda? + +Estendi o pescoo para a Fotografia que ele erguera dentre a minha +galeria, no seu honroso caixilho de pelcia escarlate: + +--Mais respeito, Sr. D. Jacinto... Um pouco mais de respeito, +cavalheiro!... minha prima Joaninha, de Sandofim, da Casa da Flor da +Malva. + +--Flor da Malva, murmurou o meu Prncipe. a casa do Condestvel, de +Nun'lvares. + +--Flor da Rosa, homem! A casa do Condestvel era na Flor da Rosa, no +Alentejo... Essa tua ignorncia trapalhona das coisas de Portugal! + +O meu Prncipe deixou escorregar molemente a fotografia da minha +prima dentre os dedos moles--que levou face, no seu gesto horrendo +de palpar atravs da face a caveira. Depois, de repente, com um soberbo +esforo, em que se endireitou e cresceu: + +--Bem! _Alea jacta est!_ Partamos pois para as serras!... E agora nem +reflexo, nem descanso!... obra! E a caminho! + +Atirou a mo ao fecho dourado da porta como se fosse o negro loquete que +abre os Destinos--e no corredor gritou pelo Grilo, com uma larga e +aodada voz que eu nunca lhe conhecera, e me lembrou a de um Chefe +ordenando, na alvorada, que se levante o Acampamento, e que a Hoste +marche, com pendes e bagagens... + +Logo nessa manh (com uma actividade em que eu reconheci a pressa +enjoada de quem bebe leo de rcino), escreveu ao Silvrio mandando +caiar, assoalhar, envidraar o casaro. E depois do almoo apareceu na +Biblioteca, chamado violentamente pelo telefone, para combinar a +remessa de moblias e confortos, o director da _Companhia Universal de +Transportes_. + +Era um homem que parecia o cartaz da sua Companhia, apertado num +jaqueto de xadrezinho escuro, com polainas de jornada sobre botas +brancas, uma sacola de marroquim a tiracolo, e na botoeira uma roseta +multicor resumindo as suas condecoraes exticas de Madagscar, de +Nicargua, da Prsia, outras ainda, que provavam a universalidade dos +seus servios. Apenas Jacinto mencionou Tormes, no Douro...--ele +logo, atravs de um sorriso superior, estendeu o brao, detendo outros +esclarecimentos, na sua intimidade minuciosa com essas regies. + +--Tormes... Perfeitamente! Perfeitamente! + +Sobre o joelho, na carteira, escrevinhou uma fugidia nota--enquanto eu +considerava, assombrado, a vastido do seu saber Corogrfico, assim +familiar com os recantos de uma serra de Portugal e com todos os seus +velhos solares. J ele atirara a carteira para o bolso... E ns, seus +caros senhores, no tnhamos seno a encaixotar as roupas, as moblias, +as preciosidades! Ele mandaria as suas carroas buscar os caixotes, a +que poria, em grossa letra, com grossa tinta, o endereo... + +--Tormes, perfeitamente! Linha Norte-Espanha-Medina-Salamanca... +Perfeitamente! Tormes... Muito pitoresco! E antigo, histrico! +Perfeitamente, perfeitamente! + +Desengonou a cabea numa vnia profundssima--e saiu da Biblioteca, +com passos que devoravam lguas, anunciavam a presteza dos seus +Transportes. + +--V tu, murmurou Jacinto muito srio. Que prontido, que +facilidade!... Em Portugal era uma tragdia. No h seno Paris! + +Comeou ento no 202 o colossal encaixotamento de todos os confortos +necessrios ao meu Prncipe para um ms de serra spera--camas de pena, +banheiras de nquel, lmpadas Carcel, divs profundos, cortinas para +vedar as gretas rudes, tapetes para amaciar os soalhos broncos. Os +stos, onde se arrecadavam os pesados trastes do av Galeo, foram +esvaziados--porque o casaro medieval de 1410 comportava os trems +romnticos de 1830. De todos os armazns de Paris chegavam cada manh +fardos, caixas, temerosos embrulhos que os emaladores desfaziam, +atulhando os corredores de montes de palha e de papel pardo, onde os +nossos passos aodados se enrodilhavam. O cozinheiro, esbaforido, +organizava a remessa de fornalhas, geleiras, bocais de trufas, latas de +conservas, bojudas garrafas de guas minerais. Jacinto, lembrando as +trovoadas da serra, comprou um imenso pra-raios. Desde o amanhecer, +nos ptios, no jardim, se martelava, se pregava, com vasto fragor, como +na construo de uma cidade. E o desfilar das bagagens, atravs do +porto, lembrava uma pgina de Herdoto contando a marcha dos Persas. + +Das janelas, Jacinto com o brao estendido, saboreava aquela +actividade e aquela disciplina: + +--V tu, Z Fernandes, que facilidade!... Samos do 202, chegamos +serra, encontramos o 202. No h seno Paris! + +Recomeara a amar a Cidade, o meu Prncipe, enquanto preparava o seu +xodo. Depois de ter, toda a manh, apressado os encaixotadores, +descortinado confortos novos para o abandonado solar, telefonado gordas +listas de encomendas a cada loja de Paris--era com delcia que se +vestia, se perfumava, se floria, se enterrava na vitria ou saltava +para a almofada do faton, e corria ao Bosque, e saudava a barba +talmdica do Efraim, e os bands furiosamente negros da Verghane, e o +Psiclogo de fiacre, e a condessa de Trves na sua nova caleche de +oito molas fornecida pelas operaes conjuntas da Bolsa e da alcova. +Depois arrebanhava amigos para jantares de surpresa no Voisin ou no +Bignon, onde desdobrava o guardanapo com a impacincia de uma fome +alegre, vigiando fervorosamente que os Bordus estivessem bem aquecidos +e os Champanhes bem granitados. E no teatro das _Nouveauts_, no +_Palais Royal_, nos _Buffos_, ria, batendo na coxa, com encanecidas +faccias de encanecidas farsas, antiqussimos trejeitos de antiqussimos +actores, com que j rira na sua infncia, antes da guerra, sob o segundo +Napoleo! + +De novo, em duas semanas, se abarrotaram as pginas da sua Agenda. A +magnificncia do seu traje, como imperador Frederico II de Subia, +deslumbrou, no baile mascarado da Princesa de Cravon-Rogan (onde tambm +fui, de moo de forcado.) E na _Associao para o Desenvolvimento das +Religies Esotricas_ discursou e batalhou bravamente pela construo +de um Templo Budista em Montmartre! + +Com espanto meu recomeou tambm a conversar, como nos tempos de Escola, +da famosa Civilizao nas suas mximas propores. Mandou encaixotar o +seu velho telescpio para o usar em Tormes. Receei mesmo que no seu +esprito germinasse a ideia de criar, no cimo da serra, uma Cidade com +todos os seus rgos. Pelo menos no consentia o meu Jacinto que essas +semanas da silvestre Tormes interrompessem a ilimitada acumulao das +noes--porque uma manh rompeu pelo meu quarto, desolado, gritando que +entre tantos confortos e formas de Civilizao esquecramos os livros! +Assim era--e que vexame para a nossa Intelectualidade! Mas que livros +escolher entre os facundos milhares sob que vergava o 202? O meu +Prncipe decidiu logo dedicar os seus dias serranos ao estudo da +Histria Natural--e ns mesmos, imediatamente, deitmos para o fundo +de um vasto caixote novo, como lastro, os vinte e cinco tomos de Plnio. +Despejmos depois para dentro, s braadas, Geologia, Mineralogia, +Botnica... Espalhmos por cima uma camada area de Astronomia. E, para +fixar bem no caixote estas Cincias oscilantes, entalmos em redor +cunhas de Metafsica. + +Mas quando a derradeira caixa, pregada e cintada de ferro, saiu do +porto do 202 na derradeira carroa da _Companhia dos Transportes_, toda +esta animao de Jacinto se abateu como a efervescncia num copo de +Champanhe. Era em meados j tpidos de Maro. E de novo os seus +desagradveis bocejos atroaram o 202, e todos os sofs rangeram sob o +peso do corpo que ele lhe atirava para cima, mortalmente vencido pela +fartura e pelo tdio, num desejo de repouso eterno, bem envolto de +solido e silncio. Desesperei. O qu! Aturaria eu ainda aquele +Prncipe palpando amargamente a caveira, e, quando o crepsculo +entristecia a Biblioteca, aludindo, num tom rouco, doura das +mortes rpidas pela violncia misericordiosa do acido ciandrico? Ah +no, caramba! E uma tarde em que o encontrei estirado sobre um div, de +braos em cruz, como se fosse a sua esttua de mrmore sobre o seu +jazigo de granito, positivamente o abanei com furor, berrando: + +--Acorda, homem! Vamos para Tormes! O casaro deve estar pronto, a +reluzir, a abarrotar de coisas! Os ossos de teus avs pedem repouso, em +cova sua!... A caminho, a enterrar esses mortos, e a vivermos ns, os +vivos!... Irra! So cinco de Abril!... o bom tempo da serra! + +O meu Prncipe ressurgiu lentamente da inrcia de pedra: + +--O Silvrio no me escreveu, nunca me escreveu... Mas, com efeito, +deve estar tudo preparado... J l temos certamente criados, o +cozinheiro de Lisboa... Eu s levo o Grilo, e o Anatole que enverniza +bem o calado, e tem jeito como pedicuro... Hoje Domingo. + +Atirou os ps para o tapete, com herosmo: + +--Bem, partimos no Sbado!... Avisa tu o Silvrio! + +Comeou ento o laborioso e pensativo estudo dos Horrios--e o dedo +magro de Jacinto, por sobre o mapa, avanando e recuando entre Paris e +Tormes. Para escolher o salo que devamos habitar durante a temida +jornada, duas vezes percorremos o depsito da Estao de Orlans, +atolados em lama, atrs do Chefe do Trfico que entontecia. O meu +Prncipe recusava este salo por causa da cor tristonha dos estofos; +depois recusava aquele por causa da mesquinhez aflitiva do +Water-Closet! Uma das suas inquietaes era o banho, nas manhs que +passaramos rolando. Sugeri uma banheira de borracha. Jacinto, +indeciso, suspirava... Mas nada o aterrou como o transbordo em Medina del +Campo, de noite, nas trevas da Velha Castela. Debalde a Companhia do +Norte de Espanha e a de Salamanca, por cartas, por telegramas, +sossegaram o meu camarada, afirmando que, quando ele chegasse no +comboio de Irun dentro do seu salo, j outro salo ligado ao comboio de +Portugal esperaria, bem aquecido, bem alumiado, com uma ceia que lhe +ofertava um dos Directores, D. Esteban Castillo, ruidoso e rubicundo +conviva do 202! Jacinto corria os dedos ansiosos pela face:--E os +sacos, as peles, os livros, quem os transportaria do salo de Irun +para o salo de Salamanca? Eu berrava, desesperado, que os carregadores +de Medina eram os mais rpidos, os mais destros de toda a Europa! Ele +murmurava:--Pois sim, mas em Espanha, de noite!... A noite, longe da +Cidade, sem telefone, sem luz elctrica, sem postos de polcia, parecia +ao meu Prncipe povoada de surpresas e assaltos. S acalmou depois de +verificar no Observatrio Astronmico, sob a garantia do sbio professor +Bertrand, que a noite da nossa jornada era de lua cheia! + +Enfim, na sexta-feira, findou a tremenda organizao daquela viagem +histrica! O sbado predestinado amanheceu com generoso sol, de +afagadora doura. E eu acabava de guardar na mala, embrulhadas em papel +pardo, as fotografias das criaturinhas suaves que, nesses vinte e +sete meses de Paris, me tinham chamado _mon petit chou! mon rat +cheri!_--quando Jacinto rompeu pelo quarto, com um soberbo ramo de +orqudeas na sobrecasaca, plido e todo nervoso. + +--Vamos ao Bosque, por despedida? + +Fomos-- grande despedida! E que encanto! At nas almofadas e molas da +vitria senti logo uma elasticidade mais embaladora. Depois, pela +Avenida do Bosque, quase me pesava no ficar sempiternamente rolando, ao +trote rimado das guas perfeitas, no rebrilho rico de metais e vernizes, +sobre aquele macadame mais alisado que mrmore, entre to bem regadas +flores e relvas de to tentadora frescura, cruzando uma Humanidade fina, +de elegncia bem acabada, que almoara o seu chocolate em porcelanas de +Svres ou de Minton, sara de entre sedas e tapetes de trs mil francos, +e respirava a beleza de Abril com vagar, requinte e pensamentos +ligeiros! O Bosque resplandecia numa harmonia de verde, azul e ouro. +Nenhuma cova ou terra solta desalisava as polidas leas que a Arte +traou e enroscou na espessura--nenhum esgalho desgrenhado desmanchava +as ondulaes macias da folhagem que o Estado escova e lava. O piar das +aves apenas se elevava para espalhar uma graa leve de vida alada;--e +mais natural parecia, entre o arvoredo socivel, o ranger das selas +novas, onde pousavam, com balano esbelto, as amazonas espartilhadas +pelo grande Redfern. Em frente ao Pavilho de Armenonville cruzmos +Madame de Trves, que nos envolveu ambos na carcia do seu sorriso, mais +avivado quela hora pelo vermelho ainda hmido. Logo atrs a barba +talmdica de Efraim negrejou, fresca tambm da brilhantina da manh, no +alto de um faton tilintante. Outros amigos de Jacinto circulavam nas +Accias--e as mos que lhe acenavam, lentas e afveis, calavam luvas +frescas cor de palha, cor de prola, cor de lils. Todelle relampejou +rente de ns sobre uma grande bicicleta. Dornan, alastrado numa cadeira +de ferro, sob um espinheiro em flor, mamava o seu imenso charuto, como +perdido na busca de rimas sensuais e ndias. Adiante foi o Psiclogo, +que nos no avistou, conversando com um requebro melanclico para dentro +de um coup que rescendia a alcova, e a que um cocheiro obeso imprimia +dignidade e decncia. E rolvamos ainda, quando o Duque de Marizac, a +cavalo, ergueu a bengala, estacou a nossa vitria para perguntar a +Jacinto se aparecia noite nos quadros vivos dos Verghanes. O meu +Prncipe rosnou um--no, parto para o sul...--que mal lhe passou +de entre os bigodes murchos... E Marizac lamentou--porque era uma festa +estupenda. Quadros vivos da Histria Sagrada e da Histria Romana!... +Madame Verghane, de Madalena, de braos nus, peitos nus, pernas nuas, +limpando com os cabelos os ps do Cristo!--O Cristo, um latago +soberbo, parente dos Trves, empregado no Ministrio da Guerra, gemendo, +derreado, sob uma cruz de papelo! Havia tambm Lucrcia na cama, e +Tarqunio ao lado, de punhal, a puxar os lenis! E depois ceia, em +mesas soltas, todos nos seus trajes histricos. Ele j estava +aparceirado com Madame de Malbe, que era Agripina! Quadro portentoso +esse--Agripina morta, quando Nero a vem contemplar e lhe estuda as +formas, admirando umas, desdenhando outras como imperfeitas. Mas, por +polidez, ficara combinado que Nero admiraria sem reserva todas as formas +de Madame de Malbe... Enfim colossal, e estupendamente instrutivo! + +Acenmos um longo adeus quele alegre Marizac. E recolhemos sem que +Jacinto emergisse do silncio enrugado em que se abismara, com os +braos rigidamente cruzados, como remoendo pensamentos decisivos e +fortes. Depois, em frente ao Arco de Triunfo, moveu a cabea, murmurou: + +-- muito grave, deixar a Europa! + + * * * * * + +Enfim, partimos! Sob a doura do crepsculo que se enublara deixmos o +202. O Grilo e o Anatole seguiam num fiacre atulhado de livros, de +estojos, de palets, de impermeveis, de travesseiras, de guas +minerais, de sacos de couro, de rolos de mantas: e mais atrs um +nibus rangia sob a carga de vinte e trs malas. Na Estao, Jacinto +ainda comprou todos os Jornais, todas as Ilustraes, Horrios, mais +livros, e um saca-rolhas de forma complicada e hostil. Guiados pelo +Chefe do Trfico, pelo Secretrio da Companhia, ocupmos copiosamente o +nosso salo. Eu pus o meu bon de seda, calcei as minhas chinelas. Um +silvo varou a noite. Paris lampejou, fugiu num derradeiro claro de +janelas... Para o sorver, Jacinto ainda se arremessou portinhola. +Mas rolvamos j na treva da Provncia. O meu Prncipe ento recaiu nas +almofadas: + +--Que aventura, Z Fernandes! + +At Chartres, em silncio, folhemos as Ilustraes. Em Orlans, o +guarda veio arranjar respeitosamente as nossas camas. Derreado com +aqueles catorze meses de Civilizao adormeci--e s acordei em Bordus +quando Grilo, zeloso, nos trouxe o nosso chocolate. Fora, uma chuva +miudinha pingava molemente de um espesso cu de algodo sujo. Jacinto +no se deitara, desconfiado da aspereza e da humidade dos lenis. E, +metido num roupo de flanela branco, com a face arrepiada e +estremunhada, ensopando um bolo no chocolate, rosnava sombriamente: + +--Este horror!... E agora com chuva! + +Em Biarritz, ambos observmos com uma certeza indolente: + +-- Biarritz. + +Depois Jacinto, que espreitava pela janela embaciada, reconheceu o +lento caminhar pernalto, o nariz bicudo e triste, do Historiador Danjon. +Era ele, o facundo homem, vestido de xadrezinho, ao lado de uma dama +rolia que levava pela trela uma cadelinha felpuda. Jacinto baixou a +vidraa violentamente, berrou pelo Historiador, na nsia de comunicar +ainda, atravs dele, com a Cidade, com o 202!... Mas o comboio +mergulhara na chuva e nvoa. + +Sobre a ponte do Bidassoa, antevendo o termo da vida fcil, os abrolhos +da Incivilizao, Jacinto suspirou com desalento: + +--Agora adeus, comea a Espanha!... + +Indignado, eu, que j saboreava o generoso ar da terra bendita, saltei +para diante do meu Prncipe, e num saracoteio de tremendo salero, +castanholando os dedos, entoei uma petenera condigna: + +A la puerta de mi casa +Ay Soledad, Soleda... ... ... . + +Ele estendeu os braos, suplicante: + +--Z Fernandes, tem piedade do enfermo e do triste! + +--_Irun_! _Irun_!... + +Nessa Irun almomos com suculncia--porque sobre ns velava, como +Deusa omnipresente, a Companhia do Norte. Depois el jefe d'Aduana, el +jefe d'Estacion, preciosamente nos instalaram noutro salo, novo, com +cetins cor de azeitona, mas to pequeno que uma rica poro dos nossos +confortos em mantas, livros, sacos e impermeveis, passou para o +compartimento do _Sleeping_ onde se repoltreavam o Grilo e o Anatole, +ambos de bons escoceses, e fumando gordos charutos.--_Buen viaje_! +_Gracias_! _Servidores_!--E entrmos silvando nos Pirenus. + +Sob a influncia da chuva embaciadora, daquelas serras sempre iguais, +que se desenrolavam, arrepiadas, diludas na nvoa, resvalei a uma +sonolncia doce;--e, quando descerrava as plpebras, encontrava +Jacinto a um canto, esquecido do livro fechado nos joelhos, sobre que +cruzara os magros dedos, considerando vales e montes com a melancolia +de quem penetra nas terras do seu desterro! Um momento veio em que, +arremessando o livro, enterrando mais o chapu mole, se ergueu com +tanta deciso, que receei detivesse o comboio para saltar estrada, +correr atravs das Vascongadas e da Navarra, para trs, para o 202! +Sacudi o meu torpor, exclamei:--oh menino!... No! O pobre amigo ia +apenas continuar o seu tdio para outro canto, enterrado noutra +almofada, com outro livro fechado. E maneira que a escurido da tarde +crescia, e com ela a borrasca de vento e gua, uma inquietao mais +aterrada se apoderava do meu Prncipe, assim desgarrado da Civilizao, +arrastado para a Natureza que j o cercava de brutalidade agreste. No +cessou ento de me interrogar sobre Tormes: + +--As noites so horrveis, hein, Z Fernandes? Tudo negro, enorme +solido... E mdico?... H mdico? + +Subitamente o comboio estacou. Mais grossa e ruidosa a chuva fustigou as +vidraas. Era um descampado, todo em treva, onde rolava e lufava um +grande vento solto. A Mquina apitava, com angstia. Uma lanterna +lampejou, correndo. Jacinto batia o p:-- medonho! medonho!... +Entreabri a portinhola. Da claridade incerta das vidraas surdiam +cabeas esticadas, assustadas.--_Que hay_? _Que hay_?--A uma rajada, +que me alagou, recuei:--e espermos durante lentos, calados minutos, +esfregando desesperadamente os vidros embaciados para sondar a +escurido. De repente o comboio recomeou a rolar, muito sereno. + +Em breve apareceram as luzinhas mortas de uma estao abarracada. Um +condutor, com o casaco de oleado todo a escorrer, trepou ao salo:--e +por ele soubemos, enquanto carimbava apressadamente os bilhetes, que o +trem, muito atrasado, talvez no alcanasse em Medina o comboio de +Salamanca! + +--Mas ento?... + +O casaco de oleado escorregara pela portinhola, fundido na noite, +deixando um cheiro de humidade e azeite. E ns encetmos um novo +tormento... Se o trem de Salamanca tivesse abalado? O salo, tomado at +Medina, desengatava em Medina:--e eis os nossos preciosos corpos, com as +nossas preciosas almas, despejados em Medina, para cima da lama, entre +vinte e trs malas, numa rude confuso espanhola, sob a tormenta de +ventania e de gua! + +--Oh, Z Fernandes, uma noite em Medina! + +Ao meu Prncipe aparecia como desventura suprema essa noite em Medina, +numa _fonda_ srdida, fedendo a alho, com gordas filas de percevejos +atravs dos lenis de estopa encardida!... No cessei ento de fitar, +num desassossego, os ponteiros do relgio:--enquanto Jacinto, pela +vidraa escancarada, todo fustigado da chuva clamorosa, furava a +negrura, na esperana de avistar as luzes de Medina e um comboio +paciente fumegando... Depois recaa no div, limpava os bigodes e os +olhos, maldizia a Espanha. O trem arquejava, rompendo o vasto vento da +planura desolada. E a cada apito era um alvoroo. Medina?... No! Algum +sumido apeadeiro, onde o trem se atardava, esfalfado, resfolgando, +enquanto dormentes figuras encarapuadas, embrulhadas em mantas, +rondavam sob o telheiro do barraco, que as lanternas baas tornavam +mais soturno. Jacinto esmurrava o joelho:--Mas por que pra este +infame comboio? No h trfico, no h gente! Oh esta Espanha!... A +sineta badalava, moribunda. De novo fendamos a noite e a borrasca. + +Resignadamente comecei a percorrer um _Jornal do Comrcio_, antigo, +trazido de Paris. Jacinto esmagava o espesso tapete do salo com +passadas rancorosas, rosnando como uma fera. E ainda assim se escoou, s +gotas, uma hora cheia de eternidade.--Um silvo, outro silvo!... Luzes +mais fortes, longe, palpitaram na neblina. As rodas trilharam, com rijos +solavancos, os encontros de carris. Enfim, Medina!... Um muro sujo de +barraco alvejou--e bruscamente, portinhola aberta com violncia, +aparece um cavalheiro barbudo, de capa espanhola, gritando pelo Sr. +D. Jacinto!... Depressa! depressa! que parte o comboio de Salamanca! + +--Que no hay un momento, caballeros! Que no hay un momento! + +Agarro estonteadamente o meu palet, o _Jornal do Comrcio_. Saltmos +com nsia:--e, pela plataforma, por sobre os trilhos, atravs de +charcos, tropeando em fardos, empurrados pelo vento, pelo homem da capa + espanhola, enfimos outra portinhola, que se fechou com um estalo +tremendo... Ambos arquejvamos. Era um salo forrado de um pano verde +que comia a luz escassa. E eu estendia o brao, para receber dos +carregadores aodados as nossas malas, os nossos livros, as nossas +mantas--quando, em silncio, sem um apito, o trem despegou e rolou. +Ambos nos atirmos s vidraas, em brados furiosos: + +--Pare! As nossas malas, as nossas mantas!... P'ra aqui!... Oh Grilo! +Oh Grilo! + +Uma imensa rajada levou os nossos brados. Era de novo o descampado +tenebroso, sob a chuva despenhada. Jacinto ergueu os punhos, num furor +que o engasgava: + +--Oh! Que servio! Oh que canalhas!... S em Espanha!... E agora? As +malas perdidas!... Nem uma camisa, nem uma escova! + +Calmei o meu desgraado amigo: + +--Escuta! eu entrevi dois carregadores arrebanhando as nossas coisas... +Decerto o Grilo fiscalizou. Mas na pressa, naturalmente, atirou com +tudo para o seu compartimento... Foi um erro no trazer o Grilo +connosco, no salo... At podamos jogar a manilha! + +De resto a solicitude da Companhia, Deusa omnipresente, velava sobre o +nosso conforto--pois que porta do lavatrio branquejava o cesto da +nossa ceia, mostrando na tampa um bilhete de D. Esteban com estas doces +palavras a lpis--_ D. Jacinto y su egregio amigo, que les d gusto_! +Farejei um aroma de perdiz. E alguma tranquilidade nos penetrou no +corao sentindo tambm as nossas malas sob a tutela da Deusa +omnipresente. + +--Tens fome Jacinto? + +--No. Tenho horror, furor, rancor!... E tenho sono. + +Com efeito! depois de to desencontradas emoes s apetecamos as +camas que esperavam, macias e abertas. Quando ca sobre a travesseira, +sem gravata, em ceroulas, j o meu Prncipe, que no se despira, apenas +embrulhara os ps no _meu_ palet, nosso nico agasalho, ressonava com +majestade. + +Depois, muito tarde e muito longe, percebi junto do meu catre, na +claridadezinha da manh, coada pelas cortinas verdes, uma fardeta, um +bon, que murmuravam baixinho com imensa doura: + +--V. Exc.^as no tm nada a declarar?... No h malinhas de mo?... + +Era a minha terra! Murmurei baixinho com imensa ternura: + +--No temos aqui nada... Pergunte V. Exc.^a pelo Grilo... A atrs, +num compartimento... Ele tem as chaves, tem tudo... o Grilo. + +A fardeta desapareceu, sem rumor, como sombra benfica. E eu readormeci +com o pensamento em Guies, onde a tia Vicncia, atarefada, de leno +branco cruzado no peito, de certo j preparava o leito. + +Acordei envolto num largo e doce silncio. Era uma Estao muito +sossegada, muito varrida, com rosinhas brancas trepando pelas paredes--e +outras rosas em moitas, num jardim, onde um tanquezinho abafado de +limos dormia sob duas mimosas em flor que rescendiam. Um moo plido, +de palet cor de mel, vergando a bengalinha contra o cho, contemplava +pensativamente o comboio. Agachada rente grade da horta, uma velha, +diante da sua cesta de ovos, contava moedas de cobre no regao. Sobre o +telhado secavam abboras. Por cima rebrilhava o profundo, rico e macio +azul de que meus olhos andavam aguados. + +Sacudi violentamente Jacinto: + +--Acorda, homem, que ests na tua terra! + +Ele desembrulhou os ps do meu palet, cofiou o bigode, e veio sem +pressa, vidraa que eu abrira, conhecer a sua terra. + +--Ento Portugal, hein?... Cheira bem. + +--Est claro que cheira bem, animal! + +A sineta tilintou languidamente. E o comboio deslizou, com descanso, +como se passeasse para seu regalo sobre as duas fitas de ao, assobiando +e gozando a beleza da terra e do cu. + +O meu Prncipe alargava os braos, desolado: + +--E nem uma camisa, nem uma escova, nem uma gota de gua-de-colnia!... +Entro em Portugal, imundo! + +--Na Rgua h uma demora, temos tempo de chamar o Grilo, reaver os +nossos confortos... Olha para o rio! + +Rolvamos na vertente de uma serra, sobre penhascos que desabavam at +largos socalcos cultivados de vinhedo. Em baixo, numa esplanada, +branquejava uma casa nobre, de opulento repouso, com a capelinha muito +caiada entre um laranjal maduro. Pelo rio, onde a gua turva e tarda nem +se quebrava contra as rochas, descia, com a vela cheia, um barco lento +carregado de pipas. Para alm, outros socalcos, de um verde plido de +reseda, com oliveiras apoucadas pela amplido dos montes, subiam at +outras penedias que se embebiam, todas brancas e assoalhadas, na fina +abundncia do azul. Jacinto acariciava os plos corredios do bigode: + +--O Douro, hein?... interessante, tem grandeza. Mas agora que eu +estou com uma fome, Z Fernandes! + +Tambm eu! Destapamos o cesto de D. Esteban donde surdiu um bodo +grandioso, de presunto, anho, perdizes, outras viandas frias que o ouro +de duas nobres garrafas de Amontillado, alm de duas garrafas de Rioja, +aqueciam com um calor de sol Andaluz. Durante o presunto, Jacinto +lamentou contritamente o seu erro. Ter deixado Tormes, um solar +histrico, assim abandonado e vazio! Que delcia, por aquela manh to +lustrosa e tpida, subir serra, encontrar a sua casa bem apetrechada, +bem civilizada... Para o animar, lembrei que com as obras do Silvrio, +tantos caixotes de Civilizao remetidos de Paris, Tormes estaria +confortvel mesmo para Epicuro. Oh! mas Jacinto entendia um palcio +perfeito, um 202 no deserto!... E, assim discorrendo, atacmos as +perdizes. Eu desarrolhava uma garrafa de Amontillado--quando o comboio, +muito sorrateiramente, penetrou numa Estao. Era a Rgua. E o meu +Prncipe pousou logo a faca para chamar o Grilo, reclamar as malas que +traziam o asseio dos nossos corpos. + +--Espera, Jacinto! Temos muito tempo, O comboio pra aqui uma hora... +Come com tranquilidade. No escangalhemos este almocinho com arrumaes +de maletas... O Grilo no tarda a aparecer. + +E corri mesmo a cortina, porque de fora um padre muito alto, com uma +ponta de cigarro colada ao beio, parara a espreitar indiscretamente o +nosso festim. Mas quando acabmos as perdizes, e Jacinto confiadamente +desembrulhava um queijo manchego, sem que Grilo ou Anatole +comparecessem, eu, inquieto, corri portinhola para apressar esses +servos tardios... E nesse instante o comboio, largando, deslizou com o +mesmo silncio sorrateiro. Para o meu Prncipe foi um desgosto: + +--A ficamos outra vez sem um pente, sem uma escova... E eu que queria +mudar de camisa! Por culpa tua, Z Fernandes! + +-- espantoso!... Demora sempre uma eternidade. Hoje chega e abala! +Pacincia, Jacinto. Em duas horas estamos na Estao de Tormes... +Tambm no valia a pena mudar de camisa para subir serra! Em casa +tomamos um banho, antes de jantar... J deve estar instalada a +banheira. + +Ambos nos consolmos com copinhos de uma divina aguardente Chinchon. +Depois, estendidos nos sofs, saboreando os dois charutos que nos +restavam, com as vidraas abertas ao ar adorvel, conversmos de Tormes. +Na estao certamente estaria o Silvrio, com os cavalos... + +--Que tempo leva a subir? + +Uma hora. Depois de lavados sobrava tempo para um demorado passeio pelas +terras com o caseiro, o excelente Melchior, para que o Senhor de +Tormes, solenemente, tomasse posse do seu Senhorio. E noite o +primeiro brdio da serra, com os pitus vernculos do velho Portugal! + +Jacinto sorria, seduzido: + +--Vamos a ver que cozinheiro me arranjou esse Silvrio. Eu recomendei +que fosse um soberbo cozinheiro portugus, clssico. Mas que soubesse +trufar um peru, afogar um bife em molho de moela, estas coisas simples +da cozinha de Frana!... O pior no te demorares, seguires logo para +Guies... + +--Ah, menino, anos da tia Vicncia no sbado... Dia sagrado! Mas +volto. Em duas semanas estou em Tormes, para fazermos uma larga +Buclica. E, est claro, para assistir trasladao. + +Jacinto estendera o brao: + +--Que casaro aquele, alm no outeiro, com a torre? + +Eu no sabia. Algum solar de fidalgote do Douro... Tormes era nesse +feitio atarracado e macio. Casa de sculos e para sculos--mas sem +torre. + +--E logo se v, da estao, Tormes?... + +--No! Muito no alto, numa prega da serra, entre arvoredo. + +No meu Prncipe j evidentemente nascera uma curiosidade pela sua rude +casa ancestral. Mirava o relgio, impaciente. Ainda trinta minutos! +Depois, sorvendo o ar e a luz, murmurava, no primeiro encanto de +iniciado: + +--Que doura, que paz... + +--Trs horas e meia, estamos a chegar, Jacinto! + +Guardei o meu velho _Jornal do Comrcio_ dentro do bolso do palet, +que deitei sobre o brao;--e ambos em p, s janelas, espermos com +alvoroo a pequenina Estao de Tormes, termo ditoso das nossas +provaes. Ela apareceu enfim, clara e simples, beira do rio, entre +rochas, com os seus vistosos girassis enchendo um jardinzinho breve, as +duas altas figueiras assombreando o ptio, e por trs a serra coberta de +velho e denso arvoredo... Logo na plataforma avistei com gosto a imensa +barriga, as bochechas menineiras do chefe da Estao, o louro Pimenta, +meu condiscpulo em Retrica, no Liceu de Braga. Os cavalos decerto +esperavam, sombra, sob as figueiras. + +Mal o trem parou ambos saltmos alegremente. A bojuda massa do Pimenta +rebolou para mim com amizade: + +--Viva o amigo Z Fernandes! + +--Oh belo Pimento!... + +Apresentei o senhor de Tormes. E imediatamente: + +--Ouve l, Pimentinha... No est a o Silvrio? + +--No... O Silvrio h quase dois meses que partiu para Castelo de +Vide, ver a me que apanhou uma cornada de um boi! + +Atirei a Jacinto um olhar inquieto: + +--Ora essa! E o Melchior, o caseiro?... Pois no esto a os cavalos +para subirmos quinta? + +O digno chefe ergueu com surpresa as sobrancelhas cor de milho: + +--No!... Nem Melchior, nem cavalos... O Melchior... H que tempos eu +no vejo o Melchior! + +O carregador badalou lentamente a sineta para o comboio rolar. Ento, +no avistando em torno, na lisa e despovoada Estao, nem criados nem +malas, o meu Prncipe e eu lanmos o mesmo grito de angstia: + +--E o Grilo? as bagagens?... + +Corremos pela beira do comboio, berrando com desespero: + +--Grilo!... Oh Grilo!... Anatole!... Oh Grilo! + +Na esperana que ele e o Anatole viessem mortalmente adormecidos, +trepvamos aos estribos, atirando a cabea para dentro dos +compartimentos, espavorindo a gente quieta com o mesmo berro que +retumbava:--Grilo, ests a, Grilo?--J de uma terceira classe, onde +uma viola repenicava, um jocoso gania, troando:--No h por a um +grilo? Andam por a uns senhores a pedir um grilo!--E nem Anatole, +nem Grilo! + +A sineta tilintou. + +--Oh Pimentinha, espera, homem, no deixes largar o comboio!... As +nossas bagagens, homem! + +E, aflito, empurrei o enorme chefe para o furgo de carga, a +pesquisar, descortinar as nossas vinte e trs malas! Apenas encontrmos +barris, cestos de vime, latas de azeite, um ba amarrado com cordas... +Jacinto mordia os beios, lvido. E o Pimentinha, esgazeado: + +--Oh filhos, eu no posso atrasar o comboio!... + +A sineta repicou... E com um belo fumo claro o comboio desapareceu por +detrs das fragas altas. Tudo em torno pareceu mais calado e deserto. +Ali ficvamos pois baldeados, perdidos na serra, sem Grilo, sem +procurador, sem caseiro, sem cavalos, sem malas! Eu conservava o +palet alvadio, donde surdia o _Jornal do Comrcio_. Jacinto, uma +bengala. Eram todos os nossos bens! + +O Pimento arregalava para ns os olhinhos papudos e compadecidos. +Contei ento quele amigo o atarantado trasfego em Medina sob a +borrasca, o Grilo desgarrado, encalhado com as vinte e trs malas, ou +rolando talvez para Madrid sem nos deixar um leno... + +--Eu no tenho um leno!... Tenho este _Jornal do Comrcio_. toda a +minha roupa branca. + +--Grande arrelia, caramba! murmurava o Pimenta, impressionado. E agora? + +--Agora, exclamei, trepar, para a quinta, pata... A no ser que se +arranjassem a uns burros. + +Ento o carregador lembrou que perto, no casal da Giesta, ainda +pertencente a Tormes, o caseiro, seu compadre, tinha uma boa gua e um +jumento... E o prestante homem enfiou numa carreira para a +Giesta--enquanto o meu Prncipe e eu caamos para cima de um banco, +arquejantes e sucumbidos, como nufragos. O vasto Pimentinha, com as +mos nas algibeiras, no cessava de nos contemplar, de murmurar:-- de +arrelia.--O rio defronte descia, preguioso e como adormentado sob a +calma j pesada de Maio, abraando, sem um sussurro, uma larga ilhota de +pedra que rebrilhava. Para alm a serra crescia em corcovas doces, com +uma funda prega onde se aninhava, bem junta e esquecida do mundo, uma +vilazinha clara. O espao imenso repousava num imenso silncio. +Naquelas solides de monte e penedia os pardais, revoando no telhado, +pareciam aves considerveis. E a massa rotunda e rubicunda do Pimentinha +dominava, atulhava a regio. + +--Est tudo arranjado, meu senhor! Vm a os bichos!... S o que no +calhou foi um selinzinho para a jumenta! + +Era o carregador, digno homem, que voltava da Giesta, sacudindo na mo +duas esporas desirmanadas e ferrugentas. E no tardaram a aparecer no +crrego, para nos levarem a Tormes, uma gua rua, um jumento com +albarda, um rapaz e um podengo. Apertmos a mo suada e amiga do +Pimentinha. Eu cedi a gua ao senhor de Tormes. E comemos a trepar o +caminho, que no se alisara nem se desbravara desde os tempos em que o +trilhavam, com rudes sapates ferrados, cortando de rio a monte, os +Jacintos do sculo XIV! Logo depois de atravessarmos uma trmula ponte +de pau, sobre um riacho quebrado por pedregulhos, o meu Prncipe, com o +olho de dono subitamente aguado, notou a robustez e a fartura das +oliveiras...--E em breve os nossos males esqueceram ante a incomparvel +beleza daquela serra bendita! + +Com que brilho e inspirao copiosa a compusera o divino Artista que faz +as serras, e que tanto as cuidou, e to ricamente as dotou, neste seu +Portugal bem-amado! A grandeza igualava a graa. Para os vales, +poderosamente cavados, desciam bandos de arvoredos, to copados e +redondos, de um verde to moo que eram como um musgo macio onde +apetecia cair e rolar. Dos pendores, sobranceiros ao carreiro fragoso, +largas ramadas estendiam o seu toldo amvel, a que o esvoaar leve dos +pssaros sacudia a fragrncia. Atravs dos muros seculares, que sustm +as terras liados pelas heras, rompiam grossas razes coleantes a que +mais hera se enroscava. Em todo o torro, de cada fenda, brotavam flores +silvestres. Brancas rochas, pelas encostas, alastravam a slida nudez do +seu ventre polido pelo vento e pelo sol; outras, vestidas de lquen e de +silvados floridos, avanavam como proas de galeras enfeitadas: e, +dentre as que se apinhavam nos cimos, algum casebre que para l +galgara, todo amachucado e torto, espreitava pelos postigos negros, sob +as desgrenhadas farripas de verdura, que o vento lhe semeara nas telhas. +Por toda a parte a gua sussurrante, a gua fecundante... Espertos +regatinhos fugiam, rindo com os seixos, dentre as patas da gua e do +burro; grossos ribeiros aodados saltavam com fragor de pedra em pedra; +fios direitos e luzidios como cordas de prata vibravam e faiscavam das +alturas aos barrancos; e muita fonte, posta beira de veredas, jorrava +por uma bica, beneficamente, espera dos homens e dos gados... Todo um +cabeo por vezes era uma seara, onde um vasto carvalho ancestral, +solitrio, dominava como seu senhor e seu guarda. Em socalcos verdejavam +laranjais rescendentes. Caminhos de lajes soltas circundavam fartos +prados com carneiros e vacas retouando:--ou mais estreitos, entalados +em muros, penetravam sob ramadas de parra espessa, numa penumbra de +repouso e frescura. Trepvamos ento alguma ruazinha de aldeia, dez ou +doze casebres, sumidos entre figueiras, onde se esgaava, fugindo do lar +pela telha v, o fumo branco e cheiroso das pinhas. Nos cerros remotos, +por cima da negrura pensativa dos pinheirais, branquejavam ermidas. O ar +fino e puro entrava na alma, e na alma espalhava alegria e fora. Um +esparso tilintar de chocalhos de guizos morria pelas quebradas... + +Jacinto adiante, na sua gua rua, murmurava: + +--Que beleza! + +E eu atrs, no burro de Sancho, murmurava: + +--Que beleza! + +Frescos ramos roavam os nossos ombros com familiaridade e carinho. Por +trs das sebes, carregadas de amoras, as macieiras estendidas ofereciam +as suas mas verdes, porque as no tinham maduras. Todos os vidros +de uma casa velha, com a sua cruz no topo, refulgiram hospitaleiramente +quando ns passmos. Muito tempo um melro nos seguia, de azinheiro a +olmo, assobiando os nossos louvores. Obrigado, irmo melro! Ramos de +macieira, obrigado! Aqui vimos, aqui vimos! E sempre contigo fiquemos, +serra to acolhedora, serra de fartura e de paz, serra bendita entre as +serras! + +Assim, vagarosamente e maravilhados, chegmos quela avenida de faias, +que sempre me encantara pela sua fidalga gravidade. Atirando uma +vergastada ao burro e gua, o nosso rapaz, com o seu podengo sobre os +calcanhares, gritou:--Aqui que estemos, meus amos! E ao fundo das +faias, com efeito, aparecia o porto da quinta de Tormes, com o seu +braso de armas, de secular granito, que o musgo retocava e mais +envelhecia. Dentro j os ces ladravam com furor. E quando Jacinto, na +sua suada gua, e eu atrs, no burro de Sancho, transpusemos o limiar +solarengo, desceu para ns, do alto do alpendre, pela escadaria de pedra +gasta, um homem ndio, rapado como um padre, sem colete, sem jaleca, +acalmando os ces que se encarniavam contra o meu Prncipe. Era o +Melchior, o caseiro... Apenas me reconheceu, toda a boca se lhe +escancarou num riso hospitaleiro, a que faltavam dentes. Mas apenas eu +lhe revelei, daquele cavalheiro de bigodes louros que descia da gua +esfregando os quadris, o senhor de Tormes--o bom Melchior recuou, +colhido de espanto e terror como diante de uma avantesma. + +--Ora essa!... Santssimo nome de Deus! Pois ento... + +E, entre o rosnar dos ces, num bracejar desolado, balbuciou uma +histria que por seu turno apavorava Jacinto, como se o negro muro do +casaro pendesse para desabar. O Melchior no esperava S. Ex.^a! Ningum +esperava S. Ex.^a!... (Ele dizia _sua incelncia_)... O Sr. Silvrio +estava para Castelo de Vide desde Maro, com a me, que apanhara uma +cornada na virilha. E de certo houvera engano, cartas perdidas... Porque +o Sr. Silvrio s contava com S. Exc.^a em Setembro, para a vindima! Na +casa as obras seguiam devagarinho, devagarinho... O telhado, no sul, +ainda continuava sem telhas; muitas vidraas esperavam, ainda sem +vidros; e, para ficar, Virgem Santa, nem uma cama arranjada!... + +Jacinto cruzou os braos numa clera tumultuosa que o sufocava. Por +fim, com um berro: + +--Mas os caixotes? Os caixotes, mandados de Paris, em Fevereiro, h +quatro meses?... + +O desgraado Melchior arregalava os olhos midos, que se embaciavam de +lgrimas. Os caixotes?! Nada chegara, nada aparecera!... E na sua +perturbao mirava pelas arcadas do ptio, palpava na algibeira das +pantalonas. Os caixotes?... No, no tinha os caixotes! + +--E agora, Z Fernandes? + +Encolhi os ombros: + +--Agora, meu filho, s vires comigo para Guies... Mas so duas horas +fartas a cavalo. E no temos cavalos! O melhor ver o casaro, comer +a boa galinha que o nosso amigo Melchior nos assa no espeto, dormir +numa enxerga, e amanh cedo, antes do calor, trotar para cima, para a +tia Vicncia. + +Jacinto replicou, com uma deciso furiosa: + +--Amanh troto, mas para baixo, para a estao!... E depois, para +Lisboa! + +E subiu a gasta escadaria do seu solar com amargura e rancor. Em cima +uma larga varanda acompanhava a fachada do casaro, sob um alpendre de +negras vigas, toda ornada, por entre os pilares de granito, com caixas +de pau onde floriam cravos. Colhi um cravo amarelo---e penetrei atrs +de Jacinto nas salas nobres, que ele contemplava com um murmrio de +horror. Eram enormes, de uma sonoridade de casa capitular, com os grossos +muros enegrecidos pelo tempo e o abandono, e regeladas, desoladamente +nuas, conservando apenas aos cantos algum monte de canastras ou alguma +enxada entre paus. Nos tectos remotos, de carvalho apainelado, luziam +atravs dos rasges manchas de cu. As janelas, sem vidraas, +conservavam essas macias portadas, com fechos para as trancas, que, +quando se cerram, espalham a treva. Sob os nossos passos, aqui e alm, +uma tbua podre rangia e cedia. + +--Inabitvel! rugia Jacinto surdamente. Um horror! Uma infmia!... + +Mas depois, noutras salas, o soalho alternava com remendos de tbuas +novas. Os mesmos remendos claros mosqueavam os velhssimos tectos de +rico carvalho sombrio. As paredes repeliam pela alvura crua da cal +fresca. E o sol mal atravessava as vidraas--embaciadas e gordurentas da +massa e das mos dos vidraceiros. + +Penetrmos enfim na ltima, a mais vasta, rasgada por seis janelas, +mobilada com um armrio e com uma enxerga parda e curta estirada a um +canto: e junto dela parmos, e sobre ela depusemos tristemente o que +nos restava de vinte e trs malas--o meu palet alvadio, a bengala de +Jacinto, e o _Jornal do Comrcio_ que nos era comum. Atravs das +janelas escancaradas, sem vidraas, o grande ar da serra entrava e +circulava como num eirado, com um cheiro fresco de horta regada. Mas o +que avistvamos, da beira da enxerga, era um pinheiral cobrindo um +cabeo e descendo pelo pendor suave, maneira de uma hoste em marcha, +com pinheiros na frente, destacados, direitos, emplumados de negro; mais +longe as serras de alm rio, de uma fina e macia cor de violeta; depois a +brancura do cu, todo liso, sem uma nuvem, de uma majestade divina. E l +debaixo, dos vales, subia, desgarrada e melanclica, uma voz de +pegureiro cantando. + +Jacinto caminhou lentamente para o poial de uma janela, onde caiu +esbarrondado pelo desastre, sem resistncia ante aquele brusco +desaparecimento de toda a Civilizao! Eu palpava a enxerga, dura e +regelada como um granito de Inverno. E pensando nos luxuosos colches de +penas e molas, to prodigamente encaixotados no 202, desafoguei tambm +a minha indignao: + +--Mas os caixotes, caramba?... Como se perdem assim trinta e tantos +caixotes enormes?... + +Jacinto sacudiu amargamente os ombros: + +--Encalhados, por a, algures, num barraco!... Em Medina, talvez, +nessa horrenda Medina. Indiferena das Companhias, inrcia do +Silvrio... Enfim a Pennsula, a barbrie! + +Vim ajoelhar sobre o outro poial, alongando os olhos consolados por cu +e monte: + +-- uma beleza! + +O meu Prncipe, depois de um silncio grave, murmurou, com a face +encostada mo: + +-- uma lindeza... E que paz! + +Sob a janela vicejava fartamente uma horta, com repolho, feijoal, +talhes de alface, gordas folhas de abbora rastejando. Uma eira, velha +e mal alisada, dominava o vale, donde j subia tenuemente a nvoa +de algum fundo ribeiro. Toda a esquina do casaro desse lado se +encravava em laranjal. E de uma fontinha rstica, meio afogada em rosas +tremedeiras, corria um longo e rutilante fio de gua. + +--Estou com apetite desesperado daquela gua! declarou Jacinto, +muito srio. + +--Tambm eu... Desamos ao quintal, hein? E passamos pela cozinha, a +saber do frango. + +Voltmos varanda. O meu Prncipe, mais conciliado com o destino +inclemente, colheu um cravo amarelo. E por outra porta baixa, de +rijssimas ombreiras, mergulhmos numa sala, alastrada de calia, sem +tecto, coberta apenas de grossas vigas, donde se ergueu uma revoada de +pardais. + +--Olha para este horror! murmurava Jacinto arrepiado. + +E descemos por uma lbrega escada de castelo, tenteando depois um +corredor tenebroso de lajes speras, atravancado por profundas arcas, +capazes de guardar todo o gro de uma provncia. Ao fundo a cozinha, +imensa, era uma massa de formas negras, madeira negra, pedra negra, +densas negruras de felugem secular. E neste negrume refulgia a um +canto, sobre o cho de terra negra, a fogueira vermelha, lambendo tachos +e panelas de ferro, despedindo uma fumarada que fugia pela grade aberta +no muro, depois por entre a folhagem dos limoeiros. Na enorme lareira, +onde se aqueciam e assavam as suas grossas peas de porco e boi os +Jacintos medievais, agora desaproveitada pela frugalidade dos caseiros, +negrejava um poeirento monto de cestas e ferramentas; e a claridade +toda entrava por uma porta de castanho, escancarada sobre um quintalejo +rstico em que se misturavam couves lombardas e junquilhos formosos. Em +roda do lume um bando alvoroado de mulheres depenava frangos, remexia +as caarolas, picava a cebola, com um fervor afogueado e palreiro. Todas +emudeceram quando aparecemos--e dentre elas o pobre Melchior, +estonteado, com o sangue a espirrar na ndia face de abade, correu para +ns, jurando que o jantarinho de suas Incelncias no demorava um +credo... + +--E a respeito de camas, oh amigo Melchior? + +O digno homem ciciou uma desculpa encolhida sobre enxergazinhas no +cho... + +-- o que basta! acudi eu, para o consolar. Por uma noite, com lenis +frescos... + +--Ah, l pelos lenoizinhos respondo eu!... Mas um desgosto assim, meu +senhor! A gente apanhada sem um colchozinho de l, sem um lombozinho de +vaca... Que eu j pensei, at lembrei minha comadre, V. Inc.^{as} +podiam ir dormir aos _Ninhos_, a casa do Silvrio. Tinham l camas de +ferro, lavatrios... Ele sempre uma leguazita e mau caminho... + +Jacinto, bondoso, acudiu: + +--No, tudo se arranja, Melchior. Por uma noite!... At gosto mais de +dormir em Tormes, na minha casa da serra! + +Samos ao terreiro, retalho de horta fechado por grossas rochas +encabeladas de verdura, entestando com os socalcos da serra onde +lourejava o centeio. O meu Prncipe bebeu da gua nevada e luzidia da +fonte, regaladamente, com os beios na bica; apeteceu a alface +rechonchuda e crespa; e atirou pulos aos ramos altos de uma copada +cerejeira, toda carregada de cereja. Depois, costeando o velho lagar, a +que um bando de pombas branqueava o telhado, deslizmos at ao carreiro, +cortado no costado do monte. E andando, pensativamente, o meu Prncipe +pasmava para os milheirais, para os vetustos carvalhos plantados por +vetustos Jacintos, para os casebres espalhados sobre os cabeos orla +negra dos pinheirais. + +De novo penetrmos na avenida de faias e transpusemos o porto senhorial +entre o latir dos ces, mais mansos, farejando um dono. Jacinto +reconheceu certa nobreza na frontaria do seu lar. Mas sobretudo lhe +agradava a longa alameda, assim direita e larga, como traada para +nela se desenrolar uma cavalgada de Senhores com plumas e pajens. +Depois, de cima da varanda, reparando na telha nova da capela, louvou o +Silvrio, esse ralao, por cuidar ao menos da morada do Bom-Deus. + +--E esta varanda tambm agradvel, murmurou ele mergulhando a face no +aroma dos cravos. Precisa grandes poltronas, grandes divs de verga... + +Dentro, na nossa sala, ambos nos sentmos nos poiais da janela, +contemplando o doce sossego crepuscular que lentamente se estabelecia +sobre vale e monte. No alto tremeluzia uma estrelinha, a Vnus +diamantina, lnguida anunciadora da noite e dos seus contentamentos. +Jacinto nunca considerara demoradamente aquela estrela, de amorosa +refulgncia, que perpetua no nosso Cu catlico a memria da Deusa +incomparvel:--nem assistira jamais, com a alma atenta, ao majestoso +adormecer da Natureza. E este enegrecimento dos montes que se embuam +em sombra; os arvoredos emudecendo, cansados de sussurrar; o rebrilho +dos casais mansamente apagado; o cobertor de nvoa, sob que se acama e +agasalha a frialdade dos vales; um toque sonolento de sino que rola +pelas quebradas; o segredado cochichar das guas e das relvas +escuras--eram para ele como iniciaes. Daquela janela, aberta sobre +as serras, entrevia uma outra vida, que no anda somente cheia do Homem +e do tumulto da sua obra. E senti o meu amigo suspirar como quem enfim +descansa. + +Deste enlevo nos arrancou o Melchior com o doce aviso do jantarinho de +suas Incelncias. Era noutra sala, mais nua, mais abandonada:--e a +logo porta o meu supercivilizado Prncipe estacou, estarrecido pelo +desconforto, escassez e rudeza das coisas. Na mesa, encostada ao muro +denegrido, sulcado pelo fumo das candeias, sobre uma toalha de estopa, +duas velas de sebo em castiais de lata alumiavam grossos pratos de +loua amarela, ladeados por colheres de estanho e por garfos de ferro. +Os copos, de um vidro espesso, conservavam a sombra roxa do vinho que +neles passara em fartos anos de fartas vindimas. A malga de barro, +atestada de azeitonas pretas, contentaria Digenes. Espetado na cdea +de um imenso po reluzia um imenso facalho. E na cadeira senhorial +reservada ao meu Prncipe, derradeira alfaia dos velhos Jacintos, de +hirto espaldar de couro, com a madeira roda de caruncho, a clina fugia +em melenas pelos rasges do assento pudo. + +Uma formidvel moa, de enormes peitos que lhe tremiam dentro das +ramagens do leno cruzado, ainda suada e esbraseada do calor da lareira, +entrou esmagando o soalho, com uma terrina a fumegar. E o Melchior, que +seguia erguendo a infusa do vinho, esperava que suas Incelncias lhe +perdoassem porque faltara tempo para o caldinho apurar... Jacinto +ocupou a sede ancestral--e, durante momentos (de esgazeada ansiedade +para o caseiro excelente) esfregou energicamente, com a ponta da +toalha, o garfo negro, a fusca colher de estanho. Depois, desconfiado, +provou o caldo, que era de galinha e rescendia. Provou--e levantou para +mim, seu camarada de misrias, uns olhos que brilharam, surpreendidos. +Tornou a sorver uma colherada mais cheia, mais considerada. E sorriu, +com espanto:--Est bom! + +Estava precioso: tinha fgado e tinha moela: o seu perfume enternecia: +trs vezes, fervorosamente, ataquei aquele caldo. + +--Tambm l volto! exclamava Jacinto com uma convico imensa. que +estou com uma fome... Santo Deus! H anos que no sinto esta fome. + +Foi ele que rapou avaramente a sopeira. E j espreitava a porta, +esperando a portadora dos pitus, a rija moa de peitos trementes, que +enfim surgiu, mais esbraseada, abalando o sobrado--e pousou sobre a mesa +uma travessa a transbordar de arroz com favas. Que desconsolo! Jacinto, +em Paris, sempre abominara favas!... Tentou todavia uma garfada +tmida--e de novo aqueles seus olhos, que o pessimismo enevoara, +luziram, procurando os meus. Outra larga garfada, concentrada, com uma +lentido de frade que se regala. Depois um brado: + +--ptimo!... Ah, destas favas, sim! Oh que fava! Que delcia! + +E por esta santa gula louvava a serra, a arte perfeita das mulheres +palreiras que em baixo remexiam as panelas, o Melchior que presidia ao +brdio... + +--Deste arroz com fava nem em Paris, Melchior amigo! + +O homem ptimo sorria, inteiramente desanuviado: + +--Pois c a comidinha dos moos da quinta! E cada pratada, que at +suas Incelncias se riam... Mas agora, aqui, o Sr. D. Jacinto, tambm +vai engordar e enrijar! + +O bom caseiro sinceramente cria que, perdido nesses remotos Parises, o +Senhor de Tormes, longe da fartura de Tormes, padecia fome e mingava... +E o meu Prncipe, na verdade, parecia saciar uma velhssima fome e uma +longa saudade da abundncia, rompendo assim, a cada travessa, em +louvores mais copiosos. Diante do louro frango assado no espeto e da +salada que ele apetecera na horta, agora temperada com um azeite da +serra digno dos lbios de Plato, terminou por bradar:-- divino! Mas +nada o entusiasmava como o vinho de Tormes, caindo de alto, da bojuda +infusa verde--um vinho fresco, esperto, seivoso, e tendo mais alma, +entrando mais na alma, que muito poema ou livro santo. Mirando, vela +de sebo, o copo grosso que ele orlava de leve espuma rsea, o meu +Prncipe, com um resplendor de optimismo na face, citou Virglio: + +--_Quo te carmina dicam, Rethica_? Quem dignamente te cantar, vinho +amvel destas serras? + +Eu, que no gosto que me avantajem em saber clssico, espanejei logo +tambm o meu Virglio, louvando as douras da vida rural: + +--_Hanc olim veteres vitam coluere Sabini_... Assim viveram os velhos +Sabinos. Assim Rmulo e Remo... Assim cresceu a valente Etrria. Assim +Roma se tornou a maravilha do mundo! + +E imvel, com a mo agarrada infusa, o Melchior arregalava para ns +os olhos em infinito assombro e religiosa reverncia. + + * * * * * + +Ah! Jantmos deliciosissimamente, sob os auspcios do Melchior--que +ainda depois, prvido e tutelar, nos forneceu o tabaco. E, como ante ns +se alongava uma noite de monte, voltmos para as janelas desvidraadas, +na sala imensa, a contemplar o sumptuoso cu de Vero. Filosofmos +ento com pachorra e facndia. + +Na Cidade (como notou Jacinto) nunca se olham, nem lembram os +astros--por causa dos candeeiros de gs ou dos globos de electricidade +que os ofuscam. Por isso (como eu notei) nunca se entra nessa +comunho com o Universo que a nica glria e nica consolao da +Vida. Mas na serra, sem prdios disformes de seis andares, sem a +fumaraa que tapa Deus, sem os cuidados que como pedaos de chumbo puxam +a alma para o p rasteiro--um Jacinto, um Z Fernandes, livres, bem +jantados, fumando nos poiais de uma janela, olham para os astros e os +astros olham para eles. Uns, certamente, com olhos de sublime +imobilidade ou de sublime indiferena. Mas outros curiosamente, +ansiosamente, com uma luz que acena, uma luz que chama, como se +tentassem, de to longe, revelar os seus segredos, ou de to longe +compreender os nossos... + +--Oh Jacinto, que estrela esta, aqui, to viva, sobre o beiral do +telhado? + +--No sei... E aquela, Z Fernandes, alm, por cima do pinheiral? + +--No sei. + +No sabamos. Eu, por causa da espessa crosta de ignorncia com que sa +do ventre de Coimbra, minha Me espiritual. Ele, porque na sua +Biblioteca possua trezentos e oito tratados sobre Astronomia, e o +Saber, assim acumulado, forma um monte que nunca se transpe nem se +desbasta. Mas que nos importava que aquele astro alm se chamasse +Srio e aquele outro Aldebar? Que lhes importava a eles que um de +ns fosse Jacinto, outro Z? Eles to imensos, ns to pequeninos, +somos a obra da mesma Vontade. E todos, Uranos ou Lorenas de Noronha e +Sande, constitumos modos diversos de um Ser nico, e as nossas +diversidades esparsas somam na mesma compacta Unidade. Molculas do +mesmo Todo, governadas pela mesma Lei, rolando para o mesmo Fim... Do +astro ao homem, do homem flor do trevo, da flor do trevo ao mar +sonoro--tudo o mesmo Corpo, onde circula, como um sangue, o mesmo +Deus. E nenhum frmito de vida, por menor, passa numa fibra desse +sublime Corpo, que se no repercuta em todas, at s mais humildes, at +s que parecem inertes e invitais. Quando um Sol que no avisto, nunca +avistarei, morre de inanio nas profundidades, esse esguio galho de +limoeiro, em baixo na horta, sente um secreto arrepio de morte:--e, +quando eu bato uma patada no soalho de Tormes, alm o monstruoso Saturno +estremece, e esse estremecimento percorre o inteiro Universo! Jacinto +abateu rijamente a mo no rebordo da janela. Eu gritei: + +--Acredita!... O sol tremeu. + +E depois (como eu notei) devamos considerar que, sobre cada um desses +gros de p luminoso, existia uma criao, que incessantemente nasce, +perece, renasce. Neste instante, outros Jacintos, outros Zs +Fernandes, sentados s janelas doutras Tormes, contemplam o cu +nocturno, e nele um pequenininho ponto de luz, que a nossa possante +Terra por ns tanto sublimada. No tero todos esta nossa forma, bem +frgil, bem desconfortvel, e (a no ser no Apolo do Vaticano, na Vnus +de Milo e talvez na Princesa, de Carman) singularmente feia e burlesca. +Mas, horrendos ou de inefvel beleza; colossais e de uma carne mais +dura que o granito, ou leves como gazes e ondulando na luz, todos eles +so seres pensantes e tm conscincia da Vida--porque decerto cada +Mundo possui o seu Descartes, ou j o nosso Descartes os percorreu a +todos com o seu Mtodo, a sua escura capa, a sua agudeza elegante, +formulando a nica certeza talvez certa, o grande _Penso logo existo_. +Portanto todos ns, Habitantes dos Mundos, s janelas dos nossos +casares, alm nos Saturnos, ou aqui na nossa Terrcula, constantemente +perfazemos um acto sacrossanto que nos penetra e nos funde--que +sentirmos no Pensamento o ncleo comum das nossas modalidades, e +portanto realizarmos um momento, dentro da Conscincia, a Unidade do +Universo!--Hein, Jacinto?... + +O meu amigo rosnou: + +--Talvez... Estou a cair com sono. + +--Tambm eu. Remontmos muito, Ex.^{mo} Sr.! como dizia o Pestaninha +em Coimbra. Mas nada mais belo, e mais vo, que uma cavaqueira, no alto +das serras, a olhar para as estrelas!... Tu sempre vais amanh? + +--Concerteza, Z Fernandes! Com a certeza de Descartes. Penso _logo +fujo_! Como queres tu, neste pardieiro, sem uma cama, sem uma +poltrona, sem um livro?... Nem s de arroz com fava vive o Homem! Mas +demoro em Lisboa, para conversar com o Sesimbra, o meu Administrador. E +tambm espera que estas obras acabem, os caixotes surjam, e eu possa +voltar decentemente, com roupa lavada, para a trasladao... + +-- verdade, os ossos... + +--Mas resta ainda o Grilo... Que animal! Por onde andar esse perdido? + +Ento, passeando lentamente na sala enorme, onde a vela de sebo j +derretida no castial de lata era como um lume de cigarro num +descampado, meditmos na sorte do Grilo. O estimado negro ou fora +despejado nas lamas de Medina, com as vinte e sete malas, aos +gritos--ou, regaladamente adormecido, rolara com o Anatole no comboio +para Madrid. Mas ambos os casos apareciam ao meu Prncipe como +irremediavelmente destruidores do seu conforto... + +--No, escuta, Jacinto... Se o Grilo encalhou em Medina, dormiu na +Fonda, catou os percevejos, e esta madrugada correu para Tormes. Quando +amanh desceres Estao, s quatro horas, encontras o teu precioso +homem, com as tuas preciosas malas, metido nesse comboio que te leva +ao Porto e Capital... + +Jacinto sacudiu os braos como quem se debate nas malhas de uma rede: + +--E se seguiu para Madrid? + +--Ento, por esta semana, c aparece em Tormes, onde encontra ordem +para regressar a Lisboa e reentrar no teu squito... Resta o +interessante caso das minhas bagagens. Se amanh encontrares na Estao +o Grilo, separa a minha mala negra, e o saco de lona, e a chapeleira. +O Grilo conhece. E pede ao Pimenta, ao gordalhufo, que me avise para +Guies. Se o Grilo aportar Tormes, esfogueteado de Madrid, com toda +essa malaria, deixa as minhas coisas aqui, ao Melchior... Eu amanh +falo ao Melchior. + +Jacinto sacudiu furiosamente o colarinho: + +--Mas como posso eu partir para Lisboa, amanh, com esta camisa de dois +dias, que j me faz uma comicho horrenda? E sem um leno... Nem ao +menos uma escova de dentes! + +Frtil em ideias, estendi as mos, num belo gesto tutelar: + +--Tudo se arranja, meu Jacinto, tudo se arranja! Eu, largando daqui +cedo, pelas seis horas, chego a Guies s dez, ainda sem calor. E, mesmo +antes do almoo e da cavaqueira com a tia Vicncia, imediatamente te +mando por um moo um saco de roupa branca. As minhas camisas e as +minhas ceroulas talvez te estejam largas. Mas um mendigo como tu no tem +direito a elegncias e a roupas bem cortadas. O moo, num bom trote, +entra aqui s duas horas; tens tempo de mudar antes de desceres para a +Estao... Posso meter na mala uma escova de dentes. + +--Oh Z Fernandes! Ento mete tambm uma esponja... E um frasco de gua-de-colnia! + +--gua de alfazema, excelente, feita pela tia Vicncia... + +O meu Prncipe suspirou, impressionado com a sua misria esqulida, e +esta ddiva de roupas: + +--Bem, ento vamos dormir, que estou esfalfado de emoes e de astros... + +Justamente Melchior entreabria a pesada porta, com timidez, a avisar que +estavam preparadinhas as camas de suas Incelncias. E seguindo o bom +caseiro, que erguia uma candeia, que avistamos ns, o meu Prncipe e eu, +ainda h pouco irmanados com os astros? Em duas saletas, que uma +abertura em arco, lbrego arco de pedra, separava--duas enxergas sobre o +soalho. Junto cabeceira da mais larga, que pertencia ao senhor de +Tormes, um castial de lato sobre um alqueire; aos ps, como lavatrio, +um alguidar vidrado em cima de uma tripea. Para mim, serrano daquelas +serras, nem alguidar nem alqueire. + +Lentamente, com o p, o meu supercivilizado amigo palpou a enxerga. E +decerto lhe sentiu uma dureza intransigente, porque ficou pendido sobre +ela, a correr desoladamente os dedos pela face desmaiada. + +--E o pior no ainda a enxerga, murmurou enfim com um suspiro. que +no tenho camisa de dormir, nem chinelas!... E no me posso deitar de +camisa engomada. + +Por inspirao minha recorremos ao Melchior. De novo, esse benemrito +providenciou, trazendo a Jacinto, para ele desafogar os ps, uns +tamancos--e para embrulhar o corpo uma camisa da comadre, enorme, de +estopa, spera como uma estamenha de penitente, com folhos mais crespos +e duros do que lavores de madeira. Para consolar o meu Prncipe lembrei +que Plato quando compunha o _Banquete_, Vasco da Gama quando dobrava o +Cabo, no dormiam em melhores catres! As enxergas rijas fazem as almas +fortes, oh Jacinto!... E s vestido de estamenha que se penetra no +Paraso. + +--Tens tu, volveu o meu amigo secamente, alguma coisa que eu leia? No +posso adormecer sem um livro. + +Eu? Um livro? Possua apenas o velho numero do _Jornal do Comrcio_, +que escapara disperso dos nossos bens. Rasguei a copiosa folha pelo +meio, partilhei com Jacinto fraternalmente. Ele tomou a sua metade, +que era a dos anncios... E quem no viu ento Jacinto, senhor de +Tormes, acaapado borda da enxerga, rente da vela de sebo que se +derretia no alqueire, com os ps encafuados nos socos, perdido dentro +das speras pregas e dos rijos folhos da camisa serrana, percorrendo +num pedao velho de Gazeta, pensativamente, as partidas dos +Paquetes--no pode saber o que uma intensa e verdica imagem do +Desalento. + +Recolhido minha alcova espartana, desabotoava o colete, num +delicioso cansao, quando o meu Prncipe ainda me reclamou: + +--Z Fernandes... + +--Diz. + +--Manda tambm no saco um abotoador de botas. + +Estirado comodamente na rija enxerga murmurei, como sempre murmuro ao +penetrar no Sono, que um primo da Morte, Deus seja louvado! Depois +tomei a metade do _Jornal do Comrcio_ que me pertencia. + +--Z Fernandes... + +--Que ? + +--Tambm podias meter no saco ps dos dentes... E uma lima das +unhas... E um romance! + +J a meia Gazeta me escapava das mos dormentes. Mas da sua alcova, +depois de soprar a vela, Jacinto murmurou entre um bocejo: + +--Z Fernandes... + +--Hein? + +--Escreve para Lisboa, para o Hotel Bragana... Os lenis ao menos so +frescos, cheiram bem, a sadio! + + + + +IX + + +Cedo, de madrugada, sem rumor, para no despertar o meu Jacinto, que, +com as mos cruzadas sobre o peito, dormia beatificamente na sua enxerga +de granito--parti para Guies. + +Ao cabo de uma semana, recolhendo uma manh para o almoo, encontrei no +corredor as minhas malas to desejadas, que um moo do casal da Giesta +trouxera num carro com recados do Sr. Pimentinha. O meu pensamento +pulou para o meu Prncipe. E lancei pelo telgrafo, para Lisboa, para o +Hotel Bragana, este brado alegre:--Ests l? Sei recuperaste Grilo e +Civilizao! Hurrah! Abrao!--S depois de sete dias, ocupados numa +delicada apanha de espargos com que outrora civilizara a horta da tia +Vicncia, notei o silncio de Jacinto. Num bilhete postal renovei, +desenvolvi o grito amigo:--Ests l? So os prazeres da Baixa que assim +te tornam desatento e mudo? Eu, todo espargos! Responde, quando chegas? +Tempo delicioso! 23^o sombra. E os ossos?...--Veio depois a devota +romaria da Senhora da Roqueirinha. Durante a lua nova andei num corte +de mato, na minha terra das Corcas. A tia Vicncia vomitou, com uma +indigesto de morcelas. E o silncio do meu Prncipe era ingrato e +ferrenho. + +Enfim uma tarde, voltando da Flor da Malva, de casa da minha prima +Joaninha, parei em Sandofim, na venda do Manuel Rico, para beber de +certo vinho branco que a minha alma conhece--e sempre pede. + +Defronte, porta do ferrador, o Severo, sobrinho do Melchior de Tormes +e o mais fino alveitar da serra, picava tabaco, escarranchado num +banco. Mandei encher outro quartilho: ele acariciou o pescoo da minha +gua que j salvara de um esfriamento: e, como eu indagasse do nosso +Melchior, o Severo contou que na vspera jantara com ele em Tormes, e +se abeirara tambm do fidalgo... + +--Ora essa! Ento o Sr. D. Jacinto est em Tormes? + +O meu espanto divertiu o Severo: + +--Ento V. Exc.^a... Pois em Tormes que ele est, h mais de cinco +semanas, sem arredar! E parece que fica para a vindima, e vai l uma +grandeza! + +Santssimo nome de Deus! Ao outro dia, domingo, depois da missa e sem me +assustar com a calma que carregava, trotei alvoroadamente para Tormes. +Ao latir dos rafeiros, quando transpus o portal solarengo, a comadre do +Melchior acudiu dos lados do curral, com um alguidar de lavagem +encostado cintura.--Ento o Sr. D. Jacinto?... O Sr. D. Jacinto +andava l para baixo, com o Silvrio e com o Melchior, nos campos de +Freixomil... + +--E o Sr. Grilo, o preto? + +--H bocadinho tambm o enxerguei no pomar, com o francs, a apanhar +limes doces... + +Todas as janelas do solar rebrilhavam, com vidraas novas, bem polidas. +A um canto do ptio notei baldes de cal e tigelas de tintas. Uma escada +de pedreiro descansara durante o Dia Santo arrimada contra o telhado. E, +rente ao muro da capela, dois gatos dormiam sobre montes de palha +desempacotada de caixotes considerveis. + +--Bem, pensei eu. Eis a Civilizao! + +Recolhi a gua, galguei a escada. Na varanda, sobre uma pilha de ripas, +reluzia num raio de sol uma banheira de zinco. Dentro encontrei todos +os soalhos remendados, esfregados a carqueja. As paredes, muito caiadas +e nuas, refrigeravam como as de um convento. Um quarto, a que me levaram +trs portas escancaradas com franqueza serrana, era certamente o de +Jacinto: a roupa pendia de cabides de pau: o leito de ferro, com +coberta de fusto, encolhia timidamente a sua rigidez virginal a um +canto, entre o muro e a banquinha onde um castial de lato resplandecia +sobre um volume do _D. Quixote_ no lavatrio pintado de amarelo, +imitando bambu, apenas cabia o jarro, a bacia, um naco gordo de sabo; e +uma prateleirinha bastava ao esmerado alinho da escova, da tesoura, do +pente, do espelhinho de feira, e do frasquinho de gua de alfazema que +eu mandara de Guies. As trs janelas, sem cortinas, contemplavam a +beleza da serra, respirando um delicado e macio ar, que se perfumava +nas resinas dos pinheirais, depois nas roseiras da horta. Em frente, no +corredor, outro quarto repetia a mesma simplicidade. Certamente a +previdncia do meu Prncipe o destinara ao seu Z Fernandes. Pendurei +logo dentro, no cabide, o meu guarda-p de lustrina. + +Mas na sala imensa, onde tanto filosoframos considerando as +estrelas, Jacinto arranjara um centro de repouso e de estudo--e +desenrolara essa grandeza que impressionava o Severo. As cadeiras de +verga da Madeira, amplas e de braos, ofereciam o conforto de +almofadinhas de chita. Sobre a mesa enorme de pau branco, carpinteirada +em Tormes, admirei um candeeiro de metal de trs bicos, um tinteiro de +frade armado de penas de pato, um vaso de capela transbordando de +cravos. Entre duas janelas uma cmoda antiga, embutida, com ferragens +lavradas, recebera sobre o seu mrmore rosado o devoto peso de um +Prespio, onde Reis Magos, pastores de surres vistosos, cordeiros +de esguedelhada l, se apressavam atravs de alcantis para o Menino, que +na sua lapinha lhes abria os braos, coroado por uma enorme Coroa Real. +Uma estante de madeira enchia outro pedao de parede, entre dois +retratos negros com caixilhos negros; sobre uma das suas prateleiras +repousavam duas espingardas; nas outras esperavam, espalhados, como os +primeiros Doutores nas bancadas de um conclio, alguns nobres livros, um +Plutarco, um Virglio, a Odisseia, o Manual de Epicteto, as Crnicas +de Froissart. Depois, em fila decorosa, cadeiras de palhinha, muito +novas, muito envernizadas. E a um canto um molho de varapaus. + +Tudo resplandecia de asseio e ordem. As portadas das janelas, cerradas, +abrigavam do sol que batia aquele lado de Tormes, escaldando os +peitoris de pedra. Do soalho, borrifado de gua, subia, na suavizada +penumbra, uma frescura. Os cravos rescendiam. Nem dos campos, nem da +casa, se elevava um rumor. Tormes dormia no esplendor da manh santa. E, +penetrado por aquela consoladora quietao de convento rural, terminei +por me estender numa cadeira de verga, junto da mesa, abrir +languidamente um tomo de Virglio, e murmurar, apropriando o doce verso +que encontrara: + +Fortunate Jacinthe! Hic, inter arva nota +Et fontes sacros, frigus captabis opacum... + +Afortunado Jacinto, na verdade! Agora, entre campos que so teus e +guas que te so sagradas, colhes enfim a sombra e a paz! + +Li ainda outros versos. E, na fadiga das duas horas de gua e calor +desde Guies, irreverentemente adormecia sobre o divino +Bucoliasta--quando me despertou um berro amigo! Era o meu Prncipe. E +muito decididamente, depois de me soltar do seu rijo abrao, o comparei +a uma planta estiolada, emurchecida na escurido, entre tapetes e +sedas, que, levada para vento e sol, profusamente regada, reverdece, +desabrocha e honra a Natureza! Jacinto j no corcovava. Sobre a sua +arrefecida palidez de supercivilizado, o ar montesino, ou vida mais +verdadeira, espalhara um rubor trigueiro e quente de sangue renovado que +o virilizava soberbamente. Dos olhos, que na Cidade andavam sempre to +crepusculares e desviados do Mundo, saltava agora um brilho de meio-dia, +resoluto e largo, contente em se embeber na beleza das coisas. At o +bigode se lhe encrespara. E j no deslizava a mo desencantada sobre a +face,--mas batia com ela triunfalmente na coxa. Que sei? Era um +Jacinto novssimo. E quase me assustava, por eu ter de aprender e +penetrar, neste novo Prncipe, os modos e as ideias novas. + +--Caramba, Jacinto, mas ento...? + +Ele encolheu jovialmente os ombros realargados. E s me soube contar, +trilhando soberanamente com os sapatos brancos e cobertos de p o soalho +remendado, que, ao acordar em Tormes, depois de se lavar numa dorna, e +de enfiar a minha roupa branca, se sentira de repente como +_desanuviado_,desenvencilhado! Almoara uma pratada de ovos com +chourio, sublime. Passeara por toda aquela magnificncia da serra com +pensamentos ligeiros de liberdade e de paz. Mandara ao Porto comprar uma +cama, uns cabides... E ali estava... + +--Para todo o Vero? + +--No! Mas um ms... Dois meses! Enquanto houver chourios, e a gua da +fonte, bebida pela telha ou numa folha de couve, me souber to +divinamente! + +Ca sobre a cadeira de verga, e contemplei, arregalado, quase +esgazeado, o meu Prncipe! Ele enrolava numa mortalha tabaco picado, +tabaco grosso, guardado numa malga vidrada. E exclamava: + +--Ando a pelas terras desde o romper de alva! Pesquei j hoje quatro +trutas, magnficas... L em baixo, no Naves, um riachote que se atira +pelo vale da Seranda... Temos logo ao jantar essas trutas! + +Mas eu, vido pela histria daquela ressurreio: + +--Ento, no estiveste em Lisboa?... Eu telegrafei... + +--Qual telgrafo! Qual Lisboa! Estive l em cima, ao p da fonte da +Lira, sombra de uma grande rvore, _sub tegmine_ no sei qu, a ler +esse adorvel Virglio... E tambm a arranjar o meu palcio! Que te +parece, Z Fernandes? Em trs semanas, tudo soalhado, envidraado, +caiado, encadeirado!... Trabalhou a freguesia inteira! At eu pintei, +com uma imensa brocha. Viste o comedouro? + +--No. + +--Ento vem admirar a beleza na simplicidade, brbaro! + +Era a mesma onde ns tanto exaltramos o arroz com favas--mas muito +esfregada, muito caiada, com um rodap besuntado de azul estridente onde +logo adivinhei a obra do meu Prncipe. Uma toalha de linho de Guimares +cobria a mesa, com as franjas roando o soalho. No fundo dos pratos de +loua forte reluzia um galo amarelo. Era o mesmo galo e a mesma loua +em que na nossa casa, em Guies, se servem os feijes dos cavadores... + +Mas no ptio os ces latiram. E Jacinto correu varanda, com uma +ligeireza curiosa que me deleitou. Ah, bem definitivamente se +esfrangalhara aquela rede de malha que se no percebia e que outrora o +travava!--Nesse momento apareceu o Grilo, de quinzena de linho, +segurando em cada mo uma garrafa de vinho branco. Todo se alegrou em +ver na quinta o si Fernandes. Mas a sua veneranda face j no +resplandecia, como em Paris, com um to sereno e ditoso brilho de bano. +At me pareceu que corcovava... Quando o interroguei sobre aquela +mudana, estendeu duvidosamente o beio grosso: + +--O menino gosta, eu ento tambm gosto... Que o ar aqui muito bom, +si Fernandes, o ar muito bom! + +Depois, mais baixo, envolvendo num gesto desolado a loua de Barcelos, +as facas de cabo de osso, as prateleiras de pinho como num refeitrio de +Franciscanos: + +--Mas muita magreza, si Fernandes, muita magreza! + +Jacinto voltava com um mao de jornais cintados: + +--Era o carteiro. J vs que no amuei inteiramente com a Civilizao. +Eis a Imprensa!... Mas nada de _Figaro_, ou da horrenda _Dois-Mundos_! +Jornais de Agricultura! Para aprender como se produzem as risonhas +messes, e sob que signo se casa a vinha ao olmo, e que cuidados +necessita a abelha provida... _Quid faciat laetas segetes_... De resto +para esta nobre educao, j me bastavam as _Gergicas_, que tu ignoras! + +Eu ri: + +--Alto l! _Nos quoque gens sumus et nostrum Virgilium sabemus_! + +Mas o meu novssimo amigo, debruado da janela, batia as palmas--como +Cato para chamar os servos, na Roma simples. E gritava: + +--Ana Vaqueira! Um copo de gua, bem lavado, da fonte velha! + +Pulei, imensamente divertido: + +--Oh Jacinto! E as guas carbonatadas? e as fosfatadas? e as +esterilizadas? e as sdicas?... + +O meu Prncipe atirou os ombros com um desdm soberbo. E aclamou a +apario de um grande copo, todo embaciado pela frescura nevada da gua +refulgente, que uma bela moa trazia num prato. Eu admirei sobretudo a +moa... Que olhos, de um negro to lquido e srio! No andar, no quebrar +da cinta, que harmonia e que graa de Ninfa latina! + +E apenas pela porta desaparecera a esplndida apario: + +--Oh Jacinto, eu daqui a um instante tambm quero gua! E se compete a +esta rapariga trazer as coisas, eu, de cinco em cinco minutos, quero uma +coisa!... Que olhos, que corpo... Caramba, menino! Eis a poesia, toda +viva, da serra... + +O meu Prncipe sorria, com sinceridade: + +--No! no nos iludamos, Z Fernandes, nem faamos Arcdia. uma bela +moa, mas uma bruta... No h ali mais poesia, nem mais sensibilidade, +nem mesmo mais beleza do que numa linda vaca taurina. Merece o seu +nome de Ana Vaqueira. Trabalha bem, digere bem, concebe bem. Para isso +a fez a Natureza, assim s e rija; e ela cumpre. O marido todavia no +parece contente, porque a desanca. Tambm um belo bruto... No, meu +filho, a serra maravilhosa e muito grato lhe estou... Mas temos aqui a +fmea em toda a sua animalidade e o macho em todo o seu egosmo... So +porm verdadeiros, genuinamente verdadeiros! E esta verdade, Z +Fernandes, para mim um repouso. + +Lentamente, gozando a frescura, o silncio, a liberdade do vasto +casaro, retrocedemos sala que Jacinto j denominara a _Livraria_. E, +de repente, ao avistar num canto uma caixa com a tampa meio despregada, +quase me engasguei, na furiosa curiosidade que me assaltou: + +--E os caixotes? Oh Jacinto?... Toda aquela imensa caixotaria que ns +mandmos, abarrotada de Civilizao? Soubeste? Apareceram? + +O meu Prncipe parou, bateu alegremente na coxa: + +--Sublime! Tu ainda te lembras daquele homenzinho, de saco a +tiracolo, que ns admirmos tanto pela sua sagacidade, o seu saber +geogrfico?... Lembras? Apenas falei em Tormes, gritou que conhecia, +rabiscou uma nota... Nem era necessrio mais! Oh! Tormes, +perfeitamente, muito antigo, muito curioso! Pois mandou tudo para +Alba-de-Tormes, em Espanha! Est tudo em Espanha! + +Cocei o queixo, desconsolado: + +--Ora, ora... Um homem to esperto, to expedito, que fazia tanta honra +ao Progresso! Tudo para Espanha!... E mandaste vir? + +--No! Talvez mais tarde... Agora, Z Fernandes, estou saboreando esta +delcia de me erguer pela manh, e de ter s uma escova para alisar o +cabelo. + +Considerei, cheio de recordaes, o meu amigo: + +--Tinhas umas nove... + +--Nove? Tinha vinte! Talvez trinta! E era uma atrapalhao, no me +bastavam!... Nunca em Paris andei bem penteado. Assim com os meus +setenta mil volumes: eram tantos que nunca li nenhum. Assim com as +minhas ocupaes: tanto me sobrecarregavam, que nunca fui til! + + * * * * * + +De tarde, depois da calma, fomos vaguear pelos caminhos coleantes +daquela quinta rica, que, atravs de duas lguas, ondula por vale e +monte. No me encontrara mais com Jacinto em meio da Natureza, desde o +remoto dia de entremez em que ele tanto sofrera no socivel e policiado +bosque de Montmorency. Ah, mas agora, com que segurana e idlico amor +ele se movia atravs dessa Natureza, donde andara tantos anos +desviado por teoria e por hbito! J no arreceava a humidade mortal +das relvas; nem repelia como impertinente o roar das ramagens; nem o +silncio dos altos o inquietava como um despovoamento do Universo. Era +com delcias, com um consolado sentimento de estabilidade recuperada, +que enterrava os grossos sapatos nas terras moles, como no seu elemento +natural e paterno: sem razo, deixava os trilhos fceis, para se +embrenhar atravs de arbustos emaranhados, e receber na face a carcia +das folhas tenras; sobre os outeiros, parava, imvel, retendo os meus +gestos e quase o meu hlito, para se embeber de silncio e de paz: e +duas vezes o surpreendi atento e sorrindo beira de um regatinho +palreiro, como se lhe escutasse a confidncia... + +Depois filosofava, sem descontinuar, com o entusiasmo de um +convertido, vido de converter: + +--Como a inteligncia aqui se liberta, hein? E como tudo animado +de uma vida forte e profunda!... Dizes tu agora, Z Fernandes, que no h +aqui pensamento... + +--Eu?! Eu no digo nada, Jacinto... + +--Pois uma maneira de reflectir muito estreita e muito grosseira... + +--Ora essa! Mas eu... + +--No, no percebes. A vida no se limita a pensar, meu caro doutor... + +--Que no sou! + +--A vida essencialmente Vontade e Movimento: e naquele pedao de +terra, plantado de milho, vai todo um mundo de impulsos, de foras que +se revelam, e que atingem a sua expresso suprema, que a Forma. No, +essa tua filosofia est ainda extremamente grosseira... + +--Irra! mas eu no... + +--E depois, menino, que inesgotvel, que miraculosa diversidade de +formas... E todas belas! + +Agarrava o meu pobre brao, exigia que eu reparasse com reverncia. Na +Natureza nunca eu descobriria um contorno feio ou repetido! Nunca duas +folhas de hera, que, na verdura ou recorte, se assemelhassem! Na Cidade, +pelo contrrio, cada casa repete servilmente a outra casa; todas as +faces reproduzem a mesma indiferena ou a mesma inquietao; as ideias +tm todas o mesmo valor, o mesmo cunho, a mesma forma, como as libras; +e at o que h mais pessoal e ntimo, a Iluso, em todos idntica, e +todos a respiram, e todos se perdem nela como no mesmo nevoeiro... A +_mesmice_--eis o horror das Cidades! + +--Mas aqui! Olha para aquele castanheiro. H trs semanas que cada +manh o vejo, e sempre me parece outro... A sombra, o sol, o vento, as +nuvens, a chuva, incessantemente lhe compem uma expresso diversa e +nova, sempre interessante. Nunca a sua frequentao me poderia fartar... + +Eu murmurei: + +-- pena que no converse! + +O meu Prncipe recuou, com olhares chamejantes, de Apstolo: + +--Como que no converse? Mas justamente um conversador sublime! Est +claro, no tem ditos, nem parola teorias, _ore rotundo_. Mas nunca eu +passo junto dele que no me sugira um pensamento ou me no desvende +uma verdade... Ainda hoje quando eu voltava de pescar as trutas... +Parei: e logo ele me fez sentir como toda a sua vida de vegetal +isenta de trabalho, da ansiedade, do esforo que a vida humana impe; +no tem de se preocupar com o sustento, nem com o vestido, nem com o +abrigo; filho querido de Deus, Deus o nutre, sem que ele se mova ou se +inquiete... E esta segurana que lhe d tanta graa e tanta majestade. +Pois no achas? + +Eu sorria, concordava. Tudo isto era de certo rebuscado e especioso. Mas +que importavam as requintadas metforas, e essa Metafsica mal madura, +colhida pressa nos ramos de um castanheiro? Sob toda aquela ideologia +transparecia uma excelente realidade--a reconciliao do meu Prncipe +com a Vida. Segura estava a sua Ressurreio depois de tantos anos de +cova, da cova mole em que jazera, enfaixado como uma mmia nas faixas +do Pessimismo! + +E o que esse Prncipe, nesta tarde me esfalfou! Farejava, com uma +curiosidade insacivel, todos os recantos da serra! Galgava os cabeos +correndo, como na esperana de descobrir l do alto os esplendores nunca +contemplados de um Mundo indito. E o seu tormento era no conhecer os +nomes das rvores, da mais rasteira planta brotando das fendas de um +socalco... Constantemente me folheava como a um Dicionrio Botnico. + +--Fiz toda a sorte de cursos, passei pelos professores mais ilustres da +Europa, tenho trinta mil volumes, e no sei se aquele senhor alm um +amieiro ou um sobreiro... + +-- um azinheiro, Jacinto. + +J a tarde caa quando recolhemos muito lentamente. E toda essa +adorvel paz do cu, realmente celestial, e dos campos, onde cada +folhinha conservava uma quietao contemplativa, na luz docemente +desmaiada, pousando sobre as coisas com um liso e leve afago, penetrava +to profundamente Jacinto, que eu o senti, no silncio em que +caramos, suspirar de puro alvio. + +Depois, muito gravemente: + +--Tu dizes que na natureza no h pensamento... + +--Outra vez! Olha que maada! Eu... + +--Mas por estar nela suprimido o pensamento que lhe est poupado o +sofrimento! Ns, desgraados, no podemos suprimir o pensamento, mas +certamente o podemos disciplinar e impedir que ele se estonteie e se +esfalfe, como na fornalha das cidades, ideando gozos que nunca se +realizam, aspirando a certezas que nunca se atingem!... E o que +aconselham estas colinas e estas rvores nossa alma, que vela e se +agita:--que viva na paz de um sonho vago e nada apetea, nada tema, +contra nada se insurja, e deixe o Mundo rolar, no esperando dele +seno um rumor de harmonia, que a embale e lhe favorea o dormir dentro +da mo de Deus. Hein, no te parece, Z Fernandes? + +--Talvez. Mas necessrio ento viver num mosteiro, com o temperamento +de S. Bruno, ou ter cento e quarenta contos de renda e o desplante de +certos Jacintos... E tambm me parece que andmos lguas. Estou +derreado. E que fome! + +--Tanto melhor, para as trutas, e para o cabrito assado que nos +espera... + +--Bravo! Quem te cozinha? + +--Uma afilhada do Melchior. Mulher sublime! Hs-de ver a canja! Hs-de +ver a cabidela! Ela horrenda, quase an, com os olhos tortos, um +verde e outro preto. Mas que paladar! Que gnio! + +Com efeito! Horcio dedicaria uma ode quele cabrito assado num +espeto de cerejeira. E com as trutas, e o vinho Melchior, e a cabidela, +em que a sublime an de olhos tortos pusera inspiraes que no so da +terra, e aquela doura da noite de Junho, que pelas janelas abertas +nos envolveu no seu veludo negro, to mole e to consolado fiquei, +que, na sala onde nos esperava o caf, ca numa cadeira de verga, na +mais larga, e de melhores almofadas, e atirei um berro de pura delcia. + +Depois, com uma recordao, limpando o caf do plo dos bigodes: + +-- Jacinto, e quando ns andvamos por Paris com o Pessimismo s +costas, a gemer que tudo era iluso e dor? + +O meu Prncipe, que o cabrito tornara ainda mais alegre, trilhava a +grandes passadas o soalho, enrolando o cigarro: + +--Oh! que engenhosa besta, esse Schopenhauer! E maior besta eu, que o +sorvia, e que me desolava com sinceridade! E todavia,--continuava ele, +remexendo a chvena--o Pessimismo uma teoria bem consoladora para os +que sofrem, porque desindividualiza o sofrimento, alarga-o at o +tornar uma lei universal, a lei prpria da Vida; portanto lhe tira o +carcter pungente de uma injustia especial, cometida contra o +sofredor por um Destino inimigo e faccioso! Realmente o nosso mal +sobretudo nos amarga quando contemplamos ou imaginamos o bem do nosso +vizinho:--porque nos sentimos escolhidos e destacados para a +infelicidade, podendo, como ele, ter nascido para a Fortuna. Quem se +queixaria de ser coxo--se toda a humanidade coxeasse? E quais no seriam +os urros, e a furiosa revolta do homem envolto na neve e friagem e +borrasca de um Inverno especial, organizado nos cus para o envolver a +ele unicamente--enquanto em redor, toda a Humanidade se movesse na +luminosa benignidade de uma Primavera? + +--Com efeito, murmurei eu, esse sujeito teria imensa razo para +urrar... + +--E depois, clamava ainda o meu amigo, o Pessimismo excelente para os +Inertes, por que lhes atenua o desgracioso delito da Inrcia. Se toda +a meta um monte de Dor, onde a alma vai esbarrar, para qu marchar +para a meta, atravs dos embaraos do mundo? E de resto todos os Lricos +e Tericos do Pessimismo, desde Salomo at o maligno Schopenhauer, +lanam o seu cntico ou a sua doutrina para disfarar a humilhao das +suas misrias, subordinando-as todas a uma vasta lei de Vida, uma lei +Csmica, e ornando assim com a aurola de uma origem quase divina as +suas midas desgraazinhas de temperamento ou de Sorte. O bom +Schopenhauer formula todo o seu schopenhauerismo, quando um filsofo +sem editor, e um professor sem discpulos; e sofre horrendamente de +terrores e manias; e esconde o seu dinheiro debaixo do sobrado; e redige +as suas contas em grego nos perptuos lamentos da desconfiana; e vive +nas adegas com o medo de incndios; e viaja com um copo de lata na +algibeira para no beber em vidro que beios de leproso tivessem +contaminado!... Ento Schopenhauer sombriamente Schopenhauerista. Mas +apenas penetra na celebridade, e os seus miserveis nervos se acalmam, e +o cerca uma paz amvel, no h ento, em todo Francfort, burgus mais +optimista, de face mais jucunda, e gozando mais regradamente os bens da +inteligncia e da Vida!... E o outro, o Israelita, o muito pedantesco +rei de Jerusalm! quando descobre esse sublime Retrico que o mundo +Iluso e Vaidade? Aos setenta e cinco anos, quando o Poder lhe escapa +das mos trmulas, e o seu serralho de trezentas concubinas se lhe torna +ridiculamente suprfluo. Ento rompem os pomposos queixumes! Tudo +vaidade e aflio de esprito! nada existe estvel sob o sol! Com +efeito, meu bom Salomo, tudo passa--principalmente o poder de usar +trezentas concubinas! Mas que se restitua a esse velho sulto asitico, +besuntado de Literatura, a sua virilidade,--e onde se sumir o lamento +do Eclesiastes? Ento voltar, em segunda e triunfal edio, o xtase +do _Livro dos Cantares_!... + +Assim discursava o meu amigo no nocturno silncio de Tormes. Creio que +ainda estabeleceu sobre o Pessimismo outras coisas joviais, profundas ou +elegantes;--mas eu adormecera, beatificamente envolto em Optimismo e +doura. + +Em breve porm, me fez pular, escancarar as plpebras moles, uma rija, +larga, sadia e genuna risada. Era Jacinto, estirado numa cadeira, que +lia o D. Quixote... Oh bem aventurado Prncipe! Conservara ele o agudo +poder de arrancar teorias a uma espiga de milho ainda verde, e por uma +clemncia de Deus, que fizera reflorir o tronco seco, recuperara o dom +divino de rir, com as faccias de Sancho! + +Aproveitando a minha companhia, as duas semanas de buclica ociosidade +que eu lhe concedera, o meu Jacinto preparou ento a cerimnia to +falada, to meditada, a trasladao dos ossos dos velhos Jacintos--dos +respeitveis ossos como murmurava, cumprimentando, o bom Silvrio, o +procurador, nessa manh de sexta-feira, em que almoava connosco, +metido num espantoso jaqueto de veludilho amarelo debruado de seda +azul! A cerimnia, de resto, reclamava muita singeleza por serem to +incertos, quase impessoais, aqueles restos, que ns estabeleceramos na +Capelinha do vale da Carria, na Capelinha toda nova, toda nua e toda +fria, ainda sem alma e sem calor de Deus. + +--Por que enfim V. Ex.^a compreende,--explicava o Silvrio passando o +guardanapo por sobre a larga face suada e por sobre as imensas barbas +negras, como as de um turco--, naquela mixrdia... Oh! peo desculpa a +V. Ex.^a! Naquela confuso, quando tudo desabou, no pudemos mais +conhecer a quem pertenciam os ossos. Nem sequer, falando verdade, ns +sabamos bem que dignos avs de V. Ex.^a jaziam na capela velha, assim +to antigos, com os letreiros apagados, senhores de todo o nosso +respeito, certamente, mas, se V. Ex.