summaryrefslogtreecommitdiff
path: root/old/modern/cidade-8.txt
diff options
context:
space:
mode:
Diffstat (limited to 'old/modern/cidade-8.txt')
-rw-r--r--old/modern/cidade-8.txt8769
1 files changed, 8769 insertions, 0 deletions
diff --git a/old/modern/cidade-8.txt b/old/modern/cidade-8.txt
new file mode 100644
index 0000000..2b67db9
--- /dev/null
+++ b/old/modern/cidade-8.txt
@@ -0,0 +1,8769 @@
+Project Gutenberg's A Cidade e as Serras, by José Maria Eça de Queirós
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: A Cidade e as Serras
+
+Author: José Maria Eça de Queirós
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A CIDADE E AS SERRAS ***
+
+
+
+Produced by Manuela Alves and Ricardo F. Diogo; Nota dos transcritores:
+Actualização ortográfica da versão original, já disponível no Project Gutenberg
+
+
+
+
+EÇA DE QUEIRÓS
+
+A CIDADE E AS SERRAS
+
+
+PORTO
+
+LIVRARIA CHARDRON
+
+De Lello & Irmão, editores
+
+1901
+
+Todos os direitos reservados
+
+
+
+
+EÇA DE QUEIRÓS
+
+A CIDADE E AS SERRAS
+
+
+PORTO
+
+LIVRARIA CHARDRON
+
+De Lello & Irmão, editores
+
+1901
+
+Todos os direitos reservados
+
+
+
+
+Pertence no Brasil o direito de propriedade desta obra ao cidadão
+Francisco Alves, livreiro editor no Rio de Janeiro, que, para a garantia
+que lhe oferece a lei n.^o 496 de 1 de Agosto de 1898, fez o competente
+depósito na Biblioteca Nacional, segundo a determinação do art. 13.^o
+da mesma Lei.
+
+
+_Porto--Imprensa Moderna_
+
+
+
+
+[Figura de Eça de Queirós]
+
+
+
+
+A CIDADE E AS SERRAS
+
+
+
+
+Obras do mesmo autor:
+
+
+*Revista de Portugal.* 4 grossos volumes 12$000
+
+*As minas de Salomão.* 1 volume $600
+
+*Os Maias.* 2 grossos volumes 2$000
+
+*O crime do padre Amaro.* Terceira edição inteiramente refundida,
+recomposta, e diferente na forma e na acção da edição primitiva. 1 grosso
+volume 1$200
+
+*O primo Basílio.* Quarta edição. 1 grosso volume 1$000
+
+*A Relíquia.* 1 grosso volume 1$000
+
+*O Mandarim.* Quarta edição. 1 volume $500
+
+*Correspondência de Fradique Mendes.* 1 volume $600
+
+*A ilustre casa de Ramires.* 1 volume 1$000
+
+
+
+
+A CIDADE E AS SERRAS
+
+
+
+
+I
+
+
+O meu amigo Jacinto nasceu num palácio, com cento e nove contos de
+renda em terras de semeadura, de vinhedo, de cortiça e de olival.
+
+No Alentejo, pela Estremadura, através das duas Beiras, densas sebes
+ondulando por colina e vale, muros altos de boa pedra, ribeiras,
+estradas, delimitavam os campos desta velha família agrícola que já
+entulhava grão e plantava cepa em tempos de el-rei D. Dinis. A sua quinta
+e casa senhorial de Tormes, no Baixo Douro, cobriam uma serra. Entre o
+Tua e o Tinhela, por cinco fartas léguas, todo o torrão lhe pagava foro.
+E cerrados pinheirais seus negrejavam desde Arga até ao mar de Âncora.
+Mas o palácio onde Jacinto nascera, e onde sempre habitara, era em
+Paris, nos Campos Elísios, n.^o 202.
+
+Seu avô, aquele gordíssimo e riquíssimo Jacinto a quem chamavam em
+Lisboa o _D. Galeão_, descendo uma tarde pela travessa da Trabuqueta,
+rente de um muro de quintal que uma parreira toldava, escorregou numa
+casca de laranja e desabou no lajedo. Da portinha da horta saía nesse
+momento um homem moreno, escanhoado, de grosso casaco de baetão verde e
+botas altas de picador, que, galhofando e com uma força fácil, levantou
+o enorme Jacinto--até lhe apanhou a bengala de castão de ouro que rolara
+para o lixo. Depois, demorando nele os olhos pestanudos e pretos:
+
+--Oh Jacinto Galeão, que andas tu aqui, a estas horas, a rebolar pelas
+pedras?
+
+E Jacinto, aturdido e deslumbrado, reconheceu o Sr. Infante D. Miguel!
+
+Desde essa tarde amou aquele bom Infante como nunca amara, apesar de
+tão guloso, o seu ventre, e apesar de tão devoto o seu Deus! Na sala
+nobre da sua casa (à Pampulha) pendurou sobre os damascos o retrato do
+«seu Salvador», enfeitado de palmitos como um retábulo, e por baixo a
+bengala que as magnânimas mãos reais tinham erguido do lixo. Enquanto o
+adorável, desejado Infante penou no desterro de Viena, o barrigudo
+senhor corria, sacudido na sua sege amarela, do botequim do Zé Maria em
+Belém à botica do Plácido nos Algibebes, a gemer as saudades do
+_anjinho_, a tramar o regresso do _anjinho_. No dia, entre todos
+bendito, em que a _Pérola_ apareceu à barra com o Messias, engrinaldou
+a Pampulha, ergueu no Caneiro um monumento de papelão e lona onde D.
+Miguel, tornado S. Miguel, branco, de auréola e asas de Arcanjo, furava
+de cima do seu corcel de Alter o Dragão do Liberalismo, que se estorcia
+vomitando a Carta. Durante a guerra com o «outro, com o pedreiro livre»
+mandava recoveiros a Santo Tirso, a S. Gens, levar ao Rei fiambres,
+caixas de doce, garrafas do seu vinho de Tarrafal, e bolsas de retrós
+atochadas de peças que ele ensaboava para lhes avivar o ouro. E quando
+soube que o Sr. D. Miguel, com dois velhos baús amarrados sobre um
+macho, tomara o caminho de Sines e do final desterro--Jacinto _Galeão_
+correu pela casa, fechou todas as janelas como num luto, berrando
+furiosamente:
+
+--Também cá não fico! também cá não fico!
+
+Não, não queria ficar na terra perversa donde partia, esbulhado e
+escorraçado, aquele Rei de Portugal que levantava na rua os Jacintos!
+Embarcou para França com a mulher, a Sr.^a D. Angelina Fafes (da tão
+falada casa dos Fafes da Avelã); com o filho, o 'Cintinho, menino
+amarelinho, molezinho, coberto de caroços e leicenços; com a aia e com
+o moleque. Nas costas da Cantábria o paquete encontrou tão rijos mares
+que a Sr.^a D. Angelina, esguedelhada, de joelhos na enxerga do
+beliche, prometeu ao Senhor dos Passos de Alcântara uma coroa
+de espinhos, de ouro, com as gotas de sangue em rubis do Pegu. Em
+Baiona, onde arribaram, 'Cintinho teve icterícia. Na estrada
+de Orleães, numa noite agreste, o eixo da berlinda em que jornadeavam
+partiu, e o nédio senhor, a delicada senhora da casa da Avelã, o
+menino, marcharam três horas na chuva e na lama do exílio até uma
+aldeia, onde, depois de baterem como mendigos a portas mudas, dormiram
+nos bancos de uma taberna. No «Hotel dos Santos Padres», em Paris,
+sofreram os terrores de um fogo que rebentara na cavalariça, sob o
+quarto de _D. Galeão_, e o digno fidalgo, rebolando pelas escadas em
+camisa, até ao pátio, enterrou o pé nu numa lasca de vidro. Então ergueu
+amargamente ao céu o punho cabeludo, e rugiu:
+
+--Irra! É de mais!
+
+Logo nessa semana, sem escolher, Jacinto _Galeão_ comprou a um
+Príncipe polaco, que depois da tomada de Varsóvia se metera frade
+cartuxo, aquele palacete dos Campos Elísios, n.^o 202. E sob o pesado
+ouro dos seus estuques, entre as suas ramalhudas sedas se enconchou,
+descansando de tantas agitações, numa vida de pachorra e de boa mesa,
+com alguns companheiros de emigração (o desembargador Nuno Velho, o conde
+de Rabacena, outros menores), até que morreu de indigestão, de uma
+lampreia de escabeche que lhe mandara o seu procurador em Montemor. Os
+amigos pensavam que a Sr.^a D. Angelina Fafes voltaria ao reino. Mas a
+boa senhora temia a jornada, os mares, as caleças que racham. E não se
+queria separar do seu Confessor, nem do seu Médico, que tão bem lhe
+compreendiam os escrúpulos e a asma.
+
+--Eu, por mim, aqui fico no 202 (declarara ela), ainda que me faz falta
+a boa água de Alcolena... O 'Cintinho, esse, em crescendo, que decida.
+
+O 'Cintinho crescera. Era um moço mais esguio e lívido que um círio, de
+longos cabelos corredios, narigudo, silencioso, encafuado em roupas
+pretas, muito largas e bambas; de noite, sem dormir, por causa da tosse
+e de sufocações, errava em camisa com uma lamparina através do 202; e
+os criados na copa sempre lhe chamavam a _Sombra_. Nessa sua mudez e
+indecisão de sombra surdira, ao fim do luto do papá, o gosto muito vivo
+de tornear madeiras ao torno: depois, mais tarde, com a melada flor dos
+seus vinte anos, brotou nele outro sentimento, de desejo e de pasmo,
+pela filha do desembargador Velho, uma menina redondinha como uma rola,
+educada num convento de Paris, e tão habilidosa que esmaltava, dourava,
+concertava relógios e fabricava chapéus de feltro. No Outono de 1851,
+quando já se desfolhavam os castanheiros dos Campos Elísios, o
+'Cintinho cuspilhou sangue. O médico, acarinhando o queixo e com uma
+ruga séria na testa imensa, aconselhou que o menino abalasse para o
+golfo Juan ou para as tépidas areias de Arcachon.
+
+'Cintinho porém, no seu aferro de sombra, não se quis arredar da
+Teresinha Velho, de quem se tornara, através de Paris, a muda, tardonha
+sombra. Como uma sombra, casou; deu mais algumas voltas ao torno; cuspiu
+um resto de sangue; e passou, como uma sombra.
+
+Três meses e três dias depois do seu enterro o meu Jacinto nasceu.
+
+ * * * * *
+
+Desde o berço, onde a avó espalhava funcho e âmbar para afugentar a
+_Sorte-Ruim_, Jacinto medrou com a segurança, a rijeza, a seiva rica
+de um pinheiro das dunas.
+
+Não teve sarampo e não teve lombrigas. As Letras, a Tabuada, o Latim
+entraram por ele tão facilmente como o sol por uma vidraça. Entre os
+camaradas, nos pátios dos colégios, erguendo a sua espada de lata e
+lançando um brado de comando, foi logo o vencedor, o Rei que se adula,
+e a quem se cede a fruta das merendas. Na idade em que se lê Balzac e
+Musset nunca atravessou os tormentos da sensibilidade;--nem crepúsculos
+quentes o retiveram na solidão de uma janela, padecendo de um desejo sem
+forma e sem nome. Todos os seus amigos (éramos três, contando o seu
+velho escudeiro preto, o Grilo) lhe conservaram sempre amizades puras e
+certas--sem que jamais a participação do seu luxo as avivasse ou fossem
+desanimadas pelas evidências do seu egoísmo. Sem coração bastante forte
+para conceber um amor forte, e contente com esta incapacidade que o
+libertava, do amor só experimentou o mel--esse mel que o amor reserva
+aos que o recolhem, à maneira das abelhas, com ligeireza, mobilidade e
+cantando. Rijo, rico, indiferente ao Estado e ao Governo dos Homens,
+nunca lhe conhecemos outra ambição além de compreender bem as Ideias
+Gerais; e a sua inteligência, nos anos alegres de escolas e
+controvérsias, circulava dentro das Filosofias mais densas como enguia
+lustrosa na água limpa de um tanque. O seu valor, genuíno, de fino
+quilate, nunca foi desconhecido, nem desapreciado; e toda a opinião, ou
+mera facécia que lançasse, logo encontrava uma aragem de simpatia e
+concordância que a erguia, a mantinha embalada e rebrilhando nas
+alturas. Era servido pelas coisas com docilidade e carinho;--e não
+recordo que jamais lhe estalasse um botão da camisa, ou que um papel
+maliciosamente se escondesse dos seus olhos, ou que ante a sua
+vivacidade e pressa uma gaveta pérfida emperrasse. Quando um dia, rindo
+com descrido riso da Fortuna e da sua Roda, comprou a um sacristão
+espanhol um Décimo de Lotaria, logo a Fortuna, ligeira e ridente sobre
+a sua Roda, correu num fulgor, para lhe trazer quatrocentas mil
+pesetas. E no céu as Nuvens, pejadas e lentas, se avistavam Jacinto sem
+guarda-chuva, retinham com reverência as suas águas até que ele
+passasse... Ah! o âmbar e o funcho da Sr.^a D. Angelina tinham
+escorraçado do seu destino, bem triunfalmente e para sempre, a
+_Sorte-Ruim_! A amorável avó (que eu conheci obesa, com barba) costumava
+citar um soneto natalício do desembargador Nunes Velho contendo um verso
+de boa lição:
+
+ Sabei, senhora, que esta Vida é um rio...
+
+Pois um rio de Verão, manso, translúcido, harmoniosamente estendido
+sobre uma areia macia e alva, por entre arvoredos fragrantes e ditosas
+aldeias, não ofereceria àquele que o descesse num barco de cedro, bem
+toldado e bem almofadado, com frutas e Champanhe a refrescar em gelo,
+um Anjo governando ao leme, outros Anjos puxando à sirga, mais segurança
+e doçura do que a Vida oferecia ao meu amigo Jacinto.
+
+Por isso nós lhe chamávamos «o Príncipe da Grã-Ventura»!
+
+ * * * * *
+
+Jacinto e eu, José Fernandes, ambos nos encontrámos e acamaradámos em
+Paris, nas Escolas do Bairro Latino--para onde me mandara meu bom tio
+Afonso Fernandes Lorena de Noronha e Sande, quando aqueles malvados me
+riscaram da Universidade por eu ter esborrachado, numa tarde de
+procissão, na Sofia, a cara sórdida do dr. Pais Pita.
+
+Ora nesse tempo Jacinto concebera uma Ideia... Este Príncipe concebera
+a Ideia de que «o homem só é superiormente feliz quando é superiormente
+civilizado». E por homem civilizado o meu camarada entendia aquele que,
+robustecendo a sua força pensante com todas as noções adquiridas desde
+Aristóteles, e multiplicando a potência corporal dos seus órgãos com
+todos os mecanismos inventados desde Terâmenes, criador da roda, se
+torna um magnífico Adão, quase omnipotente, quase omnisciente, e apto
+portanto a recolher dentro de uma sociedade e nos limites do Progresso
+(tal como ele se comportava em 1875) todos os gozos e todos os
+proveitos que resultam de Saber e de Poder... Pelo menos assim Jacinto
+formulava copiosamente a sua Ideia, quando conversávamos de fins e
+destinos humanos, sorvendo bocks poeirentos, sob o toldo das cervejarias
+filosóficas, no Boulevard Saint-Michel.
+
+Este conceito de Jacinto impressionara os nossos camaradas de cenáculo,
+que tendo surgido para a vida intelectual, de 1866 a 1875, entre a
+batalha de Sadova e a batalha de Sedan, e ouvindo constantemente, desde
+então, aos técnicos e aos filósofos, que fora a Espingarda-de-Agulha
+que vencera em Sadova e fora o Mestre-de-Escola quem vencera em Sedan,
+estavam largamente preparados a acreditar que a felicidade dos
+indivíduos, como a das nações, se realiza pelo ilimitado
+desenvolvimento da Mecânica e da Erudição. Um desses moços mesmo, o
+nosso inventivo Jorge Carlande, reduzira a teoria de Jacinto, para lhe
+facilitar a circulação e lhe condensar o brilho, a uma forma algébrica:
+
+Suma ciência}
+ X }= Suma felicidade
+Suma potência}
+
+E durante dias, do Odeon à Sorbona, foi louvada pela mocidade positiva
+a _Equação Metafísica de Jacinto_.
+
+Para Jacinto, porém, o seu conceito não era meramente metafísico e
+lançado pelo gozo elegante de exercer a razão especulativa:--mas
+constituía uma regra, toda de realidade e de utilidade, determinando a
+conduta, modalizando a vida. E já a esse tempo, em concordância com o
+seu preceito--ele se surtira da _Pequena Enciclopédia dos Conhecimentos
+Universais_ em setenta e cinco volumes e instalara, sobre os telhados
+do 202, num mirante envidraçado, um telescópio. Justamente com esse
+telescópio me tornou ele palpável a sua ideia, numa noite de Agosto,
+de mole e dormente calor. Nos céus remotos lampejavam relâmpagos
+lânguidos. Pela Avenida dos Campos Elísios, os fiacres rolavam para as
+frescuras do Bosque, lentos, abertos, cansados, transbordando de
+vestidos claros.
+
+--Aqui tens tu, Zé Fernandes, (começou Jacinto, encostado à janela do
+mirante) a teoria que me governa, bem comprovada. Com estes olhos que
+recebemos da Madre natureza, lestos e sãos, nós podemos apenas
+distinguir além, através da Avenida, naquela loja, uma vidraça
+alumiada. Mais nada! Se eu porém aos meus olhos juntar os dois vidros
+simples de um binóculo de corridas, percebo, por trás da vidraça,
+presuntos, queijos, boiões de geleia e caixas de ameixa seca. Concluo
+portanto que é uma mercearia. Obtive uma noção; tenho sobre ti, que com
+os olhos desarmados vês só o luzir da vidraça, uma vantagem positiva. Se
+agora, em vez destes vidros simples, eu usasse os do meu telescópio, de
+composição mais científica, poderia avistar além, no planeta Marte, os
+mares, as neves, os canais, o recorte dos golfos, toda a geografia
+de um astro que circula a milhares de léguas dos Campos Elísios. É outra
+noção, e tremenda! Tens aqui pois o olho primitivo, o da Natureza,
+elevado pela Civilização à sua máxima potência de visão. E desde já,
+pelo lado do olho portanto, eu, civilizado, sou mais feliz que o
+incivilizado, porque descubro realidades do Universo que ele não
+suspeita e de que está privado. Aplica esta prova a todos os órgãos e
+compreendes o meu princípio. Enquanto à inteligência, e à felicidade
+que dela se tira pela incansável acumulação das noções, só te peço
+que compares Renan e o Grilo... Claro é portanto que nos devemos cercar
+de Civilização nas máximas proporções para gozar nas máximas proporções
+a vantagem de viver. Agora concordas, Zé Fernandes?
+
+Não me parecia irrecusavelmente certo que Renan fosse mais feliz que o
+Grilo; nem eu percebia que vantagem espiritual ou temporal se colha em
+distinguir através do espaço manchas num astro, ou através da Avenida
+dos Campos Elísios presuntos numa vidraça. Mas concordei, porque sou
+bom, e nunca desalojarei um espírito do conceito onde ele encontra
+segurança, disciplina e motivo de energia. Desabotoei o colete, e
+lançando um gesto para o lado dos cafés e das luzes:
+
+--Vamos então beber, nas máximas proporções, _brandy and soda_, com
+gelo!
+
+Por uma conclusão bem natural, a ideia de Civilização, para Jacinto,
+não se separava da imagem de Cidade, de uma enorme Cidade, com todos os
+seus vastos órgãos funcionando poderosamente. Nem este meu
+supercivilizado amigo compreendia que longe de Armazéns servidos por
+três mil caixeiros; e de Mercados onde se despejam os vergéis e lezírias
+de trinta províncias; e de Bancos em que retine o ouro universal; e de
+Fábricas fumegando com ânsia, inventando com ânsia; e de Bibliotecas
+abarrotadas, a estalar, com a papelada dos séculos; e de fundas milhas
+de ruas, cortadas, por baixo e por cima, de fios de telégrafos, de fios
+de telefones, de canos de gases, de canos de fezes; e da fila atroante
+dos ónibus, tramways, carroças, velocípedes, calhambeques, parelhas de
+luxo; e de dois milhões de uma vaga humanidade, fervilhando, a ofegar,
+através da Polícia, na busca dura do pão ou sob a ilusão do gozo--o
+homem do século XIX pudesse saborear, plenamente, a delícia de viver!
+
+Quando Jacinto, no seu quarto do 202, com as varandas abertas sobre os
+lilases, me desenrolava estas imagens, todo ele crescia, iluminado.
+Que criação augusta, a da Cidade! Só por ela, Zé Fernandes, só por
+ela, pode o homem soberbamente afirmar a sua alma!...
+
+--Oh Jacinto, e a religião? Pois a religião não prova a alma?
+
+Ele encolhia os ombros. A religião! A religião é o desenvolvimento
+sumptuoso de um instinto rudimentar, comum a todos os brutos, o
+terror. Um cão lambendo a mão do dono, de quem lhe vem o osso ou o
+chicote, já constitui toscamente um devoto, o consciente devoto,
+prostrado em rezas ante o Deus que distribui o céu ou o inferno!... Mas
+o telefone! o fonógrafo!
+
+--Aí tens tu, o fonógrafo!... Só o fonógrafo, Zé Fernandes, me faz
+verdadeiramente sentir a minha superioridade de ser pensante e me separa
+do bicho. Acredita, não há senão a Cidade, Zé Fernandes, não há senão a
+Cidade!
+
+E depois (acrescentava) só a Cidade lhe dava a sensação, tão necessária
+à vida como o calor, da solidariedade humana. E no 202, quando
+considerava em redor, nas densas massas do casario de Paris, dois
+milhões de seres arquejando na obra da Civilização (para manter na
+natureza o domínio dos Jacintos!) sentia um sossego, um conchego, só
+comparáveis ao do peregrino, que, ao atravessar o deserto, se ergue no
+seu dromedário, e avista a longa fila da caravana marchando, cheia de
+lumes e de armas...
+
+Eu murmurava, impressionado:
+
+--Caramba!
+
+Ao contrário no campo, entre a inconsciência e a impassibilidade da
+Natureza, ele tremia com o terror da sua fragilidade e da sua solidão.
+Estava aí como perdido num mundo que lhe não fosse fraternal; nenhum
+silvado encolheria os espinhos para que ele passasse; se gemesse com
+fome nenhuma árvore, por mais carregada, lhe estenderia o seu fruto na
+ponta compassiva de um ramo. Depois, em meio da Natureza, ele assistia à
+súbita e humilhante inutilização de todas as suas faculdades superiores.
+De que servia, entre plantas e bichos--ser um Génio ou ser um Santo? As
+searas não compreendem as _Geórgicas_; e fora necessário o socorro
+ansioso de Deus, e a inversão de todas as leis naturais, e um violento
+milagre para que o lobo de Agubio não devorasse S. Francisco de Assis,
+que lhe sorria e lhe estendia os braços e lhe chamava «meu irmão lobo»!
+Toda a intelectualidade, nos campos, se esteriliza, e só resta a
+bestialidade. Nesses reinos crassos do Vegetal e do Animal duas únicas
+funções se mantêm vivas, a nutritiva e a procriadora. Isolada, sem
+ocupação, entre focinhos e raízes que não cessam de sugar e de pastar,
+sufocando no cálido bafo da universal fecundação, a sua pobre alma toda
+se engelhava, se reduzia a uma migalha de alma, uma fagulhazinha
+espiritual a tremeluzir, como morta, sobre um naco de matéria; e nessa
+matéria dois instintos surdiam, imperiosos e pungentes, o de devorar e
+o de gerar. Ao cabo de uma semana rural, de todo o seu ser tão
+nobremente composto só restava um estômago e por baixo um falo! A
+alma? Sumida sob a besta. E necessitava correr, reentrar na Cidade,
+mergulhar nas ondas lustrais da Civilização, para largar nelas a
+crosta vegetativa, e ressurgir reumanizado, de novo espiritual e
+Jacíntico!
+
+E estas requintadas metáforas do meu amigo exprimiam sentimentos
+reais--que eu testemunhei, que muito me divertiram, no único passeio que
+fizemos ao campo, à bem amável e bem sociável floresta de Montmorency.
+Oh delícias de entremez, Jacinto entre a Natureza! Logo que se afastava
+dos pavimentos de madeira, do macadame, qualquer chão que os seus pés
+calcassem o enchia de desconfiança e terror. Toda a relva, por mais
+crestada, lhe parecia ressumar uma humidade mortal. De sob cada torrão,
+da sombra de cada pedra, receava o assalto de lacraus, de víboras, de
+formas rastejantes e viscosas. No silêncio do bosque sentia um lúgubre
+despovoamento do Universo. Não tolerava a familiaridade dos galhos que
+lhe roçassem a manga ou a face. Saltar uma sebe era para ele um acto
+degradante que o retrogradava ao macaco inicial. Todas as flores que não
+tivesse já encontrado em jardins, domesticadas por longos séculos de
+servidão ornamental, o inquietavam como venenosas. E considerava de uma
+melancolia funambulesca certos modos e formas do Ser inanimado, a pressa
+esperta e vã dos regatinhos, a careca dos rochedos, todas as contorções
+do arvoredo e o seu resmungar solene e tonto.
+
+Depois de uma hora, naquele honesto bosque de Montmorency, o meu pobre
+amigo abafava, apavorado, experimentando já esse lento minguar e sumir
+de alma que o tornava como um bicho entre bichos. Só desanuviou quando
+penetramos no lajedo e no gás de Paris--e a nossa vitória quase se
+despedaçou contra um ónibus retumbante, atulhado de cidadãos. Mandou
+descer pelos Boulevards, para dissipar, na sua grossa sociabilidade,
+aquela materialização em que sentia a cabeça pesada e vaga como a de um
+boi. E reclamou que eu o acompanhasse ao teatro das Variedades para
+sacudir, com os estribilhos da _Femme à Papa_, o rumor importuno que lhe
+ficara dos melros cantando nos choupos altos.
+
+Este delicioso Jacinto fizera então vinte e três anos, e era um
+soberbo moço em quem reaparecera a força dos velhos Jacintos rurais.
+Só pelo nariz, afilado, com narinas quase transparentes, de uma
+mobilidade inquieta, como se andasse fariscando perfumes, pertencia às
+delicadezas do século XIX. O cabelo ainda se conservava, ao modo das
+eras rudes, crespo e quase lanígero: e o bigode, como o de um Celta,
+caía em fios sedosos, que ele necessitava aparar e frisar. Todo o seu
+fato, as espessas gravatas de cetim escuro que uma pérola prendia, as
+luvas de anta branca, o verniz das botas, vinham de Londres em caixotes
+de cedro; e usava sempre ao peito uma flor, não natural, mas composta
+destramente pela sua ramalheteira com pétalas de flores dissemelhantes,
+cravo, azálea, orquídea ou tulipa, fundidas na mesma haste entre uma
+leve folhagem de funcho.
+
+ * * * * *
+
+Em 1880, em Fevereiro, numa cinzenta e arrepiada manhã de chuva, recebi
+uma carta de meu bom tio Afonso Fernandes, em que, depois de
+lamentações sobre os seus setenta anos, os seus males hemorroidais, e a
+pesada gerência dos seus bens «que pedia homem mais novo, com pernas
+mais rijas»--me ordenava que recolhesse à nossa casa de Guiães, no
+Douro! Encostado ao mármore partido do fogão, onde na véspera a minha
+Nini deixara um espartilho embrulhado no _Jornal dos Debates_, censurei
+severamente meu tio que assim cortava em botão, antes de desabrochar, a
+flor do meu Saber Jurídico. Depois num Post-Scriptum ele
+acrescentava--«O tempo aqui está lindo, o que se pode chamar de rosas,
+e tua santa tia muito se recomenda, que anda lá pela cozinha, porque
+vai hoje em trinta e seis anos que casámos, temos cá o abade e o
+Quintais a jantar, e ela quis fazer uma sopa dourada».
+
+Deitando uma acha ao lume, pensei como devia estar boa a sopa dourada da
+tia Vicência. Há quantos anos não a provava, nem o leitão assado, nem o
+arroz de forno da nossa casa! Com o tempo assim tão lindo, já as mimosas
+do nosso pátio vergariam sob os seus grandes cachos amarelos. Um pedaço
+de céu azul, do azul de Guiães, que outro não há tão lustroso e macio,
+entrou pelo quarto, alumiou, sobre a puída tristeza do tapete, relvas,
+ribeirinhos, malmequeres e flores de trevo de que meus olhos andavam
+aguados. E, por entre as bambinelas de sarja, passou um ar fino e forte
+e cheiroso de serra e de pinheiral.
+
+Assobiando um _fado_ meigo tirei debaixo da cama a minha velha mala, e
+meti solicitamente entre calças e peúgas um Tratado de Direito Civil,
+para aprender enfim, nos vagares da aldeia, estendido sob a faia, as
+leis que regem os homens. Depois, nessa tarde, anunciei a Jacinto que
+partia para Guiães. O meu camarada recuou com um surdo gemido de espanto
+e piedade:
+
+--Para Guiães!... Oh Zé Fernandes, que horror!
+
+E toda essa semana me lembrou solicitamente confortos de que eu me
+deveria prover para que pudesse conservar, nos ermos silvestres, tão
+longe da Cidade, uma pouca de alma dentro de um pouco de corpo. «Leva uma
+poltrona! Leva a _Enciclopédia Geral_! Leva caixas de aspáragos!...»
+
+Mas para o meu Jacinto, desde que assim me arrancavam da Cidade, eu era
+arbusto desarreigado que não reviverá. A mágoa com que me acompanhou ao
+comboio conviria excelentemente ao meu funeral. E quando fechou sobre
+mim a portinhola, gravemente, supremamente, como se cerra uma grade de
+sepultura, eu quase solucei--com saudades minhas.
+
+Cheguei a Guiães. Ainda restavam flores nas mimosas do nosso pátio; comi
+com delícias a sopa dourada da tia Vicência; de tamancos nos pés assisti
+à ceifa dos milhos. E assim de colheitas a lavras, crestando ao sol das
+eiras, caçando a perdiz nos matos geados, rachando a melancia fresca na
+poeira dos arraiais, arranchando a magustos, serandando à candeia,
+atiçando fogueiras de S. João, enfeitando presépios de Natal, por ali
+me passaram docemente sete anos, tão atarefados que nunca logrei abrir
+o Tratado de Direito Civil, e tão singelos que apenas me recordo quando,
+em vésperas de S. Nicolau, o abade caiu da égua à porta do Brás das
+Cortes. De Jacinto só recebia raramente algumas linhas, escrevinhadas à
+pressa por entre o tumulto da Civilização. Depois, num Setembro muito
+quente, ao lidar da vindima, meu bom tio Afonso Fernandes morreu, tão
+quietamente, Deus seja louvado por esta graça, como se cala um
+passarinho ao fim do seu bem cantado e bem voado dia. Acabei pela aldeia
+a roupa do luto. A minha afilhada Joaninha casou na matança do porco.
+Andaram obras no nosso telhado. Voltei a Paris.
+
+
+
+
+II
+
+
+Era de novo Fevereiro, e um fim de tarde arrepiado e cinzento, quando eu
+desci os Campos Elísios em demanda do 202. Adiante de mim caminhava,
+levemente curvado, um homem que, desde as botas rebrilhantes até às abas
+recurvas do chapéu donde fugiam anéis de um cabelo crespo, ressumava
+elegância e a familiaridade das coisas finas. Nas mãos, cruzadas atrás
+das costas, calçadas de anta branca, sustentava uma bengala grossa com
+castão de cristal. E só quando ele parou ao portão do 202 reconheci o
+nariz afilado, os fios do bigode corredios e sedosos.
+
+--Oh Jacinto!
+
+--Oh Zé Fernandes!
+
+O abraço que nos enlaçou foi tão alvoroçado que o meu chapéu rolou na
+lama. E ambos murmurávamos, comovidos, entrando a grade:
+
+--Há sete anos!...
+
+--Há sete anos!...
+
+E, todavia, nada mudara durante esses sete anos no jardim do 202! Ainda
+entre as duas áleas bem areadas se arredondava uma relva, mais lisa e
+varrida que a lã de um tapete. No meio o vaso coríntico esperava Abril
+para resplandecer com tulipas e depois Junho para transbordar de
+margaridas. E ao lado das escadas limiares, que uma vidraçaria toldava,
+as duas magras Deusas de pedra, do tempo de D. Galeão, sustentavam as
+antigas lâmpadas de globos foscos, onde já silvava o gás.
+
+Mas dentro, no peristilo, logo me surpreendeu um elevador instalado
+por Jacinto--apesar do 202 ter somente dois andares, e ligados por uma
+escadaria tão doce que nunca ofendera a asma da Sr.^a D. Angelina!
+Espaçoso, tapetado, ele oferecia, para aquela jornada de sete
+segundos, confortos numerosos, um divã, uma pele de urso, um roteiro
+das ruas de Paris, prateleiras gradeadas com charutos e livros. Na
+antecâmara, onde desembarcámos, encontrei a temperatura macia e tépida
+de uma tarde de Maio, em Guiães. Um criado, mais atento ao termómetro
+que um piloto à agulha, regulava destramente a boca dourada do
+calorífero. E perfumadores entre palmeiras, como num terraço santo de
+Benares, esparziam um vapor, aromatizando e salutarmente humedecendo
+aquele ar delicado e superfino.
+
+Eu murmurei, nas profundidades do meu assombrado ser:
+
+--Eis a Civilização!
+
+Jacinto empurrou uma porta, penetrámos numa nave cheia de majestade e
+sombra, onde reconheci a Biblioteca por tropeçar numa pilha monstruosa
+de livros novos. O meu amigo roçou de leve o dedo na parede: e uma coroa
+de lumes eléctricos, refulgindo entre os lavores do tecto, alumiou as
+estantes monumentais, todas de ébano. Nelas repousavam mais de trinta
+mil volumes, encadernados em branco, em escarlate, em negro, com
+retoques de ouro, hirtos na sua pompa e na sua autoridade como doutores
+num concílio.
+
+Não contive a minha admiração:
+
+--Oh Jacinto! Que depósito!
+
+Ele murmurou, num sorriso descorado:
+
+--Há que ler, há que ler...
+
+Reparei então que o meu amigo emagrecera: e que o nariz se lhe afilara
+mais entre duas rugas muito fundas, como as de um comediante cansado. Os
+anéis do seu cabelo lanígero rareavam sobre a testa, que perdera a
+antiga serenidade de mármore bem polido. Não frisava agora o bigode
+murcho, caído em fios pensativos. Também notei que corcovava.
+
+Ele erguera uma tapeçaria--entrámos no seu gabinete de trabalho, que me
+inquietou. Sobre a espessura dos tapetes sombrios os nossos passos
+perderam logo o som, e como a realidade. O damasco das paredes, os
+divãs, as madeiras, eram verdes, de um verde profundo de folha de louro.
+Sedas verdes envolviam as luzes eléctricas, dispersas em lâmpadas tão
+baixas que lembravam estrelas caídas por cima das mesas, acabando de
+arrefecer e morrer: só uma rebrilhava, nua e clara, no alto de uma
+estante quadrada, esguia, solitária como uma torre numa planície, e de
+que o lume parecia ser o farol melancólico. Um biombo de laca verde,
+fresco verde de relva, resguardava a chaminé de mármore verde, verde de
+mar sombrio, onde esmoreciam as brasas de uma lenha aromática. E entre
+aqueles verdes reluzia, por sobre peanhas e pedestais, toda uma
+Mecânica sumptuosa, aparelhos, lâminas, rodas, tubos, engrenagens,
+hastes, friezas, rigidezes de metais...
+
+Mas Jacinto batia nas almofadas do divã, onde se enterrara com um modo
+cansado que eu não lhe conhecia:
+
+--Para aqui, Zé Fernandes, para aqui! É necessário reatarmos estas
+nossas vidas, tão apartadas há sete anos!... Em Guiães, sete anos! Que
+fizeste tu?
+
+--E tu, que tens feito, Jacinto?
+
+O meu amigo encolheu molemente os ombros. Vivera--cumprira com
+serenidade todas as funções, as que pertencem à matéria e as que
+pertencem ao espírito...
+
+--E acumulaste Civilização, Jacinto! Santo Deus... Está tremendo, o
+202!
+
+Ele espalhou em torno um olhar onde já não faiscava a antiga
+vivacidade:
+
+--Sim, há confortos... Mas falta muito! A humanidade ainda está mal
+apetrechada, Zé Fernandes... E a vida conserva resistências.
+
+Subitamente, a um canto, repicou a campainha do telefone. E enquanto o
+meu amigo, curvado sobre a placa, murmurava impaciente «_Está lá?--Está
+lá?_», examinei curiosamente, sobre a sua imensa mesa de trabalho, uma
+estranha e miúda legião de instrumentozinhos de níquel, de aço, de cobre,
+de ferro, com gumes, com argolas, com tenazes, com ganchos, com dentes,
+expressivos todos, de utilidades misteriosas. Tomei um que tentei
+manejar--e logo uma ponta malévola me picou um dedo. Nesse instante
+rompeu doutro canto um «tic-tic-tic» açodado, quase ansioso. Jacinto
+acudiu, com a face no telefone:
+
+--Vê aí o telégrafo!... Ao pé do divã. Uma tira de papel que deve
+estar a correr.
+
+E, com efeito, de uma redoma de vidro posta numa coluna, e contendo um
+aparelho esperto e diligente, escorria para o tapete, como uma ténia, a
+longa tira de papel com caracteres impressos, que eu, homem das serras,
+apanhei, maravilhado. A linha, traçada em azul, anunciava ao meu amigo
+Jacinto que a fragata russa _Azoff_ entrara em Marselha com avaria!
+
+Já ele abandonara o telefone. Desejei saber, inquieto, se o
+prejudicava directamente aquela avaria da _Azoff_.
+
+--Da _Azoff_?... A avaria? A mim?... Não! É uma notícia.
+
+Depois, consultando um relógio monumental que, ao fundo da Biblioteca,
+marcava a hora de todas as Capitais e o curso de todos os Planetas:
+
+--Eu preciso escrever uma carta, seis linhas... Tu esperas, não, Zé
+Fernandes? Tens aí os jornais de Paris, da noite; e os de Londres,
+desta manhã. As Ilustrações além, naquela pasta de couro com
+ferragens.
+
+Mas eu preferi inventariar o gabinete, que dava à minha profanidade
+serrana todos os gostos de uma iniciação. Aos lados da cadeira de
+Jacinto pendiam gordos tubos acústicos, por onde ele decerto soprava
+as suas ordens através do 202. Dos pés da mesa cordões túmidos e moles,
+coleando sobre o tapete, corriam para os recantos de sombra à maneira
+de cobras assustadas. Sobre uma banquinha, e reflectida no seu verniz
+como na água de um poço, pousava uma Máquina de escrever: e adiante era
+uma imensa Máquina de calcular, com fileiras de buracos donde
+espreitavam, esperando, números rígidos e de ferro. Depois parei em
+frente da estante que me preocupava, assim solitária, à maneira de uma
+torre numa planície, com o seu alto farol. Toda uma das suas faces
+estava repleta de Dicionários; a outra de Manuais; a outra de Atlas; a
+última de Guias, e entre eles, abrindo um fólio, encontrei o Guia das
+ruas de Samarcanda. Que maciça torre de informação! Sobre prateleiras
+admirei aparelhos que não compreendia:--um composto de lâminas de
+gelatina, onde desmaiavam, meio-chupadas, as linhas de uma carta, talvez
+amorosa; outro, que erguia sobre um pobre livro brochado, como para o
+decepar, um cutelo funesto; outro avançando a boca de uma tuba, toda
+aberta para as vozes do invisível. Cingidos aos umbrais, liados às
+cimalhas, luziam arames, que fugiam através do tecto, para o espaço.
+Todos mergulhavam em forças universais, todos transmitiam forças
+universais. A Natureza convergia disciplinada ao serviço do meu amigo e
+entrara na sua domesticidade!...
+
+Jacinto atirou uma exclamação impaciente:
+
+--Oh, estas penas eléctricas!... Que seca!
+
+Amarrotara com cólera a carta começada--eu escapei, respirando, para a
+Biblioteca. Que majestoso armazém dos produtos do Raciocínio e da
+Imaginação! Ali jaziam mais de trinta mil volumes, e todos decerto
+essenciais a uma cultura humana. Logo à entrada notei, em ouro numa
+lombada verde, o nome de Adam Smith. Era pois a região dos Economistas.
+Avancei--e percorri, espantado, oito metros de Economia Política. Depois
+avistei os Filósofos e os seus comentadores, que revestiam toda uma
+parede, desde as escolas Pré-Socráticas até às escolas Neopessimistas.
+Naquelas pranchas se acastelavam mais de dois mil sistemas--e que
+todos se contradiziam. Pelas encadernações logo se deduziam as
+doutrinas: Hobbes, em baixo, era pesado, de couro negro; Platão, em
+cima, resplandecia, numa pelica pura e alva. Para diante começavam as
+Histórias Universais. Mas aí uma imensa pilha de livros brochados,
+cheirando a tinta nova e a documentos novos, subia contra a estante,
+como fresca terra de aluvião tapando uma riba secular. Contornei essa
+colina, mergulhei na secção das Ciências Naturais, peregrinando, num
+assombro crescente, da Orografia para a Paleontologia, e da Morfologia
+para a Cristalografia. Essa estante rematava junto de uma janela
+rasgada sobre os Campos Elísios. Apartei as cortinas de veludo--e por
+trás descobri outra portentosa rima de volumes, todos de História
+Religiosa, de Exegese Religiosa, que trepavam montanhosamente até aos
+últimos vidros, vedando, nas manhãs mais cândidas, o ar e a luz do
+Senhor.
+
+Mas depois rebrilhava, em marroquins claros, a estante amável dos
+Poetas. Como um repouso para o espírito esfalfado de todo aquele saber
+positivo, Jacinto aconchegara aí um recanto, com um divã e uma mesa
+de limoeiro, mais lustrosa que um fino esmalte, coberta de charutos, de
+cigarros do Oriente, de tabaqueiras do século XVIII. Sobre um cofre de
+madeira lisa pousava ainda, esquecido, um prato de damascos secos do
+Japão. Cedi à sedução das almofadas; trinquei um damasco, abri um
+volume; e senti estranhamente, ao lado, um zumbido, como de um insecto
+de asas harmoniosas. Sorri à ideia que fossem abelhas, compondo o seu mel
+naquele maciço de versos em flor. Depois percebi que o sussurro remoto
+e dormente vinha do cofre de mogno, de parecer tão discreto. Arredei uma
+_Gazeta de França_; e descortinei um cordão que emergia de um orifício,
+escavado no cofre, e rematava num funil de marfim. Com curiosidade,
+encostei o funil a esta minha confiada orelha, afeita à singeleza dos
+rumores da serra. E logo uma Voz, muito mansa, mas muito decidida,
+aproveitando a minha curiosidade para me invadir e se apoderar do meu
+entendimento, sussurrou capciosamente:
+
+--...«E assim, pela disposição dos cubos diabólicos, eu chego a
+verificar os espaços hipermágicos!...»
+
+Pulei, com um berro.
+
+--Oh Jacinto, aqui há um homem! Está aqui um homem a falar dentro
+de uma caixa!
+
+O meu camarada, habituado aos prodígios, não se alvoroçou:
+
+--É o Conferençofone... Exactamente como o Teatrofone; somente
+aplicado às escolas e às conferências. Muito cómodo!... Que diz o
+homem, Zé Fernandes?
+
+Eu considerava o cofre, ainda esgazeado:
+
+--Eu sei! Cubos diabólicos, espaços mágicos, toda a sorte de horrores...
+
+Senti dentro o sorriso superior de Jacinto:
+
+--Ah, é o coronel Dorchas... Lições de Metafísica Positiva sobre a
+Quarta Dimensão... Conjecturas, uma maçada! Ouve lá, tu hoje jantas
+comigo e com uns amigos, Zé Fernandes?
+
+--Não, Jacinto... Estou ainda enfardelado pelo alfaiate da serra!
+
+E voltei ao gabinete mostrar ao meu camarada o jaquetão de flanela
+grossa, a gravata de pintinhas escarlates, com que ao domingo, em
+Guiães, visitava o Senhor. Mas Jacinto afirmou que esta simplicidade
+montesina interessaria os seus convidados, que eram dois artistas...
+Quem? O autor do _Coração Triplo_, um Psicólogo Feminista, de agudeza
+transcendente, Mestre muito experimentado e muito consultado em
+Ciências Sentimentais; e Vorcan, um pintor mítico, que interpretara
+etereamente, havia um ano, a simbolia rapsódica do cerco de Tróia,
+numa vasta composição, _Helena Devastadora_...
+
+Eu coçava a barba:
+
+--Não, Jacinto, não... Eu venho de Guiães, das serras; preciso entrar
+em toda esta civilização, lentamente, com cautela, senão rebento. Logo
+na mesma tarde a electricidade, e o conferençofone, e os espaços
+hipermágicos e o feminista, e o etéreo, e a simbolia devastadora, é
+excessivo! Volto amanhã.
+
+Jacinto dobrava vagarosamente a sua carta, onde metera sem rebuço
+(como convinha à nossa fraternidade) duas violetas brancas tiradas do
+ramo que lhe floria o peito.
+
+--Amanhã, Zé Fernandes, tu vens antes de almoço, com as tuas malas dentro
+de um fiacre, para te instalares no 202, no teu quarto. No Hotel são
+embaraços, privações. Aqui tens o telefone, o teatrofone, livros...
+
+Aceitei logo, com simplicidade. E Jacinto, embocando um tubo acústico,
+murmurou:
+
+--Grilo!
+
+Da parede, recoberta de damasco, que subitamente e sem rumor se fendeu,
+surdiu o seu velho escudeiro (aquele moleque que viera com _D.
+Galeão_), que eu me alegrei de encontrar tão rijo, mais negro,
+reluzente e venerável na sua tesa gravata, no seu colete branco de
+botões de ouro. Ele também estimou ver de novo «o siô Fernandes». E,
+quando soube que eu ocuparia o quarto do avô Jacinto, teve um claro
+sorriso de preto, em que envolveu o seu senhor, no contentamento de o
+sentir enfim reprovido de uma família.
+
+--Grilo, dizia Jacinto, esta carta a Madame de Oriol... Escuta!
+Telefona para casa dos Trèves que os espiritistas só estão livres no
+domingo... Escuta! Eu tomo uma duche antes de jantar, tépida, a 17.
+Fricção com malva-rosa.
+
+E caindo pesadamente para cima do divã, com um bocejo arrastado e
+vago:
+
+--Pois é verdade, meu Zé Fernandes, aqui estamos, como há sete anos,
+neste velho Paris...
+
+Mas eu não me arredava da mesa, no desejo de completar a minha
+iniciação:
+
+--Oh Jacinto, para que servem todos estes instrumentozinhos? Houve já
+aí um desavergonhado que me picou. Parecem perversos... São úteis?
+
+Jacinto esboçou, com languidez, um gesto que os
+sublimava.--Providenciais, meu filho, absolutamente providenciais, pela
+simplificação que dão ao trabalho! Assim... E apontou. Este arrancava as
+penas velhas; o outro numerava rapidamente as páginas de um manuscrito;
+aqueloutro, além, raspava emendas... E ainda os havia para colar
+estampilhas, imprimir datas, derreter lacres, cintar documentos...
+
+--Mas com efeito, acrescentou, é uma seca. Com as molas, com os
+bicos, às vezes magoam, ferem... Já me sucedeu inutilizar cartas por as
+ter sujado com dedadas de sangue. É uma maçada!
+
+Então, como o meu amigo espreitara novamente o relógio monumental, não
+lhe quis retardar a consolação da ducha e da malva-rosa.
+
+--Bem, Jacinto, já te revi, já me contentei... Agora até amanhã, com as
+malas.
+
+--Que diabo, Zé Fernandes, espera um momento... Vamos pela sala de
+jantar. Talvez te tentes!
+
+E, através da Biblioteca, penetramos na sala de jantar,--que me
+encantou pelo seu luxo sereno e fresco. Uma madeira branca, lacada,
+mais lustrosa e macia que cetim, revestia as paredes, encaixilhando
+medalhões de damasco cor de morango, de morango muito maduro e esmagado:
+os aparadores, discretamente lavrados em florões e rocalhas,
+resplandeciam com a mesma laca nevada: e damascos amorangados estofavam
+também as cadeiras, brancas, muito amplas, feitas para a lentidão de
+gulas delicadas, de gulas intelectuais.
+
+--Viva o meu Príncipe! Sim senhor... Eis aqui um comedouro muito
+compreensível e muito repousante, Jacinto!
+
+--Então janta, homem!
+
+Mas já eu me começava a inquietar, reparando que a cada talher
+correspondiam seis garfos, e todos de feitios astuciosos. E mais me
+impressionei quando Jacinto me desvendou que um era para as ostras,
+outro para o peixe, outro para as carnes, outro para os legumes, outro
+para as frutas, outro para o queijo! Simultaneamente, com uma
+sobriedade que louvaria Salomão, só dois copos, para dois vinhos:--um
+Bordéus rosado em infusas de cristal, e Champanhe gelando dentro de
+baldes de prata. Todo um aparador porém vergava, sob o luxo redundante,
+quase assustador de águas--águas oxigenadas, águas carbonatadas, águas
+fosfatadas, águas esterilizadas, águas de sais, outras ainda, em
+garrafas bojudas, com tratados terapêuticos impressos em rótulos.
+
+--Santíssimo nome de Deus, Jacinto! Então és ainda o mesmo tremendo
+bebedor de água, hein?... _Un aquatico!_ como dizia o nosso poeta
+chileno, que andava a traduzir Klopstock.
+
+Ele derramou, por sobre toda aquela garrafaria encarapuçada em metal,
+um olhar desconsolado:
+
+--Não... É por causa das águas da Cidade, contaminadas, atulhadas de
+micróbios... Mas ainda não encontrei uma boa água que me convenha, que
+me satisfaça... Até sofro sede.
+
+Desejei então conhecer o jantar do Psicólogo e do Simbolista--traçado,
+ao lado dos talheres, em tinta vermelha, sobre lâminas de marfim.
+Começava honradamente por ostras clássicas, de Marennes. Depois
+aparecia uma sopa de alcachofras e ovas de carpa...
+
+--É bom?
+
+Jacinto encolheu desinteressadamente os ombros:
+
+--Sim... Eu não tenho nunca apetite, já há tempos... Já há anos.
+
+Do outro prato só compreendi que continha frangos e túbaras. Depois
+saboreariam aqueles senhores um filete de veado, macerado em Xerez, com
+geleia de noz. E por sobremesa simplesmente laranjas geladas em éter.
+
+--Em éter, Jacinto?
+
+O meu amigo hesitou, esboçou com os dedos a ondulação de um aroma que
+se evola.
+
+--É novo... Parece que o éter desenvolve, faz aflorar a alma das
+frutas...
+
+Curvei a cabeça ignara, murmurei nas minhas profundidades:
+
+--Eis a Civilização!
+
+E, descendo os Campos Elísios, encolhido no paletó a cogitar neste
+prato simbólico, considerava a rudeza e atolado atraso da minha Guiães,
+onde desde séculos a alma das laranjas permanece ignorada e
+desaproveitada dentro dos gomos sumarentos, por todos aqueles pomares
+que ensombram e perfumam o vale, da Roqueirinha a Sandofim! Agora
+porém, bendito Deus, na convivência de um tão grande iniciado como
+Jacinto, eu compreenderia todas as finuras e todos os poderes da
+Civilização.
+
+E, (melhor ainda para a minha ternura!) contemplaria a raridade de um
+homem que, concebendo uma ideia da Vida, a realiza--e através dela e
+por ela recolhe a felicidade perfeita.
+
+Bem se afirmara este Jacinto, na verdade, como Príncipe da
+Grã-Ventura!
+
+
+
+
+III
+
+
+No 202, todas as manhãs, às nove horas, depois do meu chocolate e ainda
+em chinelas, penetrava no quarto de Jacinto. Encontrava o meu amigo
+banhado, barbeado, friccionado, envolto num roupão branco de pêlo de
+cabra do Tibete, diante da sua mesa de toilette, toda de cristal, (por
+causa dos micróbios) e atulhada com esses utensílios de tartaruga,
+marfim, prata, aço e madrepérola que o homem do século XIX necessita
+para não desfeiar o conjunto sumptuário da Civilização e manter nela
+o seu Tipo. As escovas sobretudo renovavam, cada dia, o meu regalo e o
+meu espanto--porque as havia largas como a roda maciça de um carro
+sabino; estreitas e mais recurvas que o alfange de um mouro; côncavas, em
+forma de telha aldeã; pontiagudas em feitio de folha de hera; rijas que
+nem cerdas de javali; macias que nem penugem de rola! De todas,
+fielmente, como amo que não desdenha nenhum servo, se utilizava o meu
+Jacinto. E assim, em face ao espelho emoldurado de folhedos de prata,
+permanecia este Príncipe passando pêlos sobre o seu pêlo durante
+catorze minutos.
+
+No entanto o Grilo e outro escudeiro, por trás dos biombos de Quioto, de
+sedas lavradas, manobravam, com perícia e vigor, os aparelhos do
+lavatório--que era apenas um resumo das Máquinas monumentais da Sala de
+Banho, a mais estremada maravilha do 202. Nestes mármores simplificados
+existiam unicamente dois jactos graduados desde _zero_ até _cem_; as
+duas duchas, fina e grossa, para a cabeça; a fonte esterilizada para os
+dentes; o repuxo borbulhante para a barba; e ainda botões discretos,
+que, roçados, desencadeavam esguichos, cascatas cantantes, ou um leve
+orvalho estival. Desse recanto temeroso, onde delgados tubos mantinham
+em disciplina e servidão tantas águas ferventes, tantas águas violentas,
+saía enfim o meu Jacinto enxugando as mãos a uma toalha de felpo, a
+uma toalha de linho, a outra de corda entrançada para restabelecer a
+circulação, a outra de seda frouxa para repolir a pele. Depois deste
+rito derradeiro que lhe arrancava ora um suspiro, ora um bocejo,
+Jacinto, estendido num divã, folheava uma Agenda, onde se arrolavam,
+inscritas pelo Grilo ou por ele, as ocupações do seu dia, tão
+numerosas por vezes que cobriam duas laudas.
+
+Todas elas se prendiam à sua sociabilidade, à sua Civilização muito
+complexa, ou a interesses que o meu Príncipe, nesses sete anos, criara
+para viver em mais consciente comunhão com todas as funções da Cidade.
+(Jacinto com efeito era presidente do Clube da _Espada e Alvo_;
+comanditário do Jornal o _Boulevard_; director da _Companhia dos
+Telefones de Constantinopla_; sócio dos _Bazares unidos da Arte
+Espiritualista_; membro do _Comité de Iniciação das Religiões
+Esotéricas_, etc.) Nenhuma destas ocupações parecia porém aprazível ao
+meu amigo--porque, apesar da mansidão e harmonia dos seus modos,
+frequentemente arremessava para o tapete, numa rebelião de homem
+livre, aquela Agenda que o escravizava. E numa dessas manhãs (de
+vento e neve), apanhando eu o livro opressivo, encadernado em pelica,
+de um carinhoso tom de rosa murcha--descobri que o meu Jacinto devia
+depois do almoço fazer uma visita na rua da Universidade, outra no
+Parque Monceau, outra entre os arvoredos remotos da Muette; assistir por
+fidelidade a uma votação no Clube; acompanhar Madame d'Oriol a uma
+exposição de leques; escolher um presente de noivado para a sobrinha dos
+Trèves; comparecer no funeral do velho conde de Malville; presidir um
+tribunal de honra numa questão de roubalheira, entre cavalheiros, ao
+ecarté... E ainda se acavalavam outras indicações, escrevinhadas por
+Jacinto a lápis:--«Carroceiro--Five-oclock dos Efrains--A pequena das
+_Variedades_--Levar a nota ao jornal...» Considerei o meu Príncipe.
+Estirado no divã, de olhos miserrimamente cerrados, bocejava, num
+bocejo imenso e mudo.
+
+Mas os afazeres de Jacinto começavam logo no 202, cedo, depois do
+banho. Desde as oito horas a campainha do telefone repicava por ele,
+com impaciência, quase com cólera, como por um escravo tardio. E mal
+enxugado, dentro do seu roupão de pêlo de cabra do Tibete ou de grossas
+pijamas de pelúcia cor de ouro velho, constantemente saía ao corredor a
+cochichar com sujeitos tão apressados, que conservavam na mão o
+guarda-chuva pingando sobre o tapete. Um desses, sempre presente (e que
+pertencia decerto aos _Telefones de Constantinopla_), era
+temeroso--todo ele chupado, tisnado, com maus dentes, sobraçando uma
+enorme pasta sebenta, e dardejando, de entre a alta gola de uma peliça
+puída, como da abertura de um covil, dois olhinhos torvos e de rapina.
+Sem cessar, inexoravelmente, um escudeiro aparecia, com bilhetes numa
+salva... Depois eram fornecedores de Indústria e de Arte; negociantes de
+cavalos, rubicundos e de paletó branco; inventores com grossos rolos
+de papel; alfarrabistas trazendo na algibeira uma edição «única», quase
+inverosímil, de Ulrich Zell ou do _Lapidanus_. Jacinto circulava
+estonteado pelo 202, rabiscando a carteira, repicando o telefone,
+desatando nervosamente pacotes, sacudindo ao passar algum emboscado que
+surdia das sombras da antecâmara, estendia como um trabuco o seu
+memorial ou o seu catálogo!
+
+Ao meio-dia, um tantã argentino e melancólico ressoava, chamando ao
+almoço. Com o _Figaro_ ou as _Novidades_ abertas sobre o prato, eu
+esperava sempre meia hora pelo meu Príncipe, que entrava numa rajada,
+consultando o relógio, exalando com a face moída o seu queixume eterno:
+
+--Que maçada! E depois uma noite abominável, enrodilhada em sonhos...
+Tomei sulforal, chamei o Grilo para me esfregar com terebintina... Uma
+seca!
+
+Espalhava pela mesa um olhar já farto. Nenhum prato, por mais engenhoso,
+o seduzia;--e, como através do seu tumulto matinal fumava incontáveis
+cigarretes que o ressequiam, começava por se encharcar com um imenso
+copo de água oxigenada, ou carbonatada, ou gasosa, misturada de um cognac
+raro, muito caro, horrendamente adocicado, de moscatel de Siracusa.
+Depois, à pressa, sem gosto, com a ponta incerta do garfo, picava aqui e
+além uma lasca de fiambre, uma febra de lagosta;--e reclamava
+impacientemente o café, um café de Moca, mandado cada mês por um feitor
+do Dedjah, fervido à turca, muito espesso, que ele remexia com um pau
+de canela!
+
+--E tu, Zé Fernandes, que vais tu fazer?
+
+--Eu?
+
+Recostado na cadeira, com delícias, os dedos metidos nas cavas do
+colete:
+
+--Vou vadiar, regaladamente, como um cão natural!
+
+O meu solícito amigo, remexendo o café com o pau de canela, rebuscava
+através da numerosa Civilização da Cidade uma ocupação que me
+encantasse. Mas apenas sugeria uma Exposição, ou uma Conferência, ou
+monumentos, ou passeios, logo encolhia os ombros desconsolados:
+
+--Por fim nem vale a pena, é uma seca!
+
+Acendia outra das cigarretes russas, onde rebrilhava o seu nome,
+impresso a ouro na mortalha. Torcendo, numa pressa nervosa, os fios do
+bigode, ainda escutava, à porta da Biblioteca, o seu procurador, o
+nédio e majestoso Laporte. E enfim, seguido de um criado, que sobraçava
+um maço tremendo de jornais para lhe abastecer o coupé, o Príncipe da
+Grã-Ventura mergulhava na Cidade.
+
+ * * * * *
+
+Quando o dia social de Jacinto se apresentava mais desafogado, e o céu
+de Março nos concedia caridosamente um pouco de azul aguado, saíamos
+depois de almoço, a pé, através de Paris. Estes lentos e errantes
+passeios eram outrora, na nossa idade de Estudantes, um gozo muito
+querido de Jacinto--porque neles mais intensamente e mais
+minuciosamente saboreava a Cidade. Agora porém, apesar da minha
+companhia, só lhe davam uma impaciência e uma fadiga que desoladoramente
+destoava do antigo, iluminado êxtase. Com espanto (mesmo com dor,
+porque sou bom, e sempre me entristece o desmoronar de uma crença)
+descobri eu, na primeira tarde em que descemos aos Boulevards, que o
+denso formigueiro humano sobre o asfalto, e a torrente sombria dos
+trens sobre o macadame, afligiam o meu amigo pela brutalidade da sua
+pressa, do seu egoísmo, e do seu estridor. Encostado e como refugiado no
+meu braço, este Jacinto novo começou a lamentar que as ruas, na nossa
+Civilização, não fossem calçadas de guta-percha! E a guta-percha
+claramente representava, para o meu amigo, a substância discreta que
+amortece o choque e a rudeza das coisas. Oh maravilha! Jacinto querendo
+borracha, a borracha isoladora, entre a sua sensibilidade e as funções
+da Cidade! Depois, nem me permitiu pasmar diante daquelas dourejadas
+e espelhadas lojas que ele outrora considerava como os «preciosos
+museus do século XIX»...
