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You may copy it, give it away or<br>re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included<br>with this eBook or online at www.gutenberg.org<br><br><br>Title: A Cidade e as Serras<br><br>Author: José Maria Eça de Queirós<br><br>Language: Portuguese<br><br>Character set encoding: ISO-8859-1<br><br>*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A CIDADE E AS SERRAS ***<br><br><br><br><br>Produced by Manuela Alves and Ricardo F. Diogo; Nota dos transcritores:<br>Actualização ortográfica da versão original, já disponível no Project Gutenberg<br><br><br>NOTA: Este texto tem duas versões em língua portuguesa de acordo com o livro original,<br>a que pode ser aceder clicando numa das seguintes opções:<br> <a href="../../18220-8.txt"><big><b>TEXT</b></big></a> <a href="../18220-h.htm"><big><b>HTML</b></big></a> +<br><br><br><br><br></pre> + + +<div><br> + + +<br> + + +<h1>EÇA DE QUEIRÓS</h1> + + +<h1>A CIDADE E AS SERRAS</h1> + + +<br> + + +<br> + + +<h2>PORTO</h2> + + +<h2>LIVRARIA CHARDRON</h2> + + +<h2>De Lello & Irmão, editores</h2> + + + +<h2>1901</h2> + + +<h3>Todos os direitos reservados</h3> + + +<br> + + +<br> + + +<br> + + +<br> + + +<div class="bbox c2"><br> + + +<br> + + +EÇA DE QUEIRÓS<br> + + +<br> + + +<big><big><b>A CIDADE E AS SERRAS</b></big></big><br> + + + +<br> + +<br> + + +<img style="width: 97px; height: 115px;" alt="" src="images/p1.jpg"><br> + + +<br> + + +PORTO<br> + + +LIVRARIA CHARDRON<br> + + +De Lello & Irmão, editores<br> + + +1901<br> + + +<br> + + + +Todos os direitos reservados<br> + + +<br> + +</div> + + +<br> + + +<br> + + +<br> + + +<br> + + +Pertence no Brasil o direito de propriedade desta obra ao +cidadão Francisco Alves, livreiro editor no Rio de Janeiro, +que, para a garantia que lhe oferece a lei n.º 496 de 1 de +Agosto de 1898, fez o competente depósito na Biblioteca +Nacional, segundo a determinação do art. 13.º da +mesma Lei.<br> + + +<br> + + + +<br> + + +<br> + + +<div class="c2"><em>Porto--Imprensa Moderna</em></div> + + +<br> + + +<br> + + +<br> + + +<br> + + +<br> + + +<br> + + +<br> + + +<br> + + +<div class="c2"><img style="width: 282px; height: 444px;" alt="" src="images/p2.jpg"><br> + +</div> + + +<br> + + +<br> + + +<br> + + +<br> + + + +<h1>A CIDADE E AS SERRAS</h1> + + +<br> + + +<br> + + +<br> + + +<br> + + +<h2>Obras do mesmo autor:</h2> + + +<br> + + +<br> + + +<table class="c7" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2"> + + + <tbody> + + + <tr> + + + <td><span class="c4">Revista de Portugal.</span> 4 grossos +volumes</td> + + + + <td class="c5">12$000</td> + + + </tr> + + + <tr> + + + <td><span class="c4">As minas de Salomão.</span> 1 +volume</td> + + + <td class="c5">$600</td> + + + </tr> + + + <tr> + + + <td><span class="c4">Os Maias.</span> 2 grossos volumes</td> + + + + <td class="c5">2$000</td> + + + </tr> + + + <tr> + + + <td><span class="c4">O crime do padre Amaro.</span> Terceira +edição inteiramente refundida, recomposta, e +diferente na forma e na acção da edição +primitiva.<br> + + +1 grosso volume</td> + + + <td class="c6">1$200</td> + + + </tr> + + + <tr> + + + + <td><span class="c4">O primo Basílio.</span> Quarta +edição. 1 grosso volume</td> + + + <td class="c5">1$000</td> + + + </tr> + + + <tr> + + + <td><span class="c4">A Relíquia.</span> 1 grosso volume</td> + + + <td class="c5">1$000</td> + + + + </tr> + + + <tr> + + + <td><span class="c4">O Mandarim.</span> Quarta +edição. 1 volume</td> + + + <td class="c5">$500</td> + + + </tr> + + + <tr> + + + <td><span class="c4">Correspondência de Fradique +Mendes.</span> 1 volume</td> + + + <td class="c5">$600</td> + + + + </tr> + + + <tr> + + + <td><span class="c4">A ilustre casa de Ramires.</span> 1 +volume</td> + + + <td class="c5">1$000</td> + + + </tr> + + + + </tbody> +</table> + + +<br> + + +<br> + + +<h1>A CIDADE E AS SERRAS</h1> + + +<h2>I</h2> + + + +<br> + + +<br> + + +O meu amigo Jacinto nasceu num palácio, com cento e nove +contos de renda em terras de semeadura, de vinhedo, de +cortiça e de olival. No Alentejo, pela Estremadura, +através das duas Beiras, densas sebes ondulando por colina e +vale, muros altos de boa pedra, ribeiras, estradas, delimitavam os +campos desta velha família agrícola que já +entulhava grão e plantava cepa em tempos de el-rei D. Dinis. +A sua quinta e casa senhorial de Tormes, no Baixo Douro, cobriam +uma serra. Entre o Tua e o Tinhela, por cinco fartas léguas, +todo o torrão lhe pagava foro. E cerrados pinheirais seus +negrejavam desde Arga até ao mar de Âncora. Mas o +palácio onde Jacinto nascera, e onde sempre habitara, era em +Paris, nos Campos Elísios, n.º 202. <span class="pagenum">[2]</span> Seu avô, aquele gordíssimo e +riquíssimo Jacinto a quem chamavam em Lisboa o <i>D. +Galeão</i>, descendo uma tarde pela travessa da Trabuqueta, +rente de um muro de quintal que uma parreira toldava, escorregou +numa casca de laranja e desabou no lajedo. Da portinha da horta +saía nesse momento um homem moreno, escanhoado, de grosso +casaco de baetão verde e botas altas de picador, que, +galhofando e com uma força fácil, levantou o enorme +Jacinto--até lhe apanhou a bengala de castão de ouro +que rolara para o lixo. Depois, demorando nele os olhos pestanudos +e pretos:<br> + + + +<br> + + +--Oh Jacinto Galeão, que andas tu aqui, a estas horas, a +rebolar pelas pedras?<br> + + +<br> + + +E Jacinto, aturdido e deslumbrado, reconheceu o Sr. Infante D. +Miguel!<br> + + +<br> + + +Desde essa tarde amou aquele bom Infante como nunca amara, apesar +de tão guloso, o seu ventre, e apesar de tão devoto o +seu Deus! Na sala nobre da sua casa (à Pampulha) pendurou +sobre os damascos o retrato do «seu Salvador», +enfeitado de palmitos como um retábulo, e por baixo a +bengala que as magnânimas mãos reais tinham erguido do +lixo. Enquanto o adorável, desejado Infante penou no +desterro de Viena, o barrigudo senhor corria, sacudido na sua sege +amarela, do botequim<span class="pagenum">[3]</span> do Zé + +Maria em Belém à botica do Plácido nos +Algibebes, a gemer as saudades do <i>anjinho</i>, a tramar o +regresso do <i>anjinho</i>. No dia, entre todos bendito, em que a +<i>Pérola</i> apareceu à barra com o Messias, +engrinaldou a Pampulha, ergueu no Caneiro um monumento de +papelão e lona onde D. Miguel, tornado S. Miguel, branco, de +auréola e asas de Arcanjo, furava de cima do seu corcel de +Alter o Dragão do Liberalismo, que se estorcia vomitando a +Carta. Durante a guerra com o «outro, com o pedreiro +livre» mandava recoveiros a Santo Tirso, a S. Gens, levar ao +Rei fiambres, caixas de doce, garrafas do seu vinho de Tarrafal, e +bolsas de retrós atochadas de peças que ele ensaboava +para lhes avivar o ouro. E quando soube que o Sr. D. Miguel, com +dois velhos baús amarrados sobre um macho, tomara o caminho +de Sines e do final desterro--Jacinto <i>Galeão</i> correu +pela casa, fechou todas as janelas como num luto, berrando +furiosamente:<br> + + + +<br> + + +--Também cá não fico! também cá +não fico! Não, não queria ficar na terra +perversa donde partia, esbulhado e escorraçado, aquele Rei +de Portugal que levantava na rua os Jacintos! Embarcou para +França com a mulher, a Sr.<sup>a</sup> D. Angelina Fafes (da +tão falada <span class="pagenum">[4]</span> casa dos Fafes +da Avelã); com o filho, o 'Cintinho, menino amarelinho, +molezinho, coberto de caroços e leicenços; com a aia +e com o moleque. Nas costas da Cantábria o paquete encontrou +tão rijos mares que a Sr.<sup>a</sup> D. Angelina, +esguedelhada, de joelhos na enxerga do beliche, prometeu ao Senhor +dos Passos de Alcântara uma coroa de espinhos, de ouro, com +as gotas de sangue em rubis do Pegu. Em Baiona, onde arribaram, +'Cintinho teve icterícia. Na estrada de Orleães, numa +noite agreste, o eixo da berlinda em que jornadeavam partiu, e o +nédio senhor, a delicada senhora da casa da Avelã, o +menino, marcharam três horas na chuva e na lama do +exílio até uma aldeia, onde, depois de baterem como +mendigos a portas mudas, dormiram nos bancos de uma taberna. No + +«Hotel dos Santos Padres», em Paris, sofreram os +terrores de um fogo que rebentara na cavalariça, sob o +quarto de <i>D. Galeão</i>, e o digno fidalgo, rebolando +pelas escadas em camisa, até ao pátio, enterrou o +pé nu numa lasca de vidro. Então ergueu amargamente +ao céu o punho cabeludo, e rugiu:<br> + + +<br> + + +--Irra! É de mais!<br> + + + +<br> + + +Logo nessa semana, sem escolher, Jacinto <i>Galeão</i> +comprou a um Príncipe polaco, que depois da tomada de +Varsóvia se metera frade<span class="pagenum">[5]</span> +cartuxo, aquele palacete dos Campos Elísios, n.º 202. E +sob o pesado ouro dos seus estuques, entre as suas ramalhudas sedas +se enconchou, descansando de tantas agitações, numa +vida de pachorra e de boa mesa, com alguns companheiros de +emigração (o desembargador Nuno Velho, o conde de +Rabacena, outros menores), até que morreu de +indigestão, de uma lampreia de escabeche que lhe mandara o +seu procurador em Montemor. Os amigos pensavam que a +Sr.<sup>a</sup> D. Angelina Fafes voltaria ao reino. Mas a boa +senhora temia a jornada, os mares, as caleças que racham. E +não se queria separar do seu Confessor, nem do seu +Médico, que tão bem lhe compreendiam os +escrúpulos e a asma.<br> + + + +<br> + + +--Eu, por mim, aqui fico no 202 (declarara ela), ainda que me faz +falta a boa água de Alcolena... O 'Cintinho, esse, em +crescendo, que decida.<br> + + +<br> + + +O 'Cintinho crescera. Era um moço mais esguio e +lívido que um círio, de longos cabelos corredios, +narigudo, silencioso, encafuado em roupas pretas, muito largas e +bambas; de noite, sem dormir, por causa da tosse e de +sufocações, errava em camisa com uma lamparina +através do 202; e os criados na copa sempre lhe chamavam a +<i>Sombra</i>. Nessa sua mudez e indecisão de sombra +surdira, ao fim<span class="pagenum">[6]</span> do luto do +papá, o gosto muito vivo de tornear madeiras ao torno: +depois, mais tarde, com a melada flor dos seus vinte anos, brotou +nele outro sentimento, de desejo e de pasmo, pela filha do +desembargador Velho, uma menina redondinha como uma rola, educada +num convento de Paris, e tão habilidosa que esmaltava, +dourava, concertava relógios e fabricava chapéus de +feltro. No Outono de 1851, quando já se desfolhavam os +castanheiros dos Campos Elísios, o 'Cintinho cuspilhou +sangue. O médico, acarinhando o queixo e com uma ruga +séria na testa imensa, aconselhou que o menino abalasse para +o golfo Juan ou para as tépidas areias de Arcachon. +'Cintinho porém, no seu aferro de sombra, não se quis +arredar da Teresinha Velho, de quem se tornara, através de +Paris, a muda, tardonha sombra. Como uma sombra, casou; deu mais +algumas voltas ao torno; cuspiu um resto de sangue; e passou, como +uma sombra.<br> + + + +<br> + + +Três meses e três dias depois do seu enterro o meu +Jacinto nasceu.<br> + + +<div class="break"> +<hr></div> + + +<br> + + +<br> + + +Desde o berço, onde a avó espalhava funcho e +âmbar para afugentar a <i>Sorte-Ruim</i>, Jacinto medrou com +a segurança, a rijeza, a seiva rica de um pinheiro das +dunas.<br> + + + +<br> + + +<span class="pagenum">[7]</span>Não teve sarampo e +não teve lombrigas. As Letras, a Tabuada, o Latim entraram +por ele tão facilmente como o sol por uma vidraça. +Entre os camaradas, nos pátios dos colégios, erguendo +a sua espada de lata e lançando um brado de comando, foi +logo o vencedor, o Rei que se adula, e a quem se cede a fruta das +merendas. Na idade em que se lê Balzac e Musset nunca +atravessou os tormentos da sensibilidade;--nem crepúsculos +quentes o retiveram na solidão de uma janela, padecendo de +um desejo sem forma e sem nome. Todos os seus amigos (éramos +três, contando o seu velho escudeiro preto, o Grilo) lhe +conservaram sempre amizades puras e certas--sem que jamais a +participação do seu luxo as avivasse ou fossem +desanimadas pelas evidências do seu egoísmo. Sem +coração bastante forte para conceber um amor forte, e +contente com esta incapacidade que o libertava, do amor só + +experimentou o mel--esse mel que o amor reserva aos que o recolhem, +à maneira das abelhas, com ligeireza, mobilidade e cantando. +Rijo, rico, indiferente ao Estado e ao Governo dos Homens, nunca +lhe conhecemos outra ambição além de +compreender bem as Ideias Gerais; e a sua inteligência, nos +anos alegres de escolas e controvérsias, circulava dentro +das Filosofias mais <span class="pagenum">[8]</span>densas como +enguia lustrosa na água limpa de um tanque. O seu valor, +genuíno, de fino quilate, nunca foi desconhecido, nem +desapreciado; e toda a opinião, ou mera facécia que +lançasse, logo encontrava uma aragem de simpatia e +concordância que a erguia, a mantinha embalada e rebrilhando +nas alturas. Era servido pelas coisas com docilidade e carinho;--e +não recordo que jamais lhe estalasse um botão da +camisa, ou que um papel maliciosamente se escondesse dos seus +olhos, ou que ante a sua vivacidade e pressa uma gaveta +pérfida emperrasse. Quando um dia, rindo com descrido riso +da Fortuna e da sua Roda, comprou a um sacristão espanhol um +Décimo de Lotaria, logo a Fortuna, ligeira e ridente sobre a +sua Roda, correu num fulgor, para lhe trazer quatrocentas mil +pesetas. E no céu as Nuvens, pejadas e lentas, se avistavam +Jacinto sem guarda-chuva, retinham com reverência as suas + +águas até que ele passasse... Ah! o âmbar e o +funcho da Sr.<sup>a</sup> D. Angelina tinham escorraçado do +seu destino, bem triunfalmente e para sempre, a <i>Sorte-Ruim</i>! +A amorável avó (que eu conheci obesa, com barba) +costumava citar um soneto natalício do desembargador Nunes +Velho contendo um verso de boa lição:<br> + + +<br> + + + +<span class="pagenum">[9]</span> +<div class="break">Sabei, senhora, que esta Vida é um +rio...</div> + + +<br> + + +Pois um rio de Verão, manso, translúcido, +harmoniosamente estendido sobre uma areia macia e alva, por entre +arvoredos fragrantes e ditosas aldeias, não ofereceria +àquele que o descesse num barco de cedro, bem toldado e bem +almofadado, com frutas e Champanhe a refrescar em gelo, um Anjo +governando ao leme, outros Anjos puxando à sirga, mais +segurança e doçura do que a Vida oferecia ao meu +amigo Jacinto.<br> + + + +<br> + + +Por isso nós lhe chamávamos «o Príncipe +da Grã-Ventura»!<br> + + +<br> + + +<br> + + +<div class="break"> +<hr></div> + + +<br> + + +<br> + + +Jacinto e eu, José Fernandes, ambos nos encontrámos e +acamaradámos em Paris, nas Escolas do Bairro Latino--para +onde me mandara meu bom tio Afonso Fernandes Lorena de Noronha e +Sande, quando aqueles malvados me riscaram da Universidade por eu +ter esborrachado, numa tarde de procissão, na Sofia, a cara +sórdida do dr. Pais Pita.<br> + + + +<br> + + +Ora nesse tempo Jacinto concebera uma Ideia... Este Príncipe +concebera a Ideia de que «o homem só é +superiormente feliz quando é superiormente +civilizado». E por homem civilizado o meu camarada entendia +aquele <span class="pagenum">[10]</span>que, robustecendo a sua +força pensante com todas as noções adquiridas +desde Aristóteles, e multiplicando a potência corporal +dos seus órgãos com todos os mecanismos inventados +desde Terâmenes, criador da roda, se torna um +magnífico Adão, quase omnipotente, quase omnisciente, +e apto portanto a recolher dentro de uma sociedade e nos limites do +Progresso (tal como ele se comportava em 1875) todos os gozos e +todos os proveitos que resultam de Saber e de Poder... Pelo menos +assim Jacinto formulava copiosamente a sua Ideia, quando +conversávamos de fins e destinos humanos, sorvendo bocks +poeirentos, sob o toldo das cervejarias filosóficas, no +Boulevard Saint-Michel.<br> + + + +<br> + + +Este conceito de Jacinto impressionara os nossos camaradas de +cenáculo, que tendo surgido para a vida intelectual, de 1866 +a 1875, entre a batalha de Sadova e a batalha de Sedan, e ouvindo +constantemente, desde então, aos técnicos e aos +filósofos, que fora a Espingarda-de-Agulha que vencera em +Sadova e fora o Mestre-de-Escola quem vencera em Sedan, estavam +largamente preparados a acreditar que a felicidade dos +indivíduos, como a das nações, se realiza pelo +ilimitado desenvolvimento da Mecânica e da +Erudição. Um desses moços mesmo, o nosso +inventivo Jorge <span class="pagenum">[11]</span>Carlande, reduzira +a teoria de Jacinto, para lhe facilitar a circulação +e lhe condensar o brilho, a uma forma algébrica:<br> + + +<br> + + + +<table class="c8" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2"> + + + <tbody> + + + <tr> + + + <td>Suma ciência</td> + + + <td colspan="1" rowspan="3"> + <big><big><big><big><big>}</big></big></big></big></big></td> + + + <td></td> + + + </tr> + + + <tr> + + + <td>X</td> + + + <td>Suma potência</td> + + + + </tr> + + + <tr> + + + <td>Suma felicidade</td> + + + <td></td> + + + </tr> + + + + </tbody> +</table> + + +<br> + + +<br> + + +E durante dias, do Odeon à Sorbona, foi louvada pela +mocidade positiva a <i>Equação Metafísica de +Jacinto</i>.<br> + + + +<br> + + +Para Jacinto, porém, o seu conceito não era meramente +metafísico e lançado pelo gozo elegante de exercer a +razão especulativa:--mas constituía uma regra, toda +de realidade e de utilidade, determinando a conduta, modalizando a +vida. E já a esse tempo, em concordância com o seu +preceito--ele se surtira da <i>Pequena Enciclopédia dos +Conhecimentos Universais</i> em setenta e cinco volumes e +instalara, sobre os telhados do 202, num mirante +envidraçado, um telescópio. Justamente com esse +telescópio me tornou ele palpável a sua ideia, numa +noite de Agosto, de mole e dormente calor. Nos céus remotos +lampejavam relâmpagos lânguidos. Pela Avenida dos +Campos Elísios, os fiacres rolavam para as frescuras do +Bosque, lentos, abertos, cansados, transbordando de vestidos +claros.<br> + + + +<br> + + +<span class="pagenum">[12]</span>--Aqui tens tu, Zé +Fernandes, (começou Jacinto, encostado à janela do +mirante) a teoria que me governa, bem comprovada. Com estes olhos +que recebemos da Madre natureza, lestos e sãos, nós +podemos apenas distinguir além, através da Avenida, +naquela loja, uma vidraça alumiada. Mais nada! Se eu +porém aos meus olhos juntar os dois vidros simples de um +binóculo de corridas, percebo, por trás da +vidraça, presuntos, queijos, boiões de geleia e +caixas de ameixa seca. Concluo portanto que é uma mercearia. +Obtive uma noção; tenho sobre ti, que com os olhos +desarmados vês só o luzir da vidraça, uma +vantagem positiva. Se agora, em vez destes vidros simples, eu +usasse os do meu telescópio, de composição +mais científica, poderia avistar além, no planeta +Marte, os mares, as neves, os canais, o recorte dos golfos, toda a +geografia de um astro que circula a milhares de léguas dos +Campos Elísios. É outra noção, e +tremenda! Tens aqui pois o olho primitivo, o da Natureza, elevado +pela Civilização à sua máxima +potência de visão. E desde já, pelo lado do +olho portanto, eu, civilizado, sou mais feliz que o incivilizado, +porque descubro realidades do Universo que ele não suspeita +e de que está privado. Aplica esta prova a todos os + +órgãos e compreendes o meu princípio. +Enquanto<span class="pagenum">[13]</span> à +inteligência, e à felicidade que dela se tira pela +incansável acumulação das +noções, só te peço que compares Renan e +o Grilo... Claro é portanto que nos devemos cercar de +Civilização nas máximas +proporções para gozar nas máximas +proporções a vantagem de viver. Agora concordas, +Zé Fernandes?<br> + + + +<br> + + +Não me parecia irrecusavelmente certo que Renan fosse mais +feliz que o Grilo; nem eu percebia que vantagem espiritual ou +temporal se colha em distinguir através do espaço +manchas num astro, ou através da Avenida dos Campos +Elísios presuntos numa vidraça. Mas concordei, porque +sou bom, e nunca desalojarei um espírito do conceito onde +ele encontra segurança, disciplina e motivo de energia. +Desabotoei o colete, e lançando um gesto para o lado dos +cafés e das luzes:<br> + + +<br> + + +--Vamos então beber, nas máximas +proporções, <i>brandy and soda</i>, com gelo!<br> + + + +<br> + + +Por uma conclusão bem natural, a ideia de +Civilização, para Jacinto, não se separava da +imagem de Cidade, de uma enorme Cidade, com todos os seus vastos +órgãos funcionando poderosamente. Nem este meu +supercivilizado amigo compreendia que longe de Armazéns +servidos por três mil caixeiros; e de Mercados onde se +despejam os vergéis e lezírias de trinta +províncias; e de Bancos em que retine <span class="pagenum">[14]</span>o ouro universal; e de Fábricas +fumegando com ânsia, inventando com ânsia; e de +Bibliotecas abarrotadas, a estalar, com a papelada dos +séculos; e de fundas milhas de ruas, cortadas, por baixo e +por cima, de fios de telégrafos, de fios de telefones, de +canos de gases, de canos de fezes; e da fila atroante dos + +ónibus, tramways, carroças, velocípedes, +calhambeques, parelhas de luxo; e de dois milhões de uma +vaga humanidade, fervilhando, a ofegar, através da +Polícia, na busca dura do pão ou sob a ilusão +do gozo--o homem do século XIX pudesse saborear, plenamente, +a delícia de viver!<br> + + +<br> + + +Quando Jacinto, no seu quarto do 202, com as varandas abertas sobre +os lilases, me desenrolava estas imagens, todo ele crescia, +iluminado. Que criação augusta, a da Cidade! +Só por ela, Zé Fernandes, só por ela, pode o +homem soberbamente afirmar a sua alma!...<br> + + + +<br> + + +--Oh Jacinto, e a religião? Pois a religião +não prova a alma?<br> + + +<br> + + +Ele encolhia os ombros. A religião! A religião +é o desenvolvimento sumptuoso de um instinto rudimentar, +comum a todos os brutos, o terror. Um cão lambendo a +mão do dono, de quem lhe vem o osso ou o chicote, já +constitui toscamente um devoto, o consciente devoto, prostrado em +rezas ante o Deus que<span class="pagenum">[15]</span> distribui o +céu ou o inferno!... Mas o telefone! o fonógrafo!<br> + + + +<br> + + +--Aí tens tu, o fonógrafo!... Só o +fonógrafo, Zé Fernandes, me faz verdadeiramente +sentir a minha superioridade de ser pensante e me separa do bicho. +Acredita, não há senão a Cidade, Zé +Fernandes, não há senão a Cidade!<br> + + + +<br> + + +E depois (acrescentava) só a Cidade lhe dava a +sensação, tão necessária à vida +como o calor, da solidariedade humana. E no 202, quando considerava +em redor, nas densas massas do casario de Paris, dois +milhões de seres arquejando na obra da +Civilização (para manter na natureza o domínio +dos Jacintos!) sentia um sossego, um conchego, só +comparáveis ao do peregrino, que, ao atravessar o deserto, +se ergue no seu dromedário, e avista a longa fila da +caravana marchando, cheia de lumes e de armas...<br> + + + +<br> + + +Eu murmurava, impressionado:<br> + + +<br> + + +--Caramba!<br> + + +<br> + + +Ao contrário no campo, entre a inconsciência e a +impassibilidade da Natureza, ele tremia com o terror da sua +fragilidade e da sua solidão. Estava aí como perdido +num mundo que lhe não fosse fraternal; nenhum silvado +encolheria os espinhos para que ele passasse; se gemesse com fome +nenhuma árvore, <span class="pagenum">[16]</span>por mais +carregada, lhe estenderia o seu fruto na ponta compassiva de um +ramo. Depois, em meio da Natureza, ele assistia à + +súbita e humilhante inutilização de todas as +suas faculdades superiores. De que servia, entre plantas e +bichos--ser um Génio ou ser um Santo? As searas não +compreendem as <i>Geórgicas</i>; e fora necessário o +socorro ansioso de Deus, e a inversão de todas as leis +naturais, e um violento milagre para que o lobo de Agubio +não devorasse S. Francisco de Assis, que lhe sorria e lhe +estendia os braços e lhe chamava «meu irmão +lobo»! Toda a intelectualidade, nos campos, se esteriliza, e +só resta a bestialidade. Nesses reinos crassos do Vegetal e +do Animal duas únicas funções se mantêm +vivas, a nutritiva e a procriadora. Isolada, sem +ocupação, entre focinhos e raízes que +não cessam de sugar e de pastar, sufocando no cálido +bafo da universal fecundação, a sua pobre alma toda +se engelhava, se reduzia a uma migalha de alma, uma fagulhazinha +espiritual a tremeluzir, como morta, sobre um naco de +matéria; e nessa matéria dois instintos surdiam, +imperiosos e pungentes, o de devorar e o de gerar. Ao cabo de uma +semana rural, de todo o seu ser tão nobremente composto +só restava um estômago e por baixo um falo! A alma? +Sumida sob a besta. E necessitava <span class="pagenum">[17]</span>correr, reentrar na Cidade, mergulhar nas +ondas lustrais da Civilização, para largar nelas a +crosta vegetativa, e ressurgir reumanizado, de novo espiritual e +Jacíntico!<br> + + + +<br> + + +E estas requintadas metáforas do meu amigo exprimiam +sentimentos reais--que eu testemunhei, que muito me divertiram, no +único passeio que fizemos ao campo, à bem +amável e bem sociável floresta de Montmorency. Oh +delícias de entremez, Jacinto entre a Natureza! Logo que se +afastava dos pavimentos de madeira, do macadame, qualquer +chão que os seus pés calcassem o enchia de +desconfiança e terror. Toda a relva, por mais crestada, lhe +parecia ressumar uma humidade mortal. De sob cada torrão, da +sombra de cada pedra, receava o assalto de lacraus, de +víboras, de formas rastejantes e viscosas. No silêncio +do bosque sentia um lúgubre despovoamento do Universo. +Não tolerava a familiaridade dos galhos que lhe +roçassem a manga ou a face. Saltar uma sebe era para ele um +acto degradante que o retrogradava ao macaco inicial. Todas as +flores que não tivesse já encontrado em jardins, +domesticadas por longos séculos de servidão +ornamental, o inquietavam como venenosas. E considerava de uma +melancolia funambulesca certos modos e formas do Ser inanimado, a +pressa esperta e vã dos regatinhos, <span class="pagenum">[18]</span>a careca dos rochedos, todas as +contorções do arvoredo e o seu resmungar solene e +tonto.<br> + + + +<br> + + +Depois de uma hora, naquele honesto bosque de Montmorency, o meu +pobre amigo abafava, apavorado, experimentando já esse lento +minguar e sumir de alma que o tornava como um bicho entre bichos. +Só desanuviou quando penetramos no lajedo e no gás de +Paris--e a nossa vitória quase se despedaçou contra +um ónibus retumbante, atulhado de cidadãos. Mandou +descer pelos Boulevards, para dissipar, na sua grossa +sociabilidade, aquela materialização em que sentia a +cabeça pesada e vaga como a de um boi. E reclamou que eu o +acompanhasse ao teatro das Variedades para sacudir, com os +estribilhos da <i>Femme à Papa</i>, o rumor importuno que +lhe ficara dos melros cantando nos choupos altos.<br> + + + +<br> + + +Este delicioso Jacinto fizera então vinte e três anos, +e era um soberbo moço em quem reaparecera a força dos +velhos Jacintos rurais. Só pelo nariz, afilado, com narinas +quase transparentes, de uma mobilidade inquieta, como se andasse +fariscando perfumes, pertencia às delicadezas do +século XIX. O cabelo ainda se conservava, ao modo das eras +rudes, crespo e quase lanígero: e o bigode, como o de um +Celta, caía em fios sedosos, que ele necessitava aparar e +frisar. Todo o seu fato, as espessas <span class="pagenum">[19]</span>gravatas de cetim escuro que uma pérola +prendia, as luvas de anta branca, o verniz das botas, vinham de +Londres em caixotes de cedro; e usava sempre ao peito uma flor, +não natural, mas composta destramente pela sua ramalheteira +com pétalas de flores dissemelhantes, cravo, azálea, +orquídea ou tulipa, fundidas na mesma haste entre uma leve +folhagem de funcho.<br> + + + +<br> + + +<br> + + +<div class="break"> +<hr></div> + + +<br> + + +<br> + + +Em 1880, em Fevereiro, numa cinzenta e arrepiada manhã de +chuva, recebi uma carta de meu bom tio Afonso Fernandes, em que, +depois de lamentações sobre os seus setenta anos, os +seus males hemorroidais, e a pesada gerência dos seus bens +«que pedia homem mais novo, com pernas mais rijas»--me +ordenava que recolhesse à nossa casa de Guiães, no +Douro! Encostado ao mármore partido do fogão, onde na +véspera a minha Nini deixara um espartilho embrulhado no + +<i>Jornal dos Debates</i>, censurei severamente meu tio que assim +cortava em botão, antes de desabrochar, a flor do meu Saber +Jurídico. Depois num Post-Scriptum ele +acrescentava--«O tempo aqui está lindo, o que se pode +chamar de rosas, e tua santa tia muito se recomenda, que anda +lá pela cozinha, porque vai hoje em trinta e seis +<span class="pagenum">[20]</span>anos que casámos, temos +cá o abade e o Quintais a jantar, e ela quis fazer uma sopa +dourada».<br> + + +<br> + + + +Deitando uma acha ao lume, pensei como devia estar boa a sopa +dourada da tia Vicência. Há quantos anos não a +provava, nem o leitão assado, nem o arroz de forno da nossa +casa! Com o tempo assim tão lindo, já as mimosas do +nosso pátio vergariam sob os seus grandes cachos amarelos. +Um pedaço de céu azul, do azul de Guiães, que +outro não há tão lustroso e macio, entrou pelo +quarto, alumiou, sobre a puída tristeza do tapete, relvas, +ribeirinhos, malmequeres e flores de trevo de que meus olhos +andavam aguados. E, por entre as bambinelas de sarja, passou um ar +fino e forte e cheiroso de serra e de pinheiral.<br> + + + +<br> + + +Assobiando um <i>fado</i> meigo tirei debaixo da cama a minha velha +mala, e meti solicitamente entre calças e peúgas um +Tratado de Direito Civil, para aprender enfim, nos vagares da +aldeia, estendido sob a faia, as leis que regem os homens. Depois, +nessa tarde, anunciei a Jacinto que partia para Guiães. O +meu camarada recuou com um surdo gemido de espanto e piedade:<br> + + +<br> + + +--Para Guiães!... Oh Zé Fernandes, que horror!<br> + + +<br> + + +E toda essa semana me lembrou solicitamente <span class="pagenum">[21]</span>confortos de que eu me deveria prover para que +pudesse conservar, nos ermos silvestres, tão longe da +Cidade, uma pouca de alma dentro de um pouco de corpo. «Leva +uma poltrona! Leva a <i>Enciclopédia Geral</i>! Leva caixas +de aspáragos!...»<br> + + + +<br> + + +Mas para o meu Jacinto, desde que assim me arrancavam da Cidade, eu +era arbusto desarreigado que não reviverá. A +mágoa com que me acompanhou ao comboio conviria +excelentemente ao meu funeral. E quando fechou sobre mim a +portinhola, gravemente, supremamente, como se cerra uma grade de +sepultura, eu quase solucei--com saudades minhas.<br> + + +<br> + + +Cheguei a Guiães. Ainda restavam flores nas mimosas do nosso +pátio; comi com delícias a sopa dourada da tia +Vicência; de tamancos nos pés assisti à ceifa +dos milhos. E assim de colheitas a lavras, crestando ao sol das +eiras, caçando a perdiz nos matos geados, rachando a +melancia fresca na poeira dos arraiais, arranchando a magustos, +serandando à candeia, atiçando fogueiras de S. +João, enfeitando presépios de Natal, por ali me +passaram docemente sete anos, tão atarefados que nunca +logrei abrir o Tratado de Direito Civil, e tão singelos que +apenas me recordo quando, em vésperas de S. Nicolau, o +abade<span class="pagenum">[22]</span> caiu da égua à + +porta do Brás das Cortes. De Jacinto só recebia +raramente algumas linhas, escrevinhadas à pressa por entre o +tumulto da Civilização. Depois, num Setembro muito +quente, ao lidar da vindima, meu bom tio Afonso Fernandes morreu, +tão quietamente, Deus seja louvado por esta graça, +como se cala um passarinho ao fim do seu bem cantado e bem voado +dia. Acabei pela aldeia a roupa do luto. A minha afilhada Joaninha +casou na matança do porco. Andaram obras no nosso telhado. +Voltei a Paris.<br> + + +<br> + + +<br> + + +<br> + + +<h2>II</h2> + + +Era de novo Fevereiro, e um fim de tarde arrepiado e cinzento, +quando eu desci os Campos Elísios em demanda do 202. Adiante +de mim caminhava, levemente curvado, um homem que, desde as botas +rebrilhantes até às abas recurvas do chapéu +donde fugiam anéis de um cabelo crespo, ressumava +elegância e a familiaridade das coisas finas. Nas +mãos, cruzadas atrás das costas, calçadas de +anta branca, sustentava uma bengala grossa com castão de +cristal. E só quando ele parou ao portão do 202 +reconheci o nariz afilado, os fios do bigode corredios e +sedosos.<br> + + + +<br> + + +--Oh Jacinto!<br> + + +<br> + + +--Oh Zé Fernandes!<br> + + +<br> + + +O abraço que nos enlaçou foi tão +alvoroçado que o meu chapéu rolou na lama. E ambos +murmurávamos, comovidos, entrando a grade:<br> + + + +<br> + + +<span class="pagenum">[24]</span> --Há sete anos!...<br> + + +<br> + + +--Há sete anos!...<br> + + +<br> + + +E, todavia, nada mudara durante esses sete anos no jardim do 202! +Ainda entre as duas áleas bem areadas se arredondava uma +relva, mais lisa e varrida que a lã de um tapete. No meio o +vaso coríntico esperava Abril para resplandecer com tulipas +e depois Junho para transbordar de margaridas. E ao lado das +escadas limiares, que uma vidraçaria toldava, as duas magras +Deusas de pedra, do tempo de D. Galeão, sustentavam as +antigas lâmpadas de globos foscos, onde já silvava o +gás.<br> + + + +<br> + + +Mas dentro, no peristilo, logo me surpreendeu um elevador instalado +por Jacinto--apesar do 202 ter somente dois andares, e ligados por +uma escadaria tão doce que nunca ofendera a asma da +Sr.<sup>a</sup> D. Angelina! Espaçoso, tapetado, ele +oferecia, para aquela jornada de sete segundos, confortos +numerosos, um divã, uma pele de urso, um roteiro das ruas de +Paris, prateleiras gradeadas com charutos e livros. Na +antecâmara, onde desembarcámos, encontrei a +temperatura macia e tépida de uma tarde de Maio, em +Guiães. Um criado, mais atento ao termómetro que um +piloto à agulha, regulava destramente a boca dourada do +calorífero. E perfumadores entre palmeiras, como num +terraço santo de Benares, <span class="pagenum">[25]</span>esparziam um vapor, aromatizando e +salutarmente humedecendo aquele ar delicado e superfino.<br> + + + +<br> + + +Eu murmurei, nas profundidades do meu assombrado ser:<br> + + +<br> + + +--Eis a Civilização!<br> + + +<br> + + +Jacinto empurrou uma porta, penetrámos numa nave cheia de +majestade e sombra, onde reconheci a Biblioteca por tropeçar +numa pilha monstruosa de livros novos. O meu amigo roçou de +leve o dedo na parede: e uma coroa de lumes eléctricos, +refulgindo entre os lavores do tecto, alumiou as estantes +monumentais, todas de ébano. Nelas repousavam mais de trinta +mil volumes, encadernados em branco, em escarlate, em negro, com +retoques de ouro, hirtos na sua pompa e na sua autoridade como +doutores num concílio.<br> + + +<br> + + + +Não contive a minha admiração:<br> + + +--Oh Jacinto! Que depósito!<br> + + +<br> + + +Ele murmurou, num sorriso descorado:<br> + + +<br> + + +--Há que ler, há que ler...<br> + + + +<br> + + +Reparei então que o meu amigo emagrecera: e que o nariz se +lhe afilara mais entre duas rugas muito fundas, como as de um +comediante cansado. Os anéis do seu cabelo lanígero +rareavam sobre a testa, que perdera a antiga serenidade de +mármore bem polido. Não frisava agora o bigode +murcho, caído <span class="pagenum">[26]</span>em fios +pensativos. Também notei que corcovava.<br> + + +<br> + + +Ele erguera uma tapeçaria--entrámos no seu gabinete +de trabalho, que me inquietou. Sobre a espessura dos tapetes +sombrios os nossos passos perderam logo o som, e como a realidade. +O damasco das paredes, os divãs, as madeiras, eram verdes, +de um verde profundo de folha de louro. Sedas verdes envolviam as +luzes eléctricas, dispersas em lâmpadas tão +baixas que lembravam estrelas caídas por cima das mesas, +acabando de arrefecer e morrer: só uma rebrilhava, nua e +clara, no alto de uma estante quadrada, esguia, solitária +como uma torre numa planície, e de que o lume parecia ser o +farol melancólico. Um biombo de laca verde, fresco verde de +relva, resguardava a chaminé de mármore verde, verde +de mar sombrio, onde esmoreciam as brasas de uma lenha +aromática. E entre aqueles verdes reluzia, por sobre peanhas +e pedestais, toda uma Mecânica sumptuosa, aparelhos, +lâminas, rodas, tubos, engrenagens, hastes, friezas, +rigidezes de metais...<br> + + + +<br> + + +Mas Jacinto batia nas almofadas do divã, onde se enterrara +com um modo cansado que eu não lhe conhecia:<br> + + +<br> + + +--Para aqui, Zé Fernandes, para aqui! É +necessário reatarmos estas nossas vidas, tão +<span class="pagenum">[27]</span>apartadas há sete anos!... +Em Guiães, sete anos! Que fizeste tu?<br> + + + +<br> + + +--E tu, que tens feito, Jacinto?<br> + + +<br> + + +O meu amigo encolheu molemente os ombros. Vivera--cumprira com +serenidade todas as funções, as que pertencem +à matéria e as que pertencem ao +espírito...<br> + + +<br> + + +--E acumulaste Civilização, Jacinto! Santo Deus... +Está tremendo, o 202!<br> + + + +<br> + + +Ele espalhou em torno um olhar onde já não faiscava a +antiga vivacidade:<br> + + +<br> + + +--Sim, há confortos... Mas falta muito! A humanidade ainda +está mal apetrechada, Zé Fernandes... E a vida +conserva resistências.<br> + + +<br> + + + +Subitamente, a um canto, repicou a campainha do telefone. E +enquanto o meu amigo, curvado sobre a placa, murmurava impaciente +«<i>Está lá?--Está +lá?</i>», examinei curiosamente, sobre a sua imensa +mesa de trabalho, uma estranha e miúda legião de +instrumentozinhos de níquel, de aço, de cobre, de +ferro, com gumes, com argolas, com tenazes, com ganchos, com +dentes, expressivos todos, de utilidades misteriosas. Tomei um que +tentei manejar--e logo uma ponta malévola me picou um dedo. +Nesse instante rompeu doutro canto um «tic-tic-tic» +açodado, quase ansioso. Jacinto acudiu, com a face no +telefone:<br> + + + +<br> + + +<span class="pagenum">[28]</span> --Vê aí o +telégrafo!... Ao pé do divã. Uma tira de papel +que deve estar a correr.<br> + + +<br> + + +E, com efeito, de uma redoma de vidro posta numa coluna, e contendo +um aparelho esperto e diligente, escorria para o tapete, como uma +ténia, a longa tira de papel com caracteres impressos, que +eu, homem das serras, apanhei, maravilhado. A linha, traçada +em azul, anunciava ao meu amigo Jacinto que a fragata russa + +<i>Azoff</i> entrara em Marselha com avaria!<br> + + +<br> + + +Já ele abandonara o telefone. Desejei saber, inquieto, se o +prejudicava directamente aquela avaria da <i>Azoff</i>.<br> + + +<br> + + +--Da <i>Azoff</i>?... A avaria? A mim?... Não! É uma +notícia.<br> + + + +<br> + + +Depois, consultando um relógio monumental que, ao fundo da +Biblioteca, marcava a hora de todas as Capitais e o curso de todos +os Planetas:<br> + + +<br> + + +--Eu preciso escrever uma carta, seis linhas... Tu esperas, +não, Zé Fernandes? Tens aí os jornais de +Paris, da noite; e os de Londres, desta manhã. As +Ilustrações além, naquela pasta de couro com +ferragens.<br> + + +<br> + + +Mas eu preferi inventariar o gabinete, que dava à minha +profanidade serrana todos os gostos de uma iniciação. +Aos lados da cadeira de Jacinto pendiam gordos tubos +acústicos, <span class="pagenum">[29]</span>por onde ele +decerto soprava as suas ordens através do 202. Dos +pés da mesa cordões túmidos e moles, coleando +sobre o tapete, corriam para os recantos de sombra à maneira +de cobras assustadas. Sobre uma banquinha, e reflectida no seu +verniz como na água de um poço, pousava uma +Máquina de escrever: e adiante era uma imensa Máquina +de calcular, com fileiras de buracos donde espreitavam, esperando, +números rígidos e de ferro. Depois parei em frente da +estante que me preocupava, assim solitária, à maneira +de uma torre numa planície, com o seu alto farol. Toda uma +das suas faces estava repleta de Dicionários; a outra de +Manuais; a outra de Atlas; a última de Guias, e entre eles, +abrindo um fólio, encontrei o Guia das ruas de Samarcanda. +Que maciça torre de informação! Sobre +prateleiras admirei aparelhos que não compreendia:--um +composto de lâminas de gelatina, onde desmaiavam, +meio-chupadas, as linhas de uma carta, talvez amorosa; outro, que +erguia sobre um pobre livro brochado, como para o decepar, um +cutelo funesto; outro avançando a boca de uma tuba, toda +aberta para as vozes do invisível. Cingidos aos umbrais, +liados às cimalhas, luziam arames, que fugiam através +do tecto, para o espaço. Todos mergulhavam em forças +universais, todos <span class="pagenum">[30]</span>transmitiam +forças universais. A Natureza convergia disciplinada ao +serviço do meu amigo e entrara na sua domesticidade!...<br> + + + +<br> + + +Jacinto atirou uma exclamação impaciente:<br> + + +<br> + + +--Oh, estas penas eléctricas!... Que seca!<br> + + +<br> + + +Amarrotara com cólera a carta começada--eu escapei, +respirando, para a Biblioteca. Que majestoso armazém dos +produtos do Raciocínio e da Imaginação! Ali +jaziam mais de trinta mil volumes, e todos decerto essenciais a uma +cultura humana. Logo à entrada notei, em ouro numa lombada +verde, o nome de Adam Smith. Era pois a região dos +Economistas. Avancei--e percorri, espantado, oito metros de +Economia Política. Depois avistei os Filósofos e os +seus comentadores, que revestiam toda uma parede, desde as escolas +Pré-Socráticas até às escolas +Neopessimistas. Naquelas pranchas se acastelavam mais de dois mil +sistemas--e que todos se contradiziam. Pelas +encadernações logo se deduziam as doutrinas: Hobbes, +em baixo, era pesado, de couro negro; Platão, em cima, +resplandecia, numa pelica pura e alva. Para diante começavam +as Histórias Universais. Mas aí uma imensa pilha de +livros brochados, cheirando a tinta nova e a documentos + +<span class="pagenum">[31]</span>novos, subia contra a estante, +como fresca terra de aluvião tapando uma riba secular. +Contornei essa colina, mergulhei na secção das +Ciências Naturais, peregrinando, num assombro crescente, da +Orografia para a Paleontologia, e da Morfologia para a +Cristalografia. Essa estante rematava junto de uma janela rasgada +sobre os Campos Elísios. Apartei as cortinas de veludo--e +por trás descobri outra portentosa rima de volumes, todos de +História Religiosa, de Exegese Religiosa, que trepavam +montanhosamente até aos últimos vidros, vedando, nas +manhãs mais cândidas, o ar e a luz do Senhor.<br> + + +<br> + + +Mas depois rebrilhava, em marroquins claros, a estante +amável dos Poetas. Como um repouso para o espírito +esfalfado de todo aquele saber positivo, Jacinto aconchegara +aí um recanto, com um divã e uma mesa de limoeiro, +mais lustrosa que um fino esmalte, coberta de charutos, de cigarros +do Oriente, de tabaqueiras do século XVIII. Sobre um cofre +de madeira lisa pousava ainda, esquecido, um prato de damascos +secos do Japão. Cedi à sedução das +almofadas; trinquei um damasco, abri um volume; e senti +estranhamente, ao lado, um zumbido, como de um insecto de asas +harmoniosas. Sorri à ideia que fossem abelhas, compondo o +seu <span class="pagenum">[32]</span>mel naquele maciço de +versos em flor. Depois percebi que o sussurro remoto e dormente +vinha do cofre de mogno, de parecer tão discreto. Arredei +uma <i>Gazeta de França</i>; e descortinei um cordão +que emergia de um orifício, escavado no cofre, e rematava +num funil de marfim. Com curiosidade, encostei o funil a esta minha +confiada orelha, afeita à singeleza dos rumores da serra. E +logo uma Voz, muito mansa, mas muito decidida, aproveitando a minha +curiosidade para me invadir e se apoderar do meu entendimento, +sussurrou capciosamente:<br> + + + +<br> + + +--...«E assim, pela disposição dos cubos +diabólicos, eu chego a verificar os espaços +hipermágicos!...»<br> + + +<br> + + +Pulei, com um berro.<br> + + +<br> + + +--Oh Jacinto, aqui há um homem! Está aqui um homem a +falar dentro de uma caixa!<br> + + + +<br> + + +O meu camarada, habituado aos prodígios, não se +alvoroçou:<br> + + +<br> + + +--É o Conferençofone... Exactamente como o +Teatrofone; somente aplicado às escolas e às +conferências. Muito cómodo!... Que diz o homem, +Zé Fernandes?<br> + + + +<br> + + +Eu considerava o cofre, ainda esgazeado:<br> + + +<br> + + +--Eu sei! Cubos diabólicos, espaços mágicos, +toda a sorte de horrores...<br> + + +<br> + + +Senti dentro o sorriso superior de Jacinto:<br> + + +<br> + + +<span class="pagenum">[33]</span> --Ah, é o coronel +Dorchas... Lições de Metafísica Positiva sobre +a Quarta Dimensão... Conjecturas, uma maçada! Ouve +lá, tu hoje jantas comigo e com uns amigos, Zé + +Fernandes?<br> + + +<br> + + +--Não, Jacinto... Estou ainda enfardelado pelo alfaiate da +serra!<br> + + +<br> + + +E voltei ao gabinete mostrar ao meu camarada o jaquetão de +flanela grossa, a gravata de pintinhas escarlates, com que ao +domingo, em Guiães, visitava o Senhor. Mas Jacinto afirmou +que esta simplicidade montesina interessaria os seus convidados, +que eram dois artistas... Quem? O autor do <i>Coração +Triplo</i>, um Psicólogo Feminista, de agudeza +transcendente, Mestre muito experimentado e muito consultado em +Ciências Sentimentais; e Vorcan, um pintor mítico, que +interpretara etereamente, havia um ano, a simbolia rapsódica +do cerco de Tróia, numa vasta composição, + +<i>Helena Devastadora</i>...<br> + + +<br> + + +Eu coçava a barba:<br> + + +<br> + + +--Não, Jacinto, não... Eu venho de Guiães, das +serras; preciso entrar em toda esta civilização, +lentamente, com cautela, senão rebento. Logo na mesma tarde +a electricidade, e o conferençofone, e os espaços +hipermágicos e o feminista, e o etéreo, e a simbolia +devastadora, é excessivo! Volto amanhã.<br> + + + +<br> + + +<span class="pagenum">[34]</span>Jacinto dobrava vagarosamente a +sua carta, onde metera sem rebuço (como convinha à +nossa fraternidade) duas violetas brancas tiradas do ramo que lhe +floria o peito.<br> + + +<br> + + +--Amanhã, Zé Fernandes, tu vens antes de +almoço, com as tuas malas dentro de um fiacre, para te +instalares no 202, no teu quarto. No Hotel são +embaraços, privações. Aqui tens o telefone, o +teatrofone, livros...<br> + + + +<br> + + +Aceitei logo, com simplicidade. E Jacinto, embocando um tubo +acústico, murmurou:<br> + + +<br> + + +--Grilo!<br> + + +<br> + + +Da parede, recoberta de damasco, que subitamente e sem rumor se +fendeu, surdiu o seu velho escudeiro (aquele moleque que viera com +<i>D. Galeão</i>), que eu me alegrei de encontrar tão +rijo, mais negro, reluzente e venerável na sua tesa gravata, +no seu colete branco de botões de ouro. Ele também +estimou ver de novo «o siô Fernandes». E, quando +soube que eu ocuparia o quarto do avô Jacinto, teve um claro +sorriso de preto, em que envolveu o seu senhor, no contentamento de +o sentir enfim reprovido de uma família.<br> + + + +<br> + + +--Grilo, dizia Jacinto, esta carta a Madame de Oriol... Escuta! +Telefona para casa dos Trèves que os espiritistas só +estão livres no domingo... Escuta! Eu tomo uma duche +<span class="pagenum">[35]</span>antes de jantar, tépida, a +17. Fricção com malva-rosa.<br> + + +<br> + + +E caindo pesadamente para cima do divã, com um bocejo +arrastado e vago:<br> + + +<br> + + +--Pois é verdade, meu Zé Fernandes, aqui estamos, +como há sete anos, neste velho Paris...<br> + + + +<br> + + +Mas eu não me arredava da mesa, no desejo de completar a +minha iniciação:<br> + + +<br> + + +--Oh Jacinto, para que servem todos estes instrumentozinhos? Houve +já aí um desavergonhado que me picou. Parecem +perversos... São úteis?<br> + + +<br> + + +Jacinto esboçou, com languidez, um gesto que os +sublimava.--Providenciais, meu filho, absolutamente providenciais, +pela simplificação que dão ao trabalho! +Assim... E apontou. Este arrancava as penas velhas; o outro +numerava rapidamente as páginas de um manuscrito; +aqueloutro, além, raspava emendas... E ainda os havia para +colar estampilhas, imprimir datas, derreter lacres, cintar +documentos...<br> + + + +<br> + + +--Mas com efeito, acrescentou, é uma seca. Com as molas, com +os bicos, às vezes magoam, ferem... Já me sucedeu +inutilizar cartas por as ter sujado com dedadas de sangue. É +uma maçada!<br> + + +<br> + + +Então, como o meu amigo espreitara novamente <span class="pagenum">[36]</span>o relógio monumental, não lhe +quis retardar a consolação da ducha e da +malva-rosa.<br> + + + +<br> + + +--Bem, Jacinto, já te revi, já me contentei... Agora +até amanhã, com as malas.<br> + + +<br> + + +--Que diabo, Zé Fernandes, espera um momento... Vamos pela +sala de jantar. Talvez te tentes!<br> + + +<br> + + +E, através da Biblioteca, penetramos na sala de jantar,--que +me encantou pelo seu luxo sereno e fresco. Uma madeira branca, +lacada, mais lustrosa e macia que cetim, revestia as paredes, +encaixilhando medalhões de damasco cor de morango, de +morango muito maduro e esmagado: os aparadores, discretamente +lavrados em florões e rocalhas, resplandeciam com a mesma +laca nevada: e damascos amorangados estofavam também as +cadeiras, brancas, muito amplas, feitas para a lentidão de +gulas delicadas, de gulas intelectuais.<br> + + + +<br> + + +--Viva o meu Príncipe! Sim senhor... Eis aqui um comedouro +muito compreensível e muito repousante, Jacinto!<br> + + +<br> + + +--Então janta, homem!<br> + + +<br> + + +Mas já eu me começava a inquietar, reparando que a +cada talher correspondiam seis garfos, e todos de feitios +astuciosos. E mais me impressionei quando Jacinto me desvendou +<span class="pagenum">[37]</span>que um era para as ostras, outro +para o peixe, outro para as carnes, outro para os legumes, outro +para as frutas, outro para o queijo! Simultaneamente, com uma +sobriedade que louvaria Salomão, só dois copos, para +dois vinhos:--um Bordéus rosado em infusas de cristal, e +Champanhe gelando dentro de baldes de prata. Todo um aparador +porém vergava, sob o luxo redundante, quase assustador de + +águas--águas oxigenadas, águas carbonatadas, +águas fosfatadas, águas esterilizadas, águas +de sais, outras ainda, em garrafas bojudas, com tratados +terapêuticos impressos em rótulos.<br> + + +<br> + + +--Santíssimo nome de Deus, Jacinto! Então és +ainda o mesmo tremendo bebedor de água, hein?... <i>Un +aquatico!</i> como dizia o nosso poeta chileno, que andava a +traduzir Klopstock.<br> + + + +<br> + + +Ele derramou, por sobre toda aquela garrafaria encarapuçada +em metal, um olhar desconsolado:<br> + + +<br> + + +--Não... É por causa das águas da Cidade, +contaminadas, atulhadas de micróbios... Mas ainda não +encontrei uma boa água que me convenha, que me +satisfaça... Até sofro sede.<br> + + + +<br> + + +Desejei então conhecer o jantar do Psicólogo e do +Simbolista--traçado, ao lado dos <span class="pagenum">[38]</span>talheres, em tinta vermelha, sobre +lâminas de marfim. Começava honradamente por ostras +clássicas, de Marennes. Depois aparecia uma sopa de +alcachofras e ovas de carpa...<br> + + +<br> + + +--É bom?<br> + + +<br> + + + +Jacinto encolheu desinteressadamente os ombros:<br> + + +<br> + + +--Sim... Eu não tenho nunca apetite, já há +tempos... Já há anos.<br> + + +<br> + + +Do outro prato só compreendi que continha frangos e +túbaras. Depois saboreariam aqueles senhores um filete de +veado, macerado em Xerez, com geleia de noz. E por sobremesa +simplesmente laranjas geladas em éter.<br> + + + +<br> + + +--Em éter, Jacinto?<br> + + +<br> + + +O meu amigo hesitou, esboçou com os dedos a +ondulação de um aroma que se evola.<br> + + +<br> + + +--É novo... Parece que o éter desenvolve, faz aflorar +a alma das frutas...<br> + + +<br> + + +Curvei a cabeça ignara, murmurei nas minhas +profundidades:<br> + + + +<br> + + +--Eis a Civilização!<br> + + +<br> + + +E, descendo os Campos Elísios, encolhido no paletó a +cogitar neste prato simbólico, considerava a rudeza e +atolado atraso da minha Guiães, onde desde séculos a +alma das laranjas permanece ignorada e desaproveitada dentro dos +gomos sumarentos, por todos <span class="pagenum">[39]</span>aqueles pomares que ensombram e perfumam o +vale, da Roqueirinha a Sandofim! Agora porém, bendito Deus, +na convivência de um tão grande iniciado como Jacinto, +eu compreenderia todas as finuras e todos os poderes da +Civilização.<br> + + + +<br> + + +E, (melhor ainda para a minha ternura!) contemplaria a raridade de +um homem que, concebendo uma ideia da Vida, a realiza--e +através dela e por ela recolhe a felicidade perfeita.<br> + + +<br> + + +Bem se afirmara este Jacinto, na verdade, como Príncipe da +Grã-Ventura!<br> + + +<br> + + +<br> + + +<br> + + +<h2>III</h2> + + +<br> + + +<br> + + +No 202, todas as manhãs, às nove horas, depois do meu +chocolate e ainda em chinelas, penetrava no quarto de Jacinto. +Encontrava o meu amigo banhado, barbeado, friccionado, envolto num +roupão branco de pêlo de cabra do Tibete, diante da +sua mesa de toilette, toda de cristal, (por causa dos +micróbios) e atulhada com esses utensílios de +tartaruga, marfim, prata, aço e madrepérola que o +homem do século XIX necessita para não desfeiar o +conjunto sumptuário da Civilização e manter +nela o seu Tipo. As escovas sobretudo renovavam, cada dia, o meu +regalo e o meu espanto--porque as havia largas como a roda +maciça de um carro sabino; estreitas e mais recurvas que o +alfange de um mouro; côncavas, em forma de telha +aldeã; pontiagudas em feitio de folha de hera; rijas que nem +cerdas de javali; macias que nem penugem <span class="pagenum">[42]</span>de rola! De todas, fielmente, como amo que +não desdenha nenhum servo, se utilizava o meu Jacinto. E +assim, em face ao espelho emoldurado de folhedos de prata, +permanecia este Príncipe passando pêlos sobre o seu +pêlo durante catorze minutos.<br> + + + +<br> + + +No entanto o Grilo e outro escudeiro, por trás dos biombos +de Quioto, de sedas lavradas, manobravam, com perícia e +vigor, os aparelhos do lavatório--que era apenas um resumo +das Máquinas monumentais da Sala de Banho, a mais estremada +maravilha do 202. Nestes mármores simplificados existiam +unicamente dois jactos graduados desde <i>zero</i> até +<i>cem</i>; as duas duchas, fina e grossa, para a cabeça; a +fonte esterilizada para os dentes; o repuxo borbulhante para a +barba; e ainda botões discretos, que, roçados, +desencadeavam esguichos, cascatas cantantes, ou um leve orvalho +estival. Desse recanto temeroso, onde delgados tubos mantinham em +disciplina e servidão tantas águas ferventes, tantas + +águas violentas, saía enfim o meu Jacinto enxugando +as mãos a uma toalha de felpo, a uma toalha de linho, a +outra de corda entrançada para restabelecer a +circulação, a outra de seda frouxa para repolir a +pele. Depois deste rito derradeiro que lhe arrancava ora um +suspiro, ora um bocejo, Jacinto, estendido num divã, +<span class="pagenum">[43]</span>folheava uma Agenda, onde se +arrolavam, inscritas pelo Grilo ou por ele, as +ocupações do seu dia, tão numerosas por vezes +que cobriam duas laudas.<br> + + +<br> + + +Todas elas se prendiam à sua sociabilidade, à sua +Civilização muito complexa, ou a interesses que o meu +Príncipe, nesses sete anos, criara para viver em mais +consciente comunhão com todas as funções da +Cidade. (Jacinto com efeito era presidente do Clube da <i>Espada e +Alvo</i>; comanditário do Jornal o <i>Boulevard</i>; +director da <i>Companhia dos Telefones de Constantinopla</i>; +sócio dos <i>Bazares unidos da Arte Espiritualista</i>; +membro do <i>Comité de Iniciação das +Religiões Esotéricas</i>, etc.) Nenhuma destas +ocupações parecia porém aprazível ao +meu amigo--porque, apesar da mansidão e harmonia dos seus +modos, frequentemente arremessava para o tapete, numa +rebelião de homem livre, aquela Agenda que o escravizava. E +numa dessas manhãs (de vento e neve), apanhando eu o livro +opressivo, encadernado em pelica, de um carinhoso tom de rosa +murcha--descobri que o meu Jacinto devia depois do almoço +fazer uma visita na rua da Universidade, outra no Parque Monceau, +outra entre os arvoredos remotos da Muette; assistir por fidelidade +a uma votação no Clube; acompanhar Madame + +<span class="pagenum">[44]</span>d'Oriol a uma +exposição de leques; escolher um presente de noivado +para a sobrinha dos Trèves; comparecer no funeral do velho +conde de Malville; presidir um tribunal de honra numa +questão de roubalheira, entre cavalheiros, ao +ecarté... E ainda se acavalavam outras +indicações, escrevinhadas por Jacinto a +lápis:--«Carroceiro--Five-oclock dos Efrains--A +pequena das <i>Variedades</i>--Levar a nota ao jornal...» +Considerei o meu Príncipe. Estirado no divã, de olhos +miserrimamente cerrados, bocejava, num bocejo imenso e mudo.<br> + + +<br> + + + +Mas os afazeres de Jacinto começavam logo no 202, cedo, +depois do banho. Desde as oito horas a campainha do telefone +repicava por ele, com impaciência, quase com cólera, +como por um escravo tardio. E mal enxugado, dentro do seu +roupão de pêlo de cabra do Tibete ou de grossas +pijamas de pelúcia cor de ouro velho, constantemente +saía ao corredor a cochichar com sujeitos tão +apressados, que conservavam na mão o guarda-chuva pingando +sobre o tapete. Um desses, sempre presente (e que pertencia decerto +aos <i>Telefones de Constantinopla</i>), era temeroso--todo ele +chupado, tisnado, com maus dentes, sobraçando uma enorme +pasta sebenta, e dardejando, de entre a alta gola de uma +peliça puída, <span class="pagenum">[45]</span>como +da abertura de um covil, dois olhinhos torvos e de rapina. Sem +cessar, inexoravelmente, um escudeiro aparecia, com bilhetes numa +salva... Depois eram fornecedores de Indústria e de Arte; +negociantes de cavalos, rubicundos e de paletó branco; +inventores com grossos rolos de papel; alfarrabistas trazendo na +algibeira uma edição «única», +quase inverosímil, de Ulrich Zell ou do <i>Lapidanus</i>. +Jacinto circulava estonteado pelo 202, rabiscando a carteira, +repicando o telefone, desatando nervosamente pacotes, sacudindo ao +passar algum emboscado que surdia das sombras da antecâmara, +estendia como um trabuco o seu memorial ou o seu +catálogo!<br> + + + +<br> + + +Ao meio-dia, um tantã argentino e melancólico +ressoava, chamando ao almoço. Com o <i>Figaro</i> ou as +<i>Novidades</i> abertas sobre o prato, eu esperava sempre meia +hora pelo meu Príncipe, que entrava numa rajada, consultando +o relógio, exalando com a face moída o seu queixume +eterno:<br> + + + +<br> + + +--Que maçada! E depois uma noite abominável, +enrodilhada em sonhos... Tomei sulforal, chamei o Grilo para me +esfregar com terebintina... Uma seca!<br> + + +<br> + + +Espalhava pela mesa um olhar já farto. Nenhum prato, por +mais engenhoso, o seduzia;--e, como através do seu tumulto +matinal fumava <span class="pagenum">[46]</span>incontáveis +cigarretes que o ressequiam, começava por se encharcar com +um imenso copo de água oxigenada, ou carbonatada, ou gasosa, +misturada de um cognac raro, muito caro, horrendamente adocicado, +de moscatel de Siracusa. Depois, à pressa, sem gosto, com a +ponta incerta do garfo, picava aqui e além uma lasca de +fiambre, uma febra de lagosta;--e reclamava impacientemente o +café, um café de Moca, mandado cada mês por um +feitor do Dedjah, fervido à turca, muito espesso, que ele +remexia com um pau de canela!<br> + + + +<br> + + +--E tu, Zé Fernandes, que vais tu fazer?<br> + + +<br> + + +--Eu?<br> + + +<br> + + +Recostado na cadeira, com delícias, os dedos metidos nas +cavas do colete:<br> + + +<br> + + +--Vou vadiar, regaladamente, como um cão natural!<br> + + +<br> + + + +O meu solícito amigo, remexendo o café com o pau de +canela, rebuscava através da numerosa +Civilização da Cidade uma ocupação que +me encantasse. Mas apenas sugeria uma Exposição, ou +uma Conferência, ou monumentos, ou passeios, logo encolhia os +ombros desconsolados:<br> + + +<br> + + +--Por fim nem vale a pena, é uma seca!<br> + + +<br> + + +Acendia outra das cigarretes russas, onde rebrilhava o seu nome, +impresso a ouro na mortalha. Torcendo, numa pressa nervosa, os + +<span class="pagenum">[47]</span>fios do bigode, ainda escutava, +à porta da Biblioteca, o seu procurador, o nédio e +majestoso Laporte. E enfim, seguido de um criado, que +sobraçava um maço tremendo de jornais para lhe +abastecer o coupé, o Príncipe da Grã-Ventura +mergulhava na Cidade.