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Jorge fechou o +volume de Luiz Figuier que estivera folheando devagar, estirado na +velha _voltaire_ de marroquim escuro, espreguiçou-se, bocejou e disse: + +--Tu não te vaes vestir, Luiza? + +--Logo. + +Ficára sentada á mesa, a lêr _o Diario de Noticias_, no seu roupão de +manhã de fazenda preta, bordado a _soutache_, com largos botões de +madreperola; o cabello louro um pouco desmanchado, com um tom secco do +calor do travesseiro, enrolava-se, torcido no alto da cabeça pequenina, +de perfil bonito; a sua pelle tinha a brancura tenra e lactea das +louras: com o cotovêlo encostado á mesa acariciava a orelha, e, no +movimento lento e suave dos seus dedos, dous anneis de rubis miudinhos +davam scintillações escarlates. + +Tinham acabado d'almoçar. + +A sala esteirada, alegrava, com o seu tecto de madeira pintado a +branco, o seu papel claro de ramagens verdes. Era em julho, um +domingo: fazia um grande calor; as duas janellas estavam cerradas, mas +sentia-se fóra o sol faiscar nas vidraças, escaldar a pedra da varanda; +havia o silencio recolhido e somnolento de manhã de missa; uma vaga +_quebreira_ amollentava, trazia desejos de séstas, ou de sombras fôfas +debaixo d'arvoredos, no campo, ao pé d'agua; nas duas gaiolas, entre +as bambinellas de cretone azulado, os canarios dormiam; um zumbido +monotono de moscas arrastava-se por cima da mesa, pousava no fundo das +chavenas sobre o assucar mal derretido, enchia toda a sala d'um rumor +dormente. + +Jorge enrolou um cigarro, e muito repousado, muito fresco na sua camisa +de chita, sem collete, o jaquetão de flanella azul aberto, os olhos +no tecto, pôz-se a pensar na sua jornada ao Alemtejo. Era engenheiro +de minas, no dia seguinte devia partir para Beja, para Evora, mais +para o sul até S. Domingos; e aquella jornada, em julho, contrariava-o +como uma interrupção, affligia-o como uma injustiça. Que massada +por um verão d'aquelles! Ir dias e dias sacudido pelo chouto d'um +cavallo d'aluguel, por esses descampados do Alemtejo que não acabam +nunca, cobertos d'um rastolho escuro, abafados n'um sol baço, onde os +moscardos zumbem! Dormir nos montados, em quartos que cheiram a tijolo +cozido, ouvindo em redor, na escuridão da noite torrida, grunhir as +varas dos porcos! A todo o momento sentir entrar pelas janellas, passar +no ar o bafo quente das queimadas! E só! + +Tinha estado até então no ministerio, em commissão. Era a primeira vez +que se separava de Luiza; e perdia-se já em saudades d'aquella salinha, +que elle mesmo ajudára a forrar de papel novo nas vesperas do seu +casamento, e onde, depois das felicidades da noite, os seus almoços se +prolongavam em tão suaves preguiças! + +E cofiando a barba curta e fina, muito frisada, os seus olhos iam-se +demorando, com uma ternura, n'aquelles moveis intimos, que eram do +tempo da mamã: o velho guarda-louça envidraçado, com as pratas muito +tratadas a gesso-cré, resplandecendo decorativamente; o velho painel a +oleo, tão querido, que vira desde pequeno, onde apenas se percebiam, +n'um fundo lascado, os tons avermelhados de cobre d'um bojo de +cassarola e os rosados desbotados d'um mólho de rabanetes! Defronte, na +outra parede, era o retrato de seu pai: estava vestido á moda de 1830, +tinha a physionomia redonda, o olho luzidio, o beiço sensual; e sobre a +sua casaca abotoada reluzia a commenda de Nossa Senhora da Conceição. +Fôra um antigo empregado do ministerio da fazenda, muito divertido, +grande tocador de flauta. Nunca o conhecera, mas a mamã affirmava-lhe +«que o retrato só lhe faltava fallar». Vivera sempre n'aquella casa com +sua mãi. Chamava-se Isaura: era uma senhora alta, de nariz afilado, +muito apprehensiva; bebia ao jantar agua quente; e ao voltar um dia do +lausperenne da Graça, morrera de repente, sem um ai! + +Physicamente Jorge nunca se parecera com ella. Fôra sempre robusto, +d'habitos viris. Tinha os dentes admiraveis de seu pai, os seus hombros +fortes. + +De sua mãi herdára a placidez, o genio manso. Quando era estudante +na Polytechnica, ás 8 horas recolhia-se, accendia o seu candieiro +de latão, abria os seus compendios. Não frequentava botequins, nem +fazia noitadas. Só duas vezes por semana, regularmente, ia vêr uma +rapariguita costureira, a Euphrasia, que vivia ao Borratem, e nos dias +em que o Brazileiro, o seu homem, ia jogar o boston ao club, recebia +Jorge com grandes cautelas e palavras muito exaltadas; era engeitada, +e no seu corpinho fino e magro havia sempre o cheiro relentado d'uma +pontinha de febre. Jorge achava-a _romanesca_, e censurava-lh'o. Elle, +nunca fôra sentimental: os seus condiscipulos, que liam Alfred de +Musset suspirando e desejavam ter amado Margarida Gautier, chamavam-lhe +_proseirão, burguez_: Jorge ria; não lhe faltava um botão nas camisas, +era muito escarolado, admirava Luiz Figuier, Bastiat e Castilho, tinha +horror a dividas, e sentia-se feliz. + +Quando sua mãi morreu, porém, começou a achar-se só: era no inverno, +e o seu quarto nas trazeiras da casa, ao sul, um pouco desamparado, +recebia as rajadas do vento na sua prolongação uivada e triste; +sobretudo á noite, quando estava debruçado sobre o compendio, os pés no +capacho, vinham-lhe melancolias languidas; estirava os braços, com o +peito cheio d'um desejo; quereria enlaçar uma cinta fina e dôce, ouvir +na casa o frou-frou d'um vestido! Decidiu casar. Conheceu Luiza, no +verão, á noite, no Passeio. Apaixonou-se pelos seus cabellos louros, +pela sua maneira d'andar, pelos seus olhos castanhos muito grandes. No +inverno seguinte foi despachado, e casou. Sebastião, o seu intimo, o +bom Sebastião, o Sebastiarrão, tinha dito, com uma oscillação grave da +cabeça, esfregando vagarosamente as mãos: + +--Casou no ar! casou um bocado no ar! + +Mas Luiza, a Luizinha, sahiu muito boa dona de casa: tinha cuidados +muito sympathicos nos seus arranjos; era aceada, alegre como um +passarinho, como um passarinho amiga do ninho e das caricias do macho: +e aquelle serzinho louro e meigo veio dar á sua casa um encanto serio. + +--É um anjinho cheio de dignidade!--dizia então Sebastião, o bom +Sebastião, com a sua voz profunda de _basso_. + +Estavam casados havia tres annos. Que bom que tinha sido! Elle proprio +melhorára; achava-se mais intelligente, mais alegre... E recordando +aquella existencia facil e dôce, soprava o fumo do charuto, a perna +traçada, a alma dilatada, sentindo-se tão bem na vida como no seu +jaquetão de flanella! + +--Ah!--fez Luiza de repente, toda admirada para o jornal, sorrindo. + +--Que é? + +--É o primo Bazilio que chega! + +E leu alto, logo: + +«Deve chegar por estes dias a Lisboa, vindo de Bordeus, o snr. Bazilio +de Brito, bem conhecido da nossa sociedade. S. exc.^a que, como é +sabido, tinha partido para o Brazil, onde se diz reconstituira a sua +fortuna com um honrado trabalho, anda viajando pela Europa desde o +começo do anno passado. A sua volta á capital é um verdadeiro jubilo +para os amigos de s. exc.^a que são numerosos». + +--E são!--disse Luiza, muito convencida. + +--Estimo, coitado!--fez Jorge, fumando, anediando a barba com a palma +da mão.--E vem com fortuna, hein? + +--Parece. + +Olhou os annuncios, bebeu um gole de chá, levantou-se, foi abrir uma +das portadas da janella. + +--Oh Jorge, que calor que lá vai fóra, santo Deus!--Batia as palpebras +sob a radiação da luz crua e branca. + +A sala, nas trazeiras da casa, dava para um terreno vago, cercado d'um +taboado baixo, cheio d'hervas altas e d'uma vegetação d'acaso; aqui, +alli, n'aquella verdura crestada do verão, largas pedras faiscavam, +batidas do sol perpendicular; e uma velha figueira brava, isolada +no meio do terreno, estendia a sua grossa folhagem immovel, que, na +brancura da luz, tinha os tons escuros do bronze. Para além eram as +trazeiras d'outras casas, com varandas, roupas seccando em cannas, +muros brancos de quintaes, arvores esguias. Uma vaga poeira embaciava, +tornava espesso o ar luminoso. + +--Cahem os passaros!--disse ella cerrando a janella.--Olha tu pelo +Alemtejo, agora! + +Veio encostar-se á _voltaire_ de Jorge, passou-lhe lentamente a +mão sobre o cabello preto e annelado. Jorge olhou-a, triste já da +separação: os dous primeiros botões do seu roupão estavam desapertados; +via-se o começo do peito de uma brancura muito tenra, a rendinha da +camisa: muito castamente Jorge abotoou-lh'os. + +--E os meus colletes brancos?--disse. + +--Devem estar promptos. + +Para se certificar chamou Juliana. + +Houve um ruido domingueiro de saias engommadas, Juliana entrou, +arranjando nervosamente o collar e o broche. Devia ter quarenta +annos, era muitissimo magra. As feições, miudas, espremidas, tinham a +amarellidão de tons baços das doenças de coração. Os olhos grandes, +encovados, rolavam n'uma inquietação, n'uma curiosidade, raiados de +sangue, entre palpebras sempre debruadas de vermelho. Usava uma cuia de +retroz imitando tranças, que lhe fazia a cabeça enorme. Tinha um _tic_ +nas azas do nariz. E o vestido chato sobre o peito, curto da roda, +tufado pela gomma das saias--mostrava um pé pequeno, bonito, muito +apertado em botinas de duraque com ponteiras de verniz. + +Os colletes não estavam promptos, disse com uma voz muito lisboeta, não +tivera tempo de os metter em gomma. + +--Tanto lhe recommendei, Juliana!--disse Luiza.--Bem, vá. Veja como se +arranja! Os colletes hão-de ficar á noite na mala! + +E apenas ella sahiu: + +--Estou a tomar odio a esta creatura, Jorge! + +Ha dous mezes que a tinha em casa, e não se podera acostumar á sua +fealdade, aos seus tregeitos, á maneira aflautada de dizer _chapieu_, +_tisoiras_, de arrastar um pouco os _rr_, ao ruido dos seus tacões que +tinham laminasinhas de metal: ao domingo, a cuia, o pretencioso do pé, +as luvas de pellica preta arripiavam-lhe os nervos. + +--Que antipathica! + +Jorge ria: + +--Coitada, é uma pobre de Christo!--E depois que engommadeira +admiravel! No ministerio examinavam com espanto os seus peitilhos!--O +Julião diz bem, eu não ando engommado, ando esmaltado! Não é +sympathica, não, mas é aceada, é apropositada... + +E levantando-se, com as mãos nos bolsos das suas largas calças de +flanella: + +--E, emfim, minha filha, a maneira como ella se portou na doença da tia +Virginia... Foi um anjo para ella!--Repetiu com solemnidade:--De dia, +de noite, foi um anjo para ella! Estamos-lhe em divida, minha filha!--E +começou a enrolar um cigarro, com a physionomia muito séria. + +Luiza, calada, fazia saltar com a pontinha da chinella a orla do +roupão; e examinando fixamente as unhas, a testa um pouco franzida, +poz-se a dizer: + +--Mas emfim, se eu embirro com ella, não me importa, posso bem mandal-a +embora. + +Jorge parou, e raspando um phosphoro na sola do sapato: + +--Se eu consentir, minha rica. É que é uma questão de gratidão, para +mim! + +Ficaram calados. O _cuco_ cantou meio dia. + +--Bem, vou á vida--disse Jorge. Chegou-se ao pé d'ella, tomou-lhe a +cabeça entre as mãos. + +--Viborasinha!--murmurou, fitando-a muito meigamente. + +Ella riu. Ergueu para elle os seus magnificos olhos castanhos, +luminosos e meigos. Jorge enterneceu-se, poz-lhe sobre as palpebras +dous beijos chilreados. E torcendo-lhe o beicinho, com uma meiguice: + +--Queres alguma cousa de fóra, amor? + +Que não viesse muito tarde. + +Ia deixar uns bilhetes, ia n'uma tipoia, era um pulo... + +E sahiu, feliz, cantando com a sua boa voz de barytono: + + Dio del oro, + Del mondo signor. + La la ra, la ra. + +Luiza espreguiçou-se. Que sécca ter de se ir vestir! Desejaria estar +n'uma banheira de marmore côr de rosa, em agua tepida, perfumada, +e adormecer! Ou n'uma rede de sêda, com as janellas cerradas, +embalar-se, ouvindo musica! Sacudiu a chinellinha: esteve a olhar +muito amorosamente o seu pé pequeno, branco como leite, com veias +azues, pensando n'uma infinidade de cousinhas:--em meias de sêda que +queria comprar, no farnel que faria a Jorge para a jornada, em tres +guardanapos que a lavadeira perdera... + +Tornou a espreguiçar-se. E saltando na ponta do pé descalço, foi buscar +ao aparador por detraz d'uma compota um livro um pouco enxovalhado, +veio estender-se na _voltaire_, quasi deitada, e, com o gesto +acariciador e amoroso dos dedos sobre a orelha, começou a lêr, toda +interessada. + +Era a _Dama das Camelias_. Lia muitos romances; tinha uma assignatura, +na Baixa, ao mez. Em solteira, aos 18 annos, enthusiasmára-se por +Walter-Scott e pela Escocia; desejára então viver n'um d'aquelles +castellos escocezes, que teem sobre as ogivas os brazões da _clan_, +mobilados com arcas gothicas e tropheus d'armas, forrados de largas +tapecerias, onde estão bordadas legendas heroicas, que o vento do +lago agita e faz viver: e amára Ervandálo, Morton e Ivanhoé, ternos +e graves, tendo sobre o gorro a penna d'aguia, presa ao lado pelo +cardo d'Escocia d'esmeraldas e diamantes. Mas agora era o _moderno_ +que a captivava, Paris, as suas mobilias, as suas sentimentalidades. +Ria-se dos trovadores, exaltára-se por Mr. de Camors; e os homens +ideaes appareciam-lhe de gravata branca, nas hombreiras das salas de +baile, com um magnetismo no olhar, devorados de paixão, tendo palavras +sublimes. Havia uma semana que se interessava por Margarida Gautier: o +seu amor infeliz dava-lhe uma melancolia ennevoada: via-a alta e magra, +com o seu longo chale de cachemira, os olhos negros cheios da avidez da +paixão e dos ardores da tisica; nos nomes mesmo do livro--Julia Duprat, +Armando, Prudencia, achava o sabor poetico d'uma vida intensamente +amorosa; e todo aquelle destino se agitava, como n'uma musica triste, +com ceias, noites delirantes, afflicções de dinheiro, e dias de +melancolia no fundo d'um coupé, quando nas avenidas do Bois, sob um céo +pardo e elegante, silenciosamente cahem as primeiras neves. + +--Até logo, Zizi--gritou Jorge do corredor, ao sahir. + +--Olha! + +Elle veio, com a bengala debaixo do braço, apertando as luvas. + +--Não appareças muito tarde, hein? Escuta, traze-me uns bolos do +Baltresqui para a D. Felicidade. Ouve. Vê se passas pela madame +François que me mande o chapéo. Escuta. + +--Que mais, bom Deus? + +--Ah! não! Era para ires pelo livreiro que me mande mais romances... +Mas está fechado! + + + +Foi com duas lagrimas a tremer-lhe nas palpebras que acabou as paginas +da _Dama das Camelias_. E estendida na _voltaire_, com o livro cahido +no regaço, fazendo recuar a pellicula das unhas, pôz-se a cantar +baixinho, com ternura, a aria final da _Traviata_: + + Addio, del passato... + +Lembrou-lhe de repente a noticia do jornal, a chegada do primo +Bazilio... + +Um sorriso vagaroso dilatou-lhe os beicinhos vermelhos e cheios.--Fôra +o seu primeiro namoro, o primo Bazilio! Tinha ella então 18 annos! +Ninguem o sabia, nem Jorge, nem Sebastião... + +De resto fôra uma criancice: ella mesmo, ás vezes, ria, recordando +as pieguices ternas d'então, certas lagrimas exageradas! Devia estar +mudado o primo Bazilio. Lembrava-se bem d'elle--alto, delgado, um +ar fidalgo, o pequenino bigode preto levantado, o olhar atrevido, e +um geito de metter as mãos nos bolsos das calças fazendo tilintar +o dinheiro e as chaves! _Aquillo_ começára em Cintra, por grandes +partidas de bilhar muito alegres, na quinta do tio João de Brito, +em Collares. Bazilio tinha chegado então d'Inglaterra: vinha muito +_bife_, usava gravatas escarlates passadas n'um annel d'ouro, fatos +de flanella branca, espantava Cintra! Era na sala de baixo pintada a +oca, que tinha um ar antigo e morgado; uma grande porta envidraçada +abria para o jardim, sobre tres degraus de pedra. Em roda do repuxo +havia romanzeiras, onde elle apanhava flôres escarlates. A folhagem +verde-escura e polida dos arbustos de camelias fazia ruasinhas +sombrias; pedaços de sol faiscavam, tremiam na agua do tanque; duas +rôlas, n'uma gaiola de vime, arrulhavam dôcemente;--e, no silencio +aldeão da quinta, o ruido secco das bolas de bilhar tinha um tom +aristocratico. + +Depois, vieram todos os episodios classicos dos amores lisboetas +passados em Cintra: os passeios em Sitiaes ao luar, devagar, +sobre a relva pallida, com grandes descanços calados no Penedo da +Saudade, vendo o valle, as arêas ao longe, cheias d'uma luz saudosa, +idealisadora e branca; as séstas quentes, nas sombras da Penha Verde, +ouvindo o rumor fresco e gottejante das aguas que vão de pedra em +pedra; as tardes na varzea de Collares, remando n'um velho bote, sobre +a agua escura da sombra dos freixos,--e que risadas quando iam encalhar +nas hervagens altas, e o seu chapéo de palha se prendia aos ramos +baixos dos choupos! + +Sempre gostára muito de Cintra! Logo ao entrar os arvoredos escuros e +murmurosos do Ramalhão lhe davam uma melancolia feliz! + +Tinham muita liberdade, ella e o primo Bazilio. A mamã, coitadinha, +toda scismatica, com rheumatismo, egoista, deixava-os, sorria, +dormitava: Bazilio era rico, então, chamava-lhe tia Jójó, trazia-lhe +cartuchos de dôce... + +Veio o inverno, e aquelle amor foi-se abrigar na velha sala forrada +de papel _sangue-de-boi_ da rua da Magdalena. Que bons serões alli! A +mamã resonava baixo, com os pés embrulhados n'uma manta, o volume da +_Bibliotheca das Damas_ cahido sobre o regaço. E elles, muito chegados, +muito felizes no sophá! O _sophá_! Quantas recordações! Era estreito e +baixo, estofado de casimira clara, com uma tira ao centro, bordada por +ella, amores perfeitos amarellos e roxos sobre um fundo negro. Um dia +veio o _final_. João de Brito, que fazia parte da firma Bastos & Brito, +falliu. A casa d'Almada, a quinta de Collares foram vendidas. + +Bazilio estava pobre, partiu para o Brazil. Que saudades! Passou +os primeiros dias sentada no sophá querido, soluçando baixo, com a +photographia d'elle entre as mãos. Vieram então os sobresaltos das +cartas esperadas, os recados impacientes ao escriptorio da Companhia, +quando os paquetes tardavam... + +Passou um anno. Uma manhã, depois d'um grande silencio de Bazilio, +recebeu da Bahia uma longa carta, que começava: «Tenho pensado muito e +entendo que devemos considerar a nossa inclinação como uma criancice...» + +Desmaiou logo. Bazilio affectava muita dôr em duas laudas cheias +d'explicações: que estava ainda pobre; que teria de luctar muito antes +de ter para dous; o clima era horrivel; não a queria sacrificar, pobre +anjo; chamava-lhe minha «pomba» e assignava o seu nome todo, com uma +firma complicada. + +Viveu triste durante mezes. Era no inverno; e sentada á janella, por +dentro dos vidros, com o seu bordado de lã, julgava-se desilludida, +pensava no convento, seguindo com um olhar melancolico os guarda-chuvas +gottejantes que passavam sob as cordas d'agua; ou sentando-se ao piano, +ao anoitecer, cantava Soares de Passos: + + Ai! adeus, acabaram-se os dias + Que ditoso vivi a teu lado... + +ou o final da _Traviata_, ou o fado do Vimioso, muito triste, que elle +lhe ensinára. + +Mas então o catarrho da mamã aggravou-se; vieram os sustos, as noites +veladas. Na convalescença foram para Bellas: ligou-se alli muito com +as Cardosos, duas irmãs magras, estouvadas e esguias, sempre colladas +uma á outra, com um passinho trotado e secco, como um casal de galgos. +O que riam, Jesus! O que fallavam dos homens! Um tenente de artilheria +tinha-se apaixonado por ella. Era vesgo, mandou-lhe uns versos, _Ao +Lyrio de Bellas_: + + Sobre a encosta da collina + Cresce o lyrio virginal... + +Foi um tempo muito alegre, cheio de consolações. + +Quando voltaram no inverno tinha engordado, trazia boas côres. E um +dia, tendo achado n'uma gaveta uma photographia que logo ao principio +Bazilio lhe mandára da Bahia, de calça branca e chapéo _panamá_, +fitou-a, encolhendo os hombros: + +--E o que eu me ralei por esta figura! Que tôla! + +Tinham passado tres annos quando conheceu Jorge. Ao principio não lhe +agradou. Não gostava dos homens barbados: depois percebeu que era a +primeira barba, fina, rente, muito macia de certo; começou a admirar +os seus olhos, a sua frescura. E sem o amar, sentia ao pé d'elle como +uma fraqueza, uma dependencia e uma quebreira, uma vontade d'adormecer +encostada ao seu hombro, e de ficar assim muitos annos, confortavel, +sem receio de nada. Que sensação quando elle lhe disse: Vamos casar, +hein! Viu de repente o rosto barbado, com os olhos muito luzidios, +sobre o mesmo travesseiro, ao pé do seu! Fez-se escarlate. Jorge +tinha-lhe tomado a mão: ella sentia o calor d'aquella palma larga +penetral-a, tomar posse d'ella: disse que _sim_, ficou como idiota, +e sentia debaixo do vestido de merino dilatarem-se dôcemente os seus +seios. Estava noiva, emfim! Que alegria, que descanço para a mamã! + +Casaram ás oito horas, n'uma manhã de nevoeiro. Foi necessario +accender luz para lhe pôr a corôa e o véo de tulle. Todo aquelle dia +lhe apparecia como ennevoado, sem contornos, á maneira d'um sonho +antigo--onde destacava a cara balofa e amarellada do padre, e a figura +medonha d'uma velha, que estendia a mão adunca, com uma sofreguidão +colerica, empurrando, rogando pragas, quando, á porta da igreja, +Jorge commovido distribuia patacos. Os sapatos de setim apertavam-na. +Sentira-se enjoada da madrugada, fôra necessario fazer-lhe chá verde +muito forte. E tão cançada á noite n'aquella casa nova, depois de +desfazer os seus bahus!--Quando Jorge apagou a véla, com um sopro +tremulo, SS luminosos faiscavam, corriam-lhe diante dos olhos. + +Mas era o seu marido, era novo, era forte, era alegre: pôz-se a +adoral-o. Tinha uma curiosidade constante da sua pessoa e das suas +cousas, mexia-lhe no cabello, na roupa, nas pistolas, nos papeis. +Olhava muito para os maridos das outras, comparava, tinha orgulho +n'elle. Jorge envolvia-a em delicadezas d'amante, ajoelhava-se +aos seus pés, era muito _dengueiro_. E sempre de bom humor, com +muita graça: mas nas cousas da sua profissão ou do seu brio tinha +severidades exageradas, e punha então nas palavras, nos modos uma +solemnidade carrancuda. Uma amiga d'ella romanesca, que via em tudo +dramas, tinha-lhe dito: é homem para te dar uma punhalada. Ella que +não conhecia ainda então o temperamento placido de Jorge acreditou, +e isso mesmo creou uma exaltação no seu amor por elle. Era o seu +_tudo_,--a sua força, o seu fim, o seu destino, a sua religião, o +seu homem!--Pôz-se a pensar, o que teria succedido se tivesse casado +com o primo Basilio. Que desgraça, hein! Onde estaria? Perdia-se em +supposições d'outros destinos, que se desenrolavam, como pannos de +theatro: via-se no Brazil, entre coqueiros, embalada n'uma rede, +cercada de negrinhos, vendo voar papagaios! + +--Está alli a snr.^a D. Leopoldina--veio dizer Juliana. + +Luiza ergueu-se surprehendida. + +--Hein? A snr.^a D. Leopoldina? Para que mandou entrar? + +Poz-se a abotoar á pressa o roupão. Jesus! Olha se Jorge soubesse! Elle +que lhe tinha dito tantas vezes «que a não queria em casa!» Mas se já +estava na sala, agora, coitada! + +--Está bom, diga-lhe que já vou. + +Era a sua intima amiga. Tinham sido visinhas, em solteiras, na rua +da Magdalena, e estudado no mesmo collegio, á Patriarchal, na Rita +Pessoa, a côxa. Leopoldina era a filha unica do visconde de Quebraes, +o devasso, o cachetico, que fôra pagem de D. Miguel. Tinha feito +um casamento infeliz com um João Noronha, empregado da alfandega. +Chamavam-lhe a «Quebraes»; chamavam-lhe tambem a «Pão e queijo». + +Sabia-se que tinha amantes, dizia-se que tinha vicios. Jorge odiava-a. +E dissera muitas vezes a Luiza: Tudo, menos a Leopoldina! + + + +Leopoldina tinha então vinte e sete annos. Não era alta, mas passava +por ser a mulher mais bem feita de Lisboa. Usava sempre os vestidos +muito collados, com uma justeza que accusava, modelava o corpo como uma +pellica, sem largueza de roda, apanhados atraz. Dizia-se d'ella, com +os olhos em alvo: é uma estatua, é uma Venus! Tinha hombros de modêlo, +d'uma redondeza descahida e cheia; sentia-se nos seus seios, mesmo +através do corpete, o desenho rijo e harmonioso de duas bellas metades +de limão; a linha dos quadris rica e firme, certos quebrados vibrantes +de cintura faziam voltar os olhares accesos dos homens. A cara era um +pouco grosseira; as asas do nariz tinham uma dilatação carnuda; na +pelle, muito fina, d'um trigueiro quente e córado, havia signaesinhos +desvanecidos d'antigas bexigas. A sua belleza eram os olhos, d'uma +negrura intensa, afogados n'um fluido, muito _quebrados_, com grandes +pestanas. + +Luiza veio para ella com os braços abertos, beijaram-se muito. E +Leopoldina, sentada no sophá, enrolando devagarinho a sêda clara +do guarda-sol, começou a queixar-se: Tinha estado adoentada, muito +seccada, com tonturas. O calor matava-a. E que tinha ella feito? +Achava-a mais gorda. + +Como era um pouco curta de vista, para se affirmar piscava ligeiramente +os olhos, descerrando os beiços gordinhos, d'um vermelho calido. + +--A felicidade dá tudo, até boas côres!--disse, sorrindo. + +O que a trazia era perguntar-lhe a morada da franceza que lhe fazia os +chapéos. E ha tanto tempo que a não via, já tinha saudades, tambem! + +--Mas não imaginas! Que calor! Venho morta. + +E deixou-se cahir sobre a almofada do sophá, encalmada, com um sorriso +aberto, mostrando os dentes brancos e grandes. + +Luiza disse-lhe a morada da franceza, gabou-lh'a; era barateira e +tinha bom gosto. Como a sala estava escura foi entre-abrir um pouco +as portadas da janella. Os estofos das cadeiras e as bambinellas eram +de reps verde-escuro; o papel e o tapete com desenhos de ramagens +tinham o mesmo tom, e n'aquella decoração sombria destacavam muito--as +molduras douradas e pesadas de duas gravuras (a _Medea_ de Delacroix e +a _Martyr_ de Delaroche), as encadernações escarlates dos dois vastos +volumes do Dante de G. Doré, e entre as janellas o oval d'um espelho +onde se reflectia um napolitano de _biscuit_ que, na console, dançava a +_tarantella_. + +Por cima do sophá pendia o retrato da mãi de Jorge, a oleo. Estava +sentada, vestida ricamente de preto, direita no seu corpete +espartilhado e secco: uma das mãos, d'um livido morto, pousava nos +joelhos sobrecarregada d'anneis; a outra perdia-se entre as rendas +muito trabalhadas d'um mantelete de setim; e aquella figura longa, +macilenta, com grandes olhos carregados de negro, destacava sobre uma +cortina escarlate, corrida em pregas copiosamente quebradas, deixando +vêr para além céos azulados e redondezas d'arvoredos. + +--E teu marido?--perguntou Luiza, vindo sentar-se muito junto de +Leopoldina. + +--Como sempre. Pouco divertido--respondeu, rindo. E, com um ar serio, a +testa um pouco franzida:--Sabes que acabei com o Mendonça? + +Luiza fez-se ligeiramente vermelha. + +--Sim? + +Leopoldina deu logo detalhes. + +Era muito indiscreta, fallava muito de si, das suas sensações, da +sua alcova, das suas contas. Nunca tivera segredos para Luiza; e na +sua necessidade de fazer confidencias, de gozar a admiração d'ella, +descrevia-lhe os seus amantes, as opiniões d'elles, as maneiras +d'amar, os _tics_, a roupa, com grandes exagerações! Aquillo era +sempre muito picante, cochichado ao canto d'um sophá, entre risinhos: +Luiza costumava escutar, toda interessada, as maçãs do rosto um pouco +envergonhadas, pasmada, saboreando, com um arzinho beato. Achava tão +curioso! + +--D'esta vez é que bem posso dizer que me enganei, minha rica +filha!--exclamou Leopoldina erguendo os olhos desoladamente. + +Luiza riu. + +--Tu enganas-te quasi sempre! + +Era verdade! Era infeliz! + +--Que queres tu? De cada vez imagino que é uma paixão, e de cada vez me +sahe uma massada! + +E picando o tapete com a ponta da sombrinha: + +--Mas se um dia acerto! + +--Vê se acertas--disse Luiza.--Já é tempo! + +Ás vezes na sua consciencia achava Leopoldina «indecente»; mas tinha +um fraco por ella: sempre admirára muito a belleza do seu corpo, que +quasi lhe inspirava uma attracção physica. Depois desculpava-a: era tão +infeliz com o marido! Ia atraz da Paixão, coitada! E aquella grande +palavra, faiscante e mysteriosa, d'onde a felicidade escorre como a +agua d'uma taça muito cheia, satisfazia Luiza como uma justificação +sufficiente: quasi lhe parecia uma heroina; e olhava-a com espanto como +se consideram os que chegam d'alguma viagem maravilhosa e difficil, +d'episodios excitantes. Só não gostava de certo cheiro de tabaco +misturado de _feno_, que trazia sempre nos vestidos. Leopoldina fumava. + +--E que fez elle, o Mendonça? + +Leopoldina encolheu os hombros, com um grande tedio: + +--Escreveu-me uma carta muito tôla, que a final bem considerado era +melhor que acabasse tudo, porque não estava para se metter em camisa +d'onze varas! Que imbecil! Até devo ter aqui a carta. + +Procurou na algibeira do vestido: tirou o lenço, uma carteirinha, +chaves, uma caixinha de pó de arroz; mas encontrou apenas um programma +do _Price_. + +Fallou então do circo.--Uma semsaboria. O melhor era um rapaz que +trabalhava no trapezio. Lindo rapaz, bem feito, uma perfeição! + +E de repente: + +--Então teu primo Bazilio chega? + +--Assim li hoje no _Diario de Noticias_. Fiquei pasmada! + +--Ah! outra cousa que te queria perguntar antes que me esqueça. Com que +guarneceste tu aquelle teu vestido de xadrezinho azul? Vou mandar fazer +um assim. + +Tinha-o guarnecido d'azul tambem, um azul mais escuro.--Vem vêr. Vem cá +dentro. + +Entraram no quarto. Luiza foi descerrar a janella, abrir o +guarda-vestidos. Era um quarto pequeno, muito fresco, com _cretones_ +d'um azul pallido. Tinha um tapete barato, de fundo branco, com +desenhos azulados. O toucador, alto, estava entre as duas janellas, +sob um docel de renda grossa, muito ornado de frascos facetados. Entre +as bambinellas, em mesas redondas de pé de gallo, plantas espessas, +Begonias, Makoamas, dobravam decorativamente a sua folhagem rica e +forte, em vasos de barro vermelho vidrado. + +Aquelles arranjos confortaveis lembraram de certo a Leopoldina +felicidades tranquillas. Pôz-se a dizer devagar, olhando em roda: + +--E tu, sempre muito apaixonada por teu marido, hein? Fazes bem, filha, +tu é que fazes bem! + +Foi defronte do toucador, applicar pó d'arroz no pescoço, nas faces: + +--Tu é que fazes bem!--repetia--Mas vá lá uma mulher prender-se a um +homem como o meu! + +Sentou-se na _causeuse_ com um ar muito abandonado; vieram as queixas +habituaes sobre seu marido: era tão grosseiro! era tão egoista! + +--Acreditarás que ha tempos para cá, se não estou em casa ás quatro +horas, não espera, põe-se á mesa, janta, deixa-me os restos! E depois +desleixado, enxovalhado, sempre a cuspir nas esteiras... O quarto +d'elle--nós temos dous quartos, como tu sabes--é um chiqueiro! + +Luiza disse com severidade: + +--Que horror! A culpa tambem é tua. + +--Minha!--e endireitou-se, luziam-lhe os olhos, mais largos, mais +negros.--Não me faltava mais nada senão occupar-me do quarto do homem! + +Ah! era muito desgraçada, era a mulher mais desgraçada que havia no +mundo! + +--Nem ciumes tem, o bruto! + +Mas Juliana entrou, tossiu, e arranjando ainda o collar e o broche: + +--A senhora sempre quer que engomme os colletes todos? + +--Todos, já lhe disse. Hão-de ficar á noite na mala antes de se ir +deitar. + +--Que mala? Quem parte?--perguntou Leopoldina. + +--O Jorge. Vai ás minas, ao Alemtejo. + +--Então estás só, posso vir vêr-te! Ainda bem! + +E sentou-se logo ao pé d'ella, com um olhar que se fizera dôce. + +--É que tenho tanto que te contar! Se tu soubesses, filha! + +--O quê? Outra paixão?--fez Luiza rindo. + +A face de Leopoldina tornou-se grave. + +Não era p'ra rir. Estava de todo! Era por isso até que tinha vindo. +Sentira-se tão só em casa, tão nervosa!--Vou até Luiza, vou palrar um +bocado! + +E com a voz mais baixa, quasi solemne: + +--D'esta vez é serio, Luiza!--Deu os detalhes. Era um rapaz alto, +louro, lindo! E que talento! É poeta!--Dizia a palavra com devoção, +prolongando o som das syllabas.--É poeta! + +Desapertou devagar dous botões do corpete, tirou do seio um papel +dobrado. Eram versos. + +E muito chegada para Luiza, com as narinas dilatadas pela delicia da +sensação, leu baixo, com orgulho, com pompa: + + +A TI + + _Pharol da Guia, 5 de junho._ + + Quando scismo á hora do poente + Sobre os rochedos onde brame o mar... + +Era uma elegia. O rapaz contava, em quadras, as longas contemplações +em que a via a ella, Leopoldina, _visão radiosa que deslisas leve_, +nas aguas dormentes, nas vermelhidões do occaso, na brancura das +espumas. Era uma composição delambida, d'um sentimentalismo reles, com +um ar tisico, muito lisboeta, cheia de versos errados. E terminando +dizia-lhe, que não era «nos esplendores das salas» ou nos «bailes +febricitantes» que gostava de a vêr: era alli, n'aquelles rochedos, + + Onde todos os dias ao sol posto + Eu vejo adormecer o mar gigante. + +--Que bonito, hein! + +Ficaram caladas, com uma commoçãosinha. + +Leopoldina, com os olhos perturbados, repetia a data, amorosamente: + +--Pharol da Guia, 5 de junho! + +Mas o relogio do quarto deu quatro horas. Leopoldina ergueu-se logo, +atarantada, metteu o poema no seio. + +Tinha de se ir já! Fazia-se tarde, senão o outro, punha-se á mesa. +Tinha um ruivo assado para o jantar. E peixe frio era a cousa mais +estupida! + +--Adeus. Até breve, não?--E agora que Jorge ia para fóra, havia de vir +muito.--Adeus. Então a franceza, rua do Ouro, por cima do estanque? + +Luiza foi com ella até ao patamar. Leopoldina já no fundo da escada, +ainda parou, gritou: + +--Sempre te parece que guarneça o vestido d'azul, hein? + +Luiza debruçou-se sobre o corrimão: + +--Eu assim fiz, é o melhor... + +--Adeus! Rua do Ouro, por cima do estanque. + +--Sim. Rua do Ouro. Adeus.--E com um gritinho:--Porta á direita, Madame +François. + + + +Jorge voltou ás cinco horas, e logo da porta do quarto, pondo a bengala +a um canto: + +--Já sei que tiveste cá uma visita. + +Luiza voltou-se, um pouco córada. Estava diante do toucador já +penteada, com um vestido de linho branco, guarnecido de rendas. + +Era verdade, tinha vindo a Leopoldina. Juliana mandára-a entrar... +Ficára mais contrariada! Era por causa da _adresse_ da franceza dos +chapéos. Tinha-se demorado dez minutos.--Quem te disse? + +--Foi a Juliana: que a snr.^a D. Leopoldina tinha estado toda a tarde. + +--Toda a tarde! que tolice, esteve dez minutos, se tanto! + +Jorge tirava as luvas, calado. Chegou-se á janella, pôz-se a sacudir +as duras folhas d'uma Begonia malhada d'um vermelho doente, com uma +baba prateada. Assobiava baixo; e parecia todo occupado em conchegar +um botão d'Amarilis aninhado entre a sua folhagem luzidia, como um +pequenino coração assustado. + +Luiza ia passando o seu medalhão d'ouro n'uma longa fita de velludo +preto: tinha uma tremura nas mãos, estava vermelha. + +--O calor tem-lhes feito mal--disse. + +Jorge não respondeu. Assobiou mais alto, foi á outra janella, bateu +com os dedos nas folhas elasticas d'uma Makoama de tons verdes e +sanguineos, e, alargando impacientemente o collarinho como um homem +suffocado: + +--Ouve lá, é necessario que deixes por uma vez de receber essa +creatura. É necessario acabar por uma vez! + +Luiza fez-se escarlate. + +--É por causa de ti! é por causa dos visinhos! é por causa da decencia! + +--Mas foi a Juliana...--balbuciou Luiza. + +--Mandasse-l'a sahir outra vez. Que estavas fóra! que estavas na China! +que estavas doente! + +Parou, com um tom desconsolado, abrindo os braços: + +--Minha rica filha, é que todo o mundo a conhece. É a Quebraes! É a +_Pão e queijo_! É uma vergonha! + +Citava-lhe os seus amantes, exasperado: O Carlos Viegas, o magro, de +bigode cahido, que escrevia comedias para o Gymnasio! O Santos Madeira, +o picado das bexigas, com uma gaforinha! O Melchior Vadio, um _gingão_ +desossado, com um olhar de carneiro morto, sempre a fumar n'uma enorme +boquilha! O Pedro Camara, o bonito! O Mendonça dos callos! _Tutti +quanti!_ + +E encolhendo os hombros, exasperado: + +--Como se eu não percebesse que ella esteve aqui! Só pelo cheiro! Este +horrivel cheiro de feno! Vossês foram creadas juntas, etc., tudo isso +é muito bom. Has-de desculpar, mas se a encontro na escada, corro-a! +Corro-a! + +Parou um momento, e commovido: + +--Ora, vamos, Luiza, confessa. Tenho ou não razão? + +Luiza punha os brincos, ao espelho, atarantada: + +--Tens--disse. + +--Ah! bem! + +E sahiu, furioso. + +Luiza ficou immovel. Uma lagrimasinha redonda, clara, rolava-lhe pela +aza do nariz. Assoou-se muito doloridamente. Aquella Juliana! Aquella +bisbilhoteira! De má! Para fazer sizania! + +Veio-lhe então uma colera. Foi ao quarto dos engommados, atirou com a +porta: + +--Para que foi vossê dizer quem esteve ou quem deixou d'estar? + +Juliana, muito surprehendida, pousou o ferro: + +--Pensei que não era segredo, minha senhora. + +--Está claro que não! Tola! quem lhe diz que era segredo? E para que +mandou entrar? Não lhe tenho dito muitas vezes que não recebo a snr.^a +D. Leopoldina? + +--A senhora nunca me disse nada--replicou, toda offendida, cheia de +verdade. + +--Mente! Cale-se! + +Voltou-lhe as costas; veio para o quarto, muito nervosa, foi +encostar-se á vidraça. + +O sol desapparecera; na rua estreita havia uma sombra igual, de tarde +sem vento: pelas casas, de uma edificação velha, escuras, estavam +abertas as varandas onde em vasos vermelhos se mirrava alguma velha +planta miseravel, manjaricão ou cravo; ouvia-se, no teclado melancolico +d'um piano, a _Oração de uma virgem_, tocada por alguma menina, no +sentimentalismo vadio do domingo; e na sua janella, defronte, as quatro +filhas do Teixeira Azevedo, magrinhas, com os cabellos muito riçados, +as olheiras pisadas, passavam a sua tarde de dia santo, olhando para a +rua, para o ar, para as janellas visinhas, cochichando se viam passar +um homem--ou debruçadas, com uma attenção idiota, faziam pingar saliva +sobre as pedras da calçada. + +Jorge tinha razão, coitado! pensava Luiza. Mas, tambem, que podia ella +fazer? Já não ia a casa de Leopoldina, tirára o seu retrato do album +da sala, vira-se obrigada a confessar-lhe a repugnancia de Jorge, +tinham chorado ambas, até! Coitada! Só a recebia de longe a longe, uma +raridade, um momento! E emfim, depois d'ella estar na sala, não a havia +d'ir empurrar pela escada abaixo! + +Um homem grosso, de pernas tortas, curvado sob um realejo, appareceu +então ao alto da rua; as suas barbas pretas tinham um aspecto feroz; +parou, poz-se a voltear a manivella, levantando em redor, para as +janellas, um sorriso triste de dentes brancos, e a _Casta Diva_! com +uma sonoridade metallica e secca, muito tremida, espalhou-se pela rua. + +Gertrudes, a criada e a concubina do doutor de mathematica, veio +encostar logo aos caixilhos estreitos da janella a sua vasta face +trigueira de quarentona farta e estabelecida; adiante, na sacada +aberta d'um segundo andar, debruçou-se a figura do Cunha Rosado, magro +e chupado, com um boné de borla, o aspecto desconsolado do doente +d'intestinos, conchegando com as mãos transparentes o robe-de-chambre +ao ventre. Outras faces enfastiadas mostraram-se entre as bambinellas +de caça. + +Na rua, a estanqueira chegou-se á porta, vestida de luto, estendendo +o seu carão viuvo, os braços cruzados sobre o chale tingido de preto, +esguia nas longas saias escoadas. Da loja, por baixo da casa Azevedo, +veio a carvoeira, enorme de gravidez bestial, o cabello esguedelhado +em repas seccas, a cara oleosa e enfarruscada, com tres pequenos meio +nús, quasi negros, chorões e hirsutos, que se lhe penduravam da saia +de chita. E o Paula, com loja de trastes velhos, adiantou-se até ao +meio da rua; a pala de verniz do seu boné de pano preto nunca se +erguia de cima dos olhos; escondia sempre as mãos, como para ser mais +reservado, por traz das costas, debaixo das abas do seu casaco de +cotim branco; o calcanhar sujo da meia sahia-lhe para fóra da chinella +bordada a missanga; e fazia roncar o seu pigarro chronico de um modo +despeitado. Detestava os reis e os padres. O estado das cousas publicas +enfurecia-o. Assobiava frequentemente a _Maria da Fonte_; e mostrava-se +nas suas palavras, nas suas attitudes, um patriota exasperado. + +O homem do realejo tirou o seu largo chapéo desabado e, tocando sempre, +ia-o estendendo em redor para as janellas, com um olhar necessitado. +As Azevedos tinham logo fechado violentamente a vidraça. A carvoeira +deu-lhe uma moeda de cobre; mas interrogou-o; quiz de certo saber de +que paiz era, por que estradas tinha vindo, e quantas peças tinha o +instrumento. + +Gente endomingada começava a recolher, com um ar derreado do longo +passeio, as botas empoeiradas: mulheres de chale, vindas das hortas, +traziam ao collo as crianças adormecidas da caminhada e do calor: +velhos placidos, de calça branca, o chapéo na mão, gozavam a frescura, +dando um giro no bairro: pelas janellas, bocejava-se: o céo tomava +uma côr azulada e polida, como uma porcelana: um sino repicava a +distancia o fim d'alguma festa d'igreja: e o domingo terminava, com uma +serenidade cançada e triste. + +--Luiza--disse a voz de Jorge. + +Ella voltou-se, com um vago--hein? + +--Vamos jantar, filha; são sete horas. + +No meio do quarto, tomou-a pela cinta, e fallando-lhe baixo, junto á +face: + +--Tu zangaste-te ha bocado? + +--Não! Tu tens razão. Conheço que tens razão. + +--Ah!--fez elle com um tom victorioso, muito satisfeito.--Está claro, + + Quem melhor conselheiro e bom amigo + Que o marido que a alma m'escolheu? + +E com uma ternura grave: + +--Minha querida filha, esta nossa casinha é tão honesta, que é uma dôr +d'alma vêr entrar essa mulher aqui, com o cheiro do _feno_, do cigarro, +e do resto!... _Mà, di questo no parlaremo più, o donna mia!_ Á sopa! + + + + +II + + +Aos domingos á noite havia em casa de Jorge uma pequena reunião, uma +_cavaqueira_, na sala, em redor do velho candieiro de porcelana côr de +rosa. Vinham apenas os intimos. «O Engenheiro», como se dizia na rua, +vivia muito ao seu canto, sem visitas. Tomava-se chá, palrava-se. Era +um pouco _á estudante_. Luiza fazia crochet, Jorge cachimbava. + +O primeiro a chegar era Julião Zuzarte, um parente muito afastado de +Jorge, e seu antigo condiscipulo nos primeiros annos da Polytechnica. +Era um homem secco e nervoso, com lunetas azues, os cabellos compridos +cahidos sobre a gola. Tinha o curso de cirurgião da Escóla. Muito +intelligente, estudava desesperadamente, mas, como elle dizia, era +um _tumba_. Aos trinta annos, pobre, com dividas, sem clientella, +começava a estar farto do seu quarto andar na Baixa, dos seus jantares +de doze vintens, do seu paletot coçado d'alamares; e entalado na +sua vida mesquinha, via os outros, os mediocres, os superficiaes, +_furar_, subir, installar-se á larga na prosperidade! «Falta de +_chance_», dizia. Podia ter aceitado um partido da camara n'uma villa +da provincia, com pulso livre, ter uma casa _sua_, a _sua_ creação no +quintal. Mas tinha um orgulho resistente, muita fé nas suas faculdades, +na sua sciencia, e não se queria ir enterrar n'uma terriola adormecida +e lugubre, com tres ruas onde os porcos fossam. Toda a provincia o +aterrava; via-se lá obscuro, jogando a manilha na Assembléa, morrendo +de cachexia. Por isso não «arredava pé»; e esperava, com a tenacidade +do plebeu sofrego, uma clientella rica, uma cadeira na Escóla, um +coupé para as visitas, uma mulher loura com dote. Tinha certeza do +seu direito a estas felicidades, e como ellas tardavam a chegar ia-se +tornando despeitado e amargo; andava amuado com a vida; cada dia se +prolongavam mais os seus silencios hostis, roendo as unhas: e, nos dias +melhores, não cessava de ter ditos sêccos, _tiradas_ azedadas--em que a +sua voz desagradavel cahia como um gume gelado. + +Luiza não gostava d'elle; achava-lhe um _ar nordeste_, detestava o seu +tom de pedagogo, os reflexos negros da luneta, as calças curtas que +mostravam o elastico roto das botas. Mas disfarçava, sorria-lhe, porque +Jorge admirava-o, dizia sempre d'elle: Tem muito espirito! tem muito +talento! grande homem! + +Como vinha mais cedo ia á sala de jantar, tomava a sua chavena de café; +e tinha sempre um olhar de lado para as pratas do aparador e para as +_toilettes_ frescas de Luiza. Aquelle parente, um _mediocre_, que +vivia confortavelmente, bem casado, com a carne contente, estimado no +ministerio, com alguns contos de reis em inscripções--parecia-lhe uma +injustiça e pezava-lhe como uma humilhação. Mas affectava estimal-o; ia +sempre ás noites, aos domingos; escondia então as suas preoccupações, +cavaqueava, tinha pilherias,--mettendo a cada momento os dedos pelos +seus cabellos compridos, seccos e cheios de caspa. + +Ás nove horas, ordinariamente, entrava D. Felicidade de Noronha. Vinha +logo da porta com os braços estendidos, o seu bom sorriso dilatado. +Tinha cincoenta annos, era muito nutrida, e, como soffria de dyspepsia +e de gazes, áquella hora não se podia espartilhar e as suas fórmas +transbordavam. Já se viam alguns fios brancos nos seus cabellos +levemente annelados, mas a cara era lisa e redonda, cheia, d'uma alvura +baça e molle de freira; nos olhos papudos, com a pelle já engelhada em +redor, luzia uma pupilla negra e humida, muito mobil; e aos cantos da +bocca uns pellos de buço pareciam traços leves e circumflexos d'uma +penna muito fina. Fôra a intima amiga da mãi de Luiza, e tomára aquelle +habito de vir vêr a _pequena_ aos domingos. Era fidalga, dos Noronhas +de Redondella, bastante aparentada em Lisboa, um pouco devota, muito da +Encarnação. + +Mal entrava, ao pôr um beijo muito cantado na face de Luiza, +perguntava-lhe baixo, com inquietação: + +--Vem? + +--O conselheiro? Vem. + +Luiza sabia-o. Porque o conselheiro, o conselheiro Accacio, nunca +vinha aos _chás de D. Luiza_, como elle dizia, sem ter ido na vespera +ao ministerio das obras publicas procurar Jorge, declarar-lhe com +gravidade, curvando um pouco a sua alta estatura: + +--Jorge, meu amigo, ámanhã lá irei pedir a sua boa esposa a minha +chavena de chá. + +Ordinariamente acrescentava: + +--E os seus valiosos trabalhos progridem? Ainda bem! Se vir o ministro, +os meus respeitos a s. exc.^a Os meus respeitos a esse formoso talento! + +E sahia, pisando com solemnidade os corredores enxovalhados. + +Havia cinco annos que D. Felicidade o amava. Em casa de Jorge riam-se +um pouco com aquella _chamma_. Luiza dizia: Ora! é uma caturrice +d'ella! Viam-na córada e nutrida, e não suspeitavam que aquelle +sentimento concentrado, irritado semanalmente, queimando em silencio, +a ia devastando como uma doença e desmoralisando como um vicio. Todos +os seus ardores até ahi tinham sido inutilisados. Amára um official de +lanceiros que morrêra, e apenas conservava o seu daguerreotypo. Depois +apaixonára-se muito occultamente por um rapaz padeiro, da visinhança, +e vira-o casar. Dera-se então toda a um cão, o _Bilro_; uma criada +despedida deu-lhe por vingança rolha cozida; o _Bilro_ rebentou, e +tinha-o agora empalhado na sala de jantar. A pessoa do conselheiro +viera de repente, um dia, pegar fogo áquelles desejos, sobrepostos +como combustiveis antigos. Accacio tornára-se a sua _mania_: admirava +a sua figura e a sua gravidade, arregalava grandes olhos para a sua +eloquencia, achava-o n'uma «linda posição». O conselheiro era a sua +ambição e o seu vicio! Havia sobretudo n'elle uma belleza, cuja +contemplação demorada a estonteava como um vinho forte: era a calva. +Sempre tivera o gosto perverso de certas mulheres pela calva dos +homens, e aquelle appetite insatisfeito inflammára-se com a idade. +Quando se punha a olhar para a calva do conselheiro, larga, redonda, +polida, brilhante ás luzes, uma transpiração anciosa humedecia-lhe +as costas, os olhos dardejavam-lhe, tinha uma vontade absurda, avida +de lhe deitar as mãos, palpal-a, sentir-lhe as fórmas, amassal-a, +penetrar-se d'ella! Mas disfarçava, punha-se a fallar alto com um +sorriso parvo, abanava-se convulsivamente, e o suor gottejava-lhe nas +rôscas anafadas do pescoço. Ia para casa rezar estações, impunha-se +penitencias de muitas corôas á Virgem; mas apenas as orações findavam, +começava o temperamento a latejar. E a boa, a pobre D. Felicidade +tinha agora pesadêlos lascivos, e as melancolias do hysterismo velho! +A indifferença do conselheiro irritava-a mais: nenhum olhar, nenhum +suspiro, nenhuma revelação amorosa o commovia! Era para com ella +glacial e polido. Tinham-se ás vezes encontrado a sós, á parte, no +vão favoravel d'uma janella, no isolamento mal alumiado d'um canto +do sophá,--mas apenas ella fazia uma demonstração sentimental, elle +erguia-se bruscamente, afastava-se, severo e pudico. Um dia ella +julgára perceber que, por traz das suas lunetas escuras, o conselheiro +lhe deitava de revés um olhar apreciador para a abundancia do seio; +fôra mais clara, mais urgente, fallára em _paixão_, disse-lhe baixo: +Accacio!... Mas elle com um gesto gelou-a--e de pé, grave: + +--Minha senhora, + + As neves que na fronte se accumulam + Terminam por cahir no coração... + +É inutil, minha senhora! + +O martyrio de D. Felicidade era muito occulto, muito disfarçado; +ninguem o sabia; conheciam-lhe as infelicidades do sentimento, +ignoravam-lhe as torturas do desejo. E um dia Luiza ficou attonita, +sentindo D. Felicidade agarrar-lhe o pulso com a mão humida, e +dizer-lhe baixo, os olhos cravados no conselheiro: + +--Que regalo d'homem! + +Fallava-se n'essa noite do Alemtejo, d'Evora e das suas riquezas, da +capella dos ossos, quando o conselheiro entrou com o paletot no braço. +Foi-o dobrar solicitamente n'uma cadeira a um canto, e no seu passo +aprumado e official, veio apertar as mãos ambas de Luiza, dizendo-lhe +com uma voz sonora, de _papo_: + +--Minha boa snr.^a D. Luiza, de perfeita saude, não? O nosso Jorge +tinha-m'o dito. Ainda bem! Ainda bem! + +Era alto, magro, vestido todo de preto, com o pescoço entalado n'um +collarinho direito. O rosto aguçado no queixo ia-se alargando até á +calva, vasta e polida, um pouco amolgada no alto; tingia os cabellos +que d'uma orelha á outra lhe faziam collar por traz da nuca--e aquelle +preto lustroso dava, pelo contraste, mais brilho á calva; mas não +tingia o bigode: tinha-o grisalho, farto, cahido aos cantos da bocca. +Era muito pallido; nunca tirava as lunetas escuras. Tinha uma covinha +no queixo, e as orelhas grandes muito despegadas do craneo. + +Fôra, outr'ora, director geral do ministerio do reino, e sempre que +dizia--El-rei! erguia-se um pouco na cadeira. Os seus gestos eram +medidos, mesmo a tomar rapé. Nunca usava palavras triviaes; não dizia +_vomitar_, fazia um gesto indicativo e empregava _restituir_. Dizia +sempre «o nosso Garrett, o nosso Herculano». Citava muito. Era author. +E sem familia, n'um terceiro andar da rua do Ferregial, amancebado +com a criada, occupava-se d'economia politica: tinha composto os +Elementos genericos da sciencia da riqueza e sua distribuição, _segundo +os melhores authores_, e como sub-titulo: _Leituras do serão!_ Havia +apenas mezes publicára a Relação de todos os ministros d'estado desde +o grande marquez de pombal até nossos dias, com datas cuidadosamente +averiguadas de seus nascimentos e obitos. + +--Já esteve no Alemtejo, conselheiro?--perguntou-lhe Luiza. + +--Nunca, minha senhora--e curvou-se.--Nunca! E tenho pena! sempre +desejei lá ir, porque me dizem que as suas curiosidades são de primeira +ordem. + +Tomou uma pitada d'uma caixa dourada, entre os dedos, delicadamente, e +acrescentou com pompa: + +--De resto, paiz de grande riqueza suina! + +--Ó Jorge, averigua quanto é o partido da camara em Evora--disse Julião +do canto do sophá. + +O conselheiro acudiu, cheio de informações, com a pitada suspensa: + +--Devem ser seiscentos mil reis, snr. Zuzarte, e pulso livre. Tenho-o +nos meus apontamentos. Porquê, snr. Zuzarte, quer deixar Lisboa? + +--Talvez!... + +Todos desapprovaram. + +--Ah! Lisboa sempre é Lisboa!--suspirou D. Felicidade. + +--Cidade de marmore e de granito, na phrase sublime do nosso grande +historiador!--disse solemnemente o conselheiro. + +E sorveu a pitada com os dedos abertos em leque, magros, bem tratados. + +D. Felicidade disse então: + +--Quem não era capaz de deixar Lisboa, nem á mão de Deus Padre, era o +conselheiro! + +O conselheiro, voltando-se vagarosamente para ella, um pouco curvado, +replicou: + +--Nasci em Lisboa, D. Felicidade, sou lisboeta d'alma! + +--O conselheiro--lembrou Jorge--nasceu na rua de S. José. + +--Numero setenta e cinco, meu Jorge. Na casa pegada áquella em que +viveu, até casar, o meu prezado Geraldo, o meu pobre Geraldo! + +Geraldo, o seu pobre Geraldo, era o pai de Jorge. Accacio fôra o seu +intimo. Eram visinhos. Accacio tocava então rebeca, e, como Geraldo +tocava flauta, faziam duos, pertenciam mesmo á Philarmonica da rua de +S. José. Depois Accacio, quando entrou nas repartições do Estado, por +escrupulo e por dignidade, abandonou a rebeca, os sentimentos ternos, +os serões joviaes da Philarmonica. Entregou-se todo á estatistica. Mas +conservou-se muito leal a Geraldo; continuou mesmo a Jorge aquella +amizade vigilante; fôra padrinho do seu casamento, vinha vêl-o todos os +domingos, e, no dia de seus annos, mandava-lhe pontualmente, com uma +carta de felicitações, uma lampreia d'ovos. + +--Aqui nasci--repetiu, desdobrando o seu bello lenço de sêda da +India--e aqui conto morrer. + +E assoou-se discretamente. + +--Isso ainda vem longe, conselheiro! + +Elle disse, com uma melancolia grave: + +--Não me arreceio d'_ella_, meu Jorge. Até já fiz construir, sem +vacillar, no Alto de S. João, a minha ultima morada. Modesta, mas +decente. É ao entrar, no arruamento á direita, n'um lugar abrigado, ao +pé da choça dos Verissimos amigos. + +--E já compoz o seu epitaphio, snr. conselheiro?--perguntou Julião, do +canto, ironico. + +--Não o quero, snr. Zuzarte. Na minha sepultura não quero elogios. +Se os meus amigos, os meus patricios entenderem que eu fiz alguns +serviços, teem outros meios para os commemorar; lá teem a imprensa, +o communicado, o necrologio, a poesia mesmo! Por minha vontade quero +apenas sobre a lapide lisa, em letras negras, o meu nome--com a minha +designação de conselheiro--a data do meu nascimento e a data do meu +obito. + +E com um tom demorado, de reflexão: + +--Não me opponho todavia a que inscrevam por baixo, em letras menores: +_Orai por elle!_ + +Houve um silencio commovido, e á porta uma voz fina, disse: + +--Dão licença? + +--Oh Ernestinho!--exclamou Jorge. + +Com um passo miudinho e rapido, Ernestinho veio abraçal-o pela cintura: + +--Eu soube que tu que partias, primo Jorge... Como está, prima Luiza? + +Era primo de Jorge. Pequenino, lymphatico, os seus membros franzinos, +ainda quasi tenros, davam-lhe um aspecto debil de collegial; o buço, +delgado, empastado em cêra-mostache, arrebitava-se aos cantos em pontas +afiadas como agulhas; e na sua cara chupada, os olhos repolhudos +amorteciam-se com um quebrado langoroso. Trazia sapatos de verniz com +grandes laços de fita; sobre o collete branco, a cadêa do relogio +sustentava um medalhão enorme, d'ouro, com fructos e flôres esmaltadas +em relevo. Vivia com uma actrizita do Gymnasio, uma magra, côr de +melão, com o cabello muito riçado, o ar tisico,--e escrevia para o +theatro. Tinha traducções, dous originaes n'um acto, uma comedia em +_calembourgs_. Ultimamente trazia em ensaios nas Variedades uma obra +consideravel, um drama em cinco actos, a _Honra e Paixão_. Era a sua +estreia séria. E desde então, viam-no sempre muito atarefado, os bolsos +inchados de manuscriptos, com localistas, com actores, muito prodigo +de cafés e de _cognacs_, o chapéo ao lado, descórado, e dizendo a +todos: Esta vida, mata-me! Escrevia todavia por paixão entranhada pela +Arte--porque era empregado na alfandega, com bom vencimento, e tinha +quinhentos mil reis de renda das suas inscripções. A Arte mesmo, dizia, +obrigava-o a desembolsos: para o acto do baile da _Honra e Paixão_ +mandára fazer, á sua custa, botas de verniz para o _galan_, botas de +verniz para o _pai-nobre_! O seu nome de familia era Ledesma. + +Deram-lhe um lugar, e Luiza notou logo, pousando o bordado, que estava +abatido! Queixou-se então das suas fadigas: os ensaios arrazavam-no, +tinha turras com o empresario: na vespera, vira-se forçado a refazer +todo o final d'um acto! todo! + +--E tudo isto--acrescentou muito exaltado--porque é um pelintra, um +parvo, e quer que se passe n'uma sala, o acto que se passava n'um +abysmo! + +--N'um quê?--perguntou surprehendida D. Felicidade. + +O conselheiro, muito cortez, explicou: + +--N'um abysmo, D. Felicidade, n'um despenhadeiro. Tambem se diz, em bom +vernaculo, um _vortice_.--Citou: _N'um espumoso vortice se arroja..._ + +--N'um abysmo?--perguntaram.--Porquê? + +O conselheiro quiz conhecer o _lance_. + +Ernestinho, radioso, esboçou largamente o enredo:--Era uma mulher +casada. Em Cintra tinha-se encontrado com um homem fatal, o conde de +Monte-Redondo. O marido arruinado, devia cem contos de reis ao jogo! +Estava deshonrado, ia ser preso. A mulher, louca, corre a umas ruinas +acastelladas, onde habita o conde, deixa cahir o véo, conta-lhe a +catastrophe. O conde lança o seu manto aos hombros, parte, chega no +momento em que os beleguins vão levar o homem.--É uma scena muito +commovente, dizia, é de noite, ao luar!--O conde desembuça-se, atira +uma bolsa d'ouro aos pés dos beleguins, gritando-lhes: Saciai-vos, +abutres!... + +--Bello final!--murmurou o conselheiro. + +--Emfim--acrescentou Ernesto, resumindo--aqui ha um enredo complicado: +o conde de Monte-Redondo e a mulher amam-se, o marido descobre, +arremessa todo o seu ouro aos pés do conde, e mata a esposa. + +--Como?--perguntaram. + +--Atira-a ao abysmo. É no quinto acto. O conde vê, corre, atira-se +tambem. O marido cruza os braços, e dá uma gargalhada infernal. Foi +assim que eu imaginei a cousa! + +Calou-se, offegante: e, abanando-se com o lenço, rolava em redor os +seus olhos langorosos, prateados como os d'um peixe morto. + +--É uma obra de cunho, embatem-se grandes paixões!--disse o +conselheiro, passando as mãos sobre a calva.--Os meus parabens, snr. +Ledesma! + +--Mas que quer o empresario?--perguntou Julião, que escutára de pé, +attonito--que quer elle? Quer o abysmo n'um primeiro andar, mobilado +pelo Gardé? + +Ernestinho voltou-se, muito affectuosamente: + +--Não, snr. Zuzarte,--a sua voz era quasi meiga--quer o desfecho n'uma +sala. De modo que eu--e fazia um gesto resignado--a gente tem de +condescender, tive d'escrever outro final. Passei a noite em claro. +Tomei tres chavenas de café!... + +O conselheiro acudiu, com a mão espalmada: + +--Cuidado, snr. Ledesma, cuidado! Prudencia com esses excitantes! Por +quem é, prudencia! + +--A mim não me faz mal, snr. conselheiro--disse sorrindo.--Escrevi-o em +tres horas! Venho de lh'o mostrar agora. Até o tenho aqui... + +--Leia, snr. Ernesto, leia!--exclamou logo D. Felicidade. + +Que lêsse! que lêsse! porque não lia? + +Era uma massada!... Era um rascunho!... Emfim, como queriam!... E +radiante desdobrou, no silencio, uma grande folha de papel azul pautado. + +--Eu peço desculpa. Isto é um borrão. A cousa não está ainda com todos +os FF e RR.--Fez então voz theatral:--Agatha!... É a mulher; isto aqui +é a scena com o marido, o marido já sabe tudo... + + +AGATHA (cahindo de joelhos nos pés de Julio) + +«Mas mata-me! Mata-me, por piedade! Antes a morte, que vêr, com esses +desprezos, o coração rasgado fibra a fibra!» + + +JULIO + +«E não me rasgaste tu tambem o coração? Tiveste tu piedade? Não. +Retalhaste-m'o! Meu Deus, eu que a julgava pura, n'essas horas em que +arrebatados...» + +O reposteiro franziu-se. Sentiu-se um fino tilintar de chavenas. Era +Juliana, d'avental branco, com o chá. + +--Que pena!--exclamou Luiza.--Depois do chá se lê. Depois do chá. + +Ernesto dobrou o papel, e, com um olhar de lado para Juliana, rancoroso: + +--Não vale a pena, prima Luiza! + +--Ora essa! É lindo!--affirmou D. Felicidade. + +Juliana pousava sobre a mesa o prato das fatias, os biscoutos d'Oeiras, +os bolos do Cócó. + +--Aqui tem o seu chá fraco, conselheiro--dizia Luiza.--Sirva-se, +Julião. As torradas ao snr. Julião! Mais assucar! Quem quer? Uma +torrada, conselheiro? + +--Estou amplamente servido, minha prezada senhora--replicou, +curvando-se. + +E declarou, voltado para Ernestinho, que achava o dialogo opulento. + +Mas, perguntaram, o que quer o empresario mais agora? Já tem a sala... + +Ernestinho, de pé, excitado, com um bolo d'ovos na ponta dos dedos, +explicou: + +--O que o empresario quer é que o marido lhe perdôe... + +Foi um espanto: + +--Ora essa! É extraordinario! Porque? + +--Então!--exclamou Ernestinho, encolhendo os hombros,--diz que o +publico que não gosta! Que não são cousas cá para o nosso paiz. + +--A fallar a verdade--disse o conselheiro--a fallar a verdade, snr. +Ledesma, o nosso publico não é geralmente affecto a scenas de sangue. + +--Mas não ha sangue, snr. conselheiro!--protestava Ernestinho, +erguendo-se sobre os bicos dos sapatos--mas não ha sangue! É com um +tiro. É com um tiro pelas costas, snr. conselheiro! + +Luiza fez a D. Felicidade--_pst!_ e, n'um áparte, com um sorriso: + +--D'esses bolinhos d'ovos. São muito frescos! + +Ella respondeu, com uma voz lamentosa: + +--Ai, filha, não! + +E indicou o estomago, compungidamente. + +No entanto o conselheiro aconselhava a Ernestinho a clemencia: +tinha-lhe posto a mão no hombro paternalmente, e com uma voz persuasiva: + +--Dá mais alegria á peça, snr. Ledesma. O espectador sahe mais +alliviado! Deixe sahir o espectador alliviado! + +--Mais um bolinho, conselheiro? + +--Estou repleto, minha prezada senhora. + +E, então, invocou a opinião de Jorge. Não lhe parecia que o bom Ernesto +devia perdoar? + +--Eu, conselheiro? De modo nenhum. Sou pela morte. Sou inteiramente +pela morte! E exijo que a mates, Ernestinho! + +D. Felicidade acudiu, toda bondosa: + +--Deixe fallar, snr. Ledesma. Está a brincar. E elle então que é um +coração d'anjo! + +--Está enganada, D. Felicidade--disse Jorge, de pé, diante +d'ella.--Fallo serio e sou uma fera! Se enganou o marido, sou pela +morte. No abysmo, na sala, na rua, mas que a mate. Posso lá consentir +que, n'um caso d'esses, um primo meu, uma pessoa da minha familia, +do meu sangue, se ponha a perdoar como um lamecha! Não! Mata-a! É um +principio de familia. Mata-a quanto antes! + +--Aqui tem um lapis, snr. Ledesma--gritou Julião, estendendo-lhe uma +lapiseira. + +O conselheiro, então, interveio, grave: + +--Não--disse--não creio que o nosso Jorge falle serio. É muito +instruido para ter idéas tão... + +Hesitou, procurou o adjectivo. Juliana poz-se-lhe diante com uma +bandeja, onde um macaco de prata se agachava comicamente, sob um vasto +guarda-sol erriçado de palitos. Tomou um, curvou-se, e concluiu: + +--...Tão anti-civilisadoras. + +--Pois está enganado, conselheiro, tenho-as--affirmou Jorge.--São as +minhas idéas. E aqui tem, se em lugar de se tratar d'um final d'acto, +fosse um caso da vida real, se o Ernesto viesse dizer-me: sabes, +encontrei minha mulher... + +--Oh Jorge!--disseram, reprehensivamente. + +--...Bem, supponhamos, se elle m'o viesse dizer, eu respondia-lhe o +mesmo. Dou a minha palavra d'honra, que lhe respondia o mesmo: mata-a! + +Protestaram. Chamaram-lhe _tigre_, _Othello_, _Barba-Azul_. Elle ria, +enchendo muito socegadamente o seu cachimbo. + +Luiza bordava, calada: a luz do candieiro, abatida pelo _abat-jour_, +dava aos seus cabellos tons de um louro quente, resvalava sobre a sua +testa branca como sobre um marfim muito polido. + +--Que dizes tu a isto?--disse-lhe D. Felicidade. + +Ella ergueu o rosto, risonha, encolheu os hombros... + +E o conselheiro logo: + +--A snr.^a D. Luiza diz com orgulho o que dizem as verdadeiras mães de +familia: + + Impurezas do mundo não me roçam + Nem a fimbria da tunica sequer. + +--Ora muito boas noites--disse, á porta, uma voz grossa. + +Voltaram-se. + +Ó Sebastião! Ó snr. Sebastião! ó Sebastiarrão! + +Era elle, Sebastião, o grande Sebastião, o Sebastiarrão, Sebastião +_tronco d'arvore_,--o intimo, o camarada, o _inseparavel_ de Jorge, +desde o latim, na aula de frei Liborio, aos Paulistas. + +Era um homem baixo e grosso, todo vestido de preto, com um chapéo molle +desabado na mão. Começava a perder um pouco na frente, os seus cabellos +castanhos e finos. Tinha a pelle muito branca, a barba alourada e curta. + +Veio sentar-se ao pé de Luiza. + +--Então d'onde vem? d'onde vem? + +Vinha do Price. Rira muito com os palhaços. Houvera a brincadeira da +pipa. + +O seu rosto, em plena luz, tinha uma expressão honesta, simples, +aberta: os olhos pequenos, azues d'um azul claro, d'uma suavidade +séria, adoçavam-se muito quando sorria: e os beiços escarlates, sem +pelliculas seccas, os dentes luzidios, revelavam uma vida saudavel +e habitos castos. Fallava devagar, baixo, como se tivesse medo de +se manifestar ou de fatigar. Juliana trouxera-lhe a sua chavena, e +remexendo o assucar com a colhér direita, os olhos ainda a rir, um +sorriso bom: + +--A pipa tem muita graça. Muita graça! + +Sorveu um gole de chá e depois d'um momento: + +--E tu, maroto, sempre partes ámanhã? Não ha umas tentaçõesinhas d'ir +por ahi fóra com elle, minha cara amiga? + +Luiza sorriu. Tomára ella! Quem dera! Mas era uma jornada tão +incommoda! Depois a casa não podia ficar só, não havia que fiar em +criados... + +--Está claro, está claro--disse elle. + +Jorge, então, que abrira a porta do escriptorio, chamou-o: + +--Ó Sebastião! Fazes favor? + +Elle foi logo com o seu andar pesado, o largo dorso curvado: as abas do +seu casaco mal feito tinham um comprimento ecclesiastico. + +Entraram para o escriptorio. + +Era uma saleta pequena, com uma estante alta e envidraçada, tendo +em cima a estatueta de gesso, empoeirada e velha, d'uma bacchante +em delirio. A mesa, com um antigo tinteiro de prata que fôra de seu +avô, estava ao pé da janella: uma collecção empilhada de _Diarios do +Governo_, branquejava a um canto: por cima da cadeira de marroquim +escuro, pendia, n'um caixilho preto, uma larga photographia de Jorge: e +sobre o quadro, duas espadas encruzadas reluziam. Uma porta, no fundo, +coberta com um reposteiro de baeta escarlate, abria para o patamar. + +--Sabes quem esteve ahi de tarde?--disse logo Jorge, accendendo o +cachimbo--Aquella desavergonhada da Leopoldina! Que te parece, hein? + +--E entrou?--perguntou Sebastião, baixo, correndo por dentro o pesado +reposteiro de fazenda listrada. + +--Entrou, sentou-se, esteve, demorou-se! Fez o que quiz! A Leopoldina, +a _Pão e queijo_! + +E arremessando o phosphoro violentamente: + +--Quando penso que aquella desavergonhada vem a minha casa! Uma +creatura que tem mais amantes que camisas, que anda pelo Dá-fundo em +troças, que passeava nos bailes, este anno, de dominó, com um tenor! A +mulher do Zagallão, um devasso que falsificou uma letra! + +E quasi ao ouvido de Sebastião: + +--Uma mulher que dormiu com o Mendonça dos callos! Aquelle sebento do +Mendonça dos callos! + +Teve um gesto furioso, exclamou: + +--E vem aqui, senta-se nas minhas cadeiras, abraça minha mulher, +respira o meu ar!... Palavra d'honra, Sebastião, se a pilho--procurou +mentalmente, com o olhar acceso, um castigo sufficiente--dou-lhe +açoutes! + +Sebastião disse devagar: + +--E o peor é a visinhança. + +--Está claro que é!--exclamou Jorge.--Toda essa gente ahi pela rua +abaixo sabe quem ella é! Sabem-lhe os amantes, sabem-lhe os sitios. É a +_Pão e queijo_! Todo o mundo conhece a _Pão e queijo_. + +--Má visinhança--disse Sebastião. + +--De tremer. + +Mas então! estava acostumado á casa, era sua, tinha-a arranjado, era +uma economia... + +--Senão! Não parava aqui um dia! + +Era um horror de rua! Pequena, estreita, acavallados uns nos outros! +Uma visinhança a postos, avida de mexericos! Qualquer bagatella, o +trotar d'uma tipoia, e apparecia por traz de cada vidro um par d'olhos +repolhudos a cocar! E era logo um badalar de linguas por ahi abaixo, e +conciliabulos, e opiniões formadas! fulano é indecente, fulana é bebeda! + +--É o diabo!--disse Sebastião. + +--A Luiza é um anjo, coitada--dizia Jorge, passeando pela saleta--mas +tem cousas em que é criança! Não vê o mal. É muito boa, deixa-se ir. +Com este caso da Leopoldina, por exemplo; foram creadas de pequenas, +eram amigas, não tem coragem agora para a pôr fóra. É acanhamento, é +bondade. Elle comprehende-se! Mas emfim as leis da vida tem as suas +exigencias!... + +E depois d'uma pausa: + +--Por isso, Sebastião, em quanto eu estiver fóra, se te constar que a +Leopoldina vem por cá, avisa a Luiza! Porque ella é assim: esquece-se, +não reflexiona. É necessario alguem que a advirta, que lhe diga:--Alto +lá, isso não póde ser! Que então cahe logo em si, e é a primeira!... +Vens por ahi, fazes-lhe companhia, fazes-lhe musica, e se vires que a +Leopoldina apparece ao largo, tu logo:--Minha rica senhora, cuidado, +olhe que isso não! Que ella, sentindo-se apoiada, tem decisão. Senão, +acanha-se, deixa-a vir. Soffre com isso, mas não tem coragem de lhe +dizer: Não te quero vêr, vai-te! Não tem coragem p'ra nada: começam +as mãos a tremer-lhe, a seccar-se-lhe a bocca... É mulher, é muito +mulher!... Não te esqueças, hein, Sebastião? + +--Então havia de me esquecer, homem? + +Sentiram então o piano na sala, e a voz de Luiza ergueu-se, fresca e +clara, cantando a _Mandolinata_: + + Amici, la notte é bella, + La luna va spontari... + +--Fica tão só, coitada!...--disse Jorge. + +Deu alguns passos pelo escriptorio, fumando, com a cabeça baixa: + +--Todo o casal bem organisado, Sebastião, deve ter dous filhos! Deve +ter pelo menos um!... + +Sebastião coçou a barba em silencio--e a voz de Luiza, elevando-se com +um certo esforço aspero, nos _altos_ da melodia : + + Di cà, di là, per la cità + Andiami a transnottari... + +Era uma tristeza secreta de Jorge--não ter um filho! Desejava-o tanto! +Ainda em solteiro, nas vesperas do casamento, já sonhava aquella +felicidade: o seu filho! Via-o de muitas maneiras: ou gatinhando com as +suas perninhas vermelhas, cheias de rôscas, e os cabellos annelados, +finos como fios de sêda; ou rapaz forte, entrando da escóla com os +livros, alegre e d'olho vivo, vindo mostrar-lhe as boas notas dos +mestres: ou, melhor, rapariga crescida, clara e rosada, com um vestido +branco, as duas tranças cahidas, vindo pousar as mãos nos seus cabellos +já grisalhos... + +Vinha-lhe, ás vezes, um medo de morrer sem ter tido aquella felicidade +completadora! + +Agora, na sala, a voz aguda de Ernestinho perorava, depois, no piano +Luiza recomeçou a _Mandolinata_, com um _brio_ jovial. + +A porta do escriptorio abriu-se, Julião entrou: + +--Que estão vossês aqui a conspirar? Vou-me safar, que é tarde! Até +á volta, meu velho, hein? Tambem ia comtigo tomar ar, respirar, vêr +campos, mas... + +E sorriu com amargura.--_Addio! Addio!_ + +Jorge foi alumiar-lhe ao patamar, abraçal-o outra vez. Se quizesse +alguma cousa do Alemtejo!... + +Julião carregou o chapéo na cabeça: + +--Dá cá outro charuto, por despedida! Dá cá dous! + +--Leva a caixa! Eu em viagem só fumo cachimbo. Leva a caixa, homem! + +Embrulhou-lh'a n'um _Diario de Noticias_; Julião metteu-a debaixo do +braço, e descendo os degraus: + +--Cuidado com as sezões, e descobre uma mina d'ouro! + +Jorge e Sebastião entraram na sala. Ernestinho, encostado ao piano, +torcia as guias do bigodinho, e Luiza começava uma valsa de Strauss--o +_Danubio Azul_. + +Jorge disse, rindo, estendendo os braços: + +--Uma valsa, D. Felicidade? + +Ella voltou-se, com um sorriso. E porque não? Em nova era fallada! +Citou logo a valsa que dançára com o sr. D. Fernando, no tempo da +Regencia, nas Necessidades. Era uma valsa linda, d'essa época: _A +Perola d'Ophir_. + +Estava sentada ao pé do conselheiro, no sophá. E como retomando um +dialogo mais querido--continuou, baixo para elle, com uma voz meiga: + +--Pois creia, acho-o com optimas côres. + +O conselheiro enrolava vagarosamente o seu lenço de sêda da India. + +--Na estação calmosa passo sempre melhor. E D. Felicidade? + +--Ai! Estou outra, conselheiro! Muito boas digestões, muito livre de +gazes... Estou outra! + +--Deus o queira, minha senhora, Deus o queira--disse o conselheiro, +esfregando lentamente as mãos. + +Tossiu, ia levantar-se, mas D. Felicidade pôz-se a dizer: + +--Espero que esse interesse seja verdadeiro... + +Córou. O corpete flaccido do vestido de sêda preta enchia-se-lhe com o +arfar do peito. + +O conselheiro recahiu lentamente no sophá,--e com as mãos nos joelhos: + +--D. Felicidade sabe que tem em mim um amigo sincero... + +Ella levantou para elle seus olhos pisados, d'onde sahiam revelações de +paixão e supplicas de felicidade: + +--E eu, conselheiro!... + +Deu um grande suspiro, pôz o leque sobre o rosto. + +O conselheiro ergueu-se seccamente. E com a cabeça alta, as mãos atraz +das costas, foi ao piano, perguntou a Luiza curvando-se: + +--É alguma canção do Tyrol, D. Luiza? + +--Uma valsa de Strauss--murmurou-lhe Ernestinho, em bicos de pés, ao +ouvido. + +--Ah! Muita fama! Grande author! + +Tirou então o relogio. Eram horas, disse, de ir coordenar alguns +apontamentos. Aproximou-se de Jorge, com solemnidade: + +--Jorge, meu bom Jorge, adeus! Cautela com esse Alemtejo! O clima é +nocivo, a estação traiçoeira! + +E apertou-o nos braços com uma pressão commovida. + +D. Felicidade punha a sua manta de renda negra. + +--Já, D. Felicidade?--disse Luiza. + +Ella explicou-lhe, ao ouvido: + +--Já, sim, filha, que tenho estado a abarrotar, comi umas bajes e tenho +estado!... E aquelle homem, aquelle gêlo! O snr. Ernesto vem para os +meus sitios, hein? + +--Como um fuso, minha senhora! + +Tinha vestido o seu paletot d'alpaca clara, fumava chupando, com as +faces encovadas, por uma boquilha enorme, onde uma Venus se torcia +sobre o dorso d'um leão domado. + +--Adeus, primo Jorge, saudinha e dinheiro, hein? Adeus. Quando fôr a +_Honra e Paixão_ cá mando um camarote á prima Luiza. Adeus! Saudinha! + +Iam a sahir. Mas o conselheiro, á porta, voltando-se subitamente, com +as abas do paletot deitadas para traz, a mão pomposamente apoiada no +castão de prata da bengala que representava uma cabeça de mouro, disse, +com gravidade: + +--Esquecia-me, Jorge! Tanto em Evora, como em Beja, visite os +governadores civis! E eu lhe digo porquê: deve-lh'o como primeiros +funccionarios do districto, e podem-lhe ser de muita utilidade nas suas +peregrinações scientificas! + +E curvando-se profundamente: + +--_Al rivedere_, como se diz em Italia. + + + +Sebastião tinha ficado. Para arejar do fumo de tabaco Luiza foi abrir +as janellas; a noite estava quente e immovel, de luar. + +Sebastião pozera-se ao piano, e com a cabeça curvada, corria devagar o +teclado. + +Tocava admiravelmente, com uma comprehensão muito fina da musica. +Outr'ora, compozera mesmo uma _Meditação_, duas _Valsas_, +uma _Ballada_: mas eram estudos muito trabalhados, cheios de +reminiscencias, sem estylo.--Da cachimonia não me sahe nada--costumava +elle dizer com bonhomia, batendo na testa, sorrindo--mas lá com os +dedos!... + +Pôz-se a tocar um _Nocturno_ de Choppin. Jorge sentára-se no sophá ao +pé de Luiza. + +--Já tens prompto o teu farnelzinho!--disse-lhe ella. + +--Bastam umas bolachas, filha. O que quero é o cantil com _cognac_. + +--E não te esqueças de mandar um telegramma logo que chegues! + +--Pudera! + +--Tu d'aqui a quinze dias, vens! + +--Talvez... + +Ella teve um gesto amuado. + +--Ah, bem! Se não vieres, vou ter comtigo! A culpa é tua. + +E olhando em redor: + +--Que só que vou ficar! + +Mordeu o beicinho, fitou o tapete. E de repente, com a voz ainda triste: + +--Pst, Sebastião! A _malaguenha_, faz favor? + +Sebastião começou a tocar a _malaguenha_. Aquella melodia calida, muito +arrastada, encantava-a. Parecia-lhe estar em Malaga, ou em Granada, +não sabia: era sob as laranjeiras, mil estrellinhas luzem; a noite é +quente, o ar cheira bem; por baixo d'um lampeão suspenso a um ramo, um +cantador sentado na tripeça mourisca faz gemer a guitarra; em redor as +mulheres com os seus corpetes de velludilho encarnado batem as mãos +em cadencia: e ao largo dorme uma Andaluzia de romance e de zarzuela, +quente e sensual, onde tudo são braços brancos que se abrem para o +amor, capas romanticas que roçam as paredes, sombrias viellas onde luz +o nicho do santo e se repenica a viola, serenos que invocam a Virgem +Santissima cantando as horas... + +--Muito bem, Sebastião! Gracias! + +Elle sorriu, ergueu-se, fechou cuidadosamente o piano, e indo buscar o +seu chapéo desabado: + +--Então ámanhã ás sete? Cá estou, e vou-te acompanhar até ao Barreiro. + +Bom Sebastião! + +Foram debruçar-se na varanda para o vêr sahir. A noite fazia um +silencio alto, d'uma melancolia placida; o gaz dos candieiros parecia +mortiço; a sombra que se recortava na rua, com uma nitidez brusca, +tinha um tom quente e dôce; a luz punha nas fachadas brancas claridades +vivas, e nas pedras da calçada faiscações vidradas; uma clara-boia +reluzia, a distancia, como uma velha lamina de prata; nada se movia; e +instinctivamente os olhos erguiam-se para as alturas, procuravam a lua +branca, muito séria. + +--Que linda noite! + +A porta bateu, e Sebastião de baixo, na sombra: + +--Dá vontade de passear, hein? + +--Linda! + +Ficaram á varanda preguiçosamente, olhando, detidos pela +tranquillidade, pela luz. Puzeram-se a fallar baixo da jornada. Áquella +hora onde estaria elle? Já em Evora, n'um quarto d'estalagem, passeando +monotonamente sobre um chão de tijolo. Mas voltaria breve; esperava +fazer um bom negocio com o Paco, o hespanhol das minas de Portel, +trazer talvez alguns centos de mil reis, e teriam então a doçura do +mez de setembro; poderiam fazer uma jornada ao Norte, irem ao Bussaco, +trepar aos altos, beber a agua fresca das rochas, sob a espessura +humida das folhagens: irem a Espinho, e pelas praias, sentar-se na +arêa, no bom ar cheio d'azote, vendo o mar unido, d'um azul metallico +e faiscante, o mar do verão, com algum fumo de paquete que passa para +o Sul ao longe muito adelgaçado. Faziam outros planos com os hombros +muito chegados: uma felicidade abundante enchia-os deliciosamente. E +Jorge disse: + +--Se houvesse um pequerrucho, já não ficavas tão só! + +Ella suspirou. Tambem o desejava tanto! Chamar-se-hia Carlos Eduardo. E +via-o no seu berço dormindo, ou no collo, nú, agarrando com a mãosinha +o dedo do pé, mamando a ponta rosada do seu peito... Um estremecimento +d'um deleite infinito correu-lhe no corpo. Passou o braço pela cinta +de Jorge. Um dia seria, teria um filho de certo! E não comprehendia +o seu filho homem nem Jorge velho: via-os ambos do mesmo modo: um +sempre amante, novo, forte; o outro sempre dependente do seu peito, +da maminha, ou gatinhando e palrando, louro e côr de rosa. E a vida +apparecia-lhe infindavel, d'uma doçura igual, atravessada do mesmo +enternecimento amoroso, quente, calma e luminosa como a noite que os +cobria. + +--A que horas quer a senhora que a venha acordar?--disse a voz secca de +Juliana. + +Luiza voltou-se: + +--Ás sete, já lhe disse ha pouco, creatura. + +Fecharam a janella. Em torno das velas uma borboleta branca esvoaçava. +Era bom agouro! + +Jorge prendeu-a nos braços: + +--Vai ficar sem o seu maridinho, hein?--disse tristemente. + +Ela deixou pesar o corpo sobre as mãos d'elle cruzadas, olhou-o com um +longo olhar que se ennevoava e escurecia, e envolvendo-lhe o pescoço +com o gesto lento, harmonioso e solemne dos braços, pousou-lhe na bocca +um beijo grave e profundo. Um vago soluço levantou-lhe o peito. + +--Jorge! Querido!--murmurou. + + + + +III + + +Havia doze dias que Jorge tinha partido e, apesar do calor e da poeira, +Luiza vestia-se para ir a casa de Leopoldina. Se Jorge soubesse, não +havia de gostar, não! Mas estava tão farta de estar só! Aborrecia-se +tanto! De manhã, ainda tinha os arranjos, a costura, a _toilette_, +algum romance... Mas de tarde! + +Á hora em que Jorge costumava voltar do ministerio, a solidão parecia +alargar-se em torno d'ella. Fazia-lhe tanta falta o _seu_ toque da +campainha, os seus passos no corredor!... + +Ao crepusculo, ao vêr cahir o dia, entristecia-se sem razão, cahia +n'uma vaga sentimentalidade: sentava-se ao piano, e os fados tristes, +as cavatinas apaixonadas gemiam instinctivamente no teclado, sob os +seus dedos preguiçosos, no movimento abandonado dos seus braços molles. +O que pensava em tolices então! E á noite, só, na larga cama franceza, +sem poder dormir com o calor, vinham-lhe de repente terrores, palpites +de viuvez. + +Não estava acostumada, não podia estar só. Até se lembrára de chamar a +tia Patrocinio, uma velha parenta pobre que vivia em Belem: ao menos +era _alguem_: mas receou aborrecer-se mais ao pé da sua longa figura de +viuva taciturna, sempre a fazer meia, com enormes oculos de tartaruga +sobre um nariz d'aguia. + +N'aquella manhã pensára em Leopoldina, toda contente d'ir tagarellar, +rir, segredar, passar as horas do calor. Penteava-se em collete e +saia branca: a camisinha decotada descobria os ombros alvos d'uma +redondeza macia, o collo branco e tenro, azulado de vêasinhas finas; e +os seus braços redondinhos, um pouco vermelhos no cotovêlo, descobriam +por baixo, quando se erguiam prendendo as tranças, fiosinhos louros, +frisando e fazendo ninho. + +A sua pelle conservava ainda o rosado humido da agua fria: havia no +quarto um cheiro agudo de vinagre de _toilette_: os transparentes de +linho branco descidos davam uma luz baça, com tons de leite. + +Ah! positivamente devia escrever a Jorge, que voltasse depressa! +Que o que tinha graça era ir surprehendel-o a Evora, cahir-lhe no +Tabaquinho, um dia, ás tres horas! E quando elle entrasse empoeirado e +encalmado, de lunetas azues, atirar-se-lhe ao pescoço! E á tardinha, +pelo braço d'elle, ainda quebrada da jornada, com um vestido fresco, +ir vêr a cidade. Pelas ruas estreitas e tristes admiravam-na muito. +Os homens vinham ás portas das lojas. Quem seria? É de Lisboa. É a do +Engenheiro.--E diante do toucador, apertando o corpete do vestido, +sorria áquellas imaginações, e ao seu rosto, no espelho. + +A porta do quarto rangeu devagarinho. + +--Que é? + +A voz de Juliana, plangente, disse: + +--A senhora dá licença que eu vá logo ao medico? + +--Vá, mas não se demore. Puxe-me essa saia atraz. Mais. O que é que +vossê tem? + +--Enjôos, minha senhora, peso no coração. Passei a noite em claro. + +Estava mais amarella, o olhar muito pisado, a face envelhecida. Trazia +um vestido de merino preto escoado, e a cuia da semana de cabellos +velhos. + +--Pois sim, vá--disse Luiza.--Mas arranje tudo antes. E não se demore, +hein ? + +Juliana subiu logo á cozinha. Era no segundo andar, com duas janellas +de sacada para as trazeiras, larga, ladrilhada de tijolo diante do +fogão. + +--Diz que sim, snr.^a Joanna--disse á cozinheira--que podia ir. Vou-me +vestir. Ella tambem está quasi prompta. Fica vossemecê com a casa por +sua! + +A cozinheira fez-se vermelha, poz-se a cantar, foi logo sacudir, +estender na varanda um velho tapete esfiado; e os seus olhos não +deixavam, defronte, uma casa baixa, pintada d'amarello, com um portal +largo,--a loja de marceneiro do tio João Galho, onde trabalhava o +Pedro, o seu amante. A pobre Joanna «babava-se» por ele. Era um +rapazola pallido e afadistado; Joanna era minhota, de Avintes, de +familia de lavrador, e aquella figura delgada de lisboeta anemico +seduzia-a com uma violencia abrazada. Como não podia sahir á semana, +mettia-o em casa, pela porta de traz, quando estava só; estendia então +na varanda para dar signal o velho tapete desbotado, onde ainda se +percebiam os paus de um veado. + +Era uma rapariga muito forte, com peitos d'ama, o cabello como +azeviche, todo lustroso do oleo de amendoas dôces. Tinha a testa curta +de plebêa teimosa. E as sobrancelhas cerradas faziam-lhe parecer o +olhar mais negro. + +--Ai!--suspirou Juliana.--A snr.^a Joanna é que a leva! + +A rapariga ficou escarlate. + +Mas Juliana acudiu logo: + +--Olha o mal! fosse eu! Boa! faz muito bem! + +Juliana lisongeava sempre a cozinheira: dependia d'ella: Joanna +dava-lhe caldinhos ás horas de debilidade, ou, quando ella estava mais +adoentada, fazia-lhe um bife ás escondidas da senhora. Juliana tinha +um grande medo de «cair em fraqueza», e a cada momento precisava tomar +a «sustancia». De certo, como feia e solteirona detestava aquelle +«escandalo do carpinteiro»; mas protegia-o, porque elle valia muitos +regalos aos seus fracos de gulosa. + +--Fosse eu!--repetiu--dava-lhe o melhor da panella! Se a gente ia a +ter escrupulos por causa dos amos, boa! Olha quem! Vêem uma pessoa a +morrer, e é como fosse um cão. + +E com um risinho amargo: + +--Diz que me não demorasse no medico. É como quem diz, cura-te depressa +ou espicha depressa! + +Foi buscar a vassoura a um canto, e com um suspiro agudo: + +--Todas o mesmo, uma récua! + +Desceu, começou a varrer o corredor.--Toda a noite estivera doente: o +quarto no sotão, debaixo das telhas, muito abafado, com um cheiro de +tijolo cozido, dava-lhe enjôos, faltas d'ar, desde o começo do verão: +na vespera até vomitára! E já levantada ás seis horas, não descançára, +limpando, engommando, despejando, com a pontada no lado e todo o +estomago embrulhado!--Tinha escancarado a cancella, e com grandes ais, +atirava vassouradas furiosas contra as grades do corrimão. + +--A snr.^a D. Luiza está em casa? + +Voltou-se. Nos ultimos degraus da escada estava um sujeito, que lhe +pareceu «estrangeirado». Era trigueiro, alto, tinha um bigode pequeno +levantado, um ramo na sobrecasaca azul, e o verniz dos seus sapatos +resplandecia. + +--A senhora vai sahir--disse ela olhando-o muito.--Faz favor de dizer +quem é? + +O individuo sorriu. + +--Diga-lhe que é um sujeito para um negocio. Um negocio de minas. + +Luiza, diante do toucador, já de chapéo, mettia n'uma casa do corpete +dous botões de rosa de chá. + +--Um negocio!--disse muito surprehendida--Deve ser algum recado para o +snr. Jorge, de certo! Mande entrar. Que especie de homem é? + +--Um janota! + +Luiza desceu o véo branco, calçou devagar as luvas de _peau de suède_ +claras, deu duas pancadinhas fofas ao espelho na gravata de renda, e +abriu a porta da sala. Mas quasi recuou, fez _ah!_ toda escarlate. +Tinha-o reconhecido logo. Era o primo Bazilio. + + + +Houve um _shake-hands_ demorado, um pouco tremulo. Estavam ambos +calados:--ella com todo o sangue no rosto, um sorriso vago; elle +fitando-a muito, com um olhar admirado. Mas as palavras, as perguntas +vieram logo, muito precipitadamente:--Quando tinha elle chegado? Se +sabia que elle estava em Lisboa? Como soubera a morada d'ella? + +Chegára na vespera no paquete de Bordeus. Perguntára no ministerio: +disseram-lhe que Jorge estava no Alemtejo, deram-lhe a _adresse_... + +--Como tu estás mudada, Santo Deus! + +--Velha? + +--Bonita! + +--Ora! + +E elle, que tinha feito? Demorava-se? + +Foi abrir uma janella, dar uma luz larga, mais clara. Sentaram-se. Elle +no sophá muito languidamente; ella ao pé, pousada de leve á beira d'uma +poltrona, toda nervosa. + +Tinha deixado o _degredo_--disse elle.--Viera respirar um pouco á +velha Europa. Estivera em Constantinopla, na Terra Santa, em Roma. +O ultimo anno passára-o em Paris. Vinha de lá, d'aquella aldeola de +Paris!--Fallava devagar, recostado, com um ar intimo, estendendo sobre +o tapete, commodamente, os seus sapatos de verniz. + +Luiza olhava-o. Achava-o mais varonil, mais trigueiro. No cabello +preto annelado havia agora alguns fios brancos: mas o bigode pequeno +tinha o antigo ar moço, orgulhoso e intrepido; os olhos, quando ria, a +mesma doçura amollecida, banhada n'um fluido. Reparou na ferradura de +perola da sua gravata de setim preto, nas pequeninas estrellas brancas +bordadas nas suas meias de sêda. A Bahia não o vulgarisára. Voltava +mais interessante! + +--Mas tu, conta-me de ti--dizia elle com um sorriso, inclinado para +ela.--És feliz, tens um pequerrucho... + +--Não--exclamou Luiza rindo.--Não tenho! Quem te disse? + +--Tinham-me dito. E teu marido demora-se? + +--Tres, quatro semanas, creio. + +Quatro semanas! Era uma viuvez! Offereceu-se logo para a vir vêr mais +vezes, palrar um momento, pela manhã... + +--Pudera não! És o unico parente, que tenho, agora... + +Era verdade!... E a conversação tomou uma intimidade melancolica: +fallaram da mãi de Luiza, a _tia Jójó_, como lhe chamava Bazilio. Luiza +contou a sua morte, muito dôce, na poltrona, sem um ai... + +--Onde está sepultada?--perguntou Bazilio com uma voz grave; e +acrescentou, puxando o punho da camisa de chita:--Está no nosso jazigo? + +--Está. + +--Hei-de ir lá. Pobre tia Jójó! + +Houve um silencio. + +--Mas tu ias sahir!--disse Bazilio de repente, querendo erguer-se. + +--Não!--exclamou--Não! Estava aborrecida, não tinha nada que fazer. Ia +tomar ar. Não saio, já. + +Elle ainda disse: + +--Não te prendas... + +--Que tolice! Ia a casa d'uma amiga passar um momento. + +Tirou logo o chapéo; n'aquelle movimento os braços erguidos repuxaram o +corpete justo, as fórmas do seio accusaram-se suavemente. + +Bazilio torcia a ponta do bigode devagar; e vendo-a descalçar as luvas: + +--Era eu antigamente quem te calçava e descalçava as luvas... +Lembras-te?... Ainda tenho esse privilegio exclusivo, creio eu... + +Ella riu-se. + +--De certo que não... + +Bazilio disse então, lentamente, fitando o chão: + +--Ah! Outros tempos! + +E poz-se a fallar de Collares: a sua primeira idéa, mal chegára, tinha +sido tomar uma tipoia e ir lá: queria vêr a quinta; ainda existiria o +balouço debaixo do castanheiro? ainda haveria o caramanchão de rosinhas +brancas, ao pé do Cupido de gesso que tinha uma aza quebrada?... + +Luiza ouvira dizer que a quinta pertencia agora a um brazileiro: sobre +a estrada havia um mirante com um tecto chinez, ornado de bolas de +vidro; e a velha casa morgada fôra reconstruida e mobilada pelo Gardé. + +--A nossa pobre sala de bilhar, côr d'oca, com grinaldas de +rosas!--disse Bazilio; e fitando-a:--Lembras-te das nossas partidas de +bilhar? + +Luiza, um pouco vermelha, torcia os dedos das luvas; ergueu os olhos +para elle, disse, sorrindo: + +--Eramos duas crianças! + +Bazilio encolheu tristemente os hombros, fitou as ramagens do tapete: +parecia abandonar-se a uma saudade remota, e com uma voz sentida: + +--Foi o bom tempo! Foi o meu bom tempo! + +Ella via a sua cabeça bem feita, descahida n'aquella melancolia +das felicidades passadas, com uma risca muito fina, e os cabellos +brancos--que lhe dera a separação. Sentia tambem uma vaga saudade +encher-lhe o peito: ergueu-se, foi abrir a outra janella, como para +dissipar na luz viva e forte aquella perturbação. Perguntou-lhe então +pelas viagens, por Paris, por Constantinopla. + +Fôra sempre o seu desejo viajar--dizia--ir ao Oriente. Quereria andar +em caravanas, balouçada no dorso dos camêlos; e não teria medo, nem do +deserto, nem das feras... + +--Estás muito valente!--disse Bazilio.--Tu eras uma maricas, tinhas +medo de tudo... Até da adega, na casa do papá, em Almada! + +Ella córou. Lembrava-se bem da adega, com a sua frialdade subterranea +que dava arripios! A candêa d'azeite pendurada na parede alumiava com +uma luz avermelhada e fumosa as grossas traves cheias de têas d'aranha, +e a fileira tenebrosa das pipas bojudas. Havia alli ás vezes, pelos +cantos, beijos furtados... + +Quiz saber então o que tinha feito em Jerusalém, se era bonito. + +Era curioso. Ia pela manhã um bocado ao Santo Sepulchro; depois +d'almoço montava a cavallo... Não se estava mal no hotel, inglezas +bonitas... Tinha algumas intimidades illustres... + +Fallava d'ellas, devagar, traçando a perna: o seu amigo o patriarcha +de Jerusalém, a sua velha amiga a princeza de La Tour d'Auvergne! Mas +o melhor do dia era de tarde--dizia--no Jardim das Oliveiras, vendo +defronte as muralhas do templo de Salomão, ao pé a aldêa escura de +Bethania onde Martha fiava aos pés de Jesus, e mais longe, faiscando +immovel sob o sol, o mar Morto! E alli passava sentado n'um banco, +fumando tranquillamente o seu cachimbo! + +Se tinha corrido perigos? + +De certo. Uma tempestade de arêa no deserto de Petra! Horrivel! Mas +que linda viagem, as caravanas, os acampamentos! Descreveu a sua +_toilette_:--uma manta de pelle de camêlo ás listras vermelhas e +pretas, um punhal de Damasco n'uma cinta de Bagdad, e a lança comprida +dos Beduinos. + +--Devia-te ficar bem! + +--Muito bem. Tenho photographias. + +Prometteu dar-lhe uma, e acrescentou: + +--Sabes que te trago presentes? + +--Trazes?--E os seus olhos brilhavam. + +O melhor era um rosario... + +--Um rosario? + +--Uma reliquia! Foi benzido primeiro pelo patriarcha de Jerusalém sobre +o tumulo de Christo, depois pelo papa... + +Ah! Porque tinha estado com o papa! Um velhinho muito aceado, já todo +branquinho, vestido de branco, muito amavel! + +--Tu d'antes não eras muito devota--disse. + +--Não, não sou muito caturra n'essas cousas--respondeu rindo. + +--Lembras-te da capella de nossa casa em Almada? + +Tinham passado alli lindas tardes! Ao pé da velha capella morgada +havia um adro todo cheio de altas hervas floridas,--e as papoulas, +quando vinha a aragem, agitavam-se como azas vermelhas de borboletas +pousadas... + +--E a tilia, lembras-te, onde eu fazia gymnastica? + +--Não fallemos no que lá vai! + +Em que queria ella então que elle fallasse? Era a sua mocidade, o +melhor que tivera na vida... + +Ella sorriu, perguntou: + +--E no Brazil? + +Um horror! Até fizera a côrte a uma mulata. + +--E porque te não casaste?... + +Estava a mangar! Uma mulata! + +--E de resto--acrescentou com a voz d'um arrependimento +triste--já que me não casei quando devia,--encolheu os hombros +melancolicamente--acabou-se... Perdi a vez. Ficarei solteiro. + +Luiza fez-se escarlate. Houve um silencio. + +--E qual é o outro presente, então, além do rosario? + +--Ah! Luvas. Luvas de verão, de _peau de suède_, de oito botões. Luvas +decentes. Vossês aqui usam umas luvitas de dous botões, a vêr-se o +punho, um horror! + +De resto pelo que tinha visto, as mulheres em Lisboa cada dia se +vestiam peor! Era atroz! Não dizia por ella; até aquelle vestido tinha +_chic_, era simples, era honesto. Mas em geral, era um horror. Em +Paris! Que deliciosas, que frescas as _toilettes_ d'aquelle verão! +Oh! mas em Paris!... Tudo é superior! Por exemplo, desde que chegára +ainda não pudera comer. Positivamente não podia comer!--Só em Paris se +come--resumiu. + +Luiza voltava entre os dedos o seu medalhão de ouro, preso ao pescoço +por uma fita de velludo preto. + +--E estiveste então um anno em Paris? + +Um anno divino. Tinha um _appartamento_ lindissimo, que pertencera a +lord Falmouth, rue Saint Florentin, tinha tres cavallos... + +E recostando-se muito, com as mãos nos bolsos: + +--Emfim, fazer este valle de lagrimas o mais confortavel possivel!... +Dize cá, tens algum retrato n'esse medalhão? + +--O retrato de meu marido. + +--Ah! deixa vêr! + +Luiza abriu o medalhão. Elle debruçou-se; tinha o rosto quasi sobre o +peito d'ella. Luiza sentia o aroma fino que vinha de seus cabellos. + +--Muito bem, muito bem!--fez Bazilio. + +Ficaram calados. + +--Que calor que está!--disse Luiza.--Abafa-se, hein! + +Levantou-se, foi abrir um pouco uma vidraça. O sol deixára a varanda. +Uma aragem suave encheu as pregas grossas das bambinellas. + +--É o calor do Brazil--disse elle.--Sabes que estás mais crescida? + +Luiza estava de pé. O olhar de Bazilio corria-lhe as linhas do corpo; e +com a voz muito intima, os cotovêlos sobre os joelhos, o rosto erguido +para ella: + +--Mas, francamente, dize cá, pensaste que eu te viria vêr? + +--Ora essa! Realmente, se não viesses zangava-me. És o meu unico +parente... O que tenho pena é que meu marido não esteja... + +--Eu--acudiu Bazilio--foi justamente por elle não estar... + +Luiza fez-se escarlate. Bazilio emendou logo, um pouco corado tambem: + +--Quero dizer... talvez elle saiba que houve entre nós... + +Ella interrompeu: + +--Tolices! Eramos duas crianças. Onde isso vai! + +--Eu tinha vinte e sete annos--observou elle, curvando-se. + +Ficaram calados, um pouco embaraçados. Bazilio cofiava o bigode, +olhando vagamente em redor. + +--Estás muito bem installada aqui--disse. + +Não estava mal... A casa era pequena, mas muito commoda. Pertencia-lhes. + +--Ah! estás perfeitamente! Quem é esta senhora, com uma luneta d'ouro? + +E indicava o retrato por cima do sophá. + +--A mãi de meu marido. + +--Ah! vive ainda? + +--Morreu. + +--É o que uma sogra póde fazer de mais amavel... + +Bocejou ligeiramente, fitou um momento os seus sapatos muito aguçados, +e com um movimento brusco, ergueu-se, tomou o chapéo. + +--Já? Onde estás? + +--No Hotel Central. E até quando? + +--Até quando quizeres. Não disseste que vinhas ámanhã com o rosario? + +Elle tomou-lhe a mão, curvou-se: + +--Já se não póde dar um beijo na mão d'uma velha prima? + +--Porque não? + +Pousou-lhe um beijo na mão, muito longo, com uma pressão dôce. + +--Adeus!--disse. + +E á porta, com o reposteiro meio erguido, voltando-se: + +--Sabes, que eu, ao subir as escadas, vinha a perguntar a mim mesmo, +como se vai isto passar? + +--Isto quê? Vêrmo-nos outra vez? Mas, perfeitamente. Que imaginaste tu? + +Elle hesitou, sorriu: + +--Imaginei que não eras tão boa rapariga. Adeus. Ámanhã, hein? + +No fundo da escada accendeu o charuto, devagar. + +--Que bonita que ella está!--pensou. + +E arremessando o phosphoro, com força: + +--E eu, pedaço d'asno, que estava quasi decidido a não a vir vêr! +Está de appetite! Está muito melhor! E sósinha em casa, aborrecidinha +talvez!... + +Ao pé da Patriarchal fez parar um _coupé_ vazio; e estendido, com o +chapéo nos joelhos, em quanto a parelha esfalfada trotava: + +--E tem-me o ar de ser muito aceada, cousa rara na terra! As mãos muito +bem tratadas! O pé muito bonito! + +Revia a pequenez do pé, poz-se a fazer por elle o desenho mental de +outras bellezas, despindo-a, querendo adivinhal-a... A amante que +deixára em Paris era muito alta e magra, d'uma elegancia de tisica; +quando se decotava viam-se as saliencias das suas primeiras costellas. +E as fórmas redondinhas de Luiza decidiram-no: + +--A ella!--exclamou com appetite:--A ella, como S. Thiago aos mouros! + + + +Luiza, quando o sentiu em baixo fechar a porta da rua, entrou no +quarto, atirou o chapéo para a _causeuse,_ e foi-se logo vêr ao +espelho. Que felicidade estar vestida! Se elle a tivesse apanhado em +roupão, ou mal penteada!... Achou-se muito afogueada, cobriu-se de pós +de arroz. Foi á janella, olhou um momento a rua, o sol que batia ainda +nas casas fronteiras. Sentia-se cançada. Áquellas horas, Leopoldina +estava a jantar já, de certo... Pensou em escrever a Jorge «para +matar o tempo», mas veio-lhe uma preguiça; estava tanto calor! Depois +não tinha que lhe dizer! Começou então a despir-se devagar diante do +espelho, olhando-se muito, gostando de se vêr branca, acariciando a +finura da pelle, com bocejos languidos d'um cansaço feliz.--Havia +sete annos que não via o primo Bazilio! Estava mais trigueiro, mais +queimado, mas ia-lhe bem! + +E depois de jantar ficou junto á janella, estendida na _voltaire_, com +um livro esquecido no regaço. O vento cahira, e o ar, de um azul forte +nas alturas, estava immovel; a poeira grossa pousára, a tarde tinha +uma transparencia calma de luz; passaros chilreavam na figueira brava; +da serralheria proxima sahia o martellar continuo e sonoro de folhas +de ferro. Pouco a pouco o azul desbotou; sobre o poente, laivos de côr +de laranja desmaiada esbateram-se como grandes pinceladas desleixadas. +Depois tudo se cobriu de uma sombra diffusa, calada e quente, com uma +estrellinha muita viva que luzia e tremia. E Luiza deixára-se ficar na +_voltaire_ esquecida, absorvida, sem pedir luz. + +--Que vida interessante a do primo Bazilio!--pensava.--O que elle tinha +visto! Se ella podesse tambem fazer as suas malas, partir, admirar +aspectos novos e desconhecidos, a neve nos montes, cascatas reluzentes! +Como desejaria visitar os paizes que conhecia dos romances--a Escocia e +os seus lagos taciturnos, Veneza e os seus palacios tragicos; aportar +ás bahias, onde um mar luminoso e faiscante morre na arêa fulva; e das +cabanas dos pescadores, de tecto chato, onde vivem as Graziellas, vêr +azularem-se ao longe as ilhas de nomes sonoros! E ir a Paris! Paris +sobretudo! Mas, qual! Nunca viajaria de certo; eram pobres; Jorge era +caseiro, tão lisboeta! + +Como seria o patriarcha de Jerusalém? Imaginava-o de longas barbas +brancas, recamado d'ouro, entre instrumentações solemnes e rolos de +incenso! E a princeza de La Tour d'Auvergne? Devia ser bella, de uma +estatura real, vivia cercada de pagens, namorára-se de Bazilio.--A +noite escurecia, outras estrellas luziam.--Mas de que servia viajar, +enjoar nos paquetes, bocejar nos wagons, e, n'uma diligencia muita +sacudida, cabecear de somno pela serra nas madrugadas frias? Não era +melhor viver n'um bom conforto, com um marido terno, uma casinha +abrigada, colxões macios, uma noite de theatro ás vezes, e um bom +almoço nas manhãs claras quando os canarios chalram? Era o que ella +tinha. Era bem feliz! Então veio-lhe uma saudade de Jorge; desejaria +abraçal-o, tel-o alli, ou quando descesse ir encontral-o fumando o seu +cachimbo no escriptorio, com o seu jaquetão de velludo. Tinha tudo, +elle, para fazer uma mulher feliz e orgulhosa: era bello, com uns +olhos magnificos, terno, fiel. Não gostaria de um marido com uma vida +sedentaria e caturra: mas a profissão de Jorge era interessante; descia +aos poços tenebrosos das minas, um dia aperrára as pistolas contra +uma malta revoltada; era valente, tinha talento! Involuntariamente, +porém, o primo Bazilio fazendo fluctuar o seu _burnous_ branco pelas +planicies da Terra Santa; ou em Paris, direito na almofada, governando +tranquillamente os seus cavallos inquietos--davam-lhe a idéa d'uma +outra existencia mais poetica, mais propria para os episodios do +sentimento. + +Do céo estrellado cahia uma luz diffusa: janellas alumiadas sobresahiam +ao longe, abertas á noite abafada: vôos de morcegos passavam diante da +vidraça. + +--A senhora não quer luz?--perguntou á porta a voz fatigada de Juliana. + +--Ponha-a no quarto. + +Desceu. Bocejava muito, sentia-se quebrada. + +--É trovoada--pensou. + +Foi á sala, sentou-se ao piano, tocou ao acaso bocados da _Lucia_, da +_Somnambula_, o _Fado_; e parando, os dedos pousados de leve sobre +o teclado, poz-se a pensar que Bazilio devia vir no dia seguinte: +vestiria o roupão novo de _foulard_ côr de castanho! Recomeçou o +_Fado_, mas os olhos cerravam-se-lhe. + +Foi para o quarto. + +Juliana trouxe o rol e a lamparina. Vinha arrastando as chinellas, com +um casabeque pelos hombros, encolhida e lugubre. Aquella figura com um +ar de enfermaria irritou Luiza: + +--Credo, mulher! Vossê parece a imagem da morte! + +Juliana não respondeu. Pousou a lamparina; apanhou, placa a placa, +sobre a commoda, o dinheiro das compras; e com os olhos baixos: + +--A senhora não precisa mais nada, não? + +--Vá-se, mulher, vá! + + + +Juliana foi buscar o candieiro de petroleo, subiu ao quarto. Dormia em +cima, no sotão, ao pé da cozinheira. + +--Pareço-te a imagem da morte!--resmungava, furiosa. + +O quarto era baixo, muito estreito, com o tecto de madeira inclinado; +o sol, aquecendo todo o dia as telhas por cima, fazia-o abafado +como um forno; havia sempre á noite um cheiro requentado de tijolo +escandecido. Dormia n'um leito de ferro, sobre um colxão de palha +molle coberto d'uma colcha de chita; da barra da cabeceira pendiam os +seus _bentinhos_ e a rêde enxovalhada que punha na cabeça; ao pé tinha +preciosamente a sua grande arca de pau, pintada de azul, com uma grossa +fechadura. Sobre a mesa de pinho estava o espelho de gaveta, a escova +de cabello ennegrecida e despellada, um pente d'osso, as garrafas de +remedio, uma velha pregadeira de setim amarello, e, embrulhada n'um +jornal, a _cuia_ de retroz dos domingos. E o unico adorno das paredes +sujas, riscadas da cabeça de phosphoros,--era uma lithographia de Nossa +Senhora das Dôres por cima da cama, e um daguerreotypo onde se percebia +vagamente, no reflexo espelhado da lamina, os bigodes encerados e as +divisas de um sargento. + +--A senhora já se deitou, snr.^a Juliana?--perguntou a cozinheira do +quarto pegado, d'onde sahia uma barra de luz viva cortando a escuridão +do corredor. + +--Já se deitou, snr.^a Joanna, já. Está hoje com os azeites. Falta-lhe +o homem! + +Joanna, ás voltas, fazia ranger as madeiras velhas da cama. Não podia +dormir! Abafava-se! Ouf! + +--Ai! e aqui!--exclamou Juliana. + +Abriu o postigo que dava para os telhados, para deixar arejar; calçou +as chinellas de tapete, e foi ao quarto de Joanna. Mas não entrou, +ficou á porta; era _criada de dentro_, evitava familiaridades. Tinha +tirado a _cuia_, e com um lenço preto e amarello amarrado na cabeça, o +seu rosto parecia mais chupado, e as orelhas mais despegadas do craneo; +a camisa decotada descobria as claviculas descarnadas; a saia curta +mostrava as canellas muito brancas, muito seccas. E com o casabeque +pelos hombros, coçando devagarinho os cotovêlos agudos: + +--Diga-me cá, snr.^a Joanna--disse com a voz discreta--aquelle sujeito +demorou-se muito? Reparou? + +--Tinha sahido n'aquelle instantinho, quando vossemecê entrou. Ouf! + +Encalmada, quasi descoberta, com as pernas muito abertas, Joanna +coçava-se furiosamente por baixo da grossa camisa com folhos á minhota +que lhe descobria os peitos. Não podia parar com os persevejos! O raio +do quarto tinha ninhos! Até sentia o estomago embrulhado. + +--Ai! é um inferno!--disse com lastima Juliana.--Eu só adormeço com +dia. Mas ainda eu agora reparo... Vossemecê tem S. Pedro á cabeceira. É +devoção? + +--É o santo do meu rapaz--disse a outra. Sentou-se na cama. Ouf! E +então tinha estado toda a noite com uma sêde!... + +Saltou para o chão, com passadas rijas que faziam tremer o soalho, foi +ao jarro, pôl-o á bocca, bebeu uma tarraçada. A camisa justa, feita de +pouca fazenda, mostrava as fórmas rijas e valentes. + +--Pois eu fui ao medico--disse Juliana. E com um grande suspiro:--Ai! +isto só Deus, snr.^a Joanna! Isto só Deus! + +Mas porque se não resolvia a snr.^a Juliana a ir á mulher de virtude? +Era a saude certa. Morava ao Poço dos Negros; tinha orações e unguentos +para tudo. Levava meia moeda pelo _preparo_... + +--Que isso são humores, snr.^a Juliana. O que vossemecê tem, são +humores. + +Juliana tinha dado dous passos para dentro do quarto. Quando se tratava +de doenças, de remedios, tornava-se mais familiar. + +--Eu já me tenho lembrado... eu já me tenho lembrado de ir á mulher. +Mas, meia moeda! + +E ficou a olhar, tristemente, reflectindo. + +--É o que eu tenho junto para umas botinas de gaspia! + +Eram o seu vicio, as botinas! Arruinava-se com ellas: tinha-as de +duraque com ponteiras de verniz, de cordovão com laço, de pellica +com pespontos de côr, embrulhadas em papeis de sêda, na arca, +fechadas--guardadas para os domingos! + +Joanna censurou-a. + +--Ai! eu, em se tratando do corpo, do interior, que o diabo leve os +arrebiques! + +Queixou-se tambem da sua miseria. Tinha pedido á senhora um mez +adiantado! Estava sem camisas! As duas que tinha eram uns trapos! Pelo +gosto da que trazia, a desfazerem-se! + +--Mas, então!--suspirou--O meu rapaz precisou um dinheiro... + +--Vossemecê tambem, snr.^a Joanna, deixa-se cardar pelo homem! + +Joanna sorriu. + +--Ainda que eu tivesse de roer ossos, snr.^a Juliana, a ultima migalha +havia de ser p'ra elle! + +Juliana teve um risinho secco, e com a voz arrastada: + +--Vale lá a pena! + +Mas invejava asperamente a cozinheira pela posse d'aquelle amor, pelas +suas delicias. Repetiu, contrafeita: + +--Vale lá a pena! Perfeito rapaz--continuou--o que veio hoje vêr a +senhora! Melhor que o homem! + +E depois d'uma pausa: + +--Então esteve mais de duas horas? + +--Tinha sahido quando vossemecê entrou. + +Mas o candieiro de petroleo apagava-se, com um cheiro fetido e uma +fumarada negra. + +--Boa noite, snr.^a Joanna. Ainda vou rezar a minha corôa. + +--Ó snr.^a Juliana!--disse a outra d'entre os lençoes--Se vossemecê +quer rezar tres salvè-rainhas pela saude do meu rapaz que tem estado +adoentado, eu cá lhe rezava tres pelas melhoras do peito. + +--Pois sim, snr.^a Joanna! + +Mas reflectindo: + +--Olhe. Eu do peito vou melhor; dê-m'as antes p'ra allivio das dôres de +cabeça. A Santa Engracia! + +--Como vossemecê quizer, snr.^a Juliana. + +--Se faz favor. Boa noite! Fica-lhe ahi um cheiro! Credo! + +Foi para o quarto. Rezou, apagou a luz. Um calor molle continuo cahia +do forro; começou a faltar-lhe o ar: tornou a abrir o postigo, mas o +bafo quente que vinha dos telhados enjoava-a; e era assim todas as +noites, desde o começo do estio! Depois as madeiras velhas fervilhavam +de bicharia! Nunca, nunca, nas casas que servira, tinha tido um quarto +peor. Nunca! + +A cozinheira começou a resonar ao lado. E acordada, ás voltas, com +afflicções no coração, Juliana sentia a vida pesar-lhe, com uma +amargura maior! + + + +Nascera em Lisboa. O seu nome era Juliana Couceiro Tavira. Sua mãi +fôra engommadeira; e desde pequena tinha conhecido em casa um sujeito, +a quem chamavam na visinhança--_o fidalgo_, a quem sua mãi chamava--o +snr. D. Augusto. Vinha todos os dias, de tarde no verão, no inverno +de manhã, para a saleta onde sua mãi engommava, e alli estava horas +sentado no poial da janella que dava para um quintalejo, fumando +cachimbo, cofiando em silencio um enorme bigode preto. Como o poial era +de pedra, punha-lhe em cima, com muito methodo, uma almofada de vento, +que elle mesmo soprava. Era calvo, e trazia ordinariamente uma quinzena +de velludo castanho e chapéo alto branco. Ás seis horas levantava-se, +esvaziava a almofada, estava um bocado a esticar as calças para cima, +e sahia, com a sua grossa bengala de cana da India debaixo do braço, +gingando da cinta. Ella e sua mãi iam então jantar na mesinha de pinho +da cozinha debaixo d'um postigo, diante do qual se balouçavam, de verão +e d'inverno, galhos magros d'uma arvore triste. + +Á noite o snr. D. Augusto voltava; trazia sempre um jornal; sua mãi +fazia-lhe chá e torradas, servia-o, toda enlevada n'elle. Muitas vezes +Juliana a vira chorar de ciumes. + +Um dia uma visinha má, a quem ella não quizera ajudar a lavar a roupa, +enfureceu-se, e atirando-lhe injurias dos degraus da porta,--gritou-lhe +que sua mãi era uma desavergonhada, e que seu pai estava na Africa por +ter morto o _Rei de Copas_! + +Pouco tempo depois foi servir. Sua mãi morreu d'ahi a mezes, com uma +doença d'utero. Juliana só uma vez tornou a vêr o snr. D. Augusto,--uma +tarde, com uma opa rôxa, lugubre, na procissão de Passos! + +Servia, havia vintes annos. Como ella dizia, mudava de amos, mas não +mudava de sorte. Vinte annos a dormir em cacifros, a levantar-se +de madrugada, a comer os restos, a vestir trapos velhos, a soffrer +os repellões das crianças e as más palavras das senhoras, a fazer +despejos, a ir para o hospital quando vinha a doença, a esfalfar-se +quando voltava a saude!... Era de mais! Tinha agora dias em que só de +vêr o balde das aguas sujas e o ferro d'engommar se lhe embrulhava o +estomago. Nunca se acostumára a servir. Desde rapariga a sua ambição +fôra ter um negociosito, uma tabacaria, uma loja de capellista ou de +quinquilherias, dispôr, governar, ser patrôa: mas, apesar d'economias +mesquinhas e de calculos sôfregos, o mais que conseguira juntar foram +sete moedas ao fim d'annos: tinha então adoecido; com o horror do +hospital fôra tratar-se para casa d'uma parenta; e o dinheiro, ai! +derretera-se! No dia em que se trocou a ultima libra, chorou horas com +a cabeça debaixo da roupa. + +Ficou sempre adoentada desde então, perdeu toda a esperança de se +estabelecer. Teria de servir até ser velha, sempre, d'amo em amo! Essa +certeza dava-lhe uma desconsolação constante. Começou a azedar-se. + +E depois não tinha _geito_, não sabia tirar partido das casas: via +companheiras divertir-se, visinhar, janellar, bisbilhotar, sahir aos +domingos ás hortas e aos retiros, levar o dia cantando, e quando as +patrôas iam ao theatro, abrir a porta aos derriços--e patuscar pelos +quartos! Ella não. Sempre fôra embezerrada. Fazia a sua obrigação, +comia, ia estirar-se sobre a cama; e aos domingos, quando não passeava, +encostava-se a uma janella, com o lenço sobre o peitoril para não +roçar as mangas, e alli estava immovel, a olhar, com o seu broche de +filigrana e a cuia dos dias santos! Outras companheiras eram muito das +amas, faziam-se muito humildes, sabujavam, traziam de fóra as historias +da rua, e cartinhas levadas e recadinhos e p'ra dentro e p'ra fóra, +muito confidentes,--muito presenteadas tambem! Ella não podia. Era +_minha senhora isto! minha senhora aquillo!_ E cada uma no seu lugar! +Era genio. + +Desde que servia, apenas entrava n'uma casa sentia logo, n'um relance, +a hostilidade, a malquerença: a senhora fallava-lhe com seccura, de +longe; as crianças tomavam-lhe birra; as outras criadas, se estavam +chalrando, calavam-se, mal a sua figura esguia apparecia; punham-lhe +alcunhas--_a isca sêcca_, _a fava torrada_, _o saca-rolhas_; +imitavam-lhe os trejeitos nervosos; havia risinhos, cochichos pelos +cantos; e só tinha encontrado alguma sympathia nos gallegos taciturnos, +cheios d'uma saudade morrinhenta, que veem de manhã quando ainda os +quartos estão escuros, com as suas grossas passadas, encher os barris, +engraxar o calçado. + +Lentamente, começou a tornar-se desconfiada, cortante como um nordeste; +tinha respostadas, questões com as companheiras; não se havia de deixar +pôr o pé no pescoço! + +As antipathias que a cercavam faziam-na assanhada, como um circulo +d'espingardas enraivece um lobo. Fez-se má; beliscava crianças até lhe +ennodoar a pelle; e se lhe ralhavam, a sua colera rompia em rajadas. +Começou a ser despedida. N'um só anno esteve em tres casas. Sahia com +escandalo, aos gritos, atirando as portas, deixando as amas todas +pallidas, todas nervosas... + +A inculcadeira, a sua velha amiga, a tia Victoria, disse-lhe: + +--Tu acabas por não ter onde te arrumar, e falta-te o bocado do pão! + +O pão! Aquella palavra que é o terror, o sonho, a difficuldade do pobre +assustou-a. Era fina, e dominou-se. Começou a fazer-se «uma pobre +mulher», com affectações de zelo, um ar de soffrer tudo, os olhos +no chão. Mas roia-se por dentro: veio-lhe a inquietação nervosa dos +musculos da face, o _tic_ de franzir o nariz: a pelle esverdeou-se-lhe +de bilis. + +A necessidade de se constranger trouxe-lhe o habito d'odiar: odiou +sobretudo as patrôas, com um odio irracional e pueril. Tivera-as ricas, +com palacetes, e pobres, mulheres d'empregados, velhas e raparigas, +colericas e pacientes;--odiava-as a todas, sem differença. É patrôa +e basta! Pela mais simples palavra, pelo acto mais trivial! Se as +via sentadas:--Anda, refestela-te, que a moura trabalha! Se as via +sahir:--Vai-te, a negra cá fica no buraco! Cada riso d'ellas era uma +offensa á sua tristeza doentia; cada vestido novo uma affronta ao seu +velho vestido de merino tingido. Detestava-as na alegria dos filhos +e nas prosperidades da casa. Rogava-lhes pragas. Se os amos tinham +um dia de contrariedade, ou via as caras tristes, cantarolava todo o +dia em voz de falsete a _Carta adorada_! Com que gosto trazia a conta +retardada d'um credor impaciente, quando presentia embaraços na casa! +«Este papel!--gritava com uma voz estridente--diz que não se vai embora +sem uma resposta!» Todos os lutos a deleitavam,--e sob o chale preto, +que lhe tinham comprado, tinha palpitações de regosijo. Tinha visto +morrer criancinhas, e nem a afflicção das mães a commovera; encolhia os +hombros: «Vai d'alli, vai fazer outro. Cabras!» + +As boas palavras mesmo, as condescendencias eram perdidas com ella, +como gotas d'agua lançadas no fogo. Resumia as patrôas na mesma +palavra--_uma récua_! E detestava as boas pelos vexames que soffrera +das más. A ama era para ella o Inimigo, o Tyranno. Tinha visto morrer +duas,--e de cada vez sentira, sem saber porquê, um vago allivio, como +se uma porção do vasto peso, que a suffocava na vida, se tivesse +desprendido e evaporado! + +Sempre fôra invejosa; com a idade aquelle sentimento exagerou-se de +um modo aspero. Invejava tudo na casa: as sobremesas que os amos +comiam, a roupa branca que vestiam. As noites de _soirée_, de theatro, +exasperavam-na. Quando havia passeios projectados, se chovia de +repente, que felicidade! O aspecto das senhoras vestidas e de chapéo, +olhando por dentro da vidraça com um tedio infeliz, deliciava-a, +fazia-a loquaz: + +--Ai minha senhora! É um temporal desfeito! É a cantaros, está para +todo o dia! Olha o ferro! + +E muito curiosa: era facil encontral-a, de repente, cosida por detraz +de uma porta com a vassoura a prumo, o olhar aguçado. Qualquer carta +que vinha era revirada, cheirada... Remexia subtilmente em todas as +gavetas abertas, vasculhava em todos os papeis atirados. Tinha um modo +de andar ligeiro e surprehendedor. Examinava as visitas. Andava á busca +de um _segredo_, de um _bom segredo_! Se lhe cahia um nas mãos! + +Era muito gulosa. Nutria o desejo insatisfeito de comer bem, de +petiscos, de sobremesas. Nas casas em que servia ao jantar, o seu olho +avermelhado seguia avidamente as porções cortadas á mesa; e qualquer +bom appetite que repetia exasperava-a, como uma diminuição da sua +parte. De comer sempre os restos ganhára o ar aguado,--o seu cabello +tomára tons seccos, côr de rato. Era lambareira: gostava de vinho; +em certos dias comprava uma garrafa de oitenta reis, e bebia-a só, +fechada, repimpada, com estalos da lingua, a orla do vestido um pouco +erguida, revendo-se no pé. + +E nunca tivera um homem, era virgem. Fôra sempre feia, ninguem a +tentára: e, por orgulho, por birra, com receio de uma desfeita, não se +offerecera, como vira muitas, claramente. O unico homem que a olhára +com desejo tinha sido um criado de cavalhariça, atarracado e immundo, +de aspecto facinora: a sua magreza, a sua _cuia_, o seu ar domingueiro +tinham excitado o bruto. Fitava-a com um ar de _bull-dog_. Causára-lhe +horror,--mas vaidade. E o primeiro homem por quem ella sentira, um +criado bonito e alourado, rira-se d'ella, pozera-lhe o nome da _Isca +sêcca_! Não contou mais com os homens, por despeito, por desconfiança +de si mesma. As rebelliões da natureza, suffocava-as; eram _fogachos, +flatos_. Passavam. Mas faziam-na mais secca; e a falta d'aquella grande +consolação aggravava a miseria da sua vida. + +Um dia teve, emfim, uma grande esperança. Entrára para o serviço +da snr.^a D. Virginia Lemos, uma viuva rica, tia de Jorge, muito +doente, quasi a morrer com um catarrho de bexiga. A tia Victoria, a +inculcadeira, preveniu-a: + +--Tu trata a velha, apaparica-a, que ella o que quer é uma enfermeira +que a soffra. É rica, não é nada apegada ao dinheiro, é capaz de te +deixar uma independencia! + +Durante um anno Juliana, roída de ambição, foi a enfermeira da velha. +Que zelos! que mimos! + +Virginia era muito rabugenta, a idéa de morrer enfurecia-a; quanto mais +ella ralhava com a sua voz guttural, mais Juliana se fazia serviçal. A +velha, por fim, estava enternecida: gabava-a ás pessoas que a vinham +vêr, chamava-lhe a sua _providencia_. Tinha-a recommendado muito a +Jorge. + +--Não ha outra! não ha outra!--exclamava. + +--Pois apanhaste!--dizia-lhe a tia Victoria.--Pelo menos deixa-te o teu +conto de reis. + +Um conto de reis! Juliana, de noite, em quanto a velha gemia no seu +antigo leito de pau santo, via o conto de reis á claridade morbida que +dava a lamparina, reluzir em pilhas de ouro inesgotavel e prodigioso. +Que faria com o dinheiro? E, á cabeceira da doente, com um cobertor +pelos hombros, os olhos dilatados e fixos, planeava: poria uma loja de +capellista! Vinham-lhe logo lampejos vivos de outras felicidades: um +conto de reis era um dote, poderia casar, teria um homem! + +Estavam acabadas as canceiras. Ia jantar, emfim, o _seu_ jantar! +Mandar, emfim, a _sua_ criada! A _sua_ criada! Via-se a chamal-a, +a dizer-lhe, de cima para baixo:--Faça, vá, despeje, sáia!--Tinha +contracções no estomago, de alegria. Havia de ser boa ama. Mas que lhe +andassem direitas! Desmazelos, más respostas, não havia de soffrer a +criadas!--E, impellida por aquellas imaginações, arrastava subtilmente +as chinellas pelo quarto, fallando só.--Não, desmazelos, não havia de +soffrer! Mantel-as bem, de certo, porque quem trabalha precisa metter +p'ra dentro! Mas havia de lh'o tirar do corpo. Ah! lá isso, haviam de +lhe andar direitas...--A velha tinha então um gemido mais afflicto. + +--É agora!--pensava--Morre! + +E o seu olhar ancioso ia logo para a gaveta da commoda, onde estava +de certo o dinheiro, os papeis. Mas não! a velha queria beber, ou +voltar-se... + +--Como se sente?--perguntava Juliana, com uma voz plangente. + +--Melhor, Juliana, melhor--murmurava. + +Suppunha-se sempre melhor. + +--Mas a senhora tem estado desinquieta!--dizia Juliana, despeitada da +melhora. + +--Não--suspirava--dormi bem! + +--Isso não tem dormido... Tenho-a ouvido gemer! Tem estado toda a noite +a gemer! + +Queria argumentar com ella, convencel-a que estava peor! Convencer-se a +si mesma que o allivio era ephemero, que ia morrer depressa! E todas as +manhãs seguia o dr. Pinto até á porta, com os braços cruzados, a face +triste: + +--Então, snr. doutor, não ha esperança? + +--Está por dias! + +Queria saber os dias: dous? cinco? + +--Sim, snr.^a Juliana--dizia o velho, calçando as suas luvas +pretas--uns dias, sete, oito. + +--Oito dias! + +E como a felicidade se aproximava, já tinha de olho tres pares de +botinas que vira na vidraça do Manoel Lourenço! + +A velha, emfim, morreu. Nem a mencionava no testamento! + +Veio-lhe uma febre. Jorge, agradecido pelos cuidados d'ella com a tia +Virginia, pagou-lhe um quarto no hospital, e prometteu tomal-a para +criada de dentro. A que tinha, uma Emilia muito bonita, ia casar. + +Quando sahiu do hospital para casa de Jorge, começava a queixar-se +mais do coração. Vinha desilludida de tudo, tinha ás vezes vontade de +morrer. Ouviam-se todo o dia pela casa os seus _ais_. Luiza achava-a +funebre. + +Quiz despedil-a ao fim de duas semanas. Jorge não consentiu, +estava em divida com ella, dizia. Mas Luiza não podia disfarçar a +sua antipathia;--e Juliana começou a detestal-a: poz-lhe logo um +nome:--a _piorrinha_! depois, d'ahi a semanas viu vir os estofadores: +renovava-se a mobilia da sala! A tia Virginia deixára tres contos de +reis a Jorge,--e ella, ella que durante um anno fôra a enfermeira, +humilde como um cão e fixa como uma sombra, aturando o monstrengo, +tinha em paga ido para o hospital, com uma febre, das noitadas, das +canceiras! Julgava-se vagamente roubada. Começou a odiar a casa. + +Tinha para isso muitas razões, dizia: dormia n'um cubiculo abafado; ao +jantar não lhe davam vinho, nem sobremesa; o serviço dos engommados +era pesado; Jorge e Luiza tomavam banho todos os dias, e era um +trabalhão encher, despejar todas as manhãs as largas bacias de folha: +achava despropositada aquella mania de se pôrem a chafurdar todos os +dias que Deus deitava ao mundo; tinha servido vinte amos, e nunca +vira semelhante desproposito! A unica vantagem--dizia ella á tia +Victoria--era não haver pequenos; tinha horror a crianças! Além d'isso +achava que o bairro era saudavel; e como tinha a cozinheira «na mão», +não é verdade? havia aquelle regalo dos caldinhos, de algum prato +melhor de vez em quando! Por isso ficava; senão, não era ella! + +Fazia no entanto o seu serviço, ninguem tinha nada que lhe dizer. O +olho aberto sempre e o ouvido á escuta, já se vê! E como perdera a +esperança de se estabelecer, não se sujeitava ao rigor de economisar: +por isso ia-se consolando com algumas pinguinhas, de vez em quando; e +satisfazia o seu vicio,--trazer o pé catita. O pé era o seu orgulho, a +sua mania, a sua despeza. Tinha-o bonito e pequenino. + +--Como poucos--dizia ella--não vai outro ao Passeio! + +E apertava-o, aperreava-o; trazia os vestidos curtos, lançava-o muito +para fóra. A sua alegria era ir aos domingos para o Passeio Publico, +e alli, com a orla do vestido erguida, a cara sob o guarda-solinho de +sêda, estar a tarde inteira na poeira, no calor, immovel, feliz,--a +mostrar, a expôr o pé! + + + + +IV + + +Pelas tres horas da tarde, Juliana entrou na cozinha e atirou-se para +uma cadeira, derreada. Não se tinha nas pernas de debilidade! Desde as +duas horas que andava a arrumar a sala! Estava um chiqueiro. O peralta +na vespera até deixára cinza de tabaco por cima das mesas! A negra é +que as pagava. E que calor! Era de derreter! Ouf! + +--O caldinho ha-de estar prompto, hein!--disse, adocicando a +voz.--Tira-m'o, snr.^a Joanna, faz favor? + +--Vossemecê hoje está com outra cara--notou a cozinheira. + +--Ai! sinto-me outra, snr.^a Joanna! Pois olhe que adormeci com dia. Já +luzia o dia! + +--E eu!--Tinha tido cada sonho! Credo! Uma avantesma côr de fogo a +passear-lhe por cima do corpo, e cada pancada na bocca do estomago, +como quem pisava uvas n'um lagar! + +--Enfartamento--disse sentenciosamente Juliana, e repetiu: + +--Pois eu sinto-me outra. Ha mezes que me não sinto tão bem! + +Sorria com os seus dentes amarellados. O caldo que Joanna deitava na +malga branca, com um vapor cheiroso, cheio de hortaliça, dava-lhe uma +alegria gulosa. Estendeu os pés, recostou-se, feliz, na boa sensação +da tarde quente e luminosa, entrando largamente pelas duas janellas +abertas. + +O sol retirára-se da varanda, e sobre a pedra, em vasos de barro, +plantas pobres encolhiam a sua folhagem chupada do calor: sobre +uma táboa a um canto, n'uma velha panella bojuda, verdejava um pé +de salsa muito tratado: o gato dormia sobre um esteirão: esfregões +seccavam n'uma corda: e para além alargava-se o azul vivo como um +metal candente, as arvores dos quintaes tinham tons ardentes do sol, +os telhados pardos com as suas vegetações esguias coziam no calor, e +pedaços de paredes caiadas despediam uma rebrilhação dura. + +--Está de appetite, snr.^a Joanna, está de appetite!--dizia Juliana, +remexendo o caldo devagarinho, com gula. A cozinheira de pé, com os +braços cruzados sobre o seu peito abundante, regosijava-se: + +--O que se quer é que esteja a gosto. + +--Está a preceito. + +Sorriam, contentes da intimidade, das boas palavras.--E a campainha da +porta que já tinha tocado, tornou a tilintar discretamente. + +Juliana não se mexeu. Bafos de aragem quente entravam: ouvia-se ferver +a panella no fogão, e fóra o martellar incessante da forja: ás vezes o +arrulhar triste de duas rôlas que viviam na varanda, n'uma gaiola de +vime, punha na tarde abrazada uma sensação de suavidade. + +A campainha retilintou, sacudida com impaciencia. + +--Com a cabeça, burro!--disse Juliana. + +Riram. Joanna fôra sentar-se á janella, n'uma cadeira baixa; estendia +os seus grossos pés, calçados de chinellas de ourêlo; coçava-se +devagarinho no sovaco, toda repousada. + +A campainha retiniu violentamente. + +--Fóra, besta!--rosnou Juliana, muito tranquilla. + +Mas a voz irritada de Luiza chamou de baixo: + +--Juliana! + +--Que nem uma pessoa póde tomar a sustancia socegada! Raio de casa! +Irra! + +--Juliana!--gritou Luiza. + +A cozinheira voltou-se, já assustada: + +--A senhora zanga-se, snr.^a Juliana. + +--Que a leve o diabo! + +Limpou os beiços gordurosos ao avental, desceu furiosa. + +--Vossê não ouve, mulher? Estão a bater ha uma hora! + +Juliana arregalou os olhos espantada: Luiza tinha vestido o roupão novo +de _foulard_ côr de castanho, com pintinhas amarellas! + +--Temos novidade! Temol-a grossa!--pensou Juliana pelo corredor. + +A campainha repicava. E no patamar, vestido de claro, com uma rosa ao +peito, um embrulho debaixo do braço, estava o _sujeito do negocio das +minas_! + +--Aquelle sujeito de hontem!--veio dizer, toda pasmada. + +--Mande entrar... + +--Viva!--pensou. + +Galgou a escada da cozinha, disse logo da porta, com a voz aguda de +jubilo: + +--Está cá o peralta de hontem! Está cá outra vez! Traz um +embrulho!--Que lhe parece, snr.^a Joanna? Que lhe parece? + +--Visitas...--disse a cozinheira. + +Juliana teve um risinho secco. Sentou-se, acabou o seu caldo, á pressa. + +Joanna indifferente cantarolava pela cozinha; o arrulhar das rôlas +continuava langoroso e debil. + +--Pois, senhores, isto vai rico!--disse Juliana. + +Esteve um momento a limpar os dentes com a lingua, o olhar fixo, +reflectindo. Sacudiu o avental, e desceu ao quarto de Luiza: o seu +olhar esquadrinhador avistou logo sobre o toucador as chaves esquecidas +da dispensa: podia subir, beber um trago de bom vinho, engulir dous +ladrilhos de marmelada... Mas possuia-a uma curiosidade urgente, e, em +bicos de pés, foi agachar-se á porta que dava para a sala, espreitou. O +reposteiro estava corrido por dentro: podia apenas sentir a voz grossa +e jovial do sujeito. Foi de volta, pelo corredor, á outra porta, ao +pé da escada; poz o olho á fechadura, collou o ouvido á frincha. O +reposteiro dentro estava tambem cerrado. + +--Os diabos calafetaram-se!--pensou. + +Pareceu-lhe que se arrastava uma cadeira, depois que se fechava uma +vidraça. Os olhos faiscavam-lhe. Uma risada de Luiza sobresahiu, em +seguida um silencio; e as vozes recomeçaram n'um tom sereno e continuo. +De repente o sujeito ergueu a falla, e entre as palavras que dizia, de +pé de certo, passeando, Juliana ouviu claramente: _Tu, foste tu!_ + +--Oh que bebeda! + +Um tlim-tlim timido da campainha, ao lado, assustou-a. Foi abrir. Era +Sebastião, muito vermelho do sol, com as botas cheias de pó. + +--Está?--perguntou, limpando a testa suada. + +--Está com uma visita, snr. Sebastião! + +E cerrando a porta sobre si, mais baixo: + +--Um rapaz novo que já cá esteve hontem, um janota! Quer que vá dizer? + +--Não, não, obrigado, adeus. + +Desceu discretamente. Juliana voltou logo a encostar-se á porta, a +orelha contra a madeira, as mãos atraz das costas: mas a conversação, +sem saliencia de vozes, tinha um rumor tranquillo e indistincto. Subiu +á cozinha. + +--Tratam-se por tu!--exclamou.--Tratam-se por tu, snr.^a Joanna! + +E muita excitada: + +--Isto vai á vela! Caspitè! assim é que eu gosto d'ellas! + +O sujeito sahiu ás cinco horas. Juliana, apenas sentiu abrir-se a +porta, veio a correr; viu Luiza no patamar, debruçada no corrimão, +dizendo para baixo, com muita intimidade: + +--Bem, não falto. Adeus. + +Ficou então tomada d'uma curiosidade que a alterava como uma febre. +Toda a tarde, na sala de jantar, no quarto, esquadrinhou Luiza com +olhares de lado. Mas Luiza, com um roupão de linho mais velho, parecia +serena, muito indifferente. + +--Que sonsa! + +Aquella naturalidade despertava a sua bisbilhotice. + +--Eu hei-de-t'apanhar, desavergonhada!--calculava. + +Afigurou-se-lhe que Luiza tinha os olhos um pouco pisados! Estudava-lhe +as posições, os tons de voz. Viu-a repetir o assado,--pensou logo: + +--Abriu-lhe o appetite! + +E quando Luiza ao fim do jantar se estendeu na _voltaire_ com um ar +quebrado: + +--Ficou derreada. + +Luiza que nunca tomava café, quiz n'essa tarde «meia chavena, mas +forte, muito forte». + +--Quer café!--veio ella dizer á cozinheira, toda excitada.--Tudo á +grande! E do forte. Quer do forte! Ora o diabo! + +Estava furiosa. + +--Todas o mesmo! Uma récua de cabras! + + + +Ao outro dia era domingo. Logo pela manhã cedo, quando Juliana ia +para a missa, Luiza chamou-a da porta do quarto, deu-lhe uma carta +para levar a D. Felicidade. Ordinariamente mandava um recado;--e a +curiosidade de Juliana accendeu-se logo diante d'aquelle sobrescripto +fechado e lacrado com o sinete de Luiza, um L gothico dentro d'uma +corôa de rosas. + +--Tem resposta? + +--Tem. + +Quando voltou ás dez horas, com um bilhete de D. Felicidade, Luiza quiz +saber se havia muito calor, se fazia poeira. Sobre a mesa estava um +chapéo de palha escuro, que ella estivera a enfeitar com duas rosas de +musgo. + +Fazia um bocadinho de vento, mas p'ra a tarde abrandava, de certo. E +pensou logo:--Temos passeata, vai ter com o gajo! + +Mas durante todo o dia, Luiza em roupão não sahiu do seu quarto ou +da sala, ora estendida na _causeuse_ lendo aos bocados, ora batendo +distrahidamente no piano pedaços de valsas. Jantou ás quatro horas. A +cozinheira sahiu, e Juliana pôz-se a passar a sua tarde á janella da +sala de jantar. Tinha o vestido novo, as salas muito rijas de gomma, a +cuia dos dias santos--e pousava solemnemente os cotovêlos n'um lenço, +estendido sobre o peitoril da varanda. Defronte os passaros chilreavam +na figueira brava. Dos dous lados do tabique que cercava o terreno +vago, agachavam-se os tectos escuros das duas ruasitas parallelas: +eram casas pobres onde viviam mulheres, que pela tarde, em chambre +ou de garibaldi, os cabellos muito oleosos, faziam meia á janella, +fallando aos homens, cantarolando com um tedio triste. Do outro lado do +terreno, verduras de quintaes, muros brancos davam áquelle sitio um ar +adormecido de villa pacata. Quasi ninguem passava. Havia um silencio +fatigado; e só ás vezes o som distante d'um realejo, que tocava a +_Norma_ ou a _Lucia_, punha uma melancolia na tarde.--E Juliana alli +estava immovel, até que os tons quentes da tarde empallideciam, e os +morcegos começavam a voar. + +Pelas oito horas entrou no quarto de Luiza,--ficou pasmada de a vêr +vestida toda de preto, de chapéo! Tinha accendido as serpentinas na +parede, os castiçaes no toucador; e sentada á beira da _causeuse_ +calçava as luvas devagar, com a face muito séria, um pouco esbatida de +pó d'arroz, o olhar cheio de brilho. + +--O vento abrandou?--disse. + +--Está a noite muito bonita, minha senhora. + +Um pouco antes das nove horas uma carruagem parou á porta. Era D. +Felicidade, muito encalmada. Abafára todo o dia! E á noite nem uma +aragem! Até tinha mandado buscar uma carruagem descoberta, que n'um +coupé, credo, morria-se! + +Juliana pelo quarto arrumava, dobrava, toda curiosa. Onde iriam? onde +iriam? D. Felicidade, amplamente sentada, de chapéo, tagarellava: uma +indigestão que tivera na vespera com umas bajes; a cozinheira que a +tinha querido «comer» em quatro vintens; uma visita que lhe fizera a +condessa de Arruella... + +Emfim, Luiza, disse, baixando o seu véo branco: + +--Vamos, filha. Faz-se tarde. + +Juliana foi-lhes alumiar, furiosa. Olha que proposito, irem duas +mulheres sós por ahi fóra, n'uma tipoia! E se uma criada então se +demorava na rua mais meia hora, credo, que alarido! Que duas bebedas! + +Foi á cozinha desabafar com a Joanna. Mas a rapariga estirada n'uma +cadeira, dormitava. + +Fôra com o seu Pedro ao Alto de S. João. E toda a tarde tinham passeado +no cemiterio, muito juntos, admirando os jazigos, soletrando os +epitaphios, beijocando-se nos recantos que os chorões escureciam, e +regalando-se do ar dos cyprestes e das relvas dos mortos. Voltaram por +casa da Serena, entraram a beberricar um quartilho no Espregueira... +Tarde cheia! e estava derreada da soalheira, do pó, da admiração de +tanto tumulo rico, do homem, e da pinguita de vinho. + +O que ia, era refastelar-se para a cama! + +--Credo, snr.^a Joanna, vossemecê está-se a fazer uma dorminhôca! Olha +que mulher! Com pouco arrêa! Cruzes! + +Desceu ao quarto de Luiza, apagou as luzes, abriu as janellas, arrastou +a poltrona para a varanda,--e, repimpada, os braços cruzados, pôz-se a +passar a noite. + +O estanque ainda não se fechára, e a sua luzita lugubre como a +estanqueira, estendia-se tristemente sobre a pedra miuda da rua; as +janellas ao pé estavam abertas; por algumas, mal alumiadas, viam-se +dentro serões melancolicos; n'outras, onde havia vultos immoveis, +luzia ás vezes a ponta d'um cigarro; aqui, além tossia-se; e o moço do +padeiro, no silencio quente da noite, harpejava baixinho a guitarra. + +Juliana pozera um vestido de chita claro; dous sujeitos que estavam +á porta do estanque riam, erguiam de vez em quando os olhos para a +janella, para aquelle vulto branco de mulher: Juliana, então, gozou! +Tomavam-na de certo pela senhora, pela do Engenheiro; faziam-lhe +«olho», diziam brejeirices... Um tinha calça branca e chapéo alto, eram +janotas... E com os pés muito estendidos, os braços cruzados, a cabeça +de lado, saboreava, longamente, aquella consideração. + +Passos fortes que subiam a rua, pararam á porta; a campainha retiniu de +leve. + +--Quem é?--perguntou muito impaciente. + +--Está?--disse a voz grossa de Sebastião. + +--Sahiu com a D. Felicidade, foram de carruagem. + +--Ah!--fez elle. + +E acrescentou: + +--Muito bonita noite! + +--D'appetite, snr. Sebastião! d'appetite!--exclamou alto. + +E quando o viu descer a rua, gritou, affectadamente: + +--Recados a Joanna! Não se esqueça!--mostrando-se intima, madama, com +olho terno para os homens. + + + +Áquella hora D. Felicidade e Luiza chegavam ao Passeio. + +Era beneficio; já de fóra se sentia o _brouhaha_ lento e monotono, e +via-se uma nevoa alta de poeira, amarellada e luminosa. + +Entraram. Logo ao pé do tanque encontraram Bazilio. Fez-se muito +surprehendido, exclamou: + +--Que feliz acaso! + +Luiza corou, apresentou-o a D. Felicidade. + +A excellente senhora teve muitos sorrisos. Lembrava-se d'elle, mas se +não lhe dissessem talvez o não conhecesse! Estava muito mudado! + +--Os trabalhos, minha senhora...--disse Bazilio curvando-se. + +E acrescentou rindo, batendo com a bengala na pedra do tanque: + +--E a velhice! Sobretudo a velhice! + +Na agua escura e suja as luzes do gaz torciam-se até uma grande +profundidade. As folhagens em redor estavam immoveis, no ar parado, +com tons d'um verde livido e artificial. Entre os dous longos renques +parallelos d'arvores mesquinhas, entremeadas de candieiros de gaz, +apertava-se, n'um empoeiramento de macadam, uma multidão compacta e +escura; e através do rumor grosso, as saliencias metallicas da musica +faziam passar no ar pesado, compassos vivos de valsa. + +Tinham ficado parados, conversando. + +Que calor, hein? Mas a noite estava linda! Nem uma aragem! que enchente! + +E olhavam a gente que entrava: moços muito frisados, com calças côr de +flôr d'alecrim, fumando ceremoniosamente os charutos do dia santo; um +aspirante com a cinta espartilhada e o peito enchumaçado; duas meninas +de cabello riçado, de movimentos gingados que lhe desenhavam os ossos +das omoplatas sob a fazenda do vestido atabalhoado; um ecclesiastico +côr de cidra, o ar molle, o cigarro na bocca, e lunetas defumadas; uma +hespanhola com dous metros de saia branca muita rija, fazendo ruge-ruge +na poeira; o triste Xavier, poeta; um fidalgo de jaquetão e bengalão, +de chapéo na nuca, o olho avinhado; e Bazilio ria muito de dous +pequenos que o pai conduzia com um ar hilare e compenetrado--vestidos +d'azul claro, a cinta ligada n'uma facha escarlate, barretinas de +lanceiro, botas á hungara, cretinos e somnambulos. + +Um sujeito alto então passou rente d'elles, e voltando-se, revirou para +Luiza dous grandes olhos langorosos e prateados: tinha uma pera longa +e aguçada; trazia o collete decotado mostrando um bello peitilho, e +fumava por urna boquilha enorme que representava um zuavo. + +Luiza quiz-se sentar. + +Um garoto de blusa, sujo como um esfregão, correu a arranjar cadeiras; +e acommodaram-se ao pé d'uma familia acabrunhada e taciturna. + +--Que fizeste tu hoje, Bazilio?--perguntou Luiza. + +Tinha ido aos touros. + +--E que tal? Gostaste? + +--Uma semsaboria. Se não fosse pelo trambolhão do Peixinho tinha-se +morrido de pasmaceira. Gado fraco, cavalleiros infelizes, nenhuma +sorte! Touros em Hespanha! Isso sim! + +D. Felicidade protestou. Que horror! Tinha-os visto em Badajoz, +quando estivera de visita em Elvas á tia Francisca de Noronha, e ia +desmaiando. O sangue, as tripas dos cavallos... Pouh! É muito cruel! + +Bazilio disse, com um sorriso: + +--Que faria se visse os combates de gallos, minha senhora! + +D. Felicidade tinha ouvido contar,--mas achava todos esses +divertimentos barbaros, contra a religião. + +E recordando um gozo que lhe punha um riso na face gorda: + +--P'ra mim não ha nada como uma boa noite de theatro! Nada! + +--Mas aqui representam tão mal!--replicou Bazilio com uma voz +desolada.--Tão mal, minha rica senhora! + +D. Felicidade não respondeu; meio erguida na cadeira, o olhar avivado +d'um brilho humido, saudava desesperadamente com a mão: + +--Não me viu--disse desconsolada. + +--Era o conselheiro?--perguntou Luiza. + +--Não. Era a condessa d'Alviella. Não me viu! Vai muito á Encarnação, +sou muito d'ella. É um anjo! Não me viu. Ia com o sogro. + +Bazilio não tirava os olhos de Luiza. Sob o véo branco, á luz falsa +do gaz, no ar ennevoado da poeira, o seu rosto tinha uma fórma alva +e suave, onde os olhos que a noite escurecia punham uma expressão +apaixonada; os cabellinhos louros, frisados, tornando a testa +mais pequena, davam-lhe uma graça ameninada e amorosa; e as luvas +_gris-perle_ faziam destacar sobre o vestido negro o desenho elegante +das mãos, que ella pousára no regaço, sustentando o leque, com uma fofa +renda branca em torno dos seus pulsos finos. + +--E tu, que fizeste hoje?--perguntou-lhe Bazilio. + +Tinha-se aborrecido muito. Estivera todo o santo dia a lêr. + +Tambem elle passára a manhã deitado no sophá a lêr a _Mulher de fogo_ +de Belot. Tinha lido, ella? + +--Não, que é? + +--É um romance, uma novidade. + +E acrescentou sorrindo: + +--Talvez um pouco picante; não t'o aconselho! + +D. Felicidade andava a lêr o _Rocambole_. Tanto lh'o tinham apregoado! +Mas era uma tal trapalhada! Embrulhava-se, esquecia-se... E ia deixar, +porque tinha percebido que a leitura lhe augmentava a indigestão. + +--Soffre?--perguntou Bazilio, com um interesse bem educado. + +D. Felicidade contou logo a sua dyspepsia. Bazilio aconselhou-lhe o +uso do gelo.--De resto felicitava-a, porque as doenças d'estomago, +ultimamente, tinham muito _chic_. Interessou-se pela d'ella, pediu +pormenores. + +D. Felicidade prodigalisou-os; e, fallando, via-se-lhe crescer no +olhar, na voz a sua sympathia por Bazilio. Havia de usar o gelo! + +--Com o vinho, já se sabe? + +--Com o vinho, minha senhora! + +--E olha que talvez!--exclamou D. Felicidade, batendo com o leque no +braço de Luiza, já esperançada. + +Luiza sorriu, ia responder--mas viu o sujeito pallido da pera longa que +fitava n'ella os seus olhos langorosos, com obstinação. Voltou o rosto +importunada. O sujeito afastou-se, retorcendo a ponta da pera. + +Luiza sentia-se molle; o movimento rumoroso e monotono, a noite calida, +a accumulação da gente, a sensação de verdura em redor davam ao seu +corpo de mulher caseira um torpor agradavel, um bem estar d'inercia, +envolviam-na n'uma doçura emolliente de banho morno. Olhava com um vago +sorriso, o olhar frouxo; quasi tinha preguiça de mexer as mãos, d'abrir +o leque. + +Bazilio notou o seu silencio.--Tinha somno? + +D. Felicidade sorriu com finura. + +--Ora, vê-se sem o seu maridinho! Desde que o não tem está esta mona +que se vê. + +Luiza respondeu, olhando Bazilio instinctivamente: + +--Que tolice! Até estes dias tenho andado bem alegre! + +Mas D. Felicidade insistia: + +--Ora, bem sabemos, bem sabemos. Esse coraçãosinho está no Alemtejo! + +Luiza disse, com impaciencia: + +--Não has-de querer que me ponha aos pulos e ás gargalhadas no Passeio. + +--Está bem, não te enfureças!--exclamou D. Felicidade. E para +Bazilio:--Que geniosinho, hein! + +Bazilio pôz-se a rir. + +--A prima Luiza antigamente era uma vibora. Agora não sei... + +D. Felicidade acudiu: + +--É uma pomba, coitada, é uma pomba! Não, lá isso, é uma pomba. + +E envolvia-a n'um olhar maternal. + +Mas a familia taciturna ergueu-se, sem ruido,--e as meninas adiante, os +paes atraz, afastaram-se lugubremente, succumbidos. + +Bazilio immediatamente apossou-se da cadeira ao pé de Luiza,--e vendo +D. Felicidade a olhar distrahida: + +--Estive para te ir vêr de manhã--disse baixinho a Luiza. + +Ella ergueu a voz, muito naturalmente, com indifferença: + +--E porque não foste? Tinhamos feito musica. Fizeste mal. Devias ter +ido... + +D. Felicidade quiz então saber as horas. Começava a enfastiar-se. +Tinha esperado encontrar o conselheiro: por elle, para lhe parecer +bem, fizera o sacrificio de se apertar; Accacio não vinha, os gazes +começavam a affrontal-a; e o despeito d'aquella ausencia augmentava-lhe +a tortura da digestão. Na sua cadeira, com o corpo molle, ia seguindo a +multidão que girava incessantemente, n'uma nevoa empoeirada. + +Mas a musica, no coreto, bateu de repente, alto, a grande ruido de +cobres, os primeiros compassos impulsivos da marcha do _Fausto_. +Aquillo reanimou-a. Era um _pot-pourri_ da opera,--e não havia musica +de que gostasse mais. Estaria para a abertura de S. Carlos, o snr. +Bazilio? + +Bazilio disse, com uma intenção, voltando-se para Luiza: + +--Não sei, minha senhora, depende... + +Luiza olhava, calada. A multidão crescera. Nas ruas lateraes mais +espaçosas, frescas, passeavam apenas, sob a penumbra das arvores, os +acanhados, as pessoas de luto, os que tinham o fato coçado. Toda a +burguezia domingueira viera amontoar-se na rua do meio, no corredor +formado pela filas cerradas das cadeiras do asylo: e alli se movia +entalada, com a lentidão espessa d'uma massa mal derretida, arrastando +os pés, raspando o macadam, n'um amarfanhamento plebeu, a garganta +secca, os braços molles, a palavra rara. Iam, vinham, incessantemente, +para cima e para baixo, com um bamboleamento relaxado e um rumor +grosso, sem alegria e sem bonhomia, no arrebanhamento passivo que +agrada ás raças mandrionas: no meio da abundancia das luzes e das +festividades da musica, um tedio morno circulava, penetrava como uma +nevoa: a poeirada fina envolvia as figuras, dava-lhes um tom neutro; e +nos rostos que passavam sob os candieiros, nas zonas mais directas de +luz, viam-se desconsolações de fadiga e aborrecimentos de dia santo. + +Defronte as casas da rua Occidental tinham na sua fachada o reflexo +claro das luzes do Passeio; algumas janellas estavam abertas; as +cortinas de fazenda escura destacavam sobre a claridade interior dos +candieiros. Luiza sentia como uma saudade de outras noites de verão, de +serões recolhidos. Onde? Não se lembrava. O movimento então retrahia-a; +e encontrava em face, fitando-a n'uma attitude lugubre, o sujeito da +pera longa. Debaixo do véo sentia a poeira arder-lhe nos olhos: em +redor d'ella gente bocejava. + +D. Felicidade propoz uma volta. Levantaram-se, foram rompendo devagar; +as filas das cadeiras apertavam-se compactamente, e uma infinidade de +faces a que a luz do gaz dava o mesmo tom amarellado olhavam de um modo +fixo e cançado, n'um abatimento de pasmaceira. Aquelle aspecto irritou +Bazilio, e como era difficil andar lembrou--«que se fossem d'aquella +semsaboria». + +Sahiram. Em quanto elle ia comprar os bilhetes, D. Felicidade, +deixando-se quasi cahir n'um banco sob a folhagem d'um chorão, exclamou +afflicta: + +--Ai filha! Estou que arrebento! + +Passava a mão no estomago, tinha a face envelhecida. + +--E o conselheiro, que me dizes? Olha que já é pouca sorte! Hoje que eu +vim ao Passeio... + +Suspirou, abanando-se. E com o seu sorriso bondoso: + +--É muito sympathico, teu primo! E que maneiras! Um verdadeiro fidalgo. +Que elles conhecem-se, filha! + +Declarou-se muito fatigada, apenas sahiram o portão. Era melhor tomarem +um trem. + +Bazilio achava preferivel subirem a pé até ao largo do Loreto. A noite +estava tão agradavel! E o andar fazia bem á snr.^a D. Felicidade! + +Depois diante do Martinho, fallou em irem tomar neve; mas D. Felicidade +receava a frialdade, Luiza tinha vergonha. Pelas portas do café +abertas, viam-se sobre as mesas jornaes enxovalhados; e algum raro +individuo, de calça branca, tomava placidamente o seu sorvete de +morango. + +No Rocio, sob as arvores, passeava-se: pelos bancos, gente immovel +parecia dormitar; aqui e além pontas de cigarro reluziam; sujeitos +passavam, com o chapéo na mão, abanando-se, o collete desabotoado; a +cada canto se apregoava agua fresca «do Arsenal»; em torno do largo, +carruagens descobertas rodavam vagarosamente. O céo abafava,--e na +noite escura, a columna da estatua de D. Pedro tinha o tom baço e +pallido de uma vela de estearina colossal e apagada. + +Bazilio, ao pé de Luiza, ia calado. Que horror de cidade!--pensava--Que +tristeza! E lembrava-lhe Paris, de verão: subia, á noite, no seu +phaeton, os Campos Elyseos devagar: centenares de victorias descem, +sobem rapidamente, com um trote discreto e alegre; e as lanternas fazem +em toda a avenida um movimento jovial de pontos de luz; vultos brancos +e mimosos de mulheres reclinam-se nas almofadas, balançadas nas molas +macias; o ar em redor tem uma doçura avelludada, e os castanheiros +espalham um aroma subtil. Dos dous lados, d'entre os arvoredos, saltam +as claridades violentas dos cafés cantantes, cheios do _brouhaha_ +das multidões alegres, dos _brios_ impulsivos das orchestras; os +restaurantes flammejam; ha uma intensidade de vida amorosa e feliz; +e, para além, sahe das janellas dos palacetes, através dos _stores_ +de sêda, a luz sobria e velada das existencias ricas. Ah! se lá +estivesse!--Mas ao passar junto dos candieiros olhava de lado para +Luiza: o seu perfil fino sob o véo branco tinha uma grande doçura; o +vestido prendia bem a curva do seu peito; e havia no seu andar uma +lassidão que lhe quebrava a linha da cinta de um modo languido e +promettedor. + +Veio-lhe uma certa idéa, começou a dizer: Que pena que não houvesse +em toda a Lisboa um restaurante, onde se podesse ir tomar uma aza de +perdiz e beber uma garrafa de _champagne frappée_! + +Luiza não respondeu. Devia ser delicioso--pensava.--Mas D. Felicidade +exclamou: + +--Perdiz, a esta hora! + +--Perdiz ou outra qualquer cousa. + +--Fosse o que fosse, era para estourar! Credo! + +Subiam pela rua Nova do Carmo. Os candieiros davam uma luz mortiça: as +altas casas dos dous lados, apagadas, entalavam, carregavam a sombra; +e a patrulha muito armada, descia passo a passo, sem ruido, sinistra e +subtil. + +Ao Chiado um garoto de barrete azul perseguiu-os com cautelas de +loteria; a sua voz aguda e chorosa promettia a fortuna, muitos contos +de reis. D. Felicidade ainda parou, com uma tentação... Mas uma troça +de rapazes bebedos que descia de chapéo na nuca, fallando alto, aos +tropeções, assustou muito as duas senhoras. Luiza encolheu-se logo +contra Bazilio, D. Felicidade enfiada agarrou-lhe anciosamente o braço, +quiz-se metter n'uma carruagem; e até ao Loreto foi explicando o seu +medo aos borrachos, com a voz atarantada, contando casos, facadas, sem +largar o braço de Bazilio. Da fileira de tipoias, ao lado das grades +da praça de Camões, um cocheiro lançou logo a sua caleche descoberta, +de pé na almofada, apanhando confusamente as rédeas, com grandes +chicotadas na parelha, muito excitado, gritando: + +--Prompto, meu amo, prompto! + +Demoraram-se um momento ainda conversando. Um homem então passou, +rondou,--e Luiza desesperada reconheceu os olhos acarneirados do +sujeito da pera. + +Entraram para a caleche. Luiza ainda se voltou para vêr Bazilio +immovel no largo, com o seu chapéo na mão: depois accommodou-se, pôz +os pésinhos no outro assento e balançada pelo trote largo viu passar, +calada, as casas apagadas da rua de S. Roque, as arvores de S. Pedro +de Alcantara, as fachadas estreitas do Moinho de Vento, os jardins +adormecidos da Patriarchal. A noite estava immovel, de um calor molle: +e desejava, sem saber porque, rolar assim sempre, infinitamente, entre +ruas, entre grades cheias de folhagem de quintas nobres, sem destino, +sem cuidados, para alguma cousa de feliz que não distinguia bem! Um +grupo defronte da Escóla ia tocando o _Fado do Vimioso_; aquelles sons +entraram-lhe na alma como um vento dôce, que fazia agitar brandamente +muitas sensibilidades passadas: suspirou baixo. + +--Um suspirosinho que vai para o Alemtejo--disse D. Felicidade, +tocando-lhe o braço. + +Luiza sentiu todo o sangue abrazar-lhe o rosto. Davam onze horas quando +entrou em casa. + +Juliana veio alumiar.--O chá estava prompto, quando a senhora +quizesse... + +Luiza subiu d'ahi a pouco com um largo roupão branco, muito fatigada, +estendeu-se na _voltaire_; sentia vir-lhe uma somnolencia, a cabeça +pendia-lhe, cerrava as palpebras... E Juliana tardava tanto com o chá! +Chamou-a. Onde estava? credo! + +Tinha descido, pé ante pé, ao quarto de Luiza. E ahi tomando o +vestido, as saias engommadas que ella despira e atirára para cima da +_causeuse_, desdobrou-as, revirou-as, examinou-as, e com uma certa +idéa, cheirou-as! Havia o vago aroma de um corpo lavado e quente, +com uma pontinha de suor e de agua de colonia. Quando a sentiu +chamar, impacientar-se em cima, subiu, correndo.--Fôra abaixo dar uma +arrumadella. Era o chá? Estava prompto... + +E entrando com as torradas: + +--Veio ahi o snr. Sebastião, haviam de ser nove horas... + +--Que lhe disse? + +--Que a senhora tinha sahido com a snr.^a D. Felicidade. Como não +sabia, não disse para onde. + +E acrescentou: + +--Esteve a conversar commigo, o snr. Sebastião... Esteve a conversar +mais de meia hora!... + + + +Luiza recebeu, na manhã seguinte, da parte de Sebastião, um ramo de +rosas, magenta-escuro, magnificas. Cultivava-as elle na quinta de +Almada, e chamavam-se rosas _D. Sebastião_. Mandou-as pôr nos vasos da +sala, e como o dia estava encoberto, de um calor baixo e suffocante: + +--Olhe--disse a Juliana--abra as janellas. + +--Bem--pensou Juliana--temos cá o melro. + +O _melro_ veio com effeito ás tres horas. Luiza estava na sala, ao +piano. + +--Está alli o sujeito do costume--foi dizer Juliana. + +Luiza voltou-se corada, escandalisada da expressão: + +--Ah! meu primo Bazilio? Mande entrar. + +E chamando-a: + +--Ouça, se vier o snr. Sebastião, ou alguem, que entre. + +Era o primo! O _sujeito_, as suas visitas perderam de repente para ella +todo o interesse picante. A sua malicia cheia, enfunada até ahi, cahiu, +engelhou-se como uma vela a que falta o vento. Ora, adeus! Era o primo! + +Subiu á cozinha, devagar,--lograda. + +--Temos grande novidade, snr.^a Joanna! O tal peralta é primo. Diz que +é o primo Bazilio. + +E com um risinho: + +--É o Bazilio! Ora o Bazilio! Sahe-nos primo á ultima hora! O diabo tem +graça! + +--Então que havia de o homem ser senão parente?--observou Joanna. + +Juliana não respondeu. Quiz saber se estava o ferro prompto, que tinha +uma carga de roupa para passar! E sentou-se á janella, esperando. O céo +baixo e pardo pesava, carregado de electricidade; ás vezes uma aragem +subita e fina punha nas folhagens dos quintaes um arripio tremulo. + +--É o primo!--reflectia ella.--E só vem então quando o marido se vai. +Boa! E fica-se toda no ar quando elle sahe, e é roupa branca e mais +roupa branca, e roupão novo, e tipoia para o passeio, e suspiros e +olheiras! Boa bebeda! Tudo fica na familia! + +Os olhos luziam-lhe. Já se não sentia tão lograda. Havia alli muito +«para vêr e para escutar». E o ferro, estava prompto? + +Mas a campainha, em baixo, tocou. + +--Boa! isto agora é um fadario! Estamos na casa do despacho! + +Desceu; e exclamou logo, vendo Julião com um livro debaixo do braço: + +--Faz favor d'entrar, snr. Julião! A senhora está com o primo, mas diz +que mandasse entrar! + +Abriu a porta da sala bruscamente, de surpreza. + +--Está aqui o snr. Julião--disse com satisfação. + +Luiza apresentou os dous homens. + +Bazilio ergueu-se do sophá languidamente, e, n'um relance, percorreu +Julião desde a cabelleira desleixada até ás botas mal engraxadas, com +um olhar quasi horrorisado. + +--Que pulha!--pensou. + +Luiza, muito fina, percebeu, e córou, envergonhada de Julião. + +Aquelle homem de collarinho enxovalhado e com um velho casaco de pano +preto mal feito--que idéa daria a Bazilio das relações, dos amigos +da casa! Sentia já o seu _chic_ diminuido. E instinctivamente, a sua +physionomia tornou-se muito reservada,--como se semelhante visita a +surprehendesse! semelhante _toilette_ a indignasse! + +Julião percebeu o constrangimento d'ella, disse, já embaraçado, +ageitando a luneta: + +--Passei por aqui por acaso, entrei a saber se ha algumas noticias de +Jorge... + +--Obrigada. Sim, tem escripto. Está bem... + +Bazilio, recostado no sophá, como um parente intimo, examinava a +sua meia de sêda bordada de estrellinhas escarlates, e cofiava +indolentemente o bigode, arrebitando um pouco o dedo minimo,--onde +brilhavam, em dous grossos anneis d'ouro, uma saphira e um rubi. + +A affectação da attitude, o reluzir das joias irritaram Julião. + +Quiz mostrar tambem a sua intimidade, os seus direitos, disse: + +--Eu não tenho vindo fazer-lhe um bocado de companhia, porque tenho +estado muito occupado... + +Luiza acudiu para desauthorisar logo aquella familiaridade: + +--Eu tambem não me tenho achado bem. Não tenho recebido ninguem,--a não +ser meu primo, naturalmente! + +Julião sentiu-se renegado! E todo vermelho, de surpreza, d'indignação, +ficou a balançar a perna, calado, com o livro sobre o joelho; como a +calça era curta, via-se o elastico esfiado das botas velhas. + +Houve um silencio difficil. + +--Bonitas rosas!--disse emfim Bazilio, preguiçosamente. + +--Muito bonitas!--respondeu Luiza. + +Estava agora compadecida de Julião, procurava uma palavra; disse-lhe +emfim muito precipitadamente: + +--E que calor! É de morrer! Tem havido muitas doenças? + +--Colerinas--respondeu Julião.--Por causa das frutas. Doenças de ventre. + +Luiza baixou os olhos. Bazilio então começou a fallar da viscondessinha +d'Azeias: tinha-a achado acabada; e que era feito da irmã, da grande? + +Aquella conversação sobre fidalgas que elle não conhecia isolava mais +Julião: sentia o suor humedecer-lhe o pescoço; procurava um dito, uma +ironia, uma agudeza; e machinalmente abria e fechava o seu grosso livro +de capa amarella. + +--É algum romance?--perguntou-lhe Luiza. + +--Não. É o tratado do dr. Lee sobre doenças d'utero. + +Luiza fez-se escarlate: Julião tambem, furioso da palavra que lhe +escapára. E Bazilio, depois de sorrir, perguntou por uma certa D. +Raphaela Grijó, que costumava ir á rua da Magdalena, que usava luneta, +e tinha um cunhado gago... + +--Morreu-lhe o marido. Casou com o cunhado. + +--Com o gago? + +--Sim. Tem um filhito d'elle, gago tambem. + +--Que conversação, em familia! E a D. Eugenia, a de Braga? + +Julião, exasperado, ergueu-se; e com uma voz de garganta secca: + +--Estou com pressa, não me posso demorar. Quando escrever a Jorge, os +meus recados, hein? + +Abaixou bruscamente a cabeça a Bazilio. Mas não achava o chapéo, +tinha rolado para debaixo d'uma cadeira. Embrulhou-se no reposteiro, +topou violentamente contra a porta fechada, e sahiu emfim +desesperado, desejando vingar-se, odiando Luiza, Jorge, o luxo, a +vida,--transbordando agora d'ironias, de ditos, de réplicas. Devia-os +ter achatado, o asno e a tola... E não lhe acudira nada! + +Mas apenas elle tinha fechado a cancella, Bazilio pôz-se de pé, e +cruzando os braços: + +--Quem é este pulha? + +Luiza córou muito, balbuciou: + +--É um rapaz medico... + +--É uma creatura impossivel, é uma especie d'estudante! + +--Coitado, não tem muitos meios... + +Mas não era necessario ter meios para escovar o casaco e limpar a +caspa! Não devia receber semelhante homem! Envergonha uma casa. Se seu +marido gostava d'elle, que o recebesse no escriptorio!... + +Passeava pela sala, excitado, com as mãos nos bolsos, fazendo tilintar +o dinheiro e as chaves. + +--São frescos os amigos da casa!...--continuou.--Que diabo! tu não +foste educada assim. Nunca tiveste gente d'este genero na rua da +Magdalena. + +Não tivera: e pareceu-lhe que as ligações do casamento lhe tinham +trazido um pouco o plebeismo das convivencias. Mas um respeito pelas +opiniões, pelas sympathias de Jorge fez-lhe dizer: + +--Diz que tem muito talento... + +--Era melhor que tivesse botas. + +Luiza, por cobardia, concordou. + +--Tambem o acho exquisito!--disse. + +--Horrivel, minha filha! + +Aquella palavra fez-lhe bater o coração. Era assim que elle lhe +chamava, outr'ora! Houve um momento de silencio:--e a campainha da +porta retiniu fortemente. + +Luiza ficou assustada. Jesus! Se fosse Sebastião! Bazilio achal-o-hia +ainda mais reles! Mas Juliana veio dizer: + +--O snr. conselheiro. Mando entrar? + +--De certo--exclamou. + +E a alta figura d'Accacio adiantou-se, com as bandas do casaco d'alpaca +deitadas para traz, a calça branca muito engommada cahindo sobre +sapatos de entrada abaixo, de laço. + +Apenas Luiza lhe apresentou o primo Bazilio, disse logo, respeitoso: + +--Já sabia que v. exc.^a tinha chegado, vi-o nas interessantes noticias +do nosso _high-life_. E do nosso Jorge? + +Jorge estava em Beja... Diz que se aborrece muito... + +Bazilio, mais amavel, deixou cahir: + +--Eu realmente não tenho a menor idéa do que se possa fazer em Beja. +Deve ser horroroso! + +O conselheiro, passando sobre o bigode a sua mão branca onde destacava +o annel d'armas, observou: + +--É todavia a capital do districto! + +Mas se já em Lisboa se não podia fazer nada, e era a capital do +reino!--E Bazilio puxava, todo recostado, o punho da camisa.--Morria-se +positivamente de pasmaceira! + +Luiza, muito contente da affabilidade de Bazilio, pôz-se a rir: + +--Não digas isso diante do conselheiro. É um grande admirador de Lisboa. + +Accacio curvou-se: + +--Nasci em Lisboa, e aprecio Lisboa, minha rica senhora. + +E com muita bonhomia: + +--Conheço porém que não é para comparar aos Parizes, ás Londres, ás +Madrids... + +--De certo--fez Luiza. + +E o conselheiro continuou com pompa: + +--Lisboa porém tem bellezas sem igual! A entrada, ao que me dizem +(eu nunca entrei a barra), é um panorama grandioso, rival das +Constantinoplas e das Napoles. Digno da penna d'um Garrett ou d'um +Lamartine! Proprio para inspirar um grande engenho!... + +Luiza, receando citações ou apreciações litterarias, interrompeu-o, +perguntou-lhe o que tinha feito? Tinham estado domingo no Passeio, ella +e D. Felicidade, tinham esperado vêl-o, e nada! + +Nunca ia ao Passeio, ao domingo--declarou.--Reconhecia que era muito +agradavel, mas a multidão entontecia-o. Tinha notado,--e a sua voz +tomou o tom espaçado d'uma revelação,--tinha notado que muita gente, +n'um local, causa vertigens aos homens d'estudo. De resto queixou-se da +sua saude e do peso dos seus trabalhos. Andava compilando um livro e +usando as aguas de Vichy. + +--Pódes fumar--disse Luiza de repente, sorrindo, a Bazilio.--Queres +lume? + +Ella mesmo lhe foi buscar um phosphoro, toda ligeira, feliz. Tinha um +vestido claro, um pouco transparente, muito fresco. Os seus cabellos +pareciam mais louros, a sua pelle mais fina. + +Bazilio soprou o fumo do charuto, e declarou muito reclinado: + +--O Passeio ao domingo é simplesmente idiota!... + +O conselheiro reflectiu e respondeu: + +--Não serei tão severo, snr. Brito!--Mas parecia-lhe que com +effeito antigamente era uma diversão mais agradavel.--Em primeiro +lugar--exclamou com muita convicção, endireitando-se--nada, mas +nada, absolutamente nada póde substituir a charanga da Armada!--Além +d'isso havia a questão dos preços... Ah! tinha estudado muito o +assumpto! Os preços diminutos favoreciam a agglomeração das classes +subalternas... Que longe do seu pensamento lançar desdouro n'essa parte +da população... As suas idéas liberaes eram bem conhecidas.--Appéllo +para a snr.^a D. Luiza!--disse.--Mas emfim, sempre era mais agradavel +encontrar uma roda escolhida! Em quanto a si nunca ia ao Passeio. +Talvez não acreditassem, mas nem mesmo quando havia fogo de vistas! +N'esses dias, sim, ia vêr por fóra das grades. Não por economia! De +certo não. Não era rico, mas podia fazer face a essa contribuição +diminuta. Mas é que receava os accidentes! É que os receava muito! +Contou a historia d'um sujeito, cujo nome lhe escapava, a quem uma cana +de foguete furára o craneo.--E além d'isso nada mais facil que cahir +uma fagulha accesa na cara, n'um paletot novo...--É conveniente ter +prudencia--resumiu, compenetrado, limpando os beiços com o lenço de +sêda da India muito enrolado. + +Fallaram então da estação: muita gente fôra para Cintra: de resto, +Lisboa no verão era tão seccante!... E o conselheiro declarou que +Lisboa só era imponente, verdadeiramente imponente, quando estavam +abertas as camaras e S. Carlos! + +--Que estavas tu a tocar quando eu entrei?--perguntou Bazilio. + +O conselheiro acudiu logo: + +--Se estavam fazendo musica, por quem são... Sou um velho assignante de +S. Carlos, ha dezoito annos... + +Bazilio interrompeu-o: + +--Toca? + +--Toquei. Não o occulto. Em rapaz fui dado á flauta. + +E acrescentou, com um gesto benevolo: + +--Rapaziadas!... Alguma novidade, o que estava tocando, D. Luiza? + +--Não! Uma musica muito conhecida, já antiga: a _Filha do Pescador_, de +Meyerbeer! Tenho a letra traduzida. + +Tinha cerrado as vidraças, sentára-se ao piano. + +--O Sebastião é que toca isto bem, não é verdade, conselheiro? + +--O nosso Sebastião--disse o conselheiro com authoridade--é um rival +dos Thalbergs e dos Litz. Conhece o nosso Sebastião?--perguntou a +Bazilio. + +--Não, não conheço. + +--Uma perola! + +Bazilio tinha-se aproximado do piano devagar, frisando o bigode. + +--Tu ainda cantas?--perguntou-lhe Luiza, sorrindo. + +--Quando estou só. + +Mas o conselheiro pediu-lhe logo um «trecho». Bazilio ria. Tinha medo +d'escandalisar um velho assignante de S. Carlos... + +O conselheiro animou-o; disse mesmo paternalmente: + +--Coragem, snr. Brito, coragem! + +Luiza então preludiou. + +E Bazilio soltou logo a voz, cheia, bem timbrada, de barytono; as suas +notas altas faziam a sala sonora. O conselheiro, direito na poltrona, +escutava concentrado; a sua testa, franzida n'um vinco, parecia +curvar-se sob uma responsabilidade de juiz; e as lunetas defumadas +destacavam, com reflexos escuros, n'aquella physionomia de calvo, que o +calor tornava mais pallida. + +Bazilio dizia com uma melancolia grave a primeira phrase, tão larga, da +canção: + + Igual ao mar sombrio + Meu coração profundo... + +Um poeta, com uma dedicação obscura, traduzira a letra no _Almanach das +Senhoras_. Luiza pela sua propria mão a tinha copiado nas entrelinhas +da musica. E Bazilio debruçado sobre o papel sempre torcendo as pontas +do bigode: + + Tem tempestades, coleras, + Mas perolas no fundo! + +Os olhos largos de Luiza affirmavam-se para a musica--ou a espaços, com +um movimento rapido, erguiam-se para Bazilio. Quando, na nota final, +prolongada como a reclamação d'um amor supplicante, Bazilio soltou a +voz d'um modo appellativo: + + Vem! vem + Pousar, ó dôce amada, + Teu peito contra o meu... + +os seus olhos fixaram-se n'ella com uma significação de tanto desejo, +que o peito de Luiza arfou, os seus dedos embrulharam-se no teclado. + +O conselheiro bateu as palmas. + +--Uma voz admiravel!--exclamava--Uma voz admiravel! + +Bazilio dizia-se envergonhado. + +--Não, senhor, não, senhor!--protestou Accacio, levantando-se.--Um +excellente orgão! Direi, o melhor orgão da nossa sociedade! + +Bazilio riu. Uma vez que tinha successo, então ia dizer-lhes uma +modinha brazileira da Bahia. Sentou-se ao piano, e depois de ter +preludiado uma melodia muito balançada, d'um embalado tropical, cantou: + + Sou negrinha, mas meu peito + Sente mais que um peito branco. + +E interrompendo-se: + +--Isto fazia furor nas reuniões da Bahia quando eu parti. + +Era a historia d'uma «negrinha» nascida na roça, e que contava, com +lyrismos d'almanach, a sua paixão por um feitor branco. + +Bazilio parodiava o tom sentimental d'alguma menina bahiana; e a sua +voz tinha uma preciosidade comica, quando dizia o _ritornello_ choroso: + + E a negra p'ra os mares + Seus olhos alonga; + No alto coqueiro + Cantava a araponga. + +O conselheiro achou «delicioso»; e, de pé na sala, lamentou a proposito +da cantiga a condição dos escravos. Que lhe affirmavam amigos do Brazil +que os negros eram muito bem tratados. Mas emfim a civilisação era +a civilisação! E a escravatura era um estigma! Tinha todavia muita +confiança no imperador... + +--Monarcha de rara illustração...--acrescentou respeitosamente. + +Foi buscar o seu chapéo, e collando-lhe as abas ao peito, curvando-se, +jurou que--havia muito tempo não tinha passado uma manhã tão completa. +De resto para elle nada havia como a boa conversação e a boa musica... + +--Onde está v. exc.^a alojado, snr. Brito? + +Pelo amor de Deus! Que não se incommodasse! Estava no Hotel Central. + +Não havia considerações que o impedissem de cumprir o seu +dever--declarou.--Cumpril-o-hia! Elle era uma pessoa inutil, a snr.^a +D. Luiza bem o sabia.--Mas se necessitar alguma cousa, uma informação, +uma apresentação nas regiões officiaes, licença para visitar algum +estabelecimento publico, creia que me tem ás suas ordens! + +E conservando na sua mão a mão de Bazilio: + +--Rua do Ferregial de Cima numero tres, terceiro. O modesto tugurio +d'um ermita. + +Tornou a curvar-se diante de Luiza: + +--E quando escrever ao nosso viajante, que faço sinceros votos pela +prosperidade dos seus emprehendimentos. Por quem é! Criado de v. exc.^a! + +E direito, grave, sahiu. + +--Este ao menos é limpo--resmungou Bazilio, com o charuto ao canto da +bocca. + +Sentára-se outra vez ao piano, corria os dedos pelo teclado. Luiza +aproximou-se: + +--Canta alguma cousa, Bazilio! + +Bazilio pôz-se então a olhar muito para ella. + +Luiza córou, sorriu; através da fazenda clara e transparente do +vestido, entrevia-se a brancura macia e lactea do collo e dos braços; +e nos seus olhos, na côr quente do rosto havia uma animação e como uma +vitalidade amorosa. + +Bazilio disse-lhe, baixo: + +--Estás hoje nos teus dias felizes, Luiza. + +O olhar d'elle, tão avido, perturbava-a; insistiu: + +--Canta alguma cousa. + +O seu seio arfava. + +--Canta tu--murmurou Bazilio. + +E devagarinho, tomou-lhe a mão. As duas palmas um pouco humidas, um +pouco tremulas, uniram-se. + +A campainha, fóra, tocou. Luiza desprendeu a mão bruscamente. + +--É alguem--disse agitada. + +Vozes baixas fallavam á cancella. + +Bazilio teve um movimento d'hombros contrariado, foi buscar o chapéo. + +--Vaes-te?--exclamou ella toda desconsolada. + +--Pudera! Não posso estar só comtigo um momento! + +A cancella fechou-se com ruido. + +--Não é ninguem, foi-se--disse Luiza. + +Estavam de pé, no meio da sala. + +--Não te vás! Bazilio! + +Os seus olhos profundos tinham uma supplicação dôce. Bazilio pousou o +chapéo sobre o piano; mordia o bigode um pouco nervoso. + +--E para que queres tu estar só commigo?--disse ella.--Que tem que +venha gente?--E arrependeu-se logo d'aquellas palavras. + +Mas Bazilio, com um movimento brusco, passou-lhe o braço sobre os +hombros, prendeu-lhe a cabeça, e beijou-a na testa, nos olhos, nos +cabellos, vorazmente. + +Ella soltou-se a tremer, escarlate. + +--Perdôa-me--exclamou elle logo, com um impeto apaixonado.--Perdôa-me. +Foi sem pensar. Mas é porque te adoro, Luiza! + +Tomou-lhe as mãos com dominio, quasi com direito. + +--Não. Has-de ouvir. Desde o primeiro dia que te tornei a vêr estou +doudo por ti, como d'antes, a mesma cousa. Nunca deixei de me morrer +por ti. Mas não tinha fortuna, tu bem o sabes, e queria-te vêr rica, +feliz. Não te podia levar para o Brazil. Era matar-te, meu amor! Tu +imaginas lá o que aquillo é! Foi por isso que te escrevi aquella carta, +mas o que eu soffri, as lagrimas que chorei! + +Luiza escutava-o immovel, a cabeça baixa, o olhar esquecido; aquella +voz quente e forte, de que recebia o bafo amoroso, dominava-a, +vencia-a; as mãos de Bazilio penetravam com o seu calor febril a +substancia das suas; e, tomada d'uma lassidão, sentia-se como adormecer. + +--Falla, responde!--disse elle anciosamente, sacudindo-lhe as mãos, +procurando o seu olhar avidamente. + +--Que queres que te diga?--murmurou ella. + +A sua voz tinha um tom abstracto, mal acordado. + +E desprendendo-se devagar, voltando o rosto: + +--Fallemos n'outras cousas! + +Elle balbuciava com os braços estendidos: + +--Luiza! Luiza! + +--Não, Bazilio, não! + +E na sua voz havia o arrastado d'uma lamentação, com a molleza d'uma +caricia. + +Elle então não hesitou, prendeu-a nos braços. + +Luiza ficou inerte, os beiços brancos, os olhos cerrados--e Bazilio, +pousando-lhe a mão sobre a testa, inclinou-lhe a cabeça para traz, +beijou-lhe as palpebras devagar, a face, os labios depois muito +profundamente; os beiços d'ella entreabriram-se, os seus joelhos +dobraram-se. + +Mas de repente todo o seu corpo se endireitou, com um pudor indignado, +afastou o rosto, exclamou afflicta: + +--Deixa-me, deixa-me! + +Viera-lhe uma força nervosa; desprendeu-se, empurrou-o; e passando as +mãos abertas pela testa, pelos cabellos: + +--Oh meu Deus! É horrivel!--murmurou.--Deixa-me! É horrivel! + +Elle adiantava-se com os dentes cerrados; mas Luiza recuava, dizia: + +--Vai-te. Que queres tu? Vai-te! Que fazes tu aqui? Deixa-me! + +Elle então tranquillisou-a com a voz subitamente serena e humilde. Não +percebia. Porque se zangava? Que tinha um beijo? Elle não pedia mais. +Que tinha ella imaginado, então? Adorava-a, de certo, mas puramente. + +--Juro-t'o!--disse com força, batendo no peito. + +Fel-a sentar no sophá, sentou-se ao pé d'ella. Fallou-lhe muito +sensatamente:--Via as circumstancias, e resignar-se-hia. Seria como uma +amizade d'irmãos, nada mais. + +Ella escutava-o, esquecida. + +De certo, dizia elle, aquella paixão era uma tortura immensa. Mas +era forte, dominar-se-hia. Só queria vir vêl-a, fallar-lhe. Seria um +sentimento ideal.--E os seus olhos devoravam-na. + +Voltou-lhe a mão, curvou-se, pôz-lhe um beijo cheio na palma. Ella +estremeceu, ergueu-se logo: + +--Não! Vai-te! + +--Bem, adeus. + +Levantou-se com um movimento resignado e infeliz. E limpando devagar a +sêda do chapéo: + +--Bem, adeus--repetiu melancolicamente. + +--Adeus. + +Bazilio disse então com muita ternura: + +--Estás zangada? + +--Não! + +--Escuta--murmurou, adiantando-se. + +Luiza bateu com o pé. + +--Oh que homem! Deixa-me! Ámanhã. Adeus. Vai-te! Ámanhã! + +--Ámanhã!--disse elle, baixinho. + +E sahiu rapidamente. + +Luiza entrou no quarto toda nervosa. E ao passar diante do espelho +ficou surprehendida: nunca se vira tão linda! Deu alguns passos calada. + +Juliana arrumava roupa branca n'um gavetão do guarda-vestidos. + +--Quem tocou ha bocado?--perguntou Luiza. + +--Foi o snr. Sebastião. Não quiz entrar; disse que voltava. + + + +Tinha dito, com effeito, «que voltava». Mas começava quasi a +envergonhar-se de vir assim todos os dias, e encontral-a sempre «com +uma visita»! + +Logo no primeiro dia ficára muito surprehendido quando Juliana lhe +disse: «Está com um sujeito! Um rapaz novo que já cá esteve hontem!» +Quem seria? Conhecia todos os amigos da casa... Seria algum empregado +da secretaria ou algum proprietario de minas, o filho do Alonso, +talvez, um negocio de Jorge de certo... + +Depois no domingo, á noite, trazia-lhe a partitura de _Romeu e +Julieta_, de Gounod, que ella desejava tanto ouvir, e quando Juliana +lhe disse da varanda «que tinha sahido com D. Felicidade de carruagem», +ficou muito embaraçado com o grosso volume debaixo do braço, coçando +devagar a barba. Onde teriam ido? Lembrou-se do enthusiasmo de D. +Felicidade pelo theatro de D. Maria. Mas irem sós, n'aquelle calor de +julho, ao theatro! Emfim, era possivel. Foi a D. Maria. + +O theatro, quasi vazio, estava lugubre; aqui e além, n'algum camarote, +uma familia feia perfilava-se, com cabellos negrissimos carregados de +postiços, gozando soturnamente a sua noite de domingo: na platéa, á +larga nas bancadas vazias, pessoas avelhadas e inexpressivas escutavam +com um ar encalmado e farto, limpando a espaços, com lenços de sêda, +o suor dos pescoços; na geral, gente de trabalho arregalava olhos +negros em faces trigueiras e oleosas; a luz tinha um tom dormente; +bocejava-se. E no palco, que representava uma sala de baile amarella, +um velhote condecorado fallava a uma magrita de cabellos riçados, sem +cessar, com o tom diluido de uma agua gordurosa e morna que escorre. + +Sebastião sahiu. Onde estariam? Soube-o na manhã seguinte.--Descia +o Moinho de Vento, e um visinho, o Netto, que subia curvado sob o +seu guarda-sol, com o cigarro ao canto do bigode grisalho, deteve-o +bruscamente, para lhe dizer: + +--Ó amigo Sebastião, ouça cá. Vi hontem á noite no Passeio a D. Luiza +com um rapaz que eu conheço. Mas d'onde conheço eu aquella cara? Quem +diabo é? + +Sebastião encolheu os hombros. + +--Um rapaz alto, bonito, com um ar estrangeirado. Eu conheço-o. N'outro +dia vi-o entrar para lá. Vossê não sabe? + +Não sabia. + +--Eu conheço aquella cara. Tenho estado a vêr se me recordo...--Passava +a mão pela testa.--Eu conheço aquella cara! Elle é de Lisboa. De Lisboa +é elle! + +E depois d'um silencio, fazendo girar o guarda-sol: + +--E que ha de novo, Sebastião? + +Tambem não sabia. + +--Nem eu! + +E bocejando muito: + +--Isto está uma pasmaceira, homem! + +N'essa tarde, ás quatro horas, Sebastião voltou a casa de Luiza. Estava +com «o sujeito!» Ficou então preoccupado. De certo era algum negocio de +Jorge; porque não comprehendia que ella fallasse, sentisse, vivesse, +que não fosse no interesse da casa e para maior felicidade de Jorge. +Mas devia ser grave então--para reclamar visitas, encontros, tantas +relações. Tinham pois interesses importantes que elle não conhecia! E +aquillo parecia-lhe uma ingratidão, e como uma diminuição d'amizade. + +A tia Joanna tinha-o achado «macambusio». + +Foi ao outro dia que soube que o sujeito era o primo Bazilio, o Bazilio +de Brito. O seu vago desgosto dissipou-se, mas um receio mais definido +veio inquietal-o. + +Sebastião não conhecia Bazilio pessoalmente, mas sabia a chronica da +sua mocidade. Não havia n'ella certamente, nem escandalo excepcional, +nem romance pungente. Bazilio tinha sido apenas um _pandigo_ e, como +tal, passára methodicamente por todos os episodios classicos da +estroinice lisboeta:--partidas de monte até de madrugada com ricaços +do Alemtejo; uma tipoia despedaçada n'um sabbado de touros; ceias +repetidas com alguma velha Lola e uma antiga salada de lagosta; algumas +_pégas_ applaudidas em Salvaterra ou na Alhandra; noitadas de bacalhau +e Collares nas tabernas fadistas; muita guitarra; sôcos bem jogados á +face attonita d'um policia; e uma profusão de gemas d'ovos nas glorias +do entrudo. As unicas mulheres mesmo que appareciam na sua historia, +além das Lolas e das Carmens usuaes, eram a Pistelli, uma dançarina +allemã cujas pernas tinham uma musculatura d'athleta, e a condessinha +d'Alvim, uma douda, grande cavalleira, que se separára de seu marido +depois de o ter chicotado, e que se vestia d'homem para bater ella +mesmo em trem de praça do Rocio ao Dá-fundo. Mas isto bastava para +que Sebastião o achasse um _debochado_, um _perdido_; ouvira que elle +tinha ido para o Brazil para fugir aos credores; que enriquecera por +acaso, n'uma especulação, no Paraguay; que mesmo na Bahia, com a corda +na garganta, nunca fôra um trabalhador; e suppunha que a posse da +fortuna para elle, seria apenas um desenvolvimento dos vicios. E este +homem agora vinha vêr a Luizinha todos os dias, estava horas e horas, +seguia-a ao Passeio... + +Para que?... Era claro, para a desinquietar! + +Ia justamente descendo a rua, dobrado sob a pesada desconsolação +d'estas idéas, quando uma voz encatarrhoada disse com respeito: + +--Ó snr. Sebastião! + +Era o Paula dos moveis. + +--Viva, snr. João. + +O Paula atirou para as pedras da rua um jacto escuro de saliva, e com +as mãos cruzadas debaixo das abas do comprido casaco de cotim, o tom +grave: + +--Ó snr. Sebastião, ha doença cá por casa do snr. Engenheiro? + +Sebastião todo surprehendido: + +--Não. Porque? + +O Paula fez roncar a garganta, cuspilhou: + +--É que tenho visto entrar para cá todos os dias um sujeito. Imaginei +que fosse o medico. + +E puxando o escarro: + +--D'esses novos da hom[oe]opathia! + +Sebastião tinha córado. + +--Nada--disse.--É o primo de D. Luiza. + +--Ah!--fez o Paula.--Pois pensei... Queira desculpar, snr. Sebastião. + +E curvou-se, respeitosamente. + +--Já temos fallatorio!--foi pensando Sebastião. + +E entrou em casa, descontente. + +Morava ao fundo da rua, n'um predio seu, de construcção antiga, com +quintal. + +Sebastião era só. Tinha uma fortuna pequena em inscripções, terras de +lavoura para o lado do Seixal, e a quinta em Almada,--o Rozegal. As +duas criadas eram muito antigas na casa. A Vicencia, a cozinheira, era +uma preta de S. Thomé já do tempo da mamã. A tia Joanna, a governanta, +servia-o havia trinta e cinco annos; chamava ainda a Sebastião o +«menino»; tinha já as tontices d'uma criança, e recebia sempre os +respeitos d'uma avó. Era do Porto, do _Poârto_, como ella dizia, +porque nunca perdera o seu accento minhôto. Os amigos de Sebastião +chamavam-lhe uma velha de comedia. Era baixinha e gorda, com um sorriso +muito bondoso; tinha os cabellos alvos como uma estriga, atados no +alto n'um rolinho com um antigo pente de tartaruga; trazia sempre um +vasto lenço branco muito aceado, traçado sobre o peito. E todo o dia +passarinhava pela casa, com o seu passinho arrastado, fazendo tilintar +os mólhos de chaves, resmungando proverbios, tomando rapé de uma caixa +redonda, em cuja tampa se lascava o desenho abonecado da ponte pensil +do Porto. + +Em toda a casa havia um tom caturra e dôce: na sala de visitas, quasi +sempre fechada, o vasto canapé, as poltronas tinham o ar empertigado +do tempo do snr. D. José I, e os estofos de damasco vermelho desbotado +lembravam a pompa d'uma côrte decrepita; das paredes da casa de jantar +pendiam as primeiras gravuras das batalhas de Napoleão, onde se vê +invariavelmente, n'uma eminencia, o cavallo branco, para o qual galopa +desenfreadamente do primeiro plano um hussard, brandido um sabre. +Sebastião dormia os seus somnos de sete horas, sem sonhos, n'uma velha +barra de pau preto torneado; e n'uma saleta escura, sobre uma commoda +de fecharias de metal amarello, conservava-se, havia annos, o padroeiro +da casa, S. Sebastião--que se torcia, cravado de settas, nas cordas que +o atavam ao tronco, á luz d'uma lampada muito cuidada pela tia Joanna, +sob os ruidos subtis dos ratos pelo forro. + +A casa condizia com o dono. Sebastião tinha um genio antiquado. Era +solitario e acanhado. Já no latim lhe chamavam o _pelludo_; punham-lhe +rabos, roubavam-lhe impudentemente as merendas. Sebastião, que tinha a +força d'um gymnasta, offerecia a resignação d'um martyr. + +Foi sempre reprovado nos primeiros exames do lyceu. Era intelligente, +mas uma pergunta, o reluzir dos oculos d'um professor, a grande lousa +negra immobilisavam-o; ficava muito embezerrado, a face inchada e +rubra, a coçar os joelhos, o olhar vazio. + +Sua mãi, que era da aldêa e que fôra padeira, muito vaidosa agora das +suas inscripções, da sua quinta, da sua mobilia de damasco, sempre +vestida de sêda, carregada d'anneis, costumava dizer: + +--Ora! tem que comer e beber! Estar a affligir a criança com estudos! +Deixa lá, deixa lá! + +A inclinação de Sebastião era pela musica. Sua mãi, por conselhos da +mãi de Jorge, sua visinha e sua intima, tomou-lhe um mestre de piano; +logo desde as primeiras lições, a que ella assistia com enfeites de +velludo vermelho e cheia de joias, o velho professor Achilles Bentes, +d'oculos redondos e cara de coruja, exclamou excitado com a sua voz +nasal: + +--Minha rica senhora! o seu menino é um genio! É um genio! Ha-de ser um +Rossini! É puxar por elle! É puxar por elle! + +Mas era justamente o que ella não queria, era puxar por elle, +coitadinho! Por isso não foi um Rossini. E todavia o velho Bentes +continuava a dizer, por habito: + +--Ha-de ser um Rossini! Ha-de ser um Rossini! + +Sómente em lugar de o gritar, brandindo papeis de musica, murmurava-o, +com bocejos enormes de leão enfastiado. + +Já então os dous rapazes visinhos, Jorge e Sebastião, eram intimos. +Jorge mais vivo, mais inventivo, dominava-o. No quintal, a brincar, +Sebastião era sempre o _cavallo_ nas imitações da diligencia, o +_vencido_ nas guerras. Era Sebastião que carregava os pesos, que +offerecia o dorso para Jorge trepar; nas merendas comia todo o pão, +deixava a Jorge toda a fruta. Cresceram. E aquella amizade sempre +igual, sem amúos, tornou-se na vida d'ambos um interesse essencial e +permanente. + +Quando a mãi de Jorge morreu, pensaram mesmo em viver juntos; +habitariam a casa de Sebastião, mais larga e que tinha quintal; Jorge +queria comprar um cavallo; mas conheceu Luiza no Passeio, e d'ahi a +dous mezes passava quasi todo o seu dia na rua da Magdalena. + +Todo aquelle plano jovial da _Sociedade Sebastião e +Jorge_--chamavam-lhe assim, rindo--desabou, como um castello de cartas. +Sebastião teve um grande pezar. + +E era elle, depois, que fornecia os ramos de rosas que Jorge levava a +Luiza, sem espinhos, com cuidados devotos embrulhados n'um papel de +sêda. Era elle que tratava dos arranjos do «ninho», ia apressar os +estofadores, discutir preços de roupas, vigiar o trabalho dos homens +que pregavam os tapetes, conferenciar com a inculcadeira, cuidar dos +papeis do casamento! + +E á noite, fatigado como um procurador zeloso, tinha ainda de escutar +com um sorriso as expansões felizes de Jorge, que passeava pelo quarto +até ás duas horas da noite em mangas de camisa, namorado, loquaz, +brandindo o cachimbo! + +Depois do casamento Sebastião sentiu-se muito só. Foi a Portel visitar +um tio, um velho exquisito, com um olhar de doudo, que passava a +existencia combinando enxertos no pomar, e lendo, relendo o _Eurico_. +Quando voltou, passado um mez, Jorge disse-lhe radioso: + +--E sabes, hein? Isto agora é que é a tua casa! Aqui é que tu vives! + +Mas nunca obteve de Sebastião que fosse a sua casa com uma inteira +intimidade. Sebastião batia á porta, timidamente. Corava diante de +Luiza; o antigo _pelludo_ de latim reapparecia. Jorge luctára para que +elle cruzasse sem ceremonia as pernas, fumasse cachimbo diante d'ella, +não lhe dissesse a todo o momento:--V. exc.^a, v. exc.^a--meio erguido +na cadeira. + +Nunca vinha jantar senão arrastado. Quando Jorge não estava, as suas +visitas eram curtas, cheias de silencio. Julgava-se gebo, tinha medo de +massar! + +N'essa tarde, quando elle foi para a sala de jantar, a tia Joanna +veio-lhe perguntar pela Luizinha. + +Adorava-a, achava-a um _anjinho_, uma _açucena_. + +--Como está ella? viu-a? + +Sebastião corou, não quiz dizer, como na vespera, «que estava gente, +que não tinha entrado»; e abaixando-se, pondo-se a brincar com as +orelhas do _Trajano_, o seu velho perdigueiro: + +--Está boa, tia Joanna, está boa. Então como ha-de d'estar? Está optima! + + + +Áquella hora Luiza recebia uma carta de Jorge. Era de Portel, com +muitas queixas sobre o calor, sobre as más estalagens, historias sobre +o extraordinario parente de Sebastião,--saudades e mil beijos... + +Não a esperava, e aquella folha de papel cheia d'uma letra miudinha, +que lhe fazia reapparecer vivamente Jorge, a sua figura, o seu olhar, +a sua ternura, deu-lhe uma sensação quasi dolorosa. Toda a vergonha +dos seus desfallecimentos cobardes, sob os beijos de Bazilio, veio +abrazar-lhe as faces. Que horror deixar-se abraçar, apertar! No +sophá o que elle lhe dissera, com que olhos a devorára!... Recordava +tudo,--a sua attitude, o calor das suas mãos, a tremura da sua voz... E +machinalmente, pouco e pouco, ia-se esquecendo n'aquellas recordações, +abandonando-se-lhe, até ficar perdida na deliciosa lassidão que ellas +lhe davam, com o olhar languido, os braços frouxos. Mas a idéa de +Jorge vinha então outra vez fustigal-a como uma chicotada. Erguia-se +bruscamente, passeava pelo quarto toda nervosa, com uma vaga vontade de +chorar... + +--Ah! não! é horroroso, é horroroso!--dizia só, fallando alto.--É +necessario acabar! + +Resolveu não receber Bazilio, escrever-lhe, pedir-lhe que não voltasse, +que partisse! Meditava mesmo as palavras; seria sêcca e fria, não diria +_meu querido primo_, mas simplesmente _primo Bazilio_. + +E que faria elle, quando recebesse a carta? Choraria, coitado! + +Imaginava-o só, no seu quarto d'hotel, infeliz e pallido; e d'aqui, +pelos declives da sensibilidade, passava á recordação da sua pessoa, da +sua voz convincente, das turbações do seu olhar dominante, e a memoria +demorava-se n'aquellas lembranças com uma sensação de felicidade, como +a mão se esquece acariciando a plumagem dôce d'um passaro raro. Sacudia +a cabeça com impaciencia, como se aquellas imaginações fossem os +ferrões d'insectos importunos: esforçava-se por pensar só em Jorge; mas +as idéas más voltavam, mordiam-na: e achava-se desgraçada, sem saber +o que queria, com vontades confusas de estar com Jorge, de consultar +Leopoldina, de fugir para longe, ao acaso. Jesus, que infeliz que +era!--E do fundo da sua natureza de preguiçosa vinha-lhe uma indefinida +indignação contra Jorge, contra Bazilio, contra os sentimentos, contra +os deveres, contra tudo o que a fazia agitar-se e soffrer. Que a não +seccassem, Santo Deus! + +Depois de jantar, á janella da sala, ficou a relêr a carta de Jorge. +Pôz-se a recordar de proposito tudo o que a encantava n'elle, do +seu corpo e das suas qualidades. E juntava ao acaso argumentos, uns +de honra, outros de sentimento, para o amar, para o respeitar. Tudo +era por elle estar fóra, na provincia! Se elle alli estivesse ao pé +d'ella! Mas tão longe, e demorar-se tanto! E ao mesmo tempo, contra +sua vontade, a certeza d'aquella ausencia dava-lhe uma sensação +de liberdade; a idéa de se poder mover á vontade nos desejos, nas +curiosidades, enchia-lhe o peito d'um contentamente largo, como uma +lufada de independencia. + +Mas emfim, vamos, de que lhe servia estar livre, só?--E de repente tudo +o que poderia fazer, sentir, possuir, lhe apparecia n'uma perspectiva +longa que fulgurava: aquillo era como uma porta, subitamente aberta e +fechada, que deixa entrever, n'um relance, alguma cousa de indefinido, +de maravilhoso, que palpita e faisca.--Oh! estava douda, de certo! + +Escureceu. Foi para a sala, abriu a janella; a noite estava quente e +espessa, com um ar d'electricidade e de trovoada. Respirava mal, olhava +para o céo, desejando alguma cousa fortemente, sem saber o quê. + +O moço do padeiro em baixo, como sempre, tocava o fado; aquelles sons +banaes entravam-lhe agora na alma, com a brandura d'um bafo quente e a +melancolia de um gemido. + +Encostou a cabeça á mão com uma lassidão. Mil pensamentosinhos +corriam-lhe no cerebro como os pontos de luz que correm n'um papel que +se queimou; lembrava-lhe sua mãi, o chapéo novo que lhe mandára madame +François, o tempo que faria em Cintra, a doçura das noites quentes sob +a escuridão das ramagens... + +Fechou a janella, espreguiçou-se; e sentada na _causeuse_, no seu +quarto, ficou alli, n'uma immobilidade, pensando em Jorge, em lhe +escrever, em lhe pedir que viesse. Mas bem depressa aquelle scismar +começou a quebrar-se a cada momento como uma tela que se esgaça em +rasgões largos, e por traz apparecia logo com uma intensidade luminosa +e forte a idéa do primo Bazilio. + +As viagens, os mares atravessados tinham-no tornado mais trigueiro; +a melancolia da separação dera-lhe cabellos brancos. Tinha soffrido +por ella!--dissera.--E no fim onde estava o mal? Elle jurára-lhe que +aquelle amor era casto, passando-se todo na alma. Tinha vindo de Paris, +o pobre rapaz, assim lh'o jurára, para a vêr, uma semana, quinze dias. +E havia de dizer-lhe:--Não voltes, vai-te? + +--Quando a senhora quizer o chá...--disse da porta do quarto Juliana. + +Luiza deu um suspiro alto como acordando. Não; que trouxesse a +lamparina, mais tarde. + +Eram dez horas. Juliana foi tomar o seu chá, á cozinha. O lume ia-se +apagando, o candieiro de petroleo estendia nos cobres dos tachos +reflexos avermelhados. + +--Hoje houve cousa, snr.^a Joanna--disse Juliana sentando-se.--Está +toda no ar! E é cada suspiro! Alli houve-a e grossa. + +Joanna, do outro lado, com os cotovêlos na mesa e a face sobre os +punhos, pestanejava de somno. + +--A snr.^a Juliana, tambem, deita tudo para o mal--disse. + +--É que era necessario ser tola, snr.^a Joanna! + +Calou-se, cheirou o assucar; era um dos seus despeitos; gostava d'elle +bem refinado--e aquelle assucar mascavado e grosso, que punha no chá um +gosto de formigas, exasperava-a. + +--Este é peor que o do mez passado! Para uma pobre de Christo tudo é +bom!--rosnou muito amargamente. + +E depois d'uma pausa repetiu: + +--É que era necessario ser tola, snr.^a Joanna! + +A cozinheira disse preguiçosamente: + +--Cada um sabe de si... + +--E Deus de todos--suspirou Juliana. + +E ficaram caladas. + +Luiza tocou a campainha em baixo. + +--Que teremos nós agora? Está com as cocegas! + +Desceu. Voltou com o regador, muito enfastiada: + +--Quer mais agua! Olha a mania, pôr-se agora a chafurdar á meia noite! +Sempre a gente as vê... + +Foi encher o regador, e em quanto a agua da torneira cantava no fundo +de lata: + +--E diz que lhe faça ámanhã ao almoço um bocado de presunto frito, do +salgado. Quer picantes! + +E com muito escarneo: + +--Sempre a gente vê cousas! Quer picantes! + +Á meia noite a casa estava adormecida e apagada. Fóra, o céo +ennegrecera mais; relampejou, e um trovão secco estalou, rolou. + +Luiza abriu os olhos estremunhada; começára a cahir uma chuva grossa +e sonora; a trovoada arrastava-se, ao longe. Esteve um momento +escutando as goteiras que cantavam sobre o lagedo; a alcova abafava, +descobriu-se; o somno tinha fugido, e de costas, o olhar fixo na vaga +claridade que vinha de fóra da lamparina, seguia o tic-tac do relogio. +Espreguiçou-se, e uma certa idéa, uma certa visão foi-se formando +no seu cerebro, completando-se, tão nitida, quasi tão visivel, que +se revirou na cama devagar, estirou os braços, lançou-os em roda do +travesseiro, adiantando os beiços seccos--para beijar uns cabellos +negros onde reluziam fios brancos. + + + +Sebastião tinha dormido mal. Acordou ás seis horas e desceu ao quintal +em chinellas. Uma porta envidraçada da sala de jantar abria para um +terraçosinho, largo apenas para tres cadeiras de ferro pintado e +alguns vasos de cravos; d'alli, quatro degraus de pedra desciam para +o quintal; era uma horta ajardinada, muito cheia, com canteirinhos de +flôres, saladas muito regadas, pés de roseiras junto dos muros, um poço +e um tanque debaixo d'uma parreirita, e arvores; terminava por outro +terraço assombreado d'uma tilia, com um parapeito para uma rua baixa +e solitaria; defronte corria um muro de quintal muito caiado. Era um +sitio recolhido, d'uma paz aldeã. Muitas vezes Sebastião, de madrugada, +ia para alli fumar o seu cigarro. + +Era uma manhã deliciosa. Havia um ar transparente e fino; o céo +arredondava-se a uma grande altura com o azulado de certas porcelanas +velhas e, aqui e além, uma nuvemzinha algodoada, mollemente enrolada, +côr de leite; a folhagem tinha um verde lavado, a agua do tanque uma +crystallinidade fria; passaros chilreavam de leve, com vôos rapidos. + +Sebastião estava debruçado para a rua, quando a ponteira d'uma bengala, +passos vagarosos cortaram o silencio fresco. Era um visinho de Jorge, +o Cunha Rosado, o doente d'intestinos; arrastava-se, curvado, abafado +n'um cachenez e n'um paletot côr de pinhão, com a barba grisalha +desmazelada, a crescer. + +--Já a pé, visinho!--disse Sebastião. + +O outro parou, ergueu a cabeça lentamente. + +--Oh Sebastião!--disse com uma voz plangente--Ando a passear os meus +leites, homem! + +--A pé? + +--Ao principio ia na burrita até fóra de portas, mas diz que me fazia +bem o passeiosito a pé... + +Encolheu os hombros com um gesto triste de duvida, de desconsolação. + +--E como vai isso?--perguntou Sebastião, muito debruçado para a rua, +com affecto. + +O Cunha teve um sorriso desolado nos seus beiços brancos: + +--A desfazer-se! + +Sebastião tossiu, embaraçado, sem achar uma consolação. + +Mas o doente, com as duas mãos apoiadas á bengala, uma subita radiação +d'interesse no olhar amortecido: + +--Ó Sebastião, um rapaz alto, que eu tenho visto todos estes dias +entrar para casa do Jorge, é o Bazilio de Brito, pois não é? O primo da +mulher? o filho do João de Brito? + +--É, sim, porque? + +O Cunha fez: _Ah! ah!_ com uma grande satisfação. + +--Bem dizia eu!--exclamou.--Bem dizia eu! E aquella teimosa que não! +que não!... + +E então explicou com uma tagarellice subita, e cansaços de voz: + +--O meu quarto é para a rua, e todos os dias, como eu estou quasi +sempre pela janella para espairecer... tenho visto aquelle rapaz, a +modo estrangeirado, entrar para lá... todos os dias! Este é o Bazilio +de Brito! disse eu. Mas minha mulher que não! que não!... Que diabo, +homem! Eu tinha quasi a certeza... Não conheço eu outra cousa!... Até +elle esteve para casar com a D. Luiza. Oh! Eu sei essa historia na +ponta dos dedos... Morava ella na rua da Magdalena!... + +Sebastião disse vagamente: + +--Pois é, é o Brito... + +--Bem dizia eu! + +Ficou um momento immovel, fitando o chão, e refazendo uma voz dolente: + +--Pois, vou-me arrastando até casa. + +Suspirou. E arregalando os olhos: + +--Quem me dera a sua saude, Sebastião! + +E dizendo adeus, com um gesto da mão calçada de luva de casimira +escura, afastou-se, curvado, rente do muro, conchegando com o braço ao +ventre, o seu largo paletot côr de pinhão. + +Sebastião entrou preoccupado. Todo o mundo começava a reparar, hein! +Pudera! Um rapaz novo, janota, vir todos os dias de trem, estar duas, +tres horas! Uma visinhança tão chegada, tão maligna!... + +Ao começo da tarde sahiu. Teve vontade de procurar Luiza; mas sem saber +porque, sentia um grande acanhamento; como que receava encontral-a +differente ou com outra expressão... E subia a rua devagar, sob o seu +guarda-sol, hesitando, quando um coupé que descia a trote largo veio +parar á porta de Luiza. + +Um sujeito saltou rapidamente, atirou o charuto, entrou. Era alto, +com um bigode levantado, trazia uma flôr no peito; devia ser o primo +Bazilio, pensou. O cocheiro limpou o suor da testa, e, cruzando as +pernas, pôz-se a enrolar o cigarro. + +Ao ruido do trem o Paula postou-se logo á porta, de boné carregado, as +mãos enterradas no bolso, com olhares de revés: a carvoeira defronte, +immunda, disforme de obesidade e de prenhez, veio embasbacar com um +pasmo lôrpa na face oleosa; a criada do doutor abriu precipitadamente +a vidraça. Então o Paula atravessou rapidamente a rua faiscante de +sol, entrou no estanque; d'ahi a um momento appareceu á porta, com a +estanqueira, de carão viuvo; e cochichavam, cravavam olhares perfidos +nas varandas de Luiza, no coupé! O Paula, d'alli, arrastando as +chinellas de tapete, foi segredar com a carvoeira, provocou-lhe uma +risada que lhe sacudia a massa do seio; e foi emfim estacar á sua +porta entre um retrato de D. João VI e duas velhas cadeiras de couro, +assobiando com jubilo. No silencio da rua ouvia-se n'um piano, a +compasso de estudo, a _Oração d'uma virgem_. + +Sebastião ao passar olhou machinalmente para as janellas de Luiza. + +--Rico calor, snr. Sebastião!--observou o Paula curvando-se--É um +regalo estar á fresca! + + + +Luiza e Bazilio estavam muito tranquillos, muito felizes na sala, com +as portadas meio cerradas, n'uma penumbra dôce. Luiza tinha apparecido +de roupão branco, muito fresca, com um bom cheiro de agua d'alfazema. + +--Eu venho assim mesmo--disse ella.--Não faço ceremonias. + +Mas assim é que ella estava linda! Assim é que a queria +sempre!--exclamava Bazilio muito contente, como se aquelle roupão de +manhã fosse já uma promessa da sua nudez. + +Vinha muito tranquillo, affectava um tom de parente. Não a inquietou +com palavras vehementes, nem com gestos desejosos: fallou-lhe do calor, +d'uma _zarzuela_ que vira na vespera, de velhos amigos que encontrára, +e disse-lhe apenas que tinha sonhado com ella. + +O que? Que estavam longe, n'uma terra distante, que devia ser a Italia, +tantas as estatuas que havia nas praças, tantas as fontes sonoras +que cantavam nas bacias de marmore; era n'um jardim antigo, sobre um +terraço classico; flôres raras transbordavam de vasos florentinos; +pousando sobre as balaustradas esculpidas, pavões abriam as caudas; e +ella arrastava devagar sobre as lages quadradas a cauda longa do seu +vestido de velludo azul. De resto, dizia, era um terraço como o de S. +Donato, a _villa_ do principe Demidoff,--porque lembrava sempre as suas +intimidades illustres, e não se descuidava de fazer reluzir a gloria +das suas viagens. + +E ella, tinha sonhado? + +Luiza córou.--Não, tinha tido muito medo da trovoada. Tinha ouvido a +trovoada, elle? + +--Estava a cear no Gremio, quando trovejou. + +--Costumas cear? + +Elle teve um sorriso infeliz.--Cear! se se podia chamar cear ir ao +Gremio rilhar um bife corneo e tragar um Collares peçonhento! + +E fitando-a: + +--Por tua causa, ingrata! + +Por sua causa? + +--Por quem, então? Porque vim eu a Lisboa? Porque deixei Paris? + +--Por causa dos teus negocios... + +Elle encarou-a severamente: + +--Obrigado--disse, curvando-se até ao chão. + +E a grandes passadas pela sala soprava violentamente o fumo do seu +charuto. + +Veio sentar-se bruscamente ao pé d'ella.--Não, realmente era injusta. +Se estava em Lisboa, era por ella. Só por ella! + +Fez uma voz meiga, perguntou-lhe se lhe tinha realmente um bocadinho +d'amor muito pequenino, assim...--Mostrava o comprimento da unha. + +Riram. + +--Assim, talvez. + +E o peito de Luiza arfava. + +Elle então examinou-lhe as unhas; admirou-lh'as e aconselhou-lhe o +verniz que usam as _cocottes_, que lhes dá um lustre polido; ia-se +apossando da sua mão, pôz-lhe um beijo na ponta dos dedos; chupou o +dedo minimo, jurou que era muito dôce; arranjou-lhe com um contacto +muito timido uns fios de cabello que se tinham soltado,--e, disse, +tinha um pedido a fazer-lhe! + +Olhava-a com uma supplicação. + +--Que é? + +--É que venhas commigo ao campo. Deve estar lindo no campo! + +Ella não respondeu; dava pancadinhas leves nas pregas molles do roupão. + +--É muito simples--acrescentou elle.--Tu vaes-me encontrar a qualquer +parte, longe d'aqui, está claro. Eu estou á espera de ti com uma +carruagem, tu saltas para dentro e _fouette_, _cocher_! + +Luiza hesitava. + +--Não digas que não. + +--Mas onde? + +--Onde tu quizeres. A Paço d'Arcos, a Loires, a Queluz. Dize que sim. + +A sua voz era muito urgente, quasi ajoelhára. + +--Que tem? É um passeio d'amigos, d'irmãos. + +--Não! isso não! + +Bazilio zangou-se, chamou-lhe _beata_. Quiz sahir. Ella veio tirar-lhe +o chapéo da mão, muito meiga, quasi vencida. + +--Talvez, veremos--dizia. + +--Dize que sim!--insistia.--Sê boa rapariga! + +--Pois sim, ámanhã veremos, ámanhã fallaremos. + +Mas no dia seguinte, muito habilmente, Bazilio não fallou no passeio, +nem no campo. Não fallou tambem do seu amor, nem dos seus desejos. +Parecia muito alegre, muito superficial; tinha-lhe trazido o romance de +Belot, _A mulher de fogo_. E sentando-se ao piano, disse-lhe canções de +_café concerto_, muito picantes; imitava a rouquidão acre e canalha das +cantoras; fel-a rir. + +Depois fallou muito de Paris, contou-lhe a moderna chronica amorosa, +anecdotas, paixões _chics_. Tudo se passava com duquezas, princezas, +d'um modo dramatico e sensibilisador, ás vezes jovial, sempre cheio de +delicias. E, de todas as mulheres de que fallava, dizia recostando-se: +Era uma mulher distinctissima, tinha naturalmente o seu amante... + +O adulterio apparecia assim um dever aristocratico. De resto a virtude +parecia ser, pelo que elle contava, o defeito d'um espirito pequeno, ou +a occupação reles d'um temperamento burguez... + +E quando sahiu, disse, como recordando-se: + +--Sabes que estou com minhas idéas de partir?... + +Ella perguntou, um pouco descorada: + +--Porque? + +Bazilio disse, muito indifferente: + +--Que diabo faço eu aqui?... + +Esteve um momento a fitar o tapete, deu um suspiro, e como dominando-se: + +--Adeus, meu amor... + +E sahiu. + +Quando n'essa tarde Luiza entrou na sala de jantar, levava os olhos +vermelhos. + +Foi ella no dia seguinte que fallou do campo. Queixou-se do contínuo +calor, da _sécca_ de Lisboa. Como devia estar lindo em Cintra! + +--És tu que não queres--acudiu elle. --Podiamos fazer um passeio +adoravel. + +Mas tinha medo, podiam vêr... + +--O quê! N'um coupé fechado? Com os _stores_ descidos? + +Mas então era peor que estar n'uma sala, era abafar n'uma bocêta! + +Mas não! Iam a uma quinta. Podiam ir ás _Alegrias_, á quinta d'um amigo +d'elle que estava em Londres. Só viviam lá os caseiros, era ao pé dos +Olivaes, era lindo! Bellas ruas de loureiros, sombras adoraveis. Podiam +levar gelo, champagne... + +--Vem!--disse bruscamente, tomando-lhe as mãos. + +Ella córou.--Talvez. No domingo veria. + +Bazilio conservava-lhe as mãos presas. Os seus olhos encontraram-se, +humedeceram-se. Ella sentiu-se muito perturbada; desprendeu as mãos; +foi abrir as vidraças ambas, dar á sala uma claridade larga como +uma publicidade; sentou-se n'uma cadeira ao pé do piano, receando a +penumbra, o sophá, todas as cumplicidades; e pediu-lhe que cantasse +alguma cousa, porque já temia as palavras, tanto como os silencios! +Bazilio cantou a _Medjé_, a melodia de Gounod, tão sensual e +perturbadora. Aquellas notas quentes passavam-lhe na alma como bafos +d'uma noite electrica. E quando Bazilio sahiu, ficou sentada, quebrada, +como depois d'um excesso. + + +Sebastião tinha estado nos ultimos tres dias em Almada, na quinta do +Rozegal, onde trazia obras. Voltára na segunda-feira cedo, e, pelas +dez horas, sentado no poial da janella de jantar que abria para o +terraçosinho, esperava o seu almoço, brincando com o _Rolim_--o seu +gato, amigo e confidente da illustre Vicencia, nedio como um prelado, +ingrato como um tyranno. + +A manhã começava a aquecer; o quintal estava já cheio de sol; na agua +do tanque, sob a parreira, claridades espelhadas e tremulas faiscavam. +Nas duas gaiolas os canarios cantavam estridentemente. + +A tia Joanna, que andava a arranjar a mesa do almoço muito calada, +poz-se então a dizer com a sua vozinha arrastada e minhôta: + +--Ora esteve ahi hontem a Gertrudes, a do doutor, com uns palratorios, +com umas tontices!... + +--A respeito de quê, tia Joanna?--perguntou Sebastião. + +--A respeito d'um rapaz, que diz que vai agora todos os dias a casa da +Luizinha. + +Sebastião ergueu-se logo: + +--Que disse ella, tia Joanna? + +A velha assentava a toalha devagar com a sua mão gorducha espalmada: + +--Esteve ahi a palrar. Quem seria, quem não seria? Diz que é um +perfeito rapaz. Vem todos os dias. Vem de trem, vai de trem... No +sabbado que estivera até quasi á noitinha. E cantou-se na sala, diz que +uma voz que nem no theatro... + +Sebastião interrompeu-a, impaciente: + +--É o primo, tia Joanna. Então quem havia de ser? É o primo que chegou +do Brazil. + +A tia Joanna teve um bom sorriso. + +--Eu logo vi que era cousa de parente. Pois diz que é um perfeito +rapaz! E todo janota! + +E sahindo para a cozinha, devagar: + +--Eu logo vi que era parente, logo disse!... + +Sebastião almoçou inquieto. Positivamente a visinhança já se punha a +mexericar, a commentar! Estava-se a armar um escandalo!--E, assustado, +decidiu-se logo a ir consultar Julião. + +Descia a rua de S. Roque para casa d'elle, quando o viu, que subia +devagar pela sombra, com um rolo de papel debaixo do braço, uma calça +branca enxovalhada, o ar suado. + +--Ia a tua casa, homem!--disse Sebastião logo. + +Julião estranhou a excitação desusada da sua voz. + +Havia alguma novidade? Que era? + +--Uma do diabo!--exclamou, baixo, Sebastião. + +Estavam parados ao pé da confeitaria. Na vidraça, por traz d'elles, +emprateleirava-se uma exposição de garrafas de malvasia com os seus +letreiros muito coloridos, transparencias avermelhadas de gelatinas, +amarellidões enjoativas de dôces d'ovos, e quéques d'um castanho escuro +tendo espetados cravos tristes de papel branco ou côr de rosa. Velhas +natas lividas amollentavam-se no ôco dos folhados; ladrilhos grossos de +marmelada esbeiçavam-se ao calor; as empadinhas de marisco agglomeravam +as suas crôstas resequidas. E no centro, muito proeminente n'uma +travessa, enroscava-se uma lampreia d'ovos medonha e bojuda, com o +ventre d'um amarello ascoroso, o dorso malhado d'arabescos d'assucar, a +bocca escancarada: na sua cabeça grossa esbogalhavam-se dous horriveis +olhos de chocolate; os seus dentes d'amendoa ferravam-se n'uma +tangerina de chila; e em torno do monstro espapado moscas esvoaçavam. + +--Vamos alli para o café--disse Julião.--Aqui na rua arde-se! + +--Tenho estado apoquentado--ia dizendo Sebastião.--Muito apoquentado! +Quero fallar-te. + +No café o papel azul ferrete e as meias portas fechadas abatiam a +aspera intensidade da luz, davam uma frescura calada. + +Foram-se sentar ao fundo. Do outro lado da rua as fachadas muito +caiadas brilhavam com uma radiação faiscante. Por traz do balcão, onde +reluziam garrafas de crystal, um criado de jaquetão, estremunhado +e esguedelhado, cabeceava de somno. Um passaro chilreava dentro; +sentia-se o bater espaçado das bolas do bilhar através d'uma porta de +baeta verde; ás vezes o pregão de um cangalheiro na rua sobresahia, +e--todos estes sons, por momentos, se perdiam no ruido forte do descer +d'um trem travado. + +Defronte d'elles um sujeito de ar debochado lia um jornal; as suas +melenas grisalhas collavam-se a um craneo amarellado; o bigode tinha +tons queimados do cigarro; e das noitadas ficára-lhe uma vermelhidão +inflammada nas palpebras. De vez em quando erguia preguiçosamente a +cabeça, atirava para o chão areado um jacto escuro de saliva, dava uma +sacudidella triste ao jornal e tornava a fital-o com um olhar infeliz. +Quando os dous entraram e pediram carapinhadas, abaixou-lhes gravemente +a cabeça. + +--Mas o que é então?--perguntou logo Julião. + +Sebastião chegou-se mais para elle: + +--É por causa lá da nossa gente. Por causa do primo--disse baixo. + +E acrescentou: + +--Tu vistel-o, hein? + +A lembrança repentina da sua humilhação na sala de Luiza trouxe um +rubor ás faces de Julião. Mas muito orgulhoso, disse seccamente: + +--Vi. + +--E então? + +--Pareceu-me um asno!--exclamou, não se contendo. + +--E um extravagante--disse com terror Sebastião--Não te pareceu, hein? + +--Pareceu-me um asno--repetiu.--Umas maneiras, uma affectação, um +alambicado, a olhar muito para as meias, umas meias ridiculas de +mulher... + +E com um certo sorriso azedado: + +--Eu mostrei-lhe francamente as minhas botas. Estas--disse, apontando +para os botins mal engraxados--tenho muita honra n'ellas, são de quem +trabalha... + +Porque publicamente costumava gloriar-se d'uma pobreza, que intimamente +não cessava de o humilhar. + +E remexendo devagar a sua carapinhada: + +--Uma besta!--resumiu. + +--Tu sabes que elle foi namoro da Luiza?--disse Sebastião, baixo, como +assustado da gravidade da confidencia. + +E respondendo logo ao olhar surprehendido de Julião: + +--Sim. Ninguem o sabe. Nem Jorge. Eu soube-o ha pouco, ha mezes. Foi. +Estiveram para casar. Depois o pai falliu, elle foi para o Brazil, e de +lá escreveu a romper o casamento. + +Julião sorriu, e encostando a cabeça á parede: + +--Mas isso é o enredo da _Eugenia Grandet_, Sebastião! Estás-me a +contar o romance de Balzac! Isso é a _Eugenia Grandet_! + +Sebastião fitou-o espantado. + +--Ora! não se póde fallar serio comtigo. Dou-te a minha palavra +d'honra--acrescentou vivamente. + +--Vá, Sebastião, vá, dize. + +Houve um silencio. O sujeito calvo, agora, contemplava o estuque do +tecto sujo do fumo dos cigarros e do pousar das moscas; e, com a mão +sapuda, de tom pegajoso, cofiava amorosamente as rêpas. No bilhar vozes +altercavam. + +Sebastião então, como tomado d'uma resolução, disse bruscamente: + +--E agora vai lá todos os dias, não sahe de lá! + +Julião afastou-se na banqueta e encarou-o: + +--Tu queres-me dar a entender alguma cousa, Sebastião? + +E com uma vivacidade quasi jovial: + +--O primo atira-se? + +Aquella palavra escandalisou Sebastião. + +--Ó Julião!--E severamente:--Com essas cousas não se brinca! + +Julião encolheu os hombros. + +--Mas está claro que se atira!--exclamou.--És de bom tempo ainda! Está +claro que sim! Namorou-a solteira, agora quel-a casada! + +--Falla baixo--acudiu Sebastião. + +Mas o criado dormitava, e o sujeito calvo tinha recahido na sua leitura +funebre. + +Julião baixou a voz: + +--Mas é sempre assim, Sebastião. O primo Bazilio tem razão; quer o +prazer sem a responsabilidade! + +E quasi ao ouvido d'elle: + +--É de graça, amigo Sebastião! É de graça! Tu não imaginas que +influencia isto tem no sentimento! + +Riu-se. Estava radioso; as palavras, as pilherias vinham-lhe com +abundancia: + +--Ha um marido que a veste, que a calça, que a alimenta, que a engomma, +que a vela se está doente, que a atura se ella está nervosa, que tem +todos os encargos, todos os tedios, todos os filhos, todos, todos os +que vierem, sabes a lei... Por consequencia o primo não tem mais que +chegar, bater ao ferrolho, encontra-a aceada, fresca, appetitosa á +custa do marido, e... + +Teve um risinho, recostou-se com uma grande satisfação, enrolando +deliciosamente o cigarro, regosijando-se no escandalo. + +--É optimo!--acrescentou.--Todos os primos raciocinam assim. Bazilio +é primo, logo... Sabes o syllogismo, Sebastião! Sabes o syllogismo, +menino!--gritou, dando-lhe uma palmada na perna. + +--É o diabo--murmurou Sebastião cabisbaixo. + +Mas revoltando-se contra a suspeita que o ia dominando: + +--Mas tu suppões que uma rapariga de bem... + +--Eu não supponho nada!--acudiu Julião. + +--Falla baixo, homem! + +--Eu não supponho nada--repetiu Julião baixinho.--Eu affirmo o que elle +faz. Agora ella... + +E acrescentou com seccura: + +--Como é uma rapariga honesta... + +--Se é!--exclamou Sebastião, batendo uma punhada na pedra da mesa. + +--Prompto!--cantou arrastadamente o moço. + +O velho calvo ergueu-se logo; mas vendo que o criado se recolhia +ao balcão bocejando, e que os dous continuavam a remexer a sua +carapinhada, encostou os cotovêlos á mesa, salivou para longe, e +puxando o jornal deixou-lhe cahir em cima um olhar desolado. + +Sebastião disse, então, com tristeza: + +--A questão não é por ella. A questão é pela visinhança. + +Ficaram um momento calados. A altercação de vozes no bilhar crescia. + +--Mas--disse Julião, como sahindo d'uma reflexão--a visinhança? Como a +visinhança? + +--Sim, homem! Vêem entrar para lá o rapaz. Vem de tipoia, faz um +escandalo na rua. Já se falla. Já vieram com mexericos á tia Joanna. +Ha dias encontrei o Netto que reparou. O Cunha tambem. O homem dos +trastes, em baixo, não se faz nada que elle não dê fé: são umas linguas +de tremer. Ha dias ia eu a passar quando o primo se apeou da carruagem +para entrar, e foram logo conciliabulos na rua, olhadellas para a +janella, o diabo! Vai lá todos os dias. Sabem que o Jorge está no +Alemtejo... Está duas e tres horas. É muito serio, é muito serio! + +--Mas ella então é tola! + +--Não vê o mal... + +Julião encolheu os hombros, duvidando. + +Mas a porta de baeta do bilhar abriu-se; um homem herculeo, de bigode +negro, muito escarlate, sahiu bruscamente, e parando, segurando a porta +aberta, gritou para dentro: + +--E fique sabendo que havia d'encontrar homem! + +Uma voz grossa, do bilhar, respondeu-lhe uma obscenidade. + +O sujeito herculeo atirou a porta, furioso; atravessou o café +resfolegando, apopletico; um rapaz chupado, de jaquetão de inverno e +calça branca, seguia-o, com um ar gingado. + +--O que eu devia fazer--exclamava o agigantado, brandindo o punho--era +quebrar a cara áquelle pulha! + +O rapaz chupado, dizia, com doçura e servilismo, bamboleando-se: + +--Questões não servem para nada, sô Corrêa! + +--É que sou muito prudente--berrou o herculeo.--É que me lembro que +tenho mulher e filhos! Senão bebia-lhe o sangue! + +E sahindo, a sua voz roncante perdeu-se no rumor da rua. + +O criado muito pallido, tremia dentro do balcão; e o sujeito calvo, que +erguera a cabeça, teve um sorriso de tedio, e retomou tristemente o +jornal. + +Sebastião, então, disse reflectindo: + +--Não te parece que seria bom avisal-a? + +Julião encolheu os hombros, soltou uma baforada de fumo. + +--Dize alguma cousa!--implorou Sebastião--Tu não ias fallar-lhe, hein? + +--Eu?--exclamou Julião com um aspecto que repellia a idéa.--Eu! Estás +doudo! + +--Mas que te parece, emfim? + +E a voz de Sebastião tinha quasi uma afflicção. + +Julião hesitou: + +--Vai, se queres. Dize-lhe que se tem reparado... Emfim, eu não sei, +meu amigo! + +E pôz-se a chupar o seu cigarro. + +Aquelle mutismo affectou Sebastião. Disse com desconsolação: + +--Homem, vim-te pedir um conselho... + +--Mas que diabo queres tu?--E a voz de Julião irritava-se.--A culpa é +d'ella. É d'ella!--insistiu, vendo o olhar de Sebastião.--É uma mulher +de vinte e cinco annos, casada ha quatro, deve saber que se não recebe +todos os dias um peralvilho, n'uma rua pequena, com a visinhança a +postos! Se o faz, é porque lhe agrada. + +--Ó Julião!--disse muito severamente Sebastião. + +E dominando-se, com a voz commovida: + +--Não tens razão, não tens razão! + +Calou-se muito magoado. + +Julião levantou-se. + +--Amigo Sebastião, eu digo o que penso, tu fazes o que entendes. + +Chamou o criado. + +--Deixa--disse Sebastião precipitadamente, pagando. + +Iam sahir. Mas então o sujeito calvo, atirando o jornal, arremessou-se +para a porta, abriu-a, curvou-se, e estendeu a Sebastião um papel +enxovalhado. + +Sebastião, surprehendido, leu alto, machinalmente: + +«O abaixo assignado, antigo empregado da nação, reduzido á miseria...» + +--Fui intimo amigo do nobre duque de Saldanha!--gemeu chorosamente, com +uma rouquidão, o sujeito calvo. + +Sebastião córou, comprimentou, metteu-lhe na mão duas placas de cinco +tostões, discretamente. + +O sujeito dobrou profundamente o espinhaço, e declamou com uma voz cava: + +--Mil agradecimentos a v. exc.^a, snr. conde! + + + + +V + + +A manhã estava abrazadora. Um pouco depois do meio dia, Joanna, +estirada n'uma velha cadeira de vime da ilha da Madeira que havia na +cozinha, dormitava a sésta. Como madrugava muito, áquella hora da calma +vinha-lhe sempre uma quebreira. + +As janellas estavam cerradas ao sol faiscante; as panellas no lume +faziam um _ron-ron_ dormente; e toda a casa, muito silenciosa, parecia +amodorroada no amollecimento do calor torrido, quando Juliana entrou +como uma rajada, atirou para o chão, furiosa, uma braçada de roupa +suja, e gritou: + +--Raios me partam se não ha um escandalo n'esta casa que vai tudo raso! + +Joanna deu um salto estremunhada. + +--Quem quer as cousas em ordem olha por ellas!--berrava a outra com +os olhos injectados.--Não é estar todo o dia na sala a palrar com as +visitas! + +A cozinheira foi fechar a porta precipitadamente, já assustada. + +--Que foi, snr.^a Juliana, que foi? + +--Está com a mosca! Tem o sangue a ferver! Sangrias! sangrias! Tem +peguilhado por tudo! Não estou para a aturar, não estou! + +E batia o pé com phrenesi. + +--Mas que foi? que foi? + +--Diz que os collarinhos tinham pouca gomma, pôz-se a despropositar! +Estou farta de a aturar! Estou farta! Estou até aqui!--bradava, puxando +a pelle engelhada da garganta.--Pois que me não faça sahir de mim! Que +me vou, e pespego-lhe na cara por quê! Desde que aqui temos homem e +pouca vergonha, boas noites!... Quem quizer que se metta em alhadas... + +--Ó snr.^a Juliana, pelo amor de Deus! Jesus!--E a Joanna apertava a +cabeça nas mãos.--Ai, se a senhora ouve! + +--Que ouça, digo-lh'o na cara! Estou farta! estou farta! + +Mas, de repente, fez-se branca como a cal, cahiu sobre a cadeira de +vime com as duas mãos contra o coração, os olhos em alvo. + +--Snr.^a Juliana!--gritou Joanna--Snr.^a Juliana! Falle! + +Borrifou-a d'agua; sacudia-a, anciosamente. + +--Nossa Senhora nos valha! Nossa Senhora nos valha! Está melhor? Falle! + +Juliana deu um suspiro longo, d'allivio, cerrou as palpebras. E +arquejava devagarinho, muito prostrada. + +--Como se sente? Quer um caldinho? É fraqueza, ha-de ser fraqueza... + +--Foi a pontada--murmurou Juliana. + +Ai! aquelles phrenesis matavam-na!--dizia a cozinheira, remexendo-lhe +o caldo, muito pallida tambem.--A gente tinha d'aturar os amos! Que +tomasse a sustancia, que socegasse!... + +N'aquelle momento Luiza abriu a porta. Vinha em collete e saia branca. + +Que barulho era aquelle? + +--A snr.^a Juliana que lhe tinha dado uma cousa, quasi desmaiára... + +--Foi a pontada--balbuciou Juliana. + +E erguendo-se, com um esforço: + +--Se a senhora não precisa nada, vou ao medico... + +--Vá, vá!--disse Luiza logo. E desceu. + +Juliana pôz-se a tomar o seu caldo com um vagar moribundo. Joanna +consolava-a baixo:--Tambem, a snr.^a Juliana arrenegava-se por +qualquer cousa. E quando a gente tem pouca saude não ha nada peor que +emphrenesiar-se... + +--É que não imagina!--e abafava a voz arregalando os olhos--Tem estado +de não se poder aturar! Está-se a vestir que nem para uma partida! +Amarfanhou uns poucos de collares, atirou-os para o chão, que eu +engommava que era uma porcaria, que não servia para nada... Ai! Estou +farta!--repetia--Estou farta! + +--É ter paciencia! Todos tem a sua cruz! + +Juliana teve um sorriso livido, ergueu-se com um grande _ai!_, +escabichou os dentes, apanhou a roupa suja, e subiu ao sotão. + +D'ahi a pouco, de luvas pretas, muito amarella, sahiu. + +Ao dobrar a esquina da rua, defronte do estanque, parou indecisa. Até +ao medico era um estirão!... E estava, que lhe tremiam as pernas!... +Mas tambem, largar tres tostões para trem!... + +--Pst, pst!--fez do lado uma voz dôce. + +Era a estanqueira, com o seu longo vestido de luto tingido, o seu +sorriso desconsolado. + +Que era feito da snr.^a Juliana? a dar o seu passeio, hein? + +Gabou-lhe a sombrinha preta de cabo d'osso.--De muito gosto--disse.--E +como ia de saude? + +Mal. Dera-lhe a pontada. Ia ao medico... + +Mas a estanqueira não tinha fé nos medicos. Era dinheiro deitado á +rua... Citou a doença do seu homem, os gastos, um _rôr_ de moedas. E +para que? para o vêr penar e morrer como se nada fosse! Era um dinheiro +que sempre chorava! + +E suspirou. Emfim, fosse feita a vontade de Deus! E lá por casa do snr. +Engenheiro? + +--Tudo sem novidade. + +--Ó snr.^a Juliana, quem é aquelle rapaz que vai agora por lá todos os +dias? + +Juliana respondeu logo: + +--É o primo da senhora. + +--Dão-se muito!... + +--Parece. + +Tossiu, e com um comprimentosinho: + +--Pois, muito boas tardes, snr.^a Helena. + +E foi resmungando: + +--Ora, fica-te a chuchar no dedo, lêsma! + +Juliana detestava a visinhança; sabia que a escarneciam, que a +imitavam, que lhe chamavam a _tripa velha_!...--Pois tambem d'ella +não haviam de saber nada! Podiam rebentar de curiosidade! Vinham de +carrinho! Boa! Tudo o que visse ou que lhe cheirasse havia de ficar +guardadinho, lá dentro.--Para uma occasião!--pensava com rancor, +sacudindo os quadris. + +A estanqueira ficou á porta, despeitada. E o Paula dos moveis, que as +vira conversar, veio logo, deslisando subtilmente nas suas chinellas de +tapete: + +--Então a _tripa velha_ escorregou-se? + +--Ai! não se lhe tira nada! + +O Paula enterrou as mãos nos bolsos, com tedio: + +--Aquillo, a do Engenheiro besunta-lhe as mãos... É ella quem leva a +cartinha, quem abre a portita de noite... + +--Tanto não direi! Credo! + +O Paula fitou-a com superioridade: + +--A snr.^a Helena está ahi ao seu balcão... Mas eu é que as conheço, +as mulheres da alta sociedade! Conheço-as nas pontas dos dedos. É uma +cambada! + +Citou logo nomes, alguns illustres; tinham amantes innumeraveis: até +trintanarios! Algumas fumavam, outras _entortavam-se_. E peor! E peor! + +--E passeiam por ahi, muito repimpadas de carrinho, á barba da gente de +bem! + +--Falta de religião!--suspirou a estanqueira. + +O Paula encolheu os hombros: + +--A religião é que é, snr.^a Helena! C'os padres é que é! + +E agitando furioso o punho fechado: + +--C'os padres é uma _choldra_ viva! + +--Credo, snr. Paula, que até lhe fica mal!... + +E o carão amarellado da estanqueira tinha uma severidade de devota +offendida. + +--Ora, historias, snr.^a Helena!--exclamou o homem com desprezo. + +E bruscamente: + +--Porque é que acabaram os conventos? Diga-me! Porque era um desaforo +lá dentro! + +--Oh snr. Paula! oh snr. Paula!--balbuciava a Helena, recuando, +encolhendo-se. + +Mas o Paula atirava-lhe as impiedades como punhaladas. + +--Um desaforo! De noite as freiras vinham por um subterraneo ter c'os +frades. E era vinhaça e mais vinhaça. E batiam o fandango em camisa! +Anda isso por ahi em todos os livros. + +E erguendo-se nas chinellas: + +--E os jesuitas, se vamos a isso! Sim! diga! + +Mas recuou, e levando a mão á pala do boné: + +--Um criado da senhora--disse com respeito. + +Era Luiza que passava, vestida de preto, o véo descido. Ficaram +calados, a olhal-a. + +--Que ella é muito bonita!--murmurou a estanqueira, com admiração. + +O Paula franziu a testa. + +--Não é mau bocado...--disse. E acrescentou, com desdem:--P'ra quem +gosta d'aquillo!... + +Houve um silencio. E o Paula rosnou: + +--Não são as saias que me levam o tempo, nem d'isto!... + +E bateu no bolso do collete, fazendo tilintar dinheiro. + +Tossiu, pigarreou, e ainda aspero: + +--Venha de lá um pataco de Xabregas. + +Foi para a porta do estanco enrolar o cigarro, assobiar; mas os seus +olhos arregalaram-se indignados; n'uma das janellas de cima na casa do +Engenheiro, tinha avistado, por entre as vidraças abertas, a figura +enfesada do Pedro, o carpinteiro. + +Voltou-se para a estanqueira, e cruzando dramaticamente os braços: + +--E agora que a patrôa vai á vida, lá está o rapazola a entender-se com +a criada! + +Soltou uma larga baforada de fumo, e com uma voz soturna: + +--Aquella casa vai-se tornando um prostibulo! + +--Um quê, snr. Paula? + +--Um prostibulo, snr.^a Helena! É como se dissesse um alcouce! + +E, com passos escandalisados, o patriota afastou-se. + + +Luiza ia emfim ao campo com Bazilio. Consentira na vespera, declarando +logo «que era só um passeio de meia hora, de carruagem, sem se +apearem». Bazilio ainda insistiu, fallando em «sombras d'alamedas, +uma merendinha, relvas...» Mas ella recusou, muito teimosa, rindo, +dizendo:--Nada de relvas!... + +E tinham combinado encontrar-se na praça da Alegria. Chegou tarde, já +depois das duas e meia, com o guarda-solinho muito carregado sobre o +rosto, toda assustada. + +Bazilio esperava, fumando, n'um coupé, á esquina, debaixo d'uma +arvore. Abriu rapidamente a portinhola, e Luiza entrou fechando +atrapalhadamente a sombrinha; o vestido prendeu-se ao estribo, +esgaçou-se no rufo de sêda; e achou-se ao lado d'elle, muito nervosa, +offegante, com o rosto abrazado, murmurando: + +--Que tolice, que tolice esta! + +Mal podia fallar. O coupé partiu logo a trote. O cocheiro era o +Pintéos, um batedor. + +--Tão cançada, coitadinha!--disse-lhe Bazilio muito meigo. + +Levantou-lhe o véo; estava suada; os seus largos olhos brilhavam da +excitação, da pressa, do medo... + +--Que calor, Bazilio! + +Quiz descer um dos vidros do coupé. + +Não, isso não! Podiam vêl-os! Quando passassem as portas... + +--Para onde vamos nós? + +E espreitava, levantando o _store_. + +--Vamos para o lado do Lumiar, é o melhor sitio. Não queres? + +Encolheu os hombros. Que lhe importava? Ia socegando: tinha tirado o +véo e as luvas: sorria, abanando-se com o lenço, d'onde sahia um aroma +fresco. + +Bazilio prendeu-lhe o pulso, pôz-lhe muitos beijos longos, delicados, +na pelle fina, azulada de veiasinhas. + +--Tu prometteste ter juizo!--fez ella com um sorriso calido, olhando-o +de lado. + +Ora! mas um beijo, no braço! Que mal havia? Tambem era necessario não +ser beata! + +E olhava-a avidamente. + +Os velhos _stores_ do coupé corridos eram de sêda vermelha, e a luz que +os atravessava envolvia-a n'um tom igual, côr de rosa e quente. Os seus +beiços tinham um escarlate molhado, a lisura sã d'uma petala de rosa; e +ao canto do olho um ponto de luz movia-se n'um fluido dôce. + +Não se conteve, passou-lhe os dedos um pouco tremulos nas fontes, nos +cabellos, com uma caricia fugitiva e assustada; e com a voz humilde: + +--Nem um beijo na face, um só? + +--Um só?...--fez ella. + +Pousou-lh'o delicadamente ao pé da orelha. Mas aquelle contacto +exasperou-lhe o desejo brutalmente; teve um som de voz soluçado; +agarrou-a com sofreguidão, e atirava-lhe beijos tontos pelo pescoço, +pela face, pelo chapéo... + +--Não! não!--balbuciava ella, resistindo.--Quero descer! Dize que pare! + +Batia nos vidros; esforçava-se por correr um, desesperada, magoando os +dedos na dura corrêa suja. + +Bazilio pôz-se a supplicar, que lhe perdoasse! Que doudice, zangar-se +por um beijo! Se ella estava tão linda!... Fazia-o doudo. Mas jurava ir +quieto, muito quieto... + +A carruagem, ao pé das portas, rolava sacudida na calçada miuda; nas +terras, aos lados, as oliveiras de um verde empoeirado estavam immoveis +na luz branca; e sobre a herva crestada o sol batia duramente n'uma +fulguração continua. + +Bazilio tinha descido um dos vidros; o _store_ corrido palpitava +brandamente; pôz-se então a fallar-lhe ternamente de si, do seu +amor, dos seus planos. Estava resolvido a vir estabelecer-se em +Lisboa--dizia.--Não tencionava casar-se; amava-a e não comprehendia +nada melhor do que viver ao pé d'ella, sempre. Dizia-se desilludido, +enfastiado. Que mais lhe podia offerecer a vida? Tinha tido as +sensações dos amores ephemeros, as aventuras das longas viagens. +Ajuntára alguma cousa de seu,--e sentia-se velho. + +Repetia, fitando-a, tomando-lhe as mãos: + +--Não é verdade que estou velho? + +--Não muito--e os seus olhos humedeciam-se. + +Ah! estava! estava! O que lhe appetecia agora era viver para ella, +vir descançar nas doçuras da sua intimidade. Ella era a sua unica +familia.--Fazia-se muito _parente_.--A familia no fim de tudo é o que +ha de melhor ainda. Não te incommoda que eu fume? + +E acrescentou, raspando o phosphoro: + +--O que ha de bom na vida é uma affeição profunda como a nossa. Não +é verdade? Contento-me com pouco, de resto. Vêr-te todos os dias, +conversar muito, saber que me estimas...--Por dentro do campo, ó +Pintéos!--gritou com força pela portinhola. + +O coupé entrou a passo no Campo Grande. Bazilio ergueu os _stores_; um +ar mais vivo penetrou. O sol cahia sobre o arvoredo, traspassando-o +d'uma luz faiscante, formando no chão poeirento e branco sombras +quentes de ramagens. Tudo tinha em redor um aspecto resequido e +exhausto. Na terra gretada, a herva curta, crestada, fazia tons +cinzentos. Na estrada, ao lado, arrastava-se uma poeira amarellada. +Saloios passavam, amodorroados sobre o albardão, bamboleando as pernas, +abrigados sob os vastos guarda-soes escarlates; e a luz que vinha de +um céo azul ferrete, acabrunhador, fazia reluzir com uma radiação crua +as paredes muito caiadas, as aguas d'algum balde esquecido ás portas, +todas as brancuras de pedras. + +E Bazilio continuava: + +--Vendo tudo o que tenho lá fóra, alugo aqui uma casinha em Lisboa, em +Buenos-Ayres, talvez... Não te agrada? Dize... + +Ella calava-se; aquellas palavras, as promessas, a que a voz d'elle +metallica e velada dava um vigor mais amoroso, iam-na perturbando como +a inebriação d'um licôr forte. O seu seio arfava. + +Bazilio baixou a voz, disse: + +--Quando estou ao pé de ti sinto-me tão feliz, parece-me tudo tão +bom!... + +--Se isso fosse verdade!--suspirou ella, encostando-se para o fundo do +coupé. + +Bazilio prendeu-lhe logo a cintura; jurou-lhe que sim! Ia pôr a sua +fortuna em inscripções. Começou a dar-lhe provas: já fallára a um +procurador; citou-lhe o nome, um sêcco, de nariz agudo... + +E apertando-a contra si, os olhos muito vorazes: + +--E se fosse verdade, dize, que fazias? + +--Nem eu sei--murmurou ella. + +Iam entrando no Lumiar, e por prudencia desceram os _stores_. Ella +afastou um, e, espreitando, via fóra passar rapidamente, ao lado do +trem, arvores empoeiradas; um muro de quinta d'uma côr de rosa sujo; +fachadas de casas mesquinhas; um omnibus desatrellado; mulheres +sentadas ao portal, á sombra, catando os filhos; e um sujeito vestido +de branco, de chapéo de palha, que estacou, arregalou os olhos para as +cortinas fechadas do coupé. E ia desejando habitar alli n'uma quinta, +longe da estrada; teria uma casinha fresca com trepadeiras em roda das +janellas, parreiras sobre pilares de pedra, pés de roseiras, ruasinhas +amaveis sob arvores entrelaçadas, um tanque debaixo d'uma tilia, onde +de manhã as criadas ensaboariam, bateriam a roupa, palrando. E ao +escurecer, ella e elle, um pouco quebrados das felicidades da sésta, +iriam pelos campos, ouvindo calados, sob o céo que se estrella, o +coaxar triste das rãs. + +Cerrou os olhos. O movimento muito lançado do coupé, o calor, a +presença d'elle, o contacto da sua mão, do seu joelho, amolleciam-na. +Sentia um desejo a alargar-se dentro do peito. + +--Em que vaes tu a pensar?--perguntou-lhe elle baixo, muito terno. + +Luiza fez-se vermelha. Não respondeu. Tinha medo de fallar, de lhe +dizer... + +Bazilio tomou-lhe a mão devagarinbo, com respeito, com cuidado, como +uma cousa preciosa e santa; e beijou-lh'a de leve, com a servilidade +d'um negro e a unção d'um devoto. Aquella caricia tão humilde, tão +tocante, quebrou-a; os seus nervos distenderam-se; deixou-se cahir para +o canto do coupé, rompeu a chorar... + +Que era? Que tinha? Prendera-a nos braços, beijava-a, dizia-lhe +palavras loucas. + +--Queres que fujamos? + +As suas lagrimasinhas redondas e luminosas, rolando devagarinho sobre +aquella face mimosa, enterneciam-no, e davam aos seus desejos uma +vibração quasi dolorosa. + +--Foge commigo, vem, levo-te! Vamos para o fim do mundo! + +Ella soluçou, murmurou muito doridamente: + +--Não digas tolices. + +Elle calou-se; pôz a mão sobre os olhos com uma attitude melancolica, +pensando:--Estou a dizer tolices, não ha que vêr! + +Luiza limpava as lagrimas, assoando-se devagarinho. + +--É nervoso--disse.--É nervoso. Voltamos, sim? Não me sinto bem. Dize +que volte. + +Bazilio mandou «bater» para Lisboa. + +Ella queixava-se de um ameaço d'enxaqueca. Elle tinha-lhe tomado a mão, +repetia-lhe as mesmas ternuras: chamava-lhe «sua pomba», «seu ideal». E +pensava baixo:--Estás cahida! + +Pararam na praça da Alegria. Luiza espreitou, saltou depressa, dizendo: + +--Ámanhã, não faltes, hein? + +Abriu o guarda-solinho, carregou-o sobre o rosto, subiu rapidamente +para a Patriarchal. + +Bazilio então desceu os vidros, e respirou com satisfação. Accendeu +outro charuto, estendeu as pernas, gritou: + +--Ao Gremio, ó Pintéos! + +Na sala de leitura, o seu amigo o visconde Reynaldo, que havia annos +vivia em Londres, e muito em Paris tambem, lia o _Times_ languidamente, +enterrado n'uma poltrona. Tinham vindo ambos de Paris, com promessa +de voltarem juntos por Madrid. Mas o calor desolava Reynaldo; achava +a temperatura de Lisboa _reles_; trazia lunetas defumadas; e andava +saturado de perfumes, por causa «do cheiro ignobil de Portugal». Apenas +viu Bazilio deixou escorregar o _Times_ no tapete, e com os braços +molles, a voz desfallecida: + +--E então essa questão da prima, vai ou não vai? Isto está horrivel, +menino! Eu morro! Preciso o Norte! Preciso a Escocia! Vamos embora! +Acaba com essa prima. Viola-a. Se ella te resiste, mata-a! + +Bazilio, que se estendera n'uma poltrona, disse, estirando muito os +braços: + +--Oh! Está cahidinha! + +--Pois avia-te, menino, avia-te! + +Apanhou moribundamente o _Times_, bocejou, pediu soda--soda ingleza! + +«Não havia», veio dizer o criado. Reynaldo fitou Bazilio com espanto, +com terror, e murmurou soturnamente: + +--Que abjecção de paiz! + + +Quando Luiza entrou, Juliana, ainda vestida, disse-lhe logo á porta: + +--O snr. Sebastião está na sala. Tem estado um _rôr_ de tempo á +espera... Já cá estava quando eu cheguei. + +Tinha vindo com effeito havia meia hora. Quando a Joanna lhe veio +abrir, muito encarnada, com o ar estremunhado, e resmungou «que a +senhora estava para fóra», Sebastião ia logo descer, com o allivio +delicioso d'uma difficuldade adiada. Mas reagiu, retesou a vontade, +entrou, pôz-se a esperar... Na vespera tinha decidido fallar-lhe, +avisal-a que aquellas visitas do primo, tão repetidas, com espalhafato, +n'uma rua maligna, podiam compromettel-a... Era o diabo, dizer-lh'o!... +Mas era um dever! Por ella, pelo marido, pelo respeito da casa! +Era forçoso acautelal-a!... E não se sentia acanhado. Perante as +reclamações do dever, vinham-lhe as energias da decisão. O coração +batia-lhe um pouco, sim, e estava pallido... Mas, que diabo, havia de +lh'o dizer!... + +E passeando pela sala com as mãos nos bolsos, ia arranjando as suas +phrases, procurando-as muito delicadas, bem amigas... + +Mas a campainha retiniu, um _frou-frou_ de vestido roçou o corredor,--e +a sua coragem engelhou-se como um balão furado. Foi-se logo sentar ao +piano, pôz-se a bater vivamente no teclado. Quando Luiza entrou, sem +chapéo, descalçando as luvas, ergueu-se, disse embaraçado: + +--Tenho estado aqui a trautear um bocado... Estava á espera... Então +d'onde vem? + +Ella sentou-se, cançada. Vinha da modista--disse. Fazia um calor! +Porque não tinha entrado as outras vezes? Não estava com visitas de +ceremonia! Era familia, era seu primo que viera de fóra. + +--Está bom, seu primo? + +--Bom. Tem estado aqui, bastante. Aborrece-se muito em Lisboa, coitado! +Ora, quem vive lá fóra! + +Sebastião repetiu, esfregando devagar os joelhos: + +--Está claro, quem vive lá fóra! + +--E Jorge, tem-lhe escripto?--perguntou Luiza. + +--Recebi carta hontem. + +Tambem ella. Fallaram de Jorge, dos tedios da jornada, do que contava +do phantastico parente de Sebastião, da demora provavel... + +--Faz-nos uma falta, aquelle maroto!--disse Sebastião. + +Luiza tossiu. Estava um pouco pallida, agora. Passava ás vezes a mão +pela testa, cerrando os olhos. + +Sebastião de repente, teve uma decisão: + +--Pois eu vinha, minha rica amiga...--começou. + +Mas viu-a ao canto do sophá, com a cabeça baixa, a mão sobre os olhos. + +--Que tem? Está incommodada? + +--É a enxaqueca que me veio de repente. Já tinha tido ameaços na rua. E +com uma força! + +Sebastião tomou logo o chapéo: + +--E eu a massal-a! É necessario alguma cousa? Quer que vá chamar o +medico? + +--Não! Vou-me deitar um momento, passa logo. + +Que não apanhasse ar, ao menos, recommendava elle. Talvez sinapismos +ou rodellas de limão nas fontes... E em todo o caso, se não estivesse +melhor que o mandasse chamar... + +--Isto passa! E appareça, Sebastião! Não se esconda... + +Sebastião desceu, respirou largamente; e pensava:--Eu não me atrevo, +santo Deus!... Mas á porta, ao levantar os olhos, viu no fundo escuro +da loja de carvão o vulto enorme da carvoeira, de chambre branco, +estendendo o olhar, cocando; por cima, tres das Azevedos, entre as +velhas cortinas de cassa, juntavam as suas cabecinhas riçadas n'algum +conciliabulo maligno: por traz dos vidros a criada do doutor costurava, +com olhares de lado, a cada momento, que lambiam a rua; e ao lado, na +loja de moveis, sentiam-se as expectorações do patriota. + +--Não passa um gato que esta gente não dê fé!--pensou Sebastião.--E que +linguas! Que linguas! Devo fazel-o, ainda que estoure! Se ella ámanhã +está melhor, digo-lhe tudo! + + +Estava com effeito já boa, ás nove horas, no dia seguinte, quando +Juliana a foi acordar, com «uma cartinha da snr.^a D. Leopoldina». + +A criada de Leopoldina, a Justina, uma magrita muito trigueira, de +buço e olho vesgo, esperava na sala de jantar. Era amiga de Juliana, +beijocavam-se muito, diziam-se sempre finezas. E depois de ter guardado +a resposta de Luiza n'um cabazinho que trazia no braço, traçou o chale, +e muito risonha: + +--Então que ha por cá de novo, snr.^a Juliana? + +--Tudo velho, snr.^a Justina. + +E mais baixo: + +--O primo da senhora, agora; vem todos os dias. Perfeito rapaz! + +Tossiram ambas, baixinho, com malicia. + +--E por lá, snr.^a Justina, quem vai por lá? + +Justina fez um aceno de desprezo. + +--Um rapazola, um estudante. Fraca cousa!... + +--Sempre pinga!--disse Juliana com um risinho. + +A outra exclamou: + +--Olha quem! o pelintra! Nem cheta! + +E erguendo o olhar com saudade: + +--Ai, como o Gama não ha! Quando era do tempo do Gama, isso sim! Nunca +ia que me não désse os seus dez tostões, ás vezes meia libra. Ai, +devo dizel-o, foi elle que me ajudou para o meu vestido de sêda! Este +agora!... é um fedelho. Eu nem sei como a senhora supporta aquillo! E +amarellado, enfesado! Aquillo póde prestar para nada! + +Juliana disse então: + +--Pois olhe, snr.^a Justina, eu agora é que começo a considerar: é onde +se está bem, é em casas em que ha pôdres! Encontrei hontem a Agostinha, +a que está em casa do commendador, ao Rato... Pois senhor, não se +imagina. É tudo o que se póde! Tudo! Annel, vestido de sêda, sombrinha, +chapéo! E de roupa branca diz que é um enxoval. E tudo o Couceiro, +o que está com a ama. E pelas festas sua moeda. Diz que é um homem +rasgado. Ella tambem, verdade seja, tem um trabalhão: fal-o entrar pelo +jardim, e para o fazer sahir tem d'esperar... + +--Ah, lá não!--acudiu a Justina.--Lá é pela escada. + +Riram baixinho, saboreando o escandalo. + +--Genios...--disse Juliana. + +--Ai, lá isso, o nosso tem estomago--affirmou Justina.--Encontra-os na +escada, e tanto se lhe dá!... + +E muito affectuosamente, arranjando o chale: + +--E adeusinho, que se faz tarde, snr.^a Juliana. Ella vem hoje cá +jantar, a senhora. Estive toda a manhã a engommar uma saia; desde as +sete! + +--Tambem eu por cá--disse Juliana.--Ellas é o que tem; quando ha amante +sempre ha mais que engommar. + +--Deitam mais roupa branca, deitam--observou a Justina. + +--As que deitam!--exclamou Juliana, com desprezo. + +Mas Luiza tocou a campainha dentro. + +--Adeus, snr.^a Juliana--disse logo a outra, ageitando o chapéo. + +--Adeus, snr.^a Justina. + +Foi acompanhal-a ao patamar. Beijocaram-se. Juliana voltou muito +apressada ao quarto de Luiza; estava já a pé, vestindo-se, muito +alegre, cantarolando. + +O bilhete de Leopoldina dizia na sua letra torta: + + +«Meu marido vai hoje para o campo. Eu vou-te pedir de jantar, mas não +posso ir antes das seis. Convem-te?» + + +Ficou muito contente. Havia semanas que a não via... O que iam rir, +palrar! E Bazilio devia vir ás duas. Era um dia divertido, bem +preenchido... + +Foi logo á cozinha dar as suas ordens para o jantar. Quando descia, +o criadito de Sebastião tocava a campainha, com um ramo de rosas, «a +saber se a senhora estava melhor». + +--Que sim, que sim!--gritou logo Luiza.--E para o tranquillisar, para +que elle não viesse:--Que estava boa, que até talvez sahisse... + +As rosas, sim, é que vinham a proposito. Foi ella mesma pôl-as nos +vasos, cantarolando sempre, o olhar vivo, satisfeita de si, da sua vida +que se tornava interessante, cheia de incidentes... + +E ás duas horas, vestida, veio para a sala, pôz-se ao piano a estudar a +_Medjé_ de Gounod, que Bazilio trouxera, e que a encantava agora muito, +com os seus accentos suspirados e calidos. + +Ás duas e meia, porém, começou a estar impaciente; os dedos +embrulhavam-se-lhe no teclado.--Já devia ter vindo, Bazilio!--pensava. + +Foi abrir as janellas, debruçar-se para a rua; mas a criada do doutor, +que costurava por dentro dos vidros, ergueu logo olhos tão sofregos +que Luiza fechou rapidamente as vidraças. Veio recomeçar a melodia, já +nervosa. + +Uma carruagem rolou. Ergueu-se agitada, batia-lhe o coração. A +carruagem passou... + +Tres horas já! O calor parecia-lhe maior, insupportavel; sentia-se +afogueada, foi cobrir-se de pó d'arroz. Se Bazilio estivesse doente! E +n'um quarto d'hotel! Só, com criados desleixados! Mas não, ter-lhe-hia +escripto n'esse caso!... Não viera, não se importára! Que grosseiro, +que egoista! + +Era bem tola em se affligir. Melhor! Mas, abafava-se, positivamente! +Foi buscar um leque, e as suas mãos enraivecidas sacudiram n'um +phrenesi a gaveta, que não se abriu logo, um pouca perra. Pois bem, não +o tornaria a receber! E acabava tudo! + +E o seu grande amor, de repente, como um fumo que uma rajada dissipa, +desappareceu! Sentiu um allivio, um grande desejo de tranquillidade. +Era absurdo, realmente, com um marido como Jorge, pensar n'outro homem, +um leviano, um estroina!... + +Deram quatro horas. Veio-lhe uma desesperação, correu ao escriptorio de +Jorge, agarrou uma folha de papel, escreveu á pressa: + + + «Querido Bazilio. + + +«Porque não vens? Estás doente? Se soubesses os tormentos por que me +fazes passar...» + + +A campainha retiniu. Era elle! Amarrotou o bilhete, metteu-o no bolso +do vestido, ficou esperando, palpitante. Passos d'homem pisaram o +tapete da sala. Entrou, com o olhar faiscante... Era Sebastião. + +Sebastião, um pouco pallido, que lhe apertou muito as mãos. Estava +melhor? Tinha dormido bem? + +Sim, obrigada, estava melhor. Sentára-se no sophá, muito vermelha. Mal +sabia que dizer. + +Repetiu com um sorriso vago:--Estou muito melhor!--E pensava:--Não me +deixa agora a casa, este massador! + +--Então, não sahiu?--perguntou Sebastião, sentado na poltrona, com o +chapéo desabado nas mãos. + +Não, estava um pouco fatigada ainda. + +Sebastião passou devagar a mão pelos cabellos, e com uma voz que o +embaraço engrossava: + +--Tambem agora tem sempre companhia pela manhã... + +--Sim, meu primo Bazilio tem apparecido. Ha tanto tempo que nos não +viamos! Fomos creados de pequenos, quasi... Tenho-o visto quasi todos +os dias. + +Sebastião fez logo rolar um pouco a poltrona, e curvando-se, baixando a +voz: + +--Eu mesmo tinha vindo para lhe fallar a esse respeito... + +Luiza abriu um olhar surprehendido. + +--A respeito de quê? + +--É que se repara... A visinhança é a peor cousa que ha, minha rica +amiga. Repara em tudo. Já se tem fallado. A criada do lente, o Paula. +Até já vieram á tia Joanna. E como o Jorge não está... O Netto tambem +reparou. Como não sabem o parentesco... E como vem todos os dias... + +Luiza ergueu-se bruscamente, com o rosto alterado: + +--Então eu não posso receber os meus parentes sem ser +insultada?--exclamou. + +Sebastião levantou-se tambem. Aquella colera subita n'ella, uma pessoa +tão dôce, atarantou-o como um trovão que estala n'um céo claro de verão. + +Pôz-se a dizer, quasi anciosamente: + +--Oh minha rica senhora! mas repare, eu não digo... É por causa da +visinhança!... + +--Mas que póde dizer a visinhança? + +A sua voz tinha uma vibração aguda. E batendo com as mãos, +apertando-as, exaltada: + +--Isto é curioso! Tenho um parente unico, com quem fui creada, que não +vejo ha uns poucos d'annos, vem-me fazer tres ou quatro visitas, está +um momento, e já querem deitar maldade! + +Fallava convencida, esquecendo as palavras de Bazilio, os beijos, o +_coupé_... + +Sebastião, acabrunhado, enrolava o chapéo nas mãos tremulas. E com uma +voz abafada: + +--Eu tinha-me parecido prudente avisar; o Julião tambem... + +--O Julião!--exclamou ella.--Mas que tem o Julião com isso? Com que +direito se mettem no que se passa em minha casa? O Julião! + +A intervenção, as decisões de Julião pareciam-lhe um acrescimo +d'affronta. Cahiu n'uma cadeira, com as mãos contra o peito, os olhos +no tecto. + +--Oh! Se o Jorge aqui estivesse! Oh! se elle aqui estivesse, Santo Deus! + +Sebastião balbuciou aniquilado: + +--Era para seu bem... + +--Mas que mal me póde succeder? + +E erguendo-se, indo d'um movel a outro, n'uma excitação: + +--É o meu unico parente. Fomos creados ambos, brincavamos juntos. Em +casa da mamã, na rua da Magdalena, estava lá sempre. Ia lá jantar todos +os dias. É como se fossemos irmãos. Em pequena trazia-me ao collo... + +E amontoava detalhes d'aquella fraternidade, exagerando uns, inventando +outros ao acaso, na improvisação da colera. + +--Vem aqui--acrescentava--está um bocado, fazemos musica, elle toca +admiravelmente, fuma um charuto, vai-se... + +Instinctivamente justificava-se. + +Sebastião estava sem idéa, sem resolução. Parecia-lhe aquella uma outra +Luiza, differente, que o assustava; e quasi curvava os hombros sob a +estridencia da sua voz, que nunca conhecera tão forte, vibrando n'uma +loquacidade trapalhona. + +Erguendo-se emfim, disse com uma dignidade melancolica: + +--Eu entendi que era o meu dever, minha senhora. + +Fez-se um silencio grave. Aquelle tom sobrio, quasi severo, obrigou-a a +córar um pouco dos seus espalhafatos: baixou os olhos: disse embaraçada: + +--Perdôe, Sebastião! Mas realmente!... Não, acredite, juro-lhe, +estou-lhe muito obrigada em me avisar. Fez muito bem, Sebastião! + +Elle exclamou logo, vivamente: + +--Para evitar qualquer calumnia d'essas linguas damnadas! Pois não é +verdade? + +Justificou então a sua intervenção, com muita amizade: ás vezes por uma +palavra, arma-se uma intriga, e quando uma pessoa está prevenida... + +--De certo, Sebastião!--repetiu ella.--Fez perfeitamente bem em me +avisar. De certo!... + +Tinha-se sentado; o olhar reluzia-lhe febrilmente; e a cada momento +limpava com o lenço os cantos seccos da bocca. + +--Mas que hei-de eu fazer, Sebastião! Diga! + +Elle commovia-se agora de a vêr assim ceder, aconselhar-se; quasi +lamentava vir, com a gravidade das suas advertencias, perturbar a +alegria das suas intimidades. Disse: + +--Está claro que deve vêr seu primo, recebel-o... Mas emfim, sempre +é bom uma certa reserva, com esta visinhança! Eu se fosse a si +contava-lhe... explicava-lhe... + +--Mas, por fim, que diz essa gente, Sebastião? + +--Repararam. Quem seria? quem não seria? Que vinha, que estava, o diabo! + +Luiza ergueu-se impetuosamente: + +--Eu bem tenho dito a Jorge! Tantas vezes lh'o tenho dito! Isto é +uma rua impossivel! Não se mexe um dedo que não espreitem, que não +cochichem! + +--Não teem que fazer... + +Houve um silencio. Luiza passeava pela sala, com a cabeça baixa, a +testa franzida; e parando, olhando quasi anciosamente para Sebastião: + +--O Jorge se soubesse é que tinha um desgosto! Santo Deus! + +--Escusa de saber!--exclamou logo Sebastião.--Isto fica entre nós! + +--Para o não affligir, não é verdade?--acudiu ella. + +--Está claro! Isto fica entre nós. + +E Sebastião estendendo-lhe a mão, quasi humildemente: + +--Então não está zangada commigo, hein? + +--Eu, Sebastião! Que tolice! + +--Bem, bem. Acredite!--e espalmou a mão sobre o peito--eu entendi que +era o meu dever. Porque emfim, a minha rica amiga não sabia nada... + +--Estava bem longe!... + +--De certo. Bem, adeus. Não a quero massar mais.--E com uma voz +profunda, commovida:--Cá estou ás ordens, hein! + +--Adeus, Sebastião... Mas que gente! Por vêr entrar o pobre rapaz tres +ou quatro vezes!... + +--Uma canalha, uma canalha!--disse Sebastião, arregalando os olhos. + +E sahiu. + +Apenas elle fechou a porta: + +--Que desafôro!--exclamou Luiza--Isto só a mim! + +Porque a intervenção de Sebastião, no fundo, irritava-a mais que os +mexericos da visinhança! A sua vida, as suas visitas, o interior da +sua casa era discutido, resolvido por Sebastião, por Julião, por +_tutti quanti_! Aos vinte e cinco annos tinha mentores! Não estava má! +E porque, Santo Deus? Porque seu primo, o seu unico parente, vinha +vel-a!... + +Mas então, de repente, emmudecia interiormente. Lembravam-lhe os +olhares de Bazilio, as suas palavras exaltadas, aquelles beijos, o +passeio ao Lumiar. A sua alma corava baixo, mas o seu despeito seguia +declamando alto:--de certo, havia um sentimento, mas era honesto, +ideal, todo platonico!... Nunca seria _outra cousa_! Podia ter lá +dentro, no fundo, uma fraqueza... Mas seria sempre uma mulher de bem, +fiel, só d'um!... + +E esta certeza irritava-a então contra os «palratorios» da rua! Que de +resto era lá possivel, que só por verem entrar Bazilio, quatro ou cinco +vezes, ás duas horas da tarde, começassem logo a murmurar, a cortar na +pelle?... Sebastião era um caturra, com terrores d'ermitão! E que idéa, +ir consultar Julião! Julião! Era elle, de certo, que o instigára a vir +prégar, assustal-a, humilhal-a!... Porque? Azedume, inveja! Porque +Bazilio tinha belleza, _toilette_, maneiras, dinheiro!... Se tinha! + +As qualidades de Bazilio appareciam-lhe então magnificas e abundantes +como os attributos d'um deus. E estava apaixonado por ella! E queria +vir viver junto d'ella! O amor d'aquelle homem, que tinha esgotado +tantas sensações, abandonado de certo tantas mulheres, parecia-lhe como +a affirmação gloriosa da sua belleza e da irresistibilidade da sua +seducção. + +A alegria que lhe dava aquelle culto trazia-lhe o receio de o perder. +Não o queria vêr diminuido; queria-o sempre presente, crescendo, +balouçando sem cessar, diante d'ella, o murmurio languido das ternuras +humildes! Podia lá separar-se de Bazilio! Mas se a visinhança, as +relações começavam a commentar, a cochichar... Jorge podia saber!... +Áquella supposição o coração arrefecia-lhe...--Sebastião tinha razão, +no fundo, era evidente! + +N'uma rua pequena, com doze casas, vir todos os dias, aquelle +lindo rapaz, tão elegante, agora que seu marido não estava... Era +terrivel!--Que havia de fazer, Santo Deus!... + +A campainha retiniu com força; Lepoldina entrou. + +Vinha furiosa com o cocheiro: que imaginasse ella, hein! Tinha parado +ao Correio, e o homem queria duas corridas. Uma canalha assim!... + +--E que calor, ouf!--Atirou a sombrinha, as luvas; agitou as mãos no ar +para descer o sangue, dar-lhes pallidez; e diante do toucador, compondo +ligeiramente os frisados do cabello, com uma côr na pelle, muito +espartilhada, admiravel no seu corpete couraçado: + +--Que tens tu, filha? Estás toda no ar! + +Nada. Tinha-se zangado com as criadas... + +--Ai! estão insupportaveis!--Contou as exigencias da Justina, os seus +desmazelos.--E muito agradecida ainda que ella se me não vá! Quando a +gente depende d'ellas!...--E pondo pó d'arroz no rosto, com uma voz +lenta:--Lá o meu senhor foi para o Campo Grande. Eu estive para ir +jantar fóra com...--Suspendeu-se, sorriu, e voltada para Luiza, mais +baixo, com um tom alegre, muito sincero:--Mas olha, a fallar a verdade, +nem sabia onde, nem tinha dinheiro... Que elle coitado com a sua mezada +mal lhe chega. Disse commigo: nada, vou vêr a Luiza. Tambem os homens +sempre, sempre, seccam!...--Que tens tu para jantar? Não fizeste +ceremonia, hein? + +E com uma idéa subita: + +--Tens tu bacalhau? + +Devia haver, talvez. Que extravagancia! Porque? + +--Ai!--exclamou--Manda-me assar um bocadinho de bacalhau! Meu marido +detesta o bacalhau! aquelle animal! Eu é a minha paixão. Com azeite e +alho!--Mas calou-se, contrariada.--Diabo! + +--O que? + +--É que hoje não posso comer alho... + +E entrou para a sala a rir. Foi tirar uma rosa do ramo de Sebastião, +pôl-a n'uma casa do corpete. Desejava ter uma sala assim,--pensava, +olhando em redor. Queria-a de reps azul, com dous grandes espelhos, um +lustre de gaz, e o seu retrato a oleo de corpo inteiro, decotada, ao +pé d'um rico vaso de flôres... Sentou-se ao piano, bateu rijamente o +teclado, tocou motivos do _Barba Azul_. + +E vendo Luiza entrar: + +--Mandaste arranjar o bacalhau? + +--Mandei. + +--Assado? + +--Sim. + +--Gracias!--E atirou, com a sua voz mordente, a sua canção querida da +_Gran-Duqueza_: + + Ouvi dizer que meu avô de vinho, + Era um tal amador... + +Mas Luiza achava aquella musica «espalhafatona»; queria alguma cousa +triste, dôce... O fado! que tocasse o fado!... + +Leopoldina exclamou logo: + +--Ai, o fado novo! Tu não ouviste? É lindo! Os versos são divinos! + +Preludiou, cantando com um balouçar languido da cabeça, o olhar erguido +e turvo: + + O rapaz que eu hontem vi + Era moreno e bem feito... + +--Tu não sabes isto, Luiza? Oh filha! É o ultimo! É de chorar! + +Recomeçou, com o tom muito quebrado. Era a historia rimada d'um amor +infeliz. Fallava-se nas «raivas do ciume, nas rochas de Cascaes, nas +noites de luar, nos suspiros da saudade», todo o palavriado morbido do +sentimentalismo lisboeta. Leopoldina dava tons dolentes á voz, revirava +um olhar expirante; uma quadra sobre tudo enternecia-a; repetiu-a com +paixão: + + Vejo-o nas nuvens do céo, + Nas ondas do mar sem fim, + E por mais longe que esteja + Sinto-o sempre ao pé de mim. + +--Lindo!--suspirava Luiza. + +E Leopoldina terminava com _ais_! em que a sua voz se arrastava n'uma +extensão desafinada. + +Luiza, de pé junto do piano, sentia o cheiro do _feno_ que ella usava; +o fado, os versos entristeciam-na um pouco; e com o olhar saudoso +seguia sobre o teclado os dedos ageis e magros de Leopoldina, onde +reluziam as pedras dos anneis que lhe tinha dado o Gama. + +Mas Juliana entrou, vestida de passeio, com a sua cuia nova. Estava o +jantar na mesa! + +Leopoldina declarou que vinha a cahir de fome! E a sala de jantar com +as vidraças abertas, as verduras dos terrenos vagos defronte, um azul +d'horisonte onde se algodoavam nuvemzinhas muito brancas--alegrou-a: +a sala de jantar d'ella tirava-lhe até o appetite, era uma tristeza, +deitava para o saguão! + +Pôz-se a depenicar bagos d'uvas, a trincar bocadinhos de conserva--e +reparando no retrato do pai de Jorge, desdobrando o guardanapo: + +--Havia de ser divertido teu sogro! Tem cara de pandigo!... + +E ha que tempos que não jantavam juntas! Desde quando? + +--Desde o meu primeiro anno de casada--lembrou Luiza. + +Leopoldina fez-se um pouco vermelha. Viam-se muito n'esse tempo; +Jorge deixava-as ir ás lojas ambas, aos confeiteiros, á Graça... +A lembrança d'aquella camaradagem levou-a ás recordações mais +distantes do collegio. Tinha visto, havia dias, a Rita Pessoa, com o +sobrinho.--Lembras-te d'elle? + +--O _Espinafre_? + +_Espinafre_ ou não era no collegio o homem, o ideal, o heroe; todas lhe +escreviam bilhetes, desenhavam-lhe corações d'onde sahia uma fogueira, +mettiam-lhe no boné muito sebento ramos de flôres de papel... E quando +a Michaela foi apanhada, no cacifro dos bahús, a devoral-o de beijos!... + +Luiza disse: + +--Que horror! + +--Não que a Michaela era douda! + +Coitada! Tinha casado com um alferes, um homem que a espancava. Estava +cheia de filhos... + +--Isto é um valle de lagrimas!--resumiu Leopoldina, recostando-se. + +Estava loquaz. Servia-se muito, com gula; depois picava um bocadinho na +ponta do garfo, provava, deixava, punha-se a comer côdeas de pão que +barrava de manteiga. E deleitava-se nas recordações do collegio! Que +bom tempo! + +--Lembraste quando estivemos de mal? + +Luiza não se lembrava... + +--Por tu teres dado um beijo na Thereza, que era o meu +_sentimento_--disse Leopoldina. + +Pozeram-se a fallar dos _sentimentos_. Leopoldina tivera quatro; a +mais bonita era a Joanninha, a Freitas. Que olhos! E que bem feita! +Tinha-lhe feito a côrte um mez!... + +--Tolices!--disse Luiza córando um pouco. + +--Tolices! Porque? + +Ai! era sempre com saudade que fallava dos _sentimentos_. Tinham sido +as primeiras sensações, as mais intensas. Que agonia de ciumes! Que +delirio de reconciliações! E os beijos furtados! E os olhares! E os +bilhetinhos, e todas as palpitações do coração, as primeiras da vida! + +--Nunca--exclamou--nunca, depois de mulher, senti por um homem o que +senti pela Joanninha!... Pois pódes crêr... + +Um olhar de Luiza deteve-a.--A Juliana!... Diabo! tinha-se esquecido! +Constrangia-as muito, com o seu sorrisinho torcido, a figura de peito +chato, o tic-tac metallico dos tacões. + +--E que foi feito da Joanninha?--perguntou Luiza. + +Morrêra tisica--e a voz de Leopoldina fez-se saudosa. Uma doença bem +triste, não era? Mas não lhe tinha medo, ella! Batia no seio, bem +formado: + +--Isto é rijo, isto é são! + +Juliana sahiu, e Luiza observou logo: + +--Vê no que fallas, filha! Tem cuidado! + +Leopoldina curvou-se: + +--Ah! a respeitabilidade da casa! Tens razão!--murmurou. + +E como Juliana entrava com o bacalhau assado, fez-lhe uma ovação! + +--Bravo! Está soberbo! + +Tocou-lhe com a ponta do dedo, gulosa; vinha louro, um pouco tostado, +abrindo em lascas. + +--Tu verás--dizia ella.--Não te tentas? Fazes mal! + +Teve então um movimento decidido de bravura, disse: + +--Traga-me um alho, snr.^a Juliana! Traga-me um bom alho! + +E apenas ella sahiu: + +--Eu vou ter logo com o Fernando, mas não me importa!...--Ah! Obrigada, +snr.^a Juliana! Não ha nada como o alho!... + +Esborrachou-o em roda do prato, regou as lascas do bacalhau d'um fio +molle d'azeite, com gravidade.--Divino!--exclamou.--Tornou a encher o +copo, achava aquillo «uma pandiga». + +--Mas que tens tu? + +Luiza com effeito parecia preoccupada. Tinha suspirado baixo. Duas +vezes, endireitando-se na cadeira, dissera a Juliana, inquieta: + +--Parece que tocaram a campainha, vá vêr. + +Não era ninguem. + +--Quem havia de ser? Não esperas teu marido, de certo. + +--Ah! não! + +E então Leopoldina, com os olhos no prato, partindo devagar, muito +attenta, lascasinhas de bacalhau: + +--E teu primo veio vêr-te? + +Luiza fez-se vermelha. + +--Sim, tem vindo. Tem vindo varias vezes. + +--Ah! + +E depois d'um silencio: + +--Ainda está bonito? + +--Não está feio... + +--Ah! + +Luiza apressou-se a perguntar se tinha encommendado o vestido de +xadrezinho? Não. E começaram a fallar de _toilettes_, fazendas, +lojas, e preços... Depois, de conhecidas, d'outras senhoras, de +boatos--perdendo-se n'uma conversa de mulheres sós, miudinha e +divagada, semelhante ao ramalhar de folhagens. + +Viera o assado. Leopoldina já ia tendo uma côr quente nas faces. Pediu +a Juliana que lhe fosse buscar o leque;--e recostada, abanando-se, +declarou que se sentia como um principe! E ia beberricando golinhos de +vinho. Que boa idéa, jantarem juntas!... + +Apenas Juliana dispôz os pratos de fruta, Luiza disse-lhe logo: «que +chamaria para o café, que podia ir». Foi ella mesmo fechar a porta da +sala, correr o reposteiro de cretone: + +--Estamos á vontade, agora! Faço-me velha só d'olhar para esta +creatura! Estou morta pela vêr pelas costas. + +--Mas porque a não pões na rua? + +Era Jorge que não queria, senão... + +Leopoldina protestou. Boa! os maridos não deviam ter vontade!... Era o +que faltava!... + +--E o teu, então?--disse Luiza, rindo. + +--Obrigada!--exclamou Leopoldina.--Um homem que faz quarto á parte! + +De resto detestava os homens que se occupam de criadas, de roes, +d'azeites e vinagres... + +--Que lá o meu cavalheiro até pesa a carne!--Sorriu, com odio.--Tambem +é o que vale, senão!... Eu só d'ir á cozinha me dão enjôos... + +Quiz deitar vinho, mas a garrafa estava vazia. + +Luiza acudiu: + +--Queres tu champagne?--Tinha-o muito bom, que o mandava a Jorge um +hespanhol, um proprietario de minas. + +Foi ella mesmo buscar a garrafa, desembrulhou-a do seu papel azul;--e +com risinhos, sustos, fizeram estalar a rolha. A espuma encantou-as: +olhavam os copos, caladas, com um bem-estar feliz. Leopoldina gabou-se +de saber abrir muito bem o champagne; fallava vagamente de cêas +passadas... + +--Em terça-feira gorda, ha dous annos!... + +E toda recostada na cadeira, com um sorriso calido, as azas do nariz +dilatadas, a pupilla humida, olhava com sensualidade os globulosinhos +vivos que subiam, sem cessar, no copo esguio. + +--Se fosse rica, bebia sempre champagne--disse. + +Luiza não: ambicionava um coupé; e queria viajar, ir a Paris, a +Sevilha, a Roma... Mas os desejos de Leopoldina eram mais vastos: +invejava uma larga vida, com carruagens, camarotes d'assignatura, uma +casa em Cintra, cêas, bailes, _toilettes_, jogo... Porque gostava do +_monte_--dizia--fazia-lhe bater o coração. E estava convencida que +havia de adorar a roleta. + +--Ah!--exclamou--Os homens são bem mais felizes que nós! Eu nasci para +homem! O que eu faria! + +Levantou-se, foi-se deixar cahir muito languidamente na _voltaire_, ao +pé da janella. A tarde descia serenamente; por traz das casas, para lá +dos terrenos vagos, nuvens arredondavam-se, amarelladas, orladas de +côres sanguineas ou de tons alaranjados. + +E voltando-lhe a mesma idéa d'acção, d'independencia: + +--Um homem póde fazer tudo! Nada lhe fica mal! Póde viajar, correr +aventuras... Sabes tu, fumava agora um cigarrito... + +O peor é que Juliana podia sentir o cheiro. E parecia tão mal!... + +--É um convento, isto!--murmurou Leopoldina.--Não tens má prisão, minha +filha! + +Luiza não respondeu; tinha encostado a cabeça á mão: e com o olhar +vago, como continuando alguma idéa: + +--São tolices, no fim, andar, viajar! A unica cousa n'este mundo é a +gente estar na sua casa, com o seu homem, um filho ou dous... + +Leopoldina deu um salto na _voltaire_. Filhos! Credo, que nem fallasse +em semelhante cousa! Todos os dias dava graças a Deus em os não ter! + +--Que horror!--exclamou com convicção.--O incommodo todo o tempo que se +está!... as despezas! os trabalhos, as doenças! Deus me livre! É uma +prisão! E depois quando crescem, dão fé de tudo, palram, vão dizer... +Uma mulher com filhos está inutil para tudo, está atada de pés e mãos! +Não ha prazer na vida. É estar alli a atural-os... Credo! Eu? Que Deus +não me castigue, mas se tivesse essa desgraça parece-me que ia ter com +a velha da travessa da Palha! + +--Que velha?--perguntou Luiza. + +Leopoldina explicou. Luiza achava uma «infamia». A outra encolheu os +hombros, acrescentou: + +--E depois, minha rica, é que uma mulher estraga-se: não ha belleza de +corpo que resista. Perde-se o melhor. Quando se é como a tua amiga, a +D. Felicidade, emfim!... Mas quando se é direitinha e arranjadinha!... +Nada, minha rica! Embaraços não faltam! + +Por baixo, na rua, o realejo do bairro, no seu giro da tarde, veio +tocar o final da _Traviata_; ia escurecendo; já as verduras dos +quintaes tinham uma igual côr parda; e as casas para além esbatiam-se +na sombra. + +A _Traviata_ lembrou a Luiza a _Dama das Camelias_: fallaram do +romance: recordaram episodios... + +--Que paixão que eu tive por Armando em rapariga!--disse Leopoldina. + +--E eu foi por d'Artagnan--exclamou ingenuamente Luiza. + +Riram muito. + +--Começamos cedo--observou Leopoldina.--Dá-me uma gotinha mais. + +Bebeu, pousou o calix--e encolhendo os hombros: + +--Oh! Começamos cedo? Começam todas! Aos treze annos já a gente vai na +sua quarta paixão. Todas são mulheres, todas sentem o mesmo!--E batendo +o compasso com o pé, cantou, no tom do fado: + + O amor é uma doença + Que costuma andar no ar; + Só d'ir á janella, ás vezes + S'apanha a febre d'amar! + +Estou hoje com uma telha!--E espreguiçando-se muito languidamente:--No +fim de contas é o que ha de melhor n'este mundo: o resto é uma +semsaboria! Não é verdade? Dize, tu! Não é verdade? + +Luiza murmurou: + +--Se é!--E acrescentou logo:--Creio eu! + +Leopoldina ergueu-se, e escarnecendo-a: + +--Crê ella! Pobre innocentinha! Vejam o anjinho! + +Foi-se encostar á janella; ficou a olhar pelos vidros o descer do +crepusculo; de repente pôz-se a dizer devagar: + +--Realmente vale bem a pena estar uma pobre de Christo a privar-se, a +passar uma vida de coruja, a mortificar-se, para vir um dia uma febre, +um ar, uma soalheira, e boas noites, vai-se para o Alto de S. João! Tó +rola! + +A sala agora estava um pouco escura. + +--Pois não te parece?--perguntou ella. + +Aquella conversa embaraçava Luiza: sentia-se córar; mas o crepusculo, +as palavras de Leopoldina davam-lhe como o enfraquecimento d'uma +tentação. Declarou todavia _immoral_ semelhante idéa. + +--Immoral, porque? + +Luiza fallou vagamente nos _deveres_, na _religião_. Mas os _deveres_ +irritavam Leopoldina. Se havia uma cousa que a fizesse sahir de +si--dizia--era ouvir fallar em deveres!... + +--Deveres? Para com quem? Para um maroto como meu marido? + +Calou-se, e passeando pela sala excitada: + +--E em quanto a religião, historias! A mim me dizia o padre Estevão, o +de luneta, que tem os dentes bonitos, que me dava todas as absolvições, +se eu fosse com elle a Carriche! + +--Ah, os padres...--murmurou Luiza. + +--Os padres quê? São a religião! Nunca vi outra. Deus, esse, minha +rica, está longe, não se occupa do que fazem as mulheres. + +Luiza achava horrivel «aquelle modo de pensar». A felicidade, a +verdadeira, segundo ella, era ser honesta... + +--E a bisca em familia!--resmungou Leopoldina, com odio. + +Luiza disse, animada: + +--Pois olha que com as tuas paixões, umas atraz das outras... + +Leopoldina estacou: + +--O que? + +--Não te podem fazer feliz! + +--Está claro que não!--exclamou a outra.--Mas...--procurou a +palavra; não a quiz empregar de certo; disse apenas com um tom +secco:--Divertem-me! + +Calaram-se. Luiza pediu o café. + +Juliana entrou com a bandeja, trouxe luz; d'ahi a pouco foram para a +sala. + +--Sabes quem me fallou hontem de ti?--disse Leopoldina, indo +estender-se no divan. + +--Quem? + +--O Castro. + +--Que Castro? + +--O d'oculos, o banqueiro. + +--Ah! + +--Muito apaixonado por ti sempre. + +Luiza riu. + +--Doudo, palavra!--affirmou Leopoldina. + +A sala estava ás escuras, com as janellas abertas; a rua esbatia-se +n'um crepusculo pardo: um ar languido e dôce amaciava a noite. + +Leopoldina esteve um momento calada; mas o champagne, a meia +obscuridade deram-lhe bem depressa a necessidade de cochichar +confidenciasinhas. Estirou-se mais no divan, n'uma attitude toda +abandonada; pôz-se a fallar «d'elle». Era ainda o Fernando, o poeta. +Adorava-o. + +--Se tu soubesses!--murmurava com um ar de extase.--É um amor de rapaz! + +A sua voz velada tinha inflexões d'uma ternura calida. Luiza sentia-lhe +o halito e o calor do corpo, quasi deitada tambem, enervada; a sua +respiração alta tinha por vezes um tom suspirado: e a certos detalhes +mais picantes de Leopoldina soltava um risinho quente e curto, como +de cocegas... Mas passos fortes de botas de taxas subiram a rua, e no +candieiro defronte o gaz saltou com um jacto vivo. Uma branda claridade +pallida penetrou na sala. + +Leopoldina ergueu-se logo.--Tinha d'ir já, já, ao accender do gaz. +Estava á espera, o pobre rapaz! Entrou no quarto, mesmo ás escuras, a +pôr o chapéo, buscar a sombrinha.--Tinha-lhe promettido, coitado, não +podia faltar. Mas realmente embirrava d'ir só. Era tão longe! Se a +Juliana podesse vir acompanhal-a... + +--Vai, sim, filha!--disse Luiza. + +Ergueu-se preguiçosamente com um grande _ai!_ foi abrir a porta, e deu +de cara com Juliana, na sombra do corredor. + +--Credo, mulher, que susto! + +--Vinha saber se queriam luz... + +--Não. Vá pôr um chale para acompanhar a snr.^a D. Leopoldina! Depressa! + +Juliana foi correndo. + +--E quando appareces tu, Leopoldina?--perguntou Luiza. + +Logo que podesse. Para a semana estava com idéas d'ir ao Porto vêr a +tia Figueiredo, passar quinze dias na Foz... + +A porta abriu-se. + +--Quando a senhora quizer...--disse Juliana. + +Fizeram grandes _adeuses_, beijaram-se muito. Luiza disse rindo ao +ouvido de Leopoldina:--Sê feliz! + +Ficou só. Fechou as janellas, accendeu as velas, começou a passear pela +sala, esfregando devagar as mãos. E, sem querer, não podia desprender a +idéa de Leopoldina que ia vêr o seu amante! O seu amante!... + +Seguia-a mentalmente:--caminhava depressa de certo fallando com +Juliana; chegava; subia a escada, nervosa; atirava com a porta--e que +delicioso, que avido, que profundo o primeiro beijo! Suspirou. Tambem +ella amava--e _um_ mais bello, mais fascinante. Porque não tinha vindo? + +Sentou-se ao piano preguiçosamente; pôz-se a cantar baixo, triste, o +fado de Leopoldina: + + E por mais longe que esteja + Vejo-o sempre ao pé de mim!... + +Mas um sentimento de solidão, d'abandono, veio impaciental-a. Que +sécca, estar alli tão sósinha! Aquella noite calida, bella e dôce, +attrahia-a, chamava-a para fóra, para passeios sentimentaes, ou para +contemplações do céo, n'um banco de jardim, com as mãos entrelaçadas. +Que vida estupida, a d'ella! Oh! aquelle Jorge! Que idéa ir para o +Alemtejo! + +As conversas de Leopoldina e a lembrança das suas felicidades +voltavam-lhe a cada momento; uma pontinha de champagne agitava-se-lhe +no sangue. O relogio do quarto começou lentamente a dar nove horas--e +de repente a campainha retiniu. + +Teve um sobresalto: não podia ser ainda Juliana! Poz-se a escutar, +assustada. Vozes fallavam á cancella. + +--Minha senhora--veio dizer Joanna baixo--é o primo da senhora que diz +que se vem despedir... + +Abafou um grito, balbuciou: + +--Que entre! + +Os seus olhos dilatados cravavam-se febrilmente na porta. O reposteiro +franziu-se, Bazilio entrou, pallido, com um sorriso fixo. + +--Tu partes!--exclamou ella surdamente, precipitando-se para elle. + +--Não!--E prendeu-a nos braços.--Não! Imaginei que me não recebias a +esta hora, e tomei este pretexto. + +Apertou-a contra si, beijou-a; ella deixava, toda abandonada; os seus +labios prendiam-se aos d'elle. Bazilio deitou um olhar rapido, em +redor, pela sala, e foi-a levando abraçada, murmurando: Meu amor! minha +filha! Mesmo tropeçou na pelle de tigre, estendida ao pé do divan. + +--Adoro-te! + +--Que susto que tive!--suspirou Luiza. + +--Tiveste? + +Ella não respondeu; ia perdendo a percepção nitida das cousas; +sentia-se como adormecer; balbuciou: Jesus! não! não! Os seus olhos +cerraram-se. + + +Quando a campainha retiniu fortemente ás dez horas, Luiza, havia +momentos, sentára-se á beira do divan. Mal teve força de dizer a +Bazilio: + +--Ha-de ser a Juliana, tinha ido fóra... + +Bazilio cofiou o bigode, deu duas voltas na sala, foi accender um +charuto. Para quebrar o silencio sentou-se ao piano, tocou alguns +compassos ao acaso, e, erguendo um pouco a voz, começou a cantarolar a +aria do 3.^o acto do _Fausto_: + + Al pallido chiarore + Del astri d'oro... + +Luiza, através das ultimas vibrações dos seus nervos, ia entrando +na realidade; os seus joelhos tremiam. E então, ouvindo aquella +melodia, uma recordação foi-se formando no seu espirito, ainda +estremunhado:--era uma noite, havia annos, em S. Carlos, n'um camarote +com Jorge; uma luz electrica dava ao jardim, no palco, um tom livido +de luar legendario; e n'uma altitude extatica e suspirante o tenor +invocava as estrellas; Jorge tinha-se voltado, dissera-lhe: Que lindo! +E o seu olhar devorava-a. Era no segundo mez do seu casamento. Ella +estava com um vestido azul-escuro. E á volta, na carruagem, Jorge, +passando-lhe a mão pela cinta, repetia: + + Al pallido chiarore + Del astri d'oro... + +E apertava-a contra si... + +Ficára immovel á beira do divan, quasi a escorregar, os braços frouxos, +o olhar fixo, a face envelhecida, o cabello desmanchado. Bazilio então +veio sentar-se devagarinho junto d'ella.--Em que estava a pensar? + +--Nada. + +Elle passou-lhe o braço pela cinta, começou a dizer que havia de +procurar uma casinha para se verem melhor, estarem mais á vontade; não +era mesmo prudente alli em casa d'ella... + +E fallando, voltava a cada momento o rosto, soprava para o lado o fumo +do charuto. + +--Não te parece que vir eu aqui, todos os dias, póde ser reparado? + +Luiza ergueu-se bruscamente, lembrára-lhe Sebastião!... E com uma voz +um pouco desvairada: + +--Já é tão tarde!--disse. + +--Tens razão. + +Foi buscar o chapéo em bicos de pés, veio beijal-a muito, sahiu. + +--Luiza sentiu-o accender um phosphoro, fechar devagarinho a cancella. + +Estava só; pôz-se a olhar em roda, como idiota. O silencio da sala +parecia-lhe enorme. As velas tinham uma chamma avermelhada. Piscava os +olhos, tinha a bocca sêcca. Uma das almofadas do divan estava cahida, +apanhou-a. + +E com um ar somnambulo entrou no quarto. Juliana veio trazer o rol. E +já vinha com a lamparina, estava a arranjal-a... + +Tinha tirado a cuia; subiu á cozinha quasi a correr. A Joanna, que +estivera dormitando, espreguiçava-se com bocejos enormes. + +Juliana pôz-se a arranjar a torcida da lamparina; os dedos tremiam-lhe; +tinha no olhar um brilho agudo; e depois de tossir, devagarinho, com um +sorriso para Joanna: + +--E então a que horas veio o primo da senhora? + +--Veio logo que vossemecê sahiu, estavam a dar as nove. + +--Ah! + +Desceu com a lamparina; e sentindo Luiza na alcova despir-se: + +--A senhora não quer chá?--perguntou, com muito interesse. + +--Não. + +Foi á sala, fechou o piano. Havia um forte cheiro de charuto. Pôz-se +a olhar em redor, devagar, andando com um passo subtil... De repente +agachou-se, anciosamente: ao pé do divan uma cousa reluzia. Era uma +travessa de Luiza, de tartaruga, com o aro dourado. Tornou a entrar +no quarto em pontas de pés, pousou-a no toucador, entre os rôlos de +cabello. + +--Quem anda ahi?--perguntou da alcova a voz somnolenta de Luiza. + +--Sou eu, minha senhora, sou eu, estive a fechar a sala. Muito boas +noites, minha senhora! + + +Áquella hora Bazilio entrava no Gremio. Procurou pelas salas. Estavam +quasi desertas. Dous sujeitos, com os rostos entre os punhos, curvados +em attitudes lugubres, ruminavam os jornaes: aqui, além, junto a +mesinhas redondas, pessoas de calça branca mastigavam torradas com uma +satisfação placida; as janellas estavam fechadas, a noite quente, e o +calor molle do gaz abafava. Ia descer quando de uma saleta de jogo, +de repente, sahiu o ruido irritado de uma altercação; trocavam-se +injurias, gritava-se:--Mente! O asno é vossê! + +Bazilio estacou, escutando. Mas, subitamente, fez-se um grande +silencio; uma das vozes disse com brandura: + +--Paus! + +A outra respondeu com benevolencia: + +--É o que devia ter feito ha pouco. + +E immediatamente a questão rebentou de novo, estridente. Praguejavam, +diziam obscenidades. + +Bazilio foi ao bilhar. O visconde Reynaldo, de pé, apoiado ao taco, +seguia com uma immobilidade grave o jogo do seu parceiro; mas apenas +viu Bazilio, veio para elle rapidamente, e muito interessado: + +--Então? + +--Agora mesmo--disse Bazilio mordendo o charuto. + +--Emfim, hein?--exclamou Reynaldo, arregalando os olhos, com uma grande +alegria. + +--Emfim! + +--Ainda bem, menino! Ainda bem! + +Batia-lhe no hombro, commovido. + +Mas chamaram-no para jogar; e todo estirado sobre o bilhar, com uma +perna no ar, para dar com mais segurança o _effeito_, dizia com a voz +constrangida pela attitude: + +--Estimo, estimo, porque essa cousa começava a arrastar... + +Tac! Falhou a carambola. + +--Não dou meia!--murmurou com rancor. + +E chegando-se a Bazilio, a dar giz no taco: + +--Ouve cá... + +Fallou-lhe ao ouvido. + +--Como um anjo, menino!--suspirou Bazilio. + + + + +VI + + +Foi Juliana que na manhã seguinte veio acordar Luiza, dizendo á porta +da alcova com a voz abafada, em confidencia: + +--Minha senhora! Minha senhora! É um criado com esta carta, diz que vem +do hótel. + +Foi abrir uma das janellas, em bicos de pés; e voltando á alcova com +uma cautela mysteriosa: + +--E está á espera da resposta, está á porta. + +Luiza, estremunhada, abriu o largo enveloppe azul com um +monogramma--dous BB, um purpura, outro ouro, sob uma corôa de conde. + +--Bem, não tem resposta. + +Não tem resposta--foi dizer Juliana ao criado, que esperava encostado +ao corrimão, fumando um grande charuto, e cofiando as suiças pretas. + +--Não tem resposta? Bem, muito bom dia.--Levou o dedo seccamente á aba +do «côco», e desceu, gingando. + +Perfeito homem! foi pensando Juliana, pela escada da cozinha. + +--Quem bateu, snr.^a Juliana?--perguntou-lhe logo a cozinheira. + +Juliana resmungou: + +--Ninguem, um recado da modista. + +Desde pela manhã a Joanna achava-lhe o «ar exquisito». Sentira-a desde +as sete horas varrer, espanejar, sacudir, lavar as vidraças da sala +de jantar, arrumar as louças no aparador. E com uma azafama! Ouvira-a +cantar a _Carta adorada_, ao mesmo tempo que os canarios, nas varandas +abertas, chilreavam estridentemente ao sol. Quando veio tomar o seu +café á cozinha não palestrou como de costume; parecia preoccupada e +ausente. + +Joanna até lhe perguntou: + +--Sente-se peor, snr.^a Juliana? + +--Eu? Graças a Deus, nunca me senti tão bem. + +--Como a vejo tão calada... + +--A malucar cá por dentro... A gente nem sempre está para grulhar. + +Apesar de serem nove horas não quizera acordar a senhora. Deixal-a +descançar, coitada--disse. Foi em pontas de pés encher devagarinho a +bacia grande do banho, no quarto; para não fazer ruido, sacudiu no +corredor as saias, o vestido da vespera: e os seus olhos brilharam +avidamente quando sentiu na algibeirinha um papel amarrotado! Era +o bilhete que Luiza escrevera a Bazilio: «Porque não vens?... Se +soubesses o que me fazes soffrer!...» Teve-o um momento na mão, +mordendo o beiço, o olhar fixo n'um calculo agudo; por fim tornou a +mettel-o na algibeira de Luiza, dobrou o vestido, foi estendel-o com +muito cuidado na _causeuse_. + +Enfim, mais tarde, sentindo o _cuco_ dar horas, decidiu-se a ir dizer a +Luiza, com uma voz meiga: + +--São dez e meia, minha senhora! + +Luiza, na cama, tinha lido, relido o bilhete de Bazilio: «Não +pudera--escrevia ele--estar mais tempo sem lhe dizer que a adorava. +Mal dormira! Erguera-se de manhã muito cêdo para lhe jurar que estava +louco, e que punha a sua vida aos pés d'ella.» Compozera aquella prosa +na vespera, no Gremio, ás tres horas, depois de alguns _robbers_ +d'_whist_, um bife, dous copos de cerveja e uma leitura preguiçosa da +_Illustração_. E terminava, exclamando:--«Que outros desejem a fortuna, +a gloria, as honras, eu desejo-te a ti! Só a ti, minha pomba, porque +tu és o unico laço que me prende á vida, e se ámanhã perdesse o teu +amor, juro-te que punha um termo, com uma boa bala, a esta existencia +inutil!»--Pedira mais cerveja, e levára a carta para a fechar em casa, +n'um enveloppe com o seu monogramma, «porque sempre fazia mais effeito». + +E Luiza tinha suspirado, tinha beijado o papel devotamente! Era a +primeira vez que lhe escreviam aquellas sentimentalidades, e o seu +orgulho dilatava-se ao calor amoroso que sahia d'ellas, como um corpo +resequido que se estira n'um banho tepido: sentia um acrescimo de +estima par si mesma, e parecia-lhe que entrava emfim n'uma existencia +superiormente interessante, onde cada hora tinha o seu encanto +differente, cada passo conduzia a um extase, e a alma se cobria d'um +luxo radioso de sensações! + +Ergueu-se d'um salto, passou rapidamente um roupão, veio levantar os +transparentes da janella... Que linda manhã! Era um d'aquelles dias +do fim d'agosto em que o estio faz uma pausa; ha prematuramente, no +calor e na luz, uma certa tranquillidade outonal; o sol cahe largo, +resplandecente, mas pousa de leve; o ar não tem o embaciado canicular, +e o azul muito alto reluz com uma nitidez lavada; respira-se mais +livremente; e já se não vê na gente que passa o abatimento molle da +calma enfraquecedora. Veio-lhe uma alegria: sentia-se ligeira, tinha +dormido a noite d'um somno são, continuo, e todas as agitações, as +impaciencias dos dias passados pareciam ter-se dissipado n'aquelle +repouso. Foi-se vêr ao espelho; achou a pelle mais clara, mais fresca, +e um enternecimento humido no olhar;--seria verdade então o que dizia +Leopoldina, que «não havia como uma maldadesinha para fazer a gente +bonita?» Tinha um amante, ella! + +E immovel no meio do quarto, os braços cruzados, o olhar fixo, repetia: +Tenho um amante! Recordava a sala na vespera, a chamma aguçada das +velas, e certos silencios extraordinarios em que lhe parecia que a +vida parára, em quanto os olhos do retrato da mãi de Jorge, negros na +face amarella, lhe estendiam da parede o seu olhar fixo de pintura. +Mas Juliana entrou com um taboleiro de roupa passada. Eram horas de se +vestir... + +Que requintes teve n'essa manhã! Perfumou a agua com um cheiro de +_Lubin_, escolheu a camisinha que tinha melhores rendas. E suspirava +por ser rica! Queria as bretanhas e as hollandas mais caras, as +mobilias mais apparatosas, grossas joias inglezas, um coupé forrado +de setim... Porque nos temperamentos sensiveis as alegrias do coração +tendem a completar-se com as sensualidades do luxo: o primeiro erro +que se installa n'uma alma até ahi defendida, facilita logo aos outros +entradas tortuosas;--assim, um ladrão que se introduz n'uma casa vai +abrindo subtilmente as portas á sua quadrilha esfomeada. + +Subiu para o almoço, muito fresca, com o cabello em duas tranças, um +roupão branco. Juliana precipitou-se logo a fechar as janellas, «porque +apesar de não estar calor, as portadas cerradas sempre davam mais +frescura!» E, vendo que lhe esquecera o lenço, correu a buscar-lhe um, +que perfumou com agua de colonia. Servia-a com ternura. Viu-a comer +muitos figos: + +--Não lhe vão fazer mal, minha senhora!--exclamou quasi lacrimosamente. + +Andava em redor d'ella com um sorriso servil, sem ruido: ou defronte da +mesa, com os braços cruzados, parecia admiral-a com orgulho, como um +sêr precioso e querido, todo seu, a _sua ama!_ O seu olhar esbugalhado +apossava-se d'ella. + +E dizia consigo: + +--Grande cabra! Grande bebeda! + +Luiza, depois de almoço, veio para o quarto estender-se na _causeuse_, +com o seu _Diario de Noticias_. Mas não podia lêr. As recordações +da vespera redemoinhavam-lhe n'alma a cada momento, como as folhas +que um vento d'outono levanta a espaços d'um chão tranquillo: certas +palavras d'elle, certos impetos, toda a sua maneira d'amar... E ficava +immovel, o olhar afogado n'um fluido, sentindo aquellas reminiscencias +vibrarem-lhe muito tempo, dôcemente, nos nervos da memoria. Todavia a +lembrança de Jorge não a deixava; tivera-a sempre no espirito, desde +a vespera; não a assustava, nem a torturava; estava alli, immovel mas +presente, sem lhe fazer medo, nem lhe trazer remorso; era como se elle +tivesse morrido, ou estivesse tão longe que não podesse voltar, ou a +tivesse abandonado! Ela mesmo se espantava de se sentir tão tranquilla. +E todavia impacientava-a ter constantemente aquella idéa no espirito, +impassivel, com uma obstinação espectral; punha-se instinctivamente a +accumular as justificações: Não fôra culpa sua. Não abrira os braços a +Bazilio voluntariamente!... Tinha sido uma _fatalidade_: fôra o calor +da hora, o crepusculo, uma pontinha de vinho talvez... Estava douda, +de certo. E repetia comsigo as attenuações tradicionaes: não era a +primeira que enganára seu marido; e muitas era apenas por vicio, ella +fôra por paixão... Quantas mulheres viviam n'um amor illegitimo e eram +illustres, admiradas! Rainhas mesmo tinham amantes. E elle amava-a +tanto!... Seria tão fiel, tão discreto! As suas palavras eram tão +captivantes, os seus beijos tão estonteadores!... E emfim que lhe havia +de fazer agora? _Já agora_!... + +E resolveu ir responder-lhe. Foi ao escriptorio. Logo ao entrar o seu +olhar deu com a photographia de Jorge--a cabeça de tamanho natural,--no +seu caixilho envernizado de preto. Uma commoção comprimiu-lhe o +coração; ficou como _tolhida_--como uma pessoa encalmada de ter +corrido, que entra na frieza d'um subterraneo; e examinava o seu +cabello frisado, a barba negra, a gravata de pontas, as duas espadas +encruzadas que reluziam por cima. Se elle soubesse matava-a!... Fez-se +muito pallida. Olhava vagamente em redor o casaco de velludo de +trabalho dependurado n'um prego, a manta em que elle embrulhava os pés +dobrada a um lado, as grandes folhas de papel de desenho na outra mesa +ao fundo, e o pótesinho do tabaco, e a caixa das pistolas!... Matava-a +de certo! + +Aquelle quarto estava tão penetrado da personalidade de Jorge, que lhe +parecia que elle ia voltar, entrar d'ahi a bocado... Se elle viesse +de repente!... Havia tres dias que não recebia carta--e quando ella +estivesse alli a escrever ao seu amante, n'um momento o _outro_ podia +apparecer e apanhal-a!... Mas eram tolices, pensou. O vapor do Barreiro +só chegava ás cinco horas; e depois elle dizia na ultima carta que +ainda se demorava um mez, talvez mais... + +Sentou-se, escolheu uma folha de papel, começou a escrever, na sua +letra um pouco gorda: + + + «_Meu adorado Bazilio_. + + +Mas um terror importuno tolhia-a; sentia como um _palpite_ de que +elle vinha, ia entrar... Era melhor não se pôr a escrever, talvez!... +Ergueu-se, foi á sala devagar, sentou-se no divan; e, como se o +contacto d'aquelle largo sophá e o ardor das recordações que elle lhe +trazia da vespera lhe tivesse dado a coragem das acções amorosas e +culpadas, voltou muito decidida ao escriptorio, escreveu rapidamente: + + +«Não imaginas com que alegria recebi esta manhã a tua carta...» + + +A penna velha escrevia mal; molhou-a mais, e ao sacudil-a, como +lhe tremia um pouco a mão, um borrão negro cahiu no papel. Ficou +toda contrariada, pareceu-lhe aquillo um _mau agouro_. Hesitou um +momento,--e coçando a cabeça, com os cotovêlos sobre a mesa, sentia +Juliana varrer fóra o patamar, cantarolando a _Carta adorada_. Emfim, +impaciente, rasgou a folha muitas vezes em pedacinhos miudos--e +atirou-os para um caixão de pau envernizado com duas argolas de metal, +que estava ao canto junto á mesa, onde Jorge deitava os rascunhos +velhos e os papeis inuteis: chamavam-lhe o _sarcophago_; Juliana, de +certo, descuidára-se de o esvaziar no lixo, porque transbordava de +papelada. + +Escolheu outra folha, recomeçou: + + + «_Meu adorado Bazilio_. + +«Não imaginas como fiquei quando recebi a tua carta, esta manhã, ao +acordar. Cobri-a de beijos...» + + +Mas o reposteiro franziu-se n'uma prega molle, a voz de Juliana disse +discretamente: + +--Está alli a costureira, minha senhora. + +Luiza, sobresaltada, tinha tapado a folha de papel com a mão. + +--Que espere. + +E continuou: + + +«...Que tristeza que fosse a carta e que não fosses tu que alli +estivesses! Estou pasmada de mim mesma, como em tão pouco tempo te +apossaste do meu coração, mas a verdade é que nunca deixei de te amar. +Não me julgues por isto leviana, nem penses mal de mim, porque eu +desejo a tua estima, mas é que nunca deixei de te amar e ao tornar +a vêr-te, depois d'aquella estupida viagem para tão longe, não fui +superior ao sentimento que me impellia para ti, meu adorado Bazilio. +Era mais forte que eu, meu Bazilio. Hontem, quando aquella maldita +criada me veio dizer que tu te vinhas despedir, Bazilio, fiquei +como morta; mas quando vi que não, nem eu sei, adorei-te! E se tu +me tivesses pedido a vida dava-t'a, porque te amo, que eu mesma, me +estranho... Mas para que foi aquella mentira, e para que vieste tu? +Mau! tinha vontade de te dizer adeus para sempre, mas não posso, meu +adorado Bazilio! É superior a mim. Sempre te amei, e agora que sou +tua, que te pertenço corpo e alma, parece-me que te amo mais, se é +possivel...» + + +--Onde está ella? Onde está ella?--disse uma voz na sala. + +Luiza ergueu-se, com um salto, livida. Era Jorge! Amarrotou +convulsivamente a carta, quiz escondel-a no bolso,--o roupão não tinha +bolso! E desvairada, sem reflexão, arremessou-a para o _sarcophago_. +Ficou de pé, esperando, as duas mãos apoiadas á mesa, a vida suspensa. + +O reposteiro ergueu-se,--e reconheceu logo o chapéo de velludo azul de +D. Felicidade. + +--Aqui mettida, sua brejeira! Que estavas tu aqui a fazer? Que tens tu, +filha, estás como a cal... + +Luiza deixou-se cahir no _fauteuil_, branca e fria, disse com um +sorriso cançado: + +--Estava a escrever, deu-me uma tontura... + +--Ai! Tonturas, eu!--acudiu logo D. Felicidade--É uma desgraça, a cada +momento a agarrar-me aos moveis, até tenho medo d'andar só. Falta de +purgas! + +--Vamos para o quarto!--disse logo Luiza.--Estamos melhor no quarto. + +Ao erguer-se, as pernas tremiam-lhe. + +Atravessaram a sala: Juliana começava a arrumar. Luiza, ao passar, viu +na pedra da _console_, debaixo do espelho oval, uma pouca de cinza: era +da vespera, do charuto d'_elle_! Sacudiu-a--e ao erguer os olhos, ficou +pasmada de se vêr tão pallida. + +A costureira vestida de preto, com um chapéo de fitas rôxas, esperava +sentada á beira da _causeuse_, com um olhar infeliz e o seu embrulho +nos joelhos; vinha provar o corpete d'um vestido composto; assentou, +pregou, alinhavou, fallando baixo, com uma humildade triste e uma +tossinha sêcca ; e apenas ella sahiu, de leve, com o seu andar de +sombra, o chale tinto muito cingido ás omoplatas magras,--D. Felicidade +começou logo a fallar d'_elle_, do Conselheiro. Tinha-o encontrado no +Moinho de Vento. Pois, senhores, nem lhe viera fallar! Fizera-lhe uma +cortezia muito sêcca, por demais, e tic-tic por alli fóra, que se diria +que ia fugido! Que te parece? Ai! aquellas indifferenças matavam-na. E +não as comprehendia, não, realmente não as comprehendia... + +--Porque emfim--exclamava--eu bem me conheço, não sou nenhuma criança, +mas tambem não sou nenhum caco! Pois não é verdade? + +--Certamente--disse Luiza distrahida. Lembrava-lhe a carta. + +--Olha que aqui onde me vês com os meus quarenta, decotada, ainda +valho! O que são hombros e collo é do melhor! + +Luiza ia erguer-se. Mas D. Felicidade repetiu: + +--Do melhor! Tomaram-no muitas novas! + +--Creio bem--concordou Luiza, sorrindo vagamente. + +--E elle tambem não é nenhum rapazinho novo... + +--Não... + +--Mas muito bem conservado!--E os olhos luziam-lhe--Para fazer ainda +uma mulher muito feliz! + +--Muito... + +--Um homem d'appetecer!--suspirou D. Felicidade. + +E Luiza, então: + +--Tu esperas um instantinho! Vou lá dentro e volto já. + +--Vai, filha, vai. + +Luiza correu ao escriptorio, direita ao _sarcophago_. Estava vazio! E a +carta d'ella, Santo Deus! + +Chamou logo Juliana, aterrada. + +--Vossê despejou o caixão dos papeis? + +--Despejei, sim, minha senhora--respondeu muito tranquillamente. + +E com interesse: + +--Porquê, perdeu-se algum papel? + +Luiza fazia-se pallida. + +--Foi um papel que eu atirei para o caixão. Onde o despejou vossê? + +--No barril do lixo, como é costume, minha senhora; imaginei que nada +servia... + +--Ah! deixe vêr! + +Subiu rapidamente á cozinha. + +Juliana, atraz, ia dizendo: + +--Ora esta! Pois ainda não ha cinco minutos! O caixão estava mais +cheio... Andei a dar uma arrumadella no escriptorio... Valha-me Deus, +se a senhora tem dito... + +Mas o barril do lixo estava vazio. Joanna tinha-o ido despejar abaixo +n'aquelle instantinho; e vendo a inquietação de Luiza: + +--Porquê, perdeu-se alguma cousa? + +--Um papel--disse Luiza, que olhava em redor, pelo chão, muito branca. + +--Elle iam uns poucos de papeis, minha senhora--disse a rapariga--eu +deitei tudo ao despejo. + +--Podia ter ficado algum cahido por fóra, snr.^a Joanna--lembrou +timidamente Juliana. + +--Vá vêr, vá vêr, Joanna--acudiu Luiza com uma esperança. + +Juliana parecia afflicta: + +--Jesus, Senhor! Eu podia lá adivinhar! Mas para que não disse a +senhora...? + +--Bem, bem, a culpa não é sua, mulher... + +--Credo, que até se me está a embrulhar o estomago... E é cousa de +importancia, minha senhora? + +--Não, é uma conta... + +--Valha-me Deus!... + +Joanna voltou, sacudindo um papel enxovalhado. Luiza agarrou-o, +leu:--«... o diametro do primeiro poço de exploração...» + +--Não, não é isto!--exclamou toda contrariada. + +--Então foi p'ra baixo p'ra o cano, minha senhora, não está mais nada. + +--Viu bem? + +--Esquadrinhei tudo... + +E Juliana continuava, desolada: + +--Antes queria perder dez tostões! Uma assim! Eu, minha senhora, podia +lá adivinhar... + +--Bem, bem!--murmurou Luiza descendo. + +Mas estava assustada, sentia mesmo uma suspeita indefinida... +Lembrou-lhe o bilhete que escrevera na vespera a Bazilio, e que +mettera, todo amarrotado, no bolso do vestido... Entrou no quarto, +agitada. + +D. Felicidade tirára o chapéo, acommodára-se na _causeuse_. + +--Tu desculpas, hein?--fez Luiza. + +--Anda, filha, anda! Que é? + +--Perdi uma conta--respondeu. + +Foi ao guarda-vestidos, achou logo o bilhete na algibeira... Aquillo +serenou-a. A carta tinha ido para o lixo de certo. Mas que imprudencia! + +--Bem, acabou-se!--disse, sentando-se resignada. + +E D. Felicidade immediatamente, baixando a voz muito confidencialmente: + +--Ora eu vinha-te fallar n'uma cousa. Mas vê lá! Olha que é segredo. + +Luiza ficou logo sobresaltada. + +--Tu sabes--continuou D. Felicidade, devagar, com pausas--que a minha +criada, a Josepha, está para casar com o gallego... O homem é de ao pé +de Tuy, e diz que na terra d'elle ha uma mulher que tem uma virtude +para fazer casamentos que é uma cousa milagrosa... Diz que é o mais que +ha... Em deitando a sorte a um homem,--o homem entra-lhe uma tal paixão +que se arranja logo o casamento, e é a maior felicidade. + +Luiza tranquillisada, sorriu. + +--Escuta--acudiu D. Felicidade--não te ponhas já com as tuas cousas... + +No seu tom grave havia um respeito supersticioso. + +--Diz que tem feito milagres. Homens que tinham desamparado raparigas, +outros que não faziam caso d'ellas, maridos que tinham amigas, emfim +toda a sorte de ingratidão... Em a mulher deitando o encanto, os homens +começam a esmorecer, a arrepender-se, a apaixonar-se, e estão pelo +beiço... A rapariga contou-me isto. Eu lembrei-me logo... + +--De deitar uma sorte ao Conselheiro!--exclamou Luiza. + +--Que te parece? + +Luiza deu uma risada sonora. Mas D. Felicidade quasi se escandalisou. +Contou outros casos: um fidalgo que deshonrára uma lavadeira; um +homem que abandonou a mulher e os filhos, fugira com uma _bebeda_... +Em todos a _sorte_ operára d'um modo fulminante, produzindo um amor +subito e fogoso pela pessoa desprezada. Appareciam logo rendidos, se +estavam perto; se estavam longe, voltavam, avidos, a pé, a cavallo, +na mala-posta, apressando-se, ardendo... E entregavam-se, mansos e +humildes como escravos acorrentados... + +--Mas o gallego--continuava ella muito excitada--diz que para ir á +terra, fallar á mulher, levar o retrato do Conselheiro, é necessario o +retrato d'elle, o meu, é necessario o meu, ir fallar, voltar--quer sete +moedas!... + +--Oh D. Felicidade!--fez Luiza reprehensivamente. + +--Não me digas, não venhas com as tuas! Olha que eu sei de casos... + +E erguendo-se: + +--Mas são sete moedas! Sete moedas!--exclamou, arregalando os olhos. + +Juliana appareceu á porta, e muito baixinho, com um sorriso: + +--A senhora faz favor? + +Chamou-a para o corredor, em segredo: + +--Esta carta. Que vem do hótel. + +Luiza fez-se escarlate. + +--Credo, mulher! não é necessario fazer mysterios! + +Mas não entrou no quarto, abriu-a logo no corredor; era a lapis, +escripta á pressa: + + +«Meu amor--dizia Bazilio--por um feliz acaso descobri o que +precisavamos, um ninho discreto para nos vêrmos...» E indicava a rua, o +numero, os signaes, o caminho mais perto. «... Quando vens, meu amor? +Vem ámanhã. Baptisei a casa com o nome de _Paraiso_: para mim, minha +adorada, é com effeito o paraiso. Eu espero-te lá desde o meio dia: +logo que te aviste, desço.» + + +Aquella precipitação amorosa em arranjar o _ninho_--provando uma paixão +impaciente, toda occupada d'ella--produziu-lhe uma dilatação dôce +do orgulho; ao mesmo tempo que aquelle _Paraiso_ secreto, como n'um +romance, lhe dava a esperança de felicidades excepcionaes; e todas as +suas inquietações, os sustos da carta perdida se dissiparam de repente +sob uma sensação calida, como flocos de nevoa sob o sol que se levanta. + +Voltou ao quarto, com o olhar risonho. + +--Que te parece, hein?--perguntou logo D. Felicidade, a quem a sua idéa +occupava tyrannicamente. + +--O que? + +--Achas que mande o homem a Tuy? + +Luiza encolheu os hombros; veio-lhe um tedio de taes enredos de +bruxaria, misturados a amores caturras. Na vaidade da sua intriga +romantica achava repugnante aquelle sentimentalismo senil. + +--Tolices!--disse com muito desdem. + +--Oh filha! não me digas, não me digas!--acudiu desolada D. Felicidade. + +--Bem, então manda, manda!--fez Luiza, já impaciente. + +--Mas são sete moedas!--exclamou D. Felicidade, quasi chorosa. + +Luiza poz-se a rir. + +--Por um marido? Acho barato... + +--E se a sorte falha? + +--Então é caro! + +D. Felicidade deu um grande _ai!_ Estava muito infeliz, n'aquella +hesitação entre os impulsos da concupiscencia e as prudencias da +economia. Luiza teve pena d'ella, e, tirando um vestido do guarda-roupa: + +--Deixa lá, filha! Não hão-de ser necessarias bruxarias!... + +D. Felicidade ergueu os olhos ao céo. + +--Vaes sahir?--perguntou melancolicamente. + +--Não. + +D. Felicidade propoz-lhe então que viesse com ella á Encarnação. +Visitavam a Silveira, coitada, que tinha um furunculo! E viam a armação +da igreja para a festa, estreava-se o frontal novo, um primor! + +--E estou tambem com vontade de ir rezar uma estaçãosinha, para +alliviar cá por dentro--ajuntou, suspirando. + +Luiza aceitou. Appetecia-lhe ir vêr altares alumiados, ouvir o ciciar +de rezas no côro, como se os requintes devotos dissessem bem com as +suas disposições sentimentaes. Começou a vestir-se depressa. + +--Como tu estás gorda, filha!--exclamou D. Felicidade admirada, +vendo-lhe os hombros, o collo. + +Luiza diante do espelho olhava-se, sorria com o seu sorriso quente, +contente das suas linhas, acariciando devagarinho, voluptuosamente, a +pelle branca e fina. + +--Redondinha--disse, namorando-se. + +--Redondinha? Vaes-te a fazer uma bola! + +E acrescentou, tristemente: + +--Tambem com a tua vida, um marido como o teu, regaladinha, sem filhos, +sem cuidados... + +--Vamos lá, minha rica--disse Luiza--que as tristezas não te tem feito +emmagrecer... + +--Pois sim, pois sim! Mas...--e parecia desolada, como curvada sob as +suas proprias ruinas--cá por dentro é uma desgraça, estomago, figado... + +--Se a mulher de Tuy faz o milagre, põe tudo isso como novo! + +D. Felicidade sorriu, com uma duvida desconsolada. + +--Sabes que tenho um chapéo lindo?--exclamou de repente Luiza--Não +viste? Lindo! + +Foi logo buscal-o ao guarda-vestidos. Era de palha fina, guarnecido de +myosotis. + +--Que te parece? + +--É um primor! + +Luiza mirava-o dando pancadinhas com as pontas dos dedos nas florzinhas +azues. + +--Dá frescura--fez D. Felicidade. + +--Não é verdade? + +Pôl-o com muito cuidado, toda séria. Ficava-lhe bem! Bazilio se a visse +havia de gostar, pensou. Era bem possivel que o encontrassem... + +Veio-lhe, sem motivo, uma felicidade exuberante: achava tão delicioso +viver, sahir, ir á Encarnação, pensar no seu amante!... E toda no ar, +procurava pelo quarto as chavinhas do toucador. + +Onde tinha deixado as chaves? Na sala de jantar, talvez! Ia vêr! Sahiu +correndo, tontinha, cantarolando: + + Amici, la notte è bella... + La ra la la... + +Quasi topou com Juliana, que varria o corredor. + +--Não deixe de engommar a saia bordada para ámanhã, Juliana! + +--Sim, minha senhora. Está em gomma! + +E seguindo-a com um olhar feroz: + +--Canta, piorrinha, canta, cabrasinha, canta, bebedasinha!... + +E ella mesma, tomada subitamente d'um jubilo agudo, atirou vassouradas +rapidas, soltando na sua voz rachada: + + Além d'ámanhã termina a campanha, + P-o-o-or aqui se diz... + Se tal fôr verdade, se não fôr patranha... + +E com um espremido emphatico: + + Se-e-rei bem feliz! + +Ao outro dia, pelas duas horas da tarde, Sebastião e Julião passeavam +em S. Pedro de Alcantara. + +Sebastião estivera contando a sua «scena» com Luiza, e como desde então +a sua estima por ella crescera. Ao principio escabreára-se, sim... + +--Mas teve razão! Assim de surpreza, ouvir uma d'aquellas! E eu levei a +cousa mal, fui muito á bruta... + +Depois, coitadinha, concordára logo, mostrára-se muito desgostosa, toda +zelosa do seu pudor, pedira-lhe conselhos... Até tinha as lagrimas nos +olhos. + +--Eu disse-lhe logo que o melhor era fallar ao primo, dizer o que se +passava... Que te parece? + +--Sim--disse vagamente Julião. + +Tinha-o escutado distrahido, chupando a ponta do cigarro. O seu rosto +terreo cavava-se, com uma côr mais biliosa. + +--Então achas que fiz bem, hein? + +E depois d'uma pausa: + +--Que ella é uma senhora de bem ás direitas! Ás direitas, Julião! + +Continuaram calados. O dia estava encoberto e abafado, com um ar +de trovoada: grossas nuvens pesadas e pardas iam-se accumulando, +ennegrecendo para o lado da Graça por traz das collinas: um vento +rasteiro passava por vezes, pondo um arripio nas folhas das arvores. + +--De maneira que agora estou descançado--resumiu Sebastião.--Não te +parece? + +Julião encolheu os hombros com um sorriso triste: + +--Quem me dera os teus cuidados, homem!--disse. + +E fallou então com amargura nas suas preoccupações.--Havia uma semana +que se abrira concurso para uma cadeira de substituto na Escóla, +e preparava-se para elle. Era a sua taboa de salvação, dizia: se +apanhasse a cadeira, ganhava logo nome, a clientella podia vir, e a +fortuna... E, que diabo, sempre era estar de dentro!... Mas a certeza +da sua superioridade não o tranquillisava--porque emfim em Portugal, +não é verdade? n'estas questões a sciencia, o estudo, o talento são +uma historia, o principal são os padrinhos! Elle não os tinha--e o seu +concorrente, um semsaborão, era sobrinho d'um director geral, tinha +parentes na camara, era um colosso! Por isso elle trabalhava a valer, +mas parecia-lhe indispensavel metter tambem as suas cunhas! Mas quem? + +--Tu não conheces ninguem, Sebastião?... + +Sebastião lembrava-se d'um primo seu, deputado pelo Alemtejo, um +gordo, da maioria, um pouco fanhoso. Se Julião queria, fallava-lhe... +Mas sempre ouvira dizer que a Escóla não era gente de empenhos e de +intriga... De resto tinham o conselheiro Accacio... + +--Uma besta!--fez Julião--Um parlapatão! Quem faz lá caso d'aquillo? +O teu primo, hein! O teu primo parece-me bom! É necessario alguem que +falle, que trabalhe...--Porque acreditava muito nas influencias dos +empenhos, no dominio dos «personagens», nas docilidades da fortuna +quando dirigida pelas habilidades da intriga. E com um orgulho raiado +d'ameaça:--Que eu hei-de-lhes mostrar o que é saber as cousas, +Sebastião! + +Ia explicar-lhe o assumpto da these, mas Sebastião interrompeu-o: + +--Ella ahi vem. + +--Quem? + +--A Luiza. + +Passava com effeito, por fóra do Passeio, toda vestida de preto, +só.--Respondeu á cortezia dos dous homens com um sorriso, _adeusinhos_ +da mão, um pouco corada. + +E Sebastião immovel, seguindo-a devotamente com os olhos: + +--Se aquillo não respira mesmo honestidade! Vai ás lojas... Santa +rapariga! + + +Ia encontrar Bazilio no _Paraiso_ pela primeira vez. E estava muito +nervosa: não pudera dominar, desde pela manhã, um medo indefinido que +lhe fizera pôr um véo muito espêsso, e bater o coração ao encontrar +Sebastião. Mas ao mesmo tempo uma curiosidade intensa, multipla, +impellia-a, com um estremecimentosinho de prazer.--Ia, emfim, ter +ella propria aquella aventura que lêra tantas vezes nos romances +amorosos! Era uma fórma nova do amor que ia experimentar, sensações +excepcionaes! Havia tudo--a casinha mysteriosa, o segredo illegitimo, +todas as palpitações do perigo! Porque o apparato impressionava-a mais +que o sentimento; e a _casa_ em si interessava-a, attrahia-a mais que +Bazilio! Como seria? Era para os lados d'Arroios, adiante do largo de +Santa Barbara: lembrava-se vagamente que havia alli uma correnteza de +casas velhas... Desejaria antes que fosse no campo, n'uma quinta, com +arvoredos murmurosos e relvas fôfas; passeariam então, com as mãos +enlaçadas, n'um silencio poetico; e depois o som d'agua que cahe nas +bacias de pedra daria um rhythmo languido aos somnos amorosos... Mas +era n'um terceiro andar,--quem sabe como seria dentro? Lembrava-lhe um +romance de Paulo Féval em que o heroe, poeta e duque, fórra de setins e +tapeçarias o interior d'uma choça; encontra alli a sua amante; os que +passam, vendo aquelle casebre arruinado, dão um pensamento compassivo +á miseria que de certo o habita--em quanto dentro, muito secretamente, +as flôres se esfolham nos vasos de Sèvres e os pés nús pisam Gobelins +veneraveis! Conhecia o gosto de Bazilio,--e o _Paraiso_ de certo era +como no romance de Paulo Féval. + +Mas no largo de Camões reparou que o sujeito de pera comprida, o do +Passeio, a vinha seguindo, com uma obstinação de gallo; tomou logo +um coupé. E ao descer o Chiado, sentia uma sensação deliciosa em ser +assim levada rapidamente para o seu amante, e mesmo olhava com certo +desdem os que passavam, no movimento da vida trivial--em quanto ella ia +para uma hora tão romanesca da vida amorosa! Todavia á maneira que se +aproximava vinha-lhe uma timidez, uma contracção d'acanhamento, como um +plebeu que tem de subir, entre alarbadeiros solemnes, a escadaria d'um +palacio. Imaginava Bazilio esperando-a estendido n'um divan de sêda: e +quasi receava que a sua simplicidade burgueza, pouco experiente, não +achasse palavras bastante finas ou caricias bastante exaltadas. Elle +devia ter conhecido mulheres tão bellas, tão ricas, tão educadas no +amor! Desejava chegar n'um coupé seu, com rendas de centos de mil reis, +e ditos tão espirituosos como um livro... + +A carruagem parou ao pé d'uma casa amarellada, com uma portinha +pequena. Logo á entrada um cheiro molle e salobre enojou-a. A escada, +de degraus gastos, subia ingrememente, apertada entre paredes onde a +cal cahia, e a humidade fizera nodoas. No patamar da sobre-loja, uma +janella com um gradeadosinho d'arame, parda do pó accumulado, coberta +de teias d'aranha, coava a luz suja do saguão. E por traz d'uma +portinha, ao lado, sentia-se o ranger d'um berço, o chorar doloroso +d'uma criança. + +Mas Bazilio desceu logo, com o charuto na bocca, dizendo baixo: + +--Tão tarde! sóbe! Pensei que não vinhas. O que foi? + +A escada era tão esguia, que não podiam subir juntos. E Bazilio, +caminhando adiante, d'esguelha: + +--Estou aqui desde a uma hora, filha! imaginei que te tinhas esquecido +da rua... + +Empurrou uma cancella, fêl-a entrar n'um quarto pequeno, forrado de +papel ás listras azues e brancas. + +Luiza viu logo, ao fundo, uma cama de ferro com uma colcha amarellada, +feita de remendos juntos de chitas differentes: e os lençoes +grossos, d'um branco encardido e mal lavado, estavam impudicamente +entreabertos... + +Fez-se escarlate, sentou-se, calada, embaraçada. E os seus olhos, muito +abertos, iam-se fixando--nos riscos ignobeis da cabeça dos phosphoros, +ao pé da cama; na esteira esfiada, comida, com uma nodoa de tinta +entornada; nas bambinellas da janella, d'uma fazenda vermelha, onde +se viam passagens; n'uma lithographia, onde uma figura, coberta d'uma +tunica azul fluctuante, espalhava flôres voando... Sobre tudo uma larga +photographia, por cima do velho canapé de palhinha, fascinava-a: era um +individuo atarracado, d'aspecto hilare e alvar, com a barba em collar, +o feitio d'um piloto ao domingo: sentado, de calças brancas, com as +pernas muito afastadas, pousava uma das mãos sobre um joelho, e a outra +muito estendida assentava sobre uma columna truncada: e por baixo do +caixilho, como sobre a pedra d'um tumulo, pendia d'um prego de cabeça +amarella, uma corôa de perpetuas! + +--Foi o que se pôde arranjar--disse-lhe Bazilio.--E foi um acaso: é +muito retirado, é muito discreto... Não é muito luxuoso... + +--Não--fez ella, baixo.--Levantou-se, foi á janella, ergueu uma ponta +da cortininha de cassa fixada á vidraça: defronte eram casas pobres: um +sapateiro grisalho, batia a sola a uma porta; á entrada d'uma lojita +balouçava-se um ramo de carqueja ao pé d'um maço de cigarros pendente +d'um barbante; e, a uma janella, uma rapariga esguedelhada embalava +tristemente no collo uma criança doente que tinha crostas grossas de +chagas na sua cabecinha côr de melão. + +Luiza mordia os beiços, sentia-se entristecer. Então nós de dedos +bateram discretamente á porta. Ella assustou-se, desceu rapidamente o +véo. Bazilio foi abrir. Uma voz adocicada, cheia de _ss_ mellifluos, +ciciou baixo. Luiza ouviu vagamente: Socegadinhos, suas chavesinhas... + +--Bem, bem!--disse Bazilio apressado, batendo com a porta. + +--Quem é? + +--É a patrôa. + +O céo pozera-se a ennegrecer; já a espaços grossas gôtas de chuva se +esmagavam nas pedras da rua; e um tom crepuscular fazia o quarto mais +melancolico. + +--Como descobriste tu isto?--perguntou Luiza, triste. + +--Inculcaram-m'o. + +Outra gente, então, tinha vindo alli, «amado» alli? pensou ella. E a +cama pareceu-lhe repugnante. + +--Tira o chapéo--disse Bazilio, quasi impaciente--estás-me a fazer +afflicção com esse chapéo na cabeça. + +Ella soltou devagar o elastico que o prendia, foi pôl-o no canapé de +palhinha, desconsoladamente. + +Bazilio tomou-lhe as mãos, e attrahindo-a, sentando-se na cama: + +--Estás tão linda!--Beijou-lhe o pescoço, encostou a cabeça ao peito +d'ella. E com a vista muito quebrada: + +--O que eu sonhei comtigo esta noite! + +Mas, de repente, uma forte pancada de chuva fustigou os vidros. E +immediatamente bateram á porta, com pressa. + +--Que é?--bradou Bazilio furioso. + +A voz cheia de _ss_ explicou que esquecera um cobertor na varanda que +estava a seccar. Se se encharcasse, que perdição!... + +--Eu lhe pagarei o cobertor, deixe-me!--berrou Bazilio. + +--Dá-lhe o cobertor... + +--Que a leve o diabo! + +E Luiza, sentindo um arripio de frio nos seus hombros nús, +abandonava-se com uma vaga resignação, entre os joelhos de +Bazilio--vendo constantemente voltada para si a face alvar do piloto. + +Assim um _yacht_ que apparelhou nobremente para uma viagem romanesca +vai encalhar, ao partir, nos lodaçaes do rio baixo; e o mestre +aventureiro que sonhava com os incensos e os almiscares das florestas +aromaticas, immovel sobre o seu tombadilho, tapa o nariz aos cheiros +dos esgotos. + + +Apenas Luiza começou a sahir todos os dias, Juliana pensou logo: Bem, +vai ter com o _gajo_! + +E a sua attitude tornou-se ainda mais servil. Era com um sorriso de +baixeza que corria a abrir a porta, alvoroçada, quando Luiza voltava +ás cinco horas. E que zelo! Que exactidões! Um botão que faltasse, uma +fita que se extraviava, e eram «mil perdões, minha senhora», «desculpe +por esta vez», muitas lamentações humildes. Interessava-se com devoção +pela saude d'ella, pela sua roupa, pelo que tinha para jantar... + +Todavia, desde as idas ao _Paraiso_, o seu trabalho augmentára: todos +os dias agora tinha d'engommar; muitas vezes era preciso ensaboar á +noite collares, rendinhas, punhos, n'uma bacia de latão, até ás onze +horas. Ás seis da manhã, mais cedo, já estava com o «ferro ás voltas». +E não se queixava, até dizia a Joanna: + +--Ai! é um regalo vêr assim uma senhora aceada!... Que as ha! credo! +Não, não é por dizer, mas até me dá gosto. Depois, graças a Deus, agora +tenho saude, o trabalho não me assusta! + +Não tornára a resmungar da «patrôa». Affirmava mesmo á Joanna +repetidamente: + +--A senhora! ai, é uma santa! Muito boa d'aturar... Não a ha melhor! + +O seu rosto perdera alguma cousa do tom bilioso, da contracção amarga. +Ás vezes, ao jantar ou á noite, costurando calada ao pé de Joanna, á +luz do petroleo, vinham-lhe sorrisos subitos, o olhar clareava-se-lhe +n'uma dilatação jovial. + +--A snr.^a Juliana tem o ar de quem está a pensar em cousas boas... + +--A malucar cá por dentro, snr.^a Joanna!--respondia com satisfação. + +Parecia perder a inveja; ouviu mesmo fallar com tranquillidade do +vestido de sêda que estreou n'um dia de festa, em setembro, a Gertrudes +do doutor. Disse apenas: + +--Tambem um dia hei-de estrear vestidos, e dos bons! Dos da modista! + +Já outras vezes revelára por palavras vagas a idéa d'uma abundancia +proxima. Joanna até lhe dissera: + +--A snr.^a Juliana espera alguma herança? + +--Talvez!--respondeu seccamente. + +E cada dia detestava mais Luiza. Quando pela manhã a via arrebicar-se, +perfumar-se com agua de colonia, mirar-se ao toucador cantarolando, +sahia do quarto porque lhe vinham venetas d'odio, tinha medo +d'estourar! Odiava-a pelas _toilettes_, pelo ar alegre, pela roupa +branca, pelo _homem_ que ia vêr, por todos os seus regalos de senhora. +«A cabra!» Quando ella sahia ia espreitar, vêl-a subir a rua, e +fechando a vidraça com um risinho rancoroso: + +--Diverte-te, piorrinha, diverte-te, que o meu dia ha-de chegar! Oh se +ha-de! + +Luiza com effeito divertia-se. Sahia todos os dias ás duas horas. Na +rua já se dizia que «a do Engenheiro tinha agora o seu S. Miguel». + +Apenas ella dobrava a esquina o conciliabulo juntava-se logo a +cochichar. Tinham a certeza que se ia encontrar com o «peralta». Onde +seria?--era a grande curiosidade da carvoeira. + +--No hótel--murmurava o Paula.--Que nos hóteis é escandalo bravio. Ou +talvez--acrescentava com tedio--n'alguma d'essas possilgas da baixa! + +A estanqueira lamentava-a: uma senhora que era tão apropositada! + +--Vacca solta lambe-se toda, snr.