+
+--Não vale a pena, Zé Fernandes. Há uma imensa pobreza e secura
+de invenção! Sempre os mesmos florões Luís XV, sempre as mesmas
+pelúcias... Não vale a pena!
+
+Eu arregalava os olhos para este transformado Jacinto. E sobretudo me
+impressionava o seu horror pela Multidão--por certos efeitos da
+Multidão, só para ele sensíveis, e a que chamava os «sulcos».
+
+--Tu não os sentes, Zé Fernandes. Vens das serras... Pois constituem o
+rijo inconveniente das Cidades, estes sulcos! É um perfume muito agudo e
+petulante que uma mulher larga ao passar, e se instala no olfacto, e
+estraga para todo o dia o ar respirável. É um dito que se surpreende
+num grupo, que revela um mundo de velhacaria, ou de pedantismo, ou de
+estupidez, e que nos fica colado à alma, como um salpico, lembrando a
+imensidade da lama a atravessar. Ou então, meu filho, é uma figura
+intolerável pela pretensão, ou pelo mau gosto, ou pela impertinência, ou
+pela relice, ou pela dureza, e de que se não pode sacudir mais a visão
+repulsiva... Um pavor, estes sulcos, Zé Fernandes! De resto, que diabo,
+são as pequeninas misérias de uma Civilização deliciosa!
+
+Tudo isto era especioso, talvez pueril--mas para mim revelava, naquele
+chamejante devoto da Cidade, o arrefecimento da devoção. Nessa mesma
+tarde, se bem recordo, sob uma luz macia e fina, penetrámos nos centros
+de Paris, nas ruas longas, nas milhas de casario, todo de caliça parda,
+eriçado de chaminés de lata negra, com as janelas sempre fechadas, as
+cortininhas sempre corridas, abafando, escondendo a vida. Só tijolo, só
+ferro, só argamassa, só estuque: linhas hirtas, ângulos ásperos: tudo
+seco, tudo rígido. E dos chãos aos telhados, por toda a fachada,
+tapando as varandas, comendo os muros, Tabuletas, Tabuletas...
+
+--Oh, este Paris, Jacinto, este teu Paris! Que enorme, que grosseiro
+bazar!
+
+E, mais para sondar o meu Príncipe do que por persuasão, insisti na
+fealdade e tristeza destes prédios, duros armazéns, cujos andares são
+prateleiras onde se apilha humanidade! E uma humanidade impiedosamente
+catalogada e arrumada! A mais vistosa e de luxo nas prateleiras baixas,
+bem envernizadas. A reles e de trabalho nos altos, nos desvãos, sobre
+pranchas de pinho nu, entre o pó e a traça...
+
+Jacinto murmurou, com a face arrepiada:
+
+--É feio, é muito feio!
+
+E acudiu logo, sacudindo no ar a luva de anta:
+
+--Mas que maravilhoso organismo, Zé Fernandes! Que solidez! Que
+produção!
+
+Onde Jacinto me parecia mais renegado era na sua antiga e quase
+religiosa afeição pelo Bosque de Bolonha. Quando moço, ele construíra
+sobre o Bosque teorias complicadas e consideráveis. E sustentava, com
+olhos rutilantes de fanático, que no Bosque a Cidade cada tarde ia
+retemperar salutarmente a sua força, recebendo, pela presença das suas
+Duquesas, das suas Cortesãs, dos seus Políticos, dos seus Financeiros,
+dos seus Generais, dos seus Académicos, dos seus Artistas, dos seus
+Clubistas, dos seus Judeus, a certeza consoladora de que todo o seu
+pessoal se mantinha em número, em vitalidade, em função, e que nenhum
+elemento da sua grandeza desaparecera ou deperecera! «Ir ao Bois»
+constituía então para o meu Príncipe um acto de consciência. E voltava
+sempre confirmando com orgulho que a Cidade possuía todos os seus
+astros, garantindo a eternidade da sua luz!
+
+Agora, porém, era sem fervor, arrastadamente, que ele me levava ao
+Bosque, onde eu, aproveitando a clemência de Abril, tentava enganar a
+minha saudade de arvoredos. Enquanto subíamos, ao trote nobre das suas
+éguas lustrosas, a Avenida dos Campos Elísios e a do Bosque,
+rejuvenescidas pelas relvas tenras e fresco verdejar dos rebentos,
+Jacinto, soprando o fumo da cigarrete pelas vidraças abertas do coupé,
+permanecia o bom camarada, de veia amável, com quem era doce filosofar
+através de Paris. Mas logo que passávamos as grades douradas do Bosque,
+e penetrávamos na Avenida das Acácias, e enfiávamos na lenta fila dos
+trens de luxo e de praça, sob o silêncio decoroso, apenas cortado pelo
+tilintar dos freios e pelas rodas vagarosas esmagando a areia,--o meu
+Príncipe emudecia, molemente engelhado no fundo das almofadas, de onde
+só despegava a face para escancarar bocejos de fartura. Pelo antigo
+hábito de verificar a presença confortadora do «pessoal, dos astros»,
+ainda, por vezes, apontava para algum coupé ou vitória rodando com
+rodar rangente noutra arrastada fila--e murmurava um nome. E assim fui
+conhecendo a encaracolada barba hebraica do banqueiro Efraim; e o longo
+nariz patrício de Madame de Trèves abrigando um sorriso perene; e as
+bochechas flácidas do poeta neoplatónico Dornan, sempre espapado no
+fundo de fiacres; e os longos bandós pré-rafaelitas e negros de Madame
+Verghane; e o monóculo defumado do director do _Boulevard_; e o
+bigodinho vencedor do Duque de Marizac, reinando de cima do seu faéton
+de guerra; e ainda outros sorrisos imóveis, e barbichas à Renascença, e
+pálpebras amortecidas, e olhos farejantes, e peles empoadas de arroz,
+que eram todas ilustres e da intimidade do meu Príncipe. Mas, do topo
+da Avenida das Acácias, recomeçávamos a descer, em passo sopeado,
+esmagando lentamente a areia; na fila vagarosa que subia, calhambeque
+atrás de landau, vitória atrás de fiacre, fatalmente revíamos o
+binóculo sombrio do homem do _Boulevard_, e os bandós furiosamente
+negros de Madame Verghane, e o ventre espapado do neoplatónico, e a
+barba talmúdica, e todas aquelas figuras, de uma imobilidade de cera,
+super-conhecidas do meu camarada, recruzadas cada tarde através de
+revividos anos, sempre com os mesmos sorrisos, sob o mesmo pó de arroz,
+na mesma imobilidade de cera; então Jacinto não se continha, gritava
+ao cocheiro:
+
+--Para casa, depressa!
+
+E era pela Avenida do Bosque, pelos Campos Elísios, uma fuga ardente das
+éguas a quem a lentidão sopeada, num roer de freios, entre outras éguas
+também delas superconhecidas, lançavam numa exasperação comparável à
+de Jacinto.
+
+Para o sondar eu denegria o Bosque:
+
+--Já não é tão divertido, perdeu o brilho!...
+
+Ele acudia, timidamente:
+
+--Não, é agradável, não há nada mais agradável; mas...
+
+E acusava a friagem das tardes ou o despotismo dos seus afazeres.
+Recolhíamos então ao 202, onde, com efeito, em breve embrulhado no seu
+roupão branco, diante da mesa de cristal, entre a legião das escovas,
+com toda a electricidade refulgindo, o meu Príncipe se começava a
+adornar para o serviço social da noite.
+
+E foi justamente numa dessas noites (um sábado) que nós passámos,
+naquele quarto tão civilizado e protegido, por um desses brutos e
+revoltos terrores como só os produz a ferocidade dos Elementos. Já
+tarde, à pressa (jantávamos com Marizac no Clube para o acompanhar depois
+ao _Lohengrin_ na Ópera) Jacinto arrocheava o nó da gravata
+branca--quando no lavatório, ou porque se rompesse o tubo, ou se
+dessoldasse a torneira, o jacto de água a ferver rebentou furiosamente,
+fumegando e silvando. Uma névoa densa de vapor quente abafou as
+luzes--e, perdidos nela, sentíamos, por entre os gritos do escudeiro e
+do Grilo, o jorro devastador batendo os muros, esparrinhando uma chuva
+que escaldava. Sob os pés o tapete ensopado era uma lama ardente. E como
+se todas as forças da natureza, submetidas ao serviço de Jacinto, se
+agitassem, animadas por aquela rebelião da água--ouvimos roncos surdos
+no interior das paredes, e pelos fios dos lumes eléctricos sulcaram
+faíscas ameaçadoras! Eu fugira para o corredor, onde se alargava a névoa
+grossa. Por todo o 202 ia um tumulto de desastre. Diante do portão,
+atraídas pela fumarada que se escapava das janelas, estacionava
+polícia, uma multidão. E na escada esbarrei com um repórter, de chapéu
+para a nuca, a carteira aberta, gritando sofregamente «se havia mortos?»
+
+Domada a água, clareada a bruma, vim encontrar Jacinto no meio do
+quarto, em ceroulas, lívido:
+
+--Oh Zé Fernandes, esta nossa indústria!... Que impotência, que
+impotência! Pela segunda vez, este desastre! E agora, aparelhos
+perfeitos, um processo novo...
+
+--E eu encharcado por esse processo novo! E sem outra casaca!
+
+Em redor, as nobres sedas bordadas, os brocatéis Luís XIII, cobertos de
+manchas negras, fumegavam. O meu Príncipe, enfiado, enxugava uma
+fotografia de Madame d'Oriol, de ombros decotados, que o jorro bruto
+maculara de empolas. E eu, com rancor, pensava que na minha Guiães a água
+aquecia em seguras panelas--e subia ao meu lavatório, pela mão forte da
+Catarina, em seguras infusas! Não jantámos com o duque de Marizac, no
+Clube. E, na Ópera, nem saboreei Lohengrin e a sua branca alma e o seu
+branco cisne e as suas brancas armas--entalado, aperreado, cortado nos
+sovacos pela casaca que Jacinto me emprestara e que rescendia
+estonteadoramente a flores de Nessari.
+
+ * * * * *
+
+No domingo, muito cedo, o Grilo, que na véspera escaldara as mãos e as
+trazia embrulhadas em seda, penetrou no meu quarto, descerrou as
+cortinas, e à beira do leito, com o seu radiante sorriso de preto:
+
+--Vem no _Figaro_!
+
+Desdobrou triunfalmente o jornal. Eram, nos _Ecos, doze linhas, onde
+as nossas águas rugiam e espadavam, com tanta magnificência e tanta
+publicidade, que também sorri, deleitado.
+
+--E toda a manhã, o telefone, siô Fernandes! exclamava o Grilo,
+rebrilhando em ébano. A quererem saber, a quererem saber... «Está lá?
+Está escaldado?» Paris aflito, siô Fernandes!
+
+O telefone, com efeito, repicava, insaciável. E quando desci para o
+almoço, a toalha desaparecia sob uma camada de telegramas, que o meu
+Príncipe fendia com a faca, enrugado, rosnando contra a «maçada». Só
+desanuviou, ao ler um desses papéis azuis, que atirou para cima do meu
+prato, com o mesmo sorriso agradado com que de manhã sorríramos, o
+Grilo e eu:
+
+--É do Grão-Duque Casimiro... Ratão amável! Coitado!
+
+Saboreei, através dos ovos, o telegrama de S. Alteza. «O quê! o meu
+Jacinto inundado! Muito chic, nos Campos Elísios! Não volto ao 202 sem
+bóia de salvação! Compassivo abraço! Casimiro...» Murmurei também com
+deferência:--«Amável! Coitado!» Depois, revolvendo lentamente o montão
+de telegramas que se alastrava até ao meu copo:
+
+--Oh Jacinto! Quem é esta Diana que incessantemente te escreve, te
+telefona, te telegrafa, te...?
+
+--Diana?... Diana de Lorge. É uma cocotte. É uma grande cocotte!
+
+--Tua?
+
+--Minha, minha... Não! tenho um bocado.
+
+E como eu lamentava que o meu Príncipe, senhor tão rico e de tão fino
+orgulho, por economia de uma gamela própria chafurdasse com outros numa
+gamela pública--Jacinto levantou os ombros, com um camarão espetado
+no garfo:
+
+--Tu vens das serras... Uma cidade como Paris, Zé Fernandes, precisa ter
+cortesãs de grande pompa e grande fausto. Ora para montar em Paris,
+nesta tremenda carestia de Paris, uma cocotte com os seus vestidos, os
+seus diamantes, os seus cavalos, os seus lacaios, os seus camarotes, as
+suas festas, o seu palacete, a sua publicidade, a sua insolência, é
+necessário que se agremiem umas poucas de fortunas, se forme um
+sindicato! Somos uns sete, no Clube. Eu pago um bocado... Mas meramente
+por Civismo, para dotar a cidade com uma cocotte monumental. De resto
+não chafurdo. Pobre Diana!... Dos ombros para baixo nem sei se tem a
+pele cor de neve ou cor de limão.
+
+Arregalei um olho divertido:
+
+--Dos ombros para baixo?... E para cima?
+
+--Oh para cima tem pó de arroz!... Mas é uma seca! Sempre bilhetes,
+sempre telefones, sempre telegramas. E três mil francos por mês, além
+das flores... Uma maçada!
+
+E as duas rugas do meu Príncipe, aos lados do seu afilado nariz, curvado
+sobre a salada, eram como dois vales muito tristes, ao entardecer.
+
+Acabávamos o almoço, quando um escudeiro, muito discretamente, num
+murmúrio, anunciou Madame d'Oriol. Jacinto pousou com tranquilidade o
+charuto; eu quase me engasguei, num sorvo alvoroçado de café. Entre os
+reposteiros de damasco cor de morango ela apareceu, toda de negro,
+de um negro liso e austero de Semana Santa, lançando com o regalo um
+lindo gesto para nos sossegar. E imediatamente, numa volubilidade
+docemente chalrada:
+
+--É um momento, nem se levantem! Passei, ia para a Madalena, não me
+contive, quis ver os estragos... Uma inundação em Paris, nos
+Campos Elísios! Não há senão este Jacinto. E vem no _Figaro!_ O que eu
+estava assustada, quando telefonei! Imaginem! Água a ferver, como no
+Vesúvio... Mas é de uma novidade! E os estofos perdidos, naturalmente, os
+tapetes... Estou morrendo por admirar as ruínas!
+
+Jacinto, que não me pareceu comovido, nem agradecido com aquele
+interesse, retomara risonhamente o charuto:
+
+--Está tudo seco, minha querida senhora, tudo seco! A beleza foi
+ontem, quando a água fumegava e rugia! Ora que pena não ter ao menos
+caído uma parede!
+
+Mas ela insistia. Nem todos os dias se gozavam em Paris os destroços
+de uma inundação. O _Figaro_ contara... E era uma aventura deliciosa, uma
+casa escaldada nos Campos Elísios!
+
+Toda a sua pessoa, desde as plumazinhas que frisavam no chapéu até à
+ponta reluzente das botinas de verniz, se agitava, vibrava, como um ramo
+tenro sob o boliço do pássaro a chalrar. Só o sorriso, por trás do véu
+espesso, conservava um brilho imóvel. E já no ar se espalhara um aroma,
+uma doçura, emanadas de toda a sua mobilidade e de toda a sua graça.
+
+Jacinto no entanto cedera, alegremente: e pelo corredor Madame d'Oriol
+ainda louvava o _Figaro_ amável, e confessava quanto tremera... Eu
+voltei ao meu café, felicitando mentalmente o Príncipe da Grã-Ventura
+por aquela perfeita flor de Civilização que lhe perfumava a vida.
+Pensei então na apurada harmonia em que se movia essa flor. E corri
+vivamente à antecâmara, verificar diante do espelho o meu penteado e o
+nó da minha gravata. Depois recolhi à sala de jantar, e junto da
+janela, folheando languidamente a _Revista do Século XIX_, tomei uma
+atitude de elegância e de alta cultura. Quase imediatamente eles
+reapareceram: e Madame d'Oriol, que, sempre sorrindo, se proclamava
+espoliada, nada encontrara que recordasse as águas furiosas, roçou pela
+mesa, onde Jacinto procurava, para lhe oferecer, tangerinas de Malta,
+ou castanhas geladas, ou um biscoito molhado em vinho de Tokai.
+
+Ela recusava com as mãos guardadas no regalo. Não era alta, nem
+forte--mas cada prega do vestido, ou curva da capa, caía e ondulava
+harmoniosamente, como perfeições recobrindo perfeições. Sob o véu
+cerrado, apenas percebi a brancura da face empoada, e a escuridão dos
+olhos largos. E com aquelas sedas e veludos negros, e um pouco do
+cabelo louro, de um louro quente, torcido fortemente sobre as peles
+negras que lhe orlavam o pescoço, toda ela derramava uma sensação de
+macio e de fino. Eu teimosamente a considerava como uma flor de
+Civilização:--e pensava no secular trabalho e na cultura superior que
+necessitara o terreno onde ela tão delicadamente brotara, já
+desabrochada, em pleno perfume, mais graciosa por ser flor de esforço e
+de estufa, e trazendo nas suas pétalas um não sei quê de desbotado e de
+antemurcho.
+
+No entanto, com a sua volubilidade de pássaro, chalrando para mim,
+chalrando para Jacinto, ela mostrava o seu lindo espanto por aquele
+montão de telegramas sobre a toalha.
+
+--Tudo esta manhã, por causa da inundação?... Ah, Jacinto é hoje o
+homem, o único homem de Paris! Muitas mulheres nesses telegramas?
+
+Languidamente, com o charuto a fumegar, o meu Príncipe empurrou para a
+sua amiga o telegrama do Grão-Duque. Então Madame d'Oriol teve um _ah!_
+muito grave e muito sentido. Releu profundamente o papel de S. A. que os
+seus dedos acariciavam com uma reverência gulosa. E sempre grave, sempre
+séria:
+
+--É brilhante!
+
+Oh, certamente! naquele desastre tudo se passara com muito brilho,
+num tom muito Parisiense. E a deliciosa criatura não se podia demorar,
+porque fizera marcar um lugar na igreja da Madalena para o sermão!
+
+Jacinto exclamou com inocência:
+
+--Sermão?... É já a estação dos sermões?
+
+Madame d'Oriol teve um movimento de carinhoso escândalo e dor. O quê!
+pois nem na austera casa dos Trèves dera pela entrada da Quaresma? De
+resto não se admirava--Jacinto era um turco! E, imediatamente celebrou
+o pregador, um frade dominicano, o Père Granon! Oh de uma eloquência!
+de uma violência! No derradeiro sermão pregara sobre o amor, a
+fragilidade dos amores mundanos! E tivera coisas de uma inspiração, de uma brutalidade! Depois que gesto, um gesto terrível que esmagava, em que se lhe arregaçava toda a manga, mostrando o braço nu, um braço soberbo,
+muito branco, muito forte!
+
+O seu sorriso permanecia claro sob o olhar que negrejara dentro do véu
+negro. E Jacinto, rindo:
+
+--Um bom braço de director espiritual, hein? Para vergar, espancar
+almas...
+
+Ela acudiu:
+
+--Não! infelizmente o Père Granon não confessa!
+
+E de repente reconsiderou--aceitava um biscoito, um cálice de Tokai. Era
+necessário um cordial para afrontar as emoções do Père Granon! Ambos
+nos precipitáramos, um arrebatando a garrafa, outro oferecendo o prato
+de bombons. Franziu o véu para os olhos, chupou à pressa um bolo que
+ensopara no Tokai. E como Jacinto, reparando casualmente no chapéu que
+ela trazia, se curvara com curiosidade, impressionado, Madame d'Oriol
+apagou o sorriso, toda séria, ante uma coisa séria:
+
+--Elegante, não é verdade?... É uma criação inteiramente nova de Madame
+Vial. Muito respeitoso, e muito sugestivo, agora na Quaresma.
+
+O seu olhar, que me envolvera, também me convidava a admirar. Aproximei
+o meu focinho de homem das serras para contemplar essa criação suprema
+do luxo de Quaresma. E era maravilhoso! Sobre o veludo, na sombra das
+plumas frisadas, aninhada entre rendas, fixada por um prego, pousava
+delicadamente, feita de azeviche, uma Coroa de Espinhos!
+
+Ambos nos extasiámos. E Madame d'Oriol, num movimento e num sorriso
+que derramou mais aroma e mais claridade, abalou para a Madalena.
+
+O meu Príncipe arrastou pelo tapete alguns passos pensativos e moles. E
+bruscamente, levantando os ombros com uma determinação imensa, como se
+deslocasse um mundo:
+
+--Oh Zé Fernandes, vamos passar este Domingo nalguma coisa simples e
+natural...
+
+--Em quê?
+
+Jacinto circungirou os olhares muito abertos, como se, através da Vida
+Universal, procurasse ansiosamente uma coisa natural e simples. Depois,
+descansando sobre mim os mesmos largos olhos que voltavam de muito
+longe, cansados e com pouca esperança:
+
+--Vamos ao Jardim das Plantas, ver a girafa!
+
+
+
+
+IV
+
+
+Nessa fecunda semana, uma noite, recolhíamos ambos da Ópera, quando
+Jacinto, bocejando, me anunciou uma festa no 202.
+
+--Uma festa?...
+
+--Por causa do Grão-Duque, coitado, que me vai mandar um peixe delicioso
+e muito raro que se pesca na Dalmácia. Eu queria um almoço curto. O
+Grão-Duque reclamou uma ceia. É um bárbaro, besuntado com literatura do
+século XVIII, que ainda acredita em ceias, em Paris! Reúno no domingo
+três ou quatro mulheres, e uns dez homens bem típicos, para o divertir.
+Também aproveitas. Folheias Paris num resumo... Mas é uma maçada
+amarga!
+
+Sem interesse pela sua festa, Jacinto não se afadigou em a compor com
+relevo ou brilho. Encomendou apenas uma orquestra de Tziganes (os
+Tziganes, as suas jalecas escarlates; a melancolia áspera das Czardas
+ainda nesses tempos remotos emocionavam Paris): e mandou, na
+Biblioteca, ligar o Teatrofone com a Ópera, com a Comédia Francesa,
+com o Alcazar e com os Bufos, prevendo todos os gostos desde o trágico
+até ao pícaro. Depois no domingo, ao entardecer, ambos visitámos a mesa
+da ceia, que resplandecia com as velhas baixelas de D. Galeão. E a
+faustosa profusão de orquídeas, em longas silvas por sobre a toalha
+bordada a seda, enroladas aos fruteiros de Saxe, transbordando de
+cristais lavrados e filagranados de ouro, espalhava uma tão fina sensação
+de luxo e gosto, que eu murmurei:--«Caramba, bendito, seja o dinheiro!»
+Pela primeira vez, também, admirei a copa e a sua instalação abundante
+e minuciosa--sobretudo os dois ascensores que rolavam das profundidades
+da cozinha, um para os peixes e carnes aquecido por tubos de água
+fervente, o outro para as saladas e gelados revestido de placas
+frigoríficas. Oh, este 202!
+
+Às nove horas, porém, descendo eu ao gabinete de Jacinto para escrever
+a minha boa tia Vicência, enquanto ele ficara no toucador com o
+manicuro que lhe polia as unhas, passámos nesse delicioso palácio,
+florido e em gala, por bem corriqueiro susto! Todos os lumes eléctricos,
+subitamente, em todo o 202, se apagaram! Na minha imensa desconfiança
+daquelas forças universais, pulei logo para a porta, tropeçando nas
+trevas, ganindo um _Aqui d'El-Rei!_ que tresandava a Guiães. Jacinto em
+cima berrava, com o manicuro agarrado ao pijama. E de novo, como serva
+ralaça que recolhe arrastando as chinelas, a luz ressurgiu com
+lentidão. Mas o meu Príncipe, que descera, enfiado, mandou buscar um
+engenheiro à Companhia Central da Electricidade Doméstica. Por precaução
+outro criado correu à mercearia comprar pacotes de velas. E o Grilo
+desenterrava já dos armários os candelabros abandonados, os pesados
+castiçais arcaicos dos tempos incientíficos de D. Galeão: era uma
+reserva de veteranos fortes, para o caso pavoroso em que mais tarde, à
+ceia, falhassem perfidamente as forças bisonhas da Civilização. O
+Electricista, que acudira esbaforido, afiançou porém que a Electricidade
+se conservaria fiel, sem outro amuo. Eu, cautelosamente, soneguei na
+algibeira dois cotos de estearina.
+
+A Electricidade permaneceu fiel, sem amuos. E quando desci do meu
+quarto, tarde (porque perdera o colete de baile e só depois de uma busca
+furiosa e praguejada o encontrei caído por trás da cama!), todo o 202
+refulgia, e os Tziganes, na antecâmara, sacudindo as guedelhas, atiravam
+as arcadas de uma valsa tão arrastadora que, pelas paredes, os imensos
+Personagens das tapeçarias, Príamo, Nestor, o engenhoso Ulisses,
+arfavam, buliam com os pés venerandos!
+
+Timidamente, sem rumor, puxando os punhos, penetrei no gabinete de
+Jacinto. E fui logo acolhido pelo sorriso da condessa de Trèves, que,
+acompanhada pelo ilustre historiador Danjon (da Academia Francesa),
+percorria maravilhada os Aparelhos, os Instrumentos, toda a sumptuosa
+Mecânica do meu supercivilizado Príncipe. Nunca ela me parecera mais
+majestosa do que naquelas sedas cor de açafrão, com rendas cruzadas no
+peito à Maria Antonieta, o cabelo crespo e ruivo levantado em rolo
+sobre a testa dominadora, e o curvo nariz patrício, abrigando o sorriso
+sempre luzidio, sempre corrente, como um arco abriga o correr e o luzir
+de um regato. Direita como num sólio, a longa luneta de tartaruga
+acercada dos olhos miúdos e turvamente azulados, ela escutava diante do
+Grafofono, depois diante do Microfono, como melodias superiores, os
+comentários que o meu Jacinto ia atabalhoando com uma amabilidade
+penosa. E ante cada roda, cada mola, eram pasmos, louvores finamente
+torneados, em que atribuía a Jacinto, com astuta candura, todas
+aquelas invenções do Saber! Os utensílios misteriosos que atulhavam a
+mesa de ébano foram para ela uma iniciação que a enlevou. Oh, o
+«numerador de páginas»! oh, o «colador de estampilhas»! A carícia
+demorada dos seus dedos secos aquecia os metais. E suplicava os
+endereços dos fabricantes para se prover de todas aquelas utilidades
+adoráveis! Como a vida, assim apetrechada, se tornava escorregadia e
+fácil! Mas era necessário o talento, o gosto de Jacinto, para escolher,
+para «criar!» E não só ao meu amigo (que o recebia com resignação) ela
+ofertava o fino mel. Afagando com o cabo da luneta o Telégrafo, achou
+a possibilidade de recordar a eloquência do Historiador. Mesmo para mim
+(de quem ignorava o nome) arranjou junto do Fonógrafo, e acerca de
+«vozes de amigos que é doce coleccionar», uma lisonjazinha redondinha e
+lustrosa, que eu chupei como um rebuçado celeste. Boa casaleira que vai
+atirando o grão aos frangos famintos, a cada passo, maternalmente, ela
+nutria uma vaidade. Sôfrego de outro rebuçado, acompanhei a sua cauda
+sussurrante e cor de açafrão. Ela parara diante da Máquina de contar, de
+que Jacinto já lhe fornecera pacientemente uma explicação sapiente. E
+de novo roçou os buracos de onde espreitam os números negros, e com o seu
+enlevado sorriso murmurou:--«Prodigiosa, esta prensa eléctrica!...»
+
+Jacinto acudiu:
+
+--Não! Não! Esta é...
+
+Mas ela sorria, seguia... Madame de Trèves não compreendera nenhum
+aparelho do meu Príncipe! Madame de Trèves não atendera a nenhuma
+dissertação do meu Príncipe! Naquele gabinete de sumptuosa Mecânica
+ela somente se ocupara em exercer, com proveito e com perfeição, a
+Arte de Agradar. Toda ela era uma sublime falsidade. Não escondi a
+Danjon a admiração que me penetrava.
+
+O facundo Académico revirou os olhos bogalhudos:
+
+--Oh! e um gosto, uma inteligência, uma sedução!... E depois como se
+janta bem em casa dela! Que café!... Mulher superior, meu caro senhor,
+verdadeiramente superior!
+
+Deslizei para a biblioteca. Logo à entrada da erudita nave, junto da
+estante dos Padres da Igreja onde alguns cavalheiros conversavam, parei
+a saudar o director do _Boulevard_ e o Psicólogo feminista, o autor do
+_Coração Triplo_, com quem na véspera me familiarizara ao almoço, no
+202. O seu acolhimento foi paternal: e, como se necessitasse a minha
+presença, reteve na sua mão ilustre, rutilante de anéis, com força e
+com gula, a minha grossa palma serrana. Todos aqueles senhores, com
+efeito, celebravam o seu Romance, a _Couraça_, lançado nessa semana
+entre gritinhos de gozo e um quente rumor de saias alvoroçadas. Um
+sobretudo, com uma vasta cabeça arranjada à Van Dick e que parecia
+postiça, proclamava, alçado na ponta das botas, que nunca penetrara tão
+fundamente, na velha alma humana, a ponta da Psicologia Experimental!
+Todos concordavam, se apertavam contra o Psicólogo, o tratavam por
+«mestre». Eu mesmo, que nem sequer entrevira a capa amarela da
+_Couraça_, mas para quem ele voltava os olhos pedinchões e famintos de
+mais mel, murmurei com um leve assobio:--«uma delícia!»
+
+E o Psicólogo, reluzindo, com o lábio húmido, entalado num alto
+colarinho onde se enroscava uma gravata à 1830, confessava modestamente
+que dissecara todas aquelas almas da _Couraça_ com «algum cuidado»,
+sobre documentos, sobre pedaços de vida ainda quentes, ainda a
+sangrar... E foi então que Marizac, o duque de Marizac, notou, com um
+sorriso mais afiado que um lampejo de navalha, e sem tirar as mãos dos
+bolsos:
+
+--No entanto, meu caro, nesse livro tão profundamente estudado há um
+erro bem estranho, bem curioso!...
+
+O Psicólogo, vivamente, atirara a cabeça para trás:
+
+--Um erro?
+
+Oh, sim, um erro! E bem inesperado num mestre tão experiente!... Era
+atribuir à esplêndida amorosa da _Couraça_, uma duquesa, e do gosto
+mais puro,--_um colete de cetim preto_! Esse colete, assim preto, de
+cetim, aparecia na bela página de análise e paixão em que ela se
+despia no quarto de Rui d'Alize. E Marizac, sempre com as mãos nos
+bolsos, mais grave, apelava para aqueles senhores. Pois era
+verosímil, numa mulher como a duquesa, estética, pré-rafaelítica, que
+se vestia no Doucet, no Paquin, nos costureiros intelectuais, um
+colete de cetim preto?
+
+O Psicólogo emudecera, colhido, trespassado! Marizac era uma tão
+suprema autoridade sobre a roupa íntima das duquesas, que à tarde, em
+quartos de rapazes, por impulsos idealistas e anseios de alma
+dolorida--se põem em colete e saia branca!... De resto o director do
+_Boulevard_ condenara logo sem piedade, com uma experiência firme,
+aquele colete, só possível nalguma merceeira atrasada que ainda
+procurasse efeitos de carne nédia sobre cetim negro. E eu, para que me
+não julgassem alheio às coisas dos adultérios ducais e do luxo, acudi,
+metendo os dedos pelo cabelo:
+
+--Realmente, preto, só se estivesse de luto pesado, pelo pai!
+
+O pobre mestre da _Couraça_ sucumbira. Era a sua glória de Doutor em
+Elegâncias Femininas desmantelada--e Paris supondo que ele nunca vira
+uma duquesa desatacar o colete na sua alcova de Psicólogo! Então,
+passando o lenço sobre os lábios que a angústia ressequira, confessou o
+erro, e contritamente o atribuiu a uma improvisação tumultuosa:
+
+--Foi um tom falso, um tom perfeitamente falso que me escapou!... Com
+efeito! é absurdo, um colete preto!... Mesmo por harmonia com o estado
+da alma da duquesa devia ser lilás, talvez cor de reseda muito
+desmaiada, com um frouxo de rendas antigas de Malines... É prodigioso
+como me escapou! Pois tenho o meu caderno de entrevistas bem anotadas,
+bem documentadas!...
+
+Na sua amargura, terminou por suplicar a Marizac que espalhasse por
+toda a parte, no Clube, nas salas, a sua confissão. Fora um engano de
+artista, que trabalha na febre, vasculhando as almas, perdido nas
+profundidades negras das almas! Não reparara no colete, confundira os
+tons... E gritou, com os braços estendidos para o director do
+_Boulevard_:
+
+--Estou pronto a fazer uma rectificação, numa _interview_, meu caro
+mestre! Mande um dos seus redactores... Amanhã, às dez horas! Fazemos
+uma _interview_, fixamos a cor. Evidentemente é lilás... Mande um dos
+seus homens, meu caro mestre! É também uma ocasião para eu confessar,
+bem alto, os serviços que o _Boulevard_ tem feito às ciências
+psicológicas e feministas!
+
+Assim ele suplicava, encostado à estante, às lombadas dos Santos
+Padres. E eu abalei, vendo ao fundo da Biblioteca Jacinto que se
+debatia e se recusava entre dois homens.
+
+Eram os dois homens de Madame de Trèves--o marido, conde de Trèves,
+descendente dos reis de Cândia, e o amante, o terrível banqueiro judeu,
+David Efraim. E tão enfronhadamente assaltavam o meu Príncipe que nem
+me reconheceram, ambos num aperto de mão mole e vago me trataram por
+«caro conde»! Num relance, rebuscando charutos sobre a mesa de
+limoeiro, compreendi que se tramava a _Companhia das Esmeraldas da
+Birmânia_, medonha empresa em que cintilavam milhões, e para que os
+dois confederados de bolsa e de alcova, desde o começo do ano, pediam o
+nome, a influência, o dinheiro de Jacinto. Ele resistira, num enfado
+dos negócios, desconfiado daquelas esmeraldas soterradas num vale da
+Ásia. E agora o conde de Trèves, um homem esgrouviado, de face
+rechupada, eriçada de barba rala, sob uma fronte rotunda e amarela
+como um melão, assegurava ao meu pobre Príncipe que no Prospecto já
+preparado, demonstrando a grandeza do negócio, perpassava um fulgor das
+_Mil e Uma Noites_. Mas sobretudo aquela escavação de esmeraldas
+convidava todo o espírito culto pela sua acção civilizadora. Era uma
+corrente de ideias ocidentais, invadindo, educando a Birmânia. Ele
+aceitara a direcção por patriotismo...
+
+--De resto é um negócio de jóias, de arte, de progresso, que deve ser
+feito, num mundo superior, entre amigos...
+
+E do outro lado o terrível Efraim, passando a mão curta e gorda sobre a
+sua bela barba, mais frisada e negra que a de um Rei Assírio, afiançava
+o triunfo da empresa pelas grossas forças que nela entravam, os
+Nagayers, os Bolsans, os Saccart...
+
+Jacinto franzia o nariz, enervado:
+
+--Mas, ao menos, estão feitos os estudos? Já se provou que há
+esmeraldas?
+
+Tanta ingenuidade exasperou Efraim:
+
+--Esmeraldas! Está claro que há esmeraldas!... Há sempre esmeraldas
+desde que haja accionistas!
+
+E eu admirava a grandeza daquela máxima--quando apareceu, esbaforido,
+desdobrando o lenço muito perfumado, um dos familiares do 202, Todelle
+(António de Todelle), moço já calvo, de infinitas prendas, que conduzia
+Cotillons, imitava cantores de Café Concerto, temperava saladas raras,
+conhecia todos os enredos de Paris.
+
+--Já veio?... Já cá está o Grão-Duque?
+
+Não, S. Alteza ainda não chegara. E Madame de Todelle?
+
+--Não pôde... No sofá... Esfolou uma perna.
+
+--Oh!
+
+--Quase nada... Caiu do velocípede!
+
+Jacinto, logo interessado:
+
+--Ah! Madame de Todelle anda já de velocípede?
+
+--Aprende. Nem tem velocípede!... Agora, na Quaresma, é que se aplicou
+mais, no velocípede do padre Ernesto, do cura de S. José! Mas ontem, no
+Bosque, zás, terra!... Perna esfolada. Aqui.
+
+E na sua própria coxa, com a unha, vivamente, desenhou o esfolão.
+Efraim, brutal e sério, murmurou:--«Diabo! é no melhor sítio!» Mas
+Todelle nem o escutara, correndo para o director do _Boulevard_, que se
+avançava, lento e barrigudo, com o seu monóculo negro semelhante a um
+pacho. Ambos se colaram contra uma estante, num cochichar profundo.
+
+Jacinto e eu entrámos então no bilhar, forrado de velhos couros de
+Córdova, onde se fumava. Ao canto de um divã, o grande Dornan, o poeta
+neoplatónico e místico, o Mestre subtil de todos os ritmos, espapado
+nas almofadas, com um dos pés sob a coxa gorda, como um Deus índio, dois
+botões do colete desabotoados, a papeira caída sobre o largo decote do
+colarinho, mamava majestosamente um imenso charuto. Ao pé dele,
+também sentado, um velho que eu nunca encontrara no 202, esbelto, de
+cabelos brancos em anéis passados por trás das orelhas, a face coberta
+de pó de arroz, um bigodinho muito negro e arrebitado, findara
+certamente alguma história de bom e grosso sal--porque diante do divã,
+de pé, Joban, o supremo Crítico de Teatro, ria com a calva escarlate de
+gozo, e um moço muito ruivo (descendente de Coligny), de perfil de
+periquito, sacudia os braços curtos como asas, e gania: «delicioso!
+divino!» Só o poeta idealista permanecera impassível, na sua majestade
+obesa. Mas, quando nos acercámos, esse Mestre do ritmo perfeito, depois
+de soprar uma farta fumarada e me saudar com um pesado mover das
+pálpebras, começou numa voz de rico e sonoro metal:
+
+--Há melhor, há infinitamente melhor... Todos aqui conhecem Madame
+Noredal. Madame Noredal tem umas imensas nádegas...
+
+Desgraçadamente para o meu regalo Todelle invadiu o bilhar, reclamando
+Jacinto com alarido. Eram as senhoras que desejavam ouvir no
+Fonógrafo uma ária da Patti! O meu amigo sacudiu logo os ombros,
+numa surda irritação:
+
+--Ária da Patti... Eu sei lá! Todos esses rolos estão em confusão. Além
+disso o Fonógrafo trabalha mal. Nem trabalha! Tenho três. Nenhum
+trabalha!
+
+--Bem! exclamou alegremente Todelle. Canto eu a _Pauvre fille_... É mais
+de ceia! _Oh, la pauv', pauv', pauv'_...
+
+Travou do meu braço, e arrastou a minha timidez serrana para o salão cor
+de rosa murcha, onde, como Deusas num círculo escolhido do Olimpo,
+resplandeciam Madame d'Oriol, Madame Verghane, a princesa de Carman, e
+uma outra loura, com grandes brilhantes nas grandes farripas, e
+de ombros tão nus, e braços tão nus, e peitos tão nus, que o seu vestido
+branco com bordados de ouro pálido parecia uma camisa, a escorregar.
+Impressionado, ainda retive Todelle, rugi baixinho:--«Quem é?» Mas já o
+festivo homem correra para Madame d'Oriol, com quem riam, numa
+familiaridade superior e fácil, Marizac (o duque de Marizac) e um moço
+de barba cor de milho e mais leve que uma penugem, que se balouçava
+gracilmente sobre os pés, como uma espiga ao vento. E eu, encalhado
+contra o piano, esfregava lentamente as mãos, amassando o meu embaraço,
+quando Madame Verghane se ergueu do sofá onde conversava com um velho
+(que tinha a Grã-Cruz de Santo André), e avançou, deslizou no tapete,
+pequena e nédia, na sua copiosa cauda de veludo verde-negro. Tão fina
+era a cinta, entre os encontros fecundos e a vastidão do peito, todo nu
+e cor de nácar, que eu receava que ela partisse pelo meio, no seu lento
+ondular. Os seus famosos bandós negros, de um negro furioso, inteiramente
+lhe tapavam as orelhas; e, no grande aro de ouro que os circundava,
+reluzia uma estrela de brilhantes, como na fronte dos anjos de
+Boticelli. Conhecendo sem dúvida a minha autoridade no 202, ela
+despediu sobre mim ao passar, como raio benéfico, um sorriso que lhe
+liquescia mais os olhos líquidos, e murmurou:
+
+--O Grão-Duque vem, com certeza?
+
+--Oh com certeza, minha senhora, para o peixe!
+
+--P'ra o peixe?...
+
+Mas justamente, na antecâmara, rompeu, em rufos e arcadas triunfais, a
+marcha de Rakoczy. Era ele! Na Biblioteca, o nosso retumbante mordomo
+anunciava:
+
+--S. Alteza o Grão-Duque Casimiro!
+
+Madame de Verghane, com um curto suspiro de emoção, alteou o peito, como
+para lhe expor melhor a magnificência ebúrnea. E o homem do _Boulevard_,
+o velho da Grã-Cruz, Efraim, quase me empurraram, investindo para a
+porta, na imensa sofreguidão de Pessoa Real.
+
+Precedido por Jacinto, o Grão-Duque surgiu. Era um possante homem, de
+barba em bico, já grisalha, um pouco calvo. Durante um momento hesitou,
+com um balanço lento sobre os pés pequeninos, calçados de sapatos rasos,
+quase sumidos sob as pantalonas muito largas. Depois, pesado e risonho,
+veio apertar a mão às senhoras que mergulhavam nos veludos e sedas, em
+mesuras de Corte. E imediatamente, batendo com carinhosa jovialidade no
+ombro de Jacinto:
+
+--E o peixe?... Preparado pela receita que mandei, hein?
+
+Um murmúrio de Jacinto tranquilizou S. Alteza.
+
+--Ainda bem, ainda bem! exclamou ele, no seu vozeirão de comando. Que
+eu não jantei, absolutamente não jantei! É que se está jantando
+deploravelmente em casa do Joseph. Mas porque se vai jantar ainda ao
+Joseph? Sempre que chego a Paris, pergunto: «Onde é que se janta agora?»
+Em casa do Joseph!... Qual! não se janta! Hoje, por exemplo,
+galinholas... Uma peste! Não tem, não tem a noção da galinhola!
+
+Os seus olhos azulados, de um azul sujo, rebrilhavam, alargados pela
+indignação:
+
+--Paris está perdendo todas as suas superioridades. Já se não janta, em
+Paris!
+
+Então, em redor, aqueles senhores concordaram, desolados. O conde de
+Trèves defendeu o Bignon, onde se conservavam nobres tradições. E o
+director do _Boulevard_, que se empurrava todo para S. Alteza, atribuía
+a decadência da cozinha, em França, à República, ao gosto democrático e
+torpe pelo barato.
+
+--No Paillard, todavia...--começou o Efraim.
+
+--No Paillard! gritou logo o Grão-Duque. Mas os Borgonhas são tão maus!
+os Borgonhas são tão maus!...
+
+Deixara pender os braços, os ombros, descoroçoado. Depois, com o seu
+lento andar balançado como o de um velho piloto, atirando um pouco para
+trás as lapelas da casaca, foi saudar Madame d'Oriol, que toda ela
+faiscou, no sorriso, nos olhos, nas jóias, em cada prega das suas sedas
+cor de salmão. Mas apenas a clara e macia criatura, batendo o leque como
+uma asa alegre, começara a chalrar, S. Alteza reparou no aparelho do
+Teatrofone, pousado sobre uma mesa entre flores, e chamou Jacinto:
+
+--Em comunicação com o Alcazar?... O Teatrofone?
+
+--Certamente, meu senhor.
+
+Excelente! Muito chic! Ele ficara com pena de não ouvir a Gilberte
+numa cançoneta nova, as _Casquettes_. Onze e meia! Era justamente a
+essa hora que ela cantava, no último acto da _Revista
+Eléctrica_...--Colou às orelhas os dois «receptores» do Teatrofone, e
+quedou embebido, com uma ruga séria na testa dura. De repente, num
+comando forte:
+
+--É ela! Chut! Venham ouvir!... É ela! Venham todos! Princesa de
+Carman, para aqui! Todos! É ela! Chut...
+
+Então, como Jacinto instalara prodigamente dois Teatrofones, cada um
+provido de doze fios, as senhoras, todos aqueles cavalheiros, se
+apressaram a acercar submissamente um receptor do ouvido, e a permanecer
+imóveis para saborear _Les Casquettes_. E no salão cor de rosa murcha,
+na nave da Biblioteca, onde se espalhara um silêncio augusto, só eu
+fiquei desligado do Teatrofone, com as mãos nas algibeiras e ocioso.
+
+No relógio monumental, que marcava a hora de todas as Capitais e o
+movimento de todos os Planetas, o ponteiro rendilhado adormeceu. Sobre a
+mudez e a imobilidade pensativa daqueles dorsos, daqueles decotes,
+a Electricidade refulgia com uma tristeza de sol regelado. E de cada
+orelha atenta, que a mão tapava, pendia um fio negro, como uma tripa.
+Dornan, esboroado sobre a mesa, cerrara as pálpebras, numa meditação de
+monge obeso. O historiador dos Duques de Anjou, com o «receptor» na ponta
+delicada dos dedos, erguendo o nariz agudo e triste, gravemente cumpria
+um dever palaciano. Madame d'Oriol sorria, toda lânguida, como se o fio
+lhe murmurasse doçuras. Para desentorpecer arrisquei um passo tímido.
+Mas caiu logo sobre mim um _chut_ severo do Grão-Duque! Recuei para
+entre as cortinas da janela, a abrigar a minha ociosidade. O Filólogo
+da _Couraça_, distante da mesa, com o seu comprido fio esticado, mordia
+o beiço, num esforço de penetração. A beatitude de S. Alteza, enterrado
+numa vasta poltrona, era perfeita. Ao lado o colo de Madame Verghane
+arfava como uma onda de leite. E o meu pobre Jacinto, numa aplicação
+conscienciosa, pendia sobre o Teatrofone tão tristemente como sobre
+uma sepultura.
+
+Então, ante aqueles seres de superior civilização, sorvendo num
+silêncio devoto as obscenidades que a Gilberte lhes gania, por debaixo
+do solo de Paris, através de fios mergulhados nos esgotos, cingidos aos
+canos das fezes,--pensei na minha aldeia adormecida. O crescente de lua,
+que, seguido de uma estrelinha, corria entre nuvens sobre os telhados e
+as chaminés negras dos Campos Elísios, também andava lá fugindo, mais
+lustrosa e mais doce, por cima dos pinheirais. As rãs coaxavam ao longe
+no Pego da Dona. A ermidinha de S. Joaquim branquejava no cabeço,
+nuazinha e cândida...
+
+Uma das senhoras murmurou:
+
+--Mas, não é a Gilberte!...
+
+E um dos homens:
+
+--Parece um cornetim...
+
+--Agora são palmas...
+
+--Não, é o Paulin!
+
+O Grão-Duque lançou um _chut_ feroz... No pátio da nossa casa ladravam
+os cães. De além do ribeiro respondiam os cães do João Saranda. Como me
+encontrei descendo por uma quelha, sob as ramadas, com o meu varapau ao
+ombro? E sentia, entre a seda das cortinas, num fino ar macio, o
+cheiro das pinhas estalando nas lareiras, o calor dos currais através
+das sebes altas, e o sussurro dormente das levadas...
+
+Despertei a um brado que não saía nem dos eidos, nem das sombras. Era o
+Grão-Duque que se erguera, encolhia furiosamente os ombros:
+
+--Não se ouve nada!... Só guinchos! E um zumbido! Que maçada!... Pois é
+uma beleza, a cançoneta:
+
+Oh les casquettes,
+Oh les casque-e-e-tes!...
+
+Todos largaram os fios--proclamavam a Gilberte deliciosa. E o mordomo
+bendito, abrindo largamente os dois batentes, anunciou:
+
+--_Monseigneur est servi_!
+
+Na mesa, que pelo esplendor das orquídeas mereceu os louvores ruidosos
+de S. Alteza, fiquei entre o etéreo poeta Dornan e aquele moço de
+penugem loura que balouçava como uma espiga ao vento. Depois de
+desdobrar o guardanapo, de o acomodar regaladamente sobre os joelhos,
+Dornan desenvencilhou da corrente do relógio uma enorme luneta para
+percorrer o _menu_--que aprovou. E inclinando para mim a sua face de
+Apóstolo obeso:
+
+--Este Porto de 1834, aqui em casa do Jacinto, deve ser autêntico...
+Hein?
+
+Assegurei ao Mestre dos Ritmos que o «Porto» envelhecera nas adegas
+clássicas do avô Galeão. Ele afastou, numa preparação metódica, os
+longos, densos fios do bigode que lhe cobriam a boca grossa. Os
+escudeiros serviram um consommé frio com trufas. E o moço cor de milho,
+que espalhara pela mesa o seu olhar azul e doce, murmurou, com uma
+desconsolação risonha:
+
+--Que pena!... Só falta aqui um general e um bispo!
+
+Com efeito! Todas as Classes Dominantes comiam nesse momento as trufas
+do meu Jacinto... Mas defronte Madame d'Oriol lançara um riso mais
+cantado que um gorjeio. O Grão-Duque, numa silva de orquídeas que
+orlava o seu talher, notara uma, sombriamente horrenda, semelhante a um
+lacrau esverdinhado, de asas lustrosas, gordo e túmido de veneno: e
+muito delicadamente ofertara a flor monstruosa a Madame d'Oriol, que,
+com trinado riso, solenemente, a colocou no seio. Colado àquela
+carne macia, de uma brancura de nata fina, o lacrau inchara, mais verde,
+com as asas frementes. Todos os olhos se acendiam, se cravavam no lindo
+peito, a que a flor disforme, de cor venenosa, apimentava o sabor. Ela
+reluzia, triunfava. Para ajeitar melhor a orquídea os seus dedos
+alargaram o decote, aclararam belezas, guiando aquelas curiosidades
+flamejantes que a despiam. A face vincada de Jacinto pendia para o
+prato vazio. E o alto lírico do _Crepúsculo Místico_, passando a mão
+pelas barbas, rosnou com desdém:
+
+--Bela mulher... Mas ancas secas, e aposto que não tem nádegas!
+
+No entanto o moço de loura penugem voltara à sua estranha mágoa. Não
+possuirmos um general com a sua espada, e um bispo com seu báculo!...
+
+--Para quê, meu caro senhor?
+
+Ele atirou um gesto suave em que todos os seus anéis faiscaram:
+
+--Para uma bomba de dinamite... Temos aqui um esplêndido ramalhete de
+flores de Civilização, com um Grão-Duque no meio. Imagine uma bomba de
+dinamite, atirada da porta!... Que belo fim de ceia, num fim de
+século!
+
+E como eu o considerava assombrado, ele, bebendo golos de
+Chateau-Yquem, declarou que hoje a única emoção, verdadeiramente fina,
+seria aniquilar a Civilização. Nem a ciência, nem as artes, nem o
+dinheiro, nem o amor, podiam já dar um gosto intenso e real às nossas
+almas saciadas. Todo o prazer que se extraíra de _criar_ estava
+esgotado. Só restava, agora, o divino prazer de _destruir_!
+
+Desenrolou ainda outras enormidades, com um riso claro nos olhos claros.
+Mas eu não atendia o gentil pedante, colhido por outro
+cuidado--reparando que em torno, subitamente, todo o serviço estacara
+como no conto do Palácio Petrificado. E o prato agora devido era o peixe
+famoso da Dalmácia, o peixe de S. Alteza, o peixe inspirador da festa!
+Jacinto, nervoso, esmagava entre os dedos uma flor. E todos os
+escudeiros sumidos!
+
+Felizmente o Grão-Duque contava a história de uma caçada, nas coutadas de
+Sarvan, em que uma senhora, mulher de um banqueiro, saltara bruscamente
+do cavalo, num descampado, sem árvores. Ele e todos os caçadores
+param--e a galante senhora, lívida, com a amazona arregaçada, corre para
+trás de uma pedra... Mas nunca soubemos em que se ocupava a banqueira,
+nesse descampado, agachada atrás da pedra--porque justamente o mordomo
+apareceu, reluzente de suor, e balbuciou uma confidência a Jacinto,
+que mordeu o beiço, trespassado. O Grão-Duque emudecera. Todos se
+entreolhavam, numa ansiedade alegre. Então o meu Príncipe, com
+paciência, com heroicidade, forçando palidamente o sorriso:
+
+--Meus amigos, há uma desgraça...
+
+Dornan pulou na cadeira:
+
+--Fogo?
+
+Não, não era fogo. Fora o elevador dos pratos, que inesperadamente, ao
+subir o peixe de S. Alteza, se desarranjara, e não se movia, encalhado!
+
+O Grão-Duque arremessou o guardanapo. Toda a sua polidez estalava como
+um esmalte mal posto:
+
+--Essa é forte!... Pois um peixe que me deu tanto trabalho! Para que
+estamos nós aqui então a cear? Que estupidez! E porque o não trouxeram à
+mão, simplesmente? Encalhado... Quero ver! Onde é a copa?
+
+E, furiosamente, investiu para a copa, conduzido pelo mordomo que
+tropeçava, vergava os ombros, ante esta esmagadora cólera de Príncipe.
+Jacinto seguiu, como uma sombra, levado na rajada de S. Alteza. E eu
+não me contive, também me atirei para a copa, a contemplar o desastre,
+enquanto Dornan, batendo na coxa, clamava que se ceasse sem peixe!
+
+O Grão-Duque lá estava, debruçado sobre o poço escuro do elevador, onde
+mergulhara uma vela que lhe avermelhava mais a face esbraseada.
+Espreitei, por sobre o seu ombro real. Em baixo, na treva, sobre uma
+larga prancha, o peixe precioso alvejava, deitado na travessa, ainda
+fumegando, entre rodelas de limão. Jacinto, branco como a gravata,
+torturava desesperadamente a mola complicada do ascensor. Depois foi o
+Grão-Duque que, com os pulsos cabeludos, atirou um empuxão tremendo aos
+cabos em que ele rolava. Debalde! O aparelho enrijara numa inércia de
+bronze eterno.
+
+Sedas roçagaram à entrada da copa. Era Madame d'Oriol, e atrás Madame
+Verghane, com os olhos a faiscar, na curiosidade daquele lance em que
+o Príncipe soltara tanta paixão. Marizac, nosso íntimo, surgiu também,
+risonho, propondo uma descida ao poço com escadas. Depois foi o
+Psicólogo, que se abeirou, psicologou, atribuindo intenções sagazes
+ao peixe que assim se recusava. E a cada um o Grão-Duque, escarlate,
+mostrava com dedo trágico, no fundo da cova, o seu peixe! Todos
+afundavam a face, murmuravam: «lá está!» Todelle, na sua precipitação,
+quase se despenhou. O periquito descendente de Coligny batia as asas,
+ganindo:--«Que cheiro ele deita, que delícia!» Na copa atulhada os
+decotes das senhoras roçavam a farda dos lacaios. O velho caiado de pó
+de arroz meteu o pé num balde de gelo, com um berro ferino. E o
+Historiador dos Duques de Anjou movia por cima de todos o seu nariz
+bicudo e triste.
+
+De repente, Todelle teve uma ideia!
+
+--É muito simples... É pescar o peixe!
+
+O Grão-Duque bateu na coxa uma palmada triunfal. Está claro! Pescar o
+peixe! E no gozo daquela facécia, tão rara e tão nova, toda a sua
+cólera se sumira, de novo se tornara o Príncipe amável, de magnífica
+polidez, desejando que as senhoras se sentassem para assistir à pesca
+miraculosa! Ele mesmo seria o pescador! Nem se necessitava, para a
+divertida façanha, mais que uma bengala, uma guita e um gancho.
+Imediatamente Madame d'Oriol, excitada, ofereceu um dos seus ganchos.
+Apinhados em volta dela, sentindo o seu perfume, o calor da sua pele,
+todos exaltámos a amorável dedicação. E o Psicólogo proclamou que nunca
+se pescara com tão divino anzol!
+
+Quando dois escudeiros estonteados voltaram, trazendo uma bengala e um
+cordel, já o Grão-Duque, radiante, vergara o gancho em anzol. Jacinto,
+com uma paciência lívida, erguia uma lâmpada sobre a escuridão do poço
+fundo. E os senhores mais graves, o Historiador, o director do
+_Boulevard_, o Conde de Trèves, o homem de cabeça à Van-Dick, sorriam,
+amontoados à porta, num interesse reverente pela fantasia de S.
+Alteza. Madame de Trèves, essa, examinava serenamente, com a sua nobre
+luneta, a instalação da copa. Só Dornan não se erguera da mesa, com os
+punhos cerrados sobre a toalha, o gordo pescoço encovado, no tédio
+sombrio de fera a quem arrancaram a posta.
+
+No entanto S. Alteza pescava com fervor! Mas debalde! O gancho, pouco
+agudo, sem presa, bamboleando na extremidade da guita frouxa, não
+fisgava.
+
+--Oh Jacinto, erga essa luz! gritava ele, inchado e suado. Mais!...
+Agora! Agora! É na guelra! Só na guelra é que o gancho o pode prender.
+Agora... Qual! Que diabo! Não vai!
+
+Tirou a face do poço, resfolgando e afrontado. Não era possível! Só
+carpinteiros, com alavancas!... E todos, ansiosamente, bradámos que se
+abandonasse o peixe!
+
+O Príncipe, risonho, sacudindo as mãos, concordava que por fim «fora
+mais divertido pescá-lo do que comê-lo!» E o elegante bando refluiu
+sofregamente para a mesa, ao som de uma valsa de Strauss, que os Tziganes
+arremessaram em arcadas de lânguido ardor. Só Madame de Trèves se demorou
+ainda, retendo o meu pobre Jacinto, para lhe assegurar quanto admirava
+o arranjo da sua copa... Oh perfeita! Que compreensão da vida, que fina
+inteligência do conforto!
+
+S. Alteza, encalmado pelo esforço, esvaziou poderosamente dois copos de
+Chateau-Lagrange. Todos o aclamavam como um pescador genial. E os
+escudeiros serviram o _Barão de Pauillac_, cordeiro das lezírias
+marinhas, que, preparado com ritos quase sagrados, toma este grande nome
+sonoro e entra no Nobiliário de França.
+
+Eu comi com o apetite de um herói de Homero. Sobre o meu copo e o de
+Dornan o Champanhe cintilou e jorrou ininterrompidamente como uma
+fonte de Inverno. Quando se serviram ortolans gelados, que se derretiam
+na boca, o divino poeta murmurou, para meu regalo, o seu soneto sublime
+a «Santa Clara». E como, do outro lado, o moço de penugem loura
+insistia pela destruição do velho mundo, também concordei, e, sorvendo o
+Champanhe coalhado em sorvete, maldissemos o Século, a Civilização,
+todos os orgulhos da Ciência! Através das flores e das luzes, no
+entanto, eu seguia as ondas arfantes do vasto peito de Madame Verghane,
+que ria como uma bacante. E nem me apiedava de Jacinto que, com a
+doçura de S. Jacinto sobre o cepo, esperava o fim do seu martírio e da
+sua festa.
+
+Ela findou. Ainda recordo, às três horas da noite, o Grão-Duque na
+antecâmara, muito vermelho, mal firme nos pés pequeninos, sem acertar
+com as mangas da peliça que Jacinto e eu lhe ajudámos a
+enfiar--convidando o meu amigo, numa efusão carinhosa, a ir caçar às
+suas terras da Dalmácia...
+
+--Devo ao meu Jacinto uma bela pesca, quero que ele me deva uma bela
+caçada!
+
+E enquanto o acompanhávamos, entre as alas dos escudeiros, pela vasta
+escada onde o mordomo o precedia erguendo um candelabro de três lumes,
+S. Alteza repisava, pegajoso:
+
+--Uma bela caçada... E também vai Fernandes! Bom Fernandes, Zé
+Fernandes! Ceia superior, meu Jacinto! O _Barão de Pauillac_,
+divino!... Creio que o devemos nomear Duque... O Senhor Duque de
+Pauillac! Mais um bocado da perna do Senhor Duque de Pauillac. Ah!
+Ah!... Não venham fora! Não se constipem!
+
+E do fundo do coupé, ao rodar, ainda bradou:
+
+--O peixe, Jacinto, desencalha o peixe! Excelente, ao almoço, frio,
+com molho verde!
+
+Trepando cansadamente os degraus, numa moleza de Champanhe e sono em
+que os olhos se me cerravam, murmurei para o meu Príncipe:
+
+--Foi divertido, Jacinto! Sumptuosa mulher, a Verghane! Grande pena, o
+elevador...
+
+E Jacinto, num som cavo que era bocejo e rugido:
+
+--Uma maçada! E tudo falha!