<br> + + +<br> + + +<br> + + +<div class="break"> +<hr></div> + + +<br> + + +<br> + + + +Quando o dia social de Jacinto se apresentava mais desafogado, e o +céu de Março nos concedia caridosamente um pouco de +azul aguado, saíamos depois de almoço, a pé, +através de Paris. Estes lentos e errantes passeios eram +outrora, na nossa idade de Estudantes, um gozo muito querido de +Jacinto--porque neles mais intensamente e mais minuciosamente +saboreava a Cidade. Agora porém, apesar da minha companhia, +só lhe davam uma impaciência e uma fadiga que +desoladoramente destoava do antigo, iluminado êxtase. Com +espanto (mesmo com dor, porque sou bom, e sempre me entristece o +desmoronar de uma crença) descobri eu, na primeira tarde em +que descemos aos Boulevards, que o denso formigueiro humano sobre o +asfalto, e a torrente sombria dos trens sobre o macadame, afligiam +o meu amigo pela brutalidade da sua pressa, do seu egoísmo, +<span class="pagenum">[48]</span>e do seu estridor. Encostado e +como refugiado no meu braço, este Jacinto novo +começou a lamentar que as ruas, na nossa +Civilização, não fossem calçadas de +guta-percha! E a guta-percha claramente representava, para o meu +amigo, a substância discreta que amortece o choque e a rudeza +das coisas. Oh maravilha! Jacinto querendo borracha, a borracha +isoladora, entre a sua sensibilidade e as funções da +Cidade! Depois, nem me permitiu pasmar diante daquelas dourejadas e +espelhadas lojas que ele outrora considerava como os + +«preciosos museus do século XIX»...<br> + + +<br> + + +--Não vale a pena, Zé Fernandes. Há uma imensa +pobreza e secura de invenção! Sempre os mesmos +florões Luís XV, sempre as mesmas pelúcias... +Não vale a pena!<br> + + + +<br> + + +Eu arregalava os olhos para este transformado Jacinto. E sobretudo +me impressionava o seu horror pela Multidão--por certos +efeitos da Multidão, só para ele sensíveis, e +a que chamava os «sulcos».<br> + + +<br> + + +--Tu não os sentes, Zé Fernandes. Vens das serras... +Pois constituem o rijo inconveniente das Cidades, estes sulcos! +É um perfume muito agudo e petulante que uma mulher larga ao +passar, e se instala no olfacto, e estraga para todo o dia o ar +respirável. É um dito que se surpreende num grupo, +que <span class="pagenum">[49]</span>revela um mundo de velhacaria, +ou de pedantismo, ou de estupidez, e que nos fica colado à + +alma, como um salpico, lembrando a imensidade da lama a atravessar. +Ou então, meu filho, é uma figura intolerável +pela pretensão, ou pelo mau gosto, ou pela +impertinência, ou pela relice, ou pela dureza, e de que se +não pode sacudir mais a visão repulsiva... Um pavor, +estes sulcos, Zé Fernandes! De resto, que diabo, são +as pequeninas misérias de uma Civilização +deliciosa!<br> + + +<br> + + +Tudo isto era especioso, talvez pueril--mas para mim revelava, +naquele chamejante devoto da Cidade, o arrefecimento da +devoção. Nessa mesma tarde, se bem recordo, sob uma +luz macia e fina, penetrámos nos centros de Paris, nas ruas +longas, nas milhas de casario, todo de caliça parda, +eriçado de chaminés de lata negra, com as janelas +sempre fechadas, as cortininhas sempre corridas, abafando, +escondendo a vida. Só tijolo, só ferro, só + +argamassa, só estuque: linhas hirtas, ângulos +ásperos: tudo seco, tudo rígido. E dos chãos +aos telhados, por toda a fachada, tapando as varandas, comendo os +muros, Tabuletas, Tabuletas...<br> + + +<br> + + +--Oh, este Paris, Jacinto, este teu Paris! Que enorme, que +grosseiro bazar!<br> + + +<br> + + +E, mais para sondar o meu Príncipe do que <span class="pagenum">[50]</span>por persuasão, insisti na fealdade e +tristeza destes prédios, duros armazéns, cujos +andares são prateleiras onde se apilha humanidade! E uma +humanidade impiedosamente catalogada e arrumada! A mais vistosa e +de luxo nas prateleiras baixas, bem envernizadas. A reles e de +trabalho nos altos, nos desvãos, sobre pranchas de pinho nu, +entre o pó e a traça...<br> + + + +<br> + + +Jacinto murmurou, com a face arrepiada:<br> + + +<br> + + +--É feio, é muito feio!<br> + + +<br> + + +E acudiu logo, sacudindo no ar a luva de anta:<br> + + +<br> + + +--Mas que maravilhoso organismo, Zé Fernandes! Que solidez! +Que produção!<br> + + + +<br> + + +Onde Jacinto me parecia mais renegado era na sua antiga e quase +religiosa afeição pelo Bosque de Bolonha. Quando +moço, ele construíra sobre o Bosque teorias +complicadas e consideráveis. E sustentava, com olhos +rutilantes de fanático, que no Bosque a Cidade cada tarde ia +retemperar salutarmente a sua força, recebendo, pela +presença das suas Duquesas, das suas Cortesãs, dos +seus Políticos, dos seus Financeiros, dos seus Generais, dos +seus Académicos, dos seus Artistas, dos seus Clubistas, dos +seus Judeus, a certeza consoladora de que todo o seu pessoal se +mantinha em número, em vitalidade, em função, +<span class="pagenum">[51]</span>e que nenhum elemento da sua +grandeza desaparecera ou deperecera! «Ir ao Bois» + +constituía então para o meu Príncipe um acto +de consciência. E voltava sempre confirmando com orgulho que +a Cidade possuía todos os seus astros, garantindo a +eternidade da sua luz!<br> + + +<br> + + +Agora, porém, era sem fervor, arrastadamente, que ele me +levava ao Bosque, onde eu, aproveitando a clemência de Abril, +tentava enganar a minha saudade de arvoredos. Enquanto +subíamos, ao trote nobre das suas éguas lustrosas, a +Avenida dos Campos Elísios e a do Bosque, rejuvenescidas +pelas relvas tenras e fresco verdejar dos rebentos, Jacinto, +soprando o fumo da cigarrete pelas vidraças abertas do +coupé, permanecia o bom camarada, de veia amável, com +quem era doce filosofar através de Paris. Mas logo que +passávamos as grades douradas do Bosque, e +penetrávamos na Avenida das Acácias, e +enfiávamos na lenta fila dos trens de luxo e de +praça, sob o silêncio decoroso, apenas cortado pelo +tilintar dos freios e pelas rodas vagarosas esmagando a areia,--o +meu Príncipe emudecia, molemente engelhado no fundo das +almofadas, de onde só despegava a face para escancarar +bocejos de fartura. Pelo antigo hábito de verificar a +presença confortadora <span class="pagenum">[52]</span>do + +«pessoal, dos astros», ainda, por vezes, apontava para +algum coupé ou vitória rodando com rodar rangente +noutra arrastada fila--e murmurava um nome. E assim fui conhecendo +a encaracolada barba hebraica do banqueiro Efraim; e o longo nariz +patrício de Madame de Trèves abrigando um sorriso +perene; e as bochechas flácidas do poeta neoplatónico +Dornan, sempre espapado no fundo de fiacres; e os longos +bandós pré-rafaelitas e negros de Madame Verghane; e +o monóculo defumado do director do <i>Boulevard</i>; e o +bigodinho vencedor do Duque de Marizac, reinando de cima do seu +faéton de guerra; e ainda outros sorrisos imóveis, e +barbichas à Renascença, e pálpebras +amortecidas, e olhos farejantes, e peles empoadas de arroz, que +eram todas ilustres e da intimidade do meu Príncipe. Mas, do +topo da Avenida das Acácias, recomeçávamos a +descer, em passo sopeado, esmagando lentamente a areia; na fila +vagarosa que subia, calhambeque atrás de landau, +vitória atrás de fiacre, fatalmente revíamos o +binóculo sombrio do homem do <i>Boulevard</i>, e os +bandós furiosamente negros de Madame Verghane, e o ventre +espapado do neoplatónico, e a barba talmúdica, e +todas aquelas figuras, de uma imobilidade de cera, super-conhecidas +do meu <span class="pagenum">[53]</span>camarada, recruzadas cada +tarde através de revividos anos, sempre com os mesmos +sorrisos, sob o mesmo pó de arroz, na mesma imobilidade de +cera; então Jacinto não se continha, gritava ao +cocheiro:<br> + + + +<br> + + +--Para casa, depressa!<br> + + +<br> + + +E era pela Avenida do Bosque, pelos Campos Elísios, uma fuga +ardente das éguas a quem a lentidão sopeada, num roer +de freios, entre outras éguas também delas +superconhecidas, lançavam numa exasperação +comparável à de Jacinto.<br> + + +<br> + + + +Para o sondar eu denegria o Bosque:<br> + + +<br> + + +--Já não é tão divertido, perdeu o +brilho!...<br> + + +<br> + + +Ele acudia, timidamente:<br> + + +<br> + + +--Não, é agradável, não há nada +mais agradável; mas...<br> + + + +<br> + + +E acusava a friagem das tardes ou o despotismo dos seus afazeres. +Recolhíamos então ao 202, onde, com efeito, em breve +embrulhado no seu roupão branco, diante da mesa de cristal, +entre a legião das escovas, com toda a electricidade +refulgindo, o meu Príncipe se começava a adornar para +o serviço social da noite.<br> + + +<br> + + +E foi justamente numa dessas noites (um sábado) que +nós passámos, naquele quarto tão civilizado e +protegido, por um desses brutos <span class="pagenum">[50]</span>e +revoltos terrores como só os produz a ferocidade dos +Elementos. Já tarde, à pressa (jantávamos com +Marizac no Clube para o acompanhar depois ao <i>Lohengrin</i> na + +Ópera) Jacinto arrocheava o nó da gravata +branca--quando no lavatório, ou porque se rompesse o tubo, +ou se dessoldasse a torneira, o jacto de água a ferver +rebentou furiosamente, fumegando e silvando. Uma névoa densa +de vapor quente abafou as luzes--e, perdidos nela, +sentíamos, por entre os gritos do escudeiro e do Grilo, o +jorro devastador batendo os muros, esparrinhando uma chuva que +escaldava. Sob os pés o tapete ensopado era uma lama +ardente. E como se todas as forças da natureza, submetidas +ao serviço de Jacinto, se agitassem, animadas por aquela +rebelião da água--ouvimos roncos surdos no interior +das paredes, e pelos fios dos lumes eléctricos sulcaram +faíscas ameaçadoras! Eu fugira para o corredor, onde +se alargava a névoa grossa. Por todo o 202 ia um tumulto de +desastre. Diante do portão, atraídas pela fumarada +que se escapava das janelas, estacionava polícia, uma +multidão. E na escada esbarrei com um repórter, de +chapéu para a nuca, a carteira aberta, gritando sofregamente + +«se havia mortos?»<br> + + +<br> + + +Domada a água, clareada a bruma, vim <span class="pagenum">[55]</span>encontrar Jacinto no meio do quarto, em +ceroulas, lívido:<br> + + +<br> + + +--Oh Zé Fernandes, esta nossa indústria!... Que +impotência, que impotência! Pela segunda vez, este +desastre! E agora, aparelhos perfeitos, um processo novo...<br> + + + +<br> + + +--E eu encharcado por esse processo novo! E sem outra casaca!<br> + + +<br> + + +Em redor, as nobres sedas bordadas, os brocatéis Luís +XIII, cobertos de manchas negras, fumegavam. O meu Príncipe, +enfiado, enxugava uma fotografia de Madame d'Oriol, de ombros +decotados, que o jorro bruto maculara de empolas. E eu, com rancor, +pensava que na minha Guiães a água aquecia em seguras +panelas--e subia ao meu lavatório, pela mão forte da +Catarina, em seguras infusas! Não jantámos com o +duque de Marizac, no Clube. E, na Ópera, nem saboreei +Lohengrin e a sua branca alma e o seu branco cisne e as suas +brancas armas--entalado, aperreado, cortado nos sovacos pela casaca +que Jacinto me emprestara e que rescendia estonteadoramente a +flores de Nessari.<br> + + +<br> + + + +<br> + + +<div class="break"> +<hr></div> + + +<br> + + +<br> + + +No domingo, muito cedo, o Grilo, que na véspera escaldara as +mãos e as trazia embrulhadas em seda, penetrou no meu +quarto, descerrou as <span class="pagenum">[56]</span>cortinas, e +à beira do leito, com o seu radiante sorriso de preto:<br> + + +<br> + + +--Vem no <i>Figaro</i>!<br> + + + +<br> + + +Desdobrou triunfalmente o jornal. Eram, nos <i>Ecos</i>, doze +linhas, onde as nossas águas rugiam e espadavam, com tanta +magnificência e tanta publicidade, que também sorri, +deleitado.<br> + + +<br> + + +--E toda a manhã, o telefone, siô Fernandes! exclamava +o Grilo, rebrilhando em ébano. A quererem saber, a quererem +saber... «Está lá? Está + +escaldado?» Paris aflito, siô Fernandes!<br> + + +<br> + + +O telefone, com efeito, repicava, insaciável. E quando desci +para o almoço, a toalha desaparecia sob uma camada de +telegramas, que o meu Príncipe fendia com a faca, enrugado, +rosnando contra a «maçada». Só +desanuviou, ao ler um desses papéis azuis, que atirou para +cima do meu prato, com o mesmo sorriso agradado com que de +manhã sorríramos, o Grilo e eu:<br> + + + +<br> + + +--É do Grão-Duque Casimiro... Ratão +amável! Coitado!<br> + + +<br> + + +Saboreei, através dos ovos, o telegrama de S. Alteza. +«O quê! o meu Jacinto inundado! Muito chic, nos Campos +Elísios! Não volto ao 202 sem bóia de +salvação! Compassivo abraço! +Casimiro...» Murmurei também<span class="pagenum">[57]</span> com deferência:--«Amável! +Coitado!» Depois, revolvendo lentamente o montão de +telegramas que se alastrava até ao meu copo:<br> + + + +<br> + + +--Oh Jacinto! Quem é esta Diana que incessantemente te +escreve, te telefona, te telegrafa, te...?<br> + + +<br> + + +--Diana?... Diana de Lorge. É uma cocotte. É uma +grande cocotte!<br> + + +<br> + + +--Tua?<br> + + +<br> + + +--Minha, minha... Não! tenho um bocado.<br> + + + +<br> + + +E como eu lamentava que o meu Príncipe, senhor tão +rico e de tão fino orgulho, por economia de uma gamela +própria chafurdasse com outros numa gamela +pública--Jacinto levantou os ombros, com um camarão +espetado no garfo:<br> + + +<br> + + +--Tu vens das serras... Uma cidade como Paris, Zé Fernandes, +precisa ter cortesãs de grande pompa e grande fausto. Ora +para montar em Paris, nesta tremenda carestia de Paris, uma cocotte +com os seus vestidos, os seus diamantes, os seus cavalos, os seus +lacaios, os seus camarotes, as suas festas, o seu palacete, a sua +publicidade, a sua insolência, é necessário que +se agremiem umas poucas de fortunas, se forme um sindicato! Somos +uns sete, no Clube. Eu pago um bocado... Mas meramente por Civismo, +para dotar a cidade com uma cocotte monumental. <span class="pagenum">[58]</span>De resto não chafurdo. Pobre Diana!... +Dos ombros para baixo nem sei se tem a pele cor de neve ou cor de +limão.<br> + + + +<br> + + +Arregalei um olho divertido:<br> + + +<br> + + +--Dos ombros para baixo?... E para cima?<br> + + +<br> + + +--Oh para cima tem pó de arroz!... Mas é uma seca! +Sempre bilhetes, sempre telefones, sempre telegramas. E três +mil francos por mês, além das flores... Uma +maçada!<br> + + + +<br> + + +E as duas rugas do meu Príncipe, aos lados do seu afilado +nariz, curvado sobre a salada, eram como dois vales muito tristes, +ao entardecer.<br> + + +<br> + + +Acabávamos o almoço, quando um escudeiro, muito +discretamente, num murmúrio, anunciou Madame d'Oriol. +Jacinto pousou com tranquilidade o charuto; eu quase me engasguei, +num sorvo alvoroçado de café. Entre os reposteiros de +damasco cor de morango ela apareceu, toda de negro, de um negro +liso e austero de Semana Santa, lançando com o regalo um +lindo gesto para nos sossegar. E imediatamente, numa volubilidade +docemente chalrada:<br> + + +<br> + + +--É um momento, nem se levantem! Passei, ia para a Madalena, +não me contive, quis ver os estragos... Uma +inundação em Paris, nos Campos Elísios! +Não há senão este Jacinto. <span class="pagenum">[59]</span>E vem no <i>Figaro</i>! O que eu estava +assustada, quando telefonei! Imaginem! Água a ferver, como +no Vesúvio... Mas é de uma novidade! E os estofos +perdidos, naturalmente, os tapetes... Estou morrendo por admirar as +ruínas!<br> + + + +<br> + + +Jacinto, que não me pareceu comovido, nem agradecido com +aquele interesse, retomara risonhamente o charuto:<br> + + +<br> + + +--Está tudo seco, minha querida senhora, tudo seco! A beleza +foi ontem, quando a água fumegava e rugia! Ora que pena +não ter ao menos caído uma parede!<br> + + +<br> + + +Mas ela insistia. Nem todos os dias se gozavam em Paris os +destroços de uma inundação. O <i>Figaro</i> + +contara... E era uma aventura deliciosa, uma casa escaldada nos +Campos Elísios!<br> + + +<br> + + +Toda a sua pessoa, desde as plumazinhas que frisavam no +chapéu até à ponta reluzente das botinas de +verniz, se agitava, vibrava, como um ramo tenro sob o boliço +do pássaro a chalrar. Só o sorriso, por trás +do véu espesso, conservava um brilho imóvel. E +já no ar se espalhara um aroma, uma doçura, emanadas +de toda a sua mobilidade e de toda a sua graça.<br> + + + +<br> + + +Jacinto no entanto cedera, alegremente: e pelo corredor Madame +d'Oriol ainda louvava <span class="pagenum">[60]</span>o +<i>Figaro</i> amável, e confessava quanto tremera... Eu +voltei ao meu café, felicitando mentalmente o +Príncipe da Grã-Ventura por aquela perfeita flor de +Civilização que lhe perfumava a vida. Pensei +então na apurada harmonia em que se movia essa flor. E corri +vivamente à antecâmara, verificar diante do espelho o +meu penteado e o nó da minha gravata. Depois recolhi + +à sala de jantar, e junto da janela, folheando languidamente +a <i>Revista do Século XIX</i>, tomei uma atitude de +elegância e de alta cultura. Quase imediatamente eles +reapareceram: e Madame d'Oriol, que, sempre sorrindo, se proclamava +espoliada, nada encontrara que recordasse as águas furiosas, +roçou pela mesa, onde Jacinto procurava, para lhe oferecer, +tangerinas de Malta, ou castanhas geladas, ou um biscoito molhado +em vinho de Tokai.<br> + + +<br> + + +Ela recusava com as mãos guardadas no regalo. Não era +alta, nem forte--mas cada prega do vestido, ou curva da capa, +caía e ondulava harmoniosamente, como +perfeições recobrindo perfeições. Sob o +véu cerrado, apenas percebi a brancura da face empoada, e a +escuridão dos olhos largos. E com aquelas sedas e veludos +negros, e um pouco do cabelo louro, de um louro quente, torcido +fortemente sobre as peles negras que lhe orlavam <span class="pagenum">[61]</span>o pescoço, toda ela derramava uma +sensação de macio e de fino. Eu teimosamente a +considerava como uma flor de Civilização:--e pensava +no secular trabalho e na cultura superior que necessitara o terreno +onde ela tão delicadamente brotara, já desabrochada, +em pleno perfume, mais graciosa por ser flor de esforço e de +estufa, e trazendo nas suas pétalas um não sei +quê de desbotado e de antemurcho.<br> + + + +<br> + + +No entanto, com a sua volubilidade de pássaro, chalrando +para mim, chalrando para Jacinto, ela mostrava o seu lindo espanto +por aquele montão de telegramas sobre a toalha.<br> + + +<br> + + +--Tudo esta manhã, por causa da inundação?... +Ah, Jacinto é hoje o homem, o único homem de Paris! +Muitas mulheres nesses telegramas?<br> + + +<br> + + +Languidamente, com o charuto a fumegar, o meu Príncipe +empurrou para a sua amiga o telegrama do Grão-Duque. +Então Madame d'Oriol teve um <i>ah!</i> muito grave e muito +sentido. Releu profundamente o papel de S. A. que os seus dedos +acariciavam com uma reverência gulosa. E sempre grave, sempre +séria:<br> + + + +<br> + + +--É brilhante!<br> + + +<br> + + +Oh, certamente! naquele desastre tudo <span class="pagenum">[62]</span>se passara com muito brilho, num tom muito +Parisiense. E a deliciosa criatura não se podia demorar, +porque fizera marcar um lugar na igreja da Madalena para o +sermão!<br> + + +<br> + + +Jacinto exclamou com inocência:<br> + + +<br> + + + +--Sermão?... É já a estação dos +sermões?<br> + + +<br> + + +Madame d'Oriol teve um movimento de carinhoso escândalo e +dor. O quê! pois nem na austera casa dos Trèves dera +pela entrada da Quaresma? De resto não se admirava--Jacinto +era um turco! E, imediatamente celebrou o pregador, um frade +dominicano, o Père Granon! Oh de uma eloquência! de +uma violência! No derradeiro sermão pregara sobre o +amor, a fragilidade dos amores mundanos! E tivera coisas de uma +inspiração, de uma brutalidade! Depois que gesto, um +gesto terrível que esmagava, em que se lhe arregaçava +toda a manga, mostrando o braço nu, um braço soberbo, +muito branco, muito forte!<br> + + + +<br> + + +O seu sorriso permanecia claro sob o olhar que negrejara dentro do +véu negro. E Jacinto, rindo:<br> + + +<br> + + +--Um bom braço de director espiritual, hein? Para vergar, +espancar almas...<br> + + +<br> + + +Ela acudiu:<br> + + +<br> + + +--Não! infelizmente o Père Granon não +confessa!<br> + + + +<br> + + +E de repente reconsiderou--aceitava um <span class="pagenum">[63]</span>biscoito, um cálice de Tokai. Era +necessário um cordial para afrontar as emoções +do Père Granon! Ambos nos precipitáramos, um +arrebatando a garrafa, outro oferecendo o prato de bombons. Franziu +o véu para os olhos, chupou à pressa um bolo que +ensopara no Tokai. E como Jacinto, reparando casualmente no +chapéu que ela trazia, se curvara com curiosidade, +impressionado, Madame d'Oriol apagou o sorriso, toda séria, +ante uma coisa séria:<br> + + +<br> + + + +--Elegante, não é verdade?... É uma +criação inteiramente nova de Madame Vial. Muito +respeitoso, e muito sugestivo, agora na Quaresma.<br> + + +<br> + + +O seu olhar, que me envolvera, também me convidava a +admirar. Aproximei o meu focinho de homem das serras para +contemplar essa criação suprema do luxo de Quaresma. +E era maravilhoso! Sobre o veludo, na sombra das plumas frisadas, +aninhada entre rendas, fixada por um prego, pousava delicadamente, +feita de azeviche, uma Coroa de Espinhos!<br> + + +<br> + + +Ambos nos extasiámos. E Madame d'Oriol, num movimento e num +sorriso que derramou mais aroma e mais claridade, abalou para a +Madalena.<br> + + + +<br> + + +O meu Príncipe arrastou pelo tapete alguns <span class="pagenum">[64]</span>passos pensativos e moles. E bruscamente, +levantando os ombros com uma determinação imensa, +como se deslocasse um mundo:<br> + + +<br> + + +--Oh Zé Fernandes, vamos passar este Domingo nalguma coisa +simples e natural...<br> + + +<br> + + +--Em quê?<br> + + +<br> + + + +Jacinto circungirou os olhares muito abertos, como se, +através da Vida Universal, procurasse ansiosamente uma coisa +natural e simples. Depois, descansando sobre mim os mesmos largos +olhos que voltavam de muito longe, cansados e com pouca +esperança:<br> + + +<br> + + +--Vamos ao Jardim das Plantas, ver a girafa!<br> + + +<br> + + +<br> + + +<br> + + +<h2>IV</h2> + + +<br> + + +<br> + + +Nessa fecunda semana, uma noite, recolhíamos ambos da +Ópera, quando Jacinto, bocejando, me anunciou uma festa no +202.<br> + + + +<br> + + +--Uma festa?...<br> + + +<br> + + +--Por causa do Grão-Duque, coitado, que me vai mandar um +peixe delicioso e muito raro que se pesca na Dalmácia. Eu +queria um almoço curto. O Grão-Duque reclamou uma +ceia. É um bárbaro, besuntado com literatura do +século XVIII, que ainda acredita em ceias, em Paris! +Reúno no domingo três ou quatro mulheres, e uns dez +homens bem típicos, para o divertir. Também +aproveitas. Folheias Paris num resumo... Mas é uma +maçada amarga!<br> + + + +<br> + + +Sem interesse pela sua festa, Jacinto não se afadigou em a +compor com relevo ou brilho. Encomendou apenas uma orquestra de +Tziganes (os Tziganes, as suas jalecas escarlates; <span class="pagenum">[66]</span>a melancolia áspera das Czardas ainda +nesses tempos remotos emocionavam Paris): e mandou, na Biblioteca, +ligar o Teatrofone com a Ópera, com a Comédia +Francesa, com o Alcazar e com os Bufos, prevendo todos os gostos +desde o trágico até ao pícaro. Depois no +domingo, ao entardecer, ambos visitámos a mesa da ceia, que +resplandecia com as velhas baixelas de D. Galeão. E a +faustosa profusão de orquídeas, em longas silvas por +sobre a toalha bordada a seda, enroladas aos fruteiros de Saxe, +transbordando de cristais lavrados e filagranados de ouro, +espalhava uma tão fina sensação de luxo e +gosto, que eu murmurei:--«Caramba, bendito, seja o +dinheiro!» Pela primeira vez, também, admirei a copa e +a sua instalação abundante e minuciosa--sobretudo os +dois ascensores que rolavam das profundidades da cozinha, um para +os peixes e carnes aquecido por tubos de água fervente, o +outro para as saladas e gelados revestido de placas +frigoríficas. Oh, este 202!<br> + + + +<br> + + +Às nove horas, porém, descendo eu ao gabinete de +Jacinto para escrever a minha boa tia Vicência, enquanto ele +ficara no toucador com o manicuro que lhe polia as unhas, +passámos nesse delicioso palácio, florido e em gala, +por bem corriqueiro susto! <span class="pagenum">[67]</span>Todos +os lumes eléctricos, subitamente, em todo o 202, se +apagaram! Na minha imensa desconfiança daquelas +forças universais, pulei logo para a porta, +tropeçando nas trevas, ganindo um <i>Aqui d'El-Rei!</i> que +tresandava a Guiães. Jacinto em cima berrava, com o manicuro +agarrado ao pijama. E de novo, como serva ralaça que recolhe +arrastando as chinelas, a luz ressurgiu com lentidão. Mas o +meu Príncipe, que descera, enfiado, mandou buscar um +engenheiro à Companhia Central da Electricidade +Doméstica. Por precaução outro criado correu + +à mercearia comprar pacotes de velas. E o Grilo desenterrava +já dos armários os candelabros abandonados, os +pesados castiçais arcaicos dos tempos incientíficos +de D. Galeão: era uma reserva de veteranos fortes, para o +caso pavoroso em que mais tarde, à ceia, falhassem +perfidamente as forças bisonhas da +Civilização. O Electricista, que acudira esbaforido, +afiançou porém que a Electricidade se conservaria +fiel, sem outro amuo. Eu, cautelosamente, soneguei na algibeira +dois cotos de estearina.<br> + + +<br> + + +A Electricidade permaneceu fiel, sem amuos. E quando desci do meu +quarto, tarde (porque perdera o colete de baile e só depois +de uma busca furiosa e praguejada o encontrei caído por +trás da cama!), todo <span class="pagenum">[68]</span>o 202 +refulgia, e os Tziganes, na antecâmara, sacudindo as +guedelhas, atiravam as arcadas de uma valsa tão arrastadora +que, pelas paredes, os imensos Personagens das tapeçarias, +Príamo, Nestor, o engenhoso Ulisses, arfavam, buliam com os +pés venerandos!<br> + + + +<br> + + +Timidamente, sem rumor, puxando os punhos, penetrei no gabinete de +Jacinto. E fui logo acolhido pelo sorriso da condessa de +Trèves, que, acompanhada pelo ilustre historiador Danjon (da +Academia Francesa), percorria maravilhada os Aparelhos, os +Instrumentos, toda a sumptuosa Mecânica do meu +supercivilizado Príncipe. Nunca ela me parecera mais +majestosa do que naquelas sedas cor de açafrão, com +rendas cruzadas no peito à Maria Antonieta, o cabelo crespo +e ruivo levantado em rolo sobre a testa dominadora, e o curvo nariz +patrício, abrigando o sorriso sempre luzidio, sempre +corrente, como um arco abriga o correr e o luzir de um regato. +Direita como num sólio, a longa luneta de tartaruga acercada +dos olhos miúdos e turvamente azulados, ela escutava diante +do Grafofono, depois diante do Microfono, como melodias superiores, +os comentários que o meu Jacinto ia atabalhoando com uma +amabilidade penosa. E ante cada roda, cada mola, eram pasmos, +louvores finamente torneados, <span class="pagenum">[69]</span>em +que atribuía a Jacinto, com astuta candura, todas aquelas +invenções do Saber! Os utensílios misteriosos +que atulhavam a mesa de ébano foram para ela uma +iniciação que a enlevou. Oh, o «numerador de +páginas»! oh, o «colador de estampilhas»! +A carícia demorada dos seus dedos secos aquecia os metais. E +suplicava os endereços dos fabricantes para se prover de +todas aquelas utilidades adoráveis! Como a vida, assim +apetrechada, se tornava escorregadia e fácil! Mas era +necessário o talento, o gosto de Jacinto, para escolher, +para «criar!» E não só ao meu amigo (que +o recebia com resignação) ela ofertava o fino mel. +Afagando com o cabo da luneta o Telégrafo, achou a +possibilidade de recordar a eloquência do Historiador. Mesmo +para mim (de quem ignorava o nome) arranjou junto do +Fonógrafo, e acerca de «vozes de amigos que é + +doce coleccionar», uma lisonjazinha redondinha e lustrosa, +que eu chupei como um rebuçado celeste. Boa casaleira que +vai atirando o grão aos frangos famintos, a cada passo, +maternalmente, ela nutria uma vaidade. Sôfrego de outro +rebuçado, acompanhei a sua cauda sussurrante e cor de +açafrão. Ela parara diante da Máquina de +contar, de que Jacinto já lhe fornecera pacientemente uma +explicação sapiente. <span class="pagenum">[70]</span>E de novo roçou os buracos de onde +espreitam os números negros, e com o seu enlevado sorriso +murmurou:--«Prodigiosa, esta prensa +eléctrica!...»<br> + + + +<br> + + +Jacinto acudiu:<br> + + +<br> + + +--Não! Não! Esta é...<br> + + +<br> + + +Mas ela sorria, seguia... Madame de Trèves não +compreendera nenhum aparelho do meu Príncipe! Madame de +Trèves não atendera a nenhuma +dissertação do meu Príncipe! Naquele gabinete +de sumptuosa Mecânica ela somente se ocupara em exercer, com +proveito e com perfeição, a Arte de Agradar. Toda ela +era uma sublime falsidade. Não escondi a Danjon a +admiração que me penetrava.<br> + + + +<br> + + +O facundo Académico revirou os olhos bogalhudos:<br> + + +<br> + + +--Oh! e um gosto, uma inteligência, uma +sedução!... E depois como se janta bem em casa dela! +Que café!... Mulher superior, meu caro senhor, +verdadeiramente superior!<br> + + +<br> + + +Deslizei para a biblioteca. Logo à entrada da erudita nave, +junto da estante dos Padres da Igreja onde alguns cavalheiros +conversavam, parei a saudar o director do <i>Boulevard</i>e o +Psicólogo feminista, o autor do <i>Coração +Triplo</i>, com quem na véspera me familiarizara ao +almoço, no 202. O seu acolhimento foi paternal: e, como se +necessitasse a minha<span class="pagenum">[71]</span> + +presença, reteve na sua mão ilustre, rutilante de +anéis, com força e com gula, a minha grossa palma +serrana. Todos aqueles senhores, com efeito, celebravam o seu +Romance, a <i>Couraça</i>, lançado nessa semana entre +gritinhos de gozo e um quente rumor de saias alvoroçadas. Um +sobretudo, com uma vasta cabeça arranjada à Van Dick +e que parecia postiça, proclamava, alçado na ponta +das botas, que nunca penetrara tão fundamente, na velha alma +humana, a ponta da Psicologia Experimental! Todos concordavam, se +apertavam contra o Psicólogo, o tratavam por + +«mestre». Eu mesmo, que nem sequer entrevira a capa +amarela da <i>Couraça</i>, mas para quem ele voltava os +olhos pedinchões e famintos de mais mel, murmurei com um +leve assobio:--«uma delícia!»<br> + + +<br> + + +E o Psicólogo, reluzindo, com o lábio húmido, +entalado num alto colarinho onde se enroscava uma gravata à +1830, confessava modestamente que dissecara todas aquelas almas da +<i>Couraça</i> com «algum cuidado», sobre +documentos, sobre pedaços de vida ainda quentes, ainda a +sangrar... E foi então que Marizac, o duque de Marizac, +notou, com um sorriso mais afiado que um lampejo de navalha, e sem +tirar as mãos dos bolsos:<br> + + + +<br> + + +--No entanto, meu caro, nesse livro tão <span class="pagenum">[72]</span>profundamente estudado há um erro bem +estranho, bem curioso!...<br> + + +<br> + + +O Psicólogo, vivamente, atirara a cabeça para +trás:<br> + + +<br> + + +--Um erro?<br> + + + +<br> + + +Oh, sim, um erro! E bem inesperado num mestre tão +experiente!... Era atribuir à esplêndida amorosa da +<i>Couraça</i>, uma duquesa, e do gosto mais puro,--<i>um +colete de cetim preto</i>! Esse colete, assim preto, de cetim, +aparecia na bela página de análise e paixão em +que ela se despia no quarto de Rui d'Alize. E Marizac, sempre com +as mãos nos bolsos, mais grave, apelava para aqueles +senhores. Pois era verosímil, numa mulher como a duquesa, +estética, pré-rafaelítica, que se vestia no +Doucet, no Paquin, nos costureiros intelectuais, um colete de cetim +preto?<br> + + + +<br> + + +O Psicólogo emudecera, colhido, trespassado! Marizac era uma +tão suprema autoridade sobre a roupa íntima das +duquesas, que à tarde, em quartos de rapazes, por impulsos +idealistas e anseios de alma dolorida--se põem em colete e +saia branca!... De resto o director do <i>Boulevard</i> condenara +logo sem piedade, com uma experiência firme, aquele colete, +só possível nalguma merceeira atrasada que ainda +procurasse efeitos <span class="pagenum">[73]</span>de carne +nédia sobre cetim negro. E eu, para que me não +julgassem alheio às coisas dos adultérios ducais e do +luxo, acudi, metendo os dedos pelo cabelo:<br> + + + +<br> + + +--Realmente, preto, só se estivesse de luto pesado, pelo +pai!<br> + + +<br> + + +O pobre mestre da <i>Couraça</i> sucumbira. Era a sua +glória de Doutor em Elegâncias Femininas +desmantelada--e Paris supondo que ele nunca vira uma duquesa +desatacar o colete na sua alcova de Psicólogo! Então, +passando o lenço sobre os lábios que a +angústia ressequira, confessou o erro, e contritamente o +atribuiu a uma improvisação tumultuosa:<br> + + + +<br> + + +--Foi um tom falso, um tom perfeitamente falso que me escapou!... +Com efeito! é absurdo, um colete preto!... Mesmo por +harmonia com o estado da alma da duquesa devia ser lilás, +talvez cor de reseda muito desmaiada, com um frouxo de rendas +antigas de Malines... É prodigioso como me escapou! Pois +tenho o meu caderno de entrevistas bem anotadas, bem +documentadas!...<br> + + +<br> + + +Na sua amargura, terminou por suplicar a Marizac que espalhasse por +toda a parte, no Clube, nas salas, a sua confissão. Fora um +engano de artista, que trabalha na febre, vasculhando as almas, +perdido nas profundidades <span class="pagenum">[74]</span>negras +das almas! Não reparara no colete, confundira os tons... E +gritou, com os braços estendidos para o director do +<i>Boulevard</i>:<br> + + + +<br> + + +--Estou pronto a fazer uma rectificação, numa +<i>interview</i>, meu caro mestre! Mande um dos seus redactores... +Amanhã, às dez horas! Fazemos uma <i>interview</i>, +fixamos a cor. Evidentemente é lilás... Mande um dos +seus homens, meu caro mestre! É também uma +ocasião para eu confessar, bem alto, os serviços que +o <i>Boulevard</i> tem feito às ciências +psicológicas e feministas!<br> + + + +<br> + + +Assim ele suplicava, encostado à estante, às lombadas +dos Santos Padres. E eu abalei, vendo ao fundo da Biblioteca +Jacinto que se debatia e se recusava entre dois homens.<br> + + +<br> + + +Eram os dois homens de Madame de Trèves--o marido, conde de +Trèves, descendente dos reis de Cândia, e o amante, o +terrível banqueiro judeu, David Efraim. E tão +enfronhadamente assaltavam o meu Príncipe que nem me +reconheceram, ambos num aperto de mão mole e vago me +trataram por «caro conde»! Num relance, rebuscando +charutos sobre a mesa de limoeiro, compreendi que se tramava a + +<i>Companhia das Esmeraldas da Birmânia</i>, medonha empresa +em que cintilavam milhões, e para que os dois confederados +<span class="pagenum">[75]</span>de bolsa e de alcova, desde o +começo do ano, pediam o nome, a influência, o dinheiro +de Jacinto. Ele resistira, num enfado dos negócios, +desconfiado daquelas esmeraldas soterradas num vale da Ásia. +E agora o conde de Trèves, um homem esgrouviado, de face +rechupada, eriçada de barba rala, sob uma fronte rotunda e +amarela como um melão, assegurava ao meu pobre +Príncipe que no Prospecto já preparado, demonstrando +a grandeza do negócio, perpassava um fulgor das <i>Mil e Uma +Noites</i>. Mas sobretudo aquela escavação de +esmeraldas convidava todo o espírito culto pela sua +acção civilizadora. Era uma corrente de ideias +ocidentais, invadindo, educando a Birmânia. Ele aceitara a +direcção por patriotismo...<br> + + + +<br> + + +--De resto é um negócio de jóias, de arte, de +progresso, que deve ser feito, num mundo superior, entre +amigos...<br> + + +<br> + + +E do outro lado o terrível Efraim, passando a mão +curta e gorda sobre a sua bela barba, mais frisada e negra que a de +um Rei Assírio, afiançava o triunfo da empresa pelas +grossas forças que nela entravam, os Nagayers, os Bolsans, +os Saccart...<br> + + +<br> + + +Jacinto franzia o nariz, enervado:<br> + + + +<br> + + +--Mas, ao menos, estão feitos os estudos? Já se +provou que há esmeraldas?<br> + + +<br> + + +<span class="pagenum">[76]</span>Tanta ingenuidade exasperou +Efraim:<br> + + +<br> + + +--Esmeraldas! Está claro que há esmeraldas!... +Há sempre esmeraldas desde que haja accionistas!<br> + + + +<br> + + +E eu admirava a grandeza daquela máxima--quando apareceu, +esbaforido, desdobrando o lenço muito perfumado, um dos +familiares do 202, Todelle (António de Todelle), moço +já calvo, de infinitas prendas, que conduzia Cotillons, +imitava cantores de Café Concerto, temperava saladas raras, +conhecia todos os enredos de Paris.<br> + + +<br> + + +--Já veio?... Já cá está o +Grão-Duque?<br> + + + +<br> + + +Não, S. Alteza ainda não chegara. E Madame de +Todelle?<br> + + +<br> + + +--Não pôde... No sofá... Esfolou uma perna.<br> + + +<br> + + +--Oh!<br> + + +<br> + + +--Quase nada... Caiu do velocípede!<br> + + + +<br> + + +Jacinto, logo interessado:<br> + + +<br> + + +--Ah! Madame de Todelle anda já de velocípede?<br> + + +<br> + + +--Aprende. Nem tem velocípede!... Agora, na Quaresma, +é que se aplicou mais, no velocípede do padre +Ernesto, do cura de S. José! Mas ontem, no Bosque, +zás, terra!... Perna esfolada. Aqui.<br> + + + +<br> + + +E na sua própria coxa, com a unha, vivamente, desenhou o +esfolão. Efraim, brutal e <span class="pagenum">[77]</span>sério, murmurou:--«Diabo! +é no melhor sítio!» Mas Todelle nem o escutara, +correndo para o director do <i>Boulevard</i>, que se +avançava, lento e barrigudo, com o seu monóculo negro +semelhante a um pacho. Ambos se colaram contra uma estante, num +cochichar profundo.<br> + + + +<br> + + +Jacinto e eu entrámos então no bilhar, forrado de +velhos couros de Córdova, onde se fumava. Ao canto de um +divã, o grande Dornan, o poeta neoplatónico e +místico, o Mestre subtil de todos os ritmos, espapado nas +almofadas, com um dos pés sob a coxa gorda, como um Deus +índio, dois botões do colete desabotoados, a papeira +caída sobre o largo decote do colarinho, mamava +majestosamente um imenso charuto. Ao pé dele, também +sentado, um velho que eu nunca encontrara no 202, esbelto, de +cabelos brancos em anéis passados por trás das +orelhas, a face coberta de pó de arroz, um bigodinho muito +negro e arrebitado, findara certamente alguma história de +bom e grosso sal--porque diante do divã, de pé, +Joban, o supremo Crítico de Teatro, ria com a calva +escarlate de gozo, e um moço muito ruivo (descendente de +Coligny), de perfil de periquito, sacudia os braços curtos +como asas, e gania: «delicioso! divino!» Só o +poeta idealista permanecera impassível, na sua majestade +obesa. <span class="pagenum">[78]</span>Mas, quando nos +acercámos, esse Mestre do ritmo perfeito, depois de soprar +uma farta fumarada e me saudar com um pesado mover das +pálpebras, começou numa voz de rico e sonoro +metal:<br> + + + +<br> + + +--Há melhor, há infinitamente melhor... Todos aqui +conhecem Madame Noredal. Madame Noredal tem umas imensas +nádegas...<br> + + +<br> + + +Desgraçadamente para o meu regalo Todelle invadiu o bilhar, +reclamando Jacinto com alarido. Eram as senhoras que desejavam +ouvir no Fonógrafo uma ária da Patti! O meu amigo +sacudiu logo os ombros, numa surda irritação:<br> + + +<br> + + +--Ária da Patti... Eu sei lá! Todos esses rolos +estão em confusão. Além disso o +Fonógrafo trabalha mal. Nem trabalha! Tenho três. +Nenhum trabalha!<br> + + + +<br> + + +--Bem! exclamou alegremente Todelle. Canto eu a <i>Pauvre +fille</i>... É mais de ceia! <i>Oh, la pauv', pauv', +pauv'</i>...<br> + + +<br> + + +Travou do meu braço, e arrastou a minha timidez serrana para +o salão cor de rosa murcha, onde, como Deusas num +círculo escolhido do Olimpo, resplandeciam Madame d'Oriol, +Madame Verghane, a princesa de Carman, e uma outra loura, com +grandes brilhantes nas grandes farripas, e de ombros tão +nus, e braços tão nus, e peitos tão nus, que o +seu vestido <span class="pagenum">[72]</span> branco com bordados +de ouro pálido parecia uma camisa, a escorregar. +Impressionado, ainda retive Todelle, rugi baixinho:--«Quem + +é?» Mas já o festivo homem correra para Madame +d'Oriol, com quem riam, numa familiaridade superior e fácil, +Marizac (o duque de Marizac) e um moço de barba cor de milho +e mais leve que uma penugem, que se balouçava gracilmente +sobre os pés, como uma espiga ao vento. E eu, encalhado +contra o piano, esfregava lentamente as mãos, amassando o +meu embaraço, quando Madame Verghane se ergueu do +sofá onde conversava com um velho (que tinha a +Grã-Cruz de Santo André), e avançou, deslizou +no tapete, pequena e nédia, na sua copiosa cauda de veludo +verde-negro. Tão fina era a cinta, entre os encontros +fecundos e a vastidão do peito, todo nu e cor de +nácar, que eu receava que ela partisse pelo meio, no seu +lento ondular. Os seus famosos bandós negros, de um negro +furioso, inteiramente lhe tapavam as orelhas; e, no grande aro de +ouro que os circundava, reluzia uma estrela de brilhantes, como na +fronte dos anjos de Boticelli. Conhecendo sem dúvida a minha +autoridade no 202, ela despediu sobre mim ao passar, como raio +benéfico, um sorriso que lhe liquescia mais os olhos +líquidos, e murmurou:<br> + + + +<br> + + +<span class="pagenum">[80]</span>--O Grão-Duque vem, com +certeza?<br> + + +<br> + + +--Oh com certeza, minha senhora, para o peixe!<br> + + +<br> + + +--P'ra o peixe?...<br> + + +<br> + + +Mas justamente, na antecâmara, rompeu, em rufos e arcadas +triunfais, a marcha de Rakoczy. Era ele! Na Biblioteca, o nosso +retumbante mordomo anunciava:<br> + + +<br> + + +--S. Alteza o Grão-Duque Casimiro!<br> + + + +<br> + + +Madame de Verghane, com um curto suspiro de emoção, +alteou o peito, como para lhe expor melhor a magnificência +ebúrnea. E o homem do <i>Boulevard</i>, o velho da +Grã-Cruz, Efraim, quase me empurraram, investindo para a +porta, na imensa sofreguidão de Pessoa Real.<br> + + +<br> + + +Precedido por Jacinto, o Grão-Duque surgiu. Era um possante +homem, de barba em bico, já grisalha, um pouco calvo. +Durante um momento hesitou, com um balanço lento sobre os +pés pequeninos, calçados de sapatos rasos, quase +sumidos sob as pantalonas muito largas. Depois, pesado e risonho, +veio apertar a mão às senhoras que mergulhavam nos +veludos e sedas, em mesuras de Corte. E imediatamente, batendo com +carinhosa jovialidade no ombro de Jacinto:<br> + + + +<br> + + +--E o peixe?... Preparado pela receita que mandei, hein?<br> + + +<br> + + +<span class="pagenum">[81]</span>Um murmúrio de Jacinto +tranquilizou S. Alteza.<br> + + +<br> + + +--Ainda bem, ainda bem! exclamou ele, no seu vozeirão de +comando. Que eu não jantei, absolutamente não jantei! +É que se está jantando deploravelmente em casa do +Joseph. Mas porque se vai jantar ainda ao Joseph? Sempre que chego +a Paris, pergunto: «Onde é que se janta agora?» + +Em casa do Joseph!... Qual! não se janta! Hoje, por exemplo, +galinholas... Uma peste! Não tem, não tem a +noção da galinhola!<br> + + +<br> + + +Os seus olhos azulados, de um azul sujo, rebrilhavam, alargados +pela indignação:<br> + + +<br> + + +--Paris está perdendo todas as suas superioridades. +Já se não janta, em Paris!<br> + + + +<br> + + +Então, em redor, aqueles senhores concordaram, desolados. O +conde de Trèves defendeu o Bignon, onde se conservavam +nobres tradições. E o director do <i>Boulevard</i>, +que se empurrava todo para S. Alteza, atribuía a +decadência da cozinha, em França, à +República, ao gosto democrático e torpe pelo +barato.<br> + + +<br> + + +--No Paillard, todavia...--começou o Efraim.<br> + + + +<br> + + +--No Paillard! gritou logo o Grão-Duque. Mas os Borgonhas +são tão maus! os Borgonhas são tão +maus!...<br> + + +<br> + + +<span class="pagenum">[82]</span>Deixara pender os braços, +os ombros, descoroçoado. Depois, com o seu lento andar +balançado como o de um velho piloto, atirando um pouco para +trás as lapelas da casaca, foi saudar Madame d'Oriol, que +toda ela faiscou, no sorriso, nos olhos, nas jóias, em cada +prega das suas sedas cor de salmão. Mas apenas a clara e +macia criatura, batendo o leque como uma asa alegre, +começara a chalrar, S. Alteza reparou no aparelho do +Teatrofone, pousado sobre uma mesa entre flores, e chamou +Jacinto:<br> + + + +<br> + + +--Em comunicação com o Alcazar?... O Teatrofone?<br> + + +<br> + + +--Certamente, meu senhor.<br> + + +<br> + + +Excelente! Muito chic! Ele ficara com pena de não ouvir a +Gilberte numa cançoneta nova, as <i>Casquettes</i>. Onze e +meia! Era justamente a essa hora que ela cantava, no último +acto da <i>Revista Eléctrica</i>...--Colou às orelhas +os dois «receptores» do Teatrofone, e quedou embebido, +com uma ruga séria na testa dura. De repente, num comando +forte:<br> + + + +<br> + + +--É ela! Chut! Venham ouvir!... É ela! Venham todos! +Princesa de Carman, para aqui! Todos! É ela! Chut...<br> + + +<br> + + +Então, como Jacinto instalara prodigamente dois Teatrofones, +cada um provido de doze fios, as senhoras, todos aqueles +cavalheiros, <span class="pagenum">[83]</span>se apressaram a +acercar submissamente um receptor do ouvido, e a permanecer +imóveis para saborear <i>Les Casquettes</i>. E no +salão cor de rosa murcha, na nave da Biblioteca, onde se +espalhara um silêncio augusto, só eu fiquei desligado +do Teatrofone, com as mãos nas algibeiras e ocioso.<br> + + + +<br> + + +No relógio monumental, que marcava a hora de todas as +Capitais e o movimento de todos os Planetas, o ponteiro rendilhado +adormeceu. Sobre a mudez e a imobilidade pensativa daqueles dorsos, +daqueles decotes, a Electricidade refulgia com uma tristeza de sol +regelado. E de cada orelha atenta, que a mão tapava, pendia +um fio negro, como uma tripa. Dornan, esboroado sobre a mesa, +cerrara as pálpebras, numa meditação de monge +obeso. O historiador dos Duques de Anjou, com o +«receptor» na ponta delicada dos dedos, erguendo o +nariz agudo e triste, gravemente cumpria um dever palaciano. Madame +d'Oriol sorria, toda lânguida, como se o fio lhe murmurasse +doçuras. Para desentorpecer arrisquei um passo +tímido. Mas caiu logo sobre mim um <i>chut</i> severo do +Grão-Duque! Recuei para entre as cortinas da janela, a +abrigar a minha ociosidade. O Filólogo da + +<i>Couraça</i>, distante da mesa, com o seu comprido fio +esticado, mordia o beiço, num esforço de +penetração. <span class="pagenum">[84]</span>A +beatitude de S. Alteza, enterrado numa vasta poltrona, era +perfeita. Ao lado o colo de Madame Verghane arfava como uma onda de +leite. E o meu pobre Jacinto, numa aplicação +conscienciosa, pendia sobre o Teatrofone tão tristemente +como sobre uma sepultura.<br> + + +<br> + + +Então, ante aqueles seres de superior +civilização, sorvendo num silêncio devoto as +obscenidades que a Gilberte lhes gania, por debaixo do solo de +Paris, através de fios mergulhados nos esgotos, cingidos aos +canos das fezes,--pensei na minha aldeia adormecida. O crescente de +lua, que, seguido de uma estrelinha, corria entre nuvens sobre os +telhados e as chaminés negras dos Campos Elísios, +também andava lá fugindo, mais lustrosa e mais doce, +por cima dos pinheirais. As rãs coaxavam ao longe no Pego da +Dona. A ermidinha de S. Joaquim branquejava no cabeço, +nuazinha e cândida...<br> + + + +<br> + + +Uma das senhoras murmurou:<br> + + +<br> + + +--Mas, não é a Gilberte!...<br> + + +<br> + + +E um dos homens:<br> + + +<br> + + +--Parece um cornetim...<br> + + +<br> + + +--Agora são palmas...<br> + + + +<br> + + +--Não, é o Paulin!<br> + + +<br> + + +O Grão-Duque lançou um <i>chut</i> feroz... No +pátio da nossa casa ladravam os cães. De além +<span class="pagenum">[85]</span>do ribeiro respondiam os +cães do João Saranda. Como me encontrei descendo por +uma quelha, sob as ramadas, com o meu varapau ao ombro? E sentia, +entre a seda das cortinas, num fino ar macio, o cheiro das pinhas +estalando nas lareiras, o calor dos currais através das +sebes altas, e o sussurro dormente das levadas...<br> + + + +<br> + + +Despertei a um brado que não saía nem dos eidos, nem +das sombras. Era o Grão-Duque que se erguera, encolhia +furiosamente os ombros:<br> + + +<br> + + +--Não se ouve nada!... Só guinchos! E um zumbido! Que +maçada!... Pois é uma beleza, a cançoneta:<br> + + +<br> + + + +<div class="break">Oh les casquettes,<br> + + +Oh les casque-e-e-tes!...</div> + + +<br> + + +Todos largaram os fios--proclamavam a Gilberte deliciosa. E o +mordomo bendito, abrindo largamente os dois batentes, anunciou:<br> + + +<br> + + +--<i>Monseigneur est servi</i>!<br> + + +<br> + + +Na mesa, que pelo esplendor das orquídeas mereceu os +louvores ruidosos de S. Alteza, fiquei entre o etéreo poeta +Dornan e aquele moço de penugem loura que balouçava +como uma espiga ao vento. Depois de <span class="pagenum">[86]</span> desdobrar o guardanapo, de o acomodar +regaladamente sobre os joelhos, Dornan desenvencilhou da corrente +do relógio uma enorme luneta para percorrer o + +<i>menu</i>--que aprovou. E inclinando para mim a sua face de +Apóstolo obeso:<br> + + +<br> + + +--Este Porto de 1834, aqui em casa do Jacinto, deve ser +autêntico... Hein?<br> + + +<br> + + +Assegurei ao Mestre dos Ritmos que o «Porto» +envelhecera nas adegas clássicas do avô Galeão. +Ele afastou, numa preparação metódica, os +longos, densos fios do bigode que lhe cobriam a boca grossa. Os +escudeiros serviram um consommé frio com trufas. E o +moço cor de milho, que espalhara pela mesa o seu olhar azul +e doce, murmurou, com uma desconsolação risonha:<br> + + + +<br> + + +--Que pena!... Só falta aqui um general e um bispo!<br> + + +<br> + + +Com efeito! Todas as Classes Dominantes comiam nesse momento as +trufas do meu Jacinto... Mas defronte Madame d'Oriol lançara +um riso mais cantado que um gorjeio. O Grão-Duque, numa +silva de orquídeas que orlava o seu talher, notara uma, +sombriamente horrenda, semelhante a um lacrau esverdinhado, de asas +lustrosas, gordo e túmido de veneno: e muito delicadamente +ofertara a flor monstruosa a Madame d'Oriol, que, com trinado +<span class="pagenum">[87]</span>riso, solenemente, a colocou no +seio. Colado àquela carne macia, de uma brancura de nata +fina, o lacrau inchara, mais verde, com as asas frementes. Todos os +olhos se acendiam, se cravavam no lindo peito, a que a flor +disforme, de cor venenosa, apimentava o sabor. Ela reluzia, +triunfava. Para ajeitar melhor a orquídea os seus dedos +alargaram o decote, aclararam belezas, guiando aquelas curiosidades +flamejantes que a despiam. A face vincada de Jacinto pendia para o +prato vazio. E o alto lírico do <i>Crepúsculo +Místico</i>, passando a mão pelas barbas, rosnou com +desdém:<br> + + + +<br> + + +--Bela mulher... Mas ancas secas, e aposto que não tem +nádegas!<br> + + +<br> + + +No entanto o moço de loura penugem voltara à sua +estranha mágoa. Não possuirmos um general com a sua +espada, e um bispo com seu báculo!...<br> + + +<br> + + +--Para quê, meu caro senhor?<br> + + + +<br> + + +Ele atirou um gesto suave em que todos os seus anéis +faiscaram:<br> + + +<br> + + +--Para uma bomba de dinamite... Temos aqui um esplêndido +ramalhete de flores de Civilização, com um +Grão-Duque no meio. Imagine uma bomba de dinamite, atirada +da porta!... Que belo fim de ceia, num fim de século!<br> + + +<br> + + +<span class="pagenum">[88]</span>E como eu o considerava +assombrado, ele, bebendo golos de Chateau-Yquem, declarou que hoje +a única emoção, verdadeiramente fina, seria +aniquilar a Civilização. Nem a ciência, nem as +artes, nem o dinheiro, nem o amor, podiam já dar um gosto +intenso e real às nossas almas saciadas. Todo o prazer que +se extraíra de <i>criar</i> estava esgotado. Só + +restava, agora, o divino prazer de <i>destruir</i>!<br> + + +<br> + + +Desenrolou ainda outras enormidades, com um riso claro nos olhos +claros. Mas eu não atendia o gentil pedante, colhido por +outro cuidado--reparando que em torno, subitamente, todo o +serviço estacara como no conto do Palácio +Petrificado. E o prato agora devido era o peixe famoso da +Dalmácia, o peixe de S. Alteza, o peixe inspirador da festa! +Jacinto, nervoso, esmagava entre os dedos uma flor. E todos os +escudeiros sumidos!<br> + + +<br> + + +Felizmente o Grão-Duque contava a história de uma +caçada, nas coutadas de Sarvan, em que uma senhora, mulher +de um banqueiro, saltara bruscamente do cavalo, num descampado, sem +árvores. Ele e todos os caçadores param--e a galante +senhora, lívida, com a amazona arregaçada, corre para +trás de uma pedra... Mas nunca soubemos em que se ocupava a +banqueira, nesse descampado, agachada atrás da pedra--porque +justamente <span class="pagenum">[89]</span>o mordomo apareceu, +reluzente de suor, e balbuciou uma confidência a Jacinto, que +mordeu o beiço, trespassado. O Grão-Duque emudecera. +Todos se entreolhavam, numa ansiedade alegre. Então o meu +Príncipe, com paciência, com heroicidade, +forçando palidamente o sorriso:<br> + + + +<br> + + +--Meus amigos, há uma desgraça...<br> + + +<br> + + +Dornan pulou na cadeira:<br> + + +<br> + + +--Fogo?<br> + + +<br> + + +Não, não era fogo. Fora o elevador dos pratos, que +inesperadamente, ao subir o peixe de S. Alteza, se desarranjara, e +não se movia, encalhado!<br> + + + +<br> + + +O Grão-Duque arremessou o guardanapo. Toda a sua polidez +estalava como um esmalte mal posto:<br> + + +<br> + + +--Essa é forte!... Pois um peixe que me deu tanto trabalho! +Para que estamos nós aqui então a cear? Que +estupidez! E porque o não trouxeram à mão, +simplesmente? Encalhado... Quero ver! Onde é a copa?<br> + + + +<br> + + +E, furiosamente, investiu para a copa, conduzido pelo mordomo que +tropeçava, vergava os ombros, ante esta esmagadora +cólera de Príncipe. Jacinto seguiu, como uma sombra, +levado na rajada de S. Alteza. E eu não me contive, +também me atirei para a copa, a contemplar <span class="pagenum">[90]</span>o desastre, enquanto Dornan, batendo na coxa, +clamava que se ceasse sem peixe!<br> + + +<br> + + +O Grão-Duque lá estava, debruçado sobre o +poço escuro do elevador, onde mergulhara uma vela que lhe +avermelhava mais a face esbraseada. Espreitei, por sobre o seu +ombro real. Em baixo, na treva, sobre uma larga prancha, o peixe +precioso alvejava, deitado na travessa, ainda fumegando, entre +rodelas de limão. Jacinto, branco como a gravata, torturava +desesperadamente a mola complicada do ascensor. Depois foi o +Grão-Duque que, com os pulsos cabeludos, atirou um +empuxão tremendo aos cabos em que ele rolava. Debalde! O +aparelho enrijara numa inércia de bronze eterno.<br> + + + +<br> + + +Sedas roçagaram à entrada da copa. Era Madame +d'Oriol, e atrás Madame Verghane, com os olhos a faiscar, na +curiosidade daquele lance em que o Príncipe soltara tanta +paixão. Marizac, nosso íntimo, surgiu também, +risonho, propondo uma descida ao poço com escadas. Depois +foi o Psicólogo, que se abeirou, psicologou, atribuindo +intenções sagazes ao peixe que assim se recusava. E a +cada um o Grão-Duque, escarlate, mostrava com dedo +trágico, no fundo da cova, o seu peixe! Todos afundavam a +face, murmuravam: «lá está!» Todelle, na +sua precipitação, quase se <span class="pagenum">[91]</span>despenhou. O periquito descendente de Coligny +batia as asas, ganindo:--«Que cheiro ele deita, que +delícia!» Na copa atulhada os decotes das senhoras +roçavam a farda dos lacaios. O velho caiado de pó de +arroz meteu o pé num balde de gelo, com um berro ferino. E o +Historiador dos Duques de Anjou movia por cima de todos o seu nariz +bicudo e triste.<br> + + + +<br> + + +De repente, Todelle teve uma ideia!<br> + + +<br> + + +--É muito simples... É pescar o peixe!<br> + + +<br> + + +O Grão-Duque bateu na coxa uma palmada triunfal. Está +claro! Pescar o peixe! E no gozo daquela facécia, tão +rara e tão nova, toda a sua cólera se sumira, de novo +se tornara o Príncipe amável, de magnífica +polidez, desejando que as senhoras se sentassem para assistir + +à pesca miraculosa! Ele mesmo seria o pescador! Nem se +necessitava, para a divertida façanha, mais que uma bengala, +uma guita e um gancho. Imediatamente Madame d'Oriol, excitada, +ofereceu um dos seus ganchos. Apinhados em volta dela, sentindo o +seu perfume, o calor da sua pele, todos exaltámos a +amorável dedicação. E o Psicólogo +proclamou que nunca se pescara com tão divino anzol!<br> + + +<br> + + +Quando dois escudeiros estonteados voltaram, trazendo uma bengala e +um cordel, já o Grão-Duque, radiante, vergara o +gancho em <span class="pagenum">[92]</span>anzol. Jacinto, com uma +paciência lívida, erguia uma lâmpada sobre a +escuridão do poço fundo. E os senhores mais graves, o +Historiador, o director do _Boulevard_, o Conde de Trèves, o +homem de cabeça à Van-Dick, sorriam, amontoados + +à porta, num interesse reverente pela fantasia de S. Alteza. +Madame de Trèves, essa, examinava serenamente, com a sua +nobre luneta, a instalação da copa. Só Dornan +não se erguera da mesa, com os punhos cerrados sobre a +toalha, o gordo pescoço encovado, no tédio sombrio de +fera a quem arrancaram a posta.<br> + + +<br> + + +No entanto S. Alteza pescava com fervor! Mas debalde! O gancho, +pouco agudo, sem presa, bamboleando na extremidade da guita frouxa, +não fisgava.<br> + + +<br> + + +--Oh Jacinto, erga essa luz! gritava ele, inchado e suado. Mais!... +Agora! Agora! É na guelra! Só na guelra é que +o gancho o pode prender. Agora... Qual! Que diabo! Não +vai!<br> + + + +<br> + + +Tirou a face do poço, resfolgando e afrontado. Não +era possível! Só carpinteiros, com alavancas!... E +todos, ansiosamente, bradámos que se abandonasse o +peixe!<br> + + +<br> + + +O Príncipe, risonho, sacudindo as mãos, concordava +que por fim «fora mais divertido pescá-lo do que +comê-lo!» E o elegante bando <span class="pagenum">[93]</span>refluiu sofregamente para a mesa, ao som de +uma valsa de Strauss, que os Tziganes arremessaram em arcadas de +lânguido ardor. Só Madame de Trèves se demorou +ainda, retendo o meu pobre Jacinto, para lhe assegurar quanto +admirava o arranjo da sua copa... Oh perfeita! Que +compreensão da vida, que fina inteligência do +conforto!<br> + + + +<br> + + +S. Alteza, encalmado pelo esforço, esvaziou poderosamente +dois copos de Chateau-Lagrange. Todos o aclamavam como um pescador +genial. E os escudeiros serviram o _Barão de Pauillac_, +cordeiro das lezírias marinhas, que, preparado com ritos +quase sagrados, toma este grande nome sonoro e entra no +Nobiliário de França.<br> + + +<br> + + +Eu comi com o apetite de um herói de Homero. Sobre o meu +copo e o de Dornan o Champanhe cintilou e jorrou +ininterrompidamente como uma fonte de Inverno. Quando se serviram +ortolans gelados, que se derretiam na boca, o divino poeta +murmurou, para meu regalo, o seu soneto sublime a «Santa +Clara». E como, do outro lado, o moço de penugem loura +insistia pela destruição do velho mundo, +também concordei, e, sorvendo o Champanhe coalhado em +sorvete, maldissemos o Século, a Civilização, +todos os orgulhos da Ciência! Através das flores e das +luzes, <span class="pagenum">[94]</span>no entanto, eu seguia as +ondas arfantes do vasto peito de Madame Verghane, que ria como uma +bacante. E nem me apiedava de Jacinto que, com a doçura de +S. Jacinto sobre o cepo, esperava o fim do seu martírio e da +sua festa.<br> + + + +<br> + + +Ela findou. Ainda recordo, às três horas da noite, o +Grão-Duque na antecâmara, muito vermelho, mal firme +nos pés pequeninos, sem acertar com as mangas da +peliça que Jacinto e eu lhe ajudámos a +enfiar--convidando o meu amigo, numa efusão carinhosa, a ir +caçar às suas terras da Dalmácia...<br> + + +<br> + + +--Devo ao meu Jacinto uma bela pesca, quero que ele me deva uma +bela caçada!<br> + + + +<br> + + +E enquanto o acompanhávamos, entre as alas dos escudeiros, +pela vasta escada onde o mordomo o precedia erguendo um candelabro +de três lumes, S. Alteza repisava, pegajoso:<br> + + +<br> + + +--Uma bela caçada... E também vai Fernandes! Bom +Fernandes, Zé Fernandes! Ceia superior, meu Jacinto! O +_Barão de Pauillac_, divino!... Creio que o devemos nomear +Duque... O Senhor Duque de Pauillac! Mais um bocado da perna do +Senhor Duque de Pauillac. Ah! Ah!... Não venham fora! +Não se constipem!<br> + + +<br> + + +<span class="pagenum">[95]</span>E do fundo do coupé, ao +rodar, ainda bradou:<br> + + + +<br> + + +--O peixe, Jacinto, desencalha o peixe! Excelente, ao +almoço, frio, com molho verde!