^a Helena!--rosnava o Paula.--São +todas o mesmo! + +--Menos isso!--protestava a estanqueira--Que eu sempre fui uma mulher +honesta! + +E ella?--reclamava a carvoeira--ninguem tinha que lhe dizer! + +--Fallo da alta sociedade, das fidalgas, das que arrastam sêdas! É +uma cambada. Eu é que o sei!--E acrescentava gravemente:--No povo ha +mais moralidade. O povo é outra raça!--E com as mãos enterradas nos +bolsos, as pernas muito abertas, ficava absorto, com a cabeça baixa, +o olhar cravado no chão.--Se é!--murmurava--Se é!--Como se estivesse +positivamente achando as pedrinhas da calçada menos numerosas que as +virtudes do povo! + + +Sebastião, que tinha estado na quinta d'Almada quasi duas semanas, +ficou aterrado quando, ao voltar, a Joanna lhe deu as grandes +«novidades»: que a Luizinha agora sahia todos os dias ás duas horas, +que o primo não voltára; a Gertrudes é que lh'o dissera; não se fallava +na rua n'outra cousa... + +--Então a pobre senhora nem sequer póde ir ás lojas, aos seus +arranjos!--exclamou Sebastião.--A Gertrudes é uma desavergonhada, e +nem sei como a tia Joanna consente que ella ponha aqui os pés. Vir com +esses mexericos!... + +--Cruzes! Olha o destempero!--replicou muito escandalisada a tia +Joanna.--Oh menino, realmente... A pobre mulher disse o que ouviu na +rua! Que ella até a defende, até ella é que a defende! Até se esteve +a queixar que se falla! que se falla! Boa!--E a tia Joanna sahiu, +resmungando:--Olha o destempero, credo! + +Sebastião chamou-a, aplacou-a: + +--Mas quem falla, tia Joanna? + +--Quem?--E muito emphaticamente:--Toda a rua! Toda a rua! Toda a rua! + +Sebastião ficou aniquilado. Toda a rua! Pudera! Se ella agora se +punha a sahir todos os dias, uma senhora, que quando estava Jorge não +sahia do buraco! A visinhança que murmurára das visitas do outro, +naturalmente começava a commentar as sahidas d'ella! Estava-se a +desacreditar! E elle não podia fazer nada! Ir advertil-a? Ter outra +«scena»? Não podia. + +Procurou-a. Não lhe queria de certo tocar em nada, ia só vêl-a. Não +estava. Voltou d'ahi a dous dias. Juliana veio-lhe dizer á cancella, +com o seu sorriso amarellado: «Foi-se agora mesmo, ha um instantinho. +Ainda a apanha á Patriarchal». Emfim, um dia encontrou-a ao principio +da rua de S. Roque. Luiza pareceu muito contente em o vêr:--Porque se +tinha demorado tanto em Almada? Que deserção! + +Trazia carpinteiros, era necessario vigiar as obras. E ella? + +--Bem. Um bocado aborrecida. O Jorge diz que ainda se demora. Tenho +estado muito só. Nem Julião, nem Conselheiro, ninguem. A D. Felicidade +é que tem apparecido ás vezes de fugida. Está agora sempre mettida na +Encarnação... Isto gente devota!--E riu. + +Então aonde ia? + +A umas comprasitas, á modista depois...--E appareça agora, Sebastião, +hein? + +--Hei-d'apparecer. + +--Á noite. Estou tão só! Tenho tocado muito, é o que me vale é o piano! + +N'essa mesma tarde Sebastião recebeu uma carta de Jorge. «Tens visto a +Luiza? Estive quasi com cuidado, porque estive mais de cinco dias sem +carta d'ella. De resto está preguiçosa como uma freira; quando escreve +são quatro linhas porque está o correio a partir. Vai dizer ao correio +que espere, que diabo! Queixa-se de se aborrecer, de estar só, que +todos a abandonaram, que tem vivido como n'um deserto. Vê se lhe vaes +fazer companhia, coitada, etc.» + +No dia seguinte ao anoitecer foi a casa d'ella. Appareceu-lhe muito +vermelha, com os olhos estremunhados, de roupão branco. Tinha chegado +muito cançada de fóra, tinha-lhe dado o somno depois de jantar, +adormecera sobre a _causeuse_... Que havia de novo? E bocejava. + +Fallaram das obras d'Almada, do Conselheiro, de Julião; e ficaram +calados. Havia um constrangimento. + +Luiza então accendeu as velas no piano, mostrou-lhe a nova musica +que estudava, a _Medjé_ de Gounod; mas havia uma passagem em que se +embrulhava sempre; pediu a Sebastião que a tocasse, e junto do piano, +batendo o compasso com o pé, acompanhava baixo a melodia, a que a +execução de Sebastião dava um encanto penetrante. Quiz tentar depois, +mas enganou-se, zangou-se, atirou a musica para o lado, veio sentar-se +no sophá, dizendo: + +--Quasi nunca tóco! Estão-se-me a enferrujar os dedos!... + +Sebastião não se atrevia a perguntar pelo primo Bazilio. Luiza não lhe +pronunciou sequer o nome. E Sebastião, vendo n'aquella reserva uma +diminuição de confiança ou um resto persistente de despeito, disse que +tinha d'ir á Associação Geral d'Agricultura, e sahiu muito desconsolado. + +Cada dia que se seguiu trouxe-lhe a sua inquietação differente. Ás +vezes era a tia Joanna que lhe dizia á tarde: «A Luizinha lá sahiu hoje +outra vez! Por este calor, até póde apanhar alguma! Credo!» Outras era +o conciliabulo dos visinhos, que avistava de longe, e que de certo +«estavam a cortar na pelle da pobre senhora»! + +Parecia-lhe tudo aquillo exactamente a _aria da Calumnia_ no _Barbeiro +de Sevilha_: a calumnia ao principio leve como o fremito das azas d'um +passaro, subindo n'um crescendo aterrador até estalar como um trovão! + +Dava agora voltas para não passar na rua, diante do Paula e da +estanqueira: tinha vergonha d'elles! Encontrára o Teixeira Azevedo, que +lhe perguntára: + +--Então o Jorge quando vem? Que diabo! o rapaz fica por lá! + +E aquella observação trivial aterrou-o. + +Emfim, um dia, mais apoquentado, foi procurar Julião. Encontrou-o no +seu quarto andar, em mangas de camisa e em chinellas, enxovalhado e +esguedelhado, rodeado de papelada, com uma chocolateirinha de café ao +pé, trabalhando. O soalho negro estava cheio de pontas de cigarro; +ao canto estava embrulhada roupa suja; sobre a cama desfeita havia +livros abertos;--e um cheiro relentado sahia do desmazêlo das cousas. +A janella de peitoril dava para o saguão, d'onde vinha o cantar +estridente d'uma criada, e o ruido areado do esfregar de tachos. + +Julião, apenas elle entrou, ergueu-se, espreguiçou-se, enrolou um +cigarro, e declarou que estava a trabalhar desde as sete!... Hein? Era +bonito! Para que soubesse o snr. Sebastião! + +--De resto chegaste a proposito. Estava para mandar a tua casa... Devia +receber ahi um dinheiro e não veio. Dá cá uma libra. + +E immediatamente começou a fallar da these. A cousa sahia! + +Leu-lhe paragraphos do prologo com uma deleitação paternal, e, muito +satisfeito, na abundancia de confiança que dá a excitação do trabalho, +com grandes passadas pelo quarto: + +--Hei-de-lhes mostrar que ainda ha portuguezes em Portugal, Sebastião! +Hei-de-os deixar de bocca aberta! Tu verás! + +Sentou-se, pôz-se a numerar as folhas escriptas, assobiando. Sebastião, +então, com timidez, quasi vexado de perturbar com as suas preoccupações +domesticas aquelles interesses scientificos, disse baixo: + +--Pois eu vim-te fallar por causa lá da nossa gente... + +Mas a porta abriu-se com força, e um rapaz de barba desleixada, e olhar +um pouco doudo, entrou; era um estudante da Escóla, amigo de Julião; +e quasi immediatamente os dous recomeçaram uma discussão que tinham +travado de manhã, e que fôra interrompida ás onze horas, quando o rapaz +d'olhar doudo descêra a almoçar á Aurea. + +--Não, menino!--exclamava o estudante exaltado.--Estou na minha! A +medicina é uma meia sciencia, a physiologia é outra meia sciencia! São +sciencias conjecturaes, porque nos escapa a base, conhecer o principio +da vida! + +E cruzando os braços diante de Sebastião, bradou-lhe: + +--Que sabemos nós do principio da vida? + +Sebastião, humilhado, baixou os olhos. + +Mas Julião indignava-se: + +--Estás desmoralisado pela doutrina vitalista, miseravel! Trovejou +contra o Vitalismo, que declarou «contrario ao espirito scientifico». +Uma theoria que pretende que as leis que governam os corpos brutos +não são as mesmas que governam os corpos vivos--é uma heresia +grotesca!--exclamava.--E Bichat que a proclama é uma besta! + +O estudante, fóra de si, bradou--que chamar a Bichat uma besta era +simplesmente d'um alarve. + +Mas Julião desprezou a injuria, e continuou, exaltado nas suas idéas: + +--Que nos importa a nós o principio da vida? Importa-me tanto como +a primeira camisa que vesti! O principio da vida é como outro +qualquer principio: um segredo! Havemos d'ignoral-o eternamente! +Não podemos saber nenhum principio. A vida, a morte, as origens, os +fins, mysterios! São causas primarias com que não temos nada a fazer, +nada! Podemos batalhar seculos, que não avançamos uma pollegada. O +physiologista, o chimico, não tem nada com os principios das cousas; +o que lhes importa são os phenomenos! Ora os phenomenos e as suas +causas immediatas, meu caro amigo, podem ser determinadas com tanto +rigor nos corpos brutos, como nos corpos vivos--n'uma pedra, como n'um +desembargador! E a physiologia e a medicina são sciencias tão exactas +como a chimica! Isto já vem de Descartes! + +Travaram então um berreiro sobre Descartes. E immediatamente, sem que +Sebastião attonito tivesse descoberto a transição, encarniçaram-se +sobre a idéa de Deus. + +O estudante parecia necessitar Deus para explicar o universo. Mas +Julião atacava Deus com cólera: chamava-lhe «uma hypothese safada», +«uma velha caturrice do partido miguelista»! E começaram a assaltar-se +sobre a questão social, como dous gallos inimigos. + +O estudante, com os olhos esgazeados, sustentava, dando punhadas sobre +a mesa, o principio da authoridade! Julião berrava pela «anarchia +individual»! E depois de citarem com furia Proudhon, Bastiat, Jouffroy +romperam em personalidades. Julião, que dominava pela estridencia da +voz, censurou violentamente ao estudante--as suas inscripções a seis +por cento, o ridiculo de ser filho d'um corretor de fundos, e o bife de +proprietario que vinha de comer na Aurea! + +Olharam-se, então, com rancor. + +Mas d'ahi a momentos o estudante deixou cahir com desdem algumas +palavras sobre Claude Bernard, e a questão recomeçou, furiosa. + +Sebastião tomou o chapéo. + +--Adeus--disse baixo. + +--Adeus, Sebastião, adeus--disse promptamente Julião. + +Acompanhou-o ao patamar. + +--E quando quizeres que eu falle a meu primo...--murmurou Sebastião. + +--Pois sim, veremos, eu pensarei--disse Julião com indifferença, como +se o orgulho do trabalho lhe tivesse dissipado o terror da injustiça. + +Sebastião foi descendo as escadas, pensando: Não se lhe póde fallar em +nada, agora! + +De repente veio-lhe uma idéa: se fosse ter com D. Felicidade, abrir-se +com ella! D. Felicidade era espalhafatona, um pouco tonta, mas era +uma mulher d'idade, intima de Luiza; tinha mais authoridade, mais +habilidade mesmo... + +Decidiu-se logo, tomou um trem, foi á rua de S. Bento. + +A criada de D. Felicidade appareceu-lhe, desolada, e lacrimosa: + +--Pois não sabe? + +--Não. + +--Ai! até admira! + +--Mas o que? + +--A senhora! Uma desgraça assim! Torceu um pé na Encarnação, deu uma +quéda. Tem estado muito mal, muito mal. + +--Aqui? + +--Na Encarnação. Nem pôde sahir. Está com a snr.^a D. Anna Silveira. +Uma desgraça assim! E está n'um phrenesi! + +--Mas quando foi? + +--Antes d'hontem á noite. + +Sebastião saltou para o trem, mandou «bater» para casa de Luiza. + +A D. Felicidade, doente, na Encarnação! Mas então Luiza podia bem sahir +todos os dias! Ia vêl-a, fazer-lhe companhia, tratar d'ella!... + +A visinhança não tinha que rosnar! Ia vêr a pobre doente!... + +Eram duas horas quando a parelha estacou á porta de Luiza. Encontrou-a, +que descia a escada, vestida de preto, de luva _gris perle_, com um véo +negro. + +--Ah! suba, Sebastião, suba! Quer subir? + +Parára, nos degraus, com uma côrzinha no rosto, um pouco embaraçada. + +--Não, obrigado. Vinha dizer-lhe... Não sabe? A D. Felicidade... + +--O quê? + +--Torceu um pé. Está mal. + +--Que me diz? + +Sebastião deu os pormenores. + +--Vou já lá. + +--Deve ir. Eu não posso ir, não entram homens. Coitada! Diz que +está mal.--Acompanhou-a até á esquina da rua, offereceu-lhe mesmo +a tipoia:--E muitos recados, que tenho pena de a não vêr!... Pobre +senhora! E diz que está n'um phrenesi! + +Viu-a afastar-se para a Patriarchal, e, admirando a graça da sua +figura, esfregava as mãos satisfeito. + +Estavam justificadas, santificadas mesmo aquellas passeatas todos +os dias! Ia ser a enfermeira da pobre D. Felicidade! Era necessario +que todos soubessem, o Paula, a estanqueira, a Gertrudes, as +Azevedos, todos, de modo que quando a vissem de manhã, subir a rua, +dissessem:--Lá vai fazer companhia á doente! Santa senhora! + +O Paula estava á porta da loja--e Sebastião com uma idéa subita, +entrou. Estava-se estimando de se sentir tão fecundo em expedientes, +tão habil! + +Deitou um pouco o chapéo para a nuca, e mostrando com o guarda-sol o +painel que representava D. João VI: + +--Quanto quer vossemecê por isto, ó snr. Paula? + +O Paula ficou surprehendido: + +--O snr. Sebastião está a brincar? + +Sebastião exclamou: + +--A brincar?--Fallava muito sério! queria uns quadros para a sala +d'entrada, em Almada: mas velhos, sem caixilho, para dizerem bem sobre +um papel escuro.--Como isto! Estou a brincar! Ora essa, homem! + +--Desculpe, snr. Sebastião... Pois n'esse caso ha por ahi alguns +paineis a calhar. + +--Este D. João VI agrada-me. Quanto custa isto? + +O Paula disse, sem hesitar: + +--Sete mil e duzentos. Mas é obra de mestre. + +Era uma téla desbotada de tom defumado, onde uns restos de face +avermelhada, com uma cabelleira em cachos, sobresahiam vagamente sobre +um fundo sombrio. Um vermelhão baço indicava o velludo de uma casaca +de côrte: a pança saliente e ostentosa enchia um collete esverdeado. E +a parte mais conservada da téla era, ao lado sobre um coxim, a corôa +real--que o artista trabalhára com uma minuciosidade enthusiasta, ou +por preoccupação d'idiota, ou por adulação de cortezão. + +Sebastião achava caro; mas o Paula mostrou-lhe o preço escripto por +traz, n'uma tirinha de papel; espanejou a téla com amor; indicou as +bellezas, fallou na sua honestidade; deprimiu outros vendedores de +moveis, «que tinham a consciencia nas palmilhas»; jurou que o retrato +pertencera ao paço de Queluz, e ia atacar as questões publicas--quando +Sebastião disse resumindo: + +--Bem, pois mande-m'o logo, fico com elle. E mande a conta. + +--Leva uma rica obra! + +Sebastião agora olhava em redor. Queria fallar do «pé torcido de D. +Felicidade», e procurava uma transição. Examinou umas jarras da India, +um tremó; e avistando uma poltrona de doente: + +--Aquillo é que era bom para a D. Felicidade!--exclamou logo--aquella +cadeira! Boa cadeira! + +O Paula arregalou os olhos. + +--Para a D. Felicidade Noronha--repetiu Sebastião.--Para estar +deitada... Pois não sabia, homem? Partiu um pé, tem estado muito mal. + +--A D. Felicidade, a amiga _de cá_?--e indicou com o pollegar a casa do +Engenheiro. + +--Sim, homem! Quebrou um pé na Encarnação. Até lá ficou. A D. Luiza vai +para lá fazer-lhe companhia todos os dias. Agora ia ella para lá... + +--Ah!--fez o Paula lentamente. E depois de uma pausa:--Mas eu ainda a +vi entrar _para cá_ ha-de haver oito dias. + +--Foi antes d'hontem.--Tossiu e acrescentou, voltando o rosto, olhando +muito umas gravuras:--De resto a D. Luiza já ia todos os dias á +Encarnação, mas era para vêr a Silveira, a D. Anna Silveira, que esteve +mal. Coitada, ha tres semanas que tem passado uma vida d'enfermeira. +Não sahe da Encarnação! E agora é a D. Felicidade. Não é má massada! + +--Pois não sabia, não sabia--murmurava o Paula, com as mãos enterradas +nos bolsos. + +--Mande-me o D. João VI, hein? + +--Ás ordens, snr. Sebastião. + +Sebastião foi para casa. Subiu á sala; e atirando o chapéo +para o sophá: Bem, pensou, agora ao menos estão salvas as +apparencias!--Passeou algum tempo com a cabeça baixa; sentia-se triste; +porque o ter conseguido, por um acaso, justificar aquelles passeios +para com a visinhança, fazia-lhe parecer mais cruel a idéa de que os +não podia justificar para comsigo. Os commentarios dos visinhos iam +findar por algum tempo, mas _os seus_?... Queria achal-os falsos, +pueris, injustos: e, contra sua vontade, o seu bom senso e a sua +rectidão estavam sempre a revolvel-os baixo. Emfim, tinha feito o que +devia! E com um gesto triste, fallando só, no silencio da sala: + +--O resto é com a sua consciencia! + +N'essa tarde, na rua, sabia-se já que a D. Felicidade de Noronha +torcera um pé na Encarnação, (outros diziam quebrára uma perna), e +que a D. Luiza não lhe sahia da cabeceira... O Paula declarára com +authoridade: + +--É de boa rapariga, é de muito boa rapariga! + +A Gertrudes do doutor foi logo, á noitinha, perguntar á tia Joanna, +«se era verdade da perna quebrada». A tia Joanna corrigiu: era o pé, +torcera o pé! E a Gertrudes veio dizer ao doutor, ao chá, que a D. +Felicidade déra uma queda que ficára em pedaços.--Foi na Encarnação, +acrescentou. Diz que anda tudo lá n'uma roda viva. A Luizinha até lá +tem dormido... + +--Pieguices de beatas!--rosnou com tedio o doutor. + +Mas na rua todos a elogiavam. Mesmo, d'ahi a dias, o Teixeira Azevedo +(que apenas comprimentava Luiza), tendo-a encontrado na rua de S. +Roque, parou, e com uma cortezia profunda: + +--Desculpe vossencia. Como vai a sua doente? + +--Melhor, agradecida. + +--Pois, minha senhora, tem sido de muita caridade, ir todos os dias por +este calor á Encarnação... + +Luiza corou. + +--Coitada! Não lhe falta companhia, mas... + +--É de muita caridade, minha senhora--exclamou com emphase--Tenho-o +dito por toda a parte. É de muita caridade. Um criado de vossencia! + +E afastou-se commovido. + + +Luiza fôra logo, com effeito, vêr D. Felicidade. Tinha uma luxação +simples; e deitada nos quartos da Silveira, com o pé em compressas +d'arnica, cheia de terror de «perder a perna», passava o dia rodeada +d'amigas, chorando-se, saboreando os mexericos do Recolhimento, e +debicando petiscos. + +Apenas alguem entrava para a vêr, redobrava d'exclamações e de queixas; +vinha logo a historia miuda, incidentada, prolixa da «desgraça»: ia a +descer, a pôr o pé no degrau; escorregára; sentiu que ia a cahir; ainda +se sustentou, e pôde dizer: Ai Nossa Senhora da Saude! Ao principio a +dôr não foi grande; mas podia ter morrido; tinha sido um milagre! + +Todas as senhoras concordavam «que era realmente um milagre». +Olhavam-na compungidas, e iam ao côro alternadamente prostrar-se, e +pedir aos santos especiaes o allivio da Noronha! + +A primeira visita de Luiza foi para D. Felicidade uma consolação, +«deu-lhe melhoras»; porque se ralava de estar alli de cama, sem saber +noticias d'_elle_, sem poder fallar d'_elle_! + +E nos dias seguintes, apenas ficava só no quarto com Luiza, chamava-a +logo para a cabeceira, e n'um murmurio mysterioso: Tinha-o visto? +Sabia d'_elle_?--A sua afflicção era que o Conselheiro não soubesse +que ella estava doente, e não lhe podesse dar aquelles pensamentos +compassivos--a que o seu pé tinha direito, e que seriam um conforto +para o seu coração! Mas Luiza não _o_ vira--e D. Felicidade, remexendo +a chásada, exhalava suspiros agudos. + +Ás duas horas Luiza sahia da Encarnação--e ia tomar um trem ao Rocio: +para não parar á porta do _Paraiso_ com espalhafato de tipoia, +apeava-se ao largo de Santa Barbara; e fazendo-se pequenina, cosida com +a sombra das casas, apressava-se com os olhos baixos, e um vago sorriso +de prazer. + +Bazilio esperava-a deitado na cama, em mangas de camisa: para não se +enfastiar, só, tinha trazido para o _Paraiso_ uma garrafa de cognac, +assucar, limões--e com a porta entreaberta fumava, fazendo _grogs_ +frios. O tempo arrastava-se, via a todo o momento as horas, e sem +querer ia escutando, notando todos os ruidos intimos da familia da +proprietaria que vivia nos quartos interiores: a rabuje d'uma criança, +uma voz acatarrhoada que ralhava, e de repente uma cadellinha que +começava a ladrar furiosa. Bazilio achava aquillo burguez e reles, +impacientava-se. Mas um _frou-frou_ de vestido roçava a escada--e os +tedios d'elle, bem como os receios d'ella, dissipavam-se logo no calor +dos primeiros beijos. Luiza vinha sempre com pressa; queria estar +em casa ás cinco horas, «e era um estirão depois!» Entrava um pouco +suada, e Bazilio gostava da transpiraçãosinha tepida que havia nos seus +hombros nús. + +--E teu marido?--perguntava elle.--Quando vem? + +--Não falla em nada.--Ou então:--Não recebi carta, não sei nada. + +Parecia ser aquella a preoccupação de Bazilio, na alegria egoista da +posse recente. Tinha então caricias muito extaticas; ajoelhava-se aos +pés d'ella; fazia voz de criança: + +--Lili não ama Bibi... + +Ella ria, meio despida, com um riso cantado e libertino. + +--Lili adora Bibi!... É douda por Bibi! + +E queria saber se pensava n'ella, o que tinha feito na vespera. Fôra ao +Gremio, jogára uns _robbers_, viera para casa cedo, sonhára com ella... + +--Vivo para ti, meu amor, acredita! + +E deixava-lhe cahir a cabeça no regaço, como sob uma felicidade +excessiva. + +Outras vezes, mais serio, dava-lhe certos conselhos de gôsto, de +_toilette_: pedira-lhe que não trouxesse postiços no cabello, que não +usasse botinhas de elastico. + +Luiza admirava muito a sua experiencia do luxo; obedecia-lhe, +amoldava-se ás suas idéas:--até affectar, sem o sentir, um desdem pela +gente virtuosa, para imitar as suas opiniões libertinas. + +E lentamente, vendo aquella docilidade, Bazilio não se dava ao +incommodo de se constranger; usava d'ella, _como se a pagasse_! +Acontecera uma manhã escrever-lhe duas palavras a lapis que «não podia +ir ao _Paraiso_», sem outras explicações! Uma occasião mesmo não foi, +sem a avisar--e Luiza achou a porta fechada. Bateu timidamente, olhou +pela fechadura, esperou palpitante--e voltou muito desconsolada, +quebrada do calor, com a poeirada nos olhos, e vontade de chorar. + +Não aceitava o menor incommodo, nem para lhe causar um contentamento. +Luiza tinha-lhe pedido que fosse de vez em quando aos domingos a sua +casa, passar a noite: viria Sebastião, o Conselheiro, D. Felicidade +quando estivesse melhor: era uma alegria para ella, e depois dava ás +suas relações um ar mais parente, mais legitimo. + +Mas Bazilio pulou: + +--O quê! ir cabecear de somno com quatro caturras... Ah! não!... + +--Mas conversa-se, faz-se musica... + +--_Merci!_ Conheço-a, a musica das _soirées_ de Lisboa! A valsa do +_Beijo_ e o _Trovador_. Safa! + +Depois duas ou tres vezes fallára de Jorge com desdem. Aquillo +offendera-a. + +Ultimamente mesmo, quando ella entrava no _Paraiso_, já não tinha a +delicadeza amorosa de se levantar alvoroçado: sentava-se apenas na +cama, e tirando preguiçosamente o charuto da bocca: + +--Ora viva a minha flôr!--dizia. + +E um ar de superioridade quando lhe fallava! Um modo de encolher os +hombros, de exclamar:--Tu não percebes nada d'isso! Chegava a ter +palavras cruas, gestos brutaes. E Luiza começou a desconfiar que +Bazilio não a estimava,--apenas a desejava! + +Ao principio chorou. Resolveu explicar-se com elle, romper se fosse +necessario. Mas adiou, não se atrevia: a figura de Bazilio, a sua voz, +o seu olhar dominavam-na; e accendendo-lhe a paixão tiravam-lhe a +coragem de a perturbar com queixas. Porque estava convencida então que +o adorava: o que lhe dava tanta exaltação no _desejo_, se não era a +grandeza do _sentimento_?... Gozava tanto, é porque o amava muito!... +E a sua honestidade natural, os seus pudores refugiavam-se n'este +raciocinio subtil. + +Elle tinha ás vezes uma seccura aspera de maneiras, era verdade; certos +tons de indifferença, era certo... Mas n'outros momentos, quantas +denguices, que tremuras na voz, que phrenesi nas caricias!... Amava-a +tambem, não havia duvida. Aquella certeza era a sua justificação. E +como era o Amor que os produzia, não se envergonhava dos alvoroços +voluptuosos com que ia todas as manhãs ao _Paraiso_! + +Duas ou tres vezes, ao voltar, tinha encontrado Juliana que subia +tambem apressada o Moinho de Vento. + +--D'onde vinha vossê?--perguntára-lhe em casa. + +--Do medico, minha senhora, fui ao medico. + +Queixava-se de pontadas, palpitações, faltas d'ar. + +--Flatos! flatos! + + +Com effeito, Juliana agora fazia todos os arranjos pela manhã; depois +apenas Luiza, pela uma hora, dobrava a esquina, ia-se vestir, e muito +espartilhada no seu vestido de merino, de chapéo e sombrinha, vinha +dizer a Joanna: + +--Até logo, vou ao medico. + +--Até logo, snr.^a Juliana--dizia a cozinheira radiante. + +E ia logo fazer signal ao carpinteiro. + +Juliana descia por S. Pedro de Alcantara, e tomando para o largo do +Carmo ia á ruasita, defronte do quartel. Alli morava n'um terceiro +andar a sua intima amiga, a tia Victoria. + +Era uma velha que fôra inculcadeira. Ainda tinha mesmo na cancella, +n'uma placa de metal, com letras negras: «Victoria Soares, +inculcadeira.» Mas nos ultimos annos a sua industria tornou-se mais +complicada, muito tortuosa. + +Exercia-a n'uma saleta esteirada, com mosquiteiros de papel pendentes +do tecto encardido, alumiada por duas tristes janellas de peito. Um +vasto sophá occupava quasi a parede do fundo: fôra de certo de reps +verde, mas o estofo coçado, comido, remendado, tinha agora, sob largas +nodoas, uma vaga côr parda; as molas partidas, rangiam com estalidos +melancolicos; a um dos cantos, n'uma cova que o uso cavára, dormia todo +o dia um gato; e um dos lados da madeira queimada revelava que fôra +salvo d'um incendio. Sobre o sophá pendia a lithographia do senhor D. +Pedro IV. Entre as duas janellas havia uma commoda alta; e em cima, +entre um Santo Antonio e um cofre feito de buzios, um macaquinho +empalhado, com olhos de vidro, equilibrava-se sobre um galho d'arvore. +Ao entrar via-se logo, junto da janella fronteira á porta, a uma mesa +coberta de oleado, um dorso magro e curvado, e um barretinho de sêda +com uma borla arrebitada. Era o snr. Gouvêa, o escripturario! + +O ar abafado tinha um cheiro complexo, indefinido--em que se sentia +a cavalhariça, a graxa e o refogado. Havia sempre gente: grossas +matronas de capote e lenço, face gordalhufa e buço; cocheiros com +o cabello acamado, muito lustroso de oleo, e blusa de riscadinho: +pesados gallegos côr de greda, de passadas retumbantes e fórmas lôrpas: +criadinhas de dentro, amarelladas, de olheiras, sombrinha de cabo +d'osso, e as luvas de pellica com passagens nas pontas dos dedos. + +Defronte da sala abria-se um quarto que deitava para o saguão,--por +cuja portinha verde se viam ás vezes desapparecer dorsos respeitaveis +de proprietarios, ou caudas espalhafatosas de vestidos suspeitos. + +Em certas occasiões, aos sabbados, juntavam-se cinco, seis pessoas: +velhas fallavam baixo, com gestos mysteriosos: uma altercação mal +abafada roncava no patamar: rapariguitas de repente desatavam a +chorar; e, impassivel, o snr. Gouvêa escrevinhava os seus registos, +arremessando para o lado jactos melancolicos de saliva. + +A tia Victoria, no entanto, com a sua touca de renda negra, um vestido +rôxo,--ia, vinha, cochichava, gesticulava, fazia tilintar dinheiro, +tirando a cada momento da algibeira rebuçados de avenca para o catarrho. + +A tia Victoria era uma grande utilidade, tornára-se um centro! A +criadagem reles, mesmo a criadagem fina, tinha alli para tudo o +seu _despacho_. Emprestava dinheiro aos desempregados; guardava +as economias dos poupados; fazia escrever pelo snr. Gouvêa as +correspondencias amorosas ou domesticas dos que não tinham ido á +escóla; vendia vestidos em segunda mão; alugava casacas; aconselhava +collocações, recebia confidencias, dirigia intrigas, entendia de +partos. Nenhum criado era inculcado por ella; mas, arranjados ou +despedidos, nunca deixavam de subir, descer as escadas da tia Victoria. +Tinha além d'isso muitas relações, infinitas condescendencias: +celibatarios maduros iam entender-se com ella, para o confortosinho +d'uma sopeira gordita e nova: era ella quem inculcava as serventes ás +mulheres policiadas; sabia de certos agiotas discretos. E dizia-se: a +tia Victoria tem mais manhas que cabellos! + +Mas, ultimamente, apesar dos seus «afazeres», apenas Juliana +entrava--levava-a para o quarto nas trazeiras, fechava a porta, e +«havia para meia hora»! + +E Juliana sahia sempre vermelha, os olhos accesos, feliz! Voltava +depressa para casa; e mal entrava: + +--A senhora ainda não voltou, snr.^a Joanna? + +--Ainda não. + +--Está na Encarnação. Coitada! não tem má cruz, ir aturar a velha! +E depois naturalmente vai dar o seu passeio! Faz ella muito bem! +Espairecer! + +Joanna era de certo espessa e obtusa; além d'isso a paixão animal pelo +rapazola emparvecia-a. Todavia, percebera que a snr.^a Juliana andava +«muito derretida pela senhora»: disse-lh'o mesmo um dia: + +--Vossemecê agora, snr.^a Juliana, parece mais na bola da senhora! + +--Na bola? + +--Sim, quero dizer, mais aquella, mais... + +--Mais apegada á senhora? + +--Mais apegada. + +--Sempre o estive. Mas então! ás vezes a gente tem os seus repentes... +Que olhe, snr.^a Joanna, não se acha melhor que aqui. Senhora de muito +bom genio, nada de exquisitices, nenhumas prisões... Ai, é dar louvores +ao céo de estarmos n'este descanço. + +--E é! + +A casa com effeito tinha um aspecto jovial de felicidade tranquilla: +Luiza sahia todos os dias e achava tudo bom; nunca se impacientava; +a sua antipathia por Juliana parecia dissipada, considerava-a uma +pobre de Christo! Juliana tomava os seus caldinhos, dava os seus +passeios, ruminava. Joanna, muito livre, muito só em casa, regalava-se +com o carpinteiro. Não vinham visitas. D. Felicidade, na Encarnação, +inundava-se d'arnica. Sebastião fôra para Almada vigiar as obras. O +Conselheiro partira para Cintra, «dar umas ferias ao espirito, tinha +elle dito a Luiza, e deliciar-se nas maravilhas d'aquelle Eden». O snr. +Julião, «o doutor», como dizia a Joanna, trabalhava a sua these. As +horas eram muito regulares, havia sempre um silencio pacato. Juliana, +um dia, na cozinha, impressionada por aquelle recolhimento satisfeito +de toda a casa, exclamou para Joanna: + +--Não se póde estar melhor! A barca vai n'um mar de rosas! + +E acrescentou, com uma risadinha: + +--E eu ao leme! + + + + +VII + + +Por esse tempo, uma manhã que Luiza ia para o _Paraiso_, viu de repente +sahir d'um portal, um pouco adiante do largo de Santa Barbara, a figura +azafamada d'Ernestinho. + +--Por aqui, prima Luiza!--exclamou elle logo muito surprehendido.--Por +estes bairros! Que faz por aqui? Grande milagre! + +Vinha vermelho, trazia as bandas do casaco d'alpaca todas deitadas para +traz, e agitava com excitação um rolo grosso de papeis. + +Luiza ficou um pouco embaraçada; disse que viera fazer uma visita a uma +amiga.--Oh! elle não conhecia, tinha chegado do Porto... + +--Ah, bem! bem! E que é feito, como tem passado? Quando vem o +Jorge?--Desculpou-se logo de a não ter ido vêr; mas é que não tinha uma +migalha livre! De manhã a alfandega, á noite os ensaios... + +--Então sempre vai?--perguntou Luiza. + +--Vai. + +E enthusiasmado: + +--E como vai! Um primor! Mas que trabalhão, que trabalhão!--Agora vinha +elle de casa do actor Pinto, que fazia o papel de amante, de conde de +Monte Redondo; tinha-o ouvido dizer as palavras finaes do terceiro +acto: _Maldição, a sorte funesta esmaga-me! Pois bem, arcarei braço a +braço com a sorte. Á lucta!_ Era uma maravilha! Vinha tambem de lhe dar +parte que alterára o monologo do segundo acto. O empresario achava-o +longo... + +--Então continúa a implicar, o empresario? + +Ernestinho fez uma visagem d'hesitação. + +--Implica um bocado...--E com um rosto radioso:--Mas está delirante! +Estão todos delirantes! Hontem me dizia elle: «Lesminha»... É o nome +que me dão por pandiga. Tem graça, não é verdade? Dizia-me elle: +«Lesminha, na primeira representação cahe ahi Lisboa em peso! Vossê +enterra-os a todos!» É bom homem! E agora vou-me a casa do Bastos, o +folhetinista da _Verdade_. Não conhece? + +Luiza não se lembrava bem. + +--O Bastos, o da _Verdade_!--insistia elle. + +E vendo que Luiza parecia alheia ao nome, ao individuo: + +--Ora não conhece outra cousa!--Ia descrever-lhe as feições, citar-lhes +as obras... + +Mas Luiza, impaciente, para findar: + +--Ah! sim, lembro-me agora. Perfeitamente... Bem sei! + +--Pois é verdade, vou a casa d'elle.--Tomou um tom compenetrado:--Somos +muito amigos, é muito bom rapaz, e tem um pequerrucho lindo!...--E +apertando-lhe muito a mão:--Adeusinho, prima Luiza, que não posso +perder um momento. Quer que a vá acompanhar? + +--Não, é aqui perto. + +--Adeus, recados ao Jorge! + +Ia a afastar-se, atarefado, mas voltando-se rapidamente, correu atraz +d'ella. + +--Ah! esquecia-me dizer-lhe, sabe que lhe perdoei? + +Luiza abriu muito os olhos. + +--Á condessa, á heroina!--exclamou Ernestinho. + +--Ah! + +--Sim, o marido perdôa-lhe, obtem uma embaixada, e vão viver no +estrangeiro. É mais natural... + +--De certo!--disse vagamente Luiza. + +--E a peça acaba, dizendo o amante, o conde de Monte Redondo: _E +eu irei para a solidão morrer d'esta paixão funesta!_ É de muito +effeito!--Esteve um momento a olhal-a, e bruscamente:--Adeus, prima +Luiza, recadinhos ao Jorge! + +E abalou. + +Luiza entrou no _Paraiso_ muito contrariada. Contou o encontro a +Bazilio. Ernestinho era tão tolo! Podia mais tarde fallar n'aquillo, +citar a hora, perguntarem-lhe quem era a amiga do Porto... + +E tirando o véo, o chapéo: + +--Não, realmente é imprudente vir assim tantas vezes. Era melhor não +vir tanto. Póde-se saber... + +Bazilio encolheu os hombros, contrariado: + +--Se queres não venhas. + +Luiza olhou-o um momento, e curvando-se profundamente: + +--Obrigada! + +Ia a pôr o chapéo, mas elle veio prender-lhe as mãos, abraçou-a, +murmurando: + +--Pois tu fallas em não vir! E eu, então? Eu que estou em Lisboa por +tua causa... + +--Não, realmente dizes ás vezes cousas... tens certos modos... + +Bazilio abafou-lhe as palavras com beijos. + +--Ta, ta, ta! Nada de questões! Perdôa. Estás tão linda... + +Luiza, ao voltar para casa, veio a reflectir n'aquella «scena». +Não--pensava--já não era a primeira vez que elle mostrava um +desprendimento muito secco por ella, pela sua reputação, pela sua +saude! Queria-a alli todos os dias, egoistamente. Que as más linguas +fallassem, que as soalheiras a matassem, que lhe importava? E para +que?... Porque emfim, saltava aos olhos, elle amava-a menos... As suas +palavras, os seus beijos arrefeciam cada dia, mais e mais!... Já não +tinha aquelles arrebatamentos do desejo em que a envolvia toda n'uma +caricia palpitante, nem aquella abundancia de sensação que o fazia +cahir de joelhos com as mãos tremulas como as d'um velho!... Já se +não arremessava para ella, mal ella apparecia á porta, como sobre uma +presa estremecida!... Já não havia aquellas conversas pueris, cheias de +risos, divagadas e tontas, em que se abandonavam, se esqueciam, depois +da hora ardente e physica, quando ella ficava n'uma lassitude dôce, com +o sangue fresco, a cabeça deitada sobre os braços nús!--Agora! trocado +o ultimo beijo, accendia o charuto, como n'um restaurante ao fim do +jantar! E ia logo a um espelho pequeno que havia sobre o lavatorio dar +uma penteadella no cabello com um pentesinho d'algibeira! (O que ella +odiava o pentesinho!) Ás vezes até olhava o relogio!... E em quanto +ella se arranjava não vinha, como nos primeiros tempos, ajudal-a, +pôr-lhe o collarinho, picar-se nos seus alfinetes, rir em volta d'ella, +despedir-se com beijos apressados da nudez dos seus hombros antes que +o vestido se apertasse. Ia rufar nos vidros,--ou sentado, com um ar +macambuzio, bamboleava a perna! + +E depois positivamente não a respeitava, não a considerava... Tratava-a +por cima do hombro, como uma burguezinha, pouco educada e estreita, +que apenas conhece o seu bairro. E um modo de passear, fumando, com a +cabeça alta, fallando no «espirito de madame de tal», nas _toilettes_ +da «condessa de tal»! Como se ella fosse estupida, e os seus vestidos +fossem trapos! Ah, era seccante! E parecia, Deus me perdôe, parecia que +lhe fazia uma honra, uma grande honra em a possuir... Immediatamente +lembrava-lhe Jorge, Jorge que a amava com tanto respeito! Jorge, +para quem ella era de certo a mais linda, a mais elegante, a mais +intelligente, a mais captivante!... E já pensava um pouco que +sacrificára a sua tranquillidade tão feliz a um amor bem incerto! + +Emfim, um dia que o viu mais distrahido, mais frio, explicou-se +abertamente com elle. Direita, sentada no canapé de palhinha, fallou +com bom senso, devagar, com um ar digno e preparado: «Que percebia bem +que elle se aborrecia, que o seu grande amor tinha passado, que era por +tanto humilhante para ella verem-se n'essas condições, e que julgava +mais digno acabarem...» + +Bazilio olhava-a, surprehendido da sua solemnidade; sentia um estudo, +uma affectação n'aquellas phrases; disse muito tranquillamente, +sorrindo: + +--Trazias isso decorado! + +Luiza ergueu-se bruscamente, encarou-o, teve um movimento desdenhoso +dos labios. + +--Tu estás douda, Luiza? + +--Estou farta! Faço todos os sacrificios por ti, venho aqui todos os +dias, comprometto-me, e para que? Para te vêr muito indifferente, muito +seccado... + +--Mas, meu amor... + +Ella teve um sorriso d'escarneo. + +--_Meu amor!_ Oh! são ridiculos esses fingimentos! + +Bazilio impacientou-se. + +--Já isso cá me faltava, essa scena!--exclamou impetuosamente. E +cruzando os braços diante d'ella:--Mas que queres tu? Queres que te +ame como no theatro, em S. Carlos? Todas sois assim! Quando um pobre +diabo ama naturalmente, como todo o mundo, com o seu coração, mas +não tem gestos de tenor, aqui d'el-rei que é frio, que se aborrece, +é ingrato... Mas que queres tu? Queres que me atire de joelhos, que +declame, que revire os olhos, que faça juras, outras tolices?... + +--São tolices que tu fazias... + +--Ao principio!--respondeu elle brutalmente.--Já nos conhecemos muito +para isso, minha rica. + +E havia apenas cinco semanas! + +--Adeus!--disse Luiza. + +--Bem. Vaes zangada? + +Ella respondeu, com os olhos baixos, calçando nervosamente as luvas: + +--Não. + +Bazilio pôz-se diante da porta, e estendendo os braços: + +--Mas sê razoavel, minha querida. Uma ligação como a nossa não é o +duetto do _Fausto_. Eu amo-te; tu, creio, gostas de mim; fazemos os +sacrificios necessarios, encontramo-nos, somos felizes... Que diabo +queres tu mais? Porque te queixas? + +Ella respondeu com um sorriso ironico e triste: + +--Não me queixo. Tens razão. + +--Mas não vás zangada, então. + +--Não... + +--Palavrinha? + +--Sim... + +Bazilio tomou-lhe as mãos. + +--Dê então um beijinho em Bibi... + +Luiza beijou-o de leve na face. + +--Na boquinha, na boquinha!--E ameaçando-a com o dedo, fitando-a +muito:--Ah geniosinho! Tens bem o sangue do snr. Antonio de Brito, +nosso extremoso tio, que arrepellava as criadas pelos cabellos!--E +sacudindo-lhe o queixo:--E vens ámanhã? + +Luiza hesitou um momento: + +--Venho. + +Entrou em casa exasperada, humilhada. Eram seis horas. Juliana veio +logo dizer-lhe, muito quisilada: que a Joanna tinha sahido ás quatro +horas, não tinha voltado, o jantar estava por acabar... + +--Onde foi? + +Juliana encolheu os hombros com um sorrisinho. + +Luiza percebeu. Tinha ido a algum amante, a algum amor... Teve um gesto +de piedade desdenhosa. + +--Ha-de lucrar muito com isso. Boa tôla!--disse. + +Juliana olhou-a espantada. + +--Está bebeda!--pensou. + +--Bem, que se lhe ha-de fazer?--exclamou Luiza.--Esperarei... + +E passeando pelo quarto, excitada, revolvendo o seu despeito: + +--Que egoista, que grosseiro, que infame! E é por um homem assim que +uma mulher se perde! É estupido! + +Como elle supplicava, se fazia pequenino, humilde ao principio! O que +são os amores dos homens! Como teem a fadiga facil! + +E immediatamente lhe veio a idéa de Jorge! _Esse_ não! Vivia com +ella havia tres annos--e o seu amor era sempre o mesmo, vivo, meigo, +dedicado. Mas o _outro_! Que indigno! _Já a conhecia muito!_ Ah! estava +bem certa agora, nunca a amára, elle! Quizera-a por vaidade, por +capricho, por distracção, para ter uma mulher em Lisboa! É o que era! +Mas amor? Qual! + +E ella mesmo, por fim? Amava-o, ella? Concentrou-se, interrogou-se... +Imaginou casos, circumstancias: se elle a quizesse levar para longe, +para França, iria? Não! Se por um acaso, por uma desgraça enviuvasse, +antevia alguma felicidade casando com elle? Não! + +Mas então!... E como uma pessoa que destapa um frasco muito guardado, e +se admira vendo o perfume evaporado, ficou toda pasmada de encontrar o +seu coração vazio. O que a levára então para elle?... Nem ella sabia; +não ter nada que fazer, a curiosidade romanesca e morbida de ter um +amante, mil vaidadesinhas inflammadas, um certo desejo physico... E +sentira-a por ventura, essa felicidade, que dão os amores illegitimos, +de que tanto se falla nos romances e nas operas, que faz esquecer +tudo na vida, affrontar a morte, quasi fazel-a amar? Nunca! Todo o +prazer que sentira ao principio, que lhe parecera ser o amor--vinha +da novidade, do saborzinho delicioso de comer a maçã prohibida, das +condições do mysterio do _Paraiso_, d'outras circumstancias talvez, que +nem queria confessar a si mesma, que a faziam corar por dentro! + +Mas que sentia d'extraordinario _agora_? Bom Deus, começava a estar +menos commovida ao pé do seu amante, do que ao pé de seu marido! Um +beijo de Jorge perturbava-a mais, e viviam juntos havia tres annos! +Nunca se seccára ao pé de Jorge, nunca! E seccava-se positivamente ao +pé de Bazilio! Bazilio, no fim, o que se tornára para ella? era como +um marido pouco amado, que ia amar fóra de casa! Mas então, valia a +pena?... + +Onde estava o defeito? No amor mesmo talvez! Porque emfim, ella e +Bazilio estavam nas condições melhores para obterem uma felicidade +excepcional: eram novos, cercava-os o mysterio, excitava-os a +difficuldade... Porque era então que quasi bocejavam? É que o amor +é essencialmente perecivel, e na hora em que nasce começa a morrer. +Só os começos são bons. Ha então um delirio, um enthusiasmo, um +bocadinho do céo. Mas depois!... Seria pois necessario estar sempre a +_começar_, para poder sempre sentir?... Era o que fazia Leopoldina. E +apparecia-lhe então nitidamente a explicação d'aquella existencia de +Leopoldina, inconstante, tomando um amante, conservando-o uma semana, +abandonando-o como um limão espremido, e renovando assim constantemente +a flôr da sensação!--E, pela logica tortuosa dos amores illegitimos, o +seu primeiro amante fazia-a vagamente pensar no segundo! + +Logo no dia seguinte pôz-se a dizer comsigo que era bem longe o +_Paraiso_! Que massada, por aquelle calor, vestir-se, sahir! Mandou +saber de D. Felicidade por Juliana, e ficou em casa, de roupão branco, +preguiçosa, saboreando a sua preguiça. + +N'essa tarde recebeu uma carta de Jorge: «que ainda se demorava, mas +que a sua viuvez começava a pezar-lhe. Quando se veria emfim na sua +casinha, na sua alcovinha?...» + +Ficou muito commovida. Um sentimento de vergonha, de remorso, uma +compaixão terna por Jorge, tão bom, coitado! um indefinido desejo de o +vêr e de o beijar, a recordação de felicidades passadas perturbaram-na +até ás profundidades do seu sêr. Foi logo responder-lhe, jurando-lhe +«que tambem já estava farta de estar só, que viesse, que era estupida +semelhante separação...» E era sincera n'aquelle momento. + +Tinha fechado o enveloppe, quando Juliana lhe veio trazer «uma carta +do hotel». Bazilio mostrava-se desesperado: «...Como não vieste, vejo +que estás zangada; mas é de certo o teu orgulho, não o teu amor que te +domina: não imaginas o que senti quando vi que não vinhas hoje. Esperei +até ás cinco horas; que supplicio! Fui talvez secco, mas tu tambem +estavas implicativa. Devemos perdoar-nos ambos, ajoelharmos um diante +do outro, e esquecer todo o despeito no mesmo amor... Vem ámanhã. +Adoro-te tanto! Que outra prova queres, que esta que te dou d'abandonar +os meus interesses, as minhas relações, os meus gostos, e enterrar-me +aqui em Lisboa, etc.» + +Ficou muito nervosa, sem saber o que havia de fazer, o que havia de +querer. Aquillo era verdade. Porque estava elle em Lisboa? Por ella. +Mas se reconhecia agora,--que o não amava, ou tão pouco! E depois +era vil trahir assim Jorge, tão bom, tão amoroso, vivendo todo para +ella. Mas se Bazilio realmente estivesse tão apaixonado!... As suas +idéas redemoinhavam, como folhas d'outono, violentadas por ventos +contradictorios. Desejava estar tranquilla, «que a não perseguissem». +Para que voltára aquelle homem? Jesus! que havia de fazer? Tinha os +seus pensamentos, os seus sentimentos n'uma dolorosa trapalhada. + +E na manhã seguinte estava na mesma hesitação. Iria, não iria? O +calor fóra, a poeirada da rua faziam-lhe appetecer mais a casa! +Mas que desapontamento, o do pobre rapaz tambem! Atirou ao ar uma +moeda de cinco tostões. Era cunho, devia ir. Vestiu-se, sem vontade, +seccada,--tendo todavia um certo desejo dos refinamentos de prazer que +dão as expansões da reconciliação... + +Mas que surpreza! esperava encontral-o humilde e de joelhos, achou-o +com a testa franzida e muito aspero. + +--Luiza, parece incrivel, porque não vieste hontem? + +Na vespera, Bazilio, quando viu que ella faltava, teve um grande +despeito e um medo maior; a sua concupiscencia receou perder aquelle +lindo corpo de rapariga, e o seu orgulho escandalisou-se de vêr +libertar-se aquella escravasinha docil. Resolveu portanto, a todo o +custo, «chamal-a ao rego». Escreveu-lhe; e mostrando-se submisso para a +attrahir, decidiu ser severo para a castigar.--E acrescentou: + +--É uma criancice ridicula. Porque não vieste? + +Aquelle modo enraiveceu-a: + +--Porque não quiz. + +Mas emendou logo: + +--Não pude. + +--Ah! é essa a maneira por que respondes á minha carta, Luiza? + +--E tu, é esse o modo com que me recebes? + +Olharam-se um momento, detestando-se. + +--Bem, queres uma questão? És como as outras. + +--Que outras? + +E toda escandalisada: + +--Ah! é de mais! Adeus! + +Ia sahir. + +--Vaes-te, Luiza? + +--Vou. É melhor acabarmos por uma vez... + +Elle segurou o fecho da porta rapidamente. + +--Fallas serio, Luiza? + +--De certo. Estou farta! + +--Bem. Adeus. + +Abriu a porta para a deixar passar, curvou-se silenciosamente. + +Ella deu um passo, e Bazilio com a voz um pouco tremula: + +--Então, é para sempre? Nunca mais? + +Luiza parou, branca. Aquella triste palavra _nunca mais_ deu-lhe uma +saudade, uma commoção. Rompeu a chorar. + +As lagrimas tornavam-na sempre mais linda. Parecia tão dolorida, tão +fragil, tão desamparada!... + +Bazilio cahiu-lhe aos pés: tinha tambem os olhos humidos. + +--Se tu me deixares, morro! + +Os seus labios uniram-se n'um beijo profundo, longo, penetrante. A +excitação dos nervos deu-lhes momentaneamente a sinceridade da paixão; +e foi uma manhã deliciosa. + +Ella prendia-o nos braços nús, pallida como cêra, balbuciava: + +--Não me deixas nunca, não? + +--Juro-t'o! Nunca, meu amor! + +Mas fazia-se tarde, era necessario ir-se! E a mesma idéa de certo +acudiu-lhes--porque se olharam avidamente, e Bazilio murmurou: + +--Se podesses aqui passar a noite! + +Ella disse aterrada, quasi supplicante: + +--Oh! não me tentes, não me tentes... + +Bazilio suspirou, disse: + +--Não, é uma tolice. Vai. + +Luiza começou a arranjar-se, á pressa. E de repente, parando, com um +sorriso: + +--Sabes tu uma cousa? + +--O que, meu amor? + +--Estou a cahir com fome! Não almocei nada, estou a cahir! + +Elle ficou desolado: + +--Coitadinha, minha pobre filha! Se eu soubesse... + +--Que horas são, filho? + +Bazilio viu o relogio, disse quasi envergonhado: + +--Sete! + +--Ai, Santo Deus! + +Punha o chapéo, o véo, atrapalhadamente: + +--Que tarde! Jesus! Que tarde! + +--E ámanhã, quando? + +--Á uma. + +--Com certeza? + +--Com certeza. + +Ao outro dia foi muito pontual. Bazilio veio esperal-a ao fundo da +escada; e apenas entraram no quarto, devorando-a de beijos: + +--Que me fizeste tu? Desde hontem que estou doudo! + +Mas Luiza estava muito intrigada com um cesto que via em cima da cama. + +--Que é aquillo? + +Elle sorriu, levou-a pela mão junto da barra de ferro, e destampando o +cesto, com uma cortezia grave: + +--Provisões, festins, bacchanaes! Não dirás depois que tens fome! + +Era um _lunch_. Havia sandwichs, um _pâté de foie gras_, fruta, uma +garrafa de champagne, e, envolto em flanella, gelo. + +--É brilhante!--disse ella, com um sorriso quente, rubra de prazer. + +--Foi o que se pôde arranjar, minha querida prima! Já vê que pensei em +si! + +Pôz o cesto no chão, e vindo para ella com os braços abertos: + +--E tu pensaste em mim, meu amor? + +Os olhos d'ella responderam--e a pressão apaixonada dos seus braços. + +Ás tres horas lancharam. Foi delicioso; tinham estendido um guardanapo +sobre a cama; a louça tinha a marca do Hotel Central; aquillo parecia a +Luiza muito estroina, adoravel--e ria de sensualidade, fazendo tilintar +os pedacinhos de gelo contra o vidro do copo, cheio de _champagne_. +Sentia uma felicidade exuberante que transbordava em gritinhos, em +beijos, em toda a sorte de gestos buliçosos. Comia com gula; e eram +adoraveis os seus braços nús movendo-se por cima dos pratos. + +Nunca achára Bazilio tão bonito; o quarto mesmo parecia-lhe muito +conchegado para aquellas intimidades da paixão; quasi julgava possivel +viver alli, n'aquelle cacifro, annos, feliz com elle, n'um amor +permanente, e _lunchs_ ás tres horas... Tinham as pieguices classicas: +mettiam-se bocadinhos na bocca; ella ria com os seus dentinhos brancos; +bebiam pelo mesmo copo, devoravam-se de beijos,--e elle quiz-lhe +ensinar então a verdadeira maneira de beber _champagne_. Talvez ella +não soubesse! + +--Como é?--perguntou Luiza erguendo o copo. + +--Não é com o copo! Horror! Ninguem que se preza bebe _champagne_ por +um copo. O copo é bom para o Collares... + +Tomou um gole de _champagne_, e n'um beijo passou-o para a bocca +d'ella. Luiza riu muito, achou «divino», quiz beber mais assim. Ia-se +fazendo vermelha, o olhar luzia-lhe. + +Tinham tirado os pratos da cama; e sentada á beira do leito, os seus +pésinhos calçados n'uma meia côr de rosa pendiam, agitavam-se, em +quanto um pouco dobrada sobre si, os cotovêlos sobre o regaço, a +cabecinha de lado, tinha em toda a sua pessoa a graça languida d'uma +pomba fatigada. + +Bazilio achava-a irresistivel: quem diria que uma burguezinha podia ter +tanto _chic_, tanta _queda_? Ajoelhou-se, tomou-lhe os pésinhos entre +as mãos, beijou-lh'os; depois, dizendo muito mal das ligas «tão feias, +com fechos de metal», beijou-lhe respeitosamente os joelhos; e então +fez-lhe baixinho um pedido. Ella córou, sorriu, dizia: não! não!--E +quando sahiu do seu delirio tapou o rosto com as mãos, toda escarlate, +murmurou reprehensivamente: + +--Oh Bazilio! + +Elle torcia o bigode, muito satisfeito. Ensinára-lhe uma sensação nova: +tinha-a na mão! + +Só ás seis horas se desprendeu dos seus braços. Luiza fez-lhe jurar +que havia de pensar n'ella toda a noite:--não queria que elle sahisse; +tinha ciumes do Gremio, do ar, de tudo! E já no patamar voltava, +beijava-o, louca, repetia: + +--E ámanhã mais cedo, sim? para estarmos todo o dia. + +--Não vaes vêr a D. Felicidade? + +--Que me importa a D. Felicidade! Não me importa ninguem! Quero-te a +ti! só a ti! + +--Ao meio dia? + +--Ao meio dia! + + +Quanto lhe pezou á noite a solidão do seu quarto! Tinha uma impaciencia +que a impellia a prolongar a excitação da tarde, agitar-se. Ainda quiz +lêr, mas bem depressa arremessou o livro: as duas velas accesas sobre +o toucador pareciam-lhe lugubres; foi vêr a noite,--estava tepida e +serena. Chamou Juliana: + +--Vá pôr um chale, vamos a casa da snr.^a D. Leopoldina. + +Quando chegaram foi a Justina que veio abrir, depois d'uma grande +demora, esguedelhada, em chambre branco. Pareceu muito espantada: + +--A senhora foi p'ra o Porto! + +--P'ra o Porto! + +Sim. Demorava-se quinze dias. + +Luiza ficou muito desconsolada. Mas não queria voltar, o seu quarto +solitario aterrava-a. + +--Vamos um bocado até alli abaixo, Juliana. A noite está tão bonita! + +--Rica, minha senhora! + +Foram pela rua de S. Roque. E como guiados pelas duas linhas de pontos +de gaz, que desciam a rua do Alecrim, o seu pensamento, o seu desejo +foram logo para o _Hotel Central_. + +Estaria em casa? Pensaria n'ella? Se podesse ir surprehendel-o de +repente, atirar-se-lhe aos braços, vêr as suas malas... Aquella idéa +fazia-a arfar. Entraram na praça de Camões. Gente passeava devagar; sob +a sombra mais escura que faziam as arvores cochichava-se pelos bancos; +bebia-se agua fresca; claridades cruas de vidraças, de portas de lojas +destacavam em redor no tom escuro da noite: e no rumor lento das ruas +em redor, sobresahiam as vozes agudas dos vendedores de jornaes. + +Então um sujeito com um chapéo de palha passou tão rente d'ella, tão +intencionalmente que Luiza teve medo.--Era melhor voltarem--disse. + +Mas ao meio da rua de S. Roque o chapéo de palha reappareceu, roçou +quasi o hombro de Luiza; dous olhos repolhudos dardejaram sobre ella. + +Luiza ia desesperada: o tic-tac das suas botinas batia vivamente a lage +do passeio; de repente, ao pé de S. Pedro d'Alcantara, de sob o chapéo +de palha sahiu uma voz adocicada e brazileira, dizendo-lhe junto ao +pescoço: + +--Aonde mora, ó menina? + +Agarrou aterrada o braço de Juliana. + +A voz repetiu: + +--Não se agaste, menina, aonde mora? + +--Seu malcriado!--rugiu Juliana. + +O chapéo de palha immediatamente desappareceu entre as arvores. + +Chegaram a casa a arquejar. Luiza tinha vontade de chorar; deixou-se +cahir na _causeuse_, esfalfada, infeliz. Que imprudencia, pôr-se +a passear pelas ruas de noite, com uma criada! Estava douda, +desconhecia-se. Que dia aquelle! E recordava-o desde pela manhã: o +_lunch_, o _champagne_ bebido pelos beijos de Bazilio, os seus delirios +libertinos, que vergonha! e ir a casa de Leopoldina, de noite, e ser +tomada na rua por uma mulher do Bairro Alto!... De repente lembrou-lhe +Jorge no Alemtejo trabalhando por ella, pensando n'ella... Escondeu o +rosto entre as mãos, detestou-se, os seus olhos humedeceram-se. + + +Mas na manhã seguinte acordou muito alegre. Sentia, sim, uma vaga +vergonha de todas as suas «tolices» da vespera, e como a sensação +indefinida, palpite ou presentimento, de que não devia ir ao _Paraiso_. +O seu desejo, porém, que a impellia para lá vivamente, forneceu-lhe +logo razões: era desapontar Bazilio, a não ir hoje não devia voltar, e +então romper... Além d'isso a manhã muito linda attrahia para a rua: +chovera de noite, o calor cedera; havia nos tons da luz e do azul uma +frescura lavada e dôce. + +E ás onze e meia descia o Moinho de Vento, quando viu a figura digna do +conselheiro Accacio que subia da rua da Rosa, devagar, com o guarda-sol +fechado, a cabeça alta. + +Apenas a avistou apressou-se, curvou-se profundamente: + +--Que encontro verdadeiramente feliz!... + +--Como está, Conselheiro? Ditosos olhos que o vêem! + +--E v. exc.^a, minha senhora? Vejo-a com excellente aspecto! + +Passou-lhe á esquerda com um movimento solemne, pôz-se a caminhar ao +lado d'ella. + +--Permitte-me de certo que a acompanhe na sua excursão? + +--De certo, com o maior prazer. Mas que tem feito? Tenho muito que lhe +ralhar... + +--Estive em Cintra, minha querida senhora.--E parando:--Não sabia? O +_Diario de Noticias_ especificou-o! + +--Mas depois de vir de Cintra? + +Elle acudiu: + +--Ah! tenho estado occupadissimo! Occupadissimo! Inteiramente absorvido +na compilação de certos documentos que me eram indispensaveis para o +meu livro...--E depois d'uma pausa:--Cujo nome não ignora, creio. + +Luiza não se recordava inteiramente. O Conselheiro então expôz o +titulo, os fins, alguns nomes de capitulos, a utilidade da obra: era +a DESCRIPÇÃO PITORESCA DAS PRINCIPAES CIDADES DE PORTUGAL E SEUS MAIS +FAMOSOS ESTABELECIMENTOS. + +--É um guia, mas um guia scientifico. Illustrarei com um exemplo: V. +exc.^a quer ir a Bragança: sem o meu livro é muito natural (direi, é +certo) que volta sem ter gozado das curiosidades locaes; com o meu +livro percorre os edificios mais notaveis, recolhe um fundo muito +solido d'instrucção, e tem ao mesmo tempo o prazer. + +Luiza mal o escutava, sorrindo vagamente sob o seu véo branco. + +--Está hoje muito agradavel!--disse ella. + +--Agradabilissimo! Um dia creador! + +--Que bom fresco aqui! + +Tinham entrado em S. Pedro d'Alcantara; um ar dôce circulava entre as +arvores mais verdes; o chão compacto, sem pó, tinha ainda uma ligeira +humidade; e, apesar do sol vivo, o céo azul parecia leve e muito remoto. + +O Conselheiro então fallou do estio; tinha sido torrido! na sua sala +de jantar tinha havido 48 graus á sombra! 48 graus!--E com bonhomia, +querendo logo desculpar a sala d'aquella exageração canicular:--Mas é +que está exposta ao sul! façamos essa justiça! Está muito exposta ao +sul. Hoje porém está verdadeiramente restaurador. + +Convidou-a mesmo a dar uma volta em baixo no jardim. Luiza hesitava. +E o Conselheiro puxando o relogio, fitando-o de longe, declarou logo +que ainda não era meio dia. Estava certo pelo Arsenal, era um relogio +inglez.--Muito preferiveis aos suissos!--acrescentou com ar profundo. + +Cobardemente, por inercia, enervada pela voz pomposa do Conselheiro, +Luiza foi descendo, contrariada, as escadinhas para o jardim. De +resto--pensava--tinha tempo, tomaria um trem... + +Foram encostar-se ás grades. Através dos varões viam, descendo n'um +declive, telhados escuros, intervallos de pateos, cantos de muro com +uma ou outra magra verdura de quintal resequido; depois, no fundo do +valle, o Passeio estendia a sua massa de folhagem prolongada e oblonga, +onde a espaços branquejavam pedaços da rua areada. Do lado de lá +erguiam-se logo as fachadas inexpressivas da rua Oriental, recebendo +uma luz forte que fazia faiscar as vidraças: por traz iam-se elevando +no mesmo plano terrenos d'um verde crestado fechados por fortes muros +sombrios, a cantaria da Encarnação de um amarello triste, outras +construcções separadas, até ao alto da Graça coberta d'edificios +ecclesiasticos, com renques de janellinhas conventuaes e torres +d'igrejas, muito brancas sobre o azul: e a Penha de França, mais para +além, punha em relevo o vivo do muro caiado, d'onde sobresahia uma tira +verde-negra d'arvoredo. Á direita, sobre o monte pellado, o castello +assentava, atarracado, ignobilmente sujo: e a linha muito quebrada +de telhados, d'esquinas de casas da Mouraria e d'Alfama descia com +angulos bruscos até ás duas pesadas torres da Sé, d'um aspecto abbacial +e secular. Depois viam um pedaço do rio, batido da luz: duas velas +brancas passavam devagar: e na outra banda, á base de uma collina baixa +que o ar distante azulava, estendia-se a correnteza de casarias d'uma +povoaçãosinha d'um branco de cré luzidio. Da cidade um rumor grosso e +lento subia, onde se misturavam o rolar dos trens, o pesado rodar dos +carros de bois, a vibração metallica das carretas que levam ferraria, e +algum grito agudo de pregão. + +--Grande panorama!--disse o Conselheiro com emphase.--E encetou logo o +elogio da cidade. Era uma das mais bellas da Europa, de certo, e como +entrada, só Constantinopla! Os estrangeiros invejavam-na immenso. Fôra +outr'ora um grande emporio, e era uma pena que a canalisação fosse tão +má, e a edilidade tão negligente! + +--Isto devia estar na mão dos inglezes, minha rica senhora!--exclamou. + +Mas arrependeu-se logo d'aquella phrase impatriotica. Jurou que «era +uma maneira de dizer». Queria a independencia do seu paiz; morreria por +ella, se fosse necessario; nem inglezes nem castelhanos!... Só nós, +minha senhora!--E acrescentou com uma voz respeitosa:--E Deus! + +--Que bonito está o rio!--disse Luiza. + +Accacio affirmou-se, e murmurou em tom cavo: + +--O Tejo! + +Quiz então dar uma volta pelo jardim. Sobre os canteiros borboletas +brancas, amarellas, esvoaçavam; um gotejar d'agua fazia no tanque um +rhythmosinho de jardim burguez; um aroma de baunilha predominava; sobre +a cabeça dos bustos de marmore, que se elevam d'entre os maciços e as +moitas de dhalias, passaros pousavam. + +Luiza gostava d'aquelle jardimzinho, mas embirrava com as grades tão +altas... + +--Por causa dos suicidios!--acudiu logo o Conselheiro.--E +todavia, segundo a sua opinião, os suicidios em Lisboa diminuiam +consideravelmente; attribuia isso á maneira severa e muito louvavel +como a imprensa os condemnava... + +--Porque em Portugal, creia isto, minha senhora, a imprensa é uma força! + +--Se fossemos andando...?--lembrou Luiza. + +O Conselheiro curvou-se, mas vendo-a a ir colher uma flôr, reteve-lhe +vivamente o braço: + +--Ah, minha rica senhora, por quem é! os regulamentos são muito +explicitos! Não os infrinjamos, não os infrinjamos!--E acrescentou:--O +exemplo deve vir de cima. + +Foram subindo, e Luiza pensava:--Vai para casa, larga-me ao Loreto. + +Na rua de S. Roque espreitou o relogio d'uma confeitaria: era meia hora +depois do meio dia! Já Bazilio esperava! + +Apressou o passo, ao Loreto parou. O Conselheiro olhou-a, sorrindo, +esperando. + +--Ah! pensei que ia para casa, Conselheiro! + +--Já agora quero acompanhal-a, se v. exc.^a m'o permitte. De certo não +sou indiscreto? + +--Ora essa! De modo nenhum. + +Uma carruagem da Companhia passava, seguida d'um correio a trote. + +O Conselheiro, com um movimento ancioso, tirou profundamente o chapéo. + +--É o presidente do conselho. Não viu? Fez-me um signal de +dentro.--Começou logo o seu elogio: Era o nosso primeiro parlamentar; +vastissimo talento, uma linguagem muito castigada!--E ia de certo +fallar das cousas publicas, mas Luiza atravessou para os Martyres, +erguendo um pouco o vestido por causa d'uns restos de lama. Parou á +porta da igreja, e sorrindo: + +--Vou aqui fazer uma devoçãosinha. Não o quero fazer esperar. Adeus, +Conselheiro, appareça.--Fechou a sombrinha, estendeu-lhe a mão. + +--Ora essa, minha rica senhora! Esperarei, se vir que não se demora +muito. Esperarei, não tenho pressa.--E com respeito:--Muito louvavel +esse zelo! + +Luiza entrou na igreja desesperada. Ficou de pé debaixo do côro, +calculando:--Demoro-me aqui, elle cança-se d'esperar e vai-se! Por +cima reluziam vagamente os pingentes de crystal dos lustres. Havia +uma luz velada, igual, um pouco fôsca. E as architecturas caiadas, +a madeira muito lavada do soalho, as balaustradas lateraes de pedra +davam uma tonalidade clara e alvadia, onde destacavam os dourados da +capella, os frontaes rôxos dos pulpitos, ao fundo dous reposteiros d'um +rôxo mais escuro, e sob o docel côr de violeta os ouros do Throno. Um +silencio fresco e alto repousava. Diante do Baptisterio um rapaz de +joelhos, com um balde de zinco ao pé, esfregava o chão com uma rodilha, +discretamente: dorsos de beatas, encapotados ou cobertos de chales +tingidos, curvavam-se, aqui e além, diante d'um altar: e um velho, de +jaqueta de saragoça, prostrado no meio da igreja, rosnava rezas n'uma +molopéa lugubre; via-se a sua cabeça calva, as tachas enormes dos +sapatos, e a cada momento, dobrando-se, batia no peito com desespero. + +Luiza subiu ao altar-mór. Bazilio impacientava-se, de certo, pobre +rapaz! Perguntou então, timidamente, as horas a um sacristão que +passava. O homem ergueu a sua face côr de cidra para uma janela na +cupula, e olhando Luiza de lado: + +--Vai indo p'ra as duas. + +Para as duas! Era capaz de não esperar, Bazilio! Veio-lhe um receio +de perder a sua manhã amorosa, um desejo aspero de se achar no +_Paraiso_ nos braços d'elle! E olhava vagamente os santos, as virgens +trespassadas d'espadas, os Christos chagados,--cheia de impaciencias +voluptuosas, revendo o quarto, a caminha de ferro, o pequeno bigode de +Bazilio!... Mas demorou-se, queria «fatigar o Conselheiro, deixal-o +ir». Quando pensou que elle teria partido, sahiu devagarinho.--Viu-o +logo á porta, direito, com as mãos atraz das costas, lendo a pauta dos +jurados. + +Começou immediatamente a louvar a sua devoção. Não entrára porque não +quizera perturbar o seu recolhimento. Mas approvava-a muito! A falta de +religião era a causa de toda a immoralidade que grassava... + +--E além d'isso é de boa educação. V. exc.^a ha-de reparar que toda a +nobreza cumpre... + +Calou-se; aprumava a estatura, todo satisfeito de descer o Chiado com +aquella linda senhora, tão olhada. Mesmo, ao passar por um grupo, +curvou-se para ella mysteriosamente, disse-lhe ao ouvido, sorrindo: + +--Está um dia apreciavel! + +E offereceu-lhe bolos á porta do Baltreschi. Luiza recusou. + +--Sinto. Todavia acho muito sensata a regularidade nas comidas. + +A sua voz vinha agora a Luiza com a impertinencia d'um zumbido; apesar +de não fazer calor, abafava, picava-lhe o sangue no corpo; tinha +vontade de deitar a correr, de repente; e todavia caminhava devagar, +infeliz, como somnambula, cheia da necessidade de chorar. + +Sem razão, ao acaso, entrou no Valente. Era hora e meia! Depois +d'hesitar pediu gravatas de _foulard_ a um caixeiro louro e jovial. + +--Brancas? de côr? de riscas? com pintinhas? + +--Sim, verei, sortidas. + +Não lhe agradavam. Desdobrava-as, sacudia-as, punha-as de lado; e +olhava em roda vagamente, pallida... O caixeiro perguntou-lhe se estava +incommodada: offereceu-lhe agua, qualquer cousa... + +Não era nada; o ar é que lhe fazia bem; voltaria. Sahiu. O Conselheiro, +muito solicito, promptificou-se a acompanhal-a a uma boa pharmacia +tomar agua de flôr de laranja... Desciam então a rua Nova do Carmo, +e o Conselheiro ia affirmando que o caixeiro fôra muito polido: não +se admirava, porque no commercio havia filhos de boas familias: citou +exemplos. + +Mas vendo-a calada: + +--Ainda soffre? + +--Não, estou bem. + +--Temos dado um delicioso passeio! + +Foram ao comprido do Rocio, até ao fim. Voltaram, atravessaram-no +em diagonal. E pelo lado do Arco do Bandeira, aproximaram-se para a +rua do Ouro. Luiza olhava em redor, afflicta, procurava uma idéa, +uma occasião, um acontecimento--e o Conselheiro, grave a seu lado, +dissertava. A vista do theatro de D. Maria levára-o para as questões +da arte dramatica: tinha achado que a peça do Ernestinho era talvez +demasiado forte. De resto só gostava de comedias. Não que se não +enthusiasmasse com as bellezas d'um _Frei Luiz de Sousa_! mas a sua +saude não lhe permittia as agitações fortes. Assim por exemplo... + +Mas Luiza tivera uma idéa, e immediatamente: + +--Ah! esquecia-me! Tenho d'ir ao Vitry. Vou fazer chumbar um dente. + +O Conselheiro, interrompido, fitou-a. E Luiza, estendendo-lhe a mão, +com a voz rapida: + +--Adeus, appareça, hein?--E precipitou-se para o portal do Vitry. + +Subiu até ao primeiro andar, correndo, com os vestidos apanhados: +parou, arquejando: esperou: desceu devagar, espreitou á porta... A +figura do Conselheiro afastava-se direita, digna, para os lados das +secretarias. + +Chamou um trem. + +--A quanto puder!--exclamou. + +A carruagem entrou quasi a galope na ruasinha do _Paraiso_. Figuras +pasmadas appareceram á janella. Subiu, palpitante. A porta estava +fechada--e logo a cancella do lado abriu-se, e a voz dôce da patrôa +segredou: + +--Já sahiu. Ha-de haver meia hora. + +Desceu. Deu a sua morada ao cocheiro, e atirando-se para o fundo +do coupé, rompeu n'um chôro hysterico. Correu os _stores_ para se +esconder; arrancou o véo, rasgou uma luva, sentindo em si violencias +inesperadas, Então veio-lhe um desejo phrenetico de vêr Bazilio! Bateu +nos vidros desesperadamente, gritou: + +--Ao Hotel Central! + +Porque estava n'um d'aquelles momentos em que os temperamentos +sensiveis teem impulsos indomaveis; ha uma delicia colerica em +espedaçar os deveres e as conveniencias; e a alma procura sofregamente +o mal com estremecimentos de sensualidade! + +A parelha estacou, resvalando á porta do hotel. «O snr. Bazilio de +Brito não estava, o snr. visconde Reynaldo, sim». + +--Bem, para casa, para onde eu disse! + +O cocheiro bateu. E Luiza, sacudida por uma irritabilidade febril, +insultava o Conselheiro, o estafermo, o imbecil! maldizia a vida que +lh'os fizera conhecer, a elle e a todos os amigos da casa! vinha-lhe +uma vontade acre de mandar o casamento ao diabo, de fazer o que lhe +viesse á cabeça!... + +Á porta não tinha troco para o cocheiro. Espere!--disse, subindo +furiosa--Eu lhe mandarei pagar! + +--Que bicha!--pensou o cocheiro. + +Foi Joanna que veio abrir; e quasi recuou, vendo-a tão vermelha, tão +excitada. + +Luiza foi direita ao quarto: o _cuco_ cantava tres horas. Estava tudo +desarrumado; vasos de plantas no chão, o toucador coberto com um lençol +velho, roupa suja pelas cadeiras. E Juliana, com um lenço amarrado na +cabeça, varria tranquillamente, cantarolando. + +--Então vossê ainda não arrumou o quarto!--gritou Luiza. + +Juliana estremeceu áquella colera inesperada. + +--Estava agora, minha senhora! + +--Que estava agora vejo eu!--rompeu Luiza.--São tres horas da tarde e +ainda o quarto n'este estado! + +Tinha atirado o chapéo, a sombrinha. + +--Como a senhora costuma vir sempre mais tarde...--disse Juliana. + +E seus beiços faziam-se brancos. + +--Que lhe importa a que horas eu venho? Que tem vossê com isso? A +sua obrigação é arrumar logo que eu me levante. E não querendo, rua, +fazem-se-lhe as contas! + +Juliana fez-se escarlate e cravando em Luiza os olhos injectados: + +--Olhe, sabe que mais? não estou para a aturar! + +E arremessou violentamente a vassoura. + +--Sáia!--berrou Luiza--Sáia immediatamente! Nem mais um momento em casa! + +Juliana poz-se diante d'ella, e com palmadas convulsivas no peito, a +voz rouca: + +--Hei-de sahir se eu quizer! Se eu quizer! + +--Joanna!--bradou Luiza. + +Queria chamar a cozinheira, um homem, um policia, alguem! Mas Juliana +descomposta, com o punho no ar, toda a tremer: + +--A senhora não me faça sahir de mim! A senhora não me faça perder a +cabeça!--E com a voz estrangulada através dos dentes cerrados:--Olhe +que nem todos os papeis foram p'ra o lixo! + +Luiza recuou, gritou: + +--Que diz vossê? + +--Que as cartas que a senhora escreve aos seus amantes, tenho-as eu +aqui!--E bateu na algibeira, ferozmente. + +Luiza fitou-a um momento com os olhos desvairados, e cahiu no chão, +junto á _causeuse_, desmaiada. + + + + +VIII + + +A primeira impressão, mal acordada, de Luiza foi que duas figuras, +que não conhecia, estavam debruçadas sobre ella. Uma, a mais forte, +afastou-se; o som frio d'um frasco de vidro, pousado sobre o marmore do +toucador, despertou-a. Sentiu então uma voz dizer abafadamente: + +--Está muito melhor. Mas deu-lhe de repente, snr.^a Juliana? + +--De repente. + +--Eu vi-a entrar tão afogueada... + +Passos subtis pisaram o tapete, a voz de Joanna perguntou-lhe junto do +rosto: + +--Está melhor, minha senhora? + +Abriu os olhos, a percepção nitida das cousas foi-lhe voltando; estava +estendida na _causeuse_, tinham-lhe desapertado o vestido, e havia no +quarto um forte cheiro de vinagre. Ergueu-se sobre o cotovêlo, devagar, +com um olhar errante, vago: + +--E a outra?... + +--A snr.^a Juliana? Foi-se deitar. Tambem se não achava bem. Foi de vêr +a senhora, coitada... Está melhorzinha? + +Sentou-se. Sentia uma fadiga em todo o corpo; tudo no quarto lhe +parecia oscillar brandamente: + +--Póde ir, Joanna, póde ir--disse. + +--A senhora não precisa mais nada? Talvez um caldinho lhe fizesse bem... + +Luiza, só, pôz-se a olhar em roda, espantada. Estava já tudo arrumado, +as janellas cerradas. Uma luva ficára cahida no chão: ergueu-se, ainda +tropega, foi apanhal-a, esteve a esticar-lhe os dedos machinalmente, +como somnambula, pôl-a na gaveta do toucador. Alisou o cabello; +achava-se mudada, com _outra_ expressão como se fosse _outra_; e o +silencio do quarto impressionava-a, como extraordinario. + +--Minha senhora--disse a voz timida de Joanna. + +--Que é? + +--É o cocheiro. + +Luiza voltou-se, sem comprehender: + +--Que cocheiro? + +--Um cocheiro; diz que a senhora que não tinha troco, que o mandou +esperar... + +--Ah! + +E como a uma luz de gaz que salta subitamente e alumia uma decoração, +viu, n'um relance, toda a «sua desgraça»! + +Ficou tão tremula que mal podia abrir a gavetinha da commoda: + +--Tinha-me esquecido, tinha-me esquecido...--balbuciava. + +Deu o dinheiro a Joanna; e vindo cahir sobre a _causeuse_: + +--Estou perdida!--murmurou, apertando as mãos na cabeça. + +Tudo descoberto! E representaram-se-lhe logo no espirito, com a +intensidade de desenhos negros sobre um muro branco, o furor de Jorge, +o espanto dos seus amigos, a indignação d'uns, o escarneo dos outros; +e estas imagens cahindo com ruido na sua alma, como combustiveis n'uma +fogueira, ateavam-lhe desesperadamente o terror. + +Que lhe restava?--Fugir com Bazilio! + +Aquella idéa, a primeira, a unica, apossou-se d'ella impetuosamente, +trespassou-a--como a agua d'uma inundação que subitamente alaga um +campo. + +Elle tinha-lhe tantas vezes jurado que seriam tão felizes em Paris, no +seu _appartamento_ da rua Saint Florentin! Pois bem, iria! Não levaria +malas, poria no seu pequeno sacco de marroquim alguma roupa branca, as +joias da mamã... E os criados? a casa? Deixaria uma carta a Sebastião +para que viesse, fechasse tudo!... Levaria na viagem o vestido de +riscadinho azul--ou o preto! Mais nada. O resto compral-o-hia longe, +n'outras cidades... + +--Se a senhora quer vir jantar...--disse Joanna á porta do quarto. + +Tinha posto um avental branco, e acrescentou: + +--A snr.^a Juliana está deitada, diz que está com a dôr, não póde +servir á mesa. + +--Já vou. + +Tomou apenas uma colhér de sopa, bebeu um grande gole d'agua; e +erguendo-se: + +--Que tem ella? + +--Diz que é uma dôr muito forte no coração. + +Se morresse! Estava salva, ella! Podia ficar, então! E com uma +esperança perversa: + +--Vá vêr, Joanna, vá vêr como está! + +Tinha ouvido de tantas pessoas que morrem de uma dôr! Iria logo ao +quarto d'ella rebuscar-lhe a arca, apossar-se da carta! E não teria +medo do silencio da morte, nem da lividez do cadaver... + +--Está mais descançada, minha senhora--veio dizer a Joanna--diz que +logo que se levanta. Então a senhora não come mais nada? Credo! + +--Não. + +E entrou para o quarto, pensando:--de que serve estar a imaginar +cousas? Só me resta fugir. + +Decidiu-se logo a escrever a Sebastião; mas não pôde acertar com outras +palavras além do começo, no alto, n'uma letra muito trémula: _Meu +amigo!_ + +Para que havia de escrever? Quando ao outro dia ella não voltasse, nem +á tarde, nem á noite--as criadas, a _outra_, a infame! iriam logo a +Sebastião. Era o intimo da casa. Que espanto o d'elle! Imaginaria algum +accidente, correria á Encarnação, depois á policia, esperaria n'uma +angustia até de madrugada! Todo o dia seguinte seriam outras esperanças +de a vêr chegar, decepções aterradas,--até que telegrapharia a Jorge! +E a essa hora de certo, ella, encolhida no canto do wagon, rolaria, ao +ruido offegante da machina, para um destino novo!... + +Mas porque se affligia, por fim? Quantas invejariam a sua desgraça! +O que havia de infeliz em abandonar a sua vida estreita entre quatro +paredes, passada a examinar roes de cozinha e a fazer _crochet_, e +partir com um homem novo e amado, ir para Paris! para Paris! viver nas +consolações do luxo, em alcovas de sêda, com um camarote na Opera!... +Era bem tola em se affligir! Quasi fôra uma felicidade aquelle +«desastre»! Sem elle nunca teria tido a coragem de se desembaraçar da +sua vida burgueza; mesmo quando um alto desejo a impellisse, haveria +sempre uma timidez maior para a reter! + +E depois, fugindo, o seu amor tornava-se digno! Seria só d'um homem; +não teria de amar em casa e amar fóra de casa! + +Veio-lhe mesmo a idéa de ir ter immediatamente com Bazilio, «acabar com +aquillo por uma vez». Mas era tarde para ir ao hotel; temia as ruas +escuras, a noite, e os bebedos... + +Foi logo arranjar o sacco de marroquim. Metteu lenços, alguma roupa +branca, o estojo das unhas, o rosario que lhe dera Bazilio, pós +d'arroz, algumas joias que tinham pertencido á mamã... Quiz levar as +cartas de Bazilio tambem... Tinha-as guardadas n'um cofre de sandalo, +no gavetão do guarda-vestidos. Espalhou-as no regaço; abriu uma, d'onde +cahiu uma florzinha sêcca; outra que tinha, na dobra, a photographia +de Bazilio. De repente, pareceu-lhe que não estavam completas! Tinha +_sete_: _cinco_ bilhetes curtos, e _duas_ cartas--a primeira que elle +lhe escrevêra, tão terna! e a ultima no dia do arrufo! Contou-as... +Faltava, com effeito, a _primeira_, e _dous_ bilhetes! Tinha-lh'as +roubado, tambem!... Ergueu-se livida. Ah que infame! veio-lhe uma raiva +de subir ao sotão, luctar com ella, arrancar-lh'as, esganal-a!... +Que lhe importava, por fim!--E deixou-se cahir na _causeuse_, +aniquilada--Que ella tivesse uma, duas, todas--era a mesma desgraça! + +E muito excitada, foi preparar o vestido preto que devia levar, o +chapéo, um chale-manta... + +O _cuco_ cantou dez horas. Entrou então na alcova; pôz o castiçal +sobre a mesinha, ficou a olhar o largo leito com o seu cortinado de +fustão branco. Era a ultima vez que alli dormia! Fôra ella que bordára +aquella coberta de _crochet_ no primeiro anno de casada: não havia uma +malha que não correspondesse a uma alegria. Jorge ás vezes vinha vêl-a +trabalhar, e, calado, considerava-a com um sorriso, ou fallava-lhe +baixo enrolando devagar nos dedos o fio de algodão grosso! Alli dormira +com elle tres annos: o seu lugar era de lá, do lado da parede... Fôra +n'aquella cama que ella estivera doente, com a pneumonia. Durante +semanas elle não se deitára--a velal-a, a conchegar-lhe a roupa, a +dar-lhe os caldos, os remedios, com toda a sorte de palavras dôces +que lhe faziam tão bem!... Fallava-lhe como a criancinha pequena: +dizia-lhe: «isso vai passar, ámanhã estás boa, vamos passear». Mas o +seu olhar ancioso estava marejado de lagrimas! Ou então pedia-lhe: +«Melhora, sim? Faze-me a vontade, minha querida, melhora!...» E ella +queria tanto melhorar, que sentia como uma ligeira onda de vida que +voltava, lhe refrescava o sangue! + +Nos primeiros dias da convalescença era elle que a vestia; ajoelhava-se +para lhe calçar os sapatos, embrulhava-a no roupão, vinha estendel-a na +_causeuse_, sentava-se ao pé d'ella a lêr-lhe romances, desenhar-lhe +paizagens, recortar-lhe soldados de papel. E dependia toda d'elle, +não tinha mais ninguem no mundo para a tratar, para soffrer, chorar +por ella--senão elle! Adormecia sempre com as mãos nas suas, porque +a doença deixára-lhe um vago medo dos pesadêlos da febre; e o pobre +Jorge, para a não acordar, alli ficava com a mão presa, horas, sem se +mover. Deitava-se vestido n'um colxãosito ao pé d'ella. Muitas vezes, +acordando de noite, o tinha visto a limpar as lagrimas; d'alegria, de +certo, porque ella então estava salva! o medico, o bom dr. Caminha, +tinha-o dito: «Está livre de perigo, agora é refazer esse corpinho». E +Jorge, o pobre Jorge, coitado, sem dizer nada, tinha tomado as mãos do +velho,--tinha-as coberto de beijos! + +E agora, quando elle soubesse, quando elle voltasse! Quando ao entrar +alli na alcova--visse os dous travesseirinhos, ainda! Ella iria longe, +com outro, por caminhos estranhos, ouvindo outra lingua. Que horror! E +elle alli estaria, n'aquella casa só, chorando, abraçado a Sebastião. +Quantas memorias d'ella para o torturar! Os seus vestidos, as suas +chinellinhas, os seus pentes, toda a casa! Que vida triste, a d'elle! +Dormiria alli _só_! Já não teria ninguem para o acordar de manhã com um +beijinho, passar-lhe o braço pelo pescoço, dizer-lhe: _é tarde, Jorge!_ +Tudo acabára para ambos. Nunca mais!--Rompeu a chorar, de bruços sobre +a cama... + +Mas a voz de Juliana fallou alto no corredor com Joanna. Ergueu-se +aterrada. Viria ter com ella, aquella infame? Os passos achinellados +afastaram-se devagar, e Joanna entrou com o rol e com a lamparina. + +--A snr.^a Juliana--disse--levantou-se um momento, mas diz que ainda +está mal, coitada. Foi-se deitar. A senhora não precisa mais nada? + +--Não--disse da alcova. + +Despiu-se; e, prostrada, adormeceu profundamente. + + +Juliana em cima não dormia. A dôr passára-lhe--e agitava-se sobre o +enxergão, «com o diabo da espertina»! como tantas outras noites, nas +ultimas semanas. Porque desde que apanhára a carta no _sarcophago_ +vivia n'uma febre; mas a alegria era tão aguda, a esperança tão larga +que a sustentavam, lhe davam saude! Deus emfim tinha-se lembrado +d'ella! Desde que Bazilio começára a vir a casa, tivera logo um +palpite, uma cousa que lhe dizia que tinha chegado emfim a sua vez! +A primeira satisfação fôra n'aquella noite em que achára, depois +de Bazilio sahir ás dez horas, a travéssinha de Luiza cahida ao pé +do sophá. Mas que explosão de felicidade, quando, depois de tanta +espionagem, de tanta canceira, apanhou emfim a carta no _sarcophago_! +Correu ao sotão, leu-a avidamente, e quando viu a importancia da +«cousa» arrasaram-se-lhe os olhos de lagrimas, arremessou a sua alma +perversa para as alturas, bradando em si, n'um triumpho: + +--Bemdito seja Deus! Bemdito seja Deus! + +E que havia de fazer _áquillo_?--foi então a sua inquietação. Ora +pensava em a vender a Luiza por uma forte somma... mas onde tinha ella +o dinheiro? Não; o melhor era esperar a volta de Jorge, e com ameaças +de a publicar, extorquir-lhe _um rôr_ de libras por meio d'outra +pessoa, já se vê, e ella á capa! E em certos dias em que a figura, as +_toilettes_, as passeatas de Luiza a irritavam mais, vinham-lhe venetas +de sahir p'ra a rua, chamar os visinhos, lêr o papel, pôl-a mais rasa +que a lama, vingar-se da «cabra»! + +Foi a tia Victoria que a calmou, e a dirigiu. Disse-lhe logo «que para +a armadilha ser completa era necessario uma carta do janota». Começára +então o lento trabalho de lh'a apanhar! Fôra preciso muita finura, +muita chave experimentada, duas feitas por moldes de cêra, paciencia +de gato, habilidades de ratoneiro! Mas pilhou-a, e que carta! Tinha-a +lido com a tia Victoria--que rira, rira!... Sobre tudo o bilhete em +que Bazilio lhe dizia: «Hoje não posso ir, mas espero-te ámanhã ás +duas; mando-te essa rosinha, e peço-te que faças o que fizeste á outra, +trazel-a no seio, porque é tão bom quando vens assim, sentir-te o +peitinho perfumado!...» A tia Victoria, suffocada, quil-a mostrar á sua +velha amiga, a Pêdra, a Pêdra gorda, que estava na saleta. + +A Pêdra torceu-se! Os seus enormes seios, pendentes como odres mal +cheios, tinham sacudidellas furiosas de hilaridade. E com as mãos nas +ilhargas, rubra, roncando, com o seu vozeirão de trombone: + +--Essa é das boas, tia Victoria! Essa é de mestre. Não, isso merece ir +para os papeis! Ai os bebedos! Raios do diabo! + +A tia Victoria, então, disse muito seriamente a Juliana: + +--Bem; agora tens a faca e o queijo! Com isso já pódes fallar d'alto. +É esperar a occasião. Muito bons modos, cara prazenteira, sorrisos a +fartar para ella não desconfiar, e o olho álerta. Tens o rato seguro, +deixa-o dar ao rabo! + +E desde esse dia Juliana saboreava com delicias, com gula, muito +comsigo--aquelle gozo de a ter «na mão», a Luizinha, a senhora, a +patroa, a _piorrinha_! Via-a aperaltar-se, ir ao homem, cantarolar, +comer bem--e pensava com uma voluptuosidade felina: Anda, folga, folga, +que eu cá t'a tenho armada! Aquillo dava-lhe um orgulho perverso. +Sentia-se vagamente _senhora da casa_. Tinha alli fechada na mão a +felicidade, o bom nome, a honra, a paz dos patrões! Que desforra! + +E o futuro estava certo! _Aquillo_ era dinheiro, o pão da velhice. Ah! +tinha-lhe chegado o seu dia! Todos os dias rezava uma _Salvè-rainha_ de +graças a Nossa Senhora, mãi dos homens! + +Mas agora, depois d'aquella _scena_ com Luiza--não podia ficar de +braços cruzados, com as cartas na algibeira. Devia sahir de casa, +pôr-se em campo, fazer _alguma cousa_. O que? A tia Victoria é que +havia de dizer... + +Logo pela manhã ás sete horas, sem tomar o seu café, sem fallar a +Joanna, desceu devagar, sahiu. + +A tia Victoria não estava em casa. Gente na saleta esperava. O snr. +Gouvêa, com a borla do barretinho muito arrebitada, escrevinhava, +dobrado, cuspilhando o seu catarrho. Juliana deu os _bons dias_ em +redor, e sentou-se a um canto, direita, com a sua sombrinha nos joelhos. + +Conversava-se: e uma mulher de trinta annos, picada das bexigas, que +estava sentada no canapé, depois de ter dado um sorriso a Juliana, +continuou, voltada para uma gordita com um chale de quadrados vermelhos: + +--Pois não imagina, snr.^a Anna, não faz idéa! É uma desgraça! É todas +as noites como um carro. Ás vezes até acordo com o barulho que elle faz +a fallar só, a tropeçar na escada... Eu, do que tenho mais medo, é que +o demonio adormeça com a luz e haja um fogo. Ah! é de todo! + +--Quem?--perguntou um rapazola bonito, com uma blusa de trintanario, +que fallava de pé a um criado alto, de suiças e gravata branca +enxovalhada. + +--O Cunha, o filho do meu patrão. É uma desgraça! + +--Piteireiro, hein?--disse o rapazola, enrolando o cigarro. + +--Um horror! Eu pela manhã nem posso entrar no quarto, que é um +cheiro... A mãi, coitadinha, chora, rala-se; o rapaz já esteve para ser +posto fóra do emprego. Ai! não estou nada contente, nada contente! + +--Pois olhe que por lá tambem ha desgosto grande--disse, baixando a +voz, a do chale de quadrados. + +Os dous homens aproximaram-se. + +--O senhor--continuou ella com gestos aterrados--é um desafôro com a +cunhada!... A senhora sabe, e aquillo são questões de dia e de noite! +As duas irmãs andam n'uma bulha pegada. O homem toma as dôres da +rapariga, a mulher põe-se aos gritos... Ai! aquillo vem a acabar mal! + +--E então se a gente tem lá o seu descuido--disse o da gravata branca +com indignação--é aqui d'el-rei, e d'aqui e d'alli! + +--Lá a sua gente é socegada, snr. João--observou a picada das bexigas. + +--É boa gente. As raparigas namoradeiras... Proveito das criadas, +apanham o seu vestidito, a sua placa... Mas os velhotes é uma santa +gente, a verdade é a verdade! E come-se bem! + +E voltando-se para o trintanario, batendo-lhe no hombro, com uma voz +que o admirava e que o invejava: + +--Mas isto sim! Isto é que é leval-a! + +O rapazola sorriu com satisfação: + +--Ora! são mais as vozes do que as nozes! + +--Vá lá, mostra lá--disse o da gravata branca tocando-lhe com o +cotovêlo--mostra lá! + +O rapaz fez-se rogado, e depois de gingar da cintura, arregaçando a +blusa, tirou do bolso do collete de riscadinho um relogio d'ouro. + +--Muito bonito! Rica prenda!--disseram as duas mulheres. + +--Suor do meu rosto--fez elle, acariciando o queixo. + +O da gravata branca indignou-se: + +--Ora seu marôto!--E baixo para as raparigas:--Suor do seu rosto, +hein!--É o seraphim da patrôa, uma senhora da alta que aquillo são tudo +sêdas, muitissimo boa mulher, um bocado entradota, mas muitissimo boa +mulher, recebe d'estas lembranças, um relogio d'um par de moedas--e +ainda falla! + +O rapazola disse então, enterrando as mãos na algibeira: + +--E se quizer agora, ha-de largar a corrente! + +--Ha-de-lhe custar muito!--exclamou o da gravata branca.--Uma gente que +tem ahi pela baixa correntezas de casas! Metade da rua dos Retrozeiros +é d'ella! + +--Mas muito agarrada!--disse o rapazola. E bamboleando o corpo, com o +cigarro ao canto da bocca:--Estou com ella ha dous mezes, e ainda se +não desabotoou senão com o relogio e tres libras em ouro!... Que eu, +como quem diz, um dia passo-lhe o pé!--E cofiando o cabello para a +testa:--Não faltam mulheres! e das que tem _Dom_! + +Mas a tia Victoria entrou, muito azafamada, com o chale no braço; e +vendo Juliana: + +--Olá! por cá! Tive que dar umas voltas, estou na rua desde as seis. +Bons dias, snr.^a Theodosia; bons dias, Anna. Viva, temos por cá o +alfenim! Entra cá p'ra dentro, Juliana! Eu já venho, meus pombinhos, é +um instante! + +Levou-a para o outro quarto, para o lado do saguão: + +--E então, que ha de novo? + +Juliana pôz-se a contar longamente a _scena_ da vespera, o desmaio... + +--Pois minha rica--disse a tia Victoria--o que está feito, está feito; +não ha tempo a perder; é mãos á obra! Tu vaes ao Brito, ao hótel, e +entendes-te com elle. + +Juliana recusou-se logo: não se atrevia, tinha medo... + +A tia Victoria reflectiu, coçando o ouvido; foi dentro, cochichou com o +tio Gouvêa, e voltando, fechando a porta do quarto: + +--Arranja-se quem vá. Tens tu as cartas? + +Juliana tirou da algibeira uma velha carteirinha de marroquim +escarlate. Mas hesitou um momento, olhou a tia Victoria com +desconfiança. + +--Tens medo de largar os papeis, creatura?--exclamou offendida a +velha.--Arranja-te tu, então arranja-te tu... + +Juliana deu-lh'as logo. Mas que as guardasse, que tivesse cautela!... + +--A pessoa--disse a tia Victoria--vai ámanhã á noite fallar com o +Brito, e pede-lhe um conto de reis! + +Juliana teve um deslumbramento. Um conto de reis! A tia Victoria estava +a brincar! + +--Ora essa! Que pensas tu? Por uma carta, que quasi não tinha mal +nenhum, pagou uma pessoa que bate ahi o Chiado de carruagem--ainda +hontem a vi com uma pequerrucha que tem--pagou trezentos mil reis. E em +bellas notas. Pagou-os o janota, já se sabe, foi o janota que pagou. Se +fosse outro, não digo, mas o Brito! É rico, é um man-rôtas, cahe logo... + +Juliana, muito branca, agarrou-lhe o braço, tremula: + +--Oh tia Victoria, dava-lhe um córte de sêda. + +--Azul! até já te digo a côr! + +--Mas o Brito é homem muito teso, tia Victoria, se lhe tira as cartas, +se lhe faz alguma! + +A tia Victoria fitou-a, com desdem: + +--Sahes-me uma simploria! Imaginas que eu mando lá algum tolo? Nem as +cartas vão, o que vai é uma copia! Olha quem! O melro que lá ha-de ir! + +E depois de reflectir um momento: + +--Tu vai-te para casa... + +--Não, lá isso não volto... + +--Tambem tens razão. Até vêr em que param as modas, vem cá dormir. +Jantas cá hoje; tenho uma rica pescada... + +--Mas não haverá perigo, tia Victoria, se o Brito vai á policia... + +A tia Victoria encolheu os hombros, e impacientada: + +--Olha, vai-te, que me estás a emphrenesiar! Policia! Qual policia! +Essas cousas levam-se lá á policia... Deixa a cousa commigo! Adeus--e +ás quatro para jantar, hein! + +Juliana sahiu como levada pelo ar! Um conto de reis! _Era o conto de +reis_ que voltava, o que já um dia entrevira, que lhe fugira, que lhe +vinha agora cahir na mão, com um tlin-tlin de libras e um _frou-frou_ +de notas! E o cerebro enchia-se-lhe confusamente de perspectivas +differentes, todas maravilhosas: um mostrador de capellista onda ella +venderia! um marido ao seu lado, ás horas da cêa! pares de botinas das +boas, das _chics_. Onde poria o dinheiro? No Banco? Não; no fundo da +arca--para estar mais seguro, mais á mão! + +Para passar a sua manhã, comprou uma quarta de rebuçados, e foi-se +sentar no Passeio, com a sombrinha aberta, deliciando-se, ruminando +já a sua vida rica, julgando-se já senhora; mesmo fez olho a um +proprietario pacifico e rubicundo--que se afastou escandalisado! + +Áquella hora Luiza acordava. E sentando-se bruscamente na cama:--É +hoje!--foi o seu primeiro pensamento. Um susto, uma tristeza horrivel +contrahiram-lhe o coração. Começou depois a vestir-se, muito nervosa +com a idéa de vêr Juliana! Estava mesmo imaginando fechar-se, não +almoçar, sahir pé ante pé ás onze horas, ir procurar Bazilio ao hotel, +quando a voz de Joanna disse á porta do quarto: + +--A senhora faz favor? + +Começou logo a contar, muito espantada, que a snr.^a Juliana tinha +sahido de manhã, ainda não voltára, estava tudo por arrumar... + +--Bem, arranje-me o almoço, eu já vou...--Que allivio para ella! + +Calculou logo que Juliana deixára a casa. Para que? Para lhe armar +alguma, de certo! O melhor era sahir immediatamente... Podia esperar +Bazilio no _Paraiso_. + +Foi á sala de jantar, bebeu um gole de chá, de pé, á pressa. + +--A snr.^a Juliana ter-lhe-ha dado alguma cousa?--veio dizer Joanna +assombrada. + +Luiza encolheu os hombros, respondeu vagamente: + +--Depois se saberá... + +Era hora e meia, foi pôr o chapéo. O coração batia-lhe alto, e +apesar do terror de vêr entrar Juliana, não se decidia a sahir; +sentou-se mesmo, com o sacco de marroquim nos joelhos. Vamos! pensou +emfim.--Ergueu-se; mas parecia que alguma cousa de subtil e de forte +a prendia, a enleava... Entrou na alcova devagar: o seu roupão +estava cahido aos pés da cama, as suas chinellinhas sobre o tapete +felpudo...--Que desgraça! disse alto. Veio ao toucador, mexeu nos +pentes, abriu as gavetas; de repente entrou na sala, foi ao album, +tirou a photographia de Jorge, metteu-a toda tremula no sacco de +marroquim, olhou ainda em roda como desvairada, sahiu, atirou com a +porta, desceu a escada correndo. + +Á Patriarchal passava um _coupé de praça_. Tomou-o, mandou-o ir ao +_Hotel Central_. + +O snr. Brito sahira logo de manhã cedo, disse o porteiro muito +azafamado. De certo algum paquete chegára, porque entravam bagagens, +fortes malas cobertas d'oleado, caixas de madeira debruadas de ferro; +passageiros com ar espantado da chegada, ainda entontecidos do balouço +do mar, fallavam, chamavam. Aquelle movimento animou-a: veio-lhe um +desejo de viagens, do ruido nocturno das _gares_ á claridade do gaz, da +agitação alegre das partidas nas manhãs frescas, sobre o tombadilho dos +paquetes! + +Deu ao cocheiro a adresse do _Paraiso_. E á maneira que o trem +trotava parecia-lhe que toda a sua vida passada, Juliana, a casa, +se esbatiam, se dissipavam n'um horisonte abandonado. Á porta d'um +livreiro julgou entrevêr Julião; debruçou-se pela portinhola, +precipitadamente; não o avistou, teve pena: ia-se sem vêr um amigo da +casa! Todos agora, Julião, Ernestinho, o Conselheiro, D. Felicidade lhe +pareciam adoraveis, com qualidades nobres, que nunca percebera, que +repentinamente tomavam um grande encanto. E o pobre Sebastião, tão bom! +Nunca mais lhe ouviria tocar a sua _Malaguenha_! + +Ao fim da rua do Ouro o _coupé_ parou n'um embaraço de carroças, +e Luiza viu no passeio ao lado o Castro, o Castro dos oculos, o +banqueiro, o que Leopoldina lhe dizia que «tinha uma paixão por ella»: +um rapazito rôto offerecia-lhe cautelas; e o Castro nedio, com os dous +pollegares nas algibeiras do collete branco, dizia graças ao rapaz, com +um desdem ricaço, dardejando olhadellas sobre Luiza, através dos seus +oculos d'ouro. Ella, pelo canto do olho, observava-o: tinha uma paixão +por ella, aquelle homem, que horror! Achava-o medonho, com o seu ventre +pançudo, a perninha curta. A lembrança de Bazilio atravessou-a, a sua +linda figura!...--e bateu nos vidros impaciente, com pressa de o vêr. + +O trem partiu emfim. O Rocio reluzia ao sol; do Americano, parado á +esquina, gente descia apressada, de calças brancas, vestidos leves, +vinda de Belem, de Pedrouços; pregões cantavam.--Todos alli ficavam nas +suas familias, nas suas felicidades, só ella partia! + +Na rua Occidental, viu vir a D. Camilla--uma senhora casada com um +velho, illustre pelos seus amantes. Parecia gravida; e adiantava-se +devagar, com a face branca satisfeita, uma lassitude do corpo +arredondado, passeando um marmanjosinho de jaqueta côr de pinhão, +uma pequerrucha de sainhas tufadas, e adiante uma ama, vestida de +lavradeira, empurrava um carrinho de mão onde um bébé se babava. E +a Camilla, feliz, vinha tranquillamente pela rua expondo as suas +fecundidades adulteras! Era muito festejada, ninguem dizia mal d'ella; +era rica, dava _soirées_...--O que é o mundo!--pensava Luiza. + +O trem parou á porta do _Paraiso_, era meio dia. A portinha em cima +estava fechada: e a patrôa appareceu logo, ciciando que «sentia +muitissimo, mas só o senhor é que tinha a chavesinha, se a senhora +quizesse descançar...» N'este momento outra carruagem chegou, e Bazilio +appareceu galgando os degraus. + +--Até que emfim!--exclamou abrindo a porta.--Porque não vieste +hontem?... + +--Ah! se tu soubesses... + +E, agarrando-lhe os braços, cravando os olhos n'elle: + +--Bazilio, sabes, estou perdida! + +--Que ha? + +Luiza atirára o sacco de marroquim para o canapé, e, d'um folego, +contou-lhe a historia da carta apanhada nos papeis, as d'elle roubadas, +a _scena_ no quarto...--O que me resta é fugir. Aqui estou. Leva-me. Tu +disseste que podias, tens-l'o dito muitas vezes. Estou prompta. Trouxe +aquelle sacco, com o necessario, lenços, luvas... hein? + +Bazilio com as mãos nos bolsos, fazendo tilintar o dinheiro e as +chaves, seguia attonito os seus gestos, as suas palavras. + +--Isso só a ti!--exclamou.--Que douda! Que mulher!--E muito +excitado:--Isso é lá questão de fugir? Que estás tu a fallar em fugir? +É uma questão de dinheiro. O que ella quer é dinheiro. É vêr quanto +quer, e pagar-se-lhe! + +--Não, não!--fez Luiza--Não posso ficar!--Tinha uma afflicção na voz. +A mulher venderia a carta, mas conservava o segredo: a todo o tempo +podia fallar, Jorge saber: estava perdida, não tinha coragem de voltar +para casa!--Não sinto um momento de descanço, em quanto estiver em +Lisboa. Partimos hoje, sim? Se não pódes, ámanhã. Eu vou para algum +hotel, aonde ninguem saiba, escondo-me esta noite. Mas, ámanhã vamos. +Se elle sabe, mata-me, Bazilio! Sim, dize que sim!--Agarrára-se a elle, +procurava avidamente com os seus olhos o consentimento dos d'elle. + +Bazilio desprendeu-se brandamente: + +--Estás douda, Luiza, tu não estás em ti! Póde lá pensar-se em fugir! +Era um escandalo atroz, eramos apanhados de certo, com a policia, com +os telegraphos! É impossivel! Fugir é bom nos romances! E depois, minha +filha, não é um caso para isso! É uma simples questão de dinheiro... + +Luiza fazia-se branca, ouvindo-o. + +--E além d'isso--continuou Bazilio, muito agitado, pelo quarto--eu +não estou preparado, nem tu! Não se foge assim. Ficas desacreditada +para toda a vida, sem remedio, Luiza. Uma mulher que foge, deixa de +ser a snr.^a D. Fulana, é a Fulana, a que fugiu, a desavergonhada, uma +concubina! Eu tenho de certo de ir ao Brazil, onde has-de tu ficar? +Queres ir tambem, um mez n'um beliche, arriscar-te á febre amarella? +E se teu marido nos persegue se formos detidos na fronteira? Achas +bonito voltar entre dous policias, e ir passar um anno ao Limoeiro? O +teu caso é simplicissimo. Entendes-te com essa creatura, dá-se-lhe um +par de libras, que é o que ella quer, e ficas em tua casa, socegada, +respeitada como d'antes--sómente mais acautelada! Aqui está! + +Aquellas palavras cahiam sobre os planos de Luiza, como machadadas que +derrubam arvores. Ás vezes a verdade que ellas continham atravessava-a +irresistivelmente, viva como um relampago, desagradavel como um gume +frio. Mas via n'aquella recusa uma ingratidão, um abandono. Depois +de se ter installado, pela imaginação, n'uma segurança feliz, longe, +em Paris--parecia-lhe intoleravel ter de voltar para casa, de cabeça +baixa, soffrer Juliana, esperar a morte; e os contentamentos que +entrevira n'aquelle outro destino, agora que lhe fugiam d'entre as +mãos, pareciam-lhe maravilhosos, quasi indispensaveis! E depois de que +servia resgatar a carta a dinheiro? A creatura saberia o seu segredo! +E a vida seria amarga, tendo sempre em volta de si aquelle perigo a +rondar! + +Ficára calada, como perdida n'uma reflexão vaga; e de repente erguendo +a cabeça, com um olhar brilhante: + +--Então, dize!... + +--Mas estou-te a dizer, filha... + +--Não queres? + +--Não!--exclamou Bazilio com força.--Se tu estás douda, não estou eu! + +--Oh! pobre de mim, pobre de mim! + +Deixou-se cahir no sophá, tapou o rosto com as mãos. Soluços baixos +sacudiam-lhe o peito. + +Bazilio sentou-se ao pé d'ella. Aquellas lagrimas mortificavam-no, e +impacientavam-no. + +--Mas, santo nome de Deus, escuta-me! + +Ella voltou para elle os olhos que reluziam sob o pranto: + +--Para que dizias então, tantas vezes, que seriamos tão felizes, que se +eu quizesse... + +Bazilio ergueu-se bruscamente: + +--Pois tu pensaste em fugir, em te metter commigo n'um wagon, vir para +Paris, viver commigo, ser a minha amante? + +--Sahi de casa p'ra sempre, ahi está o que eu fiz! + +--Mas vaes voltar p'ra casa!--exclamou elle, quasi com colera.--Por que +havias de tu fugir? por amor? então deviamos ter partido ha um mez, não +ha razão agora para irmos. Para que, então? Para evitar um escandalo? +com um escandalo maior, não é verdade? um escandalo irreparavel, +medonho! Estou-te a fallar como um amigo, Luiza!--Tomou-lhe as mãos, +com muita ternura:--Tu imaginas que eu não seria feliz em ir viver +comtigo para Paris? Mas vejo os resultados, tenho outra experiencia. O +escandalo todo evita-se com umas poucas de libras. Tu imaginas que a +mulher vai-se pôr a fallar? O seu interesse é safar-se, desapparecer; +sabe perfeitamente o que fez, que te roubou, que usou de chaves falsas. +A questão é pagar-lhe. + +Ella disse, com uma voz lenta: + +--E o dinheiro, onde o tenho eu? + +--Está claro que o dinheiro tenho-o eu!--E depois de uma pausa:--Não +muito, estou mesmo um pouco atrapalhado, mas emfim...--Hesitou, +disse:--se a creatura quizer duzentos mil reis, dão-se-lhe! + +--E se não quizer? + +--Que ha-de ella querer, então? Se roubou a carta é para a vender! Não +é para guardar um autographo teu! + +Vinham-lhe palavras duras, passeava pelo quarto exasperado. Que +pretensão querer vir com elle para Paris, embaraçar-lhe para sempre +a sua vida! E que despeza tão tola, dar um 'rôr de libras a uma +ladra! Depois aquelle incidente, a carta de namoro roubada nos papeis +sujos, a criada, a chave falsa do gavetão dos vestidos--parecia-lhe +soberanamente burguez, um pouco pulha. E parando, para acabar: + +--Emfim oferece-lhe trezentos mil reis, se quizeres. Mas pelo amor +de Deus, não faças outra; não estou para pagar as tuas distracções a +trezentos mil reis cada uma! + +Luiza fez-se livida, como se elle lhe tivesse cuspido no rosto. + +--Se é uma questão de dinheiro, eu o pagarei, Bazilio! + +Não sabia como. Que lhe importava! Pediria, trabalharia, empenharia... +Não o aceitaria d'elle! + +Bazilio encolheu os hombros: + +--Estás-te a dar ares, onde o tens tu? + +--Que te importa?--exclamou. + +Bazilio coçou a cabeça, desesperado. E tomando-lhe as mãos, com uma +impaciencia reprimida: + +--Estamos a dizer tolices, filha, estamos a irritar-nos... Tu não tens +dinheiro. + +Ella interrompeu-o, agarrou-lhe violentamente o braço: + +--Pois sim, mas falla tu a essa mulher, falla-lhe tu, arranja tudo. Eu +não a quero tornar a vêr. Se a vejo, morro, acredita. Falla-lhe tu! + +Bazilio recuou vivamente, e batendo com o pé: + +--Estás douda, mulher! Se eu lhe fallo, então pede tudo, então pede-me +a pelle! Isso é comtigo. Eu dou-te o dinheiro, tu arranja-te! + +--Nem isso me fazes? + +Bazilio não se conteve: + +--Não! c'os diabos, não! + +--Adeus! + +--Tu estás fóra de ti, Luiza! + +--Não. A culpa é minha--dizia, descendo o véo com as mãos tremulas--eu +é que devo arranjar tudo! + +E abriu a porta. Bazilio correu a ella, prendeu-a por um braço. + +--Luiza, Luiza! o que queres tu fazer? não podemos romper assim! +Escuta... + +--Fujamos então, salva-me de todo!--gritou ella, abraçando-o +anciosamente. + +--Caramba! Se te estou a dizer que não é possivel! + +Ella atirou com a porta, desceu as escadas correndo. O coupé esperava-a. + +--Para o Rocio--disse. + +E deitando-se para o canto da carruagem, rompeu a chorar +convulsivamente. + + +Bazilio sahiu do _Paraiso_ muito agitado. As pretensões de Luiza, os +seus terrores burgueses, a trivialidade reles do caso, irritavam-no +tanto, que tinha quasi vontade de não voltar ao _Paraiso_, calar-se, e +_deixar correr o marfim_! Mas tinha pena d'ella, coitada! E depois, sem +a amar appetecia-a: era tão bem feita, tão amorosa, as revelações do +vicio davam-lhe um delirio tão adoravel! Um conchegosinho tão picante +em quanto estivesse em Lisboa... Maldita complicação! Ao entrar no +hotel, disse ao seu criado: + +--Quando vier o snr. visconde Reynaldo, que vá ao meu quarto. + +Estava alojado no segundo andar, com janellas para o rio. Bebeu um +calix de cognac, e estirou-se no sophá. Ao pé, na jardineira, tinha o +seu _buvard_ com um largo monogramma em prata sob a corôa de conde, +caixas de charutos, os seus livros--_Mademoiselle Giraud ma femme_, +_La vierge de Mabille_, _Ces Frippones! Memoires secrètes d'une femme +de chambre_, _Le chien d'arrêt_, _Manuel du chasseur_, numeros do +_Figaro_, a photographia de Luiza, e a photographia d'um cavallo. + +E soprando o fumo do charuto, começou a considerar, com horror, a +«situação»! Não lhe faltava mais nada senão partir para Paris, com +aquelle trambolhosinho! Trazer uma pessoa, havia sete annos, a sua +vida tão arranjadinha, e patatrás! embrulhar tudo, porque á menina +lhe apanharam a carta de namoro e tem medo do esposo! Ora o descaro! +No fim, toda aquella aventura desde o começo fôra um erro! Tinha sido +uma idéa de burguez inflammado ir desinquietar a prima da Patriarchal. +Viera a Lisboa para os seus negocios, era tratal-os, aturar o calor +e o _b[oe]uf à la mode_ do Hotel Central, tomar o paquete, e mandar +a patria ao inferno!... Mas não idiota! Os seus negocios tinham-se +concluido,--e elle, burro, ficára alli a torrar em Lisboa, a gastar uma +fortuna em tipoias para o largo de Santa Barbara, para quê? Para uma +d'aquellas! Antes ter trazido a Alphonsine! + +Que, verdade, verdade, em quanto estivesse em Lisboa o romance era +agradavel, muito excitante; porque era muito completo! Havia o +adulteriosinho, o incestosinho. Mas aquelle episodio agora estragava +tudo! Não, realmente, o mais razoavel era safar-se! + +A sua fortuna tinha sido feita com negocio de borracha, no alto +Paraguay; a grandeza da especulação trouxera a formação d'uma +companhia, com capitaes brazileiros; mas Bazilio e alguns engenheiros +francezes queriam resgatar as acções brazileiras, «que eram um +_empecilho_», formar em Paris uma outra companhia, e dar ao negocio +um movimento mais ousado. Bazilio partira para Lisboa entender-se com +alguns brazileiros, e comprára as acções habilmente. A prolongação +d'aquelle incidente amoroso tornava-se uma perturbação na sua vida +pratica... E, agora que a aventura tomava um aspecto seccante, convinha +passar o pé! + +A porta abriu-se e o visconde Reynaldo entrou--afogueado, de lunetas +azues, furioso. + +Vinha de Bemfica! Morto, absolutamente morto com aquelle calor, d'um +paiz de negros. Tivera a estupida idéa de ir visitar uma tia--que o +fizera logo membro d'uma associação para não sei que diabo de que +creche, e que lhe prégára moral! Tambem que idéa de collegial--ir +visitar a tia! Porque realmente, se havia uma cousa que lhe causasse +repugnancia, eram as ternuras de familia! + +--E tu, que queres tu? Eu vou-me metter n'um banho até ao jantar! + +--Sabes o que me succede?--disse Bazilio, erguendo-se. + +--O quê? + +--Imagina. O caso mais estupido. + +--O marido apanhou-te? + +--Não, a criada! + +--_Shocking!_--exclamou Reynaldo com nôjo. + +Bazilio contou miudamente «o caso». E cruzando os braços diante d'elle: + +--E agora? + +--Agora é safar-te! + +E levantou-se. + +--Onde vaes tu? + +--Vou ao banho. + +Que esperasse, que diabo, queria fallar com elle... + +--Não posso!--exclamou Reynaldo com um egoismo phrenetico.--Vem tu cá +abaixo! Posso perfeitamente conversar na agua! + +Sahiu, berrando por William, o seu criado inglez. + +Quando Bazilio desceu aos banhos, Reynaldo estirado com voluptuosidade +na tina, d'onde sahia um forte cheiro d'agua de Lubin, exclamou, +deleitando-se no seu conforto: + +--Então cartinha apanhada nos papeis sujos! + +--Não, Reynaldo, mas francamente estou embaraçado; que achas tu que eu +faça? + +--As malas, menino! + +E sentado na tina, ensaboando devagar o seu corpo magro: + +--Ahi está o que é fazer amor ás primas da Patriarchal Queimada! + +--Oh!--fez Bazilio, impaciente. + +--Oh quê?--E, coberto de flocos d'espuma, com as mãos apoiadas ao +rebordo de marmore da tina:--Pois tu achas isso decente, uma mulher +que toma a cozinheira por confidente, que lhe está na mão, que perde a +carta nos papeis sujos, que chora, que pede duzentos mil reis, que se +quer safar--isso é lá amante, isso é lá nada! Uma mulher que, como tu +mesmo disseste, usa meias de tear! + +--Meu rico, é uma mulher deliciosa! + +O outro encolheu os hombros, descrente. + +Bazilio deu logo provas: descreveu bellezas do corpo de Luiza; citou +episodios lascivos. + +O tecto e os tabiques envernizados de branco reflectiam a luz, com tons +macios de leite; a exhalação da agua tepida augmentava o calor morno; e +um cheiro fresco de sabão e agua de Lubin adoçava o ar. + +--Bem! estás pelo beiço--resumiu Reynaldo com tedio, estirando-se. + +Bazilio teve um movimento d'hombros, que repellia aquella supposição +grotesca. + +--Mas dize, então, queres ficar-lhe agarrado ás saias ou queres +desembaraçar-te d'ella? Mas a verdade, venha a verdade! + +--Eu--disse logo Bazilio, chegando-se á tina, baixo--se me podesse +desembaraçar decentemente... + +--Oh desgraçado! tens uma occasião divina! Ella sahiu como uma bicha, +dizes tu. Bem; escreve-lhe uma carta, «que vendo que ella deseja +romper, não a queres importunar, e partes». Os teus negocios estão +concluidos, não é verdade? Escusas de negar, o Lapierre disse-me que +sim. Bem, então sê decente: manda fazer as malas, e livra-te da sarna! + +E tomando a esponja, deixava cahir grandes golpes d'agua pela cabeça, +pelos hombros, soprando, regalado na frescura aromatica. + +--Mas tambem--disse Bazilio--deixal-a agora n'aquella atrapalhação com +a criada! No fim é minha prima... + +Reynaldo agitou os braços, com hilaridade. + +--Esse espirito de familia é optimo! Vai lá, idiota, dize-lhe que és +obrigado a partir, os teus negocios, etc., e mette-lhe umas poucas de +notas na mão. + +--É brutal... + +--É caro! + +Bazilio disse então: + +--Olha que tambem é uma dos diabos, a pobre rapariga apanhada pela +criada... + +Reynaldo estirou-se mais, e disse com jubilo: + +--Estão a estas horas a esgadanharem-se uma á outra! + +Recostou-se, n'uma beatitude: quiz saber as horas; declarou que estava +confortavel, que se sentia feliz! Com tanto que o John se não tivesse +esquecido de _frapper_ o champagne! + +Bazilio torcia o bigode, calado. Revia a sala de Luiza de reps verde, +a figura horrivel de Juliana com a sua enorme cuia... Estariam com +effeito a ralhar, a descompôr-se? Que _pulhice_ que era tudo aquillo! +Positivamente devia partir. + +--Mas que pretexto lhe hei-de eu dar para sahir de Lisboa? + +--Um telegramma! Não ha nada como um telegramma! Telegrapha já ao teu +homem em Paris, ao Labachardie, ou Labachardette, ou o que é, que te +mande logo este despacho: «Parta, negocios maus, etc.» É o melhor! + +--Vou fazel-o--disse Bazilio erguendo-se, muito decidido. + +--E partimos ámanhã?--gritou Reynaldo. + +--Ámanhã. + +--Por Madrid? + +--Por Madrid. + +--_Salero!_--Pôz-se de pé, na tina, enthusiasmado, a escorrer, e +com movimentos aduncos de magricella saltou para fóra, embrulhou-se +no roupão turco. O seu criado William entrou logo, subtilmente, +ajoelhou-se, tomou-lhe um pé entre as mãos, seccou-lh'o com precauções, +pôz-se respeitosamente a calçar-lhe a meia de sêda preta com +ferradurinhas bordadas. + + +Na manhã seguinte, um pouco antes do meio dia, Joanna veio bater +discretamente á porta do quarto de Luiza, e com a voz baixa--desde o +desmaio fallava-lhe sempre baixo, como a uma convalescente: + +--Está alli o primo da senhora. + +Luiza ficou surprehendida. Estava ainda de _robe de chambre_, e tinha +os olhos vermelhos de chorar; pôz n'um instante um pouco de pó d'arroz, +alisou o cabello, entrou na sala. + +Bazilio, vestido de claro, sentára-se melancolicamente no môcho do +piano. Trazia um ar grave, e, sem transição, começou a dizer:--que +apesar d'ella se ter zangado na vespera, elle considerava ainda tudo +«como d'antes». Viera porque n'aquelle momento não se podiam separar +sem algumas explicações, sobretudo sem resolver definitivamente o caso +da carta... E com um gesto triste, como contendo lagrimas: + +--Porque eu vejo-me forçado a sahir de Lisboa, minha querida! + +Luiza, sem olhar para elle, fez um sorriso mudo, muito desdenhoso. +Bazilio acrescentou logo: + +--Por pouco tempo, naturalmente, tres semanas ou um mez... Mas enfim +tenho de partir... Se fossem só os meus interesses!--Encolheu os +hombros com desdem.--Mas são interesses d'outros... E aqui está o que +eu recebi esta manhã. + +Estendeu-lhe um telegramma. Ella conservou-o um momento, sem o abrir; a +sua mão fazia tremer o papel. + +--Lê, peço-te que leias! + +--Para que?--fez ella. + +Mas leu baixo: «Venha, graves complicações. Presença absolutamente +necessaria. Parta já.» + +Dobrou o papel, entregou-lh'o. + +--E partes, hein? + +--É forçoso. + +--Quando? + +--Esta noite. + +Luiza ergueu-se bruscamente, e estendendo-lhe a mão: + +--Bem, adeus. + +Bazilio murmurou: + +--És cruel, Luiza!... Não importa! Em todo o caso ha um negocio que é +necessario terminar. Fallaste á mulher? + +--Está tudo arranjado--respondeu ella, franzindo a testa. + +Bazilio tomou-lhe a mão, e quasi com solemnidade: + +--Minha filha, eu sei que és muito orgulhosa, mas peço-te que digas a +verdade. Eu não te quero deixar em difficuldades. Fallaste-lhe? + +Ella retirou a mão, e com uma impaciencia crescente: + +--Arranjou-se tudo, arranjou-se tudo!... + +Bazilio parecia muito embaraçado, estava mesmo um pouco pallido: emfim, +tirando uma carteira da algibeira, começou: + +--Em todo o caso é possivel, é natural (nós não sabemos com quem +lidamos), é natural que haja outras exigencias...--Abriu a carteira, +tomou um sobrescripto pequenino e cheio. + +Luiza seguia, fazendo-se vermelha, os movimentos de Bazilio. + +--Por isso, para te poderes entender melhor com ella, sempre me parece +bom deixar-te algum dinheiro. + +--Tu estás doudo?--exclamou ella. + +--Mas... + +--Tu queres-me dar dinheiro?--A sua voz tremia. + +--Mas emfim... + +--Adeus!--E ia sahir da sala, indignada. + +--Luiza, pelo amor de Deus! Tu não me comprehendeste... + +Ella parou, disse precipitadamente, como impaciente por acabar: + +--Comprehendi, Bazilio, obrigada. Mas não, não é necessario. Estou +nervosa, é o que é... Não prolonguemos mais isto... Adeus... + +--Mas sabes que volto, dentro de tres semanas... + +--Bem, então nos veremos... + +Elle attrahiu-a, deu-lhe um beijo na bocca, encontrou os seus labios +passivos e inertes. + +Aquella frieza irritou-lhe a vaidade. Apertou-a contra o peito; +disse-lhe baixo, pondo muita paixão na voz: + +--Nem um beijo me queres dar? + +Nos olhos de Luiza passou um ligeiro clarão; beijou-o rapidamente, e +recuando: + +--Adeus. + +Bazilio esteve um momento a olhal-a, teve como um leve suspiro: + +--Adeus!--E da porta, voltando-se, com melancolia:--Escreve-me ao +menos. Sabes a minha morada. Rue Saint Florentin, 22. + +Luiza chegou-se á janella. Viu-o accender o charuto na rua, fallar ao +cocheiro, saltar para o coupé, fechar com força a portinhola, sem um +olhar para as janellas! + +O trem rolou. Era o n.^o 10... Nunca mais o veria! Tinham palpitado +no mesmo amor, tinham commettido a mesma culpa.--Elle partia alegre, +levando as recordações romanescas da aventura: ella ficava, nas +amarguras permanentes do erro. E assim era o mundo! + +Veio-lhe um sentimento pungente de solidão e de abandono. Estava só, e +a vida apparecia-lhe como uma vasta planicie desconhecida, coberta da +densa noite, erriçada de perigos! + +Entrou no quarto devagar, foi-se deixar cahir no sophá: viu ao pé o +sacco de marroquim, que preparára na vespera para fugir: abriu-o, +pôz-se a tirar lentamente os lenços, uma camisinha bordada,--encontrou +a photographia de Jorge! Ficou com ella na mão, contemplando o seu +olhar leal, o seu sorriso bom.--Não, não estava no mundo só! Tinha-o +a elle! Amava-a aquelle, nunca a trahiria, nunca a abandonaria!--E +collando os beiços ao retrato, humedecendo-o de beijos convulsivos, +atirou-se de bruços, lavada em lagrimas, dizendo:--Perdôa-me, Jorge, +meu Jorge, meu querido Jorge, Jorge da minha alma! + + +Depois de jantar Joanna veio dizer-lhe timidamente: + +--A senhora não lhe parece que seria bom ir saber da snr.^a Juliana? + +--Mas onde quer vossê ir saber?--perguntou Luiza. + +--Ella ás vezes vai a casa d'uma amiga, uma inculcadeira, para os +lados do Carmo. Talvez lhe tivesse dado alguma, esteja mal. Mas tambem +não mandar recado desde hontem pela manhã... Cousa assim! Eu podia ir +saber... + +--Pois bem, vá, vá. + +Aquella desapparição brusca inquietava tambem Luiza. Onde estava, +que fazia? Parecia-lhe que alguma cousa se tramava em segredo, +longe d'ella, que viria de repente estalar-lhe sobre a cabeça, +terrivelmente... + +Anoiteceu. Accendeu as velas. Tinha um certo medo de estar assim só +em casa: e, passeando pelo quarto, pensava que áquella hora Bazilio +em Santa Apolonia comprava alegremente o seu bilhete, installava-se +no wagon, accendia o charuto, e d'ahi a pouco, a machina arquejando +leval-o-hia para sempre! Porque não acreditava «na demora de tres +semanas, um mez»! Ia para sempre, safava-se! E apesar de o detestar +sentia que alguma cousa dentro em si se partia com aquella separação, e +sangrava dolorosamente! + +Eram quasi nove horas quando a campainha retiniu com pressa. Julgou +que seria Joanna de volta, foi abrir com um castiçal,--e recuou vendo +Juliana, amarella, muita alterada. + +--A senhora faz favor de me dar uma palavra? + +Entrou no quarto atraz de Luiza, e immediatamente rompeu, gritando, +furiosa: + +--Então a senhora imagina que isto ha-de ficar assim? A senhora imagina +que por seu amante se safar, isto ha-de ficar assim? + +--Que é, mulher?--fez Luiza, petrificada. + +--Se a senhora pensa, que por o seu amante se safar, isto ha-de ficar +em nada?--berrou. + +--Oh mulher, pelo amor de Deus!... + +A sua voz tinha tanta angustia que Juliana calou-se. + +Mas depois de um momento, mais baixo: + +--A senhora bem sabe que se eu guardei as cartas, para alguma cousa +era! Queria pedir ao primo da senhora que me ajudasse! Estou cançada +de trabalhar, e quero o meu descanço. Não ia fazer escandalo, o que +desejava é que elle me ajudasse... Mandei ao hótel esta tarde... O +primo da senhora tinha desarvorado! Tinha ido para o lado dos Olivaes, +para o inferno! E o criado ia á noite com as malas. Mas a senhora +pensa que me logram?--E retomada pela sua colera, batendo com o punho +furiosamente na mesa:--Raios me partam, se não houver uma desgraça +n'esta casa, que ha-de ser fallada em Portugal! + +--Quanto quer vossê pelas cartas, sua ladra?--disse Luiza, erguendo-se +direita, diante d'ella. + +Juliana ficou um momento interdicta. + +--A senhora ou me dá seiscentos mil reis, ou eu não largo os +papeis!--respondeu, empertigando-se. + +--Seiscentos mil reis! Onde quer vossê que eu vá buscar seiscentos mil +reis? + +--Ao inferno!--gritou Juliana.--Ou me dá seiscentos mil reis, ou tão +certo como eu estar aqui, o seu marido ha-de lêr as cartas! + +Luiza deixou-se cahir n'uma cadeira, aniquilada. + +--Que fiz eu para isto, meu Deus, que fiz para isto? + +Juliana plantou-se-lhe diante, muito insolente. + +--A senhora diz bem, sou uma ladra, é verdade, apanhei a carta no +cisco, tirei as outras do gavetão. É verdade! E foi para isto, para +m'as pagarem!--E traçando, destraçando o chale, n'uma excitação +phrenetica:--Não que a minha vez havia de chegar! Tenho soffrido muito, +estou farta! Vá buscar o dinheiro onde quizer. Nem cinco reis de menos! +Tenho passado annos e annos a ralar-me! P'ra ganhar meia moeda por mez, +estafo-me a trabalhar, de madrugada até á noite, em quanto a senhora +está de panria! É que eu levanto-me ás seis horas da manhã--e é logo +engraxar, varrer, arrumar, labutar, e a senhora está muito regalada em +valle de lençoes, sem cuidados, nem canceiras. Ha um mez que me ergo +com o dia, p'ra metter em gomma, passar, engommar! A senhora suja, +suja, quer ir vêr quem lhe parece, apparecer-lhe com tafularias por +baixo, e cá está a negra, com a pontada no coração, a matar-se, com o +ferro na mão! E a senhora, são passeios, tipoias, boas sêdas, tudo o +que lhe appetece--e a negra? A negra a esfalfar-se! + +Luiza, quebrada, sem força de responder, encolhia-se sob aquella colera +como um passaro sob um chuveiro. Juliana ia-se exaltando com a mesma +violencia da sua voz. E as lembranças das fadigas, das humilhações, +vinham atear-lhe a raiva, como achas n'uma fogueira. + +--Pois que lhe parece?--exclamava.--Não que eu cômo os restos e a +senhora os bons bocados! Depois de trabalhar todo o dia, se quero uma +gota de vinho, quem m'o dá? Tenho de o comprar! A senhora já foi ao +meu quarto? É uma enxovia! A persevejada é tanta que tenho de dormir +quasi vestida! E a senhora se sente uma mordedura, tem a negra de +desaparafusar a cama, e de a catar frincha por frincha. Uma criada! +A criada é o animal. Trabalha se pódes, senão rua, para o hospital. +Mas chegou-me a minha vez--e dava palmadas no peito, fulgurante de +vingança.--Quem manda agora, sou eu! + +Luiza soluçava baixo. + +--A senhora chora! tambem eu tenho chorado muita lagrima! Ai! eu não +lhe quero mal, minha senhora, certamente que não! Que se divirta, que +goze, que goze! O que eu quero é o meu dinheiro. O que eu quero é o meu +dinheiro aqui escarrado, ou o papel ha-de ser fallado! Ainda este tecto +me rache, se eu não fôr mostrar a carta ao seu homem, aos seus amigos, +á visinhança toda, que ha-de andar arrastada pelas ruas da amargura! + +Calou-se, exhausta; e com a voz entrecortada de cansaços: + +--Mas dê-me a senhora o meu dinheiro, o meu rico dinheiro, e aqui +tem os papeis, e o que lá vai, lá vai, e até lhe levo outras. Mas o +meu dinheiro p'ra aqui! E tambem lhe digo, que morta seja eu n'este +instante com um raio, se depois de eu receber o meu dinheiro esta bocca +se torna a abrir!--E deu uma palmada na bocca. + +Luiza erguera-se devagar, muito branca: + +--Pois bem--disse, quasi n'um murmurio--eu lhe arranjarei o dinheiro. +Espere uns dias. + +Fez-se um silencio--que depois do ruido parecia muito profundo, e tudo +no quarto como que se tornára mais immovel. Apenas o relogio batia o +seu _tic-tac_, e duas velas sobre o toucador consumindo-se davam uma +luz avermelhada, e direita. + +Juliana tomou a sombrinha, traçou o chale, e depois de fitar Luiza um +momento: + +--Bem, minha senhora--disse, muito secca. + +Voltou as costas, sahiu. + +Luiza sentiu-a bater a cancella com força. + +--Que expiação, Santo Deus!--exclamou, cahindo n'uma cadeira, banhada +de novo em lagrimas. + +Eram quasi dez horas quando Joanna voltou. + +--Não pude saber nada, minha senhora, na inculcadeira ninguem sabe +d'ella. + +--Bem, traga a lamparina. + +E Joanna ao despir-se no seu quarto, rosnava comsigo: + +--A mulher tem arranjo, está mettida por ahi com algum sucio! + + +Que noite para Luiza! A cada momento acordava n'um sobresalto, abria +os olhos na penumbra do quarto, e cahia-lhe logo na alma, como uma +punhalada, aquelle cuidado pungente: Que havia de fazer? Como havia +d'arranjar dinheiro? Seiscentos mil reis! As suas joias valiam talvez +duzentos mil reis. Mas depois, que diria Jorge? Tinha as pratas... Mas +era o mesmo! + +A noite estava quente, e na sua inquietação a roupa escorregára, apenas +lhe restava o lençol sobre o corpo. Ás vezes a fadiga readormecia-a +d'um somno superficial, cortado de sonhos muitos vivos. Via montões +de libras reluzirem vagamente, maços de notas agitarem-se brandamente +no ar. Erguia-se, saltava para as agarrar, mas as libras começavam a +rolar, a rolar como infinitas rodinhas sobre um chão liso, e as notas +desappareciam, voando muito leves com um fremito de azas ironicas. Ou +então era alguem que entrava na sala, curvava-se respeitosamente, e +começava a tirar do chapéo, a deixar-lhe cahir no regaço libras, moedas +de cinco mil reis, peças, muitas, muitas, profusamente: não conhecia o +homem: tinha um chinó vermelho e uma pera impudente. Seria o diabo? Que +lhe importava? Estava rica, estava salva! Punha-se a chamar, a gritar +por Juliana, a correr atraz d'ella, por um corredor que não findava, e +que começava a estreitar-se, a estreitar-se, até que era como uma fenda +por onde ella se arrastava de esguelha, respirando mal, e apertando +sempre contra si o montão de libras que lhe punha frialdades de metal +sobre a pelle núa do peito. Acordava assustada: e o contraste da sua +miseria real com aquellas riquezas do sonho era como um acrescimo de +amargura. Quem lhe poderia valer?--Sebastião! Sebastião era rico, era +bom. Mas mandal-o chamar, e dizer-lhe ella, ella Luiza, mulher de +Jorge:--Empreste-me seiscentos mil reis.--Para quê, minha senhora? +E podia lá responder: para resgatar umas cartas que escrevi ao meu +amante. Era lá possivel! Não, estava perdida. Restava-lhe ir para um +convento. + +A cada momento voltava o travesseirinho que lhe escaldava o rosto: +atirou a touca, os seus longos cabellos soltaram-se, prendeu-os ao +acaso com um gancho; e de costas, com a cabeça sobre os braços nús, +pensava amargamente no romance de todo aquelle verão,--a chegada de +Bazilio, o passeio ao Campo Grande, a primeira visita ao _Paraiso_... + +Onde iria elle, aquelle infame? Dormindo tranquillamente nas almofadas +do wagon! + +E ella alli, na agonia! + +Atirou o lençol, abafava. E descoberta, mal se distinguindo da alvura +da roupa, adormeceu quando a madrugada rompia. + +Acordou tarde, succumbida. Mas logo na sala de jantar a belleza da +manhã gloriosa reanimou-a. O sol entrava abundante e radioso pela +janella aberta; os canarios faziam um concerto; da forja ao pé sahia um +martellar jovial; e o largo azul vigoroso levantava as almas.--Aquella +alegria das cousas deu-lhe como uma coragem inesperada. Não se havia de +abandonar a uma desesperança inerte... Que diabo! Devia luctar! + +Vieram-lhe esperanças, então. Sebastião era bom, Leopoldina tinha +expedientes, havia outras possibilidades, o acaso mesmo: e tudo isto +podia, em definitiva, formar seiscentos mil reis, salval-a! Juliana +desappareceria, Jorge voltaria!--E, alvoraçada, via perspectivas de +felicidades possiveis reluzirem, no futuro, deliciosamente. + +Ao meio dia veio o criadito de Sebastião: o senhor tinha chegado +d'Almada, desejava saber como a senhora estava. + +Correu ella mesma á porta; que pedia ao snr. Sebastião, que viesse logo +que podesse! + +Acabou-se! Sentia-se resoluta, ia fallar a Sebastião... No fim era o +que lhe restava: contar ella tudo a Sebastião, ou que a outra contasse +tudo a seu marido. Impossivel hesitar! E depois podia attenuar, dizer +que fôra só uma correspondencia platonica... A partida de Bazilio, +além d'isso, fazia d'aquelle erro um facto passado, quasi antigo... E +Sebastião era tão amigo d'ella! + +Veio, era uma hora. Luiza que estava no quarto sentiu-o entrar, e só +o som dos seus passos grossos no tapete da sala deu-lhe uma timidez, +quasi um terror. Parecia-lhe agora muito difficil, terrivel de dizer... +Preparára phrases, explicações, uma historia de galanteio, de cartas +trocadas; e estava com a mão no fecho da porta, a tremer. Tinha medo +d'elle! Ouvia-o passear pela sala; e receando que a impaciencia lhe +désse mau humor, entrou. + +Afigurou-se-lhe mais alto, mais digno: nunca o seu olhar lhe parecera +tão recto, e a sua barba tão séria! + +--Então que é? precisa alguma cousa?--perguntou-lhe elle depois das +primeiras palavras sobre Almada, sobre o tempo. + +Luiza teve uma cobardia indominavel, respondeu logo: + +--É por causa de Jorge! + +--Aposto que não lhe tem escripto? + +--Não. + +--Esteve muito tempo sem me escrever tambem.--E rindo:--Mas hoje recebi +duas cartas por atacado. + +Procurou-as entre outros papeis que tirou da algibeira. Luiza fôra +sentar-se no sophá; olhava-o com o coração aos pulos, e as suas unhas +impacientes raspavam devagarinho o estôfo. + +--É verdade--dizia Sebastião, revolvendo o maço de papeis.--Recebi +duas, falla em voltar, diz que está muito seccado...--E estendendo uma +carta a Luiza:--Póde vêr. + +Luiza desdobrára-a, e começava a lêr; mas Sebastião, estendendo a mão +precipitadamente: + +--Perdão, não é essa! + +--Não, deixe vêr... + +--Não diz nada, são negocios... + +--Não, quero vêr! + +Sebastião, sentado á beira da cadeira, coçava a barba, olhando-a, muito +contrariado. E Luiza de repente, franzindo a testa: + +--O quê?--A leitura espalhava-lhe no rosto uma surpreza +irritada.--Realmente!... + +--São tolices, são tolices!--murmurava Sebastião, muito vermelho. + +Luiza pôz-se então a lêr alto, devagar: + +«Saberás, amigo Sebastião, que fiz aqui uma conquista. Não é o que se +póde chamar uma princeza, porque é nem mais nem menos que a mulher +do estanqueiro. Parece estar abrazada no mais impuro fogo, por este +seu criado. Deus me perdôe, mas desconfio até que me leva apenas um +vintem pelos charutos de pataco, fazendo assim ao esposo, o digno +Carlos, a dupla partida de lhe arruinar a felicidade e a tenda!»--Que +graça!--murmurou Luiza, furiosa.--«Receio muito que se repita commigo +o caso biblico da mulher de Putiphar. Acredita que ha um certo merito +em lhe resistir, porque a mulher, estanqueira como é, é lindissima. E +tenho medo que succeda algum fracasso á minha pobre virtude...» + +Luiza interrompeu-se, e olhou Sebastião com um olhar terrivel. + +--São brincadeiras!--balbuciou elle. + +Ella seguiu, lendo: «Olha se a Luiza soubesse d'esta aventura! De +resto, o meu successo não pára aqui: a mulher do delegado faz-me um +olho dos diabos! É de Lisboa, d'uma gente Gamacho, que parece que mora +para Belem, conheces? e dá-se ares de morrer de tedio, na tristeza +provinciana da localidade. Deu uma _soirée_ em minha honra, e em minha +honra, creio tambem, decotou-se. Muito bonito collo»--Luiza fez-se +escarlate--«e uma queda do diabo...» + +--Está doudo!--exclamou ella.--«E aqui tens o teu amigo feito um D. +Juan do Alemtejo, e deixando um rasto de chammas sentimentaes por essa +provincia fóra! O Pimentel recommenda-se...» + +Luiza ainda leu baixo algumas linhas, e erguendo-se bruscamente, dando +a carta a Sebastião: + +--Muito bem, diverte-se!--disse com uma voz sibilante. + +--São lá cousas que se tomem a serio! Não deve tomar a serio... + +--Eu!--exclamou ella.--Acho muito natural até! + +Sentou-se, começou, com volubilidade, a fallar d'outras cousas, de D. +Felicidade, de Julião... + +--Trabalha muito agora para o concurso--disse Sebastião.--Quem não +tenho visto é o Conselheiro. + +--Mas, quem é essa gente Gamacho, de Belem? + +Sebastião encolheu os hombros--e com um ar quasi reprehensivo: + +--Ora realmente tomou a serio... + +Luiza interrompeu-o: + +--Ah! sabe? Meu primo Bazilio partiu. + +Sebastião teve um alvoroço d'alegria. + +--Sim? + +--Foi para Paris, não creio que volte.--E depois d'uma pausa, parecendo +ter esquecido Jorge, e a carta:--Só em Paris está bem... Estava no +ar p'ra partir.--Acrescentou com pancadinhas leves nas pregas do +vestido:--Precisava casar, aquelle rapaz. + +--P'ra assentar--disse Sebastião. + +Mas Luiza não acreditava que um homem que gostava tanto de viagens, de +cavallos, d'aventuras, podesse dar um bom marido. + +Sebastião era d'opinião que ás vezes socegavam, e eram homens de +familia... + +--Teem mais experiencia--disse. + +--Mas um fundo leviano--observou ella. + +E depois d'estas palavras vagas calaram-se com embaraço. + +--Eu a fallar a verdade--disse então Luiza--estimei que meu primo +partisse... Como tinha havido essas tolices na visinhança... +Ultimamente mesmo quasi que o não vi. Esteve ahi hontem, veio +despedir-se, fiquei surprehendida... + +Estava tornando impossivel a historia d'um galanteio platonico, cartas +trocadas--mas um sentimento mais forte que ella impellia-a a attenuar, +distanciar as suas relações com Bazilio. Acrescentou mesmo: + +--Eu sou amiga d'elle, mas somos muito differentes... Bazilio é +egoista, pouco affeiçoado... De resto a nossa intimidade nunca foi +grande... + +Calou-se bruscamente, sentiu que «se enterrava». + +Sebastião lembráva-se ouvir-lhe dizer «que tinham sido creados ambos de +pequenos»; mas emfim aquella maneira de fallar do primo, parecia-lhe +a prova maior de que «não houvera nada». Quasi se queria mal pelas +duvidas, que tivera, tão injustas!... + +--E volta?--perguntou. + +--Não me disse, mas não creio. Em se pilhando em Paris! + +E com a idéa da carta, de repente: + +--Então o Sebastião é confidente de Jorge? + +Elle riu: + +--Oh minha senhora! pois acredita... + +--E a mim quando me escreve, que se aborrece, que está só, que não +supporta o Alemtejo...--Mas vendo Sebastião olhar o relogio:--O que, +já? É cedo. + +Tinha d'estar na baixa antes das tres, disse elle. + +Luiza quiz retel-o. Não sabia para quê--porque a cada momento sentia +a sua resolução diminuir, desapparecer como a agua d'um rio que se +absorve no seu leito. Pôz-se a fallar-lhe das obras d'Almada. + +Sebastião começára-as pensando que duzentos ou trezentos mil reis +fariam as restaurações necessarias: mas depois umas cousas tinham +trazido outras--e, dizia, está-se-me tornando um sorvedouro! + +Luiza riu, forçadamente. + +--Ora, quando se é proprietario e rico!... + +--Isso sim! Parece que não é nada: mas uma pintura n'uma porta, uma +janella nova, uma sala forrada de papel, um soalho, e isto e aquillo, e +lá se vão oitocentos mil reis... Emfim!... + +Levantou-se, e despedindo-se: + +--Eu espero que aquelle vadio se não demore muito... + +--Se a estanqueira der licença... + +Ficou a passear na sala, nervosa, com aquella idéa. Deixar-se namorar +pela estanqueira, e a mulher do delegado, e as outras!... De certo, +tinha confiança n'elle, mas os homens!... De repente representou-se-lhe +a estanqueira prendendo-o nos braços detraz do balcão, ou Jorge +beijando, n'alguma entrevista, de noite, o collo bonito da mulher +do delegado!... E tumultuosamente appareceram-lhe todas as razões +que provavam irrecusavelmente a traição de Jorge: estava ha dous +mezes fóra! sentia-se cançado da sua viuvez! encontrava uma mulher +bonita! tomava aquillo como um prazer passageiro, sem importancia!... +Que infame! Resolveu escrever-lhe uma carta digna e offendida, «que +viesse immediatamente, ou que partia ella!»--Entrou no quarto, muito +excitada. A photographia de Jorge, que ella tirára na vespera do sacco +de marroquim, ficára no toucador. Pôz-se a olhal-a: não admirava que o +namorassem, era bonito, era amavel... Veio-lhe uma onda de ciume, que +lhe obscureceu o olhar: se elle a enganasse, se tivesse a certeza da +«mais pequena cousa»--separava-se, recolhia-se a um convento, morria de +certo, matava-o!... + +--Minha senhora--veio dizer Joanna--é um gallego com esta carta. Está á +espera da resposta. + +Que espanto! Era de Juliana! + +Escripta em papel pautado, n'uma letra medonha, erriçada de erros +d'orthographia, dizia: + + + + + «Minha senhora. + +«Bem sei que fui imprudente, o que a senhora deve attribuir tanto á +minha desgraça como á falta de saude, o que ás vezes faz que se tenham +genios repentinos. Mas se a senhora quer que eu volte e faça o serviço +como d'antes--ao qual creio que a senhora não póde oppôr-se, terei +muito gosto em ser agradavel na certeza que nunca mais se fallará em +tal até que a senhora queira, e cumpra o que prometteu. Prometto fazer +o meu serviço, e desejo que a senhora esteja por isto pois que é para +bem de todos. Pois que foi genio e naturalmente todos teem os seus +repentes, e com isto não canço mais e sou + + «Serva muito obediente + + «a criada + + «_Juliana Couceiro Tavira_.» + + +Ficou com a carta na mão, sem resolução. A sua primeira vontade foi +dizer--não! Tornar a recebel-a, vêl-a, com a sua face horrivel, a cuia +enorme! Saber que ella tinha no bolso a sua carta, a sua deshonra, +e chamal-a, pedir-lhe agua, a lamparina, ser servida por ella! Não! +Mas veio-lhe um terror; se recusasse irritava a creatura, Deus sabe o +que faria! Estava nas mãos d'ella, devia passar por tudo. Era o seu +castigo... Hesitou ainda um momento: + +--Que sim, que venha, é a resposta. + + +Juliana veio com effeito ás oito horas. Subiu pé ante pé para o +sotão, poz o fato de casa e as chinellas, e desceu para o quarto +dos engommados, onde Joanna sentada n'um tapete costurava, á luz do +petroleo. + +Joanna, muito curiosa, acabrunhou-a logo de perguntas: Onde estivera? +o que tinha acontecido? porque não déra noticias?--Juliana contou que +fôra a uma visita a uma amiga, á calçada do Marquez d'Abrantes, e que +de repente lhe dera um flato, e a dôr... Não quiz mandar dizer, porque +imaginára que poderia vir. Mas qual! estivera dia e meio de cama... + +Quiz saber então o que tinha feito a senhora, se sahira, quem +estivera... + +--A senhora tem andado a modo incommodada--disse Joanna. + +--É do tempo--observou Juliana.--Tinha trazido a sua costura, e ambas +caladas continuaram o serão. + +Ás dez horas Luiza ouviu bater devagarinho á porta do quarto. Era +_ella_, de certo! + +--Entre... + +A voz de Juliana disse muito naturalmente: + +--Está o chá na mesa. + +Mas Luiza não se decidia a ir á sala, com medo, horror de a vêr! Deu +voltas no quarto, demorou-se; foi emfim, toda tremula. Juliana vinha +justamente no corredor; encolheu-se contra a parede, com respeito, +disse: + +--Quer que vá pôr a lamparina, minha senhora? + +Luiza fez que _sim_ com a cabeça, sem a olhar. + +Quando voltou ao quarto Juliana enchia o jarro; e depois de ter aberto +a cama, cerrado as portas, quasi em pontas de pés: + +--A senhora não precisa mais nada?--perguntou. + +--Não. + +--Muito boa noite, minha senhora. + +E não houve outra palavra mais. + +--Parece um sonho!--pensava Luiza, ao despir-se melancolicamente.--Esta +creatura, com as minhas cartas, installada em minha casa para me +torturar, para me roubar!--Como se achava ella, Luiza, n'aquella +situação? Nem sabia. As cousas tinham vindo tão bruscamente, com a +precipitação furiosa d'uma borrasca, que estala! Não tivera tempo de +raciocinar, de se defender: fôra embrulhada: e alli estava, quasi sem +«dar fé», na sua casa sob a dominação da sua criada! Ah! se tivesse +fallado a Sebastião! Tinha agora o dinheiro, de certo, notas, ouro... +Com que phrenesi lh'o arremessaria, a expulsaria, e a arca, e os +trapos, e a cuia!...--Jurou a si propria fallar a Sebastião, dizer +tudo! Iria mesmo a casa d'elle, para o impressionar mais! + +D'ahi a pouco, quebrada da agitação do dia, adormecera--e sonhava que +um estranho passaro negro lhe entrára no quarto, fazendo uma ventania, +com as suas azas pretas de morcego: era Juliana! Corria aterrada ao +escriptorio, gritando: Jorge! Mas não via nem livros, nem estante, +nem mesa:--havia uma armação reles de loja de tabaco, e por traz do +balcão, Jorge acariciava sobre os joelhos uma bella mulher de fórmas +robustas, em camisa d'estopa, que perguntava com uma voz desfallecida +de voluptuosidade e os olhos afogados em paixão:--Brejeiros ou de +Xabregas?--Fugia então de casa indignada, e, através de successos +confusos, via-se ao lado de Bazilio, n'uma rua sem fim, onde os +palacios tinham fachadas de cathedraes, e as carruagens rolavam +ricamente com uma pompa de cortejo. Contava soluçando a Bazilio a +traição de Jorge. E Bazilio, saltitando em volta d'ella com requebros +de palhaço, repenicava uma viola, e cantava: + + Escrevi uma carta a Cupido + A mandar-lhe perguntar + Se um coração offendido + Tem obrigação de amar! + +--Não tem!--gania a voz d'Ernestinho, brandindo triumphante um rolo de +papel.--E tudo se obscurecia de repente nos largos vôos circulares que +fazia Juliana com as suas azas de morcego. + + + + +IX + + +Juliana voltára para casa de Luiza por conselhos da tia Victoria. + +--Olha, minha rica, tinha-lhe ella dito, não ha que vêr, o passaro +fugiu-nos! Suspira, bem pódes suspirar que o dinheiro grosso foi-se! +Quem podia lá adivinhar que o homem desarvorava! Não, lá isso pódes +tirar d'ahi o sentido! Que d'ella escusas d'esperar nem cheta... + +--Tambem me regalo de mandar as cartas ao marido, tia Victoria! + +A velha encolheu os hombros: + +--Não lucras nada com isso. Ou que elles se desquitem, ou que elle +lhe parta os ossos, ou que a mande para um convento--tu não ganhas +nada. E se se acommodarem, mais ficas a chuchar no dedo, porque nem +tens a consolação de fazeres a sizania. E isto é se as cousas correrem +pelo melhor, porque pódes muito bem ficar mas é em lençoes de vinagre +com alguma carga de pau que elles te mandem dar.--E vendo um gesto +espantado de Juliana:--Já não era o primeiro caso, minha rica, já não +era o primeiro. Olha que em Lisboa, passa-se muita cousa, e nem tudo +vem nos jornaes! + +Positivamente o que ella tinha a fazer era voltar para a casa. Porque +emfim o que restava de tudo aquillo? O medo de D. Luiza: esse é que +lá estava sempre a dar-lhe por dentro a colica: d'esse é que era +necessario tirar partido... + +--Tu voltas para lá--dizia--á espera que ella cumpra o que prometteu. +Se te dá o dinheiro, bem... Senão tem-l'a em todo o caso na mão, estás +de dentro da praça, sabes o que se passa, pódes-lhe apanhar muita +cousa... + +Mas Juliana hesitava.--Era difficil viverem debaixo das mesmas telhas +sem haver uma questão por dá cá aquella palha. + +--Não te diz uma palavra, tu verás... + +--Mas tenho medo... + +--De que?--exclamava a tia Victoria. Ella não era mulher para a +envenenar, não é verdade? Então? Quem a nada se arriscava nada +ganhava.--Isto é se queres--acrescentou--senão trata de te arranjar +n'outra parte, e deita as cartas para o fundo da arca. Que diabo! Tu +vaes vêr, se não te convém, safas-te... + +Juliana decidiu ir, «a vêr». + +E reconheceu logo, que «aquella finoria da tia Victoria tinha carradas +de razão». + +Luiza, com effeito, parecia resignada. Sebastião tinha ido para Almada, +outra vez. Mas como estava decidida, apenas elle voltasse, a ir a casa +d'elle uma manhã, atirar-se-lhe ao pés, contar-lhe _tudo_, _tudo_, +supportava Juliana, reflectindo:--É apenas por dias!--Por isso não lhe +disse uma palavra. Para que? O que tinha a fazer era pagar-lhe e pôl-a +fóra, não é verdade? Em quanto o não podesse fazer, era aguentar e +calar. Até que Sebastião voltasse... + +No entretanto evitava vêl-a. Nunca a chamava. Não sahia da alcova de +manhã, sem a ter sentido fóra no quarto encher o banho, sacudir os +vestidos. Ia para a sala de jantar com um livro, e nos intervallos não +levantava os olhos das paginas. E durante todo o dia conservava-se no +quarto com a porta fechada, lendo, costurando, pensando em Jorge--ás +vezes tambem em Bazilio com odio, desejando a volta de Sebastião, e +preparando a sua historia. + +Juliana, uma manhã, encontrou Luiza no corredor trazendo para o quarto +o regador cheio d'agua. + +--Oh minha senhora! porque não chamou?--exclamou, quasi escandalisada. + +--Não tem duvida--disse Luiza. + +Mas Juliana seguiu-a ao quarto, e cerrando a porta: + +--Oh minha senhora!--disse muito offendida--isto assim não póde +continuar. A senhora parece que tem medo de me vêr, credo! Eu +voltei para fazer o meu serviço como d'antes... Verdade, verdade, +naturalmente, sempre espero que a senhora faça o que prometteu... E +lá largar as cartas não largo, sem ter seguro o pão da velhice. Mas +o que se passou foi um repente de genio, e já pedi perdão á senhora. +Quero fazer o meu serviço... Agora se a senhora não quer, então saio, +e--acrescentou com uma voz secca--talvez seja peor para todos!... + +Luiza, muito perturbada, balbuciou: + +--Mas... + +--Não, minha senhora--cortou Juliana severamente--aqui a criada sou eu. + +E sahiu, empertigada. + +Tanta audacia aterrou Luiza. Aquella ladra era capaz de tudo! + +Então, para a não irritar começou, d'ahi por diante, a chamal-a, a +dizer:--Traga isto, traga aquillo,--sem a olhar. + +Mas Juliana fazia-se tão serviçal, era tão calada, que Luiza pouco a +pouco, dia a dia, com o seu caracter mobil, inconsistente, cheio _de +deixar-se ir_, principiou a perder o sentimento pungente d'aquella +difficuldade. E no fim de tres semanas «as cousas tinham entrado nos +seus eixos»--dizia Juliana. + +Luiza já gritava por ella do quarto, já a mandava a recados fóra: +Juliana chegava a ter ás vezes migalhas de conversação:--Está um calor +de morrer... A lavadeira tarda...--Um dia arriscou esta phrase mais +intima:--Encontrei a criada da snr.^a D. Leopoldina. + +Luiza perguntou: + +--Ainda está para o Porto? + +--Ainda se demora um mez, minha senhora... + +De resto havia na casa um aspecto muito tranquillo, e Luiza, depois +de tantas agitações, abandonava-se com gozo á satisfação d'aquelle +descanço. Ia ás vezes vêr D. Felicidade á Encarnação, que já se +levantava. E esperava sempre Sebastião, mas sem impaciencia, quasi +contente por vêr adiado o momento terrivel de lhe dizer: escrevi a um +homem, Sebastião! + +Assim iam passando os dias; estava-se no fim de setembro. + +Uma tarde Luiza ficára mais tempo á janella da sala de jantar; deixára +cahir o livro no regaço, e olhava, sorrindo, um bando de pombas que +d'algum quintal visinho viera pousar sobre o tabique do terreno vago. +Pensava vagamente em Bazilio, no _Paraiso_... Sentiu passos, era +Juliana. + +--Que é? + +A mulher cerrára a porta, e vindo junto d'ella, baixo: + +--Então a senhora ainda não decidiu nada? + +Luiza sentiu como uma pancada no estomago. + +--Ainda não pude arranjar nada... + +Juliana esteve um momento a olhar para o chão: + +--Bem--murmurou, por fim. + +E Luiza ouviu-a, no corredor, dizer alto: + +--Isto quando o senhor voltar é que são os ajustes de contas! + + +Quando Jorge voltasse! Immediatamente no seu espirito, que se tinha +pouco a pouco serenado, todos os sustos, as angustias estremeceram +de novo áquella ameaça--assim uma rajada subita põe em convulsão um +arvoredo. Devia, pois, fazer _alguma cousa_ antes que elle chegasse! +Justamente Jorge escrevera-lhe, que «não se demoraria, que a avisaria +pelo telegrapho...» Desejava, agora, que do ministerio o mandassem +fazer uma viagem mais longe, pela Hespanha ou pela Africa; que alguma +catastrophe, sem lhe fazer mal, o retardasse mezes!... + +Que faria elle, se soubesse! Matal-a-hia? Lembravam-lhe as suas +palavras muito sérias, n'aquella noite, quando Ernestinho contára o +final do seu drama... Mettel-a-hia n'uma carruagem, leval-a-hia a um +convento? E via a grossa portaria fechar-se com um ruido funerario de +ferrolhos, olhos lugubres estudal-a curiosamente... + +O seu terror irraciocinado fizera-lhe mesmo perder a idéa nitida do seu +marido; imaginava um _outro_ Jorge sanguinario e vingativo, esquecendo +o seu caracter bom, tão pouco melodramatico. Um dia foi ao escriptorio, +tomou a caixa das pistolas, fechou-a n'um bahú de roupa velha, e +escondeu a chave!... + +Uma idéa amparava-a: era que apenas Sebastião viesse d'Almada, estava +salva; e apesar d'aquella agonia miuda de todos os momentos, quasi +receava saber _que elle tivesse chegado_,--tanto a confissão da verdade +lhe parecia uma agonia maior! Foi por esse tempo, então, que lhe veio +uma lembrança--escrever a Bazilio. O terror permanente amollecera-lhe +o orgulho, como a lenta infiltração da agua faz a uma parede; e todos +os dias começou a achar uma razão, _mais uma_, para se dirigir «áquelle +infame»: fôra seu amante, já sabia todo o caso das cartas, era o seu +unico parente... E não teria de «dizer» a Sebastião! Já ás vezes +pensára que não aceitar dinheiro de Bazilio fôra uma «fanfarronada +bem tola»! Um dia emfim escreveu-lhe. Era uma carta longa, um pouco +confusa, pedia-lhe _seiscentos mil reis_. Foi ella mesmo leval-a ao +correio, sobrecarregando-a de estampilhas. + +N'essa tarde, por acaso, Sebastião, que chegára d'Almada, veio vêl-a. +Recebeu-o com alegria, feliz _por não ter de lhe contar_... Fallou da +volta de Jorge; alludiu mesmo ao primo Bazilio, á «pouca vergonha da +visinhança...» + +--Não--disse--é a primeira cousa que hei-de contar ao Jorge. + +Porque se considerava salva, agora! E todos os dias seguia a carta, +no seu caminho para França, como se a sua mesma vida fosse dentro +d'aquelle sobrescripto entregue ao acaso dos trens e á confusão das +viagens! Chegára a Madrid, depois a Bayonna, depois a Paris! Um +carteiro corria a entregal-a na rua Saint Florentin. Bazilio abria-a +tremendo, enchia um sobrescripto de notas, muitas, que cobria de +beijos, e o enveloppe, trazendo a sua salvação e o seu descanço, +começava a rolar para baixo, pela França e pela Navarra, soprando como +um monstro e apressando-se como um proprio. + +No dia em que a resposta _devia_ chegar, levantou-se mais cedo, +agitada, com o ouvido pregado na porta, esperando o toque do carteiro. +Via-se já a expulsar Juliana, a soluçar de alegria!... Mas ás dez e +meia começou a estar nervosa: ás onze chamou Joanna, «que fosse saber +se o carteiro passára». + +--Diz que sim, minha senhora, que já passou. + +--Canalha!--murmurou, pensando em Bazilio. + +Talvez, todavia, não tivesse respondido no mesmo dia! Esperou ainda, +mas desconsolada, já sem fé. Nada! Nem na outra manhã, nem nas +seguintes! O infame! + +Veio-lhe então a idéa da loteria--porque insensivelmente a esperança +tornára-se-lhe necessaria. A primeira vez que sahiu comprou umas poucas +de cautelas. Apesar de não ser religiosa nem supersticiosa, metteu-as +debaixo da peanha d'um S. Vicente de Paula que tinha sobre a commoda, +na alcova. _Não se perdia nada!_ Examinava-as todos os dias, sommava os +algarismos a vêr se davam _nove_, _noves fóra_, _nada_, ou um numero +par--que é de bom agouro! E aquelle contacto diario com a imagem do +santo levando-a a pensar de certo na protecção inesperada do céo, fez +uma promessa de cincoenta missas se as cautelas fossem premiadas!... + +Sahiram brancas--e então desesperou de tudo; abandonou-se a uma inacção +em que sentia quasi uma voluptuosidade, passando dias sem se importar, +quasi sem se vestir, desejando morrer, devorando nos jornaes todos os +casos de suicidios, de fallencias, de desgraças--consolando-se com a +idéa de que nem só ella soffria, e que a vida em redor, na cidade, +fervilhava de afflicções. + +Ás vezes, de repente, vinha-lhe uma pontada de medo. Decidia-se então +de novo a «abrir-se» com Sebastião; depois pensava que seria melhor +escrever-lhe; mas não achava as palavras, não conseguia arranjar uma +historia racional; vinha-lhe uma cobardia; e recahia na sua inercia, +pensando: «ámanhã, ámanhã...» + +Quando, só, no seu quarto, se chegava por acaso á janella, punha-se +a imaginar o que «diria a visinhança, quando se soubesse»! +Condemnal-a-hiam? Lamental-a-hiam? Diriam--«Que desavergonhada»? +Diriam--«Coitadinha»? E por dentro da vidraça seguia, com um olhar +quasi aterrado, as passeatas do Paula pela rua, o embasbacamento obeso +da carvoeira, as Azevedos por traz das bambinellas de cassa! Como elles +todos gritariam:--«Bem diziamos nós! Bem diziamos nós!» Que desgraça! +Ou então via de repente Jorge, terrivel, fóra de si, com as _cartas_ na +mão; e encolhia-se como se já estivesse sob a colera dos seus punhos +fechados. + +Mas o que a torturava mais era a tranquillidade de +Juliana--espanejando, cantarolando, servindo-a ao jantar d'avental +branco. Que tencionava ella? Que preparava ella? Ás vezes vinha-lhe uma +onda de raiva; se fosse forte ou corajosa, de certo atirar-se-lhe-hia +ao pescoço, para a esganar, arrancar-lhe a carta! Mas pobre d'ella, era +«uma mosquinha»! + +Justamente, n'uma d'essas manhãs, Juliana entrou no quarto--com o +vestido de sêda preto no braço. Estendeu-o na _causeuse_, e mostrou +a Luiza, na saia, ao pé do ultimo folho, um rasgão largo que parecia +feito com um prego; vinha saber se a senhora queria que o mandasse á +costureira. + +Luiza lembrava-se bem, rasgára-o uma manhã no _Paraiso_ a brincar com +Bazilio! + +--Isto é facil d'arranjar--dizia Juliana, passando de leve a mão +espalmada sobre a sêda, com a lentidão d'uma caricia. + +Luiza examinava-o, hesitando: + +--Elle tambem já não está novo... Olhe, guarde-o p'ra vossê! + +Juliana estremeceu, fez-se vermelha: + +--Oh minha senhora!--exclamou--Muito agradecida! É um rico +presente. Muito agradecida, minha senhora! Realmente...--E a voz +perturbava-se-lhe. + +Tomou-o nos braços, com cuidado, correu logo á cozinha. E Luiza, que a +seguira pé ante pé, ouviu-a dizer toda excitada: + +--É um rico presente, é o que ha de melhor. E novo! Uma rica +sêda!--Fazia arrastar a cauda pelo chão, com um _frou-frou_. Sempre o +invejára: e tinha-o agora, era o _seu_ vestido de sêda!--É de muito boa +senhora, snr.^a Joanna, é d'um anjo! + +Luiza voltou ao quarto, toda alvoroçada; era como uma pessoa perdida de +noite, n'um descampado--que de repente, ao longe, vê reluzir um clarão +de vidraça! Estava salva! Era presenteal-a, era fartal-a! Começou logo +a pensar no que lhe podia dar mais, pouco a pouco: o vestido rôxo, +roupas brancas, o roupão velho, uma pulseira! + + +D'ahi a dous dias--era um domingo--recebeu um telegramma de Jorge: +«Parto ámanhã do Carregado. Chego pelo comboio do Porto ás 6.» Que +sobresalto! Voltava, emfim! + +Era nova, era amorosa--e no primeiro momento todos os sustos, as +inquietações desappareceram sob uma sensação d'amor e de desejo, que a +inundou. Viria de madrugada, encontral-a-hia deitada,--e já pensava na +delicia do seu primeiro beijo!... + +Foi-se vêr ao espelho: estava um pouco magra, talvez, com a physionomia +um pouco fatigada... E a imagem de Jorge apparecia-lhe então muito +nitidamente, mais queimado do sol, com os seus olhos ternos, o cabello +tão annelado! Que estranha cousa! Nunca lhe appetecêra tanto vêl-o. Foi +logo occupar-se d'elle: o escriptorio estaria bem arranjado? Quereria +um banho morno, seria necessario aquecer a agua na tina grande!... E ia +e vinha, cantarolando, com um brilho exaltado nos olhos. + +Mas a voz de Juliana, de repente no corredor, fêl-a estremecer. Que +faria ella, a mulher? Ao menos que a deixasse n'aquelles primeiros +dias gozar a volta de Jorge, tranquillamente!... Veio-lhe uma audacia, +chamou-a. + +Juliana entrou, com o vestido de sêda novo, movendo-se cuidadosamente: + +--Quer alguma cousa, minha senhora? + +--O snr. Jorge volta amanhã...--disse Luiza. + +E suspendeu-se; o coração batia-lhe fortemente. + +--Ah!--fez Juliana.--Bem, minha senhora. + +E ia sahir. + +--Juliana!--fez Luiza, com a voz alterada. + +A outra voltou-se, surprehendida. + +E Luiza batendo com as mãos, n'um movimento supplicante: + +--Mas vossê ao menos n'estes primeiros dias... Eu hei-de arranjar, +esteja certa!... + +Juliana acudiu logo: + +--Oh minha senhora! Eu não quero dar desgostos a ninguem. O que eu +quero é um bocadinho de pão para a velhice. Da minha bocca não ha-de +vir mal a ninguem. O que peço á senhora é que se fôr da sua vontade e +me quizer ir ajudando... + +--Lá isso, sim... O que vossê quizer... + +--Pois póde estar certa que esta bocca...--E fechou os labios com os +dedos. + +Que alegria para Luiza! Tinha uns dias, umas semanas, emfim, sem +tormentos, com o _seu_ Jorge! Abandonou-se então toda á deliciosa +impaciencia de o vêr. Era singular--mas parecia-lhe que o amava +mais!...--E depois pensaria, veria, daria outros presentes a Juliana, +poderia pouco a pouco preparar Sebastião... Quasi se sentia feliz. + +De tarde Juliana veio dizer-lhe, muito risonha; + +--A snr.^a Joanna sahiu, que era hoje o seu dia, mas eu tinha tanta +precisão de sahir, tambem! se a senhora lhe não custasse ficar só... + +--Não! Fico, que tem? Vá, vá! + +E, d'ahi a pouco, sentiu-a bater os tacões no corredor, fechar com +ruido a cancella. + +Então de repente uma idéa deslumbrou-a, como a fulguração d'um +relampago:--ir ao quarto d'ella, rebuscar-lhe a arca, roubar-lhe as +cartas! + +Viu-a da janella dobrar a esquina. Subiu logo ao sotão, devagar, +escutando, com o coração aos saltos. A porta do quarto de Juliana +estava aberta; vinha de lá um cheiro de mofo, de rato e de roupa +enxovalhada que a enjoou; pelo postigo entrava uma luz triste, de +tarde escura; e por baixo, encostada á parede, ficava a arca! Mas +estava fechada! De certo! Desceu correndo, veio buscar o seu mólho +de chaves... Sentia uma vergonha,--mas se achasse as cartas! Aquella +esperança dava-lhe todos os atrevimentos, como um vinho alcoolico. +Começou a experimentar as chaves; a mão tremia-lhe; de repente a +lingueta, com um estalinho secco, cedeu! Ergueu a tampa, estavam alli, +talvez! E então, com cautela, muito femininamente, poz-se a tirar as +cousas uma por uma, pondo-as em cima do colxão:--o vestido de merino; +um leque com figuras douradas, embrulhado em papel de sêda; velhas +fitas rôxas e azues, passadas a ferro; uma pregadeira de setim côr +de rosa, com um coração bordado a matiz: dous frasquinhos de cheiro, +intactos, tendo collados ao vidro raminhos de rosas de papel recortado; +tres pares de botinas embrulhadas em jornaes; a roupa branca, d'onde +se exhalava um cheiro de madeira e de folhas de maçã camoeza. Entre +duas camisas estava um maço de cartas atadas com um nastro... Nenhuma +era d'ella! Nem de Bazilio! Eram d'uma letra d'aldêa, inintelligivel e +amarellada! Que raiva! E ficou a olhar para a arca vazia, de pé, com os +braços tristemente cahidos. + +Uma sombra de repente passou diante do postigo. Estremeceu, aterrada. +Era um gato, que com passos leves, vadiava pelo telhado.--Tornou a +repôr tudo com as mesmas dobras, fechou a arca, ia a sahir,--mas +lembrou-se de procurar na gaveta da mesa e debaixo do travesseiro. +Nada! Impacientou-se então; não se queria ir sem ter gasto toda a +esperança; desmanchou a roupa da cama, remexeu a palha amollentada do +enxergão, sacudiu as velhas botinas, esgaravatou os cantos... Nada! +Nada! + +Subitamente, a campainha tocou. Desceu a correr. Que surpreza! Era D. +Felicidade. + +--És tu! Como estás tu? Entra. + +Estava melhor, veio logo contando pelo corredor. Sahira na vespera da +Encarnação: o pé ás vezes ainda lhe fazia mal: mas graças a Deus estava +escapa! E que lhe agradecesse, era a sua primeira visita! + +Entraram no quarto. Escurecia, Luiza accendeu as velas. + +--E como me achas tu, hein?--perguntou D. Felicidade, pondo-se diante +d'ella. + +--Um bocadito mais pallida. + +Ai! tinha soffrido muito! Ergueu a saia, mostrou o pé calçado n'um +sapato largo, obrigou Luiza a apalpal-o... Que uma consolação lhe +restava: é que toda a Lisboa a fôra vêr! Graças a Deus! Toda a Lisboa, +o que ha de melhor em Lisboa! + +--E tu esta semana--acrescentou--nem appareceste! Pois olha que te +cortaram na pelle... + +--Não pude, filha. O Jorge chega ámanhã, sabias? + +--Ah sua brejeira! Viva! Está esse coraçãosinho aos pulos!--E disse-lhe +um segredinho. + +Riram muito. + +--Pois eu--continuou D. Felicidade sentando-se--arranjei-te hoje a +partida. Encontrei esta manhã o Conselheiro, que me disse que vinha. +Encontrei-o aos Martyres! Olha que foi sorte, logo no primeiro dia que +sahi! E um bocado adiante dou com o Julião: diz que tambem vinha!...--E +com uma voz desfallecida: + +--Sabes? tomava uma colherinha de dôce... + + +Foi Luiza que abriu a porta ao Conselheiro e a Julião, que se tinham +encontrado na escada, dizendo-lhes a rir: + +--Hoje sou eu o guarda-portão! + +D. Felicidade, na sala, para disfarçar a perturbação que lhe deu o +espectaculo amado da pessoa d'Accacio, começou, fallando muito, a +censural-a «por deixar assim sahir no mesmo dia as duas criadas...» + +--E se te achares incommodada, filha, se te dér alguma cousa? + +Luiza riu. Não era affecta a fanicos... + +Todavia achavam-na abatida. E o Conselheiro, com interesse: + +--Tem continuado a soffrer dos dentes, D. Luiza? + +Dos dentes? Era a primeira vez que tal ouvia!--exclamou logo D. +Felicidade. Julião declarou que raras vezes vira uma dentição tão +perfeita. + +O Conselheiro apressou-se a citar: + + Em labios de coral, perolas finas... + +E acrescentou: + +--É verdade, mas a ultima vez que tive a honra d'estar com D. Luiza, +viu-se tão repentinamente afflicta com um dente, que teve d'ir a correr +chumbal-o ao Vitry! + +Luiza fez-se muito vermelha. Felizmente a campainha tocou. Devia ser a +Joanna, ia abrir... + +--É verdade--continuou o Conselheiro--tinhamos feito um delicioso +passeio, quando de repente D. Luiza empallidece, e parece que a dôr era +tão urgente, que se precipitou para a escada do dentista, como louca... + +A proposito de dôres, D. Felicidade, que estava anciosa por interessar, +commover o Conselheiro, começou a historia do seu pé: disse a queda, +o milagre de não ter morrido, as visitas assiduas de condessas e +viscondessas, o susto em toda a Encarnação, os cuidados do bom dr. +Caminha... + +--Ai! soffri muito!--suspirou, com os olhos no Conselheiro, para +provocar uma palavra sympathica. + +Accacio, então, disse com authoridade: + +--É sempre um erro, ao descer uma escada ingreme, não procurar o apoio +do corrimão. + +--Mas podia ter morrido!--exclamou ella. E voltando-se para +Julião:--Pois não é verdade? + +--N'este mundo morre-se por qualquer cousa--disse elle enterrado n'uma +poltrona, fumando voluptuosamente. Elle mesmo estivera n'aquella tarde +para ser atropellado por um trem: destinára o domingo para se dar _um +feriado_, e fizera um grande passeio pela circumvallação...--Ha mais +d'um mez vivo no meu cubiculo, como um frade benedictino na livraria do +seu convento!--acrescentou, rindo, quebrando complacentemente a cinza +do cigarro sobre o tapete. + +O Conselheiro quiz saber então o assumpto da these: de certo muito +momentoso!... E apenas Julião lhe disse: «Sobre physiologia, snr. +Conselheiro», Accacio observou logo, com uma voz profunda: + +--Ah! physiologia! Deve ser então de grande magnitude! E presta-se mais +ao estylo ameno. + +Queixou-se, tambem, de «vergar ao peso dos seus trabalhos +litterarios...» + +--Esperemos todavia, snr. Zuzarte, que não sejam infructiferas as +nossas vigilias! + +--As suas, snr. Conselheiro, as suas!--E com interesse:--Quando nos dá +o seu novo trabalho? Ha sofreguidão em o vêr! + +--Ha alguma sofreguidão--concordou o Conselheiro com seriedade.--Ha +dias me dizia o snr. ministro da justiça (esse robustissimo talento), +ha dias me dizia, me fazia a honra de me dizer: Dê-nos depressa o seu +livro, Accacio, estamos precisados de luz, de muita luz! Foi assim que +elle disse. Eu inclinei-me, naturalmente, e respondi: Snr. ministro, +não serei eu que a negue ao meu paiz, quando o meu paiz a necessitar! + +--Muito bem, muito bem, Conselheiro! + +--E--acrescentou--dir-lhes-hei, aqui em familia, que o nosso ministro +do reino me deixou entrevêr n'um futuro não remoto, a commenda de S. +Thiago! + +--Já lh'a deviam ter dado, Conselheiro!--exclamou Julião, +divertindo-se.--Mas n'este desgraçado paiz... Já a devia ter ao peito, +Conselheiro! + +--Ha que tempos!--exclamou com força D. Felicidade. + +--Obrigado, obrigado!--balbuciou o Conselheiro, rubro. E na expansão do +seu jubilo offereceu com uma familiaridade agradecida, a sua caixa de +rapé a Julião. + +--Tomarei para espirrar--disse elle. + +Sentia-se n'aquella tarde n'uma disposição benevola: o trabalho e as +altas esperanças que elle lhe dava tinham de certo dissipado o seu +azedume: parecia até ter esquecido a sua humilhação, quando encontrára +alli, n'aquella sala, o primo Bazilio, porque apenas Luiza entrou, +perguntou-lhe por elle. + +--Partiu para Paris, não sabiam? ha que tempos! + +D. Felicidade e o Conselheiro fizeram logo o elogio de Bazilio. Tinha +ido deixar bilhetes de visita a ambos--o que encantára D. Felicidade, +e ensoberbecera o Conselheiro. Era um verdadeiro fidalgo!--exclamava +ella. E Accacio affirmou com authoridade: + +--E uma voz de barytono, digna de S. Carlos. + +--E muito elegante!--disse D. Felicidade. + +--Um _gentleman_!--resumiu o Conselheiro. + +Julião, calado, bambaleava a perna. Agora, áquelles elogios, o seu +despeito renascia; lembrava a seccura cortante de Luiza, n'aquella +manhã, as _poses_ do outro. Não resistiu a dizer: + +--Um pouco sobrecarregado nas joias e nos bordados das meias. De resto +é moda no Brazil, creio... + +Luiza córou; teve-lhe odio. E, vagamente, veio-lhe uma saudade de +Bazilio. + +D. Felicidade então, perguntou por Sebastião: não o via havia um +seculo; e lamentava, porque era uma pessoa que lhe dava saude, só vêl-a. + +--É uma grande alma--disse com emphase o Conselheiro.--Todavia +censurava-o um pouco por não se occupar, não se tornar util ao seu +paiz.--Porque emfim--declarou--o piano é uma bonita habilidade, mas não +dá uma posição na sociedade.--Citou então Ernestinho, que, posto que +dando-se á arte dramatica, era todavia (e a sua voz tornou-se grave), +segundo todas as informações, um excellente empregado aduaneiro... + +Que fazia elle, Ernestinho?--perguntaram. + +Julião tinha-o encontrado. Dissera-lhe que a _Honra e Paixão_ ia d'ahi +a duas semanas, já se estavam a imprimir os cartazes, e na rua dos +Condes já lhe não chamavam senão o _Dumas filho portuguez_! E o pobre +rapaz crê-se realmente um _Dumas filho_! + +--Não conheço esse author--disse com gravidade o Conselheiro--posto que +me pareça, pelo nome, ser filho do escriptor que se tornou famoso pelos +_Tres Mosqueteiros_ e outras obras de imaginação!... Mas, de resto, +o nosso Ledesma é um esmerado cultor da arte dos Corneilles! Não lhe +parece, D. Luiza? + +--Sim--disse ella com um sorriso vago. + +Parecia preoccupada. Fôra já duas vezes ao relogio do quarto vêr as +horas: quasi dez, e Juliana sem voltar! Quem havia de servir o chá? +Ella mesmo foi pôr as chavenas no taboleiro, armar o paliteiro. Quando +voltou á sala notou um silencio enfastiado...--Queriam que fosse +tocar?--perguntou. + +Mas D. Felicidade que olhava, ao pé de Julião, as gravuras do Dante, +illustrado por G. Doré, que elle folheava, com o volume sobre os +joelhos, exclamou, de repente: + +--Ai que bonito! que é? Muito bonito! Viste, Luiza? + +Luiza aproximou-se. + +--É um caso d'amor infeliz, snr.^a D. Felicidade--disse Julião.--É +a historia triste de Paulo e Francesca de Rimini.--E explicando o +desenho:--Aquella senhora sentada é Francesca: este moço de guedelha, +ajoelhado aos pés d'ella, e que a abraça, é seu cunhado, e, lamento ter +de o dizer, seu amante. E aquelle barbaças, que lá ao fundo levanta o +reposteiro e saca da espada, é o marido que vem, e zás!--E fez o gesto +de enterrar o ferro. + +--Safa!--fez D. Felicidade, arripiada--E aquelle livro cahido o que é? +Estavam a lêr?... + +Julião disse discretamente: + +--Sim... Tinham começado por lêr, mas depois... + + Quel giorno più no vi leggiomi avante, + +o que quer dizer:--_E nós não lemos mais em todo o dia!_ + +--Pozeram-se a derriçar--disse D. Felicidade com um sorriso. + +--Peor, minha rica senhora, peor! Porque segundo a mesma confissão de +Francesca, este moço, o da guedelha, o cunhado, + + La bocca me bacciò tutto tremante, + +o que significa:--_A bocca me beijou tremendo todo_... + +--Ah!--fez D. Felicidade, com um olhar rapido para o Conselheiro.--É +uma novella? + +--É o Dante, D. Felicidade--acudiu com severidade o Conselheiro--um +poema epico classificado entre os melhores. Inferior, porém, ao nosso +Camões! Mas rival do famoso Milton! + +--Que n'essas historias estrangeiras os maridos matam sempre as +mulheres!--exclamou ella. E voltando-se para o Conselheiro:--Pois não é +verdade? + +--Sim. D. Felicidade, repetem-se lá fóra com frequencia essas +tragedias domesticas. O desenfreamento das paixões é maior. Mas entre +nós, digamol-o com orgulho, o lar é muito respeitado. Assim eu, por +exemplo, em todas as minhas relações em Lisboa, que são numerosas, +graças a Deus, não conheço senão esposas modêlos.--E com um sorriso +cortezão:--De que é de certo a flôr a dona da casa! + +D. Felicidade revirou os olhos para Luiza que estava encostada á +cadeira d'ella, e batendo-lhe no braço: + +--Isto é uma joia!--disse com amor. + +--E de resto--acudiu o Conselheiro--o nosso Jorge merece-o. Porque, +como diz o poeta: + + Seu coração é nobre, e a fronte altiva + Revela-lhe da alma a pura essencia. + +Aquella conversação impacientava Luiza. Ia sentar-se ao piano, quando +D. Felicidade exclamou:--Dize cá, então não se toma hoje chá n'esta +casa? + +Luiza foi outra vez á cozinha. Disse a Joanna que viesse ella mesma +com o chá.--E d'ahi a pouco Joanna, d'avental branco, vermelha, muito +atarantada, entrou com o taboleiro. + +--E a Juliana?--perguntou logo D. Felicidade. + +--Sahiu, coitada--explicou Luiza--tem andado doente... + +--E anda-te então por fóra até estas horas?... Boa! Até desacredita uma +casa... + +O Conselheiro tambem achava imprudente: + +--Porque emfim as tentações são grandes n'uma capital, minha senhora! + +Julião exclamou, rindo: + +--Não, se aquella é tentada, descreio para sempre e totalmente, dos +meus contemporaneos. + +--Oh snr. Zuzarte!--acudiu o Conselheiro, quasi severamente--referia-me +a outras tentações: entrar, por exemplo, n'uma loja de bebidas, +appetecer-lhe ir ao Circo e desleixar os seus deveres... + +Mas D. Felicidade não podia soffrer a Juliana: achava-lhe cara de +Judas, tinha ar de ser capaz de tudo... + +Luiza defendeu-a: era muito serviçal, muito boa engommadeira, muito +honesta... + +--E anda-te pela rua até ás onze da noite!... Credo! Fosse commigo! + +--E creio--observou o Conselheiro--que tem uma doença mortal. Não é +verdade, snr. Zuzarte? + +--Mortal. Um aneurisma--respondeu Julião, sem levantar os olhos do +Dante. + +--Ainda para mais!--exclamou D. Felicidade. E abaixando a voz:--Tu +o que deves fazer é descartar-te d'ella! Uma criada com uma doença +d'essas! Que até lhe póde arrebentar a vir dar um copo d'agua á gente. +Cruzes! + +O Conselheiro apoiava: + +--E ás vezes, que embaraços com a authoridade! + +Julião fechou o Dante, e disse: + +--Eu tem-me esquecido d'avisar o Jorge; mas um dia a creatura cahe-lhes +redonda no chão.--E sorveu um gole de chá. + +Luiza estava afflicta. Parecia-lhe que uma nova complicação se formava +para a torturar... Pôz-se a dizer que era tão difficil arranjar +criadas... + +Lá isso era, concordaram. + +Fallaram de criados, das suas exigencias. Estavam cada vez mais +atrevidos! E em se lhes dando confiança! E que immoralidade!... + +--Muitas vezes é culpa das amas--disse D. Felicidade.--Fazem das +criadas confidentes, e isto, em ellas apanhando um segredo, tornam-se +as donas da casa... + +As mãos tremulas de Luiza faziam-lhe tilintar a chavena. Disse, com uma +voz affectadamente risonha: + +--E o Conselheiro, que tal de criados? + +Accacio tossiu: + +--Bem. Tenho uma pessoa respeitavel, com bom paladar, muito escrupulosa +em contas... + +--E que não é feia--acudiu Julião.--Assim me pareceu uma vez que fui á +rua do Ferregial... + +Uma vermelhidão espalhára-se pela calva do Conselheiro. D. Felicidade +fitava-o anciosamente, com a pupilla chammejante. Accacio, então, disse +com severidade: + +--Nunca reparo para a physionomia dos subalternos, snr. Zuzarte. + +Julião ergueu-se e enterrando as mãos nos bolsos, jovialmente: + +--Foi um grande erro abolir a escravatura!... + +--E o principio da liberdade?--acudiu logo o Conselheiro--E o principio +da liberdade? Que os pretos eram grandes cozinheiros, concordo... Mas a +liberdade é um bem maior. + +Alargou-se então em considerações; fulminou os horrores do trafico, +lançou suspeitas sobre a philantropia dos inglezes, foi severo com os +plantadores da Nova-Orleans, contou o caso da _Charles et Georges_: +dirigia-se exclusivamente a Julião, que fumava, cabisbaixo. + +D. Felicidade fôra-se sentar ao pé de Luiza, e muito inquieta, +fallando-lhe ao ouvido: + +--Tu conheces a criada do Conselheiro? + +--Não. + +Será bonita? + +Luiza encolheu os hombros. + +--Não sei que me diz o coração, Luiza! Estou a abafar! + +E em quanto Accacio, de pé, perorava para Julião, D. Felicidade ia +murmurando a Luiza as queixas da sua paixão. + +Que allivio para Luiza quando elles sahiram! O que ella soffrera, lá +por dentro, toda aquella noite! Que massadores, que idiotas!--E a outra +sem vir! Oh que vida a sua! + +Foi á cozinha dizer a Joanna: + +--Espere pela Juliana, tenha paciencia. Que ella não póde tardar; +aquillo a mulher achou-se peor! + +Mas já passava de meia noite, já Luiza estava deitada, quando a +campainha tocou de leve; depois mais forte; emfim, com impaciencia. + +A rapariga adormeceu, pensou Luiza. Saltou da cama, subiu descalça +á cozinha. Joanna, estirada para cima da mesa, resonava ao pé do +candieiro de petroleo, que fumegava fetidamente. Sacudiu-a, fêl-a pôr +de pé, estremunhada; voltou, correndo, deitar-se; e sentiu d'ahi a +pouco, no corredor, a voz de Juliana dizer com satisfação: + +--Já está tudo acommodado, hein? Pois eu estive no theatro. Muito +bonito! Do melhor, snr.^a Joanna, do melhor! + +Luiza adormeceu tarde, e durante toda a noite um sonho inquieto +agitou-a.--Estava n'um theatro immenso, dourado como uma igreja. +Era uma gala: joias faiscavam sobre seios mimosos, condecorações +reluziam sobre fardas palacianas. Na tribuna, um rei triste e moço, +immovel n'uma attitude rigida e hieratica, sustentava na mão a esphera +armillar, e o seu manto de velludo escuro, constellado de pedrarias +como um firmamento, espalhava-se em redor em pregas d'esculptura, +fazendo tropeçar a multidão dos cortezãos vestidos como valetes de paus. + +Ella estava no palco; era actriz; debutava no drama d'Ernestinho: e +toda nervosa via diante de si na vasta platéa susurrante, fileiras de +olhos negros e accesos, cravados n'ella com furor: no meio a calva +do Conselheiro, d'uma redondeza nevada e nobre, sobresahia, rodeada +como uma flôr d'um vôo amoroso d'abelhas. No palco oscillava a vasta +decoração d'uma floresta; ella notava sobretudo, á esquerda, um +carvalho secular, d'uma arrogancia heroica--cujo tronco tinha a vaga +configuração d'uma physionomia, e se parecia com Sebastião. + +Mas o contra-regra bateu as palmas: era esguio, parecia-se com D. +Quixote, trazia oculos redondos com aros de lata, brandia _o Jornal do +Commercio_ torcido em saca-rolhas, e gania: salta a scenasinha de amor! +salta-me essa maravilha! Então a orchestra, onde os olhos dos musicos +reluziam como granadas e as suas cabelleiras se erriçavam como montões +d'estopa, tocou com uma lentidão melancolica o fado de Leopoldina; e +uma voz aspera e canalha cantava em falsete: + + Vejo-o nas nuvens da tarde, + Nas ondas do mar sem fim, + E por mais longe que esteja + Sinto-o sempre ao pé de mim. + +Luiza achava-se nos braços de Bazilio que a enlaçavam, a queimavam: +toda desfallecida, sentia-se perder, fundir-se n'um elemento quente +como o sol e dôce como o mel: gozava prodigiosamente: mas, por entre os +seus soluços, sentia-se envergonhada, porque Bazilio repetia no palco, +sem pudor, os delirios libertinos do _Paraiso_! Como consentia ella? + +O theatro n'uma acclamação immensa bradava: Bravo! Bis! bis! Lenços aos +milhares esvoaçavam como borboletas brancas n'um campo de trevo: os +braços nús das mulheres lançavam com um gesto ondeado ramos de violetas +dobradas: o rei erguera-se espectralmente, e, triste, arremessou +como um _bouquet_ a sua esphera armillar: e o Conselheiro logo, n'um +phrenesi, para seguir os exemplos de Sua Magestade, desaparafusando +rapidamente a calva, atirou-lh'a, com um berro de dôr e de gloria! O +contraregra gania:--Agradeçam! Agradeçam! Ella curvava-se, os seus +cabellos de Magdalena rojavam pelo tablado: e Bazilio, a seu lado, +seguia com olhos vivos os charutos que lhe atiravam, apanhando-os com a +graça d'um toureiro e a destreza d'um _clown_! + +Subitamente, porém, todo o theatro teve um _ah_! d'espanto. +Fez-se um silencio ancioso e tragico; e todos os olhos, milhares +d'olhos attonitos se fitavam no pano de fundo, onde um caramanchão +arqueava a sua estructura toda estrellada de rosinhas brancas. +Ella voltou-se tambem como magnetisada, e viu Jorge, Jorge que se +adiantava, vestido de luto, de luvas pretas, com um punhal na mão; e +a lamina reluzia--menos que os olhos d'elle! Aproximou-se da rampa e +curvando-se, disse com uma voz graciosa: + +--Real magestade, senhor infante, snr. governador civil, minhas +senhoras, e meus senhores--agora é commigo! Reparem n'este trabalhinho! + +Caminhou então para ella com passos marmoreos que faziam oscillar o +tablado; agarrou-lhe os cabellos, como um mólho d'herva que se quer +arrancar; curvou-lhe a cabeça para traz; ergueu d'um modo classico o +punhal; fez a pontaria ao seio esquerdo: e balançando o corpo, piscando +o olho, cravou-lhe o ferro! + +--Muito bonito!--disse uma voz--Rico trabalho! + +Era Bazilio que fizera entrar nobremente na platéa o seu phaeton! +Direito na almofada, com o chapéo ao lado, uma rosa na sobrecasaca, +continha com a mão negligente a inquietação soberba dos seus cavallos +inglezes; e ao seu lado, sentado como um trintanario coberto das +suas vestes sacerdotaes, vinha o patriarcha de Jerusalém!--Mas Jorge +arrancára o punhal todo escarlate; as gotas de sangue corriam até á +ponta, coalhavam; cahiam depois com um som crystallino, punham-se a +rolar pelo tablado como continhas de vidro vermelho. Ella deitára-se, +expirante, sob o carvalho que se parecia com Sebastião: então, como +a terra era dura, a arvore estendeu por baixo d'ella as suas raizes, +macias como coxins de pennas; como o sol a mordia, a arvore desdobrou +sobre ella as suas ramagens, como os panos d'uma tenda: e das folhas +deixava-lhe escorrer sobre os labios gotas de vinho da Madeira! Ella +via no entanto com terror o seu sangue sahir da ferida, vermelho e +forte, correr, alastrar-se, fazendo poças aqui, ribeirinhos tortuosos +além. E ouvia a platéa berrar: + +--O author! Fóra o author! + +Ernestinho, muito frisado, pallido, appareceu; agradecia soluçando; e, +ás cortezias, saltava aqui, acolá--para não sujar no sangue da prima +Luiza os seus sapatinhos de verniz... + +Sentiu que ia morrer! Uma voz disse vagamente:--Ólá, como vai +isso?--Parecia-lhe de Jorge. D'onde vinha? Do céo? da platéa? do +corredor? Um ruido forte, como d'uma mala que se deixa cahir, +acordou-a. Sentou-se na cama. + +--Bem, deixe ahi--disse a voz de Jorge. + +Saltou em camisa. Elle entrava. E ficaram enlaçados, n'um longo abraço, +os beiços collados, sem uma palavra. O relogio do quarto dava sete +horas. + + + + +X + + +N'esse dia pela uma hora Jorge e Luiza acabavam d'almoçar, como na +vespera da partida d'elle. Mas agora não pesava a faiscante inclemencia +da calma, as janellas estavam abertas ao sol amavel d'outubro; já +passavam no ar certas frescuras outonaes; havia uma pallidez meiga +na luz; á tardinha já «sabiam bem» os paletots; e tons amarellados +começavam a envelhecer as verduras. + +--Que bom achar-se a gente outra vez no seu ninho!--disse Jorge, +estirando-se na _voltaire_. + +Estivera contando a Luiza a sua viagem. Tinha trabalhado como um mouro, +e tinha ganho dinheiro! Trazia os elementos d'um bello relatorio; +creára amigos n'aquella boa gente do Alemtejo; estavam acabadas as +soalheiras, as cavalgadas pelos montados, os quartos d'hospedaria; e +alli estava emfim na sua casinha. E como na vespera da sua partida, +soprava o fumo do cigarro, cofiando com delicias o bigode,--porque +tinha cortado a barba! Fôra a grande admiração de Luiza, quando o viu. +Elle explicára, com humilhação e melancolia, que tivera um furunculo no +queixo, com o calor... + +--Mas que bem te fica!--tinha ella dito--que bem que te fica! + +Jorge trouxera-lhe como presente seis pratos de louça da China, muito +antigos, com mandarins bojudos, de tunicas esmaltadas, suspensos +magestosamente no ar azulado; uma preciosidade que descobrira em +casa d'umas velhas miguelistas, em Mertola. Luiza dispunha-os muito +decorativamente nas prateleiras do guarda-louça: e em bicos de pés, +com a larga cauda do seu roupão estendida por traz, a massa loura do +cabello pesado, um pouco desmanchado sobre as costas--parecia a Jorge +mais esbelta, mais irresistivel, e nunca a sua cinta fina lhe attrahira +tanto os braços. + +--A ultima vez que aqui almocei, antes de partir, foi um domingo, +lembras-te? + +--Lembro--disse Luiza sem se voltar, collocando muito delicadamente um +prato. + +--E é verdade--perguntou Jorge de repente--teu primo? Vistel-o? Veio +vêr-te? + +O prato escorregou, houve um tlin-tlin de copos. + +--Sim, veio--disse Luiza, depois d'um silencio--esteve ahi umas poucas +de vezes. Demorou-se pouco... + +Abaixou-se, abriu o gavetão do guarda-louça, esteve a remexer nas +colheres de prata: ergueu-se, emfim, voltou-se com um sorriso, +vermelha, sacudindo as mãos: + +--Prompto! + +E foi sentar-se nos joelhos de Jorge. + +--Como te fica bem!--dizia, torcendo-lhe o bigode. Admirava-o, d'um +modo ardente. Quando se atirára aos seus braços n'aquella madrugada, +sentira como abrir-se-lhe o coração, e um amor repentino revolver-lh'o +deliciosamente; viera-lhe um desejo de o adorar perpetuamente, de o +servir, de o apertar nos braços até lhe fazer mal, de lhe obedecer com +humildade; era uma sensação multipla, de uma doçura infinita, que a +traspassára até ás profundidades do seu sêr. E passando-lhe um braço +pelo pescoço, murmurava com um movimento d'uma adulação quasi lasciva: + +--Estás contente? Sentes-te bom? Dize! + +Nunca lhe parecera tão bonito, tão bom; a sua pessoa depois d'aquella +separação dava-lhe as admirações, os enlevos d'uma paixão nova. + +--É o snr. Sebastião--veio dizer Juliana toda risonha para Jorge. + +Jorge deu um pulo, afastou Luiza bruscamente, atirou-se pelo corredor +gritando: + +--Aos meus braços! aos meus braços, scelerado! + + +D'ahi a dias, uma manhã que Jorge sahira para o ministerio, Juliana +entrou no quarto de Luiza, e fechando a porta devagarinho, com uma voz +muito amavel: + +--Eu desejava fallar á senhora n'uma cousa. + +E começou a dizer,--que o seu quarto em cima no sotão era peor que +uma enxovia; que não podia lá continuar; o calor, o mau cheiro, os +persevejos, a falta d'ar, e no inverno a humidade, matavam-na! Emfim, +desejava mudar p'ra baixo, p'ra o quarto dos bahus. + +O _quarto dos bahus_ tinha uma janella nas trazeiras; era alto e +espaçoso; guardavam-se alli os oleados de Jorge, as suas malas, os +paletots velhos, e veneraveis bahus do tempo da avó, de couro vermelho +com pregos amarellos. + +--Ficava alli como no céo, minha senhora! + +E... aonde se haviam de pôr os bahus? + +--No meu quarto, em cima.--E com um risinho:--Os bahus não são gente, +não soffrem... + +Luiza disse um pouco embaraçada: + +--Bem, eu verei, eu fallarei ao snr. Jorge. + +--Conto com a senhora. + +Mas apenas n'essa tarde Luiza explicou a Jorge «a ambição da pobre de +Christo», elle deu um salto: + +--O quê? Mudar os bahus? Está douda! + +Luiza então insistiu: era o sonho da pobre creatura desde que viera +para a casa! Enterneceu-o. Não, elle não imaginava, ninguem imaginava +o que era o quarto da pobre mulher! O cheiro empestava, os ratos +passeavam-lhe pelo corpo, o forro estava roto, chovia dentro; fôra lá +ha dias, e ia tombando para o lado... + +--Santo Deus! Mas isso é o que minha avó contava das enxovias +d'Almeida! Muda-a, muda-a depressa, filha!... Porei os meus ricos bahus +no sotão. + +Quando Juliana soube o _favor_: + +--Ai, minha senhora, é a vida que me dá! Deus lh'o pague! Que eu não +tinha saude para viver n'um cacifro d'aquelles. + +Ultimamente queixava-se mais: andava amarella, trazia os beiços +um pouco arroxeados; tinha dias d'uma tristeza negra, ou d'uma +irritabilidade morbida: os pés nunca lhe aqueciam. Ah! Precisava muitos +cuidados, muitos cuidados!... + +Foi por isso que d'ahi a dous dias veio pedir a Luiza, «se fazia o +favor d'ir ao quarto dos bahus». E lá, mostrando-lhe o soalho velho e +carunchoso: + +--Isto não póde ficar assim, minha senhora, isto precisa uma esteira +senão, não vale a pena mudar. Eu se tivesse dinheiro não importunava a +senhora, mas... + +--Bem, bem, eu arranjarei--disse Luiza com uma voz paciente. + +E pagou a esteira, sem dizer nada a Jorge. Mas na manhã em que os +esteireiros a pregavam Jorge veio perguntar attonito a Luiza o que era +aquillo, «rolos d'esteira no corredor»? + +Ella pôz-se a rir, pousou-lhe as mãos sobre os hombros: + +--Foi a pobre Juliana que pediu como uma esmola a esteira, que o +soalho estava podre. Até a queria pagar, e que eu lh'a descontasse +nas soldadas. Ora por uma ridicularia...--E com um gesto +compassivo:--Tambem são creaturas de Deus, não são escravas, filho! + +--Magnifico! E que não tardem os espelhos e os bronzes! Mas que mudança +foi essa, tu que a não podias vêr? + +--Coitada!--fez Luiza--reconheci que era boa mulher. E como estive +tão só, dei-me mais com ella. Não tinha com quem fallar, fez-me muita +companhia. Até quando estive doente... + +--Estiveste doente?--exclamou Jorge espantado. + +--Oh! tres dias, só--acudiu ella--uma constipação. Pois olha que dia e +noite não se tirou d'ao pé de mim. + +Luiza ficou logo com receio que Jorge fallasse _na doença_, e Juliana +desprevenida negasse; por isso, n'essa tarde, ao escurecer, chamou-a ao +quarto: + +--Eu disse ao snr. Jorge que vossê me tinha feito muito boa companhia +n'uma doença...--E o seu rosto abrazava-se de vergonha. + +Juliana logo, risonha, contente da cumplicidade: + +--Fico entendida, minha senhora! Póde estar socegada! + +Com effeito Jorge, ao outro dia, depois do café, voltou-se para +Juliana, e com bondade: + +--Parece que vossê fez boa companhia á snr.^a D. Luiza. + +--Fiz o meu dever--exclamou, curvando-se com a mão no peito. + +--Bem, bem--fez Jorge, remexendo no bolso. E ao sahir da sala meteu-lhe +na mão meia libra. + +--Palerma!--rosnou ella. + +Foi n'essa semana que começou a queixar-se a Luiza, «que a roupa e os +vestidos, na arca, se lhe amarfanhavam...» Estava-se-lhe a estragar +tudo! Se ella tivesse dinheiro, não vinha com aquelles pedidos á +senhora, mas... Emfim uma manhã declarou terminantemente que precisava +uma commoda. + +Luiza sentiu uma raiva accender-lhe o sangue, e sem levantar os olhos +do bordado: + +--Uma meia commoda? + +--Se a senhora quer fazer o favor, então uma commoda inteira... + +--Mas vossê tem pouca roupa--disse Luiza. Começava a installar-se na +humilhação e já regateava as condescendencias. + +--Tenho, sim, minha senhora--replicou Juliana--mas vou agora +completar-me! + +A commoda foi comprada em segredo, e introduzida occultamente. Que dia +de felicidade para Juliana! Não se fartava de lhe saborear o cheiro +da madeira nova! Passava a mão, com a tremura d'uma caricia, sobre +o polimento luzidio!... Forrou-lhe as gavetas de papel de sêda, _e +começou a completar-se_! + + +Foram semanas d'amargura para Luiza. + +Juliana entrava no quarto todas as manhãs, muito comprimenteira, +começava a arrumar, e de repente com uma voz lamentosa: + +--Ai! estou tão falta de camisas! se a senhora me podesse ajudar... + +Luiza ia ás suas gavetas cheias, cheirosas, e começava melancolicamente +a pôr á parte as peças mais usadas. Adorava a sua roupa branca: tinha +tudo ás duzias, com lindas marcas, _sachets_ para perfumar; e aquellas +dadivas dilaceravam-n'a como mutilações! Juliana por fim já pedia com +seccura, com direito: + +--Que bonita que é esta camisinha!--dizia simplesmente.--A senhora não +a quer; não? + +--Leve, leve!--dizia Luiza sorrindo, por orgulho, para não se mostrar +violentada. + +E todas as noites Juliana fechada no seu quarto, encruzada na esteira, +inchada d'alegria, com o candieiro sobre uma cadeira, desmarcava roupa, +desfazendo as duas letras de Luiza, marcando regaladamente as suas, a +linha vermelha, enormes--_J. C. T.,_--Juliana Couceiro Tavira! + +Mas emfim cessou, porque, como ella dizia, «de roupa branca estava como +um ovo». + +--Agora, se a senhora me quizer ajudar com alguma cousa para sahir... + +E Luiza começou a _vestil-a_. + +Deu-lhe um vestido roxo de sêda, um casaco de casimira preta, +com bordados a _soutache_. E receando que Jorge estranhasse as +generosidades, transformava-as para elle as não reconhecer: mandou +tingir de castanho o vestido, ella mesmo por sua mão pôz uma guarnição +de velludo no casaco. Trabalhava para ella, agora!--Como acabaria tudo +aquillo, Santo Deus? + +Todavia Jorge um domingo disse ao jantar, rindo: + +--Esta Juliana anda uma janota! Prospera a olhos vistos. + +D. Felicidade, á noite, tambem notou: + +--Que _chic_! Nem uma criada do paço! + +--Coitada! cousas que ella aproveita... + +Prosperava, com effeito! Não punha na cama senão lençoes de linho. +Reclamára colxões novos, um tapete para os pés da cama, felpudo! Os +_sachets_ que perfumavam a roupa de Luiza iam passando para a dobra +das suas calcinhas. Tinha cortinas de cassa na janella, apanhadas com +velhas fitas de sêda azul; e sobre a commoda dous vasos da Vista Alegre +dourados! Emfim um dia santo, em lugar da _cuia_ de retroz, appareceu +com um _chignon_ de cabello! + +Joanna pasmava d'aquellas tafularias. Attribuia-as á bondade da +senhora, e resentia-se de ser «esquecida». Um dia mesmo, que Juliana +estreára uma sombrinha, disse diante de Luiza, com uma voz de despeito: + +--Para umas tudo, para outras nada!... + +Luiza riu, acudiu: + +--Tolices! Eu sou a mesma p'ra todas. + +Mas reflectiu: Joanna podia ter desconfianças tambem, ter ouvido +_alguma cousa_ a Juliana... E logo ao outro dia, para a conservar +contente e amiga, deu-lhe dous lenços de sêda, depois dous mil reis +para um vestido; e d'ahi por diante nunca lhe recusou licença para +sahir á noitinha _a casa d'uma tia_... + +A Joanna ia por toda a parte fallando da «senhora, que era um anjo». +Na rua, de resto, tinha-se notado o luxo de Juliana. Sabia-se do +«quarto novo», dizia-se baixo que tinha alcatifa! O Paula decidira, com +indignação, «que alli positivamente havia marosca». Mas Juliana uma +tarde, diante do Paula e da estanqueira, explicou, acalmou as suspeitas. + +--Ora! dizem que tenho isto e aquillo. Não é tanto! Tenho as minhas +commodidades. Mas tambem a maneira como eu lhes tratei a tia, de dia +e de noite, sem arredar pé... Por mais que façam não me pagam, que +arruinei a minha saude! + +Assim se justificou a prosperidade de Juliana. Era a familia +agradecida, dizia-se; tratavam-na como parenta! + +E, pouco a pouco, a casa do «Engenheiro» teve para os criados da +visinhança a vaga seducção d'um paraiso: dizia-se que as soldadas +eram enormes, havia vinho á discrição, recebiam-se presentes todas as +semanas, ceava-se todas as noites caldo do gallinha! Cada um invejava +aquella «pechincha». Pela inculcadeira, a fama da «casa do Engenheiro» +alargou-se. Creou-se uma legenda. + +Jorge, attonito, recebia todos os dias cartas de pessoas offerecendo-se +para criados de quarto, criadas de dentro, cozinheiros, escudeiros, +governantas, cocheiros, guarda-portões, ajudantes de cozinha... Citavam +as casas titulares de que tinham sahido; pediam audiencia; suspeitando +certas cousas uma bonita criada de quarto juntou a sua photographia; um +cozinheiro trouxe uma carta d'empenho do director geral do ministerio. + +--Estranho caso!--dizia Jorge, pasmado--disputam-se a honra de me +servir! Imaginarão que me sahiu a sorte grande? + +Mas não dava muita attenção áquella singularidade. Vivia então muito +occupado: andava escrevendo o seu relatorio; e todos os dias sahia ao +meio dia, voltava ás seis, com rolos de papeis, mappas, brochuras, +fatigado, berrando pelo jantar, radiante. + +Contou o _caso_, todavia, rindo, um domingo á noite. O Conselheiro +observou logo: + +--Com o bom genio da D. Luiza, com o seu, Jorge, n'este bairro +saudavel, n'uma casa sem escandalos, sem questões de familia, toda +virtude, é natural que a criadagem menos favorecida aspire a uma +posição tão agradavel. + +--Somos os amos ideaes!--disse Jorge, batendo muito alegre no hombro de +Luiza. + +A casa, com effeito, tornava-se «agradavel». Juliana exigira que o +jantar fosse mais largo (para ter uma parte sua, sem sobejos), e como +era boa cozinheira vigiava os fogões, provava, ensinava pratos á Joanna. + +--Esta Joanna é uma revelação--dizia Jorge--vê-se-lhe crescer o +talento!... + +Juliana, bem alojada, bem alimentada, com roupa fina sobre a pelle, +colxões macios, saboreava a vida: o seu temperamento adoçára-se +n'aquellas abundancias; depois, bem aconselhada pela tia Victoria, +fazia o seu serviço com um zelo minucioso e habil. Os vestidos de Luiza +andavam cuidados como reliquias. Nunca os peitilhos de Jorge tinham +resplandecido tanto! O sol d'outubro alegrava a casa, muito aceada, +d'uma pacatez d'abbadia. Até o gato engordava. + + +E no meio d'aquella prosperidade--Luiza definhava-se. Até onde iria a +tyrannia de Juliana? era agora o seu terror. E como a odiava! Seguia-a +por vezes com um olhar tão intensamente rancoroso, que receava que ella +se voltasse subitamente, como ferida pelas costas. E via-a satisfeita, +cantarolando a _Carta adorada_, dormindo em colxões tão bons como os +seus, pavoneando-se na _sua_ roupa, reinando na _sua_ casa! Era justo, +justos céos? + +Ás vezes vinha-lhe uma revolta, torcia os braços, blasphemava, +debatia-se na sua desgraça, como nas malhas d'uma rêde; mas, não +encontrando nenhuma solução, recahia n'uma melancolia aspera--em que o +seu genio se pervertia. Seguia com satisfação a amarellidão crescente +das feições de Juliana; tinha esperanças no aneurisma: não rebentaria +um dia, o demonio? + +E diante de Jorge tinha de a elogiar! + +A vida pesava-lhe. Apenas elle pela manhã sahia e fechava a cancella, +logo as suas tristezas, os seus receios lhe desciam sobre a alma, +devagar, como grandes véos espessos que se abatem lugubremente; não +se vestia então até ás quatro, cinco horas, e com o roupão solto, em +chinellas, despenteada, arrastava o seu aborrecimento pelo quarto. +Vinham-lhe, por momentos, de repente, desejos de fugir, ir metter-se +n'um convento! A sua sensibilidade muito exaltada impellil-a-hia de +certo a alguma resolução melodramatica,--se a não retivesse, com a +força d'uma seducção permanente, o seu amor por Jorge. Porque o amava +agora, immensamente! Amava-o com cuidados de mãi, com impetos de +concubina... Tinha ciumes de tudo, até do ministerio, até do relatorio! +Ia interrompêl-o a cada momento, tirar-lhe a penna da mão, reclamar +o seu olhar, a sua voz; e os passos d'elle no corredor davam-lhe o +alvoroço dos amores illegitimos... + +De resto ella mesma se esforçava por desenvolver aquella paixão, +achando n'ella a compensação ineffavel das suas humilhações. Como +lhe viera _aquillo_? Porque sempre o amára, de certo, reconhecia-o +agora,--mas não tanto, não tão exclusivamente! Nem ella sabia. +Envergonhava-se mesmo, sentindo vagamente n'aquella violencia amorosa +pouca dignidade conjugal: suspeitava que o que tinha era apenas um +_capricho_. Um capricho por seu marido! Não lhe parecia rigorosamente +casto... Que lhe importava, de resto? Aquillo fazia-a feliz, +prodigiosamente. Fosse o que fosse era delicioso! + +Ao principio a idéa do _outro_ pairava constantemente sobre este amor, +pondo um gosto infeliz em cada beijo, um remorso em cada noite. Mas +pouco a pouco esquecêra-o tanto, o _outro_--que a sua recordação, +quando por acaso voltava, não dava mais amargor á nova paixão, que um +torrão de sal póde dar ás aguas d'uma torrente. Que feliz que seria--se +não fosse a _infame_! + + +Era a _infame_ que se sentia feliz! Ás vezes só no seu quarto, punha-se +a olhar em redor com um riso d'avaro: desdobrava, batia os vestidos de +sêda: punha as botinas em fileira, contemplando-as de longe, extatica; +e debruçada sobre as gavetas abertas da commoda contava, recontava a +roupa branca, acariciando-a com o olhar de posse satisfeita. Como a da +_Piorrinha_!--murmurava, afogada em jubilo. + +--Ai! estou muito bem!--dizia ella á tia Victoria. + +--Que duvida que estás! A carta não te rendeu um conto de reis, mas +olha que te trouxe um par de regalos. E é que ha-de ser uma pingadeira: +ha-de ser a boa peça de linho, o bom adereço, boas moedas... E ainda +muito obrigada por cima. Carda-a, filha, carda-a! + +Mas já havia pouco que _cardar_. E lentamente Juliana começou a pensar, +que agora o que devia era _gozar_. Se tinha bons colxões--para que se +havia de levantar cêdo? Se tinha bons vestidos--porque não havia d'ir +espairecer para a rua? Toca a tirar partido! + +Uma manhã que estava mais frio deixou-se ficar na cama até ás nove +horas, com as janellas entreabertas, um bom raio de sol na esteira. +Depois explicou seccamente, que tinha estado com a dôr. D'ahi a dous +dias Joanna, ás dez horas, veio dizer baixo a Luiza: + +--A snr.^a Juliana ainda está na cama, está tudo por arrumar. + +Luiza ficou aterrada. O quê? Teria de soffrer os seus desmazelos, como +soffrera as suas exigencias? + +Foi ao quarto d'ella: + +--Então vossê levanta-se a estas horas? + +--Foi o que me recommendou o medico--replicou muito insolente. + +E d'ahi por diante Juliana poucas vezes se erguia antes da hora de +servir ao almoço. Luiza pediu logo a Joanna que fizesse «o serviço por +ella»: era por pouco tempo, a pobre creatura andava tão adoentada! +E para acommodar a cozinheira deu-lhe meia moeda, para a ajuda d'um +vestido. + +Juliana depois, sem pedir licença, começou a sahir. Quando voltava +tarde, para o jantar, não se desculpava! + +Um dia Luiza não se conteve, disse-lhe, vendo-a passar no corredor a +calçar as luvas pretas: + +--Vossê vai sahir? + +Ella respondeu, muito atrevidamente: + +--É como vê. Fica tudo arrumado, tudo o que é minha obrigação.--E +abalou, batendo os tacões. + +Ora, não lhe faltava mais senão estar a constranger-se por causa da +_Piorrinha_! + +Joanna começava a resmungar: «passa a sua vida na rua a snr.^a Juliana, +e eu é que aguento...» + +--Se vossê estivesse doente, tambem ninguem lhe ia á mão--acudia Luiza, +afflicta, quando percebia estas revoltas. E presenteava-a. Dava-lhe +mesmo vinho e sobremesa. + +Havia agora um desperdicio na casa. Os roes cresciam. Luiza andava +succumbida.--Como acabaria tudo aquillo? + +Os desleixos de Juliana iam-se tornando graves. + +Para sahir mais cedo fazia apenas o «essencial». Era Luiza que acabava +d'encher os jarros, que levantava muitas vezes a mesa do almoço, que +levava para o sotão roupa suja que ficava pelos cantos... + +Um dia Jorge que entrára ás quatro horas, viu por acaso a cama por +fazer. Luiza apressou-se a dizer que «Juliana sahira, mandára-a ella á +modista». + +D'ahi a dias, eram seis horas, ainda não tinha voltado para servir ao +jantar. «Tinha ido á modista...» explicou Luiza. + +--Mas se a Juliana é unicamente para ir á modista, então toma-se outra +criada para fazer o serviço da casa--disse elle. + +Áquellas palavras seccas Luiza fez-se pallida, duas lagrimas +rolaram-lhe pela face. + +Jorge ficou pasmado. Que era? Que tinha? Luiza não se dominou, rompeu +n'um choro nervoso, hysterico. + +--Mas que é, minha filha, que tens? Zangaste-te?... + +Ella não podia responder, suffocada. Jorge fez-lhe respirar vinagre de +_toillette_, beijou-a muito. + +Só quando o choro acalmou é que ella pôde dizer, com uma voz soluçada: + +--Fallaste-me tão seccamente, e eu estou tão nervosa... + +Elle riu, chamou-lhe tontinha, limpou-lhe as lagrimas--mas ficou +inquieto. + +Já então lhe notára certas tristezas, abatimentos inexplicaveis, uma +irritabilidade nervosa... Que seria? + +Para que Jorge não tornasse a surprehender os desleixos, Luiza começou +a completar todas as manhãs os arranjos. Juliana percebeu logo; e +muito tranquillamente decidiu-se a «deixar-lhe de cada vez mais com +que se entreter». Ora não varria, depois não fazia a cama; emfim uma +manhã não vasou as aguas sujas. Luiza foi espreitar no corredor que +Joanna não descesse, não a visse, e fez ella mesma os despejos! Quando +veio ensaboar as mãos, as lagrimas corriam-lhe pelo rosto. Desejava +morrer!... A que tinha chegado!... + +D. Felicidade, um dia, tendo entrado de repente, surprehendera-a a +varrer a sala. + +--Que eu o faça--exclamou--que tenho só uma criada, mas tu!... + +A Juliana tinha tanto que engommar... + +--Ai! não lhe tires serviço do corpo, que não t'o agradece. E ainda se +ri por cima! Se a pões em maus costumes!... Que aguente, que aguente! + +Luiza sorriu, disse: + +--Ora, por uma vez na vida! + + +A sua tristeza augmentava cada dia. + +Refugiava-se então no amor de Jorge como na sua unica consolação. A +noite trazia-lhe a sua desforra: Juliana a essa hora dormia; não via a +sua cara medonha; não a receava; não tinha de a elogiar; não trabalhava +por ella! Era _ella mesma_, era Luiza, como d'antes! Estava na sua +alcova com o seu marido, fechada por dentro, livre! Podia viver, rir, +conversar, ter até appetite! E trazia com effeito ás vezes marmelada e +pão para o quarto--para fazer uma cêasinha! + +Jorge estranhava-a. «Tu de noite és outra», dizia. Chamava-lhe +_ave nocturna_. Ella ria em saia branca pelo quarto, com os braços +nús, o collo nú, o cabello n'um rolo; e passarinhava, cantarolava, +chalrava--até que Jorge lhe dizia: + +--Passa da uma hora, filha! + +Despia-se então rapidamente, cahia-lhe nos braços. + +Mas que acordar! Por mais clara que estivesse a manhã, tudo lhe +parecia vagamente pardo. A vida sabia-lhe mal. Vestia-se devagar, com +repugnancia--entrando no seu dia como n'uma prisão. + +Perdêra agora toda a esperança de se libertar! Ás vezes ainda lhe +vinha, como um relampago, a vontade «de contar tudo a Sebastião, tudo». +Mas quando o via, com o seu olhar honesto, abraçar Jorge, rirem ambos, +e irem fumar o seu cachimbo, e elle tão cheio sempre d'admiração por +ella, parecia-lhe mais facil sahir p'ra a rua, pedir dinheiro ao +primeiro homem que encontrasse--que ir a Sebastião, ao intimo de Jorge, +ao melhor amigo da casa, dizer-lhe: escrevi uma carta a um homem, a +criada roubou-m'a! Não, antes morrer n'aquella agonia de todos os dias, +e ter ella mesma, de rastos, de lavar as escadas! Ás vezes reflectia, +pensava:--Mas com que conto eu?--Não sabia. Com o acaso, com a morte +de Juliana... E deixava-se viver, gozando como um favor cada dia que +vinha, sentindo vagamente, a distancia, alguma cousa de indefinido e de +tenebroso onde se afundaria! + +Por esse tempo Jorge começou a queixar-se que as suas camisas andavam +mal engommadas. A Juliana positivamente «perdia a mão». Um dia mesmo +zangou-se: chamou-a, e atirando-lhe uma camisa toda amarrotada: + +--Isto não se póde vestir, está indecente! + +Juliana fez-se amarella, cravou em Luiza um olhar chammejante; mas, com +os beiços tremulos, desculpou-se: «a gomma era má, fôra já trocal-a», +etc. + +Apenas, porém, Jorge sahiu, veio com uma rajada ao quarto, fechou a +porta e poz-se a gritar--que a senhora sujava _um rôr_ de roupa, o +senhor _um rôr_ de camisas, que se não tivesse alguem que a ajudasse +não podia dar aviamento!... Quem queria negras trazia-as do Brazil! + +--E não estou para aturar o genio de seu marido, percebe a senhora? Se +quer é arranjar quem me ajude. + +Luiza disse simplesmente: + +--Eu a ajudarei. + +Tinha agora uma resignação muda, sombria, aceitava tudo! + +Logo no fim da semana houve uma grande trouxa de roupa: e Juliana veio +dizer--que se a senhora passasse, ella engommava. Senão, não! + +Estava um dia adoravel, Luiza tencionava sahir... Pôz um roupão, e, sem +uma palavra, foi buscar o ferro. + +Joanna ficou attonita. + +--Então a senhora vai engommar? + +--Ha uma carga, e a Juliana só não póde aviar tudo, coitada! + +Installou-se no quarto dos engommados,--e estava laboriosamente +passando a roupa branca de Jorge, quando Juliana appareceu, de chapéo. + +--Vossê vai sahir?--exclamou Luiza. + +--É o que eu vinha dizer á senhora. Não posso deixar de sahir.--E +abotoava as luvas pretas. + +--Mas as camisas, quem as engomma? + +--Eu vou sahir--disse a outra seccamente. + +--Mas, com os diabos, quem engomma as camisas? + +--Engomme-as a senhora! Olha a sarna! + +--Infame!--gritou Luiza. Atirou o ferro para o chão, sahiu +impetuosamente. + +Juliana sentiu-a ir pelo corredor aos soluços. Pôz-se logo a tirar o +chapéo e as luvas, assustada. D'ahi a um momento ouviu a cancella da +rua bater com força. Veio ao quarto, viu o roupão de Luiza arremessado, +a chapelleira tombada. Onde teria ido? Queixar-se á policia? Procurar +o marido? C'os diabos! Fôra estupida, com o genio! Arrumou depressa +o quarto, foi-se pôr a engommar, com o ouvido á escuta, muito +arrependida. Onde diabo teria ido? Devia ter cuidado! Se a impellisse +a fazer algum desproposito, quem perdia? Ella, que teria de sahir da +casa, deixar o seu quarto, os seus regalos, a sua posição! Safa! + + +Luiza sahira, como louca. Na rua da Escóla um coupé passava, vazio: +atirou-se para dentro, deu ao cocheiro a morada de Leopoldina. +Leopoldina devia ter voltado do Porto, queria vêl-a, precisava d'ella, +sem saber para que... Para desabafar! Pedir-lhe uma idéa, um meio de se +vingar! Porque a vontade de se libertar d'aquella tyrannia--era agora +menor que o desejo de se vingar d'aquellas humilhações. Vinham-lhe +idéas insensatas! Se a envenenasse! Parecia-lhe que sentiria um +prazer delicioso em a vêr torcer-se com vomitos dilacerantes, uivando +d'agonia, largando a alma! + +Galgou as escadas de Leopoldina; a campainha ficou a retinir muito +tempo do puxão da sua mão febril. + +A Justina apenas a viu foi a gritar pelo corredor: + +--É a snr.^a D. Luiza, minha senhora, é a snr.^a D. Luiza! + +E Leopoldina despenteada, com um roupão escarlate de grande cauda, +correu estendendo os braços: + +--És tu! Que milagre é este? Eu levantei-me agora! Entra cá p'ra o +quarto. Está tudo desarranjado, mas não importa. Mas que é isto, que é +isto? + +Abriu as janellas que estavam ainda cerradas. Havia um forte cheiro de +vinagre de _toilette_; a Justina tirava á pressa uma bacia de latão, +com agua ensaboada; toalhas sujas arrastavam; sobre uma jardineira +tinham ficado da vespera os rolos de cabello, o collete, uma chavena +com um fundo de chá cheio de pontas de cigarros. E Leopoldina corria o +transparente, dizendo: + +--Ora graças a Deus que honras esta casa, minha fidalga!... + +Mas vendo o rosto perturbado de Luiza, os seus olhos vermelhos de +lagrimas: + +--Que é? Que tens tu? Que succedeu? + +--Um horror, Leopoldina!--exclamou, apertando as mãos. + +A outra foi fechar a porta, rapidamente. + +--Então? + +Mas Luiza chorava sem responder. Leopoldina olhava-a, petrificada. + +--A Juliana apanhou-me umas cartas!--disse emfim por entre +soluços.--Quer seiscentos mil reis! Estou perdida... Tem-me +martyrisado... Quero que me digas, vê se te lembras... Estou como +douda. Sou eu que faço tudo em casa... Morro, não posso!--E as lagrimas +redobravam. + +--E as tuas joias? + +--Valem duzentos mil reis. E Jorge, que lhe havia eu de dizer? + +Leopoldina ficou um momento calada, e olhando em roda de si, abrindo os +braços: + +--Tudo o que eu tenho, no prego, minha filha, dá vinte libras!... + +Luiza murmurava, limpando os olhos: + +--Que expiação esta, Santo Deus, que expiação! + +--Que diz a carta? + +--Horrores! Estava douda... É uma minha, duas d'elle. + +--De teu primo? + +Luiza disse «sim», com a cabeça, lentamente. + +--E elle? + +--Não sei! Está em França, nunca me respondeu. + +--Pulha! Como t'as apanhou, a mulher? + +Luiza contou rapidamente a historia do sarcophago, e do cofre. + +--Mas tu tambem, Luiza, atirar uma carta d'essas! Oh mulher, isso é +medonho! + +E Leopoldina pôz-se a passear pelo quarto, arrastando a longa cauda do +roupão escarlate: os seus grandes olhos negros, excitados, pareciam +procurar um meio, um expediente... Murmurava: + +--A questão é de dinheiro... + +Luiza, prostrada no sophá, repetia: + +--A questão é de dinheiro! + +Então Leopoldina, parando bruscamente diante d'ella: + +--Eu sei quem te dava o dinheiro!... + +--Quem? + +--Um homem. + +Luiza ergueu-se, espantada: + +--Quem? + +--O Castro. + +--O d'oculos? + +--O d'oculos. + +Luiza fez-se muito córada: + +--Oh Leopoldina!--murmurou. E depois d'um silencio, rapidamente: + +--Quem t'o disse? + +--Sei-o eu. Disse-o elle ao Mendonça. Sabes que eram unha e carne. Que +te dava tudo o que tu lhe pedisses! Disse-lh'o mais d'uma vez. + +--Que horror!--exclamou Luiza subitamente indignada.--E tu propões-me +semelhante cousa?--O seu olhar, sob as sobrancelhas franzidas, +dardejava de colera. Ir com um homem por dinheiro!--Tirou o chapéo, +violentamente, com as mãos tremulas, arremessou-o para a jardineira, e +com passos rapidos pelo quarto:--Antes fugir, ir para um convento, ser +criada, apanhar a lama das ruas! + +--Não te exaltes, creatura! Quem te diz isso? Talvez o homem te +emprestasse o dinheiro, desinteressadamente... + +--Acreditas tu? + +Leopoldina não respondeu: com a cabeça baixa, fazia girar os anneis nos +dedos. + +--E quando fosse outra cousa?--exclamou de repente--Era um conto de +reis, eram dous, estavas salva, estavas feliz! + +Luiza sacudia os hombros, indignada d'aquellas palavras--dos seus +proprios pensamentos, talvez! + +--É indecente! É horrivel!--dizia. + +Ficaram caladas. + +--Ah! fosse eu!...--disse Leopoldina. + +--Que fazias? + +--Escrevia ao Castro, que viesse e com dinheiro! + +--Isso és tu!--exclamou Luiza, arrebatadamente. + +Leopoldina fez-se escarlate sob a camada de pó d'arroz. + +Mas Luiza atirou-lhe os braços ao pescoço: + +--Perdôa-me, perdôa-me! estou douda, não sei o que digo!... + +Começaram ambas a chorar, muito nervosas. + +--Tu zangaste-te!--dizia Leopoldina cortada de soluços.--Mas é p'ra +teu bem. É o que me parece melhor. Se eu podesse dava-te o dinheiro... +Fazia tudo. Acredita! + +E abrindo os braços, indicando o seu corpo com um impudor sublime: + +--Seiscentos mil reis! Se eu valesse tanto dinheiro, tinhal-o ámanhã! + +Nós de dedos bateram á porta. + +--Quem é? + +--Eu--disse uma voz rouca. + +--É meu marido. O animal ainda hoje não despegou de casa... Não posso +abrir. Logo. + +Luiza limpava os olhos, á pressa, punha o chapéo. + +--Quando voltas?--perguntou Leopoldina. + +--Quando puder, senão escrevo-te. + +--Bem. Eu vou pensar, vou esquadrinhar... + +Luiza agarrou-lhe o braço: + +--E d'isto, nem palavra. + +--Douda! + + +Sahiu. Foi subindo devagar até ao largo de S. Roque. A porta da igreja +da Misericordia estava aberta, com o seu largo reposteiro vermelho +d'armas bordadas que o vento agitava brandamente. Veio-lhe um desejo +d'entrar. Não sabia para quê; mas parecia-lhe que depois da excitação +apaixonada em que vibrára, o fresco silencio da igreja a calmaria. +E depois sentia-se tão infeliz que se lembrou de Deus! necessitava +alguma cousa de superior, de forte a que se amparar. Foi-se ajoelhar +ao pé d'um altar, persignou-se, rezou o _Padre-Nosso_, depois a _Salve +Rainha_. Mas aquellas orações, que ella recitava em pequena, não a +consolavam; sentia que eram sons inertes que não iam mais alto no +caminho do céo que a sua mesma respiração; não as comprehendia bem, +nem se applicavam ao seu _caso_: Deus por ellas, nunca poderia saber o +que ella pedia, alli, prostrada na afflicção. Quereria fallar a Deus, +abrir-se toda a elle: mas com que linguagem? Com as palavras triviaes, +como se fallasse a Leopoldina? Iriam as suas confidencias tão longe, +que o alcançassem? Estaria elle tão perto, que a ouvisse? E ficou +ajoelhada, os braços molles, as mãos cruzadas no regaço, olhando as +velas de cera tristes, os bordados desbotados do frontal, a carinha +rosada e redonda d'um menino Jesus! + +Lentamente perdeu-se n'um scismar que ella não dirigia, que se +formava e se movia no seu cerebro, como a fluctuação d'um fumo que se +eleva. Pensava no tempo tão distante, em que, por melancolia e por +sentimentalidade, frequentava mais as igrejas. Ainda a mamã vivia +então; e ella, com o coração quebrado--quando o _outro_, Bazilio, lhe +escrevera, rompendo--procurava dissipar a sua tristeza nas consolações +da devoção. Uma amiga sua, a Joanna Silveira, fôra por esse tempo +professar a França: e ella ás vezes lembrava-se de partir tambem, +ser irmã de caridade, levantar os feridos nos campos de batalha, ou +viver na paz d'uma cella mystica! Que differente a sua vida teria +sido--d'esta agora tão alvoroçada de cólera, e tão carregada de +peccado!... Onde estaria? Longe, n'algum mosteiro antigo, entre +arvoredos escuros, n'um valle solitario e contemplativo: na Escocia, +talvez, paiz que ella sempre amára desde as suas leituras de Walter +Scott. Podia ser nas verde-negras terras de Lamermoor ou de Glencoe, +n'alguma velha abbadia saxonia. Em redor os montes cobertos d'abetos, +esbatidos nas nevoas, isolam aquelles retiros n'uma paz funeraria: n'um +céo saudoso, as nuvens passam devagar, com recolhimento: nenhum som +festivo quebra a meiga taciturnidade das cousas: revoadas de corvos +cortam á tarde o ar n'um vôo triangular. Alli viveria entre as monjas +d'alta estatura e olhar celtico, filhas de duques normandos, ou de +lords de _clans_ convertidos a Roma: leria livros dôces e cheios das +cousas do céo: sentada na estreita janella da sua cella, veria passar +nas mattas baixas os altos paus dos veados, ou pelas tardes vaporosas +escutaria o som distante da _bagpipe_, que vai tristemente tocando o +pastor que vem dos valles de Callendar: e todo o ar estaria cheio do +murmurio choroso e gottejante dos fios d'agua, que por entre as relvas +escuras cahem de rocha em rocha! + +Ou então seria outra existencia mais regalada, no convento pacato d'uma +boa provincia portugueza. Alli os tectos são baixos; as paredes caiadas +faiscam ao sol, com as suas gradesinhas devotas; os sinos repicam no +vivo ar azul; em roda, nos campos d'oliveiras que dão azeite para o +convento, raparigas varejam a azeitona cantando; no pateo lageado d'uma +pedra miudinha as mulas do almocreve, sacudindo a mosca, batem com a +ferradura: matronas cochicham ao pé da roda; um carro chia na estrada +empoeirada e branca; gallos cacarejam, brilhando ao sol; e freiras +gordinhas, d'olho negro, chalram nos frescos corredores. + +Alli viveria, engordando, com uma quebrasinha de somno á hora do côro, +bebendo copinhos de licôr de rosa no quarto da madre-escrivã, copiando +receitas de dôces com uma letra garrafal; morreria velha, ouvindo as +andorinhas cantar á beira da sua grade; e o senhor bispo na sua visita, +com a pitada nos seus dedos brancos, ouviria sorrindo da bocca da madre +abbadessa a historia edificante da sua santa morte... + +Um sacristão, que passava, escarrou fortemente; e, como um bando de +passaros que se cala a um ruido brusco, todos os seus sonhos fugiram. +Suspirou, ergueu-se devagar, foi indo para casa, triste. + +Foi Juliana quem veio abrir, e logo no corredor, com a voz supplicante +e baixa: + +--A senhora por quem é perdôe, que depois estava douda! Estava com +a cabeça perdida, não tinha dormido nada toda a noite. Fiquei mais +afflicta... + +Luiza não respondeu, entrou na sala. Sebastião que vinha jantar, tocava +a serenata de D. Juan--e apenas ella appareceu: + +--D'onde vem, tão pallida? + +--Debilidade, Sebastião, venho da igreja... + +Jorge entrava do escriptorio com uns papeis na mão: + +--Da igreja!--exclamou--Que horror! + + + + +XII + + +Foi por esse tempo que, n'um sabbado, o Diario do Governo publicou a +nomeação do conselheiro Accacio ao _grau de cavalleiro da ordem de S. +Thiago_, attendendo aos seus grandes merecimentos litterarios, ás obras +publicadas de reconhecida utilidade, e mais partes... + +Na noite seguinte, ao entrar em casa de Jorge, todos o cercaram, +felicitando-o com alarido; o Conselheiro, depois de os abraçar um por +um, n'uma pressão nervosa e commovida, cahiu no sophá, exhausto, e +murmurou: + +--Não o esperava tão cedo da real munificencia! Não o esperava tão +cedo!--E acrescentou, pondo a mão espalmada sobre o peito:--Direi como +o philosopho: Esta condecoração é o melhor dia da minha vida! + +E convidou logo Jorge, Sebastião e Julião para um jantar na +quinta-feira, «um modesto jantar de rapazes, no seu humilde tugurio, +para festejarem a regia graça». + +--Ás cinco e meia, meus bons amigos! + +Na quinta-feira, os tres, que se tinham encontrado na Casa Havaneza, +eram introduzidos por uma rapariguita vesga, suja como um esfregão, na +sala do Conselheiro. Um vasto canapé de damasco amarello occupava a +parede do fundo, tendo aos pés um tapete onde um chileno roxo caçava ao +laço um bufalo côr de chocolate; por cima uma pintura tratada a tons +côr de carne, e cheia de corpos nús cobertos de capacetes, representava +o valente Achilles arrastando Heitor em torno dos muros de Troya. Um +piano de cauda, mudo e triste sob a sua capa de baeta verde, enchia +o intervallo das duas janellas. Sobre uma mesa de jogo, entre dous +castiçaes de prata, uma galguinha de vidro transparente galopava; e o +objecto em que se sentia mais o calor do uso era uma caixa de musica de +18 peças! + +O Conselheiro recebeu-os, com o _habito_ de S. Thiago sobre a lapella +do _frac_ preto. Havia outro sujeito na sala, o snr. Alves Coutinho. +Era picado das bexigas, tinha a cabeça muito enterrada nos hombros; +quando o seu olhar parvo se fixava nas pessoas, com pasmo, o seu bigode +pellado arreganhava-se logo por habito, n'um sorriso alvar que mostrava +uma bocca medonha cheia de dentes pôdres; fallava pouco, esfregava +sempre as mãos, concordava em tudo; havia n'elle o ar d'um deboche +banal, e d'um embrutecimento antigo. Era um empregado do ministerio do +reino, illustre pela sua boa letra. + +D'ahi a pouco entrou a figura conhecida do Savedra, redactor do +_Seculo_. A sua face branca parecia mais balofa; o bigode muito preto +reluzia de brilhantina; as lunetas d'ouro accentuavam o seu tom +official: trazia ainda no queixo o pó d'arroz, que lhe pozera momentos +antes o barbeiro; e a mão, que escrevia tanta banalidade e tanta +mentira, vinha aperreada n'uma luva nova, côr de gema d'ovo! + +--Estamos todos!--disse com jubilo o Conselheiro. E +curvando-se:--Bemvindos, meus amigos! Estamos talvez mais á vontade +no meu quarto de estudo! Por aqui. Ha um degrau, cuidado! Eis o meu +_Sanctus Sanctorum_! + +N'uma saleta muito espanejada a que as cortinas de cassa, a luz de +duas janellas de peitoril, e o papel claro davam um aspecto alvadio, +estava a larga escrivaninha de trabalho, com um tinteiro de prata, os +lapis muito aparados, as regoas bem dispostas. Via-se o sinete d'armas +do Conselheiro, pousado sobre a _Carta Constitucional_ ricamente +encadernada. Encaixilhada, na parede, pendia a _carta regia_ que o +nomeára Conselheiro; defronte uma lithographia d'El-Rei; e sobre uma +mesa, era eminente o busto em gesso de Rodrigo da Fonseca Magalhães, +tendo no alto da cabeça uma corôa de perpetuas--que ao mesmo tempo o +glorificava e o chorava. + +Julião pozera-se logo a examinar a livraria. + +--Prezo-me de ter os authores mais illustres, amigo Zuzarte!--disse com +orgulho o Conselheiro. + +Mostrou-lhe a _Historia do consulado e do imperio_, as obras de +Delille, o _Diccionario da conversação_, a ediçãosinha bojuda da +_Encyclopedia Roret_, o _Parnaso lusitano_. Fallou dos seus trabalhos; +e acrescentou que, vendo alli reunidas pessoas de tão subida +illustração, desejaria muito lêr-lhes algumas das provas que estava +revendo do seu novo livro--_Descripção das principaes cidades do reino +e seus estabelecimentos_, para ouvir a opinião d'elles, desassombrada e +severa! + +--Se não acham massada... + +--Prazer, Conselheiro! prazer! + +Escolheu então «como mais propria para dar idéa da importancia do +trabalho» a pagina relativa a Coimbra. Assoou-se, collocou-se no meio +da saleta, de pé, com as folhas na mão, e, com uma voz cheia, gestos +pausados, leu: + +«--...Reclinada mollemente na sua verdejante collina, como odalisca +em seus aposentos, está a sabia Coimbra, a Lusa Athenas. Beija-lhe os +pés, segredando-lhe d'amor, o saudoso Mondego. E em seus bosques, no +bem conhecido salgueiral, o rouxinol e outras aves canoras soltam seus +melancolicos trilos. Quando vos aproximaes pela estrada de Lisboa, +onde outr'ora uma bem organisada _mala-posta_ fazia o serviço que o +progresso hoje encarregou á fumegante locomotiva, vêdel-a branquejando, +coroada do edificio imponente da Universidade, asylo da sabedoria. Lá +campêa a torre com o sino, que em sua folgazã linguagem a mocidade +estudiosa chama _a cabra_. Para além logo uma copada arvore vos attrahe +as vistas: é a celebrada _arvore dos Dorias_, que dilata seus seculares +ramos no jardim d'um dos membros d'esta respeitavel familia. E avistaes +logo, sentados nos parapeitos da antiga ponte, em seus innocentes +recreios, os briosos moços, esperança da patria, ou requebrando +galanteios com as ternas camponezas que passam reflorindo de mocidade e +frescura, ou revolvendo em suas mentes os problemas mais arduos de seus +bem elaborados compendios...» + +--Está a sôpa na mesa--veio dizer uma criada, de avental branco, muito +nutrida. + +--Muito bem, Conselheiro, muito bem!--disse logo o Savedra do _Seculo_, +erguendo-se.--É admiravel! + +Declarou para os lados com authoridade: «que o estylo era digno d'um +Rebello ou d'um Latino, e que realmente estava-se precisando muito em +Portugal d'uma obra daquelle quilate...» E pensava baixo: «Grandissima +cavalgadura!...» O que era a sua apreciação generica de todas as obras +contemporaneas--exceptuando os seus artigos no _Seculo_. + +--Que lhe pareceu, meu bom amigo?--perguntou baixo o Conselheiro +a Julião, passando-lhe a mão sobre o hombro.--Mas uma opinião +desaffrontada, meu Zuzarte! + +--Snr. Conselheiro--disse Julião com uma voz profunda--tenho-lhe +inveja!--E as suas lunetas escuras fixavam-se com uma preoccupação +crescente n'um chale-manta pardo, que a um canto cobria +cuidadosamente, a julgar pelas saliencias, altas pilhas de livros. Que +seria?--Tenho-lhe inveja!--repetiu--E outra cousa, Conselheiro, não se +me dava de lavar as mãos. + +Accacio levou-o logo ao seu quarto, e retirou-se discretamente. Julião, +sempre curioso, observou, surprehendido, duas grandes lithographias +aos lados da cama--um _Ecce Homo_! e a _Virgem das sete Dôres_. O +quarto era esteirado, o leito baixo e largo. Abriu então a gavetinha +da mesa de cabeceira, e viu, espantado, uma touca e o volume brochado +das poesias obscenas de Bocage! Entreabriu os cortinados fechados; e +teve a consolação de verificar,--que havia sobre o travesseiro duas +fronhasinhas chegadas d'um modo conjugal e terno! + +Apenas elle sahiu do quarto, limpando as unhas com o lenço, o +Conselheiro conduziu-os á sala de jantar, dizendo, jovialmente: + +--Não esperem o festim de Lucullo: é apenas o modesto passadio d'um +humilde philosopho! + +Mas o Alves Coutinho extasiou-se sobre a abundancia das travessas +de dôce; havia _creme_ crestado a ferro d'engomar, um prato _d'ovos +queimados_, aletria com as iniciaes do Conselheiro desenhadas a canella. + +--É um grande dia para Sebastião!--disse Jorge. + +O Alves Coutinho voltou-se logo para Sebastião, esfregando as mãos, com +um riso na face amarella: + +--É cá dos meus, hein? Gosta do bello dôce! Tambem me péllo, tambem me +péllo!... + +Houve então um silencio. As colheres de prata, remexendo devagar a sopa +muito quente, agitavam os longos canudos brancos e molles do macarrão. + +O Conselheiro disse: + +--Não sei se gostarão da sopa. Eu adoro o macarrão! + +--Gosta do macarrão?--acudiu o Alves. + +--Muito, meu Alves. Lembra-me a Italia!--E acrescentou:--Paiz que +sempre desejei vêr. Dizem-me que as suas ruinas são de primeira ordem. +Póde ir trazendo o cozido, snr.^a Philomena...--Mas detendo-a, com um +gesto grave:--Perdão, com franqueza, preferem o cozido ou o peixe? É um +pargo. + +Houve uma hesitação, Jorge disse: + +--O cozido talvez. + +E o Conselheiro com affecto: + +--O nosso Jorge opina pelo cozido. + +--Tambem estou pela sua!--exclamou o Alves Coutinho, voltado para +Jorge, com o olho afogado em reconhecimento:--O cozidinho! + +E o Conselheiro que julgava do seu dever dar á conversação nobreza e +interesse, disse, limpando devagar o bigode da gordura da sopa: + +--Dizem-me que é muito liberal a constituição da Italia! + +Liberal! Segundo Julião, se a Italia fosse liberal, devia ter ha muito +expulso a coronhadas o papa, o sacro collegio, e a sociedade de Jesus! + +O Conselheiro pediu, com bondade, a benevolencia do amigo Zuzarte para +o «chefe da Igreja». + +--Não--explicou--que eu seja um sectario do _Syllabus_. Não que eu +queira vêr os jesuitas enthronisados no seio da familia! Mas--e a sua +voz tornou-se profunda--o respeitavel prisioneiro do Vaticano é o +vigario de Christo! Meu Sebastião, sirva o arroz! + +Não havia que estranhar aquellas opiniões catholicas do Conselheiro, +ia observando Julião, porque tinha duas imagens de santos pendentes á +cabeceira da cama... + +A calva d'Accacio fez-se rubra. O Savedra do _Seculo_ exclamou com a +bocca cheia: + +--Não o sabia carola, Conselheiro! + +Accacio, afflicto, suspendeu o trinchador sobre o paio escarlate, e +acudiu: + +--Eu peço ao meu Savedra que não tire d'esse facto illações erradas. +Os meus principios são bem conhecidos. Não sou ultramontano, nem faço +votos pelo restabelecimento da perseguição religiosa. Sou liberal. +Creio em Deus. Mas reconheço que a religião é um freio... + +--Para os que o precisam--interrompeu Julião. + +Riram; o Alves Coutinho torcia-se. O Conselheiro interdicto respondeu, +devagar, dispondo na travessa as rodelas do paio: + +--Não o precisamos nós de certo, que somos as classes illustradas. Mas +precisa-o a massa do povo, snr. Zuzarte. Senão veriamos augmentar a +estatistica dos crimes. + +E o Savedra do _Seculo_, erguendo as sobrancelhas, com a physionomia +muito séria: + +--Pois olhe que diz uma grandissima verdade.--Repetiu a maxima, +modificando-a:--A religião é um bridão!--Fazia com o gesto o esforço de +conter uma mula. E pediu mais arroz. Devorava. + +O Conselheiro continuava, explicando: + +--Como dizia, sou liberal, mas entendo que algumas lithographias ou +gravuras, allusivas ao mysterio da Paixão, tem o seu lugar n'um quarto +de cama, e inspiram de certo modo sentimentos christãos. Não é verdade, +meu Jorge? + +Mas o Savedra interrompeu ruidosamente, com a face accesa n'uma +jovialidade libertina: + +--Eu, n'um quarto de dormir, as unicas pinturas que admitto são uma +bella nympha núa, ou uma bacchante desenfreada! + +--Isso, isso!--bradou o Alves Coutinho. A bocca dilatava-se-lhe +n'uma admiração sensual.--Este Savedra! Este Savedra!--E baixo para +Sebastião:--Tem um talento! Tem um talento! + +O Conselheiro voltou-se para Julião, e puxando o guardanapo para o +estomago: + +--Espero que não sejam esses os paineis immoraes, que se vêem no seu +gabinete d'estudo. + +Julião emendou: + +--No meu cubiculo. Ah! não, Conselheiro! Tenho apenas duas +lithographias--uma é um homem sem pelle para representar o systema +arterial, o outro é o mesmo individuo igualmente sem pelle para se vêr +o systema nervoso. + +O Conselheiro teve com a sua mão branca um vago gesto enojado, e +exprimiu a opinião--que na medicina, aliás uma grande sciencia! havia +cousas bastante asquerosas. Assim, ouvira dizer que nos theatros +anatomicos, os estudantes d'idéas mais avançadas levavam o seu desprezo +pela moral até atirarem uns aos outros, brincando, pedaços de membros +humanos, pés, coxas, narizes... + +--Mas é como quem mexe em terra, Conselheiro!--disse Julião, enchendo o +copo--é materia inerte! + +--E a alma, snr. Zuzarte?...--exclamou o Conselheiro. Fez um gesto +de vaga reticencia; e julgando tel-o aniquilado com aquella palavra +suprema, abriu para Sebastião um sorriso cortez e protector: + +--E que diz o nosso bondoso Sebastião? + +--Estou a ouvir, snr. Conselheiro. + +--Não dê ouvidos a estas doutrinas!--Com o garfo mostrava a figura +biliosa de Julião.--Mantenha a sua alma pura. São perniciosas. Que o +nosso Jorge (o que é de lamentar n'um homem estabelecido e empregado do +Estado) tambem vai um pouco para estas exagerações materialistas! + +Jorge riu; affirmou que _sim_, que tinha essa honra... + +--Então o Conselheiro quer que eu, um engenheiro, um estudante de +mathematica, acredite que ha almas que vivem no céo, com azinhas +brancas, tunicas azues, e tocando instrumentos? + +O Conselheiro acudiu: + +--Não, instrumentos não!--E como appellando para todos:--Não creio que +tivesse fallado em instrumentos. Os instrumentos são uma exageração. +São, podemos dizel-o, tacticas do partido reaccionario... + +Ia fulminar a doutrina ultramontana--mas a snr.^a Philomena +collocou-lhe diante a travessa com a perna de vitella assada. +Compenetrou-se logo do seu dever, afiou o trinchador com solemnidade, +foi cortando fatias finas, com a testa muito franzida como na +applicação d'uma funcção grave. Então Julião, pousando os cotovêlos +sobre a mesa, e escabichando os dentes com a unha, perguntou: + +--E o ministerio, cahe ou não cahe? + +Sebastião ouvira dizer no vapor d'Almada, de tarde, que «a situação +estava firme». + +Mas o Savedra esvaziou o copo, limpou os beiços e declarou que em duas +semanas «estavam em terra». Nem aquelle escandalo podia continuar! Não +tinham a mais pequena idéa de governo. Nem a mais leve! Assim, por +exemplo, elle...--E metteu as mãos nos bolsos, firmando-se nas costas +da cadeira--Elle tinha-os apoiado, não é verdade? E com lealdade. +Porque era leal! Sempre o fôra em politica! Pois bem, não lhe tinham +despachado o primo recebedor d'Aljustrel, tendo-lh'o promettido! e nem +lhe tinham dado uma satisfação. Assim não era possivel fazer politica! +Era uma collecção de idiotas! + +Jorge alegrava-se que viessem outros; talvez lhe dessem de novo a sua +commissão no ministerio; e elle o que queria era estar quieto ao seu +cantinho... + +O Alves Coutinho calava-se, com prudencia, engulindo buchas de pão. + +--Eu que caiam, ou que fiquem--disse Julião--que venham estes, ou que +venham aquelles... Obrigado, Conselheiro--e recebeu o seu prato de +vitella--...é-me inteiramente indifferente. É tudo a mesma podridão! O +paiz inspirava-lhe nojo; de cima a baixo era uma _choldra_: e esperava +breve que, pela logica das cousas, uma revolução varresse a porcaria... + +--Uma revolução!--fez o Alves Coutinho, assustado, com olhares +inquietos para os lados, coçando nervosamente o queixo. + +O Conselheiro sentára-se, e disse, então: + +--Eu não quero entrar em discussões politicas, só servem para dividir +as familias mais unidas, mas só lhe lembrarei, snr. Zuzarte, uma cousa, +os excessos da Communa... + +Julião recostou-se, e com uma voz muito tranquilla: + +--Mas onde está o mal, snr. Conselheiro, se fuzilarmos alguns +banqueiros, alguns padres, alguns proprietarios obesos, e alguns +marquezes cacheticos! Era uma limpezasinha!...--E fazia o gesto d'afiar +a faca. + +O Conselheiro sorriu, cortezmente; tomava como um gracejo aquella +sahida sanguinaria. + +O Savedra porém interpoz-se, com authoridade: + +--Eu no fundo sou republicano... + +--E eu--disse Jorge. + +--E eu--fez o Alves Coutinho, já inquieto.--Contem-me a mim tambem! + +--Mas--continuou o Savedra--sou-o em principio. Porque o principio é +bello, o principio é ideal! Mas a pratica? Sim, a pratica?--E voltava +para todos os lados a sua face balofa. + +--Sim, na pratica!--exclamava o Alves Coutinho, em echo admirativo. + +--A pratica é impossivel!--declarou o Savedra. E encheu a bocca de +vitella. + +O Conselheiro então resumiu: + +--A verdade é esta: o paiz está sinceramente abraçado á familia real... +Não acha, meu bom Sebastião?--Dirigia-se a elle, como proprietario e +possuidor d'inscripções. + +Sebastião, interpellado, córou, declarou que não entendia nada de +politica; havia todavia factos que o affligiam; parecia-lhe que os +operarios eram mal pagos; a miseria crescia; os cigarreiros, por +exemplo, tinham apenas de nove a onze vintens por dia, e, com familia, +era triste... + +--É uma infamia--disse Julião, encolhendo os hombros. + +--E ha poucas escólas...--observou timidamente Sebastião. + +--É uma torpeza!--insistiu Julião. + +O Savedra calava-se, occupado com o alimento; tinha desabotoado +a fivela do collete; espalhava-se-lhe no rosto gordo uma côr +d'enfartação, e sorria vagamente, inchado. + +--E os idiotas de S. Bento?...--exclamou Julião. + +Mas o Conselheiro interrompeu-o: + +--Meus bons amigos, fallemos d'outra cousa. É mais digno de portuguezes +e de subditos fieis. + +E voltando-se logo para Jorge, quiz saber como ficára a interessante D. +Luiza? + +Estava um pouco adoentada havia dias--disse Jorge.--Mas não era nada, +mudança d'estação, um bocadito d'anemia... + +O Savedra pousando o copo, e comprimentando: + +--Tive o prazer de a vêr passar este verão quasi todas as manhãs por +minha casa--disse.--Ia para os lados d'Arroios. Ás vezes de trem, ás +vezes a pé... + +Jorge pareceu um pouco surprehendido; mas o Conselheiro ia dizendo +quanto lhe pezava não ter o prazer de a vêr partilhar d'aquelle modesto +repasto; como celibatario porém... não tendo uma esposa para fazer as +honras... + +--E é o que eu admiro, Conselheiro--observou Julião--é que tendo uma +casa tão confortavel, não se tenha casado, não se tenha dado o conchego +d'uma senhora... + +Todos apoiaram. Era verdade! O Conselheiro devia-se ter casado. + +--São graves, perante Deus e perante a sociedade, as responsabilidades +d'um chefe de familia--considerou elle. + +Mas emfim--disseram--é o estado mais natural. E depois, que diabo, ás +vezes havia de se sentir só! E n'uma doença! Sem contar a alegria que +dão os filhos!... + +O Conselheiro objectou: «os annos, as neves da fronte...» + +Tambem ninguem lhe dizia que fosse casar com uma rapariga de quinze +annos! Não, era arriscado. Mas com uma pessoa de certa idade que +tivesse attractivos, cuidados de interior... Era mesmo moral. + +--Porque emfim, Conselheiro, a natureza, é a natureza!--disse Julião +com malicia. + +--Ha muito, meu amigo, que se apagou dentro em mim o fogo das paixões. + +Ora qual! era um fogo que nunca se extinguia! Que diabo! era +impossivel que o Conselheiro, apesar dos seus cincoenta e cinco, fosse +indifferente a uns bellos olhos pretos, a umas fórmasinhas redondas!... + +O Conselheiro córava. E o Savedra declarou, com um circumloquio +pudico--que nenhuma idade se eximia á influencia de Venus. Toda a +questão é nos gostos--disse:--aos quinze annos gosta-se d'uma matrona +cheia, aos cincoenta d'um fructosinho tenro... Pois não é verdade, +amigo Alves? + +O Alves arregalou os olhos concupiscentes, e fez estalar a lingua. + +E o Savedra continuou: + +--Eu, a minha primeira paixão foi uma visinha, mulher d'um capitão de +navios, mãi de seis filhos, e que não cabia por aquella porta. Pois +senhores, fiz-lhe versos, e a excellente creatura ensinou-me um par de +cousas agradaveis... Deve-se começar cedo, não é verdade?--E voltou-se +para Sebastião. + +Quizeram então saber as opiniões de Sebastião--que se fez escarlate. + +Por fim, muito solicitado, disse com timidez: + +--Eu acho que se deve casar com uma rapariga de bem, e estimal-a toda a +vida... + +Aquellas palavras simples produziram um curto silencio. Mas o Savedra, +reclinando-se, classificou uma tal opinião de «burgueza»; o casamento +era um fardo; não havia nada como a variedade... + +E Julião expôz dogmaticamente: + +--O casamento é uma formula administrativa, que ha-de um dia +acabar...--De resto, segundo elle, a femea era um ente subalterno; o +homem deveria aproximar-se d'ella em certas épocas do anno (como fazem +os animaes, que comprehendem estas cousas melhor que nós), fecundal-a, +e afastar-se com tedio. + +Aquella opinião escandalisou a todos, sobretudo o Conselheiro que a +achou «d'um materialismo repugnante». + +--Essas femeas para quem é tão severo, snr. Zuzarte--exclamava +elle--essas femeas são nossas mães, nossas carinhosas irmãs, a esposa +do Chefe do Estado, as damas illustres da nobreza... + +--São o melhor bocadinho d'este valle de lagrimas--interrompeu com +fatuidade o Savedra, dando palmadinhas sobre o estomago. Dissertou +então sobre as mulheres. O que sobretudo lhes exigia era um bonito pé; +não havia nada como um pésinho catita! E a todas preferia a mulher +hespanhola! + +O Alves votava pelas francezas: citava algumas do Café Concerto, +creaturas de fazer perder a cabeça!...--E injectavam-se-lhe os olhos. + +O Savedra disse com um trejeito hostil: + +--Sim, para um bocado de can-can... Para o can-can não ha como as +francezas... Mas muito chupistas! + +O Conselheiro affirmou ageitando as lunetas: + +--Viajantes instruidos teem-me afiançado que as inglezas são notaveis +mães de familia... + +--Mas frias como esta madeira--disse o Savedra, batendo no +mesa.--Mulheres de gêlo!--E reclamava hespanholas! Queria fogo! Queria +_salero_! Tinha o olho brilhante do vinho; a comida accendia-lhe o +sentimento! + +--Uma bella _gaditana_, hein, amigo Alves? + +Mas em presença dos dôces que a snr.^a Philomena dispôz sobre a mesa, +o Alves Coutinho esquecera as mulheres, e, voltado para Sebastião, +discutia gulodices. Indicava as especialidades: Para os folhados, o +Cócó! Para as natas, o Baltresqui! Para as gelatinas, o largo de S. +Domingos! Dava receitas; contava proezas de lambarice, revirando os +olhos: + +--Porque--dizia--o docinho e a mulherzinha é o que me toca cá por +dentro a alma. + +Era: todo o tempo que não dedicava ao serviço do Estado, dividia-o, com +solicitude, entre as confeitarias e os lupanares. + +Savedra e Julião discutiam a imprensa. O redactor do _Seculo_ gabava a +profissão de jornalista--quando a gente, já sabe, tem alguma cousa de +seu; mais tarde ou mais cedo apanha-se um nicho, não é verdade? Depois +as entradas nos theatros, a influencia nas cantoras. Sempre se é um +bocado temido... + +E o Conselheiro, cortando os ovos queimados, saboreando as alegrias da +convivencia, dizia a Jorge: + +--Que maior prazer, meu Jorge, que passar assim as horas entre +amigos, todos de reconhecida illustração, discutir as questões mais +importantes, e vêr travada uma conversação erudita?... Parecem +excellentes os ovos. + +A snr.^a Philomena, então, com solemnidade, veio collocar-lhe ao pé uma +garrafa de champagne. + +O Savedra pediu logo para a abrir, porque o fazia com muito _chic_. +E apenas a rolha saltou, e, no silencio que creou a ceremonia, se +encheram os copos, o Savedra, que ficára de pé, disse: + +--Conselheiro! + +Accacio curvou-se, pallido. + +--Conselheiro, é com o maior prazer que bebo, que todos bebemos, á +saude d'um homem, que--e arremessando o braço, deu um puxão ao punho +da camisa com eloquencia--pela sua respeitabilidade, a sua posição, os +seus vastos conhecimentos, é um dos vultos d'este paiz. Á sua saude, +Conselheiro! + +--Conselheiro! Conselheiro! Amigo Conselheiro! + +Beberam com ruido. Accacio, depois de limpar os beiços, passou a mão +tremula pela calva, levantou-se commovido, e começou: + +--Meus bons amigos! Eu não me preparei para esta circumstancia. Se o +soubesse d'antemão, teria tomado algumas notas. Não tenho a verbosidade +dos Rodrigos ou dos Garretts. E sinto que as lagrimas me vão embargar a +voz... + +Fallou então de si, com modestia: reconhecia, quando via na capital +tão illustres parlamentares, oradores tão sublimes, tão consummados +estylistas, reconhecia que era um Zero!--E com a mão erguida formava +no ar, pela junção do pollegar e do indicador, um 0: um _zero_! +Proclamou o seu amor á patria: que ámanhã as instituições ou a familia +real precisassem d'elle--e o seu corpo, a sua penna, o seu modesto +peculio, tudo offerecia de bom grado! Quereria derramar todo o seu +sangue pelo throno!--E, prolixo, citou o _Eurico_, as instituições da +Belgica, Bocage e passagens dos seus prologos. Honrou-se de pretencer á +Sociedade Primeiro de Dezembro...--N'esse dia memoravel--exclamou--eu +mesmo illumino as minhas janellas, sem o luxo dos grandes +estabelecimentos do Chiado, mas com uma alma sincera! + +E terminou dizendo:--Não esqueçamos, meus amigos, como portuguezes, de +fazer votos pelo illustrado monarcha, que deu ás neves da minha fronte, +antes de descerem ao tumulo, a consolação de se poderem revestir com +o honroso habito de S. Thiago! Meus amigos, á familia real!--e ergueu +o copo--á familia modêlo, que sentada ao leme do Estado, dirige, +cercada dos grandes vultos da nossa politica, dirige...--Procurou +o fecho; havia um silencio ancioso--dirige...--Através das lunetas +negras, os seus olhos cravavam-se, á busca da inspiração, na +travessa d'aletria--dirige...--Coçou a calva, afflicto; mas um +sorriso clareou-lhe o aspecto, encontrára a phrase; e estendendo o +braço:--...dirige a barca da governação publica com inveja das nações +visinhas! Á familia real! + +--Á familia real!--disseram com respeito. + +O café foi servido na sala. As velas d'estearina punham uma luz +triste n'aquella habitação fria; o Conselheiro foi dar corda á caixa +de musica; e, ao som do côro nupcial da _Lucia_, offereceu em redor +charutos. + +--E a snr.^a Adelaide póde trazer os licôres--disse á Philomena. + +Viram então apparecer uma bella mulher de trinta annos, muito branca, +de olhos negros, e fórmas ricas, com um vestido de merino azul, +trazendo n'uma bandeja de prata, onde tremelicavam copinhos, a garrafa +de cognac e o frasco de curaçáo. + +--Boa moça!--rosnou com o rosto acceso o Alves Coutinho. + +Julião quasi lhe tapou a bocca com a mão. E fallando-lhe ao ouvido, +olhando o Conselheiro, recitou: + + Não ouses, temerario, erguer teus olhos + Para a mulher de Cesar! + +E em quanto se bebia o curaçáo, Julião pé ante pé dirigiu-se ao +escriptorio, e foi erguer a ponta do chale-manta pardo que tanto o +preoccupava; eram rumas de livros brochados, atadas com guitas,--as +obras do Conselheiro, intactas! + +Quando Jorge entrou, ás onze horas, Luiza já deitada lia, esperando-o. + +Quiz saber do jantar do Conselheiro. + +Excellente, contou Jorge, começando a despir-se. Gabou muito os vinhos. +Tinha havido _speechs_... E de repente: + +--É verdade, onde ias tu a Arroios? + +Luiza passou devagar as mãos sobre o rosto para lhe cobrir a alteração. +Disse bocejando ligeiramente: + +--A Arroios? + +--Sim. O Savedra, um sujeito que estava em casa do Conselheiro, diz que +te via passar todos os dias para lá, de trem e a pé. + +--Ah!--fez Luiza, depois de tossir--ia vêr a Guedes, uma rapariga que +andou commigo no collegio, que tinha chegado do Porto. A Silva Guedes! + +--Silva Guedes!...--disse Jorge reflectindo--Imaginei que estava +secretario geral em Cabo-Verde! + +--Não sei. Estiveram ahi um mez no verão. Moravam a Arroios. Ella +estava doente, coitada: eu ia lá ás vezes. Mandava-me pedir para ir lá. +Põe essa luz fóra, está-me a fazer impressão. + +Queixou-se então que toda a tarde estivera exquisita. Sentia-se fraca, +e com uma pontinha de febre... + + +E nos dias seguintes não se achou melhor. Queixava-se ainda vagamente +de peso na cabeça, mal estar... Uma manhã mesmo ficou de cama. Jorge +não sahiu, inquieto, querendo já mandar chamar Julião. Mas Luiza +insistiu que «não era nada, um bocadito de fraqueza, talvez...» + +Foi tambem a opinião de Juliana, em cima na cozinha. + +--Que aquella senhora é fraca; alli ha cousa do peito--disse com +importancia. + +Joanna que estava debruçada sobre o fogão, acudiu logo: + +--O que ella é, é uma santa!... + +Juliana cravou-lhe nas costas um olhar rancoroso. E com um risinho: + +--A snr.^a Joanna diz isso como se as outras fossem uma peste. + +--Que outras? + +--Eu, vossemecê, a mais gente... + +Joanna sempre remexendo nas panellas sem se voltar: + +--Olhe, outra não encontra vossemessê, snr.^a Juliana! Uma senhora que +lhe deixa fazer tudo o que quer, e faz ella mesma o serviço! N'outra +dia andava a despejar as aguas. É uma santa! + +Aquelle tom hostil de Joanna exasperou-a; mas conteve-se; apesar da +sua _posição_ na casa, dependia d'ella para os caldinhos, os bifes, +os petiscos; tinha diante d'ella a vaga timidez respeitosa das +constituições franzinas pelos corpos possantes; pôz-se a dizer com uma +voz tortuosa, ambigua: + +--Ora!--são genios! Gosta d'arrumar. Ah, lá isso deve-se dizer, é +senhora de muita ordem. Mas gosta, gosta de trabalhar. Ás vezes +basta-lhe vêr um bocadinho de pó, agarra logo no espanador... É genio. +Tenho visto outras assim...--E punha a cabeça de lado, franzindo os +beiços. + +--O que ella é, é uma santa--repetiu a Joanna. + +--É genio! Está sempre n'uma labutação. Eu nunca sáio sem deixar tudo +n'um brinco. Pois senhores, nunca está satisfeita. Até n'outro dia, lá +em baixo a passar a roupa... Eu ia a sahir, pois tirei logo o chapéo, +e não consenti... Olhe, quer que lhe diga? falta de cuidados, não ter +filhos... Que ella não lhe falta nada... + +Calou-se, remirou o pé, e com satisfação: + +--Nem a mim--disse reclinando-se na cadeira. + +A Joanna pôz-se a cantarolar. Não queria «questões». Mas ultimamente +achava «tudo aquillo muito fóra dos eixos», a Juliana sempre na rua, ou +mettida no quarto a trabalhar para si, sem se importar, deixando tudo +ao Deus dará, e a pobre senhora a varrer, a passar, a emmagrecer! Não, +alli havia cousa! Mas o seu Pedro que ella consultára, disse-lhe com +finura, retorcendo o buço:--Ellas lá se entendem! Trata tu de gozar, +e não te importes com a vida dos outros. A casa é boa, toca a tirar +partido! + +Mas Joanna sentia «lá por dentro» a crescer-lhe uma embirração pela +snr.^a Juliana. Tinha-lhe asca pelas tafularias, pelos luxos do quarto, +pelas passeatas todo o dia, pelos modos de madama; não se recusava a +fazer-lhe o serviço, porque isso lhe rendia presentinhos da senhora; +mas, quê, tinha-lhe birra! O que a consolava era a idéa de que um +piparote desfazia aquella magricella! e ia tirando partido da casa, +tambem. O Pedro tinha razão... + +Juliana com effeito, agora, não se constrangia. Depois da «scena da +roupa», assustára-se, porque, emfim, o escandalo podia-lhe fazer +perder a _posição_; durante alguns dias não sahiu, foi cuidadosa: mas +quando viu Luiza resignar-se, abandonou-se logo, quasi com fervor, +ás satisfações da preguiça e ás alegriasinhas da vingança. Passeava, +costurava fechada no seu quarto, e a _Piorrinha_ que se arranjasse! +Diante de Jorge ainda se continha: temia-o. Mas apenas elle sahia! Que +desforra! Ás vezes estava varrendo ou arrumando--e, mal o sentia fechar +a cancella, atirava o ferro, a vassoura, punha-se a «panriar». Lá +estava a _Piorrinha_, para acabar! + +Luiza, no entanto, passava peor: tinha de repente, sem razão, febres +ephemeras; emmagrecia, e as suas melancolias torturavam Jorge. + +Ella explicava tudo pelo _nervoso_. + +--Que será, Sebastião?--era a pergunta incessante de Jorge. E +lembrava-se com terror que a mãi de Luiza morrera d'uma doença de +coração! + +Na rua, pela cozinheira, pela tia Joanna, sabia-se que a do Engenheiro +«ia mal». A tia Joanna jurava que era a solitaria. Porque emfim, +uma pessoa a quem não faltava nada, com um marido que era um anjo, +uma boa casa, todos os seus commodos--e a esmorecer, a esmorecer... +Era a bicha! Não podia ser senão a bicha! E todos os dias lembrava +a Sebastião que se devia mandar chamar o homem de Villa Nova de +Famalicão, que tinha o remedio «para a bicha». + +O Paula explicava d'outro modo. + +--Alli anda cousa de cabeça--dizia, franzindo a testa, com o ar +profundo.--Sabe o que ella tem, snr.^a Helena? É muita dóse de novellas +n'aquella cachimonia. Eu vejo-o de pela manhã até á noite de livro na +mão. Põe-se a lêr romances e mais romances... Ahi teem o resultado: +arrazada! + +Um dia Luiza de repente, sem razão, desmaiou; e quando voltou a si +ficou muito fraca, com o pulso sumido, os olhos cavados. Jorge foi logo +buscar Julião: encontrou-o muito agitado, porque o concurso era para o +dia seguinte, e «sentia cólicas». + +Durante todo o caminho não deixou de fallar excitadamente da sua +these, do escandalo dos patrocinatos, do barulho que faria se fossem +injustos,--arrependido agora de não ter «mettido mais cunhas»! + +Depois de ter examinado Luiza veio dizer, furioso, a Jorge: + +--Não tem nada! E vaes-me buscar p'ra isto! Tem anemia, o que todos +temos. Que passeie, que se distráia. Distracções e ferro, muito +ferro... E agua fria, agua fria p'ra cima d'aquella espinha! + +Como eram cinco horas, convidou-se para jantar, deblaterando toda a +tarde contra o paiz, amaldiçoando a carreira medica, injuriando o seu +concorrente, e fumando com desespero os charutos de Jorge. + +Luiza tomava o ferro, mas recusava as distracções; fatigava-a +vestir-se, aborrecia-lhe ir ao theatro... Depois, logo que viu Jorge +preoccupar-se do seu estado, quiz affectar força, alegria, bom humor; e +aquelle esforço abatia-a, extraordinariamente. + +--Vamos para o campo, queres tu?--dizia-lhe Jorge desolado, vendo-a +esmorecida. + +Ella, receando complicações possiveis, não aceitava; não se sentia +bastante forte, dizia: onde estava mais confortavel que em casa? Depois +as despezas, os incommodos... + +Uma manhã, que Jorge voltára a casa inesperadamente, encontrou-a +em _robe-de-chambre_, com um lenço amarrado na cabeça, varrendo, +lugubremente. + +Ficou á porta attonito: + +--Que andas tu a fazer? andas a varrer? + +Ella córou muito, atirou logo a vassoura, veio abraçal-o. + +--Não tinha que fazer... Deu-me a mania da limpeza... Estava +aborrecida, além d'isso faz-me bem, é um exercicio. + +Jorge, á noite, contou a Sebastião aquella «tolice, de se andar a +esfalfar...» + +--Uma pessoa que está tão fraca, minha senhora...--observou +reprehensivamente Sebastião. + +Mas não! dizia ella, achava-se bem melhor! Até agora andava muito +melhor... + +Todavia, quasi não fallou n'essa noite, curvada sobre o seu _crochet_, +um pouco pallida: e os seus olhos ás vezes erguiam-se com uma fadiga +triste, sorrindo silenciosamente, d'um modo desconsolado. + +Pediu a Sebastião que tocasse algum cousa do _Requiem_ de Mozart. +Achava tão lindo! Gostava que lh'o cantassem na igreja quando ella +morresse... + +Jorge zangou-se. Que mania de fallar em cousas ridiculas! + +--Mas então, não é possivel que eu morra?... + +--Pois bem, morre e deixa-nos em paz!--exclamou elle furioso. + +--Que bom marido!--dizia ella sorrindo a Sebastião.--Deixou cahir +o _crochet_ no regaço, pediu-lhe então os _Dezeseis compassos da +Africana_. Escutava, com a cabeça apoiada á mão: aquelles sons +entravam-lhe na alma com a doçura de vozes mysticas que a chamavam; +parecia-lhe que ia levada por ellas, se desprendia de tudo o que era +terrestre e agitado, se achava n'uma praia deserta, junto ao mar +triste, sob um frio luar--e alli, puro espirito, livre das miserias +carnaes, rolava nas ondulações do ar, tremia nos raios luminosos, +passava sobre as urzes nos sopros salgados... + +A melancolica attitude do seu corpo abatido enfureceu Jorge: + +--Ó Sebastião, fazes-me favor de tocar o fandango, o Barba Azul, +o Pirolito, o diabo? Senão, se querem melancolia, eu começo com o +canto-chão! + +E cantou, com um tom funebre: + + _Dies ir[ae], dies illa + Solvunt s[ae]cula in favilla!..._ + +Luiza riu-se: + +--Que doudo! Nem póde a gente estar triste... + +--Póde!--exclamou Jorge.--Mas então venha a bella tristeza, venha a +tristeza completa.--E com uma voz medonha entoou o _Bemdito_! + +--Os visinhos hão-de dizer que estamos doudos, Jorge--acudiu ella. + +--É justamente o que nós estamos!--E entrou no escriptorio, atirando +com a porta. + +Sebastião bateu alguns compassos, e voltando-se para ella, baixo: + +--Então que idéas são essas? Que melancolia é essa? + +Luiza ergueu os olhos para elle; viu a sua face boa e amiga, cheia de +sympathia; ia talvez dizer-lhe tudo n'uma explosão de dôr, mas Jorge +sahia do escriptorio. Sorriu, encolheu os hombros, retomou devagar o +seu _crochet_. + + +No domingo seguinte, á noite, conversava-se na sala. Julião contára o +seu concurso. Em resumo, estava contente: tinha fallado duas horas bem, +com precisão, com lucidez. + +O dr. Figueiredo dissera-lhe que «devia ter amenisado um bocado mais...» + +--Litteratos!--fazia Julião, encolhendo os hombros, com desprezo.--Não +podem fallar cinco minutos sobre o osso do tornozelo, sem trazerem as +«flôres da primavera» e «o facho da civilisação»! + +--O portuguez tem a mania da rhetorica...--disse Jorge. + +N'este momento Juliana entrou na sala, com uma carta. + +--Oh! é do Conselheiro! + +Ficaram inquietos. Mas Accacio apenas se desculpava de «não poder vir, +como promettera na vespera, partilhar do excellente chá de D. Luiza. +Um trabalho urgente retinha-o á banca do dever. Pedia lembranças aos +nossos Sebastião e Julião, e affectuosos respeitos á interessante D. +Felicidade». + +Uma onda de sangue abrazou o rosto da excellente senhora. Ficou a +arfar, toda alterada; mudou duas vezes de cadeira, foi tocar no teclado +com um dedo a _Perola d'Ophir_; e emfim, não se dominando, pediu baixo +a Luiza «que fossem para o quarto, tinha um segredo...» + +Apenas entraram, fechando a porta da sala: + +--Que me dizes á carta d'elle? + +--Os meus parabens--disse Luiza, rindo. + +--É o milagre!--exclamou D. Felicidade--já é o milagre a fazer-se!--E +mais baixo:--Mandei o homem! O que eu te disse, o gallego! + +Luiza não comprehendia. + +--O homem a Tuy, á mulher de virtude! Levou o meu retrato e o d'elle. +Partiu ha uma semana: a mulher naturalmente já começou a enterrar-lhe +as agulhas no coração... + +--Que agulhas?--perguntou Luiza attonita. + +Estavam de pé, junto ao toucador. E D. Felicidade com uma voz +mysteriosa: + +--A mulher faz um coração de cera, colla-o ao retrato do Conselheiro, +e durante uma semana á meia noite crava-lhe uma agulha benta com o +preparo que ella tem, e faz as orações... + +--E déste o dinheiro ao homem? + +--Oito moedas. + +--Oh D. Felicidade! + +--Ai! não me digas. Que já vês! Que mudança! D'aqui a uns dias, +baba-se! Ai! Nossa Senhora da Alegria o permitta. Nossa Senhora o +permitta! Que aquelle homem traz-me douda. De noite, é cada sonho! Até +ando em peccado mortal! e são suores! Mudo de camisa tres e quatro +vezes! + +E ia-se olhando ao espelho: queria convencer-se que as bellezas da sua +pessoa ajudariam as agulhas da bruxa: alisou o cabello. + +--Não me achas mais magra? + +--Não. + +--Ai estou, filha, estou!--E mostrou o corpete lasso. + +Já fazia planos. Iria passar a _lua de mel_ a Cintra... Os olhos +afogavam-se-lhe n'um fluido lubrico. + +--Nossa Senhora da Alegria o permitta. Tenho-lhe duas velas accesas, de +dia e de noite... + +Mas de repente a voz afflicta de Joanna bradou da escada da cozinha: + +--Minha senhora! Minha senhora, acuda! + +Luiza correu, Jorge tambem, que ouvira na sala o grito. Juliana estava +estendida no soalho da cozinha, desmaiada! + +--Deu-lhe de repente, deu-lhe de repente!--exclamava Joanna, muito +branca, a tremer.--Tombou p'ra o lado de repente... + +Julião tranquillisou-os logo: era uma syncope, simples. +Transportaram-na para a cama. Julião fez-lhe esfregar violentamente +com uma flanella quente as extremidades,--e, mesmo antes que Joanna +atarantada, em cabello, corresse á botica por um antispasmodico, +Juliana voltava a si, muito fraca. Quando desceram á sala, Julião +disse, enrolando o cigarro: + +--Não vale nada. São muito frequentes, estas syncopes, nas doenças +de coração. Esta é simples. Mas é o diabo, ás vezes tem um caracter +apopletico, e vem a paralysia; pouco duradoura, sim, porque a +effusão de sangue no cerebro é muito pequena, mas emfim, sempre +desagradavel.--E accendendo o cigarro:--Esta mulher um dia morre-lhes +em casa. + +Jorge, preoccupado, passeava pela sala com as mãos nos bolsos. + +--Sempre o tenho dito--acudiu D. Felicidade, baixando a voz, +assustada.--Sempre o tenho dito. É desfazerem-se d'ella. + +--Além d'isso o tratamento é incompativel com o serviço--disse +Julião.--Emfim, mesmo a engommar roupa se póde tomar digitalis ou +quinino; mas é que o verdadeiro tratamento é o repouso, é a absoluta +exclusão da fadiga. Que ella um dia se zangue ou que tenha uma manhã de +canceira, e póde ir-se! + +--E vai adiantada a doença?--perguntou Jorge. + +--Pelo que ella diz já tem a difficuldade asthmatica, oppressões, uma +dôr aguda na região cardiaca, flatulencia, humidade nas extremidades--o +diabo! + +--Olha que espiga!--murmurou Jorge, olhando em roda. + +--É pôl-a na rua!--resumiu D. Felicidade. + +Quando ficaram sós, ás onze horas, Jorge disse logo a Luiza: + +--Que te parece esta, hein? É necessario descartarmo-nos da creatura. +Não quero que me morra em casa! + +Ella, sem se voltar, diante do toucador, tirando os brincos, começou a +dizer, que não se podia mandar tambem a pobre creatura morrer p'ra a +rua... Lembrou vagamente o que ella tinha feito pela tia Virginia... Ia +collocando devagar as suas palavras com a cautela com que se pousa o pé +n'um terreno traiçoeiro.--Podia-se talvez dar-lhe algum dinheiro, que +ella fosse viver algures... + +Jorge, depois d'um silencio, respondeu: + +--Não tenho duvida em lhe dar dez ou doze libras, e que se vá, que se +arranje! + +Dez ou doze libras!--pensou Luiza com um sorriso infeliz.--E á beira +do toucador olhava para o seu rosto, ao espelho, com uma indefinida +saudade, como se as suas faces devessem dentro em pouco estar cavadas +pela afflicção, e os seus olhos fatigados pelas lagrimas... + + +Porque, emfim, a _crise_ tinha chegado. Se Jorge insistisse em despedir +a creatura, ella não podia, sem provocar um espanto e uma explicação, +dizer a Jorge: não quero que ella sáia, quero que ella aqui morra! E +Juliana vendo-se expulsa, desesperada, doente, percebendo que Luiza não +a defendia, não a reclamava,--vingar-se-hia! Que havia de fazer? + +Ergueu-se ao outro dia n'uma grande agitação. Juliana muito fatigada, +ainda estava na cama. E em quanto Joanna punha a mesa, Luiza sentada na +_voltaire_, á janella da sala de jantar, lia machinalmente o _Diario +de Noticias_, quasi sem comprehender, quando uma noticia, no alto da +pagina, lhe deu um sobresalto: «Parte além d'ámanhã para França o +nosso amigo e conhecido banqueiro Castro, da firma Castro Miranda & +C.^a S. exc.^a retira-se dos negocios da praça, e vai estabelecer-se +definitivamente em França, perto de Bordeus, onde comprou ultimamente +uma valiosa propriedade.» + +O Castro! O homem que lhe dava dinheiro, o que ella quizesse! dizia +Leopoldina. Partia!... E apesar de ter achado, desde o primeiro +momento, aquelle recurso infame, vinha-lhe a seu pezar como uma +desconsolação de o vêr desapparecer! Porque nunca mais voltaria a +Portugal, o Castro!... E de repente uma idéa atravessou-a, que a fez +vibrar toda, erguer-se direita, muito pallida.--Se na vespera da +partida d'elle, Santo Deus! se na vespera ella consentisse!... Oh! era +horrivel! Nem pensar em tal!... + +Mas pensou--e sentia-se toda fraca contra uma tentação crescente, que +se lhe enroscava na alma com caricias persuasivas. É que então estava +salva! Dava seiscentos mil reis a Juliana! E o demonio iria morrer para +longe! + +E elle, o homem, tomaria o paquete! Não teria de córar diante d'elle; +o seu segredo ia para o estrangeiro, tão perdido como se fosse para o +tumulo!--E, além d'isso, se o Castro tinha uma paixão por ella, era bem +possivel que lhe emprestasse, sem condições!... + +Bom Deus! No dia seguinte podia ter alli na algibeira do seu roupão as +notas, o ouro... Porque não?--Porque não? E vinha-lhe um desejo ancioso +de se libertar, de viver feliz, sem agonias, sem martyrios... + +Voltou ao quarto. Pôz-se a remexer no toucador, olhando de lado Jorge +que se vestia... A presença d'elle deu-lhe logo um remorso; ir pedir +a um homem dinheiro, consentir nos seus olhares lascivos, nas suas +palavras intencionaes!... Que horror!--Mas já subtilisava. Era por +Jorge, era por elle! Era para lhe poupar o desgosto de _saber_! Era +para o poder amar livremente, toda a vida, sem receios, sem reservas... + +Durante todo o almoço esteve calada. O rosto sympathico de Jorge +enternecia-a; o _outro_ parecia-lhe medonho, odiava-o já!... + +Quando Jorge sahiu ficou muito nervosa. Ia á janella; o sol parecia-lhe +adoravel, a rua attrahia-a.--Porque não? Porque não? + +A voz de Juliana, muito aspera, fallou então nas escadas da cozinha; e +aquelle cantado odioso decidiu-a bruscamente. + +Vestiu-se com cuidado: era mulher, quiz parecer bonita.--E chegou toda +esbaforida a casa de Leopoldina, quando dava meio dia a S. Roque. + +Encontrou-a vestida, esperando o almoço. E tirando immediamente o +chapéo, installando-se no sophá, explicou muito claramente a Leopoldina +a sua resolução. Queria o dinheiro do Castro. Emprestado ou dado, +queria o dinheiro!... Estava n'uma afflicção, devia valer-se de +tudo!... Jorge queria despedir a mulher... Tinha medo d'uma vingança +d'ella... Queria dinheiro, alli estava! + +--Mas assim de repente, filha!--disse Leopoldina, pasmada do seu olhar +decidido. + +--O Castro vai-se ámanhã. Vai para Bordeus, para o inferno! É +necessario fazer alguma cousa, já! + +Leopoldina lembrou escrever-lhe. + +--O que quizeres... Eu aqui estou! + +A outra sentou-se devagar á mesa, escolheu uma folha de papel, e, com o +dedinho no ar, a cabeça de lado, começou a escrevinhar. + +Luiza passeava pelo quarto, nervosa. Tinha agora uma resolução teimosa, +que a presença de Leopoldina fortificava! Divertia-se, aquella, +dançava, ia ao campo, gozava, vivia, sem ter como ella uma tortura a +minar-lhe, a estragar-lhe a vida! Ah! não voltaria para casa sem levar +na algibeira em boas libras o resgate, a salvação! Ainda que tivesse +de ser vil como as do Bairro Alto! Estava farta das humilhações, dos +sustos, das noites cortadas de pesadêlos!... Queria saborear a vida, +que diabo! o seu amor, o seu jantar, sem cuidados, com o coração +contente! + +--Vê lá--disse Leopoldina, lendo: + + + «Meu caro amigo. + +«Desejo absolutamente fallar-lhe. É um negocio grave. Venha logo que +possa. Talvez me agradeça. Espero-o até ás tres horas, o mais tardar. + +«Com toda a estima + + Sua amiga + + _Leopoldina_». + + +--Que te parece? + +--Horrivel! Mas está bem... Está muito bem! Risca-lhe o _talvez me +agradeça_. É melhor. + +Leopoldina copiou o bilhete, mandou-o pela Justina, n'um trem. + +--E agora vou almoçar, que me não tenho nas pernas. + +A sala de jantar dava para um saguão estreito. As paredes estavam +cobertas d'uma pintura medonha, em que grandes manchas verdes +semelhavam collinas, e linhas azues ferretes representavam lagos. Um +armario, no angulo da parede, servia de guarda-louça. As cadeiras de +palhinha tinham almofadinhas de paninho vermelho; e na toalha havia +nodoas do café da vespera. + +--D'uma cousa pódes tu ter a certeza--dizia Leopoldina, bebendo +grandes goles de chá--é que o Castro é um homem p'ra um segredo!... +Se te emprestar o dinheiro, que empresta, d'aquella bocca não sahe +uma palavra. Lá n'isso é perfeito... Olha que foi o amante da Videira +annos! e nem ao Mendonça, que é o seu intimo, disse uma palavra. Nem +uma allusão! É um poço. + +--Que Videira?--perguntou Luiza. + +--Uma alta, de nariz grande, que tem um _landau_. + +--Mas passa por uma mulher tão séria... + +--Já tu vês!--E com um risinho:--Ai ellas passam, passam. Lá passar, +passam. A questão é conhecer-lhes os pôdres, minha fidalga! + +E barrando de manteiga grandes fatias de pão, pôz-se a fallar +complacentemente dos escandalos de Lisboa, a desdobrar o _sudario_: +citava nomes, especialidades, as que depois de terem «feito o diabo», +gastam, n'uma devoção tardia, o resto d'uma velha sensibilidade; que +é por onde ellas acabam, algumas é pelas sacristias! As que, cançadas +de certo d'uma virtude monotona, preparam habilmente o seu «fracasso» +n'uma estação em Cintra ou em Cascaes. E as meninas solteiras! Muito +pequerrucho por essas amas, dos arredores tem o direito de lhes +chamar _mamã_! Outras mais prudentes, receando os resultados do amor, +refugiam-se nas precauções da libertinagem... Sem contar as senhoras +que em vista dos pequenos ordenados, completam o marido com um sujeito +supplementar!--Exagerava muito; mas odiava-as tanto! Porque todas +tinham, mais ou menos, sabido conservar a exterioridade decente que +ella perdera, e manobravam com habilidade, onde ella, a tola, tivera só +a sinceridade! E em quanto ellas conservavam as suas relações, convites +para _soirées_, a estima da côrte,--ella perdera tudo, era apenas a +Quebraes!... + +Aquella conversação enervava Luiza; n'uma tal generalidade do vicio +parecia-lhe que o seu caso, como um edificio n'um nevoeiro, perdia o +seu relevo cruel, se esbatia; e sentindo-o tão pouco visivel quasi o +julgava já justificado. + +Ficaram caladas, vagamente entorpecidas por aquelle sentimento d'uma +forte immoralidade geral, onde as resistencias, os orgulhos se +amollecem, se enlanguecem,--como os musculos n'uma estufa fortemente +saturada de exhalações mornas. + +--Este mundo é uma historia--disse Leopoldina erguendo-se e +espreguiçando-se. + +--E teu marido onde está?--perguntou Luiza no corredor. + +Fôra p'ra o Porto. Estavam á vontade, podiam commetter crimes! + +E Leopoldina, no quarto, estirando-se no canapé, com o cigarrinho +_laferme_ na bocca, começou tambem a queixar-se. + +Andava aborrecida ha tempos; enfastiava-se, achava tudo seccante; +queria alguma cousa de novo, de desusado! Sentia-se bocejar por todos +os poros do seu corpo... + +--E o Fernando, então?--disse distrahidamente Luiza, que a cada momento +se aproximava da janella. + +--Um idiota!--respondeu Leopoldina com um movimento d'hombros, cheio de +saciedade e de desprezo. + +Não, realmente tinha vontade d'outra cousa, não sabia bem de quê! +Ás vezes lembrava-se fazer-se freira! (E estirava os braços com um +tedio molle). Eram tão semsaborões todos os homens que conhecia! tão +corriqueiros todos os prazeres que encontrára! Queria uma outra vida, +forte, aventurosa, perigosa, que a fizesse palpitar--ser mulher d'um +salteador, andar no mar, n'um navio pirata... Em quanto ao Fernando, +o amado Fernando dava-lhe nauseas! E outro que viesse seria o mesmo. +Sentia-se farta dos homens! Estava capaz de tentar Deus! + +E, depois d'escancarar a bocca, n'um bocejo de fera engaiolada: + +--Aborreço-me! Aborreço-me!... Oh céos! + +Ficaram um momento caladas. + +--Mas, que se lhe ha-de dizer, a esse homem?--perguntou de repente +Luiza. + +Leopoldina, soprando o fumo do cigarro, com a voz muito preguiçosa: + +--Diz-se-lhe que se precisa um conto de reis, ou seiscentos mil reis... +Que se lhe ha-de então dizer? Que se lhe paga. + +--Como? + +Leopoldina disse, deitada, com os olhos no tecto: + +--Em affecto. + +--Oh! és horrivel!--exclamou Luiza, exasperada.--Vês-me aqui +desgraçada, meia douda, dizes que és minha amiga, e estás a rir, a +escarnecer...--A sua voz tremia, quasi chorava. + +--Mas tambem que pergunta tão tola! Como se lhe ha-de pagar?... Tu não +sabes? + +Olharam-se um momento. + +--Não, eu vou-me embora, Leopoldina!--exclamou Luiza. + +--Não sejas criança! + +Um trem parou na rua. A Justina appareceu. Não encontrára o snr. Castro +em casa, estava no escriptorio. Fôra lá, disse que vinha immediatamente. + +Mas Luiza, muito pallida, tinha o chapéo na mão. + +--Não--disse Leopoldina, quasi escandalisada--tu agora não me deixas +aqui com o homem! Que lhe hei-de eu dizer? + +--É horrivel!--murmurou Luiza com uma lagrima nas palpebras, deixando +cahir os braços, solicitada pelo interesse, enleada pela vergonha, +muito infeliz! + +--É como quem toma oleo de ricino--disse a outra com um gesto cynico. +E acrescentou, vendo o horror de Luiza:--Que diabo! onde é que está a +deshonra, em pedir dinheiro emprestado? Todo o mundo pede... + +N'aquelle momento outra carruagem, a largo trote, parou. + +--Entra tu primeiro! falla-lhe tu primeiro!--supplicou Luiza, erguendo +as mãos para ella. + +A campainha retiniu. Luiza muito tremula, muito branca, olhava para +todos os lados com um olhar muito aberto, de susto, d'ancia, como +procurando uma idéa, uma resolução ou um recanto para se esconder! +Botas d'homem rangeram na esteira da sala ao lado. Leopoldina então +disse-lhe baixo, devagar, como para lhe cravar as palavras na alma, uma +a uma: + +--Lembra-te que d'aqui a uma hora pódes estar salva, com as tuas cartas +na algibeira, feliz, livre! + +Luiza pôz-se de pé com uma decisão brusca. Foi pôr pós d'arroz, alisou +o cabello,--e entraram na + +Ao vêr Luiza, o Castro teve um movimento surprehendido. Curvou-se, com +os pés pequeninos muito juntos, inclinando a cabeça grossa, onde os +cabellos muito finos alourados já rareavam. + +Sobre o seu ventresinho redondo, que a perna curta fazia parecer quasi +pansudo, o medalhão do relogio pousava com opulencia. Trazia na mão +um chicote, cujo cabo de prata representava uma Venus retorcendo os +braços. A pelle tinha um rubor prospero; o bigode farto, terminava em +pontas agudas, empastadas em cera mostacha, d'um aspecto napoleonico. +E os seus oculos de ouro tinham um ar authoritario, bancario, amigo da +Ordem. Parecia contente da vida como um pardal muito farto. + +Com que! Era necessario mandal-o chamar, para que se lhe pozesse a +vista em cima,--começou logo Leopoldina. E depois de o apresentar a +Luiza «sua intima, sua amiga de collegio»: + +--Que tem feito, porque não tem apparecido? + +O Castro repoltreou-se n'uma cadeira de braços, e batendo com o chicote +nas botas, desculpou-se com os preparativos da partida... + +--Sempre é verdade? Deixa-nos? + +O Castro curvou-se: + +--Além d'amanhã. No _Orenoque_. + +--Então d'esta vez os jornaes não mentiram. E com demora? + +--_Per omnia s[ae]cula s[ae]culorum._ + +Leopoldina pasmava. Deixar Lisboa! Um homem tão estimado, que se podia +divertir tanto!--Pois não é verdade?--disse voltando-se para Luiza, +para a tirar do seu silencio embaraçado. + +--Com certeza--murmurou ella. + +Estava sentada á beira da cadeira, como assustada, prompta a fugir. E +os olhares do Castro, insistentes por traz dos reflexos dos oculos, +incommodavam-na. + +Leopoldina reclinára-se no sophá e ameaçando-o com o dedo erguido: + +--Ah! Ahi n'essa ida p'ra França anda historia de saias! + +Elle negou frouxamente, com um sorriso fatuo. + +Mas Leopoldina não achava as francezas bonitas--o que era é que tinham +muito _chic_, muita animação... + +O Castro declarou-as adoraveis. Sobretudo para a estroinice! Ah! +conhecia-as bem! Emfim, lá como mães de familia não dizia. Mas para uma +cêa, para um bocado de _can-can_ não havia outras...--Affirmava-o com +convicção, pois, como os burguezes «da sua roda», avaliava doze milhões +de francezas por seis prostitutas de Café Concerto,--que tinha pago +caro e enfastiado immenso! + +Leopoldina, para o lisonjear, chamou-lhe _estroina_! + +Elle sorria, deliciando-se, afiando as pontas do bigode: + +--Calumnias, calumnias...--murmurava. + +E Leopoldina voltando-se para Luiza: + +--Comprou uma quinta magnifica em Bordeus, um palacio!... + +--Uma choupana, uma choupana... + +--E naturalmente vai dar festas magnificas!... + +--Modestos chás, modestos chás...--dizia, repoltreando-se. + +E riam ambos d'um modo muito affectado. + +O Castro curvou-se então para Luiza: + +--Tive o gosto de vêr v. exc.^a ha tempos, na rua do Ouro... + +--Creio que tambem me lembro--respondeu ella. + +E ficaram calados. Leopoldina tossiu, sentou-se mais á beira do sophá, +e depois de sorrir: + +--Pois eu mandei-o chamar porque temos uma cousa a dizer-lhe. + +Castro inclinou-se. O seu olhar não deixava Luiza, percorria-a com +atrevimento, palpava-a. + +--Aqui está o que é. Eu vou direita ás cousas, sem preambulos.--E teve +outro risinho.--Aqui a minha amiga está n'um grande apuro, e precisa um +conto de reis. + +Luiza acudiu com a voz quasi sumida: + +--Seiscentos mil reis... + +--Isso não importa--disse Leopoldina com uma indifferença +opulenta--estamos a fallar com um millionario! A questão é esta: quer o +meu amigo fazer o favor? + +O Castro endireitou-se na cadeira, devagar, e com uma voz arrastada, +ambigua: + +--Certamente, certamente... + +Leopoldina ergueu-se logo: + +--Bem. Eu tenho alli no quarto a costureira á espera. Deixo-os fallar +do negocio. + +E á porta do quarto, voltando-se para o Castro, ameaçando-o com o dedo, +a voz muito alegre: + +--Que o juro seja pequeno, hein? + +E sahiu, rindo. + +O Castro disse logo a Luiza, curvando-se: + +--Pois minha senhora, eu... + +--A Leopoldina contou-lhe a verdade, estou n'uma grande afflicção de +dinheiro. E dirijo-me a si... São seiscentos mil reis... Procurarei +pagar, o mais depressa... + +--Oh minha senhora!--fez o Castro com um gesto generoso. Começou então +a dizer, que comprehendia perfeitamente, todo o mundo tinha os seus +embaraços... Lamentava que a não tivesse conhecido ha mais tempo... +Sempre tivera uma grande sympathia por ella... Uma grande sympathia!... + +Luiza calava-se, com os olhos baixos. Elle foi pousar o chicote na +jardineira, veio sentar-se no sophá junto d'ella. Vendo o seu ar +embaraçado, pediu-lhe que não se affligisse. Valia lá a pena por +questões de dinheiro! Tinha o maior prazer em servir uma senhora +nova, tão interessante... Fizera perfeitamente em se dirigir a elle. +Conhecia casos em que senhoras se dirigiam a agiotas que as exploravam, +eram indiscretos...--E fallando tinha-lhe tomado a mão; o contacto +d'aquella pelle appetecida, exaltando-lhe o desejo brutalmente, fazia-o +respirar alto; Luiza, toda constrangida, nem retirára a mão; e Castro +abrazado--com uma verbosidade um pouco rouca, promettia _tudo_, _tudo +o que ella quizesse_!... Os seus olhinhos arregalados devoravam-lhe o +pescoço muito branco. + +--Seiscentos mil reis..., o que quizer!... + +--E quando?--disse Luiza muito perturbada. + +Elle via-lhe o seio arfar--e sob a irrupção d'um desejo brutal: + +--Já! + +Agarrou-a pela cinta, atirou-lhe um beijo voraz, quasi lhe mordeu a +face. + +Luiza ergueu-se com o salto d'uma mola d'aço. + +Mas o Castro escorregára sobre o tapete, de joelhos; e, prendendo-lhe +sofregamente os vestidos: + +--Dou-lhe o que quizer, mas sente-se! Ha annos que tenho uma paixão +por si. Escute!--Os seus braços tremulos subiam; envolviam-na, e o que +sentia das suas fórmas inflammava-o. + +Luiza, sem ruido, repellia-lhe as mãos, recusava-se. + +--O que quizer! Mas ouça!--balbuciava elle puxando-a violentamente para +si. A concupiscencia brutal dava-lhe uma respiração de touro. + +Então, com um puxão desesperado ás saias, ella soltou-se, e recuando +afflicta: + +--Deixe-me! Deixe-me! + +O Castro ergueu-se, a bufar, e com os dentes cerrados, os braços +abertos, rompeu para ella. + +Diante d'aquella luxuria bestial, Luiza, indignada, agarrou +instinctivamente de sobre a jardineira o chicote e deu-lhe uma forte +chicotada na mão. + +A dôr, a raiva, o desejo enfureceram-no. + +--Seu diabo!--rosnou, rangendo os dentes. + +Ia-se arremessar. Mas Luiza então, erguendo o braço, revolvida por +uma cólera phrenetica, atirou-lhe chicotadas rapidamente pelos +braços, pelos hombros--muito pallida, muito séria, com uma crueldade +a reluzir-lhe nos olhos, gozando uma alegria de desforra em fustigar +aquella carne gorda. + +O Castro, assombrado, defendia-se vagamente, com os braços diante da +cara, recuando; de repente, topou contra a jardineira; o candieiro de +porcelana oscillou, desequilibrou-se, rolou no chão, com estilhaços de +louça, e uma nodoa escura d'azeite alastrou-se na esteira. + +--Ahi está! Vê?--disse Luiza toda a tremer, apertando ainda +convulsivamente o chicote. + +Leopoldina ao barulho correu, do quarto. + +--Que foi? Que foi? + +--Nada, estavamos a brincar--disse Luiza. + +Atirou o chicote para o chão, sahiu da sala. + +O Castro, livido de raiva, tinha agarrado o chapéo; e fixando +terrivelmente Leopoldina: + +--Agradecido! Conte commigo quando quizer! + +--Mas que foi? Que foi? + +--Até á vista!--rugiu o Castro.--E indo apanhar o chicote, sacudindo-o +ameaçadoramente para o quarto, onde Luiza entrára: + +--Grande bebeda!--murmurou com rancor. + +E sahiu, atirando com as portas. + +Leopoldina, attonita, veio encontrar Luiza no quarto a pôr o chapéo, +com as mãos ainda tremulas, os olhos muito brilhantes, satisfeita. + +--Chegou-me cá uma cousa, e enchi-lhe a cara de chicotadas--disse ella. + +Leopoldina esteve um momento a olhal-a petrificada. + +--Bateste-lhe?...--E de repente desatou a rir, convulsivamente.--O +Castro d'oculos, o Castro coberto de chicotadas! O Castro a levar +uma coça!--Atirou-se para cima da _chaise-longue_, rolou-se; +suffocava.--Até já tinha uma pontada, Jesus! O Castro!... Vir a uma +casa amiga, levar o tiro de seiscentos mil reis e ser corrido a +chicote!... Com o seu proprio chicote!... Oh! era para estourar!... + +--O peor foi o candieiro--disse Luiza. + +Leopoldina ergueu-se, de salto. + +--E o azeite! Ai que agouro!--Correu á sala. Luiza veio encontral-a +diante da nodoa escura, com os braços cruzados, como se visse, toda +pallida, catastrophes avisinharem-se.--Que agouro, Santo Deus! + +--Deita-lhe sal depressa. + +--Faz bem? + +--Quebra o agouro. + +Leopoldina correu a buscar sal; e de joelhos, salgando a nodoa: + +--Ai! Nossa Senhora permitta que não haja nada mau! Mas que caso este, +que caso este! E agora, filha? + +Luiza encolheu os hombros. + +--Eu sei cá! Soffrer!... + + + + +XIII + + +N'essa semana, uma manhã, Jorge, que se não recordava que era dia de +gala, encontrou a secretaria fechada, e voltou para casa ao meio dia. +Joanna á porta conversava com a velha que comprava os ossos; a cancella +em cima estava aberta; e Jorge, chegando despercebido ao quarto, +surprehendeu Juliana commodamente deitada na _chaise-longue_, lendo +tranquillamente o jornal. + +Ergueu-se, muita vermelha, mal o viu, balbuciou: + +--Peço desculpa, tinha-me dado uma palpitação tão forte... + +--Que se pôz a lêr o jornal, hein?...--disse Jorge, apertando +instinctivamente o castão da bengala.--Onde está a senhora? + +--Deve estar p'ra a sala de jantar--disse Juliana, que se pôz logo a +varrer, muito apressada. + +Jorge não encontrou Luiza na sala de jantar; foi dar com ella no quarto +dos engommados, despenteada, em roupão de manhã, passando roupa, muito +applicada e muito desconsolada. + +--Tu estás a engommar?--exclamou. + +Luiza córou um pouco, pousou o ferro.--A Juliana estava adoentada, +juntára-se uma carga de roupa... + +--Dize-me cá, quem é aqui a criada e quem é aqui a senhora? + +A sua voz era tão aspera, que Luiza fez-se pallida, murmurou: + +--Que queres tu dizer? + +--Quero dizer que te venho encontrar a ti a engommar, e que a encontrei +a ella lá em baixo muito repimpada na tua cadeira, a lêr o jornal. + +Luiza, atarantada, abaixou-se sobre o cesto da roupa lavada, começou a +remexer, a desdobrar, a sacudir com a mão tremula... + +--Tu não pódes fazer idéa do que aqui vai por fazer--ia dizendo.--É +a limpeza, são os engommados, é um servição. A pobre de Christo tem +estado doente... + +--Pois se está doente que vá p'ra o hospital! + +--Não, tambem não tens razão! + +Aquella insistencia em defender a outra, que se repoltreava em baixo na +sua _chaise-longue_, exasperou-o: + +--Dize cá, tu dependes d'ella? Havia de dizer que tens medo d'ella! + +--Ah! se estás com esse genio!--fez Luiza com os beiços tremulos, uma +lagrima já nas palpebras. + +Mas Jorge continuava, muito zangado: + +--Não, essas condescendencias hão-de acabar por uma vez! Vêr aquelle +estafermo, com os pés p'ra cova, a prosperar em minha casa, a deitar-se +nas minhas cadeiras, a passear, e tu a defendel-a, a fazer-lhe o +serviço, ah! não! É necessario acabar com isso. Sempre desculpas! +sempre desculpas! Se não póde que arreie. Que vá p'ra o hospital, que +vá p'ra o inferno! + +Luiza lavada em lagrimas assoava-se, soluçando. + +--Bem! Agora choras. Que tens tu? Por que choras? + +Ella não respondia, n'um grande pranto. + +--Porque choras, filha?--perguntou elle, com uma impaciencia commovida, +chegando-se a ella. + +--Para que me fallas tu assim?--dizia, toda soluçante, limpando os +olhos.--Sabes que estou doente, nervosa, e tens mau genio p'ra mim! O +que me sabes dizer são cousas desagradaveis. + +--Cousas desagradaveis! Minha filha, eu disse-te lá nada +desagradavel!--E abraçou-a, ternamente. + +Mas ella desprendeu-se, e com a voz cortada de soluços: + +--Então é algum crime estar a engommar? Por que trabalho, por que trato +das minhas cousas, zangas-te? Querias que eu fosse uma desarranjada? A +mulher tem estado doente! Em quanto se não arranja outra, é necessario +fazer as cousas... Mas tu fallas, fallas! P'ra me affligir!... + +--Estás a dizer tolices, filha. Não estás em ti. Eu o que não quero é +que te cances! + +--P'ra que dizes então que tenho medo d'ella?--E as lagrimas +recomeçavam.--Medo de quê? Porque hei-de eu ter medo d'ella? Que +desproposito! + +--Pois bem, não digo. Não se falla mais na creatura. Mas não +chores... Vá, acabou-se!--Beijou-a. E tomando-a pela cinta, levando-a +dôcemente:--Vá, deixa o ferro agora. Vem! Que criança que tu és! + + +Por bondade, por consideração com os nervos de Luiza, Jorge durante +alguns dias não fallou «na creatura». Mas pensava n'ella; e aquelle +estafermo, com os pés para a cova, em sua casa, exasperava-o. Depois as +madracices que lhe percebera, os confortos do quarto que vira na noite +em que ella desmaiára, aquella bondade ridicula de Luiza!... Achava +aquillo estranho, irritante!... Como estava fóra de casa todo o dia, e +diante d'ella Juliana só tinha sorrisos para Luiza, muitas attitudes +de affecto, imaginava que ella se soubera insinuar, e, pelas pequenas +intimidades de ama a criada, se tornára necessaria e estimada. Isso +augmentava a sua antipathia. E não a disfarçava. + +Luiza vendo-o ás vezes seguir Juliana com um olhar rancoroso, tremia! +Mas o que a torturava era a maneira que Jorge adoptára de fallar +d'ella com uma veneração ironica; chamava-lhe _a illustre D. Juliana, +a minha ama e senhora_! Se faltava um guardanapo ou um copo, fingia-se +espantado: «Como! a D. Juliana esqueceu-se! Uma pessoa tão perfeita!» +Tinha gracejos que gelavam Luiza. + +--A que sabia o filtro que ella te deu? Era bom? + +Luiza agora, diante d'elle, já nem se atrevia a fallar a Juliana com um +modo natural; temia os sorrisos malignos, os ápartes:--«Anda, atira-lhe +um beijo, conhece-se na cara que estás com a vontade de lh'o atirar!» +E, receando as suspeitas d'elle, querendo mostrar-se _independente_, +começou na sua presença, a fallar a Juliana com uma dureza brusca, +muito affectada. A pedir-lhe agua, uma faca, dava á voz inflexões d'um +rancor postiço. + +Juliana, muito fina, tinha percebido _tudo_, e supportava, calada. + +Queria evitar toda a questão que a perturbasse no seu conchego. +Sentia-se agora muito mal, e nas noites em que não podia dormir com +afflicções asthmaticas, punha-se a pensar com terror--se fosse expulsa +d'aquella casa, para onde iria? Para o hospital! + +Tinha por isso medo de Jorge. + +--Elle está morto por me pilhar em desleixo grosso, e descartar-se de +mim--dizia ella á tia Victoria--mas não lhe hei-de dar esse gosto, ao +boi manso! + +E Luiza, pasmada, vira-a pouco a pouco recomeçar a fazer todo o +serviço, com zelo, apparentemente; e todavia ás vezes não podia, +vencida pela doença; tinha «flatos» que a faziam cahir n'uma cadeira, +arquejando, com as mãos no coração. Mas reagia. Uma occasião mesmo +vendo Luiza a passar um espanejador pelos _consoles_ da sala, zangou-se: + +--A senhora faz favor de se não metter no meu serviço? Eu ainda posso! +Ainda não estou na cova! + +Consolava-se então com regalos de gulodice. Durante todo o dia debicava +sopinhas, croquettes, pudinzinhos de batata. Tinha no quarto gelatina e +vinho do Porto. Em certos dias mesmo queria caldos de gallinha á noite. + +--Com o meu corpo o pago--dizia ella a Joanna--que trabalho como uma +negra! Arrazo-me! + +Um dia, porém, que Jorge se irritára mais com a figura amarellada de +Juliana, e que estava nervoso, ao achar á noite o jarro vazio e o +lavatorio sem toalha, enfureceu-se desproporcionadamente: + +--Não estou para aturar estes desleixos! Irra!--gritou. + +Luiza veio logo, inquieta, desculpar Juliana. + +Jorge mordeu o beiço, curvou-se profundamente, e com a voz um pouco +tremula: + +--Perdão! esquecia-me que a pessoa de Juliana é sagrada! eu mesmo vou +buscar agua! + +Luiza então zangou-se: se havia de estar sempre com aquelles remoques, +era mandar a criada embora por uma vez! Imaginava talvez que ella amava +de paixão a Juliana? Se a conservava é porque era uma boa criada. Mas +se ella se tornava a causa de maus humores, de questões, se elle lhe +ganhára tamanho odio, bem, então que se fosse! Era uma sécca aquella +ironia constante... + +Jorge não respondeu. + +E durante a noite Luiza, sem dormir, pensava que aquillo não podia +durar! Estava farta! Aturar a mulher, a sua tyranna, e ouvir a todo +o momento ditinhos, allusões, ah, não! era de mais! Bastava! Elle +começava a desconfiar, a bomba ia estalar! Pois bem, ella mesma +chegaria o lume ao rastilho! Ia mandar a Juliana embora! E que +mostrasse as cartas, acabou-se! Se elle a mettesse n'um convento, +se separasse d'ella, bem! Soffreria, morreria! Tudo, menos aquelle +martyrio reles, ás picadinhas, medonho e grotesco! + +--Que tens tu?--perguntou Jorge, meio a dormir, sentindo-a inquieta. + +--Espertina. + +--Coitada! Conta cento e cincoenta p'ra traz!--E voltou-se, +enrolando-se commodamente na roupa. + + +Ao outro dia Jorge levantára-se cedo. Devia encontrar-se com o Alonso, +o hespanhol das minas, e jantar com elle no Gibraltar. Depois de +vestido foi á sala de jantar--eram dez horas--e voltou a dizer a Luiza, +com uma cortezia profunda, espaçando as palavras:--que não estava a +mesa posta! que as chavenas do chá da vespera estavam ainda por lavar! +e que a snr.^a D. Juliana, a illustre snr.^a D. Juliana, tinha sahido, +a seu passeio! + +--Eu disse-lhe hontem á noite que me fosse ao sapateiro...--começou +Luiza, que vestia o seu roupão. + +--Ah, perdão!--interrompeu Jorge muito ceremoniosamente.--Esquecia-me +outra vez que se trata de Juliana, tua ama e senhora! Perdão! + +Luiza acudiu logo: + +--Não. Tens razão. Tu verás! É preciso pôr um côbro... + +Subiu logo á cozinha, desesperada: + +--Vossê porque não pôz a mesa, Joanna, se a outra sahiu? + +Mas a rapariga não ouvira sahir a snr.^a Juliana! Imaginára que estava +p'ra baixo, p'ra a sala! Como ella agora é que queria fazer tudo!... + +Quando Joanna trouxe o almoço d'ahi a pouco Jorge veio sentar-se á +mesa, torcendo muito nervosamente o bigode. Levantou-se duas vezes +com um sorriso mudo para ir buscar uma colhér, o assucareiro. Luiza +via-lhe os musculos da face contrahidos: mal podia comer, atarantada; +a chavena, quando a erguia, tremia-lhe na mão; com os olhos baixos +espreitava Jorge ás furtadellas, e o seu silencio torturava-a. + +--Tu fallaste hontem que ias jantar fóra hoje... + +--Vou--disse seccamente. E acrescentou:--Graças a Deus! + +--Estás de bom humor!...--murmurou ella. + +--Como vês! + +Luiza fez-se pallida, pousou o talher: tomou o jornal para disfarçar +uma lagrimasinha que lhe tremia na palpebra; mas as letras +confundiam-se, sentia pular o coração. De repente a campainha tocou. +Era a outra, de certo! + +Jorge, que se ia erguer, disse logo: + +--Ha-de ser essa senhora. Ora, vou-lhe dizer duas palavras... + +E ficou de pé, junto á mesa, aguçando devagar um palito. + +Luiza, a tremer, levantou-se tambem: + +--Eu vou-lhe fallar... + +Jorge reteve-a pelo braço, e tranquillamente: + +--Não, deixa-a vir. Deixa-me gozar!... + +Luiza recahiu na cadeira, muito pallida. + +Os tacões de Juliana soaram no corredor. Jorge aguçava tranquillamente +o seu palito. + +Luiza então voltou-se para elle, e batendo as mãos, afflicta: + +--Não lhe digas nada!... + +Elle fixou-a, assombrado: + +--Porque? + +Juliana n'este momento abriu o reposteiro. + +--Então que desaforo é este, sahir e deixar tudo por +arrumar?--disse-lhe Luiza logo, erguendo-se. + +Juliana, que vinha sorrindo, estacou á porta, petrificada: apesar da +sua amarellidão, uma vaga côr de sangue espalhou-se-lhe nas feições. + +--Não lhe torne a acontecer semelhante cousa, ouviu? A sua obrigação +é estar em casa pela manhã...--Mas o olhar de Juliana, que se cravava +n'ella terrivelmente, emmudeceu-a. Agarrou no bule com as mãos +tremulas.--Deite agua n'este bule, vá. + +Juliana não se mexeu. + +--Vossê não ouviu?--berrou de repente Jorge. E atirou uma punhada á +mesa, que fez saltar a louça. + +--Jorge!--gritou Luiza, agarrando-lhe no braço. + +Mas Juliana fugira da sala, correndo. + +--E logo, na rua!--exclamou Jorge.--Faze-lhe as contas, e que se vá. +Ah! estou farto! Nem mais um dia! Se a torno a vêr, desfaço-a! Até que +emfim! Chegou-me a minha vez! + +Foi buscar o paletot, muito excitado, e antes de sahir, voltando á sala: + +--E que se vá hoje mesmo, ouviste? Nem uma hora mais! Ha quinze dias +que a trago aqui atravessada. P'ra a rua! + + +Luiza veio para o quarto quasi sem se poder suster. Estava perdida! +estava perdida! Uma multidão d'idéas, todas extremas e insensatas, +redemoinhava no seu cerebro como um montão de folhas seccas n'uma +ventania: queria fugir, atirar-se ao rio, de noite; arrependia-se de +não ter cedido ao Castro... De repente imaginou Jorge abrindo as cartas +que Juliana lhe entregava, lendo: _Meu adorado Bazilio!_ Então uma +cobardia immensa amolleceu-lhe a alma. Correu ao quarto de Juliana. Ia +supplicar-lhe que lhe perdoasse, que ficasse, que a martyrisasse!... +E Jorge depois? Diria que a Juliana chorára, se atirára de joelhos! +Mentiria, cobril-o-hia de beijos... Era nova, era bonita, era +ardente--convencel-o-hia! + +Juliana não estava no quarto. Subiu á cozinha; estava lá, sentada, +com os olhos chammejantes, os braços nervosamente cruzados, n'uma +raiva muda. Apenas viu Luiza, deu um salto sobre os calcanhares, e +mostrando-lhe o punho, berrou: + +--Olhe que a primeira vez que vossê me torna a fallar como hoje, vai +aqui tudo raso n'esta casa! + +--Cale-se, sua infame!--gritou Luiza. + +--Vossê manda-me calar, sua p...!--E Juliana disse a palavra. + +Mas a Joanna correu, atirou-lhe pelo queixo uma bofetada que a fez +cahir, com um gemido, sobre os joelhos. + +--Mulher!--bradou Luiza, arremessando-se sobre a Joanna, agarrando-a +pelos braços. + +Juliana, assombrada, fugiu. + +--Ó Joanna! ó mulher! que desgraça, que escandalo!--exclamava Luiza com +as mãos apertadas na cabeça. + +--Racho-a!--dizia a rapariga com os dentes cerrados, os olhos como +brazas--racho-a! + +Luiza andava em volta da mesa da cozinha, automaticamente, pallida como +a cal, repetindo, toda a tremer: + +--O que vossê foi fazer, mulher! o que vossê foi fazer! + +A Joanna ainda toda revolvida de sua colera, com o rosto manchado de +vermelho, remexia furiosamente as panellas. + +--E se ella me diz uma palavra, acabo-a, aquella bebeda! Acabo-a! + +Luiza desceu ao quarto. No corredor sahiu-lhe Juliana, com a cuia á +banda, as dedadas escarlates na face, medonha. + +--Ou aquella desavergonhada vai já p'ra a rua--gritou ella--ou eu +vou-me pôr lá em baixo na escada, e quando o seu homem vier, mostro-lhe +tudo!... + +--Pois mostre, faça o que quizer!--disse Luiza, passando, sem a olhar. + +Fôra uma desesperação, um odio que a tinham decidido. Mais valia acabar +por uma vez!... + +Sentia então como um allivio doloroso, em vêr o fim do seu longo +martyrio! Havia mezes que elle durava. E pensando em tudo o que +tinha feito e que tinha soffrido, as infamias em que chafurdára e as +humilhações a que descera, vinha-lhe um tedio de si mesma, um nojo +immenso da vida. Parecia-lhe que a tinham sujado e espesinhado; que +n'ella nem havia orgulho intacto, nem sentimento limpo; que tudo em +si, no seu corpo e na sua alma, estava enxovalhado, como um trapo +que foi pisado por uma multidão, sobre a lama. Não valia a pena +luctar por uma vida tão vil. O convento seria já uma purificação, a +morte uma purificação maior...--E onde estava elle, o homem que a +desgraçára? Em Paris, retorcendo a guia dos bigodes, chalaceando, +governando os seus cavallos, dormindo com outras! E ella morria alli, +estupidamente! E quando lhe escrevera a pedir-lhe que a salvasse, +nem uma palavra de resposta; nem a julgára digna do meio tostão da +estampilha! O que elle lhe dizia pelas terras da Polvora acima, +n'aquelle _coupé_:--Dar-lhe-hia toda a sua vida, viveria á sombra das +suas saias! O infame! Já tinha talvez no bolso o bilhete da passagem! +Em quanto ella fôra a mulher alegre, que vem, despe o corpete, mostra +um lindo collo--então bem, prompto! Mas teve uma difficuldade, chorou, +soffreu--ah! não, isso não! És um bello animal que me dás um grande +prazer--perfeitamente, tudo o que quizeres: mas tornas-te uma creatura +dolorida que precisa consolações, talvez uns poucos de centos de mil +reis--então boas noites, cá vou no paquete! Oh que estupida que é a +vida! Ainda bem que a deixava! + +Foi-se encostar á janella. Estava um dia muito azul, muito dôce. O +sol punha grandes claridades de um dourado ligeiro sobre as paredes +brancas, sobre a calçada. E havia no ar uma suavidade avelludada. +O Paula, em chinellas de tapete, aquecia-se á porta do estanque. +Então, diante do lindo ar d'inverno, enterneceu-se. Todos eram +felizes n'aquella manhã de rosas, só ella soffria, pobre d'ella! E +ficou a olhar, como esquecida n'uma vaga saudade, com uma lagrima +na palpebra... De repente viu Juliana atravessar a rua, dobrar a +esquina,--e d'ahi a pouco voltar com um gallego, velho e pesado, que +trazia o seu sacco ao hombro. + +Ia-se embora!--pensou Luiza.--Mandava pôr fóra os bahus! E depois? +Remettia as cartas a Jorge, ou entregava-lh'as ella mesma, no portal! +Santo Deus!--E parecia-lhe vêr Jorge apparecer no quarto, livido, com +as cartas na mão!... + +Veio-lhe um terror allucinado: não queria perder o seu marido, o seu +Jorge, o seu amor, a sua casa, o seu homem! Apossou-se d'ella a revolta +da femea contra a viuvez: aos vinte e cinco annos ir murchar para um +convento! Não, c'os diabos! + +Foi direita ao quarto de Juliana. + +--Vem vêr se lhe levo alguma cousa?--gritou logo a outra furiosa. + +Sobre a cama estava roupa branca espalhada, pelo chão botinas +embrulhadas em jornaes velhos. + +--E ainda cá me ficam quatro camisas, dous pares de calcinhas, tres +pares de meias, seis punhos na lavadeira. Fica ahi o rol. E quero as +minhas contas!... + +--Escute, Juliana, não se vá.--Mas a voz desappareceu-lhe, as lagrimas +saltaram-lhe dos olhos. + +Juliana poz-se a olhar para ella d'alto, triumphando, com uma botina de +duraque em cada mão. + +--É mandar aquella desavergonhada embora, e está tudo acabado!--E com +uma voz aguda, batendo as solas das botinas:--Fica tudo como d'antes, +na paz do Senhor! + +Uma alegria extraordinaria accendia-lhe o olhar. Vingava-se! fazia-a +chorar! expulsava a _outra_! e não perdia os seus commodos! + +--É pôr a bebeda na rua! É pôl-a na rua! + +Luiza curvou os hombros, foi á cozinha devagar; os degraus da escada +pareciam-lhe immensos, infindaveis. Deixou-se cahir n'um banco, e +limpando os olhos: + +--Joanna, venha cá, escute, vossê não póde continuar na casa... + +A rapariga ficou a olhar para ella, espantada. + +--O que a Juliana disse foi n'um repente... Tem estado a chorar, a +arrepender-se. É a criada mais antiga. O senhor estima-a muito... + +--Então a senhora manda-me embora? Então a senhora manda-me embora? + +Luiza insistiu, baixo, envergonhada: + +--Foi um repente, tem estado a pedir perdão... + +--Eu foi para defender a senhora!--exclamou a rapariga, abrindo os +braços, afflicta. + +Luiza sentiu-se indigna; e impaciente, para acabar: + +--Bem, Joanna, não estejamos com mais. Eu é que sou a dona da casa... +Vou-lhe fazer as contas. + +--Olha que pago este!--gritou Joanna, então, desesperada. E com uma +resolução, batendo o pé:--Pois o senhor é que ha-de dizer! Eu vou dizer +tudo ao senhor! Hei-de-lhe contar tudo o que se passou! A senhora não +tem razão!... + +Luiza olhava-a, estupida. Agora era aquella! Era d'aquella rapariga, +teimosa na sua justiça, que vinha o desastre! Era de mais! Veio-lhe um +terror sobrenatural, como um espanto da consciencia, e apertando as +fontes nas mãos abertas: + +--Que expiação! Que expiação, Santo Deus! + +De repente, como desvairada, agarrou Joanna pelos braços, e +fallando-lhe junto do rosto: + +--Joanna, vá-se pelo amor de Deus, vá-se! Não diga nada. Despeça-se +vossê!--E perdendo inteiramente todo o respeito proprio, cahiu de +joelhos, diante da cozinheira, soluçando:--Pelas cinco chagas de +Christo, vá, Joanna, minha rica Joanna, vá. Peço-lhe eu, Joanna! Pelo +amor de Deus! + +A rapariga, assombrada, rompeu n'um choro estridente. + +--Vou, sim, minha senhora!... vou, sim, minha rica senhora! + +--Sim, Joanna, sim. Eu dou-lhe alguma cousa. Vossê bem vê... Não +chore... Espere... + +Desceu ao quarto correndo, tirou da gaveta duas libras das suas +economias, voltou, galgando os degraus, metteu-lh'as na mão, +dizendo-lhe baixo: + +--Faça uma trouxa, eu ámanhã lhe mandarei o bahu. + +--Sim, minha senhora--soluçava a rapariga, babada de dôr--sim, minha +rica senhora! + +Luiza veio deixar-se cahir de bruços sobre a sua _chaise-longue_, n'um +choro convulsivo tambem, desejando a morte, pedindo, n'um terror, +piedade a Deus! + +Mas a voz aspera de Juliana disse bruscamente á porta: + +--Então em que ficamos? + +--A Joanna vai-se. Que quer mais? + +--Que sáia já!--disse a outra imperiosamente.--Que o jantar o faço eu. +Por hoje, já se vê! + +As lagrimas de Luiza seccavam-se, de raiva. + +--E a senhora agora ouça! + +O tom de Juliana era tão insultante, que Luiza ergueu-se, como ferida. + +E Juliana, ameaçando-a, d'alto, com o dedo erguido: + +--E a senhora agora é andar-me direita, senão eu lh'as cantarei!... + +E voltou as costas, batendo os tacões. + + +Luiza olhou em roda, como se um raio tivesse atravessado o quarto; +mas tudo estava immovel e correcto; nem uma prega das cortinas se +movera, e os dous pastorinhos de porcelana sobre o toucador sorriam +pretenciosamente. + +Então tirou o roupão violentamente, passou um vestido sem apertar o +corpete, vestiu por cima um casaco largo d'inverno, atirou o chapéo +para a cabeça despenteada, sahiu, desceu a rua tropeçando nas saias, +quasi a correr. + +O Paula saltou para o meio da rua para a seguir: viu-a parar á porta de +Sebastião, e veio dizer á estanqueira: + +--Em casa do Engenheiro ha novidade! + +E ficou plantado á porta com os olhos cravados para as janellas +abertas, onde as bambinellas de reps verde cahiam com as suas pregas +immoveis. + +--O snr. Sebastião?--perguntava Luiza á rapariguita sardenta, que +correra a abrir a porta. + +E ia entrando pelo corredor. + +--Na sala--disse a pequena. + +Luiza subiu; sentia sons de piano; abriu violentamente a porta, e +correndo para elle, apertando as mãos contra o peito, n'uma voz +angustiosa e sumida: + +--Sebastião, escrevi uma carta a um homem, a Juliana apanhou-m'a. Estou +perdida! + +Elle ergueu-se devagar, assombrado, muito branco; viu-lhe o rosto +manchado, o chapéo mal posto, a afflicção do olhar: + +--Que é? Que é? + +--Escrevi a meu primo--repetiu, com os olhos cravados n'elle, +anciosamente--a mulher apanhou-me a carta... Estou perdida! + +Fez-se muito pallida, os olhos cerraram-se-lhe. + +Sebastião amparou-a, levou-a meio desmaiada para o sophá de damasco +amarello. E ficou de pé, mais descórado que ella, com as mãos nos +bolsos do seu jaquetão azul, immovel, estupido. + +De repente correu fóra, trouxe um copo d'agua, borrifou-lhe o rosto ao +acaso. Ella abriu os olhos, as suas mãos errantes apalparam em redor, +fitou-o espantada, e deixando-se cahir sobre o braço do canapé, com o +rosto escondido nas mãos, rompeu n'um choro hysterico. + +O seu chapéo cahira. Sebastião apanhou-o, sacudiu-lhe delicadamente as +flôres, pôl-o sobre a jardineira com cuidado; e vindo nas pontas dos +pés debruçar-se junto d'ella: + +--Então! então!--murmurava. E as suas mãos tocando-lhe de leve o braço, +tremiam como folhas. + +Quiz dar-lhe agua para a socegar: ella recusou com a mão, endireitou-se +devagar no sophá, limpando os olhos, assoando-se com grandes soluços. + +--Desculpe, Sebastião, desculpe--dizia.--Bebeu então um gole d'agua, +ficou com as mãos no regaço, quebrada; e, uma a uma, as suas lagrimas +silenciosas cahiam sem cessar. + +Sebastião foi fechar a porta--e vindo ao pé d'ella, com muita doçura: + +--Mas então? Que foi? + +Ella ergueu para elle a sua face chorosa, onde os olhos brilhavam +febrilmente; olhou-o um momento, e deixando pender a cabeça, toda +humilhada: + +--Uma desgraça, Sebastião, uma vergonha!--murmurou. + +--Não se afflija! Não se afflija! + +Sentou-se ao pé d'ella, e baixo, com solemnidade: + +--Tudo o que eu puder, tudo o que fôr necessario, aqui me tem! + +--Oh Sebastião!...--exclamou n'um impulso de reconhecimento humilde; +e acrescentou:--Acredite, tenho sido bem castigada! O que eu tenho +soffrido, Sebastião! + +Esteve um momento com os olhos cravados no chão; e agarrando-lhe +o braço de repente, com força, as palavras romperam abundantes e +precipitadas, como os borbulhões d'uma agua comprimida que rebenta. + +--Apanhou-me a carta, não sei como, por um descuido meu! Ao principio +pediu-me seiscentos mil reis. Depois começou a martyrisar-me... Tive +de lhe dar vestidos, roupa, tudo! Mudou de quarto, servia-se dos meus +lençoes, dos finos. Era a dona da casa. O serviço quem o faz sou +eu!... Ameaça-me todos os dias, é um monstro. Tudo tem sido baldado, +boas palavras, bons modos... E onde tenho eu dinheiro? Pois não é +verdade? Ella bem via... O que eu tenho soffrido! Dizem que estou mais +magra, até o Sebastião reparou. A minha vida é um inferno. Se Jorge +soubesse!... Aquella infame queria hoje dizer-lhe tudo!... E trabalho +como uma negra. Logo pela manhã a limpar e varrer. Ás vezes tenho de +lavar as chicaras do almoço. Tenha piedade de mim, Sebastião, por quem +é, Sebastião! coitada de mim, não tenho ninguem n'este mundo. + +E chorava, com as mãos sobre o rosto. + +Sebastião, calado, mordia o beiço; duas lagrimas rolavam-lhe tambem +pela face, sobre a barba. E levantando-se, devagar: + +--Mas Santo nome de Deus, minha senhora! porque me não disse ha mais +tempo? + +--Ó Sebastião, podia lá! Uma vez estive para lh'o dizer... Mas não +pude, não pude! + +--Fez mal!... + +--Esta manhã o Jorge quiz pôl-a fóra. Embirra com ella, percebe os +desmazelos. Mas não desconfia de nada, Sebastião!...--E desviou os +olhos, muito escarlate.--Escarnecia-me ás vezes por eu parecer tão +apaixonada por ella... Mas esta manhã zangou-se, mandou-a embora. +Apenas elle sahiu, veio como uma furia, insultou-me... + +--Santo Deus!--murmurava Sebastião assombrado, com a mão sobre a testa. + +--Talvez não acredite, Sebastião, sou eu que faço os despejos!... + +--Mas merece a morte, essa infame!--exclamou batendo com o pé no chão. + +Deu alguns passos pesados pela sala, devagar, as mãos nos bolsos, +os seus largos hombros curvados. Voltou sentar-se ao pé d'ella, e +tocando-lhe timidamente no braço, muito baixo: + +--É necessario tirar-lhe as cartas... + +--Mas como? + +Sebastião coçava a barba, a testa. + +--Ha-de-se arranjar--disse, por fim. + +Ella agarrou-lhe a mão: + +--Oh Sebastião, se fizesse isso! + +--Ha-de-se arranjar. + +Esteve um momento calculando--e com o seu tom grave: + +--Eu vou-me entender com ella... É necessario que ella esteja só em +casa... Podiam ir ao theatro, esta noite. + +Levantou-se lentamente, foi buscar o _Jornal do Commercio_, sobre a +mesa, olhou os annuncios: + +--Podiam ir a S. Carlos, que acaba mais tarde... É o _Fausto_... Podiam +ir vêr o _Fausto_... + +--Podiamos ir vêr o _Fausto_--repetiu Luiza, suspirando. + +E então, muito chegados, ao canto do sophá, Sebastião foi-lhe dizendo +um plano, em palavras baixas, que ella devorava, anciosa. + +Devia escrever a D. Felicidade, para a acompanhar ao theatro... +Mandar um recado a Jorge, prevenindo-o que o iriam buscar ao _Hotel +Gibraltar_... E a Joanna? A Joanna deixára a casa. Bem. Ás nove horas, +então, Juliana estaria só. + +--Vê como tudo se arranja?--disse elle, sorrindo. + +Era verdade... Mas daria a mulher as cartas? + +Sebastião tornou a coçar a barba, a testa: + +--Ha-de dar--disse. + +Luiza olhava-o quasi com ternura: parecia-lhe vêr na sua face honesta, +uma alta belleza moral. E de pé diante d'elle, com uma melancolia na +voz: + +--E vai fazer isso por mim, Sebastião, por mim, que fui tão má mulher... + +Sebastião córou, respondeu encolhendo os hombros: + +--Não ha más mulheres, minha rica senhora, ha maus homens, é o que ha! + +E acrescentou logo: + +--Eu vou buscar o camarote. Uma boa frisa, hein?... Uma frisasinha ao +pé do palco... + +Sorria, para a tranquillisar. Ella punha o chapéo, descia o véo com +pequeninos soluços tristes, que voltavam a espaços. + +No corredor encontraram a tia Joanna com os braços abertos; beijou +muito Luiza; aquella visita era um milagre! E que bonita que estava! +era a flôr do bairro! + +--Está bom, tia Joanna, está bom--disse Sebastião, afastando-a +brandamente. + +Ora que não fosse mettediço! Já lá a tinha tido mais de meia hora, +tambem ella agora a queria um bocadinho! Assim é que elle devia ter uma +mulherzinha! Uma rapariga de bem! Uma açucena! + +Luiza corava, embaraçada. + +E o snr. Jorge? que era feito d'elle? Ninguem o via. E a D. Felicidade? + +--Está bom, basta, tia Joanna!--fez Sebastião impaciente. + +--Olha o sofrego!... Ninguem lhe come a menina!... Cruzes!... + +Luiza sorriu; lembrou-se então de repente que não tinha por quem mandar +os bilhetes a D. Felicidade e a Jorge, ao hotel. + +Sebastião fel-a entrar logo em baixo no escriptorio: que escrevesse, +elle os mandaria: escolheu-lhe o papel, molhando-lhe a penna--mais +prompto, mais delicado desde que a sabia infeliz. Luiza fez o bilhete +para Jorge; e, como apesar das suas afflicções, se lembrou com terror +de certo vestido verde decotado de D. Felicidade, acrescentou n'um _P. +S._, no bilhete para ella: «o melhor é vires de preto, e não fazeres +grande _toilette_. Nada de decotes nem de côres claras.» + + +Quando entrou em casa, viu um gallego sahindo com a trouxasita de +Joanna. E logo no corredor sentiu a voz grossa da rapariga, que das +escadas da cozinha dizia para cima, ameaçadoramente: + +--Torne eu a apanhal-a, que não me sahe viva das mãos, sua bebeda! + +--Bufa! bufa!--gritou de cima Juliana--mas vai-te indo para o olho da +rua! + +Luiza escutava mordendo os beiços. Em que se convertera a sua casa! Uma +praça! Uma taberna! + +--Se eu t'apanho!--rosnava a Joanna descendo. + +--Rua! rua, sua porca!--gania a Juliana. + +Luiza então chamou a rapariga: + +--Joanna, não procure casa, venha por aqui além d'amanhã--disse-lhe +baixo. + +Juliana em cima cantava a _Carta adorada_, com um jubilo estridente. + +E d'ahi a pouco desceu, veio dizer, muito seccamente, «que estava o +jantar na mesa». + +Luiza não respondeu. Esperou que ella subisse á cozinha, correu á sala +de jantar, trouxe pão, um prato de marmelada, uma faca, veio fechar-se +no quarto;--e alli _jantou_, a um canto da jardineira. + +Ás seis horas um trem parou á porta. Devia ser Sebastião! Foi ella +mesma abrir, em bicos de pés. Era elle, animado, vermelho, com o chapéo +na mão: trazia-lhe a chave da frisa numero dezoito... + +--E isto... + +Era um ramo de camelias vermelhas, rodeadas de violetas dobradas. + +--Oh Sebastião!--murmurou ella, com um reconhecimento commovido. + +--E carruagem, tem? + +--Não + +--Eu cá mando. Ás oito, hein? + +E desceu, todo feliz de a servir. Ella seguiu-o com o olhar que se +humedecia. Foi á janella do quarto vêl-o sahir.--Que homem! pensava. E +cheirava as violetas, voltava o ramo na mão, sentia tambem um prazer +dôce na protecção d'elle, nos seus cuidados. + +Nós de dedos bateram á porta do quarto: + +--Então a senhora não quer jantar?--disse a voz impaciente de Juliana, +de fóra. + +--Não. + +--Mais fica! + + +D. Felicidade veio um pouco antes das oito. Luiza ficou tranquilla, +vendo-a com vestido preto afogado, e o seu adereço d'esmeraldas. + +--Então que é isto? Que estroinice é esta, vamos a saber?--disse logo, +muito alegre, a excellente senhora. + +Um capricho!--O Jorge tinha jantado fóra, ella sentira-se tão só!... +Dera-lhe o appetite d'ir ao theatro. Não pudera resistir... Tinham de o +ir buscar pelo _Hotel Gibraltar_. + +--Eu tinha acabado de jantar quando recebi o teu bilhete. Fiquei!... +E estive p'ra não vir--disse, sentando-se, com pancadinhas muito +satisfeitas nas pregas do vestido.--Apertar-me depois de jantar! +Felizmente, não tinha comido quasi nada! + +Quiz então saber o que ia. O _Fausto_? Ainda bem! De que lado era a +frisa? dezoito. Perdiam a vista da familia real, era pena!... Pois +estava mais longe d'aquella noitada de theatro!...--E erguendo-se +passeava diante do toucador com olhares de lado, alisando os bandós, +ageitando as pulseiras, entalada nos espartilhos, a pupilla luzidia. + +Uma carruagem parou á porta. + +--O trem!--disse, toda risonha. + +Luiza calçando as luvas, já com a capa, olhava em redor: o coração +batia-lhe alto; nos seus olhos havia uma febre. Não lhe faltava nada? +perguntou D. Felicidade. A chave da frisa? o lenço? + +--Ai! o meu ramo!--exclamou Luiza. + +Juliana ficou espantada quando a viu vestida _p'ra theatro_. Foi +alumiar, calada; e atirando a cancella com uma pancada insolente: + +--Não tem mesmo vergonha n'aquella cara!--rosnou. + +O trem já rodava, quando D. Felicidade rompeu a gritar, batendo nos +vidros: + +--Espere, pare! Que ferro, esqueceu-me o leque! Não posso ir sem leque! +Pare, cocheiro! + +--Faz-se tarde, filha, dou-te o meu. Toma!--fez Luiza impaciente. + +Aquellas agitações abalavam a digestão comprimida de D. Felicidade; +felizmente, como ella dizia, arrotava! Graças a Deus, louvada seja +Nossa Senhora, que podia arrotar! + +Mas a descida do Chiado alegrou-a muito. Grupos escuros, onde se +gesticulava, destacavam ás portas vivamente alumiadas da Casa Havaneza; +os trens passavam para o lado do Picadeiro, com um rapido reluzir +de lanternas ricas, que alumiavam as bandas brancas dos capotes dos +criados. D. Felicidade com a sua face jubilosa á portinhola, gozava a +claridade do gaz nas vitrines, o ar d'inverno; e foi com uma satisfação +que viu o guarda-portão do _Gibraltar_, de calções vermelhos, vir com o +boné na mão, á portinhola. + +Perguntaram por Jorge. + +E, caladas, olhavam a escada de lance decorativo onde globos foscos +derramavam uma luz dôce. D. Felicidade, muito curiosa da «vida +d'hotel», reparou na engommadeira que entrou com um cesto de roupa; +depois n'uma senhora que lhe pareceu «estabanada», e que descia, +vestida de _soirée_, mostrando o pé calçado n'um sapato redondo de +setim branco: e sorria de vêr sujeitos roçarem-se pelo trem, lançando +para dentro olhares gulosos. + +--Estão a arder por saber quem somos. + +Luiza calada apertava nas mãos o seu ramo. Emfim Jorge appareceu no +alto da escada, conversando muito interessadamente com um sujeito +magrissimo, de chapéo ao lado, as mãos nos bolsos d'umas calças muito +estreitas, e um enorme charuto enristado ao canto da bocca. Paravam, +gesticulavam, cochichavam. Por fim o sujeito apertou a mão de Jorge, +fallou-lhe ao ouvido, riu baixo, torcendo-se, bateu-lhe no hombro, +obrigou-o muito sériamente a aceitar outro charuto,--e pondo o chapéo +mais ao lado foi conversar com o guarda-portão. + +Jorge correu á portinhola do trem, rindo: + +--Então que extravagancia é esta? Theatro, tipoias!... Eu reclamo o +divorcio! + +Parecia muito jovial. Sómente tinha pena de não estar vestido... +Ficaria atraz no camarote.--E para as não amarrotar subiu para a +almofada. + + + + +XV + + +Passava das oito horas quando o trem parou em S. Carlos. Um gaiato, +que tossia muito, com o casaco pregado sobre o peito por um alfinete, +precipitou-se a abrir a portinhola; e D. Felicidade sorria de +contentamento, sentindo a cauda do vestido de sêda arrastar sobre o +tapete esfiado do corredor das frisas. + +O pano já estava levantado. Era á luz diminuida da rampa, a decoração +classica d'uma cella d'alchimista; embrulhado n'um roupão monastico, +com uma abundancia hirsuta de barbas grisalhas, tremuras senis, Fausto +cantava, desilludido das sciencias, pousando sobre o coração a mão +onde reluzia um brilhante. Um cheiro vago de gaz extravasado errava +subtilmente. Aqui e além tosses expectoravam. Havia ainda pouca gente. +Entrava-se. + +Na frisa, para se collocarem, D. Felicidade e Luiza cochichavam, com +gestosinhos de recusa, olhares supplicantes: + +--Oh D. Felicidade, por quem é! + +--Se estou aqui muito bem... + +--Não consinto... + +Emfim D. Felicidade sentou-se no lugar superior alteando o peito. Luiza +ficára atraz calçando as luvas; em quanto Jorge arrumava os agasalhos, +furioso com o chapéo que já duas vezes rolára. + +--Tem banquinho, D. Felicidade? + +--Obrigada, cá o sinto.--E remexeu os pés.--Que pena não se vêr a +familia real! + +Nos camarotes d'assignantes iam apparecendo os altos penteados +medonhos, enchumaçados de postiços; peitilhos de camisas branquejavam. +Sujeitos entravam para as cadeiras devagar, com um ar gasto e intimo, +compondo o cabello. Conversava-se baixo. Ao fundo da platéa havia um +rumor desinquieto entre moços de jaquetão; e á entrada, sob a tribuna, +viam-se, n'um apparato militar, correames polidos de municipaes, bonés +carregados de policias; e reluzindo á luz, punhos de sabres. + +Mas na orchestra correram fortes estremecimentos metallicos, dando um +pavor sobrenatural; Fausto tremia como um arbusto ao vento; um ruido +de folhas de lata, fortemente sacudidas, estalou; e Mephistopheles +ergueu-se ao fundo, escarlate, lançando a perna com um ar charlatão, +as duas sobrancelhas arrebitadas, uma barbilha insolente, _un bel +cavalier_; e em quanto a sua voz poderosa saudava o Doutor, as duas +plumas vermelhas do gorro oscillavam sem cessar d'um modo fanfarrão. + +Luiza chegára-se para a frente; ao ruido da cadeira, cabeças na platéa +voltaram-se, languidamente; pareceu de certo bonita, examinaram-na; +ella, embaraçada, pôz-se a olhar para o palco muito séria:--por traz +de véos sobrepostos que se levantavam, n'uma affectação de visão, +Margarida appareceu fiando o linho, toda vestida de branco; a luz +electrica, envolvendo-a n'um tom crú, fazia-a parecer de gesso muito +caiado; e D. Felicidade achou-a tão linda que a comparou a uma santa! + +A visão desappareceu n'um tremulo de rebecas. E depois d'uma aria, +Fausto, que ficára immovel ao fundo do palco, debateu-se um momento +dentro da tunica e das barbas, e emergiu joven, gordinho, vestido de +côr de lilaz, coberto de pôs d'arroz, compondo o frisado do cabello. As +luzes da rampa subiram: uma instrumentação alegre e expansiva resoou: +Mephistopheles, apossando-se d'elle, arrastou-o sofrego através da +decoração. E o pano desceu rapidamente. + +As platéas ergueram-se com um rumor grosso e lento. D. Felicidade um +pouco affrontada abanava-se. Examinaram então as familias, algumas +_toilettes_; e sorrindo concordaram que estava «do mais fino». + +Nos camarotes conversava-se sobriamente; ás vezes uma joia brilhava, +ou a luz punha tons lustrosos d'aza de corvo nos cabellos pretos onde +alvejavam camelias ou reluzia o aro de metal d'um pente; os vidros +redondos dos binoculos moviam-se devagar, picados de pontos luminosos. + +Na platéa, nas bancadas clareadas, sujeitos quasi deitados namoravam +com languidez; ou de pé, taciturnos, acariciavam as luvas; velhos +_dilettanti_, de lenço de sêda, tomavam rapé, caturravam; e D. +Felicidade interessava-se por duas hespanholas de verde, que na +superior immobilisavam, n'uma affectação casta, os seus corpos de +lupanar. + +Um collega de Jorge magrinho e janota entrou então no camarote: parecia +animado, e perguntou logo se não sabiam o grande escandalo? Não. E o +engenheiro, com gestos vivos das suas mãosinhas calçadas n'umas luvas +esverdeadas, contou que a mulher do Palma, o deputado, sabiam, tinha +fugido!... + +--P'ra o estrangeiro? + +--Qual!--E a voz do engenheiro tinha agudos triumphantes.--Ahi é que +estava o bonito. P'ra casa d'um hespanhol que morava defronte!... Era +divino! De resto--e a sua voz tornou-se grave--estava enthusiasmado com +o baixo! + +E depois de ter sorrido, olhado pelo binoculo, ficou calado, extenuado +do que dissera, batendo apenas de vez em quando no joelho de Jorge, com +um _Sim, senhor!_ familiar, ou um _Então que é feito?_ amigavel. + +Mas a campainha retinia finamente. O engenheiro sahiu, em bicos de +pés. E o pano ergueu-se devagar na alegria da kermesse, cheia de uma +luz branca e dura. Casas acastelladas branquejavam no pano de fundo, +n'alguma collina do Rheno amiga das vinhas. Escarranchado sobre uma +pipa, o barrigudo e folgazão rei Cambrinus ria enormemente, erguendo, +na sua attitude de taboleta gothica, a vasta caneca emblematica da +cerveja germanica. E estudantes, judeus, reitres e donzellas, nas suas +côres vivas de paninho, moviam-se d'um modo automatico e somnambulo, +aos compassos largos da instrumentação festiva. + +A walsa então desenrolou-se languidamente, como um fio de melodia, +em espiraes suaves que ondeavam e fugiam: Luiza seguia os pésinhos +das dançarinas, as pernas musculosas volteando no tablado; e as saias +tufadas e curtas faziam como o girar multiplicado e reproduzido de +vagos discos de cambraia. + +--Que bonito!