+
+ * * * * *
+
+Três dias depois desta festa no 202 recebeu o meu Príncipe
+inesperadamente, de Portugal, uma nova considerável. Sobre a sua quinta
+e solar de Tormes, por toda a serra, passara uma tormenta devastadora de
+vento, corisco e água. Com as grossas chuvas, «ou por outras causas que
+os peritos dirão» (como exclamava na sua carta angustiada o procurador
+Silvério), um pedaço de monte, que se avançava em socalco sobre o vale
+da Carriça, desabara, arrastando a velha igreja, uma igrejinha rústica
+do século XVI, onde jaziam sepultados os avós de Jacinto desde os
+tempos de el-rei D. Manuel. Os ossos veneráveis desses Jacintos jaziam
+agora soterrados sob um montão informe de terra e pedra. O Silvério já
+começara com os moços da quinta a desatulhar dos «preciosos restos». Mas
+esperava ansiosamente as ordens de sua exc.^a...
+
+Jacinto empalidecera, impressionado. Esse velho solo serrano, tão rijo
+e firme desde os Godos, que de repente ruía! Esses jazigos de paz
+piedosa, precipitados com fragor, na borrasca e na treva, para um negro
+fundo de vale! Essas ossadas, que todas conservavam um nome, uma data,
+uma história, confundidas num lixo de ruína!
+
+--Coisa estranha, coisa estranha!...
+
+E toda a noite me interrogou acerca da serra e de Tormes, que eu
+conhecia desde pequeno, por que o velho solar, com a sua nobre alameda
+de faias seculares, se erguia a duas léguas da nossa casa, no antigo
+caminho de Guiães à estação e ao rio. O caseiro de Tormes, o bom
+Melchior, era cunhado do nosso feitor da Roqueirinha:--e muitas vezes,
+depois da minha intimidade com Jacinto, eu entrara no robusto casarão
+de granito, e avaliara o grão espalhado pelas salas sonoras, e provara o
+vinho novo nas adegas imensas...
+
+--E a igreja, Zé Fernandes?... Entraste na igreja?
+
+--Nunca... Mas era pitoresca, com uma torrezinha quadrada, toda negra,
+onde há muitos anos vivia uma família de cegonhas... Terrível
+transtorno para as cegonhas!
+
+--Coisa estranha! murmurava ainda o meu Príncipe, agourado.
+
+E telegrafou ao Silvério que desatulhasse o vale, recolhesse as
+ossadas, reedificasse a Igreja, e, para esta obra de piedade e
+reverência, gastasse o dinheiro, sem contar, como a água de um rio largo.
+
+
+
+
+V
+
+
+No entanto Jacinto, desesperado com tantos desastres humilhadores--as
+torneiras que dessoldavam, os elevadores que emperravam, o Vapor que se
+encolhia, a Electricidade que se sumia, decidiu valorosamente vencer as
+resistências finais da Matéria e da Força por novas e mais poderosas
+acumulações de Mecanismos. E nessas semanas de Abril, enquanto as
+rosas desabrochavam, a nossa agitada casa, entre aquelas quietas casas
+dos Campos Elísios que preguiçavam ao sol, incessantemente tremeu,
+envolta num pó de caliça e de empreitada, com o bruto picar de pedra, o
+retininte martelar de ferro. Nos silenciosos corredores, onde me era
+doce fumar antes do almoço um pensativo cigarro, circulavam agora, desde
+madrugada, ranchos de operários, de blusas brancas, assobiando o
+_Petit-Bleu_, e intimidando os meus passos quando eu atravessava em
+fralda e chinelas para o banho ou para outros retiros. Apenas se varava
+com perícia algum andaime obstruindo as portas--logo se esbarrava com
+uma pilha de tábuas, uma seira de ferramentas ou um balde enorme
+de argamassa. E os pedaços de soalho levantado mostravam tristemente,
+como num cadáver aberto, todos os interiores do 202, a ossatura, os
+sensíveis nervos de arame, os negros intestinos de ferro fundido.
+
+Cada dia estacava diante do portão alguma lenta carroça, donde os
+criados, em mangas de camisa, descarregavam caixotes de madeira, fardos
+de lona, que se despregavam e se descosiam numa sala asfaltada, ao
+fundo do jardim, por trás da sebe de lilases. E eu descia, reclamado
+pelo meu Príncipe, para admirar uma nova Máquina que nos tornaria a vida
+mais fácil, estabelecendo de um modo mais seguro o nosso domínio sobre a
+Substância. Durante os calores, que apertaram depois da Ascensão,
+ensaiámos esperançadamente, para refrescar as águas minerais, a
+Soda-Water e os Medocs ligeiros, três geleiras, que se amontoaram na
+copa sucessivamente desprestigiadas. Com os morangos novos apareceu um
+instrumentozinho astuto, para lhes arrancar os pés, delicadamente.
+Depois recebemos outro, prodigioso, de prata e cristal, para remexer
+freneticamente as saladas; e, na primeira vez que o experimentei, todo
+o vinagre esparrinhou sobre os olhos do meu Príncipe, que fugiu aos
+uivos! Mas ele teimava... Nos actos mais elementares, para aliviar ou
+apressar o esforço, se socorria Jacinto da Dinâmica. E agora era por
+intervenção de uma Máquina que abotoava as ceroulas.
+
+E simultaneamente, ou em obediência à sua Ideia, ou governado pelo
+despotismo do hábito, não cessava, ao lado da Mecânica acumulada, de
+acumular Erudição. Oh, a invasão dos livros no 202! Solitários, aos
+pares, em pacotes, dentro de caixas, franzinos, gordos e repletos de
+autoridade, envoltos em plebeia capa amarela ou revestidos de
+marroquim e ouro, perpetuamente, torrencialmente, invadiam por todas as
+largas portas a Biblioteca, onde se estiravam sobre o tapete, se
+repimpavam nas cadeiras macias, se entronizavam em cima das mesas
+robustas, e sobretudo trepavam contra as janelas, em sôfregas pilhas,
+como se, sufocados pela sua própria multidão, procurassem com ânsia
+espaço e ar! Na erudita nave, onde apenas alguns vidros mais altos
+restavam descobertos, sem tapume de livros, perenemente se adensava um
+pensativo crepúsculo de Outono enquanto fora Junho refulgia. A
+Biblioteca transbordara através de todo o 202! Não se abria um armário
+sem que de dentro se despenhasse, desamparada, uma pilha de livros! Não
+se franzia uma cortina sem que de trás surgisse, hirta, uma ruma de
+livros! E imensa foi a minha indignação quando uma manhã, correndo
+urgentemente, de mãos nas alças, encontrei, vedada por uma tremenda
+colecção de Estudos Sociais, a porta do Water-Closet!
+
+Mais amargamente porém me lembro da noite histórica em que, no meu
+quarto, moído e mole de um passeio a Versalhes, com as pálpebras
+poeirentas e meio adormecidas, tive de desalojar do meu leito,
+praguejando, um pavoroso Dicionário de Indústria em trinta e sete
+volumes! Senti então a suprema fartura do livro. Ajeitando, com murros,
+os travesseiros, maldisse a Imprensa, a Facúndia humana... E já me
+estirara, adormecia, quando topei, quase parti a preciosa rótula do
+joelho, contra a lombada de um tomo que velhacamente se aninhara entre a
+parede e os colchões. Com furor e um berro empolguei, arremessei o tomo
+afrontoso--que entornou o jarro, inundou um tapete rico de Daghestan. E
+nem sei se depois adormeci--porque os meus pés, a que não sentia nem o
+pisar nem o rumor, como se um vento brando me levasse, continuaram a
+tropeçar em livros no corredor apagado, depois na areia do jardim que o
+luar branqueava, depois na Avenida dos Campos Elísios, povoada e ruidosa
+como numa festa cívica. E, oh portento! todas as casas aos lados eram
+construídas com livros. Nos ramos dos castanheiros ramalhavam folhas de
+livros. E os homens, as finas damas, vestidos de papel impresso, com
+títulos nos dorsos, mostravam em vez de rosto um livro aberto, a que a
+brisa lenta virava docemente as folhas. Ao fundo, na Praça da Concórdia,
+avistei uma escarpada montanha de livros, a que tentei trepar,
+arquejante, ora enterrando a perna em flácidas camadas de versos, ora
+batendo contra a lombada, dura como calhau, de tomos de Exegese e
+Crítica. A tão vastas alturas subi, para além da terra, para além das
+nuvens, que me encontrei, maravilhado, entre os astros. Eles rolavam
+serenamente, enormes e mudos, recobertos por espessas crostas de livros,
+donde surdia, aqui e além, por alguma fenda, entre dois volumes mal
+juntos, um raiozinho de luz sufocada e ansiada. E assim ascendi ao
+Paraíso. Decerto era o Paraíso--porque com meus olhos de mortal argila
+avistei o Ancião da Eternidade, aquele que não tem Manhã nem Tarde.
+Numa claridade que dele irradiava mais clara que todas as claridades,
+entre fundas estantes de ouro abarrotadas de códices, sentado em
+vetustíssimos fólios, com os flocos das infinitas barbas espalhados por
+sobre resmas de folhetos, brochuras, gazetas e catálogos--o Altíssimo
+lia. A fronte superdivina que concebera o Mundo pousava sobre a mão
+superforte que o Mundo criara--e o Criador lia e sorria. Ousei,
+arrepiado de sagrado horror, espreitar por cima do seu ombro
+coruscante. O livro era brochado, de três francos... O Eterno lia
+Voltaire, numa edição barata, e sorria.
+
+Uma porta faiscou e rangeu, como se alguém penetrasse no Paraíso. Pensei
+que um Santo novo chegara da Terra. Era Jacinto, com o charuto em
+brasa, um molho de cravos na lapela, sobraçando três livros amarelos
+que a Princesa de Carman lhe emprestara para ler!
+
+ * * * * *
+
+Numa dessas activas semanas, porém, a minha atenção subitamente se
+despegou deste interessante Jacinto. Hóspede do 202, conservava no 202
+a minha mala e a minha roupa: e, acostado à bandeira do meu Príncipe,
+ainda ocasionalmente comia do seu caldeirão sumptuoso. Mas a minha
+alma, a minha embrutecida alma, e o meu corpo, o meu embrutecido corpo,
+habitavam então na rua do Hélder, n.^o 16, quarto andar, porta à
+esquerda.
+
+Descia eu uma tarde, numa leda paz de ideias e sensações, o Boulevard da
+Madalena, quando avistei, diante da Estação dos Ónibus, rondando no
+asfalto, num passo lento e felino, uma criatura seca, muito morena,
+quase tisnada, com dois fundos olhos taciturnos e tristes, e uma mata
+de cabelos amarelados, toda crespa e rebelde, sob o chapéu velho de
+plumas negras. Parei, como colhido por um repuxão nas entranhas. A
+criatura passou--no seu magro rondar de gata negra, sobre um beiral de
+telhado, ao luar de Janeiro. Dois poços fundos não luzem mais negra e
+taciturnamente do que luziam os seus olhos taciturnos e negros. Não
+recordo (Deus louvado!) como rocei o seu vestido de seda, lustroso e
+ensebado nas pregas; nem como lhe rosnei uma súplica por entre os
+dentes que rangiam; nem como subimos ambos, morosamente e mais
+silenciosos que condenados, para um gabinete do Café Durand, safado e
+morno. Diante do espelho, a criatura, com a lentidão de um rito triste,
+tirou o chapéu e a romeira salpicada de vidrilhos. A seda puída do
+corpete esgarçava nos cotovelos agudos. E os seus cabelos eram
+imensos, de uma dureza e espessura de juba brava, em dois tons
+amarelos, uns mais dourados, outros mais crestados, como a côdea de uma
+torta ao sair quente do forno.
+
+Com um riso trémulo, agarrei os seus dedos compridos e frios:
+
+--E o nomezinho, hein?
+
+Ela séria, quase grave:
+
+--Madame Colombe, 16, rua do Hélder, quarto andar, porta à esquerda.
+
+E eu (miserável Zé Fernandes!) também me senti muito sério, trespassado
+por uma emoção grave, como se nos envolvesse, naquela alcova de Café,
+a majestade de um Sacramento. À porta, empurrada levemente, o criado
+avançou a face nédia. Ordenei uma lagosta, pato com pimentões, e
+Borgonha. E foi somente ao findarmos o pato que me ergui, amarfanhando
+convulsamente o guardanapo, e a tremer lhe beijei a boca, todo a
+tremer, num beijo profundo e terrível, em que deixei a alma, entre
+saliva e gosto de pimentão! Depois, numa tipóia aberta, sob um bafo
+mole de leste e de trovoada, subimos a Avenida dos Campos Elísios. Em
+frente à grade do 202 murmurei, para a deslumbrar com o meu luxo:--«Moro
+ali, todo o ano!...» E como ao mirar o Palacete, debruçada, ela
+roçara a mata fulva do pêlo crespo pela minha barba--berrei
+desesperadamente ao cocheiro; que galopasse para a rua do Hélder, n.^o
+16, quarto andar, porta à esquerda!
+
+Amei aquela criatura. Amei aquela criatura com Amor, com todos os
+Amores que estão no Amor, o Amor divino, o Amor humano, o Amor bestial,
+como Santo Antonino amava a Virgem, como Romeu amava Julieta, como um
+bode ama uma cabra. Era estúpida, era triste. Eu deliciosamente apagava
+a minha alegria na cinza da sua tristeza; e com inefável gosto afundava
+a minha razão na densidade da sua estupidez. Durante sete furiosas
+semanas perdi a consciência da minha personalidade de Zé
+Fernandes--Fernandes de Noronha e Sande, de Guiães! Ora se me afigurava
+ser um pedaço de cera que se derretia, com horrenda delícia, num forno
+rubro e rugidor: ora me parecia ser uma faminta fogueira onde
+flamejava, estalava e se consumia um molho de galhos secos. Desses
+dias de sublime sordidez só conservo a impressão de uma alcova forrada de
+cretones sujos, de uma bata de lã cor de lilás com sotaches negros, de
+vagas garrafas de cerveja no mármore de um lavatório, e de um corpo
+tisnado que rangia e tinha cabelos no peito. E também me resta a
+sensação de incessantemente e com arroubado deleite me despojar,
+arremessar para um regaço, que se cavava entre um ventre sumido e uns
+joelhos agudos, o meu relógio, os meus berloques, os meus anéis, os
+meus botões de punho de safira, e as cento e noventa e sete libras em
+ouro que eu trouxera de Guiães numa cinta de camurça. Do sólido,
+decoroso, bem fornecido Zé Fernandes, só restava uma carcaça errando
+através de um sonho, com as gâmbias moles e a baba a escorrer.
+
+Depois, uma tarde, trepando com a costumada gula a escada da rua do
+Hélder, encontrei a porta fechada--e arrancado da ombreira aquele
+cartão de _Madame Colombe_ que eu lia sempre tão devotamente e que era a
+sua tabuleta... Tudo no meu ser tremeu como se o chão de Paris tremesse!
+Aquela era a porta do Mundo que ante mim se fechara! Para além estavam
+as gentes, as cidades, a vida, Deus e Ela. E eu ficara sozinho,
+naquele patamar do Não-Ser, fora da porta que se fechara, único ser
+fora do Mundo! Rolei pelos degraus, com o fragor e a incoerência de uma
+pedra, até ao cubículo da porteira e do seu homem que jogavam as cartas
+em ditosa pachorra, como se tão pavoroso abalo não tivesse desmantelado
+o Universo!
+
+--Madame Colombe?
+
+A barbuda comadre recolheu lentamente a vaza:
+
+--Já não mora... Abalou esta manhã, para outra terra, com outra porca!
+
+Para outra terra! com outra porca!... Vazio, negramente vazio de todo o
+pensar, de todo o sentir, de todo o querer--boiei aos tombos, como um
+tonel vazio, na corrente açodada do Boulevard, até que encalhei num
+banco da Praça da Madalena, onde tapei com as mãos, a que não sentia a
+febre, os olhos a que não sentia o pranto! Tarde, muito tarde, quando já
+se cerravam com estrondo as cortinas de ferro das lojas, surdiu, dentre
+todas estas confusas ruínas do meu ser, a eterna sobrevivente de todas
+as ruínas--a ideia de jantar. Penetrei no Durand, com os passos
+entorpecidos de um ressuscitado. E, numa recordação que me escaldava a
+alma, encomendei a lagosta, o pato, o Borgonha! Mas ao alargar o
+colarinho, ensopado pelo ardor daquela tarde de Julho, entre a poeira
+da Madalena, pensei com desconforto:--«Santíssimo Nome de Deus! Que
+imensa sede me fez esta desgraça!...» De manso acenei ao moço:--«Antes
+do Borgonha, uma garrafa de Champanhe, com muito gelo, e um grande
+copo!...» Creio que aquele Champanhe se engarrafara no Céu onde corre
+perenemente a fresca fonte da Consolação, e que na garrafa bendita que
+me coube penetrara, antes de arrolhada, um jorro largo dessa fonte
+inefável. Jesus! que transcendente regalo, o daquele nobre copo,
+embaciado, nevado, a espumar, a picar, num brilho de ouro! E depois,
+garrafa de Borgonha! E depois, garrafa de Cognac! E depois
+Hortelã-Pimenta granitada em gelo! E depois um desejo arquejante de
+espancar, com o meu rijo marmeleiro de Guiães, a porca que fugira com
+outra porca! Dentro da tipóia fechada, que me transportou num galope ao
+202, não sufoquei este santo impulso, e com os meus punhos serranos
+atirei murros retumbantes contra as almofadas, onde _via_, furiosamente
+_via_ a mata imensa de pêlo amarelo, em que a minha alma uma tarde
+se perdera, e três meses se debatera, e para sempre se emporcalhara!
+Quando o fiacre estacou no 202 ainda eu espancava tão desesperadamente a
+besta ingrata, que, aos berros do cocheiro, dois moços acudiram e me
+sustiveram, recebendo pelos ombros, sobre as nucas servis, os restos
+cansados da minha cólera.
+
+Em cima, repeli a solicitude do Grilo que tentava impor ao _siô_ Zé
+Fernandes, a Zé Fernandes de Guiães, a imensa indignidade de um chá de
+macela! E estirado no leito de D. Galeão, com as botas sobre o
+travesseiro, o chapéu alto sobre os olhos, ri, num doloroso riso,
+deste Mundo burlesco e sórdido de Jacintos e de Colombes! E de repente
+senti uma angústia horrenda. Era Ela! Era a Madame Colombe, que
+esfuziara da chama da vela, e saltara sobre o meu leito, e desabotoara
+o meu colete, e arrombara as minhas costelas, e toda ela, com as
+saias sujas, mergulhara dentro do meu peito, e abocara o meu coração, e
+chupava a sorvos lentos, como na rua do Hélder, o sangue do meu coração!
+Então, certo da Morte, ganindo pela tia Vicência, pendi do leito para
+mergulhar na minha sepultura, que, através da névoa final, eu distinguia
+sobre o tapete--redondinha, vidrada, de porcelana e com asa. E, sobre a
+minha sepultura, que tão irreverentemente se assemelhava ao meu vaso,
+vomitei o Borgonha, vomitei o pato, vomitei a lagosta. Depois, num
+esforço ultrahumano, com um rugido, sentindo que, não somente toda a
+entranha, mas a alma se esvaziava toda, vomitei Madame Colombe! Recaí
+sobre o leito de D. Galeão... Recarreguei o chapéu sobre os olhos para
+não sentir os raios do sol. Era um sol novo, um sol espiritual, que se
+erguia sobre a minha vida. E adormeci, como uma criancinha docemente
+embalada num berço de verga pelo Anjo da Guarda.
+
+De manhã, lavei a pele num banho profundo, perfumado com todos os
+aromas do 202, desde folhas de limonete da Índia até essência de jasmim
+de França: e lavei a alma com uma rica carta da Tia Vicência, em letra
+farta, contando da nossa casa, e da linda promessa das vinhas, e da
+compota de ginja que nunca lhe saíra tão fina, e da alegre fogueira do
+pátio em noite de S. João, e da menininha muito gorda e cabeluda que
+viera do céu para a minha afilhada Joaninha. Depois, à janela, bem
+limpo de alma e de corpo, numa quinzena de sedinha branca, tomando chá
+de Naïpò, respirando os rosais do jardim revividos pela chuva da
+madrugada, considerei, em divertido pasmo, que, durante sete semanas, me
+emporcalhara, na rua do Hélder, com um estardalho muito magro e muito
+tisnado! E conclui que padecera de uma longa sezão, sezão da carne, sezão
+da imaginação, apanhada num charco de Paris--nesses charcos que se
+formam através da Cidade com as águas mortas, os limos, os lixos, os
+tortulhos e os vermes de uma Civilização que apodrece.
+
+ * * * * *
+
+Então, curado, todo o meu espírito, como uma agulha para o Norte, se
+virou logo para o meu complicado Príncipe, que, nas derradeiras semanas
+da minha infecção sentimental, eu entrevira sempre descaído por cima de
+sofás, ou vagueando através da Biblioteca entre os seus trinta mil
+volumes, com arrastados bocejos de inércia e de vacuidade. Eu, na minha
+pressa indigna, só lhe lançava um distraído--«que é isso?» Ele, no seu
+moroso desalento, só murmurava um seco--«é calor!»
+
+E, nessa manhã da minha libertação, ao penetrar antes de almoço no seu
+quarto, no sofá o encontrei enterrado, com o _Figaro_ aberto sobre a
+barriga, a Agenda caída sobre o tapete, toda a face envolta em sombra,
+e os pés abandonados, numa soberana tristeza, ao pedicuro que lhe polia
+as unhas. Decerto o meu olhar realumiado e repurificado, a brancura das
+minhas flanelas reproduzindo a quietação das minhas sensações, e a
+segura harmonia em que todo o meu ser visivelmente se movia,
+impressionaram o meu Príncipe--a quem a melancolia nunca embotava a
+agudeza. Ergueu molemente um braço mole:
+
+--Então esse capricho?
+
+Derramei, sobre ele todo o fulgor de um riso vitorioso:
+
+--Morto! E, como o Sr. de Malbrouck, «morto e bem enterrado.» Jaz! Ou
+antes, rola! Com efeito deve andar agora rolando por dentro do cano do
+esgoto!
+
+Jacinto bocejou, murmurou:
+
+--Este Zé Fernandes de Noronha e Sande!...
+
+E, no meu nome, no meu digno nome assim embrulhado num bocejo com
+desprendida ironia, se resumiu todo o interesse daquele Príncipe pela
+suja tormenta em que se debatera o meu coração! Mas não me melindrou
+esse consumado egoísmo... Claramente percebia eu que o meu Jacinto
+atravessava uma densa névoa de tédio, tão densa, e ele tão afundado na
+sua mole densidade, que as glórias ou os tormentos de um camarada não o
+comoviam, como muito remotas, intangíveis, separadas da sua
+sensibilidade por imensas camadas de algodão. Pobre Príncipe da
+Grã-Ventura, tombado para o sofá de inércia, com os pés no regaço do
+pedicuro! Em que lodoso fastio caíra, depois de renovar tão bravamente
+todo o recheio mecânico e erudito do 202, na sua luta contra a Força e
+a Matéria!--E esse fastio não o escondeu mais do seu velho Zé Fernandes
+quando recomeçou entre nós a comunhão de vida e de alma a que eu tão
+torpemente me arrancara, uma tarde, diante da Estação dos Ónibus, no
+charco da Madalena.
+
+Não eram certamente confissões enunciadas. O elegante e reservado
+Jacinto não torcia os braços, gemendo--«Oh vida maldita!» Eram apenas
+expressões saciadas; um gesto de repelir com rancor a importunidade das
+coisas; por vezes uma imobilidade determinada, de protesto, no fundo
+de um divã, donde se não desenterrava, como para um repouso que
+desejasse eterno; depois os bocejos, os ocos bocejos com que sublinhava
+cada passo, continuado por fraqueza ou por dever iniludível; e
+sobretudo aquele murmurar que se tornara perene e natural--«Para
+quê?»--«Não vale a pena!»--«Que maçada!...»
+
+Uma noite no meu quarto, descalçando as botas, consultei o Grilo:
+
+--Jacinto anda tão murcho, tão corcunda... Que será, Grilo?
+
+O venerando preto declarou com uma certeza imensa:
+
+--S. Exc.^a sofre de fartura.
+
+Era fartura! O meu Príncipe sentia abafadamente a fartura de Paris:--e
+na Cidade, na simbólica Cidade, fora de cuja vida culta e forte (como
+ele outrora gritava, iluminado) o homem do século XIX nunca poderia
+saborear plenamente a «delícia de viver», ele não encontrava agora
+forma de vida, espiritual ou social, que o interessasse, lhe valesse o
+esforço de uma corrida curta numa tipóia fácil. Pobre Jacinto! Um
+jornal velho, setenta vezes relido desde a Crónica até aos Anúncios,
+com a tinta delida, as dobras roídas, não enfastiaria mais o Solitário,
+que só possuísse na sua Solidão esse alimento intelectual, do que o
+Parisianismo enfastiava o meu doce camarada! Se eu nesse Verão
+capciosamente o arrastava a um Café-Concerto, ou ao festivo Pavilhão
+d'Armenonville, o meu bom Jacinto, colado pesadamente à cadeira com um
+maravilhoso ramo de orquídeas na casaca, as finas mãos abatidas sobre o
+castão da bengala, conservava toda a noite uma gravidade tão estafada,
+que eu, compadecido, me erguia, o libertava, gozando a sua pressa em
+abalar, a sua fuga de ave solta... Raramente (e então com veemente
+arranque como quem salta um fosso) descia a um dos seus Clubes, ao fundo
+dos Campos Elísios. Não se ocupara mais das suas Sociedades e
+Companhias, nem dos _Telefones de Constantinopla_, nem das _Religiões
+Esotéricas_, nem do _Bazar Espiritualista_, cujas cartas fechadas se
+amontoavam sobre a mesa de ébano, donde o Grilo as varria tristemente
+como o lixo de uma vida finda. Também lentamente se despegava de todas as
+suas convivências. As páginas da Agenda cor-de-rosa murcha andavam
+desafogadas e brancas. E se ainda cedia a um passeio de Mail-Coach, ou a
+um convite para algum Castelo amigo dos arredores de Paris, era tão
+arrastadamente, com um esforço tão saturado ao enfiar o paletó leve,
+que me lembrava sempre um homem, depois de um gordo jantar de província,
+a estalar, que, por polidez ou em obediência a um dogma, devesse ainda
+comer uma lampreia de ovos!
+
+Jazer, jazer em casa, na segurança das portas bem cerradas e bem
+defendidas contra toda a intrusão do mundo, seria uma doçura para o meu
+Príncipe se o seu próprio 202, com todo aquele tremendo recheio de
+Civilização, não lhe desse uma sensação dolorosa de abafamento, de
+atulhamento! Julho escaldava: e os brocados, as alcatifas, tantos móveis
+roliços e fofos, todos os seus metais e todos os seus livros, tão
+espessamente o oprimiam, que escancarava sem cessar as janelas para
+prolongar o espaço, a claridade, a frescura. Mas era então a poeira,
+suja e acre, rolada em bafos mornos, que o enfurecia:
+
+--Oh, este pó da Cidade!
+
+--Mas, oh Jacinto, por que não vamos para Fontainebleau, ou para
+Montmorency, ou...
+
+--P'ra o campo? O quê! P'ra o campo?!
+
+E na sua face enrugada, através deste berro, lampejava sempre tanta
+indignação, que eu curvava os ombros, humilde, no arrependimento de ter
+afrontosamente ultrajado o Príncipe que tanto amava. Desventurado
+Príncipe! Com o seu dourado cigarro de Yaka a fumegar, errava então pelas
+salas, lenta e murchamente, como quem vaga em terra alheia sem afeições
+e sem ocupações. Esses desafeiçoados e desocupados passos
+monotonamente o traziam ao seu centro, ao gabinete verde, à Biblioteca
+de ébano, onde acumulara Civilização nas máximas proporções para gozar
+nas máximas proporções a delícia de viver. Espalhava em torno um olhar
+farto. Nenhuma curiosidade ou interesse lhe solicitavam as mãos,
+enterradas nas algibeiras das pantalonas de seda, numa inércia de
+derrota. Anulado, bocejava com descoroçoada moleza. E nada mais
+instrutivo e doloroso do que este supremo homem do século XIX, no meio
+de todos os aparelhos reforçadores dos seus órgãos, e de todos os fios
+que disciplinavam ao seu serviço as Forças Universais, e dos seus trinta
+mil volumes repletos do saber dos séculos--estacando, com as mãos
+derrotadas no fundo das algibeiras, e exprimindo, na face e na indecisão
+mole de um bocejo, o embaraço de viver!
+
+
+
+
+VI
+
+
+Todas as tardes, cultivando uma dessas intimidades que entre tudo o que
+cansa jamais cansam, Jacinto, às quatro horas, com regularidade devota,
+visitava Madame d'Oriol:--porque essa flor de Parisianismo permanecera
+em Paris, mesmo depois do Grand-Prix, a desbotar na calma e no cisco da
+Cidade. Numa dessas tardes, porém, o Telefone, ansiosamente repicado,
+avisou Jacinto de que a sua doce amiga jantava em Enghien com os
+Trèves. (Esses senhores gozavam o seu Verão à beira do lago, numa casa
+toda branca e vestida de rosinhas brancas que pertencia a Efraim).
+
+Era um domingo silencioso, enevoado e macio, convidando às
+voluptuosidades da melancolia. E eu (no interesse da minha alma) sugeri
+a Jacinto que subíssemos à Basílica do _Sacré-Coeur_, em construção
+nos altos de Montmartre.
+
+--É uma seca, Zé Fernandes...
+
+--Com mil demónios! Eu nunca vi a Basílica...
+
+--Bem, bem! Vamos à Basílica, homem fatal de Noronha e Sande!
+
+E por fim logo que começámos a penetrar, para além de S. Vicente de
+Paula, em bairros estreitos e íngremes, de uma quietação de província,
+com muros velhos fechando quintalejos rústicos, mulheres despenteadas
+cosendo à soleira das portas, carriolas desatreladas descansando diante
+das tascas, galinhas soltas picando o lixo, cueiros molhados secando
+em canas--o meu fastidioso camarada sorriu àquela liberdade e singeleza
+das coisas.
+
+A vitória parou em frente à larga rua de escadarias que trepa, cortando
+vielazinhas campestres, até à esplanada, onde, envolta em andaimes, se
+ergue a Basílica imensa. Em cada patamar barracas de arraial devoto,
+forradas de paninho vermelho, transbordavam de Imagens, Bentinhos,
+Crucifixos, Corações de Jesus bordados a retrós, claros molhos de
+Rosários. Pelos cantos, velhas agachadas resmungavam a Ave-Maria. Dois
+padres desciam, tomando risonhamente uma pitada. Um sino lento tilintava
+na doçura cinzenta da tarde. E Jacinto murmurou, com agrado:
+
+--É curioso!
+
+Mas a Basílica em cima não nos interessou, abafada em tapumes e
+andaimes, toda branca e seca, de pedra muito nova, ainda sem alma. E
+Jacinto, por um impulso bem Jacíntico, caminhou gulosamente para a
+borda do terraço, a contemplar Paris. Sob o céu cinzento, na planície
+cinzenta, a Cidade jazia, toda cinzenta, como uma vasta e grossa camada
+de caliça e telha. E, na sua imobilidade e na sua mudez, algum rolo de
+fumo, mais ténue e ralo que o fumear de um escombro mal apagado, era todo
+o vestígio visível da sua vida magnífica.
+
+Então chasqueei risonhamente o meu Príncipe. Aí estava pois a Cidade,
+augusta criação da Humanidade! Ei-la aí, belo Jacinto! Sobre a crosta
+cinzenta da Terra--uma camada de caliça, apenas mais cinzenta! No
+entanto ainda momentos antes a deixáramos prodigiosamente viva, cheia
+de um povo forte, com todos os seus poderosos órgãos funcionando,
+abarrotada de riqueza, resplandecente de sapiência, na triunfal
+plenitude do seu orgulho, como Rainha do Mundo coroada de Graça. E agora
+eu e o belo Jacinto trepávamos a uma colina, espreitávamos,
+escutávamos--e de toda a estridente e radiante Civilização da Cidade não
+percebíamos nem um rumor nem um lampejo! E o 202, o soberbo 202, com os
+seus arames, os seus aparelhos, a pompa da sua Mecânica, os seus
+trinta mil livros? Sumido, esvaído na confusão de telha e cinza! Para
+este esvaecimento pois da obra humana, mal ela se contempla de cem
+metros de altura, arqueja o obreiro humano em tão angustioso esforço?
+Hein, Jacinto?... Onde estão os teus Armazéns servidos por três mil
+caixeiros? E os Bancos em que retine o ouro universal? E as Bibliotecas
+atulhadas com o saber dos séculos? Tudo se fundiu numa nódoa parda que
+suja a Terra. Aos olhos piscos de um Zé Fernandes, logo que ele suba,
+fumando o seu cigarro, a uma arredada colina--a sublime edificação dos
+Tempos não é mais que um silencioso monturo da espessura e da cor do pó
+final. O que será então aos olhos de Deus!
+
+E ante estes clamores, lançados com afável malícia para espicaçar o meu
+Príncipe, ele murmurou, pensativo:
+
+--Sim, é talvez tudo uma ilusão... E a Cidade a maior ilusão!
+
+Tão facilmente vitorioso redobrei de facúndia. Certamente, meu
+Príncipe, uma Ilusão! E a mais amarga, por que o Homem pensa ter na
+Cidade a base de toda a sua grandeza e só nela tem a fonte de toda a
+sua miséria. Vê, Jacinto! Na Cidade perdeu ele a força e beleza
+harmoniosa do corpo, e se tornou esse ser ressequido e escanifrado ou
+obeso e afogado em unto, de ossos moles como trapos, de nervos trémulos
+como arames, com cangalhas, com chinós, com dentaduras de chumbo, sem
+sangue, sem febra, sem viço, torto, corcunda--esse ser em que Deus,
+espantado, mal pode reconhecer o seu esbelto e rijo e nobre Adão! Na
+Cidade findou a sua liberdade moral: cada manhã ela lhe impõe uma
+necessidade, e cada necessidade o arremessa para uma dependência: pobre
+e subalterno, a sua vida é um constante solicitar, adular, vergar,
+rastejar, aturar; rico e superior como um Jacinto, a Sociedade logo o
+enreda em tradições, preceitos, etiquetas, cerimónias, praxes, ritos,
+serviços mais disciplinares que os de um cárcere ou de um quartel... A
+sua tranquilidade (bem tão alto que Deus com ele recompensa os Santos)
+onde está, meu Jacinto? Sumida para sempre, nessa batalha desesperada
+pelo pão, ou pela fama, ou pelo poder, ou pelo gozo, ou pela fugidia
+rodela de ouro! Alegria como a haverá na Cidade para esses milhões de
+seres que tumultuam na arquejante ocupação de _desejar_--e que, nunca
+fartando o desejo, incessantemente padecem de desilusão, desesperança
+ou derrota? Os sentimentos mais genuinamente humanos logo na Cidade se
+desumanizam! Vê, meu Jacinto! São como luzes que o áspero vento do
+viver social não deixa arder com serenidade e limpidez; e aqui abala e
+faz tremer; e além brutamente apaga; e adiante obriga a flamejar com
+desnaturada violência. As amizades nunca passam de alianças que o
+interesse, na hora inquieta da defesa ou na hora sôfrega do assalto, ata
+apressadamente com um cordel apressado, e que estalam ao menor embate da
+rivalidade ou do orgulho. E o Amor, na Cidade, meu gentil Jacinto?
+Considera esses vastos armazéns com espelhos, onde a nobre carne de Eva
+se vende, tarifada ao arrátel, como a de vaca! Contempla esse velho
+Deus do Himeneu, que circula trazendo em vez do ondeante facho da Paixão
+a apertada carteira do Dote! Espreita essa turba que foge dos largos
+caminhos assoalhados em que os Faunos amam as Ninfas na boa lei
+natural, e busca tristemente os recantos lôbregos de Sodoma ou de
+Lesbos!... Mas o que a Cidade mais deteriora no homem é a Inteligência,
+porque ou lha arregimenta dentro da banalidade ou lha empurra para a
+extravagância. Nesta densa e pairante camada de Ideias e Fórmulas que
+constitui a atmosfera mental das Cidades, o homem que a respira, nela
+envolto, só pensa todos os pensamentos já pensados, só exprime todas as
+expressões já exprimidas:--ou então, para se destacar na pardacenta e
+chata Rotina e trepar ao frágil andaime da gloríola, inventa num
+gemente esforço, inchando o crânio, uma novidade disforme que espante e
+que detenha a multidão como um mostrengo numa Feira. Todos,
+intelectualmente, são carneiros, trilhando o mesmo trilho, balando o
+mesmo balido, com o focinho pendido para a poeira onde pisam, em fila,
+as pegadas pisadas;--e alguns são macacos, saltando no topo de mastros
+vistosos, com esgares e cabriolas. Assim, meu Jacinto, na Cidade,
+nesta criação tão antinatural onde o solo é de pau e feltro e
+alcatrão, e o carvão tapa o céu, e a gente vive acamada nos prédios como
+o paninho nas lojas, e a claridade vem pelos canos, e as mentiras se
+murmuram através de arames--o homem aparece como uma criatura
+anti-humana, sem beleza, sem força, sem liberdade, sem riso, sem
+sentimento, e trazendo em si um espírito que é passivo como um escravo
+ou impudente como um histrião... E aqui tem o belo Jacinto o que é a
+bela Cidade!
+
+E ante estas encanecidas e veneráveis invectivas, retumbadas
+pontualmente por todos os Moralistas bucólicos, desde Hesíodo, através
+dos séculos--o meu Príncipe vergou a nuca dócil, como se elas
+brotassem, inesperadas e frescas, de uma Revelação superior, naqueles
+cimos de Montmartre:
+
+--Sim, com efeito, a Cidade... É talvez uma ilusão perversa!
+
+Insisti logo, com abundância, puxando os punhos, saboreando o meu fácil
+filosofar. E se ao menos essa ilusão da Cidade tornasse feliz a
+totalidade dos seres, que a mantêm... Mas não! Só uma estreita e
+reluzente casta goza na Cidade os gozos especiais que ela cria. O
+resto, a escura, imensa plebe, só nela sofre, e com sofrimentos
+especiais que só nela existem! Deste terraço, junto a esta rica
+Basílica consagrada ao Coração que amou o Pobre e por ele sangrou, bem
+avistamos nós o lôbrego casario onde a plebe se curva sob esse antigo
+opróbrio de que nem Religiões, nem Filosofias, nem Morais, nem a sua
+própria força brutal a poderão jamais libertar! Aí jaz, espalhada pela
+Cidade, como esterco vil que fecunda a Cidade. Os séculos rolam; e
+sempre imutáveis farrapos lhe cobrem o corpo, e sempre debaixo deles,
+através do longo dia, os homens labutarão e as mulheres chorarão. E com
+este labor e este pranto dos pobres, meu Príncipe, se edifica a
+abundância da Cidade! Ei-la agora coberta de moradas em que eles se não
+abrigam; armazenada de estofos, com que eles se não agasalham;
+abarrotada de alimentos, com que eles se não saciam! Para eles só a
+neve, quando a neve cai, e entorpece e sepulta as criancinhas aninhadas
+pelos bancos das praças ou sob os arcos das pontes de Paris... A neve
+cai, muda e branca na treva: as criancinhas gelam nos seus trapos: e a
+polícia, em torno, ronda atenta para que não seja perturbado o tépido
+sono daqueles que amam a neve, para patinar nos lagos do Bosque de
+Bolonha com peliças de três mil francos. Mas quê, meu Jacinto! a tua
+Civilização reclama insaciavelmente regalos e pompas, que só obterá,
+nesta amarga desarmonia social, se o Capital der ao Trabalho, por cada
+arquejante esforço, uma migalha ratinhada. Irremediável é, pois, que
+incessantemente a plebe sirva, a plebe pene! A sua esfalfada miséria é a
+condição do esplendor sereno da Cidade. Se nas suas tigelas fumegasse a
+justa ração de caldo--não poderia aparecer nas baixelas de prata a
+luxuosa porção de _foie-gras_ e túbaras que são o orgulho da
+Civilização. Há andrajos em trapeiras--para que as belas Madamas
+d'Oriol, resplandecentes de sedas e rendas, subam, em doce ondulação, a
+escadaria da Ópera. Há mãos regeladas que se estendem, e beiços sumidos
+que agradecem o dom magnânimo de um _sou_--para que os Efrains tenham
+dez milhões no Banco de França, se aqueçam à chama rica da lenha
+aromática, e surtam de colares de safiras as suas concubinas, netas
+dos Duques de Atenas. E um povo chora de fome, e da fome dos seus
+pequeninos--para que os Jacintos, em Janeiro, debiquem, bocejando,
+sobre pratos de Saxe, morangos gelados em Champanhe e avivados de um fio
+de éter!
+
+--E eu comi dos teus morangos, Jacinto! Miseráveis, tu e eu!
+
+Ele murmurou, desolado:
+
+--É horrível, comemos desses morangos... E talvez por uma ilusão!
+
+Pensativamente deixou a borda do terraço, como se a presença da Cidade,
+estendida na planície, fosse escandalosa. E caminhámos devagar, sob a
+moleza cinzenta da tarde, filosofando--considerando que para esta
+iniquidade não havia cura humana, trazida pelo esforço humano. Ah, os
+Efrains, os Trèves, os vorazes e sombrios tubarões do mar humano, só
+abandonarão ou afrouxarão a exploração das Plebes, se uma influência
+celeste, por milagre novo, mais alto que os milagres velhos, lhes
+converter as almas! O burguês triunfa, muito forte, todo endurecido no
+pecado--e contra ele são impotentes os prantos dos Humanitários, os
+raciocínios dos Lógicos, as bombas dos Anarquistas. Para amolecer tão
+duro granito só uma doçura divina. Eis pois esperança da terra novamente
+posta num Messias!... Um decerto desceu outrora dos grandes Céus; e,
+para mostrar bem que mandado trazia, penetrou mansamente no mundo pela
+porta de um curral. Mas a sua passagem entre os homens foi tão curta! Um
+meigo sermão numa montanha, ao fim de uma tarde meiga; uma repreensão
+moderada aos Fariseus que então redigiam o _Boulevard_; algumas
+vergastadas nos Efrains vendilhões; e logo, através da porta da morte,
+a fuga radiosa para o Paraíso! Esse adorável filho de Deus teve
+demasiada pressa em recolher a casa de seu Pai! E os homens a quem ele
+incumbira a continuação da sua obra, envolvidos logo pelas influências
+dos Efrains, dos Trèves, da gente do _Boulevard_, bem depressa
+esqueceram a lição da Montanha e do lago de Tiberíade--e eis que por seu
+turno revestem a púrpura, e são Bispos, e são Papas, e se aliam à
+opressão, e reinam com ela, e edificam a duração do seu Reino sobre a
+miséria dos sem-pão e dos sem-lar! Assim tem de ser recomeçada a obra da
+Redenção. Jesus, ou Guatama, ou Cristna, ou outro desses filhos que
+Deus por vezes escolhe no seio de uma Virgem, nos quietos vergéis da
+Ásia, deverá novamente descer à terra de servidão. Virá ele, o
+desejado? Porventura já algum grave rei do Oriente despertou, e olhou a
+estrela, e tomou a mirra nas suas mãos reais, e montou pensativamente
+sobre o seu dromedário? Já por esses arredores da dura Cidade, de noite,
+enquanto Caifás e Madalena ceiam lagosta no Paillard, andou um Anjo,
+atento, num voo lento, escolhendo um curral? Já de longe, sem moço que
+os tanja, na gostosa pressa de um divino encontro, vem trotando a vaca,
+trotando o burrinho?
+
+--Tu sabes, Jacinto?
+
+Não, Jacinto não sabia--e queria acender o charuto. Forneci um
+fósforo ao meu Príncipe. Ainda rondámos no terraço, espalhando pelo ar
+outras ideias sólidas que no ar se desfaziam. Depois penetrávamos na
+Basílica--quando um Sacristão nédio, de barrete de veludo, cerrou
+fortemente a porta, e um Padre passou, enterrando na algibeira, com um
+cansado gesto final e como para sempre, o seu velho Breviário.
+
+--Estou com uma sede, Jacinto... Foi esta tremenda Filosofia!
+
+Descemos a escadaria, armada em arraial devoto. O meu pensativo camarada
+comprou uma imagem da Basílica. E saltávamos para a vitória, quando
+alguém gritou rijamente, numa surpresa:
+
+--Eh Jacinto!
+
+O meu Príncipe abriu os braços, também espantado:
+
+--Eh Maurício!
+
+E, num alvoroço, atravessou a rua, para um café, onde, sob o toldo de
+riscadinho, um robusto homem, de barba em bico, remexia o seu absinto,
+com o chapéu de palha descaído na nuca, a quinzena solta sobre a camisa
+de seda, sem gravata, como se descansasse num banco, entre as sombras
+do seu jardim.
+
+E ambos, apertando as mãos, se admiravam daquele encontro, num
+domingo de Verão, sobre as alturas de Montmartre.
+
+--Oh! eu estou aqui no meu bairro! exclamava alegremente Maurício. Em
+família, em chinelos... Há três meses que subi para estes cimos da
+Verdade... Mas tu na Santa Colina, homem profano da planície e das ruas
+de Israel!
+
+O meu Príncipe mostrou o seu Zé Fernandes:
+
+--Com este amigo, em peregrinação à Basílica... O meu amigo Fernandes
+Lorena... Maurício de Mayolle, velho camarada.
+
+Mr. de Mayolle (que, pela face larga e nariz nobremente grosso, lembrava
+Francisco de Valois, Rei de França) ergueu o seu chapéu de palha. E
+empurrava uma cadeira, insistia que nos acomodássemos para um absinto
+ou para um bock.
+
+--Toma um bock, Zé Fernandes! lembrou Jacinto. Tu estavas a ganir com
+sede!
+
+Corri lentamente a língua sobre os beiços, mais secos que pergaminhos:
+
+--Estou a guardar esta sedezinha para logo, para o jantar, com um
+vinhozinho gelado!
+
+Maurício saudou, com silenciosa admiração, esta minha avisada malícia. E
+imediatamente, para o meu Príncipe:
+
+--Há três anos que te não vejo, Jacinto... Como tem sido possível,
+neste Paris que é uma aldeola e que tu atravancas?
+
+--A vida, Maurício, a espalhada vida... Com efeito! Há três anos,
+desde a casa dos Lamotte-Orcel. Tu ainda visitas esse santuário?
+
+Maurício atirou um gesto desdenhoso e largo, que sacudia um mundo:
+
+--Oh! Há mais de um ano que me separei dessa bicharia herética... Uma
+turba indisciplinada, meu Jacinto! Nenhuma fixidez, um diletantismo
+estonteado, carência completa e cómica de toda a base experimental...
+Quando tu ias aos Lamotte-Orcel, e à Parola do 37, e à _Cerveja Ideal_,
+o que reinava?...
+
+Jacinto catou lentamente as suas recordações por entre os pêlos do
+bigode:
+
+--Eu sei!... Reinava Wagner e a Mitologia Édica, e o Raganarock, e as
+Nornas... Muito Pré-Rafaelismo também, e Montagna, e Fra Angelico... Em
+moral, o Renanismo.
+
+Maurício sacudia os ombros. Oh, tudo isso pertencia a um passado
+arcaico, quase lacustre! Quando Madame de Lamotte-Orcel remobilara a
+sala com veludos Morris, grossas alcachofras sobre tons de açafrão, já o
+Renanismo passara, tão esquecido como o Cartesianismo...
+
+--Tu ainda és do tempo do culto do _Eu_?
+
+O meu Príncipe suspirou risonhamente:
+
+--Ainda o cultivei.
+
+--Pois bem! Logo depois foi o Hartmanismo, o Inconsciente. Depois o
+Nietzismo, o Feudalismo espiritual... Depois grassou o Tolstoïsmo, um
+furor imenso de renunciamento neo-cenobítico. Ainda me lembro de um
+jantar em que apareceu um mostrengo de um eslavo, de guedelha sórdida,
+que atirava olhos medonhos para o decote da pobre condessa de Arche, e
+que grunhia com o dedo espetado:--«Busquemos a luz, muito por baixo, no
+pó da terra!»--E à sobremesa bebemos à delícia da humildade e do
+trabalho servil, com aquele Champanhe Marceaux granitado que a Matilde
+dava nos grandes dias em copos da forma do San-Gral! Depois veio
+Emersonismo... Mas a praga cruel foi Ibsenismo! Enfim, meu filho, uma
+Babel de Éticas e Estéticas. Paris parecia demente. Já havia uns
+desgarrados que tendiam para o Luciferismo. E amiguinhas nossas,
+coitadas, iam descambando para o Falismo, uma moxinifada
+místico-brejeira, pregada por aquele pobre La Carte que depois se fez
+Monge Branco, e que anda no Deserto... Um horror! E uma tarde, de
+repente, toda esta massa se precipita com ânsia para o Ruskinismo!
+
+Eu, agarrado à bengala, bem fincada no chão, sentia como um vendaval que
+redemoinhava, me torcia o crânio! E até Jacinto balbuciou, esgazeado:
+
+--O Ruskinismo?
+
+--Sim, o velho Ruskin,... John Ruskin!
+
+O meu ditoso Príncipe compreendeu:
+
+--Ah, Ruskin!... _As sete lâmpadas da Arquitectura_, _A Coroa de
+Oliveira Brava_... É o culto da Beleza.
+
+--Sim! O culto da Beleza, confirmou Maurício. Mas a esse tempo eu,
+enojado, já descera de todas essas nuvens vãs... Pisava um chão mais
+seguro, mais fértil.
+
+Deu um sorvo lento ao absinto, cerrando as pálpebras. Jacinto
+esperava, com o seu fino nariz dilatado, como para respirar a Flor de
+Novidade que ia desabrochar:
+
+--E então? então?...
+
+Mas o outro murmurou, dispersamente, por entre reticências em que se
+velava:
+
+--Vim para Montmartre... Tenho aqui um amigo, um homem de génio, que
+percorreu toda a Índia... Viveu com os Toddas, esteve nos mosteiros de
+Garma-Khian e de Dashi-Lumbo, e estudou com Gegen-Chutu no retiro santo
+de Urga... Gegen-Chutu foi a décima sexta encarnação de Guatama, e era
+portanto um Boddi-sattva... Trabalhamos, procuramos... Não são visões.
+Mas factos, experiências bem antigas, que vêm talvez desde os tempos de
+Cristna...
+
+Através destes nomes, que exalavam um perfume triste de vetustos
+ritos, arredara a cadeira. E de pé, deixando cair sobre a mesa,
+distraidamente, para pagar o absinto, moedas de prata e moedas de
+cobre, murmurava com os olhos descansados em Jacinto, mas perdidos
+noutra visão:
+
+--Por fim tudo se reduz ao supremo desenvolvimento da Vontade dentro da
+suprema pureza da Vida. É toda a ciência e força dos grandes mestres
+Hindus... Mas a pureza absoluta da vida, eis a luta, eis o obstáculo!
+Não basta mesmo o Deserto, nem o bosque do mais velho templo no alto
+Tibete... Ainda assim, meu Jacinto, já obtivemos resultados bem
+estranhos. Sabes as experiências de Tyndall, com as chamas
+sensitivas... O pobre químico, para demonstrar as vibrações do som,
+tocou quase às portas da verdade esotérica. Mas quê! homem de ciência,
+portanto homem de estupidez, ficou aquém, entre as suas placas e as suas
+retortas! Nós fomos além. Verificámos as _ondulações da Vontade_! Diante
+de nós, pela expansão da energia do meu companheiro, e em cadência com o
+seu mandado, uma chama, a três metros, ondulou, rastejou, despediu
+línguas ardentes, lambeu uma alta parede, rugiu furiosa e negra,
+resplandeceu direita e silenciosa, e bruscamente abatida em cinza
+morreu!
+
+E o estranho homem, com o chapéu para a nuca, ficou imóvel, de braços
+abertos e os olhares esgazeados, como no renovado assombro e no transe
+daquele prodígio. Depois, recaindo no seu modo fácil e sereno,
+acendendo de vagar um cigarro:
+
+--Uma destas manhãs, Jacinto, apareço no 202, para almoçar contigo, e
+levo o meu amigo. Ele só come arroz, uma pouca de salada, e fruta. E
+conversamos... Tu tinhas um exemplar do _Sepher-Zerijah_ e outro do
+_Targum d'Onkelus_. Preciso folhear esses livros.
+
+Apertou a mão do meu Príncipe, saudou este assombrado Zé Fernandes, e
+serenamente seguiu pela quieta rua, com o chapéu de palha para a nuca,
+as mãos enterradas nas algibeiras, como um homem natural entre coisas
+naturais.
+
+--Oh Jacinto! Quem é este bruxo? Conta!... Quem é ele, santíssimo nome
+de Deus?
+
+Recostado na vitória, ajeitando o vinco das calças, o meu Príncipe
+contou, concisamente. Era um nobre e leal rapaz, muito rico, muito
+inteligente, da antiga casa soberana de Mayolle, descendente dos Duques
+de Septimânia... E murmurou, através do costumado bocejo:
+
+--O desenvolvimento supremo da vontade!... Teosofia, Budismo
+esotérico... Aspirações, decepções... Já experimentei... Uma maçada!
+
+Atravessamos, calados, o rumor de Paris, sob a moleza abafada do
+crepúsculo de Verão, para jantar no Bosque, no Pavilhão de Armenonville,
+onde os Tziganes, avistando Jacinto, tocaram o _Hino da Carta_ com
+paixão, com langor, numa cadência de _czarda_ dolorosa e áspera.
+
+E eu, desdobrando regaladamente o guardanapo:
+
+--Pois venha agora para a minha rica sede esse vinhozinho gelado!
+Grandemente o mereço, caramba, que superiormente filosofei!... E creio
+que estabeleci definitivamente no espírito do Sr. D. Jacinto o salutar
+horror da cidade!
+
+O meu Príncipe percorria, catando o bigode, a Lista dos Vinhos, enquanto
+o Copeiro, esperava com pensativa reverência:
+
+--Mande gelar duas garrafas de champanhe S.^t Marceaux... Mas antes, um
+Barsac velho, apenas refrescado... Água de Evian... Não, de Bussang!
+Bem, d'Evian e de Bussang! E, para começar, um bock.
+
+Depois, bocejando, desabotoando lentamente a sobrecasaca cinzenta:
+
+--Pois estou com vontade de construir uma casa nos cimos de Montmartre,
+com um miradouro no alto, todo de vidro e ferro, para descansar de tarde
+e dominar a Cidade...
+
+
+
+
+VII
+
+
+Julho findara com uma chuva refrescante e consoladora:--e eu pensava em
+realizar finalmente a minha romagem às cidades da Europa, sempre
+retardada, através da Primavera, pelas surpresas do Mundo e da Carne.
+Mas, de repente, Jacinto começou a rogar e a reclamar que o seu Zé
+Fernandes o acompanhasse, todas as tardes, a casa de Madame d'Oriol! E
+eu compreendi que o meu Príncipe (à maneira do divino Aquiles, que,
+sob a tenda, e junto da branca, insípida e dócil Briseis, nunca
+dispensava Pátroclo) desejava ter, no retiro do Amor, a presença, o
+conforto e o socorro da Amizade. Pobre Jacinto! Logo pela manhã
+combinava pelo telefone com Madame d'Oriol essa hora de quietação e
+doçura. E assim encontrávamos sempre a superfina Dama prevenida e
+solitária naquela sala da rua de Lisbonne, onde Jacinto e eu mal
+cabíamos, sufocávamos na confusão, entre os cestos de flores, e os
+ouros rocalhados, e os monstros do Japão, e a galante fragilidade dos
+Saxes, e as peles de feras estiradas aos pés de sofás adormecedores, e
+os biombos de Aubusson formando alcovas favoráveis e lânguidas...
+Aninhada numa cadeira de bambu lacada de branco, entre almofadas
+aromatizadas de verbena da Índia, com um romance pousado no regaço, ela
+esperava o seu amigo, numa certa indolência passiva e mansa que me
+lembrava sempre o Oriente e um Harém. Mas, pelas frescas sedinhas
+Pompadour, parecia também uma marquesinha de Versalhes cansada do grande
+século; ou então, com brocados sombrios e largos cintos cravejados, era
+como uma veneziana, preparada para um Doge. A minha intrusão, na
+intimidade daquelas tardes, não a contrariava--antes lhe trazia um
+vassalo novo, com dois olhos novos para a contemplar. Eu era já o seu
+_cher Fernandez_!
+
+E apenas descerrava os lábios avivados de vermelho, semelhantes a uma
+ferida fresca, e começava a chalrar--logo nos envolvia o burburinho e a
+murmuração de Paris. Ela só sabia chalrar sobre a sua pessoa que era o
+resumo da sua Classe, e sobre a sua existência que era o resumo do seu
+Paris:--e a sua existência, desde casada, consistira em ornar com
+suprema ciência o seu lindo corpo; entrar com perfeição numa sala e
+irradiar; remexer em estofos e conferenciar pensativamente com o grande
+costureiro; rolar pelo Bois pousada na sua vitória como uma imagem de
+cera; decotar e branquear o colo; debicar uma perna de galinhola em
+mesas de luxo; fender turbas ricas em bailes espessos; adormecer com a
+vaidade esfalfada; percorrer de manhã, tomando chocolate, os «Echos» e
+as «Festas» do _Figaro_; e de vez em quando murmurar para o marido--«Ah,
+és tu?...» Além disso, ao lusco-fusco, num sofá, alguns certos
+suspiros, entre os braços de alguém a quem era constante. Ao meu
+Príncipe, nesse ano, pertencia o sofá. E todos estes deveres de
+Cidade e de Casta os cumpria sorrindo. Tanto sorrira, desde casada, que
+já duas pregas lhe vincavam os cantos dos beiços, indelevelmente. Mas
+nem na alma, nem na pele, mostrava outras máculas de fadiga. A sua
+Agenda de Visitas continha mil e trezentos nomes, todos do Nobiliário.
+Através, porém, desta fulgurante sociabilidade arranjara no cérebro
+(onde de certo penetrara o pó de arroz que desde o colégio acamava na
+testa) algumas Ideias Gerais. Em Política era pelos Príncipes; e todos os
+outros «horrores», a República, o Socialismo, a Democracia que se não
+lava, os sacudia risonhamente, com um bater de leque. Na Semana Santa
+juntava às rendas do chapéu a Coroa amarga de espinhos--por serem esses,
+para a gente bem-nascida, dias de penitência e dor. E, diante de todo o
+Livro ou de todo o Quadro, sentia a emoção e formulava finamente o
+juízo, que no seu Mundo, e nessa Semana, fosse elegante formular e
+sentir. Tinha trinta anos. Nunca se embaraçara nos tormentos de uma
+paixão. Marcava, com rígida regularidade, todas as suas despesas num
+Livro de Contas encadernado em pelúcia verde-mar. A sua religião íntima
+(e mais genuína do que a outra, que a levava todos os domingos à missa
+de S. Philippe du Roule) era a Ordem. No Inverno, logo que na amável
+cidade começavam a morrer de frio, debaixo das pontes, criancinhas sem
+abrigo--ela preparava com comovido cuidado os seus vestidos de
+patinagem. E preparava também os de Caridade--porque era boa, e
+concorria para Bazares, Concertos e Tômbolas, quando fossem patrocinados
+pelas Duquesas do seu «rancho». Depois, na Primavera, muito
+metodicamente, regateando, vendia a uma adela os vestidos e as capas de
+Inverno. Paris admirava nela uma suprema flor de Parisianismo.
+
+Pois respirando esta macia e fina flor passámos nós as tardes desse
+Julho enquanto as outras flores pendiam e murchavam na calma e no pó.
+Mas, na intimidade do seu perfume, Jacinto não parecia encontrar esse
+contentamento de alma, que entre tudo que cansa jamais cansa. Era já com
+a paciente lentidão com que se sobem todos os Calvários, os mais bem
+tapetados, que ele subia a escadaria de Madame d'Oriol, tão suave e
+orlada de tão frescas palmeiras. Quando a apetitosa criatura, com
+dedicação, para o entreter, desdobrava a sua vivacidade como um pavão
+desdobra a cauda, o meu pobre Príncipe puxava os pêlos do bigode
+murcho, na murcha postura de quem, por uma manhã de Maio, enquanto os
+melros cantam nas sebes, assiste, numa igreja negra, a um responso
+fúnebre por um Príncipe. E no beijo que ele chuchurreava sobre a mão da
+sua doce amiga, para se despedir, havia sempre alacridade e alívio.
+
+Mas ao outro dia, ao começar da tarde, depois de errar através da
+Biblioteca e do Gabinete, puxando sem curiosidade a tira do telégrafo,
+atirando algum recado mole pelo telefone, espalhando o olhar
+desalentado sobre o saber imenso dos trinta mil livros, remexendo a
+colina dos Jornais e Revistas, terminava por me chamar, já com a
+preguiça triste da façanha a que se impelia:
+
+--Vamos a casa de Madame d'Oriol, Zé Fernandes? Eu tinha marcadas para
+hoje seis ou sete coisas, mas não posso, é uma seca! Vamos a casa de
+Madame d'Oriol... Ao menos lá, às vezes, há um bocado de frescura e paz.