^a me permite, senhores j muito +desfeitos... Depois veio o desastre, a mixrdia. E aqui est o que +decidi, depois de pensar. Mandei arranjar tantos caixes de chumbo, +quantas as caveiras que se apanharam l em baixo na Carria, entre o +lixo e o pedregulho. Havia sete caveiras e meia. Quero dizer, sete +caveiras e uma caveirinha pequenina. Metemos cada caveira em seu +caixo. Depois... Que quer V. Ex.^a? No havia outro meio! E aqui o Sr. +Fernandes dir se no acha que procedemos com habilidade. A cada caveira +juntamos uma certa poro de ossos, uma poro razovel... No havia +outro meio... Nem todos os ossos se acharam. Canelas, por exemplo, +faltavam! E bem possvel que as costelas de um daqueles senhores +ficasse com a cabea de outro... Mas quem podia saber? S Deus. Enfim +fizemos o que a prudncia mandava... Depois, no dia de Juzo, cada um +destes fidalgos apresentar os ossos que lhe pertencerem. + +Lanava estas coisas macabras e tremendas, penetrado de respeito, quase +com majestade, espetando, ora em mim, ora no meu Prncipe, os olhinhos +agudos e reluzentes como vidrilhos. + +Eu aprovei o pitoresco homem: + +--Perfeitamente! Andou perfeitamente, amigo Silvrio. So to vagos, to +annimos, todos esses avs! S faz pena, grande pena, que se +tresmalhassem os restos do av Galeo. + +--No estava c! acudiu Jacinto. Vim a Tormes expressamente por causa +do av Galeo, e por fim o seu jazigo nunca foi aqui, na Capelinha da +Carria... Felizmente! + +O Silvrio sacudia gravemente a calva trigueira: + +--Nunca tivemos o Ex.^{mo} Sr. Galeo. H cem anos, Sr. Fernandes, h +cem anos que se no depositava na capela velha corpo de cavalheiro c +da casa. + +--Onde estar ento?... + +O meu Prncipe encolheu os ombros. Por esse Reino... Na igrejinha, no +cemitrio de alguma das freguesias numerosas, onde ele possua terras. +Casa to espalhada! + +--Bem! conclu. Ento, como se trata de ossadas vagas, sem nome, sem +data, convm uma ceremoniazinha muito simples, muito sbria. + +--Quietinha, quietinha! murmurou o Silvrio, dando um forte sorvo +assobiado ao caf. + +E foi quietinha, de uma rstica e doce singeleza, a cerimnia daqueles +altos senhores. Cedo, por uma manh, levemente enevoada, os oito caixes +pequeninos, cobertos de um veludo vermelho mais de festa que de funeral, +com molhos de rosas espalhados, contendo cada um o seu montezinho +de ossos incertos, saram aos ombros dos coveiros de Tormes e dos moos +da quinta, da Igreja de S. Jos, cujo sino leve tangia, na enevoada +doura da manh,--quanto fina e levemente!--como pia um passarinho +triste. Adiante, um airoso moo de sobrepeliz, erguia com zelo a velha +cruz prateada; abrigando o pescoo sob um imenso leno de rap, de +quadrados azuis, o velho e corcovado sacristo segurava pensativamente a +caldeirinha de gua benta; e o bom abade de S. Jos, com os dedos entre +o brevirio fechado, movia os lbios, numa lenta, murmurosa reza, que +ia, pelo doce ar, espalhando mais doura. Logo atrs do ltimo cofre, o +mais pequenino, o da caveirinha pequena, Jacinto caminhava; e eu, a +estalar dentro de um fato preto de Jacinto, tirado pressa de uma das +malas de Paris quando, de manh, j tarde para mandar a Guies, me +lembrei que toda a minha roupa era de cores festivais e pastoris. + +Depois marchava o Silvrio, solenssimo, com um imenso peitilho, onde +as barbas imensas se alastravam, negrssimas. De casaca, com o grosso +beio descado, descado todo ele por aquela melancolia de enterro +que se juntava melancolia da serra, o Grilo enfiava no brao a sua +coroa, enorme, de rosas e de heras. Por fim seguia o Melchior, entre um +rancho de mulheres, que, sumidas na sombra dos lenos pretos, desfiando +longos rosrios, rosnavam surdas ave-marias, atravs de espaados +suspiros, to doridos como se inconsoladamente lhes doesse a perda +daqueles Jacintos. Assim, pelas vrzeas entrecorridas de regueiros, +lenta nos recostos dos matos, escorregando mais rpida, pelos crregos +pedregosos, seguia a procisso, sempre com a cruz adiante, alta e +prateada, rebrilhando por vezes num breve raiozinho de sol que, +vagarosamente, surdia da nvoa desfeita. Ramos baixos de lodo ou de +salgueiro passavam uma derradeira carcia sobre o veludo dos caixes. + +Um regato por vezes nos acompanhava, com discreto fulgir entre as +relvas, sussurrando e como rezando tambm, alegremente: e nos +quintalinhos umbrosos, nossa passagem, os galos, de cima das pilhas +de mato, faziam soar o seu clarim festivo. Depois, adiante da fonte da +Lira, como o caminho se alongava, e desejssemos poupar o nosso velho +abade, cortmos atravs de uma seara, j alta, quase madura, toda +entremeada de papoilas, O sol radiou: sob a brisa larga, que levara a +nvoa, toda a messe ondulou numa lenta vaga dourada, em que se +balouavam os esquifes; e, como enorme papoila, a mais vermelha, +rutilava o guarda-sol de paninho logo aberto pelo sacristo para +abrigar o abade. + +Jacinto tocou no meu cotovelo: + +--Que lindos vamos! Ora v tu a Natureza... Num simples enterrar +de ossos, quanta graa e quanta beleza! + +Na Capelinha, nova, dominando o vale da Carria, solitria e muito +nua, no meio de um adro, ainda mal alisado, sem uma verdura de relva, uma +frescura de arbusto, dois moos seguravam porta molhos de tochas, que o +Silvrio distribuiu, a passos graves, com cortesias, solenssimo. +Dentro as curtas chamas, mal luziam, mal derramavam a sua amarelido +triste, esbatidas na reluzente brancura dos muros estacados, na jovial +claridade que caa das altas vidraas bem polidas. Em torno dos +esquifes, pousados sobre bancos, que pesados veludilhos recobriam, o +abade murmurava um suave latim, enquanto ao fundo as mulheres, sumidas +na sombra dos seus negros lenos, gemiam _amens_ agudos, abafavam um +respeitoso soluo. Depois, tomando levemente o hissope, ainda o bom +abade aspergiu, para uma derradeira purificao, os incertos ossos dos +incertos Jacintos. E todos desfilmos por diante do meu Prncipe, +timidamente encostado ombreira, com o Silvrio ao lado esmagando +contra o peitilho as barbas imensas, a face descada, cerradas as +plpebras como contendo lgrimas. + +No adro, o meu Prncipe acendeu regaladamente um cigarro pedido ao +Melchior: + +--E ento, Z Fernandes, que te pareceu a cerimoniazinha? + +--Muito campestre, muito suave, muito risonha... Uma delcia. + +Mas o Abade, que se desvestira na Sacristia, apareceu, j com o seu +grande casaco de lustrina, e seu velho chapu desabado, trazidos pelo +moo da Residncia, num saco de chita. Jacinto, imediatamente lhe +agradeceu tantos cuidados, a afvel hospitalidade que oferecera aos +ossos, durante a construo da Capelinha nova. E o suave velho, todo +branquinho, de faces ainda menineiras e coradas, com um claro sorriso de +dentes sadios, louvava Jacinto, que assim viera de to longe, em to +longa jornada, para cumprir aquele dever de bom neto. + +--So avs muito remotos, e agora to confusos! murmurava Jacinto +sorrindo. + +--Pois mais mrito ainda o de V. Ex.^a. Respeitar um av morto, bem +corrente... Mas respeitar os ossos de um quinto av, de um stimo av! + +--Sobretudo, Sr. Abade, quando deles nada se sabe, e naturalmente +nada fizeram. + +O velho sacudiu risonhamente o dedo gordo: + +--Ora quem sabe, quem sabe! Talvez fossem excelentes! E por fim, quem +muito se demora no mundo, como eu, termina por se convencer que no mundo +no h coisa ou ser intil. Ainda ontem eu lia num jornal do Porto, +que por fim, segundo se descobriu, so as minhocas que estrumam e lavram +a terra, antes de chegar o lavrador e os bois com o arado. At as +minhocas so teis. No h nada intil... Eu tinha l na residncia uma +poro de cardos a um canto da horta, que me afligiam. Pois reflecti e +terminei por me regalar com eles em xarope. Os avs de V. Ex.^a por c +andaram, por c trabalharam, por c padeceram. Quer dizer: por c +serviram. E, em todo o caso, que lhes rezemos um Padre-Nosso por alma +no lhes pode fazer seno bem, a eles e a ns. + +E assim, docemente filosofando, parmos num souto de carvalheiras, +onde esperava a velhssima gua do Abade, por que o santo homem agora, +depois do reumatismo do ltimo Inverno, j no afrontava rijamente +como antes os trilhos duros da serra. Para ele montar, filialmente +Jacinto segurou o estribo. E enquanto a gua se empurrava pelo crrego +acima, quase tapada sob o imenso guarda-sol vermelho em que se abrigava +o velho, ns recolhemos a casa metendo pela serra da Lombinha, atravs +dos milhos, e depressa, porque eu estalava, aperreado, dentro da roupa +preta do meu Prncipe. + +--Esto pois acomodados estes senhores, Z Fernandes! S resta rezar +por eles o Padre-Nosso, que recomenda o abade... Somente, eu no sei, +j no me lembro do Padre-Nosso. + +--No te aflijas, Jacinto: peo tia Vicncia que reze por mim e por +ti. sempre a tia Vicncia que reza os meus Padres-Nossos. + +Durante essas semanas que preguicei em Tormes, eu assisti, com +enternecido interesse, a uma considervel evoluo de Jacinto nas suas +relaes com a Natureza. Daquele perodo sentimental de contemplao, +em que colhia teorias nos ramos de qualquer cerejeira, e edificava +Sistemas sobre o espumar das levadas, o meu Prncipe lentamente passava +para o desejo da Aco... E de uma aco directa e material, em que a sua +mo, enfim restituda a uma funo superior, revolvesse o torro. + +Depois de tanto _comentar_, o meu Prncipe, evidentemente, aspirava a +_criar_. + +Uma tardinha, ao anoitecer, sentados no pomar, no rebordo do tanque, +enquanto o Manuel hortelo apanhava laranjas no alto de uma escada arrimada +a uma alta laranjeira, Jacinto observou, mais para si do que para mim: + +-- curioso... Nunca plantei uma rvore! + +--Pois um dos trs grandes actos, sem os quais segundo diz no sei que +Filsofo, nunca se foi um verdadeiro homem... Fazer um filho, plantar +uma rvore, escrever um livro. Tens de te apressar, para ser um homem. +possvel que talvez nunca prestasses um servio a uma rvore, como se +presta a um semelhante! + +--Sim... Em Paris, quando era pequeno, regava os lilases. E no Vero +um belo servio! Mas nunca semeei. + +E como o Manuel descia da escada, o meu Prncipe, que nunca acreditara +inteiramente--pobre homem!--no meu saber agrcola, imediatamente +reclamou o parecer daquela autoridade: + +--Oh Manuel, oua l, o que que se poderia agora semear? + +Com o cesto das laranjas enfiado no brao, o Manuel exclamou, atravs +de um lento riso, entre respeitoso e divertido: + +--Semear, patro? Agora antes colher... Olhe que j se anda a limpar a +eirazinha para a debulha, meu patro. + +--Pois sim... Mas sem ser milho nem cevada... Ento ali no pomar, rente +do muro velho, no se podia plantar uma fila de pessegueiros? + +O riso do Manuel crescia. + +--Isso sim, meu senhor! Isso l para os Santos ou para o Natal. Agora +s a couvinha na horta, a beldroega, os espinafres, algum feijozinho em +terra muito fresca... + +O meu Prncipe sacudiu com brando gesto estes legumes rasteiros. + +--Bem, boa noite, Manuel. Essas laranjas so da tal laranjeira que diz o +Melchior, muito doces, muito finas? Ento leve para os seus pequenos. +Leve muitas para os pequenos. + +No! o empenho era criar a rvore. Pela rvore contemplada na serra em +sua verdadeira majestade, na beneficncia da sua sombra, na frescura +embaladora do seu rumorejar, na graa e santidade dos ninhos que a +povoam, comeara talvez, lentamente, o seu amor novo da Terra. E agora +sonhava uma Tormes toda coberta de rvores, cujos frutos e verduras, e +sombras, e rumorejos suaves, e abrigados ninhos, fossem a obra e o +cuidado das suas mos paternais. + +No silncio grave do crepsculo, que descia, murmurou ainda: + +--Oh Z Fernandes; quais so as rvores que crescem mais depressa? + +--Eh, meu Jacinto... A rvore que cresce mais depressa o eucalipto, o +feissimo e ridculo eucalipto. Em seis anos tens a Tormes coberta de +eucaliptos... + +--Tudo to lento, Z Fernandes... + +Porque o seu sonho, que eu compreendia, seria plantar caroos que +subissem em fortes troncos, se alargassem em verdes ramarias, antes de +ele voltar ao 202, no comeo do Inverno... + +--Um carvalho!... Trinta anos, antes que seja belo! Desanimo! bom +para Deus, que pode esperar... _Patiens quia aeternus_. Trinta anos! +Daqui a trinta anos, rvores s para me cobrirem a sepultura! + +--J um ganho. E depois para teus filhos, Jacinto... + +--Filhos! onde os tenho eu? + +-- o mesmo processo dos castanheiros. Semeia. No faltam por a terras +agradveis... Em nove meses tens uma planta feita. E quanto mais +tenrinhas, e mais pequeninas, mais essas plantas encantam. + +Ele murmurou, cruzando as mos sobre o joelho: + +--Tudo leva tanto tempo!... + +E borda do tanque nos quedmos, calados, na fresca doura do +anoitecer, entre o cheiro avivado das madressilvas do muro, olhando o +crescente da lua, que surdia dos telhados de Tormes. + +E decerto esta pressa de se tornar entre a Natureza no mais um +sonhador, mas um criador, arremessou vivamente o seu interesse para os +gados! Repetidamente, nos nossos passeios atravs da quinta, ele lhe +notava a solido. + +--Faltam aqui animais, Z Fernandes! + +Imaginava eu, que ele apetecia em Tormes o ornato elegante de veados e +paves. Mas um domingo, costeando o largo campo da Ribeirinha, sempre +escasso de guas, agora mais ressequido por Vero de tanta secura, o meu +Prncipe parou a considerar os trs carneiros do caseiro, que retouavam +com penria uma relvagem pobre. + +E, de repente, como magoado: + +--Justamente! Aqui est o espao para um belo prado, um imenso prado, +muito verde, muito farto, com rebanhos de carneiros brancos, gordssimos +como bolas de algodo pousadas na relva!... Era lindo, hein? fcil, +no verdade, Z Fernandes? + +--Sim... Trazes a gua para o prado. guas no faltam, na serra. + +E o meu Prncipe encadeando logo nesta inspirada ideia outra, mais rica +e vasta, lembrou quanta beleza daria a Tormes encher esses prados, +esses verdes ferragiais, de manadas de vacas, formosas vacas inglesas, +bem ndias e bem luzidias. Hein? Uma beleza. Para abrigar esses gados +ricos, construiria currais perfeitos, de uma arquitectura leve e til, +toda em ferro e vidro, fundamente varridos pelo ar, largamente lavados +pela gua... Hein? Que formosura! Depois, com todas essas vacas, e o +leite jorrando, nada mais fcil e mais divertido, e at mais moral, que +a instalao de uma queijeira, fresca moda Holandesa, toda branca e +reluzente, de azulejos e de mrmore, para fabricar os Camemberts, os +Bries... os Coulommiers... Para a casa, que conforto! E para toda a +serra, que actividade! + +--Pois no te parece, Z Fernandes? + +--Concerteza. Tu tens, em abundncia, os quatro Elementos: o ar, a +gua, a terra, e o dinheiro. Com estes quatro elementos, facilmente se +faz uma grande lavoura. Quanto mais uma queijeira! + +--Pois no verdade? E at como negcio! Est claro, para mim o lucro +o deleite moral do trabalho, o emprego fecundo do dia... Mas uma +queijaria, assim perfeita, rende. Rende prodigiosamente. E educa o +paladar, incita a instalaes iguais, implanta talvez no pas uma +indstria nova e rica! Ora com essa instalao, perfeita, quanto me +poder custar cada queijo? + +Fechei um olho, calculando: + +--Eu te digo.... Cada queijo, um desses queijinhos redondos, como o +Camembert ou o Rabaal, pode vir a custar-te, a ti Jacinto queijeiro, +entre duzentos e cinquenta e trezentos mil ris. + +O meu Prncipe recuou, com dois olhos alegres espantados para mim. + +--Como trezentos mil ris? + +--Ponhamos duzentos... Tem a certeza! Com todos esses prados, e os +encanamentos de gua e a configurao da serra alterada, e as vacas +inglesas, e os edifcios de porcelana e vidro, e as mquinas, a +extravagncia, e a patuscada buclica, cada queijo te custa, a ti +produtor, duzentos mil ris. Mas com certeza o vendes no Porto por um +tosto. Pe cinquenta ris para a caixa, rtulos, transporte, comisso, +etc. Tens apenas, em cada queijo uma perda de cento e noventa e nove mil +oitocentos e cinquenta ris! + +O meu Prncipe no desanimou. + +--Perfeitamente! Fao um desses espantosos queijos por semana, ao +sbado, para o comermos ns ambos ao domingo! + +E tanta energia lhe comunicava o seu novo Optimismo, to ansiosamente +aspirava a criar, que logo, arrastando o Silvrio e o Melchior por +cabeos e barrancos, largou a percorrer a quinta toda, para determinar +onde cresceriam, ao seu mando inspirado, os verdes prados, e se +ergueriam, rebrilhantes no sol de Tormes, os currais elegantes. Com a +esplndida segurana dos seus cento e nove contos de renda, no surgia +dificuldade, risonhamente murmurada pelo Melchior, ou exclamada, com +respeitoso pasmo, pelo Silvrio, que ele no afastasse brandamente, com +jeito leve, como um galho de roseira brava atravessado numa vereda. + +Aquelas rochas, alm, empecendo? Que se arrancassem! Um vale importuno +dividia dois campos? Que se atulhasse! O Silvrio suspirava, enxugando +sobre a escura calva um suor quase de angstia. Pobre Silvrio! Rijamente +sacudido na doce pachorra da sua administrao, calculando despesas que +se afiguravam sobre-humanas sua parcimnia serrana, forado a +arquejar, sem descanso, sob soalheiras de Junho, o desgraado retomara +na Serra o jeito que Jacinto deixara em Paris,--e era ele que corria +pelas longas barbas tenebrosas os dedos desalentados... Enfim uma tarde +desabafou comigo, a um canto da varanda, enquanto Jacinto, na +livraria, escrevia a um seu amigo de Holanda, o conde Rylant, Mordomo-Mor +da Corte, pedindo desenhos, e planos, e oramentos de uma queijeira +perfeita. + +--Pois, Sr. Fernandes, se toda esta grandeza vai por diante, sempre lhe +digo que o Sr. D. Jacinto enterra aqui na serra dezenas de contos... +Dezenas de contos! + +E como eu aludia fortuna do meu Prncipe, a quem todas essas obras +to vastas, que alterariam o antiqussimo rosto da serra, no custavam +mais que a outros o concerto de um socalco,--o bom Silvrio atirou os +longos braos para as coxas gordas, ainda mais desolado: + +--Pois por isso mesmo, Sr. Fernandes! Se o Sr. D. Jacinto no tivesse +a dinheirama, recuava. Assim, zs zs, para diante; e eu no o censuro +pela ideia. Lograsse eu a renda de S. Ex.^a, que me atirava tambm a uma +lavoura de capricho. Mas no aqui, Sr. Fernandes, nestas serranias, +entre alcantis. Pois um senhor que possui aquela linda propriedade de +Montemor, nos campos do Mondego, onde at podia plantar jardins de +desbancar os do Palcio de Cristal do Porto! E a Veleira? O Sr. +Fernandes no conhece a Veleira, l para os lados de Penafiel? Isso +um condado! E uma terra ch, boa terra, toda junta, ali em volta da +casa, com uma torre. Um regalo, Sr. Fernandes. Mas sobretudo Montemor! +L que eram prados e manadas de vacas inglesas, e queijeira e horta +rica, de fartar, e a trinta perus na capoeira... + +--Ento que quer, Silvrio? O Jacinto gosta da serra. E depois este o +solar da famlia, e aqui comearam no sculo XIV os Jacintos... + +O pobre Silvrio, no seu desespero, esquecia o respeito devido secular +nobreza da casa. + +--Ora! at ficam mal ao Sr. Fernandes essas ideias, neste sculo da +liberdade... Pois estamos l em tempos de se falar em fidalguias, agora +que por toda a parte anda tudo em Repblica? Leia o _Sculo_, Sr. +Fernandes! leia o _Sculo_, e ver! E depois eu sempre quero ver o Sr. +D. Jacinto, aqui no Inverno, com o nevoeiro a subir do rio logo pela +manh, e a friagem a trespassar os ossos, e ventanias que atiram +carvalheiras de razes ao ar, e chuvas e chuvas que se desfaz a +serra!... Olhe, at mesmo por amor da sade o Sr. D. Jacinto, que +fraquinho e acostumado cidade, necessita sair da serra. Em Montemor, +em Montemor que S. Ex.^a estava bem. E o Sr. Fernandes, to amigo +dele e assim com tanta influncia, devia teimar, e berrar, at que o +levasse para Montemor. + +Mas, infelizmente para a quietao do Silvrio, Jacinto lanara razes, +e rijas, e amorosas razes na sua rude serra. Era realmente como se o +tivessem plantado de estaca naquele antiqussimo cho, donde brotara a +sua raa, e o antiqussimo hmus reflusse e o penetrasse todo, e o +andasse transformando num Jacinto rural, quase vegetal, to do cho, e +preso ao cho, como as rvores que ele tanto amava. + +E depois o que o prendia serra era o ter nela encontrado o que na +Cidade, apesar da sua sociabilidade, no encontrara nunca,--dias to +cheios, to deliciosamente ocupados, de um to saboroso interesse, que +sempre penetrava neles, como numa festa ou numa glria. + +Logo de manh, s seis horas, eu, no meu quarto, mexendo ainda +regaladamente o meu corpo nos colches de fresco folhelho, sentia os +seus rijos sapates pelo corredor, e o seu cantarolar, desafinado, mas +ditoso como o de um melro. Em poucos instantes escancarava com fragor a +minha porta, j de chapu desabado, j de bengalo de cerejeira, +disposto com reservado fervor para os trilhos conhecidos da serra. E era +sempre a mesma nova, quase orgulhosa: + +--Dormi hoje deliciosamente, Z Fernandes. To bem, com uma tal +serenidade, que comeo a acreditar que sou um justo! Um dia lindo! +Quando abri a janela, s cinco horas, quase gritei de puro gosto! + +Na sua pressa, nem me deixava demorar na frescura da banheira; e quando +eu repetia a risca mal comeada do cabelo, aquele antigo homem das +trinta e nove escovas, protestava contra esse desbarato efeminado de um +tempo devido aos fortes gozos da terra. + +Mas quando, depois de acariciar os rafeiros no ptio, desembocvamos da +alameda de pltanos, e diante de ns se dividiam matutinamente, mais +brancos entre o verde matutino, os caminhos coleantes da quinta, toda a +sua pressa findava, e penetrava na Natureza, com a reverente lentido de +quem penetra num Templo. E repetidamente sustentava ser contrrio +Esttica, Filosofia e Religio, andar depressa atravs dos +campos. De resto, com aquela subtil sensibilidade buclica que nele +se desenvolvera, e incessantemente se afinava, qualquer breve beleza, +do ar ou da terra, lhe bastava para um longo encanto. Ditosamente +poderia ele entreter toda uma manh, caminhar por entre um pinheiral, +de tronco a tronco, calado, embebido no silncio, na frescura, no +resinoso aroma, empurrando com o p as agulhas e as pinhas secas. +Qualquer gua corrente o retinha, enternecido naquela servial +actividade, que se apressa, cantando, para o torro que tem sede, e +nele se some, e se perde. E recordo ainda quando me reteve meio +domingo, depois da Missa, no cabeo, junto a um velho curral +desmantelado, sob uma grande rvore,--s por que em torno havia +quietao, doce aragem, um fino piar de ave na ramaria, um murmrio de +regato entre canas verdes, e por sobre a sebe, ao lado, um perfume, +muito fino e muito fresco, de flores escondidas. + +Depois, quando eu, velho familiar das serras, me no abandonava aos +mesmos xtases que a ele lhe enchiam a alma ainda novia--o meu +Prncipe rugia, com a indignao de um poeta que descobre um merceeiro +bocejando sobre Shakespeare ou Musset. Eu ria. + +--Meu filho, olha que eu no passo de um pequeno proprietrio. Para mim +no se trata de saber se a terra _linda_, mas se a terra _boa_. Olha +o que diz a Bblia! Trabalhars a quinta com o suor do teu rosto! E +no diz contemplars a quinta com o enlevo da tua imaginao! + +--Pudera! exclamava o meu Prncipe. Um livro escrito por Judeus, por +speros semitas, sempre com o turvo olho posto no lucro! Repara, homem, +para aquele bocadinho de vale, e consegue no pensar, por um momento, +nos trinta mil ris que ele rende! Vers que pela sua beleza e graa +ele te d mais contentamento alma que os trinta mil ris ao corpo. E +na vida s a alma importa. + +Recolhendo ao casaro, j o encontrvamos com as janelas meio cerradas, +os soalhos borrifados para aquelas quentes rstias de sol de Junho, que +depois do almoo docemente nos retinham na livraria, preguiando. + +Mas realmente a alegre actividade do meu Prncipe no cessava, nem +amolecia, sob o peso da sesta. A essa hora, enquanto pelo arvoredo +mudo os mais agitados pardais dormiam, e o sol mesmo parecia repousar, +imvel na rutilncia da sua luz, Jacinto com o esprito +acordado,--vido de sempre gozar, agora que reconquistara essa +faculdade,--tomava com delcia o _seu livro_. Por que o dono de trinta +mil volumes era agora, na sua casa de Tormes, depois de ressuscitado, o +homem que s tem um livro. Essa mesma Natureza, que o desligara das +ligaduras amortalhadoras do tdio, e lhe gritara o seu belo _Ambula_, +caminha!--tambm certamente lhe gritara _et lege_, e l. E libertado +enfim do invlucro sufocante da sua Biblioteca imensa, o meu ditoso +amigo compreendia enfim a incomparvel delcia de _ler um livro_. +Quando eu correra a Tormes, (depois das revelaes do Severo na venda do +Torto,) ele findava o D. Quixote, e ainda eu lhe escutara as +derradeiras risadas com as coisas deliciosas, e de certo profundas, que +o gordo Sancho lhe murmurava, escarranchado no seu burro. Mas agora o +meu Prncipe mergulhara na _Odisseia_,--e todo ele vivia no espanto e no +deslumbramento de assim ter encontrado no meio do caminho da sua vida, o +velho errante, o velho Homero! + +--Oh Z Fernandes, como sucedeu que eu chegasse a esta idade sem ter +lido Homero?... + +--Outras leituras, mais urgentes... O _Figaro_, George Ohnet... + +--Tu leste a _Ilada_? + +--Menino, sinceramente me gabo de nunca ter lido a _Ilada_. + +Os olhos do meu Prncipe fuzilavam. + +--Tu sabes o que fez Alcibades, uma tarde, no Prtico, a um sofista, +um desavergonhado de um sofista, que se gabava de no ter lido a +_Ilada_? + +--No. + +--Ergueu a mo e atirou-lhe uma bofetada tremenda. + +--Para l, Alcibades! Olha que eu li a _Odisseia_! + +Oh! mas decerto eu a lera, corridamente, com a alma desatenta! E +insistia em me iniciar, ele, e me conduzir, atravs do Livro sem igual. +Eu ria. E rindo, pesado do almoo, terminava por consentir, e me +estirava no canap de verga. Ele, diante da mesa, direito na cadeira, +abria o livro gravemente, pontificalmente, como um missal, e comeava +numa lenta ode sentida. Aquele grande mar da _Odisseia_,-- +resplandecente e sonoro, sempre azul, todo azul, sob o voo branco das +gaivotas, rolando, e mansamente quebrando sobre a areia fina ou contra +as rochas de mrmore das Ilhas divinas,--exalava logo uma frescura +salina, bem-vinda e consoladora naquela calma de Junho, em que a serra +se entorpecia. Depois as estupendas manhas do subtil Ulisses e os seus +perigos sobre-humanos, tantas lamrias sublimes, e um anseio to +espalhado da Ptria perdida, e toda aquela intriga, em que embrulhava +os Heris, lograva as Deusas, iludia o Fado, tinham um delicioso sabor +ali, nos campos de Tormes, onde nunca se necessitava de subtileza ou de +engenho, e a Vida se desenrolava com a segurana imutvel com que cada +manh sempre o Sol igual nascia, e sempre centeios e milhos, regados por +guas iguais, seguramente medravam, espigavam, amadureciam... Embalado +pela recitao grave e montona do meu Prncipe, eu cerrava as plpebras +docemente. Em breve um vasto tumulto, por terra e cu, me alvoroava... +E eram os rugidos de Polifemo, ou a grita dos companheiros de Ulisses +roubando as vacas de Apolo. Com os olhos logo esbugalhados para +Jacinto, eu murmurava: _Sublime!_ E sempre, nesse momento o engenhoso +Ulisses, de carapuo vermelho e o longo remo ao ombro, surpreendia com +a sua facndia a clemncia dos Prncipes, ou reclamava presentes devidos +ao Hspede, ou surripiava astutamente algum favor aos Deuses. E Tormes +dormia, no esplendor de Junho. Novamente, eu cerrava as plpebras +consoladas, sob a carcia inefvel do largo dizer homrico... E meio +adormecido, encantado, incessantemente avistava, longe, na divina +Hlade, entre o mar muito azul e o ceu muito azul, a branca vela, +hesitante, procurando taca... + +Depois da sesta o meu Prncipe de novo se soltava para os campos. E a +essa hora, sempre mais activa, voltava com ardor aos seus planos, a +essas culturas de luxo e elegantes oficinas que cobririam a serra de +magnificncias rurais. Agora andava todo no esplndido apetite de uma +horta que ele concebera, imensa horta ajardinada, em que todos os +legumes, clssicos ou exticos, cresceriam, soberbamente, em vistosos +talhes, fechados por sebes de rosas, de cravos, de alfazema, de +dlias. A gua das regas desceria por lindos crregos de loua +esmaltada. Nas ruas, a sombra cairia de densas latadas de moscatel, +pousando em esteios revestidos de azulejo. E o meu Prncipe desenhara o +plano desta espantosa horta, a lpis vermelho, num papel imenso, que +o Melchior e o Silvrio, consultados, longamente contemplaram,--um +coando risonhamente a nuca, o outro com os braos duramente cruzados, e +o sobrolho trgico. + +Mas este plano, o da queijaria, o da capoeira, e outro, sumptuoso, de um +pombal to povoado que todo o cu de Tormes s tardes se tornaria branco +e todo fremente de asas--no saam das nossas gostosas palestras, ou dos +papis em que Jacinto os debuxava, e que se amontoavam sobre a mesa, +platnicos, imveis, entre o tinteiro de lato e o vaso com flores. + +Nem enxadada fendera terra, nem alavanca deslocara pedra, nem serra +serrara madeira, para encetar estas maravilhas. Contra a resistncia +rebolada e escorregadia do Melchior, contra a respeitosa inrcia do +Silvrio se quedavam, encalhados, os planos do meu Prncipe, como +galeras vistosas em rochas ou em lodo. + +No convinha bulir em nada, (clamava o Silvrio) antes das colheitas e +da vindima! E depois, (acrescentava o Melchior com um sorriso de grande +promessa) para boas obras ms de Janeiro porque l ensina o ditado: + +Em Janeiro--mete obreiro +Ms meante--que no ante. + +E, de resto, o gozo de conceber as suas obras e de indicar, estendendo a +bengala por cima de vale e monte, os stios privilegiados que elas +aformoseariam, bastava por ora ao meu Prncipe, ainda mais imaginativo +que operante. E, enquanto meditava estas transformaes da terra, muito +progressivamente e com um amvel esforo, se ia familiarizando com os +homens simples que a trabalhavam. Na sua chegada a Tormes, o meu +Prncipe sofria de uma estranha timidez diante dos caseiros, dos +jornaleiros, e at de qualquer rapazinho que passasse, tangendo uma +vaca para o pasto. Nunca ele ento se demoraria a conversar com os +moos, quando borda de um caminho ou num campo em monda eles se +endireitavam de chapu na mo, num respeito de velha vassalagem. De +certo o empecia a preguia, e talvez ainda o pdico recato de transpor +toda a imensa distncia que se alargava desde a sua complicada +super-civilizao at rude simplicidade daquelas almas +naturais:--mas sobretudo o retinha o medo de mostrar a sua ignorncia da +lavoura e da terra, ou de parecer talvez desdenhoso de ocupaes e de +interesses, que para os outros eram supremos e quase religiosos. Remia +ento esta reserva com uma profuso de sorrisos, de doces acenos, +tirando tambm o chapu em cortesias profundas, com uma tal nfase de +polidez que eu por vezes receava que ele murmurasse aos jornaleiros: +Tenha V. Ex.^a muito boas tardes;... Criado de V. Ex.^a! + +Mas agora, depois daquelas semanas de serra, e de j saber (com um +saber ainda frgil,) a poca das sementeiras e das ceifas, e que as +rvores de fruta se semeiam no Inverno, j se aprazia em parar junto +dos trabalhadores, contemplar descansadamente o trabalho, dizer coisas +afveis e vagas. + +--Ento, isso vai andando?... Ora ainda bem!... Este bocado de torro +aqui rico... O talude ali adiante est precisando conserto... + +E cada um destes to simples dizeres lhe era doce, como se por meio +deles penetrasse mais fundamente na intimidade da terra, e +consolidasse a sua encarnao em homem do campo, deixando de ser uma +mera sombra circulando entre realidades. J por isso no cruzava no +caminho o mocinho atrs das vacas, que no o detivesse, o no +interrogasse: Para onde vais tu? De quem o gado? Como te chamas? E, +contente consigo, sempre gabava gratamente o desembarao do rapaz, ou a +esperteza dos seus olhos. Outra satisfao do meu Prncipe era conhecer +os nomes de todos os campos, as nascentes de gua, e as delimitaes da +sua quinta. + +--Vs acol, para alm do ribeiro, o pinheiral. J no meu, dos +Albuquerques. + +E com a perene alegria de Jacinto as noites da serra, no vasto +casaro, eram fceis e curtas. O meu Prncipe era ento uma alma que se +simplificava:--e qualquer pequenino gozo lhe bastava, desde que nele +entrasse paz ou doura. Com verdadeira delcia ficava, depois do caf, +estendido numa cadeira, sentindo atravs das janelas abertas, a +nocturna tranquilidade da serra, sob a mudez estrelada do cu. + +As histrias, muito simples e muito caseiras, que eu lhe contava, de +Guies, do abade, da tia Vicncia, dos nossos parentes da Flor da +Malva, to sinceramente o interessavam que eu encetara, para seu regalo, +a crnica completa de Guies, com todos os namoricos, e as faanhas de +foras, e as desavenas por causa de servides ou de guas. Tambm por +vezes nos enfronhvamos, com aferro numa partida de gamo, sobre um +belo tabuleiro de pau preto, com pedras de velho marfim, que nos +emprestara o Silvrio. Mas nada de certo o encantava tanto como +atravessar as casas, p ante p, at uma saleta que dava para o pomar, e +a ficar encostado janela, sem luz, num enlevado sossego, a escutar +longamente, languidamente, os rouxinis que cantavam no laranjal. + + + + +X + + +Numa dessas manhs--justamente na vspera do meu regresso a Guies--, o +tempo, que andara pela serra to alegre, num inalterado riso de luz +rutilante, todo vestido de azul e ouro, fazendo poeira pelos caminhos, e +alegrando toda a natureza, desde os pssaros at os regatos, +subitamente, com uma daquelas mudanas que tornam o seu temperamento +to semelhante ao do homem, apareceu triste, carrancudo, todo +embrulhado no seu manto cinzento, com uma tristeza to pesada e +contagiosa que toda a serra entristeceu. E no houve mais pssaro que +cantasse, e os arroios fugiram para debaixo das ervas com um lento +murmrio de choro. + +Quando Jacinto entrou no meu quarto, no resisti malcia de o +aterrar: + +--Sudoeste! gralhas a grasnar por todos esses soutos... Temos muita +gua, Sr. D. Jacinto! Talvez duas semanas de gua! E agora se vai +saber quem aqui o fino amador da Natureza, com esta chuva pegada, com +vendaval, com a serra toda a escorrer! + +O meu Prncipe caminhou para a janela com as mos nas algibeiras: + +--Com efeito! Est carregado. J mandei abrir uma das malas de Paris e +tirar um casaco impermevel... No importa! Fica o arvoredo mais verde. +E bom que eu conhea Tormes nos seus hbitos de Inverno. + +Mas como o Melchior lhe afianara que a chuvinha s viria para a +tarde, Jacinto decidiu ir antes de almoo Corujeira, onde o Silvrio +o esperava para decidirem da sorte de uns castanheiros, muito velhos, +muito pitorescos, inteiramente interessantes, mas j rodos, e +ameaando desabar. E, confiando nas previses do Melchior, partimos sem +que Jacinto se vestisse prova de gua. No andramos porm meio +caminho, quando, depois de um arrepio nas rvores, um negrume carregou, +e, bruscamente, desabou sobre ns uma grossa chuva oblqua, vergastada +pelo vento, que nos deixou estonteados, agarrando os chapus, +enrodilhados na borrasca. Chamados por uma grande voz, que se esganiava +no vento, avistmos num campo mais alto, beira de um alpendre, o +Silvrio, debaixo de um guarda-chuva vermelho, que acenava, nos indicava +o trilho mais curto para aquele abrigo. E para l rompemos, com a chuva +a escorrer na cara, patinhando na lama, contorcidos, cambaleantes, +atordoados no vendaval, que num instante alagara os campos, inchara os +ribeiros, esboroava a terra dos socalcos, lanara num desespero todo o +arvoredo, tornara a serra negra, bravamente agreste, hostil, +inabitvel. + +Quando enfim, debaixo do vasto guarda-chuva com que o Silvrio nos +esperava beira do campo, corremos para o alpendre, nos refugimos +naquele abrigo inesperado, a escorrer, a arquejar, o meu Prncipe, +enxugando a face, enxugando o pescoo, murmurou, desfalecido: + +--Apre! que ferocidade! + +Parecia espantado daquela brusca, violenta clera de uma serra to +amvel e acolhedora, que em dois meses, inalteradamente, s lhe +oferecera doura e sombra, e suaves cus, e quietas ramagens, e +murmrios discretos de ribeirinhos mansos. + +--Santo Deus! Vem muitas vezes assim, estas borrascas? + +Imediatamente o Silvrio aterrou o meu Prncipe: + +--Isto agora so brincadeiras de Vero, meu senhor! Mas h-de V. Ex.^a +ver no Inverno, se V. Ex.^a se aguentar por c! Ento cada temporal, +que at parece que os montes estremecem! + +E contou como fora tambm apanhado, quando ia para a Corujeira. +Felizmente, logo pela manh, quando sentiu o ar carrancudo e as +folhinhas dos choupos a tremer, se acautelara com o chapu de chuva e +calara as suas grandes botas. + +--Ainda estive para me abrigar em casa do Esgueira, que um caseiro de +c. Aquela casa, ali abaixo, onde est a figueira... Mas a mulher tem +estado doente, j h dias... E como pode ser obra que se pegue, bexigas +ou coisa que o valha, pensei comigo: Nada, o seguro morreu de velho! +Meti para o alpendre... E no passara um credo quando lobriguei a V. +Ex.^a... Coisa assim!... E o Sr. D. Jacinto voltar para casa, e +mudar-se, que temos um dia e uma noite de gua. + +Mas, justamente, a chuva comeara a cair perpendicular, de um cu ainda +negro, onde o vento se calara; e para alm do rio e dos montes havia uma +claridade, como entre cortinas de pano cinzento que se descerram. + +Jacinto repousava. Eu no cessara de me sacudir, de bater os ps +encharcados, que me arrefeciam. E o bom Silvrio, passando a mo +pensativa sobre o negrume das suas barbas, reflectia, emendava os seus +prognsticos: + +--Pois, no senhor... Ainda estia! Nunca pensei. que tornejou o vento. + +O alpendre que nos cobria assentava sobre duas paredes em ngulo, de +pedra solta, restos de algum casebre desmantelado, e sobre um esteio +fazendo cunhal. Nesse momento s abrigava madeira, um cuculo de cestos +vazios, e um carro de bois, onde o meu Prncipe se sentara, enrolando um +cigarro confortador. A chuva desabava, copiosa, em longos fios +reluzentes. E todos trs nos calvamos, naquela contemplao inerte e +sem pensamento, em que uma chuva grossa e serena sempre imobiliza e +retm olhos e almas. + +-- Sr. Silvrio, murmurou lentamente o meu Prncipe, que que o +senhor esteve a a dizer de bexigas? + +O procurador voltou a face surpreendido: + +--Eu, Ex.^{mo} Sr.?... Ah sim! a mulher do Esgueira! que pode ser, +pode ser... No imagine V. Ex.^a que faltam por c doenas. O ar bom. +No digo que no! Arzinho so, aguazinha leve. Mas s vezes, se V. Ex.^a +me d licena, vai por a muita maleita. + +--Mas no h mdico, no h botica? + +O Silvrio teve o riso superior de quem habita regies civilizadas e bem +providas... + +--Ento no havia de haver? Pois h um boticrio, em Guies, l quase ao +p da casa aqui do nosso amigo. E homem entendido... o Firmino, hein, +Sr. Fernandes? Homem capaz. Mdico o Dr. Avelino, daqui a lgua e +meia, nas Bolsas. Mas j V. Ex.^a v, esta gentinha pobre!... Tomaram +eles para po, quanto mais para remdios! + +E de novo se estabeleceu um silncio, sob o alpendre, onde penetrava a +friagem crescente da serra encharcada. Para alm do rio, a prometedora +claridade no se alargara entre as duas espessas cortinas pardacentas. +No campo, em declive diante de ns, ia um longo correr de ribeiros +barrentos. Eu terminara por me sentar na ponta de um madeiro, enervado, +j com a fome aguada pela manh agreste. E Jacinto, na borda do carro, +com os ps no ar, cofiava os bigodes hmidos, palpava a face, onde, com +espanto meu, reaparecera a sombra, a sombra triste dos dias passados, a +sombra do 202! + +E, ento, surdiu por trs da parede do alpendre um rapazito, muito +rotinho, muito magrinho, com uma carita mida, toda amarela sob a +porcaria, e onde dois grandes olhos pretos se arregalavam para ns, com +vago pasmo e vago medo. Silvrio imediatamente o conheceu. + +--Como vai a tua me? Escusas de te chegar para c, deixa-te estar a. +Eu ouo bem. Como vai a tua me? + +No percebi o que os pobres beicitos descorados murmuraram. Mas Jacinto, +interessado: + +--Que diz ele? Deixe vir o rapaz! Quem a tua me? + +Foi o Silvrio que informou respeitosamente: + +-- a tal mulher que est doente, a mulher do Esgueira, ali do casal da +figueira. E ainda tem outro abaixo deste... Filharada no lhe falta. + +--Mas este pequeno tambm parece doente!--exclamou Jacinto. Coitadito, +to amarelo!... Tu tambm ests doente? + +O rapazinho emudecera, chupando o dedo, com os tristes olhos pasmados. +E o Silvrio sorria, com bondade: + +--Nada! este sozinho... Coitado, assim amarelado e enfezadito, por +que... Que quer V. Ex.^a? Mal comido! muita misria... Quando h o +bocadito de po para todo o rancho. Fomezinha, fomezinha! + +Jacinto pulou bruscamente da borda do carro. + +--Fome? Ento ele tem fome? H aqui gente com fome? + +Os seus olhos rebrilhavam, num espanto comovido, em que pediam, ora a +mim, ora ao Silvrio, a confirmao desta misria insuspeitada. E fui +eu que esclareci o meu Prncipe: + +--Homem! est claro que h fome! Tu imaginavas talvez que o Paraso se +tinha perpetuado aqui nas serras, sem trabalho e sem misria... Em toda +a parte h pobres, at na Austrlia, nas minas de ouro. Onde h trabalho +h proletariado, seja em Paris, seja no Douro... + +O meu Prncipe, teve um gesto de aflita impacincia: + +--Eu no quero saber o que h no Douro. O que eu pergunto se aqui, em +Tormes, na minha propriedade, dentro destes campos que so meus, h +gente que trabalhe para mim, e que tenha fome... Se h criancinhas, como +esta, esfomeadas? o que eu quero saber. + +O Silvrio sorria, respeitosamente, ante aquela cndida ignorncia das +realidades da Serra: + +--Pois est bem de ver, meu senhor, que h para a caseiros que so +muito pobres. Quase todos... uma misria, que se no fosse algum +socorro que se lhes d, nem eu sei!... Este Esgueira, com o rancho de +filhos que tem, uma desgraa... Havia V. Ex.^a de ver as casitas em +que eles vivem... So chiqueiros. A do Esgueira, acol... + +--Vamos v-la! atalhou Jacinto com uma deciso exaltada. + +E saiu logo do alpendre, sem atender chuva, que ainda caa, mais +leve e mais rala. Mas ento Silvrio alargou os braos diante dele, +com ansiedade, como para o salvar de um precipcio. + +--No! V. Ex.^a l na casa do Esgueira que no entra! No se sabe o +que a mulher tem, e cautela e caldo de galinha... + +Jacinto no se alterou na sua polidez paciente: + +--Obrigado pelo seu cuidado, Silvrio... Abra o seu chapu de chuva, e +avante! + +Ento o Procurador vergou os ombros, e, como S. Ex.^a mandava, abriu +com estrondo o imenso pra-guas, abrigou respeitosamente Jacinto, +atravs do campo encharcado. Eu segui, pensando na esmola sumptuosa que +o bom Deus mandava quele pobre casal por um remoto senhor das Cidades! +Atrs vinha o pequenito perdido num imenso pasmo. + +Como todos os casebres da serra, o do Esgueira era de grossa pedra +solta, sem reboco, com um vago telhado, de telha musgosa e negra, um +postigo no alto, e a rude porta que servia para o ar, para a luz, para o +fumo, e para a gente. E em redor, a Natureza e o Trabalho tinham, +atravs de anos, acumulado ali trepadeiras e flores silvestres, e +cantinhos de horta, e sebes cheirosas, e velhos bancos rodos de musgo, e +panelas com terra onde crescia salsa, e regueiros cantantes, e videiras +enforcadas nos olmos, e sombras e charcos espelhados, que tornavam +deliciosa, para uma cloga, aquela morada da Fome, da Doena e da +Tristeza. + +Cautelosamente, com a ponteira do guarda-chuva, Silvrio empurrou a +porta, chamando: + +--Eh! tia Maria... Ol rapariga! + +E na fenda entreaberta apareceu uma moa, muito alta, escura e suja, +com uns tristes olhos pisados, que se espantaram para ns, serenamente. + +--Ento como vai a tua me?--Abre l a porta, que esto aqui estes +senhores... + +Ela abriu, lentamente, e ia murmurando numa voz dolente e arrastada +mas sem queixume, que um vago, resignado sorriso acompanhava: + +--Ora, coitada! como h-de ir? Malzinha... malzinha. + +E dentro, num gemido que subia como do cho, dentre abafos, amodorrado +e lento, a me repetiu a desconsolada queixa: + +--Ai! para aqui estou, e malzinha, malzinha!... + +O Silvrio, sem passar da porta, com o guarda-chuva em riste, meio +aberto, como um escudo contra a infeco, lanou uma consolao vaga: + +--No h-de ser nada, tia Maria!... Isso foi friagem! No foi seno +friagem! + +E, sobre o ombro de Jacinto, encolhido: + +--J V. Ex.^a v... Muita misria! At lhe chove l dentro. + +E, no pedao de cho que viam, cho de terra batida, uma mancha hmida +reluzia, da chuva pingada de uma telha rota. A parede, coberta de +fuligem, das longas fumaraas da lareira, era to negra como o cho. E +aquela penumbra suja parecia atulhada, numa desordem escura, de +trapos, de cacos, de restos de coisas, onde s mostravam forma +compreensvel uma arca de pau negro, e por cima, pendurado de um prego, +entre uma serra e uma candeia, um grosso saiote escarlate. + +Ento Jacinto, muito embaraado, murmurou abstraidamente: + +--Est bem, est bem... + +E largou pelo campo para o lado do alpendre como se fugisse, enquanto o +Silvrio decerto revelava rapariga, a presena augusta do fidalgo, +porque a sentimos, da porta, levantar a voz dolorida: + +--Ai! Nosso Senhor lhe d muito boa sorte! Nosso Senhor o acompanhe! + +Quando o Silvrio, com as grandes passadas das suas grandes botas, nos +colheu, no meio do campo, Jacinto parara, olhava para mim, com os dedos +trmulos a torturar o bigode, e murmurava: + +-- horrvel, Z Fernandes, horrvel. + +Ao lado, o vozeiro do Silvrio trovejou: + +--Que queres tu outra vez, rapaz? Vai para a tua me, criatura! + +Era o pequeno rotinho, esfaimadinho, que se prendia a ns, num imenso +pasmo das nossas pessoas, e com a confusa esperana, talvez, que +delas, como de Deuses encontrados num caminho, lhe viesse afago ou +proveito. E Jacinto, para quem ele mais especialmente arregalava os +olhos tristes, e que aquela misria, e a sua muda humildade, +embaraavam, acanhavam horrivelmente, s soube sorrir, murmurar o seu +vago: Est bem, est bem... Fui eu que dei ao pequenito um tosto, +para o fartar, o despegar dos nossos passos. Mas como ele, com o seu +tosto bem agarrado, nos seguia ainda, como no sulco da nossa +magnificncia, o Silvrio teve de o espantar, como a um pssaro, batendo +as mos, e de lhe gritar: + +--J para casa! E leve esse dinheiro me. Roda, roda!... + +--E ns vamos almoar, lembrei eu olhando o relgio. O dia ainda vai +estar lindo. + +Sobre o rio, com efeito, reluzia um pedao de azul lavado e lustroso; e +a grossa camada de nuvens j se ia enrolando sob a lenta varredela do +vento, que as levava, despejadas e rotas, para um canto escuso do cu. + +Ento recolhemos lentamente para casa, por uma vereda ngreme, que +ensinara o Silvrio, e onde um leve enxurro vinha ainda, saltando e +chalrando. De cada ramo tocado, rechovia uma chuva leve. Toda a verdura, +que bebera largamente, reluzia consolada. + +Bruscamente, ao sairmos da vereda para um caminho mais largo, entre um +socalco e um renque de vinha, Jacinto parou, tirando lentamente a +cigarreira: + +--Pois, Silvrio, eu no quero mais estas horrveis misrias na quinta. + +O Procurador deu um jeito aos ombros, com um vago _eh_! _eh_! +de obedincia e dvida. + +--Antes de tudo, continuava Jacinto, mande j hoje chamar esse Dr. +Avelino para aquela pobre mulher... E os remdios que os vo buscar +logo a Guies. E recomendao ao mdico para voltar amanh, e em cada +dia; at que ela melhore... Escute! E quero, Melchior, que lhe leve +dinheiro, para os caldos, para a dieta, uns dez, ou quinze mil ris... +Bastar? + +O Procurador no conteve um riso respeitoso. Quinze mil ris! Uns +tostes bastavam... Nem era bom acostumar assim, a tanta franqueza, +aquela gente. Depois todos queriam, todos pedinchavam... + +--Mas que todos ho-de ter, disse Jacinto simplesmente. + +--V. Ex.^a manda, murmurou o Silvrio. + +Encolhera os ombros, parado no caminho, no espanto daquelas +extravagncias. Eu tive de o apressar, impaciente: + +--Vamos conversando e andando! meio-dia! Estou com uma fome de lobo! + +Caminhmos, com o Silvrio no meio, pensativo, a fronte enrugada sob a +vasta aba do chapu, a barba imensa espalhada pelo peito, e a barraca +exorbitante do guarda-chuva vermelho enrolada debaixo do brao. E +Jacinto, puxando nervosamente o bigode, arriscava outras ideias +benfazejas, cautelosamente, no seu indominvel medo do Silvrio: + +--E as casas tambm... Aquela casa um covil!... Gostava de abrigar +melhor aquela pobre gente... E naturalmente, as dos outros caseiros so +pocilgas iguais... Era necessrio uma reforma! Construir casas novas a +todos os rendeiros da quinta... + +--A todos?...--O Silvrio gaguejava,--emudeceu. + +E Jacinto balbuciava aterrado: + +--A todos... Enfim, quero dizer... Quantos sero eles? + +Silvrio atirou um gesto enorme: + +--So vinte e coisas... Vinte e trs! se bem lembro. Upa! Upa! Vinte e +sete... + +Ento Jacinto emudeceu tambm, como reconhecendo a vastido do nmero. +Mas desejou saber, por quanto ficaria cada casa!... Oh! uma casa +simples, mas limpa, confortvel, como a que tinha a irm do Melchior, ao +p do lagar. Silvrio estacou de novo. Uma casa como a da Ermelinda? +Queria Sua Ex.^a saber? E alijou a cifra, muito de alto, como uma pedra +imensa, para esmagar Jacinto: + +--Duzentos mil ris, Ex^mo Senhor! E para mais que no para menos! + +Eu ria da trgica ameaa do excelente homem. E Jacinto, muito +docemente, para conciliar o Silvrio: + +--Bem, meu amigo... Eram uns seis contos de ris! Digamos dez, por que +eu queria dar a todos alguma moblia e alguma roupa. + +Ento o Silvrio teve um brado de terror: + +--Mas ento, Ex.^mo Senhor, uma revoluo! + +E como ns, irresistivelmente, ramos dos seus olhos esgazeados de +horror, dos seus imensos braos abertos para trs, como se visse o +mundo desabar,--o bom Silvrio encavacou: + +--Ah! V. Ex.^{as} riem? Casas para todos, moblias, pratas, bragal, dez +contos de ris! Ento tambm eu rio! Ah! ah! ah! Ora viva a bela +chalaa!... Est boa a risota! + +E subitamente, numa profunda mesura, como declinando toda a +responsabilidade naquele disparate magnfico: + +--Enfim, V. Ex.^a quem manda! + +--Est mandado, Silvrio. E tambm quero saber as rendas que paga essa +gente, os contratos que existem, para os melhorar. H muito que +melhorar. Venha voc almoar connosco. E conversamos. + +To saturado de espanto estava o Silvrio, que nem recebeu mais espanto +com essa melhoria de rendas. Agradeceu o convite, penhorado. Mas pedia +licena a Sua Ex.^a para passar primeiramente pelo lagar, para ver os +carpinteiros que andavam a concertar a trave do rio. Era um instante, e +estava em seguida s ordens de S. Ex.^a. + +Meteu a corta-mato, saltando um cancelo. E ns seguimos, com passos +que eram ligeiros, pela hora do almoo que se retardara, pelo azul +alegre que reaparecia, e por toda aquela justia feita pobreza da +serra. + +--No perdeste hoje o teu dia, Jacinto, disse eu, batendo, com uma +ternura que no disfarcei, no ombro do meu amigo. + +--Que misria, Z Fernandes! Eu nem sonhava... Haver por a, vista da +minha casa, outras casas, onde crianas tm fome! horrvel... + +Estvamos entrando na alameda. Um raio de sol, saindo dentre duas +grossas, algodoadas nuvens, passou sobre uma esquina do casaro, ao +fundo, uma viva tira de ouro. O clarim dos galos soava claro e alto. E +um doce vento, que se erguera, punha nas folhas lavadas e luzidias um +frmito alegre e doce. + +--Sabes o que eu estava pensando, Jacinto?... Que te aconteceu aquela +lenda de Santo Ambrsio... No, no era Santo Ambrsio... No me lembra +o santo... Nem era ainda santo... apenas um cavaleiro pecador, que se +enamorara de uma mulher, pusera toda a sua alma nessa mulher, s por a +avistar a distncia na rua. Depois, uma tarde que a seguia, enlevado, +ela entrou num portal de igreja, e a, de repente, ergueu o vu, +entreabriu o vestido, e mostrou ao pobre cavaleiro o seio rodo por uma +chaga! Tu, tambm andavas namorado da serra, sem a conhecer, s pela sua +beleza de Vero. E a serra, hoje, zs! de repente, descobre a sua +grande lcera... talvez a tua preparao para S. Jacinto. + +Ele parou, pensativo, com os dedos nas cavas do colete: + +--- verdade! Vi a chaga! Mas enfim, esta, louvado seja Deus, das que +eu posso curar! + +No desiludi o meu Prncipe. E ambos subimos alegremente a escadaria do +casaro. + + + + +XI + + +No dia que seguiu estas largas caridades recolhi a Guies. E, desde +ento, tantas vezes trotei por aquelas trs lguas entre a nossa e a +velha alameda dos Jacintos, que a minha gua, quando a desviava dessa +estrada familiar, conduzindo a uma cavalaria familiar, (onde ela +privava com o garrano do Melchior) relinchava de pura saudade. At a tia +Vicncia se mostrava vagamente ciumenta daquela Tormes, para onde eu +sempre corria, daquele Prncipe de quem incessantemente celebrava o +rejuvenescimento, a caridade, os pitus, e as quimeras agrcolas. J um +dia com um gro de sal e ironia,--o nico que cabia num corao todo +cheio de inocncia,--ela me dissera, movendo com mais vivacidade as +agulhas da sua meia: + +--Olha que te podes gabar! At me tens feito curiosidade de conhecer +esse Jacinto... Traz c essa maravilha, menino! + +Eu rira: + +--Sossegue, tia Vicncia, que o trarei agora, para o dia dos meus anos, +a jantar... Damos uma festa, haver um bailarico no ptio, e vem a +toda essa senhorama dos arredores. Talvez at se arranje uma noiva para +o Jacinto. + +Eu, com efeito, j convidara o meu Prncipe para este natalcio. E de +resto convinha que o senhor de Tormes conhecesse todos aqueles senhores +das boas casas da serra... Sobretudo, como eu lhe dizia rindo, convinha +que ele conhecesse algumas mulheres, algumas daquelas fortes +raparigas dos solares serranos, porque Tormes tinha uma solido muito +monstica; e o homem, sem um pouco do Eterno Feminino, facilmente se +enrudece e ganha uma casca spera como a das rvores, na solido. + +--E esta Tormes, Jacinto, esta tua reconciliao com a Natureza, e o +renunciamento s mentiras da Civilizao uma linda histria... Mas, +caramba, faltam mulheres! + +Ele concordava, rindo, languidamente estendido na cadeira de vime: + +--Com efeito, h aqui falta de mulher, com M. grande. Mas essas +senhoras a das casas dos arredores... No sei, estou pensando que se +devem parecer com legumes. Ss, nutritivas, excelentes para a +panela--mas, enfim, legumes. As mulheres que os poetas comparam s +Flores so sempre as mulheres das Cortes, das Capitais, s quais, +invariavelmente, desde Hesodo e de Horcio, se rendem os poetas... E +evidentemente no h perfume, nem graa, nem elegncia, nem requinte, +numa cenoura ou numa couve... No devem ser interessantes as senhoras +da minha serra. + +--Eu te digo... A tua vizinha mais chegada, a filha do D. Teotnio, com +efeito, salvo o respeito que se deve casa ilustre dos Barbedos, um +mostrengo! A irm dos Albergarias, da quinta da Loja, tambm no +tentaria nem mesmo o precisado Santo Anto. Sobretudo se se despisse, +por que um espinafre infernal! Essa realmente legume, e no dos +nutritivos. + +--Tu o disseste: espinafre! + +--Temos tambm a D. Beatriz Veloso... Essa bonita... Mas, menino, que +horrivelmente bem falante! Fala como as heronas do Camilo. Tu nunca +leste o Camilo... E depois, um tom de voz que te no sei descrever, o +tom com que se fala em D. Maria, em peas de sentimento. Tu tambm +nunca viste o Teatro de D. Maria... Enfim, um horror! E perguntas +pavorosas. V. Ex.^a. Sr. Doutor, no se delicia com Lamartine? J me +disse esta, a indecente! + +--E tu? + +--Eu! Arregalei os olhos... Oh Lamartine!. Mas, coitada, uma +excelente rapariga! Agora, por outro lado, temos as Rojes, as filhas +de Joo Rojo, duas flores, muito frescas, muito alegres, com um cheiro +e um brilho a sadio, e muito simples... A tia Vicncia morre por elas. +Depois h a mulher do Dr. Alpio, que uma beleza. Oh! uma criatura +esplndida! Mas, enfim, a mulher do Dr. Alpio, e tu renunciaste aos +deveres da Civilizao... Alm disso, mulher muito sria, toda absorvida +nos seus dois pequenos, que parecem dois anjinhos de Murillo... E quem +mais? J agora, quero completar a lista do pessoal feminino. Temos a +Melo Rebelo, de Sandofim, muito engraada, com cabelo lindo... Borda +na perfeio, faz doces como uma freira do antigo Regime... Havia +tambm uma Jlia Lobo, muito linda, mas morreu... Agora no me lembro +mais. Mas falta a flor da Serra, que a minha prima Joaninha, da Flor +da Malva! Essa uma perfeio de rapariga. + +--E tu, primo Z, como tens tu resistido? + +--Somos como irmos, criados de pequeninos, mais acostumados e +familiares que tu e eu... A familiaridade esbate os sexos. A me dela +era a nica irm da tia Vicncia, e morreu muito nova. A Joaninha, +quase desde o bero que se criou em nossa casa, em Guies. O pai bom +homem, o tio Adrio. Erudito, antiqurio, coleccionador... Colecciona +toda a sorte de coisas esquisitas, campainhas, esporas, sinetes, +fivelas... Tem uma coleco curiosa. Ele h muito que deseja vir a +Tormes, para te visitar... Mas, coitado, sofre da bexiga, no pode +montar a cavalo. E a estrada da Flor da Malva aqui impossvel para +carruagens... + +O meu Prncipe espreguiara longamente os braos: + +--No, est claro! eu que hei-de visitar teu tio, e a tia Vicncia... +Desejo conhecer os meus vizinhos. Mas mais tarde, quando sossegar. Agora +ando todo ocupado com o meu povo. + +E com efeito! Jacinto era agora como um Rei fundador de um Reino, e +grande edificador. Por todo o seu domnio de Tormes andavam obras, para +o renovamento das casas dos rendeiros, umas que se concertavam, outras +mais velhas, que se derrubavam para se reconstrurem com uma largueza +cmoda. Pelos caminhos constantemente chiavam carros, carregados de +pedra, ou de madeiras cortadas nos pinheirais. + +Na taberna do Pedro, entrada da freguesia, ia um desusado movimento, +de pedreiros e carpinteiros contratados para as obras;--e o Pedro, com +as mangas arregaadas, por trs do balco, no cessava de encher os +decilitros com uma vasta infusa. + +Jacinto, que tinha agora dois cavalos, todas as manhs cedo percorria +as obras, com amor. Eu, inquieto, sentia outra vez, latejar e irromper +no meu Prncipe o seu velho, manaco furor de acumular Civilizao! O +plano primitivo das obras era incessantemente alargado, aperfeioado. +Nas janelas, que deviam ter apenas portadas, segundo o secular costume +da serra, decidira pr vidraas, apesar do mestre de obras lhe dizer +honradamente, que depois de habitadas um ms, no haveria casa com um s +vidro. Para substituir as traves clssicas queria estucar os tectos;--e +eu via bem claramente que ele se continha, se retesava dentro do +Bom-Senso, para no dotar cada casa com campainhas elctricas. Nem +sequer me espantei, quando ele uma manh me declarou que a porcaria da +gente do campo provinha de eles no terem onde comodamente se lavar, +pelo que andava pensando em dotar cada casa com uma banheira. Descamos +nesse momento, com os cavalos rdea, por uma azinhaga precipitada e +escabrosa; um vento leve ramalhava nas rvores, um regato saltava +ruidosamente entre as pedras. Eu no me espantei--mas realmente me +pareceu que as pedras, o arroio, as ramagens e o vento, se riam +alegremente do meu Prncipe. E alm destes confortos, a que o Joo, +mestre de obras, com os olhos loucamente arregalados chamava as +grandezas, Jacinto meditava o bem das almas. J encomendara ao seu +arquitecto, em Paris, o plano perfeito de uma escola, que ele queria +erguer, naquele campo da Carria, junto capelinha que abrigava os +ossos. Pouco a pouco, a criaria tambm uma biblioteca, com livros +de estampas, para entreter, aos domingos, os homens a quem j no era +possvel ensinar a ler. Eu vergava os ombros, pensando:--A vem a +terrvel acumulao das Noes! Eis o livro invadindo a Serra! Mas +outras ideias de Jacinto eram tocantes,--e eu mesmo me entusiasmei, e +excitei o entusiasmo da tia Vicncia com o seu plano de uma Creche, onde +ele esperava ter manhs muito divertidas vendo as criancinhas a +gatinhar, a correr tropegamente atrs de uma bola. De resto, o nosso +boticrio de Guies estava j apalavrado para estabelecer uma pequena +farmcia em Tormes, sob a direco do seu praticante, um afilhado da +tia Vicncia, que tinha publicado um artigo sobre as festas populares do +Douro no _Almanaque de Lembranas_. E j fora oferecido o partido mdico +de Tormes, com ordenado de 600$000 ris. + +--No te falta seno um Teatro! dizia eu, rindo. + +--Um teatro no. Mas tenho a ideia de uma sala, com projeces de +lanterna mgica, para ensinar a esta pobre gente as cidades desse +mundo, e as coisas de frica, e um bocado de Histria. + +E tambm me ensoberbeci com esta inovao!--E quando a contei ao tio +Adrio, o digno antiqurio bateu, apesar do seu reumatismo, uma palmada +tremenda na coxa. Sim, senhor! Bela ideia! Assim se podia ensinar +quela gente iletrada, vivamente, por imagens, a Histria Santa, a +Histria Romana, at a Histria de Portugal!... E voltado para a prima +Joaninha, o tio Adrio declarou Jacinto um homem de corao! + +E realmente pela Serra crescia a popularidade do meu Prncipe. +Naquele, guarde-o Deus, meu senhor! com que as mulheres ao passar o +saudavam, se voltavam para o ver ainda, havia uma seriedade de orao, o +bem sincero desejo de que Deus o guardasse sempre. As crianas a quem +ele distribua tostes, farejavam de longe a sua passagem,--e era em +torno dele um escuro formigueiro de caritas trigueiras e sujas, com +grandes olhos arregalados, que se ainda tinham pasmo, j no tinham +medo. Como o cavalo de Jacinto uma tarde se chapara, ao desembocar da +alameda, numas grossas pedras que a deformavam a estrada, logo ao +outro dia um bando de homens, sem que Jacinto o ordenasse, veio por +dedicao ensaibrar e alisar aquele pedao perigoso de caminho, +aterrados com o risco que correra o bom senhor. J pela serra se +espalhava esse nome de bom senhor. Os mais idosos da freguesia no o +encontravam sem exclamarem, uns com gravidade, outros com grandes risos +desdentados:--_Este o nosso benfeitor!_ Por vezes, alguma velha corria +do fundo do eido, ou vinha porta do casebre, ao avist-lo no caminho, +para gritar, com grandes gestos dos braos magros: Ai que Deus o cubra +de bnos! Que Deus o cubra de bnos! + +Aos domingos, o padre Jos Maria, (bom amigo meu e grande caador) vinha +de Sandofim, na sua gua rua, a Tormes, para celebrar a missa na +Capelinha. Jacinto assistia ao ofcio na sua tribuna, como os +Jacintos doutras eras, para que aqueles simples o no supusessem +estranho a Deus. Quase sempre ento ele recebia presentes, que as +filhas dos caseiros, ou os pequenos, vinham muito corados, trazer-lhe +varanda, e eram vasos de manjerico, ou um grosso ramalhete de cravos, e +por vezes um gordo pato. Havia ento uma distribuio de cavacas e +merengues de Guies, s raparigas e s crianas,--e, no ptio, para os +homens circulavam as infusas de vinho branco. O Silvrio j sustentava +com espanto, e redobrado respeito, que o Sr. D. Jacinto em breve +disporia de mais votos nas eleies que o Dr. Alpio. E eu prprio me +impressionei, quando o Melchior me contou que o Joo Torrado, um velho +singular daqueles stios, de grandes barbas brancas, ervanrio, +vagamente alveitar, um pouco adivinho, morador misterioso de uma cova no +alto da serra, a todos afirmava que aquele bom senhor era El-Rei D. +Sebastio, que voltara! + + + + +XII + + +Assim chegou Setembro, e com ele o meu natalcio, que era a 3 e num +Domingo. Toda essa semana a passara eu em Guies, nos preparos da +vindima,--e de manh cedo, nesse Domingo ilustre, me fui debruar da +varanda do quarto do saudoso tio Afonso, vigiando a estrada, por onde +devia aparecer o meu Prncipe, que enfim visitava a casa do seu Z +Fernandes. A tia Vicncia, desde a madrugada, andava atarefada pela +cozinha e pela copa, porque, desejando mostrar ao meu Prncipe o +pessoal da serra, convidara para jantar algumas famlias amigas, dos +arredores, as que tinham carruagens ou carroes, e podiam, pelas +estradas mal seguras, recolher tarde, depois de um bailarico campestre, +no ptio, j enfeitado para esse efeito de lanternas chinesas. Mas logo +s dez horas me desesperei, ao receber, por um moo da Flor da Malva, +uma carta da prima Joaninha, em que dizia a pena de no poder vir +porque o Pap estava desde a vspera com um leiceno, e ela no o +queria abandonar. Corri indignado cozinha, onde a tia Vicncia +presidia a um violento bater de gemas de ovos dentro de uma imensa +terrina. + +--A Joaninha no vem! Sempre assim! Diz que o pai tem um leiceno... +Aquele tio Adrio escolhe sempre os grandes dias para ter leicenos, ou +para ter a pontada... + +A boa face redondinha e corada da tia Vicncia enterneceu-se. + +--Coitado! ser em stio que no se pudesse sentar na carruagem! +Coitado! Olha, se lhe escreveres, diz-lhe que ponha um emplastrozinho +de folhas de alecrim. com que teu tio se dava bem. + +Eu gritei simplesmente para o moo, que dava de beber ao burro no ptio: + +--Diz Sr.^a D. Joaninha que sentimos muito... Que talvez eu l +aparea amanh. + +E voltei janela, impaciente, por que o relgio do corredor, muito +atrasado, j cantara a meia hora depois das dez e o Prncipe tardava +para o almoo. Mas, mal eu me chegara varanda, apareceu justamente na +volta da estrada Jacinto, de grande chapu de palha, no seu cavalo, +seguido do Grilo que, tambm de chapu de palha, e abrigado sob um +imenso guarda-sol verde, se escarranchava no albardo da velha gua do +Melchior. Atrs, um moo com uma maleta cabea. E eu, na alegria de +avistar enfim o meu Prncipe trotando para a minha casa de aldeia, no dia +dos meus trinta e seis anos, pensava noutro natalcio, no dele, em +Paris, no 202, quando, entre todos os esplendores da Civilizao, ns +bebemos tristemente _ad manes_, aos nossos mortos! + +--_Salv!_ gritei da varanda. _Salv, domine Jacinthi_! + +E entoei, para o acolher, num alegre tarantantan, o Hino da Carta! + +--Isto por aqui tambm lindo!--gritou ele de baixo. E o teu palcio +tem um soberbo ar... Por onde a porta? + +Mas eu j me precipitava para o ptio--onde Jacinto, apeando, contou +alegremente os tormentos do Grilo, que nunca montara a cavalo, e no +cessara de berrar ante os perigos daquela aventura. + +E o digno preto, ofegante, lustroso de suor, e lvido sob o esplendor +da sua negrura, exclamava, apontando com a mo trmula para a pobre +gua, que solta, de cabea pensativa, parecia de pedra, sobre as patas +mais imveis que marcos: + +--Pois se o si Fernandes visse! Uma fera, que nunca veio quieta. Sempre +para a esquerda, sempre para a direita, p aqui, p alm! S para me +sacudir! S para me sacudir! + +E no resistiu. Com a ponta do guarda-sol atirou uma pontoada vingativa +contra a gua, sobre o albardo. + +Subindo a escadaria ligeira, penetrando no alegre corredor, com a sua +janela ao fundo engrinaldada de rosinhas, Jacinto louvava grandemente +a nossa casa, que o repousava das rijas muralhas, das grossas portas +feudais de Tormes. E no seu quarto agradeceu os cuidados maternais da +tia Vicncia, que enchera de flores os dois vasos da China sobre a +cmoda, e adornara a cama com uma das nossas colchas da ndia mais +ricas, cor de canrio, com grandes aves de ouro. Eu sorria, enternecido. +Ento estreitmos os ossos num grande abrao, pelo natalcio... Trinta +e oito, hein, Z Fernandes?--Trinta e quatro, animal! E o meu +Prncipe abrindo a mala, sbria maleta de filsofo, ofereceu os +nobres presentes, que so devidos, como diz sempre o astuto Ulisses na +Odisseia. Era um alfinete de gravata, com uma safira, uma cigarreira de +aro fosco, adornada de um florido ramo de macieira em delicado esmalte, +e uma faca para livros de velho lavor Chins. Eu protestava contra a +prodigalidade. + +-- tudo das malas de Paris... Mandei-as abrir ontem noite. E tomei a +liberdade de trazer esta lembrana tua tia Vicncia. No vale nada... + s por ter pertencido princesa de Lamballe. + +Era uma caldeirinha de gua benta, em prata lavrada, de um gosto florido e quase galante. + +--A tia Vicncia no sabe quem a princesa de Lamballe, mas ficar +encantada! E uma garantia, por que ela suspeita da tua religio, como +homem de Paris, da terra das impiedades... E agora, lavar, escovar, e ao +almoo! + +A tia Vicncia pareceu toda surpreendida, e logo encantada com o meu +camarada, que ela supusera realmente um Prncipe, arrogante, escarpado +e difcil. Quando ele lhe ofereceu a caldeirinha, com um delicado +pedido para se lembrar dele nas suas oraes, duas largas rosas, +mais rseas e frescas que as rosas que enchiam a mesa, cobriram as faces +redondas da boa senhora, que nunca recebera to piedoso presente, com +to linda palavra. Mas o que sobretudo a cativou foi o tremendo +apetite de Jacinto, a entusiasmada convico com que ele, +acumulando no prato montes de cabidela, depois altas serras de arroz de +forno, depois bifes de numerosa cebolada, exaltava a nossa cozinha, +jurava nunca ter provado nada to sublime. Ela resplandecia: + +--At faz gosto, at faz gosto!... Ora mais uma destas batatinhas +recheadas... + +--Concerteza, minha senhora! at duas! As minhas raes, em mesas +destas, to perfeitas, so sempre as de Gargntua. + +--No cites Rabelais, que a tia Vicncia no conhece os autores +profanos! exclamava eu, tambm radiante. E prova esse vinho branco c da +nossa lavra, e louva Deus que amadurece tal uva. + +E o almoo foi muito alegre, muito ntimo, muito conversado, sobre as +obras de Jacinto em Tormes, e a sua Creche, que enlevava a tia +Vicncia, e as esperanas da vindima, e a minha prima Joaninha, que +tinha o pap doente, e o pssimo estado dos caminhos. Mas o +enternecimento maior foi quando, ao servir o caf, o criado ps ao lado +de Jacinto um pires com um pau de canela, o seu estranho e costumado +pau de canela. No o esquecera a tia Vicncia! Ali tinha o seu pauzinho +de canela!--Queria que ele, em Guies, continuasse os seus hbitos +como em Tormes... E aquele pau de canela foi o smbolo de adopo do +meu Prncipe como novo sobrinho da tia Vicncia. + +Ela em breve recolheu cozinha, aos preparativos do banquete. Ns +fummos um preguioso charuto no jardim, ao p do repuxo, sob a +recolhida sombra do cedro. Depois, inexoravelmente, como proprietrio, +mostrei ao meu Prncipe a propriedade toda, com desapiedada +minuciosidade, sem lhe perdoar uma leira, um regueiro, uma rvore, um p +de vinha. S quando a sua face comeou a opar e a empalidecer, de +cansao, e que do entendimento totalmente atordoado s lhe escorria um +vago--muito bonito! bela terra!-- que voltei os passos para casa, +tornejando ainda numa volta larga para lhe mostrar o lagar, uma +plantao de espargos, e o stio onde existira a runa de um velho castro +romano. Ao penetrarmos de novo, pelo jardim, na fresca sala, ainda o +empurrei, como uma rs, para a livraria do meu bom tio Afonso, para lhe +mostrar as preciosidades, uma magnfica crnica de D. Joo I por Ferno +Lopes, a primeira edio do _Imperador Clarimundo_, uma _Henriada_, com +a assinatura de Voltaire, forais de El-Rei D. Manuel, e outras +maravilhas. Ele respirava fechando o derradeiro pergaminho, quando eu o +arrastei adega, para que admirasse a famosa pipa, que tinha, em +relevo, na madeira do tampo, as complicadas armas dos Sandes. Eram +quatro horas. O meu Prncipe tinha o ar esgazeado e lvido. Cravando +nele os olhos inexorveis, olhos em que eu mesmo sentia reluzir a +ferocidade, declarei que iramos agora ver a tulha. Mas ento, com as +mos nos rins, ele murmurou, humildemente, num murmrio de criana: + +--No se me dava de me sentar um poucochinho! + +Tive ento piedade, abri as garras, deixei que ele se arrastasse, atrs +de mim, para o seu quarto, onde freneticamente descalou as botas, se +atirou para um fresco canap forrado de ganga, murmurando num +abatimento profundo:--Bela propriedade! + +Consenti generosamente que ele adormecesse,--e eu mesmo desci a +verificar se a Gertrudes dispusera bem as escovas, as toalhas de renda, +no quarto onde os convidados, em breve, ao chegar, lavariam as mos, +escovariam a poeira da estrada. E justamente, uma caleche rodava no +ptio, a velha caleche do D. Teotnio, com a parelha rua. Espreitando +da janela descobri, com prazer, que chegava s, de gravata branca, sob +o guarda-p, sem a horrendssima filha. Corri alegremente ao quarto da +tia Vicncia, que, ajudada pela Catarina, abrochava pressa as suas +pulseiras ricas de topzios. + +--Tia Vicncia! chegou o D. Teotnio! Felizmente vem sem a filha... No +se demore, os outros no tardam. O Manuel que esteja bem penteado, de +gravata bem tesa!... Vamos a ver como corre a festa! + + + + +XIII + + +Ai de mim! a festa no meu aniversrio no se passou com brilho, nem com +alegria! + +Quando o meu Prncipe entrou na sala, com uma elegncia, (onde eu senti +as malas de Paris, abertas na vspera)--uma rosa branca no jaqueto +preto, colete branco lavrado e trespassado, copiosa gravata de seda +branca, tufando, e presa por uma prola negra,--j todos os convidados +estavam na sala,--o D. Teotnio, o Ricardo Veloso, o Dr. Alpio, o +gordo Melo Rebelo, de Sandofim, os dois manos Albergarias, da quinta +da Loja--; todos de p, num peloto cerrado. Em torno do sof onde a +tia Vicncia se instalara, um magotezinho de cadeiras reunira as +senhoras,--a Beatriz Veloso, de cassa branca sobre seda, que a tornava +mais area e magra, com a sua trunfa imensa de cabelo riado; as duas +Rojes, (com a tia Adelaide Rojo) vermelhinhas como camoesas, ambas de +branco; e a mulher do Dr. Alpio, de preto, esplndida como uma Vnus +Rstica... E foi na sala, como se realmente entrasse um Prncipe, +desses pases do Norte onde os Prncipes so magnficos, muito +distantes dos homens, e aterram as gentes. Um silncio, como se o tecto +de carvalho descesse, nos esmagava: e todos os olhos se enristaram +contra o meu desgraado Jacinto, como numa caada hindu, quando orla +da floresta surge o Tigre Real. Debalde,--nas confusas, apressadas +apresentaes, com que eu o levava atravs da sala,--os seus apertos de +mo, os sorrisos, o vago murmrio, da sua honra, do seu prazer foram +repassados de simpatia, de simplicidade. Todos os cavalheiros +permaneciam reservados, observando o Prncipe, que subira serra: e as +senhoras mais se aconchegavam sombra da tia Vicncia, como ovelhas +volta do pastor, quando na altura assoma o lobo. Eu, j inquieto, lancei +o D. Teotnio, o mais ornamental daqueles cavalheiros. + +--O Sr. D. Teotnio foi muito amvel em vir, Jacinto. Raras vezes sai +da sua linda casa da Abrujeira. + +O digno D. Teotnio sorriu, cofiando os espessos bigodes brancos, de +velho brigadeiro: + +--V. Ex.^a chegou directamente de Viena? + +No! Jacinto viera directamente de Paris, com o amigo Z Fernandes. D. +Teotnio insistiu: + +--Mas certamente visita muitas vezes Viena... + +Jacinto sorria surpreendido: + +--Viena, porqu?... No. H mais de quinze anos que no vou a Viena. + +O fidalgo murmurou um lento _ah_! e ficou calado, de plpebras baixas, +como revolvendo anlises profundas, com as mos cruzadas sob as abas da +longa sobrecasaca azul. + +Eu ento, vigilante, lancei o Dr. Alpio: + +--O nosso Doutor, meu caro Jacinto, o mais poderoso influente de todo +o distrito. + +O Doutor curvou a cabea bem feita, com um belo cabelo preto, +admiravelmente alisado e lustroso. Mas a tia Vicncia, que se erguera do +sof, chamava o meu Prncipe, porque o Manuel anunciara o jantar, +mudamente, mostrando apenas, porta da sala, a sua corpulenta +pessoa,--inteiriado e vermelho. + + mesa, onde os pudins, as travessas de doce de ovos, os antigos vinhos +da Madeira e do Porto, nas suas pesadas garrafas de cristal lapidado, +fundiam com felicidade os seus tons ricos e quentes, Jacinto ficou +entre a tia Vicncia e uma das Rojes, a Luizinha, sua afilhada, que, +por costume velho, quando jantava em Guies, sempre se colocava +sombra da sua boa madrinha. E a sopa, que era de galinha com macarro, +foi comida num to largo e pesado silncio que eu, na nsia de o +quebrar, exclamei, ao acaso, sem pensar que me achava em Guies depois +de tanto tempo e em minha prpria casa: + +--Deliciosa, esta sopa! + +Jacinto ecoou: + +--Divina!! + +Mas como todos os convidados certamente estranharam este meu brado, e a +excessiva admirao de Jacinto, o silncio, carregado de cerimnia, +mais se carregou de embarao. Felizmente a tia Vicncia, com aquele seu +bom sorriso, observou que Jacinto parecia gostar da comida +portuguesa... E eu, sempre no intuito de animar a conversa, nem deixei +que o meu Prncipe confirmasse o seu amor da cozinha verncula, e +gritei: + +--Como gostar! Mas que delira!... Pudera! Tanto tempo em Paris, +privado dos pitus lusitanos... + +E como, ditosamente, me lembrara o prato de arroz doce preparado na +ocasio do natalcio de Jacinto, pelo cozinheiro do 202, contei a +histria, profusamente, exagerando, afirmando que esse arroz doce +continha _foie gras_, e que sobre a sua ornamentada pirmide flutuava a +bandeira tricolor, por cima do busto do conde de Chambord! Mas o arroz +doce de Paris, assim estragado to longe da Serra, no interessara +ningum. Puxou apenas alguns sorrisos de polida condescendncia, quando +eu, alternadamente, me voltava para um cavalheiro, para uma senhora, +insistindo, exclamando:--Extraordinrio, hein? + +D. Teotnio observou, misteriosamente, que o cozinheiro sabia para +quem cozinhava. E a bela mulher do Dr. Alpio ousou murmurar, corando: + +--Havia de ser bonito prato, e talvez no fosse mau! + +Eu, sempre na nsia de espiritualizar o banquete, de produzir +conversao, ataquei com desabrida alegria a Sr.^a D. Lusa, por ela +assim defender a profanao do nosso grande acepipe nacional! Mas, pobre +de mim! to excessiva e ruidosamente interpelei a formosa senhora, que +ela se enconchou, emudeceu, toda corada, e mais formosa assim. E outro +silncio se abatia sobre a mesa, como uma nvoa, quando a tia Vicncia, +providencial, se desculpou para com Jacinto de no ter peixe! Mas qu! +ali na Serra era impossvel, ainda a peso de ouro, ter peixe, a no ser a +pescada salgada, ou o bacalhau. O excelente Rojo, com aquele seu +modo, to suave que cada slaba para correr mais docemente parecia +lubrificada com leos santos, lembrou que o Sr. D. Jacinto possua uma +larga faixa do rio Douro com privilgio para a pesca do svel. Jacinto +no sabia, nem imaginava que houvesse sveis... O Dr. Alpio no se +admirava por que essas pescas tinham sido vendidas ao Cunha brasileiro, +h vinte anos, na mocidade do Sr. D. Jacinto. E hoje, segundo o D. +Teotnio, no valiam dois mil ris. Se j no h sveis!... E a +propsito das antigas pescas do Douro se ia formando, em torno da mesa, +entre os homens mais vizinhos, lentas cavaqueirinhas rurais, que as +senhoras aproveitavam para cochichar, no desabafo daquele silncio +cerimonioso, que viera pesando cada vez mais desde a sopa at os frangos +guisados. Receoso de que essa orla de murmrios lentos, sem brilho e sem +alegria, se estabelecesse de novo, me abalancei (para animar), a +interpelar Jacinto, recordando a famosa aventura do peixe da Dalmcia +encalhado no ascensor. + +--Isso foi uma das melhores histrias que nos sucederam em Paris! O +Jacinto, por causa de um peixe muito raro, que lhe mandara o Gro-Duque +Casimiro, dava uma magnfica ceia, a que o Gro-Duque... o Gro-Duque +Casimiro, o irmo do Imperador... + +Todos os olhos se desviaram para o meu Jacinto, que se servia de +ervilhas:--e o Melo Rebelo quase se engasgou, num sorvo precipitado +ao copo, para contemplar no meu amigo algum reflexo do Gro-Duque. E eu +contei, com profuso, o peixe encalhado, o Gro-Duque pescando, o anzol +feito com um gancho da Princesa de Carman, o duque de Marizac, caindo +quase no poo do elevador... Mas no se produziu um nico riso, e a +ateno mesma era dada com esforo, por cortesia. Debalde eu +arremessava aqueles nomes magnficos de Prncipes e princesas, +misturados a coisas picarescas... Nenhum dos meus convidados +compreendia o maquinismo do elevador, um prato encalhado num poo +negro... Perante o gancho da princesa as Albergarias baixaram os olhos. +E a minha deliciosa histria morreu numa reticncia, ainda mais +regelada pela exclamao inocente da tia Vicncia: + +--Oh! filho, que coisas! + +Mas, como Jacinto se enfronhara de repente numa larga conversa com a +Luisinha Rojo, que ria, toda luminosa e palradora,--todos, como +libertados do peso cerimonioso da sua presena augusta, se lanaram nas +conversinhas discretas, a que o champanhe, agora, depois do assado, dava +mais viveza. Eram os soturnos murmrios, em torno da mesa, que +definitivamente se perpetuavam. Foi ento que desisti de animar o +jantar. Mergulhei com a bela mulher do Doutor Alpio na grande questo +social desse tempo em Guies, o casamento da D. Amlia Noronha com o +feitor! E eu defendia a D. Amlia, os direitos do amor, quando se +alargou um silncio,--e era Jacinto, que se debruava, de copo na mo. + +--Velho amigo Z Fernandes, tua! Muitos e bons, e sempre em companhia +de tua tia e minha senhora, a quem peo para saudar. + +Todos os copos, onde a espuma morria sobre um fundo de champanhe, se +ergueram num largo rumor de amizade, e boa vizinhana. Eu acenei ao +Manuel, vivamente, para encher os copos; e logo, tambm de p, atirando +para trs a sobrecasaca: + +--Meus senhores, peo uma grande sade para o meu velho amigo Jacinto, +que pela primeira vez honra esta casa fraternal... Que digo eu? que pela +primeira vez honra com a sua presena a sua querida ptria! E que por c +fique, pelas serras, muitos anos, todos bons. tua, meu velho! + +Outro rumor correu pela mesa, mas cerimonioso e sereno. A nossa +oratria, positivamente, no incendiara as imaginaes! A tia Vicncia +fez tilintar o seu copo, quase vazio, com o de Jacinto, que tocou no +copo da sua vizinha, a Luisinha Rojo, toda resplandecente, e mais +vermelha que uma penia. Depois foi um encadeamento de sades, com os +copos quase vazios, entre todos os convidados, sem esquecer o tio +Adrio, e o Abade, ambos ausentes, ambos com furnculos. E a tia +Vicncia espalhava aquele olhar, que prepara o erguer, o arrastar de +cadeiras,--quando D. Teotnio, erguendo o seu copo de vinho do Porto, +com a outra mo apoiada mesa, meio erguido, chamou Jacinto, e numa +voz respeitosa, quase cava: + +--Esta toda particular, e entre ns... Brindo o ausente! + +Esvaziou o copo, como em religio, pontificando. Jacinto bebeu +assombrado, sem compreender. As cadeiras arrastavam,--eu dei o brao +tia Albergaria. + +E s compreendi, na sala, quando o Dr. Alpio, com a sua chvena de +caf e o charuto fumegante, me disse, num daqueles seus olhares +finos, que lhe valiam a alcunha de _Dr. Agudo_:--Espero que ao menos, +c por Guies, no se erga de novo a forca!... E o mesmo fino olhar me +indicava o D. Teotnio, que arrastara Jacinto para entre as cortinas +de uma janela, e discorria, com um ar de f e de mistrio. Era o +miguelismo, por Deus! O bom D. Teotnio considerava Jacinto como um +hereditrio, ferrenho, miguelista,--e na sua inesperada vinda ao seu +solar de Tormes, entrevia uma misso poltica, o comeo de uma propaganda +enrgica, e o primeiro passo para uma tentativa de Restaurao. E na +reserva daqueles cavalheiros, ante o meu Prncipe, eu senti ento a +suspeita liberal, o receio de uma influncia rica, nova, nas Eleies +prximas, e a nascente irritao contra as velhas ideias, representadas +naquele moo, to rico, de civilizao to superior. Quase entornei o +caf, na alegre surpresa daquela sandice. E retive o Melo Rebelo, +que repunha a chvena vazia na bandeja, fitei, com um pouco de riso, o +_Dr. Agudo_. + +--Ento, francamente, os amigos imaginam que o Jacinto veio para Tormes +trabalhar no miguelismo? + +Muito srio, Melo Rebelo chegou o seu grosso bigode minha orelha: + +--At corre, como certo, que o Prncipe D. Miguel est com ele em +Tormes! + +E como eu os considerava esgazeado, o Dr. Alpio--to agudo!--confirmou: + +-- o que corre... Disfarado em criado! + +Em criado? Oh! santo Deus! Era o Baptista! Justamente, Ricardo Veloso +veio, puxando do seu cigarrinho, para o acender no meu charuto. E o bom +Rebelo logo invocou o seu testemunho.--Pois no corria, que o filho de +D. Miguel estava em Tormes, escondido?... + +--Disfarado em lacaio, confirmou logo o digno Rebelo. + +Acendeu o cigarro, soprou o fumo, e erguendo muito as sobrancelhas +meditativas: + +--Se assim , l me parece desplante... Que eu no desgostava de o ver. +Dizem que bonito moo, bem apessoado. Mas enfim, meu tio Joo Vaz +Rebelo foi partido s postas, a machado, nas prises de Almeida... E se +recomeam essas questes, mau, mau! Ora o seu amigo... + +Emudeceu. Jacinto, que se libertara do velho D. Teotnio, e ainda +conservava um resto de riso, de assombro divertido, vinha para mim, +desabafar: + +--Extraordinrio! Vejo que, aqui, na serra, ainda se conservam, sem uma +ruga, as velhas e boas ideias... + +Imediatamente, sem se conter, Melo Rebelo acudiu: + +-- conforme o que V. Ex.