--murmurava ella, com uma felicidade no rosto. + +--D'appetite--affirmava D. Felicidade, revirando os olhos. + +Certas agudezas delicadas dos flautins enterneciam Luiza; e a casa, +Juliana, as suas miserias, tudo lhe parecia recuado, no fundo d'uma +noite esquecida. + +Mas o jovial Diabo adiantava-se por entre os grupos, e logo, com gestos +aduncos e rapaces, cantou o _Dio del oro_. A sua voz arremessada +affirmava, n'um tom brutal, o poder do dinheiro; nas massas da +instrumentação passavam sonoridades claras e tilintantes d'um remexer +sofrego de thesouros; e as notas altas finaes cahiam, d'um modo curto e +secco, como martelladas triumphantes cunhando o divino ouro! + +Luiza então viu D. Felicidade perturbar-se; e seguindo o seu olhar +negro, subitamente avivado, descobriu na geral a calva polida do +conselheiro Accacio,--que comprimentava, promettendo generosamente, com +a mão espalmada, a sua visita proxima. + +Veio, apenas o pano desceu, e felicitou-as immediatamente por terem +escolhido aquella noite: a opera era das melhores e estava gente muito +fina. Lamentou ter perdido o primeiro acto;--ainda que não gostasse +extremamente da musica, apreciava-o por ser muito philosophico. E, +tomando da mão de Luiza o binoculo, explicou os camarotes, disse os +titulos, citou as herdeiras ricas, nomeou os deputados, apontou os +litteratos.--Ah! conhecia bem S. Carlos! Havia dezoito annos! + +D. Felicidade, rubra, admirava-o. O Conselheiro sentia que não podessem +vêr o camarote real: a rainha, como sempre, estava adoravel. + +Sim? Como estava? + +--De velludo. Não sabia se rôxo, se azul escuro. Affirmar-se-hia, e +viria dizer... + +Mas quando o pano subiu, ficou sentado por traz de Luiza começando +logo a explicar--que aquella (Siebel, colhendo flôres no jardim de +Margarida) posto que segunda dama, ganhava quinhentos mil reis por +mez... + +--Mas apesar d'estes ordenadões morrem quasi sempre na miseria--disse +com reprovação.--Vicios, cêas, orgias, cavalgadas... + +A portinha verde do jardim abriu-se, e Margarida entrou devagar, +desfolhando o malmequer da legenda, caracterisada de virgem, com +as duas longas tranças louras. Scismava, fallava só, amava: a dôce +creatura sente em volta de si o ar pesado, e quereria bem que sua mãi +voltasse! + +Os olhos de Luiza encheram-se então de melancolia, com a saudosa +ballada do rei de Thule; aquella melodia dava-lhe a vaga sensação d'um +pallido paiz d'amores espirituaes, banhado de luares frios, longe, +no Norte, junto a um mar gemente--ou de tristezas aristocraticas, +scismadas n'um terraço, sob a sombra d'um parque... + +Mas o Conselheiro preveniu-as, dizendo: + +--Agora é que é! Reparem. Agora é o ponto capital. + +De joelhos, diante do cofre das joias, a dama requebrava-se, +garganteando; apertava nas mãos o collar, extasiada; punha os brincos +com denguices delirantes; e da sua bocca muito aberta sahia um canto +trinado, d'uma crystallinidade aguda--entre o vago susurro da admiração +burgueza. + +O Conselheiro disse discretamente: + +--Bravo! Bravo! + +E, excitado, dissertou: aquillo era o melhor da opera! Era alli que se +via a força das cantoras... + +D. Felicidade quasi tinha medo que lhe estalasse alguma cousa na +garganta. Preoccupava-se tambem com as joias. Seriam falsas? Seriam +d'ella? + +--É p'ra a tentar, não é verdade? + +--É um drama allemão--disse-lhe baixo o Conselheiro. + +Mas Mephistopheles ia arrastando a boa Martha; Fausto e Margarida +perdiam-se nas sombras cumplices do jardim aphrodisiaco,--e o +Conselheiro observou que todo aquelle acto era um pouco fresco. + +D. Felicidade murmurou-lhe--entre reprehensiva e extatica: + +--Quantas scenas não terá tido assim, maganão! + +O Conselheiro fitou-a, indignado: + +--O quê, minha senhora! levar a deshonra ao seio d'uma familia! + +Luiza fez-lhe _chut_, sorrindo. Interessava-se agora. Tinha escurecido; +uma facha de luz electrica enchia o jardim d'um vago luar azulado, onde +os maciços arredondados se recortavam em pastas escuras; e Fausto e +Margarida enlaçados, quasi desfallecidos, soltavam d'um modo expirante +o seu duetto: uma sensualidade delicada e moderna, com elances +d'um requinte devoto, arrastava-se na orchestra gemente; o tenor +esforçava-se, agarrando o peito, com um geito morbido dos quadris, o +olhar anuviado: e desprendendo-se da languida arcada dos violoncellos, +o canto subia para as estrellas... + + Al pallido chiarore + Dei astri d'oro. + +Mas o coração de Luiza batia precipitadamente; vira-se de repente +sentada no divan, na sua sala, ainda tomada dos soluços do adulterio, +e Bazilio, com o charuto ao canto da bocca, batia distrahido no piano +aquella aria--_Al pallido chiarore dei astri d'oro_. D'essa noite tinha +vindo toda a sua miseria!--e subitamente, como longos véos funebres +que descem e abafam, as recordações de Juliana, da casa, de Sebastião, +vieram escurecer-lhe a alma. + +Olhou o relogio. Eram dez horas. Que se passaria? + +--Estás incommodada?--perguntou-lhe Jorge. + +--Um pouco. + +Margarida apoiava-se, expirante de voluptuosidade, ao rebordo da sua +janellinha. Fausto corre. Enlaçam-se. E entre as gargalhadas do Diabo e +o roncar dos rebecões--o pano desceu, pondo uma reticencia pudica... + +D. Felicidade, abrazada, quiz agua. Jorge apressou-se: queria bolos? +neve? A excellente senhora hesitou; o _chic_ da neve attrahia-a, mas +cohibiu-se com terror da colica. Veio sentar-se ao fundo ao pé de +Luiza, e ficou a olhar, vagamente cançada; havia um susurro lento; +bocejava-se discretamente; e o fumo dos cigarros, entrando, de fóra, +fazia uma nevoa apenas perceptivel que enchia a sala, ia prender-se +ao lustre, embaciando ligeiramente as luzes. Quando Jorge sahiu o +Conselheiro acompanhou-o: ia acima tomar o seu copo de gelatina... + +--É a minha cêa em dia de S. Carlos--disse. + +Voltou d'ahi a pouco, limpando os beiços ao lenço de sêda, ter com +Jorge que fumava no pequeno patamar junto á entrada das cadeiras: + +--Veja isto, Conselheiro--disse-lhe logo Jorge, indignado, mostrando a +parede--que escandalo! + +Tinham desenhado, com o charuto apagado sobre a parede caiada, enormes +figuras obscenas: e alguem, prudente e amigo da clareza, ajuntára por +baixo as designações sexuaes com uma boa letra cursiva. + +E Jorge, revoltado: + +--E passam por aqui senhoras! Vêem, lêem! Isto só em Portugal!... + +O Conselheiro disse: + +--A autoridade devia intervir de certo...--Acrescentou com +bonhomia:--São rapazes, com o charuto. Apreciam muito esta +distracção...--E sorrindo, recordando-se:--Uma occasião mesmo, o conde +de Villa Rica, que tem graça, muita graça, insistiu commigo, dando-me o +charuto, para que eu fizesse um desenho...--E mais baixo:--Eu dei-lhe +uma lição severa. Tomei o charuto... + +--E fumou-o? + +--Escrevi. + +--Uma obscenidade? + +O Conselheiro, recuando, exclamou com severidade: + +--Jorge, conhece o meu caracter! Pois suppõe...?--E acalmando-se:--Não, +tomei o charuto e escrevi com mão firme: HONRA AO MERITO! + +Mas a campainha retiniu, entraram no camarote. Luiza incommodada +não quiz sentar-se á frente. E o Conselheiro, grave, tomou o seu +lugar--defronte de D. Felicidade. Foi para a nutrida senhora um momento +feliz, de um gozo requintado. Estavam _ambos_, alli, como noivos! O +seu peito abundante arfava: via-se a sahirem, mais tarde, de braço +dado, entrarem n'um _coupé_ estreito, pararem á porta da casa conjugal, +pisarem o tapete da alcova... Tinha um suor á raiz dos cabellos--e +vendo o Conselheiro sorrir-lhe, amavel, com a sua calva toda luzidia ao +gaz, sentia um reconhecimento apaixonado pela mulher de virtude que, +áquella hora, no fundo da Galliza, estava cravando agulhas n'um coração +de cera!... + +Mas de repente o Conselheiro bateu na testa, arremessou-se sobre o +chapéo, sahiu impetuosamente. Olharam-se inquietos. D. Felicidade +empallideceu: seria alguma dôr? Santo Deus! Já murmurava baixo uma reza. + +Mas viram-no entrar logo, e dizer com uma voz triumphante: + +--D'azul escuro! + +Abriram grandes olhos, sem comprehender. + +--Sua magestade a rainha! Tinha promettido verifical-o, cumpri-o! + +E sentou-se com solemnidade, dizendo a Luiza: + +--Lamento que se esconda n'esse recanto, D. Luiza! Na sua idade! Na +flôr dos annos! Quando tudo na vida é côr de rosa! + +Ella sorriu. Estava agora muito sobresaltada. A cada momento olhava +o relogio. Sentia-se doente: os pés arrefeciam-lhe, uma vaga febre +fazia-lhe a cabeça pesada. O seu pensamento estava na casa, em Juliana, +em Sebastião, cortado de palpites, de esperanças, de terrores... E via, +sem comprehender, a multidão de soldados vestidos de côres mipartidas, +com armas obsoletas, que marchavam, paravam n'uma cadencia affectada, +erguendo uma poeira subtil no tablado mal regado. Um côro vigoroso +resoava: era a marcha arrogante e festiva dos reitres allemães, +celebrando a alegria das excursões victoriosas pelos paizes do vinho, +e a posse das bolsas mercenarias cheias de sonoros rixdales! E os +seus olhos seguiam um barbaças corpulento, que, por cima dos gorros +quadrados dos bésteiros, balançava monotonamente um largo quadrado de +paninho--a bandeira do Santo Imperio, negra, vermelha e d'ouro! + +Mas então ergueu-se um rumor no fundo da platéa. Vozes duras +altercavam. Ordem! ordem! dizia-se. Localistas na superior pozeram-se +rapidamente em bicos de pés na palhinha das cadeiras. Quatro policias +e dous municipaes appareceram á porta do fundo; e depois d'uma troça, +de risadas, foram levando um moço livido, que cambaleava,--e o lado +esquerdo do seu jaquetão de pellucia estava todo vomitado! + +Mas fez-se logo silencio: o pano de fundo oscillava um pouco, +acotovellado pela sahida festiva dos reitres e dos populares; e no +palco deserto, tendo á direita um portico oscillante de cathedral e á +esquerda a portinha triste d'uma casa burgueza, Valentim, com uma longa +pera, á beira da rampa, beijava sofregamente uma medalha:--mas Luiza +não o escutava. Pensava com o coração confrangido: que fará a esta hora +Sebastião? + + +Sebastião, ás nove horas, por um nordeste agudo que torcia as luzes do +gaz dentro dos candieiros, dirigia-se devagar a casa d'um commissario +de policia, seu primo afastado, o Vicente Azurara. Uma velha servente, +engelhada como uma maçã raineta, levou-o ao quarto escolastico, «onde +o snr. commissario estava a cozer uma grande constipação»: encontrou-o +com um gabão pelos hombros, os pés embrulhados n'um cobertor, tomando +_grogs_ quentes, e lendo o _Homem dos tres calções_. Apenas Sebastião +entrou tirou do nariz adunco as grandes lunetas, e erguendo para elle +os olhos pequeninos, chorosos do defluxo, exclamou: + +--Estou com um diabo d'uma constipação ha tres dias, que me não quer +largar...--E rosnou algumas pragas, passando a mão magra e nodosa sobre +uma face trigueira, de linhas duras, a que um espesso bigode grisalho +dava ferocidade. + +Sebastião lamentou-o muito: não admirava com a estação que ia!... +Aconselhou-lhe agua sulfurica com leite fervido. + +--Eu, se isto não despega--disse o commissario +rancorosamente--atiro-lhe ámanhã p'ra dentro com meia garrafa de +genebra; e se não fôr por bem, ha-de ir á força... E que ha de novo? + +Sebastião tossiu, queixou-se d'andar tambem adoentado, e chegando a +cadeira para ao pé do primo Vicente, pondo-lhe a mão sobre o joelho: + +--Ó Vicente, tu, se eu te pedisse um policia p'ra me acompanhar cá p'ra +uma cousa, só p'ra metter medo, só p'ra fazer que uma pessoa restitua o +que tirou, tu davas ordem, hein? + +--Ordem p'ra quê?--perguntou lentamente o Vicente com a cabeça baixa, +os olhinhos avermelhados em Sebastião. + +--Ordem p'ra me acompanhar, p'ra se mostrar. É só p'ra se mostrar. É um +caso exquisito... P'ra metter medo... Tu sabes que eu não sou capaz... +É p'ra que uma pessoa restitua o que tirou. Sem fazer escandalo... + +--Roupas? Dinheiro? + +E o commissario cofiava reflectidamente o bigode com os seus longos +dedos magros, muito queimados do cigarro. + +Sebastião hesitou: + +--Sim. Roupas, cousas... É p'ra não haver escandalo... Tu percebes... + +O Vicente murmurou com um ar profundo, fixando-o: + +--Um policia p'ra se mostrar... + +Escarrou ruidosamente. E franzindo a testa: + +--Não é cousa de politica? + +--Não!--fez Sebastião. + +O commissario embrulhou mais os pés no cobertor, rolou em redor os +olhos, ferozmente: + +--Nem toca com gente grauda? + +--Qual! + +--Um policia p'ra se mostrar...--ruminava o Vicente.--Tu és um homem de +bem... Dá cá aquella pasta de cima da commoda. + +Tirou um papel pautado, examinou-o, acavallando a luneta no nariz, +meditou com a mão em garra sobre a testa: + +--O Mendes... Serve-te o Mendes? + +Sebastião, que não conhecia o Mendes, acudiu logo: + +--Sim, quem quizeres. É só p'ra se mostrar... + +--O Mendes. É um homemzarrão. É serio, foi da Guarda. + +Fez-lhe aproximar o tinteiro; escreveu devagar a ordem; releu-a duas +vezes; cortou os _tt_, seccou-a á chaminé do candieiro; e dobrando-a +com solemnidade: + +--Á segunda divisão! + +--Obrigado, Vicente. É um grande favor... Obrigado. E agasalha-te, +homem! E não te esqueça: agua sulfurica da pharmacia Azevedo na rua de +S. Roque: meia chavena de leite fervido... E obrigado. Não queres nada, +hein? + +--Não. Dá uma placa ao Mendes. É serio, foi da Guarda! + +E acavallando as lunetas retomou o _Homem dos tres calções_. + +Sebastião d'ahi a meia hora, seguido do robusto Mendes, que marchava +militarmente, com os braços um pouco arqueados, encaminhava-se +para casa de Jorge. Não tinha ainda um plano definido. Calculava +naturalmente que Juliana vendo, áquella hora da noite, o policia com o +seu terçado, se aterraria, imaginaria logo a Boa Hora, o Limoeiro, a +costa d'Africa, entregaria as cartas, pediria misericordia! E depois? +Pensava vagamente em lhe pagar a passagem para o Brazil, ou dar-lhe +quinhentos mil reis para ella se estabelecer longe, na provincia... +Veria. O essencial era aterral-a! + + +Juliana, com effeito, depois d'abrir a porta, apenas viu subir, atraz +de Sebastião, o policia, fez-se muito amarella, exclamou: + +--Credo! Que temos nós? + +Estava embrulhada n'um chale preto, e o candieiro de petroleo, que ella +erguia, prolongava na parede a sombra disforme da cuia. + +--Ó snr.^a Juliana, faça favor d'accender luz na sala--disse Sebastião, +tranquillamente. + +Ella fixava no policia um olhar faiscante e inquieto. + +--Ó senhor, que aconteceu? Credo! Os senhores não estão em casa. Eu se +soubesse nem tinha aberto... Ha alguma novidade? Olha o proposito! + +--Não é nada--disse Sebastião, abrindo a porta da sala--tudo em paz! + +Elle mesmo accendeu com um phosphoro uma vela na serpentina--que fez +sahir vagamente da sombra os dourados dos caixilhos das gravuras, a +pallida face do retrato da mãi de Jorge, um reflexo de espelho. + +--Ó snr. Mendes, sente-se, sente-se! + +O Mendes collocou-se á beira da cadeira com a mão na cinta, o terçado +entre os joelhos, muito soturno. + +--Esta é que é a pessoa--disse Sebastião, indicando Juliana, que ficára +á porta da sala, attonita. + +A mulher recuou, livida: + +--Ó snr. Sebastião, que brincadeira é esta? + +--Não é nada, não é nada... + +Tomou-lhe o candieiro da mão, e tocando-lhe no braço: + +--Vamos lá dentro á sala de jantar. + +--Mas que é? É alguma cousa commigo? Credo! E esta! Olha que +desconchavo! + +Sebastião fechou a porta da sala de jantar, pousou o candieiro sobre +a mesa, onde havia ainda um prato com codeas de queijo, e um fundo de +vinho n'um copo, deu alguns passos, fazendo estalar nervosamente os +dedos, e parando bruscamente diante de Juliana: + +--Dê cá umas cartas que roubou á senhora... + +Juliana teve um movimento para correr á janella, gritar. + +Sebastião agarrou-lhe o braço, e fazendo-a sentar com força sobre uma +cadeira: + +--Escusa d'ir á janella gritar, a policia já está dentro de casa. Dê cá +as cartas, ou p'ra a enxovia! + +Juliana entreviu n'um relance um quarto tenebroso no Limoeiro, o caldo +do rancho, a enxerga nas lages frias... + +--Mas que fiz eu?--balbuciava--que fiz eu? + +--Roubou as cartas. Dê-as p'ra cá, avie-se. + +Juliana sentada á beira da cadeira, apertando desesperadamente as mãos, +rosnava por entre os dentes cerrados: + +--A bebeda! A bebeda! + +Sebastião, impaciente, pôz a mão no fecho da porta. + +--Espere, seu diabo!--gritou ella, erguendo-se com um salto. Fixou-o +rancorosamente, desabotoou o corpete, enterrou a mão no peito, tirou +uma carteirinha. Mas de repente batendo com o pé, n'um phrenesi: + +--Não! não! não! + +--Diabos me levem se vossê não fôr dormir á enxovia!--Entre-abriu a +porta.--Ó snr. Mendes! + +--Ahi tem!--gritou ella atirando-lhe a carteira. E brandindo para elle +os punhos:--Raios te partam, malvado! + +Sebastião apanhou a carteira. Havia tres cartas: uma muito dobrada era +de Luiza; leu a primeira linha: _Meu adorado Bazilio_; e muito pallido +guardou logo tudo na algibeira interior do casaco. Abriu então a porta: +a possante figura do Mendes estava na sombra. + +--Está tudo arranjado, snr. Mendes,--a voz tremia-lhe um pouco--não lhe +quero tomar mais tempo. + +O homem fez uma continencia, calado: quando Sebastião, no patamar, lhe +resvalou na mão uma libra, o Mendes curvou-se respeitosamente e disse, +com uma voz pegajosa: + +--E para o que quizer, o sessenta e quatro, o Mendes, que foi da +Guarda. Não se incommode v. s.^a Ás ordens de v. s.^a Minha mulher +e filhos agradecem. Não se incommode v. s.^a O sessenta e quatro, o +Mendes, que foi da Guarda! + +Sebastião fechou a cancella, voltou á sala de jantar. Juliana ficára +n'uma cadeira, aniquilada; mas apenas o viu, erguendo-se furiosamente: + +--A bebeda foi-lhe contar tudo! Foi vossê que arranjou a armadilha! +Tambem vossê dormiu com ella!... + +Sebastião, muito branco, dominava-se. + +--Vá pôr o chapéo, mulher. O snr. Jorge despediu-a. Ámanhã mandará +buscar os bahus... + +--Mas o homem ha-de saber tudo!--berrou ella.--Este tecto me rache +se eu não lhe disser tudo tim-tim por tim-tim. Tudo! As cartas que +recebia, onde ia vêr o homem. Deitava-se com ella na sala, até os +pentes lhe cahiam na balburdia. Até a cozinheira lhes sentia o alarido! + +--Cale-se!--bradou Sebastião com uma punhada na mesa, que fez tremer +toda a louça no aparador, e esvoaçar os canarios. E com a voz toda +tremula, os beiços brancos:--A policia tem o seu nome, sua ladra! Á +menor palavra que vossê diga vai para o Limoeiro, e pela barra fóra. +Vossê não roubou só as cartas; roubou roupas, camisas, lençoes, +vestidos...--Juliana ia fallar, gritar.--Bem sei--continuou elle +violentamente--deu-lh'os ella, mas á força, porque vossê a ameaçava. +Vossê arrancou-lhe tudo. É roubo. É d'Africa!--E o que é dizer ao snr. +Jorge, póde ir dizer. Vá. Veja se elle a acredita. Diga! São algumas +bengaladas que leva por esses hombros, ladra! + +Ella rangia os dentes. Estava apanhada! _Elles_ tinham tudo por si, a +policia, a Boa-Hora, a cadêa, a Africa!... E ella--nada! + +Todo o seu odio contra a _Piorrinha_ fez explosão. Chamou-lhe os nomes +mais obscenos. Inventou infamias. + +--É que nem as do Bairro-Alto! E eu--gritava--sou uma mulher de bem, +nunca um homem se pôde gabar de tocar n'este corpo. Nunca houve raio +nenhum que me visse a côr da pelle. E a bebeda!...--Tinha arremessado o +chale, alargou anciosamente o collar do vestido.--Era um desaforo por +essa casa! E o que eu passei com a bruxa da tia! É o pago que me dão! +Os diabos me levem se eu não fôr para os jornaes. Vi-a eu abraçada ao +janota, como uma cabra! + +Sebastião a seu pezar escutava-a, com uma curiosidade dolorosa por +aquelles pormenores; sentia desejos agudos de a esganar, e os seus +olhos devoravam-lhe as palavras. Quando ella se calou arquejante: + +--Vá, ponha o chapéo, e p'ra a rua! + +Juliana então allucinada de raiva, com os olhos sahidos das orbitas, +veio para elle, e cuspiu-lhe na cara! + +Mas de repente a bocca abriu-se-lhe desmedidamente, arqueou-se para +traz, levou com ancia as mãos ambas ao coração, e cahiu para o lado, +com um som molle, como um fardo de roupa. + +Sebastião abaixou-se, sacudiu-a; estava hirta, uma escuma rôxa +apparecia-lhe aos cantos da bocca. + +Agarrou no chapéo, desceu as escadas, correu até á Patriarchal. Um +_coupé_ vazio passava; atirou-se para dentro, mandou a «todo o que +dér», para casa de Julião; e obrigou-o a vir immediatamente, mesmo em +chinellas, sem collarinho. + +--É caso de morte, é a Juliana--balbuciava muito pallido. + +E pelo caminho, entre o ruido das rodas e o tilintar dos caixilhos, +contava confusamente que entrára em casa de Luiza, que achára Juliana +muito despeitada por ter sido despedida, e que a fallar, a esbracejar, +de repente, tombára p'ra o lado! + +--Foi o coração. Estava p'ra dias--disse Julião, chupando a ponta do +cigarro. + +Pararam. Mas Sebastião desorientado, ao sahir, fechára a porta! E +dentro só a morta! O cocheiro offereceu a sua gazua, que serviu. + +--Então nem se vai a uma passeadinha ao Dáfundo, meus fidalgos?--disse +o homem, mettendo a gorgeta na algibeira. + +Mas vendo-os atirar com a porta: + +--Tambem não é gente d'isso--rosnou com desprezo, batendo a parelha. + +Entraram. + +No pequeno pateo o silencio da casa pareceu a Sebastião pavoroso. +Subia, aterrado, os degraus, que se afiguravam infindaveis; e, com +fortes pancadas do coração, esperava ainda que ella estivesse apenas +adormecida n'um desmaio simples, ou já de pé, pallida e respirando! + +Não. Lá estava como a deixára, estendida na esteira, com os braços +abertos, os dedos retorcidos como garras. A convulsão das pernas +arregaçára-lhe as saias, viam-se as suas canellas magras com meias +de riscadinho côr de rosa e as chinellas de tapete; o candieiro de +petroleo, que Sebastião esquecera ao pé sobre uma cadeira, punha tons +lividos na testa, nas faces rigidas; a bocca torcida fazia um sombra; +e os olhos medonhamente abertos, immobilisados na agonia repentina, +tinham uma vaga nevoa, como cobertos d'uma têa d'aranha diaphana. Em +redor tudo parecia mais immovel, d'um hirto morto. Vagos reflexos +de prata reluziam no aparador; e o tic-tac do _cuco_ palpitava sem +descontinuar. + +--Julião apalpou-a, ergueu-se sacudindo as mãos, disse: + +--Está morta com todas as regras. É necessario tiral-a d'aqui. Onde é o +quarto? + +Sebastião, pallido, fez signal com o dedo que era por cima. + +--Bem. Arrasta-a tu, que eu levo o candieiro.--E como Sebastião não se +movia:--Tens medo?--perguntou rindo. + +Escarneceu-o: que diabo, era materia inerte, era como quem agarrava uma +boneca! Sebastião, com um suor á raiz dos cabellos, levantou o cadaver +por debaixo dos braços, começou a arrastal-o, devagar. Julião adiante +erguia o candieiro; e por fanfarronada cantou os primeiros compassos da +marcha do _Fausto_. Mas Sebastião escandalisou-se, e com uma voz que +tremia: + +--Largo tudo, e vou-me... + +--Respeitarei os nervos da menina!--disse Julião curvando-se. + +Continuaram calados. Aquelle corpo magro parecia a Sebastião d'um +peso de chumbo. Arquejava. Nas escadas uma das chinellas do cadaver +soltou-se, rolou. E Sebastião sentia aterrado alguma cousa que lhe +batia contra os joelhos; era a cuia cahida, suspensa por um atilho. + +Estenderam-na na cama; Julião, dizendo que se deviam seguir as +tradições,--pôz-lhe os braços em cruz e fechou-lhe os olhos. + +Esteve um momento a olhal-a: + +--Feia besta!--murmurou, estendendo-lhe sobre o rosto uma toalha +enxovalhada. + +Ao sahir examinou, admirado, o quarto: + +--Estava mais bem alojada que eu, o estafermo! + +Fechou a porta, deu volta á chave: + +--_Requiescat in pace_--disse. + +E desceram, calados. + +Ao entrar na sala, Sebastião, muito pallido, pôz a mão no hombro de +Julião: + +--Então achas que foi o aneurisma? + +--Foi. Enfureceu-se, estourou. É dos livros... + +--Se não se tivesse zangado hoje... + +--Estourava ámanhã. Estava nas ultimas... Deixa em paz a creatura. Está +começando a esta hora a apodrecer, não a perturbemos. + +Declarou então, esfregando as mãos com frio, que «comia alguma cousa». +Achou no armario um pedaço de vitella fria, uma garrafa meia de +Collares. Installou-se e, com a bocca cheia, deitando o vinho d'alto: + +--Então sabes a novidade, Sebastião? + +--Não. + +--O meu concorrente foi despachado! + +Sebastião murmurou: + +--Que ferro! + +--Era previsto--disse Julião com um grande gesto.--Eu ia fazer um +escandalo, mas...--e teve um risinho--amansaram-me! Estou n'um posto +medico, deram-me um posto medico! Atiraram-me um osso! + +--Sim?--fez Sebastião.--Homem, ainda bem, parabens. E agora? + +--Agora, roel-o! + +De resto, tinham-lhe promettido a primeira vagatura. O posto medico não +era mau... Em definitiva, a situação melhorára... + +--Mas mesquinha, mesquinha! Não sáio do atoleiro... + +Estava farto de medicina, disse depois d'um silencio. Era um bêco +sem sahida. Devia-se ter feito advogado, politico, intrigante. Tinha +nascido p'ra isso! + +Ergueu-se, e com grandes passadas pela sala, o cigarro na mão, a voz +cortante, expoz um plano de ambição:--O paiz está a preceito para um +intrigante com vontade! Esta gente toda está velha, cheia de doenças, +de catarrhos de bexiga, de antigas syphilis! tudo isto está pôdre +por dentro e por fóra! o velho mundo constitucional vai a cahir aos +pedaços... Necessitam-se homens! + +E plantando-se diante de Sebastião: + +--Este paiz, meu caro amigo, tem-se governado até aqui com +_expedientes_. Quando vier a revolução contra os _expedientes_, o paiz +ha-de procurar quem tenha os _principios_. Mas quem tem ahi principios? +Quem tem ahi quatro principios? Ninguem; teem dividas, vicios secretos, +dentes postiços; mas principios, nem meio! Por consequencia se houver +tres patuscos que se dêem ao trabalho de estabelecer meia duzia de +principios sérios, racionaes, modernos, positivos, o paiz tem se atirar +de joelhos, e supplicar-lhes: Senhores, fazei-me a honra insigne de +me pôr o freio nos dentes! Ora eu devia ser um d'estes. Nasci p'ra +isso! E secca-me a idéa de que em quanto outros idiotas, mais astutos +e mais previdentes, hão-de estar no poleiro a reluzir ao sol, _al +hermoso sol português_, como se diz nas zarzuelas, eu hei-de estar a +receitar cataplasmas a velhas devotas, ou a ligar as rupturas d'algum +desembargador caduco. + +Sebastião calado pensava na outra, morta em cima. + +--Estupido paiz, estupida vida!--rosnou Julião. + +Mas uma carruagem entrou na rua, parou á porta. + +--Chegam os principes!--disse Julião. Desceram logo. + +Jorge ajudava Luiza a sahir do trem, quando Sebastião, abrindo a porta, +bruscamente: + +--Houve cá grande novidade! + +--Fogo?--gritou Jorge voltando-se aterrado. + +--A Juliana, que lhe rebentou o aneurisma--disse a voz de Julião da +sombra da porta. + +--Oh c'os diabos!--E Jorge atarantado procurava á pressa na algibeira +troco para o cocheiro. + +--Ai, eu já não entro!--exclamou logo D. Felicidade, mostrando á +portinhola a sua larga face envolvida n'uma manta branca.--Eu já não +entro! + +--Nem eu!--fez Luiza, toda tremula. + +--Mas para onde queres que vamos, filha?--exclamou Jorge. + +Sebastião lembrou que podiam ir para casa d'elle. Tinha o quarto da +mamã, era só pôr lençoes na cama. + +--Vamos, sim! Vamos, Jorge! É o melhor!--supplicou Luiza. + +Jorge hesitava. A patrulha que ia passando ao alto da rua, ao vêr +aquelle grupo junto á lanterna do trem, parou. E Jorge emfim, instado, +muito contrariado, consentiu. + +--Diabo da mulher, morrer a semelhante hora! A carruagem vai-a levar, +D. Felicidade... + +--E a mim, que estou em chinellas!--acudiu Julião. + +D. Felicidade lembrou então, como christã, que era necessario alguem, +para velar a morta... + +--Ora, pelo amor de Deus, D. Felicidade!--exclamou Julião, entrando +logo para a carruagem, batendo com a portinhola. + +Mas D. Felicidade insistia: era uma falta de religião! ao menos pôr +duas velas, mandar chamar um padre!... + +--Largue, cocheiro!--berrou Julião, impaciente. + +A carruagem deu a volta. E D. Felicidade á portinhola, apesar de Julião +que a puxava pelos vestidos, gritava: + +--É um peccado mortal! É uma irreverencia! Ao menos duas velas! + +O trem partiu a trote. + +Luiza agora tinha escrupulos: realmente podia-se mandar chamar alguem... + +Mas Jorge enfureceu-se. Chamar quem, áquella hora? Que beatice! Estava +morta, acabou-se! Enterrava-se... Velar o estafermo! Fazer-lhe talvez +camara ardente tambem? Queria ella ir velal-a?... + +--Então, Jorge, então!...--murmurava Sebastião. + +--Não, é de mais! É vontade de crear embaraços, que diabo! + +Luiza baixava a cabeça: e, em quanto Jorge, praguejando, ficou atraz a +fechar a porta da casa, ella foi descendo a rua pelo braço de Sebastião. + +--Estourou de raiva--disse-lhe elle baixinho. + +Toda a rua Jorge resmungou. Que idéa, irem dormir agora fóra de casa! +Realmente era levar muito longe as mariquices...! + +Até que Luiza lhe disse, quasi chorando: + +--Vê se me queres torturar mais, e fazer-me mais doente, Jorge! + +Elle calou-se, mordendo furioso o charuto. E Sebastião, para a socegar, +propoz que viesse a tia Vicencia, a preta, velar a Juliana. + +--Era talvez melhor--murmurou Luiza. + +Chegaram á porta de Sebastião. O _frou-frou_ do vestido de sêda de +Luiza, áquella hora, na sua casa, dava uma commoção a Sebastião: a mão +tremia-lhe ao accender as velas da sala. Foi acordar a tia Vicencia +para fazer chá; tirou elle mesmo os lençoes dos bahús, apressado, feliz +d'aquella hospitalidade. Quando voltou á sala, Luiza estava só, muito +pallida, ao canto do sophá. + +--Jorge?--perguntou elle. + +--Foi ao seu escriptorio, Sebastião, escrever ao parocho para +o enterro...--E com os olhos brilhantes, n'uma voz sumida e +assustada:--Então? + +Sebastião tirou da algibeira a carteirinha de Juliana. Ella agarrou-a +sofregamente--e com um movimento brusco, tomou-lhe a mão, e beijou-lh'a. + +Mas Jorge entrava, sorrindo. + +--Então agora está mais descançada, a menina? + +--Inteiramente--disse ella, com um suspiro de allivio. + +Foram tomar chá. Sebastião contou a Jorge, corando um pouco, a +maneira como entrára em casa, a Juliana lhe estivera a dizer que fôra +despedida, e fallando, exaltando-se, zás, de repente, cahira para o +lado morta... + +E acrescentou: + +--Coitada! + +Luiza via-o mentir, olhando-o com adoração. + +--E a Joanna?--perguntou Jorge, de repente. + +Luiza, sem se perturbar, respondeu: + +--Ah, esqueci-me dizer-te... Tinha pedido licença p'ra ir vêr uma tia +que está muito mal, p'ra os lados de Bellas... Diz que volta ámanhã... +Mais uma gota de chá, Sebastião... + +Esqueceram-se depois de mandar a Vicencia--e ninguem velou a morta. + + + + +XVI + + +Luiza passou a noite ás voltas, com febre. Jorge de madrugada ficou +assustado da frequencia do seu pulso e do calor secco da pelle. + +Elle mesmo, muito nervoso, não pudera dormir. + +O quarto, onde se não accendera luz havia muito, tinha uma frialdade +deshabitada: na parede, junto ao tecto, havia manchas de humidade: e +a cama antiga de columnas torneadas sem cortinados, o velho tremó do +seculo passado com o seu espelho embaciado davam, á luz bruxuleante +da lamparina, um sentimento triste de convivencias extinctas. O +achar-se alli com sua mulher, n'uma cama alheia, trazia-lhe, sem saber +porque, uma vaga saudade; parecia-lhe que se dera na sua vida uma +alteração brusca--e que, semelhante a um rio a que se muda o leito, a +sua existencia, desde essa noite, começaria a correr entre aspectos +differentes. O nordeste fazia bater os caixilhos da vidraça, e uivava +encanado na rua. + +Pela manhã, Luiza não se pôde levantar. + +Julião, chamado á pressa, tranquillisou-os: + +--É uma febresita nervosa. Quer socego, não vale nada. Foi o medosinho +d'hontem, hein? + +--Sonhei toda a noite com ella--disse Luiza.--Que tinha resuscitado... +Que horror! + +--Ah! póde estar socegada... E já a aviaram, a mulher? + +--O Sebastião lá anda com a massada--disse Jorge.--E eu vou dar uma +vista d'olhos. + +Na rua já se sabia a morte da _tripa-velha_. + +A mulher que a veio amortalhar, uma matrona muito picada das bexigas, +com os olhos avermelhados da paixão da aguardente, era conhecida +da snr.^a Helena. Estiveram um momento a palrar ao sol, á porta do +estanque: + +--Muito que fazer agora, snr.^a Margarida, hein? + +--Bastante, bastante, snr.^a Helena--disse a amortalhadeira com a voz +um pouco rouca.--No inverno sempre ha mais obra. Mas tudo gente velha, +com os frios. Nem um corpinho bonito p'ra vestir... + +A snr.^a Margarida tinha predilecções artisticas. Gostava d'um bonito +corpo de dezoito annos, uma mocinha fresca para lavar, escarolar, +enfeitar... Entrouxava á má cara a gente velha. Mas com as raparigas +novas esmerava-se: acatitava as pregas da mortalha; calculava o _chic_ +d'uma flôr, d'um laço; trabalhava com os requintes ajanotados d'uma +modista do sepulchro. + +A estanqueira contou-lhe muitas particularidades sobre a Juliana, +os favores dos patrões, as tafularias d'ella, os luxos do quarto +tapetado... A snr.^a Margarida dizia-se «banzada». E para quem iria +agora tudo aquillo?--perguntavam.--A _tripa-velha_ não tinha parentes... + +--Era uma riqueza p'ra a minha Antoninha!--disse a amortalhadeira, +traçando o chale com tristeza. + +--Como vai ella, a pequena?... + +--Aquillo vai mal, snr.^a Helena. Aquella cabeça douda!--E exhalando +a sua dôr com loquacidade:--Deixar o brazileiro que a trazia nas +palminhas... E por quem? Por aquelle desalmado, que lhe come tudo, +que já lhe arranjou um filho, e que a derrêa com pau... Mas então, as +raparigas são assim... Vão atraz do palmo de cara... Que elle é bonito +rapaz! Mas um bebedo!... Coitada!... Pois vou vestir a boneca, snr.^a +Helena.--E entrou na casa compungidamente. + +O padre já chegára tambem. Estava na sala com Sebastião, que conhecia +d'Almada, e fallava de lavoura, d'enxertos, das regas, n'uma voz +grossa--passando, com um gesto lento da sua mão cabelluda, o lenço +enrolado por debaixo do nariz. As janellas em toda a casa estavam +abertas ao sol muito dôce. Os canarios chilreavam. + +--E estava ha muito tempo na casa, a defunta?--perguntou o padre, a +Jorge que passeava pela sala, fumando. + +--Ha quasi um anno. + +O padre desdobrou lentamente o lenço, e sacudindo-o, antes de se assoar: + +--A sua senhora ha-de sentir muito... É um tributo universal!... + +E assoou-se, com estrondo. + +A Joanna, então, de chale e lenço, appareceu, em bicos de pés. Soubera +pelos visinhos que a Juliana «arrebentára», que os senhores estavam em +casa do snr. Sebastião. Vinha de lá. Luiz mandára-a entrar no quarto. +Quando a viu doente, a sua rica senhora, lagrimejou muito. Luiza +disse-lhe--«que agora estava tudo como d'antes, podia voltar...» + +--E ouça, Joanna, se o snr. Jorge lhe perguntar... que esteve em +Bellas, com a tia... + +A rapariga fôra logo buscar a trouxa e vinha installar-se--um pouco +assustada da morte em casa. + +D'ahi a pouco o Paula bateu discretamente á porta. + +Alli vinha offerecer-se para o que fosse necessario n'aquelle transe! E +tirando e pondo rapidamente o boné, raspando o pé, dizia com a sua voz +catarrhosa: + +--Lamento a desgraça, lamento a desgraça! Todos somos mortaes... + +--Bem, bem, snr. Paula, não é necessario nada--disse Jorge.--Obrigado! + +E fechou bruscamente a cancella. + +Estava impaciente por se desembaraçar «d'aquella estopada»: e mesmo +como o enfastiavam as martelladas espaçadas dos homens pregando o +caixão, em cima, chamou a Joanna: + +--Diga a essa gente que se avie. Não vamos ficar aqui toda a vida! + +A Joanna foi logo dizer que o senhor estava n'um phrenesi! Tinha-se +feito já intima da snr.^a Margarida. A amortalhadeira fôra mesmo com +ella á cozinha para tomar uma «sustanciasinha». Como o lume estava +apagado, contentou-se com sopas de pão em vinho. + +--Sopinha de burro--dizia, fazendo estalar a lingua. + +Mas estava enojada com a defunta! Nunca vira bicho mais feio. Um corpo +de sardinha secca! E pondo um olhar complacente nas bellas fórmas +de Joanna:--A menina, não. A menina tem-me o ar de ter muito bom +corpo...--E parecia calcular como talharia a mortalha para aquellas +linhas robustas. + +Joanna disse escandalisada: + +--Longe vá o agouro, cruzes! + +A outra sorriu; faltavam-lhe dous dentes: e aflautando a voz: + +--Tem-me passado pela mão muita gente fina, minha menina. Mais uma +gotinha de vinho, faz favor? É do Cartaxo, não? é muito avelludado! +rica gota! + +Emfim, com grande satisfação de Jorge, ás quatro horas os homens +desceram o caixão. A visinhança estava pelas portas. O Paula mesmo, por +fanfarronada, disse com dous dedos adeus ao esquife, murmurando: + +--Boa viagem! + +Jorge em cima, ao sahir, perguntou a Joanna: + +--E vossê não tem medo de ficar aqui só? + +--Eu não, meu senhor. Quem vai não volta! + +Tinha medo, com effeito; mas preparava-se a passar a noite com o Pedro, +e batia-lhe o coração de alegria de «terem a casa por sua» até de +manhã, e de se poderem rolar amorosamente, como fidalgos, por cima do +divan da sala. + +Jorge voltou com Sebastião para casa, e apenas entrou no quarto, onde +Luiza estava deitada: + +--Tudo prompto--disse, esfregando as mãos.--Lá vai para o Alto de S. +João, devidamente acondicionada. _Per omnia s[ae]cula s[ae]culorum!_ + +A tia Joanna, que estava á cabeceira de Luiza, acudiu: + +--Ai, quem lá vai, lá vai... Mas boa mulher, não era ella! + +--Era um bom estafermo--disse Jorge.--Esperemos que a esta hora esteja +a ferver na caldeira de Pero Botelho. Não é verdade, tia Joanna? + +--Jorge!--fez Luiza reprehensivamente. E julgou dever rezar-lhe baixo +dous padre-nossos por alma. + +Foi tudo o que a terra deu na sua morte áquella que ia rolando a essa +hora, ao trote de duas velhas eguas, para a valla dos pobres, e que +fôra na vida Juliana Couceiro Tavira! + + +No dia seguinte Luiza estava melhor: fallaram mesmo, com grande +desconsolação da tia Joanna, em voltar para casa. Sebastião não dizia +nada, mas quasi desejava secretamente que uma convalescença a retivesse +alli semanas indefinidas. Ella parecia tão agradecida! Tinha olhares +tão reconhecidos, que só elle comprehendia! E era tão feliz tendo-a +alli e a Jorge na sua casa! Conferenciava com a tia Vicencia sobre o +jantar; andava pelos corredores e pela sala, com respeito, quasi em +bicos de pés, como se a presença d'ella santificasse a casa; enchia +os vasos de camelias e de violetas; sorria beatamente ao vêr Jorge, á +sobremesa, saborear e gabar o seu velho cognac; sentia alguma cousa +de bom acalental-o como um manto acolchoado e macio; e já pensava que +quando ella partisse tudo lhe pareceria mais frio, e com uma tristeza +de ruina! + +Mas d'ahi a dous dias voltaram para casa. + +Luiza ficou muito agradada com a criada nova. Fôra Sebastião que a +arranjára. Era uma rapariguita aceadinha e branca, com grandes olhos +bonitos e pasmados, um ar amoravel: chamava-se Marianna; e foi logo +correndo dizer a Joanna «que morria pela senhora! tinha uma carinha +d'anjo! que linda que era!» + +Jorge logo n'essa manhã mandou os dous bahus de Juliana á tia Victoria. + +Luiza, quando elle sahiu á tardinha, fechou-se no quarto, com a +carteirinha de Juliana, correu os transparentes por precaução, accendeu +uma vela, e queimou as cartas. As mãos tremiam-lhe; e via, com os +olhos marejados de lagrimas, a sua vergonha, a sua escravidão irem-se, +dissiparem-se n'um fumo alvadio! Respirou completamente! Emfim! E fôra +Sebastião, aquelle querido Sebastião! + +Foi então á sala, á cozinha, vêr a casa: tudo lhe pareceu novo, a sua +vida cheia de doçura: abriu todas as janellas; experimentou o piano; +rasgou mesmo em pedaços, por superstição, a musica da _Médjé_, que lhe +dera Bazilio; conversou muito com a Marianna; e saboreando o seu caldo +de gallinha de convalescente, com a face alumiada da felicidade: + +--Que bem que vou passar agora!--pensava. + +Quando sentiu no corredor os passos de Jorge que entrava, correu, +deitou-lhe os braços ao pescoço, e com a cabeça no hombro d'elle: + +--Estou tão contente hoje! E se tu soubesses, é tão boa rapariga a +Marianna! + + +Mas n'essa noite a febre voltou. Julião, de manhã, achou-a peor. + +--Crescimentos...--disse descontente. + +Estava receitando, quando D. Felicidade entrou, muito excitada. Ficou +toda surprehendida de vêr Luiza doente; e debruçando-se sobre ella, +disse-lhe logo ao ouvido: + +--Tenho que te contar! + +Apenas Jorge e Julião sahiram, desabafou, sentada aos pés da cama,--com +uma voz ora baixa pela gravidade da confidencia, ora aguda pelo impeto +da indignação: + +Tinha sido roubada! Indignamente roubada! O homem que mandára a +Tuy, o grande ladrão, tinha escripto á Gertrudes, á criada, que não +estava resolvido a voltar a Lisboa; que a mulher de virtude mudára de +povoação; que elle não queria saber mais d'esse negocio e que até o +achava exquisito; que offerecia o seu prestimo em Tuy,--tudo isto n'uma +boa letra d'escrevente publico, n'um portuguez horrivel,--e do dinheiro +nem palavra! + +--Que te parece o mariola? Oito moedas! Eu se não fosse pela vergonha, +ia direita á policia... Ai! os gallegos p'ra mim acabaram! Por isso o +Conselheiro não se chegava ao rego! Pudera! A mulher nunca lançou a +sorte!...--Porque se já não acreditava na honestidade dos gallegos, não +perdera a fé no poder das bruxas. + +Que ella não era pelas oito moedas! Era pelo ferro! E depois, quem sabe +onde estaria agora a mulher! Ai, era d'endoudecer!... Que te parece, +hein? + +Luiza encolheu os hombros: muito abafada na roupa, as faces escarlates, +cerravam-se-lhe os olhos n'uma somnolencia pesada: D. Felicidade +aconselhou-lhe vagamente um «suadouro», suspirando; e como Luiza não +lhe podia dar consolações, sahiu para ir á Encarnação desabafar com a +Silveira. + +N'essa madrugada Luiza peorou. A febre recrudecera. Jorge, inquieto, +vestiu-se á pressa, ás nove horas da manhã, foi buscar Julião. Descia a +escada rapidamente, abotoando ainda o paletot, quando o carteiro subia, +tossindo o seu catarrho. + +--Cartas?--perguntou Jorge. + +--Uma p'ra a senhora--disse o homem.--Ha-de ser p'ra a senhora... + +Jorge olhou o enveloppe: tinha o nome de Luiza, vinha de França. + +--De quem diabo é isto?--pensou. Metteu-a no bolso do paletot, e sahiu. + +D'ahi a meia hora voltava com Julião, n'um trem. + +Luiza dormitava, amodorrada. + +--É preciso cautela... Vamos a vêr...--murmurou Julião, coçando devagar +a cabeça, em quanto do outro lado do leito Jorge o olhava anciosamente. + +Receitou e ficou para almoçar com Jorge. Estava um dia frio e pardo. +A Marianna, abafada n'um casabeque, servia, com os dedos vermelhos, +inchados de frieiras. E Jorge sentia-se entristecer, como se toda a +nevoa do ar se lhe fosse lentamente depositando e condensando n'alma. + +A que se podia attribuir semelhante febre? dizia, muito desconsolado. +Tão extraordinario! Havia seis dias, ora melhor, ora peor... + +--Estas febres veem por tudo--replicou Julião, partindo tranquillamente +uma torrada.--Ás vezes por uma corrente d'ar ás vezes por um desgosto. +Tenho eu, por exemplo, um caso curioso: um sujeito, um Alves, que +esteve p'ra fallir, e que viveu, coitado, durante dous mezes em +torturas. Ha duas semanas, por um golpe de fortuna,--a velhaca ás vezes +tem d'estes caprichos,--arranjou todos os seus negocios, viu-se livre. +Pois senhor, desde então tem uma febre assim, tortuosa, complexa, com +symptomas disparatados... O que é? É que a excitação nervosa abateu, e +a felicidade trouxe-lhe uma revolução no sangue. Póde muito bem dar á +casca. Faz então a fallencia geral, a grande, aquella em que o crédor é +implacavel, saca á vista, e... _per omnia s[ae]cula!_ + +Ergueu-se, e accendendo o cigarro: + +--Em todo o caso um repouso absoluto. É necessario ter-lhe o espirito +em algodão em rama. Nada de palestra, nada de phrases, e se tiver sêde, +limonada. Até logo! + +E sahiu, calçando as luvas pretas que usava agora desde que pertencia +ao Posto Medico. + +Jorge voltou á alcova: Luiza ainda dormitava. Marianna sentada ao pé +n'uma cadeirinha baixa, com o rostinho muito triste, não tirava de +Luiza os seus grandes olhos vagamente espantados. + +--Tem estado muito inquieta--murmurou. + +Jorge apalpou a mão de Luiza que ardia, conchegou-lhe a roupa. Beijou-a +devagarinho na testa, foi cerrar as portas da janella, defronte da +alcova.--E passeando no escriptorio, voltavam-lhe as palavras de +Julião: são febres que veem por um desgosto! Pensava na historia do +negociante, recordava aquelle estado de abatimento e de fraqueza de +Luiza que o preoccupára tanto, ultimamente, tão inexplicavel! Ora, +tolices! Desgosto de quê? Em casa de Sebastião estivera tão animada! +Nem a morte da outra lhe fizera abalo!--De resto acreditava pouco nas +_febres de desgosto_! Julião tinha uma medicina litteraria. Pensou +mesmo que seria mais prudente chamar o velho dr. Caminha... + +Ao metter a mão no bolso, então, os seus dedos encontraram uma +carta; era a que o carteiro lhe dera, de manhã, para Luiza. Tornou a +examinal-a com curiosidade; o sobrescripto era banal, como os que ha +nos cafés ou nos restaurantes; não conhecia a letra; era d'homem, vinha +de França... Atravessou-o um desejo rapido de a abrir. Mas conteve-se, +atirou-a para cima da mesa, embrulhou devagar um cigarro. + +Voltou á alcova. Luiza permanecia na sua modorra: a manga do chambre +arregaçada descobria o braço mimoso, com a sua pennugem loura; a +face escarlate reluzia; as pestanas longas pousavam pesadamente, no +adormecimento das palpebras finas; um annel do cabello cahira-lhe +sobre a testa, e pareceu a Jorge adoravel e tocante com aquella côr, +a expressão da febre. Pensou, sem saber porque, que outros a deveriam +achar linda, desejal-a, dizer-lh'o, se podessem... Para que lhe +escreviam de França, quem? + +Voltou ao escriptorio, mas aquella carta sobre a mesa irritava-o: quiz +lêr um livro, atirou-o logo impaciente; e poz-se a passear, torcendo +muito nervoso o forro das algibeiras. + +Agarrou então a carta, quiz vêr, através do papel delgado do enveloppe; +os seus dedos, mesmo irresistivelmente, começaram a rasgar um angulo do +sobrescripto. Ah! Não era delicado aquillo!... Mas a curiosidade, que +governava o seu cerebro, suggeriu-lhe toda a sorte de raciocinios, com +uma tentação persuasiva:--Ella estava doente, e podia ter alguma cousa +urgente; se fosse uma herança? depois ella não tinha segredos, e então +em França! Os seus escrupulos eram pueris! Dir-lhe-hia que a abrira +por engano. E se a carta contivesse o segredo d'aquelle desgosto, do +_desgosto_ das theorias de Julião!... Devia abril-a então para a curar +melhor! + +Sem querer achou-se com a carta desdobrada na mão. N'um relanço +avido devorou-a. Mas não comprehendeu bem; as letras embrulhavam-se; +chegou-se á janella, releu devagar: + + + «Minha querida Luiza. + +«Seria longo explicar-te, como só antes d'hontem em Nice--d'onde +cheguei esta madrugada a Paris--recebi a tua carta, que pelos carimbos +vejo que percorreu toda a Europa atraz de mim. Como já lá vão dous +mezes e meio que a escreveste, imagino que te arranjaste com a mulher, +e que não precisas do dinheiro. De resto se por acaso o queres, manda +um telegramma e tens-l'o ahi em dous dias. Vejo pela tua carta que não +acreditaste nunca que a minha partida fosse motivada por negocios. És +bem injusta. A minha partida não te devia ter tirado, como tu dizes, +_todas as illusões sobre o amor_, porque foi realmente quando sahi de +Lisboa que percebi quanto te amava, e não ha dia, acredita, em que me +não lembre do _Paraiso_. Que boas manhãs! Passaste por lá por acaso +alguma outra vez? Lembras-te do nosso _lunch_? Não tenho tempo para +mais. Talvez em breve volte a Lisboa. Espero vêr-te, porque sem ti +Lisboa é para mim um desterro. + +«Um longo beijo do + + «Teu do C. + + «_Bazilio_». + + +Jorge dobrou o papel, lentamente, em duas, em quatro dobras, atirou-o +para cima da mesa, disse alto: + +--Sim, senhor! bonito! + +Encheu o cachimbo de tabaco machinalmente, com os olhos vagos, os +beiços a tremer: deu alguns passos incertos pelo escriptorio:--de +repente arremessou o cachimbo que despedaçou um vidro da janella, bateu +com as mãos desvairado, e atirando-se de bruços para cima da mesa, +rompeu a chorar, rolando a cabeça entre os braços, mordendo as mangas, +batendo com os pés, louco! + +Ergueu-se subitamente, agarrou a carta, ia com ella á alcova de Luiza. +Mas a lembrança das palavras de Julião immobilisou-o: que esteja +socegada, nada de phrases, nenhuma excitação! Fechou a carta n'uma +gaveta, metteu a chave na algibeira. E de pé, a tremer, com os olhos +raiados de sangue, sentia idéas insensatas alumiarem-lhe bruscamente +o cerebro, como relampagos n'uma tormenta--matal-a, sahir de casa, +abandonal-a, fazer saltar os miolos... + +A Marianna bateu ligeiramente á porta, disse-lhe que a senhora o +chamava. + +Uma onda de sangue subiu-lhe á cabeça; fitava Marianna, estupido, +batendo as palpebras: + +--Já vou--disse com a voz rouca. + +Ao passar na sala, diante do espelho oval, ficou pasmado do seu rosto +manchado, envelhecido. Foi correr uma toalha molhada pela face, alisou +o cabello: e ao entrar na alcova, ao vêl-a, com os seus grandes olhos +dilatados onde a febre reluzia, teve de se agarrar á barra do leito, +porque sentiu, em redor, as paredes oscillarem como lonas ao vento. + +Mas sorriu-lhe: + +--Como estás? + +--Mal--murmurou ella debilmente. + +Chamou-o para ao pé de si com um gesto muito fatigado. + +Elle veio, sentou-se sem a olhar. + +--Que tens?--disse ella chegando o rosto para elle.--Não te +afflijas.--E tomou a mão que elle pousára á beira do leito. + +Jorge, com um repellão secco, sacudiu a mão d'ella, ergueu-se +bruscamente com os dentes cerrados; sentia uma colera brutal; +ia-se, com medo de si, de um crime, quando ouviu a voz de Luiza, +arrastando-se, n'uma lamentação: + +--Porque, Jorge? Que tens?... + +Voltou-se; viu-a meia erguida com os olhos abertos para elle, uma +angustia no rosto; e duas lagrimas cahiam-lhe, silenciosamente. + +Atirou-se de joelhos, agarrou-lhe as mãos, aos soluços. + +--Que é isto?--exclamou a voz de Julião á porta da alcova. + +Jorge, muito pallido, ergueu-se devagar. + +Julião levou-o para a sala, e cruzando terrivelmente os braços diante +d'elle: + +--Tu estás doudo? Pois tu sabes que ella está n'um estado d'aquelles, e +vaes-te pôr a fazer-lhe scenas de lagrimas? + +--Não me pude conter... + +--Estoura. Eu estou a cortar-lhe a febre por um lado, e tu a dar-lh'a +por outro? Estás doudo! + +Estava realmente indignado. Interessava-se por Luiza como doente. +Desejava muito cural-a; e sentia uma satisfação em exercer o dominio +de pessoa necessaria n'aquella casa, onde as suas visitas tinham tido +sempre uma attitude dependente; mesmo agora ao sahir, não se esquecia +de offerecer negligentemente um charuto a Jorge. + + +Jorge foi heroico durante toda essa tarde. Não podia estar muito +tempo na alcova de Luiza, a desesperação trazia-o n'um movimento +contradictorio; mas ia lá a cada momento, sorria-lhe, conchegava-lhe +a roupa com as mãos tremulas; e como ella dormitava, ficava immovel a +olhal-a feição por feição, com uma curiosidade dolorosa e immoral, com +para lhe surprehender no rosto vestigios de beijos alheios, esperando +ouvir-lhe n'algum sonho da febre murmurar um nome ou uma data; e +amava-a mais desde que a suppunha infiel, mas d'um outro amor, carnal e +perverso. Depois ia-se fechar no escriptorio, e movia-se alli entre as +paredes estreitas, como um animal n'uma jaula. Releu a carta infinitas +vezes, e a mesma curiosidade roedora, baixa, vil, torturava-o sem +cessar: Como tinha sido? Onde era o _Paraiso_? Havia uma cama? Que +vestido levava ella? O que lhe dizia? Que beijos lhe dava? + +Foi relêr todas as cartas que ella lhe escrevêra para o Alemtejo, +procurando descobrir nas palavras symptomas de frieza, a data +da traição! Tinha-lhe odio então, voltavam-lhe ao cerebro idéas +homicidas--esganal-a, dar-lhe chloroformio, fazer-lhe beber laudano! +E depois immovel, encostado á janella, ficava esquecido n'um scismar +espesso, revendo o passado, o dia do seu casamento, certos passeios que +déra com ella, palavras que ella dissera... + +Ás vezes pensava--seria a carta uma _mistificação_? Algum inimigo +d'elle podia tel-a escripto, remettido para França. Ou talvez Bazilio +tivesse _outra_ Luiza em Lisboa, e por engano ao sobrescriptar o +enveloppe tivesse escripto o nome da prima; e a alegria momentanea +que lhe davam aquellas phantasias fazia-lhe parecer a realidade mais +cruel. Mas como fôra? como fôra? Se podesse saber a verdade! Tinha a +certeza que socegaria, então! Arrancaria de certo do seu peito aquelle +amor como um parasita immundo; apenas ella melhorasse, leval-a-hia a um +convento, e elle iria morrer longe, n'Africa, ou algures... Mas quem +saberia?... Juliana! + +Era ella que sabia! De certo! E todas as condescendencias d'ella por +Juliana, os moveis, o quarto, as roupas, comprehendeu tudo! Era a pagar +a cumplicidade! Era a sua confidente! Levava as cartas, sabia tudo. E +estava na valla, morta, sem poder fallar, a maldita! + +Sebastião, como costumava, veio á noitinha. Não havia ainda luzes, e, +apenas elle entrou, Jorge chamou-o ao escriptorio, calado, accendeu uma +vela, tirou a carta da gaveta. + +--Lê isto. + +Sebastião ficára assombrado ao vêr o rosto de Jorge. Olhava a carta +fechada, e tremia. Apenas viu a assignatura, uma pallidez d'agonia +cobriu-lhe o rosto. Parecia-lhe que o soalho tinha uma vibração onde +elle se firmava mal. Mas dominou-se, leu devagar, pousou a carta sobre +a mesa, sem uma palavra. + +Jorge disse então: + +--Sebastião, isto p'ra mim é a morte. Sebastião, tu sabes alguma cousa. +Tu vinhas aqui. Tu sabes. Dize-me a verdade! + +Sebastião abriu devagar os braços e respondeu: + +--Que te hei-de eu dizer? Não sei nada! + +Jorge agarrou-lhe as mãos, sacudiu-lh'as, e procurando o seu olhar +anciosamente: + +--Sebastião, pela nossa amizade, pela alma de tua mãi, por tantos annos +que temos passado juntos, Sebastião, dize-me a verdade!... + +--Não sei nada. Que hei-de eu saber? + +--Mentes! + +Sebastião disse apenas: + +--Podem-te ouvir, homem! + +Houve um silencio: Jorge apertava as fontes nas mãos, com passadas pelo +escriptorio, que faziam vibrar o soalho; e de repente pondo-se diante +de Sebastião, quasi supplicante: + +--Mas dize-me ao menos o que fazia ella! Sahia? Vinha aqui alguem? + +Sebastião respondeu devagar, os olhos fixos na luz: + +--Vinha o primo ás vezes, ao principio. Quando a D. Felicidade esteve +doente, ella ia vêl-a... O primo depois partiu... Não sei mais nada. + +Jorge esteve um momento a olhar Sebastião, com uma fixidez abstracta. + +--Mas que lhe fiz eu, Sebastião? Que lhe fiz eu? Adorava-a! Que lhe fiz +eu p'ra isto? Eu, que a adorava, áquella mulher! + +Rompeu a chorar. + +Sebastião ficára de pé junto á mesa, estupido, aniquilado. + +--Foi talvez uma brincadeira, apenas...--murmurou. + +--E o que diz a carta?--gritou Jorge, voltando-se n'uma colera, +sacudindo o papel.--Este _Paraiso_! _As boas manhãs_ lá passadas! É uma +infame!... + +--Está doente, Jorge--disse apenas Sebastião. + +Jorge não respondeu. Passeou calado algum tempo. Sebastião, immovel, +fatigava a vista contra a chamma da luz. Jorge então fechou a carta na +gaveta, e tomando o castiçal com um tom de lassidão lugubre e resignado: + +--Queres vir tomar chá, Sebastião? + +E não tornaram mais a fallar na carta. + + +N'essa noite Jorge dormiu profundamente. Ao outro dia o seu rosto +estava impassivel, d'uma serenidade livida. + +Foi d'ahi por diante o enfermeiro de Luiza. + +A doença, depois d'uma marcha incerta durante tres dias, definiu-se: +eram crescimentos; enfraquecia muito, mas Julião estava tranquillo. + +Jorge passava os seus dias ao pé d'ella. D. Felicidade vinha +ordinariamente pelas manhãs: sentava-se aos pés da cama, e ficava +calada, com uma face envelhecida; aquella esperança na mulher de Tuy +tão subitamente destruida abalára-a como um velho edificio a que se +tira subitamente um pilar; ia-se tornando ruina; e só se animava quando +o Conselheiro apparecia pelas tres horas a saber da «nossa formosa +enferma». Trazia sempre alguma palavra grave que dizia com um tom +profundo, conservando o chapéo na mão, sem querer entrar na alcova, por +pudor: + +--A saude é um bem que só apreciamos quando nos foge! + +Ou: + +--A doença serve para aquilatarmos os amigos. + +E terminava sempre: + +--Meu Jorge, as rosas da saude bem cedo reflorirão nas faces de sua +virtuosa esposa!... + +De noite Jorge dormia vestido, n'um enxergão sobre o chão; mas apenas +cerrava os olhos uma ou duas horas. O resto da noite procurava lêr: +começava um romance, mas nunca ia além das primeiras linhas; esquecia +o livro, e com a cabeça entre as mãos punha-se a pensar: era sempre a +mesma idéa--_como_ tinha sido? Conseguira reconstruir aproximadamente, +com logica, certos factos; via bem Bazilio chegando, vindo visital-a, +desejando-a, mandando-lhe ramos, perseguindo-a, indo-a vêr aqui e +além, escrevendo-lhe; mas depois? Viera já a comprehender que o +dinheiro era para Juliana. A creatura tivera alguma exigencia: tinha-os +surprehendido? possuia cartas?... E encontrava, n'aquella reconstrucção +dolorosa, falhas, vazios, como buracos escuros, onde a sua alma se +arremessava sofregamente. Então começava a recordar os ultimos mezes +desde a sua volta do Alemtejo, e como ella se mostrára amante, e que +ardor punha nas suas caricias... Para que o enganára então? + +Uma noite, com precauções de ladrão, rebuscou todas as gavetas d'ella, +esquadrinhou os vestidos, até as dobras da roupa branca, as caixas de +collares, de rendas; viu bem o cofre de sandalo; estava vazio; nem o +pó d'uma flôr secca! Ás vezes punha-se a fitar os moveis no quarto, +na sala, a sondal-os como se quizesse descobrir n'elles os vestigios +do adulterio. Ter-se-hiam sentado alli? Elle teria ajoelhado aos +pés d'ella, acolá, sobre o tapete? Sobretudo o divan tão largo, tão +commodo, desesperava-o; tomou-lhe odio. Veio a detestar mesmo a casa, +como se os tectos que os tinham coberto, os soalhos que os tinham +sustentado tivessem uma cumplicidade consciente. Mas o que o torturava +sobretudo eram aquellas palavras--o _Paraiso_, _as boas manhãs_... + +Luiza então já dormia tranquillamente. Ao fim de uma semana os +crescimentos desappareceram. Mas estava muito fraca: no dia em que +pela primeira vez se levantou, desmaiou duas vezes: era necessario +vestil-a, trazel-a amparada para a _chaise-longue_: e não dispensava +Jorge, queria-o alli, ao pé, com exigencias de criança! Parecia receber +a vida dos seus olhos, a saude do contacto das suas mãos. Fazia-lhe +lêr o jornal pela manhã, e vir escrever para ao pé d'ella. Elle +obedecia, e mesmo aquellas instancias eram para a sua dôr como caricias +consoladoras. É porque o amava de certo! + +Sentia então, machinalmente, abertas de felicidade. Surprehendia-se +a dizer-lhe ternuras, a rir com ella, esquecido, como d'antes! +E, estendida na _chaise-longue_, Luiza, contente, percorria +antigos volumes da _Illustração franceza_, que lhe mandára o +Conselheiro,--«onde», segundo elle lhe dissera, «podia, ao mesmo +tempo que se divertia com os desenhos, adquirir noções uteis sobre +importantes acontecimentos historicos»; ou, com a cabeça reclinada, +saboreava a felicidade de melhorar, de estar livre das tyrannias da +_outra_, das amarguras do _passado_. + +Uma das suas alegrias era vêr entrar a Marianna com o seu jantarzinho +disposto n'um guardanapo sobre o taboleiro; tinha appetite, saboreava +muito o calix de vinho do Porto, que Julião recommendára; quando Jorge +não estava, fazia longas conversações com Marianna, palrando baixo, +consolada, e lambendo colherinhas de gelatina. + +Ás vezes, calada, com os olhos no tecto, fazia planos. Dizia-os depois +a Jorge: iria estar duas semanas no campo, para ganhar forças; á volta +começaria a bordar tiras de casimira para cobrir as cadeiras da sala; +porque queria occupar-se muito da casa, viver recolhida; elle não +voltaria ao Alemtejo, não sahiria de Lisboa, não é verdade? E a sua +vida seria d'ahi por diante d'uma doçura continua e facil. + +Mas Luiza ás vezes achava-o «macambusio». Que tinha? Elle explicava +pela fadiga, pelas noites mal dormidas... Se adoecesse, ao menos, +dizia ella, que fosse quando ella estivesse forte para o tratar, para +o velar!... Mas não adoeceria, não? E fazia-o sentar ao pé de si, +passava-lhe a mão pelos cabellos, com o olhar quebrado, porque com as +forças que renasciam vinham os impulsos do seu temperamento amoroso. +Jorge sentia que a adorava, e era mais desgraçado! + +Luiza, só comsigo, tinha outras resoluções. Não tornaria a vêr +Leopoldina, e frequentaria as igrejas. Sahia da doença com uma vaga +sentimentalidade devota. Durante a febre, em certos pesadêlos de +que lhe ficára uma indistincta idéa aterrada, vira-se ás vezes n'um +lugar pavoroso, onde corpos se erguiam, torcendo os braços, do meio +de chammas escarlates: fórmas negras giravam com espetos em braza, um +rugido d'agonia subia para a mudez do céo: e já lhe tocavam o peito +linguas de fogueiras, quando alguma cousa de dôce e d'ineffavel de +repente a refrescava; eram as azas d'um anjo luminoso e sereno, que a +tomava nos braços; e ella sentia-se elevar, apoiando a cabeça contra +o seio divino, que a penetrava d'uma felicidade sobrenatural; via as +estrellas de perto, ouvia fremitos d'azas. Aquella sensação deixára-lhe +como uma recordação saudosa do céo. E aspirava a ella, nas debilidades +da convalescença, esperando ganhal-a pela pontualidade á missa, e pela +repetição de corôas á Virgem. + +Emfim uma manhã veio á sala, e abriu pela primeira vez o piano; Jorge, +á janella, olhava para a rua--quando ella o chamou, e sorrindo: + +--Estou a detestar, ha tempos, aquelle divan--disse.--Podia-se tirar, +não te parece? + +Jorge sentiu uma pancada no coração: não pôde responder logo; disse, +emfim, com esforço: + +--Sim, parece... + +--Estou com vontade de o tirar--disse ella sahindo da sala, arrastando +tranquillamente a longa cauda do seu roupão. + +Jorge não pôde destacar os olhos do divan. Veio mesmo sentar-se n'elle; +passava a mão sobre o estofo ás listras; e sentia um prazer doloroso em +verificar _que fôra alli_! + +Principiára a vir-lhe agora uma especie de resignação sombria; quando +a ouvia gozar tanto as melhoras, fallar com felicidade de futuros +tranquillos, decidia-se a aniquilar a carta, esquecer tudo. Ella +tinha-se arrependido de certo, amava-o: para que havia de crear a +sangue frio uma infelicidade perpetua? Mas quando a via com os seus +movimentos languidos estender-se na _chaise-longue_, ou ao despir-se +mostrar a brancura do seu collo--e pensava que aquelles braços +tinham enlaçado outro homem, aquella bocca gemido de amor n'uma cama +alheia--vinha-lhe uma onda de cólera bruta, precisava sahir para a não +esganar! + +Para explicar os seus maus humores, os seus silencios, começou a +queixar-se, a dizer-se doente. E as solicitudes d'ella, então, as +interrogações mudas do seu olhar inquieto faziam-o mais infeliz--por se +sentir amado, agora que se sabia trahido! + +Um domingo emfim Julião deu licença a Luiza para se deitar mais tarde, +e fazer á noite as honras da casa. Foi uma alegria para todos vel-a na +sala, ainda um pouco pallida e fraca,--mas, como disse o Conselheiro, +restituida aos deveres domesticos e aos prazeres da sociedade! + +Julião que veio ás nove horas achou-a _como nova_. E abrindo os braços, +no meio da sala: + +--E que me dizem á novidade?--exclamou--A peça do Ernesto teve um +triumpho!... + +Assim tinham lido nos jornaes. O _Diario de Noticias_ dizia mesmo que +o «author chamado ao proscenio, no meio do mais vivo enthusiasmo, +recebera uma formosa corôa de louros». Luiza declarou logo que queria +ir vêr! + +--Mais tarde, D. Luiza, mais tarde--acudiu com prudencia o +Conselheiro.--Por ora é conveniente evitar toda a commoção forte. As +lagrimas que não deixaria de derramar, conheço o seu bom coração, +podiam produzir uma recahida. Não é verdade, amigo Julião? + +--De certo, Conselheiro, de certo. Eu tambem quero ir. Quero +convencer-me por meus olhos... + +Mas o ruido d'uma carruagem, lançada a trote largo, que parou á porta, +interrompeu-o. A campainha retiniu fortemente. + +--Aposto que é o author!--exclamou elle. + +E quasi immediatamente a figura radiante de Ernestinho, de casaca, +precipitou-se na sala: ergueram-se com ruido, abraçaram-no: mil +parabens! mil parabens! E a voz do Conselheiro, dominando as outras: + +--Bem vindo o festejado author! Bem vindo! + +Ernesto suffocava de jubilo. Tinha um sorriso immobilisado; as azas +do nariz dilatavam-se-lhe, como para respirar os incensos; trazia o +peito alto, enfunado d'orgulho; e movia a cabeça, sem cessar, como n'um +agradecimento instinctivo a multidões applaudidoras. + +--Aqui estou! aqui estou!--disse. + +Sentou-se offegante; e, com um modo amavel de Deus-bom-rapaz, declarou +que os ultimos ensaios de apuro não lhe tinham deixado um momento para +vir vêr a prima Luiza. Tinha tido n'aquella noite um instante de seu, +mas devia voltar ás dez horas para o theatro: até nem mandára a tipoia +embora... + +Contou então largamente o triumpho. Ao principio tivera «grandes +colicas». Todos as tinham, os mais acostumados, os mais illustres! Mas +apenas o Campos disse o monologo do primeiro acto--e como o disse! +haviam de vêr, uma cousa sublime!--os applausos romperam. Tinha +agradado tudo. No fim era um barulho, gritos pelo author, salvas de +palmas... Elle viera ao palco, arrastado; não queria, mas obrigaram-no, +a Jesuina por um lado, a Maria Adelaide por outro! Um delirio! O +Savedra do _Seculo_ tinha-lhe dito: o amigo é o nosso Shakspeare! O +Bastos da _Verdade_ tinha affirmado: és o nosso Scribe! Houve uma cêa. +E tinham-lhe dado uma corôa. + +--E serve-lhe?--acudiu Julião. + +--Perfeitamente; um bocadinho larga... + +O Conselheiro disse com authoridade: + +--Os grandes authores, o famigerado Tasso, o nosso Camões são sempre +representados com as suas respectivas corôas. + +--É o que eu lhe aconselho, snr. Ledesma--acudiu Julião, erguendo-se e +batendo-lhe no hombro--é que se faça retratar de corôa!... + +Riram. + +E Ernestinho, um pouco despeitado, desdobrando o seu lenço perfumado: + +--O snr. Zuzarte não dispensa o seu epigrammasinho... + +--É a prova da gloria, meu amigo. Nos triumphos dos generaes +victoriosos, em Roma, havia um bobo no prestito! + +--Eu não sei!--disse Luiza muito risonha--É uma honra p'ra a familia!... + +Jorge concordou. Passeava pela sala fumando; e disse que gozava tanto a +corôa, como se tivesse direito a usal-a... + +E Ernestinho voltando-se logo para elle: + +--Sabes que lhe perdoei, primo Jorge? Perdoei á esposa... + +--Como Christo... + +--Como Christo--confirmou Ernestinho, com satisfação. + +D. Felicidade approvou logo: + +--Fez muito bem! Até é mais moral! + +--O Jorge é que queria que eu désse cabo d'ella--disse Ernestinho, +rindo tolamente.--Não se lembra, n'aquella noite... + +--Sim, sim--fez Jorge, rindo tambem, nervosamente. + +--O nosso Jorge--disse com solemnidade o Conselheiro--não podia +conservar idéas tão extremas. E de certo a reflexão, a experiencia da +vida... + +--Mudei, Conselheiro, mudei--interrompeu Jorge. + +E entrou bruscamente no escriptorio. + +Sebastião, inquieto, foi devagar ter com elle. Estava ás escuras. + +--Aquelles idiotas não se calarão? Não se irão?--disse elle +abafadamente, agarrando o braço de Sebastião. + +--Socega! + +--Oh Sebastião! Sebastião!--E sua voz tremia, com lagrimas. + +Mas Luiza, da sala, gritou: + +--Que conspiração é essa ahi dentro ás escuras? + +Sebastião appareceu logo, dizendo: + +--Nada, nada. Estavamos lá dentro...--E acrescentou baixo:--O Jorge +está fatigado. Está adoentado, coitado! + +Notaram, quando elle voltou--que tinha com effeito o ar exquisito. + +--Não, realmente não me sinto bom, estou incommodado! + +--E a debil D. Luiza precisa o repouso do seu leito--disse o +Conselheiro erguendo-se. + +Ernestinho que não se podia demorar, offereceu logo ao Conselheiro e a +Julião--«a sua carruagem, que era um caleche, se iam para a baixa...» + +--Que honra--exclamou Julião olhando Accacio--irmos na tipoia do Grande +Homem! + +E em quanto D. Felicidade se agasalhava, os tres desceram. + +No meio da escada Julião parou, e cruzando os braços: + +--Ora aqui vou eu entre os representantes dos dous grandes movimentos +de Portugal desde 1820. A Litteratura--e comprimentou Ernestinho--e o +Constitucionalismo!--e curvou-se para o Conselheiro. + +Os dous riram, lisongeados. + +--E o amigo Zuzarte? + +--Eu?--E baixando a voz:--Até ha dias um revolucionario terrivel. Mas +agora... + +--O quê? + +--Um amigo da ordem--gritou com jubilo. + +E desceram, contentes de si e do seu paiz, para se metterem na tipoia +do Grande Homem! + + + + +XVII + + +Ao outro dia Jorge foi ao ministerio, onde não tinha apparecido nos +ultimos tempos. Mas demorou-se pouco. A rua, a presença dos conhecidos +ou dos estranhos torturava-o; parecia-lhe que _todo o mundo sabia_; nos +olhares mais naturaes via uma intenção maligna, e nos apertos de mão +mais sinceros uma ironica pressão de pezames; as carruagens mesmo que +passavam davam-lhe a suspeita de a terem conduzido ao _rendez-vous_, +e todas as casas lhe pareciam a fachada infame do _Paraiso_. Voltou +mais sombrio, infeliz, sentindo a vida estragada. E logo do corredor ao +entrar ouviu Luiza cantarolando, como outr'ora, a _Mandolinata_! + +Estava-se a vestir. + +--Como estás tu?--perguntou, pondo a um canto a sua bengala. + +--Estou boa. Hoje estou muito melhor. Um bocado fraca ainda... + +Jorge deu alguns passos pelo quarto, taciturno. + +--E tu?--perguntou-lhe ella. + +--P'ra aqui ando--disse tão desconsoladamente que Luiza pousou o pente, +e com os cabellos soltos veio pôr-lhe as mãos nos hombros, muito +carinhosa: + +--Que tens tu? Tu tens alguma cousa. Estranho-te tanto ha dias! Não és +o mesmo! Ás vezes estás com uma cara de réo... Que é? Dize. + +E os seus olhos procuravam os d'elle, que se desviavam perturbados. + +Abraçou-o. Insistia, queria que dissesse tudo á «sua mulherzinha». + +--Dize. Que tens? + +Elle olhou-a muito, e de repente, com uma resolução violenta: + +--Pois bem, digo-te. Tu agora estás boa, pódes ouvir... Luiza! vivo +n'um inferno ha duas semanas. Não posso mais... Tu estás boa, não é +verdade? Pois bem, que quer dizer isto? Dize a verdade! + +E estendeu-lhe a carta de Bazilio. + +--O que é?--fez ella muito branca. E o papel dobrado tremia-lhe na mão. + +Abriu-a devagar, viu a letra de Bazilio, n'um relance adivinhou-a. +Fixou Jorge um momento d'um modo desvairado, estendeu os braços sem +poder fallar, levou as mãos á cabeça com um gesto ancioso como se se +sentisse ferida, e oscillando, com um grito rouco, cahiu sobre os +joelhos, ficou estirada no tapete. + +Jorge gritou. As criadas acudiram. Estenderam-na na cama. Elle quiz que +Joanna corresse a chamar Sebastião; e ficou, como petrificado, junto +ao leito, olhando-a, em quanto Marianna toda tremula desatacava os +espartilhos da senhora. + +Sebastião veio logo. Felizmente havia ether, fizeram-lh'o respirar; +apenas abriu lentamente os olhos, Jorge precipitou-se sobre ella: + +--Luiza, ouve, falla! Não, não tem duvida. Mas falla. Dize, que tens? + +Ao ouvir a voz d'elle desmaiou outra vez. Movimentos convulsivos +sacudiam-lhe o corpo. Sebastião correu a buscar Julião. + +Luiza parecia adormecida agora, immovel, branca como cera, as mãos +pousadas sobre a colcha; e duas lagrimas corriam-lhe devagar pelas +faces. + +Um trem parou. Julião appareceu esbaforido. + +--Achou-se mal de repente... Vê, Julião. Está muito mal!--disse Jorge. + +Fizeram-lhe respirar mais ether; despertou outra vez. Julião +fallou-lhe, tomando-lhe o pulso. + +--Não, não, ninguem!--murmurou ella, retirando a mão. Repetiu com +impaciencia:--Não, vão-se, não quero...--As suas lagrimas redobravam. +E como elles sahiam da alcova para a não excitar contrariando-a, +ouviram-na chamar:--Jorge! + +Elle ajoelhou-se ao pé da cama, e fallando-lhe junto do rosto: + +--Que tens tu? Não se falla mais em tal. Acabou-se. Não estejas doente. +Juro-te, amo-te... Fosse o que fosse, não me importa. Não quero saber, +não. + +E como ella ia fallar, elle pousou-lhe a mão na bocca: + +--Não, não quero ouvir. Quero que estejas boa, que não soffras! Dize +que estás boa! Que tens? Vamos ámanhã para o campo, e esquece-se tudo. +Foi uma cousa que passou... + +Ella disse apenas com a voz sumida: + +--Oh! Jorge! Jorge! + +--Bem sei... Mas agora vaes ser feliz outra vez... Dize, que sentes? + +--Aqui--disse ella, e levava as mãos á cabeça.--Dóe-me! + +Elle ergueu-se para chamar Julião, mas ella reteve-o, attrahiu-o; e +devorando-o com olhos onde a febre se accendia, adiantando o rosto, +estendia-lhe os labios. Elle deu-lhe um beijo inteiro, sincero, cheio +de perdão. + +--Oh! minha pobre cabeça!--gritou ella. + +As fontes latejavam-lhe, e uma côr ardente, sêcca, esbrazeava-lhe o +rosto. + +Como era habituada a enxaquecas, Julião traquillisou-os; recommendou um +socego immovel e sinapismos de mostarda aos pés,--até que elle voltasse. + +Jorge ficou junto do leito, taciturno, cortado de presentimentos, de +sustos, suspirando ás vezes. + +Eram então quatro horas; cahia uma chuva miudinha, ennevoada; a alcova +tinha uma luz lugubre. + +--Não ha-de ser nada...--dizia Sebastião. + +Luiza agitava-se no leito, apertando as mãos na cabeça, torturada pela +dôr crescente, cheia de sêde. + +Marianna acabava d'arrumar em pontas de pés, vagamente assombrada +d'aquella casa, onde só vira desgosto e doença: mas só o pousar subtil +dos seus passos fazia soffrer Luiza, como se fossem martelladas sobre o +craneo. + +Julião não tardou; logo da porta do quarto, o aspecto d'ella +inquietou-o. Accendeu um phosphoro, aproximou-lh'o do rosto; e aquella +luz fez-lhe dar um grito como se um ferro frio lhe trespassasse a +cabeça. + +Os olhos dilatados tinham um reluzir metallico. Conservava-se muito +quieta, porque o gesto mais lento lhe dava na nuca dôres penetrantes +que a dilaceravam. Só de vez em quando sorria para Jorge com uma +expressão d'afflicção serena e muda. + +Julião fez logo pôr tres travesseiros, para lhe conservar a cabeça +alta. Fóra cahia o crepusculo humido. Andavam em bicos de pés, com +cuidado; e mesmo tiraram o relogio da parede para afastar o _tic-tac_ +monotono. Ella começava agora a murmurar sons cançados, e a voltar-se +com movimentos bruscos que lhe arrancavam gritos; ou immovel gemia d'um +modo continuo e angustioso. Tinham-lhe envolvido as pernas n'um longo +sinapismo; mas não o sentia. Pelas nove horas começou a delirar; a +lingua tornára-se-lhe branca e dura, como de gesso sujo. + +Julião fez logo applicar na cabeça compressas d'agua fria. Mas o +delirio exacerbava-se. + +Ora tinha um murmurio espesso, um vago rosnar modorrento--onde os nomes +de Leopoldina, de Jorge, de Bazilio voltavam incessantemente: depois +debatia-se, esgaçava a camisa com as mãos; e, arqueando-se, os seus +olhos rolavam, como largos bugalhos prateados onde a pupilla se sumia. + +Socegava mais; dava risadinhas d'uma doçura idiota; tinha gestos +lentos sobre o lençol, que aconchegavam e acariciavam, como n'um +gozo tepido: depois começava a respirar anciosamente, vinham-lhe +expressões torturadas de terror, queria enterrar-se nos travesseiros e +nos colxões, fugindo a aspectos pavorosos: punha-se então a apertar a +cabeça phreneticamente, pedia que lh'a abrissem, que a tinha cheia de +pedras, que tivessem piedade d'ella!--e fios de lagrimas corriam-lhe +pelo rosto. Não sentia os sinapismos; expunham-lhe agora os pés nús +ao vapor d'agua a ferver, carregada de mostarda; um cheiro acre +adstringia o ar do quarto. Jorge fallava-lhe com toda a sorte de +palavras consoladoras e supplicantes: pedia-lhe que socegasse, que o +conhecesse; mas de repente ella desesperava-se, gritava pela carta, +maldizia Juliana--ou então dizia palavras d'amor, enumerava sommas de +dinheiro... Jorge temia que aquelle delirio revelasse tudo a Julião, +ás criadas: tinha um suor á raiz dos cabellos--e quando ella, um +momento, julgando-se no _Paraiso_ e nas exaltações do adulterio, chamou +Bazilio, pediu _champagne_, teve palavras libertinas, Jorge fugiu da +alcova allucinado, foi para a sala ás escuras, atirou-se para o divan a +soluçar, arrepellou-se, blasphemou. + +--Está em perigo?--perguntou Sebastião. + +--Está--disse Julião.--Se sentisse os sinapismos, ao menos! Mas estas +malditas febres cerebraes... + +Calaram-se vendo Jorge entrar na alcova, com o rosto manchado, +esguedelhado. + +E Julião tomando-o pelo braço, levando-o para fóra: + +--Ouve lá, é necessario cortar-lhe o cabello, e rapar-lhe a cabeça. + +Jorge olhou-o com um ar estupido: + +--O cabello?--E agarrando-lhe os braços:--Não, Julião, não, hein? +Póde-se fazer outra cousa. Tu deves saber. O cabello não! Não! Isso +não, pelo amor de Deus! Ella não está em perigo. P'ra quê? + +Mas aquella massa de cabello era o diabo, impedia a acção da agua! + +--Ámanhã, se fôr necessario. Ámanhã! Espera até ámanhã... Obrigado, +Julião, obrigado! + +Julião consentiu, contrariado. Fazia então humedecer constantemente +as compressas da cabeça, e como Marianna tremula, desgeitosa, molhava +muito o travesseiro, foi Sebastião que se collocou á cabeceira da cama, +toda a noite, espremendo sem cessar uma esponja, d'onde a agua gotejava +lentamente; tinham jarros fóra da varanda, na sala, para dar á agua uma +frialdade gelada. O delirio alta noite acalmára um pouco. Mas o seu +olhar injectado tinha um aspecto selvagem: as pupillas pareciam apenas +um ponto negro. + +Jorge, sentado aos pés da cama, com a cabeça entre as mãos, olhava +para ella: lembravam-lhe vagamente outras noites de doença assim, +quando ella tivera a pneumonia: e melhorára! Até ficára mais linda, +com tons de pallidez que lhe adoçavam a expressão! Iriam para o campo +quando ella convalescesse: alugaria uma casinha: voltaria á noite no +omnibus, e vêl-a-hia de longe na estrada vindo ao seu encontro, com um +vestido claro, na tarde suave!... Mas ella gemia, elle erguia os olhos +sobresaltado: e não lhe parecia a mesma: afigurava-se-lhe que se ia +dissipando, desapparecendo n'aquelle ar de febre que enchia a alcova, +no silencio morbido da noite, e no cheiro da mostarda. Um soluço +sacudia-o, e recahia na sua immobilidade. + +Joanna, em cima, rezava. As velas, com uma chamma alta e direita, +extinguiam-se. + +Emfim uma vaga claridade desenhou nos transparentes brancos os +caixilhos da vidraça. Amanhecia. Jorge ergueu-se, foi olhar para a rua. +Não chovia; a calçada seccava. O ar tinha uma vaga côr d'aço. Tudo +dormia: e uma toalha, esquecida á janella das Azevedos, agitava-se ao +vento frio, silenciosamente. + +Quando entrou na alcova Luiza fallava com uma voz extincta: sentia +muito vagamente os sinapismos, mas a dôr de cabeça não cessava. +Começou a agitar-se--e o delirio d'ahi a pouco voltou. Julião, então, +determinou que se lhe rapasse o cabello. + +Sebastião foi acordar um barbeiro na rua da Escóla--que veio logo, com +um ar transido, a gola do casaco levantada; e batendo o queixo começou +a tirar immediatamente d'um sacco de couro as navalhas, as tesouras, +devagar, com as mãos molles da gordura das pomadas. + +Jorge foi refugiar-se na sala: parecia-lhe que grandes pedaços +mutilados da sua felicidade cahiam com aquellas lindas tranças, +destruidas ás tesouradas; e com a cabeça nas mãos recordava certos +penteados que ella usava, noites em que os seus cabellos se tinham +desmanchado nas alegrias da paixão, tons com que brilhavam á luz... +Voltou ao quarto, attrahido irresistivelmente; sentiu na alcova o +ruido secco e metallico das tesouras; sobre a mesa, n'uma caixa de +sabão, estava um velho pincel de barba, entre flocos d'espuma... Chamou +Sebastião baixo: + +--Dize-lhe que se avie! Estão-me a matar a fogo lento! É de mais. Que +ande depressa! + +Foi á sala de jantar, errou pela casa: a manhã fria clareava; +erguera-se vento, que ia levando, aos pedaços, nuvens d'um tom alvadio. + +Quando tornou a entrar no quarto, o barbeiro guardava as navalhas com a +mesma lentidão molle; e tomando o seu chapéo desabado, sahiu em bicos +de pés, murmurando n'um tom funerario: + +--Estimo as melhoras. Deus ha-de permittir que não seja nada... + +O delirio com effeito d'ahi a uma hora acalmou:--e Luiza cahiu n'uma +somnolencia prostrada com gemidos fracos, que sahiam de seus labios +como a lamentação interior da vida vencida. + +Jorge tinha então dito a Sebastião que desejava chamar o doutor +Caminha. Era um medico velho que tratára sua mãi, e que curára Luiza da +pneumonia, no segundo anno de casada. Jorge conservára uma admiração +agradecida por aquella reputação antiquada; e agora a sua esperança +voltava-se sofregamente para elle, anciando pela sua presença como pela +apparição d'um santo. + +Julião condescendeu logo. Até estimava! E Sebastião desceu correndo, +para ir a casa do dr. Caminha. + +Luiza, que sahira um momento do seu torpôr, sentiu-os fallar baixo. A +sua voz extincta chamou Jorge: + +--Cortaram-me o cabello...--murmurou tristemente. + +--É para te fazer bem--disse-lhe Jorge, quasi tão agonisante como +ella.--Cresce logo. Até te vem melhor... + +Ella não respondeu; duas lagrimas silenciosas correram-lhe pelos cantos +dos olhos. + +Devia ser a sua ultima sensação: a prostração comatosa ia-a +immobilisando, apenas a sua cabeça rolava n'um movimento dôce e +vagaroso sobre o travesseiro, gemendo sempre com um cansaço triste; +a pelle empallidecia como um vidro de janella, por traz do qual +lentamente uma luz se apaga; e mesmo os ruidos da rua que começavam não +a impressionavam, como se fossem muito distantes e abafados em algodão. + +Ao meio dia D. Felicidade appareceu. Ficou petrificada quando a viu +tão mal: e ella que a vinha buscar para irem á Encarnação, talvez ás +lojas! Tirou logo o chapéo, installou-se; fez arranjar a alcova, tirar +as bacias, os velhos sinapismos que arrastavam, compôr a cama--«porque +não havia peor p'ra um doente que desarranjo no quarto»: e muito +corajosamente animava Jorge. + +Uma carruagem parou á porta. Era o doutor Caminha, emfim!... Entrou +atabafado no seu cachenez de quadrados verdes e pretos, queixando-se +muito do frio;--e tirando devagar as grossas luvas de casimira, que +pôz dentro do chapéo methodicamente, adiantou-se para a alcova com um +passo cadenciado, acamando com a mão as suas repas grisalhas já muito +colladas ao craneo pela escova. + +Julião e elle ficaram sós na alcova. + +No quarto os outros esperavam calados, ao pé de Jorge, pallido como +cêra, com os olhos vermelhos como carvões. + +--Vai-se-lhe pôr um caustico na nuca--veio dizer Julião. + +Jorge devorava com o olhar ancioso o doutor Caminha, que se pozera a +calçar tranquillamente as suas luvas de casimira, dizendo: + +--Vamos a vêr com o caustico. Não está bem... Mas ha ainda peor. E eu +volto, meu amigo, eu volto. + +O caustico foi inutil. Não o sentia, immovel e branca, com as feições +crispadas; e tremuras passaram-lhe de repente nos nervos da face como +vibrações fugitivas. + +--Está perdida--disse Julião baixo a Sebastião. + +D. Felicidade ficou muito aterrada, fallou logo nos sacramentos. + +--P'ra quê?--resmungou Julião impaciente. + +Mas D. Felicidade declarou que tinha escrupulos, que era um peccado +mortal; e chamando Jorge para o vão da janella, toda tremula: + +--Jorge, não se assuste, mas seria bom pensar nos sacramentos... + +Elle murmurava como assombrado: + +--Os sacramentos! + +Julião chegou-se bruscamente, e quasi zangado: + +--Nada de tolices! Qual sacramentos! P'ra quê? Ella nem ouve, nem +comprehende, nem sente. É necessario deitar-lhe outro caustico, talvez +ventosas, e é o que é! Isso é que são os sacramentos! + +Mas D. Felicidade escandalisada, muito abalada, começou a chorar. +Esqueciam Deus, e em Deus é que está o remedio!--dizia, assoando-se com +estrondo. + +--Pelo que Deus faz por mim...--exclamou Jorge, sahindo do seu torpôr. +E batendo as mãos, como revoltado por uma injustiça:--Porque realmente, +que fiz eu p'ra isto? Que fiz eu!... + +Julião ordenára outro caustico. Havia agora na casa um movimento +allucinado. Joanna entrava de repente com um caldo inutil que ninguem +pedira, os olhos muito vermelhos de chorar. Marianna soluçava pelos +cantos. D. Felicidade ia, vinha pelo quarto, refugiando-se na sala para +rezar, fazendo promessas, lembrando que se chamasse o doutor Barbosa, o +doutor Barral. + +E Luiza no entanto estava immovel; uma côr macilenta ia-lhe dando ás +faces tons cavados e rigidos. + +Julião extenuado pediu um calix de vinho, uma fatia de pão. +Lembraram-se então que desde a vespera não tinham comido, e foram á +sala de jantar onde Joanna, sempre lavada em lagrimas, serviu uma sopa, +e ovos. Mas não achava os colheres, nem os guardanapos; murmurava +rezas, pedia desculpa; em quanto Jorge, com os olhos inchados, fitos na +borda da mesa, a face contrahida, fazia dobras na toalha. + +Depois d'um momento pousou devagarinho a colhér, desceu ao quarto. +Marianna estava sentada aos pés do leito: Jorge disse-lhe que fosse +servir os senhores: e apenas ella sahiu, deixou-se cahir de joelhos, +tomou uma das mãos de Luiza, chamou-a baixo; depois mais forte: + +--Escuta-me. Ouve, pelo amor de Deus. Não estejas assim, faze por +melhorar. Não me deixes n'este mundo, não tenho mais ninguem! +Perdôa-me. Dize que sim. Faze signal que sim ao menos. Não me ouve, meu +Deus! + +E olhava-a anciosamente. Ella não se movia. + +Ergueu então os braços ao ar n'uma desesperação allucinada. + +--Sabes que creio em ti, meu Deus. Salva-a! Salva-a!--E arremessava a +sua alma para as alturas:--Ouve, meu Deus! Escuta-me! Sê bom! + +Olhava em roda, esperando um movimento, uma voz, um acaso, um milagre! +Mas tudo lhe pareceu mais immovel. A face livida cavava-se; o lenço que +lhe envolvia a cabeça desarranjára-se, via-se o craneo rapado, d'uma +côr ligeiramente amarellada. Pôz-lhe então a mão na testa, hesitando, +com medo; pareceu-lhe que estava fria! Abafou um grito, correu para +fóra do quarto, e deu com o doutor Caminha que entrava, tirando +pausadamente as luvas. + +--Doutor! Está morta! Veja. Não falla, está fria... + +--Então! Então!--disse elle--Nada de barulho, nada de barulho! + +Tomou o pulso de Luiza, sentiu-o fugir sob os dedos, como a vibração +expirante d'uma corda. + +Julião veio logo. E concordou com o doutor Caminha que as ventosas eram +inuteis. + +--Já as não sente--disse o doutor, sacudindo o tabaco dos dedos. + +--Se se lhe désse um copo de cognac?...--lembrou de repente Julião. E +vendo o olhar espantado do doutor:--Ás vezes estes symptomas de coma +não querem dizer que o cerebro esteja desorganisado: podem ser apenas +a inacção da força nervosa exhausta. Se a morte é irremediavel não +se perde nada; se é apenas uma depressão do systema nervoso, póde-se +salvar... + +O doutor Caminha, com o beiço descahido, oscillava incredulamente a +cabeça: + +--Theorias!--murmurou. + +--Nos hospitaes inglezes...--começou Julião. + +O doutor Caminha encolheu os hombros com desprezo. + +--Mas se o doutor lêsse...--insistiu Julião. + +--Não leio nada!--disse o doutor Caminha com força--tenho lido de mais! +Os livros são os doentes...--E curvando-se, com ironia:--Mas se o meu +talentoso collega quer fazer a experiencia... + +--Um copo de cognac ou d'aguardente!--pediu Julião á porta. + +E o doutor Caminha sentou-se commodamente «para gozar o fracasso do +talentoso collega». + +Levantaram Luiza; Julião fez-lhe engulir o cognac; quando a deitaram +ficou na mesma immobilidade comatosa: o doutor Caminha tirou o +relogio, viu as horas, esperou: havia um silencio ancioso: emfim o +doutor ergueu-se, tomou-lhe o pulso, apalpou a frialdade crescente das +extremidades; e indo buscar silenciosamente o chapéo começou a calçar +as luvas. + +Jorge foi com elle até á porta: + +--Então, doutor?--disse, agarrando com uma força desvairada o braço. + +--Fez-se o que se pôde--disse o velho, encolhendo os hombros. + +Jorge ficou estupido no patamar, vendo-o descer. As suas passadas +vagarosas nos degraus cahiam-lhe com uma percussão medonha no coração. +Debruçou-se no corrimão, chamou-o baixo. O doutor parou, levantou os +olhos; Jorge pôz as mãos para elle, com uma anciedade humilde: + +--Então não é possivel mais nada? + +O doutor fez um gesto vago, indicou o céo. + +Jorge voltou para o quarto, encostando-se ás paredes. Entrou na alcova, +atirou-se de joelhos aos pés da cama, e alli ficou com a cabeça entre +as mãos n'um soluçar baixo e continuo. + +Luiza morria: os seus braços tão bonitos, que ella costumava acariciar +diante do espelho, estavam já paralysados; os seus olhos, a que a +paixão dera chammas e a voluptuosidade lagrimas, embaciavam-se como sob +a camada ligeira d'uma pulverisação muito fina. + +D. Felicidade e Marianna tinham accendido uma lamparina a uma gravura +de Nossa Senhora das Dôres, e de joelhos rezavam. + +O crepusculo triste descia, parecia trazer um silencio funerario. + +A campainha, então, tocou discretamente; e d'ahi a momentos appareceu a +figura do Conselheiro Accacio. D. Felicidade ergueu-se logo; e vendo as +suas lagrimas, o Conselheiro disse lugubremente: + +--Venho cumprir o meu dever, ajudar-lhes a passar este transe! + +Explicou «que encontrára por acaso o bom doutor Caminha, que lhe +contára a fatal occorrencia»! Mas muito discretamente não quiz +entrar na alcova. Sentou-se n'uma cadeira, collocou melancolicamente +o cotovêlo sobre o joelho, a testa sobre a mão, dizendo baixo a D. +Felicidade: + +--Continue as suas orações. Deus é imperscrutavel em seus decretos. + +Na alcova, Julião estivera tomando o pulso de Luiza; olhou então +Sebastião, fez-lhe o gesto d'alguma cousa que vôa e desapparece... +Aproximaram-se de Jorge, que não se movia, de joelhos, com a face +enterrada no leito: + +--Jorge--disse baixinho Sebastião. + +Elle levantou o rosto desfigurado, envelhecido, os cabellos nos olhos, +as olheiras escuras. + +--Vá, vem--disse Julião. E vendo o espanto do seu olhar:--Não, não está +morta, está n'aquella somnolencia... Mas vem. + +Elle ergueu-se, dizendo com mansidão: + +--Pois sim, eu vou. Estou bem... Obrigado. + +Sahiu da alcova. + +O Conselheiro levantou-se, foi abraçal-o com solemnidade: + +--Aqui estou, meu Jorge! + +--Obrigado, Conselheiro, obrigado. + +Deu alguns passos pelo quarto; os seus olhos pareciam preoccupar-se +com um embrulho que estava sobre a mesa; foi apalpal-o; desapertou as +pontas, e viu os cabellos de Luiza. Ficou a olhal-os, erguendo-os, +passando-os d'uma das mãos para outra, e disse com os beiços a tremer: + +--Fazia tanto gosto n'elles, coitadinha! + +Tornou a entrar na alcova. Mas Julião tomou-lhe o braço, queria-o +afastar do leito. Elle debatia-se dôcemente; e, como uma vela ardia +sobre a mesinha ao pé da cabeceira, disse, mostrando-a: + +--Talvez a incommode a luz... + +Julião respondeu commovido: + +--Já não a vê, Jorge! + +Elle soltou-se da mão de Julião, foi debruçar-se sobre ella; tomou-lhe +a cabeça entre as mãos com cuidado para a não magoar, esteve a olhal-a +um momento; depois pousou-lhe sobre os labios frios um beijo, outro, +outro, e murmurava: + +--Adeus! Adeus! + +Endireitou-se, abriu os braços, cahiu no chão. + +Todos correram. Levaram-no para a _chaise-longue_. + +E em quanto D. Felicidade n'um pranto afflicto fechava os olhos de +Luiza, o Conselheiro, com o chapéo sempre na mão, cruzava os braços, e +oscillando a sua calva respeitavel, dizia a Sebastião: + +--Que profundo desgosto de familia! + + + + +XVIII + + +Depois do enterro de Luiza, Jorge despediu as criadas, foi para casa de +Sebastião. + +N'essa noite pelas nove horas o Conselheiro Accacio, muito abafado, +descia o Moinho de Vento, quando encontrou Julião, que vinha de vêr um +doente na rua da Rosa. Foram andando juntos, conversando de Luiza, do +enterro, da afflicção de Jorge. + +--Pobre rapaz! Aquillo é que é soffrer!--disse Julião compadecido. + +--Era uma esposa modêlo!...--murmurou o Conselheiro. + +De resto, disse, vinha justamente de casa do bom Sebastião, mas não +podéra vêr o seu Jorge; tinha-se estirado sobre a cama, e dormia +profundamente. + +E acrescentou: + +--Ultimamente lia eu que aos grandes golpes succedem sempre somnos +prolongados. Assim, por exemplo, Napoleão depois de Waterloo, depois do +grande desastre de Waterloo! + +E passado um momento, continuou: + +--É verdade. Fui vêr o nosso Sebastião... Fui mostrar-lhe...--E +interrompendo-se, parando:--Porque eu entendi que era o meu dever +dedicar um tributo á memoria da infeliz senhora. Era o meu dever, e não +me eximi a elle! E estimo tel-o encontrado, porque quero saber a sua +opinião conscienciosa e desassombrada. + +Julião tossiu, e perguntou: + +--É um necrologio? + +--É um necrologio. + +E o Conselheiro, apesar de «não achar proprio, na sua posição, o entrar +em cafés publicos», lembrou a Julião que poderiam descançar um momento +no Tavares, se não estivesse muita gente, e elle poderia lêr-lhe «a +producção». + +Espreitaram. + +Estavam apenas, a uma mesa, dous velhos calados defronte dos seus +cafés, com os chapéos na cabeça, apoiados a bengalas de cana da India. +O moço dormitava ao fundo. Uma luz crua e intensa enchia a sala +estreita. + +--Ha um silencio propicio--disse o Conselheiro. + +Offereceu um café a Julião; e tirando então do bolso uma folha de papel +pautado, murmurou:--Infeliz senhora!--Inclinou-se para Julião, e leu: + + +NECROLOGIO + +Á MEMORIA DA SNR.^a D. LUIZA MENDONÇA DE BRITO CARVALHO + + + Rosa d'amor, rosa purpurea e bella, + Quem entre os goivos te esfolhou na campa? + + +--É do immortal Garrett!--E continuou com uma voz lenta e lugubre: + +«... Mais um anjo que subiu ao céo! Mais uma flôr pendida na tenra +haste que o vendaval da morte, em sua inclemente furia, arremessou mal +desabrochada para as trevas do tumulo...» + +Olhou Julião para solicitar a sua admiração, e vendo-o curvado a +remexer o seu café, proseguiu com entonações mais funerarias: + +--«Detende-vos, e olhai a terra fria! Alli jaz a casta esposa tão cedo +arrancada ás caricias do seu talentoso conjuge. Alli sossobrou, como +baixel no escarcéo da costa, a virtuosa senhora, que em sua folgazã +natureza era o encanto de quantos tinham a honra de se aproximar do seu +lar! Por que soluçaes?» + +--Um café, ó Antonio!--bradou a voz rouca de um sujeito grosso, de +jaquetão, que se sentou ao pé, pondo com ruido a bengala sobre a mesa e +deitando o chapéo para o cachaço. + +O Conselheiro olhou-o de lado, com rancor. E baixando a voz: + +--«...Não soluceis! Que o anjo se não pertence á terra pertence ao +céo!...» + +--O sô Guedes esteve já por ahi?--perguntou a voz rouca. + +O criado disse de traz do balcão, limpando com uma rodilha as travessas +de metal: + +--Ainda não, snr. D. José! + +--«...Alli--continuou o Conselheiro--seu espirito, librando-se nas +candidas azas, entôa louvores ao Eterno! E não cessa de pedir ao +Omnipotente mercês e favores para derramar sobre a cabeça do dilecto +esposo, que um dia, não duvideis, a encontrará nas regiões celestes, +patria das almas de tão subido quilate...»--E a voz do Conselheiro +aflautava-se para indicar aquella ascensão paradisiaca. + +--E hontem á noite esteve cá, o sô Guedes?--insistiu o sujeito de +jaquetão com os cotovêlos sobre a mesa, fumando como uma chaminé. + +--Esteve tarde. Lá pelas duas horas. + +O Conselheiro sacudiu o papel com um desespero mudo: por traz dos +vidros da luneta escura fusilavam-lhe nos olhos os despeitos homicidas +de author interrompido. Mas proseguiu: + +--«...E vós, ó almas sensiveis, vertei as lagrimas, mas vertendo-as, +não percaes de vista que o homem deve curvar-se aos decretos da +Providencia...» + +E interrompendo-se: + +--Isto é para dar coragem ao nosso pobre Jorge!--Continuou:--«...da +Providencia. Deus conta mais um anjo, e a sua alma brilha pura...» + +--Esteve com a pequena, o sô Guedes?--fez o sujeito, quebrando no +marmore da mesa a cinza do charuto. + +O Conselheiro suspendeu-se pallido de raiva: + +--Deve ser pessoa da mais baixa extracção--rosnou com odio. + +E o criado erguendo a vozinha fina detraz do balcão: + +--Nada, não; tem vindo agora com uma hespanhola d'ahi de cima da rua. +Uma magrinha, com o cabello riçado, uma capa vermelha... + +--A Lola!--acudiu o outro com satisfação. E espreguiçou-se com +voluptuosidade á recordação da Lola. + +O Conselheiro agora apressava-se: + +«... E de resto, o que é a vida? Uma rapida passagem sobre o orbe, e um +vão sonho de que acordamos no seio do Deus dos Exercitos, de que todos +somos indignos vassallos». + +E com esta phrase monarchica o Conselheiro terminou. + +--Que lhe parece, com franqueza? + +Julião sorveu o fundo da chavena, e collocando-a devagar no pires, +lambendo os beiços: + +--É para imprimir? + +--Na _Voz Popular_, com tarjeta preta. + +Julião coçou convulsivamente a caspa, e erguendo-se: + +--Está muito bom. Muito bom, Conselheiro! + +E Accacio procurando o troco para o moço: + +--Creio que está digno d'ella, e de mim! + +E sahiram calados. + +A noite estava muito escura: erguera-se um nordeste frio: gotas de +chuva tinham cahido. Ao Loreto, Julião parou subitamente; e exclamou: + +--Ai esquecia-me! Sabe a novidade, Conselheiro? A D. Felicidade +recolhe-se á Encarnação. + +--Ah! + +--Disse-m'o agora. Eu fui justamente vêl-a antes de ir vêr um doente á +rua da Rosa. Estava com uma febresita. Cousa de nada... A commoção; o +susto! E deu-me parte: recolhe-se ámanhã á Encarnação. + +O Conselheiro disse: + +--Sempre conheci n'aquella senhora idéas retrogradas. É o resultado das +manobras jesuiticas, meu amigo!--E ajuntou com a melancolia do liberal +descontente:--A reacção levanta a cabeça! + +Julião tomou familiarmente o braço do Conselheiro, e sorrindo: + +--Qual reacção! É por sua causa, ingrato... + +O Conselheiro estacou: + +--Que quer o meu nobre amigo insinuar? + +--Sim, homem! Não sei como diabo descobriu uma cousa grave... + +--O que? Acredite... + +--O que eu tambem descobri, seu maganão! Que o Conselheiro tem duas +travesseirinhas na cama, tendo só uma cabeça... Disse-m'o ella!--E +rindo muito, dizendo-lhe _adeus_! _adeus!_ desceu rapidamente a rua do +Alecrim. O Conselheiro ficou immovel, no largo, de braços cruzados, +como petrificado.--Que infeliz senhora! Que funesta paixão!--murmurou +emfim. E acariciou o bigode, com satisfação. + +Como tinha de passar a limpo o _Necrologio_ apressou-se a entrar +em casa. Abancou com uma manta sobre os joelhos; bem depressa as +responsabilidades de prosador distrahiram-no das preoccupações +d'homem; e até às onze horas a sua bella letra cursiva e burocratica +desenrolou-se nobremente sobre uma larga folha de papel inglez, no +silencio do seu _Sanctus Sanctorum_. Terminava quando a porta rangeu, +e a Adelaide, com um chale forte pelos hombros, veio dizer, n'uma voz +constipada: + +--Então hoje não se faz néné? + +--Não tardo, minha Adelaide, não tardo! + +E releu baixo, enlevado. Pareceu-lhe então que o final não era +commovente: queria terminar por uma exclamação dolorosa, prolongada +como um _ai!_ Meditou, com os cotovêlos sobre a mesa, a cabeça entre os +dedos muito abertos: Adelaide então, chegando-se devagar, passou-lhe a +mão pela calva: aquelle dôce roçar amoroso fez de certo saltar a idéa +como uma faisca, porque tomou rapidamente a penna, e acrescentou: + +--«Chorai! Chorai! Em quanto a mim, a dôr suffoca-me!» + +Esfregou as mãos com orgulho. Repetiu alto n'um tom plangente: + +--«Chorai, Chorai, em quanto a mim, a dôr suffoca-me!»--E passando o +braço concupiscente pela cinta da Adelaide, exclamou: + +--Está de fazer sensação, minha Adelaide! + +Ergueu-se. Tinha terminado o seu dia. Fôra bem preenchido e digno: da +manhã certificára-se com regosijo no _Diario do Governo_, que a familia +real «passava sem novidade»; cumprira o dever d'amigo, acompanhando +Luiza aos Prazeres n'uma carruagem da Companhia; a alta das inscripções +assegurava-lhe a paz da sua patria; compozera uma prosa notavel; +a sua Adelaide amava-o! E de certo se deliciou na certeza d'estas +felicidades, que contrastavam tanto com as imagens sepulchraes que a +sua penna revolvera, porque Adelaide ouviu-o murmurar: + +--A vida é um bem inestimavel!--E acrescentar como bom +cidadão:--Sobretudo n'esta era de grande prosperidade publica! + +E entrou no quarto com a cabeça erecta, o peito cheio, os passos +firmes, erguendo alto o castiçal. + +A sua Adelaide seguia-o, bocejando; estava cançada da constipação +e--de uma hora de ternuras, que tivera á tardinha, com o louro e meigo +Arnaldo, caixeiro da _Loja da America_. + + +Áquella hora dous homens desciam d'uma carruagem á porta do Hotel +Central: um trazia uma _ulster_ de xadrez, o outro uma longa pelliça. +Um omnibus quasi ao mesmo tempo parou, carregado de bagagens. + +Um criado allemão, que conversava em baixo com o porteiro, +reconheceu-os logo, e tirando o côco: + +--Oh snr. D. Bazilio! Oh snr. visconde! + +O visconde Reynaldo, que batia os pés nas lages, rosnou de dentro da +sua pelliça: + +--É verdade, aqui estamos outra vez na possilga! + +Mas áquella hora? + +--A que horas queria vossê que chegassemos? Ás horas da tabella, +talvez! Doze horas d'atrazo, essa bagatella! Em Portugal é quasi nada... + +--Houve algum transtorno?--perguntava o criado com solicitude, +seguindo-os pela escada. + +E Reynaldo, pisando com um pé nervoso o esparto do corredor: + +--O transtorno nacional! Descarrilou tudo! Estamos aqui por milagre! +Abjecto paiz!...--E desabafava a sua cólera com o criado: tel-a-hia +desabafado com as pedras da rua, tanto era o excesso da bilis:--Ha +um anno que a minha oração é esta: Meu Deus, manda-lhe outra vez o +terromoto! Pois todos os dias leio os telegrammas a vêr se o terromoto +chegou... e nada! Algum ministro que cahe, ou algum barão que surge. +E de terremoto nada! O Omnipotente faz ouvidos de mercador ás minhas +preces... Protege o paiz! Tão bom é um como outro!--E sorria, vagamente +reconhecido a uma nação, cujos defeitos lhe forneciam tantas pilherias. + +Mas quando o criado, muito consternado, lhe declarou--que não havia +senão um salão e uma alcova com duas camas, no terceiro andar--a cólera +de Reynaldo não conheceu restricções: + +--Então havemos de dormir no mesmo quarto? Vossê pensa que o snr. D. +Bazilio é meu amante, seu devasso? Está tudo cheio? Mas quem diabo +se lembra de vir a Portugal? Estrangeiros? É justamente o que me +espanta!--E encolhendo os hombros com rancôr.--É o clima, é o clima +que os attrahe! O clima, este prodigioso engodo nacional! Um clima +pestifero. Não ha nada mais reles de que um bom clima!... + +E não cessou d'invectivar o seu paiz, em quanto o criado á pressa, +sorrindo servilmente, punha sobre a jardineira pratos, fiambre, um +frango frio e Bourgogne. + +Reynaldo vinha vender a ultima propriedade, e acompanhára Bazilio que +voltava a terminar «o seccante negocio da borracha». E não cessava de +rosnar soturnamente de dentro da pelliça: + +--Aqui estamos! Aqui estamos no chiqueiro! + +Bazilio não respondia. Desde que chegára a Santa Apolonia, recordações +do _Paraiso_, da casa de Luiza, de todo aquelle romance do verão +passado, começavam a voltar, a attrahil-o, com um encanto picante. Fôra +encostar-se á vidraça. Uma lua fria, livida, corria agora entre grossas +nuvens côr de chumbo: ás vezes uma grande malha luminosa cahia sobre a +agua, faiscava: depois tudo escurecia: vagas mastreações desenhavam-se +na obscuridade diffusa: e algum fanal de navio tremeluzia friamente. + +--Que fará ella a esta hora?--pensava Bazilio.--Naturalmente, +deitava-se... Mal sabia que elle estava alli, n'um quarto do Hotel +Central... + +Cearam. + +Bazilio levou a garrafinha de cognac para a cabeceira da cama: e com a +cara coberta de pó d'arroz, os folhos da sua camisa de dormir abertos +sobre o peito, muito estendido, soprando o fumo do charuto, gozava uma +lassidão confortavel. + +--E ámanhã estou-te d'aqui a vêr--disse Reynaldo.--Vaes-te logo metter +com a prima! + +Bazilio sorriu, o seu olhar errou um pouco pelo tecto; certas +recordações das bellezas d'ella, do seu temperamento amoroso, +trouxeram-lhe uma vaga voluptuosidade: espreguiçou-se.--Que +diabo!--disse--é uma linda rapariga! Vale immenso a pena!--Bebeu mais +um calice de cognac, e d'ahi a pouco dormia profundamente. Era meia +noite. + +Áquella hora Jorge acordava, e sentado n'uma cadeira, immovel, com +soluços cançados que ainda o sacudiam, pensava n'ella. Sebastião, no +seu quarto, chorava baixo. Julião, no Posto Medico, estendido n'um +sophá, lia a _Revista dos Dous Mundos_. Leopoldina dançava n'uma +_soirée_ da Cunha. Os outros dormiam. E o vento frio que varria as +nuvens e agitava o gaz dos candieiros ia fazer ramalhar tristemente uma +arvore sobre a sepultura de Luiza. + + +D'ahi a dous dias pela manhã Bazilio, no Rocio, procurava, com o olhar +em redor, um _coupé_ decente. Mas o Pintéos, avistando-o de longe, +lançou logo a parelha. Cá está o Pintéos, meu amo! Parecia encantado de +tornar a vêr o snr. D. Bazilinho, e apenas elle lhe disse: + +--Lá acima, á Patriarchal, ó Pintéos! + +--A casa da senhora? Prompto, meu amo.--E endireitando-se na almofada, +bateu. + +Quando a tipoia parou á porta de Jorge--o Paula sahiu para a rua, a +estanqueira correu de dentro do balcão, a criada do doutor debruçou-se +logo na janella. E immoveis arregalavam os olhos. + +Bazilio tocára a campainha, um pouco nervoso: esperou, arremessou o +charuto, tornou a puxar o cordão com força. + +--As janellas estão trancadas, meu amo--disse o Pintéos. + +Bazilio recuou ao meio da rua: as portadas verdes estavam fechadas, a +casa tinha um aspecto mudo. + +Bazilio dirigiu-se ao Paula: + +--Os senhores que alli moram, estão p'ra fóra? + +--Já não moram--disse o Paula soturnamente, passando a mão sobre o +bigode. + +Bazilio fixou-o, surprehendido d'aquella entonação funebre. + +--Onde vivem agora então? + +O Paula escarrou, e cravando em Bazilio um olhar desolado: + +--V. s.^a é o parente? + +Bazilio disse sorrindo: + +--Sou o parente, sou. + +--Então não sabe? + +--O quê, homem de Deus? + +O Paula esfregou o queixo, e bamboleando a cabeça: + +--Pois sinto dizer-lh'o. A senhora morreu. + +--Que senhora?--perguntou Bazilio. E fez-se muito branco. + +--A senhora! A senhora D. Luiza, a mulher do snr. Carvalho, o +Engenheiro... E o snr. Jorge está em casa do snr. Sebastião. Alli ao +fim da rua. Se v. s.^a lá quer ir... + +--Não!--fez Bazilio com um gesto rapido da mão. Os beiços tremiam-lhe +um pouco.--Mas que foi? + +--Uma febre! Rapou-a em dous dias! + +Bazilio dirigiu-se ao _coupé_ devagar, com a cabeça baixa. Olhou mais +uma vez para a casa; fechou com força a portinhola. O Pintéos _bateu_ +p'ra a Baixa. + +O Paula então aproximou-se do estanque: + +--Não lhe fez muita móssa! Fidalgos! Canalha!--murmurou. + +A estanqueira disse lamentosamente: + +--Pois eu não sou parenta, e todas as noites lhe rezo dous padre-nossos +por alma... + +--E eu!--suspirou a carvoeira. + +--Ha-de-lhe isso servir de muito!--rosnou o Paula, afastando-se. + +Estava ultimamente mais amargo. Vendia pouco. Aquellas mortes na rua +traziam-no desconfiado da vida. Cada dia detestava mais os padres! +e todas as noites lia a _Nação_ que lhe emprestava o Azevedo, +repastando-se com rancor d'artigos devotos, que o exasperavam, o +impelliam para o atheismo; e o descontentamento das cousas publicas +inclinava-o para a communa. Como elle dizia, achava tudo uma _porcaria_. + +Foi de certo sob este sentimento que, voltando á porta do estanque, +disse ás visinhas com um ar lugubre: + +--Sabem o que isto é? Sabem o que tudo isto é?--Fazia um gesto que +abrangia o universo. Fitou-as d'um modo irado, e rosnou esta palavra +suprema: + +--Um monte d'estrume! + + +Ao descer a rua do Alecrim, Bazilio viu o visconde Reynaldo á porta do +hotel _Street_. Mandou parar o Pintéos, e saltando do _coupé_: + +--Sabes? + +--O quê? + +--Minha prima morreu. + +O visconde Reynaldo murmurou polidamente: + +--Coitada!... + +E foram descendo a rua, de braço dado, até ao Aterro. O dia estava +glorioso; um friosinho subtil errava; no ar luminoso, leve, trespassado +de sol, as casas, os galhos das arvores, os mastros das faluas, as +mastreações dos navios tinham uma nitidez muito desenhada; os sons +sobresahiam com uma tonalidade cantada e alegre; o rio reluzia como um +metal azul; o vapor de Cacilhas ia soltando rolos de fumo que tomavam a +côr do leite; e ao fundo as collinas faziam na pulverisação da luz uma +sombra azulada, onde as casarias caiadas rebrilhavam. + +E os dous passeando devagar, iam fallando de Luiza. + +O visconde Reynaldo, delicado, lamentava a pobre senhora, coitada, que +se tinha deixado morrer por um tempo tão lindo!--Mas em resumo, sempre +achára aquella ligação absurda... + +Porque emfim fossem francos: que tinha ella? Não queria dizer mal «da +pobre senhora que estava n'aquelle horror dos Prazeres», mas a verdade +é que não era uma amante _chic_; andava em tipoias de praça; usava +meias de tear; casára com um reles individuo de secretaria; vivia numa +casinhola, não possuia relações decentes; jogava naturalmente o quino, +e andava por casa de sepatos d'ourello; não tinha espirito, não tinha +_toilette_... que diabo! Era um trambolho! + +--Para um ou dous meses que eu estivesse em Lisboa...--resmungou +Bazilio com a cabeça baixa. + +--Sim, p'ra isso talvez. Como hygiene!--disse Reynaldo com desdem. + +E continuaram calados, devagar. Riram-se muito d'um sujeito que passava +governando atarantadamente dous cavallos pretos:--Que phaeton! Que +arreios! Que estylo! Só em Lisboa!... + +Ao fundo do Aterro voltaram; e o visconde Reynaldo passando os dedos +pelas suiças: + +--De modo que estás sem mulher... + +Bazilio teve um sorriso resignado. E, depois d'um silencio, dando um +forte raspão no chão com a bengala: + +--Que ferro! Podia ter trazido a Alphonsine! + +E foram tomar Xerez á _Taverna Ingleza_. + + + Setembro 1876--Setembro 1877. + + +FIM + + + + +Lista de erros corrigidos + + +Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos: + + + +----------+-------------------------+---------------------------+ + | | Original | Correcção | + +----------+-------------------------+---------------------------+ + |#pág. 84 | Luzia | Luiza | + |#pág. 130 | arrebitanto | arrebitando | + |#pág. 155 | com ha-de d'estar? | como ha-de d'estar? | + |#pág. 190 | pé dos portas | pé das portas | + |#pág. 194 | enternciam-no | enterneciam-no | + |#pág. 209 | Lepoldina | Leopoldina | + |#pág. 215 | lacas | lascas | + |#pág. 263 | concialibulo | conciliabulo | + |#pág. 267 | Luzinha | Luizinha | + |#pág. 316 | dsesperadamente | desesperadamente | + |#pág. 328 | eperança | esperança | + |#pág. 333 | batendo-lho | batendo-lhe | + |#pág. 337 | de de pé | de pé | + |#pág. 404 | Leolpodina | Leopoldina | + |#pág. 404 | prodigiosomente | prodigiosamente | + |#pág. 425 | Sabastião | Sebastião | + |#pág. 427 | engmomados | engommados | + |#pág. 430 | Leolpodina | Leopoldina | + |#pág. 456 | apparer | apparecer | + |#pág. 457 | Julão | Julião | + |#pág. 457 | ao ouvindo | ao ouvido | + |#pág. 472 | cousá | cousa | + |#pág. 477 | as palavra | as palavras | + |#pág. 482 | quizessse | quizesse | + |#pág. 494 | voltou dizer | voltou a dizer | + |#pág. 507 | apaixonado | apaixonada | + |#pág. 512 | d'aqulla | d'aquella | + |#pág. 521 | susurrro | susurro | + |#pág. 558 | illsuões | illusões | + +----------+-------------------------+---------------------------+ + +Não existem os capítulo XI e XIV nesta obra: +Não havendo interrupção na paginação respeitámos a ordem da obra original. + +A página 525 surge no original como 425. Corrigimos para 525 para manter +a ordem (após verificação que não se tratava de uma página fora de sítio). + + + + + +End of Project Gutenberg's O Primo Bazilio, by José Maria Eça de Queirós + +*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK 42942 *** diff --git a/42942-8.txt b/42942-8.txt deleted file mode 100644 index 77967ce..0000000 --- a/42942-8.txt +++ /dev/null @@ -1,19045 +0,0 @@ -The Project Gutenberg EBook of O Primo Bazilio, by Jos Maria Ea de Queirs - -This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with -almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or -re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included -with this eBook or online at www.gutenberg.org - - -Title: O Primo Bazilio - Episodio Domestico - -Author: Jos Maria Ea de Queirs - -Release Date: June 13, 2013 [EBook #42942] - -Language: Portuguese - -Character set encoding: ISO-8859-1 - -*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O PRIMO BAZILIO *** - - - - -Produced by Rita Farinha, Alberto Manuel Brando Simes -and the Online Distributed Proofreading Team at -http://www.pgdp.net (This file was produced from images -generously made available by National Library of Portugal -(Biblioteca Nacional de Portugal).) - - - - - - *Nota de editor:* Devido existncia de erros tipogrficos neste - texto, foram tomadas vrias decises quanto verso final. Em caso - de dvida, a grafia foi mantida de acordo com o original. No final - deste livro encontrar a lista de erros corrigidos. - - Rita Farinha (Junho 2013) - - - - -O PRIMO BAZILIO - - - - -PORTO: TYPOGRAPHIA DE A. J. DA SILVA TEIXEIRA -Rua da Cancella Velha, 70 - - - - -[Figura: Assinatura] - - - - -EA DE QUEIROZ - - -O PRIMO BAZILIO - -EPISODIO DOMESTICO - - -SEGUNDA EDIO, REVISTA - - -[Figura] - - -LIVRARIA INTERNACIONAL - -DE - -ERNESTO CHARDRON -Porto - -EUGENIO CHARDRON -Braga - -1878 - - - - -Porto: 1878--Typ. do A. J. da Silva Teixeira, Cancella Velha, 62 - - - - -O PRIMO BAZILIO - - - - -I - - -Tinham dado onze horas no _cuco_ da sala de jantar. Jorge fechou o -volume de Luiz Figuier que estivera folheando devagar, estirado na -velha _voltaire_ de marroquim escuro, espreguiou-se, bocejou e disse: - ---Tu no te vaes vestir, Luiza? - ---Logo. - -Ficra sentada mesa, a lr _o Diario de Noticias_, no seu roupo de -manh de fazenda preta, bordado a _soutache_, com largos botes de -madreperola; o cabello louro um pouco desmanchado, com um tom secco do -calor do travesseiro, enrolava-se, torcido no alto da cabea pequenina, -de perfil bonito; a sua pelle tinha a brancura tenra e lactea das -louras: com o cotovlo encostado mesa acariciava a orelha, e, no -movimento lento e suave dos seus dedos, dous anneis de rubis miudinhos -davam scintillaes escarlates. - -Tinham acabado d'almoar. - -A sala esteirada, alegrava, com o seu tecto de madeira pintado a -branco, o seu papel claro de ramagens verdes. Era em julho, um -domingo: fazia um grande calor; as duas janellas estavam cerradas, mas -sentia-se fra o sol faiscar nas vidraas, escaldar a pedra da varanda; -havia o silencio recolhido e somnolento de manh de missa; uma vaga -_quebreira_ amollentava, trazia desejos de sstas, ou de sombras ffas -debaixo d'arvoredos, no campo, ao p d'agua; nas duas gaiolas, entre -as bambinellas de cretone azulado, os canarios dormiam; um zumbido -monotono de moscas arrastava-se por cima da mesa, pousava no fundo das -chavenas sobre o assucar mal derretido, enchia toda a sala d'um rumor -dormente. - -Jorge enrolou um cigarro, e muito repousado, muito fresco na sua camisa -de chita, sem collete, o jaqueto de flanella azul aberto, os olhos -no tecto, pz-se a pensar na sua jornada ao Alemtejo. Era engenheiro -de minas, no dia seguinte devia partir para Beja, para Evora, mais -para o sul at S. Domingos; e aquella jornada, em julho, contrariava-o -como uma interrupo, affligia-o como uma injustia. Que massada -por um vero d'aquelles! Ir dias e dias sacudido pelo chouto d'um -cavallo d'aluguel, por esses descampados do Alemtejo que no acabam -nunca, cobertos d'um rastolho escuro, abafados n'um sol bao, onde os -moscardos zumbem! Dormir nos montados, em quartos que cheiram a tijolo -cozido, ouvindo em redor, na escurido da noite torrida, grunhir as -varas dos porcos! A todo o momento sentir entrar pelas janellas, passar -no ar o bafo quente das queimadas! E s! - -Tinha estado at ento no ministerio, em commisso. Era a primeira vez -que se separava de Luiza; e perdia-se j em saudades d'aquella salinha, -que elle mesmo ajudra a forrar de papel novo nas vesperas do seu -casamento, e onde, depois das felicidades da noite, os seus almoos se -prolongavam em to suaves preguias! - -E cofiando a barba curta e fina, muito frisada, os seus olhos iam-se -demorando, com uma ternura, n'aquelles moveis intimos, que eram do -tempo da mam: o velho guarda-loua envidraado, com as pratas muito -tratadas a gesso-cr, resplandecendo decorativamente; o velho painel a -oleo, to querido, que vira desde pequeno, onde apenas se percebiam, -n'um fundo lascado, os tons avermelhados de cobre d'um bojo de -cassarola e os rosados desbotados d'um mlho de rabanetes! Defronte, na -outra parede, era o retrato de seu pai: estava vestido moda de 1830, -tinha a physionomia redonda, o olho luzidio, o beio sensual; e sobre a -sua casaca abotoada reluzia a commenda de Nossa Senhora da Conceio. -Fra um antigo empregado do ministerio da fazenda, muito divertido, -grande tocador de flauta. Nunca o conhecera, mas a mam affirmava-lhe -que o retrato s lhe faltava fallar. Vivera sempre n'aquella casa com -sua mi. Chamava-se Isaura: era uma senhora alta, de nariz afilado, -muito apprehensiva; bebia ao jantar agua quente; e ao voltar um dia do -lausperenne da Graa, morrera de repente, sem um ai! - -Physicamente Jorge nunca se parecera com ella. Fra sempre robusto, -d'habitos viris. Tinha os dentes admiraveis de seu pai, os seus hombros -fortes. - -De sua mi herdra a placidez, o genio manso. Quando era estudante -na Polytechnica, s 8 horas recolhia-se, accendia o seu candieiro -de lato, abria os seus compendios. No frequentava botequins, nem -fazia noitadas. S duas vezes por semana, regularmente, ia vr uma -rapariguita costureira, a Euphrasia, que vivia ao Borratem, e nos dias -em que o Brazileiro, o seu homem, ia jogar o boston ao club, recebia -Jorge com grandes cautelas e palavras muito exaltadas; era engeitada, -e no seu corpinho fino e magro havia sempre o cheiro relentado d'uma -pontinha de febre. Jorge achava-a _romanesca_, e censurava-lh'o. Elle, -nunca fra sentimental: os seus condiscipulos, que liam Alfred de -Musset suspirando e desejavam ter amado Margarida Gautier, chamavam-lhe -_proseiro, burguez_: Jorge ria; no lhe faltava um boto nas camisas, -era muito escarolado, admirava Luiz Figuier, Bastiat e Castilho, tinha -horror a dividas, e sentia-se feliz. - -Quando sua mi morreu, porm, comeou a achar-se s: era no inverno, -e o seu quarto nas trazeiras da casa, ao sul, um pouco desamparado, -recebia as rajadas do vento na sua prolongao uivada e triste; -sobretudo noite, quando estava debruado sobre o compendio, os ps no -capacho, vinham-lhe melancolias languidas; estirava os braos, com o -peito cheio d'um desejo; quereria enlaar uma cinta fina e dce, ouvir -na casa o frou-frou d'um vestido! Decidiu casar. Conheceu Luiza, no -vero, noite, no Passeio. Apaixonou-se pelos seus cabellos louros, -pela sua maneira d'andar, pelos seus olhos castanhos muito grandes. No -inverno seguinte foi despachado, e casou. Sebastio, o seu intimo, o -bom Sebastio, o Sebastiarro, tinha dito, com uma oscillao grave da -cabea, esfregando vagarosamente as mos: - ---Casou no ar! casou um bocado no ar! - -Mas Luiza, a Luizinha, sahiu muito boa dona de casa: tinha cuidados -muito sympathicos nos seus arranjos; era aceada, alegre como um -passarinho, como um passarinho amiga do ninho e das caricias do macho: -e aquelle serzinho louro e meigo veio dar sua casa um encanto serio. - --- um anjinho cheio de dignidade!--dizia ento Sebastio, o bom -Sebastio, com a sua voz profunda de _basso_. - -Estavam casados havia tres annos. Que bom que tinha sido! Elle proprio -melhorra; achava-se mais intelligente, mais alegre... E recordando -aquella existencia facil e dce, soprava o fumo do charuto, a perna -traada, a alma dilatada, sentindo-se to bem na vida como no seu -jaqueto de flanella! - ---Ah!--fez Luiza de repente, toda admirada para o jornal, sorrindo. - ---Que ? - --- o primo Bazilio que chega! - -E leu alto, logo: - -Deve chegar por estes dias a Lisboa, vindo de Bordeus, o snr. Bazilio -de Brito, bem conhecido da nossa sociedade. S. exc.^a que, como -sabido, tinha partido para o Brazil, onde se diz reconstituira a sua -fortuna com um honrado trabalho, anda viajando pela Europa desde o -comeo do anno passado. A sua volta capital um verdadeiro jubilo -para os amigos de s. exc.^a que so numerosos. - ---E so!--disse Luiza, muito convencida. - ---Estimo, coitado!--fez Jorge, fumando, anediando a barba com a palma -da mo.--E vem com fortuna, hein? - ---Parece. - -Olhou os annuncios, bebeu um gole de ch, levantou-se, foi abrir uma -das portadas da janella. - ---Oh Jorge, que calor que l vai fra, santo Deus!--Batia as palpebras -sob a radiao da luz crua e branca. - -A sala, nas trazeiras da casa, dava para um terreno vago, cercado d'um -taboado baixo, cheio d'hervas altas e d'uma vegetao d'acaso; aqui, -alli, n'aquella verdura crestada do vero, largas pedras faiscavam, -batidas do sol perpendicular; e uma velha figueira brava, isolada -no meio do terreno, estendia a sua grossa folhagem immovel, que, na -brancura da luz, tinha os tons escuros do bronze. Para alm eram as -trazeiras d'outras casas, com varandas, roupas seccando em cannas, -muros brancos de quintaes, arvores esguias. Uma vaga poeira embaciava, -tornava espesso o ar luminoso. - ---Cahem os passaros!--disse ella cerrando a janella.--Olha tu pelo -Alemtejo, agora! - -Veio encostar-se _voltaire_ de Jorge, passou-lhe lentamente a -mo sobre o cabello preto e annelado. Jorge olhou-a, triste j da -separao: os dous primeiros botes do seu roupo estavam desapertados; -via-se o comeo do peito de uma brancura muito tenra, a rendinha da -camisa: muito castamente Jorge abotoou-lh'os. - ---E os meus colletes brancos?--disse. - ---Devem estar promptos. - -Para se certificar chamou Juliana. - -Houve um ruido domingueiro de saias engommadas, Juliana entrou, -arranjando nervosamente o collar e o broche. Devia ter quarenta -annos, era muitissimo magra. As feies, miudas, espremidas, tinham a -amarellido de tons baos das doenas de corao. Os olhos grandes, -encovados, rolavam n'uma inquietao, n'uma curiosidade, raiados de -sangue, entre palpebras sempre debruadas de vermelho. Usava uma cuia de -retroz imitando tranas, que lhe fazia a cabea enorme. Tinha um _tic_ -nas azas do nariz. E o vestido chato sobre o peito, curto da roda, -tufado pela gomma das saias--mostrava um p pequeno, bonito, muito -apertado em botinas de duraque com ponteiras de verniz. - -Os colletes no estavam promptos, disse com uma voz muito lisboeta, no -tivera tempo de os metter em gomma. - ---Tanto lhe recommendei, Juliana!--disse Luiza.--Bem, v. Veja como se -arranja! Os colletes ho-de ficar noite na mala! - -E apenas ella sahiu: - ---Estou a tomar odio a esta creatura, Jorge! - -Ha dous mezes que a tinha em casa, e no se podera acostumar sua -fealdade, aos seus tregeitos, maneira aflautada de dizer _chapieu_, -_tisoiras_, de arrastar um pouco os _rr_, ao ruido dos seus taces que -tinham laminasinhas de metal: ao domingo, a cuia, o pretencioso do p, -as luvas de pellica preta arripiavam-lhe os nervos. - ---Que antipathica! - -Jorge ria: - ---Coitada, uma pobre de Christo!--E depois que engommadeira -admiravel! No ministerio examinavam com espanto os seus peitilhos!--O -Julio diz bem, eu no ando engommado, ando esmaltado! No -sympathica, no, mas aceada, apropositada... - -E levantando-se, com as mos nos bolsos das suas largas calas de -flanella: - ---E, emfim, minha filha, a maneira como ella se portou na doena da tia -Virginia... Foi um anjo para ella!--Repetiu com solemnidade:--De dia, -de noite, foi um anjo para ella! Estamos-lhe em divida, minha filha!--E -comeou a enrolar um cigarro, com a physionomia muito sria. - -Luiza, calada, fazia saltar com a pontinha da chinella a orla do -roupo; e examinando fixamente as unhas, a testa um pouco franzida, -poz-se a dizer: - ---Mas emfim, se eu embirro com ella, no me importa, posso bem mandal-a -embora. - -Jorge parou, e raspando um phosphoro na sola do sapato: - ---Se eu consentir, minha rica. que uma questo de gratido, para -mim! - -Ficaram calados. O _cuco_ cantou meio dia. - ---Bem, vou vida--disse Jorge. Chegou-se ao p d'ella, tomou-lhe a -cabea entre as mos. - ---Viborasinha!--murmurou, fitando-a muito meigamente. - -Ella riu. Ergueu para elle os seus magnificos olhos castanhos, -luminosos e meigos. Jorge enterneceu-se, poz-lhe sobre as palpebras -dous beijos chilreados. E torcendo-lhe o beicinho, com uma meiguice: - ---Queres alguma cousa de fra, amor? - -Que no viesse muito tarde. - -Ia deixar uns bilhetes, ia n'uma tipoia, era um pulo... - -E sahiu, feliz, cantando com a sua boa voz de barytono: - - Dio del oro, - Del mondo signor. - La la ra, la ra. - -Luiza espreguiou-se. Que scca ter de se ir vestir! Desejaria estar -n'uma banheira de marmore cr de rosa, em agua tepida, perfumada, -e adormecer! Ou n'uma rede de sda, com as janellas cerradas, -embalar-se, ouvindo musica! Sacudiu a chinellinha: esteve a olhar -muito amorosamente o seu p pequeno, branco como leite, com veias -azues, pensando n'uma infinidade de cousinhas:--em meias de sda que -queria comprar, no farnel que faria a Jorge para a jornada, em tres -guardanapos que a lavadeira perdera... - -Tornou a espreguiar-se. E saltando na ponta do p descalo, foi buscar -ao aparador por detraz d'uma compota um livro um pouco enxovalhado, -veio estender-se na _voltaire_, quasi deitada, e, com o gesto -acariciador e amoroso dos dedos sobre a orelha, comeou a lr, toda -interessada. - -Era a _Dama das Camelias_. Lia muitos romances; tinha uma assignatura, -na Baixa, ao mez. Em solteira, aos 18 annos, enthusiasmra-se por -Walter-Scott e pela Escocia; desejra ento viver n'um d'aquelles -castellos escocezes, que teem sobre as ogivas os brazes da _clan_, -mobilados com arcas gothicas e tropheus d'armas, forrados de largas -tapecerias, onde esto bordadas legendas heroicas, que o vento do -lago agita e faz viver: e amra Ervandlo, Morton e Ivanho, ternos -e graves, tendo sobre o gorro a penna d'aguia, presa ao lado pelo -cardo d'Escocia d'esmeraldas e diamantes. Mas agora era o _moderno_ -que a captivava, Paris, as suas mobilias, as suas sentimentalidades. -Ria-se dos trovadores, exaltra-se por Mr. de Camors; e os homens -ideaes appareciam-lhe de gravata branca, nas hombreiras das salas de -baile, com um magnetismo no olhar, devorados de paixo, tendo palavras -sublimes. Havia uma semana que se interessava por Margarida Gautier: o -seu amor infeliz dava-lhe uma melancolia ennevoada: via-a alta e magra, -com o seu longo chale de cachemira, os olhos negros cheios da avidez da -paixo e dos ardores da tisica; nos nomes mesmo do livro--Julia Duprat, -Armando, Prudencia, achava o sabor poetico d'uma vida intensamente -amorosa; e todo aquelle destino se agitava, como n'uma musica triste, -com ceias, noites delirantes, afflices de dinheiro, e dias de -melancolia no fundo d'um coup, quando nas avenidas do Bois, sob um co -pardo e elegante, silenciosamente cahem as primeiras neves. - ---At logo, Zizi--gritou Jorge do corredor, ao sahir. - ---Olha! - -Elle veio, com a bengala debaixo do brao, apertando as luvas. - ---No appareas muito tarde, hein? Escuta, traze-me uns bolos do -Baltresqui para a D. Felicidade. Ouve. V se passas pela madame -Franois que me mande o chapo. Escuta. - ---Que mais, bom Deus? - ---Ah! no! Era para ires pelo livreiro que me mande mais romances... -Mas est fechado! - - - -Foi com duas lagrimas a tremer-lhe nas palpebras que acabou as paginas -da _Dama das Camelias_. E estendida na _voltaire_, com o livro cahido -no regao, fazendo recuar a pellicula das unhas, pz-se a cantar -baixinho, com ternura, a aria final da _Traviata_: - - Addio, del passato... - -Lembrou-lhe de repente a noticia do jornal, a chegada do primo -Bazilio... - -Um sorriso vagaroso dilatou-lhe os beicinhos vermelhos e cheios.--Fra -o seu primeiro namoro, o primo Bazilio! Tinha ella ento 18 annos! -Ninguem o sabia, nem Jorge, nem Sebastio... - -De resto fra uma criancice: ella mesmo, s vezes, ria, recordando -as pieguices ternas d'ento, certas lagrimas exageradas! Devia estar -mudado o primo Bazilio. Lembrava-se bem d'elle--alto, delgado, um -ar fidalgo, o pequenino bigode preto levantado, o olhar atrevido, e -um geito de metter as mos nos bolsos das calas fazendo tilintar -o dinheiro e as chaves! _Aquillo_ comera em Cintra, por grandes -partidas de bilhar muito alegres, na quinta do tio Joo de Brito, -em Collares. Bazilio tinha chegado ento d'Inglaterra: vinha muito -_bife_, usava gravatas escarlates passadas n'um annel d'ouro, fatos -de flanella branca, espantava Cintra! Era na sala de baixo pintada a -oca, que tinha um ar antigo e morgado; uma grande porta envidraada -abria para o jardim, sobre tres degraus de pedra. Em roda do repuxo -havia romanzeiras, onde elle apanhava flres escarlates. A folhagem -verde-escura e polida dos arbustos de camelias fazia ruasinhas -sombrias; pedaos de sol faiscavam, tremiam na agua do tanque; duas -rlas, n'uma gaiola de vime, arrulhavam dcemente;--e, no silencio -aldeo da quinta, o ruido secco das bolas de bilhar tinha um tom -aristocratico. - -Depois, vieram todos os episodios classicos dos amores lisboetas -passados em Cintra: os passeios em Sitiaes ao luar, devagar, -sobre a relva pallida, com grandes descanos calados no Penedo da -Saudade, vendo o valle, as aras ao longe, cheias d'uma luz saudosa, -idealisadora e branca; as sstas quentes, nas sombras da Penha Verde, -ouvindo o rumor fresco e gottejante das aguas que vo de pedra em -pedra; as tardes na varzea de Collares, remando n'um velho bote, sobre -a agua escura da sombra dos freixos,--e que risadas quando iam encalhar -nas hervagens altas, e o seu chapo de palha se prendia aos ramos -baixos dos choupos! - -Sempre gostra muito de Cintra! Logo ao entrar os arvoredos escuros e -murmurosos do Ramalho lhe davam uma melancolia feliz! - -Tinham muita liberdade, ella e o primo Bazilio. A mam, coitadinha, -toda scismatica, com rheumatismo, egoista, deixava-os, sorria, -dormitava: Bazilio era rico, ento, chamava-lhe tia Jj, trazia-lhe -cartuchos de dce... - -Veio o inverno, e aquelle amor foi-se abrigar na velha sala forrada -de papel _sangue-de-boi_ da rua da Magdalena. Que bons seres alli! A -mam resonava baixo, com os ps embrulhados n'uma manta, o volume da -_Bibliotheca das Damas_ cahido sobre o regao. E elles, muito chegados, -muito felizes no soph! O _soph_! Quantas recordaes! Era estreito e -baixo, estofado de casimira clara, com uma tira ao centro, bordada por -ella, amores perfeitos amarellos e roxos sobre um fundo negro. Um dia -veio o _final_. Joo de Brito, que fazia parte da firma Bastos & Brito, -falliu. A casa d'Almada, a quinta de Collares foram vendidas. - -Bazilio estava pobre, partiu para o Brazil. Que saudades! Passou -os primeiros dias sentada no soph querido, soluando baixo, com a -photographia d'elle entre as mos. Vieram ento os sobresaltos das -cartas esperadas, os recados impacientes ao escriptorio da Companhia, -quando os paquetes tardavam... - -Passou um anno. Uma manh, depois d'um grande silencio de Bazilio, -recebeu da Bahia uma longa carta, que comeava: Tenho pensado muito e -entendo que devemos considerar a nossa inclinao como uma criancice... - -Desmaiou logo. Bazilio affectava muita dr em duas laudas cheias -d'explicaes: que estava ainda pobre; que teria de luctar muito antes -de ter para dous; o clima era horrivel; no a queria sacrificar, pobre -anjo; chamava-lhe minha pomba e assignava o seu nome todo, com uma -firma complicada. - -Viveu triste durante mezes. Era no inverno; e sentada janella, por -dentro dos vidros, com o seu bordado de l, julgava-se desilludida, -pensava no convento, seguindo com um olhar melancolico os guarda-chuvas -gottejantes que passavam sob as cordas d'agua; ou sentando-se ao piano, -ao anoitecer, cantava Soares de Passos: - - Ai! adeus, acabaram-se os dias - Que ditoso vivi a teu lado... - -ou o final da _Traviata_, ou o fado do Vimioso, muito triste, que elle -lhe ensinra. - -Mas ento o catarrho da mam aggravou-se; vieram os sustos, as noites -veladas. Na convalescena foram para Bellas: ligou-se alli muito com -as Cardosos, duas irms magras, estouvadas e esguias, sempre colladas -uma outra, com um passinho trotado e secco, como um casal de galgos. -O que riam, Jesus! O que fallavam dos homens! Um tenente de artilheria -tinha-se apaixonado por ella. Era vesgo, mandou-lhe uns versos, _Ao -Lyrio de Bellas_: - - Sobre a encosta da collina - Cresce o lyrio virginal... - -Foi um tempo muito alegre, cheio de consolaes. - -Quando voltaram no inverno tinha engordado, trazia boas cres. E um -dia, tendo achado n'uma gaveta uma photographia que logo ao principio -Bazilio lhe mandra da Bahia, de cala branca e chapo _panam_, -fitou-a, encolhendo os hombros: - ---E o que eu me ralei por esta figura! Que tla! - -Tinham passado tres annos quando conheceu Jorge. Ao principio no lhe -agradou. No gostava dos homens barbados: depois percebeu que era a -primeira barba, fina, rente, muito macia de certo; comeou a admirar -os seus olhos, a sua frescura. E sem o amar, sentia ao p d'elle como -uma fraqueza, uma dependencia e uma quebreira, uma vontade d'adormecer -encostada ao seu hombro, e de ficar assim muitos annos, confortavel, -sem receio de nada. Que sensao quando elle lhe disse: Vamos casar, -hein! Viu de repente o rosto barbado, com os olhos muito luzidios, -sobre o mesmo travesseiro, ao p do seu! Fez-se escarlate. Jorge -tinha-lhe tomado a mo: ella sentia o calor d'aquella palma larga -penetral-a, tomar posse d'ella: disse que _sim_, ficou como idiota, -e sentia debaixo do vestido de merino dilatarem-se dcemente os seus -seios. Estava noiva, emfim! Que alegria, que descano para a mam! - -Casaram s oito horas, n'uma manh de nevoeiro. Foi necessario -accender luz para lhe pr a cora e o vo de tulle. Todo aquelle dia -lhe apparecia como ennevoado, sem contornos, maneira d'um sonho -antigo--onde destacava a cara balofa e amarellada do padre, e a figura -medonha d'uma velha, que estendia a mo adunca, com uma sofreguido -colerica, empurrando, rogando pragas, quando, porta da igreja, -Jorge commovido distribuia patacos. Os sapatos de setim apertavam-na. -Sentira-se enjoada da madrugada, fra necessario fazer-lhe ch verde -muito forte. E to canada noite n'aquella casa nova, depois de -desfazer os seus bahus!--Quando Jorge apagou a vla, com um sopro -tremulo, SS luminosos faiscavam, corriam-lhe diante dos olhos. - -Mas era o seu marido, era novo, era forte, era alegre: pz-se a -adoral-o. Tinha uma curiosidade constante da sua pessoa e das suas -cousas, mexia-lhe no cabello, na roupa, nas pistolas, nos papeis. -Olhava muito para os maridos das outras, comparava, tinha orgulho -n'elle. Jorge envolvia-a em delicadezas d'amante, ajoelhava-se -aos seus ps, era muito _dengueiro_. E sempre de bom humor, com -muita graa: mas nas cousas da sua profisso ou do seu brio tinha -severidades exageradas, e punha ento nas palavras, nos modos uma -solemnidade carrancuda. Uma amiga d'ella romanesca, que via em tudo -dramas, tinha-lhe dito: homem para te dar uma punhalada. Ella que -no conhecia ainda ento o temperamento placido de Jorge acreditou, -e isso mesmo creou uma exaltao no seu amor por elle. Era o seu -_tudo_,--a sua fora, o seu fim, o seu destino, a sua religio, o -seu homem!--Pz-se a pensar, o que teria succedido se tivesse casado -com o primo Basilio. Que desgraa, hein! Onde estaria? Perdia-se em -supposies d'outros destinos, que se desenrolavam, como pannos de -theatro: via-se no Brazil, entre coqueiros, embalada n'uma rede, -cercada de negrinhos, vendo voar papagaios! - ---Est alli a snr.^a D. Leopoldina--veio dizer Juliana. - -Luiza ergueu-se surprehendida. - ---Hein? A snr.^a D. Leopoldina? Para que mandou entrar? - -Poz-se a abotoar pressa o roupo. Jesus! Olha se Jorge soubesse! Elle -que lhe tinha dito tantas vezes que a no queria em casa! Mas se j -estava na sala, agora, coitada! - ---Est bom, diga-lhe que j vou. - -Era a sua intima amiga. Tinham sido visinhas, em solteiras, na rua -da Magdalena, e estudado no mesmo collegio, Patriarchal, na Rita -Pessoa, a cxa. Leopoldina era a filha unica do visconde de Quebraes, -o devasso, o cachetico, que fra pagem de D. Miguel. Tinha feito -um casamento infeliz com um Joo Noronha, empregado da alfandega. -Chamavam-lhe a Quebraes; chamavam-lhe tambem a Po e queijo. - -Sabia-se que tinha amantes, dizia-se que tinha vicios. Jorge odiava-a. -E dissera muitas vezes a Luiza: Tudo, menos a Leopoldina! - - - -Leopoldina tinha ento vinte e sete annos. No era alta, mas passava -por ser a mulher mais bem feita de Lisboa. Usava sempre os vestidos -muito collados, com uma justeza que accusava, modelava o corpo como uma -pellica, sem largueza de roda, apanhados atraz. Dizia-se d'ella, com -os olhos em alvo: uma estatua, uma Venus! Tinha hombros de modlo, -d'uma redondeza descahida e cheia; sentia-se nos seus seios, mesmo -atravs do corpete, o desenho rijo e harmonioso de duas bellas metades -de limo; a linha dos quadris rica e firme, certos quebrados vibrantes -de cintura faziam voltar os olhares accesos dos homens. A cara era um -pouco grosseira; as asas do nariz tinham uma dilatao carnuda; na -pelle, muito fina, d'um trigueiro quente e crado, havia signaesinhos -desvanecidos d'antigas bexigas. A sua belleza eram os olhos, d'uma -negrura intensa, afogados n'um fluido, muito _quebrados_, com grandes -pestanas. - -Luiza veio para ella com os braos abertos, beijaram-se muito. E -Leopoldina, sentada no soph, enrolando devagarinho a sda clara -do guarda-sol, comeou a queixar-se: Tinha estado adoentada, muito -seccada, com tonturas. O calor matava-a. E que tinha ella feito? -Achava-a mais gorda. - -Como era um pouco curta de vista, para se affirmar piscava ligeiramente -os olhos, descerrando os beios gordinhos, d'um vermelho calido. - ---A felicidade d tudo, at boas cres!--disse, sorrindo. - -O que a trazia era perguntar-lhe a morada da franceza que lhe fazia os -chapos. E ha tanto tempo que a no via, j tinha saudades, tambem! - ---Mas no imaginas! Que calor! Venho morta. - -E deixou-se cahir sobre a almofada do soph, encalmada, com um sorriso -aberto, mostrando os dentes brancos e grandes. - -Luiza disse-lhe a morada da franceza, gabou-lh'a; era barateira e -tinha bom gosto. Como a sala estava escura foi entre-abrir um pouco -as portadas da janella. Os estofos das cadeiras e as bambinellas eram -de reps verde-escuro; o papel e o tapete com desenhos de ramagens -tinham o mesmo tom, e n'aquella decorao sombria destacavam muito--as -molduras douradas e pesadas de duas gravuras (a _Medea_ de Delacroix e -a _Martyr_ de Delaroche), as encadernaes escarlates dos dois vastos -volumes do Dante de G. Dor, e entre as janellas o oval d'um espelho -onde se reflectia um napolitano de _biscuit_ que, na console, danava a -_tarantella_. - -Por cima do soph pendia o retrato da mi de Jorge, a oleo. Estava -sentada, vestida ricamente de preto, direita no seu corpete -espartilhado e secco: uma das mos, d'um livido morto, pousava nos -joelhos sobrecarregada d'anneis; a outra perdia-se entre as rendas -muito trabalhadas d'um mantelete de setim; e aquella figura longa, -macilenta, com grandes olhos carregados de negro, destacava sobre uma -cortina escarlate, corrida em pregas copiosamente quebradas, deixando -vr para alm cos azulados e redondezas d'arvoredos. - ---E teu marido?--perguntou Luiza, vindo sentar-se muito junto de -Leopoldina. - ---Como sempre. Pouco divertido--respondeu, rindo. E, com um ar serio, a -testa um pouco franzida:--Sabes que acabei com o Mendona? - -Luiza fez-se ligeiramente vermelha. - ---Sim? - -Leopoldina deu logo detalhes. - -Era muito indiscreta, fallava muito de si, das suas sensaes, da -sua alcova, das suas contas. Nunca tivera segredos para Luiza; e na -sua necessidade de fazer confidencias, de gozar a admirao d'ella, -descrevia-lhe os seus amantes, as opinies d'elles, as maneiras -d'amar, os _tics_, a roupa, com grandes exageraes! Aquillo era -sempre muito picante, cochichado ao canto d'um soph, entre risinhos: -Luiza costumava escutar, toda interessada, as mas do rosto um pouco -envergonhadas, pasmada, saboreando, com um arzinho beato. Achava to -curioso! - ---D'esta vez que bem posso dizer que me enganei, minha rica -filha!--exclamou Leopoldina erguendo os olhos desoladamente. - -Luiza riu. - ---Tu enganas-te quasi sempre! - -Era verdade! Era infeliz! - ---Que queres tu? De cada vez imagino que uma paixo, e de cada vez me -sahe uma massada! - -E picando o tapete com a ponta da sombrinha: - ---Mas se um dia acerto! - ---V se acertas--disse Luiza.--J tempo! - -s vezes na sua consciencia achava Leopoldina indecente; mas tinha -um fraco por ella: sempre admirra muito a belleza do seu corpo, que -quasi lhe inspirava uma attraco physica. Depois desculpava-a: era to -infeliz com o marido! Ia atraz da Paixo, coitada! E aquella grande -palavra, faiscante e mysteriosa, d'onde a felicidade escorre como a -agua d'uma taa muito cheia, satisfazia Luiza como uma justificao -sufficiente: quasi lhe parecia uma heroina; e olhava-a com espanto como -se consideram os que chegam d'alguma viagem maravilhosa e difficil, -d'episodios excitantes. S no gostava de certo cheiro de tabaco -misturado de _feno_, que trazia sempre nos vestidos. Leopoldina fumava. - ---E que fez elle, o Mendona? - -Leopoldina encolheu os hombros, com um grande tedio: - ---Escreveu-me uma carta muito tla, que a final bem considerado era -melhor que acabasse tudo, porque no estava para se metter em camisa -d'onze varas! Que imbecil! At devo ter aqui a carta. - -Procurou na algibeira do vestido: tirou o leno, uma carteirinha, -chaves, uma caixinha de p de arroz; mas encontrou apenas um programma -do _Price_. - -Fallou ento do circo.--Uma semsaboria. O melhor era um rapaz que -trabalhava no trapezio. Lindo rapaz, bem feito, uma perfeio! - -E de repente: - ---Ento teu primo Bazilio chega? - ---Assim li hoje no _Diario de Noticias_. Fiquei pasmada! - ---Ah! outra cousa que te queria perguntar antes que me esquea. Com que -guarneceste tu aquelle teu vestido de xadrezinho azul? Vou mandar fazer -um assim. - -Tinha-o guarnecido d'azul tambem, um azul mais escuro.--Vem vr. Vem c -dentro. - -Entraram no quarto. Luiza foi descerrar a janella, abrir o -guarda-vestidos. Era um quarto pequeno, muito fresco, com _cretones_ -d'um azul pallido. Tinha um tapete barato, de fundo branco, com -desenhos azulados. O toucador, alto, estava entre as duas janellas, -sob um docel de renda grossa, muito ornado de frascos facetados. Entre -as bambinellas, em mesas redondas de p de gallo, plantas espessas, -Begonias, Makoamas, dobravam decorativamente a sua folhagem rica e -forte, em vasos de barro vermelho vidrado. - -Aquelles arranjos confortaveis lembraram de certo a Leopoldina -felicidades tranquillas. Pz-se a dizer devagar, olhando em roda: - ---E tu, sempre muito apaixonada por teu marido, hein? Fazes bem, filha, -tu que fazes bem! - -Foi defronte do toucador, applicar p d'arroz no pescoo, nas faces: - ---Tu que fazes bem!--repetia--Mas v l uma mulher prender-se a um -homem como o meu! - -Sentou-se na _causeuse_ com um ar muito abandonado; vieram as queixas -habituaes sobre seu marido: era to grosseiro! era to egoista! - ---Acreditars que ha tempos para c, se no estou em casa s quatro -horas, no espera, pe-se mesa, janta, deixa-me os restos! E depois -desleixado, enxovalhado, sempre a cuspir nas esteiras... O quarto -d'elle--ns temos dous quartos, como tu sabes-- um chiqueiro! - -Luiza disse com severidade: - ---Que horror! A culpa tambem tua. - ---Minha!--e endireitou-se, luziam-lhe os olhos, mais largos, mais -negros.--No me faltava mais nada seno occupar-me do quarto do homem! - -Ah! era muito desgraada, era a mulher mais desgraada que havia no -mundo! - ---Nem ciumes tem, o bruto! - -Mas Juliana entrou, tossiu, e arranjando ainda o collar e o broche: - ---A senhora sempre quer que engomme os colletes todos? - ---Todos, j lhe disse. Ho-de ficar noite na mala antes de se ir -deitar. - ---Que mala? Quem parte?--perguntou Leopoldina. - ---O Jorge. Vai s minas, ao Alemtejo. - ---Ento ests s, posso vir vr-te! Ainda bem! - -E sentou-se logo ao p d'ella, com um olhar que se fizera dce. - --- que tenho tanto que te contar! Se tu soubesses, filha! - ---O qu? Outra paixo?--fez Luiza rindo. - -A face de Leopoldina tornou-se grave. - -No era p'ra rir. Estava de todo! Era por isso at que tinha vindo. -Sentira-se to s em casa, to nervosa!--Vou at Luiza, vou palrar um -bocado! - -E com a voz mais baixa, quasi solemne: - ---D'esta vez serio, Luiza!--Deu os detalhes. Era um rapaz alto, -louro, lindo! E que talento! poeta!--Dizia a palavra com devoo, -prolongando o som das syllabas.-- poeta! - -Desapertou devagar dous botes do corpete, tirou do seio um papel -dobrado. Eram versos. - -E muito chegada para Luiza, com as narinas dilatadas pela delicia da -sensao, leu baixo, com orgulho, com pompa: - - -A TI - - _Pharol da Guia, 5 de junho._ - - Quando scismo hora do poente - Sobre os rochedos onde brame o mar... - -Era uma elegia. O rapaz contava, em quadras, as longas contemplaes -em que a via a ella, Leopoldina, _viso radiosa que deslisas leve_, -nas aguas dormentes, nas vermelhides do occaso, na brancura das -espumas. Era uma composio delambida, d'um sentimentalismo reles, com -um ar tisico, muito lisboeta, cheia de versos errados. E terminando -dizia-lhe, que no era nos esplendores das salas ou nos bailes -febricitantes que gostava de a vr: era alli, n'aquelles rochedos, - - Onde todos os dias ao sol posto - Eu vejo adormecer o mar gigante. - ---Que bonito, hein! - -Ficaram caladas, com uma commoosinha. - -Leopoldina, com os olhos perturbados, repetia a data, amorosamente: - ---Pharol da Guia, 5 de junho! - -Mas o relogio do quarto deu quatro horas. Leopoldina ergueu-se logo, -atarantada, metteu o poema no seio. - -Tinha de se ir j! Fazia-se tarde, seno o outro, punha-se mesa. -Tinha um ruivo assado para o jantar. E peixe frio era a cousa mais -estupida! - ---Adeus. At breve, no?--E agora que Jorge ia para fra, havia de vir -muito.--Adeus. Ento a franceza, rua do Ouro, por cima do estanque? - -Luiza foi com ella at ao patamar. Leopoldina j no fundo da escada, -ainda parou, gritou: - ---Sempre te parece que guarnea o vestido d'azul, hein? - -Luiza debruou-se sobre o corrimo: - ---Eu assim fiz, o melhor... - ---Adeus! Rua do Ouro, por cima do estanque. - ---Sim. Rua do Ouro. Adeus.--E com um gritinho:--Porta direita, Madame -Franois. - - - -Jorge voltou s cinco horas, e logo da porta do quarto, pondo a bengala -a um canto: - ---J sei que tiveste c uma visita. - -Luiza voltou-se, um pouco crada. Estava diante do toucador j -penteada, com um vestido de linho branco, guarnecido de rendas. - -Era verdade, tinha vindo a Leopoldina. Juliana mandra-a entrar... -Ficra mais contrariada! Era por causa da _adresse_ da franceza dos -chapos. Tinha-se demorado dez minutos.--Quem te disse? - ---Foi a Juliana: que a snr.^a D. Leopoldina tinha estado toda a tarde. - ---Toda a tarde! que tolice, esteve dez minutos, se tanto! - -Jorge tirava as luvas, calado. Chegou-se janella, pz-se a sacudir -as duras folhas d'uma Begonia malhada d'um vermelho doente, com uma -baba prateada. Assobiava baixo; e parecia todo occupado em conchegar -um boto d'Amarilis aninhado entre a sua folhagem luzidia, como um -pequenino corao assustado. - -Luiza ia passando o seu medalho d'ouro n'uma longa fita de velludo -preto: tinha uma tremura nas mos, estava vermelha. - ---O calor tem-lhes feito mal--disse. - -Jorge no respondeu. Assobiou mais alto, foi outra janella, bateu -com os dedos nas folhas elasticas d'uma Makoama de tons verdes e -sanguineos, e, alargando impacientemente o collarinho como um homem -suffocado: - ---Ouve l, necessario que deixes por uma vez de receber essa -creatura. necessario acabar por uma vez! - -Luiza fez-se escarlate. - --- por causa de ti! por causa dos visinhos! por causa da decencia! - ---Mas foi a Juliana...--balbuciou Luiza. - ---Mandasse-l'a sahir outra vez. Que estavas fra! que estavas na China! -que estavas doente! - -Parou, com um tom desconsolado, abrindo os braos: - ---Minha rica filha, que todo o mundo a conhece. a Quebraes! a -_Po e queijo_! uma vergonha! - -Citava-lhe os seus amantes, exasperado: O Carlos Viegas, o magro, de -bigode cahido, que escrevia comedias para o Gymnasio! O Santos Madeira, -o picado das bexigas, com uma gaforinha! O Melchior Vadio, um _gingo_ -desossado, com um olhar de carneiro morto, sempre a fumar n'uma enorme -boquilha! O Pedro Camara, o bonito! O Mendona dos callos! _Tutti -quanti!_ - -E encolhendo os hombros, exasperado: - ---Como se eu no percebesse que ella esteve aqui! S pelo cheiro! Este -horrivel cheiro de feno! Vosss foram creadas juntas, etc., tudo isso - muito bom. Has-de desculpar, mas se a encontro na escada, corro-a! -Corro-a! - -Parou um momento, e commovido: - ---Ora, vamos, Luiza, confessa. Tenho ou no razo? - -Luiza punha os brincos, ao espelho, atarantada: - ---Tens--disse. - ---Ah! bem! - -E sahiu, furioso. - -Luiza ficou immovel. Uma lagrimasinha redonda, clara, rolava-lhe pela -aza do nariz. Assoou-se muito doloridamente. Aquella Juliana! Aquella -bisbilhoteira! De m! Para fazer sizania! - -Veio-lhe ento uma colera. Foi ao quarto dos engommados, atirou com a -porta: - ---Para que foi voss dizer quem esteve ou quem deixou d'estar? - -Juliana, muito surprehendida, pousou o ferro: - ---Pensei que no era segredo, minha senhora. - ---Est claro que no! Tola! quem lhe diz que era segredo? E para que -mandou entrar? No lhe tenho dito muitas vezes que no recebo a snr.^a -D. Leopoldina? - ---A senhora nunca me disse nada--replicou, toda offendida, cheia de -verdade. - ---Mente! Cale-se! - -Voltou-lhe as costas; veio para o quarto, muito nervosa, foi -encostar-se vidraa. - -O sol desapparecera; na rua estreita havia uma sombra igual, de tarde -sem vento: pelas casas, de uma edificao velha, escuras, estavam -abertas as varandas onde em vasos vermelhos se mirrava alguma velha -planta miseravel, manjarico ou cravo; ouvia-se, no teclado melancolico -d'um piano, a _Orao de uma virgem_, tocada por alguma menina, no -sentimentalismo vadio do domingo; e na sua janella, defronte, as quatro -filhas do Teixeira Azevedo, magrinhas, com os cabellos muito riados, -as olheiras pisadas, passavam a sua tarde de dia santo, olhando para a -rua, para o ar, para as janellas visinhas, cochichando se viam passar -um homem--ou debruadas, com uma atteno idiota, faziam pingar saliva -sobre as pedras da calada. - -Jorge tinha razo, coitado! pensava Luiza. Mas, tambem, que podia ella -fazer? J no ia a casa de Leopoldina, tirra o seu retrato do album -da sala, vira-se obrigada a confessar-lhe a repugnancia de Jorge, -tinham chorado ambas, at! Coitada! S a recebia de longe a longe, uma -raridade, um momento! E emfim, depois d'ella estar na sala, no a havia -d'ir empurrar pela escada abaixo! - -Um homem grosso, de pernas tortas, curvado sob um realejo, appareceu -ento ao alto da rua; as suas barbas pretas tinham um aspecto feroz; -parou, poz-se a voltear a manivella, levantando em redor, para as -janellas, um sorriso triste de dentes brancos, e a _Casta Diva_! com -uma sonoridade metallica e secca, muito tremida, espalhou-se pela rua. - -Gertrudes, a criada e a concubina do doutor de mathematica, veio -encostar logo aos caixilhos estreitos da janella a sua vasta face -trigueira de quarentona farta e estabelecida; adiante, na sacada -aberta d'um segundo andar, debruou-se a figura do Cunha Rosado, magro -e chupado, com um bon de borla, o aspecto desconsolado do doente -d'intestinos, conchegando com as mos transparentes o robe-de-chambre -ao ventre. Outras faces enfastiadas mostraram-se entre as bambinellas -de caa. - -Na rua, a estanqueira chegou-se porta, vestida de luto, estendendo -o seu caro viuvo, os braos cruzados sobre o chale tingido de preto, -esguia nas longas saias escoadas. Da loja, por baixo da casa Azevedo, -veio a carvoeira, enorme de gravidez bestial, o cabello esguedelhado -em repas seccas, a cara oleosa e enfarruscada, com tres pequenos meio -ns, quasi negros, chores e hirsutos, que se lhe penduravam da saia -de chita. E o Paula, com loja de trastes velhos, adiantou-se at ao -meio da rua; a pala de verniz do seu bon de pano preto nunca se -erguia de cima dos olhos; escondia sempre as mos, como para ser mais -reservado, por traz das costas, debaixo das abas do seu casaco de -cotim branco; o calcanhar sujo da meia sahia-lhe para fra da chinella -bordada a missanga; e fazia roncar o seu pigarro chronico de um modo -despeitado. Detestava os reis e os padres. O estado das cousas publicas -enfurecia-o. Assobiava frequentemente a _Maria da Fonte_; e mostrava-se -nas suas palavras, nas suas attitudes, um patriota exasperado. - -O homem do realejo tirou o seu largo chapo desabado e, tocando sempre, -ia-o estendendo em redor para as janellas, com um olhar necessitado. -As Azevedos tinham logo fechado violentamente a vidraa. A carvoeira -deu-lhe uma moeda de cobre; mas interrogou-o; quiz de certo saber de -que paiz era, por que estradas tinha vindo, e quantas peas tinha o -instrumento. - -Gente endomingada comeava a recolher, com um ar derreado do longo -passeio, as botas empoeiradas: mulheres de chale, vindas das hortas, -traziam ao collo as crianas adormecidas da caminhada e do calor: -velhos placidos, de cala branca, o chapo na mo, gozavam a frescura, -dando um giro no bairro: pelas janellas, bocejava-se: o co tomava -uma cr azulada e polida, como uma porcelana: um sino repicava a -distancia o fim d'alguma festa d'igreja: e o domingo terminava, com uma -serenidade canada e triste. - ---Luiza--disse a voz de Jorge. - -Ella voltou-se, com um vago--hein? - ---Vamos jantar, filha; so sete horas. - -No meio do quarto, tomou-a pela cinta, e fallando-lhe baixo, junto -face: - ---Tu zangaste-te ha bocado? - ---No! Tu tens razo. Conheo que tens razo. - ---Ah!--fez elle com um tom victorioso, muito satisfeito.--Est claro, - - Quem melhor conselheiro e bom amigo - Que o marido que a alma m'escolheu? - -E com uma ternura grave: - ---Minha querida filha, esta nossa casinha to honesta, que uma dr -d'alma vr entrar essa mulher aqui, com o cheiro do _feno_, do cigarro, -e do resto!... _M, di questo no parlaremo pi, o donna mia!_ sopa! - - - - -II - - -Aos domingos noite havia em casa de Jorge uma pequena reunio, uma -_cavaqueira_, na sala, em redor do velho candieiro de porcelana cr de -rosa. Vinham apenas os intimos. O Engenheiro, como se dizia na rua, -vivia muito ao seu canto, sem visitas. Tomava-se ch, palrava-se. Era -um pouco _ estudante_. Luiza fazia crochet, Jorge cachimbava. - -O primeiro a chegar era Julio Zuzarte, um parente muito afastado de -Jorge, e seu antigo condiscipulo nos primeiros annos da Polytechnica. -Era um homem secco e nervoso, com lunetas azues, os cabellos compridos -cahidos sobre a gola. Tinha o curso de cirurgio da Escla. Muito -intelligente, estudava desesperadamente, mas, como elle dizia, era -um _tumba_. Aos trinta annos, pobre, com dividas, sem clientella, -comeava a estar farto do seu quarto andar na Baixa, dos seus jantares -de doze vintens, do seu paletot coado d'alamares; e entalado na -sua vida mesquinha, via os outros, os mediocres, os superficiaes, -_furar_, subir, installar-se larga na prosperidade! Falta de -_chance_, dizia. Podia ter aceitado um partido da camara n'uma villa -da provincia, com pulso livre, ter uma casa _sua_, a _sua_ creao no -quintal. Mas tinha um orgulho resistente, muita f nas suas faculdades, -na sua sciencia, e no se queria ir enterrar n'uma terriola adormecida -e lugubre, com tres ruas onde os porcos fossam. Toda a provincia o -aterrava; via-se l obscuro, jogando a manilha na Assembla, morrendo -de cachexia. Por isso no arredava p; e esperava, com a tenacidade -do plebeu sofrego, uma clientella rica, uma cadeira na Escla, um -coup para as visitas, uma mulher loura com dote. Tinha certeza do -seu direito a estas felicidades, e como ellas tardavam a chegar ia-se -tornando despeitado e amargo; andava amuado com a vida; cada dia se -prolongavam mais os seus silencios hostis, roendo as unhas: e, nos dias -melhores, no cessava de ter ditos sccos, _tiradas_ azedadas--em que a -sua voz desagradavel cahia como um gume gelado. - -Luiza no gostava d'elle; achava-lhe um _ar nordeste_, detestava o seu -tom de pedagogo, os reflexos negros da luneta, as calas curtas que -mostravam o elastico roto das botas. Mas disfarava, sorria-lhe, porque -Jorge admirava-o, dizia sempre d'elle: Tem muito espirito! tem muito -talento! grande homem! - -Como vinha mais cedo ia sala de jantar, tomava a sua chavena de caf; -e tinha sempre um olhar de lado para as pratas do aparador e para as -_toilettes_ frescas de Luiza. Aquelle parente, um _mediocre_, que -vivia confortavelmente, bem casado, com a carne contente, estimado no -ministerio, com alguns contos de reis em inscripes--parecia-lhe uma -injustia e pezava-lhe como uma humilhao. Mas affectava estimal-o; ia -sempre s noites, aos domingos; escondia ento as suas preoccupaes, -cavaqueava, tinha pilherias,--mettendo a cada momento os dedos pelos -seus cabellos compridos, seccos e cheios de caspa. - -s nove horas, ordinariamente, entrava D. Felicidade de Noronha. Vinha -logo da porta com os braos estendidos, o seu bom sorriso dilatado. -Tinha cincoenta annos, era muito nutrida, e, como soffria de dyspepsia -e de gazes, quella hora no se podia espartilhar e as suas frmas -transbordavam. J se viam alguns fios brancos nos seus cabellos -levemente annelados, mas a cara era lisa e redonda, cheia, d'uma alvura -baa e molle de freira; nos olhos papudos, com a pelle j engelhada em -redor, luzia uma pupilla negra e humida, muito mobil; e aos cantos da -bocca uns pellos de buo pareciam traos leves e circumflexos d'uma -penna muito fina. Fra a intima amiga da mi de Luiza, e tomra aquelle -habito de vir vr a _pequena_ aos domingos. Era fidalga, dos Noronhas -de Redondella, bastante aparentada em Lisboa, um pouco devota, muito da -Encarnao. - -Mal entrava, ao pr um beijo muito cantado na face de Luiza, -perguntava-lhe baixo, com inquietao: - ---Vem? - ---O conselheiro? Vem. - -Luiza sabia-o. Porque o conselheiro, o conselheiro Accacio, nunca -vinha aos _chs de D. Luiza_, como elle dizia, sem ter ido na vespera -ao ministerio das obras publicas procurar Jorge, declarar-lhe com -gravidade, curvando um pouco a sua alta estatura: - ---Jorge, meu amigo, manh l irei pedir a sua boa esposa a minha -chavena de ch. - -Ordinariamente acrescentava: - ---E os seus valiosos trabalhos progridem? Ainda bem! Se vir o ministro, -os meus respeitos a s. exc.^a Os meus respeitos a esse formoso talento! - -E sahia, pisando com solemnidade os corredores enxovalhados. - -Havia cinco annos que D. Felicidade o amava. Em casa de Jorge riam-se -um pouco com aquella _chamma_. Luiza dizia: Ora! uma caturrice -d'ella! Viam-na crada e nutrida, e no suspeitavam que aquelle -sentimento concentrado, irritado semanalmente, queimando em silencio, -a ia devastando como uma doena e desmoralisando como um vicio. Todos -os seus ardores at ahi tinham sido inutilisados. Amra um official de -lanceiros que morrra, e apenas conservava o seu daguerreotypo. Depois -apaixonra-se muito occultamente por um rapaz padeiro, da visinhana, -e vira-o casar. Dera-se ento toda a um co, o _Bilro_; uma criada -despedida deu-lhe por vingana rolha cozida; o _Bilro_ rebentou, e -tinha-o agora empalhado na sala de jantar. A pessoa do conselheiro -viera de repente, um dia, pegar fogo quelles desejos, sobrepostos -como combustiveis antigos. Accacio tornra-se a sua _mania_: admirava -a sua figura e a sua gravidade, arregalava grandes olhos para a sua -eloquencia, achava-o n'uma linda posio. O conselheiro era a sua -ambio e o seu vicio! Havia sobretudo n'elle uma belleza, cuja -contemplao demorada a estonteava como um vinho forte: era a calva. -Sempre tivera o gosto perverso de certas mulheres pela calva dos -homens, e aquelle appetite insatisfeito inflammra-se com a idade. -Quando se punha a olhar para a calva do conselheiro, larga, redonda, -polida, brilhante s luzes, uma transpirao anciosa humedecia-lhe -as costas, os olhos dardejavam-lhe, tinha uma vontade absurda, avida -de lhe deitar as mos, palpal-a, sentir-lhe as frmas, amassal-a, -penetrar-se d'ella! Mas disfarava, punha-se a fallar alto com um -sorriso parvo, abanava-se convulsivamente, e o suor gottejava-lhe nas -rscas anafadas do pescoo. Ia para casa rezar estaes, impunha-se -penitencias de muitas coras Virgem; mas apenas as oraes findavam, -comeava o temperamento a latejar. E a boa, a pobre D. Felicidade -tinha agora pesadlos lascivos, e as melancolias do hysterismo velho! -A indifferena do conselheiro irritava-a mais: nenhum olhar, nenhum -suspiro, nenhuma revelao amorosa o commovia! Era para com ella -glacial e polido. Tinham-se s vezes encontrado a ss, parte, no -vo favoravel d'uma janella, no isolamento mal alumiado d'um canto -do soph,--mas apenas ella fazia uma demonstrao sentimental, elle -erguia-se bruscamente, afastava-se, severo e pudico. Um dia ella -julgra perceber que, por traz das suas lunetas escuras, o conselheiro -lhe deitava de revs um olhar apreciador para a abundancia do seio; -fra mais clara, mais urgente, fallra em _paixo_, disse-lhe baixo: -Accacio!... Mas elle com um gesto gelou-a--e de p, grave: - ---Minha senhora, - - As neves que na fronte se accumulam - Terminam por cahir no corao... - - inutil, minha senhora! - -O martyrio de D. Felicidade era muito occulto, muito disfarado; -ninguem o sabia; conheciam-lhe as infelicidades do sentimento, -ignoravam-lhe as torturas do desejo. E um dia Luiza ficou attonita, -sentindo D. Felicidade agarrar-lhe o pulso com a mo humida, e -dizer-lhe baixo, os olhos cravados no conselheiro: - ---Que regalo d'homem! - -Fallava-se n'essa noite do Alemtejo, d'Evora e das suas riquezas, da -capella dos ossos, quando o conselheiro entrou com o paletot no brao. -Foi-o dobrar solicitamente n'uma cadeira a um canto, e no seu passo -aprumado e official, veio apertar as mos ambas de Luiza, dizendo-lhe -com uma voz sonora, de _papo_: - ---Minha boa snr.^a D. Luiza, de perfeita saude, no? O nosso Jorge -tinha-m'o dito. Ainda bem! Ainda bem! - -Era alto, magro, vestido todo de preto, com o pescoo entalado n'um -collarinho direito. O rosto aguado no queixo ia-se alargando at -calva, vasta e polida, um pouco amolgada no alto; tingia os cabellos -que d'uma orelha outra lhe faziam collar por traz da nuca--e aquelle -preto lustroso dava, pelo contraste, mais brilho calva; mas no -tingia o bigode: tinha-o grisalho, farto, cahido aos cantos da bocca. -Era muito pallido; nunca tirava as lunetas escuras. Tinha uma covinha -no queixo, e as orelhas grandes muito despegadas do craneo. - -Fra, outr'ora, director geral do ministerio do reino, e sempre que -dizia--El-rei! erguia-se um pouco na cadeira. Os seus gestos eram -medidos, mesmo a tomar rap. Nunca usava palavras triviaes; no dizia -_vomitar_, fazia um gesto indicativo e empregava _restituir_. Dizia -sempre o nosso Garrett, o nosso Herculano. Citava muito. Era author. -E sem familia, n'um terceiro andar da rua do Ferregial, amancebado -com a criada, occupava-se d'economia politica: tinha composto os -Elementos genericos da sciencia da riqueza e sua distribuio, _segundo -os melhores authores_, e como sub-titulo: _Leituras do sero!_ Havia -apenas mezes publicra a Relao de todos os ministros d'estado desde -o grande marquez de pombal at nossos dias, com datas cuidadosamente -averiguadas de seus nascimentos e obitos. - ---J esteve no Alemtejo, conselheiro?--perguntou-lhe Luiza. - ---Nunca, minha senhora--e curvou-se.--Nunca! E tenho pena! sempre -desejei l ir, porque me dizem que as suas curiosidades so de primeira -ordem. - -Tomou uma pitada d'uma caixa dourada, entre os dedos, delicadamente, e -acrescentou com pompa: - ---De resto, paiz de grande riqueza suina! - --- Jorge, averigua quanto o partido da camara em Evora--disse Julio -do canto do soph. - -O conselheiro acudiu, cheio de informaes, com a pitada suspensa: - ---Devem ser seiscentos mil reis, snr. Zuzarte, e pulso livre. Tenho-o -nos meus apontamentos. Porqu, snr. Zuzarte, quer deixar Lisboa? - ---Talvez!... - -Todos desapprovaram. - ---Ah! Lisboa sempre Lisboa!--suspirou D. Felicidade. - ---Cidade de marmore e de granito, na phrase sublime do nosso grande -historiador!--disse solemnemente o conselheiro. - -E sorveu a pitada com os dedos abertos em leque, magros, bem tratados. - -D. Felicidade disse ento: - ---Quem no era capaz de deixar Lisboa, nem mo de Deus Padre, era o -conselheiro! - -O conselheiro, voltando-se vagarosamente para ella, um pouco curvado, -replicou: - ---Nasci em Lisboa, D. Felicidade, sou lisboeta d'alma! - ---O conselheiro--lembrou Jorge--nasceu na rua de S. Jos. - ---Numero setenta e cinco, meu Jorge. Na casa pegada quella em que -viveu, at casar, o meu prezado Geraldo, o meu pobre Geraldo! - -Geraldo, o seu pobre Geraldo, era o pai de Jorge. Accacio fra o seu -intimo. Eram visinhos. Accacio tocava ento rebeca, e, como Geraldo -tocava flauta, faziam duos, pertenciam mesmo Philarmonica da rua de -S. Jos. Depois Accacio, quando entrou nas reparties do Estado, por -escrupulo e por dignidade, abandonou a rebeca, os sentimentos ternos, -os seres joviaes da Philarmonica. Entregou-se todo estatistica. Mas -conservou-se muito leal a Geraldo; continuou mesmo a Jorge aquella -amizade vigilante; fra padrinho do seu casamento, vinha vl-o todos os -domingos, e, no dia de seus annos, mandava-lhe pontualmente, com uma -carta de felicitaes, uma lampreia d'ovos. - ---Aqui nasci--repetiu, desdobrando o seu bello leno de sda da -India--e aqui conto morrer. - -E assoou-se discretamente. - ---Isso ainda vem longe, conselheiro! - -Elle disse, com uma melancolia grave: - ---No me arreceio d'_ella_, meu Jorge. At j fiz construir, sem -vacillar, no Alto de S. Joo, a minha ultima morada. Modesta, mas -decente. ao entrar, no arruamento direita, n'um lugar abrigado, ao -p da choa dos Verissimos amigos. - ---E j compoz o seu epitaphio, snr. conselheiro?--perguntou Julio, do -canto, ironico. - ---No o quero, snr. Zuzarte. Na minha sepultura no quero elogios. -Se os meus amigos, os meus patricios entenderem que eu fiz alguns -servios, teem outros meios para os commemorar; l teem a imprensa, -o communicado, o necrologio, a poesia mesmo! Por minha vontade quero -apenas sobre a lapide lisa, em letras negras, o meu nome--com a minha -designao de conselheiro--a data do meu nascimento e a data do meu -obito. - -E com um tom demorado, de reflexo: - ---No me opponho todavia a que inscrevam por baixo, em letras menores: -_Orai por elle!_ - -Houve um silencio commovido, e porta uma voz fina, disse: - ---Do licena? - ---Oh Ernestinho!--exclamou Jorge. - -Com um passo miudinho e rapido, Ernestinho veio abraal-o pela cintura: - ---Eu soube que tu que partias, primo Jorge... Como est, prima Luiza? - -Era primo de Jorge. Pequenino, lymphatico, os seus membros franzinos, -ainda quasi tenros, davam-lhe um aspecto debil de collegial; o buo, -delgado, empastado em cra-mostache, arrebitava-se aos cantos em pontas -afiadas como agulhas; e na sua cara chupada, os olhos repolhudos -amorteciam-se com um quebrado langoroso. Trazia sapatos de verniz com -grandes laos de fita; sobre o collete branco, a cada do relogio -sustentava um medalho enorme, d'ouro, com fructos e flres esmaltadas -em relevo. Vivia com uma actrizita do Gymnasio, uma magra, cr de -melo, com o cabello muito riado, o ar tisico,--e escrevia para o -theatro. Tinha traduces, dous originaes n'um acto, uma comedia em -_calembourgs_. Ultimamente trazia em ensaios nas Variedades uma obra -consideravel, um drama em cinco actos, a _Honra e Paixo_. Era a sua -estreia sria. E desde ento, viam-no sempre muito atarefado, os bolsos -inchados de manuscriptos, com localistas, com actores, muito prodigo -de cafs e de _cognacs_, o chapo ao lado, descrado, e dizendo a -todos: Esta vida, mata-me! Escrevia todavia por paixo entranhada pela -Arte--porque era empregado na alfandega, com bom vencimento, e tinha -quinhentos mil reis de renda das suas inscripes. A Arte mesmo, dizia, -obrigava-o a desembolsos: para o acto do baile da _Honra e Paixo_ -mandra fazer, sua custa, botas de verniz para o _galan_, botas de -verniz para o _pai-nobre_! O seu nome de familia era Ledesma. - -Deram-lhe um lugar, e Luiza notou logo, pousando o bordado, que estava -abatido! Queixou-se ento das suas fadigas: os ensaios arrazavam-no, -tinha turras com o empresario: na vespera, vira-se forado a refazer -todo o final d'um acto! todo! - ---E tudo isto--acrescentou muito exaltado--porque um pelintra, um -parvo, e quer que se passe n'uma sala, o acto que se passava n'um -abysmo! - ---N'um qu?--perguntou surprehendida D. Felicidade. - -O conselheiro, muito cortez, explicou: - ---N'um abysmo, D. Felicidade, n'um despenhadeiro. Tambem se diz, em bom -vernaculo, um _vortice_.--Citou: _N'um espumoso vortice se arroja..._ - ---N'um abysmo?--perguntaram.--Porqu? - -O conselheiro quiz conhecer o _lance_. - -Ernestinho, radioso, esboou largamente o enredo:--Era uma mulher -casada. Em Cintra tinha-se encontrado com um homem fatal, o conde de -Monte-Redondo. O marido arruinado, devia cem contos de reis ao jogo! -Estava deshonrado, ia ser preso. A mulher, louca, corre a umas ruinas -acastelladas, onde habita o conde, deixa cahir o vo, conta-lhe a -catastrophe. O conde lana o seu manto aos hombros, parte, chega no -momento em que os beleguins vo levar o homem.-- uma scena muito -commovente, dizia, de noite, ao luar!--O conde desembua-se, atira -uma bolsa d'ouro aos ps dos beleguins, gritando-lhes: Saciai-vos, -abutres!... - ---Bello final!--murmurou o conselheiro. - ---Emfim--acrescentou Ernesto, resumindo--aqui ha um enredo complicado: -o conde de Monte-Redondo e a mulher amam-se, o marido descobre, -arremessa todo o seu ouro aos ps do conde, e mata a esposa. - ---Como?--perguntaram. - ---Atira-a ao abysmo. no quinto acto. O conde v, corre, atira-se -tambem. O marido cruza os braos, e d uma gargalhada infernal. Foi -assim que eu imaginei a cousa! - -Calou-se, offegante: e, abanando-se com o leno, rolava em redor os -seus olhos langorosos, prateados como os d'um peixe morto. - --- uma obra de cunho, embatem-se grandes paixes!--disse o -conselheiro, passando as mos sobre a calva.--Os meus parabens, snr. -Ledesma! - ---Mas que quer o empresario?--perguntou Julio, que escutra de p, -attonito--que quer elle? Quer o abysmo n'um primeiro andar, mobilado -pelo Gard? - -Ernestinho voltou-se, muito affectuosamente: - ---No, snr. Zuzarte,--a sua voz era quasi meiga--quer o desfecho n'uma -sala. De modo que eu--e fazia um gesto resignado--a gente tem de -condescender, tive d'escrever outro final. Passei a noite em claro. -Tomei tres chavenas de caf!... - -O conselheiro acudiu, com a mo espalmada: - ---Cuidado, snr. Ledesma, cuidado! Prudencia com esses excitantes! Por -quem , prudencia! - ---A mim no me faz mal, snr. conselheiro--disse sorrindo.--Escrevi-o em -tres horas! Venho de lh'o mostrar agora. At o tenho aqui... - ---Leia, snr. Ernesto, leia!--exclamou logo D. Felicidade. - -Que lsse! que lsse! porque no lia? - -Era uma massada!... Era um rascunho!... Emfim, como queriam!... E -radiante desdobrou, no silencio, uma grande folha de papel azul pautado. - ---Eu peo desculpa. Isto um borro. A cousa no est ainda com todos -os FF e RR.--Fez ento voz theatral:--Agatha!... a mulher; isto aqui - a scena com o marido, o marido j sabe tudo... - - -AGATHA (cahindo de joelhos nos ps de Julio) - -Mas mata-me! Mata-me, por piedade! Antes a morte, que vr, com esses -desprezos, o corao rasgado fibra a fibra! - - -JULIO - -E no me rasgaste tu tambem o corao? Tiveste tu piedade? No. -Retalhaste-m'o! Meu Deus, eu que a julgava pura, n'essas horas em que -arrebatados... - -O reposteiro franziu-se. Sentiu-se um fino tilintar de chavenas. Era -Juliana, d'avental branco, com o ch. - ---Que pena!--exclamou Luiza.--Depois do ch se l. Depois do ch. - -Ernesto dobrou o papel, e, com um olhar de lado para Juliana, rancoroso: - ---No vale a pena, prima Luiza! - ---Ora essa! lindo!--affirmou D. Felicidade. - -Juliana pousava sobre a mesa o prato das fatias, os biscoutos d'Oeiras, -os bolos do Cc. - ---Aqui tem o seu ch fraco, conselheiro--dizia Luiza.--Sirva-se, -Julio. As torradas ao snr. Julio! Mais assucar! Quem quer? Uma -torrada, conselheiro? - ---Estou amplamente servido, minha prezada senhora--replicou, -curvando-se. - -E declarou, voltado para Ernestinho, que achava o dialogo opulento. - -Mas, perguntaram, o que quer o empresario mais agora? J tem a sala... - -Ernestinho, de p, excitado, com um bolo d'ovos na ponta dos dedos, -explicou: - ---O que o empresario quer que o marido lhe perde... - -Foi um espanto: - ---Ora essa! extraordinario! Porque? - ---Ento!--exclamou Ernestinho, encolhendo os hombros,--diz que o -publico que no gosta! Que no so cousas c para o nosso paiz. - ---A fallar a verdade--disse o conselheiro--a fallar a verdade, snr. -Ledesma, o nosso publico no geralmente affecto a scenas de sangue. - ---Mas no ha sangue, snr. conselheiro!--protestava Ernestinho, -erguendo-se sobre os bicos dos sapatos--mas no ha sangue! com um -tiro. com um tiro pelas costas, snr. conselheiro! - -Luiza fez a D. Felicidade--_pst!_ e, n'um parte, com um sorriso: - ---D'esses bolinhos d'ovos. So muito frescos! - -Ella respondeu, com uma voz lamentosa: - ---Ai, filha, no! - -E indicou o estomago, compungidamente. - -No entanto o conselheiro aconselhava a Ernestinho a clemencia: -tinha-lhe posto a mo no hombro paternalmente, e com uma voz persuasiva: - ---D mais alegria pea, snr. Ledesma. O espectador sahe mais -alliviado! Deixe sahir o espectador alliviado! - ---Mais um bolinho, conselheiro? - ---Estou repleto, minha prezada senhora. - -E, ento, invocou a opinio de Jorge. No lhe parecia que o bom Ernesto -devia perdoar? - ---Eu, conselheiro? De modo nenhum. Sou pela morte. Sou inteiramente -pela morte! E exijo que a mates, Ernestinho! - -D. Felicidade acudiu, toda bondosa: - ---Deixe fallar, snr. Ledesma. Est a brincar. E elle ento que um -corao d'anjo! - ---Est enganada, D. Felicidade--disse Jorge, de p, diante -d'ella.--Fallo serio e sou uma fera! Se enganou o marido, sou pela -morte. No abysmo, na sala, na rua, mas que a mate. Posso l consentir -que, n'um caso d'esses, um primo meu, uma pessoa da minha familia, -do meu sangue, se ponha a perdoar como um lamecha! No! Mata-a! um -principio de familia. Mata-a quanto antes! - ---Aqui tem um lapis, snr. Ledesma--gritou Julio, estendendo-lhe uma -lapiseira. - -O conselheiro, ento, interveio, grave: - ---No--disse--no creio que o nosso Jorge falle serio. muito -instruido para ter idas to... - -Hesitou, procurou o adjectivo. Juliana poz-se-lhe diante com uma -bandeja, onde um macaco de prata se agachava comicamente, sob um vasto -guarda-sol erriado de palitos. Tomou um, curvou-se, e concluiu: - ---...To anti-civilisadoras. - ---Pois est enganado, conselheiro, tenho-as--affirmou Jorge.--So as -minhas idas. E aqui tem, se em lugar de se tratar d'um final d'acto, -fosse um caso da vida real, se o Ernesto viesse dizer-me: sabes, -encontrei minha mulher... - ---Oh Jorge!--disseram, reprehensivamente. - ---...Bem, supponhamos, se elle m'o viesse dizer, eu respondia-lhe o -mesmo. Dou a minha palavra d'honra, que lhe respondia o mesmo: mata-a! - -Protestaram. Chamaram-lhe _tigre_, _Othello_, _Barba-Azul_. Elle ria, -enchendo muito socegadamente o seu cachimbo. - -Luiza bordava, calada: a luz do candieiro, abatida pelo _abat-jour_, -dava aos seus cabellos tons de um louro quente, resvalava sobre a sua -testa branca como sobre um marfim muito polido. - ---Que dizes tu a isto?--disse-lhe D. Felicidade. - -Ella ergueu o rosto, risonha, encolheu os hombros... - -E o conselheiro logo: - ---A snr.^a D. Luiza diz com orgulho o que dizem as verdadeiras mes de -familia: - - Impurezas do mundo no me roam - Nem a fimbria da tunica sequer. - ---Ora muito boas noites--disse, porta, uma voz grossa. - -Voltaram-se. - - Sebastio! snr. Sebastio! Sebastiarro! - -Era elle, Sebastio, o grande Sebastio, o Sebastiarro, Sebastio -_tronco d'arvore_,--o intimo, o camarada, o _inseparavel_ de Jorge, -desde o latim, na aula de frei Liborio, aos Paulistas. - -Era um homem baixo e grosso, todo vestido de preto, com um chapo molle -desabado na mo. Comeava a perder um pouco na frente, os seus cabellos -castanhos e finos. Tinha a pelle muito branca, a barba alourada e curta. - -Veio sentar-se ao p de Luiza. - ---Ento d'onde vem? d'onde vem? - -Vinha do Price. Rira muito com os palhaos. Houvera a brincadeira da -pipa. - -O seu rosto, em plena luz, tinha uma expresso honesta, simples, -aberta: os olhos pequenos, azues d'um azul claro, d'uma suavidade -sria, adoavam-se muito quando sorria: e os beios escarlates, sem -pelliculas seccas, os dentes luzidios, revelavam uma vida saudavel -e habitos castos. Fallava devagar, baixo, como se tivesse medo de -se manifestar ou de fatigar. Juliana trouxera-lhe a sua chavena, e -remexendo o assucar com a colhr direita, os olhos ainda a rir, um -sorriso bom: - ---A pipa tem muita graa. Muita graa! - -Sorveu um gole de ch e depois d'um momento: - ---E tu, maroto, sempre partes manh? No ha umas tentaesinhas d'ir -por ahi fra com elle, minha cara amiga? - -Luiza sorriu. Tomra ella! Quem dera! Mas era uma jornada to -incommoda! Depois a casa no podia ficar s, no havia que fiar em -criados... - ---Est claro, est claro--disse elle. - -Jorge, ento, que abrira a porta do escriptorio, chamou-o: - --- Sebastio! Fazes favor? - -Elle foi logo com o seu andar pesado, o largo dorso curvado: as abas do -seu casaco mal feito tinham um comprimento ecclesiastico. - -Entraram para o escriptorio. - -Era uma saleta pequena, com uma estante alta e envidraada, tendo -em cima a estatueta de gesso, empoeirada e velha, d'uma bacchante -em delirio. A mesa, com um antigo tinteiro de prata que fra de seu -av, estava ao p da janella: uma colleco empilhada de _Diarios do -Governo_, branquejava a um canto: por cima da cadeira de marroquim -escuro, pendia, n'um caixilho preto, uma larga photographia de Jorge: e -sobre o quadro, duas espadas encruzadas reluziam. Uma porta, no fundo, -coberta com um reposteiro de baeta escarlate, abria para o patamar. - ---Sabes quem esteve ahi de tarde?--disse logo Jorge, accendendo o -cachimbo--Aquella desavergonhada da Leopoldina! Que te parece, hein? - ---E entrou?--perguntou Sebastio, baixo, correndo por dentro o pesado -reposteiro de fazenda listrada. - ---Entrou, sentou-se, esteve, demorou-se! Fez o que quiz! A Leopoldina, -a _Po e queijo_! - -E arremessando o phosphoro violentamente: - ---Quando penso que aquella desavergonhada vem a minha casa! Uma -creatura que tem mais amantes que camisas, que anda pelo D-fundo em -troas, que passeava nos bailes, este anno, de domin, com um tenor! A -mulher do Zagallo, um devasso que falsificou uma letra! - -E quasi ao ouvido de Sebastio: - ---Uma mulher que dormiu com o Mendona dos callos! Aquelle sebento do -Mendona dos callos! - -Teve um gesto furioso, exclamou: - ---E vem aqui, senta-se nas minhas cadeiras, abraa minha mulher, -respira o meu ar!... Palavra d'honra, Sebastio, se a pilho--procurou -mentalmente, com o olhar acceso, um castigo sufficiente--dou-lhe -aoutes! - -Sebastio disse devagar: - ---E o peor a visinhana. - ---Est claro que !--exclamou Jorge.--Toda essa gente ahi pela rua -abaixo sabe quem ella ! Sabem-lhe os amantes, sabem-lhe os sitios. a -_Po e queijo_! Todo o mundo conhece a _Po e queijo_. - ---M visinhana--disse Sebastio. - ---De tremer. - -Mas ento! estava acostumado casa, era sua, tinha-a arranjado, era -uma economia... - ---Seno! No parava aqui um dia! - -Era um horror de rua! Pequena, estreita, acavallados uns nos outros! -Uma visinhana a postos, avida de mexericos! Qualquer bagatella, o -trotar d'uma tipoia, e apparecia por traz de cada vidro um par d'olhos -repolhudos a cocar! E era logo um badalar de linguas por ahi abaixo, e -conciliabulos, e opinies formadas! fulano indecente, fulana bebeda! - --- o diabo!--disse Sebastio. - ---A Luiza um anjo, coitada--dizia Jorge, passeando pela saleta--mas -tem cousas em que criana! No v o mal. muito boa, deixa-se ir. -Com este caso da Leopoldina, por exemplo; foram creadas de pequenas, -eram amigas, no tem coragem agora para a pr fra. acanhamento, -bondade. Elle comprehende-se! Mas emfim as leis da vida tem as suas -exigencias!... - -E depois d'uma pausa: - ---Por isso, Sebastio, em quanto eu estiver fra, se te constar que a -Leopoldina vem por c, avisa a Luiza! Porque ella assim: esquece-se, -no reflexiona. necessario alguem que a advirta, que lhe diga:--Alto -l, isso no pde ser! Que ento cahe logo em si, e a primeira!... -Vens por ahi, fazes-lhe companhia, fazes-lhe musica, e se vires que a -Leopoldina apparece ao largo, tu logo:--Minha rica senhora, cuidado, -olhe que isso no! Que ella, sentindo-se apoiada, tem deciso. Seno, -acanha-se, deixa-a vir. Soffre com isso, mas no tem coragem de lhe -dizer: No te quero vr, vai-te! No tem coragem p'ra nada: comeam -as mos a tremer-lhe, a seccar-se-lhe a bocca... mulher, muito -mulher!... No te esqueas, hein, Sebastio? - ---Ento havia de me esquecer, homem? - -Sentiram ento o piano na sala, e a voz de Luiza ergueu-se, fresca e -clara, cantando a _Mandolinata_: - - Amici, la notte bella, - La luna va spontari... - ---Fica to s, coitada!...--disse Jorge. - -Deu alguns passos pelo escriptorio, fumando, com a cabea baixa: - ---Todo o casal bem organisado, Sebastio, deve ter dous filhos! Deve -ter pelo menos um!... - -Sebastio coou a barba em silencio--e a voz de Luiza, elevando-se com -um certo esforo aspero, nos _altos_ da melodia : - - Di c, di l, per la cit - Andiami a transnottari... - -Era uma tristeza secreta de Jorge--no ter um filho! Desejava-o tanto! -Ainda em solteiro, nas vesperas do casamento, j sonhava aquella -felicidade: o seu filho! Via-o de muitas maneiras: ou gatinhando com as -suas perninhas vermelhas, cheias de rscas, e os cabellos annelados, -finos como fios de sda; ou rapaz forte, entrando da escla com os -livros, alegre e d'olho vivo, vindo mostrar-lhe as boas notas dos -mestres: ou, melhor, rapariga crescida, clara e rosada, com um vestido -branco, as duas tranas cahidas, vindo pousar as mos nos seus cabellos -j grisalhos... - -Vinha-lhe, s vezes, um medo de morrer sem ter tido aquella felicidade -completadora! - -Agora, na sala, a voz aguda de Ernestinho perorava, depois, no piano -Luiza recomeou a _Mandolinata_, com um _brio_ jovial. - -A porta do escriptorio abriu-se, Julio entrou: - ---Que esto vosss aqui a conspirar? Vou-me safar, que tarde! At - volta, meu velho, hein? Tambem ia comtigo tomar ar, respirar, vr -campos, mas... - -E sorriu com amargura.--_Addio! Addio!_ - -Jorge foi alumiar-lhe ao patamar, abraal-o outra vez. Se quizesse -alguma cousa do Alemtejo!... - -Julio carregou o chapo na cabea: - ---D c outro charuto, por despedida! D c dous! - ---Leva a caixa! Eu em viagem s fumo cachimbo. Leva a caixa, homem! - -Embrulhou-lh'a n'um _Diario de Noticias_; Julio metteu-a debaixo do -brao, e descendo os degraus: - ---Cuidado com as sezes, e descobre uma mina d'ouro! - -Jorge e Sebastio entraram na sala. Ernestinho, encostado ao piano, -torcia as guias do bigodinho, e Luiza comeava uma valsa de Strauss--o -_Danubio Azul_. - -Jorge disse, rindo, estendendo os braos: - ---Uma valsa, D. Felicidade? - -Ella voltou-se, com um sorriso. E porque no? Em nova era fallada! -Citou logo a valsa que danra com o sr. D. Fernando, no tempo da -Regencia, nas Necessidades. Era uma valsa linda, d'essa poca: _A -Perola d'Ophir_. - -Estava sentada ao p do conselheiro, no soph. E como retomando um -dialogo mais querido--continuou, baixo para elle, com uma voz meiga: - ---Pois creia, acho-o com optimas cres. - -O conselheiro enrolava vagarosamente o seu leno de sda da India. - ---Na estao calmosa passo sempre melhor. E D. Felicidade? - ---Ai! Estou outra, conselheiro! Muito boas digestes, muito livre de -gazes... Estou outra! - ---Deus o queira, minha senhora, Deus o queira--disse o conselheiro, -esfregando lentamente as mos. - -Tossiu, ia levantar-se, mas D. Felicidade pz-se a dizer: - ---Espero que esse interesse seja verdadeiro... - -Crou. O corpete flaccido do vestido de sda preta enchia-se-lhe com o -arfar do peito. - -O conselheiro recahiu lentamente no soph,--e com as mos nos joelhos: - ---D. Felicidade sabe que tem em mim um amigo sincero... - -Ella levantou para elle seus olhos pisados, d'onde sahiam revelaes de -paixo e supplicas de felicidade: - ---E eu, conselheiro!... - -Deu um grande suspiro, pz o leque sobre o rosto. - -O conselheiro ergueu-se seccamente. E com a cabea alta, as mos atraz -das costas, foi ao piano, perguntou a Luiza curvando-se: - --- alguma cano do Tyrol, D. Luiza? - ---Uma valsa de Strauss--murmurou-lhe Ernestinho, em bicos de ps, ao -ouvido. - ---Ah! Muita fama! Grande author! - -Tirou ento o relogio. Eram horas, disse, de ir coordenar alguns -apontamentos. Aproximou-se de Jorge, com solemnidade: - ---Jorge, meu bom Jorge, adeus! Cautela com esse Alemtejo! O clima -nocivo, a estao traioeira! - -E apertou-o nos braos com uma presso commovida. - -D. Felicidade punha a sua manta de renda negra. - ---J, D. Felicidade?--disse Luiza. - -Ella explicou-lhe, ao ouvido: - ---J, sim, filha, que tenho estado a abarrotar, comi umas bajes e tenho -estado!... E aquelle homem, aquelle glo! O snr. Ernesto vem para os -meus sitios, hein? - ---Como um fuso, minha senhora! - -Tinha vestido o seu paletot d'alpaca clara, fumava chupando, com as -faces encovadas, por uma boquilha enorme, onde uma Venus se torcia -sobre o dorso d'um leo domado. - ---Adeus, primo Jorge, saudinha e dinheiro, hein? Adeus. Quando fr a -_Honra e Paixo_ c mando um camarote prima Luiza. Adeus! Saudinha! - -Iam a sahir. Mas o conselheiro, porta, voltando-se subitamente, com -as abas do paletot deitadas para traz, a mo pomposamente apoiada no -casto de prata da bengala que representava uma cabea de mouro, disse, -com gravidade: - ---Esquecia-me, Jorge! Tanto em Evora, como em Beja, visite os -governadores civis! E eu lhe digo porqu: deve-lh'o como primeiros -funccionarios do districto, e podem-lhe ser de muita utilidade nas suas -peregrinaes scientificas! - -E curvando-se profundamente: - ---_Al rivedere_, como se diz em Italia. - - - -Sebastio tinha ficado. Para arejar do fumo de tabaco Luiza foi abrir -as janellas; a noite estava quente e immovel, de luar. - -Sebastio pozera-se ao piano, e com a cabea curvada, corria devagar o -teclado. - -Tocava admiravelmente, com uma comprehenso muito fina da musica. -Outr'ora, compozera mesmo uma _Meditao_, duas _Valsas_, -uma _Ballada_: mas eram estudos muito trabalhados, cheios de -reminiscencias, sem estylo.--Da cachimonia no me sahe nada--costumava -elle dizer com bonhomia, batendo na testa, sorrindo--mas l com os -dedos!... - -Pz-se a tocar um _Nocturno_ de Choppin. Jorge sentra-se no soph ao -p de Luiza. - ---J tens prompto o teu farnelzinho!--disse-lhe ella. - ---Bastam umas bolachas, filha. O que quero o cantil com _cognac_. - ---E no te esqueas de mandar um telegramma logo que chegues! - ---Pudera! - ---Tu d'aqui a quinze dias, vens! - ---Talvez... - -Ella teve um gesto amuado. - ---Ah, bem! Se no vieres, vou ter comtigo! A culpa tua. - -E olhando em redor: - ---Que s que vou ficar! - -Mordeu o beicinho, fitou o tapete. E de repente, com a voz ainda triste: - ---Pst, Sebastio! A _malaguenha_, faz favor? - -Sebastio comeou a tocar a _malaguenha_. Aquella melodia calida, muito -arrastada, encantava-a. Parecia-lhe estar em Malaga, ou em Granada, -no sabia: era sob as laranjeiras, mil estrellinhas luzem; a noite -quente, o ar cheira bem; por baixo d'um lampeo suspenso a um ramo, um -cantador sentado na tripea mourisca faz gemer a guitarra; em redor as -mulheres com os seus corpetes de velludilho encarnado batem as mos -em cadencia: e ao largo dorme uma Andaluzia de romance e de zarzuela, -quente e sensual, onde tudo so braos brancos que se abrem para o -amor, capas romanticas que roam as paredes, sombrias viellas onde luz -o nicho do santo e se repenica a viola, serenos que invocam a Virgem -Santissima cantando as horas... - ---Muito bem, Sebastio! Gracias! - -Elle sorriu, ergueu-se, fechou cuidadosamente o piano, e indo buscar o -seu chapo desabado: - ---Ento manh s sete? C estou, e vou-te acompanhar at ao Barreiro. - -Bom Sebastio! - -Foram debruar-se na varanda para o vr sahir. A noite fazia um -silencio alto, d'uma melancolia placida; o gaz dos candieiros parecia -mortio; a sombra que se recortava na rua, com uma nitidez brusca, -tinha um tom quente e dce; a luz punha nas fachadas brancas claridades -vivas, e nas pedras da calada faiscaes vidradas; uma clara-boia -reluzia, a distancia, como uma velha lamina de prata; nada se movia; e -instinctivamente os olhos erguiam-se para as alturas, procuravam a lua -branca, muito sria. - ---Que linda noite! - -A porta bateu, e Sebastio de baixo, na sombra: - ---D vontade de passear, hein? - ---Linda! - -Ficaram varanda preguiosamente, olhando, detidos pela -tranquillidade, pela luz. Puzeram-se a fallar baixo da jornada. quella -hora onde estaria elle? J em Evora, n'um quarto d'estalagem, passeando -monotonamente sobre um cho de tijolo. Mas voltaria breve; esperava -fazer um bom negocio com o Paco, o hespanhol das minas de Portel, -trazer talvez alguns centos de mil reis, e teriam ento a doura do -mez de setembro; poderiam fazer uma jornada ao Norte, irem ao Bussaco, -trepar aos altos, beber a agua fresca das rochas, sob a espessura -humida das folhagens: irem a Espinho, e pelas praias, sentar-se na -ara, no bom ar cheio d'azote, vendo o mar unido, d'um azul metallico -e faiscante, o mar do vero, com algum fumo de paquete que passa para -o Sul ao longe muito adelgaado. Faziam outros planos com os hombros -muito chegados: uma felicidade abundante enchia-os deliciosamente. E -Jorge disse: - ---Se houvesse um pequerrucho, j no ficavas to s! - -Ella suspirou. Tambem o desejava tanto! Chamar-se-hia Carlos Eduardo. E -via-o no seu bero dormindo, ou no collo, n, agarrando com a mosinha -o dedo do p, mamando a ponta rosada do seu peito... Um estremecimento -d'um deleite infinito correu-lhe no corpo. Passou o brao pela cinta -de Jorge. Um dia seria, teria um filho de certo! E no comprehendia -o seu filho homem nem Jorge velho: via-os ambos do mesmo modo: um -sempre amante, novo, forte; o outro sempre dependente do seu peito, -da maminha, ou gatinhando e palrando, louro e cr de rosa. E a vida -apparecia-lhe infindavel, d'uma doura igual, atravessada do mesmo -enternecimento amoroso, quente, calma e luminosa como a noite que os -cobria. - ---A que horas quer a senhora que a venha acordar?--disse a voz secca de -Juliana. - -Luiza voltou-se: - ---s sete, j lhe disse ha pouco, creatura. - -Fecharam a janella. Em torno das velas uma borboleta branca esvoaava. -Era bom agouro! - -Jorge prendeu-a nos braos: - ---Vai ficar sem o seu maridinho, hein?--disse tristemente. - -Ela deixou pesar o corpo sobre as mos d'elle cruzadas, olhou-o com um -longo olhar que se ennevoava e escurecia, e envolvendo-lhe o pescoo -com o gesto lento, harmonioso e solemne dos braos, pousou-lhe na bocca -um beijo grave e profundo. Um vago soluo levantou-lhe o peito. - ---Jorge! Querido!--murmurou. - - - - -III - - -Havia doze dias que Jorge tinha partido e, apesar do calor e da poeira, -Luiza vestia-se para ir a casa de Leopoldina. Se Jorge soubesse, no -havia de gostar, no! Mas estava to farta de estar s! Aborrecia-se -tanto! De manh, ainda tinha os arranjos, a costura, a _toilette_, -algum romance... Mas de tarde! - - hora em que Jorge costumava voltar do ministerio, a solido parecia -alargar-se em torno d'ella. Fazia-lhe tanta falta o _seu_ toque da -campainha, os seus passos no corredor!... - -Ao crepusculo, ao vr cahir o dia, entristecia-se sem razo, cahia -n'uma vaga sentimentalidade: sentava-se ao piano, e os fados tristes, -as cavatinas apaixonadas gemiam instinctivamente no teclado, sob os -seus dedos preguiosos, no movimento abandonado dos seus braos molles. -O que pensava em tolices ento! E noite, s, na larga cama franceza, -sem poder dormir com o calor, vinham-lhe de repente terrores, palpites -de viuvez. - -No estava acostumada, no podia estar s. At se lembrra de chamar a -tia Patrocinio, uma velha parenta pobre que vivia em Belem: ao menos -era _alguem_: mas receou aborrecer-se mais ao p da sua longa figura de -viuva taciturna, sempre a fazer meia, com enormes oculos de tartaruga -sobre um nariz d'aguia. - -N'aquella manh pensra em Leopoldina, toda contente d'ir tagarellar, -rir, segredar, passar as horas do calor. Penteava-se em collete e -saia branca: a camisinha decotada descobria os ombros alvos d'uma -redondeza macia, o collo branco e tenro, azulado de vasinhas finas; e -os seus braos redondinhos, um pouco vermelhos no cotovlo, descobriam -por baixo, quando se erguiam prendendo as tranas, fiosinhos louros, -frisando e fazendo ninho. - -A sua pelle conservava ainda o rosado humido da agua fria: havia no -quarto um cheiro agudo de vinagre de _toilette_: os transparentes de -linho branco descidos davam uma luz baa, com tons de leite. - -Ah! positivamente devia escrever a Jorge, que voltasse depressa! -Que o que tinha graa era ir surprehendel-o a Evora, cahir-lhe no -Tabaquinho, um dia, s tres horas! E quando elle entrasse empoeirado e -encalmado, de lunetas azues, atirar-se-lhe ao pescoo! E tardinha, -pelo brao d'elle, ainda quebrada da jornada, com um vestido fresco, -ir vr a cidade. Pelas ruas estreitas e tristes admiravam-na muito. -Os homens vinham s portas das lojas. Quem seria? de Lisboa. a do -Engenheiro.--E diante do toucador, apertando o corpete do vestido, -sorria quellas imaginaes, e ao seu rosto, no espelho. - -A porta do quarto rangeu devagarinho. - ---Que ? - -A voz de Juliana, plangente, disse: - ---A senhora d licena que eu v logo ao medico? - ---V, mas no se demore. Puxe-me essa saia atraz. Mais. O que que -voss tem? - ---Enjos, minha senhora, peso no corao. Passei a noite em claro. - -Estava mais amarella, o olhar muito pisado, a face envelhecida. Trazia -um vestido de merino preto escoado, e a cuia da semana de cabellos -velhos. - ---Pois sim, v--disse Luiza.--Mas arranje tudo antes. E no se demore, -hein ? - -Juliana subiu logo cozinha. Era no segundo andar, com duas janellas -de sacada para as trazeiras, larga, ladrilhada de tijolo diante do -fogo. - ---Diz que sim, snr.^a Joanna--disse cozinheira--que podia ir. Vou-me -vestir. Ella tambem est quasi prompta. Fica vossemec com a casa por -sua! - -A cozinheira fez-se vermelha, poz-se a cantar, foi logo sacudir, -estender na varanda um velho tapete esfiado; e os seus olhos no -deixavam, defronte, uma casa baixa, pintada d'amarello, com um portal -largo,--a loja de marceneiro do tio Joo Galho, onde trabalhava o -Pedro, o seu amante. A pobre Joanna babava-se por ele. Era um -rapazola pallido e afadistado; Joanna era minhota, de Avintes, de -familia de lavrador, e aquella figura delgada de lisboeta anemico -seduzia-a com uma violencia abrazada. Como no podia sahir semana, -mettia-o em casa, pela porta de traz, quando estava s; estendia ento -na varanda para dar signal o velho tapete desbotado, onde ainda se -percebiam os paus de um veado. - -Era uma rapariga muito forte, com peitos d'ama, o cabello como -azeviche, todo lustroso do oleo de amendoas dces. Tinha a testa curta -de pleba teimosa. E as sobrancelhas cerradas faziam-lhe parecer o -olhar mais negro. - ---Ai!--suspirou Juliana.--A snr.^a Joanna que a leva! - -A rapariga ficou escarlate. - -Mas Juliana acudiu logo: - ---Olha o mal! fosse eu! Boa! faz muito bem! - -Juliana lisongeava sempre a cozinheira: dependia d'ella: Joanna -dava-lhe caldinhos s horas de debilidade, ou, quando ella estava mais -adoentada, fazia-lhe um bife s escondidas da senhora. Juliana tinha -um grande medo de cair em fraqueza, e a cada momento precisava tomar -a sustancia. De certo, como feia e solteirona detestava aquelle -escandalo do carpinteiro; mas protegia-o, porque elle valia muitos -regalos aos seus fracos de gulosa. - ---Fosse eu!--repetiu--dava-lhe o melhor da panella! Se a gente ia a -ter escrupulos por causa dos amos, boa! Olha quem! Vem uma pessoa a -morrer, e como fosse um co. - -E com um risinho amargo: - ---Diz que me no demorasse no medico. como quem diz, cura-te depressa -ou espicha depressa! - -Foi buscar a vassoura a um canto, e com um suspiro agudo: - ---Todas o mesmo, uma rcua! - -Desceu, comeou a varrer o corredor.--Toda a noite estivera doente: o -quarto no soto, debaixo das telhas, muito abafado, com um cheiro de -tijolo cozido, dava-lhe enjos, faltas d'ar, desde o comeo do vero: -na vespera at vomitra! E j levantada s seis horas, no descanra, -limpando, engommando, despejando, com a pontada no lado e todo o -estomago embrulhado!--Tinha escancarado a cancella, e com grandes ais, -atirava vassouradas furiosas contra as grades do corrimo. - ---A snr.^a D. Luiza est em casa? - -Voltou-se. Nos ultimos degraus da escada estava um sujeito, que lhe -pareceu estrangeirado. Era trigueiro, alto, tinha um bigode pequeno -levantado, um ramo na sobrecasaca azul, e o verniz dos seus sapatos -resplandecia. - ---A senhora vai sahir--disse ela olhando-o muito.--Faz favor de dizer -quem ? - -O individuo sorriu. - ---Diga-lhe que um sujeito para um negocio. Um negocio de minas. - -Luiza, diante do toucador, j de chapo, mettia n'uma casa do corpete -dous botes de rosa de ch. - ---Um negocio!--disse muito surprehendida--Deve ser algum recado para o -snr. Jorge, de certo! Mande entrar. Que especie de homem ? - ---Um janota! - -Luiza desceu o vo branco, calou devagar as luvas de _peau de sude_ -claras, deu duas pancadinhas fofas ao espelho na gravata de renda, e -abriu a porta da sala. Mas quasi recuou, fez _ah!_ toda escarlate. -Tinha-o reconhecido logo. Era o primo Bazilio. - - - -Houve um _shake-hands_ demorado, um pouco tremulo. Estavam ambos -calados:--ella com todo o sangue no rosto, um sorriso vago; elle -fitando-a muito, com um olhar admirado. Mas as palavras, as perguntas -vieram logo, muito precipitadamente:--Quando tinha elle chegado? Se -sabia que elle estava em Lisboa? Como soubera a morada d'ella? - -Chegra na vespera no paquete de Bordeus. Perguntra no ministerio: -disseram-lhe que Jorge estava no Alemtejo, deram-lhe a _adresse_... - ---Como tu ests mudada, Santo Deus! - ---Velha? - ---Bonita! - ---Ora! - -E elle, que tinha feito? Demorava-se? - -Foi abrir uma janella, dar uma luz larga, mais clara. Sentaram-se. Elle -no soph muito languidamente; ella ao p, pousada de leve beira d'uma -poltrona, toda nervosa. - -Tinha deixado o _degredo_--disse elle.--Viera respirar um pouco -velha Europa. Estivera em Constantinopla, na Terra Santa, em Roma. -O ultimo anno passra-o em Paris. Vinha de l, d'aquella aldeola de -Paris!--Fallava devagar, recostado, com um ar intimo, estendendo sobre -o tapete, commodamente, os seus sapatos de verniz. - -Luiza olhava-o. Achava-o mais varonil, mais trigueiro. No cabello -preto annelado havia agora alguns fios brancos: mas o bigode pequeno -tinha o antigo ar moo, orgulhoso e intrepido; os olhos, quando ria, a -mesma doura amollecida, banhada n'um fluido. Reparou na ferradura de -perola da sua gravata de setim preto, nas pequeninas estrellas brancas -bordadas nas suas meias de sda. A Bahia no o vulgarisra. Voltava -mais interessante! - ---Mas tu, conta-me de ti--dizia elle com um sorriso, inclinado para -ela.--s feliz, tens um pequerrucho... - ---No--exclamou Luiza rindo.--No tenho! Quem te disse? - ---Tinham-me dito. E teu marido demora-se? - ---Tres, quatro semanas, creio. - -Quatro semanas! Era uma viuvez! Offereceu-se logo para a vir vr mais -vezes, palrar um momento, pela manh... - ---Pudera no! s o unico parente, que tenho, agora... - -Era verdade!... E a conversao tomou uma intimidade melancolica: -fallaram da mi de Luiza, a _tia Jj_, como lhe chamava Bazilio. Luiza -contou a sua morte, muito dce, na poltrona, sem um ai... - ---Onde est sepultada?--perguntou Bazilio com uma voz grave; e -acrescentou, puxando o punho da camisa de chita:--Est no nosso jazigo? - ---Est. - ---Hei-de ir l. Pobre tia Jj! - -Houve um silencio. - ---Mas tu ias sahir!--disse Bazilio de repente, querendo erguer-se. - ---No!--exclamou--No! Estava aborrecida, no tinha nada que fazer. Ia -tomar ar. No saio, j. - -Elle ainda disse: - ---No te prendas... - ---Que tolice! Ia a casa d'uma amiga passar um momento. - -Tirou logo o chapo; n'aquelle movimento os braos erguidos repuxaram o -corpete justo, as frmas do seio accusaram-se suavemente. - -Bazilio torcia a ponta do bigode devagar; e vendo-a descalar as luvas: - ---Era eu antigamente quem te calava e descalava as luvas... -Lembras-te?... Ainda tenho esse privilegio exclusivo, creio eu... - -Ella riu-se. - ---De certo que no... - -Bazilio disse ento, lentamente, fitando o cho: - ---Ah! Outros tempos! - -E poz-se a fallar de Collares: a sua primeira ida, mal chegra, tinha -sido tomar uma tipoia e ir l: queria vr a quinta; ainda existiria o -balouo debaixo do castanheiro? ainda haveria o caramancho de rosinhas -brancas, ao p do Cupido de gesso que tinha uma aza quebrada?... - -Luiza ouvira dizer que a quinta pertencia agora a um brazileiro: sobre -a estrada havia um mirante com um tecto chinez, ornado de bolas de -vidro; e a velha casa morgada fra reconstruida e mobilada pelo Gard. - ---A nossa pobre sala de bilhar, cr d'oca, com grinaldas de -rosas!--disse Bazilio; e fitando-a:--Lembras-te das nossas partidas de -bilhar? - -Luiza, um pouco vermelha, torcia os dedos das luvas; ergueu os olhos -para elle, disse, sorrindo: - ---Eramos duas crianas! - -Bazilio encolheu tristemente os hombros, fitou as ramagens do tapete: -parecia abandonar-se a uma saudade remota, e com uma voz sentida: - ---Foi o bom tempo! Foi o meu bom tempo! - -Ella via a sua cabea bem feita, descahida n'aquella melancolia -das felicidades passadas, com uma risca muito fina, e os cabellos -brancos--que lhe dera a separao. Sentia tambem uma vaga saudade -encher-lhe o peito: ergueu-se, foi abrir a outra janella, como para -dissipar na luz viva e forte aquella perturbao. Perguntou-lhe ento -pelas viagens, por Paris, por Constantinopla. - -Fra sempre o seu desejo viajar--dizia--ir ao Oriente. Quereria andar -em caravanas, balouada no dorso dos camlos; e no teria medo, nem do -deserto, nem das feras... - ---Ests muito valente!--disse Bazilio.--Tu eras uma maricas, tinhas -medo de tudo... At da adega, na casa do pap, em Almada! - -Ella crou. Lembrava-se bem da adega, com a sua frialdade subterranea -que dava arripios! A canda d'azeite pendurada na parede alumiava com -uma luz avermelhada e fumosa as grossas traves cheias de tas d'aranha, -e a fileira tenebrosa das pipas bojudas. Havia alli s vezes, pelos -cantos, beijos furtados... - -Quiz saber ento o que tinha feito em Jerusalm, se era bonito. - -Era curioso. Ia pela manh um bocado ao Santo Sepulchro; depois -d'almoo montava a cavallo... No se estava mal no hotel, inglezas -bonitas... Tinha algumas intimidades illustres... - -Fallava d'ellas, devagar, traando a perna: o seu amigo o patriarcha -de Jerusalm, a sua velha amiga a princeza de La Tour d'Auvergne! Mas -o melhor do dia era de tarde--dizia--no Jardim das Oliveiras, vendo -defronte as muralhas do templo de Salomo, ao p a alda escura de -Bethania onde Martha fiava aos ps de Jesus, e mais longe, faiscando -immovel sob o sol, o mar Morto! E alli passava sentado n'um banco, -fumando tranquillamente o seu cachimbo! - -Se tinha corrido perigos? - -De certo. Uma tempestade de ara no deserto de Petra! Horrivel! Mas -que linda viagem, as caravanas, os acampamentos! Descreveu a sua -_toilette_:--uma manta de pelle de camlo s listras vermelhas e -pretas, um punhal de Damasco n'uma cinta de Bagdad, e a lana comprida -dos Beduinos. - ---Devia-te ficar bem! - ---Muito bem. Tenho photographias. - -Prometteu dar-lhe uma, e acrescentou: - ---Sabes que te trago presentes? - ---Trazes?--E os seus olhos brilhavam. - -O melhor era um rosario... - ---Um rosario? - ---Uma reliquia! Foi benzido primeiro pelo patriarcha de Jerusalm sobre -o tumulo de Christo, depois pelo papa... - -Ah! Porque tinha estado com o papa! Um velhinho muito aceado, j todo -branquinho, vestido de branco, muito amavel! - ---Tu d'antes no eras muito devota--disse. - ---No, no sou muito caturra n'essas cousas--respondeu rindo. - ---Lembras-te da capella de nossa casa em Almada? - -Tinham passado alli lindas tardes! Ao p da velha capella morgada -havia um adro todo cheio de altas hervas floridas,--e as papoulas, -quando vinha a aragem, agitavam-se como azas vermelhas de borboletas -pousadas... - ---E a tilia, lembras-te, onde eu fazia gymnastica? - ---No fallemos no que l vai! - -Em que queria ella ento que elle fallasse? Era a sua mocidade, o -melhor que tivera na vida... - -Ella sorriu, perguntou: - ---E no Brazil? - -Um horror! At fizera a crte a uma mulata. - ---E porque te no casaste?... - -Estava a mangar! Uma mulata! - ---E de resto--acrescentou com a voz d'um arrependimento -triste--j que me no casei quando devia,--encolheu os hombros -melancolicamente--acabou-se... Perdi a vez. Ficarei solteiro. - -Luiza fez-se escarlate. Houve um silencio. - ---E qual o outro presente, ento, alm do rosario? - ---Ah! Luvas. Luvas de vero, de _peau de sude_, de oito botes. Luvas -decentes. Vosss aqui usam umas luvitas de dous botes, a vr-se o -punho, um horror! - -De resto pelo que tinha visto, as mulheres em Lisboa cada dia se -vestiam peor! Era atroz! No dizia por ella; at aquelle vestido tinha -_chic_, era simples, era honesto. Mas em geral, era um horror. Em -Paris! Que deliciosas, que frescas as _toilettes_ d'aquelle vero! -Oh! mas em Paris!... Tudo superior! Por exemplo, desde que chegra -ainda no pudera comer. Positivamente no podia comer!--S em Paris se -come--resumiu. - -Luiza voltava entre os dedos o seu medalho de ouro, preso ao pescoo -por uma fita de velludo preto. - ---E estiveste ento um anno em Paris? - -Um anno divino. Tinha um _appartamento_ lindissimo, que pertencera a -lord Falmouth, rue Saint Florentin, tinha tres cavallos... - -E recostando-se muito, com as mos nos bolsos: - ---Emfim, fazer este valle de lagrimas o mais confortavel possivel!... -Dize c, tens algum retrato n'esse medalho? - ---O retrato de meu marido. - ---Ah! deixa vr! - -Luiza abriu o medalho. Elle debruou-se; tinha o rosto quasi sobre o -peito d'ella. Luiza sentia o aroma fino que vinha de seus cabellos. - ---Muito bem, muito bem!--fez Bazilio. - -Ficaram calados. - ---Que calor que est!--disse Luiza.--Abafa-se, hein! - -Levantou-se, foi abrir um pouco uma vidraa. O sol deixra a varanda. -Uma aragem suave encheu as pregas grossas das bambinellas. - --- o calor do Brazil--disse elle.--Sabes que ests mais crescida? - -Luiza estava de p. O olhar de Bazilio corria-lhe as linhas do corpo; e -com a voz muito intima, os cotovlos sobre os joelhos, o rosto erguido -para ella: - ---Mas, francamente, dize c, pensaste que eu te viria vr? - ---Ora essa! Realmente, se no viesses zangava-me. s o meu unico -parente... O que tenho pena que meu marido no esteja... - ---Eu--acudiu Bazilio--foi justamente por elle no estar... - -Luiza fez-se escarlate. Bazilio emendou logo, um pouco corado tambem: - ---Quero dizer... talvez elle saiba que houve entre ns... - -Ella interrompeu: - ---Tolices! Eramos duas crianas. Onde isso vai! - ---Eu tinha vinte e sete annos--observou elle, curvando-se. - -Ficaram calados, um pouco embaraados. Bazilio cofiava o bigode, -olhando vagamente em redor. - ---Ests muito bem installada aqui--disse. - -No estava mal... A casa era pequena, mas muito commoda. Pertencia-lhes. - ---Ah! ests perfeitamente! Quem esta senhora, com uma luneta d'ouro? - -E indicava o retrato por cima do soph. - ---A mi de meu marido. - ---Ah! vive ainda? - ---Morreu. - --- o que uma sogra pde fazer de mais amavel... - -Bocejou ligeiramente, fitou um momento os seus sapatos muito aguados, -e com um movimento brusco, ergueu-se, tomou o chapo. - ---J? Onde ests? - ---No Hotel Central. E at quando? - ---At quando quizeres. No disseste que vinhas manh com o rosario? - -Elle tomou-lhe a mo, curvou-se: - ---J se no pde dar um beijo na mo d'uma velha prima? - ---Porque no? - -Pousou-lhe um beijo na mo, muito longo, com uma presso dce. - ---Adeus!--disse. - -E porta, com o reposteiro meio erguido, voltando-se: - ---Sabes, que eu, ao subir as escadas, vinha a perguntar a mim mesmo, -como se vai isto passar? - ---Isto qu? Vrmo-nos outra vez? Mas, perfeitamente. Que imaginaste tu? - -Elle hesitou, sorriu: - ---Imaginei que no eras to boa rapariga. Adeus. manh, hein? - -No fundo da escada accendeu o charuto, devagar. - ---Que bonita que ella est!--pensou. - -E arremessando o phosphoro, com fora: - ---E eu, pedao d'asno, que estava quasi decidido a no a vir vr! -Est de appetite! Est muito melhor! E ssinha em casa, aborrecidinha -talvez!... - -Ao p da Patriarchal fez parar um _coup_ vazio; e estendido, com o -chapo nos joelhos, em quanto a parelha esfalfada trotava: - ---E tem-me o ar de ser muito aceada, cousa rara na terra! As mos muito -bem tratadas! O p muito bonito! - -Revia a pequenez do p, poz-se a fazer por elle o desenho mental de -outras bellezas, despindo-a, querendo adivinhal-a... A amante que -deixra em Paris era muito alta e magra, d'uma elegancia de tisica; -quando se decotava viam-se as saliencias das suas primeiras costellas. -E as frmas redondinhas de Luiza decidiram-no: - ---A ella!--exclamou com appetite:--A ella, como S. Thiago aos mouros! - - - -Luiza, quando o sentiu em baixo fechar a porta da rua, entrou no -quarto, atirou o chapo para a _causeuse,_ e foi-se logo vr ao -espelho. Que felicidade estar vestida! Se elle a tivesse apanhado em -roupo, ou mal penteada!... Achou-se muito afogueada, cobriu-se de ps -de arroz. Foi janella, olhou um momento a rua, o sol que batia ainda -nas casas fronteiras. Sentia-se canada. quellas horas, Leopoldina -estava a jantar j, de certo... Pensou em escrever a Jorge para -matar o tempo, mas veio-lhe uma preguia; estava tanto calor! Depois -no tinha que lhe dizer! Comeou ento a despir-se devagar diante do -espelho, olhando-se muito, gostando de se vr branca, acariciando a -finura da pelle, com bocejos languidos d'um cansao feliz.--Havia -sete annos que no via o primo Bazilio! Estava mais trigueiro, mais -queimado, mas ia-lhe bem! - -E depois de jantar ficou junto janella, estendida na _voltaire_, com -um livro esquecido no regao. O vento cahira, e o ar, de um azul forte -nas alturas, estava immovel; a poeira grossa pousra, a tarde tinha -uma transparencia calma de luz; passaros chilreavam na figueira brava; -da serralheria proxima sahia o martellar continuo e sonoro de folhas -de ferro. Pouco a pouco o azul desbotou; sobre o poente, laivos de cr -de laranja desmaiada esbateram-se como grandes pinceladas desleixadas. -Depois tudo se cobriu de uma sombra diffusa, calada e quente, com uma -estrellinha muita viva que luzia e tremia. E Luiza deixra-se ficar na -_voltaire_ esquecida, absorvida, sem pedir luz. - ---Que vida interessante a do primo Bazilio!--pensava.--O que elle tinha -visto! Se ella podesse tambem fazer as suas malas, partir, admirar -aspectos novos e desconhecidos, a neve nos montes, cascatas reluzentes! -Como desejaria visitar os paizes que conhecia dos romances--a Escocia e -os seus lagos taciturnos, Veneza e os seus palacios tragicos; aportar -s bahias, onde um mar luminoso e faiscante morre na ara fulva; e das -cabanas dos pescadores, de tecto chato, onde vivem as Graziellas, vr -azularem-se ao longe as ilhas de nomes sonoros! E ir a Paris! Paris -sobretudo! Mas, qual! Nunca viajaria de certo; eram pobres; Jorge era -caseiro, to lisboeta! - -Como seria o patriarcha de Jerusalm? Imaginava-o de longas barbas -brancas, recamado d'ouro, entre instrumentaes solemnes e rolos de -incenso! E a princeza de La Tour d'Auvergne? Devia ser bella, de uma -estatura real, vivia cercada de pagens, namorra-se de Bazilio.--A -noite escurecia, outras estrellas luziam.--Mas de que servia viajar, -enjoar nos paquetes, bocejar nos wagons, e, n'uma diligencia muita -sacudida, cabecear de somno pela serra nas madrugadas frias? No era -melhor viver n'um bom conforto, com um marido terno, uma casinha -abrigada, colxes macios, uma noite de theatro s vezes, e um bom -almoo nas manhs claras quando os canarios chalram? Era o que ella -tinha. Era bem feliz! Ento veio-lhe uma saudade de Jorge; desejaria -abraal-o, tel-o alli, ou quando descesse ir encontral-o fumando o seu -cachimbo no escriptorio, com o seu jaqueto de velludo. Tinha tudo, -elle, para fazer uma mulher feliz e orgulhosa: era bello, com uns -olhos magnificos, terno, fiel. No gostaria de um marido com uma vida -sedentaria e caturra: mas a profisso de Jorge era interessante; descia -aos poos tenebrosos das minas, um dia aperrra as pistolas contra -uma malta revoltada; era valente, tinha talento! Involuntariamente, -porm, o primo Bazilio fazendo fluctuar o seu _burnous_ branco pelas -planicies da Terra Santa; ou em Paris, direito na almofada, governando -tranquillamente os seus cavallos inquietos--davam-lhe a ida d'uma -outra existencia mais poetica, mais propria para os episodios do -sentimento. - -Do co estrellado cahia uma luz diffusa: janellas alumiadas sobresahiam -ao longe, abertas noite abafada: vos de morcegos passavam diante da -vidraa. - ---A senhora no quer luz?--perguntou porta a voz fatigada de Juliana. - ---Ponha-a no quarto. - -Desceu. Bocejava muito, sentia-se quebrada. - --- trovoada--pensou. - -Foi sala, sentou-se ao piano, tocou ao acaso bocados da _Lucia_, da -_Somnambula_, o _Fado_; e parando, os dedos pousados de leve sobre -o teclado, poz-se a pensar que Bazilio devia vir no dia seguinte: -vestiria o roupo novo de _foulard_ cr de castanho! Recomeou o -_Fado_, mas os olhos cerravam-se-lhe. - -Foi para o quarto. - -Juliana trouxe o rol e a lamparina. Vinha arrastando as chinellas, com -um casabeque pelos hombros, encolhida e lugubre. Aquella figura com um -ar de enfermaria irritou Luiza: - ---Credo, mulher! Voss parece a imagem da morte! - -Juliana no respondeu. Pousou a lamparina; apanhou, placa a placa, -sobre a commoda, o dinheiro das compras; e com os olhos baixos: - ---A senhora no precisa mais nada, no? - ---V-se, mulher, v! - - - -Juliana foi buscar o candieiro de petroleo, subiu ao quarto. Dormia em -cima, no soto, ao p da cozinheira. - ---Pareo-te a imagem da morte!--resmungava, furiosa. - -O quarto era baixo, muito estreito, com o tecto de madeira inclinado; -o sol, aquecendo todo o dia as telhas por cima, fazia-o abafado -como um forno; havia sempre noite um cheiro requentado de tijolo -escandecido. Dormia n'um leito de ferro, sobre um colxo de palha -molle coberto d'uma colcha de chita; da barra da cabeceira pendiam os -seus _bentinhos_ e a rde enxovalhada que punha na cabea; ao p tinha -preciosamente a sua grande arca de pau, pintada de azul, com uma grossa -fechadura. Sobre a mesa de pinho estava o espelho de gaveta, a escova -de cabello ennegrecida e despellada, um pente d'osso, as garrafas de -remedio, uma velha pregadeira de setim amarello, e, embrulhada n'um -jornal, a _cuia_ de retroz dos domingos. E o unico adorno das paredes -sujas, riscadas da cabea de phosphoros,--era uma lithographia de Nossa -Senhora das Dres por cima da cama, e um daguerreotypo onde se percebia -vagamente, no reflexo espelhado da lamina, os bigodes encerados e as -divisas de um sargento. - ---A senhora j se deitou, snr.^a Juliana?--perguntou a cozinheira do -quarto pegado, d'onde sahia uma barra de luz viva cortando a escurido -do corredor. - ---J se deitou, snr.^a Joanna, j. Est hoje com os azeites. Falta-lhe -o homem! - -Joanna, s voltas, fazia ranger as madeiras velhas da cama. No podia -dormir! Abafava-se! Ouf! - ---Ai! e aqui!--exclamou Juliana. - -Abriu o postigo que dava para os telhados, para deixar arejar; calou -as chinellas de tapete, e foi ao quarto de Joanna. Mas no entrou, -ficou porta; era _criada de dentro_, evitava familiaridades. Tinha -tirado a _cuia_, e com um leno preto e amarello amarrado na cabea, o -seu rosto parecia mais chupado, e as orelhas mais despegadas do craneo; -a camisa decotada descobria as claviculas descarnadas; a saia curta -mostrava as canellas muito brancas, muito seccas. E com o casabeque -pelos hombros, coando devagarinho os cotovlos agudos: - ---Diga-me c, snr.^a Joanna--disse com a voz discreta--aquelle sujeito -demorou-se muito? Reparou? - ---Tinha sahido n'aquelle instantinho, quando vossemec entrou. Ouf! - -Encalmada, quasi descoberta, com as pernas muito abertas, Joanna -coava-se furiosamente por baixo da grossa camisa com folhos minhota -que lhe descobria os peitos. No podia parar com os persevejos! O raio -do quarto tinha ninhos! At sentia o estomago embrulhado. - ---Ai! um inferno!--disse com lastima Juliana.--Eu s adormeo com -dia. Mas ainda eu agora reparo... Vossemec tem S. Pedro cabeceira. -devoo? - --- o santo do meu rapaz--disse a outra. Sentou-se na cama. Ouf! E -ento tinha estado toda a noite com uma sde!... - -Saltou para o cho, com passadas rijas que faziam tremer o soalho, foi -ao jarro, pl-o bocca, bebeu uma tarraada. A camisa justa, feita de -pouca fazenda, mostrava as frmas rijas e valentes. - ---Pois eu fui ao medico--disse Juliana. E com um grande suspiro:--Ai! -isto s Deus, snr.^a Joanna! Isto s Deus! - -Mas porque se no resolvia a snr.^a Juliana a ir mulher de virtude? -Era a saude certa. Morava ao Poo dos Negros; tinha oraes e unguentos -para tudo. Levava meia moeda pelo _preparo_... - ---Que isso so humores, snr.^a Juliana. O que vossemec tem, so -humores. - -Juliana tinha dado dous passos para dentro do quarto. Quando se tratava -de doenas, de remedios, tornava-se mais familiar. - ---Eu j me tenho lembrado... eu j me tenho lembrado de ir mulher. -Mas, meia moeda! - -E ficou a olhar, tristemente, reflectindo. - --- o que eu tenho junto para umas botinas de gaspia! - -Eram o seu vicio, as botinas! Arruinava-se com ellas: tinha-as de -duraque com ponteiras de verniz, de cordovo com lao, de pellica -com pespontos de cr, embrulhadas em papeis de sda, na arca, -fechadas--guardadas para os domingos! - -Joanna censurou-a. - ---Ai! eu, em se tratando do corpo, do interior, que o diabo leve os -arrebiques! - -Queixou-se tambem da sua miseria. Tinha pedido senhora um mez -adiantado! Estava sem camisas! As duas que tinha eram uns trapos! Pelo -gosto da que trazia, a desfazerem-se! - ---Mas, ento!--suspirou--O meu rapaz precisou um dinheiro... - ---Vossemec tambem, snr.^a Joanna, deixa-se cardar pelo homem! - -Joanna sorriu. - ---Ainda que eu tivesse de roer ossos, snr.^a Juliana, a ultima migalha -havia de ser p'ra elle! - -Juliana teve um risinho secco, e com a voz arrastada: - ---Vale l a pena! - -Mas invejava asperamente a cozinheira pela posse d'aquelle amor, pelas -suas delicias. Repetiu, contrafeita: - ---Vale l a pena! Perfeito rapaz--continuou--o que veio hoje vr a -senhora! Melhor que o homem! - -E depois d'uma pausa: - ---Ento esteve mais de duas horas? - ---Tinha sahido quando vossemec entrou. - -Mas o candieiro de petroleo apagava-se, com um cheiro fetido e uma -fumarada negra. - ---Boa noite, snr.^a Joanna. Ainda vou rezar a minha cora. - --- snr.^a Juliana!--disse a outra d'entre os lenoes--Se vossemec -quer rezar tres salv-rainhas pela saude do meu rapaz que tem estado -adoentado, eu c lhe rezava tres pelas melhoras do peito. - ---Pois sim, snr.^a Joanna! - -Mas reflectindo: - ---Olhe. Eu do peito vou melhor; d-m'as antes p'ra allivio das dres de -cabea. A Santa Engracia! - ---Como vossemec quizer, snr.^a Juliana. - ---Se faz favor. Boa noite! Fica-lhe ahi um cheiro! Credo! - -Foi para o quarto. Rezou, apagou a luz. Um calor molle continuo cahia -do forro; comeou a faltar-lhe o ar: tornou a abrir o postigo, mas o -bafo quente que vinha dos telhados enjoava-a; e era assim todas as -noites, desde o comeo do estio! Depois as madeiras velhas fervilhavam -de bicharia! Nunca, nunca, nas casas que servira, tinha tido um quarto -peor. Nunca! - -A cozinheira comeou a resonar ao lado. E acordada, s voltas, com -afflices no corao, Juliana sentia a vida pesar-lhe, com uma -amargura maior! - - - -Nascera em Lisboa. O seu nome era Juliana Couceiro Tavira. Sua mi -fra engommadeira; e desde pequena tinha conhecido em casa um sujeito, -a quem chamavam na visinhana--_o fidalgo_, a quem sua mi chamava--o -snr. D. Augusto. Vinha todos os dias, de tarde no vero, no inverno -de manh, para a saleta onde sua mi engommava, e alli estava horas -sentado no poial da janella que dava para um quintalejo, fumando -cachimbo, cofiando em silencio um enorme bigode preto. Como o poial era -de pedra, punha-lhe em cima, com muito methodo, uma almofada de vento, -que elle mesmo soprava. Era calvo, e trazia ordinariamente uma quinzena -de velludo castanho e chapo alto branco. s seis horas levantava-se, -esvaziava a almofada, estava um bocado a esticar as calas para cima, -e sahia, com a sua grossa bengala de cana da India debaixo do brao, -gingando da cinta. Ella e sua mi iam ento jantar na mesinha de pinho -da cozinha debaixo d'um postigo, diante do qual se balouavam, de vero -e d'inverno, galhos magros d'uma arvore triste. - - noite o snr. D. Augusto voltava; trazia sempre um jornal; sua mi -fazia-lhe ch e torradas, servia-o, toda enlevada n'elle. Muitas vezes -Juliana a vira chorar de ciumes. - -Um dia uma visinha m, a quem ella no quizera ajudar a lavar a roupa, -enfureceu-se, e atirando-lhe injurias dos degraus da porta,--gritou-lhe -que sua mi era uma desavergonhada, e que seu pai estava na Africa por -ter morto o _Rei de Copas_! - -Pouco tempo depois foi servir. Sua mi morreu d'ahi a mezes, com uma -doena d'utero. Juliana s uma vez tornou a vr o snr. D. Augusto,--uma -tarde, com uma opa rxa, lugubre, na procisso de Passos! - -Servia, havia vintes annos. Como ella dizia, mudava de amos, mas no -mudava de sorte. Vinte annos a dormir em cacifros, a levantar-se -de madrugada, a comer os restos, a vestir trapos velhos, a soffrer -os repelles das crianas e as ms palavras das senhoras, a fazer -despejos, a ir para o hospital quando vinha a doena, a esfalfar-se -quando voltava a saude!... Era de mais! Tinha agora dias em que s de -vr o balde das aguas sujas e o ferro d'engommar se lhe embrulhava o -estomago. Nunca se acostumra a servir. Desde rapariga a sua ambio -fra ter um negociosito, uma tabacaria, uma loja de capellista ou de -quinquilherias, dispr, governar, ser patra: mas, apesar d'economias -mesquinhas e de calculos sfregos, o mais que conseguira juntar foram -sete moedas ao fim d'annos: tinha ento adoecido; com o horror do -hospital fra tratar-se para casa d'uma parenta; e o dinheiro, ai! -derretera-se! No dia em que se trocou a ultima libra, chorou horas com -a cabea debaixo da roupa. - -Ficou sempre adoentada desde ento, perdeu toda a esperana de se -estabelecer. Teria de servir at ser velha, sempre, d'amo em amo! Essa -certeza dava-lhe uma desconsolao constante. Comeou a azedar-se. - -E depois no tinha _geito_, no sabia tirar partido das casas: via -companheiras divertir-se, visinhar, janellar, bisbilhotar, sahir aos -domingos s hortas e aos retiros, levar o dia cantando, e quando as -patras iam ao theatro, abrir a porta aos derrios--e patuscar pelos -quartos! Ella no. Sempre fra embezerrada. Fazia a sua obrigao, -comia, ia estirar-se sobre a cama; e aos domingos, quando no passeava, -encostava-se a uma janella, com o leno sobre o peitoril para no -roar as mangas, e alli estava immovel, a olhar, com o seu broche de -filigrana e a cuia dos dias santos! Outras companheiras eram muito das -amas, faziam-se muito humildes, sabujavam, traziam de fra as historias -da rua, e cartinhas levadas e recadinhos e p'ra dentro e p'ra fra, -muito confidentes,--muito presenteadas tambem! Ella no podia. Era -_minha senhora isto! minha senhora aquillo!_ E cada uma no seu lugar! -Era genio. - -Desde que servia, apenas entrava n'uma casa sentia logo, n'um relance, -a hostilidade, a malquerena: a senhora fallava-lhe com seccura, de -longe; as crianas tomavam-lhe birra; as outras criadas, se estavam -chalrando, calavam-se, mal a sua figura esguia apparecia; punham-lhe -alcunhas--_a isca scca_, _a fava torrada_, _o saca-rolhas_; -imitavam-lhe os trejeitos nervosos; havia risinhos, cochichos pelos -cantos; e s tinha encontrado alguma sympathia nos gallegos taciturnos, -cheios d'uma saudade morrinhenta, que veem de manh quando ainda os -quartos esto escuros, com as suas grossas passadas, encher os barris, -engraxar o calado. - -Lentamente, comeou a tornar-se desconfiada, cortante como um nordeste; -tinha respostadas, questes com as companheiras; no se havia de deixar -pr o p no pescoo! - -As antipathias que a cercavam faziam-na assanhada, como um circulo -d'espingardas enraivece um lobo. Fez-se m; beliscava crianas at lhe -ennodoar a pelle; e se lhe ralhavam, a sua colera rompia em rajadas. -Comeou a ser despedida. N'um s anno esteve em tres casas. Sahia com -escandalo, aos gritos, atirando as portas, deixando as amas todas -pallidas, todas nervosas... - -A inculcadeira, a sua velha amiga, a tia Victoria, disse-lhe: - ---Tu acabas por no ter onde te arrumar, e falta-te o bocado do po! - -O po! Aquella palavra que o terror, o sonho, a difficuldade do pobre -assustou-a. Era fina, e dominou-se. Comeou a fazer-se uma pobre -mulher, com affectaes de zelo, um ar de soffrer tudo, os olhos -no cho. Mas roia-se por dentro: veio-lhe a inquietao nervosa dos -musculos da face, o _tic_ de franzir o nariz: a pelle esverdeou-se-lhe -de bilis. - -A necessidade de se constranger trouxe-lhe o habito d'odiar: odiou -sobretudo as patras, com um odio irracional e pueril. Tivera-as ricas, -com palacetes, e pobres, mulheres d'empregados, velhas e raparigas, -colericas e pacientes;--odiava-as a todas, sem differena. patra -e basta! Pela mais simples palavra, pelo acto mais trivial! Se as -via sentadas:--Anda, refestela-te, que a moura trabalha! Se as via -sahir:--Vai-te, a negra c fica no buraco! Cada riso d'ellas era uma -offensa sua tristeza doentia; cada vestido novo uma affronta ao seu -velho vestido de merino tingido. Detestava-as na alegria dos filhos -e nas prosperidades da casa. Rogava-lhes pragas. Se os amos tinham -um dia de contrariedade, ou via as caras tristes, cantarolava todo o -dia em voz de falsete a _Carta adorada_! Com que gosto trazia a conta -retardada d'um credor impaciente, quando presentia embaraos na casa! -Este papel!--gritava com uma voz estridente--diz que no se vai embora -sem uma resposta! Todos os lutos a deleitavam,--e sob o chale preto, -que lhe tinham comprado, tinha palpitaes de regosijo. Tinha visto -morrer criancinhas, e nem a afflico das mes a commovera; encolhia os -hombros: Vai d'alli, vai fazer outro. Cabras! - -As boas palavras mesmo, as condescendencias eram perdidas com ella, -como gotas d'agua lanadas no fogo. Resumia as patras na mesma -palavra--_uma rcua_! E detestava as boas pelos vexames que soffrera -das ms. A ama era para ella o Inimigo, o Tyranno. Tinha visto morrer -duas,--e de cada vez sentira, sem saber porqu, um vago allivio, como -se uma poro do vasto peso, que a suffocava na vida, se tivesse -desprendido e evaporado! - -Sempre fra invejosa; com a idade aquelle sentimento exagerou-se de -um modo aspero. Invejava tudo na casa: as sobremesas que os amos -comiam, a roupa branca que vestiam. As noites de _soire_, de theatro, -exasperavam-na. Quando havia passeios projectados, se chovia de -repente, que felicidade! O aspecto das senhoras vestidas e de chapo, -olhando por dentro da vidraa com um tedio infeliz, deliciava-a, -fazia-a loquaz: - ---Ai minha senhora! um temporal desfeito! a cantaros, est para -todo o dia! Olha o ferro! - -E muito curiosa: era facil encontral-a, de repente, cosida por detraz -de uma porta com a vassoura a prumo, o olhar aguado. Qualquer carta -que vinha era revirada, cheirada... Remexia subtilmente em todas as -gavetas abertas, vasculhava em todos os papeis atirados. Tinha um modo -de andar ligeiro e surprehendedor. Examinava as visitas. Andava busca -de um _segredo_, de um _bom segredo_! Se lhe cahia um nas mos! - -Era muito gulosa. Nutria o desejo insatisfeito de comer bem, de -petiscos, de sobremesas. Nas casas em que servia ao jantar, o seu olho -avermelhado seguia avidamente as pores cortadas mesa; e qualquer -bom appetite que repetia exasperava-a, como uma diminuio da sua -parte. De comer sempre os restos ganhra o ar aguado,--o seu cabello -tomra tons seccos, cr de rato. Era lambareira: gostava de vinho; -em certos dias comprava uma garrafa de oitenta reis, e bebia-a s, -fechada, repimpada, com estalos da lingua, a orla do vestido um pouco -erguida, revendo-se no p. - -E nunca tivera um homem, era virgem. Fra sempre feia, ninguem a -tentra: e, por orgulho, por birra, com receio de uma desfeita, no se -offerecera, como vira muitas, claramente. O unico homem que a olhra -com desejo tinha sido um criado de cavalharia, atarracado e immundo, -de aspecto facinora: a sua magreza, a sua _cuia_, o seu ar domingueiro -tinham excitado o bruto. Fitava-a com um ar de _bull-dog_. Causra-lhe -horror,--mas vaidade. E o primeiro homem por quem ella sentira, um -criado bonito e alourado, rira-se d'ella, pozera-lhe o nome da _Isca -scca_! No contou mais com os homens, por despeito, por desconfiana -de si mesma. As rebellies da natureza, suffocava-as; eram _fogachos, -flatos_. Passavam. Mas faziam-na mais secca; e a falta d'aquella grande -consolao aggravava a miseria da sua vida. - -Um dia teve, emfim, uma grande esperana. Entrra para o servio -da snr.^a D. Virginia Lemos, uma viuva rica, tia de Jorge, muito -doente, quasi a morrer com um catarrho de bexiga. A tia Victoria, a -inculcadeira, preveniu-a: - ---Tu trata a velha, apaparica-a, que ella o que quer uma enfermeira -que a soffra. rica, no nada apegada ao dinheiro, capaz de te -deixar uma independencia! - -Durante um anno Juliana, roda de ambio, foi a enfermeira da velha. -Que zelos! que mimos! - -Virginia era muito rabugenta, a ida de morrer enfurecia-a; quanto mais -ella ralhava com a sua voz guttural, mais Juliana se fazia servial. A -velha, por fim, estava enternecida: gabava-a s pessoas que a vinham -vr, chamava-lhe a sua _providencia_. Tinha-a recommendado muito a -Jorge. - ---No ha outra! no ha outra!--exclamava. - ---Pois apanhaste!--dizia-lhe a tia Victoria.--Pelo menos deixa-te o teu -conto de reis. - -Um conto de reis! Juliana, de noite, em quanto a velha gemia no seu -antigo leito de pau santo, via o conto de reis claridade morbida que -dava a lamparina, reluzir em pilhas de ouro inesgotavel e prodigioso. -Que faria com o dinheiro? E, cabeceira da doente, com um cobertor -pelos hombros, os olhos dilatados e fixos, planeava: poria uma loja de -capellista! Vinham-lhe logo lampejos vivos de outras felicidades: um -conto de reis era um dote, poderia casar, teria um homem! - -Estavam acabadas as canceiras. Ia jantar, emfim, o _seu_ jantar! -Mandar, emfim, a _sua_ criada! A _sua_ criada! Via-se a chamal-a, -a dizer-lhe, de cima para baixo:--Faa, v, despeje, sia!--Tinha -contraces no estomago, de alegria. Havia de ser boa ama. Mas que lhe -andassem direitas! Desmazelos, ms respostas, no havia de soffrer a -criadas!--E, impellida por aquellas imaginaes, arrastava subtilmente -as chinellas pelo quarto, fallando s.--No, desmazelos, no havia de -soffrer! Mantel-as bem, de certo, porque quem trabalha precisa metter -p'ra dentro! Mas havia de lh'o tirar do corpo. Ah! l isso, haviam de -lhe andar direitas...--A velha tinha ento um gemido mais afflicto. - --- agora!--pensava--Morre! - -E o seu olhar ancioso ia logo para a gaveta da commoda, onde estava -de certo o dinheiro, os papeis. Mas no! a velha queria beber, ou -voltar-se... - ---Como se sente?--perguntava Juliana, com uma voz plangente. - ---Melhor, Juliana, melhor--murmurava. - -Suppunha-se sempre melhor. - ---Mas a senhora tem estado desinquieta!--dizia Juliana, despeitada da -melhora. - ---No--suspirava--dormi bem! - ---Isso no tem dormido... Tenho-a ouvido gemer! Tem estado toda a noite -a gemer! - -Queria argumentar com ella, convencel-a que estava peor! Convencer-se a -si mesma que o allivio era ephemero, que ia morrer depressa! E todas as -manhs seguia o dr. Pinto at porta, com os braos cruzados, a face -triste: - ---Ento, snr. doutor, no ha esperana? - ---Est por dias! - -Queria saber os dias: dous? cinco? - ---Sim, snr.^a Juliana--dizia o velho, calando as suas luvas -pretas--uns dias, sete, oito. - ---Oito dias! - -E como a felicidade se aproximava, j tinha de olho tres pares de -botinas que vira na vidraa do Manoel Loureno! - -A velha, emfim, morreu. Nem a mencionava no testamento! - -Veio-lhe uma febre. Jorge, agradecido pelos cuidados d'ella com a tia -Virginia, pagou-lhe um quarto no hospital, e prometteu tomal-a para -criada de dentro. A que tinha, uma Emilia muito bonita, ia casar. - -Quando sahiu do hospital para casa de Jorge, comeava a queixar-se -mais do corao. Vinha desilludida de tudo, tinha s vezes vontade de -morrer. Ouviam-se todo o dia pela casa os seus _ais_. Luiza achava-a -funebre. - -Quiz despedil-a ao fim de duas semanas. Jorge no consentiu, -estava em divida com ella, dizia. Mas Luiza no podia disfarar a -sua antipathia;--e Juliana comeou a detestal-a: poz-lhe logo um -nome:--a _piorrinha_! depois, d'ahi a semanas viu vir os estofadores: -renovava-se a mobilia da sala! A tia Virginia deixra tres contos de -reis a Jorge,--e ella, ella que durante um anno fra a enfermeira, -humilde como um co e fixa como uma sombra, aturando o monstrengo, -tinha em paga ido para o hospital, com uma febre, das noitadas, das -canceiras! Julgava-se vagamente roubada. Comeou a odiar a casa. - -Tinha para isso muitas razes, dizia: dormia n'um cubiculo abafado; ao -jantar no lhe davam vinho, nem sobremesa; o servio dos engommados -era pesado; Jorge e Luiza tomavam banho todos os dias, e era um -trabalho encher, despejar todas as manhs as largas bacias de folha: -achava despropositada aquella mania de se prem a chafurdar todos os -dias que Deus deitava ao mundo; tinha servido vinte amos, e nunca -vira semelhante desproposito! A unica vantagem--dizia ella tia -Victoria--era no haver pequenos; tinha horror a crianas! Alm d'isso -achava que o bairro era saudavel; e como tinha a cozinheira na mo, -no verdade? havia aquelle regalo dos caldinhos, de algum prato -melhor de vez em quando! Por isso ficava; seno, no era ella! - -Fazia no entanto o seu servio, ninguem tinha nada que lhe dizer. O -olho aberto sempre e o ouvido escuta, j se v! E como perdera a -esperana de se estabelecer, no se sujeitava ao rigor de economisar: -por isso ia-se consolando com algumas pinguinhas, de vez em quando; e -satisfazia o seu vicio,--trazer o p catita. O p era o seu orgulho, a -sua mania, a sua despeza. Tinha-o bonito e pequenino. - ---Como poucos--dizia ella--no vai outro ao Passeio! - -E apertava-o, aperreava-o; trazia os vestidos curtos, lanava-o muito -para fra. A sua alegria era ir aos domingos para o Passeio Publico, -e alli, com a orla do vestido erguida, a cara sob o guarda-solinho de -sda, estar a tarde inteira na poeira, no calor, immovel, feliz,--a -mostrar, a expr o p! - - - - -IV - - -Pelas tres horas da tarde, Juliana entrou na cozinha e atirou-se para -uma cadeira, derreada. No se tinha nas pernas de debilidade! Desde as -duas horas que andava a arrumar a sala! Estava um chiqueiro. O peralta -na vespera at deixra cinza de tabaco por cima das mesas! A negra -que as pagava. E que calor! Era de derreter! Ouf! - ---O caldinho ha-de estar prompto, hein!--disse, adocicando a -voz.--Tira-m'o, snr.^a Joanna, faz favor? - ---Vossemec hoje est com outra cara--notou a cozinheira. - ---Ai! sinto-me outra, snr.^a Joanna! Pois olhe que adormeci com dia. J -luzia o dia! - ---E eu!--Tinha tido cada sonho! Credo! Uma avantesma cr de fogo a -passear-lhe por cima do corpo, e cada pancada na bocca do estomago, -como quem pisava uvas n'um lagar! - ---Enfartamento--disse sentenciosamente Juliana, e repetiu: - ---Pois eu sinto-me outra. Ha mezes que me no sinto to bem! - -Sorria com os seus dentes amarellados. O caldo que Joanna deitava na -malga branca, com um vapor cheiroso, cheio de hortalia, dava-lhe uma -alegria gulosa. Estendeu os ps, recostou-se, feliz, na boa sensao -da tarde quente e luminosa, entrando largamente pelas duas janellas -abertas. - -O sol retirra-se da varanda, e sobre a pedra, em vasos de barro, -plantas pobres encolhiam a sua folhagem chupada do calor: sobre -uma tboa a um canto, n'uma velha panella bojuda, verdejava um p -de salsa muito tratado: o gato dormia sobre um esteiro: esfreges -seccavam n'uma corda: e para alm alargava-se o azul vivo como um -metal candente, as arvores dos quintaes tinham tons ardentes do sol, -os telhados pardos com as suas vegetaes esguias coziam no calor, e -pedaos de paredes caiadas despediam uma rebrilhao dura. - ---Est de appetite, snr.^a Joanna, est de appetite!--dizia Juliana, -remexendo o caldo devagarinho, com gula. A cozinheira de p, com os -braos cruzados sobre o seu peito abundante, regosijava-se: - ---O que se quer que esteja a gosto. - ---Est a preceito. - -Sorriam, contentes da intimidade, das boas palavras.--E a campainha da -porta que j tinha tocado, tornou a tilintar discretamente. - -Juliana no se mexeu. Bafos de aragem quente entravam: ouvia-se ferver -a panella no fogo, e fra o martellar incessante da forja: s vezes o -arrulhar triste de duas rlas que viviam na varanda, n'uma gaiola de -vime, punha na tarde abrazada uma sensao de suavidade. - -A campainha retilintou, sacudida com impaciencia. - ---Com a cabea, burro!--disse Juliana. - -Riram. Joanna fra sentar-se janella, n'uma cadeira baixa; estendia -os seus grossos ps, calados de chinellas de ourlo; coava-se -devagarinho no sovaco, toda repousada. - -A campainha retiniu violentamente. - ---Fra, besta!--rosnou Juliana, muito tranquilla. - -Mas a voz irritada de Luiza chamou de baixo: - ---Juliana! - ---Que nem uma pessoa pde tomar a sustancia socegada! Raio de casa! -Irra! - ---Juliana!--gritou Luiza. - -A cozinheira voltou-se, j assustada: - ---A senhora zanga-se, snr.^a Juliana. - ---Que a leve o diabo! - -Limpou os beios gordurosos ao avental, desceu furiosa. - ---Voss no ouve, mulher? Esto a bater ha uma hora! - -Juliana arregalou os olhos espantada: Luiza tinha vestido o roupo novo -de _foulard_ cr de castanho, com pintinhas amarellas! - ---Temos novidade! Temol-a grossa!--pensou Juliana pelo corredor. - -A campainha repicava. E no patamar, vestido de claro, com uma rosa ao -peito, um embrulho debaixo do brao, estava o _sujeito do negocio das -minas_! - ---Aquelle sujeito de hontem!--veio dizer, toda pasmada. - ---Mande entrar... - ---Viva!--pensou. - -Galgou a escada da cozinha, disse logo da porta, com a voz aguda de -jubilo: - ---Est c o peralta de hontem! Est c outra vez! Traz um -embrulho!--Que lhe parece, snr.^a Joanna? Que lhe parece? - ---Visitas...--disse a cozinheira. - -Juliana teve um risinho secco. Sentou-se, acabou o seu caldo, pressa. - -Joanna indifferente cantarolava pela cozinha; o arrulhar das rlas -continuava langoroso e debil. - ---Pois, senhores, isto vai rico!--disse Juliana. - -Esteve um momento a limpar os dentes com a lingua, o olhar fixo, -reflectindo. Sacudiu o avental, e desceu ao quarto de Luiza: o seu -olhar esquadrinhador avistou logo sobre o toucador as chaves esquecidas -da dispensa: podia subir, beber um trago de bom vinho, engulir dous -ladrilhos de marmelada... Mas possuia-a uma curiosidade urgente, e, em -bicos de ps, foi agachar-se porta que dava para a sala, espreitou. O -reposteiro estava corrido por dentro: podia apenas sentir a voz grossa -e jovial do sujeito. Foi de volta, pelo corredor, outra porta, ao -p da escada; poz o olho fechadura, collou o ouvido frincha. O -reposteiro dentro estava tambem cerrado. - ---Os diabos calafetaram-se!--pensou. - -Pareceu-lhe que se arrastava uma cadeira, depois que se fechava uma -vidraa. Os olhos faiscavam-lhe. Uma risada de Luiza sobresahiu, em -seguida um silencio; e as vozes recomearam n'um tom sereno e continuo. -De repente o sujeito ergueu a falla, e entre as palavras que dizia, de -p de certo, passeando, Juliana ouviu claramente: _Tu, foste tu!_ - ---Oh que bebeda! - -Um tlim-tlim timido da campainha, ao lado, assustou-a. Foi abrir. Era -Sebastio, muito vermelho do sol, com as botas cheias de p. - ---Est?--perguntou, limpando a testa suada. - ---Est com uma visita, snr. Sebastio! - -E cerrando a porta sobre si, mais baixo: - ---Um rapaz novo que j c esteve hontem, um janota! Quer que v dizer? - ---No, no, obrigado, adeus. - -Desceu discretamente. Juliana voltou logo a encostar-se porta, a -orelha contra a madeira, as mos atraz das costas: mas a conversao, -sem saliencia de vozes, tinha um rumor tranquillo e indistincto. Subiu - cozinha. - ---Tratam-se por tu!--exclamou.--Tratam-se por tu, snr.^a Joanna! - -E muita excitada: - ---Isto vai vela! Caspit! assim que eu gosto d'ellas! - -O sujeito sahiu s cinco horas. Juliana, apenas sentiu abrir-se a -porta, veio a correr; viu Luiza no patamar, debruada no corrimo, -dizendo para baixo, com muita intimidade: - ---Bem, no falto. Adeus. - -Ficou ento tomada d'uma curiosidade que a alterava como uma febre. -Toda a tarde, na sala de jantar, no quarto, esquadrinhou Luiza com -olhares de lado. Mas Luiza, com um roupo de linho mais velho, parecia -serena, muito indifferente. - ---Que sonsa! - -Aquella naturalidade despertava a sua bisbilhotice. - ---Eu hei-de-t'apanhar, desavergonhada!--calculava. - -Afigurou-se-lhe que Luiza tinha os olhos um pouco pisados! Estudava-lhe -as posies, os tons de voz. Viu-a repetir o assado,--pensou logo: - ---Abriu-lhe o appetite! - -E quando Luiza ao fim do jantar se estendeu na _voltaire_ com um ar -quebrado: - ---Ficou derreada. - -Luiza que nunca tomava caf, quiz n'essa tarde meia chavena, mas -forte, muito forte. - ---Quer caf!--veio ella dizer cozinheira, toda excitada.--Tudo -grande! E do forte. Quer do forte! Ora o diabo! - -Estava furiosa. - ---Todas o mesmo! Uma rcua de cabras! - - - -Ao outro dia era domingo. Logo pela manh cedo, quando Juliana ia -para a missa, Luiza chamou-a da porta do quarto, deu-lhe uma carta -para levar a D. Felicidade. Ordinariamente mandava um recado;--e a -curiosidade de Juliana accendeu-se logo diante d'aquelle sobrescripto -fechado e lacrado com o sinete de Luiza, um L gothico dentro d'uma -cora de rosas. - ---Tem resposta? - ---Tem. - -Quando voltou s dez horas, com um bilhete de D. Felicidade, Luiza quiz -saber se havia muito calor, se fazia poeira. Sobre a mesa estava um -chapo de palha escuro, que ella estivera a enfeitar com duas rosas de -musgo. - -Fazia um bocadinho de vento, mas p'ra a tarde abrandava, de certo. E -pensou logo:--Temos passeata, vai ter com o gajo! - -Mas durante todo o dia, Luiza em roupo no sahiu do seu quarto ou -da sala, ora estendida na _causeuse_ lendo aos bocados, ora batendo -distrahidamente no piano pedaos de valsas. Jantou s quatro horas. A -cozinheira sahiu, e Juliana pz-se a passar a sua tarde janella da -sala de jantar. Tinha o vestido novo, as salas muito rijas de gomma, a -cuia dos dias santos--e pousava solemnemente os cotovlos n'um leno, -estendido sobre o peitoril da varanda. Defronte os passaros chilreavam -na figueira brava. Dos dous lados do tabique que cercava o terreno -vago, agachavam-se os tectos escuros das duas ruasitas parallelas: -eram casas pobres onde viviam mulheres, que pela tarde, em chambre -ou de garibaldi, os cabellos muito oleosos, faziam meia janella, -fallando aos homens, cantarolando com um tedio triste. Do outro lado do -terreno, verduras de quintaes, muros brancos davam quelle sitio um ar -adormecido de villa pacata. Quasi ninguem passava. Havia um silencio -fatigado; e s s vezes o som distante d'um realejo, que tocava a -_Norma_ ou a _Lucia_, punha uma melancolia na tarde.--E Juliana alli -estava immovel, at que os tons quentes da tarde empallideciam, e os -morcegos comeavam a voar. - -Pelas oito horas entrou no quarto de Luiza,--ficou pasmada de a vr -vestida toda de preto, de chapo! Tinha accendido as serpentinas na -parede, os castiaes no toucador; e sentada beira da _causeuse_ -calava as luvas devagar, com a face muito sria, um pouco esbatida de -p d'arroz, o olhar cheio de brilho. - ---O vento abrandou?--disse. - ---Est a noite muito bonita, minha senhora. - -Um pouco antes das nove horas uma carruagem parou porta. Era D. -Felicidade, muito encalmada. Abafra todo o dia! E noite nem uma -aragem! At tinha mandado buscar uma carruagem descoberta, que n'um -coup, credo, morria-se! - -Juliana pelo quarto arrumava, dobrava, toda curiosa. Onde iriam? onde -iriam? D. Felicidade, amplamente sentada, de chapo, tagarellava: uma -indigesto que tivera na vespera com umas bajes; a cozinheira que a -tinha querido comer em quatro vintens; uma visita que lhe fizera a -condessa de Arruella... - -Emfim, Luiza, disse, baixando o seu vo branco: - ---Vamos, filha. Faz-se tarde. - -Juliana foi-lhes alumiar, furiosa. Olha que proposito, irem duas -mulheres ss por ahi fra, n'uma tipoia! E se uma criada ento se -demorava na rua mais meia hora, credo, que alarido! Que duas bebedas! - -Foi cozinha desabafar com a Joanna. Mas a rapariga estirada n'uma -cadeira, dormitava. - -Fra com o seu Pedro ao Alto de S. Joo. E toda a tarde tinham passeado -no cemiterio, muito juntos, admirando os jazigos, soletrando os -epitaphios, beijocando-se nos recantos que os chores escureciam, e -regalando-se do ar dos cyprestes e das relvas dos mortos. Voltaram por -casa da Serena, entraram a beberricar um quartilho no Espregueira... -Tarde cheia! e estava derreada da soalheira, do p, da admirao de -tanto tumulo rico, do homem, e da pinguita de vinho. - -O que ia, era refastelar-se para a cama! - ---Credo, snr.^a Joanna, vossemec est-se a fazer uma dorminhca! Olha -que mulher! Com pouco arra! Cruzes! - -Desceu ao quarto de Luiza, apagou as luzes, abriu as janellas, arrastou -a poltrona para a varanda,--e, repimpada, os braos cruzados, pz-se a -passar a noite. - -O estanque ainda no se fechra, e a sua luzita lugubre como a -estanqueira, estendia-se tristemente sobre a pedra miuda da rua; as -janellas ao p estavam abertas; por algumas, mal alumiadas, viam-se -dentro seres melancolicos; n'outras, onde havia vultos immoveis, -luzia s vezes a ponta d'um cigarro; aqui, alm tossia-se; e o moo do -padeiro, no silencio quente da noite, harpejava baixinho a guitarra. - -Juliana pozera um vestido de chita claro; dous sujeitos que estavam - porta do estanque riam, erguiam de vez em quando os olhos para a -janella, para aquelle vulto branco de mulher: Juliana, ento, gozou! -Tomavam-na de certo pela senhora, pela do Engenheiro; faziam-lhe -olho, diziam brejeirices... Um tinha cala branca e chapo alto, eram -janotas... E com os ps muito estendidos, os braos cruzados, a cabea -de lado, saboreava, longamente, aquella considerao. - -Passos fortes que subiam a rua, pararam porta; a campainha retiniu de -leve. - ---Quem ?--perguntou muito impaciente. - ---Est?--disse a voz grossa de Sebastio. - ---Sahiu com a D. Felicidade, foram de carruagem. - ---Ah!--fez elle. - -E acrescentou: - ---Muito bonita noite! - ---D'appetite, snr. Sebastio! d'appetite!--exclamou alto. - -E quando o viu descer a rua, gritou, affectadamente: - ---Recados a Joanna! No se esquea!--mostrando-se intima, madama, com -olho terno para os homens. - - - -quella hora D. Felicidade e Luiza chegavam ao Passeio. - -Era beneficio; j de fra se sentia o _brouhaha_ lento e monotono, e -via-se uma nevoa alta de poeira, amarellada e luminosa. - -Entraram. Logo ao p do tanque encontraram Bazilio. Fez-se muito -surprehendido, exclamou: - ---Que feliz acaso! - -Luiza corou, apresentou-o a D. Felicidade. - -A excellente senhora teve muitos sorrisos. Lembrava-se d'elle, mas se -no lhe dissessem talvez o no conhecesse! Estava muito mudado! - ---Os trabalhos, minha senhora...--disse Bazilio curvando-se. - -E acrescentou rindo, batendo com a bengala na pedra do tanque: - ---E a velhice! Sobretudo a velhice! - -Na agua escura e suja as luzes do gaz torciam-se at uma grande -profundidade. As folhagens em redor estavam immoveis, no ar parado, -com tons d'um verde livido e artificial. Entre os dous longos renques -parallelos d'arvores mesquinhas, entremeadas de candieiros de gaz, -apertava-se, n'um empoeiramento de macadam, uma multido compacta e -escura; e atravs do rumor grosso, as saliencias metallicas da musica -faziam passar no ar pesado, compassos vivos de valsa. - -Tinham ficado parados, conversando. - -Que calor, hein? Mas a noite estava linda! Nem uma aragem! que enchente! - -E olhavam a gente que entrava: moos muito frisados, com calas cr de -flr d'alecrim, fumando ceremoniosamente os charutos do dia santo; um -aspirante com a cinta espartilhada e o peito enchumaado; duas meninas -de cabello riado, de movimentos gingados que lhe desenhavam os ossos -das omoplatas sob a fazenda do vestido atabalhoado; um ecclesiastico -cr de cidra, o ar molle, o cigarro na bocca, e lunetas defumadas; uma -hespanhola com dous metros de saia branca muita rija, fazendo ruge-ruge -na poeira; o triste Xavier, poeta; um fidalgo de jaqueto e bengalo, -de chapo na nuca, o olho avinhado; e Bazilio ria muito de dous -pequenos que o pai conduzia com um ar hilare e compenetrado--vestidos -d'azul claro, a cinta ligada n'uma facha escarlate, barretinas de -lanceiro, botas hungara, cretinos e somnambulos. - -Um sujeito alto ento passou rente d'elles, e voltando-se, revirou para -Luiza dous grandes olhos langorosos e prateados: tinha uma pera longa -e aguada; trazia o collete decotado mostrando um bello peitilho, e -fumava por urna boquilha enorme que representava um zuavo. - -Luiza quiz-se sentar. - -Um garoto de blusa, sujo como um esfrego, correu a arranjar cadeiras; -e acommodaram-se ao p d'uma familia acabrunhada e taciturna. - ---Que fizeste tu hoje, Bazilio?--perguntou Luiza. - -Tinha ido aos touros. - ---E que tal? Gostaste? - ---Uma semsaboria. Se no fosse pelo trambolho do Peixinho tinha-se -morrido de pasmaceira. Gado fraco, cavalleiros infelizes, nenhuma -sorte! Touros em Hespanha! Isso sim! - -D. Felicidade protestou. Que horror! Tinha-os visto em Badajoz, -quando estivera de visita em Elvas tia Francisca de Noronha, e ia -desmaiando. O sangue, as tripas dos cavallos... Pouh! muito cruel! - -Bazilio disse, com um sorriso: - ---Que faria se visse os combates de gallos, minha senhora! - -D. Felicidade tinha ouvido contar,--mas achava todos esses -divertimentos barbaros, contra a religio. - -E recordando um gozo que lhe punha um riso na face gorda: - ---P'ra mim no ha nada como uma boa noite de theatro! Nada! - ---Mas aqui representam to mal!--replicou Bazilio com uma voz -desolada.--To mal, minha rica senhora! - -D. Felicidade no respondeu; meio erguida na cadeira, o olhar avivado -d'um brilho humido, saudava desesperadamente com a mo: - ---No me viu--disse desconsolada. - ---Era o conselheiro?--perguntou Luiza. - ---No. Era a condessa d'Alviella. No me viu! Vai muito Encarnao, -sou muito d'ella. um anjo! No me viu. Ia com o sogro. - -Bazilio no tirava os olhos de Luiza. Sob o vo branco, luz falsa -do gaz, no ar ennevoado da poeira, o seu rosto tinha uma frma alva -e suave, onde os olhos que a noite escurecia punham uma expresso -apaixonada; os cabellinhos louros, frisados, tornando a testa -mais pequena, davam-lhe uma graa ameninada e amorosa; e as luvas -_gris-perle_ faziam destacar sobre o vestido negro o desenho elegante -das mos, que ella pousra no regao, sustentando o leque, com uma fofa -renda branca em torno dos seus pulsos finos. - ---E tu, que fizeste hoje?--perguntou-lhe Bazilio. - -Tinha-se aborrecido muito. Estivera todo o santo dia a lr. - -Tambem elle passra a manh deitado no soph a lr a _Mulher de fogo_ -de Belot. Tinha lido, ella? - ---No, que ? - --- um romance, uma novidade. - -E acrescentou sorrindo: - ---Talvez um pouco picante; no t'o aconselho! - -D. Felicidade andava a lr o _Rocambole_. Tanto lh'o tinham apregoado! -Mas era uma tal trapalhada! Embrulhava-se, esquecia-se... E ia deixar, -porque tinha percebido que a leitura lhe augmentava a indigesto. - ---Soffre?--perguntou Bazilio, com um interesse bem educado. - -D. Felicidade contou logo a sua dyspepsia. Bazilio aconselhou-lhe o -uso do gelo.--De resto felicitava-a, porque as doenas d'estomago, -ultimamente, tinham muito _chic_. Interessou-se pela d'ella, pediu -pormenores. - -D. Felicidade prodigalisou-os; e, fallando, via-se-lhe crescer no -olhar, na voz a sua sympathia por Bazilio. Havia de usar o gelo! - ---Com o vinho, j se sabe? - ---Com o vinho, minha senhora! - ---E olha que talvez!--exclamou D. Felicidade, batendo com o leque no -brao de Luiza, j esperanada. - -Luiza sorriu, ia responder--mas viu o sujeito pallido da pera longa que -fitava n'ella os seus olhos langorosos, com obstinao. Voltou o rosto -importunada. O sujeito afastou-se, retorcendo a ponta da pera. - -Luiza sentia-se molle; o movimento rumoroso e monotono, a noite calida, -a accumulao da gente, a sensao de verdura em redor davam ao seu -corpo de mulher caseira um torpor agradavel, um bem estar d'inercia, -envolviam-na n'uma doura emolliente de banho morno. Olhava com um vago -sorriso, o olhar frouxo; quasi tinha preguia de mexer as mos, d'abrir -o leque. - -Bazilio notou o seu silencio.--Tinha somno? - -D. Felicidade sorriu com finura. - ---Ora, v-se sem o seu maridinho! Desde que o no tem est esta mona -que se v. - -Luiza respondeu, olhando Bazilio instinctivamente: - ---Que tolice! At estes dias tenho andado bem alegre! - -Mas D. Felicidade insistia: - ---Ora, bem sabemos, bem sabemos. Esse coraosinho est no Alemtejo! - -Luiza disse, com impaciencia: - ---No has-de querer que me ponha aos pulos e s gargalhadas no Passeio. - ---Est bem, no te enfureas!--exclamou D. Felicidade. E para -Bazilio:--Que geniosinho, hein! - -Bazilio pz-se a rir. - ---A prima Luiza antigamente era uma vibora. Agora no sei... - -D. Felicidade acudiu: - --- uma pomba, coitada, uma pomba! No, l isso, uma pomba. - -E envolvia-a n'um olhar maternal. - -Mas a familia taciturna ergueu-se, sem ruido,--e as meninas adiante, os -paes atraz, afastaram-se lugubremente, succumbidos. - -Bazilio immediatamente apossou-se da cadeira ao p de Luiza,--e vendo -D. Felicidade a olhar distrahida: - ---Estive para te ir vr de manh--disse baixinho a Luiza. - -Ella ergueu a voz, muito naturalmente, com indifferena: - ---E porque no foste? Tinhamos feito musica. Fizeste mal. Devias ter -ido... - -D. Felicidade quiz ento saber as horas. Comeava a enfastiar-se. -Tinha esperado encontrar o conselheiro: por elle, para lhe parecer -bem, fizera o sacrificio de se apertar; Accacio no vinha, os gazes -comeavam a affrontal-a; e o despeito d'aquella ausencia augmentava-lhe -a tortura da digesto. Na sua cadeira, com o corpo molle, ia seguindo a -multido que girava incessantemente, n'uma nevoa empoeirada. - -Mas a musica, no coreto, bateu de repente, alto, a grande ruido de -cobres, os primeiros compassos impulsivos da marcha do _Fausto_. -Aquillo reanimou-a. Era um _pot-pourri_ da opera,--e no havia musica -de que gostasse mais. Estaria para a abertura de S. Carlos, o snr. -Bazilio? - -Bazilio disse, com uma inteno, voltando-se para Luiza: - ---No sei, minha senhora, depende... - -Luiza olhava, calada. A multido crescera. Nas ruas lateraes mais -espaosas, frescas, passeavam apenas, sob a penumbra das arvores, os -acanhados, as pessoas de luto, os que tinham o fato coado. Toda a -burguezia domingueira viera amontoar-se na rua do meio, no corredor -formado pela filas cerradas das cadeiras do asylo: e alli se movia -entalada, com a lentido espessa d'uma massa mal derretida, arrastando -os ps, raspando o macadam, n'um amarfanhamento plebeu, a garganta -secca, os braos molles, a palavra rara. Iam, vinham, incessantemente, -para cima e para baixo, com um bamboleamento relaxado e um rumor -grosso, sem alegria e sem bonhomia, no arrebanhamento passivo que -agrada s raas mandrionas: no meio da abundancia das luzes e das -festividades da musica, um tedio morno circulava, penetrava como uma -nevoa: a poeirada fina envolvia as figuras, dava-lhes um tom neutro; e -nos rostos que passavam sob os candieiros, nas zonas mais directas de -luz, viam-se desconsolaes de fadiga e aborrecimentos de dia santo. - -Defronte as casas da rua Occidental tinham na sua fachada o reflexo -claro das luzes do Passeio; algumas janellas estavam abertas; as -cortinas de fazenda escura destacavam sobre a claridade interior dos -candieiros. Luiza sentia como uma saudade de outras noites de vero, de -seres recolhidos. Onde? No se lembrava. O movimento ento retrahia-a; -e encontrava em face, fitando-a n'uma attitude lugubre, o sujeito da -pera longa. Debaixo do vo sentia a poeira arder-lhe nos olhos: em -redor d'ella gente bocejava. - -D. Felicidade propoz uma volta. Levantaram-se, foram rompendo devagar; -as filas das cadeiras apertavam-se compactamente, e uma infinidade de -faces a que a luz do gaz dava o mesmo tom amarellado olhavam de um modo -fixo e canado, n'um abatimento de pasmaceira. Aquelle aspecto irritou -Bazilio, e como era difficil andar lembrou--que se fossem d'aquella -semsaboria. - -Sahiram. Em quanto elle ia comprar os bilhetes, D. Felicidade, -deixando-se quasi cahir n'um banco sob a folhagem d'um choro, exclamou -afflicta: - ---Ai filha! Estou que arrebento! - -Passava a mo no estomago, tinha a face envelhecida. - ---E o conselheiro, que me dizes? Olha que j pouca sorte! Hoje que eu -vim ao Passeio... - -Suspirou, abanando-se. E com o seu sorriso bondoso: - --- muito sympathico, teu primo! E que maneiras! Um verdadeiro fidalgo. -Que elles conhecem-se, filha! - -Declarou-se muito fatigada, apenas sahiram o porto. Era melhor tomarem -um trem. - -Bazilio achava preferivel subirem a p at ao largo do Loreto. A noite -estava to agradavel! E o andar fazia bem snr.^a D. Felicidade! - -Depois diante do Martinho, fallou em irem tomar neve; mas D. Felicidade -receava a frialdade, Luiza tinha vergonha. Pelas portas do caf -abertas, viam-se sobre as mesas jornaes enxovalhados; e algum raro -individuo, de cala branca, tomava placidamente o seu sorvete de -morango. - -No Rocio, sob as arvores, passeava-se: pelos bancos, gente immovel -parecia dormitar; aqui e alm pontas de cigarro reluziam; sujeitos -passavam, com o chapo na mo, abanando-se, o collete desabotoado; a -cada canto se apregoava agua fresca do Arsenal; em torno do largo, -carruagens descobertas rodavam vagarosamente. O co abafava,--e na -noite escura, a columna da estatua de D. Pedro tinha o tom bao e -pallido de uma vela de estearina colossal e apagada. - -Bazilio, ao p de Luiza, ia calado. Que horror de cidade!--pensava--Que -tristeza! E lembrava-lhe Paris, de vero: subia, noite, no seu -phaeton, os Campos Elyseos devagar: centenares de victorias descem, -sobem rapidamente, com um trote discreto e alegre; e as lanternas fazem -em toda a avenida um movimento jovial de pontos de luz; vultos brancos -e mimosos de mulheres reclinam-se nas almofadas, balanadas nas molas -macias; o ar em redor tem uma doura avelludada, e os castanheiros -espalham um aroma subtil. Dos dous lados, d'entre os arvoredos, saltam -as claridades violentas dos cafs cantantes, cheios do _brouhaha_ -das multides alegres, dos _brios_ impulsivos das orchestras; os -restaurantes flammejam; ha uma intensidade de vida amorosa e feliz; -e, para alm, sahe das janellas dos palacetes, atravs dos _stores_ -de sda, a luz sobria e velada das existencias ricas. Ah! se l -estivesse!--Mas ao passar junto dos candieiros olhava de lado para -Luiza: o seu perfil fino sob o vo branco tinha uma grande doura; o -vestido prendia bem a curva do seu peito; e havia no seu andar uma -lassido que lhe quebrava a linha da cinta de um modo languido e -promettedor. - -Veio-lhe uma certa ida, comeou a dizer: Que pena que no houvesse -em toda a Lisboa um restaurante, onde se podesse ir tomar uma aza de -perdiz e beber uma garrafa de _champagne frappe_! - -Luiza no respondeu. Devia ser delicioso--pensava.--Mas D. Felicidade -exclamou: - ---Perdiz, a esta hora! - ---Perdiz ou outra qualquer cousa. - ---Fosse o que fosse, era para estourar! Credo! - -Subiam pela rua Nova do Carmo. Os candieiros davam uma luz mortia: as -altas casas dos dous lados, apagadas, entalavam, carregavam a sombra; -e a patrulha muito armada, descia passo a passo, sem ruido, sinistra e -subtil. - -Ao Chiado um garoto de barrete azul perseguiu-os com cautelas de -loteria; a sua voz aguda e chorosa promettia a fortuna, muitos contos -de reis. D. Felicidade ainda parou, com uma tentao... Mas uma troa -de rapazes bebedos que descia de chapo na nuca, fallando alto, aos -tropees, assustou muito as duas senhoras. Luiza encolheu-se logo -contra Bazilio, D. Felicidade enfiada agarrou-lhe anciosamente o brao, -quiz-se metter n'uma carruagem; e at ao Loreto foi explicando o seu -medo aos borrachos, com a voz atarantada, contando casos, facadas, sem -largar o brao de Bazilio. Da fileira de tipoias, ao lado das grades -da praa de Cames, um cocheiro lanou logo a sua caleche descoberta, -de p na almofada, apanhando confusamente as rdeas, com grandes -chicotadas na parelha, muito excitado, gritando: - ---Prompto, meu amo, prompto! - -Demoraram-se um momento ainda conversando. Um homem ento passou, -rondou,--e Luiza desesperada reconheceu os olhos acarneirados do -sujeito da pera. - -Entraram para a caleche. Luiza ainda se voltou para vr Bazilio -immovel no largo, com o seu chapo na mo: depois accommodou-se, pz -os psinhos no outro assento e balanada pelo trote largo viu passar, -calada, as casas apagadas da rua de S. Roque, as arvores de S. Pedro -de Alcantara, as fachadas estreitas do Moinho de Vento, os jardins -adormecidos da Patriarchal. A noite estava immovel, de um calor molle: -e desejava, sem saber porque, rolar assim sempre, infinitamente, entre -ruas, entre grades cheias de folhagem de quintas nobres, sem destino, -sem cuidados, para alguma cousa de feliz que no distinguia bem! Um -grupo defronte da Escla ia tocando o _Fado do Vimioso_; aquelles sons -entraram-lhe na alma como um vento dce, que fazia agitar brandamente -muitas sensibilidades passadas: suspirou baixo. - ---Um suspirosinho que vai para o Alemtejo--disse D. Felicidade, -tocando-lhe o brao. - -Luiza sentiu todo o sangue abrazar-lhe o rosto. Davam onze horas quando -entrou em casa. - -Juliana veio alumiar.--O ch estava prompto, quando a senhora -quizesse... - -Luiza subiu d'ahi a pouco com um largo roupo branco, muito fatigada, -estendeu-se na _voltaire_; sentia vir-lhe uma somnolencia, a cabea -pendia-lhe, cerrava as palpebras... E Juliana tardava tanto com o ch! -Chamou-a. Onde estava? credo! - -Tinha descido, p ante p, ao quarto de Luiza. E ahi tomando o -vestido, as saias engommadas que ella despira e atirra para cima da -_causeuse_, desdobrou-as, revirou-as, examinou-as, e com uma certa -ida, cheirou-as! Havia o vago aroma de um corpo lavado e quente, -com uma pontinha de suor e de agua de colonia. Quando a sentiu -chamar, impacientar-se em cima, subiu, correndo.--Fra abaixo dar uma -arrumadella. Era o ch? Estava prompto... - -E entrando com as torradas: - ---Veio ahi o snr. Sebastio, haviam de ser nove horas... - ---Que lhe disse? - ---Que a senhora tinha sahido com a snr.^a D. Felicidade. Como no -sabia, no disse para onde. - -E acrescentou: - ---Esteve a conversar commigo, o snr. Sebastio... Esteve a conversar -mais de meia hora!... - - - -Luiza recebeu, na manh seguinte, da parte de Sebastio, um ramo de -rosas, magenta-escuro, magnificas. Cultivava-as elle na quinta de -Almada, e chamavam-se rosas _D. Sebastio_. Mandou-as pr nos vasos da -sala, e como o dia estava encoberto, de um calor baixo e suffocante: - ---Olhe--disse a Juliana--abra as janellas. - ---Bem--pensou Juliana--temos c o melro. - -O _melro_ veio com effeito s tres horas. Luiza estava na sala, ao -piano. - ---Est alli o sujeito do costume--foi dizer Juliana. - -Luiza voltou-se corada, escandalisada da expresso: - ---Ah! meu primo Bazilio? Mande entrar. - -E chamando-a: - ---Oua, se vier o snr. Sebastio, ou alguem, que entre. - -Era o primo! O _sujeito_, as suas visitas perderam de repente para ella -todo o interesse picante. A sua malicia cheia, enfunada at ahi, cahiu, -engelhou-se como uma vela a que falta o vento. Ora, adeus! Era o primo! - -Subiu cozinha, devagar,--lograda. - ---Temos grande novidade, snr.^a Joanna! O tal peralta primo. Diz que - o primo Bazilio. - -E com um risinho: - --- o Bazilio! Ora o Bazilio! Sahe-nos primo ultima hora! O diabo tem -graa! - ---Ento que havia de o homem ser seno parente?--observou Joanna. - -Juliana no respondeu. Quiz saber se estava o ferro prompto, que tinha -uma carga de roupa para passar! E sentou-se janella, esperando. O co -baixo e pardo pesava, carregado de electricidade; s vezes uma aragem -subita e fina punha nas folhagens dos quintaes um arripio tremulo. - --- o primo!--reflectia ella.--E s vem ento quando o marido se vai. -Boa! E fica-se toda no ar quando elle sahe, e roupa branca e mais -roupa branca, e roupo novo, e tipoia para o passeio, e suspiros e -olheiras! Boa bebeda! Tudo fica na familia! - -Os olhos luziam-lhe. J se no sentia to lograda. Havia alli muito -para vr e para escutar. E o ferro, estava prompto? - -Mas a campainha, em baixo, tocou. - ---Boa! isto agora um fadario! Estamos na casa do despacho! - -Desceu; e exclamou logo, vendo Julio com um livro debaixo do brao: - ---Faz favor d'entrar, snr. Julio! A senhora est com o primo, mas diz -que mandasse entrar! - -Abriu a porta da sala bruscamente, de surpreza. - ---Est aqui o snr. Julio--disse com satisfao. - -Luiza apresentou os dous homens. - -Bazilio ergueu-se do soph languidamente, e, n'um relance, percorreu -Julio desde a cabelleira desleixada at s botas mal engraxadas, com -um olhar quasi horrorisado. - ---Que pulha!--pensou. - -Luiza, muito fina, percebeu, e crou, envergonhada de Julio. - -Aquelle homem de collarinho enxovalhado e com um velho casaco de pano -preto mal feito--que ida daria a Bazilio das relaes, dos amigos -da casa! Sentia j o seu _chic_ diminuido. E instinctivamente, a sua -physionomia tornou-se muito reservada,--como se semelhante visita a -surprehendesse! semelhante _toilette_ a indignasse! - -Julio percebeu o constrangimento d'ella, disse, j embaraado, -ageitando a luneta: - ---Passei por aqui por acaso, entrei a saber se ha algumas noticias de -Jorge... - ---Obrigada. Sim, tem escripto. Est bem... - -Bazilio, recostado no soph, como um parente intimo, examinava a -sua meia de sda bordada de estrellinhas escarlates, e cofiava -indolentemente o bigode, arrebitando um pouco o dedo minimo,--onde -brilhavam, em dous grossos anneis d'ouro, uma saphira e um rubi. - -A affectao da attitude, o reluzir das joias irritaram Julio. - -Quiz mostrar tambem a sua intimidade, os seus direitos, disse: - ---Eu no tenho vindo fazer-lhe um bocado de companhia, porque tenho -estado muito occupado... - -Luiza acudiu para desauthorisar logo aquella familiaridade: - ---Eu tambem no me tenho achado bem. No tenho recebido ninguem,--a no -ser meu primo, naturalmente! - -Julio sentiu-se renegado! E todo vermelho, de surpreza, d'indignao, -ficou a balanar a perna, calado, com o livro sobre o joelho; como a -cala era curta, via-se o elastico esfiado das botas velhas. - -Houve um silencio difficil. - ---Bonitas rosas!--disse emfim Bazilio, preguiosamente. - ---Muito bonitas!--respondeu Luiza. - -Estava agora compadecida de Julio, procurava uma palavra; disse-lhe -emfim muito precipitadamente: - ---E que calor! de morrer! Tem havido muitas doenas? - ---Colerinas--respondeu Julio.--Por causa das frutas. Doenas de ventre. - -Luiza baixou os olhos. Bazilio ento comeou a fallar da viscondessinha -d'Azeias: tinha-a achado acabada; e que era feito da irm, da grande? - -Aquella conversao sobre fidalgas que elle no conhecia isolava mais -Julio: sentia o suor humedecer-lhe o pescoo; procurava um dito, uma -ironia, uma agudeza; e machinalmente abria e fechava o seu grosso livro -de capa amarella. - --- algum romance?--perguntou-lhe Luiza. - ---No. o tratado do dr. Lee sobre doenas d'utero. - -Luiza fez-se escarlate: Julio tambem, furioso da palavra que lhe -escapra. E Bazilio, depois de sorrir, perguntou por uma certa D. -Raphaela Grij, que costumava ir rua da Magdalena, que usava luneta, -e tinha um cunhado gago... - ---Morreu-lhe o marido. Casou com o cunhado. - ---Com o gago? - ---Sim. Tem um filhito d'elle, gago tambem. - ---Que conversao, em familia! E a D. Eugenia, a de Braga? - -Julio, exasperado, ergueu-se; e com uma voz de garganta secca: - ---Estou com pressa, no me posso demorar. Quando escrever a Jorge, os -meus recados, hein? - -Abaixou bruscamente a cabea a Bazilio. Mas no achava o chapo, -tinha rolado para debaixo d'uma cadeira. Embrulhou-se no reposteiro, -topou violentamente contra a porta fechada, e sahiu emfim -desesperado, desejando vingar-se, odiando Luiza, Jorge, o luxo, a -vida,--transbordando agora d'ironias, de ditos, de rplicas. Devia-os -ter achatado, o asno e a tola... E no lhe acudira nada! - -Mas apenas elle tinha fechado a cancella, Bazilio pz-se de p, e -cruzando os braos: - ---Quem este pulha? - -Luiza crou muito, balbuciou: - --- um rapaz medico... - --- uma creatura impossivel, uma especie d'estudante! - ---Coitado, no tem muitos meios... - -Mas no era necessario ter meios para escovar o casaco e limpar a -caspa! No devia receber semelhante homem! Envergonha uma casa. Se seu -marido gostava d'elle, que o recebesse no escriptorio!... - -Passeava pela sala, excitado, com as mos nos bolsos, fazendo tilintar -o dinheiro e as chaves. - ---So frescos os amigos da casa!...--continuou.--Que diabo! tu no -foste educada assim. Nunca tiveste gente d'este genero na rua da -Magdalena. - -No tivera: e pareceu-lhe que as ligaes do casamento lhe tinham -trazido um pouco o plebeismo das convivencias. Mas um respeito pelas -opinies, pelas sympathias de Jorge fez-lhe dizer: - ---Diz que tem muito talento... - ---Era melhor que tivesse botas. - -Luiza, por cobardia, concordou. - ---Tambem o acho exquisito!--disse. - ---Horrivel, minha filha! - -Aquella palavra fez-lhe bater o corao. Era assim que elle lhe -chamava, outr'ora! Houve um momento de silencio:--e a campainha da -porta retiniu fortemente. - -Luiza ficou assustada. Jesus! Se fosse Sebastio! Bazilio achal-o-hia -ainda mais reles! Mas Juliana veio dizer: - ---O snr. conselheiro. Mando entrar? - ---De certo--exclamou. - -E a alta figura d'Accacio adiantou-se, com as bandas do casaco d'alpaca -deitadas para traz, a cala branca muito engommada cahindo sobre -sapatos de entrada abaixo, de lao. - -Apenas Luiza lhe apresentou o primo Bazilio, disse logo, respeitoso: - ---J sabia que v. exc.^a tinha chegado, vi-o nas interessantes noticias -do nosso _high-life_. E do nosso Jorge? - -Jorge estava em Beja... Diz que se aborrece muito... - -Bazilio, mais amavel, deixou cahir: - ---Eu realmente no tenho a menor ida do que se possa fazer em Beja. -Deve ser horroroso! - -O conselheiro, passando sobre o bigode a sua mo branca onde destacava -o annel d'armas, observou: - --- todavia a capital do districto! - -Mas se j em Lisboa se no podia fazer nada, e era a capital do -reino!--E Bazilio puxava, todo recostado, o punho da camisa.--Morria-se -positivamente de pasmaceira! - -Luiza, muito contente da affabilidade de Bazilio, pz-se a rir: - ---No digas isso diante do conselheiro. um grande admirador de Lisboa. - -Accacio curvou-se: - ---Nasci em Lisboa, e aprecio Lisboa, minha rica senhora. - -E com muita bonhomia: - ---Conheo porm que no para comparar aos Parizes, s Londres, s -Madrids... - ---De certo--fez Luiza. - -E o conselheiro continuou com pompa: - ---Lisboa porm tem bellezas sem igual! A entrada, ao que me dizem -(eu nunca entrei a barra), um panorama grandioso, rival das -Constantinoplas e das Napoles. Digno da penna d'um Garrett ou d'um -Lamartine! Proprio para inspirar um grande engenho!... - -Luiza, receando citaes ou apreciaes litterarias, interrompeu-o, -perguntou-lhe o que tinha feito? Tinham estado domingo no Passeio, ella -e D. Felicidade, tinham esperado vl-o, e nada! - -Nunca ia ao Passeio, ao domingo--declarou.--Reconhecia que era muito -agradavel, mas a multido entontecia-o. Tinha notado,--e a sua voz -tomou o tom espaado d'uma revelao,--tinha notado que muita gente, -n'um local, causa vertigens aos homens d'estudo. De resto queixou-se da -sua saude e do peso dos seus trabalhos. Andava compilando um livro e -usando as aguas de Vichy. - ---Pdes fumar--disse Luiza de repente, sorrindo, a Bazilio.--Queres -lume? - -Ella mesmo lhe foi buscar um phosphoro, toda ligeira, feliz. Tinha um -vestido claro, um pouco transparente, muito fresco. Os seus cabellos -pareciam mais louros, a sua pelle mais fina. - -Bazilio soprou o fumo do charuto, e declarou muito reclinado: - ---O Passeio ao domingo simplesmente idiota!... - -O conselheiro reflectiu e respondeu: - ---No serei to severo, snr. Brito!--Mas parecia-lhe que com -effeito antigamente era uma diverso mais agradavel.--Em primeiro -lugar--exclamou com muita convico, endireitando-se--nada, mas -nada, absolutamente nada pde substituir a charanga da Armada!--Alm -d'isso havia a questo dos preos... Ah! tinha estudado muito o -assumpto! Os preos diminutos favoreciam a agglomerao das classes -subalternas... Que longe do seu pensamento lanar desdouro n'essa parte -da populao... As suas idas liberaes eram bem conhecidas.--Appllo -para a snr.^a D. Luiza!--disse.--Mas emfim, sempre era mais agradavel -encontrar uma roda escolhida! Em quanto a si nunca ia ao Passeio. -Talvez no acreditassem, mas nem mesmo quando havia fogo de vistas! -N'esses dias, sim, ia vr por fra das grades. No por economia! De -certo no. No era rico, mas podia fazer face a essa contribuio -diminuta. Mas que receava os accidentes! que os receava muito! -Contou a historia d'um sujeito, cujo nome lhe escapava, a quem uma cana -de foguete furra o craneo.--E alm d'isso nada mais facil que cahir -uma fagulha accesa na cara, n'um paletot novo...-- conveniente ter -prudencia--resumiu, compenetrado, limpando os beios com o leno de -sda da India muito enrolado. - -Fallaram ento da estao: muita gente fra para Cintra: de resto, -Lisboa no vero era to seccante!... E o conselheiro declarou que -Lisboa s era imponente, verdadeiramente imponente, quando estavam -abertas as camaras e S. Carlos! - ---Que estavas tu a tocar quando eu entrei?--perguntou Bazilio. - -O conselheiro acudiu logo: - ---Se estavam fazendo musica, por quem so... Sou um velho assignante de -S. Carlos, ha dezoito annos... - -Bazilio interrompeu-o: - ---Toca? - ---Toquei. No o occulto. Em rapaz fui dado flauta. - -E acrescentou, com um gesto benevolo: - ---Rapaziadas!... Alguma novidade, o que estava tocando, D. Luiza? - ---No! Uma musica muito conhecida, j antiga: a _Filha do Pescador_, de -Meyerbeer! Tenho a letra traduzida. - -Tinha cerrado as vidraas, sentra-se ao piano. - ---O Sebastio que toca isto bem, no verdade, conselheiro? - ---O nosso Sebastio--disse o conselheiro com authoridade-- um rival -dos Thalbergs e dos Litz. Conhece o nosso Sebastio?--perguntou a -Bazilio. - ---No, no conheo. - ---Uma perola! - -Bazilio tinha-se aproximado do piano devagar, frisando o bigode. - ---Tu ainda cantas?--perguntou-lhe Luiza, sorrindo. - ---Quando estou s. - -Mas o conselheiro pediu-lhe logo um trecho. Bazilio ria. Tinha medo -d'escandalisar um velho assignante de S. Carlos... - -O conselheiro animou-o; disse mesmo paternalmente: - ---Coragem, snr. Brito, coragem! - -Luiza ento preludiou. - -E Bazilio soltou logo a voz, cheia, bem timbrada, de barytono; as suas -notas altas faziam a sala sonora. O conselheiro, direito na poltrona, -escutava concentrado; a sua testa, franzida n'um vinco, parecia -curvar-se sob uma responsabilidade de juiz; e as lunetas defumadas -destacavam, com reflexos escuros, n'aquella physionomia de calvo, que o -calor tornava mais pallida. - -Bazilio dizia com uma melancolia grave a primeira phrase, to larga, da -cano: - - Igual ao mar sombrio - Meu corao profundo... - -Um poeta, com uma dedicao obscura, traduzira a letra no _Almanach das -Senhoras_. Luiza pela sua propria mo a tinha copiado nas entrelinhas -da musica. E Bazilio debruado sobre o papel sempre torcendo as pontas -do bigode: - - Tem tempestades, coleras, - Mas perolas no fundo! - -Os olhos largos de Luiza affirmavam-se para a musica--ou a espaos, com -um movimento rapido, erguiam-se para Bazilio. Quando, na nota final, -prolongada como a reclamao d'um amor supplicante, Bazilio soltou a -voz d'um modo appellativo: - - Vem! vem - Pousar, dce amada, - Teu peito contra o meu... - -os seus olhos fixaram-se n'ella com uma significao de tanto desejo, -que o peito de Luiza arfou, os seus dedos embrulharam-se no teclado. - -O conselheiro bateu as palmas. - ---Uma voz admiravel!--exclamava--Uma voz admiravel! - -Bazilio dizia-se envergonhado. - ---No, senhor, no, senhor!--protestou Accacio, levantando-se.--Um -excellente orgo! Direi, o melhor orgo da nossa sociedade! - -Bazilio riu. Uma vez que tinha successo, ento ia dizer-lhes uma -modinha brazileira da Bahia. Sentou-se ao piano, e depois de ter -preludiado uma melodia muito balanada, d'um embalado tropical, cantou: - - Sou negrinha, mas meu peito - Sente mais que um peito branco. - -E interrompendo-se: - ---Isto fazia furor nas reunies da Bahia quando eu parti. - -Era a historia d'uma negrinha nascida na roa, e que contava, com -lyrismos d'almanach, a sua paixo por um feitor branco. - -Bazilio parodiava o tom sentimental d'alguma menina bahiana; e a sua -voz tinha uma preciosidade comica, quando dizia o _ritornello_ choroso: - - E a negra p'ra os mares - Seus olhos alonga; - No alto coqueiro - Cantava a araponga. - -O conselheiro achou delicioso; e, de p na sala, lamentou a proposito -da cantiga a condio dos escravos. Que lhe affirmavam amigos do Brazil -que os negros eram muito bem tratados. Mas emfim a civilisao era -a civilisao! E a escravatura era um estigma! Tinha todavia muita -confiana no imperador... - ---Monarcha de rara illustrao...--acrescentou respeitosamente. - -Foi buscar o seu chapo, e collando-lhe as abas ao peito, curvando-se, -jurou que--havia muito tempo no tinha passado uma manh to completa. -De resto para elle nada havia como a boa conversao e a boa musica... - ---Onde est v. exc.^a alojado, snr. Brito? - -Pelo amor de Deus! Que no se incommodasse! Estava no Hotel Central. - -No havia consideraes que o impedissem de cumprir o seu -dever--declarou.--Cumpril-o-hia! Elle era uma pessoa inutil, a snr.^a -D. Luiza bem o sabia.--Mas se necessitar alguma cousa, uma informao, -uma apresentao nas regies officiaes, licena para visitar algum -estabelecimento publico, creia que me tem s suas ordens! - -E conservando na sua mo a mo de Bazilio: - ---Rua do Ferregial de Cima numero tres, terceiro. O modesto tugurio -d'um ermita. - -Tornou a curvar-se diante de Luiza: - ---E quando escrever ao nosso viajante, que fao sinceros votos pela -prosperidade dos seus emprehendimentos. Por quem ! Criado de v. exc.^a! - -E direito, grave, sahiu. - ---Este ao menos limpo--resmungou Bazilio, com o charuto ao canto da -bocca. - -Sentra-se outra vez ao piano, corria os dedos pelo teclado. Luiza -aproximou-se: - ---Canta alguma cousa, Bazilio! - -Bazilio pz-se ento a olhar muito para ella. - -Luiza crou, sorriu; atravs da fazenda clara e transparente do -vestido, entrevia-se a brancura macia e lactea do collo e dos braos; -e nos seus olhos, na cr quente do rosto havia uma animao e como uma -vitalidade amorosa. - -Bazilio disse-lhe, baixo: - ---Ests hoje nos teus dias felizes, Luiza. - -O olhar d'elle, to avido, perturbava-a; insistiu: - ---Canta alguma cousa. - -O seu seio arfava. - ---Canta tu--murmurou Bazilio. - -E devagarinho, tomou-lhe a mo. As duas palmas um pouco humidas, um -pouco tremulas, uniram-se. - -A campainha, fra, tocou. Luiza desprendeu a mo bruscamente. - --- alguem--disse agitada. - -Vozes baixas fallavam cancella. - -Bazilio teve um movimento d'hombros contrariado, foi buscar o chapo. - ---Vaes-te?--exclamou ella toda desconsolada. - ---Pudera! No posso estar s comtigo um momento! - -A cancella fechou-se com ruido. - ---No ninguem, foi-se--disse Luiza. - -Estavam de p, no meio da sala. - ---No te vs! Bazilio! - -Os seus olhos profundos tinham uma supplicao dce. Bazilio pousou o -chapo sobre o piano; mordia o bigode um pouco nervoso. - ---E para que queres tu estar s commigo?--disse ella.--Que tem que -venha gente?--E arrependeu-se logo d'aquellas palavras. - -Mas Bazilio, com um movimento brusco, passou-lhe o brao sobre os -hombros, prendeu-lhe a cabea, e beijou-a na testa, nos olhos, nos -cabellos, vorazmente. - -Ella soltou-se a tremer, escarlate. - ---Perda-me--exclamou elle logo, com um impeto apaixonado.--Perda-me. -Foi sem pensar. Mas porque te adoro, Luiza! - -Tomou-lhe as mos com dominio, quasi com direito. - ---No. Has-de ouvir. Desde o primeiro dia que te tornei a vr estou -doudo por ti, como d'antes, a mesma cousa. Nunca deixei de me morrer -por ti. Mas no tinha fortuna, tu bem o sabes, e queria-te vr rica, -feliz. No te podia levar para o Brazil. Era matar-te, meu amor! Tu -imaginas l o que aquillo ! Foi por isso que te escrevi aquella carta, -mas o que eu soffri, as lagrimas que chorei! - -Luiza escutava-o immovel, a cabea baixa, o olhar esquecido; aquella -voz quente e forte, de que recebia o bafo amoroso, dominava-a, -vencia-a; as mos de Bazilio penetravam com o seu calor febril a -substancia das suas; e, tomada d'uma lassido, sentia-se como adormecer. - ---Falla, responde!--disse elle anciosamente, sacudindo-lhe as mos, -procurando o seu olhar avidamente. - ---Que queres que te diga?--murmurou ella. - -A sua voz tinha um tom abstracto, mal acordado. - -E desprendendo-se devagar, voltando o rosto: - ---Fallemos n'outras cousas! - -Elle balbuciava com os braos estendidos: - ---Luiza! Luiza! - ---No, Bazilio, no! - -E na sua voz havia o arrastado d'uma lamentao, com a molleza d'uma -caricia. - -Elle ento no hesitou, prendeu-a nos braos. - -Luiza ficou inerte, os beios brancos, os olhos cerrados--e Bazilio, -pousando-lhe a mo sobre a testa, inclinou-lhe a cabea para traz, -beijou-lhe as palpebras devagar, a face, os labios depois muito -profundamente; os beios d'ella entreabriram-se, os seus joelhos -dobraram-se. - -Mas de repente todo o seu corpo se endireitou, com um pudor indignado, -afastou o rosto, exclamou afflicta: - ---Deixa-me, deixa-me! - -Viera-lhe uma fora nervosa; desprendeu-se, empurrou-o; e passando as -mos abertas pela testa, pelos cabellos: - ---Oh meu Deus! horrivel!--murmurou.--Deixa-me! horrivel! - -Elle adiantava-se com os dentes cerrados; mas Luiza recuava, dizia: - ---Vai-te. Que queres tu? Vai-te! Que fazes tu aqui? Deixa-me! - -Elle ento tranquillisou-a com a voz subitamente serena e humilde. No -percebia. Porque se zangava? Que tinha um beijo? Elle no pedia mais. -Que tinha ella imaginado, ento? Adorava-a, de certo, mas puramente. - ---Juro-t'o!--disse com fora, batendo no peito. - -Fel-a sentar no soph, sentou-se ao p d'ella. Fallou-lhe muito -sensatamente:--Via as circumstancias, e resignar-se-hia. Seria como uma -amizade d'irmos, nada mais. - -Ella escutava-o, esquecida. - -De certo, dizia elle, aquella paixo era uma tortura immensa. Mas -era forte, dominar-se-hia. S queria vir vl-a, fallar-lhe. Seria um -sentimento ideal.--E os seus olhos devoravam-na. - -Voltou-lhe a mo, curvou-se, pz-lhe um beijo cheio na palma. Ella -estremeceu, ergueu-se logo: - ---No! Vai-te! - ---Bem, adeus. - -Levantou-se com um movimento resignado e infeliz. E limpando devagar a -sda do chapo: - ---Bem, adeus--repetiu melancolicamente. - ---Adeus. - -Bazilio disse ento com muita ternura: - ---Ests zangada? - ---No! - ---Escuta--murmurou, adiantando-se. - -Luiza bateu com o p. - ---Oh que homem! Deixa-me! manh. Adeus. Vai-te! manh! - ---manh!--disse elle, baixinho. - -E sahiu rapidamente. - -Luiza entrou no quarto toda nervosa. E ao passar diante do espelho -ficou surprehendida: nunca se vira to linda! Deu alguns passos calada. - -Juliana arrumava roupa branca n'um gaveto do guarda-vestidos. - ---Quem tocou ha bocado?--perguntou Luiza. - ---Foi o snr. Sebastio. No quiz entrar; disse que voltava. - - - -Tinha dito, com effeito, que voltava. Mas comeava quasi a -envergonhar-se de vir assim todos os dias, e encontral-a sempre com -uma visita! - -Logo no primeiro dia ficra muito surprehendido quando Juliana lhe -disse: Est com um sujeito! Um rapaz novo que j c esteve hontem! -Quem seria? Conhecia todos os amigos da casa... Seria algum empregado -da secretaria ou algum proprietario de minas, o filho do Alonso, -talvez, um negocio de Jorge de certo... - -Depois no domingo, noite, trazia-lhe a partitura de _Romeu e -Julieta_, de Gounod, que ella desejava tanto ouvir, e quando Juliana -lhe disse da varanda que tinha sahido com D. Felicidade de carruagem, -ficou muito embaraado com o grosso volume debaixo do brao, coando -devagar a barba. Onde teriam ido? Lembrou-se do enthusiasmo de D. -Felicidade pelo theatro de D. Maria. Mas irem ss, n'aquelle calor de -julho, ao theatro! Emfim, era possivel. Foi a D. Maria. - -O theatro, quasi vazio, estava lugubre; aqui e alm, n'algum camarote, -uma familia feia perfilava-se, com cabellos negrissimos carregados de -postios, gozando soturnamente a sua noite de domingo: na plata, -larga nas bancadas vazias, pessoas avelhadas e inexpressivas escutavam -com um ar encalmado e farto, limpando a espaos, com lenos de sda, -o suor dos pescoos; na geral, gente de trabalho arregalava olhos -negros em faces trigueiras e oleosas; a luz tinha um tom dormente; -bocejava-se. E no palco, que representava uma sala de baile amarella, -um velhote condecorado fallava a uma magrita de cabellos riados, sem -cessar, com o tom diluido de uma agua gordurosa e morna que escorre. - -Sebastio sahiu. Onde estariam? Soube-o na manh seguinte.--Descia -o Moinho de Vento, e um visinho, o Netto, que subia curvado sob o -seu guarda-sol, com o cigarro ao canto do bigode grisalho, deteve-o -bruscamente, para lhe dizer: - --- amigo Sebastio, oua c. Vi hontem noite no Passeio a D. Luiza -com um rapaz que eu conheo. Mas d'onde conheo eu aquella cara? Quem -diabo ? - -Sebastio encolheu os hombros. - ---Um rapaz alto, bonito, com um ar estrangeirado. Eu conheo-o. N'outro -dia vi-o entrar para l. Voss no sabe? - -No sabia. - ---Eu conheo aquella cara. Tenho estado a vr se me recordo...--Passava -a mo pela testa.--Eu conheo aquella cara! Elle de Lisboa. De Lisboa - elle! - -E depois d'um silencio, fazendo girar o guarda-sol: - ---E que ha de novo, Sebastio? - -Tambem no sabia. - ---Nem eu! - -E bocejando muito: - ---Isto est uma pasmaceira, homem! - -N'essa tarde, s quatro horas, Sebastio voltou a casa de Luiza. Estava -com o sujeito! Ficou ento preoccupado. De certo era algum negocio de -Jorge; porque no comprehendia que ella fallasse, sentisse, vivesse, -que no fosse no interesse da casa e para maior felicidade de Jorge. -Mas devia ser grave ento--para reclamar visitas, encontros, tantas -relaes. Tinham pois interesses importantes que elle no conhecia! E -aquillo parecia-lhe uma ingratido, e como uma diminuio d'amizade. - -A tia Joanna tinha-o achado macambusio. - -Foi ao outro dia que soube que o sujeito era o primo Bazilio, o Bazilio -de Brito. O seu vago desgosto dissipou-se, mas um receio mais definido -veio inquietal-o. - -Sebastio no conhecia Bazilio pessoalmente, mas sabia a chronica da -sua mocidade. No havia n'ella certamente, nem escandalo excepcional, -nem romance pungente. Bazilio tinha sido apenas um _pandigo_ e, como -tal, passra methodicamente por todos os episodios classicos da -estroinice lisboeta:--partidas de monte at de madrugada com ricaos -do Alemtejo; uma tipoia despedaada n'um sabbado de touros; ceias -repetidas com alguma velha Lola e uma antiga salada de lagosta; algumas -_pgas_ applaudidas em Salvaterra ou na Alhandra; noitadas de bacalhau -e Collares nas tabernas fadistas; muita guitarra; scos bem jogados -face attonita d'um policia; e uma profuso de gemas d'ovos nas glorias -do entrudo. As unicas mulheres mesmo que appareciam na sua historia, -alm das Lolas e das Carmens usuaes, eram a Pistelli, uma danarina -allem cujas pernas tinham uma musculatura d'athleta, e a condessinha -d'Alvim, uma douda, grande cavalleira, que se separra de seu marido -depois de o ter chicotado, e que se vestia d'homem para bater ella -mesmo em trem de praa do Rocio ao D-fundo. Mas isto bastava para -que Sebastio o achasse um _debochado_, um _perdido_; ouvira que elle -tinha ido para o Brazil para fugir aos credores; que enriquecera por -acaso, n'uma especulao, no Paraguay; que mesmo na Bahia, com a corda -na garganta, nunca fra um trabalhador; e suppunha que a posse da -fortuna para elle, seria apenas um desenvolvimento dos vicios. E este -homem agora vinha vr a Luizinha todos os dias, estava horas e horas, -seguia-a ao Passeio... - -Para que?... Era claro, para a desinquietar! - -Ia justamente descendo a rua, dobrado sob a pesada desconsolao -d'estas idas, quando uma voz encatarrhoada disse com respeito: - --- snr. Sebastio! - -Era o Paula dos moveis. - ---Viva, snr. Joo. - -O Paula atirou para as pedras da rua um jacto escuro de saliva, e com -as mos cruzadas debaixo das abas do comprido casaco de cotim, o tom -grave: - --- snr. Sebastio, ha doena c por casa do snr. Engenheiro? - -Sebastio todo surprehendido: - ---No. Porque? - -O Paula fez roncar a garganta, cuspilhou: - --- que tenho visto entrar para c todos os dias um sujeito. Imaginei -que fosse o medico. - -E puxando o escarro: - ---D'esses novos da hom[oe]opathia! - -Sebastio tinha crado. - ---Nada--disse.-- o primo de D. Luiza. - ---Ah!--fez o Paula.--Pois pensei... Queira desculpar, snr. Sebastio. - -E curvou-se, respeitosamente. - ---J temos fallatorio!--foi pensando Sebastio. - -E entrou em casa, descontente. - -Morava ao fundo da rua, n'um predio seu, de construco antiga, com -quintal. - -Sebastio era s. Tinha uma fortuna pequena em inscripes, terras de -lavoura para o lado do Seixal, e a quinta em Almada,--o Rozegal. As -duas criadas eram muito antigas na casa. A Vicencia, a cozinheira, era -uma preta de S. Thom j do tempo da mam. A tia Joanna, a governanta, -servia-o havia trinta e cinco annos; chamava ainda a Sebastio o -menino; tinha j as tontices d'uma criana, e recebia sempre os -respeitos d'uma av. Era do Porto, do _Porto_, como ella dizia, -porque nunca perdera o seu accento minhto. Os amigos de Sebastio -chamavam-lhe uma velha de comedia. Era baixinha e gorda, com um sorriso -muito bondoso; tinha os cabellos alvos como uma estriga, atados no -alto n'um rolinho com um antigo pente de tartaruga; trazia sempre um -vasto leno branco muito aceado, traado sobre o peito. E todo o dia -passarinhava pela casa, com o seu passinho arrastado, fazendo tilintar -os mlhos de chaves, resmungando proverbios, tomando rap de uma caixa -redonda, em cuja tampa se lascava o desenho abonecado da ponte pensil -do Porto. - -Em toda a casa havia um tom caturra e dce: na sala de visitas, quasi -sempre fechada, o vasto canap, as poltronas tinham o ar empertigado -do tempo do snr. D. Jos I, e os estofos de damasco vermelho desbotado -lembravam a pompa d'uma crte decrepita; das paredes da casa de jantar -pendiam as primeiras gravuras das batalhas de Napoleo, onde se v -invariavelmente, n'uma eminencia, o cavallo branco, para o qual galopa -desenfreadamente do primeiro plano um hussard, brandido um sabre. -Sebastio dormia os seus somnos de sete horas, sem sonhos, n'uma velha -barra de pau preto torneado; e n'uma saleta escura, sobre uma commoda -de fecharias de metal amarello, conservava-se, havia annos, o padroeiro -da casa, S. Sebastio--que se torcia, cravado de settas, nas cordas que -o atavam ao tronco, luz d'uma lampada muito cuidada pela tia Joanna, -sob os ruidos subtis dos ratos pelo forro. - -A casa condizia com o dono. Sebastio tinha um genio antiquado. Era -solitario e acanhado. J no latim lhe chamavam o _pelludo_; punham-lhe -rabos, roubavam-lhe impudentemente as merendas. Sebastio, que tinha a -fora d'um gymnasta, offerecia a resignao d'um martyr. - -Foi sempre reprovado nos primeiros exames do lyceu. Era intelligente, -mas uma pergunta, o reluzir dos oculos d'um professor, a grande lousa -negra immobilisavam-o; ficava muito embezerrado, a face inchada e -rubra, a coar os joelhos, o olhar vazio. - -Sua mi, que era da alda e que fra padeira, muito vaidosa agora das -suas inscripes, da sua quinta, da sua mobilia de damasco, sempre -vestida de sda, carregada d'anneis, costumava dizer: - ---Ora! tem que comer e beber! Estar a affligir a criana com estudos! -Deixa l, deixa l! - -A inclinao de Sebastio era pela musica. Sua mi, por conselhos da -mi de Jorge, sua visinha e sua intima, tomou-lhe um mestre de piano; -logo desde as primeiras lies, a que ella assistia com enfeites de -velludo vermelho e cheia de joias, o velho professor Achilles Bentes, -d'oculos redondos e cara de coruja, exclamou excitado com a sua voz -nasal: - ---Minha rica senhora! o seu menino um genio! um genio! Ha-de ser um -Rossini! puxar por elle! puxar por elle! - -Mas era justamente o que ella no queria, era puxar por elle, -coitadinho! Por isso no foi um Rossini. E todavia o velho Bentes -continuava a dizer, por habito: - ---Ha-de ser um Rossini! Ha-de ser um Rossini! - -Smente em lugar de o gritar, brandindo papeis de musica, murmurava-o, -com bocejos enormes de leo enfastiado. - -J ento os dous rapazes visinhos, Jorge e Sebastio, eram intimos. -Jorge mais vivo, mais inventivo, dominava-o. No quintal, a brincar, -Sebastio era sempre o _cavallo_ nas imitaes da diligencia, o -_vencido_ nas guerras. Era Sebastio que carregava os pesos, que -offerecia o dorso para Jorge trepar; nas merendas comia todo o po, -deixava a Jorge toda a fruta. Cresceram. E aquella amizade sempre -igual, sem amos, tornou-se na vida d'ambos um interesse essencial e -permanente. - -Quando a mi de Jorge morreu, pensaram mesmo em viver juntos; -habitariam a casa de Sebastio, mais larga e que tinha quintal; Jorge -queria comprar um cavallo; mas conheceu Luiza no Passeio, e d'ahi a -dous mezes passava quasi todo o seu dia na rua da Magdalena. - -Todo aquelle plano jovial da _Sociedade Sebastio e -Jorge_--chamavam-lhe assim, rindo--desabou, como um castello de cartas. -Sebastio teve um grande pezar. - -E era elle, depois, que fornecia os ramos de rosas que Jorge levava a -Luiza, sem espinhos, com cuidados devotos embrulhados n'um papel de -sda. Era elle que tratava dos arranjos do ninho, ia apressar os -estofadores, discutir preos de roupas, vigiar o trabalho dos homens -que pregavam os tapetes, conferenciar com a inculcadeira, cuidar dos -papeis do casamento! - -E noite, fatigado como um procurador zeloso, tinha ainda de escutar -com um sorriso as expanses felizes de Jorge, que passeava pelo quarto -at s duas horas da noite em mangas de camisa, namorado, loquaz, -brandindo o cachimbo! - -Depois do casamento Sebastio sentiu-se muito s. Foi a Portel visitar -um tio, um velho exquisito, com um olhar de doudo, que passava a -existencia combinando enxertos no pomar, e lendo, relendo o _Eurico_. -Quando voltou, passado um mez, Jorge disse-lhe radioso: - ---E sabes, hein? Isto agora que a tua casa! Aqui que tu vives! - -Mas nunca obteve de Sebastio que fosse a sua casa com uma inteira -intimidade. Sebastio batia porta, timidamente. Corava diante de -Luiza; o antigo _pelludo_ de latim reapparecia. Jorge luctra para que -elle cruzasse sem ceremonia as pernas, fumasse cachimbo diante d'ella, -no lhe dissesse a todo o momento:--V. exc.^a, v. exc.^a--meio erguido -na cadeira. - -Nunca vinha jantar seno arrastado. Quando Jorge no estava, as suas -visitas eram curtas, cheias de silencio. Julgava-se gebo, tinha medo de -massar! - -N'essa tarde, quando elle foi para a sala de jantar, a tia Joanna -veio-lhe perguntar pela Luizinha. - -Adorava-a, achava-a um _anjinho_, uma _aucena_. - ---Como est ella? viu-a? - -Sebastio corou, no quiz dizer, como na vespera, que estava gente, -que no tinha entrado; e abaixando-se, pondo-se a brincar com as -orelhas do _Trajano_, o seu velho perdigueiro: - ---Est boa, tia Joanna, est boa. Ento como ha-de d'estar? Est optima! - - - -quella hora Luiza recebia uma carta de Jorge. Era de Portel, com -muitas queixas sobre o calor, sobre as ms estalagens, historias sobre -o extraordinario parente de Sebastio,--saudades e mil beijos... - -No a esperava, e aquella folha de papel cheia d'uma letra miudinha, -que lhe fazia reapparecer vivamente Jorge, a sua figura, o seu olhar, -a sua ternura, deu-lhe uma sensao quasi dolorosa. Toda a vergonha -dos seus desfallecimentos cobardes, sob os beijos de Bazilio, veio -abrazar-lhe as faces. Que horror deixar-se abraar, apertar! No -soph o que elle lhe dissera, com que olhos a devorra!... Recordava -tudo,--a sua attitude, o calor das suas mos, a tremura da sua voz... E -machinalmente, pouco e pouco, ia-se esquecendo n'aquellas recordaes, -abandonando-se-lhe, at ficar perdida na deliciosa lassido que ellas -lhe davam, com o olhar languido, os braos frouxos. Mas a ida de -Jorge vinha ento outra vez fustigal-a como uma chicotada. Erguia-se -bruscamente, passeava pelo quarto toda nervosa, com uma vaga vontade de -chorar... - ---Ah! no! horroroso, horroroso!--dizia s, fallando alto.-- -necessario acabar! - -Resolveu no receber Bazilio, escrever-lhe, pedir-lhe que no voltasse, -que partisse! Meditava mesmo as palavras; seria scca e fria, no diria -_meu querido primo_, mas simplesmente _primo Bazilio_. - -E que faria elle, quando recebesse a carta? Choraria, coitado! - -Imaginava-o s, no seu quarto d'hotel, infeliz e pallido; e d'aqui, -pelos declives da sensibilidade, passava recordao da sua pessoa, da -sua voz convincente, das turbaes do seu olhar dominante, e a memoria -demorava-se n'aquellas lembranas com uma sensao de felicidade, como -a mo se esquece acariciando a plumagem dce d'um passaro raro. Sacudia -a cabea com impaciencia, como se aquellas imaginaes fossem os -ferres d'insectos importunos: esforava-se por pensar s em Jorge; mas -as idas ms voltavam, mordiam-na: e achava-se desgraada, sem saber -o que queria, com vontades confusas de estar com Jorge, de consultar -Leopoldina, de fugir para longe, ao acaso. Jesus, que infeliz que -era!--E do fundo da sua natureza de preguiosa vinha-lhe uma indefinida -indignao contra Jorge, contra Bazilio, contra os sentimentos, contra -os deveres, contra tudo o que a fazia agitar-se e soffrer. Que a no -seccassem, Santo Deus! - -Depois de jantar, janella da sala, ficou a relr a carta de Jorge. -Pz-se a recordar de proposito tudo o que a encantava n'elle, do -seu corpo e das suas qualidades. E juntava ao acaso argumentos, uns -de honra, outros de sentimento, para o amar, para o respeitar. Tudo -era por elle estar fra, na provincia! Se elle alli estivesse ao p -d'ella! Mas to longe, e demorar-se tanto! E ao mesmo tempo, contra -sua vontade, a certeza d'aquella ausencia dava-lhe uma sensao -de liberdade; a ida de se poder mover vontade nos desejos, nas -curiosidades, enchia-lhe o peito d'um contentamente largo, como uma -lufada de independencia. - -Mas emfim, vamos, de que lhe servia estar livre, s?--E de repente tudo -o que poderia fazer, sentir, possuir, lhe apparecia n'uma perspectiva -longa que fulgurava: aquillo era como uma porta, subitamente aberta e -fechada, que deixa entrever, n'um relance, alguma cousa de indefinido, -de maravilhoso, que palpita e faisca.--Oh! estava douda, de certo! - -Escureceu. Foi para a sala, abriu a janella; a noite estava quente e -espessa, com um ar d'electricidade e de trovoada. Respirava mal, olhava -para o co, desejando alguma cousa fortemente, sem saber o qu. - -O moo do padeiro em baixo, como sempre, tocava o fado; aquelles sons -banaes entravam-lhe agora na alma, com a brandura d'um bafo quente e a -melancolia de um gemido. - -Encostou a cabea mo com uma lassido. Mil pensamentosinhos -corriam-lhe no cerebro como os pontos de luz que correm n'um papel que -se queimou; lembrava-lhe sua mi, o chapo novo que lhe mandra madame -Franois, o tempo que faria em Cintra, a doura das noites quentes sob -a escurido das ramagens... - -Fechou a janella, espreguiou-se; e sentada na _causeuse_, no seu -quarto, ficou alli, n'uma immobilidade, pensando em Jorge, em lhe -escrever, em lhe pedir que viesse. Mas bem depressa aquelle scismar -comeou a quebrar-se a cada momento como uma tela que se esgaa em -rasges largos, e por traz apparecia logo com uma intensidade luminosa -e forte a ida do primo Bazilio. - -As viagens, os mares atravessados tinham-no tornado mais trigueiro; -a melancolia da separao dera-lhe cabellos brancos. Tinha soffrido -por ella!--dissera.--E no fim onde estava o mal? Elle jurra-lhe que -aquelle amor era casto, passando-se todo na alma. Tinha vindo de Paris, -o pobre rapaz, assim lh'o jurra, para a vr, uma semana, quinze dias. -E havia de dizer-lhe:--No voltes, vai-te? - ---Quando a senhora quizer o ch...--disse da porta do quarto Juliana. - -Luiza deu um suspiro alto como acordando. No; que trouxesse a -lamparina, mais tarde. - -Eram dez horas. Juliana foi tomar o seu ch, cozinha. O lume ia-se -apagando, o candieiro de petroleo estendia nos cobres dos tachos -reflexos avermelhados. - ---Hoje houve cousa, snr.^a Joanna--disse Juliana sentando-se.--Est -toda no ar! E cada suspiro! Alli houve-a e grossa. - -Joanna, do outro lado, com os cotovlos na mesa e a face sobre os -punhos, pestanejava de somno. - ---A snr.^a Juliana, tambem, deita tudo para o mal--disse. - --- que era necessario ser tola, snr.^a Joanna! - -Calou-se, cheirou o assucar; era um dos seus despeitos; gostava d'elle -bem refinado--e aquelle assucar mascavado e grosso, que punha no ch um -gosto de formigas, exasperava-a. - ---Este peor que o do mez passado! Para uma pobre de Christo tudo -bom!--rosnou muito amargamente. - -E depois d'uma pausa repetiu: - --- que era necessario ser tola, snr.^a Joanna! - -A cozinheira disse preguiosamente: - ---Cada um sabe de si... - ---E Deus de todos--suspirou Juliana. - -E ficaram caladas. - -Luiza tocou a campainha em baixo. - ---Que teremos ns agora? Est com as cocegas! - -Desceu. Voltou com o regador, muito enfastiada: - ---Quer mais agua! Olha a mania, pr-se agora a chafurdar meia noite! -Sempre a gente as v... - -Foi encher o regador, e em quanto a agua da torneira cantava no fundo -de lata: - ---E diz que lhe faa manh ao almoo um bocado de presunto frito, do -salgado. Quer picantes! - -E com muito escarneo: - ---Sempre a gente v cousas! Quer picantes! - - meia noite a casa estava adormecida e apagada. Fra, o co -ennegrecera mais; relampejou, e um trovo secco estalou, rolou. - -Luiza abriu os olhos estremunhada; comera a cahir uma chuva grossa -e sonora; a trovoada arrastava-se, ao longe. Esteve um momento -escutando as goteiras que cantavam sobre o lagedo; a alcova abafava, -descobriu-se; o somno tinha fugido, e de costas, o olhar fixo na vaga -claridade que vinha de fra da lamparina, seguia o tic-tac do relogio. -Espreguiou-se, e uma certa ida, uma certa viso foi-se formando -no seu cerebro, completando-se, to nitida, quasi to visivel, que -se revirou na cama devagar, estirou os braos, lanou-os em roda do -travesseiro, adiantando os beios seccos--para beijar uns cabellos -negros onde reluziam fios brancos. - - - -Sebastio tinha dormido mal. Acordou s seis horas e desceu ao quintal -em chinellas. Uma porta envidraada da sala de jantar abria para um -terraosinho, largo apenas para tres cadeiras de ferro pintado e -alguns vasos de cravos; d'alli, quatro degraus de pedra desciam para -o quintal; era uma horta ajardinada, muito cheia, com canteirinhos de -flres, saladas muito regadas, ps de roseiras junto dos muros, um poo -e um tanque debaixo d'uma parreirita, e arvores; terminava por outro -terrao assombreado d'uma tilia, com um parapeito para uma rua baixa -e solitaria; defronte corria um muro de quintal muito caiado. Era um -sitio recolhido, d'uma paz alde. Muitas vezes Sebastio, de madrugada, -ia para alli fumar o seu cigarro. - -Era uma manh deliciosa. Havia um ar transparente e fino; o co -arredondava-se a uma grande altura com o azulado de certas porcelanas -velhas e, aqui e alm, uma nuvemzinha algodoada, mollemente enrolada, -cr de leite; a folhagem tinha um verde lavado, a agua do tanque uma -crystallinidade fria; passaros chilreavam de leve, com vos rapidos. - -Sebastio estava debruado para a rua, quando a ponteira d'uma bengala, -passos vagarosos cortaram o silencio fresco. Era um visinho de Jorge, -o Cunha Rosado, o doente d'intestinos; arrastava-se, curvado, abafado -n'um cachenez e n'um paletot cr de pinho, com a barba grisalha -desmazelada, a crescer. - ---J a p, visinho!--disse Sebastio. - -O outro parou, ergueu a cabea lentamente. - ---Oh Sebastio!--disse com uma voz plangente--Ando a passear os meus -leites, homem! - ---A p? - ---Ao principio ia na burrita at fra de portas, mas diz que me fazia -bem o passeiosito a p... - -Encolheu os hombros com um gesto triste de duvida, de desconsolao. - ---E como vai isso?--perguntou Sebastio, muito debruado para a rua, -com affecto. - -O Cunha teve um sorriso desolado nos seus beios brancos: - ---A desfazer-se! - -Sebastio tossiu, embaraado, sem achar uma consolao. - -Mas o doente, com as duas mos apoiadas bengala, uma subita radiao -d'interesse no olhar amortecido: - --- Sebastio, um rapaz alto, que eu tenho visto todos estes dias -entrar para casa do Jorge, o Bazilio de Brito, pois no ? O primo da -mulher? o filho do Joo de Brito? - ---, sim, porque? - -O Cunha fez: _Ah! ah!_ com uma grande satisfao. - ---Bem dizia eu!--exclamou.--Bem dizia eu! E aquella teimosa que no! -que no!... - -E ento explicou com uma tagarellice subita, e cansaos de voz: - ---O meu quarto para a rua, e todos os dias, como eu estou quasi -sempre pela janella para espairecer... tenho visto aquelle rapaz, a -modo estrangeirado, entrar para l... todos os dias! Este o Bazilio -de Brito! disse eu. Mas minha mulher que no! que no!... Que diabo, -homem! Eu tinha quasi a certeza... No conheo eu outra cousa!... At -elle esteve para casar com a D. Luiza. Oh! Eu sei essa historia na -ponta dos dedos... Morava ella na rua da Magdalena!... - -Sebastio disse vagamente: - ---Pois , o Brito... - ---Bem dizia eu! - -Ficou um momento immovel, fitando o cho, e refazendo uma voz dolente: - ---Pois, vou-me arrastando at casa. - -Suspirou. E arregalando os olhos: - ---Quem me dera a sua saude, Sebastio! - -E dizendo adeus, com um gesto da mo calada de luva de casimira -escura, afastou-se, curvado, rente do muro, conchegando com o brao ao -ventre, o seu largo paletot cr de pinho. - -Sebastio entrou preoccupado. Todo o mundo comeava a reparar, hein! -Pudera! Um rapaz novo, janota, vir todos os dias de trem, estar duas, -tres horas! Uma visinhana to chegada, to maligna!... - -Ao comeo da tarde sahiu. Teve vontade de procurar Luiza; mas sem saber -porque, sentia um grande acanhamento; como que receava encontral-a -differente ou com outra expresso... E subia a rua devagar, sob o seu -guarda-sol, hesitando, quando um coup que descia a trote largo veio -parar porta de Luiza. - -Um sujeito saltou rapidamente, atirou o charuto, entrou. Era alto, -com um bigode levantado, trazia uma flr no peito; devia ser o primo -Bazilio, pensou. O cocheiro limpou o suor da testa, e, cruzando as -pernas, pz-se a enrolar o cigarro. - -Ao ruido do trem o Paula postou-se logo porta, de bon carregado, as -mos enterradas no bolso, com olhares de revs: a carvoeira defronte, -immunda, disforme de obesidade e de prenhez, veio embasbacar com um -pasmo lrpa na face oleosa; a criada do doutor abriu precipitadamente -a vidraa. Ento o Paula atravessou rapidamente a rua faiscante de -sol, entrou no estanque; d'ahi a um momento appareceu porta, com a -estanqueira, de caro viuvo; e cochichavam, cravavam olhares perfidos -nas varandas de Luiza, no coup! O Paula, d'alli, arrastando as -chinellas de tapete, foi segredar com a carvoeira, provocou-lhe uma -risada que lhe sacudia a massa do seio; e foi emfim estacar sua -porta entre um retrato de D. Joo VI e duas velhas cadeiras de couro, -assobiando com jubilo. No silencio da rua ouvia-se n'um piano, a -compasso de estudo, a _Orao d'uma virgem_. - -Sebastio ao passar olhou machinalmente para as janellas de Luiza. - ---Rico calor, snr. Sebastio!--observou o Paula curvando-se-- um -regalo estar fresca! - - - -Luiza e Bazilio estavam muito tranquillos, muito felizes na sala, com -as portadas meio cerradas, n'uma penumbra dce. Luiza tinha apparecido -de roupo branco, muito fresca, com um bom cheiro de agua d'alfazema. - ---Eu venho assim mesmo--disse ella.--No fao ceremonias. - -Mas assim que ella estava linda! Assim que a queria -sempre!--exclamava Bazilio muito contente, como se aquelle roupo de -manh fosse j uma promessa da sua nudez. - -Vinha muito tranquillo, affectava um tom de parente. No a inquietou -com palavras vehementes, nem com gestos desejosos: fallou-lhe do calor, -d'uma _zarzuela_ que vira na vespera, de velhos amigos que encontrra, -e disse-lhe apenas que tinha sonhado com ella. - -O que? Que estavam longe, n'uma terra distante, que devia ser a Italia, -tantas as estatuas que havia nas praas, tantas as fontes sonoras -que cantavam nas bacias de marmore; era n'um jardim antigo, sobre um -terrao classico; flres raras transbordavam de vasos florentinos; -pousando sobre as balaustradas esculpidas, paves abriam as caudas; e -ella arrastava devagar sobre as lages quadradas a cauda longa do seu -vestido de velludo azul. De resto, dizia, era um terrao como o de S. -Donato, a _villa_ do principe Demidoff,--porque lembrava sempre as suas -intimidades illustres, e no se descuidava de fazer reluzir a gloria -das suas viagens. - -E ella, tinha sonhado? - -Luiza crou.--No, tinha tido muito medo da trovoada. Tinha ouvido a -trovoada, elle? - ---Estava a cear no Gremio, quando trovejou. - ---Costumas cear? - -Elle teve um sorriso infeliz.--Cear! se se podia chamar cear ir ao -Gremio rilhar um bife corneo e tragar um Collares peonhento! - -E fitando-a: - ---Por tua causa, ingrata! - -Por sua causa? - ---Por quem, ento? Porque vim eu a Lisboa? Porque deixei Paris? - ---Por causa dos teus negocios... - -Elle encarou-a severamente: - ---Obrigado--disse, curvando-se at ao cho. - -E a grandes passadas pela sala soprava violentamente o fumo do seu -charuto. - -Veio sentar-se bruscamente ao p d'ella.--No, realmente era injusta. -Se estava em Lisboa, era por ella. S por ella! - -Fez uma voz meiga, perguntou-lhe se lhe tinha realmente um bocadinho -d'amor muito pequenino, assim...--Mostrava o comprimento da unha. - -Riram. - ---Assim, talvez. - -E o peito de Luiza arfava. - -Elle ento examinou-lhe as unhas; admirou-lh'as e aconselhou-lhe o -verniz que usam as _cocottes_, que lhes d um lustre polido; ia-se -apossando da sua mo, pz-lhe um beijo na ponta dos dedos; chupou o -dedo minimo, jurou que era muito dce; arranjou-lhe com um contacto -muito timido uns fios de cabello que se tinham soltado,--e, disse, -tinha um pedido a fazer-lhe! - -Olhava-a com uma supplicao. - ---Que ? - --- que venhas commigo ao campo. Deve estar lindo no campo! - -Ella no respondeu; dava pancadinhas leves nas pregas molles do roupo. - --- muito simples--acrescentou elle.--Tu vaes-me encontrar a qualquer -parte, longe d'aqui, est claro. Eu estou espera de ti com uma -carruagem, tu saltas para dentro e _fouette_, _cocher_! - -Luiza hesitava. - ---No digas que no. - ---Mas onde? - ---Onde tu quizeres. A Pao d'Arcos, a Loires, a Queluz. Dize que sim. - -A sua voz era muito urgente, quasi ajoelhra. - ---Que tem? um passeio d'amigos, d'irmos. - ---No! isso no! - -Bazilio zangou-se, chamou-lhe _beata_. Quiz sahir. Ella veio tirar-lhe -o chapo da mo, muito meiga, quasi vencida. - ---Talvez, veremos--dizia. - ---Dize que sim!--insistia.--S boa rapariga! - ---Pois sim, manh veremos, manh fallaremos. - -Mas no dia seguinte, muito habilmente, Bazilio no fallou no passeio, -nem no campo. No fallou tambem do seu amor, nem dos seus desejos. -Parecia muito alegre, muito superficial; tinha-lhe trazido o romance de -Belot, _A mulher de fogo_. E sentando-se ao piano, disse-lhe canes de -_caf concerto_, muito picantes; imitava a rouquido acre e canalha das -cantoras; fel-a rir. - -Depois fallou muito de Paris, contou-lhe a moderna chronica amorosa, -anecdotas, paixes _chics_. Tudo se passava com duquezas, princezas, -d'um modo dramatico e sensibilisador, s vezes jovial, sempre cheio de -delicias. E, de todas as mulheres de que fallava, dizia recostando-se: -Era uma mulher distinctissima, tinha naturalmente o seu amante... - -O adulterio apparecia assim um dever aristocratico. De resto a virtude -parecia ser, pelo que elle contava, o defeito d'um espirito pequeno, ou -a occupao reles d'um temperamento burguez... - -E quando sahiu, disse, como recordando-se: - ---Sabes que estou com minhas idas de partir?... - -Ella perguntou, um pouco descorada: - ---Porque? - -Bazilio disse, muito indifferente: - ---Que diabo fao eu aqui?... - -Esteve um momento a fitar o tapete, deu um suspiro, e como dominando-se: - ---Adeus, meu amor... - -E sahiu. - -Quando n'essa tarde Luiza entrou na sala de jantar, levava os olhos -vermelhos. - -Foi ella no dia seguinte que fallou do campo. Queixou-se do contnuo -calor, da _scca_ de Lisboa. Como devia estar lindo em Cintra! - ---s tu que no queres--acudiu elle. --Podiamos fazer um passeio -adoravel. - -Mas tinha medo, podiam vr... - ---O qu! N'um coup fechado? Com os _stores_ descidos? - -Mas ento era peor que estar n'uma sala, era abafar n'uma bocta! - -Mas no! Iam a uma quinta. Podiam ir s _Alegrias_, quinta d'um amigo -d'elle que estava em Londres. S viviam l os caseiros, era ao p dos -Olivaes, era lindo! Bellas ruas de loureiros, sombras adoraveis. Podiam -levar gelo, champagne... - ---Vem!--disse bruscamente, tomando-lhe as mos. - -Ella crou.--Talvez. No domingo veria. - -Bazilio conservava-lhe as mos presas. Os seus olhos encontraram-se, -humedeceram-se. Ella sentiu-se muito perturbada; desprendeu as mos; -foi abrir as vidraas ambas, dar sala uma claridade larga como -uma publicidade; sentou-se n'uma cadeira ao p do piano, receando a -penumbra, o soph, todas as cumplicidades; e pediu-lhe que cantasse -alguma cousa, porque j temia as palavras, tanto como os silencios! -Bazilio cantou a _Medj_, a melodia de Gounod, to sensual e -perturbadora. Aquellas notas quentes passavam-lhe na alma como bafos -d'uma noite electrica. E quando Bazilio sahiu, ficou sentada, quebrada, -como depois d'um excesso. - - -Sebastio tinha estado nos ultimos tres dias em Almada, na quinta do -Rozegal, onde trazia obras. Voltra na segunda-feira cedo, e, pelas -dez horas, sentado no poial da janella de jantar que abria para o -terraosinho, esperava o seu almoo, brincando com o _Rolim_--o seu -gato, amigo e confidente da illustre Vicencia, nedio como um prelado, -ingrato como um tyranno. - -A manh comeava a aquecer; o quintal estava j cheio de sol; na agua -do tanque, sob a parreira, claridades espelhadas e tremulas faiscavam. -Nas duas gaiolas os canarios cantavam estridentemente. - -A tia Joanna, que andava a arranjar a mesa do almoo muito calada, -poz-se ento a dizer com a sua vozinha arrastada e minhta: - ---Ora esteve ahi hontem a Gertrudes, a do doutor, com uns palratorios, -com umas tontices!... - ---A respeito de qu, tia Joanna?