+
+E foi numa dessas tardes, em que o meu Príncipe assim procurava
+desesperadamente um «bocado de frescura e paz», que encontramos, ao meio
+da escadaria suave, entre as palmeiras, o marido de Madame d'Oriol. Eu
+já o conhecia--porque Jacinto mo mostrara uma noite, no Grand Café,
+ceando com dançarinas do _Moulin Rouge_. Era um moço gordalhufo,
+indolente, de uma brancura crua de toucinho, com uma calvície já séria e
+já lustrosa, constantemente acariciada pelos seus gordos dedos
+carregados de anéis. Nessa tarde, porém, vinha vermelho, todo
+emocionado, calçando as luvas com cólera. Estacou diante de Jacinto--e
+sem mesmo lhe apertar a mão, atirando um gesto para o patamar:
+
+--Visita lá acima? Vai achar a Joana em péssima disposição... Tivemos
+uma cena, e tremenda.
+
+Deu outro puxão desesperado à luva cor de palha, já esgaçada:
+
+--Estamos separados, cada um vive como lhe apetece, é excelente! Mas
+em tudo há medida e forma... Ela tem o meu nome, não posso consentir
+que em Paris, com conhecimento de todo o Paris, seja a amante do
+trintanário. Amantes na nossa roda, vá! Um lacaio, não!... Se quer
+dormir com os criados que emigre para o fundo da província, para a sua
+casa de Corbelle. E lá até com os animais!... Foi o que eu lhe disse!
+Ficou como uma fera.
+
+Sacudiu então a mão do Jacinto que «era da sua roda»--rebolou pela
+escadaria florida e nobre. O meu Príncipe, imóvel nos degraus, de face
+pendida, cofiava lentamente os fios pendidos do bigode. Depois, olhando
+para mim, como um ser saturado de tédio e em quem nenhum tédio novo pode
+caber:
+
+--Já agora subamos, sim?
+
+ * * * * *
+
+Parti então, com muita alegria, para a minha apetecida romagem às
+Cidades da Europa.
+
+Ia viajar!... Viajei. Trinta e quatro vezes, à pressa, bufando, com todo
+o sangue na face, desfiz e refiz a mala. Onze vezes passei o dia num
+vagão, envolto em poeirada e fumo, sufocado, a arquejar, a escorrer de
+suor, saltando em cada estação para sorver desesperadamente limonadas
+mornas que me escangalhavam a entranha. Catorze vezes subi
+derreadamente, atrás de um criado, a escadaria desconhecida de um Hotel;
+e espalhei o olhar incerto por um quarto desconhecido; e estranhei uma
+cama desconhecida, de onde me erguia, estremunhado, para pedir em línguas
+desconhecidas um café com leite que me sabia a fava, um banho de tina
+que me cheirava a lodo. Oito vezes travei bulhas abomináveis na rua com
+cocheiros que me espoliavam. Perdi uma chapeleira, quinze lenços, três
+ceroulas, e duas botas, uma branca, outra envernizada, ambas do pé
+direito. Em mais de trinta mesas-redondas esperei tristonhamente que me
+chegasse o _boeuf-à-la-mode_, já frio, com molho coalhado--e que o
+copeiro me trouxesse a garrafa de Bordéus que eu provava e repelia com
+desditosa carantonha. Percorri, na fresca penumbra dos granitos e dos
+mármores, com pé respeitoso e abafado, vinte e nove Catedrais. Trilhei
+molemente, com uma dor surda na nuca, em catorze museus, cento e
+quarenta salas revestidas até aos tectos de Cristos, heróis, santos,
+ninfas, princesas, batalhas, arquitecturas, verduras, nudezas, sombrias
+manchas de betume, tristezas das formas imóveis!... E o dia mais doce
+foi quando em Veneza, onde chovia desabaladamente, encontrei um velho
+inglês de penca flamejante que habitara o Porto, conhecera o Ricardo, o
+José Duarte, o Visconde do Bom Sucesso, e as Limas da Boavista...
+Gastei seis mil francos. Tinha viajado.
+
+Enfim, numa bendita manhã de Outubro, na primeira friagem e névoa
+de Outono, avistei com enternecido alvoroço as cortinas de seda ainda
+fechadas do meu 202! Afaguei o ombro do Porteiro. No patamar, onde
+encontrei o ar macio e tépido que deixara em Florença, apertei os ossos
+do Grilo excelente:
+
+--E Jacinto?
+
+O digno negro murmurou, de entre os altos, reluzentes colarinhos:
+
+--S. Exc.^a circula... Pesadote, fartote. Entrou tarde do baile da
+Duquesa de Loches. Era o contrato de casamento de Mademoiselle de
+Loches... Ainda tomou antes de se deitar um chá gelado... E disse a
+coçar a cabeça: «Eh! que maçada! Eh! que maçada!»
+
+Depois do banho e do chocolate, às dez horas, consolado e quentinho
+dentro do roupão de veludo, rompi pelo quarto do meu Príncipe, de
+braços abertos e sedentos:
+
+--Oh Jacinto!
+
+--Oh viajante!...
+
+Quando nos estreitámos, fartamente, eu recuei para lhe contemplar a
+face--e nela a alma. Encolhido numa quinzena de pano cor de malva
+orlada de peles de marta, com os pêlos do bigode murchos, as suas
+duas rugas mais cavadas, uma moleza nos ombros largos, o meu amigo
+parecia já vergado sob o peso e a opressão e o terror do seu dia. Eu
+sorri, para que ele sorrisse:
+
+--Valente Jacinto... Então como tens vivido?
+
+Ele respondeu, muito serenamente:
+
+--Como um morto.
+
+Forcei uma gargalhada leve, como se o seu mal fosse leve:
+
+--Aborrecidote, hein?
+
+O meu Príncipe lançou, num gesto tão vencido, um _oh_ tão cansado--que
+eu compadecido de novo o abracei, o estreitei, como para lhe comunicar
+uma parte desta alegria sólida e pura que recebi do meu Deus!
+
+ * * * * *
+
+Desde essa manhã, Jacinto começou a mostrar claramente,
+escancaradamente, ao seu Zé Fernandes, o tédio de que a existência o
+saturava. O seu cuidado realmente e o seu esforço consistiram então em
+sondar e formular esse tédio--na esperança de o vencer logo que lhe
+conhecesse bem a origem e a potência. E o meu pobre Jacinto reproduziu
+a comédia pouco divertida de um Melancólico que perpetuamente raciocina a
+sua Melancolia! Nesse raciocínio, ele partia sempre do facto
+irrecusável e maciço--que a sua vida especial de Jacinto continha
+todos os interesses e todas as facilidades, possíveis no século XIX,
+numa vida de homem que não é um Génio, nem um Santo. Com efeito!
+Apesar do apetite embotado por doze anos de Champanhes e molhos ricos
+ele conservava a sua rijeza de pinheiro bravo; na luz da sua
+inteligência não aparecera nem tremor nem morrão; a boa terra de
+Portugal, e algumas Companhias maciças, pontualmente lhe forneciam a
+sua doce centena de contos; sempre activas e sempre fiéis o cercavam as
+simpatias de uma Cidade inconstante e chasqueadora; o 202 estourava de
+confortos; nenhuma amargura de coração o atormentava;--e todavia era um
+Triste. Porquê?... E daqui saltava, com certeza fulgurante, à conclusão
+de que a sua tristeza, esse cinzento burel em que a sua alma andava
+amortalhada, não provinham da sua individualidade de Jacinto--mas da
+Vida, do lamentável, do desastroso facto de Viver! E assim o saudável,
+intelectual, riquíssimo, bem-acolhido Jacinto tombara no Pessimismo.
+
+E um Pessimismo irritado! Porque (segundo afirmava) ele nascera para
+ser tão naturalmente optimista como um pardal ou um gato. E, até aos
+doze anos, enquanto fora um bicho superiormente amimado, com a sua
+pele sempre bem coberta, o seu prato sempre bem cheio, nunca sentira
+fadiga, ou melancolia, ou contrariedade, ou pena--e as lágrimas eram
+para ele tão incompreensíveis que lhe pareciam viciosas. Só quando
+crescera, e da animalidade penetrara na humanidade, despontara nele
+esse fermento de tristeza, muito tempo indesenvolvido no tumulto das
+primeiras curiosidades, e que depois alastrara, o invadira todo, se lhe
+tornara consubstancial e como o sangue das suas veias. Sofrer portanto
+era inseparável de Viver. Sofrimentos diferentes nos destinos
+diferentes da Vida. Na turba dos humanos é a angustiada luta pelo pão,
+pelo tecto, pelo lume; numa casta, agitada por necessidades mais altas,
+é a amargura das desilusões, o mal da imaginação insatisfeita, o
+orgulho chocando contra obstáculo; nele, que tinha os bens todos e
+desejos nenhuns, era o tédio. Miséria do Corpo, tormento da Vontade,
+fastio da Inteligência--eis a Vida! E agora aos trinta e três anos a
+sua ocupação era bocejar, correr com os dedos desalentados a face
+pendida para nela palpar e apetecer a caveira.
+
+Foi então que o meu Príncipe começou a ler apaixonadamente, desde o
+_Eclesiastes_ até Schopenhauer, todos os líricos e todos os teóricos
+do Pessimismo. Nestas leituras encontrava a reconfortante comprovação
+de que o seu mal não era mesquinhamente «Jacíntico»--mas grandiosamente
+resultante de uma Lei Universal. Já há quatro mil anos, na remota
+Jerusalém, a Vida, mesmo nas suas delícias mais triunfais, se resumia
+em Ilusão. Já o Rei incomparável, de sapiência divina, sumo Vencedor,
+sumo Edificador, se enfastiava, bocejava, entre os despojos das suas
+conquistas, e os mármores novos dos seus Templos, e as suas três mil
+concubinas, e as Rainhas que subiam do fundo da Etiópia para que ele
+as fecundasse e no seu ventre depusesse um Deus! Não há nada novo sob o
+sol, e a eterna repetição das coisas é a eterna repetição dos males.
+Quanto mais se sabe mais se pena. E o justo como o perverso, nascidos do
+pó, em pó se tornam. Tudo tende ao pó efémero, em Jerusalém e em Paris!
+E ele, obscuro no 202, padecia por ser homem e por viver--como no seu
+trono de ouro, entre os seus quatro leões de ouro, o filho magnífico de
+David.
+
+Não se separava então do _Eclesiastes_. E circulava por Paris trazendo
+dentro do coupé Salomão, como irmão de dor, com quem repetia o grito
+desolado que é a suma da verdade humana--_Vanitas Vanitatum_! Tudo é
+Vaidade! Outras vezes, logo de manhã o encontrava estendido no sofá,
+num roupão de seda, absorvendo Schopenhauer--enquanto o pedicuro,
+ajoelhado sobre o tapete, lhe polia com respeito e perícia as unhas dos
+pés. Ao lado pousava a chávena de Saxe, cheia desse café de Moca
+enviado por emires do Deserto, que não o contentava nunca, nem pela
+força, nem pelo aroma. A espaços pousava o livro no peito, resvalava um
+olhar compassivo para o pedicuro, como a procurar que dor o
+torturaria--pois que a todo o viver corresponde um sofrer. Decerto o
+remexer assim, perpetuamente, em pés alheios... E quando o pedicuro se
+erguia, Jacinto abria para ele um sorriso de confraternidade--com um
+«adeus, meu amigo» que era «um adeus, meu irmão!»
+
+Esse foi o período esplêndido e soberbamente divertido do seu tédio.
+Jacinto encontrara enfim na vida uma ocupação grata--maldizer a Vida!
+E para que a pudesse maldizer em todas as suas formas, as mais ricas, as
+mais intelectuais, as mais puras, sobrecarregou a sua vida própria de
+novo luxo, de interesses novos de espírito, e até de fervores
+humanitários, e até de curiosidades supernaturais.
+
+O 202, nesse Inverno, refulgiu de magnificência. Foi então que ele
+iniciou em Paris, repetindo Heliogábalo, os Festins de Cor contados na
+História Augusta: e ofereceu às suas amigas esse sublime jantar cor-de-rosa,
+em que tudo era róseo, as paredes, os móveis, as luzes, as louças,
+os cristais, os gelados, os Champanhes, e até (por uma invenção da
+Alta-Cozinha) os peixes, e as carnes, e os legumes, que os escudeiros
+serviam, empoados de pó rosado, com librés da cor da rosa, enquanto do
+tecto, de um velário de seda rosada, caíam pétalas frescas de rosas... A
+Cidade, deslumbrada, clamou--«Bravo, Jacinto!» E o meu Príncipe, ao
+rematar a festa fulgurante, plantou diante de mim as mãos nas ilhargas e
+gritou triunfalmente:--«Hein? Que maçada!...»
+
+Depois foi o Humanitarismo: e fundou um Hospício no campo, entre
+jardins, para velhinhos desamparados, outro para crianças débeis à beira
+do Mediterrâneo. Depois com o major Dorchas, e Mayolle, e o Hindu de
+Mayolle penetrou no Teosofismo: e montou tremendas experiências para
+verificar a misteriosa _exteriorização da motilidade_. Depois,
+desesperadamente, ligou o 202 com os fios telegráficos do _Times_, para
+que no seu gabinete, como num coração, palpitasse toda a vida Social da
+Europa.
+
+E a cada um destes esforços da elegância, do humanitarismo, da
+sociabilidade, e da inteligência indagadora, voltava para mim, de
+braços alegres, com um grito vitorioso:--«Vês tu, Zé Fernandes? Uma
+maçada!»--Arrebatava então o seu _Eclesiastes_, o seu Schopenhauer, e,
+estendido no sofá, saboreava voluptuosamente a concordância da Doutrina
+e da Experiência. Possuía uma Fé--o Pessimismo: era um apóstolo rico e
+esforçado: e tudo tentava, com sumptuosidade, para provar a verdade da
+sua Fé! Muito gozou nesse ano o meu desgraçado Príncipe!
+
+No começo do Inverno, porém, notei com inquietação que Jacinto já não
+folheava o _Eclesiastes_, desleixava Schopenhauer. Nem festas, nem
+Teosofismos, nem os seus Hospícios, nem os fios do _Times_, pareciam
+interessar agora o meu amigo, mesmo como demonstrações gloriosas da sua
+Crença. E a sua abominável função de novo se limitou a bocejar, a
+passar os dedos moles sobre a face pendida palpando a caveira.
+Incessantemente aludia à morte como a uma libertação. Uma tarde mesmo,
+no melancólico crepúsculo da Biblioteca, antes de refulgirem as luzes,
+consideravelmente me aterrou, falando num tom regelado de mortes
+rápidas, sem dor, pelo choque de uma vasta pilha eléctrica ou pela
+violência compassiva do acido cianídrico. Diabo! O Pessimismo, que
+aparecera na Inteligência do meu Príncipe como um conceito
+elegante--atacara bruscamente a Vontade!
+
+Todo o seu movimento então foi o de um boi inconsciente que marcha sob a
+canga e o aguilhão. Já não esperava da Vida contentamento--nem mesmo se
+lastimava que ela lhe trouxesse tédio ou pena. «Tudo é indiferente, Zé
+Fernandes!» E tão indiferentemente sairia à sua janela para receber
+uma Coroa Imperial oferecida por um Povo--como se estenderia numa
+poltrona rota para emudecer e jazer. Sendo tudo inútil, e não
+conduzindo senão a maior desilusão, que podia importar a mais rutilante
+actividade ou a mais desgostada inércia? O seu gesto constante, que me
+irritava, era encolher os ombros. Perante duas ideias, dois caminhos,
+dois pratos, encolhia os ombros! Que importava?... E no mínimo acto,
+raspar um fósforo ou desdobrar um Jornal, punha uma morosidade tão
+desconsolada que todo ele parecia ligado, desde os dedos até à alma,
+pelas voltas apertadas de uma corda que se não via e que o travava.
+
+ * * * * *
+
+Muito desagradavelmente me recordo do dia dos seus anos, a 10 de
+Janeiro. Cedo, de manhã, recebera, com uma carta de Madame de Trèves, um
+açafate de camélias, azáleas, orquídeas e lírios do vale. E foi este
+mimo que lhe recordou a data considerável. Soprou sobre as pétalas o
+fumo do cigarro e murmurou com um riso de lento escárnio:
+
+--Então, há trinta e quatro anos que eu ando nesta maçada?
+
+E como eu propunha que telefonássemos aos amigos para beberem no 202 o
+Champanhe do «Natalício»--ele recusou, com o nariz enojado. Oh! Não!
+Que horrível seca!... E bradou mesmo para o Grilo:
+
+--Eu hoje não estou em Paris para ninguém. Abalei para o campo, abalei
+para Marselha... Morri!
+
+E a sua ironia não cessou até ao almoço perante os bilhetes, os
+telegramas, as cartas, que subiam, se arredondavam em colina sobre a
+mesa de ébano, como um preito da Cidade. Outras flores que vieram, em
+vistosos cestos, com vistosos laços, foram por ele comparadas às que se
+depõe sobre uma tumba. E apenas se interessou um momento pelo presente
+de Efraim, uma engenhosa mesa, que se abaixava até ao tapete ou se
+alteava até ao tecto--para quê, senhor Deus meu?
+
+Depois do almoço, como chovia sombriamente, não arredámos do 202, com os
+pés estendidos ao lume, em preguiçoso silêncio. Eu terminara por
+adormecer beatificamente. Acordei aos passos açodados do Grilo...
+Jacinto, enterrado na poltrona, com umas tesouras, recortava um papel!
+E nunca eu me compadeci daquele amigo, que cansara a mocidade a
+acumular todas as noções formuladas desde Aristóteles e a juntar todos
+os inventos realizados desde Tharamenes, como nessa tarde de festa, em
+que ele, cercado de Civilização nas máximas proporções para gozar nas
+máximas proporções a delícia de viver, se encontrava reduzido, junto ao
+seu lar, a recortar papéis com uma tesoura!
+
+O Grilo trazia um presente do Grão-Duque--uma caixa de prata, forrada
+de cedro, e cheia de um chá precioso, colhido, flor a flor, nas veigas de
+Kiang-Sou por mãos puras de virgens, e conduzido através da Ásia, em
+caravanas, com a veneração de uma relíquia. Então, para despertar o nosso
+torpor, lembrei que tomássemos o divino chá--ocupação bem harmónica com
+a tarde triste, a chuva grossa alagando os vidros, e a clara chama
+bailando no fogão. Jacinto acedeu--e um escudeiro acercou logo a mesa
+de Efraim para que nós lhe estreássemos os serviços destros. Mas o meu
+Príncipe, depois de a altear, para meu espanto, até aos cristais do
+lustre, não conseguiu, apesar de uma suada e desesperada batalha com as
+molas, que a mesa regressasse a uma altura humana e caseira. E o
+escudeiro de novo a levou, levantada como um andaime, quimérica,
+unicamente aproveitável para o gigante Adamastor. Depois veio a caixa do
+chá entre chaleiras, lâmpadas, coadores, filtros, todo um fausto de
+alfaias de prata, que comunicavam a essa ocupação, tão simples e doce
+em casa de minha tia, _fazer chá_, a majestade de um rito. Prevenido pelo
+meu camarada da sublimidade daquele chá de Kiang-Sou, ergui a chávena
+aos lábios com reverência. Era uma infusão descorada que sabia a malva e
+a formiga. Jacinto provou, cuspiu, blasfemou... Não tomámos chá.
+
+Ao cabo doutro pensativo silêncio, murmurei, com os olhos perdidos no
+lume:
+
+--E as obras de Tormes? A igreja... Já haverá igreja nova?
+
+Jacinto retomara o papel e a tesoura:
+
+--Não sei... Não tornei a receber carta do Silvério... Nem imagino onde
+param os ossos... Que lúgubre história!
+
+Depois chegou a hora das luzes e do jantar. Eu encomendara pelo Grilo
+ao nosso magistral cozinheiro uma larga travessa de arroz doce, com as
+iniciais de Jacinto e a data ditosa em canela, à moda amável da nossa
+meiga terra. E o meu Príncipe à mesa, percorrendo a lâmina de marfim
+onde no 202 se inscreviam os pratos a lápis vermelho, louvou com fervor
+a ideia patriarcal:
+
+--Arroz doce! Está escrito com dois _ss_, mas não tem dúvida...
+Excelente lembrança! Há que tempos não como arroz doce!... Desde a
+morte da avó.
+
+Mas quando o arroz doce apareceu triunfalmente, que vexame! Era um
+prato monumental, de grande arte! O arroz, maciço, moldado em forma de
+pirâmide do Egipto, emergia de uma calda de cereja, e desaparecia sob os
+frutos secos que o revestiam até ao cimo, onde se equilibrava uma
+coroa de Conde feita de chocolate e gomos de tangerina gelada! E as
+iniciais, a data, tão lindas e graves na canela ingénua, vinham
+traçadas nas bordas da travessa com violetas pralinadas! Repelimos,
+num mudo horror, o prato acanalhado. E Jacinto, erguendo o copo de
+Champanhe, murmurou como num funeral pagão:
+
+--_Ad Manes_, aos nossos mortos!
+
+Recolhemos à Biblioteca, a tomar o café no conchego e alegria do lume.
+Fora, o vento bramava como num ermo serrano: e as vidraças tremiam,
+alagadas, sob as bátegas da chuva irada. Que dolorosa noite para os dez
+mil pobres que em Paris erram sem pão e sem lar! Na minha aldeia, entre
+cerro e vale, talvez assim rugisse a tormenta. Mas aí cada pobre, sob
+o abrigo da sua telha vã, com a sua panela atestada de couves, se
+agacha no seu mantéu ao calor da lareira. E para os que não tenham lenha
+ou couve, lá está o João das Quintas, ou a tia Vicência, ou o abade,
+que conhecem todos os pobres pelos seus nomes, e com eles contam, como
+sendo dos seus, quando o carro vai ao mato e a fornada entra no forno.
+Ah Portugal pequenino, que ainda és doce aos pequeninos!
+
+Suspirei, Jacinto preguiçava. E terminámos por remexer languidamente os
+jornais que o mordomo trouxera, num monte facundo, sobre uma salva de
+prata--jornais de Paris, jornais de Londres, Semanários, Magazines,
+Revistas, Ilustrações... Jacinto desdobrava, arremessava: das Revistas
+espreitava o sumário, logo farto; às Ilustrações rasgava as folhas com
+o dedo indiferente, bocejando por cima das gravuras. Depois, mais
+estirado para o lume:
+
+--É uma seca... Não há que ler.
+
+E de repente, revoltado contra este fastio opressor que o escravizava,
+saltou da poltrona com um arranque de quem despedaça algemas, e ficou
+erecto, dardejando em torno um olhar imperativo e duro, como se
+intimasse aquele seu 202, tão abarrotado de Civilização, a que por um
+momento sequer fornecesse à sua alma um interesse vivo, à sua vida um
+fugitivo gosto! Mas o 202 permaneceu insensível: nem uma luz, para o
+animar, avivou o seu brilho mudo: só as vidraças tremeram sob o embate
+mais rude de água e vento.
+
+Então o meu Príncipe, sucumbido, arrastou os passos até ao seu
+gabinete, começou a percorrer todos os aparelhos completadores e
+facilitadores da Vida--o seu Telégrafo, o seu Telefone, o seu
+Fonógrafo, o seu Radiómetro, o seu Grafófono, o seu Microfone, a
+sua Máquina de Escrever, a sua Máquina de Contar, a sua Imprensa
+Eléctrica, a outra Magnética, todos os seus utensílios, todos os seus
+tubos, todos os seus fios... Assim um Suplicante percorre altares
+donde espera socorro. E toda a sua sumptuosa Mecânica se conservou
+rígida, reluzindo frigidamente, sem que uma roda girasse, nem uma lâmina
+vibrasse, para entreter o seu Senhor.
+
+Só o relógio monumental, que marcava a hora de todas as capitais e o
+curso de todos os planetas, se compadeceu, batendo a meia-noite,
+anunciando ao meu amigo que mais um Dia partira levando o seu
+peso--diminuindo esse sombrio peso da Vida, sob que ele gemia, vergado.
+O Príncipe da Grã-Ventura, então, decidiu recolher para a cama--com um
+livro... E durante um momento, estacou no meio da Biblioteca,
+considerando os seus setenta mil volumes estabelecidos com pompa e
+majestade como Doutores num Concílio--depois as pilhas tumultuárias dos
+livros novos que esperavam pelos cantos, sobre o tapete, o repouso e a
+consagração das estantes de ébano. Torcendo molemente o bigode caminhou
+por fim para a região dos Historiadores: espreitou séculos, farejou
+raças: pareceu atraído pelo esplendor do Império Bizantino: penetrou
+na Revolução Francesa donde se arredou desencantado: e palpou com mão
+indeliberada toda a vasta Grécia desde a criação de Atenas até a
+aniquilação de Corinto. Mas bruscamente virou para a fila dos Poetas,
+que reluziam em marroquins claros, mostrando, sobre a lombada, em ouro,
+nos títulos fortes ou lânguidos, o interior das suas almas. Não
+apeteceu nenhuma dessas seis mil almas--e recuou, desconsolado, até
+aos Biólogos... Tão maciça e cerrada era a estante de Biologia que o
+meu pobre Jacinto estarreceu, como ante uma cidadela inacessível!
+Rolou a escada--e, fugindo, trepou, até às alturas da Astronomia:
+destacou astros, recolocou mundos: todo um Sistema Solar desabou com
+fragor. Aturdido, desceu, começou a procurar por sobre as rimas das
+obras novas, ainda brochadas, nas suas roupas leves de combate.
+Apanhava, folheava, arremessava: para desentulhar um volume, demolia uma
+torre de doutrinas: saltava por cima dos Problemas, pisava as Religiões:
+e relanceando uma linha, esgravatando além num índice, todos
+interrogava, de todos se desinteressava, rolando quase de rastos, nas
+grossas vagas de tomos que rolavam, sem se poder deter, na ânsia de
+encontrar um Livro! Parou então no meio da imensa nave, de cócoras, sem
+coragem, contemplando aqueles muros todos forrados, aquele chão todo
+alastrado, os seus setenta mil volumes--e, sem lhes provar a substância,
+já absolutamente saciado, abarrotado, nauseado pela opressão da sua
+abundância. Findou por voltar ao montão de jornais amarrotados, ergueu
+melancolicamente um velho _Diário de Notícias_, e com ele debaixo do
+braço subiu ao seu quarto, para dormir, para esquecer.
+
+
+
+
+VIII
+
+
+Ao fim desse Inverno escuro e pessimista, uma manhã que eu preguiçava
+na cama, sentindo através da vidraça cheia de sol ainda pálido um bafo
+de Primavera ainda tímido--Jacinto assomou à porta do meu quarto,
+revestido de flanelas leves, de uma alvura de açucena. Parou lentamente
+à beira dos colchões, e, com gravidade, como se anunciasse o seu
+casamento ou a sua morte, deixou desabar sobre mim esta declaração
+formidável:
+
+--Zé Fernandes, vou partir para Tormes.
+
+O pulo com que me sentei abalou o rijo leito de pau preto do velho D.
+Galeão:
+
+--Para Tormes? Oh Jacinto, quem assassinaste?...
+
+Deleitado com a minha emoção, o Príncipe da Grã-Ventura tirou da
+algibeira uma carta, e encetou estas linhas, já decerto relidas,
+fundamente estudadas:
+
+--«Il.^{mo} e Exc.^{mo} sr.--Tenho grande satisfação em comunicar a
+V. Exc.^a que por toda esta semana devem ficar prontas as obras da
+capela...»
+
+--É do Silvério? exclamei.
+
+--É do Silvério. «...as obras da capela nova. Os venerandos restos dos
+excelsos avós de V. Exc.^a, senhores de todo o meu respeito, podem pois
+ser em breve trasladados da igreja de S. José, onde têm estado
+depositados por bondade do nosso Abade, que muito se recomenda a V.
+Exc.^a... Submisso, aguardo as prestantes ordens de V. Exc.^a a respeito
+desta majestosa e aflitiva cerimónia...»
+
+Atirei os braços, compreendendo:
+
+--Ah! bem! Queres ir assistir à trasladação...
+
+Jacinto sumiu a carta no bolso.
+
+--Pois não te parece, Zé Fernandes? Não é por causa dos outros avós, que
+são ossos vagos, e que eu não conheci. É por causa do avô Galeão...
+Também não o conheci. Mas este 202 está cheio dele; tu estás deitado
+na cama dele; eu ainda uso o relógio dele. Não posso abandonar ao
+Silvério e aos caseiros o cuidado de o instalarem no seu jazigo novo.
+Há aqui um escrúpulo de decência, de elegância moral... Enfim, decidi.
+Apertei os punhos na cabeça, e gritei--_vou a Tormes_! E vou!... E tu
+vens!
+
+Eu enfiara as chinelas, apertava os cordões do roupão:
+
+--Mas tu sabes, meu bom Jacinto, que a casa de Tormes está
+inabitável...
+
+Ele cravou em mim os olhos aterrados.
+
+--Medonha, hein?
+
+--Medonha, medonha, não... É uma bela casa, de bela pedra. Mas os
+caseiros, que lá vivem há trinta anos, dormem em catres, comem o caldo
+à lareira, e usam as salas para secar o milho. Creio que os únicos
+móveis de Tormes, se bem recordo, são um armário, e uma espineta de
+charão, coxa, já sem teclas.
+
+O meu pobre Príncipe suspirou, com um gesto rendido em que se abandonava
+ao Destino:
+
+--Acabou!... _Alea jacta est!_ E como só partimos para Abril, há tempo de
+pintar, de assoalhar, de envidraçar... Mando daqui de Paris tapetes e
+camas... Um estofador de Lisboa vai depois forrar e disfarçar algum
+buraco... Levamos livros, uma Máquina para fabricar gelo... E é mesmo
+uma ocasião de pôr enfim numa das minhas casas de Portugal alguma
+decência e ordem. Pois não achas? E então essa! Uma casa que data de
+1410... Ainda existia o Império Bizantino!
+
+Eu espalhava, com o pincel, sobre a face, flocos lentos de sabão. O meu
+Príncipe acendeu muito pensativamente um cigarro; e não se arredou do
+toucador, considerando o meu preparo com uma atenção triste que me
+incomodava. Por fim, como se remoesse uma sentença minha, para lhe
+reter bem a moral e o suco:
+
+--Então, definitivamente, Zé Fernandes, entendes que é um dever, um
+absoluto dever, ir eu a Tormes?
+
+Afastei do espelho a cara ensaboada para encarar com divertido espanto o
+meu Príncipe:
+
+--Oh Jacinto! foi em ti, só em ti que nasceu a ideia desse dever! E
+honra te seja, menino... Não cedas a ninguém essa honra!
+
+Ele atirou o cigarro--e, com as mãos enterradas nas algibeiras das
+pantalonas, vagou pelo quarto, topando nas cadeiras, embicando contra os
+postes torneados do velho leito de D. Galeão, num balanço vago, como
+barco já desamarrado do seu seguro ancoradouro, e sem rumo no mar
+incerto. Depois encalhou sobre a mesa onde eu conservava enfileirada,
+por gradações de sentimentos, desde o daguerreótipo do papá até à
+fotografia do _Carocho_ perdigueiro, a galeria da minha Família.
+
+E nunca o meu Príncipe (que eu contemplava esticando os suspensórios) me
+pareceu tão corcovado, tão minguado, como gasto por uma lima que desde
+muito o andasse fundamente limando. Assim viera findar, desfeita em
+Civilização, naquele super-requintado magricelas sem músculo e sem
+energia, a raça fortíssima dos Jacintos! Esses guedelhudos Jacintões,
+que nas suas altas terras de Tormes, de volta de bater o moiro no Salado
+ou o castelhano em Valverde, nem mesmo despiam as fuscas armaduras para
+lavrar as suas chãs e amarrar a vide ao olmo, edificando o Reino com a
+lança e com a enxada, ambas tão rudes e rijas! E agora, ali estava
+aquele último Jacinto, um Jacintículo, com a macia pele embebida em
+aromas, a curta alma enrodilhada em Filosofias, travado e suspirando
+baixinho na miúda indecisão de viver.
+
+--Oh Zé Fernandes, quem é esta lavradeirona tão rechonchuda?
+
+Estendi o pescoço para a Fotografia que ele erguera dentre a minha
+galeria, no seu honroso caixilho de pelúcia escarlate:
+
+--Mais respeito, Sr. D. Jacinto... Um pouco mais de respeito,
+cavalheiro!... É minha prima Joaninha, de Sandofim, da Casa da Flor da
+Malva.
+
+--Flor da Malva, murmurou o meu Príncipe. É a casa do Condestável, de
+Nun'Álvares.
+
+--Flor da Rosa, homem! A casa do Condestável era na Flor da Rosa, no
+Alentejo... Essa tua ignorância trapalhona das coisas de Portugal!
+
+O meu Príncipe deixou escorregar molemente a fotografia da minha
+prima dentre os dedos moles--que levou à face, no seu gesto horrendo
+de palpar através da face a caveira. Depois, de repente, com um soberbo
+esforço, em que se endireitou e cresceu:
+
+--Bem! _Alea jacta est!_ Partamos pois para as serras!... E agora nem
+reflexão, nem descanso!... À obra! E a caminho!
+
+Atirou a mão ao fecho dourado da porta como se fosse o negro loquete que
+abre os Destinos--e no corredor gritou pelo Grilo, com uma larga e
+açodada voz que eu nunca lhe conhecera, e me lembrou a de um Chefe
+ordenando, na alvorada, que se levante o Acampamento, e que a Hoste
+marche, com pendões e bagagens...
+
+Logo nessa manhã (com uma actividade em que eu reconheci a pressa
+enjoada de quem bebe óleo de rícino), escreveu ao Silvério mandando
+caiar, assoalhar, envidraçar o casarão. E depois do almoço apareceu na
+Biblioteca, chamado violentamente pelo telefone, para combinar a
+remessa de mobílias e confortos, o director da _Companhia Universal de
+Transportes_.
+
+Era um homem que parecia o cartaz da sua Companhia, apertado num
+jaquetão de xadrezinho escuro, com polainas de jornada sobre botas
+brancas, uma sacola de marroquim a tiracolo, e na botoeira uma roseta
+multicor resumindo as suas condecorações exóticas de Madagáscar, de
+Nicarágua, da Pérsia, outras ainda, que provavam a universalidade dos
+seus serviços. Apenas Jacinto mencionou «Tormes, no Douro...»--ele
+logo, através de um sorriso superior, estendeu o braço, detendo outros
+esclarecimentos, na sua intimidade minuciosa com essas regiões.
+
+--Tormes... Perfeitamente! Perfeitamente!
+
+Sobre o joelho, na carteira, escrevinhou uma fugidia nota--enquanto eu
+considerava, assombrado, a vastidão do seu saber Corográfico, assim
+familiar com os recantos de uma serra de Portugal e com todos os seus
+velhos solares. Já ele atirara a carteira para o bolso... E «nós, seus
+caros senhores, não tínhamos senão a encaixotar as roupas, as mobílias,
+as preciosidades! Ele mandaria as suas carroças buscar os caixotes, a
+que poria, em grossa letra, com grossa tinta, o endereço...»
+
+--Tormes, perfeitamente! Linha Norte-Espanha-Medina-Salamanca...
+Perfeitamente! Tormes... Muito pitoresco! E antigo, histórico!
+Perfeitamente, perfeitamente!
+
+Desengonçou a cabeça numa vénia profundíssima--e saiu da Biblioteca,
+com passos que devoravam léguas, anunciavam a presteza dos seus
+Transportes.
+
+--Vê tu, murmurou Jacinto muito sério. Que prontidão, que
+facilidade!... Em Portugal era uma tragédia. Não há senão Paris!
+
+Começou então no 202 o colossal encaixotamento de todos os confortos
+necessários ao meu Príncipe para um mês de serra áspera--camas de pena,
+banheiras de níquel, lâmpadas Carcel, divãs profundos, cortinas para
+vedar as gretas rudes, tapetes para amaciar os soalhos broncos. Os
+sótãos, onde se arrecadavam os pesados trastes do avô Galeão, foram
+esvaziados--porque o casarão medieval de 1410 comportava os tremós
+românticos de 1830. De todos os armazéns de Paris chegavam cada manhã
+fardos, caixas, temerosos embrulhos que os emaladores desfaziam,
+atulhando os corredores de montes de palha e de papel pardo, onde os
+nossos passos açodados se enrodilhavam. O cozinheiro, esbaforido,
+organizava a remessa de fornalhas, geleiras, bocais de trufas, latas de
+conservas, bojudas garrafas de águas minerais. Jacinto, lembrando as
+trovoadas da serra, comprou um imenso pára-raios. Desde o amanhecer,
+nos pátios, no jardim, se martelava, se pregava, com vasto fragor, como
+na construção de uma cidade. E o desfilar das bagagens, através do
+portão, lembrava uma página de Heródoto contando a marcha dos Persas.
+
+Das janelas, Jacinto com o braço estendido, saboreava aquela
+actividade e aquela disciplina:
+
+--Vê tu, Zé Fernandes, que facilidade!... Saímos do 202, chegamos à
+serra, encontramos o 202. Não há senão Paris!
+
+Recomeçara a amar a Cidade, o meu Príncipe, enquanto preparava o seu
+Êxodo. Depois de ter, toda a manhã, apressado os encaixotadores,
+descortinado confortos novos para o abandonado solar, telefonado gordas
+listas de encomendas a cada loja de Paris--era com delícia que se
+vestia, se perfumava, se floria, se enterrava na vitória ou saltava
+para a almofada do faéton, e corria ao Bosque, e saudava a barba
+talmúdica do Efraim, e os bandós furiosamente negros da Verghane, e o
+Psicólogo de fiacre, e a condessa de Trèves na sua nova caleche de
+oito molas fornecida pelas operações conjuntas da Bolsa e da alcova.
+Depois arrebanhava amigos para jantares de surpresa no Voisin ou no
+Bignon, onde desdobrava o guardanapo com a impaciência de uma fome
+alegre, vigiando fervorosamente que os Bordéus estivessem bem aquecidos
+e os Champanhes bem granitados. E no teatro das _Nouveautés_, no
+_Palais Royal_, nos _Buffos_, ria, batendo na coxa, com encanecidas
+facécias de encanecidas farsas, antiquíssimos trejeitos de antiquíssimos
+actores, com que já rira na sua infância, antes da guerra, sob o segundo
+Napoleão!
+
+De novo, em duas semanas, se abarrotaram as páginas da sua Agenda. A
+magnificência do seu traje, como imperador Frederico II de Suábia,
+deslumbrou, no baile mascarado da Princesa de Cravon-Rogan (onde também
+fui, de «moço de forcado».) E na _Associação para o Desenvolvimento das
+Religiões Esotéricas_ discursou e batalhou bravamente pela construção
+de um Templo Budista em Montmartre!
+
+Com espanto meu recomeçou também a conversar, como nos tempos de Escola,
+da «famosa Civilização nas suas máximas proporções.» Mandou encaixotar o
+seu velho telescópio para o usar em Tormes. Receei mesmo que no seu
+espírito germinasse a ideia de criar, no cimo da serra, uma Cidade com
+todos os seus órgãos. Pelo menos não consentia o meu Jacinto que essas
+semanas da silvestre Tormes interrompessem a ilimitada acumulação das
+noções--porque uma manhã rompeu pelo meu quarto, desolado, gritando que
+entre tantos confortos e formas de Civilização esquecêramos os livros!
+Assim era--e que vexame para a nossa Intelectualidade! Mas que livros
+escolher entre os facundos milhares sob que vergava o 202? O meu
+Príncipe decidiu logo dedicar os seus dias serranos ao estudo da
+História Natural--e nós mesmos, imediatamente, deitámos para o fundo
+de um vasto caixote novo, como lastro, os vinte e cinco tomos de Plínio.
+Despejámos depois para dentro, às braçadas, Geologia, Mineralogia,
+Botânica... Espalhámos por cima uma camada aérea de Astronomia. E, para
+fixar bem no caixote estas Ciências oscilantes, entalámos em redor
+cunhas de Metafísica.
+
+Mas quando a derradeira caixa, pregada e cintada de ferro, saiu do
+portão do 202 na derradeira carroça da _Companhia dos Transportes_, toda
+esta animação de Jacinto se abateu como a efervescência num copo de
+Champanhe. Era em meados já tépidos de Março. E de novo os seus
+desagradáveis bocejos atroaram o 202, e todos os sofás rangeram sob o
+peso do corpo que ele lhe atirava para cima, mortalmente vencido pela
+fartura e pelo tédio, num desejo de repouso eterno, bem envolto de
+solidão e silêncio. Desesperei. O quê! Aturaria eu ainda aquele
+Príncipe palpando amargamente a caveira, e, quando o crepúsculo
+entristecia a Biblioteca, aludindo, num tom rouco, à doçura das
+mortes rápidas pela violência misericordiosa do acido cianídrico? Ah
+não, caramba! E uma tarde em que o encontrei estirado sobre um divã, de
+braços em cruz, como se fosse a sua estátua de mármore sobre o seu
+jazigo de granito, positivamente o abanei com furor, berrando:
+
+--Acorda, homem! Vamos para Tormes! O casarão deve estar pronto, a
+reluzir, a abarrotar de coisas! Os ossos de teus avós pedem repouso, em
+cova sua!... A caminho, a enterrar esses mortos, e a vivermos nós, os
+vivos!... Irra! São cinco de Abril!... É o bom tempo da serra!
+
+O meu Príncipe ressurgiu lentamente da inércia de pedra:
+
+--O Silvério não me escreveu, nunca me escreveu... Mas, com efeito,
+deve estar tudo preparado... Já lá temos certamente criados, o
+cozinheiro de Lisboa... Eu só levo o Grilo, e o Anatole que enverniza
+bem o calçado, e tem jeito como pedicuro... Hoje é Domingo.
+
+Atirou os pés para o tapete, com heroísmo:
+
+--Bem, partimos no Sábado!... Avisa tu o Silvério!
+
+Começou então o laborioso e pensativo estudo dos Horários--e o dedo
+magro de Jacinto, por sobre o mapa, avançando e recuando entre Paris e
+Tormes. Para escolher o «salão» que devíamos habitar durante a temida
+jornada, duas vezes percorremos o depósito da Estação de Orléans,
+atolados em lama, atrás do Chefe do Tráfico que entontecia. O meu
+Príncipe recusava este salão por causa da cor tristonha dos estofos;
+depois recusava aquele por causa da mesquinhez aflitiva do
+Water-Closet! Uma das suas inquietações era o banho, nas manhãs que
+passaríamos rolando. Sugeri uma banheira de borracha. Jacinto,
+indeciso, suspirava... Mas nada o aterrou como o transbordo em Medina del
+Campo, de noite, nas trevas da Velha Castela. Debalde a Companhia do
+Norte de Espanha e a de Salamanca, por cartas, por telegramas,
+sossegaram o meu camarada, afirmando que, quando ele chegasse no
+comboio de Irun dentro do seu salão, já outro salão ligado ao comboio de
+Portugal esperaria, bem aquecido, bem alumiado, com uma ceia que lhe
+ofertava um dos Directores, D. Esteban Castillo, ruidoso e rubicundo
+conviva do 202! Jacinto corria os dedos ansiosos pela face:--«E os
+sacos, as peles, os livros, quem os transportaria do salão de Irun
+para o salão de Salamanca?» Eu berrava, desesperado, que os carregadores
+de Medina eram os mais rápidos, os mais destros de toda a Europa! Ele
+murmurava:--«Pois sim, mas em Espanha, de noite!...» A noite, longe da
+Cidade, sem telefone, sem luz eléctrica, sem postos de polícia, parecia
+ao meu Príncipe povoada de surpresas e assaltos. Só acalmou depois de
+verificar no Observatório Astronómico, sob a garantia do sábio professor
+Bertrand, que a noite da nossa jornada era de lua cheia!
+
+Enfim, na sexta-feira, findou a tremenda organização daquela viagem
+histórica! O sábado predestinado amanheceu com generoso sol, de
+afagadora doçura. E eu acabava de guardar na mala, embrulhadas em papel
+pardo, as fotografias das criaturinhas suaves que, nesses vinte e
+sete meses de Paris, me tinham chamado «_mon petit chou! mon rat
+cheri!_»--quando Jacinto rompeu pelo quarto, com um soberbo ramo de
+orquídeas na sobrecasaca, pálido e todo nervoso.
+
+--Vamos ao Bosque, por despedida?
+
+Fomos--à grande despedida! E que encanto! Até nas almofadas e molas da
+vitória senti logo uma elasticidade mais embaladora. Depois, pela
+Avenida do Bosque, quase me pesava não ficar sempiternamente rolando, ao
+trote rimado das éguas perfeitas, no rebrilho rico de metais e vernizes,
+sobre aquele macadame mais alisado que mármore, entre tão bem regadas
+flores e relvas de tão tentadora frescura, cruzando uma Humanidade fina,
+de elegância bem acabada, que almoçara o seu chocolate em porcelanas de
+Sèvres ou de Minton, saíra de entre sedas e tapetes de três mil francos,
+e respirava a beleza de Abril com vagar, requinte e pensamentos
+ligeiros! O Bosque resplandecia numa harmonia de verde, azul e ouro.
+Nenhuma cova ou terra solta desalisava as polidas áleas que a Arte
+traçou e enroscou na espessura--nenhum esgalho desgrenhado desmanchava
+as ondulações macias da folhagem que o Estado escova e lava. O piar das
+aves apenas se elevava para espalhar uma graça leve de vida alada;--e
+mais natural parecia, entre o arvoredo sociável, o ranger das selas
+novas, onde pousavam, com balanço esbelto, as amazonas espartilhadas
+pelo grande Redfern. Em frente ao Pavilhão de Armenonville cruzámos
+Madame de Trèves, que nos envolveu ambos na carícia do seu sorriso, mais
+avivado àquela hora pelo vermelhão ainda húmido. Logo atrás a barba
+talmúdica de Efraim negrejou, fresca também da brilhantina da manhã, no
+alto de um faéton tilintante. Outros amigos de Jacinto circulavam nas
+Acácias--e as mãos que lhe acenavam, lentas e afáveis, calçavam luvas
+frescas cor de palha, cor de pérola, cor de lilás. Todelle relampejou
+rente de nós sobre uma grande bicicleta. Dornan, alastrado numa cadeira
+de ferro, sob um espinheiro em flor, mamava o seu imenso charuto, como
+perdido na busca de rimas sensuais e nédias. Adiante foi o Psicólogo,
+que nos não avistou, conversando com um requebro melancólico para dentro
+de um coupé que rescendia a alcova, e a que um cocheiro obeso imprimia
+dignidade e decência. E rolávamos ainda, quando o Duque de Marizac, a
+cavalo, ergueu a bengala, estacou a nossa vitória para perguntar a
+Jacinto se aparecia à noite nos «quadros vivos» dos Verghanes. O meu
+Príncipe rosnou um--«não, parto para o sul...»--que mal lhe passou
+de entre os bigodes murchos... E Marizac lamentou--porque era uma festa
+estupenda. Quadros vivos da História Sagrada e da História Romana!...
+Madame Verghane, de Madalena, de braços nus, peitos nus, pernas nuas,
+limpando com os cabelos os pés do Cristo!--O Cristo, um latagão
+soberbo, parente dos Trèves, empregado no Ministério da Guerra, gemendo,
+derreado, sob uma cruz de papelão! Havia também Lucrécia na cama, e
+Tarquínio ao lado, de punhal, a puxar os lençóis! E depois ceia, em
+mesas soltas, todos nos seus trajes históricos. Ele já estava
+aparceirado com Madame de Malbe, que era Agripina! Quadro portentoso
+esse--Agripina morta, quando Nero a vem contemplar e lhe estuda as
+formas, admirando umas, desdenhando outras como imperfeitas. Mas, por
+polidez, ficara combinado que Nero admiraria sem reserva todas as formas
+de Madame de Malbe... Enfim colossal, e estupendamente instrutivo!
+
+Acenámos um longo adeus àquele alegre Marizac. E recolhemos sem que
+Jacinto emergisse do silêncio enrugado em que se abismara, com os
+braços rigidamente cruzados, como remoendo pensamentos decisivos e
+fortes. Depois, em frente ao Arco de Triunfo, moveu a cabeça, murmurou:
+
+--É muito grave, deixar a Europa!
+
+ * * * * *
+
+Enfim, partimos! Sob a doçura do crepúsculo que se enublara deixámos o
+202. O Grilo e o Anatole seguiam num fiacre atulhado de livros, de
+estojos, de paletós, de impermeáveis, de travesseiras, de águas
+minerais, de sacos de couro, de rolos de mantas: e mais atrás um
+ónibus rangia sob a carga de vinte e três malas. Na Estação, Jacinto
+ainda comprou todos os Jornais, todas as Ilustrações, Horários, mais
+livros, e um saca-rolhas de forma complicada e hostil. Guiados pelo
+Chefe do Tráfico, pelo Secretário da Companhia, ocupámos copiosamente o
+nosso salão. Eu pus o meu boné de seda, calcei as minhas chinelas. Um
+silvo varou a noite. Paris lampejou, fugiu num derradeiro clarão de
+janelas... Para o sorver, Jacinto ainda se arremessou à portinhola.
+Mas rolávamos já na treva da Província. O meu Príncipe então recaiu nas
+almofadas:
+
+--Que aventura, Zé Fernandes!
+
+Até Chartres, em silêncio, folheámos as Ilustrações. Em Orléans, o
+guarda veio arranjar respeitosamente as nossas camas. Derreado com
+aqueles catorze meses de Civilização adormeci--e só acordei em Bordéus
+quando Grilo, zeloso, nos trouxe o nosso chocolate. Fora, uma chuva
+miudinha pingava molemente de um espesso céu de algodão sujo. Jacinto
+não se deitara, desconfiado da aspereza e da humidade dos lençóis. E,
+metido num roupão de flanela branco, com a face arrepiada e
+estremunhada, ensopando um bolo no chocolate, rosnava sombriamente:
+
+--Este horror!... E agora com chuva!
+
+Em Biarritz, ambos observámos com uma certeza indolente:
+
+--É Biarritz.
+
+Depois Jacinto, que espreitava pela janela embaciada, reconheceu o
+lento caminhar pernalto, o nariz bicudo e triste, do Historiador Danjon.
+Era ele, o facundo homem, vestido de xadrezinho, ao lado de uma dama
+roliça que levava pela trela uma cadelinha felpuda. Jacinto baixou a
+vidraça violentamente, berrou pelo Historiador, na ânsia de comunicar
+ainda, através dele, com a Cidade, com o 202!... Mas o comboio
+mergulhara na chuva e névoa.
+
+Sobre a ponte do Bidassoa, antevendo o termo da vida fácil, os abrolhos
+da Incivilização, Jacinto suspirou com desalento:
+
+--Agora adeus, começa a Espanha!...
+
+Indignado, eu, que já saboreava o generoso ar da terra bendita, saltei
+para diante do meu Príncipe, e num saracoteio de tremendo salero,
+castanholando os dedos, entoei uma «petenera» condigna:
+
+A la puerta de mi casa
+Ay Soledad, Soleda... á... á... á.
+
+Ele estendeu os braços, suplicante:
+
+--Zé Fernandes, tem piedade do enfermo e do triste!
+
+--_Irun_! _Irun_!...
+
+Nessa Irun almoçámos com suculência--porque sobre nós velava, como
+Deusa omnipresente, a Companhia do Norte. Depois «el jefe d'Aduana, el
+jefe d'Estacion», preciosamente nos instalaram noutro salão, novo, com
+cetins cor de azeitona, mas tão pequeno que uma rica porção dos nossos
+confortos em mantas, livros, sacos e impermeáveis, passou para o
+compartimento do _Sleeping_ onde se repoltreavam o Grilo e o Anatole,
+ambos de bonés escoceses, e fumando gordos charutos.--_Buen viaje_!
+_Gracias_! _Servidores_!--E entrámos silvando nos Pirenéus.
+
+Sob a influência da chuva embaciadora, daquelas serras sempre iguais,
+que se desenrolavam, arrepiadas, diluídas na névoa, resvalei a uma
+sonolência doce;--e, quando descerrava as pálpebras, encontrava
+Jacinto a um canto, esquecido do livro fechado nos joelhos, sobre que
+cruzara os magros dedos, considerando vales e montes com a melancolia
+de quem penetra nas terras do seu desterro! Um momento veio em que,
+arremessando o livro, enterrando mais o chapéu mole, se ergueu com
+tanta decisão, que receei detivesse o comboio para saltar à estrada,
+correr através das Vascongadas e da Navarra, para trás, para o 202!
+Sacudi o meu torpor, exclamei:--«oh menino!...» Não! O pobre amigo ia
+apenas continuar o seu tédio para outro canto, enterrado noutra
+almofada, com outro livro fechado. E à maneira que a escuridão da tarde
+crescia, e com ela a borrasca de vento e água, uma inquietação mais
+aterrada se apoderava do meu Príncipe, assim desgarrado da Civilização,
+arrastado para a Natureza que já o cercava de brutalidade agreste. Não
+cessou então de me interrogar sobre Tormes:
+
+--As noites são horríveis, hein, Zé Fernandes? Tudo negro, enorme
+solidão... E médico?... Há médico?
+
+Subitamente o comboio estacou. Mais grossa e ruidosa a chuva fustigou as
+vidraças. Era um descampado, todo em treva, onde rolava e lufava um
+grande vento solto. A Máquina apitava, com angústia. Uma lanterna
+lampejou, correndo. Jacinto batia o pé:--«É medonho! é medonho!»...
+Entreabri a portinhola. Da claridade incerta das vidraças surdiam
+cabeças esticadas, assustadas.--«_Que hay_? _Que hay_?»--A uma rajada,
+que me alagou, recuei:--e esperámos durante lentos, calados minutos,
+esfregando desesperadamente os vidros embaciados para sondar a
+escuridão. De repente o comboio recomeçou a rolar, muito sereno.
+
+Em breve apareceram as luzinhas mortas de uma estação abarracada. Um
+condutor, com o casacão de oleado todo a escorrer, trepou ao salão:--e
+por ele soubemos, enquanto carimbava apressadamente os bilhetes, que o
+trem, muito atrasado, talvez não alcançasse em Medina o comboio de
+Salamanca!
+
+--Mas então?...
+
+O casaco de oleado escorregara pela portinhola, fundido na noite,
+deixando um cheiro de humidade e azeite. E nós encetámos um novo
+tormento... Se o trem de Salamanca tivesse abalado? O salão, tomado até
+Medina, desengatava em Medina:--e eis os nossos preciosos corpos, com as
+nossas preciosas almas, despejados em Medina, para cima da lama, entre
+vinte e três malas, numa rude confusão espanhola, sob a tormenta de
+ventania e de água!
+
+--Oh, Zé Fernandes, uma noite em Medina!
+
+Ao meu Príncipe aparecia como desventura suprema essa noite em Medina,
+numa _fonda_ sórdida, fedendo a alho, com gordas filas de percevejos
+através dos lençóis de estopa encardida!... Não cessei então de fitar,
+num desassossego, os ponteiros do relógio:--enquanto Jacinto, pela
+vidraça escancarada, todo fustigado da chuva clamorosa, furava a
+negrura, na esperança de avistar as luzes de Medina e um comboio
+paciente fumegando... Depois recaía no divã, limpava os bigodes e os
+olhos, maldizia a Espanha. O trem arquejava, rompendo o vasto vento da
+planura desolada. E a cada apito era um alvoroço. Medina?... Não! Algum
+sumido apeadeiro, onde o trem se atardava, esfalfado, resfolgando,
+enquanto dormentes figuras encarapuçadas, embrulhadas em mantas,
+rondavam sob o telheiro do barracão, que as lanternas baças tornavam
+mais soturno. Jacinto esmurrava o joelho:--«Mas por que pára este
+infame comboio? Não há tráfico, não há gente! Oh esta Espanha!...» A
+sineta badalava, moribunda. De novo fendíamos a noite e a borrasca.
+
+Resignadamente comecei a percorrer um _Jornal do Comércio_, antigo,
+trazido de Paris. Jacinto esmagava o espesso tapete do salão com
+passadas rancorosas, rosnando como uma fera. E ainda assim se escoou, às
+gotas, uma hora cheia de eternidade.--Um silvo, outro silvo!... Luzes
+mais fortes, longe, palpitaram na neblina. As rodas trilharam, com rijos
+solavancos, os encontros de carris. Enfim, Medina!... Um muro sujo de
+barracão alvejou--e bruscamente, à portinhola aberta com violência,
+aparece um cavalheiro barbudo, de capa à espanhola, gritando pelo Sr.
+D. Jacinto!... Depressa! depressa! que parte o comboio de Salamanca!
+
+--«Que no hay un momento, caballeros! Que no hay un momento!»
+
+Agarro estonteadamente o meu paletó, o _Jornal do Comércio_. Saltámos
+com ânsia:--e, pela plataforma, por sobre os trilhos, através de
+charcos, tropeçando em fardos, empurrados pelo vento, pelo homem da capa
+à espanhola, enfiámos outra portinhola, que se fechou com um estalo
+tremendo... Ambos arquejávamos. Era um salão forrado de um pano verde
+que comia a luz escassa. E eu estendia o braço, para receber dos
+carregadores açodados as nossas malas, os nossos livros, as nossas
+mantas--quando, em silêncio, sem um apito, o trem despegou e rolou.
+Ambos nos atirámos às vidraças, em brados furiosos:
+
+--Pare! As nossas malas, as nossas mantas!... P'ra aqui!... Oh Grilo!
+Oh Grilo!
+
+Uma imensa rajada levou os nossos brados. Era de novo o descampado
+tenebroso, sob a chuva despenhada. Jacinto ergueu os punhos, num furor
+que o engasgava:
+
+--Oh! Que serviço! Oh que canalhas!... Só em Espanha!... E agora? As
+malas perdidas!... Nem uma camisa, nem uma escova!
+
+Calmei o meu desgraçado amigo:
+
+--Escuta! eu entrevi dois carregadores arrebanhando as nossas coisas...
+Decerto o Grilo fiscalizou. Mas na pressa, naturalmente, atirou com
+tudo para o seu compartimento... Foi um erro não trazer o Grilo
+connosco, no salão... Até podíamos jogar a manilha!
+
+De resto a solicitude da Companhia, Deusa omnipresente, velava sobre o
+nosso conforto--pois que à porta do lavatório branquejava o cesto da
+nossa ceia, mostrando na tampa um bilhete de D. Esteban com estas doces
+palavras a lápis--_à D. Jacinto y su egregio amigo, que les dè gusto_!
+Farejei um aroma de perdiz. E alguma tranquilidade nos penetrou no
+coração sentindo também as nossas malas sob a tutela da Deusa
+omnipresente.
+
+--Tens fome Jacinto?
+
+--Não. Tenho horror, furor, rancor!... E tenho sono.
+
+Com efeito! depois de tão desencontradas emoções só apetecíamos as
+camas que esperavam, macias e abertas. Quando caí sobre a travesseira,
+sem gravata, em ceroulas, já o meu Príncipe, que não se despira, apenas
+embrulhara os pés no _meu_ paletó, nosso único agasalho, ressonava com
+majestade.
+
+Depois, muito tarde e muito longe, percebi junto do meu catre, na
+claridadezinha da manhã, coada pelas cortinas verdes, uma fardeta, um
+boné, que murmuravam baixinho com imensa doçura:
+
+--V. Exc.^as não têm nada a declarar?... Não há malinhas de mão?...
+
+Era a minha terra! Murmurei baixinho com imensa ternura:
+
+--Não temos aqui nada... Pergunte V. Exc.^a pelo Grilo... Aí atrás,
+num compartimento... Ele tem as chaves, tem tudo... É o Grilo.
+
+A fardeta desapareceu, sem rumor, como sombra benéfica. E eu readormeci
+com o pensamento em Guiães, onde a tia Vicência, atarefada, de lenço
+branco cruzado no peito, de certo já preparava o leitão.
+
+Acordei envolto num largo e doce silêncio. Era uma Estação muito
+sossegada, muito varrida, com rosinhas brancas trepando pelas paredes--e
+outras rosas em moitas, num jardim, onde um tanquezinho abafado de
+limos dormia sob duas mimosas em flor que rescendiam. Um moço pálido,
+de paletó cor de mel, vergando a bengalinha contra o chão, contemplava
+pensativamente o comboio. Agachada rente à grade da horta, uma velha,
+diante da sua cesta de ovos, contava moedas de cobre no regaço. Sobre o
+telhado secavam abóboras. Por cima rebrilhava o profundo, rico e macio
+azul de que meus olhos andavam aguados.
+
+Sacudi violentamente Jacinto:
+
+--Acorda, homem, que estás na tua terra!
+
+Ele desembrulhou os pés do meu paletó, cofiou o bigode, e veio sem
+pressa, à vidraça que eu abrira, conhecer a sua terra.
+
+--Então é Portugal, hein?... Cheira bem.
+
+--Está claro que cheira bem, animal!
+
+A sineta tilintou languidamente. E o comboio deslizou, com descanso,
+como se passeasse para seu regalo sobre as duas fitas de aço, assobiando
+e gozando a beleza da terra e do céu.