^a chama _boas ideias_. + +E eu agora, furioso com aquela disparatada inveno, que cercava +de hostilidade o meu pobre Jacinto, estragava aquela amvel noite +de anos, intervim, vivamente: + +--Tu jogas o voltarete, Jacinto? No jogas... Ento vamos arranjar duas +mesas... O D. Teotnio h-de querer cartas. + +E arrastei Jacinto para as senhoras, que de novo se aninhavam sombra +da tia Vicncia, estabelecida no seu canto do sof. Todas se calavam, +parecia encolherem-se ante a apario do meu Prncipe, como pombas +avistando o abutre. E deixei o temido homem afirmando mulher do Dr. +Alpio (um pouco desgarrada do bando das aves tmidas) que lhe dera +grande prazer aquela ocasio de conhecer as suas vizinhas de Tormes... +Ela abrira nervosamente o leque, sorria, e nunca de certo Jacinto +admirara na Cidade uma boca mais vermelha, dentinhos mais rutilantes. +Mas depois de organizar a mesa do voltarete, tive de abancar, eu, para +substituir o Manuel Albergaria, que era dispptico, se declarara +afrontado, e desejava respirar um momento na varanda. Todos aqueles +cavalheiros, de resto, se queixavam de calor. Mandei abrir as janelas +que davam sobre as mimosas do ptio. O Veloso, ao baralhar, parava, +bufando, como oprimido: + +--Est abafado... Ainda temos trovoada! + +E o Dr. Alpio, inquieto, porque tinha uma hora de estrada at casa, e +uma das guas da caleche era escabriada, correu janela, espreitar o +cu, que enegrecera, morno e pesado. + +--Com efeito, vai cair gua. + +As hastes das mimosas ramalhavam, arrepiadas: e o ar que agitava as +cortinas era intermitente, estonteado. De certo na sala, entre as +senhoras, surgira a mesma inquietao, porque a tia Albergaria +apareceu, avisando o mano Jorge. + +Era prudente pensar em partir, a noite ameaava... E o Dr. Alpio, +puxando o relgio, props que, levantada aquela remissa, se preparasse +a marcha. Justamente o Albergaria recolhia da varanda desafrontado, +aliviado com um clice de genebra: e retomou as suas cartas, +anunciando tambm que vinha a uma trovoada valente. + +Voltando sala, encontrei Jacinto muito alegre entre as senhoras, que +se familiarizaram, escutando cheias de riso e gosto, a histria da sua +chegada a Tormes, sem malas, sem criados, to desprovido que dormira com +a camisa da caseira! Mas a minha pobre noite de anos findava, +desorganizada. A tia Albergaria rondava de janela em janela, assustada +com a volta Roqueirinha, espreitando a treva abafada. Calando +lentamente as luvas, a bela mulher do Dr. Alpio perguntava se ainda +havia a remissa. E a tia Vicncia apressara o ch, que o Manuel seguido +pela Gertrudes, com a bandeja de bolos, j comeava a servir s +senhoras. Jacinto, de p, oferecendo chvenas, gracejava: + +--Ento tanta pressa, tanto medo, por causa de uma trovoadinha? + +Elas replicavam, familiarizadas, numa crescente simpatia pelo meu +Prncipe: + +--Ora o senhor fala bem, porque fica debaixo de telhas... + +--Sempre o queramos ver... se fosse agora para Tormes, com esta noite +cerrada! + +O voltarete findara nas duas mesas: e aqueles cavalheiros, das +janelas, gritavam ordens para o ptio negro, onde as carruagens +esperavam atreladas: + +--Desce a cabea da vitria, Diogo! + +--Acende o lampio, Pedro! Sempre ajuda a luz das lanternas. + +A criada Quitria chegava porta com os braos carregados de xales, de +mantilhas de renda. Como uma das Albergarias ia no assento de diante na +vitria, eu corri a buscar o meu casaco de borracha, para ela se +abrigar se a chuva viesse. E s o D. Teotnio, que tinha at casa +apenas meia lgua de estrada boa, se no apressava, filado outra vez no +meu Prncipe, que levava para os cantos mais solitrios, em conversas +profundas, que o seu dedo solene, espetado, sublinhava gravemente. Mas +a tia Albergaria gritou que j chovia;--e ento foi uma pressa das +senhoras, que beijocavam vivamente a tia Vicncia, enquanto os homens, +na antecmara, enfiavam aodadamente os palets. + +Jacinto e eu descemos ao ptio para acompanhar aquela debandada,--e +uma a uma, a traquitana do Dr. Alpio, a vitria das Albergarias, a +velha e imensa caleche dos Velosos, rolaram sob a noite, entre os +nossos desejos de boa jornada. Por fim D. Teotnio calou as luvas +pretas e entrou para a sua caleche, dizendo a Jacinto: + +--Pois, primo e amigo, Deus permita que, do nosso encontro, e do mais +que se passar, algum bem resulte a esta terra! + +Subindo a escada, o meu Prncipe desabafou: + +--Este Teotnio extraordinrio! Sabes o que descobri por fim?... Que +me toma por um miguelista, e imagina que eu vim para Tormes preparar a +restaurao de D. Miguel?! + +--E tu? + +--Eu fiquei to espantado, que nem o desiludi! + +--Pois sabe mais, meu pobre amigo. Todos pensam o mesmo, esto +desconfiados, e receiam ver de novo erguidas as forcas em Guies! E +corre que tu tens o Prncipe D. Miguel escondido em Tormes, disfarado +em criado. E sabes quem ele ? o Baptista! + +--Isso sublime! murmurou Jacinto, com uns grandes olhos abertos. + +Na sala, a tia Vicncia nos esperava desconsolada, entre todas as luzes, +que ardiam ainda no silncio e paz do sero debandado: + +--Ora uma coisa assim! Nem quererem ficar para tomar um copinho de +geleia, um clice de vinho do Porto! + +--Esteve tudo muito desanimado, tia Vicncia! exclamei desafogando o meu +tdio. Todo esse mulherio emudeceu; os amigos com um ar desconfiado... + +Jacinto protestou, muito divertido, muito sincero: + +No! pelo contrrio. Gostei imenso. Excelente gente! E to simples... +Todas estas raparigas me pareceram ptimas. E to frescas, to alegres! +Vou ter aqui bons amigos, quando verificarem que no sou miguelista. + +Ento contmos tia Vicncia a prodigiosa histria de D. Miguel +escondido em Tormes... Ela ria! Que coisa! E mau seria... + +--Mas o Sr. Jacinto, no ? + +--Eu, minha senhora, sou socialista... + +Acudi, explicando tia Vicncia, que socialista era ser pelos pobres. A +doce senhora considerava esse partido o melhor, o verdadeiro: + +--O meu Afonso, que Deus haja, era liberal... Meu pai, tambm e at +amigo do Duque da Terceira... + +Mas um rude trovo rolou, atroou a noite negra:--e uma btega de gua +cantou nos vidros, e nas pedras da varanda. + +--Santa Brbara! gritou a tia Vicncia! Ai aquela pobre gente!... At +estou com cuidado... As Rojes, que vo na vitria! + +E correu para o quarto, na sua pressa de acender as duas velas +costumadas no oratrio, ainda antes de ir guardar as pratas, e rezar o +tero, com a Gertrudes. + + + + +XIV + + +Ao outro dia, depois de almoo, eu e Jacinto montmos a cavalo para um +grande passeio at Flor da Malva, a saber de meu tio Adrio, e do seu +furnculo. E sentia uma curiosidade interessada, e at inquieta, de +testemunhar a impresso que daria ao meu Prncipe aquela nossa prima +Joaninha, que era o orgulho da nossa casa. J nessa manh, andando +todos no jardim a escolher uma bela rosa-ch para a botoeira do meu +Prncipe, a tia Vicncia celebrara com tanto fervor a beleza, a graa, +a caridade, e a doura da sua sobrinha toda-amada, que eu protestei: + +--Oh! tia Vicncia, olhe que esses elogios todos competem apenas +Virgem Maria! A tia Vicncia est a cair em pecado de idolatria! O +Jacinto depois vai encontrar uma criatura apenas humana, e tem um +desapontamento tremendo! + +E agora, trotando pela fcil estrada de Sandofim, lembrava-me aquela +manh, no 202, em que Jacinto encontrara o retrato dela no meu +quarto, e lhe chamara uma _lavradeirona_. Com efeito, era grande e +forte a Joaninha. Mas a fotografia datava do seu tempo de vio +rstico, quando ela era apenas uma bela forte e s planta da serra. +Agora entrava nos vinte e cinco, e j pensava, e sentia,--e a alma que +nela se formara, afinara, amaciara, e espiritualizava o seu esplendor +rubicundo. + +A manh, com o cu todo purificado pela trovoada da vspera, e as terras +reverdecidas e lavadas pelos chuviscos ligeiros, oferecia uma doura +luminosa, fina, fresca, que tornava doce, como diz o velho Eurpedes ou +o velho Sfocles, mover o corpo, e deixar a alma preguiar, sem pressa +nem cuidados. A estrada no tinha sombra, mas o sol batia muito de leve, +e roava-nos com uma carcia quase alada. O vale parecia a Jacinto, +que nunca ali passara, uma pintura da Escola Francesa do sculo XVIII, +to graciosamente nele ondulavam as terras verdes, e com tanta paz e +frescura corria o risonho Serpo, e to afveis e prometedores de +fartura e contentamento alvejavam os casais nas verduras tenras! Os +nossos cavalos caminhavam num passo pensativo, gozando tambm a paz da +manh adorvel. E no sei, nunca soube, que plantazinhas silvestres e +escondidas espalhavam um delicado aroma, que eu tantas vezes sentira, +naquele caminho, ao comear o Outono. + +--Que delicioso dia! murmurou Jacinto. Este caminho para a Flor da +Malva o caminho do cu... Oh Z Fernandes, de que este cheirinho to +doce, to bom? + +Eu sorri, com certo pensamento: + +--No sei... talvez j o cheiro do cu! + +Depois, parando o cavalo, apontei com o chicote para o vale: + +--Olha, acol, onde est aquela fila de olmos, e h o riacho, j so +terras do tio Adrio. Tem ali um pomar, que d os pssegos mais +deliciosos de Portugal... Hei-de pedir prima Joaninha que te mande um +cesto deles. E o doce que ela faz com esses pssegos, menino, alguma +coisa de celeste. Tambm lhe hei-de pedir que te mande o doce. + +Ele ria: + +--Ser explorar de mais a prima Joaninha. E eu (porqu?) recordei e +atirei ao meu Prncipe estes dois versos de uma balada cavalheiresca, +composta em Coimbra pelo meu pobre amigo Procpio: + +--Manda-lhe um servo querido, +Bem hajas dona formosa! +E que lhe entregue um anel +E com um anel uma rosa. + +Jacinto riu alegremente: + +--Z Fernandes, seria excessivo, s por causa de meia dzia de pssegos, +e de um boio de doce. + +Assim ramos, quando apareceu, volta da estrada, o longo muro da +quinta dos Velosos, e depois a capelinha de S. Jos de Sandofim. E +imediatamente piquei para o largo, para a taverna do Torto, por causa +daquele vinhinho branco, que sempre, quando por ali a levo, a minha +alma me pede. O meu Prncipe reprovou, indignado: + +--Oh! Z Fernandes, pois tu, a esta hora, depois de almoo, vais beber +vinho branco? + +-- um costumezinho antigo... Aqui taverninha do Torto... um +decilitrozinho... A almazinha assim mo pede. + +E parmos; eu gritei pelo Manuel, que apareceu, rebolando a sua grossa +pana, sobre as pernas tortas, com a infusa verde, e um copo. + +--Dois copos, Torto amigo. Que aqui este cavalheiro tambm aprecia. + +Depois de um plido protesto, o meu Prncipe tambm quis, mirou o +lmpido e dourado vinho ao sol, provou, e esvaziou o copo, com delcia, +e um estalinho de alto apreo. + +--Delicioso vinho!... Hei-de querer deste vinho em Tormes... +perfeito. + +--Hein? Fresquinho, leve, aromtico, alegrador, todo alma!... Encha l +outra vez os copos, amigo Torto. Este cavalheiro aqui o Sr. D. +Jacinto, o fidalgo de Tormes. + +Ento, de trs da ombreira da taverna, uma grande voz bradou, cavamente, +solenemente: + +--Bendito seja o pai dos Pobres! + +E um estranho velho, de longos cabelos brancos, barbas brancas, que lhe +comiam a face cor de tijolo, assomou no vo da porta, apoiado a um +bordo, com uma caixa de lata a tiracolo, e cravou em Jacinto dois +olhinhos de um brilho negro, que faiscavam. Era o tio Joo Torrado, o +profeta da Serra... Logo lhe estendi a mo, que ele apertou, sem +despegar de Jacinto os olhos, que se dilatavam mais negros. Mandei vir +outro copo, apresentei Jacinto, que corara, embaraado. + +--Pois aqui o tem, o senhor de Tormes, que fez por a todo esse bem +pobreza. + +O velho atirou para ele bruscamente o brao, que saa cabeludo e +quase negro, de uma manga muito curta. + +--A mo! + +E quando Jacinto lha deu, depois de arrancar vivamente a luva, Joo +Torrado longamente lha reteve com um sacudir lento e pensativo, +murmurando: + +--Mo real, mo de dar, mo que vem de cima, mo j rara! + +Depois tomou o copo, que lhe oferecia o Torto, bebeu com imensa +lentido, limpou as barbas, deu um jeito correia que lhe prendia a +caixa de lata, e batendo com a ponta do cajado no cho: + +--Pois louvado seja nosso Senhor Jesus Cristo, que por aqui me trouxe, +que no o meu dia, e vi um homem! + +Eu ento debrucei-me para ele, mais em confidncia: + +--Mas, tio Joo, oua c! Sempre certo voc dizer por a, pelos +stios, que El-Rei D. Sebastio voltara? + +O pitoresco velho apoiou as duas mos sobre o cajado, o queixo +de espalhada barba sobre as mos, e murmurava, sem nos olhar, como +seguindo a percusso dos seus pensamentos: + +--Talvez voltasse, talvez no voltasse... No se sabe quem vai, nem quem +vem. A gente v os corpos, mas no v as almas que esto dentro. H +corpos de agora com almas de outrora. Corpo vestido, alma pessoa... +Na feira da Roqueirinha quem sabe com quantos reis antigos se topa, +quando se anda aos encontres entre os vaqueiros... Em ruim corpo se +esconde bom senhor! + +E como ele findara num murmrio, eu, atirando um olhar a Jacinto, e +para gozarmos aqueles estranhos, pitorescos modos de vidente, insisti: + +--Mas, tio Joo, voc realmente, em sua conscincia, pensa que El-Rei +D. Sebastio no morreu na batalha? + +O velho ergueu para mim a face, que se enrugara numa desconfiana: + +--Essas coisas so muito antigas. E no calham bem aqui porta do +Torto. O vinho era bom, e V. S.^a tem pressa, meu menino! A flor da Flor +da Malva l tem o paizinho doente... Mas o mal j vai pela serra abaixo +com a inchao s costas. D gosto ver quem d gosto aos tristes. Por +cima de Tormes h uma estrela clara. E trotar, trotar, que o dia est +lindo! + +Com a magra mo lanou um gesto para que segussemos. E j passvamos o +cruzeiro quando o seu brado ardente, de novo reboou, com solenidade +cava: + +--Bendito seja o Pai dos Pobres. + +Direito, no meio da estrada, erguia o cajado como dirigindo as +aclamaes de um povo. E Jacinto pasmava de que ainda houvesse no reino +um Sebastianista. + +--Todos o somos ainda em Portugal, Jacinto! Na serra ou na cidade cada +um espera o seu D. Sebastio. At a lotaria da Misericrdia uma forma +do Sebastianismo. Eu todas as manhs, mesmo sem ser de nevoeiro, +espreito, a ver se chega o meu. Ou antes a minha, por que eu espero uma +D. Sebastiana... E tu, felizardo? + +--Eu? Uma D. Sebastiana? Estou muito velho, Z Fernandes... Sou o ltimo +Jacinto; Jacinto ponto final... Que casa aquela com os dois +torrees? + +--A Flor da Malva. + +Jacinto tirou o relgio: + +--So trs horas. Gastmos hora e meia... Mas foi um belo passeio, e +instrutivo. lindo este stio. + +Sobre um outeirinho, afastada da estrada por arvoredo, que um muro +cerrava, e dominando, a Flor da Malva voltava para Oriente e para o Sol +a sua longa fachada com os dois torrees quadrados, onde as janelas, de +varanda, eram emolduradas em azulejos. O grande porto de ferro, ladeado +por dois bancos de pedra, ficava ao fundo do terreirinho, onde um +imenso castanheiro derramava verdura e sombra. Sentado sobre as fortes +razes descarnadas da grande rvore, um pequeno esperava segurando um +burro pela arreata. + +--Est por a o Manuel da Porta? + +--Ainda agora subiu pela alameda. + +--Bem: empurra l o porto. + +E subimos, por uma curta avenida de velhas rvores, at outro terreiro, +com um alpendre, uma casa de moos, toda coberta de heras, e uma casota +de co, de onde saltou, com um rumor de corrente arrastada, um molosso, o +Trito, que eu logo sosseguei fazendo-lhe reconhecer o seu velho amigo Z +Fernandes. E o Manuel da Porta correu da fonte, onde enchia um grande +balde, para nos segurar os cavalos. + +--Como est o tio Adrio? + +Surdo, o excelente Manuel sorriu, deleitado: + +--E ento vossa excelncia, bem? A Sr.^a D. Joaninha ainda agora +andava no laranjal com o pequeno da Josefa. + +Seguimos por ruazinhas bem areadas, orladas de alfazema e buxo alto, +enquanto eu contava ao meu Prncipe que aquele pequenito da Josefa era +um afilhadinho da prima Joana, e agora o seu encanto e o seu cuidado +todo. + +--Esta minha santa prima, apesar de solteira, tem a pela freguesia uma +verdadeira filharada. E no s dar-lhes roupas e presentes, e ajudar +as mes. Mas at os lava, e os penteia, e lhes trata as tosses. Nunca a +encontro sem alguma criancita ao colo... Agora anda na paixo deste +Josezinho. + +Mas quando chegmos ao laranjal, beira da larga rua da quinta que +levava ao tanque, debalde procurei, e me embrenhei, e at gritei:--Eh, +prima Joaninha!... + +--Talvez esteja l para baixo, para o tanque... + +Descemos a rua, entre rvores, que a cobriam com as densas ramas +encruzadas. Uma fresca, lmpida gua de rega corria e luzia num caneiro +de pedra. Entre os troncos, as roseiras bravas ainda tinham uma frescura +de Vero. E o pequeno campo, que se avistava para alm, rebrilhava com +doura, todo amarelo e branco, dos malmequeres e botes de ouro. + +O tanque, redondo, fora esvaziado para se lavar, e agora de novo o +repuxo o ia enchendo de uma gua muito clara, ainda baixa, onde os peixes +vermelhos se agitavam na alegria de recuperarem o seu pequeno oceano. +Sobre um dos bancos de pedra que circundavam o tanque pousava um cesto +cheio de dlias cortadas. E um moo, que sobre uma escada podava as +camlias, vira a Sr.^a D. Joana seguir para o lado da parreira. + +Marchmos para a parreira, ainda toda carregada de uva preta. Duas +mulheres, longe, ensaboavam num lavadouro, na sombra de grandes +nogueiras. Gritei:--Eh l? Vocs viram por a a Sr.^a D. Joana? Uma +das moas esganiou a voz, que se perdeu no vasto ar luminoso e doce. + +--Bem: vamos a casa! No podemos farejar assim, toda a tarde. + +-- uma bela quinta, murmurava o meu Prncipe encantado. + +--Magnfica! E bem tratada... O tio Adrio tem um feitor excelente... +No o teu Melchior. Observa, aprende, lavrador! Olha aquele +cebolinho! + +Passmos pela horta, uma horta ajardinada, como a sonhara o meu +Prncipe, com os seus talhes debruados de alfazema, e madressilva +enroscada nos pilares de pedra, que faziam ruazinhas frescas toldadas de +parra densa. E demos volta capela, onde crescia aos dois lados da +porta uma roseira-ch, com uma rosa nica, muito aberta, e uma moita de +baunilha, onde Jacinto apanhou um raminho para cheirar. Depois entrmos +no terrao em frente da casa, com a sua balaustrada de pedra, toda +enrodilhada de jasmineiros amarelos. A porta envidraada estava aberta: +e subimos pela escadaria de pedra, no imenso silncio em que toda a +Flor da Malva repousava, at antecmara, de altos tectos apainelados, +com longos bancos de pau, onde desmaiavam na sua velha pintura as +complicadas armas dos Cerqueiras. Empurrei a porta de uma outra sala, que +tinha as janelas da varanda abertas, cada uma com a gaiola de um +canrio. + +-- curioso!--exclamou Jacinto. Parece o meu Prespio... E as minhas +cadeiras. + +E com efeito. Sobre uma cmoda antiga, com bronzes antigos, pousava um +prespio semelhante ao da livraria de Jacinto. E as cadeiras de couro +lavrado tinham, como as que ele descobrira no sto, umas armas sob um +chapu de Cardeal. + +--Oh senhores! exclamei. No haver um criado? + +Bati as mos, fortemente. E o mesmo doce silncio permaneceu, muito +largo, todo luminoso e arejado pelo macio ar da quinta, apenas cortado +pelo saltitar dos canrios nos poleiros das gaiolas. + +-- o Palcio da Bela Adormecida no bosque! murmurou Jacinto, quase +indignado. D um berro! + +--No, caramba! Vou l dentro! + +Mas, porta, que de repente se abriu, apareceu minha prima Joaninha, +corada do passeio e do vivo ar, com um vestido claro um pouco aberto no +pescoo, que fundia mais docemente, numa larga claridade, o esplendor +branco da sua pele, e o louro ondeado dos seus belos +cabelos,--lindamente risonha, na surpresa que alargava os seus largos, +luminosos olhos negros, e trazendo ao colo uma criancinha, gorda e +cor-de-rosa, apenas coberta com uma camisinha, de grandes laos azuis. + +E foi assim que Jacinto, nessa tarde de Setembro, na Flor da Malva, +viu aquela com quem casou em Maio, na capelinha de azulejos, quando o +grande p de roseira se cobrira todo de rosas. + + + + +XV + + +E agora, entre roseiras que rebentam, e vinhas que se vindimam, j cinco +anos passaram sobre Tormes e a Serra. O meu Prncipe j no o ltimo +Jacinto, Jacinto ponto final--porque naquele solar que decara, +correm agora, com soberba vida, uma gorda e vermelha Teresinha, minha +afilhada, e um Jacintinho, senhor muito da minha amizade. E, pai de +famlia, principiara a fazer-se montono, pela perfeio da beleza +moral, aquele homem to pitoresco pela inquietao filosfica, e +pelos variados tormentos da fantasia insaciada. Quando ele agora, bom +sabedor das coisas da lavoura, percorria comigo a quinta, em slidas +palestras agrcolas, prudentes e sem quimeras--eu quase lamentava esse +outro Jacinto que colhia uma teoria em cada ramo de rvore, e riscando +o ar com a bengala, planeava queijeiras de cristal e porcelana, para +fabricar queijinhos que custariam duzentos mil ris cada um! + +Tambm a paternidade lhe despertara a responsabilidade. Jacinto possua +agora um caderno de contas, ainda pequeno, rabiscado a lpis, com +falhas, e papeluchos soltos entremeados, mas onde as suas despesas, as +suas rendas se alinhavam, como duas hostes disciplinadas. Visitara j as +suas propriedades de Montemor, da Beira; e concertava, mobilava as +velhas casas dessas propriedades para que os seus filhos, mais tarde, +crescidos, encontrassem ninhos feitos. Mas onde eu reconheci que +definitivamente um perfeito e ditoso equilbrio se estabelecera na alma +do meu Prncipe, foi quando ele, j sabido daquele primeiro e ardente +fanatismo da Simplicidade--entreabriu a porta de Tormes Civilizao. +Dois meses antes de nascer a Teresinha, uma tarde, entrou pela avenida +de pltanos uma chiante e longa fila de carros, requisitados por toda a +freguesia, e acuculados de caixotes. Eram os famosos caixotes, por tanto +tempo encalhados em Alba de Tormes, e que chegavam, para despejar a +Cidade sobre a Serra. Eu pensei:--Mau! o meu pobre Jacinto teve uma +recada! Mas os confortos mais complicados, que continha aquela +caixotaria temerosa, foram, com surpresa minha, desviados para os stos +imensos, para o p da inutilidade: e o velho solar apenas se regalou +com alguns tapetes sobre os seus soalhos, cortinas pelas janelas +desabrigadas, e fundas poltronas, fundos sofs, para que os repousos, +por que ele suspirara, fossem mais lentos e suaves. Atribu esta +moderao a minha prima Joaninha, que amava Tormes na sua nudez rude. +Ela jurou que assim o ordenara o seu Jacinto. Mas, decorridas semanas, +tremi. Aparecera, vindo de Lisboa, um contramestre, com operrios, e +mais caixotes, para instalar um telefone! + +--Um telefone, em Tormes, Jacinto? + +O meu Prncipe explicou, com humildade: + +--Para casa de meu sogro!... Bem vs. + +--Era razovel e carinhoso. O telefone porm, subtilmente, mudamente, +estendeu outro longo fio, para Valverde. E Jacinto, alargando os +braos, quase suplicante: + +--Para casa do mdico. Compreendes... + +Era prudente. Mas, certa manh, em Guies, acordei aos berros da tia +Vicncia! Um homem chegara, misterioso, com outros homens, trazendo +arame, para instalar na nossa casa o novo invento. Sosseguei a tia +Vicncia, jurando que essa mquina nem fazia barulho, nem trazia +doenas, nem atraa as trovoadas. Mas corri a Tormes. Jacinto sorriu, +encolhendo os ombros: + +--Que queres? Em Guies est o boticrio, est o carniceiro... E, +depois, ests tu! + +Era fraternal. Todavia pensei: Estamos perdidos! Dentro de um ms temos a +pobre Joana a apertar o vestido por meio de uma mquina! Pois no! o +Progresso, que, intimao de Jacinto, subira a Tormes a estabelecer +aquela sua maravilha, pensando talvez que conquistara mais um reino +para desfear, desceu, silenciosamente, desiludido, e no avistmos mais +sobre a serra a sua hirta sombra cor de ferro e de fuligem. Ento +compreendi que, verdadeiramente, na alma de Jacinto se estabelecera o +equilbrio da vida, e com ele a Gr-Ventura, de que tanto tempo ele +fora o Prncipe sem Principado. E uma tarde, no pomar, encontrando o +nosso velho Grilo, agora reconciliado com a serra, desde que a serra +lhe dera meninos para trazer s cavaleiras, observei ao digno preto, +que lia o seu _Figaro_, armado de imensos culos redondos: + +--Pois, Grilo, agora realmente bem podemos dizer que o Sr. D. Jacinto +est firme. + +O Grilo arredou os culos para a testa, e levantando para o ar os cinco +dedos em curva como ptalas de uma tulipa: + +--S. Ex.^a brotou! + +Profundo sempre o digno preto! Sim! Aquele ressequido galho de Cidade, +plantado na serra, pegara, chupara o hmus do torro herdado, criara +seiva, afundara razes, engrossara de tronco, atirara ramos, rebentara +em flores, forte, sereno, ditoso, benfico, nobre, dando frutos, +derramando sombra. E abrigados pela grande rvore, e por ela nutridos, +cem casais em redor a bendiziam. + + + + +XVI + + +Muitas vezes Jacinto, durante esses anos, falara com prazer num +regresso de dois, trs meses, ao 202, para mostrar Paris prima +Joaninha. E eu seria o companheiro fiel, para arquivar os espantos da +minha serrana ante a Cidade! Depois conveio em esperar que o Jacintinho +completasse dois anos, para poder jornadear sem desconforto, e +apontando j com o seu dedo para as coisas da Civilizao. Mas, quando +ele, em Outubro, fez esses dois anos desejados, a prima Joaninha +sentiu uma preguia imensa, quase aterrada, do comboio, do estridor da +Cidade, do 202, e dos seus esplendores. Estamos aqui to bem! est um +tempo to lindo! murmurava, deitando os braos, sempre deslumbrada, ao +rijo pescoo do seu Jacinto. Ele desistia logo de Paris, encantado. +Vamos para Abril, quando os castanheiros dos Campos Elsios estiverem +em flor! Mas em Abril vieram aqueles cansaos que imobilizavam a +prima Joaninha no div, ditosa, risonha, com umas pintas na pele, e o +roupo mais solto. Por todo um longo ano estava desfeita a alegre +aventura. Eu andava ento sofrendo de desocupao. As chuvas de Maro +prometiam uma farta colheita. Uma certa Ana Vaqueira, corada e bem +feita, viva, que surtia as necessidades do meu corao, partira com o +irmo para o Brasil, onde ele dirigia uma venda. Desde o Inverno, +sentia tambm no corpo como um comeo de ferrugem, que o emperrava, e, +certamente, algures, na minha alma, nascera uma pontinha de bolor. +Depois a minha gua morreu... Parti eu para Paris. + +Logo em Hendaia, apenas pisei a doce terra de Frana, o meu pensamento, +como pombo a um velho pombal, voou ao 202,--talvez por eu ver um enorme +cartaz em que uma mulher nua, com flores bacnticas nas tranas, se +estorcia, segurando numa das mos uma garrafa espumante, e brandindo na +outra, para o anunciar ao Mundo, um novo modelo de saca-rolhas. E oh +surpresa! eis que, logo adiante, na estao quieta e clara de Saint +Jean-de-Luz, um moo esbelto, de perfeita elegncia, entra vivamente no +meu compartimento, e, depois de me encarar, grita: + +--Eh, Fernandes! + +Marizac! O duque de Marizac! Era j o 202... Com que reconhecimento lhe +sacudi a mo fina, por ele me ter reconhecido! E, atirando para o canto +do vago um palet, um mao de jornais, que o escudeiro lhe passara, o +bom Marizac exclamava na mesma surpresa alegre: + +--E Jacinto? + +Contei Tormes, a serra, o seu primeiro amor pela Natureza, o seu outro +grande amor por minha prima, e os dois filhos, que ele trazia +escarranchados no pescoo. + +--Ah que canalha! exclamou Marizac com os olhos espetados em mim! +capaz de ser feliz! + +--Espantosamente, loucamente... Qual! no h advrbios... + +--Indecentemente--murmurou Marizac muito srio. Que canalha! + +Eu ento desejei saber do nosso rancho familiar do 202. Ele encolheu os +ombros, acendendo a cigarette: + +--Todo esse mundo circula... + +--Madame d'Oriol? + +--Continua. + +--Os Trves? o Efraim? + +--Continuam, todos trs. + +Lanou um gesto lnguido. + +--Durante cinco anos, em Paris, tudo continua... As mulheres com um +pouco mais de ps de arroz, e a pele um pouco mais mole, e melada. Os +homens com um tanto mais de dispepsia. E tudo segue. Tivemos os +Anarquistas. A princesa de Carman abalou com um acrobata do Circo de +Inverno... E--e voil! + +--Dornan? + +--Continua... No o encontrei mais desde o 202. Mas vejo s vezes o nome +dele, no _Boulevard_, com versos preciosos, obscenidades muito +apuradas, muito subtis. + +--E o Psiclogo?... Ora, como se chamava ele?... + +--Continua tambm. Sempre com as feminices a trs francos e cinquenta... +Duquesas em camisa, almas nuas... Coisas que se vendem bem! + +Mas quando eu, encantado, ia indagar de Todelle, do Gro-Duque, o +comboio entrou na estao de Biarritz:--e rapidamente, apanhando o +palet e os jornais, depois de me apertar a mo, o delicioso Marizac +saltou pela portinhola, que o seu criado abrira, gritando: + +--At Paris!... Sempre rue Cambori. + +Ento, no compartimento solitrio, bocejei, com uma estranha sensao de +monotonia, de saciedade, como cercado j de gentes muito vistas, +murmurando histrias muito sabidas, e coisas muito ditas, atravs de +sorrisos estafados. Dos dois lados do comboio era a longa plancie +montona, sem variedade, muito miudamente cultivada, muito miudamente +retalhada, de um verde de reseda, verde cinzento e apagado, onde nenhum +lampejo, nem tom alegre de flor, nem acidente do solo, desmanchavam a +mediocridade discreta e ordeira. Plidos choupos, em renques pautados e +finos, bordavam canaizinhos muito direitos e claros. Os casais, todos da +mesma cor pardacenta, mal se elevavam do solo, mal se destacavam da +verdura desbotada, como encolhidos na sua mediocridade e cautela. E o +cu, por cima, liso, sem uma nuvem, com um sol descorado, parecia um +vasto espelho muito lavado a grande gua, at que de todo se lhe safasse +o esmalte e o brilho. Adormeci numa doce insipidez. + +Com que linda manh de Maio entrei em Paris! To fresca e fina, e j +macia, que, apesar de cansado, mergulhei com repugnncia no profundo, +sombrio leito do Grand-Hotel, todo fechado de espessos veludos, grossos +cordes, pesadas borlas, como um palanque de gala. Nessa profunda cova +de penas sonhei que em Tormes se construra uma Torre Eiffel e que em +volta dela as senhoras da Serra, as mais respeitveis, a prpria tia +Albergaria, danavam, nuas, agitando no ar saca-rolhas imensos. Com as +comoes deste pesadelo, e depois o banho, e o desemalar da mala, j +se acercavam as duas horas quando enfim emergi do grande porto, pisei, +ao cabo de cinco anos, o Boulevard. E imediatamente me pareceu que +todos esses cinco anos eu ali permanecera porta do Grand-Hotel, to +estafadamente conhecido me era aquele estridente rolar da cidade, e as +magras rvores, e as grossas tabuletas, e os imensos chapus emplumados +sobre tranas pintadas de amarelo, e as empertigadas sobrecasacas com +grossas rosetas da legio de honra, e os garotos, em voz rouca e baixa, +oferecendo baralhos de cartas obscenas, caixas de fsforos +obscenas... Santo Deus! pensei, h que anos eu estou em Paris! Comprei +ento, num quiosque, um jornal, a Voz de Paris, para que ele me +contasse, durante o almoo, as novas da Cidade. A mesa do quiosque +desaparecia, alastrada de jornais ilustrados:--e em todos se repetia a +mesma mulher, sempre nua, ou meia despida, ora mostrando as costelas +magras, de gata faminta, ora voltando para o Leitor duas tremendas +ndegas... Eu outra vez murmurei:--Santo Deus! No Caf da Paz, o criado +lvido, e com um resto de p de arroz sobre a sua lividez, aconselhou ao +meu apetite, por ser to tarde, um linguado frito e uma costeleta. + +--E que vinho, Sr. Conde? + +--Chablis, Sr. Duque! + +Ele sorriu minha deliciosa pilhria,--e eu abri, contente, a Voz de +Paris. Na primeira coluna, atravs de uma prosa muito retorcida, toda em +brilhos de jia barata, entrevi uma Princesa nua, e um Capito de +Drages, que soluava. Saltei a outras colunas, onde se contavam feitos +de cocottes de nomes sonoros. Na outra pgina escritores eloquentes +celebravam vinhos digestivos e tnicos. Depois eram os crimes do +costume.--No h nada de novo! Pus de parte a Voz de Paris,--e ento +foi, entre mim e o linguado, uma luta pavorosa. O miservel, que se +frigira rancorosamente contra mim, no consentia que eu descolasse da +sua espinha uma febra escassa. Todo ele se ressequira numa sola +impenetrvel e tostada, onde a faca vergava, impotente e trmula. Gritei +pelo moo lvido, o qual, com faca mais rija, fincando no soalho os +sapatos de fivela, arrancou enfim quele malvado duas tirinhas, finas +e curtas como palitos, que engoli juntas, e me esfomearam. De uma garfada +findei a costeleta. E paguei quinze francos com um bom lus de ouro. No +troco, que o moo me deu, com a polidez requintada de uma civilizao +muito difundida, havia dois francos falsos. E por aquela doce tarde de +Maio sa para tomar no terrao um caf cor de chapu coco, que sabia a +fava. + +Com o charuto aceso contemplei o Boulevard, quela hora em toda a +pressa e estridor da sua grossa sociabilidade. A densa torrente dos +nibus, calhambeques, carroas, parelhas de luxo, rolava vivamente, +como toda uma escura humanidade formigando entre patas e rodas, numa +pressa inquieta. Aquele movimento continuado e rude bem depressa +entonteceu este esprito, por cinco anos afeito quietao das serras +imutveis. Tentava ento, puerilmente, repousar nalguma forma imvel, +nibus parado, fiacre que estacara, num brusco escorregar da pileca: +mas logo algum dorso apressado se encafuava pela portinhola da tipia, +ou um cacho de figuras escuras trepava sofregamente para o nibus:--e, +rpido, recomeava o rolar retumbante. Imveis, de certo, estavam os +altos prdios hirtos, ribas de pedra e cal, que continham, +disciplinavam, aquela torrente ofegante. Mas da rua aos telhados, em +cada varanda, por toda a fachada, eram tabuletas encimando tabuletas, +que outras tabuletas apertavam:--e mais me cansava o perceber a tenaz +incessncia do trabalho latente, a devorante canseira do lucro, +arquejante por trs das frontarias decorosas e mudas. Ento, enquanto +fumava o meu charuto, estranhamente se apossaram de mim os sentimentos +que Jacinto outrora experimentara no meio da Natureza, e que tanto me +divertiam. Ali, porta do caf, entre a indiferena e a pressa da +Cidade, tambm eu senti, como ele no campo, a vaga tristeza da minha +fragilidade e da minha solido. Bem certamente estava ali como perdido +num mundo, que me no era fraternal. Quem me conhecia? Quem se +interessaria por Z Fernandes? Se eu sentisse fome, e o confessasse, +ningum me daria metade do seu po. Por mais aflitamente que a minha +face revelasse uma angstia, ningum na sua pressa pararia para me +consolar. De que me serviriam tambm as excelncias de alma, que s na +alma florescem? Se eu fosse um santo, aquela turba no se importaria +com a minha santidade; e se eu abrisse os braos e gritasse, ali no +Boulevard-- homens, meus irmos! os homens, mais ferozes que o lobo +ante o Pobrezinho de Assis, ririam e passariam indiferentes. Dois +impulsos nicos, correspondendo a duas funes nicas, parecia estarem +vivos naquela multido,--o lucro e o gozo. Isolada entre eles, e ao +contgio ambiente da sua influncia, em breve a minha alma se +contrairia, se tornaria num duro calhau de Egosmo. Do ser que eu +trouxera da Serra s restaria em pouco tempo esse calhau, e nele, +vivos, os dois apetites da Cidade,--encher a bolsa, saciar a carne! E +pouco a pouco as mesmas exageraes de Jacinto perante a Natureza me +invadiam perante a Cidade. Aquele Boulevard ressumava para mim um bafo +mortal, extrado dos seus milhes de micrbios. De cada porta me +parecia sair um ardil para me roubar. Em cada face, avistada +portinhola de um fiacre, suspeitava um bandido em manobra. Todas as +mulheres me pareciam caiadas como sepulcros, tendo s podrido por +dentro. E considerava de uma melancolia funambulesca as formas de toda +aquela Multido, a sua pressa spera e v, a afectao das atitudes, +as imensas plumas das chapeletas, as expresses postias e falsas, a +pompa dos peitos alteados, o dorso redondo dos velhos olhando as imagens +obscenas das vitrinas. Ah! tudo isto era pueril, quase cmico da minha +parte, mas o que eu sentia no Boulevard, pensando na necessidade de +remergulhar na Serra, para que ao seu puro ar se me despegasse a crosta +da Cidade, e eu ressurgisse humano, e Z-Fernndico! + +Ento, para dissipar aquele pesadume de solido, paguei o caf e parti, +lentamente, a visitar o 202. Ao passar na Madalena, diante da estao +dos nibus, pensei:--Que ser feito de Madame Colombe? E, oh misria! +pelo meu miservel ser subiu uma curta e quente baforada de desejo bruto +por aquela besta suja e magra! Era o charco onde eu me envenenara, e +que me envolvia nas emanaes subtis do seu veneno. Depois, ao dobrar da +rue Royale para a Praa da Concrdia, topei com um robusto e possante +homem, que estacou, ergueu o brao, ergueu o vozeiro, num modo de +comando: + +--Eh, Fernandes! + +O Gro-Duque! O belo Gro-Duque, de jaqueto alvadio e chapu tirols +cor de mel! Apertei com gratido reverente a mo do Prncipe, que me +reconhecera. + +--E Jacinto? Em Paris?... + +Contei Tormes, a serra, o rejuvenescimento do nosso amigo entre a +Natureza, a minha doce prima, e os bravos pequenos, que ele trazia s +cavaleiras. O Gro-Duque encolheu os ombros, desolado: + +--Oh l, l, l!... Peuh! Casado, na aldeia, com filharada... Homem +perdido! Ora no h!... E um rapaz til! que nos divertia, e tinha +gosto! Aquele jantar cor-de-rosa foi uma festa linda... No se fez, no +se tornou a fazer nada to brilhante em Paris... E Madame d'Oriol... +Ainda h dias a vi no Palcio de Gelo... Potvel, mulher ainda muito +potvel... No todavia o meu gnero... Adocicada, leitosa, pomadada, +neve la vanille!... Ora esse Jacinto!... + +--E Vossa Alteza, em Paris com demora? + +O formidvel homem baixou a face, franzida e confidencial: + +--Nenhuma. Paris no se aguenta... Est estragado, positivamente +estragado... Nem se come! Agora o Ernest, da Praa Gaillon, o Ernest, +que era maitre-d'hotel do Maire... J l comeu? Um horror. Tudo o +Ernest, agora! Onde se come? No Ernest. Qual! Ainda esta manh l +almocei... Um horror! Uma salada Chambord... palhada, indecentemente +palhada! No tem, no tem a noo da salada! Paris foi! Teatros, uma +estopada. Mulheres, hui! Lambidas todas. No h nada! Ainda assim, num +dos teatritos de Montmartre, na Roulotte, est uma revista, que se v: +_Para c as mulheres_!--engraada, bem despida... A Celestine tem uma +cantiga, meia sentimental, meia porca, o _Amor no Water-Closet_, que +diverte, tem topete... Onde est, Fernandes? + +--No Grand-Hotel, meu senhor. + +--Que barraca!... E o seu Rei sempre bom? + +Curvei a cabea: + +--Sua Majestade, bem. + +--Estimo! Pois, Fernandes, tive prazer... Esse Jacinto que me desola! +V vr a Revista... Boas pernas, a Celestine... E tem graa o tal _Amor +no Water-Closet_. + +Um rijssimo aperto de mo,--e S. Alteza subiu pesadamente para a +vitria, ainda com um aceno amvel, que me penhorou... Excelente +homem, este Gro-Duque! Mais reconciliado com Paris, atravessei para os +Campos Elsios. Em toda a sua nobre e formosa largueza, toda verde, com +os castanheiros em flor, corriam, subindo, descendo, velocpedes. Parei +a contemplar aquela fealdade nova, estes inumerveis espinhaos +arqueados, e gmbias magras, agitando-se desesperadamente sobre duas +rodas. Velhos gordos, de cachao escarlate, pedalavam, gordamente. +Galfarros esguios, de tbias descarnadas, fugiam numa linha esfuziada. +E as mulheres, muito pintadas, de bolero curto, cales bufantes, +giravam, mais rapidamente ainda, no prazer equvoco da carreira, +escarranchadas em hastes de ferro. E a cada instante outras medonhas +mquinas passavam, vitrias e fatons a vapor, com uma complicao de +tubos e caldeiras, torneiras e chamins, rolando numa trepidao +estridente e pesada, espalhando um grosso fedor de petrleo. Segui para +o 202, pensando no que diria um grego do tempo de Fdias, se visse esta +nova beleza e graa do caminhar humano!... + +No 202, o porteiro, o velho Vian, quando me reconheceu, mostrou uma +alegria enternecedora. No se fartou de saber do casamento de Jacinto, +e daqueles queridos meninos. E era para ele uma felicidade que eu +aparecesse, justamente quando tudo se andara limpando para a entrada da +Primavera. Quando penetrei na amada casa senti mais vivamente a minha +solido. No restava em toda ela nem um dos costumados aspectos que +fizessem reviver a velha camaradagem com o meu Prncipe. Logo na +antecmara grandes lonas cobriam as tapearias hericas, e igual lona +parda escondia os estofos das cadeiras e dos muros, e as largas estantes +de bano da Biblioteca, onde os trinta mil volumes, nobremente +enfileirados como Doutores num Conclio, pareciam separados do mundo +por aquele pano que sobre eles descera depois de finda a comdia da +sua fora e da sua autoridade. No gabinete de Jacinto, de sobre a mesa +de escrita, desaparecera aquela confuso de instrumentozinhos, de que +eu perdera j a memria: e s a Mecnica sumptuosa, por sobre peanhas e +pedestais, recentemente espanejada, reluzia, com as suas engrenagens, +tubos, rodas, rigidezes de metais, numa frieza inerte, na inactividade +definitiva das coisas desusadas, como j dispostas num Museu, para +exemplificar a instrumentao caduca de um mundo passado. Tentei mover o +telefone, que se no moveu; a mola da electricidade no acendeu nenhum +lume: todas as foras universais tinham abandonado o servio do 202, +como servos despedidos. E ento, passeando atravs das salas, realmente +me pareceu que percorria um museu de antiguidades; e que mais tarde +outros homens, com uma compreenso mais pura e exacta da Vida e da +Felicidade, percorreriam como eu, longas salas, atulhadas com os +instrumentos da Super-Civilizao, e, como eu, encolheriam +desdenhosamente os ombros ante a grande Iluso que findara, agora para +sempre intil, arrumada como um lixo histrico, guardada debaixo de +lona. + +Quando sa do 202 tomei um fiacre, subi ao Bosque de Bolonha. E apenas +rolara momentos pela avenida das Accias, no silncio decoroso, +unicamente cortado pelo tilintar dos freios e pelas rodas vagarosas +esmagando a areia, comecei a reconhecer as velhas figuras, sempre com o +mesmo sorriso, o mesmo p de arroz; as mesmas plpebras amortecidas, os +mesmos olhos farejantes, a mesma imobilidade de cera! O romancista da +_Couraa_ passou numa vitria, fixou em mim o monculo defumado, mas +permaneceu indiferente. Os bands negros de Madame Verghane, +tapando-lhe as orelhas, pareciam ainda mais furiosamente negros entre a +harmonia de todo o branco que a vestia, chapu, plumas, flores, rendas e +corpete, onde o seu peito imenso se empolava como uma onda. No passeio, +sob as Accias, espapado em duas cadeiras, o director do _Boulevard_ +mamava o resto do seu charuto. E num grande landeau, Madame de Trves +continuava o seu sorriso de h cinco anos, com duas pregazinhas mais +moles aos cantos dos lbios secos. + +Abalei para o Grand-Hotel, bocejando,--como outrora Jacinto. E findei +o meu dia de Paris, no Teatro das Variedades, estonteado com uma +comdia muito fina, muito aclamada, toda faiscante do mais vivo +parisianismo, em que todo o enredo se enrodilhava volta de uma Cama, +onde alternadamente se espojavam mulheres em camisa, sujeitos gordos em +ceroulas, um coronel com papas de linhaa nas ndegas, cozinheiras de +meias de seda bordadas, e ainda mais gente, ruidosa e saltitante, a +esfuziar de cio e de pilhria. Tomei um ch melanclico no Julien, no +meio de um spero e lgubre namoro de prostitutas, fariscando a presa. +Em duas delas, de pele oleosa e cobreada, olhos oblquos, cabelos +duros e negros como clinas, senti o Oriente, a sua provocao felina... +Interroguei o criado, um medonho ser, de uma obesidade balofa e lvida, +de eunuco. O monstro explicou numa voz roufenha e surda: + +--Mulheres de Madagscar... Foram importadas quando a Frana ocupou a +ilha! + +Arrastei ento por Paris dias de imenso tdio. Ao longo do Boulevard +revi nas vitrinas todo o luxo, que j me enfartara havia cinco anos, +sem uma graa nova, uma curta frescura de inveno. Nas livrarias, sem +descobrir um livro, folheava centenas de volumes amarelos, onde, de +cada pgina que ao acaso abria, se exalava um cheiro morno de alcova e +de ps- de-arroz, entre linhas trabalhadas com efeminado arrebique, como +rendas de camisas. Ao jantar, em qualquer restaurante, encontrava, +ornando e disfarando as carnes ou as aves, o mesmo molho, de cores e +sabores de pomada, que j de manh, noutro restaurante, espelhado e +dourejado, me enjoara no peixe e nos legumes. Paguei por grossos preos +garrafas do nosso adstringente e rstico vinho de Torres, enobrecido +com o ttulo de Chteau isto, Chteau aquilo, e p postio no gargalo. + noite, nos teatros, encontrava a Cama, a costumada cama, como centro +e nico fim da vida, atraindo, mais fortemente que o monturo atrai +os moscardos, todo um enxame de gentes, estonteadas, frementes +de erotismo, zumbindo chacotas senis. Esta sordidez da Plancie me levou +a procurar melhor aragem de esprito nas alturas da Colina, em +Montmartre; e a, no meio de uma multido elegante de Senhoras, de +Duquesas, de Generais, de todo o alto pessoal da Cidade, eu recebia, do +alto do palco, grossos jorros de obscenidades, que faziam estremecer de +gozo as orelhas cabeludas de gordos banqueiros, e arfar com delcia os +corpetes de Worms e de Doucet, sobre os peitos postios das nobres +damas. E recolhia enjoado com tanto relento de Alcova, vagamente +dispptico com os molhos de pomada do jantar, e sobretudo descontente +comigo, por me no divertir, no compreender a Cidade, e errar atravs +dela e da sua Civilizao Superior, com a reserva ridcula de um +Censor, de um Cato austero. Oh senhores!--pensava,--pois eu no me +divertirei nesta deliciosa Cidade? Entrar comigo o bolor da velhice? + +Passei as pontes, que separam em Paris o Temporal do Espiritual, +mergulhei no meu doce Bairro Latino, evoquei, diante de certos cafs, a +memria da minha Nini; e, como outrora, preguiosamente, subi as +escadas da Sorbonne. Num anfiteatro, onde sentira um grosso sussurro, +um homem magro, com uma testa muito branca e larga, como talhada para +alojar pensamentos altos e puros, ensinava, falando das instituies da +Cidade Antiga. Mas, mal eu entrara, o seu dizer elegante e lmpido foi +sufocado por gritos, urros, patadas, um tumulto rancoroso de troa +bestial, que saa da mocidade apinhada nos bancos, a mocidade das +Escolas, Primavera sagrada, em que eu fora flor murcha. O Professor +parou, espalhando em redor um olhar frio, e remexendo as suas notas. +Quando o grosso grunhido se moderou em sussurro desconfiado, ele +recomeou com alta serenidade. Todas as suas ideias eram frias e +substanciais, expressas numa lngua pura e forte; mas, imediatamente, +rompe uma furiosa rajada de apitos, uivos, relinchos, cacarejos de +galo, por entre magras mos, que se estendiam levantadas para +estrangular as ideias. Ao meu lado um velho, encolhido na alta gola de um +macfrelane de xadrezes, contemplava o tumulto com melancolia, pingando +endefluxado. Perguntei ao velho: + +--Que querem eles? embirrao com o professor... poltica? + +O velho abanou a cabea, espirrando: + +--No... sempre assim, agora, em todos os cursos... No querem +ideias... Creio que queriam canonetas. o amor da porcaria e da troa. + +Ento, indignado, berrei: + +--Silncio, brutos! + +E eis que um abortozinho de rapaz, amarelado e sebento, de longas +melenas, umas enormes lunetas rebrilhantes, se arrebita, me fita, e me +berra: + +--_Sale Maure_! + +Ergui o meu grosso punho serrano,--e o desgraado, numa confuso de +melenas, com sangue por toda a face, aluiu, como um monto de trapos +moles, ganindo desesperadamente, enquanto o furaco de uivos e +cacarejos, guinchos e silvos, envolvia o Professor, que cruzara os +braos, esperando, com uma serenidade simples. + +Desde esse momento decidi abandonar a fastidiosa Cidade; e o nico dia +alegre e divertido que nela passei foi o derradeiro, comprando para os +meus queridinhos de Tormes brinquedos considerveis, tremendamente +complicados pela Civilizao,--vapores de ao e cobre, providos de +caldeiras para viajar em tanques; lees de pele verdica rugindo +pavorosamente, bonecas vestidas pela Laferrire, com fongrafo no +ventre... + +Finalmente abalei uma tarde, depois de lanar da minha janela, sobre o +Boulevard, as minhas despedidas Cidade: + +--Pois adeusinho, at nunca mais! Na lama do teu vcio e na poeira da +tua vaidade, outra vez, no me pilhas! O que tens de bom, que o teu +gnio, elegante e claro, l o receberei na Serra pelo correio. +Adeusinho! + +Na tarde do seguinte Domingo, debruado da janela do comboio, que +vagarosamente deslizava pela borda do rio lento, num silncio todo +feito de azul e sol, avistei, na plataforma da quieta estao da minha +aldeia, os Senhores de Tormes, com a minha afilhada Teresa, muito +vermelha, arregalando os seus soberbos olhos, e o bravo Jacintinho, que +empunhava uma bandeira branca. O alvoroo ditoso com que abracei e +beijei aquela tribo bem amada conviria perfeitamente a quem voltasse +vivo de uma guerra distante, na Tartria. Na alegria de recuperar a +Serra, at beijoquei o chefe Pimentinha, que a estalar de obesidade se +aodava gritando ao carregador todo o cuidado com as minhas malas. + +Jacinto, magnfico, de grande chapu serrano e jaqueta, de novo me +abraou: + +--E esse Paris? + +--Medonho! + +Abri depois os braos para o bravo Jacintinho. + +--Ento para que essa bandeira, meu cavaleiro? + +-- a bandeira do Castelo! declarou ele, com uma bela seriedade nos +seus grandes olhos. + +A me ria. Desde essa manh, logo que soubera da chegada do Ti-Z, +apareceu de bandeira, feita pelo Grilo, e no a largara mais; com ela +almoara, com ela descera de Tormes! + +--Bravo! E, prima Joaninha, olhe que est magnfica! Eu, tambm, venho +daquelas peles meladas de Paris... Mas acho-a triunfal! E o tio +Adrio, e a tia Vicncia? + +--Tudo ptimo! gritou Jacinto. A serra, Deus louvado, prospera. E +agora, para cima! Tu hoje ficas em Tormes. Para contar da Civilizao. + +No largo por trs da estao, debaixo dos eucaliptos, que revi com +gosto, esperavam os trs cavalos, e dois belos burros brancos, um com +cadeirinha para a Teresa, outro com um cesto de verga, para meter +dentro o herico Jacintinho, um e outro servidos estribeira por um +criado. Eu ajudara a prima Joaninha a montar, quando o carregador +apareceu com um mao de jornais e papis, que eu esquecera na +carruagem. Era uma papelada, de que me sortira na Estao de Orleans, +toda recheada de mulheres nuas, de historietas sujas, de parisianismo, +de erotismo. Jacinto, que as reconhecera, gritou rindo: + +--Deita isso fora! + +E eu atirei, para um monto de lixo, ao canto do Ptio, aquele ptrido +rebotalho da Civilizao. E montei. Mas ao dobrar para o caminho +empinado da serra, ainda me voltei, para gritar adeus ao Pimenta, de +quem me esquecera. O digno chefe, debruado sobre o monturo, apanhava, +sacudia, recolhia com amor aquelas belas estampas, que chegavam de +Paris, contavam as delcias de Paris, derramavam atravs do mundo a +seduo de Paris. + +Em fila comemos a subir para a Serra. A tarde adoava o seu esplendor +de estio. Uma aragem trazia, como ofertados, perfumes das flores +silvestres. As ramagens moviam, com um aceno de doce acolhimento, as +suas folhas vivas e reluzentes. Toda a passarinhada cantava, num +alvoroo de alegria e de louvor. As guas correntes, saltantes, +luzidias, despediam um brilho mais vivo, numa pressa mais animada. +Vidraas distantes de casas amveis, flamejavam com um fulgor de ouro. A +serra toda se ofertava, na sua beleza eterna e verdadeira. E, sempre +adiante da nossa fila, por entre a verdura, flutuava no ar a bandeira +branca, que o Jacintinho no largava, de dentro do seu cesto, com a +haste bem segura na mo. Era _a bandeira do Castelo_, afirmara ele. + +E na verdade me parecia que, por aqueles caminhos, atravs da natureza +campestre e mansa,--o meu Prncipe, atrigueirado nas soalheiras e nos +ventos da serra, a minha prima Joaninha, to doce e risonha me, os +dois primeiros representantes da sua abenoada tribo, e eu--, to longe +de amarguradas iluses e de falsas delcias, trilhando um solo eterno, +e de eterna solidez, com a alma contente, e Deus contente de ns, +serenamente e seguramente subamos--para o Castelo da Gr-Ventura! + + +Fim + + + + +ADVERTNCIA + + +Desde a pgina 241, at o final, as provas deste livro no foram +revistas pelo autor, arrebatado pela morte antes de haver dado a esta +parte da sua escrita aquela ltima demo, em que habitualmente ele +punha a diligncia mais perseverante e mais admiravelmente lcida. + +Aquele dos seus amigos e companheiro de letras, a quem foi confiado o +trabalho delicado e piedoso de tocar no manuscrito pstumo de Ea de +Queirs, ao concluir o desempenho de tal misso, beija com o mais +enternecido e saudoso respeito a mo, para todo sempre imobilizada, que +traou estas pginas encantadoras; e faz votos por que a reviso de que +se incumbiu no deslustre muito grosseiramente a imortal aurola com +que ficar resplandecendo na literatura portuguesa este livro, em que o +esprito do grande escritor parece exalar-se da vida num terno +suspiro de doura, de paz, e de puro amor terra da sua ptria. + +24 de Abril de 1901. + + + + +*LIVRARIA CHARDRON de Lello & Irmo* + +96--CLRIGOS--98 + + +*Baslio Teles* + +O problema agrcola $600 +Estudos histricos e econmicos $600 + +_No prelo:_ + +Introduo ao problema do trabalho nacional. + + +*Abel Botelho* + +O baro de Lavos $800 +O livro de Alda $800 +Sem remdio... $500 + +_No prelo:_ + +Amanh. + + +*Jos Caldas* + +Humildes $400 +Os Jesutas; a sua influncia na actual + sociedade portuguesa; meio de a conjurar _no prelo_ + + +*Slvio Romero* + +Martins Pena $400 + + +*Rebelo da Silva* + +Mocidade de D. Joo V. 1$500 + + +*Andrade Corvo* + +Um ano na corte 1$500 + + +*Antnio C. Lousada* + +Rua escura $500 +Na conscincia $500 + + +*Dumas* + +Jorge ou o capito dos piratas $500 +Trs mosqueteiros, 2 volumes 1$000 + + +*Lermina* + +Filho do Monte Cristo, 2 volumes 1$000 + + +*Eugnio Sue* + +Mistrios de Paris, 3 volumes cart. 2$000 + + +*Zola* + +Nan $500 +Histria da lavadeira Gervsia, 2 vols 1$000 +O Capito Burle $500 +Ventre de Paris, 2 vols 1$000 + + +*Arnaldo Gama* + +Caldeira de Pero Botelho $500 +Honra ou loucura $500 +Filho do Baldaia $600 + + +*Bruno* + +O Brasil mental $800 +Notas do exlio $500 + + * * * * * + +Histria da Prostituio 1$800 + + +*Camilo Castelo Branco* + +Maria da Fonte $500 +Livro de consolao $500 +D. Lus de Portugal $300 +Brasileira de Prazins $500 +Eusbio Macrio $500 +Vulces da lama $500 +Carta de guia de casados $300 + + +*Grainha* + +Jesutas $600 + + +*Tolstoi* + +A Sonata de Kreutzer $400 + + + + + + + + + + + +End of Project Gutenberg's A Cidade e as Serras, by Jos Maria Ea de Queirs + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A CIDADE E AS SERRAS *** + +Produced by Manuela Alves and Ricardo F. Diogo; Nota dos transcritores: +Actualizao ortogrfica da verso original, j disponvel no Project Gutenberg + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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\ No newline at end of file diff --git a/old/modern/cidade.html b/old/modern/cidade.html new file mode 100644 index 0000000..32d1d38 --- /dev/null +++ b/old/modern/cidade.html @@ -0,0 +1,17538 @@ +<!DOCTYPE html PUBLIC "-//W3C//DTD HTML 4.01 Transitional//EN"> +<html lang="en"> +<head> + + + + + + <title>A Cidade e as Serras</title> + <meta name="AUTOR" content="Eça de Queirós"> + + + + <meta http-equiv="Content-Type" content="text/html; charset=us-ascii"> + + + + <style type="text/css"> +body {width: 50%; margin-left:10%; text-align: justify;} +h1, h2, h3, h4 { text-align: center;} +h1 {margin: 2em; text-align: center;} +h2, h4 {margin-top: 2em;} +.bbox {border: solid black 1px; margin-left: 5%; margin-right: 5%;} +.signature { +font-style: italic; +text-align: right;} +.smallcaps {font-variant: small-caps;} +.quote {margin-left: 20%;} +.break { width: 40%; margin-left:30%;} +.pagenum { position: absolute; right: 35%; +font-size: 75%; +text-align: right; +text-indent: 0em; +font-style: normal; +font-weight: normal; +color: silver; background-color: inherit; +font-variant: normal;} + </style> + + + <style type="text/css"> + td.c24 {vertical-align: top; text-align: right; width: 72px;} + td.c23 {text-align: right; vertical-align: bottom; width: 101px;} + td.c22 {text-align: right; vertical-align: top; width: 72px;} + td.c21 {vertical-align: top; width: 353px;} + td.c20 {text-align: right; vertical-align: bottom; width: 72px;} + td.c19 {text-align: right; width: 72px;} + td.c18 {vertical-align: bottom; width: 353px;} + td.c17 {vertical-align: bottom; text-align: right; width: 72px;} + div.c16 {margin-left: 40px;} + td.c15 {width: 72px;} + td.c14 {text-align: right; width: 101px;} + td.c13 {vertical-align: bottom; width: 72px;} + td.c12 {width: 353px;} + td.c11 {vertical-align: bottom; text-align: right; width: 101px;} + td.c10 {width: 475px;} + td.c9 {width: 101px;} + table.c8 {text-align: center; width: 100%;} + table.c7 {text-align: left; width: 100%;} + td.c6 {text-align: right; vertical-align: bottom;} + td.c5 {text-align: right;} + span.c4 {font-weight: bold;} + img.c3 {width: 282px; height: 444px;} + div.c2 {text-align: center;} + img.c1 {width: 97px; height: 115px;} + </style> +</head> + + +<body> + + +<pre>Project Gutenberg's A Cidade e as Serras, by José Maria Eça de Queirós<br><br>This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with<br>almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or<br>re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included<br>with this eBook or online at www.gutenberg.org<br><br><br>Title: A Cidade e as Serras<br><br>Author: José Maria Eça de Queirós<br><br>Language: Portuguese<br><br>Character set encoding: ISO-8859-1<br><br>*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A CIDADE E AS SERRAS ***<br><br><br><br><br>Produced by Manuela Alves and Ricardo F. Diogo; Nota dos transcritores:<br>Actualização ortográfica da versão original, já disponível no Project Gutenberg<br><br><br>NOTA: Este texto tem duas versões em língua portuguesa de acordo com o livro original,<br>a que pode ser aceder clicando numa das seguintes opções:<br> <a href="../../18220-8.txt"><big><b>TEXT</b></big></a> <a href="../18220-h.htm"><big><b>HTML</b></big></a> +<br><br><br><br><br></pre> + + +<div><br> + + +<br> + + +<h1>EÇA DE QUEIRÓS</h1> + + +<h1>A CIDADE E AS SERRAS</h1> + + +<br> + + +<br> + + +<h2>PORTO</h2> + + +<h2>LIVRARIA CHARDRON</h2> + + +<h2>De Lello & Irmão, editores</h2> + + + +<h2>1901</h2> + + +<h3>Todos os direitos reservados</h3> + + +<br> + + +<br> + + +<br> + + +<br> + + +<div class="bbox c2"><br> + + +<br> + + +EÇA DE QUEIRÓS<br> + + +<br> + + +<big><big><b>A CIDADE E AS SERRAS</b></big></big><br> + + + +<br> + +<br> + + +<img style="width: 97px; height: 115px;" alt="" src="images/p1.jpg"><br> + + +<br> + + +PORTO<br> + + +LIVRARIA CHARDRON<br> + + +De Lello & Irmão, editores<br> + + +1901<br> + + +<br> + + + +Todos os direitos reservados<br> + + +<br> + +</div> + + +<br> + + +<br> + + +<br> + + +<br> + + +Pertence no Brasil o direito de propriedade desta obra ao +cidadão Francisco Alves, livreiro editor no Rio de Janeiro, +que, para a garantia que lhe oferece a lei n.º 496 de 1 de +Agosto de 1898, fez o competente depósito na Biblioteca +Nacional, segundo a determinação do art. 13.º da +mesma Lei.<br> + + +<br> + + + +<br> + + +<br> + + +<div class="c2"><em>Porto--Imprensa Moderna</em></div> + + +<br> + + +<br> + + +<br> + + +<br> + + +<br> + + +<br> + + +<br> + + +<br> + + +<div class="c2"><img style="width: 282px; height: 444px;" alt="" src="images/p2.jpg"><br> + +</div> + + +<br> + + +<br> + + +<br> + + +<br> + + + +<h1>A CIDADE E AS SERRAS</h1> + + +<br> + + +<br> + + +<br> + + +<br> + + +<h2>Obras do mesmo autor:</h2> + + +<br> + + +<br> + + +<table class="c7" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2"> + + + <tbody> + + + <tr> + + + <td><span class="c4">Revista de Portugal.</span> 4 grossos +volumes</td> + + + + <td class="c5">12$000</td> + + + </tr> + + + <tr> + + + <td><span class="c4">As minas de Salomão.</span> 1 +volume</td> + + + <td class="c5">$600</td> + + + </tr> + + + <tr> + + + <td><span class="c4">Os Maias.</span> 2 grossos volumes</td> + + + + <td class="c5">2$000</td> + + + </tr> + + + <tr> + + + <td><span class="c4">O crime do padre Amaro.</span> Terceira +edição inteiramente refundida, recomposta, e +diferente na forma e na acção da edição +primitiva.<br> + + +1 grosso volume</td> + + + <td class="c6">1$200</td> + + + </tr> + + + <tr> + + + + <td><span class="c4">O primo Basílio.</span> Quarta +edição. 1 grosso volume</td> + + + <td class="c5">1$000</td> + + + </tr> + + + <tr> + + + <td><span class="c4">A Relíquia.</span> 1 grosso volume</td> + + + <td class="c5">1$000</td> + + + + </tr> + + + <tr> + + + <td><span class="c4">O Mandarim.</span> Quarta +edição. 1 volume</td> + + + <td class="c5">$500</td> + + + </tr> + + + <tr> + + + <td><span class="c4">Correspondência de Fradique +Mendes.</span> 1 volume</td> + + + <td class="c5">$600</td> + + + + </tr> + + + <tr> + + + <td><span class="c4">A ilustre casa de Ramires.</span> 1 +volume</td> + + + <td class="c5">1$000</td> + + + </tr> + + + + </tbody> +</table> + + +<br> + + +<br> + + +<h1>A CIDADE E AS SERRAS</h1> + + +<h2>I</h2> + + + +<br> + + +<br> + + +O meu amigo Jacinto nasceu num palácio, com cento e nove +contos de renda em terras de semeadura, de vinhedo, de +cortiça e de olival. No Alentejo, pela Estremadura, +através das duas Beiras, densas sebes ondulando por colina e +vale, muros altos de boa pedra, ribeiras, estradas, delimitavam os +campos desta velha família agrícola que já +entulhava grão e plantava cepa em tempos de el-rei D. Dinis. +A sua quinta e casa senhorial de Tormes, no Baixo Douro, cobriam +uma serra. Entre o Tua e o Tinhela, por cinco fartas léguas, +todo o torrão lhe pagava foro. E cerrados pinheirais seus +negrejavam desde Arga até ao mar de Âncora. Mas o +palácio onde Jacinto nascera, e onde sempre habitara, era em +Paris, nos Campos Elísios, n.º 202. <span class="pagenum">[2]</span> Seu avô, aquele gordíssimo e +riquíssimo Jacinto a quem chamavam em Lisboa o <i>D. +Galeão</i>, descendo uma tarde pela travessa da Trabuqueta, +rente de um muro de quintal que uma parreira toldava, escorregou +numa casca de laranja e desabou no lajedo. Da portinha da horta +saía nesse momento um homem moreno, escanhoado, de grosso +casaco de baetão verde e botas altas de picador, que, +galhofando e com uma força fácil, levantou o enorme +Jacinto--até lhe apanhou a bengala de castão de ouro +que rolara para o lixo. Depois, demorando nele os olhos pestanudos +e pretos:<br> + + + +<br> + + +--Oh Jacinto Galeão, que andas tu aqui, a estas horas, a +rebolar pelas pedras?<br> + + +<br> + + +E Jacinto, aturdido e deslumbrado, reconheceu o Sr. Infante D. +Miguel!<br> + + +<br> + + +Desde essa tarde amou aquele bom Infante como nunca amara, apesar +de tão guloso, o seu ventre, e apesar de tão devoto o +seu Deus! Na sala nobre da sua casa (à Pampulha) pendurou +sobre os damascos o retrato do «seu Salvador», +enfeitado de palmitos como um retábulo, e por baixo a +bengala que as magnânimas mãos reais tinham erguido do +lixo. Enquanto o adorável, desejado Infante penou no +desterro de Viena, o barrigudo senhor corria, sacudido na sua sege +amarela, do botequim<span class="pagenum">[3]</span> do Zé + +Maria em Belém à botica do Plácido nos +Algibebes, a gemer as saudades do <i>anjinho</i>, a tramar o +regresso do <i>anjinho</i>. No dia, entre todos bendito, em que a +<i>Pérola</i> apareceu à barra com o Messias, +engrinaldou a Pampulha, ergueu no Caneiro um monumento de +papelão e lona onde D. Miguel, tornado S. Miguel, branco, de +auréola e asas de Arcanjo, furava de cima do seu corcel de +Alter o Dragão do Liberalismo, que se estorcia vomitando a +Carta. Durante a guerra com o «outro, com o pedreiro +livre» mandava recoveiros a Santo Tirso, a S. Gens, levar ao +Rei fiambres, caixas de doce, garrafas do seu vinho de Tarrafal, e +bolsas de retrós atochadas de peças que ele ensaboava +para lhes avivar o ouro. E quando soube que o Sr. D. Miguel, com +dois velhos baús amarrados sobre um macho, tomara o caminho +de Sines e do final desterro--Jacinto <i>Galeão</i> correu +pela casa, fechou todas as janelas como num luto, berrando +furiosamente:<br> + + + +<br> + + +--Também cá não fico! também cá +não fico! Não, não queria ficar na terra +perversa donde partia, esbulhado e escorraçado, aquele Rei +de Portugal que levantava na rua os Jacintos! Embarcou para +França com a mulher, a Sr.<sup>a</sup> D. Angelina Fafes (da +tão falada <span class="pagenum">[4]</span> casa dos Fafes +da Avelã); com o filho, o 'Cintinho, menino amarelinho, +molezinho, coberto de caroços e leicenços; com a aia +e com o moleque. Nas costas da Cantábria o paquete encontrou +tão rijos mares que a Sr.<sup>a</sup> D. Angelina, +esguedelhada, de joelhos na enxerga do beliche, prometeu ao Senhor +dos Passos de Alcântara uma coroa de espinhos, de ouro, com +as gotas de sangue em rubis do Pegu. Em Baiona, onde arribaram, +'Cintinho teve icterícia. Na estrada de Orleães, numa +noite agreste, o eixo da berlinda em que jornadeavam partiu, e o +nédio senhor, a delicada senhora da casa da Avelã, o +menino, marcharam três horas na chuva e na lama do +exílio até uma aldeia, onde, depois de baterem como +mendigos a portas mudas, dormiram nos bancos de uma taberna. No + +«Hotel dos Santos Padres», em Paris, sofreram os +terrores de um fogo que rebentara na cavalariça, sob o +quarto de <i>D. Galeão</i>, e o digno fidalgo, rebolando +pelas escadas em camisa, até ao pátio, enterrou o +pé nu numa lasca de vidro. Então ergueu amargamente +ao céu o punho cabeludo, e rugiu:<br> + + +<br> + + +--Irra! É de mais!<br> + + + +<br> + + +Logo nessa semana, sem escolher, Jacinto <i>Galeão</i> +comprou a um Príncipe polaco, que depois da tomada de +Varsóvia se metera frade<span class="pagenum">[5]</span> +cartuxo, aquele palacete dos Campos Elísios, n.º 202. E +sob o pesado ouro dos seus estuques, entre as suas ramalhudas sedas +se enconchou, descansando de tantas agitações, numa +vida de pachorra e de boa mesa, com alguns companheiros de +emigração (o desembargador Nuno Velho, o conde de +Rabacena, outros menores), até que morreu de +indigestão, de uma lampreia de escabeche que lhe mandara o +seu procurador em Montemor. Os amigos pensavam que a +Sr.<sup>a</sup> D. Angelina Fafes voltaria ao reino. Mas a boa +senhora temia a jornada, os mares, as caleças que racham. E +não se queria separar do seu Confessor, nem do seu +Médico, que tão bem lhe compreendiam os +escrúpulos e a asma.<br> + + + +<br> + + +--Eu, por mim, aqui fico no 202 (declarara ela), ainda que me faz +falta a boa água de Alcolena... O 'Cintinho, esse, em +crescendo, que decida.<br> + + +<br> + + +O 'Cintinho crescera. Era um moço mais esguio e +lívido que um círio, de longos cabelos corredios, +narigudo, silencioso, encafuado em roupas pretas, muito largas e +bambas; de noite, sem dormir, por causa da tosse e de +sufocações, errava em camisa com uma lamparina +através do 202; e os criados na copa sempre lhe chamavam a +<i>Sombra</i>. Nessa sua mudez e indecisão de sombra +surdira, ao fim<span class="pagenum">[6]</span> do luto do +papá, o gosto muito vivo de tornear madeiras ao torno: +depois, mais tarde, com a melada flor dos seus vinte anos, brotou +nele outro sentimento, de desejo e de pasmo, pela filha do +desembargador Velho, uma menina redondinha como uma rola, educada +num convento de Paris, e tão habilidosa que esmaltava, +dourava, concertava relógios e fabricava chapéus de +feltro. No Outono de 1851, quando já se desfolhavam os +castanheiros dos Campos Elísios, o 'Cintinho cuspilhou +sangue. O médico, acarinhando o queixo e com uma ruga +séria na testa imensa, aconselhou que o menino abalasse para +o golfo Juan ou para as tépidas areias de Arcachon. +'Cintinho porém, no seu aferro de sombra, não se quis +arredar da Teresinha Velho, de quem se tornara, através de +Paris, a muda, tardonha sombra. Como uma sombra, casou; deu mais +algumas voltas ao torno; cuspiu um resto de sangue; e passou, como +uma sombra.<br> + + + +<br> + + +Três meses e três dias depois do seu enterro o meu +Jacinto nasceu.<br> + + +<div class="break"> +<hr></div> + + +<br> + + +<br> + + +Desde o berço, onde a avó espalhava funcho e +âmbar para afugentar a <i>Sorte-Ruim</i>, Jacinto medrou com +a segurança, a rijeza, a seiva rica de um pinheiro das +dunas.<br> + + + +<br> + + +<span class="pagenum">[7]</span>Não teve sarampo e +não teve lombrigas. As Letras, a Tabuada, o Latim entraram +por ele tão facilmente como o sol por uma vidraça. +Entre os camaradas, nos pátios dos colégios, erguendo +a sua espada de lata e lançando um brado de comando, foi +logo o vencedor, o Rei que se adula, e a quem se cede a fruta das +merendas. Na idade em que se lê Balzac e Musset nunca +atravessou os tormentos da sensibilidade;--nem crepúsculos +quentes o retiveram na solidão de uma janela, padecendo de +um desejo sem forma e sem nome. Todos os seus amigos (éramos +três, contando o seu velho escudeiro preto, o Grilo) lhe +conservaram sempre amizades puras e certas--sem que jamais a +participação do seu luxo as avivasse ou fossem +desanimadas pelas evidências do seu egoísmo. Sem +coração bastante forte para conceber um amor forte, e +contente com esta incapacidade que o libertava, do amor só + +experimentou o mel--esse mel que o amor reserva aos que o recolhem, +à maneira das abelhas, com ligeireza, mobilidade e cantando. +Rijo, rico, indiferente ao Estado e ao Governo dos Homens, nunca +lhe conhecemos outra ambição além de +compreender bem as Ideias Gerais; e a sua inteligência, nos +anos alegres de escolas e controvérsias, circulava dentro +das Filosofias mais <span class="pagenum">[8]</span>densas como +enguia lustrosa na água limpa de um tanque. O seu valor, +genuíno, de fino quilate, nunca foi desconhecido, nem +desapreciado; e toda a opinião, ou mera facécia que +lançasse, logo encontrava uma aragem de simpatia e +concordância que a erguia, a mantinha embalada e rebrilhando +nas alturas. Era servido pelas coisas com docilidade e carinho;--e +não recordo que jamais lhe estalasse um botão da +camisa, ou que um papel maliciosamente se escondesse dos seus +olhos, ou que ante a sua vivacidade e pressa uma gaveta +pérfida emperrasse. Quando um dia, rindo com descrido riso +da Fortuna e da sua Roda, comprou a um sacristão espanhol um +Décimo de Lotaria, logo a Fortuna, ligeira e ridente sobre a +sua Roda, correu num fulgor, para lhe trazer quatrocentas mil +pesetas. E no céu as Nuvens, pejadas e lentas, se avistavam +Jacinto sem guarda-chuva, retinham com reverência as suas + +águas até que ele passasse... Ah! o âmbar e o +funcho da Sr.<sup>a</sup> D. Angelina tinham escorraçado do +seu destino, bem triunfalmente e para sempre, a <i>Sorte-Ruim</i>! +A amorável avó (que eu conheci obesa, com barba) +costumava citar um soneto natalício do desembargador Nunes +Velho contendo um verso de boa lição:<br> + + +<br> + + + +<span class="pagenum">[9]</span> +<div class="break">Sabei, senhora, que esta Vida é um +rio...</div> + + +<br> + + +Pois um rio de Verão, manso, translúcido, +harmoniosamente estendido sobre uma areia macia e alva, por entre +arvoredos fragrantes e ditosas aldeias, não ofereceria +àquele que o descesse num barco de cedro, bem toldado e bem +almofadado, com frutas e Champanhe a refrescar em gelo, um Anjo +governando ao leme, outros Anjos puxando à sirga, mais +segurança e doçura do que a Vida oferecia ao meu +amigo Jacinto.<br> + + + +<br> + + +Por isso nós lhe chamávamos «o Príncipe +da Grã-Ventura»!<br> + + +<br> + + +<br> + + +<div class="break"> +<hr></div> + + +<br> + + +<br> + + +Jacinto e eu, José Fernandes, ambos nos encontrámos e +acamaradámos em Paris, nas Escolas do Bairro Latino--para +onde me mandara meu bom tio Afonso Fernandes Lorena de Noronha e +Sande, quando aqueles malvados me riscaram da Universidade por eu +ter esborrachado, numa tarde de procissão, na Sofia, a cara +sórdida do dr. Pais Pita.<br> + + + +<br> + + +Ora nesse tempo Jacinto concebera uma Ideia... Este Príncipe +concebera a Ideia de que «o homem só é +superiormente feliz quando é superiormente +civilizado». E por homem civilizado o meu camarada entendia +aquele <span class="pagenum">[10]</span>que, robustecendo a sua +força pensante com todas as noções adquiridas +desde Aristóteles, e multiplicando a potência corporal +dos seus órgãos com todos os mecanismos inventados +desde Terâmenes, criador da roda, se torna um +magnífico Adão, quase omnipotente, quase omnisciente, +e apto portanto a recolher dentro de uma sociedade e nos limites do +Progresso (tal como ele se comportava em 1875) todos os gozos e +todos os proveitos que resultam de Saber e de Poder... Pelo menos +assim Jacinto formulava copiosamente a sua Ideia, quando +conversávamos de fins e destinos humanos, sorvendo bocks +poeirentos, sob o toldo das cervejarias filosóficas, no +Boulevard Saint-Michel.<br> + + + +<br> + + +Este conceito de Jacinto impressionara os nossos camaradas de +cenáculo, que tendo surgido para a vida intelectual, de 1866 +a 1875, entre a batalha de Sadova e a batalha de Sedan, e ouvindo +constantemente, desde então, aos técnicos e aos +filósofos, que fora a Espingarda-de-Agulha que vencera em +Sadova e fora o Mestre-de-Escola quem vencera em Sedan, estavam +largamente preparados a acreditar que a felicidade dos +indivíduos, como a das nações, se realiza pelo +ilimitado desenvolvimento da Mecânica e da +Erudição. Um desses moços mesmo, o nosso +inventivo Jorge <span class="pagenum">[11]</span>Carlande, reduzira +a teoria de Jacinto, para lhe facilitar a circulação +e lhe condensar o brilho, a uma forma algébrica:<br> + + +<br> + + + +<table class="c8" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2"> + + + <tbody> + + + <tr> + + + <td>Suma ciência</td> + + + <td colspan="1" rowspan="3"> + <big><big><big><big><big>}</big></big></big></big></big></td> + + + <td></td> + + + </tr> + + + <tr> + + + <td>X</td> + + + <td>Suma potência</td> + + + + </tr> + + + <tr> + + + <td>Suma felicidade</td> + + + <td></td> + + + </tr> + + + + </tbody> +</table> + + +<br> + + +<br> + + +E durante dias, do Odeon à Sorbona, foi louvada pela +mocidade positiva a <i>Equação Metafísica de +Jacinto</i>.<br> + + + +<br> + + +Para Jacinto, porém, o seu conceito não era meramente +metafísico e lançado pelo gozo elegante de exercer a +razão especulativa:--mas constituía uma regra, toda +de realidade e de utilidade, determinando a conduta, modalizando a +vida. E já a esse tempo, em concordância com o seu +preceito--ele se surtira da <i>Pequena Enciclopédia dos +Conhecimentos Universais</i> em setenta e cinco volumes e +instalara, sobre os telhados do 202, num mirante +envidraçado, um telescópio. Justamente com esse +telescópio me tornou ele palpável a sua ideia, numa +noite de Agosto, de mole e dormente calor. Nos céus remotos +lampejavam relâmpagos lânguidos. Pela Avenida dos +Campos Elísios, os fiacres rolavam para as frescuras do +Bosque, lentos, abertos, cansados, transbordando de vestidos +claros.<br> + + + +<br> + + +<span class="pagenum">[12]</span>--Aqui tens tu, Zé +Fernandes, (começou Jacinto, encostado à janela do +mirante) a teoria que me governa, bem comprovada. Com estes olhos +que recebemos da Madre natureza, lestos e sãos, nós +podemos apenas distinguir além, através da Avenida, +naquela loja, uma vidraça alumiada. Mais nada! Se eu +porém aos meus olhos juntar os dois vidros simples de um +binóculo de corridas, percebo, por trás da +vidraça, presuntos, queijos, boiões de geleia e +caixas de ameixa seca. Concluo portanto que é uma mercearia. +Obtive uma noção; tenho sobre ti, que com os olhos +desarmados vês só o luzir da vidraça, uma +vantagem positiva. Se agora, em vez destes vidros simples, eu +usasse os do meu telescópio, de composição +mais científica, poderia avistar além, no planeta +Marte, os mares, as neves, os canais, o recorte dos golfos, toda a +geografia de um astro que circula a milhares de léguas dos +Campos Elísios. É outra noção, e +tremenda! Tens aqui pois o olho primitivo, o da Natureza, elevado +pela Civilização à sua máxima +potência de visão. E desde já, pelo lado do +olho portanto, eu, civilizado, sou mais feliz que o incivilizado, +porque descubro realidades do Universo que ele não suspeita +e de que está privado. Aplica esta prova a todos os + +órgãos e compreendes o meu princípio. +Enquanto<span class="pagenum">[13]</span> à +inteligência, e à felicidade que dela se tira pela +incansável acumulação das +noções, só te peço que compares Renan e +o Grilo... Claro é portanto que nos devemos cercar de +Civilização nas máximas +proporções para gozar nas máximas +proporções a vantagem de viver. Agora concordas, +Zé Fernandes?<br> + + + +<br> + + +Não me parecia irrecusavelmente certo que Renan fosse mais +feliz que o Grilo; nem eu percebia que vantagem espiritual ou +temporal se colha em distinguir através do espaço +manchas num astro, ou através da Avenida dos Campos +Elísios presuntos numa vidraça. Mas concordei, porque +sou bom, e nunca desalojarei um espírito do conceito onde +ele encontra segurança, disciplina e motivo de energia. +Desabotoei o colete, e lançando um gesto para o lado dos +cafés e das luzes:<br> + + +<br> + + +--Vamos então beber, nas máximas +proporções, <i>brandy and soda</i>, com gelo!<br> + + + +<br> + + +Por uma conclusão bem natural, a ideia de +Civilização, para Jacinto, não se separava da +imagem de Cidade, de uma enorme Cidade, com todos os seus vastos +órgãos funcionando poderosamente. Nem este meu +supercivilizado amigo compreendia que longe de Armazéns +servidos por três mil caixeiros; e de Mercados onde se +despejam os vergéis e lezírias de trinta +províncias; e de Bancos em que retine <span class="pagenum">[14]</span>o ouro universal; e de Fábricas +fumegando com ânsia, inventando com ânsia; e de +Bibliotecas abarrotadas, a estalar, com a papelada dos +séculos; e de fundas milhas de ruas, cortadas, por baixo e +por cima, de fios de telégrafos, de fios de telefones, de +canos de gases, de canos de fezes; e da fila atroante dos + +ónibus, tramways, carroças, velocípedes, +calhambeques, parelhas de luxo; e de dois milhões de uma +vaga humanidade, fervilhando, a ofegar, através da +Polícia, na busca dura do pão ou sob a ilusão +do gozo--o homem do século XIX pudesse saborear, plenamente, +a delícia de viver!<br> + + +<br> + + +Quando Jacinto, no seu quarto do 202, com as varandas abertas sobre +os lilases, me desenrolava estas imagens, todo ele crescia, +iluminado. Que criação augusta, a da Cidade! +Só por ela, Zé Fernandes, só por ela, pode o +homem soberbamente afirmar a sua alma!...<br> + + + +<br> + + +--Oh Jacinto, e a religião? Pois a religião +não prova a alma?<br> + + +<br> + + +Ele encolhia os ombros. A religião! A religião +é o desenvolvimento sumptuoso de um instinto rudimentar, +comum a todos os brutos, o terror. Um cão lambendo a +mão do dono, de quem lhe vem o osso ou o chicote, já +constitui toscamente um devoto, o consciente devoto, prostrado em +rezas ante o Deus que<span class="pagenum">[15]</span> distribui o +céu ou o inferno!... Mas o telefone! o fonógrafo!<br> + + + +<br> + + +--Aí tens tu, o fonógrafo!... Só o +fonógrafo, Zé Fernandes, me faz verdadeiramente +sentir a minha superioridade de ser pensante e me separa do bicho. +Acredita, não há senão a Cidade, Zé +Fernandes, não há senão a Cidade!<br> + + + +<br> + + +E depois (acrescentava) só a Cidade lhe dava a +sensação, tão necessária à vida +como o calor, da solidariedade humana. E no 202, quando considerava +em redor, nas densas massas do casario de Paris, dois +milhões de seres arquejando na obra da +Civilização (para manter na natureza o domínio +dos Jacintos!) sentia um sossego, um conchego, só +comparáveis ao do peregrino, que, ao atravessar o deserto, +se ergue no seu dromedário, e avista a longa fila da +caravana marchando, cheia de lumes e de armas...<br> + + + +<br> + + +Eu murmurava, impressionado:<br> + + +<br> + + +--Caramba!<br> + + +<br> + + +Ao contrário no campo, entre a inconsciência e a +impassibilidade da Natureza, ele tremia com o terror da sua +fragilidade e da sua solidão. Estava aí como perdido +num mundo que lhe não fosse fraternal; nenhum silvado +encolheria os espinhos para que ele passasse; se gemesse com fome +nenhuma árvore, <span class="pagenum">[16]</span>por mais +carregada, lhe estenderia o seu fruto na ponta compassiva de um +ramo. Depois, em meio da Natureza, ele assistia à + +súbita e humilhante inutilização de todas as +suas faculdades superiores. De que servia, entre plantas e +bichos--ser um Génio ou ser um Santo? As searas não +compreendem as <i>Geórgicas</i>; e fora necessário o +socorro ansioso de Deus, e a inversão de todas as leis +naturais, e um violento milagre para que o lobo de Agubio +não devorasse S. Francisco de Assis, que lhe sorria e lhe +estendia os braços e lhe chamava «meu irmão +lobo»! Toda a intelectualidade, nos campos, se esteriliza, e +só resta a bestialidade. Nesses reinos crassos do Vegetal e +do Animal duas únicas funções se mantêm +vivas, a nutritiva e a procriadora. Isolada, sem +ocupação, entre focinhos e raízes que +não cessam de sugar e de pastar, sufocando no cálido +bafo da universal fecundação, a sua pobre alma toda +se engelhava, se reduzia a uma migalha de alma, uma fagulhazinha +espiritual a tremeluzir, como morta, sobre um naco de +matéria; e nessa matéria dois instintos surdiam, +imperiosos e pungentes, o de devorar e o de gerar. Ao cabo de uma +semana rural, de todo o seu ser tão nobremente composto +só restava um estômago e por baixo um falo! A alma? +Sumida sob a besta. E necessitava <span class="pagenum">[17]</span>correr, reentrar na Cidade, mergulhar nas +ondas lustrais da Civilização, para largar nelas a +crosta vegetativa, e ressurgir reumanizado, de novo espiritual e +Jacíntico!<br> + + + +<br> + + +E estas requintadas metáforas do meu amigo exprimiam +sentimentos reais--que eu testemunhei, que muito me divertiram, no +único passeio que fizemos ao campo, à bem +amável e bem sociável floresta de Montmorency. Oh +delícias de entremez, Jacinto entre a Natureza! Logo que se +afastava dos pavimentos de madeira, do macadame, qualquer +chão que os seus pés calcassem o enchia de +desconfiança e terror. Toda a relva, por mais crestada, lhe +parecia ressumar uma humidade mortal. De sob cada torrão, da +sombra de cada pedra, receava o assalto de lacraus, de +víboras, de formas rastejantes e viscosas. No silêncio +do bosque sentia um lúgubre despovoamento do Universo. +Não tolerava a familiaridade dos galhos que lhe +roçassem a manga ou a face. Saltar uma sebe era para ele um +acto degradante que o retrogradava ao macaco inicial. Todas as +flores que não tivesse já encontrado em jardins, +domesticadas por longos séculos de servidão +ornamental, o inquietavam como venenosas. E considerava de uma +melancolia funambulesca certos modos e formas do Ser inanimado, a +pressa esperta e vã dos regatinhos, <span class="pagenum">[18]</span>a careca dos rochedos, todas as +contorções do arvoredo e o seu resmungar solene e +tonto.<br> + + + +<br> + + +Depois de uma hora, naquele honesto bosque de Montmorency, o meu +pobre amigo abafava, apavorado, experimentando já esse lento +minguar e sumir de alma que o tornava como um bicho entre bichos. +Só desanuviou quando penetramos no lajedo e no gás de +Paris--e a nossa vitória quase se despedaçou contra +um ónibus retumbante, atulhado de cidadãos. Mandou +descer pelos Boulevards, para dissipar, na sua grossa +sociabilidade, aquela materialização em que sentia a +cabeça pesada e vaga como a de um boi. E reclamou que eu o +acompanhasse ao teatro das Variedades para sacudir, com os +estribilhos da <i>Femme à Papa</i>, o rumor importuno que +lhe ficara dos melros cantando nos choupos altos.<br> + + + +<br> + + +Este delicioso Jacinto fizera então vinte e três anos, +e era um soberbo moço em quem reaparecera a força dos +velhos Jacintos rurais. Só pelo nariz, afilado, com narinas +quase transparentes, de uma mobilidade inquieta, como se andasse +fariscando perfumes, pertencia às delicadezas do +século XIX. O cabelo ainda se conservava, ao modo das eras +rudes, crespo e quase lanígero: e o bigode, como o de um +Celta, caía em fios sedosos, que ele necessitava aparar e +frisar. Todo o seu fato, as espessas <span class="pagenum">[19]</span>gravatas de cetim escuro que uma pérola +prendia, as luvas de anta branca, o verniz das botas, vinham de +Londres em caixotes de cedro; e usava sempre ao peito uma flor, +não natural, mas composta destramente pela sua ramalheteira +com pétalas de flores dissemelhantes, cravo, azálea, +orquídea ou tulipa, fundidas na mesma haste entre uma leve +folhagem de funcho.<br> + + + +<br> + + +<br> + + +<div class="break"> +<hr></div> + + +<br> + + +<br> + + +Em 1880, em Fevereiro, numa cinzenta e arrepiada manhã de +chuva, recebi uma carta de meu bom tio Afonso Fernandes, em que, +depois de lamentações sobre os seus setenta anos, os +seus males hemorroidais, e a pesada gerência dos seus bens +«que pedia homem mais novo, com pernas mais rijas»--me +ordenava que recolhesse à nossa casa de Guiães, no +Douro! Encostado ao mármore partido do fogão, onde na +véspera a minha Nini deixara um espartilho embrulhado no + +<i>Jornal dos Debates</i>, censurei severamente meu tio que assim +cortava em botão, antes de desabrochar, a flor do meu Saber +Jurídico. Depois num Post-Scriptum ele +acrescentava--«O tempo aqui está lindo, o que se pode +chamar de rosas, e tua santa tia muito se recomenda, que anda +lá pela cozinha, porque vai hoje em trinta e seis +<span class="pagenum">[20]</span>anos que casámos, temos +cá o abade e o Quintais a jantar, e ela quis fazer uma sopa +dourada».<br> + + +<br> + + + +Deitando uma acha ao lume, pensei como devia estar boa a sopa +dourada da tia Vicência. Há quantos anos não a +provava, nem o leitão assado, nem o arroz de forno da nossa +casa! Com o tempo assim tão lindo, já as mimosas do +nosso pátio vergariam sob os seus grandes cachos amarelos. +Um pedaço de céu azul, do azul de Guiães, que +outro não há tão lustroso e macio, entrou pelo +quarto, alumiou, sobre a puída tristeza do tapete, relvas, +ribeirinhos, malmequeres e flores de trevo de que meus olhos +andavam aguados. E, por entre as bambinelas de sarja, passou um ar +fino e forte e cheiroso de serra e de pinheiral.<br> + + + +<br> + + +Assobiando um <i>fado</i> meigo tirei debaixo da cama a minha velha +mala, e meti solicitamente entre calças e peúgas um +Tratado de Direito Civil, para aprender enfim, nos vagares da +aldeia, estendido sob a faia, as leis que regem os homens. Depois, +nessa tarde, anunciei a Jacinto que partia para Guiães. O +meu camarada recuou com um surdo gemido de espanto e piedade:<br> + + +<br> + + +--Para Guiães!... Oh Zé Fernandes, que horror!<br> + + +<br> + + +E toda essa semana me lembrou solicitamente <span class="pagenum">[21]</span>confortos de que eu me deveria prover para que +pudesse conservar, nos ermos silvestres, tão longe da +Cidade, uma pouca de alma dentro de um pouco de corpo. «Leva +uma poltrona! Leva a <i>Enciclopédia Geral</i>! Leva caixas +de aspáragos!...»<br> + + + +<br> + + +Mas para o meu Jacinto, desde que assim me arrancavam da Cidade, eu +era arbusto desarreigado que não reviverá. A +mágoa com que me acompanhou ao comboio conviria +excelentemente ao meu funeral. E quando fechou sobre mim a +portinhola, gravemente, supremamente, como se cerra uma grade de +sepultura, eu quase solucei--com saudades minhas.<br> + + +<br> + + +Cheguei a Guiães. Ainda restavam flores nas mimosas do nosso +pátio; comi com delícias a sopa dourada da tia +Vicência; de tamancos nos pés assisti à ceifa +dos milhos. E assim de colheitas a lavras, crestando ao sol das +eiras, caçando a perdiz nos matos geados, rachando a +melancia fresca na poeira dos arraiais, arranchando a magustos, +serandando à candeia, atiçando fogueiras de S. +João, enfeitando presépios de Natal, por ali me +passaram docemente sete anos, tão atarefados que nunca +logrei abrir o Tratado de Direito Civil, e tão singelos que +apenas me recordo quando, em vésperas de S. Nicolau, o +abade<span class="pagenum">[22]</span> caiu da égua à + +porta do Brás das Cortes. De Jacinto só recebia +raramente algumas linhas, escrevinhadas à pressa por entre o +tumulto da Civilização. Depois, num Setembro muito +quente, ao lidar da vindima, meu bom tio Afonso Fernandes morreu, +tão quietamente, Deus seja louvado por esta graça, +como se cala um passarinho ao fim do seu bem cantado e bem voado +dia. Acabei pela aldeia a roupa do luto. A minha afilhada Joaninha +casou na matança do porco. Andaram obras no nosso telhado. +Voltei a Paris.<br> + + +<br> + + +<br> + + +<br> + + +<h2>II</h2> + + +Era de novo Fevereiro, e um fim de tarde arrepiado e cinzento, +quando eu desci os Campos Elísios em demanda do 202. Adiante +de mim caminhava, levemente curvado, um homem que, desde as botas +rebrilhantes até às abas recurvas do chapéu +donde fugiam anéis de um cabelo crespo, ressumava +elegância e a familiaridade das coisas finas. Nas +mãos, cruzadas atrás das costas, calçadas de +anta branca, sustentava uma bengala grossa com castão de +cristal. E só quando ele parou ao portão do 202 +reconheci o nariz afilado, os fios do bigode corredios e +sedosos.<br> + + + +<br> + + +--Oh Jacinto!<br> + + +<br> + + +--Oh Zé Fernandes!<br> + + +<br> + + +O abraço que nos enlaçou foi tão +alvoroçado que o meu chapéu rolou na lama. E ambos +murmurávamos, comovidos, entrando a grade:<br> + + + +<br> + + +<span class="pagenum">[24]</span> --Há sete anos!...<br> + + +<br> + + +--Há sete anos!...<br> + + +<br> + + +E, todavia, nada mudara durante esses sete anos no jardim do 202! +Ainda entre as duas áleas bem areadas se arredondava uma +relva, mais lisa e varrida que a lã de um tapete. No meio o +vaso coríntico esperava Abril para resplandecer com tulipas +e depois Junho para transbordar de margaridas. E ao lado das +escadas limiares, que uma vidraçaria toldava, as duas magras +Deusas de pedra, do tempo de D. Galeão, sustentavam as +antigas lâmpadas de globos foscos, onde já silvava o +gás.<br> + + + +<br> + + +Mas dentro, no peristilo, logo me surpreendeu um elevador instalado +por Jacinto--apesar do 202 ter somente dois andares, e ligados por +uma escadaria tão doce que nunca ofendera a asma da +Sr.<sup>a</sup> D. Angelina! Espaçoso, tapetado, ele +oferecia, para aquela jornada de sete segundos, confortos +numerosos, um divã, uma pele de urso, um roteiro das ruas de +Paris, prateleiras gradeadas com charutos e livros. Na +antecâmara, onde desembarcámos, encontrei a +temperatura macia e tépida de uma tarde de Maio, em +Guiães. Um criado, mais atento ao termómetro que um +piloto à agulha, regulava destramente a boca dourada do +calorífero. E perfumadores entre palmeiras, como num +terraço santo de Benares, <span class="pagenum">[25]</span>esparziam um vapor, aromatizando e +salutarmente humedecendo aquele ar delicado e superfino.<br> + + + +<br> + + +Eu murmurei, nas profundidades do meu assombrado ser:<br> + + +<br> + + +--Eis a Civilização!<br> + + +<br> + + +Jacinto empurrou uma porta, penetrámos numa nave cheia de +majestade e sombra, onde reconheci a Biblioteca por tropeçar +numa pilha monstruosa de livros novos. O meu amigo roçou de +leve o dedo na parede: e uma coroa de lumes eléctricos, +refulgindo entre os lavores do tecto, alumiou as estantes +monumentais, todas de ébano. Nelas repousavam mais de trinta +mil volumes, encadernados em branco, em escarlate, em negro, com +retoques de ouro, hirtos na sua pompa e na sua autoridade como +doutores num concílio.<br> + + +<br> + + + +Não contive a minha admiração:<br> + + +--Oh Jacinto! Que depósito!<br> + + +<br> + + +Ele murmurou, num sorriso descorado:<br> + + +<br> + + +--Há que ler, há que ler...<br> + + + +<br> + + +Reparei então que o meu amigo emagrecera: e que o nariz se +lhe afilara mais entre duas rugas muito fundas, como as de um +comediante cansado. Os anéis do seu cabelo lanígero +rareavam sobre a testa, que perdera a antiga serenidade de +mármore bem polido. Não frisava agora o bigode +murcho, caído <span class="pagenum">[26]</span>em fios +pensativos. Também notei que corcovava.<br> + + +<br> + + +Ele erguera uma tapeçaria--entrámos no seu gabinete +de trabalho, que me inquietou. Sobre a espessura dos tapetes +sombrios os nossos passos perderam logo o som, e como a realidade. +O damasco das paredes, os divãs, as madeiras, eram verdes, +de um verde profundo de folha de louro. Sedas verdes envolviam as +luzes eléctricas, dispersas em lâmpadas tão +baixas que lembravam estrelas caídas por cima das mesas, +acabando de arrefecer e morrer: só uma rebrilhava, nua e +clara, no alto de uma estante quadrada, esguia, solitária +como uma torre numa planície, e de que o lume parecia ser o +farol melancólico. Um biombo de laca verde, fresco verde de +relva, resguardava a chaminé de mármore verde, verde +de mar sombrio, onde esmoreciam as brasas de uma lenha +aromática. E entre aqueles verdes reluzia, por sobre peanhas +e pedestais, toda uma Mecânica sumptuosa, aparelhos, +lâminas, rodas, tubos, engrenagens, hastes, friezas, +rigidezes de metais...<br> + + + +<br> + + +Mas Jacinto batia nas almofadas do divã, onde se enterrara +com um modo cansado que eu não lhe conhecia:<br> + + +<br> + + +--Para aqui, Zé Fernandes, para aqui! É +necessário reatarmos estas nossas vidas, tão +<span class="pagenum">[27]</span>apartadas há sete anos!... +Em Guiães, sete anos! Que fizeste tu?<br> + + + +<br> + + +--E tu, que tens feito, Jacinto?<br> + + +<br> + + +O meu amigo encolheu molemente os ombros. Vivera--cumprira com +serenidade todas as funções, as que pertencem +à matéria e as que pertencem ao +espírito...<br> + + +<br> + + +--E acumulaste Civilização, Jacinto! Santo Deus... +Está tremendo, o 202!<br> + + + +<br> + + +Ele espalhou em torno um olhar onde já não faiscava a +antiga vivacidade:<br> + + +<br> + + +--Sim, há confortos... Mas falta muito! A humanidade ainda +está mal apetrechada, Zé Fernandes... E a vida +conserva resistências.<br> + + +<br> + + + +Subitamente, a um canto, repicou a campainha do telefone. E +enquanto o meu amigo, curvado sobre a placa, murmurava impaciente +«<i>Está lá?--Está +lá?</i>», examinei curiosamente, sobre a sua imensa +mesa de trabalho, uma estranha e miúda legião de +instrumentozinhos de níquel, de aço, de cobre, de +ferro, com gumes, com argolas, com tenazes, com ganchos, com +dentes, expressivos todos, de utilidades misteriosas. Tomei um que +tentei manejar--e logo uma ponta malévola me picou um dedo. +Nesse instante rompeu doutro canto um «tic-tic-tic» +açodado, quase ansioso. Jacinto acudiu, com a face no +telefone:<br> + + + +<br> + + +<span class="pagenum">[28]</span> --Vê aí o +telégrafo!... Ao pé do divã. Uma tira de papel +que deve estar a correr.