--perguntou Sebastio. - ---A respeito d'um rapaz, que diz que vai agora todos os dias a casa da -Luizinha. - -Sebastio ergueu-se logo: - ---Que disse ella, tia Joanna? - -A velha assentava a toalha devagar com a sua mo gorducha espalmada: - ---Esteve ahi a palrar. Quem seria, quem no seria? Diz que um -perfeito rapaz. Vem todos os dias. Vem de trem, vai de trem... No -sabbado que estivera at quasi noitinha. E cantou-se na sala, diz que -uma voz que nem no theatro... - -Sebastio interrompeu-a, impaciente: - --- o primo, tia Joanna. Ento quem havia de ser? o primo que chegou -do Brazil. - -A tia Joanna teve um bom sorriso. - ---Eu logo vi que era cousa de parente. Pois diz que um perfeito -rapaz! E todo janota! - -E sahindo para a cozinha, devagar: - ---Eu logo vi que era parente, logo disse!... - -Sebastio almoou inquieto. Positivamente a visinhana j se punha a -mexericar, a commentar! Estava-se a armar um escandalo!--E, assustado, -decidiu-se logo a ir consultar Julio. - -Descia a rua de S. Roque para casa d'elle, quando o viu, que subia -devagar pela sombra, com um rolo de papel debaixo do brao, uma cala -branca enxovalhada, o ar suado. - ---Ia a tua casa, homem!--disse Sebastio logo. - -Julio estranhou a excitao desusada da sua voz. - -Havia alguma novidade? Que era? - ---Uma do diabo!--exclamou, baixo, Sebastio. - -Estavam parados ao p da confeitaria. Na vidraa, por traz d'elles, -emprateleirava-se uma exposio de garrafas de malvasia com os seus -letreiros muito coloridos, transparencias avermelhadas de gelatinas, -amarellides enjoativas de dces d'ovos, e quques d'um castanho escuro -tendo espetados cravos tristes de papel branco ou cr de rosa. Velhas -natas lividas amollentavam-se no co dos folhados; ladrilhos grossos de -marmelada esbeiavam-se ao calor; as empadinhas de marisco agglomeravam -as suas crstas resequidas. E no centro, muito proeminente n'uma -travessa, enroscava-se uma lampreia d'ovos medonha e bojuda, com o -ventre d'um amarello ascoroso, o dorso malhado d'arabescos d'assucar, a -bocca escancarada: na sua cabea grossa esbogalhavam-se dous horriveis -olhos de chocolate; os seus dentes d'amendoa ferravam-se n'uma -tangerina de chila; e em torno do monstro espapado moscas esvoaavam. - ---Vamos alli para o caf--disse Julio.--Aqui na rua arde-se! - ---Tenho estado apoquentado--ia dizendo Sebastio.--Muito apoquentado! -Quero fallar-te. - -No caf o papel azul ferrete e as meias portas fechadas abatiam a -aspera intensidade da luz, davam uma frescura calada. - -Foram-se sentar ao fundo. Do outro lado da rua as fachadas muito -caiadas brilhavam com uma radiao faiscante. Por traz do balco, onde -reluziam garrafas de crystal, um criado de jaqueto, estremunhado -e esguedelhado, cabeceava de somno. Um passaro chilreava dentro; -sentia-se o bater espaado das bolas do bilhar atravs d'uma porta de -baeta verde; s vezes o prego de um cangalheiro na rua sobresahia, -e--todos estes sons, por momentos, se perdiam no ruido forte do descer -d'um trem travado. - -Defronte d'elles um sujeito de ar debochado lia um jornal; as suas -melenas grisalhas collavam-se a um craneo amarellado; o bigode tinha -tons queimados do cigarro; e das noitadas ficra-lhe uma vermelhido -inflammada nas palpebras. De vez em quando erguia preguiosamente a -cabea, atirava para o cho areado um jacto escuro de saliva, dava uma -sacudidella triste ao jornal e tornava a fital-o com um olhar infeliz. -Quando os dous entraram e pediram carapinhadas, abaixou-lhes gravemente -a cabea. - ---Mas o que ento?--perguntou logo Julio. - -Sebastio chegou-se mais para elle: - --- por causa l da nossa gente. Por causa do primo--disse baixo. - -E acrescentou: - ---Tu vistel-o, hein? - -A lembrana repentina da sua humilhao na sala de Luiza trouxe um -rubor s faces de Julio. Mas muito orgulhoso, disse seccamente: - ---Vi. - ---E ento? - ---Pareceu-me um asno!--exclamou, no se contendo. - ---E um extravagante--disse com terror Sebastio--No te pareceu, hein? - ---Pareceu-me um asno--repetiu.--Umas maneiras, uma affectao, um -alambicado, a olhar muito para as meias, umas meias ridiculas de -mulher... - -E com um certo sorriso azedado: - ---Eu mostrei-lhe francamente as minhas botas. Estas--disse, apontando -para os botins mal engraxados--tenho muita honra n'ellas, so de quem -trabalha... - -Porque publicamente costumava gloriar-se d'uma pobreza, que intimamente -no cessava de o humilhar. - -E remexendo devagar a sua carapinhada: - ---Uma besta!--resumiu. - ---Tu sabes que elle foi namoro da Luiza?--disse Sebastio, baixo, como -assustado da gravidade da confidencia. - -E respondendo logo ao olhar surprehendido de Julio: - ---Sim. Ninguem o sabe. Nem Jorge. Eu soube-o ha pouco, ha mezes. Foi. -Estiveram para casar. Depois o pai falliu, elle foi para o Brazil, e de -l escreveu a romper o casamento. - -Julio sorriu, e encostando a cabea parede: - ---Mas isso o enredo da _Eugenia Grandet_, Sebastio! Ests-me a -contar o romance de Balzac! Isso a _Eugenia Grandet_! - -Sebastio fitou-o espantado. - ---Ora! no se pde fallar serio comtigo. Dou-te a minha palavra -d'honra--acrescentou vivamente. - ---V, Sebastio, v, dize. - -Houve um silencio. O sujeito calvo, agora, contemplava o estuque do -tecto sujo do fumo dos cigarros e do pousar das moscas; e, com a mo -sapuda, de tom pegajoso, cofiava amorosamente as rpas. No bilhar vozes -altercavam. - -Sebastio ento, como tomado d'uma resoluo, disse bruscamente: - ---E agora vai l todos os dias, no sahe de l! - -Julio afastou-se na banqueta e encarou-o: - ---Tu queres-me dar a entender alguma cousa, Sebastio? - -E com uma vivacidade quasi jovial: - ---O primo atira-se? - -Aquella palavra escandalisou Sebastio. - --- Julio!--E severamente:--Com essas cousas no se brinca! - -Julio encolheu os hombros. - ---Mas est claro que se atira!--exclamou.--s de bom tempo ainda! Est -claro que sim! Namorou-a solteira, agora quel-a casada! - ---Falla baixo--acudiu Sebastio. - -Mas o criado dormitava, e o sujeito calvo tinha recahido na sua leitura -funebre. - -Julio baixou a voz: - ---Mas sempre assim, Sebastio. O primo Bazilio tem razo; quer o -prazer sem a responsabilidade! - -E quasi ao ouvido d'elle: - --- de graa, amigo Sebastio! de graa! Tu no imaginas que -influencia isto tem no sentimento! - -Riu-se. Estava radioso; as palavras, as pilherias vinham-lhe com -abundancia: - ---Ha um marido que a veste, que a cala, que a alimenta, que a engomma, -que a vela se est doente, que a atura se ella est nervosa, que tem -todos os encargos, todos os tedios, todos os filhos, todos, todos os -que vierem, sabes a lei... Por consequencia o primo no tem mais que -chegar, bater ao ferrolho, encontra-a aceada, fresca, appetitosa -custa do marido, e... - -Teve um risinho, recostou-se com uma grande satisfao, enrolando -deliciosamente o cigarro, regosijando-se no escandalo. - --- optimo!--acrescentou.--Todos os primos raciocinam assim. Bazilio - primo, logo... Sabes o syllogismo, Sebastio! Sabes o syllogismo, -menino!--gritou, dando-lhe uma palmada na perna. - --- o diabo--murmurou Sebastio cabisbaixo. - -Mas revoltando-se contra a suspeita que o ia dominando: - ---Mas tu suppes que uma rapariga de bem... - ---Eu no supponho nada!--acudiu Julio. - ---Falla baixo, homem! - ---Eu no supponho nada--repetiu Julio baixinho.--Eu affirmo o que elle -faz. Agora ella... - -E acrescentou com seccura: - ---Como uma rapariga honesta... - ---Se !--exclamou Sebastio, batendo uma punhada na pedra da mesa. - ---Prompto!--cantou arrastadamente o moo. - -O velho calvo ergueu-se logo; mas vendo que o criado se recolhia -ao balco bocejando, e que os dous continuavam a remexer a sua -carapinhada, encostou os cotovlos mesa, salivou para longe, e -puxando o jornal deixou-lhe cahir em cima um olhar desolado. - -Sebastio disse, ento, com tristeza: - ---A questo no por ella. A questo pela visinhana. - -Ficaram um momento calados. A altercao de vozes no bilhar crescia. - ---Mas--disse Julio, como sahindo d'uma reflexo--a visinhana? Como a -visinhana? - ---Sim, homem! Vem entrar para l o rapaz. Vem de tipoia, faz um -escandalo na rua. J se falla. J vieram com mexericos tia Joanna. -Ha dias encontrei o Netto que reparou. O Cunha tambem. O homem dos -trastes, em baixo, no se faz nada que elle no d f: so umas linguas -de tremer. Ha dias ia eu a passar quando o primo se apeou da carruagem -para entrar, e foram logo conciliabulos na rua, olhadellas para a -janella, o diabo! Vai l todos os dias. Sabem que o Jorge est no -Alemtejo... Est duas e tres horas. muito serio, muito serio! - ---Mas ella ento tola! - ---No v o mal... - -Julio encolheu os hombros, duvidando. - -Mas a porta de baeta do bilhar abriu-se; um homem herculeo, de bigode -negro, muito escarlate, sahiu bruscamente, e parando, segurando a porta -aberta, gritou para dentro: - ---E fique sabendo que havia d'encontrar homem! - -Uma voz grossa, do bilhar, respondeu-lhe uma obscenidade. - -O sujeito herculeo atirou a porta, furioso; atravessou o caf -resfolegando, apopletico; um rapaz chupado, de jaqueto de inverno e -cala branca, seguia-o, com um ar gingado. - ---O que eu devia fazer--exclamava o agigantado, brandindo o punho--era -quebrar a cara quelle pulha! - -O rapaz chupado, dizia, com doura e servilismo, bamboleando-se: - ---Questes no servem para nada, s Corra! - --- que sou muito prudente--berrou o herculeo.-- que me lembro que -tenho mulher e filhos! Seno bebia-lhe o sangue! - -E sahindo, a sua voz roncante perdeu-se no rumor da rua. - -O criado muito pallido, tremia dentro do balco; e o sujeito calvo, que -erguera a cabea, teve um sorriso de tedio, e retomou tristemente o -jornal. - -Sebastio, ento, disse reflectindo: - ---No te parece que seria bom avisal-a? - -Julio encolheu os hombros, soltou uma baforada de fumo. - ---Dize alguma cousa!--implorou Sebastio--Tu no ias fallar-lhe, hein? - ---Eu?--exclamou Julio com um aspecto que repellia a ida.--Eu! Ests -doudo! - ---Mas que te parece, emfim? - -E a voz de Sebastio tinha quasi uma afflico. - -Julio hesitou: - ---Vai, se queres. Dize-lhe que se tem reparado... Emfim, eu no sei, -meu amigo! - -E pz-se a chupar o seu cigarro. - -Aquelle mutismo affectou Sebastio. Disse com desconsolao: - ---Homem, vim-te pedir um conselho... - ---Mas que diabo queres tu?--E a voz de Julio irritava-se.--A culpa -d'ella. d'ella!--insistiu, vendo o olhar de Sebastio.-- uma mulher -de vinte e cinco annos, casada ha quatro, deve saber que se no recebe -todos os dias um peralvilho, n'uma rua pequena, com a visinhana a -postos! Se o faz, porque lhe agrada. - --- Julio!--disse muito severamente Sebastio. - -E dominando-se, com a voz commovida: - ---No tens razo, no tens razo! - -Calou-se muito magoado. - -Julio levantou-se. - ---Amigo Sebastio, eu digo o que penso, tu fazes o que entendes. - -Chamou o criado. - ---Deixa--disse Sebastio precipitadamente, pagando. - -Iam sahir. Mas ento o sujeito calvo, atirando o jornal, arremessou-se -para a porta, abriu-a, curvou-se, e estendeu a Sebastio um papel -enxovalhado. - -Sebastio, surprehendido, leu alto, machinalmente: - -O abaixo assignado, antigo empregado da nao, reduzido miseria... - ---Fui intimo amigo do nobre duque de Saldanha!--gemeu chorosamente, com -uma rouquido, o sujeito calvo. - -Sebastio crou, comprimentou, metteu-lhe na mo duas placas de cinco -tostes, discretamente. - -O sujeito dobrou profundamente o espinhao, e declamou com uma voz cava: - ---Mil agradecimentos a v. exc.^a, snr. conde! - - - - -V - - -A manh estava abrazadora. Um pouco depois do meio dia, Joanna, -estirada n'uma velha cadeira de vime da ilha da Madeira que havia na -cozinha, dormitava a ssta. Como madrugava muito, quella hora da calma -vinha-lhe sempre uma quebreira. - -As janellas estavam cerradas ao sol faiscante; as panellas no lume -faziam um _ron-ron_ dormente; e toda a casa, muito silenciosa, parecia -amodorroada no amollecimento do calor torrido, quando Juliana entrou -como uma rajada, atirou para o cho, furiosa, uma braada de roupa -suja, e gritou: - ---Raios me partam se no ha um escandalo n'esta casa que vai tudo raso! - -Joanna deu um salto estremunhada. - ---Quem quer as cousas em ordem olha por ellas!--berrava a outra com -os olhos injectados.--No estar todo o dia na sala a palrar com as -visitas! - -A cozinheira foi fechar a porta precipitadamente, j assustada. - ---Que foi, snr.^a Juliana, que foi? - ---Est com a mosca! Tem o sangue a ferver! Sangrias! sangrias! Tem -peguilhado por tudo! No estou para a aturar, no estou! - -E batia o p com phrenesi. - ---Mas que foi? que foi? - ---Diz que os collarinhos tinham pouca gomma, pz-se a despropositar! -Estou farta de a aturar! Estou farta! Estou at aqui!--bradava, puxando -a pelle engelhada da garganta.--Pois que me no faa sahir de mim! Que -me vou, e pespego-lhe na cara por qu! Desde que aqui temos homem e -pouca vergonha, boas noites!... Quem quizer que se metta em alhadas... - --- snr.^a Juliana, pelo amor de Deus! Jesus!--E a Joanna apertava a -cabea nas mos.--Ai, se a senhora ouve! - ---Que oua, digo-lh'o na cara! Estou farta! estou farta! - -Mas, de repente, fez-se branca como a cal, cahiu sobre a cadeira de -vime com as duas mos contra o corao, os olhos em alvo. - ---Snr.^a Juliana!--gritou Joanna--Snr.^a Juliana! Falle! - -Borrifou-a d'agua; sacudia-a, anciosamente. - ---Nossa Senhora nos valha! Nossa Senhora nos valha! Est melhor? Falle! - -Juliana deu um suspiro longo, d'allivio, cerrou as palpebras. E -arquejava devagarinho, muito prostrada. - ---Como se sente? Quer um caldinho? fraqueza, ha-de ser fraqueza... - ---Foi a pontada--murmurou Juliana. - -Ai! aquelles phrenesis matavam-na!--dizia a cozinheira, remexendo-lhe -o caldo, muito pallida tambem.--A gente tinha d'aturar os amos! Que -tomasse a sustancia, que socegasse!... - -N'aquelle momento Luiza abriu a porta. Vinha em collete e saia branca. - -Que barulho era aquelle? - ---A snr.^a Juliana que lhe tinha dado uma cousa, quasi desmaira... - ---Foi a pontada--balbuciou Juliana. - -E erguendo-se, com um esforo: - ---Se a senhora no precisa nada, vou ao medico... - ---V, v!--disse Luiza logo. E desceu. - -Juliana pz-se a tomar o seu caldo com um vagar moribundo. Joanna -consolava-a baixo:--Tambem, a snr.^a Juliana arrenegava-se por -qualquer cousa. E quando a gente tem pouca saude no ha nada peor que -emphrenesiar-se... - --- que no imagina!--e abafava a voz arregalando os olhos--Tem estado -de no se poder aturar! Est-se a vestir que nem para uma partida! -Amarfanhou uns poucos de collares, atirou-os para o cho, que eu -engommava que era uma porcaria, que no servia para nada... Ai! Estou -farta!--repetia--Estou farta! - --- ter paciencia! Todos tem a sua cruz! - -Juliana teve um sorriso livido, ergueu-se com um grande _ai!_, -escabichou os dentes, apanhou a roupa suja, e subiu ao soto. - -D'ahi a pouco, de luvas pretas, muito amarella, sahiu. - -Ao dobrar a esquina da rua, defronte do estanque, parou indecisa. At -ao medico era um estiro!... E estava, que lhe tremiam as pernas!... -Mas tambem, largar tres tostes para trem!... - ---Pst, pst!--fez do lado uma voz dce. - -Era a estanqueira, com o seu longo vestido de luto tingido, o seu -sorriso desconsolado. - -Que era feito da snr.^a Juliana? a dar o seu passeio, hein? - -Gabou-lhe a sombrinha preta de cabo d'osso.--De muito gosto--disse.--E -como ia de saude? - -Mal. Dera-lhe a pontada. Ia ao medico... - -Mas a estanqueira no tinha f nos medicos. Era dinheiro deitado -rua... Citou a doena do seu homem, os gastos, um _rr_ de moedas. E -para que? para o vr penar e morrer como se nada fosse! Era um dinheiro -que sempre chorava! - -E suspirou. Emfim, fosse feita a vontade de Deus! E l por casa do snr. -Engenheiro? - ---Tudo sem novidade. - --- snr.^a Juliana, quem aquelle rapaz que vai agora por l todos os -dias? - -Juliana respondeu logo: - --- o primo da senhora. - ---Do-se muito!... - ---Parece. - -Tossiu, e com um comprimentosinho: - ---Pois, muito boas tardes, snr.^a Helena. - -E foi resmungando: - ---Ora, fica-te a chuchar no dedo, lsma! - -Juliana detestava a visinhana; sabia que a escarneciam, que a -imitavam, que lhe chamavam a _tripa velha_!...--Pois tambem d'ella -no haviam de saber nada! Podiam rebentar de curiosidade! Vinham de -carrinho! Boa! Tudo o que visse ou que lhe cheirasse havia de ficar -guardadinho, l dentro.--Para uma occasio!--pensava com rancor, -sacudindo os quadris. - -A estanqueira ficou porta, despeitada. E o Paula dos moveis, que as -vira conversar, veio logo, deslisando subtilmente nas suas chinellas de -tapete: - ---Ento a _tripa velha_ escorregou-se? - ---Ai! no se lhe tira nada! - -O Paula enterrou as mos nos bolsos, com tedio: - ---Aquillo, a do Engenheiro besunta-lhe as mos... ella quem leva a -cartinha, quem abre a portita de noite... - ---Tanto no direi! Credo! - -O Paula fitou-a com superioridade: - ---A snr.^a Helena est ahi ao seu balco... Mas eu que as conheo, -as mulheres da alta sociedade! Conheo-as nas pontas dos dedos. uma -cambada! - -Citou logo nomes, alguns illustres; tinham amantes innumeraveis: at -trintanarios! Algumas fumavam, outras _entortavam-se_. E peor! E peor! - ---E passeiam por ahi, muito repimpadas de carrinho, barba da gente de -bem! - ---Falta de religio!--suspirou a estanqueira. - -O Paula encolheu os hombros: - ---A religio que , snr.^a Helena! C'os padres que ! - -E agitando furioso o punho fechado: - ---C'os padres uma _choldra_ viva! - ---Credo, snr. Paula, que at lhe fica mal!... - -E o caro amarellado da estanqueira tinha uma severidade de devota -offendida. - ---Ora, historias, snr.^a Helena!--exclamou o homem com desprezo. - -E bruscamente: - ---Porque que acabaram os conventos? Diga-me! Porque era um desaforo -l dentro! - ---Oh snr. Paula! oh snr. Paula!--balbuciava a Helena, recuando, -encolhendo-se. - -Mas o Paula atirava-lhe as impiedades como punhaladas. - ---Um desaforo! De noite as freiras vinham por um subterraneo ter c'os -frades. E era vinhaa e mais vinhaa. E batiam o fandango em camisa! -Anda isso por ahi em todos os livros. - -E erguendo-se nas chinellas: - ---E os jesuitas, se vamos a isso! Sim! diga! - -Mas recuou, e levando a mo pala do bon: - ---Um criado da senhora--disse com respeito. - -Era Luiza que passava, vestida de preto, o vo descido. Ficaram -calados, a olhal-a. - ---Que ella muito bonita!--murmurou a estanqueira, com admirao. - -O Paula franziu a testa. - ---No mau bocado...--disse. E acrescentou, com desdem:--P'ra quem -gosta d'aquillo!... - -Houve um silencio. E o Paula rosnou: - ---No so as saias que me levam o tempo, nem d'isto!... - -E bateu no bolso do collete, fazendo tilintar dinheiro. - -Tossiu, pigarreou, e ainda aspero: - ---Venha de l um pataco de Xabregas. - -Foi para a porta do estanco enrolar o cigarro, assobiar; mas os seus -olhos arregalaram-se indignados; n'uma das janellas de cima na casa do -Engenheiro, tinha avistado, por entre as vidraas abertas, a figura -enfesada do Pedro, o carpinteiro. - -Voltou-se para a estanqueira, e cruzando dramaticamente os braos: - ---E agora que a patra vai vida, l est o rapazola a entender-se com -a criada! - -Soltou uma larga baforada de fumo, e com uma voz soturna: - ---Aquella casa vai-se tornando um prostibulo! - ---Um qu, snr. Paula? - ---Um prostibulo, snr.^a Helena! como se dissesse um alcouce! - -E, com passos escandalisados, o patriota afastou-se. - - -Luiza ia emfim ao campo com Bazilio. Consentira na vespera, declarando -logo que era s um passeio de meia hora, de carruagem, sem se -apearem. Bazilio ainda insistiu, fallando em sombras d'alamedas, -uma merendinha, relvas... Mas ella recusou, muito teimosa, rindo, -dizendo:--Nada de relvas!... - -E tinham combinado encontrar-se na praa da Alegria. Chegou tarde, j -depois das duas e meia, com o guarda-solinho muito carregado sobre o -rosto, toda assustada. - -Bazilio esperava, fumando, n'um coup, esquina, debaixo d'uma -arvore. Abriu rapidamente a portinhola, e Luiza entrou fechando -atrapalhadamente a sombrinha; o vestido prendeu-se ao estribo, -esgaou-se no rufo de sda; e achou-se ao lado d'elle, muito nervosa, -offegante, com o rosto abrazado, murmurando: - ---Que tolice, que tolice esta! - -Mal podia fallar. O coup partiu logo a trote. O cocheiro era o -Pintos, um batedor. - ---To canada, coitadinha!--disse-lhe Bazilio muito meigo. - -Levantou-lhe o vo; estava suada; os seus largos olhos brilhavam da -excitao, da pressa, do medo... - ---Que calor, Bazilio! - -Quiz descer um dos vidros do coup. - -No, isso no! Podiam vl-os! Quando passassem as portas... - ---Para onde vamos ns? - -E espreitava, levantando o _store_. - ---Vamos para o lado do Lumiar, o melhor sitio. No queres? - -Encolheu os hombros. Que lhe importava? Ia socegando: tinha tirado o -vo e as luvas: sorria, abanando-se com o leno, d'onde sahia um aroma -fresco. - -Bazilio prendeu-lhe o pulso, pz-lhe muitos beijos longos, delicados, -na pelle fina, azulada de veiasinhas. - ---Tu prometteste ter juizo!--fez ella com um sorriso calido, olhando-o -de lado. - -Ora! mas um beijo, no brao! Que mal havia? Tambem era necessario no -ser beata! - -E olhava-a avidamente. - -Os velhos _stores_ do coup corridos eram de sda vermelha, e a luz que -os atravessava envolvia-a n'um tom igual, cr de rosa e quente. Os seus -beios tinham um escarlate molhado, a lisura s d'uma petala de rosa; e -ao canto do olho um ponto de luz movia-se n'um fluido dce. - -No se conteve, passou-lhe os dedos um pouco tremulos nas fontes, nos -cabellos, com uma caricia fugitiva e assustada; e com a voz humilde: - ---Nem um beijo na face, um s? - ---Um s?...--fez ella. - -Pousou-lh'o delicadamente ao p da orelha. Mas aquelle contacto -exasperou-lhe o desejo brutalmente; teve um som de voz soluado; -agarrou-a com sofreguido, e atirava-lhe beijos tontos pelo pescoo, -pela face, pelo chapo... - ---No! no!--balbuciava ella, resistindo.--Quero descer! Dize que pare! - -Batia nos vidros; esforava-se por correr um, desesperada, magoando os -dedos na dura corra suja. - -Bazilio pz-se a supplicar, que lhe perdoasse! Que doudice, zangar-se -por um beijo! Se ella estava to linda!... Fazia-o doudo. Mas jurava ir -quieto, muito quieto... - -A carruagem, ao p das portas, rolava sacudida na calada miuda; nas -terras, aos lados, as oliveiras de um verde empoeirado estavam immoveis -na luz branca; e sobre a herva crestada o sol batia duramente n'uma -fulgurao continua. - -Bazilio tinha descido um dos vidros; o _store_ corrido palpitava -brandamente; pz-se ento a fallar-lhe ternamente de si, do seu -amor, dos seus planos. Estava resolvido a vir estabelecer-se em -Lisboa--dizia.--No tencionava casar-se; amava-a e no comprehendia -nada melhor do que viver ao p d'ella, sempre. Dizia-se desilludido, -enfastiado. Que mais lhe podia offerecer a vida? Tinha tido as -sensaes dos amores ephemeros, as aventuras das longas viagens. -Ajuntra alguma cousa de seu,--e sentia-se velho. - -Repetia, fitando-a, tomando-lhe as mos: - ---No verdade que estou velho? - ---No muito--e os seus olhos humedeciam-se. - -Ah! estava! estava! O que lhe appetecia agora era viver para ella, -vir descanar nas douras da sua intimidade. Ella era a sua unica -familia.--Fazia-se muito _parente_.--A familia no fim de tudo o que -ha de melhor ainda. No te incommoda que eu fume? - -E acrescentou, raspando o phosphoro: - ---O que ha de bom na vida uma affeio profunda como a nossa. No - verdade? Contento-me com pouco, de resto. Vr-te todos os dias, -conversar muito, saber que me estimas...--Por dentro do campo, -Pintos!--gritou com fora pela portinhola. - -O coup entrou a passo no Campo Grande. Bazilio ergueu os _stores_; um -ar mais vivo penetrou. O sol cahia sobre o arvoredo, traspassando-o -d'uma luz faiscante, formando no cho poeirento e branco sombras -quentes de ramagens. Tudo tinha em redor um aspecto resequido e -exhausto. Na terra gretada, a herva curta, crestada, fazia tons -cinzentos. Na estrada, ao lado, arrastava-se uma poeira amarellada. -Saloios passavam, amodorroados sobre o albardo, bamboleando as pernas, -abrigados sob os vastos guarda-soes escarlates; e a luz que vinha de -um co azul ferrete, acabrunhador, fazia reluzir com uma radiao crua -as paredes muito caiadas, as aguas d'algum balde esquecido s portas, -todas as brancuras de pedras. - -E Bazilio continuava: - ---Vendo tudo o que tenho l fra, alugo aqui uma casinha em Lisboa, em -Buenos-Ayres, talvez... No te agrada? Dize... - -Ella calava-se; aquellas palavras, as promessas, a que a voz d'elle -metallica e velada dava um vigor mais amoroso, iam-na perturbando como -a inebriao d'um licr forte. O seu seio arfava. - -Bazilio baixou a voz, disse: - ---Quando estou ao p de ti sinto-me to feliz, parece-me tudo to -bom!... - ---Se isso fosse verdade!--suspirou ella, encostando-se para o fundo do -coup. - -Bazilio prendeu-lhe logo a cintura; jurou-lhe que sim! Ia pr a sua -fortuna em inscripes. Comeou a dar-lhe provas: j fallra a um -procurador; citou-lhe o nome, um scco, de nariz agudo... - -E apertando-a contra si, os olhos muito vorazes: - ---E se fosse verdade, dize, que fazias? - ---Nem eu sei--murmurou ella. - -Iam entrando no Lumiar, e por prudencia desceram os _stores_. Ella -afastou um, e, espreitando, via fra passar rapidamente, ao lado do -trem, arvores empoeiradas; um muro de quinta d'uma cr de rosa sujo; -fachadas de casas mesquinhas; um omnibus desatrellado; mulheres -sentadas ao portal, sombra, catando os filhos; e um sujeito vestido -de branco, de chapo de palha, que estacou, arregalou os olhos para as -cortinas fechadas do coup. E ia desejando habitar alli n'uma quinta, -longe da estrada; teria uma casinha fresca com trepadeiras em roda das -janellas, parreiras sobre pilares de pedra, ps de roseiras, ruasinhas -amaveis sob arvores entrelaadas, um tanque debaixo d'uma tilia, onde -de manh as criadas ensaboariam, bateriam a roupa, palrando. E ao -escurecer, ella e elle, um pouco quebrados das felicidades da ssta, -iriam pelos campos, ouvindo calados, sob o co que se estrella, o -coaxar triste das rs. - -Cerrou os olhos. O movimento muito lanado do coup, o calor, a -presena d'elle, o contacto da sua mo, do seu joelho, amolleciam-na. -Sentia um desejo a alargar-se dentro do peito. - ---Em que vaes tu a pensar?--perguntou-lhe elle baixo, muito terno. - -Luiza fez-se vermelha. No respondeu. Tinha medo de fallar, de lhe -dizer... - -Bazilio tomou-lhe a mo devagarinbo, com respeito, com cuidado, como -uma cousa preciosa e santa; e beijou-lh'a de leve, com a servilidade -d'um negro e a uno d'um devoto. Aquella caricia to humilde, to -tocante, quebrou-a; os seus nervos distenderam-se; deixou-se cahir para -o canto do coup, rompeu a chorar... - -Que era? Que tinha? Prendera-a nos braos, beijava-a, dizia-lhe -palavras loucas. - ---Queres que fujamos? - -As suas lagrimasinhas redondas e luminosas, rolando devagarinho sobre -aquella face mimosa, enterneciam-no, e davam aos seus desejos uma -vibrao quasi dolorosa. - ---Foge commigo, vem, levo-te! Vamos para o fim do mundo! - -Ella soluou, murmurou muito doridamente: - ---No digas tolices. - -Elle calou-se; pz a mo sobre os olhos com uma attitude melancolica, -pensando:--Estou a dizer tolices, no ha que vr! - -Luiza limpava as lagrimas, assoando-se devagarinho. - --- nervoso--disse.-- nervoso. Voltamos, sim? No me sinto bem. Dize -que volte. - -Bazilio mandou bater para Lisboa. - -Ella queixava-se de um ameao d'enxaqueca. Elle tinha-lhe tomado a mo, -repetia-lhe as mesmas ternuras: chamava-lhe sua pomba, seu ideal. E -pensava baixo:--Ests cahida! - -Pararam na praa da Alegria. Luiza espreitou, saltou depressa, dizendo: - ---manh, no faltes, hein? - -Abriu o guarda-solinho, carregou-o sobre o rosto, subiu rapidamente -para a Patriarchal. - -Bazilio ento desceu os vidros, e respirou com satisfao. Accendeu -outro charuto, estendeu as pernas, gritou: - ---Ao Gremio, Pintos! - -Na sala de leitura, o seu amigo o visconde Reynaldo, que havia annos -vivia em Londres, e muito em Paris tambem, lia o _Times_ languidamente, -enterrado n'uma poltrona. Tinham vindo ambos de Paris, com promessa -de voltarem juntos por Madrid. Mas o calor desolava Reynaldo; achava -a temperatura de Lisboa _reles_; trazia lunetas defumadas; e andava -saturado de perfumes, por causa do cheiro ignobil de Portugal. Apenas -viu Bazilio deixou escorregar o _Times_ no tapete, e com os braos -molles, a voz desfallecida: - ---E ento essa questo da prima, vai ou no vai? Isto est horrivel, -menino! Eu morro! Preciso o Norte! Preciso a Escocia! Vamos embora! -Acaba com essa prima. Viola-a. Se ella te resiste, mata-a! - -Bazilio, que se estendera n'uma poltrona, disse, estirando muito os -braos: - ---Oh! Est cahidinha! - ---Pois avia-te, menino, avia-te! - -Apanhou moribundamente o _Times_, bocejou, pediu soda--soda ingleza! - -No havia, veio dizer o criado. Reynaldo fitou Bazilio com espanto, -com terror, e murmurou soturnamente: - ---Que abjeco de paiz! - - -Quando Luiza entrou, Juliana, ainda vestida, disse-lhe logo porta: - ---O snr. Sebastio est na sala. Tem estado um _rr_ de tempo -espera... J c estava quando eu cheguei. - -Tinha vindo com effeito havia meia hora. Quando a Joanna lhe veio -abrir, muito encarnada, com o ar estremunhado, e resmungou que a -senhora estava para fra, Sebastio ia logo descer, com o allivio -delicioso d'uma difficuldade adiada. Mas reagiu, retesou a vontade, -entrou, pz-se a esperar... Na vespera tinha decidido fallar-lhe, -avisal-a que aquellas visitas do primo, to repetidas, com espalhafato, -n'uma rua maligna, podiam compromettel-a... Era o diabo, dizer-lh'o!... -Mas era um dever! Por ella, pelo marido, pelo respeito da casa! -Era foroso acautelal-a!... E no se sentia acanhado. Perante as -reclamaes do dever, vinham-lhe as energias da deciso. O corao -batia-lhe um pouco, sim, e estava pallido... Mas, que diabo, havia de -lh'o dizer!... - -E passeando pela sala com as mos nos bolsos, ia arranjando as suas -phrases, procurando-as muito delicadas, bem amigas... - -Mas a campainha retiniu, um _frou-frou_ de vestido roou o corredor,--e -a sua coragem engelhou-se como um balo furado. Foi-se logo sentar ao -piano, pz-se a bater vivamente no teclado. Quando Luiza entrou, sem -chapo, descalando as luvas, ergueu-se, disse embaraado: - ---Tenho estado aqui a trautear um bocado... Estava espera... Ento -d'onde vem? - -Ella sentou-se, canada. Vinha da modista--disse. Fazia um calor! -Porque no tinha entrado as outras vezes? No estava com visitas de -ceremonia! Era familia, era seu primo que viera de fra. - ---Est bom, seu primo? - ---Bom. Tem estado aqui, bastante. Aborrece-se muito em Lisboa, coitado! -Ora, quem vive l fra! - -Sebastio repetiu, esfregando devagar os joelhos: - ---Est claro, quem vive l fra! - ---E Jorge, tem-lhe escripto?--perguntou Luiza. - ---Recebi carta hontem. - -Tambem ella. Fallaram de Jorge, dos tedios da jornada, do que contava -do phantastico parente de Sebastio, da demora provavel... - ---Faz-nos uma falta, aquelle maroto!--disse Sebastio. - -Luiza tossiu. Estava um pouco pallida, agora. Passava s vezes a mo -pela testa, cerrando os olhos. - -Sebastio de repente, teve uma deciso: - ---Pois eu vinha, minha rica amiga...--comeou. - -Mas viu-a ao canto do soph, com a cabea baixa, a mo sobre os olhos. - ---Que tem? Est incommodada? - --- a enxaqueca que me veio de repente. J tinha tido ameaos na rua. E -com uma fora! - -Sebastio tomou logo o chapo: - ---E eu a massal-a! necessario alguma cousa? Quer que v chamar o -medico? - ---No! Vou-me deitar um momento, passa logo. - -Que no apanhasse ar, ao menos, recommendava elle. Talvez sinapismos -ou rodellas de limo nas fontes... E em todo o caso, se no estivesse -melhor que o mandasse chamar... - ---Isto passa! E apparea, Sebastio! No se esconda... - -Sebastio desceu, respirou largamente; e pensava:--Eu no me atrevo, -santo Deus!... Mas porta, ao levantar os olhos, viu no fundo escuro -da loja de carvo o vulto enorme da carvoeira, de chambre branco, -estendendo o olhar, cocando; por cima, tres das Azevedos, entre as -velhas cortinas de cassa, juntavam as suas cabecinhas riadas n'algum -conciliabulo maligno: por traz dos vidros a criada do doutor costurava, -com olhares de lado, a cada momento, que lambiam a rua; e ao lado, na -loja de moveis, sentiam-se as expectoraes do patriota. - ---No passa um gato que esta gente no d f!--pensou Sebastio.--E que -linguas! Que linguas! Devo fazel-o, ainda que estoure! Se ella manh -est melhor, digo-lhe tudo! - - -Estava com effeito j boa, s nove horas, no dia seguinte, quando -Juliana a foi acordar, com uma cartinha da snr.^a D. Leopoldina. - -A criada de Leopoldina, a Justina, uma magrita muito trigueira, de -buo e olho vesgo, esperava na sala de jantar. Era amiga de Juliana, -beijocavam-se muito, diziam-se sempre finezas. E depois de ter guardado -a resposta de Luiza n'um cabazinho que trazia no brao, traou o chale, -e muito risonha: - ---Ento que ha por c de novo, snr.^a Juliana? - ---Tudo velho, snr.^a Justina. - -E mais baixo: - ---O primo da senhora, agora; vem todos os dias. Perfeito rapaz! - -Tossiram ambas, baixinho, com malicia. - ---E por l, snr.^a Justina, quem vai por l? - -Justina fez um aceno de desprezo. - ---Um rapazola, um estudante. Fraca cousa!... - ---Sempre pinga!--disse Juliana com um risinho. - -A outra exclamou: - ---Olha quem! o pelintra! Nem cheta! - -E erguendo o olhar com saudade: - ---Ai, como o Gama no ha! Quando era do tempo do Gama, isso sim! Nunca -ia que me no dsse os seus dez tostes, s vezes meia libra. Ai, -devo dizel-o, foi elle que me ajudou para o meu vestido de sda! Este -agora!... um fedelho. Eu nem sei como a senhora supporta aquillo! E -amarellado, enfesado! Aquillo pde prestar para nada! - -Juliana disse ento: - ---Pois olhe, snr.^a Justina, eu agora que comeo a considerar: onde -se est bem, em casas em que ha pdres! Encontrei hontem a Agostinha, -a que est em casa do commendador, ao Rato... Pois senhor, no se -imagina. tudo o que se pde! Tudo! Annel, vestido de sda, sombrinha, -chapo! E de roupa branca diz que um enxoval. E tudo o Couceiro, -o que est com a ama. E pelas festas sua moeda. Diz que um homem -rasgado. Ella tambem, verdade seja, tem um trabalho: fal-o entrar pelo -jardim, e para o fazer sahir tem d'esperar... - ---Ah, l no!--acudiu a Justina.--L pela escada. - -Riram baixinho, saboreando o escandalo. - ---Genios...--disse Juliana. - ---Ai, l isso, o nosso tem estomago--affirmou Justina.--Encontra-os na -escada, e tanto se lhe d!... - -E muito affectuosamente, arranjando o chale: - ---E adeusinho, que se faz tarde, snr.^a Juliana. Ella vem hoje c -jantar, a senhora. Estive toda a manh a engommar uma saia; desde as -sete! - ---Tambem eu por c--disse Juliana.--Ellas o que tem; quando ha amante -sempre ha mais que engommar. - ---Deitam mais roupa branca, deitam--observou a Justina. - ---As que deitam!--exclamou Juliana, com desprezo. - -Mas Luiza tocou a campainha dentro. - ---Adeus, snr.^a Juliana--disse logo a outra, ageitando o chapo. - ---Adeus, snr.^a Justina. - -Foi acompanhal-a ao patamar. Beijocaram-se. Juliana voltou muito -apressada ao quarto de Luiza; estava j a p, vestindo-se, muito -alegre, cantarolando. - -O bilhete de Leopoldina dizia na sua letra torta: - - -Meu marido vai hoje para o campo. Eu vou-te pedir de jantar, mas no -posso ir antes das seis. Convem-te? - - -Ficou muito contente. Havia semanas que a no via... O que iam rir, -palrar! E Bazilio devia vir s duas. Era um dia divertido, bem -preenchido... - -Foi logo cozinha dar as suas ordens para o jantar. Quando descia, -o criadito de Sebastio tocava a campainha, com um ramo de rosas, a -saber se a senhora estava melhor. - ---Que sim, que sim!--gritou logo Luiza.--E para o tranquillisar, para -que elle no viesse:--Que estava boa, que at talvez sahisse... - -As rosas, sim, que vinham a proposito. Foi ella mesma pl-as nos -vasos, cantarolando sempre, o olhar vivo, satisfeita de si, da sua vida -que se tornava interessante, cheia de incidentes... - -E s duas horas, vestida, veio para a sala, pz-se ao piano a estudar a -_Medj_ de Gounod, que Bazilio trouxera, e que a encantava agora muito, -com os seus accentos suspirados e calidos. - -s duas e meia, porm, comeou a estar impaciente; os dedos -embrulhavam-se-lhe no teclado.--J devia ter vindo, Bazilio!--pensava. - -Foi abrir as janellas, debruar-se para a rua; mas a criada do doutor, -que costurava por dentro dos vidros, ergueu logo olhos to sofregos -que Luiza fechou rapidamente as vidraas. Veio recomear a melodia, j -nervosa. - -Uma carruagem rolou. Ergueu-se agitada, batia-lhe o corao. A -carruagem passou... - -Tres horas j! O calor parecia-lhe maior, insupportavel; sentia-se -afogueada, foi cobrir-se de p d'arroz. Se Bazilio estivesse doente! E -n'um quarto d'hotel! S, com criados desleixados! Mas no, ter-lhe-hia -escripto n'esse caso!... No viera, no se importra! Que grosseiro, -que egoista! - -Era bem tola em se affligir. Melhor! Mas, abafava-se, positivamente! -Foi buscar um leque, e as suas mos enraivecidas sacudiram n'um -phrenesi a gaveta, que no se abriu logo, um pouca perra. Pois bem, no -o tornaria a receber! E acabava tudo! - -E o seu grande amor, de repente, como um fumo que uma rajada dissipa, -desappareceu! Sentiu um allivio, um grande desejo de tranquillidade. -Era absurdo, realmente, com um marido como Jorge, pensar n'outro homem, -um leviano, um estroina!... - -Deram quatro horas. Veio-lhe uma desesperao, correu ao escriptorio de -Jorge, agarrou uma folha de papel, escreveu pressa: - - - Querido Bazilio. - - -Porque no vens? Ests doente? Se soubesses os tormentos por que me -fazes passar... - - -A campainha retiniu. Era elle! Amarrotou o bilhete, metteu-o no bolso -do vestido, ficou esperando, palpitante. Passos d'homem pisaram o -tapete da sala. Entrou, com o olhar faiscante... Era Sebastio. - -Sebastio, um pouco pallido, que lhe apertou muito as mos. Estava -melhor? Tinha dormido bem? - -Sim, obrigada, estava melhor. Sentra-se no soph, muito vermelha. Mal -sabia que dizer. - -Repetiu com um sorriso vago:--Estou muito melhor!--E pensava:--No me -deixa agora a casa, este massador! - ---Ento, no sahiu?--perguntou Sebastio, sentado na poltrona, com o -chapo desabado nas mos. - -No, estava um pouco fatigada ainda. - -Sebastio passou devagar a mo pelos cabellos, e com uma voz que o -embarao engrossava: - ---Tambem agora tem sempre companhia pela manh... - ---Sim, meu primo Bazilio tem apparecido. Ha tanto tempo que nos no -viamos! Fomos creados de pequenos, quasi... Tenho-o visto quasi todos -os dias. - -Sebastio fez logo rolar um pouco a poltrona, e curvando-se, baixando a -voz: - ---Eu mesmo tinha vindo para lhe fallar a esse respeito... - -Luiza abriu um olhar surprehendido. - ---A respeito de qu? - --- que se repara... A visinhana a peor cousa que ha, minha rica -amiga. Repara em tudo. J se tem fallado. A criada do lente, o Paula. -At j vieram tia Joanna. E como o Jorge no est... O Netto tambem -reparou. Como no sabem o parentesco... E como vem todos os dias... - -Luiza ergueu-se bruscamente, com o rosto alterado: - ---Ento eu no posso receber os meus parentes sem ser -insultada?--exclamou. - -Sebastio levantou-se tambem. Aquella colera subita n'ella, uma pessoa -to dce, atarantou-o como um trovo que estala n'um co claro de vero. - -Pz-se a dizer, quasi anciosamente: - ---Oh minha rica senhora! mas repare, eu no digo... por causa da -visinhana!... - ---Mas que pde dizer a visinhana? - -A sua voz tinha uma vibrao aguda. E batendo com as mos, -apertando-as, exaltada: - ---Isto curioso! Tenho um parente unico, com quem fui creada, que no -vejo ha uns poucos d'annos, vem-me fazer tres ou quatro visitas, est -um momento, e j querem deitar maldade! - -Fallava convencida, esquecendo as palavras de Bazilio, os beijos, o -_coup_... - -Sebastio, acabrunhado, enrolava o chapo nas mos tremulas. E com uma -voz abafada: - ---Eu tinha-me parecido prudente avisar; o Julio tambem... - ---O Julio!--exclamou ella.--Mas que tem o Julio com isso? Com que -direito se mettem no que se passa em minha casa? O Julio! - -A interveno, as decises de Julio pareciam-lhe um acrescimo -d'affronta. Cahiu n'uma cadeira, com as mos contra o peito, os olhos -no tecto. - ---Oh! Se o Jorge aqui estivesse! Oh! se elle aqui estivesse, Santo Deus! - -Sebastio balbuciou aniquilado: - ---Era para seu bem... - ---Mas que mal me pde succeder? - -E erguendo-se, indo d'um movel a outro, n'uma excitao: - --- o meu unico parente. Fomos creados ambos, brincavamos juntos. Em -casa da mam, na rua da Magdalena, estava l sempre. Ia l jantar todos -os dias. como se fossemos irmos. Em pequena trazia-me ao collo... - -E amontoava detalhes d'aquella fraternidade, exagerando uns, inventando -outros ao acaso, na improvisao da colera. - ---Vem aqui--acrescentava--est um bocado, fazemos musica, elle toca -admiravelmente, fuma um charuto, vai-se... - -Instinctivamente justificava-se. - -Sebastio estava sem ida, sem resoluo. Parecia-lhe aquella uma outra -Luiza, differente, que o assustava; e quasi curvava os hombros sob a -estridencia da sua voz, que nunca conhecera to forte, vibrando n'uma -loquacidade trapalhona. - -Erguendo-se emfim, disse com uma dignidade melancolica: - ---Eu entendi que era o meu dever, minha senhora. - -Fez-se um silencio grave. Aquelle tom sobrio, quasi severo, obrigou-a a -crar um pouco dos seus espalhafatos: baixou os olhos: disse embaraada: - ---Perde, Sebastio! Mas realmente!... No, acredite, juro-lhe, -estou-lhe muito obrigada em me avisar. Fez muito bem, Sebastio! - -Elle exclamou logo, vivamente: - ---Para evitar qualquer calumnia d'essas linguas damnadas! Pois no -verdade? - -Justificou ento a sua interveno, com muita amizade: s vezes por uma -palavra, arma-se uma intriga, e quando uma pessoa est prevenida... - ---De certo, Sebastio!--repetiu ella.--Fez perfeitamente bem em me -avisar. De certo!... - -Tinha-se sentado; o olhar reluzia-lhe febrilmente; e a cada momento -limpava com o leno os cantos seccos da bocca. - ---Mas que hei-de eu fazer, Sebastio! Diga! - -Elle commovia-se agora de a vr assim ceder, aconselhar-se; quasi -lamentava vir, com a gravidade das suas advertencias, perturbar a -alegria das suas intimidades. Disse: - ---Est claro que deve vr seu primo, recebel-o... Mas emfim, sempre - bom uma certa reserva, com esta visinhana! Eu se fosse a si -contava-lhe... explicava-lhe... - ---Mas, por fim, que diz essa gente, Sebastio? - ---Repararam. Quem seria? quem no seria? Que vinha, que estava, o diabo! - -Luiza ergueu-se impetuosamente: - ---Eu bem tenho dito a Jorge! Tantas vezes lh'o tenho dito! Isto -uma rua impossivel! No se mexe um dedo que no espreitem, que no -cochichem! - ---No teem que fazer... - -Houve um silencio. Luiza passeava pela sala, com a cabea baixa, a -testa franzida; e parando, olhando quasi anciosamente para Sebastio: - ---O Jorge se soubesse que tinha um desgosto! Santo Deus! - ---Escusa de saber!--exclamou logo Sebastio.--Isto fica entre ns! - ---Para o no affligir, no verdade?--acudiu ella. - ---Est claro! Isto fica entre ns. - -E Sebastio estendendo-lhe a mo, quasi humildemente: - ---Ento no est zangada commigo, hein? - ---Eu, Sebastio! Que tolice! - ---Bem, bem. Acredite!--e espalmou a mo sobre o peito--eu entendi que -era o meu dever. Porque emfim, a minha rica amiga no sabia nada... - ---Estava bem longe!... - ---De certo. Bem, adeus. No a quero massar mais.--E com uma voz -profunda, commovida:--C estou s ordens, hein! - ---Adeus, Sebastio... Mas que gente! Por vr entrar o pobre rapaz tres -ou quatro vezes!... - ---Uma canalha, uma canalha!--disse Sebastio, arregalando os olhos. - -E sahiu. - -Apenas elle fechou a porta: - ---Que desafro!--exclamou Luiza--Isto s a mim! - -Porque a interveno de Sebastio, no fundo, irritava-a mais que os -mexericos da visinhana! A sua vida, as suas visitas, o interior da -sua casa era discutido, resolvido por Sebastio, por Julio, por -_tutti quanti_! Aos vinte e cinco annos tinha mentores! No estava m! -E porque, Santo Deus? Porque seu primo, o seu unico parente, vinha -vel-a!... - -Mas ento, de repente, emmudecia interiormente. Lembravam-lhe os -olhares de Bazilio, as suas palavras exaltadas, aquelles beijos, o -passeio ao Lumiar. A sua alma corava baixo, mas o seu despeito seguia -declamando alto:--de certo, havia um sentimento, mas era honesto, -ideal, todo platonico!... Nunca seria _outra cousa_! Podia ter l -dentro, no fundo, uma fraqueza... Mas seria sempre uma mulher de bem, -fiel, s d'um!... - -E esta certeza irritava-a ento contra os palratorios da rua! Que de -resto era l possivel, que s por verem entrar Bazilio, quatro ou cinco -vezes, s duas horas da tarde, comeassem logo a murmurar, a cortar na -pelle?... Sebastio era um caturra, com terrores d'ermito! E que ida, -ir consultar Julio! Julio! Era elle, de certo, que o instigra a vir -prgar, assustal-a, humilhal-a!... Porque? Azedume, inveja! Porque -Bazilio tinha belleza, _toilette_, maneiras, dinheiro!... Se tinha! - -As qualidades de Bazilio appareciam-lhe ento magnificas e abundantes -como os attributos d'um deus. E estava apaixonado por ella! E queria -vir viver junto d'ella! O amor d'aquelle homem, que tinha esgotado -tantas sensaes, abandonado de certo tantas mulheres, parecia-lhe como -a affirmao gloriosa da sua belleza e da irresistibilidade da sua -seduco. - -A alegria que lhe dava aquelle culto trazia-lhe o receio de o perder. -No o queria vr diminuido; queria-o sempre presente, crescendo, -balouando sem cessar, diante d'ella, o murmurio languido das ternuras -humildes! Podia l separar-se de Bazilio! Mas se a visinhana, as -relaes comeavam a commentar, a cochichar... Jorge podia saber!... -quella supposio o corao arrefecia-lhe...--Sebastio tinha razo, -no fundo, era evidente! - -N'uma rua pequena, com doze casas, vir todos os dias, aquelle -lindo rapaz, to elegante, agora que seu marido no estava... Era -terrivel!--Que havia de fazer, Santo Deus!... - -A campainha retiniu com fora; Lepoldina entrou. - -Vinha furiosa com o cocheiro: que imaginasse ella, hein! Tinha parado -ao Correio, e o homem queria duas corridas. Uma canalha assim!... - ---E que calor, ouf!--Atirou a sombrinha, as luvas; agitou as mos no ar -para descer o sangue, dar-lhes pallidez; e diante do toucador, compondo -ligeiramente os frisados do cabello, com uma cr na pelle, muito -espartilhada, admiravel no seu corpete couraado: - ---Que tens tu, filha? Ests toda no ar! - -Nada. Tinha-se zangado com as criadas... - ---Ai! esto insupportaveis!--Contou as exigencias da Justina, os seus -desmazelos.--E muito agradecida ainda que ella se me no v! Quando a -gente depende d'ellas!...--E pondo p d'arroz no rosto, com uma voz -lenta:--L o meu senhor foi para o Campo Grande. Eu estive para ir -jantar fra com...--Suspendeu-se, sorriu, e voltada para Luiza, mais -baixo, com um tom alegre, muito sincero:--Mas olha, a fallar a verdade, -nem sabia onde, nem tinha dinheiro... Que elle coitado com a sua mezada -mal lhe chega. Disse commigo: nada, vou vr a Luiza. Tambem os homens -sempre, sempre, seccam!...--Que tens tu para jantar? No fizeste -ceremonia, hein? - -E com uma ida subita: - ---Tens tu bacalhau? - -Devia haver, talvez. Que extravagancia! Porque? - ---Ai!--exclamou--Manda-me assar um bocadinho de bacalhau! Meu marido -detesta o bacalhau! aquelle animal! Eu a minha paixo. Com azeite e -alho!--Mas calou-se, contrariada.--Diabo! - ---O que? - --- que hoje no posso comer alho... - -E entrou para a sala a rir. Foi tirar uma rosa do ramo de Sebastio, -pl-a n'uma casa do corpete. Desejava ter uma sala assim,--pensava, -olhando em redor. Queria-a de reps azul, com dous grandes espelhos, um -lustre de gaz, e o seu retrato a oleo de corpo inteiro, decotada, ao -p d'um rico vaso de flres... Sentou-se ao piano, bateu rijamente o -teclado, tocou motivos do _Barba Azul_. - -E vendo Luiza entrar: - ---Mandaste arranjar o bacalhau? - ---Mandei. - ---Assado? - ---Sim. - ---Gracias!--E atirou, com a sua voz mordente, a sua cano querida da -_Gran-Duqueza_: - - Ouvi dizer que meu av de vinho, - Era um tal amador... - -Mas Luiza achava aquella musica espalhafatona; queria alguma cousa -triste, dce... O fado! que tocasse o fado!... - -Leopoldina exclamou logo: - ---Ai, o fado novo! Tu no ouviste? lindo! Os versos so divinos! - -Preludiou, cantando com um balouar languido da cabea, o olhar erguido -e turvo: - - O rapaz que eu hontem vi - Era moreno e bem feito... - ---Tu no sabes isto, Luiza? Oh filha! o ultimo! de chorar! - -Recomeou, com o tom muito quebrado. Era a historia rimada d'um amor -infeliz. Fallava-se nas raivas do ciume, nas rochas de Cascaes, nas -noites de luar, nos suspiros da saudade, todo o palavriado morbido do -sentimentalismo lisboeta. Leopoldina dava tons dolentes voz, revirava -um olhar expirante; uma quadra sobre tudo enternecia-a; repetiu-a com -paixo: - - Vejo-o nas nuvens do co, - Nas ondas do mar sem fim, - E por mais longe que esteja - Sinto-o sempre ao p de mim. - ---Lindo!--suspirava Luiza. - -E Leopoldina terminava com _ais_! em que a sua voz se arrastava n'uma -extenso desafinada. - -Luiza, de p junto do piano, sentia o cheiro do _feno_ que ella usava; -o fado, os versos entristeciam-na um pouco; e com o olhar saudoso -seguia sobre o teclado os dedos ageis e magros de Leopoldina, onde -reluziam as pedras dos anneis que lhe tinha dado o Gama. - -Mas Juliana entrou, vestida de passeio, com a sua cuia nova. Estava o -jantar na mesa! - -Leopoldina declarou que vinha a cahir de fome! E a sala de jantar com -as vidraas abertas, as verduras dos terrenos vagos defronte, um azul -d'horisonte onde se algodoavam nuvemzinhas muito brancas--alegrou-a: -a sala de jantar d'ella tirava-lhe at o appetite, era uma tristeza, -deitava para o saguo! - -Pz-se a depenicar bagos d'uvas, a trincar bocadinhos de conserva--e -reparando no retrato do pai de Jorge, desdobrando o guardanapo: - ---Havia de ser divertido teu sogro! Tem cara de pandigo!... - -E ha que tempos que no jantavam juntas! Desde quando? - ---Desde o meu primeiro anno de casada--lembrou Luiza. - -Leopoldina fez-se um pouco vermelha. Viam-se muito n'esse tempo; -Jorge deixava-as ir s lojas ambas, aos confeiteiros, Graa... -A lembrana d'aquella camaradagem levou-a s recordaes mais -distantes do collegio. Tinha visto, havia dias, a Rita Pessoa, com o -sobrinho.--Lembras-te d'elle? - ---O _Espinafre_? - -_Espinafre_ ou no era no collegio o homem, o ideal, o heroe; todas lhe -escreviam bilhetes, desenhavam-lhe coraes d'onde sahia uma fogueira, -mettiam-lhe no bon muito sebento ramos de flres de papel... E quando -a Michaela foi apanhada, no cacifro dos bahs, a devoral-o de beijos!... - -Luiza disse: - ---Que horror! - ---No que a Michaela era douda! - -Coitada! Tinha casado com um alferes, um homem que a espancava. Estava -cheia de filhos... - ---Isto um valle de lagrimas!--resumiu Leopoldina, recostando-se. - -Estava loquaz. Servia-se muito, com gula; depois picava um bocadinho na -ponta do garfo, provava, deixava, punha-se a comer cdeas de po que -barrava de manteiga. E deleitava-se nas recordaes do collegio! Que -bom tempo! - ---Lembraste quando estivemos de mal? - -Luiza no se lembrava... - ---Por tu teres dado um beijo na Thereza, que era o meu -_sentimento_--disse Leopoldina. - -Pozeram-se a fallar dos _sentimentos_. Leopoldina tivera quatro; a -mais bonita era a Joanninha, a Freitas. Que olhos! E que bem feita! -Tinha-lhe feito a crte um mez!... - ---Tolices!--disse Luiza crando um pouco. - ---Tolices! Porque? - -Ai! era sempre com saudade que fallava dos _sentimentos_. Tinham sido -as primeiras sensaes, as mais intensas. Que agonia de ciumes! Que -delirio de reconciliaes! E os beijos furtados! E os olhares! E os -bilhetinhos, e todas as palpitaes do corao, as primeiras da vida! - ---Nunca--exclamou--nunca, depois de mulher, senti por um homem o que -senti pela Joanninha!... Pois pdes crr... - -Um olhar de Luiza deteve-a.--A Juliana!... Diabo! tinha-se esquecido! -Constrangia-as muito, com o seu sorrisinho torcido, a figura de peito -chato, o tic-tac metallico dos taces. - ---E que foi feito da Joanninha?--perguntou Luiza. - -Morrra tisica--e a voz de Leopoldina fez-se saudosa. Uma doena bem -triste, no era? Mas no lhe tinha medo, ella! Batia no seio, bem -formado: - ---Isto rijo, isto so! - -Juliana sahiu, e Luiza observou logo: - ---V no que fallas, filha! Tem cuidado! - -Leopoldina curvou-se: - ---Ah! a respeitabilidade da casa! Tens razo!--murmurou. - -E como Juliana entrava com o bacalhau assado, fez-lhe uma ovao! - ---Bravo! Est soberbo! - -Tocou-lhe com a ponta do dedo, gulosa; vinha louro, um pouco tostado, -abrindo em lascas. - ---Tu vers--dizia ella.--No te tentas? Fazes mal! - -Teve ento um movimento decidido de bravura, disse: - ---Traga-me um alho, snr.^a Juliana! Traga-me um bom alho! - -E apenas ella sahiu: - ---Eu vou ter logo com o Fernando, mas no me importa!...--Ah! Obrigada, -snr.^a Juliana! No ha nada como o alho!... - -Esborrachou-o em roda do prato, regou as lascas do bacalhau d'um fio -molle d'azeite, com gravidade.--Divino!--exclamou.--Tornou a encher o -copo, achava aquillo uma pandiga. - ---Mas que tens tu? - -Luiza com effeito parecia preoccupada. Tinha suspirado baixo. Duas -vezes, endireitando-se na cadeira, dissera a Juliana, inquieta: - ---Parece que tocaram a campainha, v vr. - -No era ninguem. - ---Quem havia de ser? No esperas teu marido, de certo. - ---Ah! no! - -E ento Leopoldina, com os olhos no prato, partindo devagar, muito -attenta, lascasinhas de bacalhau: - ---E teu primo veio vr-te? - -Luiza fez-se vermelha. - ---Sim, tem vindo. Tem vindo varias vezes. - ---Ah! - -E depois d'um silencio: - ---Ainda est bonito? - ---No est feio... - ---Ah! - -Luiza apressou-se a perguntar se tinha encommendado o vestido de -xadrezinho? No. E comearam a fallar de _toilettes_, fazendas, -lojas, e preos... Depois, de conhecidas, d'outras senhoras, de -boatos--perdendo-se n'uma conversa de mulheres ss, miudinha e -divagada, semelhante ao ramalhar de folhagens. - -Viera o assado. Leopoldina j ia tendo uma cr quente nas faces. Pediu -a Juliana que lhe fosse buscar o leque;--e recostada, abanando-se, -declarou que se sentia como um principe! E ia beberricando golinhos de -vinho. Que boa ida, jantarem juntas!... - -Apenas Juliana dispz os pratos de fruta, Luiza disse-lhe logo: que -chamaria para o caf, que podia ir. Foi ella mesmo fechar a porta da -sala, correr o reposteiro de cretone: - ---Estamos vontade, agora! Fao-me velha s d'olhar para esta -creatura! Estou morta pela vr pelas costas. - ---Mas porque a no pes na rua? - -Era Jorge que no queria, seno... - -Leopoldina protestou. Boa! os maridos no deviam ter vontade!... Era o -que faltava!... - ---E o teu, ento?--disse Luiza, rindo. - ---Obrigada!--exclamou Leopoldina.--Um homem que faz quarto parte! - -De resto detestava os homens que se occupam de criadas, de roes, -d'azeites e vinagres... - ---Que l o meu cavalheiro at pesa a carne!--Sorriu, com odio.--Tambem - o que vale, seno!... Eu s d'ir cozinha me do enjos... - -Quiz deitar vinho, mas a garrafa estava vazia. - -Luiza acudiu: - ---Queres tu champagne?--Tinha-o muito bom, que o mandava a Jorge um -hespanhol, um proprietario de minas. - -Foi ella mesmo buscar a garrafa, desembrulhou-a do seu papel azul;--e -com risinhos, sustos, fizeram estalar a rolha. A espuma encantou-as: -olhavam os copos, caladas, com um bem-estar feliz. Leopoldina gabou-se -de saber abrir muito bem o champagne; fallava vagamente de cas -passadas... - ---Em tera-feira gorda, ha dous annos!... - -E toda recostada na cadeira, com um sorriso calido, as azas do nariz -dilatadas, a pupilla humida, olhava com sensualidade os globulosinhos -vivos que subiam, sem cessar, no copo esguio. - ---Se fosse rica, bebia sempre champagne--disse. - -Luiza no: ambicionava um coup; e queria viajar, ir a Paris, a -Sevilha, a Roma... Mas os desejos de Leopoldina eram mais vastos: -invejava uma larga vida, com carruagens, camarotes d'assignatura, uma -casa em Cintra, cas, bailes, _toilettes_, jogo... Porque gostava do -_monte_--dizia--fazia-lhe bater o corao. E estava convencida que -havia de adorar a roleta. - ---Ah!--exclamou--Os homens so bem mais felizes que ns! Eu nasci para -homem! O que eu faria! - -Levantou-se, foi-se deixar cahir muito languidamente na _voltaire_, ao -p da janella. A tarde descia serenamente; por traz das casas, para l -dos terrenos vagos, nuvens arredondavam-se, amarelladas, orladas de -cres sanguineas ou de tons alaranjados. - -E voltando-lhe a mesma ida d'aco, d'independencia: - ---Um homem pde fazer tudo! Nada lhe fica mal! Pde viajar, correr -aventuras... Sabes tu, fumava agora um cigarrito... - -O peor que Juliana podia sentir o cheiro. E parecia to mal!... - --- um convento, isto!--murmurou Leopoldina.--No tens m priso, minha -filha! - -Luiza no respondeu; tinha encostado a cabea mo: e com o olhar -vago, como continuando alguma ida: - ---So tolices, no fim, andar, viajar! A unica cousa n'este mundo a -gente estar na sua casa, com o seu homem, um filho ou dous... - -Leopoldina deu um salto na _voltaire_. Filhos! Credo, que nem fallasse -em semelhante cousa! Todos os dias dava graas a Deus em os no ter! - ---Que horror!--exclamou com convico.--O incommodo todo o tempo que se -est!... as despezas! os trabalhos, as doenas! Deus me livre! uma -priso! E depois quando crescem, do f de tudo, palram, vo dizer... -Uma mulher com filhos est inutil para tudo, est atada de ps e mos! -No ha prazer na vida. estar alli a atural-os... Credo! Eu? Que Deus -no me castigue, mas se tivesse essa desgraa parece-me que ia ter com -a velha da travessa da Palha! - ---Que velha?--perguntou Luiza. - -Leopoldina explicou. Luiza achava uma infamia. A outra encolheu os -hombros, acrescentou: - ---E depois, minha rica, que uma mulher estraga-se: no ha belleza de -corpo que resista. Perde-se o melhor. Quando se como a tua amiga, a -D. Felicidade, emfim!... Mas quando se direitinha e arranjadinha!... -Nada, minha rica! Embaraos no faltam! - -Por baixo, na rua, o realejo do bairro, no seu giro da tarde, veio -tocar o final da _Traviata_; ia escurecendo; j as verduras dos -quintaes tinham uma igual cr parda; e as casas para alm esbatiam-se -na sombra. - -A _Traviata_ lembrou a Luiza a _Dama das Camelias_: fallaram do -romance: recordaram episodios... - ---Que paixo que eu tive por Armando em rapariga!--disse Leopoldina. - ---E eu foi por d'Artagnan--exclamou ingenuamente Luiza. - -Riram muito. - ---Comeamos cedo--observou Leopoldina.--D-me uma gotinha mais. - -Bebeu, pousou o calix--e encolhendo os hombros: - ---Oh! Comeamos cedo? Comeam todas! Aos treze annos j a gente vai na -sua quarta paixo. Todas so mulheres, todas sentem o mesmo!--E batendo -o compasso com o p, cantou, no tom do fado: - - O amor uma doena - Que costuma andar no ar; - S d'ir janella, s vezes - S'apanha a febre d'amar! - -Estou hoje com uma telha!--E espreguiando-se muito languidamente:--No -fim de contas o que ha de melhor n'este mundo: o resto uma -semsaboria! No verdade? Dize, tu! No verdade? - -Luiza murmurou: - ---Se !--E acrescentou logo:--Creio eu! - -Leopoldina ergueu-se, e escarnecendo-a: - ---Cr ella! Pobre innocentinha! Vejam o anjinho! - -Foi-se encostar janella; ficou a olhar pelos vidros o descer do -crepusculo; de repente pz-se a dizer devagar: - ---Realmente vale bem a pena estar uma pobre de Christo a privar-se, a -passar uma vida de coruja, a mortificar-se, para vir um dia uma febre, -um ar, uma soalheira, e boas noites, vai-se para o Alto de S. Joo! T -rola! - -A sala agora estava um pouco escura. - ---Pois no te parece?--perguntou ella. - -Aquella conversa embaraava Luiza: sentia-se crar; mas o crepusculo, -as palavras de Leopoldina davam-lhe como o enfraquecimento d'uma -tentao. Declarou todavia _immoral_ semelhante ida. - ---Immoral, porque? - -Luiza fallou vagamente nos _deveres_, na _religio_. Mas os _deveres_ -irritavam Leopoldina. Se havia uma cousa que a fizesse sahir de -si--dizia--era ouvir fallar em deveres!... - ---Deveres? Para com quem? Para um maroto como meu marido? - -Calou-se, e passeando pela sala excitada: - ---E em quanto a religio, historias! A mim me dizia o padre Estevo, o -de luneta, que tem os dentes bonitos, que me dava todas as absolvies, -se eu fosse com elle a Carriche! - ---Ah, os padres...--murmurou Luiza. - ---Os padres qu? So a religio! Nunca vi outra. Deus, esse, minha -rica, est longe, no se occupa do que fazem as mulheres. - -Luiza achava horrivel aquelle modo de pensar. A felicidade, a -verdadeira, segundo ella, era ser honesta... - ---E a bisca em familia!--resmungou Leopoldina, com odio. - -Luiza disse, animada: - ---Pois olha que com as tuas paixes, umas atraz das outras... - -Leopoldina estacou: - ---O que? - ---No te podem fazer feliz! - ---Est claro que no!--exclamou a outra.--Mas...--procurou a -palavra; no a quiz empregar de certo; disse apenas com um tom -secco:--Divertem-me! - -Calaram-se. Luiza pediu o caf. - -Juliana entrou com a bandeja, trouxe luz; d'ahi a pouco foram para a -sala. - ---Sabes quem me fallou hontem de ti?--disse Leopoldina, indo -estender-se no divan. - ---Quem? - ---O Castro. - ---Que Castro? - ---O d'oculos, o banqueiro. - ---Ah! - ---Muito apaixonado por ti sempre. - -Luiza riu. - ---Doudo, palavra!--affirmou Leopoldina. - -A sala estava s escuras, com as janellas abertas; a rua esbatia-se -n'um crepusculo pardo: um ar languido e dce amaciava a noite. - -Leopoldina esteve um momento calada; mas o champagne, a meia -obscuridade deram-lhe bem depressa a necessidade de cochichar -confidenciasinhas. Estirou-se mais no divan, n'uma attitude toda -abandonada; pz-se a fallar d'elle. Era ainda o Fernando, o poeta. -Adorava-o. - ---Se tu soubesses!--murmurava com um ar de extase.-- um amor de rapaz! - -A sua voz velada tinha inflexes d'uma ternura calida. Luiza sentia-lhe -o halito e o calor do corpo, quasi deitada tambem, enervada; a sua -respirao alta tinha por vezes um tom suspirado: e a certos detalhes -mais picantes de Leopoldina soltava um risinho quente e curto, como -de cocegas... Mas passos fortes de botas de taxas subiram a rua, e no -candieiro defronte o gaz saltou com um jacto vivo. Uma branda claridade -pallida penetrou na sala. - -Leopoldina ergueu-se logo.--Tinha d'ir j, j, ao accender do gaz. -Estava espera, o pobre rapaz! Entrou no quarto, mesmo s escuras, a -pr o chapo, buscar a sombrinha.--Tinha-lhe promettido, coitado, no -podia faltar. Mas realmente embirrava d'ir s. Era to longe! Se a -Juliana podesse vir acompanhal-a... - ---Vai, sim, filha!--disse Luiza. - -Ergueu-se preguiosamente com um grande _ai!_ foi abrir a porta, e deu -de cara com Juliana, na sombra do corredor. - ---Credo, mulher, que susto! - ---Vinha saber se queriam luz... - ---No. V pr um chale para acompanhar a snr.^a D. Leopoldina! Depressa! - -Juliana foi correndo. - ---E quando appareces tu, Leopoldina?--perguntou Luiza. - -Logo que podesse. Para a semana estava com idas d'ir ao Porto vr a -tia Figueiredo, passar quinze dias na Foz... - -A porta abriu-se. - ---Quando a senhora quizer...--disse Juliana. - -Fizeram grandes _adeuses_, beijaram-se muito. Luiza disse rindo ao -ouvido de Leopoldina:--S feliz! - -Ficou s. Fechou as janellas, accendeu as velas, comeou a passear pela -sala, esfregando devagar as mos. E, sem querer, no podia desprender a -ida de Leopoldina que ia vr o seu amante! O seu amante!... - -Seguia-a mentalmente:--caminhava depressa de certo fallando com -Juliana; chegava; subia a escada, nervosa; atirava com a porta--e que -delicioso, que avido, que profundo o primeiro beijo! Suspirou. Tambem -ella amava--e _um_ mais bello, mais fascinante. Porque no tinha vindo? - -Sentou-se ao piano preguiosamente; pz-se a cantar baixo, triste, o -fado de Leopoldina: - - E por mais longe que esteja - Vejo-o sempre ao p de mim!... - -Mas um sentimento de solido, d'abandono, veio impaciental-a. Que -scca, estar alli to ssinha! Aquella noite calida, bella e dce, -attrahia-a, chamava-a para fra, para passeios sentimentaes, ou para -contemplaes do co, n'um banco de jardim, com as mos entrelaadas. -Que vida estupida, a d'ella! Oh! aquelle Jorge! Que ida ir para o -Alemtejo! - -As conversas de Leopoldina e a lembrana das suas felicidades -voltavam-lhe a cada momento; uma pontinha de champagne agitava-se-lhe -no sangue. O relogio do quarto comeou lentamente a dar nove horas--e -de repente a campainha retiniu. - -Teve um sobresalto: no podia ser ainda Juliana! Poz-se a escutar, -assustada. Vozes fallavam cancella. - ---Minha senhora--veio dizer Joanna baixo-- o primo da senhora que diz -que se vem despedir... - -Abafou um grito, balbuciou: - ---Que entre! - -Os seus olhos dilatados cravavam-se febrilmente na porta. O reposteiro -franziu-se, Bazilio entrou, pallido, com um sorriso fixo. - ---Tu partes!--exclamou ella surdamente, precipitando-se para elle. - ---No!--E prendeu-a nos braos.--No! Imaginei que me no recebias a -esta hora, e tomei este pretexto. - -Apertou-a contra si, beijou-a; ella deixava, toda abandonada; os seus -labios prendiam-se aos d'elle. Bazilio deitou um olhar rapido, em -redor, pela sala, e foi-a levando abraada, murmurando: Meu amor! minha -filha! Mesmo tropeou na pelle de tigre, estendida ao p do divan. - ---Adoro-te! - ---Que susto que tive!--suspirou Luiza. - ---Tiveste? - -Ella no respondeu; ia perdendo a percepo nitida das cousas; -sentia-se como adormecer; balbuciou: Jesus! no! no! Os seus olhos -cerraram-se. - - -Quando a campainha retiniu fortemente s dez horas, Luiza, havia -momentos, sentra-se beira do divan. Mal teve fora de dizer a -Bazilio: - ---Ha-de ser a Juliana, tinha ido fra... - -Bazilio cofiou o bigode, deu duas voltas na sala, foi accender um -charuto. Para quebrar o silencio sentou-se ao piano, tocou alguns -compassos ao acaso, e, erguendo um pouco a voz, comeou a cantarolar a -aria do 3.^o acto do _Fausto_: - - Al pallido chiarore - Del astri d'oro... - -Luiza, atravs das ultimas vibraes dos seus nervos, ia entrando -na realidade; os seus joelhos tremiam. E ento, ouvindo aquella -melodia, uma recordao foi-se formando no seu espirito, ainda -estremunhado:--era uma noite, havia annos, em S. Carlos, n'um camarote -com Jorge; uma luz electrica dava ao jardim, no palco, um tom livido -de luar legendario; e n'uma altitude extatica e suspirante o tenor -invocava as estrellas; Jorge tinha-se voltado, dissera-lhe: Que lindo! -E o seu olhar devorava-a. Era no segundo mez do seu casamento. Ella -estava com um vestido azul-escuro. E volta, na carruagem, Jorge, -passando-lhe a mo pela cinta, repetia: - - Al pallido chiarore - Del astri d'oro... - -E apertava-a contra si... - -Ficra immovel beira do divan, quasi a escorregar, os braos frouxos, -o olhar fixo, a face envelhecida, o cabello desmanchado. Bazilio ento -veio sentar-se devagarinho junto d'ella.--Em que estava a pensar? - ---Nada. - -Elle passou-lhe o brao pela cinta, comeou a dizer que havia de -procurar uma casinha para se verem melhor, estarem mais vontade; no -era mesmo prudente alli em casa d'ella... - -E fallando, voltava a cada momento o rosto, soprava para o lado o fumo -do charuto. - ---No te parece que vir eu aqui, todos os dias, pde ser reparado? - -Luiza ergueu-se bruscamente, lembrra-lhe Sebastio!... E com uma voz -um pouco desvairada: - ---J to tarde!--disse. - ---Tens razo. - -Foi buscar o chapo em bicos de ps, veio beijal-a muito, sahiu. - ---Luiza sentiu-o accender um phosphoro, fechar devagarinho a cancella. - -Estava s; pz-se a olhar em roda, como idiota. O silencio da sala -parecia-lhe enorme. As velas tinham uma chamma avermelhada. Piscava os -olhos, tinha a bocca scca. Uma das almofadas do divan estava cahida, -apanhou-a. - -E com um ar somnambulo entrou no quarto. Juliana veio trazer o rol. E -j vinha com a lamparina, estava a arranjal-a... - -Tinha tirado a cuia; subiu cozinha quasi a correr. A Joanna, que -estivera dormitando, espreguiava-se com bocejos enormes. - -Juliana pz-se a arranjar a torcida da lamparina; os dedos tremiam-lhe; -tinha no olhar um brilho agudo; e depois de tossir, devagarinho, com um -sorriso para Joanna: - ---E ento a que horas veio o primo da senhora? - ---Veio logo que vossemec sahiu, estavam a dar as nove. - ---Ah! - -Desceu com a lamparina; e sentindo Luiza na alcova despir-se: - ---A senhora no quer ch?--perguntou, com muito interesse. - ---No. - -Foi sala, fechou o piano. Havia um forte cheiro de charuto. Pz-se -a olhar em redor, devagar, andando com um passo subtil... De repente -agachou-se, anciosamente: ao p do divan uma cousa reluzia. Era uma -travessa de Luiza, de tartaruga, com o aro dourado. Tornou a entrar -no quarto em pontas de ps, pousou-a no toucador, entre os rlos de -cabello. - ---Quem anda ahi?--perguntou da alcova a voz somnolenta de Luiza. - ---Sou eu, minha senhora, sou eu, estive a fechar a sala. Muito boas -noites, minha senhora! - - -quella hora Bazilio entrava no Gremio. Procurou pelas salas. Estavam -quasi desertas. Dous sujeitos, com os rostos entre os punhos, curvados -em attitudes lugubres, ruminavam os jornaes: aqui, alm, junto a -mesinhas redondas, pessoas de cala branca mastigavam torradas com uma -satisfao placida; as janellas estavam fechadas, a noite quente, e o -calor molle do gaz abafava. Ia descer quando de uma saleta de jogo, -de repente, sahiu o ruido irritado de uma altercao; trocavam-se -injurias, gritava-se:--Mente! O asno voss! - -Bazilio estacou, escutando. Mas, subitamente, fez-se um grande -silencio; uma das vozes disse com brandura: - ---Paus! - -A outra respondeu com benevolencia: - --- o que devia ter feito ha pouco. - -E immediatamente a questo rebentou de novo, estridente. Praguejavam, -diziam obscenidades. - -Bazilio foi ao bilhar. O visconde Reynaldo, de p, apoiado ao taco, -seguia com uma immobilidade grave o jogo do seu parceiro; mas apenas -viu Bazilio, veio para elle rapidamente, e muito interessado: - ---Ento? - ---Agora mesmo--disse Bazilio mordendo o charuto. - ---Emfim, hein?--exclamou Reynaldo, arregalando os olhos, com uma grande -alegria. - ---Emfim! - ---Ainda bem, menino! Ainda bem! - -Batia-lhe no hombro, commovido. - -Mas chamaram-no para jogar; e todo estirado sobre o bilhar, com uma -perna no ar, para dar com mais segurana o _effeito_, dizia com a voz -constrangida pela attitude: - ---Estimo, estimo, porque essa cousa comeava a arrastar... - -Tac! Falhou a carambola. - ---No dou meia!--murmurou com rancor. - -E chegando-se a Bazilio, a dar giz no taco: - ---Ouve c... - -Fallou-lhe ao ouvido. - ---Como um anjo, menino!--suspirou Bazilio. - - - - -VI - - -Foi Juliana que na manh seguinte veio acordar Luiza, dizendo porta -da alcova com a voz abafada, em confidencia: - ---Minha senhora! Minha senhora! um criado com esta carta, diz que vem -do htel. - -Foi abrir uma das janellas, em bicos de ps; e voltando alcova com -uma cautela mysteriosa: - ---E est espera da resposta, est porta. - -Luiza, estremunhada, abriu o largo enveloppe azul com um -monogramma--dous BB, um purpura, outro ouro, sob uma cora de conde. - ---Bem, no tem resposta. - -No tem resposta--foi dizer Juliana ao criado, que esperava encostado -ao corrimo, fumando um grande charuto, e cofiando as suias pretas. - ---No tem resposta? Bem, muito bom dia.--Levou o dedo seccamente aba -do cco, e desceu, gingando. - -Perfeito homem! foi pensando Juliana, pela escada da cozinha. - ---Quem bateu, snr.^a Juliana?--perguntou-lhe logo a cozinheira. - -Juliana resmungou: - ---Ninguem, um recado da modista. - -Desde pela manh a Joanna achava-lhe o ar exquisito. Sentira-a desde -as sete horas varrer, espanejar, sacudir, lavar as vidraas da sala -de jantar, arrumar as louas no aparador. E com uma azafama! Ouvira-a -cantar a _Carta adorada_, ao mesmo tempo que os canarios, nas varandas -abertas, chilreavam estridentemente ao sol. Quando veio tomar o seu -caf cozinha no palestrou como de costume; parecia preoccupada e -ausente. - -Joanna at lhe perguntou: - ---Sente-se peor, snr.^a Juliana? - ---Eu? Graas a Deus, nunca me senti to bem. - ---Como a vejo to calada... - ---A malucar c por dentro... A gente nem sempre est para grulhar. - -Apesar de serem nove horas no quizera acordar a senhora. Deixal-a -descanar, coitada--disse. Foi em pontas de ps encher devagarinho a -bacia grande do banho, no quarto; para no fazer ruido, sacudiu no -corredor as saias, o vestido da vespera: e os seus olhos brilharam -avidamente quando sentiu na algibeirinha um papel amarrotado! Era -o bilhete que Luiza escrevera a Bazilio: Porque no vens?... Se -soubesses o que me fazes soffrer!... Teve-o um momento na mo, -mordendo o beio, o olhar fixo n'um calculo agudo; por fim tornou a -mettel-o na algibeira de Luiza, dobrou o vestido, foi estendel-o com -muito cuidado na _causeuse_. - -Enfim, mais tarde, sentindo o _cuco_ dar horas, decidiu-se a ir dizer a -Luiza, com uma voz meiga: - ---So dez e meia, minha senhora! - -Luiza, na cama, tinha lido, relido o bilhete de Bazilio: No -pudera--escrevia ele--estar mais tempo sem lhe dizer que a adorava. -Mal dormira! Erguera-se de manh muito cdo para lhe jurar que estava -louco, e que punha a sua vida aos ps d'ella. Compozera aquella prosa -na vespera, no Gremio, s tres horas, depois de alguns _robbers_ -d'_whist_, um bife, dous copos de cerveja e uma leitura preguiosa da -_Illustrao_. E terminava, exclamando:--Que outros desejem a fortuna, -a gloria, as honras, eu desejo-te a ti! S a ti, minha pomba, porque -tu s o unico lao que me prende vida, e se manh perdesse o teu -amor, juro-te que punha um termo, com uma boa bala, a esta existencia -inutil!--Pedira mais cerveja, e levra a carta para a fechar em casa, -n'um enveloppe com o seu monogramma, porque sempre fazia mais effeito. - -E Luiza tinha suspirado, tinha beijado o papel devotamente! Era a -primeira vez que lhe escreviam aquellas sentimentalidades, e o seu -orgulho dilatava-se ao calor amoroso que sahia d'ellas, como um corpo -resequido que se estira n'um banho tepido: sentia um acrescimo de -estima par si mesma, e parecia-lhe que entrava emfim n'uma existencia -superiormente interessante, onde cada hora tinha o seu encanto -differente, cada passo conduzia a um extase, e a alma se cobria d'um -luxo radioso de sensaes! - -Ergueu-se d'um salto, passou rapidamente um roupo, veio levantar os -transparentes da janella... Que linda manh! Era um d'aquelles dias -do fim d'agosto em que o estio faz uma pausa; ha prematuramente, no -calor e na luz, uma certa tranquillidade outonal; o sol cahe largo, -resplandecente, mas pousa de leve; o ar no tem o embaciado canicular, -e o azul muito alto reluz com uma nitidez lavada; respira-se mais -livremente; e j se no v na gente que passa o abatimento molle da -calma enfraquecedora. Veio-lhe uma alegria: sentia-se ligeira, tinha -dormido a noite d'um somno so, continuo, e todas as agitaes, as -impaciencias dos dias passados pareciam ter-se dissipado n'aquelle -repouso. Foi-se vr ao espelho; achou a pelle mais clara, mais fresca, -e um enternecimento humido no olhar;--seria verdade ento o que dizia -Leopoldina, que no havia como uma maldadesinha para fazer a gente -bonita? Tinha um amante, ella! - -E immovel no meio do quarto, os braos cruzados, o olhar fixo, repetia: -Tenho um amante! Recordava a sala na vespera, a chamma aguada das -velas, e certos silencios extraordinarios em que lhe parecia que a -vida parra, em quanto os olhos do retrato da mi de Jorge, negros na -face amarella, lhe estendiam da parede o seu olhar fixo de pintura. -Mas Juliana entrou com um taboleiro de roupa passada. Eram horas de se -vestir... - -Que requintes teve n'essa manh! Perfumou a agua com um cheiro de -_Lubin_, escolheu a camisinha que tinha melhores rendas. E suspirava -por ser rica! Queria as bretanhas e as hollandas mais caras, as -mobilias mais apparatosas, grossas joias inglezas, um coup forrado -de setim... Porque nos temperamentos sensiveis as alegrias do corao -tendem a completar-se com as sensualidades do luxo: o primeiro erro -que se installa n'uma alma at ahi defendida, facilita logo aos outros -entradas tortuosas;--assim, um ladro que se introduz n'uma casa vai -abrindo subtilmente as portas sua quadrilha esfomeada. - -Subiu para o almoo, muito fresca, com o cabello em duas tranas, um -roupo branco. Juliana precipitou-se logo a fechar as janellas, porque -apesar de no estar calor, as portadas cerradas sempre davam mais -frescura! E, vendo que lhe esquecera o leno, correu a buscar-lhe um, -que perfumou com agua de colonia. Servia-a com ternura. Viu-a comer -muitos figos: - ---No lhe vo fazer mal, minha senhora!--exclamou quasi lacrimosamente. - -Andava em redor d'ella com um sorriso servil, sem ruido: ou defronte da -mesa, com os braos cruzados, parecia admiral-a com orgulho, como um -sr precioso e querido, todo seu, a _sua ama!_ O seu olhar esbugalhado -apossava-se d'ella. - -E dizia consigo: - ---Grande cabra! Grande bebeda! - -Luiza, depois de almoo, veio para o quarto estender-se na _causeuse_, -com o seu _Diario de Noticias_. Mas no podia lr. As recordaes -da vespera redemoinhavam-lhe n'alma a cada momento, como as folhas -que um vento d'outono levanta a espaos d'um cho tranquillo: certas -palavras d'elle, certos impetos, toda a sua maneira d'amar... E ficava -immovel, o olhar afogado n'um fluido, sentindo aquellas reminiscencias -vibrarem-lhe muito tempo, dcemente, nos nervos da memoria. Todavia a -lembrana de Jorge no a deixava; tivera-a sempre no espirito, desde -a vespera; no a assustava, nem a torturava; estava alli, immovel mas -presente, sem lhe fazer medo, nem lhe trazer remorso; era como se elle -tivesse morrido, ou estivesse to longe que no podesse voltar, ou a -tivesse abandonado! Ela mesmo se espantava de se sentir to tranquilla. -E todavia impacientava-a ter constantemente aquella ida no espirito, -impassivel, com uma obstinao espectral; punha-se instinctivamente a -accumular as justificaes: No fra culpa sua. No abrira os braos a -Bazilio voluntariamente!... Tinha sido uma _fatalidade_: fra o calor -da hora, o crepusculo, uma pontinha de vinho talvez... Estava douda, -de certo. E repetia comsigo as attenuaes tradicionaes: no era a -primeira que enganra seu marido; e muitas era apenas por vicio, ella -fra por paixo... Quantas mulheres viviam n'um amor illegitimo e eram -illustres, admiradas! Rainhas mesmo tinham amantes. E elle amava-a -tanto!... Seria to fiel, to discreto! As suas palavras eram to -captivantes, os seus beijos to estonteadores!... E emfim que lhe havia -de fazer agora? _J agora_!... - -E resolveu ir responder-lhe. Foi ao escriptorio. Logo ao entrar o seu -olhar deu com a photographia de Jorge--a cabea de tamanho natural,--no -seu caixilho envernizado de preto. Uma commoo comprimiu-lhe o -corao; ficou como _tolhida_--como uma pessoa encalmada de ter -corrido, que entra na frieza d'um subterraneo; e examinava o seu -cabello frisado, a barba negra, a gravata de pontas, as duas espadas -encruzadas que reluziam por cima. Se elle soubesse matava-a!... Fez-se -muito pallida. Olhava vagamente em redor o casaco de velludo de -trabalho dependurado n'um prego, a manta em que elle embrulhava os ps -dobrada a um lado, as grandes folhas de papel de desenho na outra mesa -ao fundo, e o ptesinho do tabaco, e a caixa das pistolas!... Matava-a -de certo! - -Aquelle quarto estava to penetrado da personalidade de Jorge, que lhe -parecia que elle ia voltar, entrar d'ahi a bocado... Se elle viesse -de repente!... Havia tres dias que no recebia carta--e quando ella -estivesse alli a escrever ao seu amante, n'um momento o _outro_ podia -apparecer e apanhal-a!... Mas eram tolices, pensou. O vapor do Barreiro -s chegava s cinco horas; e depois elle dizia na ultima carta que -ainda se demorava um mez, talvez mais... - -Sentou-se, escolheu uma folha de papel, comeou a escrever, na sua -letra um pouco gorda: - - - _Meu adorado Bazilio_. - - -Mas um terror importuno tolhia-a; sentia como um _palpite_ de que -elle vinha, ia entrar... Era melhor no se pr a escrever, talvez!... -Ergueu-se, foi sala devagar, sentou-se no divan; e, como se o -contacto d'aquelle largo soph e o ardor das recordaes que elle lhe -trazia da vespera lhe tivesse dado a coragem das aces amorosas e -culpadas, voltou muito decidida ao escriptorio, escreveu rapidamente: - - -No imaginas com que alegria recebi esta manh a tua carta... - - -A penna velha escrevia mal; molhou-a mais, e ao sacudil-a, como -lhe tremia um pouco a mo, um borro negro cahiu no papel. Ficou -toda contrariada, pareceu-lhe aquillo um _mau agouro_. Hesitou um -momento,--e coando a cabea, com os cotovlos sobre a mesa, sentia -Juliana varrer fra o patamar, cantarolando a _Carta adorada_. Emfim, -impaciente, rasgou a folha muitas vezes em pedacinhos miudos--e -atirou-os para um caixo de pau envernizado com duas argolas de metal, -que estava ao canto junto mesa, onde Jorge deitava os rascunhos -velhos e os papeis inuteis: chamavam-lhe o _sarcophago_; Juliana, de -certo, descuidra-se de o esvaziar no lixo, porque transbordava de -papelada. - -Escolheu outra folha, recomeou: - - - _Meu adorado Bazilio_. - -No imaginas como fiquei quando recebi a tua carta, esta manh, ao -acordar. Cobri-a de beijos... - - -Mas o reposteiro franziu-se n'uma prega molle, a voz de Juliana disse -discretamente: - ---Est alli a costureira, minha senhora. - -Luiza, sobresaltada, tinha tapado a folha de papel com a mo. - ---Que espere. - -E continuou: - - -...Que tristeza que fosse a carta e que no fosses tu que alli -estivesses! Estou pasmada de mim mesma, como em to pouco tempo te -apossaste do meu corao, mas a verdade que nunca deixei de te amar. -No me julgues por isto leviana, nem penses mal de mim, porque eu -desejo a tua estima, mas que nunca deixei de te amar e ao tornar -a vr-te, depois d'aquella estupida viagem para to longe, no fui -superior ao sentimento que me impellia para ti, meu adorado Bazilio. -Era mais forte que eu, meu Bazilio. Hontem, quando aquella maldita -criada me veio dizer que tu te vinhas despedir, Bazilio, fiquei -como morta; mas quando vi que no, nem eu sei, adorei-te! E se tu -me tivesses pedido a vida dava-t'a, porque te amo, que eu mesma, me -estranho... Mas para que foi aquella mentira, e para que vieste tu? -Mau! tinha vontade de te dizer adeus para sempre, mas no posso, meu -adorado Bazilio! superior a mim. Sempre te amei, e agora que sou -tua, que te perteno corpo e alma, parece-me que te amo mais, se -possivel... - - ---Onde est ella? Onde est ella?--disse uma voz na sala. - -Luiza ergueu-se, com um salto, livida. Era Jorge! Amarrotou -convulsivamente a carta, quiz escondel-a no bolso,--o roupo no tinha -bolso! E desvairada, sem reflexo, arremessou-a para o _sarcophago_. -Ficou de p, esperando, as duas mos apoiadas mesa, a vida suspensa. - -O reposteiro ergueu-se,--e reconheceu logo o chapo de velludo azul de -D. Felicidade. - ---Aqui mettida, sua brejeira! Que estavas tu aqui a fazer? Que tens tu, -filha, ests como a cal... - -Luiza deixou-se cahir no _fauteuil_, branca e fria, disse com um -sorriso canado: - ---Estava a escrever, deu-me uma tontura... - ---Ai! Tonturas, eu!--acudiu logo D. Felicidade-- uma desgraa, a cada -momento a agarrar-me aos moveis, at tenho medo d'andar s. Falta de -purgas! - ---Vamos para o quarto!--disse logo Luiza.--Estamos melhor no quarto. - -Ao erguer-se, as pernas tremiam-lhe. - -Atravessaram a sala: Juliana comeava a arrumar. Luiza, ao passar, viu -na pedra da _console_, debaixo do espelho oval, uma pouca de cinza: era -da vespera, do charuto d'_elle_! Sacudiu-a--e ao erguer os olhos, ficou -pasmada de se vr to pallida. - -A costureira vestida de preto, com um chapo de fitas rxas, esperava -sentada beira da _causeuse_, com um olhar infeliz e o seu embrulho -nos joelhos; vinha provar o corpete d'um vestido composto; assentou, -pregou, alinhavou, fallando baixo, com uma humildade triste e uma -tossinha scca ; e apenas ella sahiu, de leve, com o seu andar de -sombra, o chale tinto muito cingido s omoplatas magras,--D. Felicidade -comeou logo a fallar d'_elle_, do Conselheiro. Tinha-o encontrado no -Moinho de Vento. Pois, senhores, nem lhe viera fallar! Fizera-lhe uma -cortezia muito scca, por demais, e tic-tic por alli fra, que se diria -que ia fugido! Que te parece? Ai! aquellas indifferenas matavam-na. E -no as comprehendia, no, realmente no as comprehendia... - ---Porque emfim--exclamava--eu bem me conheo, no sou nenhuma criana, -mas tambem no sou nenhum caco! Pois no verdade? - ---Certamente--disse Luiza distrahida. Lembrava-lhe a carta. - ---Olha que aqui onde me vs com os meus quarenta, decotada, ainda -valho! O que so hombros e collo do melhor! - -Luiza ia erguer-se. Mas D. Felicidade repetiu: - ---Do melhor! Tomaram-no muitas novas! - ---Creio bem--concordou Luiza, sorrindo vagamente. - ---E elle tambem no nenhum rapazinho novo... - ---No... - ---Mas muito bem conservado!--E os olhos luziam-lhe--Para fazer ainda -uma mulher muito feliz! - ---Muito... - ---Um homem d'appetecer!--suspirou D. Felicidade. - -E Luiza, ento: - ---Tu esperas um instantinho! Vou l dentro e volto j. - ---Vai, filha, vai. - -Luiza correu ao escriptorio, direita ao _sarcophago_. Estava vazio! E a -carta d'ella, Santo Deus! - -Chamou logo Juliana, aterrada. - ---Voss despejou o caixo dos papeis? - ---Despejei, sim, minha senhora--respondeu muito tranquillamente. - -E com interesse: - ---Porqu, perdeu-se algum papel? - -Luiza fazia-se pallida. - ---Foi um papel que eu atirei para o caixo. Onde o despejou voss? - ---No barril do lixo, como costume, minha senhora; imaginei que nada -servia... - ---Ah! deixe vr! - -Subiu rapidamente cozinha. - -Juliana, atraz, ia dizendo: - ---Ora esta! Pois ainda no ha cinco minutos! O caixo estava mais -cheio... Andei a dar uma arrumadella no escriptorio... Valha-me Deus, -se a senhora tem dito... - -Mas o barril do lixo estava vazio. Joanna tinha-o ido despejar abaixo -n'aquelle instantinho; e vendo a inquietao de Luiza: - ---Porqu, perdeu-se alguma cousa? - ---Um papel--disse Luiza, que olhava em redor, pelo cho, muito branca. - ---Elle iam uns poucos de papeis, minha senhora--disse a rapariga--eu -deitei tudo ao despejo. - ---Podia ter ficado algum cahido por fra, snr.^a Joanna--lembrou -timidamente Juliana. - ---V vr, v vr, Joanna--acudiu Luiza com uma esperana. - -Juliana parecia afflicta: - ---Jesus, Senhor! Eu podia l adivinhar! Mas para que no disse a -senhora...? - ---Bem, bem, a culpa no sua, mulher... - ---Credo, que at se me est a embrulhar o estomago... E cousa de -importancia, minha senhora? - ---No, uma conta... - ---Valha-me Deus!... - -Joanna voltou, sacudindo um papel enxovalhado. Luiza agarrou-o, -leu:--... o diametro do primeiro poo de explorao... - ---No, no isto!--exclamou toda contrariada. - ---Ento foi p'ra baixo p'ra o cano, minha senhora, no est mais nada. - ---Viu bem? - ---Esquadrinhei tudo... - -E Juliana continuava, desolada: - ---Antes queria perder dez tostes! Uma assim! Eu, minha senhora, podia -l adivinhar... - ---Bem, bem!--murmurou Luiza descendo. - -Mas estava assustada, sentia mesmo uma suspeita indefinida... -Lembrou-lhe o bilhete que escrevera na vespera a Bazilio, e que -mettera, todo amarrotado, no bolso do vestido... Entrou no quarto, -agitada. - -D. Felicidade tirra o chapo, acommodra-se na _causeuse_. - ---Tu desculpas, hein?--fez Luiza. - ---Anda, filha, anda! Que ? - ---Perdi uma conta--respondeu. - -Foi ao guarda-vestidos, achou logo o bilhete na algibeira... Aquillo -serenou-a. A carta tinha ido para o lixo de certo. Mas que imprudencia! - ---Bem, acabou-se!--disse, sentando-se resignada. - -E D. Felicidade immediatamente, baixando a voz muito confidencialmente: - ---Ora eu vinha-te fallar n'uma cousa. Mas v l! Olha que segredo. - -Luiza ficou logo sobresaltada. - ---Tu sabes--continuou D. Felicidade, devagar, com pausas--que a minha -criada, a Josepha, est para casar com o gallego... O homem de ao p -de Tuy, e diz que na terra d'elle ha uma mulher que tem uma virtude -para fazer casamentos que uma cousa milagrosa... Diz que o mais que -ha... Em deitando a sorte a um homem,--o homem entra-lhe uma tal paixo -que se arranja logo o casamento, e a maior felicidade. - -Luiza tranquillisada, sorriu. - ---Escuta--acudiu D. Felicidade--no te ponhas j com as tuas cousas... - -No seu tom grave havia um respeito supersticioso. - ---Diz que tem feito milagres. Homens que tinham desamparado raparigas, -outros que no faziam caso d'ellas, maridos que tinham amigas, emfim -toda a sorte de ingratido... Em a mulher deitando o encanto, os homens -comeam a esmorecer, a arrepender-se, a apaixonar-se, e esto pelo -beio... A rapariga contou-me isto. Eu lembrei-me logo... - ---De deitar uma sorte ao Conselheiro!--exclamou Luiza. - ---Que te parece? - -Luiza deu uma risada sonora. Mas D. Felicidade quasi se escandalisou. -Contou outros casos: um fidalgo que deshonrra uma lavadeira; um -homem que abandonou a mulher e os filhos, fugira com uma _bebeda_... -Em todos a _sorte_ operra d'um modo fulminante, produzindo um amor -subito e fogoso pela pessoa desprezada. Appareciam logo rendidos, se -estavam perto; se estavam longe, voltavam, avidos, a p, a cavallo, -na mala-posta, apressando-se, ardendo... E entregavam-se, mansos e -humildes como escravos acorrentados... - ---Mas o gallego--continuava ella muito excitada--diz que para ir -terra, fallar mulher, levar o retrato do Conselheiro, necessario o -retrato d'elle, o meu, necessario o meu, ir fallar, voltar--quer sete -moedas!... - ---Oh D. Felicidade!--fez Luiza reprehensivamente. - ---No me digas, no venhas com as tuas! Olha que eu sei de casos... - -E erguendo-se: - ---Mas so sete moedas! Sete moedas!--exclamou, arregalando os olhos. - -Juliana appareceu porta, e muito baixinho, com um sorriso: - ---A senhora faz favor? - -Chamou-a para o corredor, em segredo: - ---Esta carta. Que vem do htel. - -Luiza fez-se escarlate. - ---Credo, mulher! no necessario fazer mysterios! - -Mas no entrou no quarto, abriu-a logo no corredor; era a lapis, -escripta pressa: - - -Meu amor--dizia Bazilio--por um feliz acaso descobri o que -precisavamos, um ninho discreto para nos vrmos... E indicava a rua, o -numero, os signaes, o caminho mais perto. ... Quando vens, meu amor? -Vem manh. Baptisei a casa com o nome de _Paraiso_: para mim, minha -adorada, com effeito o paraiso. Eu espero-te l desde o meio dia: -logo que te aviste, deso. - - -Aquella precipitao amorosa em arranjar o _ninho_--provando uma paixo -impaciente, toda occupada d'ella--produziu-lhe uma dilatao dce -do orgulho; ao mesmo tempo que aquelle _Paraiso_ secreto, como n'um -romance, lhe dava a esperana de felicidades excepcionaes; e todas as -suas inquietaes, os sustos da carta perdida se dissiparam de repente -sob uma sensao calida, como flocos de nevoa sob o sol que se levanta. - -Voltou ao quarto, com o olhar risonho. - ---Que te parece, hein?--perguntou logo D. Felicidade, a quem a sua ida -occupava tyrannicamente. - ---O que? - ---Achas que mande o homem a Tuy? - -Luiza encolheu os hombros; veio-lhe um tedio de taes enredos de -bruxaria, misturados a amores caturras. Na vaidade da sua intriga -romantica achava repugnante aquelle sentimentalismo senil. - ---Tolices!--disse com muito desdem. - ---Oh filha! no me digas, no me digas!--acudiu desolada D. Felicidade. - ---Bem, ento manda, manda!--fez Luiza, j impaciente. - ---Mas so sete moedas!--exclamou D. Felicidade, quasi chorosa. - -Luiza poz-se a rir. - ---Por um marido? Acho barato... - ---E se a sorte falha? - ---Ento caro! - -D. Felicidade deu um grande _ai!_ Estava muito infeliz, n'aquella -hesitao entre os impulsos da concupiscencia e as prudencias da -economia. Luiza teve pena d'ella, e, tirando um vestido do guarda-roupa: - ---Deixa l, filha! No ho-de ser necessarias bruxarias!... - -D. Felicidade ergueu os olhos ao co. - ---Vaes sahir?--perguntou melancolicamente. - ---No. - -D. Felicidade propoz-lhe ento que viesse com ella Encarnao. -Visitavam a Silveira, coitada, que tinha um furunculo! E viam a armao -da igreja para a festa, estreava-se o frontal novo, um primor! - ---E estou tambem com vontade de ir rezar uma estaosinha, para -alliviar c por dentro--ajuntou, suspirando. - -Luiza aceitou. Appetecia-lhe ir vr altares alumiados, ouvir o ciciar -de rezas no cro, como se os requintes devotos dissessem bem com as -suas disposies sentimentaes. Comeou a vestir-se depressa. - ---Como tu ests gorda, filha!--exclamou D. Felicidade admirada, -vendo-lhe os hombros, o collo. - -Luiza diante do espelho olhava-se, sorria com o seu sorriso quente, -contente das suas linhas, acariciando devagarinho, voluptuosamente, a -pelle branca e fina. - ---Redondinha--disse, namorando-se. - ---Redondinha? Vaes-te a fazer uma bola! - -E acrescentou, tristemente: - ---Tambem com a tua vida, um marido como o teu, regaladinha, sem filhos, -sem cuidados... - ---Vamos l, minha rica--disse Luiza--que as tristezas no te tem feito -emmagrecer... - ---Pois sim, pois sim! Mas...--e parecia desolada, como curvada sob as -suas proprias ruinas--c por dentro uma desgraa, estomago, figado... - ---Se a mulher de Tuy faz o milagre, pe tudo isso como novo! - -D. Felicidade sorriu, com uma duvida desconsolada. - ---Sabes que tenho um chapo lindo?--exclamou de repente Luiza--No -viste? Lindo! - -Foi logo buscal-o ao guarda-vestidos. Era de palha fina, guarnecido de -myosotis. - ---Que te parece? - --- um primor! - -Luiza mirava-o dando pancadinhas com as pontas dos dedos nas florzinhas -azues. - ---D frescura--fez D. Felicidade. - ---No verdade? - -Pl-o com muito cuidado, toda sria. Ficava-lhe bem! Bazilio se a visse -havia de gostar, pensou. Era bem possivel que o encontrassem... - -Veio-lhe, sem motivo, uma felicidade exuberante: achava to delicioso -viver, sahir, ir Encarnao, pensar no seu amante!... E toda no ar, -procurava pelo quarto as chavinhas do toucador. - -Onde tinha deixado as chaves? Na sala de jantar, talvez! Ia vr! Sahiu -correndo, tontinha, cantarolando: - - Amici, la notte bella... - La ra la la... - -Quasi topou com Juliana, que varria o corredor. - ---No deixe de engommar a saia bordada para manh, Juliana! - ---Sim, minha senhora. Est em gomma! - -E seguindo-a com um olhar feroz: - ---Canta, piorrinha, canta, cabrasinha, canta, bebedasinha!... - -E ella mesma, tomada subitamente d'um jubilo agudo, atirou vassouradas -rapidas, soltando na sua voz rachada: - - Alm d'manh termina a campanha, - P-o-o-or aqui se diz... - Se tal fr verdade, se no fr patranha... - -E com um espremido emphatico: - - Se-e-rei bem feliz! - -Ao outro dia, pelas duas horas da tarde, Sebastio e Julio passeavam -em S. Pedro de Alcantara. - -Sebastio estivera contando a sua scena com Luiza, e como desde ento -a sua estima por ella crescera. Ao principio escabrera-se, sim... - ---Mas teve razo! Assim de surpreza, ouvir uma d'aquellas! E eu levei a -cousa mal, fui muito bruta... - -Depois, coitadinha, concordra logo, mostrra-se muito desgostosa, toda -zelosa do seu pudor, pedira-lhe conselhos... At tinha as lagrimas nos -olhos. - ---Eu disse-lhe logo que o melhor era fallar ao primo, dizer o que se -passava... Que te parece? - ---Sim--disse vagamente Julio. - -Tinha-o escutado distrahido, chupando a ponta do cigarro. O seu rosto -terreo cavava-se, com uma cr mais biliosa. - ---Ento achas que fiz bem, hein? - -E depois d'uma pausa: - ---Que ella uma senhora de bem s direitas! s direitas, Julio! - -Continuaram calados. O dia estava encoberto e abafado, com um ar -de trovoada: grossas nuvens pesadas e pardas iam-se accumulando, -ennegrecendo para o lado da Graa por traz das collinas: um vento -rasteiro passava por vezes, pondo um arripio nas folhas das arvores. - ---De maneira que agora estou descanado--resumiu Sebastio.--No te -parece? - -Julio encolheu os hombros com um sorriso triste: - ---Quem me dera os teus cuidados, homem!--disse. - -E fallou ento com amargura nas suas preoccupaes.--Havia uma semana -que se abrira concurso para uma cadeira de substituto na Escla, -e preparava-se para elle. Era a sua taboa de salvao, dizia: se -apanhasse a cadeira, ganhava logo nome, a clientella podia vir, e a -fortuna... E, que diabo, sempre era estar de dentro!... Mas a certeza -da sua superioridade no o tranquillisava--porque emfim em Portugal, -no verdade? n'estas questes a sciencia, o estudo, o talento so -uma historia, o principal so os padrinhos! Elle no os tinha--e o seu -concorrente, um semsaboro, era sobrinho d'um director geral, tinha -parentes na camara, era um colosso! Por isso elle trabalhava a valer, -mas parecia-lhe indispensavel metter tambem as suas cunhas! Mas quem? - ---Tu no conheces ninguem, Sebastio?... - -Sebastio lembrava-se d'um primo seu, deputado pelo Alemtejo, um -gordo, da maioria, um pouco fanhoso. Se Julio queria, fallava-lhe... -Mas sempre ouvira dizer que a Escla no era gente de empenhos e de -intriga... De resto tinham o conselheiro Accacio... - ---Uma besta!--fez Julio--Um parlapato! Quem faz l caso d'aquillo? -O teu primo, hein! O teu primo parece-me bom! necessario alguem que -falle, que trabalhe...--Porque acreditava muito nas influencias dos -empenhos, no dominio dos personagens, nas docilidades da fortuna -quando dirigida pelas habilidades da intriga. E com um orgulho raiado -d'ameaa:--Que eu hei-de-lhes mostrar o que saber as cousas, -Sebastio! - -Ia explicar-lhe o assumpto da these, mas Sebastio interrompeu-o: - ---Ella ahi vem. - ---Quem? - ---A Luiza. - -Passava com effeito, por fra do Passeio, toda vestida de preto, -s.--Respondeu cortezia dos dous homens com um sorriso, _adeusinhos_ -da mo, um pouco corada. - -E Sebastio immovel, seguindo-a devotamente com os olhos: - ---Se aquillo no respira mesmo honestidade! Vai s lojas... Santa -rapariga! - - -Ia encontrar Bazilio no _Paraiso_ pela primeira vez. E estava muito -nervosa: no pudera dominar, desde pela manh, um medo indefinido que -lhe fizera pr um vo muito espsso, e bater o corao ao encontrar -Sebastio. Mas ao mesmo tempo uma curiosidade intensa, multipla, -impellia-a, com um estremecimentosinho de prazer.--Ia, emfim, ter -ella propria aquella aventura que lra tantas vezes nos romances -amorosos! Era uma frma nova do amor que ia experimentar, sensaes -excepcionaes! Havia tudo--a casinha mysteriosa, o segredo illegitimo, -todas as palpitaes do perigo! Porque o apparato impressionava-a mais -que o sentimento; e a _casa_ em si interessava-a, attrahia-a mais que -Bazilio! Como seria? Era para os lados d'Arroios, adiante do largo de -Santa Barbara: lembrava-se vagamente que havia alli uma correnteza de -casas velhas... Desejaria antes que fosse no campo, n'uma quinta, com -arvoredos murmurosos e relvas ffas; passeariam ento, com as mos -enlaadas, n'um silencio poetico; e depois o som d'agua que cahe nas -bacias de pedra daria um rhythmo languido aos somnos amorosos... Mas -era n'um terceiro andar,--quem sabe como seria dentro? Lembrava-lhe um -romance de Paulo Fval em que o heroe, poeta e duque, frra de setins e -tapearias o interior d'uma choa; encontra alli a sua amante; os que -passam, vendo aquelle casebre arruinado, do um pensamento compassivo - miseria que de certo o habita--em quanto dentro, muito secretamente, -as flres se esfolham nos vasos de Svres e os ps ns pisam Gobelins -veneraveis! Conhecia o gosto de Bazilio,--e o _Paraiso_ de certo era -como no romance de Paulo Fval. - -Mas no largo de Cames reparou que o sujeito de pera comprida, o do -Passeio, a vinha seguindo, com uma obstinao de gallo; tomou logo -um coup. E ao descer o Chiado, sentia uma sensao deliciosa em ser -assim levada rapidamente para o seu amante, e mesmo olhava com certo -desdem os que passavam, no movimento da vida trivial--em quanto ella ia -para uma hora to romanesca da vida amorosa! Todavia maneira que se -aproximava vinha-lhe uma timidez, uma contraco d'acanhamento, como um -plebeu que tem de subir, entre alarbadeiros solemnes, a escadaria d'um -palacio. Imaginava Bazilio esperando-a estendido n'um divan de sda: e -quasi receava que a sua simplicidade burgueza, pouco experiente, no -achasse palavras bastante finas ou caricias bastante exaltadas. Elle -devia ter conhecido mulheres to bellas, to ricas, to educadas no -amor! Desejava chegar n'um coup seu, com rendas de centos de mil reis, -e ditos to espirituosos como um livro... - -A carruagem parou ao p d'uma casa amarellada, com uma portinha -pequena. Logo entrada um cheiro molle e salobre enojou-a. A escada, -de degraus gastos, subia ingrememente, apertada entre paredes onde a -cal cahia, e a humidade fizera nodoas. No patamar da sobre-loja, uma -janella com um gradeadosinho d'arame, parda do p accumulado, coberta -de teias d'aranha, coava a luz suja do saguo. E por traz d'uma -portinha, ao lado, sentia-se o ranger d'um bero, o chorar doloroso -d'uma criana. - -Mas Bazilio desceu logo, com o charuto na bocca, dizendo baixo: - ---To tarde! sbe! Pensei que no vinhas. O que foi? - -A escada era to esguia, que no podiam subir juntos. E Bazilio, -caminhando adiante, d'esguelha: - ---Estou aqui desde a uma hora, filha! imaginei que te tinhas esquecido -da rua... - -Empurrou uma cancella, fl-a entrar n'um quarto pequeno, forrado de -papel s listras azues e brancas. - -Luiza viu logo, ao fundo, uma cama de ferro com uma colcha amarellada, -feita de remendos juntos de chitas differentes: e os lenoes -grossos, d'um branco encardido e mal lavado, estavam impudicamente -entreabertos... - -Fez-se escarlate, sentou-se, calada, embaraada. E os seus olhos, muito -abertos, iam-se fixando--nos riscos ignobeis da cabea dos phosphoros, -ao p da cama; na esteira esfiada, comida, com uma nodoa de tinta -entornada; nas bambinellas da janella, d'uma fazenda vermelha, onde -se viam passagens; n'uma lithographia, onde uma figura, coberta d'uma -tunica azul fluctuante, espalhava flres voando... Sobre tudo uma larga -photographia, por cima do velho canap de palhinha, fascinava-a: era um -individuo atarracado, d'aspecto hilare e alvar, com a barba em collar, -o feitio d'um piloto ao domingo: sentado, de calas brancas, com as -pernas muito afastadas, pousava uma das mos sobre um joelho, e a outra -muito estendida assentava sobre uma columna truncada: e por baixo do -caixilho, como sobre a pedra d'um tumulo, pendia d'um prego de cabea -amarella, uma cora de perpetuas! - ---Foi o que se pde arranjar--disse-lhe Bazilio.--E foi um acaso: -muito retirado, muito discreto... No muito luxuoso... - ---No--fez ella, baixo.--Levantou-se, foi janella, ergueu uma ponta -da cortininha de cassa fixada vidraa: defronte eram casas pobres: um -sapateiro grisalho, batia a sola a uma porta; entrada d'uma lojita -balouava-se um ramo de carqueja ao p d'um mao de cigarros pendente -d'um barbante; e, a uma janella, uma rapariga esguedelhada embalava -tristemente no collo uma criana doente que tinha crostas grossas de -chagas na sua cabecinha cr de melo. - -Luiza mordia os beios, sentia-se entristecer. Ento ns de dedos -bateram discretamente porta. Ella assustou-se, desceu rapidamente o -vo. Bazilio foi abrir. Uma voz adocicada, cheia de _ss_ mellifluos, -ciciou baixo. Luiza ouviu vagamente: Socegadinhos, suas chavesinhas... - ---Bem, bem!--disse Bazilio apressado, batendo com a porta. - ---Quem ? - --- a patra. - -O co pozera-se a ennegrecer; j a espaos grossas gtas de chuva se -esmagavam nas pedras da rua; e um tom crepuscular fazia o quarto mais -melancolico. - ---Como descobriste tu isto?--perguntou Luiza, triste. - ---Inculcaram-m'o. - -Outra gente, ento, tinha vindo alli, amado alli? pensou ella. E a -cama pareceu-lhe repugnante. - ---Tira o chapo--disse Bazilio, quasi impaciente--ests-me a fazer -afflico com esse chapo na cabea. - -Ella soltou devagar o elastico que o prendia, foi pl-o no canap de -palhinha, desconsoladamente. - -Bazilio tomou-lhe as mos, e attrahindo-a, sentando-se na cama: - ---Ests to linda!--Beijou-lhe o pescoo, encostou a cabea ao peito -d'ella. E com a vista muito quebrada: - ---O que eu sonhei comtigo esta noite! - -Mas, de repente, uma forte pancada de chuva fustigou os vidros. E -immediatamente bateram porta, com pressa. - ---Que ?--bradou Bazilio furioso. - -A voz cheia de _ss_ explicou que esquecera um cobertor na varanda que -estava a seccar. Se se encharcasse, que perdio!... - ---Eu lhe pagarei o cobertor, deixe-me!--berrou Bazilio. - ---D-lhe o cobertor... - ---Que a leve o diabo! - -E Luiza, sentindo um arripio de frio nos seus hombros ns, -abandonava-se com uma vaga resignao, entre os joelhos de -Bazilio--vendo constantemente voltada para si a face alvar do piloto. - -Assim um _yacht_ que apparelhou nobremente para uma viagem romanesca -vai encalhar, ao partir, nos lodaaes do rio baixo; e o mestre -aventureiro que sonhava com os incensos e os almiscares das florestas -aromaticas, immovel sobre o seu tombadilho, tapa o nariz aos cheiros -dos esgotos. - - -Apenas Luiza comeou a sahir todos os dias, Juliana pensou logo: Bem, -vai ter com o _gajo_! - -E a sua attitude tornou-se ainda mais servil. Era com um sorriso de -baixeza que corria a abrir a porta, alvoroada, quando Luiza voltava -s cinco horas. E que zelo! Que exactides! Um boto que faltasse, uma -fita que se extraviava, e eram mil perdes, minha senhora, desculpe -por esta vez, muitas lamentaes humildes. Interessava-se com devoo -pela saude d'ella, pela sua roupa, pelo que tinha para jantar... - -Todavia, desde as idas ao _Paraiso_, o seu trabalho augmentra: todos -os dias agora tinha d'engommar; muitas vezes era preciso ensaboar -noite collares, rendinhas, punhos, n'uma bacia de lato, at s onze -horas. s seis da manh, mais cedo, j estava com o ferro s voltas. -E no se queixava, at dizia a Joanna: - ---Ai! um regalo vr assim uma senhora aceada!... Que as ha! credo! -No, no por dizer, mas at me d gosto. Depois, graas a Deus, agora -tenho saude, o trabalho no me assusta! - -No tornra a resmungar da patra. Affirmava mesmo Joanna -repetidamente: - ---A senhora! ai, uma santa! Muito boa d'aturar... No a ha melhor! - -O seu rosto perdera alguma cousa do tom bilioso, da contraco amarga. -s vezes, ao jantar ou noite, costurando calada ao p de Joanna, -luz do petroleo, vinham-lhe sorrisos subitos, o olhar clareava-se-lhe -n'uma dilatao jovial. - ---A snr.^a Juliana tem o ar de quem est a pensar em cousas boas... - ---A malucar c por dentro, snr.^a Joanna!--respondia com satisfao. - -Parecia perder a inveja; ouviu mesmo fallar com tranquillidade do -vestido de sda que estreou n'um dia de festa, em setembro, a Gertrudes -do doutor. Disse apenas: - ---Tambem um dia hei-de estrear vestidos, e dos bons! Dos da modista! - -J outras vezes revelra por palavras vagas a ida d'uma abundancia -proxima. Joanna at lhe dissera: - ---A snr.^a Juliana espera alguma herana? - ---Talvez!--respondeu seccamente. - -E cada dia detestava mais Luiza. Quando pela manh a via arrebicar-se, -perfumar-se com agua de colonia, mirar-se ao toucador cantarolando, -sahia do quarto porque lhe vinham venetas d'odio, tinha medo -d'estourar! Odiava-a pelas _toilettes_, pelo ar alegre, pela roupa -branca, pelo _homem_ que ia vr, por todos os seus regalos de senhora. -A cabra! Quando ella sahia ia espreitar, vl-a subir a rua, e -fechando a vidraa com um risinho rancoroso: - ---Diverte-te, piorrinha, diverte-te, que o meu dia ha-de chegar! Oh se -ha-de! - -Luiza com effeito divertia-se. Sahia todos os dias s duas horas. Na -rua j se dizia que a do Engenheiro tinha agora o seu S. Miguel. - -Apenas ella dobrava a esquina o conciliabulo juntava-se logo a -cochichar. Tinham a certeza que se ia encontrar com o peralta. Onde -seria?--era a grande curiosidade da carvoeira. - ---No htel--murmurava o Paula.--Que nos hteis escandalo bravio. Ou -talvez--acrescentava com tedio--n'alguma d'essas possilgas da baixa! - -A estanqueira lamentava-a: uma senhora que era to apropositada! - ---Vacca solta lambe-se toda, snr.^a Helena!--rosnava o Paula.--So -todas o mesmo! - ---Menos isso!--protestava a estanqueira--Que eu sempre fui uma mulher -honesta! - -E ella?--reclamava a carvoeira--ninguem tinha que lhe dizer! - ---Fallo da alta sociedade, das fidalgas, das que arrastam sdas! -uma cambada. Eu que o sei!--E acrescentava gravemente:--No povo ha -mais moralidade. O povo outra raa!--E com as mos enterradas nos -bolsos, as pernas muito abertas, ficava absorto, com a cabea baixa, -o olhar cravado no cho.--Se !--murmurava--Se !--Como se estivesse -positivamente achando as pedrinhas da calada menos numerosas que as -virtudes do povo! - - -Sebastio, que tinha estado na quinta d'Almada quasi duas semanas, -ficou aterrado quando, ao voltar, a Joanna lhe deu as grandes -novidades: que a Luizinha agora sahia todos os dias s duas horas, -que o primo no voltra; a Gertrudes que lh'o dissera; no se fallava -na rua n'outra cousa... - ---Ento a pobre senhora nem sequer pde ir s lojas, aos seus -arranjos!--exclamou Sebastio.--A Gertrudes uma desavergonhada, e -nem sei como a tia Joanna consente que ella ponha aqui os ps. Vir com -esses mexericos!... - ---Cruzes! Olha o destempero!--replicou muito escandalisada a tia -Joanna.--Oh menino, realmente... A pobre mulher disse o que ouviu na -rua! Que ella at a defende, at ella que a defende! At se esteve -a queixar que se falla! que se falla! Boa!--E a tia Joanna sahiu, -resmungando:--Olha o destempero, credo! - -Sebastio chamou-a, aplacou-a: - ---Mas quem falla, tia Joanna? - ---Quem?--E muito emphaticamente:--Toda a rua! Toda a rua! Toda a rua! - -Sebastio ficou aniquilado. Toda a rua! Pudera! Se ella agora se -punha a sahir todos os dias, uma senhora, que quando estava Jorge no -sahia do buraco! A visinhana que murmurra das visitas do outro, -naturalmente comeava a commentar as sahidas d'ella! Estava-se a -desacreditar! E elle no podia fazer nada! Ir advertil-a? Ter outra -scena? No podia. - -Procurou-a. No lhe queria de certo tocar em nada, ia s vl-a. No -estava. Voltou d'ahi a dous dias. Juliana veio-lhe dizer cancella, -com o seu sorriso amarellado: Foi-se agora mesmo, ha um instantinho. -Ainda a apanha Patriarchal. Emfim, um dia encontrou-a ao principio -da rua de S. Roque. Luiza pareceu muito contente em o vr:--Porque se -tinha demorado tanto em Almada? Que desero! - -Trazia carpinteiros, era necessario vigiar as obras. E ella? - ---Bem. Um bocado aborrecida. O Jorge diz que ainda se demora. Tenho -estado muito s. Nem Julio, nem Conselheiro, ninguem. A D. Felicidade - que tem apparecido s vezes de fugida. Est agora sempre mettida na -Encarnao... Isto gente devota!--E riu. - -Ento aonde ia? - -A umas comprasitas, modista depois...--E apparea agora, Sebastio, -hein? - ---Hei-d'apparecer. - --- noite. Estou to s! Tenho tocado muito, o que me vale o piano! - -N'essa mesma tarde Sebastio recebeu uma carta de Jorge. Tens visto a -Luiza? Estive quasi com cuidado, porque estive mais de cinco dias sem -carta d'ella. De resto est preguiosa como uma freira; quando escreve -so quatro linhas porque est o correio a partir. Vai dizer ao correio -que espere, que diabo! Queixa-se de se aborrecer, de estar s, que -todos a abandonaram, que tem vivido como n'um deserto. V se lhe vaes -fazer companhia, coitada, etc. - -No dia seguinte ao anoitecer foi a casa d'ella. Appareceu-lhe muito -vermelha, com os olhos estremunhados, de roupo branco. Tinha chegado -muito canada de fra, tinha-lhe dado o somno depois de jantar, -adormecera sobre a _causeuse_... Que havia de novo? E bocejava. - -Fallaram das obras d'Almada, do Conselheiro, de Julio; e ficaram -calados. Havia um constrangimento. - -Luiza ento accendeu as velas no piano, mostrou-lhe a nova musica -que estudava, a _Medj_ de Gounod; mas havia uma passagem em que se -embrulhava sempre; pediu a Sebastio que a tocasse, e junto do piano, -batendo o compasso com o p, acompanhava baixo a melodia, a que a -execuo de Sebastio dava um encanto penetrante. Quiz tentar depois, -mas enganou-se, zangou-se, atirou a musica para o lado, veio sentar-se -no soph, dizendo: - ---Quasi nunca tco! Esto-se-me a enferrujar os dedos!... - -Sebastio no se atrevia a perguntar pelo primo Bazilio. Luiza no lhe -pronunciou sequer o nome. E Sebastio, vendo n'aquella reserva uma -diminuio de confiana ou um resto persistente de despeito, disse que -tinha d'ir Associao Geral d'Agricultura, e sahiu muito desconsolado. - -Cada dia que se seguiu trouxe-lhe a sua inquietao differente. s -vezes era a tia Joanna que lhe dizia tarde: A Luizinha l sahiu hoje -outra vez! Por este calor, at pde apanhar alguma! Credo! Outras era -o conciliabulo dos visinhos, que avistava de longe, e que de certo -estavam a cortar na pelle da pobre senhora! - -Parecia-lhe tudo aquillo exactamente a _aria da Calumnia_ no _Barbeiro -de Sevilha_: a calumnia ao principio leve como o fremito das azas d'um -passaro, subindo n'um crescendo aterrador at estalar como um trovo! - -Dava agora voltas para no passar na rua, diante do Paula e da -estanqueira: tinha vergonha d'elles! Encontrra o Teixeira Azevedo, que -lhe perguntra: - ---Ento o Jorge quando vem? Que diabo! o rapaz fica por l! - -E aquella observao trivial aterrou-o. - -Emfim, um dia, mais apoquentado, foi procurar Julio. Encontrou-o no -seu quarto andar, em mangas de camisa e em chinellas, enxovalhado e -esguedelhado, rodeado de papelada, com uma chocolateirinha de caf ao -p, trabalhando. O soalho negro estava cheio de pontas de cigarro; -ao canto estava embrulhada roupa suja; sobre a cama desfeita havia -livros abertos;--e um cheiro relentado sahia do desmazlo das cousas. -A janella de peitoril dava para o saguo, d'onde vinha o cantar -estridente d'uma criada, e o ruido areado do esfregar de tachos. - -Julio, apenas elle entrou, ergueu-se, espreguiou-se, enrolou um -cigarro, e declarou que estava a trabalhar desde as sete!... Hein? Era -bonito! Para que soubesse o snr. Sebastio! - ---De resto chegaste a proposito. Estava para mandar a tua casa... Devia -receber ahi um dinheiro e no veio. D c uma libra. - -E immediatamente comeou a fallar da these. A cousa sahia! - -Leu-lhe paragraphos do prologo com uma deleitao paternal, e, muito -satisfeito, na abundancia de confiana que d a excitao do trabalho, -com grandes passadas pelo quarto: - ---Hei-de-lhes mostrar que ainda ha portuguezes em Portugal, Sebastio! -Hei-de-os deixar de bocca aberta! Tu vers! - -Sentou-se, pz-se a numerar as folhas escriptas, assobiando. Sebastio, -ento, com timidez, quasi vexado de perturbar com as suas preoccupaes -domesticas aquelles interesses scientificos, disse baixo: - ---Pois eu vim-te fallar por causa l da nossa gente... - -Mas a porta abriu-se com fora, e um rapaz de barba desleixada, e olhar -um pouco doudo, entrou; era um estudante da Escla, amigo de Julio; -e quasi immediatamente os dous recomearam uma discusso que tinham -travado de manh, e que fra interrompida s onze horas, quando o rapaz -d'olhar doudo descra a almoar Aurea. - ---No, menino!--exclamava o estudante exaltado.--Estou na minha! A -medicina uma meia sciencia, a physiologia outra meia sciencia! So -sciencias conjecturaes, porque nos escapa a base, conhecer o principio -da vida! - -E cruzando os braos diante de Sebastio, bradou-lhe: - ---Que sabemos ns do principio da vida? - -Sebastio, humilhado, baixou os olhos. - -Mas Julio indignava-se: - ---Ests desmoralisado pela doutrina vitalista, miseravel! Trovejou -contra o Vitalismo, que declarou contrario ao espirito scientifico. -Uma theoria que pretende que as leis que governam os corpos brutos -no so as mesmas que governam os corpos vivos-- uma heresia -grotesca!--exclamava.--E Bichat que a proclama uma besta! - -O estudante, fra de si, bradou--que chamar a Bichat uma besta era -simplesmente d'um alarve. - -Mas Julio desprezou a injuria, e continuou, exaltado nas suas idas: - ---Que nos importa a ns o principio da vida? Importa-me tanto como -a primeira camisa que vesti! O principio da vida como outro -qualquer principio: um segredo! Havemos d'ignoral-o eternamente! -No podemos saber nenhum principio. A vida, a morte, as origens, os -fins, mysterios! So causas primarias com que no temos nada a fazer, -nada! Podemos batalhar seculos, que no avanamos uma pollegada. O -physiologista, o chimico, no tem nada com os principios das cousas; -o que lhes importa so os phenomenos! Ora os phenomenos e as suas -causas immediatas, meu caro amigo, podem ser determinadas com tanto -rigor nos corpos brutos, como nos corpos vivos--n'uma pedra, como n'um -desembargador! E a physiologia e a medicina so sciencias to exactas -como a chimica! Isto j vem de Descartes! - -Travaram ento um berreiro sobre Descartes. E immediatamente, sem que -Sebastio attonito tivesse descoberto a transio, encarniaram-se -sobre a ida de Deus. - -O estudante parecia necessitar Deus para explicar o universo. Mas -Julio atacava Deus com clera: chamava-lhe uma hypothese safada, -uma velha caturrice do partido miguelista! E comearam a assaltar-se -sobre a questo social, como dous gallos inimigos. - -O estudante, com os olhos esgazeados, sustentava, dando punhadas sobre -a mesa, o principio da authoridade! Julio berrava pela anarchia -individual! E depois de citarem com furia Proudhon, Bastiat, Jouffroy -romperam em personalidades. Julio, que dominava pela estridencia da -voz, censurou violentamente ao estudante--as suas inscripes a seis -por cento, o ridiculo de ser filho d'um corretor de fundos, e o bife de -proprietario que vinha de comer na Aurea! - -Olharam-se, ento, com rancor. - -Mas d'ahi a momentos o estudante deixou cahir com desdem algumas -palavras sobre Claude Bernard, e a questo recomeou, furiosa. - -Sebastio tomou o chapo. - ---Adeus--disse baixo. - ---Adeus, Sebastio, adeus--disse promptamente Julio. - -Acompanhou-o ao patamar. - ---E quando quizeres que eu falle a meu primo...--murmurou Sebastio. - ---Pois sim, veremos, eu pensarei--disse Julio com indifferena, como -se o orgulho do trabalho lhe tivesse dissipado o terror da injustia. - -Sebastio foi descendo as escadas, pensando: No se lhe pde fallar em -nada, agora! - -De repente veio-lhe uma ida: se fosse ter com D. Felicidade, abrir-se -com ella! D. Felicidade era espalhafatona, um pouco tonta, mas era -uma mulher d'idade, intima de Luiza; tinha mais authoridade, mais -habilidade mesmo... - -Decidiu-se logo, tomou um trem, foi rua de S. Bento. - -A criada de D. Felicidade appareceu-lhe, desolada, e lacrimosa: - ---Pois no sabe? - ---No. - ---Ai! at admira! - ---Mas o que? - ---A senhora! Uma desgraa assim! Torceu um p na Encarnao, deu uma -quda. Tem estado muito mal, muito mal. - ---Aqui? - ---Na Encarnao. Nem pde sahir. Est com a snr.^a D. Anna Silveira. -Uma desgraa assim! E est n'um phrenesi! - ---Mas quando foi? - ---Antes d'hontem noite. - -Sebastio saltou para o trem, mandou bater para casa de Luiza. - -A D. Felicidade, doente, na Encarnao! Mas ento Luiza podia bem sahir -todos os dias! Ia vl-a, fazer-lhe companhia, tratar d'ella!... - -A visinhana no tinha que rosnar! Ia vr a pobre doente!... - -Eram duas horas quando a parelha estacou porta de Luiza. Encontrou-a, -que descia a escada, vestida de preto, de luva _gris perle_, com um vo -negro. - ---Ah! suba, Sebastio, suba! Quer subir? - -Parra, nos degraus, com uma crzinha no rosto, um pouco embaraada. - ---No, obrigado. Vinha dizer-lhe... No sabe? A D. Felicidade... - ---O qu? - ---Torceu um p. Est mal. - ---Que me diz? - -Sebastio deu os pormenores. - ---Vou j l. - ---Deve ir. Eu no posso ir, no entram homens. Coitada! Diz que -est mal.--Acompanhou-a at esquina da rua, offereceu-lhe mesmo -a tipoia:--E muitos recados, que tenho pena de a no vr!... Pobre -senhora! E diz que est n'um phrenesi! - -Viu-a afastar-se para a Patriarchal, e, admirando a graa da sua -figura, esfregava as mos satisfeito. - -Estavam justificadas, santificadas mesmo aquellas passeatas todos -os dias! Ia ser a enfermeira da pobre D. Felicidade! Era necessario -que todos soubessem, o Paula, a estanqueira, a Gertrudes, as -Azevedos, todos, de modo que quando a vissem de manh, subir a rua, -dissessem:--L vai fazer companhia doente! Santa senhora! - -O Paula estava porta da loja--e Sebastio com uma ida subita, -entrou. Estava-se estimando de se sentir to fecundo em expedientes, -to habil! - -Deitou um pouco o chapo para a nuca, e mostrando com o guarda-sol o -painel que representava D. Joo VI: - ---Quanto quer vossemec por isto, snr. Paula? - -O Paula ficou surprehendido: - ---O snr. Sebastio est a brincar? - -Sebastio exclamou: - ---A brincar?--Fallava muito srio! queria uns quadros para a sala -d'entrada, em Almada: mas velhos, sem caixilho, para dizerem bem sobre -um papel escuro.--Como isto! Estou a brincar! Ora essa, homem! - ---Desculpe, snr. Sebastio... Pois n'esse caso ha por ahi alguns -paineis a calhar. - ---Este D. Joo VI agrada-me. Quanto custa isto? - -O Paula disse, sem hesitar: - ---Sete mil e duzentos. Mas obra de mestre. - -Era uma tla desbotada de tom defumado, onde uns restos de face -avermelhada, com uma cabelleira em cachos, sobresahiam vagamente sobre -um fundo sombrio. Um vermelho bao indicava o velludo de uma casaca -de crte: a pana saliente e ostentosa enchia um collete esverdeado. E -a parte mais conservada da tla era, ao lado sobre um coxim, a cora -real--que o artista trabalhra com uma minuciosidade enthusiasta, ou -por preoccupao d'idiota, ou por adulao de cortezo. - -Sebastio achava caro; mas o Paula mostrou-lhe o preo escripto por -traz, n'uma tirinha de papel; espanejou a tla com amor; indicou as -bellezas, fallou na sua honestidade; deprimiu outros vendedores de -moveis, que tinham a consciencia nas palmilhas; jurou que o retrato -pertencera ao pao de Queluz, e ia atacar as questes publicas--quando -Sebastio disse resumindo: - ---Bem, pois mande-m'o logo, fico com elle. E mande a conta. - ---Leva uma rica obra! - -Sebastio agora olhava em redor. Queria fallar do p torcido de D. -Felicidade, e procurava uma transio. Examinou umas jarras da India, -um trem; e avistando uma poltrona de doente: - ---Aquillo que era bom para a D. Felicidade!--exclamou logo--aquella -cadeira! Boa cadeira! - -O Paula arregalou os olhos. - ---Para a D. Felicidade Noronha--repetiu Sebastio.--Para estar -deitada... Pois no sabia, homem? Partiu um p, tem estado muito mal. - ---A D. Felicidade, a amiga _de c_?--e indicou com o pollegar a casa do -Engenheiro. - ---Sim, homem! Quebrou um p na Encarnao. At l ficou. A D. Luiza vai -para l fazer-lhe companhia todos os dias. Agora ia ella para l... - ---Ah!--fez o Paula lentamente. E depois de uma pausa:--Mas eu ainda a -vi entrar _para c_ ha-de haver oito dias. - ---Foi antes d'hontem.--Tossiu e acrescentou, voltando o rosto, olhando -muito umas gravuras:--De resto a D. Luiza j ia todos os dias -Encarnao, mas era para vr a Silveira, a D. Anna Silveira, que esteve -mal. Coitada, ha tres semanas que tem passado uma vida d'enfermeira. -No sahe da Encarnao! E agora a D. Felicidade. No m massada! - ---Pois no sabia, no sabia--murmurava o Paula, com as mos enterradas -nos bolsos. - ---Mande-me o D. Joo VI, hein? - ---s ordens, snr. Sebastio. - -Sebastio foi para casa. Subiu sala; e atirando o chapo -para o soph: Bem, pensou, agora ao menos esto salvas as -apparencias!--Passeou algum tempo com a cabea baixa; sentia-se triste; -porque o ter conseguido, por um acaso, justificar aquelles passeios -para com a visinhana, fazia-lhe parecer mais cruel a ida de que os -no podia justificar para comsigo. Os commentarios dos visinhos iam -findar por algum tempo, mas _os seus_?... Queria achal-os falsos, -pueris, injustos: e, contra sua vontade, o seu bom senso e a sua -rectido estavam sempre a revolvel-os baixo. Emfim, tinha feito o que -devia! E com um gesto triste, fallando s, no silencio da sala: - ---O resto com a sua consciencia! - -N'essa tarde, na rua, sabia-se j que a D. Felicidade de Noronha -torcera um p na Encarnao, (outros diziam quebrra uma perna), e -que a D. Luiza no lhe sahia da cabeceira... O Paula declarra com -authoridade: - --- de boa rapariga, de muito boa rapariga! - -A Gertrudes do doutor foi logo, noitinha, perguntar tia Joanna, -se era verdade da perna quebrada. A tia Joanna corrigiu: era o p, -torcera o p! E a Gertrudes veio dizer ao doutor, ao ch, que a D. -Felicidade dra uma queda que ficra em pedaos.--Foi na Encarnao, -acrescentou. Diz que anda tudo l n'uma roda viva. A Luizinha at l -tem dormido... - ---Pieguices de beatas!--rosnou com tedio o doutor. - -Mas na rua todos a elogiavam. Mesmo, d'ahi a dias, o Teixeira Azevedo -(que apenas comprimentava Luiza), tendo-a encontrado na rua de S. -Roque, parou, e com uma cortezia profunda: - ---Desculpe vossencia. Como vai a sua doente? - ---Melhor, agradecida. - ---Pois, minha senhora, tem sido de muita caridade, ir todos os dias por -este calor Encarnao... - -Luiza corou. - ---Coitada! No lhe falta companhia, mas... - --- de muita caridade, minha senhora--exclamou com emphase--Tenho-o -dito por toda a parte. de muita caridade. Um criado de vossencia! - -E afastou-se commovido. - - -Luiza fra logo, com effeito, vr D. Felicidade. Tinha uma luxao -simples; e deitada nos quartos da Silveira, com o p em compressas -d'arnica, cheia de terror de perder a perna, passava o dia rodeada -d'amigas, chorando-se, saboreando os mexericos do Recolhimento, e -debicando petiscos. - -Apenas alguem entrava para a vr, redobrava d'exclamaes e de queixas; -vinha logo a historia miuda, incidentada, prolixa da desgraa: ia a -descer, a pr o p no degrau; escorregra; sentiu que ia a cahir; ainda -se sustentou, e pde dizer: Ai Nossa Senhora da Saude! Ao principio a -dr no foi grande; mas podia ter morrido; tinha sido um milagre! - -Todas as senhoras concordavam que era realmente um milagre. -Olhavam-na compungidas, e iam ao cro alternadamente prostrar-se, e -pedir aos santos especiaes o allivio da Noronha! - -A primeira visita de Luiza foi para D. Felicidade uma consolao, -deu-lhe melhoras; porque se ralava de estar alli de cama, sem saber -noticias d'_elle_, sem poder fallar d'_elle_! - -E nos dias seguintes, apenas ficava s no quarto com Luiza, chamava-a -logo para a cabeceira, e n'um murmurio mysterioso: Tinha-o visto? -Sabia d'_elle_?--A sua afflico era que o Conselheiro no soubesse -que ella estava doente, e no lhe podesse dar aquelles pensamentos -compassivos--a que o seu p tinha direito, e que seriam um conforto -para o seu corao! Mas Luiza no _o_ vira--e D. Felicidade, remexendo -a chsada, exhalava suspiros agudos. - -s duas horas Luiza sahia da Encarnao--e ia tomar um trem ao Rocio: -para no parar porta do _Paraiso_ com espalhafato de tipoia, -apeava-se ao largo de Santa Barbara; e fazendo-se pequenina, cosida com -a sombra das casas, apressava-se com os olhos baixos, e um vago sorriso -de prazer. - -Bazilio esperava-a deitado na cama, em mangas de camisa: para no se -enfastiar, s, tinha trazido para o _Paraiso_ uma garrafa de cognac, -assucar, limes--e com a porta entreaberta fumava, fazendo _grogs_ -frios. O tempo arrastava-se, via a todo o momento as horas, e sem -querer ia escutando, notando todos os ruidos intimos da familia da -proprietaria que vivia nos quartos interiores: a rabuje d'uma criana, -uma voz acatarrhoada que ralhava, e de repente uma cadellinha que -comeava a ladrar furiosa. Bazilio achava aquillo burguez e reles, -impacientava-se. Mas um _frou-frou_ de vestido roava a escada--e os -tedios d'elle, bem como os receios d'ella, dissipavam-se logo no calor -dos primeiros beijos. Luiza vinha sempre com pressa; queria estar -em casa s cinco horas, e era um estiro depois! Entrava um pouco -suada, e Bazilio gostava da transpiraosinha tepida que havia nos seus -hombros ns. - ---E teu marido?--perguntava elle.--Quando vem? - ---No falla em nada.--Ou ento:--No recebi carta, no sei nada. - -Parecia ser aquella a preoccupao de Bazilio, na alegria egoista da -posse recente. Tinha ento caricias muito extaticas; ajoelhava-se aos -ps d'ella; fazia voz de criana: - ---Lili no ama Bibi... - -Ella ria, meio despida, com um riso cantado e libertino. - ---Lili adora Bibi!... douda por Bibi! - -E queria saber se pensava n'ella, o que tinha feito na vespera. Fra ao -Gremio, jogra uns _robbers_, viera para casa cedo, sonhra com ella... - ---Vivo para ti, meu amor, acredita! - -E deixava-lhe cahir a cabea no regao, como sob uma felicidade -excessiva. - -Outras vezes, mais serio, dava-lhe certos conselhos de gsto, de -_toilette_: pedira-lhe que no trouxesse postios no cabello, que no -usasse botinhas de elastico. - -Luiza admirava muito a sua experiencia do luxo; obedecia-lhe, -amoldava-se s suas idas:--at affectar, sem o sentir, um desdem pela -gente virtuosa, para imitar as suas opinies libertinas. - -E lentamente, vendo aquella docilidade, Bazilio no se dava ao -incommodo de se constranger; usava d'ella, _como se a pagasse_! -Acontecera uma manh escrever-lhe duas palavras a lapis que no podia -ir ao _Paraiso_, sem outras explicaes! Uma occasio mesmo no foi, -sem a avisar--e Luiza achou a porta fechada. Bateu timidamente, olhou -pela fechadura, esperou palpitante--e voltou muito desconsolada, -quebrada do calor, com a poeirada nos olhos, e vontade de chorar. - -No aceitava o menor incommodo, nem para lhe causar um contentamento. -Luiza tinha-lhe pedido que fosse de vez em quando aos domingos a sua -casa, passar a noite: viria Sebastio, o Conselheiro, D. Felicidade -quando estivesse melhor: era uma alegria para ella, e depois dava s -suas relaes um ar mais parente, mais legitimo. - -Mas Bazilio pulou: - ---O qu! ir cabecear de somno com quatro caturras... Ah! no!... - ---Mas conversa-se, faz-se musica... - ---_Merci!_ Conheo-a, a musica das _soires_ de Lisboa! A valsa do -_Beijo_ e o _Trovador_. Safa! - -Depois duas ou tres vezes fallra de Jorge com desdem. Aquillo -offendera-a. - -Ultimamente mesmo, quando ella entrava no _Paraiso_, j no tinha a -delicadeza amorosa de se levantar alvoroado: sentava-se apenas na -cama, e tirando preguiosamente o charuto da bocca: - ---Ora viva a minha flr!--dizia. - -E um ar de superioridade quando lhe fallava! Um modo de encolher os -hombros, de exclamar:--Tu no percebes nada d'isso! Chegava a ter -palavras cruas, gestos brutaes. E Luiza comeou a desconfiar que -Bazilio no a estimava,--apenas a desejava! - -Ao principio chorou. Resolveu explicar-se com elle, romper se fosse -necessario. Mas adiou, no se atrevia: a figura de Bazilio, a sua voz, -o seu olhar dominavam-na; e accendendo-lhe a paixo tiravam-lhe a -coragem de a perturbar com queixas. Porque estava convencida ento que -o adorava: o que lhe dava tanta exaltao no _desejo_, se no era a -grandeza do _sentimento_?... Gozava tanto, porque o amava muito!... -E a sua honestidade natural, os seus pudores refugiavam-se n'este -raciocinio subtil. - -Elle tinha s vezes uma seccura aspera de maneiras, era verdade; certos -tons de indifferena, era certo... Mas n'outros momentos, quantas -denguices, que tremuras na voz, que phrenesi nas caricias!... Amava-a -tambem, no havia duvida. Aquella certeza era a sua justificao. E -como era o Amor que os produzia, no se envergonhava dos alvoroos -voluptuosos com que ia todas as manhs ao _Paraiso_! - -Duas ou tres vezes, ao voltar, tinha encontrado Juliana que subia -tambem apressada o Moinho de Vento. - ---D'onde vinha voss?--perguntra-lhe em casa. - ---Do medico, minha senhora, fui ao medico. - -Queixava-se de pontadas, palpitaes, faltas d'ar. - ---Flatos! flatos! - - -Com effeito, Juliana agora fazia todos os arranjos pela manh; depois -apenas Luiza, pela uma hora, dobrava a esquina, ia-se vestir, e muito -espartilhada no seu vestido de merino, de chapo e sombrinha, vinha -dizer a Joanna: - ---At logo, vou ao medico. - ---At logo, snr.^a Juliana--dizia a cozinheira radiante. - -E ia logo fazer signal ao carpinteiro. - -Juliana descia por S. Pedro de Alcantara, e tomando para o largo do -Carmo ia ruasita, defronte do quartel. Alli morava n'um terceiro -andar a sua intima amiga, a tia Victoria. - -Era uma velha que fra inculcadeira. Ainda tinha mesmo na cancella, -n'uma placa de metal, com letras negras: Victoria Soares, -inculcadeira. Mas nos ultimos annos a sua industria tornou-se mais -complicada, muito tortuosa. - -Exercia-a n'uma saleta esteirada, com mosquiteiros de papel pendentes -do tecto encardido, alumiada por duas tristes janellas de peito. Um -vasto soph occupava quasi a parede do fundo: fra de certo de reps -verde, mas o estofo coado, comido, remendado, tinha agora, sob largas -nodoas, uma vaga cr parda; as molas partidas, rangiam com estalidos -melancolicos; a um dos cantos, n'uma cova que o uso cavra, dormia todo -o dia um gato; e um dos lados da madeira queimada revelava que fra -salvo d'um incendio. Sobre o soph pendia a lithographia do senhor D. -Pedro IV. Entre as duas janellas havia uma commoda alta; e em cima, -entre um Santo Antonio e um cofre feito de buzios, um macaquinho -empalhado, com olhos de vidro, equilibrava-se sobre um galho d'arvore. -Ao entrar via-se logo, junto da janella fronteira porta, a uma mesa -coberta de oleado, um dorso magro e curvado, e um barretinho de sda -com uma borla arrebitada. Era o snr. Gouva, o escripturario! - -O ar abafado tinha um cheiro complexo, indefinido--em que se sentia -a cavalharia, a graxa e o refogado. Havia sempre gente: grossas -matronas de capote e leno, face gordalhufa e buo; cocheiros com -o cabello acamado, muito lustroso de oleo, e blusa de riscadinho: -pesados gallegos cr de greda, de passadas retumbantes e frmas lrpas: -criadinhas de dentro, amarelladas, de olheiras, sombrinha de cabo -d'osso, e as luvas de pellica com passagens nas pontas dos dedos. - -Defronte da sala abria-se um quarto que deitava para o saguo,--por -cuja portinha verde se viam s vezes desapparecer dorsos respeitaveis -de proprietarios, ou caudas espalhafatosas de vestidos suspeitos. - -Em certas occasies, aos sabbados, juntavam-se cinco, seis pessoas: -velhas fallavam baixo, com gestos mysteriosos: uma altercao mal -abafada roncava no patamar: rapariguitas de repente desatavam a -chorar; e, impassivel, o snr. Gouva escrevinhava os seus registos, -arremessando para o lado jactos melancolicos de saliva. - -A tia Victoria, no entanto, com a sua touca de renda negra, um vestido -rxo,--ia, vinha, cochichava, gesticulava, fazia tilintar dinheiro, -tirando a cada momento da algibeira rebuados de avenca para o catarrho. - -A tia Victoria era uma grande utilidade, tornra-se um centro! A -criadagem reles, mesmo a criadagem fina, tinha alli para tudo o -seu _despacho_. Emprestava dinheiro aos desempregados; guardava -as economias dos poupados; fazia escrever pelo snr. Gouva as -correspondencias amorosas ou domesticas dos que no tinham ido -escla; vendia vestidos em segunda mo; alugava casacas; aconselhava -collocaes, recebia confidencias, dirigia intrigas, entendia de -partos. Nenhum criado era inculcado por ella; mas, arranjados ou -despedidos, nunca deixavam de subir, descer as escadas da tia Victoria. -Tinha alm d'isso muitas relaes, infinitas condescendencias: -celibatarios maduros iam entender-se com ella, para o confortosinho -d'uma sopeira gordita e nova: era ella quem inculcava as serventes s -mulheres policiadas; sabia de certos agiotas discretos. E dizia-se: a -tia Victoria tem mais manhas que cabellos! - -Mas, ultimamente, apesar dos seus afazeres, apenas Juliana -entrava--levava-a para o quarto nas trazeiras, fechava a porta, e -havia para meia hora! - -E Juliana sahia sempre vermelha, os olhos accesos, feliz! Voltava -depressa para casa; e mal entrava: - ---A senhora ainda no voltou, snr.^a Joanna? - ---Ainda no. - ---Est na Encarnao. Coitada! no tem m cruz, ir aturar a velha! -E depois naturalmente vai dar o seu passeio! Faz ella muito bem! -Espairecer! - -Joanna era de certo espessa e obtusa; alm d'isso a paixo animal pelo -rapazola emparvecia-a. Todavia, percebera que a snr.^a Juliana andava -muito derretida pela senhora: disse-lh'o mesmo um dia: - ---Vossemec agora, snr.^a Juliana, parece mais na bola da senhora! - ---Na bola? - ---Sim, quero dizer, mais aquella, mais... - ---Mais apegada senhora? - ---Mais apegada. - ---Sempre o estive. Mas ento! s vezes a gente tem os seus repentes... -Que olhe, snr.^a Joanna, no se acha melhor que aqui. Senhora de muito -bom genio, nada de exquisitices, nenhumas prises... Ai, dar louvores -ao co de estarmos n'este descano. - ---E ! - -A casa com effeito tinha um aspecto jovial de felicidade tranquilla: -Luiza sahia todos os dias e achava tudo bom; nunca se impacientava; -a sua antipathia por Juliana parecia dissipada, considerava-a uma -pobre de Christo! Juliana tomava os seus caldinhos, dava os seus -passeios, ruminava. Joanna, muito livre, muito s em casa, regalava-se -com o carpinteiro. No vinham visitas. D. Felicidade, na Encarnao, -inundava-se d'arnica. Sebastio fra para Almada vigiar as obras. O -Conselheiro partira para Cintra, dar umas ferias ao espirito, tinha -elle dito a Luiza, e deliciar-se nas maravilhas d'aquelle Eden. O snr. -Julio, o doutor, como dizia a Joanna, trabalhava a sua these. As -horas eram muito regulares, havia sempre um silencio pacato. Juliana, -um dia, na cozinha, impressionada por aquelle recolhimento satisfeito -de toda a casa, exclamou para Joanna: - ---No se pde estar melhor! A barca vai n'um mar de rosas! - -E acrescentou, com uma risadinha: - ---E eu ao leme! - - - - -VII - - -Por esse tempo, uma manh que Luiza ia para o _Paraiso_, viu de repente -sahir d'um portal, um pouco adiante do largo de Santa Barbara, a figura -azafamada d'Ernestinho. - ---Por aqui, prima Luiza!--exclamou elle logo muito surprehendido.--Por -estes bairros! Que faz por aqui? Grande milagre! - -Vinha vermelho, trazia as bandas do casaco d'alpaca todas deitadas para -traz, e agitava com excitao um rolo grosso de papeis. - -Luiza ficou um pouco embaraada; disse que viera fazer uma visita a uma -amiga.--Oh! elle no conhecia, tinha chegado do Porto... - ---Ah, bem! bem! E que feito, como tem passado? Quando vem o -Jorge?--Desculpou-se logo de a no ter ido vr; mas que no tinha uma -migalha livre! De manh a alfandega, noite os ensaios... - ---Ento sempre vai?--perguntou Luiza. - ---Vai. - -E enthusiasmado: - ---E como vai! Um primor! Mas que trabalho, que trabalho!--Agora vinha -elle de casa do actor Pinto, que fazia o papel de amante, de conde de -Monte Redondo; tinha-o ouvido dizer as palavras finaes do terceiro -acto: _Maldio, a sorte funesta esmaga-me! Pois bem, arcarei brao a -brao com a sorte. lucta!_ Era uma maravilha! Vinha tambem de lhe dar -parte que alterra o monologo do segundo acto. O empresario achava-o -longo... - ---Ento contina a implicar, o empresario? - -Ernestinho fez uma visagem d'hesitao. - ---Implica um bocado...--E com um rosto radioso:--Mas est delirante! -Esto todos delirantes! Hontem me dizia elle: Lesminha... o nome -que me do por pandiga. Tem graa, no verdade? Dizia-me elle: -Lesminha, na primeira representao cahe ahi Lisboa em peso! Voss -enterra-os a todos! bom homem! E agora vou-me a casa do Bastos, o -folhetinista da _Verdade_. No conhece? - -Luiza no se lembrava bem. - ---O Bastos, o da _Verdade_!--insistia elle. - -E vendo que Luiza parecia alheia ao nome, ao individuo: - ---Ora no conhece outra cousa!--Ia descrever-lhe as feies, citar-lhes -as obras... - -Mas Luiza, impaciente, para findar: - ---Ah! sim, lembro-me agora. Perfeitamente... Bem sei! - ---Pois verdade, vou a casa d'elle.--Tomou um tom compenetrado:--Somos -muito amigos, muito bom rapaz, e tem um pequerrucho lindo!...--E -apertando-lhe muito a mo:--Adeusinho, prima Luiza, que no posso -perder um momento. Quer que a v acompanhar? - ---No, aqui perto. - ---Adeus, recados ao Jorge! - -Ia a afastar-se, atarefado, mas voltando-se rapidamente, correu atraz -d'ella. - ---Ah! esquecia-me dizer-lhe, sabe que lhe perdoei? - -Luiza abriu muito os olhos. - --- condessa, heroina!--exclamou Ernestinho. - ---Ah! - ---Sim, o marido perda-lhe, obtem uma embaixada, e vo viver no -estrangeiro. mais natural... - ---De certo!--disse vagamente Luiza. - ---E a pea acaba, dizendo o amante, o conde de Monte Redondo: _E -eu irei para a solido morrer d'esta paixo funesta!_ de muito -effeito!--Esteve um momento a olhal-a, e bruscamente:--Adeus, prima -Luiza, recadinhos ao Jorge! - -E abalou. - -Luiza entrou no _Paraiso_ muito contrariada. Contou o encontro a -Bazilio. Ernestinho era to tolo! Podia mais tarde fallar n'aquillo, -citar a hora, perguntarem-lhe quem era a amiga do Porto... - -E tirando o vo, o chapo: - ---No, realmente imprudente vir assim tantas vezes. Era melhor no -vir tanto. Pde-se saber... - -Bazilio encolheu os hombros, contrariado: - ---Se queres no venhas. - -Luiza olhou-o um momento, e curvando-se profundamente: - ---Obrigada! - -Ia a pr o chapo, mas elle veio prender-lhe as mos, abraou-a, -murmurando: - ---Pois tu fallas em no vir! E eu, ento? Eu que estou em Lisboa por -tua causa... - ---No, realmente dizes s vezes cousas... tens certos modos... - -Bazilio abafou-lhe as palavras com beijos. - ---Ta, ta, ta! Nada de questes! Perda. Ests to linda... - -Luiza, ao voltar para casa, veio a reflectir n'aquella scena. -No--pensava--j no era a primeira vez que elle mostrava um -desprendimento muito secco por ella, pela sua reputao, pela sua -saude! Queria-a alli todos os dias, egoistamente. Que as ms linguas -fallassem, que as soalheiras a matassem, que lhe importava? E para -que?... Porque emfim, saltava aos olhos, elle amava-a menos... As suas -palavras, os seus beijos arrefeciam cada dia, mais e mais!... J no -tinha aquelles arrebatamentos do desejo em que a envolvia toda n'uma -caricia palpitante, nem aquella abundancia de sensao que o fazia -cahir de joelhos com as mos tremulas como as d'um velho!... J se -no arremessava para ella, mal ella apparecia porta, como sobre uma -presa estremecida!... J no havia aquellas conversas pueris, cheias de -risos, divagadas e tontas, em que se abandonavam, se esqueciam, depois -da hora ardente e physica, quando ella ficava n'uma lassitude dce, com -o sangue fresco, a cabea deitada sobre os braos ns!--Agora! trocado -o ultimo beijo, accendia o charuto, como n'um restaurante ao fim do -jantar! E ia logo a um espelho pequeno que havia sobre o lavatorio dar -uma penteadella no cabello com um pentesinho d'algibeira! (O que ella -odiava o pentesinho!) s vezes at olhava o relogio!... E em quanto -ella se arranjava no vinha, como nos primeiros tempos, ajudal-a, -pr-lhe o collarinho, picar-se nos seus alfinetes, rir em volta d'ella, -despedir-se com beijos apressados da nudez dos seus hombros antes que -o vestido se apertasse. Ia rufar nos vidros,--ou sentado, com um ar -macambuzio, bamboleava a perna! - -E depois positivamente no a respeitava, no a considerava... Tratava-a -por cima do hombro, como uma burguezinha, pouco educada e estreita, -que apenas conhece o seu bairro. E um modo de passear, fumando, com a -cabea alta, fallando no espirito de madame de tal, nas _toilettes_ -da condessa de tal! Como se ella fosse estupida, e os seus vestidos -fossem trapos! Ah, era seccante! E parecia, Deus me perde, parecia que -lhe fazia uma honra, uma grande honra em a possuir... Immediatamente -lembrava-lhe Jorge, Jorge que a amava com tanto respeito! Jorge, -para quem ella era de certo a mais linda, a mais elegante, a mais -intelligente, a mais captivante!... E j pensava um pouco que -sacrificra a sua tranquillidade to feliz a um amor bem incerto! - -Emfim, um dia que o viu mais distrahido, mais frio, explicou-se -abertamente com elle. Direita, sentada no canap de palhinha, fallou -com bom senso, devagar, com um ar digno e preparado: Que percebia bem -que elle se aborrecia, que o seu grande amor tinha passado, que era por -tanto humilhante para ella verem-se n'essas condies, e que julgava -mais digno acabarem... - -Bazilio olhava-a, surprehendido da sua solemnidade; sentia um estudo, -uma affectao n'aquellas phrases; disse muito tranquillamente, -sorrindo: - ---Trazias isso decorado! - -Luiza ergueu-se bruscamente, encarou-o, teve um movimento desdenhoso -dos labios. - ---Tu ests douda, Luiza? - ---Estou farta! Fao todos os sacrificios por ti, venho aqui todos os -dias, comprometto-me, e para que? Para te vr muito indifferente, muito -seccado... - ---Mas, meu amor... - -Ella teve um sorriso d'escarneo. - ---_Meu amor!_ Oh! so ridiculos esses fingimentos! - -Bazilio impacientou-se. - ---J isso c me faltava, essa scena!--exclamou impetuosamente. E -cruzando os braos diante d'ella:--Mas que queres tu? Queres que te -ame como no theatro, em S. Carlos? Todas sois assim! Quando um pobre -diabo ama naturalmente, como todo o mundo, com o seu corao, mas -no tem gestos de tenor, aqui d'el-rei que frio, que se aborrece, - ingrato... Mas que queres tu? Queres que me atire de joelhos, que -declame, que revire os olhos, que faa juras, outras tolices?... - ---So tolices que tu fazias... - ---Ao principio!--respondeu elle brutalmente.--J nos conhecemos muito -para isso, minha rica. - -E havia apenas cinco semanas! - ---Adeus!--disse Luiza. - ---Bem. Vaes zangada? - -Ella respondeu, com os olhos baixos, calando nervosamente as luvas: - ---No. - -Bazilio pz-se diante da porta, e estendendo os braos: - ---Mas s razoavel, minha querida. Uma ligao como a nossa no o -duetto do _Fausto_. Eu amo-te; tu, creio, gostas de mim; fazemos os -sacrificios necessarios, encontramo-nos, somos felizes... Que diabo -queres tu mais? Porque te queixas? - -Ella respondeu com um sorriso ironico e triste: - ---No me queixo. Tens razo. - ---Mas no vs zangada, ento. - ---No... - ---Palavrinha? - ---Sim... - -Bazilio tomou-lhe as mos. - ---D ento um beijinho em Bibi... - -Luiza beijou-o de leve na face. - ---Na boquinha, na boquinha!--E ameaando-a com o dedo, fitando-a -muito:--Ah geniosinho! Tens bem o sangue do snr. Antonio de Brito, -nosso extremoso tio, que arrepellava as criadas pelos cabellos!--E -sacudindo-lhe o queixo:--E vens manh? - -Luiza hesitou um momento: - ---Venho. - -Entrou em casa exasperada, humilhada. Eram seis horas. Juliana veio -logo dizer-lhe, muito quisilada: que a Joanna tinha sahido s quatro -horas, no tinha voltado, o jantar estava por acabar... - ---Onde foi? - -Juliana encolheu os hombros com um sorrisinho. - -Luiza percebeu. Tinha ido a algum amante, a algum amor... Teve um gesto -de piedade desdenhosa. - ---Ha-de lucrar muito com isso. Boa tla!--disse. - -Juliana olhou-a espantada. - ---Est bebeda!--pensou. - ---Bem, que se lhe ha-de fazer?--exclamou Luiza.--Esperarei... - -E passeando pelo quarto, excitada, revolvendo o seu despeito: - ---Que egoista, que grosseiro, que infame! E por um homem assim que -uma mulher se perde! estupido! - -Como elle supplicava, se fazia pequenino, humilde ao principio! O que -so os amores dos homens! Como teem a fadiga facil! - -E immediatamente lhe veio a ida de Jorge! _Esse_ no! Vivia com -ella havia tres annos--e o seu amor era sempre o mesmo, vivo, meigo, -dedicado. Mas o _outro_! Que indigno! _J a conhecia muito!_ Ah! estava -bem certa agora, nunca a amra, elle! Quizera-a por vaidade, por -capricho, por distraco, para ter uma mulher em Lisboa! o que era! -Mas amor? Qual! - -E ella mesmo, por fim? Amava-o, ella? Concentrou-se, interrogou-se... -Imaginou casos, circumstancias: se elle a quizesse levar para longe, -para Frana, iria? No! Se por um acaso, por uma desgraa enviuvasse, -antevia alguma felicidade casando com elle? No! - -Mas ento!... E como uma pessoa que destapa um frasco muito guardado, e -se admira vendo o perfume evaporado, ficou toda pasmada de encontrar o -seu corao vazio. O que a levra ento para elle?... Nem ella sabia; -no ter nada que fazer, a curiosidade romanesca e morbida de ter um -amante, mil vaidadesinhas inflammadas, um certo desejo physico... E -sentira-a por ventura, essa felicidade, que do os amores illegitimos, -de que tanto se falla nos romances e nas operas, que faz esquecer -tudo na vida, affrontar a morte, quasi fazel-a amar? Nunca! Todo o -prazer que sentira ao principio, que lhe parecera ser o amor--vinha -da novidade, do saborzinho delicioso de comer a ma prohibida, das -condies do mysterio do _Paraiso_, d'outras circumstancias talvez, que -nem queria confessar a si mesma, que a faziam corar por dentro! - -Mas que sentia d'extraordinario _agora_? Bom Deus, comeava a estar -menos commovida ao p do seu amante, do que ao p de seu marido! Um -beijo de Jorge perturbava-a mais, e viviam juntos havia tres annos! -Nunca se seccra ao p de Jorge, nunca! E seccava-se positivamente ao -p de Bazilio! Bazilio, no fim, o que se tornra para ella? era como -um marido pouco amado, que ia amar fra de casa! Mas ento, valia a -pena?... - -Onde estava o defeito? No amor mesmo talvez! Porque emfim, ella e -Bazilio estavam nas condies melhores para obterem uma felicidade -excepcional: eram novos, cercava-os o mysterio, excitava-os a -difficuldade... Porque era ento que quasi bocejavam? que o amor - essencialmente perecivel, e na hora em que nasce comea a morrer. -S os comeos so bons. Ha ento um delirio, um enthusiasmo, um -bocadinho do co. Mas depois!... Seria pois necessario estar sempre a -_comear_, para poder sempre sentir?... Era o que fazia Leopoldina. E -apparecia-lhe ento nitidamente a explicao d'aquella existencia de -Leopoldina, inconstante, tomando um amante, conservando-o uma semana, -abandonando-o como um limo espremido, e renovando assim constantemente -a flr da sensao!--E, pela logica tortuosa dos amores illegitimos, o -seu primeiro amante fazia-a vagamente pensar no segundo! - -Logo no dia seguinte pz-se a dizer comsigo que era bem longe o -_Paraiso_! Que massada, por aquelle calor, vestir-se, sahir! Mandou -saber de D. Felicidade por Juliana, e ficou em casa, de roupo branco, -preguiosa, saboreando a sua preguia. - -N'essa tarde recebeu uma carta de Jorge: que ainda se demorava, mas -que a sua viuvez comeava a pezar-lhe. Quando se veria emfim na sua -casinha, na sua alcovinha?... - -Ficou muito commovida. Um sentimento de vergonha, de remorso, uma -compaixo terna por Jorge, to bom, coitado! um indefinido desejo de o -vr e de o beijar, a recordao de felicidades passadas perturbaram-na -at s profundidades do seu sr. Foi logo responder-lhe, jurando-lhe -que tambem j estava farta de estar s, que viesse, que era estupida -semelhante separao... E era sincera n'aquelle momento. - -Tinha fechado o enveloppe, quando Juliana lhe veio trazer uma carta -do hotel. Bazilio mostrava-se desesperado: ...Como no vieste, vejo -que ests zangada; mas de certo o teu orgulho, no o teu amor que te -domina: no imaginas o que senti quando vi que no vinhas hoje. Esperei -at s cinco horas; que supplicio! Fui talvez secco, mas tu tambem -estavas implicativa. Devemos perdoar-nos ambos, ajoelharmos um diante -do outro, e esquecer todo o despeito no mesmo amor... Vem manh. -Adoro-te tanto! Que outra prova queres, que esta que te dou d'abandonar -os meus interesses, as minhas relaes, os meus gostos, e enterrar-me -aqui em Lisboa, etc. - -Ficou muito nervosa, sem saber o que havia de fazer, o que havia de -querer. Aquillo era verdade. Porque estava elle em Lisboa? Por ella. -Mas se reconhecia agora,--que o no amava, ou to pouco! E depois -era vil trahir assim Jorge, to bom, to amoroso, vivendo todo para -ella. Mas se Bazilio realmente estivesse to apaixonado!... As suas -idas redemoinhavam, como folhas d'outono, violentadas por ventos -contradictorios. Desejava estar tranquilla, que a no perseguissem. -Para que voltra aquelle homem? Jesus! que havia de fazer? Tinha os -seus pensamentos, os seus sentimentos n'uma dolorosa trapalhada. - -E na manh seguinte estava na mesma hesitao. Iria, no iria? O -calor fra, a poeirada da rua faziam-lhe appetecer mais a casa! -Mas que desapontamento, o do pobre rapaz tambem! Atirou ao ar uma -moeda de cinco tostes. Era cunho, devia ir. Vestiu-se, sem vontade, -seccada,--tendo todavia um certo desejo dos refinamentos de prazer que -do as expanses da reconciliao... - -Mas que surpreza! esperava encontral-o humilde e de joelhos, achou-o -com a testa franzida e muito aspero. - ---Luiza, parece incrivel, porque no vieste hontem? - -Na vespera, Bazilio, quando viu que ella faltava, teve um grande -despeito e um medo maior; a sua concupiscencia receou perder aquelle -lindo corpo de rapariga, e o seu orgulho escandalisou-se de vr -libertar-se aquella escravasinha docil. Resolveu portanto, a todo o -custo, chamal-a ao rego. Escreveu-lhe; e mostrando-se submisso para a -attrahir, decidiu ser severo para a castigar.--E acrescentou: - --- uma criancice ridicula. Porque no vieste? - -Aquelle modo enraiveceu-a: - ---Porque no quiz. - -Mas emendou logo: - ---No pude. - ---Ah! essa a maneira por que respondes minha carta, Luiza? - ---E tu, esse o modo com que me recebes? - -Olharam-se um momento, detestando-se. - ---Bem, queres uma questo? s como as outras. - ---Que outras? - -E toda escandalisada: - ---Ah! de mais! Adeus! - -Ia sahir. - ---Vaes-te, Luiza? - ---Vou. melhor acabarmos por uma vez... - -Elle segurou o fecho da porta rapidamente. - ---Fallas serio, Luiza? - ---De certo. Estou farta! - ---Bem. Adeus. - -Abriu a porta para a deixar passar, curvou-se silenciosamente. - -Ella deu um passo, e Bazilio com a voz um pouco tremula: - ---Ento, para sempre? Nunca mais? - -Luiza parou, branca. Aquella triste palavra _nunca mais_ deu-lhe uma -saudade, uma commoo. Rompeu a chorar. - -As lagrimas tornavam-na sempre mais linda. Parecia to dolorida, to -fragil, to desamparada!... - -Bazilio cahiu-lhe aos ps: tinha tambem os olhos humidos. - ---Se tu me deixares, morro! - -Os seus labios uniram-se n'um beijo profundo, longo, penetrante. A -excitao dos nervos deu-lhes momentaneamente a sinceridade da paixo; -e foi uma manh deliciosa. - -Ella prendia-o nos braos ns, pallida como cra, balbuciava: - ---No me deixas nunca, no? - ---Juro-t'o! Nunca, meu amor! - -Mas fazia-se tarde, era necessario ir-se! E a mesma ida de certo -acudiu-lhes--porque se olharam avidamente, e Bazilio murmurou: - ---Se podesses aqui passar a noite! - -Ella disse aterrada, quasi supplicante: - ---Oh! no me tentes, no me tentes... - -Bazilio suspirou, disse: - ---No, uma tolice. Vai. - -Luiza comeou a arranjar-se, pressa. E de repente, parando, com um -sorriso: - ---Sabes tu uma cousa? - ---O que, meu amor? - ---Estou a cahir com fome! No almocei nada, estou a cahir! - -Elle ficou desolado: - ---Coitadinha, minha pobre filha! Se eu soubesse... - ---Que horas so, filho? - -Bazilio viu o relogio, disse quasi envergonhado: - ---Sete! - ---Ai, Santo Deus! - -Punha o chapo, o vo, atrapalhadamente: - ---Que tarde! Jesus! Que tarde! - ---E manh, quando? - --- uma. - ---Com certeza? - ---Com certeza. - -Ao outro dia foi muito pontual. Bazilio veio esperal-a ao fundo da -escada; e apenas entraram no quarto, devorando-a de beijos: - ---Que me fizeste tu? Desde hontem que estou doudo! - -Mas Luiza estava muito intrigada com um cesto que via em cima da cama. - ---Que aquillo? - -Elle sorriu, levou-a pela mo junto da barra de ferro, e destampando o -cesto, com uma cortezia grave: - ---Provises, festins, bacchanaes! No dirs depois que tens fome! - -Era um _lunch_. Havia sandwichs, um _pt de foie gras_, fruta, uma -garrafa de champagne, e, envolto em flanella, gelo. - --- brilhante!--disse ella, com um sorriso quente, rubra de prazer. - ---Foi o que se pde arranjar, minha querida prima! J v que pensei em -si! - -Pz o cesto no cho, e vindo para ella com os braos abertos: - ---E tu pensaste em mim, meu amor? - -Os olhos d'ella responderam--e a presso apaixonada dos seus braos. - -s tres horas lancharam. Foi delicioso; tinham estendido um guardanapo -sobre a cama; a loua tinha a marca do Hotel Central; aquillo parecia a -Luiza muito estroina, adoravel--e ria de sensualidade, fazendo tilintar -os pedacinhos de gelo contra o vidro do copo, cheio de _champagne_. -Sentia uma felicidade exuberante que transbordava em gritinhos, em -beijos, em toda a sorte de gestos buliosos. Comia com gula; e eram -adoraveis os seus braos ns movendo-se por cima dos pratos. - -Nunca achra Bazilio to bonito; o quarto mesmo parecia-lhe muito -conchegado para aquellas intimidades da paixo; quasi julgava possivel -viver alli, n'aquelle cacifro, annos, feliz com elle, n'um amor -permanente, e _lunchs_ s tres horas... Tinham as pieguices classicas: -mettiam-se bocadinhos na bocca; ella ria com os seus dentinhos brancos; -bebiam pelo mesmo copo, devoravam-se de beijos,--e elle quiz-lhe -ensinar ento a verdadeira maneira de beber _champagne_. Talvez ella -no soubesse! - ---Como ?--perguntou Luiza erguendo o copo. - ---No com o copo! Horror! Ninguem que se preza bebe _champagne_ por -um copo. O copo bom para o Collares... - -Tomou um gole de _champagne_, e n'um beijo passou-o para a bocca -d'ella. Luiza riu muito, achou divino, quiz beber mais assim. Ia-se -fazendo vermelha, o olhar luzia-lhe. - -Tinham tirado os pratos da cama; e sentada beira do leito, os seus -psinhos calados n'uma meia cr de rosa pendiam, agitavam-se, em -quanto um pouco dobrada sobre si, os cotovlos sobre o regao, a -cabecinha de lado, tinha em toda a sua pessoa a graa languida d'uma -pomba fatigada. - -Bazilio achava-a irresistivel: quem diria que uma burguezinha podia ter -tanto _chic_, tanta _queda_? Ajoelhou-se, tomou-lhe os psinhos entre -as mos, beijou-lh'os; depois, dizendo muito mal das ligas to feias, -com fechos de metal, beijou-lhe respeitosamente os joelhos; e ento -fez-lhe baixinho um pedido. Ella crou, sorriu, dizia: no! no!--E -quando sahiu do seu delirio tapou o rosto com as mos, toda escarlate, -murmurou reprehensivamente: - ---Oh Bazilio! - -Elle torcia o bigode, muito satisfeito. Ensinra-lhe uma sensao nova: -tinha-a na mo! - -S s seis horas se desprendeu dos seus braos. Luiza fez-lhe jurar -que havia de pensar n'ella toda a noite:--no queria que elle sahisse; -tinha ciumes do Gremio, do ar, de tudo! E j no patamar voltava, -beijava-o, louca, repetia: - ---E manh mais cedo, sim? para estarmos todo o dia. - ---No vaes vr a D. Felicidade? - ---Que me importa a D. Felicidade! No me importa ninguem! Quero-te a -ti! s a ti! - ---Ao meio dia? - ---Ao meio dia! - - -Quanto lhe pezou noite a solido do seu quarto! Tinha uma impaciencia -que a impellia a prolongar a excitao da tarde, agitar-se. Ainda quiz -lr, mas bem depressa arremessou o livro: as duas velas accesas sobre -o toucador pareciam-lhe lugubres; foi vr a noite,--estava tepida e -serena. Chamou Juliana: - ---V pr um chale, vamos a casa da snr.^a D. Leopoldina. - -Quando chegaram foi a Justina que veio abrir, depois d'uma grande -demora, esguedelhada, em chambre branco. Pareceu muito espantada: - ---A senhora foi p'ra o Porto! - ---P'ra o Porto! - -Sim. Demorava-se quinze dias. - -Luiza ficou muito desconsolada. Mas no queria voltar, o seu quarto -solitario aterrava-a. - ---Vamos um bocado at alli abaixo, Juliana. A noite est to bonita! - ---Rica, minha senhora! - -Foram pela rua de S. Roque. E como guiados pelas duas linhas de pontos -de gaz, que desciam a rua do Alecrim, o seu pensamento, o seu desejo -foram logo para o _Hotel Central_. - -Estaria em casa? Pensaria n'ella? Se podesse ir surprehendel-o de -repente, atirar-se-lhe aos braos, vr as suas malas... Aquella ida -fazia-a arfar. Entraram na praa de Cames. Gente passeava devagar; sob -a sombra mais escura que faziam as arvores cochichava-se pelos bancos; -bebia-se agua fresca; claridades cruas de vidraas, de portas de lojas -destacavam em redor no tom escuro da noite: e no rumor lento das ruas -em redor, sobresahiam as vozes agudas dos vendedores de jornaes. - -Ento um sujeito com um chapo de palha passou to rente d'ella, to -intencionalmente que Luiza teve medo.--Era melhor voltarem--disse. - -Mas ao meio da rua de S. Roque o chapo de palha reappareceu, roou -quasi o hombro de Luiza; dous olhos repolhudos dardejaram sobre ella. - -Luiza ia desesperada: o tic-tac das suas botinas batia vivamente a lage -do passeio; de repente, ao p de S. Pedro d'Alcantara, de sob o chapo -de palha sahiu uma voz adocicada e brazileira, dizendo-lhe junto ao -pescoo: - ---Aonde mora, menina? - -Agarrou aterrada o brao de Juliana. - -A voz repetiu: - ---No se agaste, menina, aonde mora? - ---Seu malcriado!--rugiu Juliana. - -O chapo de palha immediatamente desappareceu entre as arvores. - -Chegaram a casa a arquejar. Luiza tinha vontade de chorar; deixou-se -cahir na _causeuse_, esfalfada, infeliz. Que imprudencia, pr-se -a passear pelas ruas de noite, com uma criada! Estava douda, -desconhecia-se. Que dia aquelle! E recordava-o desde pela manh: o -_lunch_, o _champagne_ bebido pelos beijos de Bazilio, os seus delirios -libertinos, que vergonha! e ir a casa de Leopoldina, de noite, e ser -tomada na rua por uma mulher do Bairro Alto!... De repente lembrou-lhe -Jorge no Alemtejo trabalhando por ella, pensando n'ella... Escondeu o -rosto entre as mos, detestou-se, os seus olhos humedeceram-se. - - -Mas na manh seguinte acordou muito alegre. Sentia, sim, uma vaga -vergonha de todas as suas tolices da vespera, e como a sensao -indefinida, palpite ou presentimento, de que no devia ir ao _Paraiso_. -O seu desejo, porm, que a impellia para l vivamente, forneceu-lhe -logo razes: era desapontar Bazilio, a no ir hoje no devia voltar, e -ento romper... Alm d'isso a manh muito linda attrahia para a rua: -chovera de noite, o calor cedera; havia nos tons da luz e do azul uma -frescura lavada e dce. - -E s onze e meia descia o Moinho de Vento, quando viu a figura digna do -conselheiro Accacio que subia da rua da Rosa, devagar, com o guarda-sol -fechado, a cabea alta. - -Apenas a avistou apressou-se, curvou-se profundamente: - ---Que encontro verdadeiramente feliz!... - ---Como est, Conselheiro? Ditosos olhos que o vem! - ---E v. exc.^a, minha senhora? Vejo-a com excellente aspecto! - -Passou-lhe esquerda com um movimento solemne, pz-se a caminhar ao -lado d'ella. - ---Permitte-me de certo que a acompanhe na sua excurso? - ---De certo, com o maior prazer. Mas que tem feito? Tenho muito que lhe -ralhar... - ---Estive em Cintra, minha querida senhora.--E parando:--No sabia? O -_Diario de Noticias_ especificou-o! - ---Mas depois de vir de Cintra? - -Elle acudiu: - ---Ah! tenho estado occupadissimo! Occupadissimo! Inteiramente absorvido -na compilao de certos documentos que me eram indispensaveis para o -meu livro...--E depois d'uma pausa:--Cujo nome no ignora, creio. - -Luiza no se recordava inteiramente. O Conselheiro ento expz o -titulo, os fins, alguns nomes de capitulos, a utilidade da obra: era -a DESCRIPO PITORESCA DAS PRINCIPAES CIDADES DE PORTUGAL E SEUS MAIS -FAMOSOS ESTABELECIMENTOS. - --- um guia, mas um guia scientifico. Illustrarei com um exemplo: V. -exc.^a quer ir a Bragana: sem o meu livro muito natural (direi, -certo) que volta sem ter gozado das curiosidades locaes; com o meu -livro percorre os edificios mais notaveis, recolhe um fundo muito -solido d'instruco, e tem ao mesmo tempo o prazer. - -Luiza mal o escutava, sorrindo vagamente sob o seu vo branco. - ---Est hoje muito agradavel!--disse ella. - ---Agradabilissimo! Um dia creador! - ---Que bom fresco aqui! - -Tinham entrado em S. Pedro d'Alcantara; um ar dce circulava entre as -arvores mais verdes; o cho compacto, sem p, tinha ainda uma ligeira -humidade; e, apesar do sol vivo, o co azul parecia leve e muito remoto. - -O Conselheiro ento fallou do estio; tinha sido torrido! na sua sala -de jantar tinha havido 48 graus sombra! 48 graus!--E com bonhomia, -querendo logo desculpar a sala d'aquella exagerao canicular:--Mas -que est exposta ao sul! faamos essa justia! Est muito exposta ao -sul. Hoje porm est verdadeiramente restaurador. - -Convidou-a mesmo a dar uma volta em baixo no jardim. Luiza hesitava. -E o Conselheiro puxando o relogio, fitando-o de longe, declarou logo -que ainda no era meio dia. Estava certo pelo Arsenal, era um relogio -inglez.--Muito preferiveis aos suissos!--acrescentou com ar profundo. - -Cobardemente, por inercia, enervada pela voz pomposa do Conselheiro, -Luiza foi descendo, contrariada, as escadinhas para o jardim. De -resto--pensava--tinha tempo, tomaria um trem... - -Foram encostar-se s grades. Atravs dos vares viam, descendo n'um -declive, telhados escuros, intervallos de pateos, cantos de muro com -uma ou outra magra verdura de quintal resequido; depois, no fundo do -valle, o Passeio estendia a sua massa de folhagem prolongada e oblonga, -onde a espaos branquejavam pedaos da rua areada. Do lado de l -erguiam-se logo as fachadas inexpressivas da rua Oriental, recebendo -uma luz forte que fazia faiscar as vidraas: por traz iam-se elevando -no mesmo plano terrenos d'um verde crestado fechados por fortes muros -sombrios, a cantaria da Encarnao de um amarello triste, outras -construces separadas, at ao alto da Graa coberta d'edificios -ecclesiasticos, com renques de janellinhas conventuaes e torres -d'igrejas, muito brancas sobre o azul: e a Penha de Frana, mais para -alm, punha em relevo o vivo do muro caiado, d'onde sobresahia uma tira -verde-negra d'arvoredo. direita, sobre o monte pellado, o castello -assentava, atarracado, ignobilmente sujo: e a linha muito quebrada -de telhados, d'esquinas de casas da Mouraria e d'Alfama descia com -angulos bruscos at s duas pesadas torres da S, d'um aspecto abbacial -e secular. Depois viam um pedao do rio, batido da luz: duas velas -brancas passavam devagar: e na outra banda, base de uma collina baixa -que o ar distante azulava, estendia-se a correnteza de casarias d'uma -povoaosinha d'um branco de cr luzidio. Da cidade um rumor grosso e -lento subia, onde se misturavam o rolar dos trens, o pesado rodar dos -carros de bois, a vibrao metallica das carretas que levam ferraria, e -algum grito agudo de prego. - ---Grande panorama!--disse o Conselheiro com emphase.--E encetou logo o -elogio da cidade. Era uma das mais bellas da Europa, de certo, e como -entrada, s Constantinopla! Os estrangeiros invejavam-na immenso. Fra -outr'ora um grande emporio, e era uma pena que a canalisao fosse to -m, e a edilidade to negligente! - ---Isto devia estar na mo dos inglezes, minha rica senhora!--exclamou. - -Mas arrependeu-se logo d'aquella phrase impatriotica. Jurou que era -uma maneira de dizer. Queria a independencia do seu paiz; morreria por -ella, se fosse necessario; nem inglezes nem castelhanos!... S ns, -minha senhora!--E acrescentou com uma voz respeitosa:--E Deus! - ---Que bonito est o rio!--disse Luiza. - -Accacio affirmou-se, e murmurou em tom cavo: - ---O Tejo! - -Quiz ento dar uma volta pelo jardim. Sobre os canteiros borboletas -brancas, amarellas, esvoaavam; um gotejar d'agua fazia no tanque um -rhythmosinho de jardim burguez; um aroma de baunilha predominava; sobre -a cabea dos bustos de marmore, que se elevam d'entre os macios e as -moitas de dhalias, passaros pousavam. - -Luiza gostava d'aquelle jardimzinho, mas embirrava com as grades to -altas... - ---Por causa dos suicidios!--acudiu logo o Conselheiro.--E -todavia, segundo a sua opinio, os suicidios em Lisboa diminuiam -consideravelmente; attribuia isso maneira severa e muito louvavel -como a imprensa os condemnava... - ---Porque em Portugal, creia isto, minha senhora, a imprensa uma fora! - ---Se fossemos andando...?--lembrou Luiza. - -O Conselheiro curvou-se, mas vendo-a a ir colher uma flr, reteve-lhe -vivamente o brao: - ---Ah, minha rica senhora, por quem ! os regulamentos so muito -explicitos! No os infrinjamos, no os infrinjamos!--E acrescentou:--O -exemplo deve vir de cima. - -Foram subindo, e Luiza pensava:--Vai para casa, larga-me ao Loreto. - -Na rua de S. Roque espreitou o relogio d'uma confeitaria: era meia hora -depois do meio dia! J Bazilio esperava! - -Apressou o passo, ao Loreto parou. O Conselheiro olhou-a, sorrindo, -esperando. - ---Ah! pensei que ia para casa, Conselheiro! - ---J agora quero acompanhal-a, se v. exc.^a m'o permitte. De certo no -sou indiscreto? - ---Ora essa! De modo nenhum. - -Uma carruagem da Companhia passava, seguida d'um correio a trote. - -O Conselheiro, com um movimento ancioso, tirou profundamente o chapo. - --- o presidente do conselho. No viu? Fez-me um signal de -dentro.--Comeou logo o seu elogio: Era o nosso primeiro parlamentar; -vastissimo talento, uma linguagem muito castigada!--E ia de certo -fallar das cousas publicas, mas Luiza atravessou para os Martyres, -erguendo um pouco o vestido por causa d'uns restos de lama. Parou -porta da igreja, e sorrindo: - ---Vou aqui fazer uma devoosinha. No o quero fazer esperar. Adeus, -Conselheiro, apparea.--Fechou a sombrinha, estendeu-lhe a mo. - ---Ora essa, minha rica senhora! Esperarei, se vir que no se demora -muito. Esperarei, no tenho pressa.--E com respeito:--Muito louvavel -esse zelo! - -Luiza entrou na igreja desesperada. Ficou de p debaixo do cro, -calculando:--Demoro-me aqui, elle cana-se d'esperar e vai-se! Por -cima reluziam vagamente os pingentes de crystal dos lustres. Havia -uma luz velada, igual, um pouco fsca. E as architecturas caiadas, -a madeira muito lavada do soalho, as balaustradas lateraes de pedra -davam uma tonalidade clara e alvadia, onde destacavam os dourados da -capella, os frontaes rxos dos pulpitos, ao fundo dous reposteiros d'um -rxo mais escuro, e sob o docel cr de violeta os ouros do Throno. Um -silencio fresco e alto repousava. Diante do Baptisterio um rapaz de -joelhos, com um balde de zinco ao p, esfregava o cho com uma rodilha, -discretamente: dorsos de beatas, encapotados ou cobertos de chales -tingidos, curvavam-se, aqui e alm, diante d'um altar: e um velho, de -jaqueta de saragoa, prostrado no meio da igreja, rosnava rezas n'uma -molopa lugubre; via-se a sua cabea calva, as tachas enormes dos -sapatos, e a cada momento, dobrando-se, batia no peito com desespero. - -Luiza subiu ao altar-mr. Bazilio impacientava-se, de certo, pobre -rapaz! Perguntou ento, timidamente, as horas a um sacristo que -passava. O homem ergueu a sua face cr de cidra para uma janela na -cupula, e olhando Luiza de lado: - ---Vai indo p'ra as duas. - -Para as duas! Era capaz de no esperar, Bazilio! Veio-lhe um receio -de perder a sua manh amorosa, um desejo aspero de se achar no -_Paraiso_ nos braos d'elle! E olhava vagamente os santos, as virgens -trespassadas d'espadas, os Christos chagados,--cheia de impaciencias -voluptuosas, revendo o quarto, a caminha de ferro, o pequeno bigode de -Bazilio!... Mas demorou-se, queria fatigar o Conselheiro, deixal-o -ir. Quando pensou que elle teria partido, sahiu devagarinho.--Viu-o -logo porta, direito, com as mos atraz das costas, lendo a pauta dos -jurados. - -Comeou immediatamente a louvar a sua devoo. No entrra porque no -quizera perturbar o seu recolhimento. Mas approvava-a muito! A falta de -religio era a causa de toda a immoralidade que grassava... - ---E alm d'isso de boa educao. V. exc.^a ha-de reparar que toda a -nobreza cumpre... - -Calou-se; aprumava a estatura, todo satisfeito de descer o Chiado com -aquella linda senhora, to olhada. Mesmo, ao passar por um grupo, -curvou-se para ella mysteriosamente, disse-lhe ao ouvido, sorrindo: - ---Est um dia apreciavel! - -E offereceu-lhe bolos porta do Baltreschi. Luiza recusou. - ---Sinto. Todavia acho muito sensata a regularidade nas comidas. - -A sua voz vinha agora a Luiza com a impertinencia d'um zumbido; apesar -de no fazer calor, abafava, picava-lhe o sangue no corpo; tinha -vontade de deitar a correr, de repente; e todavia caminhava devagar, -infeliz, como somnambula, cheia da necessidade de chorar. - -Sem razo, ao acaso, entrou no Valente. Era hora e meia! Depois -d'hesitar pediu gravatas de _foulard_ a um caixeiro louro e jovial. - ---Brancas? de cr? de riscas? com pintinhas? - ---Sim, verei, sortidas. - -No lhe agradavam. Desdobrava-as, sacudia-as, punha-as de lado; e -olhava em roda vagamente, pallida... O caixeiro perguntou-lhe se estava -incommodada: offereceu-lhe agua, qualquer cousa... - -No era nada; o ar que lhe fazia bem; voltaria. Sahiu. O Conselheiro, -muito solicito, promptificou-se a acompanhal-a a uma boa pharmacia -tomar agua de flr de laranja... Desciam ento a rua Nova do Carmo, -e o Conselheiro ia affirmando que o caixeiro fra muito polido: no -se admirava, porque no commercio havia filhos de boas familias: citou -exemplos. - -Mas vendo-a calada: - ---Ainda soffre? - ---No, estou bem. - ---Temos dado um delicioso passeio! - -Foram ao comprido do Rocio, at ao fim. Voltaram, atravessaram-no -em diagonal. E pelo lado do Arco do Bandeira, aproximaram-se para a -rua do Ouro. Luiza olhava em redor, afflicta, procurava uma ida, -uma occasio, um acontecimento--e o Conselheiro, grave a seu lado, -dissertava. A vista do theatro de D. Maria levra-o para as questes -da arte dramatica: tinha achado que a pea do Ernestinho era talvez -demasiado forte. De resto s gostava de comedias. No que se no -enthusiasmasse com as bellezas d'um _Frei Luiz de Sousa_! mas a sua -saude no lhe permittia as agitaes fortes. Assim por exemplo... - -Mas Luiza tivera uma ida, e immediatamente: - ---Ah! esquecia-me! Tenho d'ir ao Vitry. Vou fazer chumbar um dente. - -O Conselheiro, interrompido, fitou-a. E Luiza, estendendo-lhe a mo, -com a voz rapida: - ---Adeus, apparea, hein?--E precipitou-se para o portal do Vitry. - -Subiu at ao primeiro andar, correndo, com os vestidos apanhados: -parou, arquejando: esperou: desceu devagar, espreitou porta... A -figura do Conselheiro afastava-se direita, digna, para os lados das -secretarias. - -Chamou um trem. - ---A quanto puder!--exclamou. - -A carruagem entrou quasi a galope na ruasinha do _Paraiso_. Figuras -pasmadas appareceram janella. Subiu, palpitante. A porta estava -fechada--e logo a cancella do lado abriu-se, e a voz dce da patra -segredou: - ---J sahiu. Ha-de haver meia hora. - -Desceu. Deu a sua morada ao cocheiro, e atirando-se para o fundo -do coup, rompeu n'um chro hysterico. Correu os _stores_ para se -esconder; arrancou o vo, rasgou uma luva, sentindo em si violencias -inesperadas, Ento veio-lhe um desejo phrenetico de vr Bazilio! Bateu -nos vidros desesperadamente, gritou: - ---Ao Hotel Central! - -Porque estava n'um d'aquelles momentos em que os temperamentos -sensiveis teem impulsos indomaveis; ha uma delicia colerica em -espedaar os deveres e as conveniencias; e a alma procura sofregamente -o mal com estremecimentos de sensualidade! - -A parelha estacou, resvalando porta do hotel. O snr. Bazilio de -Brito no estava, o snr. visconde Reynaldo, sim. - ---Bem, para casa, para onde eu disse! - -O cocheiro bateu. E Luiza, sacudida por uma irritabilidade febril, -insultava o Conselheiro, o estafermo, o imbecil! maldizia a vida que -lh'os fizera conhecer, a elle e a todos os amigos da casa! vinha-lhe -uma vontade acre de mandar o casamento ao diabo, de fazer o que lhe -viesse cabea!... - - porta no tinha troco para o cocheiro. Espere!--disse, subindo -furiosa--Eu lhe mandarei pagar! - ---Que bicha!--pensou o cocheiro. - -Foi Joanna que veio abrir; e quasi recuou, vendo-a to vermelha, to -excitada. - -Luiza foi direita ao quarto: o _cuco_ cantava tres horas. Estava tudo -desarrumado; vasos de plantas no cho, o toucador coberto com um lenol -velho, roupa suja pelas cadeiras. E Juliana, com um leno amarrado na -cabea, varria tranquillamente, cantarolando. - ---Ento voss ainda no arrumou o quarto!--gritou Luiza. - -Juliana estremeceu quella colera inesperada. - ---Estava agora, minha senhora! - ---Que estava agora vejo eu!--rompeu Luiza.--So tres horas da tarde e -ainda o quarto n'este estado! - -Tinha atirado o chapo, a sombrinha. - ---Como a senhora costuma vir sempre mais tarde...--disse Juliana. - -E seus beios faziam-se brancos. - ---Que lhe importa a que horas eu venho? Que tem voss com isso? A -sua obrigao arrumar logo que eu me levante. E no querendo, rua, -fazem-se-lhe as contas! - -Juliana fez-se escarlate e cravando em Luiza os olhos injectados: - ---Olhe, sabe que mais? no estou para a aturar! - -E arremessou violentamente a vassoura. - ---Sia!--berrou Luiza--Sia immediatamente! Nem mais um momento em casa! - -Juliana poz-se diante d'ella, e com palmadas convulsivas no peito, a -voz rouca: - ---Hei-de sahir se eu quizer! Se eu quizer! - ---Joanna!--bradou Luiza. - -Queria chamar a cozinheira, um homem, um policia, alguem! Mas Juliana -descomposta, com o punho no ar, toda a tremer: - ---A senhora no me faa sahir de mim! A senhora no me faa perder a -cabea!--E com a voz estrangulada atravs dos dentes cerrados:--Olhe -que nem todos os papeis foram p'ra o lixo! - -Luiza recuou, gritou: - ---Que diz voss? - ---Que as cartas que a senhora escreve aos seus amantes, tenho-as eu -aqui!--E bateu na algibeira, ferozmente. - -Luiza fitou-a um momento com os olhos desvairados, e cahiu no cho, -junto _causeuse_, desmaiada. - - - - -VIII - - -A primeira impresso, mal acordada, de Luiza foi que duas figuras, -que no conhecia, estavam debruadas sobre ella. Uma, a mais forte, -afastou-se; o som frio d'um frasco de vidro, pousado sobre o marmore do -toucador, despertou-a. Sentiu ento uma voz dizer abafadamente: - ---Est muito melhor. Mas deu-lhe de repente, snr.^a Juliana? - ---De repente. - ---Eu vi-a entrar to afogueada... - -Passos subtis pisaram o tapete, a voz de Joanna perguntou-lhe junto do -rosto: - ---Est melhor, minha senhora? - -Abriu os olhos, a percepo nitida das cousas foi-lhe voltando; estava -estendida na _causeuse_, tinham-lhe desapertado o vestido, e havia no -quarto um forte cheiro de vinagre. Ergueu-se sobre o cotovlo, devagar, -com um olhar errante, vago: - ---E a outra?... - ---A snr.^a Juliana? Foi-se deitar. Tambem se no achava bem. Foi de vr -a senhora, coitada... Est melhorzinha? - -Sentou-se. Sentia uma fadiga em todo o corpo; tudo no quarto lhe -parecia oscillar brandamente: - ---Pde ir, Joanna, pde ir--disse. - ---A senhora no precisa mais nada? Talvez um caldinho lhe fizesse bem... - -Luiza, s, pz-se a olhar em roda, espantada. Estava j tudo arrumado, -as janellas cerradas. Uma luva ficra cahida no cho: ergueu-se, ainda -tropega, foi apanhal-a, esteve a esticar-lhe os dedos machinalmente, -como somnambula, pl-a na gaveta do toucador. Alisou o cabello; -achava-se mudada, com _outra_ expresso como se fosse _outra_; e o -silencio do quarto impressionava-a, como extraordinario. - ---Minha senhora--disse a voz timida de Joanna. - ---Que ? - --- o cocheiro. - -Luiza voltou-se, sem comprehender: - ---Que cocheiro? - ---Um cocheiro; diz que a senhora que no tinha troco, que o mandou -esperar... - ---Ah! - -E como a uma luz de gaz que salta subitamente e alumia uma decorao, -viu, n'um relance, toda a sua desgraa! - -Ficou to tremula que mal podia abrir a gavetinha da commoda: - ---Tinha-me esquecido, tinha-me esquecido...--balbuciava. - -Deu o dinheiro a Joanna; e vindo cahir sobre a _causeuse_: - ---Estou perdida!--murmurou, apertando as mos na cabea. - -Tudo descoberto! E representaram-se-lhe logo no espirito, com a -intensidade de desenhos negros sobre um muro branco, o furor de Jorge, -o espanto dos seus amigos, a indignao d'uns, o escarneo dos outros; -e estas imagens cahindo com ruido na sua alma, como combustiveis n'uma -fogueira, ateavam-lhe desesperadamente o terror. - -Que lhe restava?--Fugir com Bazilio! - -Aquella ida, a primeira, a unica, apossou-se d'ella impetuosamente, -trespassou-a--como a agua d'uma inundao que subitamente alaga um -campo. - -Elle tinha-lhe tantas vezes jurado que seriam to felizes em Paris, no -seu _appartamento_ da rua Saint Florentin! Pois bem, iria! No levaria -malas, poria no seu pequeno sacco de marroquim alguma roupa branca, as -joias da mam... E os criados? a casa? Deixaria uma carta a Sebastio -para que viesse, fechasse tudo!... Levaria na viagem o vestido de -riscadinho azul--ou o preto! Mais nada. O resto compral-o-hia longe, -n'outras cidades... - ---Se a senhora quer vir jantar...--disse Joanna porta do quarto. - -Tinha posto um avental branco, e acrescentou: - ---A snr.^a Juliana est deitada, diz que est com a dr, no pde -servir mesa. - ---J vou. - -Tomou apenas uma colhr de sopa, bebeu um grande gole d'agua; e -erguendo-se: - ---Que tem ella? - ---Diz que uma dr muito forte no corao. - -Se morresse! Estava salva, ella! Podia ficar, ento! E com uma -esperana perversa: - ---V vr, Joanna, v vr como est! - -Tinha ouvido de tantas pessoas que morrem de uma dr! Iria logo ao -quarto d'ella rebuscar-lhe a arca, apossar-se da carta! E no teria -medo do silencio da morte, nem da lividez do cadaver... - ---Est mais descanada, minha senhora--veio dizer a Joanna--diz que -logo que se levanta. Ento a senhora no come mais nada? Credo! - ---No. - -E entrou para o quarto, pensando:--de que serve estar a imaginar -cousas? S me resta fugir. - -Decidiu-se logo a escrever a Sebastio; mas no pde acertar com outras -palavras alm do comeo, no alto, n'uma letra muito trmula: _Meu -amigo!_ - -Para que havia de escrever? Quando ao outro dia ella no voltasse, nem - tarde, nem noite--as criadas, a _outra_, a infame! iriam logo a -Sebastio. Era o intimo da casa. Que espanto o d'elle! Imaginaria algum -accidente, correria Encarnao, depois policia, esperaria n'uma -angustia at de madrugada! Todo o dia seguinte seriam outras esperanas -de a vr chegar, decepes aterradas,--at que telegrapharia a Jorge! -E a essa hora de certo, ella, encolhida no canto do wagon, rolaria, ao -ruido offegante da machina, para um destino novo!... - -Mas porque se affligia, por fim? Quantas invejariam a sua desgraa! -O que havia de infeliz em abandonar a sua vida estreita entre quatro -paredes, passada a examinar roes de cozinha e a fazer _crochet_, e -partir com um homem novo e amado, ir para Paris! para Paris! viver nas -consolaes do luxo, em alcovas de sda, com um camarote na Opera!... -Era bem tola em se affligir! Quasi fra uma felicidade aquelle -desastre! Sem elle nunca teria tido a coragem de se desembaraar da -sua vida burgueza; mesmo quando um alto desejo a impellisse, haveria -sempre uma timidez maior para a reter! - -E depois, fugindo, o seu amor tornava-se digno! Seria s d'um homem; -no teria de amar em casa e amar fra de casa! - -Veio-lhe mesmo a ida de ir ter immediatamente com Bazilio, acabar com -aquillo por uma vez. Mas era tarde para ir ao hotel; temia as ruas -escuras, a noite, e os bebedos... - -Foi logo arranjar o sacco de marroquim. Metteu lenos, alguma roupa -branca, o estojo das unhas, o rosario que lhe dera Bazilio, ps -d'arroz, algumas joias que tinham pertencido mam... Quiz levar as -cartas de Bazilio tambem... Tinha-as guardadas n'um cofre de sandalo, -no gaveto do guarda-vestidos. Espalhou-as no regao; abriu uma, d'onde -cahiu uma florzinha scca; outra que tinha, na dobra, a photographia -de Bazilio. De repente, pareceu-lhe que no estavam completas! Tinha -_sete_: _cinco_ bilhetes curtos, e _duas_ cartas--a primeira que elle -lhe escrevra, to terna! e a ultima no dia do arrufo! Contou-as... -Faltava, com effeito, a _primeira_, e _dous_ bilhetes! Tinha-lh'as -roubado, tambem!... Ergueu-se livida. Ah que infame! veio-lhe uma raiva -de subir ao soto, luctar com ella, arrancar-lh'as, esganal-a!... -Que lhe importava, por fim!--E deixou-se cahir na _causeuse_, -aniquilada--Que ella tivesse uma, duas, todas--era a mesma desgraa! - -E muito excitada, foi preparar o vestido preto que devia levar, o -chapo, um chale-manta... - -O _cuco_ cantou dez horas. Entrou ento na alcova; pz o castial -sobre a mesinha, ficou a olhar o largo leito com o seu cortinado de -fusto branco. Era a ultima vez que alli dormia! Fra ella que bordra -aquella coberta de _crochet_ no primeiro anno de casada: no havia uma -malha que no correspondesse a uma alegria. Jorge s vezes vinha vl-a -trabalhar, e, calado, considerava-a com um sorriso, ou fallava-lhe -baixo enrolando devagar nos dedos o fio de algodo grosso! Alli dormira -com elle tres annos: o seu lugar era de l, do lado da parede... Fra -n'aquella cama que ella estivera doente, com a pneumonia. Durante -semanas elle no se deitra--a velal-a, a conchegar-lhe a roupa, a -dar-lhe os caldos, os remedios, com toda a sorte de palavras dces -que lhe faziam to bem!... Fallava-lhe como a criancinha pequena: -dizia-lhe: isso vai passar, manh ests boa, vamos passear. Mas o -seu olhar ancioso estava marejado de lagrimas! Ou ento pedia-lhe: -Melhora, sim? Faze-me a vontade, minha querida, melhora!... E ella -queria tanto melhorar, que sentia como uma ligeira onda de vida que -voltava, lhe refrescava o sangue! - -Nos primeiros dias da convalescena era elle que a vestia; ajoelhava-se -para lhe calar os sapatos, embrulhava-a no roupo, vinha estendel-a na -_causeuse_, sentava-se ao p d'ella a lr-lhe romances, desenhar-lhe -paizagens, recortar-lhe soldados de papel. E dependia toda d'elle, -no tinha mais ninguem no mundo para a tratar, para soffrer, chorar -por ella--seno elle! Adormecia sempre com as mos nas suas, porque -a doena deixra-lhe um vago medo dos pesadlos da febre; e o pobre -Jorge, para a no acordar, alli ficava com a mo presa, horas, sem se -mover. Deitava-se vestido n'um colxosito ao p d'ella. Muitas vezes, -acordando de noite, o tinha visto a limpar as lagrimas; d'alegria, de -certo, porque ella ento estava salva! o medico, o bom dr. Caminha, -tinha-o dito: Est livre de perigo, agora refazer esse corpinho. E -Jorge, o pobre Jorge, coitado, sem dizer nada, tinha tomado as mos do -velho,--tinha-as coberto de beijos! - -E agora, quando elle soubesse, quando elle voltasse! Quando ao entrar -alli na alcova--visse os dous travesseirinhos, ainda! Ella iria longe, -com outro, por caminhos estranhos, ouvindo outra lingua. Que horror! E -elle alli estaria, n'aquella casa s, chorando, abraado a Sebastio. -Quantas memorias d'ella para o torturar! Os seus vestidos, as suas -chinellinhas, os seus pentes, toda a casa! Que vida triste, a d'elle! -Dormiria alli _s_! J no teria ninguem para o acordar de manh com um -beijinho, passar-lhe o brao pelo pescoo, dizer-lhe: _ tarde, Jorge!_ -Tudo acabra para ambos. Nunca mais!--Rompeu a chorar, de bruos sobre -a cama... - -Mas a voz de Juliana fallou alto no corredor com Joanna. Ergueu-se -aterrada. Viria ter com ella, aquella infame? Os passos achinellados -afastaram-se devagar, e Joanna entrou com o rol e com a lamparina. - ---A snr.^a Juliana--disse--levantou-se um momento, mas diz que ainda -est mal, coitada. Foi-se deitar. A senhora no precisa mais nada? - ---No--disse da alcova. - -Despiu-se; e, prostrada, adormeceu profundamente. - - -Juliana em cima no dormia. A dr passra-lhe--e agitava-se sobre o -enxergo, com o diabo da espertina! como tantas outras noites, nas -ultimas semanas. Porque desde que apanhra a carta no _sarcophago_ -vivia n'uma febre; mas a alegria era to aguda, a esperana to larga -que a sustentavam, lhe davam saude! Deus emfim tinha-se lembrado -d'ella! Desde que Bazilio comera a vir a casa, tivera logo um -palpite, uma cousa que lhe dizia que tinha chegado emfim a sua vez! -A primeira satisfao fra n'aquella noite em que achra, depois -de Bazilio sahir s dez horas, a travssinha de Luiza cahida ao p -do soph. Mas que exploso de felicidade, quando, depois de tanta -espionagem, de tanta canceira, apanhou emfim a carta no _sarcophago_! -Correu ao soto, leu-a avidamente, e quando viu a importancia da -cousa arrasaram-se-lhe os olhos de lagrimas, arremessou a sua alma -perversa para as alturas, bradando em si, n'um triumpho: - ---Bemdito seja Deus! Bemdito seja Deus! - -E que havia de fazer _quillo_?--foi ento a sua inquietao. Ora -pensava em a vender a Luiza por uma forte somma... mas onde tinha ella -o dinheiro? No; o melhor era esperar a volta de Jorge, e com ameaas -de a publicar, extorquir-lhe _um rr_ de libras por meio d'outra -pessoa, j se v, e ella capa! E em certos dias em que a figura, as -_toilettes_, as passeatas de Luiza a irritavam mais, vinham-lhe venetas -de sahir p'ra a rua, chamar os visinhos, lr o papel, pl-a mais rasa -que a lama, vingar-se da cabra! - -Foi a tia Victoria que a calmou, e a dirigiu. Disse-lhe logo que para -a armadilha ser completa era necessario uma carta do janota. Comera -ento o lento trabalho de lh'a apanhar! Fra preciso muita finura, -muita chave experimentada, duas feitas por moldes de cra, paciencia -de gato, habilidades de ratoneiro! Mas pilhou-a, e que carta! Tinha-a -lido com a tia Victoria--que rira, rira!... Sobre tudo o bilhete em -que Bazilio lhe dizia: Hoje no posso ir, mas espero-te manh s -duas; mando-te essa rosinha, e peo-te que faas o que fizeste outra, -trazel-a no seio, porque to bom quando vens assim, sentir-te o -peitinho perfumado!... A tia Victoria, suffocada, quil-a mostrar sua -velha amiga, a Pdra, a Pdra gorda, que estava na saleta. - -A Pdra torceu-se! Os seus enormes seios, pendentes como odres mal -cheios, tinham sacudidellas furiosas de hilaridade. E com as mos nas -ilhargas, rubra, roncando, com o seu vozeiro de trombone: - ---Essa das boas, tia Victoria! Essa de mestre. No, isso merece ir -para os papeis! Ai os bebedos! Raios do diabo! - -A tia Victoria, ento, disse muito seriamente a Juliana: - ---Bem; agora tens a faca e o queijo! Com isso j pdes fallar d'alto. - esperar a occasio. Muito bons modos, cara prazenteira, sorrisos a -fartar para ella no desconfiar, e o olho lerta. Tens o rato seguro, -deixa-o dar ao rabo! - -E desde esse dia Juliana saboreava com delicias, com gula, muito -comsigo--aquelle gozo de a ter na mo, a Luizinha, a senhora, a -patroa, a _piorrinha_! Via-a aperaltar-se, ir ao homem, cantarolar, -comer bem--e pensava com uma voluptuosidade felina: Anda, folga, folga, -que eu c t'a tenho armada! Aquillo dava-lhe um orgulho perverso. -Sentia-se vagamente _senhora da casa_. Tinha alli fechada na mo a -felicidade, o bom nome, a honra, a paz dos patres! Que desforra! - -E o futuro estava certo! _Aquillo_ era dinheiro, o po da velhice. Ah! -tinha-lhe chegado o seu dia! Todos os dias rezava uma _Salv-rainha_ de -graas a Nossa Senhora, mi dos homens! - -Mas agora, depois d'aquella _scena_ com Luiza--no podia ficar de -braos cruzados, com as cartas na algibeira. Devia sahir de casa, -pr-se em campo, fazer _alguma cousa_. O que? A tia Victoria que -havia de dizer... - -Logo pela manh s sete horas, sem tomar o seu caf, sem fallar a -Joanna, desceu devagar, sahiu. - -A tia Victoria no estava em casa. Gente na saleta esperava. O snr. -Gouva, com a borla do barretinho muito arrebitada, escrevinhava, -dobrado, cuspilhando o seu catarrho. Juliana deu os _bons dias_ em -redor, e sentou-se a um canto, direita, com a sua sombrinha nos joelhos. - -Conversava-se: e uma mulher de trinta annos, picada das bexigas, que -estava sentada no canap, depois de ter dado um sorriso a Juliana, -continuou, voltada para uma gordita com um chale de quadrados vermelhos: - ---Pois no imagina, snr.^a Anna, no faz ida! uma desgraa! todas -as noites como um carro. s vezes at acordo com o barulho que elle faz -a fallar s, a tropear na escada... Eu, do que tenho mais medo, que -o demonio adormea com a luz e haja um fogo. Ah! de todo! - ---Quem?--perguntou um rapazola bonito, com uma blusa de trintanario, -que fallava de p a um criado alto, de suias e gravata branca -enxovalhada. - ---O Cunha, o filho do meu patro. uma desgraa! - ---Piteireiro, hein?--disse o rapazola, enrolando o cigarro. - ---Um horror! Eu pela manh nem posso entrar no quarto, que um -cheiro... A mi, coitadinha, chora, rala-se; o rapaz j esteve para ser -posto fra do emprego. Ai! no estou nada contente, nada contente! - ---Pois olhe que por l tambem ha desgosto grande--disse, baixando a -voz, a do chale de quadrados. - -Os dous homens aproximaram-se. - ---O senhor--continuou ella com gestos aterrados-- um desafro com a -cunhada!... A senhora sabe, e aquillo so questes de dia e de noite! -As duas irms andam n'uma bulha pegada. O homem toma as dres da -rapariga, a mulher pe-se aos gritos... Ai! aquillo vem a acabar mal! - ---E ento se a gente tem l o seu descuido--disse o da gravata branca -com indignao-- aqui d'el-rei, e d'aqui e d'alli! - ---L a sua gente socegada, snr. Joo--observou a picada das bexigas. - --- boa gente. As raparigas namoradeiras... Proveito das criadas, -apanham o seu vestidito, a sua placa... Mas os velhotes uma santa -gente, a verdade a verdade! E come-se bem! - -E voltando-se para o trintanario, batendo-lhe no hombro, com uma voz -que o admirava e que o invejava: - ---Mas isto sim! Isto que leval-a! - -O rapazola sorriu com satisfao: - ---Ora! so mais as vozes do que as nozes! - ---V l, mostra l--disse o da gravata branca tocando-lhe com o -cotovlo--mostra l! - -O rapaz fez-se rogado, e depois de gingar da cintura, arregaando a -blusa, tirou do bolso do collete de riscadinho um relogio d'ouro. - ---Muito bonito! Rica prenda!--disseram as duas mulheres. - ---Suor do meu rosto--fez elle, acariciando o queixo. - -O da gravata branca indignou-se: - ---Ora seu marto!--E baixo para as raparigas:--Suor do seu rosto, -hein!-- o seraphim da patra, uma senhora da alta que aquillo so tudo -sdas, muitissimo boa mulher, um bocado entradota, mas muitissimo boa -mulher, recebe d'estas lembranas, um relogio d'um par de moedas--e -ainda falla! - -O rapazola disse ento, enterrando as mos na algibeira: - ---E se quizer agora, ha-de largar a corrente! - ---Ha-de-lhe custar muito!--exclamou o da gravata branca.--Uma gente que -tem ahi pela baixa correntezas de casas! Metade da rua dos Retrozeiros - d'ella! - ---Mas muito agarrada!--disse o rapazola. E bamboleando o corpo, com o -cigarro ao canto da bocca:--Estou com ella ha dous mezes, e ainda se -no desabotoou seno com o relogio e tres libras em ouro!... Que eu, -como quem diz, um dia passo-lhe o p!--E cofiando o cabello para a -testa:--No faltam mulheres! e das que tem _Dom_! - -Mas a tia Victoria entrou, muito azafamada, com o chale no brao; e -vendo Juliana: - ---Ol! por c! Tive que dar umas voltas, estou na rua desde as seis. -Bons dias, snr.^a Theodosia; bons dias, Anna. Viva, temos por c o -alfenim! Entra c p'ra dentro, Juliana! Eu j venho, meus pombinhos, -um instante! - -Levou-a para o outro quarto, para o lado do saguo: - ---E ento, que ha de novo? - -Juliana pz-se a contar longamente a _scena_ da vespera, o desmaio... - ---Pois minha rica--disse a tia Victoria--o que est feito, est feito; -no ha tempo a perder; mos obra! Tu vaes ao Brito, ao htel, e -entendes-te com elle. - -Juliana recusou-se logo: no se atrevia, tinha medo... - -A tia Victoria reflectiu, coando o ouvido; foi dentro, cochichou com o -tio Gouva, e voltando, fechando a porta do quarto: - ---Arranja-se quem v. Tens tu as cartas? - -Juliana tirou da algibeira uma velha carteirinha de marroquim -escarlate. Mas hesitou um momento, olhou a tia Victoria com -desconfiana. - ---Tens medo de largar os papeis, creatura?--exclamou offendida a -velha.--Arranja-te tu, ento arranja-te tu... - -Juliana deu-lh'as logo. Mas que as guardasse, que tivesse cautela!... - ---A pessoa--disse a tia Victoria--vai manh noite fallar com o -Brito, e pede-lhe um conto de reis! - -Juliana teve um deslumbramento. Um conto de reis! A tia Victoria estava -a brincar! - ---Ora essa! Que pensas tu? Por uma carta, que quasi no tinha mal -nenhum, pagou uma pessoa que bate ahi o Chiado de carruagem--ainda -hontem a vi com uma pequerrucha que tem--pagou trezentos mil reis. E em -bellas notas. Pagou-os o janota, j se sabe, foi o janota que pagou. Se -fosse outro, no digo, mas o Brito! rico, um man-rtas, cahe logo... - -Juliana, muito branca, agarrou-lhe o brao, tremula: - ---Oh tia Victoria, dava-lhe um crte de sda. - ---Azul! at j te digo a cr! - ---Mas o Brito homem muito teso, tia Victoria, se lhe tira as cartas, -se lhe faz alguma! - -A tia Victoria fitou-a, com desdem: - ---Sahes-me uma simploria! Imaginas que eu mando l algum tolo? Nem as -cartas vo, o que vai uma copia! Olha quem! O melro que l ha-de ir! - -E depois de reflectir um momento: - ---Tu vai-te para casa... - ---No, l isso no volto... - ---Tambem tens razo. At vr em que param as modas, vem c dormir. -Jantas c hoje; tenho uma rica pescada... - ---Mas no haver perigo, tia Victoria, se o Brito vai policia... - -A tia Victoria encolheu os hombros, e impacientada: - ---Olha, vai-te, que me ests a emphrenesiar! Policia! Qual policia! -Essas cousas levam-se l policia... Deixa a cousa commigo! Adeus--e -s quatro para jantar, hein! - -Juliana sahiu como levada pelo ar! Um conto de reis! _Era o conto de -reis_ que voltava, o que j um dia entrevira, que lhe fugira, que lhe -vinha agora cahir na mo, com um tlin-tlin de libras e um _frou-frou_ -de notas! E o cerebro enchia-se-lhe confusamente de perspectivas -differentes, todas maravilhosas: um mostrador de capellista onda ella -venderia! um marido ao seu lado, s horas da ca! pares de botinas das -boas, das _chics_. Onde poria o dinheiro? No Banco? No; no fundo da -arca--para estar mais seguro, mais mo! - -Para passar a sua manh, comprou uma quarta de rebuados, e foi-se -sentar no Passeio, com a sombrinha aberta, deliciando-se, ruminando -j a sua vida rica, julgando-se j senhora; mesmo fez olho a um -proprietario pacifico e rubicundo--que se afastou escandalisado! - -quella hora Luiza acordava. E sentando-se bruscamente na cama:-- -hoje!--foi o seu primeiro pensamento. Um susto, uma tristeza horrivel -contrahiram-lhe o corao. Comeou depois a vestir-se, muito nervosa -com a ida de vr Juliana! Estava mesmo imaginando fechar-se, no -almoar, sahir p ante p s onze horas, ir procurar Bazilio ao hotel, -quando a voz de Joanna disse porta do quarto: - ---A senhora faz favor? - -Comeou logo a contar, muito espantada, que a snr.^a Juliana tinha -sahido de manh, ainda no voltra, estava tudo por arrumar... - ---Bem, arranje-me o almoo, eu j vou...--Que allivio para ella! - -Calculou logo que Juliana deixra a casa. Para que? Para lhe armar -alguma, de certo! O melhor era sahir immediatamente... Podia esperar -Bazilio no _Paraiso_. - -Foi sala de jantar, bebeu um gole de ch, de p, pressa. - ---A snr.^a Juliana ter-lhe-ha dado alguma cousa?--veio dizer Joanna -assombrada. - -Luiza encolheu os hombros, respondeu vagamente: - ---Depois se saber... - -Era hora e meia, foi pr o chapo. O corao batia-lhe alto, e -apesar do terror de vr entrar Juliana, no se decidia a sahir; -sentou-se mesmo, com o sacco de marroquim nos joelhos. Vamos! pensou -emfim.--Ergueu-se; mas parecia que alguma cousa de subtil e de forte -a prendia, a enleava... Entrou na alcova devagar: o seu roupo -estava cahido aos ps da cama, as suas chinellinhas sobre o tapete -felpudo...--Que desgraa! disse alto. Veio ao toucador, mexeu nos -pentes, abriu as gavetas; de repente entrou na sala, foi ao album, -tirou a photographia de Jorge, metteu-a toda tremula no sacco de -marroquim, olhou ainda em roda como desvairada, sahiu, atirou com a -porta, desceu a escada correndo. - - Patriarchal passava um _coup de praa_. Tomou-o, mandou-o ir ao -_Hotel Central_. - -O snr. Brito sahira logo de manh cedo, disse o porteiro muito -azafamado. De certo algum paquete chegra, porque entravam bagagens, -fortes malas cobertas d'oleado, caixas de madeira debruadas de ferro; -passageiros com ar espantado da chegada, ainda entontecidos do balouo -do mar, fallavam, chamavam. Aquelle movimento animou-a: veio-lhe um -desejo de viagens, do ruido nocturno das _gares_ claridade do gaz, da -agitao alegre das partidas nas manhs frescas, sobre o tombadilho dos -paquetes! - -Deu ao cocheiro a adresse do _Paraiso_. E maneira que o trem -trotava parecia-lhe que toda a sua vida passada, Juliana, a casa, -se esbatiam, se dissipavam n'um horisonte abandonado. porta d'um -livreiro julgou entrevr Julio; debruou-se pela portinhola, -precipitadamente; no o avistou, teve pena: ia-se sem vr um amigo da -casa! Todos agora, Julio, Ernestinho, o Conselheiro, D. Felicidade lhe -pareciam adoraveis, com qualidades nobres, que nunca percebera, que -repentinamente tomavam um grande encanto. E o pobre Sebastio, to bom! -Nunca mais lhe ouviria tocar a sua _Malaguenha_! - -Ao fim da rua do Ouro o _coup_ parou n'um embarao de carroas, -e Luiza viu no passeio ao lado o Castro, o Castro dos oculos, o -banqueiro, o que Leopoldina lhe dizia que tinha uma paixo por ella: -um rapazito rto offerecia-lhe cautelas; e o Castro nedio, com os dous -pollegares nas algibeiras do collete branco, dizia graas ao rapaz, com -um desdem ricao, dardejando olhadellas sobre Luiza, atravs dos seus -oculos d'ouro. Ella, pelo canto do olho, observava-o: tinha uma paixo -por ella, aquelle homem, que horror! Achava-o medonho, com o seu ventre -panudo, a perninha curta. A lembrana de Bazilio atravessou-a, a sua -linda figura!...--e bateu nos vidros impaciente, com pressa de o vr. - -O trem partiu emfim. O Rocio reluzia ao sol; do Americano, parado -esquina, gente descia apressada, de calas brancas, vestidos leves, -vinda de Belem, de Pedrouos; preges cantavam.--Todos alli ficavam nas -suas familias, nas suas felicidades, s ella partia! - -Na rua Occidental, viu vir a D. Camilla--uma senhora casada com um -velho, illustre pelos seus amantes. Parecia gravida; e adiantava-se -devagar, com a face branca satisfeita, uma lassitude do corpo -arredondado, passeando um marmanjosinho de jaqueta cr de pinho, -uma pequerrucha de sainhas tufadas, e adiante uma ama, vestida de -lavradeira, empurrava um carrinho de mo onde um bb se babava. E -a Camilla, feliz, vinha tranquillamente pela rua expondo as suas -fecundidades adulteras! Era muito festejada, ninguem dizia mal d'ella; -era rica, dava _soires_...--O que o mundo!--pensava Luiza. - -O trem parou porta do _Paraiso_, era meio dia. A portinha em cima -estava fechada: e a patra appareceu logo, ciciando que sentia -muitissimo, mas s o senhor que tinha a chavesinha, se a senhora -quizesse descanar... N'este momento outra carruagem chegou, e Bazilio -appareceu galgando os degraus. - ---At que emfim!--exclamou abrindo a porta.--Porque no vieste -hontem?... - ---Ah! se tu soubesses... - -E, agarrando-lhe os braos, cravando os olhos n'elle: - ---Bazilio, sabes, estou perdida! - ---Que ha? - -Luiza atirra o sacco de marroquim para o canap, e, d'um folego, -contou-lhe a historia da carta apanhada nos papeis, as d'elle roubadas, -a _scena_ no quarto...--O que me resta fugir. Aqui estou. Leva-me. Tu -disseste que podias, tens-l'o dito muitas vezes. Estou prompta. Trouxe -aquelle sacco, com o necessario, lenos, luvas... hein? - -Bazilio com as mos nos bolsos, fazendo tilintar o dinheiro e as -chaves, seguia attonito os seus gestos, as suas palavras. - ---Isso s a ti!--exclamou.--Que douda! Que mulher!--E muito -excitado:--Isso l questo de fugir? Que ests tu a fallar em fugir? - uma questo de dinheiro. O que ella quer dinheiro. vr quanto -quer, e pagar-se-lhe! - ---No, no!--fez Luiza--No posso ficar!--Tinha uma afflico na voz. -A mulher venderia a carta, mas conservava o segredo: a todo o tempo -podia fallar, Jorge saber: estava perdida, no tinha coragem de voltar -para casa!--No sinto um momento de descano, em quanto estiver em -Lisboa. Partimos hoje, sim? Se no pdes, manh. Eu vou para algum -hotel, aonde ninguem saiba, escondo-me esta noite. Mas, manh vamos. -Se elle sabe, mata-me, Bazilio! Sim, dize que sim!--Agarrra-se a elle, -procurava avidamente com os seus olhos o consentimento dos d'elle. - -Bazilio desprendeu-se brandamente: - ---Ests douda, Luiza, tu no ests em ti! Pde l pensar-se em fugir! -Era um escandalo atroz, eramos apanhados de certo, com a policia, com -os telegraphos! impossivel! Fugir bom nos romances! E depois, minha -filha, no um caso para isso! uma simples questo de dinheiro... - -Luiza fazia-se branca, ouvindo-o. - ---E alm d'isso--continuou Bazilio, muito agitado, pelo quarto--eu -no estou preparado, nem tu! No se foge assim. Ficas desacreditada -para toda a vida, sem remedio, Luiza. Uma mulher que foge, deixa de -ser a snr.^a D. Fulana, a Fulana, a que fugiu, a desavergonhada, uma -concubina! Eu tenho de certo de ir ao Brazil, onde has-de tu ficar? -Queres ir tambem, um mez n'um beliche, arriscar-te febre amarella? -E se teu marido nos persegue se formos detidos na fronteira? Achas -bonito voltar entre dous policias, e ir passar um anno ao Limoeiro? O -teu caso simplicissimo. Entendes-te com essa creatura, d-se-lhe um -par de libras, que o que ella quer, e ficas em tua casa, socegada, -respeitada como d'antes--smente mais acautelada! Aqui est! - -Aquellas palavras cahiam sobre os planos de Luiza, como machadadas que -derrubam arvores. s vezes a verdade que ellas continham atravessava-a -irresistivelmente, viva como um relampago, desagradavel como um gume -frio. Mas via n'aquella recusa uma ingratido, um abandono. Depois -de se ter installado, pela imaginao, n'uma segurana feliz, longe, -em Paris--parecia-lhe intoleravel ter de voltar para casa, de cabea -baixa, soffrer Juliana, esperar a morte; e os contentamentos que -entrevira n'aquelle outro destino, agora que lhe fugiam d'entre as -mos, pareciam-lhe maravilhosos, quasi indispensaveis! E depois de que -servia resgatar a carta a dinheiro? A creatura saberia o seu segredo! -E a vida seria amarga, tendo sempre em volta de si aquelle perigo a -rondar! - -Ficra calada, como perdida n'uma reflexo vaga; e de repente erguendo -a cabea, com um olhar brilhante: - ---Ento, dize!... - ---Mas estou-te a dizer, filha... - ---No queres? - ---No!--exclamou Bazilio com fora.--Se tu ests douda, no estou eu! - ---Oh! pobre de mim, pobre de mim! - -Deixou-se cahir no soph, tapou o rosto com as mos. Soluos baixos -sacudiam-lhe o peito. - -Bazilio sentou-se ao p d'ella. Aquellas lagrimas mortificavam-no, e -impacientavam-no. - ---Mas, santo nome de Deus, escuta-me! - -Ella voltou para elle os olhos que reluziam sob o pranto: - ---Para que dizias ento, tantas vezes, que seriamos to felizes, que se -eu quizesse... - -Bazilio ergueu-se bruscamente: - ---Pois tu pensaste em fugir, em te metter commigo n'um wagon, vir para -Paris, viver commigo, ser a minha amante? - ---Sahi de casa p'ra sempre, ahi est o que eu fiz! - ---Mas vaes voltar p'ra casa!--exclamou elle, quasi com colera.--Por que -havias de tu fugir? por amor? ento deviamos ter partido ha um mez, no -ha razo agora para irmos. Para que, ento? Para evitar um escandalo? -com um escandalo maior, no verdade? um escandalo irreparavel, -medonho! Estou-te a fallar como um amigo, Luiza!--Tomou-lhe as mos, -com muita ternura:--Tu imaginas que eu no seria feliz em ir viver -comtigo para Paris? Mas vejo os resultados, tenho outra experiencia. O -escandalo todo evita-se com umas poucas de libras. Tu imaginas que a -mulher vai-se pr a fallar? O seu interesse safar-se, desapparecer; -sabe perfeitamente o que fez, que te roubou, que usou de chaves falsas. -A questo pagar-lhe. - -Ella disse, com uma voz lenta: - ---E o dinheiro, onde o tenho eu? - ---Est claro que o dinheiro tenho-o eu!--E depois de uma pausa:--No -muito, estou mesmo um pouco atrapalhado, mas emfim...--Hesitou, -disse:--se a creatura quizer duzentos mil reis, do-se-lhe! - ---E se no quizer? - ---Que ha-de ella querer, ento? Se roubou a carta para a vender! No - para guardar um autographo teu! - -Vinham-lhe palavras duras, passeava pelo quarto exasperado. Que -pretenso querer vir com elle para Paris, embaraar-lhe para sempre -a sua vida! E que despeza to tola, dar um 'rr de libras a uma -ladra! Depois aquelle incidente, a carta de namoro roubada nos papeis -sujos, a criada, a chave falsa do gaveto dos vestidos--parecia-lhe -soberanamente burguez, um pouco pulha. E parando, para acabar: - ---Emfim oferece-lhe trezentos mil reis, se quizeres. Mas pelo amor -de Deus, no faas outra; no estou para pagar as tuas distraces a -trezentos mil reis cada uma! - -Luiza fez-se livida, como se elle lhe tivesse cuspido no rosto. - ---Se uma questo de dinheiro, eu o pagarei, Bazilio! - -No sabia como. Que lhe importava! Pediria, trabalharia, empenharia... -No o aceitaria d'elle! - -Bazilio encolheu os hombros: - ---Ests-te a dar ares, onde o tens tu? - ---Que te importa?--exclamou. - -Bazilio coou a cabea, desesperado. E tomando-lhe as mos, com uma -impaciencia reprimida: - ---Estamos a dizer tolices, filha, estamos a irritar-nos... Tu no tens -dinheiro. - -Ella interrompeu-o, agarrou-lhe violentamente o brao: - ---Pois sim, mas falla tu a essa mulher, falla-lhe tu, arranja tudo. Eu -no a quero tornar a vr. Se a vejo, morro, acredita. Falla-lhe tu! - -Bazilio recuou vivamente, e batendo com o p: - ---Ests douda, mulher! Se eu lhe fallo, ento pede tudo, ento pede-me -a pelle! Isso comtigo. Eu dou-te o dinheiro, tu arranja-te! - ---Nem isso me fazes? - -Bazilio no se conteve: - ---No! c'os diabos, no! - ---Adeus! - ---Tu ests fra de ti, Luiza! - ---No. A culpa minha--dizia, descendo o vo com as mos tremulas--eu - que devo arranjar tudo! - -E abriu a porta. Bazilio correu a ella, prendeu-a por um brao. - ---Luiza, Luiza! o que queres tu fazer? no podemos romper assim! -Escuta... - ---Fujamos ento, salva-me de todo!--gritou ella, abraando-o -anciosamente. - ---Caramba! Se te estou a dizer que no possivel! - -Ella atirou com a porta, desceu as escadas correndo. O coup esperava-a. - ---Para o Rocio--disse. - -E deitando-se para o canto da carruagem, rompeu a chorar -convulsivamente. - - -Bazilio sahiu do _Paraiso_ muito agitado. As pretenses de Luiza, os -seus terrores burgueses, a trivialidade reles do caso, irritavam-no -tanto, que tinha quasi vontade de no voltar ao _Paraiso_, calar-se, e -_deixar correr o marfim_! Mas tinha pena d'ella, coitada! E depois, sem -a amar appetecia-a: era to bem feita, to amorosa, as revelaes do -vicio davam-lhe um delirio to adoravel! Um conchegosinho to picante -em quanto estivesse em Lisboa... Maldita complicao! Ao entrar no -hotel, disse ao seu criado: - ---Quando vier o snr. visconde Reynaldo, que v ao meu quarto. - -Estava alojado no segundo andar, com janellas para o rio. Bebeu um -calix de cognac, e estirou-se no soph. Ao p, na jardineira, tinha o -seu _buvard_ com um largo monogramma em prata sob a cora de conde, -caixas de charutos, os seus livros--_Mademoiselle Giraud ma femme_, -_La vierge de Mabille_, _Ces Frippones! Memoires secrtes d'une femme -de chambre_, _Le chien d'arrt_, _Manuel du chasseur_, numeros do -_Figaro_, a photographia de Luiza, e a photographia d'um cavallo. - -E soprando o fumo do charuto, comeou a considerar, com horror, a -situao! No lhe faltava mais nada seno partir para Paris, com -aquelle trambolhosinho! Trazer uma pessoa, havia sete annos, a sua -vida to arranjadinha, e patatrs! embrulhar tudo, porque menina -lhe apanharam a carta de namoro e tem medo do esposo! Ora o descaro! -No fim, toda aquella aventura desde o comeo fra um erro! Tinha sido -uma ida de burguez inflammado ir desinquietar a prima da Patriarchal. -Viera a Lisboa para os seus negocios, era tratal-os, aturar o calor -e o _b[oe]uf la mode_ do Hotel Central, tomar o paquete, e mandar -a patria ao inferno!... Mas no idiota! Os seus negocios tinham-se -concluido,--e elle, burro, ficra alli a torrar em Lisboa, a gastar uma -fortuna em tipoias para o largo de Santa Barbara, para qu? Para uma -d'aquellas! Antes ter trazido a Alphonsine! - -Que, verdade, verdade, em quanto estivesse em Lisboa o romance era -agradavel, muito excitante; porque era muito completo! Havia o -adulteriosinho, o incestosinho. Mas aquelle episodio agora estragava -tudo! No, realmente, o mais razoavel era safar-se! - -A sua fortuna tinha sido feita com negocio de borracha, no alto -Paraguay; a grandeza da especulao trouxera a formao d'uma -companhia, com capitaes brazileiros; mas Bazilio e alguns engenheiros -francezes queriam resgatar as aces brazileiras, que eram um -_empecilho_, formar em Paris uma outra companhia, e dar ao negocio -um movimento mais ousado. Bazilio partira para Lisboa entender-se com -alguns brazileiros, e comprra as aces habilmente. A prolongao -d'aquelle incidente amoroso tornava-se uma perturbao na sua vida -pratica... E, agora que a aventura tomava um aspecto seccante, convinha -passar o p! - -A porta abriu-se e o visconde Reynaldo entrou--afogueado, de lunetas -azues, furioso. - -Vinha de Bemfica! Morto, absolutamente morto com aquelle calor, d'um -paiz de negros. Tivera a estupida ida de ir visitar uma tia--que o -fizera logo membro d'uma associao para no sei que diabo de que -creche, e que lhe prgra moral! Tambem que ida de collegial--ir -visitar a tia! Porque realmente, se havia uma cousa que lhe causasse -repugnancia, eram as ternuras de familia! - ---E tu, que queres tu? Eu vou-me metter n'um banho at ao jantar! - ---Sabes o que me succede?--disse Bazilio, erguendo-se. - ---O qu? - ---Imagina. O caso mais estupido. - ---O marido apanhou-te? - ---No, a criada! - ---_Shocking!_--exclamou Reynaldo com njo. - -Bazilio contou miudamente o caso. E cruzando os braos diante d'elle: - ---E agora? - ---Agora safar-te! - -E levantou-se. - ---Onde vaes tu? - ---Vou ao banho. - -Que esperasse, que diabo, queria fallar com elle... - ---No posso!--exclamou Reynaldo com um egoismo phrenetico.--Vem tu c -abaixo! Posso perfeitamente conversar na agua! - -Sahiu, berrando por William, o seu criado inglez. - -Quando Bazilio desceu aos banhos, Reynaldo estirado com voluptuosidade -na tina, d'onde sahia um forte cheiro d'agua de Lubin, exclamou, -deleitando-se no seu conforto: - ---Ento cartinha apanhada nos papeis sujos! - ---No, Reynaldo, mas francamente estou embaraado; que achas tu que eu -faa? - ---As malas, menino! - -E sentado na tina, ensaboando devagar o seu corpo magro: - ---Ahi est o que fazer amor s primas da Patriarchal Queimada! - ---Oh!--fez Bazilio, impaciente. - ---Oh qu?--E, coberto de flocos d'espuma, com as mos apoiadas ao -rebordo de marmore da tina:--Pois tu achas isso decente, uma mulher -que toma a cozinheira por confidente, que lhe est na mo, que perde a -carta nos papeis sujos, que chora, que pede duzentos mil reis, que se -quer safar--isso l amante, isso l nada! Uma mulher que, como tu -mesmo disseste, usa meias de tear! - ---Meu rico, uma mulher deliciosa! - -O outro encolheu os hombros, descrente. - -Bazilio deu logo provas: descreveu bellezas do corpo de Luiza; citou -episodios lascivos. - -O tecto e os tabiques envernizados de branco reflectiam a luz, com tons -macios de leite; a exhalao da agua tepida augmentava o calor morno; e -um cheiro fresco de sabo e agua de Lubin adoava o ar. - ---Bem! ests pelo beio--resumiu Reynaldo com tedio, estirando-se. - -Bazilio teve um movimento d'hombros, que repellia aquella supposio -grotesca. - ---Mas dize, ento, queres ficar-lhe agarrado s saias ou queres -desembaraar-te d'ella? Mas a verdade, venha a verdade! - ---Eu--disse logo Bazilio, chegando-se tina, baixo--se me podesse -desembaraar decentemente... - ---Oh desgraado! tens uma occasio divina! Ella sahiu como uma bicha, -dizes tu. Bem; escreve-lhe uma carta, que vendo que ella deseja -romper, no a queres importunar, e partes. Os teus negocios esto -concluidos, no verdade? Escusas de negar, o Lapierre disse-me que -sim. Bem, ento s decente: manda fazer as malas, e livra-te da sarna! - -E tomando a esponja, deixava cahir grandes golpes d'agua pela cabea, -pelos hombros, soprando, regalado na frescura aromatica. - ---Mas tambem--disse Bazilio--deixal-a agora n'aquella atrapalhao com -a criada! No fim minha prima... - -Reynaldo agitou os braos, com hilaridade. - ---Esse espirito de familia optimo! Vai l, idiota, dize-lhe que s -obrigado a partir, os teus negocios, etc., e mette-lhe umas poucas de -notas na mo. - --- brutal... - --- caro! - -Bazilio disse ento: - ---Olha que tambem uma dos diabos, a pobre rapariga apanhada pela -criada... - -Reynaldo estirou-se mais, e disse com jubilo: - ---Esto a estas horas a esgadanharem-se uma outra! - -Recostou-se, n'uma beatitude: quiz saber as horas; declarou que estava -confortavel, que se sentia feliz! Com tanto que o John se no tivesse -esquecido de _frapper_ o champagne! - -Bazilio torcia o bigode, calado. Revia a sala de Luiza de reps verde, -a figura horrivel de Juliana com a sua enorme cuia... Estariam com -effeito a ralhar, a descompr-se? Que _pulhice_ que era tudo aquillo! -Positivamente devia partir. - ---Mas que pretexto lhe hei-de eu dar para sahir de Lisboa? - ---Um telegramma! No ha nada como um telegramma! Telegrapha j ao teu -homem em Paris, ao Labachardie, ou Labachardette, ou o que , que te -mande logo este despacho: Parta, negocios maus, etc. o melhor! - ---Vou fazel-o--disse Bazilio erguendo-se, muito decidido. - ---E partimos manh?--gritou Reynaldo. - ---manh. - ---Por Madrid? - ---Por Madrid. - ---_Salero!_--Pz-se de p, na tina, enthusiasmado, a escorrer, e -com movimentos aduncos de magricella saltou para fra, embrulhou-se -no roupo turco. O seu criado William entrou logo, subtilmente, -ajoelhou-se, tomou-lhe um p entre as mos, seccou-lh'o com precaues, -pz-se respeitosamente a calar-lhe a meia de sda preta com -ferradurinhas bordadas. - - -Na manh seguinte, um pouco antes do meio dia, Joanna veio bater -discretamente porta do quarto de Luiza, e com a voz baixa--desde o -desmaio fallava-lhe sempre baixo, como a uma convalescente: - ---Est alli o primo da senhora. - -Luiza ficou surprehendida. Estava ainda de _robe de chambre_, e tinha -os olhos vermelhos de chorar; pz n'um instante um pouco de p d'arroz, -alisou o cabello, entrou na sala. - -Bazilio, vestido de claro, sentra-se melancolicamente no mcho do -piano. Trazia um ar grave, e, sem transio, comeou a dizer:--que -apesar d'ella se ter zangado na vespera, elle considerava ainda tudo -como d'antes. Viera porque n'aquelle momento no se podiam separar -sem algumas explicaes, sobretudo sem resolver definitivamente o caso -da carta... E com um gesto triste, como contendo lagrimas: - ---Porque eu vejo-me forado a sahir de Lisboa, minha querida! - -Luiza, sem olhar para elle, fez um sorriso mudo, muito desdenhoso. -Bazilio acrescentou logo: - ---Por pouco tempo, naturalmente, tres semanas ou um mez... Mas enfim -tenho de partir... Se fossem s os meus interesses!--Encolheu os -hombros com desdem.--Mas so interesses d'outros... E aqui est o que -eu recebi esta manh. - -Estendeu-lhe um telegramma. Ella conservou-o um momento, sem o abrir; a -sua mo fazia tremer o papel. - ---L, peo-te que leias! - ---Para que?--fez ella. - -Mas leu baixo: Venha, graves complicaes. Presena absolutamente -necessaria. Parta j. - -Dobrou o papel, entregou-lh'o. - ---E partes, hein? - --- foroso. - ---Quando? - ---Esta noite. - -Luiza ergueu-se bruscamente, e estendendo-lhe a mo: - ---Bem, adeus. - -Bazilio murmurou: - ---s cruel, Luiza!... No importa! Em todo o caso ha um negocio que -necessario terminar. Fallaste mulher? - ---Est tudo arranjado--respondeu ella, franzindo a testa. - -Bazilio tomou-lhe a mo, e quasi com solemnidade: - ---Minha filha, eu sei que s muito orgulhosa, mas peo-te que digas a -verdade. Eu no te quero deixar em difficuldades. Fallaste-lhe? - -Ella retirou a mo, e com uma impaciencia crescente: - ---Arranjou-se tudo, arranjou-se tudo!... - -Bazilio parecia muito embaraado, estava mesmo um pouco pallido: emfim, -tirando uma carteira da algibeira, comeou: - ---Em todo o caso possivel, natural (ns no sabemos com quem -lidamos), natural que haja outras exigencias...--Abriu a carteira, -tomou um sobrescripto pequenino e cheio. - -Luiza seguia, fazendo-se vermelha, os movimentos de Bazilio. - ---Por isso, para te poderes entender melhor com ella, sempre me parece -bom deixar-te algum dinheiro. - ---Tu ests doudo?--exclamou ella. - ---Mas... - ---Tu queres-me dar dinheiro?--A sua voz tremia. - ---Mas emfim... - ---Adeus!--E ia sahir da sala, indignada. - ---Luiza, pelo amor de Deus! Tu no me comprehendeste... - -Ella parou, disse precipitadamente, como impaciente por acabar: - ---Comprehendi, Bazilio, obrigada. Mas no, no necessario. Estou -nervosa, o que ... No prolonguemos mais isto... Adeus... - ---Mas sabes que volto, dentro de tres semanas... - ---Bem, ento nos veremos... - -Elle attrahiu-a, deu-lhe um beijo na bocca, encontrou os seus labios -passivos e inertes. - -Aquella frieza irritou-lhe a vaidade. Apertou-a contra o peito; -disse-lhe baixo, pondo muita paixo na voz: - ---Nem um beijo me queres dar? - -Nos olhos de Luiza passou um ligeiro claro; beijou-o rapidamente, e -recuando: - ---Adeus. - -Bazilio esteve um momento a olhal-a, teve como um leve suspiro: - ---Adeus!--E da porta, voltando-se, com melancolia:--Escreve-me ao -menos. Sabes a minha morada. Rue Saint Florentin, 22. - -Luiza chegou-se janella. Viu-o accender o charuto na rua, fallar ao -cocheiro, saltar para o coup, fechar com fora a portinhola, sem um -olhar para as janellas! - -O trem rolou. Era o n.^o 10... Nunca mais o veria! Tinham palpitado -no mesmo amor, tinham commettido a mesma culpa.--Elle partia alegre, -levando as recordaes romanescas da aventura: ella ficava, nas -amarguras permanentes do erro. E assim era o mundo! - -Veio-lhe um sentimento pungente de solido e de abandono. Estava s, e -a vida apparecia-lhe como uma vasta planicie desconhecida, coberta da -densa noite, erriada de perigos! - -Entrou no quarto devagar, foi-se deixar cahir no soph: viu ao p o -sacco de marroquim, que preparra na vespera para fugir: abriu-o, -pz-se a tirar lentamente os lenos, uma camisinha bordada,--encontrou -a photographia de Jorge! Ficou com ella na mo, contemplando o seu -olhar leal, o seu sorriso bom.--No, no estava no mundo s! Tinha-o -a elle! Amava-a aquelle, nunca a trahiria, nunca a abandonaria!--E -collando os beios ao retrato, humedecendo-o de beijos convulsivos, -atirou-se de bruos, lavada em lagrimas, dizendo:--Perda-me, Jorge, -meu Jorge, meu querido Jorge, Jorge da minha alma! - - -Depois de jantar Joanna veio dizer-lhe timidamente: - ---A senhora no lhe parece que seria bom ir saber da snr.^a Juliana? - ---Mas onde quer voss ir saber?--perguntou Luiza. - ---Ella s vezes vai a casa d'uma amiga, uma inculcadeira, para os -lados do Carmo. Talvez lhe tivesse dado alguma, esteja mal. Mas tambem -no mandar recado desde hontem pela manh... Cousa assim! Eu podia ir -saber... - ---Pois bem, v, v. - -Aquella desappario brusca inquietava tambem Luiza. Onde estava, -que fazia? Parecia-lhe que alguma cousa se tramava em segredo, -longe d'ella, que viria de repente estalar-lhe sobre a cabea, -terrivelmente... - -Anoiteceu. Accendeu as velas. Tinha um certo medo de estar assim s -em casa: e, passeando pelo quarto, pensava que quella hora Bazilio -em Santa Apolonia comprava alegremente o seu bilhete, installava-se -no wagon, accendia o charuto, e d'ahi a pouco, a machina arquejando -leval-o-hia para sempre! Porque no acreditava na demora de tres -semanas, um mez! Ia para sempre, safava-se! E apesar de o detestar -sentia que alguma cousa dentro em si se partia com aquella separao, e -sangrava dolorosamente! - -Eram quasi nove horas quando a campainha retiniu com pressa. Julgou -que seria Joanna de volta, foi abrir com um castial,--e recuou vendo -Juliana, amarella, muita alterada. - ---A senhora faz favor de me dar uma palavra? - -Entrou no quarto atraz de Luiza, e immediatamente rompeu, gritando, -furiosa: - ---Ento a senhora imagina que isto ha-de ficar assim? A senhora imagina -que por seu amante se safar, isto ha-de ficar assim? - ---Que , mulher?--fez Luiza, petrificada. - ---Se a senhora pensa, que por o seu amante se safar, isto ha-de ficar -em nada?--berrou. - ---Oh mulher, pelo amor de Deus!... - -A sua voz tinha tanta angustia que Juliana calou-se. - -Mas depois de um momento, mais baixo: - ---A senhora bem sabe que se eu guardei as cartas, para alguma cousa -era! Queria pedir ao primo da senhora que me ajudasse! Estou canada -de trabalhar, e quero o meu descano. No ia fazer escandalo, o que -desejava que elle me ajudasse... Mandei ao htel esta tarde... O -primo da senhora tinha desarvorado! Tinha ido para o lado dos Olivaes, -para o inferno! E o criado ia noite com as malas. Mas a senhora -pensa que me logram?--E retomada pela sua colera, batendo com o punho -furiosamente na mesa:--Raios me partam, se no houver uma desgraa -n'esta casa, que ha-de ser fallada em Portugal! - ---Quanto quer voss pelas cartas, sua ladra?--disse Luiza, erguendo-se -direita, diante d'ella. - -Juliana ficou um momento interdicta. - ---A senhora ou me d seiscentos mil reis, ou eu no largo os -papeis!--respondeu, empertigando-se. - ---Seiscentos mil reis! Onde quer voss que eu v buscar seiscentos mil -reis? - ---Ao inferno!--gritou Juliana.--Ou me d seiscentos mil reis, ou to -certo como eu estar aqui, o seu marido ha-de lr as cartas! - -Luiza deixou-se cahir n'uma cadeira, aniquilada. - ---Que fiz eu para isto, meu Deus, que fiz para isto? - -Juliana plantou-se-lhe diante, muito insolente. - ---A senhora diz bem, sou uma ladra, verdade, apanhei a carta no -cisco, tirei as outras do gaveto. verdade! E foi para isto, para -m'as pagarem!--E traando, destraando o chale, n'uma excitao -phrenetica:--No que a minha vez havia de chegar! Tenho soffrido muito, -estou farta! V buscar o dinheiro onde quizer. Nem cinco reis de menos! -Tenho passado annos e annos a ralar-me! P'ra ganhar meia moeda por mez, -estafo-me a trabalhar, de madrugada at noite, em quanto a senhora -est de panria! que eu levanto-me s seis horas da manh--e logo -engraxar, varrer, arrumar, labutar, e a senhora est muito regalada em -valle de lenoes, sem cuidados, nem canceiras. Ha um mez que me ergo -com o dia, p'ra metter em gomma, passar, engommar! A senhora suja, -suja, quer ir vr quem lhe parece, apparecer-lhe com tafularias por -baixo, e c est a negra, com a pontada no corao, a matar-se, com o -ferro na mo! E a senhora, so passeios, tipoias, boas sdas, tudo o -que lhe appetece--e a negra? A negra a esfalfar-se! - -Luiza, quebrada, sem fora de responder, encolhia-se sob aquella colera -como um passaro sob um chuveiro. Juliana ia-se exaltando com a mesma -violencia da sua voz. E as lembranas das fadigas, das humilhaes, -vinham atear-lhe a raiva, como achas n'uma fogueira. - ---Pois que lhe parece?--exclamava.--No que eu cmo os restos e a -senhora os bons bocados! Depois de trabalhar todo o dia, se quero uma -gota de vinho, quem m'o d? Tenho de o comprar! A senhora j foi ao -meu quarto? uma enxovia! A persevejada tanta que tenho de dormir -quasi vestida! E a senhora se sente uma mordedura, tem a negra de -desaparafusar a cama, e de a catar frincha por frincha. Uma criada! -A criada o animal. Trabalha se pdes, seno rua, para o hospital. -Mas chegou-me a minha vez--e dava palmadas no peito, fulgurante de -vingana.--Quem manda agora, sou eu! - -Luiza soluava baixo. - ---A senhora chora! tambem eu tenho chorado muita lagrima! Ai! eu no -lhe quero mal, minha senhora, certamente que no! Que se divirta, que -goze, que goze! O que eu quero o meu dinheiro. O que eu quero o meu -dinheiro aqui escarrado, ou o papel ha-de ser fallado! Ainda este tecto -me rache, se eu no fr mostrar a carta ao seu homem, aos seus amigos, - visinhana toda, que ha-de andar arrastada pelas ruas da amargura! - -Calou-se, exhausta; e com a voz entrecortada de cansaos: - ---Mas d-me a senhora o meu dinheiro, o meu rico dinheiro, e aqui -tem os papeis, e o que l vai, l vai, e at lhe levo outras. Mas o -meu dinheiro p'ra aqui! E tambem lhe digo, que morta seja eu n'este -instante com um raio, se depois de eu receber o meu dinheiro esta bocca -se torna a abrir!--E deu uma palmada na bocca. - -Luiza erguera-se devagar, muito branca: - ---Pois bem--disse, quasi n'um murmurio--eu lhe arranjarei o dinheiro. -Espere uns dias. - -Fez-se um silencio--que depois do ruido parecia muito profundo, e tudo -no quarto como que se tornra mais immovel. Apenas o relogio batia o -seu _tic-tac_, e duas velas sobre o toucador consumindo-se davam uma -luz avermelhada, e direita. - -Juliana tomou a sombrinha, traou o chale, e depois de fitar Luiza um -momento: - ---Bem, minha senhora--disse, muito secca. - -Voltou as costas, sahiu. - -Luiza sentiu-a bater a cancella com fora. - ---Que expiao, Santo Deus!--exclamou, cahindo n'uma cadeira, banhada -de novo em lagrimas. - -Eram quasi dez horas quando Joanna voltou. - ---No pude saber nada, minha senhora, na inculcadeira ninguem sabe -d'ella. - ---Bem, traga a lamparina. - -E Joanna ao despir-se no seu quarto, rosnava comsigo: - ---A mulher tem arranjo, est mettida por ahi com algum sucio! - - -Que noite para Luiza! A cada momento acordava n'um sobresalto, abria -os olhos na penumbra do quarto, e cahia-lhe logo na alma, como uma -punhalada, aquelle cuidado pungente: Que havia de fazer? Como havia -d'arranjar dinheiro? Seiscentos mil reis! As suas joias valiam talvez -duzentos mil reis. Mas depois, que diria Jorge? Tinha as pratas... Mas -era o mesmo! - -A noite estava quente, e na sua inquietao a roupa escorregra, apenas -lhe restava o lenol sobre o corpo. s vezes a fadiga readormecia-a -d'um somno superficial, cortado de sonhos muitos vivos. Via montes -de libras reluzirem vagamente, maos de notas agitarem-se brandamente -no ar. Erguia-se, saltava para as agarrar, mas as libras comeavam a -rolar, a rolar como infinitas rodinhas sobre um cho liso, e as notas -desappareciam, voando muito leves com um fremito de azas ironicas. Ou -ento era alguem que entrava na sala, curvava-se respeitosamente, e -comeava a tirar do chapo, a deixar-lhe cahir no regao libras, moedas -de cinco mil reis, peas, muitas, muitas, profusamente: no conhecia o -homem: tinha um chin vermelho e uma pera impudente. Seria o diabo? Que -lhe importava? Estava rica, estava salva! Punha-se a chamar, a gritar -por Juliana, a correr atraz d'ella, por um corredor que no findava, e -que comeava a estreitar-se, a estreitar-se, at que era como uma fenda -por onde ella se arrastava de esguelha, respirando mal, e apertando -sempre contra si o monto de libras que lhe punha frialdades de metal -sobre a pelle na do peito. Acordava assustada: e o contraste da sua -miseria real com aquellas riquezas do sonho era como um acrescimo de -amargura. Quem lhe poderia valer?--Sebastio! Sebastio era rico, era -bom. Mas mandal-o chamar, e dizer-lhe ella, ella Luiza, mulher de -Jorge:--Empreste-me seiscentos mil reis.--Para qu, minha senhora? -E podia l responder: para resgatar umas cartas que escrevi ao meu -amante. Era l possivel! No, estava perdida. Restava-lhe ir para um -convento. - -A cada momento voltava o travesseirinho que lhe escaldava o rosto: -atirou a touca, os seus longos cabellos soltaram-se, prendeu-os ao -acaso com um gancho; e de costas, com a cabea sobre os braos ns, -pensava amargamente no romance de todo aquelle vero,--a chegada de -Bazilio, o passeio ao Campo Grande, a primeira visita ao _Paraiso_... - -Onde iria elle, aquelle infame? Dormindo tranquillamente nas almofadas -do wagon! - -E ella alli, na agonia! - -Atirou o lenol, abafava. E descoberta, mal se distinguindo da alvura -da roupa, adormeceu quando a madrugada rompia. - -Acordou tarde, succumbida. Mas logo na sala de jantar a belleza da -manh gloriosa reanimou-a. O sol entrava abundante e radioso pela -janella aberta; os canarios faziam um concerto; da forja ao p sahia um -martellar jovial; e o largo azul vigoroso levantava as almas.--Aquella -alegria das cousas deu-lhe como uma coragem inesperada. No se havia de -abandonar a uma desesperana inerte... Que diabo! Devia luctar! - -Vieram-lhe esperanas, ento. Sebastio era bom, Leopoldina tinha -expedientes, havia outras possibilidades, o acaso mesmo: e tudo isto -podia, em definitiva, formar seiscentos mil reis, salval-a! Juliana -desappareceria, Jorge voltaria!--E, alvoraada, via perspectivas de -felicidades possiveis reluzirem, no futuro, deliciosamente. - -Ao meio dia veio o criadito de Sebastio: o senhor tinha chegado -d'Almada, desejava saber como a senhora estava. - -Correu ella mesma porta; que pedia ao snr. Sebastio, que viesse logo -que podesse! - -Acabou-se! Sentia-se resoluta, ia fallar a Sebastio... No fim era o -que lhe restava: contar ella tudo a Sebastio, ou que a outra contasse -tudo a seu marido. Impossivel hesitar! E depois podia attenuar, dizer -que fra s uma correspondencia platonica... A partida de Bazilio, -alm d'isso, fazia d'aquelle erro um facto passado, quasi antigo... E -Sebastio era to amigo d'ella! - -Veio, era uma hora. Luiza que estava no quarto sentiu-o entrar, e s -o som dos seus passos grossos no tapete da sala deu-lhe uma timidez, -quasi um terror. Parecia-lhe agora muito difficil, terrivel de dizer... -Preparra phrases, explicaes, uma historia de galanteio, de cartas -trocadas; e estava com a mo no fecho da porta, a tremer. Tinha medo -d'elle! Ouvia-o passear pela sala; e receando que a impaciencia lhe -dsse mau humor, entrou. - -Afigurou-se-lhe mais alto, mais digno: nunca o seu olhar lhe parecera -to recto, e a sua barba to sria! - ---Ento que ? precisa alguma cousa?--perguntou-lhe elle depois das -primeiras palavras sobre Almada, sobre o tempo. - -Luiza teve uma cobardia indominavel, respondeu logo: - --- por causa de Jorge! - ---Aposto que no lhe tem escripto? - ---No. - ---Esteve muito tempo sem me escrever tambem.--E rindo:--Mas hoje recebi -duas cartas por atacado. - -Procurou-as entre outros papeis que tirou da algibeira. Luiza fra -sentar-se no soph; olhava-o com o corao aos pulos, e as suas unhas -impacientes raspavam devagarinho o estfo. - --- verdade--dizia Sebastio, revolvendo o mao de papeis.--Recebi -duas, falla em voltar, diz que est muito seccado...--E estendendo uma -carta a Luiza:--Pde vr. - -Luiza desdobrra-a, e comeava a lr; mas Sebastio, estendendo a mo -precipitadamente: - ---Perdo, no essa! - ---No, deixe vr... - ---No diz nada, so negocios... - ---No, quero vr! - -Sebastio, sentado beira da cadeira, coava a barba, olhando-a, muito -contrariado. E Luiza de repente, franzindo a testa: - ---O qu?--A leitura espalhava-lhe no rosto uma surpreza -irritada.--Realmente!... - ---So tolices, so tolices!--murmurava Sebastio, muito vermelho. - -Luiza pz-se ento a lr alto, devagar: - -Sabers, amigo Sebastio, que fiz aqui uma conquista. No o que se -pde chamar uma princeza, porque nem mais nem menos que a mulher -do estanqueiro. Parece estar abrazada no mais impuro fogo, por este -seu criado. Deus me perde, mas desconfio at que me leva apenas um -vintem pelos charutos de pataco, fazendo assim ao esposo, o digno -Carlos, a dupla partida de lhe arruinar a felicidade e a tenda!--Que -graa!--murmurou Luiza, furiosa.--Receio muito que se repita commigo -o caso biblico da mulher de Putiphar. Acredita que ha um certo merito -em lhe resistir, porque a mulher, estanqueira como , lindissima. E -tenho medo que succeda algum fracasso minha pobre virtude... - -Luiza interrompeu-se, e olhou Sebastio com um olhar terrivel. - ---So brincadeiras!--balbuciou elle. - -Ella seguiu, lendo: Olha se a Luiza soubesse d'esta aventura! De -resto, o meu successo no pra aqui: a mulher do delegado faz-me um -olho dos diabos! de Lisboa, d'uma gente Gamacho, que parece que mora -para Belem, conheces? e d-se ares de morrer de tedio, na tristeza -provinciana da localidade. Deu uma _soire_ em minha honra, e em minha -honra, creio tambem, decotou-se. Muito bonito collo--Luiza fez-se -escarlate--e uma queda do diabo... - ---Est doudo!--exclamou ella.--E aqui tens o teu amigo feito um D. -Juan do Alemtejo, e deixando um rasto de chammas sentimentaes por essa -provincia fra! O Pimentel recommenda-se... - -Luiza ainda leu baixo algumas linhas, e erguendo-se bruscamente, dando -a carta a Sebastio: - ---Muito bem, diverte-se!--disse com uma voz sibilante. - ---So l cousas que se tomem a serio! No deve tomar a serio... - ---Eu!--exclamou ella.--Acho muito natural at! - -Sentou-se, comeou, com volubilidade, a fallar d'outras cousas, de D. -Felicidade, de Julio... - ---Trabalha muito agora para o concurso--disse Sebastio.--Quem no -tenho visto o Conselheiro. - ---Mas, quem essa gente Gamacho, de Belem? - -Sebastio encolheu os hombros--e com um ar quasi reprehensivo: - ---Ora realmente tomou a serio... - -Luiza interrompeu-o: - ---Ah! sabe? Meu primo Bazilio partiu. - -Sebastio teve um alvoroo d'alegria. - ---Sim? - ---Foi para Paris, no creio que volte.--E depois d'uma pausa, parecendo -ter esquecido Jorge, e a carta:--S em Paris est bem... Estava no -ar p'ra partir.--Acrescentou com pancadinhas leves nas pregas do -vestido:--Precisava casar, aquelle rapaz. - ---P'ra assentar--disse Sebastio. - -Mas Luiza no acreditava que um homem que gostava tanto de viagens, de -cavallos, d'aventuras, podesse dar um bom marido. - -Sebastio era d'opinio que s vezes socegavam, e eram homens de -familia... - ---Teem mais experiencia--disse. - ---Mas um fundo leviano--observou ella. - -E depois d'estas palavras vagas calaram-se com embarao. - ---Eu a fallar a verdade--disse ento Luiza--estimei que meu primo -partisse... Como tinha havido essas tolices na visinhana... -Ultimamente mesmo quasi que o no vi. Esteve ahi hontem, veio -despedir-se, fiquei surprehendida... - -Estava tornando impossivel a historia d'um galanteio platonico, cartas -trocadas--mas um sentimento mais forte que ella impellia-a a attenuar, -distanciar as suas relaes com Bazilio. Acrescentou mesmo: - ---Eu sou amiga d'elle, mas somos muito differentes... Bazilio -egoista, pouco affeioado... De resto a nossa intimidade nunca foi -grande... - -Calou-se bruscamente, sentiu que se enterrava. - -Sebastio lembrva-se ouvir-lhe dizer que tinham sido creados ambos de -pequenos; mas emfim aquella maneira de fallar do primo, parecia-lhe -a prova maior de que no houvera nada. Quasi se queria mal pelas -duvidas, que tivera, to injustas!... - ---E volta?--perguntou. - ---No me disse, mas no creio. Em se pilhando em Paris! - -E com a ida da carta, de repente: - ---Ento o Sebastio confidente de Jorge? - -Elle riu: - ---Oh minha senhora! pois acredita... - ---E a mim quando me escreve, que se aborrece, que est s, que no -supporta o Alemtejo...--Mas vendo Sebastio olhar o relogio:--O que, -j? cedo. - -Tinha d'estar na baixa antes das tres, disse elle. - -Luiza quiz retel-o. No sabia para qu--porque a cada momento sentia -a sua resoluo diminuir, desapparecer como a agua d'um rio que se -absorve no seu leito. Pz-se a fallar-lhe das obras d'Almada. - -Sebastio comera-as pensando que duzentos ou trezentos mil reis -fariam as restauraes necessarias: mas depois umas cousas tinham -trazido outras--e, dizia, est-se-me tornando um sorvedouro! - -Luiza riu, foradamente. - ---Ora, quando se proprietario e rico!... - ---Isso sim! Parece que no nada: mas uma pintura n'uma porta, uma -janella nova, uma sala forrada de papel, um soalho, e isto e aquillo, e -l se vo oitocentos mil reis... Emfim!... - -Levantou-se, e despedindo-se: - ---Eu espero que aquelle vadio se no demore muito... - ---Se a estanqueira der licena... - -Ficou a passear na sala, nervosa, com aquella ida. Deixar-se namorar -pela estanqueira, e a mulher do delegado, e as outras!... De certo, -tinha confiana n'elle, mas os homens!... De repente representou-se-lhe -a estanqueira prendendo-o nos braos detraz do balco, ou Jorge -beijando, n'alguma entrevista, de noite, o collo bonito da mulher -do delegado!... E tumultuosamente appareceram-lhe todas as razes -que provavam irrecusavelmente a traio de Jorge: estava ha dous -mezes fra! sentia-se canado da sua viuvez! encontrava uma mulher -bonita! tomava aquillo como um prazer passageiro, sem importancia!... -Que infame! Resolveu escrever-lhe uma carta digna e offendida, que -viesse immediatamente, ou que partia ella!--Entrou no quarto, muito -excitada. A photographia de Jorge, que ella tirra na vespera do sacco -de marroquim, ficra no toucador. Pz-se a olhal-a: no admirava que o -namorassem, era bonito, era amavel... Veio-lhe uma onda de ciume, que -lhe obscureceu o olhar: se elle a enganasse, se tivesse a certeza da -mais pequena cousa--separava-se, recolhia-se a um convento, morria de -certo, matava-o!... - ---Minha senhora--veio dizer Joanna-- um gallego com esta carta. Est -espera da resposta. - -Que espanto! Era de Juliana! - -Escripta em papel pautado, n'uma letra medonha, erriada de erros -d'orthographia, dizia: - - - - - Minha senhora. - -Bem sei que fui imprudente, o que a senhora deve attribuir tanto -minha desgraa como falta de saude, o que s vezes faz que se tenham -genios repentinos. Mas se a senhora quer que eu volte e faa o servio -como d'antes--ao qual creio que a senhora no pde oppr-se, terei -muito gosto em ser agradavel na certeza que nunca mais se fallar em -tal at que a senhora queira, e cumpra o que prometteu. Prometto fazer -o meu servio, e desejo que a senhora esteja por isto pois que para -bem de todos. Pois que foi genio e naturalmente todos teem os seus -repentes, e com isto no cano mais e sou - - Serva muito obediente - - a criada - - _Juliana Couceiro Tavira_. - - -Ficou com a carta na mo, sem resoluo. A sua primeira vontade foi -dizer--no! Tornar a recebel-a, vl-a, com a sua face horrivel, a cuia -enorme! Saber que ella tinha no bolso a sua carta, a sua deshonra, -e chamal-a, pedir-lhe agua, a lamparina, ser servida por ella! No! -Mas veio-lhe um terror; se recusasse irritava a creatura, Deus sabe o -que faria! Estava nas mos d'ella, devia passar por tudo. Era o seu -castigo... Hesitou ainda um momento: - ---Que sim, que venha, a resposta. - - -Juliana veio com effeito s oito horas. Subiu p ante p para o -soto, poz o fato de casa e as chinellas, e desceu para o quarto -dos engommados, onde Joanna sentada n'um tapete costurava, luz do -petroleo. - -Joanna, muito curiosa, acabrunhou-a logo de perguntas: Onde estivera? -o que tinha acontecido? porque no dra noticias?--Juliana contou que -fra a uma visita a uma amiga, calada do Marquez d'Abrantes, e que -de repente lhe dera um flato, e a dr... No quiz mandar dizer, porque -imaginra que poderia vir. Mas qual! estivera dia e meio de cama... - -Quiz saber ento o que tinha feito a senhora, se sahira, quem -estivera... - ---A senhora tem andado a modo incommodada--disse Joanna. - --- do tempo--observou Juliana.--Tinha trazido a sua costura, e ambas -caladas continuaram o sero. - -s dez horas Luiza ouviu bater devagarinho porta do quarto. Era -_ella_, de certo! - ---Entre... - -A voz de Juliana disse muito naturalmente: - ---Est o ch na mesa. - -Mas Luiza no se decidia a ir sala, com medo, horror de a vr! Deu -voltas no quarto, demorou-se; foi emfim, toda tremula. Juliana vinha -justamente no corredor; encolheu-se contra a parede, com respeito, -disse: - ---Quer que v pr a lamparina, minha senhora? - -Luiza fez que _sim_ com a cabea, sem a olhar. - -Quando voltou ao quarto Juliana enchia o jarro; e depois de ter aberto -a cama, cerrado as portas, quasi em pontas de ps: - ---A senhora no precisa mais nada?--perguntou. - ---No. - ---Muito boa noite, minha senhora. - -E no houve outra palavra mais. - ---Parece um sonho!--pensava Luiza, ao despir-se melancolicamente.--Esta -creatura, com as minhas cartas, installada em minha casa para me -torturar, para me roubar!--Como se achava ella, Luiza, n'aquella -situao? Nem sabia. As cousas tinham vindo to bruscamente, com a -precipitao furiosa d'uma borrasca, que estala! No tivera tempo de -raciocinar, de se defender: fra embrulhada: e alli estava, quasi sem -dar f, na sua casa sob a dominao da sua criada! Ah! se tivesse -fallado a Sebastio! Tinha agora o dinheiro, de certo, notas, ouro... -Com que phrenesi lh'o arremessaria, a expulsaria, e a arca, e os -trapos, e a cuia!...--Jurou a si propria fallar a Sebastio, dizer -tudo! Iria mesmo a casa d'elle, para o impressionar mais! - -D'ahi a pouco, quebrada da agitao do dia, adormecera--e sonhava que -um estranho passaro negro lhe entrra no quarto, fazendo uma ventania, -com as suas azas pretas de morcego: era Juliana! Corria aterrada ao -escriptorio, gritando: Jorge! Mas no via nem livros, nem estante, -nem mesa:--havia uma armao reles de loja de tabaco, e por traz do -balco, Jorge acariciava sobre os joelhos uma bella mulher de frmas -robustas, em camisa d'estopa, que perguntava com uma voz desfallecida -de voluptuosidade e os olhos afogados em paixo:--Brejeiros ou de -Xabregas?--Fugia ento de casa indignada, e, atravs de successos -confusos, via-se ao lado de Bazilio, n'uma rua sem fim, onde os -palacios tinham fachadas de cathedraes, e as carruagens rolavam -ricamente com uma pompa de cortejo. Contava soluando a Bazilio a -traio de Jorge. E Bazilio, saltitando em volta d'ella com requebros -de palhao, repenicava uma viola, e cantava: - - Escrevi uma carta a Cupido - A mandar-lhe perguntar - Se um corao offendido - Tem obrigao de amar! - ---No tem!--gania a voz d'Ernestinho, brandindo triumphante um rolo de -papel.--E tudo se obscurecia de repente nos largos vos circulares que -fazia Juliana com as suas azas de morcego. - - - - -IX - - -Juliana voltra para casa de Luiza por conselhos da tia Victoria. - ---Olha, minha rica, tinha-lhe ella dito, no ha que vr, o passaro -fugiu-nos! Suspira, bem pdes suspirar que o dinheiro grosso foi-se! -Quem podia l adivinhar que o homem desarvorava! No, l isso pdes -tirar d'ahi o sentido! Que d'ella escusas d'esperar nem cheta... - ---Tambem me regalo de mandar as cartas ao marido, tia Victoria! - -A velha encolheu os hombros: - ---No lucras nada com isso. Ou que elles se desquitem, ou que elle -lhe parta os ossos, ou que a mande para um convento--tu no ganhas -nada. E se se acommodarem, mais ficas a chuchar no dedo, porque nem -tens a consolao de fazeres a sizania. E isto se as cousas correrem -pelo melhor, porque pdes muito bem ficar mas em lenoes de vinagre -com alguma carga de pau que elles te mandem dar.--E vendo um gesto -espantado de Juliana:--J no era o primeiro caso, minha rica, j no -era o primeiro. Olha que em Lisboa, passa-se muita cousa, e nem tudo -vem nos jornaes! - -Positivamente o que ella tinha a fazer era voltar para a casa. Porque -emfim o que restava de tudo aquillo? O medo de D. Luiza: esse que -l estava sempre a dar-lhe por dentro a colica: d'esse que era -necessario tirar partido... - ---Tu voltas para l--dizia-- espera que ella cumpra o que prometteu. -Se te d o dinheiro, bem... Seno tem-l'a em todo o caso na mo, ests -de dentro da praa, sabes o que se passa, pdes-lhe apanhar muita -cousa... - -Mas Juliana hesitava.--Era difficil viverem debaixo das mesmas telhas -sem haver uma questo por d c aquella palha. - ---No te diz uma palavra, tu vers... - ---Mas tenho medo... - ---De que?--exclamava a tia Victoria. Ella no era mulher para a -envenenar, no verdade? Ento? Quem a nada se arriscava nada -ganhava.--Isto se queres--acrescentou--seno trata de te arranjar -n'outra parte, e deita as cartas para o fundo da arca. Que diabo! Tu -vaes vr, se no te convm, safas-te... - -Juliana decidiu ir, a vr. - -E reconheceu logo, que aquella finoria da tia Victoria tinha carradas -de razo. - -Luiza, com effeito, parecia resignada. Sebastio tinha ido para Almada, -outra vez. Mas como estava decidida, apenas elle voltasse, a ir a casa -d'elle uma manh, atirar-se-lhe ao ps, contar-lhe _tudo_, _tudo_, -supportava Juliana, reflectindo:-- apenas por dias!--Por isso no lhe -disse uma palavra. Para que? O que tinha a fazer era pagar-lhe e pl-a -fra, no verdade? Em quanto o no podesse fazer, era aguentar e -calar. At que Sebastio voltasse... - -No entretanto evitava vl-a. Nunca a chamava. No sahia da alcova de -manh, sem a ter sentido fra no quarto encher o banho, sacudir os -vestidos. Ia para a sala de jantar com um livro, e nos intervallos no -levantava os olhos das paginas. E durante todo o dia conservava-se no -quarto com a porta fechada, lendo, costurando, pensando em Jorge--s -vezes tambem em Bazilio com odio, desejando a volta de Sebastio, e -preparando a sua historia. - -Juliana, uma manh, encontrou Luiza no corredor trazendo para o quarto -o regador cheio d'agua. - ---Oh minha senhora! porque no chamou?--exclamou, quasi escandalisada. - ---No tem duvida--disse Luiza. - -Mas Juliana seguiu-a ao quarto, e cerrando a porta: - ---Oh minha senhora!--disse muito offendida--isto assim no pde -continuar. A senhora parece que tem medo de me vr, credo! Eu -voltei para fazer o meu servio como d'antes... Verdade, verdade, -naturalmente, sempre espero que a senhora faa o que prometteu... E -l largar as cartas no largo, sem ter seguro o po da velhice. Mas -o que se passou foi um repente de genio, e j pedi perdo senhora. -Quero fazer o meu servio... Agora se a senhora no quer, ento saio, -e--acrescentou com uma voz secca--talvez seja peor para todos!... - -Luiza, muito perturbada, balbuciou: - ---Mas... - ---No, minha senhora--cortou Juliana severamente--aqui a criada sou eu. - -E sahiu, empertigada. - -Tanta audacia aterrou Luiza. Aquella ladra era capaz de tudo! - -Ento, para a no irritar comeou, d'ahi por diante, a chamal-a, a -dizer:--Traga isto, traga aquillo,--sem a olhar. - -Mas Juliana fazia-se to servial, era to calada, que Luiza pouco a -pouco, dia a dia, com o seu caracter mobil, inconsistente, cheio _de -deixar-se ir_, principiou a perder o sentimento pungente d'aquella -difficuldade. E no fim de tres semanas as cousas tinham entrado nos -seus eixos--dizia Juliana. - -Luiza j gritava por ella do quarto, j a mandava a recados fra: -Juliana chegava a ter s vezes migalhas de conversao:--Est um calor -de morrer... A lavadeira tarda...--Um dia arriscou esta phrase mais -intima:--Encontrei a criada da snr.^a D. Leopoldina. - -Luiza perguntou: - ---Ainda est para o Porto? - ---Ainda se demora um mez, minha senhora... - -De resto havia na casa um aspecto muito tranquillo, e Luiza, depois -de tantas agitaes, abandonava-se com gozo satisfao d'aquelle -descano. Ia s vezes vr D. Felicidade Encarnao, que j se -levantava. E esperava sempre Sebastio, mas sem impaciencia, quasi -contente por vr adiado o momento terrivel de lhe dizer: escrevi a um -homem, Sebastio! - -Assim iam passando os dias; estava-se no fim de setembro. - -Uma tarde Luiza ficra mais tempo janella da sala de jantar; deixra -cahir o livro no regao, e olhava, sorrindo, um bando de pombas que -d'algum quintal visinho viera pousar sobre o tabique do terreno vago. -Pensava vagamente em Bazilio, no _Paraiso_... Sentiu passos, era -Juliana. - ---Que ? - -A mulher cerrra a porta, e vindo junto d'ella, baixo: - ---Ento a senhora ainda no decidiu nada? - -Luiza sentiu como uma pancada no estomago. - ---Ainda no pude arranjar nada... - -Juliana esteve um momento a olhar para o cho: - ---Bem--murmurou, por fim. - -E Luiza ouviu-a, no corredor, dizer alto: - ---Isto quando o senhor voltar que so os ajustes de contas! - - -Quando Jorge voltasse! Immediatamente no seu espirito, que se tinha -pouco a pouco serenado, todos os sustos, as angustias estremeceram -de novo quella ameaa--assim uma rajada subita pe em convulso um -arvoredo. Devia, pois, fazer _alguma cousa_ antes que elle chegasse! -Justamente Jorge escrevera-lhe, que no se demoraria, que a avisaria -pelo telegrapho... Desejava, agora, que do ministerio o mandassem -fazer uma viagem mais longe, pela Hespanha ou pela Africa; que alguma -catastrophe, sem lhe fazer mal, o retardasse mezes!... - -Que faria elle, se soubesse! Matal-a-hia? Lembravam-lhe as suas -palavras muito srias, n'aquella noite, quando Ernestinho contra o -final do seu drama... Mettel-a-hia n'uma carruagem, leval-a-hia a um -convento? E via a grossa portaria fechar-se com um ruido funerario de -ferrolhos, olhos lugubres estudal-a curiosamente... - -O seu terror irraciocinado fizera-lhe mesmo perder a ida nitida do seu -marido; imaginava um _outro_ Jorge sanguinario e vingativo, esquecendo -o seu caracter bom, to pouco melodramatico. Um dia foi ao escriptorio, -tomou a caixa das pistolas, fechou-a n'um bah de roupa velha, e -escondeu a chave!... - -Uma ida amparava-a: era que apenas Sebastio viesse d'Almada, estava -salva; e apesar d'aquella agonia miuda de todos os momentos, quasi -receava saber _que elle tivesse chegado_,--tanto a confisso da verdade -lhe parecia uma agonia maior! Foi por esse tempo, ento, que lhe veio -uma lembrana--escrever a Bazilio. O terror permanente amollecera-lhe -o orgulho, como a lenta infiltrao da agua faz a uma parede; e todos -os dias comeou a achar uma razo, _mais uma_, para se dirigir quelle -infame: fra seu amante, j sabia todo o caso das cartas, era o seu -unico parente... E no teria de dizer a Sebastio! J s vezes -pensra que no aceitar dinheiro de Bazilio fra uma fanfarronada -bem tola! Um dia emfim escreveu-lhe. Era uma carta longa, um pouco -confusa, pedia-lhe _seiscentos mil reis_. Foi ella mesmo leval-a ao -correio, sobrecarregando-a de estampilhas. - -N'essa tarde, por acaso, Sebastio, que chegra d'Almada, veio vl-a. -Recebeu-o com alegria, feliz _por no ter de lhe contar_... Fallou da -volta de Jorge; alludiu mesmo ao primo Bazilio, pouca vergonha da -visinhana... - ---No--disse-- a primeira cousa que hei-de contar ao Jorge. - -Porque se considerava salva, agora! E todos os dias seguia a carta, -no seu caminho para Frana, como se a sua mesma vida fosse dentro -d'aquelle sobrescripto entregue ao acaso dos trens e confuso das -viagens! Chegra a Madrid, depois a Bayonna, depois a Paris! Um -carteiro corria a entregal-a na rua Saint Florentin. Bazilio abria-a -tremendo, enchia um sobrescripto de notas, muitas, que cobria de -beijos, e o enveloppe, trazendo a sua salvao e o seu descano, -comeava a rolar para baixo, pela Frana e pela Navarra, soprando como -um monstro e apressando-se como um proprio. - -No dia em que a resposta _devia_ chegar, levantou-se mais cedo, -agitada, com o ouvido pregado na porta, esperando o toque do carteiro. -Via-se j a expulsar Juliana, a soluar de alegria!... Mas s dez e -meia comeou a estar nervosa: s onze chamou Joanna, que fosse saber -se o carteiro passra. - ---Diz que sim, minha senhora, que j passou. - ---Canalha!--murmurou, pensando em Bazilio. - -Talvez, todavia, no tivesse respondido no mesmo dia! Esperou ainda, -mas desconsolada, j sem f. Nada! Nem na outra manh, nem nas -seguintes! O infame! - -Veio-lhe ento a ida da loteria--porque insensivelmente a esperana -tornra-se-lhe necessaria. A primeira vez que sahiu comprou umas poucas -de cautelas. Apesar de no ser religiosa nem supersticiosa, metteu-as -debaixo da peanha d'um S. Vicente de Paula que tinha sobre a commoda, -na alcova. _No se perdia nada!_ Examinava-as todos os dias, sommava os -algarismos a vr se davam _nove_, _noves fra_, _nada_, ou um numero -par--que de bom agouro! E aquelle contacto diario com a imagem do -santo levando-a a pensar de certo na proteco inesperada do co, fez -uma promessa de cincoenta missas se as cautelas fossem premiadas!... - -Sahiram brancas--e ento desesperou de tudo; abandonou-se a uma inaco -em que sentia quasi uma voluptuosidade, passando dias sem se importar, -quasi sem se vestir, desejando morrer, devorando nos jornaes todos os -casos de suicidios, de fallencias, de desgraas--consolando-se com a -ida de que nem s ella soffria, e que a vida em redor, na cidade, -fervilhava de afflices. - -s vezes, de repente, vinha-lhe uma pontada de medo. Decidia-se ento -de novo a abrir-se com Sebastio; depois pensava que seria melhor -escrever-lhe; mas no achava as palavras, no conseguia arranjar uma -historia racional; vinha-lhe uma cobardia; e recahia na sua inercia, -pensando: manh, manh... - -Quando, s, no seu quarto, se chegava por acaso janella, punha-se -a imaginar o que diria a visinhana, quando se soubesse! -Condemnal-a-hiam? Lamental-a-hiam? Diriam--Que desavergonhada? -Diriam--Coitadinha? E por dentro da vidraa seguia, com um olhar -quasi aterrado, as passeatas do Paula pela rua, o embasbacamento obeso -da carvoeira, as Azevedos por traz das bambinellas de cassa! Como elles -todos gritariam:--Bem diziamos ns! Bem diziamos ns! Que desgraa! -Ou ento via de repente Jorge, terrivel, fra de si, com as _cartas_ na -mo; e encolhia-se como se j estivesse sob a colera dos seus punhos -fechados. - -Mas o que a torturava mais era a tranquillidade de -Juliana--espanejando, cantarolando, servindo-a ao jantar d'avental -branco. Que tencionava ella? Que preparava ella? s vezes vinha-lhe uma -onda de raiva; se fosse forte ou corajosa, de certo atirar-se-lhe-hia -ao pescoo, para a esganar, arrancar-lhe a carta! Mas pobre d'ella, era -uma mosquinha! - -Justamente, n'uma d'essas manhs, Juliana entrou no quarto--com o -vestido de sda preto no brao. Estendeu-o na _causeuse_, e mostrou -a Luiza, na saia, ao p do ultimo folho, um rasgo largo que parecia -feito com um prego; vinha saber se a senhora queria que o mandasse -costureira. - -Luiza lembrava-se bem, rasgra-o uma manh no _Paraiso_ a brincar com -Bazilio! - ---Isto facil d'arranjar--dizia Juliana, passando de leve a mo -espalmada sobre a sda, com a lentido d'uma caricia. - -Luiza examinava-o, hesitando: - ---Elle tambem j no est novo... Olhe, guarde-o p'ra voss! - -Juliana estremeceu, fez-se vermelha: - ---Oh minha senhora!--exclamou--Muito agradecida! um rico -presente. Muito agradecida, minha senhora! Realmente...--E a voz -perturbava-se-lhe. - -Tomou-o nos braos, com cuidado, correu logo cozinha. E Luiza, que a -seguira p ante p, ouviu-a dizer toda excitada: - --- um rico presente, o que ha de melhor. E novo! Uma rica -sda!--Fazia arrastar a cauda pelo cho, com um _frou-frou_. Sempre o -invejra: e tinha-o agora, era o _seu_ vestido de sda!-- de muito boa -senhora, snr.^a Joanna, d'um anjo! - -Luiza voltou ao quarto, toda alvoroada; era como uma pessoa perdida de -noite, n'um descampado--que de repente, ao longe, v reluzir um claro -de vidraa! Estava salva! Era presenteal-a, era fartal-a! Comeou logo -a pensar no que lhe podia dar mais, pouco a pouco: o vestido rxo, -roupas brancas, o roupo velho, uma pulseira! - - -D'ahi a dous dias--era um domingo--recebeu um telegramma de Jorge: -Parto manh do Carregado. Chego pelo comboio do Porto s 6. Que -sobresalto! Voltava, emfim! - -Era nova, era amorosa--e no primeiro momento todos os sustos, as -inquietaes desappareceram sob uma sensao d'amor e de desejo, que a -inundou. Viria de madrugada, encontral-a-hia deitada,--e j pensava na -delicia do seu primeiro beijo!... - -Foi-se vr ao espelho: estava um pouco magra, talvez, com a physionomia -um pouco fatigada... E a imagem de Jorge apparecia-lhe ento muito -nitidamente, mais queimado do sol, com os seus olhos ternos, o cabello -to annelado! Que estranha cousa! Nunca lhe appetecra tanto vl-o. Foi -logo occupar-se d'elle: o escriptorio estaria bem arranjado? Quereria -um banho morno, seria necessario aquecer a agua na tina grande!... E ia -e vinha, cantarolando, com um brilho exaltado nos olhos. - -Mas a voz de Juliana, de repente no corredor, fl-a estremecer. Que -faria ella, a mulher? Ao menos que a deixasse n'aquelles primeiros -dias gozar a volta de Jorge, tranquillamente!... Veio-lhe uma audacia, -chamou-a. - -Juliana entrou, com o vestido de sda novo, movendo-se cuidadosamente: - ---Quer alguma cousa, minha senhora? - ---O snr. Jorge volta amanh...--disse Luiza. - -E suspendeu-se; o corao batia-lhe fortemente. - ---Ah!--fez Juliana.--Bem, minha senhora. - -E ia sahir. - ---Juliana!--fez Luiza, com a voz alterada. - -A outra voltou-se, surprehendida. - -E Luiza batendo com as mos, n'um movimento supplicante: - ---Mas voss ao menos n'estes primeiros dias... Eu hei-de arranjar, -esteja certa!... - -Juliana acudiu logo: - ---Oh minha senhora! Eu no quero dar desgostos a ninguem. O que eu -quero um bocadinho de po para a velhice. Da minha bocca no ha-de -vir mal a ninguem. O que peo senhora que se fr da sua vontade e -me quizer ir ajudando... - ---L isso, sim... O que voss quizer... - ---Pois pde estar certa que esta bocca...--E fechou os labios com os -dedos. - -Que alegria para Luiza! Tinha uns dias, umas semanas, emfim, sem -tormentos, com o _seu_ Jorge! Abandonou-se ento toda deliciosa -impaciencia de o vr. Era singular--mas parecia-lhe que o amava -mais!...--E depois pensaria, veria, daria outros presentes a Juliana, -poderia pouco a pouco preparar Sebastio... Quasi se sentia feliz. - -De tarde Juliana veio dizer-lhe, muito risonha; - ---A snr.^a Joanna sahiu, que era hoje o seu dia, mas eu tinha tanta -preciso de sahir, tambem! se a senhora lhe no custasse ficar s... - ---No! Fico, que tem? V, v! - -E, d'ahi a pouco, sentiu-a bater os taces no corredor, fechar com -ruido a cancella. - -Ento de repente uma ida deslumbrou-a, como a fulgurao d'um -relampago:--ir ao quarto d'ella, rebuscar-lhe a arca, roubar-lhe as -cartas! - -Viu-a da janella dobrar a esquina. Subiu logo ao soto, devagar, -escutando, com o corao aos saltos. A porta do quarto de Juliana -estava aberta; vinha de l um cheiro de mofo, de rato e de roupa -enxovalhada que a enjoou; pelo postigo entrava uma luz triste, de -tarde escura; e por baixo, encostada parede, ficava a arca! Mas -estava fechada! De certo! Desceu correndo, veio buscar o seu mlho -de chaves... Sentia uma vergonha,--mas se achasse as cartas! Aquella -esperana dava-lhe todos os atrevimentos, como um vinho alcoolico. -Comeou a experimentar as chaves; a mo tremia-lhe; de repente a -lingueta, com um estalinho secco, cedeu! Ergueu a tampa, estavam alli, -talvez! E ento, com cautela, muito femininamente, poz-se a tirar as -cousas uma por uma, pondo-as em cima do colxo:--o vestido de merino; -um leque com figuras douradas, embrulhado em papel de sda; velhas -fitas rxas e azues, passadas a ferro; uma pregadeira de setim cr -de rosa, com um corao bordado a matiz: dous frasquinhos de cheiro, -intactos, tendo collados ao vidro raminhos de rosas de papel recortado; -tres pares de botinas embrulhadas em jornaes; a roupa branca, d'onde -se exhalava um cheiro de madeira e de folhas de ma camoeza. Entre -duas camisas estava um mao de cartas atadas com um nastro... Nenhuma -era d'ella! Nem de Bazilio! Eram d'uma letra d'alda, inintelligivel e -amarellada! Que raiva! E ficou a olhar para a arca vazia, de p, com os -braos tristemente cahidos. - -Uma sombra de repente passou diante do postigo. Estremeceu, aterrada. -Era um gato, que com passos leves, vadiava pelo telhado.--Tornou a -repr tudo com as mesmas dobras, fechou a arca, ia a sahir,--mas -lembrou-se de procurar na gaveta da mesa e debaixo do travesseiro. -Nada! Impacientou-se ento; no se queria ir sem ter gasto toda a -esperana; desmanchou a roupa da cama, remexeu a palha amollentada do -enxergo, sacudiu as velhas botinas, esgaravatou os cantos... Nada! -Nada! - -Subitamente, a campainha tocou. Desceu a correr. Que surpreza! Era D. -Felicidade. - ---s tu! Como ests tu? Entra. - -Estava melhor, veio logo contando pelo corredor. Sahira na vespera da -Encarnao: o p s vezes ainda lhe fazia mal: mas graas a Deus estava -escapa! E que lhe agradecesse, era a sua primeira visita! - -Entraram no quarto. Escurecia, Luiza accendeu as velas. - ---E como me achas tu, hein?--perguntou D. Felicidade, pondo-se diante -d'ella. - ---Um bocadito mais pallida. - -Ai! tinha soffrido muito! Ergueu a saia, mostrou o p calado n'um -sapato largo, obrigou Luiza a apalpal-o... Que uma consolao lhe -restava: que toda a Lisboa a fra vr! Graas a Deus! Toda a Lisboa, -o que ha de melhor em Lisboa! - ---E tu esta semana--acrescentou--nem appareceste! Pois olha que te -cortaram na pelle... - ---No pude, filha. O Jorge chega manh, sabias? - ---Ah sua brejeira! Viva! Est esse coraosinho aos pulos!--E disse-lhe -um segredinho. - -Riram muito. - ---Pois eu--continuou D. Felicidade sentando-se--arranjei-te hoje a -partida. Encontrei esta manh o Conselheiro, que me disse que vinha. -Encontrei-o aos Martyres! Olha que foi sorte, logo no primeiro dia que -sahi! E um bocado adiante dou com o Julio: diz que tambem vinha!...--E -com uma voz desfallecida: - ---Sabes? tomava uma colherinha de dce... - - -Foi Luiza que abriu a porta ao Conselheiro e a Julio, que se tinham -encontrado na escada, dizendo-lhes a rir: - ---Hoje sou eu o guarda-porto! - -D. Felicidade, na sala, para disfarar a perturbao que lhe deu o -espectaculo amado da pessoa d'Accacio, comeou, fallando muito, a -censural-a por deixar assim sahir no mesmo dia as duas criadas... - ---E se te achares incommodada, filha, se te dr alguma cousa? - -Luiza riu. No era affecta a fanicos... - -Todavia achavam-na abatida. E o Conselheiro, com interesse: - ---Tem continuado a soffrer dos dentes, D. Luiza? - -Dos dentes? Era a primeira vez que tal ouvia!--exclamou logo D. -Felicidade. Julio declarou que raras vezes vira uma dentio to -perfeita. - -O Conselheiro apressou-se a citar: - - Em labios de coral, perolas finas... - -E acrescentou: - --- verdade, mas a ultima vez que tive a honra d'estar com D. Luiza, -viu-se to repentinamente afflicta com um dente, que teve d'ir a correr -chumbal-o ao Vitry! - -Luiza fez-se muito vermelha. Felizmente a campainha tocou. Devia ser a -Joanna, ia abrir... - --- verdade--continuou o Conselheiro--tinhamos feito um delicioso -passeio, quando de repente D. Luiza empallidece, e parece que a dr era -to urgente, que se precipitou para a escada do dentista, como louca... - -A proposito de dres, D. Felicidade, que estava anciosa por interessar, -commover o Conselheiro, comeou a historia do seu p: disse a queda, -o milagre de no ter morrido, as visitas assiduas de condessas e -viscondessas, o susto em toda a Encarnao, os cuidados do bom dr. -Caminha... - ---Ai! soffri muito!--suspirou, com os olhos no Conselheiro, para -provocar uma palavra sympathica. - -Accacio, ento, disse com authoridade: - --- sempre um erro, ao descer uma escada ingreme, no procurar o apoio -do corrimo. - ---Mas podia ter morrido!--exclamou ella. E voltando-se para -Julio:--Pois no verdade? - ---N'este mundo morre-se por qualquer cousa--disse elle enterrado n'uma -poltrona, fumando voluptuosamente. Elle mesmo estivera n'aquella tarde -para ser atropellado por um trem: destinra o domingo para se dar _um -feriado_, e fizera um grande passeio pela circumvallao...--Ha mais -d'um mez vivo no meu cubiculo, como um frade benedictino na livraria do -seu convento!--acrescentou, rindo, quebrando complacentemente a cinza -do cigarro sobre o tapete. - -O Conselheiro quiz saber ento o assumpto da these: de certo muito -momentoso!... E apenas Julio lhe disse: Sobre physiologia, snr. -Conselheiro, Accacio observou logo, com uma voz profunda: - ---Ah! physiologia! Deve ser ento de grande magnitude! E presta-se mais -ao estylo ameno. - -Queixou-se, tambem, de vergar ao peso dos seus trabalhos -litterarios... - ---Esperemos todavia, snr. Zuzarte, que no sejam infructiferas as -nossas vigilias! - ---As suas, snr. Conselheiro, as suas!--E com interesse:--Quando nos d -o seu novo trabalho? Ha sofreguido em o vr! - ---Ha alguma sofreguido--concordou o Conselheiro com seriedade.--Ha -dias me dizia o snr. ministro da justia (esse robustissimo talento), -ha dias me dizia, me fazia a honra de me dizer: D-nos depressa o seu -livro, Accacio, estamos precisados de luz, de muita luz! Foi assim que -elle disse. Eu inclinei-me, naturalmente, e respondi: Snr. ministro, -no serei eu que a negue ao meu paiz, quando o meu paiz a necessitar! - ---Muito bem, muito bem, Conselheiro! - ---E--acrescentou--dir-lhes-hei, aqui em familia, que o nosso ministro -do reino me deixou entrevr n'um futuro no remoto, a commenda de S. -Thiago! - ---J lh'a deviam ter dado, Conselheiro!--exclamou Julio, -divertindo-se.--Mas n'este desgraado paiz... J a devia ter ao peito, -Conselheiro! - ---Ha que tempos!--exclamou com fora D. Felicidade. - ---Obrigado, obrigado!--balbuciou o Conselheiro, rubro. E na expanso do -seu jubilo offereceu com uma familiaridade agradecida, a sua caixa de -rap a Julio. - ---Tomarei para espirrar--disse elle. - -Sentia-se n'aquella tarde n'uma disposio benevola: o trabalho e as -altas esperanas que elle lhe dava tinham de certo dissipado o seu -azedume: parecia at ter esquecido a sua humilhao, quando encontrra -alli, n'aquella sala, o primo Bazilio, porque apenas Luiza entrou, -perguntou-lhe por elle. - ---Partiu para Paris, no sabiam? ha que tempos! - -D. Felicidade e o Conselheiro fizeram logo o elogio de Bazilio. Tinha -ido deixar bilhetes de visita a ambos--o que encantra D. Felicidade, -e ensoberbecera o Conselheiro. Era um verdadeiro fidalgo!--exclamava -ella. E Accacio affirmou com authoridade: - ---E uma voz de barytono, digna de S. Carlos. - ---E muito elegante!--disse D. Felicidade. - ---Um _gentleman_!--resumiu o Conselheiro. - -Julio, calado, bambaleava a perna. Agora, quelles elogios, o seu -despeito renascia; lembrava a seccura cortante de Luiza, n'aquella -manh, as _poses_ do outro. No resistiu a dizer: - ---Um pouco sobrecarregado nas joias e nos bordados das meias. De resto - moda no Brazil, creio... - -Luiza crou; teve-lhe odio. E, vagamente, veio-lhe uma saudade de -Bazilio. - -D. Felicidade ento, perguntou por Sebastio: no o via havia um -seculo; e lamentava, porque era uma pessoa que lhe dava saude, s vl-a. - --- uma grande alma--disse com emphase o Conselheiro.--Todavia -censurava-o um pouco por no se occupar, no se tornar util ao seu -paiz.--Porque emfim--declarou--o piano uma bonita habilidade, mas no -d uma posio na sociedade.--Citou ento Ernestinho, que, posto que -dando-se arte dramatica, era todavia (e a sua voz tornou-se grave), -segundo todas as informaes, um excellente empregado aduaneiro... - -Que fazia elle, Ernestinho?--perguntaram. - -Julio tinha-o encontrado. Dissera-lhe que a _Honra e Paixo_ ia d'ahi -a duas semanas, j se estavam a imprimir os cartazes, e na rua dos -Condes j lhe no chamavam seno o _Dumas filho portuguez_! E o pobre -rapaz cr-se realmente um _Dumas filho_! - ---No conheo esse author--disse com gravidade o Conselheiro--posto que -me parea, pelo nome, ser filho do escriptor que se tornou famoso pelos -_Tres Mosqueteiros_ e outras obras de imaginao!... Mas, de resto, -o nosso Ledesma um esmerado cultor da arte dos Corneilles! No lhe -parece, D. Luiza? - ---Sim--disse ella com um sorriso vago. - -Parecia preoccupada. Fra j duas vezes ao relogio do quarto vr as -horas: quasi dez, e Juliana sem voltar! Quem havia de servir o ch? -Ella mesmo foi pr as chavenas no taboleiro, armar o paliteiro. Quando -voltou sala notou um silencio enfastiado...--Queriam que fosse -tocar?--perguntou. - -Mas D. Felicidade que olhava, ao p de Julio, as gravuras do Dante, -illustrado por G. Dor, que elle folheava, com o volume sobre os -joelhos, exclamou, de repente: - ---Ai que bonito! que ? Muito bonito! Viste, Luiza? - -Luiza aproximou-se. - --- um caso d'amor infeliz, snr.^a D. Felicidade--disse Julio.-- -a historia triste de Paulo e Francesca de Rimini.--E explicando o -desenho:--Aquella senhora sentada Francesca: este moo de guedelha, -ajoelhado aos ps d'ella, e que a abraa, seu cunhado, e, lamento ter -de o dizer, seu amante. E aquelle barbaas, que l ao fundo levanta o -reposteiro e saca da espada, o marido que vem, e zs!--E fez o gesto -de enterrar o ferro. - ---Safa!--fez D. Felicidade, arripiada--E aquelle livro cahido o que ? -Estavam a lr?... - -Julio disse discretamente: - ---Sim... Tinham comeado por lr, mas depois... - - Quel giorno pi no vi leggiomi avante, - -o que quer dizer:--_E ns no lemos mais em todo o dia!_ - ---Pozeram-se a derriar--disse D. Felicidade com um sorriso. - ---Peor, minha rica senhora, peor! Porque segundo a mesma confisso de -Francesca, este moo, o da guedelha, o cunhado, - - La bocca me bacci tutto tremante, - -o que significa:--_A bocca me beijou tremendo todo_... - ---Ah!--fez D. Felicidade, com um olhar rapido para o Conselheiro.-- -uma novella? - --- o Dante, D. Felicidade--acudiu com severidade o Conselheiro--um -poema epico classificado entre os melhores. Inferior, porm, ao nosso -Cames! Mas rival do famoso Milton! - ---Que n'essas historias estrangeiras os maridos matam sempre as -mulheres!--exclamou ella. E voltando-se para o Conselheiro:--Pois no -verdade? - ---Sim. D. Felicidade, repetem-se l fra com frequencia essas -tragedias domesticas. O desenfreamento das paixes maior. Mas entre -ns, digamol-o com orgulho, o lar muito respeitado. Assim eu, por -exemplo, em todas as minhas relaes em Lisboa, que so numerosas, -graas a Deus, no conheo seno esposas modlos.--E com um sorriso -cortezo:--De que de certo a flr a dona da casa! - -D. Felicidade revirou os olhos para Luiza que estava encostada -cadeira d'ella, e batendo-lhe no brao: - ---Isto uma joia!--disse com amor. - ---E de resto--acudiu o Conselheiro--o nosso Jorge merece-o. Porque, -como diz o poeta: - - Seu corao nobre, e a fronte altiva - Revela-lhe da alma a pura essencia. - -Aquella conversao impacientava Luiza. Ia sentar-se ao piano, quando -D. Felicidade exclamou:--Dize c, ento no se toma hoje ch n'esta -casa? - -Luiza foi outra vez cozinha. Disse a Joanna que viesse ella mesma -com o ch.--E d'ahi a pouco Joanna, d'avental branco, vermelha, muito -atarantada, entrou com o taboleiro. - ---E a Juliana?--perguntou logo D. Felicidade. - ---Sahiu, coitada--explicou Luiza--tem andado doente... - ---E anda-te ento por fra at estas horas?... Boa! At desacredita uma -casa... - -O Conselheiro tambem achava imprudente: - ---Porque emfim as tentaes so grandes n'uma capital, minha senhora! - -Julio exclamou, rindo: - ---No, se aquella tentada, descreio para sempre e totalmente, dos -meus contemporaneos. - ---Oh snr. Zuzarte!--acudiu o Conselheiro, quasi severamente--referia-me -a outras tentaes: entrar, por exemplo, n'uma loja de bebidas, -appetecer-lhe ir ao Circo e desleixar os seus deveres... - -Mas D. Felicidade no podia soffrer a Juliana: achava-lhe cara de -Judas, tinha ar de ser capaz de tudo... - -Luiza defendeu-a: era muito servial, muito boa engommadeira, muito -honesta... - ---E anda-te pela rua at s onze da noite!... Credo! Fosse commigo! - ---E creio--observou o Conselheiro--que tem uma doena mortal. No -verdade, snr. Zuzarte? - ---Mortal. Um aneurisma--respondeu Julio, sem levantar os olhos do -Dante. - ---Ainda para mais!--exclamou D. Felicidade. E abaixando a voz:--Tu -o que deves fazer descartar-te d'ella! Uma criada com uma doena -d'essas! Que at lhe pde arrebentar a vir dar um copo d'agua gente. -Cruzes! - -O Conselheiro apoiava: - ---E s vezes, que embaraos com a authoridade! - -Julio fechou o Dante, e disse: - ---Eu tem-me esquecido d'avisar o Jorge; mas um dia a creatura cahe-lhes -redonda no cho.--E sorveu um gole de ch. - -Luiza estava afflicta. Parecia-lhe que uma nova complicao se formava -para a torturar... Pz-se a dizer que era to difficil arranjar -criadas... - -L isso era, concordaram. - -Fallaram de criados, das suas exigencias. Estavam cada vez mais -atrevidos! E em se lhes dando confiana! E que immoralidade!... - ---Muitas vezes culpa das amas--disse D. Felicidade.--Fazem das -criadas confidentes, e isto, em ellas apanhando um segredo, tornam-se -as donas da casa... - -As mos tremulas de Luiza faziam-lhe tilintar a chavena. Disse, com uma -voz affectadamente risonha: - ---E o Conselheiro, que tal de criados? - -Accacio tossiu: - ---Bem. Tenho uma pessoa respeitavel, com bom paladar, muito escrupulosa -em contas... - ---E que no feia--acudiu Julio.--Assim me pareceu uma vez que fui -rua do Ferregial... - -Uma vermelhido espalhra-se pela calva do Conselheiro. D. Felicidade -fitava-o anciosamente, com a pupilla chammejante. Accacio, ento, disse -com severidade: - ---Nunca reparo para a physionomia dos subalternos, snr. Zuzarte. - -Julio ergueu-se e enterrando as mos nos bolsos, jovialmente: - ---Foi um grande erro abolir a escravatura!... - ---E o principio da liberdade?--acudiu logo o Conselheiro--E o principio -da liberdade? Que os pretos eram grandes cozinheiros, concordo... Mas a -liberdade um bem maior. - -Alargou-se ento em consideraes; fulminou os horrores do trafico, -lanou suspeitas sobre a philantropia dos inglezes, foi severo com os -plantadores da Nova-Orleans, contou o caso da _Charles et Georges_: -dirigia-se exclusivamente a Julio, que fumava, cabisbaixo. - -D. Felicidade fra-se sentar ao p de Luiza, e muito inquieta, -fallando-lhe ao ouvido: - ---Tu conheces a criada do Conselheiro? - ---No. - -Ser bonita? - -Luiza encolheu os hombros. - ---No sei que me diz o corao, Luiza! Estou a abafar! - -E em quanto Accacio, de p, perorava para Julio, D. Felicidade ia -murmurando a Luiza as queixas da sua paixo. - -Que allivio para Luiza quando elles sahiram! O que ella soffrera, l -por dentro, toda aquella noite! Que massadores, que idiotas!--E a outra -sem vir! Oh que vida a sua! - -Foi cozinha dizer a Joanna: - ---Espere pela Juliana, tenha paciencia. Que ella no pde tardar; -aquillo a mulher achou-se peor! - -Mas j passava de meia noite, j Luiza estava deitada, quando a -campainha tocou de leve; depois mais forte; emfim, com impaciencia. - -A rapariga adormeceu, pensou Luiza. Saltou da cama, subiu descala - cozinha. Joanna, estirada para cima da mesa, resonava ao p do -candieiro de petroleo, que fumegava fetidamente. Sacudiu-a, fl-a pr -de p, estremunhada; voltou, correndo, deitar-se; e sentiu d'ahi a -pouco, no corredor, a voz de Juliana dizer com satisfao: - ---J est tudo acommodado, hein? Pois eu estive no theatro. Muito -bonito! Do melhor, snr.^a Joanna, do melhor! - -Luiza adormeceu tarde, e durante toda a noite um sonho inquieto -agitou-a.--Estava n'um theatro immenso, dourado como uma igreja. -Era uma gala: joias faiscavam sobre seios mimosos, condecoraes -reluziam sobre fardas palacianas. Na tribuna, um rei triste e moo, -immovel n'uma attitude rigida e hieratica, sustentava na mo a esphera -armillar, e o seu manto de velludo escuro, constellado de pedrarias -como um firmamento, espalhava-se em redor em pregas d'esculptura, -fazendo tropear a multido dos cortezos vestidos como valetes de paus. - -Ella estava no palco; era actriz; debutava no drama d'Ernestinho: e -toda nervosa via diante de si na vasta plata susurrante, fileiras de -olhos negros e accesos, cravados n'ella com furor: no meio a calva -do Conselheiro, d'uma redondeza nevada e nobre, sobresahia, rodeada -como uma flr d'um vo amoroso d'abelhas. No palco oscillava a vasta -decorao d'uma floresta; ella notava sobretudo, esquerda, um -carvalho secular, d'uma arrogancia heroica--cujo tronco tinha a vaga -configurao d'uma physionomia, e se parecia com Sebastio. - -Mas o contra-regra bateu as palmas: era esguio, parecia-se com D. -Quixote, trazia oculos redondos com aros de lata, brandia _o Jornal do -Commercio_ torcido em saca-rolhas, e gania: salta a scenasinha de amor! -salta-me essa maravilha! Ento a orchestra, onde os olhos dos musicos -reluziam como granadas e as suas cabelleiras se erriavam como montes -d'estopa, tocou com uma lentido melancolica o fado de Leopoldina; e -uma voz aspera e canalha cantava em falsete: - - Vejo-o nas nuvens da tarde, - Nas ondas do mar sem fim, - E por mais longe que esteja - Sinto-o sempre ao p de mim. - -Luiza achava-se nos braos de Bazilio que a enlaavam, a queimavam: -toda desfallecida, sentia-se perder, fundir-se n'um elemento quente -como o sol e dce como o mel: gozava prodigiosamente: mas, por entre os -seus soluos, sentia-se envergonhada, porque Bazilio repetia no palco, -sem pudor, os delirios libertinos do _Paraiso_! Como consentia ella? - -O theatro n'uma acclamao immensa bradava: Bravo! Bis! bis! Lenos aos -milhares esvoaavam como borboletas brancas n'um campo de trevo: os -braos ns das mulheres lanavam com um gesto ondeado ramos de violetas -dobradas: o rei erguera-se espectralmente, e, triste, arremessou -como um _bouquet_ a sua esphera armillar: e o Conselheiro logo, n'um -phrenesi, para seguir os exemplos de Sua Magestade, desaparafusando -rapidamente a calva, atirou-lh'a, com um berro de dr e de gloria! O -contraregra gania:--Agradeam! Agradeam! Ella curvava-se, os seus -cabellos de Magdalena rojavam pelo tablado: e Bazilio, a seu lado, -seguia com olhos vivos os charutos que lhe atiravam, apanhando-os com a -graa d'um toureiro e a destreza d'um _clown_! - -Subitamente, porm, todo o theatro teve um _ah_! d'espanto. -Fez-se um silencio ancioso e tragico; e todos os olhos, milhares -d'olhos attonitos se fitavam no pano de fundo, onde um caramancho -arqueava a sua estructura toda estrellada de rosinhas brancas. -Ella voltou-se tambem como magnetisada, e viu Jorge, Jorge que se -adiantava, vestido de luto, de luvas pretas, com um punhal na mo; e -a lamina reluzia--menos que os olhos d'elle! Aproximou-se da rampa e -curvando-se, disse com uma voz graciosa: - ---Real magestade, senhor infante, snr. governador civil, minhas -senhoras, e meus senhores--agora commigo! Reparem n'este trabalhinho! - -Caminhou ento para ella com passos marmoreos que faziam oscillar o -tablado; agarrou-lhe os cabellos, como um mlho d'herva que se quer -arrancar; curvou-lhe a cabea para traz; ergueu d'um modo classico o -punhal; fez a pontaria ao seio esquerdo: e balanando o corpo, piscando -o olho, cravou-lhe o ferro! - ---Muito bonito!--disse uma voz--Rico trabalho! - -Era Bazilio que fizera entrar nobremente na plata o seu phaeton! -Direito na almofada, com o chapo ao lado, uma rosa na sobrecasaca, -continha com a mo negligente a inquietao soberba dos seus cavallos -inglezes; e ao seu lado, sentado como um trintanario coberto das -suas vestes sacerdotaes, vinha o patriarcha de Jerusalm!--Mas Jorge -arrancra o punhal todo escarlate; as gotas de sangue corriam at -ponta, coalhavam; cahiam depois com um som crystallino, punham-se a -rolar pelo tablado como continhas de vidro vermelho. Ella deitra-se, -expirante, sob o carvalho que se parecia com Sebastio: ento, como -a terra era dura, a arvore estendeu por baixo d'ella as suas raizes, -macias como coxins de pennas; como o sol a mordia, a arvore desdobrou -sobre ella as suas ramagens, como os panos d'uma tenda: e das folhas -deixava-lhe escorrer sobre os labios gotas de vinho da Madeira! Ella -via no entanto com terror o seu sangue sahir da ferida, vermelho e -forte, correr, alastrar-se, fazendo poas aqui, ribeirinhos tortuosos -alm. E ouvia a plata berrar: - ---O author! Fra o author! - -Ernestinho, muito frisado, pallido, appareceu; agradecia soluando; e, -s cortezias, saltava aqui, acol--para no sujar no sangue da prima -Luiza os seus sapatinhos de verniz... - -Sentiu que ia morrer! Uma voz disse vagamente:--l, como vai -isso?--Parecia-lhe de Jorge. D'onde vinha? Do co? da plata? do -corredor? Um ruido forte, como d'uma mala que se deixa cahir, -acordou-a. Sentou-se na cama. - ---Bem, deixe ahi--disse a voz de Jorge. - -Saltou em camisa. Elle entrava. E ficaram enlaados, n'um longo abrao, -os beios collados, sem uma palavra. O relogio do quarto dava sete -horas. - - - - -X - - -N'esse dia pela uma hora Jorge e Luiza acabavam d'almoar, como na -vespera da partida d'elle. Mas agora no pesava a faiscante inclemencia -da calma, as janellas estavam abertas ao sol amavel d'outubro; j -passavam no ar certas frescuras outonaes; havia uma pallidez meiga -na luz; tardinha j sabiam bem os paletots; e tons amarellados -comeavam a envelhecer as verduras. - ---Que bom achar-se a gente outra vez no seu ninho!--disse Jorge, -estirando-se na _voltaire_. - -Estivera contando a Luiza a sua viagem. Tinha trabalhado como um mouro, -e tinha ganho dinheiro! Trazia os elementos d'um bello relatorio; -crera amigos n'aquella boa gente do Alemtejo; estavam acabadas as -soalheiras, as cavalgadas pelos montados, os quartos d'hospedaria; e -alli estava emfim na sua casinha. E como na vespera da sua partida, -soprava o fumo do cigarro, cofiando com delicias o bigode,--porque -tinha cortado a barba! Fra a grande admirao de Luiza, quando o viu. -Elle explicra, com humilhao e melancolia, que tivera um furunculo no -queixo, com o calor... - ---Mas que bem te fica!--tinha ella dito--que bem que te fica! - -Jorge trouxera-lhe como presente seis pratos de loua da China, muito -antigos, com mandarins bojudos, de tunicas esmaltadas, suspensos -magestosamente no ar azulado; uma preciosidade que descobrira em -casa d'umas velhas miguelistas, em Mertola. Luiza dispunha-os muito -decorativamente nas prateleiras do guarda-loua: e em bicos de ps, -com a larga cauda do seu roupo estendida por traz, a massa loura do -cabello pesado, um pouco desmanchado sobre as costas--parecia a Jorge -mais esbelta, mais irresistivel, e nunca a sua cinta fina lhe attrahira -tanto os braos. - ---A ultima vez que aqui almocei, antes de partir, foi um domingo, -lembras-te? - ---Lembro--disse Luiza sem se voltar, collocando muito delicadamente um -prato. - ---E verdade--perguntou Jorge de repente--teu primo? Vistel-o? Veio -vr-te? - -O prato escorregou, houve um tlin-tlin de copos. - ---Sim, veio--disse Luiza, depois d'um silencio--esteve ahi umas poucas -de vezes. Demorou-se pouco... - -Abaixou-se, abriu o gaveto do guarda-loua, esteve a remexer nas -colheres de prata: ergueu-se, emfim, voltou-se com um sorriso, -vermelha, sacudindo as mos: - ---Prompto! - -E foi sentar-se nos joelhos de Jorge. - ---Como te fica bem!--dizia, torcendo-lhe o bigode. Admirava-o, d'um -modo ardente. Quando se atirra aos seus braos n'aquella madrugada, -sentira como abrir-se-lhe o corao, e um amor repentino revolver-lh'o -deliciosamente; viera-lhe um desejo de o adorar perpetuamente, de o -servir, de o apertar nos braos at lhe fazer mal, de lhe obedecer com -humildade; era uma sensao multipla, de uma doura infinita, que a -traspassra at s profundidades do seu sr. E passando-lhe um brao -pelo pescoo, murmurava com um movimento d'uma adulao quasi lasciva: - ---Ests contente? Sentes-te bom? Dize! - -Nunca lhe parecera to bonito, to bom; a sua pessoa depois d'aquella -separao dava-lhe as admiraes, os enlevos d'uma paixo nova. - --- o snr. Sebastio--veio dizer Juliana toda risonha para Jorge. - -Jorge deu um pulo, afastou Luiza bruscamente, atirou-se pelo corredor -gritando: - ---Aos meus braos! aos meus braos, scelerado! - - -D'ahi a dias, uma manh que Jorge sahira para o ministerio, Juliana -entrou no quarto de Luiza, e fechando a porta devagarinho, com uma voz -muito amavel: - ---Eu desejava fallar senhora n'uma cousa. - -E comeou a dizer,--que o seu quarto em cima no soto era peor que -uma enxovia; que no podia l continuar; o calor, o mau cheiro, os -persevejos, a falta d'ar, e no inverno a humidade, matavam-na! Emfim, -desejava mudar p'ra baixo, p'ra o quarto dos bahus. - -O _quarto dos bahus_ tinha uma janella nas trazeiras; era alto e -espaoso; guardavam-se alli os oleados de Jorge, as suas malas, os -paletots velhos, e veneraveis bahus do tempo da av, de couro vermelho -com pregos amarellos. - ---Ficava alli como no co, minha senhora! - -E... aonde se haviam de pr os bahus? - ---No meu quarto, em cima.--E com um risinho:--Os bahus no so gente, -no soffrem... - -Luiza disse um pouco embaraada: - ---Bem, eu verei, eu fallarei ao snr. Jorge. - ---Conto com a senhora. - -Mas apenas n'essa tarde Luiza explicou a Jorge a ambio da pobre de -Christo, elle deu um salto: - ---O qu? Mudar os bahus? Est douda! - -Luiza ento insistiu: era o sonho da pobre creatura desde que viera -para a casa! Enterneceu-o. No, elle no imaginava, ninguem imaginava -o que era o quarto da pobre mulher! O cheiro empestava, os ratos -passeavam-lhe pelo corpo, o forro estava roto, chovia dentro; fra l -ha dias, e ia tombando para o lado... - ---Santo Deus! Mas isso o que minha av contava das enxovias -d'Almeida! Muda-a, muda-a depressa, filha!... Porei os meus ricos bahus -no soto. - -Quando Juliana soube o _favor_: - ---Ai, minha senhora, a vida que me d! Deus lh'o pague! Que eu no -tinha saude para viver n'um cacifro d'aquelles. - -Ultimamente queixava-se mais: andava amarella, trazia os beios -um pouco arroxeados; tinha dias d'uma tristeza negra, ou d'uma -irritabilidade morbida: os ps nunca lhe aqueciam. Ah! Precisava muitos -cuidados, muitos cuidados!... - -Foi por isso que d'ahi a dous dias veio pedir a Luiza, se fazia o -favor d'ir ao quarto dos bahus. E l, mostrando-lhe o soalho velho e -carunchoso: - ---Isto no pde ficar assim, minha senhora, isto precisa uma esteira -seno, no vale a pena mudar. Eu se tivesse dinheiro no importunava a -senhora, mas... - ---Bem, bem, eu arranjarei--disse Luiza com uma voz paciente. - -E pagou a esteira, sem dizer nada a Jorge. Mas na manh em que os -esteireiros a pregavam Jorge veio perguntar attonito a Luiza o que era -aquillo, rolos d'esteira no corredor? - -Ella pz-se a rir, pousou-lhe as mos sobre os hombros: - ---Foi a pobre Juliana que pediu como uma esmola a esteira, que o -soalho estava podre. At a queria pagar, e que eu lh'a descontasse -nas soldadas. Ora por uma ridicularia...--E com um gesto -compassivo:--Tambem so creaturas de Deus, no so escravas, filho! - ---Magnifico! E que no tardem os espelhos e os bronzes! Mas que mudana -foi essa, tu que a no podias vr? - ---Coitada!--fez Luiza--reconheci que era boa mulher. E como estive -to s, dei-me mais com ella. No tinha com quem fallar, fez-me muita -companhia. At quando estive doente... - ---Estiveste doente?--exclamou Jorge espantado. - ---Oh! tres dias, s--acudiu ella--uma constipao. Pois olha que dia e -noite no se tirou d'ao p de mim. - -Luiza ficou logo com receio que Jorge fallasse _na doena_, e Juliana -desprevenida negasse; por isso, n'essa tarde, ao escurecer, chamou-a ao -quarto: - ---Eu disse ao snr. Jorge que voss me tinha feito muito boa companhia -n'uma doena...--E o seu rosto abrazava-se de vergonha. - -Juliana logo, risonha, contente da cumplicidade: - ---Fico entendida, minha senhora! Pde estar socegada! - -Com effeito Jorge, ao outro dia, depois do caf, voltou-se para -Juliana, e com bondade: - ---Parece que voss fez boa companhia snr.^a D. Luiza. - ---Fiz o meu dever--exclamou, curvando-se com a mo no peito. - ---Bem, bem--fez Jorge, remexendo no bolso. E ao sahir da sala meteu-lhe -na mo meia libra. - ---Palerma!--rosnou ella. - -Foi n'essa semana que comeou a queixar-se a Luiza, que a roupa e os -vestidos, na arca, se lhe amarfanhavam... Estava-se-lhe a estragar -tudo! Se ella tivesse dinheiro, no vinha com aquelles pedidos -senhora, mas... Emfim uma manh declarou terminantemente que precisava -uma commoda. - -Luiza sentiu uma raiva accender-lhe o sangue, e sem levantar os olhos -do bordado: - ---Uma meia commoda? - ---Se a senhora quer fazer o favor, ento uma commoda inteira... - ---Mas voss tem pouca roupa--disse Luiza. Comeava a installar-se na -humilhao e j regateava as condescendencias. - ---Tenho, sim, minha senhora--replicou Juliana--mas vou agora -completar-me! - -A commoda foi comprada em segredo, e introduzida occultamente. Que dia -de felicidade para Juliana! No se fartava de lhe saborear o cheiro -da madeira nova! Passava a mo, com a tremura d'uma caricia, sobre -o polimento luzidio!... Forrou-lhe as gavetas de papel de sda, _e -comeou a completar-se_! - - -Foram semanas d'amargura para Luiza. - -Juliana entrava no quarto todas as manhs, muito comprimenteira, -comeava a arrumar, e de repente com uma voz lamentosa: - ---Ai! estou to falta de camisas! se a senhora me podesse ajudar... - -Luiza ia s suas gavetas cheias, cheirosas, e comeava melancolicamente -a pr parte as peas mais usadas. Adorava a sua roupa branca: tinha -tudo s duzias, com lindas marcas, _sachets_ para perfumar; e aquellas -dadivas dilaceravam-n'a como mutilaes! Juliana por fim j pedia com -seccura, com direito: - ---Que bonita que esta camisinha!--dizia simplesmente.--A senhora no -a quer; no? - ---Leve, leve!--dizia Luiza sorrindo, por orgulho, para no se mostrar -violentada. - -E todas as noites Juliana fechada no seu quarto, encruzada na esteira, -inchada d'alegria, com o candieiro sobre uma cadeira, desmarcava roupa, -desfazendo as duas letras de Luiza, marcando regaladamente as suas, a -linha vermelha, enormes--_J. C. T.,_--Juliana Couceiro Tavira! - -Mas emfim cessou, porque, como ella dizia, de roupa branca estava como -um ovo. - ---Agora, se a senhora me quizer ajudar com alguma cousa para sahir... - -E Luiza comeou a _vestil-a_. - -Deu-lhe um vestido roxo de sda, um casaco de casimira preta, -com bordados a _soutache_. E receando que Jorge estranhasse as -generosidades, transformava-as para elle as no reconhecer: mandou -tingir de castanho o vestido, ella mesmo por sua mo pz uma guarnio -de velludo no casaco. Trabalhava para ella, agora!--Como acabaria tudo -aquillo, Santo Deus? - -Todavia Jorge um domingo disse ao jantar, rindo: - ---Esta Juliana anda uma janota! Prospera a olhos vistos. - -D. Felicidade, noite, tambem notou: - ---Que _chic_! Nem uma criada do pao! - ---Coitada! cousas que ella aproveita... - -Prosperava, com effeito! No punha na cama seno lenoes de linho. -Reclamra colxes novos, um tapete para os ps da cama, felpudo! Os -_sachets_ que perfumavam a roupa de Luiza iam passando para a dobra -das suas calcinhas. Tinha cortinas de cassa na janella, apanhadas com -velhas fitas de sda azul; e sobre a commoda dous vasos da Vista Alegre -dourados! Emfim um dia santo, em lugar da _cuia_ de retroz, appareceu -com um _chignon_ de cabello! - -Joanna pasmava d'aquellas tafularias. Attribuia-as bondade da -senhora, e resentia-se de ser esquecida. Um dia mesmo, que Juliana -estrera uma sombrinha, disse diante de Luiza, com uma voz de despeito: - ---Para umas tudo, para outras nada!... - -Luiza riu, acudiu: - ---Tolices! Eu sou a mesma p'ra todas. - -Mas reflectiu: Joanna podia ter desconfianas tambem, ter ouvido -_alguma cousa_ a Juliana... E logo ao outro dia, para a conservar -contente e amiga, deu-lhe dous lenos de sda, depois dous mil reis -para um vestido; e d'ahi por diante nunca lhe recusou licena para -sahir noitinha _a casa d'uma tia_... - -A Joanna ia por toda a parte fallando da senhora, que era um anjo. -Na rua, de resto, tinha-se notado o luxo de Juliana. Sabia-se do -quarto novo, dizia-se baixo que tinha alcatifa! O Paula decidira, com -indignao, que alli positivamente havia marosca. Mas Juliana uma -tarde, diante do Paula e da estanqueira, explicou, acalmou as suspeitas. - ---Ora! dizem que tenho isto e aquillo. No tanto! Tenho as minhas -commodidades. Mas tambem a maneira como eu lhes tratei a tia, de dia -e de noite, sem arredar p... Por mais que faam no me pagam, que -arruinei a minha saude! - -Assim se justificou a prosperidade de Juliana. Era a familia -agradecida, dizia-se; tratavam-na como parenta! - -E, pouco a pouco, a casa do Engenheiro teve para os criados da -visinhana a vaga seduco d'um paraiso: dizia-se que as soldadas -eram enormes, havia vinho discrio, recebiam-se presentes todas as -semanas, ceava-se todas as noites caldo do gallinha! Cada um invejava -aquella pechincha. Pela inculcadeira, a fama da casa do Engenheiro -alargou-se. Creou-se uma legenda. - -Jorge, attonito, recebia todos os dias cartas de pessoas offerecendo-se -para criados de quarto, criadas de dentro, cozinheiros, escudeiros, -governantas, cocheiros, guarda-portes, ajudantes de cozinha... Citavam -as casas titulares de que tinham sahido; pediam audiencia; suspeitando -certas cousas uma bonita criada de quarto juntou a sua photographia; um -cozinheiro trouxe uma carta d'empenho do director geral do ministerio. - ---Estranho caso!--dizia Jorge, pasmado--disputam-se a honra de me -servir! Imaginaro que me sahiu a sorte grande? - -Mas no dava muita atteno quella singularidade. Vivia ento muito -occupado: andava escrevendo o seu relatorio; e todos os dias sahia ao -meio dia, voltava s seis, com rolos de papeis, mappas, brochuras, -fatigado, berrando pelo jantar, radiante. - -Contou o _caso_, todavia, rindo, um domingo noite. O Conselheiro -observou logo: - ---Com o bom genio da D. Luiza, com o seu, Jorge, n'este bairro -saudavel, n'uma casa sem escandalos, sem questes de familia, toda -virtude, natural que a criadagem menos favorecida aspire a uma -posio to agradavel. - ---Somos os amos ideaes!--disse Jorge, batendo muito alegre no hombro de -Luiza. - -A casa, com effeito, tornava-se agradavel. Juliana exigira que o -jantar fosse mais largo (para ter uma parte sua, sem sobejos), e como -era boa cozinheira vigiava os foges, provava, ensinava pratos Joanna. - ---Esta Joanna uma revelao--dizia Jorge--v-se-lhe crescer o -talento!... - -Juliana, bem alojada, bem alimentada, com roupa fina sobre a pelle, -colxes macios, saboreava a vida: o seu temperamento adora-se -n'aquellas abundancias; depois, bem aconselhada pela tia Victoria, -fazia o seu servio com um zelo minucioso e habil. Os vestidos de Luiza -andavam cuidados como reliquias. Nunca os peitilhos de Jorge tinham -resplandecido tanto! O sol d'outubro alegrava a casa, muito aceada, -d'uma pacatez d'abbadia. At o gato engordava. - - -E no meio d'aquella prosperidade--Luiza definhava-se. At onde iria a -tyrannia de Juliana? era agora o seu terror. E como a odiava! Seguia-a -por vezes com um olhar to intensamente rancoroso, que receava que ella -se voltasse subitamente, como ferida pelas costas. E via-a satisfeita, -cantarolando a _Carta adorada_, dormindo em colxes to bons como os -seus, pavoneando-se na _sua_ roupa, reinando na _sua_ casa! Era justo, -justos cos? - -s vezes vinha-lhe uma revolta, torcia os braos, blasphemava, -debatia-se na sua desgraa, como nas malhas d'uma rde; mas, no -encontrando nenhuma soluo, recahia n'uma melancolia aspera--em que o -seu genio se pervertia. Seguia com satisfao a amarellido crescente -das feies de Juliana; tinha esperanas no aneurisma: no rebentaria -um dia, o demonio? - -E diante de Jorge tinha de a elogiar! - -A vida pesava-lhe. Apenas elle pela manh sahia e fechava a cancella, -logo as suas tristezas, os seus receios lhe desciam sobre a alma, -devagar, como grandes vos espessos que se abatem lugubremente; no -se vestia ento at s quatro, cinco horas, e com o roupo solto, em -chinellas, despenteada, arrastava o seu aborrecimento pelo quarto. -Vinham-lhe, por momentos, de repente, desejos de fugir, ir metter-se -n'um convento! A sua sensibilidade muito exaltada impellil-a-hia de -certo a alguma resoluo melodramatica,--se a no retivesse, com a -fora d'uma seduco permanente, o seu amor por Jorge. Porque o amava -agora, immensamente! Amava-o com cuidados de mi, com impetos de -concubina... Tinha ciumes de tudo, at do ministerio, at do relatorio! -Ia interrompl-o a cada momento, tirar-lhe a penna da mo, reclamar -o seu olhar, a sua voz; e os passos d'elle no corredor davam-lhe o -alvoroo dos amores illegitimos... - -De resto ella mesma se esforava por desenvolver aquella paixo, -achando n'ella a compensao ineffavel das suas humilhaes. Como -lhe viera _aquillo_? Porque sempre o amra, de certo, reconhecia-o -agora,--mas no tanto, no to exclusivamente! Nem ella sabia. -Envergonhava-se mesmo, sentindo vagamente n'aquella violencia amorosa -pouca dignidade conjugal: suspeitava que o que tinha era apenas um -_capricho_. Um capricho por seu marido! No lhe parecia rigorosamente -casto... Que lhe importava, de resto? Aquillo fazia-a feliz, -prodigiosamente. Fosse o que fosse era delicioso! - -Ao principio a ida do _outro_ pairava constantemente sobre este amor, -pondo um gosto infeliz em cada beijo, um remorso em cada noite. Mas -pouco a pouco esquecra-o tanto, o _outro_--que a sua recordao, -quando por acaso voltava, no dava mais amargor nova paixo, que um -torro de sal pde dar s aguas d'uma torrente. Que feliz que seria--se -no fosse a _infame_! - - -Era a _infame_ que se sentia feliz! s vezes s no seu quarto, punha-se -a olhar em redor com um riso d'avaro: desdobrava, batia os vestidos de -sda: punha as botinas em fileira, contemplando-as de longe, extatica; -e debruada sobre as gavetas abertas da commoda contava, recontava a -roupa branca, acariciando-a com o olhar de posse satisfeita. Como a da -_Piorrinha_!--murmurava, afogada em jubilo. - ---Ai! estou muito bem!--dizia ella tia Victoria. - ---Que duvida que ests! A carta no te rendeu um conto de reis, mas -olha que te trouxe um par de regalos. E que ha-de ser uma pingadeira: -ha-de ser a boa pea de linho, o bom adereo, boas moedas... E ainda -muito obrigada por cima. Carda-a, filha, carda-a! - -Mas j havia pouco que _cardar_. E lentamente Juliana comeou a pensar, -que agora o que devia era _gozar_. Se tinha bons colxes--para que se -havia de levantar cdo? Se tinha bons vestidos--porque no havia d'ir -espairecer para a rua? Toca a tirar partido! - -Uma manh que estava mais frio deixou-se ficar na cama at s nove -horas, com as janellas entreabertas, um bom raio de sol na esteira. -Depois explicou seccamente, que tinha estado com a dr. D'ahi a dous -dias Joanna, s dez horas, veio dizer baixo a Luiza: - ---A snr.^a Juliana ainda est na cama, est tudo por arrumar. - -Luiza ficou aterrada. O qu? Teria de soffrer os seus desmazelos, como -soffrera as suas exigencias? - -Foi ao quarto d'ella: - ---Ento voss levanta-se a estas horas? - ---Foi o que me recommendou o medico--replicou muito insolente. - -E d'ahi por diante Juliana poucas vezes se erguia antes da hora de -servir ao almoo. Luiza pediu logo a Joanna que fizesse o servio por -ella: era por pouco tempo, a pobre creatura andava to adoentada! -E para acommodar a cozinheira deu-lhe meia moeda, para a ajuda d'um -vestido. - -Juliana depois, sem pedir licena, comeou a sahir. Quando voltava -tarde, para o jantar, no se desculpava! - -Um dia Luiza no se conteve, disse-lhe, vendo-a passar no corredor a -calar as luvas pretas: - ---Voss vai sahir? - -Ella respondeu, muito atrevidamente: - --- como v. Fica tudo arrumado, tudo o que minha obrigao.--E -abalou, batendo os taces. - -Ora, no lhe faltava mais seno estar a constranger-se por causa da -_Piorrinha_! - -Joanna comeava a resmungar: passa a sua vida na rua a snr.^a Juliana, -e eu que aguento... - ---Se voss estivesse doente, tambem ninguem lhe ia mo--acudia Luiza, -afflicta, quando percebia estas revoltas. E presenteava-a. Dava-lhe -mesmo vinho e sobremesa. - -Havia agora um desperdicio na casa. Os roes cresciam. Luiza andava -succumbida.--Como acabaria tudo aquillo? - -Os desleixos de Juliana iam-se tornando graves. - -Para sahir mais cedo fazia apenas o essencial. Era Luiza que acabava -d'encher os jarros, que levantava muitas vezes a mesa do almoo, que -levava para o soto roupa suja que ficava pelos cantos... - -Um dia Jorge que entrra s quatro horas, viu por acaso a cama por -fazer. Luiza apressou-se a dizer que Juliana sahira, mandra-a ella -modista. - -D'ahi a dias, eram seis horas, ainda no tinha voltado para servir ao -jantar. Tinha ido modista... explicou Luiza. - ---Mas se a Juliana unicamente para ir modista, ento toma-se outra -criada para fazer o servio da casa--disse elle. - -quellas palavras seccas Luiza fez-se pallida, duas lagrimas -rolaram-lhe pela face. - -Jorge ficou pasmado. Que era? Que tinha? Luiza no se dominou, rompeu -n'um choro nervoso, hysterico. - ---Mas que , minha filha, que tens? Zangaste-te?... - -Ella no podia responder, suffocada. Jorge fez-lhe respirar vinagre de -_toillette_, beijou-a muito. - -S quando o choro acalmou que ella pde dizer, com uma voz soluada: - ---Fallaste-me to seccamente, e eu estou to nervosa... - -Elle riu, chamou-lhe tontinha, limpou-lhe as lagrimas--mas ficou -inquieto. - -J ento lhe notra certas tristezas, abatimentos inexplicaveis, uma -irritabilidade nervosa... Que seria? - -Para que Jorge no tornasse a surprehender os desleixos, Luiza comeou -a completar todas as manhs os arranjos. Juliana percebeu logo; e -muito tranquillamente decidiu-se a deixar-lhe de cada vez mais com -que se entreter. Ora no varria, depois no fazia a cama; emfim uma -manh no vasou as aguas sujas. Luiza foi espreitar no corredor que -Joanna no descesse, no a visse, e fez ella mesma os despejos! Quando -veio ensaboar as mos, as lagrimas corriam-lhe pelo rosto. Desejava -morrer!... A que tinha chegado!... - -D. Felicidade, um dia, tendo entrado de repente, surprehendera-a a -varrer a sala. - ---Que eu o faa--exclamou--que tenho s uma criada, mas tu!... - -A Juliana tinha tanto que engommar... - ---Ai! no lhe tires servio do corpo, que no t'o agradece. E ainda se -ri por cima! Se a pes em maus costumes!... Que aguente, que aguente! - -Luiza sorriu, disse: - ---Ora, por uma vez na vida! - - -A sua tristeza augmentava cada dia. - -Refugiava-se ento no amor de Jorge como na sua unica consolao. A -noite trazia-lhe a sua desforra: Juliana a essa hora dormia; no via a -sua cara medonha; no a receava; no tinha de a elogiar; no trabalhava -por ella! Era _ella mesma_, era Luiza, como d'antes! Estava na sua -alcova com o seu marido, fechada por dentro, livre! Podia viver, rir, -conversar, ter at appetite! E trazia com effeito s vezes marmelada e -po para o quarto--para fazer uma casinha! - -Jorge estranhava-a. Tu de noite s outra, dizia. Chamava-lhe -_ave nocturna_. Ella ria em saia branca pelo quarto, com os braos -ns, o collo n, o cabello n'um rolo; e passarinhava, cantarolava, -chalrava--at que Jorge lhe dizia: - ---Passa da uma hora, filha! - -Despia-se ento rapidamente, cahia-lhe nos braos. - -Mas que acordar! Por mais clara que estivesse a manh, tudo lhe -parecia vagamente pardo. A vida sabia-lhe mal. Vestia-se devagar, com -repugnancia--entrando no seu dia como n'uma priso. - -Perdra agora toda a esperana de se libertar! s vezes ainda lhe -vinha, como um relampago, a vontade de contar tudo a Sebastio, tudo. -Mas quando o via, com o seu olhar honesto, abraar Jorge, rirem ambos, -e irem fumar o seu cachimbo, e elle to cheio sempre d'admirao por -ella, parecia-lhe mais facil sahir p'ra a rua, pedir dinheiro ao -primeiro homem que encontrasse--que ir a Sebastio, ao intimo de Jorge, -ao melhor amigo da casa, dizer-lhe: escrevi uma carta a um homem, a -criada roubou-m'a! No, antes morrer n'aquella agonia de todos os dias, -e ter ella mesma, de rastos, de lavar as escadas! s vezes reflectia, -pensava:--Mas com que conto eu?--No sabia. Com o acaso, com a morte -de Juliana... E deixava-se viver, gozando como um favor cada dia que -vinha, sentindo vagamente, a distancia, alguma cousa de indefinido e de -tenebroso onde se afundaria! - -Por esse tempo Jorge comeou a queixar-se que as suas camisas andavam -mal engommadas. A Juliana positivamente perdia a mo. Um dia mesmo -zangou-se: chamou-a, e atirando-lhe uma camisa toda amarrotada: - ---Isto no se pde vestir, est indecente! - -Juliana fez-se amarella, cravou em Luiza um olhar chammejante; mas, com -os beios tremulos, desculpou-se: a gomma era m, fra j trocal-a, -etc. - -Apenas, porm, Jorge sahiu, veio com uma rajada ao quarto, fechou a -porta e poz-se a gritar--que a senhora sujava _um rr_ de roupa, o -senhor _um rr_ de camisas, que se no tivesse alguem que a ajudasse -no podia dar aviamento!... Quem queria negras trazia-as do Brazil! - ---E no estou para aturar o genio de seu marido, percebe a senhora? Se -quer arranjar quem me ajude. - -Luiza disse simplesmente: - ---Eu a ajudarei. - -Tinha agora uma resignao muda, sombria, aceitava tudo! - -Logo no fim da semana houve uma grande trouxa de roupa: e Juliana veio -dizer--que se a senhora passasse, ella engommava. Seno, no! - -Estava um dia adoravel, Luiza tencionava sahir... Pz um roupo, e, sem -uma palavra, foi buscar o ferro. - -Joanna ficou attonita. - ---Ento a senhora vai engommar? - ---Ha uma carga, e a Juliana s no pde aviar tudo, coitada! - -Installou-se no quarto dos engommados,--e estava laboriosamente -passando a roupa branca de Jorge, quando Juliana appareceu, de chapo. - ---Voss vai sahir?--exclamou Luiza. - --- o que eu vinha dizer senhora. No posso deixar de sahir.--E -abotoava as luvas pretas. - ---Mas as camisas, quem as engomma? - ---Eu vou sahir--disse a outra seccamente. - ---Mas, com os diabos, quem engomma as camisas? - ---Engomme-as a senhora! Olha a sarna! - ---Infame!--gritou Luiza. Atirou o ferro para o cho, sahiu -impetuosamente. - -Juliana sentiu-a ir pelo corredor aos soluos. Pz-se logo a tirar o -chapo e as luvas, assustada. D'ahi a um momento ouviu a cancella da -rua bater com fora. Veio ao quarto, viu o roupo de Luiza arremessado, -a chapelleira tombada. Onde teria ido? Queixar-se policia? Procurar -o marido? C'os diabos! Fra estupida, com o genio! Arrumou depressa -o quarto, foi-se pr a engommar, com o ouvido escuta, muito -arrependida. Onde diabo teria ido? Devia ter cuidado! Se a impellisse -a fazer algum desproposito, quem perdia? Ella, que teria de sahir da -casa, deixar o seu quarto, os seus regalos, a sua posio! Safa! - - -Luiza sahira, como louca. Na rua da Escla um coup passava, vazio: -atirou-se para dentro, deu ao cocheiro a morada de Leopoldina. -Leopoldina devia ter voltado do Porto, queria vl-a, precisava d'ella, -sem saber para que... Para desabafar! Pedir-lhe uma ida, um meio de se -vingar! Porque a vontade de se libertar d'aquella tyrannia--era agora -menor que o desejo de se vingar d'aquellas humilhaes. Vinham-lhe -idas insensatas! Se a envenenasse! Parecia-lhe que sentiria um -prazer delicioso em a vr torcer-se com vomitos dilacerantes, uivando -d'agonia, largando a alma! - -Galgou as escadas de Leopoldina; a campainha ficou a retinir muito -tempo do puxo da sua mo febril. - -A Justina apenas a viu foi a gritar pelo corredor: - --- a snr.^a D. Luiza, minha senhora, a snr.^a D. Luiza! - -E Leopoldina despenteada, com um roupo escarlate de grande cauda, -correu estendendo os braos: - ---s tu! Que milagre este? Eu levantei-me agora! Entra c p'ra o -quarto. Est tudo desarranjado, mas no importa. Mas que isto, que -isto? - -Abriu as janellas que estavam ainda cerradas. Havia um forte cheiro de -vinagre de _toilette_; a Justina tirava pressa uma bacia de lato, -com agua ensaboada; toalhas sujas arrastavam; sobre uma jardineira -tinham ficado da vespera os rolos de cabello, o collete, uma chavena -com um fundo de ch cheio de pontas de cigarros. E Leopoldina corria o -transparente, dizendo: - ---Ora graas a Deus que honras esta casa, minha fidalga!... - -Mas vendo o rosto perturbado de Luiza, os seus olhos vermelhos de -lagrimas: - ---Que ? Que tens tu? Que succedeu? - ---Um horror, Leopoldina!--exclamou, apertando as mos. - -A outra foi fechar a porta, rapidamente. - ---Ento? - -Mas Luiza chorava sem responder. Leopoldina olhava-a, petrificada. - ---A Juliana apanhou-me umas cartas!--disse emfim por entre -soluos.--Quer seiscentos mil reis! Estou perdida... Tem-me -martyrisado... Quero que me digas, v se te lembras... Estou como -douda. Sou eu que fao tudo em casa... Morro, no posso!--E as lagrimas -redobravam. - ---E as tuas joias? - ---Valem duzentos mil reis. E Jorge, que lhe havia eu de dizer? - -Leopoldina ficou um momento calada, e olhando em roda de si, abrindo os -braos: - ---Tudo o que eu tenho, no prego, minha filha, d vinte libras!... - -Luiza murmurava, limpando os olhos: - ---Que expiao esta, Santo Deus, que expiao! - ---Que diz a carta? - ---Horrores! Estava douda... uma minha, duas d'elle. - ---De teu primo? - -Luiza disse sim, com a cabea, lentamente. - ---E elle? - ---No sei! Est em Frana, nunca me respondeu. - ---Pulha! Como t'as apanhou, a mulher? - -Luiza contou rapidamente a historia do sarcophago, e do cofre. - ---Mas tu tambem, Luiza, atirar uma carta d'essas! Oh mulher, isso -medonho! - -E Leopoldina pz-se a passear pelo quarto, arrastando a longa cauda do -roupo escarlate: os seus grandes olhos negros, excitados, pareciam -procurar um meio, um expediente... Murmurava: - ---A questo de dinheiro... - -Luiza, prostrada no soph, repetia: - ---A questo de dinheiro! - -Ento Leopoldina, parando bruscamente diante d'ella: - ---Eu sei quem te dava o dinheiro!... - ---Quem? - ---Um homem. - -Luiza ergueu-se, espantada: - ---Quem? - ---O Castro. - ---O d'oculos? - ---O d'oculos. - -Luiza fez-se muito crada: - ---Oh Leopoldina!--murmurou. E depois d'um silencio, rapidamente: - ---Quem t'o disse? - ---Sei-o eu. Disse-o elle ao Mendona. Sabes que eram unha e carne. Que -te dava tudo o que tu lhe pedisses! Disse-lh'o mais d'uma vez. - ---Que horror!--exclamou Luiza subitamente indignada.--E tu propes-me -semelhante cousa?--O seu olhar, sob as sobrancelhas franzidas, -dardejava de colera. Ir com um homem por dinheiro!--Tirou o chapo, -violentamente, com as mos tremulas, arremessou-o para a jardineira, e -com passos rapidos pelo quarto:--Antes fugir, ir para um convento, ser -criada, apanhar a lama das ruas! - ---No te exaltes, creatura! Quem te diz isso? Talvez o homem te -emprestasse o dinheiro, desinteressadamente... - ---Acreditas tu? - -Leopoldina no respondeu: com a cabea baixa, fazia girar os anneis nos -dedos. - ---E quando fosse outra cousa?--exclamou de repente--Era um conto de -reis, eram dous, estavas salva, estavas feliz! - -Luiza sacudia os hombros, indignada d'aquellas palavras--dos seus -proprios pensamentos, talvez! - --- indecente! horrivel!--dizia. - -Ficaram caladas. - ---Ah! fosse eu!...--disse Leopoldina. - ---Que fazias? - ---Escrevia ao Castro, que viesse e com dinheiro! - ---Isso s tu!--exclamou Luiza, arrebatadamente. - -Leopoldina fez-se escarlate sob a camada de p d'arroz. - -Mas Luiza atirou-lhe os braos ao pescoo: - ---Perda-me, perda-me! estou douda, no sei o que digo!... - -Comearam ambas a chorar, muito nervosas. - ---Tu zangaste-te!--dizia Leopoldina cortada de soluos.--Mas p'ra -teu bem. o que me parece melhor. Se eu podesse dava-te o dinheiro... -Fazia tudo. Acredita! - -E abrindo os braos, indicando o seu corpo com um impudor sublime: - ---Seiscentos mil reis! Se eu valesse tanto dinheiro, tinhal-o manh! - -Ns de dedos bateram porta. - ---Quem ? - ---Eu--disse uma voz rouca. - --- meu marido. O animal ainda hoje no despegou de casa... No posso -abrir. Logo. - -Luiza limpava os olhos, pressa, punha o chapo. - ---Quando voltas?