+
+O meu Príncipe alargava os braços, desolado:
+
+--E nem uma camisa, nem uma escova, nem uma gota de água-de-colónia!...
+Entro em Portugal, imundo!
+
+--Na Régua há uma demora, temos tempo de chamar o Grilo, reaver os
+nossos confortos... Olha para o rio!
+
+Rolávamos na vertente de uma serra, sobre penhascos que desabavam até
+largos socalcos cultivados de vinhedo. Em baixo, numa esplanada,
+branquejava uma casa nobre, de opulento repouso, com a capelinha muito
+caiada entre um laranjal maduro. Pelo rio, onde a água turva e tarda nem
+se quebrava contra as rochas, descia, com a vela cheia, um barco lento
+carregado de pipas. Para além, outros socalcos, de um verde pálido de
+reseda, com oliveiras apoucadas pela amplidão dos montes, subiam até
+outras penedias que se embebiam, todas brancas e assoalhadas, na fina
+abundância do azul. Jacinto acariciava os pêlos corredios do bigode:
+
+--O Douro, hein?... É interessante, tem grandeza. Mas agora é que eu
+estou com uma fome, Zé Fernandes!
+
+Também eu! Destapamos o cesto de D. Esteban donde surdiu um bodo
+grandioso, de presunto, anho, perdizes, outras viandas frias que o ouro
+de duas nobres garrafas de Amontillado, além de duas garrafas de Rioja,
+aqueciam com um calor de sol Andaluz. Durante o presunto, Jacinto
+lamentou contritamente o seu erro. Ter deixado Tormes, um solar
+histórico, assim abandonado e vazio! Que delícia, por aquela manhã tão
+lustrosa e tépida, subir à serra, encontrar a sua casa bem apetrechada,
+bem civilizada... Para o animar, lembrei que com as obras do Silvério,
+tantos caixotes de Civilização remetidos de Paris, Tormes estaria
+confortável mesmo para Epicuro. Oh! mas Jacinto entendia um palácio
+perfeito, um 202 no deserto!... E, assim discorrendo, atacámos as
+perdizes. Eu desarrolhava uma garrafa de Amontillado--quando o comboio,
+muito sorrateiramente, penetrou numa Estação. Era a Régua. E o meu
+Príncipe pousou logo a faca para chamar o Grilo, reclamar as malas que
+traziam o asseio dos nossos corpos.
+
+--Espera, Jacinto! Temos muito tempo, O comboio pára aqui uma hora...
+Come com tranquilidade. Não escangalhemos este almocinho com arrumações
+de maletas... O Grilo não tarda a aparecer.
+
+E corri mesmo a cortina, porque de fora um padre muito alto, com uma
+ponta de cigarro colada ao beiço, parara a espreitar indiscretamente o
+nosso festim. Mas quando acabámos as perdizes, e Jacinto confiadamente
+desembrulhava um queijo manchego, sem que Grilo ou Anatole
+comparecessem, eu, inquieto, corri à portinhola para apressar esses
+servos tardios... E nesse instante o comboio, largando, deslizou com o
+mesmo silêncio sorrateiro. Para o meu Príncipe foi um desgosto:
+
+--Aí ficamos outra vez sem um pente, sem uma escova... E eu que queria
+mudar de camisa! Por culpa tua, Zé Fernandes!
+
+--É espantoso!... Demora sempre uma eternidade. Hoje chega e abala!
+Paciência, Jacinto. Em duas horas estamos na Estação de Tormes...
+Também não valia a pena mudar de camisa para subir à serra! Em casa
+tomamos um banho, antes de jantar... Já deve estar instalada a
+banheira.
+
+Ambos nos consolámos com copinhos de uma divina aguardente Chinchon.
+Depois, estendidos nos sofás, saboreando os dois charutos que nos
+restavam, com as vidraças abertas ao ar adorável, conversámos de Tormes.
+Na estação certamente estaria o Silvério, com os cavalos...
+
+--Que tempo leva a subir?
+
+Uma hora. Depois de lavados sobrava tempo para um demorado passeio pelas
+terras com o caseiro, o excelente Melchior, para que o Senhor de
+Tormes, solenemente, tomasse posse do seu Senhorio. E à noite o
+primeiro bródio da serra, com os pitéus vernáculos do velho Portugal!
+
+Jacinto sorria, seduzido:
+
+--Vamos a ver que cozinheiro me arranjou esse Silvério. Eu recomendei
+que fosse um soberbo cozinheiro português, clássico. Mas que soubesse
+trufar um peru, afogar um bife em molho de moela, estas coisas simples
+da cozinha de França!... O pior é não te demorares, seguires logo para
+Guiães...
+
+--Ah, menino, anos da tia Vicência no sábado... Dia sagrado! Mas
+volto. Em duas semanas estou em Tormes, para fazermos uma larga
+Bucólica. E, está claro, para assistir à trasladação.
+
+Jacinto estendera o braço:
+
+--Que casarão é aquele, além no outeiro, com a torre?
+
+Eu não sabia. Algum solar de fidalgote do Douro... Tormes era nesse
+feitio atarracado e maciço. Casa de séculos e para séculos--mas sem
+torre.
+
+--E logo se vê, da estação, Tormes?...
+
+--Não! Muito no alto, numa prega da serra, entre arvoredo.
+
+No meu Príncipe já evidentemente nascera uma curiosidade pela sua rude
+casa ancestral. Mirava o relógio, impaciente. Ainda trinta minutos!
+Depois, sorvendo o ar e a luz, murmurava, no primeiro encanto de
+iniciado:
+
+--Que doçura, que paz...
+
+--Três horas e meia, estamos a chegar, Jacinto!
+
+Guardei o meu velho _Jornal do Comércio_ dentro do bolso do paletó,
+que deitei sobre o braço;--e ambos em pé, às janelas, esperámos com
+alvoroço a pequenina Estação de Tormes, termo ditoso das nossas
+provações. Ela apareceu enfim, clara e simples, à beira do rio, entre
+rochas, com os seus vistosos girassóis enchendo um jardinzinho breve, as
+duas altas figueiras assombreando o pátio, e por trás a serra coberta de
+velho e denso arvoredo... Logo na plataforma avistei com gosto a imensa
+barriga, as bochechas menineiras do chefe da Estação, o louro Pimenta,
+meu condiscípulo em Retórica, no Liceu de Braga. Os cavalos decerto
+esperavam, à sombra, sob as figueiras.
+
+Mal o trem parou ambos saltámos alegremente. A bojuda massa do Pimenta
+rebolou para mim com amizade:
+
+--Viva o amigo Zé Fernandes!
+
+--Oh belo Pimentão!...
+
+Apresentei o senhor de Tormes. E imediatamente:
+
+--Ouve lá, Pimentinha... Não está aí o Silvério?
+
+--Não... O Silvério há quase dois meses que partiu para Castelo de
+Vide, ver a mãe que apanhou uma cornada de um boi!
+
+Atirei a Jacinto um olhar inquieto:
+
+--Ora essa! E o Melchior, o caseiro?... Pois não estão aí os cavalos
+para subirmos à quinta?
+
+O digno chefe ergueu com surpresa as sobrancelhas cor de milho:
+
+--Não!... Nem Melchior, nem cavalos... O Melchior... Há que tempos eu
+não vejo o Melchior!
+
+O carregador badalou lentamente a sineta para o comboio rolar. Então,
+não avistando em torno, na lisa e despovoada Estação, nem criados nem
+malas, o meu Príncipe e eu lançámos o mesmo grito de angústia:
+
+--E o Grilo? as bagagens?...
+
+Corremos pela beira do comboio, berrando com desespero:
+
+--Grilo!... Oh Grilo!... Anatole!... Oh Grilo!
+
+Na esperança que ele e o Anatole viessem mortalmente adormecidos,
+trepávamos aos estribos, atirando a cabeça para dentro dos
+compartimentos, espavorindo a gente quieta com o mesmo berro que
+retumbava:--«Grilo, estás aí, Grilo?»--Já de uma terceira classe, onde
+uma viola repenicava, um jocoso gania, troçando:--«Não há por aí um
+grilo? Andam por aí uns senhores a pedir um grilo!»--E nem Anatole,
+nem Grilo!
+
+A sineta tilintou.
+
+--Oh Pimentinha, espera, homem, não deixes largar o comboio!... As
+nossas bagagens, homem!
+
+E, aflito, empurrei o enorme chefe para o furgão de carga, a
+pesquisar, descortinar as nossas vinte e três malas! Apenas encontrámos
+barris, cestos de vime, latas de azeite, um baú amarrado com cordas...
+Jacinto mordia os beiços, lívido. E o Pimentinha, esgazeado:
+
+--Oh filhos, eu não posso atrasar o comboio!...
+
+A sineta repicou... E com um belo fumo claro o comboio desapareceu por
+detrás das fragas altas. Tudo em torno pareceu mais calado e deserto.
+Ali ficávamos pois baldeados, perdidos na serra, sem Grilo, sem
+procurador, sem caseiro, sem cavalos, sem malas! Eu conservava o
+paletó alvadio, donde surdia o _Jornal do Comércio_. Jacinto, uma
+bengala. Eram todos os nossos bens!
+
+O Pimentão arregalava para nós os olhinhos papudos e compadecidos.
+Contei então àquele amigo o atarantado trasfego em Medina sob a
+borrasca, o Grilo desgarrado, encalhado com as vinte e três malas, ou
+rolando talvez para Madrid sem nos deixar um lenço...
+
+--Eu não tenho um lenço!... Tenho este _Jornal do Comércio_. É toda a
+minha roupa branca.
+
+--Grande arrelia, caramba! murmurava o Pimenta, impressionado. E agora?
+
+--Agora, exclamei, é trepar, para a quinta, à pata... A não ser que se
+arranjassem aí uns burros.
+
+Então o carregador lembrou que perto, no casal da Giesta, ainda
+pertencente a Tormes, o caseiro, seu compadre, tinha uma boa égua e um
+jumento... E o prestante homem enfiou numa carreira para a
+Giesta--enquanto o meu Príncipe e eu caíamos para cima de um banco,
+arquejantes e sucumbidos, como náufragos. O vasto Pimentinha, com as
+mãos nas algibeiras, não cessava de nos contemplar, de murmurar:--«É de
+arrelia».--O rio defronte descia, preguiçoso e como adormentado sob a
+calma já pesada de Maio, abraçando, sem um sussurro, uma larga ilhota de
+pedra que rebrilhava. Para além a serra crescia em corcovas doces, com
+uma funda prega onde se aninhava, bem junta e esquecida do mundo, uma
+vilazinha clara. O espaço imenso repousava num imenso silêncio.
+Naquelas solidões de monte e penedia os pardais, revoando no telhado,
+pareciam aves consideráveis. E a massa rotunda e rubicunda do Pimentinha
+dominava, atulhava a região.
+
+--Está tudo arranjado, meu senhor! Vêm aí os bichos!... Só o que não
+calhou foi um selinzinho para a jumenta!
+
+Era o carregador, digno homem, que voltava da Giesta, sacudindo na mão
+duas esporas desirmanadas e ferrugentas. E não tardaram a aparecer no
+córrego, para nos levarem a Tormes, uma égua ruça, um jumento com
+albarda, um rapaz e um podengo. Apertámos a mão suada e amiga do
+Pimentinha. Eu cedi a égua ao senhor de Tormes. E começámos a trepar o
+caminho, que não se alisara nem se desbravara desde os tempos em que o
+trilhavam, com rudes sapatões ferrados, cortando de rio a monte, os
+Jacintos do século XIV! Logo depois de atravessarmos uma trémula ponte
+de pau, sobre um riacho quebrado por pedregulhos, o meu Príncipe, com o
+olho de dono subitamente aguçado, notou a robustez e a fartura das
+oliveiras...--E em breve os nossos males esqueceram ante a incomparável
+beleza daquela serra bendita!
+
+Com que brilho e inspiração copiosa a compusera o divino Artista que faz
+as serras, e que tanto as cuidou, e tão ricamente as dotou, neste seu
+Portugal bem-amado! A grandeza igualava a graça. Para os vales,
+poderosamente cavados, desciam bandos de arvoredos, tão copados e
+redondos, de um verde tão moço que eram como um musgo macio onde
+apetecia cair e rolar. Dos pendores, sobranceiros ao carreiro fragoso,
+largas ramadas estendiam o seu toldo amável, a que o esvoaçar leve dos
+pássaros sacudia a fragrância. Através dos muros seculares, que sustêm
+as terras liados pelas heras, rompiam grossas raízes coleantes a que
+mais hera se enroscava. Em todo o torrão, de cada fenda, brotavam flores
+silvestres. Brancas rochas, pelas encostas, alastravam a sólida nudez do
+seu ventre polido pelo vento e pelo sol; outras, vestidas de líquen e de
+silvados floridos, avançavam como proas de galeras enfeitadas: e,
+dentre as que se apinhavam nos cimos, algum casebre que para lá
+galgara, todo amachucado e torto, espreitava pelos postigos negros, sob
+as desgrenhadas farripas de verdura, que o vento lhe semeara nas telhas.
+Por toda a parte a água sussurrante, a água fecundante... Espertos
+regatinhos fugiam, rindo com os seixos, dentre as patas da égua e do
+burro; grossos ribeiros açodados saltavam com fragor de pedra em pedra;
+fios direitos e luzidios como cordas de prata vibravam e faiscavam das
+alturas aos barrancos; e muita fonte, posta à beira de veredas, jorrava
+por uma bica, beneficamente, à espera dos homens e dos gados... Todo um
+cabeço por vezes era uma seara, onde um vasto carvalho ancestral,
+solitário, dominava como seu senhor e seu guarda. Em socalcos verdejavam
+laranjais rescendentes. Caminhos de lajes soltas circundavam fartos
+prados com carneiros e vacas retouçando:--ou mais estreitos, entalados
+em muros, penetravam sob ramadas de parra espessa, numa penumbra de
+repouso e frescura. Trepávamos então alguma ruazinha de aldeia, dez ou
+doze casebres, sumidos entre figueiras, onde se esgaçava, fugindo do lar
+pela telha vã, o fumo branco e cheiroso das pinhas. Nos cerros remotos,
+por cima da negrura pensativa dos pinheirais, branquejavam ermidas. O ar
+fino e puro entrava na alma, e na alma espalhava alegria e força. Um
+esparso tilintar de chocalhos de guizos morria pelas quebradas...
+
+Jacinto adiante, na sua égua ruça, murmurava:
+
+--Que beleza!
+
+E eu atrás, no burro de Sancho, murmurava:
+
+--Que beleza!
+
+Frescos ramos roçavam os nossos ombros com familiaridade e carinho. Por
+trás das sebes, carregadas de amoras, as macieiras estendidas ofereciam
+as suas maçãs verdes, porque as não tinham maduras. Todos os vidros
+de uma casa velha, com a sua cruz no topo, refulgiram hospitaleiramente
+quando nós passámos. Muito tempo um melro nos seguia, de azinheiro a
+olmo, assobiando os nossos louvores. Obrigado, irmão melro! Ramos de
+macieira, obrigado! Aqui vimos, aqui vimos! E sempre contigo fiquemos,
+serra tão acolhedora, serra de fartura e de paz, serra bendita entre as
+serras!
+
+Assim, vagarosamente e maravilhados, chegámos àquela avenida de faias,
+que sempre me encantara pela sua fidalga gravidade. Atirando uma
+vergastada ao burro e à égua, o nosso rapaz, com o seu podengo sobre os
+calcanhares, gritou:--«Aqui é que estemos, meus amos!» E ao fundo das
+faias, com efeito, aparecia o portão da quinta de Tormes, com o seu
+brasão de armas, de secular granito, que o musgo retocava e mais
+envelhecia. Dentro já os cães ladravam com furor. E quando Jacinto, na
+sua suada égua, e eu atrás, no burro de Sancho, transpusemos o limiar
+solarengo, desceu para nós, do alto do alpendre, pela escadaria de pedra
+gasta, um homem nédio, rapado como um padre, sem colete, sem jaleca,
+acalmando os cães que se encarniçavam contra o meu Príncipe. Era o
+Melchior, o caseiro... Apenas me reconheceu, toda a boca se lhe
+escancarou num riso hospitaleiro, a que faltavam dentes. Mas apenas eu
+lhe revelei, daquele cavalheiro de bigodes louros que descia da égua
+esfregando os quadris, o senhor de Tormes--o bom Melchior recuou,
+colhido de espanto e terror como diante de uma avantesma.
+
+--Ora essa!... Santíssimo nome de Deus! Pois então...
+
+E, entre o rosnar dos cães, num bracejar desolado, balbuciou uma
+história que por seu turno apavorava Jacinto, como se o negro muro do
+casarão pendesse para desabar. O Melchior não esperava S. Ex.^a! Ninguém
+esperava S. Ex.^a!... (Ele dizia _sua incelência_)... O Sr. Silvério
+estava para Castelo de Vide desde Março, com a mãe, que apanhara uma
+cornada na virilha. E de certo houvera engano, cartas perdidas... Porque
+o Sr. Silvério só contava com S. Exc.^a em Setembro, para a vindima! Na
+casa as obras seguiam devagarinho, devagarinho... O telhado, no sul,
+ainda continuava sem telhas; muitas vidraças esperavam, ainda sem
+vidros; e, para ficar, Virgem Santa, nem uma cama arranjada!...
+
+Jacinto cruzou os braços numa cólera tumultuosa que o sufocava. Por
+fim, com um berro:
+
+--Mas os caixotes? Os caixotes, mandados de Paris, em Fevereiro, há
+quatro meses?...
+
+O desgraçado Melchior arregalava os olhos miúdos, que se embaciavam de
+lágrimas. Os caixotes?! Nada chegara, nada aparecera!... E na sua
+perturbação mirava pelas arcadas do pátio, palpava na algibeira das
+pantalonas. Os caixotes?... Não, não tinha os caixotes!
+
+--E agora, Zé Fernandes?
+
+Encolhi os ombros:
+
+--Agora, meu filho, só vires comigo para Guiães... Mas são duas horas
+fartas a cavalo. E não temos cavalos! O melhor é ver o casarão, comer
+a boa galinha que o nosso amigo Melchior nos assa no espeto, dormir
+numa enxerga, e amanhã cedo, antes do calor, trotar para cima, para a
+tia Vicência.
+
+Jacinto replicou, com uma decisão furiosa:
+
+--Amanhã troto, mas para baixo, para a estação!... E depois, para
+Lisboa!
+
+E subiu a gasta escadaria do seu solar com amargura e rancor. Em cima
+uma larga varanda acompanhava a fachada do casarão, sob um alpendre de
+negras vigas, toda ornada, por entre os pilares de granito, com caixas
+de pau onde floriam cravos. Colhi um cravo amarelo---e penetrei atrás
+de Jacinto nas salas nobres, que ele contemplava com um murmúrio de
+horror. Eram enormes, de uma sonoridade de casa capitular, com os grossos
+muros enegrecidos pelo tempo e o abandono, e regeladas, desoladamente
+nuas, conservando apenas aos cantos algum monte de canastras ou alguma
+enxada entre paus. Nos tectos remotos, de carvalho apainelado, luziam
+através dos rasgões manchas de céu. As janelas, sem vidraças,
+conservavam essas maciças portadas, com fechos para as trancas, que,
+quando se cerram, espalham a treva. Sob os nossos passos, aqui e além,
+uma tábua podre rangia e cedia.
+
+--Inabitável! rugia Jacinto surdamente. Um horror! Uma infâmia!...
+
+Mas depois, noutras salas, o soalho alternava com remendos de tábuas
+novas. Os mesmos remendos claros mosqueavam os velhíssimos tectos de
+rico carvalho sombrio. As paredes repeliam pela alvura crua da cal
+fresca. E o sol mal atravessava as vidraças--embaciadas e gordurentas da
+massa e das mãos dos vidraceiros.
+
+Penetrámos enfim na última, a mais vasta, rasgada por seis janelas,
+mobilada com um armário e com uma enxerga parda e curta estirada a um
+canto: e junto dela parámos, e sobre ela depusemos tristemente o que
+nos restava de vinte e três malas--o meu paletó alvadio, a bengala de
+Jacinto, e o _Jornal do Comércio_ que nos era comum. Através das
+janelas escancaradas, sem vidraças, o grande ar da serra entrava e
+circulava como num eirado, com um cheiro fresco de horta regada. Mas o
+que avistávamos, da beira da enxerga, era um pinheiral cobrindo um
+cabeço e descendo pelo pendor suave, à maneira de uma hoste em marcha,
+com pinheiros na frente, destacados, direitos, emplumados de negro; mais
+longe as serras de além rio, de uma fina e macia cor de violeta; depois a
+brancura do céu, todo liso, sem uma nuvem, de uma majestade divina. E lá
+debaixo, dos vales, subia, desgarrada e melancólica, uma voz de
+pegureiro cantando.
+
+Jacinto caminhou lentamente para o poial de uma janela, onde caiu
+esbarrondado pelo desastre, sem resistência ante aquele brusco
+desaparecimento de toda a Civilização! Eu palpava a enxerga, dura e
+regelada como um granito de Inverno. E pensando nos luxuosos colchões de
+penas e molas, tão prodigamente encaixotados no 202, desafoguei também
+a minha indignação:
+
+--Mas os caixotes, caramba?... Como se perdem assim trinta e tantos
+caixotes enormes?...
+
+Jacinto sacudiu amargamente os ombros:
+
+--Encalhados, por aí, algures, num barracão!... Em Medina, talvez,
+nessa horrenda Medina. Indiferença das Companhias, inércia do
+Silvério... Enfim a Península, a barbárie!
+
+Vim ajoelhar sobre o outro poial, alongando os olhos consolados por céu
+e monte:
+
+--É uma beleza!
+
+O meu Príncipe, depois de um silêncio grave, murmurou, com a face
+encostada à mão:
+
+--É uma lindeza... E que paz!
+
+Sob a janela vicejava fartamente uma horta, com repolho, feijoal,
+talhões de alface, gordas folhas de abóbora rastejando. Uma eira, velha
+e mal alisada, dominava o vale, donde já subia tenuemente a névoa
+de algum fundo ribeiro. Toda a esquina do casarão desse lado se
+encravava em laranjal. E de uma fontinha rústica, meio afogada em rosas
+tremedeiras, corria um longo e rutilante fio de água.
+
+--Estou com apetite desesperado daquela água! declarou Jacinto,
+muito sério.
+
+--Também eu... Desçamos ao quintal, hein? E passamos pela cozinha, a
+saber do frango.
+
+Voltámos à varanda. O meu Príncipe, mais conciliado com o destino
+inclemente, colheu um cravo amarelo. E por outra porta baixa, de
+rijíssimas ombreiras, mergulhámos numa sala, alastrada de caliça, sem
+tecto, coberta apenas de grossas vigas, donde se ergueu uma revoada de
+pardais.
+
+--Olha para este horror! murmurava Jacinto arrepiado.
+
+E descemos por uma lôbrega escada de castelo, tenteando depois um
+corredor tenebroso de lajes ásperas, atravancado por profundas arcas,
+capazes de guardar todo o grão de uma província. Ao fundo a cozinha,
+imensa, era uma massa de formas negras, madeira negra, pedra negra,
+densas negruras de felugem secular. E neste negrume refulgia a um
+canto, sobre o chão de terra negra, a fogueira vermelha, lambendo tachos
+e panelas de ferro, despedindo uma fumarada que fugia pela grade aberta
+no muro, depois por entre a folhagem dos limoeiros. Na enorme lareira,
+onde se aqueciam e assavam as suas grossas peças de porco e boi os
+Jacintos medievais, agora desaproveitada pela frugalidade dos caseiros,
+negrejava um poeirento montão de cestas e ferramentas; e a claridade
+toda entrava por uma porta de castanho, escancarada sobre um quintalejo
+rústico em que se misturavam couves lombardas e junquilhos formosos. Em
+roda do lume um bando alvoroçado de mulheres depenava frangos, remexia
+as caçarolas, picava a cebola, com um fervor afogueado e palreiro. Todas
+emudeceram quando aparecemos--e dentre elas o pobre Melchior,
+estonteado, com o sangue a espirrar na nédia face de abade, correu para
+nós, jurando «que o jantarinho de suas Incelências não demorava um
+credo»...
+
+--E a respeito de camas, oh amigo Melchior?
+
+O digno homem ciciou uma desculpa encolhida «sobre enxergazinhas no
+chão...»
+
+--É o que basta! acudi eu, para o consolar. Por uma noite, com lençóis
+frescos...
+
+--Ah, lá pelos lençoizinhos respondo eu!... Mas um desgosto assim, meu
+senhor! A gente apanhada sem um colchãozinho de lã, sem um lombozinho de
+vaca... Que eu já pensei, até lembrei à minha comadre, V. Inc.^{as}
+podiam ir dormir aos _Ninhos_, a casa do Silvério. Tinham lá camas de
+ferro, lavatórios... Ele sempre é uma leguazita e mau caminho...
+
+Jacinto, bondoso, acudiu:
+
+--Não, tudo se arranja, Melchior. Por uma noite!... Até gosto mais de
+dormir em Tormes, na minha casa da serra!
+
+Saímos ao terreiro, retalho de horta fechado por grossas rochas
+encabeladas de verdura, entestando com os socalcos da serra onde
+lourejava o centeio. O meu Príncipe bebeu da água nevada e luzidia da
+fonte, regaladamente, com os beiços na bica; apeteceu a alface
+rechonchuda e crespa; e atirou pulos aos ramos altos de uma copada
+cerejeira, toda carregada de cereja. Depois, costeando o velho lagar, a
+que um bando de pombas branqueava o telhado, deslizámos até ao carreiro,
+cortado no costado do monte. E andando, pensativamente, o meu Príncipe
+pasmava para os milheirais, para os vetustos carvalhos plantados por
+vetustos Jacintos, para os casebres espalhados sobre os cabeços à orla
+negra dos pinheirais.
+
+De novo penetrámos na avenida de faias e transpusemos o portão senhorial
+entre o latir dos cães, mais mansos, farejando um dono. Jacinto
+reconheceu «certa nobreza» na frontaria do seu lar. Mas sobretudo lhe
+agradava a longa alameda, assim direita e larga, como traçada para
+nela se desenrolar uma cavalgada de Senhores com plumas e pajens.
+Depois, de cima da varanda, reparando na telha nova da capela, louvou o
+Silvério, «esse ralaço», por cuidar ao menos da morada do Bom-Deus.
+
+--E esta varanda também é agradável, murmurou ele mergulhando a face no
+aroma dos cravos. Precisa grandes poltronas, grandes divãs de verga...
+
+Dentro, na «nossa sala», ambos nos sentámos nos poiais da janela,
+contemplando o doce sossego crepuscular que lentamente se estabelecia
+sobre vale e monte. No alto tremeluzia uma estrelinha, a Vénus
+diamantina, lânguida anunciadora da noite e dos seus contentamentos.
+Jacinto nunca considerara demoradamente aquela estrela, de amorosa
+refulgência, que perpetua no nosso Céu católico a memória da Deusa
+incomparável:--nem assistira jamais, com a alma atenta, ao majestoso
+adormecer da Natureza. E este enegrecimento dos montes que se embuçam
+em sombra; os arvoredos emudecendo, cansados de sussurrar; o rebrilho
+dos casais mansamente apagado; o cobertor de névoa, sob que se acama e
+agasalha a frialdade dos vales; um toque sonolento de sino que rola
+pelas quebradas; o segredado cochichar das águas e das relvas
+escuras--eram para ele como iniciações. Daquela janela, aberta sobre
+as serras, entrevia uma outra vida, que não anda somente cheia do Homem
+e do tumulto da sua obra. E senti o meu amigo suspirar como quem enfim
+descansa.
+
+Deste enlevo nos arrancou o Melchior com o doce aviso do «jantarinho de
+suas Incelências». Era noutra sala, mais nua, mais abandonada:--e aí
+logo à porta o meu supercivilizado Príncipe estacou, estarrecido pelo
+desconforto, escassez e rudeza das coisas. Na mesa, encostada ao muro
+denegrido, sulcado pelo fumo das candeias, sobre uma toalha de estopa,
+duas velas de sebo em castiçais de lata alumiavam grossos pratos de
+louça amarela, ladeados por colheres de estanho e por garfos de ferro.
+Os copos, de um vidro espesso, conservavam a sombra roxa do vinho que
+neles passara em fartos anos de fartas vindimas. A malga de barro,
+atestada de azeitonas pretas, contentaria Diógenes. Espetado na côdea
+de um imenso pão reluzia um imenso facalhão. E na cadeira senhorial
+reservada ao meu Príncipe, derradeira alfaia dos velhos Jacintos, de
+hirto espaldar de couro, com a madeira roída de caruncho, a clina fugia
+em melenas pelos rasgões do assento puído.
+
+Uma formidável moça, de enormes peitos que lhe tremiam dentro das
+ramagens do lenço cruzado, ainda suada e esbraseada do calor da lareira,
+entrou esmagando o soalho, com uma terrina a fumegar. E o Melchior, que
+seguia erguendo a infusa do vinho, esperava que suas Incelências lhe
+perdoassem porque faltara tempo para o caldinho apurar... Jacinto
+ocupou a sede ancestral--e, durante momentos (de esgazeada ansiedade
+para o caseiro excelente) esfregou energicamente, com a ponta da
+toalha, o garfo negro, a fusca colher de estanho. Depois, desconfiado,
+provou o caldo, que era de galinha e rescendia. Provou--e levantou para
+mim, seu camarada de misérias, uns olhos que brilharam, surpreendidos.
+Tornou a sorver uma colherada mais cheia, mais considerada. E sorriu,
+com espanto:--«Está bom!»
+
+Estava precioso: tinha fígado e tinha moela: o seu perfume enternecia:
+três vezes, fervorosamente, ataquei aquele caldo.
+
+--Também lá volto! exclamava Jacinto com uma convicção imensa. É que
+estou com uma fome... Santo Deus! Há anos que não sinto esta fome.
+
+Foi ele que rapou avaramente a sopeira. E já espreitava a porta,
+esperando a portadora dos pitéus, a rija moça de peitos trementes, que
+enfim surgiu, mais esbraseada, abalando o sobrado--e pousou sobre a mesa
+uma travessa a transbordar de arroz com favas. Que desconsolo! Jacinto,
+em Paris, sempre abominara favas!... Tentou todavia uma garfada
+tímida--e de novo aqueles seus olhos, que o pessimismo enevoara,
+luziram, procurando os meus. Outra larga garfada, concentrada, com uma
+lentidão de frade que se regala. Depois um brado:
+
+--Óptimo!... Ah, destas favas, sim! Oh que fava! Que delícia!
+
+E por esta santa gula louvava a serra, a arte perfeita das mulheres
+palreiras que em baixo remexiam as panelas, o Melchior que presidia ao
+bródio...
+
+--Deste arroz com fava nem em Paris, Melchior amigo!
+
+O homem óptimo sorria, inteiramente desanuviado:
+
+--Pois é cá a comidinha dos moços da quinta! E cada pratada, que até
+suas Incelências se riam... Mas agora, aqui, o Sr. D. Jacinto, também
+vai engordar e enrijar!
+
+O bom caseiro sinceramente cria que, perdido nesses remotos Parises, o
+Senhor de Tormes, longe da fartura de Tormes, padecia fome e mingava...
+E o meu Príncipe, na verdade, parecia saciar uma velhíssima fome e uma
+longa saudade da abundância, rompendo assim, a cada travessa, em
+louvores mais copiosos. Diante do louro frango assado no espeto e da
+salada que ele apetecera na horta, agora temperada com um azeite da
+serra digno dos lábios de Platão, terminou por bradar:--«É divino!» Mas
+nada o entusiasmava como o vinho de Tormes, caindo de alto, da bojuda
+infusa verde--um vinho fresco, esperto, seivoso, e tendo mais alma,
+entrando mais na alma, que muito poema ou livro santo. Mirando, à vela
+de sebo, o copo grosso que ele orlava de leve espuma rósea, o meu
+Príncipe, com um resplendor de optimismo na face, citou Virgílio:
+
+--_Quo te carmina dicam, Rethica_? Quem dignamente te cantará, vinho
+amável destas serras?
+
+Eu, que não gosto que me avantajem em saber clássico, espanejei logo
+também o meu Virgílio, louvando as doçuras da vida rural:
+
+--_Hanc olim veteres vitam coluere Sabini_... Assim viveram os velhos
+Sabinos. Assim Rómulo e Remo... Assim cresceu a valente Etrúria. Assim
+Roma se tornou a maravilha do mundo!
+
+E imóvel, com a mão agarrada à infusa, o Melchior arregalava para nós
+os olhos em infinito assombro e religiosa reverência.
+
+ * * * * *
+
+Ah! Jantámos deliciosissimamente, sob os auspícios do Melchior--que
+ainda depois, próvido e tutelar, nos forneceu o tabaco. E, como ante nós
+se alongava uma noite de monte, voltámos para as janelas desvidraçadas,
+na sala imensa, a contemplar o sumptuoso céu de Verão. Filosofámos
+então com pachorra e facúndia.
+
+Na Cidade (como notou Jacinto) nunca se olham, nem lembram os
+astros--por causa dos candeeiros de gás ou dos globos de electricidade
+que os ofuscam. Por isso (como eu notei) nunca se entra nessa
+comunhão com o Universo que é a única glória e única consolação da
+Vida. Mas na serra, sem prédios disformes de seis andares, sem a
+fumaraça que tapa Deus, sem os cuidados que como pedaços de chumbo puxam
+a alma para o pó rasteiro--um Jacinto, um Zé Fernandes, livres, bem
+jantados, fumando nos poiais de uma janela, olham para os astros e os
+astros olham para eles. Uns, certamente, com olhos de sublime
+imobilidade ou de sublime indiferença. Mas outros curiosamente,
+ansiosamente, com uma luz que acena, uma luz que chama, como se
+tentassem, de tão longe, revelar os seus segredos, ou de tão longe
+compreender os nossos...
+
+--Oh Jacinto, que estrela é esta, aqui, tão viva, sobre o beiral do
+telhado?
+
+--Não sei... E aquela, Zé Fernandes, além, por cima do pinheiral?
+
+--Não sei.
+
+Não sabíamos. Eu, por causa da espessa crosta de ignorância com que saí
+do ventre de Coimbra, minha Mãe espiritual. Ele, porque na sua
+Biblioteca possuía trezentos e oito tratados sobre Astronomia, e o
+Saber, assim acumulado, forma um monte que nunca se transpõe nem se
+desbasta. Mas que nos importava que aquele astro além se chamasse
+Sírio e aquele outro Aldebarã? Que lhes importava a eles que um de
+nós fosse Jacinto, outro Zé? Eles tão imensos, nós tão pequeninos,
+somos a obra da mesma Vontade. E todos, Uranos ou Lorenas de Noronha e
+Sande, constituímos modos diversos de um Ser único, e as nossas
+diversidades esparsas somam na mesma compacta Unidade. Moléculas do
+mesmo Todo, governadas pela mesma Lei, rolando para o mesmo Fim... Do
+astro ao homem, do homem à flor do trevo, da flor do trevo ao mar
+sonoro--tudo é o mesmo Corpo, onde circula, como um sangue, o mesmo
+Deus. E nenhum frémito de vida, por menor, passa numa fibra desse
+sublime Corpo, que se não repercuta em todas, até às mais humildes, até
+às que parecem inertes e invitais. Quando um Sol que não avisto, nunca
+avistarei, morre de inanição nas profundidades, esse esguio galho de
+limoeiro, em baixo na horta, sente um secreto arrepio de morte:--e,
+quando eu bato uma patada no soalho de Tormes, além o monstruoso Saturno
+estremece, e esse estremecimento percorre o inteiro Universo! Jacinto
+abateu rijamente a mão no rebordo da janela. Eu gritei:
+
+--Acredita!... O sol tremeu.
+
+E depois (como eu notei) devíamos considerar que, sobre cada um desses
+grãos de pó luminoso, existia uma criação, que incessantemente nasce,
+perece, renasce. Neste instante, outros Jacintos, outros Zés
+Fernandes, sentados às janelas doutras Tormes, contemplam o céu
+nocturno, e nele um pequenininho ponto de luz, que é a nossa possante
+Terra por nós tanto sublimada. Não terão todos esta nossa forma, bem
+frágil, bem desconfortável, e (a não ser no Apolo do Vaticano, na Vénus
+de Milo e talvez na Princesa, de Carman) singularmente feia e burlesca.
+Mas, horrendos ou de inefável beleza; colossais e de uma carne mais
+dura que o granito, ou leves como gazes e ondulando na luz, todos eles
+são seres pensantes e têm consciência da Vida--porque decerto cada
+Mundo possui o seu Descartes, ou já o nosso Descartes os percorreu a
+todos com o seu Método, a sua escura capa, a sua agudeza elegante,
+formulando a única certeza talvez certa, o grande _Penso logo existo_.
+Portanto todos nós, Habitantes dos Mundos, às janelas dos nossos
+casarões, além nos Saturnos, ou aqui na nossa Terrícula, constantemente
+perfazemos um acto sacrossanto que nos penetra e nos funde--que é
+sentirmos no Pensamento o núcleo comum das nossas modalidades, e
+portanto realizarmos um momento, dentro da Consciência, a Unidade do
+Universo!--Hein, Jacinto?...
+
+O meu amigo rosnou:
+
+--Talvez... Estou a cair com sono.
+
+--Também eu. «Remontámos muito, Ex.^{mo} Sr.!» como dizia o Pestaninha
+em Coimbra. Mas nada mais belo, e mais vão, que uma cavaqueira, no alto
+das serras, a olhar para as estrelas!... Tu sempre vais amanhã?
+
+--Concerteza, Zé Fernandes! Com a certeza de Descartes. «Penso _logo
+fujo_!» Como queres tu, neste pardieiro, sem uma cama, sem uma
+poltrona, sem um livro?... Nem só de arroz com fava vive o Homem! Mas
+demoro em Lisboa, para conversar com o Sesimbra, o meu Administrador. E
+também à espera que estas obras acabem, os caixotes surjam, e eu possa
+voltar decentemente, com roupa lavada, para a trasladação...
+
+--É verdade, os ossos...
+
+--Mas resta ainda o Grilo... Que animal! Por onde andará esse perdido?
+
+Então, passeando lentamente na sala enorme, onde a vela de sebo já
+derretida no castiçal de lata era como um lume de cigarro num
+descampado, meditámos na sorte do Grilo. O estimado negro ou fora
+despejado nas lamas de Medina, com as vinte e sete malas, aos
+gritos--ou, regaladamente adormecido, rolara com o Anatole no comboio
+para Madrid. Mas ambos os casos apareciam ao meu Príncipe como
+irremediavelmente destruidores do seu conforto...
+
+--Não, escuta, Jacinto... Se o Grilo encalhou em Medina, dormiu na
+Fonda, catou os percevejos, e esta madrugada correu para Tormes. Quando
+amanhã desceres à Estação, às quatro horas, encontras o teu precioso
+homem, com as tuas preciosas malas, metido nesse comboio que te leva
+ao Porto e à Capital...
+
+Jacinto sacudiu os braços como quem se debate nas malhas de uma rede:
+
+--E se seguiu para Madrid?
+
+--Então, por esta semana, cá aparece em Tormes, onde encontra ordem
+para regressar a Lisboa e reentrar no teu séquito... Resta o
+interessante caso das minhas bagagens. Se amanhã encontrares na Estação
+o Grilo, separa a minha mala negra, e o saco de lona, e a chapeleira.
+O Grilo conhece. E pede ao Pimenta, ao gordalhufo, que me avise para
+Guiães. Se o Grilo aportar Tormes, esfogueteado de Madrid, com toda
+essa malaria, deixa as minhas coisas aqui, ao Melchior... Eu amanhã
+falo ao Melchior.
+
+Jacinto sacudiu furiosamente o colarinho:
+
+--Mas como posso eu partir para Lisboa, amanhã, com esta camisa de dois
+dias, que já me faz uma comichão horrenda? E sem um lenço... Nem ao
+menos uma escova de dentes!
+
+Fértil em ideias, estendi as mãos, num belo gesto tutelar:
+
+--Tudo se arranja, meu Jacinto, tudo se arranja! Eu, largando daqui
+cedo, pelas seis horas, chego a Guiães às dez, ainda sem calor. E, mesmo
+antes do almoço e da cavaqueira com a tia Vicência, imediatamente te
+mando por um moço um saco de roupa branca. As minhas camisas e as
+minhas ceroulas talvez te estejam largas. Mas um mendigo como tu não tem
+direito a elegâncias e a roupas bem cortadas. O moço, num bom trote,
+entra aqui às duas horas; tens tempo de mudar antes de desceres para a
+Estação... Posso meter na mala uma escova de dentes.
+
+--Oh Zé Fernandes! Então mete também uma esponja... E um frasco de água-de-colónia!
+
+--Água de alfazema, excelente, feita pela tia Vicência...
+
+O meu Príncipe suspirou, impressionado com a sua miséria esquálida, e
+esta dádiva de roupas:
+
+--Bem, então vamos dormir, que estou esfalfado de emoções e de astros...
+
+Justamente Melchior entreabria a pesada porta, com timidez, a avisar que
+«estavam preparadinhas as camas de suas Incelências.» E seguindo o bom
+caseiro, que erguia uma candeia, que avistamos nós, o meu Príncipe e eu,
+ainda há pouco irmanados com os astros? Em duas saletas, que uma
+abertura em arco, lôbrego arco de pedra, separava--duas enxergas sobre o
+soalho. Junto à cabeceira da mais larga, que pertencia ao senhor de
+Tormes, um castiçal de latão sobre um alqueire; aos pés, como lavatório,
+um alguidar vidrado em cima de uma tripeça. Para mim, serrano daquelas
+serras, nem alguidar nem alqueire.
+
+Lentamente, com o pé, o meu supercivilizado amigo palpou a enxerga. E
+decerto lhe sentiu uma dureza intransigente, porque ficou pendido sobre
+ela, a correr desoladamente os dedos pela face desmaiada.
+
+--E o pior não é ainda a enxerga, murmurou enfim com um suspiro. É que
+não tenho camisa de dormir, nem chinelas!... E não me posso deitar de
+camisa engomada.
+
+Por inspiração minha recorremos ao Melchior. De novo, esse benemérito
+providenciou, trazendo a Jacinto, para ele desafogar os pés, uns
+tamancos--e para embrulhar o corpo uma camisa da comadre, enorme, de
+estopa, áspera como uma estamenha de penitente, com folhos mais crespos
+e duros do que lavores de madeira. Para consolar o meu Príncipe lembrei
+que Platão quando compunha o _Banquete_, Vasco da Gama quando dobrava o
+Cabo, não dormiam em melhores catres! As enxergas rijas fazem as almas
+fortes, oh Jacinto!... E é só vestido de estamenha que se penetra no
+Paraíso.
+
+--Tens tu, volveu o meu amigo secamente, alguma coisa que eu leia? Não
+posso adormecer sem um livro.
+
+Eu? Um livro? Possuía apenas o velho numero do _Jornal do Comércio_,
+que escapara à dispersão dos nossos bens. Rasguei a copiosa folha pelo
+meio, partilhei com Jacinto fraternalmente. Ele tomou a sua metade,
+que era a dos anúncios... E quem não viu então Jacinto, senhor de
+Tormes, acaçapado à borda da enxerga, rente da vela de sebo que se
+derretia no alqueire, com os pés encafuados nos socos, perdido dentro
+das ásperas pregas e dos rijos folhos da camisa serrana, percorrendo
+num pedaço velho de Gazeta, pensativamente, as partidas dos
+Paquetes--não pode saber o que é uma intensa e verídica imagem do
+Desalento.
+
+Recolhido à minha alcova espartana, desabotoava o colete, num
+delicioso cansaço, quando o meu Príncipe ainda me reclamou:
+
+--Zé Fernandes...
+
+--Diz.
+
+--Manda também no saco um abotoador de botas.
+
+Estirado comodamente na rija enxerga murmurei, como sempre murmuro ao
+penetrar no Sono, que é um primo da Morte, «Deus seja louvado!» Depois
+tomei a metade do _Jornal do Comércio_ que me pertencia.
+
+--Zé Fernandes...
+
+--Que é?
+
+--Também podias meter no saco pós dos dentes... E uma lima das
+unhas... E um romance!
+
+Já a meia Gazeta me escapava das mãos dormentes. Mas da sua alcova,
+depois de soprar a vela, Jacinto murmurou entre um bocejo:
+
+--Zé Fernandes...
+
+--Hein?
+
+--Escreve para Lisboa, para o Hotel Bragança... Os lençóis ao menos são
+frescos, cheiram bem, a sadio!
+
+
+
+
+IX
+
+
+Cedo, de madrugada, sem rumor, para não despertar o meu Jacinto, que,
+com as mãos cruzadas sobre o peito, dormia beatificamente na sua enxerga
+de granito--parti para Guiães.
+
+Ao cabo de uma semana, recolhendo uma manhã para o almoço, encontrei no
+corredor as minhas malas tão desejadas, que um moço do casal da Giesta
+trouxera num carro com «recados do Sr. Pimentinha». O meu pensamento
+pulou para o meu Príncipe. E lancei pelo telégrafo, para Lisboa, para o
+Hotel Bragança, este brado alegre:--«Estás lá? Sei recuperaste Grilo e
+Civilização! Hurrah! Abraço!»--Só depois de sete dias, ocupados numa
+delicada apanha de espargos com que outrora civilizara a horta da tia
+Vicência, notei o silêncio de Jacinto. Num bilhete postal renovei,
+desenvolvi o grito amigo:--«Estás lá? São os prazeres da Baixa que assim
+te tornam desatento e mudo? Eu, todo espargos! Responde, quando chegas?
+Tempo delicioso! 23^o à sombra. E os ossos?...»--Veio depois a devota
+romaria da Senhora da Roqueirinha. Durante a lua nova andei num corte
+de mato, na minha terra das Corcas. A tia Vicência vomitou, com uma
+indigestão de morcelas. E o silêncio do meu Príncipe era ingrato e
+ferrenho.
+
+Enfim uma tarde, voltando da Flor da Malva, de casa da minha prima
+Joaninha, parei em Sandofim, na venda do Manuel Rico, para beber de
+certo vinho branco que a minha alma conhece--e sempre pede.
+
+Defronte, à porta do ferrador, o Severo, sobrinho do Melchior de Tormes
+e o mais fino alveitar da serra, picava tabaco, escarranchado num
+banco. Mandei encher outro quartilho: ele acariciou o pescoço da minha
+égua que já salvara de um esfriamento: e, como eu indagasse do nosso
+Melchior, o Severo contou que na véspera jantara com ele em Tormes, e
+se abeirara também do fidalgo...
+
+--Ora essa! Então o Sr. D. Jacinto está em Tormes?
+
+O meu espanto divertiu o Severo:
+
+--Então V. Exc.^a... Pois em Tormes é que ele está, há mais de cinco
+semanas, sem arredar! E parece que fica para a vindima, e vai lá uma
+grandeza!
+
+Santíssimo nome de Deus! Ao outro dia, domingo, depois da missa e sem me
+assustar com a calma que carregava, trotei alvoroçadamente para Tormes.
+Ao latir dos rafeiros, quando transpus o portal solarengo, a comadre do
+Melchior acudiu dos lados do curral, com um alguidar de lavagem
+encostado à cintura.--Então o Sr. D. Jacinto?... O Sr. D. Jacinto
+andava lá para baixo, com o Silvério e com o Melchior, nos campos de
+Freixomil...
+
+--E o Sr. Grilo, o preto?
+
+--Há bocadinho também o enxerguei no pomar, com o francês, a apanhar
+limões doces...
+
+Todas as janelas do solar rebrilhavam, com vidraças novas, bem polidas.
+A um canto do pátio notei baldes de cal e tigelas de tintas. Uma escada
+de pedreiro descansara durante o Dia Santo arrimada contra o telhado. E,
+rente ao muro da capela, dois gatos dormiam sobre montões de palha
+desempacotada de caixotes consideráveis.
+
+--Bem, pensei eu. Eis a Civilização!
+
+Recolhi a égua, galguei a escada. Na varanda, sobre uma pilha de ripas,
+reluzia num raio de sol uma banheira de zinco. Dentro encontrei todos
+os soalhos remendados, esfregados a carqueja. As paredes, muito caiadas
+e nuas, refrigeravam como as de um convento. Um quarto, a que me levaram
+três portas escancaradas com franqueza serrana, era certamente o de
+Jacinto: a roupa pendia de cabides de pau: o leito de ferro, com
+coberta de fustão, encolhia timidamente a sua rigidez virginal a um
+canto, entre o muro e a banquinha onde um castiçal de latão resplandecia
+sobre um volume do _D. Quixote_ no lavatório pintado de amarelo,
+imitando bambu, apenas cabia o jarro, a bacia, um naco gordo de sabão; e
+uma prateleirinha bastava ao esmerado alinho da escova, da tesoura, do
+pente, do espelhinho de feira, e do frasquinho de água de alfazema que
+eu mandara de Guiães. As três janelas, sem cortinas, contemplavam a
+beleza da serra, respirando um delicado e macio ar, que se perfumava
+nas resinas dos pinheirais, depois nas roseiras da horta. Em frente, no
+corredor, outro quarto repetia a mesma simplicidade. Certamente a
+previdência do meu Príncipe o destinara ao seu Zé Fernandes. Pendurei
+logo dentro, no cabide, o meu guarda-pó de lustrina.
+
+Mas na sala imensa, onde tanto filosofáramos considerando as
+estrelas, Jacinto arranjara um centro de repouso e de estudo--e
+desenrolara essa «grandeza» que impressionava o Severo. As cadeiras de
+verga da Madeira, amplas e de braços, ofereciam o conforto de
+almofadinhas de chita. Sobre a mesa enorme de pau branco, carpinteirada
+em Tormes, admirei um candeeiro de metal de três bicos, um tinteiro de
+frade armado de penas de pato, um vaso de capela transbordando de
+cravos. Entre duas janelas uma cómoda antiga, embutida, com ferragens
+lavradas, recebera sobre o seu mármore rosado o devoto peso de um
+Presépio, onde Reis Magos, pastores de surrões vistosos, cordeiros
+de esguedelhada lã, se apressavam através de alcantis para o Menino, que
+na sua lapinha lhes abria os braços, coroado por uma enorme Coroa Real.
+Uma estante de madeira enchia outro pedaço de parede, entre dois
+retratos negros com caixilhos negros; sobre uma das suas prateleiras
+repousavam duas espingardas; nas outras esperavam, espalhados, como os
+primeiros Doutores nas bancadas de um concílio, alguns nobres livros, um
+Plutarco, um Virgílio, a Odisseia, o Manual de Epicteto, as Crónicas
+de Froissart. Depois, em fila decorosa, cadeiras de palhinha, muito
+novas, muito envernizadas. E a um canto um molho de varapaus.
+
+Tudo resplandecia de asseio e ordem. As portadas das janelas, cerradas,
+abrigavam do sol que batia aquele lado de Tormes, escaldando os
+peitoris de pedra. Do soalho, borrifado de água, subia, na suavizada
+penumbra, uma frescura. Os cravos rescendiam. Nem dos campos, nem da
+casa, se elevava um rumor. Tormes dormia no esplendor da manhã santa. E,
+penetrado por aquela consoladora quietação de convento rural, terminei
+por me estender numa cadeira de verga, junto da mesa, abrir
+languidamente um tomo de Virgílio, e murmurar, apropriando o doce verso
+que encontrara:
+
+Fortunate Jacinthe! Hic, inter arva nota
+Et fontes sacros, frigus captabis opacum...
+
+Afortunado Jacinto, na verdade! Agora, entre campos que são teus e
+águas que te são sagradas, colhes enfim a sombra e a paz!
+
+Li ainda outros versos. E, na fadiga das duas horas de égua e calor
+desde Guiães, irreverentemente adormecia sobre o divino
+Bucoliasta--quando me despertou um berro amigo! Era o meu Príncipe. E
+muito decididamente, depois de me soltar do seu rijo abraço, o comparei
+a uma planta estiolada, emurchecida na escuridão, entre tapetes e
+sedas, que, levada para vento e sol, profusamente regada, reverdece,
+desabrocha e honra a Natureza! Jacinto já não corcovava. Sobre a sua
+arrefecida palidez de supercivilizado, o ar montesino, ou vida mais
+verdadeira, espalhara um rubor trigueiro e quente de sangue renovado que
+o virilizava soberbamente. Dos olhos, que na Cidade andavam sempre tão
+crepusculares e desviados do Mundo, saltava agora um brilho de meio-dia,
+resoluto e largo, contente em se embeber na beleza das coisas. Até o
+bigode se lhe encrespara. E já não deslizava a mão desencantada sobre a
+face,--mas batia com ela triunfalmente na coxa. Que sei? Era um
+Jacinto novíssimo. E quase me assustava, por eu ter de aprender e
+penetrar, neste novo Príncipe, os modos e as ideias novas.
+
+--Caramba, Jacinto, mas então...?
+
+Ele encolheu jovialmente os ombros realargados. E só me soube contar,
+trilhando soberanamente com os sapatos brancos e cobertos de pó o soalho
+remendado, que, ao acordar em Tormes, depois de se lavar numa dorna, e
+de enfiar a minha roupa branca, se sentira de repente como
+_desanuviado_,desenvencilhado! Almoçara uma pratada de ovos com
+chouriço, sublime. Passeara por toda aquela magnificência da serra com
+pensamentos ligeiros de liberdade e de paz. Mandara ao Porto comprar uma
+cama, uns cabides... E ali estava...
+
+--Para todo o Verão?
+
+--Não! Mas um mês... Dois meses! Enquanto houver chouriços, e a água da
+fonte, bebida pela telha ou numa folha de couve, me souber tão
+divinamente!
+
+Caí sobre a cadeira de verga, e contemplei, arregalado, quase
+esgazeado, o meu Príncipe! Ele enrolava numa mortalha tabaco picado,
+tabaco grosso, guardado numa malga vidrada. E exclamava:
+
+--Ando aí pelas terras desde o romper de alva! Pesquei já hoje quatro
+trutas, magníficas... Lá em baixo, no Naves, um riachote que se atira
+pelo vale da Seranda... Temos logo ao jantar essas trutas!
+
+Mas eu, ávido pela história daquela ressurreição:
+
+--Então, não estiveste em Lisboa?... Eu telegrafei...
+
+--Qual telégrafo! Qual Lisboa! Estive lá em cima, ao pé da fonte da
+Lira, à sombra de uma grande árvore, _sub tegmine_ não sei quê, a ler
+esse adorável Virgílio... E também a arranjar o meu palácio! Que te
+parece, Zé Fernandes? Em três semanas, tudo soalhado, envidraçado,
+caiado, encadeirado!... Trabalhou a freguesia inteira! Até eu pintei,
+com uma imensa brocha. Viste o comedouro?
+
+--Não.
+
+--Então vem admirar a beleza na simplicidade, bárbaro!
+
+Era a mesma onde nós tanto exaltáramos o arroz com favas--mas muito
+esfregada, muito caiada, com um rodapé besuntado de azul estridente onde
+logo adivinhei a obra do meu Príncipe. Uma toalha de linho de Guimarães
+cobria a mesa, com as franjas roçando o soalho. No fundo dos pratos de
+louça forte reluzia um galo amarelo. Era o mesmo galo e a mesma louça
+em que na nossa casa, em Guiães, se servem os feijões dos cavadores...
+
+Mas no pátio os cães latiram. E Jacinto correu à varanda, com uma
+ligeireza curiosa que me deleitou. Ah, bem definitivamente se
+esfrangalhara aquela rede de malha que se não percebia e que outrora o
+travava!--Nesse momento apareceu o Grilo, de quinzena de linho,
+segurando em cada mão uma garrafa de vinho branco. Todo se alegrou «em
+ver na quinta o siô Fernandes». Mas a sua veneranda face já não
+resplandecia, como em Paris, com um tão sereno e ditoso brilho de ébano.
+Até me pareceu que corcovava... Quando o interroguei sobre aquela
+mudança, estendeu duvidosamente o beiço grosso:
+
+--O menino gosta, eu então também gosto... Que o ar aqui é muito bom,
+siô Fernandes, o ar é muito bom!
+
+Depois, mais baixo, envolvendo num gesto desolado a louça de Barcelos,
+as facas de cabo de osso, as prateleiras de pinho como num refeitório de
+Franciscanos:
+
+--Mas muita magreza, siô Fernandes, muita magreza!
+
+Jacinto voltava com um maço de jornais cintados:
+
+--Era o carteiro. Já vês que não amuei inteiramente com a Civilização.
+Eis a Imprensa!... Mas nada de _Figaro_, ou da horrenda _Dois-Mundos_!
+Jornais de Agricultura! Para aprender como se produzem as risonhas
+messes, e sob que signo se casa a vinha ao olmo, e que cuidados
+necessita a abelha provida... _Quid faciat laetas segetes_... De resto
+para esta nobre educação, já me bastavam as _Geórgicas_, que tu ignoras!
+
+Eu ri:
+
+--Alto lá! _Nos quoque gens sumus et nostrum Virgilium sabemus_!
+
+Mas o meu novíssimo amigo, debruçado da janela, batia as palmas--como
+Catão para chamar os servos, na Roma simples. E gritava:
+
+--Ana Vaqueira! Um copo de água, bem lavado, da fonte velha!
+
+Pulei, imensamente divertido:
+
+--Oh Jacinto! E as águas carbonatadas? e as fosfatadas? e as
+esterilizadas? e as sódicas?...
+
+O meu Príncipe atirou os ombros com um desdém soberbo. E aclamou a
+aparição de um grande copo, todo embaciado pela frescura nevada da água
+refulgente, que uma bela moça trazia num prato. Eu admirei sobretudo a
+moça... Que olhos, de um negro tão líquido e sério! No andar, no quebrar
+da cinta, que harmonia e que graça de Ninfa latina!
+
+E apenas pela porta desaparecera a esplêndida aparição:
+
+--Oh Jacinto, eu daqui a um instante também quero água! E se compete a
+esta rapariga trazer as coisas, eu, de cinco em cinco minutos, quero uma
+coisa!... Que olhos, que corpo... Caramba, menino! Eis a poesia, toda
+viva, da serra...
+
+O meu Príncipe sorria, com sinceridade:
+
+--Não! não nos iludamos, Zé Fernandes, nem façamos Arcádia. É uma bela
+moça, mas uma bruta... Não há ali mais poesia, nem mais sensibilidade,
+nem mesmo mais beleza do que numa linda vaca taurina. Merece o seu
+nome de Ana Vaqueira. Trabalha bem, digere bem, concebe bem. Para isso
+a fez a Natureza, assim sã e rija; e ela cumpre. O marido todavia não
+parece contente, porque a desanca. Também é um belo bruto... Não, meu
+filho, a serra é maravilhosa e muito grato lhe estou... Mas temos aqui a
+fêmea em toda a sua animalidade e o macho em todo o seu egoísmo... São
+porém verdadeiros, genuinamente verdadeiros! E esta verdade, Zé
+Fernandes, é para mim um repouso.
+
+Lentamente, gozando a frescura, o silêncio, a liberdade do vasto
+casarão, retrocedemos à sala que Jacinto já denominara a _Livraria_. E,
+de repente, ao avistar num canto uma caixa com a tampa meio despregada,
+quase me engasguei, na furiosa curiosidade que me assaltou:
+
+--E os caixotes? Oh Jacinto?... Toda aquela imensa caixotaria que nós
+mandámos, abarrotada de Civilização? Soubeste? Apareceram?
+
+O meu Príncipe parou, bateu alegremente na coxa:
+
+--Sublime! Tu ainda te lembras daquele homenzinho, de saco a
+tiracolo, que nós admirámos tanto pela sua sagacidade, o seu saber
+geográfico?... Lembras? Apenas falei em Tormes, gritou que conhecia,
+rabiscou uma nota... Nem era necessário mais! «Oh! Tormes,
+perfeitamente, muito antigo, muito curioso!» Pois mandou tudo para
+Alba-de-Tormes, em Espanha! Está tudo em Espanha!
+
+Cocei o queixo, desconsolado:
+
+--Ora, ora... Um homem tão esperto, tão expedito, que fazia tanta honra
+ao Progresso! Tudo para Espanha!... E mandaste vir?
+
+--Não! Talvez mais tarde... Agora, Zé Fernandes, estou saboreando esta
+delícia de me erguer pela manhã, e de ter só uma escova para alisar o
+cabelo.
+
+Considerei, cheio de recordações, o meu amigo:
+
+--Tinhas umas nove...
+
+--Nove? Tinha vinte! Talvez trinta! E era uma atrapalhação, não me
+bastavam!... Nunca em Paris andei bem penteado. Assim com os meus
+setenta mil volumes: eram tantos que nunca li nenhum. Assim com as
+minhas ocupações: tanto me sobrecarregavam, que nunca fui útil!