<br> + + +<br> + + +Trepando cansadamente os degraus, numa moleza de Champanhe e sono +em que os olhos se me cerravam, murmurei para o meu +Príncipe:<br> + + +<br> + + +--Foi divertido, Jacinto! Sumptuosa mulher, a Verghane! Grande +pena, o elevador...<br> + + +<br> + + +E Jacinto, num som cavo que era bocejo e rugido:<br> + + +<br> + + +--Uma maçada! E tudo falha!<br> + + + +<br> + + +<br> + + +<div class="break"> +<hr></div> + + +<br> + + +<br> + + +Três dias depois desta festa no 202 recebeu o meu +Príncipe inesperadamente, de Portugal, uma nova +considerável. Sobre a sua quinta e solar de Tormes, por toda +a serra, passara uma tormenta devastadora de vento, corisco e +água. Com as grossas chuvas, «ou por outras causas que +os peritos dirão» (como exclamava na sua carta +angustiada o procurador Silvério), um pedaço de +monte, que se avançava em socalco sobre o vale da +Carriça, desabara, arrastando a velha igreja, uma igrejinha +rústica do século XVI, onde jaziam sepultados os +avós de Jacinto desde os tempos de el-rei D. Manuel. Os +ossos veneráveis <span class="pagenum">[96]</span>desses +Jacintos jaziam agora soterrados sob um montão informe de +terra e pedra. O Silvério já começara com os +moços da quinta a desatulhar dos «preciosos +restos». Mas esperava ansiosamente as ordens de sua +exc.ª...<br> + + + +<br> + + +Jacinto empalidecera, impressionado. Esse velho solo serrano, +tão rijo e firme desde os Godos, que de repente ruía! +Esses jazigos de paz piedosa, precipitados com fragor, na borrasca +e na treva, para um negro fundo de vale! Essas ossadas, que todas +conservavam um nome, uma data, uma história, confundidas num +lixo de ruína!<br> + + +<br> + + +--Coisa estranha, coisa estranha!...<br> + + +<br> + + +E toda a noite me interrogou acerca da serra e de Tormes, que eu +conhecia desde pequeno, por que o velho solar, com a sua nobre +alameda de faias seculares, se erguia a duas léguas da nossa +casa, no antigo caminho de Guiães à +estação e ao rio. O caseiro de Tormes, o bom +Melchior, era cunhado do nosso feitor da Roqueirinha:--e muitas +vezes, depois da minha intimidade com Jacinto, eu entrara no +robusto casarão de granito, e avaliara o grão +espalhado pelas salas sonoras, e provara o vinho novo nas adegas +imensas...<br> + + + +<br> + + +--E a igreja, Zé Fernandes?... Entraste na igreja?<br> + + +<br> + + +--Nunca... Mas era pitoresca, com uma <span class="pagenum">[97]</span>torrezinha quadrada, toda negra, onde +há muitos anos vivia uma família de cegonhas... +Terrível transtorno para as cegonhas!<br> + + +<br> + + +--Coisa estranha! murmurava ainda o meu Príncipe, +agourado.<br> + + + +<br> + + +E telegrafou ao Silvério que desatulhasse o vale, recolhesse +as ossadas, reedificasse a Igreja, e, para esta obra de piedade e +reverência, gastasse o dinheiro, sem contar, como a +água de um rio largo.<br> + + +<br> + + +<br> + + +<br> + + +<h2>V</h2> + + +<br> + + +<br> + + +No entanto Jacinto, desesperado com tantos desastres +humilhadores--as torneiras que dessoldavam, os elevadores que +emperravam, o Vapor que se encolhia, a Electricidade que se sumia, +decidiu valorosamente vencer as resistências finais da +Matéria e da Força por novas e mais poderosas +acumulações de Mecanismos. E nessas semanas de Abril, +enquanto as rosas desabrochavam, a nossa agitada casa, entre +aquelas quietas casas dos Campos Elísios que +preguiçavam ao sol, incessantemente tremeu, envolta num +pó de caliça e de empreitada, com o bruto picar de +pedra, o retininte martelar de ferro. Nos silenciosos corredores, +onde me era doce fumar antes do almoço um pensativo cigarro, +circulavam agora, desde madrugada, ranchos de operários, de +blusas brancas, assobiando o <i>Petit-Bleu</i>, e intimidando os +meus passos <span class="pagenum">[100]</span>quando eu atravessava +em fralda e chinelas para o banho ou para outros retiros. Apenas se +varava com perícia algum andaime obstruindo as portas--logo +se esbarrava com uma pilha de tábuas, uma seira de +ferramentas ou um balde enorme de argamassa. E os pedaços de +soalho levantado mostravam tristemente, como num cadáver +aberto, todos os interiores do 202, a ossatura, os sensíveis +nervos de arame, os negros intestinos de ferro fundido.<br> + + + +<br> + + +Cada dia estacava diante do portão alguma lenta +carroça, donde os criados, em mangas de camisa, +descarregavam caixotes de madeira, fardos de lona, que se +despregavam e se descosiam numa sala asfaltada, ao fundo do jardim, +por trás da sebe de lilases. E eu descia, reclamado pelo meu +Príncipe, para admirar uma nova Máquina que nos +tornaria a vida mais fácil, estabelecendo de um modo mais +seguro o nosso domínio sobre a Substância. Durante os +calores, que apertaram depois da Ascensão, ensaiámos +esperançadamente, para refrescar as águas minerais, a +Soda-Water e os Medocs ligeiros, três geleiras, que se +amontoaram na copa sucessivamente desprestigiadas. Com os morangos +novos apareceu um instrumentozinho astuto, para lhes arrancar os +pés, delicadamente. <span class="pagenum">[101]</span>Depois +recebemos outro, prodigioso, de prata e cristal, para remexer +freneticamente as saladas; e, na primeira vez que o experimentei, +todo o vinagre esparrinhou sobre os olhos do meu Príncipe, +que fugiu aos uivos! Mas ele teimava... Nos actos mais elementares, +para aliviar ou apressar o esforço, se socorria Jacinto da +Dinâmica. E agora era por intervenção de uma +Máquina que abotoava as ceroulas.<br> + + + +<br> + + +E simultaneamente, ou em obediência à sua Ideia, ou +governado pelo despotismo do hábito, não cessava, ao +lado da Mecânica acumulada, de acumular +Erudição. Oh, a invasão dos livros no 202! +Solitários, aos pares, em pacotes, dentro de caixas, +franzinos, gordos e repletos de autoridade, envoltos em plebeia +capa amarela ou revestidos de marroquim e ouro, perpetuamente, +torrencialmente, invadiam por todas as largas portas a Biblioteca, +onde se estiravam sobre o tapete, se repimpavam nas cadeiras +macias, se entronizavam em cima das mesas robustas, e sobretudo +trepavam contra as janelas, em sôfregas pilhas, como se, +sufocados pela sua própria multidão, procurassem com +ânsia espaço e ar! Na erudita nave, onde apenas alguns +vidros mais altos restavam descobertos, sem tapume de livros, +perenemente se adensava um pensativo <span class="pagenum">[102]</span>crepúsculo de Outono enquanto fora +Junho refulgia. A Biblioteca transbordara através de todo o +202! Não se abria um armário sem que de dentro se +despenhasse, desamparada, uma pilha de livros! Não se +franzia uma cortina sem que de trás surgisse, hirta, uma +ruma de livros! E imensa foi a minha indignação +quando uma manhã, correndo urgentemente, de mãos nas +alças, encontrei, vedada por uma tremenda +colecção de Estudos Sociais, a porta do +Water-Closet!<br> + + + +<br> + + +Mais amargamente porém me lembro da noite histórica +em que, no meu quarto, moído e mole de um passeio a +Versalhes, com as pálpebras poeirentas e meio adormecidas, +tive de desalojar do meu leito, praguejando, um pavoroso +Dicionário de Indústria em trinta e sete volumes! +Senti então a suprema fartura do livro. Ajeitando, com +murros, os travesseiros, maldisse a Imprensa, a Facúndia +humana... E já me estirara, adormecia, quando topei, quase +parti a preciosa rótula do joelho, contra a lombada de um +tomo que velhacamente se aninhara entre a parede e os +colchões. Com furor e um berro empolguei, arremessei o tomo +afrontoso--que entornou o jarro, inundou um tapete rico de +Daghestan. E nem sei se depois adormeci--porque os meus pés, +a que não sentia nem o pisar nem <span class="pagenum">[103]</span>o rumor, como se um vento brando me levasse, +continuaram a tropeçar em livros no corredor apagado, depois +na areia do jardim que o luar branqueava, depois na Avenida dos +Campos Elísios, povoada e ruidosa como numa festa +cívica. E, oh portento! todas as casas aos lados eram +construídas com livros. Nos ramos dos castanheiros +ramalhavam folhas de livros. E os homens, as finas damas, vestidos +de papel impresso, com títulos nos dorsos, mostravam em vez +de rosto um livro aberto, a que a brisa lenta virava docemente as +folhas. Ao fundo, na Praça da Concórdia, avistei uma +escarpada montanha de livros, a que tentei trepar, arquejante, ora +enterrando a perna em flácidas camadas de versos, ora +batendo contra a lombada, dura como calhau, de tomos de Exegese e +Crítica. A tão vastas alturas subi, para além +da terra, para além das nuvens, que me encontrei, +maravilhado, entre os astros. Eles rolavam serenamente, enormes e +mudos, recobertos por espessas crostas de livros, donde surdia, +aqui e além, por alguma fenda, entre dois volumes mal +juntos, um raiozinho de luz sufocada e ansiada. E assim ascendi ao +Paraíso. Decerto era o Paraíso--porque com meus olhos +de mortal argila avistei o Ancião da Eternidade, aquele que +não tem Manhã nem Tarde. Numa claridade que dele +irradiava <span class="pagenum">[104]</span>mais clara que todas as +claridades, entre fundas estantes de ouro abarrotadas de +códices, sentado em vetustíssimos fólios, com +os flocos das infinitas barbas espalhados por sobre resmas de +folhetos, brochuras, gazetas e catálogos--o Altíssimo +lia. A fronte superdivina que concebera o Mundo pousava sobre a +mão superforte que o Mundo criara--e o Criador lia e sorria. +Ousei, arrepiado de sagrado horror, espreitar por cima do seu ombro +coruscante. O livro era brochado, de três francos... O Eterno +lia Voltaire, numa edição barata, e sorria.<br> + + + +<br> + + +Uma porta faiscou e rangeu, como se alguém penetrasse no +Paraíso. Pensei que um Santo novo chegara da Terra. Era +Jacinto, com o charuto em brasa, um molho de cravos na lapela, +sobraçando três livros amarelos que a Princesa de +Carman lhe emprestara para ler!<br> + + +<br> + + +<br> + + +<div class="break"> +<hr></div> + + +<br> + + +<br> + + +Numa dessas activas semanas, porém, a minha +atenção subitamente se despegou deste interessante +Jacinto. Hóspede do 202, conservava no 202 a minha mala e a +minha roupa: e, acostado à bandeira do meu Príncipe, +ainda ocasionalmente comia do seu caldeirão sumptuoso. Mas a +minha alma, a minha embrutecida <span class="pagenum">[105]</span>alma, e o meu corpo, o meu embrutecido corpo, +habitavam então na rua do Hélder, n.^o 16, quarto +andar, porta à esquerda.<br> + + + +<br> + + +Descia eu uma tarde, numa leda paz de ideias e +sensações, o Boulevard da Madalena, quando avistei, +diante da Estação dos Ónibus, rondando no +asfalto, num passo lento e felino, uma criatura seca, muito morena, +quase tisnada, com dois fundos olhos taciturnos e tristes, e uma +mata de cabelos amarelados, toda crespa e rebelde, sob o +chapéu velho de plumas negras. Parei, como colhido por um +repuxão nas entranhas. A criatura passou--no seu magro +rondar de gata negra, sobre um beiral de telhado, ao luar de +Janeiro. Dois poços fundos não luzem mais negra e +taciturnamente do que luziam os seus olhos taciturnos e negros. +Não recordo (Deus louvado!) como rocei o seu vestido de +seda, lustroso e ensebado nas pregas; nem como lhe rosnei uma +súplica por entre os dentes que rangiam; nem como subimos +ambos, morosamente e mais silenciosos que condenados, para um +gabinete do Café Durand, safado e morno. Diante do espelho, +a criatura, com a lentidão de um rito triste, tirou o +chapéu e a romeira salpicada de vidrilhos. A seda +puída do corpete esgarçava nos cotovelos agudos. E os +seus cabelos eram imensos, de uma <span class="pagenum">[106]</span>dureza e espessura de juba brava, em dois +tons amarelos, uns mais dourados, outros mais crestados, como a +côdea de uma torta ao sair quente do forno.<br> + + + +<br> + + +Com um riso trémulo, agarrei os seus dedos compridos e +frios:<br> + + +<br> + + +--E o nomezinho, hein?<br> + + +<br> + + +Ela séria, quase grave:<br> + + +<br> + + +--Madame Colombe, 16, rua do Hélder, quarto andar, porta +à esquerda.<br> + + + +<br> + + +E eu (miserável Zé Fernandes!) também me senti +muito sério, trespassado por uma emoção grave, +como se nos envolvesse, naquela alcova de Café, a majestade +de um Sacramento. À porta, empurrada levemente, o criado +avançou a face nédia. Ordenei uma lagosta, pato com +pimentões, e Borgonha. E foi somente ao findarmos o pato que +me ergui, amarfanhando convulsamente o guardanapo, e a tremer lhe +beijei a boca, todo a tremer, num beijo profundo e terrível, +em que deixei a alma, entre saliva e gosto de pimentão! +Depois, numa tipóia aberta, sob um bafo mole de leste e de +trovoada, subimos a Avenida dos Campos Elísios. Em frente + +à grade do 202 murmurei, para a deslumbrar com o meu +luxo:--«Moro ali, todo o ano!...» E como ao mirar o +Palacete, debruçada, ela roçara a mata fulva do +pêlo crespo pela minha barba--berrei<span class="pagenum">[107]</span> desesperadamente ao cocheiro; que galopasse +para a rua do Hélder, n.º 16, quarto andar, porta +à esquerda!<br> + + + +<br> + + +Amei aquela criatura. Amei aquela criatura com Amor, com todos os +Amores que estão no Amor, o Amor divino, o Amor humano, o +Amor bestial, como Santo Antonino amava a Virgem, como Romeu amava +Julieta, como um bode ama uma cabra. Era estúpida, era +triste. Eu deliciosamente apagava a minha alegria na cinza da sua +tristeza; e com inefável gosto afundava a minha razão +na densidade da sua estupidez. Durante sete furiosas semanas perdi +a consciência da minha personalidade de Zé +Fernandes--Fernandes de Noronha e Sande, de Guiães! Ora se +me afigurava ser um pedaço de cera que se derretia, com +horrenda delícia, num forno rubro e rugidor: ora me parecia +ser uma faminta fogueira onde flamejava, estalava e se consumia um +molho de galhos secos. Desses dias de sublime sordidez só +conservo a impressão de uma alcova forrada de cretones +sujos, de uma bata de lã cor de lilás com sotaches +negros, de vagas garrafas de cerveja no mármore de um +lavatório, e de um corpo tisnado que rangia e tinha cabelos +no peito. E também me resta a sensação de +incessantemente e com arroubado deleite me despojar, arremessar + +<span class="pagenum">[108]</span>para um regaço, que se +cavava entre um ventre sumido e uns joelhos agudos, o meu +relógio, os meus berloques, os meus anéis, os meus +botões de punho de safira, e as cento e noventa e sete +libras em ouro que eu trouxera de Guiães numa cinta de +camurça. Do sólido, decoroso, bem fornecido Zé +Fernandes, só restava uma carcaça errando +através de um sonho, com as gâmbias moles e a baba a +escorrer.<br> + + + +<br> + + +Depois, uma tarde, trepando com a costumada gula a escada da rua do +Hélder, encontrei a porta fechada--e arrancado da ombreira +aquele cartão de <i>Madame Colombe</i> que eu lia sempre +tão devotamente e que era a sua tabuleta... Tudo no meu ser +tremeu como se o chão de Paris tremesse! Aquela era a porta +do Mundo que ante mim se fechara! Para além estavam as +gentes, as cidades, a vida, Deus e Ela. E eu ficara sozinho, +naquele patamar do Não-Ser, fora da porta que se fechara, +único ser fora do Mundo! Rolei pelos degraus, com o fragor e +a incoerência de uma pedra, até ao cubículo da +porteira e do seu homem que jogavam as cartas em ditosa pachorra, +como se tão pavoroso abalo não tivesse desmantelado o +Universo!<br> + + + +<br> + + +--Madame Colombe?<br> + + +<br> + + +A barbuda comadre recolheu lentamente a vaza:<br> + + +<br> + + +<span class="pagenum">[109]</span>--Já não mora... +Abalou esta manhã, para outra terra, com outra porca!<br> + + +<br> + + +Para outra terra! com outra porca!... Vazio, negramente vazio de +todo o pensar, de todo o sentir, de todo o querer--boiei aos +tombos, como um tonel vazio, na corrente açodada do +Boulevard, até que encalhei num banco da Praça da +Madalena, onde tapei com as mãos, a que não sentia a +febre, os olhos a que não sentia o pranto! Tarde, muito +tarde, quando já se cerravam com estrondo as cortinas de +ferro das lojas, surdiu, dentre todas estas confusas ruínas +do meu ser, a eterna sobrevivente de todas as ruínas--a +ideia de jantar. Penetrei no Durand, com os passos entorpecidos de +um ressuscitado. E, numa recordação que me escaldava +a alma, encomendei a lagosta, o pato, o Borgonha! Mas ao alargar o +colarinho, ensopado pelo ardor daquela tarde de Julho, entre a +poeira da Madalena, pensei com +desconforto:--«Santíssimo Nome de Deus! Que imensa +sede me fez esta desgraça!...» De manso acenei ao +moço:--«Antes do Borgonha, uma garrafa de Champanhe, +com muito gelo, e um grande copo!...» Creio que aquele +Champanhe se engarrafara no Céu onde corre perenemente a +fresca fonte da Consolação, e que na garrafa bendita +que me coube penetrara, antes de arrolhada, <span class="pagenum">[110</span>um jorro largo dessa fonte inefável. +Jesus! que transcendente regalo, o daquele nobre copo, embaciado, +nevado, a espumar, a picar, num brilho de ouro! E depois, garrafa +de Borgonha! E depois, garrafa de Cognac! E depois +Hortelã-Pimenta granitada em gelo! E depois um desejo +arquejante de espancar, com o meu rijo marmeleiro de Guiães, +a porca que fugira com outra porca! Dentro da tipóia +fechada, que me transportou num galope ao 202, não sufoquei +este santo impulso, e com os meus punhos serranos atirei murros +retumbantes contra as almofadas, onde <i>via</i>, furiosamente + +<i>via</i> a mata imensa de pêlo amarelo, em que a minha alma +uma tarde se perdera, e três meses se debatera, e para sempre +se emporcalhara! Quando o fiacre estacou no 202 ainda eu espancava +tão desesperadamente a besta ingrata, que, aos berros do +cocheiro, dois moços acudiram e me sustiveram, recebendo +pelos ombros, sobre as nucas servis, os restos cansados da minha +cólera.<br> + + +<br> + + +Em cima, repeli a solicitude do Grilo que tentava impor ao +<i>siô</i> Zé Fernandes, a Zé Fernandes de +Guiães, a imensa indignidade de um chá de macela! E +estirado no leito de D. Galeão, com as botas sobre o +travesseiro, o chapéu alto sobre os olhos, ri, num doloroso + +<span class="pagenum">[111]</span>riso, deste Mundo burlesco e +sórdido de Jacintos e de Colombes! E de repente senti uma +angústia horrenda. Era Ela! Era a Madame Colombe, que +esfuziara da chama da vela, e saltara sobre o meu leito, e +desabotoara o meu colete, e arrombara as minhas costelas, e toda +ela, com as saias sujas, mergulhara dentro do meu peito, e abocara +o meu coração, e chupava a sorvos lentos, como na rua +do Hélder, o sangue do meu coração! +Então, certo da Morte, ganindo pela tia Vicência, +pendi do leito para mergulhar na minha sepultura, que, +através da névoa final, eu distinguia sobre o +tapete--redondinha, vidrada, de porcelana e com asa. E, sobre a +minha sepultura, que tão irreverentemente se assemelhava ao +meu vaso, vomitei o Borgonha, vomitei o pato, vomitei a lagosta. +Depois, num esforço ultrahumano, com um rugido, sentindo +que, não somente toda a entranha, mas a alma se esvaziava +toda, vomitei Madame Colombe! Recaí sobre o leito de D. +Galeão... Recarreguei o chapéu sobre os olhos para +não sentir os raios do sol. Era um sol novo, um sol +espiritual, que se erguia sobre a minha vida. E adormeci, como uma +criancinha docemente embalada num berço de verga pelo Anjo +da Guarda.<br> + + + +<br> + + +De manhã, lavei a pele num banho profundo, perfumado com +todos os aromas do <span class="pagenum">[112]</span>202, desde +folhas de limonete da Índia até essência de +jasmim de França: e lavei a alma com uma rica carta da Tia +Vicência, em letra farta, contando da nossa casa, e da linda +promessa das vinhas, e da compota de ginja que nunca lhe +saíra tão fina, e da alegre fogueira do pátio +em noite de S. João, e da menininha muito gorda e cabeluda +que viera do céu para a minha afilhada Joaninha. Depois, +à janela, bem limpo de alma e de corpo, numa quinzena de +sedinha branca, tomando chá de Naïpò, respirando +os rosais do jardim revividos pela chuva da madrugada, considerei, +em divertido pasmo, que, durante sete semanas, me emporcalhara, na +rua do Hélder, com um estardalho muito magro e muito +tisnado! E conclui que padecera de uma longa sezão, +sezão da carne, sezão da imaginação, +apanhada num charco de Paris--nesses charcos que se formam +através da Cidade com as águas mortas, os limos, os +lixos, os tortulhos e os vermes de uma Civilização +que apodrece.<br> + + + +<br> + + +<br> + + +<div class="break"> +<hr></div> + + +<br> + + +<br> + + +Então, curado, todo o meu espírito, como uma agulha +para o Norte, se virou logo para o meu complicado Príncipe, +que, nas derradeiras semanas da minha infecção +sentimental, eu entrevira sempre descaído por cima +<span class="pagenum">[113]</span>de sofás, ou vagueando +através da Biblioteca entre os seus trinta mil volumes, com +arrastados bocejos de inércia e de vacuidade. Eu, na minha +pressa indigna, só lhe lançava um +distraído--«que é isso?» Ele, no seu +moroso desalento, só murmurava um seco--«é + +calor!»<br> + + +<br> + + +E, nessa manhã da minha libertação, ao +penetrar antes de almoço no seu quarto, no sofá o +encontrei enterrado, com o <i>Figaro</i> aberto sobre a barriga, a +Agenda caída sobre o tapete, toda a face envolta em sombra, +e os pés abandonados, numa soberana tristeza, ao pedicuro +que lhe polia as unhas. Decerto o meu olhar realumiado e +repurificado, a brancura das minhas flanelas reproduzindo a +quietação das minhas sensações, e a +segura harmonia em que todo o meu ser visivelmente se movia, +impressionaram o meu Príncipe--a quem a melancolia nunca +embotava a agudeza. Ergueu molemente um braço mole:<br> + + + +<br> + + +--Então esse capricho?<br> + + +<br> + + +Derramei, sobre ele todo o fulgor de um riso vitorioso:<br> + + +<br> + + +--Morto! E, como o Sr. de Malbrouck, «morto e bem +enterrado.» Jaz! Ou antes, rola! Com efeito deve andar agora +rolando por dentro do cano do esgoto!<br> + + +<br> + + +Jacinto bocejou, murmurou:<br> + + +<br> + + + +<span class="pagenum">[114]</span>--Este Zé Fernandes de +Noronha e Sande!...<br> + + +<br> + + +E, no meu nome, no meu digno nome assim embrulhado num bocejo com +desprendida ironia, se resumiu todo o interesse daquele +Príncipe pela suja tormenta em que se debatera o meu +coração! Mas não me melindrou esse consumado +egoísmo... Claramente percebia eu que o meu Jacinto +atravessava uma densa névoa de tédio, tão +densa, e ele tão afundado na sua mole densidade, que as +glórias ou os tormentos de um camarada não o +comoviam, como muito remotas, intangíveis, separadas da sua +sensibilidade por imensas camadas de algodão. Pobre +Príncipe da Grã-Ventura, tombado para o sofá + +de inércia, com os pés no regaço do pedicuro! +Em que lodoso fastio caíra, depois de renovar tão +bravamente todo o recheio mecânico e erudito do 202, na sua +luta contra a Força e a Matéria!--E esse fastio +não o escondeu mais do seu velho Zé Fernandes quando +recomeçou entre nós a comunhão de vida e de +alma a que eu tão torpemente me arrancara, uma tarde, diante +da Estação dos Ónibus, no charco da +Madalena.<br> + + + +<br> + + +Não eram certamente confissões enunciadas. O elegante +e reservado Jacinto não torcia <span class="pagenum">[115]</span>os braços, gemendo--«Oh vida +maldita!» Eram apenas expressões saciadas; um gesto de +repelir com rancor a importunidade das coisas; por vezes uma +imobilidade determinada, de protesto, no fundo de um divã, +donde se não desenterrava, como para um repouso que +desejasse eterno; depois os bocejos, os ocos bocejos com que +sublinhava cada passo, continuado por fraqueza ou por dever +iniludível; e sobretudo aquele murmurar que se tornara +perene e natural--«Para quê?»--«Não +vale a pena!»--«Que maçada!...»<br> + + + +<br> + + +Uma noite no meu quarto, descalçando as botas, consultei o +Grilo:<br> + + +<br> + + +--Jacinto anda tão murcho, tão corcunda... Que +será, Grilo?<br> + + +<br> + + +O venerando preto declarou com uma certeza imensa:<br> + + +<br> + + +--S. Exc.ª sofre de fartura.<br> + + + +<br> + + +Era fartura! O meu Príncipe sentia abafadamente a fartura de +Paris:--e na Cidade, na simbólica Cidade, fora de cuja vida +culta e forte (como ele outrora gritava, iluminado) o homem do +século XIX nunca poderia saborear plenamente a +«delícia de viver», ele não encontrava +agora forma de vida, espiritual ou social, que o interessasse, lhe +valesse o esforço de uma corrida curta numa tipóia +<span class="pagenum">[116]</span>fácil. Pobre Jacinto! Um +jornal velho, setenta vezes relido desde a Crónica +até aos Anúncios, com a tinta delida, as dobras +roídas, não enfastiaria mais o Solitário, que +só possuísse na sua Solidão esse alimento +intelectual, do que o Parisianismo enfastiava o meu doce camarada! +Se eu nesse Verão capciosamente o arrastava a um +Café-Concerto, ou ao festivo Pavilhão d'Armenonville, +o meu bom Jacinto, colado pesadamente à cadeira com um +maravilhoso ramo de orquídeas na casaca, as finas +mãos abatidas sobre o castão da bengala, conservava +toda a noite uma gravidade tão estafada, que eu, +compadecido, me erguia, o libertava, gozando a sua pressa em +abalar, a sua fuga de ave solta... Raramente (e então com +veemente arranque como quem salta um fosso) descia a um dos seus +Clubes, ao fundo dos Campos Elísios. Não se ocupara +mais das suas Sociedades e Companhias, nem dos <i>Telefones de +Constantinopla</i>, nem das <i>Religiões +Esotéricas</i>, nem do <i>Bazar Espiritualista</i>, cujas +cartas fechadas se amontoavam sobre a mesa de ébano, donde o +Grilo as varria tristemente como o lixo de uma vida finda. +Também lentamente se despegava de todas as suas +convivências. As páginas da Agenda cor-de-rosa murcha +andavam desafogadas e brancas. E se ainda cedia a um passeio de +Mail-Coach, <span class="pagenum">[117]</span>ou a um convite para +algum Castelo amigo dos arredores de Paris, era tão +arrastadamente, com um esforço tão saturado ao enfiar +o paletó leve, que me lembrava sempre um homem, depois de um +gordo jantar de província, a estalar, que, por polidez ou em +obediência a um dogma, devesse ainda comer uma lampreia de +ovos!<br> + + + +<br> + + +Jazer, jazer em casa, na segurança das portas bem cerradas e +bem defendidas contra toda a intrusão do mundo, seria uma +doçura para o meu Príncipe se o seu próprio +202, com todo aquele tremendo recheio de Civilização, +não lhe desse uma sensação dolorosa de +abafamento, de atulhamento! Julho escaldava: e os brocados, as +alcatifas, tantos móveis roliços e fofos, todos os +seus metais e todos os seus livros, tão espessamente o +oprimiam, que escancarava sem cessar as janelas para prolongar o +espaço, a claridade, a frescura. Mas era então a +poeira, suja e acre, rolada em bafos mornos, que o enfurecia:<br> + + +<br> + + + +--Oh, este pó da Cidade!<br> + + +<br> + + +--Mas, oh Jacinto, por que não vamos para Fontainebleau, ou +para Montmorency, ou...<br> + + +<br> + + +--P'ra o campo? O quê! P'ra o campo?!<br> + + +<br> + + +E na sua face enrugada, através deste berro, lampejava +sempre tanta indignação, que <span class="pagenum">[118]</span>eu curvava os ombros, humilde, no +arrependimento de ter afrontosamente ultrajado o Príncipe +que tanto amava. Desventurado Príncipe! Com o seu dourado +cigarro de Yaka a fumegar, errava então pelas salas, lenta e +murchamente, como quem vaga em terra alheia sem +afeições e sem ocupações. Esses +desafeiçoados e desocupados passos monotonamente o traziam +ao seu centro, ao gabinete verde, à Biblioteca de + +ébano, onde acumulara Civilização nas +máximas proporções para gozar nas +máximas proporções a delícia de viver. +Espalhava em torno um olhar farto. Nenhuma curiosidade ou interesse +lhe solicitavam as mãos, enterradas nas algibeiras das +pantalonas de seda, numa inércia de derrota. Anulado, +bocejava com descoroçoada moleza. E nada mais instrutivo e +doloroso do que este supremo homem do século XIX, no meio de +todos os aparelhos reforçadores dos seus +órgãos, e de todos os fios que disciplinavam ao seu +serviço as Forças Universais, e dos seus trinta mil +volumes repletos do saber dos séculos--estacando, com as +mãos derrotadas no fundo das algibeiras, e exprimindo, na +face e na indecisão mole de um bocejo, o embaraço de +viver!<br> + + + +<br> + + +<br> + + +<br> + + +<h2>VI</h2> + + +<br> + + +<br> + + +Todas as tardes, cultivando uma dessas intimidades que entre tudo o +que cansa jamais cansam, Jacinto, às quatro horas, com +regularidade devota, visitava Madame d'Oriol:--porque essa flor de +Parisianismo permanecera em Paris, mesmo depois do Grand-Prix, a +desbotar na calma e no cisco da Cidade. Numa dessas tardes, +porém, o Telefone, ansiosamente repicado, avisou Jacinto de +que a sua doce amiga jantava em Enghien com os Trèves. +(Esses senhores gozavam o seu Verão à beira do lago, +numa casa toda branca e vestida de rosinhas brancas que pertencia a +Efraim).<br> + + +<br> + + +Era um domingo silencioso, enevoado e macio, convidando às +voluptuosidades da melancolia. E eu (no interesse da minha alma) +sugeri a Jacinto que subíssemos à Basílica do + +<i>Sacré-Coeur</i>, em construção nos altos de +Montmartre.<br> + + +<br> + + +<span class="pagenum">[120]</span>--É uma seca, Zé +Fernandes...<br> + + +<br> + + +--Com mil demónios! Eu nunca vi a Basílica...<br> + + + +<br> + + +--Bem, bem! Vamos à Basílica, homem fatal de Noronha +e Sande!<br> + + +<br> + + +E por fim logo que começámos a penetrar, para +além de S. Vicente de Paula, em bairros estreitos e +íngremes, de uma quietação de +província, com muros velhos fechando quintalejos +rústicos, mulheres despenteadas cosendo à soleira das +portas, carriolas desatreladas descansando diante das tascas, +galinhas soltas picando o lixo, cueiros molhados secando em +canas--o meu fastidioso camarada sorriu àquela liberdade e +singeleza das coisas.<br> + + + +<br> + + +A vitória parou em frente à larga rua de escadarias +que trepa, cortando vielazinhas campestres, até à +esplanada, onde, envolta em andaimes, se ergue a Basílica +imensa. Em cada patamar barracas de arraial devoto, forradas de +paninho vermelho, transbordavam de Imagens, Bentinhos, Crucifixos, +Corações de Jesus bordados a retrós, claros +molhos de Rosários. Pelos cantos, velhas agachadas +resmungavam a Ave-Maria. Dois padres desciam, tomando risonhamente +uma pitada. Um sino lento tilintava na doçura cinzenta da +tarde. E Jacinto murmurou, com agrado:<br> + + +<br> + + +--É curioso!<br> + + + +<br> + + +<span class="pagenum">[121]</span>Mas a Basílica em cima +não nos interessou, abafada em tapumes e andaimes, toda +branca e seca, de pedra muito nova, ainda sem alma. E Jacinto, por +um impulso bem Jacíntico, caminhou gulosamente para a borda +do terraço, a contemplar Paris. Sob o céu cinzento, +na planície cinzenta, a Cidade jazia, toda cinzenta, como +uma vasta e grossa camada de caliça e telha. E, na sua +imobilidade e na sua mudez, algum rolo de fumo, mais ténue e +ralo que o fumear de um escombro mal apagado, era todo o +vestígio visível da sua vida magnífica.<br> + + +<br> + + +Então chasqueei risonhamente o meu Príncipe. +Aí estava pois a Cidade, augusta criação da +Humanidade! Ei-la aí, belo Jacinto! Sobre a crosta cinzenta +da Terra--uma camada de caliça, apenas mais cinzenta! No +entanto ainda momentos antes a deixáramos prodigiosamente +viva, cheia de um povo forte, com todos os seus poderosos + +órgãos funcionando, abarrotada de riqueza, +resplandecente de sapiência, na triunfal plenitude do seu +orgulho, como Rainha do Mundo coroada de Graça. E agora eu e +o belo Jacinto trepávamos a uma colina, +espreitávamos, escutávamos--e de toda a estridente e +radiante Civilização da Cidade não +percebíamos nem um rumor nem um lampejo! E o 202, o soberbo +<span class="pagenum">[122]</span>202, com os seus arames, os seus +aparelhos, a pompa da sua Mecânica, os seus trinta mil +livros? Sumido, esvaído na confusão de telha e cinza! +Para este esvaecimento pois da obra humana, mal ela se contempla de +cem metros de altura, arqueja o obreiro humano em tão +angustioso esforço? Hein, Jacinto?... Onde estão os +teus Armazéns servidos por três mil caixeiros? E os +Bancos em que retine o ouro universal? E as Bibliotecas atulhadas +com o saber dos séculos? Tudo se fundiu numa nódoa +parda que suja a Terra. Aos olhos piscos de um Zé Fernandes, +logo que ele suba, fumando o seu cigarro, a uma arredada colina--a +sublime edificação dos Tempos não é + +mais que um silencioso monturo da espessura e da cor do pó +final. O que será então aos olhos de Deus!<br> + + +<br> + + +E ante estes clamores, lançados com afável +malícia para espicaçar o meu Príncipe, ele +murmurou, pensativo:<br> + + +<br> + + +--Sim, é talvez tudo uma ilusão... E a Cidade a maior +ilusão!<br> + + + +<br> + + +Tão facilmente vitorioso redobrei de facúndia. +Certamente, meu Príncipe, uma Ilusão! E a mais +amarga, por que o Homem pensa ter na Cidade a base de toda a sua +grandeza e só nela tem a fonte de toda a sua miséria. +Vê, Jacinto! Na Cidade perdeu <span class="pagenum">[123]</span>ele a força e beleza harmoniosa do +corpo, e se tornou esse ser ressequido e escanifrado ou obeso e +afogado em unto, de ossos moles como trapos, de nervos +trémulos como arames, com cangalhas, com chinós, com +dentaduras de chumbo, sem sangue, sem febra, sem viço, +torto, corcunda--esse ser em que Deus, espantado, mal pode +reconhecer o seu esbelto e rijo e nobre Adão! Na Cidade +findou a sua liberdade moral: cada manhã ela lhe +impõe uma necessidade, e cada necessidade o arremessa para +uma dependência: pobre e subalterno, a sua vida é um +constante solicitar, adular, vergar, rastejar, aturar; rico e +superior como um Jacinto, a Sociedade logo o enreda em +tradições, preceitos, etiquetas, cerimónias, +praxes, ritos, serviços mais disciplinares que os de um +cárcere ou de um quartel... A sua tranquilidade (bem +tão alto que Deus com ele recompensa os Santos) onde +está, meu Jacinto? Sumida para sempre, nessa batalha +desesperada pelo pão, ou pela fama, ou pelo poder, ou pelo +gozo, ou pela fugidia rodela de ouro! Alegria como a haverá + +na Cidade para esses milhões de seres que tumultuam na +arquejante ocupação de <i>desejar</i>--e que, nunca +fartando o desejo, incessantemente padecem de desilusão, +desesperança ou derrota? Os sentimentos mais genuinamente +<span class="pagenum">[124]</span>humanos logo na Cidade se +desumanizam! Vê, meu Jacinto! São como luzes que o +áspero vento do viver social não deixa arder com +serenidade e limpidez; e aqui abala e faz tremer; e além +brutamente apaga; e adiante obriga a flamejar com desnaturada +violência. As amizades nunca passam de alianças que o +interesse, na hora inquieta da defesa ou na hora sôfrega do +assalto, ata apressadamente com um cordel apressado, e que estalam +ao menor embate da rivalidade ou do orgulho. E o Amor, na Cidade, +meu gentil Jacinto? Considera esses vastos armazéns com +espelhos, onde a nobre carne de Eva se vende, tarifada ao +arrátel, como a de vaca! Contempla esse velho Deus do +Himeneu, que circula trazendo em vez do ondeante facho da +Paixão a apertada carteira do Dote! Espreita essa turba que +foge dos largos caminhos assoalhados em que os Faunos amam as +Ninfas na boa lei natural, e busca tristemente os recantos +lôbregos de Sodoma ou de Lesbos!... Mas o que a Cidade mais +deteriora no homem é a Inteligência, porque ou lha +arregimenta dentro da banalidade ou lha empurra para a +extravagância. Nesta densa e pairante camada de Ideias e +Fórmulas que constitui a atmosfera mental das Cidades, o +homem que a respira, nela envolto, só pensa todos os + +<span class="pagenum">[125]</span>pensamentos já pensados, +só exprime todas as expressões já +exprimidas:--ou então, para se destacar na pardacenta e +chata Rotina e trepar ao frágil andaime da gloríola, +inventa num gemente esforço, inchando o crânio, uma +novidade disforme que espante e que detenha a multidão como +um mostrengo numa Feira. Todos, intelectualmente, são +carneiros, trilhando o mesmo trilho, balando o mesmo balido, com o +focinho pendido para a poeira onde pisam, em fila, as pegadas +pisadas;--e alguns são macacos, saltando no topo de mastros +vistosos, com esgares e cabriolas. Assim, meu Jacinto, na Cidade, +nesta criação tão antinatural onde o solo + +é de pau e feltro e alcatrão, e o carvão tapa +o céu, e a gente vive acamada nos prédios como o +paninho nas lojas, e a claridade vem pelos canos, e as mentiras se +murmuram através de arames--o homem aparece como uma +criatura anti-humana, sem beleza, sem força, sem liberdade, +sem riso, sem sentimento, e trazendo em si um espírito que +é passivo como um escravo ou impudente como um +histrião... E aqui tem o belo Jacinto o que é a bela +Cidade!<br> + + +<br> + + +E ante estas encanecidas e veneráveis invectivas, retumbadas +pontualmente por todos os Moralistas bucólicos, desde +Hesíodo, através <span class="pagenum">[126]</span>dos séculos--o meu Príncipe +vergou a nuca dócil, como se elas brotassem, inesperadas e +frescas, de uma Revelação superior, naqueles cimos de +Montmartre:<br> + + + +<br> + + +--Sim, com efeito, a Cidade... É talvez uma ilusão +perversa!<br> + + +<br> + + +Insisti logo, com abundância, puxando os punhos, saboreando o +meu fácil filosofar. E se ao menos essa ilusão da +Cidade tornasse feliz a totalidade dos seres, que a mantêm... +Mas não! Só uma estreita e reluzente casta goza na +Cidade os gozos especiais que ela cria. O resto, a escura, imensa +plebe, só nela sofre, e com sofrimentos especiais que +só nela existem! Deste terraço, junto a esta rica +Basílica consagrada ao Coração que amou o +Pobre e por ele sangrou, bem avistamos nós o lôbrego +casario onde a plebe se curva sob esse antigo opróbrio de +que nem Religiões, nem Filosofias, nem Morais, nem a sua +própria força brutal a poderão jamais +libertar! Aí jaz, espalhada pela Cidade, como esterco vil +que fecunda a Cidade. Os séculos rolam; e sempre +imutáveis farrapos lhe cobrem o corpo, e sempre debaixo +deles, através do longo dia, os homens labutarão e as +mulheres chorarão. E com este labor e este pranto dos +pobres, meu Príncipe, se edifica a abundância da +Cidade! <span class="pagenum">[127]</span>Ei-la agora coberta de +moradas em que eles se não abrigam; armazenada de estofos, +com que eles se não agasalham; abarrotada de alimentos, com +que eles se não saciam! Para eles só a neve, quando a +neve cai, e entorpece e sepulta as criancinhas aninhadas pelos +bancos das praças ou sob os arcos das pontes de Paris... A +neve cai, muda e branca na treva: as criancinhas gelam nos seus +trapos: e a polícia, em torno, ronda atenta para que +não seja perturbado o tépido sono daqueles que amam a +neve, para patinar nos lagos do Bosque de Bolonha com +peliças de três mil francos. Mas quê, meu +Jacinto! a tua Civilização reclama insaciavelmente +regalos e pompas, que só obterá, nesta amarga +desarmonia social, se o Capital der ao Trabalho, por cada +arquejante esforço, uma migalha ratinhada. +Irremediável é, pois, que incessantemente a plebe +sirva, a plebe pene! A sua esfalfada miséria é a +condição do esplendor sereno da Cidade. Se nas suas +tigelas fumegasse a justa ração de caldo--não +poderia aparecer nas baixelas de prata a luxuosa +porção de <i>foie-gras</i> e túbaras que +são o orgulho da Civilização. Há + +andrajos em trapeiras--para que as belas Madamas d'Oriol, +resplandecentes de sedas e rendas, subam, em doce +ondulação, a escadaria da Ópera. Há +mãos <span class="pagenum">[128]</span>regeladas que se +estendem, e beiços sumidos que agradecem o dom +magnânimo de um <i>sou</i>--para que os Efrains tenham dez +milhões no Banco de França, se aqueçam +à chama rica da lenha aromática, e surtam de colares +de safiras as suas concubinas, netas dos Duques de Atenas. E um +povo chora de fome, e da fome dos seus pequeninos--para que os +Jacintos, em Janeiro, debiquem, bocejando, sobre pratos de Saxe, +morangos gelados em Champanhe e avivados de um fio de + +éter!<br> + + +<br> + + +--E eu comi dos teus morangos, Jacinto! Miseráveis, tu e +eu!<br> + + +<br> + + +Ele murmurou, desolado:<br> + + +<br> + + +--É horrível, comemos desses morangos... E talvez por +uma ilusão!<br> + + +<br> + + + +Pensativamente deixou a borda do terraço, como se a +presença da Cidade, estendida na planície, fosse +escandalosa. E caminhámos devagar, sob a moleza cinzenta da +tarde, filosofando--considerando que para esta iniquidade +não havia cura humana, trazida pelo esforço humano. +Ah, os Efrains, os Trèves, os vorazes e sombrios +tubarões do mar humano, só abandonarão ou +afrouxarão a exploração das Plebes, se uma +influência celeste, por milagre novo, mais alto que os +milagres velhos, lhes converter as almas! <span class="pagenum">[129]</span>O burguês triunfa, muito forte, todo +endurecido no pecado--e contra ele são impotentes os prantos +dos Humanitários, os raciocínios dos Lógicos, +as bombas dos Anarquistas. Para amolecer tão duro granito +só uma doçura divina. Eis pois esperança da +terra novamente posta num Messias!... Um decerto desceu outrora dos +grandes Céus; e, para mostrar bem que mandado trazia, +penetrou mansamente no mundo pela porta de um curral. Mas a sua +passagem entre os homens foi tão curta! Um meigo +sermão numa montanha, ao fim de uma tarde meiga; uma +repreensão moderada aos Fariseus que então redigiam o + +<i>Boulevard</i>; algumas vergastadas nos Efrains +vendilhões; e logo, através da porta da morte, a fuga +radiosa para o Paraíso! Esse adorável filho de Deus +teve demasiada pressa em recolher a casa de seu Pai! E os homens a +quem ele incumbira a continuação da sua obra, +envolvidos logo pelas influências dos Efrains, dos +Trèves, da gente do <i>Boulevard</i>, bem depressa +esqueceram a lição da Montanha e do lago de +Tiberíade--e eis que por seu turno revestem a +púrpura, e são Bispos, e são Papas, e se aliam +à opressão, e reinam com ela, e edificam a +duração do seu Reino sobre a miséria dos +sem-pão e dos sem-lar! Assim tem de ser recomeçada a +obra <span class="pagenum">[130]</span>da Redenção. +Jesus, ou Guatama, ou Cristna, ou outro desses filhos que Deus por +vezes escolhe no seio de uma Virgem, nos quietos vergéis da + +Ásia, deverá novamente descer à terra de +servidão. Virá ele, o desejado? Porventura já +algum grave rei do Oriente despertou, e olhou a estrela, e tomou a +mirra nas suas mãos reais, e montou pensativamente sobre o +seu dromedário? Já por esses arredores da dura +Cidade, de noite, enquanto Caifás e Madalena ceiam lagosta +no Paillard, andou um Anjo, atento, num voo lento, escolhendo um +curral? Já de longe, sem moço que os tanja, na +gostosa pressa de um divino encontro, vem trotando a vaca, trotando +o burrinho?<br> + + + +<br> + + +--Tu sabes, Jacinto?<br> + + +<br> + + +Não, Jacinto não sabia--e queria acender o charuto. +Forneci um fósforo ao meu Príncipe. Ainda +rondámos no terraço, espalhando pelo ar outras ideias +sólidas que no ar se desfaziam. Depois penetrávamos +na Basílica--quando um Sacristão nédio, de +barrete de veludo, cerrou fortemente a porta, e um Padre passou, +enterrando na algibeira, com um cansado gesto final e como para +sempre, o seu velho Breviário.<br> + + + +<br> + + +--Estou com uma sede, Jacinto... Foi esta tremenda Filosofia!<br> + + +<br> + + +Descemos a escadaria, armada em arraial <span class="pagenum">[131]</span>devoto. O meu pensativo camarada comprou uma +imagem da Basílica. E saltávamos para a +vitória, quando alguém gritou rijamente, numa +surpresa:<br> + + +<br> + + +--Eh Jacinto!<br> + + +<br> + + +O meu Príncipe abriu os braços, também +espantado:<br> + + + +<br> + + +--Eh Maurício!<br> + + +<br> + + +E, num alvoroço, atravessou a rua, para um café, +onde, sob o toldo de riscadinho, um robusto homem, de barba em +bico, remexia o seu absinto, com o chapéu de palha +descaído na nuca, a quinzena solta sobre a camisa de seda, +sem gravata, como se descansasse num banco, entre as sombras do seu +jardim.<br> + + +<br> + + +E ambos, apertando as mãos, se admiravam daquele encontro, +num domingo de Verão, sobre as alturas de Montmartre.<br> + + +<br> + + + +--Oh! eu estou aqui no meu bairro! exclamava alegremente +Maurício. Em família, em chinelos... Há +três meses que subi para estes cimos da Verdade... Mas tu na +Santa Colina, homem profano da planície e das ruas de +Israel!<br> + + +<br> + + +O meu Príncipe mostrou o seu Zé Fernandes:<br> + + +<br> + + +--Com este amigo, em peregrinação à + +Basílica... <span class="pagenum">[132]</span>O meu amigo +Fernandes Lorena... Maurício de Mayolle, velho camarada.<br> + + +<br> + + +Mr. de Mayolle (que, pela face larga e nariz nobremente grosso, +lembrava Francisco de Valois, Rei de França) ergueu o seu +chapéu de palha. E empurrava uma cadeira, insistia que nos +acomodássemos para um absinto ou para um bock.<br> + + +<br> + + +--Toma um bock, Zé Fernandes! lembrou Jacinto. Tu estavas a +ganir com sede!<br> + + + +<br> + + +Corri lentamente a língua sobre os beiços, mais secos +que pergaminhos:<br> + + +<br> + + +--Estou a guardar esta sedezinha para logo, para o jantar, com um +vinhozinho gelado!<br> + + +<br> + + +Maurício saudou, com silenciosa admiração, +esta minha avisada malícia. E imediatamente, para o meu +Príncipe:<br> + + +<br> + + +--Há três anos que te não vejo, Jacinto... Como +tem sido possível, neste Paris que é uma aldeola e +que tu atravancas?<br> + + + +<br> + + +--A vida, Maurício, a espalhada vida... Com efeito! +Há três anos, desde a casa dos Lamotte-Orcel. Tu ainda +visitas esse santuário?<br> + + +<br> + + +Maurício atirou um gesto desdenhoso e largo, que sacudia um +mundo:<br> + + +<br> + + +--Oh! Há mais de um ano que me separei dessa bicharia +herética... Uma turba indisciplinada, meu Jacinto! Nenhuma +fixidez, um diletantismo estonteado, carência completa e + +<span class="pagenum">[133]</span>cómica de toda a base +experimental... Quando tu ias aos Lamotte-Orcel, e à Parola +do 37, e à <i>Cerveja Ideal</i>, o que reinava?...<br> + + +<br> + + +Jacinto catou lentamente as suas recordações por +entre os pêlos do bigode:<br> + + +<br> + + +--Eu sei!... Reinava Wagner e a Mitologia Édica, e o +Raganarock, e as Nornas... Muito Pré-Rafaelismo +também, e Montagna, e Fra Angelico... Em moral, o +Renanismo.<br> + + + +<br> + + +Maurício sacudia os ombros. Oh, tudo isso pertencia a um +passado arcaico, quase lacustre! Quando Madame de Lamotte-Orcel +remobilara a sala com veludos Morris, grossas alcachofras sobre +tons de açafrão, já o Renanismo passara, +tão esquecido como o Cartesianismo...<br> + + +<br> + + +--Tu ainda és do tempo do culto do <i>Eu</i>?<br> + + +<br> + + +O meu Príncipe suspirou risonhamente:<br> + + + +<br> + + +--Ainda o cultivei.<br> + + +<br> + + +--Pois bem! Logo depois foi o Hartmanismo, o Inconsciente. Depois o +Nietzismo, o Feudalismo espiritual... Depois grassou o +Tolstoïsmo, um furor imenso de renunciamento +neo-cenobítico. Ainda me lembro de um jantar em que apareceu +um mostrengo de um eslavo, de guedelha sórdida, que atirava +olhos medonhos para o decote da pobre condessa de Arche, e que +grunhia com o dedo espetado:--«Busquemos a luz, muito por +baixo, no pó da <span class="pagenum">[134]</span>terra!»--E à sobremesa bebemos +à delícia da humildade e do trabalho servil, com +aquele Champanhe Marceaux granitado que a Matilde dava nos grandes +dias em copos da forma do San-Gral! Depois veio Emersonismo... Mas +a praga cruel foi Ibsenismo! Enfim, meu filho, uma Babel de + +Éticas e Estéticas. Paris parecia demente. Já +havia uns desgarrados que tendiam para o Luciferismo. E amiguinhas +nossas, coitadas, iam descambando para o Falismo, uma moxinifada +místico-brejeira, pregada por aquele pobre La Carte que +depois se fez Monge Branco, e que anda no Deserto... Um horror! E +uma tarde, de repente, toda esta massa se precipita com ânsia +para o Ruskinismo!<br> + + +<br> + + +Eu, agarrado à bengala, bem fincada no chão, sentia +como um vendaval que redemoinhava, me torcia o crânio! E +até Jacinto balbuciou, esgazeado:<br> + + +<br> + + + +--O Ruskinismo?<br> + + +<br> + + +--Sim, o velho Ruskin,... John Ruskin!<br> + + +<br> + + +O meu ditoso Príncipe compreendeu:<br> + + +<br> + + +--Ah, Ruskin!... <i>As sete lâmpadas da Arquitectura</i>, +<i>A Coroa de Oliveira Brava</i>... É o culto da Beleza.<br> + + + +<br> + + +--Sim! O culto da Beleza, confirmou Maurício. Mas a esse +tempo eu, enojado, já descera <span class="pagenum">[135]</span>de todas essas nuvens vãs... Pisava um +chão mais seguro, mais fértil.<br> + + +<br> + + +Deu um sorvo lento ao absinto, cerrando as pálpebras. +Jacinto esperava, com o seu fino nariz dilatado, como para respirar +a Flor de Novidade que ia desabrochar:<br> + + +<br> + + +--E então? então?...<br> + + + +<br> + + +Mas o outro murmurou, dispersamente, por entre reticências em +que se velava:<br> + + +<br> + + +--Vim para Montmartre... Tenho aqui um amigo, um homem de +génio, que percorreu toda a Índia... Viveu com os +Toddas, esteve nos mosteiros de Garma-Khian e de Dashi-Lumbo, e +estudou com Gegen-Chutu no retiro santo de Urga... Gegen-Chutu foi +a décima sexta encarnação de Guatama, e era +portanto um Boddi-sattva... Trabalhamos, procuramos... Não +são visões. Mas factos, experiências bem +antigas, que vêm talvez desde os tempos de Cristna...<br> + + +<br> + + + +Através destes nomes, que exalavam um perfume triste de +vetustos ritos, arredara a cadeira. E de pé, deixando cair +sobre a mesa, distraidamente, para pagar o absinto, moedas de prata +e moedas de cobre, murmurava com os olhos descansados em Jacinto, +mas perdidos noutra visão:<br> + + +<br> + + +--Por fim tudo se reduz ao supremo desenvolvimento da Vontade +dentro da suprema <span class="pagenum">[136]</span>pureza da Vida. +É toda a ciência e força dos grandes mestres +Hindus... Mas a pureza absoluta da vida, eis a luta, eis o +obstáculo! Não basta mesmo o Deserto, nem o bosque do +mais velho templo no alto Tibete... Ainda assim, meu Jacinto, +já obtivemos resultados bem estranhos. Sabes as +experiências de Tyndall, com as chamas sensitivas... O pobre +químico, para demonstrar as vibrações do som, +tocou quase às portas da verdade esotérica. Mas +quê! homem de ciência, portanto homem de estupidez, +ficou aquém, entre as suas placas e as suas retortas! +Nós fomos além. Verificámos as + +<i>ondulações da Vontade</i>! Diante de nós, +pela expansão da energia do meu companheiro, e em +cadência com o seu mandado, uma chama, a três metros, +ondulou, rastejou, despediu línguas ardentes, lambeu uma +alta parede, rugiu furiosa e negra, resplandeceu direita e +silenciosa, e bruscamente abatida em cinza morreu!<br> + + +<br> + + +E o estranho homem, com o chapéu para a nuca, ficou +imóvel, de braços abertos e os olhares esgazeados, +como no renovado assombro e no transe daquele prodígio. +Depois, recaindo no seu modo fácil e sereno, acendendo de +vagar um cigarro:<br> + + + +<br> + + +--Uma destas manhãs, Jacinto, apareço no 202, para +almoçar contigo, e levo o meu <span class="pagenum">[137]</span>amigo. Ele só come arroz, uma pouca de +salada, e fruta. E conversamos... Tu tinhas um exemplar do +<i>Sepher-Zerijah</i> e outro do <i>Targum d'Onkelus</i>. Preciso +folhear esses livros.<br> + + +<br> + + +Apertou a mão do meu Príncipe, saudou este assombrado +Zé Fernandes, e serenamente seguiu pela quieta rua, com o +chapéu de palha para a nuca, as mãos enterradas nas +algibeiras, como um homem natural entre coisas naturais.<br> + + + +<br> + + +--Oh Jacinto! Quem é este bruxo? Conta!... Quem é +ele, santíssimo nome de Deus?<br> + + +<br> + + +Recostado na vitória, ajeitando o vinco das calças, o +meu Príncipe contou, concisamente. Era um nobre e leal +rapaz, muito rico, muito inteligente, da antiga casa soberana de +Mayolle, descendente dos Duques de Septimânia... E murmurou, +através do costumado bocejo:<br> + + +<br> + + + +--O desenvolvimento supremo da vontade!... Teosofia, Budismo +esotérico... Aspirações, +decepções... Já experimentei... Uma +maçada!<br> + + +<br> + + +Atravessamos, calados, o rumor de Paris, sob a moleza abafada do +crepúsculo de Verão, para jantar no Bosque, no +Pavilhão de Armenonville, onde os Tziganes, avistando +Jacinto, tocaram o <i>Hino da Carta</i> com paixão, + +<span class="pagenum">[138]</span>com langor, numa cadência +de <i>czarda</i> dolorosa e áspera.<br> + + +<br> + + +E eu, desdobrando regaladamente o guardanapo:<br> + + +<br> + + +--Pois venha agora para a minha rica sede esse vinhozinho gelado! +Grandemente o mereço, caramba, que superiormente +filosofei!... E creio que estabeleci definitivamente no +espírito do Sr. D. Jacinto o salutar horror da cidade!<br> + + +<br> + + + +O meu Príncipe percorria, catando o bigode, a Lista dos +Vinhos, enquanto o Copeiro, esperava com pensativa +reverência:<br> + + +<br> + + +--Mande gelar duas garrafas de champanhe S.<sup>t</sup> Marceaux... +Mas antes, um Barsac velho, apenas refrescado... Água de +Evian... Não, de Bussang! Bem, d'Evian e de Bussang! E, para +começar, um bock.<br> + + +<br> + + +Depois, bocejando, desabotoando lentamente a sobrecasaca +cinzenta:<br> + + +<br> + + + +--Pois estou com vontade de construir uma casa nos cimos de +Montmartre, com um miradouro no alto, todo de vidro e ferro, para +descansar de tarde e dominar a Cidade...<br> + + +<br> + + +<br> + + +<br> + + +<h2>VII</h2> + + +<br> + + +<br> + + +Julho findara com uma chuva refrescante e consoladora:--e eu +pensava em realizar finalmente a minha romagem às cidades da +Europa, sempre retardada, através da Primavera, pelas +surpresas do Mundo e da Carne. Mas, de repente, Jacinto +começou a rogar e a reclamar que o seu Zé Fernandes o +acompanhasse, todas as tardes, a casa de Madame d'Oriol! E eu +compreendi que o meu Príncipe (à maneira do divino +Aquiles, que, sob a tenda, e junto da branca, insípida e +dócil Briseis, nunca dispensava Pátroclo) desejava +ter, no retiro do Amor, a presença, o conforto e o socorro +da Amizade. Pobre Jacinto! Logo pela manhã combinava pelo +telefone com Madame d'Oriol essa hora de quietação e +doçura. E assim encontrávamos sempre a superfina Dama +prevenida e solitária naquela sala da rua de Lisbonne, onde +Jacinto e eu mal <span class="pagenum">[140]</span>cabíamos, +sufocávamos na confusão, entre os cestos de flores, e +os ouros rocalhados, e os monstros do Japão, e a galante +fragilidade dos Saxes, e as peles de feras estiradas aos pés +de sofás adormecedores, e os biombos de Aubusson formando +alcovas favoráveis e lânguidas... Aninhada numa +cadeira de bambu lacada de branco, entre almofadas aromatizadas de +verbena da Índia, com um romance pousado no regaço, +ela esperava o seu amigo, numa certa indolência passiva e +mansa que me lembrava sempre o Oriente e um Harém. Mas, +pelas frescas sedinhas Pompadour, parecia também uma +marquesinha de Versalhes cansada do grande século; ou +então, com brocados sombrios e largos cintos cravejados, era +como uma veneziana, preparada para um Doge. A minha +intrusão, na intimidade daquelas tardes, não a +contrariava--antes lhe trazia um vassalo novo, com dois olhos novos +para a contemplar. Eu era já o seu <i>cher +Fernandez</i>!<br> + + + +<br> + + +E apenas descerrava os lábios avivados de vermelho, +semelhantes a uma ferida fresca, e começava a chalrar--logo +nos envolvia o burburinho e a murmuração de Paris. +Ela só sabia chalrar sobre a sua pessoa que era o resumo da +sua Classe, e sobre a sua existência <span class="pagenum">[141]</span>que era o resumo do seu Paris:--e a sua +existência, desde casada, consistira em ornar com suprema +ciência o seu lindo corpo; entrar com perfeição +numa sala e irradiar; remexer em estofos e conferenciar +pensativamente com o grande costureiro; rolar pelo Bois pousada na +sua vitória como uma imagem de cera; decotar e branquear o +colo; debicar uma perna de galinhola em mesas de luxo; fender +turbas ricas em bailes espessos; adormecer com a vaidade esfalfada; +percorrer de manhã, tomando chocolate, os +«Echos» e as «Festas» do <i>Figaro</i>; e +de vez em quando murmurar para o marido--«Ah, és +tu?...» Além disso, ao lusco-fusco, num sofá, +alguns certos suspiros, entre os braços de alguém a +quem era constante. Ao meu Príncipe, nesse ano, pertencia o +sofá. E todos estes deveres de Cidade e de Casta os cumpria +sorrindo. Tanto sorrira, desde casada, que já duas pregas +lhe vincavam os cantos dos beiços, indelevelmente. Mas nem +na alma, nem na pele, mostrava outras máculas de fadiga. A +sua Agenda de Visitas continha mil e trezentos nomes, todos do +Nobiliário. Através, porém, desta fulgurante +sociabilidade arranjara no cérebro (onde de certo penetrara +o pó de arroz que desde o colégio acamava na testa) +algumas Ideias Gerais. Em Política era pelos +Príncipes; e todos os outros «horrores», a +República, o Socialismo, <span class="pagenum">[142]</span>a +Democracia que se não lava, os sacudia risonhamente, com um +bater de leque. Na Semana Santa juntava às rendas do +chapéu a Coroa amarga de espinhos--por serem esses, para a +gente bem-nascida, dias de penitência e dor. E, diante de +todo o Livro ou de todo o Quadro, sentia a emoção e +formulava finamente o juízo, que no seu Mundo, e nessa +Semana, fosse elegante formular e sentir. Tinha trinta anos. Nunca +se embaraçara nos tormentos de uma paixão. Marcava, +com rígida regularidade, todas as suas despesas num Livro de +Contas encadernado em pelúcia verde-mar. A sua +religião íntima (e mais genuína do que a +outra, que a levava todos os domingos à missa de S. Philippe +du Roule) era a Ordem. No Inverno, logo que na amável cidade +começavam a morrer de frio, debaixo das pontes, criancinhas +sem abrigo--ela preparava com comovido cuidado os seus vestidos de +patinagem. E preparava também os de Caridade--porque era +boa, e concorria para Bazares, Concertos e Tômbolas, quando +fossem patrocinados pelas Duquesas do seu «rancho». +Depois, na Primavera, muito metodicamente, regateando, vendia a uma +adela os vestidos e as capas de Inverno. Paris admirava nela uma +suprema flor de Parisianismo.<br> + + + +<br> + + +Pois respirando esta macia e fina flor passámos <span class="pagenum">[143]</span>nós as tardes desse Julho enquanto as +outras flores pendiam e murchavam na calma e no pó. Mas, na +intimidade do seu perfume, Jacinto não parecia encontrar +esse contentamento de alma, que entre tudo que cansa jamais cansa. +Era já com a paciente lentidão com que se sobem todos +os Calvários, os mais bem tapetados, que ele subia a +escadaria de Madame d'Oriol, tão suave e orlada de +tão frescas palmeiras. Quando a apetitosa criatura, com +dedicação, para o entreter, desdobrava a sua +vivacidade como um pavão desdobra a cauda, o meu pobre +Príncipe puxava os pêlos do bigode murcho, na murcha +postura de quem, por uma manhã de Maio, enquanto os melros +cantam nas sebes, assiste, numa igreja negra, a um responso +fúnebre por um Príncipe. E no beijo que ele +chuchurreava sobre a mão da sua doce amiga, para se +despedir, havia sempre alacridade e alívio.<br> + + + +<br> + + +Mas ao outro dia, ao começar da tarde, depois de errar +através da Biblioteca e do Gabinete, puxando sem curiosidade +a tira do telégrafo, atirando algum recado mole pelo +telefone, espalhando o olhar desalentado sobre o saber imenso dos +trinta mil livros, remexendo a colina dos Jornais e Revistas, +terminava por me chamar, já com a preguiça triste da +façanha a que se impelia:<br> + + +<br> + + +<span class="pagenum">[144]</span>--Vamos a casa de Madame d'Oriol, +Zé Fernandes? Eu tinha marcadas para hoje seis ou sete +coisas, mas não posso, é uma seca! Vamos a casa de +Madame d'Oriol... Ao menos lá, às vezes, há um +bocado de frescura e paz.<br> + + + +<br> + + +E foi numa dessas tardes, em que o meu Príncipe assim +procurava desesperadamente um «bocado de frescura e +paz», que encontramos, ao meio da escadaria suave, entre as +palmeiras, o marido de Madame d'Oriol. Eu já o +conhecia--porque Jacinto mo mostrara uma noite, no Grand +Café, ceando com dançarinas do _Moulin Rouge_. Era um +moço gordalhufo, indolente, de uma brancura crua de +toucinho, com uma calvície já séria e +já lustrosa, constantemente acariciada pelos seus gordos +dedos carregados de anéis. Nessa tarde, porém, vinha +vermelho, todo emocionado, calçando as luvas com +cólera. Estacou diante de Jacinto--e sem mesmo lhe apertar a +mão, atirando um gesto para o patamar:<br> + + + +<br> + + +--Visita lá acima? Vai achar a Joana em péssima +disposição... Tivemos uma cena, e tremenda.