--perguntou Leopoldina. - ---Quando puder, seno escrevo-te. - ---Bem. Eu vou pensar, vou esquadrinhar... - -Luiza agarrou-lhe o brao: - ---E d'isto, nem palavra. - ---Douda! - - -Sahiu. Foi subindo devagar at ao largo de S. Roque. A porta da igreja -da Misericordia estava aberta, com o seu largo reposteiro vermelho -d'armas bordadas que o vento agitava brandamente. Veio-lhe um desejo -d'entrar. No sabia para qu; mas parecia-lhe que depois da excitao -apaixonada em que vibrra, o fresco silencio da igreja a calmaria. -E depois sentia-se to infeliz que se lembrou de Deus! necessitava -alguma cousa de superior, de forte a que se amparar. Foi-se ajoelhar -ao p d'um altar, persignou-se, rezou o _Padre-Nosso_, depois a _Salve -Rainha_. Mas aquellas oraes, que ella recitava em pequena, no a -consolavam; sentia que eram sons inertes que no iam mais alto no -caminho do co que a sua mesma respirao; no as comprehendia bem, -nem se applicavam ao seu _caso_: Deus por ellas, nunca poderia saber o -que ella pedia, alli, prostrada na afflico. Quereria fallar a Deus, -abrir-se toda a elle: mas com que linguagem? Com as palavras triviaes, -como se fallasse a Leopoldina? Iriam as suas confidencias to longe, -que o alcanassem? Estaria elle to perto, que a ouvisse? E ficou -ajoelhada, os braos molles, as mos cruzadas no regao, olhando as -velas de cera tristes, os bordados desbotados do frontal, a carinha -rosada e redonda d'um menino Jesus! - -Lentamente perdeu-se n'um scismar que ella no dirigia, que se -formava e se movia no seu cerebro, como a fluctuao d'um fumo que se -eleva. Pensava no tempo to distante, em que, por melancolia e por -sentimentalidade, frequentava mais as igrejas. Ainda a mam vivia -ento; e ella, com o corao quebrado--quando o _outro_, Bazilio, lhe -escrevera, rompendo--procurava dissipar a sua tristeza nas consolaes -da devoo. Uma amiga sua, a Joanna Silveira, fra por esse tempo -professar a Frana: e ella s vezes lembrava-se de partir tambem, -ser irm de caridade, levantar os feridos nos campos de batalha, ou -viver na paz d'uma cella mystica! Que differente a sua vida teria -sido--d'esta agora to alvoroada de clera, e to carregada de -peccado!... Onde estaria? Longe, n'algum mosteiro antigo, entre -arvoredos escuros, n'um valle solitario e contemplativo: na Escocia, -talvez, paiz que ella sempre amra desde as suas leituras de Walter -Scott. Podia ser nas verde-negras terras de Lamermoor ou de Glencoe, -n'alguma velha abbadia saxonia. Em redor os montes cobertos d'abetos, -esbatidos nas nevoas, isolam aquelles retiros n'uma paz funeraria: n'um -co saudoso, as nuvens passam devagar, com recolhimento: nenhum som -festivo quebra a meiga taciturnidade das cousas: revoadas de corvos -cortam tarde o ar n'um vo triangular. Alli viveria entre as monjas -d'alta estatura e olhar celtico, filhas de duques normandos, ou de -lords de _clans_ convertidos a Roma: leria livros dces e cheios das -cousas do co: sentada na estreita janella da sua cella, veria passar -nas mattas baixas os altos paus dos veados, ou pelas tardes vaporosas -escutaria o som distante da _bagpipe_, que vai tristemente tocando o -pastor que vem dos valles de Callendar: e todo o ar estaria cheio do -murmurio choroso e gottejante dos fios d'agua, que por entre as relvas -escuras cahem de rocha em rocha! - -Ou ento seria outra existencia mais regalada, no convento pacato d'uma -boa provincia portugueza. Alli os tectos so baixos; as paredes caiadas -faiscam ao sol, com as suas gradesinhas devotas; os sinos repicam no -vivo ar azul; em roda, nos campos d'oliveiras que do azeite para o -convento, raparigas varejam a azeitona cantando; no pateo lageado d'uma -pedra miudinha as mulas do almocreve, sacudindo a mosca, batem com a -ferradura: matronas cochicham ao p da roda; um carro chia na estrada -empoeirada e branca; gallos cacarejam, brilhando ao sol; e freiras -gordinhas, d'olho negro, chalram nos frescos corredores. - -Alli viveria, engordando, com uma quebrasinha de somno hora do cro, -bebendo copinhos de licr de rosa no quarto da madre-escriv, copiando -receitas de dces com uma letra garrafal; morreria velha, ouvindo as -andorinhas cantar beira da sua grade; e o senhor bispo na sua visita, -com a pitada nos seus dedos brancos, ouviria sorrindo da bocca da madre -abbadessa a historia edificante da sua santa morte... - -Um sacristo, que passava, escarrou fortemente; e, como um bando de -passaros que se cala a um ruido brusco, todos os seus sonhos fugiram. -Suspirou, ergueu-se devagar, foi indo para casa, triste. - -Foi Juliana quem veio abrir, e logo no corredor, com a voz supplicante -e baixa: - ---A senhora por quem perde, que depois estava douda! Estava com -a cabea perdida, no tinha dormido nada toda a noite. Fiquei mais -afflicta... - -Luiza no respondeu, entrou na sala. Sebastio que vinha jantar, tocava -a serenata de D. Juan--e apenas ella appareceu: - ---D'onde vem, to pallida? - ---Debilidade, Sebastio, venho da igreja... - -Jorge entrava do escriptorio com uns papeis na mo: - ---Da igreja!--exclamou--Que horror! - - - - -XII - - -Foi por esse tempo que, n'um sabbado, o Diario do Governo publicou a -nomeao do conselheiro Accacio ao _grau de cavalleiro da ordem de S. -Thiago_, attendendo aos seus grandes merecimentos litterarios, s obras -publicadas de reconhecida utilidade, e mais partes... - -Na noite seguinte, ao entrar em casa de Jorge, todos o cercaram, -felicitando-o com alarido; o Conselheiro, depois de os abraar um por -um, n'uma presso nervosa e commovida, cahiu no soph, exhausto, e -murmurou: - ---No o esperava to cedo da real munificencia! No o esperava to -cedo!--E acrescentou, pondo a mo espalmada sobre o peito:--Direi como -o philosopho: Esta condecorao o melhor dia da minha vida! - -E convidou logo Jorge, Sebastio e Julio para um jantar na -quinta-feira, um modesto jantar de rapazes, no seu humilde tugurio, -para festejarem a regia graa. - ---s cinco e meia, meus bons amigos! - -Na quinta-feira, os tres, que se tinham encontrado na Casa Havaneza, -eram introduzidos por uma rapariguita vesga, suja como um esfrego, na -sala do Conselheiro. Um vasto canap de damasco amarello occupava a -parede do fundo, tendo aos ps um tapete onde um chileno roxo caava ao -lao um bufalo cr de chocolate; por cima uma pintura tratada a tons -cr de carne, e cheia de corpos ns cobertos de capacetes, representava -o valente Achilles arrastando Heitor em torno dos muros de Troya. Um -piano de cauda, mudo e triste sob a sua capa de baeta verde, enchia -o intervallo das duas janellas. Sobre uma mesa de jogo, entre dous -castiaes de prata, uma galguinha de vidro transparente galopava; e o -objecto em que se sentia mais o calor do uso era uma caixa de musica de -18 peas! - -O Conselheiro recebeu-os, com o _habito_ de S. Thiago sobre a lapella -do _frac_ preto. Havia outro sujeito na sala, o snr. Alves Coutinho. -Era picado das bexigas, tinha a cabea muito enterrada nos hombros; -quando o seu olhar parvo se fixava nas pessoas, com pasmo, o seu bigode -pellado arreganhava-se logo por habito, n'um sorriso alvar que mostrava -uma bocca medonha cheia de dentes pdres; fallava pouco, esfregava -sempre as mos, concordava em tudo; havia n'elle o ar d'um deboche -banal, e d'um embrutecimento antigo. Era um empregado do ministerio do -reino, illustre pela sua boa letra. - -D'ahi a pouco entrou a figura conhecida do Savedra, redactor do -_Seculo_. A sua face branca parecia mais balofa; o bigode muito preto -reluzia de brilhantina; as lunetas d'ouro accentuavam o seu tom -official: trazia ainda no queixo o p d'arroz, que lhe pozera momentos -antes o barbeiro; e a mo, que escrevia tanta banalidade e tanta -mentira, vinha aperreada n'uma luva nova, cr de gema d'ovo! - ---Estamos todos!--disse com jubilo o Conselheiro. E -curvando-se:--Bemvindos, meus amigos! Estamos talvez mais vontade -no meu quarto de estudo! Por aqui. Ha um degrau, cuidado! Eis o meu -_Sanctus Sanctorum_! - -N'uma saleta muito espanejada a que as cortinas de cassa, a luz de -duas janellas de peitoril, e o papel claro davam um aspecto alvadio, -estava a larga escrivaninha de trabalho, com um tinteiro de prata, os -lapis muito aparados, as regoas bem dispostas. Via-se o sinete d'armas -do Conselheiro, pousado sobre a _Carta Constitucional_ ricamente -encadernada. Encaixilhada, na parede, pendia a _carta regia_ que o -nomera Conselheiro; defronte uma lithographia d'El-Rei; e sobre uma -mesa, era eminente o busto em gesso de Rodrigo da Fonseca Magalhes, -tendo no alto da cabea uma cora de perpetuas--que ao mesmo tempo o -glorificava e o chorava. - -Julio pozera-se logo a examinar a livraria. - ---Prezo-me de ter os authores mais illustres, amigo Zuzarte!--disse com -orgulho o Conselheiro. - -Mostrou-lhe a _Historia do consulado e do imperio_, as obras de -Delille, o _Diccionario da conversao_, a ediosinha bojuda da -_Encyclopedia Roret_, o _Parnaso lusitano_. Fallou dos seus trabalhos; -e acrescentou que, vendo alli reunidas pessoas de to subida -illustrao, desejaria muito lr-lhes algumas das provas que estava -revendo do seu novo livro--_Descripo das principaes cidades do reino -e seus estabelecimentos_, para ouvir a opinio d'elles, desassombrada e -severa! - ---Se no acham massada... - ---Prazer, Conselheiro! prazer! - -Escolheu ento como mais propria para dar ida da importancia do -trabalho a pagina relativa a Coimbra. Assoou-se, collocou-se no meio -da saleta, de p, com as folhas na mo, e, com uma voz cheia, gestos -pausados, leu: - ---...Reclinada mollemente na sua verdejante collina, como odalisca -em seus aposentos, est a sabia Coimbra, a Lusa Athenas. Beija-lhe os -ps, segredando-lhe d'amor, o saudoso Mondego. E em seus bosques, no -bem conhecido salgueiral, o rouxinol e outras aves canoras soltam seus -melancolicos trilos. Quando vos aproximaes pela estrada de Lisboa, -onde outr'ora uma bem organisada _mala-posta_ fazia o servio que o -progresso hoje encarregou fumegante locomotiva, vdel-a branquejando, -coroada do edificio imponente da Universidade, asylo da sabedoria. L -campa a torre com o sino, que em sua folgaz linguagem a mocidade -estudiosa chama _a cabra_. Para alm logo uma copada arvore vos attrahe -as vistas: a celebrada _arvore dos Dorias_, que dilata seus seculares -ramos no jardim d'um dos membros d'esta respeitavel familia. E avistaes -logo, sentados nos parapeitos da antiga ponte, em seus innocentes -recreios, os briosos moos, esperana da patria, ou requebrando -galanteios com as ternas camponezas que passam reflorindo de mocidade e -frescura, ou revolvendo em suas mentes os problemas mais arduos de seus -bem elaborados compendios... - ---Est a spa na mesa--veio dizer uma criada, de avental branco, muito -nutrida. - ---Muito bem, Conselheiro, muito bem!--disse logo o Savedra do _Seculo_, -erguendo-se.-- admiravel! - -Declarou para os lados com authoridade: que o estylo era digno d'um -Rebello ou d'um Latino, e que realmente estava-se precisando muito em -Portugal d'uma obra daquelle quilate... E pensava baixo: Grandissima -cavalgadura!... O que era a sua apreciao generica de todas as obras -contemporaneas--exceptuando os seus artigos no _Seculo_. - ---Que lhe pareceu, meu bom amigo?--perguntou baixo o Conselheiro -a Julio, passando-lhe a mo sobre o hombro.--Mas uma opinio -desaffrontada, meu Zuzarte! - ---Snr. Conselheiro--disse Julio com uma voz profunda--tenho-lhe -inveja!--E as suas lunetas escuras fixavam-se com uma preoccupao -crescente n'um chale-manta pardo, que a um canto cobria -cuidadosamente, a julgar pelas saliencias, altas pilhas de livros. Que -seria?--Tenho-lhe inveja!--repetiu--E outra cousa, Conselheiro, no se -me dava de lavar as mos. - -Accacio levou-o logo ao seu quarto, e retirou-se discretamente. Julio, -sempre curioso, observou, surprehendido, duas grandes lithographias -aos lados da cama--um _Ecce Homo_! e a _Virgem das sete Dres_. O -quarto era esteirado, o leito baixo e largo. Abriu ento a gavetinha -da mesa de cabeceira, e viu, espantado, uma touca e o volume brochado -das poesias obscenas de Bocage! Entreabriu os cortinados fechados; e -teve a consolao de verificar,--que havia sobre o travesseiro duas -fronhasinhas chegadas d'um modo conjugal e terno! - -Apenas elle sahiu do quarto, limpando as unhas com o leno, o -Conselheiro conduziu-os sala de jantar, dizendo, jovialmente: - ---No esperem o festim de Lucullo: apenas o modesto passadio d'um -humilde philosopho! - -Mas o Alves Coutinho extasiou-se sobre a abundancia das travessas -de dce; havia _creme_ crestado a ferro d'engomar, um prato _d'ovos -queimados_, aletria com as iniciaes do Conselheiro desenhadas a canella. - --- um grande dia para Sebastio!--disse Jorge. - -O Alves Coutinho voltou-se logo para Sebastio, esfregando as mos, com -um riso na face amarella: - --- c dos meus, hein? Gosta do bello dce! Tambem me pllo, tambem me -pllo!... - -Houve ento um silencio. As colheres de prata, remexendo devagar a sopa -muito quente, agitavam os longos canudos brancos e molles do macarro. - -O Conselheiro disse: - ---No sei se gostaro da sopa. Eu adoro o macarro! - ---Gosta do macarro?--acudiu o Alves. - ---Muito, meu Alves. Lembra-me a Italia!--E acrescentou:--Paiz que -sempre desejei vr. Dizem-me que as suas ruinas so de primeira ordem. -Pde ir trazendo o cozido, snr.^a Philomena...--Mas detendo-a, com um -gesto grave:--Perdo, com franqueza, preferem o cozido ou o peixe? um -pargo. - -Houve uma hesitao, Jorge disse: - ---O cozido talvez. - -E o Conselheiro com affecto: - ---O nosso Jorge opina pelo cozido. - ---Tambem estou pela sua!--exclamou o Alves Coutinho, voltado para -Jorge, com o olho afogado em reconhecimento:--O cozidinho! - -E o Conselheiro que julgava do seu dever dar conversao nobreza e -interesse, disse, limpando devagar o bigode da gordura da sopa: - ---Dizem-me que muito liberal a constituio da Italia! - -Liberal! Segundo Julio, se a Italia fosse liberal, devia ter ha muito -expulso a coronhadas o papa, o sacro collegio, e a sociedade de Jesus! - -O Conselheiro pediu, com bondade, a benevolencia do amigo Zuzarte para -o chefe da Igreja. - ---No--explicou--que eu seja um sectario do _Syllabus_. No que eu -queira vr os jesuitas enthronisados no seio da familia! Mas--e a sua -voz tornou-se profunda--o respeitavel prisioneiro do Vaticano o -vigario de Christo! Meu Sebastio, sirva o arroz! - -No havia que estranhar aquellas opinies catholicas do Conselheiro, -ia observando Julio, porque tinha duas imagens de santos pendentes -cabeceira da cama... - -A calva d'Accacio fez-se rubra. O Savedra do _Seculo_ exclamou com a -bocca cheia: - ---No o sabia carola, Conselheiro! - -Accacio, afflicto, suspendeu o trinchador sobre o paio escarlate, e -acudiu: - ---Eu peo ao meu Savedra que no tire d'esse facto illaes erradas. -Os meus principios so bem conhecidos. No sou ultramontano, nem fao -votos pelo restabelecimento da perseguio religiosa. Sou liberal. -Creio em Deus. Mas reconheo que a religio um freio... - ---Para os que o precisam--interrompeu Julio. - -Riram; o Alves Coutinho torcia-se. O Conselheiro interdicto respondeu, -devagar, dispondo na travessa as rodelas do paio: - ---No o precisamos ns de certo, que somos as classes illustradas. Mas -precisa-o a massa do povo, snr. Zuzarte. Seno veriamos augmentar a -estatistica dos crimes. - -E o Savedra do _Seculo_, erguendo as sobrancelhas, com a physionomia -muito sria: - ---Pois olhe que diz uma grandissima verdade.--Repetiu a maxima, -modificando-a:--A religio um brido!--Fazia com o gesto o esforo de -conter uma mula. E pediu mais arroz. Devorava. - -O Conselheiro continuava, explicando: - ---Como dizia, sou liberal, mas entendo que algumas lithographias ou -gravuras, allusivas ao mysterio da Paixo, tem o seu lugar n'um quarto -de cama, e inspiram de certo modo sentimentos christos. No verdade, -meu Jorge? - -Mas o Savedra interrompeu ruidosamente, com a face accesa n'uma -jovialidade libertina: - ---Eu, n'um quarto de dormir, as unicas pinturas que admitto so uma -bella nympha na, ou uma bacchante desenfreada! - ---Isso, isso!--bradou o Alves Coutinho. A bocca dilatava-se-lhe -n'uma admirao sensual.--Este Savedra! Este Savedra!--E baixo para -Sebastio:--Tem um talento! Tem um talento! - -O Conselheiro voltou-se para Julio, e puxando o guardanapo para o -estomago: - ---Espero que no sejam esses os paineis immoraes, que se vem no seu -gabinete d'estudo. - -Julio emendou: - ---No meu cubiculo. Ah! no, Conselheiro! Tenho apenas duas -lithographias--uma um homem sem pelle para representar o systema -arterial, o outro o mesmo individuo igualmente sem pelle para se vr -o systema nervoso. - -O Conselheiro teve com a sua mo branca um vago gesto enojado, e -exprimiu a opinio--que na medicina, alis uma grande sciencia! havia -cousas bastante asquerosas. Assim, ouvira dizer que nos theatros -anatomicos, os estudantes d'idas mais avanadas levavam o seu desprezo -pela moral at atirarem uns aos outros, brincando, pedaos de membros -humanos, ps, coxas, narizes... - ---Mas como quem mexe em terra, Conselheiro!--disse Julio, enchendo o -copo-- materia inerte! - ---E a alma, snr. Zuzarte?...--exclamou o Conselheiro. Fez um gesto -de vaga reticencia; e julgando tel-o aniquilado com aquella palavra -suprema, abriu para Sebastio um sorriso cortez e protector: - ---E que diz o nosso bondoso Sebastio? - ---Estou a ouvir, snr. Conselheiro. - ---No d ouvidos a estas doutrinas!--Com o garfo mostrava a figura -biliosa de Julio.--Mantenha a sua alma pura. So perniciosas. Que o -nosso Jorge (o que de lamentar n'um homem estabelecido e empregado do -Estado) tambem vai um pouco para estas exageraes materialistas! - -Jorge riu; affirmou que _sim_, que tinha essa honra... - ---Ento o Conselheiro quer que eu, um engenheiro, um estudante de -mathematica, acredite que ha almas que vivem no co, com azinhas -brancas, tunicas azues, e tocando instrumentos? - -O Conselheiro acudiu: - ---No, instrumentos no!--E como appellando para todos:--No creio que -tivesse fallado em instrumentos. Os instrumentos so uma exagerao. -So, podemos dizel-o, tacticas do partido reaccionario... - -Ia fulminar a doutrina ultramontana--mas a snr.^a Philomena -collocou-lhe diante a travessa com a perna de vitella assada. -Compenetrou-se logo do seu dever, afiou o trinchador com solemnidade, -foi cortando fatias finas, com a testa muito franzida como na -applicao d'uma funco grave. Ento Julio, pousando os cotovlos -sobre a mesa, e escabichando os dentes com a unha, perguntou: - ---E o ministerio, cahe ou no cahe? - -Sebastio ouvira dizer no vapor d'Almada, de tarde, que a situao -estava firme. - -Mas o Savedra esvaziou o copo, limpou os beios e declarou que em duas -semanas estavam em terra. Nem aquelle escandalo podia continuar! No -tinham a mais pequena ida de governo. Nem a mais leve! Assim, por -exemplo, elle...--E metteu as mos nos bolsos, firmando-se nas costas -da cadeira--Elle tinha-os apoiado, no verdade? E com lealdade. -Porque era leal! Sempre o fra em politica! Pois bem, no lhe tinham -despachado o primo recebedor d'Aljustrel, tendo-lh'o promettido! e nem -lhe tinham dado uma satisfao. Assim no era possivel fazer politica! -Era uma colleco de idiotas! - -Jorge alegrava-se que viessem outros; talvez lhe dessem de novo a sua -commisso no ministerio; e elle o que queria era estar quieto ao seu -cantinho... - -O Alves Coutinho calava-se, com prudencia, engulindo buchas de po. - ---Eu que caiam, ou que fiquem--disse Julio--que venham estes, ou que -venham aquelles... Obrigado, Conselheiro--e recebeu o seu prato de -vitella--...-me inteiramente indifferente. tudo a mesma podrido! O -paiz inspirava-lhe nojo; de cima a baixo era uma _choldra_: e esperava -breve que, pela logica das cousas, uma revoluo varresse a porcaria... - ---Uma revoluo!--fez o Alves Coutinho, assustado, com olhares -inquietos para os lados, coando nervosamente o queixo. - -O Conselheiro sentra-se, e disse, ento: - ---Eu no quero entrar em discusses politicas, s servem para dividir -as familias mais unidas, mas s lhe lembrarei, snr. Zuzarte, uma cousa, -os excessos da Communa... - -Julio recostou-se, e com uma voz muito tranquilla: - ---Mas onde est o mal, snr. Conselheiro, se fuzilarmos alguns -banqueiros, alguns padres, alguns proprietarios obesos, e alguns -marquezes cacheticos! Era uma limpezasinha!...--E fazia o gesto d'afiar -a faca. - -O Conselheiro sorriu, cortezmente; tomava como um gracejo aquella -sahida sanguinaria. - -O Savedra porm interpoz-se, com authoridade: - ---Eu no fundo sou republicano... - ---E eu--disse Jorge. - ---E eu--fez o Alves Coutinho, j inquieto.--Contem-me a mim tambem! - ---Mas--continuou o Savedra--sou-o em principio. Porque o principio -bello, o principio ideal! Mas a pratica? Sim, a pratica?--E voltava -para todos os lados a sua face balofa. - ---Sim, na pratica!--exclamava o Alves Coutinho, em echo admirativo. - ---A pratica impossivel!--declarou o Savedra. E encheu a bocca de -vitella. - -O Conselheiro ento resumiu: - ---A verdade esta: o paiz est sinceramente abraado familia real... -No acha, meu bom Sebastio?--Dirigia-se a elle, como proprietario e -possuidor d'inscripes. - -Sebastio, interpellado, crou, declarou que no entendia nada de -politica; havia todavia factos que o affligiam; parecia-lhe que os -operarios eram mal pagos; a miseria crescia; os cigarreiros, por -exemplo, tinham apenas de nove a onze vintens por dia, e, com familia, -era triste... - --- uma infamia--disse Julio, encolhendo os hombros. - ---E ha poucas esclas...--observou timidamente Sebastio. - --- uma torpeza!--insistiu Julio. - -O Savedra calava-se, occupado com o alimento; tinha desabotoado -a fivela do collete; espalhava-se-lhe no rosto gordo uma cr -d'enfartao, e sorria vagamente, inchado. - ---E os idiotas de S. Bento?...--exclamou Julio. - -Mas o Conselheiro interrompeu-o: - ---Meus bons amigos, fallemos d'outra cousa. mais digno de portuguezes -e de subditos fieis. - -E voltando-se logo para Jorge, quiz saber como ficra a interessante D. -Luiza? - -Estava um pouco adoentada havia dias--disse Jorge.--Mas no era nada, -mudana d'estao, um bocadito d'anemia... - -O Savedra pousando o copo, e comprimentando: - ---Tive o prazer de a vr passar este vero quasi todas as manhs por -minha casa--disse.--Ia para os lados d'Arroios. s vezes de trem, s -vezes a p... - -Jorge pareceu um pouco surprehendido; mas o Conselheiro ia dizendo -quanto lhe pezava no ter o prazer de a vr partilhar d'aquelle modesto -repasto; como celibatario porm... no tendo uma esposa para fazer as -honras... - ---E o que eu admiro, Conselheiro--observou Julio-- que tendo uma -casa to confortavel, no se tenha casado, no se tenha dado o conchego -d'uma senhora... - -Todos apoiaram. Era verdade! O Conselheiro devia-se ter casado. - ---So graves, perante Deus e perante a sociedade, as responsabilidades -d'um chefe de familia--considerou elle. - -Mas emfim--disseram-- o estado mais natural. E depois, que diabo, s -vezes havia de se sentir s! E n'uma doena! Sem contar a alegria que -do os filhos!... - -O Conselheiro objectou: os annos, as neves da fronte... - -Tambem ninguem lhe dizia que fosse casar com uma rapariga de quinze -annos! No, era arriscado. Mas com uma pessoa de certa idade que -tivesse attractivos, cuidados de interior... Era mesmo moral. - ---Porque emfim, Conselheiro, a natureza, a natureza!--disse Julio -com malicia. - ---Ha muito, meu amigo, que se apagou dentro em mim o fogo das paixes. - -Ora qual! era um fogo que nunca se extinguia! Que diabo! era -impossivel que o Conselheiro, apesar dos seus cincoenta e cinco, fosse -indifferente a uns bellos olhos pretos, a umas frmasinhas redondas!... - -O Conselheiro crava. E o Savedra declarou, com um circumloquio -pudico--que nenhuma idade se eximia influencia de Venus. Toda a -questo nos gostos--disse:--aos quinze annos gosta-se d'uma matrona -cheia, aos cincoenta d'um fructosinho tenro... Pois no verdade, -amigo Alves? - -O Alves arregalou os olhos concupiscentes, e fez estalar a lingua. - -E o Savedra continuou: - ---Eu, a minha primeira paixo foi uma visinha, mulher d'um capito de -navios, mi de seis filhos, e que no cabia por aquella porta. Pois -senhores, fiz-lhe versos, e a excellente creatura ensinou-me um par de -cousas agradaveis... Deve-se comear cedo, no verdade?--E voltou-se -para Sebastio. - -Quizeram ento saber as opinies de Sebastio--que se fez escarlate. - -Por fim, muito solicitado, disse com timidez: - ---Eu acho que se deve casar com uma rapariga de bem, e estimal-a toda a -vida... - -Aquellas palavras simples produziram um curto silencio. Mas o Savedra, -reclinando-se, classificou uma tal opinio de burgueza; o casamento -era um fardo; no havia nada como a variedade... - -E Julio expz dogmaticamente: - ---O casamento uma formula administrativa, que ha-de um dia -acabar...--De resto, segundo elle, a femea era um ente subalterno; o -homem deveria aproximar-se d'ella em certas pocas do anno (como fazem -os animaes, que comprehendem estas cousas melhor que ns), fecundal-a, -e afastar-se com tedio. - -Aquella opinio escandalisou a todos, sobretudo o Conselheiro que a -achou d'um materialismo repugnante. - ---Essas femeas para quem to severo, snr. Zuzarte--exclamava -elle--essas femeas so nossas mes, nossas carinhosas irms, a esposa -do Chefe do Estado, as damas illustres da nobreza... - ---So o melhor bocadinho d'este valle de lagrimas--interrompeu com -fatuidade o Savedra, dando palmadinhas sobre o estomago. Dissertou -ento sobre as mulheres. O que sobretudo lhes exigia era um bonito p; -no havia nada como um psinho catita! E a todas preferia a mulher -hespanhola! - -O Alves votava pelas francezas: citava algumas do Caf Concerto, -creaturas de fazer perder a cabea!...--E injectavam-se-lhe os olhos. - -O Savedra disse com um trejeito hostil: - ---Sim, para um bocado de can-can... Para o can-can no ha como as -francezas... Mas muito chupistas! - -O Conselheiro affirmou ageitando as lunetas: - ---Viajantes instruidos teem-me afianado que as inglezas so notaveis -mes de familia... - ---Mas frias como esta madeira--disse o Savedra, batendo no -mesa.--Mulheres de glo!--E reclamava hespanholas! Queria fogo! Queria -_salero_! Tinha o olho brilhante do vinho; a comida accendia-lhe o -sentimento! - ---Uma bella _gaditana_, hein, amigo Alves? - -Mas em presena dos dces que a snr.^a Philomena dispz sobre a mesa, -o Alves Coutinho esquecera as mulheres, e, voltado para Sebastio, -discutia gulodices. Indicava as especialidades: Para os folhados, o -Cc! Para as natas, o Baltresqui! Para as gelatinas, o largo de S. -Domingos! Dava receitas; contava proezas de lambarice, revirando os -olhos: - ---Porque--dizia--o docinho e a mulherzinha o que me toca c por -dentro a alma. - -Era: todo o tempo que no dedicava ao servio do Estado, dividia-o, com -solicitude, entre as confeitarias e os lupanares. - -Savedra e Julio discutiam a imprensa. O redactor do _Seculo_ gabava a -profisso de jornalista--quando a gente, j sabe, tem alguma cousa de -seu; mais tarde ou mais cedo apanha-se um nicho, no verdade? Depois -as entradas nos theatros, a influencia nas cantoras. Sempre se um -bocado temido... - -E o Conselheiro, cortando os ovos queimados, saboreando as alegrias da -convivencia, dizia a Jorge: - ---Que maior prazer, meu Jorge, que passar assim as horas entre -amigos, todos de reconhecida illustrao, discutir as questes mais -importantes, e vr travada uma conversao erudita?... Parecem -excellentes os ovos. - -A snr.^a Philomena, ento, com solemnidade, veio collocar-lhe ao p uma -garrafa de champagne. - -O Savedra pediu logo para a abrir, porque o fazia com muito _chic_. -E apenas a rolha saltou, e, no silencio que creou a ceremonia, se -encheram os copos, o Savedra, que ficra de p, disse: - ---Conselheiro! - -Accacio curvou-se, pallido. - ---Conselheiro, com o maior prazer que bebo, que todos bebemos, -saude d'um homem, que--e arremessando o brao, deu um puxo ao punho -da camisa com eloquencia--pela sua respeitabilidade, a sua posio, os -seus vastos conhecimentos, um dos vultos d'este paiz. sua saude, -Conselheiro! - ---Conselheiro! Conselheiro! Amigo Conselheiro! - -Beberam com ruido. Accacio, depois de limpar os beios, passou a mo -tremula pela calva, levantou-se commovido, e comeou: - ---Meus bons amigos! Eu no me preparei para esta circumstancia. Se o -soubesse d'antemo, teria tomado algumas notas. No tenho a verbosidade -dos Rodrigos ou dos Garretts. E sinto que as lagrimas me vo embargar a -voz... - -Fallou ento de si, com modestia: reconhecia, quando via na capital -to illustres parlamentares, oradores to sublimes, to consummados -estylistas, reconhecia que era um Zero!--E com a mo erguida formava -no ar, pela juno do pollegar e do indicador, um 0: um _zero_! -Proclamou o seu amor patria: que manh as instituies ou a familia -real precisassem d'elle--e o seu corpo, a sua penna, o seu modesto -peculio, tudo offerecia de bom grado! Quereria derramar todo o seu -sangue pelo throno!--E, prolixo, citou o _Eurico_, as instituies da -Belgica, Bocage e passagens dos seus prologos. Honrou-se de pretencer -Sociedade Primeiro de Dezembro...--N'esse dia memoravel--exclamou--eu -mesmo illumino as minhas janellas, sem o luxo dos grandes -estabelecimentos do Chiado, mas com uma alma sincera! - -E terminou dizendo:--No esqueamos, meus amigos, como portuguezes, de -fazer votos pelo illustrado monarcha, que deu s neves da minha fronte, -antes de descerem ao tumulo, a consolao de se poderem revestir com -o honroso habito de S. Thiago! Meus amigos, familia real!--e ergueu -o copo-- familia modlo, que sentada ao leme do Estado, dirige, -cercada dos grandes vultos da nossa politica, dirige...--Procurou -o fecho; havia um silencio ancioso--dirige...--Atravs das lunetas -negras, os seus olhos cravavam-se, busca da inspirao, na -travessa d'aletria--dirige...--Coou a calva, afflicto; mas um -sorriso clareou-lhe o aspecto, encontrra a phrase; e estendendo o -brao:--...dirige a barca da governao publica com inveja das naes -visinhas! familia real! - --- familia real!--disseram com respeito. - -O caf foi servido na sala. As velas d'estearina punham uma luz -triste n'aquella habitao fria; o Conselheiro foi dar corda caixa -de musica; e, ao som do cro nupcial da _Lucia_, offereceu em redor -charutos. - ---E a snr.^a Adelaide pde trazer os licres--disse Philomena. - -Viram ento apparecer uma bella mulher de trinta annos, muito branca, -de olhos negros, e frmas ricas, com um vestido de merino azul, -trazendo n'uma bandeja de prata, onde tremelicavam copinhos, a garrafa -de cognac e o frasco de curao. - ---Boa moa!--rosnou com o rosto acceso o Alves Coutinho. - -Julio quasi lhe tapou a bocca com a mo. E fallando-lhe ao ouvido, -olhando o Conselheiro, recitou: - - No ouses, temerario, erguer teus olhos - Para a mulher de Cesar! - -E em quanto se bebia o curao, Julio p ante p dirigiu-se ao -escriptorio, e foi erguer a ponta do chale-manta pardo que tanto o -preoccupava; eram rumas de livros brochados, atadas com guitas,--as -obras do Conselheiro, intactas! - -Quando Jorge entrou, s onze horas, Luiza j deitada lia, esperando-o. - -Quiz saber do jantar do Conselheiro. - -Excellente, contou Jorge, comeando a despir-se. Gabou muito os vinhos. -Tinha havido _speechs_... E de repente: - --- verdade, onde ias tu a Arroios? - -Luiza passou devagar as mos sobre o rosto para lhe cobrir a alterao. -Disse bocejando ligeiramente: - ---A Arroios? - ---Sim. O Savedra, um sujeito que estava em casa do Conselheiro, diz que -te via passar todos os dias para l, de trem e a p. - ---Ah!--fez Luiza, depois de tossir--ia vr a Guedes, uma rapariga que -andou commigo no collegio, que tinha chegado do Porto. A Silva Guedes! - ---Silva Guedes!...--disse Jorge reflectindo--Imaginei que estava -secretario geral em Cabo-Verde! - ---No sei. Estiveram ahi um mez no vero. Moravam a Arroios. Ella -estava doente, coitada: eu ia l s vezes. Mandava-me pedir para ir l. -Pe essa luz fra, est-me a fazer impresso. - -Queixou-se ento que toda a tarde estivera exquisita. Sentia-se fraca, -e com uma pontinha de febre... - - -E nos dias seguintes no se achou melhor. Queixava-se ainda vagamente -de peso na cabea, mal estar... Uma manh mesmo ficou de cama. Jorge -no sahiu, inquieto, querendo j mandar chamar Julio. Mas Luiza -insistiu que no era nada, um bocadito de fraqueza, talvez... - -Foi tambem a opinio de Juliana, em cima na cozinha. - ---Que aquella senhora fraca; alli ha cousa do peito--disse com -importancia. - -Joanna que estava debruada sobre o fogo, acudiu logo: - ---O que ella , uma santa!... - -Juliana cravou-lhe nas costas um olhar rancoroso. E com um risinho: - ---A snr.^a Joanna diz isso como se as outras fossem uma peste. - ---Que outras? - ---Eu, vossemec, a mais gente... - -Joanna sempre remexendo nas panellas sem se voltar: - ---Olhe, outra no encontra vossemess, snr.^a Juliana! Uma senhora que -lhe deixa fazer tudo o que quer, e faz ella mesma o servio! N'outra -dia andava a despejar as aguas. uma santa! - -Aquelle tom hostil de Joanna exasperou-a; mas conteve-se; apesar da -sua _posio_ na casa, dependia d'ella para os caldinhos, os bifes, -os petiscos; tinha diante d'ella a vaga timidez respeitosa das -constituies franzinas pelos corpos possantes; pz-se a dizer com uma -voz tortuosa, ambigua: - ---Ora!--so genios! Gosta d'arrumar. Ah, l isso deve-se dizer, -senhora de muita ordem. Mas gosta, gosta de trabalhar. s vezes -basta-lhe vr um bocadinho de p, agarra logo no espanador... genio. -Tenho visto outras assim...--E punha a cabea de lado, franzindo os -beios. - ---O que ella , uma santa--repetiu a Joanna. - --- genio! Est sempre n'uma labutao. Eu nunca sio sem deixar tudo -n'um brinco. Pois senhores, nunca est satisfeita. At n'outro dia, l -em baixo a passar a roupa... Eu ia a sahir, pois tirei logo o chapo, -e no consenti... Olhe, quer que lhe diga? falta de cuidados, no ter -filhos... Que ella no lhe falta nada... - -Calou-se, remirou o p, e com satisfao: - ---Nem a mim--disse reclinando-se na cadeira. - -A Joanna pz-se a cantarolar. No queria questes. Mas ultimamente -achava tudo aquillo muito fra dos eixos, a Juliana sempre na rua, ou -mettida no quarto a trabalhar para si, sem se importar, deixando tudo -ao Deus dar, e a pobre senhora a varrer, a passar, a emmagrecer! No, -alli havia cousa! Mas o seu Pedro que ella consultra, disse-lhe com -finura, retorcendo o buo:--Ellas l se entendem! Trata tu de gozar, -e no te importes com a vida dos outros. A casa boa, toca a tirar -partido! - -Mas Joanna sentia l por dentro a crescer-lhe uma embirrao pela -snr.^a Juliana. Tinha-lhe asca pelas tafularias, pelos luxos do quarto, -pelas passeatas todo o dia, pelos modos de madama; no se recusava a -fazer-lhe o servio, porque isso lhe rendia presentinhos da senhora; -mas, qu, tinha-lhe birra! O que a consolava era a ida de que um -piparote desfazia aquella magricella! e ia tirando partido da casa, -tambem. O Pedro tinha razo... - -Juliana com effeito, agora, no se constrangia. Depois da scena da -roupa, assustra-se, porque, emfim, o escandalo podia-lhe fazer -perder a _posio_; durante alguns dias no sahiu, foi cuidadosa: mas -quando viu Luiza resignar-se, abandonou-se logo, quasi com fervor, -s satisfaes da preguia e s alegriasinhas da vingana. Passeava, -costurava fechada no seu quarto, e a _Piorrinha_ que se arranjasse! -Diante de Jorge ainda se continha: temia-o. Mas apenas elle sahia! Que -desforra! s vezes estava varrendo ou arrumando--e, mal o sentia fechar -a cancella, atirava o ferro, a vassoura, punha-se a panriar. L -estava a _Piorrinha_, para acabar! - -Luiza, no entanto, passava peor: tinha de repente, sem razo, febres -ephemeras; emmagrecia, e as suas melancolias torturavam Jorge. - -Ella explicava tudo pelo _nervoso_. - ---Que ser, Sebastio?--era a pergunta incessante de Jorge. E -lembrava-se com terror que a mi de Luiza morrera d'uma doena de -corao! - -Na rua, pela cozinheira, pela tia Joanna, sabia-se que a do Engenheiro -ia mal. A tia Joanna jurava que era a solitaria. Porque emfim, -uma pessoa a quem no faltava nada, com um marido que era um anjo, -uma boa casa, todos os seus commodos--e a esmorecer, a esmorecer... -Era a bicha! No podia ser seno a bicha! E todos os dias lembrava -a Sebastio que se devia mandar chamar o homem de Villa Nova de -Famalico, que tinha o remedio para a bicha. - -O Paula explicava d'outro modo. - ---Alli anda cousa de cabea--dizia, franzindo a testa, com o ar -profundo.--Sabe o que ella tem, snr.^a Helena? muita dse de novellas -n'aquella cachimonia. Eu vejo-o de pela manh at noite de livro na -mo. Pe-se a lr romances e mais romances... Ahi teem o resultado: -arrazada! - -Um dia Luiza de repente, sem razo, desmaiou; e quando voltou a si -ficou muito fraca, com o pulso sumido, os olhos cavados. Jorge foi logo -buscar Julio: encontrou-o muito agitado, porque o concurso era para o -dia seguinte, e sentia clicas. - -Durante todo o caminho no deixou de fallar excitadamente da sua -these, do escandalo dos patrocinatos, do barulho que faria se fossem -injustos,--arrependido agora de no ter mettido mais cunhas! - -Depois de ter examinado Luiza veio dizer, furioso, a Jorge: - ---No tem nada! E vaes-me buscar p'ra isto! Tem anemia, o que todos -temos. Que passeie, que se distria. Distraces e ferro, muito -ferro... E agua fria, agua fria p'ra cima d'aquella espinha! - -Como eram cinco horas, convidou-se para jantar, deblaterando toda a -tarde contra o paiz, amaldioando a carreira medica, injuriando o seu -concorrente, e fumando com desespero os charutos de Jorge. - -Luiza tomava o ferro, mas recusava as distraces; fatigava-a -vestir-se, aborrecia-lhe ir ao theatro... Depois, logo que viu Jorge -preoccupar-se do seu estado, quiz affectar fora, alegria, bom humor; e -aquelle esforo abatia-a, extraordinariamente. - ---Vamos para o campo, queres tu?--dizia-lhe Jorge desolado, vendo-a -esmorecida. - -Ella, receando complicaes possiveis, no aceitava; no se sentia -bastante forte, dizia: onde estava mais confortavel que em casa? Depois -as despezas, os incommodos... - -Uma manh, que Jorge voltra a casa inesperadamente, encontrou-a -em _robe-de-chambre_, com um leno amarrado na cabea, varrendo, -lugubremente. - -Ficou porta attonito: - ---Que andas tu a fazer? andas a varrer? - -Ella crou muito, atirou logo a vassoura, veio abraal-o. - ---No tinha que fazer... Deu-me a mania da limpeza... Estava -aborrecida, alm d'isso faz-me bem, um exercicio. - -Jorge, noite, contou a Sebastio aquella tolice, de se andar a -esfalfar... - ---Uma pessoa que est to fraca, minha senhora...--observou -reprehensivamente Sebastio. - -Mas no! dizia ella, achava-se bem melhor! At agora andava muito -melhor... - -Todavia, quasi no fallou n'essa noite, curvada sobre o seu _crochet_, -um pouco pallida: e os seus olhos s vezes erguiam-se com uma fadiga -triste, sorrindo silenciosamente, d'um modo desconsolado. - -Pediu a Sebastio que tocasse algum cousa do _Requiem_ de Mozart. -Achava to lindo! Gostava que lh'o cantassem na igreja quando ella -morresse... - -Jorge zangou-se. Que mania de fallar em cousas ridiculas! - ---Mas ento, no possivel que eu morra?... - ---Pois bem, morre e deixa-nos em paz!--exclamou elle furioso. - ---Que bom marido!--dizia ella sorrindo a Sebastio.--Deixou cahir -o _crochet_ no regao, pediu-lhe ento os _Dezeseis compassos da -Africana_. Escutava, com a cabea apoiada mo: aquelles sons -entravam-lhe na alma com a doura de vozes mysticas que a chamavam; -parecia-lhe que ia levada por ellas, se desprendia de tudo o que era -terrestre e agitado, se achava n'uma praia deserta, junto ao mar -triste, sob um frio luar--e alli, puro espirito, livre das miserias -carnaes, rolava nas ondulaes do ar, tremia nos raios luminosos, -passava sobre as urzes nos sopros salgados... - -A melancolica attitude do seu corpo abatido enfureceu Jorge: - --- Sebastio, fazes-me favor de tocar o fandango, o Barba Azul, -o Pirolito, o diabo? Seno, se querem melancolia, eu comeo com o -canto-cho! - -E cantou, com um tom funebre: - - _Dies ir[ae], dies illa - Solvunt s[ae]cula in favilla!..._ - -Luiza riu-se: - ---Que doudo! Nem pde a gente estar triste... - ---Pde!--exclamou Jorge.--Mas ento venha a bella tristeza, venha a -tristeza completa.--E com uma voz medonha entoou o _Bemdito_! - ---Os visinhos ho-de dizer que estamos doudos, Jorge--acudiu ella. - --- justamente o que ns estamos!--E entrou no escriptorio, atirando -com a porta. - -Sebastio bateu alguns compassos, e voltando-se para ella, baixo: - ---Ento que idas so essas? Que melancolia essa? - -Luiza ergueu os olhos para elle; viu a sua face boa e amiga, cheia de -sympathia; ia talvez dizer-lhe tudo n'uma exploso de dr, mas Jorge -sahia do escriptorio. Sorriu, encolheu os hombros, retomou devagar o -seu _crochet_. - - -No domingo seguinte, noite, conversava-se na sala. Julio contra o -seu concurso. Em resumo, estava contente: tinha fallado duas horas bem, -com preciso, com lucidez. - -O dr. Figueiredo dissera-lhe que devia ter amenisado um bocado mais... - ---Litteratos!--fazia Julio, encolhendo os hombros, com desprezo.--No -podem fallar cinco minutos sobre o osso do tornozelo, sem trazerem as -flres da primavera e o facho da civilisao! - ---O portuguez tem a mania da rhetorica...--disse Jorge. - -N'este momento Juliana entrou na sala, com uma carta. - ---Oh! do Conselheiro! - -Ficaram inquietos. Mas Accacio apenas se desculpava de no poder vir, -como promettera na vespera, partilhar do excellente ch de D. Luiza. -Um trabalho urgente retinha-o banca do dever. Pedia lembranas aos -nossos Sebastio e Julio, e affectuosos respeitos interessante D. -Felicidade. - -Uma onda de sangue abrazou o rosto da excellente senhora. Ficou a -arfar, toda alterada; mudou duas vezes de cadeira, foi tocar no teclado -com um dedo a _Perola d'Ophir_; e emfim, no se dominando, pediu baixo -a Luiza que fossem para o quarto, tinha um segredo... - -Apenas entraram, fechando a porta da sala: - ---Que me dizes carta d'elle? - ---Os meus parabens--disse Luiza, rindo. - --- o milagre!--exclamou D. Felicidade--j o milagre a fazer-se!--E -mais baixo:--Mandei o homem! O que eu te disse, o gallego! - -Luiza no comprehendia. - ---O homem a Tuy, mulher de virtude! Levou o meu retrato e o d'elle. -Partiu ha uma semana: a mulher naturalmente j comeou a enterrar-lhe -as agulhas no corao... - ---Que agulhas?--perguntou Luiza attonita. - -Estavam de p, junto ao toucador. E D. Felicidade com uma voz -mysteriosa: - ---A mulher faz um corao de cera, colla-o ao retrato do Conselheiro, -e durante uma semana meia noite crava-lhe uma agulha benta com o -preparo que ella tem, e faz as oraes... - ---E dste o dinheiro ao homem? - ---Oito moedas. - ---Oh D. Felicidade! - ---Ai! no me digas. Que j vs! Que mudana! D'aqui a uns dias, -baba-se! Ai! Nossa Senhora da Alegria o permitta. Nossa Senhora o -permitta! Que aquelle homem traz-me douda. De noite, cada sonho! At -ando em peccado mortal! e so suores! Mudo de camisa tres e quatro -vezes! - -E ia-se olhando ao espelho: queria convencer-se que as bellezas da sua -pessoa ajudariam as agulhas da bruxa: alisou o cabello. - ---No me achas mais magra? - ---No. - ---Ai estou, filha, estou!--E mostrou o corpete lasso. - -J fazia planos. Iria passar a _lua de mel_ a Cintra... Os olhos -afogavam-se-lhe n'um fluido lubrico. - ---Nossa Senhora da Alegria o permitta. Tenho-lhe duas velas accesas, de -dia e de noite... - -Mas de repente a voz afflicta de Joanna bradou da escada da cozinha: - ---Minha senhora! Minha senhora, acuda! - -Luiza correu, Jorge tambem, que ouvira na sala o grito. Juliana estava -estendida no soalho da cozinha, desmaiada! - ---Deu-lhe de repente, deu-lhe de repente!--exclamava Joanna, muito -branca, a tremer.--Tombou p'ra o lado de repente... - -Julio tranquillisou-os logo: era uma syncope, simples. -Transportaram-na para a cama. Julio fez-lhe esfregar violentamente -com uma flanella quente as extremidades,--e, mesmo antes que Joanna -atarantada, em cabello, corresse botica por um antispasmodico, -Juliana voltava a si, muito fraca. Quando desceram sala, Julio -disse, enrolando o cigarro: - ---No vale nada. So muito frequentes, estas syncopes, nas doenas -de corao. Esta simples. Mas o diabo, s vezes tem um caracter -apopletico, e vem a paralysia; pouco duradoura, sim, porque a -effuso de sangue no cerebro muito pequena, mas emfim, sempre -desagradavel.--E accendendo o cigarro:--Esta mulher um dia morre-lhes -em casa. - -Jorge, preoccupado, passeava pela sala com as mos nos bolsos. - ---Sempre o tenho dito--acudiu D. Felicidade, baixando a voz, -assustada.--Sempre o tenho dito. desfazerem-se d'ella. - ---Alm d'isso o tratamento incompativel com o servio--disse -Julio.--Emfim, mesmo a engommar roupa se pde tomar digitalis ou -quinino; mas que o verdadeiro tratamento o repouso, a absoluta -excluso da fadiga. Que ella um dia se zangue ou que tenha uma manh de -canceira, e pde ir-se! - ---E vai adiantada a doena?--perguntou Jorge. - ---Pelo que ella diz j tem a difficuldade asthmatica, oppresses, uma -dr aguda na regio cardiaca, flatulencia, humidade nas extremidades--o -diabo! - ---Olha que espiga!--murmurou Jorge, olhando em roda. - --- pl-a na rua!--resumiu D. Felicidade. - -Quando ficaram ss, s onze horas, Jorge disse logo a Luiza: - ---Que te parece esta, hein? necessario descartarmo-nos da creatura. -No quero que me morra em casa! - -Ella, sem se voltar, diante do toucador, tirando os brincos, comeou a -dizer, que no se podia mandar tambem a pobre creatura morrer p'ra a -rua... Lembrou vagamente o que ella tinha feito pela tia Virginia... Ia -collocando devagar as suas palavras com a cautela com que se pousa o p -n'um terreno traioeiro.--Podia-se talvez dar-lhe algum dinheiro, que -ella fosse viver algures... - -Jorge, depois d'um silencio, respondeu: - ---No tenho duvida em lhe dar dez ou doze libras, e que se v, que se -arranje! - -Dez ou doze libras!--pensou Luiza com um sorriso infeliz.--E beira -do toucador olhava para o seu rosto, ao espelho, com uma indefinida -saudade, como se as suas faces devessem dentro em pouco estar cavadas -pela afflico, e os seus olhos fatigados pelas lagrimas... - - -Porque, emfim, a _crise_ tinha chegado. Se Jorge insistisse em despedir -a creatura, ella no podia, sem provocar um espanto e uma explicao, -dizer a Jorge: no quero que ella sia, quero que ella aqui morra! E -Juliana vendo-se expulsa, desesperada, doente, percebendo que Luiza no -a defendia, no a reclamava,--vingar-se-hia! Que havia de fazer? - -Ergueu-se ao outro dia n'uma grande agitao. Juliana muito fatigada, -ainda estava na cama. E em quanto Joanna punha a mesa, Luiza sentada na -_voltaire_, janella da sala de jantar, lia machinalmente o _Diario -de Noticias_, quasi sem comprehender, quando uma noticia, no alto da -pagina, lhe deu um sobresalto: Parte alm d'manh para Frana o -nosso amigo e conhecido banqueiro Castro, da firma Castro Miranda & -C.^a S. exc.^a retira-se dos negocios da praa, e vai estabelecer-se -definitivamente em Frana, perto de Bordeus, onde comprou ultimamente -uma valiosa propriedade. - -O Castro! O homem que lhe dava dinheiro, o que ella quizesse! dizia -Leopoldina. Partia!... E apesar de ter achado, desde o primeiro -momento, aquelle recurso infame, vinha-lhe a seu pezar como uma -desconsolao de o vr desapparecer! Porque nunca mais voltaria a -Portugal, o Castro!... E de repente uma ida atravessou-a, que a fez -vibrar toda, erguer-se direita, muito pallida.--Se na vespera da -partida d'elle, Santo Deus! se na vespera ella consentisse!... Oh! era -horrivel! Nem pensar em tal!... - -Mas pensou--e sentia-se toda fraca contra uma tentao crescente, que -se lhe enroscava na alma com caricias persuasivas. que ento estava -salva! Dava seiscentos mil reis a Juliana! E o demonio iria morrer para -longe! - -E elle, o homem, tomaria o paquete! No teria de crar diante d'elle; -o seu segredo ia para o estrangeiro, to perdido como se fosse para o -tumulo!--E, alm d'isso, se o Castro tinha uma paixo por ella, era bem -possivel que lhe emprestasse, sem condies!... - -Bom Deus! No dia seguinte podia ter alli na algibeira do seu roupo as -notas, o ouro... Porque no?--Porque no? E vinha-lhe um desejo ancioso -de se libertar, de viver feliz, sem agonias, sem martyrios... - -Voltou ao quarto. Pz-se a remexer no toucador, olhando de lado Jorge -que se vestia... A presena d'elle deu-lhe logo um remorso; ir pedir -a um homem dinheiro, consentir nos seus olhares lascivos, nas suas -palavras intencionaes!... Que horror!--Mas j subtilisava. Era por -Jorge, era por elle! Era para lhe poupar o desgosto de _saber_! Era -para o poder amar livremente, toda a vida, sem receios, sem reservas... - -Durante todo o almoo esteve calada. O rosto sympathico de Jorge -enternecia-a; o _outro_ parecia-lhe medonho, odiava-o j!... - -Quando Jorge sahiu ficou muito nervosa. Ia janella; o sol parecia-lhe -adoravel, a rua attrahia-a.--Porque no? Porque no? - -A voz de Juliana, muito aspera, fallou ento nas escadas da cozinha; e -aquelle cantado odioso decidiu-a bruscamente. - -Vestiu-se com cuidado: era mulher, quiz parecer bonita.--E chegou toda -esbaforida a casa de Leopoldina, quando dava meio dia a S. Roque. - -Encontrou-a vestida, esperando o almoo. E tirando immediamente o -chapo, installando-se no soph, explicou muito claramente a Leopoldina -a sua resoluo. Queria o dinheiro do Castro. Emprestado ou dado, -queria o dinheiro!... Estava n'uma afflico, devia valer-se de -tudo!... Jorge queria despedir a mulher... Tinha medo d'uma vingana -d'ella... Queria dinheiro, alli estava! - ---Mas assim de repente, filha!--disse Leopoldina, pasmada do seu olhar -decidido. - ---O Castro vai-se manh. Vai para Bordeus, para o inferno! -necessario fazer alguma cousa, j! - -Leopoldina lembrou escrever-lhe. - ---O que quizeres... Eu aqui estou! - -A outra sentou-se devagar mesa, escolheu uma folha de papel, e, com o -dedinho no ar, a cabea de lado, comeou a escrevinhar. - -Luiza passeava pelo quarto, nervosa. Tinha agora uma resoluo teimosa, -que a presena de Leopoldina fortificava! Divertia-se, aquella, -danava, ia ao campo, gozava, vivia, sem ter como ella uma tortura a -minar-lhe, a estragar-lhe a vida! Ah! no voltaria para casa sem levar -na algibeira em boas libras o resgate, a salvao! Ainda que tivesse -de ser vil como as do Bairro Alto! Estava farta das humilhaes, dos -sustos, das noites cortadas de pesadlos!... Queria saborear a vida, -que diabo! o seu amor, o seu jantar, sem cuidados, com o corao -contente! - ---V l--disse Leopoldina, lendo: - - - Meu caro amigo. - -Desejo absolutamente fallar-lhe. um negocio grave. Venha logo que -possa. Talvez me agradea. Espero-o at s tres horas, o mais tardar. - -Com toda a estima - - Sua amiga - - _Leopoldina_. - - ---Que te parece? - ---Horrivel! Mas est bem... Est muito bem! Risca-lhe o _talvez me -agradea_. melhor. - -Leopoldina copiou o bilhete, mandou-o pela Justina, n'um trem. - ---E agora vou almoar, que me no tenho nas pernas. - -A sala de jantar dava para um saguo estreito. As paredes estavam -cobertas d'uma pintura medonha, em que grandes manchas verdes -semelhavam collinas, e linhas azues ferretes representavam lagos. Um -armario, no angulo da parede, servia de guarda-loua. As cadeiras de -palhinha tinham almofadinhas de paninho vermelho; e na toalha havia -nodoas do caf da vespera. - ---D'uma cousa pdes tu ter a certeza--dizia Leopoldina, bebendo -grandes goles de ch-- que o Castro um homem p'ra um segredo!... -Se te emprestar o dinheiro, que empresta, d'aquella bocca no sahe -uma palavra. L n'isso perfeito... Olha que foi o amante da Videira -annos! e nem ao Mendona, que o seu intimo, disse uma palavra. Nem -uma alluso! um poo. - ---Que Videira?--perguntou Luiza. - ---Uma alta, de nariz grande, que tem um _landau_. - ---Mas passa por uma mulher to sria... - ---J tu vs!--E com um risinho:--Ai ellas passam, passam. L passar, -passam. A questo conhecer-lhes os pdres, minha fidalga! - -E barrando de manteiga grandes fatias de po, pz-se a fallar -complacentemente dos escandalos de Lisboa, a desdobrar o _sudario_: -citava nomes, especialidades, as que depois de terem feito o diabo, -gastam, n'uma devoo tardia, o resto d'uma velha sensibilidade; que - por onde ellas acabam, algumas pelas sacristias! As que, canadas -de certo d'uma virtude monotona, preparam habilmente o seu fracasso -n'uma estao em Cintra ou em Cascaes. E as meninas solteiras! Muito -pequerrucho por essas amas, dos arredores tem o direito de lhes -chamar _mam_! Outras mais prudentes, receando os resultados do amor, -refugiam-se nas precaues da libertinagem... Sem contar as senhoras -que em vista dos pequenos ordenados, completam o marido com um sujeito -supplementar!--Exagerava muito; mas odiava-as tanto! Porque todas -tinham, mais ou menos, sabido conservar a exterioridade decente que -ella perdera, e manobravam com habilidade, onde ella, a tola, tivera s -a sinceridade! E em quanto ellas conservavam as suas relaes, convites -para _soires_, a estima da crte,--ella perdera tudo, era apenas a -Quebraes!... - -Aquella conversao enervava Luiza; n'uma tal generalidade do vicio -parecia-lhe que o seu caso, como um edificio n'um nevoeiro, perdia o -seu relevo cruel, se esbatia; e sentindo-o to pouco visivel quasi o -julgava j justificado. - -Ficaram caladas, vagamente entorpecidas por aquelle sentimento d'uma -forte immoralidade geral, onde as resistencias, os orgulhos se -amollecem, se enlanguecem,--como os musculos n'uma estufa fortemente -saturada de exhalaes mornas. - ---Este mundo uma historia--disse Leopoldina erguendo-se e -espreguiando-se. - ---E teu marido onde est?--perguntou Luiza no corredor. - -Fra p'ra o Porto. Estavam vontade, podiam commetter crimes! - -E Leopoldina, no quarto, estirando-se no canap, com o cigarrinho -_laferme_ na bocca, comeou tambem a queixar-se. - -Andava aborrecida ha tempos; enfastiava-se, achava tudo seccante; -queria alguma cousa de novo, de desusado! Sentia-se bocejar por todos -os poros do seu corpo... - ---E o Fernando, ento?--disse distrahidamente Luiza, que a cada momento -se aproximava da janella. - ---Um idiota!--respondeu Leopoldina com um movimento d'hombros, cheio de -saciedade e de desprezo. - -No, realmente tinha vontade d'outra cousa, no sabia bem de qu! -s vezes lembrava-se fazer-se freira! (E estirava os braos com um -tedio molle). Eram to semsabores todos os homens que conhecia! to -corriqueiros todos os prazeres que encontrra! Queria uma outra vida, -forte, aventurosa, perigosa, que a fizesse palpitar--ser mulher d'um -salteador, andar no mar, n'um navio pirata... Em quanto ao Fernando, -o amado Fernando dava-lhe nauseas! E outro que viesse seria o mesmo. -Sentia-se farta dos homens! Estava capaz de tentar Deus! - -E, depois d'escancarar a bocca, n'um bocejo de fera engaiolada: - ---Aborreo-me! Aborreo-me!... Oh cos! - -Ficaram um momento caladas. - ---Mas, que se lhe ha-de dizer, a esse homem?--perguntou de repente -Luiza. - -Leopoldina, soprando o fumo do cigarro, com a voz muito preguiosa: - ---Diz-se-lhe que se precisa um conto de reis, ou seiscentos mil reis... -Que se lhe ha-de ento dizer? Que se lhe paga. - ---Como? - -Leopoldina disse, deitada, com os olhos no tecto: - ---Em affecto. - ---Oh! s horrivel!--exclamou Luiza, exasperada.--Vs-me aqui -desgraada, meia douda, dizes que s minha amiga, e ests a rir, a -escarnecer...--A sua voz tremia, quasi chorava. - ---Mas tambem que pergunta to tola! Como se lhe ha-de pagar?... Tu no -sabes? - -Olharam-se um momento. - ---No, eu vou-me embora, Leopoldina!--exclamou Luiza. - ---No sejas criana! - -Um trem parou na rua. A Justina appareceu. No encontrra o snr. Castro -em casa, estava no escriptorio. Fra l, disse que vinha immediatamente. - -Mas Luiza, muito pallida, tinha o chapo na mo. - ---No--disse Leopoldina, quasi escandalisada--tu agora no me deixas -aqui com o homem! Que lhe hei-de eu dizer? - --- horrivel!--murmurou Luiza com uma lagrima nas palpebras, deixando -cahir os braos, solicitada pelo interesse, enleada pela vergonha, -muito infeliz! - --- como quem toma oleo de ricino--disse a outra com um gesto cynico. -E acrescentou, vendo o horror de Luiza:--Que diabo! onde que est a -deshonra, em pedir dinheiro emprestado? Todo o mundo pede... - -N'aquelle momento outra carruagem, a largo trote, parou. - ---Entra tu primeiro! falla-lhe tu primeiro!--supplicou Luiza, erguendo -as mos para ella. - -A campainha retiniu. Luiza muito tremula, muito branca, olhava para -todos os lados com um olhar muito aberto, de susto, d'ancia, como -procurando uma ida, uma resoluo ou um recanto para se esconder! -Botas d'homem rangeram na esteira da sala ao lado. Leopoldina ento -disse-lhe baixo, devagar, como para lhe cravar as palavras na alma, uma -a uma: - ---Lembra-te que d'aqui a uma hora pdes estar salva, com as tuas cartas -na algibeira, feliz, livre! - -Luiza pz-se de p com uma deciso brusca. Foi pr ps d'arroz, alisou -o cabello,--e entraram na - -Ao vr Luiza, o Castro teve um movimento surprehendido. Curvou-se, com -os ps pequeninos muito juntos, inclinando a cabea grossa, onde os -cabellos muito finos alourados j rareavam. - -Sobre o seu ventresinho redondo, que a perna curta fazia parecer quasi -pansudo, o medalho do relogio pousava com opulencia. Trazia na mo -um chicote, cujo cabo de prata representava uma Venus retorcendo os -braos. A pelle tinha um rubor prospero; o bigode farto, terminava em -pontas agudas, empastadas em cera mostacha, d'um aspecto napoleonico. -E os seus oculos de ouro tinham um ar authoritario, bancario, amigo da -Ordem. Parecia contente da vida como um pardal muito farto. - -Com que! Era necessario mandal-o chamar, para que se lhe pozesse a -vista em cima,--comeou logo Leopoldina. E depois de o apresentar a -Luiza sua intima, sua amiga de collegio: - ---Que tem feito, porque no tem apparecido? - -O Castro repoltreou-se n'uma cadeira de braos, e batendo com o chicote -nas botas, desculpou-se com os preparativos da partida... - ---Sempre verdade? Deixa-nos? - -O Castro curvou-se: - ---Alm d'amanh. No _Orenoque_. - ---Ento d'esta vez os jornaes no mentiram. E com demora? - ---_Per omnia s[ae]cula s[ae]culorum._ - -Leopoldina pasmava. Deixar Lisboa! Um homem to estimado, que se podia -divertir tanto!--Pois no verdade?--disse voltando-se para Luiza, -para a tirar do seu silencio embaraado. - ---Com certeza--murmurou ella. - -Estava sentada beira da cadeira, como assustada, prompta a fugir. E -os olhares do Castro, insistentes por traz dos reflexos dos oculos, -incommodavam-na. - -Leopoldina reclinra-se no soph e ameaando-o com o dedo erguido: - ---Ah! Ahi n'essa ida p'ra Frana anda historia de saias! - -Elle negou frouxamente, com um sorriso fatuo. - -Mas Leopoldina no achava as francezas bonitas--o que era que tinham -muito _chic_, muita animao... - -O Castro declarou-as adoraveis. Sobretudo para a estroinice! Ah! -conhecia-as bem! Emfim, l como mes de familia no dizia. Mas para uma -ca, para um bocado de _can-can_ no havia outras...--Affirmava-o com -convico, pois, como os burguezes da sua roda, avaliava doze milhes -de francezas por seis prostitutas de Caf Concerto,--que tinha pago -caro e enfastiado immenso! - -Leopoldina, para o lisonjear, chamou-lhe _estroina_! - -Elle sorria, deliciando-se, afiando as pontas do bigode: - ---Calumnias, calumnias...--murmurava. - -E Leopoldina voltando-se para Luiza: - ---Comprou uma quinta magnifica em Bordeus, um palacio!... - ---Uma choupana, uma choupana... - ---E naturalmente vai dar festas magnificas!... - ---Modestos chs, modestos chs...--dizia, repoltreando-se. - -E riam ambos d'um modo muito affectado. - -O Castro curvou-se ento para Luiza: - ---Tive o gosto de vr v. exc.^a ha tempos, na rua do Ouro... - ---Creio que tambem me lembro--respondeu ella. - -E ficaram calados. Leopoldina tossiu, sentou-se mais beira do soph, -e depois de sorrir: - ---Pois eu mandei-o chamar porque temos uma cousa a dizer-lhe. - -Castro inclinou-se. O seu olhar no deixava Luiza, percorria-a com -atrevimento, palpava-a. - ---Aqui est o que . Eu vou direita s cousas, sem preambulos.--E teve -outro risinho.--Aqui a minha amiga est n'um grande apuro, e precisa um -conto de reis. - -Luiza acudiu com a voz quasi sumida: - ---Seiscentos mil reis... - ---Isso no importa--disse Leopoldina com uma indifferena -opulenta--estamos a fallar com um millionario! A questo esta: quer o -meu amigo fazer o favor? - -O Castro endireitou-se na cadeira, devagar, e com uma voz arrastada, -ambigua: - ---Certamente, certamente... - -Leopoldina ergueu-se logo: - ---Bem. Eu tenho alli no quarto a costureira espera. Deixo-os fallar -do negocio. - -E porta do quarto, voltando-se para o Castro, ameaando-o com o dedo, -a voz muito alegre: - ---Que o juro seja pequeno, hein? - -E sahiu, rindo. - -O Castro disse logo a Luiza, curvando-se: - ---Pois minha senhora, eu... - ---A Leopoldina contou-lhe a verdade, estou n'uma grande afflico de -dinheiro. E dirijo-me a si... So seiscentos mil reis... Procurarei -pagar, o mais depressa... - ---Oh minha senhora!--fez o Castro com um gesto generoso. Comeou ento -a dizer, que comprehendia perfeitamente, todo o mundo tinha os seus -embaraos... Lamentava que a no tivesse conhecido ha mais tempo... -Sempre tivera uma grande sympathia por ella... Uma grande sympathia!... - -Luiza calava-se, com os olhos baixos. Elle foi pousar o chicote na -jardineira, veio sentar-se no soph junto d'ella. Vendo o seu ar -embaraado, pediu-lhe que no se affligisse. Valia l a pena por -questes de dinheiro! Tinha o maior prazer em servir uma senhora -nova, to interessante... Fizera perfeitamente em se dirigir a elle. -Conhecia casos em que senhoras se dirigiam a agiotas que as exploravam, -eram indiscretos...--E fallando tinha-lhe tomado a mo; o contacto -d'aquella pelle appetecida, exaltando-lhe o desejo brutalmente, fazia-o -respirar alto; Luiza, toda constrangida, nem retirra a mo; e Castro -abrazado--com uma verbosidade um pouco rouca, promettia _tudo_, _tudo -o que ella quizesse_!... Os seus olhinhos arregalados devoravam-lhe o -pescoo muito branco. - ---Seiscentos mil reis..., o que quizer!... - ---E quando?--disse Luiza muito perturbada. - -Elle via-lhe o seio arfar--e sob a irrupo d'um desejo brutal: - ---J! - -Agarrou-a pela cinta, atirou-lhe um beijo voraz, quasi lhe mordeu a -face. - -Luiza ergueu-se com o salto d'uma mola d'ao. - -Mas o Castro escorregra sobre o tapete, de joelhos; e, prendendo-lhe -sofregamente os vestidos: - ---Dou-lhe o que quizer, mas sente-se! Ha annos que tenho uma paixo -por si. Escute!--Os seus braos tremulos subiam; envolviam-na, e o que -sentia das suas frmas inflammava-o. - -Luiza, sem ruido, repellia-lhe as mos, recusava-se. - ---O que quizer! Mas oua!--balbuciava elle puxando-a violentamente para -si. A concupiscencia brutal dava-lhe uma respirao de touro. - -Ento, com um puxo desesperado s saias, ella soltou-se, e recuando -afflicta: - ---Deixe-me! Deixe-me! - -O Castro ergueu-se, a bufar, e com os dentes cerrados, os braos -abertos, rompeu para ella. - -Diante d'aquella luxuria bestial, Luiza, indignada, agarrou -instinctivamente de sobre a jardineira o chicote e deu-lhe uma forte -chicotada na mo. - -A dr, a raiva, o desejo enfureceram-no. - ---Seu diabo!--rosnou, rangendo os dentes. - -Ia-se arremessar. Mas Luiza ento, erguendo o brao, revolvida por -uma clera phrenetica, atirou-lhe chicotadas rapidamente pelos -braos, pelos hombros--muito pallida, muito sria, com uma crueldade -a reluzir-lhe nos olhos, gozando uma alegria de desforra em fustigar -aquella carne gorda. - -O Castro, assombrado, defendia-se vagamente, com os braos diante da -cara, recuando; de repente, topou contra a jardineira; o candieiro de -porcelana oscillou, desequilibrou-se, rolou no cho, com estilhaos de -loua, e uma nodoa escura d'azeite alastrou-se na esteira. - ---Ahi est! V?--disse Luiza toda a tremer, apertando ainda -convulsivamente o chicote. - -Leopoldina ao barulho correu, do quarto. - ---Que foi? Que foi? - ---Nada, estavamos a brincar--disse Luiza. - -Atirou o chicote para o cho, sahiu da sala. - -O Castro, livido de raiva, tinha agarrado o chapo; e fixando -terrivelmente Leopoldina: - ---Agradecido! Conte commigo quando quizer! - ---Mas que foi? Que foi? - ---At vista!--rugiu o Castro.--E indo apanhar o chicote, sacudindo-o -ameaadoramente para o quarto, onde Luiza entrra: - ---Grande bebeda!--murmurou com rancor. - -E sahiu, atirando com as portas. - -Leopoldina, attonita, veio encontrar Luiza no quarto a pr o chapo, -com as mos ainda tremulas, os olhos muito brilhantes, satisfeita. - ---Chegou-me c uma cousa, e enchi-lhe a cara de chicotadas--disse ella. - -Leopoldina esteve um momento a olhal-a petrificada. - ---Bateste-lhe?...--E de repente desatou a rir, convulsivamente.--O -Castro d'oculos, o Castro coberto de chicotadas! O Castro a levar -uma coa!--Atirou-se para cima da _chaise-longue_, rolou-se; -suffocava.--At j tinha uma pontada, Jesus! O Castro!... Vir a uma -casa amiga, levar o tiro de seiscentos mil reis e ser corrido a -chicote!... Com o seu proprio chicote!... Oh! era para estourar!... - ---O peor foi o candieiro--disse Luiza. - -Leopoldina ergueu-se, de salto. - ---E o azeite! Ai que agouro!--Correu sala. Luiza veio encontral-a -diante da nodoa escura, com os braos cruzados, como se visse, toda -pallida, catastrophes avisinharem-se.--Que agouro, Santo Deus! - ---Deita-lhe sal depressa. - ---Faz bem? - ---Quebra o agouro. - -Leopoldina correu a buscar sal; e de joelhos, salgando a nodoa: - ---Ai! Nossa Senhora permitta que no haja nada mau! Mas que caso este, -que caso este! E agora, filha? - -Luiza encolheu os hombros. - ---Eu sei c! Soffrer!... - - - - -XIII - - -N'essa semana, uma manh, Jorge, que se no recordava que era dia de -gala, encontrou a secretaria fechada, e voltou para casa ao meio dia. -Joanna porta conversava com a velha que comprava os ossos; a cancella -em cima estava aberta; e Jorge, chegando despercebido ao quarto, -surprehendeu Juliana commodamente deitada na _chaise-longue_, lendo -tranquillamente o jornal. - -Ergueu-se, muita vermelha, mal o viu, balbuciou: - ---Peo desculpa, tinha-me dado uma palpitao to forte... - ---Que se pz a lr o jornal, hein?...--disse Jorge, apertando -instinctivamente o casto da bengala.--Onde est a senhora? - ---Deve estar p'ra a sala de jantar--disse Juliana, que se pz logo a -varrer, muito apressada. - -Jorge no encontrou Luiza na sala de jantar; foi dar com ella no quarto -dos engommados, despenteada, em roupo de manh, passando roupa, muito -applicada e muito desconsolada. - ---Tu ests a engommar?--exclamou. - -Luiza crou um pouco, pousou o ferro.--A Juliana estava adoentada, -juntra-se uma carga de roupa... - ---Dize-me c, quem aqui a criada e quem aqui a senhora? - -A sua voz era to aspera, que Luiza fez-se pallida, murmurou: - ---Que queres tu dizer? - ---Quero dizer que te venho encontrar a ti a engommar, e que a encontrei -a ella l em baixo muito repimpada na tua cadeira, a lr o jornal. - -Luiza, atarantada, abaixou-se sobre o cesto da roupa lavada, comeou a -remexer, a desdobrar, a sacudir com a mo tremula... - ---Tu no pdes fazer ida do que aqui vai por fazer--ia dizendo.-- -a limpeza, so os engommados, um servio. A pobre de Christo tem -estado doente... - ---Pois se est doente que v p'ra o hospital! - ---No, tambem no tens razo! - -Aquella insistencia em defender a outra, que se repoltreava em baixo na -sua _chaise-longue_, exasperou-o: - ---Dize c, tu dependes d'ella? Havia de dizer que tens medo d'ella! - ---Ah! se ests com esse genio!--fez Luiza com os beios tremulos, uma -lagrima j nas palpebras. - -Mas Jorge continuava, muito zangado: - ---No, essas condescendencias ho-de acabar por uma vez! Vr aquelle -estafermo, com os ps p'ra cova, a prosperar em minha casa, a deitar-se -nas minhas cadeiras, a passear, e tu a defendel-a, a fazer-lhe o -servio, ah! no! necessario acabar com isso. Sempre desculpas! -sempre desculpas! Se no pde que arreie. Que v p'ra o hospital, que -v p'ra o inferno! - -Luiza lavada em lagrimas assoava-se, soluando. - ---Bem! Agora choras. Que tens tu? Por que choras? - -Ella no respondia, n'um grande pranto. - ---Porque choras, filha?--perguntou elle, com uma impaciencia commovida, -chegando-se a ella. - ---Para que me fallas tu assim?--dizia, toda soluante, limpando os -olhos.--Sabes que estou doente, nervosa, e tens mau genio p'ra mim! O -que me sabes dizer so cousas desagradaveis. - ---Cousas desagradaveis! Minha filha, eu disse-te l nada -desagradavel!--E abraou-a, ternamente. - -Mas ella desprendeu-se, e com a voz cortada de soluos: - ---Ento algum crime estar a engommar? Por que trabalho, por que trato -das minhas cousas, zangas-te? Querias que eu fosse uma desarranjada? A -mulher tem estado doente! Em quanto se no arranja outra, necessario -fazer as cousas... Mas tu fallas, fallas! P'ra me affligir!... - ---Ests a dizer tolices, filha. No ests em ti. Eu o que no quero -que te cances! - ---P'ra que dizes ento que tenho medo d'ella?--E as lagrimas -recomeavam.--Medo de qu? Porque hei-de eu ter medo d'ella? Que -desproposito! - ---Pois bem, no digo. No se falla mais na creatura. Mas no -chores... V, acabou-se!--Beijou-a. E tomando-a pela cinta, levando-a -dcemente:--V, deixa o ferro agora. Vem! Que criana que tu s! - - -Por bondade, por considerao com os nervos de Luiza, Jorge durante -alguns dias no fallou na creatura. Mas pensava n'ella; e aquelle -estafermo, com os ps para a cova, em sua casa, exasperava-o. Depois as -madracices que lhe percebera, os confortos do quarto que vira na noite -em que ella desmaira, aquella bondade ridicula de Luiza!... Achava -aquillo estranho, irritante!... Como estava fra de casa todo o dia, e -diante d'ella Juliana s tinha sorrisos para Luiza, muitas attitudes -de affecto, imaginava que ella se soubera insinuar, e, pelas pequenas -intimidades de ama a criada, se tornra necessaria e estimada. Isso -augmentava a sua antipathia. E no a disfarava. - -Luiza vendo-o s vezes seguir Juliana com um olhar rancoroso, tremia! -Mas o que a torturava era a maneira que Jorge adoptra de fallar -d'ella com uma venerao ironica; chamava-lhe _a illustre D. Juliana, -a minha ama e senhora_! Se faltava um guardanapo ou um copo, fingia-se -espantado: Como! a D. Juliana esqueceu-se! Uma pessoa to perfeita! -Tinha gracejos que gelavam Luiza. - ---A que sabia o filtro que ella te deu? Era bom? - -Luiza agora, diante d'elle, j nem se atrevia a fallar a Juliana com um -modo natural; temia os sorrisos malignos, os partes:--Anda, atira-lhe -um beijo, conhece-se na cara que ests com a vontade de lh'o atirar! -E, receando as suspeitas d'elle, querendo mostrar-se _independente_, -comeou na sua presena, a fallar a Juliana com uma dureza brusca, -muito affectada. A pedir-lhe agua, uma faca, dava voz inflexes d'um -rancor postio. - -Juliana, muito fina, tinha percebido _tudo_, e supportava, calada. - -Queria evitar toda a questo que a perturbasse no seu conchego. -Sentia-se agora muito mal, e nas noites em que no podia dormir com -afflices asthmaticas, punha-se a pensar com terror--se fosse expulsa -d'aquella casa, para onde iria? Para o hospital! - -Tinha por isso medo de Jorge. - ---Elle est morto por me pilhar em desleixo grosso, e descartar-se de -mim--dizia ella tia Victoria--mas no lhe hei-de dar esse gosto, ao -boi manso! - -E Luiza, pasmada, vira-a pouco a pouco recomear a fazer todo o -servio, com zelo, apparentemente; e todavia s vezes no podia, -vencida pela doena; tinha flatos que a faziam cahir n'uma cadeira, -arquejando, com as mos no corao. Mas reagia. Uma occasio mesmo -vendo Luiza a passar um espanejador pelos _consoles_ da sala, zangou-se: - ---A senhora faz favor de se no metter no meu servio? Eu ainda posso! -Ainda no estou na cova! - -Consolava-se ento com regalos de gulodice. Durante todo o dia debicava -sopinhas, croquettes, pudinzinhos de batata. Tinha no quarto gelatina e -vinho do Porto. Em certos dias mesmo queria caldos de gallinha noite. - ---Com o meu corpo o pago--dizia ella a Joanna--que trabalho como uma -negra! Arrazo-me! - -Um dia, porm, que Jorge se irritra mais com a figura amarellada de -Juliana, e que estava nervoso, ao achar noite o jarro vazio e o -lavatorio sem toalha, enfureceu-se desproporcionadamente: - ---No estou para aturar estes desleixos! Irra!--gritou. - -Luiza veio logo, inquieta, desculpar Juliana. - -Jorge mordeu o beio, curvou-se profundamente, e com a voz um pouco -tremula: - ---Perdo! esquecia-me que a pessoa de Juliana sagrada! eu mesmo vou -buscar agua! - -Luiza ento zangou-se: se havia de estar sempre com aquelles remoques, -era mandar a criada embora por uma vez! Imaginava talvez que ella amava -de paixo a Juliana? Se a conservava porque era uma boa criada. Mas -se ella se tornava a causa de maus humores, de questes, se elle lhe -ganhra tamanho odio, bem, ento que se fosse! Era uma scca aquella -ironia constante... - -Jorge no respondeu. - -E durante a noite Luiza, sem dormir, pensava que aquillo no podia -durar! Estava farta! Aturar a mulher, a sua tyranna, e ouvir a todo -o momento ditinhos, alluses, ah, no! era de mais! Bastava! Elle -comeava a desconfiar, a bomba ia estalar! Pois bem, ella mesma -chegaria o lume ao rastilho! Ia mandar a Juliana embora! E que -mostrasse as cartas, acabou-se! Se elle a mettesse n'um convento, -se separasse d'ella, bem! Soffreria, morreria! Tudo, menos aquelle -martyrio reles, s picadinhas, medonho e grotesco! - ---Que tens tu?--perguntou Jorge, meio a dormir, sentindo-a inquieta. - ---Espertina. - ---Coitada! Conta cento e cincoenta p'ra traz!--E voltou-se, -enrolando-se commodamente na roupa. - - -Ao outro dia Jorge levantra-se cedo. Devia encontrar-se com o Alonso, -o hespanhol das minas, e jantar com elle no Gibraltar. Depois de -vestido foi sala de jantar--eram dez horas--e voltou a dizer a Luiza, -com uma cortezia profunda, espaando as palavras:--que no estava a -mesa posta! que as chavenas do ch da vespera estavam ainda por lavar! -e que a snr.^a D. Juliana, a illustre snr.^a D. Juliana, tinha sahido, -a seu passeio! - ---Eu disse-lhe hontem noite que me fosse ao sapateiro...--comeou -Luiza, que vestia o seu roupo. - ---Ah, perdo!--interrompeu Jorge muito ceremoniosamente.--Esquecia-me -outra vez que se trata de Juliana, tua ama e senhora! Perdo! - -Luiza acudiu logo: - ---No. Tens razo. Tu vers! preciso pr um cbro... - -Subiu logo cozinha, desesperada: - ---Voss porque no pz a mesa, Joanna, se a outra sahiu? - -Mas a rapariga no ouvira sahir a snr.^a Juliana! Imaginra que estava -p'ra baixo, p'ra a sala! Como ella agora que queria fazer tudo!... - -Quando Joanna trouxe o almoo d'ahi a pouco Jorge veio sentar-se -mesa, torcendo muito nervosamente o bigode. Levantou-se duas vezes -com um sorriso mudo para ir buscar uma colhr, o assucareiro. Luiza -via-lhe os musculos da face contrahidos: mal podia comer, atarantada; -a chavena, quando a erguia, tremia-lhe na mo; com os olhos baixos -espreitava Jorge s furtadellas, e o seu silencio torturava-a. - ---Tu fallaste hontem que ias jantar fra hoje... - ---Vou--disse seccamente. E acrescentou:--Graas a Deus! - ---Ests de bom humor!...--murmurou ella. - ---Como vs! - -Luiza fez-se pallida, pousou o talher: tomou o jornal para disfarar -uma lagrimasinha que lhe tremia na palpebra; mas as letras -confundiam-se, sentia pular o corao. De repente a campainha tocou. -Era a outra, de certo! - -Jorge, que se ia erguer, disse logo: - ---Ha-de ser essa senhora. Ora, vou-lhe dizer duas palavras... - -E ficou de p, junto mesa, aguando devagar um palito. - -Luiza, a tremer, levantou-se tambem: - ---Eu vou-lhe fallar... - -Jorge reteve-a pelo brao, e tranquillamente: - ---No, deixa-a vir. Deixa-me gozar!... - -Luiza recahiu na cadeira, muito pallida. - -Os taces de Juliana soaram no corredor. Jorge aguava tranquillamente -o seu palito. - -Luiza ento voltou-se para elle, e batendo as mos, afflicta: - ---No lhe digas nada!... - -Elle fixou-a, assombrado: - ---Porque? - -Juliana n'este momento abriu o reposteiro. - ---Ento que desaforo este, sahir e deixar tudo por -arrumar?--disse-lhe Luiza logo, erguendo-se. - -Juliana, que vinha sorrindo, estacou porta, petrificada: apesar da -sua amarellido, uma vaga cr de sangue espalhou-se-lhe nas feies. - ---No lhe torne a acontecer semelhante cousa, ouviu? A sua obrigao - estar em casa pela manh...--Mas o olhar de Juliana, que se cravava -n'ella terrivelmente, emmudeceu-a. Agarrou no bule com as mos -tremulas.--Deite agua n'este bule, v. - -Juliana no se mexeu. - ---Voss no ouviu?--berrou de repente Jorge. E atirou uma punhada -mesa, que fez saltar a loua. - ---Jorge!--gritou Luiza, agarrando-lhe no brao. - -Mas Juliana fugira da sala, correndo. - ---E logo, na rua!--exclamou Jorge.--Faze-lhe as contas, e que se v. -Ah! estou farto! Nem mais um dia! Se a torno a vr, desfao-a! At que -emfim! Chegou-me a minha vez! - -Foi buscar o paletot, muito excitado, e antes de sahir, voltando sala: - ---E que se v hoje mesmo, ouviste? Nem uma hora mais! Ha quinze dias -que a trago aqui atravessada. P'ra a rua! - - -Luiza veio para o quarto quasi sem se poder suster. Estava perdida! -estava perdida! Uma multido d'idas, todas extremas e insensatas, -redemoinhava no seu cerebro como um monto de folhas seccas n'uma -ventania: queria fugir, atirar-se ao rio, de noite; arrependia-se de -no ter cedido ao Castro... De repente imaginou Jorge abrindo as cartas -que Juliana lhe entregava, lendo: _Meu adorado Bazilio!_ Ento uma -cobardia immensa amolleceu-lhe a alma. Correu ao quarto de Juliana. Ia -supplicar-lhe que lhe perdoasse, que ficasse, que a martyrisasse!... -E Jorge depois? Diria que a Juliana chorra, se atirra de joelhos! -Mentiria, cobril-o-hia de beijos... Era nova, era bonita, era -ardente--convencel-o-hia! - -Juliana no estava no quarto. Subiu cozinha; estava l, sentada, -com os olhos chammejantes, os braos nervosamente cruzados, n'uma -raiva muda. Apenas viu Luiza, deu um salto sobre os calcanhares, e -mostrando-lhe o punho, berrou: - ---Olhe que a primeira vez que voss me torna a fallar como hoje, vai -aqui tudo raso n'esta casa! - ---Cale-se, sua infame!--gritou Luiza. - ---Voss manda-me calar, sua p...!--E Juliana disse a palavra. - -Mas a Joanna correu, atirou-lhe pelo queixo uma bofetada que a fez -cahir, com um gemido, sobre os joelhos. - ---Mulher!--bradou Luiza, arremessando-se sobre a Joanna, agarrando-a -pelos braos. - -Juliana, assombrada, fugiu. - --- Joanna! mulher! que desgraa, que escandalo!--exclamava Luiza com -as mos apertadas na cabea. - ---Racho-a!--dizia a rapariga com os dentes cerrados, os olhos como -brazas--racho-a! - -Luiza andava em volta da mesa da cozinha, automaticamente, pallida como -a cal, repetindo, toda a tremer: - ---O que voss foi fazer, mulher! o que voss foi fazer! - -A Joanna ainda toda revolvida de sua colera, com o rosto manchado de -vermelho, remexia furiosamente as panellas. - ---E se ella me diz uma palavra, acabo-a, aquella bebeda! Acabo-a! - -Luiza desceu ao quarto. No corredor sahiu-lhe Juliana, com a cuia -banda, as dedadas escarlates na face, medonha. - ---Ou aquella desavergonhada vai j p'ra a rua--gritou ella--ou eu -vou-me pr l em baixo na escada, e quando o seu homem vier, mostro-lhe -tudo!... - ---Pois mostre, faa o que quizer!--disse Luiza, passando, sem a olhar. - -Fra uma desesperao, um odio que a tinham decidido. Mais valia acabar -por uma vez!... - -Sentia ento como um allivio doloroso, em vr o fim do seu longo -martyrio! Havia mezes que elle durava. E pensando em tudo o que -tinha feito e que tinha soffrido, as infamias em que chafurdra e as -humilhaes a que descera, vinha-lhe um tedio de si mesma, um nojo -immenso da vida. Parecia-lhe que a tinham sujado e espesinhado; que -n'ella nem havia orgulho intacto, nem sentimento limpo; que tudo em -si, no seu corpo e na sua alma, estava enxovalhado, como um trapo -que foi pisado por uma multido, sobre a lama. No valia a pena -luctar por uma vida to vil. O convento seria j uma purificao, a -morte uma purificao maior...--E onde estava elle, o homem que a -desgrara? Em Paris, retorcendo a guia dos bigodes, chalaceando, -governando os seus cavallos, dormindo com outras! E ella morria alli, -estupidamente! E quando lhe escrevera a pedir-lhe que a salvasse, -nem uma palavra de resposta; nem a julgra digna do meio tosto da -estampilha! O que elle lhe dizia pelas terras da Polvora acima, -n'aquelle _coup_:--Dar-lhe-hia toda a sua vida, viveria sombra das -suas saias! O infame! J tinha talvez no bolso o bilhete da passagem! -Em quanto ella fra a mulher alegre, que vem, despe o corpete, mostra -um lindo collo--ento bem, prompto! Mas teve uma difficuldade, chorou, -soffreu--ah! no, isso no! s um bello animal que me ds um grande -prazer--perfeitamente, tudo o que quizeres: mas tornas-te uma creatura -dolorida que precisa consolaes, talvez uns poucos de centos de mil -reis--ento boas noites, c vou no paquete! Oh que estupida que a -vida! Ainda bem que a deixava! - -Foi-se encostar janella. Estava um dia muito azul, muito dce. O -sol punha grandes claridades de um dourado ligeiro sobre as paredes -brancas, sobre a calada. E havia no ar uma suavidade avelludada. -O Paula, em chinellas de tapete, aquecia-se porta do estanque. -Ento, diante do lindo ar d'inverno, enterneceu-se. Todos eram -felizes n'aquella manh de rosas, s ella soffria, pobre d'ella! E -ficou a olhar, como esquecida n'uma vaga saudade, com uma lagrima -na palpebra... De repente viu Juliana atravessar a rua, dobrar a -esquina,--e d'ahi a pouco voltar com um gallego, velho e pesado, que -trazia o seu sacco ao hombro. - -Ia-se embora!--pensou Luiza.--Mandava pr fra os bahus! E depois? -Remettia as cartas a Jorge, ou entregava-lh'as ella mesma, no portal! -Santo Deus!--E parecia-lhe vr Jorge apparecer no quarto, livido, com -as cartas na mo!... - -Veio-lhe um terror allucinado: no queria perder o seu marido, o seu -Jorge, o seu amor, a sua casa, o seu homem! Apossou-se d'ella a revolta -da femea contra a viuvez: aos vinte e cinco annos ir murchar para um -convento! No, c'os diabos! - -Foi direita ao quarto de Juliana. - ---Vem vr se lhe levo alguma cousa?--gritou logo a outra furiosa. - -Sobre a cama estava roupa branca espalhada, pelo cho botinas -embrulhadas em jornaes velhos. - ---E ainda c me ficam quatro camisas, dous pares de calcinhas, tres -pares de meias, seis punhos na lavadeira. Fica ahi o rol. E quero as -minhas contas!... - ---Escute, Juliana, no se v.--Mas a voz desappareceu-lhe, as lagrimas -saltaram-lhe dos olhos. - -Juliana poz-se a olhar para ella d'alto, triumphando, com uma botina de -duraque em cada mo. - --- mandar aquella desavergonhada embora, e est tudo acabado!--E com -uma voz aguda, batendo as solas das botinas:--Fica tudo como d'antes, -na paz do Senhor! - -Uma alegria extraordinaria accendia-lhe o olhar. Vingava-se! fazia-a -chorar! expulsava a _outra_! e no perdia os seus commodos! - --- pr a bebeda na rua! pl-a na rua! - -Luiza curvou os hombros, foi cozinha devagar; os degraus da escada -pareciam-lhe immensos, infindaveis. Deixou-se cahir n'um banco, e -limpando os olhos: - ---Joanna, venha c, escute, voss no pde continuar na casa... - -A rapariga ficou a olhar para ella, espantada. - ---O que a Juliana disse foi n'um repente... Tem estado a chorar, a -arrepender-se. a criada mais antiga. O senhor estima-a muito... - ---Ento a senhora manda-me embora? Ento a senhora manda-me embora? - -Luiza insistiu, baixo, envergonhada: - ---Foi um repente, tem estado a pedir perdo... - ---Eu foi para defender a senhora!--exclamou a rapariga, abrindo os -braos, afflicta. - -Luiza sentiu-se indigna; e impaciente, para acabar: - ---Bem, Joanna, no estejamos com mais. Eu que sou a dona da casa... -Vou-lhe fazer as contas. - ---Olha que pago este!--gritou Joanna, ento, desesperada. E com uma -resoluo, batendo o p:--Pois o senhor que ha-de dizer! Eu vou dizer -tudo ao senhor! Hei-de-lhe contar tudo o que se passou! A senhora no -tem razo!... - -Luiza olhava-a, estupida. Agora era aquella! Era d'aquella rapariga, -teimosa na sua justia, que vinha o desastre! Era de mais! Veio-lhe um -terror sobrenatural, como um espanto da consciencia, e apertando as -fontes nas mos abertas: - ---Que expiao! Que expiao, Santo Deus! - -De repente, como desvairada, agarrou Joanna pelos braos, e -fallando-lhe junto do rosto: - ---Joanna, v-se pelo amor de Deus, v-se! No diga nada. Despea-se -voss!--E perdendo inteiramente todo o respeito proprio, cahiu de -joelhos, diante da cozinheira, soluando:--Pelas cinco chagas de -Christo, v, Joanna, minha rica Joanna, v. Peo-lhe eu, Joanna! Pelo -amor de Deus! - -A rapariga, assombrada, rompeu n'um choro estridente. - ---Vou, sim, minha senhora!... vou, sim, minha rica senhora! - ---Sim, Joanna, sim. Eu dou-lhe alguma cousa. Voss bem v... No -chore... Espere... - -Desceu ao quarto correndo, tirou da gaveta duas libras das suas -economias, voltou, galgando os degraus, metteu-lh'as na mo, -dizendo-lhe baixo: - ---Faa uma trouxa, eu manh lhe mandarei o bahu. - ---Sim, minha senhora--soluava a rapariga, babada de dr--sim, minha -rica senhora! - -Luiza veio deixar-se cahir de bruos sobre a sua _chaise-longue_, n'um -choro convulsivo tambem, desejando a morte, pedindo, n'um terror, -piedade a Deus! - -Mas a voz aspera de Juliana disse bruscamente porta: - ---Ento em que ficamos? - ---A Joanna vai-se. Que quer mais? - ---Que sia j!--disse a outra imperiosamente.--Que o jantar o fao eu. -Por hoje, j se v! - -As lagrimas de Luiza seccavam-se, de raiva. - ---E a senhora agora oua! - -O tom de Juliana era to insultante, que Luiza ergueu-se, como ferida. - -E Juliana, ameaando-a, d'alto, com o dedo erguido: - ---E a senhora agora andar-me direita, seno eu lh'as cantarei!... - -E voltou as costas, batendo os taces. - - -Luiza olhou em roda, como se um raio tivesse atravessado o quarto; -mas tudo estava immovel e correcto; nem uma prega das cortinas se -movera, e os dous pastorinhos de porcelana sobre o toucador sorriam -pretenciosamente. - -Ento tirou o roupo violentamente, passou um vestido sem apertar o -corpete, vestiu por cima um casaco largo d'inverno, atirou o chapo -para a cabea despenteada, sahiu, desceu a rua tropeando nas saias, -quasi a correr. - -O Paula saltou para o meio da rua para a seguir: viu-a parar porta de -Sebastio, e veio dizer estanqueira: - ---Em casa do Engenheiro ha novidade! - -E ficou plantado porta com os olhos cravados para as janellas -abertas, onde as bambinellas de reps verde cahiam com as suas pregas -immoveis. - ---O snr. Sebastio?--perguntava Luiza rapariguita sardenta, que -correra a abrir a porta. - -E ia entrando pelo corredor. - ---Na sala--disse a pequena. - -Luiza subiu; sentia sons de piano; abriu violentamente a porta, e -correndo para elle, apertando as mos contra o peito, n'uma voz -angustiosa e sumida: - ---Sebastio, escrevi uma carta a um homem, a Juliana apanhou-m'a. Estou -perdida! - -Elle ergueu-se devagar, assombrado, muito branco; viu-lhe o rosto -manchado, o chapo mal posto, a afflico do olhar: - ---Que ? Que ? - ---Escrevi a meu primo--repetiu, com os olhos cravados n'elle, -anciosamente--a mulher apanhou-me a carta... Estou perdida! - -Fez-se muito pallida, os olhos cerraram-se-lhe. - -Sebastio amparou-a, levou-a meio desmaiada para o soph de damasco -amarello. E ficou de p, mais descrado que ella, com as mos nos -bolsos do seu jaqueto azul, immovel, estupido. - -De repente correu fra, trouxe um copo d'agua, borrifou-lhe o rosto ao -acaso. Ella abriu os olhos, as suas mos errantes apalparam em redor, -fitou-o espantada, e deixando-se cahir sobre o brao do canap, com o -rosto escondido nas mos, rompeu n'um choro hysterico. - -O seu chapo cahira. Sebastio apanhou-o, sacudiu-lhe delicadamente as -flres, pl-o sobre a jardineira com cuidado; e vindo nas pontas dos -ps debruar-se junto d'ella: - ---Ento! ento!--murmurava. E as suas mos tocando-lhe de leve o brao, -tremiam como folhas. - -Quiz dar-lhe agua para a socegar: ella recusou com a mo, endireitou-se -devagar no soph, limpando os olhos, assoando-se com grandes soluos. - ---Desculpe, Sebastio, desculpe--dizia.--Bebeu ento um gole d'agua, -ficou com as mos no regao, quebrada; e, uma a uma, as suas lagrimas -silenciosas cahiam sem cessar. - -Sebastio foi fechar a porta--e vindo ao p d'ella, com muita doura: - ---Mas ento? Que foi? - -Ella ergueu para elle a sua face chorosa, onde os olhos brilhavam -febrilmente; olhou-o um momento, e deixando pender a cabea, toda -humilhada: - ---Uma desgraa, Sebastio, uma vergonha!--murmurou. - ---No se afflija! No se afflija! - -Sentou-se ao p d'ella, e baixo, com solemnidade: - ---Tudo o que eu puder, tudo o que fr necessario, aqui me tem! - ---Oh Sebastio!...--exclamou n'um impulso de reconhecimento humilde; -e acrescentou:--Acredite, tenho sido bem castigada! O que eu tenho -soffrido, Sebastio! - -Esteve um momento com os olhos cravados no cho; e agarrando-lhe -o brao de repente, com fora, as palavras romperam abundantes e -precipitadas, como os borbulhes d'uma agua comprimida que rebenta. - ---Apanhou-me a carta, no sei como, por um descuido meu! Ao principio -pediu-me seiscentos mil reis. Depois comeou a martyrisar-me... Tive -de lhe dar vestidos, roupa, tudo! Mudou de quarto, servia-se dos meus -lenoes, dos finos. Era a dona da casa. O servio quem o faz sou -eu!... Ameaa-me todos os dias, um monstro. Tudo tem sido baldado, -boas palavras, bons modos... E onde tenho eu dinheiro? Pois no -verdade? Ella bem via... O que eu tenho soffrido! Dizem que estou mais -magra, at o Sebastio reparou. A minha vida um inferno. Se Jorge -soubesse!... Aquella infame queria hoje dizer-lhe tudo!... E trabalho -como uma negra. Logo pela manh a limpar e varrer. s vezes tenho de -lavar as chicaras do almoo. Tenha piedade de mim, Sebastio, por quem -, Sebastio! coitada de mim, no tenho ninguem n'este mundo. - -E chorava, com as mos sobre o rosto. - -Sebastio, calado, mordia o beio; duas lagrimas rolavam-lhe tambem -pela face, sobre a barba. E levantando-se, devagar: - ---Mas Santo nome de Deus, minha senhora! porque me no disse ha mais -tempo? - --- Sebastio, podia l! Uma vez estive para lh'o dizer... Mas no -pude, no pude! - ---Fez mal!... - ---Esta manh o Jorge quiz pl-a fra. Embirra com ella, percebe os -desmazelos. Mas no desconfia de nada, Sebastio!...--E desviou os -olhos, muito escarlate.--Escarnecia-me s vezes por eu parecer to -apaixonada por ella... Mas esta manh zangou-se, mandou-a embora. -Apenas elle sahiu, veio como uma furia, insultou-me... - ---Santo Deus!--murmurava Sebastio assombrado, com a mo sobre a testa. - ---Talvez no acredite, Sebastio, sou eu que fao os despejos!... - ---Mas merece a morte, essa infame!--exclamou batendo com o p no cho. - -Deu alguns passos pesados pela sala, devagar, as mos nos bolsos, -os seus largos hombros curvados. Voltou sentar-se ao p d'ella, e -tocando-lhe timidamente no brao, muito baixo: - --- necessario tirar-lhe as cartas... - ---Mas como? - -Sebastio coava a barba, a testa. - ---Ha-de-se arranjar--disse, por fim. - -Ella agarrou-lhe a mo: - ---Oh Sebastio, se fizesse isso! - ---Ha-de-se arranjar. - -Esteve um momento calculando--e com o seu tom grave: - ---Eu vou-me entender com ella... necessario que ella esteja s em -casa... Podiam ir ao theatro, esta noite. - -Levantou-se lentamente, foi buscar o _Jornal do Commercio_, sobre a -mesa, olhou os annuncios: - ---Podiam ir a S. Carlos, que acaba mais tarde... o _Fausto_... Podiam -ir vr o _Fausto_... - ---Podiamos ir vr o _Fausto_--repetiu Luiza, suspirando. - -E ento, muito chegados, ao canto do soph, Sebastio foi-lhe dizendo -um plano, em palavras baixas, que ella devorava, anciosa. - -Devia escrever a D. Felicidade, para a acompanhar ao theatro... -Mandar um recado a Jorge, prevenindo-o que o iriam buscar ao _Hotel -Gibraltar_... E a Joanna? A Joanna deixra a casa. Bem. s nove horas, -ento, Juliana estaria s. - ---V como tudo se arranja?--disse elle, sorrindo. - -Era verdade... Mas daria a mulher as cartas? - -Sebastio tornou a coar a barba, a testa: - ---Ha-de dar--disse. - -Luiza olhava-o quasi com ternura: parecia-lhe vr na sua face honesta, -uma alta belleza moral. E de p diante d'elle, com uma melancolia na -voz: - ---E vai fazer isso por mim, Sebastio, por mim, que fui to m mulher... - -Sebastio crou, respondeu encolhendo os hombros: - ---No ha ms mulheres, minha rica senhora, ha maus homens, o que ha! - -E acrescentou logo: - ---Eu vou buscar o camarote. Uma boa frisa, hein?... Uma frisasinha ao -p do palco... - -Sorria, para a tranquillisar. Ella punha o chapo, descia o vo com -pequeninos soluos tristes, que voltavam a espaos. - -No corredor encontraram a tia Joanna com os braos abertos; beijou -muito Luiza; aquella visita era um milagre! E que bonita que estava! -era a flr do bairro! - ---Est bom, tia Joanna, est bom--disse Sebastio, afastando-a -brandamente. - -Ora que no fosse mettedio! J l a tinha tido mais de meia hora, -tambem ella agora a queria um bocadinho! Assim que elle devia ter uma -mulherzinha! Uma rapariga de bem! Uma aucena! - -Luiza corava, embaraada. - -E o snr. Jorge? que era feito d'elle? Ninguem o via. E a D. Felicidade? - ---Est bom, basta, tia Joanna!--fez Sebastio impaciente. - ---Olha o sofrego!... Ninguem lhe come a menina!... Cruzes!... - -Luiza sorriu; lembrou-se ento de repente que no tinha por quem mandar -os bilhetes a D. Felicidade e a Jorge, ao hotel. - -Sebastio fel-a entrar logo em baixo no escriptorio: que escrevesse, -elle os mandaria: escolheu-lhe o papel, molhando-lhe a penna--mais -prompto, mais delicado desde que a sabia infeliz. Luiza fez o bilhete -para Jorge; e, como apesar das suas afflices, se lembrou com terror -de certo vestido verde decotado de D. Felicidade, acrescentou n'um _P. -S._, no bilhete para ella: o melhor vires de preto, e no fazeres -grande _toilette_. Nada de decotes nem de cres claras. - - -Quando entrou em casa, viu um gallego sahindo com a trouxasita de -Joanna. E logo no corredor sentiu a voz grossa da rapariga, que das -escadas da cozinha dizia para cima, ameaadoramente: - ---Torne eu a apanhal-a, que no me sahe viva das mos, sua bebeda! - ---Bufa! bufa!--gritou de cima Juliana--mas vai-te indo para o olho da -rua! - -Luiza escutava mordendo os beios. Em que se convertera a sua casa! Uma -praa! Uma taberna! - ---Se eu t'apanho!--rosnava a Joanna descendo. - ---Rua! rua, sua porca!--gania a Juliana. - -Luiza ento chamou a rapariga: - ---Joanna, no procure casa, venha por aqui alm d'amanh--disse-lhe -baixo. - -Juliana em cima cantava a _Carta adorada_, com um jubilo estridente. - -E d'ahi a pouco desceu, veio dizer, muito seccamente, que estava o -jantar na mesa. - -Luiza no respondeu. Esperou que ella subisse cozinha, correu sala -de jantar, trouxe po, um prato de marmelada, uma faca, veio fechar-se -no quarto;--e alli _jantou_, a um canto da jardineira. - -s seis horas um trem parou porta. Devia ser Sebastio! Foi ella -mesma abrir, em bicos de ps. Era elle, animado, vermelho, com o chapo -na mo: trazia-lhe a chave da frisa numero dezoito... - ---E isto... - -Era um ramo de camelias vermelhas, rodeadas de violetas dobradas. - ---Oh Sebastio!--murmurou ella, com um reconhecimento commovido. - ---E carruagem, tem? - ---No - ---Eu c mando. s oito, hein? - -E desceu, todo feliz de a servir. Ella seguiu-o com o olhar que se -humedecia. Foi janella do quarto vl-o sahir.--Que homem! pensava. E -cheirava as violetas, voltava o ramo na mo, sentia tambem um prazer -dce na proteco d'elle, nos seus cuidados. - -Ns de dedos bateram porta do quarto: - ---Ento a senhora no quer jantar?--disse a voz impaciente de Juliana, -de fra. - ---No. - ---Mais fica! - - -D. Felicidade veio um pouco antes das oito. Luiza ficou tranquilla, -vendo-a com vestido preto afogado, e o seu adereo d'esmeraldas. - ---Ento que isto? Que estroinice esta, vamos a saber?--disse logo, -muito alegre, a excellente senhora. - -Um capricho!--O Jorge tinha jantado fra, ella sentira-se to s!... -Dera-lhe o appetite d'ir ao theatro. No pudera resistir... Tinham de o -ir buscar pelo _Hotel Gibraltar_. - ---Eu tinha acabado de jantar quando recebi o teu bilhete. Fiquei!... -E estive p'ra no vir--disse, sentando-se, com pancadinhas muito -satisfeitas nas pregas do vestido.--Apertar-me depois de jantar! -Felizmente, no tinha comido quasi nada! - -Quiz ento saber o que ia. O _Fausto_? Ainda bem! De que lado era a -frisa? dezoito. Perdiam a vista da familia real, era pena!... Pois -estava mais longe d'aquella noitada de theatro!...--E erguendo-se -passeava diante do toucador com olhares de lado, alisando os bands, -ageitando as pulseiras, entalada nos espartilhos, a pupilla luzidia. - -Uma carruagem parou porta. - ---O trem!--disse, toda risonha. - -Luiza calando as luvas, j com a capa, olhava em redor: o corao -batia-lhe alto; nos seus olhos havia uma febre. No lhe faltava nada? -perguntou D. Felicidade. A chave da frisa? o leno? - ---Ai! o meu ramo!--exclamou Luiza. - -Juliana ficou espantada quando a viu vestida _p'ra theatro_. Foi -alumiar, calada; e atirando a cancella com uma pancada insolente: - ---No tem mesmo vergonha n'aquella cara!--rosnou. - -O trem j rodava, quando D. Felicidade rompeu a gritar, batendo nos -vidros: - ---Espere, pare! Que ferro, esqueceu-me o leque! No posso ir sem leque! -Pare, cocheiro! - ---Faz-se tarde, filha, dou-te o meu. Toma!--fez Luiza impaciente. - -Aquellas agitaes abalavam a digesto comprimida de D. Felicidade; -felizmente, como ella dizia, arrotava! Graas a Deus, louvada seja -Nossa Senhora, que podia arrotar! - -Mas a descida do Chiado alegrou-a muito. Grupos escuros, onde se -gesticulava, destacavam s portas vivamente alumiadas da Casa Havaneza; -os trens passavam para o lado do Picadeiro, com um rapido reluzir -de lanternas ricas, que alumiavam as bandas brancas dos capotes dos -criados. D. Felicidade com a sua face jubilosa portinhola, gozava a -claridade do gaz nas vitrines, o ar d'inverno; e foi com uma satisfao -que viu o guarda-porto do _Gibraltar_, de cales vermelhos, vir com o -bon na mo, portinhola. - -Perguntaram por Jorge. - -E, caladas, olhavam a escada de lance decorativo onde globos foscos -derramavam uma luz dce. D. Felicidade, muito curiosa da vida -d'hotel, reparou na engommadeira que entrou com um cesto de roupa; -depois n'uma senhora que lhe pareceu estabanada, e que descia, -vestida de _soire_, mostrando o p calado n'um sapato redondo de -setim branco: e sorria de vr sujeitos roarem-se pelo trem, lanando -para dentro olhares gulosos. - ---Esto a arder por saber quem somos. - -Luiza calada apertava nas mos o seu ramo. Emfim Jorge appareceu no -alto da escada, conversando muito interessadamente com um sujeito -magrissimo, de chapo ao lado, as mos nos bolsos d'umas calas muito -estreitas, e um enorme charuto enristado ao canto da bocca. Paravam, -gesticulavam, cochichavam. Por fim o sujeito apertou a mo de Jorge, -fallou-lhe ao ouvido, riu baixo, torcendo-se, bateu-lhe no hombro, -obrigou-o muito sriamente a aceitar outro charuto,--e pondo o chapo -mais ao lado foi conversar com o guarda-porto. - -Jorge correu portinhola do trem, rindo: - ---Ento que extravagancia esta? Theatro, tipoias!... Eu reclamo o -divorcio! - -Parecia muito jovial. Smente tinha pena de no estar vestido... -Ficaria atraz no camarote.--E para as no amarrotar subiu para a -almofada. - - - - -XV - - -Passava das oito horas quando o trem parou em S. Carlos. Um gaiato, -que tossia muito, com o casaco pregado sobre o peito por um alfinete, -precipitou-se a abrir a portinhola; e D. Felicidade sorria de -contentamento, sentindo a cauda do vestido de sda arrastar sobre o -tapete esfiado do corredor das frisas. - -O pano j estava levantado. Era luz diminuida da rampa, a decorao -classica d'uma cella d'alchimista; embrulhado n'um roupo monastico, -com uma abundancia hirsuta de barbas grisalhas, tremuras senis, Fausto -cantava, desilludido das sciencias, pousando sobre o corao a mo -onde reluzia um brilhante. Um cheiro vago de gaz extravasado errava -subtilmente. Aqui e alm tosses expectoravam. Havia ainda pouca gente. -Entrava-se. - -Na frisa, para se collocarem, D. Felicidade e Luiza cochichavam, com -gestosinhos de recusa, olhares supplicantes: - ---Oh D. Felicidade, por quem ! - ---Se estou aqui muito bem... - ---No consinto... - -Emfim D. Felicidade sentou-se no lugar superior alteando o peito. Luiza -ficra atraz calando as luvas; em quanto Jorge arrumava os agasalhos, -furioso com o chapo que j duas vezes rolra. - ---Tem banquinho, D. Felicidade? - ---Obrigada, c o sinto.--E remexeu os ps.--Que pena no se vr a -familia real! - -Nos camarotes d'assignantes iam apparecendo os altos penteados -medonhos, enchumaados de postios; peitilhos de camisas branquejavam. -Sujeitos entravam para as cadeiras devagar, com um ar gasto e intimo, -compondo o cabello. Conversava-se baixo. Ao fundo da plata havia um -rumor desinquieto entre moos de jaqueto; e entrada, sob a tribuna, -viam-se, n'um apparato militar, correames polidos de municipaes, bons -carregados de policias; e reluzindo luz, punhos de sabres. - -Mas na orchestra correram fortes estremecimentos metallicos, dando um -pavor sobrenatural; Fausto tremia como um arbusto ao vento; um ruido -de folhas de lata, fortemente sacudidas, estalou; e Mephistopheles -ergueu-se ao fundo, escarlate, lanando a perna com um ar charlato, -as duas sobrancelhas arrebitadas, uma barbilha insolente, _un bel -cavalier_; e em quanto a sua voz poderosa saudava o Doutor, as duas -plumas vermelhas do gorro oscillavam sem cessar d'um modo fanfarro. - -Luiza chegra-se para a frente; ao ruido da cadeira, cabeas na plata -voltaram-se, languidamente; pareceu de certo bonita, examinaram-na; -ella, embaraada, pz-se a olhar para o palco muito sria:--por traz -de vos sobrepostos que se levantavam, n'uma affectao de viso, -Margarida appareceu fiando o linho, toda vestida de branco; a luz -electrica, envolvendo-a n'um tom cr, fazia-a parecer de gesso muito -caiado; e D. Felicidade achou-a to linda que a comparou a uma santa! - -A viso desappareceu n'um tremulo de rebecas. E depois d'uma aria, -Fausto, que ficra immovel ao fundo do palco, debateu-se um momento -dentro da tunica e das barbas, e emergiu joven, gordinho, vestido de -cr de lilaz, coberto de ps d'arroz, compondo o frisado do cabello. As -luzes da rampa subiram: uma instrumentao alegre e expansiva resoou: -Mephistopheles, apossando-se d'elle, arrastou-o sofrego atravs da -decorao. E o pano desceu rapidamente. - -As platas ergueram-se com um rumor grosso e lento. D. Felicidade um -pouco affrontada abanava-se. Examinaram ento as familias, algumas -_toilettes_; e sorrindo concordaram que estava do mais fino. - -Nos camarotes conversava-se sobriamente; s vezes uma joia brilhava, -ou a luz punha tons lustrosos d'aza de corvo nos cabellos pretos onde -alvejavam camelias ou reluzia o aro de metal d'um pente; os vidros -redondos dos binoculos moviam-se devagar, picados de pontos luminosos. - -Na plata, nas bancadas clareadas, sujeitos quasi deitados namoravam -com languidez; ou de p, taciturnos, acariciavam as luvas; velhos -_dilettanti_, de leno de sda, tomavam rap, caturravam; e D. -Felicidade interessava-se por duas hespanholas de verde, que na -superior immobilisavam, n'uma affectao casta, os seus corpos de -lupanar. - -Um collega de Jorge magrinho e janota entrou ento no camarote: parecia -animado, e perguntou logo se no sabiam o grande escandalo? No. E o -engenheiro, com gestos vivos das suas mosinhas caladas n'umas luvas -esverdeadas, contou que a mulher do Palma, o deputado, sabiam, tinha -fugido!... - ---P'ra o estrangeiro? - ---Qual!--E a voz do engenheiro tinha agudos triumphantes.--Ahi que -estava o bonito. P'ra casa d'um hespanhol que morava defronte!... Era -divino! De resto--e a sua voz tornou-se grave--estava enthusiasmado com -o baixo! - -E depois de ter sorrido, olhado pelo binoculo, ficou calado, extenuado -do que dissera, batendo apenas de vez em quando no joelho de Jorge, com -um _Sim, senhor!_ familiar, ou um _Ento que feito?_ amigavel. - -Mas a campainha retinia finamente. O engenheiro sahiu, em bicos de -ps. E o pano ergueu-se devagar na alegria da kermesse, cheia de uma -luz branca e dura. Casas acastelladas branquejavam no pano de fundo, -n'alguma collina do Rheno amiga das vinhas. Escarranchado sobre uma -pipa, o barrigudo e folgazo rei Cambrinus ria enormemente, erguendo, -na sua attitude de taboleta gothica, a vasta caneca emblematica da -cerveja germanica. E estudantes, judeus, reitres e donzellas, nas suas -cres vivas de paninho, moviam-se d'um modo automatico e somnambulo, -aos compassos largos da instrumentao festiva. - -A walsa ento desenrolou-se languidamente, como um fio de melodia, -em espiraes suaves que ondeavam e fugiam: Luiza seguia os psinhos -das danarinas, as pernas musculosas volteando no tablado; e as saias -tufadas e curtas faziam como o girar multiplicado e reproduzido de -vagos discos de cambraia. - ---Que bonito!--murmurava ella, com uma felicidade no rosto. - ---D'appetite--affirmava D. Felicidade, revirando os olhos. - -Certas agudezas delicadas dos flautins enterneciam Luiza; e a casa, -Juliana, as suas miserias, tudo lhe parecia recuado, no fundo d'uma -noite esquecida. - -Mas o jovial Diabo adiantava-se por entre os grupos, e logo, com gestos -aduncos e rapaces, cantou o _Dio del oro_. A sua voz arremessada -affirmava, n'um tom brutal, o poder do dinheiro; nas massas da -instrumentao passavam sonoridades claras e tilintantes d'um remexer -sofrego de thesouros; e as notas altas finaes cahiam, d'um modo curto e -secco, como martelladas triumphantes cunhando o divino ouro! - -Luiza ento viu D. Felicidade perturbar-se; e seguindo o seu olhar -negro, subitamente avivado, descobriu na geral a calva polida do -conselheiro Accacio,--que comprimentava, promettendo generosamente, com -a mo espalmada, a sua visita proxima. - -Veio, apenas o pano desceu, e felicitou-as immediatamente por terem -escolhido aquella noite: a opera era das melhores e estava gente muito -fina. Lamentou ter perdido o primeiro acto;--ainda que no gostasse -extremamente da musica, apreciava-o por ser muito philosophico. E, -tomando da mo de Luiza o binoculo, explicou os camarotes, disse os -titulos, citou as herdeiras ricas, nomeou os deputados, apontou os -litteratos.--Ah! conhecia bem S. Carlos! Havia dezoito annos! - -D. Felicidade, rubra, admirava-o. O Conselheiro sentia que no podessem -vr o camarote real: a rainha, como sempre, estava adoravel. - -Sim? Como estava? - ---De velludo. No sabia se rxo, se azul escuro. Affirmar-se-hia, e -viria dizer... - -Mas quando o pano subiu, ficou sentado por traz de Luiza comeando -logo a explicar--que aquella (Siebel, colhendo flres no jardim de -Margarida) posto que segunda dama, ganhava quinhentos mil reis por -mez... - ---Mas apesar d'estes ordenades morrem quasi sempre na miseria--disse -com reprovao.--Vicios, cas, orgias, cavalgadas... - -A portinha verde do jardim abriu-se, e Margarida entrou devagar, -desfolhando o malmequer da legenda, caracterisada de virgem, com -as duas longas tranas louras. Scismava, fallava s, amava: a dce -creatura sente em volta de si o ar pesado, e quereria bem que sua mi -voltasse! - -Os olhos de Luiza encheram-se ento de melancolia, com a saudosa -ballada do rei de Thule; aquella melodia dava-lhe a vaga sensao d'um -pallido paiz d'amores espirituaes, banhado de luares frios, longe, -no Norte, junto a um mar gemente--ou de tristezas aristocraticas, -scismadas n'um terrao, sob a sombra d'um parque... - -Mas o Conselheiro preveniu-as, dizendo: - ---Agora que ! Reparem. Agora o ponto capital. - -De joelhos, diante do cofre das joias, a dama requebrava-se, -garganteando; apertava nas mos o collar, extasiada; punha os brincos -com denguices delirantes; e da sua bocca muito aberta sahia um canto -trinado, d'uma crystallinidade aguda--entre o vago susurro da admirao -burgueza. - -O Conselheiro disse discretamente: - ---Bravo! Bravo! - -E, excitado, dissertou: aquillo era o melhor da opera! Era alli que se -via a fora das cantoras... - -D. Felicidade quasi tinha medo que lhe estalasse alguma cousa na -garganta. Preoccupava-se tambem com as joias. Seriam falsas? Seriam -d'ella? - --- p'ra a tentar, no verdade? - --- um drama allemo--disse-lhe baixo o Conselheiro. - -Mas Mephistopheles ia arrastando a boa Martha; Fausto e Margarida -perdiam-se nas sombras cumplices do jardim aphrodisiaco,--e o -Conselheiro observou que todo aquelle acto era um pouco fresco. - -D. Felicidade murmurou-lhe--entre reprehensiva e extatica: - ---Quantas scenas no ter tido assim, magano! - -O Conselheiro fitou-a, indignado: - ---O qu, minha senhora! levar a deshonra ao seio d'uma familia! - -Luiza fez-lhe _chut_, sorrindo. Interessava-se agora. Tinha escurecido; -uma facha de luz electrica enchia o jardim d'um vago luar azulado, onde -os macios arredondados se recortavam em pastas escuras; e Fausto e -Margarida enlaados, quasi desfallecidos, soltavam d'um modo expirante -o seu duetto: uma sensualidade delicada e moderna, com elances -d'um requinte devoto, arrastava-se na orchestra gemente; o tenor -esforava-se, agarrando o peito, com um geito morbido dos quadris, o -olhar anuviado: e desprendendo-se da languida arcada dos violoncellos, -o canto subia para as estrellas... - - Al pallido chiarore - Dei astri d'oro. - -Mas o corao de Luiza batia precipitadamente; vira-se de repente -sentada no divan, na sua sala, ainda tomada dos soluos do adulterio, -e Bazilio, com o charuto ao canto da bocca, batia distrahido no piano -aquella aria--_Al pallido chiarore dei astri d'oro_. D'essa noite tinha -vindo toda a sua miseria!--e subitamente, como longos vos funebres -que descem e abafam, as recordaes de Juliana, da casa, de Sebastio, -vieram escurecer-lhe a alma. - -Olhou o relogio. Eram dez horas. Que se passaria? - ---Ests incommodada?--perguntou-lhe Jorge. - ---Um pouco. - -Margarida apoiava-se, expirante de voluptuosidade, ao rebordo da sua -janellinha. Fausto corre. Enlaam-se. E entre as gargalhadas do Diabo e -o roncar dos rebeces--o pano desceu, pondo uma reticencia pudica... - -D. Felicidade, abrazada, quiz agua. Jorge apressou-se: queria bolos? -neve? A excellente senhora hesitou; o _chic_ da neve attrahia-a, mas -cohibiu-se com terror da colica. Veio sentar-se ao fundo ao p de -Luiza, e ficou a olhar, vagamente canada; havia um susurro lento; -bocejava-se discretamente; e o fumo dos cigarros, entrando, de fra, -fazia uma nevoa apenas perceptivel que enchia a sala, ia prender-se -ao lustre, embaciando ligeiramente as luzes. Quando Jorge sahiu o -Conselheiro acompanhou-o: ia acima tomar o seu copo de gelatina... - --- a minha ca em dia de S. Carlos--disse. - -Voltou d'ahi a pouco, limpando os beios ao leno de sda, ter com -Jorge que fumava no pequeno patamar junto entrada das cadeiras: - ---Veja isto, Conselheiro--disse-lhe logo Jorge, indignado, mostrando a -parede--que escandalo! - -Tinham desenhado, com o charuto apagado sobre a parede caiada, enormes -figuras obscenas: e alguem, prudente e amigo da clareza, ajuntra por -baixo as designaes sexuaes com uma boa letra cursiva. - -E Jorge, revoltado: - ---E passam por aqui senhoras! Vem, lem! Isto s em Portugal!... - -O Conselheiro disse: - ---A autoridade devia intervir de certo...--Acrescentou com -bonhomia:--So rapazes, com o charuto. Apreciam muito esta -distraco...--E sorrindo, recordando-se:--Uma occasio mesmo, o conde -de Villa Rica, que tem graa, muita graa, insistiu commigo, dando-me o -charuto, para que eu fizesse um desenho...--E mais baixo:--Eu dei-lhe -uma lio severa. Tomei o charuto... - ---E fumou-o? - ---Escrevi. - ---Uma obscenidade? - -O Conselheiro, recuando, exclamou com severidade: - ---Jorge, conhece o meu caracter! Pois suppe...?--E acalmando-se:--No, -tomei o charuto e escrevi com mo firme: HONRA AO MERITO! - -Mas a campainha retiniu, entraram no camarote. Luiza incommodada -no quiz sentar-se frente. E o Conselheiro, grave, tomou o seu -lugar--defronte de D. Felicidade. Foi para a nutrida senhora um momento -feliz, de um gozo requintado. Estavam _ambos_, alli, como noivos! O -seu peito abundante arfava: via-se a sahirem, mais tarde, de brao -dado, entrarem n'um _coup_ estreito, pararem porta da casa conjugal, -pisarem o tapete da alcova... Tinha um suor raiz dos cabellos--e -vendo o Conselheiro sorrir-lhe, amavel, com a sua calva toda luzidia ao -gaz, sentia um reconhecimento apaixonado pela mulher de virtude que, -quella hora, no fundo da Galliza, estava cravando agulhas n'um corao -de cera!... - -Mas de repente o Conselheiro bateu na testa, arremessou-se sobre o -chapo, sahiu impetuosamente. Olharam-se inquietos. D. Felicidade -empallideceu: seria alguma dr? Santo Deus! J murmurava baixo uma reza. - -Mas viram-no entrar logo, e dizer com uma voz triumphante: - ---D'azul escuro! - -Abriram grandes olhos, sem comprehender. - ---Sua magestade a rainha! Tinha promettido verifical-o, cumpri-o! - -E sentou-se com solemnidade, dizendo a Luiza: - ---Lamento que se esconda n'esse recanto, D. Luiza! Na sua idade! Na -flr dos annos! Quando tudo na vida cr de rosa! - -Ella sorriu. Estava agora muito sobresaltada. A cada momento olhava -o relogio. Sentia-se doente: os ps arrefeciam-lhe, uma vaga febre -fazia-lhe a cabea pesada. O seu pensamento estava na casa, em Juliana, -em Sebastio, cortado de palpites, de esperanas, de terrores... E via, -sem comprehender, a multido de soldados vestidos de cres mipartidas, -com armas obsoletas, que marchavam, paravam n'uma cadencia affectada, -erguendo uma poeira subtil no tablado mal regado. Um cro vigoroso -resoava: era a marcha arrogante e festiva dos reitres allemes, -celebrando a alegria das excurses victoriosas pelos paizes do vinho, -e a posse das bolsas mercenarias cheias de sonoros rixdales! E os -seus olhos seguiam um barbaas corpulento, que, por cima dos gorros -quadrados dos bsteiros, balanava monotonamente um largo quadrado de -paninho--a bandeira do Santo Imperio, negra, vermelha e d'ouro! - -Mas ento ergueu-se um rumor no fundo da plata. Vozes duras -altercavam. Ordem! ordem! dizia-se. Localistas na superior pozeram-se -rapidamente em bicos de ps na palhinha das cadeiras. Quatro policias -e dous municipaes appareceram porta do fundo; e depois d'uma troa, -de risadas, foram levando um moo livido, que cambaleava,--e o lado -esquerdo do seu jaqueto de pellucia estava todo vomitado! - -Mas fez-se logo silencio: o pano de fundo oscillava um pouco, -acotovellado pela sahida festiva dos reitres e dos populares; e no -palco deserto, tendo direita um portico oscillante de cathedral e -esquerda a portinha triste d'uma casa burgueza, Valentim, com uma longa -pera, beira da rampa, beijava sofregamente uma medalha:--mas Luiza -no o escutava. Pensava com o corao confrangido: que far a esta hora -Sebastio? - - -Sebastio, s nove horas, por um nordeste agudo que torcia as luzes do -gaz dentro dos candieiros, dirigia-se devagar a casa d'um commissario -de policia, seu primo afastado, o Vicente Azurara. Uma velha servente, -engelhada como uma ma raineta, levou-o ao quarto escolastico, onde -o snr. commissario estava a cozer uma grande constipao: encontrou-o -com um gabo pelos hombros, os ps embrulhados n'um cobertor, tomando -_grogs_ quentes, e lendo o _Homem dos tres cales_. Apenas Sebastio -entrou tirou do nariz adunco as grandes lunetas, e erguendo para elle -os olhos pequeninos, chorosos do defluxo, exclamou: - ---Estou com um diabo d'uma constipao ha tres dias, que me no quer -largar...--E rosnou algumas pragas, passando a mo magra e nodosa sobre -uma face trigueira, de linhas duras, a que um espesso bigode grisalho -dava ferocidade. - -Sebastio lamentou-o muito: no admirava com a estao que ia!... -Aconselhou-lhe agua sulfurica com leite fervido. - ---Eu, se isto no despega--disse o commissario -rancorosamente--atiro-lhe manh p'ra dentro com meia garrafa de -genebra; e se no fr por bem, ha-de ir fora... E que ha de novo? - -Sebastio tossiu, queixou-se d'andar tambem adoentado, e chegando a -cadeira para ao p do primo Vicente, pondo-lhe a mo sobre o joelho: - --- Vicente, tu, se eu te pedisse um policia p'ra me acompanhar c p'ra -uma cousa, s p'ra metter medo, s p'ra fazer que uma pessoa restitua o -que tirou, tu davas ordem, hein? - ---Ordem p'ra qu?--perguntou lentamente o Vicente com a cabea baixa, -os olhinhos avermelhados em Sebastio. - ---Ordem p'ra me acompanhar, p'ra se mostrar. s p'ra se mostrar. um -caso exquisito... P'ra metter medo... Tu sabes que eu no sou capaz... - p'ra que uma pessoa restitua o que tirou. Sem fazer escandalo... - ---Roupas? Dinheiro? - -E o commissario cofiava reflectidamente o bigode com os seus longos -dedos magros, muito queimados do cigarro. - -Sebastio hesitou: - ---Sim. Roupas, cousas... p'ra no haver escandalo... Tu percebes... - -O Vicente murmurou com um ar profundo, fixando-o: - ---Um policia p'ra se mostrar... - -Escarrou ruidosamente. E franzindo a testa: - ---No cousa de politica? - ---No!--fez Sebastio. - -O commissario embrulhou mais os ps no cobertor, rolou em redor os -olhos, ferozmente: - ---Nem toca com gente grauda? - ---Qual! - ---Um policia p'ra se mostrar...--ruminava o Vicente.--Tu s um homem de -bem... D c aquella pasta de cima da commoda. - -Tirou um papel pautado, examinou-o, acavallando a luneta no nariz, -meditou com a mo em garra sobre a testa: - ---O Mendes... Serve-te o Mendes? - -Sebastio, que no conhecia o Mendes, acudiu logo: - ---Sim, quem quizeres. s p'ra se mostrar... - ---O Mendes. um homemzarro. serio, foi da Guarda. - -Fez-lhe aproximar o tinteiro; escreveu devagar a ordem; releu-a duas -vezes; cortou os _tt_, seccou-a chamin do candieiro; e dobrando-a -com solemnidade: - --- segunda diviso! - ---Obrigado, Vicente. um grande favor... Obrigado. E agasalha-te, -homem! E no te esquea: agua sulfurica da pharmacia Azevedo na rua de -S. Roque: meia chavena de leite fervido... E obrigado. No queres nada, -hein? - ---No. D uma placa ao Mendes. serio, foi da Guarda! - -E acavallando as lunetas retomou o _Homem dos tres cales_. - -Sebastio d'ahi a meia hora, seguido do robusto Mendes, que marchava -militarmente, com os braos um pouco arqueados, encaminhava-se -para casa de Jorge. No tinha ainda um plano definido. Calculava -naturalmente que Juliana vendo, quella hora da noite, o policia com o -seu terado, se aterraria, imaginaria logo a Boa Hora, o Limoeiro, a -costa d'Africa, entregaria as cartas, pediria misericordia! E depois? -Pensava vagamente em lhe pagar a passagem para o Brazil, ou dar-lhe -quinhentos mil reis para ella se estabelecer longe, na provincia... -Veria. O essencial era aterral-a! - - -Juliana, com effeito, depois d'abrir a porta, apenas viu subir, atraz -de Sebastio, o policia, fez-se muito amarella, exclamou: - ---Credo! Que temos ns? - -Estava embrulhada n'um chale preto, e o candieiro de petroleo, que ella -erguia, prolongava na parede a sombra disforme da cuia. - --- snr.^a Juliana, faa favor d'accender luz na sala--disse Sebastio, -tranquillamente. - -Ella fixava no policia um olhar faiscante e inquieto. - --- senhor, que aconteceu? Credo! Os senhores no esto em casa. Eu se -soubesse nem tinha aberto... Ha alguma novidade? Olha o proposito! - ---No nada--disse Sebastio, abrindo a porta da sala--tudo em paz! - -Elle mesmo accendeu com um phosphoro uma vela na serpentina--que fez -sahir vagamente da sombra os dourados dos caixilhos das gravuras, a -pallida face do retrato da mi de Jorge, um reflexo de espelho. - --- snr. Mendes, sente-se, sente-se! - -O Mendes collocou-se beira da cadeira com a mo na cinta, o terado -entre os joelhos, muito soturno. - ---Esta que a pessoa--disse Sebastio, indicando Juliana, que ficra - porta da sala, attonita. - -A mulher recuou, livida: - --- snr. Sebastio, que brincadeira esta? - ---No nada, no nada... - -Tomou-lhe o candieiro da mo, e tocando-lhe no brao: - ---Vamos l dentro sala de jantar. - ---Mas que ? alguma cousa commigo? Credo! E esta! Olha que -desconchavo! - -Sebastio fechou a porta da sala de jantar, pousou o candieiro sobre -a mesa, onde havia ainda um prato com codeas de queijo, e um fundo de -vinho n'um copo, deu alguns passos, fazendo estalar nervosamente os -dedos, e parando bruscamente diante de Juliana: - ---D c umas cartas que roubou senhora... - -Juliana teve um movimento para correr janella, gritar. - -Sebastio agarrou-lhe o brao, e fazendo-a sentar com fora sobre uma -cadeira: - ---Escusa d'ir janella gritar, a policia j est dentro de casa. D c -as cartas, ou p'ra a enxovia! - -Juliana entreviu n'um relance um quarto tenebroso no Limoeiro, o caldo -do rancho, a enxerga nas lages frias... - ---Mas que fiz eu?--balbuciava--que fiz eu? - ---Roubou as cartas. D-as p'ra c, avie-se. - -Juliana sentada beira da cadeira, apertando desesperadamente as mos, -rosnava por entre os dentes cerrados: - ---A bebeda! A bebeda! - -Sebastio, impaciente, pz a mo no fecho da porta. - ---Espere, seu diabo!--gritou ella, erguendo-se com um salto. Fixou-o -rancorosamente, desabotoou o corpete, enterrou a mo no peito, tirou -uma carteirinha. Mas de repente batendo com o p, n'um phrenesi: - ---No! no! no! - ---Diabos me levem se voss no fr dormir enxovia!--Entre-abriu a -porta.-- snr. Mendes! - ---Ahi tem!--gritou ella atirando-lhe a carteira. E brandindo para elle -os punhos:--Raios te partam, malvado! - -Sebastio apanhou a carteira. Havia tres cartas: uma muito dobrada era -de Luiza; leu a primeira linha: _Meu adorado Bazilio_; e muito pallido -guardou logo tudo na algibeira interior do casaco. Abriu ento a porta: -a possante figura do Mendes estava na sombra. - ---Est tudo arranjado, snr. Mendes,--a voz tremia-lhe um pouco--no lhe -quero tomar mais tempo. - -O homem fez uma continencia, calado: quando Sebastio, no patamar, lhe -resvalou na mo uma libra, o Mendes curvou-se respeitosamente e disse, -com uma voz pegajosa: - ---E para o que quizer, o sessenta e quatro, o Mendes, que foi da -Guarda. No se incommode v. s.^a s ordens de v. s.^a Minha mulher -e filhos agradecem. No se incommode v. s.^a O sessenta e quatro, o -Mendes, que foi da Guarda! - -Sebastio fechou a cancella, voltou sala de jantar. Juliana ficra -n'uma cadeira, aniquilada; mas apenas o viu, erguendo-se furiosamente: - ---A bebeda foi-lhe contar tudo! Foi voss que arranjou a armadilha! -Tambem voss dormiu com ella!... - -Sebastio, muito branco, dominava-se. - ---V pr o chapo, mulher. O snr. Jorge despediu-a. manh mandar -buscar os bahus... - ---Mas o homem ha-de saber tudo!--berrou ella.--Este tecto me rache -se eu no lhe disser tudo tim-tim por tim-tim. Tudo! As cartas que -recebia, onde ia vr o homem. Deitava-se com ella na sala, at os -pentes lhe cahiam na balburdia. At a cozinheira lhes sentia o alarido! - ---Cale-se!--bradou Sebastio com uma punhada na mesa, que fez tremer -toda a loua no aparador, e esvoaar os canarios. E com a voz toda -tremula, os beios brancos:--A policia tem o seu nome, sua ladra! -menor palavra que voss diga vai para o Limoeiro, e pela barra fra. -Voss no roubou s as cartas; roubou roupas, camisas, lenoes, -vestidos...--Juliana ia fallar, gritar.--Bem sei--continuou elle -violentamente--deu-lh'os ella, mas fora, porque voss a ameaava. -Voss arrancou-lhe tudo. roubo. d'Africa!--E o que dizer ao snr. -Jorge, pde ir dizer. V. Veja se elle a acredita. Diga! So algumas -bengaladas que leva por esses hombros, ladra! - -Ella rangia os dentes. Estava apanhada! _Elles_ tinham tudo por si, a -policia, a Boa-Hora, a cada, a Africa!... E ella--nada! - -Todo o seu odio contra a _Piorrinha_ fez exploso. Chamou-lhe os nomes -mais obscenos. Inventou infamias. - --- que nem as do Bairro-Alto! E eu--gritava--sou uma mulher de bem, -nunca um homem se pde gabar de tocar n'este corpo. Nunca houve raio -nenhum que me visse a cr da pelle. E a bebeda!...--Tinha arremessado o -chale, alargou anciosamente o collar do vestido.--Era um desaforo por -essa casa! E o que eu passei com a bruxa da tia! o pago que me do! -Os diabos me levem se eu no fr para os jornaes. Vi-a eu abraada ao -janota, como uma cabra! - -Sebastio a seu pezar escutava-a, com uma curiosidade dolorosa por -aquelles pormenores; sentia desejos agudos de a esganar, e os seus -olhos devoravam-lhe as palavras. Quando ella se calou arquejante: - ---V, ponha o chapo, e p'ra a rua! - -Juliana ento allucinada de raiva, com os olhos sahidos das orbitas, -veio para elle, e cuspiu-lhe na cara! - -Mas de repente a bocca abriu-se-lhe desmedidamente, arqueou-se para -traz, levou com ancia as mos ambas ao corao, e cahiu para o lado, -com um som molle, como um fardo de roupa. - -Sebastio abaixou-se, sacudiu-a; estava hirta, uma escuma rxa -apparecia-lhe aos cantos da bocca. - -Agarrou no chapo, desceu as escadas, correu at Patriarchal. Um -_coup_ vazio passava; atirou-se para dentro, mandou a todo o que -dr, para casa de Julio; e obrigou-o a vir immediatamente, mesmo em -chinellas, sem collarinho. - --- caso de morte, a Juliana--balbuciava muito pallido. - -E pelo caminho, entre o ruido das rodas e o tilintar dos caixilhos, -contava confusamente que entrra em casa de Luiza, que achra Juliana -muito despeitada por ter sido despedida, e que a fallar, a esbracejar, -de repente, tombra p'ra o lado! - ---Foi o corao. Estava p'ra dias--disse Julio, chupando a ponta do -cigarro. - -Pararam. Mas Sebastio desorientado, ao sahir, fechra a porta! E -dentro s a morta! O cocheiro offereceu a sua gazua, que serviu. - ---Ento nem se vai a uma passeadinha ao Dfundo, meus fidalgos?--disse -o homem, mettendo a gorgeta na algibeira. - -Mas vendo-os atirar com a porta: - ---Tambem no gente d'isso--rosnou com desprezo, batendo a parelha. - -Entraram. - -No pequeno pateo o silencio da casa pareceu a Sebastio pavoroso. -Subia, aterrado, os degraus, que se afiguravam infindaveis; e, com -fortes pancadas do corao, esperava ainda que ella estivesse apenas -adormecida n'um desmaio simples, ou j de p, pallida e respirando! - -No. L estava como a deixra, estendida na esteira, com os braos -abertos, os dedos retorcidos como garras. A convulso das pernas -arregara-lhe as saias, viam-se as suas canellas magras com meias -de riscadinho cr de rosa e as chinellas de tapete; o candieiro de -petroleo, que Sebastio esquecera ao p sobre uma cadeira, punha tons -lividos na testa, nas faces rigidas; a bocca torcida fazia um sombra; -e os olhos medonhamente abertos, immobilisados na agonia repentina, -tinham uma vaga nevoa, como cobertos d'uma ta d'aranha diaphana. Em -redor tudo parecia mais immovel, d'um hirto morto. Vagos reflexos -de prata reluziam no aparador; e o tic-tac do _cuco_ palpitava sem -descontinuar. - ---Julio apalpou-a, ergueu-se sacudindo as mos, disse: - ---Est morta com todas as regras. necessario tiral-a d'aqui. Onde o -quarto? - -Sebastio, pallido, fez signal com o dedo que era por cima. - ---Bem. Arrasta-a tu, que eu levo o candieiro.--E como Sebastio no se -movia:--Tens medo?--perguntou rindo. - -Escarneceu-o: que diabo, era materia inerte, era como quem agarrava uma -boneca! Sebastio, com um suor raiz dos cabellos, levantou o cadaver -por debaixo dos braos, comeou a arrastal-o, devagar. Julio adiante -erguia o candieiro; e por fanfarronada cantou os primeiros compassos da -marcha do _Fausto_. Mas Sebastio escandalisou-se, e com uma voz que -tremia: - ---Largo tudo, e vou-me... - ---Respeitarei os nervos da menina!--disse Julio curvando-se. - -Continuaram calados. Aquelle corpo magro parecia a Sebastio d'um -peso de chumbo. Arquejava. Nas escadas uma das chinellas do cadaver -soltou-se, rolou. E Sebastio sentia aterrado alguma cousa que lhe -batia contra os joelhos; era a cuia cahida, suspensa por um atilho. - -Estenderam-na na cama; Julio, dizendo que se deviam seguir as -tradies,--pz-lhe os braos em cruz e fechou-lhe os olhos. - -Esteve um momento a olhal-a: - ---Feia besta!--murmurou, estendendo-lhe sobre o rosto uma toalha -enxovalhada. - -Ao sahir examinou, admirado, o quarto: - ---Estava mais bem alojada que eu, o estafermo! - -Fechou a porta, deu volta chave: - ---_Requiescat in pace_--disse. - -E desceram, calados. - -Ao entrar na sala, Sebastio, muito pallido, pz a mo no hombro de -Julio: - ---Ento achas que foi o aneurisma? - ---Foi. Enfureceu-se, estourou. dos livros... - ---Se no se tivesse zangado hoje... - ---Estourava manh. Estava nas ultimas... Deixa em paz a creatura. Est -comeando a esta hora a apodrecer, no a perturbemos. - -Declarou ento, esfregando as mos com frio, que comia alguma cousa. -Achou no armario um pedao de vitella fria, uma garrafa meia de -Collares. Installou-se e, com a bocca cheia, deitando o vinho d'alto: - ---Ento sabes a novidade, Sebastio? - ---No. - ---O meu concorrente foi despachado! - -Sebastio murmurou: - ---Que ferro! - ---Era previsto--disse Julio com um grande gesto.--Eu ia fazer um -escandalo, mas...--e teve um risinho--amansaram-me! Estou n'um posto -medico, deram-me um posto medico! Atiraram-me um osso! - ---Sim?--fez Sebastio.--Homem, ainda bem, parabens. E agora? - ---Agora, roel-o! - -De resto, tinham-lhe promettido a primeira vagatura. O posto medico no -era mau... Em definitiva, a situao melhorra... - ---Mas mesquinha, mesquinha! No sio do atoleiro... - -Estava farto de medicina, disse depois d'um silencio. Era um bco -sem sahida. Devia-se ter feito advogado, politico, intrigante. Tinha -nascido p'ra isso! - -Ergueu-se, e com grandes passadas pela sala, o cigarro na mo, a voz -cortante, expoz um plano de ambio:--O paiz est a preceito para um -intrigante com vontade! Esta gente toda est velha, cheia de doenas, -de catarrhos de bexiga, de antigas syphilis! tudo isto est pdre -por dentro e por fra! o velho mundo constitucional vai a cahir aos -pedaos... Necessitam-se homens! - -E plantando-se diante de Sebastio: - ---Este paiz, meu caro amigo, tem-se governado at aqui com -_expedientes_. Quando vier a revoluo contra os _expedientes_, o paiz -ha-de procurar quem tenha os _principios_. Mas quem tem ahi principios? -Quem tem ahi quatro principios? Ninguem; teem dividas, vicios secretos, -dentes postios; mas principios, nem meio! Por consequencia se houver -tres patuscos que se dem ao trabalho de estabelecer meia duzia de -principios srios, racionaes, modernos, positivos, o paiz tem se atirar -de joelhos, e supplicar-lhes: Senhores, fazei-me a honra insigne de -me pr o freio nos dentes! Ora eu devia ser um d'estes. Nasci p'ra -isso! E secca-me a ida de que em quanto outros idiotas, mais astutos -e mais previdentes, ho-de estar no poleiro a reluzir ao sol, _al -hermoso sol portugus_, como se diz nas zarzuelas, eu hei-de estar a -receitar cataplasmas a velhas devotas, ou a ligar as rupturas d'algum -desembargador caduco. - -Sebastio calado pensava na outra, morta em cima. - ---Estupido paiz, estupida vida!--rosnou Julio. - -Mas uma carruagem entrou na rua, parou porta. - ---Chegam os principes!--disse Julio. Desceram logo. - -Jorge ajudava Luiza a sahir do trem, quando Sebastio, abrindo a porta, -bruscamente: - ---Houve c grande novidade! - ---Fogo?--gritou Jorge voltando-se aterrado. - ---A Juliana, que lhe rebentou o aneurisma--disse a voz de Julio da -sombra da porta. - ---Oh c'os diabos!--E Jorge atarantado procurava pressa na algibeira -troco para o cocheiro. - ---Ai, eu j no entro!--exclamou logo D. Felicidade, mostrando -portinhola a sua larga face envolvida n'uma manta branca.--Eu j no -entro! - ---Nem eu!--fez Luiza, toda tremula. - ---Mas para onde queres que vamos, filha?--exclamou Jorge. - -Sebastio lembrou que podiam ir para casa d'elle. Tinha o quarto da -mam, era s pr lenoes na cama. - ---Vamos, sim! Vamos, Jorge! o melhor!--supplicou Luiza. - -Jorge hesitava. A patrulha que ia passando ao alto da rua, ao vr -aquelle grupo junto lanterna do trem, parou. E Jorge emfim, instado, -muito contrariado, consentiu. - ---Diabo da mulher, morrer a semelhante hora! A carruagem vai-a levar, -D. Felicidade... - ---E a mim, que estou em chinellas!--acudiu Julio. - -D. Felicidade lembrou ento, como christ, que era necessario alguem, -para velar a morta... - ---Ora, pelo amor de Deus, D. Felicidade!--exclamou Julio, entrando -logo para a carruagem, batendo com a portinhola. - -Mas D. Felicidade insistia: era uma falta de religio! ao menos pr -duas velas, mandar chamar um padre!... - ---Largue, cocheiro!--berrou Julio, impaciente. - -A carruagem deu a volta. E D. Felicidade portinhola, apesar de Julio -que a puxava pelos vestidos, gritava: - --- um peccado mortal! uma irreverencia! Ao menos duas velas! - -O trem partiu a trote. - -Luiza agora tinha escrupulos: realmente podia-se mandar chamar alguem... - -Mas Jorge enfureceu-se. Chamar quem, quella hora? Que beatice! Estava -morta, acabou-se! Enterrava-se... Velar o estafermo! Fazer-lhe talvez -camara ardente tambem? Queria ella ir velal-a?... - ---Ento, Jorge, ento!...--murmurava Sebastio. - ---No, de mais! vontade de crear embaraos, que diabo! - -Luiza baixava a cabea: e, em quanto Jorge, praguejando, ficou atraz a -fechar a porta da casa, ella foi descendo a rua pelo brao de Sebastio. - ---Estourou de raiva--disse-lhe elle baixinho. - -Toda a rua Jorge resmungou. Que ida, irem dormir agora fra de casa! -Realmente era levar muito longe as mariquices...! - -At que Luiza lhe disse, quasi chorando: - ---V se me queres torturar mais, e fazer-me mais doente, Jorge! - -Elle calou-se, mordendo furioso o charuto. E Sebastio, para a socegar, -propoz que viesse a tia Vicencia, a preta, velar a Juliana. - ---Era talvez melhor--murmurou Luiza. - -Chegaram porta de Sebastio. O _frou-frou_ do vestido de sda de -Luiza, quella hora, na sua casa, dava uma commoo a Sebastio: a mo -tremia-lhe ao accender as velas da sala. Foi acordar a tia Vicencia -para fazer ch; tirou elle mesmo os lenoes dos bahs, apressado, feliz -d'aquella hospitalidade. Quando voltou sala, Luiza estava s, muito -pallida, ao canto do soph. - ---Jorge?--perguntou elle. - ---Foi ao seu escriptorio, Sebastio, escrever ao parocho para -o enterro...--E com os olhos brilhantes, n'uma voz sumida e -assustada:--Ento? - -Sebastio tirou da algibeira a carteirinha de Juliana. Ella agarrou-a -sofregamente--e com um movimento brusco, tomou-lhe a mo, e beijou-lh'a. - -Mas Jorge entrava, sorrindo. - ---Ento agora est mais descanada, a menina? - ---Inteiramente--disse ella, com um suspiro de allivio. - -Foram tomar ch. Sebastio contou a Jorge, corando um pouco, a -maneira como entrra em casa, a Juliana lhe estivera a dizer que fra -despedida, e fallando, exaltando-se, zs, de repente, cahira para o -lado morta... - -E acrescentou: - ---Coitada! - -Luiza via-o mentir, olhando-o com adorao. - ---E a Joanna?--perguntou Jorge, de repente. - -Luiza, sem se perturbar, respondeu: - ---Ah, esqueci-me dizer-te... Tinha pedido licena p'ra ir vr uma tia -que est muito mal, p'ra os lados de Bellas... Diz que volta manh... -Mais uma gota de ch, Sebastio... - -Esqueceram-se depois de mandar a Vicencia--e ninguem velou a morta. - - - - -XVI - - -Luiza passou a noite s voltas, com febre. Jorge de madrugada ficou -assustado da frequencia do seu pulso e do calor secco da pelle. - -Elle mesmo, muito nervoso, no pudera dormir. - -O quarto, onde se no accendera luz havia muito, tinha uma frialdade -deshabitada: na parede, junto ao tecto, havia manchas de humidade: e -a cama antiga de columnas torneadas sem cortinados, o velho trem do -seculo passado com o seu espelho embaciado davam, luz bruxuleante -da lamparina, um sentimento triste de convivencias extinctas. O -achar-se alli com sua mulher, n'uma cama alheia, trazia-lhe, sem saber -porque, uma vaga saudade; parecia-lhe que se dera na sua vida uma -alterao brusca--e que, semelhante a um rio a que se muda o leito, a -sua existencia, desde essa noite, comearia a correr entre aspectos -differentes. O nordeste fazia bater os caixilhos da vidraa, e uivava -encanado na rua. - -Pela manh, Luiza no se pde levantar. - -Julio, chamado pressa, tranquillisou-os: - --- uma febresita nervosa. Quer socego, no vale nada. Foi o medosinho -d'hontem, hein? - ---Sonhei toda a noite com ella--disse Luiza.--Que tinha resuscitado... -Que horror! - ---Ah! pde estar socegada... E j a aviaram, a mulher? - ---O Sebastio l anda com a massada--disse Jorge.--E eu vou dar uma -vista d'olhos. - -Na rua j se sabia a morte da _tripa-velha_. - -A mulher que a veio amortalhar, uma matrona muito picada das bexigas, -com os olhos avermelhados da paixo da aguardente, era conhecida -da snr.^a Helena. Estiveram um momento a palrar ao sol, porta do -estanque: - ---Muito que fazer agora, snr.^a Margarida, hein? - ---Bastante, bastante, snr.^a Helena--disse a amortalhadeira com a voz -um pouco rouca.--No inverno sempre ha mais obra. Mas tudo gente velha, -com os frios. Nem um corpinho bonito p'ra vestir... - -A snr.^a Margarida tinha predileces artisticas. Gostava d'um bonito -corpo de dezoito annos, uma mocinha fresca para lavar, escarolar, -enfeitar... Entrouxava m cara a gente velha. Mas com as raparigas -novas esmerava-se: acatitava as pregas da mortalha; calculava o _chic_ -d'uma flr, d'um lao; trabalhava com os requintes ajanotados d'uma -modista do sepulchro. - -A estanqueira contou-lhe muitas particularidades sobre a Juliana, -os favores dos patres, as tafularias d'ella, os luxos do quarto -tapetado... A snr.^a Margarida dizia-se banzada. E para quem iria -agora tudo aquillo?--perguntavam.--A _tripa-velha_ no tinha parentes... - ---Era uma riqueza p'ra a minha Antoninha!--disse a amortalhadeira, -traando o chale com tristeza. - ---Como vai ella, a pequena?... - ---Aquillo vai mal, snr.^a Helena. Aquella cabea douda!--E exhalando -a sua dr com loquacidade:--Deixar o brazileiro que a trazia nas -palminhas... E por quem? Por aquelle desalmado, que lhe come tudo, -que j lhe arranjou um filho, e que a derra com pau... Mas ento, as -raparigas so assim... Vo atraz do palmo de cara... Que elle bonito -rapaz! Mas um bebedo!... Coitada!... Pois vou vestir a boneca, snr.^a -Helena.--E entrou na casa compungidamente. - -O padre j chegra tambem. Estava na sala com Sebastio, que conhecia -d'Almada, e fallava de lavoura, d'enxertos, das regas, n'uma voz -grossa--passando, com um gesto lento da sua mo cabelluda, o leno -enrolado por debaixo do nariz. As janellas em toda a casa estavam -abertas ao sol muito dce. Os canarios chilreavam. - ---E estava ha muito tempo na casa, a defunta?--perguntou o padre, a -Jorge que passeava pela sala, fumando. - ---Ha quasi um anno. - -O padre desdobrou lentamente o leno, e sacudindo-o, antes de se assoar: - ---A sua senhora ha-de sentir muito... um tributo universal!... - -E assoou-se, com estrondo. - -A Joanna, ento, de chale e leno, appareceu, em bicos de ps. Soubera -pelos visinhos que a Juliana arrebentra, que os senhores estavam em -casa do snr. Sebastio. Vinha de l. Luiz mandra-a entrar no quarto. -Quando a viu doente, a sua rica senhora, lagrimejou muito. Luiza -disse-lhe--que agora estava tudo como d'antes, podia voltar... - ---E oua, Joanna, se o snr. Jorge lhe perguntar... que esteve em -Bellas, com a tia... - -A rapariga fra logo buscar a trouxa e vinha installar-se--um pouco -assustada da morte em casa. - -D'ahi a pouco o Paula bateu discretamente porta. - -Alli vinha offerecer-se para o que fosse necessario n'aquelle transe! E -tirando e pondo rapidamente o bon, raspando o p, dizia com a sua voz -catarrhosa: - ---Lamento a desgraa, lamento a desgraa! Todos somos mortaes... - ---Bem, bem, snr. Paula, no necessario nada--disse Jorge.--Obrigado! - -E fechou bruscamente a cancella. - -Estava impaciente por se desembaraar d'aquella estopada: e mesmo -como o enfastiavam as martelladas espaadas dos homens pregando o -caixo, em cima, chamou a Joanna: - ---Diga a essa gente que se avie. No vamos ficar aqui toda a vida! - -A Joanna foi logo dizer que o senhor estava n'um phrenesi! Tinha-se -feito j intima da snr.^a Margarida. A amortalhadeira fra mesmo com -ella cozinha para tomar uma sustanciasinha. Como o lume estava -apagado, contentou-se com sopas de po em vinho. - ---Sopinha de burro--dizia, fazendo estalar a lingua. - -Mas estava enojada com a defunta! Nunca vira bicho mais feio. Um corpo -de sardinha secca! E pondo um olhar complacente nas bellas frmas -de Joanna:--A menina, no. A menina tem-me o ar de ter muito bom -corpo...--E parecia calcular como talharia a mortalha para aquellas -linhas robustas. - -Joanna disse escandalisada: - ---Longe v o agouro, cruzes! - -A outra sorriu; faltavam-lhe dous dentes: e aflautando a voz: - ---Tem-me passado pela mo muita gente fina, minha menina. Mais uma -gotinha de vinho, faz favor? do Cartaxo, no? muito avelludado! -rica gota! - -Emfim, com grande satisfao de Jorge, s quatro horas os homens -desceram o caixo. A visinhana estava pelas portas. O Paula mesmo, por -fanfarronada, disse com dous dedos adeus ao esquife, murmurando: - ---Boa viagem! - -Jorge em cima, ao sahir, perguntou a Joanna: - ---E voss no tem medo de ficar aqui s? - ---Eu no, meu senhor. Quem vai no volta! - -Tinha medo, com effeito; mas preparava-se a passar a noite com o Pedro, -e batia-lhe o corao de alegria de terem a casa por sua at de -manh, e de se poderem rolar amorosamente, como fidalgos, por cima do -divan da sala. - -Jorge voltou com Sebastio para casa, e apenas entrou no quarto, onde -Luiza estava deitada: - ---Tudo prompto--disse, esfregando as mos.--L vai para o Alto de S. -Joo, devidamente acondicionada. _Per omnia s[ae]cula s[ae]culorum!_ - -A tia Joanna, que estava cabeceira de Luiza, acudiu: - ---Ai, quem l vai, l vai... Mas boa mulher, no era ella! - ---Era um bom estafermo--disse Jorge.--Esperemos que a esta hora esteja -a ferver na caldeira de Pero Botelho. No verdade, tia Joanna? - ---Jorge!--fez Luiza reprehensivamente. E julgou dever rezar-lhe baixo -dous padre-nossos por alma. - -Foi tudo o que a terra deu na sua morte quella que ia rolando a essa -hora, ao trote de duas velhas eguas, para a valla dos pobres, e que -fra na vida Juliana Couceiro Tavira! - - -No dia seguinte Luiza estava melhor: fallaram mesmo, com grande -desconsolao da tia Joanna, em voltar para casa. Sebastio no dizia -nada, mas quasi desejava secretamente que uma convalescena a retivesse -alli semanas indefinidas. Ella parecia to agradecida! Tinha olhares -to reconhecidos, que s elle comprehendia! E era to feliz tendo-a -alli e a Jorge na sua casa! Conferenciava com a tia Vicencia sobre o -jantar; andava pelos corredores e pela sala, com respeito, quasi em -bicos de ps, como se a presena d'ella santificasse a casa; enchia -os vasos de camelias e de violetas; sorria beatamente ao vr Jorge, -sobremesa, saborear e gabar o seu velho cognac; sentia alguma cousa -de bom acalental-o como um manto acolchoado e macio; e j pensava que -quando ella partisse tudo lhe pareceria mais frio, e com uma tristeza -de ruina! - -Mas d'ahi a dous dias voltaram para casa. - -Luiza ficou muito agradada com a criada nova. Fra Sebastio que a -arranjra. Era uma rapariguita aceadinha e branca, com grandes olhos -bonitos e pasmados, um ar amoravel: chamava-se Marianna; e foi logo -correndo dizer a Joanna que morria pela senhora! tinha uma carinha -d'anjo! que linda que era! - -Jorge logo n'essa manh mandou os dous bahus de Juliana tia Victoria. - -Luiza, quando elle sahiu tardinha, fechou-se no quarto, com a -carteirinha de Juliana, correu os transparentes por precauo, accendeu -uma vela, e queimou as cartas. As mos tremiam-lhe; e via, com os -olhos marejados de lagrimas, a sua vergonha, a sua escravido irem-se, -dissiparem-se n'um fumo alvadio! Respirou completamente! Emfim! E fra -Sebastio, aquelle querido Sebastio! - -Foi ento sala, cozinha, vr a casa: tudo lhe pareceu novo, a sua -vida cheia de doura: abriu todas as janellas; experimentou o piano; -rasgou mesmo em pedaos, por superstio, a musica da _Mdj_, que lhe -dera Bazilio; conversou muito com a Marianna; e saboreando o seu caldo -de gallinha de convalescente, com a face alumiada da felicidade: - ---Que bem que vou passar agora!--pensava. - -Quando sentiu no corredor os passos de Jorge que entrava, correu, -deitou-lhe os braos ao pescoo, e com a cabea no hombro d'elle: - ---Estou to contente hoje! E se tu soubesses, to boa rapariga a -Marianna! - - -Mas n'essa noite a febre voltou. Julio, de manh, achou-a peor. - ---Crescimentos...--disse descontente. - -Estava receitando, quando D. Felicidade entrou, muito excitada. Ficou -toda surprehendida de vr Luiza doente; e debruando-se sobre ella, -disse-lhe logo ao ouvido: - ---Tenho que te contar! - -Apenas Jorge e Julio sahiram, desabafou, sentada aos ps da cama,--com -uma voz ora baixa pela gravidade da confidencia, ora aguda pelo impeto -da indignao: - -Tinha sido roubada! Indignamente roubada! O homem que mandra a -Tuy, o grande ladro, tinha escripto Gertrudes, criada, que no -estava resolvido a voltar a Lisboa; que a mulher de virtude mudra de -povoao; que elle no queria saber mais d'esse negocio e que at o -achava exquisito; que offerecia o seu prestimo em Tuy,--tudo isto n'uma -boa letra d'escrevente publico, n'um portuguez horrivel,--e do dinheiro -nem palavra! - ---Que te parece o mariola? Oito moedas! Eu se no fosse pela vergonha, -ia direita policia... Ai! os gallegos p'ra mim acabaram! Por isso o -Conselheiro no se chegava ao rego! Pudera! A mulher nunca lanou a -sorte!...--Porque se j no acreditava na honestidade dos gallegos, no -perdera a f no poder das bruxas. - -Que ella no era pelas oito moedas! Era pelo ferro! E depois, quem sabe -onde estaria agora a mulher! Ai, era d'endoudecer!... Que te parece, -hein? - -Luiza encolheu os hombros: muito abafada na roupa, as faces escarlates, -cerravam-se-lhe os olhos n'uma somnolencia pesada: D. Felicidade -aconselhou-lhe vagamente um suadouro, suspirando; e como Luiza no -lhe podia dar consolaes, sahiu para ir Encarnao desabafar com a -Silveira. - -N'essa madrugada Luiza peorou. A febre recrudecera. Jorge, inquieto, -vestiu-se pressa, s nove horas da manh, foi buscar Julio. Descia a -escada rapidamente, abotoando ainda o paletot, quando o carteiro subia, -tossindo o seu catarrho. - ---Cartas?--perguntou Jorge. - ---Uma p'ra a senhora--disse o homem.--Ha-de ser p'ra a senhora... - -Jorge olhou o enveloppe: tinha o nome de Luiza, vinha de Frana. - ---De quem diabo isto?--pensou. Metteu-a no bolso do paletot, e sahiu. - -D'ahi a meia hora voltava com Julio, n'um trem. - -Luiza dormitava, amodorrada. - --- preciso cautela... Vamos a vr...--murmurou Julio, coando devagar -a cabea, em quanto do outro lado do leito Jorge o olhava anciosamente. - -Receitou e ficou para almoar com Jorge. Estava um dia frio e pardo. -A Marianna, abafada n'um casabeque, servia, com os dedos vermelhos, -inchados de frieiras. E Jorge sentia-se entristecer, como se toda a -nevoa do ar se lhe fosse lentamente depositando e condensando n'alma. - -A que se podia attribuir semelhante febre? dizia, muito desconsolado. -To extraordinario! Havia seis dias, ora melhor, ora peor... - ---Estas febres veem por tudo--replicou Julio, partindo tranquillamente -uma torrada.--s vezes por uma corrente d'ar s vezes por um desgosto. -Tenho eu, por exemplo, um caso curioso: um sujeito, um Alves, que -esteve p'ra fallir, e que viveu, coitado, durante dous mezes em -torturas. Ha duas semanas, por um golpe de fortuna,--a velhaca s vezes -tem d'estes caprichos,--arranjou todos os seus negocios, viu-se livre. -Pois senhor, desde ento tem uma febre assim, tortuosa, complexa, com -symptomas disparatados... O que ? que a excitao nervosa abateu, e -a felicidade trouxe-lhe uma revoluo no sangue. Pde muito bem dar -casca. Faz ento a fallencia geral, a grande, aquella em que o crdor -implacavel, saca vista, e... _per omnia s[ae]cula!_ - -Ergueu-se, e accendendo o cigarro: - ---Em todo o caso um repouso absoluto. necessario ter-lhe o espirito -em algodo em rama. Nada de palestra, nada de phrases, e se tiver sde, -limonada. At logo! - -E sahiu, calando as luvas pretas que usava agora desde que pertencia -ao Posto Medico. - -Jorge voltou alcova: Luiza ainda dormitava. Marianna sentada ao p -n'uma cadeirinha baixa, com o rostinho muito triste, no tirava de -Luiza os seus grandes olhos vagamente espantados. - ---Tem estado muito inquieta--murmurou. - -Jorge apalpou a mo de Luiza que ardia, conchegou-lhe a roupa. Beijou-a -devagarinho na testa, foi cerrar as portas da janella, defronte da -alcova.--E passeando no escriptorio, voltavam-lhe as palavras de -Julio: so febres que veem por um desgosto! Pensava na historia do -negociante, recordava aquelle estado de abatimento e de fraqueza de -Luiza que o preoccupra tanto, ultimamente, to inexplicavel! Ora, -tolices! Desgosto de qu? Em casa de Sebastio estivera to animada! -Nem a morte da outra lhe fizera abalo!--De resto acreditava pouco nas -_febres de desgosto_! Julio tinha uma medicina litteraria. Pensou -mesmo que seria mais prudente chamar o velho dr. Caminha... - -Ao metter a mo no bolso, ento, os seus dedos encontraram uma -carta; era a que o carteiro lhe dera, de manh, para Luiza. Tornou a -examinal-a com curiosidade; o sobrescripto era banal, como os que ha -nos cafs ou nos restaurantes; no conhecia a letra; era d'homem, vinha -de Frana... Atravessou-o um desejo rapido de a abrir. Mas conteve-se, -atirou-a para cima da mesa, embrulhou devagar um cigarro. - -Voltou alcova. Luiza permanecia na sua modorra: a manga do chambre -arregaada descobria o brao mimoso, com a sua pennugem loura; a -face escarlate reluzia; as pestanas longas pousavam pesadamente, no -adormecimento das palpebras finas; um annel do cabello cahira-lhe -sobre a testa, e pareceu a Jorge adoravel e tocante com aquella cr, -a expresso da febre. Pensou, sem saber porque, que outros a deveriam -achar linda, desejal-a, dizer-lh'o, se podessem... Para que lhe -escreviam de Frana, quem? - -Voltou ao escriptorio, mas aquella carta sobre a mesa irritava-o: quiz -lr um livro, atirou-o logo impaciente; e poz-se a passear, torcendo -muito nervoso o forro das algibeiras. - -Agarrou ento a carta, quiz vr, atravs do papel delgado do enveloppe; -os seus dedos, mesmo irresistivelmente, comearam a rasgar um angulo do -sobrescripto. Ah! No era delicado aquillo!... Mas a curiosidade, que -governava o seu cerebro, suggeriu-lhe toda a sorte de raciocinios, com -uma tentao persuasiva:--Ella estava doente, e podia ter alguma cousa -urgente; se fosse uma herana? depois ella no tinha segredos, e ento -em Frana! Os seus escrupulos eram pueris! Dir-lhe-hia que a abrira -por engano. E se a carta contivesse o segredo d'aquelle desgosto, do -_desgosto_ das theorias de Julio!... Devia abril-a ento para a curar -melhor! - -Sem querer achou-se com a carta desdobrada na mo. N'um relano -avido devorou-a. Mas no comprehendeu bem; as letras embrulhavam-se; -chegou-se janella, releu devagar: - - - Minha querida Luiza. - -Seria longo explicar-te, como s antes d'hontem em Nice--d'onde -cheguei esta madrugada a Paris--recebi a tua carta, que pelos carimbos -vejo que percorreu toda a Europa atraz de mim. Como j l vo dous -mezes e meio que a escreveste, imagino que te arranjaste com a mulher, -e que no precisas do dinheiro. De resto se por acaso o queres, manda -um telegramma e tens-l'o ahi em dous dias. Vejo pela tua carta que no -acreditaste nunca que a minha partida fosse motivada por negocios. s -bem injusta. A minha partida no te devia ter tirado, como tu dizes, -_todas as illuses sobre o amor_, porque foi realmente quando sahi de -Lisboa que percebi quanto te amava, e no ha dia, acredita, em que me -no lembre do _Paraiso_. Que boas manhs! Passaste por l por acaso -alguma outra vez? Lembras-te do nosso _lunch_? No tenho tempo para -mais. Talvez em breve volte a Lisboa. Espero vr-te, porque sem ti -Lisboa para mim um desterro. - -Um longo beijo do - - Teu do C. - - _Bazilio_. - - -Jorge dobrou o papel, lentamente, em duas, em quatro dobras, atirou-o -para cima da mesa, disse alto: - ---Sim, senhor! bonito! - -Encheu o cachimbo de tabaco machinalmente, com os olhos vagos, os -beios a tremer: deu alguns passos incertos pelo escriptorio:--de -repente arremessou o cachimbo que despedaou um vidro da janella, bateu -com as mos desvairado, e atirando-se de bruos para cima da mesa, -rompeu a chorar, rolando a cabea entre os braos, mordendo as mangas, -batendo com os ps, louco! - -Ergueu-se subitamente, agarrou a carta, ia com ella alcova de Luiza. -Mas a lembrana das palavras de Julio immobilisou-o: que esteja -socegada, nada de phrases, nenhuma excitao! Fechou a carta n'uma -gaveta, metteu a chave na algibeira. E de p, a tremer, com os olhos -raiados de sangue, sentia idas insensatas alumiarem-lhe bruscamente -o cerebro, como relampagos n'uma tormenta--matal-a, sahir de casa, -abandonal-a, fazer saltar os miolos... - -A Marianna bateu ligeiramente porta, disse-lhe que a senhora o -chamava. - -Uma onda de sangue subiu-lhe cabea; fitava Marianna, estupido, -batendo as palpebras: - ---J vou--disse com a voz rouca. - -Ao passar na sala, diante do espelho oval, ficou pasmado do seu rosto -manchado, envelhecido. Foi correr uma toalha molhada pela face, alisou -o cabello: e ao entrar na alcova, ao vl-a, com os seus grandes olhos -dilatados onde a febre reluzia, teve de se agarrar barra do leito, -porque sentiu, em redor, as paredes oscillarem como lonas ao vento. - -Mas sorriu-lhe: - ---Como ests? - ---Mal--murmurou ella debilmente. - -Chamou-o para ao p de si com um gesto muito fatigado. - -Elle veio, sentou-se sem a olhar. - ---Que tens?--disse ella chegando o rosto para elle.--No te -afflijas.--E tomou a mo que elle pousra beira do leito. - -Jorge, com um repello secco, sacudiu a mo d'ella, ergueu-se -bruscamente com os dentes cerrados; sentia uma colera brutal; -ia-se, com medo de si, de um crime, quando ouviu a voz de Luiza, -arrastando-se, n'uma lamentao: - ---Porque, Jorge? Que tens?... - -Voltou-se; viu-a meia erguida com os olhos abertos para elle, uma -angustia no rosto; e duas lagrimas cahiam-lhe, silenciosamente. - -Atirou-se de joelhos, agarrou-lhe as mos, aos soluos. - ---Que isto?--exclamou a voz de Julio porta da alcova. - -Jorge, muito pallido, ergueu-se devagar. - -Julio levou-o para a sala, e cruzando terrivelmente os braos diante -d'elle: - ---Tu ests doudo? Pois tu sabes que ella est n'um estado d'aquelles, e -vaes-te pr a fazer-lhe scenas de lagrimas? - ---No me pude conter... - ---Estoura. Eu estou a cortar-lhe a febre por um lado, e tu a dar-lh'a -por outro? Ests doudo! - -Estava realmente indignado. Interessava-se por Luiza como doente. -Desejava muito cural-a; e sentia uma satisfao em exercer o dominio -de pessoa necessaria n'aquella casa, onde as suas visitas tinham tido -sempre uma attitude dependente; mesmo agora ao sahir, no se esquecia -de offerecer negligentemente um charuto a Jorge. - - -Jorge foi heroico durante toda essa tarde. No podia estar muito -tempo na alcova de Luiza, a desesperao trazia-o n'um movimento -contradictorio; mas ia l a cada momento, sorria-lhe, conchegava-lhe -a roupa com as mos tremulas; e como ella dormitava, ficava immovel a -olhal-a feio por feio, com uma curiosidade dolorosa e immoral, com -para lhe surprehender no rosto vestigios de beijos alheios, esperando -ouvir-lhe n'algum sonho da febre murmurar um nome ou uma data; e -amava-a mais desde que a suppunha infiel, mas d'um outro amor, carnal e -perverso. Depois ia-se fechar no escriptorio, e movia-se alli entre as -paredes estreitas, como um animal n'uma jaula. Releu a carta infinitas -vezes, e a mesma curiosidade roedora, baixa, vil, torturava-o sem -cessar: Como tinha sido? Onde era o _Paraiso_? Havia uma cama? Que -vestido levava ella? O que lhe dizia? Que beijos lhe dava? - -Foi relr todas as cartas que ella lhe escrevra para o Alemtejo, -procurando descobrir nas palavras symptomas de frieza, a data -da traio! Tinha-lhe odio ento, voltavam-lhe ao cerebro idas -homicidas--esganal-a, dar-lhe chloroformio, fazer-lhe beber laudano! -E depois immovel, encostado janella, ficava esquecido n'um scismar -espesso, revendo o passado, o dia do seu casamento, certos passeios que -dra com ella, palavras que ella dissera... - -s vezes pensava--seria a carta uma _mistificao_? Algum inimigo -d'elle podia tel-a escripto, remettido para Frana. Ou talvez Bazilio -tivesse _outra_ Luiza em Lisboa, e por engano ao sobrescriptar o -enveloppe tivesse escripto o nome da prima; e a alegria momentanea -que lhe davam aquellas phantasias fazia-lhe parecer a realidade mais -cruel. Mas como fra? como fra? Se podesse saber a verdade! Tinha a -certeza que socegaria, ento! Arrancaria de certo do seu peito aquelle -amor como um parasita immundo; apenas ella melhorasse, leval-a-hia a um -convento, e elle iria morrer longe, n'Africa, ou algures... Mas quem -saberia?... Juliana! - -Era ella que sabia! De certo! E todas as condescendencias d'ella por -Juliana, os moveis, o quarto, as roupas, comprehendeu tudo! Era a pagar -a cumplicidade! Era a sua confidente! Levava as cartas, sabia tudo. E -estava na valla, morta, sem poder fallar, a maldita! - -Sebastio, como costumava, veio noitinha. No havia ainda luzes, e, -apenas elle entrou, Jorge chamou-o ao escriptorio, calado, accendeu uma -vela, tirou a carta da gaveta. - ---L isto. - -Sebastio ficra assombrado ao vr o rosto de Jorge. Olhava a carta -fechada, e tremia. Apenas viu a assignatura, uma pallidez d'agonia -cobriu-lhe o rosto. Parecia-lhe que o soalho tinha uma vibrao onde -elle se firmava mal. Mas dominou-se, leu devagar, pousou a carta sobre -a mesa, sem uma palavra. - -Jorge disse ento: - ---Sebastio, isto p'ra mim a morte. Sebastio, tu sabes alguma cousa. -Tu vinhas aqui. Tu sabes. Dize-me a verdade! - -Sebastio abriu devagar os braos e respondeu: - ---Que te hei-de eu dizer? No sei nada! - -Jorge agarrou-lhe as mos, sacudiu-lh'as, e procurando o seu olhar -anciosamente: - ---Sebastio, pela nossa amizade, pela alma de tua mi, por tantos annos -que temos passado juntos, Sebastio, dize-me a verdade!... - ---No sei nada. Que hei-de eu saber? - ---Mentes! - -Sebastio disse apenas: - ---Podem-te ouvir, homem! - -Houve um silencio: Jorge apertava as fontes nas mos, com passadas pelo -escriptorio, que faziam vibrar o soalho; e de repente pondo-se diante -de Sebastio, quasi supplicante: - ---Mas dize-me ao menos o que fazia ella! Sahia? Vinha aqui alguem? - -Sebastio respondeu devagar, os olhos fixos na luz: - ---Vinha o primo s vezes, ao principio. Quando a D. Felicidade esteve -doente, ella ia vl-a... O primo depois partiu... No sei mais nada. - -Jorge esteve um momento a olhar Sebastio, com uma fixidez abstracta. - ---Mas que lhe fiz eu, Sebastio? Que lhe fiz eu? Adorava-a! Que lhe fiz -eu p'ra isto? Eu, que a adorava, quella mulher! - -Rompeu a chorar. - -Sebastio ficra de p junto mesa, estupido, aniquilado. - ---Foi talvez uma brincadeira, apenas...--murmurou. - ---E o que diz a carta?--gritou Jorge, voltando-se n'uma colera, -sacudindo o papel.--Este _Paraiso_! _As boas manhs_ l passadas! uma -infame!... - ---Est doente, Jorge--disse apenas Sebastio. - -Jorge no respondeu. Passeou calado algum tempo. Sebastio, immovel, -fatigava a vista contra a chamma da luz. Jorge ento fechou a carta na -gaveta, e tomando o castial com um tom de lassido lugubre e resignado: - ---Queres vir tomar ch, Sebastio? - -E no tornaram mais a fallar na carta. - - -N'essa noite Jorge dormiu profundamente. Ao outro dia o seu rosto -estava impassivel, d'uma serenidade livida. - -Foi d'ahi por diante o enfermeiro de Luiza. - -A doena, depois d'uma marcha incerta durante tres dias, definiu-se: -eram crescimentos; enfraquecia muito, mas Julio estava tranquillo. - -Jorge passava os seus dias ao p d'ella. D. Felicidade vinha -ordinariamente pelas manhs: sentava-se aos ps da cama, e ficava -calada, com uma face envelhecida; aquella esperana na mulher de Tuy -to subitamente destruida abalra-a como um velho edificio a que se -tira subitamente um pilar; ia-se tornando ruina; e s se animava quando -o Conselheiro apparecia pelas tres horas a saber da nossa formosa -enferma. Trazia sempre alguma palavra grave que dizia com um tom -profundo, conservando o chapo na mo, sem querer entrar na alcova, por -pudor: - ---A saude um bem que s apreciamos quando nos foge! - -Ou: - ---A doena serve para aquilatarmos os amigos. - -E terminava sempre: - ---Meu Jorge, as rosas da saude bem cedo refloriro nas faces de sua -virtuosa esposa!... - -De noite Jorge dormia vestido, n'um enxergo sobre o cho; mas apenas -cerrava os olhos uma ou duas horas. O resto da noite procurava lr: -comeava um romance, mas nunca ia alm das primeiras linhas; esquecia -o livro, e com a cabea entre as mos punha-se a pensar: era sempre a -mesma ida--_como_ tinha sido? Conseguira reconstruir aproximadamente, -com logica, certos factos; via bem Bazilio chegando, vindo visital-a, -desejando-a, mandando-lhe ramos, perseguindo-a, indo-a vr aqui e -alm, escrevendo-lhe; mas depois? Viera j a comprehender que o -dinheiro era para Juliana. A creatura tivera alguma exigencia: tinha-os -surprehendido? possuia cartas?... E encontrava, n'aquella reconstruco -dolorosa, falhas, vazios, como buracos escuros, onde a sua alma se -arremessava sofregamente. Ento comeava a recordar os ultimos mezes -desde a sua volta do Alemtejo, e como ella se mostrra amante, e que -ardor punha nas suas caricias... Para que o enganra ento? - -Uma noite, com precaues de ladro, rebuscou todas as gavetas d'ella, -esquadrinhou os vestidos, at as dobras da roupa branca, as caixas de -collares, de rendas; viu bem o cofre de sandalo; estava vazio; nem o -p d'uma flr secca! s vezes punha-se a fitar os moveis no quarto, -na sala, a sondal-os como se quizesse descobrir n'elles os vestigios -do adulterio. Ter-se-hiam sentado alli? Elle teria ajoelhado aos -ps d'ella, acol, sobre o tapete? Sobretudo o divan to largo, to -commodo, desesperava-o; tomou-lhe odio. Veio a detestar mesmo a casa, -como se os tectos que os tinham coberto, os soalhos que os tinham -sustentado tivessem uma cumplicidade consciente. Mas o que o torturava -sobretudo eram aquellas palavras--o _Paraiso_, _as boas manhs_... - -Luiza ento j dormia tranquillamente. Ao fim de uma semana os -crescimentos desappareceram. Mas estava muito fraca: no dia em que -pela primeira vez se levantou, desmaiou duas vezes: era necessario -vestil-a, trazel-a amparada para a _chaise-longue_: e no dispensava -Jorge, queria-o alli, ao p, com exigencias de criana! Parecia receber -a vida dos seus olhos, a saude do contacto das suas mos. Fazia-lhe -lr o jornal pela manh, e vir escrever para ao p d'ella. Elle -obedecia, e mesmo aquellas instancias eram para a sua dr como caricias -consoladoras. porque o amava de certo! - -Sentia ento, machinalmente, abertas de felicidade. Surprehendia-se -a dizer-lhe ternuras, a rir com ella, esquecido, como d'antes! -E, estendida na _chaise-longue_, Luiza, contente, percorria -antigos volumes da _Illustrao franceza_, que lhe mandra o -Conselheiro,--onde, segundo elle lhe dissera, podia, ao mesmo -tempo que se divertia com os desenhos, adquirir noes uteis sobre -importantes acontecimentos historicos; ou, com a cabea reclinada, -saboreava a felicidade de melhorar, de estar livre das tyrannias da -_outra_, das amarguras do _passado_. - -Uma das suas alegrias era vr entrar a Marianna com o seu jantarzinho -disposto n'um guardanapo sobre o taboleiro; tinha appetite, saboreava -muito o calix de vinho do Porto, que Julio recommendra; quando Jorge -no estava, fazia longas conversaes com Marianna, palrando baixo, -consolada, e lambendo colherinhas de gelatina. - -s vezes, calada, com os olhos no tecto, fazia planos. Dizia-os depois -a Jorge: iria estar duas semanas no campo, para ganhar foras; volta -comearia a bordar tiras de casimira para cobrir as cadeiras da sala; -porque queria occupar-se muito da casa, viver recolhida; elle no -voltaria ao Alemtejo, no sahiria de Lisboa, no verdade? E a sua -vida seria d'ahi por diante d'uma doura continua e facil. - -Mas Luiza s vezes achava-o macambusio. Que tinha? Elle explicava -pela fadiga, pelas noites mal dormidas... Se adoecesse, ao menos, -dizia ella, que fosse quando ella estivesse forte para o tratar, para -o velar!... Mas no adoeceria, no? E fazia-o sentar ao p de si, -passava-lhe a mo pelos cabellos, com o olhar quebrado, porque com as -foras que renasciam vinham os impulsos do seu temperamento amoroso. -Jorge sentia que a adorava, e era mais desgraado! - -Luiza, s comsigo, tinha outras resolues. No tornaria a vr -Leopoldina, e frequentaria as igrejas. Sahia da doena com uma vaga -sentimentalidade devota. Durante a febre, em certos pesadlos de -que lhe ficra uma indistincta ida aterrada, vira-se s vezes n'um -lugar pavoroso, onde corpos se erguiam, torcendo os braos, do meio -de chammas escarlates: frmas negras giravam com espetos em braza, um -rugido d'agonia subia para a mudez do co: e j lhe tocavam o peito -linguas de fogueiras, quando alguma cousa de dce e d'ineffavel de -repente a refrescava; eram as azas d'um anjo luminoso e sereno, que a -tomava nos braos; e ella sentia-se elevar, apoiando a cabea contra -o seio divino, que a penetrava d'uma felicidade sobrenatural; via as -estrellas de perto, ouvia fremitos d'azas. Aquella sensao deixra-lhe -como uma recordao saudosa do co. E aspirava a ella, nas debilidades -da convalescena, esperando ganhal-a pela pontualidade missa, e pela -repetio de coras Virgem. - -Emfim uma manh veio sala, e abriu pela primeira vez o piano; Jorge, - janella, olhava para a rua--quando ella o chamou, e sorrindo: - ---Estou a detestar, ha tempos, aquelle divan--disse.--Podia-se tirar, -no te parece? - -Jorge sentiu uma pancada no corao: no pde responder logo; disse, -emfim, com esforo: - ---Sim, parece... - ---Estou com vontade de o tirar--disse ella sahindo da sala, arrastando -tranquillamente a longa cauda do seu roupo. - -Jorge no pde destacar os olhos do divan. Veio mesmo sentar-se n'elle; -passava a mo sobre o estofo s listras; e sentia um prazer doloroso em -verificar _que fra alli_! - -Principira a vir-lhe agora uma especie de resignao sombria; quando -a ouvia gozar tanto as melhoras, fallar com felicidade de futuros -tranquillos, decidia-se a aniquilar a carta, esquecer tudo. Ella -tinha-se arrependido de certo, amava-o: para que havia de crear a -sangue frio uma infelicidade perpetua? Mas quando a via com os seus -movimentos languidos estender-se na _chaise-longue_, ou ao despir-se -mostrar a brancura do seu collo--e pensava que aquelles braos -tinham enlaado outro homem, aquella bocca gemido de amor n'uma cama -alheia--vinha-lhe uma onda de clera bruta, precisava sahir para a no -esganar! - -Para explicar os seus maus humores, os seus silencios, comeou a -queixar-se, a dizer-se doente. E as solicitudes d'ella, ento, as -interrogaes mudas do seu olhar inquieto faziam-o mais infeliz--por se -sentir amado, agora que se sabia trahido! - -Um domingo emfim Julio deu licena a Luiza para se deitar mais tarde, -e fazer noite as honras da casa. Foi uma alegria para todos vel-a na -sala, ainda um pouco pallida e fraca,--mas, como disse o Conselheiro, -restituida aos deveres domesticos e aos prazeres da sociedade! - -Julio que veio s nove horas achou-a _como nova_. E abrindo os braos, -no meio da sala: - ---E que me dizem novidade?--exclamou--A pea do Ernesto teve um -triumpho!... - -Assim tinham lido nos jornaes. O _Diario de Noticias_ dizia mesmo que -o author chamado ao proscenio, no meio do mais vivo enthusiasmo, -recebera uma formosa cora de louros. Luiza declarou logo que queria -ir vr! - ---Mais tarde, D. Luiza, mais tarde--acudiu com prudencia o -Conselheiro.--Por ora conveniente evitar toda a commoo forte. As -lagrimas que no deixaria de derramar, conheo o seu bom corao, -podiam produzir uma recahida. No verdade, amigo Julio? - ---De certo, Conselheiro, de certo. Eu tambem quero ir. Quero -convencer-me por meus olhos... - -Mas o ruido d'uma carruagem, lanada a trote largo, que parou porta, -interrompeu-o. A campainha retiniu fortemente. - ---Aposto que o author!--exclamou elle. - -E quasi immediatamente a figura radiante de Ernestinho, de casaca, -precipitou-se na sala: ergueram-se com ruido, abraaram-no: mil -parabens! mil parabens! E a voz do Conselheiro, dominando as outras: - ---Bem vindo o festejado author! Bem vindo! - -Ernesto suffocava de jubilo. Tinha um sorriso immobilisado; as azas -do nariz dilatavam-se-lhe, como para respirar os incensos; trazia o -peito alto, enfunado d'orgulho; e movia a cabea, sem cessar, como n'um -agradecimento instinctivo a multides applaudidoras. - ---Aqui estou! aqui estou!--disse. - -Sentou-se offegante; e, com um modo amavel de Deus-bom-rapaz, declarou -que os ultimos ensaios de apuro no lhe tinham deixado um momento para -vir vr a prima Luiza. Tinha tido n'aquella noite um instante de seu, -mas devia voltar s dez horas para o theatro: at nem mandra a tipoia -embora... - -Contou ento largamente o triumpho. Ao principio tivera grandes -colicas. Todos as tinham, os mais acostumados, os mais illustres! Mas -apenas o Campos disse o monologo do primeiro acto--e como o disse! -haviam de vr, uma cousa sublime!--os applausos romperam. Tinha -agradado tudo. No fim era um barulho, gritos pelo author, salvas de -palmas... Elle viera ao palco, arrastado; no queria, mas obrigaram-no, -a Jesuina por um lado, a Maria Adelaide por outro! Um delirio! O -Savedra do _Seculo_ tinha-lhe dito: o amigo o nosso Shakspeare! O -Bastos da _Verdade_ tinha affirmado: s o nosso Scribe! Houve uma ca. -E tinham-lhe dado uma cora. - ---E serve-lhe?--acudiu Julio. - ---Perfeitamente; um bocadinho larga... - -O Conselheiro disse com authoridade: - ---Os grandes authores, o famigerado Tasso, o nosso Cames so sempre -representados com as suas respectivas coras. - --- o que eu lhe aconselho, snr. Ledesma--acudiu Julio, erguendo-se e -batendo-lhe no hombro-- que se faa retratar de cora!... - -Riram. - -E Ernestinho, um pouco despeitado, desdobrando o seu leno perfumado: - ---O snr. Zuzarte no dispensa o seu epigrammasinho... - --- a prova da gloria, meu amigo. Nos triumphos dos generaes -victoriosos, em Roma, havia um bobo no prestito! - ---Eu no sei!--disse Luiza muito risonha-- uma honra p'ra a familia!... - -Jorge concordou. Passeava pela sala fumando; e disse que gozava tanto a -cora, como se tivesse direito a usal-a... - -E Ernestinho voltando-se logo para elle: - ---Sabes que lhe perdoei, primo Jorge? Perdoei esposa... - ---Como Christo... - ---Como Christo--confirmou Ernestinho, com satisfao. - -D. Felicidade approvou logo: - ---Fez muito bem! At mais moral! - ---O Jorge que queria que eu dsse cabo d'ella--disse Ernestinho, -rindo tolamente.--No se lembra, n'aquella noite... - ---Sim, sim--fez Jorge, rindo tambem, nervosamente. - ---O nosso Jorge--disse com solemnidade o Conselheiro--no podia -conservar idas to extremas. E de certo a reflexo, a experiencia da -vida... - ---Mudei, Conselheiro, mudei--interrompeu Jorge. - -E entrou bruscamente no escriptorio. - -Sebastio, inquieto, foi devagar ter com elle. Estava s escuras. - ---Aquelles idiotas no se calaro? No se iro?--disse elle -abafadamente, agarrando o brao de Sebastio. - ---Socega! - ---Oh Sebastio! Sebastio!--E sua voz tremia, com lagrimas. - -Mas Luiza, da sala, gritou: - ---Que conspirao essa ahi dentro s escuras? - -Sebastio appareceu logo, dizendo: - ---Nada, nada. Estavamos l dentro...--E acrescentou baixo:--O Jorge -est fatigado. Est adoentado, coitado! - -Notaram, quando elle voltou--que tinha com effeito o ar exquisito. - ---No, realmente no me sinto bom, estou incommodado! - ---E a debil D. Luiza precisa o repouso do seu leito--disse o -Conselheiro erguendo-se. - -Ernestinho que no se podia demorar, offereceu logo ao Conselheiro e a -Julio--a sua carruagem, que era um caleche, se iam para a baixa... - ---Que honra--exclamou Julio olhando Accacio--irmos na tipoia do Grande -Homem! - -E em quanto D. Felicidade se agasalhava, os tres desceram. - -No meio da escada Julio parou, e cruzando os braos: - ---Ora aqui vou eu entre os representantes dos dous grandes movimentos -de Portugal desde 1820. A Litteratura--e comprimentou Ernestinho--e o -Constitucionalismo!--e curvou-se para o Conselheiro. - -Os dous riram, lisongeados. - ---E o amigo Zuzarte? - ---Eu?--E baixando a voz:--At ha dias um revolucionario terrivel. Mas -agora... - ---O qu? - ---Um amigo da ordem--gritou com jubilo. - -E desceram, contentes de si e do seu paiz, para se metterem na tipoia -do Grande Homem! - - - - -XVII - - -Ao outro dia Jorge foi ao ministerio, onde no tinha apparecido nos -ultimos tempos. Mas demorou-se pouco. A rua, a presena dos conhecidos -ou dos estranhos torturava-o; parecia-lhe que _todo o mundo sabia_; nos -olhares mais naturaes via uma inteno maligna, e nos apertos de mo -mais sinceros uma ironica presso de pezames; as carruagens mesmo que -passavam davam-lhe a suspeita de a terem conduzido ao _rendez-vous_, -e todas as casas lhe pareciam a fachada infame do _Paraiso_. Voltou -mais sombrio, infeliz, sentindo a vida estragada. E logo do corredor ao -entrar ouviu Luiza cantarolando, como outr'ora, a _Mandolinata_! - -Estava-se a vestir. - ---Como ests tu?--perguntou, pondo a um canto a sua bengala. - ---Estou boa. Hoje estou muito melhor. Um bocado fraca ainda... - -Jorge deu alguns passos pelo quarto, taciturno. - ---E tu?--perguntou-lhe ella. - ---P'ra aqui ando--disse to desconsoladamente que Luiza pousou o pente, -e com os cabellos soltos veio pr-lhe as mos nos hombros, muito -carinhosa: - ---Que tens tu? Tu tens alguma cousa. Estranho-te tanto ha dias! No s -o mesmo! s vezes ests com uma cara de ro... Que ? Dize. - -E os seus olhos procuravam os d'elle, que se desviavam perturbados. - -Abraou-o. Insistia, queria que dissesse tudo sua mulherzinha. - ---Dize. Que tens? - -Elle olhou-a muito, e de repente, com uma resoluo violenta: - ---Pois bem, digo-te. Tu agora ests boa, pdes ouvir... Luiza! vivo -n'um inferno ha duas semanas. No posso mais... Tu ests boa, no -verdade? Pois bem, que quer dizer isto? Dize a verdade! - -E estendeu-lhe a carta de Bazilio. - ---O que ?--fez ella muito branca. E o papel dobrado tremia-lhe na mo. - -Abriu-a devagar, viu a letra de Bazilio, n'um relance adivinhou-a. -Fixou Jorge um momento d'um modo desvairado, estendeu os braos sem -poder fallar, levou as mos cabea com um gesto ancioso como se se -sentisse ferida, e oscillando, com um grito rouco, cahiu sobre os -joelhos, ficou estirada no tapete. - -Jorge gritou. As criadas acudiram. Estenderam-na na cama. Elle quiz que -Joanna corresse a chamar Sebastio; e ficou, como petrificado, junto -ao leito, olhando-a, em quanto Marianna toda tremula desatacava os -espartilhos da senhora. - -Sebastio veio logo. Felizmente havia ether, fizeram-lh'o respirar; -apenas abriu lentamente os olhos, Jorge precipitou-se sobre ella: - ---Luiza, ouve, falla! No, no tem duvida. Mas falla. Dize, que tens? - -Ao ouvir a voz d'elle desmaiou outra vez. Movimentos convulsivos -sacudiam-lhe o corpo. Sebastio correu a buscar Julio. - -Luiza parecia adormecida agora, immovel, branca como cera, as mos -pousadas sobre a colcha; e duas lagrimas corriam-lhe devagar pelas -faces. - -Um trem parou. Julio appareceu esbaforido. - ---Achou-se mal de repente... V, Julio. Est muito mal!--disse Jorge. - -Fizeram-lhe respirar mais ether; despertou outra vez. Julio -fallou-lhe, tomando-lhe o pulso. - ---No, no, ninguem!--murmurou ella, retirando a mo. Repetiu com -impaciencia:--No, vo-se, no quero...--As suas lagrimas redobravam. -E como elles sahiam da alcova para a no excitar contrariando-a, -ouviram-na chamar:--Jorge! - -Elle ajoelhou-se ao p da cama, e fallando-lhe junto do rosto: - ---Que tens tu? No se falla mais em tal. Acabou-se. No estejas doente. -Juro-te, amo-te... Fosse o que fosse, no me importa. No quero saber, -no. - -E como ella ia fallar, elle pousou-lhe a mo na bocca: - ---No, no quero ouvir. Quero que estejas boa, que no soffras! Dize -que ests boa! Que tens? Vamos manh para o campo, e esquece-se tudo. -Foi uma cousa que passou... - -Ella disse apenas com a voz sumida: - ---Oh! Jorge! Jorge! - ---Bem sei... Mas agora vaes ser feliz outra vez... Dize, que sentes? - ---Aqui--disse ella, e levava as mos cabea.--De-me! - -Elle ergueu-se para chamar Julio, mas ella reteve-o, attrahiu-o; e -devorando-o com olhos onde a febre se accendia, adiantando o rosto, -estendia-lhe os labios. Elle deu-lhe um beijo inteiro, sincero, cheio -de perdo. - ---Oh! minha pobre cabea!--gritou ella. - -As fontes latejavam-lhe, e uma cr ardente, scca, esbrazeava-lhe o -rosto. - -Como era habituada a enxaquecas, Julio traquillisou-os; recommendou um -socego immovel e sinapismos de mostarda aos ps,--at que elle voltasse. - -Jorge ficou junto do leito, taciturno, cortado de presentimentos, de -sustos, suspirando s vezes. - -Eram ento quatro horas; cahia uma chuva miudinha, ennevoada; a alcova -tinha uma luz lugubre. - ---No ha-de ser nada...--dizia Sebastio. - -Luiza agitava-se no leito, apertando as mos na cabea, torturada pela -dr crescente, cheia de sde. - -Marianna acabava d'arrumar em pontas de ps, vagamente assombrada -d'aquella casa, onde s vira desgosto e doena: mas s o pousar subtil -dos seus passos fazia soffrer Luiza, como se fossem martelladas sobre o -craneo. - -Julio no tardou; logo da porta do quarto, o aspecto d'ella -inquietou-o. Accendeu um phosphoro, aproximou-lh'o do rosto; e aquella -luz fez-lhe dar um grito como se um ferro frio lhe trespassasse a -cabea. - -Os olhos dilatados tinham um reluzir metallico. Conservava-se muito -quieta, porque o gesto mais lento lhe dava na nuca dres penetrantes -que a dilaceravam. S de vez em quando sorria para Jorge com uma -expresso d'afflico serena e muda. - -Julio fez logo pr tres travesseiros, para lhe conservar a cabea -alta. Fra cahia o crepusculo humido. Andavam em bicos de ps, com -cuidado; e mesmo tiraram o relogio da parede para afastar o _tic-tac_ -monotono. Ella comeava agora a murmurar sons canados, e a voltar-se -com movimentos bruscos que lhe arrancavam gritos; ou immovel gemia d'um -modo continuo e angustioso. Tinham-lhe envolvido as pernas n'um longo -sinapismo; mas no o sentia. Pelas nove horas comeou a delirar; a -lingua tornra-se-lhe branca e dura, como de gesso sujo. - -Julio fez logo applicar na cabea compressas d'agua fria. Mas o -delirio exacerbava-se. - -Ora tinha um murmurio espesso, um vago rosnar modorrento--onde os nomes -de Leopoldina, de Jorge, de Bazilio voltavam incessantemente: depois -debatia-se, esgaava a camisa com as mos; e, arqueando-se, os seus -olhos rolavam, como largos bugalhos prateados onde a pupilla se sumia. - -Socegava mais; dava risadinhas d'uma doura idiota; tinha gestos -lentos sobre o lenol, que aconchegavam e acariciavam, como n'um -gozo tepido: depois comeava a respirar anciosamente, vinham-lhe -expresses torturadas de terror, queria enterrar-se nos travesseiros e -nos colxes, fugindo a aspectos pavorosos: punha-se ento a apertar a -cabea phreneticamente, pedia que lh'a abrissem, que a tinha cheia de -pedras, que tivessem piedade d'ella!--e fios de lagrimas corriam-lhe -pelo rosto. No sentia os sinapismos; expunham-lhe agora os ps ns -ao vapor d'agua a ferver, carregada de mostarda; um cheiro acre -adstringia o ar do quarto. Jorge fallava-lhe com toda a sorte de -palavras consoladoras e supplicantes: pedia-lhe que socegasse, que o -conhecesse; mas de repente ella desesperava-se, gritava pela carta, -maldizia Juliana--ou ento dizia palavras d'amor, enumerava sommas de -dinheiro... Jorge temia que aquelle delirio revelasse tudo a Julio, -s criadas: tinha um suor raiz dos cabellos--e quando ella, um -momento, julgando-se no _Paraiso_ e nas exaltaes do adulterio, chamou -Bazilio, pediu _champagne_, teve palavras libertinas, Jorge fugiu da -alcova allucinado, foi para a sala s escuras, atirou-se para o divan a -soluar, arrepellou-se, blasphemou. - ---Est em perigo?--perguntou Sebastio. - ---Est--disse Julio.--Se sentisse os sinapismos, ao menos! Mas estas -malditas febres cerebraes... - -Calaram-se vendo Jorge entrar na alcova, com o rosto manchado, -esguedelhado. - -E Julio tomando-o pelo brao, levando-o para fra: - ---Ouve l, necessario cortar-lhe o cabello, e rapar-lhe a cabea. - -Jorge olhou-o com um ar estupido: - ---O cabello?--E agarrando-lhe os braos:--No, Julio, no, hein? -Pde-se fazer outra cousa. Tu deves saber. O cabello no! No! Isso -no, pelo amor de Deus! Ella no est em perigo. P'ra qu? - -Mas aquella massa de cabello era o diabo, impedia a aco da agua! - ---manh, se fr necessario. manh! Espera at manh... Obrigado, -Julio, obrigado! - -Julio consentiu, contrariado. Fazia ento humedecer constantemente -as compressas da cabea, e como Marianna tremula, desgeitosa, molhava -muito o travesseiro, foi Sebastio que se collocou cabeceira da cama, -toda a noite, espremendo sem cessar uma esponja, d'onde a agua gotejava -lentamente; tinham jarros fra da varanda, na sala, para dar agua uma -frialdade gelada. O delirio alta noite acalmra um pouco. Mas o seu -olhar injectado tinha um aspecto selvagem: as pupillas pareciam apenas -um ponto negro. - -Jorge, sentado aos ps da cama, com a cabea entre as mos, olhava -para ella: lembravam-lhe vagamente outras noites de doena assim, -quando ella tivera a pneumonia: e melhorra! At ficra mais linda, -com tons de pallidez que lhe adoavam a expresso! Iriam para o campo -quando ella convalescesse: alugaria uma casinha: voltaria noite no -omnibus, e vl-a-hia de longe na estrada vindo ao seu encontro, com um -vestido claro, na tarde suave!... Mas ella gemia, elle erguia os olhos -sobresaltado: e no lhe parecia a mesma: afigurava-se-lhe que se ia -dissipando, desapparecendo n'aquelle ar de febre que enchia a alcova, -no silencio morbido da noite, e no cheiro da mostarda. Um soluo -sacudia-o, e recahia na sua immobilidade. - -Joanna, em cima, rezava. As velas, com uma chamma alta e direita, -extinguiam-se. - -Emfim uma vaga claridade desenhou nos transparentes brancos os -caixilhos da vidraa. Amanhecia. Jorge ergueu-se, foi olhar para a rua. -No chovia; a calada seccava. O ar tinha uma vaga cr d'ao. Tudo -dormia: e uma toalha, esquecida janella das Azevedos, agitava-se ao -vento frio, silenciosamente. - -Quando entrou na alcova Luiza fallava com uma voz extincta: sentia -muito vagamente os sinapismos, mas a dr de cabea no cessava. -Comeou a agitar-se--e o delirio d'ahi a pouco voltou. Julio, ento, -determinou que se lhe rapasse o cabello. - -Sebastio foi acordar um barbeiro na rua da Escla--que veio logo, com -um ar transido, a gola do casaco levantada; e batendo o queixo comeou -a tirar immediatamente d'um sacco de couro as navalhas, as tesouras, -devagar, com as mos molles da gordura das pomadas. - -Jorge foi refugiar-se na sala: parecia-lhe que grandes pedaos -mutilados da sua felicidade cahiam com aquellas lindas tranas, -destruidas s tesouradas; e com a cabea nas mos recordava certos -penteados que ella usava, noites em que os seus cabellos se tinham -desmanchado nas alegrias da paixo, tons com que brilhavam luz... -Voltou ao quarto, attrahido irresistivelmente; sentiu na alcova o -ruido secco e metallico das tesouras; sobre a mesa, n'uma caixa de -sabo, estava um velho pincel de barba, entre flocos d'espuma... Chamou -Sebastio baixo: - ---Dize-lhe que se avie! Esto-me a matar a fogo lento! de mais. Que -ande depressa! - -Foi sala de jantar, errou pela casa: a manh fria clareava; -erguera-se vento, que ia levando, aos pedaos, nuvens d'um tom alvadio. - -Quando tornou a entrar no quarto, o barbeiro guardava as navalhas com a -mesma lentido molle; e tomando o seu chapo desabado, sahiu em bicos -de ps, murmurando n'um tom funerario: - ---Estimo as melhoras. Deus ha-de permittir que no seja nada... - -O delirio com effeito d'ahi a uma hora acalmou:--e Luiza cahiu n'uma -somnolencia prostrada com gemidos fracos, que sahiam de seus labios -como a lamentao interior da vida vencida. - -Jorge tinha ento dito a Sebastio que desejava chamar o doutor -Caminha. Era um medico velho que tratra sua mi, e que curra Luiza da -pneumonia, no segundo anno de casada. Jorge conservra uma admirao -agradecida por aquella reputao antiquada; e agora a sua esperana -voltava-se sofregamente para elle, anciando pela sua presena como pela -appario d'um santo. - -Julio condescendeu logo. At estimava! E Sebastio desceu correndo, -para ir a casa do dr. Caminha. - -Luiza, que sahira um momento do seu torpr, sentiu-os fallar baixo. A -sua voz extincta chamou Jorge: - ---Cortaram-me o cabello...--murmurou tristemente. - --- para te fazer bem--disse-lhe Jorge, quasi to agonisante como -ella.--Cresce logo. At te vem melhor... - -Ella no respondeu; duas lagrimas silenciosas correram-lhe pelos cantos -dos olhos. - -Devia ser a sua ultima sensao: a prostrao comatosa ia-a -immobilisando, apenas a sua cabea rolava n'um movimento dce e -vagaroso sobre o travesseiro, gemendo sempre com um cansao triste; -a pelle empallidecia como um vidro de janella, por traz do qual -lentamente uma luz se apaga; e mesmo os ruidos da rua que comeavam no -a impressionavam, como se fossem muito distantes e abafados em algodo. - -Ao meio dia D. Felicidade appareceu. Ficou petrificada quando a viu -to mal: e ella que a vinha buscar para irem Encarnao, talvez s -lojas! Tirou logo o chapo, installou-se; fez arranjar a alcova, tirar -as bacias, os velhos sinapismos que arrastavam, compr a cama--porque -no havia peor p'ra um doente que desarranjo no quarto: e muito -corajosamente animava Jorge. - -Uma carruagem parou porta. Era o doutor Caminha, emfim!... Entrou -atabafado no seu cachenez de quadrados verdes e pretos, queixando-se -muito do frio;--e tirando devagar as grossas luvas de casimira, que -pz dentro do chapo methodicamente, adiantou-se para a alcova com um -passo cadenciado, acamando com a mo as suas repas grisalhas j muito -colladas ao craneo pela escova. - -Julio e elle ficaram ss na alcova. - -No quarto os outros esperavam calados, ao p de Jorge, pallido como -cra, com os olhos vermelhos como carves. - ---Vai-se-lhe pr um caustico na nuca--veio dizer Julio. - -Jorge devorava com o olhar ancioso o doutor Caminha, que se pozera a -calar tranquillamente as suas luvas de casimira, dizendo: - ---Vamos a vr com o caustico. No est bem... Mas ha ainda peor. E eu -volto, meu amigo, eu volto. - -O caustico foi inutil. No o sentia, immovel e branca, com as feies -crispadas; e tremuras passaram-lhe de repente nos nervos da face como -vibraes fugitivas. - ---Est perdida--disse Julio baixo a Sebastio. - -D. Felicidade ficou muito aterrada, fallou logo nos sacramentos. - ---P'ra qu?--resmungou Julio impaciente. - -Mas D. Felicidade declarou que tinha escrupulos, que era um peccado -mortal; e chamando Jorge para o vo da janella, toda tremula: - ---Jorge, no se assuste, mas seria bom pensar nos sacramentos... - -Elle murmurava como assombrado: - ---Os sacramentos! - -Julio chegou-se bruscamente, e quasi zangado: - ---Nada de tolices! Qual sacramentos! P'ra qu? Ella nem ouve, nem -comprehende, nem sente. necessario deitar-lhe outro caustico, talvez -ventosas, e o que ! Isso que so os sacramentos! - -Mas D. Felicidade escandalisada, muito abalada, comeou a chorar. -Esqueciam Deus, e em Deus que est o remedio!--dizia, assoando-se com -estrondo. - ---Pelo que Deus faz por mim...--exclamou Jorge, sahindo do seu torpr. -E batendo as mos, como revoltado por uma injustia:--Porque realmente, -que fiz eu p'ra isto? Que fiz eu!... - -Julio ordenra outro caustico. Havia agora na casa um movimento -allucinado. Joanna entrava de repente com um caldo inutil que ninguem -pedira, os olhos muito vermelhos de chorar. Marianna soluava pelos -cantos. D. Felicidade ia, vinha pelo quarto, refugiando-se na sala para -rezar, fazendo promessas, lembrando que se chamasse o doutor Barbosa, o -doutor Barral. - -E Luiza no entanto estava immovel; uma cr macilenta ia-lhe dando s -faces tons cavados e rigidos. - -Julio extenuado pediu um calix de vinho, uma fatia de po. -Lembraram-se ento que desde a vespera no tinham comido, e foram -sala de jantar onde Joanna, sempre lavada em lagrimas, serviu uma sopa, -e ovos. Mas no achava os colheres, nem os guardanapos; murmurava -rezas, pedia desculpa; em quanto Jorge, com os olhos inchados, fitos na -borda da mesa, a face contrahida, fazia dobras na toalha. - -Depois d'um momento pousou devagarinho a colhr, desceu ao quarto. -Marianna estava sentada aos ps do leito: Jorge disse-lhe que fosse -servir os senhores: e apenas ella sahiu, deixou-se cahir de joelhos, -tomou uma das mos de Luiza, chamou-a baixo; depois mais forte: - ---Escuta-me. Ouve, pelo amor de Deus. No estejas assim, faze por -melhorar. No me deixes n'este mundo, no tenho mais ninguem! -Perda-me. Dize que sim. Faze signal que sim ao menos. No me ouve, meu -Deus! - -E olhava-a anciosamente. Ella no se movia. - -Ergueu ento os braos ao ar n'uma desesperao allucinada. - ---Sabes que creio em ti, meu Deus. Salva-a! Salva-a!--E arremessava a -sua alma para as alturas:--Ouve, meu Deus! Escuta-me! S bom! - -Olhava em roda, esperando um movimento, uma voz, um acaso, um milagre! -Mas tudo lhe pareceu mais immovel. A face livida cavava-se; o leno que -lhe envolvia a cabea desarranjra-se, via-se o craneo rapado, d'uma -cr ligeiramente amarellada. Pz-lhe ento a mo na testa, hesitando, -com medo; pareceu-lhe que estava fria! Abafou um grito, correu para -fra do quarto, e deu com o doutor Caminha que entrava, tirando -pausadamente as luvas. - ---Doutor! Est morta! Veja. No falla, est fria... - ---Ento! Ento!--disse elle--Nada de barulho, nada de barulho! - -Tomou o pulso de Luiza, sentiu-o fugir sob os dedos, como a vibrao -expirante d'uma corda. - -Julio veio logo. E concordou com o doutor Caminha que as ventosas eram -inuteis. - ---J as no sente--disse o doutor, sacudindo o tabaco dos dedos. - ---Se se lhe dsse um copo de cognac?...--lembrou de repente Julio. E -vendo o olhar espantado do doutor:--s vezes estes symptomas de coma -no querem dizer que o cerebro esteja desorganisado: podem ser apenas -a inaco da fora nervosa exhausta. Se a morte irremediavel no -se perde nada; se apenas uma depresso do systema nervoso, pde-se -salvar... - -O doutor Caminha, com o beio descahido, oscillava incredulamente a -cabea: - ---Theorias!--murmurou. - ---Nos hospitaes inglezes...--comeou Julio. - -O doutor Caminha encolheu os hombros com desprezo. - ---Mas se o doutor lsse...--insistiu Julio. - ---No leio nada!--disse o doutor Caminha com fora--tenho lido de mais! -Os livros so os doentes...--E curvando-se, com ironia:--Mas se o meu -talentoso collega quer fazer a experiencia... - ---Um copo de cognac ou d'aguardente!--pediu Julio porta. - -E o doutor Caminha sentou-se commodamente para gozar o fracasso do -talentoso collega. - -Levantaram Luiza; Julio fez-lhe engulir o cognac; quando a deitaram -ficou na mesma immobilidade comatosa: o doutor Caminha tirou o -relogio, viu as horas, esperou: havia um silencio ancioso: emfim o -doutor ergueu-se, tomou-lhe o pulso, apalpou a frialdade crescente das -extremidades; e indo buscar silenciosamente o chapo comeou a calar -as luvas. - -Jorge foi com elle at porta: - ---Ento, doutor?--disse, agarrando com uma fora desvairada o brao. - ---Fez-se o que se pde--disse o velho, encolhendo os hombros. - -Jorge ficou estupido no patamar, vendo-o descer. As suas passadas -vagarosas nos degraus cahiam-lhe com uma percusso medonha no corao. -Debruou-se no corrimo, chamou-o baixo. O doutor parou, levantou os -olhos; Jorge pz as mos para elle, com uma anciedade humilde: - ---Ento no possivel mais nada? - -O doutor fez um gesto vago, indicou o co. - -Jorge voltou para o quarto, encostando-se s paredes. Entrou na alcova, -atirou-se de joelhos aos ps da cama, e alli ficou com a cabea entre -as mos n'um soluar baixo e continuo. - -Luiza morria: os seus braos to bonitos, que ella costumava acariciar -diante do espelho, estavam j paralysados; os seus olhos, a que a -paixo dera chammas e a voluptuosidade lagrimas, embaciavam-se como sob -a camada ligeira d'uma pulverisao muito fina. - -D. Felicidade e Marianna tinham accendido uma lamparina a uma gravura -de Nossa Senhora das Dres, e de joelhos rezavam. - -O crepusculo triste descia, parecia trazer um silencio funerario. - -A campainha, ento, tocou discretamente; e d'ahi a momentos appareceu a -figura do Conselheiro Accacio. D. Felicidade ergueu-se logo; e vendo as -suas lagrimas, o Conselheiro disse lugubremente: - ---Venho cumprir o meu dever, ajudar-lhes a passar este transe! - -Explicou que encontrra por acaso o bom doutor Caminha, que lhe -contra a fatal occorrencia! Mas muito discretamente no quiz -entrar na alcova. Sentou-se n'uma cadeira, collocou melancolicamente -o cotovlo sobre o joelho, a testa sobre a mo, dizendo baixo a D. -Felicidade: - ---Continue as suas oraes. Deus imperscrutavel em seus decretos. - -Na alcova, Julio estivera tomando o pulso de Luiza; olhou ento -Sebastio, fez-lhe o gesto d'alguma cousa que va e desapparece... -Aproximaram-se de Jorge, que no se movia, de joelhos, com a face -enterrada no leito: - ---Jorge--disse baixinho Sebastio. - -Elle levantou o rosto desfigurado, envelhecido, os cabellos nos olhos, -as olheiras escuras. - ---V, vem--disse Julio. E vendo o espanto do seu olhar:--No, no est -morta, est n'aquella somnolencia... Mas vem. - -Elle ergueu-se, dizendo com mansido: - ---Pois sim, eu vou. Estou bem... Obrigado. - -Sahiu da alcova. - -O Conselheiro levantou-se, foi abraal-o com solemnidade: - ---Aqui estou, meu Jorge! - ---Obrigado, Conselheiro, obrigado. - -Deu alguns passos pelo quarto; os seus olhos pareciam preoccupar-se -com um embrulho que estava sobre a mesa; foi apalpal-o; desapertou as -pontas, e viu os cabellos de Luiza. Ficou a olhal-os, erguendo-os, -passando-os d'uma das mos para outra, e disse com os beios a tremer: - ---Fazia tanto gosto n'elles, coitadinha! - -Tornou a entrar na alcova. Mas Julio tomou-lhe o brao, queria-o -afastar do leito. Elle debatia-se dcemente; e, como uma vela ardia -sobre a mesinha ao p da cabeceira, disse, mostrando-a: - ---Talvez a incommode a luz... - -Julio respondeu commovido: - ---J no a v, Jorge! - -Elle soltou-se da mo de Julio, foi debruar-se sobre ella; tomou-lhe -a cabea entre as mos com cuidado para a no magoar, esteve a olhal-a -um momento; depois pousou-lhe sobre os labios frios um beijo, outro, -outro, e murmurava: - ---Adeus! Adeus! - -Endireitou-se, abriu os braos, cahiu no cho. - -Todos correram. Levaram-no para a _chaise-longue_. - -E em quanto D. Felicidade n'um pranto afflicto fechava os olhos de -Luiza, o Conselheiro, com o chapo sempre na mo, cruzava os braos, e -oscillando a sua calva respeitavel, dizia a Sebastio: - ---Que profundo desgosto de familia! - - - - -XVIII - - -Depois do enterro de Luiza, Jorge despediu as criadas, foi para casa de -Sebastio. - -N'essa noite pelas nove horas o Conselheiro Accacio, muito abafado, -descia o Moinho de Vento, quando encontrou Julio, que vinha de vr um -doente na rua da Rosa. Foram andando juntos, conversando de Luiza, do -enterro, da afflico de Jorge. - ---Pobre rapaz! Aquillo que soffrer!--disse Julio compadecido. - ---Era uma esposa modlo!...--murmurou o Conselheiro. - -De resto, disse, vinha justamente de casa do bom Sebastio, mas no -podra vr o seu Jorge; tinha-se estirado sobre a cama, e dormia -profundamente. - -E acrescentou: - ---Ultimamente lia eu que aos grandes golpes succedem sempre somnos -prolongados. Assim, por exemplo, Napoleo depois de Waterloo, depois do -grande desastre de Waterloo! - -E passado um momento, continuou: - --- verdade. Fui vr o nosso Sebastio... Fui mostrar-lhe...--E -interrompendo-se, parando:--Porque eu entendi que era o meu dever -dedicar um tributo memoria da infeliz senhora. Era o meu dever, e no -me eximi a elle! E estimo tel-o encontrado, porque quero saber a sua -opinio conscienciosa e desassombrada. - -Julio tossiu, e perguntou: - --- um necrologio? - --- um necrologio. - -E o Conselheiro, apesar de no achar proprio, na sua posio, o entrar -em cafs publicos, lembrou a Julio que poderiam descanar um momento -no Tavares, se no estivesse muita gente, e elle poderia lr-lhe a -produco. - -Espreitaram. - -Estavam apenas, a uma mesa, dous velhos calados defronte dos seus -cafs, com os chapos na cabea, apoiados a bengalas de cana da India. -O moo dormitava ao fundo. Uma luz crua e intensa enchia a sala -estreita. - ---Ha um silencio propicio--disse o Conselheiro. - -Offereceu um caf a Julio; e tirando ento do bolso uma folha de papel -pautado, murmurou:--Infeliz senhora!--Inclinou-se para Julio, e leu: - - -NECROLOGIO - - MEMORIA DA SNR.^a D. LUIZA MENDONA DE BRITO CARVALHO - - - Rosa d'amor, rosa purpurea e bella, - Quem entre os goivos te esfolhou na campa? - - --- do immortal Garrett!--E continuou com uma voz lenta e lugubre: - -... Mais um anjo que subiu ao co! Mais uma flr pendida na tenra -haste que o vendaval da morte, em sua inclemente furia, arremessou mal -desabrochada para as trevas do tumulo... - -Olhou Julio para solicitar a sua admirao, e vendo-o curvado a -remexer o seu caf, proseguiu com entonaes mais funerarias: - ---Detende-vos, e olhai a terra fria! Alli jaz a casta esposa to cedo -arrancada s caricias do seu talentoso conjuge. Alli sossobrou, como -baixel no escarco da costa, a virtuosa senhora, que em sua folgaz -natureza era o encanto de quantos tinham a honra de se aproximar do seu -lar! Por que soluaes? - ---Um caf, Antonio!--bradou a voz rouca de um sujeito grosso, de -jaqueto, que se sentou ao p, pondo com ruido a bengala sobre a mesa e -deitando o chapo para o cachao. - -O Conselheiro olhou-o de lado, com rancor. E baixando a voz: - ---...No soluceis! Que o anjo se no pertence terra pertence ao -co!... - ---O s Guedes esteve j por ahi?--perguntou a voz rouca. - -O criado disse de traz do balco, limpando com uma rodilha as travessas -de metal: - ---Ainda no, snr. D. Jos! - ---...Alli--continuou o Conselheiro--seu espirito, librando-se nas -candidas azas, enta louvores ao Eterno! E no cessa de pedir ao -Omnipotente mercs e favores para derramar sobre a cabea do dilecto -esposo, que um dia, no duvideis, a encontrar nas regies celestes, -patria das almas de to subido quilate...--E a voz do Conselheiro -aflautava-se para indicar aquella ascenso paradisiaca. - ---E hontem noite esteve c, o s Guedes?--insistiu o sujeito de -jaqueto com os cotovlos sobre a mesa, fumando como uma chamin. - ---Esteve tarde. L pelas duas horas. - -O Conselheiro sacudiu o papel com um desespero mudo: por traz dos -vidros da luneta escura fusilavam-lhe nos olhos os despeitos homicidas -de author interrompido. Mas proseguiu: - ---...E vs, almas sensiveis, vertei as lagrimas, mas vertendo-as, -no percaes de vista que o homem deve curvar-se aos decretos da -Providencia... - -E interrompendo-se: - ---Isto para dar coragem ao nosso pobre Jorge!--Continuou:--...da -Providencia. Deus conta mais um anjo, e a sua alma brilha pura... - ---Esteve com a pequena, o s Guedes?--fez o sujeito, quebrando no -marmore da mesa a cinza do charuto. - -O Conselheiro suspendeu-se pallido de raiva: - ---Deve ser pessoa da mais baixa extraco--rosnou com odio. - -E o criado erguendo a vozinha fina detraz do balco: - ---Nada, no; tem vindo agora com uma hespanhola d'ahi de cima da rua. -Uma magrinha, com o cabello riado, uma capa vermelha... - ---A Lola!--acudiu o outro com satisfao. E espreguiou-se com -voluptuosidade recordao da Lola. - -O Conselheiro agora apressava-se: - -... E de resto, o que a vida? Uma rapida passagem sobre o orbe, e um -vo sonho de que acordamos no seio do Deus dos Exercitos, de que todos -somos indignos vassallos. - -E com esta phrase monarchica o Conselheiro terminou. - ---Que lhe parece, com franqueza? - -Julio sorveu o fundo da chavena, e collocando-a devagar no pires, -lambendo os beios: - --- para imprimir? - ---Na _Voz Popular_, com tarjeta preta. - -Julio coou convulsivamente a caspa, e erguendo-se: - ---Est muito bom. Muito bom, Conselheiro! - -E Accacio procurando o troco para o moo: - ---Creio que est digno d'ella, e de mim! - -E sahiram calados. - -A noite estava muito escura: erguera-se um nordeste frio: gotas de -chuva tinham cahido. Ao Loreto, Julio parou subitamente; e exclamou: - ---Ai esquecia-me! Sabe a novidade, Conselheiro? A D. Felicidade -recolhe-se Encarnao. - ---Ah! - ---Disse-m'o agora. Eu fui justamente vl-a antes de ir vr um doente -rua da Rosa. Estava com uma febresita. Cousa de nada... A commoo; o -susto! E deu-me parte: recolhe-se manh Encarnao. - -O Conselheiro disse: - ---Sempre conheci n'aquella senhora idas retrogradas. o resultado das -manobras jesuiticas, meu amigo!--E ajuntou com a melancolia do liberal -descontente:--A reaco levanta a cabea! - -Julio tomou familiarmente o brao do Conselheiro, e sorrindo: - ---Qual reaco! por sua causa, ingrato... - -O Conselheiro estacou: - ---Que quer o meu nobre amigo insinuar? - ---Sim, homem! No sei como diabo descobriu uma cousa grave... - ---O que? Acredite... - ---O que eu tambem descobri, seu magano! Que o Conselheiro tem duas -travesseirinhas na cama, tendo s uma cabea... Disse-m'o ella!--E -rindo muito, dizendo-lhe _adeus_! _adeus!_ desceu rapidamente a rua do -Alecrim. O Conselheiro ficou immovel, no largo, de braos cruzados, -como petrificado.--Que infeliz senhora! Que funesta paixo!--murmurou -emfim. E acariciou o bigode, com satisfao. - -Como tinha de passar a limpo o _Necrologio_ apressou-se a entrar -em casa. Abancou com uma manta sobre os joelhos; bem depressa as -responsabilidades de prosador distrahiram-no das preoccupaes -d'homem; e at s onze horas a sua bella letra cursiva e burocratica -desenrolou-se nobremente sobre uma larga folha de papel inglez, no -silencio do seu _Sanctus Sanctorum_. Terminava quando a porta rangeu, -e a Adelaide, com um chale forte pelos hombros, veio dizer, n'uma voz -constipada: - ---Ento hoje no se faz nn? - ---No tardo, minha Adelaide, no tardo! - -E releu baixo, enlevado. Pareceu-lhe ento que o final no era -commovente: queria terminar por uma exclamao dolorosa, prolongada -como um _ai!_ Meditou, com os cotovlos sobre a mesa, a cabea entre os -dedos muito abertos: Adelaide ento, chegando-se devagar, passou-lhe a -mo pela calva: aquelle dce roar amoroso fez de certo saltar a ida -como uma faisca, porque tomou rapidamente a penna, e acrescentou: - ---Chorai! Chorai! Em quanto a mim, a dr suffoca-me! - -Esfregou as mos com orgulho. Repetiu alto n'um tom plangente: - ---Chorai, Chorai, em quanto a mim, a dr suffoca-me!--E passando o -brao concupiscente pela cinta da Adelaide, exclamou: - ---Est de fazer sensao, minha Adelaide! - -Ergueu-se. Tinha terminado o seu dia. Fra bem preenchido e digno: da -manh certificra-se com regosijo no _Diario do Governo_, que a familia -real passava sem novidade; cumprira o dever d'amigo, acompanhando -Luiza aos Prazeres n'uma carruagem da Companhia; a alta das inscripes -assegurava-lhe a paz da sua patria; compozera uma prosa notavel; -a sua Adelaide amava-o! E de certo se deliciou na certeza d'estas -felicidades, que contrastavam tanto com as imagens sepulchraes que a -sua penna revolvera, porque Adelaide ouviu-o murmurar: - ---A vida um bem inestimavel!--E acrescentar como bom -cidado:--Sobretudo n'esta era de grande prosperidade publica! - -E entrou no quarto com a cabea erecta, o peito cheio, os passos -firmes, erguendo alto o castial. - -A sua Adelaide seguia-o, bocejando; estava canada da constipao -e--de uma hora de ternuras, que tivera tardinha, com o louro e meigo -Arnaldo, caixeiro da _Loja da America_. - - -quella hora dous homens desciam d'uma carruagem porta do Hotel -Central: um trazia uma _ulster_ de xadrez, o outro uma longa pellia. -Um omnibus quasi ao mesmo tempo parou, carregado de bagagens. - -Um criado allemo, que conversava em baixo com o porteiro, -reconheceu-os logo, e tirando o cco: - ---Oh snr. D. Bazilio! Oh snr. visconde! - -O visconde Reynaldo, que batia os ps nas lages, rosnou de dentro da -sua pellia: - --- verdade, aqui estamos outra vez na possilga! - -Mas quella hora? - ---A que horas queria voss que chegassemos? s horas da tabella, -talvez! Doze horas d'atrazo, essa bagatella! Em Portugal quasi nada... - ---Houve algum transtorno?--perguntava o criado com solicitude, -seguindo-os pela escada. - -E Reynaldo, pisando com um p nervoso o esparto do corredor: - ---O transtorno nacional! Descarrilou tudo! Estamos aqui por milagre! -Abjecto paiz!...--E desabafava a sua clera com o criado: tel-a-hia -desabafado com as pedras da rua, tanto era o excesso da bilis:--Ha -um anno que a minha orao esta: Meu Deus, manda-lhe outra vez o -terromoto! Pois todos os dias leio os telegrammas a vr se o terromoto -chegou... e nada! Algum ministro que cahe, ou algum baro que surge. -E de terremoto nada! O Omnipotente faz ouvidos de mercador s minhas -preces... Protege o paiz! To bom um como outro!--E sorria, vagamente -reconhecido a uma nao, cujos defeitos lhe forneciam tantas pilherias. - -Mas quando o criado, muito consternado, lhe declarou--que no havia -seno um salo e uma alcova com duas camas, no terceiro andar--a clera -de Reynaldo no conheceu restrices: - ---Ento havemos de dormir no mesmo quarto? Voss pensa que o snr. D. -Bazilio meu amante, seu devasso? Est tudo cheio? Mas quem diabo -se lembra de vir a Portugal? Estrangeiros? justamente o que me -espanta!--E encolhendo os hombros com rancr.-- o clima, o clima -que os attrahe! O clima, este prodigioso engodo nacional! Um clima -pestifero. No ha nada mais reles de que um bom clima!... - -E no cessou d'invectivar o seu paiz, em quanto o criado pressa, -sorrindo servilmente, punha sobre a jardineira pratos, fiambre, um -frango frio e Bourgogne. - -Reynaldo vinha vender a ultima propriedade, e acompanhra Bazilio que -voltava a terminar o seccante negocio da borracha. E no cessava de -rosnar soturnamente de dentro da pellia: - ---Aqui estamos! Aqui estamos no chiqueiro! - -Bazilio no respondia. Desde que chegra a Santa Apolonia, recordaes -do _Paraiso_, da casa de Luiza, de todo aquelle romance do vero -passado, comeavam a voltar, a attrahil-o, com um encanto picante. Fra -encostar-se vidraa. Uma lua fria, livida, corria agora entre grossas -nuvens cr de chumbo: s vezes uma grande malha luminosa cahia sobre a -agua, faiscava: depois tudo escurecia: vagas mastreaes desenhavam-se -na obscuridade diffusa: e algum fanal de navio tremeluzia friamente. - ---Que far ella a esta hora?--pensava Bazilio.--Naturalmente, -deitava-se... Mal sabia que elle estava alli, n'um quarto do Hotel -Central... - -Cearam. - -Bazilio levou a garrafinha de cognac para a cabeceira da cama: e com a -cara coberta de p d'arroz, os folhos da sua camisa de dormir abertos -sobre o peito, muito estendido, soprando o fumo do charuto, gozava uma -lassido confortavel. - ---E manh estou-te d'aqui a vr--disse Reynaldo.--Vaes-te logo metter -com a prima! - -Bazilio sorriu, o seu olhar errou um pouco pelo tecto; certas -recordaes das bellezas d'ella, do seu temperamento amoroso, -trouxeram-lhe uma vaga voluptuosidade: espreguiou-se.--Que -diabo!--disse-- uma linda rapariga! Vale immenso a pena!--Bebeu mais -um calice de cognac, e d'ahi a pouco dormia profundamente. Era meia -noite. - -quella hora Jorge acordava, e sentado n'uma cadeira, immovel, com -soluos canados que ainda o sacudiam, pensava n'ella. Sebastio, no -seu quarto, chorava baixo. Julio, no Posto Medico, estendido n'um -soph, lia a _Revista dos Dous Mundos_. Leopoldina danava n'uma -_soire_ da Cunha. Os outros dormiam. E o vento frio que varria as -nuvens e agitava o gaz dos candieiros ia fazer ramalhar tristemente uma -arvore sobre a sepultura de Luiza. - - -D'ahi a dous dias pela manh Bazilio, no Rocio, procurava, com o olhar -em redor, um _coup_ decente. Mas o Pintos, avistando-o de longe, -lanou logo a parelha. C est o Pintos, meu amo! Parecia encantado de -tornar a vr o snr. D. Bazilinho, e apenas elle lhe disse: - ---L acima, Patriarchal, Pintos! - ---A casa da senhora? Prompto, meu amo.--E endireitando-se na almofada, -bateu. - -Quando a tipoia parou porta de Jorge--o Paula sahiu para a rua, a -estanqueira correu de dentro do balco, a criada do doutor debruou-se -logo na janella. E immoveis arregalavam os olhos. - -Bazilio tocra a campainha, um pouco nervoso: esperou, arremessou o -charuto, tornou a puxar o cordo com fora. - ---As janellas esto trancadas, meu amo--disse o Pintos. - -Bazilio recuou ao meio da rua: as portadas verdes estavam fechadas, a -casa tinha um aspecto mudo. - -Bazilio dirigiu-se ao Paula: - ---Os senhores que alli moram, esto p'ra fra? - ---J no moram--disse o Paula soturnamente, passando a mo sobre o -bigode. - -Bazilio fixou-o, surprehendido d'aquella entonao funebre. - ---Onde vivem agora ento? - -O Paula escarrou, e cravando em Bazilio um olhar desolado: - ---V. s.^a o parente? - -Bazilio disse sorrindo: - ---Sou o parente, sou. - ---Ento no sabe? - ---O qu, homem de Deus? - -O Paula esfregou o queixo, e bamboleando a cabea: - ---Pois sinto dizer-lh'o. A senhora morreu. - ---Que senhora?--perguntou Bazilio. E fez-se muito branco. - ---A senhora! A senhora D. Luiza, a mulher do snr. Carvalho, o -Engenheiro... E o snr. Jorge est em casa do snr. Sebastio. Alli ao -fim da rua. Se v. s.^a l quer ir... - ---No!--fez Bazilio com um gesto rapido da mo. Os beios tremiam-lhe -um pouco.--Mas que foi? - ---Uma febre! Rapou-a em dous dias! - -Bazilio dirigiu-se ao _coup_ devagar, com a cabea baixa. Olhou mais -uma vez para a casa; fechou com fora a portinhola. O Pintos _bateu_ -p'ra a Baixa. - -O Paula ento aproximou-se do estanque: - ---No lhe fez muita mssa! Fidalgos! Canalha!--murmurou. - -A estanqueira disse lamentosamente: - ---Pois eu no sou parenta, e todas as noites lhe rezo dous padre-nossos -por alma... - ---E eu!--suspirou a carvoeira. - ---Ha-de-lhe isso servir de muito!--rosnou o Paula, afastando-se. - -Estava ultimamente mais amargo. Vendia pouco. Aquellas mortes na rua -traziam-no desconfiado da vida. Cada dia detestava mais os padres! -e todas as noites lia a _Nao_ que lhe emprestava o Azevedo, -repastando-se com rancor d'artigos devotos, que o exasperavam, o -impelliam para o atheismo; e o descontentamento das cousas publicas -inclinava-o para a communa. Como elle dizia, achava tudo uma _porcaria_. - -Foi de certo sob este sentimento que, voltando porta do estanque, -disse s visinhas com um ar lugubre: - ---Sabem o que isto ? Sabem o que tudo isto ?--Fazia um gesto que -abrangia o universo. Fitou-as d'um modo irado, e rosnou esta palavra -suprema: - ---Um monte d'estrume! - - -Ao descer a rua do Alecrim, Bazilio viu o visconde Reynaldo porta do -hotel _Street_. Mandou parar o Pintos, e saltando do _coup_: - ---Sabes? - ---O qu? - ---Minha prima morreu. - -O visconde Reynaldo murmurou polidamente: - ---Coitada!... - -E foram descendo a rua, de brao dado, at ao Aterro. O dia estava -glorioso; um friosinho subtil errava; no ar luminoso, leve, trespassado -de sol, as casas, os galhos das arvores, os mastros das faluas, as -mastreaes dos navios tinham uma nitidez muito desenhada; os sons -sobresahiam com uma tonalidade cantada e alegre; o rio reluzia como um -metal azul; o vapor de Cacilhas ia soltando rolos de fumo que tomavam a -cr do leite; e ao fundo as collinas faziam na pulverisao da luz uma -sombra azulada, onde as casarias caiadas rebrilhavam. - -E os dous passeando devagar, iam fallando de Luiza. - -O visconde Reynaldo, delicado, lamentava a pobre senhora, coitada, que -se tinha deixado morrer por um tempo to lindo!--Mas em resumo, sempre -achra aquella ligao absurda... - -Porque emfim fossem francos: que tinha ella? No queria dizer mal da -pobre senhora que estava n'aquelle horror dos Prazeres, mas a verdade - que no era uma amante _chic_; andava em tipoias de praa; usava -meias de tear; casra com um reles individuo de secretaria; vivia numa -casinhola, no possuia relaes decentes; jogava naturalmente o quino, -e andava por casa de sepatos d'ourello; no tinha espirito, no tinha -_toilette_... que diabo! Era um trambolho! - ---Para um ou dous meses que eu estivesse em Lisboa...--resmungou -Bazilio com a cabea baixa. - ---Sim, p'ra isso talvez. Como hygiene!--disse Reynaldo com desdem. - -E continuaram calados, devagar. Riram-se muito d'um sujeito que passava -governando atarantadamente dous cavallos pretos:--Que phaeton! Que -arreios! Que estylo! S em Lisboa!... - -Ao fundo do Aterro voltaram; e o visconde Reynaldo passando os dedos -pelas suias: - ---De modo que ests sem mulher... - -Bazilio teve um sorriso resignado. E, depois d'um silencio, dando um -forte raspo no cho com a bengala: - ---Que ferro! Podia ter trazido a Alphonsine! - -E foram tomar Xerez _Taverna Ingleza_. - - - Setembro 1876--Setembro 1877. - - -FIM - - - - -Lista de erros corrigidos - - -Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos: - - - +----------+-------------------------+---------------------------+ - | | Original | Correco | - +----------+-------------------------+---------------------------+ - |#pg. 84 | Luzia | Luiza | - |#pg. 130 | arrebitanto | arrebitando | - |#pg. 155 | com ha-de d'estar? | como ha-de d'estar? | - |#pg. 190 | p dos portas | p das portas | - |#pg. 194 | enternciam-no | enterneciam-no | - |#pg. 209 | Lepoldina | Leopoldina | - |#pg. 215 | lacas | lascas | - |#pg. 263 | concialibulo | conciliabulo | - |#pg. 267 | Luzinha | Luizinha | - |#pg. 316 | dsesperadamente | desesperadamente | - |#pg. 328 | eperana | esperana | - |#pg. 333 | batendo-lho | batendo-lhe | - |#pg. 337 | de de p | de p | - |#pg. 404 | Leolpodina | Leopoldina | - |#pg. 404 | prodigiosomente | prodigiosamente | - |#pg. 425 | Sabastio | Sebastio | - |#pg. 427 | engmomados | engommados | - |#pg. 430 | Leolpodina | Leopoldina | - |#pg. 456 | apparer | apparecer | - |#pg. 457 | Julo | Julio | - |#pg. 457 | ao ouvindo | ao ouvido | - |#pg. 472 | cous | cousa | - |#pg. 477 | as palavra | as palavras | - |#pg. 482 | quizessse | quizesse | - |#pg. 494 | voltou dizer | voltou a dizer | - |#pg. 507 | apaixonado | apaixonada | - |#pg. 512 | d'aqulla | d'aquella | - |#pg. 521 | susurrro | susurro | - |#pg. 558 | illsues | illuses | - +----------+-------------------------+---------------------------+ - -No existem os captulo XI e XIV nesta obra: -No havendo interrupo na paginao respeitmos a ordem da obra original. - -A pgina 525 surge no original como 425. Corrigimos para 525 para manter -a ordem (aps verificao que no se tratava de uma pgina fora de stio). - - - - - -End of Project Gutenberg's O Primo Bazilio, by Jos Maria Ea de Queirs - -*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O PRIMO BAZILIO *** - -***** This file should be named 42942-8.txt or 42942-8.zip ***** -This and all associated files of various formats will be found in: - http://www.gutenberg.org/4/2/9/4/42942/ - -Produced by Rita Farinha, Alberto Manuel Brando Simes -and the Online Distributed Proofreading Team at -http://www.pgdp.net (This file was produced from images -generously made available by National Library of Portugal -(Biblioteca Nacional de Portugal).) - - -Updated editions will replace the previous one--the old editions -will be renamed. - -Creating the works from public domain print editions means that no -one owns a United States copyright in these works, so the Foundation -(and you!) can copy and distribute it in the United States without -permission and without paying copyright royalties. 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Newby - Chief Executive and Director - gbnewby@pglaf.org - -Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg -Literary Archive Foundation - -Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide -spread public support and donations to carry out its mission of -increasing the number of public domain and licensed works that can be -freely distributed in machine readable form accessible by the widest -array of equipment including outdated equipment. Many small donations -($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt -status with the IRS. - -The Foundation is committed to complying with the laws regulating -charities and charitable donations in all 50 states of the United -States. Compliance requirements are not uniform and it takes a -considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up -with these requirements. We do not solicit donations in locations -where we have not received written confirmation of compliance. 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Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm -concept of a library of electronic works that could be freely shared -with anyone. For forty years, he produced and distributed Project -Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support. - -Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed -editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S. -unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily -keep eBooks in compliance with any particular paper edition. - -Most people start at our Web site which has the main PG search facility: - - www.gutenberg.org - -This Web site includes information about Project Gutenberg-tm, -including how to make donations to the Project Gutenberg Literary -Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to -subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. diff --git a/42942-8.zip b/42942-8.zip Binary files differdeleted file mode 100644 index 8bfc91c..0000000 --- a/42942-8.zip +++ /dev/null diff --git a/42942-h.zip b/42942-h.zip Binary files differdeleted file mode 100644 index 10646aa..0000000 --- a/42942-h.zip +++ /dev/null diff --git a/42942-h/42942-h.htm b/42942-h/42942-h.htm index 2b44ad2..4ff4a71 100644 --- a/42942-h/42942-h.htm +++ b/42942-h/42942-h.htm @@ -4,9 +4,9 @@ <title>O Primo Bazilio</title> - <meta name="AUTHOR" content="Ea de Queirs" /> + <meta name="AUTHOR" content="Eça de Queirós" /> - <meta http-equiv="Content-Type" content="text/html; charset=ISO-8859-1" /> + <meta http-equiv="Content-Type" content="text/html; charset=UTF-8" /> <style type="text/css"> body {width: 80%; margin-left:10%; text-align: justify;} @@ -63,56 +63,16 @@ font-variant: normal;} <body> - - -<pre> - -The Project Gutenberg EBook of O Primo Bazilio, by Jos Maria Ea de Queirs - -This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with -almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or -re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included -with this eBook or online at www.gutenberg.org - - -Title: O Primo Bazilio - Episodio Domestico - -Author: Jos Maria Ea de Queirs - -Release Date: June 13, 2013 [EBook #42942] - -Language: Portuguese - -Character set encoding: ISO-8859-1 - -*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O PRIMO BAZILIO *** - - - - -Produced by Rita Farinha, Alberto Manuel Brando Simes -and the Online Distributed Proofreading Team at -http://www.pgdp.net (This file was produced from images -generously made available by National Library of Portugal -(Biblioteca Nacional de Portugal).) - - - - - - -</pre> - +<div>*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK 42942 ***</div> <div> <div class="fbox"> <b>Nota de editor:</b> -Devido -existncia de erros tipogrficos neste texto, -foram tomadas vrias decises quanto -verso final. Em caso de dvida, a grafia foi +Devido à +existência de erros tipográficos neste texto, +foram tomadas várias decisões quanto à +versão final. Em caso de dúvida, a grafia foi mantida de acordo com o original. No final deste livro -encontrar a lista de erros corrigidos.<br /> +encontrará a lista de erros corrigidos.<br /> <br /><div style="text-align: right; font-style: italic;">Rita Farinha (Junho 2013)</div></div> <br /> @@ -139,7 +99,7 @@ Rua da Cancella Velha, 70</div> <br /> <br /> <div class="bbox"><br /> -<h2>EA DE QUEIROZ +<h2>EÇA DE QUEIROZ </h2> <br /> <div class="sbreak"> @@ -155,7 +115,7 @@ EPISODIO DOMESTICO <div class="sbreak"> <hr /></div> <br /> -<h4>SEGUNDA EDIO, REVISTA +<h4>SEGUNDA EDIÇÃO, REVISTA </h4> <br /> <br /> @@ -210,38 +170,38 @@ Tinham dado onze horas no <em>cuco</em> da sala de jantar. Jorge fechou o volume de Luiz Figuier que estivera folheando devagar, estirado na velha <em>voltaire</em> -de marroquim escuro, espreguiou-se, bocejou e +de marroquim escuro, espreguiçou-se, bocejou e disse: <br /> <br /> -—Tu no te vaes vestir, Luiza? <br /> +—Tu não te vaes vestir, Luiza? <br /> <br /> —Logo. <br /> <br /> -Ficra sentada mesa, a lr <em>o Diario de Noticias</em>, -no seu roupo de manh de fazenda preta, -bordado a <em>soutache</em>, com largos botes de +Ficára sentada á mesa, a lêr <em>o Diario de Noticias</em>, +no seu roupão de manhã de fazenda preta, +bordado a <em>soutache</em>, com largos botões de madreperola; o cabello louro um pouco desmanchado, com um tom secco do calor do travesseiro, enrolava-se, -torcido no alto da cabea pequenina, de perfil bonito; +torcido no alto da cabeça pequenina, de perfil bonito; a sua pelle tinha a brancura tenra e lactea das -louras: com o cotovlo encostado mesa acariciava +louras: com o cotovêlo encostado á mesa acariciava <span class="pagenum">[6]</span> a orelha, e, no movimento lento e suave dos seus -dedos, dous anneis de rubis miudinhos davam scintillaes +dedos, dous anneis de rubis miudinhos davam scintillações escarlates. <br /> <br /> -Tinham acabado d'almoar. <br /> +Tinham acabado d'almoçar. <br /> <br /> A sala esteirada, alegrava, com o seu tecto de madeira pintado a branco, o seu papel claro de ramagens verdes. Era em julho, um domingo: fazia um grande calor; as duas janellas estavam cerradas, -mas sentia-se fra o sol faiscar nas vidraas, escaldar +mas sentia-se fóra o sol faiscar nas vidraças, escaldar a pedra da varanda; havia o silencio recolhido -e somnolento de manh de missa; uma vaga <em>quebreira</em> -amollentava, trazia desejos de sstas, ou de -sombras ffas debaixo d'arvoredos, no campo, ao p +e somnolento de manhã de missa; uma vaga <em>quebreira</em> +amollentava, trazia desejos de séstas, ou de +sombras fôfas debaixo d'arvoredos, no campo, ao pé d'agua; nas duas gaiolas, entre as bambinellas de cretone azulado, os canarios dormiam; um zumbido monotono de moscas arrastava-se por cima da mesa, @@ -250,67 +210,67 @@ derretido, enchia toda a sala d'um rumor dormente. <br /> <br /> Jorge enrolou um cigarro, e muito repousado, muito fresco na sua camisa de chita, sem collete, o -jaqueto de flanella azul aberto, os olhos no tecto, -pz-se a pensar na sua jornada ao Alemtejo. Era engenheiro +jaquetão de flanella azul aberto, os olhos no tecto, +pôz-se a pensar na sua jornada ao Alemtejo. Era engenheiro de minas, no dia seguinte devia partir para -Beja, para Evora, mais para o sul at S. Domingos; +Beja, para Evora, mais para o sul até S. Domingos; e aquella jornada, em julho, contrariava-o como -uma interrupo, affligia-o como uma injustia. -Que massada por um vero d'aquelles! Ir dias e +uma interrupção, affligia-o como uma injustiça. +Que massada por um verão d'aquelles! Ir dias e dias sacudido pelo chouto d'um cavallo d'aluguel, -por esses descampados do Alemtejo que no acabam +por esses descampados do Alemtejo que não acabam nunca, cobertos d'um rastolho escuro, abafados n'um <span class="pagenum">[7]</span> -sol bao, onde os moscardos zumbem! Dormir nos +sol baço, onde os moscardos zumbem! Dormir nos montados, em quartos que cheiram a tijolo cozido, -ouvindo em redor, na escurido da noite torrida, +ouvindo em redor, na escuridão da noite torrida, grunhir as varas dos porcos! A todo o momento sentir entrar pelas janellas, passar no ar o bafo -quente das queimadas! E s! <br /> +quente das queimadas! E só! <br /> <br /> -Tinha estado at ento no ministerio, em commisso. +Tinha estado até então no ministerio, em commissão. Era a primeira vez que se separava de Luiza; -e perdia-se j em saudades d'aquella salinha, -que elle mesmo ajudra a forrar de papel novo nas +e perdia-se já em saudades d'aquella salinha, +que elle mesmo ajudára a forrar de papel novo nas vesperas do seu casamento, e onde, depois das felicidades -da noite, os seus almoos se prolongavam -em to suaves preguias! <br /> +da noite, os seus almoços se prolongavam +em tão suaves preguiças! <br /> <br /> E cofiando a barba curta e fina, muito frisada, os seus olhos iam-se demorando, com uma ternura, n'aquelles moveis intimos, que eram do tempo da -mam: o velho guarda-loua envidraado, com as -pratas muito tratadas a gesso-cr, resplandecendo -decorativamente; o velho painel a oleo, to querido, +mamã: o velho guarda-louça envidraçado, com as +pratas muito tratadas a gesso-cré, resplandecendo +decorativamente; o velho painel a oleo, tão querido, que vira desde pequeno, onde apenas se percebiam, n'um fundo lascado, os tons avermelhados de cobre d'um bojo de cassarola e os rosados desbotados -d'um mlho de rabanetes! Defronte, na outra -parede, era o retrato de seu pai: estava vestido +d'um mólho de rabanetes! Defronte, na outra +parede, era o retrato de seu pai: estava vestido á moda de 1830, tinha a physionomia redonda, o olho -luzidio, o beio sensual; e sobre a sua casaca abotoada -reluzia a commenda de Nossa Senhora da Conceio. -Fra um antigo empregado do ministerio da +luzidio, o beiço sensual; e sobre a sua casaca abotoada +reluzia a commenda de Nossa Senhora da Conceição. +Fôra um antigo empregado do ministerio da fazenda, muito divertido, grande tocador de flauta. -Nunca o conhecera, mas a mam affirmava-lhe que +Nunca o conhecera, mas a mamã affirmava-lhe «que <span class="pagenum">[8]</span> -o retrato s lhe faltava fallar. Vivera sempre -n'aquella casa com sua mi. Chamava-se Isaura: era +o retrato só lhe faltava fallar». Vivera sempre +n'aquella casa com sua mãi. Chamava-se Isaura: era uma senhora alta, de nariz afilado, muito apprehensiva; bebia ao jantar agua quente; e ao voltar um -dia do lausperenne da Graa, morrera de repente, +dia do lausperenne da Graça, morrera de repente, sem um ai! <br /> <br /> Physicamente Jorge nunca se parecera com ella. -Fra sempre robusto, d'habitos viris. Tinha os dentes +Fôra sempre robusto, d'habitos viris. Tinha os dentes admiraveis de seu pai, os seus hombros fortes. <br /> <br /> -De sua mi herdra a placidez, o genio manso. -Quando era estudante na Polytechnica, s 8 horas -recolhia-se, accendia o seu candieiro de lato, abria -os seus compendios. No frequentava botequins, nem -fazia noitadas. S duas vezes por semana, regularmente, -ia vr uma rapariguita costureira, a Euphrasia, +De sua mãi herdára a placidez, o genio manso. +Quando era estudante na Polytechnica, ás 8 horas +recolhia-se, accendia o seu candieiro de latão, abria +os seus compendios. Não frequentava botequins, nem +fazia noitadas. Só duas vezes por semana, regularmente, +ia vêr uma rapariguita costureira, a Euphrasia, que vivia ao Borratem, e nos dias em que o Brazileiro, o seu homem, ia jogar o boston ao club, recebia Jorge com grandes cautelas e palavras muito @@ -318,32 +278,32 @@ exaltadas; era engeitada, e no seu corpinho fino e magro havia sempre o cheiro relentado d'uma pontinha de febre. Jorge achava-a <em>romanesca</em>, e censurava-lh'o. -Elle, nunca fra sentimental: os seus condiscipulos, +Elle, nunca fôra sentimental: os seus condiscipulos, que liam Alfred de Musset suspirando e desejavam ter amado Margarida Gautier, chamavam-lhe -<em>proseiro, burguez</em>: Jorge ria; no lhe faltava um -boto +<em>proseirão, burguez</em>: Jorge ria; não lhe faltava um +botão nas camisas, era muito escarolado, admirava Luiz Figuier, Bastiat e Castilho, tinha horror a dividas, e sentia-se feliz. <br /> <br /> -Quando sua mi morreu, porm, comeou a -achar-se s: era no inverno, e o seu quarto nas trazeiras +Quando sua mãi morreu, porém, começou a +achar-se só: era no inverno, e o seu quarto nas trazeiras <span class="pagenum">[9]</span> da casa, ao sul, um pouco desamparado, recebia -as rajadas do vento na sua prolongao uivada -e triste; sobretudo noite, quando estava debruado -sobre o compendio, os ps no capacho, vinham-lhe -melancolias languidas; estirava os braos, com o -peito cheio d'um desejo; quereria enlaar uma cinta -fina e dce, ouvir na casa o frou-frou d'um vestido! -Decidiu casar. Conheceu Luiza, no vero, noite, no +as rajadas do vento na sua prolongação uivada +e triste; sobretudo á noite, quando estava debruçado +sobre o compendio, os pés no capacho, vinham-lhe +melancolias languidas; estirava os braços, com o +peito cheio d'um desejo; quereria enlaçar uma cinta +fina e dôce, ouvir na casa o frou-frou d'um vestido! +Decidiu casar. Conheceu Luiza, no verão, á noite, no Passeio. Apaixonou-se pelos seus cabellos louros, pela sua maneira d'andar, pelos seus olhos castanhos muito grandes. No inverno seguinte foi despachado, -e casou. Sebastio, o seu intimo, o bom Sebastio, -o Sebastiarro, tinha dito, com uma oscillao grave -da cabea, esfregando vagarosamente as mos: <br /> +e casou. Sebastião, o seu intimo, o bom Sebastião, +o Sebastiarrão, tinha dito, com uma oscillação grave +da cabeça, esfregando vagarosamente as mãos: <br /> <br /> —Casou no ar! casou um bocado no ar! <br /> <br /> @@ -351,64 +311,64 @@ Mas Luiza, a Luizinha, sahiu muito boa dona de casa: tinha cuidados muito sympathicos nos seus arranjos; era aceada, alegre como um passarinho, como um passarinho amiga do ninho e das caricias do -macho: e aquelle serzinho louro e meigo veio dar +macho: e aquelle serzinho louro e meigo veio dar á sua casa um encanto serio. <br /> <br /> -— um anjinho cheio de dignidade!—dizia ento -Sebastio, o bom Sebastio, com a sua voz profunda +—É um anjinho cheio de dignidade!—dizia então +Sebastião, o bom Sebastião, com a sua voz profunda de <em>basso</em>. <br /> <br /> Estavam casados havia tres annos. Que bom que -tinha sido! Elle proprio melhorra; achava-se mais +tinha sido! Elle proprio melhorára; achava-se mais intelligente, mais alegre... E recordando aquella existencia -facil e dce, soprava o fumo do charuto, a -perna traada, a alma dilatada, sentindo-se to bem -na vida como no seu jaqueto de flanella! +facil e dôce, soprava o fumo do charuto, a +perna traçada, a alma dilatada, sentindo-se tão bem +na vida como no seu jaquetão de flanella! <br /> <br /><span class="pagenum">[10]</span> —Ah!—fez Luiza de repente, toda admirada para o jornal, sorrindo. <br /> <br /> -—Que ? <br /> +—Que é? <br /> <br /> -— o primo Bazilio que chega! <br /> +—É o primo Bazilio que chega! <br /> <br /> E leu alto, logo: <br /> <br /> -Deve chegar por estes dias a Lisboa, vindo de +«Deve chegar por estes dias a Lisboa, vindo de Bordeus, o snr. Bazilio de Brito, bem conhecido da -nossa sociedade. S. exc.<sup>a</sup> que, como sabido, tinha +nossa sociedade. S. exc.<sup>a</sup> que, como é sabido, tinha partido para o Brazil, onde se diz reconstituira a sua fortuna com um honrado trabalho, anda viajando pela -Europa desde o comeo do anno passado. A sua -volta capital um verdadeiro jubilo para os amigos -de s. exc.<sup>a</sup> que so numerosos. <br /> +Europa desde o começo do anno passado. A sua +volta á capital é um verdadeiro jubilo para os amigos +de s. exc.<sup>a</sup> que são numerosos». <br /> <br /> -—E so!—disse Luiza, muito convencida. <br /> +—E são!—disse Luiza, muito convencida. <br /> <br /> —Estimo, coitado!—fez Jorge, fumando, anediando -a barba com a palma da mo.—E vem com +a barba com a palma da mão.—E vem com fortuna, hein? <br /> <br /> —Parece. <br /> <br /> -Olhou os annuncios, bebeu um gole de ch, levantou-se, +Olhou os annuncios, bebeu um gole de chá, levantou-se, foi abrir uma das portadas da janella. <br /> <br /> -—Oh Jorge, que calor que l vai fra, santo -Deus!—Batia as palpebras sob a radiao da luz +—Oh Jorge, que calor que lá vai fóra, santo +Deus!—Batia as palpebras sob a radiação da luz crua e branca. <br /> <br /> A sala, nas trazeiras da casa, dava para um terreno vago, cercado d'um taboado baixo, cheio d'hervas -altas e d'uma vegetao d'acaso; aqui, alli, -n'aquella verdura crestada do vero, largas pedras +altas e d'uma vegetação d'acaso; aqui, alli, +n'aquella verdura crestada do verão, largas pedras faiscavam, batidas do sol perpendicular; e uma velha figueira brava, isolada no meio do terreno, estendia a sua grossa folhagem immovel, que, na brancura <span class="pagenum">[11]</span> da luz, tinha os tons escuros do bronze. Para -alm eram as trazeiras d'outras casas, com varandas, +além eram as trazeiras d'outras casas, com varandas, roupas seccando em cannas, muros brancos de quintaes, arvores esguias. Uma vaga poeira embaciava, tornava espesso o ar luminoso. <br /> @@ -416,11 +376,11 @@ tornava espesso o ar luminoso. <br /> —Cahem os passaros!—disse ella cerrando a janella.—Olha tu pelo Alemtejo, agora! <br /> <br /> -Veio encostar-se <em>voltaire</em> de Jorge, passou-lhe -lentamente a mo sobre o cabello preto e annelado. -Jorge olhou-a, triste j da separao: os dous primeiros -botes do seu roupo estavam desapertados; -via-se o comeo do peito de uma brancura muito +Veio encostar-se á <em>voltaire</em> de Jorge, passou-lhe +lentamente a mão sobre o cabello preto e annelado. +Jorge olhou-a, triste já da separação: os dous primeiros +botões do seu roupão estavam desapertados; +via-se o começo do peito de uma brancura muito tenra, a rendinha da camisa: muito castamente Jorge abotoou-lh'os. <br /> <br /> @@ -433,78 +393,78 @@ Para se certificar chamou Juliana. <br /> Houve um ruido domingueiro de saias engommadas, Juliana entrou, arranjando nervosamente o collar e o broche. Devia ter quarenta annos, era muitissimo -magra. As feies, miudas, espremidas, tinham -a amarellido de tons baos das doenas de -corao. Os olhos grandes, encovados, rolavam n'uma -inquietao, n'uma curiosidade, raiados de sangue, +magra. As feições, miudas, espremidas, tinham +a amarellidão de tons baços das doenças de +coração. Os olhos grandes, encovados, rolavam n'uma +inquietação, n'uma curiosidade, raiados de sangue, entre palpebras sempre debruadas de vermelho. Usava -uma cuia de retroz imitando tranas, que lhe fazia -a cabea enorme. Tinha um <em>tic</em> nas azas do nariz. +uma cuia de retroz imitando tranças, que lhe fazia +a cabeça enorme. Tinha um <em>tic</em> nas azas do nariz. E o vestido chato sobre o peito, curto da roda, -tufado pela gomma das saias—mostrava um p pequeno, +tufado pela gomma das saias—mostrava um pé pequeno, <span class="pagenum">[12]</span> bonito, muito apertado em botinas de duraque com ponteiras de verniz. <br /> <br /> -Os colletes no estavam promptos, disse com -uma voz muito lisboeta, no tivera tempo de os +Os colletes não estavam promptos, disse com +uma voz muito lisboeta, não tivera tempo de os metter em gomma. <br /> <br /> —Tanto lhe recommendei, Juliana!—disse Luiza.—Bem, -v. Veja como se arranja! Os colletes -ho-de ficar noite na mala! <br /> +vá. Veja como se arranja! Os colletes +hão-de ficar á noite na mala! <br /> <br /> E apenas ella sahiu: <br /> <br /> —Estou a tomar odio a esta creatura, Jorge! <br /> <br /> -Ha dous mezes que a tinha em casa, e no se -podera acostumar sua fealdade, aos seus tregeitos, - maneira aflautada de dizer <em>chapieu</em>, +Ha dous mezes que a tinha em casa, e não se +podera acostumar á sua fealdade, aos seus tregeitos, +á maneira aflautada de dizer <em>chapieu</em>, <em>tisoiras</em>, de -arrastar um pouco os <em>rr</em>, ao ruido dos seus taces +arrastar um pouco os <em>rr</em>, ao ruido dos seus tacões que tinham laminasinhas de metal: ao domingo, a -cuia, o pretencioso do p, as luvas de pellica preta +cuia, o pretencioso do pé, as luvas de pellica preta arripiavam-lhe os nervos. <br /> <br /> —Que antipathica! <br /> <br /> Jorge ria: <br /> <br /> -—Coitada, uma pobre de Christo!—E depois +—Coitada, é uma pobre de Christo!—E depois que engommadeira admiravel! No ministerio examinavam -com espanto os seus peitilhos!—O Julio diz -bem, eu no ando engommado, ando esmaltado! -No sympathica, no, mas aceada, apropositada... <br /> +com espanto os seus peitilhos!—O Julião diz +bem, eu não ando engommado, ando esmaltado! +Não é sympathica, não, mas é aceada, é apropositada... <br /> <br /> -E levantando-se, com as mos nos bolsos das suas -largas calas de flanella: <br /> +E levantando-se, com as mãos nos bolsos das suas +largas calças de flanella: <br /> <br /> —E, emfim, minha filha, a maneira como ella -se portou na doena da tia Virginia... Foi um anjo +se portou na doença da tia Virginia... Foi um anjo <span class="pagenum">[13]</span> para ella!—Repetiu com solemnidade:—De dia, de noite, foi um anjo para ella! Estamos-lhe em divida, -minha filha!—E comeou a enrolar um cigarro, com -a physionomia muito sria. <br /> +minha filha!—E começou a enrolar um cigarro, com +a physionomia muito séria. <br /> <br /> Luiza, calada, fazia saltar com a pontinha da -chinella a orla do roupo; e examinando fixamente +chinella a orla do roupão; e examinando fixamente as unhas, a testa um pouco franzida, poz-se a dizer: <br /> <br /> -—Mas emfim, se eu embirro com ella, no me +—Mas emfim, se eu embirro com ella, não me importa, posso bem mandal-a embora. <br /> <br /> Jorge parou, e raspando um phosphoro na sola do sapato: <br /> <br /> -—Se eu consentir, minha rica. que uma -questo de gratido, para mim! <br /> +—Se eu consentir, minha rica. É que é uma +questão de gratidão, para mim! <br /> <br /> Ficaram calados. O <em>cuco</em> cantou meio dia. <br /> <br /> -—Bem, vou vida—disse Jorge. Chegou-se ao -p d'ella, tomou-lhe a cabea entre as mos. <br /> +—Bem, vou á vida—disse Jorge. Chegou-se ao +pé d'ella, tomou-lhe a cabeça entre as mãos. <br /> <br /> —Viborasinha!—murmurou, fitando-a muito meigamente. <br /> @@ -514,9 +474,9 @@ olhos castanhos, luminosos e meigos. Jorge enterneceu-se, poz-lhe sobre as palpebras dous beijos chilreados. E torcendo-lhe o beicinho, com uma meiguice: <br /> <br /> -—Queres alguma cousa de fra, amor? <br /> +—Queres alguma cousa de fóra, amor? <br /> <br /> -Que no viesse muito tarde. <br /> +Que não viesse muito tarde. <br /> <br /> Ia deixar uns bilhetes, ia n'uma tipoia, era um pulo... <br /> @@ -532,85 +492,85 @@ Del mondo signor.<br /> La la ra, la ra.</div> <br /> <br /> -Luiza espreguiou-se. Que scca ter de se ir vestir! -Desejaria estar n'uma banheira de marmore cr +Luiza espreguiçou-se. Que sécca ter de se ir vestir! +Desejaria estar n'uma banheira de marmore côr de rosa, em agua tepida, perfumada, e adormecer! -Ou n'uma rede de sda, com as janellas cerradas, +Ou n'uma rede de sêda, com as janellas cerradas, embalar-se, ouvindo musica! Sacudiu a chinellinha: -esteve a olhar muito amorosamente o seu p pequeno, +esteve a olhar muito amorosamente o seu pé pequeno, branco como leite, com veias azues, pensando -n'uma infinidade de cousinhas:—em meias de sda +n'uma infinidade de cousinhas:—em meias de sêda que queria comprar, no farnel que faria a Jorge para a jornada, em tres guardanapos que a lavadeira perdera... <br /> <br /> -Tornou a espreguiar-se. E saltando na ponta do -p descalo, foi buscar ao aparador por detraz d'uma +Tornou a espreguiçar-se. E saltando na ponta do +pé descalço, foi buscar ao aparador por detraz d'uma compota um livro um pouco enxovalhado, veio estender-se na <em>voltaire</em>, quasi deitada, e, com o gesto -acariciador e amoroso dos dedos sobre a orelha, comeou -a lr, toda interessada. <br /> +acariciador e amoroso dos dedos sobre a orelha, começou +a lêr, toda interessada. <br /> <br /> Era a <em>Dama das Camelias</em>. Lia muitos romances; tinha uma assignatura, na Baixa, ao mez. Em solteira, -aos 18 annos, enthusiasmra-se por Walter-Scott -e pela Escocia; desejra ento viver n'um +aos 18 annos, enthusiasmára-se por Walter-Scott +e pela Escocia; desejára então viver n'um d'aquelles castellos escocezes, que teem sobre as -ogivas os brazes da <em>clan</em>, mobilados com arcas +ogivas os brazões da <em>clan</em>, mobilados com arcas gothicas e tropheus d'armas, forrados de largas tapecerias, -onde esto bordadas legendas heroicas, que -o vento do lago agita e faz viver: e amra Ervandlo, -Morton e Ivanho, ternos e graves, tendo sobre +onde estão bordadas legendas heroicas, que +o vento do lago agita e faz viver: e amára Ervandálo, +Morton e Ivanhoé, ternos e graves, tendo sobre <span class="pagenum">[15]</span> o gorro a penna d'aguia, presa ao lado pelo cardo d'Escocia d'esmeraldas e diamantes. Mas agora era o <em>moderno</em> que a captivava, Paris, as suas mobilias, as suas sentimentalidades. Ria-se dos trovadores, -exaltra-se por Mr. de Camors; e os homens +exaltára-se por Mr. de Camors; e os homens ideaes appareciam-lhe de gravata branca, nas hombreiras das salas de baile, com um magnetismo no -olhar, devorados de paixo, tendo palavras sublimes. +olhar, devorados de paixão, tendo palavras sublimes. Havia uma semana que se interessava por Margarida Gautier: o seu amor infeliz dava-lhe uma melancolia ennevoada: via-a alta e magra, com o seu longo chale de cachemira, os olhos negros cheios da avidez -da paixo e dos ardores da tisica; nos nomes +da paixão e dos ardores da tisica; nos nomes mesmo do livro—Julia Duprat, Armando, Prudencia, achava o sabor poetico d'uma vida intensamente amorosa; e todo aquelle destino se agitava, como n'uma musica triste, com ceias, noites delirantes, -afflices de dinheiro, e dias de melancolia no fundo -d'um coup, quando nas avenidas do Bois, sob um -co pardo e elegante, silenciosamente cahem as primeiras +afflicções de dinheiro, e dias de melancolia no fundo +d'um coupé, quando nas avenidas do Bois, sob um +céo pardo e elegante, silenciosamente cahem as primeiras neves. <br /> <br /> -—At logo, Zizi—gritou Jorge do corredor, ao +—Até logo, Zizi—gritou Jorge do corredor, ao sahir. <br /> <br /> —Olha! <br /> <br /> -Elle veio, com a bengala debaixo do brao, apertando +Elle veio, com a bengala debaixo do braço, apertando as luvas. <br /> <br /> -—No appareas muito tarde, hein? Escuta, traze-me +—Não appareças muito tarde, hein? Escuta, traze-me uns bolos do Baltresqui para a D. Felicidade. -Ouve. V se passas pela madame Franois que me -mande o chapo. Escuta. +Ouve. Vê se passas pela madame François que me +mande o chapéo. Escuta. <br /> <br /><span class="pagenum">[16]</span> —Que mais, bom Deus? <br /> <br /> -—Ah! no! Era para ires pelo livreiro que me -mande mais romances... Mas est fechado! <br /> +—Ah! não! Era para ires pelo livreiro que me +mande mais romances... Mas está fechado! <br /> <br /> <br /> <br /> Foi com duas lagrimas a tremer-lhe nas palpebras que acabou as paginas da <em>Dama das Camelias</em>. E estendida na <em>voltaire</em>, com o livro cahido no -regao, -fazendo recuar a pellicula das unhas, pz-se a +regaço, +fazendo recuar a pellicula das unhas, pôz-se a cantar baixinho, com ternura, a aria final da <em>Traviata</em>: <br /> <br /> @@ -623,99 +583,99 @@ Lembrou-lhe de repente a noticia do jornal, a chegada do primo Bazilio... <br /> <br /> Um sorriso vagaroso dilatou-lhe os beicinhos -vermelhos e cheios.—Fra o seu primeiro namoro, -o primo Bazilio! Tinha ella ento 18 annos! Ninguem -o sabia, nem Jorge, nem Sebastio... <br /> +vermelhos e cheios.—Fôra o seu primeiro namoro, +o primo Bazilio! Tinha ella então 18 annos! Ninguem +o sabia, nem Jorge, nem Sebastião... <br /> <br /> -De resto fra uma criancice: ella mesmo, s vezes, -ria, recordando as pieguices ternas d'ento, certas +De resto fôra uma criancice: ella mesmo, ás vezes, +ria, recordando as pieguices ternas d'então, certas lagrimas exageradas! Devia estar mudado o primo Bazilio. Lembrava-se bem d'elle—alto, delgado, um ar fidalgo, o pequenino bigode preto levantado, -o olhar atrevido, e um geito de metter as mos nos -bolsos das calas fazendo tilintar o dinheiro e as chaves! -<em>Aquillo</em> comera em Cintra, por grandes partidas -de bilhar muito alegres, na quinta do tio Joo +o olhar atrevido, e um geito de metter as mãos nos +bolsos das calças fazendo tilintar o dinheiro e as chaves! +<em>Aquillo</em> começára em Cintra, por grandes partidas +de bilhar muito alegres, na quinta do tio João <span class="pagenum">[17]</span> -de Brito, em Collares. Bazilio tinha chegado ento +de Brito, em Collares. Bazilio tinha chegado então d'Inglaterra: vinha muito <em>bife</em>, usava gravatas escarlates passadas n'um annel d'ouro, fatos de flanella branca, espantava Cintra! Era na sala de baixo pintada a oca, que tinha um ar antigo e morgado; uma -grande porta envidraada abria para o jardim, sobre +grande porta envidraçada abria para o jardim, sobre tres degraus de pedra. Em roda do repuxo havia romanzeiras, -onde elle apanhava flres escarlates. A +onde elle apanhava flôres escarlates. A folhagem verde-escura e polida dos arbustos de camelias -fazia ruasinhas sombrias; pedaos de sol faiscavam, -tremiam na agua do tanque; duas rlas, -n'uma gaiola de vime, arrulhavam dcemente;—e, -no silencio aldeo da quinta, o ruido secco das bolas +fazia ruasinhas sombrias; pedaços de sol faiscavam, +tremiam na agua do tanque; duas rôlas, +n'uma gaiola de vime, arrulhavam dôcemente;—e, +no silencio aldeão da quinta, o ruido secco das bolas de bilhar tinha um tom aristocratico. <br /> <br /> Depois, vieram todos os episodios classicos dos amores lisboetas passados em Cintra: os passeios em Sitiaes ao luar, devagar, sobre a relva pallida, com -grandes descanos calados no Penedo da Saudade, -vendo o valle, as aras ao longe, cheias d'uma luz -saudosa, idealisadora e branca; as sstas quentes, +grandes descanços calados no Penedo da Saudade, +vendo o valle, as arêas ao longe, cheias d'uma luz +saudosa, idealisadora e branca; as séstas quentes, nas sombras da Penha Verde, ouvindo o rumor fresco -e gottejante das aguas que vo de pedra em pedra; +e gottejante das aguas que vão de pedra em pedra; as tardes na varzea de Collares, remando n'um velho bote, sobre a agua escura da sombra dos freixos,—e que risadas quando iam encalhar nas hervagens -altas, e o seu chapo de palha se prendia +altas, e o seu chapéo de palha se prendia aos ramos baixos dos choupos! <br /> <br /> -Sempre gostra muito de Cintra! Logo ao entrar -os arvoredos escuros e murmurosos do Ramalho lhe +Sempre gostára muito de Cintra! Logo ao entrar +os arvoredos escuros e murmurosos do Ramalhão lhe davam uma melancolia feliz! <br /> <br /><span class="pagenum">[18]</span> Tinham muita liberdade, ella e o primo Bazilio. -A mam, coitadinha, toda scismatica, com rheumatismo, +A mamã, coitadinha, toda scismatica, com rheumatismo, egoista, deixava-os, sorria, dormitava: Bazilio -era rico, ento, chamava-lhe tia Jj, trazia-lhe cartuchos -de dce... <br /> +era rico, então, chamava-lhe tia Jójó, trazia-lhe cartuchos +de dôce... <br /> <br /> Veio o inverno, e aquelle amor foi-se abrigar na velha sala forrada de papel <em>sangue-de-boi</em> da rua da -Magdalena. Que bons seres alli! A mam resonava -baixo, com os ps embrulhados n'uma manta, o volume -da <em>Bibliotheca das Damas</em> cahido sobre o regao. -E elles, muito chegados, muito felizes no soph! -O <em>soph</em>! Quantas recordaes! Era estreito e baixo, +Magdalena. Que bons serões alli! A mamã resonava +baixo, com os pés embrulhados n'uma manta, o volume +da <em>Bibliotheca das Damas</em> cahido sobre o regaço. +E elles, muito chegados, muito felizes no sophá! +O <em>sophá</em>! Quantas recordações! Era estreito e baixo, estofado de casimira clara, com uma tira ao centro, bordada por ella, amores perfeitos amarellos e roxos -sobre um fundo negro. Um dia veio o <em>final</em>. Joo +sobre um fundo negro. Um dia veio o <em>final</em>. João de Brito, que fazia parte da firma Bastos & Brito, falliu. A casa d'Almada, a quinta de Collares foram vendidas. <br /> <br /> Bazilio estava pobre, partiu para o Brazil. Que -saudades! Passou os primeiros dias sentada no soph -querido, soluando baixo, com a photographia -d'elle entre as mos. Vieram ento os sobresaltos +saudades! Passou os primeiros dias sentada no sophá +querido, soluçando baixo, com a photographia +d'elle entre as mãos. Vieram então os sobresaltos das cartas esperadas, os recados impacientes ao escriptorio da Companhia, quando os paquetes tardavam... <br /> <br /> -Passou um anno. Uma manh, depois d'um grande +Passou um anno. Uma manhã, depois d'um grande silencio de Bazilio, recebeu da Bahia uma longa -carta, que comeava: Tenho pensado muito e entendo -que devemos considerar a nossa inclinao como -uma criancice... +carta, que começava: «Tenho pensado muito e entendo +que devemos considerar a nossa inclinação como +uma criancice...» <br /> <br /><span class="pagenum">[19]</span> -Desmaiou logo. Bazilio affectava muita dr em -duas laudas cheias d'explicaes: que estava ainda +Desmaiou logo. Bazilio affectava muita dôr em +duas laudas cheias d'explicações: que estava ainda pobre; que teria de luctar muito antes de ter para -dous; o clima era horrivel; no a queria sacrificar, -pobre anjo; chamava-lhe minha pomba e assignava +dous; o clima era horrivel; não a queria sacrificar, +pobre anjo; chamava-lhe minha «pomba» e assignava o seu nome todo, com uma firma complicada. <br /> <br /> Viveu triste durante mezes. Era no inverno; e -sentada janella, por dentro dos vidros, com o seu -bordado de l, julgava-se desilludida, pensava no +sentada á janella, por dentro dos vidros, com o seu +bordado de lã, julgava-se desilludida, pensava no convento, seguindo com um olhar melancolico os guarda-chuvas gottejantes que passavam sob as cordas d'agua; ou sentando-se ao piano, ao anoitecer, @@ -728,13 +688,13 @@ Que ditoso vivi a teu lado...</div> <br /> <br /> ou o final da <em>Traviata</em>, ou o fado do Vimioso, muito -triste, que elle lhe ensinra. <br /> +triste, que elle lhe ensinára. <br /> <br /> -Mas ento o catarrho da mam aggravou-se; vieram -os sustos, as noites veladas. Na convalescena +Mas então o catarrho da mamã aggravou-se; vieram +os sustos, as noites veladas. Na convalescença foram para Bellas: ligou-se alli muito com as Cardosos, -duas irms magras, estouvadas e esguias, -sempre colladas uma outra, com um passinho trotado +duas irmãs magras, estouvadas e esguias, +sempre colladas uma á outra, com um passinho trotado e secco, como um casal de galgos. O que riam, Jesus! O que fallavam dos homens! Um tenente de artilheria tinha-se apaixonado por ella. Era vesgo, @@ -746,81 +706,81 @@ Sobre a encosta da collina<br /> Cresce o lyrio virginal...</div> <br /> <br /><span class="pagenum">[20]</span> -Foi um tempo muito alegre, cheio de consolaes. <br /> +Foi um tempo muito alegre, cheio de consolações. <br /> <br /> Quando voltaram no inverno tinha engordado, -trazia boas cres. E um dia, tendo achado n'uma gaveta +trazia boas côres. E um dia, tendo achado n'uma gaveta uma photographia que logo ao principio Bazilio -lhe mandra da Bahia, de cala branca e chapo -<em>panam</em>, +lhe mandára da Bahia, de calça branca e chapéo +<em>panamá</em>, fitou-a, encolhendo os hombros: <br /> <br /> —E o que eu me ralei por esta figura! Que -tla! <br /> +tôla! <br /> <br /> Tinham passado tres annos quando conheceu Jorge. -Ao principio no lhe agradou. No gostava dos +Ao principio não lhe agradou. Não gostava dos homens barbados: depois percebeu que era a primeira -barba, fina, rente, muito macia de certo; comeou +barba, fina, rente, muito macia de certo; começou a admirar os seus olhos, a sua frescura. E -sem o amar, sentia ao p d'elle como uma fraqueza, +sem o amar, sentia ao pé d'elle como uma fraqueza, uma dependencia e uma quebreira, uma vontade d'adormecer encostada ao seu hombro, e de ficar assim muitos annos, confortavel, sem receio de nada. -Que sensao quando elle lhe disse: Vamos casar, +Que sensação quando elle lhe disse: Vamos casar, hein! Viu de repente o rosto barbado, com os olhos muito luzidios, sobre o mesmo travesseiro, ao -p do seu! Fez-se escarlate. Jorge tinha-lhe tomado -a mo: ella sentia o calor d'aquella palma larga penetral-a, +pé do seu! Fez-se escarlate. Jorge tinha-lhe tomado +a mão: ella sentia o calor d'aquella palma larga penetral-a, tomar posse d'ella: disse que <em>sim</em>, ficou como idiota, e sentia debaixo do vestido de merino -dilatarem-se dcemente os seus seios. Estava noiva, -emfim! Que alegria, que descano para a mam! <br /> +dilatarem-se dôcemente os seus seios. Estava noiva, +emfim! Que alegria, que descanço para a mamã! <br /> <br /> -Casaram s oito horas, n'uma manh de nevoeiro. -Foi necessario accender luz para lhe pr a cora e o -vo de tulle. Todo aquelle dia lhe apparecia como +Casaram ás oito horas, n'uma manhã de nevoeiro. +Foi necessario accender luz para lhe pôr a corôa e o +véo de tulle. Todo aquelle dia lhe apparecia como <span class="pagenum">[21]</span> -ennevoado, sem contornos, maneira d'um sonho +ennevoado, sem contornos, á maneira d'um sonho antigo—onde destacava a cara balofa e amarellada do padre, e a figura medonha d'uma velha, que estendia -a mo adunca, com uma sofreguido colerica, -empurrando, rogando pragas, quando, porta da +a mão adunca, com uma sofreguidão colerica, +empurrando, rogando pragas, quando, á porta da igreja, Jorge commovido distribuia patacos. Os sapatos de setim apertavam-na. Sentira-se enjoada da -madrugada, fra necessario fazer-lhe ch verde muito -forte. E to canada noite n'aquella casa nova, +madrugada, fôra necessario fazer-lhe chá verde muito +forte. E tão cançada á noite n'aquella casa nova, depois de desfazer os seus bahus!—Quando Jorge -apagou a vla, com um sopro tremulo, SS luminosos +apagou a véla, com um sopro tremulo, SS luminosos faiscavam, corriam-lhe diante dos olhos. <br /> <br /> Mas era o seu marido, era novo, era forte, era -alegre: pz-se a adoral-o. Tinha uma curiosidade +alegre: pôz-se a adoral-o. Tinha uma curiosidade constante da sua pessoa e das suas cousas, mexia-lhe no cabello, na roupa, nas pistolas, nos papeis. Olhava muito para os maridos das outras, comparava, tinha orgulho n'elle. Jorge envolvia-a em delicadezas -d'amante, ajoelhava-se aos seus ps, era muito +d'amante, ajoelhava-se aos seus pés, era muito <em>dengueiro</em>. E sempre de bom humor, com muita -graa: mas nas cousas da sua profisso ou do seu -brio tinha severidades exageradas, e punha ento +graça: mas nas cousas da sua profissão ou do seu +brio tinha severidades exageradas, e punha então nas palavras, nos modos uma solemnidade carrancuda. Uma amiga d'ella romanesca, que via em tudo -dramas, tinha-lhe dito: homem para te dar uma -punhalada. Ella que no conhecia ainda ento o temperamento +dramas, tinha-lhe dito: é homem para te dar uma +punhalada. Ella que não conhecia ainda então o temperamento placido de Jorge acreditou, e isso mesmo -creou uma exaltao no seu amor por elle. Era o seu -<em>tudo</em>,—a sua fora, o seu fim, o seu destino, a sua -religio, o seu homem!—Pz-se a pensar, o que +creou uma exaltação no seu amor por elle. Era o seu +<em>tudo</em>,—a sua força, o seu fim, o seu destino, a sua +religião, o seu homem!—Pôz-se a pensar, o que <span class="pagenum">[22]</span> teria succedido se tivesse casado com o primo Basilio. -Que desgraa, hein! Onde estaria? Perdia-se em -supposies d'outros destinos, que se desenrolavam, +Que desgraça, hein! Onde estaria? Perdia-se em +supposições d'outros destinos, que se desenrolavam, como pannos de theatro: via-se no Brazil, entre coqueiros, embalada n'uma rede, cercada de negrinhos, vendo voar papagaios! <br /> <br /> -—Est alli a snr.<sup>a</sup> D. Leopoldina—veio dizer +—Está alli a snr.<sup>a</sup> D. Leopoldina—veio dizer Juliana. <br /> <br /> Luiza ergueu-se surprehendida. <br /> @@ -828,22 +788,22 @@ Luiza ergueu-se surprehendida. <br /> —Hein? A snr.<sup>a</sup> D. Leopoldina? Para que mandou entrar? <br /> <br /> -Poz-se a abotoar pressa o roupo. Jesus! Olha +Poz-se a abotoar á pressa o roupão. Jesus! Olha se Jorge soubesse! Elle que lhe tinha dito tantas vezes -que a no queria em casa! Mas se j estava na +«que a não queria em casa!» Mas se já estava na sala, agora, coitada! <br /> <br /> -—Est bom, diga-lhe que j vou. <br /> +—Está bom, diga-lhe que já vou. <br /> <br /> Era a sua intima amiga. Tinham sido visinhas, em solteiras, na rua da Magdalena, e estudado no -mesmo collegio, Patriarchal, na Rita Pessoa, a cxa. +mesmo collegio, á Patriarchal, na Rita Pessoa, a côxa. Leopoldina era a filha unica do visconde de Quebraes, -o devasso, o cachetico, que fra pagem de D. +o devasso, o cachetico, que fôra pagem de D. Miguel. Tinha feito um casamento infeliz com um -Joo Noronha, empregado da alfandega. Chamavam-lhe -a Quebraes; chamavam-lhe tambem a Po e -queijo. <br /> +João Noronha, empregado da alfandega. Chamavam-lhe +a «Quebraes»; chamavam-lhe tambem a «Pão e +queijo». <br /> <br /> Sabia-se que tinha amantes, dizia-se que tinha vicios. Jorge odiava-a. E dissera muitas vezes a Luiza: @@ -851,48 +811,48 @@ Tudo, menos a Leopoldina! <br /> <br /> <br /><span class="pagenum">[23]</span> -Leopoldina tinha ento vinte e sete annos. No +Leopoldina tinha então vinte e sete annos. Não era alta, mas passava por ser a mulher mais bem feita de Lisboa. Usava sempre os vestidos muito collados, com uma justeza que accusava, modelava o corpo como uma pellica, sem largueza de roda, apanhados atraz. Dizia-se d'ella, com os olhos em alvo: - uma estatua, uma Venus! Tinha hombros de -modlo, d'uma redondeza descahida e cheia; sentia-se -nos seus seios, mesmo atravs do corpete, o desenho +é uma estatua, é uma Venus! Tinha hombros de +modêlo, d'uma redondeza descahida e cheia; sentia-se +nos seus seios, mesmo através do corpete, o desenho rijo e harmonioso de duas bellas metades de -limo; a linha dos quadris rica e firme, certos quebrados +limão; a linha dos quadris rica e firme, certos quebrados vibrantes de cintura faziam voltar os olhares accesos dos homens. A cara era um pouco grosseira; -as asas do nariz tinham uma dilatao carnuda; na -pelle, muito fina, d'um trigueiro quente e crado, +as asas do nariz tinham uma dilatação carnuda; na +pelle, muito fina, d'um trigueiro quente e córado, havia signaesinhos desvanecidos d'antigas bexigas. A sua belleza eram os olhos, d'uma negrura intensa, afogados n'um fluido, muito <em>quebrados</em>, com grandes pestanas. <br /> <br /> -Luiza veio para ella com os braos abertos, beijaram-se -muito. E Leopoldina, sentada no soph, enrolando -devagarinho a sda clara do guarda-sol, comeou +Luiza veio para ella com os braços abertos, beijaram-se +muito. E Leopoldina, sentada no sophá, enrolando +devagarinho a sêda clara do guarda-sol, começou a queixar-se: Tinha estado adoentada, muito seccada, com tonturas. O calor matava-a. E que tinha ella feito? Achava-a mais gorda. <br /> <br /> Como era um pouco curta de vista, para se affirmar piscava ligeiramente os olhos, descerrando os -beios gordinhos, d'um vermelho calido. +beiços gordinhos, d'um vermelho calido. <br /> <br /><span class="pagenum">[24]</span> -—A felicidade d tudo, at boas cres!—disse, +—A felicidade dá tudo, até boas côres!—disse, sorrindo. <br /> <br /> O que a trazia era perguntar-lhe a morada -da franceza que lhe fazia os chapos. E ha tanto -tempo que a no via, j tinha saudades, tambem! <br /> +da franceza que lhe fazia os chapéos. E ha tanto +tempo que a não via, já tinha saudades, tambem! <br /> <br /> -—Mas no imaginas! Que calor! Venho morta. <br /> +—Mas não imaginas! Que calor! Venho morta. <br /> <br /> -E deixou-se cahir sobre a almofada do soph, encalmada, +E deixou-se cahir sobre a almofada do sophá, encalmada, com um sorriso aberto, mostrando os dentes brancos e grandes. <br /> <br /> @@ -902,26 +862,26 @@ escura foi entre-abrir um pouco as portadas da janella. Os estofos das cadeiras e as bambinellas eram de reps verde-escuro; o papel e o tapete com desenhos de ramagens tinham o mesmo tom, e n'aquella -decorao sombria destacavam muito—as +decoração sombria destacavam muito—as molduras douradas e pesadas de duas gravuras (a <em>Medea</em> de Delacroix e a <em>Martyr</em> de -Delaroche), as encadernaes +Delaroche), as encadernações escarlates dos dois vastos volumes do -Dante de G. Dor, e entre as janellas o oval d'um +Dante de G. Doré, e entre as janellas o oval d'um espelho onde se reflectia um napolitano de <em>biscuit</em> -que, na console, danava a <em>tarantella</em>. <br /> +que, na console, dançava a <em>tarantella</em>. <br /> <br /> -Por cima do soph pendia o retrato da mi de +Por cima do sophá pendia o retrato da mãi de Jorge, a oleo. Estava sentada, vestida ricamente de preto, direita no seu corpete espartilhado e secco: -uma das mos, d'um livido morto, pousava nos joelhos +uma das mãos, d'um livido morto, pousava nos joelhos sobrecarregada d'anneis; a outra perdia-se entre as rendas muito trabalhadas d'um mantelete de setim; e aquella figura longa, macilenta, com grandes <span class="pagenum">[25]</span> olhos carregados de negro, destacava sobre uma cortina escarlate, corrida em pregas copiosamente -quebradas, deixando vr para alm cos azulados e +quebradas, deixando vêr para além céos azulados e redondezas d'arvoredos. <br /> <br /> —E teu marido?—perguntou Luiza, vindo sentar-se @@ -929,7 +889,7 @@ muito junto de Leopoldina. <br /> <br /> —Como sempre. Pouco divertido—respondeu, rindo. E, com um ar serio, a testa um pouco franzida:—Sabes -que acabei com o Mendona? <br /> +que acabei com o Mendonça? <br /> <br /> Luiza fez-se ligeiramente vermelha. <br /> <br /> @@ -938,18 +898,18 @@ Luiza fez-se ligeiramente vermelha. <br /> Leopoldina deu logo detalhes. <br /> <br /> Era muito indiscreta, fallava muito de si, das -suas sensaes, da sua alcova, das suas contas. Nunca +suas sensações, da sua alcova, das suas contas. Nunca tivera segredos para Luiza; e na sua necessidade -de fazer confidencias, de gozar a admirao d'ella, -descrevia-lhe os seus amantes, as opinies d'elles, +de fazer confidencias, de gozar a admiração d'ella, +descrevia-lhe os seus amantes, as opiniões d'elles, as maneiras d'amar, os <em>tics</em>, a roupa, com grandes -exageraes! Aquillo era sempre muito picante, -cochichado ao canto d'um soph, entre risinhos: Luiza -costumava escutar, toda interessada, as mas do +exagerações! Aquillo era sempre muito picante, +cochichado ao canto d'um sophá, entre risinhos: Luiza +costumava escutar, toda interessada, as maçãs do rosto um pouco envergonhadas, pasmada, saboreando, -com um arzinho beato. Achava to curioso! <br /> +com um arzinho beato. Achava tão curioso! <br /> <br /> -—D'esta vez que bem posso dizer que me enganei, +—D'esta vez é que bem posso dizer que me enganei, minha rica filha!—exclamou Leopoldina erguendo os olhos desoladamente. <br /> <br /> @@ -959,65 +919,65 @@ Luiza riu. <br /> <br /> Era verdade! Era infeliz! <br /> <br /> -—Que queres tu? De cada vez imagino que +—Que queres tu? De cada vez imagino que é <span class="pagenum">[26]</span> -uma paixo, e de cada vez me sahe uma massada! <br /> +uma paixão, e de cada vez me sahe uma massada! <br /> <br /> E picando o tapete com a ponta da sombrinha: <br /> <br /> —Mas se um dia acerto! <br /> <br /> -—V se acertas—disse Luiza.—J tempo! <br /> +—Vê se acertas—disse Luiza.—Já é tempo! <br /> <br /> -s vezes na sua consciencia achava Leopoldina -indecente; mas tinha um fraco por ella: sempre -admirra muito a belleza do seu corpo, que quasi lhe -inspirava uma attraco physica. Depois desculpava-a: -era to infeliz com o marido! Ia atraz da Paixo, +Ás vezes na sua consciencia achava Leopoldina +«indecente»; mas tinha um fraco por ella: sempre +admirára muito a belleza do seu corpo, que quasi lhe +inspirava uma attracção physica. Depois desculpava-a: +era tão infeliz com o marido! Ia atraz da Paixão, coitada! E aquella grande palavra, faiscante e mysteriosa, d'onde a felicidade escorre como a agua -d'uma taa muito cheia, satisfazia Luiza como uma -justificao sufficiente: quasi lhe parecia uma heroina; +d'uma taça muito cheia, satisfazia Luiza como uma +justificação sufficiente: quasi lhe parecia uma heroina; e olhava-a com espanto como se consideram os que chegam d'alguma viagem maravilhosa e difficil, -d'episodios excitantes. S no gostava de certo cheiro +d'episodios excitantes. Só não gostava de certo cheiro de tabaco misturado de <em>feno</em>, que trazia sempre nos vestidos. Leopoldina fumava. <br /> <br /> -—E que fez elle, o Mendona? <br /> +—E que fez elle, o Mendonça? <br /> <br /> Leopoldina encolheu os hombros, com um grande tedio: <br /> <br /> -—Escreveu-me uma carta muito tla, que a final +—Escreveu-me uma carta muito tôla, que a final bem considerado era melhor que acabasse tudo, -porque no estava para se metter em camisa d'onze -varas! Que imbecil! At devo ter aqui a carta. <br /> +porque não estava para se metter em camisa d'onze +varas! Que imbecil! Até devo ter aqui a carta. <br /> <br /> -Procurou na algibeira do vestido: tirou o leno, -uma carteirinha, chaves, uma caixinha de p de +Procurou na algibeira do vestido: tirou o lenço, +uma carteirinha, chaves, uma caixinha de pó de arroz; mas encontrou apenas um programma do <em>Price</em>. <br /> <br /> -Fallou ento do circo.—Uma semsaboria. O melhor +Fallou então do circo.—Uma semsaboria. O melhor <span class="pagenum">[27]</span> era um rapaz que trabalhava no trapezio. Lindo -rapaz, bem feito, uma perfeio! <br /> +rapaz, bem feito, uma perfeição! <br /> <br /> E de repente: <br /> <br /> -—Ento teu primo Bazilio chega? <br /> +—Então teu primo Bazilio chega? <br /> <br /> —Assim li hoje no <em>Diario de Noticias</em>. Fiquei pasmada! <br /> <br /> —Ah! outra cousa que te queria perguntar antes -que me esquea. Com que guarneceste tu aquelle +que me esqueça. Com que guarneceste tu aquelle teu vestido de xadrezinho azul? Vou mandar fazer um assim. <br /> <br /> Tinha-o guarnecido d'azul tambem, um azul mais -escuro.—Vem vr. Vem c dentro. <br /> +escuro.—Vem vêr. Vem cá dentro. <br /> <br /> Entraram no quarto. Luiza foi descerrar a janella, abrir o guarda-vestidos. Era um quarto pequeno, @@ -1026,47 +986,47 @@ um tapete barato, de fundo branco, com desenhos azulados. O toucador, alto, estava entre as duas janellas, sob um docel de renda grossa, muito ornado de frascos facetados. Entre as bambinellas, em mesas -redondas de p de gallo, plantas espessas, Begonias, +redondas de pé de gallo, plantas espessas, Begonias, Makoamas, dobravam decorativamente a sua folhagem rica e forte, em vasos de barro vermelho vidrado. <br /> <br /> Aquelles arranjos confortaveis lembraram de certo -a Leopoldina felicidades tranquillas. Pz-se a dizer +a Leopoldina felicidades tranquillas. Pôz-se a dizer devagar, olhando em roda: <br /> <br /> —E tu, sempre muito apaixonada por teu marido, -hein? Fazes bem, filha, tu que fazes bem! <br /> +hein? Fazes bem, filha, tu é que fazes bem! <br /> <br /> -Foi defronte do toucador, applicar p d'arroz no -pescoo, nas faces: +Foi defronte do toucador, applicar pó d'arroz no +pescoço, nas faces: <br /> <br /><span class="pagenum">[28]</span> -—Tu que fazes bem!—repetia—Mas v l +—Tu é que fazes bem!—repetia—Mas vá lá uma mulher prender-se a um homem como o meu! <br /> <br /> Sentou-se na <em>causeuse</em> com um ar muito abandonado; vieram as queixas habituaes sobre seu marido: -era to grosseiro! era to egoista! <br /> +era tão grosseiro! era tão egoista! <br /> <br /> -—Acreditars que ha tempos para c, se no -estou em casa s quatro horas, no espera, pe-se +—Acreditarás que ha tempos para cá, se não +estou em casa ás quatro horas, não espera, põe-se á mesa, janta, deixa-me os restos! E depois desleixado, enxovalhado, sempre a cuspir nas esteiras... O -quarto d'elle—ns temos dous quartos, como tu sabes— +quarto d'elle—nós temos dous quartos, como tu sabes—é um chiqueiro! <br /> <br /> Luiza disse com severidade: <br /> <br /> -—Que horror! A culpa tambem tua. <br /> +—Que horror! A culpa tambem é tua. <br /> <br /> —Minha!—e endireitou-se, luziam-lhe os olhos, -mais largos, mais negros.—No me faltava mais -nada seno occupar-me do quarto do homem! <br /> +mais largos, mais negros.—Não me faltava mais +nada senão occupar-me do quarto do homem! <br /> <br /> -Ah! era muito desgraada, era a mulher mais -desgraada que havia no mundo! <br /> +Ah! era muito desgraçada, era a mulher mais +desgraçada que havia no mundo! <br /> <br /> —Nem ciumes tem, o bruto! <br /> <br /> @@ -1076,42 +1036,42 @@ collar e o broche: <br /> —A senhora sempre quer que engomme os colletes todos? <br /> <br /> -—Todos, j lhe disse. Ho-de ficar noite na +—Todos, já lhe disse. Hão-de ficar á noite na mala antes de se ir deitar. <br /> <br /> —Que mala? Quem parte?—perguntou Leopoldina. <br /> <br /> -—O Jorge. Vai s minas, ao Alemtejo. <br /> +—O Jorge. Vai ás minas, ao Alemtejo. <br /> <br /> -—Ento ests s, posso vir vr-te! Ainda bem! +—Então estás só, posso vir vêr-te! Ainda bem! <br /> <br /><span class="pagenum">[29]</span> -E sentou-se logo ao p d'ella, com um olhar que -se fizera dce. <br /> +E sentou-se logo ao pé d'ella, com um olhar que +se fizera dôce. <br /> <br /> -— que tenho tanto que te contar! Se tu soubesses, +—É que tenho tanto que te contar! Se tu soubesses, filha! <br /> <br /> -—O qu? Outra paixo?—fez Luiza rindo. <br /> +—O quê? Outra paixão?—fez Luiza rindo. <br /> <br /> A face de Leopoldina tornou-se grave. <br /> <br /> -No era p'ra rir. Estava de todo! Era por isso -at que tinha vindo. Sentira-se to s em casa, to -nervosa!—Vou at Luiza, vou palrar um bocado! <br /> +Não era p'ra rir. Estava de todo! Era por isso +até que tinha vindo. Sentira-se tão só em casa, tão +nervosa!—Vou até Luiza, vou palrar um bocado! <br /> <br /> E com a voz mais baixa, quasi solemne: <br /> <br /> -—D'esta vez serio, Luiza!—Deu os detalhes. -Era um rapaz alto, louro, lindo! E que talento! -poeta!—Dizia a palavra com devoo, prolongando -o som das syllabas.— poeta! <br /> +—D'esta vez é serio, Luiza!—Deu os detalhes. +Era um rapaz alto, louro, lindo! E que talento! É +poeta!—Dizia a palavra com devoção, prolongando +o som das syllabas.—É poeta! <br /> <br /> -Desapertou devagar dous botes do corpete, tirou +Desapertou devagar dous botões do corpete, tirou do seio um papel dobrado. Eram versos. <br /> <br /> E muito chegada para Luiza, com as narinas dilatadas -pela delicia da sensao, leu baixo, com orgulho, +pela delicia da sensação, leu baixo, com orgulho, com pompa: <br /> <br /> <br /> @@ -1123,20 +1083,20 @@ com pompa: <br /> <br /> <br /> <div class="poetry2"> -Quando scismo hora do poente<br /> +Quando scismo á hora do poente<br /> Sobre os rochedos onde brame o mar...</div> <br /> <br /> Era uma elegia. O rapaz contava, em quadras, as -longas contemplaes em que a via a ella, Leopoldina, -<em>viso radiosa que deslisas leve</em>, nas aguas dormentes, +longas contemplações em que a via a ella, Leopoldina, +<em>visão radiosa que deslisas leve</em>, nas aguas dormentes, <span class="pagenum">[30]</span> -nas vermelhides do occaso, na brancura -das espumas. Era uma composio delambida, d'um +nas vermelhidões do occaso, na brancura +das espumas. Era uma composição delambida, d'um sentimentalismo reles, com um ar tisico, muito lisboeta, cheia de versos errados. E terminando dizia-lhe, -que no era nos esplendores das salas ou nos -bailes febricitantes que gostava de a vr: era alli, +que não era «nos esplendores das salas» ou nos +«bailes febricitantes» que gostava de a vêr: era alli, n'aquelles rochedos, <br /> <br /> <br /> @@ -1147,7 +1107,7 @@ Eu vejo adormecer o mar gigante.</div> <br /> —Que bonito, hein! <br /> <br /> -Ficaram caladas, com uma commoosinha. <br /> +Ficaram caladas, com uma commoçãosinha. <br /> <br /> Leopoldina, com os olhos perturbados, repetia a data, amorosamente: <br /> @@ -1158,44 +1118,44 @@ Mas o relogio do quarto deu quatro horas. Leopoldina ergueu-se logo, atarantada, metteu o poema no seio. <br /> <br /> -Tinha de se ir j! Fazia-se tarde, seno o outro, -punha-se mesa. Tinha um ruivo assado para o jantar. +Tinha de se ir já! Fazia-se tarde, senão o outro, +punha-se á mesa. Tinha um ruivo assado para o jantar. E peixe frio era a cousa mais estupida! <br /> <br /> -—Adeus. At breve, no?—E agora que Jorge -ia para fra, havia de vir muito.—Adeus. Ento a +—Adeus. Até breve, não?—E agora que Jorge +ia para fóra, havia de vir muito.—Adeus. Então a franceza, rua do Ouro, por cima do estanque? <br /> <br /> -Luiza foi com ella at ao patamar. Leopoldina j +Luiza foi com ella até ao patamar. Leopoldina já no fundo da escada, ainda parou, gritou: <br /> <br /> -—Sempre te parece que guarnea o vestido +—Sempre te parece que guarneça o vestido d'azul, hein? <br /> <br /> -Luiza debruou-se sobre o corrimo: <br /> +Luiza debruçou-se sobre o corrimão: <br /> <br /> -—Eu assim fiz, o melhor... +—Eu assim fiz, é o melhor... <br /> <br /><span class="pagenum">[31]</span> —Adeus! Rua do Ouro, por cima do estanque. <br /> <br /> —Sim. Rua do Ouro. Adeus.—E com um gritinho:—Porta - direita, Madame Franois. <br /> +á direita, Madame François. <br /> <br /> <br /> <br /> -Jorge voltou s cinco horas, e logo da porta do +Jorge voltou ás cinco horas, e logo da porta do quarto, pondo a bengala a um canto: <br /> <br /> -—J sei que tiveste c uma visita. <br /> +—Já sei que tiveste cá uma visita. <br /> <br /> -Luiza voltou-se, um pouco crada. Estava diante -do toucador j penteada, com um vestido de linho +Luiza voltou-se, um pouco córada. Estava diante +do toucador já penteada, com um vestido de linho branco, guarnecido de rendas. <br /> <br /> Era verdade, tinha vindo a Leopoldina. Juliana -mandra-a entrar... Ficra mais contrariada! Era -por causa da <em>adresse</em> da franceza dos chapos. +mandára-a entrar... Ficára mais contrariada! Era +por causa da <em>adresse</em> da franceza dos chapéos. Tinha-se demorado dez minutos.—Quem te disse? <br /> <br /> @@ -1205,67 +1165,67 @@ estado toda a tarde. <br /> —Toda a tarde! que tolice, esteve dez minutos, se tanto! <br /> <br /> -Jorge tirava as luvas, calado. Chegou-se janella, -pz-se a sacudir as duras folhas d'uma Begonia malhada +Jorge tirava as luvas, calado. Chegou-se á janella, +pôz-se a sacudir as duras folhas d'uma Begonia malhada d'um vermelho doente, com uma baba prateada. Assobiava baixo; e parecia todo occupado em conchegar -um boto d'Amarilis aninhado entre a sua folhagem -luzidia, como um pequenino corao assustado. <br /> +um botão d'Amarilis aninhado entre a sua folhagem +luzidia, como um pequenino coração assustado. <br /> <br /> -Luiza ia passando o seu medalho d'ouro n'uma +Luiza ia passando o seu medalhão d'ouro n'uma longa fita de velludo preto: tinha uma tremura nas -mos, estava vermelha. <br /> +mãos, estava vermelha. <br /> <br /> —O calor tem-lhes feito mal—disse. <br /> <br /><span class="pagenum">[32]</span> -Jorge no respondeu. Assobiou mais alto, foi +Jorge não respondeu. Assobiou mais alto, foi á outra janella, bateu com os dedos nas folhas elasticas d'uma Makoama de tons verdes e sanguineos, e, alargando impacientemente o collarinho como um homem suffocado: <br /> <br /> -—Ouve l, necessario que deixes por uma -vez de receber essa creatura. necessario acabar +—Ouve lá, é necessario que deixes por uma +vez de receber essa creatura. É necessario acabar por uma vez! <br /> <br /> Luiza fez-se escarlate. <br /> <br /> -— por causa de ti! por causa dos visinhos! - por causa da decencia! <br /> +—É por causa de ti! é por causa dos visinhos! +é por causa da decencia! <br /> <br /> —Mas foi a Juliana...—balbuciou Luiza. <br /> <br /> -—Mandasse-l'a sahir outra vez. Que estavas fra! +—Mandasse-l'a sahir outra vez. Que estavas fóra! que estavas na China! que estavas doente! <br /> <br /> -Parou, com um tom desconsolado, abrindo os braos: <br /> +Parou, com um tom desconsolado, abrindo os braços: <br /> <br /> -—Minha rica filha, que todo o mundo a conhece. - a Quebraes! a <em>Po e queijo</em>! uma vergonha! <br /> +—Minha rica filha, é que todo o mundo a conhece. +É a Quebraes! É a <em>Pão e queijo</em>! É uma vergonha! <br /> <br /> Citava-lhe os seus amantes, exasperado: O Carlos Viegas, o magro, de bigode cahido, que escrevia comedias para o Gymnasio! O Santos Madeira, o picado das bexigas, com uma gaforinha! O Melchior -Vadio, um <em>gingo</em> desossado, com um olhar de carneiro +Vadio, um <em>gingão</em> desossado, com um olhar de carneiro morto, sempre a fumar n'uma enorme boquilha! -O Pedro Camara, o bonito! O Mendona dos callos! +O Pedro Camara, o bonito! O Mendonça dos callos! <em>Tutti quanti!</em> <br /> <br /> E encolhendo os hombros, exasperado: <br /> <br /> -—Como se eu no percebesse que ella esteve -aqui! S pelo cheiro! Este horrivel cheiro de feno! +—Como se eu não percebesse que ella esteve +aqui! Só pelo cheiro! Este horrivel cheiro de feno! <span class="pagenum">[33]</span> -Vosss foram creadas juntas, etc., tudo isso muito +Vossês foram creadas juntas, etc., tudo isso é muito bom. Has-de desculpar, mas se a encontro na escada, corro-a! Corro-a! <br /> <br /> Parou um momento, e commovido: <br /> <br /> -—Ora, vamos, Luiza, confessa. Tenho ou no -razo? <br /> +—Ora, vamos, Luiza, confessa. Tenho ou não +razão? <br /> <br /> Luiza punha os brincos, ao espelho, atarantada: <br /> <br /> @@ -1278,21 +1238,21 @@ E sahiu, furioso. <br /> Luiza ficou immovel. Uma lagrimasinha redonda, clara, rolava-lhe pela aza do nariz. Assoou-se muito doloridamente. Aquella Juliana! Aquella bisbilhoteira! -De m! Para fazer sizania! <br /> +De má! Para fazer sizania! <br /> <br /> -Veio-lhe ento uma colera. Foi ao quarto dos engommados, +Veio-lhe então uma colera. Foi ao quarto dos engommados, atirou com a porta: <br /> <br /> -—Para que foi voss dizer quem esteve ou quem +—Para que foi vossê dizer quem esteve ou quem deixou d'estar? <br /> <br /> Juliana, muito surprehendida, pousou o ferro: <br /> <br /> -—Pensei que no era segredo, minha senhora. <br /> +—Pensei que não era segredo, minha senhora. <br /> <br /> -—Est claro que no! Tola! quem lhe diz que -era segredo? E para que mandou entrar? No lhe -tenho dito muitas vezes que no recebo a snr.<sup>a</sup> D. +—Está claro que não! Tola! quem lhe diz que +era segredo? E para que mandou entrar? Não lhe +tenho dito muitas vezes que não recebo a snr.<sup>a</sup> D. Leopoldina? <br /> <br /> —A senhora nunca me disse nada—replicou, @@ -1301,36 +1261,36 @@ toda offendida, cheia de verdade. <br /> —Mente! Cale-se! <br /> <br /> Voltou-lhe as costas; veio para o quarto, muito -nervosa, foi encostar-se vidraa. <br /> +nervosa, foi encostar-se á vidraça. <br /> <br /> O sol desapparecera; na rua estreita havia uma <span class="pagenum">[34]</span> sombra igual, de tarde sem vento: pelas casas, de -uma edificao velha, escuras, estavam abertas as varandas +uma edificação velha, escuras, estavam abertas as varandas onde em vasos vermelhos se mirrava alguma -velha planta miseravel, manjarico ou cravo; ouvia-se, -no teclado melancolico d'um piano, a <em>Orao de +velha planta miseravel, manjaricão ou cravo; ouvia-se, +no teclado melancolico d'um piano, a <em>Oração de uma virgem</em>, tocada por alguma menina, no sentimentalismo vadio do domingo; e na sua janella, defronte, as quatro filhas do Teixeira Azevedo, magrinhas, -com os cabellos muito riados, as olheiras pisadas, +com os cabellos muito riçados, as olheiras pisadas, passavam a sua tarde de dia santo, olhando para a rua, para o ar, para as janellas visinhas, cochichando -se viam passar um homem—ou debruadas, -com uma atteno idiota, faziam pingar saliva -sobre as pedras da calada. <br /> +se viam passar um homem—ou debruçadas, +com uma attenção idiota, faziam pingar saliva +sobre as pedras da calçada. <br /> <br /> -Jorge tinha razo, coitado! pensava Luiza. Mas, -tambem, que podia ella fazer? J no ia a casa de -Leopoldina, tirra o seu retrato do album da sala, vira-se +Jorge tinha razão, coitado! pensava Luiza. Mas, +tambem, que podia ella fazer? Já não ia a casa de +Leopoldina, tirára o seu retrato do album da sala, vira-se obrigada a confessar-lhe a repugnancia de Jorge, -tinham chorado ambas, at! Coitada! S a recebia +tinham chorado ambas, até! Coitada! Só a recebia de longe a longe, uma raridade, um momento! E -emfim, depois d'ella estar na sala, no a havia d'ir +emfim, depois d'ella estar na sala, não a havia d'ir empurrar pela escada abaixo! <br /> <br /> Um homem grosso, de pernas tortas, curvado sob -um realejo, appareceu ento ao alto da rua; as suas +um realejo, appareceu então ao alto da rua; as suas barbas pretas tinham um aspecto feroz; parou, poz-se a voltear a manivella, levantando em redor, para as janellas, um sorriso triste de dentes brancos, e a @@ -1342,28 +1302,28 @@ Gertrudes, a criada e a concubina do doutor de mathematica, veio encostar logo aos caixilhos estreitos da janella a sua vasta face trigueira de quarentona farta e estabelecida; adiante, na sacada aberta -d'um segundo andar, debruou-se a figura do Cunha -Rosado, magro e chupado, com um bon de borla, +d'um segundo andar, debruçou-se a figura do Cunha +Rosado, magro e chupado, com um boné de borla, o aspecto desconsolado do doente d'intestinos, conchegando -com as mos transparentes o robe-de-chambre +com as mãos transparentes o robe-de-chambre ao ventre. Outras faces enfastiadas mostraram-se -entre as bambinellas de caa. <br /> +entre as bambinellas de caça. <br /> <br /> -Na rua, a estanqueira chegou-se porta, vestida -de luto, estendendo o seu caro viuvo, os braos cruzados +Na rua, a estanqueira chegou-se á porta, vestida +de luto, estendendo o seu carão viuvo, os braços cruzados sobre o chale tingido de preto, esguia nas longas saias escoadas. Da loja, por baixo da casa Azevedo, veio a carvoeira, enorme de gravidez bestial, o cabello esguedelhado em repas seccas, a cara oleosa -e enfarruscada, com tres pequenos meio ns, quasi -negros, chores e hirsutos, que se lhe penduravam +e enfarruscada, com tres pequenos meio nús, quasi +negros, chorões e hirsutos, que se lhe penduravam da saia de chita. E o Paula, com loja de trastes velhos, -adiantou-se at ao meio da rua; a pala de verniz -do seu bon de pano preto nunca se erguia de -cima dos olhos; escondia sempre as mos, como para +adiantou-se até ao meio da rua; a pala de verniz +do seu boné de pano preto nunca se erguia de +cima dos olhos; escondia sempre as mãos, como para ser mais reservado, por traz das costas, debaixo das abas do seu casaco de cotim branco; o calcanhar sujo -da meia sahia-lhe para fra da chinella bordada a +da meia sahia-lhe para fóra da chinella bordada a missanga; e fazia roncar o seu pigarro chronico de um modo despeitado. Detestava os reis e os padres. O estado das cousas publicas enfurecia-o. Assobiava @@ -1371,41 +1331,41 @@ frequentemente a <em>Maria da Fonte</em>; e mostrava-se nas suas palavras, nas suas attitudes, um patriota exasperado. <br /> <br /><span class="pagenum">[36]</span> -O homem do realejo tirou o seu largo chapo +O homem do realejo tirou o seu largo chapéo desabado e, tocando sempre, ia-o estendendo em redor para as janellas, com um olhar necessitado. As -Azevedos tinham logo fechado violentamente a vidraa. +Azevedos tinham logo fechado violentamente a vidraça. A carvoeira deu-lhe uma moeda de cobre; mas interrogou-o; quiz de certo saber de que paiz -era, por que estradas tinha vindo, e quantas peas +era, por que estradas tinha vindo, e quantas peças tinha o instrumento. <br /> <br /> -Gente endomingada comeava a recolher, com um +Gente endomingada começava a recolher, com um ar derreado do longo passeio, as botas empoeiradas: mulheres de chale, vindas das hortas, traziam ao collo -as crianas adormecidas da caminhada e do calor: -velhos placidos, de cala branca, o chapo na mo, +as crianças adormecidas da caminhada e do calor: +velhos placidos, de calça branca, o chapéo na mão, gozavam a frescura, dando um giro no bairro: pelas -janellas, bocejava-se: o co tomava uma cr azulada +janellas, bocejava-se: o céo tomava uma côr azulada e polida, como uma porcelana: um sino repicava a distancia o fim d'alguma festa d'igreja: e o domingo -terminava, com uma serenidade canada e triste. <br /> +terminava, com uma serenidade cançada e triste. <br /> <br /> —Luiza—disse a voz de Jorge. <br /> <br /> Ella voltou-se, com um vago—hein? <br /> <br /> -—Vamos jantar, filha; so sete horas. <br /> +—Vamos jantar, filha; são sete horas. <br /> <br /> No meio do quarto, tomou-a pela cinta, e fallando-lhe -baixo, junto face: <br /> +baixo, junto á face: <br /> <br /> —Tu zangaste-te ha bocado? <br /> <br /> -—No! Tu tens razo. Conheo que tens razo. <br /> +—Não! Tu tens razão. Conheço que tens razão. <br /> <br /> —Ah!—fez elle com um tom victorioso, muito -satisfeito.—Est claro, <br /> +satisfeito.—Está claro, <br /> <br /> <br /> <div class="poetry2"> @@ -1415,12 +1375,12 @@ Que o marido que a alma m'escolheu?</div> <br /><span class="pagenum">[37]</span> E com uma ternura grave: <br /> <br /> -—Minha querida filha, esta nossa casinha to -honesta, que uma dr d'alma vr entrar essa mulher +—Minha querida filha, esta nossa casinha é tão +honesta, que é uma dôr d'alma vêr entrar essa mulher aqui, com o cheiro do <em>feno</em>, do cigarro, e do resto!... -<em>M, di questo no parlaremo pi, o donna mia!</em> - sopa! +<em>Mà, di questo no parlaremo più, o donna mia!</em> +Á sopa! <br /> <br /> <br /> @@ -1429,108 +1389,108 @@ resto!... </h3> <br /> <br /> -Aos domingos noite havia em casa de Jorge -uma pequena reunio, uma <em>cavaqueira</em>, na sala, em -redor do velho candieiro de porcelana cr de rosa. -Vinham apenas os intimos. O Engenheiro, como +Aos domingos á noite havia em casa de Jorge +uma pequena reunião, uma <em>cavaqueira</em>, na sala, em +redor do velho candieiro de porcelana côr de rosa. +Vinham apenas os intimos. «O Engenheiro», como se dizia na rua, vivia muito ao seu canto, sem visitas. -Tomava-se ch, palrava-se. Era um pouco <em> estudante</em>. +Tomava-se chá, palrava-se. Era um pouco <em>á estudante</em>. Luiza fazia crochet, Jorge cachimbava. <br /> <br /> -O primeiro a chegar era Julio Zuzarte, um parente +O primeiro a chegar era Julião Zuzarte, um parente muito afastado de Jorge, e seu antigo condiscipulo nos primeiros annos da Polytechnica. Era um homem secco e nervoso, com lunetas azues, os cabellos compridos cahidos sobre a gola. Tinha o curso -de cirurgio da Escla. Muito intelligente, estudava +de cirurgião da Escóla. Muito intelligente, estudava desesperadamente, mas, como elle dizia, era um <em>tumba</em>. Aos trinta annos, pobre, com dividas, sem clientella, <br /><span class="pagenum">[40]</span> -comeava a estar farto do seu quarto andar na +começava a estar farto do seu quarto andar na Baixa, dos seus jantares de doze vintens, do seu paletot -coado d'alamares; e entalado na sua vida mesquinha, +coçado d'alamares; e entalado na sua vida mesquinha, via os outros, os mediocres, os superficiaes, -<em>furar</em>, subir, installar-se larga na prosperidade! -Falta de <em>chance</em>, dizia. Podia ter aceitado um +<em>furar</em>, subir, installar-se á larga na prosperidade! +«Falta de <em>chance</em>», dizia. Podia ter aceitado um partido da camara n'uma villa da provincia, com pulso livre, ter uma casa <em>sua</em>, a <em>sua</em> -creao no quintal. -Mas tinha um orgulho resistente, muita f nas suas -faculdades, na sua sciencia, e no se queria ir enterrar +creação no quintal. +Mas tinha um orgulho resistente, muita fé nas suas +faculdades, na sua sciencia, e não se queria ir enterrar n'uma terriola adormecida e lugubre, com tres ruas onde os porcos fossam. Toda a provincia o aterrava; -via-se l obscuro, jogando a manilha na Assembla, -morrendo de cachexia. Por isso no arredava -p; e esperava, com a tenacidade do plebeu -sofrego, uma clientella rica, uma cadeira na Escla, -um coup para as visitas, uma mulher loura com +via-se lá obscuro, jogando a manilha na Assembléa, +morrendo de cachexia. Por isso não «arredava +pé»; e esperava, com a tenacidade do plebeu +sofrego, uma clientella rica, uma cadeira na Escóla, +um coupé para as visitas, uma mulher loura com dote. Tinha certeza do seu direito a estas felicidades, e como ellas tardavam a chegar ia-se tornando despeitado e amargo; andava amuado com a vida; cada dia se prolongavam mais os seus silencios hostis, -roendo as unhas: e, nos dias melhores, no cessava -de ter ditos sccos, <em>tiradas</em> azedadas—em que +roendo as unhas: e, nos dias melhores, não cessava +de ter ditos sêccos, <em>tiradas</em> azedadas—em que a sua voz desagradavel cahia como um gume gelado. <br /> <br /> -Luiza no gostava d'elle; achava-lhe um <em>ar nordeste</em>, +Luiza não gostava d'elle; achava-lhe um <em>ar nordeste</em>, detestava o seu tom de pedagogo, os reflexos -negros da luneta, as calas curtas que mostravam o -elastico roto das botas. Mas disfarava, sorria-lhe, +negros da luneta, as calças curtas que mostravam o +elastico roto das botas. Mas disfarçava, sorria-lhe, porque Jorge admirava-o, dizia sempre d'elle: Tem muito espirito! tem muito talento! grande homem! <br /> <br /><span class="pagenum">[41]</span> -Como vinha mais cedo ia sala de jantar, tomava -a sua chavena de caf; e tinha sempre um +Como vinha mais cedo ia á sala de jantar, tomava +a sua chavena de café; e tinha sempre um olhar de lado para as pratas do aparador e para as <em>toilettes</em> frescas de Luiza. Aquelle parente, um <em>mediocre</em>, que vivia confortavelmente, bem casado, com a carne contente, estimado no ministerio, com alguns -contos de reis em inscripes—parecia-lhe uma -injustia e pezava-lhe como uma humilhao. Mas -affectava estimal-o; ia sempre s noites, aos domingos; -escondia ento as suas preoccupaes, cavaqueava, +contos de reis em inscripções—parecia-lhe uma +injustiça e pezava-lhe como uma humilhação. Mas +affectava estimal-o; ia sempre ás noites, aos domingos; +escondia então as suas preoccupações, cavaqueava, tinha pilherias,—mettendo a cada momento os dedos pelos seus cabellos compridos, seccos e cheios de caspa. <br /> <br /> -s nove horas, ordinariamente, entrava D. Felicidade -de Noronha. Vinha logo da porta com os braos +Ás nove horas, ordinariamente, entrava D. Felicidade +de Noronha. Vinha logo da porta com os braços estendidos, o seu bom sorriso dilatado. Tinha cincoenta annos, era muito nutrida, e, como soffria -de dyspepsia e de gazes, quella hora no se podia -espartilhar e as suas frmas transbordavam. J se +de dyspepsia e de gazes, áquella hora não se podia +espartilhar e as suas fórmas transbordavam. Já se viam alguns fios brancos nos seus cabellos levemente annelados, mas a cara era lisa e redonda, cheia, -d'uma alvura baa e molle de freira; nos olhos papudos, -com a pelle j engelhada em redor, luzia uma +d'uma alvura baça e molle de freira; nos olhos papudos, +com a pelle já engelhada em redor, luzia uma pupilla negra e humida, muito mobil; e aos cantos -da bocca uns pellos de buo pareciam traos leves -e circumflexos d'uma penna muito fina. Fra a intima -amiga da mi de Luiza, e tomra aquelle habito -de vir vr a <em>pequena</em> aos domingos. Era fidalga, dos +da bocca uns pellos de buço pareciam traços leves +e circumflexos d'uma penna muito fina. Fôra a intima +amiga da mãi de Luiza, e tomára aquelle habito +de vir vêr a <em>pequena</em> aos domingos. Era fidalga, dos Noronhas de Redondella, bastante aparentada em Lisboa, -um pouco devota, muito da Encarnao. +um pouco devota, muito da Encarnação. <br /> <br /><span class="pagenum">[42]</span> -Mal entrava, ao pr um beijo muito cantado na -face de Luiza, perguntava-lhe baixo, com inquietao: <br /> +Mal entrava, ao pôr um beijo muito cantado na +face de Luiza, perguntava-lhe baixo, com inquietação: <br /> <br /> —Vem? <br /> <br /> —O conselheiro? Vem. <br /> <br /> Luiza sabia-o. Porque o conselheiro, o conselheiro -Accacio, nunca vinha aos <em>chs de D. Luiza</em>, como +Accacio, nunca vinha aos <em>chás de D. Luiza</em>, como elle dizia, sem ter ido na vespera ao ministerio das obras publicas procurar Jorge, declarar-lhe com gravidade, curvando um pouco a sua alta estatura: <br /> <br /> -—Jorge, meu amigo, manh l irei pedir a sua -boa esposa a minha chavena de ch. <br /> +—Jorge, meu amigo, ámanhã lá irei pedir a sua +boa esposa a minha chavena de chá. <br /> <br /> Ordinariamente acrescentava: <br /> <br /> @@ -1543,152 +1503,152 @@ enxovalhados. <br /> <br /> Havia cinco annos que D. Felicidade o amava. Em casa de Jorge riam-se um pouco com aquella -<em>chamma</em>. Luiza dizia: Ora! uma caturrice d'ella! -Viam-na crada e nutrida, e no suspeitavam que +<em>chamma</em>. Luiza dizia: Ora! é uma caturrice d'ella! +Viam-na córada e nutrida, e não suspeitavam que aquelle sentimento concentrado, irritado semanalmente, queimando em silencio, a ia devastando como -uma doena e desmoralisando como um vicio. -Todos os seus ardores at ahi tinham sido inutilisados. -Amra um official de lanceiros que morrra, e -apenas conservava o seu daguerreotypo. Depois apaixonra-se +uma doença e desmoralisando como um vicio. +Todos os seus ardores até ahi tinham sido inutilisados. +Amára um official de lanceiros que morrêra, e +apenas conservava o seu daguerreotypo. Depois apaixonára-se muito occultamente por um rapaz padeiro, -da visinhana, e vira-o casar. Dera-se ento toda a +da visinhança, e vira-o casar. Dera-se então toda a <span class="pagenum">[43]</span> -um co, o <em>Bilro</em>; uma criada despedida deu-lhe por -vingana rolha cozida; o <em>Bilro</em> rebentou, e tinha-o +um cão, o <em>Bilro</em>; uma criada despedida deu-lhe por +vingança rolha cozida; o <em>Bilro</em> rebentou, e tinha-o agora empalhado na sala de jantar. A pessoa do conselheiro -viera de repente, um dia, pegar fogo quelles +viera de repente, um dia, pegar fogo áquelles desejos, sobrepostos como combustiveis antigos. -Accacio tornra-se a sua <em>mania</em>: admirava a sua +Accacio tornára-se a sua <em>mania</em>: admirava a sua figura e a sua gravidade, arregalava grandes olhos -para a sua eloquencia, achava-o n'uma linda posio. -O conselheiro era a sua ambio e o seu vicio! -Havia sobretudo n'elle uma belleza, cuja contemplao +para a sua eloquencia, achava-o n'uma «linda posição». +O conselheiro era a sua ambição e o seu vicio! +Havia sobretudo n'elle uma belleza, cuja contemplação demorada a estonteava como um vinho forte: era a calva. Sempre tivera o gosto perverso de certas mulheres pela calva dos homens, e aquelle appetite -insatisfeito inflammra-se com a idade. Quando +insatisfeito inflammára-se com a idade. Quando se punha a olhar para a calva do conselheiro, larga, -redonda, polida, brilhante s luzes, uma transpirao +redonda, polida, brilhante ás luzes, uma transpiração anciosa humedecia-lhe as costas, os olhos dardejavam-lhe, tinha uma vontade absurda, avida de lhe -deitar as mos, palpal-a, sentir-lhe as frmas, amassal-a, -penetrar-se d'ella! Mas disfarava, punha-se a +deitar as mãos, palpal-a, sentir-lhe as fórmas, amassal-a, +penetrar-se d'ella! Mas disfarçava, punha-se a fallar alto com um sorriso parvo, abanava-se convulsivamente, -e o suor gottejava-lhe nas rscas anafadas -do pescoo. Ia para casa rezar estaes, impunha-se -penitencias de muitas coras Virgem; mas -apenas as oraes findavam, comeava o temperamento +e o suor gottejava-lhe nas rôscas anafadas +do pescoço. Ia para casa rezar estações, impunha-se +penitencias de muitas corôas á Virgem; mas +apenas as orações findavam, começava o temperamento a latejar. E a boa, a pobre D. Felicidade tinha -agora pesadlos lascivos, e as melancolias do hysterismo -velho! A indifferena do conselheiro irritava-a -mais: nenhum olhar, nenhum suspiro, nenhuma revelao +agora pesadêlos lascivos, e as melancolias do hysterismo +velho! A indifferença do conselheiro irritava-a +mais: nenhum olhar, nenhum suspiro, nenhuma revelação amorosa o commovia! Era para com ella glacial <span class="pagenum">[44]</span> -e polido. Tinham-se s vezes encontrado a ss, - parte, no vo favoravel d'uma janella, no isolamento -mal alumiado d'um canto do soph,—mas apenas -ella fazia uma demonstrao sentimental, elle erguia-se +e polido. Tinham-se ás vezes encontrado a sós, +á parte, no vão favoravel d'uma janella, no isolamento +mal alumiado d'um canto do sophá,—mas apenas +ella fazia uma demonstração sentimental, elle erguia-se bruscamente, afastava-se, severo e pudico. Um dia -ella julgra perceber que, por traz das suas lunetas -escuras, o conselheiro lhe deitava de revs um olhar -apreciador para a abundancia do seio; fra mais clara, -mais urgente, fallra em <em>paixo</em>, disse-lhe baixo: +ella julgára perceber que, por traz das suas lunetas +escuras, o conselheiro lhe deitava de revés um olhar +apreciador para a abundancia do seio; fôra mais clara, +mais urgente, fallára em <em>paixão</em>, disse-lhe baixo: Accacio!... Mas elle com um gesto gelou-a—e de -p, grave: <br /> +pé, grave: <br /> <br /> —Minha senhora, <br /> <br /> <br /> <div class="poetry2"> As neves que na fronte se accumulam<br /> -Terminam por cahir no corao...</div> +Terminam por cahir no coração...</div> <br /> <br /> - inutil, minha senhora! <br /> +É inutil, minha senhora! <br /> <br /> O martyrio de D. Felicidade era muito occulto, -muito disfarado; ninguem o sabia; conheciam-lhe +muito disfarçado; ninguem o sabia; conheciam-lhe as infelicidades do sentimento, ignoravam-lhe as torturas do desejo. E um dia Luiza ficou attonita, sentindo -D. Felicidade agarrar-lhe o pulso com a mo +D. Felicidade agarrar-lhe o pulso com a mão humida, e dizer-lhe baixo, os olhos cravados no conselheiro: <br /> <br /> —Que regalo d'homem! <br /> <br /> Fallava-se n'essa noite do Alemtejo, d'Evora e das suas riquezas, da capella dos ossos, quando o -conselheiro entrou com o paletot no brao. Foi-o dobrar +conselheiro entrou com o paletot no braço. Foi-o dobrar solicitamente n'uma cadeira a um canto, e no -seu passo aprumado e official, veio apertar as mos +seu passo aprumado e official, veio apertar as mãos <span class="pagenum">[45]</span> ambas de Luiza, dizendo-lhe com uma voz sonora, de <em>papo</em>: <br /> <br /> —Minha boa snr.<sup>a</sup> D. Luiza, de perfeita saude, -no? O nosso Jorge tinha-m'o dito. Ainda bem! Ainda +não? O nosso Jorge tinha-m'o dito. Ainda bem! Ainda bem! <br /> <br /> Era alto, magro, vestido todo de preto, com o -pescoo entalado n'um collarinho direito. O rosto -aguado no queixo ia-se alargando at calva, vasta +pescoço entalado n'um collarinho direito. O rosto +aguçado no queixo ia-se alargando até á calva, vasta e polida, um pouco amolgada no alto; tingia os -cabellos que d'uma orelha outra lhe faziam collar +cabellos que d'uma orelha á outra lhe faziam collar por traz da nuca—e aquelle preto lustroso dava, -pelo contraste, mais brilho calva; mas no tingia +pelo contraste, mais brilho á calva; mas não tingia o bigode: tinha-o grisalho, farto, cahido aos cantos da bocca. Era muito pallido; nunca tirava as lunetas escuras. Tinha uma covinha no queixo, e as orelhas grandes muito despegadas do craneo. <br /> <br /> -Fra, outr'ora, director geral do ministerio do +Fôra, outr'ora, director geral do ministerio do reino, e sempre que dizia—El-rei! erguia-se um pouco na cadeira. Os seus gestos eram medidos, -mesmo a tomar rap. Nunca usava palavras triviaes; -no dizia <em>vomitar</em>, fazia um gesto indicativo e +mesmo a tomar rapé. Nunca usava palavras triviaes; +não dizia <em>vomitar</em>, fazia um gesto indicativo e empregava -<em>restituir</em>. Dizia sempre o nosso Garrett, o -nosso Herculano. Citava muito. Era author. E sem +<em>restituir</em>. Dizia sempre «o nosso Garrett, o +nosso Herculano». Citava muito. Era author. E sem familia, n'um terceiro andar da rua do Ferregial, amancebado com a criada, occupava-se d'economia politica: tinha composto os <span class="smallcaps">Elementos genericos -da sciencia da riqueza e sua distribuio</span>, <em>segundo +da sciencia da riqueza e sua distribuição</span>, <em>segundo os melhores authores</em>, e como sub-titulo: <em>Leituras -do sero!</em> Havia apenas mezes publicra a <span class="smallcaps">Relao +do serão!</em> Havia apenas mezes publicára a <span class="smallcaps">Relação de todos os ministros d'estado desde o</span> <span class="pagenum">[46]</span> -<span class="smallcaps">grande marquez de pombal at nossos dias, com +<span class="smallcaps">grande marquez de pombal até nossos dias, com datas cuidadosamente averiguadas de seus nascimentos e obitos</span>. <br /> <br /> -—J esteve no Alemtejo, conselheiro?—perguntou-lhe +—Já esteve no Alemtejo, conselheiro?—perguntou-lhe Luiza. <br /> <br /> —Nunca, minha senhora—e curvou-se.—Nunca! -E tenho pena! sempre desejei l ir, porque me dizem -que as suas curiosidades so de primeira ordem. <br /> +E tenho pena! sempre desejei lá ir, porque me dizem +que as suas curiosidades são de primeira ordem. <br /> <br /> Tomou uma pitada d'uma caixa dourada, entre os dedos, delicadamente, e acrescentou com pompa: <br /> <br /> —De resto, paiz de grande riqueza suina! <br /> <br /> -— Jorge, averigua quanto o partido da camara -em Evora—disse Julio do canto do soph. <br /> +—Ó Jorge, averigua quanto é o partido da camara +em Evora—disse Julião do canto do sophá. <br /> <br /> -O conselheiro acudiu, cheio de informaes, com +O conselheiro acudiu, cheio de informações, com a pitada suspensa: <br /> <br /> —Devem ser seiscentos mil reis, snr. Zuzarte, e -pulso livre. Tenho-o nos meus apontamentos. Porqu, +pulso livre. Tenho-o nos meus apontamentos. Porquê, snr. Zuzarte, quer deixar Lisboa? <br /> <br /> —Talvez!... <br /> <br /> Todos desapprovaram. <br /> <br /> -—Ah! Lisboa sempre Lisboa!—suspirou D. +—Ah! Lisboa sempre é Lisboa!—suspirou D. Felicidade. <br /> <br /> —Cidade de marmore e de granito, na phrase @@ -1698,10 +1658,10 @@ o conselheiro. <br /> E sorveu a pitada com os dedos abertos em leque, magros, bem tratados. <br /> <br /> -D. Felicidade disse ento: <br /> +D. Felicidade disse então: <br /> <br /> -—Quem no era capaz de deixar Lisboa, nem -mo de Deus Padre, era o conselheiro! +—Quem não era capaz de deixar Lisboa, nem á +mão de Deus Padre, era o conselheiro! <br /> <br /><span class="pagenum">[47]</span> O conselheiro, voltando-se vagarosamente para @@ -1711,29 +1671,29 @@ ella, um pouco curvado, replicou: <br /> d'alma! <br /> <br /> —O conselheiro—lembrou Jorge—nasceu na -rua de S. Jos. <br /> +rua de S. José. <br /> <br /> —Numero setenta e cinco, meu Jorge. Na casa -pegada quella em que viveu, at casar, o meu prezado +pegada áquella em que viveu, até casar, o meu prezado Geraldo, o meu pobre Geraldo! <br /> <br /> Geraldo, o seu pobre Geraldo, era o pai de Jorge. -Accacio fra o seu intimo. Eram visinhos. Accacio -tocava ento rebeca, e, como Geraldo tocava -flauta, faziam duos, pertenciam mesmo Philarmonica -da rua de S. Jos. Depois Accacio, quando entrou -nas reparties do Estado, por escrupulo e por dignidade, +Accacio fôra o seu intimo. Eram visinhos. Accacio +tocava então rebeca, e, como Geraldo tocava +flauta, faziam duos, pertenciam mesmo á Philarmonica +da rua de S. José. Depois Accacio, quando entrou +nas repartições do Estado, por escrupulo e por dignidade, abandonou a rebeca, os sentimentos ternos, -os seres joviaes da Philarmonica. Entregou-se todo - estatistica. Mas conservou-se muito leal a Geraldo; +os serões joviaes da Philarmonica. Entregou-se todo +á estatistica. Mas conservou-se muito leal a Geraldo; continuou mesmo a Jorge aquella amizade vigilante; -fra padrinho do seu casamento, vinha vl-o todos +fôra padrinho do seu casamento, vinha vêl-o todos os domingos, e, no dia de seus annos, mandava-lhe -pontualmente, com uma carta de felicitaes, +pontualmente, com uma carta de felicitações, uma lampreia d'ovos. <br /> <br /> —Aqui nasci—repetiu, desdobrando o seu bello -leno de sda da India—e aqui conto morrer. <br /> +lenço de sêda da India—e aqui conto morrer. <br /> <br /> E assoou-se discretamente. <br /> <br /> @@ -1741,90 +1701,90 @@ E assoou-se discretamente. <br /> <br /> Elle disse, com uma melancolia grave: <br /> <br /> -—No me arreceio d'<em>ella</em>, meu Jorge. At j fiz -construir, sem vacillar, no Alto de S. Joo, a minha +—Não me arreceio d'<em>ella</em>, meu Jorge. Até já fiz +construir, sem vacillar, no Alto de S. João, a minha <span class="pagenum">[48]</span> -ultima morada. Modesta, mas decente. ao entrar, -no arruamento direita, n'um lugar abrigado, ao p -da choa dos Verissimos amigos. <br /> +ultima morada. Modesta, mas decente. É ao entrar, +no arruamento á direita, n'um lugar abrigado, ao pé +da choça dos Verissimos amigos. <br /> <br /> -—E j compoz o seu epitaphio, snr. conselheiro?—perguntou -Julio, do canto, ironico. <br /> +—E já compoz o seu epitaphio, snr. conselheiro?—perguntou +Julião, do canto, ironico. <br /> <br /> -—No o quero, snr. Zuzarte. Na minha sepultura -no quero elogios. Se os meus amigos, os meus patricios -entenderem que eu fiz alguns servios, teem -outros meios para os commemorar; l teem a imprensa, +—Não o quero, snr. Zuzarte. Na minha sepultura +não quero elogios. Se os meus amigos, os meus patricios +entenderem que eu fiz alguns serviços, teem +outros meios para os commemorar; lá teem a imprensa, o communicado, o necrologio, a poesia mesmo! Por minha vontade quero apenas sobre a lapide lisa, em letras negras, o meu nome—com a minha -designao de conselheiro—a data do meu nascimento +designação de conselheiro—a data do meu nascimento e a data do meu obito. <br /> <br /> -E com um tom demorado, de reflexo: <br /> +E com um tom demorado, de reflexão: <br /> <br /> -—No me opponho todavia a que inscrevam por +—Não me opponho todavia a que inscrevam por baixo, em letras menores: <em>Orai por elle!</em> <br /> <br /> -Houve um silencio commovido, e porta uma +Houve um silencio commovido, e á porta uma voz fina, disse: <br /> <br /> -—Do licena? <br /> +—Dão licença? <br /> <br /> —Oh Ernestinho!—exclamou Jorge. <br /> <br /> Com um passo miudinho e rapido, Ernestinho -veio abraal-o pela cintura: <br /> +veio abraçal-o pela cintura: <br /> <br /> —Eu soube que tu que partias, primo Jorge... -Como est, prima Luiza? <br /> +Como está, prima Luiza? <br /> <br /> Era primo de Jorge. Pequenino, lymphatico, os seus membros franzinos, ainda quasi tenros, davam-lhe -um aspecto debil de collegial; o buo, delgado, -empastado em cra-mostache, arrebitava-se aos cantos +um aspecto debil de collegial; o buço, delgado, +empastado em cêra-mostache, arrebitava-se aos cantos em pontas afiadas como agulhas; e na sua cara <span class="pagenum">[49]</span> chupada, os olhos repolhudos amorteciam-se com um quebrado langoroso. Trazia sapatos de verniz com -grandes laos de fita; sobre o collete branco, a cada -do relogio sustentava um medalho enorme, -d'ouro, com fructos e flres esmaltadas em relevo. +grandes laços de fita; sobre o collete branco, a cadêa +do relogio sustentava um medalhão enorme, +d'ouro, com fructos e flôres esmaltadas em relevo. Vivia com uma actrizita do Gymnasio, uma magra, -cr de melo, com o cabello muito riado, o ar tisico,—e -escrevia para o theatro. Tinha traduces, +côr de melão, com o cabello muito riçado, o ar tisico,—e +escrevia para o theatro. Tinha traducções, dous originaes n'um acto, uma comedia em <em>calembourgs</em>. Ultimamente trazia em ensaios nas Variedades uma obra consideravel, um drama em cinco -actos, a <em>Honra e Paixo</em>. Era a sua estreia sria. E -desde ento, viam-no sempre muito atarefado, os +actos, a <em>Honra e Paixão</em>. Era a sua estreia séria. E +desde então, viam-no sempre muito atarefado, os bolsos inchados de manuscriptos, com localistas, com -actores, muito prodigo de cafs e de <em>cognacs</em>, o -chapo -ao lado, descrado, e dizendo a todos: Esta vida, -mata-me! Escrevia todavia por paixo entranhada +actores, muito prodigo de cafés e de <em>cognacs</em>, o +chapéo +ao lado, descórado, e dizendo a todos: Esta vida, +mata-me! Escrevia todavia por paixão entranhada pela Arte—porque era empregado na alfandega, com bom vencimento, e tinha quinhentos mil reis de -renda das suas inscripes. A Arte mesmo, dizia, obrigava-o +renda das suas inscripções. A Arte mesmo, dizia, obrigava-o a desembolsos: para o acto do baile da <em>Honra -e Paixo</em> mandra fazer, sua custa, botas de +e Paixão</em> mandára fazer, á sua custa, botas de verniz para o <em>galan</em>, botas de verniz para o <em>pai-nobre</em>! O seu nome de familia era Ledesma. <br /> <br /> Deram-lhe um lugar, e Luiza notou logo, pousando -o bordado, que estava abatido! Queixou-se ento +o bordado, que estava abatido! Queixou-se então das suas fadigas: os ensaios arrazavam-no, tinha -turras com o empresario: na vespera, vira-se forado +turras com o empresario: na vespera, vira-se forçado a refazer todo o final d'um acto! todo! <br /> <br /> —E tudo isto—acrescentou muito exaltado—porque <span class="pagenum">[50]</span> - um pelintra, um parvo, e quer que se passe +é um pelintra, um parvo, e quer que se passe n'uma sala, o acto que se passava n'um abysmo! <br /> <br /> -—N'um qu?—perguntou surprehendida D. Felicidade. <br /> +—N'um quê?—perguntou surprehendida D. Felicidade. <br /> <br /> O conselheiro, muito cortez, explicou: <br /> <br /> @@ -1832,22 +1792,22 @@ O conselheiro, muito cortez, explicou: <br /> Tambem se diz, em bom vernaculo, um <em>vortice</em>.—Citou: <em>N'um espumoso vortice se arroja...</em> <br /> <br /> -—N'um abysmo?—perguntaram.—Porqu? <br /> +—N'um abysmo?—perguntaram.—Porquê? <br /> <br /> O conselheiro quiz conhecer o <em>lance</em>. <br /> <br /> -Ernestinho, radioso, esboou largamente o enredo:—Era +Ernestinho, radioso, esboçou largamente o enredo:—Era uma mulher casada. Em Cintra tinha-se encontrado com um homem fatal, o conde de Monte-Redondo. O marido arruinado, devia cem contos de reis ao jogo! Estava deshonrado, ia ser preso. A mulher, louca, corre a umas ruinas acastelladas, onde -habita o conde, deixa cahir o vo, conta-lhe a catastrophe. -O conde lana o seu manto aos hombros, parte, -chega no momento em que os beleguins vo levar -o homem.— uma scena muito commovente, -dizia, de noite, ao luar!—O conde desembua-se, -atira uma bolsa d'ouro aos ps dos beleguins, gritando-lhes: +habita o conde, deixa cahir o véo, conta-lhe a catastrophe. +O conde lança o seu manto aos hombros, parte, +chega no momento em que os beleguins vão levar +o homem.—É uma scena muito commovente, +dizia, é de noite, ao luar!—O conde desembuça-se, +atira uma bolsa d'ouro aos pés dos beleguins, gritando-lhes: Saciai-vos, abutres!... <br /> <br /> —Bello final!—murmurou o conselheiro. <br /> @@ -1855,98 +1815,98 @@ Saciai-vos, abutres!... <br /> —Emfim—acrescentou Ernesto, resumindo—aqui ha um enredo complicado: o conde de Monte-Redondo e a mulher amam-se, o marido descobre, -arremessa todo o seu ouro aos ps do conde, e mata +arremessa todo o seu ouro aos pés do conde, e mata a esposa. <br /> <br /> —Como?—perguntaram. <br /> <br /><span class="pagenum">[51]</span> -—Atira-a ao abysmo. no quinto acto. O conde -v, corre, atira-se tambem. O marido cruza os braos, -e d uma gargalhada infernal. Foi assim que eu +—Atira-a ao abysmo. É no quinto acto. O conde +vê, corre, atira-se tambem. O marido cruza os braços, +e dá uma gargalhada infernal. Foi assim que eu imaginei a cousa! <br /> <br /> -Calou-se, offegante: e, abanando-se com o leno, +Calou-se, offegante: e, abanando-se com o lenço, rolava em redor os seus olhos langorosos, prateados como os d'um peixe morto. <br /> <br /> -— uma obra de cunho, embatem-se grandes -paixes!—disse o conselheiro, passando as mos +—É uma obra de cunho, embatem-se grandes +paixões!—disse o conselheiro, passando as mãos sobre a calva.—Os meus parabens, snr. Ledesma! <br /> <br /> -—Mas que quer o empresario?—perguntou Julio, -que escutra de p, attonito—que quer elle? +—Mas que quer o empresario?—perguntou Julião, +que escutára de pé, attonito—que quer elle? Quer o abysmo n'um primeiro andar, mobilado pelo -Gard? <br /> +Gardé? <br /> <br /> Ernestinho voltou-se, muito affectuosamente: <br /> <br /> -—No, snr. Zuzarte,—a sua voz era quasi meiga—quer +—Não, snr. Zuzarte,—a sua voz era quasi meiga—quer o desfecho n'uma sala. De modo que eu—e fazia um gesto resignado—a gente tem de condescender, tive d'escrever outro final. Passei a noite -em claro. Tomei tres chavenas de caf!... <br /> +em claro. Tomei tres chavenas de café!... <br /> <br /> -O conselheiro acudiu, com a mo espalmada: <br /> +O conselheiro acudiu, com a mão espalmada: <br /> <br /> —Cuidado, snr. Ledesma, cuidado! Prudencia -com esses excitantes! Por quem , prudencia! <br /> +com esses excitantes! Por quem é, prudencia! <br /> <br /> -—A mim no me faz mal, snr. conselheiro—disse +—A mim não me faz mal, snr. conselheiro—disse sorrindo.—Escrevi-o em tres horas! Venho de -lh'o mostrar agora. At o tenho aqui... <br /> +lh'o mostrar agora. Até o tenho aqui... <br /> <br /> —Leia, snr. Ernesto, leia!—exclamou logo D. Felicidade. <br /> <br /> -Que lsse! que lsse! porque no lia? <br /> +Que lêsse! que lêsse! porque não lia? <br /> <br /> Era uma massada!... Era um rascunho!... Emfim, <span class="pagenum">[52]</span> como queriam!... E radiante desdobrou, no silencio, uma grande folha de papel azul pautado. <br /> <br /> -—Eu peo desculpa. Isto um borro. A cousa -no est ainda com todos os FF e RR.—Fez ento -voz theatral:—<span class="smallcaps">Agatha!...</span> a mulher; isto aqui +—Eu peço desculpa. Isto é um borrão. A cousa +não está ainda com todos os FF e RR.—Fez então +voz theatral:—<span class="smallcaps">Agatha!...</span> É a mulher; isto aqui é a -scena com o marido, o marido j sabe tudo... +scena com o marido, o marido já sabe tudo... <br /> <br /> <br /> <div style="text-align: center;"><span class="smallcaps"> -agatha</span> (cahindo de joelhos nos ps de Julio)</div> +agatha</span> (cahindo de joelhos nos pés de Julio)</div> <br /> -Mas mata-me! Mata-me, por piedade! Antes a -morte, que vr, com esses desprezos, o corao -rasgado fibra a fibra! <br /> +«Mas mata-me! Mata-me, por piedade! Antes a +morte, que vêr, com esses desprezos, o coração +rasgado fibra a fibra!» <br /> <br /> <br /> <div style="text-align: center;"><span class="smallcaps">julio</span></div> <br /> -E no me rasgaste tu tambem o corao? Tiveste -tu piedade? No. Retalhaste-m'o! Meu Deus, -eu que a julgava pura, n'essas horas em que arrebatados... <br /> +«E não me rasgaste tu tambem o coração? Tiveste +tu piedade? Não. Retalhaste-m'o! Meu Deus, +eu que a julgava pura, n'essas horas em que arrebatados...» <br /> <br /> O reposteiro franziu-se. Sentiu-se um fino tilintar -de chavenas. Era Juliana, d'avental branco, com o ch. <br /> +de chavenas. Era Juliana, d'avental branco, com o chá. <br /> <br /> —Que pena!—exclamou Luiza.—Depois do -ch se l. Depois do ch. <br /> +chá se lê. Depois do chá. <br /> <br /> Ernesto dobrou o papel, e, com um olhar de lado para Juliana, rancoroso: <br /> <br /> -—No vale a pena, prima Luiza! <br /> +—Não vale a pena, prima Luiza! <br /> <br /> -—Ora essa! lindo!—affirmou D. Felicidade. <br /> +—Ora essa! É lindo!—affirmou D. Felicidade. <br /> <br /> Juliana pousava sobre a mesa o prato das fatias, -os biscoutos d'Oeiras, os bolos do Cc. <br /> +os biscoutos d'Oeiras, os bolos do Cócó. <br /> <br /> -—Aqui tem o seu ch fraco, conselheiro—dizia +—Aqui tem o seu chá fraco, conselheiro—dizia <span class="pagenum">[53]</span> -Luiza.—Sirva-se, Julio. As torradas ao snr. Julio! +Luiza.—Sirva-se, Julião. As torradas ao snr. Julião! Mais assucar! Quem quer? Uma torrada, conselheiro? <br /> <br /> —Estou amplamente servido, minha prezada senhora—replicou, @@ -1956,48 +1916,48 @@ E declarou, voltado para Ernestinho, que achava o dialogo opulento. <br /> <br /> Mas, perguntaram, o que quer o empresario mais -agora? J tem a sala... <br /> +agora? Já tem a sala... <br /> <br /> -Ernestinho, de p, excitado, com um bolo d'ovos +Ernestinho, de pé, excitado, com um bolo d'ovos na ponta dos dedos, explicou: <br /> <br /> -—O que o empresario quer que o marido lhe -perde... <br /> +—O que o empresario quer é que o marido lhe +perdôe... <br /> <br /> Foi um espanto: <br /> <br /> -—Ora essa! extraordinario! Porque? <br /> +—Ora essa! É extraordinario! Porque? <br /> <br /> -—Ento!—exclamou Ernestinho, encolhendo os -hombros,—diz que o publico que no gosta! Que -no so cousas c para o nosso paiz. <br /> +—Então!—exclamou Ernestinho, encolhendo os +hombros,—diz que o publico que não gosta! Que +não são cousas cá para o nosso paiz. <br /> <br /> —A fallar a verdade—disse o conselheiro—a -fallar a verdade, snr. Ledesma, o nosso publico no - geralmente affecto a scenas de sangue. <br /> +fallar a verdade, snr. Ledesma, o nosso publico não +é geralmente affecto a scenas de sangue. <br /> <br /> -—Mas no ha sangue, snr. conselheiro!—protestava +—Mas não ha sangue, snr. conselheiro!—protestava Ernestinho, erguendo-se sobre os bicos dos -sapatos—mas no ha sangue! com um tiro. +sapatos—mas não ha sangue! É com um tiro. É com um tiro pelas costas, snr. conselheiro! <br /> <br /> -Luiza fez a D. Felicidade—<em>pst!</em> e, n'um parte, +Luiza fez a D. Felicidade—<em>pst!</em> e, n'um áparte, com um sorriso: <br /> <br /> -—D'esses bolinhos d'ovos. So muito frescos! <br /> +—D'esses bolinhos d'ovos. São muito frescos! <br /> <br /> Ella respondeu, com uma voz lamentosa: <br /> <br /> -—Ai, filha, no! +—Ai, filha, não! <br /> <br /><span class="pagenum">[54]</span> E indicou o estomago, compungidamente. <br /> <br /> No entanto o conselheiro aconselhava a Ernestinho -a clemencia: tinha-lhe posto a mo no hombro +a clemencia: tinha-lhe posto a mão no hombro paternalmente, e com uma voz persuasiva: <br /> <br /> -—D mais alegria pea, snr. Ledesma. O espectador +—Dá mais alegria á peça, snr. Ledesma. O espectador sahe mais alliviado! Deixe sahir o espectador alliviado! <br /> <br /> @@ -2005,7 +1965,7 @@ alliviado! <br /> <br /> —Estou repleto, minha prezada senhora. <br /> <br /> -E, ento, invocou a opinio de Jorge. No lhe parecia +E, então, invocou a opinião de Jorge. Não lhe parecia que o bom Ernesto devia perdoar? <br /> <br /> —Eu, conselheiro? De modo nenhum. Sou pela @@ -2014,36 +1974,36 @@ mates, Ernestinho! <br /> <br /> D. Felicidade acudiu, toda bondosa: <br /> <br /> -—Deixe fallar, snr. Ledesma. Est a brincar. E -elle ento que um corao d'anjo! <br /> +—Deixe fallar, snr. Ledesma. Está a brincar. E +elle então que é um coração d'anjo! <br /> <br /> -—Est enganada, D. Felicidade—disse Jorge, -de p, diante d'ella.—Fallo serio e sou uma fera! +—Está enganada, D. Felicidade—disse Jorge, +de pé, diante d'ella.