+
+ * * * * *
+
+De tarde, depois da calma, fomos vaguear pelos caminhos coleantes
+daquela quinta rica, que, através de duas léguas, ondula por vale e
+monte. Não me encontrara mais com Jacinto em meio da Natureza, desde o
+remoto dia de entremez em que ele tanto sofrera no sociável e policiado
+bosque de Montmorency. Ah, mas agora, com que segurança e idílico amor
+ele se movia através dessa Natureza, donde andara tantos anos
+desviado por teoria e por hábito! Já não arreceava a humidade mortal
+das relvas; nem repelia como impertinente o roçar das ramagens; nem o
+silêncio dos altos o inquietava como um despovoamento do Universo. Era
+com delícias, com um consolado sentimento de estabilidade recuperada,
+que enterrava os grossos sapatos nas terras moles, como no seu elemento
+natural e paterno: sem razão, deixava os trilhos fáceis, para se
+embrenhar através de arbustos emaranhados, e receber na face a carícia
+das folhas tenras; sobre os outeiros, parava, imóvel, retendo os meus
+gestos e quase o meu hálito, para se embeber de silêncio e de paz: e
+duas vezes o surpreendi atento e sorrindo à beira de um regatinho
+palreiro, como se lhe escutasse a confidência...
+
+Depois filosofava, sem descontinuar, com o entusiasmo de um
+convertido, ávido de converter:
+
+--Como a inteligência aqui se liberta, hein? E como tudo é animado
+de uma vida forte e profunda!... Dizes tu agora, Zé Fernandes, que não há
+aqui pensamento...
+
+--Eu?! Eu não digo nada, Jacinto...
+
+--Pois é uma maneira de reflectir muito estreita e muito grosseira...
+
+--Ora essa! Mas eu...
+
+--Não, não percebes. A vida não se limita a pensar, meu caro doutor...
+
+--Que não sou!
+
+--A vida é essencialmente Vontade e Movimento: e naquele pedaço de
+terra, plantado de milho, vai todo um mundo de impulsos, de forças que
+se revelam, e que atingem a sua expressão suprema, que é a Forma. Não,
+essa tua filosofia está ainda extremamente grosseira...
+
+--Irra! mas eu não...
+
+--E depois, menino, que inesgotável, que miraculosa diversidade de
+formas... E todas belas!
+
+Agarrava o meu pobre braço, exigia que eu reparasse com reverência. Na
+Natureza nunca eu descobriria um contorno feio ou repetido! Nunca duas
+folhas de hera, que, na verdura ou recorte, se assemelhassem! Na Cidade,
+pelo contrário, cada casa repete servilmente a outra casa; todas as
+faces reproduzem a mesma indiferença ou a mesma inquietação; as ideias
+têm todas o mesmo valor, o mesmo cunho, a mesma forma, como as libras;
+e até o que há mais pessoal e íntimo, a Ilusão, é em todos idêntica, e
+todos a respiram, e todos se perdem nela como no mesmo nevoeiro... A
+_mesmice_--eis o horror das Cidades!
+
+--Mas aqui! Olha para aquele castanheiro. Há três semanas que cada
+manhã o vejo, e sempre me parece outro... A sombra, o sol, o vento, as
+nuvens, a chuva, incessantemente lhe compõem uma expressão diversa e
+nova, sempre interessante. Nunca a sua frequentação me poderia fartar...
+
+Eu murmurei:
+
+--É pena que não converse!
+
+O meu Príncipe recuou, com olhares chamejantes, de Apóstolo:
+
+--Como que não converse? Mas é justamente um conversador sublime! Está
+claro, não tem ditos, nem parola teorias, _ore rotundo_. Mas nunca eu
+passo junto dele que não me sugira um pensamento ou me não desvende
+uma verdade... Ainda hoje quando eu voltava de pescar as trutas...
+Parei: e logo ele me fez sentir como toda a sua vida de vegetal é
+isenta de trabalho, da ansiedade, do esforço que a vida humana impõe;
+não tem de se preocupar com o sustento, nem com o vestido, nem com o
+abrigo; filho querido de Deus, Deus o nutre, sem que ele se mova ou se
+inquiete... E é esta segurança que lhe dá tanta graça e tanta majestade.
+Pois não achas?
+
+Eu sorria, concordava. Tudo isto era de certo rebuscado e especioso. Mas
+que importavam as requintadas metáforas, e essa Metafísica mal madura,
+colhida à pressa nos ramos de um castanheiro? Sob toda aquela ideologia
+transparecia uma excelente realidade--a reconciliação do meu Príncipe
+com a Vida. Segura estava a sua Ressurreição depois de tantos anos de
+cova, da cova mole em que jazera, enfaixado como uma múmia nas faixas
+do Pessimismo!
+
+E o que esse Príncipe, nesta tarde me esfalfou! Farejava, com uma
+curiosidade insaciável, todos os recantos da serra! Galgava os cabeços
+correndo, como na esperança de descobrir lá do alto os esplendores nunca
+contemplados de um Mundo inédito. E o seu tormento era não conhecer os
+nomes das árvores, da mais rasteira planta brotando das fendas de um
+socalco... Constantemente me folheava como a um Dicionário Botânico.
+
+--Fiz toda a sorte de cursos, passei pelos professores mais ilustres da
+Europa, tenho trinta mil volumes, e não sei se aquele senhor além é um
+amieiro ou um sobreiro...
+
+--É um azinheiro, Jacinto.
+
+Já a tarde caía quando recolhemos muito lentamente. E toda essa
+adorável paz do céu, realmente celestial, e dos campos, onde cada
+folhinha conservava uma quietação contemplativa, na luz docemente
+desmaiada, pousando sobre as coisas com um liso e leve afago, penetrava
+tão profundamente Jacinto, que eu o senti, no silêncio em que
+caíramos, suspirar de puro alívio.
+
+Depois, muito gravemente:
+
+--Tu dizes que na natureza não há pensamento...
+
+--Outra vez! Olha que maçada! Eu...
+
+--Mas é por estar nela suprimido o pensamento que lhe está poupado o
+sofrimento! Nós, desgraçados, não podemos suprimir o pensamento, mas
+certamente o podemos disciplinar e impedir que ele se estonteie e se
+esfalfe, como na fornalha das cidades, ideando gozos que nunca se
+realizam, aspirando a certezas que nunca se atingem!... E é o que
+aconselham estas colinas e estas árvores à nossa alma, que vela e se
+agita:--que viva na paz de um sonho vago e nada apeteça, nada tema,
+contra nada se insurja, e deixe o Mundo rolar, não esperando dele
+senão um rumor de harmonia, que a embale e lhe favoreça o dormir dentro
+da mão de Deus. Hein, não te parece, Zé Fernandes?
+
+--Talvez. Mas é necessário então viver num mosteiro, com o temperamento
+de S. Bruno, ou ter cento e quarenta contos de renda e o desplante de
+certos Jacintos... E também me parece que andámos léguas. Estou
+derreado. E que fome!
+
+--Tanto melhor, para as trutas, e para o cabrito assado que nos
+espera...
+
+--Bravo! Quem te cozinha?
+
+--Uma afilhada do Melchior. Mulher sublime! Hás-de ver a canja! Hás-de
+ver a cabidela! Ela é horrenda, quase anã, com os olhos tortos, um
+verde e outro preto. Mas que paladar! Que génio!
+
+Com efeito! Horácio dedicaria uma ode àquele cabrito assado num
+espeto de cerejeira. E com as trutas, e o vinho Melchior, e a cabidela,
+em que a sublime anã de olhos tortos pusera inspirações que não são da
+terra, e aquela doçura da noite de Junho, que pelas janelas abertas
+nos envolveu no seu veludo negro, tão mole e tão consolado fiquei,
+que, na sala onde nos esperava o café, caí numa cadeira de verga, na
+mais larga, e de melhores almofadas, e atirei um berro de pura delícia.
+
+Depois, com uma recordação, limpando o café do pêlo dos bigodes:
+
+--Ó Jacinto, e quando nós andávamos por Paris com o Pessimismo às
+costas, a gemer que tudo era ilusão e dor?
+
+O meu Príncipe, que o cabrito tornara ainda mais alegre, trilhava a
+grandes passadas o soalho, enrolando o cigarro:
+
+--Oh! que engenhosa besta, esse Schopenhauer! E maior besta eu, que o
+sorvia, e que me desolava com sinceridade! E todavia,--continuava ele,
+remexendo a chávena--o Pessimismo é uma teoria bem consoladora para os
+que sofrem, porque desindividualiza o sofrimento, alarga-o até o
+tornar uma lei universal, a lei própria da Vida; portanto lhe tira o
+carácter pungente de uma injustiça especial, cometida contra o
+sofredor por um Destino inimigo e faccioso! Realmente o nosso mal
+sobretudo nos amarga quando contemplamos ou imaginamos o bem do nosso
+vizinho:--porque nos sentimos escolhidos e destacados para a
+infelicidade, podendo, como ele, ter nascido para a Fortuna. Quem se
+queixaria de ser coxo--se toda a humanidade coxeasse? E quais não seriam
+os urros, e a furiosa revolta do homem envolto na neve e friagem e
+borrasca de um Inverno especial, organizado nos céus para o envolver a
+ele unicamente--enquanto em redor, toda a Humanidade se movesse na
+luminosa benignidade de uma Primavera?
+
+--Com efeito, murmurei eu, esse sujeito teria imensa razão para
+urrar...
+
+--E depois, clamava ainda o meu amigo, o Pessimismo é excelente para os
+Inertes, por que lhes atenua o desgracioso delito da Inércia. Se toda
+a meta é um monte de Dor, onde a alma vai esbarrar, para quê marchar
+para a meta, através dos embaraços do mundo? E de resto todos os Líricos
+e Teóricos do Pessimismo, desde Salomão até o maligno Schopenhauer,
+lançam o seu cântico ou a sua doutrina para disfarçar a humilhação das
+suas misérias, subordinando-as todas a uma vasta lei de Vida, uma lei
+Cósmica, e ornando assim com a auréola de uma origem quase divina as
+suas miúdas desgraçazinhas de temperamento ou de Sorte. O bom
+Schopenhauer formula todo o seu schopenhauerismo, quando é um filósofo
+sem editor, e um professor sem discípulos; e sofre horrendamente de
+terrores e manias; e esconde o seu dinheiro debaixo do sobrado; e redige
+as suas contas em grego nos perpétuos lamentos da desconfiança; e vive
+nas adegas com o medo de incêndios; e viaja com um copo de lata na
+algibeira para não beber em vidro que beiços de leproso tivessem
+contaminado!... Então Schopenhauer é sombriamente Schopenhauerista. Mas
+apenas penetra na celebridade, e os seus miseráveis nervos se acalmam, e
+o cerca uma paz amável, não há então, em todo Francfort, burguês mais
+optimista, de face mais jucunda, e gozando mais regradamente os bens da
+inteligência e da Vida!... E o outro, o Israelita, o muito pedantesco
+rei de Jerusalém! quando descobre esse sublime Retórico que o mundo é
+Ilusão e Vaidade? Aos setenta e cinco anos, quando o Poder lhe escapa
+das mãos trémulas, e o seu serralho de trezentas concubinas se lhe torna
+ridiculamente supérfluo. Então rompem os pomposos queixumes! Tudo é
+vaidade e aflição de espírito! nada existe estável sob o sol! Com
+efeito, meu bom Salomão, tudo passa--principalmente o poder de usar
+trezentas concubinas! Mas que se restitua a esse velho sultão asiático,
+besuntado de Literatura, a sua virilidade,--e onde se sumirá o lamento
+do Eclesiastes? Então voltará, em segunda e triunfal edição, o êxtase
+do _Livro dos Cantares_!...
+
+Assim discursava o meu amigo no nocturno silêncio de Tormes. Creio que
+ainda estabeleceu sobre o Pessimismo outras coisas joviais, profundas ou
+elegantes;--mas eu adormecera, beatificamente envolto em Optimismo e
+doçura.
+
+Em breve porém, me fez pular, escancarar as pálpebras moles, uma rija,
+larga, sadia e genuína risada. Era Jacinto, estirado numa cadeira, que
+lia o D. Quixote... Oh bem aventurado Príncipe! Conservara ele o agudo
+poder de arrancar teorias a uma espiga de milho ainda verde, e por uma
+clemência de Deus, que fizera reflorir o tronco seco, recuperara o dom
+divino de rir, com as facécias de Sancho!
+
+Aproveitando a minha companhia, as duas semanas de bucólica ociosidade
+que eu lhe concedera, o meu Jacinto preparou então a cerimónia tão
+falada, tão meditada, a trasladação dos ossos dos velhos Jacintos--dos
+«respeitáveis ossos» como murmurava, cumprimentando, o bom Silvério, o
+procurador, nessa manhã de sexta-feira, em que almoçava connosco,
+metido num espantoso jaquetão de veludilho amarelo debruado de seda
+azul! A cerimónia, de resto, reclamava muita singeleza por serem tão
+incertos, quase impessoais, aqueles restos, que nós estabeleceríamos na
+Capelinha do vale da Carriça, na Capelinha toda nova, toda nua e toda
+fria, ainda sem alma e sem calor de Deus.
+
+--Por que enfim V. Ex.^a compreende,--explicava o Silvério passando o
+guardanapo por sobre a larga face suada e por sobre as imensas barbas
+negras, como as de um turco--, naquela mixórdia... Oh! peço desculpa a
+V. Ex.^a! Naquela confusão, quando tudo desabou, não pudemos mais
+conhecer a quem pertenciam os ossos. Nem sequer, falando verdade, nós
+sabíamos bem que dignos avós de V. Ex.^a jaziam na capela velha, assim
+tão antigos, com os letreiros apagados, senhores de todo o nosso
+respeito, certamente, mas, se V. Ex.^a me permite, senhores já muito
+desfeitos... Depois veio o desastre, a mixórdia. E aqui está o que
+decidi, depois de pensar. Mandei arranjar tantos caixões de chumbo,
+quantas as caveiras que se apanharam lá em baixo na Carriça, entre o
+lixo e o pedregulho. Havia sete caveiras e meia. Quero dizer, sete
+caveiras e uma caveirinha pequenina. Metemos cada caveira em seu
+caixão. Depois... Que quer V. Ex.^a? Não havia outro meio! E aqui o Sr.
+Fernandes dirá se não acha que procedemos com habilidade. A cada caveira
+juntamos uma certa porção de ossos, uma porção razoável... Não havia
+outro meio... Nem todos os ossos se acharam. Canelas, por exemplo,
+faltavam! E é bem possível que as costelas de um daqueles senhores
+ficasse com a cabeça de outro... Mas quem podia saber? Só Deus. Enfim
+fizemos o que a prudência mandava... Depois, no dia de Juízo, cada um
+destes fidalgos apresentará os ossos que lhe pertencerem.
+
+Lançava estas coisas macabras e tremendas, penetrado de respeito, quase
+com majestade, espetando, ora em mim, ora no meu Príncipe, os olhinhos
+agudos e reluzentes como vidrilhos.
+
+Eu aprovei o pitoresco homem:
+
+--Perfeitamente! Andou perfeitamente, amigo Silvério. São tão vagos, tão
+anónimos, todos esses avós! Só faz pena, grande pena, que se
+tresmalhassem os restos do avô Galeão.
+
+--Não estava cá! acudiu Jacinto. Vim a Tormes expressamente por causa
+do avô Galeão, e por fim o seu jazigo nunca foi aqui, na Capelinha da
+Carriça... Felizmente!
+
+O Silvério sacudia gravemente a calva trigueira:
+
+--Nunca tivemos o Ex.^{mo} Sr. Galeão. Há cem anos, Sr. Fernandes, há
+cem anos que se não depositava na capela velha corpo de cavalheiro cá
+da casa.
+
+--Onde estará então?...
+
+O meu Príncipe encolheu os ombros. Por esse Reino... Na igrejinha, no
+cemitério de alguma das freguesias numerosas, onde ele possuía terras.
+Casa tão espalhada!
+
+--Bem! concluí. Então, como se trata de ossadas vagas, sem nome, sem
+data, convém uma ceremoniazinha muito simples, muito sóbria.
+
+--Quietinha, quietinha! murmurou o Silvério, dando um forte sorvo
+assobiado ao café.
+
+E foi quietinha, de uma rústica e doce singeleza, a cerimónia daqueles
+altos senhores. Cedo, por uma manhã, levemente enevoada, os oito caixões
+pequeninos, cobertos de um veludo vermelho mais de festa que de funeral,
+com molhos de rosas espalhados, contendo cada um o seu montezinho
+de ossos incertos, saíram aos ombros dos coveiros de Tormes e dos moços
+da quinta, da Igreja de S. José, cujo sino leve tangia, na enevoada
+doçura da manhã,--quanto fina e levemente!--como pia um passarinho
+triste. Adiante, um airoso moço de sobrepeliz, erguia com zelo a velha
+cruz prateada; abrigando o pescoço sob um imenso lenço de rapé, de
+quadrados azuis, o velho e corcovado sacristão segurava pensativamente a
+caldeirinha de água benta; e o bom abade de S. José, com os dedos entre
+o breviário fechado, movia os lábios, numa lenta, murmurosa reza, que
+ia, pelo doce ar, espalhando mais doçura. Logo atrás do último cofre, o
+mais pequenino, o da caveirinha pequena, Jacinto caminhava; e eu, a
+estalar dentro de um fato preto de Jacinto, tirado à pressa de uma das
+malas de Paris quando, de manhã, já tarde para mandar a Guiães, me
+lembrei que toda a minha roupa era de cores festivais e pastoris.
+
+Depois marchava o Silvério, soleníssimo, com um imenso peitilho, onde
+as barbas imensas se alastravam, negríssimas. De casaca, com o grosso
+beiço descaído, descaído todo ele por aquela melancolia de enterro
+que se juntava à melancolia da serra, o Grilo enfiava no braço a sua
+coroa, enorme, de rosas e de heras. Por fim seguia o Melchior, entre um
+rancho de mulheres, que, sumidas na sombra dos lenços pretos, desfiando
+longos rosários, rosnavam surdas ave-marias, através de espaçados
+suspiros, tão doridos como se inconsoladamente lhes doesse a perda
+daqueles Jacintos. Assim, pelas várzeas entrecorridas de regueiros,
+lenta nos recostos dos matos, escorregando mais rápida, pelos córregos
+pedregosos, seguia a procissão, sempre com a cruz adiante, alta e
+prateada, rebrilhando por vezes num breve raiozinho de sol que,
+vagarosamente, surdia da névoa desfeita. Ramos baixos de lodão ou de
+salgueiro passavam uma derradeira carícia sobre o veludo dos caixões.
+
+Um regato por vezes nos acompanhava, com discreto fulgir entre as
+relvas, sussurrando e como rezando também, alegremente: e nos
+quintalinhos umbrosos, à nossa passagem, os galos, de cima das pilhas
+de mato, faziam soar o seu clarim festivo. Depois, adiante da fonte da
+Lira, como o caminho se alongava, e desejássemos poupar o nosso velho
+abade, cortámos através de uma seara, já alta, quase madura, toda
+entremeada de papoilas, O sol radiou: sob a brisa larga, que levara a
+névoa, toda a messe ondulou numa lenta vaga dourada, em que se
+balouçavam os esquifes; e, como enorme papoila, a mais vermelha,
+rutilava o guarda-sol de paninho logo aberto pelo sacristão para
+abrigar o abade.
+
+Jacinto tocou no meu cotovelo:
+
+--Que lindos vamos! Ora vê tu a Natureza... Num simples enterrar
+de ossos, quanta graça e quanta beleza!
+
+Na Capelinha, nova, dominando o vale da Carriça, solitária e muito
+nua, no meio de um adro, ainda mal alisado, sem uma verdura de relva, uma
+frescura de arbusto, dois moços seguravam à porta molhos de tochas, que o
+Silvério distribuiu, a passos graves, com cortesias, soleníssimo.
+Dentro as curtas chamas, mal luziam, mal derramavam a sua amarelidão
+triste, esbatidas na reluzente brancura dos muros estacados, na jovial
+claridade que caía das altas vidraças bem polidas. Em torno dos
+esquifes, pousados sobre bancos, que pesados veludilhos recobriam, o
+abade murmurava um suave latim, enquanto ao fundo as mulheres, sumidas
+na sombra dos seus negros lenços, gemiam _amens_ agudos, abafavam um
+respeitoso soluço. Depois, tomando levemente o hissope, ainda o bom
+abade aspergiu, para uma derradeira purificação, os incertos ossos dos
+incertos Jacintos. E todos desfilámos por diante do meu Príncipe,
+timidamente encostado à ombreira, com o Silvério ao lado esmagando
+contra o peitilho as barbas imensas, a face descaída, cerradas as
+pálpebras como contendo lágrimas.
+
+No adro, o meu Príncipe acendeu regaladamente um cigarro pedido ao
+Melchior:
+
+--E então, Zé Fernandes, que te pareceu a cerimoniazinha?
+
+--Muito campestre, muito suave, muito risonha... Uma delícia.
+
+Mas o Abade, que se desvestira na Sacristia, apareceu, já com o seu
+grande casaco de lustrina, e seu velho chapéu desabado, trazidos pelo
+moço da Residência, num saco de chita. Jacinto, imediatamente lhe
+agradeceu tantos cuidados, a afável hospitalidade que oferecera aos
+ossos, durante a construção da Capelinha nova. E o suave velho, todo
+branquinho, de faces ainda menineiras e coradas, com um claro sorriso de
+dentes sadios, louvava Jacinto, que assim viera de tão longe, em tão
+longa jornada, para cumprir aquele dever de bom neto.
+
+--São avós muito remotos, e agora tão confusos! murmurava Jacinto
+sorrindo.
+
+--Pois mais mérito ainda o de V. Ex.^a. Respeitar um avô morto, bem é
+corrente... Mas respeitar os ossos de um quinto avô, de um sétimo avô!
+
+--Sobretudo, Sr. Abade, quando deles nada se sabe, e naturalmente
+nada fizeram.
+
+O velho sacudiu risonhamente o dedo gordo:
+
+--Ora quem sabe, quem sabe! Talvez fossem excelentes! E por fim, quem
+muito se demora no mundo, como eu, termina por se convencer que no mundo
+não há coisa ou ser inútil. Ainda ontem eu lia num jornal do Porto,
+que por fim, segundo se descobriu, são as minhocas que estrumam e lavram
+a terra, antes de chegar o lavrador e os bois com o arado. Até as
+minhocas são úteis. Não há nada inútil... Eu tinha lá na residência uma
+porção de cardos a um canto da horta, que me afligiam. Pois reflecti e
+terminei por me regalar com eles em xarope. Os avós de V. Ex.^a por cá
+andaram, por cá trabalharam, por cá padeceram. Quer dizer: por cá
+serviram. E, em todo o caso, que lhes rezemos um Padre-Nosso por alma
+não lhes pode fazer senão bem, a eles e a nós.
+
+E assim, docemente filosofando, parámos num souto de carvalheiras,
+onde esperava a velhíssima égua do Abade, por que o santo homem agora,
+depois do reumatismo do último Inverno, já não afrontava rijamente
+como antes os trilhos duros da serra. Para ele montar, filialmente
+Jacinto segurou o estribo. E enquanto a égua se empurrava pelo córrego
+acima, quase tapada sob o imenso guarda-sol vermelho em que se abrigava
+o velho, nós recolhemos a casa metendo pela serra da Lombinha, através
+dos milhos, e depressa, porque eu estalava, aperreado, dentro da roupa
+preta do meu Príncipe.
+
+--Estão pois acomodados estes senhores, Zé Fernandes! Só resta rezar
+por eles o Padre-Nosso, que recomenda o abade... Somente, eu não sei,
+já não me lembro do Padre-Nosso.
+
+--Não te aflijas, Jacinto: peço à tia Vicência que reze por mim e por
+ti. É sempre a tia Vicência que reza os meus Padres-Nossos.
+
+Durante essas semanas que preguicei em Tormes, eu assisti, com
+enternecido interesse, a uma considerável evolução de Jacinto nas suas
+relações com a Natureza. Daquele período sentimental de contemplação,
+em que colhia teorias nos ramos de qualquer cerejeira, e edificava
+Sistemas sobre o espumar das levadas, o meu Príncipe lentamente passava
+para o desejo da Acção... E de uma acção directa e material, em que a sua
+mão, enfim restituída a uma função superior, revolvesse o torrão.
+
+Depois de tanto _comentar_, o meu Príncipe, evidentemente, aspirava a
+_criar_.
+
+Uma tardinha, ao anoitecer, sentados no pomar, no rebordo do tanque,
+enquanto o Manuel hortelão apanhava laranjas no alto de uma escada arrimada
+a uma alta laranjeira, Jacinto observou, mais para si do que para mim:
+
+--É curioso... Nunca plantei uma árvore!
+
+--Pois é um dos três grandes actos, sem os quais segundo diz não sei que
+Filósofo, nunca se foi um verdadeiro homem... Fazer um filho, plantar
+uma árvore, escrever um livro. Tens de te apressar, para ser um homem. É
+possível que talvez nunca prestasses um serviço a uma árvore, como se
+presta a um semelhante!
+
+--Sim... Em Paris, quando era pequeno, regava os lilases. E no Verão é
+um belo serviço! Mas nunca semeei.
+
+E como o Manuel descia da escada, o meu Príncipe, que nunca acreditara
+inteiramente--pobre homem!--no meu saber agrícola, imediatamente
+reclamou o parecer daquela autoridade:
+
+--Oh Manuel, ouça lá, o que é que se poderia agora semear?
+
+Com o cesto das laranjas enfiado no braço, o Manuel exclamou, através
+de um lento riso, entre respeitoso e divertido:
+
+--Semear, patrão? Agora é antes colher... Olhe que já se anda a limpar a
+eirazinha para a debulha, meu patrão.
+
+--Pois sim... Mas sem ser milho nem cevada... Então ali no pomar, rente
+do muro velho, não se podia plantar uma fila de pessegueiros?
+
+O riso do Manuel crescia.
+
+--Isso sim, meu senhor! Isso é lá para os Santos ou para o Natal. Agora
+só a couvinha na horta, a beldroega, os espinafres, algum feijãozinho em
+terra muito fresca...
+
+O meu Príncipe sacudiu com brando gesto estes legumes rasteiros.
+
+--Bem, boa noite, Manuel. Essas laranjas são da tal laranjeira que diz o
+Melchior, muito doces, muito finas? Então leve para os seus pequenos.
+Leve muitas para os pequenos.
+
+Não! o empenho era criar a árvore. Pela árvore contemplada na serra em
+sua verdadeira majestade, na beneficência da sua sombra, na frescura
+embaladora do seu rumorejar, na graça e santidade dos ninhos que a
+povoam, começara talvez, lentamente, o seu amor novo da Terra. E agora
+sonhava uma Tormes toda coberta de árvores, cujos frutos e verduras, e
+sombras, e rumorejos suaves, e abrigados ninhos, fossem a obra e o
+cuidado das suas mãos paternais.
+
+No silêncio grave do crepúsculo, que descia, murmurou ainda:
+
+--Oh Zé Fernandes; quais são as árvores que crescem mais depressa?
+
+--Eh, meu Jacinto... A árvore que cresce mais depressa é o eucalipto, o
+feiíssimo e ridículo eucalipto. Em seis anos tens aí Tormes coberta de
+eucaliptos...
+
+--Tudo tão lento, Zé Fernandes...
+
+Porque o seu sonho, que eu compreendia, seria plantar caroços que
+subissem em fortes troncos, se alargassem em verdes ramarias, antes de
+ele voltar ao 202, no começo do Inverno...
+
+--Um carvalho!... Trinta anos, antes que seja belo! Desanimo! É bom
+para Deus, que pode esperar... _Patiens quia aeternus_. Trinta anos!
+Daqui a trinta anos, árvores só para me cobrirem a sepultura!
+
+--Já é um ganho. E depois para teus filhos, Jacinto...
+
+--Filhos! onde os tenho eu?
+
+--É o mesmo processo dos castanheiros. Semeia. Não faltam por aí terras
+agradáveis... Em nove meses tens uma planta feita. E quanto mais
+tenrinhas, e mais pequeninas, mais essas plantas encantam.
+
+Ele murmurou, cruzando as mãos sobre o joelho:
+
+--Tudo leva tanto tempo!...
+
+E à borda do tanque nos quedámos, calados, na fresca doçura do
+anoitecer, entre o cheiro avivado das madressilvas do muro, olhando o
+crescente da lua, que surdia dos telhados de Tormes.
+
+E decerto esta pressa de se tornar entre a Natureza não mais um
+sonhador, mas um criador, arremessou vivamente o seu interesse para os
+gados! Repetidamente, nos nossos passeios através da quinta, ele lhe
+notava a solidão.
+
+--Faltam aqui animais, Zé Fernandes!
+
+Imaginava eu, que ele apetecia em Tormes o ornato elegante de veados e
+pavões. Mas um domingo, costeando o largo campo da Ribeirinha, sempre
+escasso de águas, agora mais ressequido por Verão de tanta secura, o meu
+Príncipe parou a considerar os três carneiros do caseiro, que retouçavam
+com penúria uma relvagem pobre.
+
+E, de repente, como magoado:
+
+--Justamente! Aqui está o espaço para um belo prado, um imenso prado,
+muito verde, muito farto, com rebanhos de carneiros brancos, gordíssimos
+como bolas de algodão pousadas na relva!... Era lindo, hein? É fácil,
+não é verdade, Zé Fernandes?
+
+--Sim... Trazes a água para o prado. Águas não faltam, na serra.
+
+E o meu Príncipe encadeando logo nesta inspirada ideia outra, mais rica
+e vasta, lembrou quanta beleza daria a Tormes encher esses prados,
+esses verdes ferragiais, de manadas de vacas, formosas vacas inglesas,
+bem nédias e bem luzidias. Hein? Uma beleza. Para abrigar esses gados
+ricos, construiria currais perfeitos, de uma arquitectura leve e útil,
+toda em ferro e vidro, fundamente varridos pelo ar, largamente lavados
+pela água... Hein? Que formosura! Depois, com todas essas vacas, e o
+leite jorrando, nada mais fácil e mais divertido, e até mais moral, que
+a instalação de uma queijeira, à fresca moda Holandesa, toda branca e
+reluzente, de azulejos e de mármore, para fabricar os Camemberts, os
+Bries... os Coulommiers... Para a casa, que conforto! E para toda a
+serra, que actividade!
+
+--Pois não te parece, Zé Fernandes?
+
+--Concerteza. Tu tens, em abundância, os quatro Elementos: o ar, a
+água, a terra, e o dinheiro. Com estes quatro elementos, facilmente se
+faz uma grande lavoura. Quanto mais uma queijeira!
+
+--Pois não é verdade? E até como negócio! Está claro, para mim o lucro é
+o deleite moral do trabalho, o emprego fecundo do dia... Mas uma
+queijaria, assim perfeita, rende. Rende prodigiosamente. E educa o
+paladar, incita a instalações iguais, implanta talvez no país uma
+indústria nova e rica! Ora com essa instalação, perfeita, quanto me
+poderá custar cada queijo?
+
+Fechei um olho, calculando:
+
+--Eu te digo.... Cada queijo, um desses queijinhos redondos, como o
+Camembert ou o Rabaçal, pode vir a custar-te, a ti Jacinto queijeiro,
+entre duzentos e cinquenta e trezentos mil réis.
+
+O meu Príncipe recuou, com dois olhos alegres espantados para mim.
+
+--Como trezentos mil réis?
+
+--Ponhamos duzentos... Tem a certeza! Com todos esses prados, e os
+encanamentos de água e a configuração da serra alterada, e as vacas
+inglesas, e os edifícios de porcelana e vidro, e as máquinas, a
+extravagância, e a patuscada bucólica, cada queijo te custa, a ti
+produtor, duzentos mil réis. Mas com certeza o vendes no Porto por um
+tostão. Põe cinquenta réis para a caixa, rótulos, transporte, comissão,
+etc. Tens apenas, em cada queijo uma perda de cento e noventa e nove mil
+oitocentos e cinquenta réis!
+
+O meu Príncipe não desanimou.
+
+--Perfeitamente! Faço um desses espantosos queijos por semana, ao
+sábado, para o comermos nós ambos ao domingo!
+
+E tanta energia lhe comunicava o seu novo Optimismo, tão ansiosamente
+aspirava a criar, que logo, arrastando o Silvério e o Melchior por
+cabeços e barrancos, largou a percorrer a quinta toda, para determinar
+onde cresceriam, ao seu mando inspirado, os verdes prados, e se
+ergueriam, rebrilhantes no sol de Tormes, os currais elegantes. Com a
+esplêndida segurança dos seus cento e nove contos de renda, não surgia
+dificuldade, risonhamente murmurada pelo Melchior, ou exclamada, com
+respeitoso pasmo, pelo Silvério, que ele não afastasse brandamente, com
+jeito leve, como um galho de roseira brava atravessado numa vereda.
+
+Aquelas rochas, além, empecendo? Que se arrancassem! Um vale importuno
+dividia dois campos? Que se atulhasse! O Silvério suspirava, enxugando
+sobre a escura calva um suor quase de angústia. Pobre Silvério! Rijamente
+sacudido na doce pachorra da sua administração, calculando despesas que
+se afiguravam sobre-humanas à sua parcimónia serrana, forçado a
+arquejar, sem descanso, sob soalheiras de Junho, o desgraçado retomara
+na Serra o jeito que Jacinto deixara em Paris,--e era ele que corria
+pelas longas barbas tenebrosas os dedos desalentados... Enfim uma tarde
+desabafou comigo, a um canto da varanda, enquanto Jacinto, na
+livraria, escrevia a um seu amigo de Holanda, o conde Rylant, Mordomo-Mor
+da Corte, pedindo desenhos, e planos, e orçamentos de uma queijeira
+perfeita.
+
+--Pois, Sr. Fernandes, se toda esta grandeza vai por diante, sempre lhe
+digo que o Sr. D. Jacinto enterra aqui na serra dezenas de contos...
+Dezenas de contos!
+
+E como eu aludia à fortuna do meu Príncipe, a quem todas essas obras
+tão vastas, que alterariam o antiquíssimo rosto da serra, não custavam
+mais que a outros o concerto de um socalco,--o bom Silvério atirou os
+longos braços para as coxas gordas, ainda mais desolado:
+
+--Pois por isso mesmo, Sr. Fernandes! Se o Sr. D. Jacinto não tivesse
+a dinheirama, recuava. Assim, é zás zás, para diante; e eu não o censuro
+pela ideia. Lograsse eu a renda de S. Ex.^a, que me atirava também a uma
+lavoura de capricho. Mas não aqui, Sr. Fernandes, nestas serranias,
+entre alcantis. Pois um senhor que possui aquela linda propriedade de
+Montemor, nos campos do Mondego, onde até podia plantar jardins de
+desbancar os do Palácio de Cristal do Porto! E a Veleira? O Sr.
+Fernandes não conhece a Veleira, lá para os lados de Penafiel? Isso é
+um condado! E uma terra chã, boa terra, toda junta, ali em volta da
+casa, com uma torre. Um regalo, Sr. Fernandes. Mas sobretudo Montemor!
+Lá é que eram prados e manadas de vacas inglesas, e queijeira e horta
+rica, de fartar, e aí trinta perus na capoeira...
+
+--Então que quer, Silvério? O Jacinto gosta da serra. E depois este é o
+solar da família, e aqui começaram no século XIV os Jacintos...
+
+O pobre Silvério, no seu desespero, esquecia o respeito devido à secular
+nobreza da casa.
+
+--Ora! até ficam mal ao Sr. Fernandes essas ideias, neste século da
+liberdade... Pois estamos lá em tempos de se falar em fidalguias, agora
+que por toda a parte anda tudo em República? Leia o _Século_, Sr.
+Fernandes! leia o _Século_, e verá! E depois eu sempre quero ver o Sr.
+D. Jacinto, aqui no Inverno, com o nevoeiro a subir do rio logo pela
+manhã, e a friagem a trespassar os ossos, e ventanias que atiram
+carvalheiras de raízes ao ar, e chuvas e chuvas que se desfaz a
+serra!... Olhe, até mesmo por amor da saúde o Sr. D. Jacinto, que é
+fraquinho e acostumado à cidade, necessita sair da serra. Em Montemor,
+em Montemor é que S. Ex.^a estava bem. E o Sr. Fernandes, tão amigo
+dele e assim com tanta influência, devia teimar, e berrar, até que o
+levasse para Montemor.
+
+Mas, infelizmente para a quietação do Silvério, Jacinto lançara raízes,
+e rijas, e amorosas raízes na sua rude serra. Era realmente como se o
+tivessem plantado de estaca naquele antiquíssimo chão, donde brotara a
+sua raça, e o antiquíssimo húmus refluísse e o penetrasse todo, e o
+andasse transformando num Jacinto rural, quase vegetal, tão do chão, e
+preso ao chão, como as árvores que ele tanto amava.
+
+E depois o que o prendia à serra era o ter nela encontrado o que na
+Cidade, apesar da sua sociabilidade, não encontrara nunca,--dias tão
+cheios, tão deliciosamente ocupados, de um tão saboroso interesse, que
+sempre penetrava neles, como numa festa ou numa glória.
+
+Logo de manhã, às seis horas, eu, no meu quarto, mexendo ainda
+regaladamente o meu corpo nos colchões de fresco folhelho, sentia os
+seus rijos sapatões pelo corredor, e o seu cantarolar, desafinado, mas
+ditoso como o de um melro. Em poucos instantes escancarava com fragor a
+minha porta, já de chapéu desabado, já de bengalão de cerejeira,
+disposto com reservado fervor para os trilhos conhecidos da serra. E era
+sempre a mesma nova, quase orgulhosa:
+
+--Dormi hoje deliciosamente, Zé Fernandes. Tão bem, com uma tal
+serenidade, que começo a acreditar que sou um justo! Um dia lindo!
+Quando abri a janela, às cinco horas, quase gritei de puro gosto!
+
+Na sua pressa, nem me deixava demorar na frescura da banheira; e quando
+eu repetia a risca mal começada do cabelo, aquele antigo homem das
+trinta e nove escovas, protestava contra esse desbarato efeminado de um
+tempo devido aos fortes gozos da terra.
+
+Mas quando, depois de acariciar os rafeiros no pátio, desembocávamos da
+alameda de plátanos, e diante de nós se dividiam matutinamente, mais
+brancos entre o verde matutino, os caminhos coleantes da quinta, toda a
+sua pressa findava, e penetrava na Natureza, com a reverente lentidão de
+quem penetra num Templo. E repetidamente sustentava ser «contrário à
+Estética, à Filosofia e à Religião, andar depressa através dos
+campos.» De resto, com aquela subtil sensibilidade bucólica que nele
+se desenvolvera, e incessantemente se afinava, qualquer breve beleza,
+do ar ou da terra, lhe bastava para um longo encanto. Ditosamente
+poderia ele entreter toda uma manhã, caminhar por entre um pinheiral,
+de tronco a tronco, calado, embebido no silêncio, na frescura, no
+resinoso aroma, empurrando com o pé as agulhas e as pinhas secas.
+Qualquer água corrente o retinha, enternecido naquela serviçal
+actividade, que se apressa, cantando, para o torrão que tem sede, e
+nele se some, e se perde. E recordo ainda quando me reteve meio
+domingo, depois da Missa, no cabeço, junto a um velho curral
+desmantelado, sob uma grande árvore,--só por que em torno havia
+quietação, doce aragem, um fino piar de ave na ramaria, um murmúrio de
+regato entre canas verdes, e por sobre a sebe, ao lado, um perfume,
+muito fino e muito fresco, de flores escondidas.
+
+Depois, quando eu, velho familiar das serras, me não abandonava aos
+mesmos êxtases que a ele lhe enchiam a alma ainda noviça--o meu
+Príncipe rugia, com a indignação de um poeta que descobre um merceeiro
+bocejando sobre Shakespeare ou Musset. Eu ria.
+
+--Meu filho, olha que eu não passo de um pequeno proprietário. Para mim
+não se trata de saber se a terra é _linda_, mas se a terra é _boa_. Olha
+o que diz a Bíblia! «Trabalharás a quinta com o suor do teu rosto!» E
+não diz «contemplarás a quinta com o enlevo da tua imaginação!»
+
+--Pudera! exclamava o meu Príncipe. Um livro escrito por Judeus, por
+ásperos semitas, sempre com o turvo olho posto no lucro! Repara, homem,
+para aquele bocadinho de vale, e consegue não pensar, por um momento,
+nos trinta mil réis que ele rende! Verás que pela sua beleza e graça
+ele te dá mais contentamento à alma que os trinta mil réis ao corpo. E
+na vida só a alma importa.
+
+Recolhendo ao casarão, já o encontrávamos com as janelas meio cerradas,
+os soalhos borrifados para aquelas quentes réstias de sol de Junho, que
+depois do almoço docemente nos retinham na livraria, preguiçando.
+
+Mas realmente a alegre actividade do meu Príncipe não cessava, nem
+amolecia, sob o peso da sesta. A essa hora, enquanto pelo arvoredo
+mudo os mais agitados pardais dormiam, e o sol mesmo parecia repousar,
+imóvel na rutilância da sua luz, Jacinto com o espírito
+acordado,--ávido de sempre gozar, agora que reconquistara essa
+faculdade,--tomava com delícia o _seu livro_. Por que o dono de trinta
+mil volumes era agora, na sua casa de Tormes, depois de ressuscitado, o
+homem que só tem um livro. Essa mesma Natureza, que o desligara das
+ligaduras amortalhadoras do tédio, e lhe gritara o seu belo _Ambula_,
+caminha!--também certamente lhe gritara _et lege_, e lê. E libertado
+enfim do invólucro sufocante da sua Biblioteca imensa, o meu ditoso
+amigo compreendia enfim a incomparável delícia de _ler um livro_.
+Quando eu correra a Tormes, (depois das revelações do Severo na venda do
+Torto,) ele findava o D. Quixote, e ainda eu lhe escutara as
+derradeiras risadas com as coisas deliciosas, e de certo profundas, que
+o gordo Sancho lhe murmurava, escarranchado no seu burro. Mas agora o
+meu Príncipe mergulhara na _Odisseia_,--e todo ele vivia no espanto e no
+deslumbramento de assim ter encontrado no meio do caminho da sua vida, o
+velho errante, o velho Homero!
+
+--Oh Zé Fernandes, como sucedeu que eu chegasse a esta idade sem ter
+lido Homero?...
+
+--Outras leituras, mais urgentes... O _Figaro_, George Ohnet...
+
+--Tu leste a _Ilíada_?
+
+--Menino, sinceramente me gabo de nunca ter lido a _Ilíada_.
+
+Os olhos do meu Príncipe fuzilavam.
+
+--Tu sabes o que fez Alcibíades, uma tarde, no Pórtico, a um sofista,
+um desavergonhado de um sofista, que se gabava de não ter lido a
+_Ilíada_?
+
+--Não.
+
+--Ergueu a mão e atirou-lhe uma bofetada tremenda.
+
+--Para lá, Alcibíades! Olha que eu li a _Odisseia_!
+
+Oh! mas decerto eu a lera, corridamente, com a alma desatenta! E
+insistia em me iniciar, ele, e me conduzir, através do Livro sem igual.
+Eu ria. E rindo, pesado do almoço, terminava por consentir, e me
+estirava no canapé de verga. Ele, diante da mesa, direito na cadeira,
+abria o livro gravemente, pontificalmente, como um missal, e começava
+numa lenta ode sentida. Aquele grande mar da _Odisseia_,--
+resplandecente e sonoro, sempre azul, todo azul, sob o voo branco das
+gaivotas, rolando, e mansamente quebrando sobre a areia fina ou contra
+as rochas de mármore das Ilhas divinas,--exalava logo uma frescura
+salina, bem-vinda e consoladora naquela calma de Junho, em que a serra
+se entorpecia. Depois as estupendas manhas do subtil Ulisses e os seus
+perigos sobre-humanos, tantas lamúrias sublimes, e um anseio tão
+espalhado da Pátria perdida, e toda aquela intriga, em que embrulhava
+os Heróis, lograva as Deusas, iludia o Fado, tinham um delicioso sabor
+ali, nos campos de Tormes, onde nunca se necessitava de subtileza ou de
+engenho, e a Vida se desenrolava com a segurança imutável com que cada
+manhã sempre o Sol igual nascia, e sempre centeios e milhos, regados por
+águas iguais, seguramente medravam, espigavam, amadureciam... Embalado
+pela recitação grave e monótona do meu Príncipe, eu cerrava as pálpebras
+docemente. Em breve um vasto tumulto, por terra e céu, me alvoroçava...
+E eram os rugidos de Polifemo, ou a grita dos companheiros de Ulisses
+roubando as vacas de Apolo. Com os olhos logo esbugalhados para
+Jacinto, eu murmurava: _Sublime!_ E sempre, nesse momento o engenhoso
+Ulisses, de carapuço vermelho e o longo remo ao ombro, surpreendia com
+a sua facúndia a clemência dos Príncipes, ou reclamava presentes devidos
+ao Hóspede, ou surripiava astutamente algum favor aos Deuses. E Tormes
+dormia, no esplendor de Junho. Novamente, eu cerrava as pálpebras
+consoladas, sob a carícia inefável do largo dizer homérico... E meio
+adormecido, encantado, incessantemente avistava, longe, na divina
+Hélade, entre o mar muito azul e o ceu muito azul, a branca vela,
+hesitante, procurando Ítaca...
+
+Depois da sesta o meu Príncipe de novo se soltava para os campos. E a
+essa hora, sempre mais activa, voltava com ardor aos «seus planos», a
+essas culturas de luxo e elegantes oficinas que cobririam a serra de
+magnificências rurais. Agora andava todo no esplêndido apetite de uma
+horta que ele concebera, imensa horta ajardinada, em que todos os
+legumes, clássicos ou exóticos, cresceriam, soberbamente, em vistosos
+talhões, fechados por sebes de rosas, de cravos, de alfazema, de
+dálias. A água das regas desceria por lindos córregos de louça
+esmaltada. Nas ruas, a sombra cairia de densas latadas de moscatel,
+pousando em esteios revestidos de azulejo. E o meu Príncipe desenhara o
+plano desta espantosa horta, a lápis vermelho, num papel imenso, que
+o Melchior e o Silvério, consultados, longamente contemplaram,--um
+coçando risonhamente a nuca, o outro com os braços duramente cruzados, e
+o sobrolho trágico.
+
+Mas este plano, o da queijaria, o da capoeira, e outro, sumptuoso, de um
+pombal tão povoado que todo o céu de Tormes às tardes se tornaria branco
+e todo fremente de asas--não saíam das nossas gostosas palestras, ou dos
+papéis em que Jacinto os debuxava, e que se amontoavam sobre a mesa,
+platónicos, imóveis, entre o tinteiro de latão e o vaso com flores.
+
+Nem enxadada fendera terra, nem alavanca deslocara pedra, nem serra
+serrara madeira, para encetar estas maravilhas. Contra a resistência
+rebolada e escorregadia do Melchior, contra a respeitosa inércia do
+Silvério se quedavam, encalhados, os planos do meu Príncipe, como
+galeras vistosas em rochas ou em lodo.
+
+Não convinha bulir em nada, (clamava o Silvério) antes das colheitas e
+da vindima! E depois, (acrescentava o Melchior com um sorriso de grande
+promessa) «para boas obras mês de Janeiro» porque lá ensina o ditado:
+
+Em Janeiro--mete obreiro
+Mês meante--que não ante.
+
+E, de resto, o gozo de conceber as suas obras e de indicar, estendendo a
+bengala por cima de vale e monte, os sítios privilegiados que elas
+aformoseariam, bastava por ora ao meu Príncipe, ainda mais imaginativo
+que operante. E, enquanto meditava estas transformações da terra, muito
+progressivamente e com um amável esforço, se ia familiarizando com os
+homens simples que a trabalhavam. Na sua chegada a Tormes, o meu
+Príncipe sofria de uma estranha timidez diante dos caseiros, dos
+jornaleiros, e até de qualquer rapazinho que passasse, tangendo uma
+vaca para o pasto. Nunca ele então se demoraria a conversar com os
+moços, quando à borda de um caminho ou num campo em monda eles se
+endireitavam de chapéu na mão, num respeito de velha vassalagem. De
+certo o empecia a preguiça, e talvez ainda o púdico recato de transpor
+toda a imensa distância que se alargava desde a sua complicada
+super-civilização até à rude simplicidade daquelas almas
+naturais:--mas sobretudo o retinha o medo de mostrar a sua ignorância da
+lavoura e da terra, ou de parecer talvez desdenhoso de ocupações e de
+interesses, que para os outros eram supremos e quase religiosos. Remia
+então esta reserva com uma profusão de sorrisos, de doces acenos,
+tirando também o chapéu em cortesias profundas, com uma tal ênfase de
+polidez que eu por vezes receava que ele murmurasse aos jornaleiros:
+«Tenha V. Ex.^a muito boas tardes;... Criado de V. Ex.^a!»
+
+Mas agora, depois daquelas semanas de serra, e de já saber (com um
+saber ainda frágil,) a época das sementeiras e das ceifas, e que as
+árvores de fruta se semeiam no Inverno, já se aprazia em parar junto
+dos trabalhadores, contemplar descansadamente o trabalho, dizer coisas
+afáveis e vagas.
+
+--Então, isso vai andando?... Ora ainda bem!... Este bocado de torrão
+aqui é rico... O talude ali adiante está precisando conserto...
+
+E cada um destes tão simples dizeres lhe era doce, como se por meio
+deles penetrasse mais fundamente na intimidade da terra, e
+consolidasse a sua encarnação em «homem do campo,» deixando de ser uma
+mera sombra circulando entre realidades. Já por isso não cruzava no
+caminho o mocinho atrás das vacas, que não o detivesse, o não
+interrogasse: «Para onde vais tu? De quem é o gado? Como te chamas?» E,
+contente consigo, sempre gabava gratamente o desembaraço do rapaz, ou a
+esperteza dos seus olhos. Outra satisfação do meu Príncipe era conhecer
+os nomes de todos os campos, as nascentes de água, e as delimitações da
+sua quinta.
+
+--Vês acolá, para além do ribeiro, o pinheiral. Já não é meu, é dos
+Albuquerques.
+
+E com a perene alegria de Jacinto as noites da serra, no vasto
+casarão, eram fáceis e curtas. O meu Príncipe era então uma alma que se
+simplificava:--e qualquer pequenino gozo lhe bastava, desde que nele
+entrasse paz ou doçura. Com verdadeira delícia ficava, depois do café,
+estendido numa cadeira, sentindo através das janelas abertas, a
+nocturna tranquilidade da serra, sob a mudez estrelada do céu.
+
+As histórias, muito simples e muito caseiras, que eu lhe contava, de
+Guiães, do abade, da tia Vicência, dos nossos parentes da Flor da
+Malva, tão sinceramente o interessavam que eu encetara, para seu regalo,
+a crónica completa de Guiães, com todos os namoricos, e as façanhas de
+forças, e as desavenças por causa de servidões ou de águas. Também por
+vezes nos enfronhávamos, com aferro numa partida de gamão, sobre um
+belo tabuleiro de pau preto, com pedras de velho marfim, que nos
+emprestara o Silvério. Mas nada de certo o encantava tanto como
+atravessar as casas, pé ante pé, até uma saleta que dava para o pomar, e
+aí ficar encostado à janela, sem luz, num enlevado sossego, a escutar
+longamente, languidamente, os rouxinóis que cantavam no laranjal.
+
+
+
+
+X
+
+
+Numa dessas manhãs--justamente na véspera do meu regresso a Guiães--, o
+tempo, que andara pela serra tão alegre, num inalterado riso de luz
+rutilante, todo vestido de azul e ouro, fazendo poeira pelos caminhos, e
+alegrando toda a natureza, desde os pássaros até os regatos,
+subitamente, com uma daquelas mudanças que tornam o seu temperamento
+tão semelhante ao do homem, apareceu triste, carrancudo, todo
+embrulhado no seu manto cinzento, com uma tristeza tão pesada e
+contagiosa que toda a serra entristeceu. E não houve mais pássaro que
+cantasse, e os arroios fugiram para debaixo das ervas com um lento
+murmúrio de choro.
+
+Quando Jacinto entrou no meu quarto, não resisti à malícia de o
+aterrar:
+
+--Sudoeste! gralhas a grasnar por todos esses soutos... Temos muita
+água, Sr. D. Jacinto! Talvez duas semanas de água! E agora é se vai
+saber quem é aqui o fino amador da Natureza, com esta chuva pegada, com
+vendaval, com a serra toda a escorrer!
+
+O meu Príncipe caminhou para a janela com as mãos nas algibeiras:
+
+--Com efeito! Está carregado. Já mandei abrir uma das malas de Paris e
+tirar um casacão impermeável... Não importa! Fica o arvoredo mais verde.
+E é bom que eu conheça Tormes nos seus hábitos de Inverno.
+
+Mas como o Melchior lhe afiançara que a «chuvinha só viria para a
+tarde», Jacinto decidiu ir antes de almoço à Corujeira, onde o Silvério
+o esperava para decidirem da sorte de uns castanheiros, muito velhos,
+muito pitorescos, inteiramente interessantes, mas já roídos, e
+ameaçando desabar. E, confiando nas previsões do Melchior, partimos sem
+que Jacinto se vestisse à prova de água. Não andáramos porém meio
+caminho, quando, depois de um arrepio nas árvores, um negrume carregou,
+e, bruscamente, desabou sobre nós uma grossa chuva oblíqua, vergastada
+pelo vento, que nos deixou estonteados, agarrando os chapéus,
+enrodilhados na borrasca. Chamados por uma grande voz, que se esganiçava
+no vento, avistámos num campo mais alto, à beira de um alpendre, o
+Silvério, debaixo de um guarda-chuva vermelho, que acenava, nos indicava
+o trilho mais curto para aquele abrigo. E para lá rompemos, com a chuva
+a escorrer na cara, patinhando na lama, contorcidos, cambaleantes,
+atordoados no vendaval, que num instante alagara os campos, inchara os
+ribeiros, esboroava a terra dos socalcos, lançara num desespero todo o
+arvoredo, tornara a serra negra, bravamente agreste, hostil,
+inabitável.
+
+Quando enfim, debaixo do vasto guarda-chuva com que o Silvério nos
+esperava à beira do campo, corremos para o alpendre, nos refugiámos
+naquele abrigo inesperado, a escorrer, a arquejar, o meu Príncipe,
+enxugando a face, enxugando o pescoço, murmurou, desfalecido:
+
+--Apre! que ferocidade!
+
+Parecia espantado daquela brusca, violenta cólera de uma serra tão
+amável e acolhedora, que em dois meses, inalteradamente, só lhe
+oferecera doçura e sombra, e suaves céus, e quietas ramagens, e
+murmúrios discretos de ribeirinhos mansos.
+
+--Santo Deus! Vem muitas vezes assim, estas borrascas?
+
+Imediatamente o Silvério aterrou o meu Príncipe:
+
+--Isto agora são brincadeiras de Verão, meu senhor! Mas há-de V. Ex.^a
+ver no Inverno, se V. Ex.^a se aguentar por cá! Então é cada temporal,
+que até parece que os montes estremecem!
+
+E contou como fora também apanhado, quando ia para a Corujeira.
+Felizmente, logo pela manhã, quando sentiu o ar carrancudo e as
+folhinhas dos choupos a tremer, se acautelara com o chapéu de chuva e
+calçara as suas grandes botas.
+
+--Ainda estive para me abrigar em casa do Esgueira, que é um caseiro de
+cá. Aquela casa, ali abaixo, onde está a figueira... Mas a mulher tem
+estado doente, já há dias... E como pode ser obra que se pegue, bexigas
+ou coisa que o valha, pensei comigo: Nada, o seguro morreu de velho!
+Meti para o alpendre... E não passara um credo quando lobriguei a V.
+Ex.^a... Coisa assim!... E o Sr. D. Jacinto é voltar para casa, e
+mudar-se, que temos um dia e uma noite de água.
+
+Mas, justamente, a chuva começara a cair perpendicular, de um céu ainda
+negro, onde o vento se calara; e para além do rio e dos montes havia uma
+claridade, como entre cortinas de pano cinzento que se descerram.
+
+Jacinto repousava. Eu não cessara de me sacudir, de bater os pés
+encharcados, que me arrefeciam. E o bom Silvério, passando a mão
+pensativa sobre o negrume das suas barbas, reflectia, emendava os seus
+prognósticos:
+
+--Pois, não senhor... Ainda estia! Nunca pensei. É que tornejou o vento.
+
+O alpendre que nos cobria assentava sobre duas paredes em ângulo, de
+pedra solta, restos de algum casebre desmantelado, e sobre um esteio
+fazendo cunhal. Nesse momento só abrigava madeira, um cuculo de cestos
+vazios, e um carro de bois, onde o meu Príncipe se sentara, enrolando um
+cigarro confortador. A chuva desabava, copiosa, em longos fios
+reluzentes. E todos três nos calávamos, naquela contemplação inerte e
+sem pensamento, em que uma chuva grossa e serena sempre imobiliza e
+retém olhos e almas.
+
+--Ó Sr. Silvério, murmurou lentamente o meu Príncipe, que é que o
+senhor esteve aí a dizer de bexigas?
+
+O procurador voltou a face surpreendido:
+
+--Eu, Ex.^{mo} Sr.?... Ah sim! a mulher do Esgueira! É que pode ser,
+pode ser... Não imagine V. Ex.^a que faltam por cá doenças. O ar é bom.
+Não digo que não! Arzinho são, aguazinha leve. Mas às vezes, se V. Ex.^a
+me dá licença, vai por aí muita maleita.
+
+--Mas não há médico, não há botica?
+
+O Silvério teve o riso superior de quem habita regiões civilizadas e bem
+providas...
+
+--Então não havia de haver? Pois há um boticário, em Guiães, lá quase ao
+pé da casa aqui do nosso amigo. E homem entendido... o Firmino, hein,
+Sr. Fernandes? Homem capaz. Médico é o Dr. Avelino, daqui a légua e
+meia, nas Bolsas. Mas já V. Ex.^a vê, esta gentinha é pobre!... Tomaram
+eles para pão, quanto mais para remédios!
+
+E de novo se estabeleceu um silêncio, sob o alpendre, onde penetrava a
+friagem crescente da serra encharcada. Para além do rio, a prometedora
+claridade não se alargara entre as duas espessas cortinas pardacentas.
+No campo, em declive diante de nós, ia um longo correr de ribeiros
+barrentos. Eu terminara por me sentar na ponta de um madeiro, enervado,
+já com a fome aguçada pela manhã agreste. E Jacinto, na borda do carro,
+com os pés no ar, cofiava os bigodes húmidos, palpava a face, onde, com
+espanto meu, reaparecera a sombra, a sombra triste dos dias passados, a
+sombra do 202!
+
+E, então, surdiu por trás da parede do alpendre um rapazito, muito
+rotinho, muito magrinho, com uma carita miúda, toda amarela sob a
+porcaria, e onde dois grandes olhos pretos se arregalavam para nós, com
+vago pasmo e vago medo. Silvério imediatamente o conheceu.
+
+--Como vai a tua mãe? Escusas de te chegar para cá, deixa-te estar aí.
+Eu ouço bem. Como vai a tua mãe?
+
+Não percebi o que os pobres beicitos descorados murmuraram. Mas Jacinto,
+interessado:
+
+--Que diz ele? Deixe vir o rapaz! Quem é a tua mãe?
+
+Foi o Silvério que informou respeitosamente:
+
+--É a tal mulher que está doente, a mulher do Esgueira, ali do casal da
+figueira. E ainda tem outro abaixo deste... Filharada não lhe falta.
+
+--Mas este pequeno também parece doente!--exclamou Jacinto. Coitadito,
+tão amarelo!... Tu também estás doente?
+
+O rapazinho emudecera, chupando o dedo, com os tristes olhos pasmados.
+E o Silvério sorria, com bondade:
+
+--Nada! este é sãozinho... Coitado, é assim amarelado e enfezadito, por
+que... Que quer V. Ex.^a? Mal comido! muita miséria... Quando há o
+bocadito de pão é para todo o rancho. Fomezinha, fomezinha!
+
+Jacinto pulou bruscamente da borda do carro.
+
+--Fome? Então ele tem fome? Há aqui gente com fome?
+
+Os seus olhos rebrilhavam, num espanto comovido, em que pediam, ora a
+mim, ora ao Silvério, a confirmação desta miséria insuspeitada. E fui
+eu que esclareci o meu Príncipe:
+
+--Homem! está claro que há fome! Tu imaginavas talvez que o Paraíso se
+tinha perpetuado aqui nas serras, sem trabalho e sem miséria... Em toda
+a parte há pobres, até na Austrália, nas minas de ouro. Onde há trabalho
+há proletariado, seja em Paris, seja no Douro...
+
+O meu Príncipe, teve um gesto de aflita impaciência:
+
+--Eu não quero saber o que há no Douro. O que eu pergunto é se aqui, em
+Tormes, na minha propriedade, dentro destes campos que são meus, há
+gente que trabalhe para mim, e que tenha fome... Se há criancinhas, como
+esta, esfomeadas? É o que eu quero saber.
+
+O Silvério sorria, respeitosamente, ante aquela cândida ignorância das
+realidades da Serra:
+
+--Pois está bem de ver, meu senhor, que há para aí caseiros que são
+muito pobres. Quase todos... É uma miséria, que se não fosse algum
+socorro que se lhes dá, nem eu sei!... Este Esgueira, com o rancho de
+filhos que tem, é uma desgraça... Havia V. Ex.^a de ver as casitas em
+que eles vivem... São chiqueiros. A do Esgueira, acolá...