<br> + + +<br> + + +E, com efeito, de uma redoma de vidro posta numa coluna, e contendo +um aparelho esperto e diligente, escorria para o tapete, como uma +ténia, a longa tira de papel com caracteres impressos, que +eu, homem das serras, apanhei, maravilhado. A linha, traçada +em azul, anunciava ao meu amigo Jacinto que a fragata russa + +<i>Azoff</i> entrara em Marselha com avaria!<br> + + +<br> + + +Já ele abandonara o telefone. Desejei saber, inquieto, se o +prejudicava directamente aquela avaria da <i>Azoff</i>.<br> + + +<br> + + +--Da <i>Azoff</i>?... A avaria? A mim?... Não! É uma +notícia.<br> + + + +<br> + + +Depois, consultando um relógio monumental que, ao fundo da +Biblioteca, marcava a hora de todas as Capitais e o curso de todos +os Planetas:<br> + + +<br> + + +--Eu preciso escrever uma carta, seis linhas... Tu esperas, +não, Zé Fernandes? Tens aí os jornais de +Paris, da noite; e os de Londres, desta manhã. As +Ilustrações além, naquela pasta de couro com +ferragens.<br> + + +<br> + + +Mas eu preferi inventariar o gabinete, que dava à minha +profanidade serrana todos os gostos de uma iniciação. +Aos lados da cadeira de Jacinto pendiam gordos tubos +acústicos, <span class="pagenum">[29]</span>por onde ele +decerto soprava as suas ordens através do 202. Dos +pés da mesa cordões túmidos e moles, coleando +sobre o tapete, corriam para os recantos de sombra à maneira +de cobras assustadas. Sobre uma banquinha, e reflectida no seu +verniz como na água de um poço, pousava uma +Máquina de escrever: e adiante era uma imensa Máquina +de calcular, com fileiras de buracos donde espreitavam, esperando, +números rígidos e de ferro. Depois parei em frente da +estante que me preocupava, assim solitária, à maneira +de uma torre numa planície, com o seu alto farol. Toda uma +das suas faces estava repleta de Dicionários; a outra de +Manuais; a outra de Atlas; a última de Guias, e entre eles, +abrindo um fólio, encontrei o Guia das ruas de Samarcanda. +Que maciça torre de informação! Sobre +prateleiras admirei aparelhos que não compreendia:--um +composto de lâminas de gelatina, onde desmaiavam, +meio-chupadas, as linhas de uma carta, talvez amorosa; outro, que +erguia sobre um pobre livro brochado, como para o decepar, um +cutelo funesto; outro avançando a boca de uma tuba, toda +aberta para as vozes do invisível. Cingidos aos umbrais, +liados às cimalhas, luziam arames, que fugiam através +do tecto, para o espaço. Todos mergulhavam em forças +universais, todos <span class="pagenum">[30]</span>transmitiam +forças universais. A Natureza convergia disciplinada ao +serviço do meu amigo e entrara na sua domesticidade!...<br> + + + +<br> + + +Jacinto atirou uma exclamação impaciente:<br> + + +<br> + + +--Oh, estas penas eléctricas!... Que seca!<br> + + +<br> + + +Amarrotara com cólera a carta começada--eu escapei, +respirando, para a Biblioteca. Que majestoso armazém dos +produtos do Raciocínio e da Imaginação! Ali +jaziam mais de trinta mil volumes, e todos decerto essenciais a uma +cultura humana. Logo à entrada notei, em ouro numa lombada +verde, o nome de Adam Smith. Era pois a região dos +Economistas. Avancei--e percorri, espantado, oito metros de +Economia Política. Depois avistei os Filósofos e os +seus comentadores, que revestiam toda uma parede, desde as escolas +Pré-Socráticas até às escolas +Neopessimistas. Naquelas pranchas se acastelavam mais de dois mil +sistemas--e que todos se contradiziam. Pelas +encadernações logo se deduziam as doutrinas: Hobbes, +em baixo, era pesado, de couro negro; Platão, em cima, +resplandecia, numa pelica pura e alva. Para diante começavam +as Histórias Universais. Mas aí uma imensa pilha de +livros brochados, cheirando a tinta nova e a documentos + +<span class="pagenum">[31]</span>novos, subia contra a estante, +como fresca terra de aluvião tapando uma riba secular. +Contornei essa colina, mergulhei na secção das +Ciências Naturais, peregrinando, num assombro crescente, da +Orografia para a Paleontologia, e da Morfologia para a +Cristalografia. Essa estante rematava junto de uma janela rasgada +sobre os Campos Elísios. Apartei as cortinas de veludo--e +por trás descobri outra portentosa rima de volumes, todos de +História Religiosa, de Exegese Religiosa, que trepavam +montanhosamente até aos últimos vidros, vedando, nas +manhãs mais cândidas, o ar e a luz do Senhor.<br> + + +<br> + + +Mas depois rebrilhava, em marroquins claros, a estante +amável dos Poetas. Como um repouso para o espírito +esfalfado de todo aquele saber positivo, Jacinto aconchegara +aí um recanto, com um divã e uma mesa de limoeiro, +mais lustrosa que um fino esmalte, coberta de charutos, de cigarros +do Oriente, de tabaqueiras do século XVIII. Sobre um cofre +de madeira lisa pousava ainda, esquecido, um prato de damascos +secos do Japão. Cedi à sedução das +almofadas; trinquei um damasco, abri um volume; e senti +estranhamente, ao lado, um zumbido, como de um insecto de asas +harmoniosas. Sorri à ideia que fossem abelhas, compondo o +seu <span class="pagenum">[32]</span>mel naquele maciço de +versos em flor. Depois percebi que o sussurro remoto e dormente +vinha do cofre de mogno, de parecer tão discreto. Arredei +uma <i>Gazeta de França</i>; e descortinei um cordão +que emergia de um orifício, escavado no cofre, e rematava +num funil de marfim. Com curiosidade, encostei o funil a esta minha +confiada orelha, afeita à singeleza dos rumores da serra. E +logo uma Voz, muito mansa, mas muito decidida, aproveitando a minha +curiosidade para me invadir e se apoderar do meu entendimento, +sussurrou capciosamente:<br> + + + +<br> + + +--...«E assim, pela disposição dos cubos +diabólicos, eu chego a verificar os espaços +hipermágicos!...»<br> + + +<br> + + +Pulei, com um berro.<br> + + +<br> + + +--Oh Jacinto, aqui há um homem! Está aqui um homem a +falar dentro de uma caixa!<br> + + + +<br> + + +O meu camarada, habituado aos prodígios, não se +alvoroçou:<br> + + +<br> + + +--É o Conferençofone... Exactamente como o +Teatrofone; somente aplicado às escolas e às +conferências. Muito cómodo!... Que diz o homem, +Zé Fernandes?<br> + + + +<br> + + +Eu considerava o cofre, ainda esgazeado:<br> + + +<br> + + +--Eu sei! Cubos diabólicos, espaços mágicos, +toda a sorte de horrores...<br> + + +<br> + + +Senti dentro o sorriso superior de Jacinto:<br> + + +<br> + + +<span class="pagenum">[33]</span> --Ah, é o coronel +Dorchas... Lições de Metafísica Positiva sobre +a Quarta Dimensão... Conjecturas, uma maçada! Ouve +lá, tu hoje jantas comigo e com uns amigos, Zé + +Fernandes?<br> + + +<br> + + +--Não, Jacinto... Estou ainda enfardelado pelo alfaiate da +serra!<br> + + +<br> + + +E voltei ao gabinete mostrar ao meu camarada o jaquetão de +flanela grossa, a gravata de pintinhas escarlates, com que ao +domingo, em Guiães, visitava o Senhor. Mas Jacinto afirmou +que esta simplicidade montesina interessaria os seus convidados, +que eram dois artistas... Quem? O autor do <i>Coração +Triplo</i>, um Psicólogo Feminista, de agudeza +transcendente, Mestre muito experimentado e muito consultado em +Ciências Sentimentais; e Vorcan, um pintor mítico, que +interpretara etereamente, havia um ano, a simbolia rapsódica +do cerco de Tróia, numa vasta composição, + +<i>Helena Devastadora</i>...<br> + + +<br> + + +Eu coçava a barba:<br> + + +<br> + + +--Não, Jacinto, não... Eu venho de Guiães, das +serras; preciso entrar em toda esta civilização, +lentamente, com cautela, senão rebento. Logo na mesma tarde +a electricidade, e o conferençofone, e os espaços +hipermágicos e o feminista, e o etéreo, e a simbolia +devastadora, é excessivo! Volto amanhã.<br> + + + +<br> + + +<span class="pagenum">[34]</span>Jacinto dobrava vagarosamente a +sua carta, onde metera sem rebuço (como convinha à +nossa fraternidade) duas violetas brancas tiradas do ramo que lhe +floria o peito.<br> + + +<br> + + +--Amanhã, Zé Fernandes, tu vens antes de +almoço, com as tuas malas dentro de um fiacre, para te +instalares no 202, no teu quarto. No Hotel são +embaraços, privações. Aqui tens o telefone, o +teatrofone, livros...<br> + + + +<br> + + +Aceitei logo, com simplicidade. E Jacinto, embocando um tubo +acústico, murmurou:<br> + + +<br> + + +--Grilo!<br> + + +<br> + + +Da parede, recoberta de damasco, que subitamente e sem rumor se +fendeu, surdiu o seu velho escudeiro (aquele moleque que viera com +<i>D. Galeão</i>), que eu me alegrei de encontrar tão +rijo, mais negro, reluzente e venerável na sua tesa gravata, +no seu colete branco de botões de ouro. Ele também +estimou ver de novo «o siô Fernandes». E, quando +soube que eu ocuparia o quarto do avô Jacinto, teve um claro +sorriso de preto, em que envolveu o seu senhor, no contentamento de +o sentir enfim reprovido de uma família.<br> + + + +<br> + + +--Grilo, dizia Jacinto, esta carta a Madame de Oriol... Escuta! +Telefona para casa dos Trèves que os espiritistas só +estão livres no domingo... Escuta! Eu tomo uma duche +<span class="pagenum">[35]</span>antes de jantar, tépida, a +17. Fricção com malva-rosa.<br> + + +<br> + + +E caindo pesadamente para cima do divã, com um bocejo +arrastado e vago:<br> + + +<br> + + +--Pois é verdade, meu Zé Fernandes, aqui estamos, +como há sete anos, neste velho Paris...<br> + + + +<br> + + +Mas eu não me arredava da mesa, no desejo de completar a +minha iniciação:<br> + + +<br> + + +--Oh Jacinto, para que servem todos estes instrumentozinhos? Houve +já aí um desavergonhado que me picou. Parecem +perversos... São úteis?<br> + + +<br> + + +Jacinto esboçou, com languidez, um gesto que os +sublimava.--Providenciais, meu filho, absolutamente providenciais, +pela simplificação que dão ao trabalho! +Assim... E apontou. Este arrancava as penas velhas; o outro +numerava rapidamente as páginas de um manuscrito; +aqueloutro, além, raspava emendas... E ainda os havia para +colar estampilhas, imprimir datas, derreter lacres, cintar +documentos...<br> + + + +<br> + + +--Mas com efeito, acrescentou, é uma seca. Com as molas, com +os bicos, às vezes magoam, ferem... Já me sucedeu +inutilizar cartas por as ter sujado com dedadas de sangue. É +uma maçada!<br> + + +<br> + + +Então, como o meu amigo espreitara novamente <span class="pagenum">[36]</span>o relógio monumental, não lhe +quis retardar a consolação da ducha e da +malva-rosa.<br> + + + +<br> + + +--Bem, Jacinto, já te revi, já me contentei... Agora +até amanhã, com as malas.<br> + + +<br> + + +--Que diabo, Zé Fernandes, espera um momento... Vamos pela +sala de jantar. Talvez te tentes!<br> + + +<br> + + +E, através da Biblioteca, penetramos na sala de jantar,--que +me encantou pelo seu luxo sereno e fresco. Uma madeira branca, +lacada, mais lustrosa e macia que cetim, revestia as paredes, +encaixilhando medalhões de damasco cor de morango, de +morango muito maduro e esmagado: os aparadores, discretamente +lavrados em florões e rocalhas, resplandeciam com a mesma +laca nevada: e damascos amorangados estofavam também as +cadeiras, brancas, muito amplas, feitas para a lentidão de +gulas delicadas, de gulas intelectuais.<br> + + + +<br> + + +--Viva o meu Príncipe! Sim senhor... Eis aqui um comedouro +muito compreensível e muito repousante, Jacinto!<br> + + +<br> + + +--Então janta, homem!<br> + + +<br> + + +Mas já eu me começava a inquietar, reparando que a +cada talher correspondiam seis garfos, e todos de feitios +astuciosos. E mais me impressionei quando Jacinto me desvendou +<span class="pagenum">[37]</span>que um era para as ostras, outro +para o peixe, outro para as carnes, outro para os legumes, outro +para as frutas, outro para o queijo! Simultaneamente, com uma +sobriedade que louvaria Salomão, só dois copos, para +dois vinhos:--um Bordéus rosado em infusas de cristal, e +Champanhe gelando dentro de baldes de prata. Todo um aparador +porém vergava, sob o luxo redundante, quase assustador de + +águas--águas oxigenadas, águas carbonatadas, +águas fosfatadas, águas esterilizadas, águas +de sais, outras ainda, em garrafas bojudas, com tratados +terapêuticos impressos em rótulos.<br> + + +<br> + + +--Santíssimo nome de Deus, Jacinto! Então és +ainda o mesmo tremendo bebedor de água, hein?... <i>Un +aquatico!</i> como dizia o nosso poeta chileno, que andava a +traduzir Klopstock.<br> + + + +<br> + + +Ele derramou, por sobre toda aquela garrafaria encarapuçada +em metal, um olhar desconsolado:<br> + + +<br> + + +--Não... É por causa das águas da Cidade, +contaminadas, atulhadas de micróbios... Mas ainda não +encontrei uma boa água que me convenha, que me +satisfaça... Até sofro sede.<br> + + + +<br> + + +Desejei então conhecer o jantar do Psicólogo e do +Simbolista--traçado, ao lado dos <span class="pagenum">[38]</span>talheres, em tinta vermelha, sobre +lâminas de marfim. Começava honradamente por ostras +clássicas, de Marennes. Depois aparecia uma sopa de +alcachofras e ovas de carpa...<br> + + +<br> + + +--É bom?<br> + + +<br> + + + +Jacinto encolheu desinteressadamente os ombros:<br> + + +<br> + + +--Sim... Eu não tenho nunca apetite, já há +tempos... Já há anos.<br> + + +<br> + + +Do outro prato só compreendi que continha frangos e +túbaras. Depois saboreariam aqueles senhores um filete de +veado, macerado em Xerez, com geleia de noz. E por sobremesa +simplesmente laranjas geladas em éter.<br> + + + +<br> + + +--Em éter, Jacinto?<br> + + +<br> + + +O meu amigo hesitou, esboçou com os dedos a +ondulação de um aroma que se evola.<br> + + +<br> + + +--É novo... Parece que o éter desenvolve, faz aflorar +a alma das frutas...<br> + + +<br> + + +Curvei a cabeça ignara, murmurei nas minhas +profundidades:<br> + + + +<br> + + +--Eis a Civilização!<br> + + +<br> + + +E, descendo os Campos Elísios, encolhido no paletó a +cogitar neste prato simbólico, considerava a rudeza e +atolado atraso da minha Guiães, onde desde séculos a +alma das laranjas permanece ignorada e desaproveitada dentro dos +gomos sumarentos, por todos <span class="pagenum">[39]</span>aqueles pomares que ensombram e perfumam o +vale, da Roqueirinha a Sandofim! Agora porém, bendito Deus, +na convivência de um tão grande iniciado como Jacinto, +eu compreenderia todas as finuras e todos os poderes da +Civilização.<br> + + + +<br> + + +E, (melhor ainda para a minha ternura!) contemplaria a raridade de +um homem que, concebendo uma ideia da Vida, a realiza--e +através dela e por ela recolhe a felicidade perfeita.<br> + + +<br> + + +Bem se afirmara este Jacinto, na verdade, como Príncipe da +Grã-Ventura!<br> + + +<br> + + +<br> + + +<br> + + +<h2>III</h2> + + +<br> + + +<br> + + +No 202, todas as manhãs, às nove horas, depois do meu +chocolate e ainda em chinelas, penetrava no quarto de Jacinto. +Encontrava o meu amigo banhado, barbeado, friccionado, envolto num +roupão branco de pêlo de cabra do Tibete, diante da +sua mesa de toilette, toda de cristal, (por causa dos +micróbios) e atulhada com esses utensílios de +tartaruga, marfim, prata, aço e madrepérola que o +homem do século XIX necessita para não desfeiar o +conjunto sumptuário da Civilização e manter +nela o seu Tipo. As escovas sobretudo renovavam, cada dia, o meu +regalo e o meu espanto--porque as havia largas como a roda +maciça de um carro sabino; estreitas e mais recurvas que o +alfange de um mouro; côncavas, em forma de telha +aldeã; pontiagudas em feitio de folha de hera; rijas que nem +cerdas de javali; macias que nem penugem <span class="pagenum">[42]</span>de rola! De todas, fielmente, como amo que +não desdenha nenhum servo, se utilizava o meu Jacinto. E +assim, em face ao espelho emoldurado de folhedos de prata, +permanecia este Príncipe passando pêlos sobre o seu +pêlo durante catorze minutos.<br> + + + +<br> + + +No entanto o Grilo e outro escudeiro, por trás dos biombos +de Quioto, de sedas lavradas, manobravam, com perícia e +vigor, os aparelhos do lavatório--que era apenas um resumo +das Máquinas monumentais da Sala de Banho, a mais estremada +maravilha do 202. Nestes mármores simplificados existiam +unicamente dois jactos graduados desde <i>zero</i> até +<i>cem</i>; as duas duchas, fina e grossa, para a cabeça; a +fonte esterilizada para os dentes; o repuxo borbulhante para a +barba; e ainda botões discretos, que, roçados, +desencadeavam esguichos, cascatas cantantes, ou um leve orvalho +estival. Desse recanto temeroso, onde delgados tubos mantinham em +disciplina e servidão tantas águas ferventes, tantas + +águas violentas, saía enfim o meu Jacinto enxugando +as mãos a uma toalha de felpo, a uma toalha de linho, a +outra de corda entrançada para restabelecer a +circulação, a outra de seda frouxa para repolir a +pele. Depois deste rito derradeiro que lhe arrancava ora um +suspiro, ora um bocejo, Jacinto, estendido num divã, +<span class="pagenum">[43]</span>folheava uma Agenda, onde se +arrolavam, inscritas pelo Grilo ou por ele, as +ocupações do seu dia, tão numerosas por vezes +que cobriam duas laudas.<br> + + +<br> + + +Todas elas se prendiam à sua sociabilidade, à sua +Civilização muito complexa, ou a interesses que o meu +Príncipe, nesses sete anos, criara para viver em mais +consciente comunhão com todas as funções da +Cidade. (Jacinto com efeito era presidente do Clube da <i>Espada e +Alvo</i>; comanditário do Jornal o <i>Boulevard</i>; +director da <i>Companhia dos Telefones de Constantinopla</i>; +sócio dos <i>Bazares unidos da Arte Espiritualista</i>; +membro do <i>Comité de Iniciação das +Religiões Esotéricas</i>, etc.) Nenhuma destas +ocupações parecia porém aprazível ao +meu amigo--porque, apesar da mansidão e harmonia dos seus +modos, frequentemente arremessava para o tapete, numa +rebelião de homem livre, aquela Agenda que o escravizava. E +numa dessas manhãs (de vento e neve), apanhando eu o livro +opressivo, encadernado em pelica, de um carinhoso tom de rosa +murcha--descobri que o meu Jacinto devia depois do almoço +fazer uma visita na rua da Universidade, outra no Parque Monceau, +outra entre os arvoredos remotos da Muette; assistir por fidelidade +a uma votação no Clube; acompanhar Madame + +<span class="pagenum">[44]</span>d'Oriol a uma +exposição de leques; escolher um presente de noivado +para a sobrinha dos Trèves; comparecer no funeral do velho +conde de Malville; presidir um tribunal de honra numa +questão de roubalheira, entre cavalheiros, ao +ecarté... E ainda se acavalavam outras +indicações, escrevinhadas por Jacinto a +lápis:--«Carroceiro--Five-oclock dos Efrains--A +pequena das <i>Variedades</i>--Levar a nota ao jornal...» +Considerei o meu Príncipe. Estirado no divã, de olhos +miserrimamente cerrados, bocejava, num bocejo imenso e mudo.<br> + + +<br> + + + +Mas os afazeres de Jacinto começavam logo no 202, cedo, +depois do banho. Desde as oito horas a campainha do telefone +repicava por ele, com impaciência, quase com cólera, +como por um escravo tardio. E mal enxugado, dentro do seu +roupão de pêlo de cabra do Tibete ou de grossas +pijamas de pelúcia cor de ouro velho, constantemente +saía ao corredor a cochichar com sujeitos tão +apressados, que conservavam na mão o guarda-chuva pingando +sobre o tapete. Um desses, sempre presente (e que pertencia decerto +aos <i>Telefones de Constantinopla</i>), era temeroso--todo ele +chupado, tisnado, com maus dentes, sobraçando uma enorme +pasta sebenta, e dardejando, de entre a alta gola de uma +peliça puída, <span class="pagenum">[45]</span>como +da abertura de um covil, dois olhinhos torvos e de rapina. Sem +cessar, inexoravelmente, um escudeiro aparecia, com bilhetes numa +salva... Depois eram fornecedores de Indústria e de Arte; +negociantes de cavalos, rubicundos e de paletó branco; +inventores com grossos rolos de papel; alfarrabistas trazendo na +algibeira uma edição «única», +quase inverosímil, de Ulrich Zell ou do <i>Lapidanus</i>. +Jacinto circulava estonteado pelo 202, rabiscando a carteira, +repicando o telefone, desatando nervosamente pacotes, sacudindo ao +passar algum emboscado que surdia das sombras da antecâmara, +estendia como um trabuco o seu memorial ou o seu +catálogo!<br> + + + +<br> + + +Ao meio-dia, um tantã argentino e melancólico +ressoava, chamando ao almoço. Com o <i>Figaro</i> ou as +<i>Novidades</i> abertas sobre o prato, eu esperava sempre meia +hora pelo meu Príncipe, que entrava numa rajada, consultando +o relógio, exalando com a face moída o seu queixume +eterno:<br> + + + +<br> + + +--Que maçada! E depois uma noite abominável, +enrodilhada em sonhos... Tomei sulforal, chamei o Grilo para me +esfregar com terebintina... Uma seca!<br> + + +<br> + + +Espalhava pela mesa um olhar já farto. Nenhum prato, por +mais engenhoso, o seduzia;--e, como através do seu tumulto +matinal fumava <span class="pagenum">[46]</span>incontáveis +cigarretes que o ressequiam, começava por se encharcar com +um imenso copo de água oxigenada, ou carbonatada, ou gasosa, +misturada de um cognac raro, muito caro, horrendamente adocicado, +de moscatel de Siracusa. Depois, à pressa, sem gosto, com a +ponta incerta do garfo, picava aqui e além uma lasca de +fiambre, uma febra de lagosta;--e reclamava impacientemente o +café, um café de Moca, mandado cada mês por um +feitor do Dedjah, fervido à turca, muito espesso, que ele +remexia com um pau de canela!<br> + + + +<br> + + +--E tu, Zé Fernandes, que vais tu fazer?<br> + + +<br> + + +--Eu?<br> + + +<br> + + +Recostado na cadeira, com delícias, os dedos metidos nas +cavas do colete:<br> + + +<br> + + +--Vou vadiar, regaladamente, como um cão natural!<br> + + +<br> + + + +O meu solícito amigo, remexendo o café com o pau de +canela, rebuscava através da numerosa +Civilização da Cidade uma ocupação que +me encantasse. Mas apenas sugeria uma Exposição, ou +uma Conferência, ou monumentos, ou passeios, logo encolhia os +ombros desconsolados:<br> + + +<br> + + +--Por fim nem vale a pena, é uma seca!<br> + + +<br> + + +Acendia outra das cigarretes russas, onde rebrilhava o seu nome, +impresso a ouro na mortalha. Torcendo, numa pressa nervosa, os + +<span class="pagenum">[47]</span>fios do bigode, ainda escutava, +à porta da Biblioteca, o seu procurador, o nédio e +majestoso Laporte. E enfim, seguido de um criado, que +sobraçava um maço tremendo de jornais para lhe +abastecer o coupé, o Príncipe da Grã-Ventura +mergulhava na Cidade.<br> + + +<br> + + +<br> + + +<div class="break"> +<hr></div> + + +<br> + + +<br> + + + +Quando o dia social de Jacinto se apresentava mais desafogado, e o +céu de Março nos concedia caridosamente um pouco de +azul aguado, saíamos depois de almoço, a pé, +através de Paris. Estes lentos e errantes passeios eram +outrora, na nossa idade de Estudantes, um gozo muito querido de +Jacinto--porque neles mais intensamente e mais minuciosamente +saboreava a Cidade. Agora porém, apesar da minha companhia, +só lhe davam uma impaciência e uma fadiga que +desoladoramente destoava do antigo, iluminado êxtase. Com +espanto (mesmo com dor, porque sou bom, e sempre me entristece o +desmoronar de uma crença) descobri eu, na primeira tarde em +que descemos aos Boulevards, que o denso formigueiro humano sobre o +asfalto, e a torrente sombria dos trens sobre o macadame, afligiam +o meu amigo pela brutalidade da sua pressa, do seu egoísmo, +<span class="pagenum">[48]</span>e do seu estridor. Encostado e +como refugiado no meu braço, este Jacinto novo +começou a lamentar que as ruas, na nossa +Civilização, não fossem calçadas de +guta-percha! E a guta-percha claramente representava, para o meu +amigo, a substância discreta que amortece o choque e a rudeza +das coisas. Oh maravilha! Jacinto querendo borracha, a borracha +isoladora, entre a sua sensibilidade e as funções da +Cidade! Depois, nem me permitiu pasmar diante daquelas dourejadas e +espelhadas lojas que ele outrora considerava como os + +«preciosos museus do século XIX»...<br> + + +<br> + + +--Não vale a pena, Zé Fernandes. Há uma imensa +pobreza e secura de invenção! Sempre os mesmos +florões Luís XV, sempre as mesmas pelúcias... +Não vale a pena!<br> + + + +<br> + + +Eu arregalava os olhos para este transformado Jacinto. E sobretudo +me impressionava o seu horror pela Multidão--por certos +efeitos da Multidão, só para ele sensíveis, e +a que chamava os «sulcos».<br> + + +<br> + + +--Tu não os sentes, Zé Fernandes. Vens das serras... +Pois constituem o rijo inconveniente das Cidades, estes sulcos! +É um perfume muito agudo e petulante que uma mulher larga ao +passar, e se instala no olfacto, e estraga para todo o dia o ar +respirável. É um dito que se surpreende num grupo, +que <span class="pagenum">[49]</span>revela um mundo de velhacaria, +ou de pedantismo, ou de estupidez, e que nos fica colado à + +alma, como um salpico, lembrando a imensidade da lama a atravessar. +Ou então, meu filho, é uma figura intolerável +pela pretensão, ou pelo mau gosto, ou pela +impertinência, ou pela relice, ou pela dureza, e de que se +não pode sacudir mais a visão repulsiva... Um pavor, +estes sulcos, Zé Fernandes! De resto, que diabo, são +as pequeninas misérias de uma Civilização +deliciosa!<br> + + +<br> + + +Tudo isto era especioso, talvez pueril--mas para mim revelava, +naquele chamejante devoto da Cidade, o arrefecimento da +devoção. Nessa mesma tarde, se bem recordo, sob uma +luz macia e fina, penetrámos nos centros de Paris, nas ruas +longas, nas milhas de casario, todo de caliça parda, +eriçado de chaminés de lata negra, com as janelas +sempre fechadas, as cortininhas sempre corridas, abafando, +escondendo a vida. Só tijolo, só ferro, só + +argamassa, só estuque: linhas hirtas, ângulos +ásperos: tudo seco, tudo rígido. E dos chãos +aos telhados, por toda a fachada, tapando as varandas, comendo os +muros, Tabuletas, Tabuletas...<br> + + +<br> + + +--Oh, este Paris, Jacinto, este teu Paris! Que enorme, que +grosseiro bazar!<br> + + +<br> + + +E, mais para sondar o meu Príncipe do que <span class="pagenum">[50]</span>por persuasão, insisti na fealdade e +tristeza destes prédios, duros armazéns, cujos +andares são prateleiras onde se apilha humanidade! E uma +humanidade impiedosamente catalogada e arrumada! A mais vistosa e +de luxo nas prateleiras baixas, bem envernizadas. A reles e de +trabalho nos altos, nos desvãos, sobre pranchas de pinho nu, +entre o pó e a traça...<br> + + + +<br> + + +Jacinto murmurou, com a face arrepiada:<br> + + +<br> + + +--É feio, é muito feio!<br> + + +<br> + + +E acudiu logo, sacudindo no ar a luva de anta:<br> + + +<br> + + +--Mas que maravilhoso organismo, Zé Fernandes! Que solidez! +Que produção!<br> + + + +<br> + + +Onde Jacinto me parecia mais renegado era na sua antiga e quase +religiosa afeição pelo Bosque de Bolonha. Quando +moço, ele construíra sobre o Bosque teorias +complicadas e consideráveis. E sustentava, com olhos +rutilantes de fanático, que no Bosque a Cidade cada tarde ia +retemperar salutarmente a sua força, recebendo, pela +presença das suas Duquesas, das suas Cortesãs, dos +seus Políticos, dos seus Financeiros, dos seus Generais, dos +seus Académicos, dos seus Artistas, dos seus Clubistas, dos +seus Judeus, a certeza consoladora de que todo o seu pessoal se +mantinha em número, em vitalidade, em função, +<span class="pagenum">[51]</span>e que nenhum elemento da sua +grandeza desaparecera ou deperecera! «Ir ao Bois» + +constituía então para o meu Príncipe um acto +de consciência. E voltava sempre confirmando com orgulho que +a Cidade possuía todos os seus astros, garantindo a +eternidade da sua luz!<br> + + +<br> + + +Agora, porém, era sem fervor, arrastadamente, que ele me +levava ao Bosque, onde eu, aproveitando a clemência de Abril, +tentava enganar a minha saudade de arvoredos. Enquanto +subíamos, ao trote nobre das suas éguas lustrosas, a +Avenida dos Campos Elísios e a do Bosque, rejuvenescidas +pelas relvas tenras e fresco verdejar dos rebentos, Jacinto, +soprando o fumo da cigarrete pelas vidraças abertas do +coupé, permanecia o bom camarada, de veia amável, com +quem era doce filosofar através de Paris. Mas logo que +passávamos as grades douradas do Bosque, e +penetrávamos na Avenida das Acácias, e +enfiávamos na lenta fila dos trens de luxo e de +praça, sob o silêncio decoroso, apenas cortado pelo +tilintar dos freios e pelas rodas vagarosas esmagando a areia,--o +meu Príncipe emudecia, molemente engelhado no fundo das +almofadas, de onde só despegava a face para escancarar +bocejos de fartura. Pelo antigo hábito de verificar a +presença confortadora <span class="pagenum">[52]</span>do + +«pessoal, dos astros», ainda, por vezes, apontava para +algum coupé ou vitória rodando com rodar rangente +noutra arrastada fila--e murmurava um nome. E assim fui conhecendo +a encaracolada barba hebraica do banqueiro Efraim; e o longo nariz +patrício de Madame de Trèves abrigando um sorriso +perene; e as bochechas flácidas do poeta neoplatónico +Dornan, sempre espapado no fundo de fiacres; e os longos +bandós pré-rafaelitas e negros de Madame Verghane; e +o monóculo defumado do director do <i>Boulevard</i>; e o +bigodinho vencedor do Duque de Marizac, reinando de cima do seu +faéton de guerra; e ainda outros sorrisos imóveis, e +barbichas à Renascença, e pálpebras +amortecidas, e olhos farejantes, e peles empoadas de arroz, que +eram todas ilustres e da intimidade do meu Príncipe. Mas, do +topo da Avenida das Acácias, recomeçávamos a +descer, em passo sopeado, esmagando lentamente a areia; na fila +vagarosa que subia, calhambeque atrás de landau, +vitória atrás de fiacre, fatalmente revíamos o +binóculo sombrio do homem do <i>Boulevard</i>, e os +bandós furiosamente negros de Madame Verghane, e o ventre +espapado do neoplatónico, e a barba talmúdica, e +todas aquelas figuras, de uma imobilidade de cera, super-conhecidas +do meu <span class="pagenum">[53]</span>camarada, recruzadas cada +tarde através de revividos anos, sempre com os mesmos +sorrisos, sob o mesmo pó de arroz, na mesma imobilidade de +cera; então Jacinto não se continha, gritava ao +cocheiro:<br> + + + +<br> + + +--Para casa, depressa!<br> + + +<br> + + +E era pela Avenida do Bosque, pelos Campos Elísios, uma fuga +ardente das éguas a quem a lentidão sopeada, num roer +de freios, entre outras éguas também delas +superconhecidas, lançavam numa exasperação +comparável à de Jacinto.<br> + + +<br> + + + +Para o sondar eu denegria o Bosque:<br> + + +<br> + + +--Já não é tão divertido, perdeu o +brilho!...<br> + + +<br> + + +Ele acudia, timidamente:<br> + + +<br> + + +--Não, é agradável, não há nada +mais agradável; mas...<br> + + + +<br> + + +E acusava a friagem das tardes ou o despotismo dos seus afazeres. +Recolhíamos então ao 202, onde, com efeito, em breve +embrulhado no seu roupão branco, diante da mesa de cristal, +entre a legião das escovas, com toda a electricidade +refulgindo, o meu Príncipe se começava a adornar para +o serviço social da noite.<br> + + +<br> + + +E foi justamente numa dessas noites (um sábado) que +nós passámos, naquele quarto tão civilizado e +protegido, por um desses brutos <span class="pagenum">[50]</span>e +revoltos terrores como só os produz a ferocidade dos +Elementos. Já tarde, à pressa (jantávamos com +Marizac no Clube para o acompanhar depois ao <i>Lohengrin</i> na + +Ópera) Jacinto arrocheava o nó da gravata +branca--quando no lavatório, ou porque se rompesse o tubo, +ou se dessoldasse a torneira, o jacto de água a ferver +rebentou furiosamente, fumegando e silvando. Uma névoa densa +de vapor quente abafou as luzes--e, perdidos nela, +sentíamos, por entre os gritos do escudeiro e do Grilo, o +jorro devastador batendo os muros, esparrinhando uma chuva que +escaldava. Sob os pés o tapete ensopado era uma lama +ardente. E como se todas as forças da natureza, submetidas +ao serviço de Jacinto, se agitassem, animadas por aquela +rebelião da água--ouvimos roncos surdos no interior +das paredes, e pelos fios dos lumes eléctricos sulcaram +faíscas ameaçadoras! Eu fugira para o corredor, onde +se alargava a névoa grossa. Por todo o 202 ia um tumulto de +desastre. Diante do portão, atraídas pela fumarada +que se escapava das janelas, estacionava polícia, uma +multidão. E na escada esbarrei com um repórter, de +chapéu para a nuca, a carteira aberta, gritando sofregamente + +«se havia mortos?»<br> + + +<br> + + +Domada a água, clareada a bruma, vim <span class="pagenum">[55]</span>encontrar Jacinto no meio do quarto, em +ceroulas, lívido:<br> + + +<br> + + +--Oh Zé Fernandes, esta nossa indústria!... Que +impotência, que impotência! Pela segunda vez, este +desastre! E agora, aparelhos perfeitos, um processo novo...<br> + + + +<br> + + +--E eu encharcado por esse processo novo! E sem outra casaca!<br> + + +<br> + + +Em redor, as nobres sedas bordadas, os brocatéis Luís +XIII, cobertos de manchas negras, fumegavam. O meu Príncipe, +enfiado, enxugava uma fotografia de Madame d'Oriol, de ombros +decotados, que o jorro bruto maculara de empolas. E eu, com rancor, +pensava que na minha Guiães a água aquecia em seguras +panelas--e subia ao meu lavatório, pela mão forte da +Catarina, em seguras infusas! Não jantámos com o +duque de Marizac, no Clube. E, na Ópera, nem saboreei +Lohengrin e a sua branca alma e o seu branco cisne e as suas +brancas armas--entalado, aperreado, cortado nos sovacos pela casaca +que Jacinto me emprestara e que rescendia estonteadoramente a +flores de Nessari.<br> + + +<br> + + + +<br> + + +<div class="break"> +<hr></div> + + +<br> + + +<br> + + +No domingo, muito cedo, o Grilo, que na véspera escaldara as +mãos e as trazia embrulhadas em seda, penetrou no meu +quarto, descerrou as <span class="pagenum">[56]</span>cortinas, e +à beira do leito, com o seu radiante sorriso de preto:<br> + + +<br> + + +--Vem no <i>Figaro</i>!<br> + + + +<br> + + +Desdobrou triunfalmente o jornal. Eram, nos <i>Ecos</i>, doze +linhas, onde as nossas águas rugiam e espadavam, com tanta +magnificência e tanta publicidade, que também sorri, +deleitado.<br> + + +<br> + + +--E toda a manhã, o telefone, siô Fernandes! exclamava +o Grilo, rebrilhando em ébano. A quererem saber, a quererem +saber... «Está lá? Está + +escaldado?» Paris aflito, siô Fernandes!<br> + + +<br> + + +O telefone, com efeito, repicava, insaciável. E quando desci +para o almoço, a toalha desaparecia sob uma camada de +telegramas, que o meu Príncipe fendia com a faca, enrugado, +rosnando contra a «maçada». Só +desanuviou, ao ler um desses papéis azuis, que atirou para +cima do meu prato, com o mesmo sorriso agradado com que de +manhã sorríramos, o Grilo e eu:<br> + + + +<br> + + +--É do Grão-Duque Casimiro... Ratão +amável! Coitado!<br> + + +<br> + + +Saboreei, através dos ovos, o telegrama de S. Alteza. +«O quê! o meu Jacinto inundado! Muito chic, nos Campos +Elísios! Não volto ao 202 sem bóia de +salvação! Compassivo abraço! +Casimiro...» Murmurei também<span class="pagenum">[57]</span> com deferência:--«Amável! +Coitado!» Depois, revolvendo lentamente o montão de +telegramas que se alastrava até ao meu copo:<br> + + + +<br> + + +--Oh Jacinto! Quem é esta Diana que incessantemente te +escreve, te telefona, te telegrafa, te...?<br> + + +<br> + + +--Diana?... Diana de Lorge. É uma cocotte. É uma +grande cocotte!<br> + + +<br> + + +--Tua?<br> + + +<br> + + +--Minha, minha... Não! tenho um bocado.<br> + + + +<br> + + +E como eu lamentava que o meu Príncipe, senhor tão +rico e de tão fino orgulho, por economia de uma gamela +própria chafurdasse com outros numa gamela +pública--Jacinto levantou os ombros, com um camarão +espetado no garfo:<br> + + +<br> + + +--Tu vens das serras... Uma cidade como Paris, Zé Fernandes, +precisa ter cortesãs de grande pompa e grande fausto. Ora +para montar em Paris, nesta tremenda carestia de Paris, uma cocotte +com os seus vestidos, os seus diamantes, os seus cavalos, os seus +lacaios, os seus camarotes, as suas festas, o seu palacete, a sua +publicidade, a sua insolência, é necessário que +se agremiem umas poucas de fortunas, se forme um sindicato! Somos +uns sete, no Clube. Eu pago um bocado... Mas meramente por Civismo, +para dotar a cidade com uma cocotte monumental. <span class="pagenum">[58]</span>De resto não chafurdo. Pobre Diana!... +Dos ombros para baixo nem sei se tem a pele cor de neve ou cor de +limão.<br> + + + +<br> + + +Arregalei um olho divertido:<br> + + +<br> + + +--Dos ombros para baixo?... E para cima?<br> + + +<br> + + +--Oh para cima tem pó de arroz!... Mas é uma seca! +Sempre bilhetes, sempre telefones, sempre telegramas. E três +mil francos por mês, além das flores... Uma +maçada!<br> + + + +<br> + + +E as duas rugas do meu Príncipe, aos lados do seu afilado +nariz, curvado sobre a salada, eram como dois vales muito tristes, +ao entardecer.<br> + + +<br> + + +Acabávamos o almoço, quando um escudeiro, muito +discretamente, num murmúrio, anunciou Madame d'Oriol. +Jacinto pousou com tranquilidade o charuto; eu quase me engasguei, +num sorvo alvoroçado de café. Entre os reposteiros de +damasco cor de morango ela apareceu, toda de negro, de um negro +liso e austero de Semana Santa, lançando com o regalo um +lindo gesto para nos sossegar. E imediatamente, numa volubilidade +docemente chalrada:<br> + + +<br> + + +--É um momento, nem se levantem! Passei, ia para a Madalena, +não me contive, quis ver os estragos... Uma +inundação em Paris, nos Campos Elísios! +Não há senão este Jacinto. <span class="pagenum">[59]</span>E vem no <i>Figaro</i>! O que eu estava +assustada, quando telefonei! Imaginem! Água a ferver, como +no Vesúvio... Mas é de uma novidade! E os estofos +perdidos, naturalmente, os tapetes... Estou morrendo por admirar as +ruínas!<br> + + + +<br> + + +Jacinto, que não me pareceu comovido, nem agradecido com +aquele interesse, retomara risonhamente o charuto:<br> + + +<br> + + +--Está tudo seco, minha querida senhora, tudo seco! A beleza +foi ontem, quando a água fumegava e rugia! Ora que pena +não ter ao menos caído uma parede!<br> + + +<br> + + +Mas ela insistia. Nem todos os dias se gozavam em Paris os +destroços de uma inundação. O <i>Figaro</i> + +contara... E era uma aventura deliciosa, uma casa escaldada nos +Campos Elísios!<br> + + +<br> + + +Toda a sua pessoa, desde as plumazinhas que frisavam no +chapéu até à ponta reluzente das botinas de +verniz, se agitava, vibrava, como um ramo tenro sob o boliço +do pássaro a chalrar. Só o sorriso, por trás +do véu espesso, conservava um brilho imóvel. E +já no ar se espalhara um aroma, uma doçura, emanadas +de toda a sua mobilidade e de toda a sua graça.<br> + + + +<br> + + +Jacinto no entanto cedera, alegremente: e pelo corredor Madame +d'Oriol ainda louvava <span class="pagenum">[60]</span>o +<i>Figaro</i> amável, e confessava quanto tremera... Eu +voltei ao meu café, felicitando mentalmente o +Príncipe da Grã-Ventura por aquela perfeita flor de +Civilização que lhe perfumava a vida. Pensei +então na apurada harmonia em que se movia essa flor. E corri +vivamente à antecâmara, verificar diante do espelho o +meu penteado e o nó da minha gravata. Depois recolhi + +à sala de jantar, e junto da janela, folheando languidamente +a <i>Revista do Século XIX</i>, tomei uma atitude de +elegância e de alta cultura. Quase imediatamente eles +reapareceram: e Madame d'Oriol, que, sempre sorrindo, se proclamava +espoliada, nada encontrara que recordasse as águas furiosas, +roçou pela mesa, onde Jacinto procurava, para lhe oferecer, +tangerinas de Malta, ou castanhas geladas, ou um biscoito molhado +em vinho de Tokai.<br> + + +<br> + + +Ela recusava com as mãos guardadas no regalo. Não era +alta, nem forte--mas cada prega do vestido, ou curva da capa, +caía e ondulava harmoniosamente, como +perfeições recobrindo perfeições. Sob o +véu cerrado, apenas percebi a brancura da face empoada, e a +escuridão dos olhos largos. E com aquelas sedas e veludos +negros, e um pouco do cabelo louro, de um louro quente, torcido +fortemente sobre as peles negras que lhe orlavam <span class="pagenum">[61]</span>o pescoço, toda ela derramava uma +sensação de macio e de fino. Eu teimosamente a +considerava como uma flor de Civilização:--e pensava +no secular trabalho e na cultura superior que necessitara o terreno +onde ela tão delicadamente brotara, já desabrochada, +em pleno perfume, mais graciosa por ser flor de esforço e de +estufa, e trazendo nas suas pétalas um não sei +quê de desbotado e de antemurcho.<br> + + + +<br> + + +No entanto, com a sua volubilidade de pássaro, chalrando +para mim, chalrando para Jacinto, ela mostrava o seu lindo espanto +por aquele montão de telegramas sobre a toalha.<br> + + +<br> + + +--Tudo esta manhã, por causa da inundação?... +Ah, Jacinto é hoje o homem, o único homem de Paris! +Muitas mulheres nesses telegramas?<br> + + +<br> + + +Languidamente, com o charuto a fumegar, o meu Príncipe +empurrou para a sua amiga o telegrama do Grão-Duque. +Então Madame d'Oriol teve um <i>ah!</i> muito grave e muito +sentido. Releu profundamente o papel de S. A. que os seus dedos +acariciavam com uma reverência gulosa. E sempre grave, sempre +séria:<br> + + + +<br> + + +--É brilhante!<br> + + +<br> + + +Oh, certamente! naquele desastre tudo <span class="pagenum">[62]</span>se passara com muito brilho, num tom muito +Parisiense. E a deliciosa criatura não se podia demorar, +porque fizera marcar um lugar na igreja da Madalena para o +sermão!<br> + + +<br> + + +Jacinto exclamou com inocência:<br> + + +<br> + + + +--Sermão?... É já a estação dos +sermões?<br> + + +<br> + + +Madame d'Oriol teve um movimento de carinhoso escândalo e +dor. O quê! pois nem na austera casa dos Trèves dera +pela entrada da Quaresma? De resto não se admirava--Jacinto +era um turco! E, imediatamente celebrou o pregador, um frade +dominicano, o Père Granon! Oh de uma eloquência! de +uma violência! No derradeiro sermão pregara sobre o +amor, a fragilidade dos amores mundanos! E tivera coisas de uma +inspiração, de uma brutalidade! Depois que gesto, um +gesto terrível que esmagava, em que se lhe arregaçava +toda a manga, mostrando o braço nu, um braço soberbo, +muito branco, muito forte!<br> + + + +<br> + + +O seu sorriso permanecia claro sob o olhar que negrejara dentro do +véu negro. E Jacinto, rindo:<br> + + +<br> + + +--Um bom braço de director espiritual, hein? Para vergar, +espancar almas...<br> + + +<br> + + +Ela acudiu:<br> + + +<br> + + +--Não! infelizmente o Père Granon não +confessa!<br> + + + +<br> + + +E de repente reconsiderou--aceitava um <span class="pagenum">[63]</span>biscoito, um cálice de Tokai. Era +necessário um cordial para afrontar as emoções +do Père Granon! Ambos nos precipitáramos, um +arrebatando a garrafa, outro oferecendo o prato de bombons. Franziu +o véu para os olhos, chupou à pressa um bolo que +ensopara no Tokai. E como Jacinto, reparando casualmente no +chapéu que ela trazia, se curvara com curiosidade, +impressionado, Madame d'Oriol apagou o sorriso, toda séria, +ante uma coisa séria:<br> + + +<br> + + + +--Elegante, não é verdade?... É uma +criação inteiramente nova de Madame Vial. Muito +respeitoso, e muito sugestivo, agora na Quaresma.<br> + + +<br> + + +O seu olhar, que me envolvera, também me convidava a +admirar. Aproximei o meu focinho de homem das serras para +contemplar essa criação suprema do luxo de Quaresma. +E era maravilhoso! Sobre o veludo, na sombra das plumas frisadas, +aninhada entre rendas, fixada por um prego, pousava delicadamente, +feita de azeviche, uma Coroa de Espinhos!<br> + + +<br> + + +Ambos nos extasiámos. E Madame d'Oriol, num movimento e num +sorriso que derramou mais aroma e mais claridade, abalou para a +Madalena.<br> + + + +<br> + + +O meu Príncipe arrastou pelo tapete alguns <span class="pagenum">[64]</span>passos pensativos e moles. E bruscamente, +levantando os ombros com uma determinação imensa, +como se deslocasse um mundo:<br> + + +<br> + + +--Oh Zé Fernandes, vamos passar este Domingo nalguma coisa +simples e natural...<br> + + +<br> + + +--Em quê?<br> + + +<br> + + + +Jacinto circungirou os olhares muito abertos, como se, +através da Vida Universal, procurasse ansiosamente uma coisa +natural e simples. Depois, descansando sobre mim os mesmos largos +olhos que voltavam de muito longe, cansados e com pouca +esperança:<br> + + +<br> + + +--Vamos ao Jardim das Plantas, ver a girafa!<br> + + +<br> + + +<br> + + +<br> + + +<h2>IV</h2> + + +<br> + + +<br> + + +Nessa fecunda semana, uma noite, recolhíamos ambos da +Ópera, quando Jacinto, bocejando, me anunciou uma festa no +202.<br> + + + +<br> + + +--Uma festa?...<br> + + +<br> + + +--Por causa do Grão-Duque, coitado, que me vai mandar um +peixe delicioso e muito raro que se pesca na Dalmácia. Eu +queria um almoço curto. O Grão-Duque reclamou uma +ceia. É um bárbaro, besuntado com literatura do +século XVIII, que ainda acredita em ceias, em Paris! +Reúno no domingo três ou quatro mulheres, e uns dez +homens bem típicos, para o divertir. Também +aproveitas. Folheias Paris num resumo... Mas é uma +maçada amarga!<br> + + + +<br> + + +Sem interesse pela sua festa, Jacinto não se afadigou em a +compor com relevo ou brilho. Encomendou apenas uma orquestra de +Tziganes (os Tziganes, as suas jalecas escarlates; <span class="pagenum">[66]</span>a melancolia áspera das Czardas ainda +nesses tempos remotos emocionavam Paris): e mandou, na Biblioteca, +ligar o Teatrofone com a Ópera, com a Comédia +Francesa, com o Alcazar e com os Bufos, prevendo todos os gostos +desde o trágico até ao pícaro. Depois no +domingo, ao entardecer, ambos visitámos a mesa da ceia, que +resplandecia com as velhas baixelas de D. Galeão. E a +faustosa profusão de orquídeas, em longas silvas por +sobre a toalha bordada a seda, enroladas aos fruteiros de Saxe, +transbordando de cristais lavrados e filagranados de ouro, +espalhava uma tão fina sensação de luxo e +gosto, que eu murmurei:--«Caramba, bendito, seja o +dinheiro!» Pela primeira vez, também, admirei a copa e +a sua instalação abundante e minuciosa--sobretudo os +dois ascensores que rolavam das profundidades da cozinha, um para +os peixes e carnes aquecido por tubos de água fervente, o +outro para as saladas e gelados revestido de placas +frigoríficas. Oh, este 202!<br> + + + +<br> + + +Às nove horas, porém, descendo eu ao gabinete de +Jacinto para escrever a minha boa tia Vicência, enquanto ele +ficara no toucador com o manicuro que lhe polia as unhas, +passámos nesse delicioso palácio, florido e em gala, +por bem corriqueiro susto! <span class="pagenum">[67]</span>Todos +os lumes eléctricos, subitamente, em todo o 202, se +apagaram! Na minha imensa desconfiança daquelas +forças universais, pulei logo para a porta, +tropeçando nas trevas, ganindo um <i>Aqui d'El-Rei!</i> que +tresandava a Guiães. Jacinto em cima berrava, com o manicuro +agarrado ao pijama. E de novo, como serva ralaça que recolhe +arrastando as chinelas, a luz ressurgiu com lentidão. Mas o +meu Príncipe, que descera, enfiado, mandou buscar um +engenheiro à Companhia Central da Electricidade +Doméstica. Por precaução outro criado correu + +à mercearia comprar pacotes de velas. E o Grilo desenterrava +já dos armários os candelabros abandonados, os +pesados castiçais arcaicos dos tempos incientíficos +de D. Galeão: era uma reserva de veteranos fortes, para o +caso pavoroso em que mais tarde, à ceia, falhassem +perfidamente as forças bisonhas da +Civilização. O Electricista, que acudira esbaforido, +afiançou porém que a Electricidade se conservaria +fiel, sem outro amuo. Eu, cautelosamente, soneguei na algibeira +dois cotos de estearina.<br> + + +<br> + + +A Electricidade permaneceu fiel, sem amuos. E quando desci do meu +quarto, tarde (porque perdera o colete de baile e só depois +de uma busca furiosa e praguejada o encontrei caído por +trás da cama!), todo <span class="pagenum">[68]</span>o 202 +refulgia, e os Tziganes, na antecâmara, sacudindo as +guedelhas, atiravam as arcadas de uma valsa tão arrastadora +que, pelas paredes, os imensos Personagens das tapeçarias, +Príamo, Nestor, o engenhoso Ulisses, arfavam, buliam com os +pés venerandos!<br> + + + +<br> + + +Timidamente, sem rumor, puxando os punhos, penetrei no gabinete de +Jacinto. E fui logo acolhido pelo sorriso da condessa de +Trèves, que, acompanhada pelo ilustre historiador Danjon (da +Academia Francesa), percorria maravilhada os Aparelhos, os +Instrumentos, toda a sumptuosa Mecânica do meu +supercivilizado Príncipe. Nunca ela me parecera mais +majestosa do que naquelas sedas cor de açafrão, com +rendas cruzadas no peito à Maria Antonieta, o cabelo crespo +e ruivo levantado em rolo sobre a testa dominadora, e o curvo nariz +patrício, abrigando o sorriso sempre luzidio, sempre +corrente, como um arco abriga o correr e o luzir de um regato. +Direita como num sólio, a longa luneta de tartaruga acercada +dos olhos miúdos e turvamente azulados, ela escutava diante +do Grafofono, depois diante do Microfono, como melodias superiores, +os comentários que o meu Jacinto ia atabalhoando com uma +amabilidade penosa. E ante cada roda, cada mola, eram pasmos, +louvores finamente torneados, <span class="pagenum">[69]</span>em +que atribuía a Jacinto, com astuta candura, todas aquelas +invenções do Saber! Os utensílios misteriosos +que atulhavam a mesa de ébano foram para ela uma +iniciação que a enlevou. Oh, o «numerador de +páginas»! oh, o «colador de estampilhas»! +A carícia demorada dos seus dedos secos aquecia os metais. E +suplicava os endereços dos fabricantes para se prover de +todas aquelas utilidades adoráveis! Como a vida, assim +apetrechada, se tornava escorregadia e fácil! Mas era +necessário o talento, o gosto de Jacinto, para escolher, +para «criar!» E não só ao meu amigo (que +o recebia com resignação) ela ofertava o fino mel. +Afagando com o cabo da luneta o Telégrafo, achou a +possibilidade de recordar a eloquência do Historiador. Mesmo +para mim (de quem ignorava o nome) arranjou junto do +Fonógrafo, e acerca de «vozes de amigos que é + +doce coleccionar», uma lisonjazinha redondinha e lustrosa, +que eu chupei como um rebuçado celeste. Boa casaleira que +vai atirando o grão aos frangos famintos, a cada passo, +maternalmente, ela nutria uma vaidade. Sôfrego de outro +rebuçado, acompanhei a sua cauda sussurrante e cor de +açafrão. Ela parara diante da Máquina de +contar, de que Jacinto já lhe fornecera pacientemente uma +explicação sapiente. <span class="pagenum">[70]</span>E de novo roçou os buracos de onde +espreitam os números negros, e com o seu enlevado sorriso +murmurou:--«Prodigiosa, esta prensa +eléctrica!...»<br> + + + +<br> + + +Jacinto acudiu:<br> + + +<br> + + +--Não! Não! Esta é...<br> + + +<br> + + +Mas ela sorria, seguia... Madame de Trèves não +compreendera nenhum aparelho do meu Príncipe! Madame de +Trèves não atendera a nenhuma +dissertação do meu Príncipe! Naquele gabinete +de sumptuosa Mecânica ela somente se ocupara em exercer, com +proveito e com perfeição, a Arte de Agradar. Toda ela +era uma sublime falsidade. Não escondi a Danjon a +admiração que me penetrava.<br> + + + +<br> + + +O facundo Académico revirou os olhos bogalhudos:<br> + + +<br> + + +--Oh! e um gosto, uma inteligência, uma +sedução!... E depois como se janta bem em casa dela! +Que café!... Mulher superior, meu caro senhor, +verdadeiramente superior!<br> + + +<br> + + +Deslizei para a biblioteca. Logo à entrada da erudita nave, +junto da estante dos Padres da Igreja onde alguns cavalheiros +conversavam, parei a saudar o director do <i>Boulevard</i>e o +Psicólogo feminista, o autor do <i>Coração +Triplo</i>, com quem na véspera me familiarizara ao +almoço, no 202. O seu acolhimento foi paternal: e, como se +necessitasse a minha<span class="pagenum">[71]</span> + +presença, reteve na sua mão ilustre, rutilante de +anéis, com força e com gula, a minha grossa palma +serrana. Todos aqueles senhores, com efeito, celebravam o seu +Romance, a <i>Couraça</i>, lançado nessa semana entre +gritinhos de gozo e um quente rumor de saias alvoroçadas. Um +sobretudo, com uma vasta cabeça arranjada à Van Dick +e que parecia postiça, proclamava, alçado na ponta +das botas, que nunca penetrara tão fundamente, na velha alma +humana, a ponta da Psicologia Experimental! Todos concordavam, se +apertavam contra o Psicólogo, o tratavam por + +«mestre». Eu mesmo, que nem sequer entrevira a capa +amarela da <i>Couraça</i>, mas para quem ele voltava os +olhos pedinchões e famintos de mais mel, murmurei com um +leve assobio:--«uma delícia!»<br> + + +<br> + + +E o Psicólogo, reluzindo, com o lábio húmido, +entalado num alto colarinho onde se enroscava uma gravata à +1830, confessava modestamente que dissecara todas aquelas almas da +<i>Couraça</i> com «algum cuidado», sobre +documentos, sobre pedaços de vida ainda quentes, ainda a +sangrar... E foi então que Marizac, o duque de Marizac, +notou, com um sorriso mais afiado que um lampejo de navalha, e sem +tirar as mãos dos bolsos:<br> + + + +<br> + + +--No entanto, meu caro, nesse livro tão <span class="pagenum">[72]</span>profundamente estudado há um erro bem +estranho, bem curioso!...<br> + + +<br> + + +O Psicólogo, vivamente, atirara a cabeça para +trás:<br> + + +<br> + + +--Um erro?<br> + + + +<br> + + +Oh, sim, um erro! E bem inesperado num mestre tão +experiente!... Era atribuir à esplêndida amorosa da +<i>Couraça</i>, uma duquesa, e do gosto mais puro,--<i>um +colete de cetim preto</i>! Esse colete, assim preto, de cetim, +aparecia na bela página de análise e paixão em +que ela se despia no quarto de Rui d'Alize. E Marizac, sempre com +as mãos nos bolsos, mais grave, apelava para aqueles +senhores. Pois era verosímil, numa mulher como a duquesa, +estética, pré-rafaelítica, que se vestia no +Doucet, no Paquin, nos costureiros intelectuais, um colete de cetim +preto?<br> + + + +<br> + + +O Psicólogo emudecera, colhido, trespassado! Marizac era uma +tão suprema autoridade sobre a roupa íntima das +duquesas, que à tarde, em quartos de rapazes, por impulsos +idealistas e anseios de alma dolorida--se põem em colete e +saia branca!... De resto o director do <i>Boulevard</i> condenara +logo sem piedade, com uma experiência firme, aquele colete, +só possível nalguma merceeira atrasada que ainda +procurasse efeitos <span class="pagenum">[73]</span>de carne +nédia sobre cetim negro. E eu, para que me não +julgassem alheio às coisas dos adultérios ducais e do +luxo, acudi, metendo os dedos pelo cabelo:<br> + + + +<br> + + +--Realmente, preto, só se estivesse de luto pesado, pelo +pai!<br> + + +<br> + + +O pobre mestre da <i>Couraça</i> sucumbira. Era a sua +glória de Doutor em Elegâncias Femininas +desmantelada--e Paris supondo que ele nunca vira uma duquesa +desatacar o colete na sua alcova de Psicólogo! Então, +passando o lenço sobre os lábios que a +angústia ressequira, confessou o erro, e contritamente o +atribuiu a uma improvisação tumultuosa:<br> + + + +<br> + + +--Foi um tom falso, um tom perfeitamente falso que me escapou!... +Com efeito! é absurdo, um colete preto!... Mesmo por +harmonia com o estado da alma da duquesa devia ser lilás, +talvez cor de reseda muito desmaiada, com um frouxo de rendas +antigas de Malines... É prodigioso como me escapou! Pois +tenho o meu caderno de entrevistas bem anotadas, bem +documentadas!...<br> + + +<br> + + +Na sua amargura, terminou por suplicar a Marizac que espalhasse por +toda a parte, no Clube, nas salas, a sua confissão. Fora um +engano de artista, que trabalha na febre, vasculhando as almas, +perdido nas profundidades <span class="pagenum">[74]</span>negras +das almas! Não reparara no colete, confundira os tons... E +gritou, com os braços estendidos para o director do +<i>Boulevard</i>:<br> + + + +<br> + + +--Estou pronto a fazer uma rectificação, numa +<i>interview</i>, meu caro mestre! Mande um dos seus redactores... +Amanhã, às dez horas! Fazemos uma <i>interview</i>, +fixamos a cor. Evidentemente é lilás... Mande um dos +seus homens, meu caro mestre! É também uma +ocasião para eu confessar, bem alto, os serviços que +o <i>Boulevard</i> tem feito às ciências +psicológicas e feministas!<br> + + + +<br> + + +Assim ele suplicava, encostado à estante, às lombadas +dos Santos Padres. E eu abalei, vendo ao fundo da Biblioteca +Jacinto que se debatia e se recusava entre dois homens.<br> + + +<br> + + +Eram os dois homens de Madame de Trèves--o marido, conde de +Trèves, descendente dos reis de Cândia, e o amante, o +terrível banqueiro judeu, David Efraim. E tão +enfronhadamente assaltavam o meu Príncipe que nem me +reconheceram, ambos num aperto de mão mole e vago me +trataram por «caro conde»! Num relance, rebuscando +charutos sobre a mesa de limoeiro, compreendi que se tramava a + +<i>Companhia das Esmeraldas da Birmânia</i>, medonha empresa +em que cintilavam milhões, e para que os dois confederados +<span class="pagenum">[75]</span>de bolsa e de alcova, desde o +começo do ano, pediam o nome, a influência, o dinheiro +de Jacinto. Ele resistira, num enfado dos negócios, +desconfiado daquelas esmeraldas soterradas num vale da Ásia. +E agora o conde de Trèves, um homem esgrouviado, de face +rechupada, eriçada de barba rala, sob uma fronte rotunda e +amarela como um melão, assegurava ao meu pobre +Príncipe que no Prospecto já preparado, demonstrando +a grandeza do negócio, perpassava um fulgor das <i>Mil e Uma +Noites</i>. Mas sobretudo aquela escavação de +esmeraldas convidava todo o espírito culto pela sua +acção civilizadora. Era uma corrente de ideias +ocidentais, invadindo, educando a Birmânia. Ele aceitara a +direcção por patriotismo...<br> + + + +<br> + + +--De resto é um negócio de jóias, de arte, de +progresso, que deve ser feito, num mundo superior, entre +amigos...<br> + + +<br> + + +E do outro lado o terrível Efraim, passando a mão +curta e gorda sobre a sua bela barba, mais frisada e negra que a de +um Rei Assírio, afiançava o triunfo da empresa pelas +grossas forças que nela entravam, os Nagayers, os Bolsans, +os Saccart...<br> + + +<br> + + +Jacinto franzia o nariz, enervado:<br> + + + +<br> + + +--Mas, ao menos, estão feitos os estudos? Já se +provou que há esmeraldas?<br> + + +<br> + + +<span class="pagenum">[76]</span>Tanta ingenuidade exasperou +Efraim:<br> + + +<br> + + +--Esmeraldas! Está claro que há esmeraldas!... +Há sempre esmeraldas desde que haja accionistas!<br> + + + +<br> + + +E eu admirava a grandeza daquela máxima--quando apareceu, +esbaforido, desdobrando o lenço muito perfumado, um dos +familiares do 202, Todelle (António de Todelle), moço +já calvo, de infinitas prendas, que conduzia Cotillons, +imitava cantores de Café Concerto, temperava saladas raras, +conhecia todos os enredos de Paris.<br> + + +<br> + + +--Já veio?... Já cá está o +Grão-Duque?<br> + + + +<br> + + +Não, S. Alteza ainda não chegara. E Madame de +Todelle?<br> + + +<br> + + +--Não pôde... No sofá... Esfolou uma perna.<br> + + +<br> + + +--Oh!<br> + + +<br> + + +--Quase nada... Caiu do velocípede!<br> + + + +<br> + + +Jacinto, logo interessado:<br> + + +<br> + + +--Ah! Madame de Todelle anda já de velocípede?<br> + + +<br> + + +--Aprende. Nem tem velocípede!... Agora, na Quaresma, +é que se aplicou mais, no velocípede do padre +Ernesto, do cura de S. José! Mas ontem, no Bosque, +zás, terra!... Perna esfolada. Aqui.<br> + + + +<br> + + +E na sua própria coxa, com a unha, vivamente, desenhou o +esfolão. Efraim, brutal e <span class="pagenum">[77]</span>sério, murmurou:--«Diabo! +é no melhor sítio!» Mas Todelle nem o escutara, +correndo para o director do <i>Boulevard</i>, que se +avançava, lento e barrigudo, com o seu monóculo negro +semelhante a um pacho. Ambos se colaram contra uma estante, num +cochichar profundo.<br> + + + +<br> + + +Jacinto e eu entrámos então no bilhar, forrado de +velhos couros de Córdova, onde se fumava. Ao canto de um +divã, o grande Dornan, o poeta neoplatónico e +místico, o Mestre subtil de todos os ritmos, espapado nas +almofadas, com um dos pés sob a coxa gorda, como um Deus +índio, dois botões do colete desabotoados, a papeira +caída sobre o largo decote do colarinho, mamava +majestosamente um imenso charuto. Ao pé dele, também +sentado, um velho que eu nunca encontrara no 202, esbelto, de +cabelos brancos em anéis passados por trás das +orelhas, a face coberta de pó de arroz, um bigodinho muito +negro e arrebitado, findara certamente alguma história de +bom e grosso sal--porque diante do divã, de pé, +Joban, o supremo Crítico de Teatro, ria com a calva +escarlate de gozo, e um moço muito ruivo (descendente de +Coligny), de perfil de periquito, sacudia os braços curtos +como asas, e gania: «delicioso! divino!» Só o +poeta idealista permanecera impassível, na sua majestade +obesa. <span class="pagenum">[78]</span>Mas, quando nos +acercámos, esse Mestre do ritmo perfeito, depois de soprar +uma farta fumarada e me saudar com um pesado mover das +pálpebras, começou numa voz de rico e sonoro +metal:<br> + + + +<br> + + +--Há melhor, há infinitamente melhor... Todos aqui +conhecem Madame Noredal. Madame Noredal tem umas imensas +nádegas...<br> + + +<br> + + +Desgraçadamente para o meu regalo Todelle invadiu o bilhar, +reclamando Jacinto com alarido. Eram as senhoras que desejavam +ouvir no Fonógrafo uma ária da Patti! O meu amigo +sacudiu logo os ombros, numa surda irritação:<br> + + +<br> + + +--Ária da Patti... Eu sei lá! Todos esses rolos +estão em confusão. Além disso o +Fonógrafo trabalha mal. Nem trabalha! Tenho três. +Nenhum trabalha!<br> + + + +<br> + + +--Bem! exclamou alegremente Todelle. Canto eu a <i>Pauvre +fille</i>... É mais de ceia! <i>Oh, la pauv', pauv', +pauv'</i>...<br> + + +<br> + + +Travou do meu braço, e arrastou a minha timidez serrana para +o salão cor de rosa murcha, onde, como Deusas num +círculo escolhido do Olimpo, resplandeciam Madame d'Oriol, +Madame Verghane, a princesa de Carman, e uma outra loura, com +grandes brilhantes nas grandes farripas, e de ombros tão +nus, e braços tão nus, e peitos tão nus, que o +seu vestido <span class="pagenum">[72]</span> branco com bordados +de ouro pálido parecia uma camisa, a escorregar. +Impressionado, ainda retive Todelle, rugi baixinho:--«Quem + +é?» Mas já o festivo homem correra para Madame +d'Oriol, com quem riam, numa familiaridade superior e fácil, +Marizac (o duque de Marizac) e um moço de barba cor de milho +e mais leve que uma penugem, que se balouçava gracilmente +sobre os pés, como uma espiga ao vento. E eu, encalhado +contra o piano, esfregava lentamente as mãos, amassando o +meu embaraço, quando Madame Verghane se ergueu do +sofá onde conversava com um velho (que tinha a +Grã-Cruz de Santo André), e avançou, deslizou +no tapete, pequena e nédia, na sua copiosa cauda de veludo +verde-negro. Tão fina era a cinta, entre os encontros +fecundos e a vastidão do peito, todo nu e cor de +nácar, que eu receava que ela partisse pelo meio, no seu +lento ondular. Os seus famosos bandós negros, de um negro +furioso, inteiramente lhe tapavam as orelhas; e, no grande aro de +ouro que os circundava, reluzia uma estrela de brilhantes, como na +fronte dos anjos de Boticelli. Conhecendo sem dúvida a minha +autoridade no 202, ela despediu sobre mim ao passar, como raio +benéfico, um sorriso que lhe liquescia mais os olhos +líquidos, e murmurou:<br> + + + +<br> + + +<span class="pagenum">[80]</span>--O Grão-Duque vem, com +certeza?<br> + + +<br> + + +--Oh com certeza, minha senhora, para o peixe!<br> + + +<br> + + +--P'ra o peixe?...<br> + + +<br> + + +Mas justamente, na antecâmara, rompeu, em rufos e arcadas +triunfais, a marcha de Rakoczy. Era ele! Na Biblioteca, o nosso +retumbante mordomo anunciava:<br> + + +<br> + + +--S. Alteza o Grão-Duque Casimiro!<br> + + + +<br> + + +Madame de Verghane, com um curto suspiro de emoção, +alteou o peito, como para lhe expor melhor a magnificência +ebúrnea. E o homem do <i>Boulevard</i>, o velho da +Grã-Cruz, Efraim, quase me empurraram, investindo para a +porta, na imensa sofreguidão de Pessoa Real.<br> + + +<br> + + +Precedido por Jacinto, o Grão-Duque surgiu. Era um possante +homem, de barba em bico, já grisalha, um pouco calvo. +Durante um momento hesitou, com um balanço lento sobre os +pés pequeninos, calçados de sapatos rasos, quase +sumidos sob as pantalonas muito largas. Depois, pesado e risonho, +veio apertar a mão às senhoras que mergulhavam nos +veludos e sedas, em mesuras de Corte. E imediatamente, batendo com +carinhosa jovialidade no ombro de Jacinto:<br> + + + +<br> + + +--E o peixe?... Preparado pela receita que mandei, hein?<br> + + +<br> + + +<span class="pagenum">[81]</span>Um murmúrio de Jacinto +tranquilizou S. Alteza.<br> + + +<br> + + +--Ainda bem, ainda bem! exclamou ele, no seu vozeirão de +comando. Que eu não jantei, absolutamente não jantei! +É que se está jantando deploravelmente em casa do +Joseph. Mas porque se vai jantar ainda ao Joseph? Sempre que chego +a Paris, pergunto: «Onde é que se janta agora?» + +Em casa do Joseph!... Qual! não se janta! Hoje, por exemplo, +galinholas... Uma peste! Não tem, não tem a +noção da galinhola!<br> + + +<br> + + +Os seus olhos azulados, de um azul sujo, rebrilhavam, alargados +pela indignação:<br> + + +<br> + + +--Paris está perdendo todas as suas superioridades. +Já se não janta, em Paris!<br> + + + +<br> + + +Então, em redor, aqueles senhores concordaram, desolados. O +conde de Trèves defendeu o Bignon, onde se conservavam +nobres tradições. E o director do <i>Boulevard</i>, +que se empurrava todo para S. Alteza, atribuía a +decadência da cozinha, em França, à +República, ao gosto democrático e torpe pelo +barato.<br> + + +<br> + + +--No Paillard, todavia...--começou o Efraim.<br> + + + +<br> + + +--No Paillard! gritou logo o Grão-Duque. Mas os Borgonhas +são tão maus! os Borgonhas são tão +maus!...<br> + + +<br> + + +<span class="pagenum">[82]</span>Deixara pender os braços, +os ombros, descoroçoado. Depois, com o seu lento andar +balançado como o de um velho piloto, atirando um pouco para +trás as lapelas da casaca, foi saudar Madame d'Oriol, que +toda ela faiscou, no sorriso, nos olhos, nas jóias, em cada +prega das suas sedas cor de salmão. Mas apenas a clara e +macia criatura, batendo o leque como uma asa alegre, +começara a chalrar, S. Alteza reparou no aparelho do +Teatrofone, pousado sobre uma mesa entre flores, e chamou +Jacinto:<br> + + + +<br> + + +--Em comunicação com o Alcazar?... O Teatrofone?<br> + + +<br> + + +--Certamente, meu senhor.<br> + + +<br> + + +Excelente! Muito chic! Ele ficara com pena de não ouvir a +Gilberte numa cançoneta nova, as <i>Casquettes</i>. Onze e +meia! Era justamente a essa hora que ela cantava, no último +acto da <i>Revista Eléctrica</i>...--Colou às orelhas +os dois «receptores» do Teatrofone, e quedou embebido, +com uma ruga séria na testa dura. De repente, num comando +forte:<br> + + + +<br> + + +--É ela! Chut! Venham ouvir!... É ela! Venham todos! +Princesa de Carman, para aqui! Todos! É ela! Chut...<br> + + +<br> + + +Então, como Jacinto instalara prodigamente dois Teatrofones, +cada um provido de doze fios, as senhoras, todos aqueles +cavalheiros, <span class="pagenum">[83]</span>se apressaram a +acercar submissamente um receptor do ouvido, e a permanecer +imóveis para saborear <i>Les Casquettes</i>. E no +salão cor de rosa murcha, na nave da Biblioteca, onde se +espalhara um silêncio augusto, só eu fiquei desligado +do Teatrofone, com as mãos nas algibeiras e ocioso.<br> + + + +<br> + + +No relógio monumental, que marcava a hora de todas as +Capitais e o movimento de todos os Planetas, o ponteiro rendilhado +adormeceu. Sobre a mudez e a imobilidade pensativa daqueles dorsos, +daqueles decotes, a Electricidade refulgia com uma tristeza de sol +regelado. E de cada orelha atenta, que a mão tapava, pendia +um fio negro, como uma tripa. Dornan, esboroado sobre a mesa, +cerrara as pálpebras, numa meditação de monge +obeso. O historiador dos Duques de Anjou, com o +«receptor» na ponta delicada dos dedos, erguendo o +nariz agudo e triste, gravemente cumpria um dever palaciano. Madame +d'Oriol sorria, toda lânguida, como se o fio lhe murmurasse +doçuras. Para desentorpecer arrisquei um passo +tímido. Mas caiu logo sobre mim um <i>chut</i> severo do +Grão-Duque! Recuei para entre as cortinas da janela, a +abrigar a minha ociosidade. O Filólogo da + +<i>Couraça</i>, distante da mesa, com o seu comprido fio +esticado, mordia o beiço, num esforço de +penetração. <span class="pagenum">[84]</span>A +beatitude de S. Alteza, enterrado numa vasta poltrona, era +perfeita. Ao lado o colo de Madame Verghane arfava como uma onda de +leite. E o meu pobre Jacinto, numa aplicação +conscienciosa, pendia sobre o Teatrofone tão tristemente +como sobre uma sepultura.<br> + + +<br> + + +Então, ante aqueles seres de superior +civilização, sorvendo num silêncio devoto as +obscenidades que a Gilberte lhes gania, por debaixo do solo de +Paris, através de fios mergulhados nos esgotos, cingidos aos +canos das fezes,--pensei na minha aldeia adormecida. O crescente de +lua, que, seguido de uma estrelinha, corria entre nuvens sobre os +telhados e as chaminés negras dos Campos Elísios, +também andava lá fugindo, mais lustrosa e mais doce, +por cima dos pinheirais. As rãs coaxavam ao longe no Pego da +Dona. A ermidinha de S. Joaquim branquejava no cabeço, +nuazinha e cândida...<br> + + + +<br> + + +Uma das senhoras murmurou:<br> + + +<br> + + +--Mas, não é a Gilberte!...<br> + + +<br> + + +E um dos homens:<br> + + +<br> + + +--Parece um cornetim...<br> + + +<br> + + +--Agora são palmas...<br> + + + +<br> + + +--Não, é o Paulin!<br> + + +<br> + + +O Grão-Duque lançou um <i>chut</i> feroz... No +pátio da nossa casa ladravam os cães. De além +<span class="pagenum">[85]</span>do ribeiro respondiam os +cães do João Saranda. Como me encontrei descendo por +uma quelha, sob as ramadas, com o meu varapau ao ombro? E sentia, +entre a seda das cortinas, num fino ar macio, o cheiro das pinhas +estalando nas lareiras, o calor dos currais através das +sebes altas, e o sussurro dormente das levadas...<br> + + + +<br> + + +Despertei a um brado que não saía nem dos eidos, nem +das sombras. Era o Grão-Duque que se erguera, encolhia +furiosamente os ombros:<br> + + +<br> + + +--Não se ouve nada!... Só guinchos! E um zumbido! Que +maçada!... Pois é uma beleza, a cançoneta:<br> + + +<br> + + + +<div class="break">Oh les casquettes,<br> + + +Oh les casque-e-e-tes!...</div> + + +<br> + + +Todos largaram os fios--proclamavam a Gilberte deliciosa. E o +mordomo bendito, abrindo largamente os dois batentes, anunciou:<br> + + +<br> + + +--<i>Monseigneur est servi</i>!<br> + + +<br> + + +Na mesa, que pelo esplendor das orquídeas mereceu os +louvores ruidosos de S. Alteza, fiquei entre o etéreo poeta +Dornan e aquele moço de penugem loura que balouçava +como uma espiga ao vento. Depois de <span class="pagenum">[86]</span> desdobrar o guardanapo, de o acomodar +regaladamente sobre os joelhos, Dornan desenvencilhou da corrente +do relógio uma enorme luneta para percorrer o + +<i>menu</i>--que aprovou. E inclinando para mim a sua face de +Apóstolo obeso:<br> + + +<br> + + +--Este Porto de 1834, aqui em casa do Jacinto, deve ser +autêntico... Hein?<br> + + +<br> + + +Assegurei ao Mestre dos Ritmos que o «Porto» +envelhecera nas adegas clássicas do avô Galeão. +Ele afastou, numa preparação metódica, os +longos, densos fios do bigode que lhe cobriam a boca grossa. Os +escudeiros serviram um consommé frio com trufas. E o +moço cor de milho, que espalhara pela mesa o seu olhar azul +e doce, murmurou, com uma desconsolação risonha:<br> + + + +<br> + + +--Que pena!... Só falta aqui um general e um bispo!<br> + + +<br> + + +Com efeito! Todas as Classes Dominantes comiam nesse momento as +trufas do meu Jacinto... Mas defronte Madame d'Oriol lançara +um riso mais cantado que um gorjeio. O Grão-Duque, numa +silva de orquídeas que orlava o seu talher, notara uma, +sombriamente horrenda, semelhante a um lacrau esverdinhado, de asas +lustrosas, gordo e túmido de veneno: e muito delicadamente +ofertara a flor monstruosa a Madame d'Oriol, que, com trinado +<span class="pagenum">[87]</span>riso, solenemente, a colocou no +seio. Colado àquela carne macia, de uma brancura de nata +fina, o lacrau inchara, mais verde, com as asas frementes. Todos os +olhos se acendiam, se cravavam no lindo peito, a que a flor +disforme, de cor venenosa, apimentava o sabor. Ela reluzia, +triunfava. Para ajeitar melhor a orquídea os seus dedos +alargaram o decote, aclararam belezas, guiando aquelas curiosidades +flamejantes que a despiam. A face vincada de Jacinto pendia para o +prato vazio. E o alto lírico do <i>Crepúsculo +Místico</i>, passando a mão pelas barbas, rosnou com +desdém:<br> + + + +<br> + + +--Bela mulher... Mas ancas secas, e aposto que não tem +nádegas!<br> + + +<br> + + +No entanto o moço de loura penugem voltara à sua +estranha mágoa. Não possuirmos um general com a sua +espada, e um bispo com seu báculo!...<br> + + +<br> + + +--Para quê, meu caro senhor?<br> + + + +<br> + + +Ele atirou um gesto suave em que todos os seus anéis +faiscaram:<br> + + +<br> + + +--Para uma bomba de dinamite... Temos aqui um esplêndido +ramalhete de flores de Civilização, com um +Grão-Duque no meio. Imagine uma bomba de dinamite, atirada +da porta!... Que belo fim de ceia, num fim de século!<br> + + +<br> + + +<span class="pagenum">[88]</span>E como eu o considerava +assombrado, ele, bebendo golos de Chateau-Yquem, declarou que hoje +a única emoção, verdadeiramente fina, seria +aniquilar a Civilização. Nem a ciência, nem as +artes, nem o dinheiro, nem o amor, podiam já dar um gosto +intenso e real às nossas almas saciadas. Todo o prazer que +se extraíra de <i>criar</i> estava esgotado. Só + +restava, agora, o divino prazer de <i>destruir</i>!<br> + + +<br> + + +Desenrolou ainda outras enormidades, com um riso claro nos olhos +claros. Mas eu não atendia o gentil pedante, colhido por +outro cuidado--reparando que em torno, subitamente, todo o +serviço estacara como no conto do Palácio +Petrificado. E o prato agora devido era o peixe famoso da +Dalmácia, o peixe de S. Alteza, o peixe inspirador da festa! +Jacinto, nervoso, esmagava entre os dedos uma flor. E todos os +escudeiros sumidos!<br> + + +<br> + + +Felizmente o Grão-Duque contava a história de uma +caçada, nas coutadas de Sarvan, em que uma senhora, mulher +de um banqueiro, saltara bruscamente do cavalo, num descampado, sem +árvores. Ele e todos os caçadores param--e a galante +senhora, lívida, com a amazona arregaçada, corre para +trás de uma pedra... Mas nunca soubemos em que se ocupava a +banqueira, nesse descampado, agachada atrás da pedra--porque +justamente <span class="pagenum">[89]</span>o mordomo apareceu, +reluzente de suor, e balbuciou uma confidência a Jacinto, que +mordeu o beiço, trespassado. O Grão-Duque emudecera. +Todos se entreolhavam, numa ansiedade alegre. Então o meu +Príncipe, com paciência, com heroicidade, +forçando palidamente o sorriso:<br> + + + +<br> + + +--Meus amigos, há uma desgraça...<br> + + +<br> + + +Dornan pulou na cadeira:<br> + + +<br> + + +--Fogo?<br> + + +<br> + + +Não, não era fogo. Fora o elevador dos pratos, que +inesperadamente, ao subir o peixe de S. Alteza, se desarranjara, e +não se movia, encalhado!<br> + + + +<br> + + +O Grão-Duque arremessou o guardanapo. Toda a sua polidez +estalava como um esmalte mal posto:<br> + + +<br> + + +--Essa é forte!... Pois um peixe que me deu tanto trabalho! +Para que estamos nós aqui então a cear? Que +estupidez! E porque o não trouxeram à mão, +simplesmente? Encalhado... Quero ver! Onde é a copa?<br> + + + +<br> + + +E, furiosamente, investiu para a copa, conduzido pelo mordomo que +tropeçava, vergava os ombros, ante esta esmagadora +cólera de Príncipe. Jacinto seguiu, como uma sombra, +levado na rajada de S. Alteza. E eu não me contive, +também me atirei para a copa, a contemplar <span class="pagenum">[90]</span>o desastre, enquanto Dornan, batendo na coxa, +clamava que se ceasse sem peixe!<br> + + +<br> + + +O Grão-Duque lá estava, debruçado sobre o +poço escuro do elevador, onde mergulhara uma vela que lhe +avermelhava mais a face esbraseada. Espreitei, por sobre o seu +ombro real. Em baixo, na treva, sobre uma larga prancha, o peixe +precioso alvejava, deitado na travessa, ainda fumegando, entre +rodelas de limão. Jacinto, branco como a gravata, torturava +desesperadamente a mola complicada do ascensor. Depois foi o +Grão-Duque que, com os pulsos cabeludos, atirou um +empuxão tremendo aos cabos em que ele rolava. Debalde! O +aparelho enrijara numa inércia de bronze eterno.<br> + + + +<br> + + +Sedas roçagaram à entrada da copa. Era Madame +d'Oriol, e atrás Madame Verghane, com os olhos a faiscar, na +curiosidade daquele lance em que o Príncipe soltara tanta +paixão. Marizac, nosso íntimo, surgiu também, +risonho, propondo uma descida ao poço com escadas. Depois +foi o Psicólogo, que se abeirou, psicologou, atribuindo +intenções sagazes ao peixe que assim se recusava. E a +cada um o Grão-Duque, escarlate, mostrava com dedo +trágico, no fundo da cova, o seu peixe! Todos afundavam a +face, murmuravam: «lá está!» Todelle, na +sua precipitação, quase se <span class="pagenum">[91]</span>despenhou. O periquito descendente de Coligny +batia as asas, ganindo:--«Que cheiro ele deita, que +delícia!» Na copa atulhada os decotes das senhoras +roçavam a farda dos lacaios. O velho caiado de pó de +arroz meteu o pé num balde de gelo, com um berro ferino. E o +Historiador dos Duques de Anjou movia por cima de todos o seu nariz +bicudo e triste.<br> + + + +<br> + + +De repente, Todelle teve uma ideia!<br> + + +<br> + + +--É muito simples... É pescar o peixe!<br> + + +<br> + + +O Grão-Duque bateu na coxa uma palmada triunfal. Está +claro! Pescar o peixe! E no gozo daquela facécia, tão +rara e tão nova, toda a sua cólera se sumira, de novo +se tornara o Príncipe amável, de magnífica +polidez, desejando que as senhoras se sentassem para assistir + +à pesca miraculosa! Ele mesmo seria o pescador! Nem se +necessitava, para a divertida façanha, mais que uma bengala, +uma guita e um gancho. Imediatamente Madame d'Oriol, excitada, +ofereceu um dos seus ganchos. Apinhados em volta dela, sentindo o +seu perfume, o calor da sua pele, todos exaltámos a +amorável dedicação. E o Psicólogo +proclamou que nunca se pescara com tão divino anzol!<br> + + +<br> + + +Quando dois escudeiros estonteados voltaram, trazendo uma bengala e +um cordel, já o Grão-Duque, radiante, vergara o +gancho em <span class="pagenum">[92]</span>anzol. Jacinto, com uma +paciência lívida, erguia uma lâmpada sobre a +escuridão do poço fundo. E os senhores mais graves, o +Historiador, o director do _Boulevard_, o Conde de Trèves, o +homem de cabeça à Van-Dick, sorriam, amontoados + +à porta, num interesse reverente pela fantasia de S. Alteza. +Madame de Trèves, essa, examinava serenamente, com a sua +nobre luneta, a instalação da copa. Só Dornan +não se erguera da mesa, com os punhos cerrados sobre a +toalha, o gordo pescoço encovado, no tédio sombrio de +fera a quem arrancaram a posta.<br> + + +<br> + + +No entanto S. Alteza pescava com fervor! Mas debalde! O gancho, +pouco agudo, sem presa, bamboleando na extremidade da guita frouxa, +não fisgava.<br> + + +<br> + + +--Oh Jacinto, erga essa luz! gritava ele, inchado e suado. Mais!... +Agora! Agora! É na guelra! Só na guelra é que +o gancho o pode prender. Agora... Qual! Que diabo! Não +vai!<br> + + + +<br> + + +Tirou a face do poço, resfolgando e afrontado. Não +era possível! Só carpinteiros, com alavancas!... E +todos, ansiosamente, bradámos que se abandonasse o +peixe!<br> + + +<br> + + +O Príncipe, risonho, sacudindo as mãos, concordava +que por fim «fora mais divertido pescá-lo do que +comê-lo!» E o elegante bando <span class="pagenum">[93]</span>refluiu sofregamente para a mesa, ao som de +uma valsa de Strauss, que os Tziganes arremessaram em arcadas de +lânguido ardor. Só Madame de Trèves se demorou +ainda, retendo o meu pobre Jacinto, para lhe assegurar quanto +admirava o arranjo da sua copa... Oh perfeita! Que +compreensão da vida, que fina inteligência do +conforto!<br> + + + +<br> + + +S. Alteza, encalmado pelo esforço, esvaziou poderosamente +dois copos de Chateau-Lagrange. Todos o aclamavam como um pescador +genial. E os escudeiros serviram o _Barão de Pauillac_, +cordeiro das lezírias marinhas, que, preparado com ritos +quase sagrados, toma este grande nome sonoro e entra no +Nobiliário de França.<br> + + +<br> + + +Eu comi com o apetite de um herói de Homero. Sobre o meu +copo e o de Dornan o Champanhe cintilou e jorrou +ininterrompidamente como uma fonte de Inverno. Quando se serviram +ortolans gelados, que se derretiam na boca, o divino poeta +murmurou, para meu regalo, o seu soneto sublime a «Santa +Clara». E como, do outro lado, o moço de penugem loura +insistia pela destruição do velho mundo, +também concordei, e, sorvendo o Champanhe coalhado em +sorvete, maldissemos o Século, a Civilização, +todos os orgulhos da Ciência! Através das flores e das +luzes, <span class="pagenum">[94]</span>no entanto, eu seguia as +ondas arfantes do vasto peito de Madame Verghane, que ria como uma +bacante. E nem me apiedava de Jacinto que, com a doçura de +S. Jacinto sobre o cepo, esperava o fim do seu martírio e da +sua festa.<br> + + + +<br> + + +Ela findou. Ainda recordo, às três horas da noite, o +Grão-Duque na antecâmara, muito vermelho, mal firme +nos pés pequeninos, sem acertar com as mangas da +peliça que Jacinto e eu lhe ajudámos a +enfiar--convidando o meu amigo, numa efusão carinhosa, a ir +caçar às suas terras da Dalmácia...<br> + + +<br> + + +--Devo ao meu Jacinto uma bela pesca, quero que ele me deva uma +bela caçada!<br> + + + +<br> + + +E enquanto o acompanhávamos, entre as alas dos escudeiros, +pela vasta escada onde o mordomo o precedia erguendo um candelabro +de três lumes, S. Alteza repisava, pegajoso:<br> + + +<br> + + +--Uma bela caçada... E também vai Fernandes! Bom +Fernandes, Zé Fernandes! Ceia superior, meu Jacinto! O +_Barão de Pauillac_, divino!... Creio que o devemos nomear +Duque... O Senhor Duque de Pauillac! Mais um bocado da perna do +Senhor Duque de Pauillac. Ah! Ah!... Não venham fora! +Não se constipem!<br> + + +<br> + + +<span class="pagenum">[95]</span>E do fundo do coupé, ao +rodar, ainda bradou:<br> + + + +<br> + + +--O peixe, Jacinto, desencalha o peixe! Excelente, ao +almoço, frio, com molho verde!<br> + + +<br> + + +Trepando cansadamente os degraus, numa moleza de Champanhe e sono +em que os olhos se me cerravam, murmurei para o meu +Príncipe:<br> + + +<br> + + +--Foi divertido, Jacinto! Sumptuosa mulher, a Verghane! Grande +pena, o elevador...<br> + + +<br> + + +E Jacinto, num som cavo que era bocejo e rugido:<br> + + +<br> + + +--Uma maçada! E tudo falha!<br> + + + +<br> + + +<br> + + +<div class="break"> +<hr></div> + + +<br> + + +<br> + + +Três dias depois desta festa no 202 recebeu o meu +Príncipe inesperadamente, de Portugal, uma nova +considerável. Sobre a sua quinta e solar de Tormes, por toda +a serra, passara uma tormenta devastadora de vento, corisco e +água. Com as grossas chuvas, «ou por outras causas que +os peritos dirão» (como exclamava na sua carta +angustiada o procurador Silvério), um pedaço de +monte, que se avançava em socalco sobre o vale da +Carriça, desabara, arrastando a velha igreja, uma igrejinha +rústica do século XVI, onde jaziam sepultados os +avós de Jacinto desde os tempos de el-rei D. Manuel. Os +ossos veneráveis <span class="pagenum">[96]</span>desses +Jacintos jaziam agora soterrados sob um montão informe de +terra e pedra. O Silvério já começara com os +moços da quinta a desatulhar dos «preciosos +restos». Mas esperava ansiosamente as ordens de sua +exc.ª...<br> + + + +<br> + + +Jacinto empalidecera, impressionado. Esse velho solo serrano, +tão rijo e firme desde os Godos, que de repente ruía! +Esses jazigos de paz piedosa, precipitados com fragor, na borrasca +e na treva, para um negro fundo de vale! Essas ossadas, que todas +conservavam um nome, uma data, uma história, confundidas num +lixo de ruína!<br> + + +<br> + + +--Coisa estranha, coisa estranha!...<br> + + +<br> + + +E toda a noite me interrogou acerca da serra e de Tormes, que eu +conhecia desde pequeno, por que o velho solar, com a sua nobre +alameda de faias seculares, se erguia a duas léguas da nossa +casa, no antigo caminho de Guiães à +estação e ao rio. O caseiro de Tormes, o bom +Melchior, era cunhado do nosso feitor da Roqueirinha:--e muitas +vezes, depois da minha intimidade com Jacinto, eu entrara no +robusto casarão de granito, e avaliara o grão +espalhado pelas salas sonoras, e provara o vinho novo nas adegas +imensas...<br> + + + +<br> + + +--E a igreja, Zé Fernandes?... Entraste na igreja?<br> + + +<br> + + +--Nunca... Mas era pitoresca, com uma <span class="pagenum">[97]</span>torrezinha quadrada, toda negra, onde +há muitos anos vivia uma família de cegonhas... +Terrível transtorno para as cegonhas!<br> + + +<br> + + +--Coisa estranha! murmurava ainda o meu Príncipe, +agourado.<br> + + + +<br> + + +E telegrafou ao Silvério que desatulhasse o vale, recolhesse +as ossadas, reedificasse a Igreja, e, para esta obra de piedade e +reverência, gastasse o dinheiro, sem contar, como a +água de um rio largo.<br> + + +<br> + + +<br> + + +<br> + + +<h2>V</h2> + + +<br> + + +<br> + + +No entanto Jacinto, desesperado com tantos desastres +humilhadores--as torneiras que dessoldavam, os elevadores que +emperravam, o Vapor que se encolhia, a Electricidade que se sumia, +decidiu valorosamente vencer as resistências finais da +Matéria e da Força por novas e mais poderosas +acumulações de Mecanismos. E nessas semanas de Abril, +enquanto as rosas desabrochavam, a nossa agitada casa, entre +aquelas quietas casas dos Campos Elísios que +preguiçavam ao sol, incessantemente tremeu, envolta num +pó de caliça e de empreitada, com o bruto picar de +pedra, o retininte martelar de ferro. Nos silenciosos corredores, +onde me era doce fumar antes do almoço um pensativo cigarro, +circulavam agora, desde madrugada, ranchos de operários, de +blusas brancas, assobiando o <i>Petit-Bleu</i>, e intimidando os +meus passos <span class="pagenum">[100]</span>quando eu atravessava +em fralda e chinelas para o banho ou para outros retiros. Apenas se +varava com perícia algum andaime obstruindo as portas--logo +se esbarrava com uma pilha de tábuas, uma seira de +ferramentas ou um balde enorme de argamassa. E os pedaços de +soalho levantado mostravam tristemente, como num cadáver +aberto, todos os interiores do 202, a ossatura, os sensíveis +nervos de arame, os negros intestinos de ferro fundido.<br> + + + +<br> + + +Cada dia estacava diante do portão alguma lenta +carroça, donde os criados, em mangas de camisa, +descarregavam caixotes de madeira, fardos de lona, que se +despregavam e se descosiam numa sala asfaltada, ao fundo do jardim, +por trás da sebe de lilases. E eu descia, reclamado pelo meu +Príncipe, para admirar uma nova Máquina que nos +tornaria a vida mais fácil, estabelecendo de um modo mais +seguro o nosso domínio sobre a Substância. Durante os +calores, que apertaram depois da Ascensão, ensaiámos +esperançadamente, para refrescar as águas minerais, a +Soda-Water e os Medocs ligeiros, três geleiras, que se +amontoaram na copa sucessivamente desprestigiadas. Com os morangos +novos apareceu um instrumentozinho astuto, para lhes arrancar os +pés, delicadamente. <span class="pagenum">[101]</span>Depois +recebemos outro, prodigioso, de prata e cristal, para remexer +freneticamente as saladas; e, na primeira vez que o experimentei, +todo o vinagre esparrinhou sobre os olhos do meu Príncipe, +que fugiu aos uivos! Mas ele teimava... Nos actos mais elementares, +para aliviar ou apressar o esforço, se socorria Jacinto da +Dinâmica. E agora era por intervenção de uma +Máquina que abotoava as ceroulas.<br> + + + +<br> + + +E simultaneamente, ou em obediência à sua Ideia, ou +governado pelo despotismo do hábito, não cessava, ao +lado da Mecânica acumulada, de acumular +Erudição. Oh, a invasão dos livros no 202! +Solitários, aos pares, em pacotes, dentro de caixas, +franzinos, gordos e repletos de autoridade, envoltos em plebeia +capa amarela ou revestidos de marroquim e ouro, perpetuamente, +torrencialmente, invadiam por todas as largas portas a Biblioteca, +onde se estiravam sobre o tapete, se repimpavam nas cadeiras +macias, se entronizavam em cima das mesas robustas, e sobretudo +trepavam contra as janelas, em sôfregas pilhas, como se, +sufocados pela sua própria multidão, procurassem com +ânsia espaço e ar! Na erudita nave, onde apenas alguns +vidros mais altos restavam descobertos, sem tapume de livros, +perenemente se adensava um pensativo <span class="pagenum">[102]</span>crepúsculo de Outono enquanto fora +Junho refulgia. A Biblioteca transbordara através de todo o +202! Não se abria um armário sem que de dentro se +despenhasse, desamparada, uma pilha de livros! Não se +franzia uma cortina sem que de trás surgisse, hirta, uma +ruma de livros! E imensa foi a minha indignação +quando uma manhã, correndo urgentemente, de mãos nas +alças, encontrei, vedada por uma tremenda +colecção de Estudos Sociais, a porta do +Water-Closet!