—Fallo serio e sou uma fera! Se enganou o marido, sou pela morte. No abysmo, -na sala, na rua, mas que a mate. Posso l consentir +na sala, na rua, mas que a mate. Posso lá consentir que, n'um caso d'esses, um primo meu, uma pessoa da minha familia, do meu sangue, se ponha -a perdoar como um lamecha! No! Mata-a! um +a perdoar como um lamecha! Não! Mata-a! É um principio de familia. Mata-a quanto antes! <br /> <br /> -—Aqui tem um lapis, snr. Ledesma—gritou Julio, +—Aqui tem um lapis, snr. Ledesma—gritou Julião, estendendo-lhe uma lapiseira. <br /> <br /> -O conselheiro, ento, interveio, grave: <br /> +O conselheiro, então, interveio, grave: <br /> <br /> -—No—disse—no creio que o nosso Jorge -falle serio. muito instruido para ter idas to... +—Não—disse—não creio que o nosso Jorge +falle serio. É muito instruido para ter idéas tão... <br /> <br /><span class="pagenum">[55]</span> Hesitou, procurou o adjectivo. Juliana poz-se-lhe diante com uma bandeja, onde um macaco de prata se agachava comicamente, sob um vasto guarda-sol -erriado de palitos. Tomou um, curvou-se, e concluiu: <br /> +erriçado de palitos. Tomou um, curvou-se, e concluiu: <br /> <br /> -—...To anti-civilisadoras. <br /> +—...Tão anti-civilisadoras. <br /> <br /> -—Pois est enganado, conselheiro, tenho-as—affirmou -Jorge.—So as minhas idas. E aqui tem, +—Pois está enganado, conselheiro, tenho-as—affirmou +Jorge.—São as minhas idéas. E aqui tem, se em lugar de se tratar d'um final d'acto, fosse um caso da vida real, se o Ernesto viesse dizer-me: sabes, encontrei minha mulher... <br /> @@ -2071,69 +2031,69 @@ Ella ergueu o rosto, risonha, encolheu os hombros... <br /> E o conselheiro logo: <br /> <br /> —A snr.<sup>a</sup> D. Luiza diz com orgulho o que dizem -as verdadeiras mes de familia: <br /> +as verdadeiras mães de familia: <br /> <br /> <br /> <div class="poetry2"> -Impurezas do mundo no me roam<br /> +Impurezas do mundo não me roçam<br /> Nem a fimbria da tunica sequer.</div> <br /> <br /><span class="pagenum">[56]</span> -—Ora muito boas noites—disse, porta, uma +—Ora muito boas noites—disse, á porta, uma voz grossa. <br /> <br /> Voltaram-se. <br /> <br /> - Sebastio! snr. Sebastio! Sebastiarro! <br /> +Ó Sebastião! Ó snr. Sebastião! ó Sebastiarrão! <br /> <br /> -Era elle, Sebastio, o grande Sebastio, o Sebastiarro, -Sebastio <em>tronco d'arvore</em>,—o intimo, o camarada, +Era elle, Sebastião, o grande Sebastião, o Sebastiarrão, +Sebastião <em>tronco d'arvore</em>,—o intimo, o camarada, o <em>inseparavel</em> de Jorge, desde o latim, na aula de frei Liborio, aos Paulistas. <br /> <br /> Era um homem baixo e grosso, todo vestido de -preto, com um chapo molle desabado na mo. Comeava +preto, com um chapéo molle desabado na mão. Começava a perder um pouco na frente, os seus cabellos castanhos e finos. Tinha a pelle muito branca, a barba alourada e curta. <br /> <br /> -Veio sentar-se ao p de Luiza. <br /> +Veio sentar-se ao pé de Luiza. <br /> <br /> -—Ento d'onde vem? d'onde vem? <br /> +—Então d'onde vem? d'onde vem? <br /> <br /> -Vinha do Price. Rira muito com os palhaos. +Vinha do Price. Rira muito com os palhaços. Houvera a brincadeira da pipa. <br /> <br /> -O seu rosto, em plena luz, tinha uma expresso +O seu rosto, em plena luz, tinha uma expressão honesta, simples, aberta: os olhos pequenos, azues -d'um azul claro, d'uma suavidade sria, adoavam-se -muito quando sorria: e os beios escarlates, sem pelliculas +d'um azul claro, d'uma suavidade séria, adoçavam-se +muito quando sorria: e os beiços escarlates, sem pelliculas seccas, os dentes luzidios, revelavam uma vida saudavel e habitos castos. Fallava devagar, baixo, como se tivesse medo de se manifestar ou de fatigar. Juliana trouxera-lhe a sua chavena, e remexendo -o assucar com a colhr direita, os olhos ainda +o assucar com a colhér direita, os olhos ainda a rir, um sorriso bom: <br /> <br /> -—A pipa tem muita graa. Muita graa! <br /> +—A pipa tem muita graça. Muita graça! <br /> <br /> -Sorveu um gole de ch e depois d'um momento: <br /> +Sorveu um gole de chá e depois d'um momento: <br /> <br /> -—E tu, maroto, sempre partes manh? No ha +—E tu, maroto, sempre partes ámanhã? Não ha <span class="pagenum">[57]</span> -umas tentaesinhas d'ir por ahi fra com elle, minha +umas tentaçõesinhas d'ir por ahi fóra com elle, minha cara amiga? <br /> <br /> -Luiza sorriu. Tomra ella! Quem dera! Mas era -uma jornada to incommoda! Depois a casa no podia -ficar s, no havia que fiar em criados... <br /> +Luiza sorriu. Tomára ella! Quem dera! Mas era +uma jornada tão incommoda! Depois a casa não podia +ficar só, não havia que fiar em criados... <br /> <br /> -—Est claro, est claro—disse elle. <br /> +—Está claro, está claro—disse elle. <br /> <br /> -Jorge, ento, que abrira a porta do escriptorio, +Jorge, então, que abrira a porta do escriptorio, chamou-o: <br /> <br /> -— Sebastio! Fazes favor? <br /> +—Ó Sebastião! Fazes favor? <br /> <br /> Elle foi logo com o seu andar pesado, o largo dorso curvado: as abas do seu casaco mal feito tinham @@ -2142,10 +2102,10 @@ um comprimento ecclesiastico. <br /> Entraram para o escriptorio. <br /> <br /> Era uma saleta pequena, com uma estante alta e -envidraada, tendo em cima a estatueta de gesso, +envidraçada, tendo em cima a estatueta de gesso, empoeirada e velha, d'uma bacchante em delirio. A -mesa, com um antigo tinteiro de prata que fra de -seu av, estava ao p da janella: uma colleco empilhada +mesa, com um antigo tinteiro de prata que fôra de +seu avô, estava ao pé da janella: uma collecção empilhada de <em>Diarios do Governo</em>, branquejava a um canto: por cima da cadeira de marroquim escuro, pendia, n'um caixilho preto, uma larga photographia @@ -2157,255 +2117,255 @@ reposteiro de baeta escarlate, abria para o patamar. <br /> Jorge, accendendo o cachimbo—Aquella desavergonhada da Leopoldina! Que te parece, hein? <br /> <br /> -—E entrou?—perguntou Sebastio, baixo, correndo +—E entrou?—perguntou Sebastião, baixo, correndo por dentro o pesado reposteiro de fazenda listrada. <br /> <br /><span class="pagenum">[58]</span> —Entrou, sentou-se, esteve, demorou-se! Fez o -que quiz! A Leopoldina, a <em>Po e queijo</em>! <br /> +que quiz! A Leopoldina, a <em>Pão e queijo</em>! <br /> <br /> E arremessando o phosphoro violentamente: <br /> <br /> —Quando penso que aquella desavergonhada vem a minha casa! Uma creatura que tem mais -amantes que camisas, que anda pelo D-fundo em -troas, que passeava nos bailes, este anno, de domin, -com um tenor! A mulher do Zagallo, um devasso +amantes que camisas, que anda pelo Dá-fundo em +troças, que passeava nos bailes, este anno, de dominó, +com um tenor! A mulher do Zagallão, um devasso que falsificou uma letra! <br /> <br /> -E quasi ao ouvido de Sebastio: <br /> +E quasi ao ouvido de Sebastião: <br /> <br /> -—Uma mulher que dormiu com o Mendona dos -callos! Aquelle sebento do Mendona dos callos! <br /> +—Uma mulher que dormiu com o Mendonça dos +callos! Aquelle sebento do Mendonça dos callos! <br /> <br /> Teve um gesto furioso, exclamou: <br /> <br /> —E vem aqui, senta-se nas minhas cadeiras, -abraa minha mulher, respira o meu ar!... Palavra -d'honra, Sebastio, se a pilho—procurou mentalmente, +abraça minha mulher, respira o meu ar!... Palavra +d'honra, Sebastião, se a pilho—procurou mentalmente, com o olhar acceso, um castigo sufficiente—dou-lhe -aoutes! <br /> +açoutes! <br /> <br /> -Sebastio disse devagar: <br /> +Sebastião disse devagar: <br /> <br /> -—E o peor a visinhana. <br /> +—E o peor é a visinhança. <br /> <br /> -—Est claro que !—exclamou Jorge.—Toda -essa gente ahi pela rua abaixo sabe quem ella ! -Sabem-lhe os amantes, sabem-lhe os sitios. a <em>Po -e queijo</em>! Todo o mundo conhece a <em>Po e +—Está claro que é!—exclamou Jorge.—Toda +essa gente ahi pela rua abaixo sabe quem ella é! +Sabem-lhe os amantes, sabem-lhe os sitios. É a <em>Pão +e queijo</em>! Todo o mundo conhece a <em>Pão e queijo</em>. <br /> <br /> -—M visinhana—disse Sebastio. <br /> +—Má visinhança—disse Sebastião. <br /> <br /> —De tremer. <br /> <br /> -Mas ento! estava acostumado casa, era sua, +Mas então! estava acostumado á casa, era sua, tinha-a arranjado, era uma economia... <br /> <br /> -—Seno! No parava aqui um dia! <br /> +—Senão! Não parava aqui um dia! <br /> <br /> Era um horror de rua! Pequena, estreita, acavallados <span class="pagenum">[59]</span> -uns nos outros! Uma visinhana a postos, avida +uns nos outros! Uma visinhança a postos, avida de mexericos! Qualquer bagatella, o trotar d'uma tipoia, e apparecia por traz de cada vidro um par d'olhos repolhudos a cocar! E era logo um badalar -de linguas por ahi abaixo, e conciliabulos, e opinies -formadas! fulano indecente, fulana bebeda! <br /> +de linguas por ahi abaixo, e conciliabulos, e opiniões +formadas! fulano é indecente, fulana é bebeda! <br /> <br /> -— o diabo!—disse Sebastio. <br /> +—É o diabo!—disse Sebastião. <br /> <br /> -—A Luiza um anjo, coitada—dizia Jorge, passeando -pela saleta—mas tem cousas em que criana! -No v o mal. muito boa, deixa-se ir. Com +—A Luiza é um anjo, coitada—dizia Jorge, passeando +pela saleta—mas tem cousas em que é criança! +Não vê o mal. É muito boa, deixa-se ir. Com este caso da Leopoldina, por exemplo; foram creadas -de pequenas, eram amigas, no tem coragem -agora para a pr fra. acanhamento, bondade. +de pequenas, eram amigas, não tem coragem +agora para a pôr fóra. É acanhamento, é bondade. Elle comprehende-se! Mas emfim as leis da vida tem as suas exigencias!... <br /> <br /> E depois d'uma pausa: <br /> <br /> -—Por isso, Sebastio, em quanto eu estiver fra, -se te constar que a Leopoldina vem por c, avisa -a Luiza! Porque ella assim: esquece-se, no -reflexiona. necessario alguem que a advirta, que -lhe diga:—Alto l, isso no pde ser! Que ento -cahe logo em si, e a primeira!... Vens por ahi, +—Por isso, Sebastião, em quanto eu estiver fóra, +se te constar que a Leopoldina vem por cá, avisa +a Luiza! Porque ella é assim: esquece-se, não +reflexiona. É necessario alguem que a advirta, que +lhe diga:—Alto lá, isso não póde ser! Que então +cahe logo em si, e é a primeira!... Vens por ahi, fazes-lhe companhia, fazes-lhe musica, e se vires que a Leopoldina apparece ao largo, tu logo:—Minha -rica senhora, cuidado, olhe que isso no! Que -ella, sentindo-se apoiada, tem deciso. Seno, acanha-se, -deixa-a vir. Soffre com isso, mas no tem -coragem de lhe dizer: No te quero vr, vai-te! No -tem coragem p'ra nada: comeam as mos a tremer-lhe, +rica senhora, cuidado, olhe que isso não! Que +ella, sentindo-se apoiada, tem decisão. Senão, acanha-se, +deixa-a vir. Soffre com isso, mas não tem +coragem de lhe dizer: Não te quero vêr, vai-te! Não +tem coragem p'ra nada: começam as mãos a tremer-lhe, <span class="pagenum">[60]</span> -a seccar-se-lhe a bocca... mulher, muito -mulher!... No te esqueas, hein, Sebastio? <br /> +a seccar-se-lhe a bocca... É mulher, é muito +mulher!... Não te esqueças, hein, Sebastião? <br /> <br /> -—Ento havia de me esquecer, homem? <br /> +—Então havia de me esquecer, homem? <br /> <br /> -Sentiram ento o piano na sala, e a voz de Luiza +Sentiram então o piano na sala, e a voz de Luiza ergueu-se, fresca e clara, cantando a <em>Mandolinata</em>: <br /> <br /> <br /> <div class="poetry2"> -Amici, la notte bella,<br /> +Amici, la notte é bella,<br /> La luna va spontari...</div> <br /> <br /> -—Fica to s, coitada!...—disse Jorge. <br /> +—Fica tão só, coitada!...—disse Jorge. <br /> <br /> Deu alguns passos pelo escriptorio, fumando, -com a cabea baixa: <br /> +com a cabeça baixa: <br /> <br /> -—Todo o casal bem organisado, Sebastio, deve +—Todo o casal bem organisado, Sebastião, deve ter dous filhos! Deve ter pelo menos um!... <br /> <br /> -Sebastio coou a barba em silencio—e a voz -de Luiza, elevando-se com um certo esforo aspero, +Sebastião coçou a barba em silencio—e a voz +de Luiza, elevando-se com um certo esforço aspero, nos <em>altos</em> da melodia : <br /> <br /> <br /> <div class="poetry2"> -Di c, di l, per la cit<br /> +Di cà, di là, per la cità<br /> Andiami a transnottari...</div> <br /> <br /> -Era uma tristeza secreta de Jorge—no ter um +Era uma tristeza secreta de Jorge—não ter um filho! Desejava-o tanto! Ainda em solteiro, nas vesperas -do casamento, j sonhava aquella felicidade: +do casamento, já sonhava aquella felicidade: o seu filho! Via-o de muitas maneiras: ou gatinhando -com as suas perninhas vermelhas, cheias de rscas, -e os cabellos annelados, finos como fios de sda; -ou rapaz forte, entrando da escla com os livros, +com as suas perninhas vermelhas, cheias de rôscas, +e os cabellos annelados, finos como fios de sêda; +ou rapaz forte, entrando da escóla com os livros, alegre e d'olho vivo, vindo mostrar-lhe as boas notas dos mestres: ou, melhor, rapariga crescida, clara <span class="pagenum">[61]</span> -e rosada, com um vestido branco, as duas tranas -cahidas, vindo pousar as mos nos seus cabellos -j grisalhos... <br /> +e rosada, com um vestido branco, as duas tranças +cahidas, vindo pousar as mãos nos seus cabellos +já grisalhos... <br /> <br /> -Vinha-lhe, s vezes, um medo de morrer sem +Vinha-lhe, ás vezes, um medo de morrer sem ter tido aquella felicidade completadora! <br /> <br /> Agora, na sala, a voz aguda de Ernestinho perorava, -depois, no piano Luiza recomeou a <em>Mandolinata</em>, +depois, no piano Luiza recomeçou a <em>Mandolinata</em>, com um <em>brio</em> jovial. <br /> <br /> -A porta do escriptorio abriu-se, Julio entrou: <br /> +A porta do escriptorio abriu-se, Julião entrou: <br /> <br /> -—Que esto vosss aqui a conspirar? Vou-me -safar, que tarde! At volta, meu velho, hein? -Tambem ia comtigo tomar ar, respirar, vr campos, +—Que estão vossês aqui a conspirar? Vou-me +safar, que é tarde! Até á volta, meu velho, hein? +Tambem ia comtigo tomar ar, respirar, vêr campos, mas... <br /> <br /> E sorriu com amargura.—<em>Addio! Addio!</em> <br /> <br /> -Jorge foi alumiar-lhe ao patamar, abraal-o outra +Jorge foi alumiar-lhe ao patamar, abraçal-o outra vez. Se quizesse alguma cousa do Alemtejo!... <br /> <br /> -Julio carregou o chapo na cabea: <br /> +Julião carregou o chapéo na cabeça: <br /> <br /> -—D c outro charuto, por despedida! D c +—Dá cá outro charuto, por despedida! Dá cá dous! <br /> <br /> -—Leva a caixa! Eu em viagem s fumo cachimbo. +—Leva a caixa! Eu em viagem só fumo cachimbo. Leva a caixa, homem! <br /> <br /> -Embrulhou-lh'a n'um <em>Diario de Noticias</em>; Julio -metteu-a debaixo do brao, e descendo os degraus: <br /> +Embrulhou-lh'a n'um <em>Diario de Noticias</em>; Julião +metteu-a debaixo do braço, e descendo os degraus: <br /> <br /> -—Cuidado com as sezes, e descobre uma mina +—Cuidado com as sezões, e descobre uma mina d'ouro! <br /> <br /> -Jorge e Sebastio entraram na sala. Ernestinho, +Jorge e Sebastião entraram na sala. Ernestinho, encostado ao piano, torcia as guias do bigodinho, e -Luiza comeava uma valsa de Strauss—o <em>Danubio +Luiza começava uma valsa de Strauss—o <em>Danubio Azul</em>. <br /> <br /> -Jorge disse, rindo, estendendo os braos: +Jorge disse, rindo, estendendo os braços: <br /> <br /><span class="pagenum">[62]</span> —Uma valsa, D. Felicidade? <br /> <br /> -Ella voltou-se, com um sorriso. E porque no? -Em nova era fallada! Citou logo a valsa que danra +Ella voltou-se, com um sorriso. E porque não? +Em nova era fallada! Citou logo a valsa que dançára com o sr. D. Fernando, no tempo da Regencia, -nas Necessidades. Era uma valsa linda, d'essa poca: +nas Necessidades. Era uma valsa linda, d'essa época: <em>A Perola d'Ophir</em>. <br /> <br /> -Estava sentada ao p do conselheiro, no soph. +Estava sentada ao pé do conselheiro, no sophá. E como retomando um dialogo mais querido—continuou, baixo para elle, com uma voz meiga: <br /> <br /> -—Pois creia, acho-o com optimas cres. <br /> +—Pois creia, acho-o com optimas côres. <br /> <br /> -O conselheiro enrolava vagarosamente o seu leno -de sda da India. <br /> +O conselheiro enrolava vagarosamente o seu lenço +de sêda da India. <br /> <br /> -—Na estao calmosa passo sempre melhor. E +—Na estação calmosa passo sempre melhor. E D. Felicidade? <br /> <br /> -—Ai! Estou outra, conselheiro! Muito boas digestes, +—Ai! Estou outra, conselheiro! Muito boas digestões, muito livre de gazes... Estou outra! <br /> <br /> —Deus o queira, minha senhora, Deus o queira—disse -o conselheiro, esfregando lentamente as mos. <br /> +o conselheiro, esfregando lentamente as mãos. <br /> <br /> -Tossiu, ia levantar-se, mas D. Felicidade pz-se +Tossiu, ia levantar-se, mas D. Felicidade pôz-se a dizer: <br /> <br /> —Espero que esse interesse seja verdadeiro... <br /> <br /> -Crou. O corpete flaccido do vestido de sda +Córou. O corpete flaccido do vestido de sêda preta enchia-se-lhe com o arfar do peito. <br /> <br /> -O conselheiro recahiu lentamente no soph,—e -com as mos nos joelhos: <br /> +O conselheiro recahiu lentamente no sophá,—e +com as mãos nos joelhos: <br /> <br /> —D. Felicidade sabe que tem em mim um amigo sincero... <br /> <br /> Ella levantou para elle seus olhos pisados, d'onde -sahiam revelaes de paixo e supplicas de felicidade: +sahiam revelações de paixão e supplicas de felicidade: <br /> <br /><span class="pagenum">[63]</span> —E eu, conselheiro!... <br /> <br /> -Deu um grande suspiro, pz o leque sobre o +Deu um grande suspiro, pôz o leque sobre o rosto. <br /> <br /> -O conselheiro ergueu-se seccamente. E com a cabea -alta, as mos atraz das costas, foi ao piano, +O conselheiro ergueu-se seccamente. E com a cabeça +alta, as mãos atraz das costas, foi ao piano, perguntou a Luiza curvando-se: <br /> <br /> -— alguma cano do Tyrol, D. Luiza? <br /> +—É alguma canção do Tyrol, D. Luiza? <br /> <br /> —Uma valsa de Strauss—murmurou-lhe Ernestinho, -em bicos de ps, ao ouvido. <br /> +em bicos de pés, ao ouvido. <br /> <br /> —Ah! Muita fama! Grande author! <br /> <br /> -Tirou ento o relogio. Eram horas, disse, de ir +Tirou então o relogio. Eram horas, disse, de ir coordenar alguns apontamentos. Aproximou-se de Jorge, com solemnidade: <br /> <br /> —Jorge, meu bom Jorge, adeus! Cautela com -esse Alemtejo! O clima nocivo, a estao traioeira! <br /> +esse Alemtejo! O clima é nocivo, a estação traiçoeira! <br /> <br /> -E apertou-o nos braos com uma presso commovida. <br /> +E apertou-o nos braços com uma pressão commovida. <br /> <br /> D. Felicidade punha a sua manta de renda negra. <br /> <br /> -—J, D. Felicidade?—disse Luiza. <br /> +—Já, D. Felicidade?—disse Luiza. <br /> <br /> Ella explicou-lhe, ao ouvido: <br /> <br /> -—J, sim, filha, que tenho estado a abarrotar, +—Já, sim, filha, que tenho estado a abarrotar, comi umas bajes e tenho estado!... E aquelle homem, -aquelle glo! O snr. Ernesto vem para os +aquelle gêlo! O snr. Ernesto vem para os meus sitios, hein? <br /> <br /> —Como um fuso, minha senhora! <br /> @@ -2413,24 +2373,24 @@ meus sitios, hein? <br /> Tinha vestido o seu paletot d'alpaca clara, fumava chupando, com as faces encovadas, por uma boquilha enorme, onde uma Venus se torcia sobre o -dorso d'um leo domado. +dorso d'um leão domado. <br /> <br /><span class="pagenum">[64]</span> —Adeus, primo Jorge, saudinha e dinheiro, -hein? Adeus. Quando fr a <em>Honra e Paixo</em> c mando -um camarote prima Luiza. Adeus! Saudinha! <br /> +hein? Adeus. Quando fôr a <em>Honra e Paixão</em> cá mando +um camarote á prima Luiza. Adeus! Saudinha! <br /> <br /> -Iam a sahir. Mas o conselheiro, porta, voltando-se +Iam a sahir. Mas o conselheiro, á porta, voltando-se subitamente, com as abas do paletot deitadas -para traz, a mo pomposamente apoiada no casto -de prata da bengala que representava uma cabea +para traz, a mão pomposamente apoiada no castão +de prata da bengala que representava uma cabeça de mouro, disse, com gravidade: <br /> <br /> —Esquecia-me, Jorge! Tanto em Evora, como em Beja, visite os governadores civis! E eu lhe digo -porqu: deve-lh'o como primeiros funccionarios do +porquê: deve-lh'o como primeiros funccionarios do districto, e podem-lhe ser de muita utilidade nas -suas peregrinaes scientificas! <br /> +suas peregrinações scientificas! <br /> <br /> E curvando-se profundamente: <br /> <br /> @@ -2438,33 +2398,33 @@ E curvando-se profundamente: <br /> <br /> <br /> <br /> -Sebastio tinha ficado. Para arejar do fumo de +Sebastião tinha ficado. Para arejar do fumo de tabaco Luiza foi abrir as janellas; a noite estava quente e immovel, de luar. <br /> <br /> -Sebastio pozera-se ao piano, e com a cabea +Sebastião pozera-se ao piano, e com a cabeça curvada, corria devagar o teclado. <br /> <br /> -Tocava admiravelmente, com uma comprehenso +Tocava admiravelmente, com uma comprehensão muito fina da musica. Outr'ora, compozera mesmo -uma <em>Meditao</em>, duas <em>Valsas</em>, uma +uma <em>Meditação</em>, duas <em>Valsas</em>, uma <em>Ballada</em>: mas eram estudos muito trabalhados, cheios de reminiscencias, -sem estylo.—Da cachimonia no me sahe +sem estylo.—Da cachimonia não me sahe <span class="pagenum">[65]</span> nada—costumava elle dizer com bonhomia, batendo -na testa, sorrindo—mas l com os dedos!... <br /> +na testa, sorrindo—mas lá com os dedos!... <br /> <br /> -Pz-se a tocar um <em>Nocturno</em> de Choppin. Jorge -sentra-se no soph ao p de Luiza. <br /> +Pôz-se a tocar um <em>Nocturno</em> de Choppin. Jorge +sentára-se no sophá ao pé de Luiza. <br /> <br /> -—J tens prompto o teu farnelzinho!—disse-lhe +—Já tens prompto o teu farnelzinho!—disse-lhe ella. <br /> <br /> -—Bastam umas bolachas, filha. O que quero o +—Bastam umas bolachas, filha. O que quero é o cantil com <em>cognac</em>. <br /> <br /> -—E no te esqueas de mandar um telegramma +—E não te esqueças de mandar um telegramma logo que chegues! <br /> <br /> —Pudera! <br /> @@ -2475,101 +2435,101 @@ logo que chegues! <br /> <br /> Ella teve um gesto amuado. <br /> <br /> -—Ah, bem! Se no vieres, vou ter comtigo! A -culpa tua. <br /> +—Ah, bem! Se não vieres, vou ter comtigo! A +culpa é tua. <br /> <br /> E olhando em redor: <br /> <br /> -—Que s que vou ficar! <br /> +—Que só que vou ficar! <br /> <br /> Mordeu o beicinho, fitou o tapete. E de repente, com a voz ainda triste: <br /> <br /> -—Pst, Sebastio! A <em>malaguenha</em>, faz favor? <br /> +—Pst, Sebastião! A <em>malaguenha</em>, faz favor? <br /> <br /> -Sebastio comeou a tocar a <em>malaguenha</em>. Aquella +Sebastião começou a tocar a <em>malaguenha</em>. Aquella melodia calida, muito arrastada, encantava-a. Parecia-lhe -estar em Malaga, ou em Granada, no sabia: +estar em Malaga, ou em Granada, não sabia: era sob as laranjeiras, mil estrellinhas luzem; -a noite quente, o ar cheira bem; por baixo d'um -lampeo suspenso a um ramo, um cantador sentado -na tripea mourisca faz gemer a guitarra; em redor +a noite é quente, o ar cheira bem; por baixo d'um +lampeão suspenso a um ramo, um cantador sentado +na tripeça mourisca faz gemer a guitarra; em redor as mulheres com os seus corpetes de velludilho encarnado -batem as mos em cadencia: e ao largo +batem as mãos em cadencia: e ao largo <span class="pagenum">[66]</span> dorme uma Andaluzia de romance e de zarzuela, -quente e sensual, onde tudo so braos brancos que -se abrem para o amor, capas romanticas que roam +quente e sensual, onde tudo são braços brancos que +se abrem para o amor, capas romanticas que roçam as paredes, sombrias viellas onde luz o nicho do santo e se repenica a viola, serenos que invocam a Virgem Santissima cantando as horas... <br /> <br /> -—Muito bem, Sebastio! Gracias! <br /> +—Muito bem, Sebastião! Gracias! <br /> <br /> Elle sorriu, ergueu-se, fechou cuidadosamente o -piano, e indo buscar o seu chapo desabado: <br /> +piano, e indo buscar o seu chapéo desabado: <br /> <br /> -—Ento manh s sete? C estou, e vou-te -acompanhar at ao Barreiro. <br /> +—Então ámanhã ás sete? Cá estou, e vou-te +acompanhar até ao Barreiro. <br /> <br /> -Bom Sebastio! <br /> +Bom Sebastião! <br /> <br /> -Foram debruar-se na varanda para o vr sahir. +Foram debruçar-se na varanda para o vêr sahir. A noite fazia um silencio alto, d'uma melancolia -placida; o gaz dos candieiros parecia mortio; a sombra +placida; o gaz dos candieiros parecia mortiço; a sombra que se recortava na rua, com uma nitidez brusca, -tinha um tom quente e dce; a luz punha nas +tinha um tom quente e dôce; a luz punha nas fachadas brancas claridades vivas, e nas pedras da -calada faiscaes vidradas; uma clara-boia reluzia, +calçada faiscações vidradas; uma clara-boia reluzia, a distancia, como uma velha lamina de prata; nada se movia; e instinctivamente os olhos erguiam-se -para as alturas, procuravam a lua branca, muito sria. <br /> +para as alturas, procuravam a lua branca, muito séria. <br /> <br /> —Que linda noite! <br /> <br /> -A porta bateu, e Sebastio de baixo, na sombra: <br /> +A porta bateu, e Sebastião de baixo, na sombra: <br /> <br /> -—D vontade de passear, hein? <br /> +—Dá vontade de passear, hein? <br /> <br /> —Linda! <br /> <br /> -Ficaram varanda preguiosamente, olhando, detidos +Ficaram á varanda preguiçosamente, olhando, detidos pela tranquillidade, pela luz. Puzeram-se a fallar <span class="pagenum">[67]</span> -baixo da jornada. quella hora onde estaria elle? -J em Evora, n'um quarto d'estalagem, passeando -monotonamente sobre um cho de tijolo. Mas voltaria +baixo da jornada. Áquella hora onde estaria elle? +Já em Evora, n'um quarto d'estalagem, passeando +monotonamente sobre um chão de tijolo. Mas voltaria breve; esperava fazer um bom negocio com o Paco, o hespanhol das minas de Portel, trazer talvez -alguns centos de mil reis, e teriam ento a doura +alguns centos de mil reis, e teriam então a doçura do mez de setembro; poderiam fazer uma jornada ao Norte, irem ao Bussaco, trepar aos altos, beber a agua fresca das rochas, sob a espessura humida das folhagens: irem a Espinho, e pelas praias, -sentar-se na ara, no bom ar cheio d'azote, vendo o +sentar-se na arêa, no bom ar cheio d'azote, vendo o mar unido, d'um azul metallico e faiscante, o mar -do vero, com algum fumo de paquete que passa -para o Sul ao longe muito adelgaado. Faziam outros +do verão, com algum fumo de paquete que passa +para o Sul ao longe muito adelgaçado. Faziam outros planos com os hombros muito chegados: uma felicidade abundante enchia-os deliciosamente. E Jorge disse: <br /> <br /> -—Se houvesse um pequerrucho, j no ficavas -to s! <br /> +—Se houvesse um pequerrucho, já não ficavas +tão só! <br /> <br /> Ella suspirou. Tambem o desejava tanto! Chamar-se-hia -Carlos Eduardo. E via-o no seu bero dormindo, -ou no collo, n, agarrando com a mosinha o -dedo do p, mamando a ponta rosada do seu peito... +Carlos Eduardo. E via-o no seu berço dormindo, +ou no collo, nú, agarrando com a mãosinha o +dedo do pé, mamando a ponta rosada do seu peito... Um estremecimento d'um deleite infinito correu-lhe -no corpo. Passou o brao pela cinta de Jorge. Um -dia seria, teria um filho de certo! E no comprehendia +no corpo. Passou o braço pela cinta de Jorge. Um +dia seria, teria um filho de certo! E não comprehendia o seu filho homem nem Jorge velho: via-os ambos do mesmo modo: um sempre amante, novo, forte; o outro sempre dependente do seu peito, da -maminha, ou gatinhando e palrando, louro e cr de +maminha, ou gatinhando e palrando, louro e côr de <span class="pagenum">[68]</span> -rosa. E a vida apparecia-lhe infindavel, d'uma doura +rosa. E a vida apparecia-lhe infindavel, d'uma doçura igual, atravessada do mesmo enternecimento amoroso, quente, calma e luminosa como a noite que os cobria. <br /> @@ -2579,22 +2539,22 @@ a voz secca de Juliana. <br /> <br /> Luiza voltou-se: <br /> <br /> -—s sete, j lhe disse ha pouco, creatura. <br /> +—Ás sete, já lhe disse ha pouco, creatura. <br /> <br /> Fecharam a janella. Em torno das velas uma -borboleta branca esvoaava. Era bom agouro! <br /> +borboleta branca esvoaçava. Era bom agouro! <br /> <br /> -Jorge prendeu-a nos braos: <br /> +Jorge prendeu-a nos braços: <br /> <br /> —Vai ficar sem o seu maridinho, hein?—disse tristemente. <br /> <br /> -Ela deixou pesar o corpo sobre as mos d'elle +Ela deixou pesar o corpo sobre as mãos d'elle cruzadas, olhou-o com um longo olhar que se ennevoava -e escurecia, e envolvendo-lhe o pescoo com -o gesto lento, harmonioso e solemne dos braos, +e escurecia, e envolvendo-lhe o pescoço com +o gesto lento, harmonioso e solemne dos braços, pousou-lhe na bocca um beijo grave e profundo. Um -vago soluo levantou-lhe o peito. <br /> +vago soluço levantou-lhe o peito. <br /> <br /> —Jorge! Querido!—murmurou. <br /> @@ -2607,120 +2567,120 @@ vago soluo levantou-lhe o peito. <br /> <br /> Havia doze dias que Jorge tinha partido e, apesar do calor e da poeira, Luiza vestia-se para ir a -casa de Leopoldina. Se Jorge soubesse, no havia -de gostar, no! Mas estava to farta de estar s! -Aborrecia-se tanto! De manh, ainda tinha os arranjos, +casa de Leopoldina. Se Jorge soubesse, não havia +de gostar, não! Mas estava tão farta de estar só! +Aborrecia-se tanto! De manhã, ainda tinha os arranjos, a costura, a <em>toilette</em>, algum romance... Mas de tarde! <br /> <br /> - hora em que Jorge costumava voltar do ministerio, -a solido parecia alargar-se em torno d'ella. +Á hora em que Jorge costumava voltar do ministerio, +a solidão parecia alargar-se em torno d'ella. Fazia-lhe tanta falta o <em>seu</em> toque da campainha, os seus passos no corredor!... <br /> <br /> -Ao crepusculo, ao vr cahir o dia, entristecia-se -sem razo, cahia n'uma vaga sentimentalidade: sentava-se +Ao crepusculo, ao vêr cahir o dia, entristecia-se +sem razão, cahia n'uma vaga sentimentalidade: sentava-se ao piano, e os fados tristes, as cavatinas apaixonadas gemiam instinctivamente no teclado, sob <span class="pagenum">[70]</span> -os seus dedos preguiosos, no movimento abandonado -dos seus braos molles. O que pensava em tolices -ento! E noite, s, na larga cama franceza, +os seus dedos preguiçosos, no movimento abandonado +dos seus braços molles. O que pensava em tolices +então! E á noite, só, na larga cama franceza, sem poder dormir com o calor, vinham-lhe de repente terrores, palpites de viuvez. <br /> <br /> -No estava acostumada, no podia estar s. At -se lembrra de chamar a tia Patrocinio, uma velha +Não estava acostumada, não podia estar só. Até +se lembrára de chamar a tia Patrocinio, uma velha parenta pobre que vivia em Belem: ao menos era -<em>alguem</em>: mas receou aborrecer-se mais ao p da sua +<em>alguem</em>: mas receou aborrecer-se mais ao pé da sua longa figura de viuva taciturna, sempre a fazer meia, com enormes oculos de tartaruga sobre um nariz d'aguia. <br /> <br /> -N'aquella manh pensra em Leopoldina, toda +N'aquella manhã pensára em Leopoldina, toda contente d'ir tagarellar, rir, segredar, passar as horas do calor. Penteava-se em collete e saia branca: a camisinha decotada descobria os ombros alvos d'uma redondeza macia, o collo branco e tenro, azulado -de vasinhas finas; e os seus braos redondinhos, -um pouco vermelhos no cotovlo, descobriam -por baixo, quando se erguiam prendendo as tranas, +de vêasinhas finas; e os seus braços redondinhos, +um pouco vermelhos no cotovêlo, descobriam +por baixo, quando se erguiam prendendo as tranças, fiosinhos louros, frisando e fazendo ninho. <br /> <br /> A sua pelle conservava ainda o rosado humido da agua fria: havia no quarto um cheiro agudo de vinagre de <em>toilette</em>: os transparentes de linho branco -descidos davam uma luz baa, com tons de leite. <br /> +descidos davam uma luz baça, com tons de leite. <br /> <br /> Ah! positivamente devia escrever a Jorge, que -voltasse depressa! Que o que tinha graa era ir surprehendel-o +voltasse depressa! Que o que tinha graça era ir surprehendel-o a Evora, cahir-lhe no Tabaquinho, um -dia, s tres horas! E quando elle entrasse empoeirado +dia, ás tres horas! E quando elle entrasse empoeirado e encalmado, de lunetas azues, atirar-se-lhe ao <span class="pagenum">[71]</span> -pescoo! E tardinha, pelo brao d'elle, ainda quebrada -da jornada, com um vestido fresco, ir vr a +pescoço! E á tardinha, pelo braço d'elle, ainda quebrada +da jornada, com um vestido fresco, ir vêr a cidade. Pelas ruas estreitas e tristes admiravam-na -muito. Os homens vinham s portas das lojas. Quem -seria? de Lisboa. a do Engenheiro.—E diante +muito. Os homens vinham ás portas das lojas. Quem +seria? É de Lisboa. É a do Engenheiro.—E diante do toucador, apertando o corpete do vestido, sorria -quellas imaginaes, e ao seu rosto, no espelho. <br /> +áquellas imaginações, e ao seu rosto, no espelho. <br /> <br /> A porta do quarto rangeu devagarinho. <br /> <br /> -—Que ? <br /> +—Que é? <br /> <br /> A voz de Juliana, plangente, disse: <br /> <br /> -—A senhora d licena que eu v logo ao medico? <br /> +—A senhora dá licença que eu vá logo ao medico? <br /> <br /> -—V, mas no se demore. Puxe-me essa saia -atraz. Mais. O que que voss tem? <br /> +—Vá, mas não se demore. Puxe-me essa saia +atraz. Mais. O que é que vossê tem? <br /> <br /> -—Enjos, minha senhora, peso no corao. Passei +—Enjôos, minha senhora, peso no coração. Passei a noite em claro. <br /> <br /> Estava mais amarella, o olhar muito pisado, a face envelhecida. Trazia um vestido de merino preto escoado, e a cuia da semana de cabellos velhos. <br /> <br /> -—Pois sim, v—disse Luiza.—Mas arranje tudo -antes. E no se demore, hein ? <br /> +—Pois sim, vá—disse Luiza.—Mas arranje tudo +antes. E não se demore, hein ? <br /> <br /> -Juliana subiu logo cozinha. Era no segundo +Juliana subiu logo á cozinha. Era no segundo andar, com duas janellas de sacada para as trazeiras, -larga, ladrilhada de tijolo diante do fogo. <br /> +larga, ladrilhada de tijolo diante do fogão. <br /> <br /> -—Diz que sim, snr.<sup>a</sup> Joanna—disse cozinheira—que -podia ir. Vou-me vestir. Ella tambem est -quasi prompta. Fica vossemec com a casa por +—Diz que sim, snr.<sup>a</sup> Joanna—disse á cozinheira—que +podia ir. Vou-me vestir. Ella tambem está +quasi prompta. Fica vossemecê com a casa por sua! <br /> <br /> A cozinheira fez-se vermelha, poz-se a cantar, foi logo sacudir, estender na varanda um velho tapete <span class="pagenum">[72]</span> -esfiado; e os seus olhos no deixavam, defronte, +esfiado; e os seus olhos não deixavam, defronte, uma casa baixa, pintada d'amarello, com um -portal largo,—a loja de marceneiro do tio Joo Galho, +portal largo,—a loja de marceneiro do tio João Galho, onde trabalhava o Pedro, o seu amante. A pobre -Joanna babava-se por ele. Era um rapazola +Joanna «babava-se» por ele. Era um rapazola pallido e afadistado; Joanna era minhota, de Avintes, de familia de lavrador, e aquella figura delgada de lisboeta anemico seduzia-a com uma violencia -abrazada. Como no podia sahir semana, mettia-o -em casa, pela porta de traz, quando estava s; estendia -ento na varanda para dar signal o velho tapete +abrazada. Como não podia sahir á semana, mettia-o +em casa, pela porta de traz, quando estava só; estendia +então na varanda para dar signal o velho tapete desbotado, onde ainda se percebiam os paus de um veado. <br /> <br /> Era uma rapariga muito forte, com peitos d'ama, o cabello como azeviche, todo lustroso do oleo de -amendoas dces. Tinha a testa curta de pleba teimosa. +amendoas dôces. Tinha a testa curta de plebêa teimosa. E as sobrancelhas cerradas faziam-lhe parecer o olhar mais negro. <br /> <br /> -—Ai!—suspirou Juliana.—A snr.<sup>a</sup> Joanna +—Ai!—suspirou Juliana.—A snr.<sup>a</sup> Joanna é que a leva! <br /> <br /> A rapariga ficou escarlate. <br /> @@ -2730,70 +2690,70 @@ Mas Juliana acudiu logo: <br /> —Olha o mal! fosse eu! Boa! faz muito bem! <br /> <br /> Juliana lisongeava sempre a cozinheira: dependia -d'ella: Joanna dava-lhe caldinhos s horas de +d'ella: Joanna dava-lhe caldinhos ás horas de debilidade, ou, quando ella estava mais adoentada, -fazia-lhe um bife s escondidas da senhora. Juliana -tinha um grande medo de cair em fraqueza, e a -cada momento precisava tomar a sustancia. De -certo, como feia e solteirona detestava aquelle escandalo +fazia-lhe um bife ás escondidas da senhora. Juliana +tinha um grande medo de «cair em fraqueza», e a +cada momento precisava tomar a «sustancia». De +certo, como feia e solteirona detestava aquelle «escandalo <span class="pagenum">[73]</span> -do carpinteiro; mas protegia-o, porque elle +do carpinteiro»; mas protegia-o, porque elle valia muitos regalos aos seus fracos de gulosa. <br /> <br /> —Fosse eu!—repetiu—dava-lhe o melhor da panella! Se a gente ia a ter escrupulos por causa -dos amos, boa! Olha quem! Vem uma pessoa a -morrer, e como fosse um co. <br /> +dos amos, boa! Olha quem! Vêem uma pessoa a +morrer, e é como fosse um cão. <br /> <br /> E com um risinho amargo: <br /> <br /> -—Diz que me no demorasse no medico. como +—Diz que me não demorasse no medico. É como quem diz, cura-te depressa ou espicha depressa! <br /> <br /> Foi buscar a vassoura a um canto, e com um suspiro agudo: <br /> <br /> -—Todas o mesmo, uma rcua! <br /> +—Todas o mesmo, uma récua! <br /> <br /> -Desceu, comeou a varrer o corredor.—Toda a -noite estivera doente: o quarto no soto, debaixo +Desceu, começou a varrer o corredor.—Toda a +noite estivera doente: o quarto no sotão, debaixo das telhas, muito abafado, com um cheiro de tijolo -cozido, dava-lhe enjos, faltas d'ar, desde o comeo -do vero: na vespera at vomitra! E j levantada -s seis horas, no descanra, limpando, engommando, +cozido, dava-lhe enjôos, faltas d'ar, desde o começo +do verão: na vespera até vomitára! E já levantada +ás seis horas, não descançára, limpando, engommando, despejando, com a pontada no lado e todo o estomago embrulhado!—Tinha escancarado a cancella, e com grandes ais, atirava vassouradas furiosas -contra as grades do corrimo. <br /> +contra as grades do corrimão. <br /> <br /> -—A snr.<sup>a</sup> D. Luiza est em casa? <br /> +—A snr.<sup>a</sup> D. Luiza está em casa? <br /> <br /> Voltou-se. Nos ultimos degraus da escada estava -um sujeito, que lhe pareceu estrangeirado. Era +um sujeito, que lhe pareceu «estrangeirado». Era trigueiro, alto, tinha um bigode pequeno levantado, um ramo na sobrecasaca azul, e o verniz dos seus sapatos resplandecia. <br /> <br /> —A senhora vai sahir—disse ela olhando-o -muito.—Faz favor de dizer quem ? +muito.—Faz favor de dizer quem é? <br /> <br /><span class="pagenum">[74]</span> O individuo sorriu. <br /> <br /> -—Diga-lhe que um sujeito para um negocio. +—Diga-lhe que é um sujeito para um negocio. Um negocio de minas. <br /> <br /> -Luiza, diante do toucador, j de chapo, mettia -n'uma casa do corpete dous botes de rosa de ch. <br /> +Luiza, diante do toucador, já de chapéo, mettia +n'uma casa do corpete dous botões de rosa de chá. <br /> <br /> —Um negocio!—disse muito surprehendida—Deve ser algum recado para o snr. Jorge, de certo! -Mande entrar. Que especie de homem ? <br /> +Mande entrar. Que especie de homem é? <br /> <br /> —Um janota! <br /> <br /> -Luiza desceu o vo branco, calou devagar as -luvas de <em>peau de sude</em> claras, deu duas pancadinhas +Luiza desceu o véo branco, calçou devagar as +luvas de <em>peau de suède</em> claras, deu duas pancadinhas fofas ao espelho na gravata de renda, e abriu a porta da sala. Mas quasi recuou, fez <em>ah!</em> toda escarlate. Tinha-o reconhecido logo. Era o primo Bazilio. <br /> @@ -2808,11 +2768,11 @@ perguntas vieram logo, muito precipitadamente:—Quando tinha elle chegado? Se sabia que elle estava em Lisboa? Como soubera a morada d'ella? <br /> <br /> -Chegra na vespera no paquete de Bordeus. Perguntra +Chegára na vespera no paquete de Bordeus. Perguntára no ministerio: disseram-lhe que Jorge estava no Alemtejo, deram-lhe a <em>adresse</em>... <br /> <br /> -—Como tu ests mudada, Santo Deus! <br /> +—Como tu estás mudada, Santo Deus! <br /> <br /> —Velha? <br /> <br /> @@ -2824,14 +2784,14 @@ no Alemtejo, deram-lhe a <em>adresse</em>... <br /> E elle, que tinha feito? Demorava-se? <br /> <br /> Foi abrir uma janella, dar uma luz larga, mais -clara. Sentaram-se. Elle no soph muito languidamente; -ella ao p, pousada de leve beira d'uma poltrona, +clara. Sentaram-se. Elle no sophá muito languidamente; +ella ao pé, pousada de leve á beira d'uma poltrona, toda nervosa. <br /> <br /> Tinha deixado o <em>degredo</em>—disse elle.—Viera -respirar um pouco velha Europa. Estivera em Constantinopla, +respirar um pouco á velha Europa. Estivera em Constantinopla, na Terra Santa, em Roma. O ultimo anno -passra-o em Paris. Vinha de l, d'aquella aldeola +passára-o em Paris. Vinha de lá, d'aquella aldeola de Paris!—Fallava devagar, recostado, com um ar intimo, estendendo sobre o tapete, commodamente, os seus sapatos de verniz. <br /> @@ -2839,17 +2799,17 @@ os seus sapatos de verniz. <br /> Luiza olhava-o. Achava-o mais varonil, mais trigueiro. No cabello preto annelado havia agora alguns fios brancos: mas o bigode pequeno tinha o antigo -ar moo, orgulhoso e intrepido; os olhos, quando ria, -a mesma doura amollecida, banhada n'um fluido. +ar moço, orgulhoso e intrepido; os olhos, quando ria, +a mesma doçura amollecida, banhada n'um fluido. Reparou na ferradura de perola da sua gravata de setim preto, nas pequeninas estrellas brancas bordadas -nas suas meias de sda. A Bahia no o vulgarisra. +nas suas meias de sêda. A Bahia não o vulgarisára. Voltava mais interessante! <br /> <br /> —Mas tu, conta-me de ti—dizia elle com um -sorriso, inclinado para ela.—s feliz, tens um pequerrucho... <br /> +sorriso, inclinado para ela.—És feliz, tens um pequerrucho... <br /> <br /> -—No—exclamou Luiza rindo.—No tenho! +—Não—exclamou Luiza rindo.—Não tenho! Quem te disse? <br /> <br /> —Tinham-me dito. E teu marido demora-se? <br /> @@ -2858,81 +2818,81 @@ Quem te disse? <br /> <br /> Quatro semanas! Era uma viuvez! Offereceu-se <span class="pagenum">[76]</span> -logo para a vir vr mais vezes, palrar um momento, -pela manh... <br /> +logo para a vir vêr mais vezes, palrar um momento, +pela manhã... <br /> <br /> -—Pudera no! s o unico parente, que tenho, +—Pudera não! És o unico parente, que tenho, agora... <br /> <br /> -Era verdade!... E a conversao tomou uma intimidade -melancolica: fallaram da mi de Luiza, a -<em>tia Jj</em>, como lhe chamava Bazilio. Luiza contou a -sua morte, muito dce, na poltrona, sem um ai... <br /> +Era verdade!... E a conversação tomou uma intimidade +melancolica: fallaram da mãi de Luiza, a +<em>tia Jójó</em>, como lhe chamava Bazilio. Luiza contou a +sua morte, muito dôce, na poltrona, sem um ai... <br /> <br /> -—Onde est sepultada?—perguntou Bazilio com +—Onde está sepultada?—perguntou Bazilio com uma voz grave; e acrescentou, puxando o punho da -camisa de chita:—Est no nosso jazigo? <br /> +camisa de chita:—Está no nosso jazigo? <br /> <br /> -—Est. <br /> +—Está. <br /> <br /> -—Hei-de ir l. Pobre tia Jj! <br /> +—Hei-de ir lá. Pobre tia Jójó! <br /> <br /> Houve um silencio. <br /> <br /> —Mas tu ias sahir!—disse Bazilio de repente, querendo erguer-se. <br /> <br /> -—No!—exclamou—No! Estava aborrecida, -no tinha nada que fazer. Ia tomar ar. No saio, j. <br /> +—Não!—exclamou—Não! Estava aborrecida, +não tinha nada que fazer. Ia tomar ar. Não saio, já. <br /> <br /> Elle ainda disse: <br /> <br /> -—No te prendas... <br /> +—Não te prendas... <br /> <br /> —Que tolice! Ia a casa d'uma amiga passar um momento. <br /> <br /> -Tirou logo o chapo; n'aquelle movimento os -braos erguidos repuxaram o corpete justo, as frmas +Tirou logo o chapéo; n'aquelle movimento os +braços erguidos repuxaram o corpete justo, as fórmas do seio accusaram-se suavemente. <br /> <br /> Bazilio torcia a ponta do bigode devagar; e vendo-a -descalar as luvas: <br /> +descalçar as luvas: <br /> <br /> -—Era eu antigamente quem te calava e descalava +—Era eu antigamente quem te calçava e descalçava as luvas... Lembras-te?... Ainda tenho esse privilegio exclusivo, creio eu... <br /> <br /><span class="pagenum">[77]</span> Ella riu-se. <br /> <br /> -—De certo que no... <br /> +—De certo que não... <br /> <br /> -Bazilio disse ento, lentamente, fitando o cho: <br /> +Bazilio disse então, lentamente, fitando o chão: <br /> <br /> —Ah! Outros tempos! <br /> <br /> E poz-se a fallar de Collares: a sua primeira -ida, mal chegra, tinha sido tomar uma tipoia e ir -l: queria vr a quinta; ainda existiria o balouo -debaixo do castanheiro? ainda haveria o caramancho -de rosinhas brancas, ao p do Cupido de gesso +idéa, mal chegára, tinha sido tomar uma tipoia e ir +lá: queria vêr a quinta; ainda existiria o balouço +debaixo do castanheiro? ainda haveria o caramanchão +de rosinhas brancas, ao pé do Cupido de gesso que tinha uma aza quebrada?... <br /> <br /> Luiza ouvira dizer que a quinta pertencia agora a um brazileiro: sobre a estrada havia um mirante com um tecto chinez, ornado de bolas de vidro; e a -velha casa morgada fra reconstruida e mobilada -pelo Gard. <br /> +velha casa morgada fôra reconstruida e mobilada +pelo Gardé. <br /> <br /> -—A nossa pobre sala de bilhar, cr d'oca, com +—A nossa pobre sala de bilhar, côr d'oca, com grinaldas de rosas!—disse Bazilio; e fitando-a:—Lembras-te das nossas partidas de bilhar? <br /> <br /> Luiza, um pouco vermelha, torcia os dedos das luvas; ergueu os olhos para elle, disse, sorrindo: <br /> <br /> -—Eramos duas crianas! <br /> +—Eramos duas crianças! <br /> <br /> Bazilio encolheu tristemente os hombros, fitou as ramagens do tapete: parecia abandonar-se a uma @@ -2940,47 +2900,47 @@ saudade remota, e com uma voz sentida: <br /> <br /> —Foi o bom tempo! Foi o meu bom tempo! <br /> <br /> -Ella via a sua cabea bem feita, descahida n'aquella +Ella via a sua cabeça bem feita, descahida n'aquella melancolia das felicidades passadas, com uma risca muito fina, e os cabellos brancos—que lhe dera -a separao. Sentia tambem uma vaga saudade encher-lhe +a separação. Sentia tambem uma vaga saudade encher-lhe o peito: ergueu-se, foi abrir a outra janella, <span class="pagenum">[78]</span> como para dissipar na luz viva e forte aquella -perturbao. Perguntou-lhe ento pelas viagens, por +perturbação. Perguntou-lhe então pelas viagens, por Paris, por Constantinopla. <br /> <br /> -Fra sempre o seu desejo viajar—dizia—ir ao -Oriente. Quereria andar em caravanas, balouada no -dorso dos camlos; e no teria medo, nem do deserto, +Fôra sempre o seu desejo viajar—dizia—ir ao +Oriente. Quereria andar em caravanas, balouçada no +dorso dos camêlos; e não teria medo, nem do deserto, nem das feras... <br /> <br /> -—Ests muito valente!—disse Bazilio.—Tu eras -uma maricas, tinhas medo de tudo... At da adega, -na casa do pap, em Almada! <br /> +—Estás muito valente!—disse Bazilio.—Tu eras +uma maricas, tinhas medo de tudo... Até da adega, +na casa do papá, em Almada! <br /> <br /> -Ella crou. Lembrava-se bem da adega, com a -sua frialdade subterranea que dava arripios! A canda +Ella córou. Lembrava-se bem da adega, com a +sua frialdade subterranea que dava arripios! A candêa d'azeite pendurada na parede alumiava com uma luz avermelhada e fumosa as grossas traves cheias -de tas d'aranha, e a fileira tenebrosa das pipas bojudas. -Havia alli s vezes, pelos cantos, beijos furtados... <br /> +de têas d'aranha, e a fileira tenebrosa das pipas bojudas. +Havia alli ás vezes, pelos cantos, beijos furtados... <br /> <br /> -Quiz saber ento o que tinha feito em Jerusalm, +Quiz saber então o que tinha feito em Jerusalém, se era bonito. <br /> <br /> -Era curioso. Ia pela manh um bocado ao Santo -Sepulchro; depois d'almoo montava a cavallo... -No se estava mal no hotel, inglezas bonitas... Tinha +Era curioso. Ia pela manhã um bocado ao Santo +Sepulchro; depois d'almoço montava a cavallo... +Não se estava mal no hotel, inglezas bonitas... Tinha algumas intimidades illustres... <br /> <br /> -Fallava d'ellas, devagar, traando a perna: o -seu amigo o patriarcha de Jerusalm, a sua velha +Fallava d'ellas, devagar, traçando a perna: o +seu amigo o patriarcha de Jerusalém, a sua velha amiga a princeza de La Tour d'Auvergne! Mas o melhor do dia era de tarde—dizia—no Jardim das Oliveiras, vendo defronte as muralhas do templo de -Salomo, ao p a alda escura de Bethania onde -Martha fiava aos ps de Jesus, e mais longe, faiscando +Salomão, ao pé a aldêa escura de Bethania onde +Martha fiava aos pés de Jesus, e mais longe, faiscando <span class="pagenum">[79]</span> immovel sob o sol, o mar Morto! E alli passava sentado n'um banco, fumando tranquillamente @@ -2988,12 +2948,12 @@ o seu cachimbo! <br /> <br /> Se tinha corrido perigos? <br /> <br /> -De certo. Uma tempestade de ara no deserto de +De certo. Uma tempestade de arêa no deserto de Petra! Horrivel! Mas que linda viagem, as caravanas, os acampamentos! Descreveu a sua <em>toilette</em>:—uma -manta de pelle de camlo s listras vermelhas +manta de pelle de camêlo ás listras vermelhas e pretas, um punhal de Damasco n'uma cinta de -Bagdad, e a lana comprida dos Beduinos. <br /> +Bagdad, e a lança comprida dos Beduinos. <br /> <br /> —Devia-te ficar bem! <br /> <br /> @@ -3010,21 +2970,21 @@ O melhor era um rosario... <br /> —Um rosario? <br /> <br /> —Uma reliquia! Foi benzido primeiro pelo patriarcha -de Jerusalm sobre o tumulo de Christo, depois +de Jerusalém sobre o tumulo de Christo, depois pelo papa... <br /> <br /> Ah! Porque tinha estado com o papa! Um velhinho -muito aceado, j todo branquinho, vestido de +muito aceado, já todo branquinho, vestido de branco, muito amavel! <br /> <br /> -—Tu d'antes no eras muito devota—disse. <br /> +—Tu d'antes não eras muito devota—disse. <br /> <br /> -—No, no sou muito caturra n'essas cousas—respondeu +—Não, não sou muito caturra n'essas cousas—respondeu rindo. <br /> <br /> —Lembras-te da capella de nossa casa em Almada? <br /> <br /> -Tinham passado alli lindas tardes! Ao p da velha +Tinham passado alli lindas tardes! Ao pé da velha capella morgada havia um adro todo cheio de altas <span class="pagenum">[80]</span> hervas floridas,—e as papoulas, quando vinha @@ -3033,68 +2993,68 @@ pousadas... <br /> <br /> —E a tilia, lembras-te, onde eu fazia gymnastica? <br /> <br /> -—No fallemos no que l vai! <br /> +—Não fallemos no que lá vai! <br /> <br /> -Em que queria ella ento que elle fallasse? Era +Em que queria ella então que elle fallasse? Era a sua mocidade, o melhor que tivera na vida... <br /> <br /> Ella sorriu, perguntou: <br /> <br /> —E no Brazil? <br /> <br /> -Um horror! At fizera a crte a uma mulata. <br /> +Um horror! Até fizera a côrte a uma mulata. <br /> <br /> -—E porque te no casaste?... <br /> +—E porque te não casaste?... <br /> <br /> Estava a mangar! Uma mulata! <br /> <br /> —E de resto—acrescentou com a voz d'um -arrependimento triste—j que me no casei quando +arrependimento triste—já que me não casei quando devia,—encolheu os hombros melancolicamente—acabou-se... Perdi a vez. Ficarei solteiro. <br /> <br /> Luiza fez-se escarlate. Houve um silencio. <br /> <br /> -—E qual o outro presente, ento, alm do rosario? <br /> +—E qual é o outro presente, então, além do rosario? <br /> <br /> -—Ah! Luvas. Luvas de vero, de <em>peau de sude</em>, -de oito botes. Luvas decentes. Vosss aqui usam -umas luvitas de dous botes, a vr-se o punho, um +—Ah! Luvas. Luvas de verão, de <em>peau de suède</em>, +de oito botões. Luvas decentes. Vossês aqui usam +umas luvitas de dous botões, a vêr-se o punho, um horror! <br /> <br /> De resto pelo que tinha visto, as mulheres em -Lisboa cada dia se vestiam peor! Era atroz! No dizia -por ella; at aquelle vestido tinha <em>chic</em>, era +Lisboa cada dia se vestiam peor! Era atroz! Não dizia +por ella; até aquelle vestido tinha <em>chic</em>, era simples, era honesto. Mas em geral, era um horror. Em Paris! Que deliciosas, que frescas as <em>toilettes</em> d'aquelle -vero! Oh! mas em Paris!... Tudo superior! +verão! Oh! mas em Paris!... Tudo é superior! <span class="pagenum">[81]</span> -Por exemplo, desde que chegra ainda no pudera -comer. Positivamente no podia comer!—S em +Por exemplo, desde que chegára ainda não pudera +comer. Positivamente não podia comer!—Só em Paris se come—resumiu. <br /> <br /> -Luiza voltava entre os dedos o seu medalho de -ouro, preso ao pescoo por uma fita de velludo preto. <br /> +Luiza voltava entre os dedos o seu medalhão de +ouro, preso ao pescoço por uma fita de velludo preto. <br /> <br /> -—E estiveste ento um anno em Paris? <br /> +—E estiveste então um anno em Paris? <br /> <br /> Um anno divino. Tinha um <em>appartamento</em> lindissimo, que pertencera a lord Falmouth, rue Saint Florentin, tinha tres cavallos... <br /> <br /> -E recostando-se muito, com as mos nos bolsos: <br /> +E recostando-se muito, com as mãos nos bolsos: <br /> <br /> —Emfim, fazer este valle de lagrimas o mais -confortavel possivel!... Dize c, tens algum retrato -n'esse medalho? <br /> +confortavel possivel!... Dize cá, tens algum retrato +n'esse medalhão? <br /> <br /> —O retrato de meu marido. <br /> <br /> -—Ah! deixa vr! <br /> +—Ah! deixa vêr! <br /> <br /> -Luiza abriu o medalho. Elle debruou-se; tinha +Luiza abriu o medalhão. Elle debruçou-se; tinha o rosto quasi sobre o peito d'ella. Luiza sentia o aroma fino que vinha de seus cabellos. <br /> <br /> @@ -3102,128 +3062,128 @@ fino que vinha de seus cabellos. <br /> <br /> Ficaram calados. <br /> <br /> -—Que calor que est!—disse Luiza.—Abafa-se, +—Que calor que está!—disse Luiza.—Abafa-se, hein! <br /> <br /> -Levantou-se, foi abrir um pouco uma vidraa. O -sol deixra a varanda. Uma aragem suave encheu as +Levantou-se, foi abrir um pouco uma vidraça. O +sol deixára a varanda. Uma aragem suave encheu as pregas grossas das bambinellas. <br /> <br /> -— o calor do Brazil—disse elle.—Sabes que -ests mais crescida? <br /> +—É o calor do Brazil—disse elle.—Sabes que +estás mais crescida? <br /> <br /> -Luiza estava de p. O olhar de Bazilio corria-lhe +Luiza estava de pé. O olhar de Bazilio corria-lhe as linhas do corpo; e com a voz muito intima, <span class="pagenum">[82]</span> -os cotovlos sobre os joelhos, o rosto erguido para +os cotovêlos sobre os joelhos, o rosto erguido para ella: <br /> <br /> -—Mas, francamente, dize c, pensaste que eu te -viria vr? <br /> +—Mas, francamente, dize cá, pensaste que eu te +viria vêr? <br /> <br /> -—Ora essa! Realmente, se no viesses zangava-me. -s o meu unico parente... O que tenho pena - que meu marido no esteja... <br /> +—Ora essa! Realmente, se não viesses zangava-me. +És o meu unico parente... O que tenho pena +é que meu marido não esteja... <br /> <br /> —Eu—acudiu Bazilio—foi justamente por elle -no estar... <br /> +não estar... <br /> <br /> Luiza fez-se escarlate. Bazilio emendou logo, um pouco corado tambem: <br /> <br /> —Quero dizer... talvez elle saiba que houve -entre ns... <br /> +entre nós... <br /> <br /> Ella interrompeu: <br /> <br /> -—Tolices! Eramos duas crianas. Onde isso vai! <br /> +—Tolices! Eramos duas crianças. Onde isso vai! <br /> <br /> —Eu tinha vinte e sete annos—observou elle, curvando-se. <br /> <br /> -Ficaram calados, um pouco embaraados. Bazilio +Ficaram calados, um pouco embaraçados. Bazilio cofiava o bigode, olhando vagamente em redor. <br /> <br /> -—Ests muito bem installada aqui—disse. <br /> +—Estás muito bem installada aqui—disse. <br /> <br /> -No estava mal... A casa era pequena, mas muito +Não estava mal... A casa era pequena, mas muito commoda. Pertencia-lhes. <br /> <br /> -—Ah! ests perfeitamente! Quem esta senhora, +—Ah! estás perfeitamente! Quem é esta senhora, com uma luneta d'ouro? <br /> <br /> -E indicava o retrato por cima do soph. <br /> +E indicava o retrato por cima do sophá. <br /> <br /> -—A mi de meu marido. <br /> +—A mãi de meu marido. <br /> <br /> —Ah! vive ainda? <br /> <br /> —Morreu. <br /> <br /> -— o que uma sogra pde fazer de mais amavel... +—É o que uma sogra póde fazer de mais amavel... <br /> <br /><span class="pagenum">[83]</span> Bocejou ligeiramente, fitou um momento os seus -sapatos muito aguados, e com um movimento brusco, -ergueu-se, tomou o chapo. <br /> +sapatos muito aguçados, e com um movimento brusco, +ergueu-se, tomou o chapéo. <br /> <br /> -—J? Onde ests? <br /> +—Já? Onde estás? <br /> <br /> -—No Hotel Central. E at quando? <br /> +—No Hotel Central. E até quando? <br /> <br /> -—At quando quizeres. No disseste que vinhas -manh com o rosario? <br /> +—Até quando quizeres. Não disseste que vinhas +ámanhã com o rosario? <br /> <br /> -Elle tomou-lhe a mo, curvou-se: <br /> +Elle tomou-lhe a mão, curvou-se: <br /> <br /> -—J se no pde dar um beijo na mo d'uma +—Já se não póde dar um beijo na mão d'uma velha prima? <br /> <br /> -—Porque no? <br /> +—Porque não? <br /> <br /> -Pousou-lhe um beijo na mo, muito longo, com -uma presso dce. <br /> +Pousou-lhe um beijo na mão, muito longo, com +uma pressão dôce. <br /> <br /> —Adeus!—disse. <br /> <br /> -E porta, com o reposteiro meio erguido, voltando-se: <br /> +E á porta, com o reposteiro meio erguido, voltando-se: <br /> <br /> —Sabes, que eu, ao subir as escadas, vinha a perguntar a mim mesmo, como se vai isto passar? <br /> <br /> -—Isto qu? Vrmo-nos outra vez? Mas, perfeitamente. +—Isto quê? Vêrmo-nos outra vez? Mas, perfeitamente. Que imaginaste tu? <br /> <br /> Elle hesitou, sorriu: <br /> <br /> -—Imaginei que no eras to boa rapariga. -Adeus. manh, hein? <br /> +—Imaginei que não eras tão boa rapariga. +Adeus. Ámanhã, hein? <br /> <br /> No fundo da escada accendeu o charuto, devagar. <br /> <br /> -—Que bonita que ella est!—pensou. <br /> +—Que bonita que ella está!—pensou. <br /> <br /> -E arremessando o phosphoro, com fora: <br /> +E arremessando o phosphoro, com força: <br /> <br /> -—E eu, pedao d'asno, que estava quasi decidido -a no a vir vr! Est de appetite! Est muito melhor! -E ssinha em casa, aborrecidinha talvez!... +—E eu, pedaço d'asno, que estava quasi decidido +a não a vir vêr! Está de appetite! Está muito melhor! +E sósinha em casa, aborrecidinha talvez!... <br /> <br /><span class="pagenum"><a name="p84" id="p84">[84]</a></span> -Ao p da Patriarchal fez parar um <em>coup</em> vazio; -e estendido, com o chapo nos joelhos, em quanto +Ao pé da Patriarchal fez parar um <em>coupé</em> vazio; +e estendido, com o chapéo nos joelhos, em quanto a parelha esfalfada trotava: <br /> <br /> —E tem-me o ar de ser muito aceada, cousa -rara na terra! As mos muito bem tratadas! O p +rara na terra! As mãos muito bem tratadas! O pé muito bonito! <br /> <br /> -Revia a pequenez do p, poz-se a fazer por elle +Revia a pequenez do pé, poz-se a fazer por elle o desenho mental de outras bellezas, despindo-a, -querendo adivinhal-a... A amante que deixra em +querendo adivinhal-a... A amante que deixára em Paris era muito alta e magra, d'uma elegancia de tisica; quando se decotava viam-se as saliencias das -suas primeiras costellas. E as frmas redondinhas de +suas primeiras costellas. E as fórmas redondinhas de <a href="#e1">Luiza</a> decidiram-no: <br /> <br /> —A ella!—exclamou com appetite:—A ella, @@ -3232,38 +3192,38 @@ como S. Thiago aos mouros! <br /> <br /> <br /> Luiza, quando o sentiu em baixo fechar a porta -da rua, entrou no quarto, atirou o chapo para a -<em>causeuse,</em> e foi-se logo vr ao espelho. Que +da rua, entrou no quarto, atirou o chapéo para a +<em>causeuse,</em> e foi-se logo vêr ao espelho. Que felicidade -estar vestida! Se elle a tivesse apanhado em roupo, +estar vestida! Se elle a tivesse apanhado em roupão, ou mal penteada!... Achou-se muito afogueada, -cobriu-se de ps de arroz. Foi janella, olhou +cobriu-se de pós de arroz. Foi á janella, olhou um momento a rua, o sol que batia ainda nas casas -fronteiras. Sentia-se canada. quellas horas, Leopoldina -estava a jantar j, de certo... Pensou em escrever -a Jorge para matar o tempo, mas veio-lhe -uma preguia; estava tanto calor! Depois no tinha -que lhe dizer! Comeou ento a despir-se devagar +fronteiras. Sentia-se cançada. Áquellas horas, Leopoldina +estava a jantar já, de certo... Pensou em escrever +a Jorge «para matar o tempo», mas veio-lhe +uma preguiça; estava tanto calor! Depois não tinha +que lhe dizer! Começou então a despir-se devagar <span class="pagenum">[85]</span> diante do espelho, olhando-se muito, gostando -de se vr branca, acariciando a finura da pelle, com -bocejos languidos d'um cansao feliz.—Havia sete -annos que no via o primo Bazilio! Estava mais trigueiro, +de se vêr branca, acariciando a finura da pelle, com +bocejos languidos d'um cansaço feliz.—Havia sete +annos que não via o primo Bazilio! Estava mais trigueiro, mais queimado, mas ia-lhe bem! <br /> <br /> -E depois de jantar ficou junto janella, estendida -na <em>voltaire</em>, com um livro esquecido no regao. +E depois de jantar ficou junto á janella, estendida +na <em>voltaire</em>, com um livro esquecido no regaço. O vento cahira, e o ar, de um azul forte nas alturas, -estava immovel; a poeira grossa pousra, a tarde +estava immovel; a poeira grossa pousára, a tarde tinha uma transparencia calma de luz; passaros chilreavam na figueira brava; da serralheria proxima sahia o martellar continuo e sonoro de folhas de ferro. Pouco a pouco o azul desbotou; sobre o poente, -laivos de cr de laranja desmaiada esbateram-se como +laivos de côr de laranja desmaiada esbateram-se como grandes pinceladas desleixadas. Depois tudo se cobriu de uma sombra diffusa, calada e quente, com uma estrellinha muita viva que luzia e tremia. E -Luiza deixra-se ficar na <em>voltaire</em> esquecida, +Luiza deixára-se ficar na <em>voltaire</em> esquecida, absorvida, sem pedir luz. <br /> <br /> @@ -3274,67 +3234,67 @@ novos e desconhecidos, a neve nos montes, cascatas reluzentes! Como desejaria visitar os paizes que conhecia dos romances—a Escocia e os seus lagos taciturnos, Veneza e os seus palacios tragicos; aportar -s bahias, onde um mar luminoso e faiscante -morre na ara fulva; e das cabanas dos pescadores, -de tecto chato, onde vivem as Graziellas, vr azularem-se +ás bahias, onde um mar luminoso e faiscante +morre na arêa fulva; e das cabanas dos pescadores, +de tecto chato, onde vivem as Graziellas, vêr azularem-se ao longe as ilhas de nomes sonoros! E ir a <span class="pagenum">[86]</span> Paris! Paris sobretudo! Mas, qual! Nunca viajaria de -certo; eram pobres; Jorge era caseiro, to lisboeta! <br /> +certo; eram pobres; Jorge era caseiro, tão lisboeta! <br /> <br /> -Como seria o patriarcha de Jerusalm? Imaginava-o +Como seria o patriarcha de Jerusalém? Imaginava-o de longas barbas brancas, recamado d'ouro, -entre instrumentaes solemnes e rolos de incenso! +entre instrumentações solemnes e rolos de incenso! E a princeza de La Tour d'Auvergne? Devia ser bella, de uma estatura real, vivia cercada de pagens, -namorra-se de Bazilio.—A noite escurecia, outras +namorára-se de Bazilio.—A noite escurecia, outras estrellas luziam.—Mas de que servia viajar, enjoar nos paquetes, bocejar nos wagons, e, n'uma diligencia muita sacudida, cabecear de somno pela serra -nas madrugadas frias? No era melhor viver n'um +nas madrugadas frias? Não era melhor viver n'um bom conforto, com um marido terno, uma casinha -abrigada, colxes macios, uma noite de theatro s -vezes, e um bom almoo nas manhs claras quando +abrigada, colxões macios, uma noite de theatro ás +vezes, e um bom almoço nas manhãs claras quando os canarios chalram? Era o que ella tinha. Era bem -feliz! Ento veio-lhe uma saudade de Jorge; desejaria -abraal-o, tel-o alli, ou quando descesse ir encontral-o +feliz! Então veio-lhe uma saudade de Jorge; desejaria +abraçal-o, tel-o alli, ou quando descesse ir encontral-o fumando o seu cachimbo no escriptorio, -com o seu jaqueto de velludo. Tinha tudo, elle, +com o seu jaquetão de velludo. Tinha tudo, elle, para fazer uma mulher feliz e orgulhosa: era bello, -com uns olhos magnificos, terno, fiel. No gostaria +com uns olhos magnificos, terno, fiel. Não gostaria de um marido com uma vida sedentaria e caturra: -mas a profisso de Jorge era interessante; descia -aos poos tenebrosos das minas, um dia aperrra as +mas a profissão de Jorge era interessante; descia +aos poços tenebrosos das minas, um dia aperrára as pistolas contra uma malta revoltada; era valente, tinha -talento! Involuntariamente, porm, o primo Bazilio +talento! Involuntariamente, porém, o primo Bazilio fazendo fluctuar o seu <em>burnous</em> branco pelas planicies da Terra Santa; ou em Paris, direito na almofada, governando tranquillamente os seus cavallos <span class="pagenum">[87]</span> -inquietos—davam-lhe a ida d'uma outra existencia +inquietos—davam-lhe a idéa d'uma outra existencia mais poetica, mais propria para os episodios do sentimento. <br /> <br /> -Do co estrellado cahia uma luz diffusa: janellas -alumiadas sobresahiam ao longe, abertas noite abafada: -vos de morcegos passavam diante da vidraa. <br /> +Do céo estrellado cahia uma luz diffusa: janellas +alumiadas sobresahiam ao longe, abertas á noite abafada: +vôos de morcegos passavam diante da vidraça. <br /> <br /> -—A senhora no quer luz?—perguntou porta +—A senhora não quer luz?—perguntou á porta a voz fatigada de Juliana. <br /> <br /> —Ponha-a no quarto. <br /> <br /> Desceu. Bocejava muito, sentia-se quebrada. <br /> <br /> -— trovoada—pensou. <br /> +—É trovoada—pensou. <br /> <br /> -Foi sala, sentou-se ao piano, tocou ao acaso +Foi á sala, sentou-se ao piano, tocou ao acaso bocados da <em>Lucia</em>, da <em>Somnambula</em>, o <em>Fado</em>; e parando, os dedos pousados de leve sobre o teclado, poz-se a pensar que Bazilio devia vir no dia seguinte: -vestiria o roupo novo de <em>foulard</em> cr de castanho! -Recomeou o <em>Fado</em>, mas os olhos cerravam-se-lhe. <br /> +vestiria o roupão novo de <em>foulard</em> côr de castanho! +Recomeçou o <em>Fado</em>, mas os olhos cerravam-se-lhe. <br /> <br /> Foi para o quarto. <br /> <br /> @@ -3343,34 +3303,34 @@ as chinellas, com um casabeque pelos hombros, encolhida e lugubre. Aquella figura com um ar de enfermaria irritou Luiza: <br /> <br /> -—Credo, mulher! Voss parece a imagem da +—Credo, mulher! Vossê parece a imagem da morte! <br /> <br /> -Juliana no respondeu. Pousou a lamparina; apanhou, +Juliana não respondeu. Pousou a lamparina; apanhou, placa a placa, sobre a commoda, o dinheiro das compras; e com os olhos baixos: <br /> <br /> -—A senhora no precisa mais nada, no? <br /> +—A senhora não precisa mais nada, não? <br /> <br /> -—V-se, mulher, v! +—Vá-se, mulher, vá! <span class="pagenum">[88]</span> <br /> <br /> <br /> Juliana foi buscar o candieiro de petroleo, subiu -ao quarto. Dormia em cima, no soto, ao p da cozinheira. <br /> +ao quarto. Dormia em cima, no sotão, ao pé da cozinheira. <br /> <br /> -—Pareo-te a imagem da morte!—resmungava, +—Pareço-te a imagem da morte!—resmungava, furiosa. <br /> <br /> O quarto era baixo, muito estreito, com o tecto de madeira inclinado; o sol, aquecendo todo o dia as telhas por cima, fazia-o abafado como um forno; -havia sempre noite um cheiro requentado de tijolo +havia sempre á noite um cheiro requentado de tijolo escandecido. Dormia n'um leito de ferro, sobre um -colxo de palha molle coberto d'uma colcha de chita; +colxão de palha molle coberto d'uma colcha de chita; da barra da cabeceira pendiam os seus <em>bentinhos</em> e -a rde enxovalhada que punha na cabea; ao p tinha +a rêde enxovalhada que punha na cabeça; ao pé tinha preciosamente a sua grande arca de pau, pintada de azul, com uma grossa fechadura. Sobre a mesa de pinho estava o espelho de gaveta, a escova @@ -3378,95 +3338,95 @@ de cabello ennegrecida e despellada, um pente d'osso, as garrafas de remedio, uma velha pregadeira de setim amarello, e, embrulhada n'um jornal, a <em>cuia</em> de retroz dos domingos. E o unico adorno das -paredes sujas, riscadas da cabea de phosphoros,—era -uma lithographia de Nossa Senhora das Dres por +paredes sujas, riscadas da cabeça de phosphoros,—era +uma lithographia de Nossa Senhora das Dôres por cima da cama, e um daguerreotypo onde se percebia vagamente, no reflexo espelhado da lamina, os bigodes encerados e as divisas de um sargento. <br /> <br /> -—A senhora j se deitou, snr.<sup>a</sup> Juliana?—perguntou +—A senhora já se deitou, snr.<sup>a</sup> Juliana?—perguntou a cozinheira do quarto pegado, d'onde sahia <span class="pagenum">[89]</span> -uma barra de luz viva cortando a escurido do corredor. <br /> +uma barra de luz viva cortando a escuridão do corredor. <br /> <br /> -—J se deitou, snr.<sup>a</sup> Joanna, j. Est hoje com +—Já se deitou, snr.<sup>a</sup> Joanna, já. Está hoje com os azeites. Falta-lhe o homem! <br /> <br /> -Joanna, s voltas, fazia ranger as madeiras velhas -da cama. No podia dormir! Abafava-se! Ouf! <br /> +Joanna, ás voltas, fazia ranger as madeiras velhas +da cama. Não podia dormir! Abafava-se! Ouf! <br /> <br /> —Ai! e aqui!—exclamou Juliana. <br /> <br /> Abriu o postigo que dava para os telhados, para -deixar arejar; calou as chinellas de tapete, e foi ao -quarto de Joanna. Mas no entrou, ficou porta; era +deixar arejar; calçou as chinellas de tapete, e foi ao +quarto de Joanna. Mas não entrou, ficou á porta; era <em>criada de dentro</em>, evitava familiaridades. Tinha tirado -a <em>cuia</em>, e com um leno preto e amarello amarrado -na cabea, o seu rosto parecia mais chupado, e +a <em>cuia</em>, e com um lenço preto e amarello amarrado +na cabeça, o seu rosto parecia mais chupado, e as orelhas mais despegadas do craneo; a camisa decotada descobria as claviculas descarnadas; a saia curta mostrava as canellas muito brancas, muito -seccas. E com o casabeque pelos hombros, coando -devagarinho os cotovlos agudos: <br /> +seccas. E com o casabeque pelos hombros, coçando +devagarinho os cotovêlos agudos: <br /> <br /> -—Diga-me c, snr.<sup>a</sup> Joanna—disse com a voz +—Diga-me cá, snr.<sup>a</sup> Joanna—disse com a voz discreta—aquelle sujeito demorou-se muito? Reparou? <br /> <br /> —Tinha sahido n'aquelle instantinho, quando -vossemec entrou. Ouf! <br /> +vossemecê entrou. Ouf! <br /> <br /> Encalmada, quasi descoberta, com as pernas muito -abertas, Joanna coava-se furiosamente por baixo -da grossa camisa com folhos minhota que lhe descobria -os peitos. No podia parar com os persevejos! -O raio do quarto tinha ninhos! At sentia o estomago +abertas, Joanna coçava-se furiosamente por baixo +da grossa camisa com folhos á minhota que lhe descobria +os peitos. Não podia parar com os persevejos! +O raio do quarto tinha ninhos! Até sentia o estomago embrulhado. <br /> <br /> -—Ai! um inferno!—disse com lastima Juliana.—Eu +—Ai! é um inferno!—disse com lastima Juliana.—Eu <span class="pagenum">[90]</span> -s adormeo com dia. Mas ainda eu agora -reparo... Vossemec tem S. Pedro cabeceira. -devoo? <br /> +só adormeço com dia. Mas ainda eu agora +reparo... Vossemecê tem S. Pedro á cabeceira. É +devoção? <br /> <br /> -— o santo do meu rapaz—disse a outra. Sentou-se -na cama. Ouf! E ento tinha estado toda a -noite com uma sde!... <br /> +—É o santo do meu rapaz—disse a outra. Sentou-se +na cama. Ouf! E então tinha estado toda a +noite com uma sêde!... <br /> <br /> -Saltou para o cho, com passadas rijas que faziam -tremer o soalho, foi ao jarro, pl-o bocca, -bebeu uma tarraada. A camisa justa, feita de pouca -fazenda, mostrava as frmas rijas e valentes. <br /> +Saltou para o chão, com passadas rijas que faziam +tremer o soalho, foi ao jarro, pôl-o á bocca, +bebeu uma tarraçada. A camisa justa, feita de pouca +fazenda, mostrava as fórmas rijas e valentes. <br /> <br /> —Pois eu fui ao medico—disse Juliana. E com -um grande suspiro:—Ai! isto s Deus, snr.<sup>a</sup> Joanna! -Isto s Deus! <br /> +um grande suspiro:—Ai! isto só Deus, snr.<sup>a</sup> Joanna! +Isto só Deus! <br /> <br /> -Mas porque se no resolvia a snr.<sup>a</sup> Juliana a ir - mulher de virtude? Era a saude certa. Morava ao -Poo dos Negros; tinha oraes e unguentos para +Mas porque se não resolvia a snr.<sup>a</sup> Juliana a ir +á mulher de virtude? Era a saude certa. Morava ao +Poço dos Negros; tinha orações e unguentos para tudo. Levava meia moeda pelo <em>preparo</em>... <br /> <br /> -—Que isso so humores, snr.<sup>a</sup> Juliana. O que -vossemec tem, so humores. <br /> +—Que isso são humores, snr.<sup>a</sup> Juliana. O que +vossemecê tem, são humores. <br /> <br /> Juliana tinha dado dous passos para dentro do -quarto. Quando se tratava de doenas, de remedios, +quarto. Quando se tratava de doenças, de remedios, tornava-se mais familiar. <br /> <br /> -—Eu j me tenho lembrado... eu j me tenho -lembrado de ir mulher. Mas, meia moeda! <br /> +—Eu já me tenho lembrado... eu já me tenho +lembrado de ir á mulher. Mas, meia moeda! <br /> <br /> E ficou a olhar, tristemente, reflectindo. <br /> <br /> -— o que eu tenho junto para umas botinas de +—É o que eu tenho junto para umas botinas de gaspia! <br /> <br /> Eram o seu vicio, as botinas! Arruinava-se com ellas: tinha-as de duraque com ponteiras de verniz, -de cordovo com lao, de pellica com pespontos de +de cordovão com laço, de pellica com pespontos de <span class="pagenum">[91]</span> -cr, embrulhadas em papeis de sda, na arca, fechadas—guardadas +côr, embrulhadas em papeis de sêda, na arca, fechadas—guardadas para os domingos! <br /> <br /> Joanna censurou-a. <br /> @@ -3475,14 +3435,14 @@ Joanna censurou-a. <br /> que o diabo leve os arrebiques! <br /> <br /> Queixou-se tambem da sua miseria. Tinha pedido - senhora um mez adiantado! Estava sem camisas! +á senhora um mez adiantado! Estava sem camisas! As duas que tinha eram uns trapos! Pelo gosto da que trazia, a desfazerem-se! <br /> <br /> -—Mas, ento!—suspirou—O meu rapaz precisou +—Mas, então!—suspirou—O meu rapaz precisou um dinheiro... <br /> <br /> -—Vossemec tambem, snr.<sup>a</sup> Joanna, deixa-se +—Vossemecê tambem, snr.<sup>a</sup> Joanna, deixa-se cardar pelo homem! <br /> <br /> Joanna sorriu. <br /> @@ -3492,172 +3452,172 @@ a ultima migalha havia de ser p'ra elle! <br /> <br /> Juliana teve um risinho secco, e com a voz arrastada: <br /> <br /> -—Vale l a pena! <br /> +—Vale lá a pena! <br /> <br /> Mas invejava asperamente a cozinheira pela posse d'aquelle amor, pelas suas delicias. Repetiu, contrafeita: <br /> <br /> -—Vale l a pena! Perfeito rapaz—continuou—o -que veio hoje vr a senhora! Melhor que o homem! <br /> +—Vale lá a pena! Perfeito rapaz—continuou—o +que veio hoje vêr a senhora! Melhor que o homem! <br /> <br /> E depois d'uma pausa: <br /> <br /> -—Ento esteve mais de duas horas? <br /> +—Então esteve mais de duas horas? <br /> <br /> -—Tinha sahido quando vossemec entrou. <br /> +—Tinha sahido quando vossemecê entrou. <br /> <br /> Mas o candieiro de petroleo apagava-se, com um cheiro fetido e uma fumarada negra. <br /> <br /><span class="pagenum">[92]</span> —Boa noite, snr.<sup>a</sup> Joanna. Ainda vou rezar a -minha cora. <br /> +minha corôa. <br /> <br /> -— snr.<sup>a</sup> Juliana!—disse a outra d'entre os lenoes—Se -vossemec quer rezar tres salv-rainhas +—Ó snr.<sup>a</sup> Juliana!—disse a outra d'entre os lençoes—Se +vossemecê quer rezar tres salvè-rainhas pela saude do meu rapaz que tem estado adoentado, -eu c lhe rezava tres pelas melhoras do peito. <br /> +eu cá lhe rezava tres pelas melhoras do peito. <br /> <br /> —Pois sim, snr.<sup>a</sup> Joanna! <br /> <br /> Mas reflectindo: <br /> <br /> -—Olhe. Eu do peito vou melhor; d-m'as antes -p'ra allivio das dres de cabea. A Santa Engracia! <br /> +—Olhe. Eu do peito vou melhor; dê-m'as antes +p'ra allivio das dôres de cabeça. A Santa Engracia! <br /> <br /> -—Como vossemec quizer, snr.<sup>a</sup> Juliana. <br /> +—Como vossemecê quizer, snr.<sup>a</sup> Juliana. <br /> <br /> —Se faz favor. Boa noite! Fica-lhe ahi um cheiro! Credo! <br /> <br /> Foi para o quarto. Rezou, apagou a luz. Um calor -molle continuo cahia do forro; comeou a faltar-lhe +molle continuo cahia do forro; começou a faltar-lhe o ar: tornou a abrir o postigo, mas o bafo quente que vinha dos telhados enjoava-a; e era assim -todas as noites, desde o comeo do estio! Depois as +todas as noites, desde o começo do estio! Depois as madeiras velhas fervilhavam de bicharia! Nunca, nunca, nas casas que servira, tinha tido um quarto peor. Nunca! <br /> <br /> -A cozinheira comeou a resonar ao lado. E acordada, -s voltas, com afflices no corao, Juliana +A cozinheira começou a resonar ao lado. E acordada, +ás voltas, com afflicções no coração, Juliana sentia a vida pesar-lhe, com uma amargura maior! <br /> <br /> <br /> <br /> Nascera em Lisboa. O seu nome era Juliana Couceiro -Tavira. Sua mi fra engommadeira; e desde +Tavira. Sua mãi fôra engommadeira; e desde pequena tinha conhecido em casa um sujeito, a quem <span class="pagenum">[93]</span> -chamavam na visinhana—<em>o fidalgo</em>, a quem sua -mi chamava—o snr. D. Augusto. Vinha todos os dias, -de tarde no vero, no inverno de manh, para a -saleta onde sua mi engommava, e alli estava horas +chamavam na visinhança—<em>o fidalgo</em>, a quem sua +mãi chamava—o snr. D. Augusto. Vinha todos os dias, +de tarde no verão, no inverno de manhã, para a +saleta onde sua mãi engommava, e alli estava horas sentado no poial da janella que dava para um quintalejo, fumando cachimbo, cofiando em silencio um enorme bigode preto. Como o poial era de pedra, punha-lhe em cima, com muito methodo, uma almofada de vento, que elle mesmo soprava. Era calvo, e trazia ordinariamente uma quinzena de velludo -castanho e chapo alto branco. s seis horas levantava-se, +castanho e chapéo alto branco. Ás seis horas levantava-se, esvaziava a almofada, estava um bocado a -esticar as calas para cima, e sahia, com a sua grossa -bengala de cana da India debaixo do brao, gingando -da cinta. Ella e sua mi iam ento jantar na +esticar as calças para cima, e sahia, com a sua grossa +bengala de cana da India debaixo do braço, gingando +da cinta. Ella e sua mãi iam então jantar na mesinha de pinho da cozinha debaixo d'um postigo, -diante do qual se balouavam, de vero e d'inverno, +diante do qual se balouçavam, de verão e d'inverno, galhos magros d'uma arvore triste. <br /> <br /> - noite o snr. D. Augusto voltava; trazia sempre -um jornal; sua mi fazia-lhe ch e torradas, servia-o, +Á noite o snr. D. Augusto voltava; trazia sempre +um jornal; sua mãi fazia-lhe chá e torradas, servia-o, toda enlevada n'elle. Muitas vezes Juliana a vira chorar de ciumes. <br /> <br /> -Um dia uma visinha m, a quem ella no quizera +Um dia uma visinha má, a quem ella não quizera ajudar a lavar a roupa, enfureceu-se, e atirando-lhe injurias dos degraus da porta,—gritou-lhe que -sua mi era uma desavergonhada, e que seu pai estava +sua mãi era uma desavergonhada, e que seu pai estava na Africa por ter morto o <em>Rei de Copas</em>! <br /> <br /> -Pouco tempo depois foi servir. Sua mi morreu -d'ahi a mezes, com uma doena d'utero. Juliana s -uma vez tornou a vr o snr. D. Augusto,—uma tarde, +Pouco tempo depois foi servir. Sua mãi morreu +d'ahi a mezes, com uma doença d'utero. Juliana só +uma vez tornou a vêr o snr. D. Augusto,—uma tarde, <span class="pagenum">[94]</span> -com uma opa rxa, lugubre, na procisso de +com uma opa rôxa, lugubre, na procissão de Passos! <br /> <br /> Servia, havia vintes annos. Como ella dizia, -mudava de amos, mas no mudava de sorte. Vinte annos +mudava de amos, mas não mudava de sorte. Vinte annos a dormir em cacifros, a levantar-se de madrugada, a comer os restos, a vestir trapos velhos, a -soffrer os repelles das crianas e as ms palavras +soffrer os repellões das crianças e as más palavras das senhoras, a fazer despejos, a ir para o hospital -quando vinha a doena, a esfalfar-se quando voltava +quando vinha a doença, a esfalfar-se quando voltava a saude!... Era de mais! Tinha agora dias em que -s de vr o balde das aguas sujas e o ferro d'engommar -se lhe embrulhava o estomago. Nunca se acostumra -a servir. Desde rapariga a sua ambio fra +só de vêr o balde das aguas sujas e o ferro d'engommar +se lhe embrulhava o estomago. Nunca se acostumára +a servir. Desde rapariga a sua ambição fôra ter um negociosito, uma tabacaria, uma loja de capellista -ou de quinquilherias, dispr, governar, ser -patra: mas, apesar d'economias mesquinhas e de -calculos sfregos, o mais que conseguira juntar foram -sete moedas ao fim d'annos: tinha ento adoecido; -com o horror do hospital fra tratar-se para casa +ou de quinquilherias, dispôr, governar, ser +patrôa: mas, apesar d'economias mesquinhas e de +calculos sôfregos, o mais que conseguira juntar foram +sete moedas ao fim d'annos: tinha então adoecido; +com o horror do hospital fôra tratar-se para casa d'uma parenta; e o dinheiro, ai! derretera-se! No dia em que se trocou a ultima libra, chorou horas -com a cabea debaixo da roupa. <br /> +com a cabeça debaixo da roupa. <br /> <br /> -Ficou sempre adoentada desde ento, perdeu toda -a esperana de se estabelecer. Teria de servir at +Ficou sempre adoentada desde então, perdeu toda +a esperança de se estabelecer. Teria de servir até ser velha, sempre, d'amo em amo! Essa certeza dava-lhe -uma desconsolao constante. Comeou a azedar-se. <br /> +uma desconsolação constante. Começou a azedar-se. <br /> <br /> -E depois no tinha <em>geito</em>, no sabia tirar partido +E depois não tinha <em>geito</em>, não sabia tirar partido das casas: via companheiras divertir-se, visinhar, -janellar, bisbilhotar, sahir aos domingos s hortas e +janellar, bisbilhotar, sahir aos domingos ás hortas e <span class="pagenum">[95]</span> -aos retiros, levar o dia cantando, e quando as patras -iam ao theatro, abrir a porta aos derrios—e -patuscar pelos quartos! Ella no. Sempre fra embezerrada. -Fazia a sua obrigao, comia, ia estirar-se -sobre a cama; e aos domingos, quando no passeava, -encostava-se a uma janella, com o leno sobre -o peitoril para no roar as mangas, e alli estava +aos retiros, levar o dia cantando, e quando as patrôas +iam ao theatro, abrir a porta aos derriços—e +patuscar pelos quartos! Ella não. Sempre fôra embezerrada. +Fazia a sua obrigação, comia, ia estirar-se +sobre a cama; e aos domingos, quando não passeava, +encostava-se a uma janella, com o lenço sobre +o peitoril para não roçar as mangas, e alli estava immovel, a olhar, com o seu broche de filigrana e a cuia dos dias santos! Outras companheiras eram muito das amas, faziam-se muito humildes, sabujavam, -traziam de fra as historias da rua, e cartinhas -levadas e recadinhos e p'ra dentro e p'ra fra, muito +traziam de fóra as historias da rua, e cartinhas +levadas e recadinhos e p'ra dentro e p'ra fóra, muito confidentes,—muito presenteadas tambem! Ella -no podia. Era <em>minha senhora isto! minha senhora +não podia. Era <em>minha senhora isto! minha senhora aquillo!</em> E cada uma no seu lugar! Era genio. <br /> <br /> Desde que servia, apenas entrava n'uma casa -sentia logo, n'um relance, a hostilidade, a malquerena: +sentia logo, n'um relance, a hostilidade, a malquerença: a senhora fallava-lhe com seccura, de longe; -as crianas tomavam-lhe birra; as outras criadas, +as crianças tomavam-lhe birra; as outras criadas, se estavam chalrando, calavam-se, mal a sua figura -esguia apparecia; punham-lhe alcunhas—<em>a isca scca</em>, +esguia apparecia; punham-lhe alcunhas—<em>a isca sêcca</em>, <em>a fava torrada</em>, <em>o saca-rolhas</em>; imitavam-lhe os trejeitos nervosos; havia risinhos, cochichos pelos -cantos; e s tinha encontrado alguma sympathia nos +cantos; e só tinha encontrado alguma sympathia nos gallegos taciturnos, cheios d'uma saudade morrinhenta, -que veem de manh quando ainda os quartos -esto escuros, com as suas grossas passadas, encher -os barris, engraxar o calado. <br /> +que veem de manhã quando ainda os quartos +estão escuros, com as suas grossas passadas, encher +os barris, engraxar o calçado. <br /> <br /> -Lentamente, comeou a tornar-se desconfiada, -cortante como um nordeste; tinha respostadas, questes +Lentamente, começou a tornar-se desconfiada, +cortante como um nordeste; tinha respostadas, questões <span class="pagenum">[96]</span> -com as companheiras; no se havia de deixar -pr o p no pescoo! <br /> +com as companheiras; não se havia de deixar +pôr o pé no pescoço! <br /> <br /> As antipathias que a cercavam faziam-na assanhada, como um circulo d'espingardas enraivece um -lobo. Fez-se m; beliscava crianas at lhe ennodoar +lobo. Fez-se má; beliscava crianças até lhe ennodoar a pelle; e se lhe ralhavam, a sua colera rompia em -rajadas. Comeou a ser despedida. N'um s anno esteve +rajadas. Começou a ser despedida. N'um só anno esteve em tres casas. Sahia com escandalo, aos gritos, atirando as portas, deixando as amas todas pallidas, todas nervosas... <br /> @@ -3665,28 +3625,28 @@ todas nervosas... <br /> A inculcadeira, a sua velha amiga, a tia Victoria, disse-lhe: <br /> <br /> -—Tu acabas por no ter onde te arrumar, e falta-te -o bocado do po! <br /> +—Tu acabas por não ter onde te arrumar, e falta-te +o bocado do pão! <br /> <br /> -O po! Aquella palavra que o terror, o sonho, +O pão! Aquella palavra que é o terror, o sonho, a difficuldade do pobre assustou-a. Era fina, e dominou-se. -Comeou a fazer-se uma pobre mulher, -com affectaes de zelo, um ar de soffrer tudo, os -olhos no cho. Mas roia-se por dentro: veio-lhe a -inquietao nervosa dos musculos da face, o <em>tic</em> de +Começou a fazer-se «uma pobre mulher», +com affectações de zelo, um ar de soffrer tudo, os +olhos no chão. Mas roia-se por dentro: veio-lhe a +inquietação nervosa dos musculos da face, o <em>tic</em> de franzir o nariz: a pelle esverdeou-se-lhe de bilis. <br /> <br /> A necessidade de se constranger trouxe-lhe o habito -d'odiar: odiou sobretudo as patras, com um +d'odiar: odiou sobretudo as patrôas, com um odio irracional e pueril. Tivera-as ricas, com palacetes, e pobres, mulheres d'empregados, velhas e raparigas, colericas e pacientes;—odiava-as a todas, -sem differena. patra e basta! Pela mais simples +sem differença. É patrôa e basta! Pela mais simples palavra, pelo acto mais trivial! Se as via sentadas:—Anda, refestela-te, que a moura trabalha! Se as -via sahir:—Vai-te, a negra c fica no buraco! Cada +via sahir:—Vai-te, a negra cá fica no buraco! Cada <span class="pagenum">[97]</span> -riso d'ellas era uma offensa sua tristeza doentia; +riso d'ellas era uma offensa á sua tristeza doentia; cada vestido novo uma affronta ao seu velho vestido de merino tingido. Detestava-as na alegria dos filhos e nas prosperidades da casa. Rogava-lhes pragas. Se @@ -3694,102 +3654,102 @@ os amos tinham um dia de contrariedade, ou via as caras tristes, cantarolava todo o dia em voz de falsete a <em>Carta adorada</em>! Com que gosto trazia a conta retardada d'um credor impaciente, quando presentia -embaraos na casa! Este papel!—gritava com uma -voz estridente—diz que no se vai embora sem -uma resposta! Todos os lutos a deleitavam,—e sob -o chale preto, que lhe tinham comprado, tinha palpitaes +embaraços na casa! «Este papel!—gritava com uma +voz estridente—diz que não se vai embora sem +uma resposta!» Todos os lutos a deleitavam,—e sob +o chale preto, que lhe tinham comprado, tinha palpitações de regosijo. Tinha visto morrer criancinhas, -e nem a afflico das mes a commovera; encolhia -os hombros: Vai d'alli, vai fazer outro. Cabras! <br /> +e nem a afflicção das mães a commovera; encolhia +os hombros: «Vai d'alli, vai fazer outro. Cabras!» <br /> <br /> As boas palavras mesmo, as condescendencias -eram perdidas com ella, como gotas d'agua lanadas -no fogo. Resumia as patras na mesma palavra—<em>uma -rcua</em>! E detestava as boas pelos vexames que -soffrera das ms. A ama era para ella o Inimigo, o +eram perdidas com ella, como gotas d'agua lançadas +no fogo. Resumia as patrôas na mesma palavra—<em>uma +récua</em>! E detestava as boas pelos vexames que +soffrera das más. A ama era para ella o Inimigo, o Tyranno. Tinha visto morrer duas,—e de cada vez -sentira, sem saber porqu, um vago allivio, como se -uma poro do vasto peso, que a suffocava na vida, +sentira, sem saber porquê, um vago allivio, como se +uma porção do vasto peso, que a suffocava na vida, se tivesse desprendido e evaporado! <br /> <br /> -Sempre fra invejosa; com a idade aquelle sentimento +Sempre fôra invejosa; com a idade aquelle sentimento exagerou-se de um modo aspero. Invejava tudo na casa: as sobremesas que os amos comiam, a -roupa branca que vestiam. As noites de <em>soire</em>, de +roupa branca que vestiam. As noites de <em>soirée</em>, de theatro, exasperavam-na. Quando havia passeios projectados, se chovia de repente, que felicidade! O aspecto <span class="pagenum">[98]</span> -das senhoras vestidas e de chapo, olhando -por dentro da vidraa com um tedio infeliz, deliciava-a, +das senhoras vestidas e de chapéo, olhando +por dentro da vidraça com um tedio infeliz, deliciava-a, fazia-a loquaz: <br /> <br /> -—Ai minha senhora! um temporal desfeito! - a cantaros, est para todo o dia! Olha o ferro! <br /> +—Ai minha senhora! É um temporal desfeito! +É a cantaros, está para todo o dia! Olha o ferro! <br /> <br /> E muito curiosa: era facil encontral-a, de repente, cosida por detraz de uma porta com a vassoura -a prumo, o olhar aguado. Qualquer carta que vinha +a prumo, o olhar aguçado. Qualquer carta que vinha era revirada, cheirada... Remexia subtilmente em todas as gavetas abertas, vasculhava em todos os papeis atirados. Tinha um modo de andar ligeiro e -surprehendedor. Examinava as visitas. Andava +surprehendedor. Examinava as visitas. Andava á busca de um <em>segredo</em>, de um <em>bom segredo</em>! Se lhe -cahia um nas mos! <br /> +cahia um nas mãos! <br /> <br /> Era muito gulosa. Nutria o desejo insatisfeito de comer bem, de petiscos, de sobremesas. Nas casas em que servia ao jantar, o seu olho avermelhado seguia -avidamente as pores cortadas mesa; e qualquer +avidamente as porções cortadas á mesa; e qualquer bom appetite que repetia exasperava-a, como -uma diminuio da sua parte. De comer sempre os -restos ganhra o ar aguado,—o seu cabello tomra -tons seccos, cr de rato. Era lambareira: gostava de +uma diminuição da sua parte. De comer sempre os +restos ganhára o ar aguado,—o seu cabello tomára +tons seccos, côr de rato. Era lambareira: gostava de vinho; em certos dias comprava uma garrafa de oitenta -reis, e bebia-a s, fechada, repimpada, com +reis, e bebia-a só, fechada, repimpada, com estalos da lingua, a orla do vestido um pouco erguida, -revendo-se no p. <br /> +revendo-se no pé. <br /> <br /> -E nunca tivera um homem, era virgem. Fra -sempre feia, ninguem a tentra: e, por orgulho, por -birra, com receio de uma desfeita, no se offerecera, +E nunca tivera um homem, era virgem. Fôra +sempre feia, ninguem a tentára: e, por orgulho, por +birra, com receio de uma desfeita, não se offerecera, como vira muitas, claramente. O unico homem que a <span class="pagenum">[99]</span> -olhra com desejo tinha sido um criado de cavalharia, +olhára com desejo tinha sido um criado de cavalhariça, atarracado e immundo, de aspecto facinora: a sua magreza, a sua <em>cuia</em>, o seu ar domingueiro tinham excitado -o bruto. Fitava-a com um ar de <em>bull-dog</em>. Causra-lhe +o bruto. Fitava-a com um ar de <em>bull-dog</em>. Causára-lhe horror,—mas vaidade. E o primeiro homem por quem ella sentira, um criado bonito e alourado, -rira-se d'ella, pozera-lhe o nome da <em>Isca scca</em>! No -contou mais com os homens, por despeito, por desconfiana -de si mesma. As rebellies da natureza, +rira-se d'ella, pozera-lhe o nome da <em>Isca sêcca</em>! Não +contou mais com os homens, por despeito, por desconfiança +de si mesma. As rebelliões da natureza, suffocava-as; eram <em>fogachos, flatos</em>. Passavam. Mas -faziam-na mais secca; e a falta d'aquella grande consolao +faziam-na mais secca; e a falta d'aquella grande consolação aggravava a miseria da sua vida. <br /> <br /> -Um dia teve, emfim, uma grande esperana. Entrra -para o servio da snr.<sup>a</sup> D. Virginia Lemos, uma +Um dia teve, emfim, uma grande esperança. Entrára +para o serviço da snr.<sup>a</sup> D. Virginia Lemos, uma viuva rica, tia de Jorge, muito doente, quasi a morrer com um catarrho de bexiga. A tia Victoria, a inculcadeira, preveniu-a: <br /> <br /> —Tu trata a velha, apaparica-a, que ella o que -quer uma enfermeira que a soffra. rica, no -nada apegada ao dinheiro, capaz de te deixar uma +quer é uma enfermeira que a soffra. É rica, não é +nada apegada ao dinheiro, é capaz de te deixar uma independencia! <br /> <br /> -Durante um anno Juliana, roda de ambio, foi +Durante um anno Juliana, roída de ambição, foi a enfermeira da velha. Que zelos! que mimos! <br /> <br /> -Virginia era muito rabugenta, a ida de morrer +Virginia era muito rabugenta, a idéa de morrer enfurecia-a; quanto mais ella ralhava com a sua voz -guttural, mais Juliana se fazia servial. A velha, por -fim, estava enternecida: gabava-a s pessoas que a -vinham vr, chamava-lhe a sua <em>providencia</em>. Tinha-a +guttural, mais Juliana se fazia serviçal. A velha, por +fim, estava enternecida: gabava-a ás pessoas que a +vinham vêr, chamava-lhe a sua <em>providencia</em>. Tinha-a recommendado muito a Jorge. <br /> <br /> -—No ha outra! no ha outra!—exclamava. +—Não ha outra! não ha outra!—exclamava. <br /> <br /><span class="pagenum">[100]</span> —Pois apanhaste!—dizia-lhe a tia Victoria.—Pelo @@ -3797,9 +3757,9 @@ menos deixa-te o teu conto de reis. <br /> <br /> Um conto de reis! Juliana, de noite, em quanto a velha gemia no seu antigo leito de pau santo, via -o conto de reis claridade morbida que dava a lamparina, +o conto de reis á claridade morbida que dava a lamparina, reluzir em pilhas de ouro inesgotavel e prodigioso. -Que faria com o dinheiro? E, cabeceira da +Que faria com o dinheiro? E, á cabeceira da doente, com um cobertor pelos hombros, os olhos dilatados e fixos, planeava: poria uma loja de capellista! Vinham-lhe logo lampejos vivos de outras felicidades: @@ -3810,23 +3770,23 @@ Estavam acabadas as canceiras. Ia jantar, emfim, o <em>seu</em> jantar! Mandar, emfim, a <em>sua</em> criada! A <em>sua</em> criada! Via-se a chamal-a, a dizer-lhe, de cima para -baixo:—Faa, v, despeje, sia!—Tinha contraces +baixo:—Faça, vá, despeje, sáia!—Tinha contracções no estomago, de alegria. Havia de ser boa ama. -Mas que lhe andassem direitas! Desmazelos, ms respostas, -no havia de soffrer a criadas!—E, impellida -por aquellas imaginaes, arrastava subtilmente -as chinellas pelo quarto, fallando s.—No, desmazelos, -no havia de soffrer! Mantel-as bem, de certo, +Mas que lhe andassem direitas! Desmazelos, más respostas, +não havia de soffrer a criadas!—E, impellida +por aquellas imaginações, arrastava subtilmente +as chinellas pelo quarto, fallando só.—Não, desmazelos, +não havia de soffrer! Mantel-as bem, de certo, porque quem trabalha precisa metter p'ra dentro! -Mas havia de lh'o tirar do corpo. Ah! l isso, haviam -de lhe andar direitas...—A velha tinha ento +Mas havia de lh'o tirar do corpo. Ah! lá isso, haviam +de lhe andar direitas...—A velha tinha então um gemido mais afflicto. <br /> <br /> -— agora!—pensava—Morre! <br /> +—É agora!—pensava—Morre! <br /> <br /> E o seu olhar ancioso ia logo para a gaveta da commoda, onde estava de certo o dinheiro, os papeis. -Mas no! a velha queria beber, ou voltar-se... +Mas não! a velha queria beber, ou voltar-se... <br /> <br /><span class="pagenum">[101]</span> —Como se sente?—perguntava Juliana, com @@ -3839,31 +3799,31 @@ Suppunha-se sempre melhor. <br /> —Mas a senhora tem estado desinquieta!—dizia Juliana, despeitada da melhora. <br /> <br /> -—No—suspirava—dormi bem! <br /> +—Não—suspirava—dormi bem! <br /> <br /> -—Isso no tem dormido... Tenho-a ouvido gemer! +—Isso não tem dormido... Tenho-a ouvido gemer! Tem estado toda a noite a gemer! <br /> <br /> Queria argumentar com ella, convencel-a que estava peor! Convencer-se a si mesma que o allivio era ephemero, que ia morrer depressa! E todas as -manhs seguia o dr. Pinto at porta, com os braos +manhãs seguia o dr. Pinto até á porta, com os braços cruzados, a face triste: <br /> <br /> -—Ento, snr. doutor, no ha esperana? <br /> +—Então, snr. doutor, não ha esperança? <br /> <br /> -—Est por dias! <br /> +—Está por dias! <br /> <br /> Queria saber os dias: dous? cinco? <br /> <br /> -—Sim, snr.<sup>a</sup> Juliana—dizia o velho, calando +—Sim, snr.<sup>a</sup> Juliana—dizia o velho, calçando as suas luvas pretas—uns dias, sete, oito. <br /> <br /> —Oito dias! <br /> <br /> -E como a felicidade se aproximava, j tinha de -olho tres pares de botinas que vira na vidraa do -Manoel Loureno! <br /> +E como a felicidade se aproximava, já tinha de +olho tres pares de botinas que vira na vidraça do +Manoel Lourenço! <br /> <br /> A velha, emfim, morreu. Nem a mencionava no testamento! <br /> @@ -3873,62 +3833,62 @@ d'ella com a tia Virginia, pagou-lhe um quarto no hospital, e prometteu tomal-a para criada de dentro. A que tinha, uma Emilia muito bonita, ia casar. <br /> <br /> -Quando sahiu do hospital para casa de Jorge, comeava +Quando sahiu do hospital para casa de Jorge, começava <span class="pagenum">[102]</span> -a queixar-se mais do corao. Vinha desilludida -de tudo, tinha s vezes vontade de morrer. Ouviam-se +a queixar-se mais do coração. Vinha desilludida +de tudo, tinha ás vezes vontade de morrer. Ouviam-se todo o dia pela casa os seus <em>ais</em>. Luiza achava-a funebre. <br /> <br /> Quiz despedil-a ao fim de duas semanas. Jorge -no consentiu, estava em divida com ella, dizia. Mas -Luiza no podia disfarar a sua antipathia;—e Juliana -comeou a detestal-a: poz-lhe logo um nome:—a +não consentiu, estava em divida com ella, dizia. Mas +Luiza não podia disfarçar a sua antipathia;—e Juliana +começou a detestal-a: poz-lhe logo um nome:—a <em>piorrinha</em>! depois, d'ahi a semanas viu vir os estofadores: renovava-se a mobilia da sala! A tia -Virginia deixra tres contos de reis a Jorge,—e ella, -ella que durante um anno fra a enfermeira, humilde -como um co e fixa como uma sombra, aturando +Virginia deixára tres contos de reis a Jorge,—e ella, +ella que durante um anno fôra a enfermeira, humilde +como um cão e fixa como uma sombra, aturando o monstrengo, tinha em paga ido para o hospital, com uma febre, das noitadas, das canceiras! Julgava-se -vagamente roubada. Comeou a odiar a casa. <br /> +vagamente roubada. Começou a odiar a casa. <br /> <br /> -Tinha para isso muitas razes, dizia: dormia -n'um cubiculo abafado; ao jantar no lhe davam vinho, -nem sobremesa; o servio dos engommados era +Tinha para isso muitas razões, dizia: dormia +n'um cubiculo abafado; ao jantar não lhe davam vinho, +nem sobremesa; o serviço dos engommados era pesado; Jorge e Luiza tomavam banho todos os dias, -e era um trabalho encher, despejar todas as manhs +e era um trabalhão encher, despejar todas as manhãs as largas bacias de folha: achava despropositada -aquella mania de se prem a chafurdar todos os +aquella mania de se pôrem a chafurdar todos os dias que Deus deitava ao mundo; tinha servido vinte amos, e nunca vira semelhante desproposito! A -unica vantagem—dizia ella tia Victoria—era no -haver pequenos; tinha horror a crianas! Alm d'isso +unica vantagem—dizia ella á tia Victoria—era não +haver pequenos; tinha horror a crianças! Além d'isso achava que o bairro era saudavel; e como tinha a -cozinheira na mo, no verdade? havia aquelle +cozinheira «na mão», não é verdade? havia aquelle regalo dos caldinhos, de algum prato melhor de <span class="pagenum">[103]</span> -vez em quando! Por isso ficava; seno, no era +vez em quando! Por isso ficava; senão, não era ella! <br /> <br /> -Fazia no entanto o seu servio, ninguem tinha +Fazia no entanto o seu serviço, ninguem tinha nada que lhe dizer. O olho aberto sempre e o ouvido - escuta, j se v! E como perdera a esperana de -se estabelecer, no se sujeitava ao rigor de economisar: +á escuta, já se vê! E como perdera a esperança de +se estabelecer, não se sujeitava ao rigor de economisar: por isso ia-se consolando com algumas pinguinhas, de vez em quando; e satisfazia o seu vicio,—trazer -o p catita. O p era o seu orgulho, a +o pé catita. O pé era o seu orgulho, a sua mania, a sua despeza. Tinha-o bonito e pequenino. <br /> <br /> -—Como poucos—dizia ella—no vai outro ao +—Como poucos—dizia ella—não vai outro ao Passeio!<br /> <br /> E apertava-o, aperreava-o; trazia os vestidos curtos, -lanava-o muito para fra. A sua alegria era ir +lançava-o muito para fóra. A sua alegria era ir aos domingos para o Passeio Publico, e alli, com a orla do vestido erguida, a cara sob o guarda-solinho -de sda, estar a tarde inteira na poeira, no calor, -immovel, feliz,—a mostrar, a expr o p! +de sêda, estar a tarde inteira na poeira, no calor, +immovel, feliz,—a mostrar, a expôr o pé! <br /> <br /> <br /> @@ -3938,24 +3898,24 @@ immovel, feliz,—a mostrar, a expr o p! <br /> <br /> Pelas tres horas da tarde, Juliana entrou na cozinha -e atirou-se para uma cadeira, derreada. No +e atirou-se para uma cadeira, derreada. Não se tinha nas pernas de debilidade! Desde as duas horas que andava a arrumar a sala! Estava um chiqueiro. -O peralta na vespera at deixra cinza de -tabaco por cima das mesas! A negra que as pagava. +O peralta na vespera até deixára cinza de +tabaco por cima das mesas! A negra é que as pagava. E que calor! Era de derreter! Ouf! <br /> <br /> —O caldinho ha-de estar prompto, hein!—disse, adocicando a voz.—Tira-m'o, snr.<sup>a</sup> Joanna, faz favor? <br /> <br /> -—Vossemec hoje est com outra cara—notou +—Vossemecê hoje está com outra cara—notou a cozinheira. <br /> <br /> —Ai! sinto-me outra, snr.<sup>a</sup> Joanna! Pois olhe -que adormeci com dia. J luzia o dia! <br /> +que adormeci com dia. Já luzia o dia! <br /> <br /> —E eu!—Tinha tido cada sonho! Credo! Uma -avantesma cr de fogo a passear-lhe por cima do +avantesma côr de fogo a passear-lhe por cima do corpo, e cada pancada na bocca do estomago, como quem pisava uvas n'um lagar! <br /> @@ -3963,85 +3923,85 @@ quem pisava uvas n'um lagar! —Enfartamento—disse sentenciosamente Juliana, e repetiu: <br /> <br /> -—Pois eu sinto-me outra. Ha mezes que me no -sinto to bem! <br /> +—Pois eu sinto-me outra. Ha mezes que me não +sinto tão bem! <br /> <br /> Sorria com os seus dentes amarellados. O caldo que Joanna deitava na malga branca, com um vapor -cheiroso, cheio de hortalia, dava-lhe uma alegria -gulosa. Estendeu os ps, recostou-se, feliz, na -boa sensao da tarde quente e luminosa, entrando +cheiroso, cheio de hortaliça, dava-lhe uma alegria +gulosa. Estendeu os pés, recostou-se, feliz, na +boa sensação da tarde quente e luminosa, entrando largamente pelas duas janellas abertas. <br /> <br /> -O sol retirra-se da varanda, e sobre a pedra, +O sol retirára-se da varanda, e sobre a pedra, em vasos de barro, plantas pobres encolhiam a sua -folhagem chupada do calor: sobre uma tboa a um -canto, n'uma velha panella bojuda, verdejava um p -de salsa muito tratado: o gato dormia sobre um esteiro: -esfreges seccavam n'uma corda: e para -alm alargava-se o azul vivo como um metal candente, +folhagem chupada do calor: sobre uma táboa a um +canto, n'uma velha panella bojuda, verdejava um pé +de salsa muito tratado: o gato dormia sobre um esteirão: +esfregões seccavam n'uma corda: e para +além alargava-se o azul vivo como um metal candente, as arvores dos quintaes tinham tons ardentes -do sol, os telhados pardos com as suas vegetaes -esguias coziam no calor, e pedaos de paredes -caiadas despediam uma rebrilhao dura. <br /> +do sol, os telhados pardos com as suas vegetações +esguias coziam no calor, e pedaços de paredes +caiadas despediam uma rebrilhação dura. <br /> <br /> -—Est de appetite, snr.<sup>a</sup> Joanna, est de appetite!—dizia +—Está de appetite, snr.<sup>a</sup> Joanna, está de appetite!—dizia Juliana, remexendo o caldo devagarinho, -com gula. A cozinheira de p, com os braos +com gula. A cozinheira de pé, com os braços cruzados sobre o seu peito abundante, regosijava-se: <br /> <br /> -—O que se quer que esteja a gosto. <br /> +—O que se quer é que esteja a gosto. <br /> <br /> -—Est a preceito. <br /> +—Está a preceito. <br /> <br /> Sorriam, contentes da intimidade, das boas palavras.—E -a campainha da porta que j tinha tocado, +a campainha da porta que já tinha tocado, tornou a tilintar discretamente. <br /> <br /><span class="pagenum">[107]</span> -Juliana no se mexeu. Bafos de aragem quente -entravam: ouvia-se ferver a panella no fogo, e fra -o martellar incessante da forja: s vezes o arrulhar -triste de duas rlas que viviam na varanda, +Juliana não se mexeu. Bafos de aragem quente +entravam: ouvia-se ferver a panella no fogão, e fóra +o martellar incessante da forja: ás vezes o arrulhar +triste de duas rôlas que viviam na varanda, n'uma gaiola de vime, punha na tarde abrazada -uma sensao de suavidade. <br /> +uma sensação de suavidade. <br /> <br /> A campainha retilintou, sacudida com impaciencia. <br /> <br /> -—Com a cabea, burro!—disse Juliana. <br /> +—Com a cabeça, burro!—disse Juliana. <br /> <br /> -Riram. Joanna fra sentar-se janella, n'uma cadeira -baixa; estendia os seus grossos ps, calados -de chinellas de ourlo; coava-se devagarinho no +Riram. Joanna fôra sentar-se á janella, n'uma cadeira +baixa; estendia os seus grossos pés, calçados +de chinellas de ourêlo; coçava-se devagarinho no sovaco, toda repousada. <br /> <br /> A campainha retiniu violentamente. <br /> <br /> -—Fra, besta!—rosnou Juliana, muito tranquilla. <br /> +—Fóra, besta!—rosnou Juliana, muito tranquilla. <br /> <br /> Mas a voz irritada de Luiza chamou de baixo: <br /> <br /> —Juliana! <br /> <br /> -—Que nem uma pessoa pde tomar a sustancia +—Que nem uma pessoa póde tomar a sustancia socegada! Raio de casa! Irra! <br /> <br /> —Juliana!—gritou Luiza. <br /> <br /> -A cozinheira voltou-se, j assustada: <br /> +A cozinheira voltou-se, já assustada: <br /> <br /> —A senhora zanga-se, snr.<sup>a</sup> Juliana. <br /> <br /> —Que a leve o diabo! <br /> <br /> -Limpou os beios gordurosos ao avental, desceu +Limpou os beiços gordurosos ao avental, desceu furiosa. <br /> <br /> -—Voss no ouve, mulher? Esto a bater ha +—Vossê não ouve, mulher? Estão a bater ha uma hora! <br /> <br /> Juliana arregalou os olhos espantada: Luiza tinha -vestido o roupo novo de <em>foulard</em> cr de castanho, +vestido o roupão novo de <em>foulard</em> côr de castanho, com pintinhas amarellas! <br /> <br /><span class="pagenum">[108]</span> @@ -4050,7 +4010,7 @@ Juliana pelo corredor. <br /> <br /> A campainha repicava. E no patamar, vestido de claro, com uma rosa ao peito, um embrulho debaixo -do brao, estava o <em>sujeito do negocio das minas</em>! <br /> +do braço, estava o <em>sujeito do negocio das minas</em>! <br /> <br /> —Aquelle sujeito de hontem!—veio dizer, toda pasmada. <br /> @@ -4062,17 +4022,17 @@ pasmada. <br /> Galgou a escada da cozinha, disse logo da porta, com a voz aguda de jubilo: <br /> <br /> -—Est c o peralta de hontem! Est c outra +—Está cá o peralta de hontem! Está cá outra vez! Traz um embrulho!—Que lhe parece, snr.<sup>a</sup> Joanna? Que lhe parece? <br /> <br /> —Visitas...—disse a cozinheira. <br /> <br /> Juliana teve um risinho secco. Sentou-se, acabou -o seu caldo, pressa. <br /> +o seu caldo, á pressa. <br /> <br /> Joanna indifferente cantarolava pela cozinha; o -arrulhar das rlas continuava langoroso e debil. <br /> +arrulhar das rôlas continuava langoroso e debil. <br /> <br /> —Pois, senhores, isto vai rico!—disse Juliana. <br /> <br /> @@ -4083,46 +4043,46 @@ avistou logo sobre o toucador as chaves esquecidas da dispensa: podia subir, beber um trago de bom vinho, engulir dous ladrilhos de marmelada... Mas possuia-a uma curiosidade urgente, e, em bicos -de ps, foi agachar-se porta que dava para a sala, +de pés, foi agachar-se á porta que dava para a sala, espreitou. O reposteiro estava corrido por dentro: <span class="pagenum">[109]</span> podia apenas sentir a voz grossa e jovial do sujeito. -Foi de volta, pelo corredor, outra porta, ao p da -escada; poz o olho fechadura, collou o ouvido +Foi de volta, pelo corredor, á outra porta, ao pé da +escada; poz o olho á fechadura, collou o ouvido á frincha. O reposteiro dentro estava tambem cerrado. <br /> <br /> —Os diabos calafetaram-se!—pensou. <br /> <br /> Pareceu-lhe que se arrastava uma cadeira, depois -que se fechava uma vidraa. Os olhos faiscavam-lhe. +que se fechava uma vidraça. Os olhos faiscavam-lhe. Uma risada de Luiza sobresahiu, em seguida um silencio; -e as vozes recomearam n'um tom sereno e +e as vozes recomeçaram n'um tom sereno e continuo. De repente o sujeito ergueu a falla, e entre -as palavras que dizia, de p de certo, passeando, +as palavras que dizia, de pé de certo, passeando, Juliana ouviu claramente: <em>Tu, foste tu!</em> <br /> <br /> —Oh que bebeda! <br /> <br /> Um tlim-tlim timido da campainha, ao lado, assustou-a. -Foi abrir. Era Sebastio, muito vermelho do -sol, com as botas cheias de p. <br /> +Foi abrir. Era Sebastião, muito vermelho do +sol, com as botas cheias de pó. <br /> <br /> -—Est?—perguntou, limpando a testa suada. <br /> +—Está?—perguntou, limpando a testa suada. <br /> <br /> -—Est com uma visita, snr. Sebastio! <br /> +—Está com uma visita, snr. Sebastião! <br /> <br /> E cerrando a porta sobre si, mais baixo: <br /> <br /> -—Um rapaz novo que j c esteve hontem, um -janota! Quer que v dizer? <br /> +—Um rapaz novo que já cá esteve hontem, um +janota! Quer que vá dizer? <br /> <br /> -—No, no, obrigado, adeus. <br /> +—Não, não, obrigado, adeus. <br /> <br /> Desceu discretamente. Juliana voltou logo a encostar-se - porta, a orelha contra a madeira, as mos -atraz das costas: mas a conversao, sem saliencia +á porta, a orelha contra a madeira, as mãos +atraz das costas: mas a conversação, sem saliencia de vozes, tinha um rumor tranquillo e indistincto. -Subiu cozinha. <br /> +Subiu á cozinha. <br /> <br /> —Tratam-se por tu!—exclamou.—Tratam-se por tu, snr.<sup>a</sup> Joanna! <br /> @@ -4130,20 +4090,20 @@ por tu, snr.<sup>a</sup> Joanna! <br /> E muita excitada: <br /> <br /><span class="pagenum">[110]</span> -—Isto vai vela! Caspit! assim que eu gosto +—Isto vai á vela! Caspitè! assim é que eu gosto d'ellas! <br /> <br /> -O sujeito sahiu s cinco horas. Juliana, apenas +O sujeito sahiu ás cinco horas. Juliana, apenas sentiu abrir-se a porta, veio a correr; viu Luiza no -patamar, debruada no corrimo, dizendo para baixo, +patamar, debruçada no corrimão, dizendo para baixo, com muita intimidade: <br /> <br /> -—Bem, no falto. Adeus. <br /> +—Bem, não falto. Adeus. <br /> <br /> -Ficou ento tomada d'uma curiosidade que a alterava +Ficou então tomada d'uma curiosidade que a alterava como uma febre. Toda a tarde, na sala de jantar, no quarto, esquadrinhou Luiza com olhares -de lado. Mas Luiza, com um roupo de linho mais +de lado. Mas Luiza, com um roupão de linho mais velho, parecia serena, muito indifferente. <br /> <br /> —Que sonsa! <br /> @@ -4153,7 +4113,7 @@ Aquella naturalidade despertava a sua bisbilhotice. <br /> —Eu hei-de-t'apanhar, desavergonhada!—calculava. <br /> <br /> Afigurou-se-lhe que Luiza tinha os olhos um pouco -pisados! Estudava-lhe as posies, os tons de voz. +pisados! Estudava-lhe as posições, os tons de voz. Viu-a repetir o assado,—pensou logo: <br /> <br /> —Abriu-lhe o appetite! <br /> @@ -4163,36 +4123,36 @@ E quando Luiza ao fim do jantar se estendeu na <br /> —Ficou derreada. <br /> <br /> -Luiza que nunca tomava caf, quiz n'essa tarde -meia chavena, mas forte, muito forte. <br /> +Luiza que nunca tomava café, quiz n'essa tarde +«meia chavena, mas forte, muito forte». <br /> <br /> -—Quer caf!—veio ella dizer cozinheira, -toda excitada.—Tudo grande! E do forte. Quer +—Quer café!—veio ella dizer á cozinheira, +toda excitada.—Tudo á grande! E do forte. Quer do forte! Ora o diabo! <br /> <br /> Estava furiosa. <br /> <br /> -—Todas o mesmo! Uma rcua de cabras! +—Todas o mesmo! Uma récua de cabras! <span class="pagenum">[111]</span> <br /> <br /> <br /> -Ao outro dia era domingo. Logo pela manh cedo, +Ao outro dia era domingo. Logo pela manhã cedo, quando Juliana ia para a missa, Luiza chamou-a da porta do quarto, deu-lhe uma carta para levar a D. Felicidade. Ordinariamente mandava um recado;—e a curiosidade de Juliana accendeu-se logo diante d'aquelle sobrescripto fechado e lacrado com o sinete -de Luiza, um L gothico dentro d'uma cora de +de Luiza, um L gothico dentro d'uma corôa de rosas. <br /> <br /> —Tem resposta? <br /> <br /> —Tem. <br /> <br /> -Quando voltou s dez horas, com um bilhete de +Quando voltou ás dez horas, com um bilhete de D. Felicidade, Luiza quiz saber se havia muito calor, -se fazia poeira. Sobre a mesa estava um chapo de +se fazia poeira. Sobre a mesa estava um chapéo de palha escuro, que ella estivera a enfeitar com duas rosas de musgo. <br /> <br /> @@ -4200,123 +4160,123 @@ Fazia um bocadinho de vento, mas p'ra a tarde abrandava, de certo. E pensou logo:—Temos passeata, vai ter com o gajo! <br /> <br /> -Mas durante todo o dia, Luiza em roupo no +Mas durante todo o dia, Luiza em roupão não sahiu do seu quarto ou da sala, ora estendida na <em>causeuse</em> lendo aos bocados, ora batendo distrahidamente -no piano pedaos de valsas. Jantou s quatro -horas. A cozinheira sahiu, e Juliana pz-se a passar -a sua tarde janella da sala de jantar. Tinha o +no piano pedaços de valsas. Jantou ás quatro +horas. A cozinheira sahiu, e Juliana pôz-se a passar +a sua tarde á janella da sala de jantar. Tinha o vestido novo, as salas muito rijas de gomma, a cuia -dos dias santos—e pousava solemnemente os cotovlos -n'um leno, estendido sobre o peitoril da varanda. +dos dias santos—e pousava solemnemente os cotovêlos +n'um lenço, estendido sobre o peitoril da varanda. <span class="pagenum">[112]</span> Defronte os passaros chilreavam na figueira brava. Dos dous lados do tabique que cercava o terreno vago, agachavam-se os tectos escuros das duas ruasitas parallelas: eram casas pobres onde viviam mulheres, que pela tarde, em chambre ou de garibaldi, -os cabellos muito oleosos, faziam meia janella, +os cabellos muito oleosos, faziam meia á janella, fallando aos homens, cantarolando com um tedio triste. Do outro lado do terreno, verduras de -quintaes, muros brancos davam quelle sitio um ar +quintaes, muros brancos davam áquelle sitio um ar adormecido de villa pacata. Quasi ninguem passava. -Havia um silencio fatigado; e s s vezes o som distante +Havia um silencio fatigado; e só ás vezes o som distante d'um realejo, que tocava a <em>Norma</em> ou a <em>Lucia</em>, punha uma melancolia na tarde.—E Juliana alli estava -immovel, at que os tons quentes da tarde empallideciam, -e os morcegos comeavam a voar. <br /> +immovel, até que os tons quentes da tarde empallideciam, +e os morcegos começavam a voar. <br /> <br /> Pelas oito horas entrou no quarto de Luiza,—ficou -pasmada de a vr vestida toda de preto, de -chapo! Tinha accendido as serpentinas na parede, -os castiaes no toucador; e sentada beira da +pasmada de a vêr vestida toda de preto, de +chapéo! Tinha accendido as serpentinas na parede, +os castiçaes no toucador; e sentada á beira da <em>causeuse</em> -calava as luvas devagar, com a face muito -sria, um pouco esbatida de p d'arroz, o olhar +calçava as luvas devagar, com a face muito +séria, um pouco esbatida de pó d'arroz, o olhar cheio de brilho. <br /> <br /> —O vento abrandou?—disse. <br /> <br /> -—Est a noite muito bonita, minha senhora. <br /> +—Está a noite muito bonita, minha senhora. <br /> <br /> Um pouco antes das nove horas uma carruagem -parou porta. Era D. Felicidade, muito encalmada. -Abafra todo o dia! E noite nem uma aragem! -At tinha mandado buscar uma carruagem descoberta, -que n'um coup, credo, morria-se! <br /> +parou á porta. Era D. Felicidade, muito encalmada. +Abafára todo o dia! E á noite nem uma aragem! +Até tinha mandado buscar uma carruagem descoberta, +que n'um coupé, credo, morria-se! <br /> <br /> Juliana pelo quarto arrumava, dobrava, toda curiosa. <span class="pagenum">[113]</span> Onde iriam? onde iriam? D. Felicidade, amplamente -sentada, de chapo, tagarellava: uma indigesto +sentada, de chapéo, tagarellava: uma indigestão que tivera na vespera com umas bajes; a -cozinheira que a tinha querido comer em quatro +cozinheira que a tinha querido «comer» em quatro vintens; uma visita que lhe fizera a condessa de Arruella... <br /> <br /> -Emfim, Luiza, disse, baixando o seu vo branco: <br /> +Emfim, Luiza, disse, baixando o seu véo branco: <br /> <br /> —Vamos, filha. Faz-se tarde. <br /> <br /> Juliana foi-lhes alumiar, furiosa. Olha que proposito, -irem duas mulheres ss por ahi fra, n'uma tipoia! -E se uma criada ento se demorava na rua mais +irem duas mulheres sós por ahi fóra, n'uma tipoia! +E se uma criada então se demorava na rua mais meia hora, credo, que alarido! Que duas bebedas! <br /> <br /> -Foi cozinha desabafar com a Joanna. Mas a +Foi á cozinha desabafar com a Joanna. Mas a rapariga estirada n'uma cadeira, dormitava. <br /> <br /> -Fra com o seu Pedro ao Alto de S. Joo. E toda +Fôra com o seu Pedro ao Alto de S. João. E toda a tarde tinham passeado no cemiterio, muito juntos, admirando os jazigos, soletrando os epitaphios, -beijocando-se nos recantos que os chores escureciam, +beijocando-se nos recantos que os chorões escureciam, e regalando-se do ar dos cyprestes e das relvas dos mortos. Voltaram por casa da Serena, entraram a beberricar um quartilho no Espregueira... Tarde -cheia! e estava derreada da soalheira, do p, da -admirao de tanto tumulo rico, do homem, e da +cheia! e estava derreada da soalheira, do pó, da +admiração de tanto tumulo rico, do homem, e da pinguita de vinho. <br /> <br /> O que ia, era refastelar-se para a cama! <br /> <br /> -—Credo, snr.<sup>a</sup> Joanna, vossemec est-se a fazer -uma dorminhca! Olha que mulher! Com pouco -arra! Cruzes! <br /> +—Credo, snr.<sup>a</sup> Joanna, vossemecê está-se a fazer +uma dorminhôca! Olha que mulher! Com pouco +arrêa! Cruzes! <br /> <br /> Desceu ao quarto de Luiza, apagou as luzes, abriu as janellas, arrastou a poltrona para a varanda,—e, <span class="pagenum">[114]</span> -repimpada, os braos cruzados, pz-se a passar +repimpada, os braços cruzados, pôz-se a passar a noite. <br /> <br /> -O estanque ainda no se fechra, e a sua luzita +O estanque ainda não se fechára, e a sua luzita lugubre como a estanqueira, estendia-se tristemente -sobre a pedra miuda da rua; as janellas ao p estavam +sobre a pedra miuda da rua; as janellas ao pé estavam abertas; por algumas, mal alumiadas, viam-se -dentro seres melancolicos; n'outras, onde havia -vultos immoveis, luzia s vezes a ponta d'um cigarro; -aqui, alm tossia-se; e o moo do padeiro, no silencio +dentro serões melancolicos; n'outras, onde havia +vultos immoveis, luzia ás vezes a ponta d'um cigarro; +aqui, além tossia-se; e o moço do padeiro, no silencio quente da noite, harpejava baixinho a guitarra. <br /> <br /> Juliana pozera um vestido de chita claro; dous -sujeitos que estavam porta do estanque riam, erguiam +sujeitos que estavam á porta do estanque riam, erguiam de vez em quando os olhos para a janella, -para aquelle vulto branco de mulher: Juliana, ento, +para aquelle vulto branco de mulher: Juliana, então, gozou! Tomavam-na de certo pela senhora, pela do -Engenheiro; faziam-lhe olho, diziam brejeirices... -Um tinha cala branca e chapo alto, eram janotas... -E com os ps muito estendidos, os braos -cruzados, a cabea de lado, saboreava, longamente, -aquella considerao. <br /> +Engenheiro; faziam-lhe «olho», diziam brejeirices... +Um tinha calça branca e chapéo alto, eram janotas... +E com os pés muito estendidos, os braços +cruzados, a cabeça de lado, saboreava, longamente, +aquella consideração. <br /> <br /> -Passos fortes que subiam a rua, pararam porta; +Passos fortes que subiam a rua, pararam á porta; a campainha retiniu de leve. <br /> <br /> -—Quem ?—perguntou muito impaciente. <br /> +—Quem é?—perguntou muito impaciente. <br /> <br /> -—Est?—disse a voz grossa de Sebastio. <br /> +—Está?—disse a voz grossa de Sebastião. <br /> <br /> —Sahiu com a D. Felicidade, foram de carruagem. <br /> <br /> @@ -4327,25 +4287,25 @@ E acrescentou: <br /> —Muito bonita noite! <br /> <br /><span class="pagenum">[115]</span> -—D'appetite, snr. Sebastio! d'appetite!—exclamou +—D'appetite, snr. Sebastião! d'appetite!—exclamou alto. <br /> <br /> E quando o viu descer a rua, gritou, affectadamente: <br /> <br /> -—Recados a Joanna! No se esquea!—mostrando-se +—Recados a Joanna! Não se esqueça!—mostrando-se intima, madama, com olho terno para os homens. <br /> <br /> <br /> <br /> -quella hora D. Felicidade e Luiza chegavam ao +Áquella hora D. Felicidade e Luiza chegavam ao Passeio. <br /> <br /> -Era beneficio; j de fra se sentia o <em>brouhaha</em> +Era beneficio; já de fóra se sentia o <em>brouhaha</em> lento e monotono, e via-se uma nevoa alta de poeira, amarellada e luminosa. <br /> <br /> -Entraram. Logo ao p do tanque encontraram +Entraram. Logo ao pé do tanque encontraram Bazilio. Fez-se muito surprehendido, exclamou: <br /> <br /> —Que feliz acaso! <br /> @@ -4353,8 +4313,8 @@ Bazilio. Fez-se muito surprehendido, exclamou: <br /> Luiza corou, apresentou-o a D. Felicidade. <br /> <br /> A excellente senhora teve muitos sorrisos. Lembrava-se -d'elle, mas se no lhe dissessem talvez o -no conhecesse! Estava muito mudado! <br /> +d'elle, mas se não lhe dissessem talvez o +não conhecesse! Estava muito mudado! <br /> <br /> —Os trabalhos, minha senhora...—disse Bazilio curvando-se. <br /> @@ -4365,14 +4325,14 @@ pedra do tanque: <br /> —E a velhice! Sobretudo a velhice! <br /> <br /> Na agua escura e suja as luzes do gaz torciam-se -at uma grande profundidade. As folhagens em +até uma grande profundidade. As folhagens em redor estavam immoveis, no ar parado, com tons <span class="pagenum">[116]</span> d'um verde livido e artificial. Entre os dous longos renques parallelos d'arvores mesquinhas, entremeadas de candieiros de gaz, apertava-se, n'um empoeiramento -de macadam, uma multido compacta e escura; -e atravs do rumor grosso, as saliencias metallicas +de macadam, uma multidão compacta e escura; +e através do rumor grosso, as saliencias metallicas da musica faziam passar no ar pesado, compassos vivos de valsa. <br /> <br /> @@ -4381,27 +4341,27 @@ Tinham ficado parados, conversando. <br /> Que calor, hein? Mas a noite estava linda! Nem uma aragem! que enchente! <br /> <br /> -E olhavam a gente que entrava: moos muito -frisados, com calas cr de flr d'alecrim, fumando ceremoniosamente +E olhavam a gente que entrava: moços muito +frisados, com calças côr de flôr d'alecrim, fumando ceremoniosamente os charutos do dia santo; um aspirante -com a cinta espartilhada e o peito enchumaado; -duas meninas de cabello riado, de movimentos gingados +com a cinta espartilhada e o peito enchumaçado; +duas meninas de cabello riçado, de movimentos gingados que lhe desenhavam os ossos das omoplatas sob a fazenda do vestido atabalhoado; um ecclesiastico -cr de cidra, o ar molle, o cigarro na bocca, e +côr de cidra, o ar molle, o cigarro na bocca, e lunetas defumadas; uma hespanhola com dous metros de saia branca muita rija, fazendo ruge-ruge -na poeira; o triste Xavier, poeta; um fidalgo de jaqueto -e bengalo, de chapo na nuca, o olho avinhado; +na poeira; o triste Xavier, poeta; um fidalgo de jaquetão +e bengalão, de chapéo na nuca, o olho avinhado; e Bazilio ria muito de dous pequenos que o pai conduzia com um ar hilare e compenetrado—vestidos d'azul claro, a cinta ligada n'uma facha escarlate, -barretinas de lanceiro, botas hungara, cretinos e +barretinas de lanceiro, botas á hungara, cretinos e somnambulos. <br /> <br /> -Um sujeito alto ento passou rente d'elles, e voltando-se, +Um sujeito alto então passou rente d'elles, e voltando-se, revirou para Luiza dous grandes olhos langorosos -e prateados: tinha uma pera longa e aguada; +e prateados: tinha uma pera longa e aguçada; <span class="pagenum">[117]</span> trazia o collete decotado mostrando um bello peitilho, e fumava por urna boquilha enorme que representava @@ -4409,8 +4369,8 @@ um zuavo. <br /> <br /> Luiza quiz-se sentar. <br /> <br /> -Um garoto de blusa, sujo como um esfrego, correu -a arranjar cadeiras; e acommodaram-se ao p +Um garoto de blusa, sujo como um esfregão, correu +a arranjar cadeiras; e acommodaram-se ao pé d'uma familia acabrunhada e taciturna. <br /> <br /> —Que fizeste tu hoje, Bazilio?—perguntou @@ -4420,15 +4380,15 @@ Tinha ido aos touros. <br /> <br /> —E que tal? Gostaste? <br /> <br /> -—Uma semsaboria. Se no fosse pelo trambolho +—Uma semsaboria. Se não fosse pelo trambolhão do Peixinho tinha-se morrido de pasmaceira. Gado fraco, cavalleiros infelizes, nenhuma sorte! Touros em Hespanha! Isso sim! <br /> <br /> D. Felicidade protestou. Que horror! Tinha-os visto -em Badajoz, quando estivera de visita em Elvas +em Badajoz, quando estivera de visita em Elvas á tia Francisca de Noronha, e ia desmaiando. O sangue, -as tripas dos cavallos... Pouh! muito cruel! <br /> +as tripas dos cavallos... Pouh! É muito cruel! <br /> <br /> Bazilio disse, com um sorriso: <br /> <br /> @@ -4436,71 +4396,71 @@ Bazilio disse, com um sorriso: <br /> senhora! <br /> <br /> D. Felicidade tinha ouvido contar,—mas achava -todos esses divertimentos barbaros, contra a religio. <br /> +todos esses divertimentos barbaros, contra a religião. <br /> <br /> E recordando um gozo que lhe punha um riso na face gorda: <br /> <br /> -—P'ra mim no ha nada como uma boa noite +—P'ra mim não ha nada como uma boa noite de theatro! Nada! <br /> <br /> -—Mas aqui representam to mal!—replicou +—Mas aqui representam tão mal!—replicou <span class="pagenum">[118]</span> -Bazilio com uma voz desolada.—To mal, minha rica +Bazilio com uma voz desolada.—Tão mal, minha rica senhora! <br /> <br /> -D. Felicidade no respondeu; meio erguida na +D. Felicidade não respondeu; meio erguida na cadeira, o olhar avivado d'um brilho humido, saudava -desesperadamente com a mo: <br /> +desesperadamente com a mão: <br /> <br /> -—No me viu—disse desconsolada. <br /> +—Não me viu—disse desconsolada. <br /> <br /> —Era o conselheiro?—perguntou Luiza. <br /> <br /> -—No. Era a condessa d'Alviella. No me viu! -Vai muito Encarnao, sou muito d'ella. um anjo! -No me viu. Ia com o sogro. <br /> +—Não. Era a condessa d'Alviella. Não me viu! +Vai muito á Encarnação, sou muito d'ella. É um anjo! +Não me viu. Ia com o sogro. <br /> <br /> -Bazilio no tirava os olhos de Luiza. Sob o vo -branco, luz falsa do gaz, no ar ennevoado da poeira, -o seu rosto tinha uma frma alva e suave, onde -os olhos que a noite escurecia punham uma expresso +Bazilio não tirava os olhos de Luiza. Sob o véo +branco, á luz falsa do gaz, no ar ennevoado da poeira, +o seu rosto tinha uma fórma alva e suave, onde +os olhos que a noite escurecia punham uma expressão apaixonada; os cabellinhos louros, frisados, tornando -a testa mais pequena, davam-lhe uma graa +a testa mais pequena, davam-lhe uma graça ameninada e amorosa; e as luvas <em>gris-perle</em> faziam destacar sobre o vestido negro o desenho elegante -das mos, que ella pousra no regao, sustentando +das mãos, que ella pousára no regaço, sustentando o leque, com uma fofa renda branca em torno dos seus pulsos finos. <br /> <br /> —E tu, que fizeste hoje?—perguntou-lhe Bazilio. <br /> <br /> Tinha-se aborrecido muito. Estivera todo o santo -dia a lr. <br /> +dia a lêr. <br /> <br /> -Tambem elle passra a manh deitado no soph -a lr a <em>Mulher de fogo</em> de Belot. Tinha lido, ella? <br /> +Tambem elle passára a manhã deitado no sophá +a lêr a <em>Mulher de fogo</em> de Belot. Tinha lido, ella? <br /> <br /> -—No, que ? <br /> +—Não, que é? <br /> <br /> -— um romance, uma novidade. <br /> +—É um romance, uma novidade. <br /> <br /> E acrescentou sorrindo: <br /> <br /><span class="pagenum">[119]</span> -—Talvez um pouco picante; no t'o aconselho! <br /> +—Talvez um pouco picante; não t'o aconselho! <br /> <br /> -D. Felicidade andava a lr o <em>Rocambole</em>. Tanto +D. Felicidade andava a lêr o <em>Rocambole</em>. Tanto lh'o tinham apregoado! Mas era uma tal trapalhada! Embrulhava-se, esquecia-se... E ia deixar, porque -tinha percebido que a leitura lhe augmentava a indigesto. <br /> +tinha percebido que a leitura lhe augmentava a indigestão. <br /> <br /> —Soffre?—perguntou Bazilio, com um interesse bem educado. <br /> <br /> D. Felicidade contou logo a sua dyspepsia. Bazilio aconselhou-lhe o uso do gelo.—De resto felicitava-a, -porque as doenas d'estomago, ultimamente, +porque as doenças d'estomago, ultimamente, tinham muito <em>chic</em>. Interessou-se pela d'ella, pediu pormenores. <br /> <br /> @@ -4508,63 +4468,63 @@ D. Felicidade prodigalisou-os; e, fallando, via-se-lhe crescer no olhar, na voz a sua sympathia por Bazilio. Havia de usar o gelo! <br /> <br /> -—Com o vinho, j se sabe? <br /> +—Com o vinho, já se sabe? <br /> <br /> —Com o vinho, minha senhora! <br /> <br /> —E olha que talvez!—exclamou D. Felicidade, -batendo com o leque no brao de Luiza, j esperanada. <br /> +batendo com o leque no braço de Luiza, já esperançada. <br /> <br /> Luiza sorriu, ia responder—mas viu o sujeito pallido da pera longa que fitava n'ella os seus olhos -langorosos, com obstinao. Voltou o rosto importunada. +langorosos, com obstinação. Voltou o rosto importunada. O sujeito afastou-se, retorcendo a ponta da pera. <br /> <br /> Luiza sentia-se molle; o movimento rumoroso e -monotono, a noite calida, a accumulao da gente, -a sensao de verdura em redor davam ao seu corpo +monotono, a noite calida, a accumulação da gente, +a sensação de verdura em redor davam ao seu corpo de mulher caseira um torpor agradavel, um bem <span class="pagenum">[120]</span> -estar d'inercia, envolviam-na n'uma doura emolliente +estar d'inercia, envolviam-na n'uma doçura emolliente de banho morno. Olhava com um vago sorriso, o -olhar frouxo; quasi tinha preguia de mexer as mos, +olhar frouxo; quasi tinha preguiça de mexer as mãos, d'abrir o leque. <br /> <br /> Bazilio notou o seu silencio.—Tinha somno? <br /> <br /> D. Felicidade sorriu com finura. <br /> <br /> -—Ora, v-se sem o seu maridinho! Desde que -o no tem est esta mona que se v. <br /> +—Ora, vê-se sem o seu maridinho! Desde que +o não tem está esta mona que se vê. <br /> <br /> Luiza respondeu, olhando Bazilio instinctivamente: <br /> <br /> -—Que tolice! At estes dias tenho andado bem +—Que tolice! Até estes dias tenho andado bem alegre! <br /> <br /> Mas D. Felicidade insistia: <br /> <br /> -—Ora, bem sabemos, bem sabemos. Esse coraosinho -est no Alemtejo! <br /> +—Ora, bem sabemos, bem sabemos. Esse coraçãosinho +está no Alemtejo! <br /> <br /> Luiza disse, com impaciencia: <br /> <br /> -—No has-de querer que me ponha aos pulos e -s gargalhadas no Passeio. <br /> +—Não has-de querer que me ponha aos pulos e +ás gargalhadas no Passeio. <br /> <br /> -—Est bem, no te enfureas!—exclamou D. +—Está bem, não te enfureças!—exclamou D. Felicidade. E para Bazilio:—Que geniosinho, hein! <br /> <br /> -Bazilio pz-se a rir. <br /> +Bazilio pôz-se a rir. <br /> <br /> —A prima Luiza antigamente era uma vibora. -Agora no sei... <br /> +Agora não sei... <br /> <br /> D. Felicidade acudiu: <br /> <br /> -— uma pomba, coitada, uma pomba! No, -l isso, uma pomba. <br /> +—É uma pomba, coitada, é uma pomba! Não, +lá isso, é uma pomba. <br /> <br /> E envolvia-a n'um olhar maternal. <br /> <br /> @@ -4574,58 +4534,58 @@ succumbidos. <br /> <br /> Bazilio immediatamente apossou-se da cadeira ao <span class="pagenum">[121]</span> -p de Luiza,—e vendo D. Felicidade a olhar distrahida: <br /> +pé de Luiza,—e vendo D. Felicidade a olhar distrahida: <br /> <br /> -—Estive para te ir vr de manh—disse baixinho +—Estive para te ir vêr de manhã—disse baixinho a Luiza. <br /> <br /> -Ella ergueu a voz, muito naturalmente, com indifferena: <br /> +Ella ergueu a voz, muito naturalmente, com indifferença: <br /> <br /> -—E porque no foste? Tinhamos feito musica. +—E porque não foste? Tinhamos feito musica. Fizeste mal. Devias ter ido... <br /> <br /> -D. Felicidade quiz ento saber as horas. Comeava +D. Felicidade quiz então saber as horas. Começava a enfastiar-se. Tinha esperado encontrar o conselheiro: por elle, para lhe parecer bem, fizera -o sacrificio de se apertar; Accacio no vinha, os -gazes comeavam a affrontal-a; e o despeito d'aquella -ausencia augmentava-lhe a tortura da digesto. Na -sua cadeira, com o corpo molle, ia seguindo a multido +o sacrificio de se apertar; Accacio não vinha, os +gazes começavam a affrontal-a; e o despeito d'aquella +ausencia augmentava-lhe a tortura da digestão. Na +sua cadeira, com o corpo molle, ia seguindo a multidão que girava incessantemente, n'uma nevoa empoeirada. <br /> <br /> Mas a musica, no coreto, bateu de repente, alto, a grande ruido de cobres, os primeiros compassos impulsivos da marcha do <em>Fausto</em>. Aquillo reanimou-a. -Era um <em>pot-pourri</em> da opera,—e no havia musica de +Era um <em>pot-pourri</em> da opera,—e não havia musica de que gostasse mais. Estaria para a abertura de S. Carlos, o snr. Bazilio? <br /> <br /> -Bazilio disse, com uma inteno, voltando-se para +Bazilio disse, com uma intenção, voltando-se para Luiza: <br /> <br /> -—No sei, minha senhora, depende... <br /> +—Não sei, minha senhora, depende... <br /> <br /> -Luiza olhava, calada. A multido crescera. Nas -ruas lateraes mais espaosas, frescas, passeavam +Luiza olhava, calada. A multidão crescera. Nas +ruas lateraes mais espaçosas, frescas, passeavam apenas, sob a penumbra das arvores, os acanhados, -as pessoas de luto, os que tinham o fato coado. +as pessoas de luto, os que tinham o fato coçado. <span class="pagenum">[122]</span> Toda a burguezia domingueira viera amontoar-se na rua do meio, no corredor formado pela filas cerradas das cadeiras do asylo: e alli se movia entalada, -com a lentido espessa d'uma massa mal derretida, -arrastando os ps, raspando o macadam, +com a lentidão espessa d'uma massa mal derretida, +arrastando os pés, raspando o macadam, n'um amarfanhamento plebeu, a garganta secca, os -braos molles, a palavra rara. Iam, vinham, incessantemente, +braços molles, a palavra rara. Iam, vinham, incessantemente, para cima e para baixo, com um bamboleamento relaxado e um rumor grosso, sem alegria e sem bonhomia, no arrebanhamento passivo que -agrada s raas mandrionas: no meio da abundancia +agrada ás raças mandrionas: no meio da abundancia das luzes e das festividades da musica, um tedio morno circulava, penetrava como uma nevoa: a poeirada fina envolvia as figuras, dava-lhes um tom neutro; e nos rostos que passavam sob os candieiros, -nas zonas mais directas de luz, viam-se desconsolaes +nas zonas mais directas de luz, viam-se desconsolações de fadiga e aborrecimentos de dia santo. <br /> <br /> Defronte as casas da rua Occidental tinham na @@ -4633,10 +4593,10 @@ sua fachada o reflexo claro das luzes do Passeio; algumas janellas estavam abertas; as cortinas de fazenda escura destacavam sobre a claridade interior dos candieiros. Luiza sentia como uma saudade de -outras noites de vero, de seres recolhidos. Onde? -No se lembrava. O movimento ento retrahia-a; e +outras noites de verão, de serões recolhidos. Onde? +Não se lembrava. O movimento então retrahia-a; e encontrava em face, fitando-a n'uma attitude lugubre, -o sujeito da pera longa. Debaixo do vo sentia a +o sujeito da pera longa. Debaixo do véo sentia a poeira arder-lhe nos olhos: em redor d'ella gente bocejava. <br /> <br /> @@ -4645,86 +4605,86 @@ foram rompendo devagar; as filas das cadeiras apertavam-se <span class="pagenum">[123]</span> compactamente, e uma infinidade de faces a que a luz do gaz dava o mesmo tom amarellado olhavam -de um modo fixo e canado, n'um abatimento +de um modo fixo e cançado, n'um abatimento de pasmaceira. Aquelle aspecto irritou Bazilio, e como -era difficil andar lembrou—que se fossem d'aquella -semsaboria. <br /> +era difficil andar lembrou—«que se fossem d'aquella +semsaboria». <br /> <br /> Sahiram. Em quanto elle ia comprar os bilhetes, D. Felicidade, deixando-se quasi cahir n'um banco -sob a folhagem d'um choro, exclamou afflicta: <br /> +sob a folhagem d'um chorão, exclamou afflicta: <br /> <br /> —Ai filha! Estou que arrebento! <br /> <br /> -Passava a mo no estomago, tinha a face envelhecida. <br /> +Passava a mão no estomago, tinha a face envelhecida. <br /> <br /> -—E o conselheiro, que me dizes? Olha que j +—E o conselheiro, que me dizes? Olha que já é pouca sorte! Hoje que eu vim ao Passeio... <br /> <br /> Suspirou, abanando-se. E com o seu sorriso bondoso: <br /> <br /> -— muito sympathico, teu primo! E que maneiras! +—É muito sympathico, teu primo! E que maneiras! Um verdadeiro fidalgo. Que elles conhecem-se, filha! <br /> <br /> -Declarou-se muito fatigada, apenas sahiram o porto. +Declarou-se muito fatigada, apenas sahiram o portão. Era melhor tomarem um trem. <br /> <br /> -Bazilio achava preferivel subirem a p at ao -largo do Loreto. A noite estava to agradavel! E o -andar fazia bem snr.<sup>a</sup> D. Felicidade! <br /> +Bazilio achava preferivel subirem a pé até ao +largo do Loreto. A noite estava tão agradavel! E o +andar fazia bem á snr.<sup>a</sup> D. Felicidade! <br /> <br /> Depois diante do Martinho, fallou em irem tomar neve; mas D. Felicidade receava a frialdade, Luiza -tinha vergonha. Pelas portas do caf abertas, viam-se +tinha vergonha. Pelas portas do café abertas, viam-se sobre as mesas jornaes enxovalhados; e algum raro -individuo, de cala branca, tomava placidamente +individuo, de calça branca, tomava placidamente o seu sorvete de morango. <br /> <br /><span class="pagenum">[124]</span> No Rocio, sob as arvores, passeava-se: pelos bancos, -gente immovel parecia dormitar; aqui e alm +gente immovel parecia dormitar; aqui e além pontas de cigarro reluziam; sujeitos passavam, com -o chapo na mo, abanando-se, o collete desabotoado; -a cada canto se apregoava agua fresca do Arsenal; +o chapéo na mão, abanando-se, o collete desabotoado; +a cada canto se apregoava agua fresca «do Arsenal»; em torno do largo, carruagens descobertas -rodavam vagarosamente. O co abafava,—e na +rodavam vagarosamente. O céo abafava,—e na noite escura, a columna da estatua de D. Pedro tinha -o tom bao e pallido de uma vela de estearina +o tom baço e pallido de uma vela de estearina colossal e apagada. <br /> <br /> -Bazilio, ao p de Luiza, ia calado. Que horror de +Bazilio, ao pé de Luiza, ia calado. Que horror de cidade!—pensava—Que tristeza! E lembrava-lhe -Paris, de vero: subia, noite, no seu phaeton, os +Paris, de verão: subia, á noite, no seu phaeton, os Campos Elyseos devagar: centenares de victorias descem, sobem rapidamente, com um trote discreto e alegre; e as lanternas fazem em toda a avenida um movimento jovial de pontos de luz; vultos brancos e mimosos de mulheres reclinam-se nas almofadas, -balanadas nas molas macias; o ar em redor tem -uma doura avelludada, e os castanheiros espalham +balançadas nas molas macias; o ar em redor tem +uma doçura avelludada, e os castanheiros espalham um aroma subtil. Dos dous lados, d'entre os arvoredos, -saltam as claridades violentas dos cafs cantantes, -cheios do <em>brouhaha</em> das multides alegres, dos +saltam as claridades violentas dos cafés cantantes, +cheios do <em>brouhaha</em> das multidões alegres, dos <em>brios</em> impulsivos das orchestras; os restaurantes flammejam; ha uma intensidade de vida amorosa e feliz; -e, para alm, sahe das janellas dos palacetes, atravs -dos <em>stores</em> de sda, a luz sobria e velada das -existencias ricas. Ah! se l estivesse!—Mas ao passar +e, para além, sahe das janellas dos palacetes, através +dos <em>stores</em> de sêda, a luz sobria e velada das +existencias ricas. Ah! se lá estivesse!—Mas ao passar junto dos candieiros olhava de lado para Luiza: -o seu perfil fino sob o vo branco tinha uma grande +o seu perfil fino sob o véo branco tinha uma grande <span class="pagenum">[125]</span> -doura; o vestido prendia bem a curva do seu peito; -e havia no seu andar uma lassido que lhe quebrava +doçura; o vestido prendia bem a curva do seu peito; +e havia no seu andar uma lassidão que lhe quebrava a linha da cinta de um modo languido e promettedor. <br /> <br /> -Veio-lhe uma certa ida, comeou a dizer: Que -pena que no houvesse em toda a Lisboa um restaurante, +Veio-lhe uma certa idéa, começou a dizer: Que +pena que não houvesse em toda a Lisboa um restaurante, onde se podesse ir tomar uma aza de perdiz -e beber uma garrafa de <em>champagne frappe</em>! <br /> +e beber uma garrafa de <em>champagne frappée</em>! <br /> <br /> -Luiza no respondeu. Devia ser delicioso—pensava.—Mas +Luiza não respondeu. Devia ser delicioso—pensava.—Mas D. Felicidade exclamou: <br /> <br /> —Perdiz, a esta hora! <br /> @@ -4734,7 +4694,7 @@ D. Felicidade exclamou: <br /> —Fosse o que fosse, era para estourar! Credo! <br /> <br /> Subiam pela rua Nova do Carmo. Os candieiros -davam uma luz mortia: as altas casas dos dous lados, +davam uma luz mortiça: as altas casas dos dous lados, apagadas, entalavam, carregavam a sombra; e a patrulha muito armada, descia passo a passo, sem ruido, sinistra e subtil. <br /> @@ -4742,32 +4702,32 @@ ruido, sinistra e subtil. <br /> Ao Chiado um garoto de barrete azul perseguiu-os com cautelas de loteria; a sua voz aguda e chorosa promettia a fortuna, muitos contos de reis. -D. Felicidade ainda parou, com uma tentao... Mas -uma troa de rapazes bebedos que descia de chapo -na nuca, fallando alto, aos tropees, assustou muito +D. Felicidade ainda parou, com uma tentação... Mas +uma troça de rapazes bebedos que descia de chapéo +na nuca, fallando alto, aos tropeções, assustou muito as duas senhoras. Luiza encolheu-se logo contra Bazilio, D. Felicidade enfiada agarrou-lhe anciosamente -o brao, quiz-se metter n'uma carruagem; e at +o braço, quiz-se metter n'uma carruagem; e até ao Loreto foi explicando o seu medo aos borrachos, com a voz atarantada, contando casos, facadas, sem -largar o brao de Bazilio. Da fileira de tipoias, ao +largar o braço de Bazilio. Da fileira de tipoias, ao <span class="pagenum">[126]</span> -lado das grades da praa de Cames, um cocheiro lanou -logo a sua caleche descoberta, de p na almofada, -apanhando confusamente as rdeas, com grandes +lado das grades da praça de Camões, um cocheiro lançou +logo a sua caleche descoberta, de pé na almofada, +apanhando confusamente as rédeas, com grandes chicotadas na parelha, muito excitado, gritando: <br /> <br /> —Prompto, meu amo, prompto! <br /> <br /> Demoraram-se um momento ainda conversando. -Um homem ento passou, rondou,—e Luiza desesperada +Um homem então passou, rondou,—e Luiza desesperada reconheceu os olhos acarneirados do sujeito da pera. <br /> <br /> Entraram para a caleche. Luiza ainda se voltou -para vr Bazilio immovel no largo, com o seu chapo -na mo: depois accommodou-se, pz os psinhos -no outro assento e balanada pelo trote largo viu +para vêr Bazilio immovel no largo, com o seu chapéo +na mão: depois accommodou-se, pôz os pésinhos +no outro assento e balançada pelo trote largo viu passar, calada, as casas apagadas da rua de S. Roque, as arvores de S. Pedro de Alcantara, as fachadas estreitas do Moinho de Vento, os jardins adormecidos @@ -4775,229 +4735,229 @@ da Patriarchal. A noite estava immovel, de um calor molle: e desejava, sem saber porque, rolar assim sempre, infinitamente, entre ruas, entre grades cheias de folhagem de quintas nobres, sem destino, -sem cuidados, para alguma cousa de feliz que no -distinguia bem! Um grupo defronte da Escla ia tocando +sem cuidados, para alguma cousa de feliz que não +distinguia bem! Um grupo defronte da Escóla ia tocando o <em>Fado do Vimioso</em>; aquelles sons entraram-lhe -na alma como um vento dce, que fazia agitar +na alma como um vento dôce, que fazia agitar brandamente muitas sensibilidades passadas: suspirou baixo. <br /> <br /> —Um suspirosinho que vai para o Alemtejo—disse -D. Felicidade, tocando-lhe o brao. <br /> +D. Felicidade, tocando-lhe o braço. <br /> <br /> Luiza sentiu todo o sangue abrazar-lhe o rosto. Davam onze horas quando entrou em casa. <br /> <br /><span class="pagenum">[127]</span> -Juliana veio alumiar.—O ch estava prompto, +Juliana veio alumiar.—O chá estava prompto, quando a senhora quizesse... <br /> <br /> -Luiza subiu d'ahi a pouco com um largo roupo +Luiza subiu d'ahi a pouco com um largo roupão branco, muito fatigada, estendeu-se na <em>voltaire</em>; sentia -vir-lhe uma somnolencia, a cabea pendia-lhe, +vir-lhe uma somnolencia, a cabeça pendia-lhe, cerrava as palpebras... E Juliana tardava tanto com -o ch! Chamou-a. Onde estava? credo! <br /> +o chá! Chamou-a. Onde estava? credo! <br /> <br /> -Tinha descido, p ante p, ao quarto de Luiza. +Tinha descido, pé ante pé, ao quarto de Luiza. E ahi tomando o vestido, as saias engommadas que -ella despira e atirra para cima da <em>causeuse</em>, +ella despira e atirára para cima da <em>causeuse</em>, desdobrou-as, revirou-as, examinou-as, e com uma certa -ida, cheirou-as! Havia o vago aroma de um corpo +idéa, cheirou-as! Havia o vago aroma de um corpo lavado e quente, com uma pontinha de suor e de agua de colonia. Quando a sentiu chamar, impacientar-se -em cima, subiu, correndo.—Fra abaixo dar -uma arrumadella. Era o ch? Estava prompto... <br /> +em cima, subiu, correndo.—Fôra abaixo dar +uma arrumadella. Era o chá? Estava prompto... <br /> <br /> E entrando com as torradas: <br /> <br /> -—Veio ahi o snr. Sebastio, haviam de ser nove +—Veio ahi o snr. Sebastião, haviam de ser nove horas... <br /> <br /> —Que lhe disse? <br /> <br /> —Que a senhora tinha sahido com a snr.<sup>a</sup> D. Felicidade. -Como no sabia, no disse para onde. <br /> +Como não sabia, não disse para onde. <br /> <br /> E acrescentou: <br /> <br /> -—Esteve a conversar commigo, o snr. Sebastio... +—Esteve a conversar commigo, o snr. Sebastião... Esteve a conversar mais de meia hora!... <br /> <br /> <br /> <br /> -Luiza recebeu, na manh seguinte, da parte de -Sebastio, um ramo de rosas, magenta-escuro, magnificas. +Luiza recebeu, na manhã seguinte, da parte de +Sebastião, um ramo de rosas, magenta-escuro, magnificas. <span class="pagenum">[128]</span> Cultivava-as elle na quinta de Almada, e -chamavam-se rosas <em>D. Sebastio</em>. Mandou-as pr nos +chamavam-se rosas <em>D. Sebastião</em>. Mandou-as pôr nos vasos da sala, e como o dia estava encoberto, de um calor baixo e suffocante: <br /> <br /> —Olhe—disse a Juliana—abra as janellas. <br /> <br /> -—Bem—pensou Juliana—temos c o melro. <br /> +—Bem—pensou Juliana—temos cá o melro. <br /> <br /> -O <em>melro</em> veio com effeito s tres horas. Luiza estava +O <em>melro</em> veio com effeito ás tres horas. Luiza estava na sala, ao piano. <br /> <br /> -—Est alli o sujeito do costume—foi dizer Juliana. <br /> +—Está alli o sujeito do costume—foi dizer Juliana. <br /> <br /> -Luiza voltou-se corada, escandalisada da expresso: <br /> +Luiza voltou-se corada, escandalisada da expressão: <br /> <br /> —Ah! meu primo Bazilio? Mande entrar. <br /> <br /> E chamando-a: <br /> <br /> -—Oua, se vier o snr. Sebastio, ou alguem, que +—Ouça, se vier o snr. Sebastião, ou alguem, que entre. <br /> <br /> Era o primo! O <em>sujeito</em>, as suas visitas perderam de repente para ella todo o interesse picante. A sua -malicia cheia, enfunada at ahi, cahiu, engelhou-se +malicia cheia, enfunada até ahi, cahiu, engelhou-se como uma vela a que falta o vento. Ora, adeus! Era o primo! <br /> <br /> -Subiu cozinha, devagar,—lograda. <br /> +Subiu á cozinha, devagar,—lograda. <br /> <br /> —Temos grande novidade, snr.<sup>a</sup> Joanna! O tal -peralta primo. Diz que o primo Bazilio. <br /> +peralta é primo. Diz que é o primo Bazilio. <br /> <br /> E com um risinho: <br /> <br /> -— o Bazilio! Ora o Bazilio! Sahe-nos primo -ultima hora! O diabo tem graa! <br /> +—É o Bazilio! Ora o Bazilio! Sahe-nos primo á +ultima hora! O diabo tem graça! <br /> <br /> -—Ento que havia de o homem ser seno parente?—observou +—Então que havia de o homem ser senão parente?—observou Joanna. <br /> <br /> -Juliana no respondeu. Quiz saber se estava o +Juliana não respondeu. Quiz saber se estava o <span class="pagenum">[129]</span> ferro prompto, que tinha uma carga de roupa para -passar! E sentou-se janella, esperando. O co baixo -e pardo pesava, carregado de electricidade; s +passar! E sentou-se á janella, esperando. O céo baixo +e pardo pesava, carregado de electricidade; ás vezes uma aragem subita e fina punha nas folhagens dos quintaes um arripio tremulo. <br /> <br /> -— o primo!—reflectia ella.—E s vem ento +—É o primo!—reflectia ella.—E só vem então quando o marido se vai. Boa! E fica-se toda no -ar quando elle sahe, e roupa branca e mais roupa -branca, e roupo novo, e tipoia para o passeio, e +ar quando elle sahe, e é roupa branca e mais roupa +branca, e roupão novo, e tipoia para o passeio, e suspiros e olheiras! Boa bebeda! Tudo fica na familia! <br /> <br /> -Os olhos luziam-lhe. J se no sentia to lograda. -Havia alli muito para vr e para escutar. E o +Os olhos luziam-lhe. Já se não sentia tão lograda. +Havia alli muito «para vêr e para escutar». E o ferro, estava prompto? <br /> <br /> Mas a campainha, em baixo, tocou. <br /> <br /> -—Boa! isto agora um fadario! Estamos na casa +—Boa! isto agora é um fadario! Estamos na casa do despacho! <br /> <br /> -Desceu; e exclamou logo, vendo Julio com um -livro debaixo do brao: <br /> +Desceu; e exclamou logo, vendo Julião com um +livro debaixo do braço: <br /> <br /> -—Faz favor d'entrar, snr. Julio! A senhora est +—Faz favor d'entrar, snr. Julião! A senhora está com o primo, mas diz que mandasse entrar! <br /> <br /> Abriu a porta da sala bruscamente, de surpreza. <br /> <br /> -—Est aqui o snr. Julio—disse com satisfao. <br /> +—Está aqui o snr. Julião—disse com satisfação. <br /> <br /> Luiza apresentou os dous homens. <br /> <br /> -Bazilio ergueu-se do soph languidamente, e, -n'um relance, percorreu Julio desde a cabelleira -desleixada at s botas mal engraxadas, com um +Bazilio ergueu-se do sophá languidamente, e, +n'um relance, percorreu Julião desde a cabelleira +desleixada até ás botas mal engraxadas, com um olhar quasi horrorisado. <br /> <br /><span class="pagenum"><a name="p130" id="p130">[130]</a></span> —Que pulha!—pensou. <br /> <br /> -Luiza, muito fina, percebeu, e crou, envergonhada -de Julio. <br /> +Luiza, muito fina, percebeu, e córou, envergonhada +de Julião. <br /> <br /> Aquelle homem de collarinho enxovalhado e com -um velho casaco de pano preto mal feito—que ida -daria a Bazilio das relaes, dos amigos da casa! -Sentia j o seu <em>chic</em> diminuido. E instinctivamente, +um velho casaco de pano preto mal feito—que idéa +daria a Bazilio das relações, dos amigos da casa! +Sentia já o seu <em>chic</em> diminuido. E instinctivamente, a sua physionomia tornou-se muito reservada,—como se semelhante visita a surprehendesse! semelhante <em>toilette</em> a indignasse! <br /> <br /> -Julio percebeu o constrangimento d'ella, disse, -j embaraado, ageitando a luneta: <br /> +Julião percebeu o constrangimento d'ella, disse, +já embaraçado, ageitando a luneta: <br /> <br /> —Passei por aqui por acaso, entrei a saber se ha algumas noticias de Jorge... <br /> <br /> -—Obrigada. Sim, tem escripto. Est bem... <br /> +—Obrigada. Sim, tem escripto. Está bem... <br /> <br /> -Bazilio, recostado no soph, como um parente intimo, -examinava a sua meia de sda bordada de estrellinhas +Bazilio, recostado no sophá, como um parente intimo, +examinava a sua meia de sêda bordada de estrellinhas escarlates, e cofiava indolentemente o bigode, <a href="#e2">arrebitando</a> um pouco o dedo minimo,—onde brilhavam, em dous grossos anneis d'ouro, uma saphira e um rubi. <br /> <br /> -A affectao da attitude, o reluzir das joias irritaram -Julio. <br /> +A affectação da attitude, o reluzir das joias irritaram +Julião. <br /> <br /> Quiz mostrar tambem a sua intimidade, os seus direitos, disse: <br /> <br /> -—Eu no tenho vindo fazer-lhe um bocado de +—Eu não tenho vindo fazer-lhe um bocado de companhia, porque tenho estado muito occupado... <br /> <br /> Luiza acudiu para desauthorisar logo aquella familiaridade: <br /> <br /> -—Eu tambem no me tenho achado bem. No +—Eu tambem não me tenho achado bem. Não <span class="pagenum">[131]</span> -tenho recebido ninguem,—a no ser meu primo, +tenho recebido ninguem,—a não ser meu primo, naturalmente! <br /> <br /> -Julio sentiu-se renegado! E todo vermelho, de -surpreza, d'indignao, ficou a balanar a perna, calado, -com o livro sobre o joelho; como a cala era +Julião sentiu-se renegado! E todo vermelho, de +surpreza, d'indignação, ficou a balançar a perna, calado, +com o livro sobre o joelho; como a calça era curta, via-se o elastico esfiado das botas velhas. <br /> <br /> Houve um silencio difficil. <br /> <br /> -—Bonitas rosas!—disse emfim Bazilio, preguiosamente. <br /> +—Bonitas rosas!—disse emfim Bazilio, preguiçosamente. <br /> <br /> —Muito bonitas!—respondeu Luiza. <br /> <br /> -Estava agora compadecida de Julio, procurava +Estava agora compadecida de Julião, procurava uma palavra; disse-lhe emfim muito precipitadamente: <br /> <br /> -—E que calor! de morrer! Tem havido muitas -doenas? <br /> +—E que calor! É de morrer! Tem havido muitas +doenças? <br /> <br /> -—Colerinas—respondeu Julio.—Por causa das -frutas. Doenas de ventre. <br /> +—Colerinas—respondeu Julião.—Por causa das +frutas. Doenças de ventre. <br /> <br /> -Luiza baixou os olhos. Bazilio ento comeou a +Luiza baixou os olhos. Bazilio então começou a fallar da viscondessinha d'Azeias: tinha-a achado -acabada; e que era feito da irm, da grande? <br /> +acabada; e que era feito da irmã, da grande? <br /> <br /> -Aquella conversao sobre fidalgas que elle no -conhecia isolava mais Julio: sentia o suor humedecer-lhe -o pescoo; procurava um dito, uma ironia, +Aquella conversação sobre fidalgas que elle não +conhecia isolava mais Julião: sentia o suor humedecer-lhe +o pescoço; procurava um dito, uma ironia, uma agudeza; e machinalmente abria e fechava o seu grosso livro de capa amarella. <br /> <br /> -— algum romance?—perguntou-lhe Luiza. <br /> +—É algum romance?—perguntou-lhe Luiza. <br /> <br /> -—No. o tratado do dr. Lee sobre doenas +—Não. É o tratado do dr. Lee sobre doenças d'utero. <br /> <br /> -Luiza fez-se escarlate: Julio tambem, furioso da -palavra que lhe escapra. E Bazilio, depois de sorrir, +Luiza fez-se escarlate: Julião tambem, furioso da +palavra que lhe escapára. E Bazilio, depois de sorrir, <span class="pagenum">[132]</span> -perguntou por uma certa D. Raphaela Grij, que costumava -ir rua da Magdalena, que usava luneta, e +perguntou por uma certa D. Raphaela Grijó, que costumava +ir á rua da Magdalena, que usava luneta, e tinha um cunhado gago... <br /> <br /> —Morreu-lhe o marido. Casou com o cunhado. <br /> @@ -5006,54 +4966,54 @@ tinha um cunhado gago... <br /> <br /> —Sim. Tem um filhito d'elle, gago tambem. <br /> <br /> -—Que conversao, em familia! E a D. Eugenia, +—Que conversação, em familia! E a D. Eugenia, a de Braga? <br /> <br /> -Julio, exasperado, ergueu-se; e com uma voz +Julião, exasperado, ergueu-se; e com uma voz de garganta secca: <br /> <br /> -—Estou com pressa, no me posso demorar. +—Estou com pressa, não me posso demorar. Quando escrever a Jorge, os meus recados, hein? <br /> <br /> -Abaixou bruscamente a cabea a Bazilio. Mas no -achava o chapo, tinha rolado para debaixo d'uma +Abaixou bruscamente a cabeça a Bazilio. Mas não +achava o chapéo, tinha rolado para debaixo d'uma cadeira. Embrulhou-se no reposteiro, topou violentamente contra a porta fechada, e sahiu emfim desesperado, desejando vingar-se, odiando Luiza, Jorge, o luxo, a vida,—transbordando agora d'ironias, de ditos, -de rplicas. Devia-os ter achatado, o asno e a -tola... E no lhe acudira nada! <br /> +de réplicas. Devia-os ter achatado, o asno e a +tola... E não lhe acudira nada! <br /> <br /> Mas apenas elle tinha fechado a cancella, Bazilio -pz-se de p, e cruzando os braos: <br /> +pôz-se de pé, e cruzando os braços: <br /> <br /> -—Quem este pulha? <br /> +—Quem é este pulha? <br /> <br /> -Luiza crou muito, balbuciou: <br /> +Luiza córou muito, balbuciou: <br /> <br /> -— um rapaz medico... <br /> +—É um rapaz medico... <br /> <br /> -— uma creatura impossivel, uma especie +—É uma creatura impossivel, é uma especie d'estudante! <br /> <br /> -—Coitado, no tem muitos meios... <br /> +—Coitado, não tem muitos meios... <br /> <br /> -Mas no era necessario ter meios para escovar -o casaco e limpar a caspa! No devia receber semelhante +Mas não era necessario ter meios para escovar +o casaco e limpar a caspa! Não devia receber semelhante <span class="pagenum">[133]</span> homem! Envergonha uma casa. Se seu marido gostava d'elle, que o recebesse no escriptorio!... <br /> <br /> -Passeava pela sala, excitado, com as mos nos +Passeava pela sala, excitado, com as mãos nos bolsos, fazendo tilintar o dinheiro e as chaves. <br /> <br /> -—So frescos os amigos da casa!...—continuou.—Que -diabo! tu no foste educada assim. Nunca +—São frescos os amigos da casa!...—continuou.—Que +diabo! tu não foste educada assim. Nunca tiveste gente d'este genero na rua da Magdalena. <br /> <br /> -No tivera: e pareceu-lhe que as ligaes do casamento +Não tivera: e pareceu-lhe que as ligações do casamento lhe tinham trazido um pouco o plebeismo -das convivencias. Mas um respeito pelas opinies, +das convivencias. Mas um respeito pelas opiniões, pelas sympathias de Jorge fez-lhe dizer: <br /> <br /> —Diz que tem muito talento... <br /> @@ -5066,12 +5026,12 @@ Luiza, por cobardia, concordou. <br /> <br /> —Horrivel, minha filha! <br /> <br /> -Aquella palavra fez-lhe bater o corao. Era assim +Aquella palavra fez-lhe bater o coração. Era assim que elle lhe chamava, outr'ora! Houve um momento de silencio:—e a campainha da porta retiniu fortemente. <br /> <br /> -Luiza ficou assustada. Jesus! Se fosse Sebastio! +Luiza ficou assustada. Jesus! Se fosse Sebastião! Bazilio achal-o-hia ainda mais reles! Mas Juliana veio dizer: <br /> <br /> @@ -5080,15 +5040,15 @@ dizer: <br /> —De certo—exclamou. <br /> <br /> E a alta figura d'Accacio adiantou-se, com as bandas -do casaco d'alpaca deitadas para traz, a cala +do casaco d'alpaca deitadas para traz, a calça branca muito engommada cahindo sobre sapatos de -entrada abaixo, de lao. +entrada abaixo, de laço. <br /> <br /><span class="pagenum">[134]</span> Apenas Luiza lhe apresentou o primo Bazilio, disse logo, respeitoso: <br /> <br /> -—J sabia que v. exc.<sup>a</sup> tinha chegado, vi-o nas +—Já sabia que v. exc.<sup>a</sup> tinha chegado, vi-o nas interessantes noticias do nosso <em>high-life</em>. E do nosso Jorge? <br /> @@ -5098,23 +5058,23 @@ muito... <br /> <br /> Bazilio, mais amavel, deixou cahir: <br /> <br /> -—Eu realmente no tenho a menor ida do que +—Eu realmente não tenho a menor idéa do que se possa fazer em Beja. Deve ser horroroso! <br /> <br /> O conselheiro, passando sobre o bigode a sua -mo branca onde destacava o annel d'armas, observou: <br /> +mão branca onde destacava o annel d'armas, observou: <br /> <br /> -— todavia a capital do districto! <br /> +—É todavia a capital do districto! <br /> <br /> -Mas se j em Lisboa se no podia fazer nada, e +Mas se já em Lisboa se não podia fazer nada, e era a capital do reino!—E Bazilio puxava, todo recostado, o punho da camisa.—Morria-se positivamente de pasmaceira! <br /> <br /> Luiza, muito contente da affabilidade de Bazilio, -pz-se a rir: <br /> +pôz-se a rir: <br /> <br /> -—No digas isso diante do conselheiro. um +—Não digas isso diante do conselheiro. É um grande admirador de Lisboa. <br /> <br /> Accacio curvou-se: <br /> @@ -5124,35 +5084,35 @@ senhora. <br /> <br /> E com muita bonhomia: <br /> <br /> -—Conheo porm que no para comparar aos -Parizes, s Londres, s Madrids... <br /> +—Conheço porém que não é para comparar aos +Parizes, ás Londres, ás Madrids... <br /> <br /> —De certo—fez Luiza. <br /> <br /> E o conselheiro continuou com pompa: <br /> <br /><span class="pagenum">[135]</span> -—Lisboa porm tem bellezas sem igual! A entrada, +—Lisboa porém tem bellezas sem igual! A entrada, ao que me dizem (eu nunca entrei a barra), - um panorama grandioso, rival das Constantinoplas +é um panorama grandioso, rival das Constantinoplas e das Napoles. Digno da penna d'um Garrett ou d'um Lamartine! Proprio para inspirar um grande engenho!... <br /> <br /> -Luiza, receando citaes ou apreciaes litterarias, +Luiza, receando citações ou apreciações litterarias, interrompeu-o, perguntou-lhe o que tinha feito? Tinham estado domingo no Passeio, ella e D. Felicidade, -tinham esperado vl-o, e nada! <br /> +tinham esperado vêl-o, e nada! <br /> <br /> Nunca ia ao Passeio, ao domingo—declarou.—Reconhecia -que era muito agradavel, mas a multido +que era muito agradavel, mas a multidão entontecia-o. Tinha notado,—e a sua voz tomou o -tom espaado d'uma revelao,—tinha notado que +tom espaçado d'uma revelação,—tinha notado que muita gente, n'um local, causa vertigens aos homens d'estudo. De resto queixou-se da sua saude e do peso dos seus trabalhos. Andava compilando um livro e usando as aguas de Vichy. <br /> <br /> -—Pdes fumar—disse Luiza de repente, sorrindo, +—Pódes fumar—disse Luiza de repente, sorrindo, a Bazilio.—Queres lume? <br /> <br /> Ella mesmo lhe foi buscar um phosphoro, toda @@ -5163,41 +5123,41 @@ mais louros, a sua pelle mais fina. <br /> Bazilio soprou o fumo do charuto, e declarou muito reclinado: <br /> <br /> -—O Passeio ao domingo simplesmente idiota!... <br /> +—O Passeio ao domingo é simplesmente idiota!... <br /> <br /> O conselheiro reflectiu e respondeu: <br /> <br /> -—No serei to severo, snr. Brito!—Mas parecia-lhe +—Não serei tão severo, snr. Brito!—Mas parecia-lhe <span class="pagenum">[136]</span> -que com effeito antigamente era uma diverso +que com effeito antigamente era uma diversão mais agradavel.—Em primeiro lugar—exclamou -com muita convico, endireitando-se—nada, mas -nada, absolutamente nada pde substituir a charanga -da Armada!—Alm d'isso havia a questo dos preos... +com muita convicção, endireitando-se—nada, mas +nada, absolutamente nada póde substituir a charanga +da Armada!—Além d'isso havia a questão dos preços... Ah! tinha estudado muito o assumpto! Os -preos diminutos favoreciam a agglomerao das classes +preços diminutos favoreciam a agglomeração das classes subalternas... Que longe do seu pensamento -lanar desdouro n'essa parte da populao... As -suas idas liberaes eram bem conhecidas.—Appllo +lançar desdouro n'essa parte da população... As +suas idéas liberaes eram bem conhecidas.—Appéllo para a snr.<sup>a</sup> D. Luiza!—disse.—Mas emfim, sempre era mais agradavel encontrar uma roda escolhida! Em quanto a si nunca ia ao Passeio. Talvez -no acreditassem, mas nem mesmo quando havia -fogo de vistas! N'esses dias, sim, ia vr por fra das -grades. No por economia! De certo no. No era -rico, mas podia fazer face a essa contribuio diminuta. -Mas que receava os accidentes! que os receava +não acreditassem, mas nem mesmo quando havia +fogo de vistas! N'esses dias, sim, ia vêr por fóra das +grades. Não por economia! De certo não. Não era +rico, mas podia fazer face a essa contribuição diminuta. +Mas é que receava os accidentes! É que os receava muito! Contou a historia d'um sujeito, cujo -nome lhe escapava, a quem uma cana de foguete furra -o craneo.—E alm d'isso nada mais facil que +nome lhe escapava, a quem uma cana de foguete furára +o craneo.—E além d'isso nada mais facil que cahir uma fagulha accesa na cara, n'um paletot -novo...— conveniente ter prudencia—resumiu, -compenetrado, limpando os beios com o leno de -sda da India muito enrolado. <br /> +novo...—É conveniente ter prudencia—resumiu, +compenetrado, limpando os beiços com o lenço de +sêda da India muito enrolado. <br /> <br /> -Fallaram ento da estao: muita gente fra para -Cintra: de resto, Lisboa no vero era to seccante!... -E o conselheiro declarou que Lisboa s era imponente, +Fallaram então da estação: muita gente fôra para +Cintra: de resto, Lisboa no verão era tão seccante!... +E o conselheiro declarou que Lisboa só era imponente, verdadeiramente imponente, quando estavam abertas as camaras e S. Carlos! <br /> @@ -5207,7 +5167,7 @@ Bazilio. <br /> <br /> O conselheiro acudiu logo: <br /> <br /> -—Se estavam fazendo musica, por quem so... +—Se estavam fazendo musica, por quem são... Sou um velho assignante de S. Carlos, ha dezoito annos... <br /> <br /> @@ -5215,7 +5175,7 @@ Bazilio interrompeu-o: <br /> <br /> —Toca? <br /> <br /> -—Toquei. No o occulto. Em rapaz fui dado +—Toquei. Não o occulto. Em rapaz fui dado á flauta. <br /> <br /> E acrescentou, com um gesto benevolo: <br /> @@ -5223,20 +5183,20 @@ E acrescentou, com um gesto benevolo: <br /> —Rapaziadas!... Alguma novidade, o que estava tocando, D. Luiza? <br /> <br /> -—No! Uma musica muito conhecida, j antiga: +—Não! Uma musica muito conhecida, já antiga: a <em>Filha do Pescador</em>, de Meyerbeer! Tenho a letra traduzida. <br /> <br /> -Tinha cerrado as vidraas, sentra-se ao piano. <br /> +Tinha cerrado as vidraças, sentára-se ao piano. <br /> <br /> -—O Sebastio que toca isto bem, no verdade, +—O Sebastião é que toca isto bem, não é verdade, conselheiro? <br /> <br /> -—O nosso Sebastio—disse o conselheiro com -authoridade— um rival dos Thalbergs e dos Litz. -Conhece o nosso Sebastio?—perguntou a Bazilio. <br /> +—O nosso Sebastião—disse o conselheiro com +authoridade—é um rival dos Thalbergs e dos Litz. +Conhece o nosso Sebastião?—perguntou a Bazilio. <br /> <br /> -—No, no conheo. <br /> +—Não, não conheço. <br /> <br /> —Uma perola! <br /> <br /> @@ -5245,9 +5205,9 @@ frisando o bigode. <br /> <br /> —Tu ainda cantas?—perguntou-lhe Luiza, sorrindo. <br /> <br /> -—Quando estou s. <br /> +—Quando estou só. <br /> <br /> -Mas o conselheiro pediu-lhe logo um trecho. +Mas o conselheiro pediu-lhe logo um «trecho». <span class="pagenum">[138]</span> Bazilio ria. Tinha medo d'escandalisar um velho assignante de S. Carlos... <br /> @@ -5256,7 +5216,7 @@ O conselheiro animou-o; disse mesmo paternalmente: <br /> <br /> —Coragem, snr. Brito, coragem! <br /> <br /> -Luiza ento preludiou. <br /> +Luiza então preludiou. <br /> <br /> E Bazilio soltou logo a voz, cheia, bem timbrada, de barytono; as suas notas altas faziam a sala sonora. @@ -5268,18 +5228,18 @@ n'aquella physionomia de calvo, que o calor tornava mais pallida. <br /> <br /> Bazilio dizia com uma melancolia grave a primeira -phrase, to larga, da cano: <br /> +phrase, tão larga, da canção: <br /> <br /> <br /> <div class="poetry2"> Igual ao mar sombrio<br /> -Meu corao profundo...</div> +Meu coração profundo...</div> <br /> <br /> -Um poeta, com uma dedicao obscura, traduzira +Um poeta, com uma dedicação obscura, traduzira a letra no <em>Almanach das Senhoras</em>. Luiza pela sua -propria mo a tinha copiado nas entrelinhas da musica. -E Bazilio debruado sobre o papel sempre torcendo +propria mão a tinha copiado nas entrelinhas da musica. +E Bazilio debruçado sobre o papel sempre torcendo as pontas do bigode: <br /> <br /> <br /> @@ -5290,19 +5250,19 @@ Mas perolas no fundo!</div> <br /> Os olhos largos de Luiza affirmavam-se para a musica—ou <span class="pagenum">[139]</span> -a espaos, com um movimento rapido, erguiam-se +a espaços, com um movimento rapido, erguiam-se para Bazilio. Quando, na nota final, prolongada -como a reclamao d'um amor supplicante, +como a reclamação d'um amor supplicante, Bazilio soltou a voz d'um modo appellativo: <br /> <br /> <br /> <div class="poetry2"> Vem! vem<br /> -Pousar, dce amada,<br /> +Pousar, ó dôce amada,<br /> Teu peito contra o meu...</div> <br /> <br /> -os seus olhos fixaram-se n'ella com uma significao +os seus olhos fixaram-se n'ella com uma significação de tanto desejo, que o peito de Luiza arfou, os seus dedos embrulharam-se no teclado. <br /> <br /> @@ -5313,14 +5273,14 @@ admiravel! <br /> <br /> Bazilio dizia-se envergonhado. <br /> <br /> -—No, senhor, no, senhor!—protestou Accacio, -levantando-se.—Um excellente orgo! Direi, o -melhor orgo da nossa sociedade! <br /> +—Não, senhor, não, senhor!—protestou Accacio, +levantando-se.—Um excellente orgão! Direi, o +melhor orgão da nossa sociedade! <br /> <br /> -Bazilio riu. Uma vez que tinha successo, ento ia +Bazilio riu. Uma vez que tinha successo, então ia dizer-lhes uma modinha brazileira da Bahia. Sentou-se ao piano, e depois de ter preludiado uma melodia -muito balanada, d'um embalado tropical, cantou: <br /> +muito balançada, d'um embalado tropical, cantou: <br /> <br /> <br /> <div class="poetry2"> @@ -5330,12 +5290,12 @@ Sente mais que um peito branco.</div> <br /> E interrompendo-se: <br /> <br /> -—Isto fazia furor nas reunies da Bahia quando +—Isto fazia furor nas reuniões da Bahia quando eu parti. <br /> <br /><span class="pagenum">[140]</span> -Era a historia d'uma negrinha nascida na roa, -e que contava, com lyrismos d'almanach, a sua paixo +Era a historia d'uma «negrinha» nascida na roça, +e que contava, com lyrismos d'almanach, a sua paixão por um feitor branco. <br /> <br /> Bazilio parodiava o tom sentimental d'alguma menina @@ -5350,70 +5310,70 @@ No alto coqueiro<br /> Cantava a araponga.</div> <br /> <br /> -O conselheiro achou delicioso; e, de p na sala, -lamentou a proposito da cantiga a condio dos +O conselheiro achou «delicioso»; e, de pé na sala, +lamentou a proposito da cantiga a condição dos escravos. Que lhe affirmavam amigos do Brazil que -os negros eram muito bem tratados. Mas emfim a civilisao -era a civilisao! E a escravatura era um -estigma! Tinha todavia muita confiana no imperador... <br /> +os negros eram muito bem tratados. Mas emfim a civilisação +era a civilisação! E a escravatura era um +estigma! Tinha todavia muita confiança no imperador... <br /> <br /> -—Monarcha de rara illustrao...—acrescentou +—Monarcha de rara illustração...—acrescentou respeitosamente. <br /> <br /> -Foi buscar o seu chapo, e collando-lhe as abas +Foi buscar o seu chapéo, e collando-lhe as abas ao peito, curvando-se, jurou que—havia muito tempo -no tinha passado uma manh to completa. De -resto para elle nada havia como a boa conversao +não tinha passado uma manhã tão completa. De +resto para elle nada havia como a boa conversação e a boa musica... <br /> <br /> -—Onde est v. exc.<sup>a</sup> alojado, snr. Brito? <br /> +—Onde está v. exc.<sup>a</sup> alojado, snr. Brito? <br /> <br /> -Pelo amor de Deus! Que no se incommodasse! +Pelo amor de Deus! Que não se incommodasse! Estava no Hotel Central. <br /> <br /> -No havia consideraes que o impedissem de +Não havia considerações que o impedissem de cumprir o seu dever—declarou.—Cumpril-o-hia! <span class="pagenum">[141]</span> Elle era uma pessoa inutil, a snr.<sup>a</sup> D. Luiza bem o -sabia.—Mas se necessitar alguma cousa, uma informao, -uma apresentao nas regies officiaes, licena +sabia.—Mas se necessitar alguma cousa, uma informação, +uma apresentação nas regiões officiaes, licença para visitar algum estabelecimento publico, -creia que me tem s suas ordens! <br /> +creia que me tem ás suas ordens! <br /> <br /> -E conservando na sua mo a mo de Bazilio: <br /> +E conservando na sua mão a mão de Bazilio: <br /> <br /> —Rua do Ferregial de Cima numero tres, terceiro. O modesto tugurio d'um ermita. <br /> <br /> Tornou a curvar-se diante de Luiza: <br /> <br /> -—E quando escrever ao nosso viajante, que fao +—E quando escrever ao nosso viajante, que faço sinceros votos pela prosperidade dos seus emprehendimentos. -Por quem ! Criado de v. exc.<sup>a</sup>! <br /> +Por quem é! Criado de v. exc.<sup>a</sup>! <br /> <br /> E direito, grave, sahiu. <br /> <br /> -—Este ao menos limpo—resmungou Bazilio, +—Este ao menos é limpo—resmungou Bazilio, com o charuto ao canto da bocca. <br /> <br /> -Sentra-se outra vez ao piano, corria os dedos +Sentára-se outra vez ao piano, corria os dedos pelo teclado. Luiza aproximou-se: <br /> <br /> —Canta alguma cousa, Bazilio! <br /> <br /> -Bazilio pz-se ento a olhar muito para ella. <br /> +Bazilio pôz-se então a olhar muito para ella. <br /> <br /> -Luiza crou, sorriu; atravs da fazenda clara e +Luiza córou, sorriu; através da fazenda clara e transparente do vestido, entrevia-se a brancura macia -e lactea do collo e dos braos; e nos seus olhos, na -cr quente do rosto havia uma animao e como +e lactea do collo e dos braços; e nos seus olhos, na +côr quente do rosto havia uma animação e como uma vitalidade amorosa. <br /> <br /> Bazilio disse-lhe, baixo: <br /> <br /> -—Ests hoje nos teus dias felizes, Luiza. <br /> +—Estás hoje nos teus dias felizes, Luiza. <br /> <br /> -O olhar d'elle, to avido, perturbava-a; insistiu: <br /> +O olhar d'elle, tão avido, perturbava-a; insistiu: <br /> <br /> —Canta alguma cousa. <br /> <br /> @@ -5422,70 +5382,70 @@ O seu seio arfava. <br /> —Canta tu—murmurou Bazilio. <br /> <br /><span class="pagenum">[142]</span> -E devagarinho, tomou-lhe a mo. As duas palmas +E devagarinho, tomou-lhe a mão. As duas palmas um pouco humidas, um pouco tremulas, uniram-se. <br /> <br /> -A campainha, fra, tocou. Luiza desprendeu a mo +A campainha, fóra, tocou. Luiza desprendeu a mão bruscamente. <br /> <br /> -— alguem—disse agitada. <br /> +—É alguem—disse agitada. <br /> <br /> -Vozes baixas fallavam cancella. <br /> +Vozes baixas fallavam á cancella. <br /> <br /> Bazilio teve um movimento d'hombros contrariado, -foi buscar o chapo. <br /> +foi buscar o chapéo. <br /> <br /> —Vaes-te?—exclamou ella toda desconsolada. <br /> <br /> -—Pudera! No posso estar s comtigo um momento! <br /> +—Pudera! Não posso estar só comtigo um momento! <br /> <br /> A cancella fechou-se com ruido. <br /> <br /> -—No ninguem, foi-se—disse Luiza. <br /> +—Não é ninguem, foi-se—disse Luiza. <br /> <br /> -Estavam de p, no meio da sala. <br /> +Estavam de pé, no meio da sala. <br /> <br /> -—No te vs! Bazilio! <br /> +—Não te vás! Bazilio! <br /> <br /> -Os seus olhos profundos tinham uma supplicao -dce. Bazilio pousou o chapo sobre o piano; mordia +Os seus olhos profundos tinham uma supplicação +dôce. Bazilio pousou o chapéo sobre o piano; mordia o bigode um pouco nervoso. <br /> <br /> -—E para que queres tu estar s commigo?—disse +—E para que queres tu estar só commigo?—disse ella.—Que tem que venha gente?—E arrependeu-se logo d'aquellas palavras. <br /> <br /> Mas Bazilio, com um movimento brusco, passou-lhe -o brao sobre os hombros, prendeu-lhe a cabea, e +o braço sobre os hombros, prendeu-lhe a cabeça, e beijou-a na testa, nos olhos, nos cabellos, vorazmente. <br /> <br /> Ella soltou-se a tremer, escarlate. <br /> <br /> -—Perda-me—exclamou elle logo, com um impeto -apaixonado.—Perda-me. Foi sem pensar. Mas - porque te adoro, Luiza! <br /> +—Perdôa-me—exclamou elle logo, com um impeto +apaixonado.—Perdôa-me. Foi sem pensar. Mas +é porque te adoro, Luiza! <br /> <br /> -Tomou-lhe as mos com dominio, quasi com direito. +Tomou-lhe as mãos com dominio, quasi com direito. <br /> <br /><span class="pagenum">[143]</span> -—No. Has-de ouvir. Desde o primeiro dia que -te tornei a vr estou doudo por ti, como d'antes, a +—Não. Has-de ouvir. Desde o primeiro dia que +te tornei a vêr estou doudo por ti, como d'antes, a mesma cousa. Nunca deixei de me morrer por ti. -Mas no tinha fortuna, tu bem o sabes, e queria-te -vr rica, feliz. No te podia levar para o Brazil. Era -matar-te, meu amor! Tu imaginas l o que aquillo -! Foi por isso que te escrevi aquella carta, mas o +Mas não tinha fortuna, tu bem o sabes, e queria-te +vêr rica, feliz. Não te podia levar para o Brazil. Era +matar-te, meu amor! Tu imaginas lá o que aquillo +é! Foi por isso que te escrevi aquella carta, mas o que eu soffri, as lagrimas que chorei! <br /> <br /> -Luiza escutava-o immovel, a cabea baixa, o olhar +Luiza escutava-o immovel, a cabeça baixa, o olhar esquecido; aquella voz quente e forte, de que recebia -o bafo amoroso, dominava-a, vencia-a; as mos +o bafo amoroso, dominava-a, vencia-a; as mãos de Bazilio penetravam com o seu calor febril a substancia -das suas; e, tomada d'uma lassido, sentia-se +das suas; e, tomada d'uma lassidão, sentia-se como adormecer. <br /> <br /> —Falla, responde!—disse elle anciosamente, -sacudindo-lhe as mos, procurando o seu olhar avidamente. <br /> +sacudindo-lhe as mãos, procurando o seu olhar avidamente. <br /> <br /> —Que queres que te diga?—murmurou ella. <br /> <br /> @@ -5495,23 +5455,23 @@ E desprendendo-se devagar, voltando o rosto: <br /> <br /> —Fallemos n'outras cousas! <br /> <br /> -Elle balbuciava com os braos estendidos: <br /> +Elle balbuciava com os braços estendidos: <br /> <br /> —Luiza! Luiza! <br /> <br /> -—No, Bazilio, no! <br /> +—Não, Bazilio, não! <br /> <br /> -E na sua voz havia o arrastado d'uma lamentao, +E na sua voz havia o arrastado d'uma lamentação, com a molleza d'uma caricia. <br /> <br /> -Elle ento no hesitou, prendeu-a nos braos. <br /> +Elle então não hesitou, prendeu-a nos braços. <br /> <br /> -Luiza ficou inerte, os beios brancos, os olhos -cerrados—e Bazilio, pousando-lhe a mo sobre a +Luiza ficou inerte, os beiços brancos, os olhos +cerrados—e Bazilio, pousando-lhe a mão sobre a <span class="pagenum">[144]</span> -testa, inclinou-lhe a cabea para traz, beijou-lhe as +testa, inclinou-lhe a cabeça para traz, beijou-lhe as palpebras devagar, a face, os labios depois muito -profundamente; os beios d'ella entreabriram-se, os +profundamente; os beiços d'ella entreabriram-se, os seus joelhos dobraram-se. <br /> <br /> Mas de repente todo o seu corpo se endireitou, @@ -5520,12 +5480,12 @@ afflicta: <br /> <br /> —Deixa-me, deixa-me! <br /> <br /> -Viera-lhe uma fora nervosa; desprendeu-se, empurrou-o; -e passando as mos abertas pela testa, pelos +Viera-lhe uma força nervosa; desprendeu-se, empurrou-o; +e passando as mãos abertas pela testa, pelos cabellos: <br /> <br /> -—Oh meu Deus! horrivel!—murmurou.—Deixa-me! - horrivel! <br /> +—Oh meu Deus! É horrivel!—murmurou.—Deixa-me! +É horrivel! <br /> <br /> Elle adiantava-se com os dentes cerrados; mas Luiza recuava, dizia: <br /> @@ -5533,294 +5493,294 @@ Luiza recuava, dizia: <br /> —Vai-te. Que queres tu? Vai-te! Que fazes tu aqui? Deixa-me! <br /> <br /> -Elle ento tranquillisou-a com a voz subitamente -serena e humilde. No percebia. Porque se zangava? -Que tinha um beijo? Elle no pedia mais. Que tinha -ella imaginado, ento? Adorava-a, de certo, mas puramente. <br /> +Elle então tranquillisou-a com a voz subitamente +serena e humilde. Não percebia. Porque se zangava? +Que tinha um beijo? Elle não pedia mais. Que tinha +ella imaginado, então? Adorava-a, de certo, mas puramente. <br /> <br /> -—Juro-t'o!—disse com fora, batendo no peito. <br /> +—Juro-t'o!—disse com força, batendo no peito. <br /> <br /> -Fel-a sentar no soph, sentou-se ao p d'ella. +Fel-a sentar no sophá, sentou-se ao pé d'ella. Fallou-lhe muito sensatamente:—Via as circumstancias, -e resignar-se-hia. Seria como uma amizade d'irmos, +e resignar-se-hia. Seria como uma amizade d'irmãos, nada mais. <br /> <br /> Ella escutava-o, esquecida. <br /> <br /> -De certo, dizia elle, aquella paixo era uma tortura -immensa. Mas era forte, dominar-se-hia. S queria +De certo, dizia elle, aquella paixão era uma tortura +immensa. Mas era forte, dominar-se-hia. Só queria <span class="pagenum">[145]</span> -vir vl-a, fallar-lhe. Seria um sentimento ideal.—E +vir vêl-a, fallar-lhe. Seria um sentimento ideal.—E os seus olhos devoravam-na. <br /> <br /> -Voltou-lhe a mo, curvou-se, pz-lhe um beijo +Voltou-lhe a mão, curvou-se, pôz-lhe um beijo cheio na palma. Ella estremeceu, ergueu-se logo: <br /> <br /> -—No! Vai-te! <br /> +—Não! Vai-te! <br /> <br /> —Bem, adeus. <br /> <br /> Levantou-se com um movimento resignado e infeliz. -E limpando devagar a sda do chapo: <br /> +E limpando devagar a sêda do chapéo: <br /> <br /> —Bem, adeus—repetiu melancolicamente. <br /> <br /> —Adeus. <br /> <br /> -Bazilio disse ento com muita ternura: <br /> +Bazilio disse então com muita ternura: <br /> <br /> -—Ests zangada? <br /> +—Estás zangada? <br /> <br /> -—No! <br /> +—Não! <br /> <br /> —Escuta—murmurou, adiantando-se. <br /> <br /> -Luiza bateu com o p. <br /> +Luiza bateu com o pé. <br /> <br /> -—Oh que homem! Deixa-me! manh. Adeus. -Vai-te! manh! <br /> +—Oh que homem! Deixa-me! Ámanhã. Adeus. +Vai-te! Ámanhã! <br /> <br /> -—manh!—disse elle, baixinho. <br /> +—Ámanhã!—disse elle, baixinho. <br /> <br /> E sahiu rapidamente. <br /> <br /> Luiza entrou no quarto toda nervosa. E ao passar diante do espelho ficou surprehendida: nunca se vira -to linda! Deu alguns passos calada. <br /> +tão linda! Deu alguns passos calada. <br /> <br /> -Juliana arrumava roupa branca n'um gaveto do +Juliana arrumava roupa branca n'um gavetão do guarda-vestidos. <br /> <br /> —Quem tocou ha bocado?—perguntou Luiza. <br /> <br /> -—Foi o snr. Sebastio. No quiz entrar; disse +—Foi o snr. Sebastião. Não quiz entrar; disse que voltava. <br /> <br /> <br /><span class="pagenum">[146]</span> -Tinha dito, com effeito, que voltava. Mas comeava +Tinha dito, com effeito, «que voltava». Mas começava quasi a envergonhar-se de vir assim todos -os dias, e encontral-a sempre com uma visita! <br /> +os dias, e encontral-a sempre «com uma visita»! <br /> <br /> -Logo no primeiro dia ficra muito surprehendido -quando Juliana lhe disse: Est com um sujeito! Um -rapaz novo que j c esteve hontem! Quem seria? +Logo no primeiro dia ficára muito surprehendido +quando Juliana lhe disse: «Está com um sujeito! Um +rapaz novo que já cá esteve hontem!» Quem seria? Conhecia todos os amigos da casa... Seria algum empregado da secretaria ou algum proprietario de minas, o filho do Alonso, talvez, um negocio de Jorge de certo... <br /> <br /> -Depois no domingo, noite, trazia-lhe a partitura +Depois no domingo, á noite, trazia-lhe a partitura de <em>Romeu e Julieta</em>, de Gounod, que ella desejava tanto -ouvir, e quando Juliana lhe disse da varanda que -tinha sahido com D. Felicidade de carruagem, ficou -muito embaraado com o grosso volume debaixo do -brao, coando devagar a barba. Onde teriam ido? +ouvir, e quando Juliana lhe disse da varanda «que +tinha sahido com D. Felicidade de carruagem», ficou +muito embaraçado com o grosso volume debaixo do +braço, coçando devagar a barba. Onde teriam ido? Lembrou-se do enthusiasmo de D. Felicidade pelo -theatro de D. Maria. Mas irem ss, n'aquelle calor de +theatro de D. Maria. Mas irem sós, n'aquelle calor de julho, ao theatro! Emfim, era possivel. Foi a D. Maria. <br /> <br /> O theatro, quasi vazio, estava lugubre; aqui e -alm, n'algum camarote, uma familia feia perfilava-se, -com cabellos negrissimos carregados de postios, +além, n'algum camarote, uma familia feia perfilava-se, +com cabellos negrissimos carregados de postiços, gozando soturnamente a sua noite de domingo: na -plata, larga nas bancadas vazias, pessoas avelhadas +platéa, á larga nas bancadas vazias, pessoas avelhadas e inexpressivas escutavam com um ar encalmado -e farto, limpando a espaos, com lenos de sda, -o suor dos pescoos; na geral, gente de trabalho arregalava +e farto, limpando a espaços, com lenços de sêda, +o suor dos pescoços; na geral, gente de trabalho arregalava <span class="pagenum">[147]</span> olhos negros em faces trigueiras e oleosas; a luz tinha um tom dormente; bocejava-se. E no palco, que representava uma sala de baile amarella, um velhote condecorado fallava a uma magrita de -cabellos riados, sem cessar, com o tom diluido de +cabellos riçados, sem cessar, com o tom diluido de uma agua gordurosa e morna que escorre. <br /> <br /> -Sebastio sahiu. Onde estariam? Soube-o na manh +Sebastião sahiu. Onde estariam? Soube-o na manhã seguinte.—Descia o Moinho de Vento, e um visinho, o Netto, que subia curvado sob o seu guarda-sol, com o cigarro ao canto do bigode grisalho, deteve-o bruscamente, para lhe dizer: <br /> <br /> -— amigo Sebastio, oua c. Vi hontem noite -no Passeio a D. Luiza com um rapaz que eu conheo. -Mas d'onde conheo eu aquella cara? Quem -diabo ? <br /> +—Ó amigo Sebastião, ouça cá. Vi hontem á noite +no Passeio a D. Luiza com um rapaz que eu conheço. +Mas d'onde conheço eu aquella cara? Quem +diabo é? <br /> <br /> -Sebastio encolheu os hombros. <br /> +Sebastião encolheu os hombros. <br /> <br /> —Um rapaz alto, bonito, com um ar estrangeirado. -Eu conheo-o. N'outro dia vi-o entrar para l. -Voss no sabe? <br /> +Eu conheço-o. N'outro dia vi-o entrar para lá. +Vossê não sabe? <br /> <br /> -No sabia. <br /> +Não sabia. <br /> <br /> -—Eu conheo aquella cara. Tenho estado a vr -se me recordo...—Passava a mo pela testa.—Eu -conheo aquella cara! Elle de Lisboa. De Lisboa +—Eu conheço aquella cara. Tenho estado a vêr +se me recordo...—Passava a mão pela testa.—Eu +conheço aquella cara! Elle é de Lisboa. De Lisboa é elle! <br /> <br /> E depois d'um silencio, fazendo girar o guarda-sol: <br /> <br /> -—E que ha de novo, Sebastio? <br /> +—E que ha de novo, Sebastião? <br /> <br /> -Tambem no sabia. <br /> +Tambem não sabia. <br /> <br /> —Nem eu! <br /> <br /> E bocejando muito: <br /> <br /><span class="pagenum">[148]</span> -—Isto est uma pasmaceira, homem! <br /> +—Isto está uma pasmaceira, homem! <br /> <br /> -N'essa tarde, s quatro horas, Sebastio voltou a -casa de Luiza. Estava com o sujeito! Ficou ento +N'essa tarde, ás quatro horas, Sebastião voltou a +casa de Luiza. Estava com «o sujeito!» Ficou então preoccupado. De certo era algum negocio de Jorge; -porque no comprehendia que ella fallasse, sentisse, -vivesse, que no fosse no interesse da casa e para -maior felicidade de Jorge. Mas devia ser grave ento—para -reclamar visitas, encontros, tantas relaes. +porque não comprehendia que ella fallasse, sentisse, +vivesse, que não fosse no interesse da casa e para +maior felicidade de Jorge. Mas devia ser grave então—para +reclamar visitas, encontros, tantas relações. Tinham pois interesses importantes que elle -no conhecia! E aquillo parecia-lhe uma ingratido, -e como uma diminuio d'amizade. <br /> +não conhecia! E aquillo parecia-lhe uma ingratidão, +e como uma diminuição d'amizade. <br /> <br /> -A tia Joanna tinha-o achado macambusio. <br /> +A tia Joanna tinha-o achado «macambusio». <br /> <br /> Foi ao outro dia que soube que o sujeito era o primo Bazilio, o Bazilio de Brito. O seu vago desgosto dissipou-se, mas um receio mais definido veio inquietal-o. <br /> <br /> -Sebastio no conhecia Bazilio pessoalmente, mas -sabia a chronica da sua mocidade. No havia n'ella +Sebastião não conhecia Bazilio pessoalmente, mas +sabia a chronica da sua mocidade. Não havia n'ella certamente, nem escandalo excepcional, nem romance pungente. Bazilio tinha sido apenas um <em>pandigo</em> -e, como tal, passra methodicamente por todos os +e, como tal, passára methodicamente por todos os episodios classicos da estroinice lisboeta:—partidas -de monte at de madrugada com ricaos do Alemtejo; -uma tipoia despedaada n'um sabbado de touros; +de monte até de madrugada com ricaços do Alemtejo; +uma tipoia despedaçada n'um sabbado de touros; ceias repetidas com alguma velha Lola e uma -antiga salada de lagosta; algumas <em>pgas</em> applaudidas +antiga salada de lagosta; algumas <em>pégas</em> applaudidas em Salvaterra ou na Alhandra; noitadas de bacalhau e Collares nas tabernas fadistas; muita guitarra; -scos bem jogados face attonita d'um policia; -e uma profuso de gemas d'ovos nas glorias +sôcos bem jogados á face attonita d'um policia; +e uma profusão de gemas d'ovos nas glorias <span class="pagenum">[149]</span> do entrudo. As unicas mulheres mesmo que appareciam -na sua historia, alm das Lolas e das Carmens -usuaes, eram a Pistelli, uma danarina allem cujas +na sua historia, além das Lolas e das Carmens +usuaes, eram a Pistelli, uma dançarina allemã cujas pernas tinham uma musculatura d'athleta, e a condessinha d'Alvim, uma douda, grande cavalleira, que -se separra de seu marido depois de o ter chicotado, +se separára de seu marido depois de o ter chicotado, e que se vestia d'homem para bater ella mesmo -em trem de praa do Rocio ao D-fundo. Mas isto -bastava para que Sebastio o achasse um <em>debochado</em>, +em trem de praça do Rocio ao Dá-fundo. Mas isto +bastava para que Sebastião o achasse um <em>debochado</em>, um <em>perdido</em>; ouvira que elle tinha ido para o Brazil para fugir aos credores; que enriquecera por acaso, -n'uma especulao, no Paraguay; que mesmo na Bahia, -com a corda na garganta, nunca fra um trabalhador; +n'uma especulação, no Paraguay; que mesmo na Bahia, +com a corda na garganta, nunca fôra um trabalhador; e suppunha que a posse da fortuna para elle, seria apenas um desenvolvimento dos vicios. E -este homem agora vinha vr a Luizinha todos os +este homem agora vinha vêr a Luizinha todos os dias, estava horas e horas, seguia-a ao Passeio... <br /> <br /> Para que?... Era claro, para a desinquietar! <br /> <br /> Ia justamente descendo a rua, dobrado sob a pesada -desconsolao d'estas idas, quando uma voz +desconsolação d'estas idéas, quando uma voz encatarrhoada disse com respeito: <br /> <br /> -— snr. Sebastio! <br /> +—Ó snr. Sebastião! <br /> <br /> Era o Paula dos moveis. <br /> <br /> -—Viva, snr. Joo. <br /> +—Viva, snr. João. <br /> <br /> O Paula atirou para as pedras da rua um jacto escuro -de saliva, e com as mos cruzadas debaixo das +de saliva, e com as mãos cruzadas debaixo das abas do comprido casaco de cotim, o tom grave: <br /> <br /> -— snr. Sebastio, ha doena c por casa do +—Ó snr. Sebastião, ha doença cá por casa do snr. Engenheiro? <br /> <br /> -Sebastio todo surprehendido: +Sebastião todo surprehendido: <br /> <br /><span class="pagenum">[150]</span> -—No. Porque? <br /> +—Não. Porque? <br /> <br /> O Paula fez roncar a garganta, cuspilhou: <br /> <br /> -— que tenho visto entrar para c todos os dias +—É que tenho visto entrar para cá todos os dias um sujeito. Imaginei que fosse o medico. <br /> <br /> E puxando o escarro: <br /> <br /> —D'esses novos da homœopathia! <br /> <br /> -Sebastio tinha crado. <br /> +Sebastião tinha córado. <br /> <br /> -—Nada—disse.— o primo de D. Luiza. <br /> +—Nada—disse.—É o primo de D. Luiza. <br /> <br /> —Ah!—fez o Paula.—Pois pensei... Queira -desculpar, snr. Sebastio. <br /> +desculpar, snr. Sebastião. <br /> <br /> E curvou-se, respeitosamente. <br /> <br /> -—J temos fallatorio!—foi pensando Sebastio. <br /> +—Já temos fallatorio!—foi pensando Sebastião. <br /> <br /> E entrou em casa, descontente. <br /> <br /> Morava ao fundo da rua, n'um predio seu, de -construco antiga, com quintal. <br /> +construcção antiga, com quintal. <br /> <br /> -Sebastio era s. Tinha uma fortuna pequena em -inscripes, terras de lavoura para o lado do Seixal, +Sebastião era só. Tinha uma fortuna pequena em +inscripções, terras de lavoura para o lado do Seixal, e a quinta em Almada,—o Rozegal. As duas criadas eram muito antigas na casa. A Vicencia, a cozinheira, -era uma preta de S. Thom j do tempo da -mam. A tia Joanna, a governanta, servia-o havia trinta -e cinco annos; chamava ainda a Sebastio o menino; -tinha j as tontices d'uma criana, e recebia sempre -os respeitos d'uma av. Era do Porto, do <em>Porto</em>, +era uma preta de S. Thomé já do tempo da +mamã. A tia Joanna, a governanta, servia-o havia trinta +e cinco annos; chamava ainda a Sebastião o «menino»; +tinha já as tontices d'uma criança, e recebia sempre +os respeitos d'uma avó. Era do Porto, do <em>Poârto</em>, como ella dizia, porque nunca perdera o seu accento -minhto. Os amigos de Sebastio chamavam-lhe +minhôto. Os amigos de Sebastião chamavam-lhe uma velha de comedia. Era baixinha e gorda, com um sorriso muito bondoso; tinha os cabellos alvos como uma estriga, atados no alto n'um rolinho com um antigo pente de tartaruga; trazia sempre um <span class="pagenum">[151]</span> -vasto leno branco muito aceado, traado sobre o +vasto lenço branco muito aceado, traçado sobre o peito. E todo o dia passarinhava pela casa, com o -seu passinho arrastado, fazendo tilintar os mlhos de -chaves, resmungando proverbios, tomando rap de +seu passinho arrastado, fazendo tilintar os mólhos de +chaves, resmungando proverbios, tomando rapé de uma caixa redonda, em cuja tampa se lascava o desenho abonecado da ponte pensil do Porto. <br /> <br /> -Em toda a casa havia um tom caturra e dce: +Em toda a casa havia um tom caturra e dôce: na sala de visitas, quasi sempre fechada, o vasto -canap, as poltronas tinham o ar empertigado do -tempo do snr. D. Jos I, e os estofos de damasco -vermelho desbotado lembravam a pompa d'uma crte +canapé, as poltronas tinham o ar empertigado do +tempo do snr. D. José I, e os estofos de damasco +vermelho desbotado lembravam a pompa d'uma côrte decrepita; das paredes da casa de jantar pendiam -as primeiras gravuras das batalhas de Napoleo, onde -se v invariavelmente, n'uma eminencia, o cavallo +as primeiras gravuras das batalhas de Napoleão, onde +se vê invariavelmente, n'uma eminencia, o cavallo branco, para o qual galopa desenfreadamente do primeiro plano um hussard, brandido um sabre. -Sebastio dormia os seus somnos de sete horas, sem +Sebastião dormia os seus somnos de sete horas, sem sonhos, n'uma velha barra de pau preto torneado; e n'uma saleta escura, sobre uma commoda de fecharias de metal amarello, conservava-se, havia annos, -o padroeiro da casa, S. Sebastio—que se torcia, +o padroeiro da casa, S. Sebastião—que se torcia, cravado de settas, nas cordas que o atavam ao tronco, - luz d'uma lampada muito cuidada pela tia Joanna, +á luz d'uma lampada muito cuidada pela tia Joanna, sob os ruidos subtis dos ratos pelo forro. <br /> <br /> -A casa condizia com o dono. Sebastio tinha um -genio antiquado. Era solitario e acanhado. J no latim +A casa condizia com o dono. Sebastião tinha um +genio antiquado. Era solitario e acanhado. Já no latim lhe chamavam o <em>pelludo</em>; punham-lhe rabos, roubavam-lhe -impudentemente as merendas. Sebastio, -que tinha a fora d'um gymnasta, offerecia a resignao +impudentemente as merendas. Sebastião, +que tinha a força d'um gymnasta, offerecia a resignação d'um martyr. <br /> <br /><span class="pagenum">[152]</span> @@ -5828,196 +5788,196 @@ Foi sempre reprovado nos primeiros exames do lyceu. Era intelligente, mas uma pergunta, o reluzir dos oculos d'um professor, a grande lousa negra immobilisavam-o; ficava muito embezerrado, a face -inchada e rubra, a coar os joelhos, o olhar vazio. <br /> +inchada e rubra, a coçar os joelhos, o olhar vazio. <br /> <br /> -Sua mi, que era da alda e que fra padeira, -muito vaidosa agora das suas inscripes, da sua +Sua mãi, que era da aldêa e que fôra padeira, +muito vaidosa agora das suas inscripções, da sua quinta, da sua mobilia de damasco, sempre vestida -de sda, carregada d'anneis, costumava dizer: <br /> +de sêda, carregada d'anneis, costumava dizer: <br /> <br /> —Ora! tem que comer e beber! Estar a affligir -a criana com estudos! Deixa l, deixa l! <br /> +a criança com estudos! Deixa lá, deixa lá! <br /> <br /> -A inclinao de Sebastio era pela musica. Sua -mi, por conselhos da mi de Jorge, sua visinha e +A inclinação de Sebastião era pela musica. Sua +mãi, por conselhos da mãi de Jorge, sua visinha e sua intima, tomou-lhe um mestre de piano; logo -desde as primeiras lies, a que ella assistia com +desde as primeiras lições, a que ella assistia com enfeites de velludo vermelho e cheia de joias, o velho professor Achilles Bentes, d'oculos redondos e cara de coruja, exclamou excitado com a sua voz nasal: <br /> <br /> -—Minha rica senhora! o seu menino um genio! - um genio! Ha-de ser um Rossini! puxar -por elle! puxar por elle! <br /> +—Minha rica senhora! o seu menino é um genio! +É um genio! Ha-de ser um Rossini! É puxar +por elle! É puxar por elle! <br /> <br /> -Mas era justamente o que ella no queria, era -puxar por elle, coitadinho! Por isso no foi um +Mas era justamente o que ella não queria, era +puxar por elle, coitadinho! Por isso não foi um Rossini. E todavia o velho Bentes continuava a dizer, por habito: <br /> <br /> —Ha-de ser um Rossini! Ha-de ser um Rossini! <br /> <br /> -Smente em lugar de o gritar, brandindo papeis +Sómente em lugar de o gritar, brandindo papeis de musica, murmurava-o, com bocejos enormes de -leo enfastiado. +leão enfastiado. <br /> <br /><span class="pagenum">[153]</span> -J ento os dous rapazes visinhos, Jorge e Sebastio, +Já então os dous rapazes visinhos, Jorge e Sebastião, eram intimos. Jorge mais vivo, mais inventivo, -dominava-o. No quintal, a brincar, Sebastio -era sempre o <em>cavallo</em> nas imitaes da diligencia, o -<em>vencido</em> nas guerras. Era Sebastio que carregava os +dominava-o. No quintal, a brincar, Sebastião +era sempre o <em>cavallo</em> nas imitações da diligencia, o +<em>vencido</em> nas guerras. Era Sebastião que carregava os pesos, que offerecia o dorso para Jorge trepar; nas -merendas comia todo o po, deixava a Jorge toda a +merendas comia todo o pão, deixava a Jorge toda a fruta. Cresceram. E aquella amizade sempre igual, -sem amos, tornou-se na vida d'ambos um interesse +sem amúos, tornou-se na vida d'ambos um interesse essencial e permanente. <br /> <br /> -Quando a mi de Jorge morreu, pensaram mesmo -em viver juntos; habitariam a casa de Sebastio, +Quando a mãi de Jorge morreu, pensaram mesmo +em viver juntos; habitariam a casa de Sebastião, mais larga e que tinha quintal; Jorge queria comprar um cavallo; mas conheceu Luiza no Passeio, e d'ahi a dous mezes passava quasi todo o seu dia na rua da Magdalena. <br /> <br /> -Todo aquelle plano jovial da <em>Sociedade Sebastio +Todo aquelle plano jovial da <em>Sociedade Sebastião e Jorge</em>—chamavam-lhe assim, rindo—desabou, -como um castello de cartas. Sebastio teve um grande +como um castello de cartas. Sebastião teve um grande pezar. <br /> <br /> E era elle, depois, que fornecia os ramos de rosas que Jorge levava a Luiza, sem espinhos, com -cuidados devotos embrulhados n'um papel de sda. -Era elle que tratava dos arranjos do ninho, ia -apressar os estofadores, discutir preos de roupas, +cuidados devotos embrulhados n'um papel de sêda. +Era elle que tratava dos arranjos do «ninho», ia +apressar os estofadores, discutir preços de roupas, vigiar o trabalho dos homens que pregavam os tapetes, conferenciar com a inculcadeira, cuidar dos papeis do casamento! <br /> <br /> -E noite, fatigado como um procurador zeloso, -tinha ainda de escutar com um sorriso as expanses +E á noite, fatigado como um procurador zeloso, +tinha ainda de escutar com um sorriso as expansões <span class="pagenum">[154]</span> -felizes de Jorge, que passeava pelo quarto at s +felizes de Jorge, que passeava pelo quarto até ás duas horas da noite em mangas de camisa, namorado, loquaz, brandindo o cachimbo! <br /> <br /> -Depois do casamento Sebastio sentiu-se muito -s. Foi a Portel visitar um tio, um velho exquisito, +Depois do casamento Sebastião sentiu-se muito +só. Foi a Portel visitar um tio, um velho exquisito, com um olhar de doudo, que passava a existencia combinando enxertos no pomar, e lendo, relendo o <em>Eurico</em>. Quando voltou, passado um mez, Jorge disse-lhe radioso: <br /> <br /> -—E sabes, hein? Isto agora que a tua casa! -Aqui que tu vives! <br /> +—E sabes, hein? Isto agora é que é a tua casa! +Aqui é que tu vives! <br /> <br /> -Mas nunca obteve de Sebastio que fosse a sua -casa com uma inteira intimidade. Sebastio batia +Mas nunca obteve de Sebastião que fosse a sua +casa com uma inteira intimidade. Sebastião batia á porta, timidamente. Corava diante de Luiza; o antigo -<em>pelludo</em> de latim reapparecia. Jorge luctra para +<em>pelludo</em> de latim reapparecia. Jorge luctára para que elle cruzasse sem ceremonia as pernas, fumasse -cachimbo diante d'ella, no lhe dissesse a todo o +cachimbo diante d'ella, não lhe dissesse a todo o momento:—V. exc.<sup>a</sup>, v. exc.<sup>a</sup>—meio erguido na cadeira. <br /> <br /> -Nunca vinha jantar seno arrastado. Quando Jorge -no estava, as suas visitas eram curtas, cheias +Nunca vinha jantar senão arrastado. Quando Jorge +não estava, as suas visitas eram curtas, cheias de silencio. Julgava-se gebo, tinha medo de massar! <br /> <br /> N'essa tarde, quando elle foi para a sala de jantar, a tia Joanna veio-lhe perguntar pela Luizinha. <br /> <br /> Adorava-a, achava-a um <em>anjinho</em>, uma -<em>aucena</em>. <br /> +<em>açucena</em>. <br /> <br /> -—Como est ella? viu-a? <br /> +—Como está ella? viu-a? <br /> <br /> -Sebastio corou, no quiz dizer, como na vespera, -que estava gente, que no tinha entrado; e +Sebastião corou, não quiz dizer, como na vespera, +«que estava gente, que não tinha entrado»; e abaixando-se, pondo-se a brincar com as orelhas do <em>Trajano</em>, o seu velho perdigueiro: <br /> <br /><span class="pagenum"><a name="p155" id="p155">[155]</a></span> -—Est boa, tia Joanna, est boa. Ento <a href="#e3">como -ha-de d'estar?</a> Est optima! <br /> +—Está boa, tia Joanna, está boa. Então <a href="#e3">como +ha-de d'estar?</a> Está optima! <br /> <br /> <br /> <br /> -quella hora Luiza recebia uma carta de Jorge. +Áquella hora Luiza recebia uma carta de Jorge. Era de Portel, com muitas queixas sobre o calor, -sobre as ms estalagens, historias sobre o extraordinario -parente de Sebastio,—saudades e mil beijos... <br /> +sobre as más estalagens, historias sobre o extraordinario +parente de Sebastião,—saudades e mil beijos... <br /> <br /> -No a esperava, e aquella folha de papel cheia +Não a esperava, e aquella folha de papel cheia d'uma letra miudinha, que lhe fazia reapparecer vivamente Jorge, a sua figura, o seu olhar, a sua ternura, -deu-lhe uma sensao quasi dolorosa. Toda a +deu-lhe uma sensação quasi dolorosa. Toda a vergonha dos seus desfallecimentos cobardes, sob os beijos de Bazilio, veio abrazar-lhe as faces. Que horror -deixar-se abraar, apertar! No soph o que elle -lhe dissera, com que olhos a devorra!... Recordava -tudo,—a sua attitude, o calor das suas mos, a +deixar-se abraçar, apertar! No sophá o que elle +lhe dissera, com que olhos a devorára!... Recordava +tudo,—a sua attitude, o calor das suas mãos, a tremura da sua voz... E machinalmente, pouco e -pouco, ia-se esquecendo n'aquellas recordaes, abandonando-se-lhe, -at ficar perdida na deliciosa lassido +pouco, ia-se esquecendo n'aquellas recordações, abandonando-se-lhe, +até ficar perdida na deliciosa lassidão que ellas lhe davam, com o olhar languido, os -braos frouxos. Mas a ida de Jorge vinha ento outra +braços frouxos. Mas a idéa de Jorge vinha então outra vez fustigal-a como uma chicotada. Erguia-se bruscamente, passeava pelo quarto toda nervosa, com uma vaga vontade de chorar... <br /> <br /> -—Ah! no! horroroso, horroroso!—dizia -s, fallando alto.— necessario acabar! <br /> +—Ah! não! é horroroso, é horroroso!—dizia +só, fallando alto.—É necessario acabar! <br /> <br /> -Resolveu no receber Bazilio, escrever-lhe, pedir-lhe +Resolveu não receber Bazilio, escrever-lhe, pedir-lhe <span class="pagenum">[156]</span> -que no voltasse, que partisse! Meditava -mesmo as palavras; seria scca e fria, no diria <em>meu +que não voltasse, que partisse! Meditava +mesmo as palavras; seria sêcca e fria, não diria <em>meu querido primo</em>, mas simplesmente <em>primo Bazilio</em>. <br /> <br /> E que faria elle, quando recebesse a carta? Choraria, coitado! <br /> <br /> -Imaginava-o s, no seu quarto d'hotel, infeliz e +Imaginava-o só, no seu quarto d'hotel, infeliz e pallido; e d'aqui, pelos declives da sensibilidade, -passava recordao da sua pessoa, da sua voz -convincente, das turbaes do seu olhar dominante, -e a memoria demorava-se n'aquellas lembranas com -uma sensao de felicidade, como a mo se esquece -acariciando a plumagem dce d'um passaro raro. -Sacudia a cabea com impaciencia, como se aquellas -imaginaes fossem os ferres d'insectos importunos: -esforava-se por pensar s em Jorge; mas as idas -ms voltavam, mordiam-na: e achava-se desgraada, +passava á recordação da sua pessoa, da sua voz +convincente, das turbações do seu olhar dominante, +e a memoria demorava-se n'aquellas lembranças com +uma sensação de felicidade, como a mão se esquece +acariciando a plumagem dôce d'um passaro raro. +Sacudia a cabeça com impaciencia, como se aquellas +imaginações fossem os ferrões d'insectos importunos: +esforçava-se por pensar só em Jorge; mas as idéas +más voltavam, mordiam-na: e achava-se desgraçada, sem saber o que queria, com vontades confusas de estar com Jorge, de consultar Leopoldina, de fugir para longe, ao acaso. Jesus, que infeliz que era!—E -do fundo da sua natureza de preguiosa vinha-lhe -uma indefinida indignao contra Jorge, contra Bazilio, +do fundo da sua natureza de preguiçosa vinha-lhe +uma indefinida indignação contra Jorge, contra Bazilio, contra os sentimentos, contra os deveres, contra -tudo o que a fazia agitar-se e soffrer. Que a no +tudo o que a fazia agitar-se e soffrer. Que a não seccassem, Santo Deus! <br /> <br /> -Depois de jantar, janella da sala, ficou a relr -a carta de Jorge. Pz-se a recordar de proposito tudo +Depois de jantar, á janella da sala, ficou a relêr +a carta de Jorge. Pôz-se a recordar de proposito tudo o que a encantava n'elle, do seu corpo e das suas qualidades. E juntava ao acaso argumentos, uns de honra, outros de sentimento, para o amar, para o -respeitar. Tudo era por elle estar fra, na provincia! +respeitar. Tudo era por elle estar fóra, na provincia! <span class="pagenum">[157]</span> -Se elle alli estivesse ao p d'ella! Mas to longe, e +Se elle alli estivesse ao pé d'ella! Mas tão longe, e demorar-se tanto! E ao mesmo tempo, contra sua vontade, a certeza d'aquella ausencia dava-lhe uma -sensao de liberdade; a ida de se poder mover +sensação de liberdade; a idéa de se poder mover á vontade nos desejos, nas curiosidades, enchia-lhe o peito d'um contentamente largo, como uma lufada de independencia. <br /> <br /> Mas emfim, vamos, de que lhe servia estar livre, -s?—E de repente tudo o que poderia fazer, +só?—E de repente tudo o que poderia fazer, sentir, possuir, lhe apparecia n'uma perspectiva longa que fulgurava: aquillo era como uma porta, subitamente aberta e fechada, que deixa entrever, n'um @@ -6027,57 +5987,57 @@ que palpita e faisca.—Oh! estava douda, de certo! <br /> Escureceu. Foi para a sala, abriu a janella; a noite estava quente e espessa, com um ar d'electricidade e de trovoada. Respirava mal, olhava para o -co, desejando alguma cousa fortemente, sem saber -o qu. <br /> +céo, desejando alguma cousa fortemente, sem saber +o quê. <br /> <br /> -O moo do padeiro em baixo, como sempre, tocava +O moço do padeiro em baixo, como sempre, tocava o fado; aquelles sons banaes entravam-lhe agora na alma, com a brandura d'um bafo quente e a melancolia de um gemido. <br /> <br /> -Encostou a cabea mo com uma lassido. Mil +Encostou a cabeça á mão com uma lassidão. Mil pensamentosinhos corriam-lhe no cerebro como os pontos de luz que correm n'um papel que se queimou; -lembrava-lhe sua mi, o chapo novo que lhe -mandra madame Franois, o tempo que faria em -Cintra, a doura das noites quentes sob a escurido +lembrava-lhe sua mãi, o chapéo novo que lhe +mandára madame François, o tempo que faria em +Cintra, a doçura das noites quentes sob a escuridão das ramagens... <br /> <br /><span class="pagenum">[158]</span> -Fechou a janella, espreguiou-se; e sentada na +Fechou a janella, espreguiçou-se; e sentada na <em>causeuse</em>, no seu quarto, ficou alli, n'uma immobilidade, pensando em Jorge, em lhe escrever, em lhe pedir que viesse. Mas bem depressa aquelle scismar -comeou a quebrar-se a cada momento como uma -tela que se esgaa em rasges largos, e por traz +começou a quebrar-se a cada momento como uma +tela que se esgaça em rasgões largos, e por traz apparecia logo com uma intensidade luminosa e forte -a ida do primo Bazilio. <br /> +a idéa do primo Bazilio. <br /> <br /> As viagens, os mares atravessados tinham-no tornado -mais trigueiro; a melancolia da separao dera-lhe +mais trigueiro; a melancolia da separação dera-lhe cabellos brancos. Tinha soffrido por ella!—dissera.—E -no fim onde estava o mal? Elle jurra-lhe +no fim onde estava o mal? Elle jurára-lhe que aquelle amor era casto, passando-se todo na alma. Tinha vindo de Paris, o pobre rapaz, assim -lh'o jurra, para a vr, uma semana, quinze dias. E -havia de dizer-lhe:—No voltes, vai-te? <br /> +lh'o jurára, para a vêr, uma semana, quinze dias. E +havia de dizer-lhe:—Não voltes, vai-te? <br /> <br /> -—Quando a senhora quizer o ch...—disse +—Quando a senhora quizer o chá...—disse da porta do quarto Juliana. <br /> <br /> -Luiza deu um suspiro alto como acordando. No; +Luiza deu um suspiro alto como acordando. Não; que trouxesse a lamparina, mais tarde. <br /> <br /> -Eram dez horas. Juliana foi tomar o seu ch, +Eram dez horas. Juliana foi tomar o seu chá, á cozinha. O lume ia-se apagando, o candieiro de petroleo estendia nos cobres dos tachos reflexos avermelhados. <br /> <br /> —Hoje houve cousa, snr.<sup>a</sup> Joanna—disse Juliana -sentando-se.—Est toda no ar! E cada suspiro! +sentando-se.—Está toda no ar! E é cada suspiro! Alli houve-a e grossa. <br /> <br /> -Joanna, do outro lado, com os cotovlos na +Joanna, do outro lado, com os cotovêlos na mesa e a face sobre os punhos, pestanejava de somno. <br /> @@ -6085,21 +6045,21 @@ somno. —A snr.<sup>a</sup> Juliana, tambem, deita tudo para o mal—disse. <br /> <br /> -— que era necessario ser tola, snr.<sup>a</sup> Joanna! <br /> +—É que era necessario ser tola, snr.<sup>a</sup> Joanna! <br /> <br /> Calou-se, cheirou o assucar; era um dos seus despeitos; gostava d'elle bem refinado—e aquelle -assucar mascavado e grosso, que punha no ch um +assucar mascavado e grosso, que punha no chá um gosto de formigas, exasperava-a. <br /> <br /> -—Este peor que o do mez passado! Para uma -pobre de Christo tudo bom!—rosnou muito amargamente. <br /> +—Este é peor que o do mez passado! Para uma +pobre de Christo tudo é bom!—rosnou muito amargamente. <br /> <br /> E depois d'uma pausa repetiu: <br /> <br /> -— que era necessario ser tola, snr.<sup>a</sup> Joanna! <br /> +—É que era necessario ser tola, snr.<sup>a</sup> Joanna! <br /> <br /> -A cozinheira disse preguiosamente: <br /> +A cozinheira disse preguiçosamente: <br /> <br /> —Cada um sabe de si... <br /> <br /> @@ -6109,239 +6069,239 @@ E ficaram caladas. <br /> <br /> Luiza tocou a campainha em baixo. <br /> <br /> -—Que teremos ns agora? Est com as cocegas! <br /> +—Que teremos nós agora? Está com as cocegas! <br /> <br /> Desceu. Voltou com o regador, muito enfastiada: <br /> <br /> -—Quer mais agua! Olha a mania, pr-se agora -a chafurdar meia noite! Sempre a gente as v... <br /> +—Quer mais agua! Olha a mania, pôr-se agora +a chafurdar á meia noite! Sempre a gente as vê... <br /> <br /> Foi encher o regador, e em quanto a agua da torneira cantava no fundo de lata: <br /> <br /> -—E diz que lhe faa manh ao almoo um bocado +—E diz que lhe faça ámanhã ao almoço um bocado de presunto frito, do salgado. Quer picantes! <br /> <br /> E com muito escarneo: <br /> <br /> -—Sempre a gente v cousas! Quer picantes! <br /> +—Sempre a gente vê cousas! Quer picantes! <br /> <br /> - meia noite a casa estava adormecida e apagada. -Fra, o co ennegrecera mais; relampejou, e um -trovo secco estalou, rolou. +Á meia noite a casa estava adormecida e apagada. +Fóra, o céo ennegrecera mais; relampejou, e um +trovão secco estalou, rolou. <br /> <br /><span class="pagenum">[160]</span> -Luiza abriu os olhos estremunhada; comera a +Luiza abriu os olhos estremunhada; começára a cahir uma chuva grossa e sonora; a trovoada arrastava-se, ao longe. Esteve um momento escutando as goteiras que cantavam sobre o lagedo; a alcova abafava, descobriu-se; o somno tinha fugido, e de costas, -o olhar fixo na vaga claridade que vinha de fra -da lamparina, seguia o tic-tac do relogio. Espreguiou-se, -e uma certa ida, uma certa viso foi-se -formando no seu cerebro, completando-se, to nitida, -quasi to visivel, que se revirou na cama devagar, -estirou os braos, lanou-os em roda do travesseiro, -adiantando os beios seccos—para beijar uns cabellos +o olhar fixo na vaga claridade que vinha de fóra +da lamparina, seguia o tic-tac do relogio. Espreguiçou-se, +e uma certa idéa, uma certa visão foi-se +formando no seu cerebro, completando-se, tão nitida, +quasi tão visivel, que se revirou na cama devagar, +estirou os braços, lançou-os em roda do travesseiro, +adiantando os beiços seccos—para beijar uns cabellos negros onde reluziam fios brancos. <br /> <br /> <br /> <br /> -Sebastio tinha dormido mal. Acordou s seis horas -e desceu ao quintal em chinellas. Uma porta envidraada -da sala de jantar abria para um terraosinho, +Sebastião tinha dormido mal. Acordou ás seis horas +e desceu ao quintal em chinellas. Uma porta envidraçada +da sala de jantar abria para um terraçosinho, largo apenas para tres cadeiras de ferro pintado e alguns vasos de cravos; d'alli, quatro degraus de pedra desciam para o quintal; era uma horta -ajardinada, muito cheia, com canteirinhos de flres, -saladas muito regadas, ps de roseiras junto dos muros, -um poo e um tanque debaixo d'uma parreirita, -e arvores; terminava por outro terrao assombreado +ajardinada, muito cheia, com canteirinhos de flôres, +saladas muito regadas, pés de roseiras junto dos muros, +um poço e um tanque debaixo d'uma parreirita, +e arvores; terminava por outro terraço assombreado d'uma tilia, com um parapeito para uma rua baixa e solitaria; defronte corria um muro de quintal muito caiado. Era um sitio recolhido, d'uma paz <span class="pagenum">[161]</span> -alde. Muitas vezes Sebastio, de madrugada, ia para +aldeã. Muitas vezes Sebastião, de madrugada, ia para alli fumar o seu cigarro. <br /> <br /> -Era uma manh deliciosa. Havia um ar transparente -e fino; o co arredondava-se a uma grande altura +Era uma manhã deliciosa. Havia um ar transparente +e fino; o céo arredondava-se a uma grande altura com o azulado de certas porcelanas velhas e, -aqui e alm, uma nuvemzinha algodoada, mollemente -enrolada, cr de leite; a folhagem tinha um verde +aqui e além, uma nuvemzinha algodoada, mollemente +enrolada, côr de leite; a folhagem tinha um verde lavado, a agua do tanque uma crystallinidade fria; -passaros chilreavam de leve, com vos rapidos. <br /> +passaros chilreavam de leve, com vôos rapidos. <br /> <br /> -Sebastio estava debruado para a rua, quando a +Sebastião estava debruçado para a rua, quando a ponteira d'uma bengala, passos vagarosos cortaram o silencio fresco. Era um visinho de Jorge, o Cunha Rosado, o doente d'intestinos; arrastava-se, curvado, -abafado n'um cachenez e n'um paletot cr de pinho, +abafado n'um cachenez e n'um paletot côr de pinhão, com a barba grisalha desmazelada, a crescer. <br /> <br /> -—J a p, visinho!—disse Sebastio. <br /> +—Já a pé, visinho!—disse Sebastião. <br /> <br /> -O outro parou, ergueu a cabea lentamente. <br /> +O outro parou, ergueu a cabeça lentamente. <br /> <br /> -—Oh Sebastio!—disse com uma voz plangente—Ando +—Oh Sebastião!—disse com uma voz plangente—Ando a passear os meus leites, homem! <br /> <br /> -—A p? <br /> +—A pé? <br /> <br /> -—Ao principio ia na burrita at fra de portas, +—Ao principio ia na burrita até fóra de portas, mas diz que me fazia bem o passeiosito a -p... <br /> +pé... <br /> <br /> Encolheu os hombros com um gesto triste de duvida, -de desconsolao. <br /> +de desconsolação. <br /> <br /> -—E como vai isso?—perguntou Sebastio, muito -debruado para a rua, com affecto. <br /> +—E como vai isso?—perguntou Sebastião, muito +debruçado para a rua, com affecto. <br /> <br /> -O Cunha teve um sorriso desolado nos seus beios brancos: <br /> +O Cunha teve um sorriso desolado nos seus beiços brancos: <br /> <br /> —A desfazer-se! <br /> <br /><span class="pagenum">[162]</span> -Sebastio tossiu, embaraado, sem achar uma -consolao. <br /> +Sebastião tossiu, embaraçado, sem achar uma +consolação. <br /> <br /> -Mas o doente, com as duas mos apoiadas bengala, -uma subita radiao d'interesse no olhar amortecido: <br /> +Mas o doente, com as duas mãos apoiadas á bengala, +uma subita radiação d'interesse no olhar amortecido: <br /> <br /> -— Sebastio, um rapaz alto, que eu tenho visto -todos estes dias entrar para casa do Jorge, o Bazilio -de Brito, pois no ? O primo da mulher? o filho -do Joo de Brito? <br /> +—Ó Sebastião, um rapaz alto, que eu tenho visto +todos estes dias entrar para casa do Jorge, é o Bazilio +de Brito, pois não é? O primo da mulher? o filho +do João de Brito? <br /> <br /> -—, sim, porque? <br /> +—É, sim, porque? <br /> <br /> -O Cunha fez: <em>Ah! ah!</em> com uma grande satisfao. <br /> +O Cunha fez: <em>Ah! ah!</em> com uma grande satisfação. <br /> <br /> —Bem dizia eu!—exclamou.—Bem dizia eu! -E aquella teimosa que no! que no!... <br /> +E aquella teimosa que não! que não!... <br /> <br /> -E ento explicou com uma tagarellice subita, e -cansaos de voz: <br /> +E então explicou com uma tagarellice subita, e +cansaços de voz: <br /> <br /> -—O meu quarto para a rua, e todos os dias, +—O meu quarto é para a rua, e todos os dias, como eu estou quasi sempre pela janella para espairecer... tenho visto aquelle rapaz, a modo estrangeirado, -entrar para l... todos os dias! Este o +entrar para lá... todos os dias! Este é o Bazilio de Brito! disse eu. Mas minha mulher que -no! que no!... Que diabo, homem! Eu tinha quasi -a certeza... No conheo eu outra cousa!... -At elle esteve para casar com a D. Luiza. Oh! Eu +não! que não!... Que diabo, homem! Eu tinha quasi +a certeza... Não conheço eu outra cousa!... +Até elle esteve para casar com a D. Luiza. Oh! Eu sei essa historia na ponta dos dedos... Morava ella na rua da Magdalena!... <br /> <br /> -Sebastio disse vagamente: <br /> +Sebastião disse vagamente: <br /> <br /> -—Pois , o Brito... <br /> +—Pois é, é o Brito... <br /> <br /> —Bem dizia eu! <br /> <br /> -Ficou um momento immovel, fitando o cho, e +Ficou um momento immovel, fitando o chão, e refazendo uma voz dolente: <br /> <br /><span class="pagenum">[163]</span> -—Pois, vou-me arrastando at casa. <br /> +—Pois, vou-me arrastando até casa. <br /> <br /> Suspirou. E arregalando os olhos: <br /> <br /> -—Quem me dera a sua saude, Sebastio! <br /> +—Quem me dera a sua saude, Sebastião! <br /> <br /> -E dizendo adeus, com um gesto da mo calada +E dizendo adeus, com um gesto da mão calçada de luva de casimira escura, afastou-se, curvado, rente -do muro, conchegando com o brao ao ventre, o seu -largo paletot cr de pinho. <br /> +do muro, conchegando com o braço ao ventre, o seu +largo paletot côr de pinhão. <br /> <br /> -Sebastio entrou preoccupado. Todo o mundo comeava +Sebastião entrou preoccupado. Todo o mundo começava a reparar, hein! Pudera! Um rapaz novo, janota, vir todos os dias de trem, estar duas, tres -horas! Uma visinhana to chegada, to maligna!... <br /> +horas! Uma visinhança tão chegada, tão maligna!... <br /> <br /> -Ao comeo da tarde sahiu. Teve vontade de procurar +Ao começo da tarde sahiu. Teve vontade de procurar Luiza; mas sem saber porque, sentia um grande acanhamento; como que receava encontral-a differente -ou com outra expresso... E subia a rua devagar, +ou com outra expressão... E subia a rua devagar, sob o seu guarda-sol, hesitando, quando um -coup que descia a trote largo veio parar porta de +coupé que descia a trote largo veio parar á porta de Luiza. <br /> <br /> Um sujeito saltou rapidamente, atirou o charuto, entrou. Era alto, com um bigode levantado, trazia -uma flr no peito; devia ser o primo Bazilio, pensou. +uma flôr no peito; devia ser o primo Bazilio, pensou. O cocheiro limpou o suor da testa, e, cruzando -as pernas, pz-se a enrolar o cigarro. <br /> +as pernas, pôz-se a enrolar o cigarro. <br /> <br /> -Ao ruido do trem o Paula postou-se logo porta, -de bon carregado, as mos enterradas no bolso, -com olhares de revs: a carvoeira defronte, immunda, +Ao ruido do trem o Paula postou-se logo á porta, +de boné carregado, as mãos enterradas no bolso, +com olhares de revés: a carvoeira defronte, immunda, disforme de obesidade e de prenhez, veio embasbacar -com um pasmo lrpa na face oleosa; a -criada do doutor abriu precipitadamente a vidraa. -Ento o Paula atravessou rapidamente a rua faiscante +com um pasmo lôrpa na face oleosa; a +criada do doutor abriu precipitadamente a vidraça. +Então o Paula atravessou rapidamente a rua faiscante <span class="pagenum">[164]</span> de sol, entrou no estanque; d'ahi a um momento -appareceu porta, com a estanqueira, de caro viuvo; +appareceu á porta, com a estanqueira, de carão viuvo; e cochichavam, cravavam olhares perfidos nas -varandas de Luiza, no coup! O Paula, d'alli, arrastando +varandas de Luiza, no coupé! O Paula, d'alli, arrastando as chinellas de tapete, foi segredar com a carvoeira, provocou-lhe uma risada que lhe sacudia a -massa do seio; e foi emfim estacar sua porta entre -um retrato de D. Joo VI e duas velhas cadeiras de +massa do seio; e foi emfim estacar á sua porta entre +um retrato de D. João VI e duas velhas cadeiras de couro, assobiando com jubilo. No silencio da rua ouvia-se -n'um piano, a compasso de estudo, a <em>Orao +n'um piano, a compasso de estudo, a <em>Oração d'uma virgem</em>. <br /> <br /> -Sebastio ao passar olhou machinalmente para as +Sebastião ao passar olhou machinalmente para as janellas de Luiza. <br /> <br /> -—Rico calor, snr. Sebastio!—observou o Paula -curvando-se— um regalo estar fresca! <br /> +—Rico calor, snr. Sebastião!—observou o Paula +curvando-se—É um regalo estar á fresca! <br /> <br /> <br /> <br /> Luiza e Bazilio estavam muito tranquillos, muito felizes na sala, com as portadas meio cerradas, n'uma -penumbra dce. Luiza tinha apparecido de roupo +penumbra dôce. Luiza tinha apparecido de roupão branco, muito fresca, com um bom cheiro de agua d'alfazema. <br /> <br /> -—Eu venho assim mesmo—disse ella.—No -fao ceremonias. <br /> +—Eu venho assim mesmo—disse ella.—Não +faço ceremonias. <br /> <br /> -Mas assim que ella estava linda! Assim que +Mas assim é que ella estava linda! Assim é que a queria sempre!—exclamava Bazilio muito contente, -como se aquelle roupo de manh fosse j +como se aquelle roupão de manhã fosse já uma promessa da sua nudez. <br /> <br /><span class="pagenum">[165]</span> Vinha muito tranquillo, affectava um tom de parente. -No a inquietou com palavras vehementes, +Não a inquietou com palavras vehementes, nem com gestos desejosos: fallou-lhe do calor, d'uma <em>zarzuela</em> que vira na vespera, de velhos amigos -que encontrra, e disse-lhe apenas que tinha sonhado +que encontrára, e disse-lhe apenas que tinha sonhado com ella. <br /> <br /> O que? Que estavam longe, n'uma terra distante, que devia ser a Italia, tantas as estatuas que havia -nas praas, tantas as fontes sonoras que cantavam +nas praças, tantas as fontes sonoras que cantavam nas bacias de marmore; era n'um jardim antigo, -sobre um terrao classico; flres raras transbordavam +sobre um terraço classico; flôres raras transbordavam de vasos florentinos; pousando sobre as balaustradas -esculpidas, paves abriam as caudas; e +esculpidas, pavões abriam as caudas; e ella arrastava devagar sobre as lages quadradas a cauda longa do seu vestido de velludo azul. De resto, -dizia, era um terrao como o de S. Donato, a +dizia, era um terraço como o de S. Donato, a <em>villa</em> do principe Demidoff,—porque lembrava sempre -as suas intimidades illustres, e no se descuidava +as suas intimidades illustres, e não se descuidava de fazer reluzir a gloria das suas viagens. <br /> <br /> E ella, tinha sonhado? <br /> <br /> -Luiza crou.—No, tinha tido muito medo da +Luiza córou.—Não, tinha tido muito medo da trovoada. Tinha ouvido a trovoada, elle? <br /> <br /> —Estava a cear no Gremio, quando trovejou. <br /> @@ -6350,7 +6310,7 @@ trovoada. Tinha ouvido a trovoada, elle? <br /> <br /> Elle teve um sorriso infeliz.—Cear! se se podia chamar cear ir ao Gremio rilhar um bife corneo -e tragar um Collares peonhento! <br /> +e tragar um Collares peçonhento! <br /> <br /> E fitando-a: <br /> <br /> @@ -6359,21 +6319,21 @@ E fitando-a: <br /> Por sua causa? <br /> <br /><span class="pagenum">[166]</span> -—Por quem, ento? Porque vim eu a Lisboa? +—Por quem, então? Porque vim eu a Lisboa? Porque deixei Paris? <br /> <br /> —Por causa dos teus negocios... <br /> <br /> Elle encarou-a severamente: <br /> <br /> -—Obrigado—disse, curvando-se at ao cho. <br /> +—Obrigado—disse, curvando-se até ao chão. <br /> <br /> E a grandes passadas pela sala soprava violentamente o fumo do seu charuto. <br /> <br /> -Veio sentar-se bruscamente ao p d'ella.—No, +Veio sentar-se bruscamente ao pé d'ella.—Não, realmente era injusta. Se estava em Lisboa, era por -ella. S por ella! <br /> +ella. Só por ella! <br /> <br /> Fez uma voz meiga, perguntou-lhe se lhe tinha realmente um bocadinho d'amor muito pequenino, @@ -6385,70 +6345,70 @@ Riram. <br /> <br /> E o peito de Luiza arfava. <br /> <br /> -Elle ento examinou-lhe as unhas; admirou-lh'as +Elle então examinou-lhe as unhas; admirou-lh'as e aconselhou-lhe o verniz que usam as <em>cocottes</em>, que -lhes d um lustre polido; ia-se apossando da sua -mo, pz-lhe um beijo na ponta dos dedos; chupou -o dedo minimo, jurou que era muito dce; arranjou-lhe +lhes dá um lustre polido; ia-se apossando da sua +mão, pôz-lhe um beijo na ponta dos dedos; chupou +o dedo minimo, jurou que era muito dôce; arranjou-lhe com um contacto muito timido uns fios de cabello que se tinham soltado,—e, disse, tinha um pedido a fazer-lhe! <br /> <br /> -Olhava-a com uma supplicao. <br /> +Olhava-a com uma supplicação. <br /> <br /> -—Que ? <br /> +—Que é? <br /> <br /> -— que venhas commigo ao campo. Deve estar +—É que venhas commigo ao campo. Deve estar lindo no campo! <br /> <br /> -Ella no respondeu; dava pancadinhas leves nas -pregas molles do roupo. +Ella não respondeu; dava pancadinhas leves nas +pregas molles do roupão. <br /> <br /><span class="pagenum">[167]</span> -— muito simples—acrescentou elle.—Tu +—É muito simples—acrescentou elle.—Tu vaes-me encontrar a qualquer parte, longe d'aqui, -est claro. Eu estou espera de ti com uma carruagem, +está claro. Eu estou á espera de ti com uma carruagem, tu saltas para dentro e <em>fouette</em>, <em>cocher</em>! <br /> <br /> Luiza hesitava. <br /> <br /> -—No digas que no. <br /> +—Não digas que não. <br /> <br /> —Mas onde? <br /> <br /> -—Onde tu quizeres. A Pao d'Arcos, a Loires, +—Onde tu quizeres. A Paço d'Arcos, a Loires, a Queluz. Dize que sim. <br /> <br /> -A sua voz era muito urgente, quasi ajoelhra. <br /> +A sua voz era muito urgente, quasi ajoelhára. <br /> <br /> -—Que tem? um passeio d'amigos, d'irmos. <br /> +—Que tem? É um passeio d'amigos, d'irmãos. <br /> <br /> -—No! isso no! <br /> +—Não! isso não! <br /> <br /> Bazilio zangou-se, chamou-lhe <em>beata</em>. Quiz sahir. -Ella veio tirar-lhe o chapo da mo, muito meiga, +Ella veio tirar-lhe o chapéo da mão, muito meiga, quasi vencida. <br /> <br /> —Talvez, veremos—dizia. <br /> <br /> -—Dize que sim!—insistia.—S boa rapariga! <br /> +—Dize que sim!—insistia.—Sê boa rapariga! <br /> <br /> -—Pois sim, manh veremos, manh fallaremos. <br /> +—Pois sim, ámanhã veremos, ámanhã fallaremos. <br /> <br /> Mas no dia seguinte, muito habilmente, Bazilio -no fallou no passeio, nem no campo. No fallou +não fallou no passeio, nem no campo. Não fallou tambem do seu amor, nem dos seus desejos. Parecia muito alegre, muito superficial; tinha-lhe trazido o romance de Belot, <em>A mulher de fogo</em>. E sentando-se -ao piano, disse-lhe canes de <em>caf concerto</em>, muito -picantes; imitava a rouquido acre e canalha das cantoras; +ao piano, disse-lhe canções de <em>café concerto</em>, muito +picantes; imitava a rouquidão acre e canalha das cantoras; fel-a rir. <br /> <br /> Depois fallou muito de Paris, contou-lhe a moderna -chronica amorosa, anecdotas, paixes <em>chics</em>. +chronica amorosa, anecdotas, paixões <em>chics</em>. Tudo se passava com duquezas, princezas, d'um modo -dramatico e sensibilisador, s vezes jovial, sempre +dramatico e sensibilisador, ás vezes jovial, sempre <span class="pagenum">[168]</span> cheio de delicias. E, de todas as mulheres de que fallava, dizia recostando-se: Era uma mulher distinctissima, @@ -6456,12 +6416,12 @@ tinha naturalmente o seu amante... <br /> <br /> O adulterio apparecia assim um dever aristocratico. De resto a virtude parecia ser, pelo que elle -contava, o defeito d'um espirito pequeno, ou a occupao +contava, o defeito d'um espirito pequeno, ou a occupação reles d'um temperamento burguez... <br /> <br /> E quando sahiu, disse, como recordando-se: <br /> <br /> -—Sabes que estou com minhas idas de partir?... <br /> +—Sabes que estou com minhas idéas de partir?... <br /> <br /> Ella perguntou, um pouco descorada: <br /> <br /> @@ -6469,7 +6429,7 @@ Ella perguntou, um pouco descorada: <br /> <br /> Bazilio disse, muito indifferente: <br /> <br /> -—Que diabo fao eu aqui?... <br /> +—Que diabo faço eu aqui?... <br /> <br /> Esteve um momento a fitar o tapete, deu um suspiro, e como dominando-se: <br /> @@ -6482,42 +6442,42 @@ Quando n'essa tarde Luiza entrou na sala de jantar, levava os olhos vermelhos. <br /> <br /> Foi ella no dia seguinte que fallou do campo. -Queixou-se do contnuo calor, da -<em>scca</em> de Lisboa. +Queixou-se do contínuo calor, da +<em>sécca</em> de Lisboa. Como devia estar lindo em Cintra! <br /> <br /> -—s tu que no queres—acudiu elle. —Podiamos +—És tu que não queres—acudiu elle. —Podiamos fazer um passeio adoravel. <br /> <br /> -Mas tinha medo, podiam vr... <br /> +Mas tinha medo, podiam vêr... <br /> <br /> -—O qu! N'um coup fechado? Com os <em>stores</em> +—O quê! N'um coupé fechado? Com os <em>stores</em> descidos? <br /> <br /> -Mas ento era peor que estar n'uma sala, era abafar -n'uma bocta! +Mas então era peor que estar n'uma sala, era abafar +n'uma bocêta! <br /> <br /><span class="pagenum">[169]</span> -Mas no! Iam a uma quinta. Podiam ir s <em>Alegrias</em>, - quinta d'um amigo d'elle que estava em -Londres. S viviam l os caseiros, era ao p dos Olivaes, +Mas não! Iam a uma quinta. Podiam ir ás <em>Alegrias</em>, +á quinta d'um amigo d'elle que estava em +Londres. Só viviam lá os caseiros, era ao pé dos Olivaes, era lindo! Bellas ruas de loureiros, sombras adoraveis. Podiam levar gelo, champagne... <br /> <br /> —Vem!—disse bruscamente, tomando-lhe as -mos. <br /> +mãos. <br /> <br /> -Ella crou.—Talvez. No domingo veria. <br /> +Ella córou.—Talvez. No domingo veria. <br /> <br /> -Bazilio conservava-lhe as mos presas. Os seus +Bazilio conservava-lhe as mãos presas. Os seus olhos encontraram-se, humedeceram-se. Ella sentiu-se -muito perturbada; desprendeu as mos; foi abrir as -vidraas ambas, dar sala uma claridade larga como -uma publicidade; sentou-se n'uma cadeira ao p do -piano, receando a penumbra, o soph, todas as cumplicidades; +muito perturbada; desprendeu as mãos; foi abrir as +vidraças ambas, dar á sala uma claridade larga como +uma publicidade; sentou-se n'uma cadeira ao pé do +piano, receando a penumbra, o sophá, todas as cumplicidades; e pediu-lhe que cantasse alguma cousa, -porque j temia as palavras, tanto como os silencios! -Bazilio cantou a <em>Medj</em>, a melodia de Gounod, to +porque já temia as palavras, tanto como os silencios! +Bazilio cantou a <em>Medjé</em>, a melodia de Gounod, tão sensual e perturbadora. Aquellas notas quentes passavam-lhe na alma como bafos d'uma noite electrica. E quando Bazilio sahiu, ficou sentada, quebrada, @@ -6525,171 +6485,171 @@ como depois d'um excesso. <br /> <br /> <br /> <br /> -Sebastio tinha estado nos ultimos tres dias em +Sebastião tinha estado nos ultimos tres dias em Almada, na quinta do Rozegal, onde trazia obras. -Voltra na segunda-feira cedo, e, pelas dez horas, +Voltára na segunda-feira cedo, e, pelas dez horas, sentado no poial da janella de jantar que abria para <span class="pagenum">[170]</span> -o terraosinho, esperava o seu almoo, brincando +o terraçosinho, esperava o seu almoço, brincando com o <em>Rolim</em>—o seu gato, amigo e confidente da illustre Vicencia, nedio como um prelado, ingrato como um tyranno. <br /> <br /> -A manh comeava a aquecer; o quintal estava -j cheio de sol; na agua do tanque, sob a parreira, +A manhã começava a aquecer; o quintal estava +já cheio de sol; na agua do tanque, sob a parreira, claridades espelhadas e tremulas faiscavam. Nas duas gaiolas os canarios cantavam estridentemente. <br /> <br /> A tia Joanna, que andava a arranjar a mesa do -almoo muito calada, poz-se ento a dizer com a sua -vozinha arrastada e minhta: <br /> +almoço muito calada, poz-se então a dizer com a sua +vozinha arrastada e minhôta: <br /> <br /> —Ora esteve ahi hontem a Gertrudes, a do doutor, com uns palratorios, com umas tontices!... <br /> <br /> -—A respeito de qu, tia Joanna?—perguntou -Sebastio. <br /> +—A respeito de quê, tia Joanna?—perguntou +Sebastião. <br /> <br /> —A respeito d'um rapaz, que diz que vai agora todos os dias a casa da Luizinha. <br /> <br /> -Sebastio ergueu-se logo: <br /> +Sebastião ergueu-se logo: <br /> <br /> —Que disse ella, tia Joanna? <br /> <br /> A velha assentava a toalha devagar com a sua -mo gorducha espalmada: <br /> +mão gorducha espalmada: <br /> <br /> -—Esteve ahi a palrar. Quem seria, quem no -seria? Diz que um perfeito rapaz. Vem todos os +—Esteve ahi a palrar. Quem seria, quem não +seria? Diz que é um perfeito rapaz. Vem todos os dias. Vem de trem, vai de trem... No sabbado que -estivera at quasi noitinha. E cantou-se na sala, +estivera até quasi á noitinha. E cantou-se na sala, diz que uma voz que nem no theatro... <br /> <br /> -Sebastio interrompeu-a, impaciente: <br /> +Sebastião interrompeu-a, impaciente: <br /> <br /> -— o primo, tia Joanna. Ento quem havia de -ser? o primo que chegou do Brazil. <br /> +—É o primo, tia Joanna. Então quem havia de +ser? É o primo que chegou do Brazil. <br /> <br /> A tia Joanna teve um bom sorriso. <br /> <br /><span class="pagenum">[171]</span> —Eu logo vi que era cousa de parente. Pois diz -que um perfeito rapaz! E todo janota! <br /> +que é um perfeito rapaz! E todo janota! <br /> <br /> E sahindo para a cozinha, devagar: <br /> <br /> —Eu logo vi que era parente, logo disse!... <br /> <br /> -Sebastio almoou inquieto. Positivamente a visinhana -j se punha a mexericar, a commentar! Estava-se +Sebastião almoçou inquieto. Positivamente a visinhança +já se punha a mexericar, a commentar! Estava-se a armar um escandalo!—E, assustado, decidiu-se -logo a ir consultar Julio. <br /> +logo a ir consultar Julião. <br /> <br /> Descia a rua de S. Roque para casa d'elle, quando o viu, que subia devagar pela sombra, com um rolo -de papel debaixo do brao, uma cala branca enxovalhada, +de papel debaixo do braço, uma calça branca enxovalhada, o ar suado. <br /> <br /> -—Ia a tua casa, homem!—disse Sebastio logo. <br /> +—Ia a tua casa, homem!—disse Sebastião logo. <br /> <br /> -Julio estranhou a excitao desusada da sua voz. <br /> +Julião estranhou a excitação desusada da sua voz. <br /> <br /> Havia alguma novidade? Que era? <br /> <br /> -—Uma do diabo!—exclamou, baixo, Sebastio. <br /> +—Uma do diabo!—exclamou, baixo, Sebastião. <br /> <br /> -Estavam parados ao p da confeitaria. Na vidraa, -por traz d'elles, emprateleirava-se uma exposio +Estavam parados ao pé da confeitaria. Na vidraça, +por traz d'elles, emprateleirava-se uma exposição de garrafas de malvasia com os seus letreiros muito coloridos, transparencias avermelhadas de gelatinas, -amarellides enjoativas de dces d'ovos, e -quques d'um castanho escuro tendo espetados cravos -tristes de papel branco ou cr de rosa. Velhas -natas lividas amollentavam-se no co dos folhados; -ladrilhos grossos de marmelada esbeiavam-se ao calor; +amarellidões enjoativas de dôces d'ovos, e +quéques d'um castanho escuro tendo espetados cravos +tristes de papel branco ou côr de rosa. Velhas +natas lividas amollentavam-se no ôco dos folhados; +ladrilhos grossos de marmelada esbeiçavam-se ao calor; as empadinhas de marisco agglomeravam as suas -crstas resequidas. E no centro, muito proeminente +crôstas resequidas. E no centro, muito proeminente n'uma travessa, enroscava-se uma lampreia d'ovos medonha e bojuda, com o ventre d'um amarello ascoroso, o dorso malhado d'arabescos d'assucar, a <span class="pagenum">[172]</span> -bocca escancarada: na sua cabea grossa esbogalhavam-se +bocca escancarada: na sua cabeça grossa esbogalhavam-se dous horriveis olhos de chocolate; os seus dentes d'amendoa ferravam-se n'uma tangerina de -chila; e em torno do monstro espapado moscas esvoaavam. <br /> +chila; e em torno do monstro espapado moscas esvoaçavam. <br /> <br /> -—Vamos alli para o caf—disse Julio.—Aqui +—Vamos alli para o café—disse Julião.—Aqui na rua arde-se! <br /> <br /> -—Tenho estado apoquentado—ia dizendo Sebastio.—Muito +—Tenho estado apoquentado—ia dizendo Sebastião.—Muito apoquentado! Quero fallar-te. <br /> <br /> -No caf o papel azul ferrete e as meias portas fechadas +No café o papel azul ferrete e as meias portas fechadas abatiam a aspera intensidade da luz, davam uma frescura calada. <br /> <br /> Foram-se sentar ao fundo. Do outro lado da rua -as fachadas muito caiadas brilhavam com uma radiao -faiscante. Por traz do balco, onde reluziam garrafas -de crystal, um criado de jaqueto, estremunhado +as fachadas muito caiadas brilhavam com uma radiação +faiscante. Por traz do balcão, onde reluziam garrafas +de crystal, um criado de jaquetão, estremunhado e esguedelhado, cabeceava de somno. Um passaro -chilreava dentro; sentia-se o bater espaado das bolas -do bilhar atravs d'uma porta de baeta verde; -s vezes o prego de um cangalheiro na rua sobresahia, +chilreava dentro; sentia-se o bater espaçado das bolas +do bilhar através d'uma porta de baeta verde; +ás vezes o pregão de um cangalheiro na rua sobresahia, e—todos estes sons, por momentos, se perdiam no ruido forte do descer d'um trem travado. <br /> <br /> Defronte d'elles um sujeito de ar debochado lia um jornal; as suas melenas grisalhas collavam-se a um craneo amarellado; o bigode tinha tons queimados -do cigarro; e das noitadas ficra-lhe uma vermelhido +do cigarro; e das noitadas ficára-lhe uma vermelhidão inflammada nas palpebras. De vez em quando -erguia preguiosamente a cabea, atirava para o cho +erguia preguiçosamente a cabeça, atirava para o chão areado um jacto escuro de saliva, dava uma sacudidella triste ao jornal e tornava a fital-o com um olhar <span class="pagenum">[173]</span> infeliz. Quando os dous entraram e pediram carapinhadas, -abaixou-lhes gravemente a cabea. <br /> +abaixou-lhes gravemente a cabeça. <br /> <br /> -—Mas o que ento?—perguntou logo Julio. <br /> +—Mas o que é então?—perguntou logo Julião. <br /> <br /> -Sebastio chegou-se mais para elle: <br /> +Sebastião chegou-se mais para elle: <br /> <br /> -— por causa l da nossa gente. Por causa do +—É por causa lá da nossa gente. Por causa do primo—disse baixo. <br /> <br /> E acrescentou: <br /> <br /> —Tu vistel-o, hein? <br /> <br /> -A lembrana repentina da sua humilhao na sala -de Luiza trouxe um rubor s faces de Julio. Mas +A lembrança repentina da sua humilhação na sala +de Luiza trouxe um rubor ás faces de Julião. Mas muito orgulhoso, disse seccamente: <br /> <br /> —Vi. <br /> <br /> -—E ento? <br /> +—E então? <br /> <br /> -—Pareceu-me um asno!—exclamou, no se +—Pareceu-me um asno!—exclamou, não se contendo. <br /> <br /> -—E um extravagante—disse com terror Sebastio—No +—E um extravagante—disse com terror Sebastião—Não te pareceu, hein? <br /> <br /> —Pareceu-me um asno—repetiu.—Umas maneiras, -uma affectao, um alambicado, a olhar muito +uma affectação, um alambicado, a olhar muito para as meias, umas meias ridiculas de mulher... <br /> <br /> E com um certo sorriso azedado: <br /> <br /> —Eu mostrei-lhe francamente as minhas botas. Estas—disse, apontando para os botins mal engraxados—tenho -muita honra n'ellas, so de quem +muita honra n'ellas, são de quem trabalha... <br /> <br /> Porque publicamente costumava gloriar-se d'uma -pobreza, que intimamente no cessava de o humilhar. <br /> +pobreza, que intimamente não cessava de o humilhar. <br /> <br /> E remexendo devagar a sua carapinhada: <br /> @@ -6697,157 +6657,157 @@ E remexendo devagar a sua carapinhada: —Uma besta!—resumiu. <br /> <br /> —Tu sabes que elle foi namoro da Luiza?—disse -Sebastio, baixo, como assustado da gravidade +Sebastião, baixo, como assustado da gravidade da confidencia. <br /> <br /> E respondendo logo ao olhar surprehendido de -Julio: <br /> +Julião: <br /> <br /> —Sim. Ninguem o sabe. Nem Jorge. Eu soube-o ha pouco, ha mezes. Foi. Estiveram para casar. Depois -o pai falliu, elle foi para o Brazil, e de l escreveu +o pai falliu, elle foi para o Brazil, e de lá escreveu a romper o casamento. <br /> <br /> -Julio sorriu, e encostando a cabea parede: <br /> +Julião sorriu, e encostando a cabeça á parede: <br /> <br /> -—Mas isso o enredo da <em>Eugenia Grandet</em>, Sebastio! -Ests-me a contar o romance de Balzac! -Isso a <em>Eugenia Grandet</em>! <br /> +—Mas isso é o enredo da <em>Eugenia Grandet</em>, Sebastião! +Estás-me a contar o romance de Balzac! +Isso é a <em>Eugenia Grandet</em>! <br /> <br /> -Sebastio fitou-o espantado. <br /> +Sebastião fitou-o espantado. <br /> <br /> -—Ora! no se pde fallar serio comtigo. Dou-te +—Ora! não se póde fallar serio comtigo. Dou-te a minha palavra d'honra—acrescentou vivamente. <br /> <br /> -—V, Sebastio, v, dize. <br /> +—Vá, Sebastião, vá, dize. <br /> <br /> Houve um silencio. O sujeito calvo, agora, contemplava o estuque do tecto sujo do fumo dos cigarros -e do pousar das moscas; e, com a mo sapuda, -de tom pegajoso, cofiava amorosamente as rpas. No +e do pousar das moscas; e, com a mão sapuda, +de tom pegajoso, cofiava amorosamente as rêpas. No bilhar vozes altercavam. <br /> <br /> -Sebastio ento, como tomado d'uma resoluo, +Sebastião então, como tomado d'uma resolução, disse bruscamente: <br /> <br /> -—E agora vai l todos os dias, no sahe de l! <br /> +—E agora vai lá todos os dias, não sahe de lá! <br /> <br /> -Julio afastou-se na banqueta e encarou-o: <br /> +Julião afastou-se na banqueta e encarou-o: <br /> <br /> —Tu queres-me dar a entender alguma cousa, -Sebastio? <br /> +Sebastião? <br /> <br /> E com uma vivacidade quasi jovial: <br /> <br /><span class="pagenum">[175]</span> —O primo atira-se? <br /> <br /> -Aquella palavra escandalisou Sebastio. <br /> +Aquella palavra escandalisou Sebastião. <br /> <br /> -— Julio!—E severamente:—Com essas cousas -no se brinca! <br /> +—Ó Julião!—E severamente:—Com essas cousas +não se brinca! <br /> <br /> -Julio encolheu os hombros. <br /> +Julião encolheu os hombros. <br /> <br /> -—Mas est claro que se atira!—exclamou.—s -de bom tempo ainda! Est claro que sim! Namorou-a +—Mas está claro que se atira!—exclamou.—És +de bom tempo ainda! Está claro que sim! Namorou-a solteira, agora quel-a casada! <br /> <br /> -—Falla baixo—acudiu Sebastio. <br /> +—Falla baixo—acudiu Sebastião. <br /> <br /> Mas o criado dormitava, e o sujeito calvo tinha recahido na sua leitura funebre. <br /> <br /> -Julio baixou a voz: <br /> +Julião baixou a voz: <br /> <br /> -—Mas sempre assim, Sebastio. O primo Bazilio -tem razo; quer o prazer sem a responsabilidade! <br /> +—Mas é sempre assim, Sebastião. O primo Bazilio +tem razão; quer o prazer sem a responsabilidade! <br /> <br /> E quasi ao ouvido d'elle: <br /> <br /> -— de graa, amigo Sebastio! de graa! Tu -no imaginas que influencia isto tem no sentimento! <br /> +—É de graça, amigo Sebastião! É de graça! Tu +não imaginas que influencia isto tem no sentimento! <br /> <br /> Riu-se. Estava radioso; as palavras, as pilherias vinham-lhe com abundancia: <br /> <br /> -—Ha um marido que a veste, que a cala, que -a alimenta, que a engomma, que a vela se est -doente, que a atura se ella est nervosa, que tem +—Ha um marido que a veste, que a calça, que +a alimenta, que a engomma, que a vela se está +doente, que a atura se ella está nervosa, que tem todos os encargos, todos os tedios, todos os filhos, todos, todos os que vierem, sabes a lei... Por consequencia -o primo no tem mais que chegar, bater -ao ferrolho, encontra-a aceada, fresca, appetitosa +o primo não tem mais que chegar, bater +ao ferrolho, encontra-a aceada, fresca, appetitosa á custa do marido, e... <br /> <br /> Teve um risinho, recostou-se com uma grande -satisfao, enrolando deliciosamente o cigarro, regosijando-se +satisfação, enrolando deliciosamente o cigarro, regosijando-se no escandalo. <br /> <br /><span class="pagenum">[176]</span> -— optimo!—acrescentou.—Todos os primos -raciocinam assim. Bazilio primo, logo... Sabes o -syllogismo, Sebastio! Sabes o syllogismo, menino!—gritou, +—É optimo!—acrescentou.—Todos os primos +raciocinam assim. Bazilio é primo, logo... Sabes o +syllogismo, Sebastião! Sabes o syllogismo, menino!—gritou, dando-lhe uma palmada na perna. <br /> <br /> -— o diabo—murmurou Sebastio cabisbaixo. <br /> +—É o diabo—murmurou Sebastião cabisbaixo. <br /> <br /> Mas revoltando-se contra a suspeita que o ia dominando: <br /> <br /> -—Mas tu suppes que uma rapariga de bem... <br /> +—Mas tu suppões que uma rapariga de bem... <br /> <br /> -—Eu no supponho nada!—acudiu Julio. <br /> +—Eu não supponho nada!—acudiu Julião. <br /> <br /> —Falla baixo, homem! <br /> <br /> -—Eu no supponho nada—repetiu Julio baixinho.—Eu +—Eu não supponho nada—repetiu Julião baixinho.—Eu affirmo o que elle faz. Agora ella... <br /> <br /> E acrescentou com seccura: <br /> <br /> -—Como uma rapariga honesta... <br /> +—Como é uma rapariga honesta... <br /> <br /> -—Se !—exclamou Sebastio, batendo uma +—Se é!—exclamou Sebastião, batendo uma punhada na pedra da mesa. <br /> <br /> -—Prompto!—cantou arrastadamente o moo. <br /> +—Prompto!—cantou arrastadamente o moço. <br /> <br /> O velho calvo ergueu-se logo; mas vendo que o -criado se recolhia ao balco bocejando, e que os +criado se recolhia ao balcão bocejando, e que os dous continuavam a remexer a sua carapinhada, encostou -os cotovlos mesa, salivou para longe, e +os cotovêlos á mesa, salivou para longe, e puxando o jornal deixou-lhe cahir em cima um olhar desolado. <br /> <br /> -Sebastio disse, ento, com tristeza: <br /> +Sebastião disse, então, com tristeza: <br /> <br /> -—A questo no por ella. A questo pela -visinhana. <br /> +—A questão não é por ella. A questão é pela +visinhança. <br /> <br /> -Ficaram um momento calados. A altercao de +Ficaram um momento calados. A altercação de vozes no bilhar crescia. <br /> <br /> -—Mas—disse Julio, como sahindo d'uma reflexo—a -visinhana? Como a visinhana? +—Mas—disse Julião, como sahindo d'uma reflexão—a +visinhança? Como a visinhança? <br /> <br /><span class="pagenum">[177]</span> -—Sim, homem! Vem entrar para l o rapaz. -Vem de tipoia, faz um escandalo na rua. J se falla. -J vieram com mexericos tia Joanna. Ha dias encontrei +—Sim, homem! Vêem entrar para lá o rapaz. +Vem de tipoia, faz um escandalo na rua. Já se falla. +Já vieram com mexericos á tia Joanna. Ha dias encontrei o Netto que reparou. O Cunha tambem. O -homem dos trastes, em baixo, no se faz nada que -elle no d f: so umas linguas de tremer. Ha dias +homem dos trastes, em baixo, não se faz nada que +elle não dê fé: são umas linguas de tremer. Ha dias ia eu a passar quando o primo se apeou da carruagem para entrar, e foram logo conciliabulos na rua, -olhadellas para a janella, o diabo! Vai l todos os -dias. Sabem que o Jorge est no Alemtejo... Est -duas e tres horas. muito serio, muito serio! <br /> +olhadellas para a janella, o diabo! Vai lá todos os +dias. Sabem que o Jorge está no Alemtejo... Está +duas e tres horas. É muito serio, é muito serio! <br /> <br /> -—Mas ella ento tola! <br /> +—Mas ella então é tola! <br /> <br /> -—No v o mal... <br /> +—Não vê o mal... <br /> <br /> -Julio encolheu os hombros, duvidando. <br /> +Julião encolheu os hombros, duvidando. <br /> <br /> Mas a porta de baeta do bilhar abriu-se; um homem herculeo, de bigode negro, muito escarlate, sahiu @@ -6860,103 +6820,103 @@ Uma voz grossa, do bilhar, respondeu-lhe uma obscenidade. <br /> <br /> O sujeito herculeo atirou a porta, furioso; atravessou -o caf resfolegando, apopletico; um rapaz -chupado, de jaqueto de inverno e cala branca, seguia-o, +o café resfolegando, apopletico; um rapaz +chupado, de jaquetão de inverno e calça branca, seguia-o, com um ar gingado. <br /> <br /> —O que eu devia fazer—exclamava o agigantado, -brandindo o punho—era quebrar a cara quelle +brandindo o punho—era quebrar a cara áquelle pulha! <br /> <br /> -O rapaz chupado, dizia, com doura e servilismo, +O rapaz chupado, dizia, com doçura e servilismo, bamboleando-se: <br /> <br /><span class="pagenum">[178]</span> -—Questes no servem para nada, s Corra! <br /> +—Questões não servem para nada, sô Corrêa! <br /> <br /> -— que sou muito prudente—berrou o herculeo.— -que me lembro que tenho mulher e filhos! Seno +—É que sou muito prudente—berrou o herculeo.—É +que me lembro que tenho mulher e filhos! Senão bebia-lhe o sangue! <br /> <br /> E sahindo, a sua voz roncante perdeu-se no rumor da rua. <br /> <br /> -O criado muito pallido, tremia dentro do balco; -e o sujeito calvo, que erguera a cabea, teve um +O criado muito pallido, tremia dentro do balcão; +e o sujeito calvo, que erguera a cabeça, teve um sorriso de tedio, e retomou tristemente o jornal. <br /> <br /> -Sebastio, ento, disse reflectindo: <br /> +Sebastião, então, disse reflectindo: <br /> <br /> -—No te parece que seria bom avisal-a? <br /> +—Não te parece que seria bom avisal-a? <br /> <br /> -Julio encolheu os hombros, soltou uma baforada +Julião encolheu os hombros, soltou uma baforada de fumo. <br /> <br /> -—Dize alguma cousa!—implorou Sebastio—Tu -no ias fallar-lhe, hein? <br /> +—Dize alguma cousa!—implorou Sebastião—Tu +não ias fallar-lhe, hein? <br /> <br /> -—Eu?—exclamou Julio com um aspecto que -repellia a ida.—Eu! Ests doudo! <br /> +—Eu?—exclamou Julião com um aspecto que +repellia a idéa.—Eu! Estás doudo! <br /> <br /> —Mas que te parece, emfim? <br /> <br /> -E a voz de Sebastio tinha quasi uma afflico. <br /> +E a voz de Sebastião tinha quasi uma afflicção. <br /> <br /> -Julio hesitou: <br /> +Julião hesitou: <br /> <br /> —Vai, se queres. Dize-lhe que se tem reparado... -Emfim, eu no sei, meu amigo! <br /> +Emfim, eu não sei, meu amigo! <br /> <br /> -E pz-se a chupar o seu cigarro. <br /> +E pôz-se a chupar o seu cigarro. <br /> <br /> -Aquelle mutismo affectou Sebastio. Disse com -desconsolao: <br /> +Aquelle mutismo affectou Sebastião. Disse com +desconsolação: <br /> <br /> —Homem, vim-te pedir um conselho... <br /> <br /> -—Mas que diabo queres tu?—E a voz de Julio -irritava-se.—A culpa d'ella. d'ella!—insistiu, -vendo o olhar de Sebastio.— uma mulher de vinte +—Mas que diabo queres tu?—E a voz de Julião +irritava-se.—A culpa é d'ella. É d'ella!—insistiu, +vendo o olhar de Sebastião.—É uma mulher de vinte e cinco annos, casada ha quatro, deve saber que <span class="pagenum">[179]</span> -se no recebe todos os dias um peralvilho, n'uma -rua pequena, com a visinhana a postos! Se o faz, - porque lhe agrada. <br /> +se não recebe todos os dias um peralvilho, n'uma +rua pequena, com a visinhança a postos! Se o faz, +é porque lhe agrada. <br /> <br /> -— Julio!—disse muito severamente Sebastio. <br /> +—Ó Julião!—disse muito severamente Sebastião. <br /> <br /> E dominando-se, com a voz commovida: <br /> <br /> -—No tens razo, no tens razo! <br /> +—Não tens razão, não tens razão! <br /> <br /> Calou-se muito magoado. <br /> <br /> -Julio levantou-se. <br /> +Julião levantou-se. <br /> <br /> -—Amigo Sebastio, eu digo o que penso, tu fazes +—Amigo Sebastião, eu digo o que penso, tu fazes o que entendes. <br /> <br /> Chamou o criado. <br /> <br /> -—Deixa—disse Sebastio precipitadamente, pagando. <br /> +—Deixa—disse Sebastião precipitadamente, pagando. <br /> <br /> -Iam sahir. Mas ento o sujeito calvo, atirando o +Iam sahir. Mas então o sujeito calvo, atirando o jornal, arremessou-se para a porta, abriu-a, curvou-se, -e estendeu a Sebastio um papel enxovalhado. <br /> +e estendeu a Sebastião um papel enxovalhado. <br /> <br /> -Sebastio, surprehendido, leu alto, machinalmente: <br /> +Sebastião, surprehendido, leu alto, machinalmente: <br /> <br /> -O abaixo assignado, antigo empregado da nao, -reduzido miseria... <br /> +«O abaixo assignado, antigo empregado da nação, +reduzido á miseria...» <br /> <br /> —Fui intimo amigo do nobre duque de Saldanha!—gemeu -chorosamente, com uma rouquido, +chorosamente, com uma rouquidão, o sujeito calvo. <br /> <br /> -Sebastio crou, comprimentou, metteu-lhe na -mo duas placas de cinco tostes, discretamente. <br /> +Sebastião córou, comprimentou, metteu-lhe na +mão duas placas de cinco tostões, discretamente. <br /> <br /> -O sujeito dobrou profundamente o espinhao, e +O sujeito dobrou profundamente o espinhaço, e declamou com uma voz cava: <br /> <br /> —Mil agradecimentos a v. exc.<sup>a</sup>, snr. conde! @@ -6968,61 +6928,61 @@ declamou com uma voz cava: <br /> </h3> <br /> <br /> -A manh estava abrazadora. Um pouco depois do +A manhã estava abrazadora. Um pouco depois do meio dia, Joanna, estirada n'uma velha cadeira de vime da ilha da Madeira que havia na cozinha, dormitava -a ssta. Como madrugava muito, quella hora +a sésta. Como madrugava muito, áquella hora da calma vinha-lhe sempre uma quebreira. <br /> <br /> As janellas estavam cerradas ao sol faiscante; as panellas no lume faziam um <em>ron-ron</em> dormente; e toda a casa, muito silenciosa, parecia amodorroada no amollecimento do calor torrido, quando Juliana entrou -como uma rajada, atirou para o cho, furiosa, -uma braada de roupa suja, e gritou: <br /> +como uma rajada, atirou para o chão, furiosa, +uma braçada de roupa suja, e gritou: <br /> <br /> -—Raios me partam se no ha um escandalo +—Raios me partam se não ha um escandalo n'esta casa que vai tudo raso! <br /> <br /> Joanna deu um salto estremunhada. <br /> <br /> —Quem quer as cousas em ordem olha por ellas!—berrava <span class="pagenum">[182]</span> -a outra com os olhos injectados.—No - estar todo o dia na sala a palrar com as visitas! <br /> +a outra com os olhos injectados.—Não +é estar todo o dia na sala a palrar com as visitas! <br /> <br /> A cozinheira foi fechar a porta precipitadamente, -j assustada. <br /> +já assustada. <br /> <br /> —Que foi, snr.<sup>a</sup> Juliana, que foi? <br /> <br /> -—Est com a mosca! Tem o sangue a ferver! -Sangrias! sangrias! Tem peguilhado por tudo! No -estou para a aturar, no estou! <br /> +—Está com a mosca! Tem o sangue a ferver! +Sangrias! sangrias! Tem peguilhado por tudo! Não +estou para a aturar, não estou! <br /> <br /> -E batia o p com phrenesi. <br /> +E batia o pé com phrenesi. <br /> <br /> —Mas que foi? que foi? <br /> <br /> —Diz que os collarinhos tinham pouca gomma, -pz-se a despropositar! Estou farta de a aturar! Estou -farta! Estou at aqui!—bradava, puxando a -pelle engelhada da garganta.—Pois que me no faa +pôz-se a despropositar! Estou farta de a aturar! Estou +farta! Estou até aqui!—bradava, puxando a +pelle engelhada da garganta.—Pois que me não faça sahir de mim! Que me vou, e pespego-lhe na cara -por qu! Desde que aqui temos homem e pouca +por quê! Desde que aqui temos homem e pouca vergonha, boas noites!... Quem quizer que se metta em alhadas... <br /> <br /> -— snr.<sup>a</sup> Juliana, pelo amor de Deus! Jesus!—E -a Joanna apertava a cabea nas mos.—Ai, se +—Ó snr.<sup>a</sup> Juliana, pelo amor de Deus! Jesus!—E +a Joanna apertava a cabeça nas mãos.—Ai, se a senhora ouve! <br /> <br /> -—Que oua, digo-lh'o na cara! Estou farta! estou +—Que ouça, digo-lh'o na cara! Estou farta! estou farta! <br /> <br /> Mas, de repente, fez-se branca como a cal, cahiu -sobre a cadeira de vime com as duas mos contra -o corao, os olhos em alvo. <br /> +sobre a cadeira de vime com as duas mãos contra +o coração, os olhos em alvo. <br /> <br /> —Snr.<sup>a</sup> Juliana!—gritou Joanna—Snr.<sup>a</sup> Juliana! Falle! <br /> @@ -7031,12 +6991,12 @@ Borrifou-a d'agua; sacudia-a, anciosamente. <br /> <br /><span class="pagenum">[183]</span> —Nossa Senhora nos valha! Nossa Senhora nos -valha! Est melhor? Falle! <br /> +valha! Está melhor? Falle! <br /> <br /> Juliana deu um suspiro longo, d'allivio, cerrou as palpebras. E arquejava devagarinho, muito prostrada. <br /> <br /> -—Como se sente? Quer um caldinho? fraqueza, +—Como se sente? Quer um caldinho? É fraqueza, ha-de ser fraqueza... <br /> <br /> —Foi a pontada—murmurou Juliana. <br /> @@ -7052,46 +7012,46 @@ em collete e saia branca. <br /> Que barulho era aquelle? <br /> <br /> —A snr.<sup>a</sup> Juliana que lhe tinha dado uma cousa, -quasi desmaira... <br /> +quasi desmaiára... <br /> <br /> —Foi a pontada—balbuciou Juliana. <br /> <br /> -E erguendo-se, com um esforo: <br /> +E erguendo-se, com um esforço: <br /> <br /> -—Se a senhora no precisa nada, vou ao medico... <br /> +—Se a senhora não precisa nada, vou ao medico... <br /> <br /> -—V, v!—disse Luiza logo. E desceu. <br /> +—Vá, vá!—disse Luiza logo. E desceu. <br /> <br /> -Juliana pz-se a tomar o seu caldo com um vagar +Juliana pôz-se a tomar o seu caldo com um vagar moribundo. Joanna consolava-a baixo:—Tambem, a snr.<sup>a</sup> Juliana arrenegava-se por qualquer cousa. -E quando a gente tem pouca saude no ha nada +E quando a gente tem pouca saude não ha nada peor que emphrenesiar-se... <br /> <br /> -— que no imagina!—e abafava a voz arregalando -os olhos—Tem estado de no se poder aturar! -Est-se a vestir que nem para uma partida! +—É que não imagina!—e abafava a voz arregalando +os olhos—Tem estado de não se poder aturar! +Está-se a vestir que nem para uma partida! <span class="pagenum">[184]</span> Amarfanhou uns poucos de collares, atirou-os para o -cho, que eu engommava que era uma porcaria, que -no servia para nada... Ai! Estou farta!—repetia—Estou +chão, que eu engommava que era uma porcaria, que +não servia para nada... Ai! Estou farta!—repetia—Estou farta! <br /> <br /> -— ter paciencia! Todos tem a sua cruz! <br /> +—É ter paciencia! Todos tem a sua cruz! <br /> <br /> Juliana teve um sorriso livido, ergueu-se com um grande <em>ai!</em>, escabichou os dentes, apanhou a roupa -suja, e subiu ao soto. <br /> +suja, e subiu ao sotão. <br /> <br /> D'ahi a pouco, de luvas pretas, muito amarella, sahiu. <br /> <br /> Ao dobrar a esquina da rua, defronte do estanque, -parou indecisa. At ao medico era um estiro!... +parou indecisa. Até ao medico era um estirão!... E estava, que lhe tremiam as pernas!... Mas tambem, -largar tres tostes para trem!... <br /> +largar tres tostões para trem!... <br /> <br /> -—Pst, pst!—fez do lado uma voz dce. <br /> +—Pst, pst!—fez do lado uma voz dôce. <br /> <br /> Era a estanqueira, com o seu longo vestido de luto tingido, o seu sorriso desconsolado. <br /> @@ -7104,26 +7064,26 @@ muito gosto—disse.—E como ia de saude? <br /> <br /> Mal. Dera-lhe a pontada. Ia ao medico... <br /> <br /> -Mas a estanqueira no tinha f nos medicos. Era -dinheiro deitado rua... Citou a doena do seu homem, -os gastos, um <em>rr</em> de moedas. E para que? -para o vr penar e morrer como se nada fosse! Era +Mas a estanqueira não tinha fé nos medicos. Era +dinheiro deitado á rua... Citou a doença do seu homem, +os gastos, um <em>rôr</em> de moedas. E para que? +para o vêr penar e morrer como se nada fosse! Era um dinheiro que sempre chorava! <br /> <br /> E suspirou. Emfim, fosse feita a vontade de Deus! -E l por casa do snr. Engenheiro? <br /> +E lá por casa do snr. Engenheiro? <br /> <br /> —Tudo sem novidade. <br /> <br /><span class="pagenum">[185]</span> -— snr.<sup>a</sup> Juliana, quem aquelle rapaz que vai -agora por l todos os dias? <br /> +—Ó snr.<sup>a</sup> Juliana, quem é aquelle rapaz que vai +agora por lá todos os dias? <br /> <br /> Juliana respondeu logo: <br /> <br /> -— o primo da senhora. <br /> +—É o primo da senhora. <br /> <br /> -—Do-se muito!... <br /> +—Dão-se muito!... <br /> <br /> —Parece. <br /> <br /> @@ -7133,61 +7093,61 @@ Tossiu, e com um comprimentosinho: <br /> <br /> E foi resmungando: <br /> <br /> -—Ora, fica-te a chuchar no dedo, lsma! <br /> +—Ora, fica-te a chuchar no dedo, lêsma! <br /> <br /> -Juliana detestava a visinhana; sabia que a escarneciam, +Juliana detestava a visinhança; sabia que a escarneciam, que a imitavam, que lhe chamavam a -<em>tripa velha</em>!...—Pois tambem d'ella no haviam +<em>tripa velha</em>!...—Pois tambem d'ella não haviam de saber nada! Podiam rebentar de curiosidade! Vinham de carrinho! Boa! Tudo o que visse ou que -lhe cheirasse havia de ficar guardadinho, l dentro.—Para -uma occasio!—pensava com rancor, sacudindo +lhe cheirasse havia de ficar guardadinho, lá dentro.—Para +uma occasião!—pensava com rancor, sacudindo os quadris. <br /> <br /> -A estanqueira ficou porta, despeitada. E o Paula +A estanqueira ficou á porta, despeitada. E o Paula dos moveis, que as vira conversar, veio logo, deslisando subtilmente nas suas chinellas de tapete: <br /> <br /> -—Ento a <em>tripa velha</em> escorregou-se? <br /> +—Então a <em>tripa velha</em> escorregou-se? <br /> <br /> -—Ai! no se lhe tira nada! <br /> +—Ai! não se lhe tira nada! <br /> <br /> -O Paula enterrou as mos nos bolsos, com tedio: <br /> +O Paula enterrou as mãos nos bolsos, com tedio: <br /> <br /> —Aquillo, a do Engenheiro besunta-lhe as -mos... ella quem leva a cartinha, quem abre a +mãos... É ella quem leva a cartinha, quem abre a portita de noite... <br /> <br /> -—Tanto no direi! Credo! <br /> +—Tanto não direi! Credo! <br /> <br /> O Paula fitou-a com superioridade: <br /> <br /> -—A snr.<sup>a</sup> Helena est ahi ao seu balco... Mas +—A snr.<sup>a</sup> Helena está ahi ao seu balcão... Mas <span class="pagenum">[186]</span> -eu que as conheo, as mulheres da alta sociedade! -Conheo-as nas pontas dos dedos. uma cambada! <br /> +eu é que as conheço, as mulheres da alta sociedade! +Conheço-as nas pontas dos dedos. É uma cambada! <br /> <br /> Citou logo nomes, alguns illustres; tinham amantes -innumeraveis: at trintanarios! Algumas fumavam, +innumeraveis: até trintanarios! Algumas fumavam, outras <em>entortavam-se</em>. E peor! E peor! <br /> <br /> —E passeiam por ahi, muito repimpadas de carrinho, - barba da gente de bem! <br /> +á barba da gente de bem! <br /> <br /> -—Falta de religio!—suspirou a estanqueira. <br /> +—Falta de religião!—suspirou a estanqueira. <br /> <br /> O Paula encolheu os hombros: <br /> <br /> -—A religio que , snr.<sup>a</sup> Helena! C'os padres - que ! <br /> +—A religião é que é, snr.<sup>a</sup> Helena! C'os padres +é que é! <br /> <br /> E agitando furioso o punho fechado: <br /> <br /> -—C'os padres uma <em>choldra</em> viva! <br /> +—C'os padres é uma <em>choldra</em> viva! <br /> <br /> -—Credo, snr. Paula, que at lhe fica mal!... <br /> +—Credo, snr. Paula, que até lhe fica mal!... <br /> <br /> -E o caro amarellado da estanqueira tinha uma +E o carão amarellado da estanqueira tinha uma severidade de devota offendida. <br /> <br /> —Ora, historias, snr.<sup>a</sup> Helena!—exclamou o homem @@ -7195,8 +7155,8 @@ com desprezo. <br /> <br /> E bruscamente: <br /> <br /> -—Porque que acabaram os conventos? Diga-me! -Porque era um desaforo l dentro! <br /> +—Porque é que acabaram os conventos? Diga-me! +Porque era um desaforo lá dentro! <br /> <br /> —Oh snr. Paula! oh snr. Paula!—balbuciava a Helena, recuando, encolhendo-se. <br /> @@ -7204,8 +7164,8 @@ Helena, recuando, encolhendo-se. <br /> Mas o Paula atirava-lhe as impiedades como punhaladas. <br /> <br /> —Um desaforo! De noite as freiras vinham por -um subterraneo ter c'os frades. E era vinhaa e mais -vinhaa. E batiam o fandango em camisa! Anda isso +um subterraneo ter c'os frades. E era vinhaça e mais +vinhaça. E batiam o fandango em camisa! Anda isso por ahi em todos os livros. <br /> <br /><span class="pagenum">[187]</span> @@ -7213,42 +7173,42 @@ E erguendo-se nas chinellas: <br /> <br /> —E os jesuitas, se vamos a isso! Sim! diga! <br /> <br /> -Mas recuou, e levando a mo pala do bon: <br /> +Mas recuou, e levando a mão á pala do boné: <br /> <br /> —Um criado da senhora—disse com respeito. <br /> <br /> -Era Luiza que passava, vestida de preto, o vo +Era Luiza que passava, vestida de preto, o véo descido. Ficaram calados, a olhal-a. <br /> <br /> -—Que ella muito bonita!—murmurou a estanqueira, -com admirao. <br /> +—Que ella é muito bonita!—murmurou a estanqueira, +com admiração. <br /> <br /> O Paula franziu a testa. <br /> <br /> -—No mau bocado...—disse. E acrescentou, +—Não é mau bocado...—disse. E acrescentou, com desdem:—P'ra quem gosta d'aquillo!... <br /> <br /> Houve um silencio. E o Paula rosnou: <br /> <br /> -—No so as saias que me levam o tempo, nem +—Não são as saias que me levam o tempo, nem d'isto!... <br /> <br /> E bateu no bolso do collete, fazendo tilintar dinheiro. <br /> <br /> Tossiu, pigarreou, e ainda aspero: <br /> <br /> -—Venha de l um pataco de Xabregas. <br /> +—Venha de lá um pataco de Xabregas. <br /> <br /> Foi para a porta do estanco enrolar o cigarro, assobiar; mas os seus olhos arregalaram-se indignados; n'uma das janellas de cima na casa do Engenheiro, -tinha avistado, por entre as vidraas abertas, +tinha avistado, por entre as vidraças abertas, a figura enfesada do Pedro, o carpinteiro. <br /> <br /> Voltou-se para a estanqueira, e cruzando dramaticamente -os braos: <br /> +os braços: <br /> <br /> -—E agora que a patra vai vida, l est o rapazola +—E agora que a patrôa vai á vida, lá está o rapazola a entender-se com a criada! <br /> <br /> Soltou uma larga baforada de fumo, e com uma @@ -7257,9 +7217,9 @@ voz soturna: <br /> —Aquella casa vai-se tornando um prostibulo! <br /> <br /><span class="pagenum">[188]</span> -—Um qu, snr. Paula? <br /> +—Um quê, snr. Paula? <br /> <br /> -—Um prostibulo, snr.<sup>a</sup> Helena! como se dissesse +—Um prostibulo, snr.<sup>a</sup> Helena! É como se dissesse um alcouce! <br /> <br /> E, com passos escandalisados, o patriota afastou-se. <br /> @@ -7267,178 +7227,178 @@ E, com passos escandalisados, o patriota afastou-se. <br /> <br /> <br /> Luiza ia emfim ao campo com Bazilio. Consentira -na vespera, declarando logo que era s um passeio -de meia hora, de carruagem, sem se apearem. -Bazilio ainda insistiu, fallando em sombras d'alamedas, -uma merendinha, relvas... Mas ella recusou, +na vespera, declarando logo «que era só um passeio +de meia hora, de carruagem, sem se apearem». +Bazilio ainda insistiu, fallando em «sombras d'alamedas, +uma merendinha, relvas...» Mas ella recusou, muito teimosa, rindo, dizendo:—Nada de relvas!... <br /> <br /> -E tinham combinado encontrar-se na praa da -Alegria. Chegou tarde, j depois das duas e meia, +E tinham combinado encontrar-se na praça da +Alegria. Chegou tarde, já depois das duas e meia, com o guarda-solinho muito carregado sobre o rosto, toda assustada. <br /> <br /> -Bazilio esperava, fumando, n'um coup, esquina, +Bazilio esperava, fumando, n'um coupé, á esquina, debaixo d'uma arvore. Abriu rapidamente a portinhola, e Luiza entrou fechando atrapalhadamente a -sombrinha; o vestido prendeu-se ao estribo, esgaou-se -no rufo de sda; e achou-se ao lado d'elle, muito +sombrinha; o vestido prendeu-se ao estribo, esgaçou-se +no rufo de sêda; e achou-se ao lado d'elle, muito nervosa, offegante, com o rosto abrazado, murmurando: <br /> <br /> —Que tolice, que tolice esta! <br /> <br /> -Mal podia fallar. O coup partiu logo a trote. O -cocheiro era o Pintos, um batedor. +Mal podia fallar. O coupé partiu logo a trote. O +cocheiro era o Pintéos, um batedor. <br /> <br /><span class="pagenum">[189]</span> -—To canada, coitadinha!—disse-lhe Bazilio +—Tão cançada, coitadinha!—disse-lhe Bazilio muito meigo. <br /> <br /> -Levantou-lhe o vo; estava suada; os seus largos -olhos brilhavam da excitao, da pressa, do medo... <br /> +Levantou-lhe o véo; estava suada; os seus largos +olhos brilhavam da excitação, da pressa, do medo... <br /> <br /> —Que calor, Bazilio! <br /> <br /> -Quiz descer um dos vidros do coup. <br /> +Quiz descer um dos vidros do coupé. <br /> <br /> -No, isso no! Podiam vl-os! Quando passassem +Não, isso não! Podiam vêl-os! Quando passassem as portas... <br /> <br /> -—Para onde vamos ns? <br /> +—Para onde vamos nós? <br /> <br /> E espreitava, levantando o <em>store</em>. <br /> <br /> -—Vamos para o lado do Lumiar, o melhor sitio. -No queres? <br /> +—Vamos para o lado do Lumiar, é o melhor sitio. +Não queres? <br /> <br /> Encolheu os hombros. Que lhe importava? Ia socegando: -tinha tirado o vo e as luvas: sorria, abanando-se -com o leno, d'onde sahia um aroma fresco. <br /> +tinha tirado o véo e as luvas: sorria, abanando-se +com o lenço, d'onde sahia um aroma fresco. <br /> <br /> -Bazilio prendeu-lhe o pulso, pz-lhe muitos beijos +Bazilio prendeu-lhe o pulso, pôz-lhe muitos beijos longos, delicados, na pelle fina, azulada de veiasinhas. <br /> <br /> —Tu prometteste ter juizo!—fez ella com um sorriso calido, olhando-o de lado. <br /> <br /> -Ora! mas um beijo, no brao! Que mal havia? -Tambem era necessario no ser beata! <br /> +Ora! mas um beijo, no braço! Que mal havia? +Tambem era necessario não ser beata! <br /> <br /> E olhava-a avidamente. <br /> <br /> -Os velhos <em>stores</em> do coup corridos eram de sda +Os velhos <em>stores</em> do coupé corridos eram de sêda vermelha, e a luz que os atravessava envolvia-a -n'um tom igual, cr de rosa e quente. Os seus beios -tinham um escarlate molhado, a lisura s d'uma +n'um tom igual, côr de rosa e quente. Os seus beiços +tinham um escarlate molhado, a lisura sã d'uma petala de rosa; e ao canto do olho um ponto de luz -movia-se n'um fluido dce. +movia-se n'um fluido dôce. <br /> <br /><span class="pagenum"><a name="p190" id="p190">[190]</a></span> -No se conteve, passou-lhe os dedos um pouco +Não se conteve, passou-lhe os dedos um pouco tremulos nas fontes, nos cabellos, com uma caricia fugitiva e assustada; e com a voz humilde: <br /> <br /> -—Nem um beijo na face, um s? <br /> +—Nem um beijo na face, um só? <br /> <br /> -—Um s?...—fez ella. <br /> +—Um só?...—fez ella. <br /> <br /> -Pousou-lh'o delicadamente ao p da orelha. Mas +Pousou-lh'o delicadamente ao pé da orelha. Mas aquelle contacto exasperou-lhe o desejo brutalmente; -teve um som de voz soluado; agarrou-a com sofreguido, -e atirava-lhe beijos tontos pelo pescoo, pela -face, pelo chapo... <br /> +teve um som de voz soluçado; agarrou-a com sofreguidão, +e atirava-lhe beijos tontos pelo pescoço, pela +face, pelo chapéo... <br /> <br /> -—No! no!—balbuciava ella, resistindo.—Quero +—Não! não!—balbuciava ella, resistindo.—Quero descer! Dize que pare! <br /> <br /> -Batia nos vidros; esforava-se por correr um, -desesperada, magoando os dedos na dura corra +Batia nos vidros; esforçava-se por correr um, +desesperada, magoando os dedos na dura corrêa suja. <br /> <br /> -Bazilio pz-se a supplicar, que lhe perdoasse! +Bazilio pôz-se a supplicar, que lhe perdoasse! Que doudice, zangar-se por um beijo! Se ella estava -to linda!... Fazia-o doudo. Mas jurava ir quieto, +tão linda!... Fazia-o doudo. Mas jurava ir quieto, muito quieto... <br /> <br /> -A carruagem, ao <a href="#e4">p das portas</a>, rolava sacudida -na calada miuda; nas terras, aos lados, as oliveiras +A carruagem, ao <a href="#e4">pé das portas</a>, rolava sacudida +na calçada miuda; nas terras, aos lados, as oliveiras de um verde empoeirado estavam immoveis na luz branca; e sobre a herva crestada o sol batia duramente -n'uma fulgurao continua. <br /> +n'uma fulguração continua. <br /> <br /> Bazilio tinha descido um dos vidros; o <em>store</em> corrido -palpitava brandamente; pz-se ento a fallar-lhe +palpitava brandamente; pôz-se então a fallar-lhe ternamente de si, do seu amor, dos seus planos. Estava -resolvido a vir estabelecer-se em Lisboa—dizia.—No -tencionava casar-se; amava-a e no comprehendia -nada melhor do que viver ao p d'ella, +resolvido a vir estabelecer-se em Lisboa—dizia.—Não +tencionava casar-se; amava-a e não comprehendia +nada melhor do que viver ao pé d'ella, <span class="pagenum">[191]</span> sempre. Dizia-se desilludido, enfastiado. Que mais -lhe podia offerecer a vida? Tinha tido as sensaes +lhe podia offerecer a vida? Tinha tido as sensações dos amores ephemeros, as aventuras das longas viagens. -Ajuntra alguma cousa de seu,—e sentia-se +Ajuntára alguma cousa de seu,—e sentia-se velho. <br /> <br /> -Repetia, fitando-a, tomando-lhe as mos: <br /> +Repetia, fitando-a, tomando-lhe as mãos: <br /> <br /> -—No verdade que estou velho? <br /> +—Não é verdade que estou velho? <br /> <br /> -—No muito—e os seus olhos humedeciam-se. <br /> +—Não muito—e os seus olhos humedeciam-se. <br /> <br /> Ah! estava! estava! O que lhe appetecia agora -era viver para ella, vir descanar nas douras da +era viver para ella, vir descançar nas doçuras da sua intimidade. Ella era a sua unica familia.—Fazia-se -muito <em>parente</em>.—A familia no fim de tudo o -que ha de melhor ainda. No te incommoda que eu +muito <em>parente</em>.—A familia no fim de tudo é o +que ha de melhor ainda. Não te incommoda que eu fume? <br /> <br /> E acrescentou, raspando o phosphoro: <br /> <br /> -—O que ha de bom na vida uma affeio profunda -como a nossa. No verdade? Contento-me -com pouco, de resto. Vr-te todos os dias, conversar +—O que ha de bom na vida é uma affeição profunda +como a nossa. Não é verdade? Contento-me +com pouco, de resto. Vêr-te todos os dias, conversar muito, saber que me estimas...—Por dentro do -campo, Pintos!—gritou com fora pela portinhola. <br /> +campo, ó Pintéos!—gritou com força pela portinhola. <br /> <br /> -O coup entrou a passo no Campo Grande. Bazilio +O coupé entrou a passo no Campo Grande. Bazilio ergueu os <em>stores</em>; um ar mais vivo penetrou. O sol cahia sobre o arvoredo, traspassando-o d'uma luz -faiscante, formando no cho poeirento e branco sombras +faiscante, formando no chão poeirento e branco sombras quentes de ramagens. Tudo tinha em redor um aspecto resequido e exhausto. Na terra gretada, a herva curta, crestada, fazia tons cinzentos. Na estrada, ao lado, arrastava-se uma poeira amarellada. Saloios -passavam, amodorroados sobre o albardo, bamboleando +passavam, amodorroados sobre o albardão, bamboleando as pernas, abrigados sob os vastos guarda-soes <span class="pagenum">[192]</span> -escarlates; e a luz que vinha de um co azul -ferrete, acabrunhador, fazia reluzir com uma radiao +escarlates; e a luz que vinha de um céo azul +ferrete, acabrunhador, fazia reluzir com uma radiação crua as paredes muito caiadas, as aguas d'algum balde -esquecido s portas, todas as brancuras de pedras. <br /> +esquecido ás portas, todas as brancuras de pedras. <br /> <br /> E Bazilio continuava: <br /> <br /> -—Vendo tudo o que tenho l fra, alugo aqui +—Vendo tudo o que tenho lá fóra, alugo aqui uma casinha em Lisboa, em Buenos-Ayres, talvez... -No te agrada? Dize... <br /> +Não te agrada? Dize... <br /> <br /> Ella calava-se; aquellas palavras, as promessas, a que a voz d'elle metallica e velada dava um vigor -mais amoroso, iam-na perturbando como a inebriao -d'um licr forte. O seu seio arfava. <br /> +mais amoroso, iam-na perturbando como a inebriação +d'um licôr forte. O seu seio arfava. <br /> <br /> Bazilio baixou a voz, disse: <br /> <br /> -—Quando estou ao p de ti sinto-me to feliz, -parece-me tudo to bom!... <br /> +—Quando estou ao pé de ti sinto-me tão feliz, +parece-me tudo tão bom!... <br /> <br /> —Se isso fosse verdade!—suspirou ella, encostando-se -para o fundo do coup. <br /> +para o fundo do coupé. <br /> <br /> Bazilio prendeu-lhe logo a cintura; jurou-lhe que -sim! Ia pr a sua fortuna em inscripes. Comeou -a dar-lhe provas: j fallra a um procurador; citou-lhe -o nome, um scco, de nariz agudo... <br /> +sim! Ia pôr a sua fortuna em inscripções. Começou +a dar-lhe provas: já fallára a um procurador; citou-lhe +o nome, um sêcco, de nariz agudo... <br /> <br /> E apertando-a contra si, os olhos muito vorazes: <br /> <br /> @@ -7448,45 +7408,45 @@ E apertando-a contra si, os olhos muito vorazes: <br /> <br /> Iam entrando no Lumiar, e por prudencia desceram os <em>stores</em>. Ella afastou um, e, espreitando, via -fra passar rapidamente, ao lado do trem, arvores -empoeiradas; um muro de quinta d'uma cr de rosa +fóra passar rapidamente, ao lado do trem, arvores +empoeiradas; um muro de quinta d'uma côr de rosa sujo; fachadas de casas mesquinhas; um omnibus -desatrellado; mulheres sentadas ao portal, sombra, +desatrellado; mulheres sentadas ao portal, á sombra, <span class="pagenum">[193]</span> catando os filhos; e um sujeito vestido de -branco, de chapo de palha, que estacou, arregalou -os olhos para as cortinas fechadas do coup. E +branco, de chapéo de palha, que estacou, arregalou +os olhos para as cortinas fechadas do coupé. E ia desejando habitar alli n'uma quinta, longe da estrada; teria uma casinha fresca com trepadeiras em roda das janellas, parreiras sobre pilares de pedra, -ps de roseiras, ruasinhas amaveis sob arvores -entrelaadas, um tanque debaixo d'uma tilia, onde -de manh as criadas ensaboariam, bateriam a roupa, +pés de roseiras, ruasinhas amaveis sob arvores +entrelaçadas, um tanque debaixo d'uma tilia, onde +de manhã as criadas ensaboariam, bateriam a roupa, palrando. E ao escurecer, ella e elle, um pouco -quebrados das felicidades da ssta, iriam pelos campos, -ouvindo calados, sob o co que se estrella, o -coaxar triste das rs. <br /> +quebrados das felicidades da sésta, iriam pelos campos, +ouvindo calados, sob o céo que se estrella, o +coaxar triste das rãs. <br /> <br /> -Cerrou os olhos. O movimento muito lanado do -coup, o calor, a presena d'elle, o contacto da sua -mo, do seu joelho, amolleciam-na. Sentia um desejo +Cerrou os olhos. O movimento muito lançado do +coupé, o calor, a presença d'elle, o contacto da sua +mão, do seu joelho, amolleciam-na. Sentia um desejo a alargar-se dentro do peito. <br /> <br /> —Em que vaes tu a pensar?—perguntou-lhe elle baixo, muito terno. <br /> <br /> -Luiza fez-se vermelha. No respondeu. Tinha medo +Luiza fez-se vermelha. Não respondeu. Tinha medo de fallar, de lhe dizer... <br /> <br /> -Bazilio tomou-lhe a mo devagarinbo, com respeito, +Bazilio tomou-lhe a mão devagarinbo, com respeito, com cuidado, como uma cousa preciosa e santa; e beijou-lh'a de leve, com a servilidade d'um negro -e a uno d'um devoto. Aquella caricia to humilde, -to tocante, quebrou-a; os seus nervos distenderam-se; -deixou-se cahir para o canto do coup, +e a unção d'um devoto. Aquella caricia tão humilde, +tão tocante, quebrou-a; os seus nervos distenderam-se; +deixou-se cahir para o canto do coupé, rompeu a chorar... <br /> <br /> -Que era? Que tinha? Prendera-a nos braos, beijava-a, +Que era? Que tinha? Prendera-a nos braços, beijava-a, dizia-lhe palavras loucas. <br /> <br /><span class="pagenum"><a name="p194" id="p194">[194]</a></span> @@ -7494,45 +7454,45 @@ dizia-lhe palavras loucas. <br /> As suas lagrimasinhas redondas e luminosas, rolando devagarinho sobre aquella face mimosa, <a href="#e5">enterneciam-no</a>, -e davam aos seus desejos uma vibrao +e davam aos seus desejos uma vibração quasi dolorosa. <br /> <br /> —Foge commigo, vem, levo-te! Vamos para o fim do mundo! <br /> <br /> -Ella soluou, murmurou muito doridamente: <br /> +Ella soluçou, murmurou muito doridamente: <br /> <br /> -—No digas tolices. <br /> +—Não digas tolices. <br /> <br /> -Elle calou-se; pz a mo sobre os olhos com uma +Elle calou-se; pôz a mão sobre os olhos com uma attitude melancolica, pensando:—Estou a dizer tolices, -no ha que vr! <br /> +não ha que vêr! <br /> <br /> Luiza limpava as lagrimas, assoando-se devagarinho. <br /> <br /> -— nervoso—disse.— nervoso. Voltamos, -sim? No me sinto bem. Dize que volte. <br /> +—É nervoso—disse.—É nervoso. Voltamos, +sim? Não me sinto bem. Dize que volte. <br /> <br /> -Bazilio mandou bater para Lisboa. <br /> +Bazilio mandou «bater» para Lisboa. <br /> <br /> -Ella queixava-se de um ameao d'enxaqueca. Elle -tinha-lhe tomado a mo, repetia-lhe as mesmas -ternuras: chamava-lhe sua pomba, seu ideal. -E pensava baixo:—Ests cahida! <br /> +Ella queixava-se de um ameaço d'enxaqueca. Elle +tinha-lhe tomado a mão, repetia-lhe as mesmas +ternuras: chamava-lhe «sua pomba», «seu ideal». +E pensava baixo:—Estás cahida! <br /> <br /> -Pararam na praa da Alegria. Luiza espreitou, +Pararam na praça da Alegria. Luiza espreitou, saltou depressa, dizendo: <br /> <br /> -—manh, no faltes, hein? <br /> +—Ámanhã, não faltes, hein? <br /> <br /> Abriu o guarda-solinho, carregou-o sobre o rosto, subiu rapidamente para a Patriarchal. <br /> <br /> -Bazilio ento desceu os vidros, e respirou com -satisfao. Accendeu outro charuto, estendeu as pernas, +Bazilio então desceu os vidros, e respirou com +satisfação. Accendeu outro charuto, estendeu as pernas, gritou: <br /> <br /> -—Ao Gremio, Pintos! +—Ao Gremio, ó Pintéos! <br /> <br /><span class="pagenum">[195]</span> Na sala de leitura, o seu amigo o visconde Reynaldo, @@ -7543,87 +7503,87 @@ n'uma poltrona. Tinham vindo ambos de Paris, com promessa de voltarem juntos por Madrid. Mas o calor desolava Reynaldo; achava a temperatura de Lisboa <em>reles</em>; trazia lunetas defumadas; e -andava saturado de perfumes, por causa do cheiro -ignobil de Portugal. Apenas viu Bazilio deixou -escorregar o <em>Times</em> no tapete, e com os braos +andava saturado de perfumes, por causa «do cheiro +ignobil de Portugal». Apenas viu Bazilio deixou +escorregar o <em>Times</em> no tapete, e com os braços molles, a voz desfallecida: <br /> <br /> -—E ento essa questo da prima, vai ou no -vai? Isto est horrivel, menino! Eu morro! Preciso +—E então essa questão da prima, vai ou não +vai? Isto está horrivel, menino! Eu morro! Preciso o Norte! Preciso a Escocia! Vamos embora! Acaba com essa prima. Viola-a. Se ella te resiste, mata-a! <br /> <br /> Bazilio, que se estendera n'uma poltrona, disse, -estirando muito os braos: <br /> +estirando muito os braços: <br /> <br /> -—Oh! Est cahidinha! <br /> +—Oh! Está cahidinha! <br /> <br /> —Pois avia-te, menino, avia-te! <br /> <br /> Apanhou moribundamente o <em>Times</em>, bocejou, pediu soda—soda ingleza! <br /> <br /> -No havia, veio dizer o criado. Reynaldo fitou +«Não havia», veio dizer o criado. Reynaldo fitou Bazilio com espanto, com terror, e murmurou soturnamente: <br /> <br /> -—Que abjeco de paiz! <br /> +—Que abjecção de paiz! <br /> <br /> <br /> <br /> Quando Luiza entrou, Juliana, ainda vestida, disse-lhe -logo porta: +logo á porta: <br /> <br /><span class="pagenum">[196]</span> -—O snr. Sebastio est na sala. Tem estado um -<em>rr</em> de tempo espera... J c estava quando eu +—O snr. Sebastião está na sala. Tem estado um +<em>rôr</em> de tempo á espera... Já cá estava quando eu cheguei. <br /> <br /> Tinha vindo com effeito havia meia hora. Quando a Joanna lhe veio abrir, muito encarnada, com o ar -estremunhado, e resmungou que a senhora estava -para fra, Sebastio ia logo descer, com o allivio +estremunhado, e resmungou «que a senhora estava +para fóra», Sebastião ia logo descer, com o allivio delicioso d'uma difficuldade adiada. Mas reagiu, retesou -a vontade, entrou, pz-se a esperar... Na vespera +a vontade, entrou, pôz-se a esperar... Na vespera tinha decidido fallar-lhe, avisal-a que aquellas -visitas do primo, to repetidas, com espalhafato, +visitas do primo, tão repetidas, com espalhafato, n'uma rua maligna, podiam compromettel-a... Era o diabo, dizer-lh'o!... Mas era um dever! Por ella, -pelo marido, pelo respeito da casa! Era foroso acautelal-a!... -E no se sentia acanhado. Perante as reclamaes -do dever, vinham-lhe as energias da deciso. -O corao batia-lhe um pouco, sim, e estava +pelo marido, pelo respeito da casa! Era forçoso acautelal-a!... +E não se sentia acanhado. Perante as reclamações +do dever, vinham-lhe as energias da decisão. +O coração batia-lhe um pouco, sim, e estava pallido... Mas, que diabo, havia de lh'o dizer!... <br /> <br /> -E passeando pela sala com as mos nos bolsos, +E passeando pela sala com as mãos nos bolsos, ia arranjando as suas phrases, procurando-as muito delicadas, bem amigas... <br /> <br /> Mas a campainha retiniu, um <em>frou-frou</em> de vestido -roou o corredor,—e a sua coragem engelhou-se -como um balo furado. Foi-se logo sentar ao piano, -pz-se a bater vivamente no teclado. Quando Luiza -entrou, sem chapo, descalando as luvas, ergueu-se, -disse embaraado: <br /> +roçou o corredor,—e a sua coragem engelhou-se +como um balão furado. Foi-se logo sentar ao piano, +pôz-se a bater vivamente no teclado. Quando Luiza +entrou, sem chapéo, descalçando as luvas, ergueu-se, +disse embaraçado: <br /> <br /> —Tenho estado aqui a trautear um bocado... -Estava espera... Ento d'onde vem? <br /> +Estava á espera... Então d'onde vem? <br /> <br /> -Ella sentou-se, canada. Vinha da modista—disse. +Ella sentou-se, cançada. Vinha da modista—disse. <span class="pagenum">[197]</span> -Fazia um calor! Porque no tinha entrado as outras -vezes? No estava com visitas de ceremonia! -Era familia, era seu primo que viera de fra. <br /> +Fazia um calor! Porque não tinha entrado as outras +vezes? Não estava com visitas de ceremonia! +Era familia, era seu primo que viera de fóra. <br /> <br /> -—Est bom, seu primo? <br /> +—Está bom, seu primo? <br /> <br /> —Bom. Tem estado aqui, bastante. Aborrece-se -muito em Lisboa, coitado! Ora, quem vive l fra! <br /> +muito em Lisboa, coitado! Ora, quem vive lá fóra! <br /> <br /> -Sebastio repetiu, esfregando devagar os joelhos: <br /> +Sebastião repetiu, esfregando devagar os joelhos: <br /> <br /> -—Est claro, quem vive l fra! <br /> +—Está claro, quem vive lá fóra! <br /> <br /> —E Jorge, tem-lhe escripto?—perguntou Luiza. <br /> <br /> @@ -7631,74 +7591,74 @@ Sebastio repetiu, esfregando devagar os joelhos: <br /> <br /> Tambem ella. Fallaram de Jorge, dos tedios da jornada, do que contava do phantastico parente de -Sebastio, da demora provavel... <br /> +Sebastião, da demora provavel... <br /> <br /> —Faz-nos uma falta, aquelle maroto!—disse -Sebastio. <br /> +Sebastião. <br /> <br /> Luiza tossiu. Estava um pouco pallida, agora. -Passava s vezes a mo pela testa, cerrando os +Passava ás vezes a mão pela testa, cerrando os olhos. <br /> <br /> -Sebastio de repente, teve uma deciso: <br /> +Sebastião de repente, teve uma decisão: <br /> <br /> -—Pois eu vinha, minha rica amiga...—comeou. <br /> +—Pois eu vinha, minha rica amiga...—começou. <br /> <br /> -Mas viu-a ao canto do soph, com a cabea baixa, -a mo sobre os olhos. <br /> +Mas viu-a ao canto do sophá, com a cabeça baixa, +a mão sobre os olhos. <br /> <br /> -—Que tem? Est incommodada? <br /> +—Que tem? Está incommodada? <br /> <br /> -— a enxaqueca que me veio de repente. J -tinha tido ameaos na rua. E com uma fora! <br /> +—É a enxaqueca que me veio de repente. Já +tinha tido ameaços na rua. E com uma força! <br /> <br /> -Sebastio tomou logo o chapo: <br /> +Sebastião tomou logo o chapéo: <br /> <br /> -—E eu a massal-a! necessario alguma cousa? -Quer que v chamar o medico? +—E eu a massal-a! É necessario alguma cousa? +Quer que vá chamar o medico? <br /> <br /><span class="pagenum">[198]</span> -—No! Vou-me deitar um momento, passa logo. <br /> +—Não! Vou-me deitar um momento, passa logo. <br /> <br /> -Que no apanhasse ar, ao menos, recommendava -elle. Talvez sinapismos ou rodellas de limo nas -fontes... E em todo o caso, se no estivesse melhor +Que não apanhasse ar, ao menos, recommendava +elle. Talvez sinapismos ou rodellas de limão nas +fontes... E em todo o caso, se não estivesse melhor que o mandasse chamar... <br /> <br /> -—Isto passa! E apparea, Sebastio! No se esconda... <br /> +—Isto passa! E appareça, Sebastião! Não se esconda... <br /> <br /> -Sebastio desceu, respirou largamente; e pensava:—Eu -no me atrevo, santo Deus!... Mas +Sebastião desceu, respirou largamente; e pensava:—Eu +não me atrevo, santo Deus!... Mas á porta, ao levantar os olhos, viu no fundo escuro da -loja de carvo o vulto enorme da carvoeira, de +loja de carvão o vulto enorme da carvoeira, de chambre branco, estendendo o olhar, cocando; por cima, tres das Azevedos, entre as velhas cortinas de -cassa, juntavam as suas cabecinhas riadas n'algum +cassa, juntavam as suas cabecinhas riçadas n'algum conciliabulo maligno: por traz dos vidros a criada do doutor costurava, com olhares de lado, a cada momento, que lambiam a rua; e ao lado, na loja -de moveis, sentiam-se as expectoraes do patriota. <br /> +de moveis, sentiam-se as expectorações do patriota. <br /> <br /> -—No passa um gato que esta gente no d f!—pensou -Sebastio.—E que linguas! Que linguas! -Devo fazel-o, ainda que estoure! Se ella manh est +—Não passa um gato que esta gente não dê fé!—pensou +Sebastião.—E que linguas! Que linguas! +Devo fazel-o, ainda que estoure! Se ella ámanhã está melhor, digo-lhe tudo! <br /> <br /> <br /> <br /> -Estava com effeito j boa, s nove horas, no dia -seguinte, quando Juliana a foi acordar, com uma -cartinha da snr.<sup>a</sup> D. Leopoldina. <br /> +Estava com effeito já boa, ás nove horas, no dia +seguinte, quando Juliana a foi acordar, com «uma +cartinha da snr.<sup>a</sup> D. Leopoldina». <br /> <br /> A criada de Leopoldina, a Justina, uma magrita -muito trigueira, de buo e olho vesgo, esperava na +muito trigueira, de buço e olho vesgo, esperava na <span class="pagenum">[199]</span> sala de jantar. Era amiga de Juliana, beijocavam-se muito, diziam-se sempre finezas. E depois de ter guardado a resposta de Luiza n'um cabazinho que -trazia no brao, traou o chale, e muito risonha: <br /> +trazia no braço, traçou o chale, e muito risonha: <br /> <br /> -—Ento que ha por c de novo, snr.<sup>a</sup> Juliana? <br /> +—Então que ha por cá de novo, snr.<sup>a</sup> Juliana? <br /> <br /> —Tudo velho, snr.<sup>a</sup> Justina. <br /> <br /> @@ -7709,7 +7669,7 @@ dias. Perfeito rapaz! <br /> <br /> Tossiram ambas, baixinho, com malicia. <br /> <br /> -—E por l, snr.<sup>a</sup> Justina, quem vai por l? <br /> +—E por lá, snr.<sup>a</sup> Justina, quem vai por lá? <br /> <br /> Justina fez um aceno de desprezo. <br /> <br /> @@ -7723,47 +7683,47 @@ A outra exclamou: <br /> <br /> E erguendo o olhar com saudade: <br /> <br /> -—Ai, como o Gama no ha! Quando era do -tempo do Gama, isso sim! Nunca ia que me no -dsse os seus dez tostes, s vezes meia libra. Ai, +—Ai, como o Gama não ha! Quando era do +tempo do Gama, isso sim! Nunca ia que me não +désse os seus dez tostões, ás vezes meia libra. Ai, devo dizel-o, foi elle que me ajudou para o meu -vestido de sda! Este agora!... um fedelho. Eu +vestido de sêda! Este agora!... é um fedelho. Eu nem sei como a senhora supporta aquillo! E amarellado, -enfesado! Aquillo pde prestar para nada! <br /> +enfesado! Aquillo póde prestar para nada! <br /> <br /> -Juliana disse ento: <br /> +Juliana disse então: <br /> <br /> -—Pois olhe, snr.<sup>a</sup> Justina, eu agora que comeo -a considerar: onde se est bem, em casas -em que ha pdres! Encontrei hontem a Agostinha, a -que est em casa do commendador, ao Rato... Pois +—Pois olhe, snr.<sup>a</sup> Justina, eu agora é que começo +a considerar: é onde se está bem, é em casas +em que ha pôdres! Encontrei hontem a Agostinha, a +que está em casa do commendador, ao Rato... Pois <span class="pagenum">[200]</span> -senhor, no se imagina. tudo o que se pde! Tudo! -Annel, vestido de sda, sombrinha, chapo! E -de roupa branca diz que um enxoval. E tudo o -Couceiro, o que est com a ama. E pelas festas sua -moeda. Diz que um homem rasgado. Ella tambem, -verdade seja, tem um trabalho: fal-o entrar pelo +senhor, não se imagina. É tudo o que se póde! Tudo! +Annel, vestido de sêda, sombrinha, chapéo! E +de roupa branca diz que é um enxoval. E tudo o +Couceiro, o que está com a ama. E pelas festas sua +moeda. Diz que é um homem rasgado. Ella tambem, +verdade seja, tem um trabalhão: fal-o entrar pelo jardim, e para o fazer sahir tem d'esperar... <br /> <br /> -—Ah, l no!—acudiu a Justina.—L pela +—Ah, lá não!—acudiu a Justina.—Lá é pela escada. <br /> <br /> Riram baixinho, saboreando o escandalo. <br /> <br /> —Genios...—disse Juliana. <br /> <br /> -—Ai, l isso, o nosso tem estomago—affirmou +—Ai, lá isso, o nosso tem estomago—affirmou Justina.—Encontra-os na escada, e tanto se lhe -d!... <br /> +dá!... <br /> <br /> E muito affectuosamente, arranjando o chale: <br /> <br /> —E adeusinho, que se faz tarde, snr.<sup>a</sup> Juliana. -Ella vem hoje c jantar, a senhora. Estive toda a -manh a engommar uma saia; desde as sete! <br /> +Ella vem hoje cá jantar, a senhora. Estive toda a +manhã a engommar uma saia; desde as sete! <br /> <br /> -—Tambem eu por c—disse Juliana.—Ellas +—Tambem eu por cá—disse Juliana.—Ellas é o que tem; quando ha amante sempre ha mais que engommar. <br /> <br /> @@ -7775,73 +7735,73 @@ a Justina. <br /> Mas Luiza tocou a campainha dentro. <br /> <br /> —Adeus, snr.<sup>a</sup> Juliana—disse logo a outra, -ageitando o chapo. <br /> +ageitando o chapéo. <br /> <br /> —Adeus, snr.<sup>a</sup> Justina. <br /> <br /> Foi acompanhal-a ao patamar. Beijocaram-se. Juliana <span class="pagenum">[201]</span> voltou muito apressada ao quarto de Luiza; estava -j a p, vestindo-se, muito alegre, cantarolando. <br /> +já a pé, vestindo-se, muito alegre, cantarolando. <br /> <br /> O bilhete de Leopoldina dizia na sua letra torta: <br /> <br /> <br /> -Meu marido vai hoje para o campo. Eu vou-te -pedir de jantar, mas no posso ir antes das seis. -Convem-te? +«Meu marido vai hoje para o campo. Eu vou-te +pedir de jantar, mas não posso ir antes das seis. +Convem-te?» <br /> <br /> <br /> -Ficou muito contente. Havia semanas que a no -via... O que iam rir, palrar! E Bazilio devia vir s +Ficou muito contente. Havia semanas que a não +via... O que iam rir, palrar! E Bazilio devia vir ás duas. Era um dia divertido, bem preenchido... <br /> <br /> -Foi logo cozinha dar as suas ordens para o jantar. -Quando descia, o criadito de Sebastio tocava a -campainha, com um ramo de rosas, a saber se a -senhora estava melhor. <br /> +Foi logo á cozinha dar as suas ordens para o jantar. +Quando descia, o criadito de Sebastião tocava a +campainha, com um ramo de rosas, «a saber se a +senhora estava melhor». <br /> <br /> —Que sim, que sim!—gritou logo Luiza.—E -para o tranquillisar, para que elle no viesse:—Que -estava boa, que at talvez sahisse... <br /> +para o tranquillisar, para que elle não viesse:—Que +estava boa, que até talvez sahisse... <br /> <br /> -As rosas, sim, que vinham a proposito. Foi -ella mesma pl-as nos vasos, cantarolando sempre, o +As rosas, sim, é que vinham a proposito. Foi +ella mesma pôl-as nos vasos, cantarolando sempre, o olhar vivo, satisfeita de si, da sua vida que se tornava interessante, cheia de incidentes... <br /> <br /> -E s duas horas, vestida, veio para a sala, pz-se -ao piano a estudar a <em>Medj</em> de Gounod, que Bazilio +E ás duas horas, vestida, veio para a sala, pôz-se +ao piano a estudar a <em>Medjé</em> de Gounod, que Bazilio trouxera, e que a encantava agora muito, com os seus accentos suspirados e calidos. <br /> <br /> -s duas e meia, porm, comeou a estar impaciente; -os dedos embrulhavam-se-lhe no teclado.—J +Ás duas e meia, porém, começou a estar impaciente; +os dedos embrulhavam-se-lhe no teclado.—Já devia ter vindo, Bazilio!—pensava. <br /> <br /> -Foi abrir as janellas, debruar-se para a rua; +Foi abrir as janellas, debruçar-se para a rua; <span class="pagenum">[202]</span> mas a criada do doutor, que costurava por dentro -dos vidros, ergueu logo olhos to sofregos que Luiza -fechou rapidamente as vidraas. Veio recomear -a melodia, j nervosa. <br /> +dos vidros, ergueu logo olhos tão sofregos que Luiza +fechou rapidamente as vidraças. Veio recomeçar +a melodia, já nervosa. <br /> <br /> Uma carruagem rolou. Ergueu-se agitada, batia-lhe -o corao. A carruagem passou... <br /> +o coração. A carruagem passou... <br /> <br /> -Tres horas j! O calor parecia-lhe maior, insupportavel; -sentia-se afogueada, foi cobrir-se de p +Tres horas já! O calor parecia-lhe maior, insupportavel; +sentia-se afogueada, foi cobrir-se de pó d'arroz. Se Bazilio estivesse doente! E n'um quarto -d'hotel! S, com criados desleixados! Mas no, ter-lhe-hia -escripto n'esse caso!... No viera, no se importra! +d'hotel! Só, com criados desleixados! Mas não, ter-lhe-hia +escripto n'esse caso!... Não viera, não se importára! Que grosseiro, que egoista! <br /> <br /> Era bem tola em se affligir. Melhor! Mas, abafava-se, positivamente! Foi buscar um leque, e as suas -mos enraivecidas sacudiram n'um phrenesi a gaveta, -que no se abriu logo, um pouca perra. Pois bem, -no o tornaria a receber! E acabava tudo! <br /> +mãos enraivecidas sacudiram n'um phrenesi a gaveta, +que não se abriu logo, um pouca perra. Pois bem, +não o tornaria a receber! E acabava tudo! <br /> <br /> E o seu grande amor, de repente, como um fumo que uma rajada dissipa, desappareceu! Sentiu @@ -7849,52 +7809,52 @@ um allivio, um grande desejo de tranquillidade. Era absurdo, realmente, com um marido como Jorge, pensar n'outro homem, um leviano, um estroina!... <br /> <br /> -Deram quatro horas. Veio-lhe uma desesperao, +Deram quatro horas. Veio-lhe uma desesperação, correu ao escriptorio de Jorge, agarrou uma folha de -papel, escreveu pressa: <br /> +papel, escreveu á pressa: <br /> <br /> <br /> <br /> <div class="signature"> -<em>Querido Bazilio.</em></div> +«<em>Querido Bazilio.</em></div> <br /> <br /> -Porque no vens? Ests doente? Se soubesses -os tormentos por que me fazes passar... +«Porque não vens? Estás doente? Se soubesses +os tormentos por que me fazes passar...» <br /> <br /> <br /><span class="pagenum">[203]</span> A campainha retiniu. Era elle! Amarrotou o bilhete, metteu-o no bolso do vestido, ficou esperando, palpitante. Passos d'homem pisaram o tapete da -sala. Entrou, com o olhar faiscante... Era Sebastio. <br /> +sala. Entrou, com o olhar faiscante... Era Sebastião. <br /> <br /> -Sebastio, um pouco pallido, que lhe apertou -muito as mos. Estava melhor? Tinha dormido bem? <br /> +Sebastião, um pouco pallido, que lhe apertou +muito as mãos. Estava melhor? Tinha dormido bem? <br /> <br /> -Sim, obrigada, estava melhor. Sentra-se no soph, +Sim, obrigada, estava melhor. Sentára-se no sophá, muito vermelha. Mal sabia que dizer. <br /> <br /> Repetiu com um sorriso vago:—Estou muito melhor!—E -pensava:—No me deixa agora a casa, +pensava:—Não me deixa agora a casa, este massador! <br /> <br /> -—Ento, no sahiu?—perguntou Sebastio, -sentado na poltrona, com o chapo desabado nas mos. <br /> +—Então, não sahiu?—perguntou Sebastião, +sentado na poltrona, com o chapéo desabado nas mãos. <br /> <br /> -No, estava um pouco fatigada ainda. <br /> +Não, estava um pouco fatigada ainda. <br /> <br /> -Sebastio passou devagar a mo pelos cabellos, -e com uma voz que o embarao engrossava: <br /> +Sebastião passou devagar a mão pelos cabellos, +e com uma voz que o embaraço engrossava: <br /> <br /> —Tambem agora tem sempre companhia pela -manh... <br /> +manhã... <br /> <br /> —Sim, meu primo Bazilio tem apparecido. Ha -tanto tempo que nos no viamos! Fomos creados de +tanto tempo que nos não viamos! Fomos creados de pequenos, quasi... Tenho-o visto quasi todos os dias. <br /> <br /> -Sebastio fez logo rolar um pouco a poltrona, e +Sebastião fez logo rolar um pouco a poltrona, e curvando-se, baixando a voz: <br /> <br /> —Eu mesmo tinha vindo para lhe fallar a esse @@ -7902,90 +7862,90 @@ respeito... <br /> <br /> Luiza abriu um olhar surprehendido. <br /> <br /> -—A respeito de qu? <br /> +—A respeito de quê? <br /> <br /> -— que se repara... A visinhana a peor cousa -que ha, minha rica amiga. Repara em tudo. J se -tem fallado. A criada do lente, o Paula. At j vieram +—É que se repara... A visinhança é a peor cousa +que ha, minha rica amiga. Repara em tudo. Já se +tem fallado. A criada do lente, o Paula. Até já vieram <span class="pagenum">[204]</span> - tia Joanna. E como o Jorge no est... O Netto -tambem reparou. Como no sabem o parentesco... +á tia Joanna. E como o Jorge não está... O Netto +tambem reparou. Como não sabem o parentesco... E como vem todos os dias... <br /> <br /> Luiza ergueu-se bruscamente, com o rosto alterado: <br /> <br /> -—Ento eu no posso receber os meus parentes +—Então eu não posso receber os meus parentes sem ser insultada?—exclamou. <br /> <br /> -Sebastio levantou-se tambem. Aquella colera -subita n'ella, uma pessoa to dce, atarantou-o como -um trovo que estala n'um co claro de vero. <br /> +Sebastião levantou-se tambem. Aquella colera +subita n'ella, uma pessoa tão dôce, atarantou-o como +um trovão que estala n'um céo claro de verão. <br /> <br /> -Pz-se a dizer, quasi anciosamente: <br /> +Pôz-se a dizer, quasi anciosamente: <br /> <br /> -—Oh minha rica senhora! mas repare, eu no -digo... por causa da visinhana!... <br /> +—Oh minha rica senhora! mas repare, eu não +digo... É por causa da visinhança!... <br /> <br /> -—Mas que pde dizer a visinhana? <br /> +—Mas que póde dizer a visinhança? <br /> <br /> -A sua voz tinha uma vibrao aguda. E batendo -com as mos, apertando-as, exaltada: <br /> +A sua voz tinha uma vibração aguda. E batendo +com as mãos, apertando-as, exaltada: <br /> <br /> -—Isto curioso! Tenho um parente unico, com -quem fui creada, que no vejo ha uns poucos d'annos, -vem-me fazer tres ou quatro visitas, est um -momento, e j querem deitar maldade! <br /> +—Isto é curioso! Tenho um parente unico, com +quem fui creada, que não vejo ha uns poucos d'annos, +vem-me fazer tres ou quatro visitas, está um +momento, e já querem deitar maldade! <br /> <br /> Fallava convencida, esquecendo as palavras de -Bazilio, os beijos, o <em>coup</em>... <br /> +Bazilio, os beijos, o <em>coupé</em>... <br /> <br /> -Sebastio, acabrunhado, enrolava o chapo nas -mos tremulas. E com uma voz abafada: <br /> +Sebastião, acabrunhado, enrolava o chapéo nas +mãos tremulas. E com uma voz abafada: <br /> <br /> -—Eu tinha-me parecido prudente avisar; o Julio +—Eu tinha-me parecido prudente avisar; o Julião tambem... <br /> <br /> -—O Julio!—exclamou ella.—Mas que tem o -Julio com isso? Com que direito se mettem no que -se passa em minha casa? O Julio! <br /> +—O Julião!—exclamou ella.—Mas que tem o +Julião com isso? Com que direito se mettem no que +se passa em minha casa? O Julião! <br /> <br /> -A interveno, as decises de Julio pareciam-lhe +A intervenção, as decisões de Julião pareciam-lhe <span class="pagenum">[205]</span> um acrescimo d'affronta. Cahiu n'uma cadeira, -com as mos contra o peito, os olhos no tecto. <br /> +com as mãos contra o peito, os olhos no tecto. <br /> <br /> —Oh! Se o Jorge aqui estivesse! Oh! se elle aqui estivesse, Santo Deus! <br /> <br /> -Sebastio balbuciou aniquilado: <br /> +Sebastião balbuciou aniquilado: <br /> <br /> —Era para seu bem... <br /> <br /> -—Mas que mal me pde succeder? <br /> +—Mas que mal me póde succeder? <br /> <br /> E erguendo-se, indo d'um movel a outro, n'uma -excitao: <br /> +excitação: <br /> <br /> -— o meu unico parente. Fomos creados ambos, -brincavamos juntos. Em casa da mam, na rua da -Magdalena, estava l sempre. Ia l jantar todos os -dias. como se fossemos irmos. Em pequena trazia-me +—É o meu unico parente. Fomos creados ambos, +brincavamos juntos. Em casa da mamã, na rua da +Magdalena, estava lá sempre. Ia lá jantar todos os +dias. É como se fossemos irmãos. Em pequena trazia-me ao collo... <br /> <br /> E amontoava detalhes d'aquella fraternidade, exagerando -uns, inventando outros ao acaso, na improvisao +uns, inventando outros ao acaso, na improvisação da colera. <br /> <br /> -—Vem aqui—acrescentava—est um bocado, +—Vem aqui—acrescentava—está um bocado, fazemos musica, elle toca admiravelmente, fuma um charuto, vai-se... <br /> <br /> Instinctivamente justificava-se. <br /> <br /> -Sebastio estava sem ida, sem resoluo. Parecia-lhe +Sebastião estava sem idéa, sem resolução. Parecia-lhe aquella uma outra Luiza, differente, que o assustava; e quasi curvava os hombros sob a estridencia -da sua voz, que nunca conhecera to forte, +da sua voz, que nunca conhecera tão forte, vibrando n'uma loquacidade trapalhona. <br /> <br /> Erguendo-se emfim, disse com uma dignidade @@ -7995,90 +7955,90 @@ melancolica: <br /> <br /> <br /><span class="pagenum">[206]</span> Fez-se um silencio grave. Aquelle tom sobrio, -quasi severo, obrigou-a a crar um pouco dos seus -espalhafatos: baixou os olhos: disse embaraada: <br /> +quasi severo, obrigou-a a córar um pouco dos seus +espalhafatos: baixou os olhos: disse embaraçada: <br /> <br /> -—Perde, Sebastio! Mas realmente!... No, +—Perdôe, Sebastião! Mas realmente!... Não, acredite, juro-lhe, estou-lhe muito obrigada em me -avisar. Fez muito bem, Sebastio! <br /> +avisar. Fez muito bem, Sebastião! <br /> <br /> Elle exclamou logo, vivamente: <br /> <br /> —Para evitar qualquer calumnia d'essas linguas -damnadas! Pois no verdade? <br /> +damnadas! Pois não é verdade? <br /> <br /> -Justificou ento a sua interveno, com muita -amizade: s vezes por uma palavra, arma-se uma -intriga, e quando uma pessoa est prevenida... <br /> +Justificou então a sua intervenção, com muita +amizade: ás vezes por uma palavra, arma-se uma +intriga, e quando uma pessoa está prevenida... <br /> <br /> -—De certo, Sebastio!—repetiu ella.—Fez +—De certo, Sebastião!—repetiu ella.—Fez perfeitamente bem em me avisar. De certo!... <br /> <br /> Tinha-se sentado; o olhar reluzia-lhe febrilmente; -e a cada momento limpava com o leno os cantos +e a cada momento limpava com o lenço os cantos seccos da bocca. <br /> <br /> -—Mas que hei-de eu fazer, Sebastio! Diga! <br /> +—Mas que hei-de eu fazer, Sebastião! Diga! <br /> <br /> -Elle commovia-se agora de a vr assim ceder, +Elle commovia-se agora de a vêr assim ceder, aconselhar-se; quasi lamentava vir, com a gravidade das suas advertencias, perturbar a alegria das suas intimidades. Disse: <br /> <br /> -—Est claro que deve vr seu primo, recebel-o... -Mas emfim, sempre bom uma certa reserva, -com esta visinhana! Eu se fosse a si contava-lhe... +—Está claro que deve vêr seu primo, recebel-o... +Mas emfim, sempre é bom uma certa reserva, +com esta visinhança! Eu se fosse a si contava-lhe... explicava-lhe... <br /> <br /> -—Mas, por fim, que diz essa gente, Sebastio? <br /> +—Mas, por fim, que diz essa gente, Sebastião? <br /> <br /> -—Repararam. Quem seria? quem no seria? Que +—Repararam. Quem seria? quem não seria? Que vinha, que estava, o diabo! <br /> <br /> Luiza ergueu-se impetuosamente: <br /> <br /><span class="pagenum">[207]</span> —Eu bem tenho dito a Jorge! Tantas vezes -lh'o tenho dito! Isto uma rua impossivel! No se -mexe um dedo que no espreitem, que no cochichem! <br /> +lh'o tenho dito! Isto é uma rua impossivel! Não se +mexe um dedo que não espreitem, que não cochichem! <br /> <br /> -—No teem que fazer... <br /> +—Não teem que fazer... <br /> <br /> Houve um silencio. Luiza passeava pela sala, com -a cabea baixa, a testa franzida; e parando, olhando -quasi anciosamente para Sebastio: <br /> +a cabeça baixa, a testa franzida; e parando, olhando +quasi anciosamente para Sebastião: <br /> <br /> -—O Jorge se soubesse que tinha um desgosto! +—O Jorge se soubesse é que tinha um desgosto! Santo Deus! <br /> <br /> -—Escusa de saber!—exclamou logo Sebastio.—Isto -fica entre ns! <br /> +—Escusa de saber!—exclamou logo Sebastião.—Isto +fica entre nós! <br /> <br /> -—Para o no affligir, no verdade?—acudiu +—Para o não affligir, não é verdade?—acudiu ella. <br /> <br /> -—Est claro! Isto fica entre ns. <br /> +—Está claro! Isto fica entre nós. <br /> <br /> -E Sebastio estendendo-lhe a mo, quasi humildemente: <br /> +E Sebastião estendendo-lhe a mão, quasi humildemente: <br /> <br /> -—Ento no est zangada commigo, hein? <br /> +—Então não está zangada commigo, hein? <br /> <br /> -—Eu, Sebastio! Que tolice! <br /> +—Eu, Sebastião! Que tolice! <br /> <br /> -—Bem, bem. Acredite!—e espalmou a mo +—Bem, bem. Acredite!—e espalmou a mão sobre o peito—eu entendi que era o meu dever. -Porque emfim, a minha rica amiga no sabia nada... <br /> +Porque emfim, a minha rica amiga não sabia nada... <br /> <br /> —Estava bem longe!... <br /> <br /> -—De certo. Bem, adeus. No a quero massar -mais.—E com uma voz profunda, commovida:—C -estou s ordens, hein! <br /> +—De certo. Bem, adeus. Não a quero massar +mais.—E com uma voz profunda, commovida:—Cá +estou ás ordens, hein! <br /> <br /> -—Adeus, Sebastio... Mas que gente! Por vr +—Adeus, Sebastião... Mas que gente! Por vêr entrar o pobre rapaz tres ou quatro vezes!... <br /> <br /> -—Uma canalha, uma canalha!—disse Sebastio, +—Uma canalha, uma canalha!—disse Sebastião, arregalando os olhos. <br /> <br /><span class="pagenum">[208]</span> @@ -8086,97 +8046,97 @@ E sahiu. <br /> <br /> Apenas elle fechou a porta: <br /> <br /> -—Que desafro!—exclamou Luiza—Isto s a +—Que desafôro!—exclamou Luiza—Isto só a mim! <br /> <br /> -Porque a interveno de Sebastio, no fundo, irritava-a -mais que os mexericos da visinhana! A +Porque a intervenção de Sebastião, no fundo, irritava-a +mais que os mexericos da visinhança! A sua vida, as suas visitas, o interior da sua casa era -discutido, resolvido por Sebastio, por Julio, por +discutido, resolvido por Sebastião, por Julião, por <em>tutti quanti</em>! Aos vinte e cinco annos tinha mentores! -No estava m! E porque, Santo Deus? Porque +Não estava má! E porque, Santo Deus? Porque seu primo, o seu unico parente, vinha vel-a!... <br /> <br /> -Mas ento, de repente, emmudecia interiormente. +Mas então, de repente, emmudecia interiormente. Lembravam-lhe os olhares de Bazilio, as suas palavras exaltadas, aquelles beijos, o passeio ao Lumiar. A sua alma corava baixo, mas o seu despeito seguia declamando alto:—de certo, havia um sentimento, mas era honesto, ideal, todo platonico!... Nunca seria -<em>outra cousa</em>! Podia ter l dentro, no fundo, uma +<em>outra cousa</em>! Podia ter lá dentro, no fundo, uma fraqueza... Mas seria sempre uma mulher de bem, -fiel, s d'um!... <br /> -<br /> -E esta certeza irritava-a ento contra os palratorios -da rua! Que de resto era l possivel, que -s por verem entrar Bazilio, quatro ou cinco vezes, -s duas horas da tarde, comeassem logo a murmurar, -a cortar na pelle?... Sebastio era um caturra, -com terrores d'ermito! E que ida, ir consultar Julio! -Julio! Era elle, de certo, que o instigra a vir -prgar, assustal-a, humilhal-a!... Porque? Azedume, +fiel, só d'um!... <br /> +<br /> +E esta certeza irritava-a então contra os «palratorios» +da rua! Que de resto era lá possivel, que +só por verem entrar Bazilio, quatro ou cinco vezes, +ás duas horas da tarde, começassem logo a murmurar, +a cortar na pelle?... Sebastião era um caturra, +com terrores d'ermitão! E que idéa, ir consultar Julião! +Julião! Era elle, de certo, que o instigára a vir +prégar, assustal-a, humilhal-a!... Porque? Azedume, inveja! Porque Bazilio tinha belleza, <em>toilette</em>, maneiras, dinheiro!... Se tinha! <br /> <br /><span class="pagenum"><a name="p209" id="p209">[209]</a></span> -As qualidades de Bazilio appareciam-lhe ento +As qualidades de Bazilio appareciam-lhe então magnificas e abundantes como os attributos d'um deus. E estava apaixonado por ella! E queria vir viver junto d'ella! O amor d'aquelle homem, que tinha -esgotado tantas sensaes, abandonado de certo -tantas mulheres, parecia-lhe como a affirmao gloriosa -da sua belleza e da irresistibilidade da sua seduco. <br /> +esgotado tantas sensações, abandonado de certo +tantas mulheres, parecia-lhe como a affirmação gloriosa +da sua belleza e da irresistibilidade da sua seducção. <br /> <br /> A alegria que lhe dava aquelle culto trazia-lhe -o receio de o perder. No o queria vr diminuido; -queria-o sempre presente, crescendo, balouando +o receio de o perder. Não o queria vêr diminuido; +queria-o sempre presente, crescendo, balouçando sem cessar, diante d'ella, o murmurio languido das -ternuras humildes! Podia l separar-se de Bazilio! -Mas se a visinhana, as relaes comeavam a commentar, -a cochichar... Jorge podia saber!... quella -supposio o corao arrefecia-lhe...—Sebastio -tinha razo, no fundo, era evidente! <br /> +ternuras humildes! Podia lá separar-se de Bazilio! +Mas se a visinhança, as relações começavam a commentar, +a cochichar... Jorge podia saber!... Áquella +supposição o coração arrefecia-lhe...—Sebastião +tinha razão, no fundo, era evidente! <br /> <br /> N'uma rua pequena, com doze casas, vir todos -os dias, aquelle lindo rapaz, to elegante, agora que -seu marido no estava... Era terrivel!—Que havia +os dias, aquelle lindo rapaz, tão elegante, agora que +seu marido não estava... Era terrivel!—Que havia de fazer, Santo Deus!... <br /> <br /> -A campainha retiniu com fora; <a href="#e6">Leopoldina</a> entrou. <br /> +A campainha retiniu com força; <a href="#e6">Leopoldina</a> entrou. <br /> <br /> Vinha furiosa com o cocheiro: que imaginasse ella, hein! Tinha parado ao Correio, e o homem queria duas corridas. Uma canalha assim!... <br /> <br /> —E que calor, ouf!—Atirou a sombrinha, as -luvas; agitou as mos no ar para descer o sangue, +luvas; agitou as mãos no ar para descer o sangue, dar-lhes pallidez; e diante do toucador, compondo ligeiramente -os frisados do cabello, com uma cr na +os frisados do cabello, com uma côr na <span class="pagenum">[210]</span> pelle, muito espartilhada, admiravel no seu corpete -couraado: <br /> +couraçado: <br /> <br /> -—Que tens tu, filha? Ests toda no ar! <br /> +—Que tens tu, filha? Estás toda no ar! <br /> <br /> Nada. Tinha-se zangado com as criadas... <br /> <br /> -—Ai! esto insupportaveis!—Contou as exigencias +—Ai! estão insupportaveis!—Contou as exigencias da Justina, os seus desmazelos.—E muito -agradecida ainda que ella se me no v! Quando a -gente depende d'ellas!...—E pondo p d'arroz no -rosto, com uma voz lenta:—L o meu senhor foi -para o Campo Grande. Eu estive para ir jantar fra +agradecida ainda que ella se me não vá! Quando a +gente depende d'ellas!...—E pondo pó d'arroz no +rosto, com uma voz lenta:—Lá o meu senhor foi +para o Campo Grande. Eu estive para ir jantar fóra com...—Suspendeu-se, sorriu, e voltada para Luiza, mais baixo, com um tom alegre, muito sincero:—Mas olha, a fallar a verdade, nem sabia onde, nem tinha dinheiro... Que elle coitado com a sua -mezada mal lhe chega. Disse commigo: nada, vou vr +mezada mal lhe chega. Disse commigo: nada, vou vêr a Luiza. Tambem os homens sempre, sempre, seccam!...—Que -tens tu para jantar? No fizeste ceremonia, hein? <br /> +tens tu para jantar? Não fizeste ceremonia, hein? <br /> <br /> -E com uma ida subita: <br /> +E com uma idéa subita: <br /> <br /> —Tens tu bacalhau? <br /> <br /> @@ -8184,20 +8144,20 @@ Devia haver, talvez. Que extravagancia! Porque? <br /> <br /> —Ai!—exclamou—Manda-me assar um bocadinho de bacalhau! Meu marido detesta o bacalhau! -aquelle animal! Eu a minha paixo. Com azeite e +aquelle animal! Eu é a minha paixão. Com azeite e alho!—Mas calou-se, contrariada.—Diabo! <br /> <br /> —O que? <br /> <br /> -— que hoje no posso comer alho... <br /> +—É que hoje não posso comer alho... <br /> <br /> E entrou para a sala a rir. Foi tirar uma rosa do -ramo de Sebastio, pl-a n'uma casa do corpete. Desejava +ramo de Sebastião, pôl-a n'uma casa do corpete. Desejava ter uma sala assim,—pensava, olhando em <span class="pagenum">[211]</span> redor. Queria-a de reps azul, com dous grandes espelhos, um lustre de gaz, e o seu retrato a oleo de -corpo inteiro, decotada, ao p d'um rico vaso de flres... +corpo inteiro, decotada, ao pé d'um rico vaso de flôres... Sentou-se ao piano, bateu rijamente o teclado, tocou motivos do <em>Barba Azul</em>. <br /> <br /> @@ -8212,25 +8172,25 @@ E vendo Luiza entrar: <br /> —Sim. <br /> <br /> —Gracias!