+
+--Vamos vê-la! atalhou Jacinto com uma decisão exaltada.
+
+E saiu logo do alpendre, sem atender à chuva, que ainda caía, mais
+leve e mais rala. Mas então Silvério alargou os braços diante dele,
+com ansiedade, como para o salvar de um precipício.
+
+--Não! V. Ex.^a lá na casa do Esgueira é que não entra! Não se sabe o
+que a mulher tem, e cautela e caldo de galinha...
+
+Jacinto não se alterou na sua polidez paciente:
+
+--Obrigado pelo seu cuidado, Silvério... Abra o seu chapéu de chuva, e
+avante!
+
+Então o Procurador vergou os ombros, e, como S. Ex.^a mandava, abriu
+com estrondo o imenso pára-águas, abrigou respeitosamente Jacinto,
+através do campo encharcado. Eu segui, pensando na esmola sumptuosa que
+o bom Deus mandava àquele pobre casal por um remoto senhor das Cidades!
+Atrás vinha o pequenito perdido num imenso pasmo.
+
+Como todos os casebres da serra, o do Esgueira era de grossa pedra
+solta, sem reboco, com um vago telhado, de telha musgosa e negra, um
+postigo no alto, e a rude porta que servia para o ar, para a luz, para o
+fumo, e para a gente. E em redor, a Natureza e o Trabalho tinham,
+através de anos, acumulado ali trepadeiras e flores silvestres, e
+cantinhos de horta, e sebes cheirosas, e velhos bancos roídos de musgo, e
+panelas com terra onde crescia salsa, e regueiros cantantes, e videiras
+enforcadas nos olmos, e sombras e charcos espelhados, que tornavam
+deliciosa, para uma Écloga, aquela morada da Fome, da Doença e da
+Tristeza.
+
+Cautelosamente, com a ponteira do guarda-chuva, Silvério empurrou a
+porta, chamando:
+
+--Eh! tia Maria... Olá rapariga!
+
+E na fenda entreaberta apareceu uma moça, muito alta, escura e suja,
+com uns tristes olhos pisados, que se espantaram para nós, serenamente.
+
+--Então como vai a tua mãe?--Abre lá a porta, que estão aqui estes
+senhores...
+
+Ela abriu, lentamente, e ia murmurando numa voz dolente e arrastada
+mas sem queixume, que um vago, resignado sorriso acompanhava:
+
+--Ora, coitada! como há-de ir? Malzinha... malzinha.
+
+E dentro, num gemido que subia como do chão, dentre abafos, amodorrado
+e lento, a mãe repetiu a desconsolada queixa:
+
+--Ai! para aqui estou, e malzinha, malzinha!...
+
+O Silvério, sem passar da porta, com o guarda-chuva em riste, meio
+aberto, como um escudo contra a infecção, lançou uma consolação vaga:
+
+--Não há-de ser nada, tia Maria!... Isso foi friagem! Não foi senão
+friagem!
+
+E, sobre o ombro de Jacinto, encolhido:
+
+--Já V. Ex.^a vê... Muita miséria! Até lhe chove lá dentro.
+
+E, no pedaço de chão que viam, chão de terra batida, uma mancha húmida
+reluzia, da chuva pingada de uma telha rota. A parede, coberta de
+fuligem, das longas fumaraças da lareira, era tão negra como o chão. E
+aquela penumbra suja parecia atulhada, numa desordem escura, de
+trapos, de cacos, de restos de coisas, onde só mostravam forma
+compreensível uma arca de pau negro, e por cima, pendurado de um prego,
+entre uma serra e uma candeia, um grosso saiote escarlate.
+
+Então Jacinto, muito embaraçado, murmurou abstraidamente:
+
+--Está bem, está bem...
+
+E largou pelo campo para o lado do alpendre como se fugisse, enquanto o
+Silvério decerto revelava à rapariga, a presença augusta do «fidalgo»,
+porque a sentimos, da porta, levantar a voz dolorida:
+
+--Ai! Nosso Senhor lhe dê muito boa sorte! Nosso Senhor o acompanhe!
+
+Quando o Silvério, com as grandes passadas das suas grandes botas, nos
+colheu, no meio do campo, Jacinto parara, olhava para mim, com os dedos
+trémulos a torturar o bigode, e murmurava:
+
+--É horrível, Zé Fernandes, é horrível.
+
+Ao lado, o vozeirão do Silvério trovejou:
+
+--Que queres tu outra vez, rapaz? Vai para a tua mãe, criatura!
+
+Era o pequeno rotinho, esfaimadinho, que se prendia a nós, num imenso
+pasmo das nossas pessoas, e com a confusa esperança, talvez, que
+delas, como de Deuses encontrados num caminho, lhe viesse afago ou
+proveito. E Jacinto, para quem ele mais especialmente arregalava os
+olhos tristes, e que aquela miséria, e a sua muda humildade,
+embaraçavam, acanhavam horrivelmente, só soube sorrir, murmurar o seu
+vago: «Está bem, está bem...» Fui eu que dei ao pequenito um tostão,
+para o fartar, o despegar dos nossos passos. Mas como ele, com o seu
+tostão bem agarrado, nos seguia ainda, como no sulco da nossa
+magnificência, o Silvério teve de o espantar, como a um pássaro, batendo
+as mãos, e de lhe gritar:
+
+--Já para casa! E leve esse dinheiro à mãe. Roda, roda!...
+
+--E nós vamos almoçar, lembrei eu olhando o relógio. O dia ainda vai
+estar lindo.
+
+Sobre o rio, com efeito, reluzia um pedaço de azul lavado e lustroso; e
+a grossa camada de nuvens já se ia enrolando sob a lenta varredela do
+vento, que as levava, despejadas e rotas, para um canto escuso do céu.
+
+Então recolhemos lentamente para casa, por uma vereda íngreme, que
+ensinara o Silvério, e onde um leve enxurro vinha ainda, saltando e
+chalrando. De cada ramo tocado, rechovia uma chuva leve. Toda a verdura,
+que bebera largamente, reluzia consolada.
+
+Bruscamente, ao sairmos da vereda para um caminho mais largo, entre um
+socalco e um renque de vinha, Jacinto parou, tirando lentamente a
+cigarreira:
+
+--Pois, Silvério, eu não quero mais estas horríveis misérias na quinta.
+
+O Procurador deu um jeito aos ombros, com um vago _eh_! _eh_!
+de obediência e dúvida.
+
+--Antes de tudo, continuava Jacinto, mande já hoje chamar esse Dr.
+Avelino para aquela pobre mulher... E os remédios que os vão buscar
+logo a Guiães. E recomendação ao médico para voltar amanhã, e em cada
+dia; até que ela melhore... Escute! E quero, Melchior, que lhe leve
+dinheiro, para os caldos, para a dieta, uns dez, ou quinze mil réis...
+Bastará?
+
+O Procurador não conteve um riso respeitoso. Quinze mil réis! Uns
+tostões bastavam... Nem era bom acostumar assim, a tanta franqueza,
+aquela gente. Depois todos queriam, todos pedinchavam...
+
+--Mas é que todos hão-de ter, disse Jacinto simplesmente.
+
+--V. Ex.^a manda, murmurou o Silvério.
+
+Encolhera os ombros, parado no caminho, no espanto daquelas
+extravagâncias. Eu tive de o apressar, impaciente:
+
+--Vamos conversando e andando! É meio-dia! Estou com uma fome de lobo!
+
+Caminhámos, com o Silvério no meio, pensativo, a fronte enrugada sob a
+vasta aba do chapéu, a barba imensa espalhada pelo peito, e a barraca
+exorbitante do guarda-chuva vermelho enrolada debaixo do braço. E
+Jacinto, puxando nervosamente o bigode, arriscava outras ideias
+benfazejas, cautelosamente, no seu indominável medo do Silvério:
+
+--E as casas também... Aquela casa é um covil!... Gostava de abrigar
+melhor aquela pobre gente... E naturalmente, as dos outros caseiros são
+pocilgas iguais... Era necessário uma reforma! Construir casas novas a
+todos os rendeiros da quinta...
+
+--A todos?...--O Silvério gaguejava,--emudeceu.
+
+E Jacinto balbuciava aterrado:
+
+--A todos... Enfim, quero dizer... Quantos serão eles?
+
+Silvério atirou um gesto enorme:
+
+--São vinte e coisas... Vinte e três! se bem lembro. Upa! Upa! Vinte e
+sete...
+
+Então Jacinto emudeceu também, como reconhecendo a vastidão do número.
+Mas desejou saber, por quanto ficaria cada casa!... Oh! uma casa
+simples, mas limpa, confortável, como a que tinha a irmã do Melchior, ao
+pé do lagar. Silvério estacou de novo. Uma casa como a da Ermelinda?
+Queria Sua Ex.^a saber? E alijou a cifra, muito de alto, como uma pedra
+imensa, para esmagar Jacinto:
+
+--Duzentos mil réis, Ex^mo Senhor! E é para mais que não para menos!
+
+Eu ria da trágica ameaça do excelente homem. E Jacinto, muito
+docemente, para conciliar o Silvério:
+
+--Bem, meu amigo... Eram uns seis contos de réis! Digamos dez, por que
+eu queria dar a todos alguma mobília e alguma roupa.
+
+Então o Silvério teve um brado de terror:
+
+--Mas então, Ex.^mo Senhor, é uma revolução!
+
+E como nós, irresistivelmente, ríamos dos seus olhos esgazeados de
+horror, dos seus imensos braços abertos para trás, como se visse o
+mundo desabar,--o bom Silvério encavacou:
+
+--Ah! V. Ex.^{as} riem? Casas para todos, mobílias, pratas, bragal, dez
+contos de réis! Então também eu rio! Ah! ah! ah! Ora viva a bela
+chalaça!... Está boa a risota!
+
+E subitamente, numa profunda mesura, como declinando toda a
+responsabilidade naquele disparate magnífico:
+
+--Enfim, V. Ex.^a é quem manda!
+
+--Está mandado, Silvério. E também quero saber as rendas que paga essa
+gente, os contratos que existem, para os melhorar. Há muito que
+melhorar. Venha você almoçar connosco. E conversamos.
+
+Tão saturado de espanto estava o Silvério, que nem recebeu mais espanto
+com essa «melhoria de rendas». Agradeceu o convite, penhorado. Mas pedia
+licença a Sua Ex.^a para passar primeiramente pelo lagar, para ver os
+carpinteiros que andavam a concertar a trave do rio. Era um instante, e
+estava em seguida às ordens de S. Ex.^a.
+
+Meteu a corta-mato, saltando um cancelo. E nós seguimos, com passos
+que eram ligeiros, pela hora do almoço que se retardara, pelo azul
+alegre que reaparecia, e por toda aquela justiça feita à pobreza da
+serra.
+
+--Não perdeste hoje o teu dia, Jacinto, disse eu, batendo, com uma
+ternura que não disfarcei, no ombro do meu amigo.
+
+--Que miséria, Zé Fernandes! Eu nem sonhava... Haver por aí, à vista da
+minha casa, outras casas, onde crianças têm fome! É horrível...
+
+Estávamos entrando na alameda. Um raio de sol, saindo dentre duas
+grossas, algodoadas nuvens, passou sobre uma esquina do casarão, ao
+fundo, uma viva tira de ouro. O clarim dos galos soava claro e alto. E
+um doce vento, que se erguera, punha nas folhas lavadas e luzidias um
+frémito alegre e doce.
+
+--Sabes o que eu estava pensando, Jacinto?... Que te aconteceu aquela
+lenda de Santo Ambrósio... Não, não era Santo Ambrósio... Não me lembra
+o santo... Nem era ainda santo... apenas um cavaleiro pecador, que se
+enamorara de uma mulher, pusera toda a sua alma nessa mulher, só por a
+avistar a distância na rua. Depois, uma tarde que a seguia, enlevado,
+ela entrou num portal de igreja, e aí, de repente, ergueu o véu,
+entreabriu o vestido, e mostrou ao pobre cavaleiro o seio roído por uma
+chaga! Tu, também andavas namorado da serra, sem a conhecer, só pela sua
+beleza de Verão. E a serra, hoje, zás! de repente, descobre a sua
+grande úlcera... É talvez a tua preparação para S. Jacinto.
+
+Ele parou, pensativo, com os dedos nas cavas do colete:
+
+---É verdade! Vi a chaga! Mas enfim, esta, louvado seja Deus, é das que
+eu posso curar!
+
+Não desiludi o meu Príncipe. E ambos subimos alegremente a escadaria do
+casarão.
+
+
+
+
+XI
+
+
+No dia que seguiu estas largas caridades recolhi a Guiães. E, desde
+então, tantas vezes trotei por aquelas três léguas entre a nossa e a
+velha alameda dos Jacintos, que a minha égua, quando a desviava dessa
+estrada familiar, conduzindo a uma cavalariça familiar, (onde ela
+privava com o garrano do Melchior) relinchava de pura saudade. Até a tia
+Vicência se mostrava vagamente ciumenta daquela Tormes, para onde eu
+sempre corria, daquele Príncipe de quem incessantemente celebrava o
+rejuvenescimento, a caridade, os pitéus, e as quimeras agrícolas. Já um
+dia com um grão de sal e ironia,--o único que cabia num coração todo
+cheio de inocência,--ela me dissera, movendo com mais vivacidade as
+agulhas da sua meia:
+
+--Olha que te podes gabar! Até me tens feito curiosidade de conhecer
+esse Jacinto... Traz cá essa maravilha, menino!
+
+Eu rira:
+
+--Sossegue, tia Vicência, que o trarei agora, para o dia dos meus anos,
+a jantar... Damos uma festa, haverá um bailarico no pátio, e vem aí
+toda essa senhorama dos arredores. Talvez até se arranje uma noiva para
+o Jacinto.
+
+Eu, com efeito, já convidara o meu Príncipe para este «natalício». E de
+resto convinha que o senhor de Tormes conhecesse todos aqueles senhores
+das boas casas da serra... Sobretudo, como eu lhe dizia rindo, convinha
+que ele conhecesse algumas mulheres, algumas daquelas fortes
+raparigas dos solares serranos, porque Tormes tinha uma solidão muito
+monástica; e o homem, sem um pouco do Eterno Feminino, facilmente se
+enrudece e ganha uma casca áspera como a das árvores, na solidão.
+
+--E esta Tormes, Jacinto, esta tua reconciliação com a Natureza, e o
+renunciamento às mentiras da Civilização é uma linda história... Mas,
+caramba, faltam mulheres!
+
+Ele concordava, rindo, languidamente estendido na cadeira de vime:
+
+--Com efeito, há aqui falta de mulher, com M. grande. Mas essas
+senhoras aí das casas dos arredores... Não sei, estou pensando que se
+devem parecer com legumes. Sãs, nutritivas, excelentes para a
+panela--mas, enfim, legumes. As mulheres que os poetas comparam às
+Flores são sempre as mulheres das Cortes, das Capitais, às quais,
+invariavelmente, desde Hesíodo e de Horácio, se rendem os poetas... E
+evidentemente não há perfume, nem graça, nem elegância, nem requinte,
+numa cenoura ou numa couve... Não devem ser interessantes as senhoras
+da minha serra.
+
+--Eu te digo... A tua vizinha mais chegada, a filha do D. Teotónio, com
+efeito, salvo o respeito que se deve à casa ilustre dos Barbedos, é um
+mostrengo! A irmã dos Albergarias, da quinta da Loja, também não
+tentaria nem mesmo o precisado Santo Antão. Sobretudo se se despisse,
+por que é um espinafre infernal! Essa realmente é legume, e não dos
+nutritivos.
+
+--Tu o disseste: espinafre!
+
+--Temos também a D. Beatriz Veloso... Essa é bonita... Mas, menino, que
+horrivelmente bem falante! Fala como as heroínas do Camilo. Tu nunca
+leste o Camilo... E depois, um tom de voz que te não sei descrever, o
+tom com que se fala em D. Maria, em peças de sentimento. Tu também
+nunca viste o Teatro de D. Maria... Enfim, um horror! E perguntas
+pavorosas. «V. Ex.^a. Sr. Doutor, não se delicia com Lamartine?» Já me
+disse esta, a indecente!
+
+--E tu?
+
+--Eu! Arregalei os olhos... «Oh Lamartine!». Mas, coitada, é uma
+excelente rapariga! Agora, por outro lado, temos as Rojões, as filhas
+de João Rojão, duas flores, muito frescas, muito alegres, com um cheiro
+e um brilho a sadio, e muito simples... A tia Vicência morre por elas.
+Depois há a mulher do Dr. Alípio, que é uma beleza. Oh! uma criatura
+esplêndida! Mas, enfim, é a mulher do Dr. Alípio, e tu renunciaste aos
+deveres da Civilização... Além disso, mulher muito séria, toda absorvida
+nos seus dois pequenos, que parecem dois anjinhos de Murillo... E quem
+mais? Já agora, quero completar a lista do pessoal feminino. Temos a
+Melo Rebelo, de Sandofim, muito engraçada, com cabelo lindo... Borda
+na perfeição, faz doces como uma freira do antigo Regime... Havia
+também uma Júlia Lobo, muito linda, mas morreu... Agora não me lembro
+mais. Mas falta a flor da Serra, que é a minha prima Joaninha, da Flor
+da Malva! Essa é uma perfeição de rapariga.
+
+--E tu, primo Zé, como tens tu resistido?
+
+--Somos como irmãos, criados de pequeninos, mais acostumados e
+familiares que tu e eu... A familiaridade esbate os sexos. A mãe dela
+era a única irmã da tia Vicência, e morreu muito nova. A Joaninha,
+quase desde o berço que se criou em nossa casa, em Guiães. O pai é bom
+homem, o tio Adrião. Erudito, antiquário, coleccionador... Colecciona
+toda a sorte de coisas esquisitas, campainhas, esporas, sinetes,
+fivelas... Tem uma colecção curiosa. Ele há muito que deseja vir a
+Tormes, para te visitar... Mas, coitado, sofre da bexiga, não pode
+montar a cavalo. E a estrada da Flor da Malva aqui é impossível para
+carruagens...
+
+O meu Príncipe espreguiçara longamente os braços:
+
+--Não, está claro! eu é que hei-de visitar teu tio, e a tia Vicência...
+Desejo conhecer os meus vizinhos. Mas mais tarde, quando sossegar. Agora
+ando todo ocupado com o meu povo.
+
+E com efeito! Jacinto era agora como um Rei fundador de um Reino, e
+grande edificador. Por todo o seu domínio de Tormes andavam obras, para
+o renovamento das casas dos rendeiros, umas que se concertavam, outras
+mais velhas, que se derrubavam para se reconstruírem com uma largueza
+cómoda. Pelos caminhos constantemente chiavam carros, carregados de
+pedra, ou de madeiras cortadas nos pinheirais.
+
+Na taberna do Pedro, à entrada da freguesia, ia um desusado movimento,
+de pedreiros e carpinteiros contratados para as obras;--e o Pedro, com
+as mangas arregaçadas, por trás do balcão, não cessava de encher os
+decilitros com uma vasta infusa.
+
+Jacinto, que tinha agora dois cavalos, todas as manhãs cedo percorria
+as obras, com amor. Eu, inquieto, sentia outra vez, latejar e irromper
+no meu Príncipe o seu velho, maníaco furor de acumular Civilização! O
+plano primitivo das obras era incessantemente alargado, aperfeiçoado.
+Nas janelas, que deviam ter apenas portadas, segundo o secular costume
+da serra, decidira pôr vidraças, apesar do mestre de obras lhe dizer
+honradamente, que depois de habitadas um mês, não haveria casa com um só
+vidro. Para substituir as traves clássicas queria estucar os tectos;--e
+eu via bem claramente que ele se continha, se retesava dentro do
+Bom-Senso, para não dotar cada casa com campainhas eléctricas. Nem
+sequer me espantei, quando ele uma manhã me declarou que a porcaria da
+gente do campo provinha de eles não terem onde comodamente se lavar,
+pelo que andava pensando em dotar cada casa com uma banheira. Descíamos
+nesse momento, com os cavalos à rédea, por uma azinhaga precipitada e
+escabrosa; um vento leve ramalhava nas árvores, um regato saltava
+ruidosamente entre as pedras. Eu não me espantei--mas realmente me
+pareceu que as pedras, o arroio, as ramagens e o vento, se riam
+alegremente do meu Príncipe. E além destes confortos, a que o João,
+mestre de obras, com os olhos loucamente arregalados chamava «as
+grandezas», Jacinto meditava o bem das almas. Já encomendara ao seu
+arquitecto, em Paris, o plano perfeito de uma escola, que ele queria
+erguer, naquele campo da Carriça, junto à capelinha que abrigava «os
+ossos». Pouco a pouco, aí criaria também uma biblioteca, com livros
+de estampas, para entreter, aos domingos, os homens a quem já não era
+possível ensinar a ler. Eu vergava os ombros, pensando:--«Aí vem a
+terrível acumulação das Noções! Eis o livro invadindo a Serra!» Mas
+outras ideias de Jacinto eram tocantes,--e eu mesmo me entusiasmei, e
+excitei o entusiasmo da tia Vicência com o seu plano de uma Creche, onde
+ele esperava ter manhãs muito divertidas vendo as criancinhas a
+gatinhar, a correr tropegamente atrás de uma bola. De resto, o nosso
+boticário de Guiães estava já apalavrado para estabelecer uma pequena
+farmácia em Tormes, sob a direcção do seu praticante, um afilhado da
+tia Vicência, que tinha publicado um artigo sobre as festas populares do
+Douro no _Almanaque de Lembranças_. E já fora oferecido o partido médico
+de Tormes, com ordenado de 600$000 réis.
+
+--Não te falta senão um Teatro! dizia eu, rindo.
+
+--Um teatro não. Mas tenho a ideia de uma sala, com projecções de
+lanterna mágica, para ensinar a esta pobre gente as cidades desse
+mundo, e as coisas de África, e um bocado de História.
+
+E também me ensoberbeci com esta inovação!--E quando a contei ao tio
+Adrião, o digno antiquário bateu, apesar do seu reumatismo, uma palmada
+tremenda na coxa. «Sim, senhor! Bela ideia! Assim se podia ensinar
+àquela gente iletrada, vivamente, por imagens, a História Santa, a
+História Romana, até a História de Portugal!...» E voltado para a prima
+Joaninha, o tio Adrião declarou Jacinto um «homem de coração!»
+
+E realmente pela Serra crescia a popularidade do meu Príncipe.
+Naquele, «guarde-o Deus, meu senhor!» com que as mulheres ao passar o
+saudavam, se voltavam para o ver ainda, havia uma seriedade de oração, o
+bem sincero desejo de que Deus o guardasse sempre. As crianças a quem
+ele distribuía tostões, farejavam de longe a sua passagem,--e era em
+torno dele um escuro formigueiro de caritas trigueiras e sujas, com
+grandes olhos arregalados, que se ainda tinham pasmo, já não tinham
+medo. Como o cavalo de Jacinto uma tarde se chapara, ao desembocar da
+alameda, numas grossas pedras que aí deformavam a estrada, logo ao
+outro dia um bando de homens, sem que Jacinto o ordenasse, veio por
+dedicação ensaibrar e alisar aquele pedaço perigoso de caminho,
+aterrados com o risco que correra o bom senhor. Já pela serra se
+espalhava esse nome de «bom senhor». Os mais idosos da freguesia não o
+encontravam sem exclamarem, uns com gravidade, outros com grandes risos
+desdentados:--_Este é o nosso benfeitor!_ Por vezes, alguma velha corria
+do fundo do eido, ou vinha à porta do casebre, ao avistá-lo no caminho,
+para gritar, com grandes gestos dos braços magros: «Ai que Deus o cubra
+de bênçãos! Que Deus o cubra de bênçãos!»
+
+Aos domingos, o padre José Maria, (bom amigo meu e grande caçador) vinha
+de Sandofim, na sua égua ruça, a Tormes, para celebrar a missa na
+Capelinha. Jacinto assistia ao ofício na sua tribuna, como os
+Jacintos doutras eras, para que aqueles simples o não supusessem
+estranho a Deus. Quase sempre então ele recebia presentes, que as
+filhas dos caseiros, ou os pequenos, vinham muito corados, trazer-lhe à
+varanda, e eram vasos de manjericão, ou um grosso ramalhete de cravos, e
+por vezes um gordo pato. Havia então uma distribuição de cavacas e
+merengues de Guiães, às raparigas e às crianças,--e, no pátio, para os
+homens circulavam as infusas de vinho branco. O Silvério já sustentava
+com espanto, e redobrado respeito, que o Sr. D. Jacinto em breve
+disporia de mais votos nas eleições que o Dr. Alípio. E eu próprio me
+impressionei, quando o Melchior me contou que o João Torrado, um velho
+singular daqueles sítios, de grandes barbas brancas, ervanário,
+vagamente alveitar, um pouco adivinho, morador misterioso de uma cova no
+alto da serra, a todos afirmava que aquele bom senhor era El-Rei D.
+Sebastião, que voltara!
+
+
+
+
+XII
+
+
+Assim chegou Setembro, e com ele o meu natalício, que era a 3 e num
+Domingo. Toda essa semana a passara eu em Guiães, nos preparos da
+vindima,--e de manhã cedo, nesse Domingo ilustre, me fui debruçar da
+varanda do quarto do saudoso tio Afonso, vigiando a estrada, por onde
+devia aparecer o meu Príncipe, que enfim visitava a casa do seu Zé
+Fernandes. A tia Vicência, desde a madrugada, andava atarefada pela
+cozinha e pela copa, porque, desejando mostrar ao meu Príncipe «o
+pessoal» da serra, convidara para jantar algumas famílias amigas, dos
+arredores, as que tinham carruagens ou carroções, e podiam, pelas
+estradas mal seguras, recolher tarde, depois de um bailarico campestre,
+no pátio, já enfeitado para esse efeito de lanternas chinesas. Mas logo
+às dez horas me desesperei, ao receber, por um moço da Flor da Malva,
+uma carta da prima Joaninha, em que dizia «a pena de não poder vir
+porque o Papá estava desde a véspera com um leicenço, e ela não o
+queria abandonar.» Corri indignado à cozinha, onde a tia Vicência
+presidia a um violento bater de gemas de ovos dentro de uma imensa
+terrina.
+
+--A Joaninha não vem! Sempre assim! Diz que o pai tem um leicenço...
+Aquele tio Adrião escolhe sempre os grandes dias para ter leicenços, ou
+para ter a pontada...
+
+A boa face redondinha e corada da tia Vicência enterneceu-se.
+
+--Coitado! será em sítio que não se pudesse sentar na carruagem!
+Coitado! Olha, se lhe escreveres, diz-lhe que ponha um emplastrozinho
+de folhas de alecrim. É com que teu tio se dava bem.
+
+Eu gritei simplesmente para o moço, que dava de beber ao burro no pátio:
+
+--Diz à Sr.^a D. Joaninha que sentimos muito... Que talvez eu lá
+apareça amanhã.
+
+E voltei à janela, impaciente, por que o relógio do corredor, muito
+atrasado, já cantara a meia hora depois das dez e o Príncipe tardava
+para o almoço. Mas, mal eu me chegara à varanda, apareceu justamente na
+volta da estrada Jacinto, de grande chapéu de palha, no seu cavalo,
+seguido do Grilo que, também de chapéu de palha, e abrigado sob um
+imenso guarda-sol verde, se escarranchava no albardão da velha égua do
+Melchior. Atrás, um moço com uma maleta à cabeça. E eu, na alegria de
+avistar enfim o meu Príncipe trotando para a minha casa de aldeia, no dia
+dos meus trinta e seis anos, pensava noutro natalício, no dele, em
+Paris, no 202, quando, entre todos os esplendores da Civilização, nós
+bebemos tristemente _ad manes_, aos nossos mortos!
+
+--_Salvé!_ gritei da varanda. _Salvè, domine Jacinthi_!
+
+E entoei, para o acolher, num alegre tarantantan, o Hino da Carta!
+
+--Isto por aqui também é lindo!--gritou ele de baixo. E o teu palácio
+tem um soberbo ar... Por onde é a porta?
+
+Mas eu já me precipitava para o pátio--onde Jacinto, apeando, contou
+alegremente os tormentos do Grilo, que nunca montara a cavalo, e não
+cessara de berrar ante os perigos daquela aventura.
+
+E o digno preto, ofegante, lustroso de suor, e lívido sob o esplendor
+da sua negrura, exclamava, apontando com a mão trémula para a pobre
+égua, que solta, de cabeça pensativa, parecia de pedra, sobre as patas
+mais imóveis que marcos:
+
+--Pois se o siô Fernandes visse! Uma fera, que nunca veio quieta. Sempre
+para a esquerda, sempre para a direita, pé aqui, pé além! Só para me
+sacudir! Só para me sacudir!
+
+E não resistiu. Com a ponta do guarda-sol atirou uma pontoada vingativa
+contra a égua, sobre o albardão.
+
+Subindo a escadaria ligeira, penetrando no alegre corredor, com a sua
+janela ao fundo engrinaldada de rosinhas, Jacinto louvava grandemente
+a nossa casa, que o repousava das rijas muralhas, das grossas portas
+feudais de Tormes. E no seu quarto agradeceu os cuidados maternais da
+tia Vicência, que enchera de flores os dois vasos da China sobre a
+cómoda, e adornara a cama com uma das nossas colchas da Índia mais
+ricas, cor de canário, com grandes aves de ouro. Eu sorria, enternecido.
+Então estreitámos os ossos num grande abraço, pelo natalício... «Trinta
+e oito, hein, Zé Fernandes?»--«Trinta e quatro, animal!» E o meu
+Príncipe abrindo a mala, sóbria maleta de filósofo, ofereceu os
+«nobres presentes, que são devidos», como diz sempre o astuto Ulisses na
+Odisseia. Era um alfinete de gravata, com uma safira, uma cigarreira de
+aro fosco, adornada de um florido ramo de macieira em delicado esmalte,
+e uma faca para livros de velho lavor Chinês. Eu protestava contra a
+prodigalidade.
+
+--É tudo das malas de Paris... Mandei-as abrir ontem à noite. E tomei a
+liberdade de trazer esta lembrança à tua tia Vicência. Não vale nada...
+É só por ter pertencido à princesa de Lamballe.
+
+Era uma caldeirinha de água benta, em prata lavrada, de um gosto florido e quase galante.
+
+--A tia Vicência não sabe quem é a princesa de Lamballe, mas ficará
+encantada! E é uma garantia, por que ela suspeita da tua religião, como
+homem de Paris, da terra das impiedades... E agora, lavar, escovar, e ao
+almoço!
+
+A tia Vicência pareceu toda surpreendida, e logo encantada com o meu
+camarada, que ela supusera realmente um Príncipe, arrogante, escarpado
+e difícil. Quando ele lhe ofereceu a caldeirinha, com um delicado
+pedido «para se lembrar dele nas suas orações», duas largas rosas,
+mais róseas e frescas que as rosas que enchiam a mesa, cobriram as faces
+redondas da boa senhora, que nunca recebera tão piedoso presente, com
+tão linda palavra. Mas o que sobretudo a cativou foi o tremendo
+apetite de Jacinto, a entusiasmada convicção com que ele,
+acumulando no prato montes de cabidela, depois altas serras de arroz de
+forno, depois bifes de numerosa cebolada, exaltava a nossa cozinha,
+jurava nunca ter provado nada tão sublime. Ela resplandecia:
+
+--Até faz gosto, até faz gosto!... Ora mais uma destas batatinhas
+recheadas...
+
+--Concerteza, minha senhora! até duas! As minhas rações, em mesas
+destas, tão perfeitas, são sempre as de Gargântua.
+
+--Não cites Rabelais, que a tia Vicência não conhece os autores
+profanos! exclamava eu, também radiante. E prova esse vinho branco cá da
+nossa lavra, e louva Deus que amadurece tal uva.
+
+E o almoço foi muito alegre, muito íntimo, muito conversado, sobre as
+obras de Jacinto em Tormes, e a sua Creche, que enlevava a tia
+Vicência, e as esperanças da vindima, e a minha prima Joaninha, que
+tinha o papá doente, e o péssimo estado dos caminhos. Mas o
+enternecimento maior foi quando, ao servir o café, o criado pôs ao lado
+de Jacinto um pires com um pau de canela, o seu estranho e costumado
+pau de canela. Não o esquecera a tia Vicência! Ali tinha o seu pauzinho
+de canela!--Queria que ele, em Guiães, continuasse os seus hábitos
+como em Tormes... E aquele pau de canela foi o símbolo de adopção do
+meu Príncipe como novo sobrinho da tia Vicência.
+
+Ela em breve recolheu à cozinha, aos preparativos do banquete. Nós
+fumámos um preguiçoso charuto no jardim, ao pé do repuxo, sob a
+recolhida sombra do cedro. Depois, inexoravelmente, como proprietário,
+mostrei ao meu Príncipe a propriedade toda, com desapiedada
+minuciosidade, sem lhe perdoar uma leira, um regueiro, uma árvore, um pé
+de vinha. Só quando a sua face começou a opar e a empalidecer, de
+cansaço, e que do entendimento totalmente atordoado só lhe escorria um
+vago--«muito bonito! bela terra!»--é que voltei os passos para casa,
+tornejando ainda numa volta larga para lhe mostrar o lagar, uma
+plantação de espargos, e o sítio onde existira a ruína de um velho castro
+romano. Ao penetrarmos de novo, pelo jardim, na fresca sala, ainda o
+empurrei, como uma rês, para a livraria do meu bom tio Afonso, para lhe
+mostrar as preciosidades, uma magnífica crónica de D. João I por Fernão
+Lopes, a primeira edição do _Imperador Clarimundo_, uma _Henriada_, com
+a assinatura de Voltaire, forais de El-Rei D. Manuel, e outras
+maravilhas. Ele respirava fechando o derradeiro pergaminho, quando eu o
+arrastei à adega, para que admirasse a famosa pipa, que tinha, em
+relevo, na madeira do tampo, as complicadas armas dos Sandes. Eram
+quatro horas. O meu Príncipe tinha o ar esgazeado e lívido. Cravando
+nele os olhos inexoráveis, olhos em que eu mesmo sentia reluzir a
+ferocidade, declarei «que iríamos agora ver a tulha.» Mas então, com as
+mãos nos rins, ele murmurou, humildemente, num murmúrio de criança:
+
+--Não se me dava de me sentar um poucochinho!
+
+Tive então piedade, abri as garras, deixei que ele se arrastasse, atrás
+de mim, para o seu quarto, onde freneticamente descalçou as botas, se
+atirou para um fresco canapé forrado de ganga, murmurando num
+abatimento profundo:--«Bela propriedade!»
+
+Consenti generosamente que ele adormecesse,--e eu mesmo desci a
+verificar se a Gertrudes dispusera bem as escovas, as toalhas de renda,
+no quarto onde os convidados, em breve, ao chegar, lavariam as mãos,
+escovariam a poeira da estrada. E justamente, uma caleche rodava no
+pátio, a velha caleche do D. Teotónio, com a parelha ruça. Espreitando
+da janela descobri, com prazer, que chegava só, de gravata branca, sob
+o guarda-pó, sem a horrendíssima filha. Corri alegremente ao quarto da
+tia Vicência, que, ajudada pela Catarina, abrochava à pressa as suas
+pulseiras ricas de topázios.
+
+--Tia Vicência! chegou o D. Teotónio! Felizmente vem sem a filha... Não
+se demore, os outros não tardam. O Manuel que esteja bem penteado, de
+gravata bem tesa!... Vamos a ver como corre a festa!
+
+
+
+
+XIII
+
+
+Ai de mim! a festa no meu aniversário não se passou com brilho, nem com
+alegria!
+
+Quando o meu Príncipe entrou na sala, com uma elegância, (onde eu senti
+as malas de Paris, abertas na véspera)--uma rosa branca no jaquetão
+preto, colete branco lavrado e trespassado, copiosa gravata de seda
+branca, tufando, e presa por uma pérola negra,--já todos os convidados
+estavam na sala,--o D. Teotónio, o Ricardo Veloso, o Dr. Alípio, o
+gordo Melo Rebelo, de Sandofim, os dois manos Albergarias, da quinta
+da Loja--; todos de pé, num pelotão cerrado. Em torno do sofá onde a
+tia Vicência se instalara, um magotezinho de cadeiras reunira as
+senhoras,--a Beatriz Veloso, de cassa branca sobre seda, que a tornava
+mais aérea e magra, com a sua trunfa imensa de cabelo riçado; as duas
+Rojões, (com a tia Adelaide Rojão) vermelhinhas como camoesas, ambas de
+branco; e a mulher do Dr. Alípio, de preto, esplêndida como uma Vénus
+Rústica... E foi na sala, como se realmente entrasse um Príncipe,
+desses países do Norte onde os Príncipes são magníficos, muito
+distantes dos homens, e aterram as gentes. Um silêncio, como se o tecto
+de carvalho descesse, nos esmagava: e todos os olhos se enristaram
+contra o meu desgraçado Jacinto, como numa caçada hindu, quando à orla
+da floresta surge o Tigre Real. Debalde,--nas confusas, apressadas
+apresentações, com que eu o levava através da sala,--os seus apertos de
+mão, os sorrisos, o vago murmúrio, «da sua honra, do seu prazer» foram
+repassados de simpatia, de simplicidade. Todos os cavalheiros
+permaneciam reservados, observando o Príncipe, que subira à serra: e as
+senhoras mais se aconchegavam à sombra da tia Vicência, como ovelhas à
+volta do pastor, quando na altura assoma o lobo. Eu, já inquieto, lancei
+o D. Teotónio, o mais ornamental daqueles cavalheiros.
+
+--O Sr. D. Teotónio foi muito amável em vir, Jacinto. Raras vezes sai
+da sua linda casa da Abrujeira.
+
+O digno D. Teotónio sorriu, cofiando os espessos bigodes brancos, de
+velho brigadeiro:
+
+--V. Ex.^a chegou directamente de Viena?
+
+Não! Jacinto viera directamente de Paris, com o amigo Zé Fernandes. D.
+Teotónio insistiu:
+
+--Mas certamente visita muitas vezes Viena...
+
+Jacinto sorria surpreendido:
+
+--Viena, porquê?... Não. Há mais de quinze anos que não vou a Viena.
+
+O fidalgo murmurou um lento _ah_! e ficou calado, de pálpebras baixas,
+como revolvendo análises profundas, com as mãos cruzadas sob as abas da
+longa sobrecasaca azul.
+
+Eu então, vigilante, lancei o Dr. Alípio:
+
+--O nosso Doutor, meu caro Jacinto, é o mais poderoso influente de todo
+o distrito.
+
+O Doutor curvou a cabeça bem feita, com um belo cabelo preto,
+admiravelmente alisado e lustroso. Mas a tia Vicência, que se erguera do
+sofá, chamava o meu Príncipe, porque o Manuel anunciara o jantar,
+mudamente, mostrando apenas, à porta da sala, a sua corpulenta
+pessoa,--inteiriçado e vermelho.
+
+À mesa, onde os pudins, as travessas de doce de ovos, os antigos vinhos
+da Madeira e do Porto, nas suas pesadas garrafas de cristal lapidado,
+fundiam com felicidade os seus tons ricos e quentes, Jacinto ficou
+entre a tia Vicência e uma das Rojões, a Luizinha, sua afilhada, que,
+por costume velho, quando jantava em Guiães, sempre se colocava à
+sombra da sua boa madrinha. E a sopa, que era de galinha com macarrão,
+foi comida num tão largo e pesado silêncio que eu, na ânsia de o
+quebrar, exclamei, ao acaso, sem pensar que me achava em Guiães depois
+de tanto tempo e em minha própria casa:
+
+--Deliciosa, esta sopa!
+
+Jacinto ecoou:
+
+--Divina!!
+
+Mas como todos os convidados certamente estranharam este meu brado, e a
+excessiva admiração de Jacinto, o silêncio, carregado de cerimónia,
+mais se carregou de embaraço. Felizmente a tia Vicência, com aquele seu
+bom sorriso, observou que Jacinto parecia gostar da comida
+portuguesa... E eu, sempre no intuito de animar a conversa, nem deixei
+que o meu Príncipe confirmasse o seu amor da cozinha vernácula, e
+gritei:
+
+--Como gostar! Mas é que delira!... Pudera! Tanto tempo em Paris,
+privado dos pitéus lusitanos...
+
+E como, ditosamente, me lembrara o prato de arroz doce preparado na
+ocasião do natalício de Jacinto, pelo cozinheiro do 202, contei a
+história, profusamente, exagerando, afirmando que esse arroz doce
+continha _foie gras_, e que sobre a sua ornamentada pirâmide flutuava a
+bandeira tricolor, por cima do busto do conde de Chambord! Mas o arroz
+doce de Paris, assim estragado tão longe da Serra, não interessara
+ninguém. Puxou apenas alguns sorrisos de polida condescendência, quando
+eu, alternadamente, me voltava para um cavalheiro, para uma senhora,
+insistindo, exclamando:--Extraordinário, hein?
+
+D. Teotónio observou, misteriosamente, que o «cozinheiro sabia para
+quem cozinhava.» E a bela mulher do Dr. Alípio ousou murmurar, corando:
+
+--Havia de ser bonito prato, e talvez não fosse mau!
+
+Eu, sempre na ânsia de espiritualizar o banquete, de produzir
+conversação, ataquei com desabrida alegria a Sr.^a D. Luísa, por ela
+assim defender a profanação do nosso grande acepipe nacional! Mas, pobre
+de mim! tão excessiva e ruidosamente interpelei a formosa senhora, que
+ela se enconchou, emudeceu, toda corada, e mais formosa assim. E outro
+silêncio se abatia sobre a mesa, como uma névoa, quando a tia Vicência,
+providencial, se desculpou para com Jacinto de não ter peixe! Mas quê!
+ali na Serra era impossível, ainda a peso de ouro, ter peixe, a não ser a
+pescada salgada, ou o bacalhau. O excelente Rojão, com aquele seu
+modo, tão suave que cada sílaba para correr mais docemente parecia
+lubrificada com óleos santos, lembrou que o Sr. D. Jacinto possuía uma
+larga faixa do rio Douro com privilégio para a pesca do sável. Jacinto
+não sabia, nem imaginava que houvesse sáveis... O Dr. Alípio não se
+admirava por que essas pescas tinham sido vendidas ao Cunha brasileiro,
+há vinte anos, na mocidade do Sr. D. Jacinto. E hoje, segundo o D.
+Teotónio, não valiam dois mil réis. Se já não há sáveis!... E a
+propósito das antigas pescas do Douro se ia formando, em torno da mesa,
+entre os homens mais vizinhos, lentas cavaqueirinhas rurais, que as
+senhoras aproveitavam para cochichar, no desabafo daquele silêncio
+cerimonioso, que viera pesando cada vez mais desde a sopa até os frangos
+guisados. Receoso de que essa orla de murmúrios lentos, sem brilho e sem
+alegria, se estabelecesse de novo, me abalancei (para animar), a
+interpelar Jacinto, recordando a famosa aventura do peixe da Dalmácia
+encalhado no ascensor.
+
+--Isso foi uma das melhores histórias que nos sucederam em Paris! O
+Jacinto, por causa de um peixe muito raro, que lhe mandara o Grão-Duque
+Casimiro, dava uma magnífica ceia, a que o Grão-Duque... o Grão-Duque
+Casimiro, o irmão do Imperador...
+
+Todos os olhos se desviaram para o meu Jacinto, que se servia de
+ervilhas:--e o Melo Rebelo quase se engasgou, num sorvo precipitado
+ao copo, para contemplar no meu amigo algum reflexo do Grão-Duque. E eu
+contei, com profusão, o peixe encalhado, o Grão-Duque pescando, o anzol
+feito com um gancho da Princesa de Carman, o duque de Marizac, caindo
+quase no poço do elevador... Mas não se produziu um único riso, e a
+atenção mesma era dada com esforço, por cortesia. Debalde eu
+arremessava aqueles nomes magníficos de Príncipes e princesas,
+misturados a coisas picarescas... Nenhum dos meus convidados
+compreendia o maquinismo do elevador, um prato encalhado num poço
+negro... Perante o gancho da princesa as Albergarias baixaram os olhos.
+E a minha deliciosa história morreu numa reticência, ainda mais
+regelada pela exclamação inocente da tia Vicência:
+
+--Oh! filho, que coisas!
+
+Mas, como Jacinto se enfronhara de repente numa larga conversa com a
+Luisinha Rojão, que ria, toda luminosa e palradora,--todos, como
+libertados do peso cerimonioso da sua presença augusta, se lançaram nas
+conversinhas discretas, a que o champanhe, agora, depois do assado, dava
+mais viveza. Eram os soturnos murmúrios, em torno da mesa, que
+definitivamente se perpetuavam. Foi então que desisti de animar o
+jantar. Mergulhei com a bela mulher do Doutor Alípio na grande questão
+social desse tempo em Guiães, o casamento da D. Amélia Noronha com o
+feitor! E eu defendia a D. Amélia, os direitos do amor, quando se
+alargou um silêncio,--e era Jacinto, que se debruçava, de copo na mão.
+
+--Velho amigo Zé Fernandes, à tua! Muitos e bons, e sempre em companhia
+de tua tia e minha senhora, a quem peço para saudar.
+
+Todos os copos, onde a espuma morria sobre um fundo de champanhe, se
+ergueram num largo rumor de amizade, e boa vizinhança. Eu acenei ao
+Manuel, vivamente, para encher os copos; e logo, também de pé, atirando
+para trás a sobrecasaca:
+
+--Meus senhores, peço uma grande saúde para o meu velho amigo Jacinto,
+que pela primeira vez honra esta casa fraternal... Que digo eu? que pela
+primeira vez honra com a sua presença a sua querida pátria! E que por cá
+fique, pelas serras, muitos anos, todos bons. À tua, meu velho!
+
+Outro rumor correu pela mesa, mas cerimonioso e sereno. A nossa
+oratória, positivamente, não incendiara as imaginações! A tia Vicência
+fez tilintar o seu copo, quase vazio, com o de Jacinto, que tocou no
+copo da sua vizinha, a Luisinha Rojão, toda resplandecente, e mais
+vermelha que uma peónia. Depois foi um encadeamento de saúdes, com os
+copos quase vazios, entre todos os convidados, sem esquecer o tio
+Adrião, e o Abade, ambos ausentes, ambos com furúnculos. E a tia
+Vicência espalhava aquele olhar, que prepara o erguer, o arrastar de
+cadeiras,--quando D. Teotónio, erguendo o seu copo de vinho do Porto,
+com a outra mão apoiada à mesa, meio erguido, chamou Jacinto, e numa
+voz respeitosa, quase cava:
+
+--Esta é toda particular, e entre nós... Brindo o ausente!
+
+Esvaziou o copo, como em religião, pontificando. Jacinto bebeu
+assombrado, sem compreender. As cadeiras arrastavam,--eu dei o braço à
+tia Albergaria.
+
+E só compreendi, na sala, quando o Dr. Alípio, com a sua chávena de
+café e o charuto fumegante, me disse, num daqueles seus olhares
+finos, que lhe valiam a alcunha de _Dr. Agudo_:--«Espero que ao menos,
+cá por Guiães, não se erga de novo a forca!...» E o mesmo fino olhar me
+indicava o D. Teotónio, que arrastara Jacinto para entre as cortinas
+de uma janela, e discorria, com um ar de fé e de mistério. Era o
+miguelismo, por Deus! O bom D. Teotónio considerava Jacinto como um
+hereditário, ferrenho, miguelista,--e na sua inesperada vinda ao seu
+solar de Tormes, entrevia uma missão política, o começo de uma propaganda
+enérgica, e o primeiro passo para uma tentativa de Restauração. E na
+reserva daqueles cavalheiros, ante o meu Príncipe, eu senti então a
+suspeita liberal, o receio de uma influência rica, nova, nas Eleições
+próximas, e a nascente irritação contra as velhas ideias, representadas
+naquele moço, tão rico, de civilização tão superior. Quase entornei o
+café, na alegre surpresa daquela sandice. E retive o Melo Rebelo,
+que repunha a chávena vazia na bandeja, fitei, com um pouco de riso, o
+_Dr. Agudo_.
+
+--Então, francamente, os amigos imaginam que o Jacinto veio para Tormes
+trabalhar no miguelismo?
+
+Muito sério, Melo Rebelo chegou o seu grosso bigode à minha orelha:
+
+--Até corre, como certo, que o Príncipe D. Miguel está com ele em
+Tormes!
+
+E como eu os considerava esgazeado, o Dr. Alípio--tão agudo!--confirmou:
+
+--É o que corre... Disfarçado em criado!
+
+Em criado? Oh! santo Deus! Era o Baptista! Justamente, Ricardo Veloso
+veio, puxando do seu cigarrinho, para o acender no meu charuto. E o bom
+Rebelo logo invocou o seu testemunho.--Pois não corria, que o filho de
+D. Miguel estava em Tormes, escondido?...
+
+--Disfarçado em lacaio, confirmou logo o digno Rebelo.
+
+Acendeu o cigarro, soprou o fumo, e erguendo muito as sobrancelhas
+meditativas:
+
+--Se assim é, lá me parece desplante... Que eu não desgostava de o ver.
+Dizem que é bonito moço, bem apessoado. Mas enfim, meu tio João Vaz
+Rebelo foi partido às postas, a machado, nas prisões de Almeida... E se
+recomeçam essas questões, mau, mau! Ora o seu amigo...
+
+Emudeceu. Jacinto, que se libertara do velho D. Teotónio, e ainda
+conservava um resto de riso, de assombro divertido, vinha para mim,
+desabafar:
+
+--Extraordinário! Vejo que, aqui, na serra, ainda se conservam, sem uma
+ruga, as velhas e boas ideias...
+
+Imediatamente, sem se conter, Melo Rebelo acudiu:
+
+--É conforme o que V. Ex.^a chama _boas ideias_.
+
+E eu agora, furioso com aquela disparatada invenção, que cercava
+de hostilidade o meu pobre Jacinto, estragava aquela amável noite
+de anos, intervim, vivamente:
+
+--Tu jogas o voltarete, Jacinto? Não jogas... Então vamos arranjar duas
+mesas... O D. Teotónio há-de querer cartas.
+
+E arrastei Jacinto para as senhoras, que de novo se aninhavam à sombra
+da tia Vicência, estabelecida no seu canto do sofá. Todas se calavam,
+parecia encolherem-se ante a aparição do meu Príncipe, como pombas
+avistando o abutre. E deixei o temido homem afirmando à mulher do Dr.
+Alípio (um pouco desgarrada do bando das aves tímidas) que lhe dera
+grande prazer aquela ocasião de conhecer as suas vizinhas de Tormes...
+Ela abrira nervosamente o leque, sorria, e nunca de certo Jacinto
+admirara na Cidade uma boca mais vermelha, dentinhos mais rutilantes.
+Mas depois de organizar a mesa do voltarete, tive de abancar, eu, para
+substituir o Manuel Albergaria, que era dispéptico, se declarara
+«afrontado», e desejava respirar um momento na varanda. Todos aqueles
+cavalheiros, de resto, se queixavam de calor. Mandei abrir as janelas
+que davam sobre as mimosas do pátio. O Veloso, ao baralhar, parava,
+bufando, como oprimido:
+
+--Está abafado... Ainda temos trovoada!
+
+E o Dr. Alípio, inquieto, porque tinha uma hora de estrada até casa, e
+uma das éguas da caleche era escabriada, correu à janela, espreitar o
+céu, que enegrecera, morno e pesado.
+
+--Com efeito, vai cair água.
+
+As hastes das mimosas ramalhavam, arrepiadas: e o ar que agitava as
+cortinas era intermitente, estonteado. De certo na sala, entre as
+senhoras, surgira a mesma inquietação, porque a tia Albergaria
+apareceu, avisando o mano Jorge.
+
+Era prudente pensar em partir, a noite ameaçava... E o Dr. Alípio,
+puxando o relógio, propôs que, levantada aquela remissa, se preparasse
+a marcha. Justamente o Albergaria recolhia da varanda desafrontado,
+aliviado com um cálice de genebra: e retomou as suas cartas,
+anunciando também que vinha aí uma trovoada valente.
+
+Voltando à sala, encontrei Jacinto muito alegre entre as senhoras, que
+se familiarizaram, escutando cheias de riso e gosto, a história da sua
+chegada a Tormes, sem malas, sem criados, tão desprovido que dormira com
+a camisa da caseira! Mas a minha pobre noite de anos findava,
+desorganizada. A tia Albergaria rondava de janela em janela, assustada
+com a volta à Roqueirinha, espreitando a treva abafada. Calçando
+lentamente as luvas, a bela mulher do Dr. Alípio perguntava se ainda
+havia a remissa. E a tia Vicência apressara o chá, que o Manuel seguido
+pela Gertrudes, com a bandeja de bolos, já começava a servir às
+senhoras. Jacinto, de pé, oferecendo chávenas, gracejava:
+
+--Então tanta pressa, tanto medo, por causa de uma trovoadinha?
+
+Elas replicavam, familiarizadas, numa crescente simpatia pelo meu
+Príncipe:
+
+--Ora o senhor fala bem, porque fica debaixo de telhas...
+
+--Sempre o queríamos ver... se fosse agora para Tormes, com esta noite
+cerrada!
+
+O voltarete findara nas duas mesas: e aqueles cavalheiros, das
+janelas, gritavam ordens para o pátio negro, onde as carruagens
+esperavam atreladas:
+
+--Desce a cabeça da vitória, ó Diogo!
+
+--Acende o lampião, Pedro! Sempre ajuda a luz das lanternas.
+
+A criada Quitéria chegava à porta com os braços carregados de xales, de
+mantilhas de renda. Como uma das Albergarias ia no assento de diante na
+vitória, eu corri a buscar o meu casaco de borracha, para ela se
+abrigar se a chuva viesse. E só o D. Teotónio, que tinha até casa
+apenas meia légua de estrada boa, se não apressava, filado outra vez no
+meu Príncipe, que levava para os cantos mais solitários, em conversas
+profundas, que o seu dedo solene, espetado, sublinhava gravemente. Mas
+a tia Albergaria gritou que já chovia;--e então foi uma pressa das
+senhoras, que beijocavam vivamente a tia Vicência, enquanto os homens,
+na antecâmara, enfiavam açodadamente os paletós.
+
+Jacinto e eu descemos ao pátio para acompanhar aquela debandada,--e
+uma a uma, a traquitana do Dr. Alípio, a vitória das Albergarias, a
+velha e imensa caleche dos Velosos, rolaram sob a noite, entre os
+nossos desejos de boa jornada. Por fim D. Teotónio calçou as luvas
+pretas e entrou para a sua caleche, dizendo a Jacinto:
+
+--Pois, primo e amigo, Deus permita que, do nosso encontro, e do mais
+que se passar, algum bem resulte a esta terra!
+
+Subindo a escada, o meu Príncipe desabafou:
+
+--Este Teotónio é extraordinário! Sabes o que descobri por fim?... Que
+me toma por um miguelista, e imagina que eu vim para Tormes preparar a
+restauração de D. Miguel?!
+
+--E tu?
+
+--Eu fiquei tão espantado, que nem o desiludi!
+
+--Pois sabe mais, meu pobre amigo. Todos pensam o mesmo, estão
+desconfiados, e receiam ver de novo erguidas as forcas em Guiães! E
+corre que tu tens o Príncipe D. Miguel escondido em Tormes, disfarçado
+em criado. E sabes quem ele é? o Baptista!
+
+--Isso é sublime! murmurou Jacinto, com uns grandes olhos abertos.
+
+Na sala, a tia Vicência nos esperava desconsolada, entre todas as luzes,
+que ardiam ainda no silêncio e paz do serão debandado:
+
+--Ora uma coisa assim! Nem quererem ficar para tomar um copinho de
+geleia, um cálice de vinho do Porto!
+
+--Esteve tudo muito desanimado, tia Vicência! exclamei desafogando o meu
+tédio. Todo esse mulherio emudeceu; os amigos com um ar desconfiado...
+
+Jacinto protestou, muito divertido, muito sincero:
+
+Não! pelo contrário. Gostei imenso. Excelente gente! E tão simples...
+Todas estas raparigas me pareceram óptimas. E tão frescas, tão alegres!
+Vou ter aqui bons amigos, quando verificarem que não sou miguelista.
+
+Então contámos à tia Vicência a prodigiosa história de D. Miguel
+escondido em Tormes... Ela ria! Que coisa! E mau seria...
+
+--Mas o Sr. Jacinto, não é?
+
+--Eu, minha senhora, sou socialista...
+
+Acudi, explicando à tia Vicência, que socialista era ser pelos pobres. A
+doce senhora considerava esse partido o melhor, o verdadeiro:
+
+--O meu Afonso, que Deus haja, era liberal... Meu pai, também e até
+amigo do Duque da Terceira...
+
+Mas um rude trovão rolou, atroou a noite negra:--e uma bátega de água
+cantou nos vidros, e nas pedras da varanda.
+
+--Santa Bárbara! gritou a tia Vicência! Ai aquela pobre gente!... Até
+estou com cuidado... As Rojões, que vão na vitória!
+
+E correu para o quarto, na sua pressa de acender as duas velas
+costumadas no oratório, ainda antes de ir guardar as pratas, e rezar o
+terço, com a Gertrudes.
+
+
+
+
+XIV
+
+
+Ao outro dia, depois de almoço, eu e Jacinto montámos a cavalo para um
+grande passeio até à Flor da Malva, a saber de meu tio Adrião, e do seu
+furúnculo. E sentia uma curiosidade interessada, e até inquieta, de
+testemunhar a impressão que daria ao meu Príncipe aquela nossa prima
+Joaninha, que era o orgulho da nossa casa. Já nessa manhã, andando
+todos no jardim a escolher uma bela rosa-chá para a botoeira do meu
+Príncipe, a tia Vicência celebrara com tanto fervor a beleza, a graça,
+a caridade, e a doçura da sua sobrinha toda-amada, que eu protestei:
+
+--Oh! tia Vicência, olhe que esses elogios todos competem apenas à
+Virgem Maria! A tia Vicência está a cair em pecado de idolatria! O
+Jacinto depois vai encontrar uma criatura apenas humana, e tem um
+desapontamento tremendo!
+
+E agora, trotando pela fácil estrada de Sandofim, lembrava-me aquela
+manhã, no 202, em que Jacinto encontrara o retrato dela no meu
+quarto, e lhe chamara uma _lavradeirona_. Com efeito, era grande e
+forte a Joaninha. Mas a fotografia datava do seu tempo de viço
+rústico, quando ela era apenas uma bela forte e sã planta da serra.
+Agora entrava nos vinte e cinco, e já pensava, e sentia,--e a alma que
+nela se formara, afinara, amaciara, e espiritualizava o seu esplendor
+rubicundo.
+
+A manhã, com o céu todo purificado pela trovoada da véspera, e as terras
+reverdecidas e lavadas pelos chuviscos ligeiros, oferecia uma doçura
+luminosa, fina, fresca, que tornava doce, como diz o velho Eurípedes ou
+o velho Sófocles, mover o corpo, e deixar a alma preguiçar, sem pressa
+nem cuidados. A estrada não tinha sombra, mas o sol batia muito de leve,
+e roçava-nos com uma carícia quase alada. O vale parecia a Jacinto,
+que nunca ali passara, uma pintura da Escola Francesa do século XVIII,
+tão graciosamente nele ondulavam as terras verdes, e com tanta paz e
+frescura corria o risonho Serpão, e tão afáveis e prometedores de
+fartura e contentamento alvejavam os casais nas verduras tenras! Os
+nossos cavalos caminhavam num passo pensativo, gozando também a paz da
+manhã adorável. E não sei, nunca soube, que plantazinhas silvestres e
+escondidas espalhavam um delicado aroma, que eu tantas vezes sentira,
+naquele caminho, ao começar o Outono.
+
+--Que delicioso dia! murmurou Jacinto. Este caminho para a Flor da
+Malva é o caminho do céu... Oh Zé Fernandes, de que é este cheirinho tão
+doce, tão bom?
+
+Eu sorri, com certo pensamento:
+
+--Não sei... É talvez já o cheiro do céu!
+
+Depois, parando o cavalo, apontei com o chicote para o vale:
+
+--Olha, acolá, onde está aquela fila de olmos, e há o riacho, já são
+terras do tio Adrião. Tem ali um pomar, que dá os pêssegos mais
+deliciosos de Portugal... Hei-de pedir à prima Joaninha que te mande um
+cesto deles. E o doce que ela faz com esses pêssegos, menino, é alguma
+coisa de celeste. Também lhe hei-de pedir que te mande o doce.
+
+Ele ria:
+
+--Será explorar de mais a prima Joaninha. E eu (porquê?) recordei e
+atirei ao meu Príncipe estes dois versos de uma balada cavalheiresca,
+composta em Coimbra pelo meu pobre amigo Procópio:
+
+--Manda-lhe um servo querido,
+Bem hajas dona formosa!
+E que lhe entregue um anel
+E com um anel uma rosa.
+
+Jacinto riu alegremente:
+
+--Zé Fernandes, seria excessivo, só por causa de meia dúzia de pêssegos,
+e de um boião de doce.