<br> + + +<br> + + +Deu outro puxão desesperado à luva cor de palha, +já esgaçada:<br> + + +<br> + + + +--Estamos separados, cada um vive como lhe apetece, é +excelente! Mas em tudo há <span class="pagenum">[145]</span>medida e forma... Ela tem o meu nome, +não posso consentir que em Paris, com conhecimento de todo o +Paris, seja a amante do trintanário. Amantes na nossa roda, +vá! Um lacaio, não!... Se quer dormir com os criados +que emigre para o fundo da província, para a sua casa de +Corbelle. E lá até com os animais!... Foi o que eu +lhe disse! Ficou como uma fera.<br> + + +<br> + + + +Sacudiu então a mão do Jacinto que «era da sua +roda»--rebolou pela escadaria florida e nobre. O meu +Príncipe, imóvel nos degraus, de face pendida, +cofiava lentamente os fios pendidos do bigode. Depois, olhando para +mim, como um ser saturado de tédio e em quem nenhum +tédio novo pode caber:<br> + + +<br> + + +--Já agora subamos, sim?<br> + + +<br> + + +<br> + + + +<div class="break"> +<hr></div> + + +<br> + + +<br> + + +Parti então, com muita alegria, para a minha apetecida +romagem às Cidades da Europa.<br> + + +<br> + + +Ia viajar!... Viajei. Trinta e quatro vezes, à pressa, +bufando, com todo o sangue na face, desfiz e refiz a mala. Onze +vezes passei o dia num vagão, envolto em poeirada e fumo, +sufocado, a arquejar, a escorrer de suor, saltando em cada +estação para sorver desesperadamente limonadas mornas +que me escangalhavam <span class="pagenum">[146]</span>a entranha. +Catorze vezes subi derreadamente, atrás de um criado, a +escadaria desconhecida de um Hotel; e espalhei o olhar incerto por +um quarto desconhecido; e estranhei uma cama desconhecida, de onde +me erguia, estremunhado, para pedir em línguas desconhecidas +um café com leite que me sabia a fava, um banho de tina que +me cheirava a lodo. Oito vezes travei bulhas abomináveis na +rua com cocheiros que me espoliavam. Perdi uma chapeleira, quinze +lenços, três ceroulas, e duas botas, uma branca, outra +envernizada, ambas do pé direito. Em mais de trinta +mesas-redondas esperei tristonhamente que me chegasse o + +<i>boeuf-à-la-mode</i>, já frio, com molho +coalhado--e que o copeiro me trouxesse a garrafa de Bordéus +que eu provava e repelia com desditosa carantonha. Percorri, na +fresca penumbra dos granitos e dos mármores, com pé +respeitoso e abafado, vinte e nove Catedrais. Trilhei molemente, +com uma dor surda na nuca, em catorze museus, cento e quarenta +salas revestidas até aos tectos de Cristos, heróis, +santos, ninfas, princesas, batalhas, arquitecturas, verduras, +nudezas, sombrias manchas de betume, tristezas das formas +imóveis!... E o dia mais doce foi quando em Veneza, onde +chovia desabaladamente, encontrei um velho <span class="pagenum">[147]</span>inglês de penca flamejante que habitara +o Porto, conhecera o Ricardo, o José Duarte, o Visconde do +Bom Sucesso, e as Limas da Boavista... Gastei seis mil francos. +Tinha viajado.<br> + + + +<br> + + +Enfim, numa bendita manhã de Outubro, na primeira friagem e +névoa de Outono, avistei com enternecido alvoroço as +cortinas de seda ainda fechadas do meu 202! Afaguei o ombro do +Porteiro. No patamar, onde encontrei o ar macio e tépido que +deixara em Florença, apertei os ossos do Grilo +excelente:<br> + + +<br> + + +--E Jacinto?<br> + + +<br> + + +O digno negro murmurou, de entre os altos, reluzentes +colarinhos:<br> + + +<br> + + +--S. Exc.ª circula... Pesadote, fartote. Entrou tarde do baile +da Duquesa de Loches. Era o contrato de casamento de Mademoiselle +de Loches... Ainda tomou antes de se deitar um chá gelado... +E disse a coçar a cabeça: «Eh! que +maçada! Eh! que maçada!»<br> + + + +<br> + + +Depois do banho e do chocolate, às dez horas, consolado e +quentinho dentro do roupão de veludo, rompi pelo quarto do +meu Príncipe, de braços abertos e sedentos:<br> + + +<br> + + +--Oh Jacinto!<br> + + +<br> + + +--Oh viajante!...<br> + + +<br> + + +Quando nos estreitámos, fartamente, eu recuei para lhe +contemplar a face--e nela a <span class="pagenum">[148]</span>alma. +Encolhido numa quinzena de pano cor de malva orlada de peles de +marta, com os pêlos do bigode murchos, as suas duas rugas +mais cavadas, uma moleza nos ombros largos, o meu amigo parecia +já vergado sob o peso e a opressão e o terror do seu +dia. Eu sorri, para que ele sorrisse:<br> + + + +<br> + + +--Valente Jacinto... Então como tens vivido?<br> + + +<br> + + +Ele respondeu, muito serenamente:<br> + + +<br> + + +--Como um morto.<br> + + +<br> + + +Forcei uma gargalhada leve, como se o seu mal fosse leve:<br> + + +<br> + + +--Aborrecidote, hein?<br> + + +<br> + + + +O meu Príncipe lançou, num gesto tão vencido, +um <i>oh</i> tão cansado--que eu compadecido de novo o +abracei, o estreitei, como para lhe comunicar uma parte desta +alegria sólida e pura que recebi do meu Deus!<br> + + +<br> + + +<br> + + +<div class="break"> +<hr></div> + + +<br> + + +<br> + + +Desde essa manhã, Jacinto começou a mostrar +claramente, escancaradamente, ao seu Zé Fernandes, o +tédio de que a existência o saturava. O seu cuidado +realmente e o seu esforço consistiram então em sondar +e formular esse tédio--na esperança de o vencer logo +que lhe conhecesse bem a origem e a potência. <span class="pagenum">[149]</span>E o meu pobre Jacinto reproduziu a +comédia pouco divertida de um Melancólico que +perpetuamente raciocina a sua Melancolia! Nesse raciocínio, +ele partia sempre do facto irrecusável e maciço--que +a sua vida especial de Jacinto continha todos os interesses e todas +as facilidades, possíveis no século XIX, numa vida de +homem que não é um Génio, nem um Santo. Com +efeito! Apesar do apetite embotado por doze anos de Champanhes e +molhos ricos ele conservava a sua rijeza de pinheiro bravo; na luz +da sua inteligência não aparecera nem tremor nem +morrão; a boa terra de Portugal, e algumas Companhias +maciças, pontualmente lhe forneciam a sua doce centena de +contos; sempre activas e sempre fiéis o cercavam as +simpatias de uma Cidade inconstante e chasqueadora; o 202 estourava +de confortos; nenhuma amargura de coração o +atormentava;--e todavia era um Triste. Porquê?... E daqui +saltava, com certeza fulgurante, à conclusão de que a +sua tristeza, esse cinzento burel em que a sua alma andava +amortalhada, não provinham da sua individualidade de +Jacinto--mas da Vida, do lamentável, do desastroso facto de +Viver! E assim o saudável, intelectual, riquíssimo, +bem-acolhido Jacinto tombara no Pessimismo.<br> + + + +<br> + + +<span class="pagenum">[150]</span>E um Pessimismo irritado! Porque +(segundo afirmava) ele nascera para ser tão naturalmente +optimista como um pardal ou um gato. E, até aos doze anos, +enquanto fora um bicho superiormente amimado, com a sua pele sempre +bem coberta, o seu prato sempre bem cheio, nunca sentira fadiga, ou +melancolia, ou contrariedade, ou pena--e as lágrimas eram +para ele tão incompreensíveis que lhe pareciam +viciosas. Só quando crescera, e da animalidade penetrara na +humanidade, despontara nele esse fermento de tristeza, muito tempo +indesenvolvido no tumulto das primeiras curiosidades, e que depois +alastrara, o invadira todo, se lhe tornara consubstancial e como o +sangue das suas veias. Sofrer portanto era inseparável de +Viver. Sofrimentos diferentes nos destinos diferentes da Vida. Na +turba dos humanos é a angustiada luta pelo pão, pelo +tecto, pelo lume; numa casta, agitada por necessidades mais altas, +é a amargura das desilusões, o mal da +imaginação insatisfeita, o orgulho chocando contra +obstáculo; nele, que tinha os bens todos e desejos nenhuns, +era o tédio. Miséria do Corpo, tormento da Vontade, +fastio da Inteligência--eis a Vida! E agora aos trinta e +três anos a sua ocupação era bocejar, correr +com os <span class="pagenum">[151]</span>dedos desalentados a face +pendida para nela palpar e apetecer a caveira.<br> + + + +<br> + + +Foi então que o meu Príncipe começou a ler +apaixonadamente, desde o <i>Eclesiastes</i> até +Schopenhauer, todos os líricos e todos os teóricos do +Pessimismo. Nestas leituras encontrava a reconfortante +comprovação de que o seu mal não era +mesquinhamente «Jacíntico»--mas grandiosamente +resultante de uma Lei Universal. Já há quatro mil +anos, na remota Jerusalém, a Vida, mesmo nas suas +delícias mais triunfais, se resumia em Ilusão. +Já o Rei incomparável, de sapiência divina, +sumo Vencedor, sumo Edificador, se enfastiava, bocejava, entre os +despojos das suas conquistas, e os mármores novos dos seus +Templos, e as suas três mil concubinas, e as Rainhas que +subiam do fundo da Etiópia para que ele as fecundasse e no +seu ventre depusesse um Deus! Não há nada novo sob o +sol, e a eterna repetição das coisas é a +eterna repetição dos males. Quanto mais se sabe mais +se pena. E o justo como o perverso, nascidos do pó, em +pó se tornam. Tudo tende ao pó efémero, em +Jerusalém e em Paris! E ele, obscuro no 202, padecia por ser +homem e por viver--como no seu trono de ouro, entre os seus quatro +leões de ouro, o filho magnífico de David.<br> + + + +<br> + + +<span class="pagenum">[152]</span>Não se separava +então do <i>Eclesiastes</i>. E circulava por Paris trazendo +dentro do coupé Salomão, como irmão de dor, +com quem repetia o grito desolado que é a suma da verdade +humana--<i>Vanitas Vanitatum</i>! Tudo é Vaidade! Outras +vezes, logo de manhã o encontrava estendido no sofá, +num roupão de seda, absorvendo Schopenhauer--enquanto o +pedicuro, ajoelhado sobre o tapete, lhe polia com respeito e +perícia as unhas dos pés. Ao lado pousava a +chávena de Saxe, cheia desse café de Moca enviado por +emires do Deserto, que não o contentava nunca, nem pela +força, nem pelo aroma. A espaços pousava o livro no +peito, resvalava um olhar compassivo para o pedicuro, como a +procurar que dor o torturaria--pois que a todo o viver corresponde +um sofrer. Decerto o remexer assim, perpetuamente, em pés +alheios... E quando o pedicuro se erguia, Jacinto abria para ele um +sorriso de confraternidade--com um «adeus, meu amigo» + +que era «um adeus, meu irmão!»<br> + + +<br> + + +Esse foi o período esplêndido e soberbamente divertido +do seu tédio. Jacinto encontrara enfim na vida uma +ocupação grata--maldizer a Vida! E para que a pudesse +maldizer em todas as suas formas, as mais ricas, as mais +intelectuais, as mais puras, sobrecarregou <span class="pagenum">[153]</span>a sua vida própria de novo luxo, de +interesses novos de espírito, e até de fervores +humanitários, e até de curiosidades +supernaturais.<br> + + + +<br> + + +O 202, nesse Inverno, refulgiu de magnificência. Foi +então que ele iniciou em Paris, repetindo +Heliogábalo, os Festins de Cor contados na História +Augusta: e ofereceu às suas amigas esse sublime jantar +cor-de-rosa, em que tudo era róseo, as paredes, os +móveis, as luzes, as louças, os cristais, os gelados, +os Champanhes, e até (por uma invenção da +Alta-Cozinha) os peixes, e as carnes, e os legumes, que os +escudeiros serviam, empoados de pó rosado, com librés +da cor da rosa, enquanto do tecto, de um velário de seda +rosada, caíam pétalas frescas de rosas... A Cidade, +deslumbrada, clamou--«Bravo, Jacinto!» E o meu +Príncipe, ao rematar a festa fulgurante, plantou diante de +mim as mãos nas ilhargas e gritou +triunfalmente:--«Hein? Que maçada!...»<br> + + + +<br> + + +Depois foi o Humanitarismo: e fundou um Hospício no campo, +entre jardins, para velhinhos desamparados, outro para +crianças débeis à beira do Mediterrâneo. +Depois com o major Dorchas, e Mayolle, e o Hindu de Mayolle +penetrou no Teosofismo: e montou tremendas experiências para +verificar a misteriosa <span class="pagenum">[154]</span><i>exteriorização da +motilidade</i>. Depois, desesperadamente, ligou o 202 com os fios +telegráficos do <i>Times</i>, para que no seu gabinete, como +num coração, palpitasse toda a vida Social da +Europa.<br> + + + +<br> + + +E a cada um destes esforços da elegância, do +humanitarismo, da sociabilidade, e da inteligência +indagadora, voltava para mim, de braços alegres, com um +grito vitorioso:--«Vês tu, Zé Fernandes? Uma +maçada!»--Arrebatava então o seu +<i>Eclesiastes</i>, o seu Schopenhauer, e, estendido no +sofá, saboreava voluptuosamente a concordância da +Doutrina e da Experiência. Possuía uma Fé--o +Pessimismo: era um apóstolo rico e esforçado: e tudo +tentava, com sumptuosidade, para provar a verdade da sua Fé! +Muito gozou nesse ano o meu desgraçado Príncipe!<br> + + + +<br> + + +No começo do Inverno, porém, notei com +inquietação que Jacinto já não folheava +o <i>Eclesiastes</i>, desleixava Schopenhauer. Nem festas, nem +Teosofismos, nem os seus Hospícios, nem os fios do +<i>Times</i>, pareciam interessar agora o meu amigo, mesmo como +demonstrações gloriosas da sua Crença. E a sua +abominável função de novo se limitou a +bocejar, a passar os dedos moles sobre a face pendida palpando a +caveira. Incessantemente aludia à morte como a uma +libertação. Uma <span class="pagenum">[155]</span>tarde mesmo, no melancólico +crepúsculo da Biblioteca, antes de refulgirem as luzes, +consideravelmente me aterrou, falando num tom regelado de mortes +rápidas, sem dor, pelo choque de uma vasta pilha +eléctrica ou pela violência compassiva do acido +cianídrico. Diabo! O Pessimismo, que aparecera na +Inteligência do meu Príncipe como um conceito +elegante--atacara bruscamente a Vontade!<br> + + + +<br> + + +Todo o seu movimento então foi o de um boi inconsciente que +marcha sob a canga e o aguilhão. Já não +esperava da Vida contentamento--nem mesmo se lastimava que ela lhe +trouxesse tédio ou pena. «Tudo é indiferente, +Zé Fernandes!» E tão indiferentemente sairia +à sua janela para receber uma Coroa Imperial oferecida por +um Povo--como se estenderia numa poltrona rota para emudecer e +jazer. Sendo tudo inútil, e não conduzindo +senão a maior desilusão, que podia importar a mais +rutilante actividade ou a mais desgostada inércia? O seu +gesto constante, que me irritava, era encolher os ombros. Perante +duas ideias, dois caminhos, dois pratos, encolhia os ombros! Que +importava?... E no mínimo acto, raspar um fósforo ou +desdobrar um Jornal, punha uma morosidade tão desconsolada +que todo ele parecia ligado, desde os dedos até à + +alma, <span class="pagenum">[156]</span>pelas voltas apertadas de +uma corda que se não via e que o travava.<br> + + +<br> + + +<br> + + +<div class="break"> +<hr></div> + + +<br> + + +<br> + + +Muito desagradavelmente me recordo do dia dos seus anos, a 10 de +Janeiro. Cedo, de manhã, recebera, com uma carta de Madame +de Trèves, um açafate de camélias, +azáleas, orquídeas e lírios do vale. E foi +este mimo que lhe recordou a data considerável. Soprou sobre +as pétalas o fumo do cigarro e murmurou com um riso de lento +escárnio:<br> + + + +<br> + + +--Então, há trinta e quatro anos que eu ando nesta +maçada?<br> + + +<br> + + +E como eu propunha que telefonássemos aos amigos para +beberem no 202 o Champanhe do «Natalício»--ele +recusou, com o nariz enojado. Oh! Não! Que horrível +seca!... E bradou mesmo para o Grilo:<br> + + +<br> + + + +--Eu hoje não estou em Paris para ninguém. Abalei +para o campo, abalei para Marselha... Morri!<br> + + +<br> + + +E a sua ironia não cessou até ao almoço +perante os bilhetes, os telegramas, as cartas, que subiam, se +arredondavam em colina sobre a mesa de ébano, como um preito +da Cidade. Outras flores que vieram, em vistosos cestos, com +vistosos laços, foram por ele comparadas às que se +depõe sobre uma tumba. <span class="pagenum">[157]</span>E +apenas se interessou um momento pelo presente de Efraim, uma +engenhosa mesa, que se abaixava até ao tapete ou se alteava +até ao tecto--para quê, senhor Deus meu?<br> + + + +<br> + + +Depois do almoço, como chovia sombriamente, não +arredámos do 202, com os pés estendidos ao lume, em +preguiçoso silêncio. Eu terminara por adormecer +beatificamente. Acordei aos passos açodados do Grilo... +Jacinto, enterrado na poltrona, com umas tesouras, recortava um +papel! E nunca eu me compadeci daquele amigo, que cansara a +mocidade a acumular todas as noções formuladas desde +Aristóteles e a juntar todos os inventos realizados desde +Tharamenes, como nessa tarde de festa, em que ele, cercado de +Civilização nas máximas +proporções para gozar nas máximas +proporções a delícia de viver, se encontrava +reduzido, junto ao seu lar, a recortar papéis com uma +tesoura!<br> + + + +<br> + + +O Grilo trazia um presente do Grão-Duque--uma caixa de +prata, forrada de cedro, e cheia de um chá precioso, +colhido, flor a flor, nas veigas de Kiang-Sou por mãos puras +de virgens, e conduzido através da Ásia, em +caravanas, com a veneração de uma relíquia. +Então, para despertar o nosso torpor, lembrei que +tomássemos o divino chá--ocupação bem +harmónica com a tarde triste, a chuva <span class="pagenum">[158]</span>grossa alagando os vidros, e a clara chama +bailando no fogão. Jacinto acedeu--e um escudeiro acercou +logo a mesa de Efraim para que nós lhe estreássemos +os serviços destros. Mas o meu Príncipe, depois de a +altear, para meu espanto, até aos cristais do lustre, +não conseguiu, apesar de uma suada e desesperada batalha com +as molas, que a mesa regressasse a uma altura humana e caseira. E o +escudeiro de novo a levou, levantada como um andaime, +quimérica, unicamente aproveitável para o gigante +Adamastor. Depois veio a caixa do chá entre chaleiras, +lâmpadas, coadores, filtros, todo um fausto de alfaias de +prata, que comunicavam a essa ocupação, tão +simples e doce em casa de minha tia, <i>fazer chá</i>, a +majestade de um rito. Prevenido pelo meu camarada da sublimidade +daquele chá de Kiang-Sou, ergui a chávena aos +lábios com reverência. Era uma infusão +descorada que sabia a malva e a formiga. Jacinto provou, cuspiu, +blasfemou... Não tomámos chá.<br> + + + +<br> + + +Ao cabo doutro pensativo silêncio, murmurei, com os olhos +perdidos no lume:<br> + + +<br> + + +--E as obras de Tormes? A igreja... Já haverá igreja +nova?<br> + + +<br> + + +Jacinto retomara o papel e a tesoura:<br> + + +<br> + + +--Não sei... Não tornei a receber carta do + +<span class="pagenum">[159]</span>Silvério... Nem imagino +onde param os ossos... Que lúgubre história!<br> + + +<br> + + +Depois chegou a hora das luzes e do jantar. Eu encomendara pelo +Grilo ao nosso magistral cozinheiro uma larga travessa de arroz +doce, com as iniciais de Jacinto e a data ditosa em canela, +à moda amável da nossa meiga terra. E o meu +Príncipe à mesa, percorrendo a lâmina de marfim +onde no 202 se inscreviam os pratos a lápis vermelho, louvou +com fervor a ideia patriarcal:<br> + + + +<br> + + +--Arroz doce! Está escrito com dois <i>ss</i>, mas +não tem dúvida... Excelente lembrança! +Há que tempos não como arroz doce!... Desde a morte +da avó.<br> + + +<br> + + +Mas quando o arroz doce apareceu triunfalmente, que vexame! Era um +prato monumental, de grande arte! O arroz, maciço, moldado +em forma de pirâmide do Egipto, emergia de uma calda de +cereja, e desaparecia sob os frutos secos que o revestiam +até ao cimo, onde se equilibrava uma coroa de Conde feita de +chocolate e gomos de tangerina gelada! E as iniciais, a data, +tão lindas e graves na canela ingénua, vinham +traçadas nas bordas da travessa com violetas pralinadas! +Repelimos, num mudo horror, o prato acanalhado. E Jacinto, erguendo +o copo de Champanhe, murmurou como num funeral pagão:<br> + + + +<br> + + +<span class="pagenum">[160]</span>--<i>Ad Manes</i>, aos nossos +mortos!<br> + + +<br> + + +Recolhemos à Biblioteca, a tomar o café no conchego e +alegria do lume. Fora, o vento bramava como num ermo serrano: e as +vidraças tremiam, alagadas, sob as bátegas da chuva +irada. Que dolorosa noite para os dez mil pobres que em Paris erram +sem pão e sem lar! Na minha aldeia, entre cerro e vale, +talvez assim rugisse a tormenta. Mas aí cada pobre, sob o +abrigo da sua telha vã, com a sua panela atestada de couves, +se agacha no seu mantéu ao calor da lareira. E para os que +não tenham lenha ou couve, lá está o +João das Quintas, ou a tia Vicência, ou o abade, que +conhecem todos os pobres pelos seus nomes, e com eles contam, como +sendo dos seus, quando o carro vai ao mato e a fornada entra no +forno. Ah Portugal pequenino, que ainda és doce aos +pequeninos!<br> + + + +<br> + + +Suspirei, Jacinto preguiçava. E terminámos por +remexer languidamente os jornais que o mordomo trouxera, num monte +facundo, sobre uma salva de prata--jornais de Paris, jornais de +Londres, Semanários, Magazines, Revistas, +Ilustrações... Jacinto desdobrava, arremessava: das +Revistas espreitava o sumário, logo farto; às +Ilustrações rasgava as folhas com o dedo indiferente, +bocejando <span class="pagenum">[161]</span>por cima das gravuras. +Depois, mais estirado para o lume:<br> + + +<br> + + +--É uma seca... Não há que ler.<br> + + + +<br> + + +E de repente, revoltado contra este fastio opressor que o +escravizava, saltou da poltrona com um arranque de quem +despedaça algemas, e ficou erecto, dardejando em torno um +olhar imperativo e duro, como se intimasse aquele seu 202, +tão abarrotado de Civilização, a que por um +momento sequer fornecesse à sua alma um interesse vivo, +à sua vida um fugitivo gosto! Mas o 202 permaneceu +insensível: nem uma luz, para o animar, avivou o seu brilho +mudo: só as vidraças tremeram sob o embate mais rude +de água e vento.<br> + + +<br> + + +Então o meu Príncipe, sucumbido, arrastou os passos +até ao seu gabinete, começou a percorrer todos os +aparelhos completadores e facilitadores da Vida--o seu +Telégrafo, o seu Telefone, o seu Fonógrafo, o seu +Radiómetro, o seu Grafófono, o seu Microfone, a sua +Máquina de Escrever, a sua Máquina de Contar, a sua +Imprensa Eléctrica, a outra Magnética, todos os seus +utensílios, todos os seus tubos, todos os seus fios... Assim +um Suplicante percorre altares donde espera socorro. E toda a sua +sumptuosa Mecânica <span class="pagenum">[162]</span>se +conservou rígida, reluzindo frigidamente, sem que uma roda +girasse, nem uma lâmina vibrasse, para entreter o seu +Senhor.<br> + + + +<br> + + +Só o relógio monumental, que marcava a hora de todas +as capitais e o curso de todos os planetas, se compadeceu, batendo +a meia-noite, anunciando ao meu amigo que mais um Dia partira +levando o seu peso--diminuindo esse sombrio peso da Vida, sob que +ele gemia, vergado. O Príncipe da Grã-Ventura, +então, decidiu recolher para a cama--com um livro... E +durante um momento, estacou no meio da Biblioteca, considerando os +seus setenta mil volumes estabelecidos com pompa e majestade como +Doutores num Concílio--depois as pilhas tumultuárias +dos livros novos que esperavam pelos cantos, sobre o tapete, o +repouso e a consagração das estantes de ébano. +Torcendo molemente o bigode caminhou por fim para a região +dos Historiadores: espreitou séculos, farejou raças: +pareceu atraído pelo esplendor do Império Bizantino: +penetrou na Revolução Francesa donde se arredou +desencantado: e palpou com mão indeliberada toda a vasta +Grécia desde a criação de Atenas até a +aniquilação de Corinto. Mas bruscamente virou para a +fila dos Poetas, <span class="pagenum">[163]</span>que reluziam em +marroquins claros, mostrando, sobre a lombada, em ouro, nos +títulos fortes ou lânguidos, o interior das suas +almas. Não apeteceu nenhuma dessas seis mil almas--e recuou, +desconsolado, até aos Biólogos... Tão +maciça e cerrada era a estante de Biologia que o meu pobre +Jacinto estarreceu, como ante uma cidadela inacessível! +Rolou a escada--e, fugindo, trepou, até às alturas da +Astronomia: destacou astros, recolocou mundos: todo um Sistema +Solar desabou com fragor. Aturdido, desceu, começou a +procurar por sobre as rimas das obras novas, ainda brochadas, nas +suas roupas leves de combate. Apanhava, folheava, arremessava: para +desentulhar um volume, demolia uma torre de doutrinas: saltava por +cima dos Problemas, pisava as Religiões: e relanceando uma +linha, esgravatando além num índice, todos +interrogava, de todos se desinteressava, rolando quase de rastos, +nas grossas vagas de tomos que rolavam, sem se poder deter, na + +ânsia de encontrar um Livro! Parou então no meio da +imensa nave, de cócoras, sem coragem, contemplando aqueles +muros todos forrados, aquele chão todo alastrado, os seus +setenta mil volumes--e, sem lhes provar a substância, +já absolutamente saciado, abarrotado, nauseado <span class="pagenum">[164]</span>pela opressão da sua abundância. +Findou por voltar ao montão de jornais amarrotados, ergueu +melancolicamente um velho <i>Diário de Notícias</i>, +e com ele debaixo do braço subiu ao seu quarto, para dormir, +para esquecer.<br> + + + +<br> + + +<br> + + +<br> + + +<h2>VIII</h2> + + +<br> + + +<br> + + +Ao fim desse Inverno escuro e pessimista, uma manhã que eu +preguiçava na cama, sentindo através da +vidraça cheia de sol ainda pálido um bafo de +Primavera ainda tímido--Jacinto assomou à porta do +meu quarto, revestido de flanelas leves, de uma alvura de +açucena. Parou lentamente à beira dos +colchões, e, com gravidade, como se anunciasse o seu +casamento ou a sua morte, deixou desabar sobre mim esta +declaração formidável:<br> + + + +<br> + + +--Zé Fernandes, vou partir para Tormes.<br> + + +<br> + + +O pulo com que me sentei abalou o rijo leito de pau preto do velho +D. Galeão:<br> + + +<br> + + +--Para Tormes? Oh Jacinto, quem assassinaste?...<br> + + +<br> + + +Deleitado com a minha emoção, o Príncipe da +Grã-Ventura tirou da algibeira uma carta, e encetou estas +linhas, já decerto relidas, fundamente estudadas:<br> + + + +<span class="pagenum">[166]</span>--«Il.<sup>mo</sup> e +Exc.<sup>mo</sup> sr.--Tenho grande satisfação em +comunicar a V. Exc.ª que por toda esta semana devem ficar +prontas as obras da capela...»<br> + + +<br> + + +--É do Silvério? exclamei.<br> + + + +<br> + + +--É do Silvério. «...as obras da capela nova. +Os venerandos restos dos excelsos avós de V. Exc.ª, +senhores de todo o meu respeito, podem pois ser em breve +trasladados da igreja de S. José, onde têm estado +depositados por bondade do nosso Abade, que muito se recomenda a V. +Exc.ª... Submisso, aguardo as prestantes ordens de V. +Exc.ª a respeito desta majestosa e aflitiva +cerimónia...»<br> + + +<br> + + +Atirei os braços, compreendendo:<br> + + + +<br> + + +--Ah! bem! Queres ir assistir à +trasladação...<br> + + +<br> + + +Jacinto sumiu a carta no bolso.<br> + + +<br> + + +--Pois não te parece, Zé Fernandes? Não +é por causa dos outros avós, que são ossos +vagos, e que eu não conheci. É por causa do avô + +Galeão... Também não o conheci. Mas este 202 +está cheio dele; tu estás deitado na cama dele; eu +ainda uso o relógio dele. Não posso abandonar ao +Silvério e aos caseiros o cuidado de o instalarem no seu +jazigo novo. Há aqui um escrúpulo de decência, +de elegância moral... Enfim, decidi. Apertei os <span class="pagenum">[167]</span>punhos na cabeça, e gritei--<i>vou a +Tormes</i>! E vou!... E tu vens!<br> + + + +<br> + + +Eu enfiara as chinelas, apertava os cordões do +roupão:<br> + + +<br> + + +--Mas tu sabes, meu bom Jacinto, que a casa de Tormes está +inabitável...<br> + + +<br> + + +Ele cravou em mim os olhos aterrados.<br> + + +<br> + + +--Medonha, hein?<br> + + + +<br> + + +--Medonha, medonha, não... É uma bela casa, de bela +pedra. Mas os caseiros, que lá vivem há trinta anos, +dormem em catres, comem o caldo à lareira, e usam as salas +para secar o milho. Creio que os únicos móveis de +Tormes, se bem recordo, são um armário, e uma +espineta de charão, coxa, já sem teclas.<br> + + + +<br> + + +O meu pobre Príncipe suspirou, com um gesto rendido em que +se abandonava ao Destino:<br> + + +<br> + + +--Acabou!... <i>Alea jacta est!</i> E como só partimos para +Abril, há tempo de pintar, de assoalhar, de +envidraçar... Mando daqui de Paris tapetes e camas... Um +estofador de Lisboa vai depois forrar e disfarçar algum +buraco... Levamos livros, uma Máquina para fabricar gelo... +E é mesmo uma ocasião de pôr enfim numa das +minhas casas de Portugal alguma decência e ordem. Pois +não achas? <span class="pagenum">[168]</span>E então +essa! Uma casa que data de 1410... Ainda existia o Império +Bizantino!<br> + + + +<br> + + +Eu espalhava, com o pincel, sobre a face, flocos lentos de +sabão. O meu Príncipe acendeu muito pensativamente um +cigarro; e não se arredou do toucador, considerando o meu +preparo com uma atenção triste que me incomodava. Por +fim, como se remoesse uma sentença minha, para lhe reter bem +a moral e o suco:<br> + + +<br> + + +--Então, definitivamente, Zé Fernandes, entendes que +é um dever, um absoluto dever, ir eu a Tormes?<br> + + +<br> + + + +Afastei do espelho a cara ensaboada para encarar com divertido +espanto o meu Príncipe:<br> + + +<br> + + +--Oh Jacinto! foi em ti, só em ti que nasceu a ideia desse +dever! E honra te seja, menino... Não cedas a ninguém +essa honra!<br> + + +<br> + + +Ele atirou o cigarro--e, com as mãos enterradas nas +algibeiras das pantalonas, vagou pelo quarto, topando nas cadeiras, +embicando contra os postes torneados do velho leito de D. +Galeão, num balanço vago, como barco já +desamarrado do seu seguro ancoradouro, e sem rumo no mar incerto. +Depois encalhou sobre a mesa onde eu conservava enfileirada, por +gradações de sentimentos, desde o +daguerreótipo <span class="pagenum">[169]</span>do +papá até à fotografia do <i>Carocho</i> + +perdigueiro, a galeria da minha Família.<br> + + +<br> + + +E nunca o meu Príncipe (que eu contemplava esticando os +suspensórios) me pareceu tão corcovado, tão +minguado, como gasto por uma lima que desde muito o andasse +fundamente limando. Assim viera findar, desfeita em +Civilização, naquele super-requintado magricelas sem +músculo e sem energia, a raça fortíssima dos +Jacintos! Esses guedelhudos Jacintões, que nas suas altas +terras de Tormes, de volta de bater o moiro no Salado ou o +castelhano em Valverde, nem mesmo despiam as fuscas armaduras para +lavrar as suas chãs e amarrar a vide ao olmo, edificando o +Reino com a lança e com a enxada, ambas tão rudes e +rijas! E agora, ali estava aquele último Jacinto, um +Jacintículo, com a macia pele embebida em aromas, a curta +alma enrodilhada em Filosofias, travado e suspirando baixinho na +miúda indecisão de viver.<br> + + + +<br> + + +--Oh Zé Fernandes, quem é esta lavradeirona +tão rechonchuda?<br> + + +<br> + + +Estendi o pescoço para a Fotografia que ele erguera dentre a +minha galeria, no seu honroso caixilho de pelúcia +escarlate:<br> + + +<br> + + +--Mais respeito, Sr. D. Jacinto... Um pouco mais de respeito, +cavalheiro!... É minha <span class="pagenum">[170]</span>prima Joaninha, de Sandofim, da Casa da Flor +da Malva.<br> + + + +<br> + + +--Flor da Malva, murmurou o meu Príncipe. É a casa do +Condestável, de Nun'Álvares.<br> + + +<br> + + +--Flor da Rosa, homem! A casa do Condestável era na Flor da +Rosa, no Alentejo... Essa tua ignorância trapalhona das +coisas de Portugal!<br> + + +<br> + + +O meu Príncipe deixou escorregar molemente a fotografia da +minha prima dentre os dedos moles--que levou à face, no seu +gesto horrendo de palpar através da face a caveira. Depois, +de repente, com um soberbo esforço, em que se endireitou e +cresceu:<br> + + + +<br> + + +--Bem! <i>Alea jacta est!</i> Partamos pois para as serras!... E +agora nem reflexão, nem descanso!... À obra! E a +caminho!<br> + + +<br> + + +Atirou a mão ao fecho dourado da porta como se fosse o negro +loquete que abre os Destinos--e no corredor gritou pelo Grilo, com +uma larga e açodada voz que eu nunca lhe conhecera, e me +lembrou a de um Chefe ordenando, na alvorada, que se levante o +Acampamento, e que a Hoste marche, com pendões e +bagagens...<br> + + +<br> + + +Logo nessa manhã (com uma actividade em que eu reconheci a +pressa enjoada de quem bebe óleo de rícino), escreveu +ao Silvério mandando caiar, assoalhar, envidraçar o + +<span class="pagenum">[171]</span>casarão. E depois do +almoço apareceu na Biblioteca, chamado violentamente pelo +telefone, para combinar a remessa de mobílias e confortos, o +director da <i>Companhia Universal de Transportes</i>.<br> + + +<br> + + +Era um homem que parecia o cartaz da sua Companhia, apertado num +jaquetão de xadrezinho escuro, com polainas de jornada sobre +botas brancas, uma sacola de marroquim a tiracolo, e na botoeira +uma roseta multicor resumindo as suas condecorações +exóticas de Madagáscar, de Nicarágua, da +Pérsia, outras ainda, que provavam a universalidade dos seus +serviços. Apenas Jacinto mencionou «Tormes, no +Douro...»--ele logo, através de um sorriso superior, +estendeu o braço, detendo outros esclarecimentos, na sua +intimidade minuciosa com essas regiões.<br> + + + +<br> + + +--Tormes... Perfeitamente! Perfeitamente!<br> + + +<br> + + +Sobre o joelho, na carteira, escrevinhou uma fugidia nota--enquanto +eu considerava, assombrado, a vastidão do seu saber +Corográfico, assim familiar com os recantos de uma serra de +Portugal e com todos os seus velhos solares. Já ele atirara +a carteira para o bolso... E «nós, seus caros +senhores, não tínhamos senão a encaixotar as +roupas, as mobílias, as preciosidades! Ele mandaria as suas +carroças buscar os caixotes, a que <span class="pagenum">[172]</span>poria, em grossa letra, com grossa tinta, o +endereço...»<br> + + + +<br> + + +--Tormes, perfeitamente! Linha Norte-Espanha-Medina-Salamanca... +Perfeitamente! Tormes... Muito pitoresco! E antigo, +histórico! Perfeitamente, perfeitamente!<br> + + +<br> + + +Desengonçou a cabeça numa vénia +profundíssima--e saiu da Biblioteca, com passos que +devoravam léguas, anunciavam a presteza dos seus +Transportes.<br> + + +<br> + + +--Vê tu, murmurou Jacinto muito sério. Que +prontidão, que facilidade!... Em Portugal era uma +tragédia. Não há senão Paris!<br> + + + +<br> + + +Começou então no 202 o colossal encaixotamento de +todos os confortos necessários ao meu Príncipe para +um mês de serra áspera--camas de pena, banheiras de +níquel, lâmpadas Carcel, divãs profundos, +cortinas para vedar as gretas rudes, tapetes para amaciar os +soalhos broncos. Os sótãos, onde se arrecadavam os +pesados trastes do avô Galeão, foram +esvaziados--porque o casarão medieval de 1410 comportava os +tremós românticos de 1830. De todos os armazéns +de Paris chegavam cada manhã fardos, caixas, temerosos +embrulhos que os emaladores desfaziam, atulhando os corredores de +montes de palha e de papel pardo, onde os nossos passos +açodados se enrodilhavam. O cozinheiro, esbaforido, + +<span class="pagenum">[173]</span>organizava a remessa de +fornalhas, geleiras, bocais de trufas, latas de conservas, bojudas +garrafas de águas minerais. Jacinto, lembrando as trovoadas +da serra, comprou um imenso pára-raios. Desde o amanhecer, +nos pátios, no jardim, se martelava, se pregava, com vasto +fragor, como na construção de uma cidade. E o +desfilar das bagagens, através do portão, lembrava +uma página de Heródoto contando a marcha dos +Persas.<br> + + +<br> + + +Das janelas, Jacinto com o braço estendido, saboreava aquela +actividade e aquela disciplina:<br> + + +<br> + + +--Vê tu, Zé Fernandes, que facilidade!... +Saímos do 202, chegamos à serra, encontramos o 202. +Não há senão Paris!<br> + + + +<br> + + +Recomeçara a amar a Cidade, o meu Príncipe, enquanto +preparava o seu Êxodo. Depois de ter, toda a manhã, +apressado os encaixotadores, descortinado confortos novos para o +abandonado solar, telefonado gordas listas de encomendas a cada +loja de Paris--era com delícia que se vestia, se perfumava, +se floria, se enterrava na vitória ou saltava para a +almofada do faéton, e corria ao Bosque, e saudava a barba +talmúdica do Efraim, e os bandós furiosamente negros +da Verghane, e o Psicólogo de fiacre, e a <span class="pagenum">[174]</span>condessa de Trèves na sua nova caleche +de oito molas fornecida pelas operações conjuntas da +Bolsa e da alcova. Depois arrebanhava amigos para jantares de +surpresa no Voisin ou no Bignon, onde desdobrava o guardanapo com a +impaciência de uma fome alegre, vigiando fervorosamente que +os Bordéus estivessem bem aquecidos e os Champanhes bem +granitados. E no teatro das <i>Nouveautés</i>, no <i>Palais +Royal</i>, nos <i>Buffos</i>, ria, batendo na coxa, com encanecidas +facécias de encanecidas farsas, antiquíssimos +trejeitos de antiquíssimos actores, com que já rira +na sua infância, antes da guerra, sob o segundo +Napoleão!<br> + + + +<br> + + +De novo, em duas semanas, se abarrotaram as páginas da sua +Agenda. A magnificência do seu traje, como imperador +Frederico II de Suábia, deslumbrou, no baile mascarado da +Princesa de Cravon-Rogan (onde também fui, de +«moço de forcado».) E na +<i>Associação para o Desenvolvimento das +Religiões Esotéricas</i> discursou e batalhou +bravamente pela construção de um Templo Budista em +Montmartre!<br> + + + +<br> + + +Com espanto meu recomeçou também a conversar, como +nos tempos de Escola, da «famosa Civilização +nas suas máximas proporções.» Mandou +encaixotar o seu velho telescópio para o usar em Tormes. +Receei mesmo que no seu espírito germinasse a ideia de +<span class="pagenum">[175]</span>criar, no cimo da serra, uma +Cidade com todos os seus órgãos. Pelo menos +não consentia o meu Jacinto que essas semanas da silvestre +Tormes interrompessem a ilimitada acumulação das +noções--porque uma manhã rompeu pelo meu +quarto, desolado, gritando que entre tantos confortos e formas de +Civilização esquecêramos os livros! Assim +era--e que vexame para a nossa Intelectualidade! Mas que livros +escolher entre os facundos milhares sob que vergava o 202? O meu +Príncipe decidiu logo dedicar os seus dias serranos ao +estudo da História Natural--e nós mesmos, +imediatamente, deitámos para o fundo de um vasto caixote +novo, como lastro, os vinte e cinco tomos de Plínio. +Despejámos depois para dentro, às braçadas, +Geologia, Mineralogia, Botânica... Espalhámos por cima +uma camada aérea de Astronomia. E, para fixar bem no caixote +estas Ciências oscilantes, entalámos em redor cunhas +de Metafísica.<br> + + + +<br> + + +Mas quando a derradeira caixa, pregada e cintada de ferro, saiu do +portão do 202 na derradeira carroça da <i>Companhia +dos Transportes</i>, toda esta animação de Jacinto se +abateu como a efervescência num copo de Champanhe. Era em +meados já tépidos de Março. E de novo os seus +desagradáveis bocejos atroaram <span class="pagenum">[176]</span>o 202, e todos os sofás rangeram sob o +peso do corpo que ele lhe atirava para cima, mortalmente vencido +pela fartura e pelo tédio, num desejo de repouso eterno, bem +envolto de solidão e silêncio. Desesperei. O +quê! Aturaria eu ainda aquele Príncipe palpando +amargamente a caveira, e, quando o crepúsculo entristecia a +Biblioteca, aludindo, num tom rouco, à doçura das +mortes rápidas pela violência misericordiosa do acido +cianídrico? Ah não, caramba! E uma tarde em que o +encontrei estirado sobre um divã, de braços em cruz, +como se fosse a sua estátua de mármore sobre o seu +jazigo de granito, positivamente o abanei com furor, berrando:<br> + + + +<br> + + +--Acorda, homem! Vamos para Tormes! O casarão deve estar +pronto, a reluzir, a abarrotar de coisas! Os ossos de teus +avós pedem repouso, em cova sua!... A caminho, a enterrar +esses mortos, e a vivermos nós, os vivos!... Irra! +São cinco de Abril!... É o bom tempo da serra!<br> + + +<br> + + +O meu Príncipe ressurgiu lentamente da inércia de +pedra:<br> + + +<br> + + +--O Silvério não me escreveu, nunca me escreveu... +Mas, com efeito, deve estar tudo preparado... Já lá + +temos certamente criados, o cozinheiro de Lisboa... Eu só +levo o Grilo, e o Anatole que enverniza bem o calçado, e +<span class="pagenum">[177]</span>tem jeito como pedicuro... Hoje +é Domingo.<br> + + +<br> + + +Atirou os pés para o tapete, com heroísmo:<br> + + +<br> + + +--Bem, partimos no Sábado!... Avisa tu o +Silvério!<br> + + + +<br> + + +Começou então o laborioso e pensativo estudo dos +Horários--e o dedo magro de Jacinto, por sobre o mapa, +avançando e recuando entre Paris e Tormes. Para escolher o +«salão» que devíamos habitar durante a +temida jornada, duas vezes percorremos o depósito da +Estação de Orléans, atolados em lama, +atrás do Chefe do Tráfico que entontecia. O meu +Príncipe recusava este salão por causa da cor +tristonha dos estofos; depois recusava aquele por causa da +mesquinhez aflitiva do Water-Closet! Uma das suas +inquietações era o banho, nas manhãs que +passaríamos rolando. Sugeri uma banheira de borracha. +Jacinto, indeciso, suspirava... Mas nada o aterrou como o +transbordo em Medina del Campo, de noite, nas trevas da Velha +Castela. Debalde a Companhia do Norte de Espanha e a de Salamanca, +por cartas, por telegramas, sossegaram o meu camarada, afirmando +que, quando ele chegasse no comboio de Irun dentro do seu +salão, já outro salão ligado ao comboio de +Portugal esperaria, bem aquecido, bem alumiado, com uma ceia que +lhe ofertava um dos Directores, D. Esteban Castillo, ruidoso + +<span class="pagenum">[178]</span>e rubicundo conviva do 202! +Jacinto corria os dedos ansiosos pela face:--«E os sacos, as +peles, os livros, quem os transportaria do salão de Irun +para o salão de Salamanca?» Eu berrava, desesperado, +que os carregadores de Medina eram os mais rápidos, os mais +destros de toda a Europa! Ele murmurava:--«Pois sim, mas em +Espanha, de noite!...» A noite, longe da Cidade, sem +telefone, sem luz eléctrica, sem postos de polícia, +parecia ao meu Príncipe povoada de surpresas e assaltos. +Só acalmou depois de verificar no Observatório +Astronómico, sob a garantia do sábio professor +Bertrand, que a noite da nossa jornada era de lua cheia!<br> + + + +<br> + + +Enfim, na sexta-feira, findou a tremenda organização +daquela viagem histórica! O sábado predestinado +amanheceu com generoso sol, de afagadora doçura. E eu +acabava de guardar na mala, embrulhadas em papel pardo, as +fotografias das criaturinhas suaves que, nesses vinte e sete meses +de Paris, me tinham chamado «<i>mon petit chou! mon rat +cheri!</i>»--quando Jacinto rompeu pelo quarto, com um +soberbo ramo de orquídeas na sobrecasaca, pálido e +todo nervoso.<br> + + +<br> + + +--Vamos ao Bosque, por despedida?<br> + + +<br> + + +Fomos--à grande despedida! E que encanto! Até nas +almofadas e molas da vitória <span class="pagenum">[179]</span>senti logo uma elasticidade mais embaladora. +Depois, pela Avenida do Bosque, quase me pesava não ficar +sempiternamente rolando, ao trote rimado das éguas +perfeitas, no rebrilho rico de metais e vernizes, sobre aquele +macadame mais alisado que mármore, entre tão bem +regadas flores e relvas de tão tentadora frescura, cruzando +uma Humanidade fina, de elegância bem acabada, que +almoçara o seu chocolate em porcelanas de Sèvres ou +de Minton, saíra de entre sedas e tapetes de três mil +francos, e respirava a beleza de Abril com vagar, requinte e +pensamentos ligeiros! O Bosque resplandecia numa harmonia de verde, +azul e ouro. Nenhuma cova ou terra solta desalisava as polidas + +áleas que a Arte traçou e enroscou na +espessura--nenhum esgalho desgrenhado desmanchava as +ondulações macias da folhagem que o Estado escova e +lava. O piar das aves apenas se elevava para espalhar uma +graça leve de vida alada;--e mais natural parecia, entre o +arvoredo sociável, o ranger das selas novas, onde pousavam, +com balanço esbelto, as amazonas espartilhadas pelo grande +Redfern. Em frente ao Pavilhão de Armenonville +cruzámos Madame de Trèves, que nos envolveu ambos na +carícia do seu sorriso, mais avivado àquela hora pelo +vermelhão ainda húmido. Logo atrás +<span class="pagenum">[180]</span>a barba talmúdica de +Efraim negrejou, fresca também da brilhantina da +manhã, no alto de um faéton tilintante. Outros amigos +de Jacinto circulavam nas Acácias--e as mãos que lhe +acenavam, lentas e afáveis, calçavam luvas frescas +cor de palha, cor de pérola, cor de lilás. Todelle +relampejou rente de nós sobre uma grande bicicleta. Dornan, +alastrado numa cadeira de ferro, sob um espinheiro em flor, mamava +o seu imenso charuto, como perdido na busca de rimas sensuais e +nédias. Adiante foi o Psicólogo, que nos não +avistou, conversando com um requebro melancólico para dentro +de um coupé que rescendia a alcova, e a que um cocheiro +obeso imprimia dignidade e decência. E rolávamos +ainda, quando o Duque de Marizac, a cavalo, ergueu a bengala, +estacou a nossa vitória para perguntar a Jacinto se aparecia + +à noite nos «quadros vivos» dos Verghanes. O meu +Príncipe rosnou um--«não, parto para o +sul...»--que mal lhe passou de entre os bigodes murchos... E +Marizac lamentou--porque era uma festa estupenda. Quadros vivos da +História Sagrada e da História Romana!... Madame +Verghane, de Madalena, de braços nus, peitos nus, pernas +nuas, limpando com os cabelos os pés do Cristo!--O Cristo, +um latagão soberbo, parente dos Trèves, empregado no +<span class="pagenum">[181]</span>Ministério da Guerra, +gemendo, derreado, sob uma cruz de papelão! Havia +também Lucrécia na cama, e Tarquínio ao lado, +de punhal, a puxar os lençóis! E depois ceia, em +mesas soltas, todos nos seus trajes históricos. Ele +já estava aparceirado com Madame de Malbe, que era Agripina! +Quadro portentoso esse--Agripina morta, quando Nero a vem +contemplar e lhe estuda as formas, admirando umas, desdenhando +outras como imperfeitas. Mas, por polidez, ficara combinado que +Nero admiraria sem reserva todas as formas de Madame de Malbe... +Enfim colossal, e estupendamente instrutivo!<br> + + + +<br> + + +Acenámos um longo adeus àquele alegre Marizac. E +recolhemos sem que Jacinto emergisse do silêncio enrugado em +que se abismara, com os braços rigidamente cruzados, como +remoendo pensamentos decisivos e fortes. Depois, em frente ao Arco +de Triunfo, moveu a cabeça, murmurou:<br> + + +<br> + + +--É muito grave, deixar a Europa!<br> + + +<br> + + +<br> + + +<div class="break"> +<hr></div> + + + +<br> + + +<br> + + +Enfim, partimos! Sob a doçura do crepúsculo que se +enublara deixámos o 202. O Grilo e o Anatole seguiam num +fiacre atulhado de livros, de estojos, de paletós, de +impermeáveis, de travesseiras, de águas minerais, +<span class="pagenum">[182]</span>de sacos de couro, de rolos de +mantas: e mais atrás um ónibus rangia sob a carga de +vinte e três malas. Na Estação, Jacinto ainda +comprou todos os Jornais, todas as Ilustrações, +Horários, mais livros, e um saca-rolhas de forma complicada +e hostil. Guiados pelo Chefe do Tráfico, pelo +Secretário da Companhia, ocupámos copiosamente o +nosso salão. Eu pus o meu boné de seda, calcei as +minhas chinelas. Um silvo varou a noite. Paris lampejou, fugiu num +derradeiro clarão de janelas... Para o sorver, Jacinto ainda +se arremessou à portinhola. Mas rolávamos já + +na treva da Província. O meu Príncipe então +recaiu nas almofadas:<br> + + +<br> + + +--Que aventura, Zé Fernandes!<br> + + +<br> + + +Até Chartres, em silêncio, folheámos as +Ilustrações. Em Orléans, o guarda veio +arranjar respeitosamente as nossas camas. Derreado com aqueles +catorze meses de Civilização adormeci--e só + +acordei em Bordéus quando Grilo, zeloso, nos trouxe o nosso +chocolate. Fora, uma chuva miudinha pingava molemente de um espesso +céu de algodão sujo. Jacinto não se deitara, +desconfiado da aspereza e da humidade dos lençóis. E, +metido num roupão de flanela branco, com a face arrepiada e +estremunhada, ensopando um bolo no chocolate, rosnava +sombriamente:<br> + + +<br> + + +<span class="pagenum">[184]</span>--Este horror!... E agora com +chuva!<br> + + +<br> + + +Em Biarritz, ambos observámos com uma certeza indolente:<br> + + +<br> + + + +--É Biarritz.<br> + + +<br> + + +Depois Jacinto, que espreitava pela janela embaciada, reconheceu o +lento caminhar pernalto, o nariz bicudo e triste, do Historiador +Danjon. Era ele, o facundo homem, vestido de xadrezinho, ao lado de +uma dama roliça que levava pela trela uma cadelinha felpuda. +Jacinto baixou a vidraça violentamente, berrou pelo +Historiador, na ânsia de comunicar ainda, através +dele, com a Cidade, com o 202!... Mas o comboio mergulhara na chuva +e névoa.<br> + + +<br> + + +Sobre a ponte do Bidassoa, antevendo o termo da vida fácil, +os abrolhos da Incivilização, Jacinto suspirou com +desalento:<br> + + + +<br> + + +--Agora adeus, começa a Espanha!...<br> + + +<br> + + +Indignado, eu, que já saboreava o generoso ar da terra +bendita, saltei para diante do meu Príncipe, e num +saracoteio de tremendo salero, castanholando os dedos, entoei uma +«petenera» condigna:<br> + + +<br> + + +<div class="break">A la puerta de mi casa<br> + + +Ay Soledad, Soleda... á... á... á.</div> + + + +<br> + + +Ele estendeu os braços, suplicante:<br> + + +<br> + + +<span class="pagenum">[184]</span>--Zé Fernandes, tem +piedade do enfermo e do triste! --<i>Irun! Irun!</i>...<br> + + +<br> + + +Nessa Irun almoçámos com suculência--porque +sobre nós velava, como Deusa omnipresente, a Companhia do +Norte. Depois «el jefe d'Aduana, el jefe d'Estacion», +preciosamente nos instalaram noutro salão, novo, com cetins +cor de azeitona, mas tão pequeno que uma rica +porção dos nossos confortos em mantas, livros, sacos +e impermeáveis, passou para o compartimento do + +<i>Sleeping</i> onde se repoltreavam o Grilo e o Anatole, ambos de +bonés escoceses, e fumando gordos charutos.--<i>Buen viaje_! +Gracias! Servidores!</i>--E entrámos silvando nos +Pirenéus.<br> + + +<br> + + +Sob a influência da chuva embaciadora, daquelas serras sempre +iguais, que se desenrolavam, arrepiadas, diluídas na +névoa, resvalei a uma sonolência doce;--e, quando +descerrava as pálpebras, encontrava Jacinto a um canto, +esquecido do livro fechado nos joelhos, sobre que cruzara os magros +dedos, considerando vales e montes com a melancolia de quem penetra +nas terras do seu desterro! Um momento veio em que, arremessando o +livro, enterrando mais o chapéu mole, se ergueu com tanta +decisão, que receei detivesse o comboio para saltar à + +estrada, <span class="pagenum">[185]</span> correr através +das Vascongadas e da Navarra, para trás, para o 202! Sacudi +o meu torpor, exclamei:--«oh menino!...» Não! O +pobre amigo ia apenas continuar o seu tédio para outro +canto, enterrado noutra almofada, com outro livro fechado. E +à maneira que a escuridão da tarde crescia, e com ela +a borrasca de vento e água, uma inquietação +mais aterrada se apoderava do meu Príncipe, assim desgarrado +da Civilização, arrastado para a Natureza que +já o cercava de brutalidade agreste. Não cessou +então de me interrogar sobre Tormes:<br> + + + +<br> + + +--As noites são horríveis, hein, Zé Fernandes? +Tudo negro, enorme solidão... E médico?... Há +médico?<br> + + +<br> + + +Subitamente o comboio estacou. Mais grossa e ruidosa a chuva +fustigou as vidraças. Era um descampado, todo em treva, onde +rolava e lufava um grande vento solto. A Máquina apitava, +com angústia. Uma lanterna lampejou, correndo. Jacinto batia +o pé:--«É medonho! é medonho!»... +Entreabri a portinhola. Da claridade incerta das vidraças +surdiam cabeças esticadas, assustadas.--«<i>Que hay? +Que hay?</i>»--A uma rajada, que me alagou, recuei:--e +esperámos durante lentos, calados minutos, esfregando +desesperadamente os vidros embaciados para sondar a +escuridão. <span class="pagenum">[186]</span>De repente o +comboio recomeçou a rolar, muito sereno.<br> + + + +<br> + + +Em breve apareceram as luzinhas mortas de uma estação +abarracada. Um condutor, com o casacão de oleado todo a +escorrer, trepou ao salão:--e por ele soubemos, enquanto +carimbava apressadamente os bilhetes, que o trem, muito atrasado, +talvez não alcançasse em Medina o comboio de +Salamanca!<br> + + +<br> + + +--Mas então?...<br> + + +<br> + + +O casaco de oleado escorregara pela portinhola, fundido na noite, +deixando um cheiro de humidade e azeite. E nós +encetámos um novo tormento... Se o trem de Salamanca tivesse +abalado? O salão, tomado até Medina, desengatava em +Medina:--e eis os nossos preciosos corpos, com as nossas preciosas +almas, despejados em Medina, para cima da lama, entre vinte e +três malas, numa rude confusão espanhola, sob a +tormenta de ventania e de água!<br> + + + +<br> + + +--Oh, Zé Fernandes, uma noite em Medina!<br> + + +<br> + + +Ao meu Príncipe aparecia como desventura suprema essa noite +em Medina, numa <i>fonda</i> sórdida, fedendo a alho, com +gordas filas de percevejos através dos lençóis +de estopa encardida!... Não cessei então de fitar, +num desassossego, os ponteiros do relógio:--enquanto +Jacinto, pela vidraça escancarada, todo fustigado + +<span class="pagenum">[187]</span>da chuva clamorosa, furava a +negrura, na esperança de avistar as luzes de Medina e um +comboio paciente fumegando... Depois recaía no divã, +limpava os bigodes e os olhos, maldizia a Espanha. O trem +arquejava, rompendo o vasto vento da planura desolada. E a cada +apito era um alvoroço. Medina?... Não! Algum sumido +apeadeiro, onde o trem se atardava, esfalfado, resfolgando, +enquanto dormentes figuras encarapuçadas, embrulhadas em +mantas, rondavam sob o telheiro do barracão, que as +lanternas baças tornavam mais soturno. Jacinto esmurrava o +joelho:--«Mas por que pára este infame comboio? +Não há tráfico, não há gente! Oh +esta Espanha!...» A sineta badalava, moribunda. De novo +fendíamos a noite e a borrasca.<br> + + + +<br> + + +Resignadamente comecei a percorrer um <i>Jornal do +Comércio</i>, antigo, trazido de Paris. Jacinto esmagava o +espesso tapete do salão com passadas rancorosas, rosnando +como uma fera. E ainda assim se escoou, às gotas, uma hora +cheia de eternidade.--Um silvo, outro silvo!... Luzes mais fortes, +longe, palpitaram na neblina. As rodas trilharam, com rijos +solavancos, os encontros de carris. Enfim, Medina!... Um muro sujo +de barracão alvejou--e bruscamente, à portinhola +aberta com violência, aparece um cavalheiro barbudo, +<span class="pagenum">[188]</span>de capa à espanhola, +gritando pelo Sr. D. Jacinto!... Depressa! depressa! que parte o +comboio de Salamanca!<br> + + + +<br> + + +--«Que no hay un momento, caballeros! Que no hay un +momento!»<br> + + +<br> + + +Agarro estonteadamente o meu paletó, o <i>Jornal do +Comércio</i>. Saltámos com ânsia:--e, pela +plataforma, por sobre os trilhos, através de charcos, +tropeçando em fardos, empurrados pelo vento, pelo homem da +capa à espanhola, enfiámos outra portinhola, que se +fechou com um estalo tremendo... Ambos arquejávamos. Era um +salão forrado de um pano verde que comia a luz escassa. E eu +estendia o braço, para receber dos carregadores +açodados as nossas malas, os nossos livros, as nossas +mantas--quando, em silêncio, sem um apito, o trem despegou e +rolou. Ambos nos atirámos às vidraças, em +brados furiosos:<br> + + + +<br> + + +--Pare! As nossas malas, as nossas mantas!... P'ra aqui!... Oh +Grilo! Oh Grilo!<br> + + +<br> + + +Uma imensa rajada levou os nossos brados. Era de novo o descampado +tenebroso, sob a chuva despenhada. Jacinto ergueu os punhos, num +furor que o engasgava:<br> + + +<br> + + +--Oh! Que serviço! Oh que canalhas!... Só em +Espanha!... E agora? As malas perdidas!... Nem uma camisa, nem uma +escova!<br> + + +<br> + + +Calmei o meu desgraçado amigo:<br> + + +<br> + + + +<span class="pagenum">[189]</span>--Escuta! eu entrevi dois +carregadores arrebanhando as nossas coisas... Decerto o Grilo +fiscalizou. Mas na pressa, naturalmente, atirou com tudo para o seu +compartimento... Foi um erro não trazer o Grilo connosco, no +salão... Até podíamos jogar a manilha!<br> + + +<br> + + +De resto a solicitude da Companhia, Deusa omnipresente, velava +sobre o nosso conforto--pois que à porta do lavatório +branquejava o cesto da nossa ceia, mostrando na tampa um bilhete de +D. Esteban com estas doces palavras a lápis--<i>à D. +Jacinto y su egregio amigo, que les dè gusto!</i> Farejei um +aroma de perdiz. E alguma tranquilidade nos penetrou no +coração sentindo também as nossas malas sob a +tutela da Deusa omnipresente.<br> + + + +<br> + + +--Tens fome Jacinto?<br> + + +<br> + + +--Não. Tenho horror, furor, rancor!... E tenho sono.<br> + + +<br> + + +Com efeito! depois de tão desencontradas +emoções só apetecíamos as camas que +esperavam, macias e abertas. Quando caí sobre a travesseira, +sem gravata, em ceroulas, já o meu Príncipe, que +não se despira, apenas embrulhara os pés no + +<i>meu</i> paletó, nosso único agasalho, ressonava +com majestade.<br> + + +<br> + + +Depois, muito tarde e muito longe, percebi junto do meu catre, na +claridadezinha da manhã, coada pelas cortinas verdes, uma +<span class="pagenum">[190]</span>fardeta, um boné, que +murmuravam baixinho com imensa doçura:<br> + + +--V. Exc.<sup>as</sup> não têm nada a declarar?... +Não há malinhas de mão?...<br> + + + +<br> + + +Era a minha terra! Murmurei baixinho com imensa ternura:<br> + + +<br> + + +--Não temos aqui nada... Pergunte V. Exc.ª pelo +Grilo... Aí atrás, num compartimento... Ele tem as +chaves, tem tudo... É o Grilo.<br> + + +<br> + + +A fardeta desapareceu, sem rumor, como sombra benéfica. E eu +readormeci com o pensamento em Guiães, onde a tia +Vicência, atarefada, de lenço branco cruzado no peito, +de certo já preparava o leitão.<br> + + + +<br> + + +Acordei envolto num largo e doce silêncio. Era uma +Estação muito sossegada, muito varrida, com rosinhas +brancas trepando pelas paredes--e outras rosas em moitas, num +jardim, onde um tanquezinho abafado de limos dormia sob duas +mimosas em flor que rescendiam. Um moço pálido, de +paletó cor de mel, vergando a bengalinha contra o +chão, contemplava pensativamente o comboio. Agachada rente +à grade da horta, uma velha, diante da sua cesta de ovos, +contava moedas de cobre no regaço. Sobre o telhado secavam +abóboras. Por cima rebrilhava o profundo, <span class="pagenum">[191]</span>rico e macio azul de que meus olhos andavam +aguados.<br> + + +<br> + + + +Sacudi violentamente Jacinto:<br> + + +<br> + + +--Acorda, homem, que estás na tua terra!<br> + + +<br> + + +Ele desembrulhou os pés do meu paletó, cofiou o +bigode, e veio sem pressa, à vidraça que eu abrira, +conhecer a sua terra.<br> + + +<br> + + +--Então é Portugal, hein?... Cheira bem.<br> + + + +<br> + + +--Está claro que cheira bem, animal!<br> + + +<br> + + +A sineta tilintou languidamente. E o comboio deslizou, com +descanso, como se passeasse para seu regalo sobre as duas fitas de +aço, assobiando e gozando a beleza da terra e do +céu.<br> + + +<br> + + +O meu Príncipe alargava os braços, desolado:<br> + + +<br> + + +--E nem uma camisa, nem uma escova, nem uma gota de + +água-de-colónia!... Entro em Portugal, imundo!<br> + + +<br> + + +--Na Régua há uma demora, temos tempo de chamar o +Grilo, reaver os nossos confortos... Olha para o rio!<br> + + +<br> + + +Rolávamos na vertente de uma serra, sobre penhascos que +desabavam até largos socalcos cultivados de vinhedo. Em +baixo, numa esplanada, branquejava uma casa nobre, de opulento +repouso, com a capelinha muito caiada entre um laranjal maduro. +Pelo rio, onde a água turva e tarda nem se quebrava contra +<span class="pagenum">[192]</span>as rochas, descia, com a vela +cheia, um barco lento carregado de pipas. Para além, outros +socalcos, de um verde pálido de reseda, com oliveiras +apoucadas pela amplidão dos montes, subiam até outras +penedias que se embebiam, todas brancas e assoalhadas, na fina +abundância do azul. Jacinto acariciava os pêlos +corredios do bigode:<br> + + + +<br> + + +--O Douro, hein?... É interessante, tem grandeza. Mas agora +é que eu estou com uma fome, Zé Fernandes!