<br> + + + +<br> + + +Mais amargamente porém me lembro da noite histórica +em que, no meu quarto, moído e mole de um passeio a +Versalhes, com as pálpebras poeirentas e meio adormecidas, +tive de desalojar do meu leito, praguejando, um pavoroso +Dicionário de Indústria em trinta e sete volumes! +Senti então a suprema fartura do livro. Ajeitando, com +murros, os travesseiros, maldisse a Imprensa, a Facúndia +humana... E já me estirara, adormecia, quando topei, quase +parti a preciosa rótula do joelho, contra a lombada de um +tomo que velhacamente se aninhara entre a parede e os +colchões. Com furor e um berro empolguei, arremessei o tomo +afrontoso--que entornou o jarro, inundou um tapete rico de +Daghestan. E nem sei se depois adormeci--porque os meus pés, +a que não sentia nem o pisar nem <span class="pagenum">[103]</span>o rumor, como se um vento brando me levasse, +continuaram a tropeçar em livros no corredor apagado, depois +na areia do jardim que o luar branqueava, depois na Avenida dos +Campos Elísios, povoada e ruidosa como numa festa +cívica. E, oh portento! todas as casas aos lados eram +construídas com livros. Nos ramos dos castanheiros +ramalhavam folhas de livros. E os homens, as finas damas, vestidos +de papel impresso, com títulos nos dorsos, mostravam em vez +de rosto um livro aberto, a que a brisa lenta virava docemente as +folhas. Ao fundo, na Praça da Concórdia, avistei uma +escarpada montanha de livros, a que tentei trepar, arquejante, ora +enterrando a perna em flácidas camadas de versos, ora +batendo contra a lombada, dura como calhau, de tomos de Exegese e +Crítica. A tão vastas alturas subi, para além +da terra, para além das nuvens, que me encontrei, +maravilhado, entre os astros. Eles rolavam serenamente, enormes e +mudos, recobertos por espessas crostas de livros, donde surdia, +aqui e além, por alguma fenda, entre dois volumes mal +juntos, um raiozinho de luz sufocada e ansiada. E assim ascendi ao +Paraíso. Decerto era o Paraíso--porque com meus olhos +de mortal argila avistei o Ancião da Eternidade, aquele que +não tem Manhã nem Tarde. Numa claridade que dele +irradiava <span class="pagenum">[104]</span>mais clara que todas as +claridades, entre fundas estantes de ouro abarrotadas de +códices, sentado em vetustíssimos fólios, com +os flocos das infinitas barbas espalhados por sobre resmas de +folhetos, brochuras, gazetas e catálogos--o Altíssimo +lia. A fronte superdivina que concebera o Mundo pousava sobre a +mão superforte que o Mundo criara--e o Criador lia e sorria. +Ousei, arrepiado de sagrado horror, espreitar por cima do seu ombro +coruscante. O livro era brochado, de três francos... O Eterno +lia Voltaire, numa edição barata, e sorria.<br> + + + +<br> + + +Uma porta faiscou e rangeu, como se alguém penetrasse no +Paraíso. Pensei que um Santo novo chegara da Terra. Era +Jacinto, com o charuto em brasa, um molho de cravos na lapela, +sobraçando três livros amarelos que a Princesa de +Carman lhe emprestara para ler!<br> + + +<br> + + +<br> + + +<div class="break"> +<hr></div> + + +<br> + + +<br> + + +Numa dessas activas semanas, porém, a minha +atenção subitamente se despegou deste interessante +Jacinto. Hóspede do 202, conservava no 202 a minha mala e a +minha roupa: e, acostado à bandeira do meu Príncipe, +ainda ocasionalmente comia do seu caldeirão sumptuoso. Mas a +minha alma, a minha embrutecida <span class="pagenum">[105]</span>alma, e o meu corpo, o meu embrutecido corpo, +habitavam então na rua do Hélder, n.^o 16, quarto +andar, porta à esquerda.<br> + + + +<br> + + +Descia eu uma tarde, numa leda paz de ideias e +sensações, o Boulevard da Madalena, quando avistei, +diante da Estação dos Ónibus, rondando no +asfalto, num passo lento e felino, uma criatura seca, muito morena, +quase tisnada, com dois fundos olhos taciturnos e tristes, e uma +mata de cabelos amarelados, toda crespa e rebelde, sob o +chapéu velho de plumas negras. Parei, como colhido por um +repuxão nas entranhas. A criatura passou--no seu magro +rondar de gata negra, sobre um beiral de telhado, ao luar de +Janeiro. Dois poços fundos não luzem mais negra e +taciturnamente do que luziam os seus olhos taciturnos e negros. +Não recordo (Deus louvado!) como rocei o seu vestido de +seda, lustroso e ensebado nas pregas; nem como lhe rosnei uma +súplica por entre os dentes que rangiam; nem como subimos +ambos, morosamente e mais silenciosos que condenados, para um +gabinete do Café Durand, safado e morno. Diante do espelho, +a criatura, com a lentidão de um rito triste, tirou o +chapéu e a romeira salpicada de vidrilhos. A seda +puída do corpete esgarçava nos cotovelos agudos. E os +seus cabelos eram imensos, de uma <span class="pagenum">[106]</span>dureza e espessura de juba brava, em dois +tons amarelos, uns mais dourados, outros mais crestados, como a +côdea de uma torta ao sair quente do forno.<br> + + + +<br> + + +Com um riso trémulo, agarrei os seus dedos compridos e +frios:<br> + + +<br> + + +--E o nomezinho, hein?<br> + + +<br> + + +Ela séria, quase grave:<br> + + +<br> + + +--Madame Colombe, 16, rua do Hélder, quarto andar, porta +à esquerda.<br> + + + +<br> + + +E eu (miserável Zé Fernandes!) também me senti +muito sério, trespassado por uma emoção grave, +como se nos envolvesse, naquela alcova de Café, a majestade +de um Sacramento. À porta, empurrada levemente, o criado +avançou a face nédia. Ordenei uma lagosta, pato com +pimentões, e Borgonha. E foi somente ao findarmos o pato que +me ergui, amarfanhando convulsamente o guardanapo, e a tremer lhe +beijei a boca, todo a tremer, num beijo profundo e terrível, +em que deixei a alma, entre saliva e gosto de pimentão! +Depois, numa tipóia aberta, sob um bafo mole de leste e de +trovoada, subimos a Avenida dos Campos Elísios. Em frente + +à grade do 202 murmurei, para a deslumbrar com o meu +luxo:--«Moro ali, todo o ano!...» E como ao mirar o +Palacete, debruçada, ela roçara a mata fulva do +pêlo crespo pela minha barba--berrei<span class="pagenum">[107]</span> desesperadamente ao cocheiro; que galopasse +para a rua do Hélder, n.º 16, quarto andar, porta +à esquerda!<br> + + + +<br> + + +Amei aquela criatura. Amei aquela criatura com Amor, com todos os +Amores que estão no Amor, o Amor divino, o Amor humano, o +Amor bestial, como Santo Antonino amava a Virgem, como Romeu amava +Julieta, como um bode ama uma cabra. Era estúpida, era +triste. Eu deliciosamente apagava a minha alegria na cinza da sua +tristeza; e com inefável gosto afundava a minha razão +na densidade da sua estupidez. Durante sete furiosas semanas perdi +a consciência da minha personalidade de Zé +Fernandes--Fernandes de Noronha e Sande, de Guiães! Ora se +me afigurava ser um pedaço de cera que se derretia, com +horrenda delícia, num forno rubro e rugidor: ora me parecia +ser uma faminta fogueira onde flamejava, estalava e se consumia um +molho de galhos secos. Desses dias de sublime sordidez só +conservo a impressão de uma alcova forrada de cretones +sujos, de uma bata de lã cor de lilás com sotaches +negros, de vagas garrafas de cerveja no mármore de um +lavatório, e de um corpo tisnado que rangia e tinha cabelos +no peito. E também me resta a sensação de +incessantemente e com arroubado deleite me despojar, arremessar + +<span class="pagenum">[108]</span>para um regaço, que se +cavava entre um ventre sumido e uns joelhos agudos, o meu +relógio, os meus berloques, os meus anéis, os meus +botões de punho de safira, e as cento e noventa e sete +libras em ouro que eu trouxera de Guiães numa cinta de +camurça. Do sólido, decoroso, bem fornecido Zé +Fernandes, só restava uma carcaça errando +através de um sonho, com as gâmbias moles e a baba a +escorrer.<br> + + + +<br> + + +Depois, uma tarde, trepando com a costumada gula a escada da rua do +Hélder, encontrei a porta fechada--e arrancado da ombreira +aquele cartão de <i>Madame Colombe</i> que eu lia sempre +tão devotamente e que era a sua tabuleta... Tudo no meu ser +tremeu como se o chão de Paris tremesse! Aquela era a porta +do Mundo que ante mim se fechara! Para além estavam as +gentes, as cidades, a vida, Deus e Ela. E eu ficara sozinho, +naquele patamar do Não-Ser, fora da porta que se fechara, +único ser fora do Mundo! Rolei pelos degraus, com o fragor e +a incoerência de uma pedra, até ao cubículo da +porteira e do seu homem que jogavam as cartas em ditosa pachorra, +como se tão pavoroso abalo não tivesse desmantelado o +Universo!<br> + + + +<br> + + +--Madame Colombe?<br> + + +<br> + + +A barbuda comadre recolheu lentamente a vaza:<br> + + +<br> + + +<span class="pagenum">[109]</span>--Já não mora... +Abalou esta manhã, para outra terra, com outra porca!<br> + + +<br> + + +Para outra terra! com outra porca!... Vazio, negramente vazio de +todo o pensar, de todo o sentir, de todo o querer--boiei aos +tombos, como um tonel vazio, na corrente açodada do +Boulevard, até que encalhei num banco da Praça da +Madalena, onde tapei com as mãos, a que não sentia a +febre, os olhos a que não sentia o pranto! Tarde, muito +tarde, quando já se cerravam com estrondo as cortinas de +ferro das lojas, surdiu, dentre todas estas confusas ruínas +do meu ser, a eterna sobrevivente de todas as ruínas--a +ideia de jantar. Penetrei no Durand, com os passos entorpecidos de +um ressuscitado. E, numa recordação que me escaldava +a alma, encomendei a lagosta, o pato, o Borgonha! Mas ao alargar o +colarinho, ensopado pelo ardor daquela tarde de Julho, entre a +poeira da Madalena, pensei com +desconforto:--«Santíssimo Nome de Deus! Que imensa +sede me fez esta desgraça!...» De manso acenei ao +moço:--«Antes do Borgonha, uma garrafa de Champanhe, +com muito gelo, e um grande copo!...» Creio que aquele +Champanhe se engarrafara no Céu onde corre perenemente a +fresca fonte da Consolação, e que na garrafa bendita +que me coube penetrara, antes de arrolhada, <span class="pagenum">[110</span>um jorro largo dessa fonte inefável. +Jesus! que transcendente regalo, o daquele nobre copo, embaciado, +nevado, a espumar, a picar, num brilho de ouro! E depois, garrafa +de Borgonha! E depois, garrafa de Cognac! E depois +Hortelã-Pimenta granitada em gelo! E depois um desejo +arquejante de espancar, com o meu rijo marmeleiro de Guiães, +a porca que fugira com outra porca! Dentro da tipóia +fechada, que me transportou num galope ao 202, não sufoquei +este santo impulso, e com os meus punhos serranos atirei murros +retumbantes contra as almofadas, onde <i>via</i>, furiosamente + +<i>via</i> a mata imensa de pêlo amarelo, em que a minha alma +uma tarde se perdera, e três meses se debatera, e para sempre +se emporcalhara! Quando o fiacre estacou no 202 ainda eu espancava +tão desesperadamente a besta ingrata, que, aos berros do +cocheiro, dois moços acudiram e me sustiveram, recebendo +pelos ombros, sobre as nucas servis, os restos cansados da minha +cólera.<br> + + +<br> + + +Em cima, repeli a solicitude do Grilo que tentava impor ao +<i>siô</i> Zé Fernandes, a Zé Fernandes de +Guiães, a imensa indignidade de um chá de macela! E +estirado no leito de D. Galeão, com as botas sobre o +travesseiro, o chapéu alto sobre os olhos, ri, num doloroso + +<span class="pagenum">[111]</span>riso, deste Mundo burlesco e +sórdido de Jacintos e de Colombes! E de repente senti uma +angústia horrenda. Era Ela! Era a Madame Colombe, que +esfuziara da chama da vela, e saltara sobre o meu leito, e +desabotoara o meu colete, e arrombara as minhas costelas, e toda +ela, com as saias sujas, mergulhara dentro do meu peito, e abocara +o meu coração, e chupava a sorvos lentos, como na rua +do Hélder, o sangue do meu coração! +Então, certo da Morte, ganindo pela tia Vicência, +pendi do leito para mergulhar na minha sepultura, que, +através da névoa final, eu distinguia sobre o +tapete--redondinha, vidrada, de porcelana e com asa. E, sobre a +minha sepultura, que tão irreverentemente se assemelhava ao +meu vaso, vomitei o Borgonha, vomitei o pato, vomitei a lagosta. +Depois, num esforço ultrahumano, com um rugido, sentindo +que, não somente toda a entranha, mas a alma se esvaziava +toda, vomitei Madame Colombe! Recaí sobre o leito de D. +Galeão... Recarreguei o chapéu sobre os olhos para +não sentir os raios do sol. Era um sol novo, um sol +espiritual, que se erguia sobre a minha vida. E adormeci, como uma +criancinha docemente embalada num berço de verga pelo Anjo +da Guarda.<br> + + + +<br> + + +De manhã, lavei a pele num banho profundo, perfumado com +todos os aromas do <span class="pagenum">[112]</span>202, desde +folhas de limonete da Índia até essência de +jasmim de França: e lavei a alma com uma rica carta da Tia +Vicência, em letra farta, contando da nossa casa, e da linda +promessa das vinhas, e da compota de ginja que nunca lhe +saíra tão fina, e da alegre fogueira do pátio +em noite de S. João, e da menininha muito gorda e cabeluda +que viera do céu para a minha afilhada Joaninha. Depois, +à janela, bem limpo de alma e de corpo, numa quinzena de +sedinha branca, tomando chá de Naïpò, respirando +os rosais do jardim revividos pela chuva da madrugada, considerei, +em divertido pasmo, que, durante sete semanas, me emporcalhara, na +rua do Hélder, com um estardalho muito magro e muito +tisnado! E conclui que padecera de uma longa sezão, +sezão da carne, sezão da imaginação, +apanhada num charco de Paris--nesses charcos que se formam +através da Cidade com as águas mortas, os limos, os +lixos, os tortulhos e os vermes de uma Civilização +que apodrece.<br> + + + +<br> + + +<br> + + +<div class="break"> +<hr></div> + + +<br> + + +<br> + + +Então, curado, todo o meu espírito, como uma agulha +para o Norte, se virou logo para o meu complicado Príncipe, +que, nas derradeiras semanas da minha infecção +sentimental, eu entrevira sempre descaído por cima +<span class="pagenum">[113]</span>de sofás, ou vagueando +através da Biblioteca entre os seus trinta mil volumes, com +arrastados bocejos de inércia e de vacuidade. Eu, na minha +pressa indigna, só lhe lançava um +distraído--«que é isso?» Ele, no seu +moroso desalento, só murmurava um seco--«é + +calor!»<br> + + +<br> + + +E, nessa manhã da minha libertação, ao +penetrar antes de almoço no seu quarto, no sofá o +encontrei enterrado, com o <i>Figaro</i> aberto sobre a barriga, a +Agenda caída sobre o tapete, toda a face envolta em sombra, +e os pés abandonados, numa soberana tristeza, ao pedicuro +que lhe polia as unhas. Decerto o meu olhar realumiado e +repurificado, a brancura das minhas flanelas reproduzindo a +quietação das minhas sensações, e a +segura harmonia em que todo o meu ser visivelmente se movia, +impressionaram o meu Príncipe--a quem a melancolia nunca +embotava a agudeza. Ergueu molemente um braço mole:<br> + + + +<br> + + +--Então esse capricho?<br> + + +<br> + + +Derramei, sobre ele todo o fulgor de um riso vitorioso:<br> + + +<br> + + +--Morto! E, como o Sr. de Malbrouck, «morto e bem +enterrado.» Jaz! Ou antes, rola! Com efeito deve andar agora +rolando por dentro do cano do esgoto!<br> + + +<br> + + +Jacinto bocejou, murmurou:<br> + + +<br> + + + +<span class="pagenum">[114]</span>--Este Zé Fernandes de +Noronha e Sande!...<br> + + +<br> + + +E, no meu nome, no meu digno nome assim embrulhado num bocejo com +desprendida ironia, se resumiu todo o interesse daquele +Príncipe pela suja tormenta em que se debatera o meu +coração! Mas não me melindrou esse consumado +egoísmo... Claramente percebia eu que o meu Jacinto +atravessava uma densa névoa de tédio, tão +densa, e ele tão afundado na sua mole densidade, que as +glórias ou os tormentos de um camarada não o +comoviam, como muito remotas, intangíveis, separadas da sua +sensibilidade por imensas camadas de algodão. Pobre +Príncipe da Grã-Ventura, tombado para o sofá + +de inércia, com os pés no regaço do pedicuro! +Em que lodoso fastio caíra, depois de renovar tão +bravamente todo o recheio mecânico e erudito do 202, na sua +luta contra a Força e a Matéria!--E esse fastio +não o escondeu mais do seu velho Zé Fernandes quando +recomeçou entre nós a comunhão de vida e de +alma a que eu tão torpemente me arrancara, uma tarde, diante +da Estação dos Ónibus, no charco da +Madalena.<br> + + + +<br> + + +Não eram certamente confissões enunciadas. O elegante +e reservado Jacinto não torcia <span class="pagenum">[115]</span>os braços, gemendo--«Oh vida +maldita!» Eram apenas expressões saciadas; um gesto de +repelir com rancor a importunidade das coisas; por vezes uma +imobilidade determinada, de protesto, no fundo de um divã, +donde se não desenterrava, como para um repouso que +desejasse eterno; depois os bocejos, os ocos bocejos com que +sublinhava cada passo, continuado por fraqueza ou por dever +iniludível; e sobretudo aquele murmurar que se tornara +perene e natural--«Para quê?»--«Não +vale a pena!»--«Que maçada!...»<br> + + + +<br> + + +Uma noite no meu quarto, descalçando as botas, consultei o +Grilo:<br> + + +<br> + + +--Jacinto anda tão murcho, tão corcunda... Que +será, Grilo?<br> + + +<br> + + +O venerando preto declarou com uma certeza imensa:<br> + + +<br> + + +--S. Exc.ª sofre de fartura.<br> + + + +<br> + + +Era fartura! O meu Príncipe sentia abafadamente a fartura de +Paris:--e na Cidade, na simbólica Cidade, fora de cuja vida +culta e forte (como ele outrora gritava, iluminado) o homem do +século XIX nunca poderia saborear plenamente a +«delícia de viver», ele não encontrava +agora forma de vida, espiritual ou social, que o interessasse, lhe +valesse o esforço de uma corrida curta numa tipóia +<span class="pagenum">[116]</span>fácil. Pobre Jacinto! Um +jornal velho, setenta vezes relido desde a Crónica +até aos Anúncios, com a tinta delida, as dobras +roídas, não enfastiaria mais o Solitário, que +só possuísse na sua Solidão esse alimento +intelectual, do que o Parisianismo enfastiava o meu doce camarada! +Se eu nesse Verão capciosamente o arrastava a um +Café-Concerto, ou ao festivo Pavilhão d'Armenonville, +o meu bom Jacinto, colado pesadamente à cadeira com um +maravilhoso ramo de orquídeas na casaca, as finas +mãos abatidas sobre o castão da bengala, conservava +toda a noite uma gravidade tão estafada, que eu, +compadecido, me erguia, o libertava, gozando a sua pressa em +abalar, a sua fuga de ave solta... Raramente (e então com +veemente arranque como quem salta um fosso) descia a um dos seus +Clubes, ao fundo dos Campos Elísios. Não se ocupara +mais das suas Sociedades e Companhias, nem dos <i>Telefones de +Constantinopla</i>, nem das <i>Religiões +Esotéricas</i>, nem do <i>Bazar Espiritualista</i>, cujas +cartas fechadas se amontoavam sobre a mesa de ébano, donde o +Grilo as varria tristemente como o lixo de uma vida finda. +Também lentamente se despegava de todas as suas +convivências. As páginas da Agenda cor-de-rosa murcha +andavam desafogadas e brancas. E se ainda cedia a um passeio de +Mail-Coach, <span class="pagenum">[117]</span>ou a um convite para +algum Castelo amigo dos arredores de Paris, era tão +arrastadamente, com um esforço tão saturado ao enfiar +o paletó leve, que me lembrava sempre um homem, depois de um +gordo jantar de província, a estalar, que, por polidez ou em +obediência a um dogma, devesse ainda comer uma lampreia de +ovos!<br> + + + +<br> + + +Jazer, jazer em casa, na segurança das portas bem cerradas e +bem defendidas contra toda a intrusão do mundo, seria uma +doçura para o meu Príncipe se o seu próprio +202, com todo aquele tremendo recheio de Civilização, +não lhe desse uma sensação dolorosa de +abafamento, de atulhamento! Julho escaldava: e os brocados, as +alcatifas, tantos móveis roliços e fofos, todos os +seus metais e todos os seus livros, tão espessamente o +oprimiam, que escancarava sem cessar as janelas para prolongar o +espaço, a claridade, a frescura. Mas era então a +poeira, suja e acre, rolada em bafos mornos, que o enfurecia:<br> + + +<br> + + + +--Oh, este pó da Cidade!<br> + + +<br> + + +--Mas, oh Jacinto, por que não vamos para Fontainebleau, ou +para Montmorency, ou...<br> + + +<br> + + +--P'ra o campo? O quê! P'ra o campo?!<br> + + +<br> + + +E na sua face enrugada, através deste berro, lampejava +sempre tanta indignação, que <span class="pagenum">[118]</span>eu curvava os ombros, humilde, no +arrependimento de ter afrontosamente ultrajado o Príncipe +que tanto amava. Desventurado Príncipe! Com o seu dourado +cigarro de Yaka a fumegar, errava então pelas salas, lenta e +murchamente, como quem vaga em terra alheia sem +afeições e sem ocupações. Esses +desafeiçoados e desocupados passos monotonamente o traziam +ao seu centro, ao gabinete verde, à Biblioteca de + +ébano, onde acumulara Civilização nas +máximas proporções para gozar nas +máximas proporções a delícia de viver. +Espalhava em torno um olhar farto. Nenhuma curiosidade ou interesse +lhe solicitavam as mãos, enterradas nas algibeiras das +pantalonas de seda, numa inércia de derrota. Anulado, +bocejava com descoroçoada moleza. E nada mais instrutivo e +doloroso do que este supremo homem do século XIX, no meio de +todos os aparelhos reforçadores dos seus +órgãos, e de todos os fios que disciplinavam ao seu +serviço as Forças Universais, e dos seus trinta mil +volumes repletos do saber dos séculos--estacando, com as +mãos derrotadas no fundo das algibeiras, e exprimindo, na +face e na indecisão mole de um bocejo, o embaraço de +viver!<br> + + + +<br> + + +<br> + + +<br> + + +<h2>VI</h2> + + +<br> + + +<br> + + +Todas as tardes, cultivando uma dessas intimidades que entre tudo o +que cansa jamais cansam, Jacinto, às quatro horas, com +regularidade devota, visitava Madame d'Oriol:--porque essa flor de +Parisianismo permanecera em Paris, mesmo depois do Grand-Prix, a +desbotar na calma e no cisco da Cidade. Numa dessas tardes, +porém, o Telefone, ansiosamente repicado, avisou Jacinto de +que a sua doce amiga jantava em Enghien com os Trèves. +(Esses senhores gozavam o seu Verão à beira do lago, +numa casa toda branca e vestida de rosinhas brancas que pertencia a +Efraim).<br> + + +<br> + + +Era um domingo silencioso, enevoado e macio, convidando às +voluptuosidades da melancolia. E eu (no interesse da minha alma) +sugeri a Jacinto que subíssemos à Basílica do + +<i>Sacré-Coeur</i>, em construção nos altos de +Montmartre.<br> + + +<br> + + +<span class="pagenum">[120]</span>--É uma seca, Zé +Fernandes...<br> + + +<br> + + +--Com mil demónios! Eu nunca vi a Basílica...<br> + + + +<br> + + +--Bem, bem! Vamos à Basílica, homem fatal de Noronha +e Sande!<br> + + +<br> + + +E por fim logo que começámos a penetrar, para +além de S. Vicente de Paula, em bairros estreitos e +íngremes, de uma quietação de +província, com muros velhos fechando quintalejos +rústicos, mulheres despenteadas cosendo à soleira das +portas, carriolas desatreladas descansando diante das tascas, +galinhas soltas picando o lixo, cueiros molhados secando em +canas--o meu fastidioso camarada sorriu àquela liberdade e +singeleza das coisas.<br> + + + +<br> + + +A vitória parou em frente à larga rua de escadarias +que trepa, cortando vielazinhas campestres, até à +esplanada, onde, envolta em andaimes, se ergue a Basílica +imensa. Em cada patamar barracas de arraial devoto, forradas de +paninho vermelho, transbordavam de Imagens, Bentinhos, Crucifixos, +Corações de Jesus bordados a retrós, claros +molhos de Rosários. Pelos cantos, velhas agachadas +resmungavam a Ave-Maria. Dois padres desciam, tomando risonhamente +uma pitada. Um sino lento tilintava na doçura cinzenta da +tarde. E Jacinto murmurou, com agrado:<br> + + +<br> + + +--É curioso!<br> + + + +<br> + + +<span class="pagenum">[121]</span>Mas a Basílica em cima +não nos interessou, abafada em tapumes e andaimes, toda +branca e seca, de pedra muito nova, ainda sem alma. E Jacinto, por +um impulso bem Jacíntico, caminhou gulosamente para a borda +do terraço, a contemplar Paris. Sob o céu cinzento, +na planície cinzenta, a Cidade jazia, toda cinzenta, como +uma vasta e grossa camada de caliça e telha. E, na sua +imobilidade e na sua mudez, algum rolo de fumo, mais ténue e +ralo que o fumear de um escombro mal apagado, era todo o +vestígio visível da sua vida magnífica.<br> + + +<br> + + +Então chasqueei risonhamente o meu Príncipe. +Aí estava pois a Cidade, augusta criação da +Humanidade! Ei-la aí, belo Jacinto! Sobre a crosta cinzenta +da Terra--uma camada de caliça, apenas mais cinzenta! No +entanto ainda momentos antes a deixáramos prodigiosamente +viva, cheia de um povo forte, com todos os seus poderosos + +órgãos funcionando, abarrotada de riqueza, +resplandecente de sapiência, na triunfal plenitude do seu +orgulho, como Rainha do Mundo coroada de Graça. E agora eu e +o belo Jacinto trepávamos a uma colina, +espreitávamos, escutávamos--e de toda a estridente e +radiante Civilização da Cidade não +percebíamos nem um rumor nem um lampejo! E o 202, o soberbo +<span class="pagenum">[122]</span>202, com os seus arames, os seus +aparelhos, a pompa da sua Mecânica, os seus trinta mil +livros? Sumido, esvaído na confusão de telha e cinza! +Para este esvaecimento pois da obra humana, mal ela se contempla de +cem metros de altura, arqueja o obreiro humano em tão +angustioso esforço? Hein, Jacinto?... Onde estão os +teus Armazéns servidos por três mil caixeiros? E os +Bancos em que retine o ouro universal? E as Bibliotecas atulhadas +com o saber dos séculos? Tudo se fundiu numa nódoa +parda que suja a Terra. Aos olhos piscos de um Zé Fernandes, +logo que ele suba, fumando o seu cigarro, a uma arredada colina--a +sublime edificação dos Tempos não é + +mais que um silencioso monturo da espessura e da cor do pó +final. O que será então aos olhos de Deus!<br> + + +<br> + + +E ante estes clamores, lançados com afável +malícia para espicaçar o meu Príncipe, ele +murmurou, pensativo:<br> + + +<br> + + +--Sim, é talvez tudo uma ilusão... E a Cidade a maior +ilusão!<br> + + + +<br> + + +Tão facilmente vitorioso redobrei de facúndia. +Certamente, meu Príncipe, uma Ilusão! E a mais +amarga, por que o Homem pensa ter na Cidade a base de toda a sua +grandeza e só nela tem a fonte de toda a sua miséria. +Vê, Jacinto! Na Cidade perdeu <span class="pagenum">[123]</span>ele a força e beleza harmoniosa do +corpo, e se tornou esse ser ressequido e escanifrado ou obeso e +afogado em unto, de ossos moles como trapos, de nervos +trémulos como arames, com cangalhas, com chinós, com +dentaduras de chumbo, sem sangue, sem febra, sem viço, +torto, corcunda--esse ser em que Deus, espantado, mal pode +reconhecer o seu esbelto e rijo e nobre Adão! Na Cidade +findou a sua liberdade moral: cada manhã ela lhe +impõe uma necessidade, e cada necessidade o arremessa para +uma dependência: pobre e subalterno, a sua vida é um +constante solicitar, adular, vergar, rastejar, aturar; rico e +superior como um Jacinto, a Sociedade logo o enreda em +tradições, preceitos, etiquetas, cerimónias, +praxes, ritos, serviços mais disciplinares que os de um +cárcere ou de um quartel... A sua tranquilidade (bem +tão alto que Deus com ele recompensa os Santos) onde +está, meu Jacinto? Sumida para sempre, nessa batalha +desesperada pelo pão, ou pela fama, ou pelo poder, ou pelo +gozo, ou pela fugidia rodela de ouro! Alegria como a haverá + +na Cidade para esses milhões de seres que tumultuam na +arquejante ocupação de <i>desejar</i>--e que, nunca +fartando o desejo, incessantemente padecem de desilusão, +desesperança ou derrota? Os sentimentos mais genuinamente +<span class="pagenum">[124]</span>humanos logo na Cidade se +desumanizam! Vê, meu Jacinto! São como luzes que o +áspero vento do viver social não deixa arder com +serenidade e limpidez; e aqui abala e faz tremer; e além +brutamente apaga; e adiante obriga a flamejar com desnaturada +violência. As amizades nunca passam de alianças que o +interesse, na hora inquieta da defesa ou na hora sôfrega do +assalto, ata apressadamente com um cordel apressado, e que estalam +ao menor embate da rivalidade ou do orgulho. E o Amor, na Cidade, +meu gentil Jacinto? Considera esses vastos armazéns com +espelhos, onde a nobre carne de Eva se vende, tarifada ao +arrátel, como a de vaca! Contempla esse velho Deus do +Himeneu, que circula trazendo em vez do ondeante facho da +Paixão a apertada carteira do Dote! Espreita essa turba que +foge dos largos caminhos assoalhados em que os Faunos amam as +Ninfas na boa lei natural, e busca tristemente os recantos +lôbregos de Sodoma ou de Lesbos!... Mas o que a Cidade mais +deteriora no homem é a Inteligência, porque ou lha +arregimenta dentro da banalidade ou lha empurra para a +extravagância. Nesta densa e pairante camada de Ideias e +Fórmulas que constitui a atmosfera mental das Cidades, o +homem que a respira, nela envolto, só pensa todos os + +<span class="pagenum">[125]</span>pensamentos já pensados, +só exprime todas as expressões já +exprimidas:--ou então, para se destacar na pardacenta e +chata Rotina e trepar ao frágil andaime da gloríola, +inventa num gemente esforço, inchando o crânio, uma +novidade disforme que espante e que detenha a multidão como +um mostrengo numa Feira. Todos, intelectualmente, são +carneiros, trilhando o mesmo trilho, balando o mesmo balido, com o +focinho pendido para a poeira onde pisam, em fila, as pegadas +pisadas;--e alguns são macacos, saltando no topo de mastros +vistosos, com esgares e cabriolas. Assim, meu Jacinto, na Cidade, +nesta criação tão antinatural onde o solo + +é de pau e feltro e alcatrão, e o carvão tapa +o céu, e a gente vive acamada nos prédios como o +paninho nas lojas, e a claridade vem pelos canos, e as mentiras se +murmuram através de arames--o homem aparece como uma +criatura anti-humana, sem beleza, sem força, sem liberdade, +sem riso, sem sentimento, e trazendo em si um espírito que +é passivo como um escravo ou impudente como um +histrião... E aqui tem o belo Jacinto o que é a bela +Cidade!<br> + + +<br> + + +E ante estas encanecidas e veneráveis invectivas, retumbadas +pontualmente por todos os Moralistas bucólicos, desde +Hesíodo, através <span class="pagenum">[126]</span>dos séculos--o meu Príncipe +vergou a nuca dócil, como se elas brotassem, inesperadas e +frescas, de uma Revelação superior, naqueles cimos de +Montmartre:<br> + + + +<br> + + +--Sim, com efeito, a Cidade... É talvez uma ilusão +perversa!<br> + + +<br> + + +Insisti logo, com abundância, puxando os punhos, saboreando o +meu fácil filosofar. E se ao menos essa ilusão da +Cidade tornasse feliz a totalidade dos seres, que a mantêm... +Mas não! Só uma estreita e reluzente casta goza na +Cidade os gozos especiais que ela cria. O resto, a escura, imensa +plebe, só nela sofre, e com sofrimentos especiais que +só nela existem! Deste terraço, junto a esta rica +Basílica consagrada ao Coração que amou o +Pobre e por ele sangrou, bem avistamos nós o lôbrego +casario onde a plebe se curva sob esse antigo opróbrio de +que nem Religiões, nem Filosofias, nem Morais, nem a sua +própria força brutal a poderão jamais +libertar! Aí jaz, espalhada pela Cidade, como esterco vil +que fecunda a Cidade. Os séculos rolam; e sempre +imutáveis farrapos lhe cobrem o corpo, e sempre debaixo +deles, através do longo dia, os homens labutarão e as +mulheres chorarão. E com este labor e este pranto dos +pobres, meu Príncipe, se edifica a abundância da +Cidade! <span class="pagenum">[127]</span>Ei-la agora coberta de +moradas em que eles se não abrigam; armazenada de estofos, +com que eles se não agasalham; abarrotada de alimentos, com +que eles se não saciam! Para eles só a neve, quando a +neve cai, e entorpece e sepulta as criancinhas aninhadas pelos +bancos das praças ou sob os arcos das pontes de Paris... A +neve cai, muda e branca na treva: as criancinhas gelam nos seus +trapos: e a polícia, em torno, ronda atenta para que +não seja perturbado o tépido sono daqueles que amam a +neve, para patinar nos lagos do Bosque de Bolonha com +peliças de três mil francos. Mas quê, meu +Jacinto! a tua Civilização reclama insaciavelmente +regalos e pompas, que só obterá, nesta amarga +desarmonia social, se o Capital der ao Trabalho, por cada +arquejante esforço, uma migalha ratinhada. +Irremediável é, pois, que incessantemente a plebe +sirva, a plebe pene! A sua esfalfada miséria é a +condição do esplendor sereno da Cidade. Se nas suas +tigelas fumegasse a justa ração de caldo--não +poderia aparecer nas baixelas de prata a luxuosa +porção de <i>foie-gras</i> e túbaras que +são o orgulho da Civilização. Há + +andrajos em trapeiras--para que as belas Madamas d'Oriol, +resplandecentes de sedas e rendas, subam, em doce +ondulação, a escadaria da Ópera. Há +mãos <span class="pagenum">[128]</span>regeladas que se +estendem, e beiços sumidos que agradecem o dom +magnânimo de um <i>sou</i>--para que os Efrains tenham dez +milhões no Banco de França, se aqueçam +à chama rica da lenha aromática, e surtam de colares +de safiras as suas concubinas, netas dos Duques de Atenas. E um +povo chora de fome, e da fome dos seus pequeninos--para que os +Jacintos, em Janeiro, debiquem, bocejando, sobre pratos de Saxe, +morangos gelados em Champanhe e avivados de um fio de + +éter!<br> + + +<br> + + +--E eu comi dos teus morangos, Jacinto! Miseráveis, tu e +eu!<br> + + +<br> + + +Ele murmurou, desolado:<br> + + +<br> + + +--É horrível, comemos desses morangos... E talvez por +uma ilusão!<br> + + +<br> + + + +Pensativamente deixou a borda do terraço, como se a +presença da Cidade, estendida na planície, fosse +escandalosa. E caminhámos devagar, sob a moleza cinzenta da +tarde, filosofando--considerando que para esta iniquidade +não havia cura humana, trazida pelo esforço humano. +Ah, os Efrains, os Trèves, os vorazes e sombrios +tubarões do mar humano, só abandonarão ou +afrouxarão a exploração das Plebes, se uma +influência celeste, por milagre novo, mais alto que os +milagres velhos, lhes converter as almas! <span class="pagenum">[129]</span>O burguês triunfa, muito forte, todo +endurecido no pecado--e contra ele são impotentes os prantos +dos Humanitários, os raciocínios dos Lógicos, +as bombas dos Anarquistas. Para amolecer tão duro granito +só uma doçura divina. Eis pois esperança da +terra novamente posta num Messias!... Um decerto desceu outrora dos +grandes Céus; e, para mostrar bem que mandado trazia, +penetrou mansamente no mundo pela porta de um curral. Mas a sua +passagem entre os homens foi tão curta! Um meigo +sermão numa montanha, ao fim de uma tarde meiga; uma +repreensão moderada aos Fariseus que então redigiam o + +<i>Boulevard</i>; algumas vergastadas nos Efrains +vendilhões; e logo, através da porta da morte, a fuga +radiosa para o Paraíso! Esse adorável filho de Deus +teve demasiada pressa em recolher a casa de seu Pai! E os homens a +quem ele incumbira a continuação da sua obra, +envolvidos logo pelas influências dos Efrains, dos +Trèves, da gente do <i>Boulevard</i>, bem depressa +esqueceram a lição da Montanha e do lago de +Tiberíade--e eis que por seu turno revestem a +púrpura, e são Bispos, e são Papas, e se aliam +à opressão, e reinam com ela, e edificam a +duração do seu Reino sobre a miséria dos +sem-pão e dos sem-lar! Assim tem de ser recomeçada a +obra <span class="pagenum">[130]</span>da Redenção. +Jesus, ou Guatama, ou Cristna, ou outro desses filhos que Deus por +vezes escolhe no seio de uma Virgem, nos quietos vergéis da + +Ásia, deverá novamente descer à terra de +servidão. Virá ele, o desejado? Porventura já +algum grave rei do Oriente despertou, e olhou a estrela, e tomou a +mirra nas suas mãos reais, e montou pensativamente sobre o +seu dromedário? Já por esses arredores da dura +Cidade, de noite, enquanto Caifás e Madalena ceiam lagosta +no Paillard, andou um Anjo, atento, num voo lento, escolhendo um +curral? Já de longe, sem moço que os tanja, na +gostosa pressa de um divino encontro, vem trotando a vaca, trotando +o burrinho?<br> + + + +<br> + + +--Tu sabes, Jacinto?<br> + + +<br> + + +Não, Jacinto não sabia--e queria acender o charuto. +Forneci um fósforo ao meu Príncipe. Ainda +rondámos no terraço, espalhando pelo ar outras ideias +sólidas que no ar se desfaziam. Depois penetrávamos +na Basílica--quando um Sacristão nédio, de +barrete de veludo, cerrou fortemente a porta, e um Padre passou, +enterrando na algibeira, com um cansado gesto final e como para +sempre, o seu velho Breviário.<br> + + + +<br> + + +--Estou com uma sede, Jacinto... Foi esta tremenda Filosofia!<br> + + +<br> + + +Descemos a escadaria, armada em arraial <span class="pagenum">[131]</span>devoto. O meu pensativo camarada comprou uma +imagem da Basílica. E saltávamos para a +vitória, quando alguém gritou rijamente, numa +surpresa:<br> + + +<br> + + +--Eh Jacinto!<br> + + +<br> + + +O meu Príncipe abriu os braços, também +espantado:<br> + + + +<br> + + +--Eh Maurício!<br> + + +<br> + + +E, num alvoroço, atravessou a rua, para um café, +onde, sob o toldo de riscadinho, um robusto homem, de barba em +bico, remexia o seu absinto, com o chapéu de palha +descaído na nuca, a quinzena solta sobre a camisa de seda, +sem gravata, como se descansasse num banco, entre as sombras do seu +jardim.<br> + + +<br> + + +E ambos, apertando as mãos, se admiravam daquele encontro, +num domingo de Verão, sobre as alturas de Montmartre.<br> + + +<br> + + + +--Oh! eu estou aqui no meu bairro! exclamava alegremente +Maurício. Em família, em chinelos... Há +três meses que subi para estes cimos da Verdade... Mas tu na +Santa Colina, homem profano da planície e das ruas de +Israel!<br> + + +<br> + + +O meu Príncipe mostrou o seu Zé Fernandes:<br> + + +<br> + + +--Com este amigo, em peregrinação à + +Basílica... <span class="pagenum">[132]</span>O meu amigo +Fernandes Lorena... Maurício de Mayolle, velho camarada.<br> + + +<br> + + +Mr. de Mayolle (que, pela face larga e nariz nobremente grosso, +lembrava Francisco de Valois, Rei de França) ergueu o seu +chapéu de palha. E empurrava uma cadeira, insistia que nos +acomodássemos para um absinto ou para um bock.<br> + + +<br> + + +--Toma um bock, Zé Fernandes! lembrou Jacinto. Tu estavas a +ganir com sede!<br> + + + +<br> + + +Corri lentamente a língua sobre os beiços, mais secos +que pergaminhos:<br> + + +<br> + + +--Estou a guardar esta sedezinha para logo, para o jantar, com um +vinhozinho gelado!<br> + + +<br> + + +Maurício saudou, com silenciosa admiração, +esta minha avisada malícia. E imediatamente, para o meu +Príncipe:<br> + + +<br> + + +--Há três anos que te não vejo, Jacinto... Como +tem sido possível, neste Paris que é uma aldeola e +que tu atravancas?<br> + + + +<br> + + +--A vida, Maurício, a espalhada vida... Com efeito! +Há três anos, desde a casa dos Lamotte-Orcel. Tu ainda +visitas esse santuário?<br> + + +<br> + + +Maurício atirou um gesto desdenhoso e largo, que sacudia um +mundo:<br> + + +<br> + + +--Oh! Há mais de um ano que me separei dessa bicharia +herética... Uma turba indisciplinada, meu Jacinto! Nenhuma +fixidez, um diletantismo estonteado, carência completa e + +<span class="pagenum">[133]</span>cómica de toda a base +experimental... Quando tu ias aos Lamotte-Orcel, e à Parola +do 37, e à <i>Cerveja Ideal</i>, o que reinava?...<br> + + +<br> + + +Jacinto catou lentamente as suas recordações por +entre os pêlos do bigode:<br> + + +<br> + + +--Eu sei!... Reinava Wagner e a Mitologia Édica, e o +Raganarock, e as Nornas... Muito Pré-Rafaelismo +também, e Montagna, e Fra Angelico... Em moral, o +Renanismo.<br> + + + +<br> + + +Maurício sacudia os ombros. Oh, tudo isso pertencia a um +passado arcaico, quase lacustre! Quando Madame de Lamotte-Orcel +remobilara a sala com veludos Morris, grossas alcachofras sobre +tons de açafrão, já o Renanismo passara, +tão esquecido como o Cartesianismo...<br> + + +<br> + + +--Tu ainda és do tempo do culto do <i>Eu</i>?<br> + + +<br> + + +O meu Príncipe suspirou risonhamente:<br> + + + +<br> + + +--Ainda o cultivei.<br> + + +<br> + + +--Pois bem! Logo depois foi o Hartmanismo, o Inconsciente. Depois o +Nietzismo, o Feudalismo espiritual... Depois grassou o +Tolstoïsmo, um furor imenso de renunciamento +neo-cenobítico. Ainda me lembro de um jantar em que apareceu +um mostrengo de um eslavo, de guedelha sórdida, que atirava +olhos medonhos para o decote da pobre condessa de Arche, e que +grunhia com o dedo espetado:--«Busquemos a luz, muito por +baixo, no pó da <span class="pagenum">[134]</span>terra!»--E à sobremesa bebemos +à delícia da humildade e do trabalho servil, com +aquele Champanhe Marceaux granitado que a Matilde dava nos grandes +dias em copos da forma do San-Gral! Depois veio Emersonismo... Mas +a praga cruel foi Ibsenismo! Enfim, meu filho, uma Babel de + +Éticas e Estéticas. Paris parecia demente. Já +havia uns desgarrados que tendiam para o Luciferismo. E amiguinhas +nossas, coitadas, iam descambando para o Falismo, uma moxinifada +místico-brejeira, pregada por aquele pobre La Carte que +depois se fez Monge Branco, e que anda no Deserto... Um horror! E +uma tarde, de repente, toda esta massa se precipita com ânsia +para o Ruskinismo!<br> + + +<br> + + +Eu, agarrado à bengala, bem fincada no chão, sentia +como um vendaval que redemoinhava, me torcia o crânio! E +até Jacinto balbuciou, esgazeado:<br> + + +<br> + + + +--O Ruskinismo?<br> + + +<br> + + +--Sim, o velho Ruskin,... John Ruskin!<br> + + +<br> + + +O meu ditoso Príncipe compreendeu:<br> + + +<br> + + +--Ah, Ruskin!... <i>As sete lâmpadas da Arquitectura</i>, +<i>A Coroa de Oliveira Brava</i>... É o culto da Beleza.<br> + + + +<br> + + +--Sim! O culto da Beleza, confirmou Maurício. Mas a esse +tempo eu, enojado, já descera <span class="pagenum">[135]</span>de todas essas nuvens vãs... Pisava um +chão mais seguro, mais fértil.<br> + + +<br> + + +Deu um sorvo lento ao absinto, cerrando as pálpebras. +Jacinto esperava, com o seu fino nariz dilatado, como para respirar +a Flor de Novidade que ia desabrochar:<br> + + +<br> + + +--E então? então?...<br> + + + +<br> + + +Mas o outro murmurou, dispersamente, por entre reticências em +que se velava:<br> + + +<br> + + +--Vim para Montmartre... Tenho aqui um amigo, um homem de +génio, que percorreu toda a Índia... Viveu com os +Toddas, esteve nos mosteiros de Garma-Khian e de Dashi-Lumbo, e +estudou com Gegen-Chutu no retiro santo de Urga... Gegen-Chutu foi +a décima sexta encarnação de Guatama, e era +portanto um Boddi-sattva... Trabalhamos, procuramos... Não +são visões. Mas factos, experiências bem +antigas, que vêm talvez desde os tempos de Cristna...<br> + + +<br> + + + +Através destes nomes, que exalavam um perfume triste de +vetustos ritos, arredara a cadeira. E de pé, deixando cair +sobre a mesa, distraidamente, para pagar o absinto, moedas de prata +e moedas de cobre, murmurava com os olhos descansados em Jacinto, +mas perdidos noutra visão:<br> + + +<br> + + +--Por fim tudo se reduz ao supremo desenvolvimento da Vontade +dentro da suprema <span class="pagenum">[136]</span>pureza da Vida. +É toda a ciência e força dos grandes mestres +Hindus... Mas a pureza absoluta da vida, eis a luta, eis o +obstáculo! Não basta mesmo o Deserto, nem o bosque do +mais velho templo no alto Tibete... Ainda assim, meu Jacinto, +já obtivemos resultados bem estranhos. Sabes as +experiências de Tyndall, com as chamas sensitivas... O pobre +químico, para demonstrar as vibrações do som, +tocou quase às portas da verdade esotérica. Mas +quê! homem de ciência, portanto homem de estupidez, +ficou aquém, entre as suas placas e as suas retortas! +Nós fomos além. Verificámos as + +<i>ondulações da Vontade</i>! Diante de nós, +pela expansão da energia do meu companheiro, e em +cadência com o seu mandado, uma chama, a três metros, +ondulou, rastejou, despediu línguas ardentes, lambeu uma +alta parede, rugiu furiosa e negra, resplandeceu direita e +silenciosa, e bruscamente abatida em cinza morreu!<br> + + +<br> + + +E o estranho homem, com o chapéu para a nuca, ficou +imóvel, de braços abertos e os olhares esgazeados, +como no renovado assombro e no transe daquele prodígio. +Depois, recaindo no seu modo fácil e sereno, acendendo de +vagar um cigarro:<br> + + + +<br> + + +--Uma destas manhãs, Jacinto, apareço no 202, para +almoçar contigo, e levo o meu <span class="pagenum">[137]</span>amigo. Ele só come arroz, uma pouca de +salada, e fruta. E conversamos... Tu tinhas um exemplar do +<i>Sepher-Zerijah</i> e outro do <i>Targum d'Onkelus</i>. Preciso +folhear esses livros.<br> + + +<br> + + +Apertou a mão do meu Príncipe, saudou este assombrado +Zé Fernandes, e serenamente seguiu pela quieta rua, com o +chapéu de palha para a nuca, as mãos enterradas nas +algibeiras, como um homem natural entre coisas naturais.<br> + + + +<br> + + +--Oh Jacinto! Quem é este bruxo? Conta!... Quem é +ele, santíssimo nome de Deus?<br> + + +<br> + + +Recostado na vitória, ajeitando o vinco das calças, o +meu Príncipe contou, concisamente. Era um nobre e leal +rapaz, muito rico, muito inteligente, da antiga casa soberana de +Mayolle, descendente dos Duques de Septimânia... E murmurou, +através do costumado bocejo:<br> + + +<br> + + + +--O desenvolvimento supremo da vontade!... Teosofia, Budismo +esotérico... Aspirações, +decepções... Já experimentei... Uma +maçada!<br> + + +<br> + + +Atravessamos, calados, o rumor de Paris, sob a moleza abafada do +crepúsculo de Verão, para jantar no Bosque, no +Pavilhão de Armenonville, onde os Tziganes, avistando +Jacinto, tocaram o <i>Hino da Carta</i> com paixão, + +<span class="pagenum">[138]</span>com langor, numa cadência +de <i>czarda</i> dolorosa e áspera.<br> + + +<br> + + +E eu, desdobrando regaladamente o guardanapo:<br> + + +<br> + + +--Pois venha agora para a minha rica sede esse vinhozinho gelado! +Grandemente o mereço, caramba, que superiormente +filosofei!... E creio que estabeleci definitivamente no +espírito do Sr. D. Jacinto o salutar horror da cidade!<br> + + +<br> + + + +O meu Príncipe percorria, catando o bigode, a Lista dos +Vinhos, enquanto o Copeiro, esperava com pensativa +reverência:<br> + + +<br> + + +--Mande gelar duas garrafas de champanhe S.<sup>t</sup> Marceaux... +Mas antes, um Barsac velho, apenas refrescado... Água de +Evian... Não, de Bussang! Bem, d'Evian e de Bussang! E, para +começar, um bock.<br> + + +<br> + + +Depois, bocejando, desabotoando lentamente a sobrecasaca +cinzenta:<br> + + +<br> + + + +--Pois estou com vontade de construir uma casa nos cimos de +Montmartre, com um miradouro no alto, todo de vidro e ferro, para +descansar de tarde e dominar a Cidade...<br> + + +<br> + + +<br> + + +<br> + + +<h2>VII</h2> + + +<br> + + +<br> + + +Julho findara com uma chuva refrescante e consoladora:--e eu +pensava em realizar finalmente a minha romagem às cidades da +Europa, sempre retardada, através da Primavera, pelas +surpresas do Mundo e da Carne. Mas, de repente, Jacinto +começou a rogar e a reclamar que o seu Zé Fernandes o +acompanhasse, todas as tardes, a casa de Madame d'Oriol! E eu +compreendi que o meu Príncipe (à maneira do divino +Aquiles, que, sob a tenda, e junto da branca, insípida e +dócil Briseis, nunca dispensava Pátroclo) desejava +ter, no retiro do Amor, a presença, o conforto e o socorro +da Amizade. Pobre Jacinto! Logo pela manhã combinava pelo +telefone com Madame d'Oriol essa hora de quietação e +doçura. E assim encontrávamos sempre a superfina Dama +prevenida e solitária naquela sala da rua de Lisbonne, onde +Jacinto e eu mal <span class="pagenum">[140]</span>cabíamos, +sufocávamos na confusão, entre os cestos de flores, e +os ouros rocalhados, e os monstros do Japão, e a galante +fragilidade dos Saxes, e as peles de feras estiradas aos pés +de sofás adormecedores, e os biombos de Aubusson formando +alcovas favoráveis e lânguidas... Aninhada numa +cadeira de bambu lacada de branco, entre almofadas aromatizadas de +verbena da Índia, com um romance pousado no regaço, +ela esperava o seu amigo, numa certa indolência passiva e +mansa que me lembrava sempre o Oriente e um Harém. Mas, +pelas frescas sedinhas Pompadour, parecia também uma +marquesinha de Versalhes cansada do grande século; ou +então, com brocados sombrios e largos cintos cravejados, era +como uma veneziana, preparada para um Doge. A minha +intrusão, na intimidade daquelas tardes, não a +contrariava--antes lhe trazia um vassalo novo, com dois olhos novos +para a contemplar. Eu era já o seu <i>cher +Fernandez</i>!<br> + + + +<br> + + +E apenas descerrava os lábios avivados de vermelho, +semelhantes a uma ferida fresca, e começava a chalrar--logo +nos envolvia o burburinho e a murmuração de Paris. +Ela só sabia chalrar sobre a sua pessoa que era o resumo da +sua Classe, e sobre a sua existência <span class="pagenum">[141]</span>que era o resumo do seu Paris:--e a sua +existência, desde casada, consistira em ornar com suprema +ciência o seu lindo corpo; entrar com perfeição +numa sala e irradiar; remexer em estofos e conferenciar +pensativamente com o grande costureiro; rolar pelo Bois pousada na +sua vitória como uma imagem de cera; decotar e branquear o +colo; debicar uma perna de galinhola em mesas de luxo; fender +turbas ricas em bailes espessos; adormecer com a vaidade esfalfada; +percorrer de manhã, tomando chocolate, os +«Echos» e as «Festas» do <i>Figaro</i>; e +de vez em quando murmurar para o marido--«Ah, és +tu?...» Além disso, ao lusco-fusco, num sofá, +alguns certos suspiros, entre os braços de alguém a +quem era constante. Ao meu Príncipe, nesse ano, pertencia o +sofá. E todos estes deveres de Cidade e de Casta os cumpria +sorrindo. Tanto sorrira, desde casada, que já duas pregas +lhe vincavam os cantos dos beiços, indelevelmente. Mas nem +na alma, nem na pele, mostrava outras máculas de fadiga. A +sua Agenda de Visitas continha mil e trezentos nomes, todos do +Nobiliário. Através, porém, desta fulgurante +sociabilidade arranjara no cérebro (onde de certo penetrara +o pó de arroz que desde o colégio acamava na testa) +algumas Ideias Gerais. Em Política era pelos +Príncipes; e todos os outros «horrores», a +República, o Socialismo, <span class="pagenum">[142]</span>a +Democracia que se não lava, os sacudia risonhamente, com um +bater de leque. Na Semana Santa juntava às rendas do +chapéu a Coroa amarga de espinhos--por serem esses, para a +gente bem-nascida, dias de penitência e dor. E, diante de +todo o Livro ou de todo o Quadro, sentia a emoção e +formulava finamente o juízo, que no seu Mundo, e nessa +Semana, fosse elegante formular e sentir. Tinha trinta anos. Nunca +se embaraçara nos tormentos de uma paixão. Marcava, +com rígida regularidade, todas as suas despesas num Livro de +Contas encadernado em pelúcia verde-mar. A sua +religião íntima (e mais genuína do que a +outra, que a levava todos os domingos à missa de S. Philippe +du Roule) era a Ordem. No Inverno, logo que na amável cidade +começavam a morrer de frio, debaixo das pontes, criancinhas +sem abrigo--ela preparava com comovido cuidado os seus vestidos de +patinagem. E preparava também os de Caridade--porque era +boa, e concorria para Bazares, Concertos e Tômbolas, quando +fossem patrocinados pelas Duquesas do seu «rancho». +Depois, na Primavera, muito metodicamente, regateando, vendia a uma +adela os vestidos e as capas de Inverno. Paris admirava nela uma +suprema flor de Parisianismo.<br> + + + +<br> + + +Pois respirando esta macia e fina flor passámos <span class="pagenum">[143]</span>nós as tardes desse Julho enquanto as +outras flores pendiam e murchavam na calma e no pó. Mas, na +intimidade do seu perfume, Jacinto não parecia encontrar +esse contentamento de alma, que entre tudo que cansa jamais cansa. +Era já com a paciente lentidão com que se sobem todos +os Calvários, os mais bem tapetados, que ele subia a +escadaria de Madame d'Oriol, tão suave e orlada de +tão frescas palmeiras. Quando a apetitosa criatura, com +dedicação, para o entreter, desdobrava a sua +vivacidade como um pavão desdobra a cauda, o meu pobre +Príncipe puxava os pêlos do bigode murcho, na murcha +postura de quem, por uma manhã de Maio, enquanto os melros +cantam nas sebes, assiste, numa igreja negra, a um responso +fúnebre por um Príncipe. E no beijo que ele +chuchurreava sobre a mão da sua doce amiga, para se +despedir, havia sempre alacridade e alívio.<br> + + + +<br> + + +Mas ao outro dia, ao começar da tarde, depois de errar +através da Biblioteca e do Gabinete, puxando sem curiosidade +a tira do telégrafo, atirando algum recado mole pelo +telefone, espalhando o olhar desalentado sobre o saber imenso dos +trinta mil livros, remexendo a colina dos Jornais e Revistas, +terminava por me chamar, já com a preguiça triste da +façanha a que se impelia:<br> + + +<br> + + +<span class="pagenum">[144]</span>--Vamos a casa de Madame d'Oriol, +Zé Fernandes? Eu tinha marcadas para hoje seis ou sete +coisas, mas não posso, é uma seca! Vamos a casa de +Madame d'Oriol... Ao menos lá, às vezes, há um +bocado de frescura e paz.<br> + + + +<br> + + +E foi numa dessas tardes, em que o meu Príncipe assim +procurava desesperadamente um «bocado de frescura e +paz», que encontramos, ao meio da escadaria suave, entre as +palmeiras, o marido de Madame d'Oriol. Eu já o +conhecia--porque Jacinto mo mostrara uma noite, no Grand +Café, ceando com dançarinas do _Moulin Rouge_. Era um +moço gordalhufo, indolente, de uma brancura crua de +toucinho, com uma calvície já séria e +já lustrosa, constantemente acariciada pelos seus gordos +dedos carregados de anéis. Nessa tarde, porém, vinha +vermelho, todo emocionado, calçando as luvas com +cólera. Estacou diante de Jacinto--e sem mesmo lhe apertar a +mão, atirando um gesto para o patamar:<br> + + + +<br> + + +--Visita lá acima? Vai achar a Joana em péssima +disposição... Tivemos uma cena, e tremenda.<br> + + +<br> + + +Deu outro puxão desesperado à luva cor de palha, +já esgaçada:<br> + + +<br> + + + +--Estamos separados, cada um vive como lhe apetece, é +excelente! Mas em tudo há <span class="pagenum">[145]</span>medida e forma... Ela tem o meu nome, +não posso consentir que em Paris, com conhecimento de todo o +Paris, seja a amante do trintanário. Amantes na nossa roda, +vá! Um lacaio, não!... Se quer dormir com os criados +que emigre para o fundo da província, para a sua casa de +Corbelle. E lá até com os animais!... Foi o que eu +lhe disse! Ficou como uma fera.<br> + + +<br> + + + +Sacudiu então a mão do Jacinto que «era da sua +roda»--rebolou pela escadaria florida e nobre. O meu +Príncipe, imóvel nos degraus, de face pendida, +cofiava lentamente os fios pendidos do bigode. Depois, olhando para +mim, como um ser saturado de tédio e em quem nenhum +tédio novo pode caber:<br> + + +<br> + + +--Já agora subamos, sim?<br> + + +<br> + + +<br> + + + +<div class="break"> +<hr></div> + + +<br> + + +<br> + + +Parti então, com muita alegria, para a minha apetecida +romagem às Cidades da Europa.<br> + + +<br> + + +Ia viajar!... Viajei. Trinta e quatro vezes, à pressa, +bufando, com todo o sangue na face, desfiz e refiz a mala. Onze +vezes passei o dia num vagão, envolto em poeirada e fumo, +sufocado, a arquejar, a escorrer de suor, saltando em cada +estação para sorver desesperadamente limonadas mornas +que me escangalhavam <span class="pagenum">[146]</span>a entranha. +Catorze vezes subi derreadamente, atrás de um criado, a +escadaria desconhecida de um Hotel; e espalhei o olhar incerto por +um quarto desconhecido; e estranhei uma cama desconhecida, de onde +me erguia, estremunhado, para pedir em línguas desconhecidas +um café com leite que me sabia a fava, um banho de tina que +me cheirava a lodo. Oito vezes travei bulhas abomináveis na +rua com cocheiros que me espoliavam. Perdi uma chapeleira, quinze +lenços, três ceroulas, e duas botas, uma branca, outra +envernizada, ambas do pé direito. Em mais de trinta +mesas-redondas esperei tristonhamente que me chegasse o + +<i>boeuf-à-la-mode</i>, já frio, com molho +coalhado--e que o copeiro me trouxesse a garrafa de Bordéus +que eu provava e repelia com desditosa carantonha. Percorri, na +fresca penumbra dos granitos e dos mármores, com pé +respeitoso e abafado, vinte e nove Catedrais. Trilhei molemente, +com uma dor surda na nuca, em catorze museus, cento e quarenta +salas revestidas até aos tectos de Cristos, heróis, +santos, ninfas, princesas, batalhas, arquitecturas, verduras, +nudezas, sombrias manchas de betume, tristezas das formas +imóveis!... E o dia mais doce foi quando em Veneza, onde +chovia desabaladamente, encontrei um velho <span class="pagenum">[147]</span>inglês de penca flamejante que habitara +o Porto, conhecera o Ricardo, o José Duarte, o Visconde do +Bom Sucesso, e as Limas da Boavista... Gastei seis mil francos. +Tinha viajado.<br> + + + +<br> + + +Enfim, numa bendita manhã de Outubro, na primeira friagem e +névoa de Outono, avistei com enternecido alvoroço as +cortinas de seda ainda fechadas do meu 202! Afaguei o ombro do +Porteiro. No patamar, onde encontrei o ar macio e tépido que +deixara em Florença, apertei os ossos do Grilo +excelente:<br> + + +<br> + + +--E Jacinto?<br> + + +<br> + + +O digno negro murmurou, de entre os altos, reluzentes +colarinhos:<br> + + +<br> + + +--S. Exc.ª circula... Pesadote, fartote. Entrou tarde do baile +da Duquesa de Loches. Era o contrato de casamento de Mademoiselle +de Loches... Ainda tomou antes de se deitar um chá gelado... +E disse a coçar a cabeça: «Eh! que +maçada! Eh! que maçada!»<br> + + + +<br> + + +Depois do banho e do chocolate, às dez horas, consolado e +quentinho dentro do roupão de veludo, rompi pelo quarto do +meu Príncipe, de braços abertos e sedentos:<br> + + +<br> + + +--Oh Jacinto!<br> + + +<br> + + +--Oh viajante!...<br> + + +<br> + + +Quando nos estreitámos, fartamente, eu recuei para lhe +contemplar a face--e nela a <span class="pagenum">[148]</span>alma. +Encolhido numa quinzena de pano cor de malva orlada de peles de +marta, com os pêlos do bigode murchos, as suas duas rugas +mais cavadas, uma moleza nos ombros largos, o meu amigo parecia +já vergado sob o peso e a opressão e o terror do seu +dia. Eu sorri, para que ele sorrisse:<br> + + + +<br> + + +--Valente Jacinto... Então como tens vivido?<br> + + +<br> + + +Ele respondeu, muito serenamente:<br> + + +<br> + + +--Como um morto.<br> + + +<br> + + +Forcei uma gargalhada leve, como se o seu mal fosse leve:<br> + + +<br> + + +--Aborrecidote, hein?<br> + + +<br> + + + +O meu Príncipe lançou, num gesto tão vencido, +um <i>oh</i> tão cansado--que eu compadecido de novo o +abracei, o estreitei, como para lhe comunicar uma parte desta +alegria sólida e pura que recebi do meu Deus!<br> + + +<br> + + +<br> + + +<div class="break"> +<hr></div> + + +<br> + + +<br> + + +Desde essa manhã, Jacinto começou a mostrar +claramente, escancaradamente, ao seu Zé Fernandes, o +tédio de que a existência o saturava. O seu cuidado +realmente e o seu esforço consistiram então em sondar +e formular esse tédio--na esperança de o vencer logo +que lhe conhecesse bem a origem e a potência. <span class="pagenum">[149]</span>E o meu pobre Jacinto reproduziu a +comédia pouco divertida de um Melancólico que +perpetuamente raciocina a sua Melancolia! Nesse raciocínio, +ele partia sempre do facto irrecusável e maciço--que +a sua vida especial de Jacinto continha todos os interesses e todas +as facilidades, possíveis no século XIX, numa vida de +homem que não é um Génio, nem um Santo. Com +efeito! Apesar do apetite embotado por doze anos de Champanhes e +molhos ricos ele conservava a sua rijeza de pinheiro bravo; na luz +da sua inteligência não aparecera nem tremor nem +morrão; a boa terra de Portugal, e algumas Companhias +maciças, pontualmente lhe forneciam a sua doce centena de +contos; sempre activas e sempre fiéis o cercavam as +simpatias de uma Cidade inconstante e chasqueadora; o 202 estourava +de confortos; nenhuma amargura de coração o +atormentava;--e todavia era um Triste. Porquê?... E daqui +saltava, com certeza fulgurante, à conclusão de que a +sua tristeza, esse cinzento burel em que a sua alma andava +amortalhada, não provinham da sua individualidade de +Jacinto--mas da Vida, do lamentável, do desastroso facto de +Viver! E assim o saudável, intelectual, riquíssimo, +bem-acolhido Jacinto tombara no Pessimismo.<br> + + + +<br> + + +<span class="pagenum">[150]</span>E um Pessimismo irritado! Porque +(segundo afirmava) ele nascera para ser tão naturalmente +optimista como um pardal ou um gato. E, até aos doze anos, +enquanto fora um bicho superiormente amimado, com a sua pele sempre +bem coberta, o seu prato sempre bem cheio, nunca sentira fadiga, ou +melancolia, ou contrariedade, ou pena--e as lágrimas eram +para ele tão incompreensíveis que lhe pareciam +viciosas. Só quando crescera, e da animalidade penetrara na +humanidade, despontara nele esse fermento de tristeza, muito tempo +indesenvolvido no tumulto das primeiras curiosidades, e que depois +alastrara, o invadira todo, se lhe tornara consubstancial e como o +sangue das suas veias. Sofrer portanto era inseparável de +Viver. Sofrimentos diferentes nos destinos diferentes da Vida. Na +turba dos humanos é a angustiada luta pelo pão, pelo +tecto, pelo lume; numa casta, agitada por necessidades mais altas, +é a amargura das desilusões, o mal da +imaginação insatisfeita, o orgulho chocando contra +obstáculo; nele, que tinha os bens todos e desejos nenhuns, +era o tédio. Miséria do Corpo, tormento da Vontade, +fastio da Inteligência--eis a Vida! E agora aos trinta e +três anos a sua ocupação era bocejar, correr +com os <span class="pagenum">[151]</span>dedos desalentados a face +pendida para nela palpar e apetecer a caveira.<br> + + + +<br> + + +Foi então que o meu Príncipe começou a ler +apaixonadamente, desde o <i>Eclesiastes</i> até +Schopenhauer, todos os líricos e todos os teóricos do +Pessimismo. Nestas leituras encontrava a reconfortante +comprovação de que o seu mal não era +mesquinhamente «Jacíntico»--mas grandiosamente +resultante de uma Lei Universal. Já há quatro mil +anos, na remota Jerusalém, a Vida, mesmo nas suas +delícias mais triunfais, se resumia em Ilusão. +Já o Rei incomparável, de sapiência divina, +sumo Vencedor, sumo Edificador, se enfastiava, bocejava, entre os +despojos das suas conquistas, e os mármores novos dos seus +Templos, e as suas três mil concubinas, e as Rainhas que +subiam do fundo da Etiópia para que ele as fecundasse e no +seu ventre depusesse um Deus! Não há nada novo sob o +sol, e a eterna repetição das coisas é a +eterna repetição dos males. Quanto mais se sabe mais +se pena. E o justo como o perverso, nascidos do pó, em +pó se tornam. Tudo tende ao pó efémero, em +Jerusalém e em Paris! E ele, obscuro no 202, padecia por ser +homem e por viver--como no seu trono de ouro, entre os seus quatro +leões de ouro, o filho magnífico de David.<br> + + + +<br> + + +<span class="pagenum">[152]</span>Não se separava +então do <i>Eclesiastes</i>. E circulava por Paris trazendo +dentro do coupé Salomão, como irmão de dor, +com quem repetia o grito desolado que é a suma da verdade +humana--<i>Vanitas Vanitatum</i>! Tudo é Vaidade! Outras +vezes, logo de manhã o encontrava estendido no sofá, +num roupão de seda, absorvendo Schopenhauer--enquanto o +pedicuro, ajoelhado sobre o tapete, lhe polia com respeito e +perícia as unhas dos pés. Ao lado pousava a +chávena de Saxe, cheia desse café de Moca enviado por +emires do Deserto, que não o contentava nunca, nem pela +força, nem pelo aroma. A espaços pousava o livro no +peito, resvalava um olhar compassivo para o pedicuro, como a +procurar que dor o torturaria--pois que a todo o viver corresponde +um sofrer. Decerto o remexer assim, perpetuamente, em pés +alheios... E quando o pedicuro se erguia, Jacinto abria para ele um +sorriso de confraternidade--com um «adeus, meu amigo» + +que era «um adeus, meu irmão!»<br> + + +<br> + + +Esse foi o período esplêndido e soberbamente divertido +do seu tédio. Jacinto encontrara enfim na vida uma +ocupação grata--maldizer a Vida! E para que a pudesse +maldizer em todas as suas formas, as mais ricas, as mais +intelectuais, as mais puras, sobrecarregou <span class="pagenum">[153]</span>a sua vida própria de novo luxo, de +interesses novos de espírito, e até de fervores +humanitários, e até de curiosidades +supernaturais.<br> + + + +<br> + + +O 202, nesse Inverno, refulgiu de magnificência. Foi +então que ele iniciou em Paris, repetindo +Heliogábalo, os Festins de Cor contados na História +Augusta: e ofereceu às suas amigas esse sublime jantar +cor-de-rosa, em que tudo era róseo, as paredes, os +móveis, as luzes, as louças, os cristais, os gelados, +os Champanhes, e até (por uma invenção da +Alta-Cozinha) os peixes, e as carnes, e os legumes, que os +escudeiros serviam, empoados de pó rosado, com librés +da cor da rosa, enquanto do tecto, de um velário de seda +rosada, caíam pétalas frescas de rosas... A Cidade, +deslumbrada, clamou--«Bravo, Jacinto!» E o meu +Príncipe, ao rematar a festa fulgurante, plantou diante de +mim as mãos nas ilhargas e gritou +triunfalmente:--«Hein? Que maçada!...»<br> + + + +<br> + + +Depois foi o Humanitarismo: e fundou um Hospício no campo, +entre jardins, para velhinhos desamparados, outro para +crianças débeis à beira do Mediterrâneo. +Depois com o major Dorchas, e Mayolle, e o Hindu de Mayolle +penetrou no Teosofismo: e montou tremendas experiências para +verificar a misteriosa <span class="pagenum">[154]</span><i>exteriorização da +motilidade</i>. Depois, desesperadamente, ligou o 202 com os fios +telegráficos do <i>Times</i>, para que no seu gabinete, como +num coração, palpitasse toda a vida Social da +Europa.<br> + + + +<br> + + +E a cada um destes esforços da elegância, do +humanitarismo, da sociabilidade, e da inteligência +indagadora, voltava para mim, de braços alegres, com um +grito vitorioso:--«Vês tu, Zé Fernandes? Uma +maçada!»--Arrebatava então o seu +<i>Eclesiastes</i>, o seu Schopenhauer, e, estendido no +sofá, saboreava voluptuosamente a concordância da +Doutrina e da Experiência. Possuía uma Fé--o +Pessimismo: era um apóstolo rico e esforçado: e tudo +tentava, com sumptuosidade, para provar a verdade da sua Fé! +Muito gozou nesse ano o meu desgraçado Príncipe!<br> + + + +<br> + + +No começo do Inverno, porém, notei com +inquietação que Jacinto já não folheava +o <i>Eclesiastes</i>, desleixava Schopenhauer. Nem festas, nem +Teosofismos, nem os seus Hospícios, nem os fios do +<i>Times</i>, pareciam interessar agora o meu amigo, mesmo como +demonstrações gloriosas da sua Crença. E a sua +abominável função de novo se limitou a +bocejar, a passar os dedos moles sobre a face pendida palpando a +caveira. Incessantemente aludia à morte como a uma +libertação. Uma <span class="pagenum">[155]</span>tarde mesmo, no melancólico +crepúsculo da Biblioteca, antes de refulgirem as luzes, +consideravelmente me aterrou, falando num tom regelado de mortes +rápidas, sem dor, pelo choque de uma vasta pilha +eléctrica ou pela violência compassiva do acido +cianídrico. Diabo! O Pessimismo, que aparecera na +Inteligência do meu Príncipe como um conceito +elegante--atacara bruscamente a Vontade!<br> + + + +<br> + + +Todo o seu movimento então foi o de um boi inconsciente que +marcha sob a canga e o aguilhão. Já não +esperava da Vida contentamento--nem mesmo se lastimava que ela lhe +trouxesse tédio ou pena. «Tudo é indiferente, +Zé Fernandes!» E tão indiferentemente sairia +à sua janela para receber uma Coroa Imperial oferecida por +um Povo--como se estenderia numa poltrona rota para emudecer e +jazer. Sendo tudo inútil, e não conduzindo +senão a maior desilusão, que podia importar a mais +rutilante actividade ou a mais desgostada inércia? O seu +gesto constante, que me irritava, era encolher os ombros. Perante +duas ideias, dois caminhos, dois pratos, encolhia os ombros! Que +importava?... E no mínimo acto, raspar um fósforo ou +desdobrar um Jornal, punha uma morosidade tão desconsolada +que todo ele parecia ligado, desde os dedos até à + +alma, <span class="pagenum">[156]</span>pelas voltas apertadas de +uma corda que se não via e que o travava.<br> + + +<br> + + +<br> + + +<div class="break"> +<hr></div> + + +<br> + + +<br> + + +Muito desagradavelmente me recordo do dia dos seus anos, a 10 de +Janeiro. Cedo, de manhã, recebera, com uma carta de Madame +de Trèves, um açafate de camélias, +azáleas, orquídeas e lírios do vale. E foi +este mimo que lhe recordou a data considerável. Soprou sobre +as pétalas o fumo do cigarro e murmurou com um riso de lento +escárnio:<br> + + + +<br> + + +--Então, há trinta e quatro anos que eu ando nesta +maçada?<br> + + +<br> + + +E como eu propunha que telefonássemos aos amigos para +beberem no 202 o Champanhe do «Natalício»--ele +recusou, com o nariz enojado. Oh! Não! Que horrível +seca!... E bradou mesmo para o Grilo:<br> + + +<br> + + + +--Eu hoje não estou em Paris para ninguém. Abalei +para o campo, abalei para Marselha... Morri!<br> + + +<br> + + +E a sua ironia não cessou até ao almoço +perante os bilhetes, os telegramas, as cartas, que subiam, se +arredondavam em colina sobre a mesa de ébano, como um preito +da Cidade. Outras flores que vieram, em vistosos cestos, com +vistosos laços, foram por ele comparadas às que se +depõe sobre uma tumba. <span class="pagenum">[157]</span>E +apenas se interessou um momento pelo presente de Efraim, uma +engenhosa mesa, que se abaixava até ao tapete ou se alteava +até ao tecto--para quê, senhor Deus meu?<br> + + + +<br> + + +Depois do almoço, como chovia sombriamente, não +arredámos do 202, com os pés estendidos ao lume, em +preguiçoso silêncio. Eu terminara por adormecer +beatificamente. Acordei aos passos açodados do Grilo... +Jacinto, enterrado na poltrona, com umas tesouras, recortava um +papel! E nunca eu me compadeci daquele amigo, que cansara a +mocidade a acumular todas as noções formuladas desde +Aristóteles e a juntar todos os inventos realizados desde +Tharamenes, como nessa tarde de festa, em que ele, cercado de +Civilização nas máximas +proporções para gozar nas máximas +proporções a delícia de viver, se encontrava +reduzido, junto ao seu lar, a recortar papéis com uma +tesoura!<br> + + + +<br> + + +O Grilo trazia um presente do Grão-Duque--uma caixa de +prata, forrada de cedro, e cheia de um chá precioso, +colhido, flor a flor, nas veigas de Kiang-Sou por mãos puras +de virgens, e conduzido através da Ásia, em +caravanas, com a veneração de uma relíquia. +Então, para despertar o nosso torpor, lembrei que +tomássemos o divino chá--ocupação bem +harmónica com a tarde triste, a chuva <span class="pagenum">[158]</span>grossa alagando os vidros, e a clara chama +bailando no fogão. Jacinto acedeu--e um escudeiro acercou +logo a mesa de Efraim para que nós lhe estreássemos +os serviços destros. Mas o meu Príncipe, depois de a +altear, para meu espanto, até aos cristais do lustre, +não conseguiu, apesar de uma suada e desesperada batalha com +as molas, que a mesa regressasse a uma altura humana e caseira. E o +escudeiro de novo a levou, levantada como um andaime, +quimérica, unicamente aproveitável para o gigante +Adamastor. Depois veio a caixa do chá entre chaleiras, +lâmpadas, coadores, filtros, todo um fausto de alfaias de +prata, que comunicavam a essa ocupação, tão +simples e doce em casa de minha tia, <i>fazer chá</i>, a +majestade de um rito. Prevenido pelo meu camarada da sublimidade +daquele chá de Kiang-Sou, ergui a chávena aos +lábios com reverência. Era uma infusão +descorada que sabia a malva e a formiga. Jacinto provou, cuspiu, +blasfemou... Não tomámos chá.<br> + + + +<br> + + +Ao cabo doutro pensativo silêncio, murmurei, com os olhos +perdidos no lume:<br> + + +<br> + + +--E as obras de Tormes? A igreja... Já haverá igreja +nova?<br> + + +<br> + + +Jacinto retomara o papel e a tesoura:<br> + + +<br> + + +--Não sei... Não tornei a receber carta do + +<span class="pagenum">[159]</span>Silvério... Nem imagino +onde param os ossos... Que lúgubre história!<br> + + +<br> + + +Depois chegou a hora das luzes e do jantar. Eu encomendara pelo +Grilo ao nosso magistral cozinheiro uma larga travessa de arroz +doce, com as iniciais de Jacinto e a data ditosa em canela, +à moda amável da nossa meiga terra. E o meu +Príncipe à mesa, percorrendo a lâmina de marfim +onde no 202 se inscreviam os pratos a lápis vermelho, louvou +com fervor a ideia patriarcal:<br> + + + +<br> + + +--Arroz doce! Está escrito com dois <i>ss</i>, mas +não tem dúvida... Excelente lembrança! +Há que tempos não como arroz doce!... Desde a morte +da avó.<br> + + +<br> + + +Mas quando o arroz doce apareceu triunfalmente, que vexame! Era um +prato monumental, de grande arte! O arroz, maciço, moldado +em forma de pirâmide do Egipto, emergia de uma calda de +cereja, e desaparecia sob os frutos secos que o revestiam +até ao cimo, onde se equilibrava uma coroa de Conde feita de +chocolate e gomos de tangerina gelada! E as iniciais, a data, +tão lindas e graves na canela ingénua, vinham +traçadas nas bordas da travessa com violetas pralinadas! +Repelimos, num mudo horror, o prato acanalhado. E Jacinto, erguendo +o copo de Champanhe, murmurou como num funeral pagão:<br> + + + +<br> + + +<span class="pagenum">[160]</span>--<i>Ad Manes</i>, aos nossos +mortos!<br> + + +<br> + + +Recolhemos à Biblioteca, a tomar o café no conchego e +alegria do lume. Fora, o vento bramava como num ermo serrano: e as +vidraças tremiam, alagadas, sob as bátegas da chuva +irada. Que dolorosa noite para os dez mil pobres que em Paris erram +sem pão e sem lar! Na minha aldeia, entre cerro e vale, +talvez assim rugisse a tormenta. Mas aí cada pobre, sob o +abrigo da sua telha vã, com a sua panela atestada de couves, +se agacha no seu mantéu ao calor da lareira. E para os que +não tenham lenha ou couve, lá está o +João das Quintas, ou a tia Vicência, ou o abade, que +conhecem todos os pobres pelos seus nomes, e com eles contam, como +sendo dos seus, quando o carro vai ao mato e a fornada entra no +forno. Ah Portugal pequenino, que ainda és doce aos +pequeninos!<br> + + + +<br> + + +Suspirei, Jacinto preguiçava. E terminámos por +remexer languidamente os jornais que o mordomo trouxera, num monte +facundo, sobre uma salva de prata--jornais de Paris, jornais de +Londres, Semanários, Magazines, Revistas, +Ilustrações... Jacinto desdobrava, arremessava: das +Revistas espreitava o sumário, logo farto; às +Ilustrações rasgava as folhas com o dedo indiferente, +bocejando <span class="pagenum">[161]</span>por cima das gravuras. +Depois, mais estirado para o lume:<br> + + +<br> + + +--É uma seca... Não há que ler.<br> + + + +<br> + + +E de repente, revoltado contra este fastio opressor que o +escravizava, saltou da poltrona com um arranque de quem +despedaça algemas, e ficou erecto, dardejando em torno um +olhar imperativo e duro, como se intimasse aquele seu 202, +tão abarrotado de Civilização, a que por um +momento sequer fornecesse à sua alma um interesse vivo, +à sua vida um fugitivo gosto! Mas o 202 permaneceu +insensível: nem uma luz, para o animar, avivou o seu brilho +mudo: só as vidraças tremeram sob o embate mais rude +de água e vento.<br> + + +<br> + + +Então o meu Príncipe, sucumbido, arrastou os passos +até ao seu gabinete, começou a percorrer todos os +aparelhos completadores e facilitadores da Vida--o seu +Telégrafo, o seu Telefone, o seu Fonógrafo, o seu +Radiómetro, o seu Grafófono, o seu Microfone, a sua +Máquina de Escrever, a sua Máquina de Contar, a sua +Imprensa Eléctrica, a outra Magnética, todos os seus +utensílios, todos os seus tubos, todos os seus fios... Assim +um Suplicante percorre altares donde espera socorro. E toda a sua +sumptuosa Mecânica <span class="pagenum">[162]</span>se +conservou rígida, reluzindo frigidamente, sem que uma roda +girasse, nem uma lâmina vibrasse, para entreter o seu +Senhor.<br> + + + +<br> + + +Só o relógio monumental, que marcava a hora de todas +as capitais e o curso de todos os planetas, se compadeceu, batendo +a meia-noite, anunciando ao meu amigo que mais um Dia partira +levando o seu peso--diminuindo esse sombrio peso da Vida, sob que +ele gemia, vergado. O Príncipe da Grã-Ventura, +então, decidiu recolher para a cama--com um livro... E +durante um momento, estacou no meio da Biblioteca, considerando os +seus setenta mil volumes estabelecidos com pompa e majestade como +Doutores num Concílio--depois as pilhas tumultuárias +dos livros novos que esperavam pelos cantos, sobre o tapete, o +repouso e a consagração das estantes de ébano. +Torcendo molemente o bigode caminhou por fim para a região +dos Historiadores: espreitou séculos, farejou raças: +pareceu atraído pelo esplendor do Império Bizantino: +penetrou na Revolução Francesa donde se arredou +desencantado: e palpou com mão indeliberada toda a vasta +Grécia desde a criação de Atenas até a +aniquilação de Corinto. Mas bruscamente virou para a +fila dos Poetas, <span class="pagenum">[163]</span>que reluziam em +marroquins claros, mostrando, sobre a lombada, em ouro, nos +títulos fortes ou lânguidos, o interior das suas +almas. Não apeteceu nenhuma dessas seis mil almas--e recuou, +desconsolado, até aos Biólogos... Tão +maciça e cerrada era a estante de Biologia que o meu pobre +Jacinto estarreceu, como ante uma cidadela inacessível! +Rolou a escada--e, fugindo, trepou, até às alturas da +Astronomia: destacou astros, recolocou mundos: todo um Sistema +Solar desabou com fragor. Aturdido, desceu, começou a +procurar por sobre as rimas das obras novas, ainda brochadas, nas +suas roupas leves de combate. Apanhava, folheava, arremessava: para +desentulhar um volume, demolia uma torre de doutrinas: saltava por +cima dos Problemas, pisava as Religiões: e relanceando uma +linha, esgravatando além num índice, todos +interrogava, de todos se desinteressava, rolando quase de rastos, +nas grossas vagas de tomos que rolavam, sem se poder deter, na + +ânsia de encontrar um Livro! Parou então no meio da +imensa nave, de cócoras, sem coragem, contemplando aqueles +muros todos forrados, aquele chão todo alastrado, os seus +setenta mil volumes--e, sem lhes provar a substância, +já absolutamente saciado, abarrotado, nauseado <span class="pagenum">[164]</span>pela opressão da sua abundância. +Findou por voltar ao montão de jornais amarrotados, ergueu +melancolicamente um velho <i>Diário de Notícias</i>, +e com ele debaixo do braço subiu ao seu quarto, para dormir, +para esquecer.<br> + + + +<br> + + +<br> + + +<br> + + +<h2>VIII</h2> + + +<br> + + +<br> + + +Ao fim desse Inverno escuro e pessimista, uma manhã que eu +preguiçava na cama, sentindo através da +vidraça cheia de sol ainda pálido um bafo de +Primavera ainda tímido--Jacinto assomou à porta do +meu quarto, revestido de flanelas leves, de uma alvura de +açucena. Parou lentamente à beira dos +colchões, e, com gravidade, como se anunciasse o seu +casamento ou a sua morte, deixou desabar sobre mim esta +declaração formidável:<br> + + + +<br> + + +--Zé Fernandes, vou partir para Tormes.<br> + + +<br> + + +O pulo com que me sentei abalou o rijo leito de pau preto do velho +D. Galeão:<br> + + +<br> + + +--Para Tormes? Oh Jacinto, quem assassinaste?...<br> + + +<br> + + +Deleitado com a minha emoção, o Príncipe da +Grã-Ventura tirou da algibeira uma carta, e encetou estas +linhas, já decerto relidas, fundamente estudadas:<br> + + + +<span class="pagenum">[166]</span>--«Il.<sup>mo</sup> e +Exc.<sup>mo</sup> sr.--Tenho grande satisfação em +comunicar a V. Exc.ª que por toda esta semana devem ficar +prontas as obras da capela...»<br> + + +<br> + + +--É do Silvério? exclamei.<br> + + + +<br> + + +--É do Silvério. «...as obras da capela nova. +Os venerandos restos dos excelsos avós de V. Exc.ª, +senhores de todo o meu respeito, podem pois ser em breve +trasladados da igreja de S. José, onde têm estado +depositados por bondade do nosso Abade, que muito se recomenda a V. +Exc.ª... Submisso, aguardo as prestantes ordens de V. +Exc.ª a respeito desta majestosa e aflitiva +cerimónia...»<br> + + +<br> + + +Atirei os braços, compreendendo:<br> + + + +<br> + + +--Ah! bem! Queres ir assistir à +trasladação...<br> + + +<br> + + +Jacinto sumiu a carta no bolso.<br> + + +<br> + + +--Pois não te parece, Zé Fernandes? Não +é por causa dos outros avós, que são ossos +vagos, e que eu não conheci. É por causa do avô + +Galeão... Também não o conheci. Mas este 202 +está cheio dele; tu estás deitado na cama dele; eu +ainda uso o relógio dele. Não posso abandonar ao +Silvério e aos caseiros o cuidado de o instalarem no seu +jazigo novo. Há aqui um escrúpulo de decência, +de elegância moral... Enfim, decidi. Apertei os <span class="pagenum">[167]</span>punhos na cabeça, e gritei--<i>vou a +Tormes</i>! E vou!... E tu vens!<br> + + + +<br> + + +Eu enfiara as chinelas, apertava os cordões do +roupão:<br> + + +<br> + + +--Mas tu sabes, meu bom Jacinto, que a casa de Tormes está +inabitável...<br> + + +<br> + + +Ele cravou em mim os olhos aterrados.<br> + + +<br> + + +--Medonha, hein?<br> + + + +<br> + + +--Medonha, medonha, não... É uma bela casa, de bela +pedra. Mas os caseiros, que lá vivem há trinta anos, +dormem em catres, comem o caldo à lareira, e usam as salas +para secar o milho. Creio que os únicos móveis de +Tormes, se bem recordo, são um armário, e uma +espineta de charão, coxa, já sem teclas.<br> + + + +<br> + + +O meu pobre Príncipe suspirou, com um gesto rendido em que +se abandonava ao Destino:<br> + + +<br> + + +--Acabou!... <i>Alea jacta est!</i> E como só partimos para +Abril, há tempo de pintar, de assoalhar, de +envidraçar... Mando daqui de Paris tapetes e camas... Um +estofador de Lisboa vai depois forrar e disfarçar algum +buraco... Levamos livros, uma Máquina para fabricar gelo... +E é mesmo uma ocasião de pôr enfim numa das +minhas casas de Portugal alguma decência e ordem. Pois +não achas? <span class="pagenum">[168]</span>E então +essa! Uma casa que data de 1410... Ainda existia o Império +Bizantino!<br> + + + +<br> + + +Eu espalhava, com o pincel, sobre a face, flocos lentos de +sabão. O meu Príncipe acendeu muito pensativamente um +cigarro; e não se arredou do toucador, considerando o meu +preparo com uma atenção triste que me incomodava. Por +fim, como se remoesse uma sentença minha, para lhe reter bem +a moral e o suco:<br> + + +<br> + + +--Então, definitivamente, Zé Fernandes, entendes que +é um dever, um absoluto dever, ir eu a Tormes?<br> + + +<br> + + + +Afastei do espelho a cara ensaboada para encarar com divertido +espanto o meu Príncipe:<br> + + +<br> + + +--Oh Jacinto! foi em ti, só em ti que nasceu a ideia desse +dever! E honra te seja, menino... Não cedas a ninguém +essa honra!<br> + + +<br> + + +Ele atirou o cigarro--e, com as mãos enterradas nas +algibeiras das pantalonas, vagou pelo quarto, topando nas cadeiras, +embicando contra os postes torneados do velho leito de D. +Galeão, num balanço vago, como barco já +desamarrado do seu seguro ancoradouro, e sem rumo no mar incerto. +Depois encalhou sobre a mesa onde eu conservava enfileirada, por +gradações de sentimentos, desde o +daguerreótipo <span class="pagenum">[169]</span>do +papá até à fotografia do <i>Carocho</i> + +perdigueiro, a galeria da minha Família.<br> + + +<br> + + +E nunca o meu Príncipe (que eu contemplava esticando os +suspensórios) me pareceu tão corcovado, tão +minguado, como gasto por uma lima que desde muito o andasse +fundamente limando. Assim viera findar, desfeita em +Civilização, naquele super-requintado magricelas sem +músculo e sem energia, a raça fortíssima dos +Jacintos! Esses guedelhudos Jacintões, que nas suas altas +terras de Tormes, de volta de bater o moiro no Salado ou o +castelhano em Valverde, nem mesmo despiam as fuscas armaduras para +lavrar as suas chãs e amarrar a vide ao olmo, edificando o +Reino com a lança e com a enxada, ambas tão rudes e +rijas! E agora, ali estava aquele último Jacinto, um +Jacintículo, com a macia pele embebida em aromas, a curta +alma enrodilhada em Filosofias, travado e suspirando baixinho na +miúda indecisão de viver.<br> + + + +<br> + + +--Oh Zé Fernandes, quem é esta lavradeirona +tão rechonchuda?<br> + + +<br> + + +Estendi o pescoço para a Fotografia que ele erguera dentre a +minha galeria, no seu honroso caixilho de pelúcia +escarlate:<br> + + +<br> + + +--Mais respeito, Sr. D. Jacinto... Um pouco mais de respeito, +cavalheiro!... É minha <span class="pagenum">[170]</span>prima Joaninha, de Sandofim, da Casa da Flor +da Malva.<br> + + + +<br> + + +--Flor da Malva, murmurou o meu Príncipe. É a casa do +Condestável, de Nun'Álvares.<br> + + +<br> + + +--Flor da Rosa, homem! A casa do Condestável era na Flor da +Rosa, no Alentejo... Essa tua ignorância trapalhona das +coisas de Portugal!<br> + + +<br> + + +O meu Príncipe deixou escorregar molemente a fotografia da +minha prima dentre os dedos moles--que levou à face, no seu +gesto horrendo de palpar através da face a caveira. Depois, +de repente, com um soberbo esforço, em que se endireitou e +cresceu:<br> + + + +<br> + + +--Bem! <i>Alea jacta est!</i> Partamos pois para as serras!... E +agora nem reflexão, nem descanso!... À obra! E a +caminho!<br> + + +<br> + + +Atirou a mão ao fecho dourado da porta como se fosse o negro +loquete que abre os Destinos--e no corredor gritou pelo Grilo, com +uma larga e açodada voz que eu nunca lhe conhecera, e me +lembrou a de um Chefe ordenando, na alvorada, que se levante o +Acampamento, e que a Hoste marche, com pendões e +bagagens...<br> + + +<br> + + +Logo nessa manhã (com uma actividade em que eu reconheci a +pressa enjoada de quem bebe óleo de rícino), escreveu +ao Silvério mandando caiar, assoalhar, envidraçar o + +<span class="pagenum">[171]</span>casarão. E depois do +almoço apareceu na Biblioteca, chamado violentamente pelo +telefone, para combinar a remessa de mobílias e confortos, o +director da <i>Companhia Universal de Transportes</i>.<br> + + +<br> + + +Era um homem que parecia o cartaz da sua Companhia, apertado num +jaquetão de xadrezinho escuro, com polainas de jornada sobre +botas brancas, uma sacola de marroquim a tiracolo, e na botoeira +uma roseta multicor resumindo as suas condecorações +exóticas de Madagáscar, de Nicarágua, da +Pérsia, outras ainda, que provavam a universalidade dos seus +serviços. Apenas Jacinto mencionou «Tormes, no +Douro...»--ele logo, através de um sorriso superior, +estendeu o braço, detendo outros esclarecimentos, na sua +intimidade minuciosa com essas regiões.<br> + + + +<br> + + +--Tormes... Perfeitamente! Perfeitamente!<br> + + +<br> + + +Sobre o joelho, na carteira, escrevinhou uma fugidia nota--enquanto +eu considerava, assombrado, a vastidão do seu saber +Corográfico, assim familiar com os recantos de uma serra de +Portugal e com todos os seus velhos solares. Já ele atirara +a carteira para o bolso... E «nós, seus caros +senhores, não tínhamos senão a encaixotar as +roupas, as mobílias, as preciosidades! Ele mandaria as suas +carroças buscar os caixotes, a que <span class="pagenum">[172]</span>poria, em grossa letra, com grossa tinta, o +endereço...»<br> + + + +<br> + + +--Tormes, perfeitamente! Linha Norte-Espanha-Medina-Salamanca... +Perfeitamente! Tormes... Muito pitoresco! E antigo, +histórico! Perfeitamente, perfeitamente!<br> + + +<br> + + +Desengonçou a cabeça numa vénia +profundíssima--e saiu da Biblioteca, com passos que +devoravam léguas, anunciavam a presteza dos seus +Transportes.<br> + + +<br> + + +--Vê tu, murmurou Jacinto muito sério. Que +prontidão, que facilidade!... Em Portugal era uma +tragédia. Não há senão Paris!<br> + + + +<br> + + +Começou então no 202 o colossal encaixotamento de +todos os confortos necessários ao meu Príncipe para +um mês de serra áspera--camas de pena, banheiras de +níquel, lâmpadas Carcel, divãs profundos, +cortinas para vedar as gretas rudes, tapetes para amaciar os +soalhos broncos. Os sótãos, onde se arrecadavam os +pesados trastes do avô Galeão, foram +esvaziados--porque o casarão medieval de 1410 comportava os +tremós românticos de 1830. De todos os armazéns +de Paris chegavam cada manhã fardos, caixas, temerosos +embrulhos que os emaladores desfaziam, atulhando os corredores de +montes de palha e de papel pardo, onde os nossos passos +açodados se enrodilhavam. O cozinheiro, esbaforido, + +<span class="pagenum">[173]</span>organizava a remessa de +fornalhas, geleiras, bocais de trufas, latas de conservas, bojudas +garrafas de águas minerais. Jacinto, lembrando as trovoadas +da serra, comprou um imenso pára-raios. Desde o amanhecer, +nos pátios, no jardim, se martelava, se pregava, com vasto +fragor, como na construção de uma cidade. E o +desfilar das bagagens, através do portão, lembrava +uma página de Heródoto contando a marcha dos +Persas.<br> + + +<br> + + +Das janelas, Jacinto com o braço estendido, saboreava aquela +actividade e aquela disciplina:<br> + + +<br> + + +--Vê tu, Zé Fernandes, que facilidade!... +Saímos do 202, chegamos à serra, encontramos o 202. +Não há senão Paris!<br> + + + +<br> + + +Recomeçara a amar a Cidade, o meu Príncipe, enquanto +preparava o seu Êxodo. Depois de ter, toda a manhã, +apressado os encaixotadores, descortinado confortos novos para o +abandonado solar, telefonado gordas listas de encomendas a cada +loja de Paris--era com delícia que se vestia, se perfumava, +se floria, se enterrava na vitória ou saltava para a +almofada do faéton, e corria ao Bosque, e saudava a barba +talmúdica do Efraim, e os bandós furiosamente negros +da Verghane, e o Psicólogo de fiacre, e a <span class="pagenum">[174]</span>condessa de Trèves na sua nova caleche +de oito molas fornecida pelas operações conjuntas da +Bolsa e da alcova. Depois arrebanhava amigos para jantares de +surpresa no Voisin ou no Bignon, onde desdobrava o guardanapo com a +impaciência de uma fome alegre, vigiando fervorosamente que +os Bordéus estivessem bem aquecidos e os Champanhes bem +granitados. E no teatro das <i>Nouveautés</i>, no <i>Palais +Royal</i>, nos <i>Buffos</i>, ria, batendo na coxa, com encanecidas +facécias de encanecidas farsas, antiquíssimos +trejeitos de antiquíssimos actores, com que já rira +na sua infância, antes da guerra, sob o segundo +Napoleão!<br> + + + +<br> + + +De novo, em duas semanas, se abarrotaram as páginas da sua +Agenda. A magnificência do seu traje, como imperador +Frederico II de Suábia, deslumbrou, no baile mascarado da +Princesa de Cravon-Rogan (onde também fui, de +«moço de forcado».) E na +<i>Associação para o Desenvolvimento das +Religiões Esotéricas</i> discursou e batalhou +bravamente pela construção de um Templo Budista em +Montmartre!