—E atirou, com a sua voz mordente, -a sua cano querida da <em>Gran-Duqueza</em>: <br /> +a sua canção querida da <em>Gran-Duqueza</em>: <br /> <br /> <br /> <div class="poetry"> -Ouvi dizer que meu av de vinho,</div> +Ouvi dizer que meu avô de vinho,</div> <div class="poetry0">Era um tal amador... </div><br /> <br /> -Mas Luiza achava aquella musica espalhafatona; -queria alguma cousa triste, dce... O fado! +Mas Luiza achava aquella musica «espalhafatona»; +queria alguma cousa triste, dôce... O fado! que tocasse o fado!... <br /> <br /> Leopoldina exclamou logo: <br /> <br /> -—Ai, o fado novo! Tu no ouviste? lindo! Os -versos so divinos! <br /> +—Ai, o fado novo! Tu não ouviste? É lindo! Os +versos são divinos! <br /> <br /> -Preludiou, cantando com um balouar languido -da cabea, o olhar erguido e turvo: <br /> +Preludiou, cantando com um balouçar languido +da cabeça, o olhar erguido e turvo: <br /> <br /> <br /> <div class="poetry"> @@ -8238,33 +8198,33 @@ O rapaz que eu hontem vi<br /> Era moreno e bem feito... </div><br /> <br /> -—Tu no sabes isto, Luiza? Oh filha! o ultimo! - de chorar! +—Tu não sabes isto, Luiza? Oh filha! É o ultimo! +É de chorar! <br /> <br /><span class="pagenum">[212]</span> -Recomeou, com o tom muito quebrado. Era a +Recomeçou, com o tom muito quebrado. Era a historia rimada d'um amor infeliz. Fallava-se nas -raivas do ciume, nas rochas de Cascaes, nas noites -de luar, nos suspiros da saudade, todo o palavriado +«raivas do ciume, nas rochas de Cascaes, nas noites +de luar, nos suspiros da saudade», todo o palavriado morbido do sentimentalismo lisboeta. Leopoldina -dava tons dolentes voz, revirava um olhar expirante; +dava tons dolentes á voz, revirava um olhar expirante; uma quadra sobre tudo enternecia-a; repetiu-a -com paixo: <br /> +com paixão: <br /> <br /> <br /> <div class="poetry"> -Vejo-o nas nuvens do co,<br /> +Vejo-o nas nuvens do céo,<br /> Nas ondas do mar sem fim,<br /> E por mais longe que esteja<br /> -Sinto-o sempre ao p de mim. +Sinto-o sempre ao pé de mim. </div><br /> <br /> —Lindo!—suspirava Luiza. <br /> <br /> E Leopoldina terminava com <em>ais</em>! em que a sua -voz se arrastava n'uma extenso desafinada. <br /> +voz se arrastava n'uma extensão desafinada. <br /> <br /> -Luiza, de p junto do piano, sentia o cheiro do +Luiza, de pé junto do piano, sentia o cheiro do <em>feno</em> que ella usava; o fado, os versos entristeciam-na um pouco; e com o olhar saudoso seguia sobre o @@ -8276,64 +8236,64 @@ Mas Juliana entrou, vestida de passeio, com a sua cuia nova. Estava o jantar na mesa! <br /> <br /> Leopoldina declarou que vinha a cahir de fome! -E a sala de jantar com as vidraas abertas, as verduras +E a sala de jantar com as vidraças abertas, as verduras dos terrenos vagos defronte, um azul d'horisonte onde se algodoavam nuvemzinhas muito brancas—alegrou-a: -a sala de jantar d'ella tirava-lhe at o +a sala de jantar d'ella tirava-lhe até o <span class="pagenum">[213]</span> -appetite, era uma tristeza, deitava para o saguo! <br /> +appetite, era uma tristeza, deitava para o saguão! <br /> <br /> -Pz-se a depenicar bagos d'uvas, a trincar bocadinhos +Pôz-se a depenicar bagos d'uvas, a trincar bocadinhos de conserva—e reparando no retrato do pai de Jorge, desdobrando o guardanapo: <br /> <br /> —Havia de ser divertido teu sogro! Tem cara de pandigo!... <br /> <br /> -E ha que tempos que no jantavam juntas! Desde +E ha que tempos que não jantavam juntas! Desde quando? <br /> <br /> —Desde o meu primeiro anno de casada—lembrou Luiza. <br /> <br /> Leopoldina fez-se um pouco vermelha. Viam-se -muito n'esse tempo; Jorge deixava-as ir s lojas ambas, -aos confeiteiros, Graa... A lembrana d'aquella -camaradagem levou-a s recordaes mais distantes +muito n'esse tempo; Jorge deixava-as ir ás lojas ambas, +aos confeiteiros, á Graça... A lembrança d'aquella +camaradagem levou-a ás recordações mais distantes do collegio. Tinha visto, havia dias, a Rita Pessoa, com o sobrinho.—Lembras-te d'elle? <br /> <br /> —O <em>Espinafre</em>? <br /> <br /> -<em>Espinafre</em> ou no era no collegio o homem, o +<em>Espinafre</em> ou não era no collegio o homem, o ideal, o heroe; todas lhe escreviam bilhetes, desenhavam-lhe -coraes d'onde sahia uma fogueira, -mettiam-lhe no bon muito sebento ramos de flres +corações d'onde sahia uma fogueira, +mettiam-lhe no boné muito sebento ramos de flôres de papel... E quando a Michaela foi apanhada, no -cacifro dos bahs, a devoral-o de beijos!... <br /> +cacifro dos bahús, a devoral-o de beijos!... <br /> <br /> Luiza disse: <br /> <br /> —Que horror! <br /> <br /> -—No que a Michaela era douda! <br /> +—Não que a Michaela era douda! <br /> <br /> Coitada! Tinha casado com um alferes, um homem que a espancava. Estava cheia de filhos... <br /> <br /> -—Isto um valle de lagrimas!—resumiu Leopoldina, +—Isto é um valle de lagrimas!—resumiu Leopoldina, recostando-se. <br /> <br /><span class="pagenum">[214]</span> Estava loquaz. Servia-se muito, com gula; depois picava um bocadinho na ponta do garfo, provava, -deixava, punha-se a comer cdeas de po que -barrava de manteiga. E deleitava-se nas recordaes +deixava, punha-se a comer côdeas de pão que +barrava de manteiga. E deleitava-se nas recordações do collegio! Que bom tempo! <br /> <br /> —Lembraste quando estivemos de mal? <br /> <br /> -Luiza no se lembrava... <br /> +Luiza não se lembrava... <br /> <br /> —Por tu teres dado um beijo na Thereza, que era o meu <em>sentimento</em>—disse Leopoldina. <br /> @@ -8341,59 +8301,59 @@ era o meu <em>sentimento</em>—disse Leopoldina. <br /> Pozeram-se a fallar dos <em>sentimentos</em>. Leopoldina tivera quatro; a mais bonita era a Joanninha, a Freitas. Que olhos! E que bem feita! Tinha-lhe feito a -crte um mez!... <br /> +côrte um mez!... <br /> <br /> -—Tolices!—disse Luiza crando um pouco. <br /> +—Tolices!—disse Luiza córando um pouco. <br /> <br /> —Tolices! Porque? <br /> <br /> Ai! era sempre com saudade que fallava dos <em>sentimentos</em>. -Tinham sido as primeiras sensaes, as +Tinham sido as primeiras sensações, as mais intensas. Que agonia de ciumes! Que delirio de -reconciliaes! E os beijos furtados! E os olhares! -E os bilhetinhos, e todas as palpitaes do corao, +reconciliações! E os beijos furtados! E os olhares! +E os bilhetinhos, e todas as palpitações do coração, as primeiras da vida! <br /> <br /> —Nunca—exclamou—nunca, depois de mulher, senti por um homem o que senti pela Joanninha!... -Pois pdes crr... <br /> +Pois pódes crêr... <br /> <br /> Um olhar de Luiza deteve-a.—A Juliana!... Diabo! tinha-se esquecido! Constrangia-as muito, com o seu sorrisinho torcido, a figura de peito chato, o tic-tac -metallico dos taces. <br /> +metallico dos tacões. <br /> <br /> —E que foi feito da Joanninha?—perguntou Luiza. <br /> <br /><span class="pagenum"><a name="p215" id="p215">[215]</a></span> -Morrra tisica—e a voz de Leopoldina fez-se -saudosa. Uma doena bem triste, no era? Mas no +Morrêra tisica—e a voz de Leopoldina fez-se +saudosa. Uma doença bem triste, não era? Mas não lhe tinha medo, ella! Batia no seio, bem formado: <br /> <br /> -—Isto rijo, isto so! <br /> +—Isto é rijo, isto é são! <br /> <br /> Juliana sahiu, e Luiza observou logo: <br /> <br /> -—V no que fallas, filha! Tem cuidado! <br /> +—Vê no que fallas, filha! Tem cuidado! <br /> <br /> Leopoldina curvou-se: <br /> <br /> -—Ah! a respeitabilidade da casa! Tens razo!—murmurou. <br /> +—Ah! a respeitabilidade da casa! Tens razão!—murmurou. <br /> <br /> E como Juliana entrava com o bacalhau assado, -fez-lhe uma ovao! <br /> +fez-lhe uma ovação! <br /> <br /> -—Bravo! Est soberbo! <br /> +—Bravo! Está soberbo! <br /> <br /> Tocou-lhe com a ponta do dedo, gulosa; vinha louro, um pouco tostado, abrindo em lascas. <br /> <br /> -—Tu vers—dizia ella.—No te tentas? Fazes +—Tu verás—dizia ella.—Não te tentas? Fazes mal! <br /> <br /> -Teve ento um movimento decidido de bravura, +Teve então um movimento decidido de bravura, disse: <br /> <br /> —Traga-me um alho, snr.<sup>a</sup> Juliana! Traga-me @@ -8401,15 +8361,15 @@ um bom alho! <br /> <br /> E apenas ella sahiu: <br /> <br /> -—Eu vou ter logo com o Fernando, mas no me -importa!...—Ah! Obrigada, snr.<sup>a</sup> Juliana! No ha +—Eu vou ter logo com o Fernando, mas não me +importa!...—Ah! Obrigada, snr.<sup>a</sup> Juliana! Não ha nada como o alho!... <br /> <br /> Esborrachou-o em roda do prato, regou as <a href="#e7">lascas</a> do bacalhau d'um fio molle d'azeite, com gravidade.—Divino!—exclamou.—Tornou a encher o copo, -achava aquillo uma pandiga. <br /> +achava aquillo «uma pandiga». <br /> <br /> —Mas que tens tu? <br /> <br /> @@ -8418,19 +8378,19 @@ Luiza com effeito parecia preoccupada. Tinha suspirado baixo. Duas vezes, endireitando-se na cadeira, dissera a Juliana, inquieta: <br /> <br /> -—Parece que tocaram a campainha, v vr. <br /> +—Parece que tocaram a campainha, vá vêr. <br /> <br /> -No era ninguem. <br /> +Não era ninguem. <br /> <br /> -—Quem havia de ser? No esperas teu marido, +—Quem havia de ser? Não esperas teu marido, de certo. <br /> <br /> -—Ah! no! <br /> +—Ah! não! <br /> <br /> -E ento Leopoldina, com os olhos no prato, partindo +E então Leopoldina, com os olhos no prato, partindo devagar, muito attenta, lascasinhas de bacalhau: <br /> <br /> -—E teu primo veio vr-te? <br /> +—E teu primo veio vêr-te? <br /> <br /> Luiza fez-se vermelha. <br /> <br /> @@ -8440,54 +8400,54 @@ Luiza fez-se vermelha. <br /> <br /> E depois d'um silencio: <br /> <br /> -—Ainda est bonito? <br /> +—Ainda está bonito? <br /> <br /> -—No est feio... <br /> +—Não está feio... <br /> <br /> —Ah! <br /> <br /> Luiza apressou-se a perguntar se tinha encommendado -o vestido de xadrezinho? No. E comearam -a fallar de <em>toilettes</em>, fazendas, lojas, e preos... +o vestido de xadrezinho? Não. E começaram +a fallar de <em>toilettes</em>, fazendas, lojas, e preços... Depois, de conhecidas, d'outras senhoras, de boatos—perdendo-se -n'uma conversa de mulheres ss, +n'uma conversa de mulheres sós, miudinha e divagada, semelhante ao ramalhar de folhagens. <br /> <br /> -Viera o assado. Leopoldina j ia tendo uma cr +Viera o assado. Leopoldina já ia tendo uma côr quente nas faces. Pediu a Juliana que lhe fosse buscar o leque;—e recostada, abanando-se, declarou que se sentia como um principe! E ia beberricando -golinhos de vinho. Que boa ida, jantarem juntas!... +golinhos de vinho. Que boa idéa, jantarem juntas!... <br /> <br /><span class="pagenum">[217]</span> -Apenas Juliana dispz os pratos de fruta, Luiza -disse-lhe logo: que chamaria para o caf, que podia -ir. Foi ella mesmo fechar a porta da sala, correr +Apenas Juliana dispôz os pratos de fruta, Luiza +disse-lhe logo: «que chamaria para o café, que podia +ir». Foi ella mesmo fechar a porta da sala, correr o reposteiro de cretone: <br /> <br /> -—Estamos vontade, agora! Fao-me velha s -d'olhar para esta creatura! Estou morta pela vr pelas +—Estamos á vontade, agora! Faço-me velha só +d'olhar para esta creatura! Estou morta pela vêr pelas costas. <br /> <br /> -—Mas porque a no pes na rua? <br /> +—Mas porque a não pões na rua? <br /> <br /> -Era Jorge que no queria, seno... <br /> +Era Jorge que não queria, senão... <br /> <br /> -Leopoldina protestou. Boa! os maridos no deviam +Leopoldina protestou. Boa! os maridos não deviam ter vontade!... Era o que faltava!... <br /> <br /> -—E o teu, ento?—disse Luiza, rindo. <br /> +—E o teu, então?—disse Luiza, rindo. <br /> <br /> —Obrigada!—exclamou Leopoldina.—Um homem -que faz quarto parte! <br /> +que faz quarto á parte! <br /> <br /> De resto detestava os homens que se occupam de criadas, de roes, d'azeites e vinagres... <br /> <br /> -—Que l o meu cavalheiro at pesa a carne!—Sorriu, -com odio.—Tambem o que vale, seno!... -Eu s d'ir cozinha me do enjos... <br /> +—Que lá o meu cavalheiro até pesa a carne!—Sorriu, +com odio.—Tambem é o que vale, senão!... +Eu só d'ir á cozinha me dão enjôos... <br /> <br /> Quiz deitar vinho, mas a garrafa estava vazia. <br /> <br /> @@ -8502,10 +8462,10 @@ do seu papel azul;—e com risinhos, sustos, fizeram estalar a rolha. A espuma encantou-as: olhavam os copos, caladas, com um bem-estar feliz. Leopoldina gabou-se de saber abrir muito bem o champagne; -fallava vagamente de cas passadas... +fallava vagamente de cêas passadas... <br /> <br /><span class="pagenum">[218]</span> -—Em tera-feira gorda, ha dous annos!... <br /> +—Em terça-feira gorda, ha dous annos!... <br /> <br /> E toda recostada na cadeira, com um sorriso calido, as azas do nariz dilatadas, a pupilla humida, @@ -8514,86 +8474,86 @@ subiam, sem cessar, no copo esguio. <br /> <br /> —Se fosse rica, bebia sempre champagne—disse. <br /> <br /> -Luiza no: ambicionava um coup; e queria viajar, +Luiza não: ambicionava um coupé; e queria viajar, ir a Paris, a Sevilha, a Roma... Mas os desejos de Leopoldina eram mais vastos: invejava uma larga vida, com carruagens, camarotes d'assignatura, -uma casa em Cintra, cas, bailes, <em>toilettes</em>, jogo... +uma casa em Cintra, cêas, bailes, <em>toilettes</em>, jogo... Porque gostava do <em>monte</em>—dizia—fazia-lhe bater -o corao. E estava convencida que havia de adorar +o coração. E estava convencida que havia de adorar a roleta. <br /> <br /> -—Ah!—exclamou—Os homens so bem mais -felizes que ns! Eu nasci para homem! O que eu +—Ah!—exclamou—Os homens são bem mais +felizes que nós! Eu nasci para homem! O que eu faria! <br /> <br /> Levantou-se, foi-se deixar cahir muito languidamente -na <em>voltaire</em>, ao p da janella. A tarde descia -serenamente; por traz das casas, para l dos terrenos +na <em>voltaire</em>, ao pé da janella. A tarde descia +serenamente; por traz das casas, para lá dos terrenos vagos, nuvens arredondavam-se, amarelladas, -orladas de cres sanguineas ou de tons alaranjados. <br /> +orladas de côres sanguineas ou de tons alaranjados. <br /> <br /> -E voltando-lhe a mesma ida d'aco, d'independencia: <br /> +E voltando-lhe a mesma idéa d'acção, d'independencia: <br /> <br /> -—Um homem pde fazer tudo! Nada lhe fica -mal! Pde viajar, correr aventuras... Sabes tu, fumava +—Um homem póde fazer tudo! Nada lhe fica +mal! Póde viajar, correr aventuras... Sabes tu, fumava agora um cigarrito... <br /> <br /> -O peor que Juliana podia sentir o cheiro. E parecia -to mal!... +O peor é que Juliana podia sentir o cheiro. E parecia +tão mal!... <br /> <br /><span class="pagenum">[219]</span> -— um convento, isto!—murmurou Leopoldina.—No -tens m priso, minha filha! <br /> +—É um convento, isto!—murmurou Leopoldina.—Não +tens má prisão, minha filha! <br /> <br /> -Luiza no respondeu; tinha encostado a cabea -mo: e com o olhar vago, como continuando alguma -ida: <br /> +Luiza não respondeu; tinha encostado a cabeça á +mão: e com o olhar vago, como continuando alguma +idéa: <br /> <br /> -—So tolices, no fim, andar, viajar! A unica -cousa n'este mundo a gente estar na sua casa, +—São tolices, no fim, andar, viajar! A unica +cousa n'este mundo é a gente estar na sua casa, com o seu homem, um filho ou dous... <br /> <br /> Leopoldina deu um salto na <em>voltaire</em>. Filhos! Credo, que nem fallasse em semelhante cousa! Todos -os dias dava graas a Deus em os no ter! <br /> -<br /> -—Que horror!—exclamou com convico.—O -incommodo todo o tempo que se est!... as despezas! -os trabalhos, as doenas! Deus me livre! uma -priso! E depois quando crescem, do f de tudo, -palram, vo dizer... Uma mulher com filhos est -inutil para tudo, est atada de ps e mos! No ha -prazer na vida. estar alli a atural-os... Credo! -Eu? Que Deus no me castigue, mas se tivesse essa -desgraa parece-me que ia ter com a velha da travessa +os dias dava graças a Deus em os não ter! <br /> +<br /> +—Que horror!—exclamou com convicção.—O +incommodo todo o tempo que se está!... as despezas! +os trabalhos, as doenças! Deus me livre! É uma +prisão! E depois quando crescem, dão fé de tudo, +palram, vão dizer... Uma mulher com filhos está +inutil para tudo, está atada de pés e mãos! Não ha +prazer na vida. É estar alli a atural-os... Credo! +Eu? Que Deus não me castigue, mas se tivesse essa +desgraça parece-me que ia ter com a velha da travessa da Palha! <br /> <br /> —Que velha?—perguntou Luiza. <br /> <br /> -Leopoldina explicou. Luiza achava uma infamia. +Leopoldina explicou. Luiza achava uma «infamia». A outra encolheu os hombros, acrescentou: <br /> <br /> -—E depois, minha rica, que uma mulher estraga-se: -no ha belleza de corpo que resista. Perde-se -o melhor. Quando se como a tua amiga, a -D. Felicidade, emfim!... Mas quando se direitinha -e arranjadinha!... Nada, minha rica! Embaraos no +—E depois, minha rica, é que uma mulher estraga-se: +não ha belleza de corpo que resista. Perde-se +o melhor. Quando se é como a tua amiga, a +D. Felicidade, emfim!... Mas quando se é direitinha +e arranjadinha!... Nada, minha rica! Embaraços não faltam! <br /> <br /><span class="pagenum">[220]</span> Por baixo, na rua, o realejo do bairro, no seu giro da tarde, veio tocar o final da <em>Traviata</em>; ia escurecendo; -j as verduras dos quintaes tinham uma -igual cr parda; e as casas para alm esbatiam-se na +já as verduras dos quintaes tinham uma +igual côr parda; e as casas para além esbatiam-se na sombra. <br /> <br /> A <em>Traviata</em> lembrou a Luiza a <em>Dama das Camelias</em>: fallaram do romance: recordaram episodios... <br /> <br /> -—Que paixo que eu tive por Armando em rapariga!—disse +—Que paixão que eu tive por Armando em rapariga!—disse Leopoldina. <br /> <br /> —E eu foi por d'Artagnan—exclamou ingenuamente @@ -8601,62 +8561,62 @@ Luiza. <br /> <br /> Riram muito. <br /> <br /> -—Comeamos cedo—observou Leopoldina.—D-me +—Começamos cedo—observou Leopoldina.—Dá-me uma gotinha mais. <br /> <br /> Bebeu, pousou o calix—e encolhendo os hombros: <br /> <br /> -—Oh! Comeamos cedo? Comeam todas! Aos -treze annos j a gente vai na sua quarta paixo. Todas -so mulheres, todas sentem o mesmo!—E batendo -o compasso com o p, cantou, no tom do fado: <br /> +—Oh! Começamos cedo? Começam todas! Aos +treze annos já a gente vai na sua quarta paixão. Todas +são mulheres, todas sentem o mesmo!—E batendo +o compasso com o pé, cantou, no tom do fado: <br /> <br /> <br /> <div class="poetry2"> -O amor uma doena<br /> +O amor é uma doença<br /> Que costuma andar no ar;<br /> -S d'ir janella, s vezes<br /> +Só d'ir á janella, ás vezes<br /> S'apanha a febre d'amar! </div> <br /> <br /> -Estou hoje com uma telha!—E espreguiando-se -muito languidamente:—No fim de contas o -que ha de melhor n'este mundo: o resto uma +Estou hoje com uma telha!—E espreguiçando-se +muito languidamente:—No fim de contas é o +que ha de melhor n'este mundo: o resto é uma <span class="pagenum">[221]</span> -semsaboria! No verdade? Dize, tu! No verdade? <br /> +semsaboria! Não é verdade? Dize, tu! Não é verdade? <br /> <br /> Luiza murmurou: <br /> <br /> -—Se !—E acrescentou logo:—Creio eu! <br /> +—Se é!—E acrescentou logo:—Creio eu! <br /> <br /> Leopoldina ergueu-se, e escarnecendo-a: <br /> <br /> -—Cr ella! Pobre innocentinha! Vejam o anjinho! <br /> +—Crê ella! Pobre innocentinha! Vejam o anjinho! <br /> <br /> -Foi-se encostar janella; ficou a olhar pelos vidros -o descer do crepusculo; de repente pz-se a dizer +Foi-se encostar á janella; ficou a olhar pelos vidros +o descer do crepusculo; de repente pôz-se a dizer devagar: <br /> <br /> —Realmente vale bem a pena estar uma pobre de Christo a privar-se, a passar uma vida de coruja, a mortificar-se, para vir um dia uma febre, um ar, uma soalheira, e boas noites, vai-se para o Alto de -S. Joo! T rola! <br /> +S. João! Tó rola! <br /> <br /> A sala agora estava um pouco escura. <br /> <br /> -—Pois no te parece?—perguntou ella. <br /> +—Pois não te parece?—perguntou ella. <br /> <br /> -Aquella conversa embaraava Luiza: sentia-se crar; +Aquella conversa embaraçava Luiza: sentia-se córar; mas o crepusculo, as palavras de Leopoldina davam-lhe -como o enfraquecimento d'uma tentao. -Declarou todavia <em>immoral</em> semelhante ida. <br /> +como o enfraquecimento d'uma tentação. +Declarou todavia <em>immoral</em> semelhante idéa. <br /> <br /> —Immoral, porque? <br /> <br /> Luiza fallou vagamente nos <em>deveres</em>, na -<em>religio</em>. +<em>religião</em>. Mas os <em>deveres</em> irritavam Leopoldina. Se havia uma cousa que a fizesse sahir de si—dizia—era ouvir fallar em deveres!... <br /> @@ -8666,19 +8626,19 @@ como meu marido? <br /> <br /> Calou-se, e passeando pela sala excitada: <br /> <br /> -—E em quanto a religio, historias! A mim me +—E em quanto a religião, historias! A mim me <span class="pagenum">[222]</span> -dizia o padre Estevo, o de luneta, que tem os dentes -bonitos, que me dava todas as absolvies, se eu +dizia o padre Estevão, o de luneta, que tem os dentes +bonitos, que me dava todas as absolvições, se eu fosse com elle a Carriche! <br /> <br /> —Ah, os padres...—murmurou Luiza. <br /> <br /> -—Os padres qu? So a religio! Nunca vi outra. -Deus, esse, minha rica, est longe, no se occupa +—Os padres quê? São a religião! Nunca vi outra. +Deus, esse, minha rica, está longe, não se occupa do que fazem as mulheres. <br /> <br /> -Luiza achava horrivel aquelle modo de pensar. +Luiza achava horrivel «aquelle modo de pensar». A felicidade, a verdadeira, segundo ella, era ser honesta... <br /> <br /> @@ -8687,20 +8647,20 @@ com odio. <br /> <br /> Luiza disse, animada: <br /> <br /> -—Pois olha que com as tuas paixes, umas atraz +—Pois olha que com as tuas paixões, umas atraz das outras... <br /> <br /> Leopoldina estacou: <br /> <br /> —O que? <br /> <br /> -—No te podem fazer feliz! <br /> +—Não te podem fazer feliz! <br /> <br /> -—Est claro que no!—exclamou a outra.—Mas...—procurou -a palavra; no a quiz empregar +—Está claro que não!—exclamou a outra.—Mas...—procurou +a palavra; não a quiz empregar de certo; disse apenas com um tom secco:—Divertem-me! <br /> <br /> -Calaram-se. Luiza pediu o caf. <br /> +Calaram-se. Luiza pediu o café. <br /> <br /> Juliana entrou com a bandeja, trouxe luz; d'ahi a pouco foram para a sala. <br /> @@ -8725,23 +8685,23 @@ Luiza riu. <br /> <br /> —Doudo, palavra!—affirmou Leopoldina. <br /> <br /> -A sala estava s escuras, com as janellas abertas; +A sala estava ás escuras, com as janellas abertas; a rua esbatia-se n'um crepusculo pardo: um ar -languido e dce amaciava a noite. <br /> +languido e dôce amaciava a noite. <br /> <br /> Leopoldina esteve um momento calada; mas o champagne, a meia obscuridade deram-lhe bem depressa a necessidade de cochichar confidenciasinhas. Estirou-se mais no divan, n'uma attitude toda abandonada; -pz-se a fallar d'elle. Era ainda o Fernando, +pôz-se a fallar «d'elle». Era ainda o Fernando, o poeta. Adorava-o. <br /> <br /> —Se tu soubesses!—murmurava com um ar de -extase.— um amor de rapaz! <br /> +extase.—É um amor de rapaz! <br /> <br /> -A sua voz velada tinha inflexes d'uma ternura +A sua voz velada tinha inflexões d'uma ternura calida. Luiza sentia-lhe o halito e o calor do corpo, -quasi deitada tambem, enervada; a sua respirao +quasi deitada tambem, enervada; a sua respiração alta tinha por vezes um tom suspirado: e a certos detalhes mais picantes de Leopoldina soltava um risinho quente e curto, como de cocegas... Mas passos @@ -8749,17 +8709,17 @@ fortes de botas de taxas subiram a rua, e no candieiro defronte o gaz saltou com um jacto vivo. Uma branda claridade pallida penetrou na sala. <br /> <br /> -Leopoldina ergueu-se logo.—Tinha d'ir j, j, -ao accender do gaz. Estava espera, o pobre rapaz! -Entrou no quarto, mesmo s escuras, a pr o chapo, +Leopoldina ergueu-se logo.—Tinha d'ir já, já, +ao accender do gaz. Estava á espera, o pobre rapaz! +Entrou no quarto, mesmo ás escuras, a pôr o chapéo, buscar a sombrinha.—Tinha-lhe promettido, coitado, -no podia faltar. Mas realmente embirrava d'ir +não podia faltar. Mas realmente embirrava d'ir <span class="pagenum">[224]</span> -s. Era to longe! Se a Juliana podesse vir acompanhal-a... <br /> +só. Era tão longe! Se a Juliana podesse vir acompanhal-a... <br /> <br /> —Vai, sim, filha!—disse Luiza. <br /> <br /> -Ergueu-se preguiosamente com um grande <em>ai!</em> +Ergueu-se preguiçosamente com um grande <em>ai!</em> foi abrir a porta, e deu de cara com Juliana, na sombra do corredor. <br /> <br /> @@ -8767,7 +8727,7 @@ do corredor. <br /> <br /> —Vinha saber se queriam luz... <br /> <br /> -—No. V pr um chale para acompanhar a +—Não. Vá pôr um chale para acompanhar a snr.<sup>a</sup> D. Leopoldina! Depressa! <br /> <br /> Juliana foi correndo. <br /> @@ -8776,7 +8736,7 @@ Juliana foi correndo. <br /> Luiza. <br /> <br /> Logo que podesse. Para a semana estava com -idas d'ir ao Porto vr a tia Figueiredo, passar quinze +idéas d'ir ao Porto vêr a tia Figueiredo, passar quinze dias na Foz... <br /> <br /> A porta abriu-se. <br /> @@ -8784,12 +8744,12 @@ A porta abriu-se. <br /> —Quando a senhora quizer...—disse Juliana. <br /> <br /> Fizeram grandes <em>adeuses</em>, beijaram-se muito. Luiza -disse rindo ao ouvido de Leopoldina:—S feliz! <br /> +disse rindo ao ouvido de Leopoldina:—Sê feliz! <br /> <br /> -Ficou s. Fechou as janellas, accendeu as velas, -comeou a passear pela sala, esfregando devagar as -mos. E, sem querer, no podia desprender a ida -de Leopoldina que ia vr o seu amante! O seu +Ficou só. Fechou as janellas, accendeu as velas, +começou a passear pela sala, esfregando devagar as +mãos. E, sem querer, não podia desprender a idéa +de Leopoldina que ia vêr o seu amante! O seu amante!... <br /> <br /> Seguia-a mentalmente:—caminhava depressa de @@ -8798,37 +8758,37 @@ nervosa; atirava com a porta—e que delicioso, que avido, que profundo o primeiro beijo! Suspirou. <span class="pagenum">[225]</span> Tambem ella amava—e <em>um</em> mais bello, mais fascinante. -Porque no tinha vindo? <br /> +Porque não tinha vindo? <br /> <br /> -Sentou-se ao piano preguiosamente; pz-se a +Sentou-se ao piano preguiçosamente; pôz-se a cantar baixo, triste, o fado de Leopoldina: <br /> <br /> <br /> <div class="poetry0"> E por mais longe que esteja<br /> -Vejo-o sempre ao p de mim!... +Vejo-o sempre ao pé de mim!... </div> <br /> <br /> -Mas um sentimento de solido, d'abandono, veio -impaciental-a. Que scca, estar alli to ssinha! -Aquella noite calida, bella e dce, attrahia-a, chamava-a -para fra, para passeios sentimentaes, ou -para contemplaes do co, n'um banco de jardim, -com as mos entrelaadas. Que vida estupida, a -d'ella! Oh! aquelle Jorge! Que ida ir para o Alemtejo! <br /> +Mas um sentimento de solidão, d'abandono, veio +impaciental-a. Que sécca, estar alli tão sósinha! +Aquella noite calida, bella e dôce, attrahia-a, chamava-a +para fóra, para passeios sentimentaes, ou +para contemplações do céo, n'um banco de jardim, +com as mãos entrelaçadas. Que vida estupida, a +d'ella! Oh! aquelle Jorge! Que idéa ir para o Alemtejo! <br /> <br /> -As conversas de Leopoldina e a lembrana das +As conversas de Leopoldina e a lembrança das suas felicidades voltavam-lhe a cada momento; uma pontinha de champagne agitava-se-lhe no sangue. O -relogio do quarto comeou lentamente a dar nove +relogio do quarto começou lentamente a dar nove horas—e de repente a campainha retiniu. <br /> <br /> -Teve um sobresalto: no podia ser ainda Juliana! -Poz-se a escutar, assustada. Vozes fallavam +Teve um sobresalto: não podia ser ainda Juliana! +Poz-se a escutar, assustada. Vozes fallavam á cancella. <br /> <br /> -—Minha senhora—veio dizer Joanna baixo— +—Minha senhora—veio dizer Joanna baixo—é o primo da senhora que diz que se vem despedir... <br /> <br /> Abafou um grito, balbuciou: <br /> @@ -8843,16 +8803,16 @@ com um sorriso fixo. <br /> —Tu partes!—exclamou ella surdamente, precipitando-se para elle. <br /> <br /> -—No!—E prendeu-a nos braos.—No! Imaginei -que me no recebias a esta hora, e tomei este +—Não!—E prendeu-a nos braços.—Não! Imaginei +que me não recebias a esta hora, e tomei este pretexto. <br /> <br /> Apertou-a contra si, beijou-a; ella deixava, toda abandonada; os seus labios prendiam-se aos d'elle. Bazilio deitou um olhar rapido, em redor, pela sala, -e foi-a levando abraada, murmurando: Meu amor! -minha filha! Mesmo tropeou na pelle de tigre, estendida -ao p do divan. <br /> +e foi-a levando abraçada, murmurando: Meu amor! +minha filha! Mesmo tropeçou na pelle de tigre, estendida +ao pé do divan. <br /> <br /> —Adoro-te! <br /> <br /> @@ -8860,24 +8820,24 @@ ao p do divan. <br /> <br /> —Tiveste? <br /> <br /> -Ella no respondeu; ia perdendo a percepo nitida +Ella não respondeu; ia perdendo a percepção nitida das cousas; sentia-se como adormecer; balbuciou: -Jesus! no! no! Os seus olhos cerraram-se. <br /> +Jesus! não! não! Os seus olhos cerraram-se. <br /> <br /> <br /> <br /> -Quando a campainha retiniu fortemente s dez -horas, Luiza, havia momentos, sentra-se beira do -divan. Mal teve fora de dizer a Bazilio: <br /> +Quando a campainha retiniu fortemente ás dez +horas, Luiza, havia momentos, sentára-se á beira do +divan. Mal teve força de dizer a Bazilio: <br /> <br /> -—Ha-de ser a Juliana, tinha ido fra... <br /> +—Ha-de ser a Juliana, tinha ido fóra... <br /> <br /> Bazilio cofiou o bigode, deu duas voltas na sala, foi accender um charuto. Para quebrar o silencio sentou-se ao piano, tocou alguns compassos ao acaso, e, <span class="pagenum">[227]</span> -erguendo um pouco a voz, comeou a cantarolar a -aria do 3. acto do <em>Fausto</em>: <br /> +erguendo um pouco a voz, começou a cantarolar a +aria do 3.º acto do <em>Fausto</em>: <br /> <br /> <br /> <div class="poetry2"> @@ -8886,9 +8846,9 @@ Del astri d'oro... </div> <br /> <br /> -Luiza, atravs das ultimas vibraes dos seus nervos, +Luiza, através das ultimas vibrações dos seus nervos, ia entrando na realidade; os seus joelhos tremiam. -E ento, ouvindo aquella melodia, uma recordao +E então, ouvindo aquella melodia, uma recordação foi-se formando no seu espirito, ainda estremunhado:—era uma noite, havia annos, em S. Carlos, n'um camarote com Jorge; uma luz electrica @@ -8897,8 +8857,8 @@ e n'uma altitude extatica e suspirante o tenor invocava as estrellas; Jorge tinha-se voltado, dissera-lhe: Que lindo! E o seu olhar devorava-a. Era no segundo mez do seu casamento. Ella estava -com um vestido azul-escuro. E volta, na carruagem, -Jorge, passando-lhe a mo pela cinta, repetia: <br /> +com um vestido azul-escuro. E á volta, na carruagem, +Jorge, passando-lhe a mão pela cinta, repetia: <br /> <br /> <br /> <div class="poetry2"> @@ -8908,62 +8868,62 @@ Del astri d'oro... <br /> E apertava-a contra si... <br /> <br /> -Ficra immovel beira do divan, quasi a escorregar, -os braos frouxos, o olhar fixo, a face envelhecida, -o cabello desmanchado. Bazilio ento veio +Ficára immovel á beira do divan, quasi a escorregar, +os braços frouxos, o olhar fixo, a face envelhecida, +o cabello desmanchado. Bazilio então veio sentar-se devagarinho junto d'ella.—Em que estava a pensar? <br /> <br /> —Nada. <br /> <br /> -Elle passou-lhe o brao pela cinta, comeou a dizer +Elle passou-lhe o braço pela cinta, começou a dizer <span class="pagenum">[228]</span> que havia de procurar uma casinha para se verem -melhor, estarem mais vontade; no era mesmo +melhor, estarem mais á vontade; não era mesmo prudente alli em casa d'ella... <br /> <br /> E fallando, voltava a cada momento o rosto, soprava para o lado o fumo do charuto. <br /> <br /> -—No te parece que vir eu aqui, todos os dias, -pde ser reparado? <br /> +—Não te parece que vir eu aqui, todos os dias, +póde ser reparado? <br /> <br /> -Luiza ergueu-se bruscamente, lembrra-lhe Sebastio!... +Luiza ergueu-se bruscamente, lembrára-lhe Sebastião!... E com uma voz um pouco desvairada: <br /> <br /> -—J to tarde!—disse. <br /> +—Já é tão tarde!—disse. <br /> <br /> -—Tens razo. <br /> +—Tens razão. <br /> <br /> -Foi buscar o chapo em bicos de ps, veio beijal-a +Foi buscar o chapéo em bicos de pés, veio beijal-a muito, sahiu. <br /> <br /> —Luiza sentiu-o accender um phosphoro, fechar devagarinho a cancella. <br /> <br /> -Estava s; pz-se a olhar em roda, como idiota. +Estava só; pôz-se a olhar em roda, como idiota. O silencio da sala parecia-lhe enorme. As velas tinham uma chamma avermelhada. Piscava os olhos, -tinha a bocca scca. Uma das almofadas do divan +tinha a bocca sêcca. Uma das almofadas do divan estava cahida, apanhou-a. <br /> <br /> E com um ar somnambulo entrou no quarto. Juliana -veio trazer o rol. E j vinha com a lamparina, +veio trazer o rol. E já vinha com a lamparina, estava a arranjal-a... <br /> <br /> -Tinha tirado a cuia; subiu cozinha quasi a correr. -A Joanna, que estivera dormitando, espreguiava-se +Tinha tirado a cuia; subiu á cozinha quasi a correr. +A Joanna, que estivera dormitando, espreguiçava-se com bocejos enormes. <br /> <br /> -Juliana pz-se a arranjar a torcida da lamparina; +Juliana pôz-se a arranjar a torcida da lamparina; os dedos tremiam-lhe; tinha no olhar um brilho agudo; e depois de tossir, devagarinho, com um sorriso para Joanna: <br /> <br /><span class="pagenum">[229]</span> -—E ento a que horas veio o primo da senhora? <br /> +—E então a que horas veio o primo da senhora? <br /> <br /> -—Veio logo que vossemec sahiu, estavam a +—Veio logo que vossemecê sahiu, estavam a dar as nove. <br /> <br /> —Ah! <br /> @@ -8971,18 +8931,18 @@ dar as nove. <br /> Desceu com a lamparina; e sentindo Luiza na alcova despir-se: <br /> <br /> -—A senhora no quer ch?—perguntou, com +—A senhora não quer chá?—perguntou, com muito interesse. <br /> <br /> -—No. <br /> +—Não. <br /> <br /> -Foi sala, fechou o piano. Havia um forte cheiro -de charuto. Pz-se a olhar em redor, devagar, +Foi á sala, fechou o piano. Havia um forte cheiro +de charuto. Pôz-se a olhar em redor, devagar, andando com um passo subtil... De repente agachou-se, -anciosamente: ao p do divan uma cousa reluzia. +anciosamente: ao pé do divan uma cousa reluzia. Era uma travessa de Luiza, de tartaruga, com o aro dourado. Tornou a entrar no quarto em pontas de -ps, pousou-a no toucador, entre os rlos de cabello. <br /> +pés, pousou-a no toucador, entre os rôlos de cabello. <br /> <br /> —Quem anda ahi?—perguntou da alcova a voz somnolenta de Luiza. <br /> @@ -8992,18 +8952,18 @@ a sala. Muito boas noites, minha senhora! <br /> <br /> <br /> <br /> -quella hora Bazilio entrava no Gremio. Procurou +Áquella hora Bazilio entrava no Gremio. Procurou pelas salas. Estavam quasi desertas. Dous sujeitos, com os rostos entre os punhos, curvados em attitudes -lugubres, ruminavam os jornaes: aqui, alm, -junto a mesinhas redondas, pessoas de cala branca +lugubres, ruminavam os jornaes: aqui, além, +junto a mesinhas redondas, pessoas de calça branca <span class="pagenum">[230]</span> -mastigavam torradas com uma satisfao placida; as +mastigavam torradas com uma satisfação placida; as janellas estavam fechadas, a noite quente, e o calor molle do gaz abafava. Ia descer quando de uma saleta de jogo, de repente, sahiu o ruido irritado de -uma altercao; trocavam-se injurias, gritava-se:—Mente! -O asno voss! <br /> +uma altercação; trocavam-se injurias, gritava-se:—Mente! +O asno é vossê! <br /> <br /> Bazilio estacou, escutando. Mas, subitamente, fez-se um grande silencio; uma das vozes disse com @@ -9013,17 +8973,17 @@ brandura: <br /> <br /> A outra respondeu com benevolencia: <br /> <br /> -— o que devia ter feito ha pouco. <br /> +—É o que devia ter feito ha pouco. <br /> <br /> -E immediatamente a questo rebentou de novo, +E immediatamente a questão rebentou de novo, estridente. Praguejavam, diziam obscenidades. <br /> <br /> -Bazilio foi ao bilhar. O visconde Reynaldo, de p, +Bazilio foi ao bilhar. O visconde Reynaldo, de pé, apoiado ao taco, seguia com uma immobilidade grave o jogo do seu parceiro; mas apenas viu Bazilio, veio para elle rapidamente, e muito interessado: <br /> <br /> -—Ento? <br /> +—Então? <br /> <br /> —Agora mesmo—disse Bazilio mordendo o charuto. <br /> <br /> @@ -9038,21 +8998,21 @@ Batia-lhe no hombro, commovido. <br /> <br /> Mas chamaram-no para jogar; e todo estirado sobre o bilhar, com uma perna no ar, para dar com -mais segurana o <em>effeito</em>, dizia com a voz +mais segurança o <em>effeito</em>, dizia com a voz constrangida pela attitude: <br /> <br /><span class="pagenum">[231]</span> -—Estimo, estimo, porque essa cousa comeava +—Estimo, estimo, porque essa cousa começava a arrastar... <br /> <br /> Tac! Falhou a carambola. <br /> <br /> -—No dou meia!—murmurou com rancor. <br /> +—Não dou meia!—murmurou com rancor. <br /> <br /> E chegando-se a Bazilio, a dar giz no taco: <br /> <br /> -—Ouve c... <br /> +—Ouve cá... <br /> <br /> Fallou-lhe ao ouvido. <br /> <br /> @@ -9065,31 +9025,31 @@ Fallou-lhe ao ouvido. <br /> </h3> <br /> <br /> -Foi Juliana que na manh seguinte veio acordar -Luiza, dizendo porta da alcova com a voz abafada, +Foi Juliana que na manhã seguinte veio acordar +Luiza, dizendo á porta da alcova com a voz abafada, em confidencia: <br /> <br /> -—Minha senhora! Minha senhora! um criado -com esta carta, diz que vem do htel. <br /> +—Minha senhora! Minha senhora! É um criado +com esta carta, diz que vem do hótel. <br /> <br /> -Foi abrir uma das janellas, em bicos de ps; e -voltando alcova com uma cautela mysteriosa: <br /> +Foi abrir uma das janellas, em bicos de pés; e +voltando á alcova com uma cautela mysteriosa: <br /> <br /> -—E est espera da resposta, est porta. <br /> +—E está á espera da resposta, está á porta. <br /> <br /> Luiza, estremunhada, abriu o largo enveloppe azul com um monogramma—dous BB, um purpura, -outro ouro, sob uma cora de conde. <br /> +outro ouro, sob uma corôa de conde. <br /> <br /> -—Bem, no tem resposta. <br /> +—Bem, não tem resposta. <br /> <br /> -No tem resposta—foi dizer Juliana ao criado, -que esperava encostado ao corrimo, fumando -um grande charuto, e cofiando as suias pretas. +Não tem resposta—foi dizer Juliana ao criado, +que esperava encostado ao corrimão, fumando +um grande charuto, e cofiando as suiças pretas. <br /> <br /><span class="pagenum">[234]</span> -—No tem resposta? Bem, muito bom dia.—Levou -o dedo seccamente aba do cco, e desceu, +—Não tem resposta? Bem, muito bom dia.—Levou +o dedo seccamente á aba do «côco», e desceu, gingando. <br /> <br /> Perfeito homem! foi pensando Juliana, pela escada @@ -9102,38 +9062,38 @@ Juliana resmungou: <br /> <br /> —Ninguem, um recado da modista. <br /> <br /> -Desde pela manh a Joanna achava-lhe o ar -exquisito. Sentira-a desde as sete horas varrer, espanejar, -sacudir, lavar as vidraas da sala de jantar, -arrumar as louas no aparador. E com uma azafama! +Desde pela manhã a Joanna achava-lhe o «ar +exquisito». Sentira-a desde as sete horas varrer, espanejar, +sacudir, lavar as vidraças da sala de jantar, +arrumar as louças no aparador. E com uma azafama! Ouvira-a cantar a <em>Carta adorada</em>, ao mesmo tempo que os canarios, nas varandas abertas, chilreavam estridentemente ao sol. Quando veio tomar o -seu caf cozinha no palestrou como de costume; +seu café á cozinha não palestrou como de costume; parecia preoccupada e ausente. <br /> <br /> -Joanna at lhe perguntou: <br /> +Joanna até lhe perguntou: <br /> <br /> —Sente-se peor, snr.<sup>a</sup> Juliana? <br /> <br /> -—Eu? Graas a Deus, nunca me senti to bem. <br /> +—Eu? Graças a Deus, nunca me senti tão bem. <br /> <br /> -—Como a vejo to calada... <br /> +—Como a vejo tão calada... <br /> <br /> -—A malucar c por dentro... A gente nem sempre -est para grulhar. <br /> +—A malucar cá por dentro... A gente nem sempre +está para grulhar. <br /> <br /> -Apesar de serem nove horas no quizera acordar -a senhora. Deixal-a descanar, coitada—disse. -Foi em pontas de ps encher devagarinho a bacia -grande do banho, no quarto; para no fazer ruido, +Apesar de serem nove horas não quizera acordar +a senhora. Deixal-a descançar, coitada—disse. +Foi em pontas de pés encher devagarinho a bacia +grande do banho, no quarto; para não fazer ruido, sacudiu no corredor as saias, o vestido da vespera: e os seus olhos brilharam avidamente quando <span class="pagenum">[235]</span> sentiu na algibeirinha um papel amarrotado! Era o -bilhete que Luiza escrevera a Bazilio: Porque no -vens?... Se soubesses o que me fazes soffrer!... -Teve-o um momento na mo, mordendo o beio, o +bilhete que Luiza escrevera a Bazilio: «Porque não +vens?... Se soubesses o que me fazes soffrer!...» +Teve-o um momento na mão, mordendo o beiço, o olhar fixo n'um calculo agudo; por fim tornou a mettel-o na algibeira de Luiza, dobrou o vestido, foi estendel-o com muito cuidado na <em>causeuse</em>. <br /> @@ -9141,26 +9101,26 @@ estendel-o com muito cuidado na <em>causeuse</em>. <br /> Enfim, mais tarde, sentindo o <em>cuco</em> dar horas, decidiu-se a ir dizer a Luiza, com uma voz meiga: <br /> <br /> -—So dez e meia, minha senhora! <br /> +—São dez e meia, minha senhora! <br /> <br /> Luiza, na cama, tinha lido, relido o bilhete de Bazilio: -No pudera—escrevia ele—estar mais +«Não pudera—escrevia ele—estar mais tempo sem lhe dizer que a adorava. Mal dormira! Erguera-se -de manh muito cdo para lhe jurar que estava -louco, e que punha a sua vida aos ps d'ella. -Compozera aquella prosa na vespera, no Gremio, s +de manhã muito cêdo para lhe jurar que estava +louco, e que punha a sua vida aos pés d'ella.» +Compozera aquella prosa na vespera, no Gremio, ás tres horas, depois de alguns <em>robbers</em> d'<em>whist</em>, um bife, -dous copos de cerveja e uma leitura preguiosa -da <em>Illustrao</em>. E terminava, exclamando:—Que +dous copos de cerveja e uma leitura preguiçosa +da <em>Illustração</em>. E terminava, exclamando:—«Que outros desejem a fortuna, a gloria, as honras, eu -desejo-te a ti! S a ti, minha pomba, porque tu s o -unico lao que me prende vida, e se manh perdesse +desejo-te a ti! Só a ti, minha pomba, porque tu és o +unico laço que me prende á vida, e se ámanhã perdesse o teu amor, juro-te que punha um termo, com -uma boa bala, a esta existencia inutil!—Pedira -mais cerveja, e levra a carta para a fechar em casa, -n'um enveloppe com o seu monogramma, porque -sempre fazia mais effeito. <br /> +uma boa bala, a esta existencia inutil!»—Pedira +mais cerveja, e levára a carta para a fechar em casa, +n'um enveloppe com o seu monogramma, «porque +sempre fazia mais effeito». <br /> <br /> E Luiza tinha suspirado, tinha beijado o papel devotamente! Era a primeira vez que lhe escreviam @@ -9172,68 +9132,68 @@ um acrescimo de estima par si mesma, e parecia-lhe que entrava emfim n'uma existencia superiormente interessante, onde cada hora tinha o seu encanto differente, cada passo conduzia a um extase, -e a alma se cobria d'um luxo radioso de sensaes! <br /> +e a alma se cobria d'um luxo radioso de sensações! <br /> <br /> Ergueu-se d'um salto, passou rapidamente um -roupo, veio levantar os transparentes da janella... -Que linda manh! Era um d'aquelles dias do fim +roupão, veio levantar os transparentes da janella... +Que linda manhã! Era um d'aquelles dias do fim d'agosto em que o estio faz uma pausa; ha prematuramente, no calor e na luz, uma certa tranquillidade outonal; o sol cahe largo, resplandecente, mas -pousa de leve; o ar no tem o embaciado canicular, +pousa de leve; o ar não tem o embaciado canicular, e o azul muito alto reluz com uma nitidez lavada; -respira-se mais livremente; e j se no v na gente +respira-se mais livremente; e já se não vê na gente que passa o abatimento molle da calma enfraquecedora. Veio-lhe uma alegria: sentia-se ligeira, tinha -dormido a noite d'um somno so, continuo, e todas -as agitaes, as impaciencias dos dias passados pareciam -ter-se dissipado n'aquelle repouso. Foi-se vr +dormido a noite d'um somno são, continuo, e todas +as agitações, as impaciencias dos dias passados pareciam +ter-se dissipado n'aquelle repouso. Foi-se vêr ao espelho; achou a pelle mais clara, mais fresca, e um enternecimento humido no olhar;—seria verdade -ento o que dizia Leopoldina, que no havia -como uma maldadesinha para fazer a gente bonita? +então o que dizia Leopoldina, que «não havia +como uma maldadesinha para fazer a gente bonita?» Tinha um amante, ella! <br /> <br /> -E immovel no meio do quarto, os braos cruzados, +E immovel no meio do quarto, os braços cruzados, o olhar fixo, repetia: Tenho um amante! Recordava -a sala na vespera, a chamma aguada das velas, +a sala na vespera, a chamma aguçada das velas, e certos silencios extraordinarios em que lhe parecia <span class="pagenum">[237]</span> -que a vida parra, em quanto os olhos do retrato -da mi de Jorge, negros na face amarella, lhe estendiam +que a vida parára, em quanto os olhos do retrato +da mãi de Jorge, negros na face amarella, lhe estendiam da parede o seu olhar fixo de pintura. Mas Juliana entrou com um taboleiro de roupa passada. Eram horas de se vestir... <br /> <br /> -Que requintes teve n'essa manh! Perfumou a +Que requintes teve n'essa manhã! Perfumou a agua com um cheiro de <em>Lubin</em>, escolheu a camisinha que tinha melhores rendas. E suspirava por ser rica! Queria as bretanhas e as hollandas mais caras, as mobilias mais apparatosas, grossas joias inglezas, -um coup forrado de setim... Porque nos temperamentos -sensiveis as alegrias do corao tendem a +um coupé forrado de setim... Porque nos temperamentos +sensiveis as alegrias do coração tendem a completar-se com as sensualidades do luxo: o primeiro -erro que se installa n'uma alma at ahi defendida, +erro que se installa n'uma alma até ahi defendida, facilita logo aos outros entradas tortuosas;—assim, -um ladro que se introduz n'uma casa vai -abrindo subtilmente as portas sua quadrilha esfomeada. <br /> -<br /> -Subiu para o almoo, muito fresca, com o cabello -em duas tranas, um roupo branco. Juliana precipitou-se -logo a fechar as janellas, porque apesar -de no estar calor, as portadas cerradas sempre davam -mais frescura! E, vendo que lhe esquecera o -leno, correu a buscar-lhe um, que perfumou com +um ladrão que se introduz n'uma casa vai +abrindo subtilmente as portas á sua quadrilha esfomeada. <br /> +<br /> +Subiu para o almoço, muito fresca, com o cabello +em duas tranças, um roupão branco. Juliana precipitou-se +logo a fechar as janellas, «porque apesar +de não estar calor, as portadas cerradas sempre davam +mais frescura!» E, vendo que lhe esquecera o +lenço, correu a buscar-lhe um, que perfumou com agua de colonia. Servia-a com ternura. Viu-a comer muitos figos: <br /> <br /> -—No lhe vo fazer mal, minha senhora!—exclamou +—Não lhe vão fazer mal, minha senhora!—exclamou quasi lacrimosamente. <br /> <br /> Andava em redor d'ella com um sorriso servil, -sem ruido: ou defronte da mesa, com os braos cruzados, +sem ruido: ou defronte da mesa, com os braços cruzados, <span class="pagenum">[238]</span> -parecia admiral-a com orgulho, como um sr +parecia admiral-a com orgulho, como um sêr precioso e querido, todo seu, a <em>sua ama!</em> O seu olhar esbugalhado apossava-se d'ella. <br /> <br /> @@ -9241,48 +9201,48 @@ E dizia consigo: <br /> <br /> —Grande cabra! Grande bebeda! <br /> <br /> -Luiza, depois de almoo, veio para o quarto estender-se +Luiza, depois de almoço, veio para o quarto estender-se na <em>causeuse</em>, com o seu <em>Diario de Noticias</em>. -Mas no podia lr. As recordaes da vespera redemoinhavam-lhe +Mas não podia lêr. As recordações da vespera redemoinhavam-lhe n'alma a cada momento, como as folhas -que um vento d'outono levanta a espaos d'um -cho tranquillo: certas palavras d'elle, certos impetos, +que um vento d'outono levanta a espaços d'um +chão tranquillo: certas palavras d'elle, certos impetos, toda a sua maneira d'amar... E ficava immovel, o olhar afogado n'um fluido, sentindo aquellas reminiscencias -vibrarem-lhe muito tempo, dcemente, -nos nervos da memoria. Todavia a lembrana de -Jorge no a deixava; tivera-a sempre no espirito, -desde a vespera; no a assustava, nem a torturava; +vibrarem-lhe muito tempo, dôcemente, +nos nervos da memoria. Todavia a lembrança de +Jorge não a deixava; tivera-a sempre no espirito, +desde a vespera; não a assustava, nem a torturava; estava alli, immovel mas presente, sem lhe fazer medo, nem lhe trazer remorso; era como se elle -tivesse morrido, ou estivesse to longe que no +tivesse morrido, ou estivesse tão longe que não podesse voltar, ou a tivesse abandonado! Ela mesmo -se espantava de se sentir to tranquilla. E todavia -impacientava-a ter constantemente aquella ida -no espirito, impassivel, com uma obstinao espectral; -punha-se instinctivamente a accumular as justificaes: -No fra culpa sua. No abrira os braos +se espantava de se sentir tão tranquilla. E todavia +impacientava-a ter constantemente aquella idéa +no espirito, impassivel, com uma obstinação espectral; +punha-se instinctivamente a accumular as justificações: +Não fôra culpa sua. Não abrira os braços a Bazilio voluntariamente!... Tinha sido uma <em>fatalidade</em>: -fra o calor da hora, o crepusculo, uma pontinha +fôra o calor da hora, o crepusculo, uma pontinha de vinho talvez... Estava douda, de certo. E -repetia comsigo as attenuaes tradicionaes: no era +repetia comsigo as attenuações tradicionaes: não era <span class="pagenum">[239]</span> -a primeira que enganra seu marido; e muitas era -apenas por vicio, ella fra por paixo... Quantas +a primeira que enganára seu marido; e muitas era +apenas por vicio, ella fôra por paixão... Quantas mulheres viviam n'um amor illegitimo e eram illustres, admiradas! Rainhas mesmo tinham amantes. E -elle amava-a tanto!... Seria to fiel, to discreto! As -suas palavras eram to captivantes, os seus beijos -to estonteadores!... E emfim que lhe havia de -fazer agora? <em>J agora!...</em> <br /> +elle amava-a tanto!... Seria tão fiel, tão discreto! As +suas palavras eram tão captivantes, os seus beijos +tão estonteadores!... E emfim que lhe havia de +fazer agora? <em>Já agora!...</em> <br /> <br /> E resolveu ir responder-lhe. Foi ao escriptorio. Logo ao entrar o seu olhar deu com a photographia -de Jorge—a cabea de tamanho natural,—no seu -caixilho envernizado de preto. Uma commoo comprimiu-lhe -o corao; ficou como <em>tolhida</em>—como +de Jorge—a cabeça de tamanho natural,—no seu +caixilho envernizado de preto. Uma commoção comprimiu-lhe +o coração; ficou como <em>tolhida</em>—como uma pessoa encalmada de ter corrido, que entra na frieza d'um subterraneo; e examinava o seu cabello frisado, a barba negra, a gravata de pontas, as duas @@ -9290,30 +9250,30 @@ espadas encruzadas que reluziam por cima. Se elle soubesse matava-a!... Fez-se muito pallida. Olhava vagamente em redor o casaco de velludo de trabalho dependurado n'um prego, a manta em que elle -embrulhava os ps dobrada a um lado, as grandes +embrulhava os pés dobrada a um lado, as grandes folhas de papel de desenho na outra mesa ao fundo, -e o ptesinho do tabaco, e a caixa das pistolas!... +e o pótesinho do tabaco, e a caixa das pistolas!... Matava-a de certo! <br /> <br /> -Aquelle quarto estava to penetrado da personalidade +Aquelle quarto estava tão penetrado da personalidade de Jorge, que lhe parecia que elle ia voltar, entrar d'ahi a bocado... Se elle viesse de repente!... -Havia tres dias que no recebia carta—e quando +Havia tres dias que não recebia carta—e quando ella estivesse alli a escrever ao seu amante, n'um momento o <em>outro</em> podia apparecer e apanhal-a!... <span class="pagenum">[240]</span> -Mas eram tolices, pensou. O vapor do Barreiro s -chegava s cinco horas; e depois elle dizia na ultima +Mas eram tolices, pensou. O vapor do Barreiro só +chegava ás cinco horas; e depois elle dizia na ultima carta que ainda se demorava um mez, talvez mais... <br /> <br /> -Sentou-se, escolheu uma folha de papel, comeou +Sentou-se, escolheu uma folha de papel, começou a escrever, na sua letra um pouco gorda: <br /> <br /> <br /> <br /> <div class="signature"> -<em>Meu adorado Bazilio</em> . +«<em>Meu adorado Bazilio</em> . </div> <br /> <br /> @@ -9321,59 +9281,59 @@ a escrever, na sua letra um pouco gorda: <br /> Mas um terror importuno tolhia-a; sentia como um <em>palpite</em> de que elle vinha, ia entrar... Era melhor -no se pr a escrever, talvez!... Ergueu-se, -foi sala devagar, sentou-se no divan; e, como se -o contacto d'aquelle largo soph e o ardor das recordaes +não se pôr a escrever, talvez!... Ergueu-se, +foi á sala devagar, sentou-se no divan; e, como se +o contacto d'aquelle largo sophá e o ardor das recordações que elle lhe trazia da vespera lhe tivesse -dado a coragem das aces amorosas e culpadas, voltou +dado a coragem das acções amorosas e culpadas, voltou muito decidida ao escriptorio, escreveu rapidamente: <br /> <br /> <br /> <br /> -No imaginas com que alegria recebi esta manh -a tua carta... <br /> +«Não imaginas com que alegria recebi esta manhã +a tua carta...» <br /> <br /> <br /> <br /> A penna velha escrevia mal; molhou-a mais, e -ao sacudil-a, como lhe tremia um pouco a mo, um -borro negro cahiu no papel. Ficou toda contrariada, +ao sacudil-a, como lhe tremia um pouco a mão, um +borrão negro cahiu no papel. Ficou toda contrariada, pareceu-lhe aquillo um <em>mau agouro</em>. Hesitou um momento,—e -coando a cabea, com os cotovlos sobre -a mesa, sentia Juliana varrer fra o patamar, +coçando a cabeça, com os cotovêlos sobre +a mesa, sentia Juliana varrer fóra o patamar, cantarolando a <em>Carta adorada</em>. Emfim, impaciente, rasgou a folha muitas vezes em pedacinhos miudos—e <span class="pagenum">[241]</span> -atirou-os para um caixo de pau envernizado +atirou-os para um caixão de pau envernizado com duas argolas de metal, que estava ao canto junto - mesa, onde Jorge deitava os rascunhos velhos +á mesa, onde Jorge deitava os rascunhos velhos e os papeis inuteis: chamavam-lhe o <em>sarcophago</em>; -Juliana, de certo, descuidra-se de o esvaziar no lixo, +Juliana, de certo, descuidára-se de o esvaziar no lixo, porque transbordava de papelada. <br /> <br /> -Escolheu outra folha, recomeou: <br /> +Escolheu outra folha, recomeçou: <br /> <br /> <br /> <br /> <div class="signature"> -<em>Meu adorado Bazilio</em> . +«<em>Meu adorado Bazilio</em> . </div> <br /> <br /> <br /> -No imaginas como fiquei quando recebi a tua -carta, esta manh, ao acordar. Cobri-a de beijos... <br /> +«Não imaginas como fiquei quando recebi a tua +carta, esta manhã, ao acordar. Cobri-a de beijos...» <br /> <br /> <br /> <br /> Mas o reposteiro franziu-se n'uma prega molle, a voz de Juliana disse discretamente: <br /> <br /> -—Est alli a costureira, minha senhora. <br /> +—Está alli a costureira, minha senhora. <br /> <br /> Luiza, sobresaltada, tinha tapado a folha de papel -com a mo. <br /> +com a mão. <br /> <br /> —Que espere. <br /> <br /> @@ -9381,56 +9341,56 @@ E continuou: <br /> <br /> <br /> <br /> -...Que tristeza que fosse a carta e que no fosses +«...Que tristeza que fosse a carta e que não fosses tu que alli estivesses! Estou pasmada de mim -mesma, como em to pouco tempo te apossaste do -meu corao, mas a verdade que nunca deixei de -te amar. No me julgues por isto leviana, nem penses +mesma, como em tão pouco tempo te apossaste do +meu coração, mas a verdade é que nunca deixei de +te amar. Não me julgues por isto leviana, nem penses mal de mim, porque eu desejo a tua estima, mas - que nunca deixei de te amar e ao tornar a vr-te, -depois d'aquella estupida viagem para to longe, no +é que nunca deixei de te amar e ao tornar a vêr-te, +depois d'aquella estupida viagem para tão longe, não fui superior ao sentimento que me impellia para ti, <span class="pagenum">[242]</span> meu adorado Bazilio. Era mais forte que eu, meu Bazilio. Hontem, quando aquella maldita criada me veio dizer que tu te vinhas despedir, Bazilio, fiquei como -morta; mas quando vi que no, nem eu sei, adorei-te! +morta; mas quando vi que não, nem eu sei, adorei-te! E se tu me tivesses pedido a vida dava-t'a, porque te amo, que eu mesma, me estranho... Mas para que foi aquella mentira, e para que vieste tu? Mau! tinha vontade de te dizer adeus para sempre, mas -no posso, meu adorado Bazilio! superior a mim. -Sempre te amei, e agora que sou tua, que te perteno +não posso, meu adorado Bazilio! É superior a mim. +Sempre te amei, e agora que sou tua, que te pertenço corpo e alma, parece-me que te amo mais, se - possivel... <br /> +é possivel...» <br /> <br /> <br /> <br /> -—Onde est ella? Onde est ella?—disse uma +—Onde está ella? Onde está ella?—disse uma voz na sala. <br /> <br /> Luiza ergueu-se, com um salto, livida. Era Jorge! Amarrotou convulsivamente a carta, quiz escondel-a -no bolso,—o roupo no tinha bolso! E desvairada, -sem reflexo, arremessou-a para o <em>sarcophago</em>. -Ficou de p, esperando, as duas mos apoiadas - mesa, a vida suspensa. <br /> +no bolso,—o roupão não tinha bolso! E desvairada, +sem reflexão, arremessou-a para o <em>sarcophago</em>. +Ficou de pé, esperando, as duas mãos apoiadas +á mesa, a vida suspensa. <br /> <br /> O reposteiro ergueu-se,—e reconheceu logo o -chapo de velludo azul de D. Felicidade. <br /> +chapéo de velludo azul de D. Felicidade. <br /> <br /> —Aqui mettida, sua brejeira! Que estavas tu -aqui a fazer? Que tens tu, filha, ests como a cal... <br /> +aqui a fazer? Que tens tu, filha, estás como a cal... <br /> <br /> Luiza deixou-se cahir no <em>fauteuil</em>, branca e fria, -disse com um sorriso canado: <br /> +disse com um sorriso cançado: <br /> <br /> —Estava a escrever, deu-me uma tontura... <br /> <br /> -—Ai! Tonturas, eu!—acudiu logo D. Felicidade— -uma desgraa, a cada momento a agarrar-me +—Ai! Tonturas, eu!—acudiu logo D. Felicidade—É +uma desgraça, a cada momento a agarrar-me <span class="pagenum">[243]</span> -aos moveis, at tenho medo d'andar s. Falta de +aos moveis, até tenho medo d'andar só. Falta de purgas! <br /> <br /> —Vamos para o quarto!—disse logo Luiza.—Estamos @@ -9438,42 +9398,42 @@ melhor no quarto. <br /> <br /> Ao erguer-se, as pernas tremiam-lhe. <br /> <br /> -Atravessaram a sala: Juliana comeava a arrumar. +Atravessaram a sala: Juliana começava a arrumar. Luiza, ao passar, viu na pedra da <em>console</em>, debaixo do espelho oval, uma pouca de cinza: era da vespera, do charuto d'<em>elle</em>! Sacudiu-a—e ao erguer os olhos, -ficou pasmada de se vr to pallida. <br /> +ficou pasmada de se vêr tão pallida. <br /> <br /> -A costureira vestida de preto, com um chapo -de fitas rxas, esperava sentada beira da +A costureira vestida de preto, com um chapéo +de fitas rôxas, esperava sentada á beira da <em>causeuse</em>, com um olhar infeliz e o seu embrulho nos joelhos; vinha provar o corpete d'um vestido composto; assentou, pregou, alinhavou, fallando baixo, com uma -humildade triste e uma tossinha scca ; e apenas ella +humildade triste e uma tossinha sêcca ; e apenas ella sahiu, de leve, com o seu andar de sombra, o chale -tinto muito cingido s omoplatas magras,—D. -Felicidade comeou logo a fallar d'<em>elle</em>, do +tinto muito cingido ás omoplatas magras,—D. +Felicidade começou logo a fallar d'<em>elle</em>, do Conselheiro. Tinha-o encontrado no Moinho de Vento. Pois, senhores, nem lhe viera fallar! Fizera-lhe uma cortezia -muito scca, por demais, e tic-tic por alli fra, +muito sêcca, por demais, e tic-tic por alli fóra, que se diria que ia fugido! Que te parece? Ai! aquellas -indifferenas matavam-na. E no as comprehendia, -no, realmente no as comprehendia... <br /> +indifferenças matavam-na. E não as comprehendia, +não, realmente não as comprehendia... <br /> <br /> -—Porque emfim—exclamava—eu bem me conheo, -no sou nenhuma criana, mas tambem no -sou nenhum caco! Pois no verdade? <br /> +—Porque emfim—exclamava—eu bem me conheço, +não sou nenhuma criança, mas tambem não +sou nenhum caco! Pois não é verdade? <br /> <br /> —Certamente—disse Luiza distrahida. Lembrava-lhe a carta. <br /> <br /><span class="pagenum">[244]</span> -—Olha que aqui onde me vs com os meus quarenta, -decotada, ainda valho! O que so hombros e -collo do melhor! <br /> +—Olha que aqui onde me vês com os meus quarenta, +decotada, ainda valho! O que são hombros e +collo é do melhor! <br /> <br /> Luiza ia erguer-se. Mas D. Felicidade repetiu: <br /> <br /> @@ -9481,9 +9441,9 @@ Luiza ia erguer-se. Mas D. Felicidade repetiu: <br /> <br /> —Creio bem—concordou Luiza, sorrindo vagamente. <br /> <br /> -—E elle tambem no nenhum rapazinho novo... <br /> +—E elle tambem não é nenhum rapazinho novo... <br /> <br /> -—No... <br /> +—Não... <br /> <br /> —Mas muito bem conservado!—E os olhos luziam-lhe—Para fazer ainda uma mulher muito feliz! <br /> @@ -9492,10 +9452,10 @@ fazer ainda uma mulher muito feliz! <br /> <br /> —Um homem d'appetecer!—suspirou D. Felicidade. <br /> <br /> -E Luiza, ento: <br /> +E Luiza, então: <br /> <br /> -—Tu esperas um instantinho! Vou l dentro e -volto j. <br /> +—Tu esperas um instantinho! Vou lá dentro e +volto já. <br /> <br /> —Vai, filha, vai. <br /> <br /> @@ -9504,76 +9464,76 @@ Estava vazio! E a carta d'ella, Santo Deus! <br /> <br /> Chamou logo Juliana, aterrada. <br /> <br /> -—Voss despejou o caixo dos papeis? <br /> +—Vossê despejou o caixão dos papeis? <br /> <br /> —Despejei, sim, minha senhora—respondeu muito tranquillamente. <br /> <br /> E com interesse: <br /> <br /> -—Porqu, perdeu-se algum papel? <br /> +—Porquê, perdeu-se algum papel? <br /> <br /> Luiza fazia-se pallida. <br /> <br /> -—Foi um papel que eu atirei para o caixo. Onde -o despejou voss? +—Foi um papel que eu atirei para o caixão. Onde +o despejou vossê? <br /> <br /><span class="pagenum">[245]</span> -—No barril do lixo, como costume, minha senhora; +—No barril do lixo, como é costume, minha senhora; imaginei que nada servia... <br /> <br /> -—Ah! deixe vr! <br /> +—Ah! deixe vêr! <br /> <br /> -Subiu rapidamente cozinha. <br /> +Subiu rapidamente á cozinha. <br /> <br /> Juliana, atraz, ia dizendo: <br /> <br /> -—Ora esta! Pois ainda no ha cinco minutos! O -caixo estava mais cheio... Andei a dar uma arrumadella +—Ora esta! Pois ainda não ha cinco minutos! O +caixão estava mais cheio... Andei a dar uma arrumadella no escriptorio... Valha-me Deus, se a senhora tem dito... <br /> <br /> Mas o barril do lixo estava vazio. Joanna tinha-o ido despejar abaixo n'aquelle instantinho; e vendo -a inquietao de Luiza: <br /> +a inquietação de Luiza: <br /> <br /> -—Porqu, perdeu-se alguma cousa? <br /> +—Porquê, perdeu-se alguma cousa? <br /> <br /> —Um papel—disse Luiza, que olhava em redor, -pelo cho, muito branca. <br /> +pelo chão, muito branca. <br /> <br /> —Elle iam uns poucos de papeis, minha senhora—disse a rapariga—eu deitei tudo ao despejo. <br /> <br /> -—Podia ter ficado algum cahido por fra, snr.<sup>a</sup> +—Podia ter ficado algum cahido por fóra, snr.<sup>a</sup> Joanna—lembrou timidamente Juliana. <br /> <br /> -—V vr, v vr, Joanna—acudiu Luiza com -uma esperana. <br /> +—Vá vêr, vá vêr, Joanna—acudiu Luiza com +uma esperança. <br /> <br /> Juliana parecia afflicta: <br /> <br /> -—Jesus, Senhor! Eu podia l adivinhar! Mas -para que no disse a senhora...? <br /> +—Jesus, Senhor! Eu podia lá adivinhar! Mas +para que não disse a senhora...? <br /> <br /> -—Bem, bem, a culpa no sua, mulher... <br /> +—Bem, bem, a culpa não é sua, mulher... <br /> <br /> -—Credo, que at se me est a embrulhar o estomago... -E cousa de importancia, minha senhora? <br /> +—Credo, que até se me está a embrulhar o estomago... +E é cousa de importancia, minha senhora? <br /> <br /> -—No, uma conta... <br /> +—Não, é uma conta... <br /> <br /> —Valha-me Deus!... <br /> <br /> Joanna voltou, sacudindo um papel enxovalhado. <span class="pagenum">[246]</span> -Luiza agarrou-o, leu:—... o diametro do primeiro -poo de explorao... <br /> +Luiza agarrou-o, leu:—«... o diametro do primeiro +poço de exploração...» <br /> <br /> -—No, no isto!—exclamou toda contrariada. <br /> +—Não, não é isto!—exclamou toda contrariada. <br /> <br /> -—Ento foi p'ra baixo p'ra o cano, minha senhora, -no est mais nada. <br /> +—Então foi p'ra baixo p'ra o cano, minha senhora, +não está mais nada. <br /> <br /> —Viu bem? <br /> <br /> @@ -9581,8 +9541,8 @@ no est mais nada. <br /> <br /> E Juliana continuava, desolada: <br /> <br /> -—Antes queria perder dez tostes! Uma assim! -Eu, minha senhora, podia l adivinhar... <br /> +—Antes queria perder dez tostões! Uma assim! +Eu, minha senhora, podia lá adivinhar... <br /> <br /> —Bem, bem!—murmurou Luiza descendo. <br /> <br /> @@ -9591,12 +9551,12 @@ indefinida... Lembrou-lhe o bilhete que escrevera na vespera a Bazilio, e que mettera, todo amarrotado, no bolso do vestido... Entrou no quarto, agitada. <br /> <br /> -D. Felicidade tirra o chapo, acommodra-se na +D. Felicidade tirára o chapéo, acommodára-se na <em>causeuse</em>. <br /> <br /> —Tu desculpas, hein?—fez Luiza. <br /> <br /> -—Anda, filha, anda! Que ? <br /> +—Anda, filha, anda! Que é? <br /> <br /> —Perdi uma conta—respondeu. <br /> <br /> @@ -9609,35 +9569,35 @@ o lixo de certo. Mas que imprudencia! <br /> E D. Felicidade immediatamente, baixando a voz muito confidencialmente: <br /> <br /> -—Ora eu vinha-te fallar n'uma cousa. Mas v -l! Olha que segredo. +—Ora eu vinha-te fallar n'uma cousa. Mas vê +lá! Olha que é segredo. <br /> <br /><span class="pagenum">[247]</span> Luiza ficou logo sobresaltada. <br /> <br /> —Tu sabes—continuou D. Felicidade, devagar, -com pausas—que a minha criada, a Josepha, est -para casar com o gallego... O homem de ao p de +com pausas—que a minha criada, a Josepha, está +para casar com o gallego... O homem é de ao pé de Tuy, e diz que na terra d'elle ha uma mulher que -tem uma virtude para fazer casamentos que uma -cousa milagrosa... Diz que o mais que ha... Em +tem uma virtude para fazer casamentos que é uma +cousa milagrosa... Diz que é o mais que ha... Em deitando a sorte a um homem,—o homem entra-lhe -uma tal paixo que se arranja logo o casamento, e - a maior felicidade. <br /> +uma tal paixão que se arranja logo o casamento, e +é a maior felicidade. <br /> <br /> Luiza tranquillisada, sorriu. <br /> <br /> -—Escuta—acudiu D. Felicidade—no te ponhas -j com as tuas cousas... <br /> +—Escuta—acudiu D. Felicidade—não te ponhas +já com as tuas cousas... <br /> <br /> No seu tom grave havia um respeito supersticioso. <br /> <br /> —Diz que tem feito milagres. Homens que tinham -desamparado raparigas, outros que no faziam +desamparado raparigas, outros que não faziam caso d'ellas, maridos que tinham amigas, emfim toda -a sorte de ingratido... Em a mulher deitando o -encanto, os homens comeam a esmorecer, a arrepender-se, -a apaixonar-se, e esto pelo beio... A +a sorte de ingratidão... Em a mulher deitando o +encanto, os homens começam a esmorecer, a arrepender-se, +a apaixonar-se, e estão pelo beiço... A rapariga contou-me isto. Eu lembrei-me logo... <br /> <br /> —De deitar uma sorte ao Conselheiro!—exclamou @@ -9647,79 +9607,79 @@ Luiza. <br /> <br /> Luiza deu uma risada sonora. Mas D. Felicidade quasi se escandalisou. Contou outros casos: um fidalgo -que deshonrra uma lavadeira; um homem +que deshonrára uma lavadeira; um homem que abandonou a mulher e os filhos, fugira com uma <em>bebeda</em>... Em todos a <em>sorte</em> -operra d'um modo fulminante +operára d'um modo fulminante <span class="pagenum">[248]</span> produzindo um amor subito e fogoso pela pessoa desprezada. Appareciam logo rendidos, se estavam perto; se estavam longe, voltavam, avidos, a -p, a cavallo, na mala-posta, apressando-se, ardendo... +pé, a cavallo, na mala-posta, apressando-se, ardendo... E entregavam-se, mansos e humildes como escravos acorrentados... <br /> <br /> —Mas o gallego—continuava ella muito excitada—diz -que para ir terra, fallar mulher, levar -o retrato do Conselheiro, necessario o retrato -d'elle, o meu, necessario o meu, ir fallar, voltar—quer +que para ir á terra, fallar á mulher, levar +o retrato do Conselheiro, é necessario o retrato +d'elle, o meu, é necessario o meu, ir fallar, voltar—quer sete moedas!... <br /> <br /> —Oh D. Felicidade!—fez Luiza reprehensivamente. <br /> <br /> -—No me digas, no venhas com as tuas! Olha +—Não me digas, não venhas com as tuas! Olha que eu sei de casos... <br /> <br /> E erguendo-se: <br /> <br /> -—Mas so sete moedas! Sete moedas!—exclamou, +—Mas são sete moedas! Sete moedas!—exclamou, arregalando os olhos. <br /> <br /> -Juliana appareceu porta, e muito baixinho, com +Juliana appareceu á porta, e muito baixinho, com um sorriso: <br /> <br /> —A senhora faz favor? <br /> <br /> Chamou-a para o corredor, em segredo: <br /> <br /> -—Esta carta. Que vem do htel. <br /> +—Esta carta. Que vem do hótel. <br /> <br /> Luiza fez-se escarlate. <br /> <br /> -—Credo, mulher! no necessario fazer mysterios! <br /> +—Credo, mulher! não é necessario fazer mysterios! <br /> <br /> -Mas no entrou no quarto, abriu-a logo no corredor; -era a lapis, escripta pressa: <br /> +Mas não entrou no quarto, abriu-a logo no corredor; +era a lapis, escripta á pressa: <br /> <br /> <br /> <br /> -Meu amor—dizia Bazilio—por um feliz acaso +«Meu amor—dizia Bazilio—por um feliz acaso <span class="pagenum">[249]</span> descobri o que precisavamos, um ninho discreto para -nos vrmos... E indicava a rua, o numero, os -signaes, o caminho mais perto. ... Quando vens, -meu amor? Vem manh. Baptisei a casa com o nome -de <em>Paraiso</em>: para mim, minha adorada, com -effeito o paraiso. Eu espero-te l desde o meio dia: -logo que te aviste, deso. +nos vêrmos...» E indicava a rua, o numero, os +signaes, o caminho mais perto. «... Quando vens, +meu amor? Vem ámanhã. Baptisei a casa com o nome +de <em>Paraiso</em>: para mim, minha adorada, é com +effeito o paraiso. Eu espero-te lá desde o meio dia: +logo que te aviste, desço.» <br /> <br /> <br /> -Aquella precipitao amorosa em arranjar o +Aquella precipitação amorosa em arranjar o <em>ninho</em>—provando -uma paixo impaciente, toda occupada -d'ella—produziu-lhe uma dilatao dce do +uma paixão impaciente, toda occupada +d'ella—produziu-lhe uma dilatação dôce do orgulho; ao mesmo tempo que aquelle <em>Paraiso</em> secreto, -como n'um romance, lhe dava a esperana de -felicidades excepcionaes; e todas as suas inquietaes, +como n'um romance, lhe dava a esperança de +felicidades excepcionaes; e todas as suas inquietações, os sustos da carta perdida se dissiparam de repente -sob uma sensao calida, como flocos de nevoa +sob uma sensação calida, como flocos de nevoa sob o sol que se levanta. <br /> <br /> Voltou ao quarto, com o olhar risonho. <br /> <br /> —Que te parece, hein?—perguntou logo D. Felicidade, -a quem a sua ida occupava tyrannicamente. <br /> +a quem a sua idéa occupava tyrannicamente. <br /> <br /> —O que? <br /> <br /> @@ -9732,14 +9692,14 @@ repugnante aquelle sentimentalismo senil. <br /> <br /> —Tolices!—disse com muito desdem. <br /> <br /> -—Oh filha! no me digas, no me digas!—acudiu +—Oh filha! não me digas, não me digas!—acudiu desolada D. Felicidade. <br /> <br /><span class="pagenum">[250]</span> -—Bem, ento manda, manda!—fez Luiza, j +—Bem, então manda, manda!—fez Luiza, já impaciente. <br /> <br /> -—Mas so sete moedas!—exclamou D. Felicidade, +—Mas são sete moedas!—exclamou D. Felicidade, quasi chorosa. <br /> <br /> Luiza poz-se a rir. <br /> @@ -9748,38 +9708,38 @@ Luiza poz-se a rir. <br /> <br /> —E se a sorte falha? <br /> <br /> -—Ento caro! <br /> +—Então é caro! <br /> <br /> D. Felicidade deu um grande <em>ai!</em> Estava muito -infeliz, n'aquella hesitao entre os impulsos da concupiscencia +infeliz, n'aquella hesitação entre os impulsos da concupiscencia e as prudencias da economia. Luiza teve pena d'ella, e, tirando um vestido do guarda-roupa: <br /> <br /> -—Deixa l, filha! No ho-de ser necessarias +—Deixa lá, filha! Não hão-de ser necessarias bruxarias!... <br /> <br /> -D. Felicidade ergueu os olhos ao co. <br /> +D. Felicidade ergueu os olhos ao céo. <br /> <br /> —Vaes sahir?—perguntou melancolicamente. <br /> <br /> -—No. <br /> +—Não. <br /> <br /> -D. Felicidade propoz-lhe ento que viesse com -ella Encarnao. Visitavam a Silveira, coitada, que -tinha um furunculo! E viam a armao da igreja +D. Felicidade propoz-lhe então que viesse com +ella á Encarnação. Visitavam a Silveira, coitada, que +tinha um furunculo! E viam a armação da igreja para a festa, estreava-se o frontal novo, um primor! <br /> <br /> —E estou tambem com vontade de ir rezar uma -estaosinha, para alliviar c por dentro—ajuntou, +estaçãosinha, para alliviar cá por dentro—ajuntou, suspirando. <br /> <br /> -Luiza aceitou. Appetecia-lhe ir vr altares alumiados, -ouvir o ciciar de rezas no cro, como se os -requintes devotos dissessem bem com as suas disposies -sentimentaes. Comeou a vestir-se depressa. +Luiza aceitou. Appetecia-lhe ir vêr altares alumiados, +ouvir o ciciar de rezas no côro, como se os +requintes devotos dissessem bem com as suas disposições +sentimentaes. Começou a vestir-se depressa. <br /> <br /><span class="pagenum">[251]</span> -—Como tu ests gorda, filha!—exclamou D. +—Como tu estás gorda, filha!—exclamou D. Felicidade admirada, vendo-lhe os hombros, o collo. <br /> <br /> Luiza diante do espelho olhava-se, sorria com o @@ -9796,61 +9756,61 @@ E acrescentou, tristemente: <br /> —Tambem com a tua vida, um marido como o teu, regaladinha, sem filhos, sem cuidados... <br /> <br /> -—Vamos l, minha rica—disse Luiza—que as -tristezas no te tem feito emmagrecer... <br /> +—Vamos lá, minha rica—disse Luiza—que as +tristezas não te tem feito emmagrecer... <br /> <br /> —Pois sim, pois sim! Mas...—e parecia desolada, -como curvada sob as suas proprias ruinas—c -por dentro uma desgraa, estomago, figado... <br /> +como curvada sob as suas proprias ruinas—cá +por dentro é uma desgraça, estomago, figado... <br /> <br /> -—Se a mulher de Tuy faz o milagre, pe tudo +—Se a mulher de Tuy faz o milagre, põe tudo isso como novo! <br /> <br /> D. Felicidade sorriu, com uma duvida desconsolada. <br /> <br /> -—Sabes que tenho um chapo lindo?—exclamou -de repente Luiza—No viste? Lindo! <br /> +—Sabes que tenho um chapéo lindo?—exclamou +de repente Luiza—Não viste? Lindo! <br /> <br /> Foi logo buscal-o ao guarda-vestidos. Era de palha fina, guarnecido de myosotis. <br /> <br /> —Que te parece? <br /> <br /> -— um primor! <br /> +—É um primor! <br /> <br /> Luiza mirava-o dando pancadinhas com as pontas dos dedos nas florzinhas azues. <br /> <br /> -—D frescura—fez D. Felicidade. <br /> +—Dá frescura—fez D. Felicidade. <br /> <br /> -—No verdade? +—Não é verdade? <br /> <br /><span class="pagenum">[252]</span> -Pl-o com muito cuidado, toda sria. Ficava-lhe +Pôl-o com muito cuidado, toda séria. Ficava-lhe bem! Bazilio se a visse havia de gostar, pensou. Era bem possivel que o encontrassem... <br /> <br /> Veio-lhe, sem motivo, uma felicidade exuberante: -achava to delicioso viver, sahir, ir Encarnao, +achava tão delicioso viver, sahir, ir á Encarnação, pensar no seu amante!... E toda no ar, procurava pelo quarto as chavinhas do toucador. <br /> <br /> Onde tinha deixado as chaves? Na sala de jantar, -talvez! Ia vr! Sahiu correndo, tontinha, cantarolando: <br /> +talvez! Ia vêr! Sahiu correndo, tontinha, cantarolando: <br /> <br /> <br /> <div class="poetry0"> -Amici, la notte bella...<br /> +Amici, la notte è bella...<br /> La ra la la...</div> <br /> <br /> <br /> Quasi topou com Juliana, que varria o corredor. <br /> <br /> -—No deixe de engommar a saia bordada para -manh, Juliana! <br /> +—Não deixe de engommar a saia bordada para +ámanhã, Juliana! <br /> <br /> -—Sim, minha senhora. Est em gomma! <br /> +—Sim, minha senhora. Está em gomma! <br /> <br /> E seguindo-a com um olhar feroz: <br /> <br /> @@ -9862,10 +9822,10 @@ voz rachada: <br /> <br /> <br /> <div class="poetry1"> -Alm d'manh termina a campanha,</div> +Além d'ámanhã termina a campanha,</div> <div class="poetry0">P-o-o-or aqui se diz...</div> -<div class="poetry1">Se tal fr verdade, se no fr patranha...</div> +<div class="poetry1">Se tal fôr verdade, se não fôr patranha...</div> <br /> <br /> <br /> @@ -9881,89 +9841,89 @@ Se-e-rei bem feliz!</div> <br /> <br /> <span class="pagenum">[253]</span> -Ao outro dia, pelas duas horas da tarde, Sebastio -e Julio passeavam em S. Pedro de Alcantara. <br /> +Ao outro dia, pelas duas horas da tarde, Sebastião +e Julião passeavam em S. Pedro de Alcantara. <br /> <br /> -Sebastio estivera contando a sua scena com -Luiza, e como desde ento a sua estima por ella -crescera. Ao principio escabrera-se, sim... <br /> +Sebastião estivera contando a sua «scena» com +Luiza, e como desde então a sua estima por ella +crescera. Ao principio escabreára-se, sim... <br /> <br /> -—Mas teve razo! Assim de surpreza, ouvir uma -d'aquellas! E eu levei a cousa mal, fui muito bruta... <br /> +—Mas teve razão! Assim de surpreza, ouvir uma +d'aquellas! E eu levei a cousa mal, fui muito á bruta... <br /> <br /> -Depois, coitadinha, concordra logo, mostrra-se +Depois, coitadinha, concordára logo, mostrára-se muito desgostosa, toda zelosa do seu pudor, pedira-lhe -conselhos... At tinha as lagrimas nos olhos. <br /> +conselhos... Até tinha as lagrimas nos olhos. <br /> <br /> —Eu disse-lhe logo que o melhor era fallar ao primo, dizer o que se passava... Que te parece? <br /> <br /> -—Sim—disse vagamente Julio. <br /> +—Sim—disse vagamente Julião. <br /> <br /> Tinha-o escutado distrahido, chupando a ponta do -cigarro. O seu rosto terreo cavava-se, com uma cr +cigarro. O seu rosto terreo cavava-se, com uma côr mais biliosa. <br /> <br /> -—Ento achas que fiz bem, hein? <br /> +—Então achas que fiz bem, hein? <br /> <br /> E depois d'uma pausa: <br /> <br /> -—Que ella uma senhora de bem s direitas! -s direitas, Julio! <br /> +—Que ella é uma senhora de bem ás direitas! +Ás direitas, Julião! <br /> <br /> Continuaram calados. O dia estava encoberto e abafado, com um ar de trovoada: grossas nuvens pesadas e pardas iam-se accumulando, ennegrecendo -para o lado da Graa por traz das collinas: um vento +para o lado da Graça por traz das collinas: um vento rasteiro passava por vezes, pondo um arripio nas folhas das arvores. <br /> <br /><span class="pagenum">[254]</span> -—De maneira que agora estou descanado—resumiu -Sebastio.—No te parece? <br /> +—De maneira que agora estou descançado—resumiu +Sebastião.—Não te parece? <br /> <br /> -Julio encolheu os hombros com um sorriso triste: <br /> +Julião encolheu os hombros com um sorriso triste: <br /> <br /> —Quem me dera os teus cuidados, homem!—disse. <br /> <br /> -E fallou ento com amargura nas suas preoccupaes.—Havia +E fallou então com amargura nas suas preoccupações.—Havia uma semana que se abrira concurso -para uma cadeira de substituto na Escla, e preparava-se -para elle. Era a sua taboa de salvao, dizia: +para uma cadeira de substituto na Escóla, e preparava-se +para elle. Era a sua taboa de salvação, dizia: se apanhasse a cadeira, ganhava logo nome, a clientella podia vir, e a fortuna... E, que diabo, sempre era estar de dentro!... Mas a certeza da sua superioridade -no o tranquillisava—porque emfim em -Portugal, no verdade? n'estas questes a sciencia, -o estudo, o talento so uma historia, o principal -so os padrinhos! Elle no os tinha—e o seu concorrente, -um semsaboro, era sobrinho d'um director +não o tranquillisava—porque emfim em +Portugal, não é verdade? n'estas questões a sciencia, +o estudo, o talento são uma historia, o principal +são os padrinhos! Elle não os tinha—e o seu concorrente, +um semsaborão, era sobrinho d'um director geral, tinha parentes na camara, era um colosso! Por isso elle trabalhava a valer, mas parecia-lhe indispensavel metter tambem as suas cunhas! Mas quem? <br /> <br /> -—Tu no conheces ninguem, Sebastio?... <br /> +—Tu não conheces ninguem, Sebastião?... <br /> <br /> -Sebastio lembrava-se d'um primo seu, deputado +Sebastião lembrava-se d'um primo seu, deputado pelo Alemtejo, um gordo, da maioria, um pouco fanhoso. -Se Julio queria, fallava-lhe... Mas sempre -ouvira dizer que a Escla no era gente de empenhos +Se Julião queria, fallava-lhe... Mas sempre +ouvira dizer que a Escóla não era gente de empenhos e de intriga... De resto tinham o conselheiro Accacio... <br /> <br /> -—Uma besta!—fez Julio—Um parlapato! -Quem faz l caso d'aquillo? O teu primo, hein! O +—Uma besta!—fez Julião—Um parlapatão! +Quem faz lá caso d'aquillo? O teu primo, hein! O <span class="pagenum">[255]</span> -teu primo parece-me bom! necessario alguem que +teu primo parece-me bom! É necessario alguem que falle, que trabalhe...—Porque acreditava muito nas -influencias dos empenhos, no dominio dos personagens, +influencias dos empenhos, no dominio dos «personagens», nas docilidades da fortuna quando dirigida pelas habilidades da intriga. E com um orgulho raiado -d'ameaa:—Que eu hei-de-lhes mostrar o que -saber as cousas, Sebastio! <br /> +d'ameaça:—Que eu hei-de-lhes mostrar o que é +saber as cousas, Sebastião! <br /> <br /> -Ia explicar-lhe o assumpto da these, mas Sebastio +Ia explicar-lhe o assumpto da these, mas Sebastião interrompeu-o: <br /> <br /> —Ella ahi vem. <br /> @@ -9972,31 +9932,31 @@ interrompeu-o: <br /> <br /> —A Luiza. <br /> <br /> -Passava com effeito, por fra do Passeio, toda -vestida de preto, s.—Respondeu cortezia dos -dous homens com um sorriso, <em>adeusinhos</em> da mo, +Passava com effeito, por fóra do Passeio, toda +vestida de preto, só.—Respondeu á cortezia dos +dous homens com um sorriso, <em>adeusinhos</em> da mão, um pouco corada. <br /> <br /> -E Sebastio immovel, seguindo-a devotamente +E Sebastião immovel, seguindo-a devotamente com os olhos: <br /> <br /> -—Se aquillo no respira mesmo honestidade! -Vai s lojas... Santa rapariga! <br /> +—Se aquillo não respira mesmo honestidade! +Vai ás lojas... Santa rapariga! <br /> <br /> <br /> <br /> Ia encontrar Bazilio no <em>Paraiso</em> pela primeira vez. -E estava muito nervosa: no pudera dominar, desde -pela manh, um medo indefinido que lhe fizera pr -um vo muito espsso, e bater o corao ao encontrar -Sebastio. Mas ao mesmo tempo uma curiosidade +E estava muito nervosa: não pudera dominar, desde +pela manhã, um medo indefinido que lhe fizera pôr +um véo muito espêsso, e bater o coração ao encontrar +Sebastião. Mas ao mesmo tempo uma curiosidade intensa, multipla, impellia-a, com um estremecimentosinho de prazer.—Ia, emfim, ter ella propria <span class="pagenum">[256]</span> -aquella aventura que lra tantas vezes nos romances -amorosos! Era uma frma nova do amor que ia experimentar, -sensaes excepcionaes! Havia tudo—a -casinha mysteriosa, o segredo illegitimo, todas as palpitaes +aquella aventura que lêra tantas vezes nos romances +amorosos! Era uma fórma nova do amor que ia experimentar, +sensações excepcionaes! Havia tudo—a +casinha mysteriosa, o segredo illegitimo, todas as palpitações do perigo! Porque o apparato impressionava-a mais que o sentimento; e a <em>casa</em> em si interessava-a, attrahia-a mais que Bazilio! Como seria? @@ -10004,115 +9964,115 @@ Era para os lados d'Arroios, adiante do largo de Santa Barbara: lembrava-se vagamente que havia alli uma correnteza de casas velhas... Desejaria antes que fosse no campo, n'uma quinta, com arvoredos -murmurosos e relvas ffas; passeariam ento, com -as mos enlaadas, n'um silencio poetico; e depois +murmurosos e relvas fôfas; passeariam então, com +as mãos enlaçadas, n'um silencio poetico; e depois o som d'agua que cahe nas bacias de pedra daria um rhythmo languido aos somnos amorosos... Mas era n'um terceiro andar,—quem sabe como seria dentro? -Lembrava-lhe um romance de Paulo Fval em -que o heroe, poeta e duque, frra de setins e tapearias -o interior d'uma choa; encontra alli a sua +Lembrava-lhe um romance de Paulo Féval em +que o heroe, poeta e duque, fórra de setins e tapeçarias +o interior d'uma choça; encontra alli a sua amante; os que passam, vendo aquelle casebre arruinado, -do um pensamento compassivo miseria que +dão um pensamento compassivo á miseria que de certo o habita—em quanto dentro, muito secretamente, -as flres se esfolham nos vasos de Svres -e os ps ns pisam Gobelins veneraveis! Conhecia o +as flôres se esfolham nos vasos de Sèvres +e os pés nús pisam Gobelins veneraveis! Conhecia o gosto de Bazilio,—e o <em>Paraiso</em> de certo era como -no romance de Paulo Fval. <br /> +no romance de Paulo Féval. <br /> <br /> -Mas no largo de Cames reparou que o sujeito de +Mas no largo de Camões reparou que o sujeito de pera comprida, o do Passeio, a vinha seguindo, com -uma obstinao de gallo; tomou logo um coup. E ao -descer o Chiado, sentia uma sensao deliciosa em +uma obstinação de gallo; tomou logo um coupé. E ao +descer o Chiado, sentia uma sensação deliciosa em <span class="pagenum">[257]</span> ser assim levada rapidamente para o seu amante, e mesmo olhava com certo desdem os que passavam, no movimento da vida trivial—em quanto ella ia -para uma hora to romanesca da vida amorosa! Todavia - maneira que se aproximava vinha-lhe uma -timidez, uma contraco d'acanhamento, como um +para uma hora tão romanesca da vida amorosa! Todavia +á maneira que se aproximava vinha-lhe uma +timidez, uma contracção d'acanhamento, como um plebeu que tem de subir, entre alarbadeiros solemnes, a escadaria d'um palacio. Imaginava Bazilio esperando-a -estendido n'um divan de sda: e quasi +estendido n'um divan de sêda: e quasi receava que a sua simplicidade burgueza, pouco experiente, -no achasse palavras bastante finas ou caricias +não achasse palavras bastante finas ou caricias bastante exaltadas. Elle devia ter conhecido -mulheres to bellas, to ricas, to educadas no amor! -Desejava chegar n'um coup seu, com rendas de -centos de mil reis, e ditos to espirituosos como um +mulheres tão bellas, tão ricas, tão educadas no amor! +Desejava chegar n'um coupé seu, com rendas de +centos de mil reis, e ditos tão espirituosos como um livro... <br /> <br /> -A carruagem parou ao p d'uma casa amarellada, -com uma portinha pequena. Logo entrada um +A carruagem parou ao pé d'uma casa amarellada, +com uma portinha pequena. Logo á entrada um cheiro molle e salobre enojou-a. A escada, de degraus gastos, subia ingrememente, apertada entre paredes onde a cal cahia, e a humidade fizera nodoas. No patamar da sobre-loja, uma janella com um gradeadosinho -d'arame, parda do p accumulado, coberta -de teias d'aranha, coava a luz suja do saguo. E por +d'arame, parda do pó accumulado, coberta +de teias d'aranha, coava a luz suja do saguão. E por traz d'uma portinha, ao lado, sentia-se o ranger d'um -bero, o chorar doloroso d'uma criana. <br /> +berço, o chorar doloroso d'uma criança. <br /> <br /> Mas Bazilio desceu logo, com o charuto na bocca, dizendo baixo: <br /> <br /> -—To tarde! sbe! Pensei que no vinhas. O +—Tão tarde! sóbe! Pensei que não vinhas. O que foi? <br /> <br /><span class="pagenum">[258]</span> -A escada era to esguia, que no podiam subir +A escada era tão esguia, que não podiam subir juntos. E Bazilio, caminhando adiante, d'esguelha: <br /> <br /> —Estou aqui desde a uma hora, filha! imaginei que te tinhas esquecido da rua... <br /> <br /> -Empurrou uma cancella, fl-a entrar n'um quarto -pequeno, forrado de papel s listras azues e brancas. <br /> +Empurrou uma cancella, fêl-a entrar n'um quarto +pequeno, forrado de papel ás listras azues e brancas. <br /> <br /> Luiza viu logo, ao fundo, uma cama de ferro com uma colcha amarellada, feita de remendos juntos -de chitas differentes: e os lenoes grossos, d'um +de chitas differentes: e os lençoes grossos, d'um branco encardido e mal lavado, estavam impudicamente entreabertos... <br /> <br /> -Fez-se escarlate, sentou-se, calada, embaraada. +Fez-se escarlate, sentou-se, calada, embaraçada. E os seus olhos, muito abertos, iam-se fixando—nos -riscos ignobeis da cabea dos phosphoros, ao p da +riscos ignobeis da cabeça dos phosphoros, ao pé da cama; na esteira esfiada, comida, com uma nodoa de tinta entornada; nas bambinellas da janella, d'uma fazenda vermelha, onde se viam passagens; n'uma lithographia, onde uma figura, coberta d'uma tunica -azul fluctuante, espalhava flres voando... Sobre tudo -uma larga photographia, por cima do velho canap +azul fluctuante, espalhava flôres voando... Sobre tudo +uma larga photographia, por cima do velho canapé de palhinha, fascinava-a: era um individuo atarracado, d'aspecto hilare e alvar, com a barba em collar, o feitio d'um piloto ao domingo: sentado, de -calas brancas, com as pernas muito afastadas, pousava -uma das mos sobre um joelho, e a outra muito +calças brancas, com as pernas muito afastadas, pousava +uma das mãos sobre um joelho, e a outra muito estendida assentava sobre uma columna truncada: e por baixo do caixilho, como sobre a pedra d'um -tumulo, pendia d'um prego de cabea amarella, uma -cora de perpetuas! <br /> +tumulo, pendia d'um prego de cabeça amarella, uma +corôa de perpetuas! <br /> <br /> -—Foi o que se pde arranjar—disse-lhe Bazilio.—E +—Foi o que se pôde arranjar—disse-lhe Bazilio.—E <span class="pagenum">[259]</span> -foi um acaso: muito retirado, muito discreto... -No muito luxuoso... <br /> +foi um acaso: é muito retirado, é muito discreto... +Não é muito luxuoso... <br /> <br /> -—No—fez ella, baixo.—Levantou-se, foi +—Não—fez ella, baixo.—Levantou-se, foi á janella, ergueu uma ponta da cortininha de cassa fixada - vidraa: defronte eram casas pobres: um sapateiro -grisalho, batia a sola a uma porta; entrada -d'uma lojita balouava-se um ramo de carqueja -ao p d'um mao de cigarros pendente d'um barbante; +á vidraça: defronte eram casas pobres: um sapateiro +grisalho, batia a sola a uma porta; á entrada +d'uma lojita balouçava-se um ramo de carqueja +ao pé d'um maço de cigarros pendente d'um barbante; e, a uma janella, uma rapariga esguedelhada -embalava tristemente no collo uma criana doente +embalava tristemente no collo uma criança doente que tinha crostas grossas de chagas na sua cabecinha -cr de melo. <br /> +côr de melão. <br /> <br /> -Luiza mordia os beios, sentia-se entristecer. Ento -ns de dedos bateram discretamente porta. -Ella assustou-se, desceu rapidamente o vo. Bazilio +Luiza mordia os beiços, sentia-se entristecer. Então +nós de dedos bateram discretamente á porta. +Ella assustou-se, desceu rapidamente o véo. Bazilio foi abrir. Uma voz adocicada, cheia de <em>ss</em> mellifluos, ciciou baixo. Luiza ouviu vagamente: Socegadinhos, @@ -10121,12 +10081,12 @@ suas chavesinhas... <br /> —Bem, bem!—disse Bazilio apressado, batendo com a porta. <br /> <br /> -—Quem ? <br /> +—Quem é? <br /> <br /> -— a patra. <br /> +—É a patrôa. <br /> <br /> -O co pozera-se a ennegrecer; j a espaos grossas -gtas de chuva se esmagavam nas pedras da rua; +O céo pozera-se a ennegrecer; já a espaços grossas +gôtas de chuva se esmagavam nas pedras da rua; e um tom crepuscular fazia o quarto mais melancolico. <br /> <br /> —Como descobriste tu isto?—perguntou Luiza, @@ -10134,51 +10094,51 @@ triste. <br /> <br /> —Inculcaram-m'o. <br /> <br /> -Outra gente, ento, tinha vindo alli, amado +Outra gente, então, tinha vindo alli, «amado» <span class="pagenum">[260]</span> alli? pensou ella. E a cama pareceu-lhe repugnante. <br /> <br /> -—Tira o chapo—disse Bazilio, quasi impaciente—ests-me -a fazer afflico com esse chapo -na cabea. <br /> +—Tira o chapéo—disse Bazilio, quasi impaciente—estás-me +a fazer afflicção com esse chapéo +na cabeça. <br /> <br /> Ella soltou devagar o elastico que o prendia, foi -pl-o no canap de palhinha, desconsoladamente. <br /> +pôl-o no canapé de palhinha, desconsoladamente. <br /> <br /> -Bazilio tomou-lhe as mos, e attrahindo-a, sentando-se +Bazilio tomou-lhe as mãos, e attrahindo-a, sentando-se na cama: <br /> <br /> -—Ests to linda!—Beijou-lhe o pescoo, encostou -a cabea ao peito d'ella. E com a vista muito +—Estás tão linda!—Beijou-lhe o pescoço, encostou +a cabeça ao peito d'ella. E com a vista muito quebrada: <br /> <br /> —O que eu sonhei comtigo esta noite! <br /> <br /> Mas, de repente, uma forte pancada de chuva -fustigou os vidros. E immediatamente bateram porta, +fustigou os vidros. E immediatamente bateram á porta, com pressa. <br /> <br /> -—Que ?—bradou Bazilio furioso. <br /> +—Que é?—bradou Bazilio furioso. <br /> <br /> A voz cheia de <em>ss</em> explicou que esquecera um cobertor na varanda que estava a seccar. Se se encharcasse, -que perdio!... <br /> +que perdição!... <br /> <br /> —Eu lhe pagarei o cobertor, deixe-me!—berrou Bazilio. <br /> <br /> -—D-lhe o cobertor... <br /> +—Dá-lhe o cobertor... <br /> <br /> —Que a leve o diabo! <br /> <br /> E Luiza, sentindo um arripio de frio nos seus -hombros ns, abandonava-se com uma vaga resignao, +hombros nús, abandonava-se com uma vaga resignação, entre os joelhos de Bazilio—vendo constantemente voltada para si a face alvar do piloto. <br /> <br /> Assim um <em>yacht</em> que apparelhou nobremente para uma viagem romanesca vai encalhar, ao partir, nos -lodaaes do rio baixo; e o mestre aventureiro que +lodaçaes do rio baixo; e o mestre aventureiro que <span class="pagenum">[261]</span> sonhava com os incensos e os almiscares das florestas aromaticas, immovel sobre o seu tombadilho, tapa @@ -10186,99 +10146,99 @@ o nariz aos cheiros dos esgotos. <br /> <br /> <br /> <br /> -Apenas Luiza comeou a sahir todos os dias, Juliana +Apenas Luiza começou a sahir todos os dias, Juliana pensou logo: Bem, vai ter com o <em>gajo</em>! <br /> <br /> E a sua attitude tornou-se ainda mais servil. Era com um sorriso de baixeza que corria a abrir a porta, -alvoroada, quando Luiza voltava s cinco horas. E -que zelo! Que exactides! Um boto que faltasse, -uma fita que se extraviava, e eram mil perdes, -minha senhora, desculpe por esta vez, muitas -lamentaes humildes. Interessava-se com devoo +alvoroçada, quando Luiza voltava ás cinco horas. E +que zelo! Que exactidões! Um botão que faltasse, +uma fita que se extraviava, e eram «mil perdões, +minha senhora», «desculpe por esta vez», muitas +lamentações humildes. Interessava-se com devoção pela saude d'ella, pela sua roupa, pelo que tinha para jantar... <br /> <br /> Todavia, desde as idas ao <em>Paraiso</em>, o seu trabalho -augmentra: todos os dias agora tinha d'engommar; -muitas vezes era preciso ensaboar noite collares, -rendinhas, punhos, n'uma bacia de lato, at -s onze horas. s seis da manh, mais cedo, j estava -com o ferro s voltas. E no se queixava, -at dizia a Joanna: <br /> +augmentára: todos os dias agora tinha d'engommar; +muitas vezes era preciso ensaboar á noite collares, +rendinhas, punhos, n'uma bacia de latão, até +ás onze horas. Ás seis da manhã, mais cedo, já estava +com o «ferro ás voltas». E não se queixava, +até dizia a Joanna: <br /> <br /> -—Ai! um regalo vr assim uma senhora aceada!... -Que as ha! credo! No, no por dizer, -mas at me d gosto. Depois, graas a Deus, agora -tenho saude, o trabalho no me assusta! <br /> +—Ai! é um regalo vêr assim uma senhora aceada!... +Que as ha! credo! Não, não é por dizer, +mas até me dá gosto. Depois, graças a Deus, agora +tenho saude, o trabalho não me assusta! <br /> <br /> -No tornra a resmungar da patra. Affirmava -mesmo Joanna repetidamente: +Não tornára a resmungar da «patrôa». Affirmava +mesmo á Joanna repetidamente: <br /> <br /><span class="pagenum">[262]</span> -—A senhora! ai, uma santa! Muito boa d'aturar... -No a ha melhor! <br /> +—A senhora! ai, é uma santa! Muito boa d'aturar... +Não a ha melhor! <br /> <br /> O seu rosto perdera alguma cousa do tom bilioso, -da contraco amarga. s vezes, ao jantar ou -noite, costurando calada ao p de Joanna, luz do +da contracção amarga. Ás vezes, ao jantar ou á +noite, costurando calada ao pé de Joanna, á luz do petroleo, vinham-lhe sorrisos subitos, o olhar clareava-se-lhe -n'uma dilatao jovial. <br /> +n'uma dilatação jovial. <br /> <br /> -—A snr.<sup>a</sup> Juliana tem o ar de quem est a pensar +—A snr.<sup>a</sup> Juliana tem o ar de quem está a pensar em cousas boas... <br /> <br /> -—A malucar c por dentro, snr.<sup>a</sup> Joanna!—respondia -com satisfao. <br /> +—A malucar cá por dentro, snr.<sup>a</sup> Joanna!—respondia +com satisfação. <br /> <br /> Parecia perder a inveja; ouviu mesmo fallar com -tranquillidade do vestido de sda que estreou n'um +tranquillidade do vestido de sêda que estreou n'um dia de festa, em setembro, a Gertrudes do doutor. Disse apenas: <br /> <br /> —Tambem um dia hei-de estrear vestidos, e dos bons! Dos da modista! <br /> <br /> -J outras vezes revelra por palavras vagas a ida -d'uma abundancia proxima. Joanna at lhe dissera: <br /> +Já outras vezes revelára por palavras vagas a idéa +d'uma abundancia proxima. Joanna até lhe dissera: <br /> <br /> -—A snr.<sup>a</sup> Juliana espera alguma herana? <br /> +—A snr.<sup>a</sup> Juliana espera alguma herança? <br /> <br /> —Talvez!—respondeu seccamente. <br /> <br /> E cada dia detestava mais Luiza. Quando pela -manh a via arrebicar-se, perfumar-se com agua de +manhã a via arrebicar-se, perfumar-se com agua de colonia, mirar-se ao toucador cantarolando, sahia do quarto porque lhe vinham venetas d'odio, tinha medo d'estourar! Odiava-a pelas <em>toilettes</em>, pelo ar alegre, -pela roupa branca, pelo <em>homem</em> que ia vr, por -todos os seus regalos de senhora. A cabra! Quando -ella sahia ia espreitar, vl-a subir a rua, e fechando -a vidraa com um risinho rancoroso: +pela roupa branca, pelo <em>homem</em> que ia vêr, por +todos os seus regalos de senhora. «A cabra!» Quando +ella sahia ia espreitar, vêl-a subir a rua, e fechando +a vidraça com um risinho rancoroso: <br /> <br /><span class="pagenum"><a name="p263" id="p263">[263]</a></span> —Diverte-te, piorrinha, diverte-te, que o meu dia ha-de chegar! Oh se ha-de! <br /> <br /> Luiza com effeito divertia-se. Sahia todos os dias -s duas horas. Na rua j se dizia que a do Engenheiro -tinha agora o seu S. Miguel. <br /> +ás duas horas. Na rua já se dizia que «a do Engenheiro +tinha agora o seu S. Miguel». <br /> <br /> Apenas ella dobrava a esquina o <a href="#e8">conciliabulo</a> juntava-se logo a cochichar. Tinham a certeza que se -ia encontrar com o peralta. Onde seria?—era a +ia encontrar com o «peralta». Onde seria?—era a grande curiosidade da carvoeira. <br /> <br /> -—No htel—murmurava o Paula.—Que nos -hteis escandalo bravio. Ou talvez—acrescentava +—No hótel—murmurava o Paula.—Que nos +hóteis é escandalo bravio. Ou talvez—acrescentava com tedio—n'alguma d'essas possilgas da baixa! <br /> <br /> A estanqueira lamentava-a: uma senhora que era -to apropositada! <br /> +tão apropositada! <br /> <br /> —Vacca solta lambe-se toda, snr.<sup>a</sup> Helena!—rosnava -o Paula.—So todas o mesmo! <br /> +o Paula.—São todas o mesmo! <br /> <br /> —Menos isso!—protestava a estanqueira—Que eu sempre fui uma mulher honesta! <br /> @@ -10287,515 +10247,515 @@ E ella?—reclamava a carvoeira—ninguem tinha que lhe dizer! <br /> <br /> —Fallo da alta sociedade, das fidalgas, das que -arrastam sdas! uma cambada. Eu que o sei!—E +arrastam sêdas! É uma cambada. Eu é que o sei!—E acrescentava gravemente:—No povo ha mais -moralidade. O povo outra raa!—E com as mos +moralidade. O povo é outra raça!—E com as mãos enterradas nos bolsos, as pernas muito abertas, ficava -absorto, com a cabea baixa, o olhar cravado no -cho.—Se !—murmurava—Se !—Como se -estivesse positivamente achando as pedrinhas da calada +absorto, com a cabeça baixa, o olhar cravado no +chão.—Se é!—murmurava—Se é!—Como se +estivesse positivamente achando as pedrinhas da calçada menos numerosas que as virtudes do povo! <br /> <br /> <br /> <br /><span class="pagenum">[264]</span> -Sebastio, que tinha estado na quinta d'Almada +Sebastião, que tinha estado na quinta d'Almada quasi duas semanas, ficou aterrado quando, ao voltar, -a Joanna lhe deu as grandes novidades: que -a Luizinha agora sahia todos os dias s duas horas, -que o primo no voltra; a Gertrudes que lh'o -dissera; no se fallava na rua n'outra cousa... <br /> -<br /> -—Ento a pobre senhora nem sequer pde ir s -lojas, aos seus arranjos!—exclamou Sebastio.—A -Gertrudes uma desavergonhada, e nem sei como +a Joanna lhe deu as grandes «novidades»: que +a Luizinha agora sahia todos os dias ás duas horas, +que o primo não voltára; a Gertrudes é que lh'o +dissera; não se fallava na rua n'outra cousa... <br /> +<br /> +—Então a pobre senhora nem sequer póde ir ás +lojas, aos seus arranjos!—exclamou Sebastião.—A +Gertrudes é uma desavergonhada, e nem sei como a tia Joanna consente que ella ponha aqui os -ps. Vir com esses mexericos!... <br /> +pés. Vir com esses mexericos!... <br /> <br /> —Cruzes! Olha o destempero!—replicou muito escandalisada a tia Joanna.—Oh menino, realmente... A pobre mulher disse o que ouviu na rua! -Que ella at a defende, at ella que a defende! -At se esteve a queixar que se falla! que se falla! +Que ella até a defende, até ella é que a defende! +Até se esteve a queixar que se falla! que se falla! Boa!—E a tia Joanna sahiu, resmungando:—Olha o destempero, credo! <br /> <br /> -Sebastio chamou-a, aplacou-a: <br /> +Sebastião chamou-a, aplacou-a: <br /> <br /> —Mas quem falla, tia Joanna? <br /> <br /> —Quem?—E muito emphaticamente:—Toda a rua! Toda a rua! Toda a rua! <br /> <br /> -Sebastio ficou aniquilado. Toda a rua! Pudera! +Sebastião ficou aniquilado. Toda a rua! Pudera! Se ella agora se punha a sahir todos os dias, uma -senhora, que quando estava Jorge no sahia do buraco! -A visinhana que murmurra das visitas do -outro, naturalmente comeava a commentar as sahidas +senhora, que quando estava Jorge não sahia do buraco! +A visinhança que murmurára das visitas do +outro, naturalmente começava a commentar as sahidas <span class="pagenum">[265]</span> -d'ella! Estava-se a desacreditar! E elle no podia -fazer nada! Ir advertil-a? Ter outra scena? -No podia. <br /> -<br /> -Procurou-a. No lhe queria de certo tocar em -nada, ia s vl-a. No estava. Voltou d'ahi a dous -dias. Juliana veio-lhe dizer cancella, com o seu -sorriso amarellado: Foi-se agora mesmo, ha um -instantinho. Ainda a apanha Patriarchal. Emfim, +d'ella! Estava-se a desacreditar! E elle não podia +fazer nada! Ir advertil-a? Ter outra «scena»? +Não podia. <br /> +<br /> +Procurou-a. Não lhe queria de certo tocar em +nada, ia só vêl-a. Não estava. Voltou d'ahi a dous +dias. Juliana veio-lhe dizer á cancella, com o seu +sorriso amarellado: «Foi-se agora mesmo, ha um +instantinho. Ainda a apanha á Patriarchal». Emfim, um dia encontrou-a ao principio da rua de S. Roque. -Luiza pareceu muito contente em o vr:—Porque -se tinha demorado tanto em Almada? Que desero! <br /> +Luiza pareceu muito contente em o vêr:—Porque +se tinha demorado tanto em Almada? Que deserção! <br /> <br /> Trazia carpinteiros, era necessario vigiar as obras. E ella? <br /> <br /> —Bem. Um bocado aborrecida. O Jorge diz que -ainda se demora. Tenho estado muito s. Nem Julio, -nem Conselheiro, ninguem. A D. Felicidade -que tem apparecido s vezes de fugida. Est agora -sempre mettida na Encarnao... Isto gente devota!—E +ainda se demora. Tenho estado muito só. Nem Julião, +nem Conselheiro, ninguem. A D. Felicidade é +que tem apparecido ás vezes de fugida. Está agora +sempre mettida na Encarnação... Isto gente devota!—E riu. <br /> <br /> -Ento aonde ia? <br /> +Então aonde ia? <br /> <br /> -A umas comprasitas, modista depois...—E -apparea agora, Sebastio, hein? <br /> +A umas comprasitas, á modista depois...—E +appareça agora, Sebastião, hein? <br /> <br /> —Hei-d'apparecer. <br /> <br /> -— noite. Estou to s! Tenho tocado muito, -o que me vale o piano! <br /> +—Á noite. Estou tão só! Tenho tocado muito, é +o que me vale é o piano! <br /> <br /> -N'essa mesma tarde Sebastio recebeu uma carta -de Jorge. Tens visto a Luiza? Estive quasi com cuidado, +N'essa mesma tarde Sebastião recebeu uma carta +de Jorge. «Tens visto a Luiza? Estive quasi com cuidado, porque estive mais de cinco dias sem carta -d'ella. De resto est preguiosa como uma freira; -quando escreve so quatro linhas porque est o correio +d'ella. De resto está preguiçosa como uma freira; +quando escreve são quatro linhas porque está o correio <span class="pagenum">[266]</span> a partir. Vai dizer ao correio que espere, que -diabo! Queixa-se de se aborrecer, de estar s, que +diabo! Queixa-se de se aborrecer, de estar só, que todos a abandonaram, que tem vivido como n'um -deserto. V se lhe vaes fazer companhia, coitada, -etc. <br /> +deserto. Vê se lhe vaes fazer companhia, coitada, +etc.» <br /> <br /> No dia seguinte ao anoitecer foi a casa d'ella. Appareceu-lhe muito vermelha, com os olhos estremunhados, -de roupo branco. Tinha chegado muito -canada de fra, tinha-lhe dado o somno depois de +de roupão branco. Tinha chegado muito +cançada de fóra, tinha-lhe dado o somno depois de jantar, adormecera sobre a <em>causeuse</em>... Que havia de novo? E bocejava. <br /> <br /> Fallaram das obras d'Almada, do Conselheiro, de -Julio; e ficaram calados. Havia um constrangimento. <br /> +Julião; e ficaram calados. Havia um constrangimento. <br /> <br /> -Luiza ento accendeu as velas no piano, mostrou-lhe -a nova musica que estudava, a <em>Medj</em> de +Luiza então accendeu as velas no piano, mostrou-lhe +a nova musica que estudava, a <em>Medjé</em> de Gounod; mas havia uma passagem em que se embrulhava -sempre; pediu a Sebastio que a tocasse, -e junto do piano, batendo o compasso com o p, -acompanhava baixo a melodia, a que a execuo de -Sebastio dava um encanto penetrante. Quiz tentar +sempre; pediu a Sebastião que a tocasse, +e junto do piano, batendo o compasso com o pé, +acompanhava baixo a melodia, a que a execução de +Sebastião dava um encanto penetrante. Quiz tentar depois, mas enganou-se, zangou-se, atirou a musica -para o lado, veio sentar-se no soph, dizendo: <br /> +para o lado, veio sentar-se no sophá, dizendo: <br /> <br /> -—Quasi nunca tco! Esto-se-me a enferrujar os +—Quasi nunca tóco! Estão-se-me a enferrujar os dedos!... <br /> <br /> -Sebastio no se atrevia a perguntar pelo primo -Bazilio. Luiza no lhe pronunciou sequer o nome. E -Sebastio, vendo n'aquella reserva uma diminuio -de confiana ou um resto persistente de despeito, -disse que tinha d'ir Associao Geral d'Agricultura, +Sebastião não se atrevia a perguntar pelo primo +Bazilio. Luiza não lhe pronunciou sequer o nome. E +Sebastião, vendo n'aquella reserva uma diminuição +de confiança ou um resto persistente de despeito, +disse que tinha d'ir á Associação Geral d'Agricultura, e sahiu muito desconsolado. <br /> <br /><span class="pagenum"><a name="p267" id="p267">[267]</a></span> -Cada dia que se seguiu trouxe-lhe a sua inquietao -differente. s vezes era a tia Joanna que lhe -dizia tarde: A <a href="#e9">Luizinha</a> l sahiu hoje outra +Cada dia que se seguiu trouxe-lhe a sua inquietação +differente. Ás vezes era a tia Joanna que lhe +dizia á tarde: «A <a href="#e9">Luizinha</a> lá sahiu hoje outra vez! -Por este calor, at pde apanhar alguma! Credo! +Por este calor, até póde apanhar alguma! Credo!» Outras era o conciliabulo dos visinhos, que avistava -de longe, e que de certo estavam a cortar na pelle -da pobre senhora! <br /> +de longe, e que de certo «estavam a cortar na pelle +da pobre senhora»! <br /> <br /> Parecia-lhe tudo aquillo exactamente a <em>aria da Calumnia</em> no <em>Barbeiro de Sevilha</em>: a calumnia ao principio leve como o fremito das azas d'um passaro, -subindo n'um crescendo aterrador at estalar como -um trovo! <br /> +subindo n'um crescendo aterrador até estalar como +um trovão! <br /> <br /> -Dava agora voltas para no passar na rua, diante +Dava agora voltas para não passar na rua, diante do Paula e da estanqueira: tinha vergonha d'elles! -Encontrra o Teixeira Azevedo, que lhe perguntra: <br /> +Encontrára o Teixeira Azevedo, que lhe perguntára: <br /> <br /> -—Ento o Jorge quando vem? Que diabo! o rapaz -fica por l! <br /> +—Então o Jorge quando vem? Que diabo! o rapaz +fica por lá! <br /> <br /> -E aquella observao trivial aterrou-o. <br /> +E aquella observação trivial aterrou-o. <br /> <br /> Emfim, um dia, mais apoquentado, foi procurar -Julio. Encontrou-o no seu quarto andar, em mangas +Julião. Encontrou-o no seu quarto andar, em mangas de camisa e em chinellas, enxovalhado e esguedelhado, rodeado de papelada, com uma chocolateirinha -de caf ao p, trabalhando. O soalho negro estava +de café ao pé, trabalhando. O soalho negro estava cheio de pontas de cigarro; ao canto estava embrulhada roupa suja; sobre a cama desfeita havia -livros abertos;—e um cheiro relentado sahia do desmazlo +livros abertos;—e um cheiro relentado sahia do desmazêlo das cousas. A janella de peitoril dava para o -saguo, d'onde vinha o cantar estridente d'uma criada, +saguão, d'onde vinha o cantar estridente d'uma criada, e o ruido areado do esfregar de tachos. <br /> <br /> -Julio, apenas elle entrou, ergueu-se, espreguiou-se, +Julião, apenas elle entrou, ergueu-se, espreguiçou-se, <span class="pagenum">[268]</span> enrolou um cigarro, e declarou que estava a trabalhar desde as sete!... Hein? Era bonito! Para -que soubesse o snr. Sebastio! <br /> +que soubesse o snr. Sebastião! <br /> <br /> —De resto chegaste a proposito. Estava para mandar a tua casa... Devia receber ahi um dinheiro -e no veio. D c uma libra. <br /> +e não veio. Dá cá uma libra. <br /> <br /> -E immediatamente comeou a fallar da these. A +E immediatamente começou a fallar da these. A cousa sahia! <br /> <br /> -Leu-lhe paragraphos do prologo com uma deleitao +Leu-lhe paragraphos do prologo com uma deleitação paternal, e, muito satisfeito, na abundancia de -confiana que d a excitao do trabalho, com grandes +confiança que dá a excitação do trabalho, com grandes passadas pelo quarto: <br /> <br /> —Hei-de-lhes mostrar que ainda ha portuguezes -em Portugal, Sebastio! Hei-de-os deixar de bocca -aberta! Tu vers! <br /> +em Portugal, Sebastião! Hei-de-os deixar de bocca +aberta! Tu verás! <br /> <br /> -Sentou-se, pz-se a numerar as folhas escriptas, -assobiando. Sebastio, ento, com timidez, quasi vexado -de perturbar com as suas preoccupaes domesticas +Sentou-se, pôz-se a numerar as folhas escriptas, +assobiando. Sebastião, então, com timidez, quasi vexado +de perturbar com as suas preoccupações domesticas aquelles interesses scientificos, disse baixo: <br /> <br /> -—Pois eu vim-te fallar por causa l da nossa +—Pois eu vim-te fallar por causa lá da nossa gente... <br /> <br /> -Mas a porta abriu-se com fora, e um rapaz de +Mas a porta abriu-se com força, e um rapaz de barba desleixada, e olhar um pouco doudo, entrou; -era um estudante da Escla, amigo de Julio; e quasi -immediatamente os dous recomearam uma discusso -que tinham travado de manh, e que fra interrompida -s onze horas, quando o rapaz d'olhar doudo -descra a almoar Aurea. <br /> -<br /> -—No, menino!—exclamava o estudante exaltado.—Estou -na minha! A medicina uma meia +era um estudante da Escóla, amigo de Julião; e quasi +immediatamente os dous recomeçaram uma discussão +que tinham travado de manhã, e que fôra interrompida +ás onze horas, quando o rapaz d'olhar doudo +descêra a almoçar á Aurea. <br /> +<br /> +—Não, menino!—exclamava o estudante exaltado.—Estou +na minha! A medicina é uma meia <span class="pagenum">[269]</span> -sciencia, a physiologia outra meia sciencia! So +sciencia, a physiologia é outra meia sciencia! São sciencias conjecturaes, porque nos escapa a base, conhecer o principio da vida! <br /> <br /> -E cruzando os braos diante de Sebastio, bradou-lhe: <br /> +E cruzando os braços diante de Sebastião, bradou-lhe: <br /> <br /> -—Que sabemos ns do principio da vida? <br /> +—Que sabemos nós do principio da vida? <br /> <br /> -Sebastio, humilhado, baixou os olhos. <br /> +Sebastião, humilhado, baixou os olhos. <br /> <br /> -Mas Julio indignava-se: <br /> +Mas Julião indignava-se: <br /> <br /> -—Ests desmoralisado pela doutrina vitalista, +—Estás desmoralisado pela doutrina vitalista, miseravel! Trovejou contra o Vitalismo, que declarou -contrario ao espirito scientifico. Uma theoria que +«contrario ao espirito scientifico». Uma theoria que pretende que as leis que governam os corpos brutos -no so as mesmas que governam os corpos vivos— +não são as mesmas que governam os corpos vivos—é uma heresia grotesca!—exclamava.—E -Bichat que a proclama uma besta! <br /> +Bichat que a proclama é uma besta! <br /> <br /> -O estudante, fra de si, bradou—que chamar a +O estudante, fóra de si, bradou—que chamar a Bichat uma besta era simplesmente d'um alarve. <br /> <br /> -Mas Julio desprezou a injuria, e continuou, exaltado -nas suas idas: <br /> +Mas Julião desprezou a injuria, e continuou, exaltado +nas suas idéas: <br /> <br /> -—Que nos importa a ns o principio da vida? +—Que nos importa a nós o principio da vida? Importa-me tanto como a primeira camisa que vesti! -O principio da vida como outro qualquer principio: -um segredo! Havemos d'ignoral-o eternamente! No +O principio da vida é como outro qualquer principio: +um segredo! Havemos d'ignoral-o eternamente! Não podemos saber nenhum principio. A vida, a morte, -as origens, os fins, mysterios! So causas primarias -com que no temos nada a fazer, nada! Podemos -batalhar seculos, que no avanamos uma pollegada. -O physiologista, o chimico, no tem nada com os -principios das cousas; o que lhes importa so os +as origens, os fins, mysterios! São causas primarias +com que não temos nada a fazer, nada! Podemos +batalhar seculos, que não avançamos uma pollegada. +O physiologista, o chimico, não tem nada com os +principios das cousas; o que lhes importa são os phenomenos! Ora os phenomenos e as suas causas <span class="pagenum">[270]</span> immediatas, meu caro amigo, podem ser determinadas com tanto rigor nos corpos brutos, como nos corpos vivos—n'uma pedra, como n'um desembargador! -E a physiologia e a medicina so sciencias -to exactas como a chimica! Isto j vem de Descartes! <br /> +E a physiologia e a medicina são sciencias +tão exactas como a chimica! Isto já vem de Descartes! <br /> <br /> -Travaram ento um berreiro sobre Descartes. E -immediatamente, sem que Sebastio attonito tivesse -descoberto a transio, encarniaram-se sobre a ida +Travaram então um berreiro sobre Descartes. E +immediatamente, sem que Sebastião attonito tivesse +descoberto a transição, encarniçaram-se sobre a idéa de Deus. <br /> <br /> O estudante parecia necessitar Deus para explicar -o universo. Mas Julio atacava Deus com clera: -chamava-lhe uma hypothese safada, uma velha -caturrice do partido miguelista! E comearam a -assaltar-se sobre a questo social, como dous gallos +o universo. Mas Julião atacava Deus com cólera: +chamava-lhe «uma hypothese safada», «uma velha +caturrice do partido miguelista»! E começaram a +assaltar-se sobre a questão social, como dous gallos inimigos. <br /> <br /> O estudante, com os olhos esgazeados, sustentava, dando punhadas sobre a mesa, o principio da authoridade! -Julio berrava pela anarchia individual! +Julião berrava pela «anarchia individual»! E depois de citarem com furia Proudhon, Bastiat, -Jouffroy romperam em personalidades. Julio, que +Jouffroy romperam em personalidades. Julião, que dominava pela estridencia da voz, censurou violentamente -ao estudante—as suas inscripes a seis por +ao estudante—as suas inscripções a seis por cento, o ridiculo de ser filho d'um corretor de fundos, e o bife de proprietario que vinha de comer na Aurea! <br /> <br /> -Olharam-se, ento, com rancor. <br /> +Olharam-se, então, com rancor. <br /> <br /> Mas d'ahi a momentos o estudante deixou cahir com desdem algumas palavras sobre Claude Bernard, -e a questo recomeou, furiosa. +e a questão recomeçou, furiosa. <br /> <br /><span class="pagenum">[271]</span> -Sebastio tomou o chapo. <br /> +Sebastião tomou o chapéo. <br /> <br /> —Adeus—disse baixo. <br /> <br /> -—Adeus, Sebastio, adeus—disse promptamente -Julio. <br /> +—Adeus, Sebastião, adeus—disse promptamente +Julião. <br /> <br /> Acompanhou-o ao patamar. <br /> <br /> —E quando quizeres que eu falle a meu primo...—murmurou -Sebastio. <br /> +Sebastião. <br /> <br /> -—Pois sim, veremos, eu pensarei—disse Julio -com indifferena, como se o orgulho do trabalho lhe -tivesse dissipado o terror da injustia. <br /> +—Pois sim, veremos, eu pensarei—disse Julião +com indifferença, como se o orgulho do trabalho lhe +tivesse dissipado o terror da injustiça. <br /> <br /> -Sebastio foi descendo as escadas, pensando: No -se lhe pde fallar em nada, agora! <br /> +Sebastião foi descendo as escadas, pensando: Não +se lhe póde fallar em nada, agora! <br /> <br /> -De repente veio-lhe uma ida: se fosse ter com +De repente veio-lhe uma idéa: se fosse ter com D. Felicidade, abrir-se com ella! D. Felicidade era espalhafatona, um pouco tonta, mas era uma mulher d'idade, intima de Luiza; tinha mais authoridade, mais habilidade mesmo... <br /> <br /> -Decidiu-se logo, tomou um trem, foi rua de S. +Decidiu-se logo, tomou um trem, foi á rua de S. Bento. <br /> <br /> A criada de D. Felicidade appareceu-lhe, desolada, e lacrimosa: <br /> <br /> -—Pois no sabe? <br /> +—Pois não sabe? <br /> <br /> -—No. <br /> +—Não. <br /> <br /> -—Ai! at admira! <br /> +—Ai! até admira! <br /> <br /> —Mas o que? <br /> <br /> -—A senhora! Uma desgraa assim! Torceu um -p na Encarnao, deu uma quda. Tem estado muito +—A senhora! Uma desgraça assim! Torceu um +pé na Encarnação, deu uma quéda. Tem estado muito mal, muito mal. <br /> <br /> —Aqui? <br /> <br /> -—Na Encarnao. Nem pde sahir. Est com a +—Na Encarnação. Nem pôde sahir. Está com a <span class="pagenum">[272]</span> -snr.<sup>a</sup> D. Anna Silveira. Uma desgraa assim! E est +snr.<sup>a</sup> D. Anna Silveira. Uma desgraça assim! E está n'um phrenesi! <br /> <br /> —Mas quando foi? <br /> <br /> -—Antes d'hontem noite. <br /> +—Antes d'hontem á noite. <br /> <br /> -Sebastio saltou para o trem, mandou bater +Sebastião saltou para o trem, mandou «bater» para casa de Luiza. <br /> <br /> -A D. Felicidade, doente, na Encarnao! Mas ento -Luiza podia bem sahir todos os dias! Ia vl-a, +A D. Felicidade, doente, na Encarnação! Mas então +Luiza podia bem sahir todos os dias! Ia vêl-a, fazer-lhe companhia, tratar d'ella!... <br /> <br /> -A visinhana no tinha que rosnar! Ia vr a pobre +A visinhança não tinha que rosnar! Ia vêr a pobre doente!... <br /> <br /> -Eram duas horas quando a parelha estacou porta +Eram duas horas quando a parelha estacou á porta de Luiza. Encontrou-a, que descia a escada, vestida -de preto, de luva <em>gris perle</em>, com um vo negro. <br /> +de preto, de luva <em>gris perle</em>, com um véo negro. <br /> <br /> -—Ah! suba, Sebastio, suba! Quer subir? <br /> +—Ah! suba, Sebastião, suba! Quer subir? <br /> <br /> -Parra, nos degraus, com uma crzinha no rosto, -um pouco embaraada. <br /> +Parára, nos degraus, com uma côrzinha no rosto, +um pouco embaraçada. <br /> <br /> -—No, obrigado. Vinha dizer-lhe... No sabe? +—Não, obrigado. Vinha dizer-lhe... Não sabe? A D. Felicidade... <br /> <br /> -—O qu? <br /> +—O quê? <br /> <br /> -—Torceu um p. Est mal. <br /> +—Torceu um pé. Está mal. <br /> <br /> —Que me diz? <br /> <br /> -Sebastio deu os pormenores. <br /> +Sebastião deu os pormenores. <br /> <br /> -—Vou j l. <br /> +—Vou já lá. <br /> <br /> -—Deve ir. Eu no posso ir, no entram homens. -Coitada! Diz que est mal.—Acompanhou-a at +—Deve ir. Eu não posso ir, não entram homens. +Coitada! Diz que está mal.—Acompanhou-a até á esquina da rua, offereceu-lhe mesmo a tipoia:—E -muitos recados, que tenho pena de a no vr!... -Pobre senhora! E diz que est n'um phrenesi! <br /> +muitos recados, que tenho pena de a não vêr!... +Pobre senhora! E diz que está n'um phrenesi! <br /> <br /> Viu-a afastar-se para a Patriarchal, e, admirando <span class="pagenum">[273]</span> -a graa da sua figura, esfregava as mos satisfeito. <br /> +a graça da sua figura, esfregava as mãos satisfeito. <br /> <br /> Estavam justificadas, santificadas mesmo aquellas passeatas todos os dias! Ia ser a enfermeira da pobre D. Felicidade! Era necessario que todos soubessem, o Paula, a estanqueira, a Gertrudes, as Azevedos, -todos, de modo que quando a vissem de manh, -subir a rua, dissessem:—L vai fazer companhia - doente! Santa senhora! <br /> +todos, de modo que quando a vissem de manhã, +subir a rua, dissessem:—Lá vai fazer companhia +á doente! Santa senhora! <br /> <br /> -O Paula estava porta da loja—e Sebastio com -uma ida subita, entrou. Estava-se estimando de se -sentir to fecundo em expedientes, to habil! <br /> +O Paula estava á porta da loja—e Sebastião com +uma idéa subita, entrou. Estava-se estimando de se +sentir tão fecundo em expedientes, tão habil! <br /> <br /> -Deitou um pouco o chapo para a nuca, e mostrando +Deitou um pouco o chapéo para a nuca, e mostrando com o guarda-sol o painel que representava -D. Joo VI: <br /> +D. João VI: <br /> <br /> -—Quanto quer vossemec por isto, snr. Paula? <br /> +—Quanto quer vossemecê por isto, ó snr. Paula? <br /> <br /> O Paula ficou surprehendido: <br /> <br /> -—O snr. Sebastio est a brincar? <br /> +—O snr. Sebastião está a brincar? <br /> <br /> -Sebastio exclamou: <br /> +Sebastião exclamou: <br /> <br /> -—A brincar?—Fallava muito srio! queria uns +—A brincar?—Fallava muito sério! queria uns quadros para a sala d'entrada, em Almada: mas velhos, sem caixilho, para dizerem bem sobre um papel escuro.—Como isto! Estou a brincar! Ora essa, homem! <br /> <br /> -—Desculpe, snr. Sebastio... Pois n'esse caso +—Desculpe, snr. Sebastião... Pois n'esse caso ha por ahi alguns paineis a calhar. <br /> <br /> -—Este D. Joo VI agrada-me. Quanto custa isto? <br /> +—Este D. João VI agrada-me. Quanto custa isto? <br /> <br /> O Paula disse, sem hesitar: <br /> <br /> -—Sete mil e duzentos. Mas obra de mestre. <br /> +—Sete mil e duzentos. Mas é obra de mestre. <br /> <br /> -Era uma tla desbotada de tom defumado, onde +Era uma téla desbotada de tom defumado, onde <span class="pagenum">[274]</span> uns restos de face avermelhada, com uma cabelleira em cachos, sobresahiam vagamente sobre um fundo -sombrio. Um vermelho bao indicava o velludo de -uma casaca de crte: a pana saliente e ostentosa +sombrio. Um vermelhão baço indicava o velludo de +uma casaca de côrte: a pança saliente e ostentosa enchia um collete esverdeado. E a parte mais conservada -da tla era, ao lado sobre um coxim, a cora -real—que o artista trabalhra com uma minuciosidade -enthusiasta, ou por preoccupao d'idiota, -ou por adulao de cortezo. <br /> -<br /> -Sebastio achava caro; mas o Paula mostrou-lhe -o preo escripto por traz, n'uma tirinha de papel; -espanejou a tla com amor; indicou as bellezas, fallou +da téla era, ao lado sobre um coxim, a corôa +real—que o artista trabalhára com uma minuciosidade +enthusiasta, ou por preoccupação d'idiota, +ou por adulação de cortezão. <br /> +<br /> +Sebastião achava caro; mas o Paula mostrou-lhe +o preço escripto por traz, n'uma tirinha de papel; +espanejou a téla com amor; indicou as bellezas, fallou na sua honestidade; deprimiu outros vendedores -de moveis, que tinham a consciencia nas palmilhas; -jurou que o retrato pertencera ao pao de -Queluz, e ia atacar as questes publicas—quando -Sebastio disse resumindo: <br /> +de moveis, «que tinham a consciencia nas palmilhas»; +jurou que o retrato pertencera ao paço de +Queluz, e ia atacar as questões publicas—quando +Sebastião disse resumindo: <br /> <br /> —Bem, pois mande-m'o logo, fico com elle. E mande a conta. <br /> <br /> —Leva uma rica obra! <br /> <br /> -Sebastio agora olhava em redor. Queria fallar -do p torcido de D. Felicidade, e procurava uma -transio. Examinou umas jarras da India, um trem; +Sebastião agora olhava em redor. Queria fallar +do «pé torcido de D. Felicidade», e procurava uma +transição. Examinou umas jarras da India, um tremó; e avistando uma poltrona de doente: <br /> <br /> -—Aquillo que era bom para a D. Felicidade!—exclamou +—Aquillo é que era bom para a D. Felicidade!—exclamou logo—aquella cadeira! Boa cadeira! <br /> <br /> O Paula arregalou os olhos. <br /> <br /> -—Para a D. Felicidade Noronha—repetiu Sebastio.—Para -estar deitada... Pois no sabia, homem? -Partiu um p, tem estado muito mal. +—Para a D. Felicidade Noronha—repetiu Sebastião.—Para +estar deitada... Pois não sabia, homem? +Partiu um pé, tem estado muito mal. <br /> <br /><span class="pagenum">[275]</span> -—A D. Felicidade, a amiga <em>de c</em>?—e indicou +—A D. Felicidade, a amiga <em>de cá</em>?—e indicou com o pollegar a casa do Engenheiro. <br /> <br /> -—Sim, homem! Quebrou um p na Encarnao. -At l ficou. A D. Luiza vai para l fazer-lhe companhia -todos os dias. Agora ia ella para l... <br /> +—Sim, homem! Quebrou um pé na Encarnação. +Até lá ficou. A D. Luiza vai para lá fazer-lhe companhia +todos os dias. Agora ia ella para lá... <br /> <br /> —Ah!—fez o Paula lentamente. E depois de -uma pausa:—Mas eu ainda a vi entrar <em>para c</em> ha-de +uma pausa:—Mas eu ainda a vi entrar <em>para cá</em> ha-de haver oito dias. <br /> <br /> —Foi antes d'hontem.—Tossiu e acrescentou, voltando o rosto, olhando muito umas gravuras:—De -resto a D. Luiza j ia todos os dias Encarnao, -mas era para vr a Silveira, a D. Anna Silveira, que +resto a D. Luiza já ia todos os dias á Encarnação, +mas era para vêr a Silveira, a D. Anna Silveira, que esteve mal. Coitada, ha tres semanas que tem passado -uma vida d'enfermeira. No sahe da Encarnao! -E agora a D. Felicidade. No m massada! <br /> +uma vida d'enfermeira. Não sahe da Encarnação! +E agora é a D. Felicidade. Não é má massada! <br /> <br /> -—Pois no sabia, no sabia—murmurava o -Paula, com as mos enterradas nos bolsos. <br /> +—Pois não sabia, não sabia—murmurava o +Paula, com as mãos enterradas nos bolsos. <br /> <br /> -—Mande-me o D. Joo VI, hein? <br /> +—Mande-me o D. João VI, hein? <br /> <br /> -—s ordens, snr. Sebastio. <br /> +—Ás ordens, snr. Sebastião. <br /> <br /> -Sebastio foi para casa. Subiu sala; e atirando -o chapo para o soph: Bem, pensou, agora -ao menos esto salvas as apparencias!—Passeou -algum tempo com a cabea baixa; sentia-se triste; +Sebastião foi para casa. Subiu á sala; e atirando +o chapéo para o sophá: Bem, pensou, agora +ao menos estão salvas as apparencias!—Passeou +algum tempo com a cabeça baixa; sentia-se triste; porque o ter conseguido, por um acaso, justificar -aquelles passeios para com a visinhana, fazia-lhe -parecer mais cruel a ida de que os no podia justificar +aquelles passeios para com a visinhança, fazia-lhe +parecer mais cruel a idéa de que os não podia justificar para comsigo. Os commentarios dos visinhos iam findar por algum tempo, mas <em>os seus</em>?... Queria achal-os falsos, pueris, injustos: e, contra sua -vontade, o seu bom senso e a sua rectido estavam +vontade, o seu bom senso e a sua rectidão estavam <span class="pagenum">[276]</span> sempre a revolvel-os baixo. Emfim, tinha feito o que -devia! E com um gesto triste, fallando s, no silencio +devia! E com um gesto triste, fallando só, no silencio da sala: <br /> <br /> -—O resto com a sua consciencia! <br /> +—O resto é com a sua consciencia! <br /> <br /> -N'essa tarde, na rua, sabia-se j que a D. Felicidade -de Noronha torcera um p na Encarnao, -(outros diziam quebrra uma perna), e que a D. -Luiza no lhe sahia da cabeceira... O Paula declarra +N'essa tarde, na rua, sabia-se já que a D. Felicidade +de Noronha torcera um pé na Encarnação, +(outros diziam quebrára uma perna), e que a D. +Luiza não lhe sahia da cabeceira... O Paula declarára com authoridade: <br /> <br /> -— de boa rapariga, de muito boa rapariga! <br /> +—É de boa rapariga, é de muito boa rapariga! <br /> <br /> -A Gertrudes do doutor foi logo, noitinha, perguntar - tia Joanna, se era verdade da perna quebrada. -A tia Joanna corrigiu: era o p, torcera o -p! E a Gertrudes veio dizer ao doutor, ao ch, que -a D. Felicidade dra uma queda que ficra em pedaos.—Foi -na Encarnao, acrescentou. Diz que anda -tudo l n'uma roda viva. A Luizinha at l tem +A Gertrudes do doutor foi logo, á noitinha, perguntar +á tia Joanna, «se era verdade da perna quebrada». +A tia Joanna corrigiu: era o pé, torcera o +pé! E a Gertrudes veio dizer ao doutor, ao chá, que +a D. Felicidade déra uma queda que ficára em pedaços.—Foi +na Encarnação, acrescentou. Diz que anda +tudo lá n'uma roda viva. A Luizinha até lá tem dormido... <br /> <br /> —Pieguices de beatas!—rosnou com tedio o @@ -10811,61 +10771,61 @@ e com uma cortezia profunda: <br /> —Melhor, agradecida. <br /> <br /> —Pois, minha senhora, tem sido de muita caridade, -ir todos os dias por este calor Encarnao... <br /> +ir todos os dias por este calor á Encarnação... <br /> <br /> Luiza corou. <br /> <br /> -—Coitada! No lhe falta companhia, mas... +—Coitada! Não lhe falta companhia, mas... <br /> <br /><span class="pagenum">[277]</span> -— de muita caridade, minha senhora—exclamou +—É de muita caridade, minha senhora—exclamou com emphase—Tenho-o dito por toda a parte. - de muita caridade. Um criado de vossencia! <br /> +É de muita caridade. Um criado de vossencia! <br /> <br /> E afastou-se commovido. <br /> <br /> <br /> <br /> -Luiza fra logo, com effeito, vr D. Felicidade. -Tinha uma luxao simples; e deitada nos quartos -da Silveira, com o p em compressas d'arnica, cheia -de terror de perder a perna, passava o dia rodeada +Luiza fôra logo, com effeito, vêr D. Felicidade. +Tinha uma luxação simples; e deitada nos quartos +da Silveira, com o pé em compressas d'arnica, cheia +de terror de «perder a perna», passava o dia rodeada d'amigas, chorando-se, saboreando os mexericos do Recolhimento, e debicando petiscos. <br /> <br /> -Apenas alguem entrava para a vr, redobrava -d'exclamaes e de queixas; vinha logo a historia -miuda, incidentada, prolixa da desgraa: ia a -descer, a pr o p no degrau; escorregra; sentiu -que ia a cahir; ainda se sustentou, e pde dizer: -Ai Nossa Senhora da Saude! Ao principio a dr no +Apenas alguem entrava para a vêr, redobrava +d'exclamações e de queixas; vinha logo a historia +miuda, incidentada, prolixa da «desgraça»: ia a +descer, a pôr o pé no degrau; escorregára; sentiu +que ia a cahir; ainda se sustentou, e pôde dizer: +Ai Nossa Senhora da Saude! Ao principio a dôr não foi grande; mas podia ter morrido; tinha sido um milagre! <br /> <br /> -Todas as senhoras concordavam que era realmente -um milagre. Olhavam-na compungidas, e iam -ao cro alternadamente prostrar-se, e pedir aos santos +Todas as senhoras concordavam «que era realmente +um milagre». Olhavam-na compungidas, e iam +ao côro alternadamente prostrar-se, e pedir aos santos especiaes o allivio da Noronha! <br /> <br /> A primeira visita de Luiza foi para D. Felicidade -uma consolao, deu-lhe melhoras; porque se ralava +uma consolação, «deu-lhe melhoras»; porque se ralava de estar alli de cama, sem saber noticias d'<em>elle</em>, sem poder fallar d'<em>elle</em>! <br /> <br /> -E nos dias seguintes, apenas ficava s no quarto +E nos dias seguintes, apenas ficava só no quarto <span class="pagenum">[278]</span> com Luiza, chamava-a logo para a cabeceira, e n'um murmurio mysterioso: Tinha-o visto? Sabia d'<em>elle</em>? -—A sua afflico era que o Conselheiro no soubesse -que ella estava doente, e no lhe podesse dar aquelles -pensamentos compassivos—a que o seu p tinha +—A sua afflicção era que o Conselheiro não soubesse +que ella estava doente, e não lhe podesse dar aquelles +pensamentos compassivos—a que o seu pé tinha direito, e que seriam um conforto para o seu -corao! Mas Luiza no <em>o</em> vira—e D. Felicidade, +coração! Mas Luiza não <em>o</em> vira—e D. Felicidade, remexendo -a chsada, exhalava suspiros agudos. <br /> +a chásada, exhalava suspiros agudos. <br /> <br /> -s duas horas Luiza sahia da Encarnao—e ia -tomar um trem ao Rocio: para no parar porta do +Ás duas horas Luiza sahia da Encarnação—e ia +tomar um trem ao Rocio: para não parar á porta do <em>Paraiso</em> com espalhafato de tipoia, apeava-se ao largo de Santa Barbara; e fazendo-se pequenina, cosida @@ -10873,145 +10833,145 @@ com a sombra das casas, apressava-se com os olhos baixos, e um vago sorriso de prazer. <br /> <br /> Bazilio esperava-a deitado na cama, em mangas -de camisa: para no se enfastiar, s, tinha trazido +de camisa: para não se enfastiar, só, tinha trazido para o <em>Paraiso</em> uma garrafa de cognac, assucar, -limes—e +limões—e com a porta entreaberta fumava, fazendo <em>grogs</em> frios. O tempo arrastava-se, via a todo o momento as horas, e sem querer ia escutando, notando todos os ruidos intimos da familia da proprietaria que vivia nos quartos interiores: a rabuje d'uma -criana, uma voz acatarrhoada que ralhava, e de repente -uma cadellinha que comeava a ladrar furiosa. +criança, uma voz acatarrhoada que ralhava, e de repente +uma cadellinha que começava a ladrar furiosa. Bazilio achava aquillo burguez e reles, impacientava-se. -Mas um <em>frou-frou</em> de vestido roava a escada—e +Mas um <em>frou-frou</em> de vestido roçava a escada—e os tedios d'elle, bem como os receios d'ella, dissipavam-se logo no calor dos primeiros beijos. Luiza vinha sempre com pressa; queria estar em -casa s cinco horas, e era um estiro depois! Entrava +casa ás cinco horas, «e era um estirão depois!» Entrava <span class="pagenum">[279]</span> -um pouco suada, e Bazilio gostava da transpiraosinha -tepida que havia nos seus hombros ns. <br /> +um pouco suada, e Bazilio gostava da transpiraçãosinha +tepida que havia nos seus hombros nús. <br /> <br /> —E teu marido?—perguntava elle.—Quando vem? <br /> <br /> -—No falla em nada.—Ou ento:—No recebi -carta, no sei nada. <br /> +—Não falla em nada.—Ou então:—Não recebi +carta, não sei nada. <br /> <br /> -Parecia ser aquella a preoccupao de Bazilio, na -alegria egoista da posse recente. Tinha ento caricias -muito extaticas; ajoelhava-se aos ps d'ella; fazia -voz de criana: <br /> +Parecia ser aquella a preoccupação de Bazilio, na +alegria egoista da posse recente. Tinha então caricias +muito extaticas; ajoelhava-se aos pés d'ella; fazia +voz de criança: <br /> <br /> -—Lili no ama Bibi... <br /> +—Lili não ama Bibi... <br /> <br /> Ella ria, meio despida, com um riso cantado e libertino. <br /> <br /> -—Lili adora Bibi!... douda por Bibi! <br /> +—Lili adora Bibi!... É douda por Bibi! <br /> <br /> E queria saber se pensava n'ella, o que tinha -feito na vespera. Fra ao Gremio, jogra uns +feito na vespera. Fôra ao Gremio, jogára uns <em>robbers</em>, -viera para casa cedo, sonhra com ella... <br /> +viera para casa cedo, sonhára com ella... <br /> <br /> —Vivo para ti, meu amor, acredita! <br /> <br /> -E deixava-lhe cahir a cabea no regao, como +E deixava-lhe cahir a cabeça no regaço, como sob uma felicidade excessiva. <br /> <br /> Outras vezes, mais serio, dava-lhe certos conselhos -de gsto, de <em>toilette</em>: pedira-lhe que no trouxesse -postios no cabello, que no usasse botinhas +de gôsto, de <em>toilette</em>: pedira-lhe que não trouxesse +postiços no cabello, que não usasse botinhas de elastico. <br /> <br /> Luiza admirava muito a sua experiencia do luxo; -obedecia-lhe, amoldava-se s suas idas:—at affectar, +obedecia-lhe, amoldava-se ás suas idéas:—até affectar, sem o sentir, um desdem pela gente virtuosa, -para imitar as suas opinies libertinas. <br /> +para imitar as suas opiniões libertinas. <br /> <br /> E lentamente, vendo aquella docilidade, Bazilio -no se dava ao incommodo de se constranger; usava +não se dava ao incommodo de se constranger; usava <span class="pagenum">[280]</span> -d'ella, <em>como se a pagasse</em>! Acontecera uma manh -escrever-lhe duas palavras a lapis que no podia -ir ao <em>Paraiso</em>, sem outras explicaes! Uma -occasio mesmo no foi, sem a avisar—e Luiza +d'ella, <em>como se a pagasse</em>! Acontecera uma manhã +escrever-lhe duas palavras a lapis que «não podia +ir ao <em>Paraiso</em>», sem outras explicações! Uma +occasião mesmo não foi, sem a avisar—e Luiza achou a porta fechada. Bateu timidamente, olhou pela fechadura, esperou palpitante—e voltou muito desconsolada, quebrada do calor, com a poeirada nos olhos, e vontade de chorar. <br /> <br /> -No aceitava o menor incommodo, nem para +Não aceitava o menor incommodo, nem para lhe causar um contentamento. Luiza tinha-lhe pedido que fosse de vez em quando aos domingos a sua -casa, passar a noite: viria Sebastio, o Conselheiro, +casa, passar a noite: viria Sebastião, o Conselheiro, D. Felicidade quando estivesse melhor: era uma alegria -para ella, e depois dava s suas relaes um +para ella, e depois dava ás suas relações um ar mais parente, mais legitimo. <br /> <br /> Mas Bazilio pulou: <br /> <br /> -—O qu! ir cabecear de somno com quatro caturras... -Ah! no!... <br /> +—O quê! ir cabecear de somno com quatro caturras... +Ah! não!... <br /> <br /> —Mas conversa-se, faz-se musica... <br /> <br /> -—<em>Merci!</em> Conheo-a, a musica das -<em>soires</em> de +—<em>Merci!</em> Conheço-a, a musica das +<em>soirées</em> de Lisboa! A valsa do <em>Beijo</em> e o <em>Trovador</em>. Safa! <br /> <br /> -Depois duas ou tres vezes fallra de Jorge com +Depois duas ou tres vezes fallára de Jorge com desdem. Aquillo offendera-a. <br /> <br /> Ultimamente mesmo, quando ella entrava no <em>Paraiso</em>, -j no tinha a delicadeza amorosa de se levantar -alvoroado: sentava-se apenas na cama, e tirando -preguiosamente o charuto da bocca: <br /> +já não tinha a delicadeza amorosa de se levantar +alvoroçado: sentava-se apenas na cama, e tirando +preguiçosamente o charuto da bocca: <br /> <br /> -—Ora viva a minha flr!—dizia. <br /> +—Ora viva a minha flôr!—dizia. <br /> <br /> E um ar de superioridade quando lhe fallava! Um modo de encolher os hombros, de exclamar:—Tu <span class="pagenum">[281]</span> -no percebes nada d'isso! Chegava a ter palavras -cruas, gestos brutaes. E Luiza comeou a desconfiar -que Bazilio no a estimava,—apenas a desejava! <br /> +não percebes nada d'isso! Chegava a ter palavras +cruas, gestos brutaes. E Luiza começou a desconfiar +que Bazilio não a estimava,—apenas a desejava! <br /> <br /> Ao principio chorou. Resolveu explicar-se com -elle, romper se fosse necessario. Mas adiou, no se +elle, romper se fosse necessario. Mas adiou, não se atrevia: a figura de Bazilio, a sua voz, o seu olhar -dominavam-na; e accendendo-lhe a paixo tiravam-lhe +dominavam-na; e accendendo-lhe a paixão tiravam-lhe a coragem de a perturbar com queixas. Porque -estava convencida ento que o adorava: o que lhe -dava tanta exaltao no <em>desejo</em>, se no era a +estava convencida então que o adorava: o que lhe +dava tanta exaltação no <em>desejo</em>, se não era a grandeza -do <em>sentimento</em>?... Gozava tanto, porque o +do <em>sentimento</em>?... Gozava tanto, é porque o amava muito!... E a sua honestidade natural, os seus pudores refugiavam-se n'este raciocinio subtil. <br /> <br /> -Elle tinha s vezes uma seccura aspera de maneiras, -era verdade; certos tons de indifferena, era +Elle tinha ás vezes uma seccura aspera de maneiras, +era verdade; certos tons de indifferença, era certo... Mas n'outros momentos, quantas denguices, que tremuras na voz, que phrenesi nas caricias!... -Amava-a tambem, no havia duvida. Aquella certeza -era a sua justificao. E como era o Amor que os -produzia, no se envergonhava dos alvoroos voluptuosos -com que ia todas as manhs ao <em>Paraiso</em>! <br /> +Amava-a tambem, não havia duvida. Aquella certeza +era a sua justificação. E como era o Amor que os +produzia, não se envergonhava dos alvoroços voluptuosos +com que ia todas as manhãs ao <em>Paraiso</em>! <br /> <br /> Duas ou tres vezes, ao voltar, tinha encontrado Juliana que subia tambem apressada o Moinho de Vento. <br /> <br /> -—D'onde vinha voss?—perguntra-lhe em +—D'onde vinha vossê?—perguntára-lhe em casa. <br /> <br /> —Do medico, minha senhora, fui ao medico. <br /> <br /> -Queixava-se de pontadas, palpitaes, faltas d'ar. <br /> +Queixava-se de pontadas, palpitações, faltas d'ar. <br /> <br /> —Flatos! flatos! <br /> @@ -11019,142 +10979,142 @@ Queixava-se de pontadas, palpitaes, faltas d'ar. <br /> <br /> <br /><span class="pagenum">[282]</span> Com effeito, Juliana agora fazia todos os arranjos -pela manh; depois apenas Luiza, pela uma hora, +pela manhã; depois apenas Luiza, pela uma hora, dobrava a esquina, ia-se vestir, e muito espartilhada -no seu vestido de merino, de chapo e sombrinha, +no seu vestido de merino, de chapéo e sombrinha, vinha dizer a Joanna: <br /> <br /> -—At logo, vou ao medico. <br /> +—Até logo, vou ao medico. <br /> <br /> -—At logo, snr.<sup>a</sup> Juliana—dizia a cozinheira +—Até logo, snr.<sup>a</sup> Juliana—dizia a cozinheira radiante. <br /> <br /> E ia logo fazer signal ao carpinteiro. <br /> <br /> Juliana descia por S. Pedro de Alcantara, e tomando -para o largo do Carmo ia ruasita, defronte +para o largo do Carmo ia á ruasita, defronte do quartel. Alli morava n'um terceiro andar a sua intima amiga, a tia Victoria. <br /> <br /> -Era uma velha que fra inculcadeira. Ainda tinha +Era uma velha que fôra inculcadeira. Ainda tinha mesmo na cancella, n'uma placa de metal, com letras -negras: <span class="smallcaps">Victoria Soares, inculcadeira.</span> +negras: «<span class="smallcaps">Victoria Soares, inculcadeira.</span>» Mas nos ultimos annos a sua industria tornou-se mais complicada, muito tortuosa. <br /> <br /> Exercia-a n'uma saleta esteirada, com mosquiteiros de papel pendentes do tecto encardido, alumiada -por duas tristes janellas de peito. Um vasto soph -occupava quasi a parede do fundo: fra de certo de -reps verde, mas o estofo coado, comido, remendado, -tinha agora, sob largas nodoas, uma vaga cr parda; +por duas tristes janellas de peito. Um vasto sophá +occupava quasi a parede do fundo: fôra de certo de +reps verde, mas o estofo coçado, comido, remendado, +tinha agora, sob largas nodoas, uma vaga côr parda; as molas partidas, rangiam com estalidos melancolicos; -a um dos cantos, n'uma cova que o uso cavra, +a um dos cantos, n'uma cova que o uso cavára, dormia todo o dia um gato; e um dos lados da madeira <span class="pagenum">[283]</span> -queimada revelava que fra salvo d'um incendio. -Sobre o soph pendia a lithographia do senhor +queimada revelava que fôra salvo d'um incendio. +Sobre o sophá pendia a lithographia do senhor D. Pedro IV. Entre as duas janellas havia uma commoda alta; e em cima, entre um Santo Antonio e um cofre feito de buzios, um macaquinho empalhado, com olhos de vidro, equilibrava-se sobre um galho d'arvore. Ao entrar via-se logo, junto da janella -fronteira porta, a uma mesa coberta de oleado, um -dorso magro e curvado, e um barretinho de sda -com uma borla arrebitada. Era o snr. Gouva, o escripturario! <br /> +fronteira á porta, a uma mesa coberta de oleado, um +dorso magro e curvado, e um barretinho de sêda +com uma borla arrebitada. Era o snr. Gouvêa, o escripturario! <br /> <br /> O ar abafado tinha um cheiro complexo, indefinido—em -que se sentia a cavalharia, a graxa e o +que se sentia a cavalhariça, a graxa e o refogado. Havia sempre gente: grossas matronas de -capote e leno, face gordalhufa e buo; cocheiros com +capote e lenço, face gordalhufa e buço; cocheiros com o cabello acamado, muito lustroso de oleo, e blusa -de riscadinho: pesados gallegos cr de greda, de passadas -retumbantes e frmas lrpas: criadinhas de +de riscadinho: pesados gallegos côr de greda, de passadas +retumbantes e fórmas lôrpas: criadinhas de dentro, amarelladas, de olheiras, sombrinha de cabo d'osso, e as luvas de pellica com passagens nas pontas dos dedos. <br /> <br /> Defronte da sala abria-se um quarto que deitava -para o saguo,—por cuja portinha verde se viam s +para o saguão,—por cuja portinha verde se viam ás vezes desapparecer dorsos respeitaveis de proprietarios, ou caudas espalhafatosas de vestidos suspeitos. <br /> <br /> -Em certas occasies, aos sabbados, juntavam-se +Em certas occasiões, aos sabbados, juntavam-se cinco, seis pessoas: velhas fallavam baixo, com gestos -mysteriosos: uma altercao mal abafada roncava +mysteriosos: uma altercação mal abafada roncava no patamar: rapariguitas de repente desatavam <span class="pagenum">[284]</span> -a chorar; e, impassivel, o snr. Gouva escrevinhava +a chorar; e, impassivel, o snr. Gouvêa escrevinhava os seus registos, arremessando para o lado jactos melancolicos de saliva. <br /> <br /> A tia Victoria, no entanto, com a sua touca de -renda negra, um vestido rxo,—ia, vinha, cochichava, +renda negra, um vestido rôxo,—ia, vinha, cochichava, gesticulava, fazia tilintar dinheiro, tirando a -cada momento da algibeira rebuados de avenca para +cada momento da algibeira rebuçados de avenca para o catarrho. <br /> <br /> -A tia Victoria era uma grande utilidade, tornra-se +A tia Victoria era uma grande utilidade, tornára-se um centro! A criadagem reles, mesmo a criadagem fina, tinha alli para tudo o seu <em>despacho</em>. Emprestava dinheiro aos desempregados; guardava as economias dos poupados; fazia escrever pelo snr. -Gouva as correspondencias amorosas ou domesticas -dos que no tinham ido escla; vendia vestidos -em segunda mo; alugava casacas; aconselhava collocaes, +Gouvêa as correspondencias amorosas ou domesticas +dos que não tinham ido á escóla; vendia vestidos +em segunda mão; alugava casacas; aconselhava collocações, recebia confidencias, dirigia intrigas, entendia de partos. Nenhum criado era inculcado por ella; mas, arranjados ou despedidos, nunca deixavam de -subir, descer as escadas da tia Victoria. Tinha alm -d'isso muitas relaes, infinitas condescendencias: +subir, descer as escadas da tia Victoria. Tinha além +d'isso muitas relações, infinitas condescendencias: celibatarios maduros iam entender-se com ella, para o confortosinho d'uma sopeira gordita e nova: era -ella quem inculcava as serventes s mulheres policiadas; +ella quem inculcava as serventes ás mulheres policiadas; sabia de certos agiotas discretos. E dizia-se: a tia Victoria tem mais manhas que cabellos! <br /> <br /> -Mas, ultimamente, apesar dos seus afazeres, +Mas, ultimamente, apesar dos seus «afazeres», apenas Juliana entrava—levava-a para o quarto -nas trazeiras, fechava a porta, e havia para meia -hora! +nas trazeiras, fechava a porta, e «havia para meia +hora»! <br /> <br /><span class="pagenum">[285]</span> E Juliana sahia sempre vermelha, os olhos accesos, feliz! Voltava depressa para casa; e mal entrava: <br /> <br /> -—A senhora ainda no voltou, snr.<sup>a</sup> Joanna? <br /> +—A senhora ainda não voltou, snr.<sup>a</sup> Joanna? <br /> <br /> -—Ainda no. <br /> +—Ainda não. <br /> <br /> -—Est na Encarnao. Coitada! no tem m +—Está na Encarnação. Coitada! não tem má cruz, ir aturar a velha! E depois naturalmente vai dar o seu passeio! Faz ella muito bem! Espairecer! <br /> <br /> -Joanna era de certo espessa e obtusa; alm d'isso -a paixo animal pelo rapazola emparvecia-a. Todavia, -percebera que a snr.<sup>a</sup> Juliana andava muito -derretida pela senhora: disse-lh'o mesmo um dia: <br /> +Joanna era de certo espessa e obtusa; além d'isso +a paixão animal pelo rapazola emparvecia-a. Todavia, +percebera que a snr.<sup>a</sup> Juliana andava «muito +derretida pela senhora»: disse-lh'o mesmo um dia: <br /> <br /> -—Vossemec agora, snr.<sup>a</sup> Juliana, parece mais +—Vossemecê agora, snr.<sup>a</sup> Juliana, parece mais na bola da senhora! <br /> <br /> —Na bola? <br /> <br /> —Sim, quero dizer, mais aquella, mais... <br /> <br /> -—Mais apegada senhora? <br /> +—Mais apegada á senhora? <br /> <br /> —Mais apegada. <br /> <br /> -—Sempre o estive. Mas ento! s vezes a gente -tem os seus repentes... Que olhe, snr.<sup>a</sup> Joanna, no +—Sempre o estive. Mas então! ás vezes a gente +tem os seus repentes... Que olhe, snr.<sup>a</sup> Joanna, não se acha melhor que aqui. Senhora de muito bom genio, -nada de exquisitices, nenhumas prises... Ai, -dar louvores ao co de estarmos n'este descano. <br /> +nada de exquisitices, nenhumas prisões... Ai, é +dar louvores ao céo de estarmos n'este descanço. <br /> <br /> -—E ! <br /> +—E é! <br /> <br /> A casa com effeito tinha um aspecto jovial de felicidade tranquilla: Luiza sahia todos os dias e achava @@ -11163,19 +11123,19 @@ por Juliana parecia dissipada, considerava-a uma pobre de Christo! Juliana tomava os seus caldinhos, dava os seus passeios, ruminava. Joanna, muito livre, <span class="pagenum">[286]</span> -muito s em casa, regalava-se com o carpinteiro. -No vinham visitas. D. Felicidade, na Encarnao, -inundava-se d'arnica. Sebastio fra para Almada +muito só em casa, regalava-se com o carpinteiro. +Não vinham visitas. D. Felicidade, na Encarnação, +inundava-se d'arnica. Sebastião fôra para Almada vigiar as obras. O Conselheiro partira para Cintra, -dar umas ferias ao espirito, tinha elle dito a -Luiza, e deliciar-se nas maravilhas d'aquelle Eden. -O snr. Julio, o doutor, como dizia a Joanna, trabalhava +«dar umas ferias ao espirito, tinha elle dito a +Luiza, e deliciar-se nas maravilhas d'aquelle Eden». +O snr. Julião, «o doutor», como dizia a Joanna, trabalhava a sua these. As horas eram muito regulares, havia sempre um silencio pacato. Juliana, um dia, na cozinha, impressionada por aquelle recolhimento satisfeito de toda a casa, exclamou para Joanna: <br /> <br /> -—No se pde estar melhor! A barca vai n'um +—Não se póde estar melhor! A barca vai n'um mar de rosas! <br /> <br /> E acrescentou, com uma risadinha: <br /> @@ -11189,7 +11149,7 @@ E acrescentou, com uma risadinha: <br /> </h3> <br /> <br /> -Por esse tempo, uma manh que Luiza ia para +Por esse tempo, uma manhã que Luiza ia para o <em>Paraiso</em>, viu de repente sahir d'um portal, um pouco adiante do largo de Santa Barbara, a figura azafamada d'Ernestinho. <br /> @@ -11199,57 +11159,57 @@ muito surprehendido.—Por estes bairros! Que faz por aqui? Grande milagre! <br /> <br /> Vinha vermelho, trazia as bandas do casaco d'alpaca -todas deitadas para traz, e agitava com excitao +todas deitadas para traz, e agitava com excitação um rolo grosso de papeis. <br /> <br /> -Luiza ficou um pouco embaraada; disse que viera -fazer uma visita a uma amiga.—Oh! elle no +Luiza ficou um pouco embaraçada; disse que viera +fazer uma visita a uma amiga.—Oh! elle não conhecia, tinha chegado do Porto... <br /> <br /> -—Ah, bem! bem! E que feito, como tem passado? +—Ah, bem! bem! E que é feito, como tem passado? Quando vem o Jorge?—Desculpou-se logo -de a no ter ido vr; mas que no tinha uma migalha +de a não ter ido vêr; mas é que não tinha uma migalha <span class="pagenum">[288]</span> -livre! De manh a alfandega, noite os ensaios... <br /> +livre! De manhã a alfandega, á noite os ensaios... <br /> <br /> -—Ento sempre vai?—perguntou Luiza. <br /> +—Então sempre vai?—perguntou Luiza. <br /> <br /> —Vai. <br /> <br /> E enthusiasmado: <br /> <br /> -—E como vai! Um primor! Mas que trabalho, -que trabalho!—Agora vinha elle de casa do actor +—E como vai! Um primor! Mas que trabalhão, +que trabalhão!—Agora vinha elle de casa do actor Pinto, que fazia o papel de amante, de conde de Monte Redondo; tinha-o ouvido dizer as palavras finaes -do terceiro acto: <em>Maldio, a sorte funesta esmaga-me! -Pois bem, arcarei brao a brao com a -sorte. lucta!</em> Era uma maravilha! Vinha tambem -de lhe dar parte que alterra o monologo do segundo +do terceiro acto: <em>Maldição, a sorte funesta esmaga-me! +Pois bem, arcarei braço a braço com a +sorte. Á lucta!</em> Era uma maravilha! Vinha tambem +de lhe dar parte que alterára o monologo do segundo acto. O empresario achava-o longo... <br /> <br /> -—Ento contina a implicar, o empresario? <br /> +—Então continúa a implicar, o empresario? <br /> <br /> -Ernestinho fez uma visagem d'hesitao. <br /> +Ernestinho fez uma visagem d'hesitação. <br /> <br /> —Implica um bocado...—E com um rosto radioso:—Mas -est delirante! Esto todos delirantes! -Hontem me dizia elle: Lesminha... o nome -que me do por pandiga. Tem graa, no verdade? -Dizia-me elle: Lesminha, na primeira representao -cahe ahi Lisboa em peso! Voss enterra-os -a todos! bom homem! E agora vou-me a casa do -Bastos, o folhetinista da <em>Verdade</em>. No conhece? <br /> +está delirante! Estão todos delirantes! +Hontem me dizia elle: «Lesminha»... É o nome +que me dão por pandiga. Tem graça, não é verdade? +Dizia-me elle: «Lesminha, na primeira representação +cahe ahi Lisboa em peso! Vossê enterra-os +a todos!» É bom homem! E agora vou-me a casa do +Bastos, o folhetinista da <em>Verdade</em>. Não conhece? <br /> <br /> -Luiza no se lembrava bem. <br /> +Luiza não se lembrava bem. <br /> <br /> —O Bastos, o da <em>Verdade</em>!—insistia elle. <br /> <br /> E vendo que Luiza parecia alheia ao nome, ao individuo: <br /> <br /> -—Ora no conhece outra cousa!—Ia descrever-lhe -as feies, citar-lhes as obras... +—Ora não conhece outra cousa!—Ia descrever-lhe +as feições, citar-lhes as obras... <br /> <br /><span class="pagenum">[289]</span> Mas Luiza, impaciente, para findar: <br /> @@ -11257,14 +11217,14 @@ Mas Luiza, impaciente, para findar: <br /> —Ah! sim, lembro-me agora. Perfeitamente... Bem sei! <br /> <br /> -—Pois verdade, vou a casa d'elle.—Tomou -um tom compenetrado:—Somos muito amigos, +—Pois é verdade, vou a casa d'elle.—Tomou +um tom compenetrado:—Somos muito amigos, é muito bom rapaz, e tem um pequerrucho lindo!...—E -apertando-lhe muito a mo:—Adeusinho, prima -Luiza, que no posso perder um momento. Quer -que a v acompanhar? <br /> +apertando-lhe muito a mão:—Adeusinho, prima +Luiza, que não posso perder um momento. Quer +que a vá acompanhar? <br /> <br /> -—No, aqui perto. <br /> +—Não, é aqui perto. <br /> <br /> —Adeus, recados ao Jorge! <br /> <br /> @@ -11275,18 +11235,18 @@ correu atraz d'ella. <br /> <br /> Luiza abriu muito os olhos. <br /> <br /> -— condessa, heroina!—exclamou Ernestinho. <br /> +—Á condessa, á heroina!—exclamou Ernestinho. <br /> <br /> —Ah! <br /> <br /> -—Sim, o marido perda-lhe, obtem uma embaixada, -e vo viver no estrangeiro. mais natural... <br /> +—Sim, o marido perdôa-lhe, obtem uma embaixada, +e vão viver no estrangeiro. É mais natural... <br /> <br /> —De certo!—disse vagamente Luiza. <br /> <br /> -—E a pea acaba, dizendo o amante, o conde -de Monte Redondo: <em>E eu irei para a solido morrer -d'esta paixo funesta!</em> de muito effeito!—Esteve +—E a peça acaba, dizendo o amante, o conde +de Monte Redondo: <em>E eu irei para a solidão morrer +d'esta paixão funesta!</em> É de muito effeito!—Esteve um momento a olhal-a, e bruscamente:—Adeus, prima Luiza, recadinhos ao Jorge! <br /> <br /> @@ -11294,101 +11254,101 @@ E abalou. <br /> <br /> Luiza entrou no <em>Paraiso</em> muito contrariada. Contou <span class="pagenum">[290]</span> -o encontro a Bazilio. Ernestinho era to tolo! +o encontro a Bazilio. Ernestinho era tão tolo! Podia mais tarde fallar n'aquillo, citar a hora, perguntarem-lhe quem era a amiga do Porto... <br /> <br /> -E tirando o vo, o chapo: <br /> +E tirando o véo, o chapéo: <br /> <br /> -—No, realmente imprudente vir assim tantas -vezes. Era melhor no vir tanto. Pde-se saber... <br /> +—Não, realmente é imprudente vir assim tantas +vezes. Era melhor não vir tanto. Póde-se saber... <br /> <br /> Bazilio encolheu os hombros, contrariado: <br /> <br /> -—Se queres no venhas. <br /> +—Se queres não venhas. <br /> <br /> Luiza olhou-o um momento, e curvando-se profundamente: <br /> <br /> —Obrigada! <br /> <br /> -Ia a pr o chapo, mas elle veio prender-lhe as -mos, abraou-a, murmurando: <br /> +Ia a pôr o chapéo, mas elle veio prender-lhe as +mãos, abraçou-a, murmurando: <br /> <br /> -—Pois tu fallas em no vir! E eu, ento? Eu +—Pois tu fallas em não vir! E eu, então? Eu que estou em Lisboa por tua causa... <br /> <br /> -—No, realmente dizes s vezes cousas... tens +—Não, realmente dizes ás vezes cousas... tens certos modos... <br /> <br /> Bazilio abafou-lhe as palavras com beijos. <br /> <br /> -—Ta, ta, ta! Nada de questes! Perda. Ests -to linda... <br /> +—Ta, ta, ta! Nada de questões! Perdôa. Estás +tão linda... <br /> <br /> Luiza, ao voltar para casa, veio a reflectir n'aquella -scena. No—pensava—j no era a primeira +«scena». Não—pensava—já não era a primeira vez que elle mostrava um desprendimento -muito secco por ella, pela sua reputao, pela sua +muito secco por ella, pela sua reputação, pela sua saude! Queria-a alli todos os dias, egoistamente. -Que as ms linguas fallassem, que as soalheiras a +Que as más linguas fallassem, que as soalheiras a matassem, que lhe importava? E para que?... Porque emfim, saltava aos olhos, elle amava-a menos... As suas palavras, os seus beijos arrefeciam cada -dia, mais e mais!... J no tinha aquelles arrebatamentos +dia, mais e mais!... Já não tinha aquelles arrebatamentos <span class="pagenum">[291]</span> do desejo em que a envolvia toda n'uma caricia -palpitante, nem aquella abundancia de sensao -que o fazia cahir de joelhos com as mos tremulas -como as d'um velho!... J se no arremessava -para ella, mal ella apparecia porta, como sobre -uma presa estremecida!... J no havia aquellas +palpitante, nem aquella abundancia de sensação +que o fazia cahir de joelhos com as mãos tremulas +como as d'um velho!... Já se não arremessava +para ella, mal ella apparecia á porta, como sobre +uma presa estremecida!... Já não havia aquellas conversas pueris, cheias de risos, divagadas e tontas, em que se abandonavam, se esqueciam, depois da hora ardente e physica, quando ella ficava n'uma lassitude -dce, com o sangue fresco, a cabea deitada -sobre os braos ns!—Agora! trocado o ultimo beijo, +dôce, com o sangue fresco, a cabeça deitada +sobre os braços nús!—Agora! trocado o ultimo beijo, accendia o charuto, como n'um restaurante ao fim do jantar! E ia logo a um espelho pequeno que havia sobre o lavatorio dar uma penteadella no cabello com um pentesinho d'algibeira! (O que ella odiava -o pentesinho!) s vezes at olhava o relogio!... -E em quanto ella se arranjava no vinha, como nos -primeiros tempos, ajudal-a, pr-lhe o collarinho, picar-se +o pentesinho!) Ás vezes até olhava o relogio!... +E em quanto ella se arranjava não vinha, como nos +primeiros tempos, ajudal-a, pôr-lhe o collarinho, picar-se nos seus alfinetes, rir em volta d'ella, despedir-se com beijos apressados da nudez dos seus hombros antes que o vestido se apertasse. Ia rufar nos vidros,—ou sentado, com um ar macambuzio, bamboleava a perna! <br /> <br /> -E depois positivamente no a respeitava, no a +E depois positivamente não a respeitava, não a considerava... Tratava-a por cima do hombro, como uma burguezinha, pouco educada e estreita, que apenas conhece o seu bairro. E um modo de passear, -fumando, com a cabea alta, fallando no espirito -de madame de tal, nas <em>toilettes</em> da condessa -de tal! Como se ella fosse estupida, e os seus vestidos +fumando, com a cabeça alta, fallando no «espirito +de madame de tal», nas <em>toilettes</em> da «condessa +de tal»! Como se ella fosse estupida, e os seus vestidos <span class="pagenum">[292]</span> fossem trapos! Ah, era seccante! E parecia, -Deus me perde, parecia que lhe fazia uma honra, +Deus me perdôe, parecia que lhe fazia uma honra, uma grande honra em a possuir... Immediatamente lembrava-lhe Jorge, Jorge que a amava com tanto respeito! Jorge, para quem ella era de certo a mais linda, a mais elegante, a mais intelligente, a mais -captivante!... E j pensava um pouco que sacrificra -a sua tranquillidade to feliz a um amor bem +captivante!... E já pensava um pouco que sacrificára +a sua tranquillidade tão feliz a um amor bem incerto! <br /> <br /> Emfim, um dia que o viu mais distrahido, mais frio, explicou-se abertamente com elle. Direita, sentada -no canap de palhinha, fallou com bom senso, -devagar, com um ar digno e preparado: Que percebia +no canapé de palhinha, fallou com bom senso, +devagar, com um ar digno e preparado: «Que percebia bem que elle se aborrecia, que o seu grande amor tinha passado, que era por tanto humilhante -para ella verem-se n'essas condies, e que julgava -mais digno acabarem... <br /> +para ella verem-se n'essas condições, e que julgava +mais digno acabarem...» <br /> <br /> Bazilio olhava-a, surprehendido da sua solemnidade; -sentia um estudo, uma affectao n'aquellas +sentia um estudo, uma affectação n'aquellas phrases; disse muito tranquillamente, sorrindo: <br /> <br /> —Trazias isso decorado! <br /> @@ -11396,35 +11356,35 @@ phrases; disse muito tranquillamente, sorrindo: <br /> Luiza ergueu-se bruscamente, encarou-o, teve um movimento desdenhoso dos labios. <br /> <br /> -—Tu ests douda, Luiza? <br /> +—Tu estás douda, Luiza? <br /> <br /> -—Estou farta! Fao todos os sacrificios por ti, +—Estou farta! Faço todos os sacrificios por ti, venho aqui todos os dias, comprometto-me, e para -que? Para te vr muito indifferente, muito seccado... <br /> +que? Para te vêr muito indifferente, muito seccado... <br /> <br /> —Mas, meu amor... <br /> <br /> Ella teve um sorriso d'escarneo. <br /> <br /><span class="pagenum">[293]</span> -—<em>Meu amor!</em> Oh! so ridiculos esses fingimentos! <br /> +—<em>Meu amor!</em> Oh! são ridiculos esses fingimentos! <br /> <br /> Bazilio impacientou-se. <br /> <br /> -—J isso c me faltava, essa scena!—exclamou -impetuosamente. E cruzando os braos diante d'ella:—Mas +—Já isso cá me faltava, essa scena!—exclamou +impetuosamente. E cruzando os braços diante d'ella:—Mas que queres tu? Queres que te ame como no theatro, em S. Carlos? Todas sois assim! Quando um pobre diabo ama naturalmente, como todo -o mundo, com o seu corao, mas no tem gestos -de tenor, aqui d'el-rei que frio, que se aborrece, - ingrato... Mas que queres tu? Queres que me atire +o mundo, com o seu coração, mas não tem gestos +de tenor, aqui d'el-rei que é frio, que se aborrece, +é ingrato... Mas que queres tu? Queres que me atire de joelhos, que declame, que revire os olhos, -que faa juras, outras tolices?... <br /> +que faça juras, outras tolices?... <br /> <br /> -—So tolices que tu fazias... <br /> +—São tolices que tu fazias... <br /> <br /> -—Ao principio!—respondeu elle brutalmente.—J +—Ao principio!—respondeu elle brutalmente.—Já nos conhecemos muito para isso, minha rica. <br /> <br /> @@ -11434,16 +11394,16 @@ E havia apenas cinco semanas! <br /> <br /> —Bem. Vaes zangada? <br /> <br /> -Ella respondeu, com os olhos baixos, calando +Ella respondeu, com os olhos baixos, calçando nervosamente as luvas: <br /> <br /> -—No. <br /> +—Não. <br /> <br /> -Bazilio pz-se diante da porta, e estendendo os -braos: <br /> +Bazilio pôz-se diante da porta, e estendendo os +braços: <br /> <br /> -—Mas s razoavel, minha querida. Uma ligao -como a nossa no o duetto do <em>Fausto</em>. Eu amo-te; +—Mas sê razoavel, minha querida. Uma ligação +como a nossa não é o duetto do <em>Fausto</em>. Eu amo-te; tu, creio, gostas de mim; fazemos os sacrificios necessarios, encontramo-nos, somos felizes... Que diabo queres tu mais? Porque te queixas? @@ -11451,27 +11411,27 @@ diabo queres tu mais? Porque te queixas? <br /><span class="pagenum">[294]</span> Ella respondeu com um sorriso ironico e triste: <br /> <br /> -—No me queixo. Tens razo. <br /> +—Não me queixo. Tens razão. <br /> <br /> -—Mas no vs zangada, ento. <br /> +—Mas não vás zangada, então. <br /> <br /> -—No... <br /> +—Não... <br /> <br /> —Palavrinha? <br /> <br /> —Sim... <br /> <br /> -Bazilio tomou-lhe as mos. <br /> +Bazilio tomou-lhe as mãos. <br /> <br /> -—D ento um beijinho em Bibi... <br /> +—Dê então um beijinho em Bibi... <br /> <br /> Luiza beijou-o de leve na face. <br /> <br /> -—Na boquinha, na boquinha!—E ameaando-a +—Na boquinha, na boquinha!—E ameaçando-a com o dedo, fitando-a muito:—Ah geniosinho! Tens bem o sangue do snr. Antonio de Brito, nosso extremoso tio, que arrepellava as criadas pelos cabellos!—E -sacudindo-lhe o queixo:—E vens manh? <br /> +sacudindo-lhe o queixo:—E vens ámanhã? <br /> <br /> Luiza hesitou um momento: <br /> <br /> @@ -11479,8 +11439,8 @@ Luiza hesitou um momento: <br /> <br /> Entrou em casa exasperada, humilhada. Eram seis horas. Juliana veio logo dizer-lhe, muito quisilada: -que a Joanna tinha sahido s quatro horas, -no tinha voltado, o jantar estava por acabar... <br /> +que a Joanna tinha sahido ás quatro horas, +não tinha voltado, o jantar estava por acabar... <br /> <br /> —Onde foi? <br /> <br /> @@ -11489,11 +11449,11 @@ Juliana encolheu os hombros com um sorrisinho. <br /> Luiza percebeu. Tinha ido a algum amante, a algum amor... Teve um gesto de piedade desdenhosa. <br /> <br /> -—Ha-de lucrar muito com isso. Boa tla!—disse. <br /> +—Ha-de lucrar muito com isso. Boa tôla!—disse. <br /> <br /> Juliana olhou-a espantada. <br /> <br /> -—Est bebeda!—pensou. <br /> +—Está bebeda!—pensou. <br /> <br /> —Bem, que se lhe ha-de fazer?—exclamou Luiza.—Esperarei... @@ -11502,186 +11462,186 @@ Luiza.—Esperarei... E passeando pelo quarto, excitada, revolvendo o seu despeito: <br /> <br /> -—Que egoista, que grosseiro, que infame! E -por um homem assim que uma mulher se perde! +—Que egoista, que grosseiro, que infame! E é +por um homem assim que uma mulher se perde! É estupido! <br /> <br /> Como elle supplicava, se fazia pequenino, humilde -ao principio! O que so os amores dos homens! +ao principio! O que são os amores dos homens! Como teem a fadiga facil! <br /> <br /> -E immediatamente lhe veio a ida de Jorge! <em>Esse</em> -no! Vivia com ella havia tres annos—e o seu +E immediatamente lhe veio a idéa de Jorge! <em>Esse</em> +não! Vivia com ella havia tres annos—e o seu amor era sempre o mesmo, vivo, meigo, dedicado. -Mas o <em>outro</em>! Que indigno! <em>J a conhecia +Mas o <em>outro</em>! Que indigno! <em>Já a conhecia muito!</em> Ah! -estava bem certa agora, nunca a amra, elle! Quizera-a -por vaidade, por capricho, por distraco, para -ter uma mulher em Lisboa! o que era! Mas +estava bem certa agora, nunca a amára, elle! Quizera-a +por vaidade, por capricho, por distracção, para +ter uma mulher em Lisboa! É o que era! Mas amor? Qual! <br /> <br /> E ella mesmo, por fim? Amava-o, ella? Concentrou-se, interrogou-se... Imaginou casos, circumstancias: se elle a quizesse levar para longe, para -Frana, iria? No! Se por um acaso, por uma desgraa +França, iria? Não! Se por um acaso, por uma desgraça enviuvasse, antevia alguma felicidade casando -com elle? No! <br /> +com elle? Não! <br /> <br /> -Mas ento!... E como uma pessoa que destapa +Mas então!... E como uma pessoa que destapa um frasco muito guardado, e se admira vendo o perfume evaporado, ficou toda pasmada de encontrar o -seu corao vazio. O que a levra ento para elle?... -Nem ella sabia; no ter nada que fazer, a +seu coração vazio. O que a levára então para elle?... +Nem ella sabia; não ter nada que fazer, a curiosidade romanesca e morbida de ter um amante, mil vaidadesinhas inflammadas, um certo desejo physico... E sentira-a por ventura, essa felicidade, que <span class="pagenum">[296]</span> -do os amores illegitimos, de que tanto se falla nos +dão os amores illegitimos, de que tanto se falla nos romances e nas operas, que faz esquecer tudo na vida, affrontar a morte, quasi fazel-a amar? Nunca! Todo o prazer que sentira ao principio, que lhe parecera ser o amor—vinha da novidade, do saborzinho -delicioso de comer a ma prohibida, das condies +delicioso de comer a maçã prohibida, das condições do mysterio do <em>Paraiso</em>, d'outras circumstancias talvez, que nem queria confessar a si mesma, que a faziam corar por dentro! <br /> <br /> Mas que sentia d'extraordinario <em>agora</em>? Bom Deus, -comeava a estar menos commovida ao p do seu -amante, do que ao p de seu marido! Um beijo de +começava a estar menos commovida ao pé do seu +amante, do que ao pé de seu marido! Um beijo de Jorge perturbava-a mais, e viviam juntos havia tres -annos! Nunca se seccra ao p de Jorge, nunca! E -seccava-se positivamente ao p de Bazilio! Bazilio, -no fim, o que se tornra para ella? era como um -marido pouco amado, que ia amar fra de casa! Mas -ento, valia a pena?... <br /> +annos! Nunca se seccára ao pé de Jorge, nunca! E +seccava-se positivamente ao pé de Bazilio! Bazilio, +no fim, o que se tornára para ella? era como um +marido pouco amado, que ia amar fóra de casa! Mas +então, valia a pena?... <br /> <br /> Onde estava o defeito? No amor mesmo talvez! -Porque emfim, ella e Bazilio estavam nas condies +Porque emfim, ella e Bazilio estavam nas condições melhores para obterem uma felicidade excepcional: eram novos, cercava-os o mysterio, excitava-os a -difficuldade... Porque era ento que quasi bocejavam? - que o amor essencialmente perecivel, e -na hora em que nasce comea a morrer. S os comeos -so bons. Ha ento um delirio, um enthusiasmo, um -bocadinho do co. Mas depois!... Seria pois necessario -estar sempre a <em>comear</em>, para poder sempre +difficuldade... Porque era então que quasi bocejavam? +É que o amor é essencialmente perecivel, e +na hora em que nasce começa a morrer. Só os começos +são bons. Ha então um delirio, um enthusiasmo, um +bocadinho do céo. Mas depois!... Seria pois necessario +estar sempre a <em>começar</em>, para poder sempre sentir?... Era o que fazia Leopoldina. E apparecia-lhe -ento nitidamente a explicao d'aquella existencia +então nitidamente a explicação d'aquella existencia <span class="pagenum">[297]</span> de Leopoldina, inconstante, tomando um amante, conservando-o uma semana, abandonando-o como -um limo espremido, e renovando assim constantemente -a flr da sensao!—E, pela logica tortuosa +um limão espremido, e renovando assim constantemente +a flôr da sensação!—E, pela logica tortuosa dos amores illegitimos, o seu primeiro amante fazia-a vagamente pensar no segundo! <br /> <br /> -Logo no dia seguinte pz-se a dizer comsigo que +Logo no dia seguinte pôz-se a dizer comsigo que era bem longe o <em>Paraiso</em>! Que massada, por aquelle calor, vestir-se, sahir! Mandou saber de D. Felicidade -por Juliana, e ficou em casa, de roupo branco, -preguiosa, saboreando a sua preguia. <br /> +por Juliana, e ficou em casa, de roupão branco, +preguiçosa, saboreando a sua preguiça. <br /> <br /> -N'essa tarde recebeu uma carta de Jorge: que -ainda se demorava, mas que a sua viuvez comeava +N'essa tarde recebeu uma carta de Jorge: «que +ainda se demorava, mas que a sua viuvez começava a pezar-lhe. Quando se veria emfim na sua casinha, -na sua alcovinha?... <br /> +na sua alcovinha?...» <br /> <br /> Ficou muito commovida. Um sentimento de vergonha, -de remorso, uma compaixo terna por Jorge, -to bom, coitado! um indefinido desejo de o vr e de -o beijar, a recordao de felicidades passadas perturbaram-na -at s profundidades do seu sr. Foi logo -responder-lhe, jurando-lhe que tambem j estava -farta de estar s, que viesse, que era estupida -semelhante separao... E era sincera n'aquelle +de remorso, uma compaixão terna por Jorge, +tão bom, coitado! um indefinido desejo de o vêr e de +o beijar, a recordação de felicidades passadas perturbaram-na +até ás profundidades do seu sêr. Foi logo +responder-lhe, jurando-lhe «que tambem já estava +farta de estar só, que viesse, que era estupida +semelhante separação...» E era sincera n'aquelle momento. <br /> <br /> Tinha fechado o enveloppe, quando Juliana lhe -veio trazer uma carta do hotel. Bazilio mostrava-se -desesperado: ...Como no vieste, vejo que ests -zangada; mas de certo o teu orgulho, no o -teu amor que te domina: no imaginas o que senti -quando vi que no vinhas hoje. Esperei at s cinco +veio trazer «uma carta do hotel». Bazilio mostrava-se +desesperado: «...Como não vieste, vejo que estás +zangada; mas é de certo o teu orgulho, não o +teu amor que te domina: não imaginas o que senti +quando vi que não vinhas hoje. Esperei até ás cinco <span class="pagenum">[298]</span> horas; que supplicio! Fui talvez secco, mas tu tambem estavas implicativa. Devemos perdoar-nos ambos, ajoelharmos um diante do outro, e esquecer todo -o despeito no mesmo amor... Vem manh. Adoro-te +o despeito no mesmo amor... Vem ámanhã. Adoro-te tanto! Que outra prova queres, que esta que te dou d'abandonar os meus interesses, as minhas -relaes, os meus gostos, e enterrar-me aqui em -Lisboa, etc. <br /> +relações, os meus gostos, e enterrar-me aqui em +Lisboa, etc.» <br /> <br /> Ficou muito nervosa, sem saber o que havia de fazer, o que havia de querer. Aquillo era verdade. Porque estava elle em Lisboa? Por ella. Mas se reconhecia -agora,—que o no amava, ou to pouco! -E depois era vil trahir assim Jorge, to bom, to +agora,—que o não amava, ou tão pouco! +E depois era vil trahir assim Jorge, tão bom, tão amoroso, vivendo todo para ella. Mas se Bazilio realmente -estivesse to apaixonado!... As suas idas +estivesse tão apaixonado!... As suas idéas redemoinhavam, como folhas d'outono, violentadas por ventos contradictorios. Desejava estar tranquilla, -que a no perseguissem. Para que voltra aquelle +«que a não perseguissem». Para que voltára aquelle homem? Jesus! que havia de fazer? Tinha os seus pensamentos, os seus sentimentos n'uma dolorosa trapalhada. <br /> <br /> -E na manh seguinte estava na mesma hesitao. -Iria, no iria? O calor fra, a poeirada da rua faziam-lhe +E na manhã seguinte estava na mesma hesitação. +Iria, não iria? O calor fóra, a poeirada da rua faziam-lhe appetecer mais a casa! Mas que desapontamento, o do pobre rapaz tambem! Atirou ao ar uma -moeda de cinco tostes. Era cunho, devia ir. Vestiu-se, +moeda de cinco tostões. Era cunho, devia ir. Vestiu-se, sem vontade, seccada,—tendo todavia um certo -desejo dos refinamentos de prazer que do as expanses -da reconciliao... <br /> +desejo dos refinamentos de prazer que dão as expansões +da reconciliação... <br /> <br /> Mas que surpreza! esperava encontral-o humilde <span class="pagenum">[299]</span> e de joelhos, achou-o com a testa franzida e muito aspero. <br /> <br /> -—Luiza, parece incrivel, porque no vieste hontem? <br /> +—Luiza, parece incrivel, porque não vieste hontem? <br /> <br /> Na vespera, Bazilio, quando viu que ella faltava, teve um grande despeito e um medo maior; a sua concupiscencia receou perder aquelle lindo corpo de -rapariga, e o seu orgulho escandalisou-se de vr libertar-se +rapariga, e o seu orgulho escandalisou-se de vêr libertar-se aquella escravasinha docil. Resolveu portanto, -a todo o custo, chamal-a ao rego. Escreveu-lhe; +a todo o custo, «chamal-a ao rego». Escreveu-lhe; e mostrando-se submisso para a attrahir, decidiu ser severo para a castigar.—E acrescentou: <br /> <br /> -— uma criancice ridicula. Porque no vieste? <br /> +—É uma criancice ridicula. Porque não vieste? <br /> <br /> Aquelle modo enraiveceu-a: <br /> <br /> -—Porque no quiz. <br /> +—Porque não quiz. <br /> <br /> Mas emendou logo: <br /> <br /> -—No pude. <br /> +—Não pude. <br /> <br /> -—Ah! essa a maneira por que respondes +—Ah! é essa a maneira por que respondes á minha carta, Luiza? <br /> <br /> -—E tu, esse o modo com que me recebes? <br /> +—E tu, é esse o modo com que me recebes? <br /> <br /> Olharam-se um momento, detestando-se. <br /> <br /> -—Bem, queres uma questo? s como as outras. <br /> +—Bem, queres uma questão? És como as outras. <br /> <br /> —Que outras? <br /> <br /> E toda escandalisada: <br /> <br /> -—Ah! de mais! Adeus! <br /> +—Ah! é de mais! Adeus! <br /> <br /> Ia sahir. <br /> <br /> —Vaes-te, Luiza? <br /> <br /> -—Vou. melhor acabarmos por uma vez... <br /> +—Vou. É melhor acabarmos por uma vez... <br /> <br /> Elle segurou o fecho da porta rapidamente. <br /> @@ -11698,62 +11658,62 @@ silenciosamente. <br /> Ella deu um passo, e Bazilio com a voz um pouco tremula: <br /> <br /> -—Ento, para sempre? Nunca mais? <br /> +—Então, é para sempre? Nunca mais? <br /> <br /> Luiza parou, branca. Aquella triste palavra <em>nunca -mais</em> deu-lhe uma saudade, uma commoo. Rompeu +mais</em> deu-lhe uma saudade, uma commoção. Rompeu a chorar. <br /> <br /> As lagrimas tornavam-na sempre mais linda. Parecia -to dolorida, to fragil, to desamparada!... <br /> +tão dolorida, tão fragil, tão desamparada!... <br /> <br /> -Bazilio cahiu-lhe aos ps: tinha tambem os olhos +Bazilio cahiu-lhe aos pés: tinha tambem os olhos humidos. <br /> <br /> —Se tu me deixares, morro! <br /> <br /> Os seus labios uniram-se n'um beijo profundo, -longo, penetrante. A excitao dos nervos deu-lhes -momentaneamente a sinceridade da paixo; e foi -uma manh deliciosa. <br /> +longo, penetrante. A excitação dos nervos deu-lhes +momentaneamente a sinceridade da paixão; e foi +uma manhã deliciosa. <br /> <br /> -Ella prendia-o nos braos ns, pallida como cra, +Ella prendia-o nos braços nús, pallida como cêra, balbuciava: <br /> <br /> -—No me deixas nunca, no? <br /> +—Não me deixas nunca, não? <br /> <br /> —Juro-t'o! Nunca, meu amor! <br /> <br /> Mas fazia-se tarde, era necessario ir-se! E a mesma -ida de certo acudiu-lhes—porque se olharam +idéa de certo acudiu-lhes—porque se olharam avidamente, e Bazilio murmurou: <br /> <br /> —Se podesses aqui passar a noite! <br /> <br /> Ella disse aterrada, quasi supplicante: <br /> <br /> -—Oh! no me tentes, no me tentes... +—Oh! não me tentes, não me tentes... <br /> <br /><span class="pagenum">[301]</span> Bazilio suspirou, disse: <br /> <br /> -—No, uma tolice. Vai. <br /> +—Não, é uma tolice. Vai. <br /> <br /> -Luiza comeou a arranjar-se, pressa. E de repente, +Luiza começou a arranjar-se, á pressa. E de repente, parando, com um sorriso: <br /> <br /> —Sabes tu uma cousa? <br /> <br /> —O que, meu amor? <br /> <br /> -—Estou a cahir com fome! No almocei nada, +—Estou a cahir com fome! Não almocei nada, estou a cahir! <br /> <br /> Elle ficou desolado: <br /> <br /> —Coitadinha, minha pobre filha! Se eu soubesse... <br /> <br /> -—Que horas so, filho? <br /> +—Que horas são, filho? <br /> <br /> Bazilio viu o relogio, disse quasi envergonhado: <br /> <br /> @@ -11761,13 +11721,13 @@ Bazilio viu o relogio, disse quasi envergonhado: <br /> <br /> —Ai, Santo Deus! <br /> <br /> -Punha o chapo, o vo, atrapalhadamente: <br /> +Punha o chapéo, o véo, atrapalhadamente: <br /> <br /> —Que tarde! Jesus! Que tarde! <br /> <br /> -—E manh, quando? <br /> +—E ámanhã, quando? <br /> <br /> -— uma. <br /> +—Á uma. <br /> <br /> —Com certeza? <br /> <br /> @@ -11783,106 +11743,106 @@ doudo! <br /> Mas Luiza estava muito intrigada com um cesto que via em cima da cama. <br /> <br /> -—Que aquillo? <br /> +—Que é aquillo? <br /> <br /> -Elle sorriu, levou-a pela mo junto da barra de +Elle sorriu, levou-a pela mão junto da barra de <span class="pagenum">[302]</span> ferro, e destampando o cesto, com uma cortezia grave: <br /> <br /> -—Provises, festins, bacchanaes! No dirs depois +—Provisões, festins, bacchanaes! Não dirás depois que tens fome! <br /> <br /> -Era um <em>lunch</em>. Havia sandwichs, um <em>pt de +Era um <em>lunch</em>. Havia sandwichs, um <em>pâté de foie gras</em>, fruta, uma garrafa de champagne, e, envolto em flanella, gelo. <br /> <br /> -— brilhante!—disse ella, com um sorriso +—É brilhante!—disse ella, com um sorriso quente, rubra de prazer. <br /> <br /> -—Foi o que se pde arranjar, minha querida -prima! J v que pensei em si! <br /> +—Foi o que se pôde arranjar, minha querida +prima! Já vê que pensei em si! <br /> <br /> -Pz o cesto no cho, e vindo para ella com os -braos abertos: <br /> +Pôz o cesto no chão, e vindo para ella com os +braços abertos: <br /> <br /> —E tu pensaste em mim, meu amor? <br /> <br /> -Os olhos d'ella responderam—e a presso apaixonada -dos seus braos. <br /> +Os olhos d'ella responderam—e a pressão apaixonada +dos seus braços. <br /> <br /> -s tres horas lancharam. Foi delicioso; tinham -estendido um guardanapo sobre a cama; a loua tinha +Ás tres horas lancharam. Foi delicioso; tinham +estendido um guardanapo sobre a cama; a louça tinha a marca do Hotel Central; aquillo parecia a Luiza muito estroina, adoravel—e ria de sensualidade, fazendo tilintar os pedacinhos de gelo contra o vidro do copo, cheio de <em>champagne</em>. Sentia uma felicidade exuberante que transbordava em gritinhos, -em beijos, em toda a sorte de gestos buliosos. Comia -com gula; e eram adoraveis os seus braos ns +em beijos, em toda a sorte de gestos buliçosos. Comia +com gula; e eram adoraveis os seus braços nús movendo-se por cima dos pratos. <br /> <br /> -Nunca achra Bazilio to bonito; o quarto mesmo +Nunca achára Bazilio tão bonito; o quarto mesmo parecia-lhe muito conchegado para aquellas intimidades -da paixo; quasi julgava possivel viver alli, +da paixão; quasi julgava possivel viver alli, n'aquelle cacifro, annos, feliz com elle, n'um amor <span class="pagenum">[303]</span> -permanente, e <em>lunchs</em> s tres horas... Tinham as +permanente, e <em>lunchs</em> ás tres horas... Tinham as pieguices classicas: mettiam-se bocadinhos na bocca; ella ria com os seus dentinhos brancos; bebiam pelo mesmo copo, devoravam-se de beijos,—e elle -quiz-lhe ensinar ento a verdadeira maneira de beber -<em>champagne</em>. Talvez ella no soubesse! <br /> +quiz-lhe ensinar então a verdadeira maneira de beber +<em>champagne</em>. Talvez ella não soubesse! <br /> <br /> -—Como ?—perguntou Luiza erguendo o copo. <br /> +—Como é?—perguntou Luiza erguendo o copo. <br /> <br /> -—No com o copo! Horror! Ninguem que se -preza bebe <em>champagne</em> por um copo. O copo bom +—Não é com o copo! Horror! Ninguem que se +preza bebe <em>champagne</em> por um copo. O copo é bom para o Collares... <br /> <br /> Tomou um gole de <em>champagne</em>, e n'um beijo passou-o para a bocca d'ella. Luiza riu muito, achou -divino, quiz beber mais assim. Ia-se fazendo vermelha, +«divino», quiz beber mais assim. Ia-se fazendo vermelha, o olhar luzia-lhe. <br /> <br /> -Tinham tirado os pratos da cama; e sentada -beira do leito, os seus psinhos calados n'uma meia -cr de rosa pendiam, agitavam-se, em quanto um -pouco dobrada sobre si, os cotovlos sobre o regao, +Tinham tirado os pratos da cama; e sentada á +beira do leito, os seus pésinhos calçados n'uma meia +côr de rosa pendiam, agitavam-se, em quanto um +pouco dobrada sobre si, os cotovêlos sobre o regaço, a cabecinha de lado, tinha em toda a sua pessoa -a graa languida d'uma pomba fatigada. <br /> +a graça languida d'uma pomba fatigada. <br /> <br /> Bazilio achava-a irresistivel: quem diria que uma burguezinha podia ter tanto <em>chic</em>, tanta <em>queda</em>? Ajoelhou-se, -tomou-lhe os psinhos entre as mos, beijou-lh'os; -depois, dizendo muito mal das ligas to -feias, com fechos de metal, beijou-lhe respeitosamente -os joelhos; e ento fez-lhe baixinho um pedido. -Ella crou, sorriu, dizia: no! no!—E quando -sahiu do seu delirio tapou o rosto com as mos, +tomou-lhe os pésinhos entre as mãos, beijou-lh'os; +depois, dizendo muito mal das ligas «tão +feias, com fechos de metal», beijou-lhe respeitosamente +os joelhos; e então fez-lhe baixinho um pedido. +Ella córou, sorriu, dizia: não! não!—E quando +sahiu do seu delirio tapou o rosto com as mãos, toda escarlate, murmurou reprehensivamente: <br /> <br /> —Oh Bazilio! <br /> <br /><span class="pagenum">[304]</span> -Elle torcia o bigode, muito satisfeito. Ensinra-lhe -uma sensao nova: tinha-a na mo! <br /> +Elle torcia o bigode, muito satisfeito. Ensinára-lhe +uma sensação nova: tinha-a na mão! <br /> <br /> -S s seis horas se desprendeu dos seus braos. +Só ás seis horas se desprendeu dos seus braços. Luiza fez-lhe jurar que havia de pensar n'ella toda -a noite:—no queria que elle sahisse; tinha ciumes -do Gremio, do ar, de tudo! E j no patamar +a noite:—não queria que elle sahisse; tinha ciumes +do Gremio, do ar, de tudo! E já no patamar voltava, beijava-o, louca, repetia: <br /> <br /> -—E manh mais cedo, sim? para estarmos todo +—E ámanhã mais cedo, sim? para estarmos todo o dia. <br /> <br /> -—No vaes vr a D. Felicidade? <br /> +—Não vaes vêr a D. Felicidade? <br /> <br /> -—Que me importa a D. Felicidade! No me importa -ninguem! Quero-te a ti! s a ti! <br /> +—Que me importa a D. Felicidade! Não me importa +ninguem! Quero-te a ti! só a ti! <br /> <br /> —Ao meio dia? <br /> <br /> @@ -11890,15 +11850,15 @@ ninguem! Quero-te a ti! s a ti! <br /> <br /> <br /> <br /> -Quanto lhe pezou noite a solido do seu quarto! +Quanto lhe pezou á noite a solidão do seu quarto! Tinha uma impaciencia que a impellia a prolongar -a excitao da tarde, agitar-se. Ainda quiz lr, +a excitação da tarde, agitar-se. Ainda quiz lêr, mas bem depressa arremessou o livro: as duas velas accesas sobre o toucador pareciam-lhe lugubres; -foi vr a noite,—estava tepida e serena. Chamou +foi vêr a noite,—estava tepida e serena. Chamou Juliana: <br /> <br /> -—V pr um chale, vamos a casa da snr.<sup>a</sup> D. +—Vá pôr um chale, vamos a casa da snr.<sup>a</sup> D. Leopoldina. <br /> <br /> Quando chegaram foi a Justina que veio abrir, @@ -11912,11 +11872,11 @@ chambre branco. Pareceu muito espantada: <br /> <br /> Sim. Demorava-se quinze dias. <br /> <br /> -Luiza ficou muito desconsolada. Mas no queria +Luiza ficou muito desconsolada. Mas não queria voltar, o seu quarto solitario aterrava-a. <br /> <br /> -—Vamos um bocado at alli abaixo, Juliana. A -noite est to bonita! <br /> +—Vamos um bocado até alli abaixo, Juliana. A +noite está tão bonita! <br /> <br /> —Rica, minha senhora! <br /> <br /> @@ -11926,100 +11886,100 @@ rua do Alecrim, o seu pensamento, o seu desejo foram logo para o <em>Hotel Central</em>. <br /> <br /> Estaria em casa? Pensaria n'ella? Se podesse ir -surprehendel-o de repente, atirar-se-lhe aos braos, -vr as suas malas... Aquella ida fazia-a arfar. Entraram -na praa de Cames. Gente passeava devagar; +surprehendel-o de repente, atirar-se-lhe aos braços, +vêr as suas malas... Aquella idéa fazia-a arfar. Entraram +na praça de Camões. Gente passeava devagar; sob a sombra mais escura que faziam as arvores cochichava-se pelos bancos; bebia-se agua fresca; -claridades cruas de vidraas, de portas de lojas destacavam +claridades cruas de vidraças, de portas de lojas destacavam em redor no tom escuro da noite: e no rumor lento das ruas em redor, sobresahiam as vozes agudas dos vendedores de jornaes. <br /> <br /> -Ento um sujeito com um chapo de palha passou -to rente d'ella, to intencionalmente que Luiza teve +Então um sujeito com um chapéo de palha passou +tão rente d'ella, tão intencionalmente que Luiza teve medo.—Era melhor voltarem—disse. <br /> <br /> -Mas ao meio da rua de S. Roque o chapo de -palha reappareceu, roou quasi o hombro de Luiza; +Mas ao meio da rua de S. Roque o chapéo de +palha reappareceu, roçou quasi o hombro de Luiza; dous olhos repolhudos dardejaram sobre ella. <br /> <br /> Luiza ia desesperada: o tic-tac das suas botinas batia vivamente a lage do passeio; de repente, ao -p de S. Pedro d'Alcantara, de sob o chapo de palha +pé de S. Pedro d'Alcantara, de sob o chapéo de palha <span class="pagenum">[306]</span> sahiu uma voz adocicada e brazileira, dizendo-lhe -junto ao pescoo: <br /> +junto ao pescoço: <br /> <br /> -—Aonde mora, menina? <br /> +—Aonde mora, ó menina? <br /> <br /> -Agarrou aterrada o brao de Juliana. <br /> +Agarrou aterrada o braço de Juliana. <br /> <br /> A voz repetiu: <br /> <br /> -—No se agaste, menina, aonde mora? <br /> +—Não se agaste, menina, aonde mora? <br /> <br /> —Seu malcriado!—rugiu Juliana. <br /> <br /> -O chapo de palha immediatamente desappareceu +O chapéo de palha immediatamente desappareceu entre as arvores. <br /> <br /> Chegaram a casa a arquejar. Luiza tinha vontade de chorar; deixou-se cahir na <em>causeuse</em>, esfalfada, -infeliz. Que imprudencia, pr-se a passear pelas +infeliz. Que imprudencia, pôr-se a passear pelas ruas de noite, com uma criada! Estava douda, desconhecia-se. Que dia aquelle! E recordava-o desde -pela manh: o <em>lunch</em>, o <em>champagne</em> +pela manhã: o <em>lunch</em>, o <em>champagne</em> bebido pelos beijos de Bazilio, os seus delirios libertinos, que vergonha! e ir a casa de Leopoldina, de noite, e ser tomada na rua por uma mulher do Bairro Alto!... De repente lembrou-lhe Jorge no Alemtejo trabalhando por ella, pensando n'ella... Escondeu o rosto entre -as mos, detestou-se, os seus olhos humedeceram-se. <br /> +as mãos, detestou-se, os seus olhos humedeceram-se. <br /> <br /> <br /> <br /> -Mas na manh seguinte acordou muito alegre. +Mas na manhã seguinte acordou muito alegre. Sentia, sim, uma vaga vergonha de todas as suas -tolices da vespera, e como a sensao indefinida, -palpite ou presentimento, de que no devia ir ao +«tolices» da vespera, e como a sensação indefinida, +palpite ou presentimento, de que não devia ir ao <em>Paraiso</em>. -O seu desejo, porm, que a impellia para l +O seu desejo, porém, que a impellia para lá <span class="pagenum">[307]</span> -vivamente, forneceu-lhe logo razes: era desapontar -Bazilio, a no ir hoje no devia voltar, e ento romper... -Alm d'isso a manh muito linda attrahia +vivamente, forneceu-lhe logo razões: era desapontar +Bazilio, a não ir hoje não devia voltar, e então romper... +Além d'isso a manhã muito linda attrahia para a rua: chovera de noite, o calor cedera; havia nos tons da luz e do azul uma frescura lavada e -dce. <br /> +dôce. <br /> <br /> -E s onze e meia descia o Moinho de Vento, +E ás onze e meia descia o Moinho de Vento, quando viu a figura digna do conselheiro Accacio que subia da rua da Rosa, devagar, com o guarda-sol fechado, -a cabea alta. <br /> +a cabeça alta. <br /> <br /> Apenas a avistou apressou-se, curvou-se profundamente: <br /> <br /> —Que encontro verdadeiramente feliz!... <br /> <br /> -—Como est, Conselheiro? Ditosos olhos que o -vem! <br /> +—Como está, Conselheiro? Ditosos olhos que o +vêem! <br /> <br /> —E v. exc.<sup>a</sup>, minha senhora? Vejo-a com excellente aspecto! <br /> <br /> -Passou-lhe esquerda com um movimento solemne, -pz-se a caminhar ao lado d'ella. <br /> +Passou-lhe á esquerda com um movimento solemne, +pôz-se a caminhar ao lado d'ella. <br /> <br /> —Permitte-me de certo que a acompanhe na sua -excurso? <br /> +excursão? <br /> <br /> —De certo, com o maior prazer. Mas que tem feito? Tenho muito que lhe ralhar... <br /> <br /> —Estive em Cintra, minha querida senhora.—E -parando:—No sabia? O <em>Diario de Noticias</em> +parando:—Não sabia? O <em>Diario de Noticias</em> especificou-o! <br /> <br /> —Mas depois de vir de Cintra? <br /> @@ -12027,54 +11987,54 @@ especificou-o! <br /> Elle acudiu: <br /> <br /> —Ah! tenho estado occupadissimo! Occupadissimo! -Inteiramente absorvido na compilao de certos +Inteiramente absorvido na compilação de certos <span class="pagenum">[308]</span> documentos que me eram indispensaveis para o meu livro...—E depois d'uma pausa:—Cujo nome -no ignora, creio. <br /> +não ignora, creio. <br /> <br /> -Luiza no se recordava inteiramente. O Conselheiro -ento expz o titulo, os fins, alguns nomes de -capitulos, a utilidade da obra: era a <span class="smallcaps">Descripo pitoresca +Luiza não se recordava inteiramente. O Conselheiro +então expôz o titulo, os fins, alguns nomes de +capitulos, a utilidade da obra: era a <span class="smallcaps">Descripção pitoresca das principaes cidades de portugal e seus mais famosos estabelecimentos</span>. <br /> <br /> -— um guia, mas um guia scientifico. Illustrarei -com um exemplo: V. exc.<sup>a</sup> quer ir a Bragana: -sem o meu livro muito natural (direi, certo) que +—É um guia, mas um guia scientifico. Illustrarei +com um exemplo: V. exc.<sup>a</sup> quer ir a Bragança: +sem o meu livro é muito natural (direi, é certo) que volta sem ter gozado das curiosidades locaes; com o meu livro percorre os edificios mais notaveis, recolhe -um fundo muito solido d'instruco, e tem ao +um fundo muito solido d'instrucção, e tem ao mesmo tempo o prazer. <br /> <br /> Luiza mal o escutava, sorrindo vagamente sob o -seu vo branco. <br /> +seu véo branco. <br /> <br /> -—Est hoje muito agradavel!—disse ella. <br /> +—Está hoje muito agradavel!—disse ella. <br /> <br /> —Agradabilissimo! Um dia creador! <br /> <br /> —Que bom fresco aqui! <br /> <br /> Tinham entrado em S. Pedro d'Alcantara; um ar -dce circulava entre as arvores mais verdes; o cho -compacto, sem p, tinha ainda uma ligeira humidade; -e, apesar do sol vivo, o co azul parecia leve e +dôce circulava entre as arvores mais verdes; o chão +compacto, sem pó, tinha ainda uma ligeira humidade; +e, apesar do sol vivo, o céo azul parecia leve e muito remoto. <br /> <br /> -O Conselheiro ento fallou do estio; tinha sido +O Conselheiro então fallou do estio; tinha sido torrido! na sua sala de jantar tinha havido 48 graus - sombra! 48 graus!—E com bonhomia, querendo -logo desculpar a sala d'aquella exagerao canicular:—Mas - que est exposta ao sul! faamos essa justia! +á sombra! 48 graus!—E com bonhomia, querendo +logo desculpar a sala d'aquella exageração canicular:—Mas +é que está exposta ao sul! façamos essa justiça! <span class="pagenum">[309]</span> -Est muito exposta ao sul. Hoje porm est verdadeiramente +Está muito exposta ao sul. Hoje porém está verdadeiramente restaurador. <br /> <br /> Convidou-a mesmo a dar uma volta em baixo no jardim. Luiza hesitava. E o Conselheiro puxando o relogio, fitando-o de longe, declarou logo que ainda -no era meio dia. Estava certo pelo Arsenal, era um +não era meio dia. Estava certo pelo Arsenal, era um relogio inglez.—Muito preferiveis aos suissos!—acrescentou com ar profundo. <br /> <br /> @@ -12083,100 +12043,100 @@ pomposa do Conselheiro, Luiza foi descendo, contrariada, as escadinhas para o jardim. De resto—pensava—tinha tempo, tomaria um trem... <br /> <br /> -Foram encostar-se s grades. Atravs dos vares +Foram encostar-se ás grades. Através dos varões viam, descendo n'um declive, telhados escuros, intervallos de pateos, cantos de muro com uma ou outra magra verdura de quintal resequido; depois, no fundo do valle, o Passeio estendia a sua massa de -folhagem prolongada e oblonga, onde a espaos branquejavam -pedaos da rua areada. Do lado de l erguiam-se +folhagem prolongada e oblonga, onde a espaços branquejavam +pedaços da rua areada. Do lado de lá erguiam-se logo as fachadas inexpressivas da rua Oriental, -recebendo uma luz forte que fazia faiscar as vidraas: +recebendo uma luz forte que fazia faiscar as vidraças: por traz iam-se elevando no mesmo plano terrenos d'um verde crestado fechados por fortes muros -sombrios, a cantaria da Encarnao de um amarello -triste, outras construces separadas, at ao -alto da Graa coberta d'edificios ecclesiasticos, com +sombrios, a cantaria da Encarnação de um amarello +triste, outras construcções separadas, até ao +alto da Graça coberta d'edificios ecclesiasticos, com renques de janellinhas conventuaes e torres d'igrejas, muito brancas sobre o azul: e a Penha de -Frana, mais para alm, punha em relevo o vivo do +França, mais para além, punha em relevo o vivo do muro caiado, d'onde sobresahia uma tira verde-negra <span class="pagenum">[310]</span> -d'arvoredo. direita, sobre o monte pellado, o castello +d'arvoredo. Á direita, sobre o monte pellado, o castello assentava, atarracado, ignobilmente sujo: e a linha muito quebrada de telhados, d'esquinas de casas da Mouraria e d'Alfama descia com angulos bruscos -at s duas pesadas torres da S, d'um aspecto -abbacial e secular. Depois viam um pedao do rio, +até ás duas pesadas torres da Sé, d'um aspecto +abbacial e secular. Depois viam um pedaço do rio, batido da luz: duas velas brancas passavam devagar: -e na outra banda, base de uma collina baixa +e na outra banda, á base de uma collina baixa que o ar distante azulava, estendia-se a correnteza -de casarias d'uma povoaosinha d'um branco de cr +de casarias d'uma povoaçãosinha d'um branco de cré luzidio. Da cidade um rumor grosso e lento subia, onde se misturavam o rolar dos trens, o pesado rodar -dos carros de bois, a vibrao metallica das carretas -que levam ferraria, e algum grito agudo de prego. <br /> +dos carros de bois, a vibração metallica das carretas +que levam ferraria, e algum grito agudo de pregão. <br /> <br /> —Grande panorama!—disse o Conselheiro com emphase.—E encetou logo o elogio da cidade. Era uma das mais bellas da Europa, de certo, e como -entrada, s Constantinopla! Os estrangeiros invejavam-na -immenso. Fra outr'ora um grande emporio, -e era uma pena que a canalisao fosse to m, e a -edilidade to negligente! <br /> +entrada, só Constantinopla! Os estrangeiros invejavam-na +immenso. Fôra outr'ora um grande emporio, +e era uma pena que a canalisação fosse tão má, e a +edilidade tão negligente! <br /> <br /> -—Isto devia estar na mo dos inglezes, minha +—Isto devia estar na mão dos inglezes, minha rica senhora!—exclamou. <br /> <br /> Mas arrependeu-se logo d'aquella phrase impatriotica. -Jurou que era uma maneira de dizer. +Jurou que «era uma maneira de dizer». Queria a independencia do seu paiz; morreria por ella, se fosse necessario; nem inglezes nem castelhanos!... -S ns, minha senhora!—E acrescentou +Só nós, minha senhora!—E acrescentou com uma voz respeitosa:—E Deus! <br /> <br /> -—Que bonito est o rio!—disse Luiza. +—Que bonito está o rio!—disse Luiza. <br /> <br /><span class="pagenum">[311]</span> Accacio affirmou-se, e murmurou em tom cavo: <br /> <br /> —O Tejo! <br /> <br /> -Quiz ento dar uma volta pelo jardim. Sobre os -canteiros borboletas brancas, amarellas, esvoaavam; +Quiz então dar uma volta pelo jardim. Sobre os +canteiros borboletas brancas, amarellas, esvoaçavam; um gotejar d'agua fazia no tanque um rhythmosinho de jardim burguez; um aroma de baunilha predominava; -sobre a cabea dos bustos de marmore, que -se elevam d'entre os macios e as moitas de dhalias, +sobre a cabeça dos bustos de marmore, que +se elevam d'entre os maciços e as moitas de dhalias, passaros pousavam. <br /> <br /> Luiza gostava d'aquelle jardimzinho, mas embirrava -com as grades to altas... <br /> +com as grades tão altas... <br /> <br /> —Por causa dos suicidios!—acudiu logo o Conselheiro.—E -todavia, segundo a sua opinio, os suicidios +todavia, segundo a sua opinião, os suicidios em Lisboa diminuiam consideravelmente; attribuia -isso maneira severa e muito louvavel como +isso á maneira severa e muito louvavel como a imprensa os condemnava... <br /> <br /> —Porque em Portugal, creia isto, minha senhora, -a imprensa uma fora! <br /> +a imprensa é uma força! <br /> <br /> —Se fossemos andando...?—lembrou Luiza. <br /> <br /> O Conselheiro curvou-se, mas vendo-a a ir colher -uma flr, reteve-lhe vivamente o brao: <br /> +uma flôr, reteve-lhe vivamente o braço: <br /> <br /> -—Ah, minha rica senhora, por quem ! os regulamentos -so muito explicitos! No os infrinjamos, -no os infrinjamos!—E acrescentou:—O exemplo +—Ah, minha rica senhora, por quem é! os regulamentos +são muito explicitos! Não os infrinjamos, +não os infrinjamos!—E acrescentou:—O exemplo deve vir de cima. <br /> <br /> Foram subindo, e Luiza pensava:—Vai para casa, larga-me ao Loreto. <br /> <br /> Na rua de S. Roque espreitou o relogio d'uma -confeitaria: era meia hora depois do meio dia! J +confeitaria: era meia hora depois do meio dia! Já Bazilio esperava! <br /> <br /><span class="pagenum">[312]</span> @@ -12185,8 +12145,8 @@ olhou-a, sorrindo, esperando. <br /> <br /> —Ah! pensei que ia para casa, Conselheiro! <br /> <br /> -—J agora quero acompanhal-a, se v. exc.<sup>a</sup> m'o -permitte. De certo no sou indiscreto? <br /> +—Já agora quero acompanhal-a, se v. exc.<sup>a</sup> m'o +permitte. De certo não sou indiscreto? <br /> <br /> —Ora essa! De modo nenhum. <br /> <br /> @@ -12194,119 +12154,119 @@ Uma carruagem da Companhia passava, seguida d'um correio a trote. <br /> <br /> O Conselheiro, com um movimento ancioso, tirou -profundamente o chapo. <br /> +profundamente o chapéo. <br /> <br /> -— o presidente do conselho. No viu? Fez-me -um signal de dentro.—Comeou logo o seu elogio: +—É o presidente do conselho. Não viu? Fez-me +um signal de dentro.—Começou logo o seu elogio: Era o nosso primeiro parlamentar; vastissimo talento, uma linguagem muito castigada!—E ia de certo fallar das cousas publicas, mas Luiza atravessou para os Martyres, erguendo um pouco o vestido por -causa d'uns restos de lama. Parou porta da igreja, +causa d'uns restos de lama. Parou á porta da igreja, e sorrindo: <br /> <br /> -—Vou aqui fazer uma devoosinha. No o quero -fazer esperar. Adeus, Conselheiro, apparea.—Fechou -a sombrinha, estendeu-lhe a mo. <br /> +—Vou aqui fazer uma devoçãosinha. Não o quero +fazer esperar. Adeus, Conselheiro, appareça.—Fechou +a sombrinha, estendeu-lhe a mão. <br /> <br /> —Ora essa, minha rica senhora! Esperarei, se -vir que no se demora muito. Esperarei, no tenho +vir que não se demora muito. Esperarei, não tenho pressa.—E com respeito:—Muito louvavel esse zelo! <br /> <br /> -Luiza entrou na igreja desesperada. Ficou de p -debaixo do cro, calculando:—Demoro-me aqui, elle -cana-se d'esperar e vai-se! Por cima reluziam vagamente +Luiza entrou na igreja desesperada. Ficou de pé +debaixo do côro, calculando:—Demoro-me aqui, elle +cança-se d'esperar e vai-se! Por cima reluziam vagamente os pingentes de crystal dos lustres. Havia -uma luz velada, igual, um pouco fsca. E as architecturas +uma luz velada, igual, um pouco fôsca. E as architecturas <span class="pagenum">[313]</span> caiadas, a madeira muito lavada do soalho, as balaustradas lateraes de pedra davam uma tonalidade clara e alvadia, onde destacavam os dourados -da capella, os frontaes rxos dos pulpitos, ao fundo -dous reposteiros d'um rxo mais escuro, e sob o docel -cr de violeta os ouros do Throno. Um silencio +da capella, os frontaes rôxos dos pulpitos, ao fundo +dous reposteiros d'um rôxo mais escuro, e sob o docel +côr de violeta os ouros do Throno. Um silencio fresco e alto repousava. Diante do Baptisterio um rapaz -de joelhos, com um balde de zinco ao p, esfregava -o cho com uma rodilha, discretamente: dorsos +de joelhos, com um balde de zinco ao pé, esfregava +o chão com uma rodilha, discretamente: dorsos de beatas, encapotados ou cobertos de chales tingidos, -curvavam-se, aqui e alm, diante d'um altar: -e um velho, de jaqueta de saragoa, prostrado no -meio da igreja, rosnava rezas n'uma molopa lugubre; -via-se a sua cabea calva, as tachas enormes +curvavam-se, aqui e além, diante d'um altar: +e um velho, de jaqueta de saragoça, prostrado no +meio da igreja, rosnava rezas n'uma molopéa lugubre; +via-se a sua cabeça calva, as tachas enormes dos sapatos, e a cada momento, dobrando-se, batia no peito com desespero. <br /> <br /> -Luiza subiu ao altar-mr. Bazilio impacientava-se, -de certo, pobre rapaz! Perguntou ento, timidamente, -as horas a um sacristo que passava. O homem -ergueu a sua face cr de cidra para uma janela +Luiza subiu ao altar-mór. Bazilio impacientava-se, +de certo, pobre rapaz! Perguntou então, timidamente, +as horas a um sacristão que passava. O homem +ergueu a sua face côr de cidra para uma janela na cupula, e olhando Luiza de lado: <br /> <br /> —Vai indo p'ra as duas. <br /> <br /> -Para as duas! Era capaz de no esperar, Bazilio! -Veio-lhe um receio de perder a sua manh amorosa, +Para as duas! Era capaz de não esperar, Bazilio! +Veio-lhe um receio de perder a sua manhã amorosa, um desejo aspero de se achar no <em>Paraiso</em> nos -braos d'elle! E olhava vagamente os santos, as virgens +braços d'elle! E olhava vagamente os santos, as virgens trespassadas d'espadas, os Christos chagados,—cheia de impaciencias voluptuosas, revendo o quarto, a caminha de ferro, o pequeno bigode de -Bazilio!... Mas demorou-se, queria fatigar o Conselheiro, +Bazilio!... Mas demorou-se, queria «fatigar o Conselheiro, <span class="pagenum">[314]</span> -deixal-o ir. Quando pensou que elle teria -partido, sahiu devagarinho.—Viu-o logo porta, direito, -com as mos atraz das costas, lendo a pauta +deixal-o ir». Quando pensou que elle teria +partido, sahiu devagarinho.—Viu-o logo á porta, direito, +com as mãos atraz das costas, lendo a pauta dos jurados. <br /> <br /> -Comeou immediatamente a louvar a sua devoo. -No entrra porque no quizera perturbar o seu -recolhimento. Mas approvava-a muito! A falta de religio +Começou immediatamente a louvar a sua devoção. +Não entrára porque não quizera perturbar o seu +recolhimento. Mas approvava-a muito! A falta de religião era a causa de toda a immoralidade que grassava... <br /> <br /> -—E alm d'isso de boa educao. V. exc.<sup>a</sup> +—E além d'isso é de boa educação. V. exc.<sup>a</sup> ha-de reparar que toda a nobreza cumpre... <br /> <br /> Calou-se; aprumava a estatura, todo satisfeito de -descer o Chiado com aquella linda senhora, to olhada. +descer o Chiado com aquella linda senhora, tão olhada. Mesmo, ao passar por um grupo, curvou-se para ella mysteriosamente, disse-lhe ao ouvido, sorrindo: <br /> <br /> -—Est um dia apreciavel! <br /> +—Está um dia apreciavel! <br /> <br /> -E offereceu-lhe bolos porta do Baltreschi. Luiza +E offereceu-lhe bolos á porta do Baltreschi. Luiza recusou. <br /> <br /> —Sinto. Todavia acho muito sensata a regularidade nas comidas. <br /> <br /> A sua voz vinha agora a Luiza com a impertinencia -d'um zumbido; apesar de no fazer calor, +d'um zumbido; apesar de não fazer calor, abafava, picava-lhe o sangue no corpo; tinha vontade de deitar a correr, de repente; e todavia caminhava devagar, infeliz, como somnambula, cheia da necessidade de chorar. <br /> <br /> -Sem razo, ao acaso, entrou no Valente. Era hora +Sem razão, ao acaso, entrou no Valente. Era hora e meia! Depois d'hesitar pediu gravatas de <em>foulard</em> a um caixeiro louro e jovial. <br /> <br /> -—Brancas? de cr? de riscas? com pintinhas? +—Brancas? de côr? de riscas? com pintinhas? <br /> <br /><span class="pagenum">[315]</span> —Sim, verei, sortidas. <br /> <br /> -No lhe agradavam. Desdobrava-as, sacudia-as, +Não lhe agradavam. Desdobrava-as, sacudia-as, punha-as de lado; e olhava em roda vagamente, pallida... O caixeiro perguntou-lhe se estava incommodada: offereceu-lhe agua, qualquer cousa... <br /> <br /> -No era nada; o ar que lhe fazia bem; voltaria. +Não era nada; o ar é que lhe fazia bem; voltaria. Sahiu. O Conselheiro, muito solicito, promptificou-se a acompanhal-a a uma boa pharmacia tomar -agua de flr de laranja... Desciam ento a rua Nova +agua de flôr de laranja... Desciam então a rua Nova do Carmo, e o Conselheiro ia affirmando que o -caixeiro fra muito polido: no se admirava, porque +caixeiro fôra muito polido: não se admirava, porque no commercio havia filhos de boas familias: citou exemplos. <br /> <br /> @@ -12314,39 +12274,39 @@ Mas vendo-a calada: <br /> <br /> —Ainda soffre? <br /> <br /> -—No, estou bem. <br /> +—Não, estou bem. <br /> <br /> —Temos dado um delicioso passeio! <br /> <br /> -Foram ao comprido do Rocio, at ao fim. Voltaram, +Foram ao comprido do Rocio, até ao fim. Voltaram, atravessaram-no em diagonal. E pelo lado do Arco do Bandeira, aproximaram-se para a rua do Ouro. Luiza olhava em redor, afflicta, procurava uma -ida, uma occasio, um acontecimento—e o Conselheiro, +idéa, uma occasião, um acontecimento—e o Conselheiro, grave a seu lado, dissertava. A vista do theatro -de D. Maria levra-o para as questes da arte -dramatica: tinha achado que a pea do Ernestinho -era talvez demasiado forte. De resto s gostava de -comedias. No que se no enthusiasmasse com as +de D. Maria levára-o para as questões da arte +dramatica: tinha achado que a peça do Ernestinho +era talvez demasiado forte. De resto só gostava de +comedias. Não que se não enthusiasmasse com as bellezas d'um <em>Frei Luiz de Sousa</em>! mas a sua saude -no lhe permittia as agitaes fortes. Assim por +não lhe permittia as agitações fortes. Assim por exemplo... <br /> <br /><span class="pagenum"><a name="p316" id="p316">[316]</a></span> -Mas Luiza tivera uma ida, e immediatamente: <br /> +Mas Luiza tivera uma idéa, e immediatamente: <br /> <br /> —Ah! esquecia-me! Tenho d'ir ao Vitry. Vou fazer chumbar um dente. <br /> <br /> O Conselheiro, interrompido, fitou-a. E Luiza, estendendo-lhe -a mo, com a voz rapida: <br /> +a mão, com a voz rapida: <br /> <br /> -—Adeus, apparea, hein?—E precipitou-se para +—Adeus, appareça, hein?—E precipitou-se para o portal do Vitry. <br /> <br /> -Subiu at ao primeiro andar, correndo, com os +Subiu até ao primeiro andar, correndo, com os vestidos apanhados: parou, arquejando: esperou: -desceu devagar, espreitou porta... A figura do +desceu devagar, espreitou á porta... A figura do Conselheiro afastava-se direita, digna, para os lados das secretarias. <br /> <br /> @@ -12355,19 +12315,19 @@ Chamou um trem. <br /> —A quanto puder!—exclamou. <br /> <br /> A carruagem entrou quasi a galope na ruasinha -do <em>Paraiso</em>. Figuras pasmadas appareceram janella. +do <em>Paraiso</em>. Figuras pasmadas appareceram á janella. Subiu, palpitante. A porta estava fechada—e logo -a cancella do lado abriu-se, e a voz dce da patra +a cancella do lado abriu-se, e a voz dôce da patrôa segredou: <br /> <br /> -—J sahiu. Ha-de haver meia hora. <br /> +—Já sahiu. Ha-de haver meia hora. <br /> <br /> Desceu. Deu a sua morada ao cocheiro, e atirando-se -para o fundo do coup, rompeu n'um chro hysterico. +para o fundo do coupé, rompeu n'um chôro hysterico. Correu os <em>stores</em> para se esconder; arrancou o -vo, rasgou uma luva, sentindo em si violencias -inesperadas, Ento veio-lhe um desejo phrenetico de -vr Bazilio! Bateu nos vidros <a href="#e10">desesperadamente</a>, +véo, rasgou uma luva, sentindo em si violencias +inesperadas, Então veio-lhe um desejo phrenetico de +vêr Bazilio! Bateu nos vidros <a href="#e10">desesperadamente</a>, gritou: <br /> <br /> —Ao Hotel Central! <br /> @@ -12375,13 +12335,13 @@ gritou: <br /> Porque estava n'um d'aquelles momentos em que os temperamentos sensiveis teem impulsos indomaveis; <span class="pagenum">[317]</span> -ha uma delicia colerica em espedaar os +ha uma delicia colerica em espedaçar os deveres e as conveniencias; e a alma procura sofregamente o mal com estremecimentos de sensualidade! <br /> <br /> -A parelha estacou, resvalando porta do hotel. -O snr. Bazilio de Brito no estava, o snr. visconde -Reynaldo, sim. <br /> +A parelha estacou, resvalando á porta do hotel. +«O snr. Bazilio de Brito não estava, o snr. visconde +Reynaldo, sim». <br /> <br /> —Bem, para casa, para onde eu disse! <br /> <br /> @@ -12390,54 +12350,54 @@ febril, insultava o Conselheiro, o estafermo, o imbecil! maldizia a vida que lh'os fizera conhecer, a elle e a todos os amigos da casa! vinha-lhe uma vontade acre de mandar o casamento ao diabo, -de fazer o que lhe viesse cabea!... <br /> +de fazer o que lhe viesse á cabeça!... <br /> <br /> - porta no tinha troco para o cocheiro. Espere!—disse, +Á porta não tinha troco para o cocheiro. Espere!—disse, subindo furiosa—Eu lhe mandarei pagar! <br /> <br /> —Que bicha!—pensou o cocheiro. <br /> <br /> Foi Joanna que veio abrir; e quasi recuou, vendo-a -to vermelha, to excitada. <br /> +tão vermelha, tão excitada. <br /> <br /> Luiza foi direita ao quarto: o <em>cuco</em> cantava tres horas. Estava tudo desarrumado; vasos de plantas -no cho, o toucador coberto com um lenol velho, -roupa suja pelas cadeiras. E Juliana, com um leno -amarrado na cabea, varria tranquillamente, cantarolando. <br /> +no chão, o toucador coberto com um lençol velho, +roupa suja pelas cadeiras. E Juliana, com um lenço +amarrado na cabeça, varria tranquillamente, cantarolando. <br /> <br /> -—Ento voss ainda no arrumou o quarto!—gritou Luiza. <br /> +—Então vossê ainda não arrumou o quarto!—gritou Luiza. <br /> <br /> -Juliana estremeceu quella colera inesperada. <br /> +Juliana estremeceu áquella colera inesperada. <br /> <br /> —Estava agora, minha senhora! <br /> <br /> —Que estava agora vejo eu!—rompeu Luiza. <br /> <br /><span class="pagenum">[318]</span> -—So tres horas da tarde e ainda o quarto n'este +—São tres horas da tarde e ainda o quarto n'este estado! <br /> <br /> -Tinha atirado o chapo, a sombrinha. <br /> +Tinha atirado o chapéo, a sombrinha. <br /> <br /> —Como a senhora costuma vir sempre mais tarde...—disse Juliana. <br /> <br /> -E seus beios faziam-se brancos. <br /> +E seus beiços faziam-se brancos. <br /> <br /> —Que lhe importa a que horas eu venho? Que -tem voss com isso? A sua obrigao arrumar logo -que eu me levante. E no querendo, rua, fazem-se-lhe +tem vossê com isso? A sua obrigação é arrumar logo +que eu me levante. E não querendo, rua, fazem-se-lhe as contas! <br /> <br /> Juliana fez-se escarlate e cravando em Luiza os olhos injectados: <br /> <br /> -—Olhe, sabe que mais? no estou para a aturar! <br /> +—Olhe, sabe que mais? não estou para a aturar! <br /> <br /> E arremessou violentamente a vassoura. <br /> <br /> -—Sia!—berrou Luiza—Sia immediatamente! +—Sáia!—berrou Luiza—Sáia immediatamente! Nem mais um momento em casa! <br /> <br /> Juliana poz-se diante d'ella, e com palmadas convulsivas @@ -12451,14 +12411,14 @@ Queria chamar a cozinheira, um homem, um policia, alguem! Mas Juliana descomposta, com o punho no ar, toda a tremer: <br /> <br /> -—A senhora no me faa sahir de mim! A senhora -no me faa perder a cabea!—E com a voz -estrangulada atravs dos dentes cerrados:—Olhe +—A senhora não me faça sahir de mim! A senhora +não me faça perder a cabeça!—E com a voz +estrangulada através dos dentes cerrados:—Olhe que nem todos os papeis foram p'ra o lixo! <br /> <br /> Luiza recuou, gritou: <br /> <br /> -—Que diz voss? <br /> +—Que diz vossê? <br /> <br /> —Que as cartas que a senhora escreve aos seus <span class="pagenum">[319]</span> @@ -12466,7 +12426,7 @@ amantes, tenho-as eu aqui!—E bateu na algibeira, ferozmente. <br /> <br /> Luiza fitou-a um momento com os olhos desvairados, -e cahiu no cho, junto <em>causeuse</em>, desmaiada. +e cahiu no chão, junto á <em>causeuse</em>, desmaiada. <br /> <br /> <br /> @@ -12475,78 +12435,78 @@ e cahiu no cho, junto <em>causeuse</em>, desmaiada. </h3> <br /> <br /> -A primeira impresso, mal acordada, de Luiza foi -que duas figuras, que no conhecia, estavam debruadas +A primeira impressão, mal acordada, de Luiza foi +que duas figuras, que não conhecia, estavam debruçadas sobre ella. Uma, a mais forte, afastou-se; o som frio d'um frasco de vidro, pousado sobre o marmore -do toucador, despertou-a. Sentiu ento uma +do toucador, despertou-a. Sentiu então uma voz dizer abafadamente: <br /> <br /> -—Est muito melhor. Mas deu-lhe de repente, +—Está muito melhor. Mas deu-lhe de repente, snr.<sup>a</sup> Juliana? <br /> <br /> —De repente. <br /> <br /> -—Eu vi-a entrar to afogueada... <br /> +—Eu vi-a entrar tão afogueada... <br /> <br /> Passos subtis pisaram o tapete, a voz de Joanna perguntou-lhe junto do rosto: <br /> <br /> -—Est melhor, minha senhora? <br /> +—Está melhor, minha senhora? <br /> <br /> -Abriu os olhos, a percepo nitida das cousas +Abriu os olhos, a percepção nitida das cousas foi-lhe voltando; estava estendida na <em>causeuse</em>, tinham-lhe desapertado o vestido, e havia no quarto <span class="pagenum">[322]</span> -um forte cheiro de vinagre. Ergueu-se sobre o cotovlo, +um forte cheiro de vinagre. Ergueu-se sobre o cotovêlo, devagar, com um olhar errante, vago: <br /> <br /> —E a outra?... <br /> <br /> -—A snr.<sup>a</sup> Juliana? Foi-se deitar. Tambem se no -achava bem. Foi de vr a senhora, coitada... Est +—A snr.<sup>a</sup> Juliana? Foi-se deitar. Tambem se não +achava bem. Foi de vêr a senhora, coitada... Está melhorzinha? <br /> <br /> Sentou-se. Sentia uma fadiga em todo o corpo; tudo no quarto lhe parecia oscillar brandamente: <br /> <br /> -—Pde ir, Joanna, pde ir—disse. <br /> +—Póde ir, Joanna, póde ir—disse. <br /> <br /> -—A senhora no precisa mais nada? Talvez um +—A senhora não precisa mais nada? Talvez um caldinho lhe fizesse bem... <br /> <br /> -Luiza, s, pz-se a olhar em roda, espantada. -Estava j tudo arrumado, as janellas cerradas. Uma -luva ficra cahida no cho: ergueu-se, ainda tropega, +Luiza, só, pôz-se a olhar em roda, espantada. +Estava já tudo arrumado, as janellas cerradas. Uma +luva ficára cahida no chão: ergueu-se, ainda tropega, foi apanhal-a, esteve a esticar-lhe os dedos machinalmente, -como somnambula, pl-a na gaveta do +como somnambula, pôl-a na gaveta do toucador. Alisou o cabello; achava-se mudada, com -<em>outra</em> expresso como se fosse +<em>outra</em> expressão como se fosse <em>outra</em>; e o silencio do quarto impressionava-a, como extraordinario. <br /> <br /> —Minha senhora—disse a voz timida de Joanna. <br /> <br /> -—Que ? <br /> +—Que é? <br /> <br /> -— o cocheiro. <br /> +—É o cocheiro. <br /> <br /> Luiza voltou-se, sem comprehender: <br /> <br /> —Que cocheiro? <br /> <br /> -—Um cocheiro; diz que a senhora que no tinha +—Um cocheiro; diz que a senhora que não tinha troco, que o mandou esperar... <br /> <br /> —Ah! <br /> <br /> E como a uma luz de gaz que salta subitamente -e alumia uma decorao, viu, n'um relance, toda -a sua desgraa! +e alumia uma decoração, viu, n'um relance, toda +a «sua desgraça»! <br /> <br /><span class="pagenum">[323]</span> -Ficou to tremula que mal podia abrir a gavetinha +Ficou tão tremula que mal podia abrir a gavetinha da commoda: <br /> <br /> —Tinha-me esquecido, tinha-me esquecido...—balbuciava. <br /> @@ -12555,179 +12515,179 @@ Deu o dinheiro a Joanna; e vindo cahir sobre a <em>causeuse</em>: <br /> <br /> —Estou perdida!—murmurou, apertando as -mos na cabea. <br /> +mãos na cabeça. <br /> <br /> Tudo descoberto! E representaram-se-lhe logo no espirito, com a intensidade de desenhos negros sobre um muro branco, o furor de Jorge, o espanto dos -seus amigos, a indignao d'uns, o escarneo dos outros; +seus amigos, a indignação d'uns, o escarneo dos outros; e estas imagens cahindo com ruido na sua alma, como combustiveis n'uma fogueira, ateavam-lhe desesperadamente o terror. <br /> <br /> Que lhe restava?—Fugir com Bazilio! <br /> <br /> -Aquella ida, a primeira, a unica, apossou-se +Aquella idéa, a primeira, a unica, apossou-se d'ella impetuosamente, trespassou-a—como a agua -d'uma inundao que subitamente alaga um campo. <br /> +d'uma inundação que subitamente alaga um campo. <br /> <br /> -Elle tinha-lhe tantas vezes jurado que seriam to +Elle tinha-lhe tantas vezes jurado que seriam tão felizes em Paris, no seu <em>appartamento</em> da rua Saint -Florentin! Pois bem, iria! No levaria malas, poria +Florentin! Pois bem, iria! Não levaria malas, poria no seu pequeno sacco de marroquim alguma roupa -branca, as joias da mam... E os criados? a casa? -Deixaria uma carta a Sebastio para que viesse, fechasse +branca, as joias da mamã... E os criados? a casa? +Deixaria uma carta a Sebastião para que viesse, fechasse tudo!... Levaria na viagem o vestido de riscadinho azul—ou o preto! Mais nada. O resto compral-o-hia longe, n'outras cidades... <br /> <br /> —Se a senhora quer vir jantar...—disse Joanna - porta do quarto. +á porta do quarto. <br /> <br /><span class="pagenum">[324]</span> Tinha posto um avental branco, e acrescentou: <br /> <br /> -—A snr.<sup>a</sup> Juliana est deitada, diz que est com -a dr, no pde servir mesa. <br /> +—A snr.<sup>a</sup> Juliana está deitada, diz que está com +a dôr, não póde servir á mesa. <br /> <br /> -—J vou. <br /> +—Já vou. <br /> <br /> -Tomou apenas uma colhr de sopa, bebeu um +Tomou apenas uma colhér de sopa, bebeu um grande gole d'agua; e erguendo-se: <br /> <br /> —Que tem ella? <br /> <br /> -—Diz que uma dr muito forte no corao. <br /> +—Diz que é uma dôr muito forte no coração. <br /> <br /> -Se morresse! Estava salva, ella! Podia ficar, ento! -E com uma esperana perversa: <br /> +Se morresse! Estava salva, ella! Podia ficar, então! +E com uma esperança perversa: <br /> <br /> -—V vr, Joanna, v vr como est! <br /> +—Vá vêr, Joanna, vá vêr como está! <br /> <br /> Tinha ouvido de tantas pessoas que morrem de -uma dr! Iria logo ao quarto d'ella rebuscar-lhe a -arca, apossar-se da carta! E no teria medo do silencio +uma dôr! Iria logo ao quarto d'ella rebuscar-lhe a +arca, apossar-se da carta! E não teria medo do silencio da morte, nem da lividez do cadaver... <br /> <br /> -—Est mais descanada, minha senhora—veio -dizer a Joanna—diz que logo que se levanta. Ento -a senhora no come mais nada? Credo! <br /> +—Está mais descançada, minha senhora—veio +dizer a Joanna—diz que logo que se levanta. Então +a senhora não come mais nada? Credo! <br /> <br /> -—No. <br /> +—Não. <br /> <br /> E entrou para o quarto, pensando:—de que -serve estar a imaginar cousas? S me resta fugir. <br /> +serve estar a imaginar cousas? Só me resta fugir. <br /> <br /> -Decidiu-se logo a escrever a Sebastio; mas no -pde acertar com outras palavras alm do comeo, -no alto, n'uma letra muito trmula: <em>Meu amigo!</em> <br /> +Decidiu-se logo a escrever a Sebastião; mas não +pôde acertar com outras palavras além do começo, +no alto, n'uma letra muito trémula: <em>Meu amigo!</em> <br /> <br /> Para que havia de escrever? Quando ao outro dia -ella no voltasse, nem tarde, nem noite—as -criadas, a <em>outra</em>, a infame! iriam logo a Sebastio. +ella não voltasse, nem á tarde, nem á noite—as +criadas, a <em>outra</em>, a infame! iriam logo a Sebastião. Era o intimo da casa. Que espanto o d'elle! Imaginaria -algum accidente, correria Encarnao, depois - policia, esperaria n'uma angustia at de madrugada! +algum accidente, correria á Encarnação, depois +á policia, esperaria n'uma angustia até de madrugada! <span class="pagenum">[325]</span> -Todo o dia seguinte seriam outras esperanas de -a vr chegar, decepes aterradas,—at que telegrapharia +Todo o dia seguinte seriam outras esperanças de +a vêr chegar, decepções aterradas,—até que telegrapharia a Jorge! E a essa hora de certo, ella, encolhida no canto do wagon, rolaria, ao ruido offegante da machina, para um destino novo!... <br /> <br /> Mas porque se affligia, por fim? Quantas invejariam -a sua desgraa! O que havia de infeliz em +a sua desgraça! O que havia de infeliz em abandonar a sua vida estreita entre quatro paredes, passada a examinar roes de cozinha e a fazer <em>crochet</em>, e partir com um homem novo e amado, ir para -Paris! para Paris! viver nas consolaes do luxo, em -alcovas de sda, com um camarote na Opera!... Era -bem tola em se affligir! Quasi fra uma felicidade -aquelle desastre! Sem elle nunca teria tido a coragem -de se desembaraar da sua vida burgueza; +Paris! para Paris! viver nas consolações do luxo, em +alcovas de sêda, com um camarote na Opera!... Era +bem tola em se affligir! Quasi fôra uma felicidade +aquelle «desastre»! Sem elle nunca teria tido a coragem +de se desembaraçar da sua vida burgueza; mesmo quando um alto desejo a impellisse, haveria sempre uma timidez maior para a reter! <br /> <br /> E depois, fugindo, o seu amor tornava-se digno! -Seria s d'um homem; no teria de amar em casa e -amar fra de casa! <br /> +Seria só d'um homem; não teria de amar em casa e +amar fóra de casa! <br /> <br /> -Veio-lhe mesmo a ida de ir ter immediatamente -com Bazilio, acabar com aquillo por uma vez. Mas +Veio-lhe mesmo a idéa de ir ter immediatamente +com Bazilio, «acabar com aquillo por uma vez». Mas era tarde para ir ao hotel; temia as ruas escuras, a noite, e os bebedos... <br /> <br /> Foi logo arranjar o sacco de marroquim. Metteu -lenos, alguma roupa branca, o estojo das unhas, o -rosario que lhe dera Bazilio, ps d'arroz, algumas -joias que tinham pertencido mam... Quiz levar as +lenços, alguma roupa branca, o estojo das unhas, o +rosario que lhe dera Bazilio, pós d'arroz, algumas +joias que tinham pertencido á mamã... Quiz levar as cartas de Bazilio tambem... Tinha-as guardadas n'um -cofre de sandalo, no gaveto do guarda-vestidos. Espalhou-as +cofre de sandalo, no gavetão do guarda-vestidos. Espalhou-as <span class="pagenum">[326]</span> -no regao; abriu uma, d'onde cahiu uma -florzinha scca; outra que tinha, na dobra, a photographia -de Bazilio. De repente, pareceu-lhe que no +no regaço; abriu uma, d'onde cahiu uma +florzinha sêcca; outra que tinha, na dobra, a photographia +de Bazilio. De repente, pareceu-lhe que não estavam completas! Tinha <em>sete</em>: <em>cinco</em> bilhetes curtos, -e <em>duas</em> cartas—a primeira que elle lhe escrevra, -to terna! e a ultima no dia do arrufo! Contou-as... +e <em>duas</em> cartas—a primeira que elle lhe escrevêra, +tão terna! e a ultima no dia do arrufo! Contou-as... Faltava, com effeito, a <em>primeira</em>, e <em>dous</em> bilhetes! Tinha-lh'as roubado, tambem!... Ergueu-se livida. Ah que infame! veio-lhe uma raiva de subir -ao soto, luctar com ella, arrancar-lh'as, esganal-a!... +ao sotão, luctar com ella, arrancar-lh'as, esganal-a!... Que lhe importava, por fim!—E deixou-se cahir na <em>causeuse</em>, aniquilada—Que ella tivesse uma, duas, -todas—era a mesma desgraa! <br /> +todas—era a mesma desgraça! <br /> <br /> E muito excitada, foi preparar o vestido preto -que devia levar, o chapo, um chale-manta... <br /> +que devia levar, o chapéo, um chale-manta... <br /> <br /> -O <em>cuco</em> cantou dez horas. Entrou ento na alcova; -pz o castial sobre a mesinha, ficou a olhar o -largo leito com o seu cortinado de fusto branco. -Era a ultima vez que alli dormia! Fra ella que bordra +O <em>cuco</em> cantou dez horas. Entrou então na alcova; +pôz o castiçal sobre a mesinha, ficou a olhar o +largo leito com o seu cortinado de fustão branco. +Era a ultima vez que alli dormia! Fôra ella que bordára aquella coberta de <em>crochet</em> no primeiro anno de -casada: no havia uma malha que no correspondesse -a uma alegria. Jorge s vezes vinha vl-a trabalhar, +casada: não havia uma malha que não correspondesse +a uma alegria. Jorge ás vezes vinha vêl-a trabalhar, e, calado, considerava-a com um sorriso, ou fallava-lhe baixo enrolando devagar nos dedos o fio -de algodo grosso! Alli dormira com elle tres annos: -o seu lugar era de l, do lado da parede... -Fra n'aquella cama que ella estivera doente, com a -pneumonia. Durante semanas elle no se deitra—a +de algodão grosso! Alli dormira com elle tres annos: +o seu lugar era de lá, do lado da parede... +Fôra n'aquella cama que ella estivera doente, com a +pneumonia. Durante semanas elle não se deitára—a velal-a, a conchegar-lhe a roupa, a dar-lhe os caldos, -os remedios, com toda a sorte de palavras dces +os remedios, com toda a sorte de palavras dôces <span class="pagenum">[327]</span> -que lhe faziam to bem!... Fallava-lhe como a -criancinha pequena: dizia-lhe: isso vai passar, -manh ests boa, vamos passear. Mas o seu olhar -ancioso estava marejado de lagrimas! Ou ento pedia-lhe: -Melhora, sim? Faze-me a vontade, minha -querida, melhora!... E ella queria tanto melhorar, +que lhe faziam tão bem!... Fallava-lhe como a +criancinha pequena: dizia-lhe: «isso vai passar, +ámanhã estás boa, vamos passear». Mas o seu olhar +ancioso estava marejado de lagrimas! Ou então pedia-lhe: +«Melhora, sim? Faze-me a vontade, minha +querida, melhora!...» E ella queria tanto melhorar, que sentia como uma ligeira onda de vida que voltava, lhe refrescava o sangue! <br /> <br /> -Nos primeiros dias da convalescena era elle que -a vestia; ajoelhava-se para lhe calar os sapatos, -embrulhava-a no roupo, vinha estendel-a na +Nos primeiros dias da convalescença era elle que +a vestia; ajoelhava-se para lhe calçar os sapatos, +embrulhava-a no roupão, vinha estendel-a na <em>causeuse</em>, -sentava-se ao p d'ella a lr-lhe romances, +sentava-se ao pé d'ella a lêr-lhe romances, desenhar-lhe paizagens, recortar-lhe soldados de papel. -E dependia toda d'elle, no tinha mais ninguem -no mundo para a tratar, para soffrer, chorar por ella—seno -elle! Adormecia sempre com as mos -nas suas, porque a doena deixra-lhe um vago medo -dos pesadlos da febre; e o pobre Jorge, para a -no acordar, alli ficava com a mo presa, horas, sem -se mover. Deitava-se vestido n'um colxosito ao p +E dependia toda d'elle, não tinha mais ninguem +no mundo para a tratar, para soffrer, chorar por ella—senão +elle! Adormecia sempre com as mãos +nas suas, porque a doença deixára-lhe um vago medo +dos pesadêlos da febre; e o pobre Jorge, para a +não acordar, alli ficava com a mão presa, horas, sem +se mover. Deitava-se vestido n'um colxãosito ao pé d'ella. Muitas vezes, acordando de noite, o tinha visto a limpar as lagrimas; d'alegria, de certo, porque -ella ento estava salva! o medico, o bom dr. Caminha, -tinha-o dito: Est livre de perigo, agora refazer -esse corpinho. E Jorge, o pobre Jorge, coitado, -sem dizer nada, tinha tomado as mos do velho,—tinha-as +ella então estava salva! o medico, o bom dr. Caminha, +tinha-o dito: «Está livre de perigo, agora é refazer +esse corpinho». E Jorge, o pobre Jorge, coitado, +sem dizer nada, tinha tomado as mãos do velho,—tinha-as coberto de beijos! <br /> <br /> E agora, quando elle soubesse, quando elle voltasse! @@ -12735,16 +12695,16 @@ Quando ao entrar alli na alcova—visse os dous travesseirinhos, ainda! Ella iria longe, com outro, <span class="pagenum"><a name="p328" id="p328">[328]</a></span> por caminhos estranhos, ouvindo outra lingua. -Que horror! E elle alli estaria, n'aquella casa s, -chorando, abraado a Sebastio. Quantas memorias +Que horror! E elle alli estaria, n'aquella casa só, +chorando, abraçado a Sebastião. Quantas memorias d'ella para o torturar! Os seus vestidos, as suas chinellinhas, os seus pentes, toda a casa! Que vida -triste, a d'elle! Dormiria alli <em>s</em>! J no teria +triste, a d'elle! Dormiria alli <em>só</em>! Já não teria ninguem -para o acordar de manh com um beijinho, -passar-lhe o brao pelo pescoo, dizer-lhe: <em> tarde, -Jorge!</em> Tudo acabra para ambos. Nunca mais!—Rompeu -a chorar, de bruos sobre a cama... <br /> +para o acordar de manhã com um beijinho, +passar-lhe o braço pelo pescoço, dizer-lhe: <em>é tarde, +Jorge!</em> Tudo acabára para ambos. Nunca mais!—Rompeu +a chorar, de bruços sobre a cama... <br /> <br /> Mas a voz de Juliana fallou alto no corredor com Joanna. Ergueu-se aterrada. Viria ter com ella, aquella @@ -12752,189 +12712,189 @@ infame? Os passos achinellados afastaram-se devagar, e Joanna entrou com o rol e com a lamparina. <br /> <br /> —A snr.<sup>a</sup> Juliana—disse—levantou-se um momento, -mas diz que ainda est mal, coitada. Foi-se -deitar. A senhora no precisa mais nada? <br /> +mas diz que ainda está mal, coitada. Foi-se +deitar. A senhora não precisa mais nada? <br /> <br /> -—No—disse da alcova. <br /> +—Não—disse da alcova. <br /> <br /> Despiu-se; e, prostrada, adormeceu profundamente. <br /> <br /> <br /> <br /> -Juliana em cima no dormia. A dr passra-lhe—e -agitava-se sobre o enxergo, com o diabo -da espertina! como tantas outras noites, nas ultimas -semanas. Porque desde que apanhra a carta no +Juliana em cima não dormia. A dôr passára-lhe—e +agitava-se sobre o enxergão, «com o diabo +da espertina»! como tantas outras noites, nas ultimas +semanas. Porque desde que apanhára a carta no <em>sarcophago</em> -vivia n'uma febre; mas a alegria era to -aguda, a <a href="#e11">esperana</a> to larga +vivia n'uma febre; mas a alegria era tão +aguda, a <a href="#e11">esperança</a> tão larga que a sustentavam, lhe <span class="pagenum">[329]</span> davam saude! Deus emfim tinha-se lembrado d'ella! -Desde que Bazilio comera a vir a casa, tivera logo +Desde que Bazilio começára a vir a casa, tivera logo um palpite, uma cousa que lhe dizia que tinha chegado -emfim a sua vez! A primeira satisfao fra -n'aquella noite em que achra, depois de Bazilio sahir -s dez horas, a travssinha de Luiza cahida ao -p do soph. Mas que exploso de felicidade, quando, +emfim a sua vez! A primeira satisfação fôra +n'aquella noite em que achára, depois de Bazilio sahir +ás dez horas, a travéssinha de Luiza cahida ao +pé do sophá. Mas que explosão de felicidade, quando, depois de tanta espionagem, de tanta canceira, apanhou emfim a carta no <em>sarcophago</em>! Correu ao -soto, leu-a avidamente, e quando viu a importancia -da cousa arrasaram-se-lhe os olhos de lagrimas, +sotão, leu-a avidamente, e quando viu a importancia +da «cousa» arrasaram-se-lhe os olhos de lagrimas, arremessou a sua alma perversa para as alturas, bradando em si, n'um triumpho: <br /> <br /> —Bemdito seja Deus! Bemdito seja Deus! <br /> <br /> -E que havia de fazer <em>quillo</em>?—foi ento a sua -inquietao. Ora pensava em a vender a Luiza por +E que havia de fazer <em>áquillo</em>?—foi então a sua +inquietação. Ora pensava em a vender a Luiza por uma forte somma... mas onde tinha ella o dinheiro? -No; o melhor era esperar a volta de Jorge, e com -ameaas de a publicar, extorquir-lhe <em>um rr</em> de +Não; o melhor era esperar a volta de Jorge, e com +ameaças de a publicar, extorquir-lhe <em>um rôr</em> de libras -por meio d'outra pessoa, j se v, e ella capa! +por meio d'outra pessoa, já se vê, e ella á capa! E em certos dias em que a figura, as <em>toilettes</em>, as passeatas de Luiza a irritavam mais, vinham-lhe -venetas de sahir p'ra a rua, chamar os visinhos, lr -o papel, pl-a mais rasa que a lama, vingar-se da -cabra! <br /> +venetas de sahir p'ra a rua, chamar os visinhos, lêr +o papel, pôl-a mais rasa que a lama, vingar-se da +«cabra»! <br /> <br /> Foi a tia Victoria que a calmou, e a dirigiu. Disse-lhe -logo que para a armadilha ser completa era -necessario uma carta do janota. Comera ento o -lento trabalho de lh'a apanhar! Fra preciso muita +logo «que para a armadilha ser completa era +necessario uma carta do janota». Começára então o +lento trabalho de lh'a apanhar! Fôra preciso muita finura, muita chave experimentada, duas feitas por <span class="pagenum">[330]</span> -moldes de cra, paciencia de gato, habilidades de +moldes de cêra, paciencia de gato, habilidades de ratoneiro! Mas pilhou-a, e que carta! Tinha-a lido com a tia Victoria—que rira, rira!... Sobre tudo o -bilhete em que Bazilio lhe dizia: Hoje no posso -ir, mas espero-te manh s duas; mando-te essa -rosinha, e peo-te que faas o que fizeste outra, -trazel-a no seio, porque to bom quando vens assim, -sentir-te o peitinho perfumado!... A tia Victoria, -suffocada, quil-a mostrar sua velha amiga, -a Pdra, a Pdra gorda, que estava na saleta. <br /> -<br /> -A Pdra torceu-se! Os seus enormes seios, pendentes +bilhete em que Bazilio lhe dizia: «Hoje não posso +ir, mas espero-te ámanhã ás duas; mando-te essa +rosinha, e peço-te que faças o que fizeste á outra, +trazel-a no seio, porque é tão bom quando vens assim, +sentir-te o peitinho perfumado!...» A tia Victoria, +suffocada, quil-a mostrar á sua velha amiga, +a Pêdra, a Pêdra gorda, que estava na saleta. <br /> +<br /> +A Pêdra torceu-se! Os seus enormes seios, pendentes como odres mal cheios, tinham sacudidellas -furiosas de hilaridade. E com as mos nas ilhargas, -rubra, roncando, com o seu vozeiro de trombone: <br /> +furiosas de hilaridade. E com as mãos nas ilhargas, +rubra, roncando, com o seu vozeirão de trombone: <br /> <br /> -—Essa das boas, tia Victoria! Essa de mestre. -No, isso merece ir para os papeis! Ai os bebedos! +—Essa é das boas, tia Victoria! Essa é de mestre. +Não, isso merece ir para os papeis! Ai os bebedos! Raios do diabo! <br /> <br /> -A tia Victoria, ento, disse muito seriamente a +A tia Victoria, então, disse muito seriamente a Juliana: <br /> <br /> —Bem; agora tens a faca e o queijo! Com isso -j pdes fallar d'alto. esperar a occasio. Muito +já pódes fallar d'alto. É esperar a occasião. Muito bons modos, cara prazenteira, sorrisos a fartar para -ella no desconfiar, e o olho lerta. Tens o rato seguro, +ella não desconfiar, e o olho álerta. Tens o rato seguro, deixa-o dar ao rabo! <br /> <br /> E desde esse dia Juliana saboreava com delicias, com gula, muito comsigo—aquelle gozo de a ter -na mo, a Luizinha, a senhora, a patroa, a +«na mão», a Luizinha, a senhora, a patroa, a <em>piorrinha</em>! Via-a aperaltar-se, ir ao homem, cantarolar, comer bem—e pensava com uma voluptuosidade -felina: Anda, folga, folga, que eu c t'a tenho armada! +felina: Anda, folga, folga, que eu cá t'a tenho armada! <span class="pagenum">[331]</span> Aquillo dava-lhe um orgulho perverso. Sentia-se vagamente <em>senhora da casa</em>. Tinha alli fechada -na mo a felicidade, o bom nome, a honra, a paz -dos patres! Que desforra! <br /> +na mão a felicidade, o bom nome, a honra, a paz +dos patrões! Que desforra! <br /> <br /> E o futuro estava certo! <em>Aquillo</em> era dinheiro, o -po da velhice. Ah! tinha-lhe chegado o seu dia! Todos -os dias rezava uma <em>Salv-rainha</em> de graas a -Nossa Senhora, mi dos homens! <br /> -<br /> -Mas agora, depois d'aquella <em>scena</em> com Luiza—no -podia ficar de braos cruzados, com as cartas na -algibeira. Devia sahir de casa, pr-se em campo, fazer -<em>alguma cousa</em>. O que? A tia Victoria que havia +pão da velhice. Ah! tinha-lhe chegado o seu dia! Todos +os dias rezava uma <em>Salvè-rainha</em> de graças a +Nossa Senhora, mãi dos homens! <br /> +<br /> +Mas agora, depois d'aquella <em>scena</em> com Luiza—não +podia ficar de braços cruzados, com as cartas na +algibeira. Devia sahir de casa, pôr-se em campo, fazer +<em>alguma cousa</em>. O que? A tia Victoria é que havia de dizer... <br /> <br /> -Logo pela manh s sete horas, sem tomar o seu -caf, sem fallar a Joanna, desceu devagar, sahiu. <br /> +Logo pela manhã ás sete horas, sem tomar o seu +café, sem fallar a Joanna, desceu devagar, sahiu. <br /> <br /> -A tia Victoria no estava em casa. Gente na saleta -esperava. O snr. Gouva, com a borla do barretinho +A tia Victoria não estava em casa. Gente na saleta +esperava. O snr. Gouvêa, com a borla do barretinho muito arrebitada, escrevinhava, dobrado, cuspilhando o seu catarrho. Juliana deu os <em>bons dias</em> em redor, e sentou-se a um canto, direita, com a sua sombrinha nos joelhos. <br /> <br /> Conversava-se: e uma mulher de trinta annos, -picada das bexigas, que estava sentada no canap, +picada das bexigas, que estava sentada no canapé, depois de ter dado um sorriso a Juliana, continuou, voltada para uma gordita com um chale de quadrados vermelhos: <br /> <br /> -—Pois no imagina, snr.<sup>a</sup> Anna, no faz ida! - uma desgraa! todas as noites como um carro. -s vezes at acordo com o barulho que elle faz a fallar -s, a tropear na escada... Eu, do que tenho mais +—Pois não imagina, snr.<sup>a</sup> Anna, não faz idéa! +É uma desgraça! É todas as noites como um carro. +Ás vezes até acordo com o barulho que elle faz a fallar +só, a tropeçar na escada... Eu, do que tenho mais <span class="pagenum">[332]</span> -medo, que o demonio adormea com a luz e haja -um fogo. Ah! de todo! <br /> +medo, é que o demonio adormeça com a luz e haja +um fogo. Ah! é de todo! <br /> <br /> —Quem?—perguntou um rapazola bonito, com -uma blusa de trintanario, que fallava de p a um -criado alto, de suias e gravata branca enxovalhada. <br /> +uma blusa de trintanario, que fallava de pé a um +criado alto, de suiças e gravata branca enxovalhada. <br /> <br /> -—O Cunha, o filho do meu patro. uma desgraa! <br /> +—O Cunha, o filho do meu patrão. É uma desgraça! <br /> <br /> —Piteireiro, hein?—disse o rapazola, enrolando o cigarro. <br /> <br /> -—Um horror! Eu pela manh nem posso entrar -no quarto, que um cheiro... A mi, coitadinha, -chora, rala-se; o rapaz j esteve para ser posto fra -do emprego. Ai! no estou nada contente, nada contente! <br /> +—Um horror! Eu pela manhã nem posso entrar +no quarto, que é um cheiro... A mãi, coitadinha, +chora, rala-se; o rapaz já esteve para ser posto fóra +do emprego. Ai! não estou nada contente, nada contente! <br /> <br /> -—Pois olhe que por l tambem ha desgosto +—Pois olhe que por lá tambem ha desgosto grande—disse, baixando a voz, a do chale de quadrados. <br /> <br /> Os dous homens aproximaram-se. <br /> <br /> -—O senhor—continuou ella com gestos aterrados— -um desafro com a cunhada!... A senhora -sabe, e aquillo so questes de dia e de noite! As -duas irms andam n'uma bulha pegada. O homem -toma as dres da rapariga, a mulher pe-se aos gritos... +—O senhor—continuou ella com gestos aterrados—é +um desafôro com a cunhada!... A senhora +sabe, e aquillo são questões de dia e de noite! As +duas irmãs andam n'uma bulha pegada. O homem +toma as dôres da rapariga, a mulher põe-se aos gritos... Ai! aquillo vem a acabar mal! <br /> <br /> -—E ento se a gente tem l o seu descuido—disse -o da gravata branca com indignao— aqui +—E então se a gente tem lá o seu descuido—disse +o da gravata branca com indignação—é aqui d'el-rei, e d'aqui e d'alli! <br /> <br /> -—L a sua gente socegada, snr. Joo—observou +—Lá a sua gente é socegada, snr. João—observou a picada das bexigas. <br /> <br /> -— boa gente. As raparigas namoradeiras... +—É boa gente. As raparigas namoradeiras... <span class="pagenum"><a name="p333" id="p333">[333]</a></span> Proveito das criadas, apanham o seu vestidito, a -sua placa... Mas os velhotes uma santa gente, a -verdade a verdade! E come-se bem! <br /> +sua placa... Mas os velhotes é uma santa gente, a +verdade é a verdade! E come-se bem! <br /> <br /> E voltando-se para o trintanario, <a href="#e12">batendo-lhe</a> no hombro, com uma voz que o admirava e que o invejava: <br /> <br /> -—Mas isto sim! Isto que leval-a! <br /> +—Mas isto sim! Isto é que é leval-a! <br /> <br /> -O rapazola sorriu com satisfao: <br /> +O rapazola sorriu com satisfação: <br /> <br /> -—Ora! so mais as vozes do que as nozes! <br /> +—Ora! são mais as vozes do que as nozes! <br /> <br /> -—V l, mostra l—disse o da gravata branca -tocando-lhe com o cotovlo—mostra l! <br /> +—Vá lá, mostra lá—disse o da gravata branca +tocando-lhe com o cotovêlo—mostra lá! <br /> <br /> O rapaz fez-se rogado, e depois de gingar da -cintura, arregaando a blusa, tirou do bolso do collete +cintura, arregaçando a blusa, tirou do bolso do collete de riscadinho um relogio d'ouro. <br /> <br /> —Muito bonito! Rica prenda!—disseram as duas @@ -12945,14 +12905,14 @@ queixo. <br /> <br /> O da gravata branca indignou-se: <br /> <br /> -—Ora seu marto!—E baixo para as raparigas:—Suor -do seu rosto, hein!— o seraphim da patra, -uma senhora da alta que aquillo so tudo sdas, +—Ora seu marôto!—E baixo para as raparigas:—Suor +do seu rosto, hein!—É o seraphim da patrôa, +uma senhora da alta que aquillo são tudo sêdas, muitissimo boa mulher, um bocado entradota, mas -muitissimo boa mulher, recebe d'estas lembranas, +muitissimo boa mulher, recebe d'estas lembranças, um relogio d'um par de moedas—e ainda falla! <br /> <br /> -O rapazola disse ento, enterrando as mos na +O rapazola disse então, enterrando as mãos na algibeira: <br /> <br /> —E se quizer agora, ha-de largar a corrente! <br /> @@ -12961,229 +12921,229 @@ algibeira: <br /> branca.—Uma gente que tem ahi pela baixa <span class="pagenum">[334]</span> correntezas de casas! Metade da rua dos Retrozeiros - d'ella! <br /> +é d'ella! <br /> <br /> —Mas muito agarrada!—disse o rapazola. E bamboleando o corpo, com o cigarro ao canto da bocca:—Estou com ella ha dous mezes, e ainda se -no desabotoou seno com o relogio e tres libras em +não desabotoou senão com o relogio e tres libras em ouro!... Que eu, como quem diz, um dia passo-lhe -o p!—E cofiando o cabello para a testa:—No +o pé!—E cofiando o cabello para a testa:—Não faltam mulheres! e das que tem <em>Dom</em>! <br /> <br /> Mas a tia Victoria entrou, muito azafamada, com -o chale no brao; e vendo Juliana: <br /> +o chale no braço; e vendo Juliana: <br /> <br /> -—Ol! por c! Tive que dar umas voltas, estou +—Olá! por cá! Tive que dar umas voltas, estou na rua desde as seis. Bons dias, snr.<sup>a</sup> Theodosia; -bons dias, Anna. Viva, temos por c o alfenim! Entra -c p'ra dentro, Juliana! Eu j venho, meus pombinhos, - um instante! <br /> +bons dias, Anna. Viva, temos por cá o alfenim! Entra +cá p'ra dentro, Juliana! Eu já venho, meus pombinhos, +é um instante! <br /> <br /> -Levou-a para o outro quarto, para o lado do saguo: <br /> +Levou-a para o outro quarto, para o lado do saguão: <br /> <br /> -—E ento, que ha de novo? <br /> +—E então, que ha de novo? <br /> <br /> -Juliana pz-se a contar longamente a <em>scena</em> da +Juliana pôz-se a contar longamente a <em>scena</em> da vespera, o desmaio... <br /> <br /> —Pois minha rica—disse a tia Victoria—o que -est feito, est feito; no ha tempo a perder; mos - obra! Tu vaes ao Brito, ao htel, e +está feito, está feito; não ha tempo a perder; é mãos +á obra! Tu vaes ao Brito, ao hótel, e entendes-te com elle. <br /> <br /> -Juliana recusou-se logo: no se atrevia, tinha +Juliana recusou-se logo: não se atrevia, tinha medo... <br /> <br /> -A tia Victoria reflectiu, coando o ouvido; foi dentro, -cochichou com o tio Gouva, e voltando, fechando +A tia Victoria reflectiu, coçando o ouvido; foi dentro, +cochichou com o tio Gouvêa, e voltando, fechando a porta do quarto: <br /> <br /><span class="pagenum">[335]</span> -—Arranja-se quem v. Tens tu as cartas? <br /> +—Arranja-se quem vá. Tens tu as cartas? <br /> <br /> Juliana tirou da algibeira uma velha carteirinha de marroquim escarlate. Mas hesitou um momento, -olhou a tia Victoria com desconfiana. <br /> +olhou a tia Victoria com desconfiança. <br /> <br /> —Tens medo de largar os papeis, creatura?—exclamou -offendida a velha.—Arranja-te tu, ento +offendida a velha.—Arranja-te tu, então arranja-te tu... <br /> <br /> Juliana deu-lh'as logo. Mas que as guardasse, que tivesse cautela!... <br /> <br /> -—A pessoa—disse a tia Victoria—vai manh - noite fallar com o Brito, e pede-lhe um conto +—A pessoa—disse a tia Victoria—vai ámanhã +á noite fallar com o Brito, e pede-lhe um conto de reis! <br /> <br /> Juliana teve um deslumbramento. Um conto de reis! A tia Victoria estava a brincar! <br /> <br /> —Ora essa! Que pensas tu? Por uma carta, -que quasi no tinha mal nenhum, pagou uma pessoa +que quasi não tinha mal nenhum, pagou uma pessoa que bate ahi o Chiado de carruagem—ainda hontem a vi com uma pequerrucha que tem—pagou trezentos mil reis. E em bellas notas. Pagou-os o -janota, j se sabe, foi o janota que pagou. Se fosse -outro, no digo, mas o Brito! rico, um man-rtas, +janota, já se sabe, foi o janota que pagou. Se fosse +outro, não digo, mas o Brito! É rico, é um man-rôtas, cahe logo... <br /> <br /> -Juliana, muito branca, agarrou-lhe o brao, tremula: <br /> +Juliana, muito branca, agarrou-lhe o braço, tremula: <br /> <br /> -—Oh tia Victoria, dava-lhe um crte de sda. <br /> +—Oh tia Victoria, dava-lhe um córte de sêda. <br /> <br /> -—Azul! at j te digo a cr! <br /> +—Azul! até já te digo a côr! <br /> <br /> -—Mas o Brito homem muito teso, tia Victoria, +—Mas o Brito é homem muito teso, tia Victoria, se lhe tira as cartas, se lhe faz alguma! <br /> <br /> A tia Victoria fitou-a, com desdem: <br /> <br /> —Sahes-me uma simploria! Imaginas que eu <span class="pagenum">[336]</span> -mando l algum tolo? Nem as cartas vo, o que vai - uma copia! Olha quem! O melro que l ha-de ir! <br /> +mando lá algum tolo? Nem as cartas vão, o que vai +é uma copia! Olha quem! O melro que lá ha-de ir! <br /> <br /> E depois de reflectir um momento: <br /> <br /> —Tu vai-te para casa... <br /> <br /> -—No, l isso no volto... <br /> +—Não, lá isso não volto... <br /> <br /> -—Tambem tens razo. At vr em que param -as modas, vem c dormir. Jantas c hoje; tenho uma +—Tambem tens razão. Até vêr em que param +as modas, vem cá dormir. Jantas cá hoje; tenho uma rica pescada... <br /> <br /> -—Mas no haver perigo, tia Victoria, se o Brito -vai policia... <br /> +—Mas não haverá perigo, tia Victoria, se o Brito +vai á policia... <br /> <br /> A tia Victoria encolheu os hombros, e impacientada: <br /> <br /> -—Olha, vai-te, que me ests a emphrenesiar! Policia! -Qual policia! Essas cousas levam-se l policia... -Deixa a cousa commigo! Adeus—e s quatro +—Olha, vai-te, que me estás a emphrenesiar! Policia! +Qual policia! Essas cousas levam-se lá á policia... +Deixa a cousa commigo! Adeus—e ás quatro para jantar, hein! <br /> <br /> Juliana sahiu como levada pelo ar! Um conto de -reis! <em>Era o conto de reis</em> que voltava, o que j um +reis! <em>Era o conto de reis</em> que voltava, o que já um dia entrevira, que lhe fugira, que lhe vinha agora -cahir na mo, com um tlin-tlin de libras e um +cahir na mão, com um tlin-tlin de libras e um <em>frou-frou</em> de notas! E o cerebro enchia-se-lhe confusamente de perspectivas differentes, todas maravilhosas: um mostrador de capellista onda ella venderia! -um marido ao seu lado, s horas da ca! pares de +um marido ao seu lado, ás horas da cêa! pares de botinas das boas, das <em>chics</em>. Onde poria o dinheiro? -No Banco? No; no fundo da arca—para estar mais -seguro, mais mo! <br /> +No Banco? Não; no fundo da arca—para estar mais +seguro, mais á mão! <br /> <br /> -Para passar a sua manh, comprou uma quarta de -rebuados, e foi-se sentar no Passeio, com a sombrinha -aberta, deliciando-se, ruminando j a sua vida +Para passar a sua manhã, comprou uma quarta de +rebuçados, e foi-se sentar no Passeio, com a sombrinha +aberta, deliciando-se, ruminando já a sua vida <span class="pagenum"><a name="p337" id="p337">[337]</a></span> -rica, julgando-se j senhora; mesmo fez olho a um +rica, julgando-se já senhora; mesmo fez olho a um proprietario pacifico e rubicundo—que se afastou escandalisado! <br /> <br /> -quella hora Luiza acordava. E sentando-se bruscamente -na cama:— hoje!—foi o seu primeiro +Áquella hora Luiza acordava. E sentando-se bruscamente +na cama:—É hoje!—foi o seu primeiro pensamento. Um susto, uma tristeza horrivel contrahiram-lhe -o corao. Comeou depois a vestir-se, -muito nervosa com a ida de vr Juliana! Estava -mesmo imaginando fechar-se, no almoar, sahir p -ante p s onze horas, ir procurar Bazilio ao hotel, -quando a voz de Joanna disse porta do quarto: <br /> +o coração. Começou depois a vestir-se, +muito nervosa com a idéa de vêr Juliana! Estava +mesmo imaginando fechar-se, não almoçar, sahir pé +ante pé ás onze horas, ir procurar Bazilio ao hotel, +quando a voz de Joanna disse á porta do quarto: <br /> <br /> —A senhora faz favor? <br /> <br /> -Comeou logo a contar, muito espantada, que a -snr.<sup>a</sup> Juliana tinha sahido de manh, ainda no voltra, +Começou logo a contar, muito espantada, que a +snr.<sup>a</sup> Juliana tinha sahido de manhã, ainda não voltára, estava tudo por arrumar... <br /> <br /> -—Bem, arranje-me o almoo, eu j vou...—Que +—Bem, arranje-me o almoço, eu já vou...—Que allivio para ella! <br /> <br /> -Calculou logo que Juliana deixra a casa. Para +Calculou logo que Juliana deixára a casa. Para que? Para lhe armar alguma, de certo! O melhor era sahir immediatamente... Podia esperar Bazilio no <em>Paraiso</em>. <br /> <br /> -Foi sala de jantar, bebeu um gole de ch, <a href="#e13">de -p</a>, pressa. <br /> +Foi á sala de jantar, bebeu um gole de chá, <a href="#e13">de +pé</a>, á pressa. <br /> <br /> —A snr.<sup>a</sup> Juliana ter-lhe-ha dado alguma cousa?—veio dizer Joanna assombrada. <br /> <br /> Luiza encolheu os hombros, respondeu vagamente: <br /> <br /> -—Depois se saber... <br /> +—Depois se saberá... <br /> <br /> -Era hora e meia, foi pr o chapo. O corao -batia-lhe alto, e apesar do terror de vr entrar Juliana, +Era hora e meia, foi pôr o chapéo. O coração +batia-lhe alto, e apesar do terror de vêr entrar Juliana, <span class="pagenum">[338]</span> -no se decidia a sahir; sentou-se mesmo, com +não se decidia a sahir; sentou-se mesmo, com o sacco de marroquim nos joelhos. Vamos! pensou emfim.—Ergueu-se; mas parecia que alguma cousa de subtil e de forte a prendia, a enleava... Entrou -na alcova devagar: o seu roupo estava cahido -aos ps da cama, as suas chinellinhas sobre o tapete -felpudo...—Que desgraa! disse alto. Veio ao toucador, +na alcova devagar: o seu roupão estava cahido +aos pés da cama, as suas chinellinhas sobre o tapete +felpudo...—Que desgraça! disse alto. Veio ao toucador, mexeu nos pentes, abriu as gavetas; de repente entrou na sala, foi ao album, tirou a photographia de Jorge, metteu-a toda tremula no sacco de marroquim, olhou ainda em roda como desvairada, sahiu, atirou com a porta, desceu a escada correndo. <br /> <br /> - Patriarchal passava um <em>coup de praa</em>. Tomou-o, +Á Patriarchal passava um <em>coupé de praça</em>. Tomou-o, mandou-o ir ao <em>Hotel Central</em>. <br /> <br /> -O snr. Brito sahira logo de manh cedo, disse o +O snr. Brito sahira logo de manhã cedo, disse o porteiro muito azafamado. De certo algum paquete -chegra, porque entravam bagagens, fortes malas +chegára, porque entravam bagagens, fortes malas cobertas d'oleado, caixas de madeira debruadas de ferro; passageiros com ar espantado da chegada, ainda -entontecidos do balouo do mar, fallavam, chamavam. +entontecidos do balouço do mar, fallavam, chamavam. Aquelle movimento animou-a: veio-lhe um desejo -de viagens, do ruido nocturno das <em>gares</em> claridade -do gaz, da agitao alegre das partidas nas -manhs frescas, sobre o tombadilho dos paquetes! <br /> +de viagens, do ruido nocturno das <em>gares</em> á claridade +do gaz, da agitação alegre das partidas nas +manhãs frescas, sobre o tombadilho dos paquetes! <br /> <br /> -Deu ao cocheiro a adresse do <em>Paraiso</em>. E maneira +Deu ao cocheiro a adresse do <em>Paraiso</em>. E á maneira que o trem trotava parecia-lhe que toda a sua vida passada, Juliana, a casa, se esbatiam, se dissipavam -n'um horisonte abandonado. porta d'um livreiro -julgou entrevr Julio; debruou-se pela portinhola, -precipitadamente; no o avistou, teve pena: +n'um horisonte abandonado. Á porta d'um livreiro +julgou entrevêr Julião; debruçou-se pela portinhola, +precipitadamente; não o avistou, teve pena: <span class="pagenum">[339]</span> -ia-se sem vr um amigo da casa! Todos agora, Julio, +ia-se sem vêr um amigo da casa! Todos agora, Julião, Ernestinho, o Conselheiro, D. Felicidade lhe pareciam adoraveis, com qualidades nobres, que nunca percebera, que repentinamente tomavam um grande -encanto. E o pobre Sebastio, to bom! Nunca mais +encanto. E o pobre Sebastião, tão bom! Nunca mais lhe ouviria tocar a sua <em>Malaguenha</em>! <br /> <br /> -Ao fim da rua do Ouro o <em>coup</em> parou n'um embarao -de carroas, e Luiza viu no passeio ao lado +Ao fim da rua do Ouro o <em>coupé</em> parou n'um embaraço +de carroças, e Luiza viu no passeio ao lado o Castro, o Castro dos oculos, o banqueiro, o que -Leopoldina lhe dizia que tinha uma paixo por -ella: um rapazito rto offerecia-lhe cautelas; e o +Leopoldina lhe dizia que «tinha uma paixão por +ella»: um rapazito rôto offerecia-lhe cautelas; e o Castro nedio, com os dous pollegares nas algibeiras -do collete branco, dizia graas ao rapaz, com um -desdem ricao, dardejando olhadellas sobre Luiza, -atravs dos seus oculos d'ouro. Ella, pelo canto do -olho, observava-o: tinha uma paixo por ella, aquelle +do collete branco, dizia graças ao rapaz, com um +desdem ricaço, dardejando olhadellas sobre Luiza, +através dos seus oculos d'ouro. Ella, pelo canto do +olho, observava-o: tinha uma paixão por ella, aquelle homem, que horror! Achava-o medonho, com o seu -ventre panudo, a perninha curta. A lembrana de +ventre pançudo, a perninha curta. A lembrança de Bazilio atravessou-a, a sua linda figura!...—e bateu -nos vidros impaciente, com pressa de o vr. <br /> +nos vidros impaciente, com pressa de o vêr. <br /> <br /> O trem partiu emfim. O Rocio reluzia ao sol; do -Americano, parado esquina, gente descia apressada, -de calas brancas, vestidos leves, vinda de Belem, -de Pedrouos; preges cantavam.—Todos alli -ficavam nas suas familias, nas suas felicidades, s +Americano, parado á esquina, gente descia apressada, +de calças brancas, vestidos leves, vinda de Belem, +de Pedrouços; pregões cantavam.—Todos alli +ficavam nas suas familias, nas suas felicidades, só ella partia! <br /> <br /> Na rua Occidental, viu vir a D. Camilla—uma @@ -13192,130 +13152,130 @@ amantes. Parecia gravida; e adiantava-se devagar, com a face branca satisfeita, uma lassitude do corpo <span class="pagenum">[340]</span> arredondado, passeando um marmanjosinho de jaqueta -cr de pinho, uma pequerrucha de sainhas tufadas, +côr de pinhão, uma pequerrucha de sainhas tufadas, e adiante uma ama, vestida de lavradeira, -empurrava um carrinho de mo onde um bb se +empurrava um carrinho de mão onde um bébé se babava. E a Camilla, feliz, vinha tranquillamente pela rua expondo as suas fecundidades adulteras! Era muito festejada, ninguem dizia mal d'ella; era rica, -dava <em>soires</em>...—O que o mundo!—pensava +dava <em>soirées</em>...—O que é o mundo!—pensava Luiza. <br /> <br /> -O trem parou porta do <em>Paraiso</em>, era meio dia. -A portinha em cima estava fechada: e a patra appareceu -logo, ciciando que sentia muitissimo, mas -s o senhor que tinha a chavesinha, se a senhora -quizesse descanar... N'este momento outra carruagem +O trem parou á porta do <em>Paraiso</em>, era meio dia. +A portinha em cima estava fechada: e a patrôa appareceu +logo, ciciando que «sentia muitissimo, mas +só o senhor é que tinha a chavesinha, se a senhora +quizesse descançar...» N'este momento outra carruagem chegou, e Bazilio appareceu galgando os degraus. <br /> <br /> -—At que emfim!—exclamou abrindo a porta.—Porque -no vieste hontem?... <br /> +—Até que emfim!—exclamou abrindo a porta.—Porque +não vieste hontem?... <br /> <br /> —Ah! se tu soubesses... <br /> <br /> -E, agarrando-lhe os braos, cravando os olhos +E, agarrando-lhe os braços, cravando os olhos n'elle: <br /> <br /> —Bazilio, sabes, estou perdida! <br /> <br /> —Que ha? <br /> <br /> -Luiza atirra o sacco de marroquim para o canap, +Luiza atirára o sacco de marroquim para o canapé, e, d'um folego, contou-lhe a historia da carta apanhada nos papeis, as d'elle roubadas, a <em>scena</em> no -quarto...—O que me resta fugir. Aqui estou. Leva-me. +quarto...—O que me resta é fugir. Aqui estou. Leva-me. Tu disseste que podias, tens-l'o dito muitas vezes. Estou prompta. Trouxe aquelle sacco, com o -necessario, lenos, luvas... hein? +necessario, lenços, luvas... hein? <br /> <br /><span class="pagenum">[341]</span> -Bazilio com as mos nos bolsos, fazendo tilintar +Bazilio com as mãos nos bolsos, fazendo tilintar o dinheiro e as chaves, seguia attonito os seus gestos, as suas palavras. <br /> <br /> -—Isso s a ti!—exclamou.—Que douda! Que -mulher!—E muito excitado:—Isso l questo de -fugir? Que ests tu a fallar em fugir? uma questo -de dinheiro. O que ella quer dinheiro. vr +—Isso só a ti!—exclamou.—Que douda! Que +mulher!—E muito excitado:—Isso é lá questão de +fugir? Que estás tu a fallar em fugir? É uma questão +de dinheiro. O que ella quer é dinheiro. É vêr quanto quer, e pagar-se-lhe! <br /> <br /> -—No, no!—fez Luiza—No posso ficar!—Tinha -uma afflico na voz. A mulher venderia a +—Não, não!—fez Luiza—Não posso ficar!—Tinha +uma afflicção na voz. A mulher venderia a carta, mas conservava o segredo: a todo o tempo -podia fallar, Jorge saber: estava perdida, no tinha -coragem de voltar para casa!—No sinto um momento -de descano, em quanto estiver em Lisboa. -Partimos hoje, sim? Se no pdes, manh. Eu vou +podia fallar, Jorge saber: estava perdida, não tinha +coragem de voltar para casa!—Não sinto um momento +de descanço, em quanto estiver em Lisboa. +Partimos hoje, sim? Se não pódes, ámanhã. Eu vou para algum hotel, aonde ninguem saiba, escondo-me -esta noite. Mas, manh vamos. Se elle sabe, mata-me, -Bazilio! Sim, dize que sim!—Agarrra-se a +esta noite. Mas, ámanhã vamos. Se elle sabe, mata-me, +Bazilio! Sim, dize que sim!—Agarrára-se a elle, procurava avidamente com os seus olhos o consentimento dos d'elle. <br /> <br /> Bazilio desprendeu-se brandamente: <br /> <br /> -—Ests douda, Luiza, tu no ests em ti! Pde -l pensar-se em fugir! Era um escandalo atroz, eramos +—Estás douda, Luiza, tu não estás em ti! Póde +lá pensar-se em fugir! Era um escandalo atroz, eramos apanhados de certo, com a policia, com os telegraphos! - impossivel! Fugir bom nos romances! -E depois, minha filha, no um caso para isso! -uma simples questo de dinheiro... <br /> +É impossivel! Fugir é bom nos romances! +E depois, minha filha, não é um caso para isso! É +uma simples questão de dinheiro... <br /> <br /> Luiza fazia-se branca, ouvindo-o. <br /> <br /> -—E alm d'isso—continuou Bazilio, muito agitado, -pelo quarto—eu no estou preparado, nem +—E além d'isso—continuou Bazilio, muito agitado, +pelo quarto—eu não estou preparado, nem <span class="pagenum">[342]</span> -tu! No se foge assim. Ficas desacreditada para toda +tu! Não se foge assim. Ficas desacreditada para toda a vida, sem remedio, Luiza. Uma mulher que foge, -deixa de ser a snr.<sup>a</sup> D. Fulana, a Fulana, a que +deixa de ser a snr.<sup>a</sup> D. Fulana, é a Fulana, a que fugiu, a desavergonhada, uma concubina! Eu tenho de certo de ir ao Brazil, onde has-de tu ficar? Queres -ir tambem, um mez n'um beliche, arriscar-te +ir tambem, um mez n'um beliche, arriscar-te á febre amarella? E se teu marido nos persegue se formos detidos na fronteira? Achas bonito voltar entre dous policias, e ir passar um anno ao Limoeiro? -O teu caso simplicissimo. Entendes-te com essa -creatura, d-se-lhe um par de libras, que o que +O teu caso é simplicissimo. Entendes-te com essa +creatura, dá-se-lhe um par de libras, que é o que ella quer, e ficas em tua casa, socegada, respeitada -como d'antes—smente mais acautelada! Aqui est! <br /> +como d'antes—sómente mais acautelada! Aqui está! <br /> <br /> Aquellas palavras cahiam sobre os planos de -Luiza, como machadadas que derrubam arvores. s +Luiza, como machadadas que derrubam arvores. Ás vezes a verdade que ellas continham atravessava-a irresistivelmente, viva como um relampago, desagradavel como um gume frio. Mas via n'aquella recusa -uma ingratido, um abandono. Depois de se ter -installado, pela imaginao, n'uma segurana feliz, +uma ingratidão, um abandono. Depois de se ter +installado, pela imaginação, n'uma segurança feliz, longe, em Paris—parecia-lhe intoleravel ter de voltar -para casa, de cabea baixa, soffrer Juliana, esperar +para casa, de cabeça baixa, soffrer Juliana, esperar a morte; e os contentamentos que entrevira n'aquelle outro destino, agora que lhe fugiam d'entre -as mos, pareciam-lhe maravilhosos, quasi indispensaveis! +as mãos, pareciam-lhe maravilhosos, quasi indispensaveis! E depois de que servia resgatar a carta a dinheiro? A creatura saberia o seu segredo! E a vida seria amarga, tendo sempre em volta de si aquelle perigo a rondar! <br /> <br /> -Ficra calada, como perdida n'uma reflexo vaga; +Ficára calada, como perdida n'uma reflexão vaga; <span class="pagenum">[343]</span> -e de repente erguendo a cabea, com um olhar brilhante: <br /> +e de repente erguendo a cabeça, com um olhar brilhante: <br /> <br /> -—Ento, dize!... <br /> +—Então, dize!... <br /> <br /> —Mas estou-te a dizer, filha... <br /> <br /> -—No queres? <br /> +—Não queres? <br /> <br /> -—No!—exclamou Bazilio com fora.—Se tu -ests douda, no estou eu! <br /> +—Não!—exclamou Bazilio com força.—Se tu +estás douda, não estou eu! <br /> <br /> —Oh! pobre de mim, pobre de mim! <br /> <br /> -Deixou-se cahir no soph, tapou o rosto com as -mos. Soluos baixos sacudiam-lhe o peito. <br /> +Deixou-se cahir no sophá, tapou o rosto com as +mãos. Soluços baixos sacudiam-lhe o peito. <br /> <br /> -Bazilio sentou-se ao p d'ella. Aquellas lagrimas +Bazilio sentou-se ao pé d'ella. Aquellas lagrimas mortificavam-no, e impacientavam-no. <br /> <br /> —Mas, santo nome de Deus, escuta-me! <br /> @@ -13323,8 +13283,8 @@ mortificavam-no, e impacientavam-no. <br /> Ella voltou para elle os olhos que reluziam sob o pranto: <br /> <br /> -—Para que dizias ento, tantas vezes, que seriamos -to felizes, que se eu quizesse... <br /> +—Para que dizias então, tantas vezes, que seriamos +tão felizes, que se eu quizesse... <br /> <br /> Bazilio ergueu-se bruscamente: <br /> <br /> @@ -13332,118 +13292,118 @@ Bazilio ergueu-se bruscamente: <br /> n'um wagon, vir para Paris, viver commigo, ser a minha amante? <br /> <br /> -—Sahi de casa p'ra sempre, ahi est o que eu +—Sahi de casa p'ra sempre, ahi está o que eu fiz! <br /> <br /> —Mas vaes voltar p'ra casa!—exclamou elle, quasi com colera.—Por que havias de tu fugir? por -amor? ento deviamos ter partido ha um mez, no -ha razo agora para irmos. Para que, ento? +amor? então deviamos ter partido ha um mez, não +ha razão agora para irmos. Para que, então? Para evitar um escandalo? com um escandalo maior, -no verdade? um escandalo irreparavel, medonho! +não é verdade? um escandalo irreparavel, medonho! Estou-te a fallar como um amigo, Luiza!—Tomou-lhe <span class="pagenum">[344]</span> -as mos, com muita ternura:—Tu imaginas que -eu no seria feliz em ir viver comtigo para Paris? +as mãos, com muita ternura:—Tu imaginas que +eu não seria feliz em ir viver comtigo para Paris? Mas vejo os resultados, tenho outra experiencia. O escandalo todo evita-se com umas poucas de libras. -Tu imaginas que a mulher vai-se pr a fallar? O seu -interesse safar-se, desapparecer; sabe perfeitamente +Tu imaginas que a mulher vai-se pôr a fallar? O seu +interesse é safar-se, desapparecer; sabe perfeitamente o que fez, que te roubou, que usou de chaves -falsas. A questo pagar-lhe. <br /> +falsas. A questão é pagar-lhe. <br /> <br /> Ella disse, com uma voz lenta: <br /> <br /> —E o dinheiro, onde o tenho eu? <br /> <br /> -—Est claro que o dinheiro tenho-o eu!—E -depois de uma pausa:—No muito, estou mesmo um +—Está claro que o dinheiro tenho-o eu!—E +depois de uma pausa:—Não muito, estou mesmo um pouco atrapalhado, mas emfim...—Hesitou, disse:—se -a creatura quizer duzentos mil reis, do-se-lhe! <br /> +a creatura quizer duzentos mil reis, dão-se-lhe! <br /> <br /> -—E se no quizer? <br /> +—E se não quizer? <br /> <br /> -—Que ha-de ella querer, ento? Se roubou a -carta para a vender! No para guardar um autographo +—Que ha-de ella querer, então? Se roubou a +carta é para a vender! Não é para guardar um autographo teu! <br /> <br /> Vinham-lhe palavras duras, passeava pelo quarto -exasperado. Que pretenso querer vir com elle para -Paris, embaraar-lhe para sempre a sua vida! E que -despeza to tola, dar um 'rr de libras a uma ladra! +exasperado. Que pretensão querer vir com elle para +Paris, embaraçar-lhe para sempre a sua vida! E que +despeza tão tola, dar um 'rôr de libras a uma ladra! Depois aquelle incidente, a carta de namoro roubada -nos papeis sujos, a criada, a chave falsa do gaveto +nos papeis sujos, a criada, a chave falsa do gavetão dos vestidos—parecia-lhe soberanamente burguez, um pouco pulha. E parando, para acabar: <br /> <br /> —Emfim oferece-lhe trezentos mil reis, se quizeres. -Mas pelo amor de Deus, no faas outra; no -estou para pagar as tuas distraces a trezentos mil +Mas pelo amor de Deus, não faças outra; não +estou para pagar as tuas distracções a trezentos mil reis cada uma! <br /> <br /><span class="pagenum">[345]</span> Luiza fez-se livida, como se elle lhe tivesse cuspido no rosto. <br /> <br /> -—Se uma questo de dinheiro, eu o pagarei, +—Se é uma questão de dinheiro, eu o pagarei, Bazilio! <br /> <br /> -No sabia como. Que lhe importava! Pediria, trabalharia, -empenharia... No o aceitaria d'elle! <br /> +Não sabia como. Que lhe importava! Pediria, trabalharia, +empenharia... Não o aceitaria d'elle! <br /> <br /> Bazilio encolheu os hombros: <br /> <br /> -—Ests-te a dar ares, onde o tens tu? <br /> +—Estás-te a dar ares, onde o tens tu? <br /> <br /> —Que te importa?—exclamou. <br /> <br /> -Bazilio coou a cabea, desesperado. E tomando-lhe -as mos, com uma impaciencia reprimida: <br /> +Bazilio coçou a cabeça, desesperado. E tomando-lhe +as mãos, com uma impaciencia reprimida: <br /> <br /> —Estamos a dizer tolices, filha, estamos a irritar-nos... -Tu no tens dinheiro. <br /> +Tu não tens dinheiro. <br /> <br /> Ella interrompeu-o, agarrou-lhe violentamente o -brao: <br /> +braço: <br /> <br /> —Pois sim, mas falla tu a essa mulher, falla-lhe -tu, arranja tudo. Eu no a quero tornar a vr. Se a +tu, arranja tudo. Eu não a quero tornar a vêr. Se a vejo, morro, acredita. Falla-lhe tu! <br /> <br /> -Bazilio recuou vivamente, e batendo com o p: <br /> +Bazilio recuou vivamente, e batendo com o pé: <br /> <br /> -—Ests douda, mulher! Se eu lhe fallo, ento -pede tudo, ento pede-me a pelle! Isso comtigo. +—Estás douda, mulher! Se eu lhe fallo, então +pede tudo, então pede-me a pelle! Isso é comtigo. Eu dou-te o dinheiro, tu arranja-te! <br /> <br /> —Nem isso me fazes? <br /> <br /> -Bazilio no se conteve: <br /> +Bazilio não se conteve: <br /> <br /> -—No! c'os diabos, no! <br /> +—Não! c'os diabos, não! <br /> <br /> —Adeus! <br /> <br /> -—Tu ests fra de ti, Luiza! <br /> +—Tu estás fóra de ti, Luiza! <br /> <br /> -—No. A culpa minha—dizia, descendo o vo -com as mos tremulas—eu que devo arranjar +—Não. A culpa é minha—dizia, descendo o véo +com as mãos tremulas—eu é que devo arranjar tudo! <br /> <br /><span class="pagenum">[346]</span> E abriu a porta. Bazilio correu a ella, prendeu-a -por um brao. <br /> +por um braço. <br /> <br /> -—Luiza, Luiza! o que queres tu fazer? no podemos +—Luiza, Luiza! o que queres tu fazer? não podemos romper assim! Escuta... <br /> <br /> -—Fujamos ento, salva-me de todo!—gritou -ella, abraando-o anciosamente. <br /> +—Fujamos então, salva-me de todo!—gritou +ella, abraçando-o anciosamente. <br /> <br /> -—Caramba! Se te estou a dizer que no possivel! <br /> +—Caramba! Se te estou a dizer que não é possivel! <br /> <br /> Ella atirou com a porta, desceu as escadas correndo. -O coup esperava-a. <br /> +O coupé esperava-a. <br /> <br /> —Para o Rocio—disse. <br /> <br /> @@ -13453,52 +13413,52 @@ a chorar convulsivamente. <br /> <br /> <br /> Bazilio sahiu do <em>Paraiso</em> muito agitado. As -pretenses +pretensões de Luiza, os seus terrores burgueses, a trivialidade reles do caso, irritavam-no tanto, que tinha -quasi vontade de no voltar ao <em>Paraiso</em>, calar-se, +quasi vontade de não voltar ao <em>Paraiso</em>, calar-se, e <em>deixar correr o marfim</em>! Mas tinha pena d'ella, coitada! E depois, sem a amar appetecia-a: era -to bem feita, to amorosa, as revelaes do vicio -davam-lhe um delirio to adoravel! Um conchegosinho -to picante em quanto estivesse em Lisboa... -Maldita complicao! Ao entrar no hotel, disse ao +tão bem feita, tão amorosa, as revelações do vicio +davam-lhe um delirio tão adoravel! Um conchegosinho +tão picante em quanto estivesse em Lisboa... +Maldita complicação! Ao entrar no hotel, disse ao seu criado: <br /> <br /> -—Quando vier o snr. visconde Reynaldo, que v +—Quando vier o snr. visconde Reynaldo, que vá ao meu quarto. <br /> <br /> Estava alojado no segundo andar, com janellas <span class="pagenum">[347]</span> para o rio. Bebeu um calix de cognac, e estirou-se -no soph. Ao p, na jardineira, tinha o seu <em>buvard</em> -com um largo monogramma em prata sob a cora +no sophá. Ao pé, na jardineira, tinha o seu <em>buvard</em> +com um largo monogramma em prata sob a corôa de conde, caixas de charutos, os seus livros—<em>Mademoiselle Giraud ma femme</em>, <em>La vierge de Mabille</em>, -<em>Ces Frippones! Memoires secrtes d'une femme de -chambre</em>, <em>Le chien d'arrt</em>, <em>Manuel +<em>Ces Frippones! Memoires secrètes d'une femme de +chambre</em>, <em>Le chien d'arrêt</em>, <em>Manuel du chasseur</em>, numeros do <em>Figaro</em>, a photographia de Luiza, e a photographia d'um cavallo. <br /> <br /> -E soprando o fumo do charuto, comeou a considerar, -com horror, a situao! No lhe faltava -mais nada seno partir para Paris, com aquelle +E soprando o fumo do charuto, começou a considerar, +com horror, a «situação»! Não lhe faltava +mais nada senão partir para Paris, com aquelle trambolhosinho! Trazer uma pessoa, havia sete annos, -a sua vida to arranjadinha, e patatrs! embrulhar -tudo, porque menina lhe apanharam a carta +a sua vida tão arranjadinha, e patatrás! embrulhar +tudo, porque á menina lhe apanharam a carta de namoro e tem medo do esposo! Ora o descaro! -No fim, toda aquella aventura desde o comeo fra -um erro! Tinha sido uma ida de burguez inflammado +No fim, toda aquella aventura desde o começo fôra +um erro! Tinha sido uma idéa de burguez inflammado ir desinquietar a prima da Patriarchal. Viera a Lisboa para os seus negocios, era tratal-os, aturar o -calor e o <em>bœuf la mode</em> do Hotel Central, tomar +calor e o <em>bœuf à la mode</em> do Hotel Central, tomar o -paquete, e mandar a patria ao inferno!... Mas no +paquete, e mandar a patria ao inferno!... Mas não idiota! Os seus negocios tinham-se concluido,—e -elle, burro, ficra alli a torrar em Lisboa, a gastar +elle, burro, ficára alli a torrar em Lisboa, a gastar uma fortuna em tipoias para o largo de Santa Barbara, -para qu? Para uma d'aquellas! Antes ter trazido +para quê? Para uma d'aquellas! Antes ter trazido a Alphonsine! <br /> <br /> Que, verdade, verdade, em quanto estivesse em @@ -13506,56 +13466,56 @@ Lisboa o romance era agradavel, muito excitante; porque era muito completo! Havia o adulteriosinho, <span class="pagenum">[348]</span> o incestosinho. Mas aquelle episodio agora estragava -tudo! No, realmente, o mais razoavel era safar-se! <br /> +tudo! Não, realmente, o mais razoavel era safar-se! <br /> <br /> A sua fortuna tinha sido feita com negocio de -borracha, no alto Paraguay; a grandeza da especulao -trouxera a formao d'uma companhia, com +borracha, no alto Paraguay; a grandeza da especulação +trouxera a formação d'uma companhia, com capitaes brazileiros; mas Bazilio e alguns engenheiros -francezes queriam resgatar as aces brazileiras, -que eram um <em>empecilho</em>, formar em Paris uma +francezes queriam resgatar as acções brazileiras, +«que eram um <em>empecilho</em>», formar em Paris uma outra companhia, e dar ao negocio um movimento mais ousado. Bazilio partira para Lisboa entender-se -com alguns brazileiros, e comprra as aces habilmente. -A prolongao d'aquelle incidente amoroso -tornava-se uma perturbao na sua vida pratica... +com alguns brazileiros, e comprára as acções habilmente. +A prolongação d'aquelle incidente amoroso +tornava-se uma perturbação na sua vida pratica... E, agora que a aventura tomava um aspecto seccante, -convinha passar o p! <br /> +convinha passar o pé! <br /> <br /> A porta abriu-se e o visconde Reynaldo entrou—afogueado, de lunetas azues, furioso. <br /> <br /> Vinha de Bemfica! Morto, absolutamente morto com aquelle calor, d'um paiz de negros. Tivera a estupida -ida de ir visitar uma tia—que o fizera logo -membro d'uma associao para no sei que diabo de -que creche, e que lhe prgra moral! Tambem que -ida de collegial—ir visitar a tia! Porque realmente, +idéa de ir visitar uma tia—que o fizera logo +membro d'uma associação para não sei que diabo de +que creche, e que lhe prégára moral! Tambem que +idéa de collegial—ir visitar a tia! Porque realmente, se havia uma cousa que lhe causasse repugnancia, eram as ternuras de familia! <br /> <br /> —E tu, que queres tu? Eu vou-me metter n'um -banho at ao jantar! <br /> +banho até ao jantar! <br /> <br /> —Sabes o que me succede?—disse Bazilio, erguendo-se. <br /> <br /> -—O qu? +—O quê? <br /> <br /><span class="pagenum">[349]</span> —Imagina. O caso mais estupido. <br /> <br /> —O marido apanhou-te? <br /> <br /> -—No, a criada! <br /> +—Não, a criada! <br /> <br /> -—<em>Shocking!</em>—exclamou Reynaldo com njo. <br /> +—<em>Shocking!</em>—exclamou Reynaldo com nôjo. <br /> <br /> -Bazilio contou miudamente o caso. E cruzando -os braos diante d'elle: <br /> +Bazilio contou miudamente «o caso». E cruzando +os braços diante d'elle: <br /> <br /> —E agora? <br /> <br /> -—Agora safar-te! <br /> +—Agora é safar-te! <br /> <br /> E levantou-se. <br /> <br /> @@ -13565,8 +13525,8 @@ E levantou-se. <br /> <br /> Que esperasse, que diabo, queria fallar com elle... <br /> <br /> -—No posso!—exclamou Reynaldo com um -egoismo phrenetico.—Vem tu c abaixo! Posso +—Não posso!—exclamou Reynaldo com um +egoismo phrenetico.—Vem tu cá abaixo! Posso perfeitamente conversar na agua! <br /> <br /> Sahiu, berrando por William, o seu criado inglez. <br /> @@ -13576,32 +13536,32 @@ com voluptuosidade na tina, d'onde sahia um forte cheiro d'agua de Lubin, exclamou, deleitando-se no seu conforto: <br /> <br /> -—Ento cartinha apanhada nos papeis sujos! <br /> +—Então cartinha apanhada nos papeis sujos! <br /> <br /> -—No, Reynaldo, mas francamente estou embaraado; -que achas tu que eu faa? <br /> +—Não, Reynaldo, mas francamente estou embaraçado; +que achas tu que eu faça? <br /> <br /> —As malas, menino! <br /> <br /> E sentado na tina, ensaboando devagar o seu corpo magro: <br /> <br /> -—Ahi est o que fazer amor s primas da Patriarchal +—Ahi está o que é fazer amor ás primas da Patriarchal Queimada! <br /> <br /><span class="pagenum">[350]</span> —Oh!—fez Bazilio, impaciente. <br /> <br /> -—Oh qu?—E, coberto de flocos d'espuma, -com as mos apoiadas ao rebordo de marmore da +—Oh quê?—E, coberto de flocos d'espuma, +com as mãos apoiadas ao rebordo de marmore da tina:—Pois tu achas isso decente, uma mulher que -toma a cozinheira por confidente, que lhe est na -mo, que perde a carta nos papeis sujos, que chora, +toma a cozinheira por confidente, que lhe está na +mão, que perde a carta nos papeis sujos, que chora, que pede duzentos mil reis, que se quer safar—isso - l amante, isso l nada! Uma mulher que, +é lá amante, isso é lá nada! Uma mulher que, como tu mesmo disseste, usa meias de tear! <br /> <br /> -—Meu rico, uma mulher deliciosa! <br /> +—Meu rico, é uma mulher deliciosa! <br /> <br /> O outro encolheu os hombros, descrente. <br /> <br /> @@ -13609,129 +13569,129 @@ Bazilio deu logo provas: descreveu bellezas do corpo de Luiza; citou episodios lascivos. <br /> <br /> O tecto e os tabiques envernizados de branco -reflectiam a luz, com tons macios de leite; a exhalao +reflectiam a luz, com tons macios de leite; a exhalação da agua tepida augmentava o calor morno; e -um cheiro fresco de sabo e agua de Lubin adoava +um cheiro fresco de sabão e agua de Lubin adoçava o ar. <br /> <br /> -—Bem! ests pelo beio—resumiu Reynaldo +—Bem! estás pelo beiço—resumiu Reynaldo com tedio, estirando-se. <br /> <br /> Bazilio teve um movimento d'hombros, que repellia -aquella supposio grotesca. <br /> +aquella supposição grotesca. <br /> <br /> -—Mas dize, ento, queres ficar-lhe agarrado s -saias ou queres desembaraar-te d'ella? Mas a verdade, +—Mas dize, então, queres ficar-lhe agarrado ás +saias ou queres desembaraçar-te d'ella? Mas a verdade, venha a verdade! <br /> <br /> -—Eu—disse logo Bazilio, chegando-se tina, -baixo—se me podesse desembaraar decentemente... <br /> +—Eu—disse logo Bazilio, chegando-se á tina, +baixo—se me podesse desembaraçar decentemente... <br /> <br /> -—Oh desgraado! tens uma occasio divina! +—Oh desgraçado! tens uma occasião divina! Ella sahiu como uma bicha, dizes tu. Bem; escreve-lhe <span class="pagenum">[351]</span> -uma carta, que vendo que ella deseja romper, -no a queres importunar, e partes. Os teus negocios -esto concluidos, no verdade? Escusas de -negar, o Lapierre disse-me que sim. Bem, ento s +uma carta, «que vendo que ella deseja romper, +não a queres importunar, e partes». Os teus negocios +estão concluidos, não é verdade? Escusas de +negar, o Lapierre disse-me que sim. Bem, então sê decente: manda fazer as malas, e livra-te da sarna! <br /> <br /> E tomando a esponja, deixava cahir grandes golpes -d'agua pela cabea, pelos hombros, soprando, +d'agua pela cabeça, pelos hombros, soprando, regalado na frescura aromatica. <br /> <br /> —Mas tambem—disse Bazilio—deixal-a agora -n'aquella atrapalhao com a criada! No fim minha +n'aquella atrapalhação com a criada! No fim é minha prima... <br /> <br /> -Reynaldo agitou os braos, com hilaridade. <br /> +Reynaldo agitou os braços, com hilaridade. <br /> <br /> -—Esse espirito de familia optimo! Vai l, idiota, -dize-lhe que s obrigado a partir, os teus negocios, +—Esse espirito de familia é optimo! Vai lá, idiota, +dize-lhe que és obrigado a partir, os teus negocios, etc., e mette-lhe umas poucas de notas na -mo. <br /> +mão. <br /> <br /> -— brutal... <br /> +—É brutal... <br /> <br /> -— caro! <br /> +—É caro! <br /> <br /> -Bazilio disse ento: <br /> +Bazilio disse então: <br /> <br /> -—Olha que tambem uma dos diabos, a pobre +—Olha que tambem é uma dos diabos, a pobre rapariga apanhada pela criada... <br /> <br /> Reynaldo estirou-se mais, e disse com jubilo: <br /> <br /> -—Esto a estas horas a esgadanharem-se uma +—Estão a estas horas a esgadanharem-se uma á outra! <br /> <br /> Recostou-se, n'uma beatitude: quiz saber as horas; declarou que estava confortavel, que se sentia -feliz! Com tanto que o John se no tivesse esquecido +feliz! Com tanto que o John se não tivesse esquecido de <em>frapper</em> o champagne! <br /> <br /> Bazilio torcia o bigode, calado. Revia a sala de Luiza de reps verde, a figura horrivel de Juliana com <span class="pagenum">[352]</span> a sua enorme cuia... Estariam com effeito a ralhar, -a descompr-se? Que <em>pulhice</em> que era tudo aquillo! +a descompôr-se? Que <em>pulhice</em> que era tudo aquillo! Positivamente devia partir. <br /> <br /> —Mas que pretexto lhe hei-de eu dar para sahir de Lisboa? <br /> <br /> -—Um telegramma! No ha nada como um telegramma! -Telegrapha j ao teu homem em Paris, ao -Labachardie, ou Labachardette, ou o que , que te -mande logo este despacho: Parta, negocios maus, -etc. o melhor! <br /> +—Um telegramma! Não ha nada como um telegramma! +Telegrapha já ao teu homem em Paris, ao +Labachardie, ou Labachardette, ou o que é, que te +mande logo este despacho: «Parta, negocios maus, +etc.» É o melhor! <br /> <br /> —Vou fazel-o—disse Bazilio erguendo-se, muito decidido. <br /> <br /> -—E partimos manh?—gritou Reynaldo. <br /> +—E partimos ámanhã?—gritou Reynaldo. <br /> <br /> -—manh. <br /> +—Ámanhã. <br /> <br /> —Por Madrid? <br /> <br /> —Por Madrid. <br /> <br /> -—<em>Salero!</em>—Pz-se de p, na tina, enthusiasmado, +—<em>Salero!</em>—Pôz-se de pé, na tina, enthusiasmado, a escorrer, e com movimentos aduncos de -magricella saltou para fra, embrulhou-se no roupo +magricella saltou para fóra, embrulhou-se no roupão turco. O seu criado William entrou logo, subtilmente, -ajoelhou-se, tomou-lhe um p entre as mos, -seccou-lh'o com precaues, pz-se respeitosamente -a calar-lhe a meia de sda preta com ferradurinhas +ajoelhou-se, tomou-lhe um pé entre as mãos, +seccou-lh'o com precauções, pôz-se respeitosamente +a calçar-lhe a meia de sêda preta com ferradurinhas bordadas. <br /> <br /> <br /> <br /> -Na manh seguinte, um pouco antes do meio dia, -Joanna veio bater discretamente porta do quarto +Na manhã seguinte, um pouco antes do meio dia, +Joanna veio bater discretamente á porta do quarto de Luiza, e com a voz baixa—desde o desmaio <span class="pagenum">[353]</span> fallava-lhe sempre baixo, como a uma convalescente: <br /> <br /> -—Est alli o primo da senhora. <br /> +—Está alli o primo da senhora. <br /> <br /> Luiza ficou surprehendida. Estava ainda de <em>robe de chambre</em>, e tinha os olhos vermelhos de chorar; -pz n'um instante um pouco de p d'arroz, alisou +pôz n'um instante um pouco de pó d'arroz, alisou o cabello, entrou na sala. <br /> <br /> -Bazilio, vestido de claro, sentra-se melancolicamente -no mcho do piano. Trazia um ar grave, e, -sem transio, comeou a dizer:—que apesar d'ella +Bazilio, vestido de claro, sentára-se melancolicamente +no môcho do piano. Trazia um ar grave, e, +sem transição, começou a dizer:—que apesar d'ella se ter zangado na vespera, elle considerava ainda -tudo como d'antes. Viera porque n'aquelle momento -no se podiam separar sem algumas explicaes, +tudo «como d'antes». Viera porque n'aquelle momento +não se podiam separar sem algumas explicações, sobretudo sem resolver definitivamente o caso da carta... E com um gesto triste, como contendo lagrimas: <br /> <br /> -—Porque eu vejo-me forado a sahir de Lisboa, +—Porque eu vejo-me forçado a sahir de Lisboa, minha querida! <br /> <br /> Luiza, sem olhar para elle, fez um sorriso mudo, @@ -13739,62 +13699,62 @@ muito desdenhoso. Bazilio acrescentou logo: <br /> <br /> —Por pouco tempo, naturalmente, tres semanas ou um mez... Mas enfim tenho de partir... Se fossem -s os meus interesses!—Encolheu os hombros -com desdem.—Mas so interesses d'outros... E aqui -est o que eu recebi esta manh. <br /> +só os meus interesses!—Encolheu os hombros +com desdem.—Mas são interesses d'outros... E aqui +está o que eu recebi esta manhã. <br /> <br /> Estendeu-lhe um telegramma. Ella conservou-o -um momento, sem o abrir; a sua mo fazia tremer +um momento, sem o abrir; a sua mão fazia tremer o papel. <br /> <br /> -—L, peo-te que leias! <br /> +—Lê, peço-te que leias! <br /> <br /> —Para que?—fez ella. <br /> <br /><span class="pagenum">[354]</span> -Mas leu baixo: Venha, graves complicaes. -Presena absolutamente necessaria. Parta j. <br /> +Mas leu baixo: «Venha, graves complicações. +Presença absolutamente necessaria. Parta já.» <br /> <br /> Dobrou o papel, entregou-lh'o. <br /> <br /> —E partes, hein? <br /> <br /> -— foroso. <br /> +—É forçoso. <br /> <br /> —Quando? <br /> <br /> —Esta noite. <br /> <br /> Luiza ergueu-se bruscamente, e estendendo-lhe -a mo: <br /> +a mão: <br /> <br /> —Bem, adeus. <br /> <br /> Bazilio murmurou: <br /> <br /> -—s cruel, Luiza!... No importa! Em todo o -caso ha um negocio que necessario terminar. Fallaste - mulher? <br /> +—És cruel, Luiza!... Não importa! Em todo o +caso ha um negocio que é necessario terminar. Fallaste +á mulher? <br /> <br /> -—Est tudo arranjado—respondeu ella, franzindo +—Está tudo arranjado—respondeu ella, franzindo a testa. <br /> <br /> -Bazilio tomou-lhe a mo, e quasi com solemnidade: <br /> +Bazilio tomou-lhe a mão, e quasi com solemnidade: <br /> <br /> -—Minha filha, eu sei que s muito orgulhosa, -mas peo-te que digas a verdade. Eu no te quero +—Minha filha, eu sei que és muito orgulhosa, +mas peço-te que digas a verdade. Eu não te quero deixar em difficuldades. Fallaste-lhe? <br /> <br /> -Ella retirou a mo, e com uma impaciencia crescente: <br /> +Ella retirou a mão, e com uma impaciencia crescente: <br /> <br /> —Arranjou-se tudo, arranjou-se tudo!... <br /> <br /> -Bazilio parecia muito embaraado, estava mesmo +Bazilio parecia muito embaraçado, estava mesmo um pouco pallido: emfim, tirando uma carteira da -algibeira, comeou: <br /> +algibeira, começou: <br /> <br /> -—Em todo o caso possivel, natural (ns no -sabemos com quem lidamos), natural que haja outras +—Em todo o caso é possivel, é natural (nós não +sabemos com quem lidamos), é natural que haja outras exigencias...—Abriu a carteira, tomou um sobrescripto pequenino e cheio. <br /> @@ -13805,7 +13765,7 @@ de Bazilio. <br /> —Por isso, para te poderes entender melhor com ella, sempre me parece bom deixar-te algum dinheiro. <br /> <br /> -—Tu ests doudo?—exclamou ella. <br /> +—Tu estás doudo?—exclamou ella. <br /> <br /> —Mas... <br /> <br /> @@ -13815,29 +13775,29 @@ com ella, sempre me parece bom deixar-te algum dinheiro. <br /> <br /> —Adeus!—E ia sahir da sala, indignada. <br /> <br /> -—Luiza, pelo amor de Deus! Tu no me comprehendeste... <br /> +—Luiza, pelo amor de Deus! Tu não me comprehendeste... <br /> <br /> Ella parou, disse precipitadamente, como impaciente por acabar: <br /> <br /> -—Comprehendi, Bazilio, obrigada. Mas no, no - necessario. Estou nervosa, o que ... No prolonguemos +—Comprehendi, Bazilio, obrigada. Mas não, não +é necessario. Estou nervosa, é o que é... Não prolonguemos mais isto... Adeus... <br /> <br /> —Mas sabes que volto, dentro de tres semanas... <br /> <br /> -—Bem, ento nos veremos... <br /> +—Bem, então nos veremos... <br /> <br /> Elle attrahiu-a, deu-lhe um beijo na bocca, encontrou os seus labios passivos e inertes. <br /> <br /> Aquella frieza irritou-lhe a vaidade. Apertou-a -contra o peito; disse-lhe baixo, pondo muita paixo +contra o peito; disse-lhe baixo, pondo muita paixão na voz: <br /> <br /> —Nem um beijo me queres dar? <br /> <br /> -Nos olhos de Luiza passou um ligeiro claro; beijou-o +Nos olhos de Luiza passou um ligeiro clarão; beijou-o rapidamente, e recuando: <br /> <br /> —Adeus. @@ -13850,34 +13810,34 @@ um leve suspiro: <br /> ao menos. Sabes a minha morada. Rue Saint Florentin, 22. <br /> <br /> -Luiza chegou-se janella. Viu-o accender o charuto -na rua, fallar ao cocheiro, saltar para o coup, -fechar com fora a portinhola, sem um olhar para as +Luiza chegou-se á janella. Viu-o accender o charuto +na rua, fallar ao cocheiro, saltar para o coupé, +fechar com força a portinhola, sem um olhar para as janellas! <br /> <br /> -O trem rolou. Era o n. 10... Nunca mais o veria! +O trem rolou. Era o n.º 10... Nunca mais o veria! Tinham palpitado no mesmo amor, tinham commettido a mesma culpa.—Elle partia alegre, levando -as recordaes romanescas da aventura: ella ficava, +as recordações romanescas da aventura: ella ficava, nas amarguras permanentes do erro. E assim era o mundo! <br /> <br /> -Veio-lhe um sentimento pungente de solido e de -abandono. Estava s, e a vida apparecia-lhe como +Veio-lhe um sentimento pungente de solidão e de +abandono. Estava só, e a vida apparecia-lhe como uma vasta planicie desconhecida, coberta da densa -noite, erriada de perigos! <br /> +noite, erriçada de perigos! <br /> <br /> Entrou no quarto devagar, foi-se deixar cahir no -soph: viu ao p o sacco de marroquim, que preparra -na vespera para fugir: abriu-o, pz-se a tirar -lentamente os lenos, uma camisinha bordada,—encontrou +sophá: viu ao pé o sacco de marroquim, que preparára +na vespera para fugir: abriu-o, pôz-se a tirar +lentamente os lenços, uma camisinha bordada,—encontrou a photographia de Jorge! Ficou com ella na -mo, contemplando o seu olhar leal, o seu sorriso -bom.—No, no estava no mundo s! Tinha-o a +mão, contemplando o seu olhar leal, o seu sorriso +bom.—Não, não estava no mundo só! Tinha-o a elle! Amava-a aquelle, nunca a trahiria, nunca a -abandonaria!—E collando os beios ao retrato, humedecendo-o -de beijos convulsivos, atirou-se de bruos, -lavada em lagrimas, dizendo:—Perda-me, Jorge, +abandonaria!—E collando os beiços ao retrato, humedecendo-o +de beijos convulsivos, atirou-se de bruços, +lavada em lagrimas, dizendo:—Perdôa-me, Jorge, <span class="pagenum">[357]</span> meu Jorge, meu querido Jorge, Jorge da minha alma! <br /> @@ -13886,40 +13846,40 @@ alma! <br /> <br /> Depois de jantar Joanna veio dizer-lhe timidamente: <br /> <br /> -—A senhora no lhe parece que seria bom ir +—A senhora não lhe parece que seria bom ir saber da snr.<sup>a</sup> Juliana? <br /> <br /> -—Mas onde quer voss ir saber?—perguntou +—Mas onde quer vossê ir saber?—perguntou Luiza. <br /> <br /> -—Ella s vezes vai a casa d'uma amiga, uma +—Ella ás vezes vai a casa d'uma amiga, uma inculcadeira, para os lados do Carmo. Talvez lhe tivesse -dado alguma, esteja mal. Mas tambem no -mandar recado desde hontem pela manh... Cousa +dado alguma, esteja mal. Mas tambem não +mandar recado desde hontem pela manhã... Cousa assim! Eu podia ir saber... <br /> <br /> -—Pois bem, v, v. <br /> +—Pois bem, vá, vá. <br /> <br /> -Aquella desappario brusca inquietava tambem +Aquella desapparição brusca inquietava tambem Luiza. Onde estava, que fazia? Parecia-lhe que alguma cousa se tramava em segredo, longe d'ella, que -viria de repente estalar-lhe sobre a cabea, terrivelmente... <br /> +viria de repente estalar-lhe sobre a cabeça, terrivelmente... <br /> <br /> Anoiteceu. Accendeu as velas. Tinha um certo -medo de estar assim s em casa: e, passeando pelo -quarto, pensava que quella hora Bazilio em Santa +medo de estar assim só em casa: e, passeando pelo +quarto, pensava que áquella hora Bazilio em Santa Apolonia comprava alegremente o seu bilhete, installava-se no wagon, accendia o charuto, e d'ahi a pouco, a machina arquejando leval-o-hia para sempre! -Porque no acreditava na demora de tres semanas, -um mez! Ia para sempre, safava-se! E apesar de o +Porque não acreditava «na demora de tres semanas, +um mez»! Ia para sempre, safava-se! E apesar de o <span class="pagenum">[358]</span> detestar sentia que alguma cousa dentro em si se -partia com aquella separao, e sangrava dolorosamente! <br /> +partia com aquella separação, e sangrava dolorosamente! <br /> <br /> Eram quasi nove horas quando a campainha retiniu com pressa. Julgou que seria Joanna de volta, -foi abrir com um castial,—e recuou vendo Juliana, +foi abrir com um castiçal,—e recuou vendo Juliana, amarella, muita alterada. <br /> <br /> —A senhora faz favor de me dar uma palavra? <br /> @@ -13927,11 +13887,11 @@ amarella, muita alterada. <br /> Entrou no quarto atraz de Luiza, e immediatamente rompeu, gritando, furiosa: <br /> <br /> -—Ento a senhora imagina que isto ha-de ficar +—Então a senhora imagina que isto ha-de ficar assim? A senhora imagina que por seu amante se safar, isto ha-de ficar assim? <br /> <br /> -—Que , mulher?—fez Luiza, petrificada. <br /> +—Que é, mulher?—fez Luiza, petrificada. <br /> <br /> —Se a senhora pensa, que por o seu amante se safar, isto ha-de ficar em nada?—berrou. <br /> @@ -13944,32 +13904,32 @@ Mas depois de um momento, mais baixo: <br /> <br /> —A senhora bem sabe que se eu guardei as cartas, para alguma cousa era! Queria pedir ao primo da -senhora que me ajudasse! Estou canada de trabalhar, -e quero o meu descano. No ia fazer escandalo, o que -desejava que elle me ajudasse... Mandei ao htel +senhora que me ajudasse! Estou cançada de trabalhar, +e quero o meu descanço. Não ia fazer escandalo, o que +desejava é que elle me ajudasse... Mandei ao hótel esta tarde... O primo da senhora tinha desarvorado! Tinha ido para o lado dos Olivaes, para o inferno! E -o criado ia noite com as malas. Mas a senhora +o criado ia á noite com as malas. Mas a senhora pensa que me logram?—E retomada pela sua colera, batendo com o punho furiosamente na mesa:—Raios <span class="pagenum">[359]</span> -me partam, se no houver uma desgraa +me partam, se não houver uma desgraça n'esta casa, que ha-de ser fallada em Portugal! <br /> <br /> -—Quanto quer voss pelas cartas, sua ladra?—disse +—Quanto quer vossê pelas cartas, sua ladra?—disse Luiza, erguendo-se direita, diante d'ella. <br /> <br /> Juliana ficou um momento interdicta. <br /> <br /> -—A senhora ou me d seiscentos mil reis, ou -eu no largo os papeis!—respondeu, empertigando-se. <br /> +—A senhora ou me dá seiscentos mil reis, ou +eu não largo os papeis!—respondeu, empertigando-se. <br /> <br /> -—Seiscentos mil reis! Onde quer voss que eu -v buscar seiscentos mil reis? <br /> +—Seiscentos mil reis! Onde quer vossê que eu +vá buscar seiscentos mil reis? <br /> <br /> -—Ao inferno!—gritou Juliana.—Ou me d -seiscentos mil reis, ou to certo como eu estar aqui, -o seu marido ha-de lr as cartas! <br /> +—Ao inferno!—gritou Juliana.—Ou me dá +seiscentos mil reis, ou tão certo como eu estar aqui, +o seu marido ha-de lêr as cartas! <br /> <br /> Luiza deixou-se cahir n'uma cadeira, aniquilada. <br /> <br /> @@ -13978,68 +13938,68 @@ isto? <br /> <br /> Juliana plantou-se-lhe diante, muito insolente. <br /> <br /> -—A senhora diz bem, sou uma ladra, verdade, -apanhei a carta no cisco, tirei as outras do gaveto. - verdade! E foi para isto, para m'as pagarem!—E -traando, destraando o chale, n'uma excitao -phrenetica:—No que a minha vez havia de chegar! -Tenho soffrido muito, estou farta! V buscar o +—A senhora diz bem, sou uma ladra, é verdade, +apanhei a carta no cisco, tirei as outras do gavetão. +É verdade! E foi para isto, para m'as pagarem!—E +traçando, destraçando o chale, n'uma excitação +phrenetica:—Não que a minha vez havia de chegar! +Tenho soffrido muito, estou farta! Vá buscar o dinheiro onde quizer. Nem cinco reis de menos! Tenho passado annos e annos a ralar-me! P'ra ganhar meia moeda por mez, estafo-me a trabalhar, -de madrugada at noite, em quanto a senhora est -de panria! que eu levanto-me s seis horas da -manh—e logo engraxar, varrer, arrumar, labutar, -e a senhora est muito regalada em valle de +de madrugada até á noite, em quanto a senhora está +de panria! É que eu levanto-me ás seis horas da +manhã—e é logo engraxar, varrer, arrumar, labutar, +e a senhora está muito regalada em valle de <span class="pagenum">[360]</span> -lenoes, sem cuidados, nem canceiras. Ha um mez +lençoes, sem cuidados, nem canceiras. Ha um mez que me ergo com o dia, p'ra metter em gomma, passar, -engommar! A senhora suja, suja, quer ir vr +engommar! A senhora suja, suja, quer ir vêr quem lhe parece, apparecer-lhe com tafularias por baixo, -e c est a negra, com a pontada no corao, a -matar-se, com o ferro na mo! E a senhora, so passeios, -tipoias, boas sdas, tudo o que lhe appetece—e +e cá está a negra, com a pontada no coração, a +matar-se, com o ferro na mão! E a senhora, são passeios, +tipoias, boas sêdas, tudo o que lhe appetece—e a negra? A negra a esfalfar-se! <br /> <br /> -Luiza, quebrada, sem fora de responder, encolhia-se +Luiza, quebrada, sem força de responder, encolhia-se sob aquella colera como um passaro sob um chuveiro. Juliana ia-se exaltando com a mesma violencia -da sua voz. E as lembranas das fadigas, das -humilhaes, vinham atear-lhe a raiva, como achas +da sua voz. E as lembranças das fadigas, das +humilhações, vinham atear-lhe a raiva, como achas n'uma fogueira. <br /> <br /> -—Pois que lhe parece?—exclamava.—No que -eu cmo os restos e a senhora os bons bocados! Depois +—Pois que lhe parece?—exclamava.—Não que +eu cômo os restos e a senhora os bons bocados! Depois de trabalhar todo o dia, se quero uma gota de -vinho, quem m'o d? Tenho de o comprar! A senhora -j foi ao meu quarto? uma enxovia! A persevejada - tanta que tenho de dormir quasi vestida! +vinho, quem m'o dá? Tenho de o comprar! A senhora +já foi ao meu quarto? É uma enxovia! A persevejada +é tanta que tenho de dormir quasi vestida! E a senhora se sente uma mordedura, tem a negra de desaparafusar a cama, e de a catar frincha por -frincha. Uma criada! A criada o animal. Trabalha -se pdes, seno rua, para o hospital. Mas chegou-me +frincha. Uma criada! A criada é o animal. Trabalha +se pódes, senão rua, para o hospital. Mas chegou-me a minha vez—e dava palmadas no peito, fulgurante -de vingana.—Quem manda agora, sou eu! <br /> +de vingança.—Quem manda agora, sou eu! <br /> <br /> -Luiza soluava baixo. <br /> +Luiza soluçava baixo. <br /> <br /> —A senhora chora! tambem eu tenho chorado -muita lagrima! Ai! eu no lhe quero mal, minha -senhora, certamente que no! Que se divirta, que +muita lagrima! Ai! eu não lhe quero mal, minha +senhora, certamente que não! Que se divirta, que <span class="pagenum">[361]</span> -goze, que goze! O que eu quero o meu dinheiro. -O que eu quero o meu dinheiro aqui escarrado, ou +goze, que goze! O que eu quero é o meu dinheiro. +O que eu quero é o meu dinheiro aqui escarrado, ou o papel ha-de ser fallado! Ainda este tecto me rache, -se eu no fr mostrar a carta ao seu homem, -aos seus amigos, visinhana toda, que ha-de andar +se eu não fôr mostrar a carta ao seu homem, +aos seus amigos, á visinhança toda, que ha-de andar arrastada pelas ruas da amargura! <br /> <br /> Calou-se, exhausta; e com a voz entrecortada de -cansaos: <br /> +cansaços: <br /> <br /> -—Mas d-me a senhora o meu dinheiro, o meu -rico dinheiro, e aqui tem os papeis, e o que l vai, -l vai, e at lhe levo outras. Mas o meu dinheiro +—Mas dê-me a senhora o meu dinheiro, o meu +rico dinheiro, e aqui tem os papeis, e o que lá vai, +lá vai, e até lhe levo outras. Mas o meu dinheiro p'ra aqui! E tambem lhe digo, que morta seja eu n'este instante com um raio, se depois de eu receber o meu dinheiro esta bocca se torna a abrir!—E @@ -14052,26 +14012,26 @@ lhe arranjarei o dinheiro. Espere uns dias. <br /> <br /> Fez-se um silencio—que depois do ruido parecia muito profundo, e tudo no quarto como que se -tornra mais immovel. Apenas o relogio batia o seu +tornára mais immovel. Apenas o relogio batia o seu <em>tic-tac</em>, e duas velas sobre o toucador consumindo-se davam uma luz avermelhada, e direita. <br /> <br /> -Juliana tomou a sombrinha, traou o chale, e depois +Juliana tomou a sombrinha, traçou o chale, e depois de fitar Luiza um momento: <br /> <br /> —Bem, minha senhora—disse, muito secca. <br /> <br /> Voltou as costas, sahiu. <br /> <br /> -Luiza sentiu-a bater a cancella com fora. <br /> +Luiza sentiu-a bater a cancella com força. <br /> <br /> -—Que expiao, Santo Deus!—exclamou, cahindo +—Que expiação, Santo Deus!—exclamou, cahindo n'uma cadeira, banhada de novo em lagrimas. <br /> <br /><span class="pagenum">[362]</span> Eram quasi dez horas quando Joanna voltou. <br /> <br /> -—No pude saber nada, minha senhora, na inculcadeira +—Não pude saber nada, minha senhora, na inculcadeira ninguem sabe d'ella. <br /> <br /> —Bem, traga a lamparina. <br /> @@ -14079,7 +14039,7 @@ ninguem sabe d'ella. <br /> E Joanna ao despir-se no seu quarto, rosnava comsigo: <br /> <br /> -—A mulher tem arranjo, est mettida por ahi +—A mulher tem arranjo, está mettida por ahi com algum sucio! <br /> <br /> <br /> @@ -14093,47 +14053,47 @@ As suas joias valiam talvez duzentos mil reis. Mas depois, que diria Jorge? Tinha as pratas... Mas era o mesmo! <br /> <br /> -A noite estava quente, e na sua inquietao a -roupa escorregra, apenas lhe restava o lenol sobre -o corpo. s vezes a fadiga readormecia-a d'um somno +A noite estava quente, e na sua inquietação a +roupa escorregára, apenas lhe restava o lençol sobre +o corpo. Ás vezes a fadiga readormecia-a d'um somno superficial, cortado de sonhos muitos vivos. Via -montes de libras reluzirem vagamente, maos de +montões de libras reluzirem vagamente, maços de notas agitarem-se brandamente no ar. Erguia-se, saltava -para as agarrar, mas as libras comeavam a -rolar, a rolar como infinitas rodinhas sobre um cho +para as agarrar, mas as libras começavam a +rolar, a rolar como infinitas rodinhas sobre um chão liso, e as notas desappareciam, voando muito leves -com um fremito de azas ironicas. Ou ento era alguem +com um fremito de azas ironicas. Ou então era alguem <span class="pagenum">[363]</span> que entrava na sala, curvava-se respeitosamente, -e comeava a tirar do chapo, a deixar-lhe -cahir no regao libras, moedas de cinco mil reis, -peas, muitas, muitas, profusamente: no conhecia -o homem: tinha um chin vermelho e uma pera +e começava a tirar do chapéo, a deixar-lhe +cahir no regaço libras, moedas de cinco mil reis, +peças, muitas, muitas, profusamente: não conhecia +o homem: tinha um chinó vermelho e uma pera impudente. Seria o diabo? Que lhe importava? Estava rica, estava salva! Punha-se a chamar, a gritar por Juliana, a correr atraz d'ella, por um corredor que -no findava, e que comeava a estreitar-se, a estreitar-se, -at que era como uma fenda por onde ella se +não findava, e que começava a estreitar-se, a estreitar-se, +até que era como uma fenda por onde ella se arrastava de esguelha, respirando mal, e apertando -sempre contra si o monto de libras que lhe punha -frialdades de metal sobre a pelle na do peito. Acordava +sempre contra si o montão de libras que lhe punha +frialdades de metal sobre a pelle núa do peito. Acordava assustada: e o contraste da sua miseria real com aquellas riquezas do sonho era como um acrescimo -de amargura. Quem lhe poderia valer?—Sebastio! -Sebastio era rico, era bom. Mas mandal-o +de amargura. Quem lhe poderia valer?—Sebastião! +Sebastião era rico, era bom. Mas mandal-o chamar, e dizer-lhe ella, ella Luiza, mulher de Jorge:—Empreste-me -seiscentos mil reis.—Para qu, -minha senhora? E podia l responder: para resgatar -umas cartas que escrevi ao meu amante. Era l possivel! -No, estava perdida. Restava-lhe ir para um +seiscentos mil reis.—Para quê, +minha senhora? E podia lá responder: para resgatar +umas cartas que escrevi ao meu amante. Era lá possivel! +Não, estava perdida. Restava-lhe ir para um convento. <br /> <br /> A cada momento voltava o travesseirinho que lhe escaldava o rosto: atirou a touca, os seus longos cabellos soltaram-se, prendeu-os ao acaso com -um gancho; e de costas, com a cabea sobre os braos -ns, pensava amargamente no romance de todo -aquelle vero,—a chegada de Bazilio, o passeio ao +um gancho; e de costas, com a cabeça sobre os braços +nús, pensava amargamente no romance de todo +aquelle verão,—a chegada de Bazilio, o passeio ao Campo Grande, a primeira visita ao <em>Paraiso</em>... <br /> <br /><span class="pagenum">[364]</span> @@ -14142,165 +14102,165 @@ nas almofadas do wagon! <br /> <br /> E ella alli, na agonia! <br /> <br /> -Atirou o lenol, abafava. E descoberta, mal se +Atirou o lençol, abafava. E descoberta, mal se distinguindo da alvura da roupa, adormeceu quando a madrugada rompia. <br /> <br /> Acordou tarde, succumbida. Mas logo na sala de -jantar a belleza da manh gloriosa reanimou-a. O sol +jantar a belleza da manhã gloriosa reanimou-a. O sol entrava abundante e radioso pela janella aberta; os -canarios faziam um concerto; da forja ao p sahia +canarios faziam um concerto; da forja ao pé sahia um martellar jovial; e o largo azul vigoroso levantava as almas.—Aquella alegria das cousas deu-lhe -como uma coragem inesperada. No se havia de -abandonar a uma desesperana inerte... Que diabo! +como uma coragem inesperada. Não se havia de +abandonar a uma desesperança inerte... Que diabo! Devia luctar! <br /> <br /> -Vieram-lhe esperanas, ento. Sebastio era bom, +Vieram-lhe esperanças, então. Sebastião era bom, Leopoldina tinha expedientes, havia outras possibilidades, o acaso mesmo: e tudo isto podia, em definitiva, formar seiscentos mil reis, salval-a! Juliana -desappareceria, Jorge voltaria!—E, alvoraada, via +desappareceria, Jorge voltaria!—E, alvoraçada, via perspectivas de felicidades possiveis reluzirem, no futuro, deliciosamente. <br /> <br /> -Ao meio dia veio o criadito de Sebastio: o senhor +Ao meio dia veio o criadito de Sebastião: o senhor tinha chegado d'Almada, desejava saber como a senhora estava. <br /> <br /> -Correu ella mesma porta; que pedia ao snr. -Sebastio, que viesse logo que podesse! <br /> +Correu ella mesma á porta; que pedia ao snr. +Sebastião, que viesse logo que podesse! <br /> <br /> -Acabou-se! Sentia-se resoluta, ia fallar a Sebastio... +Acabou-se! Sentia-se resoluta, ia fallar a Sebastião... No fim era o que lhe restava: contar ella tudo -a Sebastio, ou que a outra contasse tudo a seu +a Sebastião, ou que a outra contasse tudo a seu <span class="pagenum">[365]</span> marido. Impossivel hesitar! E depois podia attenuar, -dizer que fra s uma correspondencia platonica... -A partida de Bazilio, alm d'isso, fazia d'aquelle erro -um facto passado, quasi antigo... E Sebastio era -to amigo d'ella! <br /> +dizer que fôra só uma correspondencia platonica... +A partida de Bazilio, além d'isso, fazia d'aquelle erro +um facto passado, quasi antigo... E Sebastião era +tão amigo d'ella! <br /> <br /> Veio, era uma hora. Luiza que estava no quarto -sentiu-o entrar, e s o som dos seus passos grossos +sentiu-o entrar, e só o som dos seus passos grossos no tapete da sala deu-lhe uma timidez, quasi um terror. Parecia-lhe agora muito difficil, terrivel de -dizer... Preparra phrases, explicaes, uma historia +dizer... Preparára phrases, explicações, uma historia de galanteio, de cartas trocadas; e estava com a -mo no fecho da porta, a tremer. Tinha medo d'elle! +mão no fecho da porta, a tremer. Tinha medo d'elle! Ouvia-o passear pela sala; e receando que a impaciencia -lhe dsse mau humor, entrou. <br /> +lhe désse mau humor, entrou. <br /> <br /> Afigurou-se-lhe mais alto, mais digno: nunca o seu -olhar lhe parecera to recto, e a sua barba to sria! <br /> +olhar lhe parecera tão recto, e a sua barba tão séria! <br /> <br /> -—Ento que ? precisa alguma cousa?—perguntou-lhe +—Então que é? precisa alguma cousa?—perguntou-lhe elle depois das primeiras palavras sobre Almada, sobre o tempo. <br /> <br /> Luiza teve uma cobardia indominavel, respondeu logo: <br /> <br /> -— por causa de Jorge! <br /> +—É por causa de Jorge! <br /> <br /> -—Aposto que no lhe tem escripto? <br /> +—Aposto que não lhe tem escripto? <br /> <br /> -—No. <br /> +—Não. <br /> <br /> —Esteve muito tempo sem me escrever tambem.—E rindo:—Mas hoje recebi duas cartas por atacado. <br /> <br /> Procurou-as entre outros papeis que tirou da algibeira. -Luiza fra sentar-se no soph; olhava-o com -o corao aos pulos, e as suas unhas impacientes raspavam -devagarinho o estfo. +Luiza fôra sentar-se no sophá; olhava-o com +o coração aos pulos, e as suas unhas impacientes raspavam +devagarinho o estôfo. <br /> <br /><span class="pagenum">[366]</span> -— verdade—dizia Sebastio, revolvendo o mao +—É verdade—dizia Sebastião, revolvendo o maço de papeis.—Recebi duas, falla em voltar, diz -que est muito seccado...—E estendendo uma carta -a Luiza:—Pde vr. <br /> +que está muito seccado...—E estendendo uma carta +a Luiza:—Póde vêr. <br /> <br /> -Luiza desdobrra-a, e comeava a lr; mas Sebastio, -estendendo a mo precipitadamente: <br /> +Luiza desdobrára-a, e começava a lêr; mas Sebastião, +estendendo a mão precipitadamente: <br /> <br /> -—Perdo, no essa! <br /> +—Perdão, não é essa! <br /> <br /> -—No, deixe vr... <br /> +—Não, deixe vêr... <br /> <br /> -—No diz nada, so negocios... <br /> +—Não diz nada, são negocios... <br /> <br /> -—No, quero vr! <br /> +—Não, quero vêr! <br /> <br /> -Sebastio, sentado beira da cadeira, coava a +Sebastião, sentado á beira da cadeira, coçava a barba, olhando-a, muito contrariado. E Luiza de repente, franzindo a testa: <br /> <br /> -—O qu?—A leitura espalhava-lhe no rosto +—O quê?—A leitura espalhava-lhe no rosto uma surpreza irritada.—Realmente!... <br /> <br /> -—So tolices, so tolices!—murmurava Sebastio, +—São tolices, são tolices!—murmurava Sebastião, muito vermelho. <br /> <br /> -Luiza pz-se ento a lr alto, devagar: <br /> +Luiza pôz-se então a lêr alto, devagar: <br /> <br /> -Sabers, amigo Sebastio, que fiz aqui uma conquista. -No o que se pde chamar uma princeza, -porque nem mais nem menos que a mulher do estanqueiro. +«Saberás, amigo Sebastião, que fiz aqui uma conquista. +Não é o que se póde chamar uma princeza, +porque é nem mais nem menos que a mulher do estanqueiro. Parece estar abrazada no mais impuro fogo, -por este seu criado. Deus me perde, mas desconfio -at que me leva apenas um vintem pelos charutos +por este seu criado. Deus me perdôe, mas desconfio +até que me leva apenas um vintem pelos charutos de pataco, fazendo assim ao esposo, o digno Carlos, a dupla partida de lhe arruinar a felicidade e -a tenda!—Que graa!—murmurou Luiza, furiosa.—Receio +a tenda!»—Que graça!—murmurou Luiza, furiosa.—«Receio muito que se repita commigo o caso biblico da mulher de Putiphar. Acredita que ha um certo merito em lhe resistir, porque a mulher, estanqueira <span class="pagenum">[367]</span> -como , lindissima. E tenho medo que succeda -algum fracasso minha pobre virtude... <br /> +como é, é lindissima. E tenho medo que succeda +algum fracasso á minha pobre virtude...» <br /> <br /> -Luiza interrompeu-se, e olhou Sebastio com um +Luiza interrompeu-se, e olhou Sebastião com um olhar terrivel. <br /> <br /> -—So brincadeiras!—balbuciou elle. <br /> +—São brincadeiras!—balbuciou elle. <br /> <br /> -Ella seguiu, lendo: Olha se a Luiza soubesse -d'esta aventura! De resto, o meu successo no pra +Ella seguiu, lendo: «Olha se a Luiza soubesse +d'esta aventura! De resto, o meu successo não pára aqui: a mulher do delegado faz-me um olho dos diabos! - de Lisboa, d'uma gente Gamacho, que parece -que mora para Belem, conheces? e d-se ares de +É de Lisboa, d'uma gente Gamacho, que parece +que mora para Belem, conheces? e dá-se ares de morrer de tedio, na tristeza provinciana da localidade. -Deu uma <em>soire</em> em minha honra, e em minha honra, -creio tambem, decotou-se. Muito bonito collo—Luiza -fez-se escarlate—e uma queda do diabo... <br /> +Deu uma <em>soirée</em> em minha honra, e em minha honra, +creio tambem, decotou-se. Muito bonito collo»—Luiza +fez-se escarlate—«e uma queda do diabo...» <br /> <br /> -—Est doudo!—exclamou ella.—E aqui tens +—Está doudo!—exclamou ella.—«E aqui tens o teu amigo feito um D. Juan do Alemtejo, e deixando um rasto de chammas sentimentaes por essa provincia -fra! O Pimentel recommenda-se... <br /> +fóra! O Pimentel recommenda-se...» <br /> <br /> Luiza ainda leu baixo algumas linhas, e erguendo-se -bruscamente, dando a carta a Sebastio: <br /> +bruscamente, dando a carta a Sebastião: <br /> <br /> —Muito bem, diverte-se!—disse com uma voz sibilante. <br /> <br /> -—So l cousas que se tomem a serio! No deve +—São lá cousas que se tomem a serio! Não deve tomar a serio... <br /> <br /> -—Eu!—exclamou ella.—Acho muito natural at! <br /> +—Eu!—exclamou ella.—Acho muito natural até! <br /> <br /> -Sentou-se, comeou, com volubilidade, a fallar -d'outras cousas, de D. Felicidade, de Julio... <br /> +Sentou-se, começou, com volubilidade, a fallar +d'outras cousas, de D. Felicidade, de Julião... <br /> <br /> —Trabalha muito agora para o concurso—disse -Sebastio.—Quem no tenho visto o Conselheiro. <br /> +Sebastião.—Quem não tenho visto é o Conselheiro. <br /> <br /> -—Mas, quem essa gente Gamacho, de Belem? +—Mas, quem é essa gente Gamacho, de Belem? <br /> <br /><span class="pagenum">[368]</span> -Sebastio encolheu os hombros—e com um ar +Sebastião encolheu os hombros—e com um ar quasi reprehensivo: <br /> <br /> —Ora realmente tomou a serio... <br /> @@ -14309,23 +14269,23 @@ Luiza interrompeu-o: <br /> <br /> —Ah! sabe? Meu primo Bazilio partiu. <br /> <br /> -Sebastio teve um alvoroo d'alegria. <br /> +Sebastião teve um alvoroço d'alegria. <br /> <br /> —Sim? <br /> <br /> -—Foi para Paris, no creio que volte.—E depois +—Foi para Paris, não creio que volte.—E depois d'uma pausa, parecendo ter esquecido Jorge, e -a carta:—S em Paris est bem... Estava no ar p'ra +a carta:—Só em Paris está bem... Estava no ar p'ra partir.—Acrescentou com pancadinhas leves nas pregas do vestido:—Precisava casar, aquelle rapaz. <br /> <br /> -—P'ra assentar—disse Sebastio. <br /> +—P'ra assentar—disse Sebastião. <br /> <br /> -Mas Luiza no acreditava que um homem que +Mas Luiza não acreditava que um homem que gostava tanto de viagens, de cavallos, d'aventuras, podesse dar um bom marido. <br /> <br /> -Sebastio era d'opinio que s vezes socegavam, +Sebastião era d'opinião que ás vezes socegavam, e eram homens de familia... <br /> <br /> —Teem mais experiencia—disse. <br /> @@ -14333,262 +14293,262 @@ e eram homens de familia... <br /> —Mas um fundo leviano—observou ella. <br /> <br /> E depois d'estas palavras vagas calaram-se com -embarao. <br /> +embaraço. <br /> <br /> -—Eu a fallar a verdade—disse ento Luiza—estimei +—Eu a fallar a verdade—disse então Luiza—estimei que meu primo partisse... Como tinha havido -essas tolices na visinhana... Ultimamente mesmo -quasi que o no vi. Esteve ahi hontem, veio despedir-se, +essas tolices na visinhança... Ultimamente mesmo +quasi que o não vi. Esteve ahi hontem, veio despedir-se, fiquei surprehendida... <br /> <br /> Estava tornando impossivel a historia d'um galanteio platonico, cartas trocadas—mas um sentimento mais forte que ella impellia-a a attenuar, distanciar <span class="pagenum">[369]</span> -as suas relaes com Bazilio. Acrescentou +as suas relações com Bazilio. Acrescentou mesmo: <br /> <br /> —Eu sou amiga d'elle, mas somos muito differentes... -Bazilio egoista, pouco affeioado... De +Bazilio é egoista, pouco affeiçoado... De resto a nossa intimidade nunca foi grande... <br /> <br /> -Calou-se bruscamente, sentiu que se enterrava. <br /> +Calou-se bruscamente, sentiu que «se enterrava». <br /> <br /> -Sebastio lembrva-se ouvir-lhe dizer que tinham -sido creados ambos de pequenos; mas emfim +Sebastião lembráva-se ouvir-lhe dizer «que tinham +sido creados ambos de pequenos»; mas emfim aquella maneira de fallar do primo, parecia-lhe -a prova maior de que no houvera nada. Quasi -se queria mal pelas duvidas, que tivera, to injustas!... <br /> +a prova maior de que «não houvera nada». Quasi +se queria mal pelas duvidas, que tivera, tão injustas!... <br /> <br /> —E volta?—perguntou. <br /> <br /> -—No me disse, mas no creio. Em se pilhando +—Não me disse, mas não creio. Em se pilhando em Paris! <br /> <br /> -E com a ida da carta, de repente: <br /> +E com a idéa da carta, de repente: <br /> <br /> -—Ento o Sebastio confidente de Jorge? <br /> +—Então o Sebastião é confidente de Jorge? <br /> <br /> Elle riu: <br /> <br /> —Oh minha senhora! pois acredita... <br /> <br /> —E a mim quando me escreve, que se aborrece, -que est s, que no supporta o Alemtejo...—Mas -vendo Sebastio olhar o relogio:—O que, j? +que está só, que não supporta o Alemtejo...