<br> + + +<br> + + +Também eu! Destapamos o cesto de D. Esteban donde surdiu um +bodo grandioso, de presunto, anho, perdizes, outras viandas frias +que o ouro de duas nobres garrafas de Amontillado, além de +duas garrafas de Rioja, aqueciam com um calor de sol Andaluz. +Durante o presunto, Jacinto lamentou contritamente o seu erro. Ter +deixado Tormes, um solar histórico, assim abandonado e +vazio! Que delícia, por aquela manhã tão +lustrosa e tépida, subir à serra, encontrar a sua +casa bem apetrechada, bem civilizada... Para o animar, lembrei que +com as obras do Silvério, tantos caixotes de +Civilização remetidos de Paris, Tormes estaria +confortável mesmo para Epicuro. Oh! mas Jacinto entendia um +palácio perfeito, um 202 no deserto!... E, assim +discorrendo, atacámos as perdizes. Eu desarrolhava + +<span class="pagenum">[193]</span>uma garrafa de +Amontillado--quando o comboio, muito sorrateiramente, penetrou numa +Estação. Era a Régua. E o meu Príncipe +pousou logo a faca para chamar o Grilo, reclamar as malas que +traziam o asseio dos nossos corpos.<br> + + +<br> + + +--Espera, Jacinto! Temos muito tempo, O comboio pára aqui +uma hora... Come com tranquilidade. Não escangalhemos este +almocinho com arrumações de maletas... O Grilo +não tarda a aparecer.<br> + + +<br> + + +E corri mesmo a cortina, porque de fora um padre muito alto, com +uma ponta de cigarro colada ao beiço, parara a espreitar +indiscretamente o nosso festim. Mas quando acabámos as +perdizes, e Jacinto confiadamente desembrulhava um queijo manchego, +sem que Grilo ou Anatole comparecessem, eu, inquieto, corri + +à portinhola para apressar esses servos tardios... E nesse +instante o comboio, largando, deslizou com o mesmo silêncio +sorrateiro. Para o meu Príncipe foi um desgosto:<br> + + +<br> + + +--Aí ficamos outra vez sem um pente, sem uma escova... E eu +que queria mudar de camisa! Por culpa tua, Zé Fernandes!<br> + + +<br> + + +--É espantoso!... Demora sempre uma eternidade. Hoje chega e +abala! Paciência, Jacinto. Em duas horas estamos na +Estação de Tormes... Também não valia a +pena mudar <span class="pagenum">[194]</span>de camisa para subir + +à serra! Em casa tomamos um banho, antes de jantar... +Já deve estar instalada a banheira.<br> + + +<br> + + +Ambos nos consolámos com copinhos de uma divina aguardente +Chinchon. Depois, estendidos nos sofás, saboreando os dois +charutos que nos restavam, com as vidraças abertas ao ar +adorável, conversámos de Tormes. Na +estação certamente estaria o Silvério, com os +cavalos...<br> + + +<br> + + +--Que tempo leva a subir?<br> + + + +<br> + + +Uma hora. Depois de lavados sobrava tempo para um demorado passeio +pelas terras com o caseiro, o excelente Melchior, para que o Senhor +de Tormes, solenemente, tomasse posse do seu Senhorio. E à +noite o primeiro bródio da serra, com os pitéus +vernáculos do velho Portugal!<br> + + +<br> + + +Jacinto sorria, seduzido:<br> + + +<br> + + +--Vamos a ver que cozinheiro me arranjou esse Silvério. Eu +recomendei que fosse um soberbo cozinheiro português, +clássico. Mas que soubesse trufar um peru, afogar um bife em +molho de moela, estas coisas simples da cozinha de +França!... O pior é não te demorares, seguires +logo para Guiães...<br> + + + +<br> + + +--Ah, menino, anos da tia Vicência no sábado... Dia +sagrado! Mas volto. Em duas semanas estou em Tormes, para fazermos +uma <span class="pagenum">[195]</span>larga Bucólica. E, +está claro, para assistir à +trasladação.<br> + + +<br> + + +Jacinto estendera o braço:<br> + + + +<br> + + +--Que casarão é aquele, além no outeiro, com a +torre?<br> + + +<br> + + +Eu não sabia. Algum solar de fidalgote do Douro... Tormes +era nesse feitio atarracado e maciço. Casa de séculos +e para séculos--mas sem torre.<br> + + +<br> + + +--E logo se vê, da estação, Tormes?...<br> + + + +<br> + + +--Não! Muito no alto, numa prega da serra, entre +arvoredo.<br> + + +<br> + + +No meu Príncipe já evidentemente nascera uma +curiosidade pela sua rude casa ancestral. Mirava o relógio, +impaciente. Ainda trinta minutos! Depois, sorvendo o ar e a luz, +murmurava, no primeiro encanto de iniciado:<br> + + +<br> + + +--Que doçura, que paz...<br> + + +<br> + + +--Três horas e meia, estamos a chegar, Jacinto!<br> + + + +<br> + + +Guardei o meu velho <i>Jornal do Comércio</i> dentro do +bolso do paletó, que deitei sobre o braço;--e ambos +em pé, às janelas, esperámos com +alvoroço a pequenina Estação de Tormes, termo +ditoso das nossas provações. Ela apareceu enfim, +clara e simples, à beira do rio, entre rochas, com os seus +vistosos girassóis enchendo um jardinzinho breve, as duas +altas figueiras assombreando o pátio, <span class="pagenum">[196]</span>e por trás a serra coberta de velho e +denso arvoredo... Logo na plataforma avistei com gosto a imensa +barriga, as bochechas menineiras do chefe da Estação, +o louro Pimenta, meu condiscípulo em Retórica, no +Liceu de Braga. Os cavalos decerto esperavam, à sombra, sob +as figueiras.<br> + + + +<br> + + +Mal o trem parou ambos saltámos alegremente. A bojuda massa +do Pimenta rebolou para mim com amizade:<br> + + +<br> + + +--Viva o amigo Zé Fernandes!<br> + + +<br> + + +--Oh belo Pimentão!...<br> + + +<br> + + +Apresentei o senhor de Tormes. E imediatamente:<br> + + +<br> + + + +--Ouve lá, Pimentinha... Não está aí o +Silvério?<br> + + +<br> + + +--Não... O Silvério há quase dois meses que +partiu para Castelo de Vide, ver a mãe que apanhou uma +cornada de um boi!<br> + + + +<br> + + +Atirei a Jacinto um olhar inquieto:<br> + + +<br> + + +--Ora essa! E o Melchior, o caseiro?... Pois não +estão aí os cavalos para subirmos à +quinta?<br> + + +<br> + + +O digno chefe ergueu com surpresa as sobrancelhas cor de milho:<br> + + +<br> + + +--Não!... Nem Melchior, nem cavalos... O Melchior... +Há que tempos eu não vejo o Melchior!<br> + + + +<br> + + +O carregador badalou lentamente a sineta <span class="pagenum">[197]</span>para o comboio rolar. Então, +não avistando em torno, na lisa e despovoada +Estação, nem criados nem malas, o meu Príncipe +e eu lançámos o mesmo grito de angústia:<br> + + +<br> + + +--E o Grilo? as bagagens?...<br> + + +<br> + + +Corremos pela beira do comboio, berrando com desespero:<br> + + + +--Grilo!... Oh Grilo!... Anatole!... Oh Grilo!<br> + + +<br> + + +Na esperança que ele e o Anatole viessem mortalmente +adormecidos, trepávamos aos estribos, atirando a +cabeça para dentro dos compartimentos, espavorindo a gente +quieta com o mesmo berro que retumbava:--«Grilo, estás +aí, Grilo?»--Já de uma terceira classe, onde +uma viola repenicava, um jocoso gania, +troçando:--«Não há por aí um +grilo? Andam por aí uns senhores a pedir um grilo!»--E +nem Anatole, nem Grilo!<br> + + + +<br> + + +A sineta tilintou.<br> + + +<br> + + +--Oh Pimentinha, espera, homem, não deixes largar o +comboio!... As nossas bagagens, homem!<br> + + +<br> + + +E, aflito, empurrei o enorme chefe para o furgão de carga, a +pesquisar, descortinar as nossas vinte e três malas! Apenas +encontrámos barris, cestos de vime, latas de azeite, um +baú amarrado com cordas... Jacinto <span class="pagenum">[198]</span>mordia os beiços, lívido. E o +Pimentinha, esgazeado:<br> + + + +<br> + + +--Oh filhos, eu não posso atrasar o comboio!...<br> + + +<br> + + +A sineta repicou... E com um belo fumo claro o comboio desapareceu +por detrás das fragas altas. Tudo em torno pareceu mais +calado e deserto. Ali ficávamos pois baldeados, perdidos na +serra, sem Grilo, sem procurador, sem caseiro, sem cavalos, sem +malas! Eu conservava o paletó alvadio, donde surdia o +<i>Jornal do Comércio</i>. Jacinto, uma bengala. Eram todos +os nossos bens!<br> + + +<br> + + +O Pimentão arregalava para nós os olhinhos papudos e +compadecidos. Contei então àquele amigo o atarantado +trasfego em Medina sob a borrasca, o Grilo desgarrado, encalhado +com as vinte e três malas, ou rolando talvez para Madrid sem +nos deixar um lenço...<br> + + + +<br> + + +--Eu não tenho um lenço!... Tenho este <i>Jornal do +Comércio</i>. É toda a minha roupa branca.<br> + + +<br> + + +--Grande arrelia, caramba! murmurava o Pimenta, impressionado. E +agora?<br> + + +<br> + + +--Agora, exclamei, é trepar, para a quinta, à pata... +A não ser que se arranjassem aí uns burros.<br> + + + +<br> + + +Então o carregador lembrou que perto, no casal da Giesta, +ainda pertencente a Tormes, <span class="pagenum">[199]</span>o +caseiro, seu compadre, tinha uma boa égua e um jumento... E +o prestante homem enfiou numa carreira para a Giesta--enquanto o +meu Príncipe e eu caíamos para cima de um banco, +arquejantes e sucumbidos, como náufragos. O vasto +Pimentinha, com as mãos nas algibeiras, não cessava +de nos contemplar, de murmurar:--«É de +arrelia».--O rio defronte descia, preguiçoso e como +adormentado sob a calma já pesada de Maio, abraçando, +sem um sussurro, uma larga ilhota de pedra que rebrilhava. Para +além a serra crescia em corcovas doces, com uma funda prega +onde se aninhava, bem junta e esquecida do mundo, uma vilazinha +clara. O espaço imenso repousava num imenso silêncio. +Naquelas solidões de monte e penedia os pardais, revoando no +telhado, pareciam aves consideráveis. E a massa rotunda e +rubicunda do Pimentinha dominava, atulhava a região.<br> + + + +<br> + + +--Está tudo arranjado, meu senhor! Vêm aí os +bichos!... Só o que não calhou foi um selinzinho para +a jumenta!<br> + + +<br> + + +Era o carregador, digno homem, que voltava da Giesta, sacudindo na +mão duas esporas desirmanadas e ferrugentas. E não +tardaram a aparecer no córrego, para nos levarem a Tormes, +uma égua ruça, um jumento com albarda, um rapaz e um +podengo. Apertámos <span class="pagenum">[200]</span>a +mão suada e amiga do Pimentinha. Eu cedi a égua ao +senhor de Tormes. E começámos a trepar o caminho, que +não se alisara nem se desbravara desde os tempos em que o +trilhavam, com rudes sapatões ferrados, cortando de rio a +monte, os Jacintos do século XIV! Logo depois de +atravessarmos uma trémula ponte de pau, sobre um riacho +quebrado por pedregulhos, o meu Príncipe, com o olho de dono +subitamente aguçado, notou a robustez e a fartura das +oliveiras...--E em breve os nossos males esqueceram ante a +incomparável beleza daquela serra bendita!<br> + + + +<br> + + +Com que brilho e inspiração copiosa a compusera o +divino Artista que faz as serras, e que tanto as cuidou, e +tão ricamente as dotou, neste seu Portugal bem-amado! A +grandeza igualava a graça. Para os vales, poderosamente +cavados, desciam bandos de arvoredos, tão copados e +redondos, de um verde tão moço que eram como um musgo +macio onde apetecia cair e rolar. Dos pendores, sobranceiros ao +carreiro fragoso, largas ramadas estendiam o seu toldo +amável, a que o esvoaçar leve dos pássaros +sacudia a fragrância. Através dos muros seculares, que +sustêm as terras liados pelas heras, rompiam grossas +raízes coleantes a que mais hera se enroscava. Em todo o +torrão, de cada fenda, brotavam <span class="pagenum">[201]</span>flores silvestres. Brancas rochas, pelas +encostas, alastravam a sólida nudez do seu ventre polido +pelo vento e pelo sol; outras, vestidas de líquen e de +silvados floridos, avançavam como proas de galeras +enfeitadas: e, dentre as que se apinhavam nos cimos, algum casebre +que para lá galgara, todo amachucado e torto, espreitava +pelos postigos negros, sob as desgrenhadas farripas de verdura, que +o vento lhe semeara nas telhas. Por toda a parte a água +sussurrante, a água fecundante... Espertos regatinhos +fugiam, rindo com os seixos, dentre as patas da égua e do +burro; grossos ribeiros açodados saltavam com fragor de +pedra em pedra; fios direitos e luzidios como cordas de prata +vibravam e faiscavam das alturas aos barrancos; e muita fonte, +posta à beira de veredas, jorrava por uma bica, +beneficamente, à espera dos homens e dos gados... Todo um +cabeço por vezes era uma seara, onde um vasto carvalho +ancestral, solitário, dominava como seu senhor e seu guarda. +Em socalcos verdejavam laranjais rescendentes. Caminhos de lajes +soltas circundavam fartos prados com carneiros e vacas +retouçando:--ou mais estreitos, entalados em muros, +penetravam sob ramadas de parra espessa, numa penumbra de repouso e +frescura. Trepávamos então alguma ruazinha de aldeia, +dez ou doze <span class="pagenum">[202]</span>casebres, sumidos +entre figueiras, onde se esgaçava, fugindo do lar pela telha +vã, o fumo branco e cheiroso das pinhas. Nos cerros remotos, +por cima da negrura pensativa dos pinheirais, branquejavam ermidas. +O ar fino e puro entrava na alma, e na alma espalhava alegria e +força. Um esparso tilintar de chocalhos de guizos morria +pelas quebradas...<br> + + + +<br> + + +Jacinto adiante, na sua égua ruça, murmurava:<br> + + +<br> + + +--Que beleza!<br> + + +<br> + + +E eu atrás, no burro de Sancho, murmurava:<br> + + +<br> + + +--Que beleza!<br> + + +<br> + + +Frescos ramos roçavam os nossos ombros com familiaridade e +carinho. Por trás das sebes, carregadas de amoras, as +macieiras estendidas ofereciam as suas maçãs verdes, +porque as não tinham maduras. Todos os vidros de uma casa +velha, com a sua cruz no topo, refulgiram hospitaleiramente quando +nós passámos. Muito tempo um melro nos seguia, de +azinheiro a olmo, assobiando os nossos louvores. Obrigado, +irmão melro! Ramos de macieira, obrigado! Aqui vimos, aqui +vimos! E sempre contigo fiquemos, serra tão acolhedora, +serra de fartura e de paz, serra bendita entre as serras!<br> + + + +<br> + + +Assim, vagarosamente e maravilhados, chegámos <span class="pagenum">[203]</span>àquela avenida de faias, que sempre me +encantara pela sua fidalga gravidade. Atirando uma vergastada ao +burro e à égua, o nosso rapaz, com o seu podengo +sobre os calcanhares, gritou:--«Aqui é que estemos, +meus amos!» E ao fundo das faias, com efeito, aparecia o +portão da quinta de Tormes, com o seu brasão de +armas, de secular granito, que o musgo retocava e mais envelhecia. +Dentro já os cães ladravam com furor. E quando +Jacinto, na sua suada égua, e eu atrás, no burro de +Sancho, transpusemos o limiar solarengo, desceu para nós, do +alto do alpendre, pela escadaria de pedra gasta, um homem +nédio, rapado como um padre, sem colete, sem jaleca, +acalmando os cães que se encarniçavam contra o meu +Príncipe. Era o Melchior, o caseiro... Apenas me reconheceu, +toda a boca se lhe escancarou num riso hospitaleiro, a que faltavam +dentes. Mas apenas eu lhe revelei, daquele cavalheiro de bigodes +louros que descia da égua esfregando os quadris, o senhor de +Tormes--o bom Melchior recuou, colhido de espanto e terror como +diante de uma avantesma.<br> + + + +<br> + + +--Ora essa!... Santíssimo nome de Deus! Pois +então...<br> + + +<br> + + +E, entre o rosnar dos cães, num bracejar desolado, balbuciou +uma história que por <span class="pagenum">[204]</span>seu +turno apavorava Jacinto, como se o negro muro do casarão +pendesse para desabar. O Melchior não esperava S. Ex.ª! +Ninguém esperava S. Ex.ª!... (Ele dizia <i>sua +incelência</i>)... O Sr. Silvério estava para Castelo +de Vide desde Março, com a mãe, que apanhara uma +cornada na virilha. E de certo houvera engano, cartas perdidas... +Porque o Sr. Silvério só contava com S. Exc.ª em +Setembro, para a vindima! Na casa as obras seguiam devagarinho, +devagarinho... O telhado, no sul, ainda continuava sem telhas; +muitas vidraças esperavam, ainda sem vidros; e, para ficar, +Virgem Santa, nem uma cama arranjada!...<br> + + + +<br> + + +Jacinto cruzou os braços numa cólera tumultuosa que o +sufocava. Por fim, com um berro:<br> + + +<br> + + +--Mas os caixotes? Os caixotes, mandados de Paris, em Fevereiro, +há quatro meses?...<br> + + +<br> + + +O desgraçado Melchior arregalava os olhos miúdos, que +se embaciavam de lágrimas. Os caixotes?! Nada chegara, nada +aparecera!... E na sua perturbação mirava pelas +arcadas do pátio, palpava na algibeira das pantalonas. Os +caixotes?... Não, não tinha os caixotes!<br> + + + +<br> + + +--E agora, Zé Fernandes?<br> + + +<br> + + +Encolhi os ombros:<br> + + +<br> + + +--Agora, meu filho, só vires comigo para Guiães... +Mas são duas horas fartas a cavalo. <span class="pagenum">[205]</span>E não temos cavalos! O melhor é + +ver o casarão, comer a boa galinha que o nosso amigo +Melchior nos assa no espeto, dormir numa enxerga, e amanhã +cedo, antes do calor, trotar para cima, para a tia +Vicência.<br> + + +<br> + + +Jacinto replicou, com uma decisão furiosa:<br> + + +<br> + + +--Amanhã troto, mas para baixo, para a +estação!... E depois, para Lisboa!<br> + + +<br> + + + +E subiu a gasta escadaria do seu solar com amargura e rancor. Em +cima uma larga varanda acompanhava a fachada do casarão, sob +um alpendre de negras vigas, toda ornada, por entre os pilares de +granito, com caixas de pau onde floriam cravos. Colhi um cravo +amarelo---e penetrei atrás de Jacinto nas salas nobres, que +ele contemplava com um murmúrio de horror. Eram enormes, de +uma sonoridade de casa capitular, com os grossos muros enegrecidos +pelo tempo e o abandono, e regeladas, desoladamente nuas, +conservando apenas aos cantos algum monte de canastras ou alguma +enxada entre paus. Nos tectos remotos, de carvalho apainelado, +luziam através dos rasgões manchas de céu. As +janelas, sem vidraças, conservavam essas maciças +portadas, com fechos para as trancas, que, quando se cerram, +espalham a treva. <span class="pagenum">[206]</span>Sob os nossos +passos, aqui e além, uma tábua podre rangia e +cedia.<br> + + +<br> + + +--Inabitável! rugia Jacinto surdamente. Um horror! Uma +infâmia!...<br> + + + +<br> + + +Mas depois, noutras salas, o soalho alternava com remendos de +tábuas novas. Os mesmos remendos claros mosqueavam os +velhíssimos tectos de rico carvalho sombrio. As paredes +repeliam pela alvura crua da cal fresca. E o sol mal atravessava as +vidraças--embaciadas e gordurentas da massa e das +mãos dos vidraceiros.<br> + + +<br> + + +Penetrámos enfim na última, a mais vasta, rasgada por +seis janelas, mobilada com um armário e com uma enxerga +parda e curta estirada a um canto: e junto dela parámos, e +sobre ela depusemos tristemente o que nos restava de vinte e +três malas--o meu paletó alvadio, a bengala de +Jacinto, e o <i>Jornal do Comércio</i> que nos era comum. +Através das janelas escancaradas, sem vidraças, o +grande ar da serra entrava e circulava como num eirado, com um +cheiro fresco de horta regada. Mas o que avistávamos, da +beira da enxerga, era um pinheiral cobrindo um cabeço e +descendo pelo pendor suave, à maneira de uma hoste em +marcha, com pinheiros na frente, destacados, direitos, emplumados +de negro; mais longe as serras <span class="pagenum">[207]</span>de +além rio, de uma fina e macia cor de violeta; depois a +brancura do céu, todo liso, sem uma nuvem, de uma majestade +divina. E lá debaixo, dos vales, subia, desgarrada e +melancólica, uma voz de pegureiro cantando.<br> + + + +<br> + + +Jacinto caminhou lentamente para o poial de uma janela, onde caiu +esbarrondado pelo desastre, sem resistência ante aquele +brusco desaparecimento de toda a Civilização! Eu +palpava a enxerga, dura e regelada como um granito de Inverno. E +pensando nos luxuosos colchões de penas e molas, tão +prodigamente encaixotados no 202, desafoguei também a minha +indignação:<br> + + +<br> + + +--Mas os caixotes, caramba?... Como se perdem assim trinta e tantos +caixotes enormes?...<br> + + +<br> + + +Jacinto sacudiu amargamente os ombros:<br> + + +<br> + + +--Encalhados, por aí, algures, num barracão!... Em +Medina, talvez, nessa horrenda Medina. Indiferença das +Companhias, inércia do Silvério... Enfim a +Península, a barbárie!<br> + + + +<br> + + +Vim ajoelhar sobre o outro poial, alongando os olhos consolados por +céu e monte:<br> + + +<br> + + +--É uma beleza!<br> + + +<br> + + +O meu Príncipe, depois de um silêncio grave, murmurou, +com a face encostada à mão:<br> + + + +<br> + + +<span class="pagenum">[208]</span>--É uma lindeza... E que +paz!<br> + + +<br> + + +Sob a janela vicejava fartamente uma horta, com repolho, feijoal, +talhões de alface, gordas folhas de abóbora +rastejando. Uma eira, velha e mal alisada, dominava o vale, donde +já subia tenuemente a névoa de algum fundo ribeiro. +Toda a esquina do casarão desse lado se encravava em +laranjal. E de uma fontinha rústica, meio afogada em rosas +tremedeiras, corria um longo e rutilante fio de água.<br> + + + +<br> + + +--Estou com apetite desesperado daquela água! declarou +Jacinto, muito sério.<br> + + +<br> + + +--Também eu... Desçamos ao quintal, hein? E passamos +pela cozinha, a saber do frango.<br> + + +<br> + + +Voltámos à varanda. O meu Príncipe, mais +conciliado com o destino inclemente, colheu um cravo amarelo. E por +outra porta baixa, de rijíssimas ombreiras, +mergulhámos numa sala, alastrada de caliça, sem +tecto, coberta apenas de grossas vigas, donde se ergueu uma revoada +de pardais.<br> + + + +<br> + + +--Olha para este horror! murmurava Jacinto arrepiado.<br> + + +<br> + + +E descemos por uma lôbrega escada de castelo, tenteando +depois um corredor tenebroso de lajes ásperas, atravancado +por profundas arcas, capazes de guardar todo o grão de uma +província. Ao fundo a cozinha, imensa, <span class="pagenum">[209]</span>era uma massa de formas negras, madeira +negra, pedra negra, densas negruras de felugem secular. E neste +negrume refulgia a um canto, sobre o chão de terra negra, a +fogueira vermelha, lambendo tachos e panelas de ferro, despedindo +uma fumarada que fugia pela grade aberta no muro, depois por entre +a folhagem dos limoeiros. Na enorme lareira, onde se aqueciam e +assavam as suas grossas peças de porco e boi os Jacintos +medievais, agora desaproveitada pela frugalidade dos caseiros, +negrejava um poeirento montão de cestas e ferramentas; e a +claridade toda entrava por uma porta de castanho, escancarada sobre +um quintalejo rústico em que se misturavam couves lombardas +e junquilhos formosos. Em roda do lume um bando alvoroçado +de mulheres depenava frangos, remexia as caçarolas, picava a +cebola, com um fervor afogueado e palreiro. Todas emudeceram quando +aparecemos--e dentre elas o pobre Melchior, estonteado, com o +sangue a espirrar na nédia face de abade, correu para +nós, jurando «que o jantarinho de suas +Incelências não demorava um credo»...<br> + + + +<br> + + +--E a respeito de camas, oh amigo Melchior?<br> + + +<br> + + +O digno homem ciciou uma desculpa encolhida «sobre +enxergazinhas no chão...»<br> + + +<br> + + +<span class="pagenum">[210]</span>--É o que basta! acudi eu, +para o consolar. Por uma noite, com lençóis +frescos...<br> + + +<br> + + +--Ah, lá pelos lençoizinhos respondo eu!... Mas um +desgosto assim, meu senhor! A gente apanhada sem um +colchãozinho de lã, sem um lombozinho de vaca... Que +eu já pensei, até lembrei à minha comadre, V. +Inc.<sup>as</sup> podiam ir dormir aos <i>Ninhos</i>, a casa do +Silvério. Tinham lá camas de ferro, +lavatórios... Ele sempre é uma leguazita e mau +caminho...<br> + + + +<br> + + +Jacinto, bondoso, acudiu:<br> + + +<br> + + +--Não, tudo se arranja, Melchior. Por uma noite!... +Até gosto mais de dormir em Tormes, na minha casa da +serra!<br> + + +<br> + + +Saímos ao terreiro, retalho de horta fechado por grossas +rochas encabeladas de verdura, entestando com os socalcos da serra +onde lourejava o centeio. O meu Príncipe bebeu da +água nevada e luzidia da fonte, regaladamente, com os +beiços na bica; apeteceu a alface rechonchuda e crespa; e +atirou pulos aos ramos altos de uma copada cerejeira, toda +carregada de cereja. Depois, costeando o velho lagar, a que um +bando de pombas branqueava o telhado, deslizámos até + +ao carreiro, cortado no costado do monte. E andando, +pensativamente, o meu Príncipe pasmava para os milheirais, +para os vetustos carvalhos plantados por vetustos Jacintos, para os +casebres <span class="pagenum">[211]</span>espalhados sobre os +cabeços à orla negra dos pinheirais.<br> + + +<br> + + +De novo penetrámos na avenida de faias e transpusemos o +portão senhorial entre o latir dos cães, mais mansos, +farejando um dono. Jacinto reconheceu «certa nobreza» +na frontaria do seu lar. Mas sobretudo lhe agradava a longa +alameda, assim direita e larga, como traçada para nela se +desenrolar uma cavalgada de Senhores com plumas e pajens. Depois, +de cima da varanda, reparando na telha nova da capela, louvou o +Silvério, «esse ralaço», por cuidar ao +menos da morada do Bom-Deus.<br> + + + +<br> + + +--E esta varanda também é agradável, murmurou +ele mergulhando a face no aroma dos cravos. Precisa grandes +poltronas, grandes divãs de verga...<br> + + +<br> + + +Dentro, na «nossa sala», ambos nos sentámos nos +poiais da janela, contemplando o doce sossego crepuscular que +lentamente se estabelecia sobre vale e monte. No alto tremeluzia +uma estrelinha, a Vénus diamantina, lânguida +anunciadora da noite e dos seus contentamentos. Jacinto nunca +considerara demoradamente aquela estrela, de amorosa +refulgência, que perpetua no nosso Céu católico +a memória da Deusa incomparável:--nem assistira +jamais, com a alma atenta, ao majestoso adormecer da Natureza. E +este <span class="pagenum">[212]</span>enegrecimento dos montes que +se embuçam em sombra; os arvoredos emudecendo, cansados de +sussurrar; o rebrilho dos casais mansamente apagado; o cobertor de +névoa, sob que se acama e agasalha a frialdade dos vales; um +toque sonolento de sino que rola pelas quebradas; o segredado +cochichar das águas e das relvas escuras--eram para ele como +iniciações. Daquela janela, aberta sobre as serras, +entrevia uma outra vida, que não anda somente cheia do Homem +e do tumulto da sua obra. E senti o meu amigo suspirar como quem +enfim descansa.<br> + + + +<br> + + +Deste enlevo nos arrancou o Melchior com o doce aviso do +«jantarinho de suas Incelências». Era noutra +sala, mais nua, mais abandonada:--e aí logo à porta o +meu supercivilizado Príncipe estacou, estarrecido pelo +desconforto, escassez e rudeza das coisas. Na mesa, encostada ao +muro denegrido, sulcado pelo fumo das candeias, sobre uma toalha de +estopa, duas velas de sebo em castiçais de lata alumiavam +grossos pratos de louça amarela, ladeados por colheres de +estanho e por garfos de ferro. Os copos, de um vidro espesso, +conservavam a sombra roxa do vinho que neles passara em fartos anos +de fartas vindimas. A malga de barro, atestada de azeitonas pretas, +contentaria Diógenes. Espetado <span class="pagenum">[213]</span>na côdea de um imenso pão +reluzia um imenso facalhão. E na cadeira senhorial reservada +ao meu Príncipe, derradeira alfaia dos velhos Jacintos, de +hirto espaldar de couro, com a madeira roída de caruncho, a +clina fugia em melenas pelos rasgões do assento +puído.<br> + + + +<br> + + +Uma formidável moça, de enormes peitos que lhe +tremiam dentro das ramagens do lenço cruzado, ainda suada e +esbraseada do calor da lareira, entrou esmagando o soalho, com uma +terrina a fumegar. E o Melchior, que seguia erguendo a infusa do +vinho, esperava que suas Incelências lhe perdoassem porque +faltara tempo para o caldinho apurar... Jacinto ocupou a sede +ancestral--e, durante momentos (de esgazeada ansiedade para o +caseiro excelente) esfregou energicamente, com a ponta da toalha, o +garfo negro, a fusca colher de estanho. Depois, desconfiado, provou +o caldo, que era de galinha e rescendia. Provou--e levantou para +mim, seu camarada de misérias, uns olhos que brilharam, +surpreendidos. Tornou a sorver uma colherada mais cheia, mais +considerada. E sorriu, com espanto:--«Está +bom!»<br> + + +<br> + + +Estava precioso: tinha fígado e tinha moela: o seu perfume +enternecia: três vezes, fervorosamente, ataquei aquele +caldo.<br> + + +<br> + + + +<span class="pagenum">[214]</span>--Também lá volto! +exclamava Jacinto com uma convicção imensa. É +que estou com uma fome... Santo Deus! Há anos que não +sinto esta fome.<br> + + +<br> + + +Foi ele que rapou avaramente a sopeira. E já espreitava a +porta, esperando a portadora dos pitéus, a rija moça +de peitos trementes, que enfim surgiu, mais esbraseada, abalando o +sobrado--e pousou sobre a mesa uma travessa a transbordar de arroz +com favas. Que desconsolo! Jacinto, em Paris, sempre abominara +favas!... Tentou todavia uma garfada tímida--e de novo +aqueles seus olhos, que o pessimismo enevoara, luziram, procurando +os meus. Outra larga garfada, concentrada, com uma lentidão +de frade que se regala. Depois um brado:<br> + + + +<br> + + +--Óptimo!... Ah, destas favas, sim! Oh que fava! Que +delícia!<br> + + +<br> + + +E por esta santa gula louvava a serra, a arte perfeita das mulheres +palreiras que em baixo remexiam as panelas, o Melchior que presidia +ao bródio...<br> + + +<br> + + +--Deste arroz com fava nem em Paris, Melchior amigo!<br> + + +<br> + + +O homem óptimo sorria, inteiramente desanuviado:<br> + + +<br> + + + +--Pois é cá a comidinha dos moços da quinta! E +cada pratada, que até suas Incelências <span class="pagenum">[215]</span>se riam... Mas agora, aqui, o Sr. D. Jacinto, +também vai engordar e enrijar!<br> + + +<br> + + +O bom caseiro sinceramente cria que, perdido nesses remotos +Parises, o Senhor de Tormes, longe da fartura de Tormes, padecia +fome e mingava... E o meu Príncipe, na verdade, parecia +saciar uma velhíssima fome e uma longa saudade da +abundância, rompendo assim, a cada travessa, em louvores mais +copiosos. Diante do louro frango assado no espeto e da salada que +ele apetecera na horta, agora temperada com um azeite da serra +digno dos lábios de Platão, terminou por +bradar:--«É divino!» Mas nada o entusiasmava +como o vinho de Tormes, caindo de alto, da bojuda infusa verde--um +vinho fresco, esperto, seivoso, e tendo mais alma, entrando mais na +alma, que muito poema ou livro santo. Mirando, à vela de +sebo, o copo grosso que ele orlava de leve espuma rósea, o +meu Príncipe, com um resplendor de optimismo na face, citou +Virgílio:<br> + + + +<br> + + +--<i>Quo te carmina dicam, Rethica?</i> Quem dignamente te +cantará, vinho amável destas serras?<br> + + +<br> + + +Eu, que não gosto que me avantajem em saber clássico, +espanejei logo também o meu Virgílio, louvando as +doçuras da vida rural:<br> + + +<br> + + + +--<i>Hanc olim veteres vitam coluere Sabini</i>... <span class="pagenum">[216]</span>Assim viveram os velhos Sabinos. Assim +Rómulo e Remo... Assim cresceu a valente Etrúria. +Assim Roma se tornou a maravilha do mundo!<br> + + +<br> + + +E imóvel, com a mão agarrada à infusa, o +Melchior arregalava para nós os olhos em infinito assombro e +religiosa reverência.<br> + + + +<br> + + +<br> + + +<div class="break"> +<hr></div> + + +<br> + + +<br> + + +Ah! Jantámos deliciosissimamente, sob os auspícios do +Melchior--que ainda depois, próvido e tutelar, nos forneceu +o tabaco. E, como ante nós se alongava uma noite de monte, +voltámos para as janelas desvidraçadas, na sala +imensa, a contemplar o sumptuoso céu de Verão. +Filosofámos então com pachorra e facúndia.<br> + + + +<br> + + +Na Cidade (como notou Jacinto) nunca se olham, nem lembram os +astros--por causa dos candeeiros de gás ou dos globos de +electricidade que os ofuscam. Por isso (como eu notei) nunca se +entra nessa comunhão com o Universo que é a +única glória e única consolação +da Vida. Mas na serra, sem prédios disformes de seis +andares, sem a fumaraça que tapa Deus, sem os cuidados que +como pedaços de chumbo puxam a alma para o pó +rasteiro--um Jacinto, um Zé Fernandes, livres, bem jantados, +fumando nos poiais <span class="pagenum">[217]</span>de uma janela, +olham para os astros e os astros olham para eles. Uns, certamente, +com olhos de sublime imobilidade ou de sublime indiferença. +Mas outros curiosamente, ansiosamente, com uma luz que acena, uma +luz que chama, como se tentassem, de tão longe, revelar os +seus segredos, ou de tão longe compreender os nossos...<br> + + + +<br> + + +--Oh Jacinto, que estrela é esta, aqui, tão viva, +sobre o beiral do telhado?<br> + + +<br> + + +--Não sei... E aquela, Zé Fernandes, além, por +cima do pinheiral?<br> + + +<br> + + +--Não sei.<br> + + + +<br> + + +Não sabíamos. Eu, por causa da espessa crosta de +ignorância com que saí do ventre de Coimbra, minha +Mãe espiritual. Ele, porque na sua Biblioteca possuía +trezentos e oito tratados sobre Astronomia, e o Saber, assim +acumulado, forma um monte que nunca se transpõe nem se +desbasta. Mas que nos importava que aquele astro além se +chamasse Sírio e aquele outro Aldebarã? Que lhes +importava a eles que um de nós fosse Jacinto, outro +Zé? Eles tão imensos, nós tão +pequeninos, somos a obra da mesma Vontade. E todos, Uranos ou +Lorenas de Noronha e Sande, constituímos modos diversos de +um Ser único, e as nossas diversidades esparsas somam na +mesma compacta Unidade. Moléculas <span class="pagenum">[218]</span>do mesmo Todo, governadas pela mesma Lei, +rolando para o mesmo Fim... Do astro ao homem, do homem à + +flor do trevo, da flor do trevo ao mar sonoro--tudo é o +mesmo Corpo, onde circula, como um sangue, o mesmo Deus. E nenhum +frémito de vida, por menor, passa numa fibra desse sublime +Corpo, que se não repercuta em todas, até às +mais humildes, até às que parecem inertes e invitais. +Quando um Sol que não avisto, nunca avistarei, morre de +inanição nas profundidades, esse esguio galho de +limoeiro, em baixo na horta, sente um secreto arrepio de morte:--e, +quando eu bato uma patada no soalho de Tormes, além o +monstruoso Saturno estremece, e esse estremecimento percorre o +inteiro Universo! Jacinto abateu rijamente a mão no rebordo +da janela. Eu gritei:<br> + + +<br> + + +--Acredita!... O sol tremeu.<br> + + + +<br> + + +E depois (como eu notei) devíamos considerar que, sobre cada +um desses grãos de pó luminoso, existia uma +criação, que incessantemente nasce, perece, renasce. +Neste instante, outros Jacintos, outros Zés Fernandes, +sentados às janelas doutras Tormes, contemplam o céu +nocturno, e nele um pequenininho ponto de luz, que é a nossa +possante Terra por nós tanto sublimada. Não +terão todos esta nossa forma, bem frágil, bem +<span class="pagenum">[219]</span>desconfortável, e (a +não ser no Apolo do Vaticano, na Vénus de Milo e +talvez na Princesa, de Carman) singularmente feia e burlesca. Mas, +horrendos ou de inefável beleza; colossais e de uma carne +mais dura que o granito, ou leves como gazes e ondulando na luz, +todos eles são seres pensantes e têm consciência +da Vida--porque decerto cada Mundo possui o seu Descartes, ou +já o nosso Descartes os percorreu a todos com o seu +Método, a sua escura capa, a sua agudeza elegante, +formulando a única certeza talvez certa, o grande <i>Penso +logo existo</i>. Portanto todos nós, Habitantes dos Mundos, + +às janelas dos nossos casarões, além nos +Saturnos, ou aqui na nossa Terrícula, constantemente +perfazemos um acto sacrossanto que nos penetra e nos funde--que +é sentirmos no Pensamento o núcleo comum das nossas +modalidades, e portanto realizarmos um momento, dentro da +Consciência, a Unidade do Universo!--Hein, Jacinto?...<br> + + +<br> + + +O meu amigo rosnou:<br> + + +<br> + + +--Talvez... Estou a cair com sono.<br> + + +<br> + + +--Também eu. «Remontámos muito, +Ex.<sup>mo</sup> Sr.!» como dizia o Pestaninha em Coimbra. +Mas nada mais belo, e mais vão, que uma cavaqueira, no alto +das serras, a olhar para as estrelas!... Tu sempre vais +amanhã?<br> + + + +<br> + + +<span class="pagenum">[220]</span>--Concerteza, Zé +Fernandes! Com a certeza de Descartes. «Penso <i>logo +fujo</i>!» Como queres tu, neste pardieiro, sem uma cama, sem +uma poltrona, sem um livro?... Nem só de arroz com fava vive +o Homem! Mas demoro em Lisboa, para conversar com o Sesimbra, o meu +Administrador. E também à espera que estas obras +acabem, os caixotes surjam, e eu possa voltar decentemente, com +roupa lavada, para a trasladação...<br> + + + +<br> + + +--É verdade, os ossos...<br> + + +<br> + + +--Mas resta ainda o Grilo... Que animal! Por onde andará +esse perdido?<br> + + +<br> + + +Então, passeando lentamente na sala enorme, onde a vela de +sebo já derretida no castiçal de lata era como um +lume de cigarro num descampado, meditámos na sorte do Grilo. +O estimado negro ou fora despejado nas lamas de Medina, com as +vinte e sete malas, aos gritos--ou, regaladamente adormecido, +rolara com o Anatole no comboio para Madrid. Mas ambos os casos +apareciam ao meu Príncipe como irremediavelmente +destruidores do seu conforto...<br> + + + +<br> + + +--Não, escuta, Jacinto... Se o Grilo encalhou em Medina, +dormiu na Fonda, catou os percevejos, e esta madrugada correu para +Tormes. Quando amanhã desceres à +Estação, às quatro horas, encontras o teu +precioso homem, <span class="pagenum">[221]</span>com as tuas +preciosas malas, metido nesse comboio que te leva ao Porto e +à Capital...<br> + + +<br> + + +Jacinto sacudiu os braços como quem se debate nas malhas de +uma rede:<br> + + + +<br> + + +--E se seguiu para Madrid?<br> + + +<br> + + +--Então, por esta semana, cá aparece em Tormes, onde +encontra ordem para regressar a Lisboa e reentrar no teu +séquito... Resta o interessante caso das minhas bagagens. Se +amanhã encontrares na Estação o Grilo, separa +a minha mala negra, e o saco de lona, e a chapeleira. O Grilo +conhece. E pede ao Pimenta, ao gordalhufo, que me avise para +Guiães. Se o Grilo aportar Tormes, esfogueteado de Madrid, +com toda essa malaria, deixa as minhas coisas aqui, ao Melchior... +Eu amanhã falo ao Melchior.<br> + + +<br> + + + +Jacinto sacudiu furiosamente o colarinho:<br> + + +<br> + + +--Mas como posso eu partir para Lisboa, amanhã, com esta +camisa de dois dias, que já me faz uma comichão +horrenda? E sem um lenço... Nem ao menos uma escova de +dentes!<br> + + +<br> + + +Fértil em ideias, estendi as mãos, num belo gesto +tutelar:<br> + + +<br> + + +--Tudo se arranja, meu Jacinto, tudo se arranja! Eu, largando daqui +cedo, pelas seis <span class="pagenum">[222]</span>horas, chego a +Guiães às dez, ainda sem calor. E, mesmo antes do +almoço e da cavaqueira com a tia Vicência, +imediatamente te mando por um moço um saco de roupa branca. +As minhas camisas e as minhas ceroulas talvez te estejam largas. +Mas um mendigo como tu não tem direito a elegâncias e +a roupas bem cortadas. O moço, num bom trote, entra aqui + +às duas horas; tens tempo de mudar antes de desceres para a +Estação... Posso meter na mala uma escova de +dentes.<br> + + +<br> + + +--Oh Zé Fernandes! Então mete também uma +esponja... E um frasco de água-de-colónia!<br> + + +<br> + + +--Água de alfazema, excelente, feita pela tia +Vicência...<br> + + + +<br> + + +O meu Príncipe suspirou, impressionado com a sua +miséria esquálida, e esta dádiva de +roupas:<br> + + +<br> + + +--Bem, então vamos dormir, que estou esfalfado de +emoções e de astros...<br> + + +<br> + + +Justamente Melchior entreabria a pesada porta, com timidez, a +avisar que «estavam preparadinhas as camas de suas +Incelências.» E seguindo o bom caseiro, que erguia uma +candeia, que avistamos nós, o meu Príncipe e eu, +ainda há pouco irmanados com os astros? Em duas saletas, que +uma abertura em arco, lôbrego arco de pedra, separava--duas +enxergas sobre o soalho. Junto à cabeceira <span class="pagenum">[223]</span>da mais larga, que pertencia ao senhor de +Tormes, um castiçal de latão sobre um alqueire; aos +pés, como lavatório, um alguidar vidrado em cima de +uma tripeça. Para mim, serrano daquelas serras, nem alguidar +nem alqueire.<br> + + + +<br> + + +Lentamente, com o pé, o meu supercivilizado amigo palpou a +enxerga. E decerto lhe sentiu uma dureza intransigente, porque +ficou pendido sobre ela, a correr desoladamente os dedos pela face +desmaiada.<br> + + +<br> + + +--E o pior não é ainda a enxerga, murmurou enfim com +um suspiro. É que não tenho camisa de dormir, nem +chinelas!... E não me posso deitar de camisa engomada.<br> + + +<br> + + +Por inspiração minha recorremos ao Melchior. De novo, +esse benemérito providenciou, trazendo a Jacinto, para ele +desafogar os pés, uns tamancos--e para embrulhar o corpo uma +camisa da comadre, enorme, de estopa, áspera como uma +estamenha de penitente, com folhos mais crespos e duros do que +lavores de madeira. Para consolar o meu Príncipe lembrei que +Platão quando compunha o <i>Banquete</i>, Vasco da Gama +quando dobrava o Cabo, não dormiam em melhores catres! As +enxergas rijas fazem as almas fortes, oh Jacinto!... E é + +só vestido de estamenha que se penetra no +Paraíso.<br> + + +<br> + + +<span class="pagenum">[224]</span>--Tens tu, volveu o meu amigo +secamente, alguma coisa que eu leia? Não posso adormecer sem +um livro.<br> + + +<br> + + +Eu? Um livro? Possuía apenas o velho numero do <i>Jornal do +Comércio</i>, que escapara à dispersão dos +nossos bens. Rasguei a copiosa folha pelo meio, partilhei com +Jacinto fraternalmente. Ele tomou a sua metade, que era a dos +anúncios... E quem não viu então Jacinto, +senhor de Tormes, acaçapado à borda da enxerga, rente +da vela de sebo que se derretia no alqueire, com os pés +encafuados nos socos, perdido dentro das ásperas pregas e +dos rijos folhos da camisa serrana, percorrendo num pedaço +velho de Gazeta, pensativamente, as partidas dos +Paquetes--não pode saber o que é uma intensa e +verídica imagem do Desalento.<br> + + + +<br> + + +Recolhido à minha alcova espartana, desabotoava o colete, +num delicioso cansaço, quando o meu Príncipe ainda me +reclamou:<br> + + +<br> + + +--Zé Fernandes...<br> + + +<br> + + +--Diz.<br> + + +<br> + + +--Manda também no saco um abotoador de botas.<br> + + + +<br> + + +Estirado comodamente na rija enxerga murmurei, como sempre murmuro +ao penetrar no Sono, que é um primo da Morte, <span class="pagenum">[225]</span>«Deus seja louvado!» Depois tomei +a metade do <i>Jornal do Comércio</i> que me pertencia.<br> + + +<br> + + +--Zé Fernandes...<br> + + + +<br> + + +--Que é?<br> + + +<br> + + +--Também podias meter no saco pós dos dentes... E uma +lima das unhas... E um romance!<br> + + +<br> + + +Já a meia Gazeta me escapava das mãos dormentes. Mas +da sua alcova, depois de soprar a vela, Jacinto murmurou entre um +bocejo:<br> + + +<br> + + +--Zé Fernandes...<br> + + + +<br> + + +--Hein?<br> + + +<br> + + +--Escreve para Lisboa, para o Hotel Bragança... Os +lençóis ao menos são frescos, cheiram bem, a +sadio!<br> + + +<br> + + +<br> + + +<br> + + +<h2>IX</h2> + + +<br> + + +<br> + + +Cedo, de madrugada, sem rumor, para não despertar o meu +Jacinto, que, com as mãos cruzadas sobre o peito, dormia +beatificamente na sua enxerga de granito--parti para +Guiães.<br> + + + +<br> + + +Ao cabo de uma semana, recolhendo uma manhã para o +almoço, encontrei no corredor as minhas malas tão +desejadas, que um moço do casal da Giesta trouxera num carro +com «recados do Sr. Pimentinha». O meu pensamento pulou +para o meu Príncipe. E lancei pelo telégrafo, para +Lisboa, para o Hotel Bragança, este brado +alegre:--«Estás lá? Sei recuperaste Grilo e +Civilização! Hurrah! Abraço!»--Só + +depois de sete dias, ocupados numa delicada apanha de espargos com +que outrora civilizara a horta da tia Vicência, notei o +silêncio de Jacinto. Num bilhete postal renovei, desenvolvi o +grito amigo:--«Estás lá? São os prazeres +da Baixa que assim te <span class="pagenum">[228]</span>tornam +desatento e mudo? Eu, todo espargos! Responde, quando chegas? Tempo +delicioso! 23º à sombra. E os ossos?...»--Veio +depois a devota romaria da Senhora da Roqueirinha. Durante a lua +nova andei num corte de mato, na minha terra das Corcas. A tia +Vicência vomitou, com uma indigestão de morcelas. E o +silêncio do meu Príncipe era ingrato e ferrenho.<br> + + + +<br> + + +Enfim uma tarde, voltando da Flor da Malva, de casa da minha prima +Joaninha, parei em Sandofim, na venda do Manuel Rico, para beber de +certo vinho branco que a minha alma conhece--e sempre pede.<br> + + +<br> + + +Defronte, à porta do ferrador, o Severo, sobrinho do +Melchior de Tormes e o mais fino alveitar da serra, picava tabaco, +escarranchado num banco. Mandei encher outro quartilho: ele +acariciou o pescoço da minha égua que já +salvara de um esfriamento: e, como eu indagasse do nosso Melchior, +o Severo contou que na véspera jantara com ele em Tormes, e +se abeirara também do fidalgo...<br> + + +<br> + + +--Ora essa! Então o Sr. D. Jacinto está em +Tormes?<br> + + + +<br> + + +O meu espanto divertiu o Severo:<br> + + +<br> + + +--Então V. Exc.ª... Pois em Tormes é que ele +está, há mais de cinco semanas, sem arredar! +<span class="pagenum">[229]</span>E parece que fica para a vindima, +e vai lá uma grandeza!<br> + + + +<br> + + +Santíssimo nome de Deus! Ao outro dia, domingo, depois da +missa e sem me assustar com a calma que carregava, trotei +alvoroçadamente para Tormes. Ao latir dos rafeiros, quando +transpus o portal solarengo, a comadre do Melchior acudiu dos lados +do curral, com um alguidar de lavagem encostado à +cintura.--Então o Sr. D. Jacinto?... O Sr. D. Jacinto andava +lá para baixo, com o Silvério e com o Melchior, nos +campos de Freixomil...<br> + + +<br> + + +--E o Sr. Grilo, o preto?<br> + + +<br> + + +--Há bocadinho também o enxerguei no pomar, com o +francês, a apanhar limões doces..<br> + + + +.<br> + + +Todas as janelas do solar rebrilhavam, com vidraças novas, +bem polidas. A um canto do pátio notei baldes de cal e +tigelas de tintas. Uma escada de pedreiro descansara durante o Dia +Santo arrimada contra o telhado. E, rente ao muro da capela, dois +gatos dormiam sobre montões de palha desempacotada de +caixotes consideráveis.<br> + + +<br> + + +--Bem, pensei eu. Eis a Civilização!<br> + + +<br> + + +Recolhi a égua, galguei a escada. Na varanda, sobre uma +pilha de ripas, reluzia num raio de sol uma banheira de zinco. +Dentro <span class="pagenum">[230]</span>encontrei todos os soalhos +remendados, esfregados a carqueja. As paredes, muito caiadas e +nuas, refrigeravam como as de um convento. Um quarto, a que me +levaram três portas escancaradas com franqueza serrana, era +certamente o de Jacinto: a roupa pendia de cabides de pau: o leito +de ferro, com coberta de fustão, encolhia timidamente a sua +rigidez virginal a um canto, entre o muro e a banquinha onde um +castiçal de latão resplandecia sobre um volume do + +<i>D. Quixote</i> no lavatório pintado de amarelo, imitando +bambu, apenas cabia o jarro, a bacia, um naco gordo de +sabão; e uma prateleirinha bastava ao esmerado alinho da +escova, da tesoura, do pente, do espelhinho de feira, e do +frasquinho de água de alfazema que eu mandara de +Guiães. As três janelas, sem cortinas, contemplavam a +beleza da serra, respirando um delicado e macio ar, que se +perfumava nas resinas dos pinheirais, depois nas roseiras da horta. +Em frente, no corredor, outro quarto repetia a mesma simplicidade. +Certamente a previdência do meu Príncipe o destinara +ao seu Zé Fernandes. Pendurei logo dentro, no cabide, o meu +guarda-pó de lustrina.<br> + + +<br> + + +Mas na sala imensa, onde tanto filosofáramos considerando as +estrelas, Jacinto arranjara um centro de repouso e de +estudo--e<span class="pagenum">[231]</span> desenrolara essa + +«grandeza» que impressionava o Severo. As cadeiras de +verga da Madeira, amplas e de braços, ofereciam o conforto +de almofadinhas de chita. Sobre a mesa enorme de pau branco, +carpinteirada em Tormes, admirei um candeeiro de metal de +três bicos, um tinteiro de frade armado de penas de pato, um +vaso de capela transbordando de cravos. Entre duas janelas uma +cómoda antiga, embutida, com ferragens lavradas, recebera +sobre o seu mármore rosado o devoto peso de um +Presépio, onde Reis Magos, pastores de surrões +vistosos, cordeiros de esguedelhada lã, se apressavam +através de alcantis para o Menino, que na sua lapinha lhes +abria os braços, coroado por uma enorme Coroa Real. Uma +estante de madeira enchia outro pedaço de parede, entre dois +retratos negros com caixilhos negros; sobre uma das suas +prateleiras repousavam duas espingardas; nas outras esperavam, +espalhados, como os primeiros Doutores nas bancadas de um +concílio, alguns nobres livros, um Plutarco, um +Virgílio, a Odisseia, o Manual de Epicteto, as +Crónicas de Froissart. Depois, em fila decorosa, cadeiras de +palhinha, muito novas, muito envernizadas. E a um canto um molho de +varapaus.<br> + + + +<br> + + +Tudo resplandecia de asseio e ordem. As <span class="pagenum">[232]</span>portadas das janelas, cerradas, abrigavam do +sol que batia aquele lado de Tormes, escaldando os peitoris de +pedra. Do soalho, borrifado de água, subia, na suavizada +penumbra, uma frescura. Os cravos rescendiam. Nem dos campos, nem +da casa, se elevava um rumor. Tormes dormia no esplendor da +manhã santa. E, penetrado por aquela consoladora +quietação de convento rural, terminei por me estender +numa cadeira de verga, junto da mesa, abrir languidamente um tomo +de Virgílio, e murmurar, apropriando o doce verso que +encontrara:<br> + + +<div class="quote">Fortunate Jacinthe! Hic, inter arva nota<br> + + +Et fontes sacros, frigus captabis opacum...</div> + + +<br> + + +Afortunado Jacinto, na verdade! Agora, entre campos que são +teus e águas que te são sagradas, colhes enfim a +sombra e a paz!<br> + + + +<br> + + +Li ainda outros versos. E, na fadiga das duas horas de égua +e calor desde Guiães, irreverentemente adormecia sobre o +divino Bucoliasta--quando me despertou um berro amigo! Era o meu +Príncipe. E muito decididamente, depois de me soltar do seu +rijo abraço, o comparei a uma planta estiolada, emurchecida +na escuridão, entre tapetes e sedas, que, levada para vento +e sol, profusamente <span class="pagenum">[233]</span>regada, +reverdece, desabrocha e honra a Natureza! Jacinto já +não corcovava. Sobre a sua arrefecida palidez de +supercivilizado, o ar montesino, ou vida mais verdadeira, espalhara +um rubor trigueiro e quente de sangue renovado que o virilizava +soberbamente. Dos olhos, que na Cidade andavam sempre tão +crepusculares e desviados do Mundo, saltava agora um brilho de +meio-dia, resoluto e largo, contente em se embeber na beleza das +coisas. Até o bigode se lhe encrespara. E já +não deslizava a mão desencantada sobre a face,--mas +batia com ela triunfalmente na coxa. Que sei? Era um Jacinto +novíssimo. E quase me assustava, por eu ter de aprender e +penetrar, neste novo Príncipe, os modos e as ideias +novas.<br> + + + +<br> + + +--Caramba, Jacinto, mas então...?<br> + + +<br> + + +Ele encolheu jovialmente os ombros realargados. E só me +soube contar, trilhando soberanamente com os sapatos brancos e +cobertos de pó o soalho remendado, que, ao acordar em +Tormes, depois de se lavar numa dorna, e de enfiar a minha roupa +branca, se sentira de repente como +<i>desanuviado</i>,desenvencilhado! Almoçara uma pratada de +ovos com chouriço, sublime. Passeara por toda aquela +magnificência da serra com pensamentos ligeiros de liberdade +e de paz. Mandara <span class="pagenum">[234]</span>ao Porto +comprar uma cama, uns cabides... E ali estava...<br> + + + +<br> + + +--Para todo o Verão?<br> + + +<br> + + +--Não! Mas um mês... Dois meses! Enquanto houver +chouriços, e a água da fonte, bebida pela telha ou +numa folha de couve, me souber tão divinamente!<br> + + +<br> + + +Caí sobre a cadeira de verga, e contemplei, arregalado, +quase esgazeado, o meu Príncipe! Ele enrolava numa mortalha +tabaco picado, tabaco grosso, guardado numa malga vidrada. E +exclamava:<br> + + + +<br> + + +--Ando aí pelas terras desde o romper de alva! Pesquei +já hoje quatro trutas, magníficas... Lá em +baixo, no Naves, um riachote que se atira pelo vale da Seranda... +Temos logo ao jantar essas trutas!<br> + + +<br> + + +Mas eu, ávido pela história daquela +ressurreição:<br> + + +<br> + + + +--Então, não estiveste em Lisboa?... Eu +telegrafei...<br> + + +<br> + + +--Qual telégrafo! Qual Lisboa! Estive lá em cima, ao +pé da fonte da Lira, à sombra de uma grande +árvore, <i>sub tegmine</i> não sei quê, a ler +esse adorável Virgílio... E também a arranjar +o meu palácio! Que te parece, Zé Fernandes? Em +três semanas, tudo soalhado, envidraçado, caiado, +encadeirado!... Trabalhou <span class="pagenum">[235]</span>a +freguesia inteira! Até eu pintei, com uma imensa brocha. +Viste o comedouro?<br> + + + +<br> + + +--Não.<br> + + +<br> + + +--Então vem admirar a beleza na simplicidade, +bárbaro!<br> + + +<br> + + +Era a mesma onde nós tanto exaltáramos o arroz com +favas--mas muito esfregada, muito caiada, com um rodapé +besuntado de azul estridente onde logo adivinhei a obra do meu +Príncipe. Uma toalha de linho de Guimarães cobria a +mesa, com as franjas roçando o soalho. No fundo dos pratos +de louça forte reluzia um galo amarelo. Era o mesmo galo e a +mesma louça em que na nossa casa, em Guiães, se +servem os feijões dos cavadores...<br> + + + +<br> + + +Mas no pátio os cães latiram. E Jacinto correu +à varanda, com uma ligeireza curiosa que me deleitou. Ah, +bem definitivamente se esfrangalhara aquela rede de malha que se +não percebia e que outrora o travava!--Nesse momento +apareceu o Grilo, de quinzena de linho, segurando em cada +mão uma garrafa de vinho branco. Todo se alegrou «em +ver na quinta o siô Fernandes». Mas a sua veneranda +face já não resplandecia, como em Paris, com um +tão sereno e ditoso brilho de ébano. Até me +pareceu que corcovava... Quando o interroguei sobre aquela +mudança, estendeu duvidosamente o beiço grosso:<br> + + + +<br> + + +<span class="pagenum">[236]</span>--O menino gosta, eu então +também gosto... Que o ar aqui é muito bom, siô +Fernandes, o ar é muito bom!<br> + + +<br> + + +Depois, mais baixo, envolvendo num gesto desolado a louça de +Barcelos, as facas de cabo de osso, as prateleiras de pinho como +num refeitório de Franciscanos:<br> + + + +<br> + + +--Mas muita magreza, siô Fernandes, muita magreza!<br> + + +<br> + + +Jacinto voltava com um maço de jornais cintados:<br> + + +<br> + + +--Era o carteiro. Já vês que não amuei +inteiramente com a Civilização. Eis a Imprensa!... +Mas nada de <i>Figaro</i>_, ou da horrenda <i>Dois-Mundos</i>! +Jornais de Agricultura! Para aprender como se produzem as risonhas +messes, e sob que signo se casa a vinha ao olmo, e que cuidados +necessita a abelha provida... <i>Quid faciat laetas segetes</i>... +De resto para esta nobre educação, já me +bastavam as <i>Geórgicas</i>, que tu ignoras!<br> + + + +<br> + + +Eu ri:<br> + + +<br> + + +--Alto lá! <i>Nos quoque gens sumus et nostrum Virgilium +sabemus!</i><br> + + +<br> + + +Mas o meu novíssimo amigo, debruçado da janela, batia +as palmas--como Catão para chamar os servos, na Roma +simples. E gritava:<br> + + +<br> + + +<span class="pagenum">[237]</span>--Ana Vaqueira! Um copo de + +água, bem lavado, da fonte velha!<br> + + +<br> + + +Pulei, imensamente divertido:<br> + + +<br> + + +--Oh Jacinto! E as águas carbonatadas? e as fosfatadas? e as +esterilizadas? e as sódicas?...<br> + + +<br> + + +O meu Príncipe atirou os ombros com um desdém +soberbo. E aclamou a aparição de um grande copo, todo +embaciado pela frescura nevada da água refulgente, que uma +bela moça trazia num prato. Eu admirei sobretudo a +moça... Que olhos, de um negro tão líquido e +sério! No andar, no quebrar da cinta, que harmonia e que +graça de Ninfa latina!<br> + + + +<br> + + +E apenas pela porta desaparecera a esplêndida +aparição:<br> + + +<br> + + +--Oh Jacinto, eu daqui a um instante também quero +água! E se compete a esta rapariga trazer as coisas, eu, de +cinco em cinco minutos, quero uma coisa!... Que olhos, que corpo... +Caramba, menino! Eis a poesia, toda viva, da serra...<br> + + +<br> + + +O meu Príncipe sorria, com sinceridade:<br> + + +<br> + + +--Não! não nos iludamos, Zé Fernandes, nem +façamos Arcádia. É uma bela moça, mas +uma bruta... Não há ali mais poesia, nem mais +sensibilidade, nem mesmo mais beleza do que numa linda vaca +taurina. Merece o <span class="pagenum">[238]</span>seu nome de Ana +Vaqueira. Trabalha bem, digere bem, concebe bem. Para isso a fez a +Natureza, assim sã e rija; e ela cumpre. O marido todavia +não parece contente, porque a desanca. Também + +é um belo bruto... Não, meu filho, a serra é +maravilhosa e muito grato lhe estou... Mas temos aqui a fêmea +em toda a sua animalidade e o macho em todo o seu egoísmo... +São porém verdadeiros, genuinamente verdadeiros! E +esta verdade, Zé Fernandes, é para mim um +repouso.<br> + + +<br> + + +Lentamente, gozando a frescura, o silêncio, a liberdade do +vasto casarão, retrocedemos à sala que Jacinto +já denominara a <i>Livraria</i>. E, de repente, ao avistar +num canto uma caixa com a tampa meio despregada, quase me +engasguei, na furiosa curiosidade que me assaltou:<br> + + + +<br> + + +--E os caixotes? Oh Jacinto?... Toda aquela imensa caixotaria que +nós mandámos, abarrotada de +Civilização? Soubeste? Apareceram?<br> + + +<br> + + +O meu Príncipe parou, bateu alegremente na coxa:<br> + + +<br> + + +--Sublime! Tu ainda te lembras daquele homenzinho, de saco a +tiracolo, que nós admirámos tanto pela sua +sagacidade, o seu saber geográfico?... Lembras? Apenas falei +em Tormes, gritou que conhecia, rabiscou <span class="pagenum">[239]</span>uma nota... Nem era necessário mais! + +«Oh! Tormes, perfeitamente, muito antigo, muito +curioso!» Pois mandou tudo para Alba-de-Tormes, em Espanha! +Está tudo em Espanha!<br> + + +<br> + + +Cocei o queixo, desconsolado:<br> + + +<br> + + +--Ora, ora... Um homem tão esperto, tão expedito, que +fazia tanta honra ao Progresso! Tudo para Espanha!... E mandaste +vir?<br> + + +<br> + + +--Não! Talvez mais tarde... Agora, Zé Fernandes, +estou saboreando esta delícia de me erguer pela +manhã, e de ter só uma escova para alisar o +cabelo.<br> + + + +<br> + + +Considerei, cheio de recordações, o meu amigo:<br> + + +<br> + + +--Tinhas umas nove...<br> + + +<br> + + +--Nove? Tinha vinte! Talvez trinta! E era uma +atrapalhação, não me bastavam!... Nunca em +Paris andei bem penteado. Assim com os meus setenta mil volumes: +eram tantos que nunca li nenhum. Assim com as minhas +ocupações: tanto me sobrecarregavam, que nunca fui +útil!<br> + + +<br> + + +<br> + + +<div class="break"> + +<hr></div> + + +<br> + + +<br> + + +De tarde, depois da calma, fomos vaguear pelos caminhos coleantes +daquela quinta rica, que, através de duas léguas, +ondula por vale e monte. Não me encontrara mais com Jacinto +em meio da Natureza, desde o <span class="pagenum">[240]</span>remoto dia de entremez em que ele tanto +sofrera no sociável e policiado bosque de Montmorency. Ah, +mas agora, com que segurança e idílico amor ele se +movia através dessa Natureza, donde andara tantos anos +desviado por teoria e por hábito! Já não +arreceava a humidade mortal das relvas; nem repelia como +impertinente o roçar das ramagens; nem o silêncio dos +altos o inquietava como um despovoamento do Universo. Era com +delícias, com um consolado sentimento de estabilidade +recuperada, que enterrava os grossos sapatos nas terras moles, como +no seu elemento natural e paterno: sem razão, deixava os +trilhos fáceis, para se embrenhar através de arbustos +emaranhados, e receber na face a carícia das folhas tenras; +sobre os outeiros, parava, imóvel, retendo os meus gestos e +quase o meu hálito, para se embeber de silêncio e de +paz: e duas vezes o surpreendi atento e sorrindo à beira de +um regatinho palreiro, como se lhe escutasse a +confidência...<br> + + + +<br> + + +Depois filosofava, sem descontinuar, com o entusiasmo de um +convertido, ávido de converter:<br> + + +<br> + + +--Como a inteligência aqui se liberta, hein? E como tudo +é animado de uma vida <span class="pagenum">[241]</span>forte e profunda!... Dizes tu agora, +Zé Fernandes, que não há aqui +pensamento...<br> + + + +<br> + + +--Eu?! Eu não digo nada, Jacinto...<br> + + +<br> + + +--Pois é uma maneira de reflectir muito estreita e muito +grosseira...<br> + + +<br> + + +--Ora essa! Mas eu...<br> + + +<br> + + +--Não, não percebes. A vida não se limita a +pensar, meu caro doutor...<br> + + + +<br> + + +--Que não sou!<br> + + +<br> + + +--A vida é essencialmente Vontade e Movimento: e naquele +pedaço de terra, plantado de milho, vai todo um mundo de +impulsos, de forças que se revelam, e que atingem a sua +expressão suprema, que é a Forma. Não, essa +tua filosofia está ainda extremamente grosseira...