<br> + + + +<br> + + +Com espanto meu recomeçou também a conversar, como +nos tempos de Escola, da «famosa Civilização +nas suas máximas proporções.» Mandou +encaixotar o seu velho telescópio para o usar em Tormes. +Receei mesmo que no seu espírito germinasse a ideia de +<span class="pagenum">[175]</span>criar, no cimo da serra, uma +Cidade com todos os seus órgãos. Pelo menos +não consentia o meu Jacinto que essas semanas da silvestre +Tormes interrompessem a ilimitada acumulação das +noções--porque uma manhã rompeu pelo meu +quarto, desolado, gritando que entre tantos confortos e formas de +Civilização esquecêramos os livros! Assim +era--e que vexame para a nossa Intelectualidade! Mas que livros +escolher entre os facundos milhares sob que vergava o 202? O meu +Príncipe decidiu logo dedicar os seus dias serranos ao +estudo da História Natural--e nós mesmos, +imediatamente, deitámos para o fundo de um vasto caixote +novo, como lastro, os vinte e cinco tomos de Plínio. +Despejámos depois para dentro, às braçadas, +Geologia, Mineralogia, Botânica... Espalhámos por cima +uma camada aérea de Astronomia. E, para fixar bem no caixote +estas Ciências oscilantes, entalámos em redor cunhas +de Metafísica.<br> + + + +<br> + + +Mas quando a derradeira caixa, pregada e cintada de ferro, saiu do +portão do 202 na derradeira carroça da <i>Companhia +dos Transportes</i>, toda esta animação de Jacinto se +abateu como a efervescência num copo de Champanhe. Era em +meados já tépidos de Março. E de novo os seus +desagradáveis bocejos atroaram <span class="pagenum">[176]</span>o 202, e todos os sofás rangeram sob o +peso do corpo que ele lhe atirava para cima, mortalmente vencido +pela fartura e pelo tédio, num desejo de repouso eterno, bem +envolto de solidão e silêncio. Desesperei. O +quê! Aturaria eu ainda aquele Príncipe palpando +amargamente a caveira, e, quando o crepúsculo entristecia a +Biblioteca, aludindo, num tom rouco, à doçura das +mortes rápidas pela violência misericordiosa do acido +cianídrico? Ah não, caramba! E uma tarde em que o +encontrei estirado sobre um divã, de braços em cruz, +como se fosse a sua estátua de mármore sobre o seu +jazigo de granito, positivamente o abanei com furor, berrando:<br> + + + +<br> + + +--Acorda, homem! Vamos para Tormes! O casarão deve estar +pronto, a reluzir, a abarrotar de coisas! Os ossos de teus +avós pedem repouso, em cova sua!... A caminho, a enterrar +esses mortos, e a vivermos nós, os vivos!... Irra! +São cinco de Abril!... É o bom tempo da serra!<br> + + +<br> + + +O meu Príncipe ressurgiu lentamente da inércia de +pedra:<br> + + +<br> + + +--O Silvério não me escreveu, nunca me escreveu... +Mas, com efeito, deve estar tudo preparado... Já lá + +temos certamente criados, o cozinheiro de Lisboa... Eu só +levo o Grilo, e o Anatole que enverniza bem o calçado, e +<span class="pagenum">[177]</span>tem jeito como pedicuro... Hoje +é Domingo.<br> + + +<br> + + +Atirou os pés para o tapete, com heroísmo:<br> + + +<br> + + +--Bem, partimos no Sábado!... Avisa tu o +Silvério!<br> + + + +<br> + + +Começou então o laborioso e pensativo estudo dos +Horários--e o dedo magro de Jacinto, por sobre o mapa, +avançando e recuando entre Paris e Tormes. Para escolher o +«salão» que devíamos habitar durante a +temida jornada, duas vezes percorremos o depósito da +Estação de Orléans, atolados em lama, +atrás do Chefe do Tráfico que entontecia. O meu +Príncipe recusava este salão por causa da cor +tristonha dos estofos; depois recusava aquele por causa da +mesquinhez aflitiva do Water-Closet! Uma das suas +inquietações era o banho, nas manhãs que +passaríamos rolando. Sugeri uma banheira de borracha. +Jacinto, indeciso, suspirava... Mas nada o aterrou como o +transbordo em Medina del Campo, de noite, nas trevas da Velha +Castela. Debalde a Companhia do Norte de Espanha e a de Salamanca, +por cartas, por telegramas, sossegaram o meu camarada, afirmando +que, quando ele chegasse no comboio de Irun dentro do seu +salão, já outro salão ligado ao comboio de +Portugal esperaria, bem aquecido, bem alumiado, com uma ceia que +lhe ofertava um dos Directores, D. Esteban Castillo, ruidoso + +<span class="pagenum">[178]</span>e rubicundo conviva do 202! +Jacinto corria os dedos ansiosos pela face:--«E os sacos, as +peles, os livros, quem os transportaria do salão de Irun +para o salão de Salamanca?» Eu berrava, desesperado, +que os carregadores de Medina eram os mais rápidos, os mais +destros de toda a Europa! Ele murmurava:--«Pois sim, mas em +Espanha, de noite!...» A noite, longe da Cidade, sem +telefone, sem luz eléctrica, sem postos de polícia, +parecia ao meu Príncipe povoada de surpresas e assaltos. +Só acalmou depois de verificar no Observatório +Astronómico, sob a garantia do sábio professor +Bertrand, que a noite da nossa jornada era de lua cheia!<br> + + + +<br> + + +Enfim, na sexta-feira, findou a tremenda organização +daquela viagem histórica! O sábado predestinado +amanheceu com generoso sol, de afagadora doçura. E eu +acabava de guardar na mala, embrulhadas em papel pardo, as +fotografias das criaturinhas suaves que, nesses vinte e sete meses +de Paris, me tinham chamado «<i>mon petit chou! mon rat +cheri!</i>»--quando Jacinto rompeu pelo quarto, com um +soberbo ramo de orquídeas na sobrecasaca, pálido e +todo nervoso.<br> + + +<br> + + +--Vamos ao Bosque, por despedida?<br> + + +<br> + + +Fomos--à grande despedida! E que encanto! Até nas +almofadas e molas da vitória <span class="pagenum">[179]</span>senti logo uma elasticidade mais embaladora. +Depois, pela Avenida do Bosque, quase me pesava não ficar +sempiternamente rolando, ao trote rimado das éguas +perfeitas, no rebrilho rico de metais e vernizes, sobre aquele +macadame mais alisado que mármore, entre tão bem +regadas flores e relvas de tão tentadora frescura, cruzando +uma Humanidade fina, de elegância bem acabada, que +almoçara o seu chocolate em porcelanas de Sèvres ou +de Minton, saíra de entre sedas e tapetes de três mil +francos, e respirava a beleza de Abril com vagar, requinte e +pensamentos ligeiros! O Bosque resplandecia numa harmonia de verde, +azul e ouro. Nenhuma cova ou terra solta desalisava as polidas + +áleas que a Arte traçou e enroscou na +espessura--nenhum esgalho desgrenhado desmanchava as +ondulações macias da folhagem que o Estado escova e +lava. O piar das aves apenas se elevava para espalhar uma +graça leve de vida alada;--e mais natural parecia, entre o +arvoredo sociável, o ranger das selas novas, onde pousavam, +com balanço esbelto, as amazonas espartilhadas pelo grande +Redfern. Em frente ao Pavilhão de Armenonville +cruzámos Madame de Trèves, que nos envolveu ambos na +carícia do seu sorriso, mais avivado àquela hora pelo +vermelhão ainda húmido. Logo atrás +<span class="pagenum">[180]</span>a barba talmúdica de +Efraim negrejou, fresca também da brilhantina da +manhã, no alto de um faéton tilintante. Outros amigos +de Jacinto circulavam nas Acácias--e as mãos que lhe +acenavam, lentas e afáveis, calçavam luvas frescas +cor de palha, cor de pérola, cor de lilás. Todelle +relampejou rente de nós sobre uma grande bicicleta. Dornan, +alastrado numa cadeira de ferro, sob um espinheiro em flor, mamava +o seu imenso charuto, como perdido na busca de rimas sensuais e +nédias. Adiante foi o Psicólogo, que nos não +avistou, conversando com um requebro melancólico para dentro +de um coupé que rescendia a alcova, e a que um cocheiro +obeso imprimia dignidade e decência. E rolávamos +ainda, quando o Duque de Marizac, a cavalo, ergueu a bengala, +estacou a nossa vitória para perguntar a Jacinto se aparecia + +à noite nos «quadros vivos» dos Verghanes. O meu +Príncipe rosnou um--«não, parto para o +sul...»--que mal lhe passou de entre os bigodes murchos... E +Marizac lamentou--porque era uma festa estupenda. Quadros vivos da +História Sagrada e da História Romana!... Madame +Verghane, de Madalena, de braços nus, peitos nus, pernas +nuas, limpando com os cabelos os pés do Cristo!--O Cristo, +um latagão soberbo, parente dos Trèves, empregado no +<span class="pagenum">[181]</span>Ministério da Guerra, +gemendo, derreado, sob uma cruz de papelão! Havia +também Lucrécia na cama, e Tarquínio ao lado, +de punhal, a puxar os lençóis! E depois ceia, em +mesas soltas, todos nos seus trajes históricos. Ele +já estava aparceirado com Madame de Malbe, que era Agripina! +Quadro portentoso esse--Agripina morta, quando Nero a vem +contemplar e lhe estuda as formas, admirando umas, desdenhando +outras como imperfeitas. Mas, por polidez, ficara combinado que +Nero admiraria sem reserva todas as formas de Madame de Malbe... +Enfim colossal, e estupendamente instrutivo!<br> + + + +<br> + + +Acenámos um longo adeus àquele alegre Marizac. E +recolhemos sem que Jacinto emergisse do silêncio enrugado em +que se abismara, com os braços rigidamente cruzados, como +remoendo pensamentos decisivos e fortes. Depois, em frente ao Arco +de Triunfo, moveu a cabeça, murmurou:<br> + + +<br> + + +--É muito grave, deixar a Europa!<br> + + +<br> + + +<br> + + +<div class="break"> +<hr></div> + + + +<br> + + +<br> + + +Enfim, partimos! Sob a doçura do crepúsculo que se +enublara deixámos o 202. O Grilo e o Anatole seguiam num +fiacre atulhado de livros, de estojos, de paletós, de +impermeáveis, de travesseiras, de águas minerais, +<span class="pagenum">[182]</span>de sacos de couro, de rolos de +mantas: e mais atrás um ónibus rangia sob a carga de +vinte e três malas. Na Estação, Jacinto ainda +comprou todos os Jornais, todas as Ilustrações, +Horários, mais livros, e um saca-rolhas de forma complicada +e hostil. Guiados pelo Chefe do Tráfico, pelo +Secretário da Companhia, ocupámos copiosamente o +nosso salão. Eu pus o meu boné de seda, calcei as +minhas chinelas. Um silvo varou a noite. Paris lampejou, fugiu num +derradeiro clarão de janelas... Para o sorver, Jacinto ainda +se arremessou à portinhola. Mas rolávamos já + +na treva da Província. O meu Príncipe então +recaiu nas almofadas:<br> + + +<br> + + +--Que aventura, Zé Fernandes!<br> + + +<br> + + +Até Chartres, em silêncio, folheámos as +Ilustrações. Em Orléans, o guarda veio +arranjar respeitosamente as nossas camas. Derreado com aqueles +catorze meses de Civilização adormeci--e só + +acordei em Bordéus quando Grilo, zeloso, nos trouxe o nosso +chocolate. Fora, uma chuva miudinha pingava molemente de um espesso +céu de algodão sujo. Jacinto não se deitara, +desconfiado da aspereza e da humidade dos lençóis. E, +metido num roupão de flanela branco, com a face arrepiada e +estremunhada, ensopando um bolo no chocolate, rosnava +sombriamente:<br> + + +<br> + + +<span class="pagenum">[184]</span>--Este horror!... E agora com +chuva!<br> + + +<br> + + +Em Biarritz, ambos observámos com uma certeza indolente:<br> + + +<br> + + + +--É Biarritz.<br> + + +<br> + + +Depois Jacinto, que espreitava pela janela embaciada, reconheceu o +lento caminhar pernalto, o nariz bicudo e triste, do Historiador +Danjon. Era ele, o facundo homem, vestido de xadrezinho, ao lado de +uma dama roliça que levava pela trela uma cadelinha felpuda. +Jacinto baixou a vidraça violentamente, berrou pelo +Historiador, na ânsia de comunicar ainda, através +dele, com a Cidade, com o 202!... Mas o comboio mergulhara na chuva +e névoa.<br> + + +<br> + + +Sobre a ponte do Bidassoa, antevendo o termo da vida fácil, +os abrolhos da Incivilização, Jacinto suspirou com +desalento:<br> + + + +<br> + + +--Agora adeus, começa a Espanha!...<br> + + +<br> + + +Indignado, eu, que já saboreava o generoso ar da terra +bendita, saltei para diante do meu Príncipe, e num +saracoteio de tremendo salero, castanholando os dedos, entoei uma +«petenera» condigna:<br> + + +<br> + + +<div class="break">A la puerta de mi casa<br> + + +Ay Soledad, Soleda... á... á... á.</div> + + + +<br> + + +Ele estendeu os braços, suplicante:<br> + + +<br> + + +<span class="pagenum">[184]</span>--Zé Fernandes, tem +piedade do enfermo e do triste! --<i>Irun! Irun!</i>...<br> + + +<br> + + +Nessa Irun almoçámos com suculência--porque +sobre nós velava, como Deusa omnipresente, a Companhia do +Norte. Depois «el jefe d'Aduana, el jefe d'Estacion», +preciosamente nos instalaram noutro salão, novo, com cetins +cor de azeitona, mas tão pequeno que uma rica +porção dos nossos confortos em mantas, livros, sacos +e impermeáveis, passou para o compartimento do + +<i>Sleeping</i> onde se repoltreavam o Grilo e o Anatole, ambos de +bonés escoceses, e fumando gordos charutos.--<i>Buen viaje_! +Gracias! Servidores!</i>--E entrámos silvando nos +Pirenéus.<br> + + +<br> + + +Sob a influência da chuva embaciadora, daquelas serras sempre +iguais, que se desenrolavam, arrepiadas, diluídas na +névoa, resvalei a uma sonolência doce;--e, quando +descerrava as pálpebras, encontrava Jacinto a um canto, +esquecido do livro fechado nos joelhos, sobre que cruzara os magros +dedos, considerando vales e montes com a melancolia de quem penetra +nas terras do seu desterro! Um momento veio em que, arremessando o +livro, enterrando mais o chapéu mole, se ergueu com tanta +decisão, que receei detivesse o comboio para saltar à + +estrada, <span class="pagenum">[185]</span> correr através +das Vascongadas e da Navarra, para trás, para o 202! Sacudi +o meu torpor, exclamei:--«oh menino!...» Não! O +pobre amigo ia apenas continuar o seu tédio para outro +canto, enterrado noutra almofada, com outro livro fechado. E +à maneira que a escuridão da tarde crescia, e com ela +a borrasca de vento e água, uma inquietação +mais aterrada se apoderava do meu Príncipe, assim desgarrado +da Civilização, arrastado para a Natureza que +já o cercava de brutalidade agreste. Não cessou +então de me interrogar sobre Tormes:<br> + + + +<br> + + +--As noites são horríveis, hein, Zé Fernandes? +Tudo negro, enorme solidão... E médico?... Há +médico?<br> + + +<br> + + +Subitamente o comboio estacou. Mais grossa e ruidosa a chuva +fustigou as vidraças. Era um descampado, todo em treva, onde +rolava e lufava um grande vento solto. A Máquina apitava, +com angústia. Uma lanterna lampejou, correndo. Jacinto batia +o pé:--«É medonho! é medonho!»... +Entreabri a portinhola. Da claridade incerta das vidraças +surdiam cabeças esticadas, assustadas.--«<i>Que hay? +Que hay?</i>»--A uma rajada, que me alagou, recuei:--e +esperámos durante lentos, calados minutos, esfregando +desesperadamente os vidros embaciados para sondar a +escuridão. <span class="pagenum">[186]</span>De repente o +comboio recomeçou a rolar, muito sereno.<br> + + + +<br> + + +Em breve apareceram as luzinhas mortas de uma estação +abarracada. Um condutor, com o casacão de oleado todo a +escorrer, trepou ao salão:--e por ele soubemos, enquanto +carimbava apressadamente os bilhetes, que o trem, muito atrasado, +talvez não alcançasse em Medina o comboio de +Salamanca!<br> + + +<br> + + +--Mas então?...<br> + + +<br> + + +O casaco de oleado escorregara pela portinhola, fundido na noite, +deixando um cheiro de humidade e azeite. E nós +encetámos um novo tormento... Se o trem de Salamanca tivesse +abalado? O salão, tomado até Medina, desengatava em +Medina:--e eis os nossos preciosos corpos, com as nossas preciosas +almas, despejados em Medina, para cima da lama, entre vinte e +três malas, numa rude confusão espanhola, sob a +tormenta de ventania e de água!<br> + + + +<br> + + +--Oh, Zé Fernandes, uma noite em Medina!<br> + + +<br> + + +Ao meu Príncipe aparecia como desventura suprema essa noite +em Medina, numa <i>fonda</i> sórdida, fedendo a alho, com +gordas filas de percevejos através dos lençóis +de estopa encardida!... Não cessei então de fitar, +num desassossego, os ponteiros do relógio:--enquanto +Jacinto, pela vidraça escancarada, todo fustigado + +<span class="pagenum">[187]</span>da chuva clamorosa, furava a +negrura, na esperança de avistar as luzes de Medina e um +comboio paciente fumegando... Depois recaía no divã, +limpava os bigodes e os olhos, maldizia a Espanha. O trem +arquejava, rompendo o vasto vento da planura desolada. E a cada +apito era um alvoroço. Medina?... Não! Algum sumido +apeadeiro, onde o trem se atardava, esfalfado, resfolgando, +enquanto dormentes figuras encarapuçadas, embrulhadas em +mantas, rondavam sob o telheiro do barracão, que as +lanternas baças tornavam mais soturno. Jacinto esmurrava o +joelho:--«Mas por que pára este infame comboio? +Não há tráfico, não há gente! Oh +esta Espanha!...» A sineta badalava, moribunda. De novo +fendíamos a noite e a borrasca.<br> + + + +<br> + + +Resignadamente comecei a percorrer um <i>Jornal do +Comércio</i>, antigo, trazido de Paris. Jacinto esmagava o +espesso tapete do salão com passadas rancorosas, rosnando +como uma fera. E ainda assim se escoou, às gotas, uma hora +cheia de eternidade.--Um silvo, outro silvo!... Luzes mais fortes, +longe, palpitaram na neblina. As rodas trilharam, com rijos +solavancos, os encontros de carris. Enfim, Medina!... Um muro sujo +de barracão alvejou--e bruscamente, à portinhola +aberta com violência, aparece um cavalheiro barbudo, +<span class="pagenum">[188]</span>de capa à espanhola, +gritando pelo Sr. D. Jacinto!... Depressa! depressa! que parte o +comboio de Salamanca!<br> + + + +<br> + + +--«Que no hay un momento, caballeros! Que no hay un +momento!»<br> + + +<br> + + +Agarro estonteadamente o meu paletó, o <i>Jornal do +Comércio</i>. Saltámos com ânsia:--e, pela +plataforma, por sobre os trilhos, através de charcos, +tropeçando em fardos, empurrados pelo vento, pelo homem da +capa à espanhola, enfiámos outra portinhola, que se +fechou com um estalo tremendo... Ambos arquejávamos. Era um +salão forrado de um pano verde que comia a luz escassa. E eu +estendia o braço, para receber dos carregadores +açodados as nossas malas, os nossos livros, as nossas +mantas--quando, em silêncio, sem um apito, o trem despegou e +rolou. Ambos nos atirámos às vidraças, em +brados furiosos:<br> + + + +<br> + + +--Pare! As nossas malas, as nossas mantas!... P'ra aqui!... Oh +Grilo! Oh Grilo!<br> + + +<br> + + +Uma imensa rajada levou os nossos brados. Era de novo o descampado +tenebroso, sob a chuva despenhada. Jacinto ergueu os punhos, num +furor que o engasgava:<br> + + +<br> + + +--Oh! Que serviço! Oh que canalhas!... Só em +Espanha!... E agora? As malas perdidas!... Nem uma camisa, nem uma +escova!<br> + + +<br> + + +Calmei o meu desgraçado amigo:<br> + + +<br> + + + +<span class="pagenum">[189]</span>--Escuta! eu entrevi dois +carregadores arrebanhando as nossas coisas... Decerto o Grilo +fiscalizou. Mas na pressa, naturalmente, atirou com tudo para o seu +compartimento... Foi um erro não trazer o Grilo connosco, no +salão... Até podíamos jogar a manilha!<br> + + +<br> + + +De resto a solicitude da Companhia, Deusa omnipresente, velava +sobre o nosso conforto--pois que à porta do lavatório +branquejava o cesto da nossa ceia, mostrando na tampa um bilhete de +D. Esteban com estas doces palavras a lápis--<i>à D. +Jacinto y su egregio amigo, que les dè gusto!</i> Farejei um +aroma de perdiz. E alguma tranquilidade nos penetrou no +coração sentindo também as nossas malas sob a +tutela da Deusa omnipresente.<br> + + + +<br> + + +--Tens fome Jacinto?<br> + + +<br> + + +--Não. Tenho horror, furor, rancor!... E tenho sono.<br> + + +<br> + + +Com efeito! depois de tão desencontradas +emoções só apetecíamos as camas que +esperavam, macias e abertas. Quando caí sobre a travesseira, +sem gravata, em ceroulas, já o meu Príncipe, que +não se despira, apenas embrulhara os pés no + +<i>meu</i> paletó, nosso único agasalho, ressonava +com majestade.<br> + + +<br> + + +Depois, muito tarde e muito longe, percebi junto do meu catre, na +claridadezinha da manhã, coada pelas cortinas verdes, uma +<span class="pagenum">[190]</span>fardeta, um boné, que +murmuravam baixinho com imensa doçura:<br> + + +--V. Exc.<sup>as</sup> não têm nada a declarar?... +Não há malinhas de mão?...<br> + + + +<br> + + +Era a minha terra! Murmurei baixinho com imensa ternura:<br> + + +<br> + + +--Não temos aqui nada... Pergunte V. Exc.ª pelo +Grilo... Aí atrás, num compartimento... Ele tem as +chaves, tem tudo... É o Grilo.<br> + + +<br> + + +A fardeta desapareceu, sem rumor, como sombra benéfica. E eu +readormeci com o pensamento em Guiães, onde a tia +Vicência, atarefada, de lenço branco cruzado no peito, +de certo já preparava o leitão.<br> + + + +<br> + + +Acordei envolto num largo e doce silêncio. Era uma +Estação muito sossegada, muito varrida, com rosinhas +brancas trepando pelas paredes--e outras rosas em moitas, num +jardim, onde um tanquezinho abafado de limos dormia sob duas +mimosas em flor que rescendiam. Um moço pálido, de +paletó cor de mel, vergando a bengalinha contra o +chão, contemplava pensativamente o comboio. Agachada rente +à grade da horta, uma velha, diante da sua cesta de ovos, +contava moedas de cobre no regaço. Sobre o telhado secavam +abóboras. Por cima rebrilhava o profundo, <span class="pagenum">[191]</span>rico e macio azul de que meus olhos andavam +aguados.<br> + + +<br> + + + +Sacudi violentamente Jacinto:<br> + + +<br> + + +--Acorda, homem, que estás na tua terra!<br> + + +<br> + + +Ele desembrulhou os pés do meu paletó, cofiou o +bigode, e veio sem pressa, à vidraça que eu abrira, +conhecer a sua terra.<br> + + +<br> + + +--Então é Portugal, hein?... Cheira bem.<br> + + + +<br> + + +--Está claro que cheira bem, animal!<br> + + +<br> + + +A sineta tilintou languidamente. E o comboio deslizou, com +descanso, como se passeasse para seu regalo sobre as duas fitas de +aço, assobiando e gozando a beleza da terra e do +céu.<br> + + +<br> + + +O meu Príncipe alargava os braços, desolado:<br> + + +<br> + + +--E nem uma camisa, nem uma escova, nem uma gota de + +água-de-colónia!... Entro em Portugal, imundo!<br> + + +<br> + + +--Na Régua há uma demora, temos tempo de chamar o +Grilo, reaver os nossos confortos... Olha para o rio!<br> + + +<br> + + +Rolávamos na vertente de uma serra, sobre penhascos que +desabavam até largos socalcos cultivados de vinhedo. Em +baixo, numa esplanada, branquejava uma casa nobre, de opulento +repouso, com a capelinha muito caiada entre um laranjal maduro. +Pelo rio, onde a água turva e tarda nem se quebrava contra +<span class="pagenum">[192]</span>as rochas, descia, com a vela +cheia, um barco lento carregado de pipas. Para além, outros +socalcos, de um verde pálido de reseda, com oliveiras +apoucadas pela amplidão dos montes, subiam até outras +penedias que se embebiam, todas brancas e assoalhadas, na fina +abundância do azul. Jacinto acariciava os pêlos +corredios do bigode:<br> + + + +<br> + + +--O Douro, hein?... É interessante, tem grandeza. Mas agora +é que eu estou com uma fome, Zé Fernandes!<br> + + +<br> + + +Também eu! Destapamos o cesto de D. Esteban donde surdiu um +bodo grandioso, de presunto, anho, perdizes, outras viandas frias +que o ouro de duas nobres garrafas de Amontillado, além de +duas garrafas de Rioja, aqueciam com um calor de sol Andaluz. +Durante o presunto, Jacinto lamentou contritamente o seu erro. Ter +deixado Tormes, um solar histórico, assim abandonado e +vazio! Que delícia, por aquela manhã tão +lustrosa e tépida, subir à serra, encontrar a sua +casa bem apetrechada, bem civilizada... Para o animar, lembrei que +com as obras do Silvério, tantos caixotes de +Civilização remetidos de Paris, Tormes estaria +confortável mesmo para Epicuro. Oh! mas Jacinto entendia um +palácio perfeito, um 202 no deserto!... E, assim +discorrendo, atacámos as perdizes. Eu desarrolhava + +<span class="pagenum">[193]</span>uma garrafa de +Amontillado--quando o comboio, muito sorrateiramente, penetrou numa +Estação. Era a Régua. E o meu Príncipe +pousou logo a faca para chamar o Grilo, reclamar as malas que +traziam o asseio dos nossos corpos.<br> + + +<br> + + +--Espera, Jacinto! Temos muito tempo, O comboio pára aqui +uma hora... Come com tranquilidade. Não escangalhemos este +almocinho com arrumações de maletas... O Grilo +não tarda a aparecer.<br> + + +<br> + + +E corri mesmo a cortina, porque de fora um padre muito alto, com +uma ponta de cigarro colada ao beiço, parara a espreitar +indiscretamente o nosso festim. Mas quando acabámos as +perdizes, e Jacinto confiadamente desembrulhava um queijo manchego, +sem que Grilo ou Anatole comparecessem, eu, inquieto, corri + +à portinhola para apressar esses servos tardios... E nesse +instante o comboio, largando, deslizou com o mesmo silêncio +sorrateiro. Para o meu Príncipe foi um desgosto:<br> + + +<br> + + +--Aí ficamos outra vez sem um pente, sem uma escova... E eu +que queria mudar de camisa! Por culpa tua, Zé Fernandes!<br> + + +<br> + + +--É espantoso!... Demora sempre uma eternidade. Hoje chega e +abala! Paciência, Jacinto. Em duas horas estamos na +Estação de Tormes... Também não valia a +pena mudar <span class="pagenum">[194]</span>de camisa para subir + +à serra! Em casa tomamos um banho, antes de jantar... +Já deve estar instalada a banheira.<br> + + +<br> + + +Ambos nos consolámos com copinhos de uma divina aguardente +Chinchon. Depois, estendidos nos sofás, saboreando os dois +charutos que nos restavam, com as vidraças abertas ao ar +adorável, conversámos de Tormes. Na +estação certamente estaria o Silvério, com os +cavalos...<br> + + +<br> + + +--Que tempo leva a subir?<br> + + + +<br> + + +Uma hora. Depois de lavados sobrava tempo para um demorado passeio +pelas terras com o caseiro, o excelente Melchior, para que o Senhor +de Tormes, solenemente, tomasse posse do seu Senhorio. E à +noite o primeiro bródio da serra, com os pitéus +vernáculos do velho Portugal!<br> + + +<br> + + +Jacinto sorria, seduzido:<br> + + +<br> + + +--Vamos a ver que cozinheiro me arranjou esse Silvério. Eu +recomendei que fosse um soberbo cozinheiro português, +clássico. Mas que soubesse trufar um peru, afogar um bife em +molho de moela, estas coisas simples da cozinha de +França!... O pior é não te demorares, seguires +logo para Guiães...<br> + + + +<br> + + +--Ah, menino, anos da tia Vicência no sábado... Dia +sagrado! Mas volto. Em duas semanas estou em Tormes, para fazermos +uma <span class="pagenum">[195]</span>larga Bucólica. E, +está claro, para assistir à +trasladação.<br> + + +<br> + + +Jacinto estendera o braço:<br> + + + +<br> + + +--Que casarão é aquele, além no outeiro, com a +torre?<br> + + +<br> + + +Eu não sabia. Algum solar de fidalgote do Douro... Tormes +era nesse feitio atarracado e maciço. Casa de séculos +e para séculos--mas sem torre.<br> + + +<br> + + +--E logo se vê, da estação, Tormes?...<br> + + + +<br> + + +--Não! Muito no alto, numa prega da serra, entre +arvoredo.<br> + + +<br> + + +No meu Príncipe já evidentemente nascera uma +curiosidade pela sua rude casa ancestral. Mirava o relógio, +impaciente. Ainda trinta minutos! Depois, sorvendo o ar e a luz, +murmurava, no primeiro encanto de iniciado:<br> + + +<br> + + +--Que doçura, que paz...<br> + + +<br> + + +--Três horas e meia, estamos a chegar, Jacinto!<br> + + + +<br> + + +Guardei o meu velho <i>Jornal do Comércio</i> dentro do +bolso do paletó, que deitei sobre o braço;--e ambos +em pé, às janelas, esperámos com +alvoroço a pequenina Estação de Tormes, termo +ditoso das nossas provações. Ela apareceu enfim, +clara e simples, à beira do rio, entre rochas, com os seus +vistosos girassóis enchendo um jardinzinho breve, as duas +altas figueiras assombreando o pátio, <span class="pagenum">[196]</span>e por trás a serra coberta de velho e +denso arvoredo... Logo na plataforma avistei com gosto a imensa +barriga, as bochechas menineiras do chefe da Estação, +o louro Pimenta, meu condiscípulo em Retórica, no +Liceu de Braga. Os cavalos decerto esperavam, à sombra, sob +as figueiras.<br> + + + +<br> + + +Mal o trem parou ambos saltámos alegremente. A bojuda massa +do Pimenta rebolou para mim com amizade:<br> + + +<br> + + +--Viva o amigo Zé Fernandes!<br> + + +<br> + + +--Oh belo Pimentão!...<br> + + +<br> + + +Apresentei o senhor de Tormes. E imediatamente:<br> + + +<br> + + + +--Ouve lá, Pimentinha... Não está aí o +Silvério?<br> + + +<br> + + +--Não... O Silvério há quase dois meses que +partiu para Castelo de Vide, ver a mãe que apanhou uma +cornada de um boi!<br> + + + +<br> + + +Atirei a Jacinto um olhar inquieto:<br> + + +<br> + + +--Ora essa! E o Melchior, o caseiro?... Pois não +estão aí os cavalos para subirmos à +quinta?<br> + + +<br> + + +O digno chefe ergueu com surpresa as sobrancelhas cor de milho:<br> + + +<br> + + +--Não!... Nem Melchior, nem cavalos... O Melchior... +Há que tempos eu não vejo o Melchior!<br> + + + +<br> + + +O carregador badalou lentamente a sineta <span class="pagenum">[197]</span>para o comboio rolar. Então, +não avistando em torno, na lisa e despovoada +Estação, nem criados nem malas, o meu Príncipe +e eu lançámos o mesmo grito de angústia:<br> + + +<br> + + +--E o Grilo? as bagagens?...<br> + + +<br> + + +Corremos pela beira do comboio, berrando com desespero:<br> + + + +--Grilo!... Oh Grilo!... Anatole!... Oh Grilo!<br> + + +<br> + + +Na esperança que ele e o Anatole viessem mortalmente +adormecidos, trepávamos aos estribos, atirando a +cabeça para dentro dos compartimentos, espavorindo a gente +quieta com o mesmo berro que retumbava:--«Grilo, estás +aí, Grilo?»--Já de uma terceira classe, onde +uma viola repenicava, um jocoso gania, +troçando:--«Não há por aí um +grilo? Andam por aí uns senhores a pedir um grilo!»--E +nem Anatole, nem Grilo!<br> + + + +<br> + + +A sineta tilintou.<br> + + +<br> + + +--Oh Pimentinha, espera, homem, não deixes largar o +comboio!... As nossas bagagens, homem!<br> + + +<br> + + +E, aflito, empurrei o enorme chefe para o furgão de carga, a +pesquisar, descortinar as nossas vinte e três malas! Apenas +encontrámos barris, cestos de vime, latas de azeite, um +baú amarrado com cordas... Jacinto <span class="pagenum">[198]</span>mordia os beiços, lívido. E o +Pimentinha, esgazeado:<br> + + + +<br> + + +--Oh filhos, eu não posso atrasar o comboio!...<br> + + +<br> + + +A sineta repicou... E com um belo fumo claro o comboio desapareceu +por detrás das fragas altas. Tudo em torno pareceu mais +calado e deserto. Ali ficávamos pois baldeados, perdidos na +serra, sem Grilo, sem procurador, sem caseiro, sem cavalos, sem +malas! Eu conservava o paletó alvadio, donde surdia o +<i>Jornal do Comércio</i>. Jacinto, uma bengala. Eram todos +os nossos bens!<br> + + +<br> + + +O Pimentão arregalava para nós os olhinhos papudos e +compadecidos. Contei então àquele amigo o atarantado +trasfego em Medina sob a borrasca, o Grilo desgarrado, encalhado +com as vinte e três malas, ou rolando talvez para Madrid sem +nos deixar um lenço...<br> + + + +<br> + + +--Eu não tenho um lenço!... Tenho este <i>Jornal do +Comércio</i>. É toda a minha roupa branca.<br> + + +<br> + + +--Grande arrelia, caramba! murmurava o Pimenta, impressionado. E +agora?<br> + + +<br> + + +--Agora, exclamei, é trepar, para a quinta, à pata... +A não ser que se arranjassem aí uns burros.<br> + + + +<br> + + +Então o carregador lembrou que perto, no casal da Giesta, +ainda pertencente a Tormes, <span class="pagenum">[199]</span>o +caseiro, seu compadre, tinha uma boa égua e um jumento... E +o prestante homem enfiou numa carreira para a Giesta--enquanto o +meu Príncipe e eu caíamos para cima de um banco, +arquejantes e sucumbidos, como náufragos. O vasto +Pimentinha, com as mãos nas algibeiras, não cessava +de nos contemplar, de murmurar:--«É de +arrelia».--O rio defronte descia, preguiçoso e como +adormentado sob a calma já pesada de Maio, abraçando, +sem um sussurro, uma larga ilhota de pedra que rebrilhava. Para +além a serra crescia em corcovas doces, com uma funda prega +onde se aninhava, bem junta e esquecida do mundo, uma vilazinha +clara. O espaço imenso repousava num imenso silêncio. +Naquelas solidões de monte e penedia os pardais, revoando no +telhado, pareciam aves consideráveis. E a massa rotunda e +rubicunda do Pimentinha dominava, atulhava a região.<br> + + + +<br> + + +--Está tudo arranjado, meu senhor! Vêm aí os +bichos!... Só o que não calhou foi um selinzinho para +a jumenta!<br> + + +<br> + + +Era o carregador, digno homem, que voltava da Giesta, sacudindo na +mão duas esporas desirmanadas e ferrugentas. E não +tardaram a aparecer no córrego, para nos levarem a Tormes, +uma égua ruça, um jumento com albarda, um rapaz e um +podengo. Apertámos <span class="pagenum">[200]</span>a +mão suada e amiga do Pimentinha. Eu cedi a égua ao +senhor de Tormes. E começámos a trepar o caminho, que +não se alisara nem se desbravara desde os tempos em que o +trilhavam, com rudes sapatões ferrados, cortando de rio a +monte, os Jacintos do século XIV! Logo depois de +atravessarmos uma trémula ponte de pau, sobre um riacho +quebrado por pedregulhos, o meu Príncipe, com o olho de dono +subitamente aguçado, notou a robustez e a fartura das +oliveiras...--E em breve os nossos males esqueceram ante a +incomparável beleza daquela serra bendita!<br> + + + +<br> + + +Com que brilho e inspiração copiosa a compusera o +divino Artista que faz as serras, e que tanto as cuidou, e +tão ricamente as dotou, neste seu Portugal bem-amado! A +grandeza igualava a graça. Para os vales, poderosamente +cavados, desciam bandos de arvoredos, tão copados e +redondos, de um verde tão moço que eram como um musgo +macio onde apetecia cair e rolar. Dos pendores, sobranceiros ao +carreiro fragoso, largas ramadas estendiam o seu toldo +amável, a que o esvoaçar leve dos pássaros +sacudia a fragrância. Através dos muros seculares, que +sustêm as terras liados pelas heras, rompiam grossas +raízes coleantes a que mais hera se enroscava. Em todo o +torrão, de cada fenda, brotavam <span class="pagenum">[201]</span>flores silvestres. Brancas rochas, pelas +encostas, alastravam a sólida nudez do seu ventre polido +pelo vento e pelo sol; outras, vestidas de líquen e de +silvados floridos, avançavam como proas de galeras +enfeitadas: e, dentre as que se apinhavam nos cimos, algum casebre +que para lá galgara, todo amachucado e torto, espreitava +pelos postigos negros, sob as desgrenhadas farripas de verdura, que +o vento lhe semeara nas telhas. Por toda a parte a água +sussurrante, a água fecundante... Espertos regatinhos +fugiam, rindo com os seixos, dentre as patas da égua e do +burro; grossos ribeiros açodados saltavam com fragor de +pedra em pedra; fios direitos e luzidios como cordas de prata +vibravam e faiscavam das alturas aos barrancos; e muita fonte, +posta à beira de veredas, jorrava por uma bica, +beneficamente, à espera dos homens e dos gados... Todo um +cabeço por vezes era uma seara, onde um vasto carvalho +ancestral, solitário, dominava como seu senhor e seu guarda. +Em socalcos verdejavam laranjais rescendentes. Caminhos de lajes +soltas circundavam fartos prados com carneiros e vacas +retouçando:--ou mais estreitos, entalados em muros, +penetravam sob ramadas de parra espessa, numa penumbra de repouso e +frescura. Trepávamos então alguma ruazinha de aldeia, +dez ou doze <span class="pagenum">[202]</span>casebres, sumidos +entre figueiras, onde se esgaçava, fugindo do lar pela telha +vã, o fumo branco e cheiroso das pinhas. Nos cerros remotos, +por cima da negrura pensativa dos pinheirais, branquejavam ermidas. +O ar fino e puro entrava na alma, e na alma espalhava alegria e +força. Um esparso tilintar de chocalhos de guizos morria +pelas quebradas...<br> + + + +<br> + + +Jacinto adiante, na sua égua ruça, murmurava:<br> + + +<br> + + +--Que beleza!<br> + + +<br> + + +E eu atrás, no burro de Sancho, murmurava:<br> + + +<br> + + +--Que beleza!<br> + + +<br> + + +Frescos ramos roçavam os nossos ombros com familiaridade e +carinho. Por trás das sebes, carregadas de amoras, as +macieiras estendidas ofereciam as suas maçãs verdes, +porque as não tinham maduras. Todos os vidros de uma casa +velha, com a sua cruz no topo, refulgiram hospitaleiramente quando +nós passámos. Muito tempo um melro nos seguia, de +azinheiro a olmo, assobiando os nossos louvores. Obrigado, +irmão melro! Ramos de macieira, obrigado! Aqui vimos, aqui +vimos! E sempre contigo fiquemos, serra tão acolhedora, +serra de fartura e de paz, serra bendita entre as serras!<br> + + + +<br> + + +Assim, vagarosamente e maravilhados, chegámos <span class="pagenum">[203]</span>àquela avenida de faias, que sempre me +encantara pela sua fidalga gravidade. Atirando uma vergastada ao +burro e à égua, o nosso rapaz, com o seu podengo +sobre os calcanhares, gritou:--«Aqui é que estemos, +meus amos!» E ao fundo das faias, com efeito, aparecia o +portão da quinta de Tormes, com o seu brasão de +armas, de secular granito, que o musgo retocava e mais envelhecia. +Dentro já os cães ladravam com furor. E quando +Jacinto, na sua suada égua, e eu atrás, no burro de +Sancho, transpusemos o limiar solarengo, desceu para nós, do +alto do alpendre, pela escadaria de pedra gasta, um homem +nédio, rapado como um padre, sem colete, sem jaleca, +acalmando os cães que se encarniçavam contra o meu +Príncipe. Era o Melchior, o caseiro... Apenas me reconheceu, +toda a boca se lhe escancarou num riso hospitaleiro, a que faltavam +dentes. Mas apenas eu lhe revelei, daquele cavalheiro de bigodes +louros que descia da égua esfregando os quadris, o senhor de +Tormes--o bom Melchior recuou, colhido de espanto e terror como +diante de uma avantesma.<br> + + + +<br> + + +--Ora essa!... Santíssimo nome de Deus! Pois +então...<br> + + +<br> + + +E, entre o rosnar dos cães, num bracejar desolado, balbuciou +uma história que por <span class="pagenum">[204]</span>seu +turno apavorava Jacinto, como se o negro muro do casarão +pendesse para desabar. O Melchior não esperava S. Ex.ª! +Ninguém esperava S. Ex.ª!... (Ele dizia <i>sua +incelência</i>)... O Sr. Silvério estava para Castelo +de Vide desde Março, com a mãe, que apanhara uma +cornada na virilha. E de certo houvera engano, cartas perdidas... +Porque o Sr. Silvério só contava com S. Exc.ª em +Setembro, para a vindima! Na casa as obras seguiam devagarinho, +devagarinho... O telhado, no sul, ainda continuava sem telhas; +muitas vidraças esperavam, ainda sem vidros; e, para ficar, +Virgem Santa, nem uma cama arranjada!...<br> + + + +<br> + + +Jacinto cruzou os braços numa cólera tumultuosa que o +sufocava. Por fim, com um berro:<br> + + +<br> + + +--Mas os caixotes? Os caixotes, mandados de Paris, em Fevereiro, +há quatro meses?...<br> + + +<br> + + +O desgraçado Melchior arregalava os olhos miúdos, que +se embaciavam de lágrimas. Os caixotes?! Nada chegara, nada +aparecera!... E na sua perturbação mirava pelas +arcadas do pátio, palpava na algibeira das pantalonas. Os +caixotes?... Não, não tinha os caixotes!<br> + + + +<br> + + +--E agora, Zé Fernandes?<br> + + +<br> + + +Encolhi os ombros:<br> + + +<br> + + +--Agora, meu filho, só vires comigo para Guiães... +Mas são duas horas fartas a cavalo. <span class="pagenum">[205]</span>E não temos cavalos! O melhor é + +ver o casarão, comer a boa galinha que o nosso amigo +Melchior nos assa no espeto, dormir numa enxerga, e amanhã +cedo, antes do calor, trotar para cima, para a tia +Vicência.<br> + + +<br> + + +Jacinto replicou, com uma decisão furiosa:<br> + + +<br> + + +--Amanhã troto, mas para baixo, para a +estação!... E depois, para Lisboa!<br> + + +<br> + + + +E subiu a gasta escadaria do seu solar com amargura e rancor. Em +cima uma larga varanda acompanhava a fachada do casarão, sob +um alpendre de negras vigas, toda ornada, por entre os pilares de +granito, com caixas de pau onde floriam cravos. Colhi um cravo +amarelo---e penetrei atrás de Jacinto nas salas nobres, que +ele contemplava com um murmúrio de horror. Eram enormes, de +uma sonoridade de casa capitular, com os grossos muros enegrecidos +pelo tempo e o abandono, e regeladas, desoladamente nuas, +conservando apenas aos cantos algum monte de canastras ou alguma +enxada entre paus. Nos tectos remotos, de carvalho apainelado, +luziam através dos rasgões manchas de céu. As +janelas, sem vidraças, conservavam essas maciças +portadas, com fechos para as trancas, que, quando se cerram, +espalham a treva. <span class="pagenum">[206]</span>Sob os nossos +passos, aqui e além, uma tábua podre rangia e +cedia.<br> + + +<br> + + +--Inabitável! rugia Jacinto surdamente. Um horror! Uma +infâmia!...<br> + + + +<br> + + +Mas depois, noutras salas, o soalho alternava com remendos de +tábuas novas. Os mesmos remendos claros mosqueavam os +velhíssimos tectos de rico carvalho sombrio. As paredes +repeliam pela alvura crua da cal fresca. E o sol mal atravessava as +vidraças--embaciadas e gordurentas da massa e das +mãos dos vidraceiros.<br> + + +<br> + + +Penetrámos enfim na última, a mais vasta, rasgada por +seis janelas, mobilada com um armário e com uma enxerga +parda e curta estirada a um canto: e junto dela parámos, e +sobre ela depusemos tristemente o que nos restava de vinte e +três malas--o meu paletó alvadio, a bengala de +Jacinto, e o <i>Jornal do Comércio</i> que nos era comum. +Através das janelas escancaradas, sem vidraças, o +grande ar da serra entrava e circulava como num eirado, com um +cheiro fresco de horta regada. Mas o que avistávamos, da +beira da enxerga, era um pinheiral cobrindo um cabeço e +descendo pelo pendor suave, à maneira de uma hoste em +marcha, com pinheiros na frente, destacados, direitos, emplumados +de negro; mais longe as serras <span class="pagenum">[207]</span>de +além rio, de uma fina e macia cor de violeta; depois a +brancura do céu, todo liso, sem uma nuvem, de uma majestade +divina. E lá debaixo, dos vales, subia, desgarrada e +melancólica, uma voz de pegureiro cantando.<br> + + + +<br> + + +Jacinto caminhou lentamente para o poial de uma janela, onde caiu +esbarrondado pelo desastre, sem resistência ante aquele +brusco desaparecimento de toda a Civilização! Eu +palpava a enxerga, dura e regelada como um granito de Inverno. E +pensando nos luxuosos colchões de penas e molas, tão +prodigamente encaixotados no 202, desafoguei também a minha +indignação:<br> + + +<br> + + +--Mas os caixotes, caramba?... Como se perdem assim trinta e tantos +caixotes enormes?...<br> + + +<br> + + +Jacinto sacudiu amargamente os ombros:<br> + + +<br> + + +--Encalhados, por aí, algures, num barracão!... Em +Medina, talvez, nessa horrenda Medina. Indiferença das +Companhias, inércia do Silvério... Enfim a +Península, a barbárie!<br> + + + +<br> + + +Vim ajoelhar sobre o outro poial, alongando os olhos consolados por +céu e monte:<br> + + +<br> + + +--É uma beleza!<br> + + +<br> + + +O meu Príncipe, depois de um silêncio grave, murmurou, +com a face encostada à mão:<br> + + + +<br> + + +<span class="pagenum">[208]</span>--É uma lindeza... E que +paz!<br> + + +<br> + + +Sob a janela vicejava fartamente uma horta, com repolho, feijoal, +talhões de alface, gordas folhas de abóbora +rastejando. Uma eira, velha e mal alisada, dominava o vale, donde +já subia tenuemente a névoa de algum fundo ribeiro. +Toda a esquina do casarão desse lado se encravava em +laranjal. E de uma fontinha rústica, meio afogada em rosas +tremedeiras, corria um longo e rutilante fio de água.<br> + + + +<br> + + +--Estou com apetite desesperado daquela água! declarou +Jacinto, muito sério.<br> + + +<br> + + +--Também eu... Desçamos ao quintal, hein? E passamos +pela cozinha, a saber do frango.<br> + + +<br> + + +Voltámos à varanda. O meu Príncipe, mais +conciliado com o destino inclemente, colheu um cravo amarelo. E por +outra porta baixa, de rijíssimas ombreiras, +mergulhámos numa sala, alastrada de caliça, sem +tecto, coberta apenas de grossas vigas, donde se ergueu uma revoada +de pardais.<br> + + + +<br> + + +--Olha para este horror! murmurava Jacinto arrepiado.<br> + + +<br> + + +E descemos por uma lôbrega escada de castelo, tenteando +depois um corredor tenebroso de lajes ásperas, atravancado +por profundas arcas, capazes de guardar todo o grão de uma +província. Ao fundo a cozinha, imensa, <span class="pagenum">[209]</span>era uma massa de formas negras, madeira +negra, pedra negra, densas negruras de felugem secular. E neste +negrume refulgia a um canto, sobre o chão de terra negra, a +fogueira vermelha, lambendo tachos e panelas de ferro, despedindo +uma fumarada que fugia pela grade aberta no muro, depois por entre +a folhagem dos limoeiros. Na enorme lareira, onde se aqueciam e +assavam as suas grossas peças de porco e boi os Jacintos +medievais, agora desaproveitada pela frugalidade dos caseiros, +negrejava um poeirento montão de cestas e ferramentas; e a +claridade toda entrava por uma porta de castanho, escancarada sobre +um quintalejo rústico em que se misturavam couves lombardas +e junquilhos formosos. Em roda do lume um bando alvoroçado +de mulheres depenava frangos, remexia as caçarolas, picava a +cebola, com um fervor afogueado e palreiro. Todas emudeceram quando +aparecemos--e dentre elas o pobre Melchior, estonteado, com o +sangue a espirrar na nédia face de abade, correu para +nós, jurando «que o jantarinho de suas +Incelências não demorava um credo»...<br> + + + +<br> + + +--E a respeito de camas, oh amigo Melchior?<br> + + +<br> + + +O digno homem ciciou uma desculpa encolhida «sobre +enxergazinhas no chão...»<br> + + +<br> + + +<span class="pagenum">[210]</span>--É o que basta! acudi eu, +para o consolar. Por uma noite, com lençóis +frescos...<br> + + +<br> + + +--Ah, lá pelos lençoizinhos respondo eu!... Mas um +desgosto assim, meu senhor! A gente apanhada sem um +colchãozinho de lã, sem um lombozinho de vaca... Que +eu já pensei, até lembrei à minha comadre, V. +Inc.<sup>as</sup> podiam ir dormir aos <i>Ninhos</i>, a casa do +Silvério. Tinham lá camas de ferro, +lavatórios... Ele sempre é uma leguazita e mau +caminho...<br> + + + +<br> + + +Jacinto, bondoso, acudiu:<br> + + +<br> + + +--Não, tudo se arranja, Melchior. Por uma noite!... +Até gosto mais de dormir em Tormes, na minha casa da +serra!<br> + + +<br> + + +Saímos ao terreiro, retalho de horta fechado por grossas +rochas encabeladas de verdura, entestando com os socalcos da serra +onde lourejava o centeio. O meu Príncipe bebeu da +água nevada e luzidia da fonte, regaladamente, com os +beiços na bica; apeteceu a alface rechonchuda e crespa; e +atirou pulos aos ramos altos de uma copada cerejeira, toda +carregada de cereja. Depois, costeando o velho lagar, a que um +bando de pombas branqueava o telhado, deslizámos até + +ao carreiro, cortado no costado do monte. E andando, +pensativamente, o meu Príncipe pasmava para os milheirais, +para os vetustos carvalhos plantados por vetustos Jacintos, para os +casebres <span class="pagenum">[211]</span>espalhados sobre os +cabeços à orla negra dos pinheirais.<br> + + +<br> + + +De novo penetrámos na avenida de faias e transpusemos o +portão senhorial entre o latir dos cães, mais mansos, +farejando um dono. Jacinto reconheceu «certa nobreza» +na frontaria do seu lar. Mas sobretudo lhe agradava a longa +alameda, assim direita e larga, como traçada para nela se +desenrolar uma cavalgada de Senhores com plumas e pajens. Depois, +de cima da varanda, reparando na telha nova da capela, louvou o +Silvério, «esse ralaço», por cuidar ao +menos da morada do Bom-Deus.<br> + + + +<br> + + +--E esta varanda também é agradável, murmurou +ele mergulhando a face no aroma dos cravos. Precisa grandes +poltronas, grandes divãs de verga...<br> + + +<br> + + +Dentro, na «nossa sala», ambos nos sentámos nos +poiais da janela, contemplando o doce sossego crepuscular que +lentamente se estabelecia sobre vale e monte. No alto tremeluzia +uma estrelinha, a Vénus diamantina, lânguida +anunciadora da noite e dos seus contentamentos. Jacinto nunca +considerara demoradamente aquela estrela, de amorosa +refulgência, que perpetua no nosso Céu católico +a memória da Deusa incomparável:--nem assistira +jamais, com a alma atenta, ao majestoso adormecer da Natureza. E +este <span class="pagenum">[212]</span>enegrecimento dos montes que +se embuçam em sombra; os arvoredos emudecendo, cansados de +sussurrar; o rebrilho dos casais mansamente apagado; o cobertor de +névoa, sob que se acama e agasalha a frialdade dos vales; um +toque sonolento de sino que rola pelas quebradas; o segredado +cochichar das águas e das relvas escuras--eram para ele como +iniciações. Daquela janela, aberta sobre as serras, +entrevia uma outra vida, que não anda somente cheia do Homem +e do tumulto da sua obra. E senti o meu amigo suspirar como quem +enfim descansa.<br> + + + +<br> + + +Deste enlevo nos arrancou o Melchior com o doce aviso do +«jantarinho de suas Incelências». Era noutra +sala, mais nua, mais abandonada:--e aí logo à porta o +meu supercivilizado Príncipe estacou, estarrecido pelo +desconforto, escassez e rudeza das coisas. Na mesa, encostada ao +muro denegrido, sulcado pelo fumo das candeias, sobre uma toalha de +estopa, duas velas de sebo em castiçais de lata alumiavam +grossos pratos de louça amarela, ladeados por colheres de +estanho e por garfos de ferro. Os copos, de um vidro espesso, +conservavam a sombra roxa do vinho que neles passara em fartos anos +de fartas vindimas. A malga de barro, atestada de azeitonas pretas, +contentaria Diógenes. Espetado <span class="pagenum">[213]</span>na côdea de um imenso pão +reluzia um imenso facalhão. E na cadeira senhorial reservada +ao meu Príncipe, derradeira alfaia dos velhos Jacintos, de +hirto espaldar de couro, com a madeira roída de caruncho, a +clina fugia em melenas pelos rasgões do assento +puído.<br> + + + +<br> + + +Uma formidável moça, de enormes peitos que lhe +tremiam dentro das ramagens do lenço cruzado, ainda suada e +esbraseada do calor da lareira, entrou esmagando o soalho, com uma +terrina a fumegar. E o Melchior, que seguia erguendo a infusa do +vinho, esperava que suas Incelências lhe perdoassem porque +faltara tempo para o caldinho apurar... Jacinto ocupou a sede +ancestral--e, durante momentos (de esgazeada ansiedade para o +caseiro excelente) esfregou energicamente, com a ponta da toalha, o +garfo negro, a fusca colher de estanho. Depois, desconfiado, provou +o caldo, que era de galinha e rescendia. Provou--e levantou para +mim, seu camarada de misérias, uns olhos que brilharam, +surpreendidos. Tornou a sorver uma colherada mais cheia, mais +considerada. E sorriu, com espanto:--«Está +bom!»<br> + + +<br> + + +Estava precioso: tinha fígado e tinha moela: o seu perfume +enternecia: três vezes, fervorosamente, ataquei aquele +caldo.<br> + + +<br> + + + +<span class="pagenum">[214]</span>--Também lá volto! +exclamava Jacinto com uma convicção imensa. É +que estou com uma fome... Santo Deus! Há anos que não +sinto esta fome.<br> + + +<br> + + +Foi ele que rapou avaramente a sopeira. E já espreitava a +porta, esperando a portadora dos pitéus, a rija moça +de peitos trementes, que enfim surgiu, mais esbraseada, abalando o +sobrado--e pousou sobre a mesa uma travessa a transbordar de arroz +com favas. Que desconsolo! Jacinto, em Paris, sempre abominara +favas!... Tentou todavia uma garfada tímida--e de novo +aqueles seus olhos, que o pessimismo enevoara, luziram, procurando +os meus. Outra larga garfada, concentrada, com uma lentidão +de frade que se regala. Depois um brado:<br> + + + +<br> + + +--Óptimo!... Ah, destas favas, sim! Oh que fava! Que +delícia!<br> + + +<br> + + +E por esta santa gula louvava a serra, a arte perfeita das mulheres +palreiras que em baixo remexiam as panelas, o Melchior que presidia +ao bródio...<br> + + +<br> + + +--Deste arroz com fava nem em Paris, Melchior amigo!<br> + + +<br> + + +O homem óptimo sorria, inteiramente desanuviado:<br> + + +<br> + + + +--Pois é cá a comidinha dos moços da quinta! E +cada pratada, que até suas Incelências <span class="pagenum">[215]</span>se riam... Mas agora, aqui, o Sr. D. Jacinto, +também vai engordar e enrijar!<br> + + +<br> + + +O bom caseiro sinceramente cria que, perdido nesses remotos +Parises, o Senhor de Tormes, longe da fartura de Tormes, padecia +fome e mingava... E o meu Príncipe, na verdade, parecia +saciar uma velhíssima fome e uma longa saudade da +abundância, rompendo assim, a cada travessa, em louvores mais +copiosos. Diante do louro frango assado no espeto e da salada que +ele apetecera na horta, agora temperada com um azeite da serra +digno dos lábios de Platão, terminou por +bradar:--«É divino!» Mas nada o entusiasmava +como o vinho de Tormes, caindo de alto, da bojuda infusa verde--um +vinho fresco, esperto, seivoso, e tendo mais alma, entrando mais na +alma, que muito poema ou livro santo. Mirando, à vela de +sebo, o copo grosso que ele orlava de leve espuma rósea, o +meu Príncipe, com um resplendor de optimismo na face, citou +Virgílio:<br> + + + +<br> + + +--<i>Quo te carmina dicam, Rethica?</i> Quem dignamente te +cantará, vinho amável destas serras?<br> + + +<br> + + +Eu, que não gosto que me avantajem em saber clássico, +espanejei logo também o meu Virgílio, louvando as +doçuras da vida rural:<br> + + +<br> + + + +--<i>Hanc olim veteres vitam coluere Sabini</i>... <span class="pagenum">[216]</span>Assim viveram os velhos Sabinos. Assim +Rómulo e Remo... Assim cresceu a valente Etrúria. +Assim Roma se tornou a maravilha do mundo!<br> + + +<br> + + +E imóvel, com a mão agarrada à infusa, o +Melchior arregalava para nós os olhos em infinito assombro e +religiosa reverência.<br> + + + +<br> + + +<br> + + +<div class="break"> +<hr></div> + + +<br> + + +<br> + + +Ah! Jantámos deliciosissimamente, sob os auspícios do +Melchior--que ainda depois, próvido e tutelar, nos forneceu +o tabaco. E, como ante nós se alongava uma noite de monte, +voltámos para as janelas desvidraçadas, na sala +imensa, a contemplar o sumptuoso céu de Verão. +Filosofámos então com pachorra e facúndia.<br> + + + +<br> + + +Na Cidade (como notou Jacinto) nunca se olham, nem lembram os +astros--por causa dos candeeiros de gás ou dos globos de +electricidade que os ofuscam. Por isso (como eu notei) nunca se +entra nessa comunhão com o Universo que é a +única glória e única consolação +da Vida. Mas na serra, sem prédios disformes de seis +andares, sem a fumaraça que tapa Deus, sem os cuidados que +como pedaços de chumbo puxam a alma para o pó +rasteiro--um Jacinto, um Zé Fernandes, livres, bem jantados, +fumando nos poiais <span class="pagenum">[217]</span>de uma janela, +olham para os astros e os astros olham para eles. Uns, certamente, +com olhos de sublime imobilidade ou de sublime indiferença. +Mas outros curiosamente, ansiosamente, com uma luz que acena, uma +luz que chama, como se tentassem, de tão longe, revelar os +seus segredos, ou de tão longe compreender os nossos...<br> + + + +<br> + + +--Oh Jacinto, que estrela é esta, aqui, tão viva, +sobre o beiral do telhado?<br> + + +<br> + + +--Não sei... E aquela, Zé Fernandes, além, por +cima do pinheiral?<br> + + +<br> + + +--Não sei.<br> + + + +<br> + + +Não sabíamos. Eu, por causa da espessa crosta de +ignorância com que saí do ventre de Coimbra, minha +Mãe espiritual. Ele, porque na sua Biblioteca possuía +trezentos e oito tratados sobre Astronomia, e o Saber, assim +acumulado, forma um monte que nunca se transpõe nem se +desbasta. Mas que nos importava que aquele astro além se +chamasse Sírio e aquele outro Aldebarã? Que lhes +importava a eles que um de nós fosse Jacinto, outro +Zé? Eles tão imensos, nós tão +pequeninos, somos a obra da mesma Vontade. E todos, Uranos ou +Lorenas de Noronha e Sande, constituímos modos diversos de +um Ser único, e as nossas diversidades esparsas somam na +mesma compacta Unidade. Moléculas <span class="pagenum">[218]</span>do mesmo Todo, governadas pela mesma Lei, +rolando para o mesmo Fim... Do astro ao homem, do homem à + +flor do trevo, da flor do trevo ao mar sonoro--tudo é o +mesmo Corpo, onde circula, como um sangue, o mesmo Deus. E nenhum +frémito de vida, por menor, passa numa fibra desse sublime +Corpo, que se não repercuta em todas, até às +mais humildes, até às que parecem inertes e invitais. +Quando um Sol que não avisto, nunca avistarei, morre de +inanição nas profundidades, esse esguio galho de +limoeiro, em baixo na horta, sente um secreto arrepio de morte:--e, +quando eu bato uma patada no soalho de Tormes, além o +monstruoso Saturno estremece, e esse estremecimento percorre o +inteiro Universo! Jacinto abateu rijamente a mão no rebordo +da janela. Eu gritei:<br> + + +<br> + + +--Acredita!... O sol tremeu.<br> + + + +<br> + + +E depois (como eu notei) devíamos considerar que, sobre cada +um desses grãos de pó luminoso, existia uma +criação, que incessantemente nasce, perece, renasce. +Neste instante, outros Jacintos, outros Zés Fernandes, +sentados às janelas doutras Tormes, contemplam o céu +nocturno, e nele um pequenininho ponto de luz, que é a nossa +possante Terra por nós tanto sublimada. Não +terão todos esta nossa forma, bem frágil, bem +<span class="pagenum">[219]</span>desconfortável, e (a +não ser no Apolo do Vaticano, na Vénus de Milo e +talvez na Princesa, de Carman) singularmente feia e burlesca. Mas, +horrendos ou de inefável beleza; colossais e de uma carne +mais dura que o granito, ou leves como gazes e ondulando na luz, +todos eles são seres pensantes e têm consciência +da Vida--porque decerto cada Mundo possui o seu Descartes, ou +já o nosso Descartes os percorreu a todos com o seu +Método, a sua escura capa, a sua agudeza elegante, +formulando a única certeza talvez certa, o grande <i>Penso +logo existo</i>. Portanto todos nós, Habitantes dos Mundos, + +às janelas dos nossos casarões, além nos +Saturnos, ou aqui na nossa Terrícula, constantemente +perfazemos um acto sacrossanto que nos penetra e nos funde--que +é sentirmos no Pensamento o núcleo comum das nossas +modalidades, e portanto realizarmos um momento, dentro da +Consciência, a Unidade do Universo!--Hein, Jacinto?...<br> + + +<br> + + +O meu amigo rosnou:<br> + + +<br> + + +--Talvez... Estou a cair com sono.<br> + + +<br> + + +--Também eu. «Remontámos muito, +Ex.<sup>mo</sup> Sr.!» como dizia o Pestaninha em Coimbra. +Mas nada mais belo, e mais vão, que uma cavaqueira, no alto +das serras, a olhar para as estrelas!... Tu sempre vais +amanhã?<br> + + + +<br> + + +<span class="pagenum">[220]</span>--Concerteza, Zé +Fernandes! Com a certeza de Descartes. «Penso <i>logo +fujo</i>!» Como queres tu, neste pardieiro, sem uma cama, sem +uma poltrona, sem um livro?... Nem só de arroz com fava vive +o Homem! Mas demoro em Lisboa, para conversar com o Sesimbra, o meu +Administrador. E também à espera que estas obras +acabem, os caixotes surjam, e eu possa voltar decentemente, com +roupa lavada, para a trasladação...<br> + + + +<br> + + +--É verdade, os ossos...<br> + + +<br> + + +--Mas resta ainda o Grilo... Que animal! Por onde andará +esse perdido?<br> + + +<br> + + +Então, passeando lentamente na sala enorme, onde a vela de +sebo já derretida no castiçal de lata era como um +lume de cigarro num descampado, meditámos na sorte do Grilo. +O estimado negro ou fora despejado nas lamas de Medina, com as +vinte e sete malas, aos gritos--ou, regaladamente adormecido, +rolara com o Anatole no comboio para Madrid. Mas ambos os casos +apareciam ao meu Príncipe como irremediavelmente +destruidores do seu conforto...<br> + + + +<br> + + +--Não, escuta, Jacinto... Se o Grilo encalhou em Medina, +dormiu na Fonda, catou os percevejos, e esta madrugada correu para +Tormes. Quando amanhã desceres à +Estação, às quatro horas, encontras o teu +precioso homem, <span class="pagenum">[221]</span>com as tuas +preciosas malas, metido nesse comboio que te leva ao Porto e +à Capital...<br> + + +<br> + + +Jacinto sacudiu os braços como quem se debate nas malhas de +uma rede:<br> + + + +<br> + + +--E se seguiu para Madrid?<br> + + +<br> + + +--Então, por esta semana, cá aparece em Tormes, onde +encontra ordem para regressar a Lisboa e reentrar no teu +séquito... Resta o interessante caso das minhas bagagens. Se +amanhã encontrares na Estação o Grilo, separa +a minha mala negra, e o saco de lona, e a chapeleira. O Grilo +conhece. E pede ao Pimenta, ao gordalhufo, que me avise para +Guiães. Se o Grilo aportar Tormes, esfogueteado de Madrid, +com toda essa malaria, deixa as minhas coisas aqui, ao Melchior... +Eu amanhã falo ao Melchior.<br> + + +<br> + + + +Jacinto sacudiu furiosamente o colarinho:<br> + + +<br> + + +--Mas como posso eu partir para Lisboa, amanhã, com esta +camisa de dois dias, que já me faz uma comichão +horrenda? E sem um lenço... Nem ao menos uma escova de +dentes!<br> + + +<br> + + +Fértil em ideias, estendi as mãos, num belo gesto +tutelar:<br> + + +<br> + + +--Tudo se arranja, meu Jacinto, tudo se arranja! Eu, largando daqui +cedo, pelas seis <span class="pagenum">[222]</span>horas, chego a +Guiães às dez, ainda sem calor. E, mesmo antes do +almoço e da cavaqueira com a tia Vicência, +imediatamente te mando por um moço um saco de roupa branca. +As minhas camisas e as minhas ceroulas talvez te estejam largas. +Mas um mendigo como tu não tem direito a elegâncias e +a roupas bem cortadas. O moço, num bom trote, entra aqui + +às duas horas; tens tempo de mudar antes de desceres para a +Estação... Posso meter na mala uma escova de +dentes.<br> + + +<br> + + +--Oh Zé Fernandes! Então mete também uma +esponja... E um frasco de água-de-colónia!<br> + + +<br> + + +--Água de alfazema, excelente, feita pela tia +Vicência...<br> + + + +<br> + + +O meu Príncipe suspirou, impressionado com a sua +miséria esquálida, e esta dádiva de +roupas:<br> + + +<br> + + +--Bem, então vamos dormir, que estou esfalfado de +emoções e de astros...<br> + + +<br> + + +Justamente Melchior entreabria a pesada porta, com timidez, a +avisar que «estavam preparadinhas as camas de suas +Incelências.» E seguindo o bom caseiro, que erguia uma +candeia, que avistamos nós, o meu Príncipe e eu, +ainda há pouco irmanados com os astros? Em duas saletas, que +uma abertura em arco, lôbrego arco de pedra, separava--duas +enxergas sobre o soalho. Junto à cabeceira <span class="pagenum">[223]</span>da mais larga, que pertencia ao senhor de +Tormes, um castiçal de latão sobre um alqueire; aos +pés, como lavatório, um alguidar vidrado em cima de +uma tripeça. Para mim, serrano daquelas serras, nem alguidar +nem alqueire.<br> + + + +<br> + + +Lentamente, com o pé, o meu supercivilizado amigo palpou a +enxerga. E decerto lhe sentiu uma dureza intransigente, porque +ficou pendido sobre ela, a correr desoladamente os dedos pela face +desmaiada.<br> + + +<br> + + +--E o pior não é ainda a enxerga, murmurou enfim com +um suspiro. É que não tenho camisa de dormir, nem +chinelas!... E não me posso deitar de camisa engomada.<br> + + +<br> + + +Por inspiração minha recorremos ao Melchior. De novo, +esse benemérito providenciou, trazendo a Jacinto, para ele +desafogar os pés, uns tamancos--e para embrulhar o corpo uma +camisa da comadre, enorme, de estopa, áspera como uma +estamenha de penitente, com folhos mais crespos e duros do que +lavores de madeira. Para consolar o meu Príncipe lembrei que +Platão quando compunha o <i>Banquete</i>, Vasco da Gama +quando dobrava o Cabo, não dormiam em melhores catres! As +enxergas rijas fazem as almas fortes, oh Jacinto!... E é + +só vestido de estamenha que se penetra no +Paraíso.<br> + + +<br> + + +<span class="pagenum">[224]</span>--Tens tu, volveu o meu amigo +secamente, alguma coisa que eu leia? Não posso adormecer sem +um livro.<br> + + +<br> + + +Eu? Um livro? Possuía apenas o velho numero do <i>Jornal do +Comércio</i>, que escapara à dispersão dos +nossos bens. Rasguei a copiosa folha pelo meio, partilhei com +Jacinto fraternalmente. Ele tomou a sua metade, que era a dos +anúncios... E quem não viu então Jacinto, +senhor de Tormes, acaçapado à borda da enxerga, rente +da vela de sebo que se derretia no alqueire, com os pés +encafuados nos socos, perdido dentro das ásperas pregas e +dos rijos folhos da camisa serrana, percorrendo num pedaço +velho de Gazeta, pensativamente, as partidas dos +Paquetes--não pode saber o que é uma intensa e +verídica imagem do Desalento.<br> + + + +<br> + + +Recolhido à minha alcova espartana, desabotoava o colete, +num delicioso cansaço, quando o meu Príncipe ainda me +reclamou:<br> + + +<br> + + +--Zé Fernandes...<br> + + +<br> + + +--Diz.<br> + + +<br> + + +--Manda também no saco um abotoador de botas.<br> + + + +<br> + + +Estirado comodamente na rija enxerga murmurei, como sempre murmuro +ao penetrar no Sono, que é um primo da Morte, <span class="pagenum">[225]</span>«Deus seja louvado!» Depois tomei +a metade do <i>Jornal do Comércio</i> que me pertencia.<br> + + +<br> + + +--Zé Fernandes...<br> + + + +<br> + + +--Que é?<br> + + +<br> + + +--Também podias meter no saco pós dos dentes... E uma +lima das unhas... E um romance!<br> + + +<br> + + +Já a meia Gazeta me escapava das mãos dormentes. Mas +da sua alcova, depois de soprar a vela, Jacinto murmurou entre um +bocejo:<br> + + +<br> + + +--Zé Fernandes...<br> + + + +<br> + + +--Hein?<br> + + +<br> + + +--Escreve para Lisboa, para o Hotel Bragança... Os +lençóis ao menos são frescos, cheiram bem, a +sadio!<br> + + +<br> + + +<br> + + +<br> + + +<h2>IX</h2> + + +<br> + + +<br> + + +Cedo, de madrugada, sem rumor, para não despertar o meu +Jacinto, que, com as mãos cruzadas sobre o peito, dormia +beatificamente na sua enxerga de granito--parti para +Guiães.<br> + + + +<br> + + +Ao cabo de uma semana, recolhendo uma manhã para o +almoço, encontrei no corredor as minhas malas tão +desejadas, que um moço do casal da Giesta trouxera num carro +com «recados do Sr. Pimentinha». O meu pensamento pulou +para o meu Príncipe. E lancei pelo telégrafo, para +Lisboa, para o Hotel Bragança, este brado +alegre:--«Estás lá? Sei recuperaste Grilo e +Civilização! Hurrah! Abraço!»--Só + +depois de sete dias, ocupados numa delicada apanha de espargos com +que outrora civilizara a horta da tia Vicência, notei o +silêncio de Jacinto. Num bilhete postal renovei, desenvolvi o +grito amigo:--«Estás lá? São os prazeres +da Baixa que assim te <span class="pagenum">[228]</span>tornam +desatento e mudo? Eu, todo espargos! Responde, quando chegas? Tempo +delicioso! 23º à sombra. E os ossos?...»--Veio +depois a devota romaria da Senhora da Roqueirinha. Durante a lua +nova andei num corte de mato, na minha terra das Corcas. A tia +Vicência vomitou, com uma indigestão de morcelas. E o +silêncio do meu Príncipe era ingrato e ferrenho.<br> + + + +<br> + + +Enfim uma tarde, voltando da Flor da Malva, de casa da minha prima +Joaninha, parei em Sandofim, na venda do Manuel Rico, para beber de +certo vinho branco que a minha alma conhece--e sempre pede.<br> + + +<br> + + +Defronte, à porta do ferrador, o Severo, sobrinho do +Melchior de Tormes e o mais fino alveitar da serra, picava tabaco, +escarranchado num banco. Mandei encher outro quartilho: ele +acariciou o pescoço da minha égua que já +salvara de um esfriamento: e, como eu indagasse do nosso Melchior, +o Severo contou que na véspera jantara com ele em Tormes, e +se abeirara também do fidalgo...<br> + + +<br> + + +--Ora essa! Então o Sr. D. Jacinto está em +Tormes?<br> + + + +<br> + + +O meu espanto divertiu o Severo:<br> + + +<br> + + +--Então V. Exc.ª... Pois em Tormes é que ele +está, há mais de cinco semanas, sem arredar! +<span class="pagenum">[229]</span>E parece que fica para a vindima, +e vai lá uma grandeza!<br> + + + +<br> + + +Santíssimo nome de Deus! Ao outro dia, domingo, depois da +missa e sem me assustar com a calma que carregava, trotei +alvoroçadamente para Tormes. Ao latir dos rafeiros, quando +transpus o portal solarengo, a comadre do Melchior acudiu dos lados +do curral, com um alguidar de lavagem encostado à +cintura.--Então o Sr. D. Jacinto?... O Sr. D. Jacinto andava +lá para baixo, com o Silvério e com o Melchior, nos +campos de Freixomil...<br> + + +<br> + + +--E o Sr. Grilo, o preto?<br> + + +<br> + + +--Há bocadinho também o enxerguei no pomar, com o +francês, a apanhar limões doces..<br> + + + +.<br> + + +Todas as janelas do solar rebrilhavam, com vidraças novas, +bem polidas. A um canto do pátio notei baldes de cal e +tigelas de tintas. Uma escada de pedreiro descansara durante o Dia +Santo arrimada contra o telhado. E, rente ao muro da capela, dois +gatos dormiam sobre montões de palha desempacotada de +caixotes consideráveis.<br> + + +<br> + + +--Bem, pensei eu. Eis a Civilização!<br> + + +<br> + + +Recolhi a égua, galguei a escada. Na varanda, sobre uma +pilha de ripas, reluzia num raio de sol uma banheira de zinco. +Dentro <span class="pagenum">[230]</span>encontrei todos os soalhos +remendados, esfregados a carqueja. As paredes, muito caiadas e +nuas, refrigeravam como as de um convento. Um quarto, a que me +levaram três portas escancaradas com franqueza serrana, era +certamente o de Jacinto: a roupa pendia de cabides de pau: o leito +de ferro, com coberta de fustão, encolhia timidamente a sua +rigidez virginal a um canto, entre o muro e a banquinha onde um +castiçal de latão resplandecia sobre um volume do + +<i>D. Quixote</i> no lavatório pintado de amarelo, imitando +bambu, apenas cabia o jarro, a bacia, um naco gordo de +sabão; e uma prateleirinha bastava ao esmerado alinho da +escova, da tesoura, do pente, do espelhinho de feira, e do +frasquinho de água de alfazema que eu mandara de +Guiães. As três janelas, sem cortinas, contemplavam a +beleza da serra, respirando um delicado e macio ar, que se +perfumava nas resinas dos pinheirais, depois nas roseiras da horta. +Em frente, no corredor, outro quarto repetia a mesma simplicidade. +Certamente a previdência do meu Príncipe o destinara +ao seu Zé Fernandes. Pendurei logo dentro, no cabide, o meu +guarda-pó de lustrina.<br> + + +<br> + + +Mas na sala imensa, onde tanto filosofáramos considerando as +estrelas, Jacinto arranjara um centro de repouso e de +estudo--e<span class="pagenum">[231]</span> desenrolara essa + +«grandeza» que impressionava o Severo. As cadeiras de +verga da Madeira, amplas e de braços, ofereciam o conforto +de almofadinhas de chita. Sobre a mesa enorme de pau branco, +carpinteirada em Tormes, admirei um candeeiro de metal de +três bicos, um tinteiro de frade armado de penas de pato, um +vaso de capela transbordando de cravos. Entre duas janelas uma +cómoda antiga, embutida, com ferragens lavradas, recebera +sobre o seu mármore rosado o devoto peso de um +Presépio, onde Reis Magos, pastores de surrões +vistosos, cordeiros de esguedelhada lã, se apressavam +através de alcantis para o Menino, que na sua lapinha lhes +abria os braços, coroado por uma enorme Coroa Real. Uma +estante de madeira enchia outro pedaço de parede, entre dois +retratos negros com caixilhos negros; sobre uma das suas +prateleiras repousavam duas espingardas; nas outras esperavam, +espalhados, como os primeiros Doutores nas bancadas de um +concílio, alguns nobres livros, um Plutarco, um +Virgílio, a Odisseia, o Manual de Epicteto, as +Crónicas de Froissart. Depois, em fila decorosa, cadeiras de +palhinha, muito novas, muito envernizadas. E a um canto um molho de +varapaus.<br> + + + +<br> + + +Tudo resplandecia de asseio e ordem. As <span class="pagenum">[232]</span>portadas das janelas, cerradas, abrigavam do +sol que batia aquele lado de Tormes, escaldando os peitoris de +pedra. Do soalho, borrifado de água, subia, na suavizada +penumbra, uma frescura. Os cravos rescendiam. Nem dos campos, nem +da casa, se elevava um rumor. Tormes dormia no esplendor da +manhã santa. E, penetrado por aquela consoladora +quietação de convento rural, terminei por me estender +numa cadeira de verga, junto da mesa, abrir languidamente um tomo +de Virgílio, e murmurar, apropriando o doce verso que +encontrara:<br> + + +<div class="quote">Fortunate Jacinthe! Hic, inter arva nota<br> + + +Et fontes sacros, frigus captabis opacum...</div> + + +<br> + + +Afortunado Jacinto, na verdade! Agora, entre campos que são +teus e águas que te são sagradas, colhes enfim a +sombra e a paz!<br> + + + +<br> + + +Li ainda outros versos. E, na fadiga das duas horas de égua +e calor desde Guiães, irreverentemente adormecia sobre o +divino Bucoliasta--quando me despertou um berro amigo! Era o meu +Príncipe. E muito decididamente, depois de me soltar do seu +rijo abraço, o comparei a uma planta estiolada, emurchecida +na escuridão, entre tapetes e sedas, que, levada para vento +e sol, profusamente <span class="pagenum">[233]</span>regada, +reverdece, desabrocha e honra a Natureza! Jacinto já +não corcovava. Sobre a sua arrefecida palidez de +supercivilizado, o ar montesino, ou vida mais verdadeira, espalhara +um rubor trigueiro e quente de sangue renovado que o virilizava +soberbamente. Dos olhos, que na Cidade andavam sempre tão +crepusculares e desviados do Mundo, saltava agora um brilho de +meio-dia, resoluto e largo, contente em se embeber na beleza das +coisas. Até o bigode se lhe encrespara. E já +não deslizava a mão desencantada sobre a face,--mas +batia com ela triunfalmente na coxa. Que sei? Era um Jacinto +novíssimo. E quase me assustava, por eu ter de aprender e +penetrar, neste novo Príncipe, os modos e as ideias +novas.<br> + + + +<br> + + +--Caramba, Jacinto, mas então...?<br> + + +<br> + + +Ele encolheu jovialmente os ombros realargados. E só me +soube contar, trilhando soberanamente com os sapatos brancos e +cobertos de pó o soalho remendado, que, ao acordar em +Tormes, depois de se lavar numa dorna, e de enfiar a minha roupa +branca, se sentira de repente como +<i>desanuviado</i>,desenvencilhado! Almoçara uma pratada de +ovos com chouriço, sublime. Passeara por toda aquela +magnificência da serra com pensamentos ligeiros de liberdade +e de paz. Mandara <span class="pagenum">[234]</span>ao Porto +comprar uma cama, uns cabides... E ali estava...<br> + + + +<br> + + +--Para todo o Verão?<br> + + +<br> + + +--Não! Mas um mês... Dois meses! Enquanto houver +chouriços, e a água da fonte, bebida pela telha ou +numa folha de couve, me souber tão divinamente!<br> + + +<br> + + +Caí sobre a cadeira de verga, e contemplei, arregalado, +quase esgazeado, o meu Príncipe! Ele enrolava numa mortalha +tabaco picado, tabaco grosso, guardado numa malga vidrada. E +exclamava:<br> + + + +<br> + + +--Ando aí pelas terras desde o romper de alva! Pesquei +já hoje quatro trutas, magníficas... Lá em +baixo, no Naves, um riachote que se atira pelo vale da Seranda... +Temos logo ao jantar essas trutas!<br> + + +<br> + + +Mas eu, ávido pela história daquela +ressurreição:<br> + + +<br> + + + +--Então, não estiveste em Lisboa?... Eu +telegrafei...<br> + + +<br> + + +--Qual telégrafo! Qual Lisboa! Estive lá em cima, ao +pé da fonte da Lira, à sombra de uma grande +árvore, <i>sub tegmine</i> não sei quê, a ler +esse adorável Virgílio... E também a arranjar +o meu palácio! Que te parece, Zé Fernandes? Em +três semanas, tudo soalhado, envidraçado, caiado, +encadeirado!... Trabalhou <span class="pagenum">[235]</span>a +freguesia inteira! Até eu pintei, com uma imensa brocha. +Viste o comedouro?<br> + + + +<br> + + +--Não.<br> + + +<br> + + +--Então vem admirar a beleza na simplicidade, +bárbaro!<br> + + +<br> + + +Era a mesma onde nós tanto exaltáramos o arroz com +favas--mas muito esfregada, muito caiada, com um rodapé +besuntado de azul estridente onde logo adivinhei a obra do meu +Príncipe. Uma toalha de linho de Guimarães cobria a +mesa, com as franjas roçando o soalho. No fundo dos pratos +de louça forte reluzia um galo amarelo. Era o mesmo galo e a +mesma louça em que na nossa casa, em Guiães, se +servem os feijões dos cavadores...<br> + + + +<br> + + +Mas no pátio os cães latiram. E Jacinto correu +à varanda, com uma ligeireza curiosa que me deleitou. Ah, +bem definitivamente se esfrangalhara aquela rede de malha que se +não percebia e que outrora o travava!--Nesse momento +apareceu o Grilo, de quinzena de linho, segurando em cada +mão uma garrafa de vinho branco. Todo se alegrou «em +ver na quinta o siô Fernandes». Mas a sua veneranda +face já não resplandecia, como em Paris, com um +tão sereno e ditoso brilho de ébano. Até me +pareceu que corcovava... Quando o interroguei sobre aquela +mudança, estendeu duvidosamente o beiço grosso:<br> + + + +<br> + + +<span class="pagenum">[236]</span>--O menino gosta, eu então +também gosto... Que o ar aqui é muito bom, siô +Fernandes, o ar é muito bom!<br> + + +<br> + + +Depois, mais baixo, envolvendo num gesto desolado a louça de +Barcelos, as facas de cabo de osso, as prateleiras de pinho como +num refeitório de Franciscanos:<br> + + + +<br> + + +--Mas muita magreza, siô Fernandes, muita magreza!<br> + + +<br> + + +Jacinto voltava com um maço de jornais cintados:<br> + + +<br> + + +--Era o carteiro. Já vês que não amuei +inteiramente com a Civilização. Eis a Imprensa!... +Mas nada de <i>Figaro</i>_, ou da horrenda <i>Dois-Mundos</i>! +Jornais de Agricultura! Para aprender como se produzem as risonhas +messes, e sob que signo se casa a vinha ao olmo, e que cuidados +necessita a abelha provida... <i>Quid faciat laetas segetes</i>... +De resto para esta nobre educação, já me +bastavam as <i>Geórgicas</i>, que tu ignoras!<br> + + + +<br> + + +Eu ri:<br> + + +<br> + + +--Alto lá! <i>Nos quoque gens sumus et nostrum Virgilium +sabemus!</i><br> + + +<br> + + +Mas o meu novíssimo amigo, debruçado da janela, batia +as palmas--como Catão para chamar os servos, na Roma +simples. E gritava:<br> + + +<br> + + +<span class="pagenum">[237]</span>--Ana Vaqueira! Um copo de + +água, bem lavado, da fonte velha!<br> + + +<br> + + +Pulei, imensamente divertido:<br> + + +<br> + + +--Oh Jacinto! E as águas carbonatadas? e as fosfatadas? e as +esterilizadas? e as sódicas?...<br> + + +<br> + + +O meu Príncipe atirou os ombros com um desdém +soberbo. E aclamou a aparição de um grande copo, todo +embaciado pela frescura nevada da água refulgente, que uma +bela moça trazia num prato. Eu admirei sobretudo a +moça... Que olhos, de um negro tão líquido e +sério! No andar, no quebrar da cinta, que harmonia e que +graça de Ninfa latina!<br> + + + +<br> + + +E apenas pela porta desaparecera a esplêndida +aparição:<br> + + +<br> + + +--Oh Jacinto, eu daqui a um instante também quero +água! E se compete a esta rapariga trazer as coisas, eu, de +cinco em cinco minutos, quero uma coisa!... Que olhos, que corpo... +Caramba, menino! Eis a poesia, toda viva, da serra...<br> + + +<br> + + +O meu Príncipe sorria, com sinceridade:<br> + + +<br> + + +--Não! não nos iludamos, Zé Fernandes, nem +façamos Arcádia. É uma bela moça, mas +uma bruta... Não há ali mais poesia, nem mais +sensibilidade, nem mesmo mais beleza do que numa linda vaca +taurina. Merece o <span class="pagenum">[238]</span>seu nome de Ana +Vaqueira. Trabalha bem, digere bem, concebe bem. Para isso a fez a +Natureza, assim sã e rija; e ela cumpre. O marido todavia +não parece contente, porque a desanca. Também + +é um belo bruto... Não, meu filho, a serra é +maravilhosa e muito grato lhe estou... Mas temos aqui a fêmea +em toda a sua animalidade e o macho em todo o seu egoísmo... +São porém verdadeiros, genuinamente verdadeiros! E +esta verdade, Zé Fernandes, é para mim um +repouso.<br> + + +<br> + + +Lentamente, gozando a frescura, o silêncio, a liberdade do +vasto casarão, retrocedemos à sala que Jacinto +já denominara a <i>Livraria</i>. E, de repente, ao avistar +num canto uma caixa com a tampa meio despregada, quase me +engasguei, na furiosa curiosidade que me assaltou:<br> + + + +<br> + + +--E os caixotes? Oh Jacinto?... Toda aquela imensa caixotaria que +nós mandámos, abarrotada de +Civilização? Soubeste? Apareceram?<br> + + +<br> + + +O meu Príncipe parou, bateu alegremente na coxa:<br> + + +<br> + + +--Sublime! Tu ainda te lembras daquele homenzinho, de saco a +tiracolo, que nós admirámos tanto pela sua +sagacidade, o seu saber geográfico?... Lembras? Apenas falei +em Tormes, gritou que conhecia, rabiscou <span class="pagenum">[239]</span>uma nota... Nem era necessário mais! + +«Oh! Tormes, perfeitamente, muito antigo, muito +curioso!» Pois mandou tudo para Alba-de-Tormes, em Espanha! +Está tudo em Espanha!<br> + + +<br> + + +Cocei o queixo, desconsolado:<br> + + +<br> + + +--Ora, ora... Um homem tão esperto, tão expedito, que +fazia tanta honra ao Progresso! Tudo para Espanha!... E mandaste +vir?<br> + + +<br> + + +--Não! Talvez mais tarde... Agora, Zé Fernandes, +estou saboreando esta delícia de me erguer pela +manhã, e de ter só uma escova para alisar o +cabelo.<br> + + + +<br> + + +Considerei, cheio de recordações, o meu amigo:<br> + + +<br> + + +--Tinhas umas nove...<br> + + +<br> + + +--Nove? Tinha vinte! Talvez trinta! E era uma +atrapalhação, não me bastavam!... Nunca em +Paris andei bem penteado. Assim com os meus setenta mil volumes: +eram tantos que nunca li nenhum. Assim com as minhas +ocupações: tanto me sobrecarregavam, que nunca fui +útil!<br> + + +<br> + + +<br> + + +<div class="break"> + +<hr></div> + + +<br> + + +<br> + + +De tarde, depois da calma, fomos vaguear pelos caminhos coleantes +daquela quinta rica, que, através de duas léguas, +ondula por vale e monte. Não me encontrara mais com Jacinto +em meio da Natureza, desde o <span class="pagenum">[240]</span>remoto dia de entremez em que ele tanto +sofrera no sociável e policiado bosque de Montmorency. Ah, +mas agora, com que segurança e idílico amor ele se +movia através dessa Natureza, donde andara tantos anos +desviado por teoria e por hábito! Já não +arreceava a humidade mortal das relvas; nem repelia como +impertinente o roçar das ramagens; nem o silêncio dos +altos o inquietava como um despovoamento do Universo. Era com +delícias, com um consolado sentimento de estabilidade +recuperada, que enterrava os grossos sapatos nas terras moles, como +no seu elemento natural e paterno: sem razão, deixava os +trilhos fáceis, para se embrenhar através de arbustos +emaranhados, e receber na face a carícia das folhas tenras; +sobre os outeiros, parava, imóvel, retendo os meus gestos e +quase o meu hálito, para se embeber de silêncio e de +paz: e duas vezes o surpreendi atento e sorrindo à beira de +um regatinho palreiro, como se lhe escutasse a +confidência...<br> + + + +<br> + + +Depois filosofava, sem descontinuar, com o entusiasmo de um +convertido, ávido de converter:<br> + + +<br> + + +--Como a inteligência aqui se liberta, hein? E como tudo +é animado de uma vida <span class="pagenum">[241]</span>forte e profunda!... Dizes tu agora, +Zé Fernandes, que não há aqui +pensamento...<br> + + + +<br> + + +--Eu?! Eu não digo nada, Jacinto...<br> + + +<br> + + +--Pois é uma maneira de reflectir muito estreita e muito +grosseira...<br> + + +<br> + + +--Ora essa! Mas eu...<br> + + +<br> + + +--Não, não percebes. A vida não se limita a +pensar, meu caro doutor...<br> + + + +<br> + + +--Que não sou!<br> + + +<br> + + +--A vida é essencialmente Vontade e Movimento: e naquele +pedaço de terra, plantado de milho, vai todo um mundo de +impulsos, de forças que se revelam, e que atingem a sua +expressão suprema, que é a Forma. Não, essa +tua filosofia está ainda extremamente grosseira...<br> + + + +<br> + + +--Irra! mas eu não...<br> + + +<br> + + +--E depois, menino, que inesgotável, que miraculosa +diversidade de formas... E todas belas!<br> + + +<br> + + +Agarrava o meu pobre braço, exigia que eu reparasse com +reverência. Na Natureza nunca eu descobriria um contorno feio +ou repetido! Nunca duas folhas de hera, que, na verdura ou recorte, +se assemelhassem! Na Cidade, pelo contrário, cada casa +repete servilmente a outra casa; todas as faces reproduzem a mesma +indiferença ou a mesma inquietação; as ideias +têm todas o mesmo valor, <span class="pagenum">[242]</span>o +mesmo cunho, a mesma forma, como as libras; e até o que +há mais pessoal e íntimo, a Ilusão, é + +em todos idêntica, e todos a respiram, e todos se perdem nela +como no mesmo nevoeiro... A <i>mesmice</i>_--eis o horror das +Cidades!<br> + + +<br> + + +--Mas aqui! Olha para aquele castanheiro. Há três +semanas que cada manhã o vejo, e sempre me parece outro... A +sombra, o sol, o vento, as nuvens, a chuva, incessantemente lhe +compõem uma expressão diversa e nova, sempre +interessante. Nunca a sua frequentação me poderia +fartar...<br> + + +<br> + + + +Eu murmurei:<br> + + +<br> + + +--É pena que não converse!<br> + + +<br> + + +O meu Príncipe recuou, com olhares chamejantes, de +Apóstolo:<br> + + +<br> + + +--Como que não converse? Mas é justamente um +conversador sublime! Está claro, não tem ditos, nem +parola teorias, <i>ore rotundo</i>. Mas nunca eu passo junto dele +que não me sugira um pensamento ou me não desvende +uma verdade... Ainda hoje quando eu voltava de pescar as trutas... +Parei: e logo ele me fez sentir como toda a sua vida de vegetal + +é isenta de trabalho, da ansiedade, do esforço que a +vida humana impõe; não tem de se preocupar com o +sustento, nem com o vestido, nem com o abrigo; filho querido +<span class="pagenum">[243]</span>de Deus, Deus o nutre, sem que +ele se mova ou se inquiete... E é esta segurança que +lhe dá tanta graça e tanta majestade. Pois não +achas?<br> + + +<br> + + +Eu sorria, concordava. Tudo isto era de certo rebuscado e +especioso. Mas que importavam as requintadas metáforas, e +essa Metafísica mal madura, colhida à pressa nos +ramos de um castanheiro? Sob toda aquela ideologia transparecia uma +excelente realidade--a reconciliação do meu +Príncipe com a Vida. Segura estava a sua +Ressurreição depois de tantos anos de cova, da cova +mole em que jazera, enfaixado como uma múmia nas faixas do +Pessimismo!<br> + + + +<br> + + +E o que esse Príncipe, nesta tarde me esfalfou! Farejava, +com uma curiosidade insaciável, todos os recantos da serra! +Galgava os cabeços correndo, como na esperança de +descobrir lá do alto os esplendores nunca contemplados de um +Mundo inédito. E o seu tormento era não conhecer os +nomes das árvores, da mais rasteira planta brotando das +fendas de um socalco... Constantemente me folheava como a um +Dicionário Botânico.<br> + + +<br> + + +--Fiz toda a sorte de cursos, passei pelos professores mais +ilustres da Europa, tenho trinta mil volumes, e não sei se +aquele senhor além é um amieiro ou um sobreiro...<br> + + + +<br> + + +<span class="pagenum">[244]</span>--É um azinheiro, +Jacinto.<br> + + +<br> + + +Já a tarde caía quando recolhemos muito lentamente. E +toda essa adorável paz do céu, realmente celestial, e +dos campos, onde cada folhinha conservava uma +quietação contemplativa, na luz docemente desmaiada, +pousando sobre as coisas com um liso e leve afago, penetrava +tão profundamente Jacinto, que eu o senti, no silêncio +em que caíramos, suspirar de puro alívio.<br> + + + +<br> + + +Depois, muito gravemente:<br> + + +<br> + + +--Tu dizes que na natureza não há pensamento...<br> + + +<br> + + +--Outra vez! Olha que maçada! Eu...<br> + + +<br> + + +--Mas é por estar nela suprimido o pensamento que lhe +está poupado o sofrimento! Nós, desgraçados, +não podemos suprimir o pensamento, mas certamente o podemos +disciplinar e impedir que ele se estonteie e se esfalfe, como na +fornalha das cidades, ideando gozos que nunca se realizam, +aspirando a certezas que nunca se atingem!... E é o que +aconselham estas colinas e estas árvores à nossa +alma, que vela e se agita:--que viva na paz de um sonho vago e nada +apeteça, nada tema, contra nada se insurja, e deixe o Mundo +rolar, não esperando dele senão um rumor de harmonia, +que a embale e lhe favoreça o <span class="pagenum">[245]</span>dormir dentro da mão de Deus. Hein, +não te parece, Zé Fernandes?<br> + + + +<br> + + +--Talvez. Mas é necessário então viver num +mosteiro, com o temperamento de S. Bruno, ou ter cento e quarenta +contos de renda e o desplante de certos Jacintos... E também +me parece que andámos léguas. Estou derreado. E que +fome!<br> + + +<br> + + +--Tanto melhor, para as trutas, e para o cabrito assado que nos +espera...<br> + + +<br> + + +--Bravo! Quem te cozinha?<br> + + +<br> + + + +--Uma afilhada do Melchior. Mulher sublime! Hás-de ver a +canja! Hás-de ver a cabidela! Ela é horrenda, quase +anã, com os olhos tortos, um verde e outro preto. Mas que +paladar! Que génio!<br> + + +<br> + + +Com efeito! Horácio dedicaria uma ode àquele cabrito +assado num espeto de cerejeira. E com as trutas, e o vinho +Melchior, e a cabidela, em que a sublime anã de olhos tortos +pusera inspirações que não são da +terra, e aquela doçura da noite de Junho, que pelas janelas +abertas nos envolveu no seu veludo negro, tão mole e +tão consolado fiquei, que, na sala onde nos esperava o +café, caí numa cadeira de verga, na mais larga, e de +melhores almofadas, e atirei um berro de pura delícia.<br> + + + +<br> + + +<span class="pagenum">[246]</span>Depois, com uma +recordação, limpando o café do pêlo dos +bigodes:<br> + + +<br> + + +--Ó Jacinto, e quando nós andávamos por Paris +com o Pessimismo às costas, a gemer que tudo era +ilusão e dor?<br> + + + +<br> + + +O meu Príncipe, que o cabrito tornara ainda mais alegre, +trilhava a grandes passadas o soalho, enrolando o cigarro:<br> + + +<br> + + +--Oh! que engenhosa besta, esse Schopenhauer! E maior besta eu, que +o sorvia, e que me desolava com sinceridade! E todavia,--continuava +ele, remexendo a chávena--o Pessimismo é uma teoria +bem consoladora para os que sofrem, porque desindividualiza o +sofrimento, alarga-o até o tornar uma lei universal, a lei +própria da Vida; portanto lhe tira o carácter +pungente de uma injustiça especial, cometida contra o +sofredor por um Destino inimigo e faccioso! Realmente o nosso mal +sobretudo nos amarga quando contemplamos ou imaginamos o bem do +nosso vizinho:--porque nos sentimos escolhidos e destacados para a +infelicidade, podendo, como ele, ter nascido para a Fortuna. Quem +se queixaria de ser coxo--se toda a humanidade coxeasse? E quais +não seriam os urros, e a furiosa revolta do homem envolto na +neve e friagem e borrasca de um Inverno especial, organizado +<span class="pagenum">[247]</span>nos céus para o envolver a +ele unicamente--enquanto em redor, toda a Humanidade se movesse na +luminosa benignidade de uma Primavera?