+
+Assim ríamos, quando apareceu, à volta da estrada, o longo muro da
+quinta dos Velosos, e depois a capelinha de S. José de Sandofim. E
+imediatamente piquei para o largo, para a taverna do Torto, por causa
+daquele vinhinho branco, que sempre, quando por ali a levo, a minha
+alma me pede. O meu Príncipe reprovou, indignado:
+
+--Oh! Zé Fernandes, pois tu, a esta hora, depois de almoço, vais beber
+vinho branco?
+
+--É um costumezinho antigo... Aqui à taverninha do Torto... um
+decilitrozinho... A almazinha assim mo pede.
+
+E parámos; eu gritei pelo Manuel, que apareceu, rebolando a sua grossa
+pança, sobre as pernas tortas, com a infusa verde, e um copo.
+
+--Dois copos, Torto amigo. Que aqui este cavalheiro também aprecia.
+
+Depois de um pálido protesto, o meu Príncipe também quis, mirou o
+límpido e dourado vinho ao sol, provou, e esvaziou o copo, com delícia,
+e um estalinho de alto apreço.
+
+--Delicioso vinho!... Hei-de querer deste vinho em Tormes... É
+perfeito.
+
+--Hein? Fresquinho, leve, aromático, alegrador, todo alma!... Encha lá
+outra vez os copos, amigo Torto. Este cavalheiro aqui é o Sr. D.
+Jacinto, o fidalgo de Tormes.
+
+Então, de trás da ombreira da taverna, uma grande voz bradou, cavamente,
+solenemente:
+
+--Bendito seja o pai dos Pobres!
+
+E um estranho velho, de longos cabelos brancos, barbas brancas, que lhe
+comiam a face cor de tijolo, assomou no vão da porta, apoiado a um
+bordão, com uma caixa de lata a tiracolo, e cravou em Jacinto dois
+olhinhos de um brilho negro, que faiscavam. Era o tio João Torrado, o
+profeta da Serra... Logo lhe estendi a mão, que ele apertou, sem
+despegar de Jacinto os olhos, que se dilatavam mais negros. Mandei vir
+outro copo, apresentei Jacinto, que corara, embaraçado.
+
+--Pois aqui o tem, o senhor de Tormes, que fez por aí todo esse bem à
+pobreza.
+
+O velho atirou para ele bruscamente o braço, que saía cabeludo e
+quase negro, de uma manga muito curta.
+
+--A mão!
+
+E quando Jacinto lha deu, depois de arrancar vivamente a luva, João
+Torrado longamente lha reteve com um sacudir lento e pensativo,
+murmurando:
+
+--Mão real, mão de dar, mão que vem de cima, mão já rara!
+
+Depois tomou o copo, que lhe oferecia o Torto, bebeu com imensa
+lentidão, limpou as barbas, deu um jeito à correia que lhe prendia a
+caixa de lata, e batendo com a ponta do cajado no chão:
+
+--Pois louvado seja nosso Senhor Jesus Cristo, que por aqui me trouxe,
+que não o meu dia, e vi um homem!
+
+Eu então debrucei-me para ele, mais em confidência:
+
+--Mas, ó tio João, ouça cá! Sempre é certo você dizer por aí, pelos
+sítios, que El-Rei D. Sebastião voltara?
+
+O pitoresco velho apoiou as duas mãos sobre o cajado, o queixo
+de espalhada barba sobre as mãos, e murmurava, sem nos olhar, como
+seguindo a percussão dos seus pensamentos:
+
+--Talvez voltasse, talvez não voltasse... Não se sabe quem vai, nem quem
+vem. A gente vê os corpos, mas não vê as almas que estão dentro. Há
+corpos de agora com almas de outrora. Corpo é vestido, alma é pessoa...
+Na feira da Roqueirinha quem sabe com quantos reis antigos se topa,
+quando se anda aos encontrões entre os vaqueiros... Em ruim corpo se
+esconde bom senhor!
+
+E como ele findara num murmúrio, eu, atirando um olhar a Jacinto, e
+para gozarmos aqueles estranhos, pitorescos modos de vidente, insisti:
+
+--Mas, ó tio João, você realmente, em sua consciência, pensa que El-Rei
+D. Sebastião não morreu na batalha?
+
+O velho ergueu para mim a face, que se enrugara numa desconfiança:
+
+--Essas coisas são muito antigas. E não calham bem aqui à porta do
+Torto. O vinho era bom, e V. S.^a tem pressa, meu menino! A flor da Flor
+da Malva lá tem o paizinho doente... Mas o mal já vai pela serra abaixo
+com a inchação às costas. Dá gosto ver quem dá gosto aos tristes. Por
+cima de Tormes há uma estrela clara. E é trotar, trotar, que o dia está
+lindo!
+
+Com a magra mão lançou um gesto para que seguíssemos. E já passávamos o
+cruzeiro quando o seu brado ardente, de novo reboou, com solenidade
+cava:
+
+--Bendito seja o Pai dos Pobres.
+
+Direito, no meio da estrada, erguia o cajado como dirigindo as
+aclamações de um povo. E Jacinto pasmava de que ainda houvesse no reino
+um Sebastianista.
+
+--Todos o somos ainda em Portugal, Jacinto! Na serra ou na cidade cada
+um espera o seu D. Sebastião. Até a lotaria da Misericórdia é uma forma
+do Sebastianismo. Eu todas as manhãs, mesmo sem ser de nevoeiro,
+espreito, a ver se chega o meu. Ou antes a minha, por que eu espero uma
+D. Sebastiana... E tu, felizardo?
+
+--Eu? Uma D. Sebastiana? Estou muito velho, Zé Fernandes... Sou o último
+Jacinto; Jacinto ponto final... Que casa é aquela com os dois
+torreões?
+
+--A Flor da Malva.
+
+Jacinto tirou o relógio:
+
+--São três horas. Gastámos hora e meia... Mas foi um belo passeio, e
+instrutivo. É lindo este sítio.
+
+Sobre um outeirinho, afastada da estrada por arvoredo, que um muro
+cerrava, e dominando, a Flor da Malva voltava para Oriente e para o Sol
+a sua longa fachada com os dois torreões quadrados, onde as janelas, de
+varanda, eram emolduradas em azulejos. O grande portão de ferro, ladeado
+por dois bancos de pedra, ficava ao fundo do terreirinho, onde um
+imenso castanheiro derramava verdura e sombra. Sentado sobre as fortes
+raízes descarnadas da grande árvore, um pequeno esperava segurando um
+burro pela arreata.
+
+--Está por aí o Manuel da Porta?
+
+--Ainda agora subiu pela alameda.
+
+--Bem: empurra lá o portão.
+
+E subimos, por uma curta avenida de velhas árvores, até outro terreiro,
+com um alpendre, uma casa de moços, toda coberta de heras, e uma casota
+de cão, de onde saltou, com um rumor de corrente arrastada, um molosso, o
+Tritão, que eu logo sosseguei fazendo-lhe reconhecer o seu velho amigo Zé
+Fernandes. E o Manuel da Porta correu da fonte, onde enchia um grande
+balde, para nos segurar os cavalos.
+
+--Como está o tio Adrião?
+
+Surdo, o excelente Manuel sorriu, deleitado:
+
+--E então vossa excelência, bem? A Sr.^a D. Joaninha ainda agora
+andava no laranjal com o pequeno da Josefa.
+
+Seguimos por ruazinhas bem areadas, orladas de alfazema e buxo alto,
+enquanto eu contava ao meu Príncipe que aquele pequenito da Josefa era
+um afilhadinho da prima Joana, e agora o seu encanto e o seu cuidado
+todo.
+
+--Esta minha santa prima, apesar de solteira, tem aí pela freguesia uma
+verdadeira filharada. E não é só dar-lhes roupas e presentes, e ajudar
+as mães. Mas até os lava, e os penteia, e lhes trata as tosses. Nunca a
+encontro sem alguma criancita ao colo... Agora anda na paixão deste
+Josezinho.
+
+Mas quando chegámos ao laranjal, à beira da larga rua da quinta que
+levava ao tanque, debalde procurei, e me embrenhei, e até gritei:--Eh,
+prima Joaninha!...
+
+--Talvez esteja lá para baixo, para o tanque...
+
+Descemos a rua, entre árvores, que a cobriam com as densas ramas
+encruzadas. Uma fresca, límpida água de rega corria e luzia num caneiro
+de pedra. Entre os troncos, as roseiras bravas ainda tinham uma frescura
+de Verão. E o pequeno campo, que se avistava para além, rebrilhava com
+doçura, todo amarelo e branco, dos malmequeres e botões de ouro.
+
+O tanque, redondo, fora esvaziado para se lavar, e agora de novo o
+repuxo o ia enchendo de uma água muito clara, ainda baixa, onde os peixes
+vermelhos se agitavam na alegria de recuperarem o seu pequeno oceano.
+Sobre um dos bancos de pedra que circundavam o tanque pousava um cesto
+cheio de dálias cortadas. E um moço, que sobre uma escada podava as
+camélias, vira a Sr.^a D. Joana seguir para o lado da parreira.
+
+Marchámos para a parreira, ainda toda carregada de uva preta. Duas
+mulheres, longe, ensaboavam num lavadouro, na sombra de grandes
+nogueiras. Gritei:--Eh lá? Vocês viram por aí a Sr.^a D. Joana? Uma
+das moças esganiçou a voz, que se perdeu no vasto ar luminoso e doce.
+
+--Bem: vamos a casa! Não podemos farejar assim, toda a tarde.
+
+--É uma bela quinta, murmurava o meu Príncipe encantado.
+
+--Magnífica! E bem tratada... O tio Adrião tem um feitor excelente...
+Não é o teu Melchior. Observa, aprende, lavrador! Olha aquele
+cebolinho!
+
+Passámos pela horta, uma horta ajardinada, como a sonhara o meu
+Príncipe, com os seus talhões debruados de alfazema, e madressilva
+enroscada nos pilares de pedra, que faziam ruazinhas frescas toldadas de
+parra densa. E demos volta à capela, onde crescia aos dois lados da
+porta uma roseira-chá, com uma rosa única, muito aberta, e uma moita de
+baunilha, onde Jacinto apanhou um raminho para cheirar. Depois entrámos
+no terraço em frente da casa, com a sua balaustrada de pedra, toda
+enrodilhada de jasmineiros amarelos. A porta envidraçada estava aberta:
+e subimos pela escadaria de pedra, no imenso silêncio em que toda a
+Flor da Malva repousava, até à antecâmara, de altos tectos apainelados,
+com longos bancos de pau, onde desmaiavam na sua velha pintura as
+complicadas armas dos Cerqueiras. Empurrei a porta de uma outra sala, que
+tinha as janelas da varanda abertas, cada uma com a gaiola de um
+canário.
+
+--É curioso!--exclamou Jacinto. Parece o meu Presépio... E as minhas
+cadeiras.
+
+E com efeito. Sobre uma cómoda antiga, com bronzes antigos, pousava um
+presépio semelhante ao da livraria de Jacinto. E as cadeiras de couro
+lavrado tinham, como as que ele descobrira no sótão, umas armas sob um
+chapéu de Cardeal.
+
+--Oh senhores! exclamei. Não haverá um criado?
+
+Bati as mãos, fortemente. E o mesmo doce silêncio permaneceu, muito
+largo, todo luminoso e arejado pelo macio ar da quinta, apenas cortado
+pelo saltitar dos canários nos poleiros das gaiolas.
+
+--É o Palácio da Bela Adormecida no bosque! murmurou Jacinto, quase
+indignado. Dá um berro!
+
+--Não, caramba! Vou lá dentro!
+
+Mas, à porta, que de repente se abriu, apareceu minha prima Joaninha,
+corada do passeio e do vivo ar, com um vestido claro um pouco aberto no
+pescoço, que fundia mais docemente, numa larga claridade, o esplendor
+branco da sua pele, e o louro ondeado dos seus belos
+cabelos,--lindamente risonha, na surpresa que alargava os seus largos,
+luminosos olhos negros, e trazendo ao colo uma criancinha, gorda e
+cor-de-rosa, apenas coberta com uma camisinha, de grandes laços azuis.
+
+E foi assim que Jacinto, nessa tarde de Setembro, na Flor da Malva,
+viu aquela com quem casou em Maio, na capelinha de azulejos, quando o
+grande pé de roseira se cobrira todo de rosas.
+
+
+
+
+XV
+
+
+E agora, entre roseiras que rebentam, e vinhas que se vindimam, já cinco
+anos passaram sobre Tormes e a Serra. O meu Príncipe já não é o último
+Jacinto, Jacinto ponto final--porque naquele solar que decaíra,
+correm agora, com soberba vida, uma gorda e vermelha Teresinha, minha
+afilhada, e um Jacintinho, senhor muito da minha amizade. E, pai de
+família, principiara a fazer-se monótono, pela perfeição da beleza
+moral, aquele homem tão pitoresco pela inquietação filosófica, e
+pelos variados tormentos da fantasia insaciada. Quando ele agora, bom
+sabedor das coisas da lavoura, percorria comigo a quinta, em sólidas
+palestras agrícolas, prudentes e sem quimeras--eu quase lamentava esse
+outro Jacinto que colhia uma teoria em cada ramo de árvore, e riscando
+o ar com a bengala, planeava queijeiras de cristal e porcelana, para
+fabricar queijinhos que custariam duzentos mil réis cada um!
+
+Também a paternidade lhe despertara a responsabilidade. Jacinto possuía
+agora um caderno de contas, ainda pequeno, rabiscado a lápis, com
+falhas, e papeluchos soltos entremeados, mas onde as suas despesas, as
+suas rendas se alinhavam, como duas hostes disciplinadas. Visitara já as
+suas propriedades de Montemor, da Beira; e concertava, mobilava as
+velhas casas dessas propriedades para que os seus filhos, mais tarde,
+crescidos, encontrassem «ninhos feitos». Mas onde eu reconheci que
+definitivamente um perfeito e ditoso equilíbrio se estabelecera na alma
+do meu Príncipe, foi quando ele, já sabido daquele primeiro e ardente
+fanatismo da Simplicidade--entreabriu a porta de Tormes à Civilização.
+Dois meses antes de nascer a Teresinha, uma tarde, entrou pela avenida
+de plátanos uma chiante e longa fila de carros, requisitados por toda a
+freguesia, e acuculados de caixotes. Eram os famosos caixotes, por tanto
+tempo encalhados em Alba de Tormes, e que chegavam, para despejar a
+Cidade sobre a Serra. Eu pensei:--Mau! o meu pobre Jacinto teve uma
+recaída! Mas os confortos mais complicados, que continha aquela
+caixotaria temerosa, foram, com surpresa minha, desviados para os sótãos
+imensos, para o pó da inutilidade: e o velho solar apenas se regalou
+com alguns tapetes sobre os seus soalhos, cortinas pelas janelas
+desabrigadas, e fundas poltronas, fundos sofás, para que os repousos,
+por que ele suspirara, fossem mais lentos e suaves. Atribuí esta
+moderação a minha prima Joaninha, que amava Tormes na sua nudez rude.
+Ela jurou que assim o ordenara o seu Jacinto. Mas, decorridas semanas,
+tremi. Aparecera, vindo de Lisboa, um contramestre, com operários, e
+mais caixotes, para instalar um telefone!
+
+--Um telefone, em Tormes, Jacinto?
+
+O meu Príncipe explicou, com humildade:
+
+--Para casa de meu sogro!... Bem vês.
+
+--Era razoável e carinhoso. O telefone porém, subtilmente, mudamente,
+estendeu outro longo fio, para Valverde. E Jacinto, alargando os
+braços, quase suplicante:
+
+--Para casa do médico. Compreendes...
+
+Era prudente. Mas, certa manhã, em Guiães, acordei aos berros da tia
+Vicência! Um homem chegara, misterioso, com outros homens, trazendo
+arame, para instalar na nossa casa o novo invento. Sosseguei a tia
+Vicência, jurando que essa máquina nem fazia barulho, nem trazia
+doenças, nem atraía as trovoadas. Mas corri a Tormes. Jacinto sorriu,
+encolhendo os ombros:
+
+--Que queres? Em Guiães está o boticário, está o carniceiro... E,
+depois, estás tu!
+
+Era fraternal. Todavia pensei: Estamos perdidos! Dentro de um mês temos a
+pobre Joana a apertar o vestido por meio de uma máquina! Pois não! o
+Progresso, que, à intimação de Jacinto, subira a Tormes a estabelecer
+aquela sua maravilha, pensando talvez que conquistara mais um reino
+para desfear, desceu, silenciosamente, desiludido, e não avistámos mais
+sobre a serra a sua hirta sombra cor de ferro e de fuligem. Então
+compreendi que, verdadeiramente, na alma de Jacinto se estabelecera o
+equilíbrio da vida, e com ele a Grã-Ventura, de que tanto tempo ele
+fora o Príncipe sem Principado. E uma tarde, no pomar, encontrando o
+nosso velho Grilo, agora reconciliado com a serra, desde que a serra
+lhe dera meninos para trazer às cavaleiras, observei ao digno preto,
+que lia o seu _Figaro_, armado de imensos óculos redondos:
+
+--Pois, Grilo, agora realmente bem podemos dizer que o Sr. D. Jacinto
+está firme.
+
+O Grilo arredou os óculos para a testa, e levantando para o ar os cinco
+dedos em curva como pétalas de uma tulipa:
+
+--S. Ex.^a brotou!
+
+Profundo sempre o digno preto! Sim! Aquele ressequido galho de Cidade,
+plantado na serra, pegara, chupara o húmus do torrão herdado, criara
+seiva, afundara raízes, engrossara de tronco, atirara ramos, rebentara
+em flores, forte, sereno, ditoso, benéfico, nobre, dando frutos,
+derramando sombra. E abrigados pela grande árvore, e por ela nutridos,
+cem casais em redor a bendiziam.
+
+
+
+
+XVI
+
+
+Muitas vezes Jacinto, durante esses anos, falara com prazer num
+regresso de dois, três meses, ao 202, para mostrar Paris à prima
+Joaninha. E eu seria o companheiro fiel, para arquivar os espantos da
+minha serrana ante a Cidade! Depois conveio em esperar que o Jacintinho
+completasse dois anos, para poder jornadear sem desconforto, e
+apontando já com o seu dedo para as coisas da Civilização. Mas, quando
+ele, em Outubro, fez esses dois anos desejados, a prima Joaninha
+sentiu uma preguiça imensa, quase aterrada, do comboio, do estridor da
+Cidade, do 202, e dos seus esplendores. «Estamos aqui tão bem! está um
+tempo tão lindo!» murmurava, deitando os braços, sempre deslumbrada, ao
+rijo pescoço do seu Jacinto. Ele desistia logo de Paris, encantado.
+«Vamos para Abril, quando os castanheiros dos Campos Elísios estiverem
+em flor!» Mas em Abril vieram aqueles cansaços que imobilizavam a
+prima Joaninha no divã, ditosa, risonha, com umas pintas na pele, e o
+roupão mais solto. Por todo um longo ano estava desfeita a alegre
+aventura. Eu andava então sofrendo de desocupação. As chuvas de Março
+prometiam uma farta colheita. Uma certa Ana Vaqueira, corada e bem
+feita, viúva, que surtia as necessidades do meu coração, partira com o
+irmão para o Brasil, onde ele dirigia uma venda. Desde o Inverno,
+sentia também no corpo como um começo de ferrugem, que o emperrava, e,
+certamente, algures, na minha alma, nascera uma pontinha de bolor.
+Depois a minha égua morreu... Parti eu para Paris.
+
+Logo em Hendaia, apenas pisei a doce terra de França, o meu pensamento,
+como pombo a um velho pombal, voou ao 202,--talvez por eu ver um enorme
+cartaz em que uma mulher nua, com flores bacânticas nas tranças, se
+estorcia, segurando numa das mãos uma garrafa espumante, e brandindo na
+outra, para o anunciar ao Mundo, um novo modelo de saca-rolhas. E oh
+surpresa! eis que, logo adiante, na estação quieta e clara de Saint
+Jean-de-Luz, um moço esbelto, de perfeita elegância, entra vivamente no
+meu compartimento, e, depois de me encarar, grita:
+
+--Eh, Fernandes!
+
+Marizac! O duque de Marizac! Era já o 202... Com que reconhecimento lhe
+sacudi a mão fina, por ele me ter reconhecido! E, atirando para o canto
+do vagão um paletó, um maço de jornais, que o escudeiro lhe passara, o
+bom Marizac exclamava na mesma surpresa alegre:
+
+--E Jacinto?
+
+Contei Tormes, a serra, o seu primeiro amor pela Natureza, o seu outro
+grande amor por minha prima, e os dois filhos, que ele trazia
+escarranchados no pescoço.
+
+--Ah que canalha! exclamou Marizac com os olhos espetados em mim! É
+capaz de ser feliz!
+
+--Espantosamente, loucamente... Qual! não há advérbios...
+
+--Indecentemente--murmurou Marizac muito sério. Que canalha!
+
+Eu então desejei saber do nosso rancho familiar do 202. Ele encolheu os
+ombros, acendendo a cigarette:
+
+--Todo esse mundo circula...
+
+--Madame d'Oriol?
+
+--Continua.
+
+--Os Trèves? o Efraim?
+
+--Continuam, todos três.
+
+Lançou um gesto lânguido.
+
+--Durante cinco anos, em Paris, tudo continua... As mulheres com um
+pouco mais de pós de arroz, e a pele um pouco mais mole, e melada. Os
+homens com um tanto mais de dispepsia. E tudo segue. Tivemos os
+Anarquistas. A princesa de Carman abalou com um acrobata do Circo de
+Inverno... E--e voilà!
+
+--Dornan?
+
+--Continua... Não o encontrei mais desde o 202. Mas vejo às vezes o nome
+dele, no _Boulevard_, com versos preciosos, obscenidades muito
+apuradas, muito subtis.
+
+--E o Psicólogo?... Ora, como se chamava ele?...
+
+--Continua também. Sempre com as feminices a três francos e cinquenta...
+Duquesas em camisa, almas nuas... Coisas que se vendem bem!
+
+Mas quando eu, encantado, ia indagar de Todelle, do Grão-Duque, o
+comboio entrou na estação de Biarritz:--e rapidamente, apanhando o
+paletó e os jornais, depois de me apertar a mão, o delicioso Marizac
+saltou pela portinhola, que o seu criado abrira, gritando:
+
+--Até Paris!... Sempre rue Cambori.
+
+Então, no compartimento solitário, bocejei, com uma estranha sensação de
+monotonia, de saciedade, como cercado já de gentes muito vistas,
+murmurando histórias muito sabidas, e coisas muito ditas, através de
+sorrisos estafados. Dos dois lados do comboio era a longa planície
+monótona, sem variedade, muito miudamente cultivada, muito miudamente
+retalhada, de um verde de reseda, verde cinzento e apagado, onde nenhum
+lampejo, nem tom alegre de flor, nem acidente do solo, desmanchavam a
+mediocridade discreta e ordeira. Pálidos choupos, em renques pautados e
+finos, bordavam canaizinhos muito direitos e claros. Os casais, todos da
+mesma cor pardacenta, mal se elevavam do solo, mal se destacavam da
+verdura desbotada, como encolhidos na sua mediocridade e cautela. E o
+céu, por cima, liso, sem uma nuvem, com um sol descorado, parecia um
+vasto espelho muito lavado a grande água, até que de todo se lhe safasse
+o esmalte e o brilho. Adormeci numa doce insipidez.
+
+Com que linda manhã de Maio entrei em Paris! Tão fresca e fina, e já
+macia, que, apesar de cansado, mergulhei com repugnância no profundo,
+sombrio leito do Grand-Hotel, todo fechado de espessos veludos, grossos
+cordões, pesadas borlas, como um palanque de gala. Nessa profunda cova
+de penas sonhei que em Tormes se construíra uma Torre Eiffel e que em
+volta dela as senhoras da Serra, as mais respeitáveis, a própria tia
+Albergaria, dançavam, nuas, agitando no ar saca-rolhas imensos. Com as
+comoções deste pesadelo, e depois o banho, e o desemalar da mala, já
+se acercavam as duas horas quando enfim emergi do grande portão, pisei,
+ao cabo de cinco anos, o Boulevard. E imediatamente me pareceu que
+todos esses cinco anos eu ali permanecera à porta do Grand-Hotel, tão
+estafadamente conhecido me era aquele estridente rolar da cidade, e as
+magras árvores, e as grossas tabuletas, e os imensos chapéus emplumados
+sobre tranças pintadas de amarelo, e as empertigadas sobrecasacas com
+grossas rosetas da legião de honra, e os garotos, em voz rouca e baixa,
+oferecendo baralhos de cartas obscenas, caixas de fósforos
+obscenas... Santo Deus! pensei, há que anos eu estou em Paris! Comprei
+então, num quiosque, um jornal, a Voz de Paris, para que ele me
+contasse, durante o almoço, as novas da Cidade. A mesa do quiosque
+desaparecia, alastrada de jornais ilustrados:--e em todos se repetia a
+mesma mulher, sempre nua, ou meia despida, ora mostrando as costelas
+magras, de gata faminta, ora voltando para o Leitor duas tremendas
+nádegas... Eu outra vez murmurei:--Santo Deus! No Café da Paz, o criado
+lívido, e com um resto de pó de arroz sobre a sua lividez, aconselhou ao
+meu apetite, por ser tão tarde, um linguado frito e uma costeleta.
+
+--E que vinho, Sr. Conde?
+
+--Chablis, Sr. Duque!
+
+Ele sorriu à minha deliciosa pilhéria,--e eu abri, contente, a Voz de
+Paris. Na primeira coluna, através de uma prosa muito retorcida, toda em
+brilhos de jóia barata, entrevi uma Princesa nua, e um Capitão de
+Dragões, que soluçava. Saltei a outras colunas, onde se contavam feitos
+de cocottes de nomes sonoros. Na outra página escritores eloquentes
+celebravam vinhos digestivos e tónicos. Depois eram os crimes do
+costume.--Não há nada de novo! Pus de parte a Voz de Paris,--e então
+foi, entre mim e o linguado, uma luta pavorosa. O miserável, que se
+frigira rancorosamente contra mim, não consentia que eu descolasse da
+sua espinha uma febra escassa. Todo ele se ressequira numa sola
+impenetrável e tostada, onde a faca vergava, impotente e trémula. Gritei
+pelo moço lívido, o qual, com faca mais rija, fincando no soalho os
+sapatos de fivela, arrancou enfim àquele malvado duas tirinhas, finas
+e curtas como palitos, que engoli juntas, e me esfomearam. De uma garfada
+findei a costeleta. E paguei quinze francos com um bom luís de ouro. No
+troco, que o moço me deu, com a polidez requintada de uma civilização
+muito difundida, havia dois francos falsos. E por aquela doce tarde de
+Maio saí para tomar no terraço um café cor de chapéu coco, que sabia a
+fava.
+
+Com o charuto aceso contemplei o Boulevard, àquela hora em toda a
+pressa e estridor da sua grossa sociabilidade. A densa torrente dos
+ónibus, calhambeques, carroças, parelhas de luxo, rolava vivamente,
+como toda uma escura humanidade formigando entre patas e rodas, numa
+pressa inquieta. Aquele movimento continuado e rude bem depressa
+entonteceu este espírito, por cinco anos afeito à quietação das serras
+imutáveis. Tentava então, puerilmente, repousar nalguma forma imóvel,
+ónibus parado, fiacre que estacara, num brusco escorregar da pileca:
+mas logo algum dorso apressado se encafuava pela portinhola da tipóia,
+ou um cacho de figuras escuras trepava sofregamente para o ónibus:--e,
+rápido, recomeçava o rolar retumbante. Imóveis, de certo, estavam os
+altos prédios hirtos, ribas de pedra e cal, que continham,
+disciplinavam, aquela torrente ofegante. Mas da rua aos telhados, em
+cada varanda, por toda a fachada, eram tabuletas encimando tabuletas,
+que outras tabuletas apertavam:--e mais me cansava o perceber a tenaz
+incessância do trabalho latente, a devorante canseira do lucro,
+arquejante por trás das frontarias decorosas e mudas. Então, enquanto
+fumava o meu charuto, estranhamente se apossaram de mim os sentimentos
+que Jacinto outrora experimentara no meio da Natureza, e que tanto me
+divertiam. Ali, à porta do café, entre a indiferença e a pressa da
+Cidade, também eu senti, como ele no campo, a vaga tristeza da minha
+fragilidade e da minha solidão. Bem certamente estava ali como perdido
+num mundo, que me não era fraternal. Quem me conhecia? Quem se
+interessaria por Zé Fernandes? Se eu sentisse fome, e o confessasse,
+ninguém me daria metade do seu pão. Por mais aflitamente que a minha
+face revelasse uma angústia, ninguém na sua pressa pararia para me
+consolar. De que me serviriam também as excelências de alma, que só na
+alma florescem? Se eu fosse um santo, aquela turba não se importaria
+com a minha santidade; e se eu abrisse os braços e gritasse, ali no
+Boulevard--«ó homens, meus irmãos!» os homens, mais ferozes que o lobo
+ante o Pobrezinho de Assis, ririam e passariam indiferentes. Dois
+impulsos únicos, correspondendo a duas funções únicas, parecia estarem
+vivos naquela multidão,--o lucro e o gozo. Isolada entre eles, e ao
+contágio ambiente da sua influência, em breve a minha alma se
+contrairia, se tornaria num duro calhau de Egoísmo. Do ser que eu
+trouxera da Serra só restaria em pouco tempo esse calhau, e nele,
+vivos, os dois apetites da Cidade,--encher a bolsa, saciar a carne! E
+pouco a pouco as mesmas exagerações de Jacinto perante a Natureza me
+invadiam perante a Cidade. Aquele Boulevard ressumava para mim um bafo
+mortal, extraído dos seus milhões de micróbios. De cada porta me
+parecia sair um ardil para me roubar. Em cada face, avistada à
+portinhola de um fiacre, suspeitava um bandido em manobra. Todas as
+mulheres me pareciam caiadas como sepulcros, tendo só podridão por
+dentro. E considerava de uma melancolia funambulesca as formas de toda
+aquela Multidão, a sua pressa áspera e vã, a afectação das atitudes,
+as imensas plumas das chapeletas, as expressões postiças e falsas, a
+pompa dos peitos alteados, o dorso redondo dos velhos olhando as imagens
+obscenas das vitrinas. Ah! tudo isto era pueril, quase cómico da minha
+parte, mas é o que eu sentia no Boulevard, pensando na necessidade de
+remergulhar na Serra, para que ao seu puro ar se me despegasse a crosta
+da Cidade, e eu ressurgisse humano, e Zé-Fernândico!
+
+Então, para dissipar aquele pesadume de solidão, paguei o café e parti,
+lentamente, a visitar o 202. Ao passar na Madalena, diante da estação
+dos ónibus, pensei:--Que será feito de Madame Colombe? E, oh miséria!
+pelo meu miserável ser subiu uma curta e quente baforada de desejo bruto
+por aquela besta suja e magra! Era o charco onde eu me envenenara, e
+que me envolvia nas emanações subtis do seu veneno. Depois, ao dobrar da
+rue Royale para a Praça da Concórdia, topei com um robusto e possante
+homem, que estacou, ergueu o braço, ergueu o vozeirão, num modo de
+comando:
+
+--Eh, Fernandes!
+
+O Grão-Duque! O belo Grão-Duque, de jaquetão alvadio e chapéu tirolês
+cor de mel! Apertei com gratidão reverente a mão do Príncipe, que me
+reconhecera.
+
+--E Jacinto? Em Paris?...
+
+Contei Tormes, a serra, o rejuvenescimento do nosso amigo entre a
+Natureza, a minha doce prima, e os bravos pequenos, que ele trazia às
+cavaleiras. O Grão-Duque encolheu os ombros, desolado:
+
+--Oh lá, lá, lá!... Peuh! Casado, na aldeia, com filharada... Homem
+perdido! Ora não há!... E um rapaz útil! que nos divertia, e tinha
+gosto! Aquele jantar cor-de-rosa foi uma festa linda... Não se fez, não
+se tornou a fazer nada tão brilhante em Paris... E Madame d'Oriol...
+Ainda há dias a vi no Palácio de Gelo... Potável, mulher ainda muito
+potável... Não é todavia o meu género... Adocicada, leitosa, pomadada,
+neve à la vanille!... Ora esse Jacinto!...
+
+--E Vossa Alteza, em Paris com demora?
+
+O formidável homem baixou a face, franzida e confidencial:
+
+--Nenhuma. Paris não se aguenta... Está estragado, positivamente
+estragado... Nem se come! Agora é o Ernest, da Praça Gaillon, o Ernest,
+que era maitre-d'hotel do Maire... Já lá comeu? Um horror. Tudo é o
+Ernest, agora! Onde se come? No Ernest. Qual! Ainda esta manhã lá
+almocei... Um horror! Uma salada Chambord... palhada, indecentemente
+palhada! Não tem, não tem a noção da salada! Paris foi! Teatros, uma
+estopada. Mulheres, hui! Lambidas todas. Não há nada! Ainda assim, num
+dos teatritos de Montmartre, na Roulotte, está uma revista, que se vê:
+_Para cá as mulheres_!--engraçada, bem despida... A Celestine tem uma
+cantiga, meia sentimental, meia porca, o _Amor no Water-Closet_, que
+diverte, tem topete... Onde está, Fernandes?
+
+--No Grand-Hotel, meu senhor.
+
+--Que barraca!... E o seu Rei sempre bom?
+
+Curvei a cabeça:
+
+--Sua Majestade, bem.
+
+--Estimo! Pois, Fernandes, tive prazer... Esse Jacinto é que me desola!
+Vá vêr a Revista... Boas pernas, a Celestine... E tem graça o tal _Amor
+no Water-Closet_.
+
+Um rijíssimo aperto de mão,--e S. Alteza subiu pesadamente para a
+vitória, ainda com um aceno amável, que me penhorou... Excelente
+homem, este Grão-Duque! Mais reconciliado com Paris, atravessei para os
+Campos Elísios. Em toda a sua nobre e formosa largueza, toda verde, com
+os castanheiros em flor, corriam, subindo, descendo, velocípedes. Parei
+a contemplar aquela fealdade nova, estes inumeráveis espinhaços
+arqueados, e gâmbias magras, agitando-se desesperadamente sobre duas
+rodas. Velhos gordos, de cachaço escarlate, pedalavam, gordamente.
+Galfarros esguios, de tíbias descarnadas, fugiam numa linha esfuziada.
+E as mulheres, muito pintadas, de bolero curto, calções bufantes,
+giravam, mais rapidamente ainda, no prazer equívoco da carreira,
+escarranchadas em hastes de ferro. E a cada instante outras medonhas
+máquinas passavam, vitórias e faétons a vapor, com uma complicação de
+tubos e caldeiras, torneiras e chaminés, rolando numa trepidação
+estridente e pesada, espalhando um grosso fedor de petróleo. Segui para
+o 202, pensando no que diria um grego do tempo de Fídias, se visse esta
+nova beleza e graça do caminhar humano!...
+
+No 202, o porteiro, o velho Vian, quando me reconheceu, mostrou uma
+alegria enternecedora. Não se fartou de saber do casamento de Jacinto,
+e daqueles queridos meninos. E era para ele uma felicidade que eu
+aparecesse, justamente quando tudo se andara limpando para a entrada da
+Primavera. Quando penetrei na amada casa senti mais vivamente a minha
+solidão. Não restava em toda ela nem um dos costumados aspectos que
+fizessem reviver a velha camaradagem com o meu Príncipe. Logo na
+antecâmara grandes lonas cobriam as tapeçarias heróicas, e igual lona
+parda escondia os estofos das cadeiras e dos muros, e as largas estantes
+de ébano da Biblioteca, onde os trinta mil volumes, nobremente
+enfileirados como Doutores num Concílio, pareciam separados do mundo
+por aquele pano que sobre eles descera depois de finda a comédia da
+sua força e da sua autoridade. No gabinete de Jacinto, de sobre a mesa
+de escrita, desaparecera aquela confusão de instrumentozinhos, de que
+eu perdera já a memória: e só a Mecânica sumptuosa, por sobre peanhas e
+pedestais, recentemente espanejada, reluzia, com as suas engrenagens,
+tubos, rodas, rigidezes de metais, numa frieza inerte, na inactividade
+definitiva das coisas desusadas, como já dispostas num Museu, para
+exemplificar a instrumentação caduca de um mundo passado. Tentei mover o
+telefone, que se não moveu; a mola da electricidade não acendeu nenhum
+lume: todas as forças universais tinham abandonado o serviço do 202,
+como servos despedidos. E então, passeando através das salas, realmente
+me pareceu que percorria um museu de antiguidades; e que mais tarde
+outros homens, com uma compreensão mais pura e exacta da Vida e da
+Felicidade, percorreriam como eu, longas salas, atulhadas com os
+instrumentos da Super-Civilização, e, como eu, encolheriam
+desdenhosamente os ombros ante a grande Ilusão que findara, agora para
+sempre inútil, arrumada como um lixo histórico, guardada debaixo de
+lona.
+
+Quando saí do 202 tomei um fiacre, subi ao Bosque de Bolonha. E apenas
+rolara momentos pela avenida das Acácias, no silêncio decoroso,
+unicamente cortado pelo tilintar dos freios e pelas rodas vagarosas
+esmagando a areia, comecei a reconhecer as velhas figuras, sempre com o
+mesmo sorriso, o mesmo pó de arroz; as mesmas pálpebras amortecidas, os
+mesmos olhos farejantes, a mesma imobilidade de cera! O romancista da
+_Couraça_ passou numa vitória, fixou em mim o monóculo defumado, mas
+permaneceu indiferente. Os bandós negros de Madame Verghane,
+tapando-lhe as orelhas, pareciam ainda mais furiosamente negros entre a
+harmonia de todo o branco que a vestia, chapéu, plumas, flores, rendas e
+corpete, onde o seu peito imenso se empolava como uma onda. No passeio,
+sob as Acácias, espapado em duas cadeiras, o director do _Boulevard_
+mamava o resto do seu charuto. E num grande landeau, Madame de Trèves
+continuava o seu sorriso de há cinco anos, com duas pregazinhas mais
+moles aos cantos dos lábios secos.
+
+Abalei para o Grand-Hotel, bocejando,--como outrora Jacinto. E findei
+o meu dia de Paris, no Teatro das Variedades, estonteado com uma
+comédia muito fina, muito aclamada, toda faiscante do mais vivo
+parisianismo, em que todo o enredo se enrodilhava à volta de uma Cama,
+onde alternadamente se espojavam mulheres em camisa, sujeitos gordos em
+ceroulas, um coronel com papas de linhaça nas nádegas, cozinheiras de
+meias de seda bordadas, e ainda mais gente, ruidosa e saltitante, a
+esfuziar de cio e de pilhéria. Tomei um chá melancólico no Julien, no
+meio de um áspero e lúgubre namoro de prostitutas, fariscando a presa.
+Em duas delas, de pele oleosa e cobreada, olhos oblíquos, cabelos
+duros e negros como clinas, senti o Oriente, a sua provocação felina...
+Interroguei o criado, um medonho ser, de uma obesidade balofa e lívida,
+de eunuco. O monstro explicou numa voz roufenha e surda:
+
+--Mulheres de Madagáscar... Foram importadas quando a França ocupou a
+ilha!
+
+Arrastei então por Paris dias de imenso tédio. Ao longo do Boulevard
+revi nas vitrinas todo o luxo, que já me enfartara havia cinco anos,
+sem uma graça nova, uma curta frescura de invenção. Nas livrarias, sem
+descobrir um livro, folheava centenas de volumes amarelos, onde, de
+cada página que ao acaso abria, se exalava um cheiro morno de alcova e
+de pós- de-arroz, entre linhas trabalhadas com efeminado arrebique, como
+rendas de camisas. Ao jantar, em qualquer restaurante, encontrava,
+ornando e disfarçando as carnes ou as aves, o mesmo molho, de cores e
+sabores de pomada, que já de manhã, noutro restaurante, espelhado e
+dourejado, me enjoara no peixe e nos legumes. Paguei por grossos preços
+garrafas do nosso adstringente e rústico vinho de Torres, enobrecido
+com o título de Château isto, Château aquilo, e pó postiço no gargalo.
+À noite, nos teatros, encontrava a Cama, a costumada cama, como centro
+e único fim da vida, atraindo, mais fortemente que o monturo atrai
+os moscardos, todo um enxame de gentes, estonteadas, frementes
+de erotismo, zumbindo chacotas senis. Esta sordidez da Planície me levou
+a procurar melhor aragem de espírito nas alturas da Colina, em
+Montmartre; e aí, no meio de uma multidão elegante de Senhoras, de
+Duquesas, de Generais, de todo o alto pessoal da Cidade, eu recebia, do
+alto do palco, grossos jorros de obscenidades, que faziam estremecer de
+gozo as orelhas cabeludas de gordos banqueiros, e arfar com delícia os
+corpetes de Worms e de Doucet, sobre os peitos postiços das nobres
+damas. E recolhia enjoado com tanto relento de Alcova, vagamente
+dispéptico com os molhos de pomada do jantar, e sobretudo descontente
+comigo, por me não divertir, não compreender a Cidade, e errar através
+dela e da sua Civilização Superior, com a reserva ridícula de um
+Censor, de um Catão austero. Oh senhores!--pensava,--pois eu não me
+divertirei nesta deliciosa Cidade? Entrará comigo o bolor da velhice?
+
+Passei as pontes, que separam em Paris o Temporal do Espiritual,
+mergulhei no meu doce Bairro Latino, evoquei, diante de certos cafés, a
+memória da minha Nini; e, como outrora, preguiçosamente, subi as
+escadas da Sorbonne. Num anfiteatro, onde sentira um grosso sussurro,
+um homem magro, com uma testa muito branca e larga, como talhada para
+alojar pensamentos altos e puros, ensinava, falando das instituições da
+Cidade Antiga. Mas, mal eu entrara, o seu dizer elegante e límpido foi
+sufocado por gritos, urros, patadas, um tumulto rancoroso de troça
+bestial, que saía da mocidade apinhada nos bancos, a mocidade das
+Escolas, Primavera sagrada, em que eu fora flor murcha. O Professor
+parou, espalhando em redor um olhar frio, e remexendo as suas notas.
+Quando o grosso grunhido se moderou em sussurro desconfiado, ele
+recomeçou com alta serenidade. Todas as suas ideias eram frias e
+substanciais, expressas numa língua pura e forte; mas, imediatamente,
+rompe uma furiosa rajada de apitos, uivos, relinchos, cacarejos de
+galo, por entre magras mãos, que se estendiam levantadas para
+estrangular as ideias. Ao meu lado um velho, encolhido na alta gola de um
+macfrelane de xadrezes, contemplava o tumulto com melancolia, pingando
+endefluxado. Perguntei ao velho:
+
+--Que querem eles? É embirração com o professor... é política?
+
+O velho abanou a cabeça, espirrando:
+
+--Não... É sempre assim, agora, em todos os cursos... Não querem
+ideias... Creio que queriam cançonetas. É o amor da porcaria e da troça.
+
+Então, indignado, berrei:
+
+--Silêncio, brutos!
+
+E eis que um abortozinho de rapaz, amarelado e sebento, de longas
+melenas, umas enormes lunetas rebrilhantes, se arrebita, me fita, e me
+berra:
+
+--_Sale Maure_!
+
+Ergui o meu grosso punho serrano,--e o desgraçado, numa confusão de
+melenas, com sangue por toda a face, aluiu, como um montão de trapos
+moles, ganindo desesperadamente, enquanto o furacão de uivos e
+cacarejos, guinchos e silvos, envolvia o Professor, que cruzara os
+braços, esperando, com uma serenidade simples.
+
+Desde esse momento decidi abandonar a fastidiosa Cidade; e o único dia
+alegre e divertido que nela passei foi o derradeiro, comprando para os
+meus queridinhos de Tormes brinquedos consideráveis, tremendamente
+complicados pela Civilização,--vapores de aço e cobre, providos de
+caldeiras para viajar em tanques; leões de pele verídica rugindo
+pavorosamente, bonecas vestidas pela Laferrière, com fonógrafo no
+ventre...
+
+Finalmente abalei uma tarde, depois de lançar da minha janela, sobre o
+Boulevard, as minhas despedidas à Cidade:
+
+--Pois adeusinho, até nunca mais! Na lama do teu vício e na poeira da
+tua vaidade, outra vez, não me pilhas! O que tens de bom, que é o teu
+génio, elegante e claro, lá o receberei na Serra pelo correio.
+Adeusinho!
+
+Na tarde do seguinte Domingo, debruçado da janela do comboio, que
+vagarosamente deslizava pela borda do rio lento, num silêncio todo
+feito de azul e sol, avistei, na plataforma da quieta estação da minha
+aldeia, os Senhores de Tormes, com a minha afilhada Teresa, muito
+vermelha, arregalando os seus soberbos olhos, e o bravo Jacintinho, que
+empunhava uma bandeira branca. O alvoroço ditoso com que abracei e
+beijei aquela tribo bem amada conviria perfeitamente a quem voltasse
+vivo de uma guerra distante, na Tartária. Na alegria de recuperar a
+Serra, até beijoquei o chefe Pimentinha, que a estalar de obesidade se
+açodava gritando ao carregador todo o cuidado com as minhas malas.
+
+Jacinto, magnífico, de grande chapéu serrano e jaqueta, de novo me
+abraçou:
+
+--E esse Paris?
+
+--Medonho!
+
+Abri depois os braços para o bravo Jacintinho.
+
+--Então para que é essa bandeira, meu cavaleiro?
+
+--É a bandeira do Castelo! declarou ele, com uma bela seriedade nos
+seus grandes olhos.
+
+A mãe ria. Desde essa manhã, logo que soubera da chegada do Ti-Zé,
+apareceu de bandeira, feita pelo Grilo, e não a largara mais; com ela
+almoçara, com ela descera de Tormes!
+
+--Bravo! E, prima Joaninha, olhe que está magnífica! Eu, também, venho
+daquelas peles meladas de Paris... Mas acho-a triunfal! E o tio
+Adrião, e a tia Vicência?
+
+--Tudo óptimo! gritou Jacinto. A serra, Deus louvado, prospera. E
+agora, para cima! Tu hoje ficas em Tormes. Para contar da Civilização.
+
+No largo por trás da estação, debaixo dos eucaliptos, que revi com
+gosto, esperavam os três cavalos, e dois belos burros brancos, um com
+cadeirinha para a Teresa, outro com um cesto de verga, para meter
+dentro o heróico Jacintinho, um e outro servidos à estribeira por um
+criado. Eu ajudara a prima Joaninha a montar, quando o carregador
+apareceu com um maço de jornais e papéis, que eu esquecera na
+carruagem. Era uma papelada, de que me sortira na Estação de Orleans,
+toda recheada de mulheres nuas, de historietas sujas, de parisianismo,
+de erotismo. Jacinto, que as reconhecera, gritou rindo:
+
+--Deita isso fora!
+
+E eu atirei, para um montão de lixo, ao canto do Pátio, aquele pútrido
+rebotalho da Civilização. E montei. Mas ao dobrar para o caminho
+empinado da serra, ainda me voltei, para gritar adeus ao Pimenta, de
+quem me esquecera. O digno chefe, debruçado sobre o monturo, apanhava,
+sacudia, recolhia com amor aquelas belas estampas, que chegavam de
+Paris, contavam as delícias de Paris, derramavam através do mundo a
+sedução de Paris.
+
+Em fila começámos a subir para a Serra. A tarde adoçava o seu esplendor
+de estio. Uma aragem trazia, como ofertados, perfumes das flores
+silvestres. As ramagens moviam, com um aceno de doce acolhimento, as
+suas folhas vivas e reluzentes. Toda a passarinhada cantava, num
+alvoroço de alegria e de louvor. As águas correntes, saltantes,
+luzidias, despediam um brilho mais vivo, numa pressa mais animada.
+Vidraças distantes de casas amáveis, flamejavam com um fulgor de ouro. A
+serra toda se ofertava, na sua beleza eterna e verdadeira. E, sempre
+adiante da nossa fila, por entre a verdura, flutuava no ar a bandeira
+branca, que o Jacintinho não largava, de dentro do seu cesto, com a
+haste bem segura na mão. Era _a bandeira do Castelo_, afirmara ele.
+
+E na verdade me parecia que, por aqueles caminhos, através da natureza
+campestre e mansa,--o meu Príncipe, atrigueirado nas soalheiras e nos
+ventos da serra, a minha prima Joaninha, tão doce e risonha mãe, os
+dois primeiros representantes da sua abençoada tribo, e eu--, tão longe
+de amarguradas ilusões e de falsas delícias, trilhando um solo eterno,
+e de eterna solidez, com a alma contente, e Deus contente de nós,
+serenamente e seguramente subíamos--para o Castelo da Grã-Ventura!
+
+
+Fim
+
+
+
+
+ADVERTÊNCIA
+
+
+Desde a página 241, até o final, as provas deste livro não foram
+revistas pelo autor, arrebatado pela morte antes de haver dado a esta
+parte da sua escrita aquela última demão, em que habitualmente ele
+punha a diligência mais perseverante e mais admiravelmente lúcida.
+
+Aquele dos seus amigos e companheiro de letras, a quem foi confiado o
+trabalho delicado e piedoso de tocar no manuscrito póstumo de Eça de
+Queirós, ao concluir o desempenho de tal missão, beija com o mais
+enternecido e saudoso respeito a mão, para todo sempre imobilizada, que
+traçou estas páginas encantadoras; e faz votos por que a revisão de que
+se incumbiu não deslustre muito grosseiramente a imortal auréola com
+que ficará resplandecendo na literatura portuguesa este livro, em que o
+espírito do grande escritor parece exalar-se da vida num terno
+suspiro de doçura, de paz, e de puro amor à terra da sua pátria.
+
+24 de Abril de 1901.
+
+
+
+
+*LIVRARIA CHARDRON de Lello & Irmão*
+
+96--CLÉRIGOS--98
+
+
+*Basílio Teles*
+
+O problema agrícola $600
+Estudos históricos e económicos $600
+
+_No prelo:_
+
+Introdução ao problema do trabalho nacional.
+
+
+*Abel Botelho*
+
+O barão de Lavos $800
+O livro de Alda $800
+Sem remédio... $500
+
+_No prelo:_
+
+Amanhã.
+
+
+*José Caldas*
+
+Humildes $400
+Os Jesuítas; a sua influência na actual
+ sociedade portuguesa; meio de a conjurar _no prelo_
+
+
+*Sílvio Romero*
+
+Martins Pena $400
+
+
+*Rebelo da Silva*
+
+Mocidade de D. João V. 1$500
+
+
+*Andrade Corvo*
+
+Um ano na corte 1$500
+
+
+*António C. Lousada*
+
+Rua escura $500
+Na consciência $500
+
+
+*Dumas*
+
+Jorge ou o capitão dos piratas $500
+Três mosqueteiros, 2 volumes 1$000
+
+
+*Lermina*
+
+Filho do Monte Cristo, 2 volumes 1$000
+
+
+*Eugénio Sue*
+
+Mistérios de Paris, 3 volumes cart. 2$000
+
+
+*Zola*
+
+Naná $500
+História da lavadeira Gervásia, 2 vols 1$000
+O Capitão Burle $500
+Ventre de Paris, 2 vols 1$000
+
+
+*Arnaldo Gama*
+
+Caldeira de Pero Botelho $500
+Honra ou loucura $500
+Filho do Baldaia $600
+
+
+*Bruno*
+
+O Brasil mental $800
+Notas do exílio $500
+
+ * * * * *
+
+História da Prostituição 1$800
+
+
+*Camilo Castelo Branco*
+
+Maria da Fonte $500
+Livro de consolação $500
+D. Luís de Portugal $300
+Brasileira de Prazins $500
+Eusébio Macário $500
+Vulcões da lama $500
+Carta de guia de casados $300
+
+
+*Grainha*
+
+Jesuítas $600
+
+
+*Tolstoi*
+
+A Sonata de Kreutzer $400
+
+
+
+
+
+
+
+
+
+
+
+End of Project Gutenberg's A Cidade e as Serras, by José Maria Eça de Queirós
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A CIDADE E AS SERRAS ***
+
+Produced by Manuela Alves and Ricardo F. Diogo; Nota dos transcritores:
+Actualização ortográfica da versão original, já disponível no Project Gutenberg
+
+Updated editions will replace the previous one--the old editions
+will be renamed.
+
+Creating the works from public domain print editions means that no
+one owns a United States copyright in these works, so the Foundation
+(and you!) can copy and distribute it in the United States without
+permission and without paying copyright royalties. Special rules,
+set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to
+copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to
+protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project
+Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you
+charge for the eBooks, unless you receive specific permission. If you
+do not charge anything for copies of this eBook, complying with the
+rules is very easy. You may use this eBook for nearly any purpose
+such as creation of derivative works, reports, performances and
+research. They may be modified and printed and given away--you may do
+practically ANYTHING with public domain eBooks. Redistribution is
+subject to the trademark license, especially commercial
+redistribution.
+
+
+
+*** START: FULL LICENSE ***
+
+THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE
+PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK
+
+To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free
+distribution of electronic works, by using or distributing this work
+(or any other work associated in any way with the phrase "Project
+Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full Project
+Gutenberg-tm License (available with this file or online at
+https://gutenberg.org/license).
+
+
+Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg-tm
+electronic works
+
+1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm
+electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to
+and accept all the terms of this license and intellectual property
+(trademark/copyright) agreement. If you do not agree to abide by all
+the terms of this agreement, you must cease using and return or destroy
+all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your possession.
+If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a Project
+Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the
+terms of this agreement, you may obtain a refund from the person or
+entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8.
+
+1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be
+used on or associated in any way with an electronic work by people who
+agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few
+things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works
+even without complying with the full terms of this agreement. See
+paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project
+Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
+and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
+works. See paragraph 1.E below.
+
+1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
+or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
+Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the
+collection are in the public domain in the United States. If an
+individual work is in the public domain in the United States and you are
+located in the United States, we do not claim a right to prevent you from
+copying, distributing, performing, displaying or creating derivative
+works based on the work as long as all references to Project Gutenberg
+are removed. Of course, we hope that you will support the Project
+Gutenberg-tm mission of promoting free access to electronic works by
+freely sharing Project Gutenberg-tm works in compliance with the terms of
+this agreement for keeping the Project Gutenberg-tm name associated with
+the work. You can easily comply with the terms of this agreement by
+keeping this work in the same format with its attached full Project
+Gutenberg-tm License when you share it without charge with others.
+
+1.D. The copyright laws of the place where you are located also govern
+what you can do with this work. Copyright laws in most countries are in
+a constant state of change. If you are outside the United States, check
+the laws of your country in addition to the terms of this agreement
+before downloading, copying, displaying, performing, distributing or
+creating derivative works based on this work or any other Project
+Gutenberg-tm work. The Foundation makes no representations concerning
+the copyright status of any work in any country outside the United
+States.
+
+1.E. Unless you have removed all references to Project Gutenberg:
+
+1.E.1. The following sentence, with active links to, or other immediate
+access to, the full Project Gutenberg-tm License must appear prominently
+whenever any copy of a Project Gutenberg-tm work (any work on which the
+phrase "Project Gutenberg" appears, or with which the phrase "Project
+Gutenberg" is associated) is accessed, displayed, performed, viewed,
+copied or distributed:
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+1.E.2. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is derived
+from the public domain (does not contain a notice indicating that it is
+posted with permission of the copyright holder), the work can be copied
+and distributed to anyone in the United States without paying any fees
+or charges. If you are redistributing or providing access to a work
+with the phrase "Project Gutenberg" associated with or appearing on the
+work, you must comply either with the requirements of paragraphs 1.E.1
+through 1.E.7 or obtain permission for the use of the work and the
+Project Gutenberg-tm trademark as set forth in paragraphs 1.E.8 or
+1.E.9.
+
+1.E.3. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is posted
+with the permission of the copyright holder, your use and distribution
+must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any additional
+terms imposed by the copyright holder. Additional terms will be linked
+to the Project Gutenberg-tm License for all works posted with the
+permission of the copyright holder found at the beginning of this work.
+
+1.E.4. Do not unlink or detach or remove the full Project Gutenberg-tm
+License terms from this work, or any files containing a part of this
+work or any other work associated with Project Gutenberg-tm.
+
+1.E.5. Do not copy, display, perform, distribute or redistribute this
+electronic work, or any part of this electronic work, without
+prominently displaying the sentence set forth in paragraph 1.E.1 with
+active links or immediate access to the full terms of the Project
+Gutenberg-tm License.
+
+1.E.6. You may convert to and distribute this work in any binary,
+compressed, marked up, nonproprietary or proprietary form, including any
+word processing or hypertext form. However, if you provide access to or
+distribute copies of a Project Gutenberg-tm work in a format other than
+"Plain Vanilla ASCII" or other format used in the official version
+posted on the official Project Gutenberg-tm web site (www.gutenberg.org),
+you must, at no additional cost, fee or expense to the user, provide a
+copy, a means of exporting a copy, or a means of obtaining a copy upon
+request, of the work in its original "Plain Vanilla ASCII" or other
+form. Any alternate format must include the full Project Gutenberg-tm
+License as specified in paragraph 1.E.1.
+
+1.E.7. Do not charge a fee for access to, viewing, displaying,
+performing, copying or distributing any Project Gutenberg-tm works
+unless you comply with paragraph 1.E.8 or 1.E.9.
+
+1.E.8. You may charge a reasonable fee for copies of or providing
+access to or distributing Project Gutenberg-tm electronic works provided
+that
+
+- You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from
+ the use of Project Gutenberg-tm works calculated using the method
+ you already use to calculate your applicable taxes. The fee is
+ owed to the owner of the Project Gutenberg-tm trademark, but he
+ has agreed to donate royalties under this paragraph to the
+ Project Gutenberg Literary Archive Foundation. Royalty payments
+ must be paid within 60 days following each date on which you
+ prepare (or are legally required to prepare) your periodic tax
+ returns. Royalty payments should be clearly marked as such and
+ sent to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation at the
+ address specified in Section 4, "Information about donations to
+ the Project Gutenberg Literary Archive Foundation."
+
+- You provide a full refund of any money paid by a user who notifies
+ you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he
+ does not agree to the terms of the full Project Gutenberg-tm
+ License. You must require such a user to return or
+ destroy all copies of the works possessed in a physical medium
+ and discontinue all use of and all access to other copies of
+ Project Gutenberg-tm works.
+
+- You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of any
+ money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
+ electronic work is discovered and reported to you within 90 days
+ of receipt of the work.
+
+- You comply with all other terms of this agreement for free
+ distribution of Project Gutenberg-tm works.
+
+1.E.9. If you wish to charge a fee or distribute a Project Gutenberg-tm
+electronic work or group of works on different terms than are set
+forth in this agreement, you must obtain permission in writing from
+both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael
+Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark. Contact the
+Foundation as set forth in Section 3 below.
+
+1.F.
+
+1.F.1. Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable
+effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread
+public domain works in creating the Project Gutenberg-tm
+collection. Despite these efforts, Project Gutenberg-tm electronic
+works, and the medium on which they may be stored, may contain
+"Defects," such as, but not limited to, incomplete, inaccurate or
+corrupt data, transcription errors, a copyright or other intellectual
+property infringement, a defective or damaged disk or other medium, a
+computer virus, or computer codes that damage or cannot be read by
+your equipment.
+
+1.F.2. LIMITED WARRANTY, DISCLAIMER OF DAMAGES - Except for the "Right
+of Replacement or Refund" described in paragraph 1.F.3, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project
+Gutenberg-tm trademark, and any other party distributing a Project
+Gutenberg-tm electronic work under this agreement, disclaim all
+liability to you for damages, costs and expenses, including legal
+fees. YOU AGREE THAT YOU HAVE NO REMEDIES FOR NEGLIGENCE, STRICT
+LIABILITY, BREACH OF WARRANTY OR BREACH OF CONTRACT EXCEPT THOSE
+PROVIDED IN PARAGRAPH F3. YOU AGREE THAT THE FOUNDATION, THE
+TRADEMARK OWNER, AND ANY DISTRIBUTOR UNDER THIS AGREEMENT WILL NOT BE
+LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR
+INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH
+DAMAGE.
+
+1.F.3. LIMITED RIGHT OF REPLACEMENT OR REFUND - If you discover a
+defect in this electronic work within 90 days of receiving it, you can
+receive a refund of the money (if any) you paid for it by sending a
+written explanation to the person you received the work from. If you
+received the work on a physical medium, you must return the medium with
+your written explanation. The person or entity that provided you with
+the defective work may elect to provide a replacement copy in lieu of a
+refund. If you received the work electronically, the person or entity
+providing it to you may choose to give you a second opportunity to
+receive the work electronically in lieu of a refund. If the second copy
+is also defective, you may demand a refund in writing without further
+opportunities to fix the problem.
+
+1.F.4. Except for the limited right of replacement or refund set forth
+in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER
+WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO
+WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.
+
+1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied
+warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages.
+If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the
+law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be
+interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by
+the applicable state law. The invalidity or unenforceability of any
+provision of this agreement shall not void the remaining provisions.
+
+1.F.6. INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the
+trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
+providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance
+with this agreement, and any volunteers associated with the production,
+promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works,
+harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
+that arise directly or indirectly from any of the following which you do
+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at https://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit https://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including including checks, online payments and credit card
+donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ https://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
+/ \ No newline at end of file