<br> + + + +<br> + + +--Irra! mas eu não...<br> + + +<br> + + +--E depois, menino, que inesgotável, que miraculosa +diversidade de formas... E todas belas!<br> + + +<br> + + +Agarrava o meu pobre braço, exigia que eu reparasse com +reverência. Na Natureza nunca eu descobriria um contorno feio +ou repetido! Nunca duas folhas de hera, que, na verdura ou recorte, +se assemelhassem! Na Cidade, pelo contrário, cada casa +repete servilmente a outra casa; todas as faces reproduzem a mesma +indiferença ou a mesma inquietação; as ideias +têm todas o mesmo valor, <span class="pagenum">[242]</span>o +mesmo cunho, a mesma forma, como as libras; e até o que +há mais pessoal e íntimo, a Ilusão, é + +em todos idêntica, e todos a respiram, e todos se perdem nela +como no mesmo nevoeiro... A <i>mesmice</i>_--eis o horror das +Cidades!<br> + + +<br> + + +--Mas aqui! Olha para aquele castanheiro. Há três +semanas que cada manhã o vejo, e sempre me parece outro... A +sombra, o sol, o vento, as nuvens, a chuva, incessantemente lhe +compõem uma expressão diversa e nova, sempre +interessante. Nunca a sua frequentação me poderia +fartar...<br> + + +<br> + + + +Eu murmurei:<br> + + +<br> + + +--É pena que não converse!<br> + + +<br> + + +O meu Príncipe recuou, com olhares chamejantes, de +Apóstolo:<br> + + +<br> + + +--Como que não converse? Mas é justamente um +conversador sublime! Está claro, não tem ditos, nem +parola teorias, <i>ore rotundo</i>. Mas nunca eu passo junto dele +que não me sugira um pensamento ou me não desvende +uma verdade... Ainda hoje quando eu voltava de pescar as trutas... +Parei: e logo ele me fez sentir como toda a sua vida de vegetal + +é isenta de trabalho, da ansiedade, do esforço que a +vida humana impõe; não tem de se preocupar com o +sustento, nem com o vestido, nem com o abrigo; filho querido +<span class="pagenum">[243]</span>de Deus, Deus o nutre, sem que +ele se mova ou se inquiete... E é esta segurança que +lhe dá tanta graça e tanta majestade. Pois não +achas?<br> + + +<br> + + +Eu sorria, concordava. Tudo isto era de certo rebuscado e +especioso. Mas que importavam as requintadas metáforas, e +essa Metafísica mal madura, colhida à pressa nos +ramos de um castanheiro? Sob toda aquela ideologia transparecia uma +excelente realidade--a reconciliação do meu +Príncipe com a Vida. Segura estava a sua +Ressurreição depois de tantos anos de cova, da cova +mole em que jazera, enfaixado como uma múmia nas faixas do +Pessimismo!<br> + + + +<br> + + +E o que esse Príncipe, nesta tarde me esfalfou! Farejava, +com uma curiosidade insaciável, todos os recantos da serra! +Galgava os cabeços correndo, como na esperança de +descobrir lá do alto os esplendores nunca contemplados de um +Mundo inédito. E o seu tormento era não conhecer os +nomes das árvores, da mais rasteira planta brotando das +fendas de um socalco... Constantemente me folheava como a um +Dicionário Botânico.<br> + + +<br> + + +--Fiz toda a sorte de cursos, passei pelos professores mais +ilustres da Europa, tenho trinta mil volumes, e não sei se +aquele senhor além é um amieiro ou um sobreiro...<br> + + + +<br> + + +<span class="pagenum">[244]</span>--É um azinheiro, +Jacinto.<br> + + +<br> + + +Já a tarde caía quando recolhemos muito lentamente. E +toda essa adorável paz do céu, realmente celestial, e +dos campos, onde cada folhinha conservava uma +quietação contemplativa, na luz docemente desmaiada, +pousando sobre as coisas com um liso e leve afago, penetrava +tão profundamente Jacinto, que eu o senti, no silêncio +em que caíramos, suspirar de puro alívio.<br> + + + +<br> + + +Depois, muito gravemente:<br> + + +<br> + + +--Tu dizes que na natureza não há pensamento...<br> + + +<br> + + +--Outra vez! Olha que maçada! Eu...<br> + + +<br> + + +--Mas é por estar nela suprimido o pensamento que lhe +está poupado o sofrimento! Nós, desgraçados, +não podemos suprimir o pensamento, mas certamente o podemos +disciplinar e impedir que ele se estonteie e se esfalfe, como na +fornalha das cidades, ideando gozos que nunca se realizam, +aspirando a certezas que nunca se atingem!... E é o que +aconselham estas colinas e estas árvores à nossa +alma, que vela e se agita:--que viva na paz de um sonho vago e nada +apeteça, nada tema, contra nada se insurja, e deixe o Mundo +rolar, não esperando dele senão um rumor de harmonia, +que a embale e lhe favoreça o <span class="pagenum">[245]</span>dormir dentro da mão de Deus. Hein, +não te parece, Zé Fernandes?<br> + + + +<br> + + +--Talvez. Mas é necessário então viver num +mosteiro, com o temperamento de S. Bruno, ou ter cento e quarenta +contos de renda e o desplante de certos Jacintos... E também +me parece que andámos léguas. Estou derreado. E que +fome!<br> + + +<br> + + +--Tanto melhor, para as trutas, e para o cabrito assado que nos +espera...<br> + + +<br> + + +--Bravo! Quem te cozinha?<br> + + +<br> + + + +--Uma afilhada do Melchior. Mulher sublime! Hás-de ver a +canja! Hás-de ver a cabidela! Ela é horrenda, quase +anã, com os olhos tortos, um verde e outro preto. Mas que +paladar! Que génio!<br> + + +<br> + + +Com efeito! Horácio dedicaria uma ode àquele cabrito +assado num espeto de cerejeira. E com as trutas, e o vinho +Melchior, e a cabidela, em que a sublime anã de olhos tortos +pusera inspirações que não são da +terra, e aquela doçura da noite de Junho, que pelas janelas +abertas nos envolveu no seu veludo negro, tão mole e +tão consolado fiquei, que, na sala onde nos esperava o +café, caí numa cadeira de verga, na mais larga, e de +melhores almofadas, e atirei um berro de pura delícia.<br> + + + +<br> + + +<span class="pagenum">[246]</span>Depois, com uma +recordação, limpando o café do pêlo dos +bigodes:<br> + + +<br> + + +--Ó Jacinto, e quando nós andávamos por Paris +com o Pessimismo às costas, a gemer que tudo era +ilusão e dor?<br> + + + +<br> + + +O meu Príncipe, que o cabrito tornara ainda mais alegre, +trilhava a grandes passadas o soalho, enrolando o cigarro:<br> + + +<br> + + +--Oh! que engenhosa besta, esse Schopenhauer! E maior besta eu, que +o sorvia, e que me desolava com sinceridade! E todavia,--continuava +ele, remexendo a chávena--o Pessimismo é uma teoria +bem consoladora para os que sofrem, porque desindividualiza o +sofrimento, alarga-o até o tornar uma lei universal, a lei +própria da Vida; portanto lhe tira o carácter +pungente de uma injustiça especial, cometida contra o +sofredor por um Destino inimigo e faccioso! Realmente o nosso mal +sobretudo nos amarga quando contemplamos ou imaginamos o bem do +nosso vizinho:--porque nos sentimos escolhidos e destacados para a +infelicidade, podendo, como ele, ter nascido para a Fortuna. Quem +se queixaria de ser coxo--se toda a humanidade coxeasse? E quais +não seriam os urros, e a furiosa revolta do homem envolto na +neve e friagem e borrasca de um Inverno especial, organizado +<span class="pagenum">[247]</span>nos céus para o envolver a +ele unicamente--enquanto em redor, toda a Humanidade se movesse na +luminosa benignidade de uma Primavera?<br> + + + +<br> + + +--Com efeito, murmurei eu, esse sujeito teria imensa razão +para urrar..<br> + + +.<br> + + +--E depois, clamava ainda o meu amigo, o Pessimismo é +excelente para os Inertes, por que lhes atenua o desgracioso delito +da Inércia. Se toda a meta é um monte de Dor, onde a +alma vai esbarrar, para quê marchar para a meta, +através dos embaraços do mundo? E de resto todos os +Líricos e Teóricos do Pessimismo, desde +Salomão até o maligno Schopenhauer, lançam o +seu cântico ou a sua doutrina para disfarçar a +humilhação das suas misérias, subordinando-as +todas a uma vasta lei de Vida, uma lei Cósmica, e ornando +assim com a auréola de uma origem quase divina as suas +miúdas desgraçazinhas de temperamento ou de Sorte. O +bom Schopenhauer formula todo o seu schopenhauerismo, quando + +é um filósofo sem editor, e um professor sem +discípulos; e sofre horrendamente de terrores e manias; e +esconde o seu dinheiro debaixo do sobrado; e redige as suas contas +em grego nos perpétuos lamentos da desconfiança; e +vive nas adegas com o medo de incêndios; e viaja com um copo +de lata na algibeira para <span class="pagenum">[248]</span>não beber em vidro que beiços +de leproso tivessem contaminado!... Então Schopenhauer +é sombriamente Schopenhauerista. Mas apenas penetra na +celebridade, e os seus miseráveis nervos se acalmam, e o +cerca uma paz amável, não há então, em +todo Francfort, burguês mais optimista, de face mais jucunda, +e gozando mais regradamente os bens da inteligência e da +Vida!... E o outro, o Israelita, o muito pedantesco rei de +Jerusalém! quando descobre esse sublime Retórico que +o mundo é Ilusão e Vaidade? Aos setenta e cinco anos, +quando o Poder lhe escapa das mãos trémulas, e o seu +serralho de trezentas concubinas se lhe torna ridiculamente +supérfluo. Então rompem os pomposos queixumes! Tudo + +é vaidade e aflição de espírito! nada +existe estável sob o sol! Com efeito, meu bom +Salomão, tudo passa--principalmente o poder de usar +trezentas concubinas! Mas que se restitua a esse velho +sultão asiático, besuntado de Literatura, a sua +virilidade,--e onde se sumirá o lamento do Eclesiastes? +Então voltará, em segunda e triunfal +edição, o êxtase do <i>Livro dos +Cantares</i>!...<br> + + + +<br> + + +Assim discursava o meu amigo no nocturno silêncio de Tormes. +Creio que ainda estabeleceu sobre o Pessimismo outras coisas +joviais, profundas ou elegantes;--mas eu <span class="pagenum">[249]</span>adormecera, beatificamente envolto em +Optimismo e doçura.<br> + + +<br> + + +Em breve porém, me fez pular, escancarar as pálpebras +moles, uma rija, larga, sadia e genuína risada. Era Jacinto, +estirado numa cadeira, que lia o D. Quixote... Oh bem aventurado +Príncipe! Conservara ele o agudo poder de arrancar teorias a +uma espiga de milho ainda verde, e por uma clemência de Deus, +que fizera reflorir o tronco seco, recuperara o dom divino de rir, +com as facécias de Sancho!<br> + + +<br> + + + +Aproveitando a minha companhia, as duas semanas de bucólica +ociosidade que eu lhe concedera, o meu Jacinto preparou +então a cerimónia tão falada, tão +meditada, a trasladação dos ossos dos velhos +Jacintos--dos «respeitáveis ossos» como +murmurava, cumprimentando, o bom Silvério, o procurador, +nessa manhã de sexta-feira, em que almoçava connosco, +metido num espantoso jaquetão de veludilho amarelo debruado +de seda azul! A cerimónia, de resto, reclamava muita +singeleza por serem tão incertos, quase impessoais, aqueles +restos, que nós estabeleceríamos na Capelinha do vale +da Carriça, na Capelinha toda nova, toda nua e toda fria, +ainda sem alma e sem calor de Deus.<br> + + + +<br> + + +--Por que enfim V. Ex.ª compreende,--explicava <span class="pagenum">[250]</span>o Silvério passando o guardanapo por +sobre a larga face suada e por sobre as imensas barbas negras, como +as de um turco--, naquela mixórdia... Oh! peço +desculpa a V. Ex.ª! Naquela confusão, quando tudo +desabou, não pudemos mais conhecer a quem pertenciam os +ossos. Nem sequer, falando verdade, nós sabíamos bem +que dignos avós de V. Ex.ª jaziam na capela velha, +assim tão antigos, com os letreiros apagados, senhores de +todo o nosso respeito, certamente, mas, se V. Ex.ª me permite, +senhores já muito desfeitos... Depois veio o desastre, a +mixórdia. E aqui está o que decidi, depois de pensar. +Mandei arranjar tantos caixões de chumbo, quantas as +caveiras que se apanharam lá em baixo na Carriça, +entre o lixo e o pedregulho. Havia sete caveiras e meia. Quero +dizer, sete caveiras e uma caveirinha pequenina. Metemos cada +caveira em seu caixão. Depois... Que quer V. Ex.ª? +Não havia outro meio! E aqui o Sr. Fernandes dirá se +não acha que procedemos com habilidade. A cada caveira +juntamos uma certa porção de ossos, uma +porção razoável... Não havia outro +meio... Nem todos os ossos se acharam. Canelas, por exemplo, +faltavam! E é bem possível que as costelas de um +daqueles senhores ficasse com a cabeça de outro... Mas quem +podia saber? Só Deus. Enfim <span class="pagenum">[251]</span>fizemos o que a prudência mandava... +Depois, no dia de Juízo, cada um destes fidalgos +apresentará os ossos que lhe pertencerem.<br> + + + +<br> + + +Lançava estas coisas macabras e tremendas, penetrado de +respeito, quase com majestade, espetando, ora em mim, ora no meu +Príncipe, os olhinhos agudos e reluzentes como +vidrilhos.<br> + + +<br> + + +Eu aprovei o pitoresco homem:<br> + + +<br> + + +--Perfeitamente! Andou perfeitamente, amigo Silvério. +São tão vagos, tão anónimos, todos +esses avós! Só faz pena, grande pena, que se +tresmalhassem os restos do avô Galeão.<br> + + + +<br> + + +--Não estava cá! acudiu Jacinto. Vim a Tormes +expressamente por causa do avô Galeão, e por fim o seu +jazigo nunca foi aqui, na Capelinha da Carriça... +Felizmente!<br> + + +<br> + + +O Silvério sacudia gravemente a calva trigueira:<br> + + +<br> + + +--Nunca tivemos o Ex.^<sup>mo</sup> Sr. Galeão. Há + +cem anos, Sr. Fernandes, há cem anos que se não +depositava na capela velha corpo de cavalheiro cá da +casa.<br> + + +<br> + + +--Onde estará então?...<br> + + +<br> + + +O meu Príncipe encolheu os ombros. Por esse Reino... Na +igrejinha, no cemitério de alguma das freguesias numerosas, +onde ele possuía terras. Casa tão espalhada!<br> + + + +<br> + + +<span class="pagenum">[252]</span>--Bem! concluí. +Então, como se trata de ossadas vagas, sem nome, sem data, +convém uma ceremoniazinha muito simples, muito +sóbria.<br> + + +<br> + + +--Quietinha, quietinha! murmurou o Silvério, dando um forte +sorvo assobiado ao café.<br> + + +<br> + + +E foi quietinha, de uma rústica e doce singeleza, a +cerimónia daqueles altos senhores. Cedo, por uma +manhã, levemente enevoada, os oito caixões +pequeninos, cobertos de um veludo vermelho mais de festa que de +funeral, com molhos de rosas espalhados, contendo cada um o seu +montezinho de ossos incertos, saíram aos ombros dos coveiros +de Tormes e dos moços da quinta, da Igreja de S. +José, cujo sino leve tangia, na enevoada doçura da +manhã,--quanto fina e levemente!--como pia um passarinho +triste. Adiante, um airoso moço de sobrepeliz, erguia com +zelo a velha cruz prateada; abrigando o pescoço sob um +imenso lenço de rapé, de quadrados azuis, o velho e +corcovado sacristão segurava pensativamente a caldeirinha de + +água benta; e o bom abade de S. José, com os dedos +entre o breviário fechado, movia os lábios, numa +lenta, murmurosa reza, que ia, pelo doce ar, espalhando mais +doçura. Logo atrás do último cofre, o mais +pequenino, o da caveirinha pequena, Jacinto caminhava; e eu, +<span class="pagenum">[253]</span>a estalar dentro de um fato preto +de Jacinto, tirado à pressa de uma das malas de Paris +quando, de manhã, já tarde para mandar a +Guiães, me lembrei que toda a minha roupa era de cores +festivais e pastoris.<br> + + +<br> + + + +Depois marchava o Silvério, soleníssimo, com um +imenso peitilho, onde as barbas imensas se alastravam, +negríssimas. De casaca, com o grosso beiço +descaído, descaído todo ele por aquela melancolia de +enterro que se juntava à melancolia da serra, o Grilo +enfiava no braço a sua coroa, enorme, de rosas e de heras. +Por fim seguia o Melchior, entre um rancho de mulheres, que, +sumidas na sombra dos lenços pretos, desfiando longos +rosários, rosnavam surdas ave-marias, através de +espaçados suspiros, tão doridos como se +inconsoladamente lhes doesse a perda daqueles Jacintos. Assim, +pelas várzeas entrecorridas de regueiros, lenta nos recostos +dos matos, escorregando mais rápida, pelos córregos +pedregosos, seguia a procissão, sempre com a cruz adiante, +alta e prateada, rebrilhando por vezes num breve raiozinho de sol +que, vagarosamente, surdia da névoa desfeita. Ramos baixos +de lodão ou de salgueiro passavam uma derradeira +carícia sobre o veludo dos caixões.<br> + + + +<br> + + +Um regato por vezes nos acompanhava, <span class="pagenum">[254]</span>com discreto fulgir entre as relvas, +sussurrando e como rezando também, alegremente: e nos +quintalinhos umbrosos, à nossa passagem, os galos, de cima +das pilhas de mato, faziam soar o seu clarim festivo. Depois, +adiante da fonte da Lira, como o caminho se alongava, e +desejássemos poupar o nosso velho abade, cortámos +através de uma seara, já alta, quase madura, toda +entremeada de papoilas, O sol radiou: sob a brisa larga, que levara +a névoa, toda a messe ondulou numa lenta vaga dourada, em +que se balouçavam os esquifes; e, como enorme papoila, a +mais vermelha, rutilava o guarda-sol de paninho logo aberto pelo +sacristão para abrigar o abade.<br> + + +<br> + + + +Jacinto tocou no meu cotovelo:<br> + + +<br> + + +--Que lindos vamos! Ora vê tu a Natureza... Num simples +enterrar de ossos, quanta graça e quanta beleza!<br> + + +<br> + + +Na Capelinha, nova, dominando o vale da Carriça, +solitária e muito nua, no meio de um adro, ainda mal +alisado, sem uma verdura de relva, uma frescura de arbusto, dois +moços seguravam à porta molhos de tochas, que o +Silvério distribuiu, a passos graves, com cortesias, +soleníssimo. Dentro as curtas chamas, mal luziam, mal +derramavam a sua amarelidão triste, esbatidas na reluzente +brancura <span class="pagenum">[255]</span>dos muros estacados, na +jovial claridade que caía das altas vidraças bem +polidas. Em torno dos esquifes, pousados sobre bancos, que pesados +veludilhos recobriam, o abade murmurava um suave latim, enquanto ao +fundo as mulheres, sumidas na sombra dos seus negros lenços, +gemiam <i>amens</i> agudos, abafavam um respeitoso soluço. +Depois, tomando levemente o hissope, ainda o bom abade aspergiu, +para uma derradeira purificação, os incertos ossos +dos incertos Jacintos. E todos desfilámos por diante do meu +Príncipe, timidamente encostado à ombreira, com o +Silvério ao lado esmagando contra o peitilho as barbas +imensas, a face descaída, cerradas as pálpebras como +contendo lágrimas.<br> + + + +<br> + + +No adro, o meu Príncipe acendeu regaladamente um cigarro +pedido ao Melchior:<br> + + +<br> + + +--E então, Zé Fernandes, que te pareceu a +cerimoniazinha?<br> + + +<br> + + +--Muito campestre, muito suave, muito risonha... Uma +delícia.<br> + + +<br> + + +Mas o Abade, que se desvestira na Sacristia, apareceu, já + +com o seu grande casaco de lustrina, e seu velho chapéu +desabado, trazidos pelo moço da Residência, num saco +de chita. Jacinto, imediatamente lhe agradeceu tantos cuidados, a +afável hospitalidade <span class="pagenum">[256]</span>que +oferecera aos ossos, durante a construção da +Capelinha nova. E o suave velho, todo branquinho, de faces ainda +menineiras e coradas, com um claro sorriso de dentes sadios, +louvava Jacinto, que assim viera de tão longe, em tão +longa jornada, para cumprir aquele dever de bom neto.<br> + + +<br> + + +--São avós muito remotos, e agora tão +confusos! murmurava Jacinto sorrindo.<br> + + + +<br> + + +--Pois mais mérito ainda o de V. Ex.ª. Respeitar um +avô morto, bem é corrente... Mas respeitar os ossos de +um quinto avô, de um sétimo avô!<br> + + +<br> + + +--Sobretudo, Sr. Abade, quando deles nada se sabe, e naturalmente +nada fizeram.<br> + + +<br> + + +O velho sacudiu risonhamente o dedo gordo:<br> + + + +<br> + + +--Ora quem sabe, quem sabe! Talvez fossem excelentes! E por fim, +quem muito se demora no mundo, como eu, termina por se convencer +que no mundo não há coisa ou ser inútil. Ainda +ontem eu lia num jornal do Porto, que por fim, segundo se +descobriu, são as minhocas que estrumam e lavram a terra, +antes de chegar o lavrador e os bois com o arado. Até as +minhocas são úteis. Não há nada +inútil... Eu tinha lá na residência uma +porção de cardos a um canto da horta, que me +afligiam. Pois reflecti e terminei por me regalar com eles em +xarope. Os avós de <span class="pagenum">[257]</span>V. +Ex.ª por cá andaram, por cá trabalharam, por +cá padeceram. Quer dizer: por cá serviram. E, em todo +o caso, que lhes rezemos um Padre-Nosso por alma não lhes +pode fazer senão bem, a eles e a nós.<br> + + + +<br> + + +E assim, docemente filosofando, parámos num souto de +carvalheiras, onde esperava a velhíssima égua do +Abade, por que o santo homem agora, depois do reumatismo do +último Inverno, já não afrontava rijamente +como antes os trilhos duros da serra. Para ele montar, filialmente +Jacinto segurou o estribo. E enquanto a égua se empurrava +pelo córrego acima, quase tapada sob o imenso guarda-sol +vermelho em que se abrigava o velho, nós recolhemos a casa +metendo pela serra da Lombinha, através dos milhos, e +depressa, porque eu estalava, aperreado, dentro da roupa preta do +meu Príncipe.<br> + + +<br> + + +--Estão pois acomodados estes senhores, Zé Fernandes! +Só resta rezar por eles o Padre-Nosso, que recomenda o +abade... Somente, eu não sei, já não me lembro +do Padre-Nosso.<br> + + + +<br> + + +--Não te aflijas, Jacinto: peço à tia +Vicência que reze por mim e por ti. É sempre a tia +Vicência que reza os meus Padres-Nossos.<br> + + +<br> + + +<span class="pagenum">[258]</span>Durante essas semanas que +preguicei em Tormes, eu assisti, com enternecido interesse, a uma +considerável evolução de Jacinto nas suas +relações com a Natureza. Daquele período +sentimental de contemplação, em que colhia teorias +nos ramos de qualquer cerejeira, e edificava Sistemas sobre o +espumar das levadas, o meu Príncipe lentamente passava para +o desejo da Acção... E de uma acção +directa e material, em que a sua mão, enfim +restituída a uma função superior, revolvesse o +torrão.<br> + + + +<br> + + +Depois de tanto _comentar_, o meu Príncipe, evidentemente, +aspirava a <i>criar</i>.<br> + + +<br> + + +Uma tardinha, ao anoitecer, sentados no pomar, no rebordo do +tanque, enquanto o Manuel hortelão apanhava laranjas no alto +de uma escada arrimada a uma alta laranjeira, Jacinto observou, +mais para si do que para mim:<br> + + +<br> + + +--É curioso... Nunca plantei uma árvore!<br> + + +<br> + + + +--Pois é um dos três grandes actos, sem os quais +segundo diz não sei que Filósofo, nunca se foi um +verdadeiro homem... Fazer um filho, plantar uma árvore, +escrever um livro. Tens de te apressar, para ser um homem. É +possível que talvez nunca prestasses um serviço a uma +árvore, como se presta a um semelhante!<br> + + +<br> + + +<span class="pagenum">[259]</span>--Sim... Em Paris, quando era +pequeno, regava os lilases. E no Verão é um belo +serviço! Mas nunca semeei.<br> + + + +<br> + + +E como o Manuel descia da escada, o meu Príncipe, que nunca +acreditara inteiramente--pobre homem!--no meu saber +agrícola, imediatamente reclamou o parecer daquela +autoridade:<br> + + +<br> + + +--Oh Manuel, ouça lá, o que é que se poderia +agora semear?<br> + + +<br> + + +Com o cesto das laranjas enfiado no braço, o Manuel +exclamou, através de um lento riso, entre respeitoso e +divertido:<br> + + + +<br> + + +--Semear, patrão? Agora é antes colher... Olhe que +já se anda a limpar a eirazinha para a debulha, meu +patrão.<br> + + +<br> + + +--Pois sim... Mas sem ser milho nem cevada... Então ali no +pomar, rente do muro velho, não se podia plantar uma fila de +pessegueiros?<br> + + +<br> + + +O riso do Manuel crescia.<br> + + + +<br> + + +--Isso sim, meu senhor! Isso é lá para os Santos ou +para o Natal. Agora só a couvinha na horta, a beldroega, os +espinafres, algum feijãozinho em terra muito fresca...<br> + + +<br> + + +O meu Príncipe sacudiu com brando gesto estes legumes +rasteiros.<br> + + +<br> + + +--Bem, boa noite, Manuel. Essas laranjas são da tal +laranjeira que diz o Melchior, muito <span class="pagenum">[260]</span>doces, muito finas? Então leve para os +seus pequenos. Leve muitas para os pequenos.<br> + + + +<br> + + +Não! o empenho era criar a árvore. Pela árvore +contemplada na serra em sua verdadeira majestade, na +beneficência da sua sombra, na frescura embaladora do seu +rumorejar, na graça e santidade dos ninhos que a povoam, +começara talvez, lentamente, o seu amor novo da Terra. E +agora sonhava uma Tormes toda coberta de árvores, cujos +frutos e verduras, e sombras, e rumorejos suaves, e abrigados +ninhos, fossem a obra e o cuidado das suas mãos +paternais.<br> + + +<br> + + +No silêncio grave do crepúsculo, que descia, murmurou +ainda:<br> + + +<br> + + + +--Oh Zé Fernandes; quais são as árvores que +crescem mais depressa?<br> + + +<br> + + +--Eh, meu Jacinto... A árvore que cresce mais depressa +é o eucalipto, o feiíssimo e ridículo +eucalipto. Em seis anos tens aí Tormes coberta de +eucaliptos...<br> + + +<br> + + + +--Tudo tão lento, Zé Fernandes...<br> + + +<br> + + +Porque o seu sonho, que eu compreendia, seria plantar +caroços que subissem em fortes troncos, se alargassem em +verdes ramarias, antes de ele voltar ao 202, no começo do +Inverno...<br> + + +<br> + + +--Um carvalho!... Trinta anos, antes que seja belo! Desanimo! +É bom para Deus, <span class="pagenum">[261]</span>que pode +esperar... <i>Patiens quia aeternus.</i> Trinta anos! Daqui a +trinta anos, árvores só para me cobrirem a +sepultura!<br> + + + +<br> + + +--Já é um ganho. E depois para teus filhos, +Jacinto...<br> + + +<br> + + +--Filhos! onde os tenho eu?<br> + + +<br> + + +--É o mesmo processo dos castanheiros. Semeia. Não +faltam por aí terras agradáveis... Em nove meses tens +uma planta feita. E quanto mais tenrinhas, e mais pequeninas, mais +essas plantas encantam.<br> + + + +Ele murmurou, cruzando as mãos sobre o joelho:<br> + + +<br> + + +--Tudo leva tanto tempo!...<br> + + +<br> + + +E à borda do tanque nos quedámos, calados, na fresca +doçura do anoitecer, entre o cheiro avivado das madressilvas +do muro, olhando o crescente da lua, que surdia dos telhados de +Tormes. E decerto esta pressa de se tornar entre a Natureza +não mais um sonhador, mas um criador, arremessou vivamente o +seu interesse para os gados! Repetidamente, nos nossos passeios +através da quinta, ele lhe notava a solidão.<br> + + +<br> + + + +--Faltam aqui animais, Zé Fernandes!<br> + + +<br> + + +Imaginava eu, que ele apetecia em Tormes o ornato elegante de +veados e pavões. Mas um domingo, costeando o largo campo da +<span class="pagenum">[262]</span>Ribeirinha, sempre escasso de +águas, agora mais ressequido por Verão de tanta +secura, o meu Príncipe parou a considerar os três +carneiros do caseiro, que retouçavam com penúria uma +relvagem pobre.<br> + + +<br> + + + +E, de repente, como magoado:<br> + + +<br> + + +--Justamente! Aqui está o espaço para um belo prado, +um imenso prado, muito verde, muito farto, com rebanhos de +carneiros brancos, gordíssimos como bolas de algodão +pousadas na relva!... Era lindo, hein? É fácil, +não é verdade, Zé Fernandes?<br> + + + +<br> + + +--Sim... Trazes a água para o prado. Águas não +faltam, na serra.<br> + + +<br> + + +E o meu Príncipe encadeando logo nesta inspirada ideia +outra, mais rica e vasta, lembrou quanta beleza daria a Tormes +encher esses prados, esses verdes ferragiais, de manadas de vacas, +formosas vacas inglesas, bem nédias e bem luzidias. Hein? +Uma beleza. Para abrigar esses gados ricos, construiria currais +perfeitos, de uma arquitectura leve e útil, toda em ferro e +vidro, fundamente varridos pelo ar, largamente lavados pela +água... Hein? Que formosura! Depois, com todas essas vacas, +e o leite jorrando, nada mais fácil e mais divertido, e +até mais moral, que a instalação de uma +queijeira, à fresca moda Holandesa, toda branca e reluzente, +de azulejos <span class="pagenum">[263]</span>e de mármore, +para fabricar os Camemberts, os Bries... os Coulommiers... Para a +casa, que conforto! E para toda a serra, que actividade!<br> + + + +<br> + + +--Pois não te parece, Zé Fernandes?<br> + + +<br> + + +--Concerteza. Tu tens, em abundância, os quatro Elementos: o +ar, a água, a terra, e o dinheiro. Com estes quatro +elementos, facilmente se faz uma grande lavoura. Quanto mais uma +queijeira!<br> + + +<br> + + +--Pois não é verdade? E até como +negócio! Está claro, para mim o lucro é o +deleite moral do trabalho, o emprego fecundo do dia... Mas uma +queijaria, assim perfeita, rende. Rende prodigiosamente. E educa o +paladar, incita a instalações iguais, implanta talvez +no país uma indústria nova e rica! Ora com essa +instalação, perfeita, quanto me poderá custar +cada queijo?<br> + + + +<br> + + +Fechei um olho, calculando:<br> + + +<br> + + +--Eu te digo.... Cada queijo, um desses queijinhos redondos, como o +Camembert ou o Rabaçal, pode vir a custar-te, a ti Jacinto +queijeiro, entre duzentos e cinquenta e trezentos mil +réis.<br> + + +<br> + + +O meu Príncipe recuou, com dois olhos alegres espantados +para mim.<br> + + +<br> + + +--Como trezentos mil réis?<br> + + +<br> + + + +<span class="pagenum">[264]</span>--Ponhamos duzentos... Tem a +certeza! Com todos esses prados, e os encanamentos de água e +a configuração da serra alterada, e as vacas +inglesas, e os edifícios de porcelana e vidro, e as +máquinas, a extravagância, e a patuscada +bucólica, cada queijo te custa, a ti produtor, duzentos mil +réis. Mas com certeza o vendes no Porto por um +tostão. Põe cinquenta réis para a caixa, +rótulos, transporte, comissão, etc. Tens apenas, em +cada queijo uma perda de cento e noventa e nove mil oitocentos e +cinquenta réis!<br> + + +<br> + + + +O meu Príncipe não desanimou.<br> + + +<br> + + +--Perfeitamente! Faço um desses espantosos queijos por +semana, ao sábado, para o comermos nós ambos ao +domingo!<br> + + +<br> + + +E tanta energia lhe comunicava o seu novo Optimismo, tão +ansiosamente aspirava a criar, que logo, arrastando o +Silvério e o Melchior por cabeços e barrancos, largou +a percorrer a quinta toda, para determinar onde cresceriam, ao seu +mando inspirado, os verdes prados, e se ergueriam, rebrilhantes no +sol de Tormes, os currais elegantes. Com a esplêndida +segurança dos seus cento e nove contos de renda, não +surgia dificuldade, risonhamente murmurada pelo Melchior, ou +exclamada, com respeitoso pasmo, pelo Silvério, <span class="pagenum">[265]</span>que ele não afastasse brandamente, com +jeito leve, como um galho de roseira brava atravessado numa +vereda.<br> + + + +<br> + + +Aquelas rochas, além, empecendo? Que se arrancassem! Um vale +importuno dividia dois campos? Que se atulhasse! O Silvério +suspirava, enxugando sobre a escura calva um suor quase de +angústia. Pobre Silvério! Rijamente sacudido na doce +pachorra da sua administração, calculando despesas +que se afiguravam sobre-humanas à sua parcimónia +serrana, forçado a arquejar, sem descanso, sob soalheiras de +Junho, o desgraçado retomara na Serra o jeito que Jacinto +deixara em Paris,--e era ele que corria pelas longas barbas +tenebrosas os dedos desalentados... Enfim uma tarde desabafou +comigo, a um canto da varanda, enquanto Jacinto, na livraria, +escrevia a um seu amigo de Holanda, o conde Rylant, Mordomo-Mor da +Corte, pedindo desenhos, e planos, e orçamentos de uma +queijeira perfeita.<br> + + +<br> + + +--Pois, Sr. Fernandes, se toda esta grandeza vai por diante, sempre +lhe digo que o Sr. D. Jacinto enterra aqui na serra dezenas de +contos... Dezenas de contos!<br> + + + +<br> + + +E como eu aludia à fortuna do meu Príncipe, a quem +todas essas obras tão vastas, que alterariam o +antiquíssimo rosto da serra, <span class="pagenum">[266]</span>não custavam mais que a outros o +concerto de um socalco,--o bom Silvério atirou os longos +braços para as coxas gordas, ainda mais desolado:<br> + + +<br> + + +--Pois por isso mesmo, Sr. Fernandes! Se o Sr. D. Jacinto +não tivesse a dinheirama, recuava. Assim, é + +zás zás, para diante; e eu não o censuro pela +ideia. Lograsse eu a renda de S. Ex.ª, que me atirava +também a uma lavoura de capricho. Mas não aqui, Sr. +Fernandes, nestas serranias, entre alcantis. Pois um senhor que +possui aquela linda propriedade de Montemor, nos campos do Mondego, +onde até podia plantar jardins de desbancar os do +Palácio de Cristal do Porto! E a Veleira? O Sr. Fernandes +não conhece a Veleira, lá para os lados de Penafiel? +Isso é um condado! E uma terra chã, boa terra, toda +junta, ali em volta da casa, com uma torre. Um regalo, Sr. +Fernandes. Mas sobretudo Montemor! Lá é que eram +prados e manadas de vacas inglesas, e queijeira e horta rica, de +fartar, e aí trinta perus na capoeira...<br> + + + +<br> + + +--Então que quer, Silvério? O Jacinto gosta da serra. +E depois este é o solar da família, e aqui +começaram no século XIV os Jacintos...<br> + + +<br> + + +O pobre Silvério, no seu desespero, esquecia <span class="pagenum">[267]</span>o respeito devido à secular nobreza da +casa.<br> + + + +<br> + + +--Ora! até ficam mal ao Sr. Fernandes essas ideias, neste +século da liberdade... Pois estamos lá em tempos de +se falar em fidalguias, agora que por toda a parte anda tudo em +República? Leia o <i>Século</i>, Sr. Fernandes! leia +o <i>Século</i>, e verá! E depois eu sempre quero ver +o Sr. D. Jacinto, aqui no Inverno, com o nevoeiro a subir do rio +logo pela manhã, e a friagem a trespassar os ossos, e +ventanias que atiram carvalheiras de raízes ao ar, e chuvas +e chuvas que se desfaz a serra!... Olhe, até mesmo por amor +da saúde o Sr. D. Jacinto, que é fraquinho e +acostumado à cidade, necessita sair da serra. Em Montemor, +em Montemor é que S. Ex.ª estava bem. E o Sr. +Fernandes, tão amigo dele e assim com tanta +influência, devia teimar, e berrar, até que o levasse +para Montemor.<br> + + + +<br> + + +Mas, infelizmente para a quietação do +Silvério, Jacinto lançara raízes, e rijas, e +amorosas raízes na sua rude serra. Era realmente como se o +tivessem plantado de estaca naquele antiquíssimo +chão, donde brotara a sua raça, e o +antiquíssimo húmus refluísse e o penetrasse +todo, e o andasse transformando num Jacinto rural, quase vegetal, +tão do <span class="pagenum">[261]</span>chão, e +preso ao chão, como as árvores que ele tanto +amava.<br> + + + +<br> + + +E depois o que o prendia à serra era o ter nela encontrado o +que na Cidade, apesar da sua sociabilidade, não encontrara +nunca,--dias tão cheios, tão deliciosamente ocupados, +de um tão saboroso interesse, que sempre penetrava neles, +como numa festa ou numa glória.<br> + + +<br> + + +Logo de manhã, às seis horas, eu, no meu quarto, +mexendo ainda regaladamente o meu corpo nos colchões de +fresco folhelho, sentia os seus rijos sapatões pelo +corredor, e o seu cantarolar, desafinado, mas ditoso como o de um +melro. Em poucos instantes escancarava com fragor a minha porta, +já de chapéu desabado, já de bengalão +de cerejeira, disposto com reservado fervor para os trilhos +conhecidos da serra. E era sempre a mesma nova, quase +orgulhosa:<br> + + + +<br> + + +--Dormi hoje deliciosamente, Zé Fernandes. Tão bem, +com uma tal serenidade, que começo a acreditar que sou um +justo! Um dia lindo! Quando abri a janela, às cinco horas, +quase gritei de puro gosto!<br> + + +<br> + + +Na sua pressa, nem me deixava demorar na frescura da banheira; e +quando eu repetia a risca mal começada do cabelo, aquele +antigo homem das trinta e nove escovas, protestava <span class="pagenum">[269]</span>contra esse desbarato efeminado de um tempo +devido aos fortes gozos da terra.<br> + + +<br> + + +Mas quando, depois de acariciar os rafeiros no pátio, +desembocávamos da alameda de plátanos, e diante de +nós se dividiam matutinamente, mais brancos entre o verde +matutino, os caminhos coleantes da quinta, toda a sua pressa +findava, e penetrava na Natureza, com a reverente lentidão +de quem penetra num Templo. E repetidamente sustentava ser + +«contrário à Estética, à +Filosofia e à Religião, andar depressa através +dos campos.» De resto, com aquela subtil sensibilidade +bucólica que nele se desenvolvera, e incessantemente se +afinava, qualquer breve beleza, do ar ou da terra, lhe bastava para +um longo encanto. Ditosamente poderia ele entreter toda uma +manhã, caminhar por entre um pinheiral, de tronco a tronco, +calado, embebido no silêncio, na frescura, no resinoso aroma, +empurrando com o pé as agulhas e as pinhas secas. Qualquer + +água corrente o retinha, enternecido naquela serviçal +actividade, que se apressa, cantando, para o torrão que tem +sede, e nele se some, e se perde. E recordo ainda quando me reteve +meio domingo, depois da Missa, no cabeço, junto a um velho +curral desmantelado, sob uma grande árvore,--só por +que em torno havia quietação, <span class="pagenum">[270]</span>doce aragem, um fino piar de ave na ramaria, +um murmúrio de regato entre canas verdes, e por sobre a +sebe, ao lado, um perfume, muito fino e muito fresco, de flores +escondidas.<br> + + +<br> + + +Depois, quando eu, velho familiar das serras, me não +abandonava aos mesmos êxtases que a ele lhe enchiam a alma +ainda noviça--o meu Príncipe rugia, com a +indignação de um poeta que descobre um merceeiro +bocejando sobre Shakespeare ou Musset. Eu ria.<br> + + + +<br> + + +--Meu filho, olha que eu não passo de um pequeno +proprietário. Para mim não se trata de saber se a +terra é <i>linda</i>, mas se a terra é <i>boa</i>. +Olha o que diz a Bíblia! «Trabalharás a quinta +com o suor do teu rosto!» E não diz + +«contemplarás a quinta com o enlevo da tua +imaginação!»<br> + + +<br> + + +--Pudera! exclamava o meu Príncipe. Um livro escrito por +Judeus, por ásperos semitas, sempre com o turvo olho posto +no lucro! Repara, homem, para aquele bocadinho de vale, e consegue +não pensar, por um momento, nos trinta mil réis que +ele rende! Verás que pela sua beleza e graça ele te +dá mais contentamento à alma que os trinta mil +réis ao corpo. E na vida só a alma importa.<br> + + + +<br> + + +Recolhendo ao casarão, já o encontrávamos com +as janelas meio cerradas, os soalhos <span class="pagenum">[271]</span>borrifados para aquelas quentes +réstias de sol de Junho, que depois do almoço +docemente nos retinham na livraria, preguiçando.<br> + + +<br> + + +Mas realmente a alegre actividade do meu Príncipe não +cessava, nem amolecia, sob o peso da sesta. A essa hora, enquanto +pelo arvoredo mudo os mais agitados pardais dormiam, e o sol mesmo +parecia repousar, imóvel na rutilância da sua luz, +Jacinto com o espírito acordado,--ávido de sempre +gozar, agora que reconquistara essa faculdade,--tomava com +delícia o <i>seu livro</i>. Por que o dono de trinta mil +volumes era agora, na sua casa de Tormes, depois de ressuscitado, o +homem que só tem um livro. Essa mesma Natureza, que o +desligara das ligaduras amortalhadoras do tédio, e lhe +gritara o seu belo <i>Ambula</i>, caminha!--também +certamente lhe gritara <i>et lege</i>, e lê. E libertado +enfim do invólucro sufocante da sua Biblioteca imensa, o meu +ditoso amigo compreendia enfim a incomparável delícia +de <i>ler um livro</i>. Quando eu correra a Tormes, (depois das +revelações do Severo na venda do Torto,) ele findava +o D. Quixote, e ainda eu lhe escutara as derradeiras risadas com as +coisas deliciosas, e de certo profundas, que o gordo Sancho lhe +murmurava, escarranchado no seu burro. Mas agora o meu +Príncipe mergulhara na <i>Odisseia</i>,--e todo <span class="pagenum">[272]</span>ele vivia no espanto e no deslumbramento de +assim ter encontrado no meio do caminho da sua vida, o velho +errante, o velho Homero!<br> + + + +<br> + + +--Oh Zé Fernandes, como sucedeu que eu chegasse a esta idade +sem ter lido Homero?...<br> + + +<br> + + +--Outras leituras, mais urgentes... O <i>Figaro</i>, George +Ohnet...<br> + + +<br> + + +--Tu leste a <i>Ilíada</i>?<br> + + +<br> + + + +--Menino, sinceramente me gabo de nunca ter lido a +<i>Ilíada</i>.<br> + + +<br> + + +Os olhos do meu Príncipe fuzilavam.<br> + + +<br> + + +--Tu sabes o que fez Alcibíades, uma tarde, no +Pórtico, a um sofista, um desavergonhado de um sofista, que +se gabava de não ter lido a <i>Ilíada</i>?<br> + + + +<br> + + +--Não.<br> + + +<br> + + +--Ergueu a mão e atirou-lhe uma bofetada tremenda.<br> + + +--Para lá, Alcibíades! Olha que eu li a +<i>Odisseia</i>!<br> + + +<br> + + +Oh! mas decerto eu a lera, corridamente, com a alma desatenta! E +insistia em me iniciar, ele, e me conduzir, através do Livro +sem igual. Eu ria. E rindo, pesado do almoço, terminava por +consentir, e me estirava no canapé de verga. Ele, diante da +mesa, direito na cadeira, abria o livro gravemente, +pontificalmente, como um missal, e começava <span class="pagenum">[273]</span>numa lenta ode sentida. Aquele grande mar da + +<i>Odisseia</i>,-- resplandecente e sonoro, sempre azul, todo azul, +sob o voo branco das gaivotas, rolando, e mansamente quebrando +sobre a areia fina ou contra as rochas de mármore das Ilhas +divinas,--exalava logo uma frescura salina, bem-vinda e consoladora +naquela calma de Junho, em que a serra se entorpecia. Depois as +estupendas manhas do subtil Ulisses e os seus perigos +sobre-humanos, tantas lamúrias sublimes, e um anseio +tão espalhado da Pátria perdida, e toda aquela +intriga, em que embrulhava os Heróis, lograva as Deusas, +iludia o Fado, tinham um delicioso sabor ali, nos campos de Tormes, +onde nunca se necessitava de subtileza ou de engenho, e a Vida se +desenrolava com a segurança imutável com que cada +manhã sempre o Sol igual nascia, e sempre centeios e milhos, +regados por águas iguais, seguramente medravam, espigavam, +amadureciam... Embalado pela recitação grave e +monótona do meu Príncipe, eu cerrava as +pálpebras docemente. Em breve um vasto tumulto, por terra e +céu, me alvoroçava... E eram os rugidos de Polifemo, +ou a grita dos companheiros de Ulisses roubando as vacas de Apolo. +Com os olhos logo esbugalhados para Jacinto, eu murmurava: + +<span class="pagenum">[274]</span><i>Sublime!</i> E sempre, nesse +momento o engenhoso Ulisses, de carapuço vermelho e o longo +remo ao ombro, surpreendia com a sua facúndia a +clemência dos Príncipes, ou reclamava presentes +devidos ao Hóspede, ou surripiava astutamente algum favor +aos Deuses. E Tormes dormia, no esplendor de Junho. Novamente, eu +cerrava as pálpebras consoladas, sob a carícia +inefável do largo dizer homérico... E meio +adormecido, encantado, incessantemente avistava, longe, na divina +Hélade, entre o mar muito azul e o ceu muito azul, a branca +vela, hesitante, procurando Ítaca...<br> + + +<br> + + + +Depois da sesta o meu Príncipe de novo se soltava para os +campos. E a essa hora, sempre mais activa, voltava com ardor aos +«seus planos», a essas culturas de luxo e elegantes +oficinas que cobririam a serra de magnificências rurais. +Agora andava todo no esplêndido apetite de uma horta que ele +concebera, imensa horta ajardinada, em que todos os legumes, +clássicos ou exóticos, cresceriam, soberbamente, em +vistosos talhões, fechados por sebes de rosas, de cravos, de +alfazema, de dálias. A água das regas desceria por +lindos córregos de louça esmaltada. Nas ruas, a +sombra cairia de densas latadas <span class="pagenum">[275]</span>de moscatel, pousando em esteios revestidos +de azulejo. E o meu Príncipe desenhara o plano desta +espantosa horta, a lápis vermelho, num papel imenso, que o +Melchior e o Silvério, consultados, longamente +contemplaram,--um coçando risonhamente a nuca, o outro com +os braços duramente cruzados, e o sobrolho +trágico.<br> + + + +<br> + + +Mas este plano, o da queijaria, o da capoeira, e outro, sumptuoso, +de um pombal tão povoado que todo o céu de Tormes +às tardes se tornaria branco e todo fremente de +asas--não saíam das nossas gostosas palestras, ou dos +papéis em que Jacinto os debuxava, e que se amontoavam sobre +a mesa, platónicos, imóveis, entre o tinteiro de +latão e o vaso com flores.<br> + + +<br> + + +Nem enxadada fendera terra, nem alavanca deslocara pedra, nem serra +serrara madeira, para encetar estas maravilhas. Contra a +resistência rebolada e escorregadia do Melchior, contra a +respeitosa inércia do Silvério se quedavam, +encalhados, os planos do meu Príncipe, como galeras vistosas +em rochas ou em lodo.<br> + + + +<br> + + +Não convinha bulir em nada, (clamava o Silvério) +antes das colheitas e da vindima! E depois, (acrescentava o +Melchior com um sorriso <span class="pagenum">[276]</span>de grande +promessa) «para boas obras mês de Janeiro» porque +lá ensina o ditado:<br> + + +<br> + + +<div class="quote">Em Janeiro--mete obreiro<br> + + +Mês meante--que não ante.</div> + + + +<br> + + +E, de resto, o gozo de conceber as suas obras e de indicar, +estendendo a bengala por cima de vale e monte, os sítios +privilegiados que elas aformoseariam, bastava por ora ao meu +Príncipe, ainda mais imaginativo que operante. E, enquanto +meditava estas transformações da terra, muito +progressivamente e com um amável esforço, se ia +familiarizando com os homens simples que a trabalhavam. Na sua +chegada a Tormes, o meu Príncipe sofria de uma estranha +timidez diante dos caseiros, dos jornaleiros, e até de +qualquer rapazinho que passasse, tangendo uma vaca para o pasto. +Nunca ele então se demoraria a conversar com os +moços, quando à borda de um caminho ou num campo em +monda eles se endireitavam de chapéu na mão, num +respeito de velha vassalagem. De certo o empecia a preguiça, +e talvez ainda o púdico recato de transpor toda a imensa +distância que se alargava desde a sua complicada +super-civilização até à rude +simplicidade daquelas <span class="pagenum">[277]</span>almas +naturais:--mas sobretudo o retinha o medo de mostrar a sua +ignorância da lavoura e da terra, ou de parecer talvez +desdenhoso de ocupações e de interesses, que para os +outros eram supremos e quase religiosos. Remia então esta +reserva com uma profusão de sorrisos, de doces acenos, +tirando também o chapéu em cortesias profundas, com +uma tal ênfase de polidez que eu por vezes receava que ele +murmurasse aos jornaleiros: «Tenha V. Ex.ª muito boas +tardes;... Criado de V. Ex.ª!»<br> + + + +<br> + + +Mas agora, depois daquelas semanas de serra, e de já saber +(com um saber ainda frágil,) a época das sementeiras +e das ceifas, e que as árvores de fruta se semeiam no +Inverno, já se aprazia em parar junto dos trabalhadores, +contemplar descansadamente o trabalho, dizer coisas afáveis +e vagas.<br> + + +<br> + + +--Então, isso vai andando?... Ora ainda bem!... Este bocado +de torrão aqui é rico... O talude ali adiante +está precisando conserto...<br> + + + +<br> + + +E cada um destes tão simples dizeres lhe era doce, como se +por meio deles penetrasse mais fundamente na intimidade da terra, e +consolidasse a sua encarnação em «homem do +campo,» deixando de ser uma mera sombra circulando entre +realidades. Já por isso <span class="pagenum">[278]</span>não cruzava no caminho o mocinho +atrás das vacas, que não o detivesse, o não +interrogasse: «Para onde vais tu? De quem é o gado? +Como te chamas?» E, contente consigo, sempre gabava +gratamente o desembaraço do rapaz, ou a esperteza dos seus +olhos. Outra satisfação do meu Príncipe era +conhecer os nomes de todos os campos, as nascentes de água, +e as delimitações da sua quinta.<br> + + + +<br> + + +--Vês acolá, para além do ribeiro, o pinheiral. +Já não é meu, é dos Albuquerques.<br> + + +<br> + + +E com a perene alegria de Jacinto as noites da serra, no vasto +casarão, eram fáceis e curtas. O meu Príncipe +era então uma alma que se simplificava:--e qualquer +pequenino gozo lhe bastava, desde que nele entrasse paz ou +doçura. Com verdadeira delícia ficava, depois do +café, estendido numa cadeira, sentindo através das +janelas abertas, a nocturna tranquilidade da serra, sob a mudez +estrelada do céu.<br> + + + +<br> + + +As histórias, muito simples e muito caseiras, que eu lhe +contava, de Guiães, do abade, da tia Vicência, dos +nossos parentes da Flor da Malva, tão sinceramente o +interessavam que eu encetara, para seu regalo, a crónica +completa de Guiães, com todos os namoricos, e as +façanhas de forças, e as desavenças por causa +de servidões ou de águas. Também <span class="pagenum">[279]</span>por vezes nos enfronhávamos, com +aferro numa partida de gamão, sobre um belo tabuleiro de pau +preto, com pedras de velho marfim, que nos emprestara o +Silvério. Mas nada de certo o encantava tanto como +atravessar as casas, pé ante pé, até uma +saleta que dava para o pomar, e aí ficar encostado à + +janela, sem luz, num enlevado sossego, a escutar longamente, +languidamente, os rouxinóis que cantavam no laranjal.<br> + + +<br> + + +<br> + + +<br> + + +<h2>X</h2> + + +<br> + + +<br> + + +Numa dessas manhãs--justamente na véspera do meu +regresso a Guiães--, o tempo, que andara pela serra +tão alegre, num inalterado riso de luz rutilante, todo +vestido de azul e ouro, fazendo poeira pelos caminhos, e alegrando +toda a natureza, desde os pássaros até os regatos, +subitamente, com uma daquelas mudanças que tornam o seu +temperamento tão semelhante ao do homem, apareceu triste, +carrancudo, todo embrulhado no seu manto cinzento, com uma tristeza +tão pesada e contagiosa que toda a serra entristeceu. E +não houve mais pássaro que cantasse, e os arroios +fugiram para debaixo das ervas com um lento murmúrio de +choro.<br> + + + +<br> + + +Quando Jacinto entrou no meu quarto, não resisti à +malícia de o aterrar:<br> + + +<br> + + +--Sudoeste! gralhas a grasnar por todos esses soutos... Temos muita +água, Sr. D. Jacinto! <span class="pagenum">[282]</span>Talvez duas semanas de água! E agora +é se vai saber quem é aqui o fino amador da Natureza, +com esta chuva pegada, com vendaval, com a serra toda a +escorrer!<br> + + + +<br> + + +O meu Príncipe caminhou para a janela com as mãos nas +algibeiras:<br> + + +<br> + + +--Com efeito! Está carregado. Já mandei abrir uma das +malas de Paris e tirar um casacão impermeável... +Não importa! Fica o arvoredo mais verde. E é bom que +eu conheça Tormes nos seus hábitos de Inverno.<br> + + + +<br> + + +Mas como o Melchior lhe afiançara que a «chuvinha +só viria para a tarde», Jacinto decidiu ir antes de +almoço à Corujeira, onde o Silvério o esperava +para decidirem da sorte de uns castanheiros, muito velhos, muito +pitorescos, inteiramente interessantes, mas já +roídos, e ameaçando desabar. E, confiando nas +previsões do Melchior, partimos sem que Jacinto se vestisse +à prova de água. Não andáramos +porém meio caminho, quando, depois de um arrepio nas + +árvores, um negrume carregou, e, bruscamente, desabou sobre +nós uma grossa chuva oblíqua, vergastada pelo vento, +que nos deixou estonteados, agarrando os chapéus, +enrodilhados na borrasca. Chamados por uma grande voz, que se +esganiçava no vento, avistámos num campo mais alto, +à beira de um alpendre, o Silvério, debaixo de um +<span class="pagenum">[283]</span>guarda-chuva vermelho, que +acenava, nos indicava o trilho mais curto para aquele abrigo. E +para lá rompemos, com a chuva a escorrer na cara, patinhando +na lama, contorcidos, cambaleantes, atordoados no vendaval, que num +instante alagara os campos, inchara os ribeiros, esboroava a terra +dos socalcos, lançara num desespero todo o arvoredo, tornara +a serra negra, bravamente agreste, hostil, inabitável.<br> + + +<br> + + + +Quando enfim, debaixo do vasto guarda-chuva com que o +Silvério nos esperava à beira do campo, corremos para +o alpendre, nos refugiámos naquele abrigo inesperado, a +escorrer, a arquejar, o meu Príncipe, enxugando a face, +enxugando o pescoço, murmurou, desfalecido:<br> + + +<br> + + +--Apre! que ferocidade!<br> + + +<br> + + +Parecia espantado daquela brusca, violenta cólera de uma +serra tão amável e acolhedora, que em dois meses, +inalteradamente, só lhe oferecera doçura e sombra, e +suaves céus, e quietas ramagens, e murmúrios +discretos de ribeirinhos mansos.<br> + + + +<br> + + +--Santo Deus! Vem muitas vezes assim, estas borrascas?<br> + + +<br> + + +Imediatamente o Silvério aterrou o meu Príncipe:<br> + + +<br> + + +--Isto agora são brincadeiras de Verão, <span class="pagenum">[284]</span>meu senhor! Mas há-de V. Ex.ª ver +no Inverno, se V. Ex.ª se aguentar por cá! Então + +é cada temporal, que até parece que os montes +estremecem!<br> + + +<br> + + +E contou como fora também apanhado, quando ia para a +Corujeira. Felizmente, logo pela manhã, quando sentiu o ar +carrancudo e as folhinhas dos choupos a tremer, se acautelara com o +chapéu de chuva e calçara as suas grandes botas.<br> + + +<br> + + +--Ainda estive para me abrigar em casa do Esgueira, que é um +caseiro de cá. Aquela casa, ali abaixo, onde está a +figueira... Mas a mulher tem estado doente, já há + +dias... E como pode ser obra que se pegue, bexigas ou coisa que o +valha, pensei comigo: Nada, o seguro morreu de velho! Meti para o +alpendre... E não passara um credo quando lobriguei a V. +Ex.ª... Coisa assim!... E o Sr. D. Jacinto é voltar +para casa, e mudar-se, que temos um dia e uma noite de +água.<br> + + +<br> + + +Mas, justamente, a chuva começara a cair perpendicular, de +um céu ainda negro, onde o vento se calara; e para +além do rio e dos montes havia uma claridade, como entre +cortinas de pano cinzento que se descerram.<br> + + +<br> + + +Jacinto repousava. Eu não cessara de me sacudir, de bater os +pés encharcados, que me arrefeciam. E o bom Silvério, +passando <span class="pagenum">[285]</span>a mão pensativa +sobre o negrume das suas barbas, reflectia, emendava os seus +prognósticos:<br> + + + +<br> + + +--Pois, não senhor... Ainda estia! Nunca pensei. É +que tornejou o vento.<br> + + +<br> + + +O alpendre que nos cobria assentava sobre duas paredes em +ângulo, de pedra solta, restos de algum casebre desmantelado, +e sobre um esteio fazendo cunhal. Nesse momento só abrigava +madeira, um cuculo de cestos vazios, e um carro de bois, onde o meu +Príncipe se sentara, enrolando um cigarro confortador. A +chuva desabava, copiosa, em longos fios reluzentes. E todos +três nos calávamos, naquela contemplação +inerte e sem pensamento, em que uma chuva grossa e serena sempre +imobiliza e retém olhos e almas.<br> + + + +<br> + + +--Ó Sr. Silvério, murmurou lentamente o meu +Príncipe, que é que o senhor esteve aí a dizer +de bexigas?<br> + + +<br> + + +O procurador voltou a face surpreendido:<br> + + +<br> + + +--Eu, Ex.<sup>mo</sup> Sr.?... Ah sim! a mulher do Esgueira! + +É que pode ser, pode ser... Não imagine V. Ex.ª +que faltam por cá doenças. O ar é bom. +Não digo que não! Arzinho são, aguazinha leve. +Mas às vezes, se V. Ex.ª me dá licença, +vai por aí muita maleita.<br> + + + +<br> + + +--Mas não há médico, não há +botica?<br> + + +<br> + + +<span class="pagenum">[286]</span>O Silvério teve o riso +superior de quem habita regiões civilizadas e bem +providas...<br> + + +<br> + + + +--Então não havia de haver? Pois há um +boticário, em Guiães, lá quase ao pé da +casa aqui do nosso amigo. E homem entendido... o Firmino, hein, Sr. +Fernandes? Homem capaz. Médico é o Dr. Avelino, daqui +a légua e meia, nas Bolsas. Mas já V. Ex.ª + +vê, esta gentinha é pobre!... Tomaram eles para +pão, quanto mais para remédios!<br> + + +<br> + + +E de novo se estabeleceu um silêncio, sob o alpendre, onde +penetrava a friagem crescente da serra encharcada. Para além +do rio, a prometedora claridade não se alargara entre as +duas espessas cortinas pardacentas. No campo, em declive diante de +nós, ia um longo correr de ribeiros barrentos. Eu terminara +por me sentar na ponta de um madeiro, enervado, já com a +fome aguçada pela manhã agreste. E Jacinto, na borda +do carro, com os pés no ar, cofiava os bigodes +húmidos, palpava a face, onde, com espanto meu, reaparecera +a sombra, a sombra triste dos dias passados, a sombra do 202!<br> + + + +<br> + + +E, então, surdiu por trás da parede do alpendre um +rapazito, muito rotinho, muito magrinho, com uma carita +miúda, toda amarela sob a porcaria, e onde dois grandes +olhos pretos se arregalavam para nós, com <span class="pagenum">[287]</span>vago pasmo e vago medo. Silvério +imediatamente o conheceu.<br> + + +<br> + + +--Como vai a tua mãe? Escusas de te chegar para cá, +deixa-te estar aí. Eu ouço bem. Como vai a tua +mãe?<br> + + + +<br> + + +Não percebi o que os pobres beicitos descorados murmuraram. +Mas Jacinto, interessado:<br> + + +<br> + + +--Que diz ele? Deixe vir o rapaz! Quem é a tua +mãe?<br> + + +<br> + + +Foi o Silvério que informou respeitosamente:<br> + + +<br> + + +--É a tal mulher que está doente, a mulher do +Esgueira, ali do casal da figueira. E ainda tem outro abaixo +deste... Filharada não lhe falta.<br> + + + +<br> + + +--Mas este pequeno também parece doente!--exclamou Jacinto. +Coitadito, tão amarelo!... Tu também estás +doente?<br> + + +<br> + + +O rapazinho emudecera, chupando o dedo, com os tristes olhos +pasmados. E o Silvério sorria, com bondade:<br> + + +<br> + + +--Nada! este é sãozinho... Coitado, é assim +amarelado e enfezadito, por que... Que quer V. Ex.ª? Mal +comido! muita miséria... Quando há o bocadito de +pão é para todo o rancho. Fomezinha, fomezinha!<br> + + + +<br> + + +Jacinto pulou bruscamente da borda do carro.<br> + + +<br> + + +<span class="pagenum">[288]</span>--Fome? Então ele tem +fome? Há aqui gente com fome?<br> + + +<br> + + +Os seus olhos rebrilhavam, num espanto comovido, em que pediam, ora +a mim, ora ao Silvério, a confirmação desta +miséria insuspeitada. E fui eu que esclareci o meu +Príncipe:<br> + + + +<br> + + +--Homem! está claro que há fome! Tu imaginavas talvez +que o Paraíso se tinha perpetuado aqui nas serras, sem +trabalho e sem miséria... Em toda a parte há pobres, +até na Austrália, nas minas de ouro. Onde há +trabalho há proletariado, seja em Paris, seja no +Douro...<br> + + + +<br> + + +O meu Príncipe, teve um gesto de aflita +impaciência:<br> + + +<br> + + +--Eu não quero saber o que há no Douro. O que eu +pergunto é se aqui, em Tormes, na minha propriedade, dentro +destes campos que são meus, há gente que trabalhe +para mim, e que tenha fome... Se há criancinhas, como esta, +esfomeadas? É o que eu quero saber.<br> + + + +<br> + + +O Silvério sorria, respeitosamente, ante aquela +cândida ignorância das realidades da Serra:<br> + + +<br> + + +--Pois está bem de ver, meu senhor, que há para +aí caseiros que são muito pobres. Quase todos... +É uma miséria, que se não fosse algum socorro +que se lhes dá, nem eu <span class="pagenum">[289]</span>sei!... Este Esgueira, com o rancho de filhos +que tem, é uma desgraça... Havia V. Ex.ª de ver +as casitas em que eles vivem... São chiqueiros. A do +Esgueira, acolá...<br> + + + +<br> + + +--Vamos vê-la! atalhou Jacinto com uma decisão +exaltada.<br> + + +<br> + + +E saiu logo do alpendre, sem atender à chuva, que ainda +caía, mais leve e mais rala. Mas então +Silvério alargou os braços diante dele, com +ansiedade, como para o salvar de um precipício.<br> + + +<br> + + +--Não! V. Ex.ª lá na casa do Esgueira é + +que não entra! Não se sabe o que a mulher tem, e +cautela e caldo de galinha...<br> + + +<br> + + +Jacinto não se alterou na sua polidez paciente:<br> + + +<br> + + +--Obrigado pelo seu cuidado, Silvério... Abra o seu +chapéu de chuva, e avante!<br> + + +<br> + + +Então o Procurador vergou os ombros, e, como S. Ex.ª + +mandava, abriu com estrondo o imenso pára-águas, +abrigou respeitosamente Jacinto, através do campo +encharcado. Eu segui, pensando na esmola sumptuosa que o bom Deus +mandava àquele pobre casal por um remoto senhor das Cidades! +Atrás vinha o pequenito perdido num imenso pasmo.<br> + + +<br> + + +Como todos os casebres da serra, o do Esgueira era de grossa pedra +solta, sem reboco, <span class="pagenum">[290]</span>com um vago +telhado, de telha musgosa e negra, um postigo no alto, e a rude +porta que servia para o ar, para a luz, para o fumo, e para a +gente. E em redor, a Natureza e o Trabalho tinham, através +de anos, acumulado ali trepadeiras e flores silvestres, e cantinhos +de horta, e sebes cheirosas, e velhos bancos roídos de +musgo, e panelas com terra onde crescia salsa, e regueiros +cantantes, e videiras enforcadas nos olmos, e sombras e charcos +espelhados, que tornavam deliciosa, para uma Écloga, aquela +morada da Fome, da Doença e da Tristeza.<br> + + +<br> + + + +Cautelosamente, com a ponteira do guarda-chuva, Silvério +empurrou a porta, chamando:<br> + + +<br> + + +--Eh! tia Maria... Olá rapariga!