<br> + + + +<br> + + +--Com efeito, murmurei eu, esse sujeito teria imensa razão +para urrar..<br> + + +.<br> + + +--E depois, clamava ainda o meu amigo, o Pessimismo é +excelente para os Inertes, por que lhes atenua o desgracioso delito +da Inércia. Se toda a meta é um monte de Dor, onde a +alma vai esbarrar, para quê marchar para a meta, +através dos embaraços do mundo? E de resto todos os +Líricos e Teóricos do Pessimismo, desde +Salomão até o maligno Schopenhauer, lançam o +seu cântico ou a sua doutrina para disfarçar a +humilhação das suas misérias, subordinando-as +todas a uma vasta lei de Vida, uma lei Cósmica, e ornando +assim com a auréola de uma origem quase divina as suas +miúdas desgraçazinhas de temperamento ou de Sorte. O +bom Schopenhauer formula todo o seu schopenhauerismo, quando + +é um filósofo sem editor, e um professor sem +discípulos; e sofre horrendamente de terrores e manias; e +esconde o seu dinheiro debaixo do sobrado; e redige as suas contas +em grego nos perpétuos lamentos da desconfiança; e +vive nas adegas com o medo de incêndios; e viaja com um copo +de lata na algibeira para <span class="pagenum">[248]</span>não beber em vidro que beiços +de leproso tivessem contaminado!... Então Schopenhauer +é sombriamente Schopenhauerista. Mas apenas penetra na +celebridade, e os seus miseráveis nervos se acalmam, e o +cerca uma paz amável, não há então, em +todo Francfort, burguês mais optimista, de face mais jucunda, +e gozando mais regradamente os bens da inteligência e da +Vida!... E o outro, o Israelita, o muito pedantesco rei de +Jerusalém! quando descobre esse sublime Retórico que +o mundo é Ilusão e Vaidade? Aos setenta e cinco anos, +quando o Poder lhe escapa das mãos trémulas, e o seu +serralho de trezentas concubinas se lhe torna ridiculamente +supérfluo. Então rompem os pomposos queixumes! Tudo + +é vaidade e aflição de espírito! nada +existe estável sob o sol! Com efeito, meu bom +Salomão, tudo passa--principalmente o poder de usar +trezentas concubinas! Mas que se restitua a esse velho +sultão asiático, besuntado de Literatura, a sua +virilidade,--e onde se sumirá o lamento do Eclesiastes? +Então voltará, em segunda e triunfal +edição, o êxtase do <i>Livro dos +Cantares</i>!...<br> + + + +<br> + + +Assim discursava o meu amigo no nocturno silêncio de Tormes. +Creio que ainda estabeleceu sobre o Pessimismo outras coisas +joviais, profundas ou elegantes;--mas eu <span class="pagenum">[249]</span>adormecera, beatificamente envolto em +Optimismo e doçura.<br> + + +<br> + + +Em breve porém, me fez pular, escancarar as pálpebras +moles, uma rija, larga, sadia e genuína risada. Era Jacinto, +estirado numa cadeira, que lia o D. Quixote... Oh bem aventurado +Príncipe! Conservara ele o agudo poder de arrancar teorias a +uma espiga de milho ainda verde, e por uma clemência de Deus, +que fizera reflorir o tronco seco, recuperara o dom divino de rir, +com as facécias de Sancho!<br> + + +<br> + + + +Aproveitando a minha companhia, as duas semanas de bucólica +ociosidade que eu lhe concedera, o meu Jacinto preparou +então a cerimónia tão falada, tão +meditada, a trasladação dos ossos dos velhos +Jacintos--dos «respeitáveis ossos» como +murmurava, cumprimentando, o bom Silvério, o procurador, +nessa manhã de sexta-feira, em que almoçava connosco, +metido num espantoso jaquetão de veludilho amarelo debruado +de seda azul! A cerimónia, de resto, reclamava muita +singeleza por serem tão incertos, quase impessoais, aqueles +restos, que nós estabeleceríamos na Capelinha do vale +da Carriça, na Capelinha toda nova, toda nua e toda fria, +ainda sem alma e sem calor de Deus.<br> + + + +<br> + + +--Por que enfim V. Ex.ª compreende,--explicava <span class="pagenum">[250]</span>o Silvério passando o guardanapo por +sobre a larga face suada e por sobre as imensas barbas negras, como +as de um turco--, naquela mixórdia... Oh! peço +desculpa a V. Ex.ª! Naquela confusão, quando tudo +desabou, não pudemos mais conhecer a quem pertenciam os +ossos. Nem sequer, falando verdade, nós sabíamos bem +que dignos avós de V. Ex.ª jaziam na capela velha, +assim tão antigos, com os letreiros apagados, senhores de +todo o nosso respeito, certamente, mas, se V. Ex.ª me permite, +senhores já muito desfeitos... Depois veio o desastre, a +mixórdia. E aqui está o que decidi, depois de pensar. +Mandei arranjar tantos caixões de chumbo, quantas as +caveiras que se apanharam lá em baixo na Carriça, +entre o lixo e o pedregulho. Havia sete caveiras e meia. Quero +dizer, sete caveiras e uma caveirinha pequenina. Metemos cada +caveira em seu caixão. Depois... Que quer V. Ex.ª? +Não havia outro meio! E aqui o Sr. Fernandes dirá se +não acha que procedemos com habilidade. A cada caveira +juntamos uma certa porção de ossos, uma +porção razoável... Não havia outro +meio... Nem todos os ossos se acharam. Canelas, por exemplo, +faltavam! E é bem possível que as costelas de um +daqueles senhores ficasse com a cabeça de outro... Mas quem +podia saber? Só Deus. Enfim <span class="pagenum">[251]</span>fizemos o que a prudência mandava... +Depois, no dia de Juízo, cada um destes fidalgos +apresentará os ossos que lhe pertencerem.<br> + + + +<br> + + +Lançava estas coisas macabras e tremendas, penetrado de +respeito, quase com majestade, espetando, ora em mim, ora no meu +Príncipe, os olhinhos agudos e reluzentes como +vidrilhos.<br> + + +<br> + + +Eu aprovei o pitoresco homem:<br> + + +<br> + + +--Perfeitamente! Andou perfeitamente, amigo Silvério. +São tão vagos, tão anónimos, todos +esses avós! Só faz pena, grande pena, que se +tresmalhassem os restos do avô Galeão.<br> + + + +<br> + + +--Não estava cá! acudiu Jacinto. Vim a Tormes +expressamente por causa do avô Galeão, e por fim o seu +jazigo nunca foi aqui, na Capelinha da Carriça... +Felizmente!<br> + + +<br> + + +O Silvério sacudia gravemente a calva trigueira:<br> + + +<br> + + +--Nunca tivemos o Ex.^<sup>mo</sup> Sr. Galeão. Há + +cem anos, Sr. Fernandes, há cem anos que se não +depositava na capela velha corpo de cavalheiro cá da +casa.<br> + + +<br> + + +--Onde estará então?...<br> + + +<br> + + +O meu Príncipe encolheu os ombros. Por esse Reino... Na +igrejinha, no cemitério de alguma das freguesias numerosas, +onde ele possuía terras. Casa tão espalhada!<br> + + + +<br> + + +<span class="pagenum">[252]</span>--Bem! concluí. +Então, como se trata de ossadas vagas, sem nome, sem data, +convém uma ceremoniazinha muito simples, muito +sóbria.<br> + + +<br> + + +--Quietinha, quietinha! murmurou o Silvério, dando um forte +sorvo assobiado ao café.<br> + + +<br> + + +E foi quietinha, de uma rústica e doce singeleza, a +cerimónia daqueles altos senhores. Cedo, por uma +manhã, levemente enevoada, os oito caixões +pequeninos, cobertos de um veludo vermelho mais de festa que de +funeral, com molhos de rosas espalhados, contendo cada um o seu +montezinho de ossos incertos, saíram aos ombros dos coveiros +de Tormes e dos moços da quinta, da Igreja de S. +José, cujo sino leve tangia, na enevoada doçura da +manhã,--quanto fina e levemente!--como pia um passarinho +triste. Adiante, um airoso moço de sobrepeliz, erguia com +zelo a velha cruz prateada; abrigando o pescoço sob um +imenso lenço de rapé, de quadrados azuis, o velho e +corcovado sacristão segurava pensativamente a caldeirinha de + +água benta; e o bom abade de S. José, com os dedos +entre o breviário fechado, movia os lábios, numa +lenta, murmurosa reza, que ia, pelo doce ar, espalhando mais +doçura. Logo atrás do último cofre, o mais +pequenino, o da caveirinha pequena, Jacinto caminhava; e eu, +<span class="pagenum">[253]</span>a estalar dentro de um fato preto +de Jacinto, tirado à pressa de uma das malas de Paris +quando, de manhã, já tarde para mandar a +Guiães, me lembrei que toda a minha roupa era de cores +festivais e pastoris.<br> + + +<br> + + + +Depois marchava o Silvério, soleníssimo, com um +imenso peitilho, onde as barbas imensas se alastravam, +negríssimas. De casaca, com o grosso beiço +descaído, descaído todo ele por aquela melancolia de +enterro que se juntava à melancolia da serra, o Grilo +enfiava no braço a sua coroa, enorme, de rosas e de heras. +Por fim seguia o Melchior, entre um rancho de mulheres, que, +sumidas na sombra dos lenços pretos, desfiando longos +rosários, rosnavam surdas ave-marias, através de +espaçados suspiros, tão doridos como se +inconsoladamente lhes doesse a perda daqueles Jacintos. Assim, +pelas várzeas entrecorridas de regueiros, lenta nos recostos +dos matos, escorregando mais rápida, pelos córregos +pedregosos, seguia a procissão, sempre com a cruz adiante, +alta e prateada, rebrilhando por vezes num breve raiozinho de sol +que, vagarosamente, surdia da névoa desfeita. Ramos baixos +de lodão ou de salgueiro passavam uma derradeira +carícia sobre o veludo dos caixões.<br> + + + +<br> + + +Um regato por vezes nos acompanhava, <span class="pagenum">[254]</span>com discreto fulgir entre as relvas, +sussurrando e como rezando também, alegremente: e nos +quintalinhos umbrosos, à nossa passagem, os galos, de cima +das pilhas de mato, faziam soar o seu clarim festivo. Depois, +adiante da fonte da Lira, como o caminho se alongava, e +desejássemos poupar o nosso velho abade, cortámos +através de uma seara, já alta, quase madura, toda +entremeada de papoilas, O sol radiou: sob a brisa larga, que levara +a névoa, toda a messe ondulou numa lenta vaga dourada, em +que se balouçavam os esquifes; e, como enorme papoila, a +mais vermelha, rutilava o guarda-sol de paninho logo aberto pelo +sacristão para abrigar o abade.<br> + + +<br> + + + +Jacinto tocou no meu cotovelo:<br> + + +<br> + + +--Que lindos vamos! Ora vê tu a Natureza... Num simples +enterrar de ossos, quanta graça e quanta beleza!<br> + + +<br> + + +Na Capelinha, nova, dominando o vale da Carriça, +solitária e muito nua, no meio de um adro, ainda mal +alisado, sem uma verdura de relva, uma frescura de arbusto, dois +moços seguravam à porta molhos de tochas, que o +Silvério distribuiu, a passos graves, com cortesias, +soleníssimo. Dentro as curtas chamas, mal luziam, mal +derramavam a sua amarelidão triste, esbatidas na reluzente +brancura <span class="pagenum">[255]</span>dos muros estacados, na +jovial claridade que caía das altas vidraças bem +polidas. Em torno dos esquifes, pousados sobre bancos, que pesados +veludilhos recobriam, o abade murmurava um suave latim, enquanto ao +fundo as mulheres, sumidas na sombra dos seus negros lenços, +gemiam <i>amens</i> agudos, abafavam um respeitoso soluço. +Depois, tomando levemente o hissope, ainda o bom abade aspergiu, +para uma derradeira purificação, os incertos ossos +dos incertos Jacintos. E todos desfilámos por diante do meu +Príncipe, timidamente encostado à ombreira, com o +Silvério ao lado esmagando contra o peitilho as barbas +imensas, a face descaída, cerradas as pálpebras como +contendo lágrimas.<br> + + + +<br> + + +No adro, o meu Príncipe acendeu regaladamente um cigarro +pedido ao Melchior:<br> + + +<br> + + +--E então, Zé Fernandes, que te pareceu a +cerimoniazinha?<br> + + +<br> + + +--Muito campestre, muito suave, muito risonha... Uma +delícia.<br> + + +<br> + + +Mas o Abade, que se desvestira na Sacristia, apareceu, já + +com o seu grande casaco de lustrina, e seu velho chapéu +desabado, trazidos pelo moço da Residência, num saco +de chita. Jacinto, imediatamente lhe agradeceu tantos cuidados, a +afável hospitalidade <span class="pagenum">[256]</span>que +oferecera aos ossos, durante a construção da +Capelinha nova. E o suave velho, todo branquinho, de faces ainda +menineiras e coradas, com um claro sorriso de dentes sadios, +louvava Jacinto, que assim viera de tão longe, em tão +longa jornada, para cumprir aquele dever de bom neto.<br> + + +<br> + + +--São avós muito remotos, e agora tão +confusos! murmurava Jacinto sorrindo.<br> + + + +<br> + + +--Pois mais mérito ainda o de V. Ex.ª. Respeitar um +avô morto, bem é corrente... Mas respeitar os ossos de +um quinto avô, de um sétimo avô!<br> + + +<br> + + +--Sobretudo, Sr. Abade, quando deles nada se sabe, e naturalmente +nada fizeram.<br> + + +<br> + + +O velho sacudiu risonhamente o dedo gordo:<br> + + + +<br> + + +--Ora quem sabe, quem sabe! Talvez fossem excelentes! E por fim, +quem muito se demora no mundo, como eu, termina por se convencer +que no mundo não há coisa ou ser inútil. Ainda +ontem eu lia num jornal do Porto, que por fim, segundo se +descobriu, são as minhocas que estrumam e lavram a terra, +antes de chegar o lavrador e os bois com o arado. Até as +minhocas são úteis. Não há nada +inútil... Eu tinha lá na residência uma +porção de cardos a um canto da horta, que me +afligiam. Pois reflecti e terminei por me regalar com eles em +xarope. Os avós de <span class="pagenum">[257]</span>V. +Ex.ª por cá andaram, por cá trabalharam, por +cá padeceram. Quer dizer: por cá serviram. E, em todo +o caso, que lhes rezemos um Padre-Nosso por alma não lhes +pode fazer senão bem, a eles e a nós.<br> + + + +<br> + + +E assim, docemente filosofando, parámos num souto de +carvalheiras, onde esperava a velhíssima égua do +Abade, por que o santo homem agora, depois do reumatismo do +último Inverno, já não afrontava rijamente +como antes os trilhos duros da serra. Para ele montar, filialmente +Jacinto segurou o estribo. E enquanto a égua se empurrava +pelo córrego acima, quase tapada sob o imenso guarda-sol +vermelho em que se abrigava o velho, nós recolhemos a casa +metendo pela serra da Lombinha, através dos milhos, e +depressa, porque eu estalava, aperreado, dentro da roupa preta do +meu Príncipe.<br> + + +<br> + + +--Estão pois acomodados estes senhores, Zé Fernandes! +Só resta rezar por eles o Padre-Nosso, que recomenda o +abade... Somente, eu não sei, já não me lembro +do Padre-Nosso.<br> + + + +<br> + + +--Não te aflijas, Jacinto: peço à tia +Vicência que reze por mim e por ti. É sempre a tia +Vicência que reza os meus Padres-Nossos.<br> + + +<br> + + +<span class="pagenum">[258]</span>Durante essas semanas que +preguicei em Tormes, eu assisti, com enternecido interesse, a uma +considerável evolução de Jacinto nas suas +relações com a Natureza. Daquele período +sentimental de contemplação, em que colhia teorias +nos ramos de qualquer cerejeira, e edificava Sistemas sobre o +espumar das levadas, o meu Príncipe lentamente passava para +o desejo da Acção... E de uma acção +directa e material, em que a sua mão, enfim +restituída a uma função superior, revolvesse o +torrão.<br> + + + +<br> + + +Depois de tanto _comentar_, o meu Príncipe, evidentemente, +aspirava a <i>criar</i>.<br> + + +<br> + + +Uma tardinha, ao anoitecer, sentados no pomar, no rebordo do +tanque, enquanto o Manuel hortelão apanhava laranjas no alto +de uma escada arrimada a uma alta laranjeira, Jacinto observou, +mais para si do que para mim:<br> + + +<br> + + +--É curioso... Nunca plantei uma árvore!<br> + + +<br> + + + +--Pois é um dos três grandes actos, sem os quais +segundo diz não sei que Filósofo, nunca se foi um +verdadeiro homem... Fazer um filho, plantar uma árvore, +escrever um livro. Tens de te apressar, para ser um homem. É +possível que talvez nunca prestasses um serviço a uma +árvore, como se presta a um semelhante!<br> + + +<br> + + +<span class="pagenum">[259]</span>--Sim... Em Paris, quando era +pequeno, regava os lilases. E no Verão é um belo +serviço! Mas nunca semeei.<br> + + + +<br> + + +E como o Manuel descia da escada, o meu Príncipe, que nunca +acreditara inteiramente--pobre homem!--no meu saber +agrícola, imediatamente reclamou o parecer daquela +autoridade:<br> + + +<br> + + +--Oh Manuel, ouça lá, o que é que se poderia +agora semear?<br> + + +<br> + + +Com o cesto das laranjas enfiado no braço, o Manuel +exclamou, através de um lento riso, entre respeitoso e +divertido:<br> + + + +<br> + + +--Semear, patrão? Agora é antes colher... Olhe que +já se anda a limpar a eirazinha para a debulha, meu +patrão.<br> + + +<br> + + +--Pois sim... Mas sem ser milho nem cevada... Então ali no +pomar, rente do muro velho, não se podia plantar uma fila de +pessegueiros?<br> + + +<br> + + +O riso do Manuel crescia.<br> + + + +<br> + + +--Isso sim, meu senhor! Isso é lá para os Santos ou +para o Natal. Agora só a couvinha na horta, a beldroega, os +espinafres, algum feijãozinho em terra muito fresca...<br> + + +<br> + + +O meu Príncipe sacudiu com brando gesto estes legumes +rasteiros.<br> + + +<br> + + +--Bem, boa noite, Manuel. Essas laranjas são da tal +laranjeira que diz o Melchior, muito <span class="pagenum">[260]</span>doces, muito finas? Então leve para os +seus pequenos. Leve muitas para os pequenos.<br> + + + +<br> + + +Não! o empenho era criar a árvore. Pela árvore +contemplada na serra em sua verdadeira majestade, na +beneficência da sua sombra, na frescura embaladora do seu +rumorejar, na graça e santidade dos ninhos que a povoam, +começara talvez, lentamente, o seu amor novo da Terra. E +agora sonhava uma Tormes toda coberta de árvores, cujos +frutos e verduras, e sombras, e rumorejos suaves, e abrigados +ninhos, fossem a obra e o cuidado das suas mãos +paternais.<br> + + +<br> + + +No silêncio grave do crepúsculo, que descia, murmurou +ainda:<br> + + +<br> + + + +--Oh Zé Fernandes; quais são as árvores que +crescem mais depressa?<br> + + +<br> + + +--Eh, meu Jacinto... A árvore que cresce mais depressa +é o eucalipto, o feiíssimo e ridículo +eucalipto. Em seis anos tens aí Tormes coberta de +eucaliptos...<br> + + +<br> + + + +--Tudo tão lento, Zé Fernandes...<br> + + +<br> + + +Porque o seu sonho, que eu compreendia, seria plantar +caroços que subissem em fortes troncos, se alargassem em +verdes ramarias, antes de ele voltar ao 202, no começo do +Inverno...<br> + + +<br> + + +--Um carvalho!... Trinta anos, antes que seja belo! Desanimo! +É bom para Deus, <span class="pagenum">[261]</span>que pode +esperar... <i>Patiens quia aeternus.</i> Trinta anos! Daqui a +trinta anos, árvores só para me cobrirem a +sepultura!<br> + + + +<br> + + +--Já é um ganho. E depois para teus filhos, +Jacinto...<br> + + +<br> + + +--Filhos! onde os tenho eu?<br> + + +<br> + + +--É o mesmo processo dos castanheiros. Semeia. Não +faltam por aí terras agradáveis... Em nove meses tens +uma planta feita. E quanto mais tenrinhas, e mais pequeninas, mais +essas plantas encantam.<br> + + + +Ele murmurou, cruzando as mãos sobre o joelho:<br> + + +<br> + + +--Tudo leva tanto tempo!...<br> + + +<br> + + +E à borda do tanque nos quedámos, calados, na fresca +doçura do anoitecer, entre o cheiro avivado das madressilvas +do muro, olhando o crescente da lua, que surdia dos telhados de +Tormes. E decerto esta pressa de se tornar entre a Natureza +não mais um sonhador, mas um criador, arremessou vivamente o +seu interesse para os gados! Repetidamente, nos nossos passeios +através da quinta, ele lhe notava a solidão.<br> + + +<br> + + + +--Faltam aqui animais, Zé Fernandes!<br> + + +<br> + + +Imaginava eu, que ele apetecia em Tormes o ornato elegante de +veados e pavões. Mas um domingo, costeando o largo campo da +<span class="pagenum">[262]</span>Ribeirinha, sempre escasso de +águas, agora mais ressequido por Verão de tanta +secura, o meu Príncipe parou a considerar os três +carneiros do caseiro, que retouçavam com penúria uma +relvagem pobre.<br> + + +<br> + + + +E, de repente, como magoado:<br> + + +<br> + + +--Justamente! Aqui está o espaço para um belo prado, +um imenso prado, muito verde, muito farto, com rebanhos de +carneiros brancos, gordíssimos como bolas de algodão +pousadas na relva!... Era lindo, hein? É fácil, +não é verdade, Zé Fernandes?<br> + + + +<br> + + +--Sim... Trazes a água para o prado. Águas não +faltam, na serra.<br> + + +<br> + + +E o meu Príncipe encadeando logo nesta inspirada ideia +outra, mais rica e vasta, lembrou quanta beleza daria a Tormes +encher esses prados, esses verdes ferragiais, de manadas de vacas, +formosas vacas inglesas, bem nédias e bem luzidias. Hein? +Uma beleza. Para abrigar esses gados ricos, construiria currais +perfeitos, de uma arquitectura leve e útil, toda em ferro e +vidro, fundamente varridos pelo ar, largamente lavados pela +água... Hein? Que formosura! Depois, com todas essas vacas, +e o leite jorrando, nada mais fácil e mais divertido, e +até mais moral, que a instalação de uma +queijeira, à fresca moda Holandesa, toda branca e reluzente, +de azulejos <span class="pagenum">[263]</span>e de mármore, +para fabricar os Camemberts, os Bries... os Coulommiers... Para a +casa, que conforto! E para toda a serra, que actividade!<br> + + + +<br> + + +--Pois não te parece, Zé Fernandes?<br> + + +<br> + + +--Concerteza. Tu tens, em abundância, os quatro Elementos: o +ar, a água, a terra, e o dinheiro. Com estes quatro +elementos, facilmente se faz uma grande lavoura. Quanto mais uma +queijeira!<br> + + +<br> + + +--Pois não é verdade? E até como +negócio! Está claro, para mim o lucro é o +deleite moral do trabalho, o emprego fecundo do dia... Mas uma +queijaria, assim perfeita, rende. Rende prodigiosamente. E educa o +paladar, incita a instalações iguais, implanta talvez +no país uma indústria nova e rica! Ora com essa +instalação, perfeita, quanto me poderá custar +cada queijo?<br> + + + +<br> + + +Fechei um olho, calculando:<br> + + +<br> + + +--Eu te digo.... Cada queijo, um desses queijinhos redondos, como o +Camembert ou o Rabaçal, pode vir a custar-te, a ti Jacinto +queijeiro, entre duzentos e cinquenta e trezentos mil +réis.<br> + + +<br> + + +O meu Príncipe recuou, com dois olhos alegres espantados +para mim.<br> + + +<br> + + +--Como trezentos mil réis?<br> + + +<br> + + + +<span class="pagenum">[264]</span>--Ponhamos duzentos... Tem a +certeza! Com todos esses prados, e os encanamentos de água e +a configuração da serra alterada, e as vacas +inglesas, e os edifícios de porcelana e vidro, e as +máquinas, a extravagância, e a patuscada +bucólica, cada queijo te custa, a ti produtor, duzentos mil +réis. Mas com certeza o vendes no Porto por um +tostão. Põe cinquenta réis para a caixa, +rótulos, transporte, comissão, etc. Tens apenas, em +cada queijo uma perda de cento e noventa e nove mil oitocentos e +cinquenta réis!<br> + + +<br> + + + +O meu Príncipe não desanimou.<br> + + +<br> + + +--Perfeitamente! Faço um desses espantosos queijos por +semana, ao sábado, para o comermos nós ambos ao +domingo!<br> + + +<br> + + +E tanta energia lhe comunicava o seu novo Optimismo, tão +ansiosamente aspirava a criar, que logo, arrastando o +Silvério e o Melchior por cabeços e barrancos, largou +a percorrer a quinta toda, para determinar onde cresceriam, ao seu +mando inspirado, os verdes prados, e se ergueriam, rebrilhantes no +sol de Tormes, os currais elegantes. Com a esplêndida +segurança dos seus cento e nove contos de renda, não +surgia dificuldade, risonhamente murmurada pelo Melchior, ou +exclamada, com respeitoso pasmo, pelo Silvério, <span class="pagenum">[265]</span>que ele não afastasse brandamente, com +jeito leve, como um galho de roseira brava atravessado numa +vereda.<br> + + + +<br> + + +Aquelas rochas, além, empecendo? Que se arrancassem! Um vale +importuno dividia dois campos? Que se atulhasse! O Silvério +suspirava, enxugando sobre a escura calva um suor quase de +angústia. Pobre Silvério! Rijamente sacudido na doce +pachorra da sua administração, calculando despesas +que se afiguravam sobre-humanas à sua parcimónia +serrana, forçado a arquejar, sem descanso, sob soalheiras de +Junho, o desgraçado retomara na Serra o jeito que Jacinto +deixara em Paris,--e era ele que corria pelas longas barbas +tenebrosas os dedos desalentados... Enfim uma tarde desabafou +comigo, a um canto da varanda, enquanto Jacinto, na livraria, +escrevia a um seu amigo de Holanda, o conde Rylant, Mordomo-Mor da +Corte, pedindo desenhos, e planos, e orçamentos de uma +queijeira perfeita.<br> + + +<br> + + +--Pois, Sr. Fernandes, se toda esta grandeza vai por diante, sempre +lhe digo que o Sr. D. Jacinto enterra aqui na serra dezenas de +contos... Dezenas de contos!<br> + + + +<br> + + +E como eu aludia à fortuna do meu Príncipe, a quem +todas essas obras tão vastas, que alterariam o +antiquíssimo rosto da serra, <span class="pagenum">[266]</span>não custavam mais que a outros o +concerto de um socalco,--o bom Silvério atirou os longos +braços para as coxas gordas, ainda mais desolado:<br> + + +<br> + + +--Pois por isso mesmo, Sr. Fernandes! Se o Sr. D. Jacinto +não tivesse a dinheirama, recuava. Assim, é + +zás zás, para diante; e eu não o censuro pela +ideia. Lograsse eu a renda de S. Ex.ª, que me atirava +também a uma lavoura de capricho. Mas não aqui, Sr. +Fernandes, nestas serranias, entre alcantis. Pois um senhor que +possui aquela linda propriedade de Montemor, nos campos do Mondego, +onde até podia plantar jardins de desbancar os do +Palácio de Cristal do Porto! E a Veleira? O Sr. Fernandes +não conhece a Veleira, lá para os lados de Penafiel? +Isso é um condado! E uma terra chã, boa terra, toda +junta, ali em volta da casa, com uma torre. Um regalo, Sr. +Fernandes. Mas sobretudo Montemor! Lá é que eram +prados e manadas de vacas inglesas, e queijeira e horta rica, de +fartar, e aí trinta perus na capoeira...<br> + + + +<br> + + +--Então que quer, Silvério? O Jacinto gosta da serra. +E depois este é o solar da família, e aqui +começaram no século XIV os Jacintos...<br> + + +<br> + + +O pobre Silvério, no seu desespero, esquecia <span class="pagenum">[267]</span>o respeito devido à secular nobreza da +casa.<br> + + + +<br> + + +--Ora! até ficam mal ao Sr. Fernandes essas ideias, neste +século da liberdade... Pois estamos lá em tempos de +se falar em fidalguias, agora que por toda a parte anda tudo em +República? Leia o <i>Século</i>, Sr. Fernandes! leia +o <i>Século</i>, e verá! E depois eu sempre quero ver +o Sr. D. Jacinto, aqui no Inverno, com o nevoeiro a subir do rio +logo pela manhã, e a friagem a trespassar os ossos, e +ventanias que atiram carvalheiras de raízes ao ar, e chuvas +e chuvas que se desfaz a serra!... Olhe, até mesmo por amor +da saúde o Sr. D. Jacinto, que é fraquinho e +acostumado à cidade, necessita sair da serra. Em Montemor, +em Montemor é que S. Ex.ª estava bem. E o Sr. +Fernandes, tão amigo dele e assim com tanta +influência, devia teimar, e berrar, até que o levasse +para Montemor.<br> + + + +<br> + + +Mas, infelizmente para a quietação do +Silvério, Jacinto lançara raízes, e rijas, e +amorosas raízes na sua rude serra. Era realmente como se o +tivessem plantado de estaca naquele antiquíssimo +chão, donde brotara a sua raça, e o +antiquíssimo húmus refluísse e o penetrasse +todo, e o andasse transformando num Jacinto rural, quase vegetal, +tão do <span class="pagenum">[261]</span>chão, e +preso ao chão, como as árvores que ele tanto +amava.<br> + + + +<br> + + +E depois o que o prendia à serra era o ter nela encontrado o +que na Cidade, apesar da sua sociabilidade, não encontrara +nunca,--dias tão cheios, tão deliciosamente ocupados, +de um tão saboroso interesse, que sempre penetrava neles, +como numa festa ou numa glória.<br> + + +<br> + + +Logo de manhã, às seis horas, eu, no meu quarto, +mexendo ainda regaladamente o meu corpo nos colchões de +fresco folhelho, sentia os seus rijos sapatões pelo +corredor, e o seu cantarolar, desafinado, mas ditoso como o de um +melro. Em poucos instantes escancarava com fragor a minha porta, +já de chapéu desabado, já de bengalão +de cerejeira, disposto com reservado fervor para os trilhos +conhecidos da serra. E era sempre a mesma nova, quase +orgulhosa:<br> + + + +<br> + + +--Dormi hoje deliciosamente, Zé Fernandes. Tão bem, +com uma tal serenidade, que começo a acreditar que sou um +justo! Um dia lindo! Quando abri a janela, às cinco horas, +quase gritei de puro gosto!<br> + + +<br> + + +Na sua pressa, nem me deixava demorar na frescura da banheira; e +quando eu repetia a risca mal começada do cabelo, aquele +antigo homem das trinta e nove escovas, protestava <span class="pagenum">[269]</span>contra esse desbarato efeminado de um tempo +devido aos fortes gozos da terra.<br> + + +<br> + + +Mas quando, depois de acariciar os rafeiros no pátio, +desembocávamos da alameda de plátanos, e diante de +nós se dividiam matutinamente, mais brancos entre o verde +matutino, os caminhos coleantes da quinta, toda a sua pressa +findava, e penetrava na Natureza, com a reverente lentidão +de quem penetra num Templo. E repetidamente sustentava ser + +«contrário à Estética, à +Filosofia e à Religião, andar depressa através +dos campos.» De resto, com aquela subtil sensibilidade +bucólica que nele se desenvolvera, e incessantemente se +afinava, qualquer breve beleza, do ar ou da terra, lhe bastava para +um longo encanto. Ditosamente poderia ele entreter toda uma +manhã, caminhar por entre um pinheiral, de tronco a tronco, +calado, embebido no silêncio, na frescura, no resinoso aroma, +empurrando com o pé as agulhas e as pinhas secas. Qualquer + +água corrente o retinha, enternecido naquela serviçal +actividade, que se apressa, cantando, para o torrão que tem +sede, e nele se some, e se perde. E recordo ainda quando me reteve +meio domingo, depois da Missa, no cabeço, junto a um velho +curral desmantelado, sob uma grande árvore,--só por +que em torno havia quietação, <span class="pagenum">[270]</span>doce aragem, um fino piar de ave na ramaria, +um murmúrio de regato entre canas verdes, e por sobre a +sebe, ao lado, um perfume, muito fino e muito fresco, de flores +escondidas.<br> + + +<br> + + +Depois, quando eu, velho familiar das serras, me não +abandonava aos mesmos êxtases que a ele lhe enchiam a alma +ainda noviça--o meu Príncipe rugia, com a +indignação de um poeta que descobre um merceeiro +bocejando sobre Shakespeare ou Musset. Eu ria.<br> + + + +<br> + + +--Meu filho, olha que eu não passo de um pequeno +proprietário. Para mim não se trata de saber se a +terra é <i>linda</i>, mas se a terra é <i>boa</i>. +Olha o que diz a Bíblia! «Trabalharás a quinta +com o suor do teu rosto!» E não diz + +«contemplarás a quinta com o enlevo da tua +imaginação!»<br> + + +<br> + + +--Pudera! exclamava o meu Príncipe. Um livro escrito por +Judeus, por ásperos semitas, sempre com o turvo olho posto +no lucro! Repara, homem, para aquele bocadinho de vale, e consegue +não pensar, por um momento, nos trinta mil réis que +ele rende! Verás que pela sua beleza e graça ele te +dá mais contentamento à alma que os trinta mil +réis ao corpo. E na vida só a alma importa.<br> + + + +<br> + + +Recolhendo ao casarão, já o encontrávamos com +as janelas meio cerradas, os soalhos <span class="pagenum">[271]</span>borrifados para aquelas quentes +réstias de sol de Junho, que depois do almoço +docemente nos retinham na livraria, preguiçando.<br> + + +<br> + + +Mas realmente a alegre actividade do meu Príncipe não +cessava, nem amolecia, sob o peso da sesta. A essa hora, enquanto +pelo arvoredo mudo os mais agitados pardais dormiam, e o sol mesmo +parecia repousar, imóvel na rutilância da sua luz, +Jacinto com o espírito acordado,--ávido de sempre +gozar, agora que reconquistara essa faculdade,--tomava com +delícia o <i>seu livro</i>. Por que o dono de trinta mil +volumes era agora, na sua casa de Tormes, depois de ressuscitado, o +homem que só tem um livro. Essa mesma Natureza, que o +desligara das ligaduras amortalhadoras do tédio, e lhe +gritara o seu belo <i>Ambula</i>, caminha!--também +certamente lhe gritara <i>et lege</i>, e lê. E libertado +enfim do invólucro sufocante da sua Biblioteca imensa, o meu +ditoso amigo compreendia enfim a incomparável delícia +de <i>ler um livro</i>. Quando eu correra a Tormes, (depois das +revelações do Severo na venda do Torto,) ele findava +o D. Quixote, e ainda eu lhe escutara as derradeiras risadas com as +coisas deliciosas, e de certo profundas, que o gordo Sancho lhe +murmurava, escarranchado no seu burro. Mas agora o meu +Príncipe mergulhara na <i>Odisseia</i>,--e todo <span class="pagenum">[272]</span>ele vivia no espanto e no deslumbramento de +assim ter encontrado no meio do caminho da sua vida, o velho +errante, o velho Homero!<br> + + + +<br> + + +--Oh Zé Fernandes, como sucedeu que eu chegasse a esta idade +sem ter lido Homero?...<br> + + +<br> + + +--Outras leituras, mais urgentes... O <i>Figaro</i>, George +Ohnet...<br> + + +<br> + + +--Tu leste a <i>Ilíada</i>?<br> + + +<br> + + + +--Menino, sinceramente me gabo de nunca ter lido a +<i>Ilíada</i>.<br> + + +<br> + + +Os olhos do meu Príncipe fuzilavam.<br> + + +<br> + + +--Tu sabes o que fez Alcibíades, uma tarde, no +Pórtico, a um sofista, um desavergonhado de um sofista, que +se gabava de não ter lido a <i>Ilíada</i>?<br> + + + +<br> + + +--Não.<br> + + +<br> + + +--Ergueu a mão e atirou-lhe uma bofetada tremenda.<br> + + +--Para lá, Alcibíades! Olha que eu li a +<i>Odisseia</i>!<br> + + +<br> + + +Oh! mas decerto eu a lera, corridamente, com a alma desatenta! E +insistia em me iniciar, ele, e me conduzir, através do Livro +sem igual. Eu ria. E rindo, pesado do almoço, terminava por +consentir, e me estirava no canapé de verga. Ele, diante da +mesa, direito na cadeira, abria o livro gravemente, +pontificalmente, como um missal, e começava <span class="pagenum">[273]</span>numa lenta ode sentida. Aquele grande mar da + +<i>Odisseia</i>,-- resplandecente e sonoro, sempre azul, todo azul, +sob o voo branco das gaivotas, rolando, e mansamente quebrando +sobre a areia fina ou contra as rochas de mármore das Ilhas +divinas,--exalava logo uma frescura salina, bem-vinda e consoladora +naquela calma de Junho, em que a serra se entorpecia. Depois as +estupendas manhas do subtil Ulisses e os seus perigos +sobre-humanos, tantas lamúrias sublimes, e um anseio +tão espalhado da Pátria perdida, e toda aquela +intriga, em que embrulhava os Heróis, lograva as Deusas, +iludia o Fado, tinham um delicioso sabor ali, nos campos de Tormes, +onde nunca se necessitava de subtileza ou de engenho, e a Vida se +desenrolava com a segurança imutável com que cada +manhã sempre o Sol igual nascia, e sempre centeios e milhos, +regados por águas iguais, seguramente medravam, espigavam, +amadureciam... Embalado pela recitação grave e +monótona do meu Príncipe, eu cerrava as +pálpebras docemente. Em breve um vasto tumulto, por terra e +céu, me alvoroçava... E eram os rugidos de Polifemo, +ou a grita dos companheiros de Ulisses roubando as vacas de Apolo. +Com os olhos logo esbugalhados para Jacinto, eu murmurava: + +<span class="pagenum">[274]</span><i>Sublime!</i> E sempre, nesse +momento o engenhoso Ulisses, de carapuço vermelho e o longo +remo ao ombro, surpreendia com a sua facúndia a +clemência dos Príncipes, ou reclamava presentes +devidos ao Hóspede, ou surripiava astutamente algum favor +aos Deuses. E Tormes dormia, no esplendor de Junho. Novamente, eu +cerrava as pálpebras consoladas, sob a carícia +inefável do largo dizer homérico... E meio +adormecido, encantado, incessantemente avistava, longe, na divina +Hélade, entre o mar muito azul e o ceu muito azul, a branca +vela, hesitante, procurando Ítaca...<br> + + +<br> + + + +Depois da sesta o meu Príncipe de novo se soltava para os +campos. E a essa hora, sempre mais activa, voltava com ardor aos +«seus planos», a essas culturas de luxo e elegantes +oficinas que cobririam a serra de magnificências rurais. +Agora andava todo no esplêndido apetite de uma horta que ele +concebera, imensa horta ajardinada, em que todos os legumes, +clássicos ou exóticos, cresceriam, soberbamente, em +vistosos talhões, fechados por sebes de rosas, de cravos, de +alfazema, de dálias. A água das regas desceria por +lindos córregos de louça esmaltada. Nas ruas, a +sombra cairia de densas latadas <span class="pagenum">[275]</span>de moscatel, pousando em esteios revestidos +de azulejo. E o meu Príncipe desenhara o plano desta +espantosa horta, a lápis vermelho, num papel imenso, que o +Melchior e o Silvério, consultados, longamente +contemplaram,--um coçando risonhamente a nuca, o outro com +os braços duramente cruzados, e o sobrolho +trágico.<br> + + + +<br> + + +Mas este plano, o da queijaria, o da capoeira, e outro, sumptuoso, +de um pombal tão povoado que todo o céu de Tormes +às tardes se tornaria branco e todo fremente de +asas--não saíam das nossas gostosas palestras, ou dos +papéis em que Jacinto os debuxava, e que se amontoavam sobre +a mesa, platónicos, imóveis, entre o tinteiro de +latão e o vaso com flores.<br> + + +<br> + + +Nem enxadada fendera terra, nem alavanca deslocara pedra, nem serra +serrara madeira, para encetar estas maravilhas. Contra a +resistência rebolada e escorregadia do Melchior, contra a +respeitosa inércia do Silvério se quedavam, +encalhados, os planos do meu Príncipe, como galeras vistosas +em rochas ou em lodo.<br> + + + +<br> + + +Não convinha bulir em nada, (clamava o Silvério) +antes das colheitas e da vindima! E depois, (acrescentava o +Melchior com um sorriso <span class="pagenum">[276]</span>de grande +promessa) «para boas obras mês de Janeiro» porque +lá ensina o ditado:<br> + + +<br> + + +<div class="quote">Em Janeiro--mete obreiro<br> + + +Mês meante--que não ante.</div> + + + +<br> + + +E, de resto, o gozo de conceber as suas obras e de indicar, +estendendo a bengala por cima de vale e monte, os sítios +privilegiados que elas aformoseariam, bastava por ora ao meu +Príncipe, ainda mais imaginativo que operante. E, enquanto +meditava estas transformações da terra, muito +progressivamente e com um amável esforço, se ia +familiarizando com os homens simples que a trabalhavam. Na sua +chegada a Tormes, o meu Príncipe sofria de uma estranha +timidez diante dos caseiros, dos jornaleiros, e até de +qualquer rapazinho que passasse, tangendo uma vaca para o pasto. +Nunca ele então se demoraria a conversar com os +moços, quando à borda de um caminho ou num campo em +monda eles se endireitavam de chapéu na mão, num +respeito de velha vassalagem. De certo o empecia a preguiça, +e talvez ainda o púdico recato de transpor toda a imensa +distância que se alargava desde a sua complicada +super-civilização até à rude +simplicidade daquelas <span class="pagenum">[277]</span>almas +naturais:--mas sobretudo o retinha o medo de mostrar a sua +ignorância da lavoura e da terra, ou de parecer talvez +desdenhoso de ocupações e de interesses, que para os +outros eram supremos e quase religiosos. Remia então esta +reserva com uma profusão de sorrisos, de doces acenos, +tirando também o chapéu em cortesias profundas, com +uma tal ênfase de polidez que eu por vezes receava que ele +murmurasse aos jornaleiros: «Tenha V. Ex.ª muito boas +tardes;... Criado de V. Ex.ª!»<br> + + + +<br> + + +Mas agora, depois daquelas semanas de serra, e de já saber +(com um saber ainda frágil,) a época das sementeiras +e das ceifas, e que as árvores de fruta se semeiam no +Inverno, já se aprazia em parar junto dos trabalhadores, +contemplar descansadamente o trabalho, dizer coisas afáveis +e vagas.<br> + + +<br> + + +--Então, isso vai andando?... Ora ainda bem!... Este bocado +de torrão aqui é rico... O talude ali adiante +está precisando conserto...<br> + + + +<br> + + +E cada um destes tão simples dizeres lhe era doce, como se +por meio deles penetrasse mais fundamente na intimidade da terra, e +consolidasse a sua encarnação em «homem do +campo,» deixando de ser uma mera sombra circulando entre +realidades. Já por isso <span class="pagenum">[278]</span>não cruzava no caminho o mocinho +atrás das vacas, que não o detivesse, o não +interrogasse: «Para onde vais tu? De quem é o gado? +Como te chamas?» E, contente consigo, sempre gabava +gratamente o desembaraço do rapaz, ou a esperteza dos seus +olhos. Outra satisfação do meu Príncipe era +conhecer os nomes de todos os campos, as nascentes de água, +e as delimitações da sua quinta.<br> + + + +<br> + + +--Vês acolá, para além do ribeiro, o pinheiral. +Já não é meu, é dos Albuquerques.<br> + + +<br> + + +E com a perene alegria de Jacinto as noites da serra, no vasto +casarão, eram fáceis e curtas. O meu Príncipe +era então uma alma que se simplificava:--e qualquer +pequenino gozo lhe bastava, desde que nele entrasse paz ou +doçura. Com verdadeira delícia ficava, depois do +café, estendido numa cadeira, sentindo através das +janelas abertas, a nocturna tranquilidade da serra, sob a mudez +estrelada do céu.<br> + + + +<br> + + +As histórias, muito simples e muito caseiras, que eu lhe +contava, de Guiães, do abade, da tia Vicência, dos +nossos parentes da Flor da Malva, tão sinceramente o +interessavam que eu encetara, para seu regalo, a crónica +completa de Guiães, com todos os namoricos, e as +façanhas de forças, e as desavenças por causa +de servidões ou de águas. Também <span class="pagenum">[279]</span>por vezes nos enfronhávamos, com +aferro numa partida de gamão, sobre um belo tabuleiro de pau +preto, com pedras de velho marfim, que nos emprestara o +Silvério. Mas nada de certo o encantava tanto como +atravessar as casas, pé ante pé, até uma +saleta que dava para o pomar, e aí ficar encostado à + +janela, sem luz, num enlevado sossego, a escutar longamente, +languidamente, os rouxinóis que cantavam no laranjal.<br> + + +<br> + + +<br> + + +<br> + + +<h2>X</h2> + + +<br> + + +<br> + + +Numa dessas manhãs--justamente na véspera do meu +regresso a Guiães--, o tempo, que andara pela serra +tão alegre, num inalterado riso de luz rutilante, todo +vestido de azul e ouro, fazendo poeira pelos caminhos, e alegrando +toda a natureza, desde os pássaros até os regatos, +subitamente, com uma daquelas mudanças que tornam o seu +temperamento tão semelhante ao do homem, apareceu triste, +carrancudo, todo embrulhado no seu manto cinzento, com uma tristeza +tão pesada e contagiosa que toda a serra entristeceu. E +não houve mais pássaro que cantasse, e os arroios +fugiram para debaixo das ervas com um lento murmúrio de +choro.<br> + + + +<br> + + +Quando Jacinto entrou no meu quarto, não resisti à +malícia de o aterrar:<br> + + +<br> + + +--Sudoeste! gralhas a grasnar por todos esses soutos... Temos muita +água, Sr. D. Jacinto! <span class="pagenum">[282]</span>Talvez duas semanas de água! E agora +é se vai saber quem é aqui o fino amador da Natureza, +com esta chuva pegada, com vendaval, com a serra toda a +escorrer!<br> + + + +<br> + + +O meu Príncipe caminhou para a janela com as mãos nas +algibeiras:<br> + + +<br> + + +--Com efeito! Está carregado. Já mandei abrir uma das +malas de Paris e tirar um casacão impermeável... +Não importa! Fica o arvoredo mais verde. E é bom que +eu conheça Tormes nos seus hábitos de Inverno.<br> + + + +<br> + + +Mas como o Melchior lhe afiançara que a «chuvinha +só viria para a tarde», Jacinto decidiu ir antes de +almoço à Corujeira, onde o Silvério o esperava +para decidirem da sorte de uns castanheiros, muito velhos, muito +pitorescos, inteiramente interessantes, mas já +roídos, e ameaçando desabar. E, confiando nas +previsões do Melchior, partimos sem que Jacinto se vestisse +à prova de água. Não andáramos +porém meio caminho, quando, depois de um arrepio nas + +árvores, um negrume carregou, e, bruscamente, desabou sobre +nós uma grossa chuva oblíqua, vergastada pelo vento, +que nos deixou estonteados, agarrando os chapéus, +enrodilhados na borrasca. Chamados por uma grande voz, que se +esganiçava no vento, avistámos num campo mais alto, +à beira de um alpendre, o Silvério, debaixo de um +<span class="pagenum">[283]</span>guarda-chuva vermelho, que +acenava, nos indicava o trilho mais curto para aquele abrigo. E +para lá rompemos, com a chuva a escorrer na cara, patinhando +na lama, contorcidos, cambaleantes, atordoados no vendaval, que num +instante alagara os campos, inchara os ribeiros, esboroava a terra +dos socalcos, lançara num desespero todo o arvoredo, tornara +a serra negra, bravamente agreste, hostil, inabitável.<br> + + +<br> + + + +Quando enfim, debaixo do vasto guarda-chuva com que o +Silvério nos esperava à beira do campo, corremos para +o alpendre, nos refugiámos naquele abrigo inesperado, a +escorrer, a arquejar, o meu Príncipe, enxugando a face, +enxugando o pescoço, murmurou, desfalecido:<br> + + +<br> + + +--Apre! que ferocidade!<br> + + +<br> + + +Parecia espantado daquela brusca, violenta cólera de uma +serra tão amável e acolhedora, que em dois meses, +inalteradamente, só lhe oferecera doçura e sombra, e +suaves céus, e quietas ramagens, e murmúrios +discretos de ribeirinhos mansos.<br> + + + +<br> + + +--Santo Deus! Vem muitas vezes assim, estas borrascas?<br> + + +<br> + + +Imediatamente o Silvério aterrou o meu Príncipe:<br> + + +<br> + + +--Isto agora são brincadeiras de Verão, <span class="pagenum">[284]</span>meu senhor! Mas há-de V. Ex.ª ver +no Inverno, se V. Ex.ª se aguentar por cá! Então + +é cada temporal, que até parece que os montes +estremecem!<br> + + +<br> + + +E contou como fora também apanhado, quando ia para a +Corujeira. Felizmente, logo pela manhã, quando sentiu o ar +carrancudo e as folhinhas dos choupos a tremer, se acautelara com o +chapéu de chuva e calçara as suas grandes botas.<br> + + +<br> + + +--Ainda estive para me abrigar em casa do Esgueira, que é um +caseiro de cá. Aquela casa, ali abaixo, onde está a +figueira... Mas a mulher tem estado doente, já há + +dias... E como pode ser obra que se pegue, bexigas ou coisa que o +valha, pensei comigo: Nada, o seguro morreu de velho! Meti para o +alpendre... E não passara um credo quando lobriguei a V. +Ex.ª... Coisa assim!... E o Sr. D. Jacinto é voltar +para casa, e mudar-se, que temos um dia e uma noite de +água.<br> + + +<br> + + +Mas, justamente, a chuva começara a cair perpendicular, de +um céu ainda negro, onde o vento se calara; e para +além do rio e dos montes havia uma claridade, como entre +cortinas de pano cinzento que se descerram.<br> + + +<br> + + +Jacinto repousava. Eu não cessara de me sacudir, de bater os +pés encharcados, que me arrefeciam. E o bom Silvério, +passando <span class="pagenum">[285]</span>a mão pensativa +sobre o negrume das suas barbas, reflectia, emendava os seus +prognósticos:<br> + + + +<br> + + +--Pois, não senhor... Ainda estia! Nunca pensei. É +que tornejou o vento.<br> + + +<br> + + +O alpendre que nos cobria assentava sobre duas paredes em +ângulo, de pedra solta, restos de algum casebre desmantelado, +e sobre um esteio fazendo cunhal. Nesse momento só abrigava +madeira, um cuculo de cestos vazios, e um carro de bois, onde o meu +Príncipe se sentara, enrolando um cigarro confortador. A +chuva desabava, copiosa, em longos fios reluzentes. E todos +três nos calávamos, naquela contemplação +inerte e sem pensamento, em que uma chuva grossa e serena sempre +imobiliza e retém olhos e almas.<br> + + + +<br> + + +--Ó Sr. Silvério, murmurou lentamente o meu +Príncipe, que é que o senhor esteve aí a dizer +de bexigas?<br> + + +<br> + + +O procurador voltou a face surpreendido:<br> + + +<br> + + +--Eu, Ex.<sup>mo</sup> Sr.?... Ah sim! a mulher do Esgueira! + +É que pode ser, pode ser... Não imagine V. Ex.ª +que faltam por cá doenças. O ar é bom. +Não digo que não! Arzinho são, aguazinha leve. +Mas às vezes, se V. Ex.ª me dá licença, +vai por aí muita maleita.<br> + + + +<br> + + +--Mas não há médico, não há +botica?<br> + + +<br> + + +<span class="pagenum">[286]</span>O Silvério teve o riso +superior de quem habita regiões civilizadas e bem +providas...<br> + + +<br> + + + +--Então não havia de haver? Pois há um +boticário, em Guiães, lá quase ao pé da +casa aqui do nosso amigo. E homem entendido... o Firmino, hein, Sr. +Fernandes? Homem capaz. Médico é o Dr. Avelino, daqui +a légua e meia, nas Bolsas. Mas já V. Ex.ª + +vê, esta gentinha é pobre!... Tomaram eles para +pão, quanto mais para remédios!<br> + + +<br> + + +E de novo se estabeleceu um silêncio, sob o alpendre, onde +penetrava a friagem crescente da serra encharcada. Para além +do rio, a prometedora claridade não se alargara entre as +duas espessas cortinas pardacentas. No campo, em declive diante de +nós, ia um longo correr de ribeiros barrentos. Eu terminara +por me sentar na ponta de um madeiro, enervado, já com a +fome aguçada pela manhã agreste. E Jacinto, na borda +do carro, com os pés no ar, cofiava os bigodes +húmidos, palpava a face, onde, com espanto meu, reaparecera +a sombra, a sombra triste dos dias passados, a sombra do 202!<br> + + + +<br> + + +E, então, surdiu por trás da parede do alpendre um +rapazito, muito rotinho, muito magrinho, com uma carita +miúda, toda amarela sob a porcaria, e onde dois grandes +olhos pretos se arregalavam para nós, com <span class="pagenum">[287]</span>vago pasmo e vago medo. Silvério +imediatamente o conheceu.<br> + + +<br> + + +--Como vai a tua mãe? Escusas de te chegar para cá, +deixa-te estar aí. Eu ouço bem. Como vai a tua +mãe?<br> + + + +<br> + + +Não percebi o que os pobres beicitos descorados murmuraram. +Mas Jacinto, interessado:<br> + + +<br> + + +--Que diz ele? Deixe vir o rapaz! Quem é a tua +mãe?<br> + + +<br> + + +Foi o Silvério que informou respeitosamente:<br> + + +<br> + + +--É a tal mulher que está doente, a mulher do +Esgueira, ali do casal da figueira. E ainda tem outro abaixo +deste... Filharada não lhe falta.<br> + + + +<br> + + +--Mas este pequeno também parece doente!--exclamou Jacinto. +Coitadito, tão amarelo!... Tu também estás +doente?<br> + + +<br> + + +O rapazinho emudecera, chupando o dedo, com os tristes olhos +pasmados. E o Silvério sorria, com bondade:<br> + + +<br> + + +--Nada! este é sãozinho... Coitado, é assim +amarelado e enfezadito, por que... Que quer V. Ex.ª? Mal +comido! muita miséria... Quando há o bocadito de +pão é para todo o rancho. Fomezinha, fomezinha!<br> + + + +<br> + + +Jacinto pulou bruscamente da borda do carro.<br> + + +<br> + + +<span class="pagenum">[288]</span>--Fome? Então ele tem +fome? Há aqui gente com fome?<br> + + +<br> + + +Os seus olhos rebrilhavam, num espanto comovido, em que pediam, ora +a mim, ora ao Silvério, a confirmação desta +miséria insuspeitada. E fui eu que esclareci o meu +Príncipe:<br> + + + +<br> + + +--Homem! está claro que há fome! Tu imaginavas talvez +que o Paraíso se tinha perpetuado aqui nas serras, sem +trabalho e sem miséria... Em toda a parte há pobres, +até na Austrália, nas minas de ouro. Onde há +trabalho há proletariado, seja em Paris, seja no +Douro...<br> + + + +<br> + + +O meu Príncipe, teve um gesto de aflita +impaciência:<br> + + +<br> + + +--Eu não quero saber o que há no Douro. O que eu +pergunto é se aqui, em Tormes, na minha propriedade, dentro +destes campos que são meus, há gente que trabalhe +para mim, e que tenha fome... Se há criancinhas, como esta, +esfomeadas? É o que eu quero saber.<br> + + + +<br> + + +O Silvério sorria, respeitosamente, ante aquela +cândida ignorância das realidades da Serra:<br> + + +<br> + + +--Pois está bem de ver, meu senhor, que há para +aí caseiros que são muito pobres. Quase todos... +É uma miséria, que se não fosse algum socorro +que se lhes dá, nem eu <span class="pagenum">[289]</span>sei!... Este Esgueira, com o rancho de filhos +que tem, é uma desgraça... Havia V. Ex.ª de ver +as casitas em que eles vivem... São chiqueiros. A do +Esgueira, acolá...<br> + + + +<br> + + +--Vamos vê-la! atalhou Jacinto com uma decisão +exaltada.<br> + + +<br> + + +E saiu logo do alpendre, sem atender à chuva, que ainda +caía, mais leve e mais rala. Mas então +Silvério alargou os braços diante dele, com +ansiedade, como para o salvar de um precipício.<br> + + +<br> + + +--Não! V. Ex.ª lá na casa do Esgueira é + +que não entra! Não se sabe o que a mulher tem, e +cautela e caldo de galinha...<br> + + +<br> + + +Jacinto não se alterou na sua polidez paciente:<br> + + +<br> + + +--Obrigado pelo seu cuidado, Silvério... Abra o seu +chapéu de chuva, e avante!<br> + + +<br> + + +Então o Procurador vergou os ombros, e, como S. Ex.ª + +mandava, abriu com estrondo o imenso pára-águas, +abrigou respeitosamente Jacinto, através do campo +encharcado. Eu segui, pensando na esmola sumptuosa que o bom Deus +mandava àquele pobre casal por um remoto senhor das Cidades! +Atrás vinha o pequenito perdido num imenso pasmo.<br> + + +<br> + + +Como todos os casebres da serra, o do Esgueira era de grossa pedra +solta, sem reboco, <span class="pagenum">[290]</span>com um vago +telhado, de telha musgosa e negra, um postigo no alto, e a rude +porta que servia para o ar, para a luz, para o fumo, e para a +gente. E em redor, a Natureza e o Trabalho tinham, através +de anos, acumulado ali trepadeiras e flores silvestres, e cantinhos +de horta, e sebes cheirosas, e velhos bancos roídos de +musgo, e panelas com terra onde crescia salsa, e regueiros +cantantes, e videiras enforcadas nos olmos, e sombras e charcos +espelhados, que tornavam deliciosa, para uma Écloga, aquela +morada da Fome, da Doença e da Tristeza.<br> + + +<br> + + + +Cautelosamente, com a ponteira do guarda-chuva, Silvério +empurrou a porta, chamando:<br> + + +<br> + + +--Eh! tia Maria... Olá rapariga!<br> + + +<br> + + +E na fenda entreaberta apareceu uma moça, muito alta, escura +e suja, com uns tristes olhos pisados, que se espantaram para +nós, serenamente.<br> + + +<br> + + +--Então como vai a tua mãe?--Abre lá a porta, +que estão aqui estes senhores...<br> + + + +<br> + + +Ela abriu, lentamente, e ia murmurando numa voz dolente e arrastada +mas sem queixume, que um vago, resignado sorriso acompanhava:<br> + + +<br> + + +--Ora, coitada! como há-de ir? Malzinha... malzinha.<br> + + +<br> + + +E dentro, num gemido que subia como <span class="pagenum">[291]</span>do chão, dentre abafos, amodorrado e +lento, a mãe repetiu a desconsolada queixa:<br> + + +<br> + + +--Ai! para aqui estou, e malzinha, malzinha!...<br> + + + +<br> + + +O Silvério, sem passar da porta, com o guarda-chuva em +riste, meio aberto, como um escudo contra a infecção, +lançou uma consolação vaga:<br> + + +<br> + + +--Não há-de ser nada, tia Maria!... Isso foi friagem! +Não foi senão friagem!<br> + + +<br> + + +E, sobre o ombro de Jacinto, encolhido:<br> + + + +<br> + + +--Já V. Ex.ª vê... Muita miséria! +Até lhe chove lá dentro.<br> + + +<br> + + +E, no pedaço de chão que viam, chão de terra +batida, uma mancha húmida reluzia, da chuva pingada de uma +telha rota. A parede, coberta de fuligem, das longas +fumaraças da lareira, era tão negra como o +chão. E aquela penumbra suja parecia atulhada, numa desordem +escura, de trapos, de cacos, de restos de coisas, onde só + +mostravam forma compreensível uma arca de pau negro, e por +cima, pendurado de um prego, entre uma serra e uma candeia, um +grosso saiote escarlate.<br> + + +<br> + + +Então Jacinto, muito embaraçado, murmurou +abstraidamente:<br> + + +<br> + + +--Está bem, está bem...<br> + + +<br> + + +E largou pelo campo para o lado do alpendre como se fugisse, +enquanto o Silvério decerto <span class="pagenum">[292]</span>revelava à rapariga, a presença +augusta do «fidalgo», porque a sentimos, da porta, +levantar a voz dolorida:<br> + + + +<br> + + +--Ai! Nosso Senhor lhe dê muito boa sorte! Nosso Senhor o +acompanhe!<br> + + +<br> + + +Quando o Silvério, com as grandes passadas das suas grandes +botas, nos colheu, no meio do campo, Jacinto parara, olhava para +mim, com os dedos trémulos a torturar o bigode, e +murmurava:<br> + + +<br> + + +--É horrível, Zé Fernandes, é + +horrível.<br> + + +<br> + + +Ao lado, o vozeirão do Silvério trovejou:<br> + + +<br> + + +--Que queres tu outra vez, rapaz? Vai para a tua mãe, +criatura!<br> + + +<br> + + +Era o pequeno rotinho, esfaimadinho, que se prendia a nós, +num imenso pasmo das nossas pessoas, e com a confusa +esperança, talvez, que delas, como de Deuses encontrados num +caminho, lhe viesse afago ou proveito. E Jacinto, para quem ele +mais especialmente arregalava os olhos tristes, e que aquela +miséria, e a sua muda humildade, embaraçavam, +acanhavam horrivelmente, só soube sorrir, murmurar o seu +vago: «Está bem, está bem...» Fui eu que +dei ao pequenito um tostão, para o fartar, o despegar dos +nossos passos. Mas como ele, com o seu tostão bem agarrado, +nos seguia ainda, como no sulco da nossa magnificência, o +Silvério teve de o espantar, <span class="pagenum">[293]</span>como a um pássaro, batendo as +mãos, e de lhe gritar:<br> + + + +<br> + + +--Já para casa! E leve esse dinheiro à mãe. +Roda, roda!...<br> + + +<br> + + +--E nós vamos almoçar, lembrei eu olhando o +relógio. O dia ainda vai estar lindo.<br> + + +<br> + + +Sobre o rio, com efeito, reluzia um pedaço de azul lavado e +lustroso; e a grossa camada de nuvens já se ia enrolando sob +a lenta varredela do vento, que as levava, despejadas e rotas, para +um canto escuso do céu.<br> + + + +<br> + + +Então recolhemos lentamente para casa, por uma vereda +íngreme, que ensinara o Silvério, e onde um leve +enxurro vinha ainda, saltando e chalrando. De cada ramo tocado, +rechovia uma chuva leve. Toda a verdura, que bebera largamente, +reluzia consolada.<br> + + +<br> + + +Bruscamente, ao sairmos da vereda para um caminho mais largo, entre +um socalco e um renque de vinha, Jacinto parou, tirando lentamente +a cigarreira:<br> + + +<br> + + +--Pois, Silvério, eu não quero mais estas +horríveis misérias na quinta.<br> + + +<br> + + + +O Procurador deu um jeito aos ombros, com um vago <i>eh! +eh!</i><br> + + +--Antes de tudo, continuava Jacinto, mande já hoje chamar +esse Dr. Avelino para aquela pobre mulher... E os remédios +que os vão buscar logo a Guiães. E +recomendação ao médico <span class="pagenum">[294]</span>para voltar amanhã, e em cada dia; +até que ela melhore... Escute! E quero, Melchior, que lhe +leve dinheiro, para os caldos, para a dieta, uns dez, ou quinze mil +réis... Bastará?<br> + + + +<br> + + +O Procurador não conteve um riso respeitoso. Quinze mil +réis! Uns tostões bastavam... Nem era bom acostumar +assim, a tanta franqueza, aquela gente. Depois todos queriam, todos +pedinchavam...<br> + + +<br> + + +--Mas é que todos hão-de ter, disse Jacinto +simplesmente.<br> + + +<br> + + +--V. Ex.ª manda, murmurou o Silvério.<br> + + + +<br> + + +Encolhera os ombros, parado no caminho, no espanto daquelas +extravagâncias. Eu tive de o apressar, impaciente:<br> + + +<br> + + +--Vamos conversando e andando! É meio-dia! Estou com uma +fome de lobo!<br> + + +<br> + + +Caminhámos, com o Silvério no meio, pensativo, a +fronte enrugada sob a vasta aba do chapéu, a barba imensa +espalhada pelo peito, e a barraca exorbitante do guarda-chuva +vermelho enrolada debaixo do braço. E Jacinto, puxando +nervosamente o bigode, arriscava outras ideias benfazejas, +cautelosamente, no seu indominável medo do +Silvério:<br> + + + +<br> + + +--E as casas também... Aquela casa é um covil!... +Gostava de abrigar melhor aquela pobre gente... E naturalmente, as +dos outros <span class="pagenum">[295]</span>caseiros são +pocilgas iguais... Era necessário uma reforma! Construir +casas novas a todos os rendeiros da quinta...<br> + + +<br> + + +--A todos?...--O Silvério gaguejava,--emudeceu.<br> + + +<br> + + +E Jacinto balbuciava aterrado:<br> + + + +<br> + + +--A todos... Enfim, quero dizer... Quantos serão eles?<br> + + +<br> + + +Silvério atirou um gesto enorme:<br> + + +<br> + + +--São vinte e coisas... Vinte e três! se bem lembro. +Upa! Upa! Vinte e sete...<br> + + +<br> + + +Então Jacinto emudeceu também, como reconhecendo a +vastidão do número. Mas desejou saber, por quanto +ficaria cada casa!... Oh! uma casa simples, mas limpa, +confortável, como a que tinha a irmã do Melchior, ao +pé do lagar. Silvério estacou de novo. Uma casa como +a da Ermelinda? Queria Sua Ex.ª saber? E alijou a cifra, muito +de alto, como uma pedra imensa, para esmagar Jacinto:<br> + + + +<br> + + +--Duzentos mil réis, Ex^mo Senhor! E é para mais que +não para menos!<br> + + +<br> + + +Eu ria da trágica ameaça do excelente homem. E +Jacinto, muito docemente, para conciliar o Silvério:<br> + + +<br> + + +--Bem, meu amigo... Eram uns seis contos de réis! Digamos +dez, por que eu queria dar a todos alguma mobília e alguma +roupa.<br> + + + +<br> + + +Então o Silvério teve um brado de terror:<br> + + +<br> + + +<span class="pagenum">[296]</span>--Mas então, +Ex.<sup>mo</sup> Senhor, é uma revolução!<br> + + +<br> + + + +E como nós, irresistivelmente, ríamos dos seus olhos +esgazeados de horror, dos seus imensos braços abertos para +trás, como se visse o mundo desabar,--o bom Silvério +encavacou:<br> + + +--Ah! V. Ex.<sup>as</sup> riem? Casas para todos, mobílias, +pratas, bragal, dez contos de réis! Então +também eu rio! Ah! ah! ah! Ora viva a bela +chalaça!... Está boa a risota!<br> + + + +<br> + + +E subitamente, numa profunda mesura, como declinando toda a +responsabilidade naquele disparate magnífico:<br> + + +<br> + + +--Enfim, V. Ex.ª é quem manda!<br> + + +<br> + + +--Está mandado, Silvério. E também quero saber +as rendas que paga essa gente, os contratos que existem, para os +melhorar. Há muito que melhorar. Venha você + +almoçar connosco. E conversamos.<br> + + +<br> + + +Tão saturado de espanto estava o Silvério, que nem +recebeu mais espanto com essa «melhoria de rendas». +Agradeceu o convite, penhorado. Mas pedia licença a Sua +Ex.ª para passar primeiramente pelo lagar, para ver os +carpinteiros que andavam a concertar a trave do rio. Era um +instante, e estava em seguida às ordens de S. Ex.ª.<br> + + +<br> + + +Meteu a corta-mato, saltando um cancelo. <span class="pagenum">[297]</span>E nós seguimos, com passos que eram +ligeiros, pela hora do almoço que se retardara, pelo azul +alegre que reaparecia, e por toda aquela justiça feita + +à pobreza da serra.<br> + + +<br> + + +--Não perdeste hoje o teu dia, Jacinto, disse eu, batendo, +com uma ternura que não disfarcei, no ombro do meu +amigo.<br> + + +<br> + + +--Que miséria, Zé Fernandes! Eu nem sonhava... Haver +por aí, à vista da minha casa, outras casas, onde +crianças têm fome! É horrível...<br> + + + +<br> + + +Estávamos entrando na alameda. Um raio de sol, saindo dentre +duas grossas, algodoadas nuvens, passou sobre uma esquina do +casarão, ao fundo, uma viva tira de ouro. O clarim dos galos +soava claro e alto. E um doce vento, que se erguera, punha nas +folhas lavadas e luzidias um frémito alegre e doce.<br> + + +<br> + + +--Sabes o que eu estava pensando, Jacinto?... Que te aconteceu +aquela lenda de Santo Ambrósio... Não, não era +Santo Ambrósio... Não me lembra o santo... Nem era +ainda santo... apenas um cavaleiro <span class="pagenum">[298]</span>pecador, que se enamorara de uma mulher, +pusera toda a sua alma nessa mulher, só por a avistar a +distância na rua. Depois, uma tarde que a seguia, enlevado, +ela entrou num portal de igreja, e aí, de repente, ergueu o +véu, entreabriu o vestido, e mostrou ao pobre cavaleiro o +seio roído por uma chaga! Tu, também andavas namorado +da serra, sem a conhecer, só pela sua beleza de +Verão. E a serra, hoje, zás! de repente, descobre a +sua grande úlcera... É talvez a tua +preparação para S. Jacinto.<br> + + + +<br> + + +Ele parou, pensativo, com os dedos nas cavas do colete:<br> + + +<br> + + +---É verdade! Vi a chaga! Mas enfim, esta, louvado seja +Deus, é das que eu posso curar!<br> + + +<br> + + +Não desiludi o meu Príncipe. E ambos subimos +alegremente a escadaria do casarão.<br> + + +<br> + + + +<br> + + +<br> + + +<h2>XI</h2> + + +<br> + + +<br> + + +No dia que seguiu estas largas caridades recolhi a Guiães. +E, desde então, tantas vezes trotei por aquelas três +léguas entre a nossa e a velha alameda dos Jacintos, que a +minha égua, quando a desviava dessa estrada familiar, +conduzindo a uma cavalariça familiar, (onde ela privava com +o garrano do Melchior) relinchava de pura saudade. Até a tia +Vicência se mostrava vagamente ciumenta daquela Tormes, para +onde eu sempre corria, daquele Príncipe de quem +incessantemente celebrava o rejuvenescimento, a caridade, os +pitéus, e as quimeras agrícolas. Já um dia com +um grão de sal e ironia,--o único que cabia num +coração todo cheio de inocência,--ela me +dissera, movendo com mais vivacidade as agulhas da sua meia:<br> + + + +<br> + + +--Olha que te podes gabar! <span class="pagenum">[300]</span>Até me tens feito curiosidade de +conhecer esse Jacinto... Traz cá essa maravilha, menino!<br> + + +<br> + + +Eu rira:<br> + + +<br> + + +--Sossegue, tia Vicência, que o trarei agora, para o dia dos +meus anos, a jantar... Damos uma festa, haverá um bailarico +no pátio, e vem aí toda essa senhorama dos arredores. +Talvez até se arranje uma noiva para o Jacinto.<br> + + + +<br> + + +Eu, com efeito, já convidara o meu Príncipe para este +«natalício». E de resto convinha que o senhor de +Tormes conhecesse todos aqueles senhores das boas casas da serra... +Sobretudo, como eu lhe dizia rindo, convinha que ele conhecesse +algumas mulheres, algumas daquelas fortes raparigas dos solares +serranos, porque Tormes tinha uma solidão muito +monástica; e o homem, sem um pouco do Eterno Feminino, +facilmente se enrudece e ganha uma casca áspera como a das +árvores, na solidão.<br> + + +<br> + + +--E esta Tormes, Jacinto, esta tua reconciliação com +a Natureza, e o renunciamento às mentiras da +Civilização é uma linda história... +Mas, caramba, faltam mulheres!<br> + + + +<br> + + +Ele concordava, rindo, languidamente estendido na cadeira de +vime:<br> + + +<br> + + +--Com efeito, há aqui falta de mulher, com M. grande. Mas +essas senhoras aí das <span class="pagenum">[301]</span>casas dos arredores... Não sei, estou +pensando que se devem parecer com legumes. Sãs, nutritivas, +excelentes para a panela--mas, enfim, legumes. As mulheres que os +poetas comparam às Flores são sempre as mulheres das +Cortes, das Capitais, às quais, invariavelmente, desde +Hesíodo e de Horácio, se rendem os poetas... E +evidentemente não há perfume, nem graça, nem +elegância, nem requinte, numa cenoura ou numa couve... +Não devem ser interessantes as senhoras da minha serra.<br> + + + +<br> + + +--Eu te digo... A tua vizinha mais chegada, a filha do D. +Teotónio, com efeito, salvo o respeito que se deve à +casa ilustre dos Barbedos, é um mostrengo! A irmã dos +Albergarias, da quinta da Loja, também não tentaria +nem mesmo o precisado Santo Antão. Sobretudo se se despisse, +por que é um espinafre infernal! Essa realmente é +legume, e não dos nutritivos.<br> + + + +<br> + + +--Tu o disseste: espinafre!<br> + + +<br> + + +--Temos também a D. Beatriz Veloso... Essa é +bonita... Mas, menino, que horrivelmente bem falante! Fala como as +heroínas do Camilo. Tu nunca leste o Camilo... E depois, um +tom de voz que te não sei descrever, o tom com que se fala +em D. Maria, em peças de sentimento. Tu também nunca +viste o Teatro <span class="pagenum">[302]</span>de D. Maria... +Enfim, um horror! E perguntas pavorosas. «V. Ex.ª Sr. +Doutor, não se delicia com Lamartine?» Já me +disse esta, a indecente!<br> + + + +<br> + + +--E tu?<br> + + +<br> + + +--Eu! Arregalei os olhos... «Oh Lamartine!». Mas, +coitada, é uma excelente rapariga! Agora, por outro lado, +temos as Rojões, as filhas de João Rojão, duas +flores, muito frescas, muito alegres, com um cheiro e um brilho a +sadio, e muito simples... A tia Vicência morre por elas. +Depois há a mulher do Dr. Alípio, que é uma +beleza. Oh! uma criatura esplêndida! Mas, enfim, é a +mulher do Dr. Alípio, e tu renunciaste aos deveres da +Civilização... Além disso, mulher muito +séria, toda absorvida nos seus dois pequenos, que parecem +dois anjinhos de Murillo... E quem mais? Já agora, quero +completar a lista do pessoal feminino. Temos a Melo Rebelo, de +Sandofim, muito engraçada, com cabelo lindo... Borda na +perfeição, faz doces como uma freira do antigo +Regime... Havia também uma Júlia Lobo, muito linda, +mas morreu... Agora não me lembro mais. Mas falta a flor da +Serra, que é a minha prima Joaninha, da Flor da Malva! Essa + +é uma perfeição de rapariga.<br> + + +<br> + + +--E tu, primo Zé, como tens tu resistido?<br> + + +<br> + + +--Somos como irmãos, criados de pequeninos, <span class="pagenum">[303]</span>mais acostumados e familiares que tu e eu... +A familiaridade esbate os sexos. A mãe dela era a +única irmã da tia Vicência, e morreu muito +nova. A Joaninha, quase desde o berço que se criou em nossa +casa, em Guiães. O pai é bom homem, o tio +Adrião. Erudito, antiquário, coleccionador... +Colecciona toda a sorte de coisas esquisitas, campainhas, esporas, +sinetes, fivelas... Tem uma colecção curiosa. Ele +há muito que deseja vir a Tormes, para te visitar... Mas, +coitado, sofre da bexiga, não pode montar a cavalo. E a +estrada da Flor da Malva aqui é impossível para +carruagens...<br> + + + +<br> + + +O meu Príncipe espreguiçara longamente os +braços:<br> + + +<br> + + +--Não, está claro! eu é que hei-de visitar teu +tio, e a tia Vicência... Desejo conhecer os meus vizinhos. +Mas mais tarde, quando sossegar. Agora ando todo ocupado com o meu +povo.<br> + + +<br> + + +E com efeito! Jacinto era agora como um Rei fundador de um Reino, e +grande edificador. Por todo o seu domínio de Tormes andavam +obras, para o renovamento das casas dos rendeiros, umas que se +concertavam, outras mais velhas, que se derrubavam para se +reconstruírem com uma largueza cómoda. Pelos caminhos +constantemente chiavam carros, <span class="pagenum">[304]</span>carregados de pedra, ou de madeiras cortadas +nos pinheirais.<br> + + + +<br> + + +Na taberna do Pedro, à entrada da freguesia, ia um desusado +movimento, de pedreiros e carpinteiros contratados para as +obras;--e o Pedro, com as mangas arregaçadas, por +trás do balcão, não cessava de encher os +decilitros com uma vasta infusa.<br> + + +<br> + + +Jacinto, que tinha agora dois cavalos, todas as manhãs cedo +percorria as obras, com amor. Eu, inquieto, sentia outra vez, +latejar e irromper no meu Príncipe o seu velho, +maníaco furor de acumular Civilização! O plano +primitivo das obras era incessantemente alargado, +aperfeiçoado. Nas janelas, que deviam ter apenas portadas, +segundo o secular costume da serra, decidira pôr +vidraças, apesar do mestre de obras lhe dizer honradamente, +que depois de habitadas um mês, não haveria casa com +um só vidro. Para substituir as traves clássicas +queria estucar os tectos;--e eu via bem claramente que ele se +continha, se retesava dentro do Bom-Senso, para não dotar +cada casa com campainhas eléctricas. Nem sequer me espantei, +quando ele uma manhã me declarou que a porcaria da gente do +campo provinha de eles não terem onde comodamente se lavar, +pelo que andava pensando em dotar cada casa com uma banheira. + +<span class="pagenum">[305]</span>Descíamos nesse momento, +com os cavalos à rédea, por uma azinhaga precipitada +e escabrosa; um vento leve ramalhava nas árvores, um regato +saltava ruidosamente entre as pedras. Eu não me +espantei--mas realmente me pareceu que as pedras, o arroio, as +ramagens e o vento, se riam alegremente do meu Príncipe. E +além destes confortos, a que o João, mestre de obras, +com os olhos loucamente arregalados chamava «as +grandezas», Jacinto meditava o bem das almas. Já +encomendara ao seu arquitecto, em Paris, o plano perfeito de uma +escola, que ele queria erguer, naquele campo da Carriça, +junto à capelinha que abrigava «os ossos». Pouco +a pouco, aí criaria também uma biblioteca, com livros +de estampas, para entreter, aos domingos, os homens a quem +já não era possível ensinar a ler. Eu vergava +os ombros, pensando:--«Aí vem a terrível +acumulação das Noções! Eis o livro +invadindo a Serra!» Mas outras ideias de Jacinto eram +tocantes,--e eu mesmo me entusiasmei, e excitei o entusiasmo da tia +Vicência com o seu plano de uma Creche, onde ele esperava ter +manhãs muito divertidas vendo as criancinhas a gatinhar, a +correr tropegamente atrás de uma bola. De resto, o nosso +boticário de Guiães estava já apalavrado para +estabelecer uma pequena farmácia em Tormes, <span class="pagenum">[306]</span>sob a direcção do seu +praticante, um afilhado da tia Vicência, que tinha publicado +um artigo sobre as festas populares do Douro no <i>Almanaque de +Lembranças</i>. E já fora oferecido o partido +médico de Tormes, com ordenado de 600$000 réis.<br> + + + +<br> + + +--Não te falta senão um Teatro! dizia eu, rindo.<br> + + +<br> + + +--Um teatro não. Mas tenho a ideia de uma sala, com +projecções de lanterna mágica, para ensinar a +esta pobre gente as cidades desse mundo, e as coisas de +África, e um bocado de História.<br> + + +<br> + + +<br> + + +E também me ensoberbeci com esta inovação!--E +quando a contei ao tio Adrião, o digno antiquário +bateu, apesar do seu reumatismo, uma palmada tremenda na coxa. + +«Sim, senhor! Bela ideia! Assim se podia ensinar +àquela gente iletrada, vivamente, por imagens, a +História Santa, a História Romana, até a +História de Portugal!...» E voltado para a prima +Joaninha, o tio Adrião declarou Jacinto um «homem de +coração!»<br> + + +<br> + + +E realmente pela Serra crescia a popularidade do meu +Príncipe. Naquele, «guarde-o Deus, meu senhor!» + +com que as mulheres ao passar o saudavam, se voltavam para o ver +ainda, havia uma seriedade de oração, o bem sincero +desejo de que Deus o guardasse <span class="pagenum">[307]</span>sempre. As crianças a quem ele +distribuía tostões, farejavam de longe a sua +passagem,--e era em torno dele um escuro formigueiro de caritas +trigueiras e sujas, com grandes olhos arregalados, que se ainda +tinham pasmo, já não tinham medo. Como o cavalo de +Jacinto uma tarde se chapara, ao desembocar da alameda, numas +grossas pedras que aí deformavam a estrada, logo ao outro +dia um bando de homens, sem que Jacinto o ordenasse, veio por +dedicação ensaibrar e alisar aquele pedaço +perigoso de caminho, aterrados com o risco que correra o bom +senhor. Já pela serra se espalhava esse nome de «bom +senhor». Os mais idosos da freguesia não o encontravam +sem exclamarem, uns com gravidade, outros com grandes risos +desdentados:--<i>Este é o nosso benfeitor!</i> Por vezes, +alguma velha corria do fundo do eido, ou vinha à porta do +casebre, ao avistá-lo no caminho, para gritar, com grandes +gestos dos braços magros: «Ai que Deus o cubra de +bênçãos! Que Deus o cubra de +bênçãos!»<br> + + + +<br> + + +Aos domingos, o padre José Maria, (bom amigo meu e grande +caçador) vinha de Sandofim, na sua égua ruça, +a Tormes, para celebrar a missa na Capelinha. Jacinto assistia ao +ofício na sua tribuna, como os Jacintos doutras eras, para +que aqueles simples o não <span class="pagenum">[308]</span>supusessem estranho a Deus. Quase sempre +então ele recebia presentes, que as filhas dos caseiros, ou +os pequenos, vinham muito corados, trazer-lhe à varanda, e +eram vasos de manjericão, ou um grosso ramalhete de cravos, +e por vezes um gordo pato. Havia então uma +distribuição de cavacas e merengues de Guiães, + +às raparigas e às crianças,--e, no +pátio, para os homens circulavam as infusas de vinho branco. +O Silvério já sustentava com espanto, e redobrado +respeito, que o Sr. D. Jacinto em breve disporia de mais votos nas +eleições que o Dr. Alípio. E eu próprio +me impressionei, quando o Melchior me contou que o João +Torrado, um velho singular daqueles sítios, de grandes +barbas brancas, ervanário, vagamente alveitar, um pouco +adivinho, morador misterioso de uma cova no alto da serra, a todos +afirmava que aquele bom senhor era El-Rei D. Sebastião, que +voltara!<br> + + +<br> + + +<br> + + + +<br> + + +<h2>XII</h2> + + +<br> + + +<br> + + +Assim chegou Setembro, e com ele o meu natalício, que era a +3 e num Domingo. Toda essa semana a passara eu em Guiães, +nos preparos da vindima,--e de manhã cedo, nesse Domingo +ilustre, me fui debruçar da varanda do quarto do saudoso tio +Afonso, vigiando a estrada, por onde devia aparecer o meu +Príncipe, que enfim visitava a casa do seu Zé +Fernandes. A tia Vicência, desde a madrugada, andava +atarefada pela cozinha e pela copa, porque, desejando mostrar ao +meu Príncipe «o pessoal» da serra, convidara +para jantar algumas famílias amigas, dos arredores, as que +tinham carruagens ou carroções, e podiam, pelas +estradas mal seguras, recolher tarde, depois de um bailarico +campestre, no <span class="pagenum">[310]</span>pátio, +já enfeitado para esse efeito de lanternas chinesas. Mas +logo às dez horas me desesperei, ao receber, por um +moço da Flor da Malva, uma carta da prima Joaninha, em que +dizia «a pena de não poder vir porque o Papá + +estava desde a véspera com um leicenço, e ela +não o queria abandonar.» Corri indignado à +cozinha, onde a tia Vicência presidia a um violento bater de +gemas de ovos dentro de uma imensa terrina.<br> + + +<br> + + +--A Joaninha não vem! Sempre assim! Diz que o pai tem um +leicenço... Aquele tio Adrião escolhe sempre os +grandes dias para ter leicenços, ou para ter a +pontada...<br> + + + +<br> + + +A boa face redondinha e corada da tia Vicência +enterneceu-se.<br> + + +<br> + + +--Coitado! será em sítio que não se pudesse +sentar na carruagem! Coitado! Olha, se lhe escreveres, diz-lhe que +ponha um emplastrozinho de folhas de alecrim. É com que teu +tio se dava bem.<br> + + +<br> + + +Eu gritei simplesmente para o moço, que dava de beber ao +burro no pátio:<br> + + + +<br> + + +--Diz à Sr.<sup>a</sup> D. Joaninha que sentimos muito... +Que talvez eu lá apareça amanhã.<br> + + +<br> + + +E voltei à janela, impaciente, por que o relógio do +corredor, muito atrasado, já cantara a meia hora depois das +dez e o Príncipe tardava <span class="pagenum">[311]</span>para o almoço. Mas, mal eu me chegara + +à varanda, apareceu justamente na volta da estrada Jacinto, +de grande chapéu de palha, no seu cavalo, seguido do Grilo +que, também de chapéu de palha, e abrigado sob um +imenso guarda-sol verde, se escarranchava no albardão da +velha égua do Melchior. Atrás, um moço com uma +maleta à cabeça. E eu, na alegria de avistar enfim o +meu Príncipe trotando para a minha casa de aldeia, no dia +dos meus trinta e seis anos, pensava noutro natalício, no +dele, em Paris, no 202, quando, entre todos os esplendores da +Civilização, nós bebemos tristemente <i>ad +manes</i>, aos nossos mortos!<br> + + + +<br> + + +--<i>Salvé!</i> gritei da varanda. <i>Salvè, domine +Jacinthi!</i><br> + + +<br> + + +E entoei, para o acolher, num alegre tarantantan, o Hino da +Carta!<br> + + +<br> + + +--Isto por aqui também é lindo!--gritou ele de baixo. +E o teu palácio tem um soberbo ar... Por onde é a +porta?<br> + + + +<br> + + +Mas eu já me precipitava para o pátio--onde Jacinto, +apeando, contou alegremente os tormentos do Grilo, que nunca +montara a cavalo, e não cessara de berrar ante os perigos +daquela aventura.<br> + + +<br> + + +E o digno preto, ofegante, lustroso de suor, e lívido sob o +esplendor da sua negrura, exclamava, <span class="pagenum">[312]</span>apontando com a mão trémula +para a pobre égua, que solta, de cabeça pensativa, +parecia de pedra, sobre as patas mais imóveis que +marcos:<br> + + + +<br> + + +--Pois se o siô Fernandes visse! Uma fera, que nunca veio +quieta. Sempre para a esquerda, sempre para a direita, pé +aqui, pé além! Só para me sacudir! Só +para me sacudir!<br> + + +<br> + + +E não resistiu. Com a ponta do guarda-sol atirou uma +pontoada vingativa contra a égua, sobre o +albardão.<br> + + + +<br> + + +Subindo a escadaria ligeira, penetrando no alegre corredor, com a +sua janela ao fundo engrinaldada de rosinhas, Jacinto louvava +grandemente a nossa casa, que o repousava das rijas muralhas, das +grossas portas feudais de Tormes. E no seu quarto agradeceu os +cuidados maternais da tia Vicência, que enchera de flores os +dois vasos da China sobre a cómoda, e adornara a cama com +uma das nossas colchas da Índia mais ricas, cor de +canário, com grandes aves de ouro. Eu sorria, enternecido. +Então estreitámos os ossos num grande abraço, +pelo natalício... «Trinta e oito, hein, Zé +Fernandes?»--«Trinta e quatro, animal!» E o meu +Príncipe abrindo a mala, sóbria maleta de +filósofo, ofereceu os «nobres presentes, que +são devidos», como diz sempre o astuto Ulisses na +Odisseia. Era um alfinete de gravata, <span class="pagenum">[313]</span>com uma safira, uma cigarreira de aro fosco, +adornada de um florido ramo de macieira em delicado esmalte, e uma +faca para livros de velho lavor Chinês. Eu protestava contra +a prodigalidade.<br> + + + +<br> + + +--É tudo das malas de Paris... Mandei-as abrir ontem +à noite. E tomei a liberdade de trazer esta lembrança +à tua tia Vicência. Não vale nada... É +só por ter pertencido à princesa de Lamballe.<br> + + + +<br> + + +Era uma caldeirinha de água benta, em prata lavrada, de um +gosto florido e quase galante.<br> + + +<br> + + +--A tia Vicência não sabe quem é a princesa de +Lamballe, mas ficará encantada! E é uma garantia, por +que ela suspeita da tua religião, como homem de Paris, da +terra das impiedades... E agora, lavar, escovar, e ao +almoço!<br> + + + +<br> + + +A tia Vicência pareceu toda surpreendida, e logo encantada +com o meu camarada, que ela supusera realmente um Príncipe, +arrogante, escarpado e difícil. Quando ele lhe ofereceu a +caldeirinha, com um delicado pedido «para se lembrar dele nas +suas orações», duas largas rosas, mais +róseas e frescas que as rosas que enchiam a mesa, cobriram +as faces redondas da boa senhora, que nunca recebera tão +piedoso presente, com tão linda palavra. Mas o que sobretudo +a cativou <span class="pagenum">[314]</span>foi o tremendo apetite +de Jacinto, a entusiasmada convicção com que ele, +acumulando no prato montes de cabidela, depois altas serras de +arroz de forno, depois bifes de numerosa cebolada, exaltava a nossa +cozinha, jurava nunca ter provado nada tão sublime. Ela +resplandecia:<br> + + +<br> + + + +--Até faz gosto, até faz gosto!... Ora mais uma +destas batatinhas recheadas...<br> + + +<br> + + +--Concerteza, minha senhora! até duas! As minhas +rações, em mesas destas, tão perfeitas, +são sempre as de Gargântua.<br> + + +<br> + + +--Não cites Rabelais, que a tia Vicência não +conhece os autores profanos! exclamava eu, também radiante. +E prova esse vinho branco cá da nossa lavra, e louva Deus +que amadurece tal uva.<br> + + + +<br> + + +E o almoço foi muito alegre, muito íntimo, muito +conversado, sobre as obras de Jacinto em Tormes, e a sua Creche, +que enlevava a tia Vicência, e as esperanças da +vindima, e a minha prima Joaninha, que tinha o papá doente, +e o péssimo estado dos caminhos. Mas o enternecimento maior +foi quando, ao servir o café, o criado pôs ao lado de +Jacinto um pires com um pau de canela, o seu estranho e costumado +pau de canela. Não o esquecera a tia Vicência! Ali +tinha o seu pauzinho de canela!--Queria que ele, em <span class="pagenum">[315]</span>Guiães, continuasse os seus +hábitos como em Tormes... E aquele pau de canela foi o +símbolo de adopção do meu Príncipe como +novo sobrinho da tia Vicência.<br> + + + +<br> + + +Ela em breve recolheu à cozinha, aos preparativos do +banquete. Nós fumámos um preguiçoso charuto no +jardim, ao pé do repuxo, sob a recolhida sombra do cedro. +Depois, inexoravelmente, como proprietário, mostrei ao meu +Príncipe a propriedade toda, com desapiedada minuciosidade, +sem lhe perdoar uma leira, um regueiro, uma árvore, um +pé de vinha. Só quando a sua face começou a +opar e a empalidecer, de cansaço, e que do entendimento +totalmente atordoado só lhe escorria um vago--«muito +bonito! bela terra!»--é que voltei os passos para +casa, tornejando ainda numa volta larga para lhe mostrar o lagar, +uma plantação de espargos, e o sítio onde +existira a ruína de um velho castro romano. Ao penetrarmos +de novo, pelo jardim, na fresca sala, ainda o empurrei, como uma +rês, para a livraria do meu bom tio Afonso, para lhe mostrar +as preciosidades, uma magnífica crónica de D. +João I por Fernão Lopes, a primeira +edição do <i>Imperador Clarimundo</i>, uma + +<i>Henriada</i>, com a assinatura de Voltaire, forais de El-Rei D. +Manuel, e outras maravilhas. Ele respirava fechando o derradeiro +pergaminho, <span class="pagenum">[316]</span>quando eu o arrastei +à adega, para que admirasse a famosa pipa, que tinha, em +relevo, na madeira do tampo, as complicadas armas dos Sandes. Eram +quatro horas. O meu Príncipe tinha o ar esgazeado e +lívido. Cravando nele os olhos inexoráveis, olhos em +que eu mesmo sentia reluzir a ferocidade, declarei «que +iríamos agora ver a tulha.» Mas então, com as +mãos nos rins, ele murmurou, humildemente, num +murmúrio de criança:<br> + + + +<br> + + +--Não se me dava de me sentar um poucochinho!<br> + + +<br> + + +Tive então piedade, abri as garras, deixei que ele se +arrastasse, atrás de mim, para o seu quarto, onde +freneticamente descalçou as botas, se atirou para um fresco +canapé forrado de ganga, murmurando num abatimento +profundo:--«Bela propriedade!»<br> + + +<br> + + +Consenti generosamente que ele adormecesse,--e eu mesmo desci a +verificar se a Gertrudes dispusera bem as escovas, as toalhas de +renda, no quarto onde os convidados, em breve, ao chegar, lavariam +as mãos, escovariam a poeira da estrada. E justamente, uma +caleche rodava no pátio, a velha caleche do D. +Teotónio, com a parelha ruça. Espreitando da janela +descobri, com prazer, que chegava só, de gravata branca, sob +o guarda-pó, sem a horrendíssima filha. Corri + +<span class="pagenum">[317]</span>alegremente ao quarto da tia +Vicência, que, ajudada pela Catarina, abrochava à +pressa as suas pulseiras ricas de topázios.<br> + + +<br> + + +--Tia Vicência! chegou o D. Teotónio! Felizmente vem +sem a filha... Não se demore, os outros não tardam. O +Manuel que esteja bem penteado, de gravata bem tesa!... Vamos a ver +como corre a festa!<br> + + +<br> + + +<br> + + +<br> + + + +<h2>XIII</h2> + + +<br> + + +<br> + + +Ai de mim! a festa no meu aniversário não se passou +com brilho, nem com alegria!<br> + + +<br> + + +Quando o meu Príncipe entrou na sala, com uma +elegância, (onde eu senti as malas de Paris, abertas na +véspera)--uma rosa branca no jaquetão preto, colete +branco lavrado e trespassado, copiosa gravata de seda branca, +tufando, e presa por uma pérola negra,--já todos os +convidados estavam na sala,--o D. Teotónio, o Ricardo +Veloso, o Dr. Alípio, o gordo Melo Rebelo, de Sandofim, os +dois manos Albergarias, da quinta da Loja--; todos de pé, +num pelotão cerrado. Em torno do sofá onde a tia +Vicência se instalara, um magotezinho de cadeiras reunira as +senhoras,--a Beatriz Veloso, de cassa branca sobre <span class="pagenum">[320]</span>seda, que a tornava mais aérea e +magra, com a sua trunfa imensa de cabelo riçado; as duas +Rojões, (com a tia Adelaide Rojão) vermelhinhas como +camoesas, ambas de branco; e a mulher do Dr. Alípio, de +preto, esplêndida como uma Vénus Rústica... E +foi na sala, como se realmente entrasse um Príncipe, desses +países do Norte onde os Príncipes são +magníficos, muito distantes dos homens, e aterram as gentes. +Um silêncio, como se o tecto de carvalho descesse, nos +esmagava: e todos os olhos se enristaram contra o meu +desgraçado Jacinto, como numa caçada hindu, quando + +à orla da floresta surge o Tigre Real. Debalde,--nas +confusas, apressadas apresentações, com que eu o +levava através da sala,--os seus apertos de mão, os +sorrisos, o vago murmúrio, «da sua honra, do seu +prazer» foram repassados de simpatia, de simplicidade. Todos +os cavalheiros permaneciam reservados, observando o +Príncipe, que subira à serra: e as senhoras mais se +aconchegavam à sombra da tia Vicência, como ovelhas +à volta do pastor, quando na altura assoma o lobo. Eu, +já inquieto, lancei o D. Teotónio, o mais ornamental +daqueles cavalheiros.<br> + + + +<br> + + +--O Sr. D. Teotónio foi muito amável em vir, Jacinto. +Raras vezes sai da sua linda casa da Abrujeira.<br> + + +<br> + + +<span class="pagenum">[321]</span>O digno D. Teotónio +sorriu, cofiando os espessos bigodes brancos, de velho +brigadeiro:<br> + + +<br> + + +--V. Ex.ª chegou directamente de Viena?<br> + + +<br> + + +Não! Jacinto viera directamente de Paris, com o amigo +Zé Fernandes. D. Teotónio insistiu:<br> + + + +<br> + + +--Mas certamente visita muitas vezes Viena...<br> + + +<br> + + +Jacinto sorria surpreendido:<br> + + +<br> + + +--Viena, porquê?... Não. Há mais de quinze anos +que não vou a Viena.<br> + + +<br> + + +O fidalgo murmurou um lento <i>ah!</i> e ficou calado, de +pálpebras baixas, como revolvendo análises profundas, +com as mãos cruzadas sob as abas da longa sobrecasaca +azul.<br> + + + +<br> + + +Eu então, vigilante, lancei o Dr. Alípio:<br> + + +<br> + + +--O nosso Doutor, meu caro Jacinto, é o mais poderoso +influente de todo o distrito.<br> + + +<br> + + +O Doutor curvou a cabeça bem feita, com um belo cabelo +preto, admiravelmente alisado e lustroso. Mas a tia Vicência, +que se erguera do sofá, chamava o meu Príncipe, +porque o Manuel anunciara o jantar, mudamente, mostrando apenas, +à porta da sala, a sua corpulenta +pessoa,--inteiriçado e vermelho.<br> + + + +<br> + + +À mesa, onde os pudins, as travessas de doce de ovos, os +antigos vinhos da Madeira e do Porto, nas suas pesadas garrafas de +cristal lapidado, fundiam com felicidade os seus <span class="pagenum">[322]</span>tons ricos e quentes, Jacinto ficou entre a +tia Vicência e uma das Rojões, a Luizinha, sua +afilhada, que, por costume velho, quando jantava em Guiães, +sempre se colocava à sombra da sua boa madrinha. E a sopa, +que era de galinha com macarrão, foi comida num tão +largo e pesado silêncio que eu, na ânsia de o quebrar, +exclamei, ao acaso, sem pensar que me achava em Guiães +depois de tanto tempo e em minha própria casa:<br> + + + +<br> + + +--Deliciosa, esta sopa!