<br> + + +<br> + + +E na fenda entreaberta apareceu uma moça, muito alta, escura +e suja, com uns tristes olhos pisados, que se espantaram para +nós, serenamente.<br> + + +<br> + + +--Então como vai a tua mãe?--Abre lá a porta, +que estão aqui estes senhores...<br> + + + +<br> + + +Ela abriu, lentamente, e ia murmurando numa voz dolente e arrastada +mas sem queixume, que um vago, resignado sorriso acompanhava:<br> + + +<br> + + +--Ora, coitada! como há-de ir? Malzinha... malzinha.<br> + + +<br> + + +E dentro, num gemido que subia como <span class="pagenum">[291]</span>do chão, dentre abafos, amodorrado e +lento, a mãe repetiu a desconsolada queixa:<br> + + +<br> + + +--Ai! para aqui estou, e malzinha, malzinha!...<br> + + + +<br> + + +O Silvério, sem passar da porta, com o guarda-chuva em +riste, meio aberto, como um escudo contra a infecção, +lançou uma consolação vaga:<br> + + +<br> + + +--Não há-de ser nada, tia Maria!... Isso foi friagem! +Não foi senão friagem!<br> + + +<br> + + +E, sobre o ombro de Jacinto, encolhido:<br> + + + +<br> + + +--Já V. Ex.ª vê... Muita miséria! +Até lhe chove lá dentro.<br> + + +<br> + + +E, no pedaço de chão que viam, chão de terra +batida, uma mancha húmida reluzia, da chuva pingada de uma +telha rota. A parede, coberta de fuligem, das longas +fumaraças da lareira, era tão negra como o +chão. E aquela penumbra suja parecia atulhada, numa desordem +escura, de trapos, de cacos, de restos de coisas, onde só + +mostravam forma compreensível uma arca de pau negro, e por +cima, pendurado de um prego, entre uma serra e uma candeia, um +grosso saiote escarlate.<br> + + +<br> + + +Então Jacinto, muito embaraçado, murmurou +abstraidamente:<br> + + +<br> + + +--Está bem, está bem...<br> + + +<br> + + +E largou pelo campo para o lado do alpendre como se fugisse, +enquanto o Silvério decerto <span class="pagenum">[292]</span>revelava à rapariga, a presença +augusta do «fidalgo», porque a sentimos, da porta, +levantar a voz dolorida:<br> + + + +<br> + + +--Ai! Nosso Senhor lhe dê muito boa sorte! Nosso Senhor o +acompanhe!<br> + + +<br> + + +Quando o Silvério, com as grandes passadas das suas grandes +botas, nos colheu, no meio do campo, Jacinto parara, olhava para +mim, com os dedos trémulos a torturar o bigode, e +murmurava:<br> + + +<br> + + +--É horrível, Zé Fernandes, é + +horrível.<br> + + +<br> + + +Ao lado, o vozeirão do Silvério trovejou:<br> + + +<br> + + +--Que queres tu outra vez, rapaz? Vai para a tua mãe, +criatura!<br> + + +<br> + + +Era o pequeno rotinho, esfaimadinho, que se prendia a nós, +num imenso pasmo das nossas pessoas, e com a confusa +esperança, talvez, que delas, como de Deuses encontrados num +caminho, lhe viesse afago ou proveito. E Jacinto, para quem ele +mais especialmente arregalava os olhos tristes, e que aquela +miséria, e a sua muda humildade, embaraçavam, +acanhavam horrivelmente, só soube sorrir, murmurar o seu +vago: «Está bem, está bem...» Fui eu que +dei ao pequenito um tostão, para o fartar, o despegar dos +nossos passos. Mas como ele, com o seu tostão bem agarrado, +nos seguia ainda, como no sulco da nossa magnificência, o +Silvério teve de o espantar, <span class="pagenum">[293]</span>como a um pássaro, batendo as +mãos, e de lhe gritar:<br> + + + +<br> + + +--Já para casa! E leve esse dinheiro à mãe. +Roda, roda!...<br> + + +<br> + + +--E nós vamos almoçar, lembrei eu olhando o +relógio. O dia ainda vai estar lindo.<br> + + +<br> + + +Sobre o rio, com efeito, reluzia um pedaço de azul lavado e +lustroso; e a grossa camada de nuvens já se ia enrolando sob +a lenta varredela do vento, que as levava, despejadas e rotas, para +um canto escuso do céu.<br> + + + +<br> + + +Então recolhemos lentamente para casa, por uma vereda +íngreme, que ensinara o Silvério, e onde um leve +enxurro vinha ainda, saltando e chalrando. De cada ramo tocado, +rechovia uma chuva leve. Toda a verdura, que bebera largamente, +reluzia consolada.<br> + + +<br> + + +Bruscamente, ao sairmos da vereda para um caminho mais largo, entre +um socalco e um renque de vinha, Jacinto parou, tirando lentamente +a cigarreira:<br> + + +<br> + + +--Pois, Silvério, eu não quero mais estas +horríveis misérias na quinta.<br> + + +<br> + + + +O Procurador deu um jeito aos ombros, com um vago <i>eh! +eh!</i><br> + + +--Antes de tudo, continuava Jacinto, mande já hoje chamar +esse Dr. Avelino para aquela pobre mulher... E os remédios +que os vão buscar logo a Guiães. E +recomendação ao médico <span class="pagenum">[294]</span>para voltar amanhã, e em cada dia; +até que ela melhore... Escute! E quero, Melchior, que lhe +leve dinheiro, para os caldos, para a dieta, uns dez, ou quinze mil +réis... Bastará?<br> + + + +<br> + + +O Procurador não conteve um riso respeitoso. Quinze mil +réis! Uns tostões bastavam... Nem era bom acostumar +assim, a tanta franqueza, aquela gente. Depois todos queriam, todos +pedinchavam...<br> + + +<br> + + +--Mas é que todos hão-de ter, disse Jacinto +simplesmente.<br> + + +<br> + + +--V. Ex.ª manda, murmurou o Silvério.<br> + + + +<br> + + +Encolhera os ombros, parado no caminho, no espanto daquelas +extravagâncias. Eu tive de o apressar, impaciente:<br> + + +<br> + + +--Vamos conversando e andando! É meio-dia! Estou com uma +fome de lobo!<br> + + +<br> + + +Caminhámos, com o Silvério no meio, pensativo, a +fronte enrugada sob a vasta aba do chapéu, a barba imensa +espalhada pelo peito, e a barraca exorbitante do guarda-chuva +vermelho enrolada debaixo do braço. E Jacinto, puxando +nervosamente o bigode, arriscava outras ideias benfazejas, +cautelosamente, no seu indominável medo do +Silvério:<br> + + + +<br> + + +--E as casas também... Aquela casa é um covil!... +Gostava de abrigar melhor aquela pobre gente... E naturalmente, as +dos outros <span class="pagenum">[295]</span>caseiros são +pocilgas iguais... Era necessário uma reforma! Construir +casas novas a todos os rendeiros da quinta...<br> + + +<br> + + +--A todos?...--O Silvério gaguejava,--emudeceu.<br> + + +<br> + + +E Jacinto balbuciava aterrado:<br> + + + +<br> + + +--A todos... Enfim, quero dizer... Quantos serão eles?<br> + + +<br> + + +Silvério atirou um gesto enorme:<br> + + +<br> + + +--São vinte e coisas... Vinte e três! se bem lembro. +Upa! Upa! Vinte e sete...<br> + + +<br> + + +Então Jacinto emudeceu também, como reconhecendo a +vastidão do número. Mas desejou saber, por quanto +ficaria cada casa!... Oh! uma casa simples, mas limpa, +confortável, como a que tinha a irmã do Melchior, ao +pé do lagar. Silvério estacou de novo. Uma casa como +a da Ermelinda? Queria Sua Ex.ª saber? E alijou a cifra, muito +de alto, como uma pedra imensa, para esmagar Jacinto:<br> + + + +<br> + + +--Duzentos mil réis, Ex^mo Senhor! E é para mais que +não para menos!<br> + + +<br> + + +Eu ria da trágica ameaça do excelente homem. E +Jacinto, muito docemente, para conciliar o Silvério:<br> + + +<br> + + +--Bem, meu amigo... Eram uns seis contos de réis! Digamos +dez, por que eu queria dar a todos alguma mobília e alguma +roupa.<br> + + + +<br> + + +Então o Silvério teve um brado de terror:<br> + + +<br> + + +<span class="pagenum">[296]</span>--Mas então, +Ex.<sup>mo</sup> Senhor, é uma revolução!<br> + + +<br> + + + +E como nós, irresistivelmente, ríamos dos seus olhos +esgazeados de horror, dos seus imensos braços abertos para +trás, como se visse o mundo desabar,--o bom Silvério +encavacou:<br> + + +--Ah! V. Ex.<sup>as</sup> riem? Casas para todos, mobílias, +pratas, bragal, dez contos de réis! Então +também eu rio! Ah! ah! ah! Ora viva a bela +chalaça!... Está boa a risota!<br> + + + +<br> + + +E subitamente, numa profunda mesura, como declinando toda a +responsabilidade naquele disparate magnífico:<br> + + +<br> + + +--Enfim, V. Ex.ª é quem manda!<br> + + +<br> + + +--Está mandado, Silvério. E também quero saber +as rendas que paga essa gente, os contratos que existem, para os +melhorar. Há muito que melhorar. Venha você + +almoçar connosco. E conversamos.<br> + + +<br> + + +Tão saturado de espanto estava o Silvério, que nem +recebeu mais espanto com essa «melhoria de rendas». +Agradeceu o convite, penhorado. Mas pedia licença a Sua +Ex.ª para passar primeiramente pelo lagar, para ver os +carpinteiros que andavam a concertar a trave do rio. Era um +instante, e estava em seguida às ordens de S. Ex.ª.<br> + + +<br> + + +Meteu a corta-mato, saltando um cancelo. <span class="pagenum">[297]</span>E nós seguimos, com passos que eram +ligeiros, pela hora do almoço que se retardara, pelo azul +alegre que reaparecia, e por toda aquela justiça feita + +à pobreza da serra.<br> + + +<br> + + +--Não perdeste hoje o teu dia, Jacinto, disse eu, batendo, +com uma ternura que não disfarcei, no ombro do meu +amigo.<br> + + +<br> + + +--Que miséria, Zé Fernandes! Eu nem sonhava... Haver +por aí, à vista da minha casa, outras casas, onde +crianças têm fome! É horrível...<br> + + + +<br> + + +Estávamos entrando na alameda. Um raio de sol, saindo dentre +duas grossas, algodoadas nuvens, passou sobre uma esquina do +casarão, ao fundo, uma viva tira de ouro. O clarim dos galos +soava claro e alto. E um doce vento, que se erguera, punha nas +folhas lavadas e luzidias um frémito alegre e doce.<br> + + +<br> + + +--Sabes o que eu estava pensando, Jacinto?... Que te aconteceu +aquela lenda de Santo Ambrósio... Não, não era +Santo Ambrósio... Não me lembra o santo... Nem era +ainda santo... apenas um cavaleiro <span class="pagenum">[298]</span>pecador, que se enamorara de uma mulher, +pusera toda a sua alma nessa mulher, só por a avistar a +distância na rua. Depois, uma tarde que a seguia, enlevado, +ela entrou num portal de igreja, e aí, de repente, ergueu o +véu, entreabriu o vestido, e mostrou ao pobre cavaleiro o +seio roído por uma chaga! Tu, também andavas namorado +da serra, sem a conhecer, só pela sua beleza de +Verão. E a serra, hoje, zás! de repente, descobre a +sua grande úlcera... É talvez a tua +preparação para S. Jacinto.<br> + + + +<br> + + +Ele parou, pensativo, com os dedos nas cavas do colete:<br> + + +<br> + + +---É verdade! Vi a chaga! Mas enfim, esta, louvado seja +Deus, é das que eu posso curar!<br> + + +<br> + + +Não desiludi o meu Príncipe. E ambos subimos +alegremente a escadaria do casarão.<br> + + +<br> + + + +<br> + + +<br> + + +<h2>XI</h2> + + +<br> + + +<br> + + +No dia que seguiu estas largas caridades recolhi a Guiães. +E, desde então, tantas vezes trotei por aquelas três +léguas entre a nossa e a velha alameda dos Jacintos, que a +minha égua, quando a desviava dessa estrada familiar, +conduzindo a uma cavalariça familiar, (onde ela privava com +o garrano do Melchior) relinchava de pura saudade. Até a tia +Vicência se mostrava vagamente ciumenta daquela Tormes, para +onde eu sempre corria, daquele Príncipe de quem +incessantemente celebrava o rejuvenescimento, a caridade, os +pitéus, e as quimeras agrícolas. Já um dia com +um grão de sal e ironia,--o único que cabia num +coração todo cheio de inocência,--ela me +dissera, movendo com mais vivacidade as agulhas da sua meia:<br> + + + +<br> + + +--Olha que te podes gabar! <span class="pagenum">[300]</span>Até me tens feito curiosidade de +conhecer esse Jacinto... Traz cá essa maravilha, menino!<br> + + +<br> + + +Eu rira:<br> + + +<br> + + +--Sossegue, tia Vicência, que o trarei agora, para o dia dos +meus anos, a jantar... Damos uma festa, haverá um bailarico +no pátio, e vem aí toda essa senhorama dos arredores. +Talvez até se arranje uma noiva para o Jacinto.<br> + + + +<br> + + +Eu, com efeito, já convidara o meu Príncipe para este +«natalício». E de resto convinha que o senhor de +Tormes conhecesse todos aqueles senhores das boas casas da serra... +Sobretudo, como eu lhe dizia rindo, convinha que ele conhecesse +algumas mulheres, algumas daquelas fortes raparigas dos solares +serranos, porque Tormes tinha uma solidão muito +monástica; e o homem, sem um pouco do Eterno Feminino, +facilmente se enrudece e ganha uma casca áspera como a das +árvores, na solidão.<br> + + +<br> + + +--E esta Tormes, Jacinto, esta tua reconciliação com +a Natureza, e o renunciamento às mentiras da +Civilização é uma linda história... +Mas, caramba, faltam mulheres!<br> + + + +<br> + + +Ele concordava, rindo, languidamente estendido na cadeira de +vime:<br> + + +<br> + + +--Com efeito, há aqui falta de mulher, com M. grande. Mas +essas senhoras aí das <span class="pagenum">[301]</span>casas dos arredores... Não sei, estou +pensando que se devem parecer com legumes. Sãs, nutritivas, +excelentes para a panela--mas, enfim, legumes. As mulheres que os +poetas comparam às Flores são sempre as mulheres das +Cortes, das Capitais, às quais, invariavelmente, desde +Hesíodo e de Horácio, se rendem os poetas... E +evidentemente não há perfume, nem graça, nem +elegância, nem requinte, numa cenoura ou numa couve... +Não devem ser interessantes as senhoras da minha serra.<br> + + + +<br> + + +--Eu te digo... A tua vizinha mais chegada, a filha do D. +Teotónio, com efeito, salvo o respeito que se deve à +casa ilustre dos Barbedos, é um mostrengo! A irmã dos +Albergarias, da quinta da Loja, também não tentaria +nem mesmo o precisado Santo Antão. Sobretudo se se despisse, +por que é um espinafre infernal! Essa realmente é +legume, e não dos nutritivos.<br> + + + +<br> + + +--Tu o disseste: espinafre!<br> + + +<br> + + +--Temos também a D. Beatriz Veloso... Essa é +bonita... Mas, menino, que horrivelmente bem falante! Fala como as +heroínas do Camilo. Tu nunca leste o Camilo... E depois, um +tom de voz que te não sei descrever, o tom com que se fala +em D. Maria, em peças de sentimento. Tu também nunca +viste o Teatro <span class="pagenum">[302]</span>de D. Maria... +Enfim, um horror! E perguntas pavorosas. «V. Ex.ª Sr. +Doutor, não se delicia com Lamartine?» Já me +disse esta, a indecente!<br> + + + +<br> + + +--E tu?<br> + + +<br> + + +--Eu! Arregalei os olhos... «Oh Lamartine!». Mas, +coitada, é uma excelente rapariga! Agora, por outro lado, +temos as Rojões, as filhas de João Rojão, duas +flores, muito frescas, muito alegres, com um cheiro e um brilho a +sadio, e muito simples... A tia Vicência morre por elas. +Depois há a mulher do Dr. Alípio, que é uma +beleza. Oh! uma criatura esplêndida! Mas, enfim, é a +mulher do Dr. Alípio, e tu renunciaste aos deveres da +Civilização... Além disso, mulher muito +séria, toda absorvida nos seus dois pequenos, que parecem +dois anjinhos de Murillo... E quem mais? Já agora, quero +completar a lista do pessoal feminino. Temos a Melo Rebelo, de +Sandofim, muito engraçada, com cabelo lindo... Borda na +perfeição, faz doces como uma freira do antigo +Regime... Havia também uma Júlia Lobo, muito linda, +mas morreu... Agora não me lembro mais. Mas falta a flor da +Serra, que é a minha prima Joaninha, da Flor da Malva! Essa + +é uma perfeição de rapariga.<br> + + +<br> + + +--E tu, primo Zé, como tens tu resistido?<br> + + +<br> + + +--Somos como irmãos, criados de pequeninos, <span class="pagenum">[303]</span>mais acostumados e familiares que tu e eu... +A familiaridade esbate os sexos. A mãe dela era a +única irmã da tia Vicência, e morreu muito +nova. A Joaninha, quase desde o berço que se criou em nossa +casa, em Guiães. O pai é bom homem, o tio +Adrião. Erudito, antiquário, coleccionador... +Colecciona toda a sorte de coisas esquisitas, campainhas, esporas, +sinetes, fivelas... Tem uma colecção curiosa. Ele +há muito que deseja vir a Tormes, para te visitar... Mas, +coitado, sofre da bexiga, não pode montar a cavalo. E a +estrada da Flor da Malva aqui é impossível para +carruagens...<br> + + + +<br> + + +O meu Príncipe espreguiçara longamente os +braços:<br> + + +<br> + + +--Não, está claro! eu é que hei-de visitar teu +tio, e a tia Vicência... Desejo conhecer os meus vizinhos. +Mas mais tarde, quando sossegar. Agora ando todo ocupado com o meu +povo.<br> + + +<br> + + +E com efeito! Jacinto era agora como um Rei fundador de um Reino, e +grande edificador. Por todo o seu domínio de Tormes andavam +obras, para o renovamento das casas dos rendeiros, umas que se +concertavam, outras mais velhas, que se derrubavam para se +reconstruírem com uma largueza cómoda. Pelos caminhos +constantemente chiavam carros, <span class="pagenum">[304]</span>carregados de pedra, ou de madeiras cortadas +nos pinheirais.<br> + + + +<br> + + +Na taberna do Pedro, à entrada da freguesia, ia um desusado +movimento, de pedreiros e carpinteiros contratados para as +obras;--e o Pedro, com as mangas arregaçadas, por +trás do balcão, não cessava de encher os +decilitros com uma vasta infusa.<br> + + +<br> + + +Jacinto, que tinha agora dois cavalos, todas as manhãs cedo +percorria as obras, com amor. Eu, inquieto, sentia outra vez, +latejar e irromper no meu Príncipe o seu velho, +maníaco furor de acumular Civilização! O plano +primitivo das obras era incessantemente alargado, +aperfeiçoado. Nas janelas, que deviam ter apenas portadas, +segundo o secular costume da serra, decidira pôr +vidraças, apesar do mestre de obras lhe dizer honradamente, +que depois de habitadas um mês, não haveria casa com +um só vidro. Para substituir as traves clássicas +queria estucar os tectos;--e eu via bem claramente que ele se +continha, se retesava dentro do Bom-Senso, para não dotar +cada casa com campainhas eléctricas. Nem sequer me espantei, +quando ele uma manhã me declarou que a porcaria da gente do +campo provinha de eles não terem onde comodamente se lavar, +pelo que andava pensando em dotar cada casa com uma banheira. + +<span class="pagenum">[305]</span>Descíamos nesse momento, +com os cavalos à rédea, por uma azinhaga precipitada +e escabrosa; um vento leve ramalhava nas árvores, um regato +saltava ruidosamente entre as pedras. Eu não me +espantei--mas realmente me pareceu que as pedras, o arroio, as +ramagens e o vento, se riam alegremente do meu Príncipe. E +além destes confortos, a que o João, mestre de obras, +com os olhos loucamente arregalados chamava «as +grandezas», Jacinto meditava o bem das almas. Já +encomendara ao seu arquitecto, em Paris, o plano perfeito de uma +escola, que ele queria erguer, naquele campo da Carriça, +junto à capelinha que abrigava «os ossos». Pouco +a pouco, aí criaria também uma biblioteca, com livros +de estampas, para entreter, aos domingos, os homens a quem +já não era possível ensinar a ler. Eu vergava +os ombros, pensando:--«Aí vem a terrível +acumulação das Noções! Eis o livro +invadindo a Serra!» Mas outras ideias de Jacinto eram +tocantes,--e eu mesmo me entusiasmei, e excitei o entusiasmo da tia +Vicência com o seu plano de uma Creche, onde ele esperava ter +manhãs muito divertidas vendo as criancinhas a gatinhar, a +correr tropegamente atrás de uma bola. De resto, o nosso +boticário de Guiães estava já apalavrado para +estabelecer uma pequena farmácia em Tormes, <span class="pagenum">[306]</span>sob a direcção do seu +praticante, um afilhado da tia Vicência, que tinha publicado +um artigo sobre as festas populares do Douro no <i>Almanaque de +Lembranças</i>. E já fora oferecido o partido +médico de Tormes, com ordenado de 600$000 réis.<br> + + + +<br> + + +--Não te falta senão um Teatro! dizia eu, rindo.<br> + + +<br> + + +--Um teatro não. Mas tenho a ideia de uma sala, com +projecções de lanterna mágica, para ensinar a +esta pobre gente as cidades desse mundo, e as coisas de +África, e um bocado de História.<br> + + +<br> + + +<br> + + +E também me ensoberbeci com esta inovação!--E +quando a contei ao tio Adrião, o digno antiquário +bateu, apesar do seu reumatismo, uma palmada tremenda na coxa. + +«Sim, senhor! Bela ideia! Assim se podia ensinar +àquela gente iletrada, vivamente, por imagens, a +História Santa, a História Romana, até a +História de Portugal!...» E voltado para a prima +Joaninha, o tio Adrião declarou Jacinto um «homem de +coração!»<br> + + +<br> + + +E realmente pela Serra crescia a popularidade do meu +Príncipe. Naquele, «guarde-o Deus, meu senhor!» + +com que as mulheres ao passar o saudavam, se voltavam para o ver +ainda, havia uma seriedade de oração, o bem sincero +desejo de que Deus o guardasse <span class="pagenum">[307]</span>sempre. As crianças a quem ele +distribuía tostões, farejavam de longe a sua +passagem,--e era em torno dele um escuro formigueiro de caritas +trigueiras e sujas, com grandes olhos arregalados, que se ainda +tinham pasmo, já não tinham medo. Como o cavalo de +Jacinto uma tarde se chapara, ao desembocar da alameda, numas +grossas pedras que aí deformavam a estrada, logo ao outro +dia um bando de homens, sem que Jacinto o ordenasse, veio por +dedicação ensaibrar e alisar aquele pedaço +perigoso de caminho, aterrados com o risco que correra o bom +senhor. Já pela serra se espalhava esse nome de «bom +senhor». Os mais idosos da freguesia não o encontravam +sem exclamarem, uns com gravidade, outros com grandes risos +desdentados:--<i>Este é o nosso benfeitor!</i> Por vezes, +alguma velha corria do fundo do eido, ou vinha à porta do +casebre, ao avistá-lo no caminho, para gritar, com grandes +gestos dos braços magros: «Ai que Deus o cubra de +bênçãos! Que Deus o cubra de +bênçãos!»<br> + + + +<br> + + +Aos domingos, o padre José Maria, (bom amigo meu e grande +caçador) vinha de Sandofim, na sua égua ruça, +a Tormes, para celebrar a missa na Capelinha. Jacinto assistia ao +ofício na sua tribuna, como os Jacintos doutras eras, para +que aqueles simples o não <span class="pagenum">[308]</span>supusessem estranho a Deus. Quase sempre +então ele recebia presentes, que as filhas dos caseiros, ou +os pequenos, vinham muito corados, trazer-lhe à varanda, e +eram vasos de manjericão, ou um grosso ramalhete de cravos, +e por vezes um gordo pato. Havia então uma +distribuição de cavacas e merengues de Guiães, + +às raparigas e às crianças,--e, no +pátio, para os homens circulavam as infusas de vinho branco. +O Silvério já sustentava com espanto, e redobrado +respeito, que o Sr. D. Jacinto em breve disporia de mais votos nas +eleições que o Dr. Alípio. E eu próprio +me impressionei, quando o Melchior me contou que o João +Torrado, um velho singular daqueles sítios, de grandes +barbas brancas, ervanário, vagamente alveitar, um pouco +adivinho, morador misterioso de uma cova no alto da serra, a todos +afirmava que aquele bom senhor era El-Rei D. Sebastião, que +voltara!<br> + + +<br> + + +<br> + + + +<br> + + +<h2>XII</h2> + + +<br> + + +<br> + + +Assim chegou Setembro, e com ele o meu natalício, que era a +3 e num Domingo. Toda essa semana a passara eu em Guiães, +nos preparos da vindima,--e de manhã cedo, nesse Domingo +ilustre, me fui debruçar da varanda do quarto do saudoso tio +Afonso, vigiando a estrada, por onde devia aparecer o meu +Príncipe, que enfim visitava a casa do seu Zé +Fernandes. A tia Vicência, desde a madrugada, andava +atarefada pela cozinha e pela copa, porque, desejando mostrar ao +meu Príncipe «o pessoal» da serra, convidara +para jantar algumas famílias amigas, dos arredores, as que +tinham carruagens ou carroções, e podiam, pelas +estradas mal seguras, recolher tarde, depois de um bailarico +campestre, no <span class="pagenum">[310]</span>pátio, +já enfeitado para esse efeito de lanternas chinesas. Mas +logo às dez horas me desesperei, ao receber, por um +moço da Flor da Malva, uma carta da prima Joaninha, em que +dizia «a pena de não poder vir porque o Papá + +estava desde a véspera com um leicenço, e ela +não o queria abandonar.» Corri indignado à +cozinha, onde a tia Vicência presidia a um violento bater de +gemas de ovos dentro de uma imensa terrina.<br> + + +<br> + + +--A Joaninha não vem! Sempre assim! Diz que o pai tem um +leicenço... Aquele tio Adrião escolhe sempre os +grandes dias para ter leicenços, ou para ter a +pontada...<br> + + + +<br> + + +A boa face redondinha e corada da tia Vicência +enterneceu-se.<br> + + +<br> + + +--Coitado! será em sítio que não se pudesse +sentar na carruagem! Coitado! Olha, se lhe escreveres, diz-lhe que +ponha um emplastrozinho de folhas de alecrim. É com que teu +tio se dava bem.<br> + + +<br> + + +Eu gritei simplesmente para o moço, que dava de beber ao +burro no pátio:<br> + + + +<br> + + +--Diz à Sr.<sup>a</sup> D. Joaninha que sentimos muito... +Que talvez eu lá apareça amanhã.<br> + + +<br> + + +E voltei à janela, impaciente, por que o relógio do +corredor, muito atrasado, já cantara a meia hora depois das +dez e o Príncipe tardava <span class="pagenum">[311]</span>para o almoço. Mas, mal eu me chegara + +à varanda, apareceu justamente na volta da estrada Jacinto, +de grande chapéu de palha, no seu cavalo, seguido do Grilo +que, também de chapéu de palha, e abrigado sob um +imenso guarda-sol verde, se escarranchava no albardão da +velha égua do Melchior. Atrás, um moço com uma +maleta à cabeça. E eu, na alegria de avistar enfim o +meu Príncipe trotando para a minha casa de aldeia, no dia +dos meus trinta e seis anos, pensava noutro natalício, no +dele, em Paris, no 202, quando, entre todos os esplendores da +Civilização, nós bebemos tristemente <i>ad +manes</i>, aos nossos mortos!<br> + + + +<br> + + +--<i>Salvé!</i> gritei da varanda. <i>Salvè, domine +Jacinthi!</i><br> + + +<br> + + +E entoei, para o acolher, num alegre tarantantan, o Hino da +Carta!<br> + + +<br> + + +--Isto por aqui também é lindo!--gritou ele de baixo. +E o teu palácio tem um soberbo ar... Por onde é a +porta?<br> + + + +<br> + + +Mas eu já me precipitava para o pátio--onde Jacinto, +apeando, contou alegremente os tormentos do Grilo, que nunca +montara a cavalo, e não cessara de berrar ante os perigos +daquela aventura.<br> + + +<br> + + +E o digno preto, ofegante, lustroso de suor, e lívido sob o +esplendor da sua negrura, exclamava, <span class="pagenum">[312]</span>apontando com a mão trémula +para a pobre égua, que solta, de cabeça pensativa, +parecia de pedra, sobre as patas mais imóveis que +marcos:<br> + + + +<br> + + +--Pois se o siô Fernandes visse! Uma fera, que nunca veio +quieta. Sempre para a esquerda, sempre para a direita, pé +aqui, pé além! Só para me sacudir! Só +para me sacudir!<br> + + +<br> + + +E não resistiu. Com a ponta do guarda-sol atirou uma +pontoada vingativa contra a égua, sobre o +albardão.<br> + + + +<br> + + +Subindo a escadaria ligeira, penetrando no alegre corredor, com a +sua janela ao fundo engrinaldada de rosinhas, Jacinto louvava +grandemente a nossa casa, que o repousava das rijas muralhas, das +grossas portas feudais de Tormes. E no seu quarto agradeceu os +cuidados maternais da tia Vicência, que enchera de flores os +dois vasos da China sobre a cómoda, e adornara a cama com +uma das nossas colchas da Índia mais ricas, cor de +canário, com grandes aves de ouro. Eu sorria, enternecido. +Então estreitámos os ossos num grande abraço, +pelo natalício... «Trinta e oito, hein, Zé +Fernandes?»--«Trinta e quatro, animal!» E o meu +Príncipe abrindo a mala, sóbria maleta de +filósofo, ofereceu os «nobres presentes, que +são devidos», como diz sempre o astuto Ulisses na +Odisseia. Era um alfinete de gravata, <span class="pagenum">[313]</span>com uma safira, uma cigarreira de aro fosco, +adornada de um florido ramo de macieira em delicado esmalte, e uma +faca para livros de velho lavor Chinês. Eu protestava contra +a prodigalidade.<br> + + + +<br> + + +--É tudo das malas de Paris... Mandei-as abrir ontem +à noite. E tomei a liberdade de trazer esta lembrança +à tua tia Vicência. Não vale nada... É +só por ter pertencido à princesa de Lamballe.<br> + + + +<br> + + +Era uma caldeirinha de água benta, em prata lavrada, de um +gosto florido e quase galante.<br> + + +<br> + + +--A tia Vicência não sabe quem é a princesa de +Lamballe, mas ficará encantada! E é uma garantia, por +que ela suspeita da tua religião, como homem de Paris, da +terra das impiedades... E agora, lavar, escovar, e ao +almoço!<br> + + + +<br> + + +A tia Vicência pareceu toda surpreendida, e logo encantada +com o meu camarada, que ela supusera realmente um Príncipe, +arrogante, escarpado e difícil. Quando ele lhe ofereceu a +caldeirinha, com um delicado pedido «para se lembrar dele nas +suas orações», duas largas rosas, mais +róseas e frescas que as rosas que enchiam a mesa, cobriram +as faces redondas da boa senhora, que nunca recebera tão +piedoso presente, com tão linda palavra. Mas o que sobretudo +a cativou <span class="pagenum">[314]</span>foi o tremendo apetite +de Jacinto, a entusiasmada convicção com que ele, +acumulando no prato montes de cabidela, depois altas serras de +arroz de forno, depois bifes de numerosa cebolada, exaltava a nossa +cozinha, jurava nunca ter provado nada tão sublime. Ela +resplandecia:<br> + + +<br> + + + +--Até faz gosto, até faz gosto!... Ora mais uma +destas batatinhas recheadas...<br> + + +<br> + + +--Concerteza, minha senhora! até duas! As minhas +rações, em mesas destas, tão perfeitas, +são sempre as de Gargântua.<br> + + +<br> + + +--Não cites Rabelais, que a tia Vicência não +conhece os autores profanos! exclamava eu, também radiante. +E prova esse vinho branco cá da nossa lavra, e louva Deus +que amadurece tal uva.<br> + + + +<br> + + +E o almoço foi muito alegre, muito íntimo, muito +conversado, sobre as obras de Jacinto em Tormes, e a sua Creche, +que enlevava a tia Vicência, e as esperanças da +vindima, e a minha prima Joaninha, que tinha o papá doente, +e o péssimo estado dos caminhos. Mas o enternecimento maior +foi quando, ao servir o café, o criado pôs ao lado de +Jacinto um pires com um pau de canela, o seu estranho e costumado +pau de canela. Não o esquecera a tia Vicência! Ali +tinha o seu pauzinho de canela!--Queria que ele, em <span class="pagenum">[315]</span>Guiães, continuasse os seus +hábitos como em Tormes... E aquele pau de canela foi o +símbolo de adopção do meu Príncipe como +novo sobrinho da tia Vicência.<br> + + + +<br> + + +Ela em breve recolheu à cozinha, aos preparativos do +banquete. Nós fumámos um preguiçoso charuto no +jardim, ao pé do repuxo, sob a recolhida sombra do cedro. +Depois, inexoravelmente, como proprietário, mostrei ao meu +Príncipe a propriedade toda, com desapiedada minuciosidade, +sem lhe perdoar uma leira, um regueiro, uma árvore, um +pé de vinha. Só quando a sua face começou a +opar e a empalidecer, de cansaço, e que do entendimento +totalmente atordoado só lhe escorria um vago--«muito +bonito! bela terra!»--é que voltei os passos para +casa, tornejando ainda numa volta larga para lhe mostrar o lagar, +uma plantação de espargos, e o sítio onde +existira a ruína de um velho castro romano. Ao penetrarmos +de novo, pelo jardim, na fresca sala, ainda o empurrei, como uma +rês, para a livraria do meu bom tio Afonso, para lhe mostrar +as preciosidades, uma magnífica crónica de D. +João I por Fernão Lopes, a primeira +edição do <i>Imperador Clarimundo</i>, uma + +<i>Henriada</i>, com a assinatura de Voltaire, forais de El-Rei D. +Manuel, e outras maravilhas. Ele respirava fechando o derradeiro +pergaminho, <span class="pagenum">[316]</span>quando eu o arrastei +à adega, para que admirasse a famosa pipa, que tinha, em +relevo, na madeira do tampo, as complicadas armas dos Sandes. Eram +quatro horas. O meu Príncipe tinha o ar esgazeado e +lívido. Cravando nele os olhos inexoráveis, olhos em +que eu mesmo sentia reluzir a ferocidade, declarei «que +iríamos agora ver a tulha.» Mas então, com as +mãos nos rins, ele murmurou, humildemente, num +murmúrio de criança:<br> + + + +<br> + + +--Não se me dava de me sentar um poucochinho!<br> + + +<br> + + +Tive então piedade, abri as garras, deixei que ele se +arrastasse, atrás de mim, para o seu quarto, onde +freneticamente descalçou as botas, se atirou para um fresco +canapé forrado de ganga, murmurando num abatimento +profundo:--«Bela propriedade!»<br> + + +<br> + + +Consenti generosamente que ele adormecesse,--e eu mesmo desci a +verificar se a Gertrudes dispusera bem as escovas, as toalhas de +renda, no quarto onde os convidados, em breve, ao chegar, lavariam +as mãos, escovariam a poeira da estrada. E justamente, uma +caleche rodava no pátio, a velha caleche do D. +Teotónio, com a parelha ruça. Espreitando da janela +descobri, com prazer, que chegava só, de gravata branca, sob +o guarda-pó, sem a horrendíssima filha. Corri + +<span class="pagenum">[317]</span>alegremente ao quarto da tia +Vicência, que, ajudada pela Catarina, abrochava à +pressa as suas pulseiras ricas de topázios.<br> + + +<br> + + +--Tia Vicência! chegou o D. Teotónio! Felizmente vem +sem a filha... Não se demore, os outros não tardam. O +Manuel que esteja bem penteado, de gravata bem tesa!... Vamos a ver +como corre a festa!<br> + + +<br> + + +<br> + + +<br> + + + +<h2>XIII</h2> + + +<br> + + +<br> + + +Ai de mim! a festa no meu aniversário não se passou +com brilho, nem com alegria!<br> + + +<br> + + +Quando o meu Príncipe entrou na sala, com uma +elegância, (onde eu senti as malas de Paris, abertas na +véspera)--uma rosa branca no jaquetão preto, colete +branco lavrado e trespassado, copiosa gravata de seda branca, +tufando, e presa por uma pérola negra,--já todos os +convidados estavam na sala,--o D. Teotónio, o Ricardo +Veloso, o Dr. Alípio, o gordo Melo Rebelo, de Sandofim, os +dois manos Albergarias, da quinta da Loja--; todos de pé, +num pelotão cerrado. Em torno do sofá onde a tia +Vicência se instalara, um magotezinho de cadeiras reunira as +senhoras,--a Beatriz Veloso, de cassa branca sobre <span class="pagenum">[320]</span>seda, que a tornava mais aérea e +magra, com a sua trunfa imensa de cabelo riçado; as duas +Rojões, (com a tia Adelaide Rojão) vermelhinhas como +camoesas, ambas de branco; e a mulher do Dr. Alípio, de +preto, esplêndida como uma Vénus Rústica... E +foi na sala, como se realmente entrasse um Príncipe, desses +países do Norte onde os Príncipes são +magníficos, muito distantes dos homens, e aterram as gentes. +Um silêncio, como se o tecto de carvalho descesse, nos +esmagava: e todos os olhos se enristaram contra o meu +desgraçado Jacinto, como numa caçada hindu, quando + +à orla da floresta surge o Tigre Real. Debalde,--nas +confusas, apressadas apresentações, com que eu o +levava através da sala,--os seus apertos de mão, os +sorrisos, o vago murmúrio, «da sua honra, do seu +prazer» foram repassados de simpatia, de simplicidade. Todos +os cavalheiros permaneciam reservados, observando o +Príncipe, que subira à serra: e as senhoras mais se +aconchegavam à sombra da tia Vicência, como ovelhas +à volta do pastor, quando na altura assoma o lobo. Eu, +já inquieto, lancei o D. Teotónio, o mais ornamental +daqueles cavalheiros.<br> + + + +<br> + + +--O Sr. D. Teotónio foi muito amável em vir, Jacinto. +Raras vezes sai da sua linda casa da Abrujeira.<br> + + +<br> + + +<span class="pagenum">[321]</span>O digno D. Teotónio +sorriu, cofiando os espessos bigodes brancos, de velho +brigadeiro:<br> + + +<br> + + +--V. Ex.ª chegou directamente de Viena?<br> + + +<br> + + +Não! Jacinto viera directamente de Paris, com o amigo +Zé Fernandes. D. Teotónio insistiu:<br> + + + +<br> + + +--Mas certamente visita muitas vezes Viena...<br> + + +<br> + + +Jacinto sorria surpreendido:<br> + + +<br> + + +--Viena, porquê?... Não. Há mais de quinze anos +que não vou a Viena.<br> + + +<br> + + +O fidalgo murmurou um lento <i>ah!</i> e ficou calado, de +pálpebras baixas, como revolvendo análises profundas, +com as mãos cruzadas sob as abas da longa sobrecasaca +azul.<br> + + + +<br> + + +Eu então, vigilante, lancei o Dr. Alípio:<br> + + +<br> + + +--O nosso Doutor, meu caro Jacinto, é o mais poderoso +influente de todo o distrito.<br> + + +<br> + + +O Doutor curvou a cabeça bem feita, com um belo cabelo +preto, admiravelmente alisado e lustroso. Mas a tia Vicência, +que se erguera do sofá, chamava o meu Príncipe, +porque o Manuel anunciara o jantar, mudamente, mostrando apenas, +à porta da sala, a sua corpulenta +pessoa,--inteiriçado e vermelho.<br> + + + +<br> + + +À mesa, onde os pudins, as travessas de doce de ovos, os +antigos vinhos da Madeira e do Porto, nas suas pesadas garrafas de +cristal lapidado, fundiam com felicidade os seus <span class="pagenum">[322]</span>tons ricos e quentes, Jacinto ficou entre a +tia Vicência e uma das Rojões, a Luizinha, sua +afilhada, que, por costume velho, quando jantava em Guiães, +sempre se colocava à sombra da sua boa madrinha. E a sopa, +que era de galinha com macarrão, foi comida num tão +largo e pesado silêncio que eu, na ânsia de o quebrar, +exclamei, ao acaso, sem pensar que me achava em Guiães +depois de tanto tempo e em minha própria casa:<br> + + + +<br> + + +--Deliciosa, esta sopa!<br> + + +<br> + + +Jacinto ecoou:<br> + + +<br> + + +--Divina!!<br> + + +<br> + + +Mas como todos os convidados certamente estranharam este meu brado, +e a excessiva admiração de Jacinto, o silêncio, +carregado de cerimónia, mais se carregou de embaraço. +Felizmente a tia Vicência, com aquele seu bom sorriso, +observou que Jacinto parecia gostar da comida portuguesa... E eu, +sempre no intuito de animar a conversa, nem deixei que o meu +Príncipe confirmasse o seu amor da cozinha vernácula, +e gritei:<br> + + + +<br> + + +--Como gostar! Mas é que delira!... Pudera! Tanto tempo em +Paris, privado dos pitéus lusitanos...<br> + + +<br> + + +E como, ditosamente, me lembrara o prato de arroz doce preparado na +ocasião do natalício de Jacinto, pelo cozinheiro do +202, <span class="pagenum">[323]</span>contei a história, +profusamente, exagerando, afirmando que esse arroz doce continha +<i>foie gras</i>, e que sobre a sua ornamentada pirâmide +flutuava a bandeira tricolor, por cima do busto do conde de +Chambord! Mas o arroz doce de Paris, assim estragado tão +longe da Serra, não interessara ninguém. Puxou apenas +alguns sorrisos de polida condescendência, quando eu, +alternadamente, me voltava para um cavalheiro, para uma senhora, +insistindo, exclamando:--Extraordinário, hein?<br> + + + +<br> + + +D. Teotónio observou, misteriosamente, que o +«cozinheiro sabia para quem cozinhava.» E a bela mulher +do Dr. Alípio ousou murmurar, corando:<br> + + +<br> + + +--Havia de ser bonito prato, e talvez não fosse mau!<br> + + +<br> + + +Eu, sempre na ânsia de espiritualizar o banquete, de produzir +conversação, ataquei com desabrida alegria a +Sr.<sup>a</sup> D. Luísa, por ela assim defender a +profanação do nosso grande acepipe nacional! Mas, +pobre de mim! tão excessiva e ruidosamente interpelei a +formosa senhora, que ela se enconchou, emudeceu, toda corada, e +mais formosa assim. E outro silêncio se abatia sobre a mesa, +como uma névoa, quando a tia Vicência, providencial, +se desculpou para com Jacinto de não ter peixe! Mas +quê! ali na Serra era impossível, <span class="pagenum">[324]</span>ainda a peso de ouro, ter peixe, a não +ser a pescada salgada, ou o bacalhau. O excelente Rojão, com +aquele seu modo, tão suave que cada sílaba para +correr mais docemente parecia lubrificada com óleos santos, +lembrou que o Sr. D. Jacinto possuía uma larga faixa do rio +Douro com privilégio para a pesca do sável. Jacinto +não sabia, nem imaginava que houvesse sáveis... O Dr. +Alípio não se admirava por que essas pescas tinham +sido vendidas ao Cunha brasileiro, há vinte anos, na +mocidade do Sr. D. Jacinto. E hoje, segundo o D. Teotónio, +não valiam dois mil réis. Se já não +há sáveis!... E a propósito das antigas pescas +do Douro se ia formando, em torno da mesa, entre os homens mais +vizinhos, lentas cavaqueirinhas rurais, que as senhoras +aproveitavam para cochichar, no desabafo daquele silêncio +cerimonioso, que viera pesando cada vez mais desde a sopa +até os frangos guisados. Receoso de que essa orla de +murmúrios lentos, sem brilho e sem alegria, se estabelecesse +de novo, me abalancei (para animar), a interpelar Jacinto, +recordando a famosa aventura do peixe da Dalmácia encalhado +no ascensor.<br> + + + +<br> + + +--Isso foi uma das melhores histórias que nos sucederam em +Paris! O Jacinto, por causa de um peixe muito raro, que lhe mandara +<span class="pagenum">[325]</span>o Grão-Duque Casimiro, +dava uma magnífica ceia, a que o Grão-Duque... o +Grão-Duque Casimiro, o irmão do Imperador...<br> + + +<br> + + +Todos os olhos se desviaram para o meu Jacinto, que se servia de +ervilhas:--e o Melo Rebelo quase se engasgou, num sorvo precipitado +ao copo, para contemplar no meu amigo algum reflexo do +Grão-Duque. E eu contei, com profusão, o peixe +encalhado, o Grão-Duque pescando, o anzol feito com um +gancho da Princesa de Carman, o duque de Marizac, caindo quase no +poço do elevador... Mas não se produziu um + +único riso, e a atenção mesma era dada com +esforço, por cortesia. Debalde eu arremessava aqueles nomes +magníficos de Príncipes e princesas, misturados a +coisas picarescas... Nenhum dos meus convidados compreendia o +maquinismo do elevador, um prato encalhado num poço negro... +Perante o gancho da princesa as Albergarias baixaram os olhos. E a +minha deliciosa história morreu numa reticência, ainda +mais regelada pela exclamação inocente da tia +Vicência:<br> + + +<br> + + +--Oh! filho, que coisas!<br> + + +<br> + + +Mas, como Jacinto se enfronhara de repente numa larga conversa com +a Luisinha Rojão, que ria, toda luminosa e +palradora,--todos, como libertados do peso cerimonioso <span class="pagenum">[326]</span>da sua presença augusta, se +lançaram nas conversinhas discretas, a que o champanhe, +agora, depois do assado, dava mais viveza. Eram os soturnos +murmúrios, em torno da mesa, que definitivamente se +perpetuavam. Foi então que desisti de animar o jantar. +Mergulhei com a bela mulher do Doutor Alípio na grande +questão social desse tempo em Guiães, o casamento da +D. Amélia Noronha com o feitor! E eu defendia a D. +Amélia, os direitos do amor, quando se alargou um +silêncio,--e era Jacinto, que se debruçava, de copo na +mão.<br> + + + +<br> + + +--Velho amigo Zé Fernandes, à tua! Muitos e bons, e +sempre em companhia de tua tia e minha senhora, a quem peço +para saudar.<br> + + +<br> + + +Todos os copos, onde a espuma morria sobre um fundo de champanhe, +se ergueram num largo rumor de amizade, e boa vizinhança. Eu +acenei ao Manuel, vivamente, para encher os copos; e logo, +também de pé, atirando para trás a +sobrecasaca:<br> + + +<br> + + +--Meus senhores, peço uma grande saúde para o meu +velho amigo Jacinto, que pela primeira vez honra esta casa +fraternal... Que digo eu? que pela primeira vez honra com a sua +presença a sua querida pátria! E que por cá + +fique, pelas serras, muitos anos, todos bons. À tua, meu +velho!<br> + + +<br> + + +<span class="pagenum">[327]</span>Outro rumor correu pela mesa, mas +cerimonioso e sereno. A nossa oratória, positivamente, +não incendiara as imaginações! A tia +Vicência fez tilintar o seu copo, quase vazio, com o de +Jacinto, que tocou no copo da sua vizinha, a Luisinha Rojão, +toda resplandecente, e mais vermelha que uma peónia. Depois +foi um encadeamento de saúdes, com os copos quase vazios, +entre todos os convidados, sem esquecer o tio Adrião, e o +Abade, ambos ausentes, ambos com furúnculos. E a tia +Vicência espalhava aquele olhar, que prepara o erguer, o +arrastar de cadeiras,--quando D. Teotónio, erguendo o seu +copo de vinho do Porto, com a outra mão apoiada à + +mesa, meio erguido, chamou Jacinto, e numa voz respeitosa, quase +cava:<br> + + +<br> + + +--Esta é toda particular, e entre nós... Brindo o +ausente!<br> + + +<br> + + +Esvaziou o copo, como em religião, pontificando. Jacinto +bebeu assombrado, sem compreender. As cadeiras arrastavam,--eu dei +o braço à tia Albergaria.<br> + + +<br> + + +E só compreendi, na sala, quando o Dr. Alípio, com a +sua chávena de café e o charuto fumegante, me disse, +num daqueles seus olhares finos, que lhe valiam a alcunha de <i>Dr. +Agudo</i>:--«Espero que ao menos, cá por +Guiães, não se erga de novo a forca!...» + +<span class="pagenum">[328]</span>E o mesmo fino olhar me indicava +o D. Teotónio, que arrastara Jacinto para entre as cortinas +de uma janela, e discorria, com um ar de fé e de +mistério. Era o miguelismo, por Deus! O bom D. +Teotónio considerava Jacinto como um hereditário, +ferrenho, miguelista,--e na sua inesperada vinda ao seu solar de +Tormes, entrevia uma missão política, o começo +de uma propaganda enérgica, e o primeiro passo para uma +tentativa de Restauração. E na reserva daqueles +cavalheiros, ante o meu Príncipe, eu senti então a +suspeita liberal, o receio de uma influência rica, nova, nas +Eleições próximas, e a nascente +irritação contra as velhas ideias, representadas +naquele moço, tão rico, de civilização +tão superior. Quase entornei o café, na alegre +surpresa daquela sandice. E retive o Melo Rebelo, que repunha a +chávena vazia na bandeja, fitei, com um pouco de riso, o + +<i>Dr. Agudo</i>.<br> + + +<br> + + +--Então, francamente, os amigos imaginam que o Jacinto veio +para Tormes trabalhar no miguelismo?<br> + + +<br> + + +Muito sério, Melo Rebelo chegou o seu grosso bigode à +minha orelha:<br> + + +<br> + + +--Até corre, como certo, que o Príncipe D. Miguel +está com ele em Tormes!<br> + + + +<br> + + +E como eu os considerava esgazeado, o Dr. Alípio--tão +agudo!--confirmou:<br> + + +<br> + + +<span class="pagenum">[329]</span>--É o que corre... +Disfarçado em criado!<br> + + +<br> + + +Em criado? Oh! santo Deus! Era o Baptista! Justamente, Ricardo +Veloso veio, puxando do seu cigarrinho, para o acender no meu +charuto. E o bom Rebelo logo invocou o seu testemunho.--Pois +não corria, que o filho de D. Miguel estava em Tormes, +escondido?...<br> + + +<br> + + + +--Disfarçado em lacaio, confirmou logo o digno Rebelo.<br> + + +<br> + + +Acendeu o cigarro, soprou o fumo, e erguendo muito as sobrancelhas +meditativas:<br> + + +<br> + + +--Se assim é, lá me parece desplante... Que eu +não desgostava de o ver. Dizem que é bonito +moço, bem apessoado. Mas enfim, meu tio João Vaz +Rebelo foi partido às postas, a machado, nas prisões +de Almeida... E se recomeçam essas questões, mau, +mau! Ora o seu amigo...<br> + + + +<br> + + +Emudeceu. Jacinto, que se libertara do velho D. Teotónio, e +ainda conservava um resto de riso, de assombro divertido, vinha +para mim, desabafar:<br> + + +<br> + + +--Extraordinário! Vejo que, aqui, na serra, ainda se +conservam, sem uma ruga, as velhas e boas ideias...<br> + + +<br> + + +Imediatamente, sem se conter, Melo Rebelo acudiu:<br> + + +<br> + + +--É conforme o que V. Ex.ª chama <i>boas +ideias</i>.<br> + + + +<br> + + +<span class="pagenum">[330]</span>E eu agora, furioso com aquela +disparatada invenção, que cercava de hostilidade o +meu pobre Jacinto, estragava aquela amável noite de anos, +intervim, vivamente:<br> + + +<br> + + +--Tu jogas o voltarete, Jacinto? Não jogas... Então +vamos arranjar duas mesas... O D. Teotónio há-de +querer cartas.<br> + + +<br> + + +E arrastei Jacinto para as senhoras, que de novo se aninhavam +à sombra da tia Vicência, estabelecida no seu canto do +sofá. Todas se calavam, parecia encolherem-se ante a +aparição do meu Príncipe, como pombas +avistando o abutre. E deixei o temido homem afirmando à + +mulher do Dr. Alípio (um pouco desgarrada do bando das aves +tímidas) que lhe dera grande prazer aquela ocasião de +conhecer as suas vizinhas de Tormes... Ela abrira nervosamente o +leque, sorria, e nunca de certo Jacinto admirara na Cidade uma boca +mais vermelha, dentinhos mais rutilantes. Mas depois de organizar a +mesa do voltarete, tive de abancar, eu, para substituir o Manuel +Albergaria, que era dispéptico, se declarara +«afrontado», e desejava respirar um momento na varanda. +Todos aqueles cavalheiros, de resto, se queixavam de calor. Mandei +abrir as janelas que davam sobre as mimosas do pátio. O +Veloso, ao baralhar, parava, bufando, como oprimido:<br> + + +<br> + + +<span class="pagenum">[331]</span>--Está abafado... Ainda +temos trovoada!<br> + + +<br> + + +E o Dr. Alípio, inquieto, porque tinha uma hora de estrada +até casa, e uma das éguas da caleche era escabriada, +correu à janela, espreitar o céu, que enegrecera, +morno e pesado.<br> + + + +<br> + + +--Com efeito, vai cair água.<br> + + +<br> + + +As hastes das mimosas ramalhavam, arrepiadas: e o ar que agitava as +cortinas era intermitente, estonteado. De certo na sala, entre as +senhoras, surgira a mesma inquietação, porque a tia +Albergaria apareceu, avisando o mano Jorge.<br> + + +<br> + + +Era prudente pensar em partir, a noite ameaçava... E o Dr. +Alípio, puxando o relógio, propôs que, +levantada aquela remissa, se preparasse a marcha. Justamente o +Albergaria recolhia da varanda desafrontado, aliviado com um +cálice de genebra: e retomou as suas cartas, anunciando +também que vinha aí uma trovoada valente.<br> + + + +<br> + + +Voltando à sala, encontrei Jacinto muito alegre entre as +senhoras, que se familiarizaram, escutando cheias de riso e gosto, +a história da sua chegada a Tormes, sem malas, sem criados, +tão desprovido que dormira com a camisa da caseira! Mas a +minha pobre noite de anos findava, desorganizada. A tia Albergaria +rondava de janela em janela, assustada <span class="pagenum">[332]</span>com a volta à Roqueirinha, espreitando +a treva abafada. Calçando lentamente as luvas, a bela mulher +do Dr. Alípio perguntava se ainda havia a remissa. E a tia +Vicência apressara o chá, que o Manuel seguido pela +Gertrudes, com a bandeja de bolos, já começava a +servir às senhoras. Jacinto, de pé, oferecendo +chávenas, gracejava:<br> + + + +<br> + + +--Então tanta pressa, tanto medo, por causa de uma +trovoadinha?<br> + + +<br> + + +Elas replicavam, familiarizadas, numa crescente simpatia pelo meu +Príncipe:<br> + + +<br> + + +--Ora o senhor fala bem, porque fica debaixo de telhas...<br> + + +<br> + + +--Sempre o queríamos ver... se fosse agora para Tormes, com +esta noite cerrada!<br> + + +<br> + + +O voltarete findara nas duas mesas: e aqueles cavalheiros, das +janelas, gritavam ordens para o pátio negro, onde as +carruagens esperavam atreladas:<br> + + + +<br> + + +--Desce a cabeça da vitória, ó Diogo!<br> + + +<br> + + +--Acende o lampião, Pedro! Sempre ajuda a luz das +lanternas.<br> + + +<br> + + +A criada Quitéria chegava à porta com os +braços carregados de xales, de mantilhas de renda. Como uma +das Albergarias ia no assento de diante na vitória, eu corri +a buscar o meu casaco de borracha, para ela se abrigar se a chuva +viesse. E só o D. Teotónio, que <span class="pagenum">[333]</span>tinha até casa apenas meia +légua de estrada boa, se não apressava, filado outra +vez no meu Príncipe, que levava para os cantos mais +solitários, em conversas profundas, que o seu dedo solene, +espetado, sublinhava gravemente. Mas a tia Albergaria gritou que +já chovia;--e então foi uma pressa das senhoras, que +beijocavam vivamente a tia Vicência, enquanto os homens, na +antecâmara, enfiavam açodadamente os +paletós.<br> + + + +<br> + + +Jacinto e eu descemos ao pátio para acompanhar aquela +debandada,--e uma a uma, a traquitana do Dr. Alípio, a +vitória das Albergarias, a velha e imensa caleche dos +Velosos, rolaram sob a noite, entre os nossos desejos de boa +jornada. Por fim D. Teotónio calçou as luvas pretas e +entrou para a sua caleche, dizendo a Jacinto:<br> + + +<br> + + +--Pois, primo e amigo, Deus permita que, do nosso encontro, e do +mais que se passar, algum bem resulte a esta terra!<br> + + +<br> + + +Subindo a escada, o meu Príncipe desabafou:<br> + + +<br> + + +--Este Teotónio é extraordinário! Sabes o que +descobri por fim?... Que me toma por um miguelista, e imagina que +eu vim para Tormes preparar a restauração de D. +Miguel?!<br> + + + +<br> + + +--E tu?<br> + + +<br> + + +<span class="pagenum">[334]</span>--Eu fiquei tão espantado, +que nem o desiludi!<br> + + +<br> + + +--Pois sabe mais, meu pobre amigo. Todos pensam o mesmo, +estão desconfiados, e receiam ver de novo erguidas as forcas +em Guiães! E corre que tu tens o Príncipe D. Miguel +escondido em Tormes, disfarçado em criado. E sabes quem ele +é? o Baptista!<br> + + +<br> + + + +--Isso é sublime! murmurou Jacinto, com uns grandes olhos +abertos.<br> + + +<br> + + +Na sala, a tia Vicência nos esperava desconsolada, entre +todas as luzes, que ardiam ainda no silêncio e paz do +serão debandado:<br> + + +<br> + + +--Ora uma coisa assim! Nem quererem ficar para tomar um copinho de +geleia, um cálice de vinho do Porto!<br> + + +<br> + + +--Esteve tudo muito desanimado, tia Vicência! exclamei +desafogando o meu tédio. Todo esse mulherio emudeceu; os +amigos com um ar desconfiado...<br> + + + +<br> + + +Jacinto protestou, muito divertido, muito sincero:<br> + + +<br> + + +Não! pelo contrário. Gostei imenso. Excelente gente! +E tão simples... Todas estas raparigas me pareceram +óptimas. E tão frescas, tão alegres! Vou ter +aqui bons amigos, quando verificarem que não sou +miguelista.<br> + + +<br> + + +Então contámos à tia Vicência a +prodigiosa <span class="pagenum">[335]</span>história de D. +Miguel escondido em Tormes... Ela ria! Que coisa! E mau +seria...<br> + + + +<br> + + +--Mas o Sr. Jacinto, não é?<br> + + +<br> + + +--Eu, minha senhora, sou socialista...<br> + + +<br> + + +Acudi, explicando à tia Vicência, que socialista era +ser pelos pobres. A doce senhora considerava esse partido o melhor, +o verdadeiro:<br> + + +<br> + + +--O meu Afonso, que Deus haja, era liberal... Meu pai, +também e até amigo do Duque da Terceira...<br> + + + +<br> + + +Mas um rude trovão rolou, atroou a noite negra:--e uma +bátega de água cantou nos vidros, e nas pedras da +varanda.<br> + + +<br> + + +--Santa Bárbara! gritou a tia Vicência! Ai aquela +pobre gente!... Até estou com cuidado... As Rojões, +que vão na vitória!<br> + + +<br> + + + +E correu para o quarto, na sua pressa de acender as duas velas +costumadas no oratório, ainda antes de ir guardar as pratas, +e rezar o terço, com a Gertrudes.<br> + + +<br> + + +<br> + + +<br> + + +<h2>XIV</h2> + + +<br> + + +<br> + + +Ao outro dia, depois de almoço, eu e Jacinto montámos +a cavalo para um grande passeio até à Flor da Malva, +a saber de meu tio Adrião, e do seu furúnculo. E +sentia uma curiosidade interessada, e até inquieta, de +testemunhar a impressão que daria ao meu Príncipe +aquela nossa prima Joaninha, que era o orgulho da nossa casa. +Já nessa manhã, andando todos no jardim a escolher +uma bela rosa-chá para a botoeira do meu Príncipe, a +tia Vicência celebrara com tanto fervor a beleza, a +graça, a caridade, e a doçura da sua sobrinha +toda-amada, que eu protestei:<br> + + + +<br> + + +--Oh! tia Vicência, olhe que esses elogios todos competem +apenas à Virgem Maria! A tia Vicência está a +cair em pecado de idolatria! O Jacinto depois vai encontrar uma +criatura apenas humana, e tem um desapontamento tremendo!<br> + + +<br> + + +E agora, trotando pela fácil estrada de Sandofim, +<span class="pagenum">[338]</span>lembrava-me aquela manhã, +no 202, em que Jacinto encontrara o retrato dela no meu quarto, e +lhe chamara uma <i>lavradeirona</i>. Com efeito, era grande e forte +a Joaninha. Mas a fotografia datava do seu tempo de viço +rústico, quando ela era apenas uma bela forte e sã + +planta da serra. Agora entrava nos vinte e cinco, e já +pensava, e sentia,--e a alma que nela se formara, afinara, +amaciara, e espiritualizava o seu esplendor rubicundo.<br> + + +<br> + + +A manhã, com o céu todo purificado pela trovoada da +véspera, e as terras reverdecidas e lavadas pelos chuviscos +ligeiros, oferecia uma doçura luminosa, fina, fresca, que +tornava doce, como diz o velho Eurípedes ou o velho +Sófocles, mover o corpo, e deixar a alma preguiçar, +sem pressa nem cuidados. A estrada não tinha sombra, mas o +sol batia muito de leve, e roçava-nos com uma carícia +quase alada. O vale parecia a Jacinto, que nunca ali passara, uma +pintura da Escola Francesa do século XVIII, tão +graciosamente nele ondulavam as terras verdes, e com tanta paz e +frescura corria o risonho Serpão, e tão +afáveis e prometedores de fartura e contentamento alvejavam +os casais nas verduras tenras! Os nossos cavalos caminhavam num +passo pensativo, gozando também a paz da manhã + +adorável. E não sei, nunca soube, que plantazinhas +<span class="pagenum">[339]</span>silvestres e escondidas +espalhavam um delicado aroma, que eu tantas vezes sentira, naquele +caminho, ao começar o Outono.<br> + + +<br> + + +--Que delicioso dia! murmurou Jacinto. Este caminho para a Flor da +Malva é o caminho do céu... Oh Zé Fernandes, +de que é este cheirinho tão doce, tão bom?<br> + + + +<br> + + +Eu sorri, com certo pensamento:<br> + + +<br> + + +--Não sei... É talvez já o cheiro do +céu!<br> + + +<br> + + +Depois, parando o cavalo, apontei com o chicote para o vale:<br> + + +<br> + + +--Olha, acolá, onde está aquela fila de olmos, e +há o riacho, já são terras do tio +Adrião. Tem ali um pomar, que dá os pêssegos +mais deliciosos de Portugal... Hei-de pedir à prima Joaninha +que te mande um cesto deles. E o doce que ela faz com esses +pêssegos, menino, é alguma coisa de celeste. +Também lhe hei-de pedir que te mande o doce.<br> + + + +<br> + + +Ele ria:<br> + + +<br> + + +--Será explorar de mais a prima Joaninha. E eu +(porquê?) recordei e atirei ao meu Príncipe estes dois +versos de uma balada cavalheiresca, composta em Coimbra pelo meu +pobre amigo Procópio:<br> + + +<br> + + +<div class="break">--Manda-lhe um servo querido, Bem hajas dona +formosa! E que lhe entregue um anel E com um anel uma rosa.</div> + + +<br> + + +<span class="pagenum">[340]</span>Jacinto riu alegremente:<br> + + + +<br> + + +--Zé Fernandes, seria excessivo, só por causa de meia +dúzia de pêssegos, e de um boião de doce.<br> + + +<br> + + +Assim ríamos, quando apareceu, à volta da estrada, o +longo muro da quinta dos Velosos, e depois a capelinha de S. +José de Sandofim. E imediatamente piquei para o largo, para +a taverna do Torto, por causa daquele vinhinho branco, que sempre, +quando por ali a levo, a minha alma me pede. O meu Príncipe +reprovou, indignado:<br> + + + +<br> + + +--Oh! Zé Fernandes, pois tu, a esta hora, depois de +almoço, vais beber vinho branco?<br> + + +<br> + + +--É um costumezinho antigo... Aqui à taverninha do +Torto... um decilitrozinho... A almazinha assim mo pede.<br> + + +<br> + + +E parámos; eu gritei pelo Manuel, que apareceu, rebolando a +sua grossa pança, sobre as pernas tortas, com a infusa +verde, e um copo.<br> + + + +<br> + + +--Dois copos, Torto amigo. Que aqui este cavalheiro também +aprecia.<br> + + +<br> + + +Depois de um pálido protesto, o meu Príncipe +também quis, mirou o límpido e dourado vinho ao sol, +provou, e esvaziou o copo, com delícia, e um estalinho de +alto apreço.<br> + + +<br> + + +--Delicioso vinho!... Hei-de querer deste vinho em Tormes... +É perfeito.<br> + + + +<br> + + +--Hein? Fresquinho, leve, aromático, alegrador, <span class="pagenum">[341]</span>todo alma!... Encha lá outra vez os +copos, amigo Torto. Este cavalheiro aqui é o Sr. D. Jacinto, +o fidalgo de Tormes.<br> + + +<br> + + +Então, de trás da ombreira da taverna, uma grande voz +bradou, cavamente, solenemente:<br> + + +<br> + + +--Bendito seja o pai dos Pobres!<br> + + + +<br> + + +E um estranho velho, de longos cabelos brancos, barbas brancas, que +lhe comiam a face cor de tijolo, assomou no vão da porta, +apoiado a um bordão, com uma caixa de lata a tiracolo, e +cravou em Jacinto dois olhinhos de um brilho negro, que faiscavam. +Era o tio João Torrado, o profeta da Serra... Logo lhe +estendi a mão, que ele apertou, sem despegar de Jacinto os +olhos, que se dilatavam mais negros. Mandei vir outro copo, +apresentei Jacinto, que corara, embaraçado.<br> + + +<br> + + +--Pois aqui o tem, o senhor de Tormes, que fez por aí todo +esse bem à pobreza.<br> + + +<br> + + +O velho atirou para ele bruscamente o braço, que saía +cabeludo e quase negro, de uma manga muito curta.<br> + + + +<br> + + +--A mão!<br> + + +<br> + + +E quando Jacinto lha deu, depois de arrancar vivamente a luva, +João Torrado longamente lha reteve com um sacudir lento e +pensativo, murmurando:<br> + + +<br> + + +--Mão real, mão de dar, mão que vem de cima, +mão já rara!