<br> + + +<br> + + +Jacinto ecoou:<br> + + +<br> + + +--Divina!!<br> + + +<br> + + +Mas como todos os convidados certamente estranharam este meu brado, +e a excessiva admiração de Jacinto, o silêncio, +carregado de cerimónia, mais se carregou de embaraço. +Felizmente a tia Vicência, com aquele seu bom sorriso, +observou que Jacinto parecia gostar da comida portuguesa... E eu, +sempre no intuito de animar a conversa, nem deixei que o meu +Príncipe confirmasse o seu amor da cozinha vernácula, +e gritei:<br> + + + +<br> + + +--Como gostar! Mas é que delira!... Pudera! Tanto tempo em +Paris, privado dos pitéus lusitanos...<br> + + +<br> + + +E como, ditosamente, me lembrara o prato de arroz doce preparado na +ocasião do natalício de Jacinto, pelo cozinheiro do +202, <span class="pagenum">[323]</span>contei a história, +profusamente, exagerando, afirmando que esse arroz doce continha +<i>foie gras</i>, e que sobre a sua ornamentada pirâmide +flutuava a bandeira tricolor, por cima do busto do conde de +Chambord! Mas o arroz doce de Paris, assim estragado tão +longe da Serra, não interessara ninguém. Puxou apenas +alguns sorrisos de polida condescendência, quando eu, +alternadamente, me voltava para um cavalheiro, para uma senhora, +insistindo, exclamando:--Extraordinário, hein?<br> + + + +<br> + + +D. Teotónio observou, misteriosamente, que o +«cozinheiro sabia para quem cozinhava.» E a bela mulher +do Dr. Alípio ousou murmurar, corando:<br> + + +<br> + + +--Havia de ser bonito prato, e talvez não fosse mau!<br> + + +<br> + + +Eu, sempre na ânsia de espiritualizar o banquete, de produzir +conversação, ataquei com desabrida alegria a +Sr.<sup>a</sup> D. Luísa, por ela assim defender a +profanação do nosso grande acepipe nacional! Mas, +pobre de mim! tão excessiva e ruidosamente interpelei a +formosa senhora, que ela se enconchou, emudeceu, toda corada, e +mais formosa assim. E outro silêncio se abatia sobre a mesa, +como uma névoa, quando a tia Vicência, providencial, +se desculpou para com Jacinto de não ter peixe! Mas +quê! ali na Serra era impossível, <span class="pagenum">[324]</span>ainda a peso de ouro, ter peixe, a não +ser a pescada salgada, ou o bacalhau. O excelente Rojão, com +aquele seu modo, tão suave que cada sílaba para +correr mais docemente parecia lubrificada com óleos santos, +lembrou que o Sr. D. Jacinto possuía uma larga faixa do rio +Douro com privilégio para a pesca do sável. Jacinto +não sabia, nem imaginava que houvesse sáveis... O Dr. +Alípio não se admirava por que essas pescas tinham +sido vendidas ao Cunha brasileiro, há vinte anos, na +mocidade do Sr. D. Jacinto. E hoje, segundo o D. Teotónio, +não valiam dois mil réis. Se já não +há sáveis!... E a propósito das antigas pescas +do Douro se ia formando, em torno da mesa, entre os homens mais +vizinhos, lentas cavaqueirinhas rurais, que as senhoras +aproveitavam para cochichar, no desabafo daquele silêncio +cerimonioso, que viera pesando cada vez mais desde a sopa +até os frangos guisados. Receoso de que essa orla de +murmúrios lentos, sem brilho e sem alegria, se estabelecesse +de novo, me abalancei (para animar), a interpelar Jacinto, +recordando a famosa aventura do peixe da Dalmácia encalhado +no ascensor.<br> + + + +<br> + + +--Isso foi uma das melhores histórias que nos sucederam em +Paris! O Jacinto, por causa de um peixe muito raro, que lhe mandara +<span class="pagenum">[325]</span>o Grão-Duque Casimiro, +dava uma magnífica ceia, a que o Grão-Duque... o +Grão-Duque Casimiro, o irmão do Imperador...<br> + + +<br> + + +Todos os olhos se desviaram para o meu Jacinto, que se servia de +ervilhas:--e o Melo Rebelo quase se engasgou, num sorvo precipitado +ao copo, para contemplar no meu amigo algum reflexo do +Grão-Duque. E eu contei, com profusão, o peixe +encalhado, o Grão-Duque pescando, o anzol feito com um +gancho da Princesa de Carman, o duque de Marizac, caindo quase no +poço do elevador... Mas não se produziu um + +único riso, e a atenção mesma era dada com +esforço, por cortesia. Debalde eu arremessava aqueles nomes +magníficos de Príncipes e princesas, misturados a +coisas picarescas... Nenhum dos meus convidados compreendia o +maquinismo do elevador, um prato encalhado num poço negro... +Perante o gancho da princesa as Albergarias baixaram os olhos. E a +minha deliciosa história morreu numa reticência, ainda +mais regelada pela exclamação inocente da tia +Vicência:<br> + + +<br> + + +--Oh! filho, que coisas!<br> + + +<br> + + +Mas, como Jacinto se enfronhara de repente numa larga conversa com +a Luisinha Rojão, que ria, toda luminosa e +palradora,--todos, como libertados do peso cerimonioso <span class="pagenum">[326]</span>da sua presença augusta, se +lançaram nas conversinhas discretas, a que o champanhe, +agora, depois do assado, dava mais viveza. Eram os soturnos +murmúrios, em torno da mesa, que definitivamente se +perpetuavam. Foi então que desisti de animar o jantar. +Mergulhei com a bela mulher do Doutor Alípio na grande +questão social desse tempo em Guiães, o casamento da +D. Amélia Noronha com o feitor! E eu defendia a D. +Amélia, os direitos do amor, quando se alargou um +silêncio,--e era Jacinto, que se debruçava, de copo na +mão.<br> + + + +<br> + + +--Velho amigo Zé Fernandes, à tua! Muitos e bons, e +sempre em companhia de tua tia e minha senhora, a quem peço +para saudar.<br> + + +<br> + + +Todos os copos, onde a espuma morria sobre um fundo de champanhe, +se ergueram num largo rumor de amizade, e boa vizinhança. Eu +acenei ao Manuel, vivamente, para encher os copos; e logo, +também de pé, atirando para trás a +sobrecasaca:<br> + + +<br> + + +--Meus senhores, peço uma grande saúde para o meu +velho amigo Jacinto, que pela primeira vez honra esta casa +fraternal... Que digo eu? que pela primeira vez honra com a sua +presença a sua querida pátria! E que por cá + +fique, pelas serras, muitos anos, todos bons. À tua, meu +velho!<br> + + +<br> + + +<span class="pagenum">[327]</span>Outro rumor correu pela mesa, mas +cerimonioso e sereno. A nossa oratória, positivamente, +não incendiara as imaginações! A tia +Vicência fez tilintar o seu copo, quase vazio, com o de +Jacinto, que tocou no copo da sua vizinha, a Luisinha Rojão, +toda resplandecente, e mais vermelha que uma peónia. Depois +foi um encadeamento de saúdes, com os copos quase vazios, +entre todos os convidados, sem esquecer o tio Adrião, e o +Abade, ambos ausentes, ambos com furúnculos. E a tia +Vicência espalhava aquele olhar, que prepara o erguer, o +arrastar de cadeiras,--quando D. Teotónio, erguendo o seu +copo de vinho do Porto, com a outra mão apoiada à + +mesa, meio erguido, chamou Jacinto, e numa voz respeitosa, quase +cava:<br> + + +<br> + + +--Esta é toda particular, e entre nós... Brindo o +ausente!<br> + + +<br> + + +Esvaziou o copo, como em religião, pontificando. Jacinto +bebeu assombrado, sem compreender. As cadeiras arrastavam,--eu dei +o braço à tia Albergaria.<br> + + +<br> + + +E só compreendi, na sala, quando o Dr. Alípio, com a +sua chávena de café e o charuto fumegante, me disse, +num daqueles seus olhares finos, que lhe valiam a alcunha de <i>Dr. +Agudo</i>:--«Espero que ao menos, cá por +Guiães, não se erga de novo a forca!...» + +<span class="pagenum">[328]</span>E o mesmo fino olhar me indicava +o D. Teotónio, que arrastara Jacinto para entre as cortinas +de uma janela, e discorria, com um ar de fé e de +mistério. Era o miguelismo, por Deus! O bom D. +Teotónio considerava Jacinto como um hereditário, +ferrenho, miguelista,--e na sua inesperada vinda ao seu solar de +Tormes, entrevia uma missão política, o começo +de uma propaganda enérgica, e o primeiro passo para uma +tentativa de Restauração. E na reserva daqueles +cavalheiros, ante o meu Príncipe, eu senti então a +suspeita liberal, o receio de uma influência rica, nova, nas +Eleições próximas, e a nascente +irritação contra as velhas ideias, representadas +naquele moço, tão rico, de civilização +tão superior. Quase entornei o café, na alegre +surpresa daquela sandice. E retive o Melo Rebelo, que repunha a +chávena vazia na bandeja, fitei, com um pouco de riso, o + +<i>Dr. Agudo</i>.<br> + + +<br> + + +--Então, francamente, os amigos imaginam que o Jacinto veio +para Tormes trabalhar no miguelismo?<br> + + +<br> + + +Muito sério, Melo Rebelo chegou o seu grosso bigode à +minha orelha:<br> + + +<br> + + +--Até corre, como certo, que o Príncipe D. Miguel +está com ele em Tormes!<br> + + + +<br> + + +E como eu os considerava esgazeado, o Dr. Alípio--tão +agudo!--confirmou:<br> + + +<br> + + +<span class="pagenum">[329]</span>--É o que corre... +Disfarçado em criado!<br> + + +<br> + + +Em criado? Oh! santo Deus! Era o Baptista! Justamente, Ricardo +Veloso veio, puxando do seu cigarrinho, para o acender no meu +charuto. E o bom Rebelo logo invocou o seu testemunho.--Pois +não corria, que o filho de D. Miguel estava em Tormes, +escondido?...<br> + + +<br> + + + +--Disfarçado em lacaio, confirmou logo o digno Rebelo.<br> + + +<br> + + +Acendeu o cigarro, soprou o fumo, e erguendo muito as sobrancelhas +meditativas:<br> + + +<br> + + +--Se assim é, lá me parece desplante... Que eu +não desgostava de o ver. Dizem que é bonito +moço, bem apessoado. Mas enfim, meu tio João Vaz +Rebelo foi partido às postas, a machado, nas prisões +de Almeida... E se recomeçam essas questões, mau, +mau! Ora o seu amigo...<br> + + + +<br> + + +Emudeceu. Jacinto, que se libertara do velho D. Teotónio, e +ainda conservava um resto de riso, de assombro divertido, vinha +para mim, desabafar:<br> + + +<br> + + +--Extraordinário! Vejo que, aqui, na serra, ainda se +conservam, sem uma ruga, as velhas e boas ideias...<br> + + +<br> + + +Imediatamente, sem se conter, Melo Rebelo acudiu:<br> + + +<br> + + +--É conforme o que V. Ex.ª chama <i>boas +ideias</i>.<br> + + + +<br> + + +<span class="pagenum">[330]</span>E eu agora, furioso com aquela +disparatada invenção, que cercava de hostilidade o +meu pobre Jacinto, estragava aquela amável noite de anos, +intervim, vivamente:<br> + + +<br> + + +--Tu jogas o voltarete, Jacinto? Não jogas... Então +vamos arranjar duas mesas... O D. Teotónio há-de +querer cartas.<br> + + +<br> + + +E arrastei Jacinto para as senhoras, que de novo se aninhavam +à sombra da tia Vicência, estabelecida no seu canto do +sofá. Todas se calavam, parecia encolherem-se ante a +aparição do meu Príncipe, como pombas +avistando o abutre. E deixei o temido homem afirmando à + +mulher do Dr. Alípio (um pouco desgarrada do bando das aves +tímidas) que lhe dera grande prazer aquela ocasião de +conhecer as suas vizinhas de Tormes... Ela abrira nervosamente o +leque, sorria, e nunca de certo Jacinto admirara na Cidade uma boca +mais vermelha, dentinhos mais rutilantes. Mas depois de organizar a +mesa do voltarete, tive de abancar, eu, para substituir o Manuel +Albergaria, que era dispéptico, se declarara +«afrontado», e desejava respirar um momento na varanda. +Todos aqueles cavalheiros, de resto, se queixavam de calor. Mandei +abrir as janelas que davam sobre as mimosas do pátio. O +Veloso, ao baralhar, parava, bufando, como oprimido:<br> + + +<br> + + +<span class="pagenum">[331]</span>--Está abafado... Ainda +temos trovoada!<br> + + +<br> + + +E o Dr. Alípio, inquieto, porque tinha uma hora de estrada +até casa, e uma das éguas da caleche era escabriada, +correu à janela, espreitar o céu, que enegrecera, +morno e pesado.<br> + + + +<br> + + +--Com efeito, vai cair água.<br> + + +<br> + + +As hastes das mimosas ramalhavam, arrepiadas: e o ar que agitava as +cortinas era intermitente, estonteado. De certo na sala, entre as +senhoras, surgira a mesma inquietação, porque a tia +Albergaria apareceu, avisando o mano Jorge.<br> + + +<br> + + +Era prudente pensar em partir, a noite ameaçava... E o Dr. +Alípio, puxando o relógio, propôs que, +levantada aquela remissa, se preparasse a marcha. Justamente o +Albergaria recolhia da varanda desafrontado, aliviado com um +cálice de genebra: e retomou as suas cartas, anunciando +também que vinha aí uma trovoada valente.<br> + + + +<br> + + +Voltando à sala, encontrei Jacinto muito alegre entre as +senhoras, que se familiarizaram, escutando cheias de riso e gosto, +a história da sua chegada a Tormes, sem malas, sem criados, +tão desprovido que dormira com a camisa da caseira! Mas a +minha pobre noite de anos findava, desorganizada. A tia Albergaria +rondava de janela em janela, assustada <span class="pagenum">[332]</span>com a volta à Roqueirinha, espreitando +a treva abafada. Calçando lentamente as luvas, a bela mulher +do Dr. Alípio perguntava se ainda havia a remissa. E a tia +Vicência apressara o chá, que o Manuel seguido pela +Gertrudes, com a bandeja de bolos, já começava a +servir às senhoras. Jacinto, de pé, oferecendo +chávenas, gracejava:<br> + + + +<br> + + +--Então tanta pressa, tanto medo, por causa de uma +trovoadinha?<br> + + +<br> + + +Elas replicavam, familiarizadas, numa crescente simpatia pelo meu +Príncipe:<br> + + +<br> + + +--Ora o senhor fala bem, porque fica debaixo de telhas...<br> + + +<br> + + +--Sempre o queríamos ver... se fosse agora para Tormes, com +esta noite cerrada!<br> + + +<br> + + +O voltarete findara nas duas mesas: e aqueles cavalheiros, das +janelas, gritavam ordens para o pátio negro, onde as +carruagens esperavam atreladas:<br> + + + +<br> + + +--Desce a cabeça da vitória, ó Diogo!<br> + + +<br> + + +--Acende o lampião, Pedro! Sempre ajuda a luz das +lanternas.<br> + + +<br> + + +A criada Quitéria chegava à porta com os +braços carregados de xales, de mantilhas de renda. Como uma +das Albergarias ia no assento de diante na vitória, eu corri +a buscar o meu casaco de borracha, para ela se abrigar se a chuva +viesse. E só o D. Teotónio, que <span class="pagenum">[333]</span>tinha até casa apenas meia +légua de estrada boa, se não apressava, filado outra +vez no meu Príncipe, que levava para os cantos mais +solitários, em conversas profundas, que o seu dedo solene, +espetado, sublinhava gravemente. Mas a tia Albergaria gritou que +já chovia;--e então foi uma pressa das senhoras, que +beijocavam vivamente a tia Vicência, enquanto os homens, na +antecâmara, enfiavam açodadamente os +paletós.<br> + + + +<br> + + +Jacinto e eu descemos ao pátio para acompanhar aquela +debandada,--e uma a uma, a traquitana do Dr. Alípio, a +vitória das Albergarias, a velha e imensa caleche dos +Velosos, rolaram sob a noite, entre os nossos desejos de boa +jornada. Por fim D. Teotónio calçou as luvas pretas e +entrou para a sua caleche, dizendo a Jacinto:<br> + + +<br> + + +--Pois, primo e amigo, Deus permita que, do nosso encontro, e do +mais que se passar, algum bem resulte a esta terra!<br> + + +<br> + + +Subindo a escada, o meu Príncipe desabafou:<br> + + +<br> + + +--Este Teotónio é extraordinário! Sabes o que +descobri por fim?... Que me toma por um miguelista, e imagina que +eu vim para Tormes preparar a restauração de D. +Miguel?!<br> + + + +<br> + + +--E tu?<br> + + +<br> + + +<span class="pagenum">[334]</span>--Eu fiquei tão espantado, +que nem o desiludi!<br> + + +<br> + + +--Pois sabe mais, meu pobre amigo. Todos pensam o mesmo, +estão desconfiados, e receiam ver de novo erguidas as forcas +em Guiães! E corre que tu tens o Príncipe D. Miguel +escondido em Tormes, disfarçado em criado. E sabes quem ele +é? o Baptista!<br> + + +<br> + + + +--Isso é sublime! murmurou Jacinto, com uns grandes olhos +abertos.<br> + + +<br> + + +Na sala, a tia Vicência nos esperava desconsolada, entre +todas as luzes, que ardiam ainda no silêncio e paz do +serão debandado:<br> + + +<br> + + +--Ora uma coisa assim! Nem quererem ficar para tomar um copinho de +geleia, um cálice de vinho do Porto!<br> + + +<br> + + +--Esteve tudo muito desanimado, tia Vicência! exclamei +desafogando o meu tédio. Todo esse mulherio emudeceu; os +amigos com um ar desconfiado...<br> + + + +<br> + + +Jacinto protestou, muito divertido, muito sincero:<br> + + +<br> + + +Não! pelo contrário. Gostei imenso. Excelente gente! +E tão simples... Todas estas raparigas me pareceram +óptimas. E tão frescas, tão alegres! Vou ter +aqui bons amigos, quando verificarem que não sou +miguelista.<br> + + +<br> + + +Então contámos à tia Vicência a +prodigiosa <span class="pagenum">[335]</span>história de D. +Miguel escondido em Tormes... Ela ria! Que coisa! E mau +seria...<br> + + + +<br> + + +--Mas o Sr. Jacinto, não é?<br> + + +<br> + + +--Eu, minha senhora, sou socialista...<br> + + +<br> + + +Acudi, explicando à tia Vicência, que socialista era +ser pelos pobres. A doce senhora considerava esse partido o melhor, +o verdadeiro:<br> + + +<br> + + +--O meu Afonso, que Deus haja, era liberal... Meu pai, +também e até amigo do Duque da Terceira...<br> + + + +<br> + + +Mas um rude trovão rolou, atroou a noite negra:--e uma +bátega de água cantou nos vidros, e nas pedras da +varanda.<br> + + +<br> + + +--Santa Bárbara! gritou a tia Vicência! Ai aquela +pobre gente!... Até estou com cuidado... As Rojões, +que vão na vitória!<br> + + +<br> + + + +E correu para o quarto, na sua pressa de acender as duas velas +costumadas no oratório, ainda antes de ir guardar as pratas, +e rezar o terço, com a Gertrudes.<br> + + +<br> + + +<br> + + +<br> + + +<h2>XIV</h2> + + +<br> + + +<br> + + +Ao outro dia, depois de almoço, eu e Jacinto montámos +a cavalo para um grande passeio até à Flor da Malva, +a saber de meu tio Adrião, e do seu furúnculo. E +sentia uma curiosidade interessada, e até inquieta, de +testemunhar a impressão que daria ao meu Príncipe +aquela nossa prima Joaninha, que era o orgulho da nossa casa. +Já nessa manhã, andando todos no jardim a escolher +uma bela rosa-chá para a botoeira do meu Príncipe, a +tia Vicência celebrara com tanto fervor a beleza, a +graça, a caridade, e a doçura da sua sobrinha +toda-amada, que eu protestei:<br> + + + +<br> + + +--Oh! tia Vicência, olhe que esses elogios todos competem +apenas à Virgem Maria! A tia Vicência está a +cair em pecado de idolatria! O Jacinto depois vai encontrar uma +criatura apenas humana, e tem um desapontamento tremendo!<br> + + +<br> + + +E agora, trotando pela fácil estrada de Sandofim, +<span class="pagenum">[338]</span>lembrava-me aquela manhã, +no 202, em que Jacinto encontrara o retrato dela no meu quarto, e +lhe chamara uma <i>lavradeirona</i>. Com efeito, era grande e forte +a Joaninha. Mas a fotografia datava do seu tempo de viço +rústico, quando ela era apenas uma bela forte e sã + +planta da serra. Agora entrava nos vinte e cinco, e já +pensava, e sentia,--e a alma que nela se formara, afinara, +amaciara, e espiritualizava o seu esplendor rubicundo.<br> + + +<br> + + +A manhã, com o céu todo purificado pela trovoada da +véspera, e as terras reverdecidas e lavadas pelos chuviscos +ligeiros, oferecia uma doçura luminosa, fina, fresca, que +tornava doce, como diz o velho Eurípedes ou o velho +Sófocles, mover o corpo, e deixar a alma preguiçar, +sem pressa nem cuidados. A estrada não tinha sombra, mas o +sol batia muito de leve, e roçava-nos com uma carícia +quase alada. O vale parecia a Jacinto, que nunca ali passara, uma +pintura da Escola Francesa do século XVIII, tão +graciosamente nele ondulavam as terras verdes, e com tanta paz e +frescura corria o risonho Serpão, e tão +afáveis e prometedores de fartura e contentamento alvejavam +os casais nas verduras tenras! Os nossos cavalos caminhavam num +passo pensativo, gozando também a paz da manhã + +adorável. E não sei, nunca soube, que plantazinhas +<span class="pagenum">[339]</span>silvestres e escondidas +espalhavam um delicado aroma, que eu tantas vezes sentira, naquele +caminho, ao começar o Outono.<br> + + +<br> + + +--Que delicioso dia! murmurou Jacinto. Este caminho para a Flor da +Malva é o caminho do céu... Oh Zé Fernandes, +de que é este cheirinho tão doce, tão bom?<br> + + + +<br> + + +Eu sorri, com certo pensamento:<br> + + +<br> + + +--Não sei... É talvez já o cheiro do +céu!<br> + + +<br> + + +Depois, parando o cavalo, apontei com o chicote para o vale:<br> + + +<br> + + +--Olha, acolá, onde está aquela fila de olmos, e +há o riacho, já são terras do tio +Adrião. Tem ali um pomar, que dá os pêssegos +mais deliciosos de Portugal... Hei-de pedir à prima Joaninha +que te mande um cesto deles. E o doce que ela faz com esses +pêssegos, menino, é alguma coisa de celeste. +Também lhe hei-de pedir que te mande o doce.<br> + + + +<br> + + +Ele ria:<br> + + +<br> + + +--Será explorar de mais a prima Joaninha. E eu +(porquê?) recordei e atirei ao meu Príncipe estes dois +versos de uma balada cavalheiresca, composta em Coimbra pelo meu +pobre amigo Procópio:<br> + + +<br> + + +<div class="break">--Manda-lhe um servo querido, Bem hajas dona +formosa! E que lhe entregue um anel E com um anel uma rosa.</div> + + +<br> + + +<span class="pagenum">[340]</span>Jacinto riu alegremente:<br> + + + +<br> + + +--Zé Fernandes, seria excessivo, só por causa de meia +dúzia de pêssegos, e de um boião de doce.<br> + + +<br> + + +Assim ríamos, quando apareceu, à volta da estrada, o +longo muro da quinta dos Velosos, e depois a capelinha de S. +José de Sandofim. E imediatamente piquei para o largo, para +a taverna do Torto, por causa daquele vinhinho branco, que sempre, +quando por ali a levo, a minha alma me pede. O meu Príncipe +reprovou, indignado:<br> + + + +<br> + + +--Oh! Zé Fernandes, pois tu, a esta hora, depois de +almoço, vais beber vinho branco?<br> + + +<br> + + +--É um costumezinho antigo... Aqui à taverninha do +Torto... um decilitrozinho... A almazinha assim mo pede.<br> + + +<br> + + +E parámos; eu gritei pelo Manuel, que apareceu, rebolando a +sua grossa pança, sobre as pernas tortas, com a infusa +verde, e um copo.<br> + + + +<br> + + +--Dois copos, Torto amigo. Que aqui este cavalheiro também +aprecia.<br> + + +<br> + + +Depois de um pálido protesto, o meu Príncipe +também quis, mirou o límpido e dourado vinho ao sol, +provou, e esvaziou o copo, com delícia, e um estalinho de +alto apreço.<br> + + +<br> + + +--Delicioso vinho!... Hei-de querer deste vinho em Tormes... +É perfeito.<br> + + + +<br> + + +--Hein? Fresquinho, leve, aromático, alegrador, <span class="pagenum">[341]</span>todo alma!... Encha lá outra vez os +copos, amigo Torto. Este cavalheiro aqui é o Sr. D. Jacinto, +o fidalgo de Tormes.<br> + + +<br> + + +Então, de trás da ombreira da taverna, uma grande voz +bradou, cavamente, solenemente:<br> + + +<br> + + +--Bendito seja o pai dos Pobres!<br> + + + +<br> + + +E um estranho velho, de longos cabelos brancos, barbas brancas, que +lhe comiam a face cor de tijolo, assomou no vão da porta, +apoiado a um bordão, com uma caixa de lata a tiracolo, e +cravou em Jacinto dois olhinhos de um brilho negro, que faiscavam. +Era o tio João Torrado, o profeta da Serra... Logo lhe +estendi a mão, que ele apertou, sem despegar de Jacinto os +olhos, que se dilatavam mais negros. Mandei vir outro copo, +apresentei Jacinto, que corara, embaraçado.<br> + + +<br> + + +--Pois aqui o tem, o senhor de Tormes, que fez por aí todo +esse bem à pobreza.<br> + + +<br> + + +O velho atirou para ele bruscamente o braço, que saía +cabeludo e quase negro, de uma manga muito curta.<br> + + + +<br> + + +--A mão!<br> + + +<br> + + +E quando Jacinto lha deu, depois de arrancar vivamente a luva, +João Torrado longamente lha reteve com um sacudir lento e +pensativo, murmurando:<br> + + +<br> + + +--Mão real, mão de dar, mão que vem de cima, +mão já rara!<br> + + + +<br> + + +<span class="pagenum">[342]</span>Depois tomou o copo, que lhe +oferecia o Torto, bebeu com imensa lentidão, limpou as +barbas, deu um jeito à correia que lhe prendia a caixa de +lata, e batendo com a ponta do cajado no chão:<br> + + +<br> + + +--Pois louvado seja nosso Senhor Jesus Cristo, que por aqui me +trouxe, que não o meu dia, e vi um homem!<br> + + +<br> + + +Eu então debrucei-me para ele, mais em +confidência:<br> + + + +<br> + + +--Mas, ó tio João, ouça cá! Sempre +é certo você dizer por aí, pelos sítios, +que El-Rei D. Sebastião voltara?<br> + + +<br> + + +O pitoresco velho apoiou as duas mãos sobre o cajado, o +queixo de espalhada barba sobre as mãos, e murmurava, sem +nos olhar, como seguindo a percussão dos seus +pensamentos:<br> + + + +<br> + + +--Talvez voltasse, talvez não voltasse... Não se sabe +quem vai, nem quem vem. A gente vê os corpos, mas não +vê as almas que estão dentro. Há corpos de +agora com almas de outrora. Corpo é vestido, alma é +pessoa... Na feira da Roqueirinha quem sabe com quantos reis +antigos se topa, quando se anda aos encontrões entre os +vaqueiros... Em ruim corpo se esconde bom senhor!<br> + + + +<br> + + +E como ele findara num murmúrio, eu, atirando um olhar a +Jacinto, e para gozarmos <span class="pagenum">[343]</span>aqueles +estranhos, pitorescos modos de vidente, insisti:<br> + + +<br> + + +--Mas, ó tio João, você realmente, em sua +consciência, pensa que El-Rei D. Sebastião não +morreu na batalha?<br> + + + +<br> + + +O velho ergueu para mim a face, que se enrugara numa +desconfiança:<br> + + +<br> + + +--Essas coisas são muito antigas. E não calham bem +aqui à porta do Torto. O vinho era bom, e V. S.ª tem +pressa, meu menino! A flor da Flor da Malva lá tem o +paizinho doente... Mas o mal já vai pela serra abaixo com a +inchação às costas. Dá gosto ver quem +dá gosto aos tristes. Por cima de Tormes há uma +estrela clara. E é trotar, trotar, que o dia está + +lindo!<br> + + +<br> + + +Com a magra mão lançou um gesto para que +seguíssemos. E já passávamos o cruzeiro quando +o seu brado ardente, de novo reboou, com solenidade cava:<br> + + +<br> + + +--Bendito seja o Pai dos Pobres.<br> + + +<br> + + +Direito, no meio da estrada, erguia o cajado como dirigindo as +aclamações de um povo. E Jacinto pasmava de que ainda +houvesse no reino um Sebastianista.<br> + + + +<br> + + +--Todos o somos ainda em Portugal, Jacinto! Na serra ou na cidade +cada um espera o seu D. Sebastião. Até a lotaria da +Misericórdia é uma forma do Sebastianismo. +<span class="pagenum">[344]</span>Eu todas as manhãs, mesmo +sem ser de nevoeiro, espreito, a ver se chega o meu. Ou antes a +minha, por que eu espero uma D. Sebastiana... E tu, felizardo?<br> + + +<br> + + +--Eu? Uma D. Sebastiana? Estou muito velho, Zé Fernandes... +Sou o último Jacinto; Jacinto ponto final... Que casa + +é aquela com os dois torreões?<br> + + +<br> + + +--A Flor da Malva.<br> + + +<br> + + +Jacinto tirou o relógio:<br> + + +<br> + + +--São três horas. Gastámos hora e meia... Mas +foi um belo passeio, e instrutivo. É lindo este +sítio.<br> + + + +<br> + + +Sobre um outeirinho, afastada da estrada por arvoredo, que um muro +cerrava, e dominando, a Flor da Malva voltava para Oriente e para o +Sol a sua longa fachada com os dois torreões quadrados, onde +as janelas, de varanda, eram emolduradas em azulejos. O grande +portão de ferro, ladeado por dois bancos de pedra, ficava ao +fundo do terreirinho, onde um imenso castanheiro derramava verdura +e sombra. Sentado sobre as fortes raízes descarnadas da +grande árvore, um pequeno esperava segurando um burro pela +arreata.<br> + + +<br> + + +--Está por aí o Manuel da Porta?<br> + + +<br> + + +--Ainda agora subiu pela alameda.<br> + + + +<br> + + +--Bem: empurra lá o portão.<br> + + +<br> + + +E subimos, por uma curta avenida de velhas <span class="pagenum">[345]</span>árvores, até outro terreiro, +com um alpendre, uma casa de moços, toda coberta de heras, e +uma casota de cão, de onde saltou, com um rumor de corrente +arrastada, um molosso, o Tritão, que eu logo sosseguei +fazendo-lhe reconhecer o seu velho amigo Zé Fernandes. E o +Manuel da Porta correu da fonte, onde enchia um grande balde, para +nos segurar os cavalos.<br> + + + +<br> + + +--Como está o tio Adrião?<br> + + +<br> + + +Surdo, o excelente Manuel sorriu, deleitado:<br> + + +<br> + + +--E então vossa excelência, bem? A Sr.<sup>a</sup> D. +Joaninha ainda agora andava no laranjal com o pequeno da +Josefa.<br> + + + +<br> + + +Seguimos por ruazinhas bem areadas, orladas de alfazema e buxo +alto, enquanto eu contava ao meu Príncipe que aquele +pequenito da Josefa era um afilhadinho da prima Joana, e agora o +seu encanto e o seu cuidado todo.<br> + + +<br> + + +--Esta minha santa prima, apesar de solteira, tem aí pela +freguesia uma verdadeira filharada. E não é só +dar-lhes roupas e presentes, e ajudar as mães. Mas +até os lava, e os penteia, e lhes trata as tosses. Nunca a +encontro sem alguma criancita ao colo... Agora anda na +paixão deste Josezinho.<br> + + + +<br> + + +Mas quando chegámos ao laranjal, à beira <span class="pagenum">[346]</span>da larga rua da quinta que levava ao tanque, +debalde procurei, e me embrenhei, e até gritei:--Eh, prima +Joaninha!...<br> + + +<br> + + +--Talvez esteja lá para baixo, para o tanque...<br> + + +<br> + + +Descemos a rua, entre árvores, que a cobriam com as densas +ramas encruzadas. Uma fresca, límpida água de rega +corria e luzia num caneiro de pedra. Entre os troncos, as roseiras +bravas ainda tinham uma frescura de Verão. E o pequeno +campo, que se avistava para além, rebrilhava com +doçura, todo amarelo e branco, dos malmequeres e +botões de ouro.<br> + + + +<br> + + +O tanque, redondo, fora esvaziado para se lavar, e agora de novo o +repuxo o ia enchendo de uma água muito clara, ainda baixa, +onde os peixes vermelhos se agitavam na alegria de recuperarem o +seu pequeno oceano. Sobre um dos bancos de pedra que circundavam o +tanque pousava um cesto cheio de dálias cortadas. E um +moço, que sobre uma escada podava as camélias, vira a +Sr.<sup>a</sup> D. Joana seguir para o lado da parreira.<br> + + +<br> + + +Marchámos para a parreira, ainda toda carregada de uva +preta. Duas mulheres, longe, ensaboavam num lavadouro, na sombra de +grandes nogueiras. Gritei:--Eh lá? Vocês viram por +aí a Sr.<sup>a</sup> D. Joana? Uma das moças + +<span class="pagenum">[347]</span>esganiçou a voz, que se +perdeu no vasto ar luminoso e doce.<br> + + +<br> + + +--Bem: vamos a casa! Não podemos farejar assim, toda a +tarde.<br> + + +<br> + + +--É uma bela quinta, murmurava o meu Príncipe +encantado.<br> + + +<br> + + +--Magnífica! E bem tratada... O tio Adrião tem um +feitor excelente... Não é o teu Melchior. Observa, +aprende, lavrador! Olha aquele cebolinho!<br> + + + +<br> + + +Passámos pela horta, uma horta ajardinada, como a sonhara o +meu Príncipe, com os seus talhões debruados de +alfazema, e madressilva enroscada nos pilares de pedra, que faziam +ruazinhas frescas toldadas de parra densa. E demos volta à +capela, onde crescia aos dois lados da porta uma +roseira-chá, com uma rosa única, muito aberta, e uma +moita de baunilha, onde Jacinto apanhou um raminho para cheirar. +Depois entrámos no terraço em frente da casa, com a +sua balaustrada de pedra, toda enrodilhada de jasmineiros amarelos. +A porta envidraçada estava aberta: e subimos pela escadaria +de pedra, no imenso silêncio em que toda a Flor da Malva +repousava, até à antecâmara, de altos tectos +apainelados, com longos bancos de pau, onde desmaiavam na sua velha +pintura as complicadas armas dos Cerqueiras. Empurrei a porta + +<span class="pagenum">[340]</span>de uma outra sala, que tinha as +janelas da varanda abertas, cada uma com a gaiola de um +canário.<br> + + +<br> + + +--É curioso!--exclamou Jacinto. Parece o meu +Presépio... E as minhas cadeiras.<br> + + +<br> + + +E com efeito. Sobre uma cómoda antiga, com bronzes antigos, +pousava um presépio semelhante ao da livraria de Jacinto. E +as cadeiras de couro lavrado tinham, como as que ele descobrira no +sótão, umas armas sob um chapéu de +Cardeal.<br> + + + +<br> + + +--Oh senhores! exclamei. Não haverá um criado?<br> + + +<br> + + +Bati as mãos, fortemente. E o mesmo doce silêncio +permaneceu, muito largo, todo luminoso e arejado pelo macio ar da +quinta, apenas cortado pelo saltitar dos canários nos +poleiros das gaiolas.<br> + + +<br> + + +--É o Palácio da Bela Adormecida no bosque! murmurou +Jacinto, quase indignado. Dá um berro!<br> + + + +<br> + + +--Não, caramba! Vou lá dentro!<br> + + +<br> + + +Mas, à porta, que de repente se abriu, apareceu minha prima +Joaninha, corada do passeio e do vivo ar, com um vestido claro um +pouco aberto no pescoço, que fundia mais docemente, numa +larga claridade, o esplendor branco da sua pele, e o louro ondeado +dos seus belos cabelos,--lindamente risonha, na <span class="pagenum">[349]</span>surpresa que alargava os seus largos, +luminosos olhos negros, e trazendo ao colo uma criancinha, gorda e +cor-de-rosa, apenas coberta com uma camisinha, de grandes +laços azuis.<br> + + +<br> + + +E foi assim que Jacinto, nessa tarde de Setembro, na Flor da Malva, +viu aquela com quem casou em Maio, na capelinha de azulejos, quando +o grande pé de roseira se cobrira todo de rosas.<br> + + + +<br> + + +<br> + + +<br> + + +<h2>XV</h2> + + +<br> + + +<br> + + +E agora, entre roseiras que rebentam, e vinhas que se vindimam, +já cinco anos passaram sobre Tormes e a Serra. O meu +Príncipe já não é o último +Jacinto, Jacinto ponto final--porque naquele solar que +decaíra, correm agora, com soberba vida, uma gorda e +vermelha Teresinha, minha afilhada, e um Jacintinho, senhor muito +da minha amizade. E, pai de família, principiara a fazer-se +monótono, pela perfeição da beleza moral, +aquele homem tão pitoresco pela inquietação +filosófica, e pelos variados tormentos da fantasia +insaciada. Quando ele agora, bom sabedor das coisas da lavoura, +percorria comigo a quinta, em sólidas palestras +agrícolas, prudentes e sem quimeras--eu quase lamentava esse +outro Jacinto que colhia uma teoria em cada ramo de árvore, +e riscando o ar com a bengala, planeava queijeiras de cristal e + +<span class="pagenum">[352]</span>porcelana, para fabricar +queijinhos que custariam duzentos mil réis cada um!<br> + + +<br> + + +Também a paternidade lhe despertara a responsabilidade. +Jacinto possuía agora um caderno de contas, ainda pequeno, +rabiscado a lápis, com falhas, e papeluchos soltos +entremeados, mas onde as suas despesas, as suas rendas se +alinhavam, como duas hostes disciplinadas. Visitara já as +suas propriedades de Montemor, da Beira; e concertava, mobilava as +velhas casas dessas propriedades para que os seus filhos, mais +tarde, crescidos, encontrassem «ninhos feitos». Mas +onde eu reconheci que definitivamente um perfeito e ditoso +equilíbrio se estabelecera na alma do meu Príncipe, +foi quando ele, já sabido daquele primeiro e ardente +fanatismo da Simplicidade--entreabriu a porta de Tormes à + +Civilização. Dois meses antes de nascer a Teresinha, +uma tarde, entrou pela avenida de plátanos uma chiante e +longa fila de carros, requisitados por toda a freguesia, e +acuculados de caixotes. Eram os famosos caixotes, por tanto tempo +encalhados em Alba de Tormes, e que chegavam, para despejar a +Cidade sobre a Serra. Eu pensei:--Mau! o meu pobre Jacinto teve uma +recaída! Mas os confortos mais complicados, que continha +aquela caixotaria temerosa, foram, com surpresa minha, desviados +<span class="pagenum">[353]</span>para os sótãos +imensos, para o pó da inutilidade: e o velho solar apenas se +regalou com alguns tapetes sobre os seus soalhos, cortinas pelas +janelas desabrigadas, e fundas poltronas, fundos sofás, para +que os repousos, por que ele suspirara, fossem mais lentos e +suaves. Atribuí esta moderação a minha prima +Joaninha, que amava Tormes na sua nudez rude. Ela jurou que assim o +ordenara o seu Jacinto. Mas, decorridas semanas, tremi. Aparecera, +vindo de Lisboa, um contramestre, com operários, e mais +caixotes, para instalar um telefone!<br> + + +<br> + + + +--Um telefone, em Tormes, Jacinto?<br> + + +<br> + + +O meu Príncipe explicou, com humildade:<br> + + +<br> + + +--Para casa de meu sogro!... Bem vês.<br> + + +<br> + + +--Era razoável e carinhoso. O telefone porém, +subtilmente, mudamente, estendeu outro longo fio, para Valverde. E +Jacinto, alargando os braços, quase suplicante:<br> + + +<br> + + + +--Para casa do médico. Compreendes...<br> + + +<br> + + +Era prudente. Mas, certa manhã, em Guiães, acordei +aos berros da tia Vicência! Um homem chegara, misterioso, com +outros homens, trazendo arame, para instalar na nossa casa o novo +invento. Sosseguei a tia Vicência, jurando que essa +máquina nem fazia barulho, nem trazia doenças, nem +atraía as trovoadas. Mas <span class="pagenum">[354]</span>corri a Tormes. Jacinto sorriu, encolhendo os +ombros:<br> + + +<br> + + +--Que queres? Em Guiães está o boticário, +está o carniceiro... E, depois, estás tu!<br> + + + +<br> + + +Era fraternal. Todavia pensei: Estamos perdidos! Dentro de um +mês temos a pobre Joana a apertar o vestido por meio de uma +máquina! Pois não! o Progresso, que, à +intimação de Jacinto, subira a Tormes a estabelecer +aquela sua maravilha, pensando talvez que conquistara mais um reino +para desfear, desceu, silenciosamente, desiludido, e não +avistámos mais sobre a serra a sua hirta sombra cor de ferro +e de fuligem. Então compreendi que, verdadeiramente, na alma +de Jacinto se estabelecera o equilíbrio da vida, e com ele a +Grã-Ventura, de que tanto tempo ele fora o Príncipe +sem Principado. E uma tarde, no pomar, encontrando o nosso velho +Grilo, agora reconciliado com a serra, desde que a serra lhe dera +meninos para trazer às cavaleiras, observei ao digno preto, +que lia o seu <i>Figaro</i>, armado de imensos óculos +redondos:<br> + + + +<br> + + +--Pois, Grilo, agora realmente bem podemos dizer que o Sr. D. +Jacinto está firme.<br> + + +<br> + + +O Grilo arredou os óculos para a testa, e levantando para o +ar os cinco dedos em curva como pétalas de uma tulipa:<br> + + +<br> + + +<span class="pagenum">[355]</span>--S. Ex.ª brotou!<br> + + +<br> + + + +Profundo sempre o digno preto! Sim! Aquele ressequido galho de +Cidade, plantado na serra, pegara, chupara o húmus do +torrão herdado, criara seiva, afundara raízes, +engrossara de tronco, atirara ramos, rebentara em flores, forte, +sereno, ditoso, benéfico, nobre, dando frutos, derramando +sombra. E abrigados pela grande árvore, e por ela nutridos, +cem casais em redor a bendiziam.<br> + + +<br> + + +<br> + + +<br> + + +<h2>XVI</h2> + + +<br> + + +<br> + + +Muitas vezes Jacinto, durante esses anos, falara com prazer num +regresso de dois, três meses, ao 202, para mostrar Paris +à prima Joaninha. E eu seria o companheiro fiel, para +arquivar os espantos da minha serrana ante a Cidade! Depois conveio +em esperar que o Jacintinho completasse dois anos, para poder +jornadear sem desconforto, e apontando já com o seu dedo +para as coisas da Civilização. Mas, quando ele, em +Outubro, fez esses dois anos desejados, a prima Joaninha sentiu uma +preguiça imensa, quase aterrada, do comboio, do estridor da +Cidade, do 202, e dos seus esplendores. «Estamos aqui +tão bem! está um tempo tão lindo!» + +murmurava, deitando os braços, sempre deslumbrada, ao rijo +pescoço do seu Jacinto. Ele desistia logo de Paris, +encantado. «Vamos para Abril, quando os castanheiros dos +Campos Elísios <span class="pagenum">[358]</span>estiverem +em flor!» Mas em Abril vieram aqueles cansaços que +imobilizavam a prima Joaninha no divã, ditosa, risonha, com +umas pintas na pele, e o roupão mais solto. Por todo um +longo ano estava desfeita a alegre aventura. Eu andava então +sofrendo de desocupação. As chuvas de Março +prometiam uma farta colheita. Uma certa Ana Vaqueira, corada e bem +feita, viúva, que surtia as necessidades do meu +coração, partira com o irmão para o Brasil, +onde ele dirigia uma venda. Desde o Inverno, sentia também +no corpo como um começo de ferrugem, que o emperrava, e, +certamente, algures, na minha alma, nascera uma pontinha de bolor. +Depois a minha égua morreu... Parti eu para Paris.<br> + + + +<br> + + +Logo em Hendaia, apenas pisei a doce terra de França, o meu +pensamento, como pombo a um velho pombal, voou ao 202,--talvez por +eu ver um enorme cartaz em que uma mulher nua, com flores +bacânticas nas tranças, se estorcia, segurando numa +das mãos uma garrafa espumante, e brandindo na outra, para o +anunciar ao Mundo, um novo modelo de saca-rolhas. E oh surpresa! +eis que, logo adiante, na estação quieta e clara de +Saint Jean-de-Luz, um moço esbelto, de perfeita +elegância, entra vivamente no meu compartimento, e, depois de +me encarar, grita:<br> + + +<br> + + +<span class="pagenum">[359]</span>--Eh, Fernandes!<br> + + +<br> + + +Marizac! O duque de Marizac! Era já o 202... Com que +reconhecimento lhe sacudi a mão fina, por ele me ter +reconhecido! E, atirando para o canto do vagão um +paletó, um maço de jornais, que o escudeiro lhe +passara, o bom Marizac exclamava na mesma surpresa alegre:<br> + + + +<br> + + +--E Jacinto?<br> + + +<br> + + +Contei Tormes, a serra, o seu primeiro amor pela Natureza, o seu +outro grande amor por minha prima, e os dois filhos, que ele trazia +escarranchados no pescoço.<br> + + +<br> + + +--Ah que canalha! exclamou Marizac com os olhos espetados em mim! +É capaz de ser feliz!<br> + + +<br> + + +--Espantosamente, loucamente... Qual! não há +advérbios...<br> + + + +<br> + + +--Indecentemente--murmurou Marizac muito sério. Que +canalha!<br> + + +<br> + + +Eu então desejei saber do nosso rancho familiar do 202. Ele +encolheu os ombros, acendendo a cigarette:<br> + + +<br> + + +--Todo esse mundo circula...<br> + + +<br> + + +--Madame d'Oriol?<br> + + +<br> + + +--Continua.<br> + + + +<br> + + +--Os Trèves? o Efraim?<br> + + +<br> + + +--Continuam, todos três.<br> + + +<br> + + +Lançou um gesto lânguido.<br> + + +<br> + + +<span class="pagenum">[360]</span>--Durante cinco anos, em Paris, +tudo continua... As mulheres com um pouco mais de pós de +arroz, e a pele um pouco mais mole, e melada. Os homens com um +tanto mais de dispepsia. E tudo segue. Tivemos os Anarquistas. A +princesa de Carman abalou com um acrobata do Circo de Inverno... +E--e voilà!<br> + + + +<br> + + +--Dornan? --Continua... Não o encontrei mais desde o 202. +Mas vejo às vezes o nome dele, no <i>Boulevard</i>, com +versos preciosos, obscenidades muito apuradas, muito subtis.<br> + + +<br> + + +--E o Psicólogo?... Ora, como se chamava ele?...<br> + + +--Continua também. Sempre com as feminices a três +francos e cinquenta... Duquesas em camisa, almas nuas... Coisas que +se vendem bem!<br> + + +<br> + + +Mas quando eu, encantado, ia indagar de Todelle, do +Grão-Duque, o comboio entrou na estação de +Biarritz:--e rapidamente, apanhando o paletó e os jornais, +depois de me apertar a mão, o delicioso Marizac saltou pela +portinhola, que o seu criado abrira, gritando:<br> + + + +<br> + + +--Até Paris!... Sempre rue Cambori.<br> + + +<br> + + +Então, no compartimento solitário, bocejei, com uma +estranha sensação de monotonia, de saciedade, como +cercado já de gentes <span class="pagenum">[361]</span>muito +vistas, murmurando histórias muito sabidas, e coisas muito +ditas, através de sorrisos estafados. Dos dois lados do +comboio era a longa planície monótona, sem variedade, +muito miudamente cultivada, muito miudamente retalhada, de um verde +de reseda, verde cinzento e apagado, onde nenhum lampejo, nem tom +alegre de flor, nem acidente do solo, desmanchavam a mediocridade +discreta e ordeira. Pálidos choupos, em renques pautados e +finos, bordavam canaizinhos muito direitos e claros. Os casais, +todos da mesma cor pardacenta, mal se elevavam do solo, mal se +destacavam da verdura desbotada, como encolhidos na sua +mediocridade e cautela. E o céu, por cima, liso, sem uma +nuvem, com um sol descorado, parecia um vasto espelho muito lavado +a grande água, até que de todo se lhe safasse o +esmalte e o brilho. Adormeci numa doce insipidez.<br> + + + +<br> + + +Com que linda manhã de Maio entrei em Paris! Tão +fresca e fina, e já macia, que, apesar de cansado, mergulhei +com repugnância no profundo, sombrio leito do Grand-Hotel, +todo fechado de espessos veludos, grossos cordões, pesadas +borlas, como um palanque de gala. Nessa profunda cova de penas +sonhei que em Tormes se construíra uma Torre Eiffel e que em +volta dela as senhoras da Serra, <span class="pagenum">[362]</span>as mais respeitáveis, a própria +tia Albergaria, dançavam, nuas, agitando no ar saca-rolhas +imensos. Com as comoções deste pesadelo, e depois o +banho, e o desemalar da mala, já se acercavam as duas horas +quando enfim emergi do grande portão, pisei, ao cabo de +cinco anos, o Boulevard. E imediatamente me pareceu que todos esses +cinco anos eu ali permanecera à porta do Grand-Hotel, +tão estafadamente conhecido me era aquele estridente rolar +da cidade, e as magras árvores, e as grossas tabuletas, e os +imensos chapéus emplumados sobre tranças pintadas de +amarelo, e as empertigadas sobrecasacas com grossas rosetas da +legião de honra, e os garotos, em voz rouca e baixa, +oferecendo baralhos de cartas obscenas, caixas de fósforos +obscenas... Santo Deus! pensei, há que anos eu estou em +Paris! Comprei então, num quiosque, um jornal, a Voz de +Paris, para que ele me contasse, durante o almoço, as novas +da Cidade. A mesa do quiosque desaparecia, alastrada de jornais +ilustrados:--e em todos se repetia a mesma mulher, sempre nua, ou +meia despida, ora mostrando as costelas magras, de gata faminta, +ora voltando para o Leitor duas tremendas nádegas... Eu +outra vez murmurei:--Santo Deus! No Café da Paz, o criado +lívido, e com um resto de pó de arroz <span class="pagenum">[363]</span>sobre a sua lividez, aconselhou ao meu +apetite, por ser tão tarde, um linguado frito e uma +costeleta.<br> + + + +<br> + + +--E que vinho, Sr. Conde?<br> + + +<br> + + +--Chablis, Sr. Duque!<br> + + +<br> + + +Ele sorriu à minha deliciosa pilhéria,--e eu abri, +contente, a Voz de Paris. Na primeira coluna, através de uma +prosa muito retorcida, toda em brilhos de jóia barata, +entrevi uma Princesa nua, e um Capitão de Dragões, +que soluçava. Saltei a outras colunas, onde se contavam +feitos de cocottes de nomes sonoros. Na outra página +escritores eloquentes celebravam vinhos digestivos e +tónicos. Depois eram os crimes do costume.--Não +há nada de novo! Pus de parte a Voz de Paris,--e +então foi, entre mim e o linguado, uma luta pavorosa. O +miserável, que se frigira rancorosamente contra mim, +não consentia que eu descolasse da sua espinha uma febra +escassa. Todo ele se ressequira numa sola impenetrável e +tostada, onde a faca vergava, impotente e trémula. Gritei +pelo moço lívido, o qual, com faca mais rija, +fincando no soalho os sapatos de fivela, arrancou enfim + +àquele malvado duas tirinhas, finas e curtas como palitos, +que engoli juntas, e me esfomearam. De uma garfada findei a +costeleta. E paguei quinze francos com um bom luís de ouro. +No troco, que o <span class="pagenum">[364]</span>moço me +deu, com a polidez requintada de uma civilização +muito difundida, havia dois francos falsos. E por aquela doce tarde +de Maio saí para tomar no terraço um café cor +de chapéu coco, que sabia a fava.<br> + + +<br> + + +Com o charuto aceso contemplei o Boulevard, àquela hora em +toda a pressa e estridor da sua grossa sociabilidade. A densa +torrente dos ónibus, calhambeques, carroças, parelhas +de luxo, rolava vivamente, como toda uma escura humanidade +formigando entre patas e rodas, numa pressa inquieta. Aquele +movimento continuado e rude bem depressa entonteceu este +espírito, por cinco anos afeito à + +quietação das serras imutáveis. Tentava +então, puerilmente, repousar nalguma forma imóvel, +ónibus parado, fiacre que estacara, num brusco escorregar da +pileca: mas logo algum dorso apressado se encafuava pela portinhola +da tipóia, ou um cacho de figuras escuras trepava +sofregamente para o ónibus:--e, rápido, +recomeçava o rolar retumbante. Imóveis, de certo, +estavam os altos prédios hirtos, ribas de pedra e cal, que +continham, disciplinavam, aquela torrente ofegante. Mas da rua aos +telhados, em cada varanda, por toda a fachada, eram tabuletas +encimando tabuletas, que outras tabuletas apertavam:--e mais me +cansava o perceber <span class="pagenum">[365]</span>a tenaz +incessância do trabalho latente, a devorante canseira do +lucro, arquejante por trás das frontarias decorosas e mudas. +Então, enquanto fumava o meu charuto, estranhamente se +apossaram de mim os sentimentos que Jacinto outrora experimentara +no meio da Natureza, e que tanto me divertiam. Ali, à porta +do café, entre a indiferença e a pressa da Cidade, +também eu senti, como ele no campo, a vaga tristeza da minha +fragilidade e da minha solidão. Bem certamente estava ali +como perdido num mundo, que me não era fraternal. Quem me +conhecia? Quem se interessaria por Zé Fernandes? Se eu +sentisse fome, e o confessasse, ninguém me daria metade do +seu pão. Por mais aflitamente que a minha face revelasse uma +angústia, ninguém na sua pressa pararia para me +consolar. De que me serviriam também as excelências de +alma, que só na alma florescem? Se eu fosse um santo, aquela +turba não se importaria com a minha santidade; e se eu +abrisse os braços e gritasse, ali no +Boulevard--«ó homens, meus irmãos!» os +homens, mais ferozes que o lobo ante o Pobrezinho de Assis, ririam +e passariam indiferentes. Dois impulsos únicos, +correspondendo a duas funções únicas, parecia +estarem vivos naquela multidão,--o lucro e o gozo. Isolada +entre eles, e ao contágio <span class="pagenum">[366]</span>ambiente da sua influência, em breve a +minha alma se contrairia, se tornaria num duro calhau de +Egoísmo. Do ser que eu trouxera da Serra só restaria +em pouco tempo esse calhau, e nele, vivos, os dois apetites da +Cidade,--encher a bolsa, saciar a carne! E pouco a pouco as mesmas +exagerações de Jacinto perante a Natureza me invadiam +perante a Cidade. Aquele Boulevard ressumava para mim um bafo +mortal, extraído dos seus milhões de +micróbios. De cada porta me parecia sair um ardil para me +roubar. Em cada face, avistada à portinhola de um fiacre, +suspeitava um bandido em manobra. Todas as mulheres me pareciam +caiadas como sepulcros, tendo só podridão por dentro. +E considerava de uma melancolia funambulesca as formas de toda +aquela Multidão, a sua pressa áspera e vã, a +afectação das atitudes, as imensas plumas das +chapeletas, as expressões postiças e falsas, a pompa +dos peitos alteados, o dorso redondo dos velhos olhando as imagens +obscenas das vitrinas. Ah! tudo isto era pueril, quase +cómico da minha parte, mas é o que eu sentia no +Boulevard, pensando na necessidade de remergulhar na Serra, para +que ao seu puro ar se me despegasse a crosta da Cidade, e eu +ressurgisse humano, e Zé-Fernândico!<br> + + + +<br> + + +<span class="pagenum">[367]</span>Então, para dissipar +aquele pesadume de solidão, paguei o café e parti, +lentamente, a visitar o 202. Ao passar na Madalena, diante da +estação dos ónibus, pensei:--Que será +feito de Madame Colombe? E, oh miséria! pelo meu +miserável ser subiu uma curta e quente baforada de desejo +bruto por aquela besta suja e magra! Era o charco onde eu me +envenenara, e que me envolvia nas emanações subtis do +seu veneno. Depois, ao dobrar da rue Royale para a Praça da +Concórdia, topei com um robusto e possante homem, que +estacou, ergueu o braço, ergueu o vozeirão, num modo +de comando:<br> + + + +<br> + + +--Eh, Fernandes!<br> + + +<br> + + +O Grão-Duque! O belo Grão-Duque, de jaquetão +alvadio e chapéu tirolês cor de mel! Apertei com +gratidão reverente a mão do Príncipe, que me +reconhecera.<br> + + +<br> + + +--E Jacinto? Em Paris?...<br> + + + +<br> + + +Contei Tormes, a serra, o rejuvenescimento do nosso amigo entre a +Natureza, a minha doce prima, e os bravos pequenos, que ele trazia +às cavaleiras. O Grão-Duque encolheu os ombros, +desolado:<br> + + +<br> + + +--Oh lá, lá, lá!... Peuh! Casado, na aldeia, +com filharada... Homem perdido! Ora não há!... E um +rapaz útil! que nos divertia, e tinha gosto! Aquele jantar +cor-de-rosa foi uma festa <span class="pagenum">[368]</span>linda... Não se fez, não se +tornou a fazer nada tão brilhante em Paris... E Madame +d'Oriol... Ainda há dias a vi no Palácio de Gelo... +Potável, mulher ainda muito potável... Não + +é todavia o meu género... Adocicada, leitosa, +pomadada, neve à la vanille!... Ora esse Jacinto!...<br> + + +<br> + + +--E Vossa Alteza, em Paris com demora?<br> + + +<br> + + +O formidável homem baixou a face, franzida e +confidencial:<br> + + +<br> + + +--Nenhuma. Paris não se aguenta... Está estragado, +positivamente estragado... Nem se come! Agora é o Ernest, da +Praça Gaillon, o Ernest, que era maitre-d'hotel do Maire... +Já lá comeu? Um horror. Tudo é o Ernest, +agora! Onde se come? No Ernest. Qual! Ainda esta manhã + +lá almocei... Um horror! Uma salada Chambord... palhada, +indecentemente palhada! Não tem, não tem a +noção da salada! Paris foi! Teatros, uma estopada. +Mulheres, hui! Lambidas todas. Não há nada! Ainda +assim, num dos teatritos de Montmartre, na Roulotte, está +uma revista, que se vê: <i>Para cá as +mulheres!</i>--engraçada, bem despida... A Celestine tem uma +cantiga, meia sentimental, meia porca, o <i>Amor no +Water-Closet</i>, que diverte, tem topete... Onde está, +Fernandes?<br> + + + +<br> + + +--No Grand-Hotel, meu senhor.<br> + + +<br> + + +--Que barraca!... E o seu Rei sempre bom?<br> + + +<br> + + +<span class="pagenum">[369]</span>Curvei a cabeça:<br> + + +<br> + + +--Sua Majestade, bem.<br> + + +<br> + + +--Estimo! Pois, Fernandes, tive prazer... Esse Jacinto é que +me desola! Vá vêr a Revista... Boas pernas, a +Celestine... E tem graça o tal <i>Amor no +Water-Closet</i>.<br> + + + +<br> + + +Um rijíssimo aperto de mão,--e S. Alteza subiu +pesadamente para a vitória, ainda com um aceno +amável, que me penhorou... Excelente homem, este +Grão-Duque! Mais reconciliado com Paris, atravessei para os +Campos Elísios. Em toda a sua nobre e formosa largueza, toda +verde, com os castanheiros em flor, corriam, subindo, descendo, +velocípedes. Parei a contemplar aquela fealdade nova, estes +inumeráveis espinhaços arqueados, e gâmbias +magras, agitando-se desesperadamente sobre duas rodas. Velhos +gordos, de cachaço escarlate, pedalavam, gordamente. +Galfarros esguios, de tíbias descarnadas, fugiam numa linha +esfuziada. E as mulheres, muito pintadas, de bolero curto, +calções bufantes, giravam, mais rapidamente ainda, no +prazer equívoco da carreira, escarranchadas em hastes de +ferro. E a cada instante outras medonhas máquinas passavam, +vitórias e faétons a vapor, com uma +complicação de tubos e caldeiras, torneiras e +chaminés, rolando numa trepidação estridente e +pesada, espalhando <span class="pagenum">[370]</span>um grosso +fedor de petróleo. Segui para o 202, pensando no que diria +um grego do tempo de Fídias, se visse esta nova beleza e +graça do caminhar humano!...<br> + + + +<br> + + +No 202, o porteiro, o velho Vian, quando me reconheceu, mostrou uma +alegria enternecedora. Não se fartou de saber do casamento +de Jacinto, e daqueles queridos meninos. E era para ele uma +felicidade que eu aparecesse, justamente quando tudo se andara +limpando para a entrada da Primavera. Quando penetrei na amada casa +senti mais vivamente a minha solidão. Não restava em +toda ela nem um dos costumados aspectos que fizessem reviver a +velha camaradagem com o meu Príncipe. Logo na +antecâmara grandes lonas cobriam as tapeçarias +heróicas, e igual lona parda escondia os estofos das +cadeiras e dos muros, e as largas estantes de ébano da +Biblioteca, onde os trinta mil volumes, nobremente enfileirados +como Doutores num Concílio, pareciam separados do mundo por +aquele pano que sobre eles descera depois de finda a comédia +da sua força e da sua autoridade. No gabinete de Jacinto, de +sobre a mesa de escrita, desaparecera aquela confusão de +instrumentozinhos, de que eu perdera já a memória: e +só a Mecânica sumptuosa, por sobre peanhas e +pedestais, <span class="pagenum">[371]</span>recentemente +espanejada, reluzia, com as suas engrenagens, tubos, rodas, +rigidezes de metais, numa frieza inerte, na inactividade definitiva +das coisas desusadas, como já dispostas num Museu, para +exemplificar a instrumentação caduca de um mundo +passado. Tentei mover o telefone, que se não moveu; a mola +da electricidade não acendeu nenhum lume: todas as +forças universais tinham abandonado o serviço do 202, +como servos despedidos. E então, passeando através +das salas, realmente me pareceu que percorria um museu de +antiguidades; e que mais tarde outros homens, com uma +compreensão mais pura e exacta da Vida e da Felicidade, +percorreriam como eu, longas salas, atulhadas com os instrumentos +da Super-Civilização, e, como eu, encolheriam +desdenhosamente os ombros ante a grande Ilusão que findara, +agora para sempre inútil, arrumada como um lixo +histórico, guardada debaixo de lona.<br> + + + +<br> + + +Quando saí do 202 tomei um fiacre, subi ao Bosque de +Bolonha. E apenas rolara momentos pela avenida das Acácias, +no silêncio decoroso, unicamente cortado pelo tilintar dos +freios e pelas rodas vagarosas esmagando a areia, comecei a +reconhecer as velhas figuras, sempre com o mesmo sorriso, o mesmo +pó de arroz; as mesmas pálpebras amortecidas, +<span class="pagenum">[372]</span>os mesmos olhos farejantes, a +mesma imobilidade de cera! O romancista da <i>Couraça</i> +passou numa vitória, fixou em mim o monóculo +defumado, mas permaneceu indiferente. Os bandós negros de +Madame Verghane, tapando-lhe as orelhas, pareciam ainda mais +furiosamente negros entre a harmonia de todo o branco que a vestia, +chapéu, plumas, flores, rendas e corpete, onde o seu peito +imenso se empolava como uma onda. No passeio, sob as +Acácias, espapado em duas cadeiras, o director do + +<i>Boulevard</i> mamava o resto do seu charuto. E num grande +landeau, Madame de Trèves continuava o seu sorriso de +há cinco anos, com duas pregazinhas mais moles aos cantos +dos lábios secos.<br> + + +<br> + + +Abalei para o Grand-Hotel, bocejando,--como outrora Jacinto. E +findei o meu dia de Paris, no Teatro das Variedades, estonteado com +uma comédia muito fina, muito aclamada, toda faiscante do +mais vivo parisianismo, em que todo o enredo se enrodilhava +à volta de uma Cama, onde alternadamente se espojavam +mulheres em camisa, sujeitos gordos em ceroulas, um coronel com +papas de linhaça nas nádegas, cozinheiras de meias de +seda bordadas, e ainda mais gente, ruidosa e saltitante, a esfuziar +de cio e de pilhéria. Tomei um chá melancólico +no Julien, no meio de <span class="pagenum">[373]</span>um + +áspero e lúgubre namoro de prostitutas, fariscando a +presa. Em duas delas, de pele oleosa e cobreada, olhos +oblíquos, cabelos duros e negros como clinas, senti o +Oriente, a sua provocação felina... Interroguei o +criado, um medonho ser, de uma obesidade balofa e lívida, de +eunuco. O monstro explicou numa voz roufenha e surda:<br> + + +<br> + + +--Mulheres de Madagáscar... Foram importadas quando a +França ocupou a ilha!<br> + + +<br> + + +Arrastei então por Paris dias de imenso tédio. Ao +longo do Boulevard revi nas vitrinas todo o luxo, que já me +enfartara havia cinco anos, sem uma graça nova, uma curta +frescura de invenção. Nas livrarias, sem descobrir um +livro, folheava centenas de volumes amarelos, onde, de cada +página que ao acaso abria, se exalava um cheiro morno de +alcova e de pós- de-arroz, entre linhas trabalhadas com +efeminado arrebique, como rendas de camisas. Ao jantar, em qualquer +restaurante, encontrava, ornando e disfarçando as carnes ou +as aves, o mesmo molho, de cores e sabores de pomada, que já + +de manhã, noutro restaurante, espelhado e dourejado, me +enjoara no peixe e nos legumes. Paguei por grossos preços +garrafas do nosso adstringente e rústico vinho de Torres, +enobrecido com o título de Château isto, Château +aquilo, e pó postiço no <span class="pagenum">[374]</span>gargalo. À noite, nos teatros, +encontrava a Cama, a costumada cama, como centro e único fim +da vida, atraindo, mais fortemente que o monturo atrai os +moscardos, todo um enxame de gentes, estonteadas, frementes de +erotismo, zumbindo chacotas senis. Esta sordidez da Planície +me levou a procurar melhor aragem de espírito nas alturas da +Colina, em Montmartre; e aí, no meio de uma multidão +elegante de Senhoras, de Duquesas, de Generais, de todo o alto +pessoal da Cidade, eu recebia, do alto do palco, grossos jorros de +obscenidades, que faziam estremecer de gozo as orelhas cabeludas de +gordos banqueiros, e arfar com delícia os corpetes de Worms +e de Doucet, sobre os peitos postiços das nobres damas. E +recolhia enjoado com tanto relento de Alcova, vagamente +dispéptico com os molhos de pomada do jantar, e sobretudo +descontente comigo, por me não divertir, não +compreender a Cidade, e errar através dela e da sua +Civilização Superior, com a reserva ridícula +de um Censor, de um Catão austero. Oh +senhores!--pensava,--pois eu não me divertirei nesta +deliciosa Cidade? Entrará comigo o bolor da velhice?<br> + + + +<br> + + +Passei as pontes, que separam em Paris o Temporal do Espiritual, +mergulhei no meu doce Bairro Latino, evoquei, diante de certos +<span class="pagenum">[375]</span>cafés, a memória da +minha Nini; e, como outrora, preguiçosamente, subi as +escadas da Sorbonne. Num anfiteatro, onde sentira um grosso +sussurro, um homem magro, com uma testa muito branca e larga, como +talhada para alojar pensamentos altos e puros, ensinava, falando +das instituições da Cidade Antiga. Mas, mal eu +entrara, o seu dizer elegante e límpido foi sufocado por +gritos, urros, patadas, um tumulto rancoroso de troça +bestial, que saía da mocidade apinhada nos bancos, a +mocidade das Escolas, Primavera sagrada, em que eu fora flor +murcha. O Professor parou, espalhando em redor um olhar frio, e +remexendo as suas notas. Quando o grosso grunhido se moderou em +sussurro desconfiado, ele recomeçou com alta serenidade. +Todas as suas ideias eram frias e substanciais, expressas numa +língua pura e forte; mas, imediatamente, rompe uma furiosa +rajada de apitos, uivos, relinchos, cacarejos de galo, por entre +magras mãos, que se estendiam levantadas para estrangular as +ideias. Ao meu lado um velho, encolhido na alta gola de um +macfrelane de xadrezes, contemplava o tumulto com melancolia, +pingando endefluxado. Perguntei ao velho:<br> + + +<br> + + +--Que querem eles? É embirração com o +professor... é política?<br> + + + +<br> + + +<span class="pagenum">[376]</span>O velho abanou a cabeça, +espirrando:<br> + + +<br> + + +--Não... É sempre assim, agora, em todos os cursos... +Não querem ideias... Creio que queriam cançonetas. +É o amor da porcaria e da troça.<br> + + +<br> + + + +Então, indignado, berrei:<br> + + +<br> + + +--Silêncio, brutos!<br> + + +<br> + + +E eis que um abortozinho de rapaz, amarelado e sebento, de longas +melenas, umas enormes lunetas rebrilhantes, se arrebita, me fita, e +me berra:<br> + + +<br> + + +--<i>Sale Maure!</i><br> + + +Ergui o meu grosso punho serrano,--e o desgraçado, numa +confusão de melenas, com sangue por toda a face, aluiu, como +um montão de trapos moles, ganindo desesperadamente, +enquanto o furacão de uivos e cacarejos, guinchos e silvos, +envolvia o Professor, que cruzara os braços, esperando, com +uma serenidade simples.<br> + + + +<br> + + +Desde esse momento decidi abandonar a fastidiosa Cidade; e o +único dia alegre e divertido que nela passei foi o +derradeiro, comprando para os meus queridinhos de Tormes brinquedos +consideráveis, tremendamente complicados pela +Civilização,--vapores de aço e cobre, providos +de caldeiras para viajar em tanques; leões de pele +verídica rugindo pavorosamente, bonecas vestidas +<span class="pagenum">[377]</span>pela Laferrière, com +fonógrafo no ventre...<br> + + +<br> + + +Finalmente abalei uma tarde, depois de lançar da minha +janela, sobre o Boulevard, as minhas despedidas à + +Cidade:<br> + + +<br> + + +--Pois adeusinho, até nunca mais! Na lama do teu +vício e na poeira da tua vaidade, outra vez, não me +pilhas! O que tens de bom, que é o teu génio, +elegante e claro, lá o receberei na Serra pelo correio. +Adeusinho!<br> + + +<br> + + +Na tarde do seguinte Domingo, debruçado da janela do +comboio, que vagarosamente deslizava pela borda do rio lento, num +silêncio todo feito de azul e sol, avistei, na plataforma da +quieta estação da minha aldeia, os Senhores de +Tormes, com a minha afilhada Teresa, muito vermelha, arregalando os +seus soberbos olhos, e o bravo Jacintinho, que empunhava uma +bandeira branca. O alvoroço ditoso com que abracei e beijei +aquela tribo bem amada conviria perfeitamente a quem voltasse vivo +de uma guerra distante, na Tartária. Na alegria de recuperar +a Serra, até beijoquei o chefe Pimentinha, que a estalar de +obesidade se açodava gritando ao carregador todo o cuidado +com as minhas malas.<br> + + + +<br> + + +Jacinto, magnífico, de grande chapéu serrano e +jaqueta, de novo me abraçou:<br> + + +<br> + + +--E esse Paris?<br> + + +<br> + + +<span class="pagenum">[378]</span>--Medonho!<br> + + +<br> + + +Abri depois os braços para o bravo Jacintinho.<br> + + + +<br> + + +--Então para que é essa bandeira, meu cavaleiro?<br> + + +<br> + + +--É a bandeira do Castelo! declarou ele, com uma bela +seriedade nos seus grandes olhos.<br> + + +<br> + + +A mãe ria. Desde essa manhã, logo que soubera da +chegada do Ti-Zé, apareceu de bandeira, feita pelo Grilo, e +não a largara mais; com ela almoçara, com ela descera +de Tormes!<br> + + + +<br> + + +--Bravo! E, prima Joaninha, olhe que está magnífica! +Eu, também, venho daquelas peles meladas de Paris... Mas +acho-a triunfal! E o tio Adrião, e a tia Vicência?<br> + + +<br> + + +--Tudo óptimo! gritou Jacinto. A serra, Deus louvado, +prospera. E agora, para cima! Tu hoje ficas em Tormes. Para contar +da Civilização.<br> + + +<br> + + +No largo por trás da estação, debaixo dos +eucaliptos, que revi com gosto, esperavam os três cavalos, e +dois belos burros brancos, um com cadeirinha para a Teresa, outro +com um cesto de verga, para meter dentro o heróico +Jacintinho, um e outro servidos à estribeira por um criado. +Eu ajudara a prima Joaninha a montar, quando o carregador + +<span class="pagenum">[379]</span>apareceu com um maço de +jornais e papéis, que eu esquecera na carruagem. Era uma +papelada, de que me sortira na Estação de Orleans, +toda recheada de mulheres nuas, de historietas sujas, de +parisianismo, de erotismo. Jacinto, que as reconhecera, gritou +rindo:<br> + + +<br> + + +--Deita isso fora!<br> + + +<br> + + +E eu atirei, para um montão de lixo, ao canto do +Pátio, aquele pútrido rebotalho da +Civilização. E montei. Mas ao dobrar para o caminho +empinado da serra, ainda me voltei, para gritar adeus ao Pimenta, +de quem me esquecera. O digno chefe, debruçado sobre o +monturo, apanhava, sacudia, recolhia com amor aquelas belas +estampas, que chegavam de Paris, contavam as delícias de +Paris, derramavam através do mundo a sedução +de Paris.<br> + + + +<br> + + +Em fila começámos a subir para a Serra. A tarde +adoçava o seu esplendor de estio. Uma aragem trazia, como +ofertados, perfumes das flores silvestres. As ramagens moviam, com +um aceno de doce acolhimento, as suas folhas vivas e reluzentes. +Toda a passarinhada cantava, num alvoroço de alegria e de +louvor. As águas correntes, saltantes, luzidias, despediam +um brilho mais vivo, numa pressa mais animada. Vidraças +distantes de casas <span class="pagenum">[380]</span>amáveis, flamejavam com um fulgor de +ouro. A serra toda se ofertava, na sua beleza eterna e verdadeira. +E, sempre adiante da nossa fila, por entre a verdura, flutuava no +ar a bandeira branca, que o Jacintinho não largava, de +dentro do seu cesto, com a haste bem segura na mão. Era <i>a +bandeira do Castelo</i>, afirmara ele.<br> + + +<br> + + +E na verdade me parecia que, por aqueles caminhos, através +da natureza campestre e mansa,--o meu Príncipe, atrigueirado +nas soalheiras e nos ventos da serra, a minha prima Joaninha, +tão doce e risonha mãe, os dois primeiros +representantes da sua abençoada tribo, e eu--, tão +longe de amarguradas ilusões e de falsas delícias, +trilhando um solo eterno, e de eterna solidez, com a alma contente, +e Deus contente de nós, serenamente e seguramente +subíamos--para o Castelo da Grã-Ventura!<br> + + + +<br> + + +<br> + + +<div class="c2">Fim</div> + + +<br> + + +<br> + + +<br> + + +<h2>ADVERTÊNCIA</h2> + + +<br> + + +<br> + + +Desde a página 241, até o final, as provas deste +livro não foram revistas pelo autor, arrebatado pela morte +antes de haver dado a esta parte da sua escrita aquela + +última demão, em que habitualmente ele punha a +diligência mais perseverante e mais admiravelmente +lúcida.<br> + + +<br> + + +Aquele dos seus amigos e companheiro de letras, a quem foi confiado +o trabalho delicado e piedoso de tocar no manuscrito póstumo +de Eça de Queirós, ao concluir o desempenho de tal +missão, beija com o mais enternecido e saudoso respeito a +mão, para todo sempre imobilizada, que traçou estas +páginas encantadoras; e faz votos por que a revisão +de que se incumbiu não deslustre muito grosseiramente a +imortal auréola com que ficará resplandecendo na +literatura portuguesa este livro, em que o espírito do +grande escritor parece exalar-se da vida num terno suspiro de +doçura, de paz, e de puro amor à terra da sua +pátria.<br> + + + +<br> + + +24 de Abril de 1901.<br> + + +<br> + + +<br> + + +<table class="c7" border="0" cellpadding="4" cellspacing="4"> + + + <tbody> + + + <tr align="center"> + + + <td class="c9" colspan="4" rowspan="1"><b>LIVRARIA CHARDRON de +Lello & Irmão<br> + + </b> 96--CLÉRIGOS--98 + + <hr></td> + + + </tr> + + + + <tr> + + + <td class="c10"><b>Basílio Teles<br> + + </b> O problema +agrícola</td> + + + <td class="c11">$600</td> + + + <td class="c12"><b>Lermina</b><br> + + +Filho do Monte Cristo, 2 volumes</td> + + + <td class="c13">1$000</td> + + + </tr> + + + <tr> + + + + <td class="c10">Estudos históricos e económicos</td> + + + <td class="c14">$600</td> + + + <td class="c12"></td> + + + <td class="c15"></td> + + + </tr> + + + <tr> + + + <td class="c10"> + + <div class="c16"><i>No prelo</i>:</div> + + + </td> + + + <td class="c14"></td> + + + <td class="c12"><b>Eugénio Sue</b><br> + + + +Mistérios de Paris, 3 volumes cart. </td> + + + <td class="c13">2$000</td> + + + </tr> + + + <tr> + + + <td class="c10">Introdução ao problema do trabalho +nacional.</td> + + + <td class="c14"></td> + + + <td class="c12"></td> + + + <td class="c15"></td> + + + </tr> + + + <tr> + + + <td class="c10"></td> + + + <td class="c14"></td> + + + + <td class="c12"><b>Zola</b><br> + + +Naná</td> + + + <td class="c17">$500</td> + + + </tr> + + + <tr> + + + <td class="c10"><b>Abel Botelho<br> + + </b> O barão de +Lavos</td> + + + <td class="c11">$800</td> + + + <td class="c18">História da lavadeira Gervásia, 2 +vols</td> + + + + <td class="c17">1$000</td> + + + </tr> + + + <tr> + + + <td class="c10">O livro de Alda</td> + + + <td class="c14">$800</td> + + + <td class="c12">O Capitão Burle</td> + + + <td class="c19">$500</td> + + + </tr> + + + <tr> + + + <td class="c10">Sem remédio...</td> + + + + <td class="c14">$500</td> + + + <td class="c12">Ventre de Paris, 2 vols</td> + + + <td class="c19">1$000</td> + + + </tr> + + + <tr> + + + <td class="c10"> + + <div class="c16"><i>No prelo</i>:</div> + + + </td> + + + <td class="c14"></td> + + + <td class="c12"></td> + + + <td class="c19"></td> + + + </tr> + + + + <tr> + + + <td class="c10">Amanhã.</td> + + + <td class="c14"></td> + + + <td class="c12"><b>Arnaldo Gama</b><br> + + +Caldeira de Pero Botelho</td> + + + <td class="c20">$500</td> + + + </tr> + + + <tr> + + + <td class="c10"></td> + + + <td class="c14"></td> + + + <td class="c12">Honra ou loucura</td> + + + + <td class="c19">$500</td> + + + </tr> + + + <tr> + + + <td class="c10"><b>José Caldas<br> + + </b> Humildes</td> + + + <td class="c11">$400</td> + + + <td class="c21">Filho do Baldaia</td> + + + <td class="c22">$600</td> + + + </tr> + + + + <tr> + + + <td class="c10">Os Jesuítas; a sua influência na +actual sociedade portuguesa; meio de a conjurar </td> + + + <td class="c23"><i>no prelo</i></td> + + + <td class="c12"></td> + + + <td class="c19"></td> + + + </tr> + + + <tr> + + + <td class="c10"></td> + + + <td class="c14"></td> + + + <td class="c12"><b>Bruno</b><br> + + +O Brasil mental</td> + + + + <td class="c20">$800</td> + + + </tr> + + + <tr> + + + <td class="c10"><b>Sílvio Romero<br> + + </b> Martins Pena</td> + + + <td class="c11">$400</td> + + + <td class="c21">Notas do exílio<br> + + +História da Prostituição</td> + + + + <td class="c24">$500<br> + + +1$800</td> + + + </tr> + + + <tr> + + + <td class="c10"></td> + + + <td class="c14"></td> + + + <td class="c12"> + + <hr></td> + + + <td class="c22"><br> + + </td> + + + </tr> + + + <tr> + + + <td class="c10"><b>Rebelo da Silva<br> + + </b> Mocidade de D. +João V.</td> + + + + <td class="c11">1$500</td> + + + <td class="c12"><b>Camilo Castelo Branco</b><br> + + +Maria da Fonte</td> + + + <td class="c19">$500</td> + + + </tr> + + + <tr> + + + <td class="c10"></td> + + + <td class="c14"></td> + + + <td class="c12">Livro de consolação</td> + + + <td class="c19">$500</td> + + + + </tr> + + + <tr> + + + <td class="c10"><b>Andrade Corvo<br> + + </b> Um anno na corte</td> + + + <td class="c11">1$500</td> + + + <td class="c12">D. Luís de Portugal<br> + + +Brasileira de Prazins</td> + + + <td class="c19">$300<br> + + +$500</td> + + + + </tr> + + + <tr> + + + <td class="c10"><br> + + </td> + + + <td class="c14"></td> + + + <td class="c12">Eusébio Macário</td> + + + <td class="c19">$500</td> + + + </tr> + + + <tr> + + + <td class="c10"><b>António C. Lousada<br> + + </b> Rua +escura</td> + + + + <td class="c14">$500</td> + + + <td class="c12">Vulcões da lama<br> + + +Carta de guia de casados</td> + + + <td class="c19">$500<br> + + +$300</td> + + + </tr> + + + <tr> + + + <td class="c10">Na consciência</td> + + + <td class="c14">$500</td> + + + + <td class="c12"><br> + + </td> + + + <td class="c19"></td> + + + </tr> + + + <tr> + + + <td class="c10"></td> + + + <td class="c9"></td> + + + <td class="c12"><b>Grainha</b><br> + + +Jesuítas</td> + + + <td class="c17">$600</td> + + + </tr> + + + <tr> + + + <td class="c10"><b>Dumas<br> + + </b> Jorge ou o capitão dos +piratas</td> + + + + <td class="c11">$500</td> + + + <td class="c12"><b><br> + + </b></td> + + + <td class="c19"><br> + + </td> + + + </tr> + + + <tr> + + + <td class="c10">Três mosqueteiros, 2 volumes</td> + + + <td class="c14">1$000</td> + + + <td class="c12"><b>Tolstoi</b><br> + + +A Sonata de Kreutzer</td> + + + <td class="c17">$400<br> + + </td> + + + + </tr> + + + + </tbody> +</table> + + +</div> + + +<pre> + + End of Project Gutenberg's A Cidade e as Serras, by José Maria Eça de Queirós + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A CIDADE E AS SERRAS *** + +Produced by Manuela Alves and Ricardo F. Diogo + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. Special rules, +set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to +copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to +protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project +Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you +charge for the eBooks, unless you receive specific permission. If you +do not charge anything for copies of this eBook, complying with the +rules is very easy. You may use this eBook for nearly any purpose +such as creation of derivative works, reports, performances and +research. 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There are a few +things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works +even without complying with the full terms of this agreement. See +paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project +Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement +and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic +works. See paragraph 1.E below. + +1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation" +or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project +Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the +collection are in the public domain in the United States. If an +individual work is in the public domain in the United States and you are +located in the United States, we do not claim a right to prevent you from +copying, distributing, performing, displaying or creating derivative +works based on the work as long as all references to Project Gutenberg +are removed. 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The Foundation makes no representations concerning<br>the copyright status of any work in any country outside the United<br>States.<br><br>1.E. Unless you have removed all references to Project Gutenberg:<br><br>1.E.1. The following sentence, with active links to, or other immediate<br>access to, the full Project Gutenberg-tm License must appear prominently<br>whenever any copy of a Project Gutenberg-tm work (any work on which the<br>phrase "Project Gutenberg" appears, or with which the phrase "Project<br>Gutenberg" is associated) is accessed, displayed, performed, viewed,<br>copied or distributed:<br><br>This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with<br>almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or<br>re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included<br>with this eBook or online at www.gutenberg.org<br><br>1.E.2. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is derived<br>from the public domain (does not contain a notice indicating that it is<br>posted with permission of the copyright holder), the work can be copied<br>and distributed to anyone in the United States without paying any fees<br>or charges. If you are redistributing or providing access to a work<br>with the phrase "Project Gutenberg" associated with or appearing on the<br>work, you must comply either with the requirements of paragraphs 1.E.1<br>through 1.E.7 or obtain permission for the use of the work and the<br>Project Gutenberg-tm trademark as set forth in paragraphs 1.E.8 or<br>1.E.9.<br><br>1.E.3. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is posted<br>with the permission of the copyright holder, your use and distribution<br>must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any additional<br>terms imposed by the copyright holder. 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However, if you provide access to or<br>distribute copies of a Project Gutenberg-tm work in a format other than<br>"Plain Vanilla ASCII" or other format used in the official version<br>posted on the official Project Gutenberg-tm web site (www.gutenberg.org),<br>you must, at no additional cost, fee or expense to the user, provide a<br>copy, a means of exporting a copy, or a means of obtaining a copy upon<br>request, of the work in its original "Plain Vanilla ASCII" or other<br>form. Any alternate format must include the full Project Gutenberg-tm<br>License as specified in paragraph 1.E.1.<br><br>1.E.7. Do not charge a fee for access to, viewing, displaying,<br>performing, copying or distributing any Project Gutenberg-tm works<br>unless you comply with paragraph 1.E.8 or 1.E.9.<br><br>1.E.8. 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Royalty payments should be clearly marked as such and<br> sent to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation at the<br> address specified in Section 4, "Information about donations to<br> the Project Gutenberg Literary Archive Foundation."<br><br>- You provide a full refund of any money paid by a user who notifies<br> you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he<br> does not agree to the terms of the full Project Gutenberg-tm<br> License. You must require such a user to return or<br> destroy all copies of the works possessed in a physical medium<br> and discontinue all use of and all access to other copies of<br> Project Gutenberg-tm works.<br><br>- You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of any<br> money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the<br> electronic work is discovered and reported to you within 90 days<br> of receipt of the work.<br><br>- You comply with all other terms of this agreement for free<br> distribution of Project Gutenberg-tm works.<br><br>1.E.9. If you wish to charge a fee or distribute a Project Gutenberg-tm<br>electronic work or group of works on different terms than are set<br>forth in this agreement, you must obtain permission in writing from<br>both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael<br>Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark. Contact the<br>Foundation as set forth in Section 3 below.<br><br>1.F.<br><br>1.F.1. Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable<br>effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread<br>public domain works in creating the Project Gutenberg-tm<br>collection. Despite these efforts, Project Gutenberg-tm electronic<br>works, and the medium on which they may be stored, may contain<br>"Defects," such as, but not limited to, incomplete, inaccurate or<br>corrupt data, transcription errors, a copyright or other intellectual<br>property infringement, a defective or damaged disk or other medium, a<br>computer virus, or computer codes that damage or cannot be read by<br>your equipment.<br><br>1.F.2. LIMITED WARRANTY, DISCLAIMER OF DAMAGES - Except for the "Right<br>of Replacement or Refund" described in paragraph 1.F.3, the Project<br>Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project<br>Gutenberg-tm trademark, and any other party distributing a Project<br>Gutenberg-tm electronic work under this agreement, disclaim all<br>liability to you for damages, costs and expenses, including legal<br>fees. YOU AGREE THAT YOU HAVE NO REMEDIES FOR NEGLIGENCE, STRICT<br>LIABILITY, BREACH OF WARRANTY OR BREACH OF CONTRACT EXCEPT THOSE<br>PROVIDED IN PARAGRAPH F3. YOU AGREE THAT THE FOUNDATION, THE<br>TRADEMARK OWNER, AND ANY DISTRIBUTOR UNDER THIS AGREEMENT WILL NOT BE<br>LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR<br>INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH<br>DAMAGE.<br><br>1.F.3. LIMITED RIGHT OF REPLACEMENT OR REFUND - If you discover a<br>defect in this electronic work within 90 days of receiving it, you can<br>receive a refund of the money (if any) you paid for it by sending a<br>written explanation to the person you received the work from. If you<br>received the work on a physical medium, you must return the medium with<br>your written explanation. The person or entity that provided you with<br>the defective work may elect to provide a replacement copy in lieu of a<br>refund. If you received the work electronically, the person or entity<br>providing it to you may choose to give you a second opportunity to<br>receive the work electronically in lieu of a refund. If the second copy<br>is also defective, you may demand a refund in writing without further<br>opportunities to fix the problem.<br><br>1.F.4. Except for the limited right of replacement or refund set forth<br>in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER<br>WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO<br>WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.<br><br>1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied<br>warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages.<br>If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the<br>law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be<br>interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by<br>the applicable state law. The invalidity or unenforceability of any<br>provision of this agreement shall not void the remaining provisions.<br><br>1.F.6. INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the<br>trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone<br>providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance<br>with this agreement, and any volunteers associated with the production,<br>promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works,<br>harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,<br>that arise directly or indirectly from any of the following which you do<br>or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm<br>work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any<br>Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.<br><br><br>Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm<br><br>Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of<br>electronic works in formats readable by the widest variety of computers<br>including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists<br>because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from<br>people in all walks of life.<br><br>Volunteers and financial support to provide volunteers with the<br>assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's<br>goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will<br>remain freely available for generations to come. In 2001, the Project<br>Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure<br>and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.<br>To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation<br>and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4<br>and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.<br><br><br>Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive<br>Foundation<br><br>The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit<br>501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the<br>state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal<br>Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification<br>number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at<br>http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg<br>Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent<br>permitted by U.S. federal laws and your state's laws.<br><br>The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.<br>Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered<br>throughout numerous locations. Its business office is located at<br>809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email<br>business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact<br>information can be found at the Foundation's web site and official<br>page at http://pglaf.org<br><br>For additional contact information:<br> Dr. Gregory B. Newby<br> Chief Executive and Director<br> gbnewby@pglaf.org<br><br><br>Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg<br>Literary Archive Foundation<br><br>Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide<br>spread public support and donations to carry out its mission of<br>increasing the number of public domain and licensed works that can be<br>freely distributed in machine readable form accessible by the widest<br>array of equipment including outdated equipment. Many small donations<br>($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt<br>status with the IRS.<br><br>The Foundation is committed to complying with the laws regulating<br>charities and charitable donations in all 50 states of the United<br>States. Compliance requirements are not uniform and it takes a<br>considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up<br>with these requirements. We do not solicit donations in locations<br>where we have not received written confirmation of compliance. To<br>SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any<br>particular state visit http://pglaf.org<br><br>While we cannot and do not solicit contributions from states where we<br>have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition<br>against accepting unsolicited donations from donors in such states who<br>approach us with offers to donate.<br><br>International donations are gratefully accepted, but we cannot make<br>any statements concerning tax treatment of donations received from<br>outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.<br><br>Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation<br>methods and addresses. Donations are accepted in a number of other<br>ways including checks, online payments and credit card donations.<br>To donate, please visit: http://pglaf.org/donate<br><br><br>Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic<br>works.<br><br>Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm<br>concept of a library of electronic works that could be freely shared<br>with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project<br>Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.<br><br><br>Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed<br>editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.<br>unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily<br>keep eBooks in compliance with any particular paper edition.<br><br><br>Most people start at our Web site which has the main PG search facility:<br><br> http://www.gutenberg.org<br><br>This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,<br>including how to make donations to the Project Gutenberg Literary<br>Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to<br>subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.<br><br></pre> + + +</body> +</html> diff --git a/old/modern/images/p1.jpg b/old/modern/images/p1.jpg Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..b753d40 --- /dev/null +++ b/old/modern/images/p1.jpg diff --git a/old/modern/images/p2.jpg b/old/modern/images/p2.jpg Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..bb0d12b --- /dev/null +++ b/old/modern/images/p2.jpg |