<br> + + + +<br> + + +<span class="pagenum">[342]</span>Depois tomou o copo, que lhe +oferecia o Torto, bebeu com imensa lentidão, limpou as +barbas, deu um jeito à correia que lhe prendia a caixa de +lata, e batendo com a ponta do cajado no chão:<br> + + +<br> + + +--Pois louvado seja nosso Senhor Jesus Cristo, que por aqui me +trouxe, que não o meu dia, e vi um homem!<br> + + +<br> + + +Eu então debrucei-me para ele, mais em +confidência:<br> + + + +<br> + + +--Mas, ó tio João, ouça cá! Sempre +é certo você dizer por aí, pelos sítios, +que El-Rei D. Sebastião voltara?<br> + + +<br> + + +O pitoresco velho apoiou as duas mãos sobre o cajado, o +queixo de espalhada barba sobre as mãos, e murmurava, sem +nos olhar, como seguindo a percussão dos seus +pensamentos:<br> + + + +<br> + + +--Talvez voltasse, talvez não voltasse... Não se sabe +quem vai, nem quem vem. A gente vê os corpos, mas não +vê as almas que estão dentro. Há corpos de +agora com almas de outrora. Corpo é vestido, alma é +pessoa... Na feira da Roqueirinha quem sabe com quantos reis +antigos se topa, quando se anda aos encontrões entre os +vaqueiros... Em ruim corpo se esconde bom senhor!<br> + + + +<br> + + +E como ele findara num murmúrio, eu, atirando um olhar a +Jacinto, e para gozarmos <span class="pagenum">[343]</span>aqueles +estranhos, pitorescos modos de vidente, insisti:<br> + + +<br> + + +--Mas, ó tio João, você realmente, em sua +consciência, pensa que El-Rei D. Sebastião não +morreu na batalha?<br> + + + +<br> + + +O velho ergueu para mim a face, que se enrugara numa +desconfiança:<br> + + +<br> + + +--Essas coisas são muito antigas. E não calham bem +aqui à porta do Torto. O vinho era bom, e V. S.ª tem +pressa, meu menino! A flor da Flor da Malva lá tem o +paizinho doente... Mas o mal já vai pela serra abaixo com a +inchação às costas. Dá gosto ver quem +dá gosto aos tristes. Por cima de Tormes há uma +estrela clara. E é trotar, trotar, que o dia está + +lindo!<br> + + +<br> + + +Com a magra mão lançou um gesto para que +seguíssemos. E já passávamos o cruzeiro quando +o seu brado ardente, de novo reboou, com solenidade cava:<br> + + +<br> + + +--Bendito seja o Pai dos Pobres.<br> + + +<br> + + +Direito, no meio da estrada, erguia o cajado como dirigindo as +aclamações de um povo. E Jacinto pasmava de que ainda +houvesse no reino um Sebastianista.<br> + + + +<br> + + +--Todos o somos ainda em Portugal, Jacinto! Na serra ou na cidade +cada um espera o seu D. Sebastião. Até a lotaria da +Misericórdia é uma forma do Sebastianismo. +<span class="pagenum">[344]</span>Eu todas as manhãs, mesmo +sem ser de nevoeiro, espreito, a ver se chega o meu. Ou antes a +minha, por que eu espero uma D. Sebastiana... E tu, felizardo?<br> + + +<br> + + +--Eu? Uma D. Sebastiana? Estou muito velho, Zé Fernandes... +Sou o último Jacinto; Jacinto ponto final... Que casa + +é aquela com os dois torreões?<br> + + +<br> + + +--A Flor da Malva.<br> + + +<br> + + +Jacinto tirou o relógio:<br> + + +<br> + + +--São três horas. Gastámos hora e meia... Mas +foi um belo passeio, e instrutivo. É lindo este +sítio.<br> + + + +<br> + + +Sobre um outeirinho, afastada da estrada por arvoredo, que um muro +cerrava, e dominando, a Flor da Malva voltava para Oriente e para o +Sol a sua longa fachada com os dois torreões quadrados, onde +as janelas, de varanda, eram emolduradas em azulejos. O grande +portão de ferro, ladeado por dois bancos de pedra, ficava ao +fundo do terreirinho, onde um imenso castanheiro derramava verdura +e sombra. Sentado sobre as fortes raízes descarnadas da +grande árvore, um pequeno esperava segurando um burro pela +arreata.<br> + + +<br> + + +--Está por aí o Manuel da Porta?<br> + + +<br> + + +--Ainda agora subiu pela alameda.<br> + + + +<br> + + +--Bem: empurra lá o portão.<br> + + +<br> + + +E subimos, por uma curta avenida de velhas <span class="pagenum">[345]</span>árvores, até outro terreiro, +com um alpendre, uma casa de moços, toda coberta de heras, e +uma casota de cão, de onde saltou, com um rumor de corrente +arrastada, um molosso, o Tritão, que eu logo sosseguei +fazendo-lhe reconhecer o seu velho amigo Zé Fernandes. E o +Manuel da Porta correu da fonte, onde enchia um grande balde, para +nos segurar os cavalos.<br> + + + +<br> + + +--Como está o tio Adrião?<br> + + +<br> + + +Surdo, o excelente Manuel sorriu, deleitado:<br> + + +<br> + + +--E então vossa excelência, bem? A Sr.<sup>a</sup> D. +Joaninha ainda agora andava no laranjal com o pequeno da +Josefa.<br> + + + +<br> + + +Seguimos por ruazinhas bem areadas, orladas de alfazema e buxo +alto, enquanto eu contava ao meu Príncipe que aquele +pequenito da Josefa era um afilhadinho da prima Joana, e agora o +seu encanto e o seu cuidado todo.<br> + + +<br> + + +--Esta minha santa prima, apesar de solteira, tem aí pela +freguesia uma verdadeira filharada. E não é só +dar-lhes roupas e presentes, e ajudar as mães. Mas +até os lava, e os penteia, e lhes trata as tosses. Nunca a +encontro sem alguma criancita ao colo... Agora anda na +paixão deste Josezinho.<br> + + + +<br> + + +Mas quando chegámos ao laranjal, à beira <span class="pagenum">[346]</span>da larga rua da quinta que levava ao tanque, +debalde procurei, e me embrenhei, e até gritei:--Eh, prima +Joaninha!...<br> + + +<br> + + +--Talvez esteja lá para baixo, para o tanque...<br> + + +<br> + + +Descemos a rua, entre árvores, que a cobriam com as densas +ramas encruzadas. Uma fresca, límpida água de rega +corria e luzia num caneiro de pedra. Entre os troncos, as roseiras +bravas ainda tinham uma frescura de Verão. E o pequeno +campo, que se avistava para além, rebrilhava com +doçura, todo amarelo e branco, dos malmequeres e +botões de ouro.<br> + + + +<br> + + +O tanque, redondo, fora esvaziado para se lavar, e agora de novo o +repuxo o ia enchendo de uma água muito clara, ainda baixa, +onde os peixes vermelhos se agitavam na alegria de recuperarem o +seu pequeno oceano. Sobre um dos bancos de pedra que circundavam o +tanque pousava um cesto cheio de dálias cortadas. E um +moço, que sobre uma escada podava as camélias, vira a +Sr.<sup>a</sup> D. Joana seguir para o lado da parreira.<br> + + +<br> + + +Marchámos para a parreira, ainda toda carregada de uva +preta. Duas mulheres, longe, ensaboavam num lavadouro, na sombra de +grandes nogueiras. Gritei:--Eh lá? Vocês viram por +aí a Sr.<sup>a</sup> D. Joana? Uma das moças + +<span class="pagenum">[347]</span>esganiçou a voz, que se +perdeu no vasto ar luminoso e doce.<br> + + +<br> + + +--Bem: vamos a casa! Não podemos farejar assim, toda a +tarde.<br> + + +<br> + + +--É uma bela quinta, murmurava o meu Príncipe +encantado.<br> + + +<br> + + +--Magnífica! E bem tratada... O tio Adrião tem um +feitor excelente... Não é o teu Melchior. Observa, +aprende, lavrador! Olha aquele cebolinho!<br> + + + +<br> + + +Passámos pela horta, uma horta ajardinada, como a sonhara o +meu Príncipe, com os seus talhões debruados de +alfazema, e madressilva enroscada nos pilares de pedra, que faziam +ruazinhas frescas toldadas de parra densa. E demos volta à +capela, onde crescia aos dois lados da porta uma +roseira-chá, com uma rosa única, muito aberta, e uma +moita de baunilha, onde Jacinto apanhou um raminho para cheirar. +Depois entrámos no terraço em frente da casa, com a +sua balaustrada de pedra, toda enrodilhada de jasmineiros amarelos. +A porta envidraçada estava aberta: e subimos pela escadaria +de pedra, no imenso silêncio em que toda a Flor da Malva +repousava, até à antecâmara, de altos tectos +apainelados, com longos bancos de pau, onde desmaiavam na sua velha +pintura as complicadas armas dos Cerqueiras. Empurrei a porta + +<span class="pagenum">[340]</span>de uma outra sala, que tinha as +janelas da varanda abertas, cada uma com a gaiola de um +canário.<br> + + +<br> + + +--É curioso!--exclamou Jacinto. Parece o meu +Presépio... E as minhas cadeiras.<br> + + +<br> + + +E com efeito. Sobre uma cómoda antiga, com bronzes antigos, +pousava um presépio semelhante ao da livraria de Jacinto. E +as cadeiras de couro lavrado tinham, como as que ele descobrira no +sótão, umas armas sob um chapéu de +Cardeal.<br> + + + +<br> + + +--Oh senhores! exclamei. Não haverá um criado?<br> + + +<br> + + +Bati as mãos, fortemente. E o mesmo doce silêncio +permaneceu, muito largo, todo luminoso e arejado pelo macio ar da +quinta, apenas cortado pelo saltitar dos canários nos +poleiros das gaiolas.<br> + + +<br> + + +--É o Palácio da Bela Adormecida no bosque! murmurou +Jacinto, quase indignado. Dá um berro!<br> + + + +<br> + + +--Não, caramba! Vou lá dentro!<br> + + +<br> + + +Mas, à porta, que de repente se abriu, apareceu minha prima +Joaninha, corada do passeio e do vivo ar, com um vestido claro um +pouco aberto no pescoço, que fundia mais docemente, numa +larga claridade, o esplendor branco da sua pele, e o louro ondeado +dos seus belos cabelos,--lindamente risonha, na <span class="pagenum">[349]</span>surpresa que alargava os seus largos, +luminosos olhos negros, e trazendo ao colo uma criancinha, gorda e +cor-de-rosa, apenas coberta com uma camisinha, de grandes +laços azuis.<br> + + +<br> + + +E foi assim que Jacinto, nessa tarde de Setembro, na Flor da Malva, +viu aquela com quem casou em Maio, na capelinha de azulejos, quando +o grande pé de roseira se cobrira todo de rosas.<br> + + + +<br> + + +<br> + + +<br> + + +<h2>XV</h2> + + +<br> + + +<br> + + +E agora, entre roseiras que rebentam, e vinhas que se vindimam, +já cinco anos passaram sobre Tormes e a Serra. O meu +Príncipe já não é o último +Jacinto, Jacinto ponto final--porque naquele solar que +decaíra, correm agora, com soberba vida, uma gorda e +vermelha Teresinha, minha afilhada, e um Jacintinho, senhor muito +da minha amizade. E, pai de família, principiara a fazer-se +monótono, pela perfeição da beleza moral, +aquele homem tão pitoresco pela inquietação +filosófica, e pelos variados tormentos da fantasia +insaciada. Quando ele agora, bom sabedor das coisas da lavoura, +percorria comigo a quinta, em sólidas palestras +agrícolas, prudentes e sem quimeras--eu quase lamentava esse +outro Jacinto que colhia uma teoria em cada ramo de árvore, +e riscando o ar com a bengala, planeava queijeiras de cristal e + +<span class="pagenum">[352]</span>porcelana, para fabricar +queijinhos que custariam duzentos mil réis cada um!<br> + + +<br> + + +Também a paternidade lhe despertara a responsabilidade. +Jacinto possuía agora um caderno de contas, ainda pequeno, +rabiscado a lápis, com falhas, e papeluchos soltos +entremeados, mas onde as suas despesas, as suas rendas se +alinhavam, como duas hostes disciplinadas. Visitara já as +suas propriedades de Montemor, da Beira; e concertava, mobilava as +velhas casas dessas propriedades para que os seus filhos, mais +tarde, crescidos, encontrassem «ninhos feitos». Mas +onde eu reconheci que definitivamente um perfeito e ditoso +equilíbrio se estabelecera na alma do meu Príncipe, +foi quando ele, já sabido daquele primeiro e ardente +fanatismo da Simplicidade--entreabriu a porta de Tormes à + +Civilização. Dois meses antes de nascer a Teresinha, +uma tarde, entrou pela avenida de plátanos uma chiante e +longa fila de carros, requisitados por toda a freguesia, e +acuculados de caixotes. Eram os famosos caixotes, por tanto tempo +encalhados em Alba de Tormes, e que chegavam, para despejar a +Cidade sobre a Serra. Eu pensei:--Mau! o meu pobre Jacinto teve uma +recaída! Mas os confortos mais complicados, que continha +aquela caixotaria temerosa, foram, com surpresa minha, desviados +<span class="pagenum">[353]</span>para os sótãos +imensos, para o pó da inutilidade: e o velho solar apenas se +regalou com alguns tapetes sobre os seus soalhos, cortinas pelas +janelas desabrigadas, e fundas poltronas, fundos sofás, para +que os repousos, por que ele suspirara, fossem mais lentos e +suaves. Atribuí esta moderação a minha prima +Joaninha, que amava Tormes na sua nudez rude. Ela jurou que assim o +ordenara o seu Jacinto. Mas, decorridas semanas, tremi. Aparecera, +vindo de Lisboa, um contramestre, com operários, e mais +caixotes, para instalar um telefone!<br> + + +<br> + + + +--Um telefone, em Tormes, Jacinto?<br> + + +<br> + + +O meu Príncipe explicou, com humildade:<br> + + +<br> + + +--Para casa de meu sogro!... Bem vês.<br> + + +<br> + + +--Era razoável e carinhoso. O telefone porém, +subtilmente, mudamente, estendeu outro longo fio, para Valverde. E +Jacinto, alargando os braços, quase suplicante:<br> + + +<br> + + + +--Para casa do médico. Compreendes...<br> + + +<br> + + +Era prudente. Mas, certa manhã, em Guiães, acordei +aos berros da tia Vicência! Um homem chegara, misterioso, com +outros homens, trazendo arame, para instalar na nossa casa o novo +invento. Sosseguei a tia Vicência, jurando que essa +máquina nem fazia barulho, nem trazia doenças, nem +atraía as trovoadas. Mas <span class="pagenum">[354]</span>corri a Tormes. Jacinto sorriu, encolhendo os +ombros:<br> + + +<br> + + +--Que queres? Em Guiães está o boticário, +está o carniceiro... E, depois, estás tu!<br> + + + +<br> + + +Era fraternal. Todavia pensei: Estamos perdidos! Dentro de um +mês temos a pobre Joana a apertar o vestido por meio de uma +máquina! Pois não! o Progresso, que, à +intimação de Jacinto, subira a Tormes a estabelecer +aquela sua maravilha, pensando talvez que conquistara mais um reino +para desfear, desceu, silenciosamente, desiludido, e não +avistámos mais sobre a serra a sua hirta sombra cor de ferro +e de fuligem. Então compreendi que, verdadeiramente, na alma +de Jacinto se estabelecera o equilíbrio da vida, e com ele a +Grã-Ventura, de que tanto tempo ele fora o Príncipe +sem Principado. E uma tarde, no pomar, encontrando o nosso velho +Grilo, agora reconciliado com a serra, desde que a serra lhe dera +meninos para trazer às cavaleiras, observei ao digno preto, +que lia o seu <i>Figaro</i>, armado de imensos óculos +redondos:<br> + + + +<br> + + +--Pois, Grilo, agora realmente bem podemos dizer que o Sr. D. +Jacinto está firme.<br> + + +<br> + + +O Grilo arredou os óculos para a testa, e levantando para o +ar os cinco dedos em curva como pétalas de uma tulipa:<br> + + +<br> + + +<span class="pagenum">[355]</span>--S. Ex.ª brotou!<br> + + +<br> + + + +Profundo sempre o digno preto! Sim! Aquele ressequido galho de +Cidade, plantado na serra, pegara, chupara o húmus do +torrão herdado, criara seiva, afundara raízes, +engrossara de tronco, atirara ramos, rebentara em flores, forte, +sereno, ditoso, benéfico, nobre, dando frutos, derramando +sombra. E abrigados pela grande árvore, e por ela nutridos, +cem casais em redor a bendiziam.<br> + + +<br> + + +<br> + + +<br> + + +<h2>XVI</h2> + + +<br> + + +<br> + + +Muitas vezes Jacinto, durante esses anos, falara com prazer num +regresso de dois, três meses, ao 202, para mostrar Paris +à prima Joaninha. E eu seria o companheiro fiel, para +arquivar os espantos da minha serrana ante a Cidade! Depois conveio +em esperar que o Jacintinho completasse dois anos, para poder +jornadear sem desconforto, e apontando já com o seu dedo +para as coisas da Civilização. Mas, quando ele, em +Outubro, fez esses dois anos desejados, a prima Joaninha sentiu uma +preguiça imensa, quase aterrada, do comboio, do estridor da +Cidade, do 202, e dos seus esplendores. «Estamos aqui +tão bem! está um tempo tão lindo!» + +murmurava, deitando os braços, sempre deslumbrada, ao rijo +pescoço do seu Jacinto. Ele desistia logo de Paris, +encantado. «Vamos para Abril, quando os castanheiros dos +Campos Elísios <span class="pagenum">[358]</span>estiverem +em flor!» Mas em Abril vieram aqueles cansaços que +imobilizavam a prima Joaninha no divã, ditosa, risonha, com +umas pintas na pele, e o roupão mais solto. Por todo um +longo ano estava desfeita a alegre aventura. Eu andava então +sofrendo de desocupação. As chuvas de Março +prometiam uma farta colheita. Uma certa Ana Vaqueira, corada e bem +feita, viúva, que surtia as necessidades do meu +coração, partira com o irmão para o Brasil, +onde ele dirigia uma venda. Desde o Inverno, sentia também +no corpo como um começo de ferrugem, que o emperrava, e, +certamente, algures, na minha alma, nascera uma pontinha de bolor. +Depois a minha égua morreu... Parti eu para Paris.<br> + + + +<br> + + +Logo em Hendaia, apenas pisei a doce terra de França, o meu +pensamento, como pombo a um velho pombal, voou ao 202,--talvez por +eu ver um enorme cartaz em que uma mulher nua, com flores +bacânticas nas tranças, se estorcia, segurando numa +das mãos uma garrafa espumante, e brandindo na outra, para o +anunciar ao Mundo, um novo modelo de saca-rolhas. E oh surpresa! +eis que, logo adiante, na estação quieta e clara de +Saint Jean-de-Luz, um moço esbelto, de perfeita +elegância, entra vivamente no meu compartimento, e, depois de +me encarar, grita:<br> + + +<br> + + +<span class="pagenum">[359]</span>--Eh, Fernandes!<br> + + +<br> + + +Marizac! O duque de Marizac! Era já o 202... Com que +reconhecimento lhe sacudi a mão fina, por ele me ter +reconhecido! E, atirando para o canto do vagão um +paletó, um maço de jornais, que o escudeiro lhe +passara, o bom Marizac exclamava na mesma surpresa alegre:<br> + + + +<br> + + +--E Jacinto?<br> + + +<br> + + +Contei Tormes, a serra, o seu primeiro amor pela Natureza, o seu +outro grande amor por minha prima, e os dois filhos, que ele trazia +escarranchados no pescoço.<br> + + +<br> + + +--Ah que canalha! exclamou Marizac com os olhos espetados em mim! +É capaz de ser feliz!<br> + + +<br> + + +--Espantosamente, loucamente... Qual! não há +advérbios...<br> + + + +<br> + + +--Indecentemente--murmurou Marizac muito sério. Que +canalha!<br> + + +<br> + + +Eu então desejei saber do nosso rancho familiar do 202. Ele +encolheu os ombros, acendendo a cigarette:<br> + + +<br> + + +--Todo esse mundo circula...<br> + + +<br> + + +--Madame d'Oriol?<br> + + +<br> + + +--Continua.<br> + + + +<br> + + +--Os Trèves? o Efraim?<br> + + +<br> + + +--Continuam, todos três.<br> + + +<br> + + +Lançou um gesto lânguido.<br> + + +<br> + + +<span class="pagenum">[360]</span>--Durante cinco anos, em Paris, +tudo continua... As mulheres com um pouco mais de pós de +arroz, e a pele um pouco mais mole, e melada. Os homens com um +tanto mais de dispepsia. E tudo segue. Tivemos os Anarquistas. A +princesa de Carman abalou com um acrobata do Circo de Inverno... +E--e voilà!<br> + + + +<br> + + +--Dornan? --Continua... Não o encontrei mais desde o 202. +Mas vejo às vezes o nome dele, no <i>Boulevard</i>, com +versos preciosos, obscenidades muito apuradas, muito subtis.<br> + + +<br> + + +--E o Psicólogo?... Ora, como se chamava ele?...<br> + + +--Continua também. Sempre com as feminices a três +francos e cinquenta... Duquesas em camisa, almas nuas... Coisas que +se vendem bem!<br> + + +<br> + + +Mas quando eu, encantado, ia indagar de Todelle, do +Grão-Duque, o comboio entrou na estação de +Biarritz:--e rapidamente, apanhando o paletó e os jornais, +depois de me apertar a mão, o delicioso Marizac saltou pela +portinhola, que o seu criado abrira, gritando:<br> + + + +<br> + + +--Até Paris!... Sempre rue Cambori.<br> + + +<br> + + +Então, no compartimento solitário, bocejei, com uma +estranha sensação de monotonia, de saciedade, como +cercado já de gentes <span class="pagenum">[361]</span>muito +vistas, murmurando histórias muito sabidas, e coisas muito +ditas, através de sorrisos estafados. Dos dois lados do +comboio era a longa planície monótona, sem variedade, +muito miudamente cultivada, muito miudamente retalhada, de um verde +de reseda, verde cinzento e apagado, onde nenhum lampejo, nem tom +alegre de flor, nem acidente do solo, desmanchavam a mediocridade +discreta e ordeira. Pálidos choupos, em renques pautados e +finos, bordavam canaizinhos muito direitos e claros. Os casais, +todos da mesma cor pardacenta, mal se elevavam do solo, mal se +destacavam da verdura desbotada, como encolhidos na sua +mediocridade e cautela. E o céu, por cima, liso, sem uma +nuvem, com um sol descorado, parecia um vasto espelho muito lavado +a grande água, até que de todo se lhe safasse o +esmalte e o brilho. Adormeci numa doce insipidez.<br> + + + +<br> + + +Com que linda manhã de Maio entrei em Paris! Tão +fresca e fina, e já macia, que, apesar de cansado, mergulhei +com repugnância no profundo, sombrio leito do Grand-Hotel, +todo fechado de espessos veludos, grossos cordões, pesadas +borlas, como um palanque de gala. Nessa profunda cova de penas +sonhei que em Tormes se construíra uma Torre Eiffel e que em +volta dela as senhoras da Serra, <span class="pagenum">[362]</span>as mais respeitáveis, a própria +tia Albergaria, dançavam, nuas, agitando no ar saca-rolhas +imensos. Com as comoções deste pesadelo, e depois o +banho, e o desemalar da mala, já se acercavam as duas horas +quando enfim emergi do grande portão, pisei, ao cabo de +cinco anos, o Boulevard. E imediatamente me pareceu que todos esses +cinco anos eu ali permanecera à porta do Grand-Hotel, +tão estafadamente conhecido me era aquele estridente rolar +da cidade, e as magras árvores, e as grossas tabuletas, e os +imensos chapéus emplumados sobre tranças pintadas de +amarelo, e as empertigadas sobrecasacas com grossas rosetas da +legião de honra, e os garotos, em voz rouca e baixa, +oferecendo baralhos de cartas obscenas, caixas de fósforos +obscenas... Santo Deus! pensei, há que anos eu estou em +Paris! Comprei então, num quiosque, um jornal, a Voz de +Paris, para que ele me contasse, durante o almoço, as novas +da Cidade. A mesa do quiosque desaparecia, alastrada de jornais +ilustrados:--e em todos se repetia a mesma mulher, sempre nua, ou +meia despida, ora mostrando as costelas magras, de gata faminta, +ora voltando para o Leitor duas tremendas nádegas... Eu +outra vez murmurei:--Santo Deus! No Café da Paz, o criado +lívido, e com um resto de pó de arroz <span class="pagenum">[363]</span>sobre a sua lividez, aconselhou ao meu +apetite, por ser tão tarde, um linguado frito e uma +costeleta.<br> + + + +<br> + + +--E que vinho, Sr. Conde?<br> + + +<br> + + +--Chablis, Sr. Duque!<br> + + +<br> + + +Ele sorriu à minha deliciosa pilhéria,--e eu abri, +contente, a Voz de Paris. Na primeira coluna, através de uma +prosa muito retorcida, toda em brilhos de jóia barata, +entrevi uma Princesa nua, e um Capitão de Dragões, +que soluçava. Saltei a outras colunas, onde se contavam +feitos de cocottes de nomes sonoros. Na outra página +escritores eloquentes celebravam vinhos digestivos e +tónicos. Depois eram os crimes do costume.--Não +há nada de novo! Pus de parte a Voz de Paris,--e +então foi, entre mim e o linguado, uma luta pavorosa. O +miserável, que se frigira rancorosamente contra mim, +não consentia que eu descolasse da sua espinha uma febra +escassa. Todo ele se ressequira numa sola impenetrável e +tostada, onde a faca vergava, impotente e trémula. Gritei +pelo moço lívido, o qual, com faca mais rija, +fincando no soalho os sapatos de fivela, arrancou enfim + +àquele malvado duas tirinhas, finas e curtas como palitos, +que engoli juntas, e me esfomearam. De uma garfada findei a +costeleta. E paguei quinze francos com um bom luís de ouro. +No troco, que o <span class="pagenum">[364]</span>moço me +deu, com a polidez requintada de uma civilização +muito difundida, havia dois francos falsos. E por aquela doce tarde +de Maio saí para tomar no terraço um café cor +de chapéu coco, que sabia a fava.<br> + + +<br> + + +Com o charuto aceso contemplei o Boulevard, àquela hora em +toda a pressa e estridor da sua grossa sociabilidade. A densa +torrente dos ónibus, calhambeques, carroças, parelhas +de luxo, rolava vivamente, como toda uma escura humanidade +formigando entre patas e rodas, numa pressa inquieta. Aquele +movimento continuado e rude bem depressa entonteceu este +espírito, por cinco anos afeito à + +quietação das serras imutáveis. Tentava +então, puerilmente, repousar nalguma forma imóvel, +ónibus parado, fiacre que estacara, num brusco escorregar da +pileca: mas logo algum dorso apressado se encafuava pela portinhola +da tipóia, ou um cacho de figuras escuras trepava +sofregamente para o ónibus:--e, rápido, +recomeçava o rolar retumbante. Imóveis, de certo, +estavam os altos prédios hirtos, ribas de pedra e cal, que +continham, disciplinavam, aquela torrente ofegante. Mas da rua aos +telhados, em cada varanda, por toda a fachada, eram tabuletas +encimando tabuletas, que outras tabuletas apertavam:--e mais me +cansava o perceber <span class="pagenum">[365]</span>a tenaz +incessância do trabalho latente, a devorante canseira do +lucro, arquejante por trás das frontarias decorosas e mudas. +Então, enquanto fumava o meu charuto, estranhamente se +apossaram de mim os sentimentos que Jacinto outrora experimentara +no meio da Natureza, e que tanto me divertiam. Ali, à porta +do café, entre a indiferença e a pressa da Cidade, +também eu senti, como ele no campo, a vaga tristeza da minha +fragilidade e da minha solidão. Bem certamente estava ali +como perdido num mundo, que me não era fraternal. Quem me +conhecia? Quem se interessaria por Zé Fernandes? Se eu +sentisse fome, e o confessasse, ninguém me daria metade do +seu pão. Por mais aflitamente que a minha face revelasse uma +angústia, ninguém na sua pressa pararia para me +consolar. De que me serviriam também as excelências de +alma, que só na alma florescem? Se eu fosse um santo, aquela +turba não se importaria com a minha santidade; e se eu +abrisse os braços e gritasse, ali no +Boulevard--«ó homens, meus irmãos!» os +homens, mais ferozes que o lobo ante o Pobrezinho de Assis, ririam +e passariam indiferentes. Dois impulsos únicos, +correspondendo a duas funções únicas, parecia +estarem vivos naquela multidão,--o lucro e o gozo. Isolada +entre eles, e ao contágio <span class="pagenum">[366]</span>ambiente da sua influência, em breve a +minha alma se contrairia, se tornaria num duro calhau de +Egoísmo. Do ser que eu trouxera da Serra só restaria +em pouco tempo esse calhau, e nele, vivos, os dois apetites da +Cidade,--encher a bolsa, saciar a carne! E pouco a pouco as mesmas +exagerações de Jacinto perante a Natureza me invadiam +perante a Cidade. Aquele Boulevard ressumava para mim um bafo +mortal, extraído dos seus milhões de +micróbios. De cada porta me parecia sair um ardil para me +roubar. Em cada face, avistada à portinhola de um fiacre, +suspeitava um bandido em manobra. Todas as mulheres me pareciam +caiadas como sepulcros, tendo só podridão por dentro. +E considerava de uma melancolia funambulesca as formas de toda +aquela Multidão, a sua pressa áspera e vã, a +afectação das atitudes, as imensas plumas das +chapeletas, as expressões postiças e falsas, a pompa +dos peitos alteados, o dorso redondo dos velhos olhando as imagens +obscenas das vitrinas. Ah! tudo isto era pueril, quase +cómico da minha parte, mas é o que eu sentia no +Boulevard, pensando na necessidade de remergulhar na Serra, para +que ao seu puro ar se me despegasse a crosta da Cidade, e eu +ressurgisse humano, e Zé-Fernândico!<br> + + + +<br> + + +<span class="pagenum">[367]</span>Então, para dissipar +aquele pesadume de solidão, paguei o café e parti, +lentamente, a visitar o 202. Ao passar na Madalena, diante da +estação dos ónibus, pensei:--Que será +feito de Madame Colombe? E, oh miséria! pelo meu +miserável ser subiu uma curta e quente baforada de desejo +bruto por aquela besta suja e magra! Era o charco onde eu me +envenenara, e que me envolvia nas emanações subtis do +seu veneno. Depois, ao dobrar da rue Royale para a Praça da +Concórdia, topei com um robusto e possante homem, que +estacou, ergueu o braço, ergueu o vozeirão, num modo +de comando:<br> + + + +<br> + + +--Eh, Fernandes!<br> + + +<br> + + +O Grão-Duque! O belo Grão-Duque, de jaquetão +alvadio e chapéu tirolês cor de mel! Apertei com +gratidão reverente a mão do Príncipe, que me +reconhecera.<br> + + +<br> + + +--E Jacinto? Em Paris?...<br> + + + +<br> + + +Contei Tormes, a serra, o rejuvenescimento do nosso amigo entre a +Natureza, a minha doce prima, e os bravos pequenos, que ele trazia +às cavaleiras. O Grão-Duque encolheu os ombros, +desolado:<br> + + +<br> + + +--Oh lá, lá, lá!... Peuh! Casado, na aldeia, +com filharada... Homem perdido! Ora não há!... E um +rapaz útil! que nos divertia, e tinha gosto! Aquele jantar +cor-de-rosa foi uma festa <span class="pagenum">[368]</span>linda... Não se fez, não se +tornou a fazer nada tão brilhante em Paris... E Madame +d'Oriol... Ainda há dias a vi no Palácio de Gelo... +Potável, mulher ainda muito potável... Não + +é todavia o meu género... Adocicada, leitosa, +pomadada, neve à la vanille!... Ora esse Jacinto!...<br> + + +<br> + + +--E Vossa Alteza, em Paris com demora?<br> + + +<br> + + +O formidável homem baixou a face, franzida e +confidencial:<br> + + +<br> + + +--Nenhuma. Paris não se aguenta... Está estragado, +positivamente estragado... Nem se come! Agora é o Ernest, da +Praça Gaillon, o Ernest, que era maitre-d'hotel do Maire... +Já lá comeu? Um horror. Tudo é o Ernest, +agora! Onde se come? No Ernest. Qual! Ainda esta manhã + +lá almocei... Um horror! Uma salada Chambord... palhada, +indecentemente palhada! Não tem, não tem a +noção da salada! Paris foi! Teatros, uma estopada. +Mulheres, hui! Lambidas todas. Não há nada! Ainda +assim, num dos teatritos de Montmartre, na Roulotte, está +uma revista, que se vê: <i>Para cá as +mulheres!</i>--engraçada, bem despida... A Celestine tem uma +cantiga, meia sentimental, meia porca, o <i>Amor no +Water-Closet</i>, que diverte, tem topete... Onde está, +Fernandes?<br> + + + +<br> + + +--No Grand-Hotel, meu senhor.<br> + + +<br> + + +--Que barraca!... E o seu Rei sempre bom?<br> + + +<br> + + +<span class="pagenum">[369]</span>Curvei a cabeça:<br> + + +<br> + + +--Sua Majestade, bem.<br> + + +<br> + + +--Estimo! Pois, Fernandes, tive prazer... Esse Jacinto é que +me desola! Vá vêr a Revista... Boas pernas, a +Celestine... E tem graça o tal <i>Amor no +Water-Closet</i>.<br> + + + +<br> + + +Um rijíssimo aperto de mão,--e S. Alteza subiu +pesadamente para a vitória, ainda com um aceno +amável, que me penhorou... Excelente homem, este +Grão-Duque! Mais reconciliado com Paris, atravessei para os +Campos Elísios. Em toda a sua nobre e formosa largueza, toda +verde, com os castanheiros em flor, corriam, subindo, descendo, +velocípedes. Parei a contemplar aquela fealdade nova, estes +inumeráveis espinhaços arqueados, e gâmbias +magras, agitando-se desesperadamente sobre duas rodas. Velhos +gordos, de cachaço escarlate, pedalavam, gordamente. +Galfarros esguios, de tíbias descarnadas, fugiam numa linha +esfuziada. E as mulheres, muito pintadas, de bolero curto, +calções bufantes, giravam, mais rapidamente ainda, no +prazer equívoco da carreira, escarranchadas em hastes de +ferro. E a cada instante outras medonhas máquinas passavam, +vitórias e faétons a vapor, com uma +complicação de tubos e caldeiras, torneiras e +chaminés, rolando numa trepidação estridente e +pesada, espalhando <span class="pagenum">[370]</span>um grosso +fedor de petróleo. Segui para o 202, pensando no que diria +um grego do tempo de Fídias, se visse esta nova beleza e +graça do caminhar humano!...<br> + + + +<br> + + +No 202, o porteiro, o velho Vian, quando me reconheceu, mostrou uma +alegria enternecedora. Não se fartou de saber do casamento +de Jacinto, e daqueles queridos meninos. E era para ele uma +felicidade que eu aparecesse, justamente quando tudo se andara +limpando para a entrada da Primavera. Quando penetrei na amada casa +senti mais vivamente a minha solidão. Não restava em +toda ela nem um dos costumados aspectos que fizessem reviver a +velha camaradagem com o meu Príncipe. Logo na +antecâmara grandes lonas cobriam as tapeçarias +heróicas, e igual lona parda escondia os estofos das +cadeiras e dos muros, e as largas estantes de ébano da +Biblioteca, onde os trinta mil volumes, nobremente enfileirados +como Doutores num Concílio, pareciam separados do mundo por +aquele pano que sobre eles descera depois de finda a comédia +da sua força e da sua autoridade. No gabinete de Jacinto, de +sobre a mesa de escrita, desaparecera aquela confusão de +instrumentozinhos, de que eu perdera já a memória: e +só a Mecânica sumptuosa, por sobre peanhas e +pedestais, <span class="pagenum">[371]</span>recentemente +espanejada, reluzia, com as suas engrenagens, tubos, rodas, +rigidezes de metais, numa frieza inerte, na inactividade definitiva +das coisas desusadas, como já dispostas num Museu, para +exemplificar a instrumentação caduca de um mundo +passado. Tentei mover o telefone, que se não moveu; a mola +da electricidade não acendeu nenhum lume: todas as +forças universais tinham abandonado o serviço do 202, +como servos despedidos. E então, passeando através +das salas, realmente me pareceu que percorria um museu de +antiguidades; e que mais tarde outros homens, com uma +compreensão mais pura e exacta da Vida e da Felicidade, +percorreriam como eu, longas salas, atulhadas com os instrumentos +da Super-Civilização, e, como eu, encolheriam +desdenhosamente os ombros ante a grande Ilusão que findara, +agora para sempre inútil, arrumada como um lixo +histórico, guardada debaixo de lona.<br> + + + +<br> + + +Quando saí do 202 tomei um fiacre, subi ao Bosque de +Bolonha. E apenas rolara momentos pela avenida das Acácias, +no silêncio decoroso, unicamente cortado pelo tilintar dos +freios e pelas rodas vagarosas esmagando a areia, comecei a +reconhecer as velhas figuras, sempre com o mesmo sorriso, o mesmo +pó de arroz; as mesmas pálpebras amortecidas, +<span class="pagenum">[372]</span>os mesmos olhos farejantes, a +mesma imobilidade de cera! O romancista da <i>Couraça</i> +passou numa vitória, fixou em mim o monóculo +defumado, mas permaneceu indiferente. Os bandós negros de +Madame Verghane, tapando-lhe as orelhas, pareciam ainda mais +furiosamente negros entre a harmonia de todo o branco que a vestia, +chapéu, plumas, flores, rendas e corpete, onde o seu peito +imenso se empolava como uma onda. No passeio, sob as +Acácias, espapado em duas cadeiras, o director do + +<i>Boulevard</i> mamava o resto do seu charuto. E num grande +landeau, Madame de Trèves continuava o seu sorriso de +há cinco anos, com duas pregazinhas mais moles aos cantos +dos lábios secos.<br> + + +<br> + + +Abalei para o Grand-Hotel, bocejando,--como outrora Jacinto. E +findei o meu dia de Paris, no Teatro das Variedades, estonteado com +uma comédia muito fina, muito aclamada, toda faiscante do +mais vivo parisianismo, em que todo o enredo se enrodilhava +à volta de uma Cama, onde alternadamente se espojavam +mulheres em camisa, sujeitos gordos em ceroulas, um coronel com +papas de linhaça nas nádegas, cozinheiras de meias de +seda bordadas, e ainda mais gente, ruidosa e saltitante, a esfuziar +de cio e de pilhéria. Tomei um chá melancólico +no Julien, no meio de <span class="pagenum">[373]</span>um + +áspero e lúgubre namoro de prostitutas, fariscando a +presa. Em duas delas, de pele oleosa e cobreada, olhos +oblíquos, cabelos duros e negros como clinas, senti o +Oriente, a sua provocação felina... Interroguei o +criado, um medonho ser, de uma obesidade balofa e lívida, de +eunuco. O monstro explicou numa voz roufenha e surda:<br> + + +<br> + + +--Mulheres de Madagáscar... Foram importadas quando a +França ocupou a ilha!<br> + + +<br> + + +Arrastei então por Paris dias de imenso tédio. Ao +longo do Boulevard revi nas vitrinas todo o luxo, que já me +enfartara havia cinco anos, sem uma graça nova, uma curta +frescura de invenção. Nas livrarias, sem descobrir um +livro, folheava centenas de volumes amarelos, onde, de cada +página que ao acaso abria, se exalava um cheiro morno de +alcova e de pós- de-arroz, entre linhas trabalhadas com +efeminado arrebique, como rendas de camisas. Ao jantar, em qualquer +restaurante, encontrava, ornando e disfarçando as carnes ou +as aves, o mesmo molho, de cores e sabores de pomada, que já + +de manhã, noutro restaurante, espelhado e dourejado, me +enjoara no peixe e nos legumes. Paguei por grossos preços +garrafas do nosso adstringente e rústico vinho de Torres, +enobrecido com o título de Château isto, Château +aquilo, e pó postiço no <span class="pagenum">[374]</span>gargalo. À noite, nos teatros, +encontrava a Cama, a costumada cama, como centro e único fim +da vida, atraindo, mais fortemente que o monturo atrai os +moscardos, todo um enxame de gentes, estonteadas, frementes de +erotismo, zumbindo chacotas senis. Esta sordidez da Planície +me levou a procurar melhor aragem de espírito nas alturas da +Colina, em Montmartre; e aí, no meio de uma multidão +elegante de Senhoras, de Duquesas, de Generais, de todo o alto +pessoal da Cidade, eu recebia, do alto do palco, grossos jorros de +obscenidades, que faziam estremecer de gozo as orelhas cabeludas de +gordos banqueiros, e arfar com delícia os corpetes de Worms +e de Doucet, sobre os peitos postiços das nobres damas. E +recolhia enjoado com tanto relento de Alcova, vagamente +dispéptico com os molhos de pomada do jantar, e sobretudo +descontente comigo, por me não divertir, não +compreender a Cidade, e errar através dela e da sua +Civilização Superior, com a reserva ridícula +de um Censor, de um Catão austero. Oh +senhores!--pensava,--pois eu não me divertirei nesta +deliciosa Cidade? Entrará comigo o bolor da velhice?<br> + + + +<br> + + +Passei as pontes, que separam em Paris o Temporal do Espiritual, +mergulhei no meu doce Bairro Latino, evoquei, diante de certos +<span class="pagenum">[375]</span>cafés, a memória da +minha Nini; e, como outrora, preguiçosamente, subi as +escadas da Sorbonne. Num anfiteatro, onde sentira um grosso +sussurro, um homem magro, com uma testa muito branca e larga, como +talhada para alojar pensamentos altos e puros, ensinava, falando +das instituições da Cidade Antiga. Mas, mal eu +entrara, o seu dizer elegante e límpido foi sufocado por +gritos, urros, patadas, um tumulto rancoroso de troça +bestial, que saía da mocidade apinhada nos bancos, a +mocidade das Escolas, Primavera sagrada, em que eu fora flor +murcha. O Professor parou, espalhando em redor um olhar frio, e +remexendo as suas notas. Quando o grosso grunhido se moderou em +sussurro desconfiado, ele recomeçou com alta serenidade. +Todas as suas ideias eram frias e substanciais, expressas numa +língua pura e forte; mas, imediatamente, rompe uma furiosa +rajada de apitos, uivos, relinchos, cacarejos de galo, por entre +magras mãos, que se estendiam levantadas para estrangular as +ideias. Ao meu lado um velho, encolhido na alta gola de um +macfrelane de xadrezes, contemplava o tumulto com melancolia, +pingando endefluxado. Perguntei ao velho:<br> + + +<br> + + +--Que querem eles? É embirração com o +professor... é política?<br> + + + +<br> + + +<span class="pagenum">[376]</span>O velho abanou a cabeça, +espirrando:<br> + + +<br> + + +--Não... É sempre assim, agora, em todos os cursos... +Não querem ideias... Creio que queriam cançonetas. +É o amor da porcaria e da troça.<br> + + +<br> + + + +Então, indignado, berrei:<br> + + +<br> + + +--Silêncio, brutos!<br> + + +<br> + + +E eis que um abortozinho de rapaz, amarelado e sebento, de longas +melenas, umas enormes lunetas rebrilhantes, se arrebita, me fita, e +me berra:<br> + + +<br> + + +--<i>Sale Maure!</i><br> + + +Ergui o meu grosso punho serrano,--e o desgraçado, numa +confusão de melenas, com sangue por toda a face, aluiu, como +um montão de trapos moles, ganindo desesperadamente, +enquanto o furacão de uivos e cacarejos, guinchos e silvos, +envolvia o Professor, que cruzara os braços, esperando, com +uma serenidade simples.<br> + + + +<br> + + +Desde esse momento decidi abandonar a fastidiosa Cidade; e o +único dia alegre e divertido que nela passei foi o +derradeiro, comprando para os meus queridinhos de Tormes brinquedos +consideráveis, tremendamente complicados pela +Civilização,--vapores de aço e cobre, providos +de caldeiras para viajar em tanques; leões de pele +verídica rugindo pavorosamente, bonecas vestidas +<span class="pagenum">[377]</span>pela Laferrière, com +fonógrafo no ventre...<br> + + +<br> + + +Finalmente abalei uma tarde, depois de lançar da minha +janela, sobre o Boulevard, as minhas despedidas à + +Cidade:<br> + + +<br> + + +--Pois adeusinho, até nunca mais! Na lama do teu +vício e na poeira da tua vaidade, outra vez, não me +pilhas! O que tens de bom, que é o teu génio, +elegante e claro, lá o receberei na Serra pelo correio. +Adeusinho!<br> + + +<br> + + +Na tarde do seguinte Domingo, debruçado da janela do +comboio, que vagarosamente deslizava pela borda do rio lento, num +silêncio todo feito de azul e sol, avistei, na plataforma da +quieta estação da minha aldeia, os Senhores de +Tormes, com a minha afilhada Teresa, muito vermelha, arregalando os +seus soberbos olhos, e o bravo Jacintinho, que empunhava uma +bandeira branca. O alvoroço ditoso com que abracei e beijei +aquela tribo bem amada conviria perfeitamente a quem voltasse vivo +de uma guerra distante, na Tartária. Na alegria de recuperar +a Serra, até beijoquei o chefe Pimentinha, que a estalar de +obesidade se açodava gritando ao carregador todo o cuidado +com as minhas malas.<br> + + + +<br> + + +Jacinto, magnífico, de grande chapéu serrano e +jaqueta, de novo me abraçou:<br> + + +<br> + + +--E esse Paris?<br> + + +<br> + + +<span class="pagenum">[378]</span>--Medonho!<br> + + +<br> + + +Abri depois os braços para o bravo Jacintinho.<br> + + + +<br> + + +--Então para que é essa bandeira, meu cavaleiro?<br> + + +<br> + + +--É a bandeira do Castelo! declarou ele, com uma bela +seriedade nos seus grandes olhos.<br> + + +<br> + + +A mãe ria. Desde essa manhã, logo que soubera da +chegada do Ti-Zé, apareceu de bandeira, feita pelo Grilo, e +não a largara mais; com ela almoçara, com ela descera +de Tormes!<br> + + + +<br> + + +--Bravo! E, prima Joaninha, olhe que está magnífica! +Eu, também, venho daquelas peles meladas de Paris... Mas +acho-a triunfal! E o tio Adrião, e a tia Vicência?<br> + + +<br> + + +--Tudo óptimo! gritou Jacinto. A serra, Deus louvado, +prospera. E agora, para cima! Tu hoje ficas em Tormes. Para contar +da Civilização.<br> + + +<br> + + +No largo por trás da estação, debaixo dos +eucaliptos, que revi com gosto, esperavam os três cavalos, e +dois belos burros brancos, um com cadeirinha para a Teresa, outro +com um cesto de verga, para meter dentro o heróico +Jacintinho, um e outro servidos à estribeira por um criado. +Eu ajudara a prima Joaninha a montar, quando o carregador + +<span class="pagenum">[379]</span>apareceu com um maço de +jornais e papéis, que eu esquecera na carruagem. Era uma +papelada, de que me sortira na Estação de Orleans, +toda recheada de mulheres nuas, de historietas sujas, de +parisianismo, de erotismo. Jacinto, que as reconhecera, gritou +rindo:<br> + + +<br> + + +--Deita isso fora!<br> + + +<br> + + +E eu atirei, para um montão de lixo, ao canto do +Pátio, aquele pútrido rebotalho da +Civilização. E montei. Mas ao dobrar para o caminho +empinado da serra, ainda me voltei, para gritar adeus ao Pimenta, +de quem me esquecera. O digno chefe, debruçado sobre o +monturo, apanhava, sacudia, recolhia com amor aquelas belas +estampas, que chegavam de Paris, contavam as delícias de +Paris, derramavam através do mundo a sedução +de Paris.<br> + + + +<br> + + +Em fila começámos a subir para a Serra. A tarde +adoçava o seu esplendor de estio. Uma aragem trazia, como +ofertados, perfumes das flores silvestres. As ramagens moviam, com +um aceno de doce acolhimento, as suas folhas vivas e reluzentes. +Toda a passarinhada cantava, num alvoroço de alegria e de +louvor. As águas correntes, saltantes, luzidias, despediam +um brilho mais vivo, numa pressa mais animada. Vidraças +distantes de casas <span class="pagenum">[380]</span>amáveis, flamejavam com um fulgor de +ouro. A serra toda se ofertava, na sua beleza eterna e verdadeira. +E, sempre adiante da nossa fila, por entre a verdura, flutuava no +ar a bandeira branca, que o Jacintinho não largava, de +dentro do seu cesto, com a haste bem segura na mão. Era <i>a +bandeira do Castelo</i>, afirmara ele.<br> + + +<br> + + +E na verdade me parecia que, por aqueles caminhos, através +da natureza campestre e mansa,--o meu Príncipe, atrigueirado +nas soalheiras e nos ventos da serra, a minha prima Joaninha, +tão doce e risonha mãe, os dois primeiros +representantes da sua abençoada tribo, e eu--, tão +longe de amarguradas ilusões e de falsas delícias, +trilhando um solo eterno, e de eterna solidez, com a alma contente, +e Deus contente de nós, serenamente e seguramente +subíamos--para o Castelo da Grã-Ventura!<br> + + + +<br> + + +<br> + + +<div class="c2">Fim</div> + + +<br> + + +<br> + + +<br> + + +<h2>ADVERTÊNCIA</h2> + + +<br> + + +<br> + + +Desde a página 241, até o final, as provas deste +livro não foram revistas pelo autor, arrebatado pela morte +antes de haver dado a esta parte da sua escrita aquela + +última demão, em que habitualmente ele punha a +diligência mais perseverante e mais admiravelmente +lúcida.<br> + + +<br> + + +Aquele dos seus amigos e companheiro de letras, a quem foi confiado +o trabalho delicado e piedoso de tocar no manuscrito póstumo +de Eça de Queirós, ao concluir o desempenho de tal +missão, beija com o mais enternecido e saudoso respeito a +mão, para todo sempre imobilizada, que traçou estas +páginas encantadoras; e faz votos por que a revisão +de que se incumbiu não deslustre muito grosseiramente a +imortal auréola com que ficará resplandecendo na +literatura portuguesa este livro, em que o espírito do +grande escritor parece exalar-se da vida num terno suspiro de +doçura, de paz, e de puro amor à terra da sua +pátria.<br> + + + +<br> + + +24 de Abril de 1901.<br> + + +<br> + + +<br> + + +<table class="c7" border="0" cellpadding="4" cellspacing="4"> + + + <tbody> + + + <tr align="center"> + + + <td class="c9" colspan="4" rowspan="1"><b>LIVRARIA CHARDRON de +Lello & Irmão<br> + + </b> 96--CLÉRIGOS--98 + + <hr></td> + + + </tr> + + + + <tr> + + + <td class="c10"><b>Basílio Teles<br> + + </b> O problema +agrícola</td> + + + <td class="c11">$600</td> + + + <td class="c12"><b>Lermina</b><br> + + +Filho do Monte Cristo, 2 volumes</td> + + + <td class="c13">1$000</td> + + + </tr> + + + <tr> + + + + <td class="c10">Estudos históricos e económicos</td> + + + <td class="c14">$600</td> + + + <td class="c12"></td> + + + <td class="c15"></td> + + + </tr> + + + <tr> + + + <td class="c10"> + + <div class="c16"><i>No prelo</i>:</div> + + + </td> + + + <td class="c14"></td> + + + <td class="c12"><b>Eugénio Sue</b><br> + + + +Mistérios de Paris, 3 volumes cart. </td> + + + <td class="c13">2$000</td> + + + </tr> + + + <tr> + + + <td class="c10">Introdução ao problema do trabalho +nacional.</td> + + + <td class="c14"></td> + + + <td class="c12"></td> + + + <td class="c15"></td> + + + </tr> + + + <tr> + + + <td class="c10"></td> + + + <td class="c14"></td> + + + + <td class="c12"><b>Zola</b><br> + + +Naná</td> + + + <td class="c17">$500</td> + + + </tr> + + + <tr> + + + <td class="c10"><b>Abel Botelho<br> + + </b> O barão de +Lavos</td> + + + <td class="c11">$800</td> + + + <td class="c18">História da lavadeira Gervásia, 2 +vols</td> + + + + <td class="c17">1$000</td> + + + </tr> + + + <tr> + + + <td class="c10">O livro de Alda</td> + + + <td class="c14">$800</td> + + + <td class="c12">O Capitão Burle</td> + + + <td class="c19">$500</td> + + + </tr> + + + <tr> + + + <td class="c10">Sem remédio...</td> + + + + <td class="c14">$500</td> + + + <td class="c12">Ventre de Paris, 2 vols</td> + + + <td class="c19">1$000</td> + + + </tr> + + + <tr> + + + <td class="c10"> + + <div class="c16"><i>No prelo</i>:</div> + + + </td> + + + <td class="c14"></td> + + + <td class="c12"></td> + + + <td class="c19"></td> + + + </tr> + + + + <tr> + + + <td class="c10">Amanhã.</td> + + + <td class="c14"></td> + + + <td class="c12"><b>Arnaldo Gama</b><br> + + +Caldeira de Pero Botelho</td> + + + <td class="c20">$500</td> + + + </tr> + + + <tr> + + + <td class="c10"></td> + + + <td class="c14"></td> + + + <td class="c12">Honra ou loucura</td> + + + + <td class="c19">$500</td> + + + </tr> + + + <tr> + + + <td class="c10"><b>José Caldas<br> + + </b> Humildes</td> + + + <td class="c11">$400</td> + + + <td class="c21">Filho do Baldaia</td> + + + <td class="c22">$600</td> + + + </tr> + + + + <tr> + + + <td class="c10">Os Jesuítas; a sua influência na +actual sociedade portuguesa; meio de a conjurar </td> + + + <td class="c23"><i>no prelo</i></td> + + + <td class="c12"></td> + + + <td class="c19"></td> + + + </tr> + + + <tr> + + + <td class="c10"></td> + + + <td class="c14"></td> + + + <td class="c12"><b>Bruno</b><br> + + +O Brasil mental</td> + + + + <td class="c20">$800</td> + + + </tr> + + + <tr> + + + <td class="c10"><b>Sílvio Romero<br> + + </b> Martins Pena</td> + + + <td class="c11">$400</td> + + + <td class="c21">Notas do exílio<br> + + +História da Prostituição</td> + + + + <td class="c24">$500<br> + + +1$800</td> + + + </tr> + + + <tr> + + + <td class="c10"></td> + + + <td class="c14"></td> + + + <td class="c12"> + + <hr></td> + + + <td class="c22"><br> + + </td> + + + </tr> + + + <tr> + + + <td class="c10"><b>Rebelo da Silva<br> + + </b> Mocidade de D. +João V.</td> + + + + <td class="c11">1$500</td> + + + <td class="c12"><b>Camilo Castelo Branco</b><br> + + +Maria da Fonte</td> + + + <td class="c19">$500</td> + + + </tr> + + + <tr> + + + <td class="c10"></td> + + + <td class="c14"></td> + + + <td class="c12">Livro de consolação</td> + + + <td class="c19">$500</td> + + + + </tr> + + + <tr> + + + <td class="c10"><b>Andrade Corvo<br> + + </b> Um anno na corte</td> + + + <td class="c11">1$500</td> + + + <td class="c12">D. Luís de Portugal<br> + + +Brasileira de Prazins</td> + + + <td class="c19">$300<br> + + +$500</td> + + + + </tr> + + + <tr> + + + <td class="c10"><br> + + </td> + + + <td class="c14"></td> + + + <td class="c12">Eusébio Macário</td> + + + <td class="c19">$500</td> + + + </tr> + + + <tr> + + + <td class="c10"><b>António C. Lousada<br> + + </b> Rua +escura</td> + + + + <td class="c14">$500</td> + + + <td class="c12">Vulcões da lama<br> + + +Carta de guia de casados</td> + + + <td class="c19">$500<br> + + +$300</td> + + + </tr> + + + <tr> + + + <td class="c10">Na consciência</td> + + + <td class="c14">$500</td> + + + + <td class="c12"><br> + + </td> + + + <td class="c19"></td> + + + </tr> + + + <tr> + + + <td class="c10"></td> + + + <td class="c9"></td> + + + <td class="c12"><b>Grainha</b><br> + + +Jesuítas</td> + + + <td class="c17">$600</td> + + + </tr> + + + <tr> + + + <td class="c10"><b>Dumas<br> + + </b> Jorge ou o capitão dos +piratas</td> + + + + <td class="c11">$500</td> + + + <td class="c12"><b><br> + + </b></td> + + + <td class="c19"><br> + + </td> + + + </tr> + + + <tr> + + + <td class="c10">Três mosqueteiros, 2 volumes</td> + + + <td class="c14">1$000</td> + + + <td class="c12"><b>Tolstoi</b><br> + + +A Sonata de Kreutzer</td> + + + <td class="c17">$400<br> + + </td> + + + + </tr> + + + + </tbody> +</table> + + +</div> + + +<pre> + + End of Project Gutenberg's A Cidade e as Serras, by José Maria Eça de Queirós + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A CIDADE E AS SERRAS *** + +Produced by Manuela Alves and Ricardo F. Diogo + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. Special rules, +set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to +copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to +protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project +Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you +charge for the eBooks, unless you receive specific permission. If you +do not charge anything for copies of this eBook, complying with the +rules is very easy. You may use this eBook for nearly any purpose +such as creation of derivative works, reports, performances and +research. They may be modified and printed and given away--you may do +practically ANYTHING with public domain eBooks. Redistribution is +subject to the trademark license, especially commercial +redistribution. + + + +*** START: FULL LICENSE *** + +THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE +PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK + +To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free +distribution of electronic works, by using or distributing this work +(or any other work associated in any way with the phrase "Project +Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full Project +Gutenberg-tm License (available with this file or online at +http://gutenberg.org/license). + + +Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg-tm +electronic works + +1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm +electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to +and accept all the terms of this license and intellectual property +(trademark/copyright) agreement. If you do not agree to abide by all +the terms of this agreement, you must cease using and return or destroy +all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your possession. +If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a Project +Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the +terms of this agreement, you may obtain a refund from the person or +entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8. + +1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be +used on or associated in any way with an electronic work by people who +agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few +things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works +even without complying with the full terms of this agreement. See +paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project +Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement +and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic +works. See paragraph 1.E below. + +1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation" +or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project +Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the +collection are in the public domain in the United States. If an +individual work is in the public domain in the United States and you are +located in the United States, we do not claim a right to prevent you from +copying, distributing, performing, displaying or creating derivative +works based on the work as long as all references to Project Gutenberg +are removed. 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INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the<br>trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone<br>providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance<br>with this agreement, and any volunteers associated with the production,<br>promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works,<br>harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,<br>that arise directly or indirectly from any of the following which you do<br>or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm<br>work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any<br>Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.<br><br><br>Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm<br><br>Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of<br>electronic works in formats readable by the widest variety of computers<br>including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists<br>because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from<br>people in all walks of life.<br><br>Volunteers and financial support to provide volunteers with the<br>assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's<br>goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will<br>remain freely available for generations to come. In 2001, the Project<br>Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure<br>and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.<br>To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation<br>and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4<br>and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.<br><br><br>Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive<br>Foundation<br><br>The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit<br>501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the<br>state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal<br>Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification<br>number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at<br>http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg<br>Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent<br>permitted by U.S. federal laws and your state's laws.<br><br>The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.<br>Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered<br>throughout numerous locations. Its business office is located at<br>809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email<br>business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact<br>information can be found at the Foundation's web site and official<br>page at http://pglaf.org<br><br>For additional contact information:<br> Dr. Gregory B. Newby<br> Chief Executive and Director<br> gbnewby@pglaf.org<br><br><br>Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg<br>Literary Archive Foundation<br><br>Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide<br>spread public support and donations to carry out its mission of<br>increasing the number of public domain and licensed works that can be<br>freely distributed in machine readable form accessible by the widest<br>array of equipment including outdated equipment. Many small donations<br>($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt<br>status with the IRS.<br><br>The Foundation is committed to complying with the laws regulating<br>charities and charitable donations in all 50 states of the United<br>States. Compliance requirements are not uniform and it takes a<br>considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up<br>with these requirements. We do not solicit donations in locations<br>where we have not received written confirmation of compliance. To<br>SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any<br>particular state visit http://pglaf.org<br><br>While we cannot and do not solicit contributions from states where we<br>have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition<br>against accepting unsolicited donations from donors in such states who<br>approach us with offers to donate.<br><br>International donations are gratefully accepted, but we cannot make<br>any statements concerning tax treatment of donations received from<br>outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.<br><br>Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation<br>methods and addresses. Donations are accepted in a number of other<br>ways including checks, online payments and credit card donations.<br>To donate, please visit: http://pglaf.org/donate<br><br><br>Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic<br>works.<br><br>Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm<br>concept of a library of electronic works that could be freely shared<br>with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project<br>Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.<br><br><br>Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed<br>editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.<br>unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily<br>keep eBooks in compliance with any particular paper edition.<br><br><br>Most people start at our Web site which has the main PG search facility:<br><br> http://www.gutenberg.org<br><br>This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,<br>including how to make donations to the Project Gutenberg Literary<br>Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to<br>subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.<br><br></pre> + + +</body> +</html> |