—Mas +vendo Sebastião olhar o relogio:—O que, já? É cedo. <br /> <br /> Tinha d'estar na baixa antes das tres, disse elle. <br /> <br /> -Luiza quiz retel-o. No sabia para qu—porque -a cada momento sentia a sua resoluo diminuir, desapparecer +Luiza quiz retel-o. Não sabia para quê—porque +a cada momento sentia a sua resolução diminuir, desapparecer como a agua d'um rio que se absorve no -seu leito. Pz-se a fallar-lhe das obras d'Almada. <br /> +seu leito. Pôz-se a fallar-lhe das obras d'Almada. <br /> <br /> -Sebastio comera-as pensando que duzentos ou -trezentos mil reis fariam as restauraes necessarias: +Sebastião começára-as pensando que duzentos ou +trezentos mil reis fariam as restaurações necessarias: <span class="pagenum">[370]</span> mas depois umas cousas tinham trazido outras—e, -dizia, est-se-me tornando um sorvedouro! <br /> +dizia, está-se-me tornando um sorvedouro! <br /> <br /> -Luiza riu, foradamente. <br /> +Luiza riu, forçadamente. <br /> <br /> -—Ora, quando se proprietario e rico!... <br /> +—Ora, quando se é proprietario e rico!... <br /> <br /> -—Isso sim! Parece que no nada: mas uma +—Isso sim! Parece que não é nada: mas uma pintura n'uma porta, uma janella nova, uma sala -forrada de papel, um soalho, e isto e aquillo, e l se -vo oitocentos mil reis... Emfim!... <br /> +forrada de papel, um soalho, e isto e aquillo, e lá se +vão oitocentos mil reis... Emfim!... <br /> <br /> Levantou-se, e despedindo-se: <br /> <br /> -—Eu espero que aquelle vadio se no demore +—Eu espero que aquelle vadio se não demore muito... <br /> <br /> -—Se a estanqueira der licena... <br /> +—Se a estanqueira der licença... <br /> <br /> Ficou a passear na sala, nervosa, com aquella -ida. Deixar-se namorar pela estanqueira, e a mulher -do delegado, e as outras!... De certo, tinha confiana +idéa. Deixar-se namorar pela estanqueira, e a mulher +do delegado, e as outras!... De certo, tinha confiança n'elle, mas os homens!... De repente representou-se-lhe -a estanqueira prendendo-o nos braos detraz -do balco, ou Jorge beijando, n'alguma entrevista, +a estanqueira prendendo-o nos braços detraz +do balcão, ou Jorge beijando, n'alguma entrevista, de noite, o collo bonito da mulher do delegado!... E tumultuosamente appareceram-lhe todas as -razes que provavam irrecusavelmente a traio de -Jorge: estava ha dous mezes fra! sentia-se canado +razões que provavam irrecusavelmente a traição de +Jorge: estava ha dous mezes fóra! sentia-se cançado da sua viuvez! encontrava uma mulher bonita! tomava aquillo como um prazer passageiro, sem importancia!... Que infame! Resolveu escrever-lhe uma -carta digna e offendida, que viesse immediatamente, -ou que partia ella!—Entrou no quarto, muito -excitada. A photographia de Jorge, que ella tirra na -vespera do sacco de marroquim, ficra no toucador. -Pz-se a olhal-a: no admirava que o namorassem, +carta digna e offendida, «que viesse immediatamente, +ou que partia ella!»—Entrou no quarto, muito +excitada. A photographia de Jorge, que ella tirára na +vespera do sacco de marroquim, ficára no toucador. +Pôz-se a olhal-a: não admirava que o namorassem, <span class="pagenum">[371]</span> era bonito, era amavel... Veio-lhe uma onda de ciume, que lhe obscureceu o olhar: se elle a enganasse, -se tivesse a certeza da mais pequena cousa—separava-se, +se tivesse a certeza da «mais pequena cousa»—separava-se, recolhia-se a um convento, morria de certo, matava-o!... <br /> <br /> -—Minha senhora—veio dizer Joanna— um -gallego com esta carta. Est espera da resposta. <br /> +—Minha senhora—veio dizer Joanna—é um +gallego com esta carta. Está á espera da resposta. <br /> <br /> Que espanto! Era de Juliana! <br /> <br /> Escripta em papel pautado, n'uma letra medonha, -erriada de erros d'orthographia, dizia: <br /> +erriçada de erros d'orthographia, dizia: <br /> <br /> <br /> <br /> <div class="signature"> -Minha senhora.</div> +«Minha senhora.</div> <br /> <br /> -Bem sei que fui imprudente, o que a senhora -deve attribuir tanto minha desgraa como falta -de saude, o que s vezes faz que se tenham genios +«Bem sei que fui imprudente, o que a senhora +deve attribuir tanto á minha desgraça como á falta +de saude, o que ás vezes faz que se tenham genios repentinos. Mas se a senhora quer que eu volte e -faa o servio como d'antes—ao qual creio que a -senhora no pde oppr-se, terei muito gosto em ser -agradavel na certeza que nunca mais se fallar em -tal at que a senhora queira, e cumpra o que prometteu. -Prometto fazer o meu servio, e desejo que -a senhora esteja por isto pois que para bem de +faça o serviço como d'antes—ao qual creio que a +senhora não póde oppôr-se, terei muito gosto em ser +agradavel na certeza que nunca mais se fallará em +tal até que a senhora queira, e cumpra o que prometteu. +Prometto fazer o meu serviço, e desejo que +a senhora esteja por isto pois que é para bem de todos. Pois que foi genio e naturalmente todos teem -os seus repentes, e com isto no cano mais e sou <br /> +os seus repentes, e com isto não canço mais e sou <br /> <br /> <br /> <br /> <div class="signature1"> -Serva muito obediente</div><br /> +«Serva muito obediente</div><br /> <div class="signature"> -a criada</div> +«a criada</div> <br /><div class="signature1"> -<em>Juliana Couceiro Tavira</em>. +«<em>Juliana Couceiro Tavira</em>.» </div> <br /> <br /><span class="pagenum">[372]</span> -Ficou com a carta na mo, sem resoluo. A sua -primeira vontade foi dizer—no! Tornar a recebel-a, -vl-a, com a sua face horrivel, a cuia enorme! +Ficou com a carta na mão, sem resolução. A sua +primeira vontade foi dizer—não! Tornar a recebel-a, +vêl-a, com a sua face horrivel, a cuia enorme! Saber que ella tinha no bolso a sua carta, a sua deshonra, e chamal-a, pedir-lhe agua, a lamparina, -ser servida por ella! No! Mas veio-lhe um terror; +ser servida por ella! Não! Mas veio-lhe um terror; se recusasse irritava a creatura, Deus sabe o que faria! -Estava nas mos d'ella, devia passar por tudo. +Estava nas mãos d'ella, devia passar por tudo. Era o seu castigo... Hesitou ainda um momento: <br /> <br /> -—Que sim, que venha, a resposta. <br /> +—Que sim, que venha, é a resposta. <br /> <br /> <br /> <br /> -Juliana veio com effeito s oito horas. Subiu p -ante p para o soto, poz o fato de casa e as chinellas, +Juliana veio com effeito ás oito horas. Subiu pé +ante pé para o sotão, poz o fato de casa e as chinellas, e desceu para o quarto dos engommados, -onde Joanna sentada n'um tapete costurava, luz +onde Joanna sentada n'um tapete costurava, á luz do petroleo. <br /> <br /> Joanna, muito curiosa, acabrunhou-a logo de perguntas: Onde estivera? o que tinha acontecido? porque -no dra noticias?—Juliana contou que fra a -uma visita a uma amiga, calada do Marquez +não déra noticias?—Juliana contou que fôra a +uma visita a uma amiga, á calçada do Marquez d'Abrantes, e que de repente lhe dera um flato, e a -dr... No quiz mandar dizer, porque imaginra que +dôr... Não quiz mandar dizer, porque imaginára que poderia vir. Mas qual! estivera dia e meio de cama... <br /> <br /> -Quiz saber ento o que tinha feito a senhora, se +Quiz saber então o que tinha feito a senhora, se sahira, quem estivera... <br /> <br /> —A senhora tem andado a modo incommodada—disse Joanna. <br /> <br /> -— do tempo—observou Juliana.—Tinha trazido +—É do tempo—observou Juliana.—Tinha trazido <span class="pagenum">[373]</span> a sua costura, e ambas caladas continuaram o -sero. <br /> +serão. <br /> <br /> -s dez horas Luiza ouviu bater devagarinho +Ás dez horas Luiza ouviu bater devagarinho á porta do quarto. Era <em>ella</em>, de certo! <br /> <br /> —Entre... <br /> <br /> A voz de Juliana disse muito naturalmente: <br /> <br /> -—Est o ch na mesa. <br /> +—Está o chá na mesa. <br /> <br /> -Mas Luiza no se decidia a ir sala, com medo, -horror de a vr! Deu voltas no quarto, demorou-se; +Mas Luiza não se decidia a ir á sala, com medo, +horror de a vêr! Deu voltas no quarto, demorou-se; foi emfim, toda tremula. Juliana vinha justamente no corredor; encolheu-se contra a parede, com respeito, disse: <br /> <br /> -—Quer que v pr a lamparina, minha senhora? <br /> +—Quer que vá pôr a lamparina, minha senhora? <br /> <br /> -Luiza fez que <em>sim</em> com a cabea, sem a olhar. <br /> +Luiza fez que <em>sim</em> com a cabeça, sem a olhar. <br /> <br /> Quando voltou ao quarto Juliana enchia o jarro; e depois de ter aberto a cama, cerrado as portas, -quasi em pontas de ps: <br /> +quasi em pontas de pés: <br /> <br /> -—A senhora no precisa mais nada?—perguntou. <br /> +—A senhora não precisa mais nada?—perguntou. <br /> <br /> -—No. <br /> +—Não. <br /> <br /> —Muito boa noite, minha senhora. <br /> <br /> -E no houve outra palavra mais. <br /> +E não houve outra palavra mais. <br /> <br /> —Parece um sonho!—pensava Luiza, ao despir-se melancolicamente.—Esta creatura, com as minhas cartas, installada em minha casa para me torturar, para me roubar!—Como se achava ella, -Luiza, n'aquella situao? Nem sabia. As cousas tinham -vindo to bruscamente, com a precipitao furiosa -d'uma borrasca, que estala! No tivera tempo -de raciocinar, de se defender: fra embrulhada: e +Luiza, n'aquella situação? Nem sabia. As cousas tinham +vindo tão bruscamente, com a precipitação furiosa +d'uma borrasca, que estala! Não tivera tempo +de raciocinar, de se defender: fôra embrulhada: e <span class="pagenum">[374]</span> -alli estava, quasi sem dar f, na sua casa sob a -dominao da sua criada! Ah! se tivesse fallado a -Sebastio! Tinha agora o dinheiro, de certo, notas, +alli estava, quasi sem «dar fé», na sua casa sob a +dominação da sua criada! Ah! se tivesse fallado a +Sebastião! Tinha agora o dinheiro, de certo, notas, ouro... Com que phrenesi lh'o arremessaria, a expulsaria, e a arca, e os trapos, e a cuia!...—Jurou -a si propria fallar a Sebastio, dizer tudo! Iria +a si propria fallar a Sebastião, dizer tudo! Iria mesmo a casa d'elle, para o impressionar mais! <br /> <br /> -D'ahi a pouco, quebrada da agitao do dia, +D'ahi a pouco, quebrada da agitação do dia, adormecera—e sonhava que um estranho passaro -negro lhe entrra no quarto, fazendo uma ventania, +negro lhe entrára no quarto, fazendo uma ventania, com as suas azas pretas de morcego: era Juliana! Corria aterrada ao escriptorio, gritando: Jorge! Mas -no via nem livros, nem estante, nem mesa:—havia -uma armao reles de loja de tabaco, e por -traz do balco, Jorge acariciava sobre os joelhos uma -bella mulher de frmas robustas, em camisa d'estopa, +não via nem livros, nem estante, nem mesa:—havia +uma armação reles de loja de tabaco, e por +traz do balcão, Jorge acariciava sobre os joelhos uma +bella mulher de fórmas robustas, em camisa d'estopa, que perguntava com uma voz desfallecida de voluptuosidade -e os olhos afogados em paixo:—Brejeiros -ou de Xabregas?—Fugia ento de casa indignada, -e, atravs de successos confusos, via-se ao +e os olhos afogados em paixão:—Brejeiros +ou de Xabregas?—Fugia então de casa indignada, +e, através de successos confusos, via-se ao lado de Bazilio, n'uma rua sem fim, onde os palacios tinham fachadas de cathedraes, e as carruagens rolavam ricamente com uma pompa de cortejo. Contava -soluando a Bazilio a traio de Jorge. E Bazilio, -saltitando em volta d'ella com requebros de palhao, +soluçando a Bazilio a traição de Jorge. E Bazilio, +saltitando em volta d'ella com requebros de palhaço, repenicava uma viola, e cantava: <br /> <br /> <br /> <div class="poetry2"> Escrevi uma carta a Cupido<br /> A mandar-lhe perguntar <br /> -Se um corao offendido <br /> -Tem obrigao de amar! +Se um coração offendido <br /> +Tem obrigação de amar! </div> <br /> <br /><span class="pagenum">[375]</span> -—No tem!—gania a voz d'Ernestinho, brandindo +—Não tem!—gania a voz d'Ernestinho, brandindo triumphante um rolo de papel.—E tudo se -obscurecia de repente nos largos vos circulares que +obscurecia de repente nos largos vôos circulares que fazia Juliana com as suas azas de morcego. <br /> <br /> @@ -14598,14 +14558,14 @@ fazia Juliana com as suas azas de morcego. </h3> <br /> <br /> -Juliana voltra para casa de Luiza por conselhos +Juliana voltára para casa de Luiza por conselhos da tia Victoria. <br /> <br /> -—Olha, minha rica, tinha-lhe ella dito, no ha -que vr, o passaro fugiu-nos! Suspira, bem pdes -suspirar que o dinheiro grosso foi-se! Quem podia l -adivinhar que o homem desarvorava! No, l isso -pdes tirar d'ahi o sentido! Que d'ella escusas d'esperar +—Olha, minha rica, tinha-lhe ella dito, não ha +que vêr, o passaro fugiu-nos! Suspira, bem pódes +suspirar que o dinheiro grosso foi-se! Quem podia lá +adivinhar que o homem desarvorava! Não, lá isso +pódes tirar d'ahi o sentido! Que d'ella escusas d'esperar nem cheta... <br /> <br /> —Tambem me regalo de mandar as cartas ao @@ -14613,103 +14573,103 @@ marido, tia Victoria! <br /> <br /> A velha encolheu os hombros: <br /> <br /> -—No lucras nada com isso. Ou que elles se +—Não lucras nada com isso. Ou que elles se desquitem, ou que elle lhe parta os ossos, ou que -a mande para um convento—tu no ganhas nada. +a mande para um convento—tu não ganhas nada. E se se acommodarem, mais ficas a chuchar no dedo, -porque nem tens a consolao de fazeres a sizania. +porque nem tens a consolação de fazeres a sizania. <span class="pagenum">[378]</span> -E isto se as cousas correrem pelo melhor, -porque pdes muito bem ficar mas em lenoes de +E isto é se as cousas correrem pelo melhor, +porque pódes muito bem ficar mas é em lençoes de vinagre com alguma carga de pau que elles te mandem -dar.—E vendo um gesto espantado de Juliana:—J -no era o primeiro caso, minha rica, j no +dar.—E vendo um gesto espantado de Juliana:—Já +não era o primeiro caso, minha rica, já não era o primeiro. Olha que em Lisboa, passa-se muita cousa, e nem tudo vem nos jornaes! <br /> <br /> Positivamente o que ella tinha a fazer era voltar para a casa. Porque emfim o que restava de tudo -aquillo? O medo de D. Luiza: esse que l estava -sempre a dar-lhe por dentro a colica: d'esse +aquillo? O medo de D. Luiza: esse é que lá estava +sempre a dar-lhe por dentro a colica: d'esse é que era necessario tirar partido... <br /> <br /> -—Tu voltas para l—dizia— espera que ella -cumpra o que prometteu. Se te d o dinheiro, -bem... Seno tem-l'a em todo o caso na mo, ests -de dentro da praa, sabes o que se passa, pdes-lhe +—Tu voltas para lá—dizia—á espera que ella +cumpra o que prometteu. Se te dá o dinheiro, +bem... Senão tem-l'a em todo o caso na mão, estás +de dentro da praça, sabes o que se passa, pódes-lhe apanhar muita cousa... <br /> <br /> Mas Juliana hesitava.—Era difficil viverem debaixo -das mesmas telhas sem haver uma questo -por d c aquella palha. <br /> +das mesmas telhas sem haver uma questão +por dá cá aquella palha. <br /> <br /> -—No te diz uma palavra, tu vers... <br /> +—Não te diz uma palavra, tu verás... <br /> <br /> —Mas tenho medo... <br /> <br /> -—De que?—exclamava a tia Victoria. Ella no -era mulher para a envenenar, no verdade? Ento? -Quem a nada se arriscava nada ganhava.—Isto -se queres—acrescentou—seno trata de te arranjar +—De que?—exclamava a tia Victoria. Ella não +era mulher para a envenenar, não é verdade? Então? +Quem a nada se arriscava nada ganhava.—Isto é +se queres—acrescentou—senão trata de te arranjar n'outra parte, e deita as cartas para o fundo da -arca. Que diabo! Tu vaes vr, se no te convm, safas-te... <br /> +arca. Que diabo! Tu vaes vêr, se não te convém, safas-te... <br /> <br /> -Juliana decidiu ir, a vr. +Juliana decidiu ir, «a vêr». <br /> <br /><span class="pagenum">[379]</span> -E reconheceu logo, que aquella finoria da tia -Victoria tinha carradas de razo. <br /> +E reconheceu logo, que «aquella finoria da tia +Victoria tinha carradas de razão». <br /> <br /> -Luiza, com effeito, parecia resignada. Sebastio +Luiza, com effeito, parecia resignada. Sebastião tinha ido para Almada, outra vez. Mas como estava decidida, apenas elle voltasse, a ir a casa d'elle uma -manh, atirar-se-lhe ao ps, contar-lhe <em>tudo</em>, +manhã, atirar-se-lhe ao pés, contar-lhe <em>tudo</em>, <em>tudo</em>, -supportava Juliana, reflectindo:— apenas por dias!—Por -isso no lhe disse uma palavra. Para que? O -que tinha a fazer era pagar-lhe e pl-a fra, no - verdade? Em quanto o no podesse fazer, era aguentar -e calar. At que Sebastio voltasse... <br /> -<br /> -No entretanto evitava vl-a. Nunca a chamava. -No sahia da alcova de manh, sem a ter sentido -fra no quarto encher o banho, sacudir os vestidos. +supportava Juliana, reflectindo:—É apenas por dias!—Por +isso não lhe disse uma palavra. Para que? O +que tinha a fazer era pagar-lhe e pôl-a fóra, não +é verdade? Em quanto o não podesse fazer, era aguentar +e calar. Até que Sebastião voltasse... <br /> +<br /> +No entretanto evitava vêl-a. Nunca a chamava. +Não sahia da alcova de manhã, sem a ter sentido +fóra no quarto encher o banho, sacudir os vestidos. Ia para a sala de jantar com um livro, e nos intervallos -no levantava os olhos das paginas. E durante +não levantava os olhos das paginas. E durante todo o dia conservava-se no quarto com a porta -fechada, lendo, costurando, pensando em Jorge—s +fechada, lendo, costurando, pensando em Jorge—ás vezes tambem em Bazilio com odio, desejando a -volta de Sebastio, e preparando a sua historia. <br /> +volta de Sebastião, e preparando a sua historia. <br /> <br /> -Juliana, uma manh, encontrou Luiza no corredor +Juliana, uma manhã, encontrou Luiza no corredor trazendo para o quarto o regador cheio d'agua. <br /> <br /> -—Oh minha senhora! porque no chamou?—exclamou, +—Oh minha senhora! porque não chamou?—exclamou, quasi escandalisada. <br /> <br /> -—No tem duvida—disse Luiza. <br /> +—Não tem duvida—disse Luiza. <br /> <br /> Mas Juliana seguiu-a ao quarto, e cerrando a porta: <br /> <br /> —Oh minha senhora!—disse muito offendida—isto -assim no pde continuar. A senhora parece que -tem medo de me vr, credo! Eu voltei para fazer o +assim não póde continuar. A senhora parece que +tem medo de me vêr, credo! Eu voltei para fazer o <span class="pagenum">[380]</span> -meu servio como d'antes... Verdade, verdade, naturalmente, -sempre espero que a senhora faa o que -prometteu... E l largar as cartas no largo, sem -ter seguro o po da velhice. Mas o que se passou -foi um repente de genio, e j pedi perdo senhora. -Quero fazer o meu servio... Agora se a senhora -no quer, ento saio, e—acrescentou com uma +meu serviço como d'antes... Verdade, verdade, naturalmente, +sempre espero que a senhora faça o que +prometteu... E lá largar as cartas não largo, sem +ter seguro o pão da velhice. Mas o que se passou +foi um repente de genio, e já pedi perdão á senhora. +Quero fazer o meu serviço... Agora se a senhora +não quer, então saio, e—acrescentou com uma voz secca—talvez seja peor para todos!... <br /> <br /> Luiza, muito perturbada, balbuciou: <br /> <br /> —Mas... <br /> <br /> -—No, minha senhora—cortou Juliana severamente—aqui +—Não, minha senhora—cortou Juliana severamente—aqui a criada sou eu. <br /> <br /> E sahiu, empertigada. <br /> @@ -14717,20 +14677,20 @@ E sahiu, empertigada. <br /> Tanta audacia aterrou Luiza. Aquella ladra era capaz de tudo! <br /> <br /> -Ento, para a no irritar comeou, d'ahi por +Então, para a não irritar começou, d'ahi por diante, a chamal-a, a dizer:—Traga isto, traga aquillo,—sem a olhar. <br /> <br /> -Mas Juliana fazia-se to servial, era to calada, +Mas Juliana fazia-se tão serviçal, era tão calada, que Luiza pouco a pouco, dia a dia, com o seu caracter mobil, inconsistente, cheio <em>de deixar-se ir</em>, principiou a perder o sentimento pungente d'aquella -difficuldade. E no fim de tres semanas as cousas -tinham entrado nos seus eixos—dizia Juliana. <br /> +difficuldade. E no fim de tres semanas «as cousas +tinham entrado nos seus eixos»—dizia Juliana. <br /> <br /> -Luiza j gritava por ella do quarto, j a mandava -a recados fra: Juliana chegava a ter s vezes -migalhas de conversao:—Est um calor de morrer... +Luiza já gritava por ella do quarto, já a mandava +a recados fóra: Juliana chegava a ter ás vezes +migalhas de conversação:—Está um calor de morrer... A lavadeira tarda...—Um dia arriscou esta phrase mais intima:—Encontrei a criada da snr.<sup>a</sup> D. Leopoldina. @@ -14738,46 +14698,46 @@ D. Leopoldina. <br /><span class="pagenum">[381]</span> Luiza perguntou: <br /> <br /> -—Ainda est para o Porto? <br /> +—Ainda está para o Porto? <br /> <br /> —Ainda se demora um mez, minha senhora... <br /> <br /> De resto havia na casa um aspecto muito tranquillo, -e Luiza, depois de tantas agitaes, abandonava-se -com gozo satisfao d'aquelle descano. Ia -s vezes vr D. Felicidade Encarnao, que j se -levantava. E esperava sempre Sebastio, mas sem impaciencia, -quasi contente por vr adiado o momento -terrivel de lhe dizer: escrevi a um homem, Sebastio! <br /> +e Luiza, depois de tantas agitações, abandonava-se +com gozo á satisfação d'aquelle descanço. Ia +ás vezes vêr D. Felicidade á Encarnação, que já se +levantava. E esperava sempre Sebastião, mas sem impaciencia, +quasi contente por vêr adiado o momento +terrivel de lhe dizer: escrevi a um homem, Sebastião! <br /> <br /> Assim iam passando os dias; estava-se no fim de setembro. <br /> <br /> -Uma tarde Luiza ficra mais tempo janella da -sala de jantar; deixra cahir o livro no regao, e +Uma tarde Luiza ficára mais tempo á janella da +sala de jantar; deixára cahir o livro no regaço, e olhava, sorrindo, um bando de pombas que d'algum quintal visinho viera pousar sobre o tabique do terreno vago. Pensava vagamente em Bazilio, no <em>Paraiso</em>... Sentiu passos, era Juliana. <br /> <br /> -—Que ? <br /> +—Que é? <br /> <br /> -A mulher cerrra a porta, e vindo junto d'ella, +A mulher cerrára a porta, e vindo junto d'ella, baixo: <br /> <br /> -—Ento a senhora ainda no decidiu nada? <br /> +—Então a senhora ainda não decidiu nada? <br /> <br /> Luiza sentiu como uma pancada no estomago. <br /> <br /> -—Ainda no pude arranjar nada... <br /> +—Ainda não pude arranjar nada... <br /> <br /> -Juliana esteve um momento a olhar para o cho: <br /> +Juliana esteve um momento a olhar para o chão: <br /> <br /> —Bem—murmurou, por fim. <br /> <br /> E Luiza ouviu-a, no corredor, dizer alto: <br /> <br /> -—Isto quando o senhor voltar que so os +—Isto quando o senhor voltar é que são os ajustes de contas! <br /> <br /><span class="pagenum">[382]</span> @@ -14785,211 +14745,211 @@ ajustes de contas! <br /> Quando Jorge voltasse! Immediatamente no seu espirito, que se tinha pouco a pouco serenado, todos -os sustos, as angustias estremeceram de novo quella -ameaa—assim uma rajada subita pe em convulso +os sustos, as angustias estremeceram de novo áquella +ameaça—assim uma rajada subita põe em convulsão um arvoredo. Devia, pois, fazer <em>alguma cousa</em> antes que elle chegasse! Justamente Jorge escrevera-lhe, -que no se demoraria, que a avisaria pelo -telegrapho... Desejava, agora, que do ministerio o +que «não se demoraria, que a avisaria pelo +telegrapho...» Desejava, agora, que do ministerio o mandassem fazer uma viagem mais longe, pela Hespanha ou pela Africa; que alguma catastrophe, sem lhe fazer mal, o retardasse mezes!... <br /> <br /> Que faria elle, se soubesse! Matal-a-hia? Lembravam-lhe -as suas palavras muito srias, n'aquella -noite, quando Ernestinho contra o final do seu +as suas palavras muito sérias, n'aquella +noite, quando Ernestinho contára o final do seu drama... Mettel-a-hia n'uma carruagem, leval-a-hia a um convento? E via a grossa portaria fechar-se com um ruido funerario de ferrolhos, olhos lugubres estudal-a curiosamente... <br /> <br /> O seu terror irraciocinado fizera-lhe mesmo perder -a ida nitida do seu marido; imaginava um <em>outro</em> +a idéa nitida do seu marido; imaginava um <em>outro</em> Jorge sanguinario e vingativo, esquecendo o seu -caracter bom, to pouco melodramatico. Um dia foi +caracter bom, tão pouco melodramatico. Um dia foi ao escriptorio, tomou a caixa das pistolas, fechou-a -n'um bah de roupa velha, e escondeu a chave!... <br /> +n'um bahú de roupa velha, e escondeu a chave!... <br /> <br /> -Uma ida amparava-a: era que apenas Sebastio +Uma idéa amparava-a: era que apenas Sebastião viesse d'Almada, estava salva; e apesar d'aquella agonia miuda de todos os momentos, quasi receava <span class="pagenum">[383]</span> -saber <em>que elle tivesse chegado</em>,—tanto a confisso +saber <em>que elle tivesse chegado</em>,—tanto a confissão da verdade lhe parecia uma agonia maior! Foi por -esse tempo, ento, que lhe veio uma lembrana—escrever +esse tempo, então, que lhe veio uma lembrança—escrever a Bazilio. O terror permanente amollecera-lhe -o orgulho, como a lenta infiltrao da agua faz -a uma parede; e todos os dias comeou a achar uma -razo, <em>mais uma</em>, para se dirigir quelle infame: -fra seu amante, j sabia todo o caso das cartas, era -o seu unico parente... E no teria de dizer a Sebastio! -J s vezes pensra que no aceitar dinheiro -de Bazilio fra uma fanfarronada bem tola! +o orgulho, como a lenta infiltração da agua faz +a uma parede; e todos os dias começou a achar uma +razão, <em>mais uma</em>, para se dirigir «áquelle infame»: +fôra seu amante, já sabia todo o caso das cartas, era +o seu unico parente... E não teria de «dizer» a Sebastião! +Já ás vezes pensára que não aceitar dinheiro +de Bazilio fôra uma «fanfarronada bem tola»! Um dia emfim escreveu-lhe. Era uma carta longa, um pouco confusa, pedia-lhe <em>seiscentos mil reis</em>. Foi ella mesmo leval-a ao correio, sobrecarregando-a de estampilhas. <br /> <br /> -N'essa tarde, por acaso, Sebastio, que chegra -d'Almada, veio vl-a. Recebeu-o com alegria, feliz -<em>por no ter de lhe contar</em>... Fallou da volta de +N'essa tarde, por acaso, Sebastião, que chegára +d'Almada, veio vêl-a. Recebeu-o com alegria, feliz +<em>por não ter de lhe contar</em>... Fallou da volta de Jorge; -alludiu mesmo ao primo Bazilio, pouca vergonha -da visinhana... <br /> +alludiu mesmo ao primo Bazilio, á «pouca vergonha +da visinhança...» <br /> <br /> -—No—disse— a primeira cousa que hei-de +—Não—disse—é a primeira cousa que hei-de contar ao Jorge. <br /> <br /> Porque se considerava salva, agora! E todos os -dias seguia a carta, no seu caminho para Frana, como +dias seguia a carta, no seu caminho para França, como se a sua mesma vida fosse dentro d'aquelle sobrescripto -entregue ao acaso dos trens e confuso -das viagens! Chegra a Madrid, depois a Bayonna, +entregue ao acaso dos trens e á confusão +das viagens! Chegára a Madrid, depois a Bayonna, depois a Paris! Um carteiro corria a entregal-a na rua Saint Florentin. Bazilio abria-a tremendo, enchia um sobrescripto de notas, muitas, que cobria de beijos, <span class="pagenum">[384]</span> -e o enveloppe, trazendo a sua salvao e o seu -descano, comeava a rolar para baixo, pela Frana +e o enveloppe, trazendo a sua salvação e o seu +descanço, começava a rolar para baixo, pela França e pela Navarra, soprando como um monstro e apressando-se como um proprio. <br /> <br /> No dia em que a resposta <em>devia</em> chegar, levantou-se mais cedo, agitada, com o ouvido pregado na -porta, esperando o toque do carteiro. Via-se j a expulsar -Juliana, a soluar de alegria!... Mas s dez -e meia comeou a estar nervosa: s onze chamou -Joanna, que fosse saber se o carteiro passra. <br /> +porta, esperando o toque do carteiro. Via-se já a expulsar +Juliana, a soluçar de alegria!... Mas ás dez +e meia começou a estar nervosa: ás onze chamou +Joanna, «que fosse saber se o carteiro passára». <br /> <br /> -—Diz que sim, minha senhora, que j passou. <br /> +—Diz que sim, minha senhora, que já passou. <br /> <br /> —Canalha!—murmurou, pensando em Bazilio. <br /> <br /> -Talvez, todavia, no tivesse respondido no mesmo -dia! Esperou ainda, mas desconsolada, j sem -f. Nada! Nem na outra manh, nem nas seguintes! +Talvez, todavia, não tivesse respondido no mesmo +dia! Esperou ainda, mas desconsolada, já sem +fé. Nada! Nem na outra manhã, nem nas seguintes! O infame! <br /> <br /> -Veio-lhe ento a ida da loteria—porque insensivelmente -a esperana tornra-se-lhe necessaria. A +Veio-lhe então a idéa da loteria—porque insensivelmente +a esperança tornára-se-lhe necessaria. A primeira vez que sahiu comprou umas poucas de cautelas. -Apesar de no ser religiosa nem supersticiosa, +Apesar de não ser religiosa nem supersticiosa, metteu-as debaixo da peanha d'um S. Vicente de Paula -que tinha sobre a commoda, na alcova. <em>No se +que tinha sobre a commoda, na alcova. <em>Não se perdia nada!</em> Examinava-as todos os dias, sommava -os algarismos a vr se davam <em>nove</em>, <em>noves -fra</em>, <em>nada</em>, -ou um numero par—que de bom agouro! E +os algarismos a vêr se davam <em>nove</em>, <em>noves +fóra</em>, <em>nada</em>, +ou um numero par—que é de bom agouro! E aquelle contacto diario com a imagem do santo levando-a -a pensar de certo na proteco inesperada -do co, fez uma promessa de cincoenta missas se as +a pensar de certo na protecção inesperada +do céo, fez uma promessa de cincoenta missas se as cautelas fossem premiadas!... <br /> <br /> -Sahiram brancas—e ento desesperou de tudo; +Sahiram brancas—e então desesperou de tudo; <span class="pagenum">[385]</span> -abandonou-se a uma inaco em que sentia quasi +abandonou-se a uma inacção em que sentia quasi uma voluptuosidade, passando dias sem se importar, quasi sem se vestir, desejando morrer, devorando nos jornaes todos os casos de suicidios, de fallencias, -de desgraas—consolando-se com a ida de que -nem s ella soffria, e que a vida em redor, na cidade, -fervilhava de afflices. <br /> -<br /> -s vezes, de repente, vinha-lhe uma pontada de -medo. Decidia-se ento de novo a abrir-se com -Sebastio; depois pensava que seria melhor escrever-lhe; -mas no achava as palavras, no conseguia +de desgraças—consolando-se com a idéa de que +nem só ella soffria, e que a vida em redor, na cidade, +fervilhava de afflicções. <br /> +<br /> +Ás vezes, de repente, vinha-lhe uma pontada de +medo. Decidia-se então de novo a «abrir-se» com +Sebastião; depois pensava que seria melhor escrever-lhe; +mas não achava as palavras, não conseguia arranjar uma historia racional; vinha-lhe uma cobardia; -e recahia na sua inercia, pensando: manh, -manh... <br /> -<br /> -Quando, s, no seu quarto, se chegava por acaso - janella, punha-se a imaginar o que diria a visinhana, -quando se soubesse! Condemnal-a-hiam? -Lamental-a-hiam? Diriam—Que desavergonhada? -Diriam—Coitadinha? E por dentro da vidraa seguia, +e recahia na sua inercia, pensando: «ámanhã, +ámanhã...» <br /> +<br /> +Quando, só, no seu quarto, se chegava por acaso +á janella, punha-se a imaginar o que «diria a visinhança, +quando se soubesse»! Condemnal-a-hiam? +Lamental-a-hiam? Diriam—«Que desavergonhada»? +Diriam—«Coitadinha»? E por dentro da vidraça seguia, com um olhar quasi aterrado, as passeatas do Paula pela rua, o embasbacamento obeso da carvoeira, as Azevedos por traz das bambinellas de cassa! -Como elles todos gritariam:—Bem diziamos ns! -Bem diziamos ns! Que desgraa! Ou ento via de -repente Jorge, terrivel, fra de si, com as <em>cartas</em> +Como elles todos gritariam:—«Bem diziamos nós! +Bem diziamos nós!» Que desgraça! Ou então via de +repente Jorge, terrivel, fóra de si, com as <em>cartas</em> na -mo; e encolhia-se como se j estivesse sob a colera +mão; e encolhia-se como se já estivesse sob a colera dos seus punhos fechados. <br /> <br /> Mas o que a torturava mais era a tranquillidade de Juliana—espanejando, cantarolando, servindo-a ao jantar d'avental branco. Que tencionava ella? Que <span class="pagenum">[386]</span> -preparava ella? s vezes vinha-lhe uma onda de +preparava ella? Ás vezes vinha-lhe uma onda de raiva; se fosse forte ou corajosa, de certo atirar-se-lhe-hia -ao pescoo, para a esganar, arrancar-lhe a -carta! Mas pobre d'ella, era uma mosquinha! <br /> +ao pescoço, para a esganar, arrancar-lhe a +carta! Mas pobre d'ella, era «uma mosquinha»! <br /> <br /> -Justamente, n'uma d'essas manhs, Juliana entrou -no quarto—com o vestido de sda preto no brao. +Justamente, n'uma d'essas manhãs, Juliana entrou +no quarto—com o vestido de sêda preto no braço. Estendeu-o na <em>causeuse</em>, e mostrou a Luiza, na saia, -ao p do ultimo folho, um rasgo largo que parecia +ao pé do ultimo folho, um rasgão largo que parecia feito com um prego; vinha saber se a senhora queria -que o mandasse costureira. <br /> +que o mandasse á costureira. <br /> <br /> -Luiza lembrava-se bem, rasgra-o uma manh no +Luiza lembrava-se bem, rasgára-o uma manhã no <em>Paraiso</em> a brincar com Bazilio! <br /> <br /> -—Isto facil d'arranjar—dizia Juliana, passando -de leve a mo espalmada sobre a sda, com a -lentido d'uma caricia. <br /> +—Isto é facil d'arranjar—dizia Juliana, passando +de leve a mão espalmada sobre a sêda, com a +lentidão d'uma caricia. <br /> <br /> Luiza examinava-o, hesitando: <br /> <br /> -—Elle tambem j no est novo... Olhe, guarde-o -p'ra voss! <br /> +—Elle tambem já não está novo... Olhe, guarde-o +p'ra vossê! <br /> <br /> Juliana estremeceu, fez-se vermelha: <br /> <br /> —Oh minha senhora!—exclamou—Muito agradecida! - um rico presente. Muito agradecida, minha +É um rico presente. Muito agradecida, minha senhora! Realmente...—E a voz perturbava-se-lhe. <br /> <br /> -Tomou-o nos braos, com cuidado, correu logo -cozinha. E Luiza, que a seguira p ante p, ouviu-a +Tomou-o nos braços, com cuidado, correu logo á +cozinha. E Luiza, que a seguira pé ante pé, ouviu-a dizer toda excitada: <br /> <br /> -— um rico presente, o que ha de melhor. E -novo! Uma rica sda!—Fazia arrastar a cauda pelo -cho, com um <em>frou-frou</em>. Sempre o invejra: e tinha-o -agora, era o <em>seu</em> vestido de sda!— de muito -boa senhora, snr.<sup>a</sup> Joanna, d'um anjo! +—É um rico presente, é o que ha de melhor. E +novo! Uma rica sêda!—Fazia arrastar a cauda pelo +chão, com um <em>frou-frou</em>. Sempre o invejára: e tinha-o +agora, era o <em>seu</em> vestido de sêda!—É de muito +boa senhora, snr.<sup>a</sup> Joanna, é d'um anjo! <br /> <br /><span class="pagenum">[387]</span> -Luiza voltou ao quarto, toda alvoroada; era como +Luiza voltou ao quarto, toda alvoroçada; era como uma pessoa perdida de noite, n'um descampado—que -de repente, ao longe, v reluzir um claro de -vidraa! Estava salva! Era presenteal-a, era fartal-a! -Comeou logo a pensar no que lhe podia dar mais, -pouco a pouco: o vestido rxo, roupas brancas, o -roupo velho, uma pulseira! <br /> +de repente, ao longe, vê reluzir um clarão de +vidraça! Estava salva! Era presenteal-a, era fartal-a! +Começou logo a pensar no que lhe podia dar mais, +pouco a pouco: o vestido rôxo, roupas brancas, o +roupão velho, uma pulseira! <br /> <br /> <br /> <br /> D'ahi a dous dias—era um domingo—recebeu -um telegramma de Jorge: Parto manh do Carregado. -Chego pelo comboio do Porto s 6. Que sobresalto! +um telegramma de Jorge: «Parto ámanhã do Carregado. +Chego pelo comboio do Porto ás 6.» Que sobresalto! Voltava, emfim! <br /> <br /> Era nova, era amorosa—e no primeiro momento -todos os sustos, as inquietaes desappareceram sob -uma sensao d'amor e de desejo, que a inundou. -Viria de madrugada, encontral-a-hia deitada,—e j +todos os sustos, as inquietações desappareceram sob +uma sensação d'amor e de desejo, que a inundou. +Viria de madrugada, encontral-a-hia deitada,—e já pensava na delicia do seu primeiro beijo!... <br /> <br /> -Foi-se vr ao espelho: estava um pouco magra, +Foi-se vêr ao espelho: estava um pouco magra, talvez, com a physionomia um pouco fatigada... E a -imagem de Jorge apparecia-lhe ento muito nitidamente, +imagem de Jorge apparecia-lhe então muito nitidamente, mais queimado do sol, com os seus olhos ternos, -o cabello to annelado! Que estranha cousa! -Nunca lhe appetecra tanto vl-o. Foi logo occupar-se +o cabello tão annelado! Que estranha cousa! +Nunca lhe appetecêra tanto vêl-o. Foi logo occupar-se d'elle: o escriptorio estaria bem arranjado? Quereria um banho morno, seria necessario aquecer a agua na tina grande!... E ia e vinha, cantarolando, @@ -14997,19 +14957,19 @@ com um brilho exaltado nos olhos. <br /> <br /> Mas a voz de Juliana, de repente no corredor, <span class="pagenum">[388]</span> -fl-a estremecer. Que faria ella, a mulher? Ao menos +fêl-a estremecer. Que faria ella, a mulher? Ao menos que a deixasse n'aquelles primeiros dias gozar a volta de Jorge, tranquillamente!... Veio-lhe uma audacia, chamou-a. <br /> <br /> -Juliana entrou, com o vestido de sda novo, movendo-se +Juliana entrou, com o vestido de sêda novo, movendo-se cuidadosamente: <br /> <br /> —Quer alguma cousa, minha senhora? <br /> <br /> -—O snr. Jorge volta amanh...—disse Luiza. <br /> +—O snr. Jorge volta amanhã...—disse Luiza. <br /> <br /> -E suspendeu-se; o corao batia-lhe fortemente. <br /> +E suspendeu-se; o coração batia-lhe fortemente. <br /> <br /> —Ah!—fez Juliana.—Bem, minha senhora. <br /> <br /> @@ -15019,100 +14979,100 @@ E ia sahir. <br /> <br /> A outra voltou-se, surprehendida. <br /> <br /> -E Luiza batendo com as mos, n'um movimento +E Luiza batendo com as mãos, n'um movimento supplicante: <br /> <br /> -—Mas voss ao menos n'estes primeiros dias... +—Mas vossê ao menos n'estes primeiros dias... Eu hei-de arranjar, esteja certa!... <br /> <br /> Juliana acudiu logo: <br /> <br /> -—Oh minha senhora! Eu no quero dar desgostos -a ninguem. O que eu quero um bocadinho de -po para a velhice. Da minha bocca no ha-de vir -mal a ninguem. O que peo senhora que se fr +—Oh minha senhora! Eu não quero dar desgostos +a ninguem. O que eu quero é um bocadinho de +pão para a velhice. Da minha bocca não ha-de vir +mal a ninguem. O que peço á senhora é que se fôr da sua vontade e me quizer ir ajudando... <br /> <br /> -—L isso, sim... O que voss quizer... <br /> +—Lá isso, sim... O que vossê quizer... <br /> <br /> -—Pois pde estar certa que esta bocca...—E +—Pois póde estar certa que esta bocca...—E fechou os labios com os dedos. <br /> <br /> Que alegria para Luiza! Tinha uns dias, umas semanas, emfim, sem tormentos, com o <em>seu</em> Jorge! -Abandonou-se ento toda deliciosa impaciencia de -o vr. Era singular—mas parecia-lhe que o amava +Abandonou-se então toda á deliciosa impaciencia de +o vêr. Era singular—mas parecia-lhe que o amava <span class="pagenum">[389]</span> mais!...—E depois pensaria, veria, daria outros presentes a Juliana, poderia pouco a pouco preparar -Sebastio... Quasi se sentia feliz. <br /> +Sebastião... Quasi se sentia feliz. <br /> <br /> De tarde Juliana veio dizer-lhe, muito risonha; <br /> <br /> —A snr.<sup>a</sup> Joanna sahiu, que era hoje o seu dia, -mas eu tinha tanta preciso de sahir, tambem! se a -senhora lhe no custasse ficar s... <br /> +mas eu tinha tanta precisão de sahir, tambem! se a +senhora lhe não custasse ficar só... <br /> <br /> -—No! Fico, que tem? V, v! <br /> +—Não! Fico, que tem? Vá, vá! <br /> <br /> -E, d'ahi a pouco, sentiu-a bater os taces no corredor, +E, d'ahi a pouco, sentiu-a bater os tacões no corredor, fechar com ruido a cancella. <br /> <br /> -Ento de repente uma ida deslumbrou-a, como -a fulgurao d'um relampago:—ir ao quarto d'ella, +Então de repente uma idéa deslumbrou-a, como +a fulguração d'um relampago:—ir ao quarto d'ella, rebuscar-lhe a arca, roubar-lhe as cartas! <br /> <br /> Viu-a da janella dobrar a esquina. Subiu logo ao -soto, devagar, escutando, com o corao aos saltos. +sotão, devagar, escutando, com o coração aos saltos. A porta do quarto de Juliana estava aberta; vinha -de l um cheiro de mofo, de rato e de roupa enxovalhada +de lá um cheiro de mofo, de rato e de roupa enxovalhada que a enjoou; pelo postigo entrava uma -luz triste, de tarde escura; e por baixo, encostada +luz triste, de tarde escura; e por baixo, encostada á parede, ficava a arca! Mas estava fechada! De certo! -Desceu correndo, veio buscar o seu mlho de chaves... +Desceu correndo, veio buscar o seu mólho de chaves... Sentia uma vergonha,—mas se achasse as -cartas! Aquella esperana dava-lhe todos os atrevimentos, -como um vinho alcoolico. Comeou a experimentar -as chaves; a mo tremia-lhe; de repente +cartas! Aquella esperança dava-lhe todos os atrevimentos, +como um vinho alcoolico. Começou a experimentar +as chaves; a mão tremia-lhe; de repente a lingueta, com um estalinho secco, cedeu! Ergueu -a tampa, estavam alli, talvez! E ento, com cautela, +a tampa, estavam alli, talvez! E então, com cautela, muito femininamente, poz-se a tirar as cousas uma -por uma, pondo-as em cima do colxo:—o vestido +por uma, pondo-as em cima do colxão:—o vestido de merino; um leque com figuras douradas, embrulhado <span class="pagenum">[390]</span> -em papel de sda; velhas fitas rxas e azues, -passadas a ferro; uma pregadeira de setim cr de -rosa, com um corao bordado a matiz: dous frasquinhos +em papel de sêda; velhas fitas rôxas e azues, +passadas a ferro; uma pregadeira de setim côr de +rosa, com um coração bordado a matiz: dous frasquinhos de cheiro, intactos, tendo collados ao vidro raminhos de rosas de papel recortado; tres pares de botinas embrulhadas em jornaes; a roupa branca, d'onde se exhalava um cheiro de madeira e de folhas -de ma camoeza. Entre duas camisas estava um -mao de cartas atadas com um nastro... Nenhuma -era d'ella! Nem de Bazilio! Eram d'uma letra d'alda, +de maçã camoeza. Entre duas camisas estava um +maço de cartas atadas com um nastro... Nenhuma +era d'ella! Nem de Bazilio! Eram d'uma letra d'aldêa, inintelligivel e amarellada! Que raiva! E ficou -a olhar para a arca vazia, de p, com os braos tristemente +a olhar para a arca vazia, de pé, com os braços tristemente cahidos. <br /> <br /> Uma sombra de repente passou diante do postigo. Estremeceu, aterrada. Era um gato, que com -passos leves, vadiava pelo telhado.—Tornou a repr +passos leves, vadiava pelo telhado.—Tornou a repôr tudo com as mesmas dobras, fechou a arca, ia a sahir,—mas lembrou-se de procurar na gaveta da mesa e debaixo do travesseiro. Nada! Impacientou-se -ento; no se queria ir sem ter gasto toda a esperana; +então; não se queria ir sem ter gasto toda a esperança; desmanchou a roupa da cama, remexeu a -palha amollentada do enxergo, sacudiu as velhas +palha amollentada do enxergão, sacudiu as velhas botinas, esgaravatou os cantos... Nada! Nada! <br /> <br /> Subitamente, a campainha tocou. Desceu a correr. Que surpreza! Era D. Felicidade. <br /> <br /> -—s tu! Como ests tu? Entra. <br /> +—És tu! Como estás tu? Entra. <br /> <br /> Estava melhor, veio logo contando pelo corredor. -Sahira na vespera da Encarnao: o p s vezes -ainda lhe fazia mal: mas graas a Deus estava escapa! +Sahira na vespera da Encarnação: o pé ás vezes +ainda lhe fazia mal: mas graças a Deus estava escapa! E que lhe agradecesse, era a sua primeira visita! <br /> <br /><span class="pagenum">[391]</span> @@ -15125,49 +15085,49 @@ Felicidade, pondo-se diante d'ella. <br /> —Um bocadito mais pallida. <br /> <br /> Ai! tinha soffrido muito! Ergueu a saia, mostrou -o p calado n'um sapato largo, obrigou Luiza a -apalpal-o... Que uma consolao lhe restava: que -toda a Lisboa a fra vr! Graas a Deus! Toda a Lisboa, +o pé calçado n'um sapato largo, obrigou Luiza a +apalpal-o... Que uma consolação lhe restava: é que +toda a Lisboa a fôra vêr! Graças a Deus! Toda a Lisboa, o que ha de melhor em Lisboa! <br /> <br /> —E tu esta semana—acrescentou—nem appareceste! Pois olha que te cortaram na pelle... <br /> <br /> -—No pude, filha. O Jorge chega manh, sabias? <br /> +—Não pude, filha. O Jorge chega ámanhã, sabias? <br /> <br /> -—Ah sua brejeira! Viva! Est esse coraosinho +—Ah sua brejeira! Viva! Está esse coraçãosinho aos pulos!—E disse-lhe um segredinho. <br /> <br /> Riram muito. <br /> <br /> —Pois eu—continuou D. Felicidade sentando-se—arranjei-te -hoje a partida. Encontrei esta manh +hoje a partida. Encontrei esta manhã o Conselheiro, que me disse que vinha. Encontrei-o aos Martyres! Olha que foi sorte, logo no primeiro dia que sahi! E um bocado adiante dou com -o Julio: diz que tambem vinha!...—E com uma +o Julião: diz que tambem vinha!...—E com uma voz desfallecida: <br /> <br /> -—Sabes? tomava uma colherinha de dce... <br /> +—Sabes? tomava uma colherinha de dôce... <br /> <br /> <br /> <br /> Foi Luiza que abriu a porta ao Conselheiro e a <span class="pagenum">[392]</span> -Julio, que se tinham encontrado na escada, dizendo-lhes +Julião, que se tinham encontrado na escada, dizendo-lhes a rir: <br /> <br /> -—Hoje sou eu o guarda-porto! <br /> +—Hoje sou eu o guarda-portão! <br /> <br /> -D. Felicidade, na sala, para disfarar a perturbao +D. Felicidade, na sala, para disfarçar a perturbação que lhe deu o espectaculo amado da pessoa d'Accacio, -comeou, fallando muito, a censural-a por -deixar assim sahir no mesmo dia as duas criadas... <br /> +começou, fallando muito, a censural-a «por +deixar assim sahir no mesmo dia as duas criadas...» <br /> <br /> -—E se te achares incommodada, filha, se te dr +—E se te achares incommodada, filha, se te dér alguma cousa? <br /> <br /> -Luiza riu. No era affecta a fanicos... <br /> +Luiza riu. Não era affecta a fanicos... <br /> <br /> Todavia achavam-na abatida. E o Conselheiro, com interesse: <br /> @@ -15176,8 +15136,8 @@ com interesse: <br /> Luiza? <br /> <br /> Dos dentes? Era a primeira vez que tal ouvia!—exclamou -logo D. Felicidade. Julio declarou que -raras vezes vira uma dentio to perfeita. <br /> +logo D. Felicidade. Julião declarou que +raras vezes vira uma dentição tão perfeita. <br /> <br /> O Conselheiro apressou-se a citar: <br /> <br /> @@ -15189,112 +15149,112 @@ Em labios de coral, perolas finas... <br /> E acrescentou: <br /> <br /> -— verdade, mas a ultima vez que tive a honra -d'estar com D. Luiza, viu-se to repentinamente +—É verdade, mas a ultima vez que tive a honra +d'estar com D. Luiza, viu-se tão repentinamente afflicta com um dente, que teve d'ir a correr chumbal-o ao Vitry! <br /> <br /> Luiza fez-se muito vermelha. Felizmente a campainha tocou. Devia ser a Joanna, ia abrir... <br /> <br /> -— verdade—continuou o Conselheiro—tinhamos +—É verdade—continuou o Conselheiro—tinhamos <span class="pagenum">[393]</span> feito um delicioso passeio, quando de repente -D. Luiza empallidece, e parece que a dr era to +D. Luiza empallidece, e parece que a dôr era tão urgente, que se precipitou para a escada do dentista, como louca... <br /> <br /> -A proposito de dres, D. Felicidade, que estava -anciosa por interessar, commover o Conselheiro, comeou -a historia do seu p: disse a queda, o milagre -de no ter morrido, as visitas assiduas de condessas -e viscondessas, o susto em toda a Encarnao, +A proposito de dôres, D. Felicidade, que estava +anciosa por interessar, commover o Conselheiro, começou +a historia do seu pé: disse a queda, o milagre +de não ter morrido, as visitas assiduas de condessas +e viscondessas, o susto em toda a Encarnação, os cuidados do bom dr. Caminha... <br /> <br /> —Ai! soffri muito!—suspirou, com os olhos no Conselheiro, para provocar uma palavra sympathica. <br /> <br /> -Accacio, ento, disse com authoridade: <br /> +Accacio, então, disse com authoridade: <br /> <br /> -— sempre um erro, ao descer uma escada ingreme, -no procurar o apoio do corrimo. <br /> +—É sempre um erro, ao descer uma escada ingreme, +não procurar o apoio do corrimão. <br /> <br /> —Mas podia ter morrido!—exclamou ella. E -voltando-se para Julio:—Pois no verdade? <br /> +voltando-se para Julião:—Pois não é verdade? <br /> <br /> —N'este mundo morre-se por qualquer cousa—disse elle enterrado n'uma poltrona, fumando voluptuosamente. Elle mesmo estivera n'aquella tarde -para ser atropellado por um trem: destinra o domingo +para ser atropellado por um trem: destinára o domingo para se dar <em>um feriado</em>, e fizera um grande -passeio pela circumvallao...—Ha mais d'um mez +passeio pela circumvallação...—Ha mais d'um mez vivo no meu cubiculo, como um frade benedictino na livraria do seu convento!—acrescentou, rindo, quebrando complacentemente a cinza do cigarro sobre o tapete. <br /> <br /> -O Conselheiro quiz saber ento o assumpto da -these: de certo muito momentoso!... E apenas Julio +O Conselheiro quiz saber então o assumpto da +these: de certo muito momentoso!... E apenas Julião <span class="pagenum">[394]</span> -lhe disse: Sobre physiologia, snr. Conselheiro, +lhe disse: «Sobre physiologia, snr. Conselheiro», Accacio observou logo, com uma voz profunda: <br /> <br /> -—Ah! physiologia! Deve ser ento de grande +—Ah! physiologia! Deve ser então de grande magnitude! E presta-se mais ao estylo ameno. <br /> <br /> -Queixou-se, tambem, de vergar ao peso dos -seus trabalhos litterarios... <br /> +Queixou-se, tambem, de «vergar ao peso dos +seus trabalhos litterarios...» <br /> <br /> -—Esperemos todavia, snr. Zuzarte, que no sejam +—Esperemos todavia, snr. Zuzarte, que não sejam infructiferas as nossas vigilias! <br /> <br /> —As suas, snr. Conselheiro, as suas!—E com -interesse:—Quando nos d o seu novo trabalho? -Ha sofreguido em o vr! <br /> +interesse:—Quando nos dá o seu novo trabalho? +Ha sofreguidão em o vêr! <br /> <br /> -—Ha alguma sofreguido—concordou o Conselheiro +—Ha alguma sofreguidão—concordou o Conselheiro com seriedade.—Ha dias me dizia o snr. -ministro da justia (esse robustissimo talento), ha -dias me dizia, me fazia a honra de me dizer: D-nos +ministro da justiça (esse robustissimo talento), ha +dias me dizia, me fazia a honra de me dizer: Dê-nos depressa o seu livro, Accacio, estamos precisados de luz, de muita luz! Foi assim que elle disse. Eu inclinei-me, naturalmente, e respondi: Snr. ministro, -no serei eu que a negue ao meu paiz, quando o meu +não serei eu que a negue ao meu paiz, quando o meu paiz a necessitar! <br /> <br /> —Muito bem, muito bem, Conselheiro! <br /> <br /> —E—acrescentou—dir-lhes-hei, aqui em familia, -que o nosso ministro do reino me deixou entrevr -n'um futuro no remoto, a commenda de S. +que o nosso ministro do reino me deixou entrevêr +n'um futuro não remoto, a commenda de S. Thiago! <br /> <br /> -—J lh'a deviam ter dado, Conselheiro!—exclamou -Julio, divertindo-se.—Mas n'este desgraado -paiz... J a devia ter ao peito, Conselheiro! <br /> +—Já lh'a deviam ter dado, Conselheiro!—exclamou +Julião, divertindo-se.—Mas n'este desgraçado +paiz... Já a devia ter ao peito, Conselheiro! <br /> <br /> -—Ha que tempos!—exclamou com fora D. Felicidade. +—Ha que tempos!—exclamou com força D. Felicidade. <br /> <br /><span class="pagenum">[395]</span> —Obrigado, obrigado!—balbuciou o Conselheiro, -rubro. E na expanso do seu jubilo offereceu com -uma familiaridade agradecida, a sua caixa de rap -a Julio. <br /> +rubro. E na expansão do seu jubilo offereceu com +uma familiaridade agradecida, a sua caixa de rapé +a Julião. <br /> <br /> —Tomarei para espirrar—disse elle. <br /> <br /> -Sentia-se n'aquella tarde n'uma disposio benevola: -o trabalho e as altas esperanas que elle lhe +Sentia-se n'aquella tarde n'uma disposição benevola: +o trabalho e as altas esperanças que elle lhe dava tinham de certo dissipado o seu azedume: parecia -at ter esquecido a sua humilhao, quando -encontrra alli, n'aquella sala, o primo Bazilio, porque +até ter esquecido a sua humilhação, quando +encontrára alli, n'aquella sala, o primo Bazilio, porque apenas Luiza entrou, perguntou-lhe por elle. <br /> <br /> -—Partiu para Paris, no sabiam? ha que tempos! <br /> +—Partiu para Paris, não sabiam? ha que tempos! <br /> <br /> D. Felicidade e o Conselheiro fizeram logo o elogio de Bazilio. Tinha ido deixar bilhetes de visita a -ambos—o que encantra D. Felicidade, e ensoberbecera +ambos—o que encantára D. Felicidade, e ensoberbecera o Conselheiro. Era um verdadeiro fidalgo!—exclamava ella. E Accacio affirmou com authoridade: <br /> <br /> @@ -15304,106 +15264,106 @@ ella. E Accacio affirmou com authoridade: <br /> <br /> —Um <em>gentleman</em>!—resumiu o Conselheiro. <br /> <br /> -Julio, calado, bambaleava a perna. Agora, quelles +Julião, calado, bambaleava a perna. Agora, áquelles elogios, o seu despeito renascia; lembrava a seccura -cortante de Luiza, n'aquella manh, as <em>poses</em> -do outro. No resistiu a dizer: <br /> +cortante de Luiza, n'aquella manhã, as <em>poses</em> +do outro. Não resistiu a dizer: <br /> <br /> —Um pouco sobrecarregado nas joias e nos -bordados das meias. De resto moda no Brazil, +bordados das meias. De resto é moda no Brazil, creio... <br /> <br /> -Luiza crou; teve-lhe odio. E, vagamente, veio-lhe +Luiza córou; teve-lhe odio. E, vagamente, veio-lhe uma saudade de Bazilio. <br /> <br /><span class="pagenum">[396]</span> -D. Felicidade ento, perguntou por Sebastio: no +D. Felicidade então, perguntou por Sebastião: não o via havia um seculo; e lamentava, porque era uma -pessoa que lhe dava saude, s vl-a. <br /> +pessoa que lhe dava saude, só vêl-a. <br /> <br /> -— uma grande alma—disse com emphase o +—É uma grande alma—disse com emphase o Conselheiro.—Todavia censurava-o um pouco por -no se occupar, no se tornar util ao seu paiz.—Porque -emfim—declarou—o piano uma bonita -habilidade, mas no d uma posio na sociedade.—Citou -ento Ernestinho, que, posto que dando-se - arte dramatica, era todavia (e a sua voz tornou-se -grave), segundo todas as informaes, um excellente +não se occupar, não se tornar util ao seu paiz.—Porque +emfim—declarou—o piano é uma bonita +habilidade, mas não dá uma posição na sociedade.—Citou +então Ernestinho, que, posto que dando-se +á arte dramatica, era todavia (e a sua voz tornou-se +grave), segundo todas as informações, um excellente empregado aduaneiro... <br /> <br /> Que fazia elle, Ernestinho?—perguntaram. <br /> <br /> -Julio tinha-o encontrado. Dissera-lhe que a <em>Honra -e Paixo</em> ia d'ahi a duas semanas, j se estavam -a imprimir os cartazes, e na rua dos Condes j lhe -no chamavam seno o <em>Dumas filho portuguez</em>! E o -pobre rapaz cr-se realmente um <em>Dumas filho</em>! <br /> +Julião tinha-o encontrado. Dissera-lhe que a <em>Honra +e Paixão</em> ia d'ahi a duas semanas, já se estavam +a imprimir os cartazes, e na rua dos Condes já lhe +não chamavam senão o <em>Dumas filho portuguez</em>! E o +pobre rapaz crê-se realmente um <em>Dumas filho</em>! <br /> <br /> -—No conheo esse author—disse com gravidade -o Conselheiro—posto que me parea, pelo nome, +—Não conheço esse author—disse com gravidade +o Conselheiro—posto que me pareça, pelo nome, ser filho do escriptor que se tornou famoso pelos -<em>Tres Mosqueteiros</em> e outras obras de imaginao!... -Mas, de resto, o nosso Ledesma um esmerado -cultor da arte dos Corneilles! No lhe parece, +<em>Tres Mosqueteiros</em> e outras obras de imaginação!... +Mas, de resto, o nosso Ledesma é um esmerado +cultor da arte dos Corneilles! Não lhe parece, D. Luiza? <br /> <br /> —Sim—disse ella com um sorriso vago. <br /> <br /> -Parecia preoccupada. Fra j duas vezes ao relogio -do quarto vr as horas: quasi dez, e Juliana sem -voltar! Quem havia de servir o ch? Ella mesmo -foi pr as chavenas no taboleiro, armar o paliteiro. +Parecia preoccupada. Fôra já duas vezes ao relogio +do quarto vêr as horas: quasi dez, e Juliana sem +voltar! Quem havia de servir o chá? Ella mesmo +foi pôr as chavenas no taboleiro, armar o paliteiro. <span class="pagenum">[397]</span> -Quando voltou sala notou um silencio enfastiado...—Queriam +Quando voltou á sala notou um silencio enfastiado...—Queriam que fosse tocar?—perguntou. <br /> <br /> -Mas D. Felicidade que olhava, ao p de Julio, -as gravuras do Dante, illustrado por G. Dor, que +Mas D. Felicidade que olhava, ao pé de Julião, +as gravuras do Dante, illustrado por G. Doré, que elle folheava, com o volume sobre os joelhos, exclamou, de repente: <br /> <br /> -—Ai que bonito! que ? Muito bonito! Viste, +—Ai que bonito! que é? Muito bonito! Viste, Luiza? <br /> <br /> Luiza aproximou-se. <br /> <br /> -— um caso d'amor infeliz, snr.<sup>a</sup> D. Felicidade—disse -Julio.— a historia triste de Paulo e Francesca +—É um caso d'amor infeliz, snr.<sup>a</sup> D. Felicidade—disse +Julião.—É a historia triste de Paulo e Francesca de Rimini.—E explicando o desenho:—Aquella -senhora sentada Francesca: este moo de guedelha, -ajoelhado aos ps d'ella, e que a abraa, +senhora sentada é Francesca: este moço de guedelha, +ajoelhado aos pés d'ella, e que a abraça, é seu cunhado, e, lamento ter de o dizer, seu amante. -E aquelle barbaas, que l ao fundo levanta o -reposteiro e saca da espada, o marido que vem, e -zs!—E fez o gesto de enterrar o ferro. <br /> +E aquelle barbaças, que lá ao fundo levanta o +reposteiro e saca da espada, é o marido que vem, e +zás!—E fez o gesto de enterrar o ferro. <br /> <br /> —Safa!—fez D. Felicidade, arripiada—E aquelle -livro cahido o que ? Estavam a lr?... <br /> +livro cahido o que é? Estavam a lêr?... <br /> <br /> -Julio disse discretamente: <br /> +Julião disse discretamente: <br /> <br /> -—Sim... Tinham comeado por lr, mas depois... <br /> +—Sim... Tinham começado por lêr, mas depois... <br /> <br /> <br /> <div class="poetry0"> -Quel giorno pi no vi leggiomi avante, +Quel giorno più no vi leggiomi avante, </div> <br /> <br /> -o que quer dizer:—<em>E ns no lemos mais em todo +o que quer dizer:—<em>E nós não lemos mais em todo o dia!</em> <br /> <br /> -—Pozeram-se a derriar—disse D. Felicidade +—Pozeram-se a derriçar—disse D. Felicidade com um sorriso. <br /> <br /><span class="pagenum">[398]</span> —Peor, minha rica senhora, peor! Porque segundo -a mesma confisso de Francesca, este moo, +a mesma confissão de Francesca, este moço, o da guedelha, o cunhado, <br /> <br /> <br /> <div class="poetry0"> -La bocca me bacci tutto tremante, +La bocca me bacciò tutto tremante, </div> <br /> <br /> @@ -15411,31 +15371,31 @@ o que significa:—<em>A bocca me beijou tremendo todo</em>... <br /> <br /> —Ah!—fez D. Felicidade, com um olhar rapido -para o Conselheiro.— uma novella? <br /> +para o Conselheiro.—É uma novella? <br /> <br /> -— o Dante, D. Felicidade—acudiu com severidade +—É o Dante, D. Felicidade—acudiu com severidade o Conselheiro—um poema epico classificado -entre os melhores. Inferior, porm, ao nosso Cames! +entre os melhores. Inferior, porém, ao nosso Camões! Mas rival do famoso Milton! <br /> <br /> —Que n'essas historias estrangeiras os maridos matam sempre as mulheres!—exclamou ella. E -voltando-se para o Conselheiro:—Pois no verdade? <br /> +voltando-se para o Conselheiro:—Pois não é verdade? <br /> <br /> -—Sim. D. Felicidade, repetem-se l fra com +—Sim. D. Felicidade, repetem-se lá fóra com frequencia essas tragedias domesticas. O desenfreamento -das paixes maior. Mas entre ns, digamol-o -com orgulho, o lar muito respeitado. Assim eu, -por exemplo, em todas as minhas relaes em Lisboa, -que so numerosas, graas a Deus, no conheo -seno esposas modlos.—E com um sorriso cortezo:—De -que de certo a flr a dona da casa! <br /> +das paixões é maior. Mas entre nós, digamol-o +com orgulho, o lar é muito respeitado. Assim eu, +por exemplo, em todas as minhas relações em Lisboa, +que são numerosas, graças a Deus, não conheço +senão esposas modêlos.—E com um sorriso cortezão:—De +que é de certo a flôr a dona da casa! <br /> <br /> D. Felicidade revirou os olhos para Luiza que estava -encostada cadeira d'ella, e batendo-lhe no -brao: <br /> +encostada á cadeira d'ella, e batendo-lhe no +braço: <br /> <br /> -—Isto uma joia!—disse com amor. +—Isto é uma joia!—disse com amor. <br /> <br /><span class="pagenum">[399]</span> —E de resto—acudiu o Conselheiro—o nosso @@ -15443,17 +15403,17 @@ Jorge merece-o. Porque, como diz o poeta: <br /> <br /> <br /> <div class="poetry0"> -Seu corao nobre, e a fronte altiva<br /> +Seu coração é nobre, e a fronte altiva<br /> Revela-lhe da alma a pura essencia. </div> <br /> <br /> -Aquella conversao impacientava Luiza. Ia sentar-se +Aquella conversação impacientava Luiza. Ia sentar-se ao piano, quando D. Felicidade exclamou:—Dize -c, ento no se toma hoje ch n'esta casa? <br /> +cá, então não se toma hoje chá n'esta casa? <br /> <br /> -Luiza foi outra vez cozinha. Disse a Joanna -que viesse ella mesma com o ch.—E d'ahi a pouco +Luiza foi outra vez á cozinha. Disse a Joanna +que viesse ella mesma com o chá.—E d'ahi a pouco Joanna, d'avental branco, vermelha, muito atarantada, entrou com o taboleiro. <br /> <br /> @@ -15462,74 +15422,74 @@ entrou com o taboleiro. <br /> —Sahiu, coitada—explicou Luiza—tem andado doente... <br /> <br /> -—E anda-te ento por fra at estas horas?... -Boa! At desacredita uma casa... <br /> +—E anda-te então por fóra até estas horas?... +Boa! Até desacredita uma casa... <br /> <br /> O Conselheiro tambem achava imprudente: <br /> <br /> -—Porque emfim as tentaes so grandes n'uma +—Porque emfim as tentações são grandes n'uma capital, minha senhora! <br /> <br /> -Julio exclamou, rindo: <br /> +Julião exclamou, rindo: <br /> <br /> -—No, se aquella tentada, descreio para sempre +—Não, se aquella é tentada, descreio para sempre e totalmente, dos meus contemporaneos. <br /> <br /> —Oh snr. Zuzarte!—acudiu o Conselheiro, quasi -severamente—referia-me a outras tentaes: entrar, +severamente—referia-me a outras tentações: entrar, por exemplo, n'uma loja de bebidas, appetecer-lhe ir ao Circo e desleixar os seus deveres... <br /> <br /> -Mas D. Felicidade no podia soffrer a Juliana: +Mas D. Felicidade não podia soffrer a Juliana: achava-lhe cara de Judas, tinha ar de ser capaz de tudo... <br /> <br /><span class="pagenum">[400]</span> -Luiza defendeu-a: era muito servial, muito boa +Luiza defendeu-a: era muito serviçal, muito boa engommadeira, muito honesta... <br /> <br /> -—E anda-te pela rua at s onze da noite!... +—E anda-te pela rua até ás onze da noite!... Credo! Fosse commigo! <br /> <br /> —E creio—observou o Conselheiro—que tem -uma doena mortal. No verdade, snr. Zuzarte? <br /> +uma doença mortal. Não é verdade, snr. Zuzarte? <br /> <br /> -—Mortal. Um aneurisma—respondeu Julio, +—Mortal. Um aneurisma—respondeu Julião, sem levantar os olhos do Dante. <br /> <br /> —Ainda para mais!—exclamou D. Felicidade. -E abaixando a voz:—Tu o que deves fazer descartar-te -d'ella! Uma criada com uma doena d'essas! -Que at lhe pde arrebentar a vir dar um copo -d'agua gente. Cruzes! <br /> +E abaixando a voz:—Tu o que deves fazer é descartar-te +d'ella! Uma criada com uma doença d'essas! +Que até lhe póde arrebentar a vir dar um copo +d'agua á gente. Cruzes! <br /> <br /> O Conselheiro apoiava: <br /> <br /> -—E s vezes, que embaraos com a authoridade! <br /> +—E ás vezes, que embaraços com a authoridade! <br /> <br /> -Julio fechou o Dante, e disse: <br /> +Julião fechou o Dante, e disse: <br /> <br /> —Eu tem-me esquecido d'avisar o Jorge; mas -um dia a creatura cahe-lhes redonda no cho.—E -sorveu um gole de ch. <br /> +um dia a creatura cahe-lhes redonda no chão.—E +sorveu um gole de chá. <br /> <br /> Luiza estava afflicta. Parecia-lhe que uma nova -complicao se formava para a torturar... Pz-se a -dizer que era to difficil arranjar criadas... <br /> +complicação se formava para a torturar... Pôz-se a +dizer que era tão difficil arranjar criadas... <br /> <br /> -L isso era, concordaram. <br /> +Lá isso era, concordaram. <br /> <br /> Fallaram de criados, das suas exigencias. Estavam cada vez mais atrevidos! E em se lhes dando -confiana! E que immoralidade!... <br /> +confiança! E que immoralidade!... <br /> <br /> -—Muitas vezes culpa das amas—disse D. Felicidade.—Fazem +—Muitas vezes é culpa das amas—disse D. Felicidade.—Fazem das criadas confidentes, e isto, em ellas apanhando um segredo, tornam-se as donas da casa... <br /> <br /><span class="pagenum">[401]</span> -As mos tremulas de Luiza faziam-lhe tilintar a +As mãos tremulas de Luiza faziam-lhe tilintar a chavena. Disse, com uma voz affectadamente risonha: <br /> <br /> —E o Conselheiro, que tal de criados? <br /> @@ -15539,17 +15499,17 @@ Accacio tossiu: <br /> —Bem. Tenho uma pessoa respeitavel, com bom paladar, muito escrupulosa em contas... <br /> <br /> -—E que no feia—acudiu Julio.—Assim -me pareceu uma vez que fui rua do Ferregial... <br /> +—E que não é feia—acudiu Julião.—Assim +me pareceu uma vez que fui á rua do Ferregial... <br /> <br /> -Uma vermelhido espalhra-se pela calva do Conselheiro. +Uma vermelhidão espalhára-se pela calva do Conselheiro. D. Felicidade fitava-o anciosamente, com a -pupilla chammejante. Accacio, ento, disse com severidade: <br /> +pupilla chammejante. Accacio, então, disse com severidade: <br /> <br /> —Nunca reparo para a physionomia dos subalternos, snr. Zuzarte. <br /> <br /> -Julio ergueu-se e enterrando as mos nos bolsos, +Julião ergueu-se e enterrando as mãos nos bolsos, jovialmente: <br /> <br /> —Foi um grande erro abolir a escravatura!... <br /> @@ -15557,57 +15517,57 @@ jovialmente: <br /> —E o principio da liberdade?—acudiu logo o Conselheiro—E o principio da liberdade? Que os pretos eram grandes cozinheiros, concordo... Mas a -liberdade um bem maior. <br /> +liberdade é um bem maior. <br /> <br /> -Alargou-se ento em consideraes; fulminou os -horrores do trafico, lanou suspeitas sobre a philantropia +Alargou-se então em considerações; fulminou os +horrores do trafico, lançou suspeitas sobre a philantropia dos inglezes, foi severo com os plantadores da Nova-Orleans, contou o caso da <em>Charles et Georges</em>: -dirigia-se exclusivamente a Julio, que fumava, cabisbaixo. <br /> +dirigia-se exclusivamente a Julião, que fumava, cabisbaixo. <br /> <br /> -D. Felicidade fra-se sentar ao p de Luiza, e +D. Felicidade fôra-se sentar ao pé de Luiza, e muito inquieta, fallando-lhe ao ouvido: <br /> <br /><span class="pagenum">[402]</span> —Tu conheces a criada do Conselheiro? <br /> <br /> -—No. <br /> +—Não. <br /> <br /> -Ser bonita? <br /> +Será bonita? <br /> <br /> Luiza encolheu os hombros. <br /> <br /> -—No sei que me diz o corao, Luiza! Estou a +—Não sei que me diz o coração, Luiza! Estou a abafar! <br /> <br /> -E em quanto Accacio, de p, perorava para Julio, +E em quanto Accacio, de pé, perorava para Julião, D. Felicidade ia murmurando a Luiza as queixas -da sua paixo. <br /> +da sua paixão. <br /> <br /> Que allivio para Luiza quando elles sahiram! O -que ella soffrera, l por dentro, toda aquella noite! +que ella soffrera, lá por dentro, toda aquella noite! Que massadores, que idiotas!—E a outra sem vir! Oh que vida a sua! <br /> <br /> -Foi cozinha dizer a Joanna: <br /> +Foi á cozinha dizer a Joanna: <br /> <br /> —Espere pela Juliana, tenha paciencia. Que ella -no pde tardar; aquillo a mulher achou-se +não póde tardar; aquillo a mulher achou-se peor! <br /> <br /> -Mas j passava de meia noite, j Luiza estava +Mas já passava de meia noite, já Luiza estava deitada, quando a campainha tocou de leve; depois mais forte; emfim, com impaciencia. <br /> <br /> A rapariga adormeceu, pensou Luiza. Saltou da -cama, subiu descala cozinha. Joanna, estirada para -cima da mesa, resonava ao p do candieiro de -petroleo, que fumegava fetidamente. Sacudiu-a, fl-a -pr de p, estremunhada; voltou, correndo, deitar-se; +cama, subiu descalça á cozinha. Joanna, estirada para +cima da mesa, resonava ao pé do candieiro de +petroleo, que fumegava fetidamente. Sacudiu-a, fêl-a +pôr de pé, estremunhada; voltou, correndo, deitar-se; e sentiu d'ahi a pouco, no corredor, a voz de -Juliana dizer com satisfao: <br /> +Juliana dizer com satisfação: <br /> <br /> -—J est tudo acommodado, hein? Pois eu estive +—Já está tudo acommodado, hein? Pois eu estive no theatro. Muito bonito! Do melhor, snr.<sup>a</sup> Joanna, do melhor! <br /> @@ -15615,35 +15575,35 @@ do melhor! Luiza adormeceu tarde, e durante toda a noite um sonho inquieto agitou-a.—Estava n'um theatro immenso, dourado como uma igreja. Era uma gala: -joias faiscavam sobre seios mimosos, condecoraes +joias faiscavam sobre seios mimosos, condecorações reluziam sobre fardas palacianas. Na tribuna, um rei -triste e moo, immovel n'uma attitude rigida e hieratica, -sustentava na mo a esphera armillar, e o +triste e moço, immovel n'uma attitude rigida e hieratica, +sustentava na mão a esphera armillar, e o seu manto de velludo escuro, constellado de pedrarias como um firmamento, espalhava-se em redor -em pregas d'esculptura, fazendo tropear a multido -dos cortezos vestidos como valetes de paus. <br /> +em pregas d'esculptura, fazendo tropeçar a multidão +dos cortezãos vestidos como valetes de paus. <br /> <br /> Ella estava no palco; era actriz; debutava no drama d'Ernestinho: e toda nervosa via diante de si -na vasta plata susurrante, fileiras de olhos negros +na vasta platéa susurrante, fileiras de olhos negros e accesos, cravados n'ella com furor: no meio a calva do Conselheiro, d'uma redondeza nevada e nobre, -sobresahia, rodeada como uma flr d'um vo amoroso -d'abelhas. No palco oscillava a vasta decorao -d'uma floresta; ella notava sobretudo, esquerda, +sobresahia, rodeada como uma flôr d'um vôo amoroso +d'abelhas. No palco oscillava a vasta decoração +d'uma floresta; ella notava sobretudo, á esquerda, um carvalho secular, d'uma arrogancia heroica—cujo -tronco tinha a vaga configurao d'uma physionomia, -e se parecia com Sebastio. <br /> +tronco tinha a vaga configuração d'uma physionomia, +e se parecia com Sebastião. <br /> <br /> Mas o contra-regra bateu as palmas: era esguio, parecia-se com D. Quixote, trazia oculos redondos com aros de lata, brandia <em>o Jornal do Commercio</em> torcido em saca-rolhas, e gania: salta a scenasinha -de amor! salta-me essa maravilha! Ento a orchestra, +de amor! salta-me essa maravilha! Então a orchestra, onde os olhos dos musicos reluziam como granadas -e as suas cabelleiras se erriavam como montes -d'estopa, tocou com uma lentido melancolica o +e as suas cabelleiras se erriçavam como montões +d'estopa, tocou com uma lentidão melancolica o <span class="pagenum"><a name="p404" id="p404">[404]</a></span> fado de <a href="#e14">Leopoldina</a>; e uma voz aspera e canalha @@ -15654,102 +15614,102 @@ cantava em falsete: <br /> Vejo-o nas nuvens da tarde,<br /> Nas ondas do mar sem fim,<br /> E por mais longe que esteja<br /> -Sinto-o sempre ao p de mim. +Sinto-o sempre ao pé de mim. </div> <br /> <br /> -Luiza achava-se nos braos de Bazilio que a enlaavam, +Luiza achava-se nos braços de Bazilio que a enlaçavam, a queimavam: toda desfallecida, sentia-se perder, fundir-se n'um elemento quente como o sol -e dce como o mel: gozava <a href="#e15">prodigiosamente</a>: mas, -por entre os seus soluos, sentia-se envergonhada, +e dôce como o mel: gozava <a href="#e15">prodigiosamente</a>: mas, +por entre os seus soluços, sentia-se envergonhada, porque Bazilio repetia no palco, sem pudor, os delirios libertinos do <em>Paraiso</em>! Como consentia ella? <br /> <br /> -O theatro n'uma acclamao immensa bradava: -Bravo! Bis! bis! Lenos aos milhares esvoaavam +O theatro n'uma acclamação immensa bradava: +Bravo! Bis! bis! Lenços aos milhares esvoaçavam como borboletas brancas n'um campo de trevo: os -braos ns das mulheres lanavam com um gesto +braços nús das mulheres lançavam com um gesto ondeado ramos de violetas dobradas: o rei erguera-se espectralmente, e, triste, arremessou como um <em>bouquet</em> a sua esphera armillar: e o Conselheiro logo, n'um phrenesi, para seguir os exemplos de Sua Magestade, desaparafusando rapidamente a calva, atirou-lh'a, -com um berro de dr e de gloria! O contraregra -gania:—Agradeam! Agradeam! Ella curvava-se, +com um berro de dôr e de gloria! O contraregra +gania:—Agradeçam! Agradeçam! Ella curvava-se, os seus cabellos de Magdalena rojavam pelo tablado: e Bazilio, a seu lado, seguia com olhos vivos os charutos que lhe atiravam, apanhando-os com -a graa d'um toureiro e a destreza d'um <em>clown</em>! <br /> +a graça d'um toureiro e a destreza d'um <em>clown</em>! <br /> <br /> -Subitamente, porm, todo o theatro teve um <em>ah</em>! +Subitamente, porém, todo o theatro teve um <em>ah</em>! d'espanto. Fez-se um silencio ancioso e tragico; e <span class="pagenum">[405]</span> todos os olhos, milhares d'olhos attonitos se fitavam -no pano de fundo, onde um caramancho arqueava +no pano de fundo, onde um caramanchão arqueava a sua estructura toda estrellada de rosinhas brancas. Ella voltou-se tambem como magnetisada, e viu Jorge, Jorge que se adiantava, vestido de luto, de luvas -pretas, com um punhal na mo; e a lamina reluzia—menos +pretas, com um punhal na mão; e a lamina reluzia—menos que os olhos d'elle! Aproximou-se da rampa e curvando-se, disse com uma voz graciosa: <br /> <br /> —Real magestade, senhor infante, snr. governador civil, minhas senhoras, e meus senhores—agora - commigo! Reparem n'este trabalhinho! <br /> +é commigo! Reparem n'este trabalhinho! <br /> <br /> -Caminhou ento para ella com passos marmoreos +Caminhou então para ella com passos marmoreos que faziam oscillar o tablado; agarrou-lhe os cabellos, -como um mlho d'herva que se quer arrancar; -curvou-lhe a cabea para traz; ergueu d'um modo +como um mólho d'herva que se quer arrancar; +curvou-lhe a cabeça para traz; ergueu d'um modo classico o punhal; fez a pontaria ao seio esquerdo: -e balanando o corpo, piscando o olho, cravou-lhe o +e balançando o corpo, piscando o olho, cravou-lhe o ferro! <br /> <br /> —Muito bonito!—disse uma voz—Rico trabalho! <br /> <br /> -Era Bazilio que fizera entrar nobremente na plata -o seu phaeton! Direito na almofada, com o chapo +Era Bazilio que fizera entrar nobremente na platéa +o seu phaeton! Direito na almofada, com o chapéo ao lado, uma rosa na sobrecasaca, continha com -a mo negligente a inquietao soberba dos seus +a mão negligente a inquietação soberba dos seus cavallos inglezes; e ao seu lado, sentado como um trintanario coberto das suas vestes sacerdotaes, vinha -o patriarcha de Jerusalm!—Mas Jorge arrancra +o patriarcha de Jerusalém!—Mas Jorge arrancára o punhal todo escarlate; as gotas de sangue corriam -at ponta, coalhavam; cahiam depois com um +até á ponta, coalhavam; cahiam depois com um som crystallino, punham-se a rolar pelo tablado como <span class="pagenum">[406]</span> -continhas de vidro vermelho. Ella deitra-se, expirante, -sob o carvalho que se parecia com Sebastio: -ento, como a terra era dura, a arvore estendeu +continhas de vidro vermelho. Ella deitára-se, expirante, +sob o carvalho que se parecia com Sebastião: +então, como a terra era dura, a arvore estendeu por baixo d'ella as suas raizes, macias como coxins de pennas; como o sol a mordia, a arvore desdobrou sobre ella as suas ramagens, como os panos d'uma tenda: e das folhas deixava-lhe escorrer sobre os labios gotas de vinho da Madeira! Ella via no entanto com terror o seu sangue sahir da ferida, -vermelho e forte, correr, alastrar-se, fazendo poas -aqui, ribeirinhos tortuosos alm. E ouvia a plata +vermelho e forte, correr, alastrar-se, fazendo poças +aqui, ribeirinhos tortuosos além. E ouvia a platéa berrar: <br /> <br /> -—O author! Fra o author! <br /> +—O author! Fóra o author! <br /> <br /> Ernestinho, muito frisado, pallido, appareceu; -agradecia soluando; e, s cortezias, saltava aqui, -acol—para no sujar no sangue da prima Luiza os +agradecia soluçando; e, ás cortezias, saltava aqui, +acolá—para não sujar no sangue da prima Luiza os seus sapatinhos de verniz... <br /> <br /> -Sentiu que ia morrer! Uma voz disse vagamente:—l, +Sentiu que ia morrer! Uma voz disse vagamente:—Ólá, como vai isso?—Parecia-lhe de Jorge. -D'onde vinha? Do co? da plata? do corredor? Um +D'onde vinha? Do céo? da platéa? do corredor? Um ruido forte, como d'uma mala que se deixa cahir, acordou-a. Sentou-se na cama. <br /> <br /> —Bem, deixe ahi—disse a voz de Jorge. <br /> <br /> -Saltou em camisa. Elle entrava. E ficaram enlaados, -n'um longo abrao, os beios collados, sem +Saltou em camisa. Elle entrava. E ficaram enlaçados, +n'um longo abraço, os beiços collados, sem uma palavra. O relogio do quarto dava sete horas. <br /> <br /> @@ -15760,12 +15720,12 @@ uma palavra. O relogio do quarto dava sete horas. <br /> <br /> N'esse dia pela uma hora Jorge e Luiza acabavam -d'almoar, como na vespera da partida d'elle. Mas -agora no pesava a faiscante inclemencia da calma, +d'almoçar, como na vespera da partida d'elle. Mas +agora não pesava a faiscante inclemencia da calma, as janellas estavam abertas ao sol amavel d'outubro; -j passavam no ar certas frescuras outonaes; havia -uma pallidez meiga na luz; tardinha j sabiam -bem os paletots; e tons amarellados comeavam a +já passavam no ar certas frescuras outonaes; havia +uma pallidez meiga na luz; á tardinha já «sabiam +bem» os paletots; e tons amarellados começavam a envelhecer as verduras. <br /> <br /> —Que bom achar-se a gente outra vez no seu @@ -15773,33 +15733,33 @@ ninho!—disse Jorge, estirando-se na <em>voltaire</em>. <br /> <br /> Estivera contando a Luiza a sua viagem. Tinha trabalhado como um mouro, e tinha ganho dinheiro! -Trazia os elementos d'um bello relatorio; crera +Trazia os elementos d'um bello relatorio; creára amigos n'aquella boa gente do Alemtejo; estavam acabadas as soalheiras, as cavalgadas pelos montados, <span class="pagenum">[408]</span> os quartos d'hospedaria; e alli estava emfim na sua casinha. E como na vespera da sua partida, soprava o fumo do cigarro, cofiando com delicias o bigode,—porque -tinha cortado a barba! Fra a grande -admirao de Luiza, quando o viu. Elle explicra, -com humilhao e melancolia, que tivera um +tinha cortado a barba! Fôra a grande +admiração de Luiza, quando o viu. Elle explicára, +com humilhação e melancolia, que tivera um furunculo no queixo, com o calor... <br /> <br /> —Mas que bem te fica!—tinha ella dito—que bem que te fica! <br /> <br /> Jorge trouxera-lhe como presente seis pratos de -loua da China, muito antigos, com mandarins bojudos, +louça da China, muito antigos, com mandarins bojudos, de tunicas esmaltadas, suspensos magestosamente no ar azulado; uma preciosidade que descobrira em casa d'umas velhas miguelistas, em Mertola. Luiza dispunha-os muito decorativamente nas prateleiras -do guarda-loua: e em bicos de ps, com a larga -cauda do seu roupo estendida por traz, a massa +do guarda-louça: e em bicos de pés, com a larga +cauda do seu roupão estendida por traz, a massa loura do cabello pesado, um pouco desmanchado sobre as costas—parecia a Jorge mais esbelta, mais irresistivel, e nunca a sua cinta fina lhe attrahira -tanto os braos. <br /> +tanto os braços. <br /> <br /> —A ultima vez que aqui almocei, antes de partir, foi um domingo, lembras-te? <br /> @@ -15807,8 +15767,8 @@ foi um domingo, lembras-te? <br /> —Lembro—disse Luiza sem se voltar, collocando muito delicadamente um prato. <br /> <br /> -—E verdade—perguntou Jorge de repente—teu -primo? Vistel-o? Veio vr-te? <br /> +—E é verdade—perguntou Jorge de repente—teu +primo? Vistel-o? Veio vêr-te? <br /> <br /> O prato escorregou, houve um tlin-tlin de copos. <br /> <br /> @@ -15817,10 +15777,10 @@ O prato escorregou, houve um tlin-tlin de copos. <br /> ahi umas poucas de vezes. Demorou-se pouco... <br /> <br /> -Abaixou-se, abriu o gaveto do guarda-loua, esteve +Abaixou-se, abriu o gavetão do guarda-louça, esteve a remexer nas colheres de prata: ergueu-se, emfim, voltou-se com um sorriso, vermelha, sacudindo -as mos: <br /> +as mãos: <br /> <br /> —Prompto! <br /> <br /> @@ -15828,173 +15788,173 @@ E foi sentar-se nos joelhos de Jorge. <br /> <br /> —Como te fica bem!—dizia, torcendo-lhe o bigode. Admirava-o, d'um modo ardente. Quando se -atirra aos seus braos n'aquella madrugada, sentira -como abrir-se-lhe o corao, e um amor repentino +atirára aos seus braços n'aquella madrugada, sentira +como abrir-se-lhe o coração, e um amor repentino revolver-lh'o deliciosamente; viera-lhe um desejo de o adorar perpetuamente, de o servir, de o apertar -nos braos at lhe fazer mal, de lhe obedecer com -humildade; era uma sensao multipla, de uma doura -infinita, que a traspassra at s profundidades -do seu sr. E passando-lhe um brao pelo pescoo, -murmurava com um movimento d'uma adulao +nos braços até lhe fazer mal, de lhe obedecer com +humildade; era uma sensação multipla, de uma doçura +infinita, que a traspassára até ás profundidades +do seu sêr. E passando-lhe um braço pelo pescoço, +murmurava com um movimento d'uma adulação quasi lasciva: <br /> <br /> -—Ests contente? Sentes-te bom? Dize! <br /> +—Estás contente? Sentes-te bom? Dize! <br /> <br /> -Nunca lhe parecera to bonito, to bom; a sua -pessoa depois d'aquella separao dava-lhe as admiraes, -os enlevos d'uma paixo nova. <br /> +Nunca lhe parecera tão bonito, tão bom; a sua +pessoa depois d'aquella separação dava-lhe as admirações, +os enlevos d'uma paixão nova. <br /> <br /> -— o snr. Sebastio—veio dizer Juliana toda +—É o snr. Sebastião—veio dizer Juliana toda risonha para Jorge. <br /> <br /> Jorge deu um pulo, afastou Luiza bruscamente, atirou-se pelo corredor gritando: <br /> <br /> -—Aos meus braos! aos meus braos, scelerado! +—Aos meus braços! aos meus braços, scelerado! <br /> <br /><span class="pagenum">[410]</span> <br /> <br /> -D'ahi a dias, uma manh que Jorge sahira para +D'ahi a dias, uma manhã que Jorge sahira para o ministerio, Juliana entrou no quarto de Luiza, e fechando a porta devagarinho, com uma voz muito amavel: <br /> <br /> -—Eu desejava fallar senhora n'uma cousa. <br /> +—Eu desejava fallar á senhora n'uma cousa. <br /> <br /> -E comeou a dizer,—que o seu quarto em cima -no soto era peor que uma enxovia; que no podia -l continuar; o calor, o mau cheiro, os persevejos, a +E começou a dizer,—que o seu quarto em cima +no sotão era peor que uma enxovia; que não podia +lá continuar; o calor, o mau cheiro, os persevejos, a falta d'ar, e no inverno a humidade, matavam-na! Emfim, desejava mudar p'ra baixo, p'ra o quarto dos bahus. <br /> <br /> O <em>quarto dos bahus</em> tinha uma janella nas trazeiras; -era alto e espaoso; guardavam-se alli os +era alto e espaçoso; guardavam-se alli os oleados de Jorge, as suas malas, os paletots velhos, -e veneraveis bahus do tempo da av, de couro vermelho +e veneraveis bahus do tempo da avó, de couro vermelho com pregos amarellos. <br /> <br /> -—Ficava alli como no co, minha senhora! <br /> +—Ficava alli como no céo, minha senhora! <br /> <br /> -E... aonde se haviam de pr os bahus? <br /> +E... aonde se haviam de pôr os bahus? <br /> <br /> —No meu quarto, em cima.—E com um risinho:—Os -bahus no so gente, no soffrem... <br /> +bahus não são gente, não soffrem... <br /> <br /> -Luiza disse um pouco embaraada: <br /> +Luiza disse um pouco embaraçada: <br /> <br /> —Bem, eu verei, eu fallarei ao snr. Jorge. <br /> <br /> —Conto com a senhora. <br /> <br /> Mas apenas n'essa tarde Luiza explicou a Jorge -a ambio da pobre de Christo, elle deu um salto: <br /> +«a ambição da pobre de Christo», elle deu um salto: <br /> <br /> -—O qu? Mudar os bahus? Est douda! <br /> +—O quê? Mudar os bahus? Está douda! <br /> <br /> -Luiza ento insistiu: era o sonho da pobre creatura +Luiza então insistiu: era o sonho da pobre creatura <span class="pagenum">[411]</span> desde que viera para a casa! Enterneceu-o. -No, elle no imaginava, ninguem imaginava o que +Não, elle não imaginava, ninguem imaginava o que era o quarto da pobre mulher! O cheiro empestava, os ratos passeavam-lhe pelo corpo, o forro estava -roto, chovia dentro; fra l ha dias, e ia tombando +roto, chovia dentro; fôra lá ha dias, e ia tombando para o lado... <br /> <br /> -—Santo Deus! Mas isso o que minha av contava +—Santo Deus! Mas isso é o que minha avó contava das enxovias d'Almeida! Muda-a, muda-a depressa, -filha!... Porei os meus ricos bahus no soto. <br /> +filha!... Porei os meus ricos bahus no sotão. <br /> <br /> Quando Juliana soube o <em>favor</em>: <br /> <br /> -—Ai, minha senhora, a vida que me d! Deus -lh'o pague! Que eu no tinha saude para viver n'um +—Ai, minha senhora, é a vida que me dá! Deus +lh'o pague! Que eu não tinha saude para viver n'um cacifro d'aquelles. <br /> <br /> Ultimamente queixava-se mais: andava amarella, -trazia os beios um pouco arroxeados; tinha dias +trazia os beiços um pouco arroxeados; tinha dias d'uma tristeza negra, ou d'uma irritabilidade morbida: -os ps nunca lhe aqueciam. Ah! Precisava muitos +os pés nunca lhe aqueciam. Ah! Precisava muitos cuidados, muitos cuidados!... <br /> <br /> Foi por isso que d'ahi a dous dias veio pedir a -Luiza, se fazia o favor d'ir ao quarto dos bahus. E -l, mostrando-lhe o soalho velho e carunchoso: <br /> +Luiza, «se fazia o favor d'ir ao quarto dos bahus». E +lá, mostrando-lhe o soalho velho e carunchoso: <br /> <br /> -—Isto no pde ficar assim, minha senhora, isto -precisa uma esteira seno, no vale a pena mudar. -Eu se tivesse dinheiro no importunava a senhora, +—Isto não póde ficar assim, minha senhora, isto +precisa uma esteira senão, não vale a pena mudar. +Eu se tivesse dinheiro não importunava a senhora, mas... <br /> <br /> —Bem, bem, eu arranjarei—disse Luiza com uma voz paciente. <br /> <br /> E pagou a esteira, sem dizer nada a Jorge. Mas -na manh em que os esteireiros a pregavam Jorge +na manhã em que os esteireiros a pregavam Jorge <span class="pagenum">[412]</span> veio perguntar attonito a Luiza o que era aquillo, -rolos d'esteira no corredor? <br /> +«rolos d'esteira no corredor»? <br /> <br /> -Ella pz-se a rir, pousou-lhe as mos sobre os +Ella pôz-se a rir, pousou-lhe as mãos sobre os hombros: <br /> <br /> —Foi a pobre Juliana que pediu como uma esmola -a esteira, que o soalho estava podre. At a +a esteira, que o soalho estava podre. Até a queria pagar, e que eu lh'a descontasse nas soldadas. Ora por uma ridicularia...—E com um gesto -compassivo:—Tambem so creaturas de Deus, no -so escravas, filho! <br /> +compassivo:—Tambem são creaturas de Deus, não +são escravas, filho! <br /> <br /> -—Magnifico! E que no tardem os espelhos e os -bronzes! Mas que mudana foi essa, tu que a no -podias vr? <br /> +—Magnifico! E que não tardem os espelhos e os +bronzes! Mas que mudança foi essa, tu que a não +podias vêr? <br /> <br /> —Coitada!—fez Luiza—reconheci que era boa -mulher. E como estive to s, dei-me mais com ella. -No tinha com quem fallar, fez-me muita companhia. -At quando estive doente... <br /> +mulher. E como estive tão só, dei-me mais com ella. +Não tinha com quem fallar, fez-me muita companhia. +Até quando estive doente... <br /> <br /> —Estiveste doente?—exclamou Jorge espantado. <br /> <br /> -—Oh! tres dias, s—acudiu ella—uma constipao. -Pois olha que dia e noite no se tirou d'ao -p de mim. <br /> +—Oh! tres dias, só—acudiu ella—uma constipação. +Pois olha que dia e noite não se tirou d'ao +pé de mim. <br /> <br /> Luiza ficou logo com receio que Jorge fallasse <em>na -doena</em>, e Juliana desprevenida negasse; por isso, +doença</em>, e Juliana desprevenida negasse; por isso, n'essa tarde, ao escurecer, chamou-a ao quarto: <br /> <br /> -—Eu disse ao snr. Jorge que voss me tinha -feito muito boa companhia n'uma doena...—E o +—Eu disse ao snr. Jorge que vossê me tinha +feito muito boa companhia n'uma doença...—E o seu rosto abrazava-se de vergonha. <br /> <br /> Juliana logo, risonha, contente da cumplicidade: <br /> <br /><span class="pagenum">[413]</span> -—Fico entendida, minha senhora! Pde estar +—Fico entendida, minha senhora! Póde estar socegada! <br /> <br /> -Com effeito Jorge, ao outro dia, depois do caf, +Com effeito Jorge, ao outro dia, depois do café, voltou-se para Juliana, e com bondade: <br /> <br /> -—Parece que voss fez boa companhia snr.<sup>a</sup> +—Parece que vossê fez boa companhia á snr.<sup>a</sup> D. Luiza. <br /> <br /> —Fiz o meu dever—exclamou, curvando-se com -a mo no peito. <br /> +a mão no peito. <br /> <br /> —Bem, bem—fez Jorge, remexendo no bolso. -E ao sahir da sala meteu-lhe na mo meia libra. <br /> +E ao sahir da sala meteu-lhe na mão meia libra. <br /> <br /> —Palerma!—rosnou ella. <br /> <br /> -Foi n'essa semana que comeou a queixar-se a -Luiza, que a roupa e os vestidos, na arca, se lhe -amarfanhavam... Estava-se-lhe a estragar tudo! Se -ella tivesse dinheiro, no vinha com aquelles pedidos - senhora, mas... Emfim uma manh declarou +Foi n'essa semana que começou a queixar-se a +Luiza, «que a roupa e os vestidos, na arca, se lhe +amarfanhavam...» Estava-se-lhe a estragar tudo! Se +ella tivesse dinheiro, não vinha com aquelles pedidos +á senhora, mas... Emfim uma manhã declarou terminantemente que precisava uma commoda. <br /> <br /> Luiza sentiu uma raiva accender-lhe o sangue, e @@ -16002,11 +15962,11 @@ sem levantar os olhos do bordado: <br /> <br /> —Uma meia commoda? <br /> <br /> -—Se a senhora quer fazer o favor, ento uma +—Se a senhora quer fazer o favor, então uma commoda inteira... <br /> <br /> -—Mas voss tem pouca roupa—disse Luiza. -Comeava a installar-se na humilhao e j regateava +—Mas vossê tem pouca roupa—disse Luiza. +Começava a installar-se na humilhação e já regateava as condescendencias. <br /> <br /> —Tenho, sim, minha senhora—replicou Juliana—mas @@ -16014,36 +15974,36 @@ vou agora completar-me! <br /> <br /> A commoda foi comprada em segredo, e introduzida occultamente. Que dia de felicidade para Juliana! -No se fartava de lhe saborear o cheiro da madeira +Não se fartava de lhe saborear o cheiro da madeira <span class="pagenum">[414]</span> -nova! Passava a mo, com a tremura d'uma +nova! Passava a mão, com a tremura d'uma caricia, sobre o polimento luzidio!... Forrou-lhe as -gavetas de papel de sda, <em>e comeou a completar-se</em>! <br /> +gavetas de papel de sêda, <em>e começou a completar-se</em>! <br /> <br /> <br /> <br /> Foram semanas d'amargura para Luiza. <br /> <br /> -Juliana entrava no quarto todas as manhs, muito -comprimenteira, comeava a arrumar, e de repente +Juliana entrava no quarto todas as manhãs, muito +comprimenteira, começava a arrumar, e de repente com uma voz lamentosa: <br /> <br /> -—Ai! estou to falta de camisas! se a senhora +—Ai! estou tão falta de camisas! se a senhora me podesse ajudar... <br /> <br /> -Luiza ia s suas gavetas cheias, cheirosas, e comeava -melancolicamente a pr parte as peas +Luiza ia ás suas gavetas cheias, cheirosas, e começava +melancolicamente a pôr á parte as peças mais usadas. Adorava a sua roupa branca: tinha tudo -s duzias, com lindas marcas, <em>sachets</em> para perfumar; -e aquellas dadivas dilaceravam-n'a como mutilaes! -Juliana por fim j pedia com seccura, com +ás duzias, com lindas marcas, <em>sachets</em> para perfumar; +e aquellas dadivas dilaceravam-n'a como mutilações! +Juliana por fim já pedia com seccura, com direito: <br /> <br /> -—Que bonita que esta camisinha!—dizia simplesmente.—A -senhora no a quer; no? <br /> +—Que bonita que é esta camisinha!—dizia simplesmente.—A +senhora não a quer; não? <br /> <br /> —Leve, leve!—dizia Luiza sorrindo, por orgulho, -para no se mostrar violentada. <br /> +para não se mostrar violentada. <br /> <br /> E todas as noites Juliana fechada no seu quarto, encruzada na esteira, inchada d'alegria, com o candieiro @@ -16053,20 +16013,20 @@ as suas, a linha vermelha, enormes—<em>J. C. T.,</em>—Juliana Couceiro Tavira! <br /> <br /><span class="pagenum">[415]</span> -Mas emfim cessou, porque, como ella dizia, de -roupa branca estava como um ovo. <br /> +Mas emfim cessou, porque, como ella dizia, «de +roupa branca estava como um ovo». <br /> <br /> —Agora, se a senhora me quizer ajudar com alguma cousa para sahir... <br /> <br /> -E Luiza comeou a <em>vestil-a</em>. <br /> +E Luiza começou a <em>vestil-a</em>. <br /> <br /> -Deu-lhe um vestido roxo de sda, um casaco de +Deu-lhe um vestido roxo de sêda, um casaco de casimira preta, com bordados a <em>soutache</em>. E receando que Jorge estranhasse as generosidades, transformava-as -para elle as no reconhecer: mandou tingir de -castanho o vestido, ella mesmo por sua mo pz -uma guarnio de velludo no casaco. Trabalhava para +para elle as não reconhecer: mandou tingir de +castanho o vestido, ella mesmo por sua mão pôz +uma guarnição de velludo no casaco. Trabalhava para ella, agora!—Como acabaria tudo aquillo, Santo Deus? <br /> <br /> @@ -16075,26 +16035,26 @@ Todavia Jorge um domingo disse ao jantar, rindo: <br /> —Esta Juliana anda uma janota! Prospera a olhos vistos. <br /> <br /> -D. Felicidade, noite, tambem notou: <br /> +D. Felicidade, á noite, tambem notou: <br /> <br /> -—Que <em>chic</em>! Nem uma criada do pao! <br /> +—Que <em>chic</em>! Nem uma criada do paço! <br /> <br /> —Coitada! cousas que ella aproveita... <br /> <br /> -Prosperava, com effeito! No punha na cama seno -lenoes de linho. Reclamra colxes novos, um -tapete para os ps da cama, felpudo! Os <em>sachets</em> que +Prosperava, com effeito! Não punha na cama senão +lençoes de linho. Reclamára colxões novos, um +tapete para os pés da cama, felpudo! Os <em>sachets</em> que perfumavam a roupa de Luiza iam passando para a dobra das suas calcinhas. Tinha cortinas de cassa na -janella, apanhadas com velhas fitas de sda azul; e +janella, apanhadas com velhas fitas de sêda azul; e sobre a commoda dous vasos da Vista Alegre dourados! Emfim um dia santo, em lugar da <em>cuia</em> de retroz, appareceu com um <em>chignon</em> de cabello! <br /> <br /> Joanna pasmava d'aquellas tafularias. Attribuia-as - bondade da senhora, e resentia-se de ser esquecida. +á bondade da senhora, e resentia-se de ser «esquecida». <span class="pagenum">[416]</span> -Um dia mesmo, que Juliana estrera uma +Um dia mesmo, que Juliana estreára uma sombrinha, disse diante de Luiza, com uma voz de despeito: <br /> <br /> @@ -16104,45 +16064,45 @@ Luiza riu, acudiu: <br /> <br /> —Tolices! Eu sou a mesma p'ra todas. <br /> <br /> -Mas reflectiu: Joanna podia ter desconfianas +Mas reflectiu: Joanna podia ter desconfianças tambem, ter ouvido <em>alguma cousa</em> a Juliana... E logo ao outro dia, para a conservar contente e amiga, -deu-lhe dous lenos de sda, depois dous mil reis +deu-lhe dous lenços de sêda, depois dous mil reis para um vestido; e d'ahi por diante nunca lhe recusou -licena para sahir noitinha <em>a casa d'uma +licença para sahir á noitinha <em>a casa d'uma tia</em>... <br /> <br /> -A Joanna ia por toda a parte fallando da senhora, -que era um anjo. Na rua, de resto, tinha-se -notado o luxo de Juliana. Sabia-se do quarto novo, +A Joanna ia por toda a parte fallando da «senhora, +que era um anjo». Na rua, de resto, tinha-se +notado o luxo de Juliana. Sabia-se do «quarto novo», dizia-se baixo que tinha alcatifa! O Paula decidira, -com indignao, que alli positivamente havia -marosca. Mas Juliana uma tarde, diante do Paula e +com indignação, «que alli positivamente havia +marosca». Mas Juliana uma tarde, diante do Paula e da estanqueira, explicou, acalmou as suspeitas. <br /> <br /> -—Ora! dizem que tenho isto e aquillo. No +—Ora! dizem que tenho isto e aquillo. Não é tanto! Tenho as minhas commodidades. Mas tambem a maneira como eu lhes tratei a tia, de dia e de -noite, sem arredar p... Por mais que faam no me +noite, sem arredar pé... Por mais que façam não me pagam, que arruinei a minha saude! <br /> <br /> Assim se justificou a prosperidade de Juliana. Era a familia agradecida, dizia-se; tratavam-na como parenta! <br /> <br /> -E, pouco a pouco, a casa do Engenheiro teve -para os criados da visinhana a vaga seduco d'um +E, pouco a pouco, a casa do «Engenheiro» teve +para os criados da visinhança a vaga seducção d'um <span class="pagenum">[417]</span> paraiso: dizia-se que as soldadas eram enormes, havia -vinho discrio, recebiam-se presentes todas as +vinho á discrição, recebiam-se presentes todas as semanas, ceava-se todas as noites caldo do gallinha! -Cada um invejava aquella pechincha. Pela inculcadeira, -a fama da casa do Engenheiro alargou-se. +Cada um invejava aquella «pechincha». Pela inculcadeira, +a fama da «casa do Engenheiro» alargou-se. Creou-se uma legenda. <br /> <br /> Jorge, attonito, recebia todos os dias cartas de pessoas offerecendo-se para criados de quarto, criadas de dentro, cozinheiros, escudeiros, governantas, -cocheiros, guarda-portes, ajudantes de cozinha... +cocheiros, guarda-portões, ajudantes de cozinha... Citavam as casas titulares de que tinham sahido; pediam audiencia; suspeitando certas cousas uma bonita criada de quarto juntou a sua photographia; um @@ -16150,194 +16110,194 @@ cozinheiro trouxe uma carta d'empenho do director geral do ministerio. <br /> <br /> —Estranho caso!—dizia Jorge, pasmado—disputam-se -a honra de me servir! Imaginaro que me +a honra de me servir! Imaginarão que me sahiu a sorte grande? <br /> <br /> -Mas no dava muita atteno quella singularidade. -Vivia ento muito occupado: andava escrevendo +Mas não dava muita attenção áquella singularidade. +Vivia então muito occupado: andava escrevendo o seu relatorio; e todos os dias sahia ao meio -dia, voltava s seis, com rolos de papeis, mappas, +dia, voltava ás seis, com rolos de papeis, mappas, brochuras, fatigado, berrando pelo jantar, radiante. <br /> <br /> -Contou o <em>caso</em>, todavia, rindo, um domingo +Contou o <em>caso</em>, todavia, rindo, um domingo á noite. O Conselheiro observou logo: <br /> <br /> —Com o bom genio da D. Luiza, com o seu, Jorge, n'este bairro saudavel, n'uma casa sem escandalos, -sem questes de familia, toda virtude, natural +sem questões de familia, toda virtude, é natural que a criadagem menos favorecida aspire a -uma posio to agradavel. +uma posição tão agradavel. <br /> <br /><span class="pagenum">[418]</span> —Somos os amos ideaes!—disse Jorge, batendo muito alegre no hombro de Luiza. <br /> <br /> -A casa, com effeito, tornava-se agradavel. Juliana +A casa, com effeito, tornava-se «agradavel». Juliana exigira que o jantar fosse mais largo (para ter uma parte sua, sem sobejos), e como era boa cozinheira -vigiava os foges, provava, ensinava pratos +vigiava os fogões, provava, ensinava pratos á Joanna. <br /> <br /> -—Esta Joanna uma revelao—dizia Jorge—v-se-lhe +—Esta Joanna é uma revelação—dizia Jorge—vê-se-lhe crescer o talento!... <br /> <br /> Juliana, bem alojada, bem alimentada, com roupa -fina sobre a pelle, colxes macios, saboreava a -vida: o seu temperamento adora-se n'aquellas +fina sobre a pelle, colxões macios, saboreava a +vida: o seu temperamento adoçára-se n'aquellas abundancias; depois, bem aconselhada pela tia Victoria, -fazia o seu servio com um zelo minucioso e +fazia o seu serviço com um zelo minucioso e habil. Os vestidos de Luiza andavam cuidados como reliquias. Nunca os peitilhos de Jorge tinham resplandecido tanto! O sol d'outubro alegrava a casa, -muito aceada, d'uma pacatez d'abbadia. At o gato +muito aceada, d'uma pacatez d'abbadia. Até o gato engordava. <br /> <br /> <br /> <br /> E no meio d'aquella prosperidade—Luiza definhava-se. -At onde iria a tyrannia de Juliana? era +Até onde iria a tyrannia de Juliana? era agora o seu terror. E como a odiava! Seguia-a por -vezes com um olhar to intensamente rancoroso, que +vezes com um olhar tão intensamente rancoroso, que receava que ella se voltasse subitamente, como ferida pelas costas. E via-a satisfeita, cantarolando a -<em>Carta adorada</em>, dormindo em colxes to bons como +<em>Carta adorada</em>, dormindo em colxões tão bons como <span class="pagenum">[419]</span> os seus, pavoneando-se na <em>sua</em> roupa, reinando na -<em>sua</em> casa! Era justo, justos cos? <br /> -<br /> -s vezes vinha-lhe uma revolta, torcia os braos, -blasphemava, debatia-se na sua desgraa, como -nas malhas d'uma rde; mas, no encontrando nenhuma -soluo, recahia n'uma melancolia aspera—em -que o seu genio se pervertia. Seguia com satisfao -a amarellido crescente das feies de Juliana; -tinha esperanas no aneurisma: no rebentaria um +<em>sua</em> casa! Era justo, justos céos? <br /> +<br /> +Ás vezes vinha-lhe uma revolta, torcia os braços, +blasphemava, debatia-se na sua desgraça, como +nas malhas d'uma rêde; mas, não encontrando nenhuma +solução, recahia n'uma melancolia aspera—em +que o seu genio se pervertia. Seguia com satisfação +a amarellidão crescente das feições de Juliana; +tinha esperanças no aneurisma: não rebentaria um dia, o demonio? <br /> <br /> E diante de Jorge tinha de a elogiar! <br /> <br /> -A vida pesava-lhe. Apenas elle pela manh sahia +A vida pesava-lhe. Apenas elle pela manhã sahia e fechava a cancella, logo as suas tristezas, os seus receios lhe desciam sobre a alma, devagar, como -grandes vos espessos que se abatem lugubremente; -no se vestia ento at s quatro, cinco horas, e com -o roupo solto, em chinellas, despenteada, arrastava +grandes véos espessos que se abatem lugubremente; +não se vestia então até ás quatro, cinco horas, e com +o roupão solto, em chinellas, despenteada, arrastava o seu aborrecimento pelo quarto. Vinham-lhe, por momentos, de repente, desejos de fugir, ir metter-se n'um convento! A sua sensibilidade muito exaltada -impellil-a-hia de certo a alguma resoluo melodramatica,—se -a no retivesse, com a fora d'uma seduco +impellil-a-hia de certo a alguma resolução melodramatica,—se +a não retivesse, com a força d'uma seducção permanente, o seu amor por Jorge. Porque o amava agora, immensamente! Amava-o com cuidados -de mi, com impetos de concubina... Tinha ciumes -de tudo, at do ministerio, at do relatorio! Ia -interrompl-o a cada momento, tirar-lhe a penna da -mo, reclamar o seu olhar, a sua voz; e os passos -d'elle no corredor davam-lhe o alvoroo dos amores +de mãi, com impetos de concubina... Tinha ciumes +de tudo, até do ministerio, até do relatorio! Ia +interrompêl-o a cada momento, tirar-lhe a penna da +mão, reclamar o seu olhar, a sua voz; e os passos +d'elle no corredor davam-lhe o alvoroço dos amores illegitimos... <br /> <br /><span class="pagenum">[420]</span> -De resto ella mesma se esforava por desenvolver -aquella paixo, achando n'ella a compensao -ineffavel das suas humilhaes. Como lhe viera +De resto ella mesma se esforçava por desenvolver +aquella paixão, achando n'ella a compensação +ineffavel das suas humilhações. Como lhe viera <em>aquillo</em>? -Porque sempre o amra, de certo, reconhecia-o -agora,—mas no tanto, no to exclusivamente! +Porque sempre o amára, de certo, reconhecia-o +agora,—mas não tanto, não tão exclusivamente! Nem ella sabia. Envergonhava-se mesmo, sentindo vagamente n'aquella violencia amorosa pouca dignidade conjugal: suspeitava que o que tinha era apenas -um <em>capricho</em>. Um capricho por seu marido! No +um <em>capricho</em>. Um capricho por seu marido! Não lhe parecia rigorosamente casto... Que lhe importava, de resto? Aquillo fazia-a feliz, prodigiosamente. Fosse o que fosse era delicioso! <br /> <br /> -Ao principio a ida do <em>outro</em> pairava constantemente +Ao principio a idéa do <em>outro</em> pairava constantemente sobre este amor, pondo um gosto infeliz em cada beijo, um remorso em cada noite. Mas pouco a -pouco esquecra-o tanto, o -<em>outro</em>—que a sua recordao, -quando por acaso voltava, no dava mais -amargor nova paixo, que um torro de sal pde -dar s aguas d'uma torrente. Que feliz que seria—se -no fosse a <em>infame</em>! <br /> +pouco esquecêra-o tanto, o +<em>outro</em>—que a sua recordação, +quando por acaso voltava, não dava mais +amargor á nova paixão, que um torrão de sal póde +dar ás aguas d'uma torrente. Que feliz que seria—se +não fosse a <em>infame</em>! <br /> <br /> <br /> <br /> -Era a <em>infame</em> que se sentia feliz! s vezes s no +Era a <em>infame</em> que se sentia feliz! Ás vezes só no seu quarto, punha-se a olhar em redor com um riso -d'avaro: desdobrava, batia os vestidos de sda: punha +d'avaro: desdobrava, batia os vestidos de sêda: punha as botinas em fileira, contemplando-as de longe, -extatica; e debruada sobre as gavetas abertas da +extatica; e debruçada sobre as gavetas abertas da commoda contava, recontava a roupa branca, acariciando-a <span class="pagenum">[421]</span> com o olhar de posse satisfeita. Como a da <em>Piorrinha</em>!—murmurava, afogada em jubilo. <br /> <br /> -—Ai! estou muito bem!—dizia ella tia Victoria. <br /> +—Ai! estou muito bem!—dizia ella á tia Victoria. <br /> <br /> -—Que duvida que ests! A carta no te rendeu +—Que duvida que estás! A carta não te rendeu um conto de reis, mas olha que te trouxe um par de -regalos. E que ha-de ser uma pingadeira: ha-de -ser a boa pea de linho, o bom adereo, boas moedas... +regalos. E é que ha-de ser uma pingadeira: ha-de +ser a boa peça de linho, o bom adereço, boas moedas... E ainda muito obrigada por cima. Carda-a, filha, carda-a! <br /> <br /> -Mas j havia pouco que <em>cardar</em>. E lentamente -Juliana comeou a pensar, que agora o que devia -era <em>gozar</em>. Se tinha bons colxes—para que se havia -de levantar cdo? Se tinha bons vestidos—porque -no havia d'ir espairecer para a rua? Toca a tirar +Mas já havia pouco que <em>cardar</em>. E lentamente +Juliana começou a pensar, que agora o que devia +era <em>gozar</em>. Se tinha bons colxões—para que se havia +de levantar cêdo? Se tinha bons vestidos—porque +não havia d'ir espairecer para a rua? Toca a tirar partido! <br /> <br /> -Uma manh que estava mais frio deixou-se ficar -na cama at s nove horas, com as janellas entreabertas, +Uma manhã que estava mais frio deixou-se ficar +na cama até ás nove horas, com as janellas entreabertas, um bom raio de sol na esteira. Depois explicou -seccamente, que tinha estado com a dr. -D'ahi a dous dias Joanna, s dez horas, veio dizer +seccamente, que tinha estado com a dôr. +D'ahi a dous dias Joanna, ás dez horas, veio dizer baixo a Luiza: <br /> <br /> -—A snr.<sup>a</sup> Juliana ainda est na cama, est tudo +—A snr.<sup>a</sup> Juliana ainda está na cama, está tudo por arrumar. <br /> <br /> -Luiza ficou aterrada. O qu? Teria de soffrer os +Luiza ficou aterrada. O quê? Teria de soffrer os seus desmazelos, como soffrera as suas exigencias? <br /> <br /> Foi ao quarto d'ella: <br /> <br /> -—Ento voss levanta-se a estas horas? <br /> +—Então vossê levanta-se a estas horas? <br /> <br /> —Foi o que me recommendou o medico—replicou muito insolente. <br /> <br /><span class="pagenum">[422]</span> E d'ahi por diante Juliana poucas vezes se erguia -antes da hora de servir ao almoo. Luiza pediu logo -a Joanna que fizesse o servio por ella: era por -pouco tempo, a pobre creatura andava to adoentada! +antes da hora de servir ao almoço. Luiza pediu logo +a Joanna que fizesse «o serviço por ella»: era por +pouco tempo, a pobre creatura andava tão adoentada! E para acommodar a cozinheira deu-lhe meia moeda, para a ajuda d'um vestido. <br /> <br /> -Juliana depois, sem pedir licena, comeou a sahir. -Quando voltava tarde, para o jantar, no se desculpava! <br /> +Juliana depois, sem pedir licença, começou a sahir. +Quando voltava tarde, para o jantar, não se desculpava! <br /> <br /> -Um dia Luiza no se conteve, disse-lhe, vendo-a -passar no corredor a calar as luvas pretas: <br /> +Um dia Luiza não se conteve, disse-lhe, vendo-a +passar no corredor a calçar as luvas pretas: <br /> <br /> -—Voss vai sahir? <br /> +—Vossê vai sahir? <br /> <br /> Ella respondeu, muito atrevidamente: <br /> <br /> -— como v. Fica tudo arrumado, tudo o que -minha obrigao.—E abalou, batendo os taces. <br /> +—É como vê. Fica tudo arrumado, tudo o que é +minha obrigação.—E abalou, batendo os tacões. <br /> <br /> -Ora, no lhe faltava mais seno estar a constranger-se +Ora, não lhe faltava mais senão estar a constranger-se por causa da <em>Piorrinha</em>! <br /> <br /> -Joanna comeava a resmungar: passa a sua -vida na rua a snr.<sup>a</sup> Juliana, e eu que aguento... <br /> +Joanna começava a resmungar: «passa a sua +vida na rua a snr.<sup>a</sup> Juliana, e eu é que aguento...» <br /> <br /> -—Se voss estivesse doente, tambem ninguem -lhe ia mo—acudia Luiza, afflicta, quando percebia +—Se vossê estivesse doente, tambem ninguem +lhe ia á mão—acudia Luiza, afflicta, quando percebia estas revoltas. E presenteava-a. Dava-lhe mesmo vinho e sobremesa. <br /> <br /> @@ -16347,70 +16307,70 @@ aquillo? <br /> <br /> Os desleixos de Juliana iam-se tornando graves. <br /> <br /> -Para sahir mais cedo fazia apenas o essencial. +Para sahir mais cedo fazia apenas o «essencial». Era Luiza que acabava d'encher os jarros, que levantava <span class="pagenum">[423]</span> -muitas vezes a mesa do almoo, que levava -para o soto roupa suja que ficava pelos cantos... <br /> +muitas vezes a mesa do almoço, que levava +para o sotão roupa suja que ficava pelos cantos... <br /> <br /> -Um dia Jorge que entrra s quatro horas, viu +Um dia Jorge que entrára ás quatro horas, viu por acaso a cama por fazer. Luiza apressou-se a dizer -que Juliana sahira, mandra-a ella modista. <br /> +que «Juliana sahira, mandára-a ella á modista». <br /> <br /> -D'ahi a dias, eram seis horas, ainda no tinha -voltado para servir ao jantar. Tinha ido modista... +D'ahi a dias, eram seis horas, ainda não tinha +voltado para servir ao jantar. «Tinha ido á modista...» explicou Luiza. <br /> <br /> -—Mas se a Juliana unicamente para ir modista, -ento toma-se outra criada para fazer o servio +—Mas se a Juliana é unicamente para ir á modista, +então toma-se outra criada para fazer o serviço da casa—disse elle. <br /> <br /> -quellas palavras seccas Luiza fez-se pallida, +Áquellas palavras seccas Luiza fez-se pallida, duas lagrimas rolaram-lhe pela face. <br /> <br /> Jorge ficou pasmado. Que era? Que tinha? Luiza -no se dominou, rompeu n'um choro nervoso, hysterico. <br /> +não se dominou, rompeu n'um choro nervoso, hysterico. <br /> <br /> -—Mas que , minha filha, que tens? Zangaste-te?... <br /> +—Mas que é, minha filha, que tens? Zangaste-te?... <br /> <br /> -Ella no podia responder, suffocada. Jorge fez-lhe +Ella não podia responder, suffocada. Jorge fez-lhe respirar vinagre de <em>toillette</em>, beijou-a muito. <br /> <br /> -S quando o choro acalmou que ella pde dizer, -com uma voz soluada: <br /> +Só quando o choro acalmou é que ella pôde dizer, +com uma voz soluçada: <br /> <br /> -—Fallaste-me to seccamente, e eu estou to +—Fallaste-me tão seccamente, e eu estou tão nervosa... <br /> <br /> Elle riu, chamou-lhe tontinha, limpou-lhe as lagrimas—mas ficou inquieto. <br /> <br /> -J ento lhe notra certas tristezas, abatimentos +Já então lhe notára certas tristezas, abatimentos inexplicaveis, uma irritabilidade nervosa... Que seria? <br /> <br /> -Para que Jorge no tornasse a surprehender os +Para que Jorge não tornasse a surprehender os <span class="pagenum">[424]</span> -desleixos, Luiza comeou a completar todas as manhs +desleixos, Luiza começou a completar todas as manhãs os arranjos. Juliana percebeu logo; e muito -tranquillamente decidiu-se a deixar-lhe de cada vez -mais com que se entreter. Ora no varria, depois -no fazia a cama; emfim uma manh no vasou as +tranquillamente decidiu-se a «deixar-lhe de cada vez +mais com que se entreter». Ora não varria, depois +não fazia a cama; emfim uma manhã não vasou as aguas sujas. Luiza foi espreitar no corredor que Joanna -no descesse, no a visse, e fez ella mesma os -despejos! Quando veio ensaboar as mos, as lagrimas +não descesse, não a visse, e fez ella mesma os +despejos! Quando veio ensaboar as mãos, as lagrimas corriam-lhe pelo rosto. Desejava morrer!... A que tinha chegado!... <br /> <br /> D. Felicidade, um dia, tendo entrado de repente, surprehendera-a a varrer a sala. <br /> <br /> -—Que eu o faa—exclamou—que tenho s +—Que eu o faça—exclamou—que tenho só uma criada, mas tu!... <br /> <br /> A Juliana tinha tanto que engommar... <br /> <br /> -—Ai! no lhe tires servio do corpo, que no t'o -agradece. E ainda se ri por cima! Se a pes em +—Ai! não lhe tires serviço do corpo, que não t'o +agradece. E ainda se ri por cima! Se a pões em maus costumes!... Que aguente, que aguente! <br /> <br /> Luiza sorriu, disse: <br /> @@ -16421,47 +16381,47 @@ Luiza sorriu, disse: <br /> <br /> A sua tristeza augmentava cada dia. <br /> <br /> -Refugiava-se ento no amor de Jorge como na -sua unica consolao. A noite trazia-lhe a sua desforra: -Juliana a essa hora dormia; no via a sua cara -medonha; no a receava; no tinha de a elogiar; -no trabalhava por ella! Era <em>ella mesma</em>, era +Refugiava-se então no amor de Jorge como na +sua unica consolação. A noite trazia-lhe a sua desforra: +Juliana a essa hora dormia; não via a sua cara +medonha; não a receava; não tinha de a elogiar; +não trabalhava por ella! Era <em>ella mesma</em>, era Luiza, como d'antes! Estava na sua alcova com o seu <span class="pagenum"><a name="p425" id="p425">[425]</a></span> marido, fechada por dentro, livre! Podia viver, rir, -conversar, ter at appetite! E trazia com effeito s -vezes marmelada e po para o quarto—para fazer -uma casinha! <br /> +conversar, ter até appetite! E trazia com effeito ás +vezes marmelada e pão para o quarto—para fazer +uma cêasinha! <br /> <br /> -Jorge estranhava-a. Tu de noite s outra, dizia. +Jorge estranhava-a. «Tu de noite és outra», dizia. Chamava-lhe <em>ave nocturna</em>. Ella ria em saia branca -pelo quarto, com os braos ns, o collo n, o cabello -n'um rolo; e passarinhava, cantarolava, chalrava—at +pelo quarto, com os braços nús, o collo nú, o cabello +n'um rolo; e passarinhava, cantarolava, chalrava—até que Jorge lhe dizia: <br /> <br /> —Passa da uma hora, filha! <br /> <br /> -Despia-se ento rapidamente, cahia-lhe nos braos. <br /> +Despia-se então rapidamente, cahia-lhe nos braços. <br /> <br /> Mas que acordar! Por mais clara que estivesse a -manh, tudo lhe parecia vagamente pardo. A vida +manhã, tudo lhe parecia vagamente pardo. A vida sabia-lhe mal. Vestia-se devagar, com repugnancia—entrando -no seu dia como n'uma priso. <br /> -<br /> -Perdra agora toda a esperana de se libertar! -s vezes ainda lhe vinha, como um relampago, a vontade -de contar tudo a Sebastio, tudo. Mas quando -o via, com o seu olhar honesto, abraar Jorge, rirem -ambos, e irem fumar o seu cachimbo, e elle to -cheio sempre d'admirao por ella, parecia-lhe mais +no seu dia como n'uma prisão. <br /> +<br /> +Perdêra agora toda a esperança de se libertar! +Ás vezes ainda lhe vinha, como um relampago, a vontade +«de contar tudo a Sebastião, tudo». Mas quando +o via, com o seu olhar honesto, abraçar Jorge, rirem +ambos, e irem fumar o seu cachimbo, e elle tão +cheio sempre d'admiração por ella, parecia-lhe mais facil sahir p'ra a rua, pedir dinheiro ao primeiro homem -que encontrasse—que ir a <a href="#e16">Sebastio</a>, ao +que encontrasse—que ir a <a href="#e16">Sebastião</a>, ao intimo de Jorge, ao melhor amigo da casa, dizer-lhe: escrevi uma carta a um homem, a criada roubou-m'a! -No, antes morrer n'aquella agonia de todos os dias, -e ter ella mesma, de rastos, de lavar as escadas! s -vezes reflectia, pensava:—Mas com que conto eu?—No +Não, antes morrer n'aquella agonia de todos os dias, +e ter ella mesma, de rastos, de lavar as escadas! Ás +vezes reflectia, pensava:—Mas com que conto eu?—Não sabia. Com o acaso, com a morte de Juliana... <span class="pagenum">[426]</span> E deixava-se viver, gozando como um favor @@ -16469,61 +16429,61 @@ cada dia que vinha, sentindo vagamente, a distancia, alguma cousa de indefinido e de tenebroso onde se afundaria! <br /> <br /> -Por esse tempo Jorge comeou a queixar-se que +Por esse tempo Jorge começou a queixar-se que as suas camisas andavam mal engommadas. A Juliana -positivamente perdia a mo. Um dia mesmo zangou-se: +positivamente «perdia a mão». Um dia mesmo zangou-se: chamou-a, e atirando-lhe uma camisa toda amarrotada: <br /> <br /> -—Isto no se pde vestir, est indecente! <br /> +—Isto não se póde vestir, está indecente! <br /> <br /> Juliana fez-se amarella, cravou em Luiza um olhar -chammejante; mas, com os beios tremulos, desculpou-se: -a gomma era m, fra j trocal-a, etc. <br /> +chammejante; mas, com os beiços tremulos, desculpou-se: +«a gomma era má, fôra já trocal-a», etc. <br /> <br /> -Apenas, porm, Jorge sahiu, veio com uma rajada +Apenas, porém, Jorge sahiu, veio com uma rajada ao quarto, fechou a porta e poz-se a gritar—que -a senhora sujava <em>um rr</em> de roupa, o senhor +a senhora sujava <em>um rôr</em> de roupa, o senhor <em>um -rr</em> de camisas, que se no tivesse alguem que a -ajudasse no podia dar aviamento!... Quem queria +rôr</em> de camisas, que se não tivesse alguem que a +ajudasse não podia dar aviamento!... Quem queria negras trazia-as do Brazil! <br /> <br /> -—E no estou para aturar o genio de seu marido, -percebe a senhora? Se quer arranjar quem me +—E não estou para aturar o genio de seu marido, +percebe a senhora? Se quer é arranjar quem me ajude. <br /> <br /> Luiza disse simplesmente: <br /> <br /> —Eu a ajudarei. <br /> <br /> -Tinha agora uma resignao muda, sombria, +Tinha agora uma resignação muda, sombria, aceitava tudo! <br /> <br /> Logo no fim da semana houve uma grande trouxa de roupa: e Juliana veio dizer—que se a senhora -passasse, ella engommava. Seno, no! <br /> +passasse, ella engommava. Senão, não! <br /> <br /> Estava um dia adoravel, Luiza tencionava sahir... <span class="pagenum"><a name="p427" id="p427">[427]</a></span> -Pz um roupo, e, sem uma palavra, foi buscar o +Pôz um roupão, e, sem uma palavra, foi buscar o ferro. <br /> <br /> Joanna ficou attonita. <br /> <br /> -—Ento a senhora vai engommar? <br /> +—Então a senhora vai engommar? <br /> <br /> -—Ha uma carga, e a Juliana s no pde aviar +—Ha uma carga, e a Juliana só não póde aviar tudo, coitada! <br /> <br /> Installou-se no quarto dos <a href="#e17">engommados</a>,—e estava laboriosamente passando a roupa branca de Jorge, -quando Juliana appareceu, de chapo. <br /> +quando Juliana appareceu, de chapéo. <br /> <br /> -—Voss vai sahir?—exclamou Luiza. <br /> +—Vossê vai sahir?—exclamou Luiza. <br /> <br /> -— o que eu vinha dizer senhora. No posso +—É o que eu vinha dizer á senhora. Não posso deixar de sahir.—E abotoava as luvas pretas. <br /> <br /> —Mas as camisas, quem as engomma? <br /> @@ -16535,87 +16495,87 @@ deixar de sahir.—E abotoava as luvas pretas. <br /> —Engomme-as a senhora! Olha a sarna! <br /> <br /> —Infame!—gritou Luiza. Atirou o ferro para o -cho, sahiu impetuosamente. <br /> +chão, sahiu impetuosamente. <br /> <br /> -Juliana sentiu-a ir pelo corredor aos soluos. Pz-se -logo a tirar o chapo e as luvas, assustada. D'ahi +Juliana sentiu-a ir pelo corredor aos soluços. Pôz-se +logo a tirar o chapéo e as luvas, assustada. D'ahi a um momento ouviu a cancella da rua bater com -fora. Veio ao quarto, viu o roupo de Luiza arremessado, +força. Veio ao quarto, viu o roupão de Luiza arremessado, a chapelleira tombada. Onde teria ido? -Queixar-se policia? Procurar o marido? C'os diabos! -Fra estupida, com o genio! Arrumou depressa -o quarto, foi-se pr a engommar, com o ouvido +Queixar-se á policia? Procurar o marido? C'os diabos! +Fôra estupida, com o genio! Arrumou depressa +o quarto, foi-se pôr a engommar, com o ouvido á escuta, muito arrependida. Onde diabo teria ido? Devia ter cuidado! Se a impellisse a fazer algum desproposito, quem perdia? Ella, que teria de sahir <span class="pagenum">[428]</span> da casa, deixar o seu quarto, os seus regalos, a sua -posio! Safa! <br /> +posição! Safa! <br /> <br /> <br /> <br /> -Luiza sahira, como louca. Na rua da Escla um -coup passava, vazio: atirou-se para dentro, deu ao +Luiza sahira, como louca. Na rua da Escóla um +coupé passava, vazio: atirou-se para dentro, deu ao cocheiro a morada de Leopoldina. Leopoldina devia -ter voltado do Porto, queria vl-a, precisava d'ella, +ter voltado do Porto, queria vêl-a, precisava d'ella, sem saber para que... Para desabafar! Pedir-lhe -uma ida, um meio de se vingar! Porque a vontade +uma idéa, um meio de se vingar! Porque a vontade de se libertar d'aquella tyrannia—era agora menor -que o desejo de se vingar d'aquellas humilhaes. -Vinham-lhe idas insensatas! Se a envenenasse! Parecia-lhe -que sentiria um prazer delicioso em a vr +que o desejo de se vingar d'aquellas humilhações. +Vinham-lhe idéas insensatas! Se a envenenasse! Parecia-lhe +que sentiria um prazer delicioso em a vêr torcer-se com vomitos dilacerantes, uivando d'agonia, largando a alma! <br /> <br /> Galgou as escadas de Leopoldina; a campainha -ficou a retinir muito tempo do puxo da sua mo febril. <br /> +ficou a retinir muito tempo do puxão da sua mão febril. <br /> <br /> A Justina apenas a viu foi a gritar pelo corredor: <br /> <br /> -— a snr.<sup>a</sup> D. Luiza, minha senhora, a snr.<sup>a</sup> +—É a snr.<sup>a</sup> D. Luiza, minha senhora, é a snr.<sup>a</sup> D. Luiza! <br /> <br /> -E Leopoldina despenteada, com um roupo escarlate -de grande cauda, correu estendendo os braos: <br /> +E Leopoldina despenteada, com um roupão escarlate +de grande cauda, correu estendendo os braços: <br /> <br /> -—s tu! Que milagre este? Eu levantei-me -agora! Entra c p'ra o quarto. Est tudo desarranjado, -mas no importa. Mas que isto, que isto? +—És tu! Que milagre é este? Eu levantei-me +agora! Entra cá p'ra o quarto. Está tudo desarranjado, +mas não importa. Mas que é isto, que é isto? <br /> <br /><span class="pagenum">[429]</span> Abriu as janellas que estavam ainda cerradas. Havia um forte cheiro de vinagre de <em>toilette</em>; a Justina -tirava pressa uma bacia de lato, com agua ensaboada; +tirava á pressa uma bacia de latão, com agua ensaboada; toalhas sujas arrastavam; sobre uma jardineira tinham ficado da vespera os rolos de cabello, -o collete, uma chavena com um fundo de ch cheio +o collete, uma chavena com um fundo de chá cheio de pontas de cigarros. E Leopoldina corria o transparente, dizendo: <br /> <br /> -—Ora graas a Deus que honras esta casa, minha +—Ora graças a Deus que honras esta casa, minha fidalga!... <br /> <br /> Mas vendo o rosto perturbado de Luiza, os seus olhos vermelhos de lagrimas: <br /> <br /> -—Que ? Que tens tu? Que succedeu? <br /> +—Que é? Que tens tu? Que succedeu? <br /> <br /> —Um horror, Leopoldina!—exclamou, apertando -as mos. <br /> +as mãos. <br /> <br /> A outra foi fechar a porta, rapidamente. <br /> <br /> -—Ento? <br /> +—Então? <br /> <br /> Mas Luiza chorava sem responder. Leopoldina olhava-a, petrificada. <br /> <br /> —A Juliana apanhou-me umas cartas!—disse -emfim por entre soluos.—Quer seiscentos mil reis! +emfim por entre soluços.—Quer seiscentos mil reis! Estou perdida... Tem-me martyrisado... Quero que -me digas, v se te lembras... Estou como douda. -Sou eu que fao tudo em casa... Morro, no posso!—E +me digas, vê se te lembras... Estou como douda. +Sou eu que faço tudo em casa... Morro, não posso!—E as lagrimas redobravam. <br /> <br /> —E as tuas joias? <br /> @@ -16624,28 +16584,28 @@ as lagrimas redobravam. <br /> eu de dizer? <br /> <br /> Leopoldina ficou um momento calada, e olhando -em roda de si, abrindo os braos: +em roda de si, abrindo os braços: <br /> <br /><span class="pagenum"><a name="p430" id="p430">[430]</a></span> —Tudo o que eu tenho, no prego, minha filha, -d vinte libras!... <br /> +dá vinte libras!... <br /> <br /> Luiza murmurava, limpando os olhos: <br /> <br /> -—Que expiao esta, Santo Deus, que expiao! <br /> +—Que expiação esta, Santo Deus, que expiação! <br /> <br /> —Que diz a carta? <br /> <br /> -—Horrores! Estava douda... uma minha, +—Horrores! Estava douda... É uma minha, duas d'elle. <br /> <br /> —De teu primo? <br /> <br /> -Luiza disse sim, com a cabea, lentamente. <br /> +Luiza disse «sim», com a cabeça, lentamente. <br /> <br /> —E elle? <br /> <br /> -—No sei! Est em Frana, nunca me respondeu. <br /> +—Não sei! Está em França, nunca me respondeu. <br /> <br /> —Pulha! Como t'as apanhou, a mulher? <br /> <br /> @@ -16653,21 +16613,21 @@ Luiza contou rapidamente a historia do sarcophago, e do cofre. <br /> <br /> —Mas tu tambem, Luiza, atirar uma carta d'essas! -Oh mulher, isso medonho! <br /> +Oh mulher, isso é medonho! <br /> <br /> -E <a href="#e18">Leopoldina</a> pz-se a passear pelo quarto, +E <a href="#e18">Leopoldina</a> pôz-se a passear pelo quarto, arrastando -a longa cauda do roupo escarlate: os seus +a longa cauda do roupão escarlate: os seus grandes olhos negros, excitados, pareciam procurar um meio, um expediente... Murmurava: <br /> <br /> -—A questo de dinheiro... <br /> +—A questão é de dinheiro... <br /> <br /> -Luiza, prostrada no soph, repetia: <br /> +Luiza, prostrada no sophá, repetia: <br /> <br /> -—A questo de dinheiro! <br /> +—A questão é de dinheiro! <br /> <br /> -Ento Leopoldina, parando bruscamente diante +Então Leopoldina, parando bruscamente diante d'ella: <br /> <br /> —Eu sei quem te dava o dinheiro!... <br /> @@ -16687,32 +16647,32 @@ Luiza ergueu-se, espantada: <br /> —O d'oculos. <br /> <br /> -Luiza fez-se muito crada: <br /> +Luiza fez-se muito córada: <br /> <br /> —Oh Leopoldina!—murmurou. E depois d'um silencio, rapidamente: <br /> <br /> —Quem t'o disse? <br /> <br /> -—Sei-o eu. Disse-o elle ao Mendona. Sabes que +—Sei-o eu. Disse-o elle ao Mendonça. Sabes que eram unha e carne. Que te dava tudo o que tu lhe pedisses! Disse-lh'o mais d'uma vez. <br /> <br /> —Que horror!—exclamou Luiza subitamente -indignada.—E tu propes-me semelhante cousa?—O +indignada.—E tu propões-me semelhante cousa?—O seu olhar, sob as sobrancelhas franzidas, dardejava de colera. Ir com um homem por dinheiro!—Tirou -o chapo, violentamente, com as mos tremulas, +o chapéo, violentamente, com as mãos tremulas, arremessou-o para a jardineira, e com passos rapidos pelo quarto:—Antes fugir, ir para um convento, ser criada, apanhar a lama das ruas! <br /> <br /> -—No te exaltes, creatura! Quem te diz isso? +—Não te exaltes, creatura! Quem te diz isso? Talvez o homem te emprestasse o dinheiro, desinteressadamente... <br /> <br /> —Acreditas tu? <br /> <br /> -Leopoldina no respondeu: com a cabea baixa, <br /> +Leopoldina não respondeu: com a cabeça baixa, <br /> fazia girar os anneis nos dedos. <br /> <br /> —E quando fosse outra cousa?—exclamou de <br /> @@ -16730,7 +16690,7 @@ Luiza sacudia os hombros, indignada d'aquellas palavras—dos seus proprios pensamentos, talvez! <br /> <br /><span class="pagenum">[432]</span> -— indecente! horrivel!—dizia. <br /> +—É indecente! É horrivel!—dizia. <br /> <br /> Ficaram caladas. <br /> <br /> @@ -16740,48 +16700,48 @@ Ficaram caladas. <br /> <br /> —Escrevia ao Castro, que viesse e com dinheiro! <br /> <br /> -—Isso s tu!—exclamou Luiza, arrebatadamente. <br /> +—Isso és tu!—exclamou Luiza, arrebatadamente. <br /> <br /> -Leopoldina fez-se escarlate sob a camada de p +Leopoldina fez-se escarlate sob a camada de pó d'arroz. <br /> <br /> -Mas Luiza atirou-lhe os braos ao pescoo: <br /> +Mas Luiza atirou-lhe os braços ao pescoço: <br /> <br /> -—Perda-me, perda-me! estou douda, no sei +—Perdôa-me, perdôa-me! estou douda, não sei o que digo!... <br /> <br /> -Comearam ambas a chorar, muito nervosas. <br /> +Começaram ambas a chorar, muito nervosas. <br /> <br /> —Tu zangaste-te!—dizia Leopoldina cortada de -soluos.—Mas p'ra teu bem. o que me parece +soluços.—Mas é p'ra teu bem. É o que me parece melhor. Se eu podesse dava-te o dinheiro... Fazia tudo. Acredita! <br /> <br /> -E abrindo os braos, indicando o seu corpo com +E abrindo os braços, indicando o seu corpo com um impudor sublime: <br /> <br /> —Seiscentos mil reis! Se eu valesse tanto dinheiro, -tinhal-o manh! <br /> +tinhal-o ámanhã! <br /> <br /> -Ns de dedos bateram porta. <br /> +Nós de dedos bateram á porta. <br /> <br /> -—Quem ? <br /> +—Quem é? <br /> <br /> —Eu—disse uma voz rouca. <br /> <br /> -— meu marido. O animal ainda hoje no despegou -de casa... No posso abrir. Logo. <br /> +—É meu marido. O animal ainda hoje não despegou +de casa... Não posso abrir. Logo. <br /> <br /> -Luiza limpava os olhos, pressa, punha o chapo. <br /> +Luiza limpava os olhos, á pressa, punha o chapéo. <br /> <br /> —Quando voltas?—perguntou Leopoldina. <br /> <br /><span class="pagenum">[433]</span> -—Quando puder, seno escrevo-te. <br /> +—Quando puder, senão escrevo-te. <br /> <br /> —Bem. Eu vou pensar, vou esquadrinhar... <br /> <br /> -Luiza agarrou-lhe o brao: <br /> +Luiza agarrou-lhe o braço: <br /> <br /> —E d'isto, nem palavra. <br /> <br /> @@ -16789,64 +16749,64 @@ Luiza agarrou-lhe o brao: <br /> <br /> <br /> <br /> -Sahiu. Foi subindo devagar at ao largo de S. +Sahiu. Foi subindo devagar até ao largo de S. Roque. A porta da igreja da Misericordia estava aberta, com o seu largo reposteiro vermelho d'armas bordadas que o vento agitava brandamente. Veio-lhe -um desejo d'entrar. No sabia para qu; mas parecia-lhe -que depois da excitao apaixonada em que -vibrra, o fresco silencio da igreja a calmaria. E depois -sentia-se to infeliz que se lembrou de Deus! +um desejo d'entrar. Não sabia para quê; mas parecia-lhe +que depois da excitação apaixonada em que +vibrára, o fresco silencio da igreja a calmaria. E depois +sentia-se tão infeliz que se lembrou de Deus! necessitava alguma cousa de superior, de forte a que -se amparar. Foi-se ajoelhar ao p d'um altar, persignou-se, +se amparar. Foi-se ajoelhar ao pé d'um altar, persignou-se, rezou o <em>Padre-Nosso</em>, depois a <em>Salve Rainha</em>. -Mas aquellas oraes, que ella recitava em pequena, -no a consolavam; sentia que eram sons inertes -que no iam mais alto no caminho do co que a -sua mesma respirao; no as comprehendia bem, +Mas aquellas orações, que ella recitava em pequena, +não a consolavam; sentia que eram sons inertes +que não iam mais alto no caminho do céo que a +sua mesma respiração; não as comprehendia bem, nem se applicavam ao seu <em>caso</em>: Deus por ellas, nunca poderia saber o que ella pedia, alli, prostrada -na afflico. Quereria fallar a Deus, abrir-se toda a +na afflicção. Quereria fallar a Deus, abrir-se toda a elle: mas com que linguagem? Com as palavras triviaes, como se fallasse a Leopoldina? Iriam as suas -confidencias to longe, que o alcanassem? Estaria -elle to perto, que a ouvisse? E ficou ajoelhada, os +confidencias tão longe, que o alcançassem? Estaria +elle tão perto, que a ouvisse? E ficou ajoelhada, os <span class="pagenum">[434]</span> -braos molles, as mos cruzadas no regao, olhando +braços molles, as mãos cruzadas no regaço, olhando as velas de cera tristes, os bordados desbotados do frontal, a carinha rosada e redonda d'um menino Jesus! <br /> <br /> -Lentamente perdeu-se n'um scismar que ella no +Lentamente perdeu-se n'um scismar que ella não dirigia, que se formava e se movia no seu cerebro, -como a fluctuao d'um fumo que se eleva. Pensava -no tempo to distante, em que, por melancolia e por +como a fluctuação d'um fumo que se eleva. Pensava +no tempo tão distante, em que, por melancolia e por sentimentalidade, frequentava mais as igrejas. Ainda -a mam vivia ento; e ella, com o corao quebrado—quando +a mamã vivia então; e ella, com o coração quebrado—quando o <em>outro</em>, Bazilio, lhe escrevera, rompendo—procurava -dissipar a sua tristeza nas consolaes -da devoo. Uma amiga sua, a Joanna Silveira, -fra por esse tempo professar a Frana: e ella -s vezes lembrava-se de partir tambem, ser irm de +dissipar a sua tristeza nas consolações +da devoção. Uma amiga sua, a Joanna Silveira, +fôra por esse tempo professar a França: e ella +ás vezes lembrava-se de partir tambem, ser irmã de caridade, levantar os feridos nos campos de batalha, ou viver na paz d'uma cella mystica! Que differente -a sua vida teria sido—d'esta agora to alvoroada -de clera, e to carregada de peccado!... Onde estaria? +a sua vida teria sido—d'esta agora tão alvoroçada +de cólera, e tão carregada de peccado!... Onde estaria? Longe, n'algum mosteiro antigo, entre arvoredos escuros, n'um valle solitario e contemplativo: -na Escocia, talvez, paiz que ella sempre amra desde +na Escocia, talvez, paiz que ella sempre amára desde as suas leituras de Walter Scott. Podia ser nas verde-negras terras de Lamermoor ou de Glencoe, n'alguma velha abbadia saxonia. Em redor os montes cobertos d'abetos, esbatidos nas nevoas, isolam aquelles -retiros n'uma paz funeraria: n'um co saudoso, +retiros n'uma paz funeraria: n'um céo saudoso, as nuvens passam devagar, com recolhimento: nenhum som festivo quebra a meiga taciturnidade das -cousas: revoadas de corvos cortam tarde o ar n'um +cousas: revoadas de corvos cortam á tarde o ar n'um <span class="pagenum">[435]</span> -vo triangular. Alli viveria entre as monjas d'alta +vôo triangular. Alli viveria entre as monjas d'alta estatura e olhar celtico, filhas de duques normandos, ou de lords de <em>clans</em> convertidos a Roma: leria livros -dces e cheios das cousas do co: sentada na +dôces e cheios das cousas do céo: sentada na estreita janella da sua cella, veria passar nas mattas baixas os altos paus dos veados, ou pelas tardes vaporosas escutaria o som distante da <em>bagpipe</em>, que @@ -16855,32 +16815,32 @@ de Callendar: e todo o ar estaria cheio do murmurio choroso e gottejante dos fios d'agua, que por entre as relvas escuras cahem de rocha em rocha! <br /> <br /> -Ou ento seria outra existencia mais regalada, +Ou então seria outra existencia mais regalada, no convento pacato d'uma boa provincia portugueza. -Alli os tectos so baixos; as paredes caiadas faiscam +Alli os tectos são baixos; as paredes caiadas faiscam ao sol, com as suas gradesinhas devotas; os sinos repicam no vivo ar azul; em roda, nos campos -d'oliveiras que do azeite para o convento, raparigas +d'oliveiras que dão azeite para o convento, raparigas varejam a azeitona cantando; no pateo lageado d'uma pedra miudinha as mulas do almocreve, sacudindo a mosca, batem com a ferradura: matronas -cochicham ao p da roda; um carro chia na estrada +cochicham ao pé da roda; um carro chia na estrada empoeirada e branca; gallos cacarejam, brilhando ao sol; e freiras gordinhas, d'olho negro, chalram nos frescos corredores. <br /> <br /> Alli viveria, engordando, com uma quebrasinha -de somno hora do cro, bebendo copinhos de licr -de rosa no quarto da madre-escriv, copiando receitas -de dces com uma letra garrafal; morreria velha, -ouvindo as andorinhas cantar beira da sua +de somno á hora do côro, bebendo copinhos de licôr +de rosa no quarto da madre-escrivã, copiando receitas +de dôces com uma letra garrafal; morreria velha, +ouvindo as andorinhas cantar á beira da sua grade; e o senhor bispo na sua visita, com a pitada <span class="pagenum">[436]</span> nos seus dedos brancos, ouviria sorrindo da bocca da madre abbadessa a historia edificante da sua santa morte... <br /> <br /> -Um sacristo, que passava, escarrou fortemente; +Um sacristão, que passava, escarrou fortemente; e, como um bando de passaros que se cala a um ruido brusco, todos os seus sonhos fugiram. Suspirou, ergueu-se devagar, foi indo para casa, triste. <br /> @@ -16888,20 +16848,20 @@ ergueu-se devagar, foi indo para casa, triste. <br /> Foi Juliana quem veio abrir, e logo no corredor, com a voz supplicante e baixa: <br /> <br /> -—A senhora por quem perde, que depois estava -douda! Estava com a cabea perdida, no tinha +—A senhora por quem é perdôe, que depois estava +douda! Estava com a cabeça perdida, não tinha dormido nada toda a noite. Fiquei mais afflicta... <br /> <br /> -Luiza no respondeu, entrou na sala. Sebastio +Luiza não respondeu, entrou na sala. Sebastião que vinha jantar, tocava a serenata de D. Juan—e apenas ella appareceu: <br /> <br /> -—D'onde vem, to pallida? <br /> +—D'onde vem, tão pallida? <br /> <br /> -—Debilidade, Sebastio, venho da igreja... <br /> +—Debilidade, Sebastião, venho da igreja... <br /> <br /> Jorge entrava do escriptorio com uns papeis na -mo: <br /> +mão: <br /> <br /> —Da igreja!—exclamou—Que horror! <br /> @@ -16913,58 +16873,58 @@ mo: <br /> <br /> <br /> Foi por esse tempo que, n'um sabbado, o <span class="smallcaps">Diario -do Governo</span> publicou a nomeao do conselheiro +do Governo</span> publicou a nomeação do conselheiro Accacio ao <em>grau de cavalleiro da ordem de S. Thiago</em>, attendendo aos seus grandes merecimentos litterarios, -s obras publicadas de reconhecida utilidade, +ás obras publicadas de reconhecida utilidade, e mais partes... <br /> <br /> Na noite seguinte, ao entrar em casa de Jorge, todos o cercaram, felicitando-o com alarido; o Conselheiro, -depois de os abraar um por um, n'uma -presso nervosa e commovida, cahiu no soph, exhausto, +depois de os abraçar um por um, n'uma +pressão nervosa e commovida, cahiu no sophá, exhausto, e murmurou: <br /> <br /> -—No o esperava to cedo da real munificencia! -No o esperava to cedo!—E acrescentou, pondo a -mo espalmada sobre o peito:—Direi como o philosopho: -Esta condecorao o melhor dia da minha +—Não o esperava tão cedo da real munificencia! +Não o esperava tão cedo!—E acrescentou, pondo a +mão espalmada sobre o peito:—Direi como o philosopho: +Esta condecoração é o melhor dia da minha vida! <br /> <br /><span class="pagenum">[438]</span> -E convidou logo Jorge, Sebastio e Julio para -um jantar na quinta-feira, um modesto jantar de +E convidou logo Jorge, Sebastião e Julião para +um jantar na quinta-feira, «um modesto jantar de rapazes, no seu humilde tugurio, para festejarem a -regia graa. <br /> +regia graça». <br /> <br /> -—s cinco e meia, meus bons amigos! <br /> +—Ás cinco e meia, meus bons amigos! <br /> <br /> Na quinta-feira, os tres, que se tinham encontrado na Casa Havaneza, eram introduzidos por uma -rapariguita vesga, suja como um esfrego, na sala -do Conselheiro. Um vasto canap de damasco amarello -occupava a parede do fundo, tendo aos ps um -tapete onde um chileno roxo caava ao lao um bufalo -cr de chocolate; por cima uma pintura tratada -a tons cr de carne, e cheia de corpos ns cobertos +rapariguita vesga, suja como um esfregão, na sala +do Conselheiro. Um vasto canapé de damasco amarello +occupava a parede do fundo, tendo aos pés um +tapete onde um chileno roxo caçava ao laço um bufalo +côr de chocolate; por cima uma pintura tratada +a tons côr de carne, e cheia de corpos nús cobertos de capacetes, representava o valente Achilles arrastando Heitor em torno dos muros de Troya. Um piano de cauda, mudo e triste sob a sua capa de baeta verde, enchia o intervallo das duas janellas. -Sobre uma mesa de jogo, entre dous castiaes de +Sobre uma mesa de jogo, entre dous castiçaes de prata, uma galguinha de vidro transparente galopava; e o objecto em que se sentia mais o calor do -uso era uma caixa de musica de 18 peas! <br /> +uso era uma caixa de musica de 18 peças! <br /> <br /> O Conselheiro recebeu-os, com o <em>habito</em> de S. Thiago sobre a lapella do <em>frac</em> preto. Havia outro sujeito na sala, o snr. Alves Coutinho. Era picado das -bexigas, tinha a cabea muito enterrada nos hombros; +bexigas, tinha a cabeça muito enterrada nos hombros; quando o seu olhar parvo se fixava nas pessoas, com pasmo, o seu bigode pellado arreganhava-se logo por habito, n'um sorriso alvar que mostrava -uma bocca medonha cheia de dentes pdres; fallava -pouco, esfregava sempre as mos, concordava em +uma bocca medonha cheia de dentes pôdres; fallava +pouco, esfregava sempre as mãos, concordava em <span class="pagenum">[439]</span> tudo; havia n'elle o ar d'um deboche banal, e d'um embrutecimento antigo. Era um empregado do ministerio @@ -16974,14 +16934,14 @@ D'ahi a pouco entrou a figura conhecida do Savedra, redactor do <em>Seculo</em>. A sua face branca parecia mais balofa; o bigode muito preto reluzia de brilhantina; as lunetas d'ouro accentuavam o seu tom official: -trazia ainda no queixo o p d'arroz, que lhe pozera -momentos antes o barbeiro; e a mo, que escrevia +trazia ainda no queixo o pó d'arroz, que lhe pozera +momentos antes o barbeiro; e a mão, que escrevia tanta banalidade e tanta mentira, vinha aperreada -n'uma luva nova, cr de gema d'ovo! <br /> +n'uma luva nova, côr de gema d'ovo! <br /> <br /> —Estamos todos!—disse com jubilo o Conselheiro. E curvando-se:—Bemvindos, meus amigos! -Estamos talvez mais vontade no meu quarto de +Estamos talvez mais á vontade no meu quarto de estudo! Por aqui. Ha um degrau, cuidado! Eis o meu <em>Sanctus Sanctorum</em>! <br /> <br /> @@ -16993,145 +16953,145 @@ os lapis muito aparados, as regoas bem dispostas. Via-se o sinete d'armas do Conselheiro, pousado sobre a <em>Carta Constitucional</em> ricamente encadernada. Encaixilhada, na parede, pendia a <em>carta regia</em> que o -nomera Conselheiro; defronte uma lithographia d'El-Rei; +nomeára Conselheiro; defronte uma lithographia d'El-Rei; e sobre uma mesa, era eminente o busto em -gesso de Rodrigo da Fonseca Magalhes, tendo no alto -da cabea uma cora de perpetuas—que ao mesmo +gesso de Rodrigo da Fonseca Magalhães, tendo no alto +da cabeça uma corôa de perpetuas—que ao mesmo tempo o glorificava e o chorava. <br /> <br /> -Julio pozera-se logo a examinar a livraria. +Julião pozera-se logo a examinar a livraria. <br /> <br /><span class="pagenum">[440]</span> —Prezo-me de ter os authores mais illustres, amigo Zuzarte!—disse com orgulho o Conselheiro. <br /> <br /> Mostrou-lhe a <em>Historia do consulado e do imperio</em>, -as obras de Delille, o <em>Diccionario da conversao</em>, -a ediosinha bojuda da <em>Encyclopedia Roret</em>, o +as obras de Delille, o <em>Diccionario da conversação</em>, +a ediçãosinha bojuda da <em>Encyclopedia Roret</em>, o <em>Parnaso lusitano</em>. Fallou dos seus trabalhos; e acrescentou -que, vendo alli reunidas pessoas de to subida -illustrao, desejaria muito lr-lhes algumas das -provas que estava revendo do seu novo livro—<em>Descripo +que, vendo alli reunidas pessoas de tão subida +illustração, desejaria muito lêr-lhes algumas das +provas que estava revendo do seu novo livro—<em>Descripção das principaes cidades do reino e seus -estabelecimentos</em>, para ouvir a opinio d'elles, desassombrada +estabelecimentos</em>, para ouvir a opinião d'elles, desassombrada e severa! <br /> <br /> -—Se no acham massada... <br /> +—Se não acham massada... <br /> <br /> —Prazer, Conselheiro! prazer! <br /> <br /> -Escolheu ento como mais propria para dar -ida da importancia do trabalho a pagina relativa +Escolheu então «como mais propria para dar +idéa da importancia do trabalho» a pagina relativa a Coimbra. Assoou-se, collocou-se no meio da saleta, -de p, com as folhas na mo, e, com uma voz cheia, +de pé, com as folhas na mão, e, com uma voz cheia, gestos pausados, leu: <br /> <br /> -—...Reclinada mollemente na sua verdejante -collina, como odalisca em seus aposentos, est a sabia -Coimbra, a Lusa Athenas. Beija-lhe os ps, segredando-lhe +«—...Reclinada mollemente na sua verdejante +collina, como odalisca em seus aposentos, está a sabia +Coimbra, a Lusa Athenas. Beija-lhe os pés, segredando-lhe d'amor, o saudoso Mondego. E em seus bosques, no bem conhecido salgueiral, o rouxinol e outras aves canoras soltam seus melancolicos trilos. Quando vos aproximaes pela estrada de Lisboa, onde outr'ora uma bem organisada <em>mala-posta</em> fazia o -servio que o progresso hoje encarregou fumegante -locomotiva, vdel-a branquejando, coroada do edificio +serviço que o progresso hoje encarregou á fumegante +locomotiva, vêdel-a branquejando, coroada do edificio imponente da Universidade, asylo da sabedoria. <span class="pagenum">[441]</span> -L campa a torre com o sino, que em sua folgaz +Lá campêa a torre com o sino, que em sua folgazã linguagem a mocidade estudiosa chama <em>a cabra</em>. Para -alm logo uma copada arvore vos attrahe as vistas: - a celebrada <em>arvore dos Dorias</em>, que dilata +além logo uma copada arvore vos attrahe as vistas: +é a celebrada <em>arvore dos Dorias</em>, que dilata seus seculares ramos no jardim d'um dos membros d'esta respeitavel familia. E avistaes logo, sentados nos parapeitos da antiga ponte, em seus innocentes -recreios, os briosos moos, esperana da patria, ou +recreios, os briosos moços, esperança da patria, ou requebrando galanteios com as ternas camponezas que passam reflorindo de mocidade e frescura, ou revolvendo em suas mentes os problemas mais arduos -de seus bem elaborados compendios... <br /> +de seus bem elaborados compendios...» <br /> <br /> -—Est a spa na mesa—veio dizer uma criada, +—Está a sôpa na mesa—veio dizer uma criada, de avental branco, muito nutrida. <br /> <br /> —Muito bem, Conselheiro, muito bem!—disse -logo o Savedra do <em>Seculo</em>, erguendo-se.— admiravel! <br /> +logo o Savedra do <em>Seculo</em>, erguendo-se.—É admiravel! <br /> <br /> -Declarou para os lados com authoridade: que o +Declarou para os lados com authoridade: «que o estylo era digno d'um Rebello ou d'um Latino, e que realmente estava-se precisando muito em Portugal -d'uma obra daquelle quilate... E pensava baixo: -Grandissima cavalgadura!... O que era a sua -apreciao generica de todas as obras contemporaneas—exceptuando +d'uma obra daquelle quilate...» E pensava baixo: +«Grandissima cavalgadura!...» O que era a sua +apreciação generica de todas as obras contemporaneas—exceptuando os seus artigos no <em>Seculo</em>. <br /> <br /> —Que lhe pareceu, meu bom amigo?—perguntou -baixo o Conselheiro a Julio, passando-lhe a mo -sobre o hombro.—Mas uma opinio desaffrontada, +baixo o Conselheiro a Julião, passando-lhe a mão +sobre o hombro.—Mas uma opinião desaffrontada, meu Zuzarte! <br /> <br /> -—Snr. Conselheiro—disse Julio com uma voz +—Snr. Conselheiro—disse Julião com uma voz profunda—tenho-lhe inveja!—E as suas lunetas <span class="pagenum">[442]</span> -escuras fixavam-se com uma preoccupao crescente +escuras fixavam-se com uma preoccupação crescente n'um chale-manta pardo, que a um canto cobria cuidadosamente, a julgar pelas saliencias, altas pilhas de livros. Que seria?—Tenho-lhe inveja!—repetiu—E -outra cousa, Conselheiro, no se me dava de -lavar as mos. <br /> +outra cousa, Conselheiro, não se me dava de +lavar as mãos. <br /> <br /> Accacio levou-o logo ao seu quarto, e retirou-se -discretamente. Julio, sempre curioso, observou, surprehendido, +discretamente. Julião, sempre curioso, observou, surprehendido, duas grandes lithographias aos lados da -cama—um <em>Ecce Homo</em>! e a <em>Virgem das sete Dres</em>. +cama—um <em>Ecce Homo</em>! e a <em>Virgem das sete Dôres</em>. O quarto era esteirado, o leito baixo e largo. Abriu -ento a gavetinha da mesa de cabeceira, e viu, espantado, +então a gavetinha da mesa de cabeceira, e viu, espantado, uma touca e o volume brochado das poesias obscenas de Bocage! Entreabriu os cortinados fechados; -e teve a consolao de verificar,—que havia +e teve a consolação de verificar,—que havia sobre o travesseiro duas fronhasinhas chegadas d'um modo conjugal e terno! <br /> <br /> Apenas elle sahiu do quarto, limpando as unhas -com o leno, o Conselheiro conduziu-os sala de +com o lenço, o Conselheiro conduziu-os á sala de jantar, dizendo, jovialmente: <br /> <br /> -—No esperem o festim de Lucullo: apenas o +—Não esperem o festim de Lucullo: é apenas o modesto passadio d'um humilde philosopho! <br /> <br /> Mas o Alves Coutinho extasiou-se sobre a abundancia -das travessas de dce; havia <em>creme</em> crestado +das travessas de dôce; havia <em>creme</em> crestado a ferro d'engomar, um prato <em>d'ovos queimados</em>, aletria com as iniciaes do Conselheiro desenhadas a canella. <br /> <br /> -— um grande dia para Sebastio!—disse +—É um grande dia para Sebastião!—disse Jorge. <br /> <br /> -O Alves Coutinho voltou-se logo para Sebastio, -esfregando as mos, com um riso na face amarella: +O Alves Coutinho voltou-se logo para Sebastião, +esfregando as mãos, com um riso na face amarella: <br /> <br /><span class="pagenum">[443]</span> -— c dos meus, hein? Gosta do bello dce! -Tambem me pllo, tambem me pllo!... <br /> +—É cá dos meus, hein? Gosta do bello dôce! +Tambem me péllo, tambem me péllo!... <br /> <br /> -Houve ento um silencio. As colheres de prata, +Houve então um silencio. As colheres de prata, remexendo devagar a sopa muito quente, agitavam -os longos canudos brancos e molles do macarro. <br /> +os longos canudos brancos e molles do macarrão. <br /> <br /> O Conselheiro disse: <br /> <br /> -—No sei se gostaro da sopa. Eu adoro o macarro! <br /> +—Não sei se gostarão da sopa. Eu adoro o macarrão! <br /> <br /> -—Gosta do macarro?—acudiu o Alves. <br /> +—Gosta do macarrão?—acudiu o Alves. <br /> <br /> —Muito, meu Alves. Lembra-me a Italia!—E -acrescentou:—Paiz que sempre desejei vr. Dizem-me -que as suas ruinas so de primeira ordem. Pde +acrescentou:—Paiz que sempre desejei vêr. Dizem-me +que as suas ruinas são de primeira ordem. Póde ir trazendo o cozido, snr.<sup>a</sup> Philomena...—Mas detendo-a, -com um gesto grave:—Perdo, com franqueza, -preferem o cozido ou o peixe? um pargo. <br /> +com um gesto grave:—Perdão, com franqueza, +preferem o cozido ou o peixe? É um pargo. <br /> <br /> -Houve uma hesitao, Jorge disse: <br /> +Houve uma hesitação, Jorge disse: <br /> <br /> —O cozido talvez. <br /> <br /> @@ -17143,206 +17103,206 @@ E o Conselheiro com affecto: <br /> Coutinho, voltado para Jorge, com o olho afogado em reconhecimento:—O cozidinho! <br /> <br /> -E o Conselheiro que julgava do seu dever dar -conversao nobreza e interesse, disse, limpando devagar +E o Conselheiro que julgava do seu dever dar á +conversação nobreza e interesse, disse, limpando devagar o bigode da gordura da sopa: <br /> <br /> -—Dizem-me que muito liberal a constituio +—Dizem-me que é muito liberal a constituição da Italia! <br /> <br /> -Liberal! Segundo Julio, se a Italia fosse liberal, +Liberal! Segundo Julião, se a Italia fosse liberal, devia ter ha muito expulso a coronhadas o papa, o sacro collegio, e a sociedade de Jesus! <br /> <br /><span class="pagenum">[444]</span> O Conselheiro pediu, com bondade, a benevolencia -do amigo Zuzarte para o chefe da Igreja. <br /> +do amigo Zuzarte para o «chefe da Igreja». <br /> <br /> -—No—explicou—que eu seja um sectario do -<em>Syllabus</em>. No que eu queira vr os jesuitas enthronisados +—Não—explicou—que eu seja um sectario do +<em>Syllabus</em>. Não que eu queira vêr os jesuitas enthronisados no seio da familia! Mas—e a sua voz tornou-se profunda—o respeitavel prisioneiro do Vaticano - o vigario de Christo! Meu Sebastio, sirva o +é o vigario de Christo! Meu Sebastião, sirva o arroz! <br /> <br /> -No havia que estranhar aquellas opinies catholicas -do Conselheiro, ia observando Julio, porque tinha -duas imagens de santos pendentes cabeceira da +Não havia que estranhar aquellas opiniões catholicas +do Conselheiro, ia observando Julião, porque tinha +duas imagens de santos pendentes á cabeceira da cama... <br /> <br /> A calva d'Accacio fez-se rubra. O Savedra do <em>Seculo</em> exclamou com a bocca cheia: <br /> <br /> -—No o sabia carola, Conselheiro! <br /> +—Não o sabia carola, Conselheiro! <br /> <br /> Accacio, afflicto, suspendeu o trinchador sobre o paio escarlate, e acudiu: <br /> <br /> -—Eu peo ao meu Savedra que no tire d'esse -facto illaes erradas. Os meus principios so bem -conhecidos. No sou ultramontano, nem fao votos -pelo restabelecimento da perseguio religiosa. Sou -liberal. Creio em Deus. Mas reconheo que a religio - um freio... <br /> +—Eu peço ao meu Savedra que não tire d'esse +facto illações erradas. Os meus principios são bem +conhecidos. Não sou ultramontano, nem faço votos +pelo restabelecimento da perseguição religiosa. Sou +liberal. Creio em Deus. Mas reconheço que a religião +é um freio... <br /> <br /> -—Para os que o precisam—interrompeu Julio. <br /> +—Para os que o precisam—interrompeu Julião. <br /> <br /> Riram; o Alves Coutinho torcia-se. O Conselheiro interdicto respondeu, devagar, dispondo na travessa as rodelas do paio: <br /> <br /> -—No o precisamos ns de certo, que somos as +—Não o precisamos nós de certo, que somos as classes illustradas. Mas precisa-o a massa do povo, <span class="pagenum">[445]</span> -snr. Zuzarte. Seno veriamos augmentar a estatistica +snr. Zuzarte. Senão veriamos augmentar a estatistica dos crimes. <br /> <br /> E o Savedra do <em>Seculo</em>, erguendo as sobrancelhas, -com a physionomia muito sria: <br /> +com a physionomia muito séria: <br /> <br /> —Pois olhe que diz uma grandissima verdade.—Repetiu -a maxima, modificando-a:—A religio -um brido!—Fazia com o gesto o esforo de conter +a maxima, modificando-a:—A religião é +um bridão!—Fazia com o gesto o esforço de conter uma mula. E pediu mais arroz. Devorava. <br /> <br /> O Conselheiro continuava, explicando: <br /> <br /> —Como dizia, sou liberal, mas entendo que algumas lithographias ou gravuras, allusivas ao mysterio -da Paixo, tem o seu lugar n'um quarto de cama, -e inspiram de certo modo sentimentos christos. -No verdade, meu Jorge? <br /> +da Paixão, tem o seu lugar n'um quarto de cama, +e inspiram de certo modo sentimentos christãos. +Não é verdade, meu Jorge? <br /> <br /> Mas o Savedra interrompeu ruidosamente, com a face accesa n'uma jovialidade libertina: <br /> <br /> —Eu, n'um quarto de dormir, as unicas pinturas -que admitto so uma bella nympha na, ou uma +que admitto são uma bella nympha núa, ou uma bacchante desenfreada! <br /> <br /> —Isso, isso!—bradou o Alves Coutinho. A bocca -dilatava-se-lhe n'uma admirao sensual.—Este -Savedra! Este Savedra!—E baixo para Sebastio:—Tem +dilatava-se-lhe n'uma admiração sensual.—Este +Savedra! Este Savedra!—E baixo para Sebastião:—Tem um talento! Tem um talento! <br /> <br /> -O Conselheiro voltou-se para Julio, e puxando o +O Conselheiro voltou-se para Julião, e puxando o guardanapo para o estomago: <br /> <br /> -—Espero que no sejam esses os paineis immoraes, -que se vem no seu gabinete d'estudo. <br /> +—Espero que não sejam esses os paineis immoraes, +que se vêem no seu gabinete d'estudo. <br /> <br /> -Julio emendou: <br /> +Julião emendou: <br /> <br /> -—No meu cubiculo. Ah! no, Conselheiro! Tenho -apenas duas lithographias—uma um homem +—No meu cubiculo. Ah! não, Conselheiro! Tenho +apenas duas lithographias—uma é um homem <span class="pagenum">[446]</span> sem pelle para representar o systema arterial, o outro - o mesmo individuo igualmente sem pelle para -se vr o systema nervoso. <br /> +é o mesmo individuo igualmente sem pelle para +se vêr o systema nervoso. <br /> <br /> -O Conselheiro teve com a sua mo branca um -vago gesto enojado, e exprimiu a opinio—que na -medicina, alis uma grande sciencia! havia cousas +O Conselheiro teve com a sua mão branca um +vago gesto enojado, e exprimiu a opinião—que na +medicina, aliás uma grande sciencia! havia cousas bastante asquerosas. Assim, ouvira dizer que nos -theatros anatomicos, os estudantes d'idas mais -avanadas levavam o seu desprezo pela moral at -atirarem uns aos outros, brincando, pedaos de -membros humanos, ps, coxas, narizes... <br /> +theatros anatomicos, os estudantes d'idéas mais +avançadas levavam o seu desprezo pela moral até +atirarem uns aos outros, brincando, pedaços de +membros humanos, pés, coxas, narizes... <br /> <br /> -—Mas como quem mexe em terra, Conselheiro!—disse -Julio, enchendo o copo— materia +—Mas é como quem mexe em terra, Conselheiro!—disse +Julião, enchendo o copo—é materia inerte! <br /> <br /> —E a alma, snr. Zuzarte?...—exclamou o Conselheiro. Fez um gesto de vaga reticencia; e julgando tel-o aniquilado com aquella palavra suprema, -abriu para Sebastio um sorriso cortez e protector: <br /> +abriu para Sebastião um sorriso cortez e protector: <br /> <br /> -—E que diz o nosso bondoso Sebastio? <br /> +—E que diz o nosso bondoso Sebastião? <br /> <br /> —Estou a ouvir, snr. Conselheiro. <br /> <br /> -—No d ouvidos a estas doutrinas!—Com o -garfo mostrava a figura biliosa de Julio.—Mantenha -a sua alma pura. So perniciosas. Que o nosso -Jorge (o que de lamentar n'um homem estabelecido +—Não dê ouvidos a estas doutrinas!—Com o +garfo mostrava a figura biliosa de Julião.—Mantenha +a sua alma pura. São perniciosas. Que o nosso +Jorge (o que é de lamentar n'um homem estabelecido e empregado do Estado) tambem vai um pouco -para estas exageraes materialistas! <br /> +para estas exagerações materialistas! <br /> <br /> Jorge riu; affirmou que <em>sim</em>, que tinha essa honra... <br /> <br /> -—Ento o Conselheiro quer que eu, um engenheiro, +—Então o Conselheiro quer que eu, um engenheiro, <span class="pagenum">[447]</span> um estudante de mathematica, acredite que -ha almas que vivem no co, com azinhas brancas, +ha almas que vivem no céo, com azinhas brancas, tunicas azues, e tocando instrumentos? <br /> <br /> O Conselheiro acudiu: <br /> <br /> -—No, instrumentos no!—E como appellando -para todos:—No creio que tivesse fallado em -instrumentos. Os instrumentos so uma exagerao. -So, podemos dizel-o, tacticas do partido reaccionario... <br /> +—Não, instrumentos não!—E como appellando +para todos:—Não creio que tivesse fallado em +instrumentos. Os instrumentos são uma exageração. +São, podemos dizel-o, tacticas do partido reaccionario... <br /> <br /> Ia fulminar a doutrina ultramontana—mas a snr.<sup>a</sup> Philomena collocou-lhe diante a travessa com a perna de vitella assada. Compenetrou-se logo do seu dever, afiou o trinchador com solemnidade, foi cortando fatias finas, com a testa muito franzida como -na applicao d'uma funco grave. Ento Julio, -pousando os cotovlos sobre a mesa, e escabichando +na applicação d'uma funcção grave. Então Julião, +pousando os cotovêlos sobre a mesa, e escabichando os dentes com a unha, perguntou: <br /> <br /> -—E o ministerio, cahe ou no cahe? <br /> +—E o ministerio, cahe ou não cahe? <br /> <br /> -Sebastio ouvira dizer no vapor d'Almada, de -tarde, que a situao estava firme. <br /> +Sebastião ouvira dizer no vapor d'Almada, de +tarde, que «a situação estava firme». <br /> <br /> -Mas o Savedra esvaziou o copo, limpou os beios -e declarou que em duas semanas estavam em terra. -Nem aquelle escandalo podia continuar! No -tinham a mais pequena ida de governo. Nem a mais -leve! Assim, por exemplo, elle...—E metteu as mos +Mas o Savedra esvaziou o copo, limpou os beiços +e declarou que em duas semanas «estavam em terra». +Nem aquelle escandalo podia continuar! Não +tinham a mais pequena idéa de governo. Nem a mais +leve! Assim, por exemplo, elle...—E metteu as mãos nos bolsos, firmando-se nas costas da cadeira—Elle -tinha-os apoiado, no verdade? E com lealdade. -Porque era leal! Sempre o fra em politica! Pois -bem, no lhe tinham despachado o primo recebedor +tinha-os apoiado, não é verdade? E com lealdade. +Porque era leal! Sempre o fôra em politica! Pois +bem, não lhe tinham despachado o primo recebedor d'Aljustrel, tendo-lh'o promettido! e nem lhe tinham <span class="pagenum">[448]</span> -dado uma satisfao. Assim no era possivel fazer -politica! Era uma colleco de idiotas! <br /> +dado uma satisfação. Assim não era possivel fazer +politica! Era uma collecção de idiotas! <br /> <br /> Jorge alegrava-se que viessem outros; talvez lhe -dessem de novo a sua commisso no ministerio; e +dessem de novo a sua commissão no ministerio; e elle o que queria era estar quieto ao seu cantinho... <br /> <br /> O Alves Coutinho calava-se, com prudencia, engulindo -buchas de po. <br /> +buchas de pão. <br /> <br /> -—Eu que caiam, ou que fiquem—disse Julio—que +—Eu que caiam, ou que fiquem—disse Julião—que venham estes, ou que venham aquelles... Obrigado, Conselheiro—e recebeu o seu prato de -vitella—...-me inteiramente indifferente. tudo -a mesma podrido! O paiz inspirava-lhe nojo; de +vitella—...é-me inteiramente indifferente. É tudo +a mesma podridão! O paiz inspirava-lhe nojo; de cima a baixo era uma <em>choldra</em>: e esperava breve -que, pela logica das cousas, uma revoluo varresse +que, pela logica das cousas, uma revolução varresse a porcaria... <br /> <br /> -—Uma revoluo!—fez o Alves Coutinho, assustado, -com olhares inquietos para os lados, coando +—Uma revolução!—fez o Alves Coutinho, assustado, +com olhares inquietos para os lados, coçando nervosamente o queixo. <br /> <br /> -O Conselheiro sentra-se, e disse, ento: <br /> +O Conselheiro sentára-se, e disse, então: <br /> <br /> -—Eu no quero entrar em discusses politicas, -s servem para dividir as familias mais unidas, mas -s lhe lembrarei, snr. Zuzarte, uma cousa, os excessos +—Eu não quero entrar em discussões politicas, +só servem para dividir as familias mais unidas, mas +só lhe lembrarei, snr. Zuzarte, uma cousa, os excessos da Communa... <br /> <br /> -Julio recostou-se, e com uma voz muito tranquilla: <br /> +Julião recostou-se, e com uma voz muito tranquilla: <br /> <br /> -—Mas onde est o mal, snr. Conselheiro, se fuzilarmos +—Mas onde está o mal, snr. Conselheiro, se fuzilarmos alguns banqueiros, alguns padres, alguns proprietarios obesos, e alguns marquezes cacheticos! Era uma limpezasinha!...—E fazia o gesto d'afiar a @@ -17352,124 +17312,124 @@ faca. O Conselheiro sorriu, cortezmente; tomava como um gracejo aquella sahida sanguinaria. <br /> <br /> -O Savedra porm interpoz-se, com authoridade: <br /> +O Savedra porém interpoz-se, com authoridade: <br /> <br /> —Eu no fundo sou republicano... <br /> <br /> —E eu—disse Jorge. <br /> <br /> -—E eu—fez o Alves Coutinho, j inquieto.—Contem-me +—E eu—fez o Alves Coutinho, já inquieto.—Contem-me a mim tambem! <br /> <br /> —Mas—continuou o Savedra—sou-o em principio. -Porque o principio bello, o principio ideal! +Porque o principio é bello, o principio é ideal! Mas a pratica? Sim, a pratica?—E voltava para todos os lados a sua face balofa. <br /> <br /> —Sim, na pratica!—exclamava o Alves Coutinho, em echo admirativo. <br /> <br /> -—A pratica impossivel!—declarou o Savedra. +—A pratica é impossivel!—declarou o Savedra. E encheu a bocca de vitella. <br /> <br /> -O Conselheiro ento resumiu: <br /> +O Conselheiro então resumiu: <br /> <br /> -—A verdade esta: o paiz est sinceramente -abraado familia real... No acha, meu bom Sebastio?—Dirigia-se +—A verdade é esta: o paiz está sinceramente +abraçado á familia real... Não acha, meu bom Sebastião?—Dirigia-se a elle, como proprietario e possuidor -d'inscripes. <br /> +d'inscripções. <br /> <br /> -Sebastio, interpellado, crou, declarou que no +Sebastião, interpellado, córou, declarou que não entendia nada de politica; havia todavia factos que o affligiam; parecia-lhe que os operarios eram mal pagos; a miseria crescia; os cigarreiros, por exemplo, tinham apenas de nove a onze vintens por dia, e, com familia, era triste... <br /> <br /> -— uma infamia—disse Julio, encolhendo os +—É uma infamia—disse Julião, encolhendo os hombros. <br /> <br /> -—E ha poucas esclas...—observou timidamente -Sebastio. +—E ha poucas escólas...—observou timidamente +Sebastião. <br /> <br /><span class="pagenum">[450]</span> -— uma torpeza!—insistiu Julio. <br /> +—É uma torpeza!—insistiu Julião. <br /> <br /> O Savedra calava-se, occupado com o alimento; tinha desabotoado a fivela do collete; espalhava-se-lhe -no rosto gordo uma cr d'enfartao, e sorria +no rosto gordo uma côr d'enfartação, e sorria vagamente, inchado. <br /> <br /> -—E os idiotas de S. Bento?...—exclamou Julio. <br /> +—E os idiotas de S. Bento?...—exclamou Julião. <br /> <br /> Mas o Conselheiro interrompeu-o: <br /> <br /> -—Meus bons amigos, fallemos d'outra cousa. +—Meus bons amigos, fallemos d'outra cousa. É mais digno de portuguezes e de subditos fieis. <br /> <br /> E voltando-se logo para Jorge, quiz saber como -ficra a interessante D. Luiza? <br /> +ficára a interessante D. Luiza? <br /> <br /> Estava um pouco adoentada havia dias—disse -Jorge.—Mas no era nada, mudana d'estao, um +Jorge.—Mas não era nada, mudança d'estação, um bocadito d'anemia... <br /> <br /> O Savedra pousando o copo, e comprimentando: <br /> <br /> -—Tive o prazer de a vr passar este vero quasi -todas as manhs por minha casa—disse.—Ia -para os lados d'Arroios. s vezes de trem, s vezes -a p... <br /> +—Tive o prazer de a vêr passar este verão quasi +todas as manhãs por minha casa—disse.—Ia +para os lados d'Arroios. Ás vezes de trem, ás vezes +a pé... <br /> <br /> Jorge pareceu um pouco surprehendido; mas o -Conselheiro ia dizendo quanto lhe pezava no ter o -prazer de a vr partilhar d'aquelle modesto repasto; -como celibatario porm... no tendo uma esposa +Conselheiro ia dizendo quanto lhe pezava não ter o +prazer de a vêr partilhar d'aquelle modesto repasto; +como celibatario porém... não tendo uma esposa para fazer as honras... <br /> <br /> -—E o que eu admiro, Conselheiro—observou -Julio— que tendo uma casa to confortavel, no -se tenha casado, no se tenha dado o conchego d'uma +—E é o que eu admiro, Conselheiro—observou +Julião—é que tendo uma casa tão confortavel, não +se tenha casado, não se tenha dado o conchego d'uma senhora... <br /> <br /><span class="pagenum">[451]</span> Todos apoiaram. Era verdade! O Conselheiro devia-se ter casado. <br /> <br /> -—So graves, perante Deus e perante a sociedade, +—São graves, perante Deus e perante a sociedade, as responsabilidades d'um chefe de familia—considerou elle. <br /> <br /> -Mas emfim—disseram— o estado mais natural. -E depois, que diabo, s vezes havia de se sentir -s! E n'uma doena! Sem contar a alegria que -do os filhos!... <br /> +Mas emfim—disseram—é o estado mais natural. +E depois, que diabo, ás vezes havia de se sentir +só! E n'uma doença! Sem contar a alegria que +dão os filhos!... <br /> <br /> -O Conselheiro objectou: os annos, as neves da -fronte... <br /> +O Conselheiro objectou: «os annos, as neves da +fronte...» <br /> <br /> Tambem ninguem lhe dizia que fosse casar com -uma rapariga de quinze annos! No, era arriscado. +uma rapariga de quinze annos! Não, era arriscado. Mas com uma pessoa de certa idade que tivesse attractivos, cuidados de interior... Era mesmo moral. <br /> <br /> -—Porque emfim, Conselheiro, a natureza, a -natureza!—disse Julio com malicia. <br /> +—Porque emfim, Conselheiro, a natureza, é a +natureza!—disse Julião com malicia. <br /> <br /> —Ha muito, meu amigo, que se apagou dentro -em mim o fogo das paixes. <br /> +em mim o fogo das paixões. <br /> <br /> Ora qual! era um fogo que nunca se extinguia! Que diabo! era impossivel que o Conselheiro, apesar dos seus cincoenta e cinco, fosse indifferente a uns -bellos olhos pretos, a umas frmasinhas redondas!... <br /> +bellos olhos pretos, a umas fórmasinhas redondas!... <br /> <br /> -O Conselheiro crava. E o Savedra declarou, com +O Conselheiro córava. E o Savedra declarou, com um circumloquio pudico—que nenhuma idade se -eximia influencia de Venus. Toda a questo nos +eximia á influencia de Venus. Toda a questão é nos gostos—disse:—aos quinze annos gosta-se d'uma matrona cheia, aos cincoenta d'um fructosinho tenro... -Pois no verdade, amigo Alves? +Pois não é verdade, amigo Alves? <br /> <br /><span class="pagenum">[452]</span> O Alves arregalou os olhos concupiscentes, e fez @@ -17477,14 +17437,14 @@ estalar a lingua. <br /> <br /> E o Savedra continuou: <br /> <br /> -—Eu, a minha primeira paixo foi uma visinha, -mulher d'um capito de navios, mi de seis filhos, -e que no cabia por aquella porta. Pois senhores, +—Eu, a minha primeira paixão foi uma visinha, +mulher d'um capitão de navios, mãi de seis filhos, +e que não cabia por aquella porta. Pois senhores, fiz-lhe versos, e a excellente creatura ensinou-me um -par de cousas agradaveis... Deve-se comear cedo, -no verdade?—E voltou-se para Sebastio. <br /> +par de cousas agradaveis... Deve-se começar cedo, +não é verdade?—E voltou-se para Sebastião. <br /> <br /> -Quizeram ento saber as opinies de Sebastio—que +Quizeram então saber as opiniões de Sebastião—que se fez escarlate. <br /> <br /> Por fim, muito solicitado, disse com timidez: <br /> @@ -17494,248 +17454,248 @@ de bem, e estimal-a toda a vida... <br /> <br /> Aquellas palavras simples produziram um curto silencio. Mas o Savedra, reclinando-se, classificou uma -tal opinio de burgueza; o casamento era um fardo; -no havia nada como a variedade... <br /> +tal opinião de «burgueza»; o casamento era um fardo; +não havia nada como a variedade... <br /> <br /> -E Julio expz dogmaticamente: <br /> +E Julião expôz dogmaticamente: <br /> <br /> -—O casamento uma formula administrativa, +—O casamento é uma formula administrativa, que ha-de um dia acabar...—De resto, segundo elle, a femea era um ente subalterno; o homem deveria -aproximar-se d'ella em certas pocas do anno (como +aproximar-se d'ella em certas épocas do anno (como fazem os animaes, que comprehendem estas cousas -melhor que ns), fecundal-a, e afastar-se com tedio. <br /> +melhor que nós), fecundal-a, e afastar-se com tedio. <br /> <br /> -Aquella opinio escandalisou a todos, sobretudo o -Conselheiro que a achou d'um materialismo repugnante. <br /> +Aquella opinião escandalisou a todos, sobretudo o +Conselheiro que a achou «d'um materialismo repugnante». <br /> <br /> -—Essas femeas para quem to severo, snr. -Zuzarte—exclamava elle—essas femeas so nossas +—Essas femeas para quem é tão severo, snr. +Zuzarte—exclamava elle—essas femeas são nossas <span class="pagenum">[453]</span> -mes, nossas carinhosas irms, a esposa do Chefe +mães, nossas carinhosas irmãs, a esposa do Chefe do Estado, as damas illustres da nobreza... <br /> <br /> -—So o melhor bocadinho d'este valle de lagrimas—interrompeu +—São o melhor bocadinho d'este valle de lagrimas—interrompeu com fatuidade o Savedra, dando -palmadinhas sobre o estomago. Dissertou ento sobre +palmadinhas sobre o estomago. Dissertou então sobre as mulheres. O que sobretudo lhes exigia era um bonito -p; no havia nada como um psinho catita! E +pé; não havia nada como um pésinho catita! E a todas preferia a mulher hespanhola! <br /> <br /> O Alves votava pelas francezas: citava algumas -do Caf Concerto, creaturas de fazer perder a cabea!...—E +do Café Concerto, creaturas de fazer perder a cabeça!...—E injectavam-se-lhe os olhos. <br /> <br /> O Savedra disse com um trejeito hostil: <br /> <br /> —Sim, para um bocado de can-can... Para o -can-can no ha como as francezas... Mas muito chupistas! <br /> +can-can não ha como as francezas... Mas muito chupistas! <br /> <br /> O Conselheiro affirmou ageitando as lunetas: <br /> <br /> -—Viajantes instruidos teem-me afianado que as -inglezas so notaveis mes de familia... <br /> +—Viajantes instruidos teem-me afiançado que as +inglezas são notaveis mães de familia... <br /> <br /> —Mas frias como esta madeira—disse o Savedra, -batendo no mesa.—Mulheres de glo!—E reclamava +batendo no mesa.—Mulheres de gêlo!—E reclamava hespanholas! Queria fogo! Queria <em>salero</em>! Tinha o olho brilhante do vinho; a comida accendia-lhe o sentimento! <br /> <br /> —Uma bella <em>gaditana</em>, hein, amigo Alves? <br /> <br /> -Mas em presena dos dces que a snr.<sup>a</sup> Philomena -dispz sobre a mesa, o Alves Coutinho esquecera -as mulheres, e, voltado para Sebastio, discutia gulodices. +Mas em presença dos dôces que a snr.<sup>a</sup> Philomena +dispôz sobre a mesa, o Alves Coutinho esquecera +as mulheres, e, voltado para Sebastião, discutia gulodices. Indicava as especialidades: Para os folhados, -o Cc! Para as natas, o Baltresqui! Para as +o Cócó! Para as natas, o Baltresqui! Para as gelatinas, o largo de S. Domingos! Dava receitas; <span class="pagenum">[454]</span> contava proezas de lambarice, revirando os olhos: <br /> <br /> —Porque—dizia—o docinho e a mulherzinha - o que me toca c por dentro a alma. <br /> +é o que me toca cá por dentro a alma. <br /> <br /> -Era: todo o tempo que no dedicava ao servio +Era: todo o tempo que não dedicava ao serviço do Estado, dividia-o, com solicitude, entre as confeitarias e os lupanares. <br /> <br /> -Savedra e Julio discutiam a imprensa. O redactor -do <em>Seculo</em> gabava a profisso de jornalista—quando -a gente, j sabe, tem alguma cousa de seu; -mais tarde ou mais cedo apanha-se um nicho, no +Savedra e Julião discutiam a imprensa. O redactor +do <em>Seculo</em> gabava a profissão de jornalista—quando +a gente, já sabe, tem alguma cousa de seu; +mais tarde ou mais cedo apanha-se um nicho, não é verdade? Depois as entradas nos theatros, a influencia -nas cantoras. Sempre se um bocado temido... <br /> +nas cantoras. Sempre se é um bocado temido... <br /> <br /> E o Conselheiro, cortando os ovos queimados, saboreando as alegrias da convivencia, dizia a Jorge: <br /> <br /> —Que maior prazer, meu Jorge, que passar assim -as horas entre amigos, todos de reconhecida illustrao, -discutir as questes mais importantes, e -vr travada uma conversao erudita?... Parecem +as horas entre amigos, todos de reconhecida illustração, +discutir as questões mais importantes, e +vêr travada uma conversação erudita?... Parecem excellentes os ovos. <br /> <br /> -A snr.<sup>a</sup> Philomena, ento, com solemnidade, veio -collocar-lhe ao p uma garrafa de champagne. <br /> +A snr.<sup>a</sup> Philomena, então, com solemnidade, veio +collocar-lhe ao pé uma garrafa de champagne. <br /> <br /> O Savedra pediu logo para a abrir, porque o fazia com muito <em>chic</em>. E apenas a rolha saltou, e, no silencio que creou a ceremonia, se encheram os copos, -o Savedra, que ficra de p, disse: <br /> +o Savedra, que ficára de pé, disse: <br /> <br /> —Conselheiro! <br /> <br /> Accacio curvou-se, pallido. <br /> <br /> -—Conselheiro, com o maior prazer que bebo, -que todos bebemos, saude d'um homem, que—e -arremessando o brao, deu um puxo ao punho da +—Conselheiro, é com o maior prazer que bebo, +que todos bebemos, á saude d'um homem, que—e +arremessando o braço, deu um puxão ao punho da <span class="pagenum">[455]</span> camisa com eloquencia—pela sua respeitabilidade, a -sua posio, os seus vastos conhecimentos, um dos -vultos d'este paiz. sua saude, Conselheiro! <br /> +sua posição, os seus vastos conhecimentos, é um dos +vultos d'este paiz. Á sua saude, Conselheiro! <br /> <br /> —Conselheiro! Conselheiro! Amigo Conselheiro! <br /> <br /> Beberam com ruido. Accacio, depois de limpar os -beios, passou a mo tremula pela calva, levantou-se -commovido, e comeou: <br /> +beiços, passou a mão tremula pela calva, levantou-se +commovido, e começou: <br /> <br /> -—Meus bons amigos! Eu no me preparei para -esta circumstancia. Se o soubesse d'antemo, teria -tomado algumas notas. No tenho a verbosidade dos +—Meus bons amigos! Eu não me preparei para +esta circumstancia. Se o soubesse d'antemão, teria +tomado algumas notas. Não tenho a verbosidade dos Rodrigos ou dos Garretts. E sinto que as lagrimas -me vo embargar a voz... <br /> -<br /> -Fallou ento de si, com modestia: reconhecia, -quando via na capital to illustres parlamentares, oradores -to sublimes, to consummados estylistas, reconhecia -que era um Zero!—E com a mo erguida -formava no ar, pela juno do pollegar e do indicador, -um 0: um <em>zero</em>! Proclamou o seu amor patria: -que manh as instituies ou a familia real +me vão embargar a voz... <br /> +<br /> +Fallou então de si, com modestia: reconhecia, +quando via na capital tão illustres parlamentares, oradores +tão sublimes, tão consummados estylistas, reconhecia +que era um Zero!—E com a mão erguida +formava no ar, pela junção do pollegar e do indicador, +um 0: um <em>zero</em>! Proclamou o seu amor á patria: +que ámanhã as instituições ou a familia real precisassem d'elle—e o seu corpo, a sua penna, o seu modesto peculio, tudo offerecia de bom grado! Quereria derramar todo o seu sangue pelo throno!—E, -prolixo, citou o <em>Eurico</em>, as instituies da Belgica, +prolixo, citou o <em>Eurico</em>, as instituições da Belgica, Bocage e passagens dos seus prologos. Honrou-se de -pretencer Sociedade Primeiro de Dezembro...—N'esse +pretencer á Sociedade Primeiro de Dezembro...—N'esse dia memoravel—exclamou—eu mesmo illumino as minhas janellas, sem o luxo dos grandes estabelecimentos do Chiado, mas com uma alma sincera! <br /> <br /> -E terminou dizendo:—No esqueamos, meus +E terminou dizendo:—Não esqueçamos, meus <span class="pagenum"><a name="p456" id="p456">[456]</a></span> amigos, como portuguezes, de fazer votos pelo illustrado -monarcha, que deu s neves da minha fronte, -antes de descerem ao tumulo, a consolao de se poderem +monarcha, que deu ás neves da minha fronte, +antes de descerem ao tumulo, a consolação de se poderem revestir com o honroso habito de S. Thiago! -Meus amigos, familia real!—e ergueu o copo— -familia modlo, que sentada ao leme do Estado, dirige, +Meus amigos, á familia real!—e ergueu o copo—á +familia modêlo, que sentada ao leme do Estado, dirige, cercada dos grandes vultos da nossa politica, dirige...—Procurou o fecho; havia um silencio -ancioso—dirige...—Atravs das lunetas negras, os -seus olhos cravavam-se, busca da inspirao, na -travessa d'aletria—dirige...—Coou a calva, afflicto; -mas um sorriso clareou-lhe o aspecto, encontrra -a phrase; e estendendo o brao:—...dirige a -barca da governao publica com inveja das naes -visinhas! familia real! <br /> -<br /> -— familia real!—disseram com respeito. <br /> -<br /> -O caf foi servido na sala. As velas d'estearina -punham uma luz triste n'aquella habitao fria; o -Conselheiro foi dar corda caixa de musica; e, ao -som do cro nupcial da <em>Lucia</em>, offereceu em redor +ancioso—dirige...—Através das lunetas negras, os +seus olhos cravavam-se, á busca da inspiração, na +travessa d'aletria—dirige...—Coçou a calva, afflicto; +mas um sorriso clareou-lhe o aspecto, encontrára +a phrase; e estendendo o braço:—...dirige a +barca da governação publica com inveja das nações +visinhas! Á familia real! <br /> +<br /> +—Á familia real!—disseram com respeito. <br /> +<br /> +O café foi servido na sala. As velas d'estearina +punham uma luz triste n'aquella habitação fria; o +Conselheiro foi dar corda á caixa de musica; e, ao +som do côro nupcial da <em>Lucia</em>, offereceu em redor charutos. <br /> <br /> -—E a snr.<sup>a</sup> Adelaide pde trazer os licres—disse - Philomena. <br /> +—E a snr.<sup>a</sup> Adelaide póde trazer os licôres—disse +á Philomena. <br /> <br /> -Viram ento <a href="#e19">apparecer</a> uma bella mulher de trinta -annos, muito branca, de olhos negros, e frmas ricas, +Viram então <a href="#e19">apparecer</a> uma bella mulher de trinta +annos, muito branca, de olhos negros, e fórmas ricas, com um vestido de merino azul, trazendo n'uma bandeja de prata, onde tremelicavam copinhos, a garrafa -de cognac e o frasco de curao. <br /> +de cognac e o frasco de curaçáo. <br /> <br /> -—Boa moa!—rosnou com o rosto acceso o Alves +—Boa moça!—rosnou com o rosto acceso o Alves Coutinho. <br /> <br /><span class="pagenum"><a name="p457" id="p457">[457]</a></span> -<a href="#e20">Julio</a> quasi lhe tapou a bocca com a mo. +<a href="#e20">Julião</a> quasi lhe tapou a bocca com a mão. E fallando-lhe <a href="#e21">ao ouvido</a>, olhando o Conselheiro, recitou: <br /> <br /> <br /> <div class="poetry0"> -No ouses, temerario, erguer teus olhos<br /> +Não ouses, temerario, erguer teus olhos<br /> Para a mulher de Cesar! </div> <br /> <br /> -E em quanto se bebia o curao, Julio p ante -p dirigiu-se ao escriptorio, e foi erguer a ponta do +E em quanto se bebia o curaçáo, Julião pé ante +pé dirigiu-se ao escriptorio, e foi erguer a ponta do chale-manta pardo que tanto o preoccupava; eram rumas de livros brochados, atadas com guitas,—as obras do Conselheiro, intactas! <br /> <br /> -Quando Jorge entrou, s onze horas, Luiza j deitada +Quando Jorge entrou, ás onze horas, Luiza já deitada lia, esperando-o. <br /> <br /> Quiz saber do jantar do Conselheiro. <br /> <br /> -Excellente, contou Jorge, comeando a despir-se. +Excellente, contou Jorge, começando a despir-se. Gabou muito os vinhos. Tinha havido <em>speechs</em>... E de repente: <br /> <br /> -— verdade, onde ias tu a Arroios? <br /> +—É verdade, onde ias tu a Arroios? <br /> <br /> -Luiza passou devagar as mos sobre o rosto para -lhe cobrir a alterao. Disse bocejando ligeiramente: <br /> +Luiza passou devagar as mãos sobre o rosto para +lhe cobrir a alteração. Disse bocejando ligeiramente: <br /> <br /> —A Arroios? <br /> <br /> —Sim. O Savedra, um sujeito que estava em casa do Conselheiro, diz que te via passar todos os -dias para l, de trem e a p. <br /> +dias para lá, de trem e a pé. <br /> <br /> -—Ah!—fez Luiza, depois de tossir—ia vr a +—Ah!—fez Luiza, depois de tossir—ia vêr a Guedes, uma rapariga que andou commigo no collegio, que tinha chegado do Porto. A Silva Guedes! <br /> <br /> —Silva Guedes!...—disse Jorge reflectindo—Imaginei que estava secretario geral em Cabo-Verde! <br /> <br /> -—No sei. Estiveram ahi um mez no vero. Moravam +—Não sei. Estiveram ahi um mez no verão. Moravam <span class="pagenum">[458]</span> a Arroios. Ella estava doente, coitada: eu ia -l s vezes. Mandava-me pedir para ir l. Pe essa -luz fra, est-me a fazer impresso. <br /> +lá ás vezes. Mandava-me pedir para ir lá. Põe essa +luz fóra, está-me a fazer impressão. <br /> <br /> -Queixou-se ento que toda a tarde estivera exquisita. +Queixou-se então que toda a tarde estivera exquisita. Sentia-se fraca, e com uma pontinha de febre... <br /> <br /> <br /> <br /> -E nos dias seguintes no se achou melhor. Queixava-se -ainda vagamente de peso na cabea, mal estar... -Uma manh mesmo ficou de cama. Jorge no -sahiu, inquieto, querendo j mandar chamar Julio. -Mas Luiza insistiu que no era nada, um bocadito -de fraqueza, talvez... <br /> +E nos dias seguintes não se achou melhor. Queixava-se +ainda vagamente de peso na cabeça, mal estar... +Uma manhã mesmo ficou de cama. Jorge não +sahiu, inquieto, querendo já mandar chamar Julião. +Mas Luiza insistiu que «não era nada, um bocadito +de fraqueza, talvez...» <br /> <br /> -Foi tambem a opinio de Juliana, em cima na +Foi tambem a opinião de Juliana, em cima na cozinha. <br /> <br /> -—Que aquella senhora fraca; alli ha cousa do +—Que aquella senhora é fraca; alli ha cousa do peito—disse com importancia. <br /> <br /> -Joanna que estava debruada sobre o fogo, acudiu +Joanna que estava debruçada sobre o fogão, acudiu logo: <br /> <br /> -—O que ella , uma santa!... <br /> +—O que ella é, é uma santa!... <br /> <br /> Juliana cravou-lhe nas costas um olhar rancoroso. E com um risinho: <br /> @@ -17745,212 +17705,212 @@ uma peste. <br /> <br /> —Que outras? <br /> <br /> -—Eu, vossemec, a mais gente... <br /> +—Eu, vossemecê, a mais gente... <br /> <br /> Joanna sempre remexendo nas panellas sem se voltar: <br /> <br /><span class="pagenum">[459]</span> -—Olhe, outra no encontra vossemess, snr.<sup>a</sup> +—Olhe, outra não encontra vossemessê, snr.<sup>a</sup> Juliana! Uma senhora que lhe deixa fazer tudo o que -quer, e faz ella mesma o servio! N'outra dia andava -a despejar as aguas. uma santa! <br /> +quer, e faz ella mesma o serviço! N'outra dia andava +a despejar as aguas. É uma santa! <br /> <br /> Aquelle tom hostil de Joanna exasperou-a; mas -conteve-se; apesar da sua <em>posio</em> na casa, dependia +conteve-se; apesar da sua <em>posição</em> na casa, dependia d'ella para os caldinhos, os bifes, os petiscos; tinha diante d'ella a vaga timidez respeitosa das -constituies franzinas pelos corpos possantes; pz-se +constituições franzinas pelos corpos possantes; pôz-se a dizer com uma voz tortuosa, ambigua: <br /> <br /> -—Ora!—so genios! Gosta d'arrumar. Ah, l -isso deve-se dizer, senhora de muita ordem. Mas -gosta, gosta de trabalhar. s vezes basta-lhe vr um -bocadinho de p, agarra logo no espanador... genio. -Tenho visto outras assim...—E punha a cabea -de lado, franzindo os beios. <br /> +—Ora!—são genios! Gosta d'arrumar. Ah, lá +isso deve-se dizer, é senhora de muita ordem. Mas +gosta, gosta de trabalhar. Ás vezes basta-lhe vêr um +bocadinho de pó, agarra logo no espanador... É genio. +Tenho visto outras assim...—E punha a cabeça +de lado, franzindo os beiços. <br /> <br /> -—O que ella , uma santa—repetiu a Joanna. <br /> +—O que ella é, é uma santa—repetiu a Joanna. <br /> <br /> -— genio! Est sempre n'uma labutao. Eu -nunca sio sem deixar tudo n'um brinco. Pois senhores, -nunca est satisfeita. At n'outro dia, l em +—É genio! Está sempre n'uma labutação. Eu +nunca sáio sem deixar tudo n'um brinco. Pois senhores, +nunca está satisfeita. Até n'outro dia, lá em baixo a passar a roupa... Eu ia a sahir, pois tirei -logo o chapo, e no consenti... Olhe, quer que lhe -diga? falta de cuidados, no ter filhos... Que ella -no lhe falta nada... <br /> +logo o chapéo, e não consenti... Olhe, quer que lhe +diga? falta de cuidados, não ter filhos... Que ella +não lhe falta nada... <br /> <br /> -Calou-se, remirou o p, e com satisfao: <br /> +Calou-se, remirou o pé, e com satisfação: <br /> <br /> —Nem a mim—disse reclinando-se na cadeira. <br /> <br /> -A Joanna pz-se a cantarolar. No queria questes. -Mas ultimamente achava tudo aquillo muito -fra dos eixos, a Juliana sempre na rua, ou mettida +A Joanna pôz-se a cantarolar. Não queria «questões». +Mas ultimamente achava «tudo aquillo muito +fóra dos eixos», a Juliana sempre na rua, ou mettida <span class="pagenum">[460]</span> no quarto a trabalhar para si, sem se importar, deixando -tudo ao Deus dar, e a pobre senhora a varrer, -a passar, a emmagrecer! No, alli havia cousa! -Mas o seu Pedro que ella consultra, disse-lhe com -finura, retorcendo o buo:—Ellas l se entendem! -Trata tu de gozar, e no te importes com a vida dos -outros. A casa boa, toca a tirar partido! <br /> -<br /> -Mas Joanna sentia l por dentro a crescer-lhe -uma embirrao pela snr.<sup>a</sup> Juliana. Tinha-lhe asca +tudo ao Deus dará, e a pobre senhora a varrer, +a passar, a emmagrecer! Não, alli havia cousa! +Mas o seu Pedro que ella consultára, disse-lhe com +finura, retorcendo o buço:—Ellas lá se entendem! +Trata tu de gozar, e não te importes com a vida dos +outros. A casa é boa, toca a tirar partido! <br /> +<br /> +Mas Joanna sentia «lá por dentro» a crescer-lhe +uma embirração pela snr.<sup>a</sup> Juliana. Tinha-lhe asca pelas tafularias, pelos luxos do quarto, pelas passeatas -todo o dia, pelos modos de madama; no se recusava -a fazer-lhe o servio, porque isso lhe rendia -presentinhos da senhora; mas, qu, tinha-lhe birra! -O que a consolava era a ida de que um piparote +todo o dia, pelos modos de madama; não se recusava +a fazer-lhe o serviço, porque isso lhe rendia +presentinhos da senhora; mas, quê, tinha-lhe birra! +O que a consolava era a idéa de que um piparote desfazia aquella magricella! e ia tirando partido da -casa, tambem. O Pedro tinha razo... <br /> +casa, tambem. O Pedro tinha razão... <br /> <br /> -Juliana com effeito, agora, no se constrangia. -Depois da scena da roupa, assustra-se, porque, -emfim, o escandalo podia-lhe fazer perder a <em>posio</em>; -durante alguns dias no sahiu, foi cuidadosa: mas +Juliana com effeito, agora, não se constrangia. +Depois da «scena da roupa», assustára-se, porque, +emfim, o escandalo podia-lhe fazer perder a <em>posição</em>; +durante alguns dias não sahiu, foi cuidadosa: mas quando viu Luiza resignar-se, abandonou-se logo, -quasi com fervor, s satisfaes da preguia e s -alegriasinhas da vingana. Passeava, costurava fechada +quasi com fervor, ás satisfações da preguiça e ás +alegriasinhas da vingança. Passeava, costurava fechada no seu quarto, e a <em>Piorrinha</em> que se arranjasse! Diante de Jorge ainda se continha: temia-o. -Mas apenas elle sahia! Que desforra! s vezes estava +Mas apenas elle sahia! Que desforra! Ás vezes estava varrendo ou arrumando—e, mal o sentia fechar a cancella, atirava o ferro, a vassoura, punha-se -a panriar. L estava a <em>Piorrinha</em>, para acabar! <br /> +a «panriar». Lá estava a <em>Piorrinha</em>, para acabar! <br /> <br /> Luiza, no entanto, passava peor: tinha de repente, <span class="pagenum">[461]</span> -sem razo, febres ephemeras; emmagrecia, e as +sem razão, febres ephemeras; emmagrecia, e as suas melancolias torturavam Jorge. <br /> <br /> Ella explicava tudo pelo <em>nervoso</em>. <br /> <br /> -—Que ser, Sebastio?—era a pergunta incessante -de Jorge. E lembrava-se com terror que a mi -de Luiza morrera d'uma doena de corao! <br /> +—Que será, Sebastião?—era a pergunta incessante +de Jorge. E lembrava-se com terror que a mãi +de Luiza morrera d'uma doença de coração! <br /> <br /> Na rua, pela cozinheira, pela tia Joanna, sabia-se -que a do Engenheiro ia mal. A tia Joanna jurava +que a do Engenheiro «ia mal». A tia Joanna jurava que era a solitaria. Porque emfim, uma pessoa a -quem no faltava nada, com um marido que era um +quem não faltava nada, com um marido que era um anjo, uma boa casa, todos os seus commodos—e a -esmorecer, a esmorecer... Era a bicha! No podia -ser seno a bicha! E todos os dias lembrava a Sebastio +esmorecer, a esmorecer... Era a bicha! Não podia +ser senão a bicha! E todos os dias lembrava a Sebastião que se devia mandar chamar o homem de -Villa Nova de Famalico, que tinha o remedio para -a bicha. <br /> +Villa Nova de Famalicão, que tinha o remedio «para +a bicha». <br /> <br /> O Paula explicava d'outro modo. <br /> <br /> -—Alli anda cousa de cabea—dizia, franzindo +—Alli anda cousa de cabeça—dizia, franzindo a testa, com o ar profundo.—Sabe o que ella tem, -snr.<sup>a</sup> Helena? muita dse de novellas n'aquella cachimonia. -Eu vejo-o de pela manh at noite de -livro na mo. Pe-se a lr romances e mais romances... +snr.<sup>a</sup> Helena? É muita dóse de novellas n'aquella cachimonia. +Eu vejo-o de pela manhã até á noite de +livro na mão. Põe-se a lêr romances e mais romances... Ahi teem o resultado: arrazada! <br /> <br /> -Um dia Luiza de repente, sem razo, desmaiou; +Um dia Luiza de repente, sem razão, desmaiou; e quando voltou a si ficou muito fraca, com o pulso -sumido, os olhos cavados. Jorge foi logo buscar Julio: +sumido, os olhos cavados. Jorge foi logo buscar Julião: encontrou-o muito agitado, porque o concurso -era para o dia seguinte, e sentia clicas. <br /> +era para o dia seguinte, e «sentia cólicas». <br /> <br /> -Durante todo o caminho no deixou de fallar excitadamente +Durante todo o caminho não deixou de fallar excitadamente da sua these, do escandalo dos patrocinatos, <span class="pagenum">[462]</span> do barulho que faria se fossem injustos,—arrependido -agora de no ter mettido mais cunhas! <br /> +agora de não ter «mettido mais cunhas»! <br /> <br /> Depois de ter examinado Luiza veio dizer, furioso, a Jorge: <br /> <br /> -—No tem nada! E vaes-me buscar p'ra isto! +—Não tem nada! E vaes-me buscar p'ra isto! Tem anemia, o que todos temos. Que passeie, que -se distria. Distraces e ferro, muito ferro... E agua +se distráia. Distracções e ferro, muito ferro... E agua fria, agua fria p'ra cima d'aquella espinha! <br /> <br /> Como eram cinco horas, convidou-se para jantar, -deblaterando toda a tarde contra o paiz, amaldioando +deblaterando toda a tarde contra o paiz, amaldiçoando a carreira medica, injuriando o seu concorrente, e fumando com desespero os charutos de Jorge. <br /> <br /> -Luiza tomava o ferro, mas recusava as distraces; +Luiza tomava o ferro, mas recusava as distracções; fatigava-a vestir-se, aborrecia-lhe ir ao theatro... Depois, logo que viu Jorge preoccupar-se do -seu estado, quiz affectar fora, alegria, bom humor; -e aquelle esforo abatia-a, extraordinariamente. <br /> +seu estado, quiz affectar força, alegria, bom humor; +e aquelle esforço abatia-a, extraordinariamente. <br /> <br /> —Vamos para o campo, queres tu?—dizia-lhe Jorge desolado, vendo-a esmorecida. <br /> <br /> -Ella, receando complicaes possiveis, no aceitava; -no se sentia bastante forte, dizia: onde estava +Ella, receando complicações possiveis, não aceitava; +não se sentia bastante forte, dizia: onde estava mais confortavel que em casa? Depois as despezas, os incommodos... <br /> <br /> -Uma manh, que Jorge voltra a casa inesperadamente, +Uma manhã, que Jorge voltára a casa inesperadamente, encontrou-a em <em>robe-de-chambre</em>, com um -leno amarrado na cabea, varrendo, lugubremente. <br /> +lenço amarrado na cabeça, varrendo, lugubremente. <br /> <br /> -Ficou porta attonito: <br /> +Ficou á porta attonito: <br /> <br /> —Que andas tu a fazer? andas a varrer? <br /> <br /> -Ella crou muito, atirou logo a vassoura, veio -abraal-o. +Ella córou muito, atirou logo a vassoura, veio +abraçal-o. <br /> <br /><span class="pagenum">[463]</span> -—No tinha que fazer... Deu-me a mania da -limpeza... Estava aborrecida, alm d'isso faz-me -bem, um exercicio. <br /> +—Não tinha que fazer... Deu-me a mania da +limpeza... Estava aborrecida, além d'isso faz-me +bem, é um exercicio. <br /> <br /> -Jorge, noite, contou a Sebastio aquella tolice, -de se andar a esfalfar... <br /> +Jorge, á noite, contou a Sebastião aquella «tolice, +de se andar a esfalfar...» <br /> <br /> -—Uma pessoa que est to fraca, minha senhora...—observou -reprehensivamente Sebastio. <br /> +—Uma pessoa que está tão fraca, minha senhora...—observou +reprehensivamente Sebastião. <br /> <br /> -Mas no! dizia ella, achava-se bem melhor! At +Mas não! dizia ella, achava-se bem melhor! Até agora andava muito melhor... <br /> <br /> -Todavia, quasi no fallou n'essa noite, curvada +Todavia, quasi não fallou n'essa noite, curvada sobre o seu <em>crochet</em>, um pouco pallida: e os seus -olhos s vezes erguiam-se com uma fadiga triste, +olhos ás vezes erguiam-se com uma fadiga triste, sorrindo silenciosamente, d'um modo desconsolado. <br /> <br /> -Pediu a Sebastio que tocasse algum cousa do -<em>Requiem</em> de Mozart. Achava to lindo! Gostava que +Pediu a Sebastião que tocasse algum cousa do +<em>Requiem</em> de Mozart. Achava tão lindo! Gostava que lh'o cantassem na igreja quando ella morresse... <br /> <br /> Jorge zangou-se. Que mania de fallar em cousas ridiculas! <br /> <br /> -—Mas ento, no possivel que eu morra?... <br /> +—Mas então, não é possivel que eu morra?... <br /> <br /> —Pois bem, morre e deixa-nos em paz!—exclamou elle furioso. <br /> <br /> -—Que bom marido!—dizia ella sorrindo a Sebastio.—Deixou -cahir o <em>crochet</em> no regao, pediu-lhe -ento os <em>Dezeseis compassos da Africana</em>. Escutava, -com a cabea apoiada mo: aquelles sons -entravam-lhe na alma com a doura de vozes mysticas +—Que bom marido!—dizia ella sorrindo a Sebastião.—Deixou +cahir o <em>crochet</em> no regaço, pediu-lhe +então os <em>Dezeseis compassos da Africana</em>. Escutava, +com a cabeça apoiada á mão: aquelles sons +entravam-lhe na alma com a doçura de vozes mysticas que a chamavam; parecia-lhe que ia levada por ellas, se desprendia de tudo o que era terrestre e agitado, se achava n'uma praia deserta, junto ao mar triste, sob um frio luar—e alli, puro espirito, <span class="pagenum">[464]</span> -livre das miserias carnaes, rolava nas ondulaes do +livre das miserias carnaes, rolava nas ondulações do ar, tremia nos raios luminosos, passava sobre as urzes nos sopros salgados... <br /> <br /> A melancolica attitude do seu corpo abatido enfureceu Jorge: <br /> <br /> -— Sebastio, fazes-me favor de tocar o fandango, -o Barba Azul, o Pirolito, o diabo? Seno, se -querem melancolia, eu comeo com o canto-cho! <br /> +—Ó Sebastião, fazes-me favor de tocar o fandango, +o Barba Azul, o Pirolito, o diabo? Senão, se +querem melancolia, eu começo com o canto-chão! <br /> <br /> E cantou, com um tom funebre: <br /> <br /> @@ -17963,45 +17923,45 @@ Solvunt sæcula in favilla!...</em> <br /> Luiza riu-se: <br /> <br /> -—Que doudo! Nem pde a gente estar triste... <br /> +—Que doudo! Nem póde a gente estar triste... <br /> <br /> -—Pde!—exclamou Jorge.—Mas ento venha +—Póde!—exclamou Jorge.—Mas então venha a bella tristeza, venha a tristeza completa.—E com uma voz medonha entoou o <em>Bemdito</em>! <br /> <br /> -—Os visinhos ho-de dizer que estamos doudos, +—Os visinhos hão-de dizer que estamos doudos, Jorge—acudiu ella. <br /> <br /> -— justamente o que ns estamos!—E entrou +—É justamente o que nós estamos!—E entrou no escriptorio, atirando com a porta. <br /> <br /> -Sebastio bateu alguns compassos, e voltando-se +Sebastião bateu alguns compassos, e voltando-se para ella, baixo: <br /> <br /> -—Ento que idas so essas? Que melancolia +—Então que idéas são essas? Que melancolia é essa? <br /> <br /> Luiza ergueu os olhos para elle; viu a sua face boa e amiga, cheia de sympathia; ia talvez dizer-lhe -tudo n'uma exploso de dr, mas Jorge sahia do +tudo n'uma explosão de dôr, mas Jorge sahia do escriptorio. Sorriu, encolheu os hombros, retomou devagar o seu <em>crochet</em>. <br /> <br /><span class="pagenum">[465]</span> <br /> <br /> -No domingo seguinte, noite, conversava-se na -sala. Julio contra o seu concurso. Em resumo, estava -contente: tinha fallado duas horas bem, com preciso, +No domingo seguinte, á noite, conversava-se na +sala. Julião contára o seu concurso. Em resumo, estava +contente: tinha fallado duas horas bem, com precisão, com lucidez. <br /> <br /> -O dr. Figueiredo dissera-lhe que devia ter amenisado -um bocado mais... <br /> +O dr. Figueiredo dissera-lhe que «devia ter amenisado +um bocado mais...» <br /> <br /> -—Litteratos!—fazia Julio, encolhendo os hombros, -com desprezo.—No podem fallar cinco minutos -sobre o osso do tornozelo, sem trazerem as flres -da primavera e o facho da civilisao! <br /> +—Litteratos!—fazia Julião, encolhendo os hombros, +com desprezo.—Não podem fallar cinco minutos +sobre o osso do tornozelo, sem trazerem as «flôres +da primavera» e «o facho da civilisação»! <br /> <br /> —O portuguez tem a mania da rhetorica...—disse Jorge. <br /> @@ -18009,76 +17969,76 @@ Jorge. <br /> N'este momento Juliana entrou na sala, com uma carta. <br /> <br /> -—Oh! do Conselheiro! <br /> +—Oh! é do Conselheiro! <br /> <br /> Ficaram inquietos. Mas Accacio apenas se desculpava -de no poder vir, como promettera na vespera, -partilhar do excellente ch de D. Luiza. Um -trabalho urgente retinha-o banca do dever. Pedia -lembranas aos nossos Sebastio e Julio, e affectuosos -respeitos interessante D. Felicidade. <br /> +de «não poder vir, como promettera na vespera, +partilhar do excellente chá de D. Luiza. Um +trabalho urgente retinha-o á banca do dever. Pedia +lembranças aos nossos Sebastião e Julião, e affectuosos +respeitos á interessante D. Felicidade». <br /> <br /> Uma onda de sangue abrazou o rosto da excellente senhora. Ficou a arfar, toda alterada; mudou duas vezes de cadeira, foi tocar no teclado com um -dedo a <em>Perola d'Ophir</em>; e emfim, no se dominando, -pediu baixo a Luiza que fossem para o quarto, tinha -um segredo... <br /> +dedo a <em>Perola d'Ophir</em>; e emfim, não se dominando, +pediu baixo a Luiza «que fossem para o quarto, tinha +um segredo...» <br /> <br /> Apenas entraram, fechando a porta da sala: <br /> <br /><span class="pagenum">[466]</span> -—Que me dizes carta d'elle? <br /> +—Que me dizes á carta d'elle? <br /> <br /> —Os meus parabens—disse Luiza, rindo. <br /> <br /> -— o milagre!—exclamou D. Felicidade—j +—É o milagre!—exclamou D. Felicidade—já é o milagre a fazer-se!—E mais baixo:—Mandei o homem! O que eu te disse, o gallego! <br /> <br /> -Luiza no comprehendia. <br /> +Luiza não comprehendia. <br /> <br /> -—O homem a Tuy, mulher de virtude! Levou +—O homem a Tuy, á mulher de virtude! Levou o meu retrato e o d'elle. Partiu ha uma semana: a -mulher naturalmente j comeou a enterrar-lhe as -agulhas no corao... <br /> +mulher naturalmente já começou a enterrar-lhe as +agulhas no coração... <br /> <br /> —Que agulhas?—perguntou Luiza attonita. <br /> <br /> -Estavam de p, junto ao toucador. E D. Felicidade +Estavam de pé, junto ao toucador. E D. Felicidade com uma voz mysteriosa: <br /> <br /> -—A mulher faz um corao de cera, colla-o ao -retrato do Conselheiro, e durante uma semana meia +—A mulher faz um coração de cera, colla-o ao +retrato do Conselheiro, e durante uma semana á meia noite crava-lhe uma agulha benta com o preparo que -ella tem, e faz as oraes... <br /> +ella tem, e faz as orações... <br /> <br /> -—E dste o dinheiro ao homem? <br /> +—E déste o dinheiro ao homem? <br /> <br /> —Oito moedas. <br /> <br /> —Oh D. Felicidade! <br /> <br /> -—Ai! no me digas. Que j vs! Que mudana! +—Ai! não me digas. Que já vês! Que mudança! D'aqui a uns dias, baba-se! Ai! Nossa Senhora da Alegria o permitta. Nossa Senhora o permitta! -Que aquelle homem traz-me douda. De noite, cada -sonho! At ando em peccado mortal! e so suores! +Que aquelle homem traz-me douda. De noite, é cada +sonho! Até ando em peccado mortal! e são suores! Mudo de camisa tres e quatro vezes! <br /> <br /> E ia-se olhando ao espelho: queria convencer-se que as bellezas da sua pessoa ajudariam as agulhas da bruxa: alisou o cabello. <br /> <br /> -—No me achas mais magra? +—Não me achas mais magra? <br /> <br /><span class="pagenum">[467]</span> -—No. <br /> +—Não. <br /> <br /> —Ai estou, filha, estou!—E mostrou o corpete lasso. <br /> <br /> -J fazia planos. Iria passar a <em>lua de mel</em> a Cintra... +Já fazia planos. Iria passar a <em>lua de mel</em> a Cintra... Os olhos afogavam-se-lhe n'um fluido lubrico. <br /> <br /> —Nossa Senhora da Alegria o permitta. Tenho-lhe @@ -18097,151 +18057,151 @@ desmaiada! <br /> Joanna, muito branca, a tremer.—Tombou p'ra o lado de repente... <br /> <br /> -Julio tranquillisou-os logo: era uma syncope, -simples. Transportaram-na para a cama. Julio fez-lhe +Julião tranquillisou-os logo: era uma syncope, +simples. Transportaram-na para a cama. Julião fez-lhe esfregar violentamente com uma flanella quente as extremidades,—e, mesmo antes que Joanna atarantada, -em cabello, corresse botica por um antispasmodico, +em cabello, corresse á botica por um antispasmodico, Juliana voltava a si, muito fraca. Quando -desceram sala, Julio disse, enrolando o cigarro: <br /> +desceram á sala, Julião disse, enrolando o cigarro: <br /> <br /> -—No vale nada. So muito frequentes, estas -syncopes, nas doenas de corao. Esta simples. -Mas o diabo, s vezes tem um caracter apopletico, +—Não vale nada. São muito frequentes, estas +syncopes, nas doenças de coração. Esta é simples. +Mas é o diabo, ás vezes tem um caracter apopletico, e vem a paralysia; pouco duradoura, sim, porque a -effuso de sangue no cerebro muito pequena, mas +effusão de sangue no cerebro é muito pequena, mas emfim, sempre desagradavel.—E accendendo o cigarro:—Esta mulher um dia morre-lhes em casa. <br /> <br /><span class="pagenum">[468]</span> Jorge, preoccupado, passeava pela sala com as -mos nos bolsos. <br /> +mãos nos bolsos. <br /> <br /> —Sempre o tenho dito—acudiu D. Felicidade, baixando a voz, assustada.—Sempre o tenho dito. - desfazerem-se d'ella. <br /> -<br /> -—Alm d'isso o tratamento incompativel com -o servio—disse Julio.—Emfim, mesmo a engommar -roupa se pde tomar digitalis ou quinino; mas - que o verdadeiro tratamento o repouso, a absoluta -excluso da fadiga. Que ella um dia se zangue -ou que tenha uma manh de canceira, e pde +É desfazerem-se d'ella. <br /> +<br /> +—Além d'isso o tratamento é incompativel com +o serviço—disse Julião.—Emfim, mesmo a engommar +roupa se póde tomar digitalis ou quinino; mas +é que o verdadeiro tratamento é o repouso, é a absoluta +exclusão da fadiga. Que ella um dia se zangue +ou que tenha uma manhã de canceira, e póde ir-se! <br /> <br /> -—E vai adiantada a doena?—perguntou Jorge. <br /> +—E vai adiantada a doença?—perguntou Jorge. <br /> <br /> -—Pelo que ella diz j tem a difficuldade asthmatica, -oppresses, uma dr aguda na regio cardiaca, +—Pelo que ella diz já tem a difficuldade asthmatica, +oppressões, uma dôr aguda na região cardiaca, flatulencia, humidade nas extremidades—o diabo! <br /> <br /> —Olha que espiga!—murmurou Jorge, olhando em roda. <br /> <br /> -— pl-a na rua!—resumiu D. Felicidade. <br /> +—É pôl-a na rua!—resumiu D. Felicidade. <br /> <br /> -Quando ficaram ss, s onze horas, Jorge disse +Quando ficaram sós, ás onze horas, Jorge disse logo a Luiza: <br /> <br /> -—Que te parece esta, hein? necessario descartarmo-nos -da creatura. No quero que me morra +—Que te parece esta, hein? É necessario descartarmo-nos +da creatura. Não quero que me morra em casa! <br /> <br /> Ella, sem se voltar, diante do toucador, tirando -os brincos, comeou a dizer, que no se podia mandar +os brincos, começou a dizer, que não se podia mandar tambem a pobre creatura morrer p'ra a rua... Lembrou vagamente o que ella tinha feito pela tia Virginia... Ia collocando devagar as suas palavras -com a cautela com que se pousa o p n'um terreno +com a cautela com que se pousa o pé n'um terreno <span class="pagenum">[469]</span> -traioeiro.—Podia-se talvez dar-lhe algum dinheiro, +traiçoeiro.—Podia-se talvez dar-lhe algum dinheiro, que ella fosse viver algures... <br /> <br /> Jorge, depois d'um silencio, respondeu: <br /> <br /> -—No tenho duvida em lhe dar dez ou doze libras, -e que se v, que se arranje! <br /> +—Não tenho duvida em lhe dar dez ou doze libras, +e que se vá, que se arranje! <br /> <br /> Dez ou doze libras!—pensou Luiza com um sorriso -infeliz.—E beira do toucador olhava para o +infeliz.—E á beira do toucador olhava para o seu rosto, ao espelho, com uma indefinida saudade, como se as suas faces devessem dentro em pouco -estar cavadas pela afflico, e os seus olhos fatigados +estar cavadas pela afflicção, e os seus olhos fatigados pelas lagrimas... <br /> <br /> <br /> <br /> Porque, emfim, a <em>crise</em> tinha chegado. Se Jorge -insistisse em despedir a creatura, ella no podia, -sem provocar um espanto e uma explicao, dizer a -Jorge: no quero que ella sia, quero que ella aqui +insistisse em despedir a creatura, ella não podia, +sem provocar um espanto e uma explicação, dizer a +Jorge: não quero que ella sáia, quero que ella aqui morra! E Juliana vendo-se expulsa, desesperada, -doente, percebendo que Luiza no a defendia, no +doente, percebendo que Luiza não a defendia, não a reclamava,—vingar-se-hia! Que havia de fazer? <br /> <br /> -Ergueu-se ao outro dia n'uma grande agitao. +Ergueu-se ao outro dia n'uma grande agitação. Juliana muito fatigada, ainda estava na cama. E em quanto Joanna punha a mesa, Luiza sentada na <em>voltaire</em>, - janella da sala de jantar, lia machinalmente +á janella da sala de jantar, lia machinalmente o <em>Diario de Noticias</em>, quasi sem comprehender, quando uma noticia, no alto da pagina, lhe deu um sobresalto: -Parte alm d'manh para Frana o nosso +«Parte além d'ámanhã para França o nosso amigo e conhecido banqueiro Castro, da firma Castro Miranda & C.<sup>a</sup> S. exc.<sup>a</sup> retira-se dos negocios da <span class="pagenum">[470]</span> -praa, e vai estabelecer-se definitivamente em Frana, +praça, e vai estabelecer-se definitivamente em França, perto de Bordeus, onde comprou ultimamente -uma valiosa propriedade. <br /> +uma valiosa propriedade.» <br /> <br /> O Castro! O homem que lhe dava dinheiro, o que ella quizesse! dizia Leopoldina. Partia!... E apesar de ter achado, desde o primeiro momento, aquelle recurso infame, vinha-lhe a seu pezar como uma -desconsolao de o vr desapparecer! Porque nunca +desconsolação de o vêr desapparecer! Porque nunca mais voltaria a Portugal, o Castro!... E de repente -uma ida atravessou-a, que a fez vibrar toda, erguer-se +uma idéa atravessou-a, que a fez vibrar toda, erguer-se direita, muito pallida.—Se na vespera da partida d'elle, Santo Deus! se na vespera ella consentisse!... Oh! era horrivel! Nem pensar em tal!... <br /> <br /> Mas pensou—e sentia-se toda fraca contra uma -tentao crescente, que se lhe enroscava na alma -com caricias persuasivas. que ento estava salva! +tentação crescente, que se lhe enroscava na alma +com caricias persuasivas. É que então estava salva! Dava seiscentos mil reis a Juliana! E o demonio iria morrer para longe! <br /> <br /> -E elle, o homem, tomaria o paquete! No teria -de crar diante d'elle; o seu segredo ia para o estrangeiro, -to perdido como se fosse para o tumulo!—E, -alm d'isso, se o Castro tinha uma paixo +E elle, o homem, tomaria o paquete! Não teria +de córar diante d'elle; o seu segredo ia para o estrangeiro, +tão perdido como se fosse para o tumulo!—E, +além d'isso, se o Castro tinha uma paixão por ella, era bem possivel que lhe emprestasse, sem -condies!... <br /> +condições!... <br /> <br /> Bom Deus! No dia seguinte podia ter alli na algibeira -do seu roupo as notas, o ouro... Porque -no?—Porque no? E vinha-lhe um desejo ancioso +do seu roupão as notas, o ouro... Porque +não?—Porque não? E vinha-lhe um desejo ancioso de se libertar, de viver feliz, sem agonias, sem martyrios... <br /> <br /> -Voltou ao quarto. Pz-se a remexer no toucador, +Voltou ao quarto. Pôz-se a remexer no toucador, <span class="pagenum">[471]</span> -olhando de lado Jorge que se vestia... A presena +olhando de lado Jorge que se vestia... A presença d'elle deu-lhe logo um remorso; ir pedir a um homem dinheiro, consentir nos seus olhares lascivos, nas suas palavras intencionaes!... Que horror!—Mas -j subtilisava. Era por Jorge, era por elle! Era +já subtilisava. Era por Jorge, era por elle! Era para lhe poupar o desgosto de <em>saber</em>! Era para o poder amar livremente, toda a vida, sem receios, sem reservas... <br /> <br /> -Durante todo o almoo esteve calada. O rosto +Durante todo o almoço esteve calada. O rosto sympathico de Jorge enternecia-a; o <em>outro</em> parecia-lhe -medonho, odiava-o j!... <br /> +medonho, odiava-o já!... <br /> <br /> -Quando Jorge sahiu ficou muito nervosa. Ia janella; +Quando Jorge sahiu ficou muito nervosa. Ia á janella; o sol parecia-lhe adoravel, a rua attrahia-a.—Porque -no? Porque no? <br /> +não? Porque não? <br /> <br /> -A voz de Juliana, muito aspera, fallou ento nas +A voz de Juliana, muito aspera, fallou então nas escadas da cozinha; e aquelle cantado odioso decidiu-a bruscamente. <br /> <br /> @@ -18249,148 +18209,148 @@ Vestiu-se com cuidado: era mulher, quiz parecer bonita.—E chegou toda esbaforida a casa de Leopoldina, quando dava meio dia a S. Roque. <br /> <br /> -Encontrou-a vestida, esperando o almoo. E tirando -immediamente o chapo, installando-se no soph, +Encontrou-a vestida, esperando o almoço. E tirando +immediamente o chapéo, installando-se no sophá, explicou muito claramente a Leopoldina a sua -resoluo. Queria o dinheiro do Castro. Emprestado -ou dado, queria o dinheiro!... Estava n'uma afflico, +resolução. Queria o dinheiro do Castro. Emprestado +ou dado, queria o dinheiro!... Estava n'uma afflicção, devia valer-se de tudo!... Jorge queria despedir a -mulher... Tinha medo d'uma vingana d'ella... Queria +mulher... Tinha medo d'uma vingança d'ella... Queria dinheiro, alli estava! <br /> <br /> —Mas assim de repente, filha!—disse Leopoldina, pasmada do seu olhar decidido. <br /> <br /><span class="pagenum"><a name="p472" id="p472">[472]</a></span> -—O Castro vai-se manh. Vai para Bordeus, -para o inferno! necessario fazer alguma <a href="#e22">cousa</a>, j! <br /> +—O Castro vai-se ámanhã. Vai para Bordeus, +para o inferno! É necessario fazer alguma <a href="#e22">cousa</a>, já! <br /> <br /> Leopoldina lembrou escrever-lhe. <br /> <br /> —O que quizeres... Eu aqui estou! <br /> <br /> -A outra sentou-se devagar mesa, escolheu uma -folha de papel, e, com o dedinho no ar, a cabea de -lado, comeou a escrevinhar. <br /> +A outra sentou-se devagar á mesa, escolheu uma +folha de papel, e, com o dedinho no ar, a cabeça de +lado, começou a escrevinhar. <br /> <br /> Luiza passeava pelo quarto, nervosa. Tinha agora -uma resoluo teimosa, que a presena de Leopoldina -fortificava! Divertia-se, aquella, danava, ia ao +uma resolução teimosa, que a presença de Leopoldina +fortificava! Divertia-se, aquella, dançava, ia ao campo, gozava, vivia, sem ter como ella uma tortura -a minar-lhe, a estragar-lhe a vida! Ah! no voltaria +a minar-lhe, a estragar-lhe a vida! Ah! não voltaria para casa sem levar na algibeira em boas libras o -resgate, a salvao! Ainda que tivesse de ser vil como -as do Bairro Alto! Estava farta das humilhaes, -dos sustos, das noites cortadas de pesadlos!... Queria +resgate, a salvação! Ainda que tivesse de ser vil como +as do Bairro Alto! Estava farta das humilhações, +dos sustos, das noites cortadas de pesadêlos!... Queria saborear a vida, que diabo! o seu amor, o seu -jantar, sem cuidados, com o corao contente! <br /> +jantar, sem cuidados, com o coração contente! <br /> <br /> -—V l—disse Leopoldina, lendo: <br /> +—Vê lá—disse Leopoldina, lendo: <br /> <br /> <br /> <div class="signature"> -Meu caro amigo.</div> +«Meu caro amigo.</div> <br /> <br /> -Desejo absolutamente fallar-lhe. um negocio -grave. Venha logo que possa. Talvez me agradea. -Espero-o at s tres horas, o mais tardar. <br /> +«Desejo absolutamente fallar-lhe. É um negocio +grave. Venha logo que possa. Talvez me agradeça. +Espero-o até ás tres horas, o mais tardar. <br /> <br /> -Com toda a estima <br /> +«Com toda a estima <br /> <br /> <div class="signature">Sua amiga</div> <br /> -<div class="signature1"><em>Leopoldina</em>.</div> +<div class="signature1"><em>Leopoldina</em>».</div> <br /> <br /><span class="pagenum">[473]</span> —Que te parece? <br /> <br /> -—Horrivel! Mas est bem... Est muito bem! -Risca-lhe o <em>talvez me agradea</em>. melhor. <br /> +—Horrivel! Mas está bem... Está muito bem! +Risca-lhe o <em>talvez me agradeça</em>. É melhor. <br /> <br /> Leopoldina copiou o bilhete, mandou-o pela Justina, n'um trem. <br /> <br /> -—E agora vou almoar, que me no tenho nas +—E agora vou almoçar, que me não tenho nas pernas. <br /> <br /> -A sala de jantar dava para um saguo estreito. +A sala de jantar dava para um saguão estreito. As paredes estavam cobertas d'uma pintura medonha, em que grandes manchas verdes semelhavam collinas, e linhas azues ferretes representavam lagos. -Um armario, no angulo da parede, servia de guarda-loua. +Um armario, no angulo da parede, servia de guarda-louça. As cadeiras de palhinha tinham almofadinhas de paninho vermelho; e na toalha havia nodoas do -caf da vespera. <br /> +café da vespera. <br /> <br /> -—D'uma cousa pdes tu ter a certeza—dizia -Leopoldina, bebendo grandes goles de ch— que -o Castro um homem p'ra um segredo!... Se te +—D'uma cousa pódes tu ter a certeza—dizia +Leopoldina, bebendo grandes goles de chá—é que +o Castro é um homem p'ra um segredo!... Se te emprestar o dinheiro, que empresta, d'aquella bocca -no sahe uma palavra. L n'isso perfeito... Olha -que foi o amante da Videira annos! e nem ao Mendona, -que o seu intimo, disse uma palavra. Nem -uma alluso! um poo. <br /> +não sahe uma palavra. Lá n'isso é perfeito... Olha +que foi o amante da Videira annos! e nem ao Mendonça, +que é o seu intimo, disse uma palavra. Nem +uma allusão! É um poço. <br /> <br /> —Que Videira?—perguntou Luiza. <br /> <br /> —Uma alta, de nariz grande, que tem um <em>landau</em>. <br /> <br /> -—Mas passa por uma mulher to sria... <br /> +—Mas passa por uma mulher tão séria... <br /> <br /> -—J tu vs!—E com um risinho:—Ai ellas -passam, passam. L passar, passam. A questo conhecer-lhes -os pdres, minha fidalga! +—Já tu vês!—E com um risinho:—Ai ellas +passam, passam. Lá passar, passam. A questão é conhecer-lhes +os pôdres, minha fidalga! <br /> <br /><span class="pagenum">[474]</span> -E barrando de manteiga grandes fatias de po, -pz-se a fallar complacentemente dos escandalos de +E barrando de manteiga grandes fatias de pão, +pôz-se a fallar complacentemente dos escandalos de Lisboa, a desdobrar o <em>sudario</em>: citava nomes, especialidades, -as que depois de terem feito o diabo, -gastam, n'uma devoo tardia, o resto d'uma velha -sensibilidade; que por onde ellas acabam, algumas - pelas sacristias! As que, canadas de certo +as que depois de terem «feito o diabo», +gastam, n'uma devoção tardia, o resto d'uma velha +sensibilidade; que é por onde ellas acabam, algumas +é pelas sacristias! As que, cançadas de certo d'uma virtude monotona, preparam habilmente o seu -fracasso n'uma estao em Cintra ou em Cascaes. +«fracasso» n'uma estação em Cintra ou em Cascaes. E as meninas solteiras! Muito pequerrucho por essas amas, dos arredores tem o direito de lhes chamar -<em>mam</em>! Outras mais prudentes, receando os resultados -do amor, refugiam-se nas precaues da libertinagem... +<em>mamã</em>! Outras mais prudentes, receando os resultados +do amor, refugiam-se nas precauções da libertinagem... Sem contar as senhoras que em vista dos pequenos ordenados, completam o marido com um sujeito supplementar!—Exagerava muito; mas odiava-as tanto! Porque todas tinham, mais ou menos, sabido conservar a exterioridade decente que ella perdera, e manobravam com habilidade, onde ella, a -tola, tivera s a sinceridade! E em quanto ellas conservavam -as suas relaes, convites para <em>soires</em>, a -estima da crte,—ella perdera tudo, era apenas a +tola, tivera só a sinceridade! E em quanto ellas conservavam +as suas relações, convites para <em>soirées</em>, a +estima da côrte,—ella perdera tudo, era apenas a Quebraes!... <br /> <br /> -Aquella conversao enervava Luiza; n'uma tal +Aquella conversação enervava Luiza; n'uma tal generalidade do vicio parecia-lhe que o seu caso, como um edificio n'um nevoeiro, perdia o seu relevo -cruel, se esbatia; e sentindo-o to pouco visivel -quasi o julgava j justificado. <br /> +cruel, se esbatia; e sentindo-o tão pouco visivel +quasi o julgava já justificado. <br /> <br /> Ficaram caladas, vagamente entorpecidas por aquelle sentimento d'uma forte immoralidade geral, <span class="pagenum">[475]</span> onde as resistencias, os orgulhos se amollecem, se enlanguecem,—como os musculos n'uma estufa fortemente -saturada de exhalaes mornas. <br /> +saturada de exhalações mornas. <br /> <br /> -—Este mundo uma historia—disse Leopoldina -erguendo-se e espreguiando-se. <br /> +—Este mundo é uma historia—disse Leopoldina +erguendo-se e espreguiçando-se. <br /> <br /> -—E teu marido onde est?—perguntou Luiza +—E teu marido onde está?—perguntou Luiza no corredor. <br /> <br /> -Fra p'ra o Porto. Estavam vontade, podiam +Fôra p'ra o Porto. Estavam á vontade, podiam commetter crimes! <br /> <br /> -E Leopoldina, no quarto, estirando-se no canap, -com o cigarrinho <em>laferme</em> na bocca, comeou +E Leopoldina, no quarto, estirando-se no canapé, +com o cigarrinho <em>laferme</em> na bocca, começou tambem a queixar-se. <br /> <br /> Andava aborrecida ha tempos; enfastiava-se, @@ -18398,17 +18358,17 @@ achava tudo seccante; queria alguma cousa de novo, de desusado! Sentia-se bocejar por todos os poros do seu corpo... <br /> <br /> -—E o Fernando, ento?—disse distrahidamente +—E o Fernando, então?—disse distrahidamente Luiza, que a cada momento se aproximava da janella. <br /> <br /> —Um idiota!—respondeu Leopoldina com um movimento d'hombros, cheio de saciedade e de desprezo. <br /> <br /> -No, realmente tinha vontade d'outra cousa, no -sabia bem de qu! s vezes lembrava-se fazer-se -freira! (E estirava os braos com um tedio molle). -Eram to semsabores todos os homens que conhecia! -to corriqueiros todos os prazeres que encontrra! +Não, realmente tinha vontade d'outra cousa, não +sabia bem de quê! Ás vezes lembrava-se fazer-se +freira! (E estirava os braços com um tedio molle). +Eram tão semsaborões todos os homens que conhecia! +tão corriqueiros todos os prazeres que encontrára! Queria uma outra vida, forte, aventurosa, perigosa, que a fizesse palpitar—ser mulher d'um salteador, andar no mar, n'um navio pirata... Em @@ -18421,7 +18381,7 @@ Deus! <br /> E, depois d'escancarar a bocca, n'um bocejo de fera engaiolada: <br /> <br /> -—Aborreo-me! Aborreo-me!... Oh cos! <br /> +—Aborreço-me! Aborreço-me!... Oh céos! <br /> <br /> Ficaram um momento caladas. <br /> <br /> @@ -18429,10 +18389,10 @@ Ficaram um momento caladas. <br /> de repente Luiza. <br /> <br /> Leopoldina, soprando o fumo do cigarro, com a -voz muito preguiosa: <br /> +voz muito preguiçosa: <br /> <br /> —Diz-se-lhe que se precisa um conto de reis, -ou seiscentos mil reis... Que se lhe ha-de ento dizer? +ou seiscentos mil reis... Que se lhe ha-de então dizer? Que se lhe paga. <br /> <br /> —Como? <br /> @@ -18441,40 +18401,40 @@ Leopoldina disse, deitada, com os olhos no tecto: <br /> <br /> —Em affecto. <br /> <br /> -—Oh! s horrivel!—exclamou Luiza, exasperada.—Vs-me -aqui desgraada, meia douda, dizes -que s minha amiga, e ests a rir, a escarnecer...—A +—Oh! és horrivel!—exclamou Luiza, exasperada.—Vês-me +aqui desgraçada, meia douda, dizes +que és minha amiga, e estás a rir, a escarnecer...—A sua voz tremia, quasi chorava. <br /> <br /> -—Mas tambem que pergunta to tola! Como se -lhe ha-de pagar?... Tu no sabes? <br /> +—Mas tambem que pergunta tão tola! Como se +lhe ha-de pagar?... Tu não sabes? <br /> <br /> Olharam-se um momento. <br /> <br /> -—No, eu vou-me embora, Leopoldina!—exclamou +—Não, eu vou-me embora, Leopoldina!—exclamou Luiza. <br /> <br /> -—No sejas criana! <br /> +—Não sejas criança! <br /> <br /> -Um trem parou na rua. A Justina appareceu. No -encontrra o snr. Castro em casa, estava no escriptorio. +Um trem parou na rua. A Justina appareceu. Não +encontrára o snr. Castro em casa, estava no escriptorio. <span class="pagenum"><a name="p477" id="p477">[477]</a></span> -Fra l, disse que vinha immediatamente. <br /> +Fôra lá, disse que vinha immediatamente. <br /> <br /> -Mas Luiza, muito pallida, tinha o chapo na mo. <br /> +Mas Luiza, muito pallida, tinha o chapéo na mão. <br /> <br /> -—No—disse Leopoldina, quasi escandalisada—tu -agora no me deixas aqui com o homem! Que +—Não—disse Leopoldina, quasi escandalisada—tu +agora não me deixas aqui com o homem! Que lhe hei-de eu dizer? <br /> <br /> -— horrivel!—murmurou Luiza com uma lagrima -nas palpebras, deixando cahir os braos, solicitada +—É horrivel!—murmurou Luiza com uma lagrima +nas palpebras, deixando cahir os braços, solicitada pelo interesse, enleada pela vergonha, muito infeliz! <br /> <br /> -— como quem toma oleo de ricino—disse a +—É como quem toma oleo de ricino—disse a outra com um gesto cynico. E acrescentou, vendo o -horror de Luiza:—Que diabo! onde que est a +horror de Luiza:—Que diabo! onde é que está a deshonra, em pedir dinheiro emprestado? Todo o mundo pede... <br /> <br /> @@ -18482,34 +18442,34 @@ N'aquelle momento outra carruagem, a largo trote, parou. <br /> <br /> —Entra tu primeiro! falla-lhe tu primeiro!—supplicou -Luiza, erguendo as mos para ella. <br /> +Luiza, erguendo as mãos para ella. <br /> <br /> A campainha retiniu. Luiza muito tremula, muito branca, olhava para todos os lados com um olhar muito aberto, de susto, d'ancia, como procurando -uma ida, uma resoluo ou um recanto para se esconder! +uma idéa, uma resolução ou um recanto para se esconder! Botas d'homem rangeram na esteira da sala -ao lado. Leopoldina ento disse-lhe baixo, devagar, +ao lado. Leopoldina então disse-lhe baixo, devagar, como para lhe cravar <a href="#e23">as palavras</a> na alma, uma a uma: <br /> <br /> -—Lembra-te que d'aqui a uma hora pdes estar +—Lembra-te que d'aqui a uma hora pódes estar salva, com as tuas cartas na algibeira, feliz, livre! <br /> <br /> -Luiza pz-se de p com uma deciso brusca. Foi -pr ps d'arroz, alisou o cabello,—e entraram na +Luiza pôz-se de pé com uma decisão brusca. Foi +pôr pós d'arroz, alisou o cabello,—e entraram na sala. <br /> <br /><span class="pagenum">[478]</span> -Ao vr Luiza, o Castro teve um movimento surprehendido. -Curvou-se, com os ps pequeninos muito -juntos, inclinando a cabea grossa, onde os cabellos -muito finos alourados j rareavam. <br /> +Ao vêr Luiza, o Castro teve um movimento surprehendido. +Curvou-se, com os pés pequeninos muito +juntos, inclinando a cabeça grossa, onde os cabellos +muito finos alourados já rareavam. <br /> <br /> Sobre o seu ventresinho redondo, que a perna -curta fazia parecer quasi pansudo, o medalho do -relogio pousava com opulencia. Trazia na mo um +curta fazia parecer quasi pansudo, o medalhão do +relogio pousava com opulencia. Trazia na mão um chicote, cujo cabo de prata representava uma Venus -retorcendo os braos. A pelle tinha um rubor prospero; +retorcendo os braços. A pelle tinha um rubor prospero; o bigode farto, terminava em pontas agudas, empastadas em cera mostacha, d'um aspecto napoleonico. E os seus oculos de ouro tinham um ar authoritario, @@ -18517,58 +18477,58 @@ bancario, amigo da Ordem. Parecia contente da vida como um pardal muito farto. <br /> <br /> Com que! Era necessario mandal-o chamar, para -que se lhe pozesse a vista em cima,—comeou logo -Leopoldina. E depois de o apresentar a Luiza sua -intima, sua amiga de collegio: <br /> +que se lhe pozesse a vista em cima,—começou logo +Leopoldina. E depois de o apresentar a Luiza «sua +intima, sua amiga de collegio»: <br /> <br /> -—Que tem feito, porque no tem apparecido? <br /> +—Que tem feito, porque não tem apparecido? <br /> <br /> -O Castro repoltreou-se n'uma cadeira de braos, +O Castro repoltreou-se n'uma cadeira de braços, e batendo com o chicote nas botas, desculpou-se com os preparativos da partida... <br /> <br /> -—Sempre verdade? Deixa-nos? <br /> +—Sempre é verdade? Deixa-nos? <br /> <br /> O Castro curvou-se: <br /> <br /> -—Alm d'amanh. No <em>Orenoque</em>. <br /> +—Além d'amanhã. No <em>Orenoque</em>. <br /> <br /> -—Ento d'esta vez os jornaes no mentiram. E +—Então d'esta vez os jornaes não mentiram. E com demora? <br /> <br /> —<em>Per omnia sæcula sæculorum.</em> <br /> <br /> Leopoldina pasmava. Deixar Lisboa! Um homem -to estimado, que se podia divertir tanto!—Pois +tão estimado, que se podia divertir tanto!—Pois <span class="pagenum">[479]</span> -no verdade?—disse voltando-se para Luiza, para -a tirar do seu silencio embaraado. <br /> +não é verdade?—disse voltando-se para Luiza, para +a tirar do seu silencio embaraçado. <br /> <br /> —Com certeza—murmurou ella. <br /> <br /> -Estava sentada beira da cadeira, como assustada, +Estava sentada á beira da cadeira, como assustada, prompta a fugir. E os olhares do Castro, insistentes por traz dos reflexos dos oculos, incommodavam-na. <br /> <br /> -Leopoldina reclinra-se no soph e ameaando-o +Leopoldina reclinára-se no sophá e ameaçando-o com o dedo erguido: <br /> <br /> -—Ah! Ahi n'essa ida p'ra Frana anda historia +—Ah! Ahi n'essa ida p'ra França anda historia de saias! <br /> <br /> Elle negou frouxamente, com um sorriso fatuo. <br /> <br /> -Mas Leopoldina no achava as francezas bonitas—o -que era que tinham muito <em>chic</em>, muita -animao... <br /> +Mas Leopoldina não achava as francezas bonitas—o +que era é que tinham muito <em>chic</em>, muita +animação... <br /> <br /> O Castro declarou-as adoraveis. Sobretudo para a -estroinice! Ah! conhecia-as bem! Emfim, l como -mes de familia no dizia. Mas para uma ca, para -um bocado de <em>can-can</em> no havia outras...—Affirmava-o -com convico, pois, como os burguezes da -sua roda, avaliava doze milhes de francezas por -seis prostitutas de Caf Concerto,—que tinha pago +estroinice! Ah! conhecia-as bem! Emfim, lá como +mães de familia não dizia. Mas para uma cêa, para +um bocado de <em>can-can</em> não havia outras...—Affirmava-o +com convicção, pois, como os burguezes «da +sua roda», avaliava doze milhões de francezas por +seis prostitutas de Café Concerto,—que tinha pago caro e enfastiado immenso! <br /> <br /> Leopoldina, para o lisonjear, chamou-lhe <em>estroina</em>! <br /> @@ -18588,39 +18548,39 @@ um palacio!... <br /> —E naturalmente vai dar festas magnificas!... <br /> <br /> -—Modestos chs, modestos chs...—dizia, repoltreando-se. <br /> +—Modestos chás, modestos chás...—dizia, repoltreando-se. <br /> <br /> E riam ambos d'um modo muito affectado. <br /> <br /> -O Castro curvou-se ento para Luiza: <br /> +O Castro curvou-se então para Luiza: <br /> <br /> -—Tive o gosto de vr v. exc.<sup>a</sup> ha tempos, na +—Tive o gosto de vêr v. exc.<sup>a</sup> ha tempos, na rua do Ouro... <br /> <br /> —Creio que tambem me lembro—respondeu ella. <br /> <br /> E ficaram calados. Leopoldina tossiu, sentou-se -mais beira do soph, e depois de sorrir: <br /> +mais á beira do sophá, e depois de sorrir: <br /> <br /> —Pois eu mandei-o chamar porque temos uma cousa a dizer-lhe. <br /> <br /> -Castro inclinou-se. O seu olhar no deixava Luiza, +Castro inclinou-se. O seu olhar não deixava Luiza, percorria-a com atrevimento, palpava-a. <br /> <br /> -—Aqui est o que . Eu vou direita s cousas, +—Aqui está o que é. Eu vou direita ás cousas, sem preambulos.—E teve outro risinho.—Aqui a -minha amiga est n'um grande apuro, e precisa um +minha amiga está n'um grande apuro, e precisa um conto de reis. <br /> <br /> Luiza acudiu com a voz quasi sumida: <br /> <br /> —Seiscentos mil reis... <br /> <br /> -—Isso no importa—disse Leopoldina com uma -indifferena opulenta—estamos a fallar com um millionario! -A questo esta: quer o meu amigo fazer +—Isso não importa—disse Leopoldina com uma +indifferença opulenta—estamos a fallar com um millionario! +A questão é esta: quer o meu amigo fazer o favor? <br /> <br /> O Castro endireitou-se na cadeira, devagar, e @@ -18631,11 +18591,11 @@ com uma voz arrastada, ambigua: <br /> Leopoldina ergueu-se logo: <br /> <br /><span class="pagenum">[481]</span> -—Bem. Eu tenho alli no quarto a costureira +—Bem. Eu tenho alli no quarto a costureira á espera. Deixo-os fallar do negocio. <br /> <br /> -E porta do quarto, voltando-se para o Castro, -ameaando-o com o dedo, a voz muito alegre: <br /> +E á porta do quarto, voltando-se para o Castro, +ameaçando-o com o dedo, a voz muito alegre: <br /> <br /> —Que o juro seja pequeno, hein? <br /> <br /> @@ -18646,95 +18606,95 @@ O Castro disse logo a Luiza, curvando-se: <br /> —Pois minha senhora, eu... <br /> <br /> —A Leopoldina contou-lhe a verdade, estou -n'uma grande afflico de dinheiro. E dirijo-me a -si... So seiscentos mil reis... Procurarei pagar, +n'uma grande afflicção de dinheiro. E dirijo-me a +si... São seiscentos mil reis... Procurarei pagar, o mais depressa... <br /> <br /> —Oh minha senhora!—fez o Castro com um -gesto generoso. Comeou ento a dizer, que comprehendia +gesto generoso. Começou então a dizer, que comprehendia perfeitamente, todo o mundo tinha os -seus embaraos... Lamentava que a no tivesse +seus embaraços... Lamentava que a não tivesse conhecido ha mais tempo... Sempre tivera uma grande sympathia por ella... Uma grande sympathia!... <br /> <br /> Luiza calava-se, com os olhos baixos. Elle foi -pousar o chicote na jardineira, veio sentar-se no soph -junto d'ella. Vendo o seu ar embaraado, pediu-lhe -que no se affligisse. Valia l a pena por -questes de dinheiro! Tinha o maior prazer em servir -uma senhora nova, to interessante... Fizera +pousar o chicote na jardineira, veio sentar-se no sophá +junto d'ella. Vendo o seu ar embaraçado, pediu-lhe +que não se affligisse. Valia lá a pena por +questões de dinheiro! Tinha o maior prazer em servir +uma senhora nova, tão interessante... Fizera perfeitamente em se dirigir a elle. Conhecia casos em que senhoras se dirigiam a agiotas que as exploravam, eram indiscretos...—E fallando tinha-lhe -tomado a mo; o contacto d'aquella pelle appetecida, +tomado a mão; o contacto d'aquella pelle appetecida, exaltando-lhe o desejo brutalmente, fazia-o <span class="pagenum"><a name="p482" id="p482">[482]</a></span> -respirar alto; Luiza, toda constrangida, nem retirra -a mo; e Castro abrazado—com uma verbosidade +respirar alto; Luiza, toda constrangida, nem retirára +a mão; e Castro abrazado—com uma verbosidade um pouco rouca, promettia <em>tudo</em>, <em>tudo o que ella <a href="#e24">quizesse</a></em>!... Os seus olhinhos arregalados devoravam-lhe -o pescoo muito branco. <br /> +o pescoço muito branco. <br /> <br /> —Seiscentos mil reis..., o que quizer!... <br /> <br /> —E quando?—disse Luiza muito perturbada. <br /> <br /> -Elle via-lhe o seio arfar—e sob a irrupo d'um +Elle via-lhe o seio arfar—e sob a irrupção d'um desejo brutal: <br /> <br /> -—J! <br /> +—Já! <br /> <br /> Agarrou-a pela cinta, atirou-lhe um beijo voraz, quasi lhe mordeu a face. <br /> <br /> -Luiza ergueu-se com o salto d'uma mola d'ao. <br /> +Luiza ergueu-se com o salto d'uma mola d'aço. <br /> <br /> -Mas o Castro escorregra sobre o tapete, de +Mas o Castro escorregára sobre o tapete, de joelhos; e, prendendo-lhe sofregamente os vestidos: <br /> <br /> —Dou-lhe o que quizer, mas sente-se! Ha annos -que tenho uma paixo por si. Escute!—Os seus -braos tremulos subiam; envolviam-na, e o que sentia -das suas frmas inflammava-o. <br /> +que tenho uma paixão por si. Escute!—Os seus +braços tremulos subiam; envolviam-na, e o que sentia +das suas fórmas inflammava-o. <br /> <br /> -Luiza, sem ruido, repellia-lhe as mos, recusava-se. <br /> +Luiza, sem ruido, repellia-lhe as mãos, recusava-se. <br /> <br /> -—O que quizer! Mas oua!—balbuciava elle +—O que quizer! Mas ouça!—balbuciava elle puxando-a violentamente para si. A concupiscencia -brutal dava-lhe uma respirao de touro. <br /> +brutal dava-lhe uma respiração de touro. <br /> <br /> -Ento, com um puxo desesperado s saias, ella +Então, com um puxão desesperado ás saias, ella soltou-se, e recuando afflicta: <br /> <br /> —Deixe-me! Deixe-me! <br /> <br /> O Castro ergueu-se, a bufar, e com os dentes -cerrados, os braos abertos, rompeu para ella. +cerrados, os braços abertos, rompeu para ella. <br /> <br /><span class="pagenum">[483]</span> Diante d'aquella luxuria bestial, Luiza, indignada, agarrou instinctivamente de sobre a jardineira o chicote -e deu-lhe uma forte chicotada na mo. <br /> +e deu-lhe uma forte chicotada na mão. <br /> <br /> -A dr, a raiva, o desejo enfureceram-no. <br /> +A dôr, a raiva, o desejo enfureceram-no. <br /> <br /> —Seu diabo!—rosnou, rangendo os dentes. <br /> <br /> -Ia-se arremessar. Mas Luiza ento, erguendo o -brao, revolvida por uma clera phrenetica, atirou-lhe -chicotadas rapidamente pelos braos, pelos hombros—muito -pallida, muito sria, com uma crueldade +Ia-se arremessar. Mas Luiza então, erguendo o +braço, revolvida por uma cólera phrenetica, atirou-lhe +chicotadas rapidamente pelos braços, pelos hombros—muito +pallida, muito séria, com uma crueldade a reluzir-lhe nos olhos, gozando uma alegria de desforra em fustigar aquella carne gorda. <br /> <br /> O Castro, assombrado, defendia-se vagamente, -com os braos diante da cara, recuando; de repente, +com os braços diante da cara, recuando; de repente, topou contra a jardineira; o candieiro de porcelana -oscillou, desequilibrou-se, rolou no cho, com -estilhaos de loua, e uma nodoa escura d'azeite +oscillou, desequilibrou-se, rolou no chão, com +estilhaços de louça, e uma nodoa escura d'azeite alastrou-se na esteira. <br /> <br /> -—Ahi est! V?—disse Luiza toda a tremer, +—Ahi está! Vê?—disse Luiza toda a tremer, apertando ainda convulsivamente o chicote. <br /> <br /> Leopoldina ao barulho correu, do quarto. <br /> @@ -18743,18 +18703,18 @@ Leopoldina ao barulho correu, do quarto. <br /> <br /> —Nada, estavamos a brincar—disse Luiza. <br /> <br /> -Atirou o chicote para o cho, sahiu da sala. <br /> +Atirou o chicote para o chão, sahiu da sala. <br /> <br /> -O Castro, livido de raiva, tinha agarrado o chapo; +O Castro, livido de raiva, tinha agarrado o chapéo; e fixando terrivelmente Leopoldina: <br /> <br /> —Agradecido! Conte commigo quando quizer! <br /> <br /> —Mas que foi? Que foi? <br /> <br /> -—At vista!—rugiu o Castro.—E indo apanhar -o chicote, sacudindo-o ameaadoramente para -o quarto, onde Luiza entrra: +—Até á vista!—rugiu o Castro.—E indo apanhar +o chicote, sacudindo-o ameaçadoramente para +o quarto, onde Luiza entrára: <br /> <br /><span class="pagenum">[484]</span> —Grande bebeda!—murmurou com rancor. <br /> @@ -18762,19 +18722,19 @@ o quarto, onde Luiza entrra: E sahiu, atirando com as portas. <br /> <br /> Leopoldina, attonita, veio encontrar Luiza no -quarto a pr o chapo, com as mos ainda tremulas, +quarto a pôr o chapéo, com as mãos ainda tremulas, os olhos muito brilhantes, satisfeita. <br /> <br /> -—Chegou-me c uma cousa, e enchi-lhe a cara +—Chegou-me cá uma cousa, e enchi-lhe a cara de chicotadas—disse ella. <br /> <br /> Leopoldina esteve um momento a olhal-a petrificada. <br /> <br /> —Bateste-lhe?...—E de repente desatou a rir, convulsivamente.—O Castro d'oculos, o Castro coberto -de chicotadas! O Castro a levar uma coa!—Atirou-se -para cima da <em>chaise-longue</em>, rolou-se; suffocava.—At -j tinha uma pontada, Jesus! O Castro!... +de chicotadas! O Castro a levar uma coça!—Atirou-se +para cima da <em>chaise-longue</em>, rolou-se; suffocava.—Até +já tinha uma pontada, Jesus! O Castro!... Vir a uma casa amiga, levar o tiro de seiscentos mil reis e ser corrido a chicote!... Com o seu proprio chicote!... Oh! era para estourar!... <br /> @@ -18783,9 +18743,9 @@ Com o seu proprio chicote!... Oh! era para estourar!... <br /> <br /> Leopoldina ergueu-se, de salto. <br /> <br /> -—E o azeite! Ai que agouro!—Correu sala. +—E o azeite! Ai que agouro!—Correu á sala. Luiza veio encontral-a diante da nodoa escura, -com os braos cruzados, como se visse, toda pallida, +com os braços cruzados, como se visse, toda pallida, catastrophes avisinharem-se.—Que agouro, Santo Deus! <br /> <br /> @@ -18799,13 +18759,13 @@ Leopoldina correu a buscar sal; e de joelhos, salgando a nodoa: <br /> <br /><span class="pagenum">[485]</span> -—Ai! Nossa Senhora permitta que no haja nada +—Ai! Nossa Senhora permitta que não haja nada mau! Mas que caso este, que caso este! E agora, filha? <br /> <br /> Luiza encolheu os hombros. <br /> <br /> -—Eu sei c! Soffrer!... +—Eu sei cá! Soffrer!... <br /> <br /> <br /> @@ -18814,10 +18774,10 @@ Luiza encolheu os hombros. <br /> </h3> <br /> <br /> -N'essa semana, uma manh, Jorge, que se no +N'essa semana, uma manhã, Jorge, que se não recordava que era dia de gala, encontrou a secretaria fechada, e voltou para casa ao meio dia. Joanna - porta conversava com a velha que comprava os ossos; +á porta conversava com a velha que comprava os ossos; a cancella em cima estava aberta; e Jorge, chegando despercebido ao quarto, surprehendeu Juliana commodamente deitada na <em>chaise-longue</em>, lendo @@ -18825,230 +18785,230 @@ tranquillamente o jornal. <br /> <br /> Ergueu-se, muita vermelha, mal o viu, balbuciou: <br /> <br /> -—Peo desculpa, tinha-me dado uma palpitao -to forte... <br /> +—Peço desculpa, tinha-me dado uma palpitação +tão forte... <br /> <br /> -—Que se pz a lr o jornal, hein?...—disse -Jorge, apertando instinctivamente o casto da bengala.—Onde -est a senhora? +—Que se pôz a lêr o jornal, hein?...—disse +Jorge, apertando instinctivamente o castão da bengala.—Onde +está a senhora? <br /> <br /><span class="pagenum">[488]</span> —Deve estar p'ra a sala de jantar—disse Juliana, -que se pz logo a varrer, muito apressada. <br /> +que se pôz logo a varrer, muito apressada. <br /> <br /> -Jorge no encontrou Luiza na sala de jantar; foi +Jorge não encontrou Luiza na sala de jantar; foi dar com ella no quarto dos engommados, despenteada, -em roupo de manh, passando roupa, muito +em roupão de manhã, passando roupa, muito applicada e muito desconsolada. <br /> <br /> -—Tu ests a engommar?—exclamou. <br /> +—Tu estás a engommar?—exclamou. <br /> <br /> -Luiza crou um pouco, pousou o ferro.—A Juliana -estava adoentada, juntra-se uma carga de +Luiza córou um pouco, pousou o ferro.—A Juliana +estava adoentada, juntára-se uma carga de roupa... <br /> <br /> -—Dize-me c, quem aqui a criada e quem +—Dize-me cá, quem é aqui a criada e quem é aqui a senhora? <br /> <br /> -A sua voz era to aspera, que Luiza fez-se pallida, +A sua voz era tão aspera, que Luiza fez-se pallida, murmurou: <br /> <br /> —Que queres tu dizer? <br /> <br /> —Quero dizer que te venho encontrar a ti a engommar, -e que a encontrei a ella l em baixo muito -repimpada na tua cadeira, a lr o jornal. <br /> +e que a encontrei a ella lá em baixo muito +repimpada na tua cadeira, a lêr o jornal. <br /> <br /> Luiza, atarantada, abaixou-se sobre o cesto da -roupa lavada, comeou a remexer, a desdobrar, a -sacudir com a mo tremula... <br /> +roupa lavada, começou a remexer, a desdobrar, a +sacudir com a mão tremula... <br /> <br /> -—Tu no pdes fazer ida do que aqui vai por -fazer—ia dizendo.— a limpeza, so os engommados, - um servio. A pobre de Christo tem estado +—Tu não pódes fazer idéa do que aqui vai por +fazer—ia dizendo.—É a limpeza, são os engommados, +é um servição. A pobre de Christo tem estado doente... <br /> <br /> -—Pois se est doente que v p'ra o hospital! <br /> +—Pois se está doente que vá p'ra o hospital! <br /> <br /> -—No, tambem no tens razo! <br /> +—Não, tambem não tens razão! <br /> <br /> Aquella insistencia em defender a outra, que se repoltreava em baixo na sua <em>chaise-longue</em>, exasperou-o: <br /> <br /><span class="pagenum">[489]</span> -—Dize c, tu dependes d'ella? Havia de dizer +—Dize cá, tu dependes d'ella? Havia de dizer que tens medo d'ella! <br /> <br /> -—Ah! se ests com esse genio!—fez Luiza com -os beios tremulos, uma lagrima j nas palpebras. <br /> +—Ah! se estás com esse genio!—fez Luiza com +os beiços tremulos, uma lagrima já nas palpebras. <br /> <br /> Mas Jorge continuava, muito zangado: <br /> <br /> -—No, essas condescendencias ho-de acabar -por uma vez! Vr aquelle estafermo, com os ps +—Não, essas condescendencias hão-de acabar +por uma vez! Vêr aquelle estafermo, com os pés p'ra cova, a prosperar em minha casa, a deitar-se nas minhas cadeiras, a passear, e tu a defendel-a, -a fazer-lhe o servio, ah! no! necessario acabar +a fazer-lhe o serviço, ah! não! É necessario acabar com isso. Sempre desculpas! sempre desculpas! Se -no pde que arreie. Que v p'ra o hospital, que v +não póde que arreie. Que vá p'ra o hospital, que vá p'ra o inferno! <br /> <br /> -Luiza lavada em lagrimas assoava-se, soluando. <br /> +Luiza lavada em lagrimas assoava-se, soluçando. <br /> <br /> —Bem! Agora choras. Que tens tu? Por que choras? <br /> <br /> -Ella no respondia, n'um grande pranto. <br /> +Ella não respondia, n'um grande pranto. <br /> <br /> —Porque choras, filha?—perguntou elle, com uma impaciencia commovida, chegando-se a ella. <br /> <br /> -—Para que me fallas tu assim?—dizia, toda soluante, +—Para que me fallas tu assim?—dizia, toda soluçante, limpando os olhos.—Sabes que estou doente, nervosa, e tens mau genio p'ra mim! O que me -sabes dizer so cousas desagradaveis. <br /> +sabes dizer são cousas desagradaveis. <br /> <br /> —Cousas desagradaveis! Minha filha, eu disse-te -l nada desagradavel!—E abraou-a, ternamente. <br /> +lá nada desagradavel!—E abraçou-a, ternamente. <br /> <br /> Mas ella desprendeu-se, e com a voz cortada de -soluos: <br /> +soluços: <br /> <br /> -—Ento algum crime estar a engommar? Por +—Então é algum crime estar a engommar? Por que trabalho, por que trato das minhas cousas, zangas-te? Querias que eu fosse uma desarranjada? A <span class="pagenum">[490]</span> -mulher tem estado doente! Em quanto se no arranja -outra, necessario fazer as cousas... Mas tu fallas, +mulher tem estado doente! Em quanto se não arranja +outra, é necessario fazer as cousas... Mas tu fallas, fallas! P'ra me affligir!... <br /> <br /> -—Ests a dizer tolices, filha. No ests em ti. -Eu o que no quero que te cances! <br /> +—Estás a dizer tolices, filha. Não estás em ti. +Eu o que não quero é que te cances! <br /> <br /> -—P'ra que dizes ento que tenho medo d'ella?—E -as lagrimas recomeavam.—Medo de qu? +—P'ra que dizes então que tenho medo d'ella?—E +as lagrimas recomeçavam.—Medo de quê? Porque hei-de eu ter medo d'ella? Que desproposito! <br /> <br /> -—Pois bem, no digo. No se falla mais na -creatura. Mas no chores... V, acabou-se!—Beijou-a. -E tomando-a pela cinta, levando-a dcemente:—V, -deixa o ferro agora. Vem! Que criana que -tu s! <br /> +—Pois bem, não digo. Não se falla mais na +creatura. Mas não chores... Vá, acabou-se!—Beijou-a. +E tomando-a pela cinta, levando-a dôcemente:—Vá, +deixa o ferro agora. Vem! Que criança que +tu és! <br /> <br /> <br /> <br /> -Por bondade, por considerao com os nervos de -Luiza, Jorge durante alguns dias no fallou na -creatura. Mas pensava n'ella; e aquelle estafermo, -com os ps para a cova, em sua casa, exasperava-o. +Por bondade, por consideração com os nervos de +Luiza, Jorge durante alguns dias não fallou «na +creatura». Mas pensava n'ella; e aquelle estafermo, +com os pés para a cova, em sua casa, exasperava-o. Depois as madracices que lhe percebera, os confortos -do quarto que vira na noite em que ella desmaira, +do quarto que vira na noite em que ella desmaiára, aquella bondade ridicula de Luiza!... Achava aquillo -estranho, irritante!... Como estava fra de casa todo -o dia, e diante d'ella Juliana s tinha sorrisos +estranho, irritante!... Como estava fóra de casa todo +o dia, e diante d'ella Juliana só tinha sorrisos para Luiza, muitas attitudes de affecto, imaginava que ella se soubera insinuar, e, pelas pequenas intimidades -de ama a criada, se tornra necessaria e -estimada. Isso augmentava a sua antipathia. E no a -disfarava. +de ama a criada, se tornára necessaria e +estimada. Isso augmentava a sua antipathia. E não a +disfarçava. <br /> <br /><span class="pagenum">[491]</span> -Luiza vendo-o s vezes seguir Juliana com um +Luiza vendo-o ás vezes seguir Juliana com um olhar rancoroso, tremia! Mas o que a torturava era a -maneira que Jorge adoptra de fallar d'ella com uma -venerao ironica; chamava-lhe <em>a illustre D. Juliana, +maneira que Jorge adoptára de fallar d'ella com uma +veneração ironica; chamava-lhe <em>a illustre D. Juliana, a minha ama e senhora</em>! Se faltava um guardanapo -ou um copo, fingia-se espantado: Como! a -D. Juliana esqueceu-se! Uma pessoa to perfeita! +ou um copo, fingia-se espantado: «Como! a +D. Juliana esqueceu-se! Uma pessoa tão perfeita!» Tinha gracejos que gelavam Luiza. <br /> <br /> —A que sabia o filtro que ella te deu? Era bom? <br /> <br /> -Luiza agora, diante d'elle, j nem se atrevia a +Luiza agora, diante d'elle, já nem se atrevia a fallar a Juliana com um modo natural; temia os sorrisos -malignos, os partes:—Anda, atira-lhe um -beijo, conhece-se na cara que ests com a vontade de -lh'o atirar! E, receando as suspeitas d'elle, querendo -mostrar-se <em>independente</em>, comeou na sua presena, +malignos, os ápartes:—«Anda, atira-lhe um +beijo, conhece-se na cara que estás com a vontade de +lh'o atirar!» E, receando as suspeitas d'elle, querendo +mostrar-se <em>independente</em>, começou na sua presença, a fallar a Juliana com uma dureza brusca, -muito affectada. A pedir-lhe agua, uma faca, dava -voz inflexes d'um rancor postio. <br /> +muito affectada. A pedir-lhe agua, uma faca, dava á +voz inflexões d'um rancor postiço. <br /> <br /> Juliana, muito fina, tinha percebido <em>tudo</em>, e supportava, calada. <br /> <br /> -Queria evitar toda a questo que a perturbasse +Queria evitar toda a questão que a perturbasse no seu conchego. Sentia-se agora muito mal, e nas -noites em que no podia dormir com afflices asthmaticas, +noites em que não podia dormir com afflicções asthmaticas, punha-se a pensar com terror—se fosse expulsa d'aquella casa, para onde iria? Para o hospital! <br /> <br /> Tinha por isso medo de Jorge. <br /> <br /> -—Elle est morto por me pilhar em desleixo -grosso, e descartar-se de mim—dizia ella tia Victoria—mas +—Elle está morto por me pilhar em desleixo +grosso, e descartar-se de mim—dizia ella á tia Victoria—mas <span class="pagenum">[492]</span> -no lhe hei-de dar esse gosto, ao boi +não lhe hei-de dar esse gosto, ao boi manso! <br /> <br /> -E Luiza, pasmada, vira-a pouco a pouco recomear -a fazer todo o servio, com zelo, apparentemente; -e todavia s vezes no podia, vencida pela doena; -tinha flatos que a faziam cahir n'uma cadeira, -arquejando, com as mos no corao. Mas reagia. -Uma occasio mesmo vendo Luiza a passar um espanejador +E Luiza, pasmada, vira-a pouco a pouco recomeçar +a fazer todo o serviço, com zelo, apparentemente; +e todavia ás vezes não podia, vencida pela doença; +tinha «flatos» que a faziam cahir n'uma cadeira, +arquejando, com as mãos no coração. Mas reagia. +Uma occasião mesmo vendo Luiza a passar um espanejador pelos <em>consoles</em> da sala, zangou-se: <br /> <br /> -—A senhora faz favor de se no metter no meu -servio? Eu ainda posso! Ainda no estou na cova! <br /> +—A senhora faz favor de se não metter no meu +serviço? Eu ainda posso! Ainda não estou na cova! <br /> <br /> -Consolava-se ento com regalos de gulodice. Durante +Consolava-se então com regalos de gulodice. Durante todo o dia debicava sopinhas, croquettes, pudinzinhos de batata. Tinha no quarto gelatina e vinho do Porto. Em certos dias mesmo queria caldos -de gallinha noite. <br /> +de gallinha á noite. <br /> <br /> —Com o meu corpo o pago—dizia ella a Joanna—que trabalho como uma negra! Arrazo-me! <br /> <br /> -Um dia, porm, que Jorge se irritra mais com +Um dia, porém, que Jorge se irritára mais com a figura amarellada de Juliana, e que estava nervoso, -ao achar noite o jarro vazio e o lavatorio sem +ao achar á noite o jarro vazio e o lavatorio sem toalha, enfureceu-se desproporcionadamente: <br /> <br /> -—No estou para aturar estes desleixos! Irra!—gritou. <br /> +—Não estou para aturar estes desleixos! Irra!—gritou. <br /> <br /> Luiza veio logo, inquieta, desculpar Juliana. <br /> <br /> -Jorge mordeu o beio, curvou-se profundamente, +Jorge mordeu o beiço, curvou-se profundamente, e com a voz um pouco tremula: <br /> <br /> -—Perdo! esquecia-me que a pessoa de Juliana - sagrada! eu mesmo vou buscar agua! <br /> +—Perdão! esquecia-me que a pessoa de Juliana +é sagrada! eu mesmo vou buscar agua! <br /> <br /> -Luiza ento zangou-se: se havia de estar sempre +Luiza então zangou-se: se havia de estar sempre <span class="pagenum">[493]</span> com aquelles remoques, era mandar a criada embora por uma vez! Imaginava talvez que ella amava -de paixo a Juliana? Se a conservava porque era +de paixão a Juliana? Se a conservava é porque era uma boa criada. Mas se ella se tornava a causa de -maus humores, de questes, se elle lhe ganhra tamanho -odio, bem, ento que se fosse! Era uma scca +maus humores, de questões, se elle lhe ganhára tamanho +odio, bem, então que se fosse! Era uma sécca aquella ironia constante... <br /> <br /> -Jorge no respondeu. <br /> +Jorge não respondeu. <br /> <br /> E durante a noite Luiza, sem dormir, pensava -que aquillo no podia durar! Estava farta! Aturar a +que aquillo não podia durar! Estava farta! Aturar a mulher, a sua tyranna, e ouvir a todo o momento -ditinhos, alluses, ah, no! era de mais! Bastava! -Elle comeava a desconfiar, a bomba ia estalar! Pois +ditinhos, allusões, ah, não! era de mais! Bastava! +Elle começava a desconfiar, a bomba ia estalar! Pois bem, ella mesma chegaria o lume ao rastilho! Ia mandar a Juliana embora! E que mostrasse as cartas, acabou-se! Se elle a mettesse n'um convento, se separasse d'ella, bem! Soffreria, morreria! Tudo, -menos aquelle martyrio reles, s picadinhas, medonho +menos aquelle martyrio reles, ás picadinhas, medonho e grotesco! <br /> <br /> —Que tens tu?—perguntou Jorge, meio a dormir, @@ -19061,61 +19021,61 @@ voltou-se, enrolando-se commodamente na roupa. <br /> <br /> <br /> <br /> -Ao outro dia Jorge levantra-se cedo. Devia encontrar-se +Ao outro dia Jorge levantára-se cedo. Devia encontrar-se com o Alonso, o hespanhol das minas, e -jantar com elle no Gibraltar. Depois de vestido foi +jantar com elle no Gibraltar. Depois de vestido foi á <span class="pagenum"><a name="p494" id="p494">>[494]</a></span> sala de jantar—eram dez horas—e <a href="#e25">voltou a dizer</a> a -Luiza, com uma cortezia profunda, espaando as palavras:—que -no estava a mesa posta! que as chavenas -do ch da vespera estavam ainda por lavar! +Luiza, com uma cortezia profunda, espaçando as palavras:—que +não estava a mesa posta! que as chavenas +do chá da vespera estavam ainda por lavar! e que a snr.<sup>a</sup> D. Juliana, a illustre snr.<sup>a</sup> D. Juliana, tinha sahido, a seu passeio! <br /> <br /> -—Eu disse-lhe hontem noite que me fosse ao -sapateiro...—comeou Luiza, que vestia o seu roupo. <br /> +—Eu disse-lhe hontem á noite que me fosse ao +sapateiro...—começou Luiza, que vestia o seu roupão. <br /> <br /> -—Ah, perdo!—interrompeu Jorge muito ceremoniosamente.—Esquecia-me +—Ah, perdão!—interrompeu Jorge muito ceremoniosamente.—Esquecia-me outra vez que se -trata de Juliana, tua ama e senhora! Perdo! <br /> +trata de Juliana, tua ama e senhora! Perdão! <br /> <br /> Luiza acudiu logo: <br /> <br /> -—No. Tens razo. Tu vers! preciso pr um -cbro... <br /> +—Não. Tens razão. Tu verás! É preciso pôr um +côbro... <br /> <br /> -Subiu logo cozinha, desesperada: <br /> +Subiu logo á cozinha, desesperada: <br /> <br /> -—Voss porque no pz a mesa, Joanna, se a +—Vossê porque não pôz a mesa, Joanna, se a outra sahiu? <br /> <br /> -Mas a rapariga no ouvira sahir a snr.<sup>a</sup> Juliana! -Imaginra que estava p'ra baixo, p'ra a sala! Como -ella agora que queria fazer tudo!... <br /> +Mas a rapariga não ouvira sahir a snr.<sup>a</sup> Juliana! +Imaginára que estava p'ra baixo, p'ra a sala! Como +ella agora é que queria fazer tudo!... <br /> <br /> -Quando Joanna trouxe o almoo d'ahi a pouco -Jorge veio sentar-se mesa, torcendo muito nervosamente +Quando Joanna trouxe o almoço d'ahi a pouco +Jorge veio sentar-se á mesa, torcendo muito nervosamente o bigode. Levantou-se duas vezes com um -sorriso mudo para ir buscar uma colhr, o assucareiro. +sorriso mudo para ir buscar uma colhér, o assucareiro. Luiza via-lhe os musculos da face contrahidos: mal podia comer, atarantada; a chavena, quando a -erguia, tremia-lhe na mo; com os olhos baixos espreitava -Jorge s furtadellas, e o seu silencio torturava-a. +erguia, tremia-lhe na mão; com os olhos baixos espreitava +Jorge ás furtadellas, e o seu silencio torturava-a. <br /> <br /><span class="pagenum">[495]</span> -—Tu fallaste hontem que ias jantar fra hoje... <br /> +—Tu fallaste hontem que ias jantar fóra hoje... <br /> <br /> -—Vou—disse seccamente. E acrescentou:—Graas +—Vou—disse seccamente. E acrescentou:—Graças a Deus! <br /> <br /> -—Ests de bom humor!...—murmurou ella. <br /> +—Estás de bom humor!...—murmurou ella. <br /> <br /> -—Como vs! <br /> +—Como vês! <br /> <br /> Luiza fez-se pallida, pousou o talher: tomou o -jornal para disfarar uma lagrimasinha que lhe tremia +jornal para disfarçar uma lagrimasinha que lhe tremia na palpebra; mas as letras confundiam-se, sentia pular -o corao. De repente a campainha tocou. Era a +o coração. De repente a campainha tocou. Era a outra, de certo! <br /> <br /> Jorge, que se ia erguer, disse logo: <br /> @@ -19123,26 +19083,26 @@ Jorge, que se ia erguer, disse logo: <br /> —Ha-de ser essa senhora. Ora, vou-lhe dizer duas palavras... <br /> <br /> -E ficou de p, junto mesa, aguando devagar +E ficou de pé, junto á mesa, aguçando devagar um palito. <br /> <br /> Luiza, a tremer, levantou-se tambem: <br /> <br /> —Eu vou-lhe fallar... <br /> <br /> -Jorge reteve-a pelo brao, e tranquillamente: <br /> +Jorge reteve-a pelo braço, e tranquillamente: <br /> <br /> -—No, deixa-a vir. Deixa-me gozar!... <br /> +—Não, deixa-a vir. Deixa-me gozar!... <br /> <br /> Luiza recahiu na cadeira, muito pallida. <br /> <br /> -Os taces de Juliana soaram no corredor. Jorge -aguava tranquillamente o seu palito. <br /> +Os tacões de Juliana soaram no corredor. Jorge +aguçava tranquillamente o seu palito. <br /> <br /> -Luiza ento voltou-se para elle, e batendo as -mos, afflicta: <br /> +Luiza então voltou-se para elle, e batendo as +mãos, afflicta: <br /> <br /> -—No lhe digas nada!... <br /> +—Não lhe digas nada!... <br /> <br /> Elle fixou-a, assombrado: <br /> <br /> @@ -19150,73 +19110,73 @@ Elle fixou-a, assombrado: <br /> <br /> Juliana n'este momento abriu o reposteiro. <br /> <br /> -—Ento que desaforo este, sahir e deixar tudo +—Então que desaforo é este, sahir e deixar tudo por arrumar?—disse-lhe Luiza logo, erguendo-se. <br /> <br /><span class="pagenum">[496]</span> -Juliana, que vinha sorrindo, estacou porta, petrificada: -apesar da sua amarellido, uma vaga cr -de sangue espalhou-se-lhe nas feies. <br /> +Juliana, que vinha sorrindo, estacou á porta, petrificada: +apesar da sua amarellidão, uma vaga côr +de sangue espalhou-se-lhe nas feições. <br /> <br /> -—No lhe torne a acontecer semelhante cousa, -ouviu? A sua obrigao estar em casa pela manh...—Mas +—Não lhe torne a acontecer semelhante cousa, +ouviu? A sua obrigação é estar em casa pela manhã...—Mas o olhar de Juliana, que se cravava n'ella terrivelmente, emmudeceu-a. Agarrou no -bule com as mos tremulas.—Deite agua n'este bule, -v. <br /> +bule com as mãos tremulas.—Deite agua n'este bule, +vá. <br /> <br /> -Juliana no se mexeu. <br /> +Juliana não se mexeu. <br /> <br /> -—Voss no ouviu?—berrou de repente Jorge. -E atirou uma punhada mesa, que fez saltar a -loua. <br /> +—Vossê não ouviu?—berrou de repente Jorge. +E atirou uma punhada á mesa, que fez saltar a +louça. <br /> <br /> -—Jorge!—gritou Luiza, agarrando-lhe no brao. <br /> +—Jorge!—gritou Luiza, agarrando-lhe no braço. <br /> <br /> Mas Juliana fugira da sala, correndo. <br /> <br /> —E logo, na rua!—exclamou Jorge.—Faze-lhe -as contas, e que se v. Ah! estou farto! Nem mais -um dia! Se a torno a vr, desfao-a! At que emfim! +as contas, e que se vá. Ah! estou farto! Nem mais +um dia! Se a torno a vêr, desfaço-a! Até que emfim! Chegou-me a minha vez! <br /> <br /> Foi buscar o paletot, muito excitado, e antes de -sahir, voltando sala: <br /> +sahir, voltando á sala: <br /> <br /> -—E que se v hoje mesmo, ouviste? Nem uma +—E que se vá hoje mesmo, ouviste? Nem uma hora mais! Ha quinze dias que a trago aqui atravessada. P'ra a rua! <br /> <br /> <br /> <br /> Luiza veio para o quarto quasi sem se poder suster. -Estava perdida! estava perdida! Uma multido -d'idas, todas extremas e insensatas, redemoinhava +Estava perdida! estava perdida! Uma multidão +d'idéas, todas extremas e insensatas, redemoinhava <span class="pagenum">[497]</span> -no seu cerebro como um monto de folhas seccas +no seu cerebro como um montão de folhas seccas n'uma ventania: queria fugir, atirar-se ao rio, de -noite; arrependia-se de no ter cedido ao Castro... De +noite; arrependia-se de não ter cedido ao Castro... De repente imaginou Jorge abrindo as cartas que Juliana -lhe entregava, lendo: <em>Meu adorado Bazilio!</em> Ento +lhe entregava, lendo: <em>Meu adorado Bazilio!</em> Então uma cobardia immensa amolleceu-lhe a alma. Correu ao quarto de Juliana. Ia supplicar-lhe que lhe perdoasse, que ficasse, que a martyrisasse!... E -Jorge depois? Diria que a Juliana chorra, se atirra +Jorge depois? Diria que a Juliana chorára, se atirára de joelhos! Mentiria, cobril-o-hia de beijos... Era nova, era bonita, era ardente—convencel-o-hia! <br /> <br /> -Juliana no estava no quarto. Subiu cozinha; -estava l, sentada, com os olhos chammejantes, os -braos nervosamente cruzados, n'uma raiva muda. +Juliana não estava no quarto. Subiu á cozinha; +estava lá, sentada, com os olhos chammejantes, os +braços nervosamente cruzados, n'uma raiva muda. Apenas viu Luiza, deu um salto sobre os calcanhares, e mostrando-lhe o punho, berrou: <br /> <br /> -—Olhe que a primeira vez que voss me torna +—Olhe que a primeira vez que vossê me torna a fallar como hoje, vai aqui tudo raso n'esta casa! <br /> <br /> —Cale-se, sua infame!—gritou Luiza. <br /> <br /> -—Voss manda-me calar, sua p...!—E Juliana +—Vossê manda-me calar, sua p...!—E Juliana disse a palavra. <br /> <br /> Mas a Joanna correu, atirou-lhe pelo queixo uma @@ -19224,13 +19184,13 @@ bofetada que a fez cahir, com um gemido, sobre os joelhos. <br /> <br /> —Mulher!—bradou Luiza, arremessando-se sobre -a Joanna, agarrando-a pelos braos. <br /> +a Joanna, agarrando-a pelos braços. <br /> <br /> Juliana, assombrada, fugiu. <br /> <br /> -— Joanna! mulher! que desgraa, que escandalo!—exclamava -Luiza com as mos apertadas -na cabea. +—Ó Joanna! ó mulher! que desgraça, que escandalo!—exclamava +Luiza com as mãos apertadas +na cabeça. <br /> <br /><span class="pagenum">[498]</span> —Racho-a!—dizia a rapariga com os dentes @@ -19240,7 +19200,7 @@ Luiza andava em volta da mesa da cozinha, automaticamente, pallida como a cal, repetindo, toda a tremer: <br /> <br /> -—O que voss foi fazer, mulher! o que voss +—O que vossê foi fazer, mulher! o que vossê foi fazer! <br /> <br /> A Joanna ainda toda revolvida de sua colera, com @@ -19251,164 +19211,164 @@ as panellas. <br /> bebeda! Acabo-a! <br /> <br /> Luiza desceu ao quarto. No corredor sahiu-lhe Juliana, -com a cuia banda, as dedadas escarlates na +com a cuia á banda, as dedadas escarlates na face, medonha. <br /> <br /> -—Ou aquella desavergonhada vai j p'ra a rua—gritou -ella—ou eu vou-me pr l em baixo na +—Ou aquella desavergonhada vai já p'ra a rua—gritou +ella—ou eu vou-me pôr lá em baixo na escada, e quando o seu homem vier, mostro-lhe tudo!... <br /> <br /> -—Pois mostre, faa o que quizer!—disse Luiza, +—Pois mostre, faça o que quizer!—disse Luiza, passando, sem a olhar. <br /> <br /> -Fra uma desesperao, um odio que a tinham +Fôra uma desesperação, um odio que a tinham decidido. Mais valia acabar por uma vez!... <br /> <br /> -Sentia ento como um allivio doloroso, em vr o +Sentia então como um allivio doloroso, em vêr o fim do seu longo martyrio! Havia mezes que elle durava. E pensando em tudo o que tinha feito e que -tinha soffrido, as infamias em que chafurdra e as -humilhaes a que descera, vinha-lhe um tedio de +tinha soffrido, as infamias em que chafurdára e as +humilhações a que descera, vinha-lhe um tedio de si mesma, um nojo immenso da vida. Parecia-lhe que a tinham sujado e espesinhado; que n'ella nem <span class="pagenum">[499]</span> havia orgulho intacto, nem sentimento limpo; que tudo em si, no seu corpo e na sua alma, estava enxovalhado, como um trapo que foi pisado por uma -multido, sobre a lama. No valia a pena luctar por -uma vida to vil. O convento seria j uma purificao, -a morte uma purificao maior...—E onde estava -elle, o homem que a desgrara? Em Paris, retorcendo +multidão, sobre a lama. Não valia a pena luctar por +uma vida tão vil. O convento seria já uma purificação, +a morte uma purificação maior...—E onde estava +elle, o homem que a desgraçára? Em Paris, retorcendo a guia dos bigodes, chalaceando, governando os seus cavallos, dormindo com outras! E ella morria alli, estupidamente! E quando lhe escrevera a pedir-lhe que a salvasse, nem uma palavra de resposta; -nem a julgra digna do meio tosto da estampilha! +nem a julgára digna do meio tostão da estampilha! O que elle lhe dizia pelas terras da Polvora -acima, n'aquelle <em>coup</em>:—Dar-lhe-hia toda a -sua vida, viveria sombra das suas saias! O infame! -J tinha talvez no bolso o bilhete da passagem! -Em quanto ella fra a mulher alegre, que vem, despe -o corpete, mostra um lindo collo—ento bem, +acima, n'aquelle <em>coupé</em>:—Dar-lhe-hia toda a +sua vida, viveria á sombra das suas saias! O infame! +Já tinha talvez no bolso o bilhete da passagem! +Em quanto ella fôra a mulher alegre, que vem, despe +o corpete, mostra um lindo collo—então bem, prompto! Mas teve uma difficuldade, chorou, soffreu—ah! -no, isso no! s um bello animal que me -ds um grande prazer—perfeitamente, tudo o que +não, isso não! És um bello animal que me +dás um grande prazer—perfeitamente, tudo o que quizeres: mas tornas-te uma creatura dolorida que -precisa consolaes, talvez uns poucos de centos de -mil reis—ento boas noites, c vou no paquete! -Oh que estupida que a vida! Ainda bem que a +precisa consolações, talvez uns poucos de centos de +mil reis—então boas noites, cá vou no paquete! +Oh que estupida que é a vida! Ainda bem que a deixava! <br /> <br /> -Foi-se encostar janella. Estava um dia muito -azul, muito dce. O sol punha grandes claridades de +Foi-se encostar á janella. Estava um dia muito +azul, muito dôce. O sol punha grandes claridades de um dourado ligeiro sobre as paredes brancas, sobre -a calada. E havia no ar uma suavidade avelludada. +a calçada. E havia no ar uma suavidade avelludada. <span class="pagenum">[500]</span> -O Paula, em chinellas de tapete, aquecia-se porta -do estanque. Ento, diante do lindo ar d'inverno, enterneceu-se. -Todos eram felizes n'aquella manh de -rosas, s ella soffria, pobre d'ella! E ficou a olhar, +O Paula, em chinellas de tapete, aquecia-se á porta +do estanque. Então, diante do lindo ar d'inverno, enterneceu-se. +Todos eram felizes n'aquella manhã de +rosas, só ella soffria, pobre d'ella! E ficou a olhar, como esquecida n'uma vaga saudade, com uma lagrima na palpebra... De repente viu Juliana atravessar a rua, dobrar a esquina,—e d'ahi a pouco voltar com um gallego, velho e pesado, que trazia o seu sacco ao hombro. <br /> <br /> -Ia-se embora!—pensou Luiza.—Mandava pr -fra os bahus! E depois? Remettia as cartas a Jorge, +Ia-se embora!—pensou Luiza.—Mandava pôr +fóra os bahus! E depois? Remettia as cartas a Jorge, ou entregava-lh'as ella mesma, no portal! Santo -Deus!—E parecia-lhe vr Jorge apparecer no quarto, -livido, com as cartas na mo!... <br /> +Deus!—E parecia-lhe vêr Jorge apparecer no quarto, +livido, com as cartas na mão!... <br /> <br /> -Veio-lhe um terror allucinado: no queria perder +Veio-lhe um terror allucinado: não queria perder o seu marido, o seu Jorge, o seu amor, a sua casa, o seu homem! Apossou-se d'ella a revolta da femea contra a viuvez: aos vinte e cinco annos ir -murchar para um convento! No, c'os diabos! <br /> +murchar para um convento! Não, c'os diabos! <br /> <br /> Foi direita ao quarto de Juliana. <br /> <br /> -—Vem vr se lhe levo alguma cousa?—gritou +—Vem vêr se lhe levo alguma cousa?—gritou logo a outra furiosa. <br /> <br /> Sobre a cama estava roupa branca espalhada, -pelo cho botinas embrulhadas em jornaes velhos. <br /> +pelo chão botinas embrulhadas em jornaes velhos. <br /> <br /> -—E ainda c me ficam quatro camisas, dous pares +—E ainda cá me ficam quatro camisas, dous pares de calcinhas, tres pares de meias, seis punhos na lavadeira. Fica ahi o rol. E quero as minhas contas!... <br /> <br /> -—Escute, Juliana, no se v.—Mas a voz desappareceu-lhe, +—Escute, Juliana, não se vá.—Mas a voz desappareceu-lhe, as lagrimas saltaram-lhe dos olhos. <br /> <br /><span class="pagenum">[501]</span> Juliana poz-se a olhar para ella d'alto, triumphando, -com uma botina de duraque em cada mo. <br /> +com uma botina de duraque em cada mão. <br /> <br /> -— mandar aquella desavergonhada embora, e -est tudo acabado!—E com uma voz aguda, batendo +—É mandar aquella desavergonhada embora, e +está tudo acabado!—E com uma voz aguda, batendo as solas das botinas:—Fica tudo como d'antes, na paz do Senhor! <br /> <br /> Uma alegria extraordinaria accendia-lhe o olhar. Vingava-se! fazia-a chorar! expulsava a <em>outra</em>! e -no perdia os seus commodos! <br /> +não perdia os seus commodos! <br /> <br /> -— pr a bebeda na rua! pl-a na rua! <br /> +—É pôr a bebeda na rua! É pôl-a na rua! <br /> <br /> -Luiza curvou os hombros, foi cozinha devagar; +Luiza curvou os hombros, foi á cozinha devagar; os degraus da escada pareciam-lhe immensos, infindaveis. Deixou-se cahir n'um banco, e limpando os olhos: <br /> <br /> -—Joanna, venha c, escute, voss no pde +—Joanna, venha cá, escute, vossê não póde continuar na casa... <br /> <br /> A rapariga ficou a olhar para ella, espantada. <br /> <br /> —O que a Juliana disse foi n'um repente... Tem -estado a chorar, a arrepender-se. a criada mais +estado a chorar, a arrepender-se. É a criada mais antiga. O senhor estima-a muito... <br /> <br /> -—Ento a senhora manda-me embora? Ento a +—Então a senhora manda-me embora? Então a senhora manda-me embora? <br /> <br /> Luiza insistiu, baixo, envergonhada: <br /> <br /> -—Foi um repente, tem estado a pedir perdo... <br /> +—Foi um repente, tem estado a pedir perdão... <br /> <br /> —Eu foi para defender a senhora!—exclamou -a rapariga, abrindo os braos, afflicta. <br /> +a rapariga, abrindo os braços, afflicta. <br /> <br /> Luiza sentiu-se indigna; e impaciente, para acabar: <br /> <br /> -—Bem, Joanna, no estejamos com mais. Eu +—Bem, Joanna, não estejamos com mais. Eu é que sou a dona da casa... Vou-lhe fazer as contas. <br /> <br /><span class="pagenum">[502]</span> -—Olha que pago este!—gritou Joanna, ento, -desesperada. E com uma resoluo, batendo o p:—Pois -o senhor que ha-de dizer! Eu vou dizer +—Olha que pago este!—gritou Joanna, então, +desesperada. E com uma resolução, batendo o pé:—Pois +o senhor é que ha-de dizer! Eu vou dizer tudo ao senhor! Hei-de-lhe contar tudo o que se passou! -A senhora no tem razo!... <br /> +A senhora não tem razão!... <br /> <br /> Luiza olhava-a, estupida. Agora era aquella! Era -d'aquella rapariga, teimosa na sua justia, que vinha +d'aquella rapariga, teimosa na sua justiça, que vinha o desastre! Era de mais! Veio-lhe um terror sobrenatural, como um espanto da consciencia, e apertando -as fontes nas mos abertas: <br /> +as fontes nas mãos abertas: <br /> <br /> -—Que expiao! Que expiao, Santo Deus! <br /> +—Que expiação! Que expiação, Santo Deus! <br /> <br /> De repente, como desvairada, agarrou Joanna -pelos braos, e fallando-lhe junto do rosto: <br /> +pelos braços, e fallando-lhe junto do rosto: <br /> <br /> -—Joanna, v-se pelo amor de Deus, v-se! No -diga nada. Despea-se voss!—E perdendo inteiramente +—Joanna, vá-se pelo amor de Deus, vá-se! Não +diga nada. Despeça-se vossê!—E perdendo inteiramente todo o respeito proprio, cahiu de joelhos, -diante da cozinheira, soluando:—Pelas cinco chagas -de Christo, v, Joanna, minha rica Joanna, v. -Peo-lhe eu, Joanna! Pelo amor de Deus! <br /> +diante da cozinheira, soluçando:—Pelas cinco chagas +de Christo, vá, Joanna, minha rica Joanna, vá. +Peço-lhe eu, Joanna! Pelo amor de Deus! <br /> <br /> A rapariga, assombrada, rompeu n'um choro estridente. <br /> <br /> @@ -19416,47 +19376,47 @@ A rapariga, assombrada, rompeu n'um choro estridente. <br /> rica senhora! <br /> <br /> —Sim, Joanna, sim. Eu dou-lhe alguma cousa. -Voss bem v... No chore... Espere... <br /> +Vossê bem vê... Não chore... Espere... <br /> <br /> Desceu ao quarto correndo, tirou da gaveta duas libras das suas economias, voltou, galgando os degraus, -metteu-lh'as na mo, dizendo-lhe baixo: <br /> +metteu-lh'as na mão, dizendo-lhe baixo: <br /> <br /> -—Faa uma trouxa, eu manh lhe mandarei o +—Faça uma trouxa, eu ámanhã lhe mandarei o bahu. <br /> <br /><span class="pagenum">[503]</span> -—Sim, minha senhora—soluava a rapariga, -babada de dr—sim, minha rica senhora! <br /> +—Sim, minha senhora—soluçava a rapariga, +babada de dôr—sim, minha rica senhora! <br /> <br /> -Luiza veio deixar-se cahir de bruos sobre a sua +Luiza veio deixar-se cahir de bruços sobre a sua <em>chaise-longue</em>, n'um choro convulsivo tambem, desejando a morte, pedindo, n'um terror, piedade a Deus! <br /> <br /> -Mas a voz aspera de Juliana disse bruscamente +Mas a voz aspera de Juliana disse bruscamente á porta: <br /> <br /> -—Ento em que ficamos? <br /> +—Então em que ficamos? <br /> <br /> —A Joanna vai-se. Que quer mais? <br /> <br /> -—Que sia j!—disse a outra imperiosamente.—Que -o jantar o fao eu. Por hoje, j se v! <br /> +—Que sáia já!—disse a outra imperiosamente.—Que +o jantar o faço eu. Por hoje, já se vê! <br /> <br /> As lagrimas de Luiza seccavam-se, de raiva. <br /> <br /> -—E a senhora agora oua! <br /> +—E a senhora agora ouça! <br /> <br /> -O tom de Juliana era to insultante, que Luiza +O tom de Juliana era tão insultante, que Luiza ergueu-se, como ferida. <br /> <br /> -E Juliana, ameaando-a, d'alto, com o dedo erguido: <br /> +E Juliana, ameaçando-a, d'alto, com o dedo erguido: <br /> <br /> -—E a senhora agora andar-me direita, seno +—E a senhora agora é andar-me direita, senão eu lh'as cantarei!... <br /> <br /> -E voltou as costas, batendo os taces. <br /> +E voltou as costas, batendo os tacões. <br /> <br /> <br /> <br /> @@ -19466,24 +19426,24 @@ correcto; nem uma prega das cortinas se movera, e os dous pastorinhos de porcelana sobre o toucador sorriam pretenciosamente. <br /> <br /> -Ento tirou o roupo violentamente, passou um +Então tirou o roupão violentamente, passou um <span class="pagenum">[504]</span> vestido sem apertar o corpete, vestiu por cima um -casaco largo d'inverno, atirou o chapo para a cabea -despenteada, sahiu, desceu a rua tropeando nas +casaco largo d'inverno, atirou o chapéo para a cabeça +despenteada, sahiu, desceu a rua tropeçando nas saias, quasi a correr. <br /> <br /> O Paula saltou para o meio da rua para a seguir: -viu-a parar porta de Sebastio, e veio dizer - estanqueira: <br /> +viu-a parar á porta de Sebastião, e veio dizer +á estanqueira: <br /> <br /> —Em casa do Engenheiro ha novidade! <br /> <br /> -E ficou plantado porta com os olhos cravados +E ficou plantado á porta com os olhos cravados para as janellas abertas, onde as bambinellas de reps verde cahiam com as suas pregas immoveis. <br /> <br /> -—O snr. Sebastio?—perguntava Luiza rapariguita +—O snr. Sebastião?—perguntava Luiza á rapariguita sardenta, que correra a abrir a porta. <br /> <br /> E ia entrando pelo corredor. <br /> @@ -19492,16 +19452,16 @@ E ia entrando pelo corredor. <br /> <br /> Luiza subiu; sentia sons de piano; abriu violentamente a porta, e correndo para elle, apertando as -mos contra o peito, n'uma voz angustiosa e sumida: <br /> +mãos contra o peito, n'uma voz angustiosa e sumida: <br /> <br /> -—Sebastio, escrevi uma carta a um homem, a +—Sebastião, escrevi uma carta a um homem, a Juliana apanhou-m'a. Estou perdida! <br /> <br /> Elle ergueu-se devagar, assombrado, muito branco; -viu-lhe o rosto manchado, o chapo mal posto, -a afflico do olhar: <br /> +viu-lhe o rosto manchado, o chapéo mal posto, +a afflicção do olhar: <br /> <br /> -—Que ? Que ? <br /> +—Que é? Que é? <br /> <br /> —Escrevi a meu primo—repetiu, com os olhos cravados n'elle, anciosamente—a mulher apanhou-me @@ -19509,271 +19469,271 @@ a carta... Estou perdida! <br /> <br /> Fez-se muito pallida, os olhos cerraram-se-lhe. <br /> <br /> -Sebastio amparou-a, levou-a meio desmaiada -para o soph de damasco amarello. E ficou de p, +Sebastião amparou-a, levou-a meio desmaiada +para o sophá de damasco amarello. E ficou de pé, <span class="pagenum">[505]</span> -mais descrado que ella, com as mos nos bolsos -do seu jaqueto azul, immovel, estupido. <br /> +mais descórado que ella, com as mãos nos bolsos +do seu jaquetão azul, immovel, estupido. <br /> <br /> -De repente correu fra, trouxe um copo d'agua, +De repente correu fóra, trouxe um copo d'agua, borrifou-lhe o rosto ao acaso. Ella abriu os olhos, -as suas mos errantes apalparam em redor, fitou-o -espantada, e deixando-se cahir sobre o brao do canap, -com o rosto escondido nas mos, rompeu +as suas mãos errantes apalparam em redor, fitou-o +espantada, e deixando-se cahir sobre o braço do canapé, +com o rosto escondido nas mãos, rompeu n'um choro hysterico. <br /> <br /> -O seu chapo cahira. Sebastio apanhou-o, sacudiu-lhe -delicadamente as flres, pl-o sobre a jardineira -com cuidado; e vindo nas pontas dos ps -debruar-se junto d'ella: <br /> +O seu chapéo cahira. Sebastião apanhou-o, sacudiu-lhe +delicadamente as flôres, pôl-o sobre a jardineira +com cuidado; e vindo nas pontas dos pés +debruçar-se junto d'ella: <br /> <br /> -—Ento! ento!—murmurava. E as suas mos -tocando-lhe de leve o brao, tremiam como folhas. <br /> +—Então! então!—murmurava. E as suas mãos +tocando-lhe de leve o braço, tremiam como folhas. <br /> <br /> Quiz dar-lhe agua para a socegar: ella recusou -com a mo, endireitou-se devagar no soph, limpando -os olhos, assoando-se com grandes soluos. <br /> +com a mão, endireitou-se devagar no sophá, limpando +os olhos, assoando-se com grandes soluços. <br /> <br /> -—Desculpe, Sebastio, desculpe—dizia.—Bebeu -ento um gole d'agua, ficou com as mos no -regao, quebrada; e, uma a uma, as suas lagrimas +—Desculpe, Sebastião, desculpe—dizia.—Bebeu +então um gole d'agua, ficou com as mãos no +regaço, quebrada; e, uma a uma, as suas lagrimas silenciosas cahiam sem cessar. <br /> <br /> -Sebastio foi fechar a porta—e vindo ao p -d'ella, com muita doura: <br /> +Sebastião foi fechar a porta—e vindo ao pé +d'ella, com muita doçura: <br /> <br /> -—Mas ento? Que foi? <br /> +—Mas então? Que foi? <br /> <br /> Ella ergueu para elle a sua face chorosa, onde os olhos brilhavam febrilmente; olhou-o um momento, -e deixando pender a cabea, toda humilhada: <br /> +e deixando pender a cabeça, toda humilhada: <br /> <br /> -—Uma desgraa, Sebastio, uma vergonha!—murmurou. <br /> +—Uma desgraça, Sebastião, uma vergonha!—murmurou. <br /> <br /> -—No se afflija! No se afflija! +—Não se afflija! Não se afflija! <br /> <br /><span class="pagenum">[506]</span> -Sentou-se ao p d'ella, e baixo, com solemnidade: <br /> +Sentou-se ao pé d'ella, e baixo, com solemnidade: <br /> <br /> -—Tudo o que eu puder, tudo o que fr necessario, +—Tudo o que eu puder, tudo o que fôr necessario, aqui me tem! <br /> <br /> -—Oh Sebastio!...—exclamou n'um impulso +—Oh Sebastião!...—exclamou n'um impulso de reconhecimento humilde; e acrescentou:—Acredite, tenho sido bem castigada! O que eu tenho soffrido, -Sebastio! <br /> +Sebastião! <br /> <br /> Esteve um momento com os olhos cravados no -cho; e agarrando-lhe o brao de repente, com fora, +chão; e agarrando-lhe o braço de repente, com força, as palavras romperam abundantes e precipitadas, -como os borbulhes d'uma agua comprimida que +como os borbulhões d'uma agua comprimida que rebenta. <br /> <br /> -—Apanhou-me a carta, no sei como, por um +—Apanhou-me a carta, não sei como, por um descuido meu! Ao principio pediu-me seiscentos mil -reis. Depois comeou a martyrisar-me... Tive de lhe +reis. Depois começou a martyrisar-me... Tive de lhe dar vestidos, roupa, tudo! Mudou de quarto, servia-se -dos meus lenoes, dos finos. Era a dona da casa. -O servio quem o faz sou eu!... Ameaa-me todos -os dias, um monstro. Tudo tem sido baldado, boas +dos meus lençoes, dos finos. Era a dona da casa. +O serviço quem o faz sou eu!... Ameaça-me todos +os dias, é um monstro. Tudo tem sido baldado, boas palavras, bons modos... E onde tenho eu dinheiro? -Pois no verdade? Ella bem via... O que eu tenho -soffrido! Dizem que estou mais magra, at o Sebastio -reparou. A minha vida um inferno. Se Jorge +Pois não é verdade? Ella bem via... O que eu tenho +soffrido! Dizem que estou mais magra, até o Sebastião +reparou. A minha vida é um inferno. Se Jorge soubesse!... Aquella infame queria hoje dizer-lhe -tudo!... E trabalho como uma negra. Logo pela manh -a limpar e varrer. s vezes tenho de lavar as -chicaras do almoo. Tenha piedade de mim, Sebastio, -por quem , Sebastio! coitada de mim, no +tudo!... E trabalho como uma negra. Logo pela manhã +a limpar e varrer. Ás vezes tenho de lavar as +chicaras do almoço. Tenha piedade de mim, Sebastião, +por quem é, Sebastião! coitada de mim, não tenho ninguem n'este mundo. <br /> <br /><span class="pagenum"><a name="p507" id="p507">[507]</a></span> -E chorava, com as mos sobre o rosto. <br /> +E chorava, com as mãos sobre o rosto. <br /> <br /> -Sebastio, calado, mordia o beio; duas lagrimas +Sebastião, calado, mordia o beiço; duas lagrimas rolavam-lhe tambem pela face, sobre a barba. E levantando-se, devagar: <br /> <br /> —Mas Santo nome de Deus, minha senhora! porque -me no disse ha mais tempo? <br /> +me não disse ha mais tempo? <br /> <br /> -— Sebastio, podia l! Uma vez estive para -lh'o dizer... Mas no pude, no pude! <br /> +—Ó Sebastião, podia lá! Uma vez estive para +lh'o dizer... Mas não pude, não pude! <br /> <br /> —Fez mal!... <br /> <br /> -—Esta manh o Jorge quiz pl-a fra. Embirra -com ella, percebe os desmazelos. Mas no desconfia -de nada, Sebastio!...—E desviou os olhos, muito -escarlate.—Escarnecia-me s vezes por eu parecer -to <a href="#e26">apaixonada</a> por ella... Mas esta manh zangou-se, +—Esta manhã o Jorge quiz pôl-a fóra. Embirra +com ella, percebe os desmazelos. Mas não desconfia +de nada, Sebastião!...—E desviou os olhos, muito +escarlate.—Escarnecia-me ás vezes por eu parecer +tão <a href="#e26">apaixonada</a> por ella... Mas esta manhã zangou-se, mandou-a embora. Apenas elle sahiu, veio como uma furia, insultou-me... <br /> <br /> -—Santo Deus!—murmurava Sebastio assombrado, -com a mo sobre a testa. <br /> +—Santo Deus!—murmurava Sebastião assombrado, +com a mão sobre a testa. <br /> <br /> -—Talvez no acredite, Sebastio, sou eu que -fao os despejos!... <br /> +—Talvez não acredite, Sebastião, sou eu que +faço os despejos!... <br /> <br /> —Mas merece a morte, essa infame!—exclamou -batendo com o p no cho. <br /> +batendo com o pé no chão. <br /> <br /> Deu alguns passos pesados pela sala, devagar, as -mos nos bolsos, os seus largos hombros curvados. -Voltou sentar-se ao p d'ella, e tocando-lhe timidamente -no brao, muito baixo: <br /> +mãos nos bolsos, os seus largos hombros curvados. +Voltou sentar-se ao pé d'ella, e tocando-lhe timidamente +no braço, muito baixo: <br /> <br /> -— necessario tirar-lhe as cartas... <br /> +—É necessario tirar-lhe as cartas... <br /> <br /> —Mas como? <br /> <br /> -Sebastio coava a barba, a testa. <br /> +Sebastião coçava a barba, a testa. <br /> <br /> —Ha-de-se arranjar—disse, por fim. <br /> <br /><span class="pagenum">[508]</span> -Ella agarrou-lhe a mo: <br /> +Ella agarrou-lhe a mão: <br /> <br /> -—Oh Sebastio, se fizesse isso! <br /> +—Oh Sebastião, se fizesse isso! <br /> <br /> —Ha-de-se arranjar. <br /> <br /> Esteve um momento calculando—e com o seu tom grave: <br /> <br /> -—Eu vou-me entender com ella... necessario -que ella esteja s em casa... Podiam ir ao theatro, +—Eu vou-me entender com ella... É necessario +que ella esteja só em casa... Podiam ir ao theatro, esta noite. <br /> <br /> Levantou-se lentamente, foi buscar o <em>Jornal do Commercio</em>, sobre a mesa, olhou os annuncios: <br /> <br /> —Podiam ir a S. Carlos, que acaba mais tarde... - o <em>Fausto</em>... Podiam ir vr o <em>Fausto</em>... <br /> +É o <em>Fausto</em>... Podiam ir vêr o <em>Fausto</em>... <br /> <br /> -—Podiamos ir vr o <em>Fausto</em>—repetiu Luiza, suspirando. <br /> +—Podiamos ir vêr o <em>Fausto</em>—repetiu Luiza, suspirando. <br /> <br /> -E ento, muito chegados, ao canto do soph, Sebastio +E então, muito chegados, ao canto do sophá, Sebastião foi-lhe dizendo um plano, em palavras baixas, que ella devorava, anciosa. <br /> <br /> Devia escrever a D. Felicidade, para a acompanhar ao theatro... Mandar um recado a Jorge, prevenindo-o que o iriam buscar ao <em>Hotel Gibraltar</em>... -E a Joanna? A Joanna deixra a casa. Bem. s nove -horas, ento, Juliana estaria s. <br /> +E a Joanna? A Joanna deixára a casa. Bem. Ás nove +horas, então, Juliana estaria só. <br /> <br /> -—V como tudo se arranja?—disse elle, sorrindo. <br /> +—Vê como tudo se arranja?—disse elle, sorrindo. <br /> <br /> Era verdade... Mas daria a mulher as cartas? <br /> <br /> -Sebastio tornou a coar a barba, a testa: <br /> +Sebastião tornou a coçar a barba, a testa: <br /> <br /> —Ha-de dar—disse. <br /> <br /> Luiza olhava-o quasi com ternura: parecia-lhe -vr na sua face honesta, uma alta belleza moral. E -de p diante d'elle, com uma melancolia na voz: +vêr na sua face honesta, uma alta belleza moral. E +de pé diante d'elle, com uma melancolia na voz: <br /> <br /><span class="pagenum">[509]</span> -—E vai fazer isso por mim, Sebastio, por mim, -que fui to m mulher... <br /> +—E vai fazer isso por mim, Sebastião, por mim, +que fui tão má mulher... <br /> <br /> -Sebastio crou, respondeu encolhendo os hombros: <br /> +Sebastião córou, respondeu encolhendo os hombros: <br /> <br /> -—No ha ms mulheres, minha rica senhora, ha -maus homens, o que ha! <br /> +—Não ha más mulheres, minha rica senhora, ha +maus homens, é o que ha! <br /> <br /> E acrescentou logo: <br /> <br /> —Eu vou buscar o camarote. Uma boa frisa, -hein?... Uma frisasinha ao p do palco... <br /> +hein?... Uma frisasinha ao pé do palco... <br /> <br /> -Sorria, para a tranquillisar. Ella punha o chapo, -descia o vo com pequeninos soluos tristes, que -voltavam a espaos. <br /> +Sorria, para a tranquillisar. Ella punha o chapéo, +descia o véo com pequeninos soluços tristes, que +voltavam a espaços. <br /> <br /> No corredor encontraram a tia Joanna com os -braos abertos; beijou muito Luiza; aquella visita -era um milagre! E que bonita que estava! era a flr +braços abertos; beijou muito Luiza; aquella visita +era um milagre! E que bonita que estava! era a flôr do bairro! <br /> <br /> -—Est bom, tia Joanna, est bom—disse Sebastio, +—Está bom, tia Joanna, está bom—disse Sebastião, afastando-a brandamente. <br /> <br /> -Ora que no fosse mettedio! J l a tinha tido +Ora que não fosse mettediço! Já lá a tinha tido mais de meia hora, tambem ella agora a queria um -bocadinho! Assim que elle devia ter uma mulherzinha! -Uma rapariga de bem! Uma aucena! <br /> +bocadinho! Assim é que elle devia ter uma mulherzinha! +Uma rapariga de bem! Uma açucena! <br /> <br /> -Luiza corava, embaraada. <br /> +Luiza corava, embaraçada. <br /> <br /> E o snr. Jorge? que era feito d'elle? Ninguem o via. E a D. Felicidade? <br /> <br /> -—Est bom, basta, tia Joanna!—fez Sebastio +—Está bom, basta, tia Joanna!—fez Sebastião impaciente. <br /> <br /> —Olha o sofrego!... Ninguem lhe come a menina!... Cruzes!... <br /> <br /> -Luiza sorriu; lembrou-se ento de repente que +Luiza sorriu; lembrou-se então de repente que <span class="pagenum">[510]</span> -no tinha por quem mandar os bilhetes a D. Felicidade +não tinha por quem mandar os bilhetes a D. Felicidade e a Jorge, ao hotel. <br /> <br /> -Sebastio fel-a entrar logo em baixo no escriptorio: +Sebastião fel-a entrar logo em baixo no escriptorio: que escrevesse, elle os mandaria: escolheu-lhe o papel, molhando-lhe a penna—mais prompto, mais delicado desde que a sabia infeliz. Luiza fez o bilhete -para Jorge; e, como apesar das suas afflices, +para Jorge; e, como apesar das suas afflicções, se lembrou com terror de certo vestido verde decotado de D. Felicidade, acrescentou n'um <em>P. S.</em>, no -bilhete para ella: o melhor vires de preto, e no -fazeres grande <em>toilette</em>. Nada de decotes nem de cres -claras. <br /> +bilhete para ella: «o melhor é vires de preto, e não +fazeres grande <em>toilette</em>. Nada de decotes nem de côres +claras.» <br /> <br /> <br /> <br /> Quando entrou em casa, viu um gallego sahindo com a trouxasita de Joanna. E logo no corredor sentiu a voz grossa da rapariga, que das escadas da cozinha -dizia para cima, ameaadoramente: <br /> +dizia para cima, ameaçadoramente: <br /> <br /> -—Torne eu a apanhal-a, que no me sahe viva -das mos, sua bebeda! <br /> +—Torne eu a apanhal-a, que não me sahe viva +das mãos, sua bebeda! <br /> <br /> —Bufa! bufa!—gritou de cima Juliana—mas vai-te indo para o olho da rua! <br /> <br /> -Luiza escutava mordendo os beios. Em que se -convertera a sua casa! Uma praa! Uma taberna! <br /> +Luiza escutava mordendo os beiços. Em que se +convertera a sua casa! Uma praça! Uma taberna! <br /> <br /> —Se eu t'apanho!—rosnava a Joanna descendo. <br /> <br /> —Rua! rua, sua porca!—gania a Juliana. <br /> <br /> -Luiza ento chamou a rapariga: <br /> +Luiza então chamou a rapariga: <br /> <br /> -—Joanna, no procure casa, venha por aqui -alm d'amanh—disse-lhe baixo. +—Joanna, não procure casa, venha por aqui +além d'amanhã—disse-lhe baixo. <br /> <br /><span class="pagenum">[511]</span> Juliana em cima cantava a <em>Carta adorada</em>, com um jubilo estridente. <br /> <br /> E d'ahi a pouco desceu, veio dizer, muito seccamente, -que estava o jantar na mesa. <br /> +«que estava o jantar na mesa». <br /> <br /> -Luiza no respondeu. Esperou que ella subisse -cozinha, correu sala de jantar, trouxe po, um +Luiza não respondeu. Esperou que ella subisse á +cozinha, correu á sala de jantar, trouxe pão, um prato de marmelada, uma faca, veio fechar-se no quarto;—e alli <em>jantou</em>, a um canto da jardineira. <br /> <br /> -s seis horas um trem parou porta. Devia ser -Sebastio! Foi ella mesma abrir, em bicos de ps. -Era elle, animado, vermelho, com o chapo na mo: +Ás seis horas um trem parou á porta. Devia ser +Sebastião! Foi ella mesma abrir, em bicos de pés. +Era elle, animado, vermelho, com o chapéo na mão: trazia-lhe a chave da frisa numero dezoito... <br /> <br /> —E isto... <br /> @@ -19781,29 +19741,29 @@ trazia-lhe a chave da frisa numero dezoito... <br /> Era um ramo de camelias vermelhas, rodeadas de violetas dobradas. <br /> <br /> -—Oh Sebastio!—murmurou ella, com um reconhecimento +—Oh Sebastião!—murmurou ella, com um reconhecimento commovido. <br /> <br /> —E carruagem, tem? <br /> <br /> -—No <br /> +—Não <br /> <br /> -—Eu c mando. s oito, hein? <br /> +—Eu cá mando. Ás oito, hein? <br /> <br /> E desceu, todo feliz de a servir. Ella seguiu-o -com o olhar que se humedecia. Foi janella do -quarto vl-o sahir.—Que homem! pensava. E cheirava -as violetas, voltava o ramo na mo, sentia -tambem um prazer dce na proteco d'elle, nos seus +com o olhar que se humedecia. Foi á janella do +quarto vêl-o sahir.—Que homem! pensava. E cheirava +as violetas, voltava o ramo na mão, sentia +tambem um prazer dôce na protecção d'elle, nos seus cuidados. <br /> <br /> -Ns de dedos bateram porta do quarto: <br /> +Nós de dedos bateram á porta do quarto: <br /> <br /> -—Ento a senhora no quer jantar?—disse a -voz impaciente de Juliana, de fra. +—Então a senhora não quer jantar?—disse a +voz impaciente de Juliana, de fóra. <br /> <br /><span class="pagenum"><a name="p512" id="p512">[512]</a></span> -—No. <br /> +—Não. <br /> <br /> —Mais fica! <br /> <br /> @@ -19811,41 +19771,41 @@ voz impaciente de Juliana, de fra. <br /> D. Felicidade veio um pouco antes das oito. Luiza ficou tranquilla, vendo-a com vestido preto afogado, -e o seu adereo d'esmeraldas. <br /> +e o seu adereço d'esmeraldas. <br /> <br /> -—Ento que isto? Que estroinice esta, vamos +—Então que é isto? Que estroinice é esta, vamos a saber?—disse logo, muito alegre, a excellente senhora. <br /> <br /> -Um capricho!—O Jorge tinha jantado fra, ella -sentira-se to s!... Dera-lhe o appetite d'ir ao theatro. -No pudera resistir... Tinham de o ir buscar pelo +Um capricho!—O Jorge tinha jantado fóra, ella +sentira-se tão só!... Dera-lhe o appetite d'ir ao theatro. +Não pudera resistir... Tinham de o ir buscar pelo <em>Hotel Gibraltar</em>. <br /> <br /> —Eu tinha acabado de jantar quando recebi o -teu bilhete. Fiquei!... E estive p'ra no vir—disse, +teu bilhete. Fiquei!... E estive p'ra não vir—disse, sentando-se, com pancadinhas muito satisfeitas nas pregas do vestido.—Apertar-me depois de jantar! -Felizmente, no tinha comido quasi nada! <br /> +Felizmente, não tinha comido quasi nada! <br /> <br /> -Quiz ento saber o que ia. O <em>Fausto</em>? Ainda bem! +Quiz então saber o que ia. O <em>Fausto</em>? Ainda bem! De que lado era a frisa? dezoito. Perdiam a vista da familia real, era pena!... Pois estava mais longe <a href="#e27">d'aquella</a> noitada de theatro!...—E erguendo-se passeava diante do toucador com olhares de lado, alisando -os bands, ageitando as pulseiras, entalada +os bandós, ageitando as pulseiras, entalada nos espartilhos, a pupilla luzidia. <br /> <br /> -Uma carruagem parou porta. <br /> +Uma carruagem parou á porta. <br /> <br /> —O trem!—disse, toda risonha. <br /> <br /> -Luiza calando as luvas, j com a capa, olhava +Luiza calçando as luvas, já com a capa, olhava <span class="pagenum">[513]</span> -em redor: o corao batia-lhe alto; nos seus olhos -havia uma febre. No lhe faltava nada? perguntou -D. Felicidade. A chave da frisa? o leno? <br /> +em redor: o coração batia-lhe alto; nos seus olhos +havia uma febre. Não lhe faltava nada? perguntou +D. Felicidade. A chave da frisa? o lenço? <br /> <br /> —Ai! o meu ramo!—exclamou Luiza. <br /> <br /> @@ -19853,68 +19813,68 @@ Juliana ficou espantada quando a viu vestida <em>p'ra theatro</em>. Foi alumiar, calada; e atirando a cancella com uma pancada insolente: <br /> <br /> -—No tem mesmo vergonha n'aquella cara!—rosnou. <br /> +—Não tem mesmo vergonha n'aquella cara!—rosnou. <br /> <br /> -O trem j rodava, quando D. Felicidade rompeu +O trem já rodava, quando D. Felicidade rompeu a gritar, batendo nos vidros: <br /> <br /> —Espere, pare! Que ferro, esqueceu-me o leque! -No posso ir sem leque! Pare, cocheiro! <br /> +Não posso ir sem leque! Pare, cocheiro! <br /> <br /> —Faz-se tarde, filha, dou-te o meu. Toma!—fez Luiza impaciente. <br /> <br /> -Aquellas agitaes abalavam a digesto comprimida +Aquellas agitações abalavam a digestão comprimida de D. Felicidade; felizmente, como ella dizia, -arrotava! Graas a Deus, louvada seja Nossa Senhora, +arrotava! Graças a Deus, louvada seja Nossa Senhora, que podia arrotar! <br /> <br /> Mas a descida do Chiado alegrou-a muito. Grupos -escuros, onde se gesticulava, destacavam s portas +escuros, onde se gesticulava, destacavam ás portas vivamente alumiadas da Casa Havaneza; os trens passavam para o lado do Picadeiro, com um rapido reluzir de lanternas ricas, que alumiavam as bandas brancas dos capotes dos criados. D. Felicidade com -a sua face jubilosa portinhola, gozava a claridade +a sua face jubilosa á portinhola, gozava a claridade do gaz nas vitrines, o ar d'inverno; e foi com uma -satisfao que viu o guarda-porto do <em>Gibraltar</em>, de -cales vermelhos, vir com o bon na mo, portinhola. +satisfação que viu o guarda-portão do <em>Gibraltar</em>, de +calções vermelhos, vir com o boné na mão, á portinhola. <br /> <br /><span class="pagenum">[514]</span> Perguntaram por Jorge. <br /> <br /> E, caladas, olhavam a escada de lance decorativo -onde globos foscos derramavam uma luz dce. D. -Felicidade, muito curiosa da vida d'hotel, reparou +onde globos foscos derramavam uma luz dôce. D. +Felicidade, muito curiosa da «vida d'hotel», reparou na engommadeira que entrou com um cesto de roupa; -depois n'uma senhora que lhe pareceu estabanada, -e que descia, vestida de <em>soire</em>, mostrando o -p calado n'um sapato redondo de setim branco: e -sorria de vr sujeitos roarem-se pelo trem, lanando +depois n'uma senhora que lhe pareceu «estabanada», +e que descia, vestida de <em>soirée</em>, mostrando o +pé calçado n'um sapato redondo de setim branco: e +sorria de vêr sujeitos roçarem-se pelo trem, lançando para dentro olhares gulosos. <br /> <br /> -—Esto a arder por saber quem somos. <br /> +—Estão a arder por saber quem somos. <br /> <br /> -Luiza calada apertava nas mos o seu ramo. +Luiza calada apertava nas mãos o seu ramo. Emfim Jorge appareceu no alto da escada, conversando muito interessadamente com um sujeito magrissimo, -de chapo ao lado, as mos nos bolsos d'umas -calas muito estreitas, e um enorme charuto enristado +de chapéo ao lado, as mãos nos bolsos d'umas +calças muito estreitas, e um enorme charuto enristado ao canto da bocca. Paravam, gesticulavam, cochichavam. -Por fim o sujeito apertou a mo de Jorge, +Por fim o sujeito apertou a mão de Jorge, fallou-lhe ao ouvido, riu baixo, torcendo-se, bateu-lhe -no hombro, obrigou-o muito sriamente a aceitar -outro charuto,—e pondo o chapo mais ao lado -foi conversar com o guarda-porto. <br /> +no hombro, obrigou-o muito sériamente a aceitar +outro charuto,—e pondo o chapéo mais ao lado +foi conversar com o guarda-portão. <br /> <br /> -Jorge correu portinhola do trem, rindo: <br /> +Jorge correu á portinhola do trem, rindo: <br /> <br /> -—Ento que extravagancia esta? Theatro, tipoias!... +—Então que extravagancia é esta? Theatro, tipoias!... Eu reclamo o divorcio! <br /> <br /> -Parecia muito jovial. Smente tinha pena de no +Parecia muito jovial. Sómente tinha pena de não estar vestido... Ficaria atraz no camarote.—E para -as no amarrotar subiu para a almofada. +as não amarrotar subiu para a almofada. <br /> <br /> <br /> @@ -19927,17 +19887,17 @@ Passava das oito horas quando o trem parou em S. Carlos. Um gaiato, que tossia muito, com o casaco pregado sobre o peito por um alfinete, precipitou-se a abrir a portinhola; e D. Felicidade sorria de -contentamento, sentindo a cauda do vestido de sda +contentamento, sentindo a cauda do vestido de sêda arrastar sobre o tapete esfiado do corredor das frisas. <br /> <br /> -O pano j estava levantado. Era luz diminuida -da rampa, a decorao classica d'uma cella d'alchimista; -embrulhado n'um roupo monastico, com uma +O pano já estava levantado. Era á luz diminuida +da rampa, a decoração classica d'uma cella d'alchimista; +embrulhado n'um roupão monastico, com uma abundancia hirsuta de barbas grisalhas, tremuras senis, Fausto cantava, desilludido das sciencias, pousando -sobre o corao a mo onde reluzia um brilhante. +sobre o coração a mão onde reluzia um brilhante. Um cheiro vago de gaz extravasado errava -subtilmente. Aqui e alm tosses expectoravam. Havia +subtilmente. Aqui e além tosses expectoravam. Havia ainda pouca gente. Entrava-se. <br /> <br /><span class="pagenum">[516]</span> @@ -19945,72 +19905,72 @@ Na frisa, para se collocarem, D. Felicidade e Luiza cochichavam, com gestosinhos de recusa, olhares supplicantes: <br /> <br /> -—Oh D. Felicidade, por quem ! <br /> +—Oh D. Felicidade, por quem é! <br /> <br /> —Se estou aqui muito bem... <br /> <br /> -—No consinto... <br /> +—Não consinto... <br /> <br /> Emfim D. Felicidade sentou-se no lugar superior -alteando o peito. Luiza ficra atraz calando as luvas; +alteando o peito. Luiza ficára atraz calçando as luvas; em quanto Jorge arrumava os agasalhos, furioso com -o chapo que j duas vezes rolra. <br /> +o chapéo que já duas vezes rolára. <br /> <br /> —Tem banquinho, D. Felicidade? <br /> <br /> -—Obrigada, c o sinto.—E remexeu os ps.—Que -pena no se vr a familia real! <br /> +—Obrigada, cá o sinto.—E remexeu os pés.—Que +pena não se vêr a familia real! <br /> <br /> Nos camarotes d'assignantes iam apparecendo os -altos penteados medonhos, enchumaados de postios; +altos penteados medonhos, enchumaçados de postiços; peitilhos de camisas branquejavam. Sujeitos entravam para as cadeiras devagar, com um ar gasto e intimo, compondo o cabello. Conversava-se baixo. -Ao fundo da plata havia um rumor desinquieto entre -moos de jaqueto; e entrada, sob a tribuna, +Ao fundo da platéa havia um rumor desinquieto entre +moços de jaquetão; e á entrada, sob a tribuna, viam-se, n'um apparato militar, correames polidos -de municipaes, bons carregados de policias; e reluzindo - luz, punhos de sabres. <br /> +de municipaes, bonés carregados de policias; e reluzindo +á luz, punhos de sabres. <br /> <br /> Mas na orchestra correram fortes estremecimentos metallicos, dando um pavor sobrenatural; Fausto tremia como um arbusto ao vento; um ruido de folhas de lata, fortemente sacudidas, estalou; e Mephistopheles -ergueu-se ao fundo, escarlate, lanando a -perna com um ar charlato, as duas sobrancelhas +ergueu-se ao fundo, escarlate, lançando a +perna com um ar charlatão, as duas sobrancelhas arrebitadas, uma barbilha insolente, <em>un bel cavalier</em>; <span class="pagenum">[517]</span> e em quanto a sua voz poderosa saudava o Doutor, as duas plumas vermelhas do gorro oscillavam sem -cessar d'um modo fanfarro. <br /> +cessar d'um modo fanfarrão. <br /> <br /> -Luiza chegra-se para a frente; ao ruido da cadeira, -cabeas na plata voltaram-se, languidamente; +Luiza chegára-se para a frente; ao ruido da cadeira, +cabeças na platéa voltaram-se, languidamente; pareceu de certo bonita, examinaram-na; ella, -embaraada, pz-se a olhar para o palco muito sria:—por -traz de vos sobrepostos que se levantavam, -n'uma affectao de viso, Margarida appareceu +embaraçada, pôz-se a olhar para o palco muito séria:—por +traz de véos sobrepostos que se levantavam, +n'uma affectação de visão, Margarida appareceu fiando o linho, toda vestida de branco; a luz electrica, -envolvendo-a n'um tom cr, fazia-a parecer de -gesso muito caiado; e D. Felicidade achou-a to linda +envolvendo-a n'um tom crú, fazia-a parecer de +gesso muito caiado; e D. Felicidade achou-a tão linda que a comparou a uma santa! <br /> <br /> -A viso desappareceu n'um tremulo de rebecas. -E depois d'uma aria, Fausto, que ficra immovel ao +A visão desappareceu n'um tremulo de rebecas. +E depois d'uma aria, Fausto, que ficára immovel ao fundo do palco, debateu-se um momento dentro da tunica e das barbas, e emergiu joven, gordinho, vestido -de cr de lilaz, coberto de ps d'arroz, compondo +de côr de lilaz, coberto de pôs d'arroz, compondo o frisado do cabello. As luzes da rampa subiram: -uma instrumentao alegre e expansiva resoou: Mephistopheles, +uma instrumentação alegre e expansiva resoou: Mephistopheles, apossando-se d'elle, arrastou-o sofrego -atravs da decorao. E o pano desceu rapidamente. <br /> +através da decoração. E o pano desceu rapidamente. <br /> <br /> -As platas ergueram-se com um rumor grosso e +As platéas ergueram-se com um rumor grosso e lento. D. Felicidade um pouco affrontada abanava-se. -Examinaram ento as familias, algumas <em>toilettes</em>; e -sorrindo concordaram que estava do mais fino. <br /> +Examinaram então as familias, algumas <em>toilettes</em>; e +sorrindo concordaram que estava «do mais fino». <br /> <br /> -Nos camarotes conversava-se sobriamente; s vezes +Nos camarotes conversava-se sobriamente; ás vezes uma joia brilhava, ou a luz punha tons lustrosos d'aza de corvo nos cabellos pretos onde alvejavam camelias ou reluzia o aro de metal d'um pente; os @@ -20018,25 +19978,25 @@ camelias ou reluzia o aro de metal d'um pente; os vidros redondos dos binoculos moviam-se devagar, picados de pontos luminosos. <br /> <br /> -Na plata, nas bancadas clareadas, sujeitos quasi -deitados namoravam com languidez; ou de p, taciturnos, +Na platéa, nas bancadas clareadas, sujeitos quasi +deitados namoravam com languidez; ou de pé, taciturnos, acariciavam as luvas; velhos <em>dilettanti</em>, de -leno de sda, tomavam rap, caturravam; e D. Felicidade +lenço de sêda, tomavam rapé, caturravam; e D. Felicidade interessava-se por duas hespanholas de verde, -que na superior immobilisavam, n'uma affectao +que na superior immobilisavam, n'uma affectação casta, os seus corpos de lupanar. <br /> <br /> Um collega de Jorge magrinho e janota entrou -ento no camarote: parecia animado, e perguntou -logo se no sabiam o grande escandalo? No. E o -engenheiro, com gestos vivos das suas mosinhas -caladas n'umas luvas esverdeadas, contou que a +então no camarote: parecia animado, e perguntou +logo se não sabiam o grande escandalo? Não. E o +engenheiro, com gestos vivos das suas mãosinhas +calçadas n'umas luvas esverdeadas, contou que a mulher do Palma, o deputado, sabiam, tinha fugido!... <br /> <br /> —P'ra o estrangeiro? <br /> <br /> —Qual!—E a voz do engenheiro tinha agudos -triumphantes.—Ahi que estava o bonito. P'ra casa +triumphantes.—Ahi é que estava o bonito. P'ra casa d'um hespanhol que morava defronte!... Era divino! De resto—e a sua voz tornou-se grave—estava enthusiasmado com o baixo! <br /> @@ -20044,27 +20004,27 @@ enthusiasmado com o baixo! <br /> E depois de ter sorrido, olhado pelo binoculo, ficou calado, extenuado do que dissera, batendo apenas de vez em quando no joelho de Jorge, com um -<em>Sim, senhor!</em> familiar, ou um <em>Ento que feito?</em> +<em>Sim, senhor!</em> familiar, ou um <em>Então que é feito?</em> amigavel. <br /> <br /> Mas a campainha retinia finamente. O engenheiro -sahiu, em bicos de ps. E o pano ergueu-se +sahiu, em bicos de pés. E o pano ergueu-se devagar na alegria da kermesse, cheia de uma luz <span class="pagenum">[519]</span> branca e dura. Casas acastelladas branquejavam no pano de fundo, n'alguma collina do Rheno amiga das vinhas. Escarranchado sobre uma pipa, o barrigudo -e folgazo rei Cambrinus ria enormemente, erguendo, +e folgazão rei Cambrinus ria enormemente, erguendo, na sua attitude de taboleta gothica, a vasta caneca emblematica da cerveja germanica. E estudantes, -judeus, reitres e donzellas, nas suas cres +judeus, reitres e donzellas, nas suas côres vivas de paninho, moviam-se d'um modo automatico -e somnambulo, aos compassos largos da instrumentao +e somnambulo, aos compassos largos da instrumentação festiva. <br /> <br /> -A walsa ento desenrolou-se languidamente, como +A walsa então desenrolou-se languidamente, como um fio de melodia, em espiraes suaves que ondeavam -e fugiam: Luiza seguia os psinhos das danarinas, +e fugiam: Luiza seguia os pésinhos das dançarinas, as pernas musculosas volteando no tablado; e as saias tufadas e curtas faziam como o girar multiplicado e reproduzido de vagos discos de cambraia. <br /> @@ -20083,92 +20043,92 @@ Mas o jovial Diabo adiantava-se por entre os grupos, e logo, com gestos aduncos e rapaces, cantou o <em>Dio del oro</em>. A sua voz arremessada affirmava, n'um tom brutal, o poder do dinheiro; nas massas -da instrumentao passavam sonoridades claras e tilintantes +da instrumentação passavam sonoridades claras e tilintantes d'um remexer sofrego de thesouros; e as <span class="pagenum">[520]</span> notas altas finaes cahiam, d'um modo curto e secco, como martelladas triumphantes cunhando o divino ouro! <br /> <br /> -Luiza ento viu D. Felicidade perturbar-se; e +Luiza então viu D. Felicidade perturbar-se; e seguindo o seu olhar negro, subitamente avivado, descobriu na geral a calva polida do conselheiro Accacio,—que comprimentava, promettendo generosamente, -com a mo espalmada, a sua visita proxima. <br /> +com a mão espalmada, a sua visita proxima. <br /> <br /> Veio, apenas o pano desceu, e felicitou-as immediatamente por terem escolhido aquella noite: a opera era das melhores e estava gente muito fina. Lamentou ter perdido o primeiro acto;—ainda que -no gostasse extremamente da musica, apreciava-o -por ser muito philosophico. E, tomando da mo de +não gostasse extremamente da musica, apreciava-o +por ser muito philosophico. E, tomando da mão de Luiza o binoculo, explicou os camarotes, disse os titulos, citou as herdeiras ricas, nomeou os deputados, apontou os litteratos.—Ah! conhecia bem S. Carlos! Havia dezoito annos! <br /> <br /> D. Felicidade, rubra, admirava-o. O Conselheiro -sentia que no podessem vr o camarote real: a +sentia que não podessem vêr o camarote real: a rainha, como sempre, estava adoravel. <br /> <br /> Sim? Como estava? <br /> <br /> -—De velludo. No sabia se rxo, se azul escuro. +—De velludo. Não sabia se rôxo, se azul escuro. Affirmar-se-hia, e viria dizer... <br /> <br /> Mas quando o pano subiu, ficou sentado por traz -de Luiza comeando logo a explicar—que aquella -(Siebel, colhendo flres no jardim de Margarida) posto +de Luiza começando logo a explicar—que aquella +(Siebel, colhendo flôres no jardim de Margarida) posto que segunda dama, ganhava quinhentos mil reis por mez... <br /> <br /><span class="pagenum"><a name="p521" id="p521">[521]</a></span> -—Mas apesar d'estes ordenades morrem quasi -sempre na miseria—disse com reprovao.—Vicios, -cas, orgias, cavalgadas... <br /> +—Mas apesar d'estes ordenadões morrem quasi +sempre na miseria—disse com reprovação.—Vicios, +cêas, orgias, cavalgadas... <br /> <br /> A portinha verde do jardim abriu-se, e Margarida entrou devagar, desfolhando o malmequer da legenda, caracterisada de virgem, com as duas longas -tranas louras. Scismava, fallava s, amava: a -dce creatura sente em volta de si o ar pesado, e -quereria bem que sua mi voltasse! <br /> +tranças louras. Scismava, fallava só, amava: a +dôce creatura sente em volta de si o ar pesado, e +quereria bem que sua mãi voltasse! <br /> <br /> -Os olhos de Luiza encheram-se ento de melancolia, +Os olhos de Luiza encheram-se então de melancolia, com a saudosa ballada do rei de Thule; aquella -melodia dava-lhe a vaga sensao d'um pallido +melodia dava-lhe a vaga sensação d'um pallido paiz d'amores espirituaes, banhado de luares frios, longe, no Norte, junto a um mar gemente—ou de -tristezas aristocraticas, scismadas n'um terrao, sob +tristezas aristocraticas, scismadas n'um terraço, sob a sombra d'um parque... <br /> <br /> Mas o Conselheiro preveniu-as, dizendo: <br /> <br /> -—Agora que ! Reparem. Agora o ponto +—Agora é que é! Reparem. Agora é o ponto capital. <br /> <br /> De joelhos, diante do cofre das joias, a dama requebrava-se, -garganteando; apertava nas mos o +garganteando; apertava nas mãos o collar, extasiada; punha os brincos com denguices delirantes; e da sua bocca muito aberta sahia um canto trinado, d'uma crystallinidade aguda—entre -o vago <a href="#e28">susurro</a> da admirao burgueza. <br /> +o vago <a href="#e28">susurro</a> da admiração burgueza. <br /> <br /> O Conselheiro disse discretamente: <br /> <br /> —Bravo! Bravo! <br /> <br /> E, excitado, dissertou: aquillo era o melhor da -opera! Era alli que se via a fora das cantoras... <br /> +opera! Era alli que se via a força das cantoras... <br /> <br /> D. Felicidade quasi tinha medo que lhe estalasse <span class="pagenum">[522]</span> alguma cousa na garganta. Preoccupava-se tambem com as joias. Seriam falsas? Seriam d'ella? <br /> <br /> -— p'ra a tentar, no verdade? <br /> +—É p'ra a tentar, não é verdade? <br /> <br /> -— um drama allemo—disse-lhe baixo o Conselheiro. <br /> +—É um drama allemão—disse-lhe baixo o Conselheiro. <br /> <br /> Mas Mephistopheles ia arrastando a boa Martha; Fausto e Margarida perdiam-se nas sombras cumplices @@ -20178,22 +20138,22 @@ que todo aquelle acto era um pouco fresco. <br /> D. Felicidade murmurou-lhe—entre reprehensiva e extatica: <br /> <br /> -—Quantas scenas no ter tido assim, magano! <br /> +—Quantas scenas não terá tido assim, maganão! <br /> <br /> O Conselheiro fitou-a, indignado: <br /> <br /> -—O qu, minha senhora! levar a deshonra ao +—O quê, minha senhora! levar a deshonra ao seio d'uma familia! <br /> <br /> Luiza fez-lhe <em>chut</em>, sorrindo. Interessava-se agora. Tinha escurecido; uma facha de luz electrica enchia -o jardim d'um vago luar azulado, onde os macios +o jardim d'um vago luar azulado, onde os maciços arredondados se recortavam em pastas escuras; -e Fausto e Margarida enlaados, quasi desfallecidos, +e Fausto e Margarida enlaçados, quasi desfallecidos, soltavam d'um modo expirante o seu duetto: uma sensualidade delicada e moderna, com elances d'um requinte devoto, arrastava-se na orchestra gemente; -o tenor esforava-se, agarrando o peito, +o tenor esforçava-se, agarrando o peito, com um geito morbido dos quadris, o olhar anuviado: e desprendendo-se da languida arcada dos violoncellos, o canto subia para as estrellas... <br /> @@ -20205,70 +20165,70 @@ Dei astri d'oro. </div> <br /> <br /><span class="pagenum">[523]</span> -Mas o corao de Luiza batia precipitadamente; +Mas o coração de Luiza batia precipitadamente; vira-se de repente sentada no divan, na sua sala, -ainda tomada dos soluos do adulterio, e Bazilio, +ainda tomada dos soluços do adulterio, e Bazilio, com o charuto ao canto da bocca, batia distrahido no piano aquella aria—<em>Al pallido chiarore dei astri d'oro</em>. D'essa noite tinha vindo toda a sua miseria!—e -subitamente, como longos vos funebres que -descem e abafam, as recordaes de Juliana, da casa, -de Sebastio, vieram escurecer-lhe a alma. <br /> +subitamente, como longos véos funebres que +descem e abafam, as recordações de Juliana, da casa, +de Sebastião, vieram escurecer-lhe a alma. <br /> <br /> Olhou o relogio. Eram dez horas. Que se passaria? <br /> <br /> -—Ests incommodada?—perguntou-lhe Jorge. <br /> +—Estás incommodada?—perguntou-lhe Jorge. <br /> <br /> —Um pouco. <br /> <br /> Margarida apoiava-se, expirante de voluptuosidade, ao rebordo da sua janellinha. Fausto corre. -Enlaam-se. E entre as gargalhadas do Diabo e o -roncar dos rebeces—o pano desceu, pondo uma +Enlaçam-se. E entre as gargalhadas do Diabo e o +roncar dos rebecões—o pano desceu, pondo uma reticencia pudica... <br /> <br /> D. Felicidade, abrazada, quiz agua. Jorge apressou-se: queria bolos? neve? A excellente senhora hesitou; o <em>chic</em> da neve attrahia-a, mas cohibiu-se -com terror da colica. Veio sentar-se ao fundo ao p -de Luiza, e ficou a olhar, vagamente canada; havia +com terror da colica. Veio sentar-se ao fundo ao pé +de Luiza, e ficou a olhar, vagamente cançada; havia um susurro lento; bocejava-se discretamente; e -o fumo dos cigarros, entrando, de fra, fazia uma +o fumo dos cigarros, entrando, de fóra, fazia uma nevoa apenas perceptivel que enchia a sala, ia prender-se ao lustre, embaciando ligeiramente as luzes. Quando Jorge sahiu o Conselheiro acompanhou-o: ia acima tomar o seu copo de gelatina... <br /> <br /> -— a minha ca em dia de S. Carlos—disse. +—É a minha cêa em dia de S. Carlos—disse. <br /> <br /><span class="pagenum">[524]</span> -Voltou d'ahi a pouco, limpando os beios ao leno -de sda, ter com Jorge que fumava no pequeno -patamar junto entrada das cadeiras: <br /> +Voltou d'ahi a pouco, limpando os beiços ao lenço +de sêda, ter com Jorge que fumava no pequeno +patamar junto á entrada das cadeiras: <br /> <br /> —Veja isto, Conselheiro—disse-lhe logo Jorge, indignado, mostrando a parede—que escandalo! <br /> <br /> Tinham desenhado, com o charuto apagado sobre a parede caiada, enormes figuras obscenas: e alguem, -prudente e amigo da clareza, ajuntra por baixo as -designaes sexuaes com uma boa letra cursiva. <br /> +prudente e amigo da clareza, ajuntára por baixo as +designações sexuaes com uma boa letra cursiva. <br /> <br /> E Jorge, revoltado: <br /> <br /> -—E passam por aqui senhoras! Vem, lem! -Isto s em Portugal!... <br /> +—E passam por aqui senhoras! Vêem, lêem! +Isto só em Portugal!... <br /> <br /> O Conselheiro disse: <br /> <br /> —A autoridade devia intervir de certo...—Acrescentou -com bonhomia:—So rapazes, com o -charuto. Apreciam muito esta distraco...—E sorrindo, -recordando-se:—Uma occasio mesmo, o conde -de Villa Rica, que tem graa, muita graa, insistiu +com bonhomia:—São rapazes, com o +charuto. Apreciam muito esta distracção...—E sorrindo, +recordando-se:—Uma occasião mesmo, o conde +de Villa Rica, que tem graça, muita graça, insistiu commigo, dando-me o charuto, para que eu fizesse um desenho...—E mais baixo:—Eu dei-lhe -uma lio severa. Tomei o charuto... <br /> +uma lição severa. Tomei o charuto... <br /> <br /> —E fumou-o? <br /> <br /> @@ -20278,31 +20238,31 @@ uma lio severa. Tomei o charuto... <br /> <br /> O Conselheiro, recuando, exclamou com severidade: <br /> <br /> -—Jorge, conhece o meu caracter! Pois suppe...?—E -acalmando-se:—No, tomei o charuto e escrevi -com mo firme: <span class="smallcaps">honra ao merito</span>!<br /> +—Jorge, conhece o meu caracter! Pois suppõe...?—E +acalmando-se:—Não, tomei o charuto e escrevi +com mão firme: <span class="smallcaps">honra ao merito</span>!<br /> <br /> Mas a campainha retiniu, entraram no camarote. <span class="pagenum"><a name="p525" id="p525">[525]</a></span> -Luiza incommodada no quiz sentar-se frente. E +Luiza incommodada não quiz sentar-se á frente. E o Conselheiro, grave, tomou o seu lugar—defronte de D. Felicidade. Foi para a nutrida senhora um momento feliz, de um gozo requintado. Estavam <em>ambos</em>, alli, como noivos! O seu peito abundante arfava: -via-se a sahirem, mais tarde, de brao dado, -entrarem n'um <em>coup</em> estreito, pararem porta da +via-se a sahirem, mais tarde, de braço dado, +entrarem n'um <em>coupé</em> estreito, pararem á porta da casa conjugal, pisarem o tapete da alcova... Tinha -um suor raiz dos cabellos—e vendo o Conselheiro +um suor á raiz dos cabellos—e vendo o Conselheiro sorrir-lhe, amavel, com a sua calva toda luzidia ao gaz, sentia um reconhecimento apaixonado -pela mulher de virtude que, quella hora, no fundo -da Galliza, estava cravando agulhas n'um corao +pela mulher de virtude que, áquella hora, no fundo +da Galliza, estava cravando agulhas n'um coração de cera!... <br /> <br /> Mas de repente o Conselheiro bateu na testa, arremessou-se -sobre o chapo, sahiu impetuosamente. +sobre o chapéo, sahiu impetuosamente. Olharam-se inquietos. D. Felicidade empallideceu: -seria alguma dr? Santo Deus! J murmurava baixo +seria alguma dôr? Santo Deus! Já murmurava baixo uma reza. <br /> <br /> Mas viram-no entrar logo, e dizer com uma voz @@ -20318,100 +20278,100 @@ verifical-o, cumpri-o! <br /> E sentou-se com solemnidade, dizendo a Luiza: <br /> <br /> —Lamento que se esconda n'esse recanto, D. -Luiza! Na sua idade! Na flr dos annos! Quando -tudo na vida cr de rosa! <br /> +Luiza! Na sua idade! Na flôr dos annos! Quando +tudo na vida é côr de rosa! <br /> <br /> Ella sorriu. Estava agora muito sobresaltada. A <span class="pagenum">[526]</span> cada momento olhava o relogio. Sentia-se doente: -os ps arrefeciam-lhe, uma vaga febre fazia-lhe a -cabea pesada. O seu pensamento estava na casa, -em Juliana, em Sebastio, cortado de palpites, de -esperanas, de terrores... E via, sem comprehender, -a multido de soldados vestidos de cres mipartidas, +os pés arrefeciam-lhe, uma vaga febre fazia-lhe a +cabeça pesada. O seu pensamento estava na casa, +em Juliana, em Sebastião, cortado de palpites, de +esperanças, de terrores... E via, sem comprehender, +a multidão de soldados vestidos de côres mipartidas, com armas obsoletas, que marchavam, paravam n'uma cadencia affectada, erguendo uma poeira -subtil no tablado mal regado. Um cro vigoroso +subtil no tablado mal regado. Um côro vigoroso resoava: era a marcha arrogante e festiva dos reitres -allemes, celebrando a alegria das excurses victoriosas +allemães, celebrando a alegria das excursões victoriosas pelos paizes do vinho, e a posse das bolsas mercenarias cheias de sonoros rixdales! E os -seus olhos seguiam um barbaas corpulento, que, -por cima dos gorros quadrados dos bsteiros, balanava +seus olhos seguiam um barbaças corpulento, que, +por cima dos gorros quadrados dos bésteiros, balançava monotonamente um largo quadrado de paninho—a bandeira do Santo Imperio, negra, vermelha e d'ouro! <br /> <br /> -Mas ento ergueu-se um rumor no fundo da plata. +Mas então ergueu-se um rumor no fundo da platéa. Vozes duras altercavam. Ordem! ordem! dizia-se. Localistas na superior pozeram-se rapidamente -em bicos de ps na palhinha das cadeiras. Quatro policias -e dous municipaes appareceram porta do -fundo; e depois d'uma troa, de risadas, foram levando -um moo livido, que cambaleava,—e o lado -esquerdo do seu jaqueto de pellucia estava todo +em bicos de pés na palhinha das cadeiras. Quatro policias +e dous municipaes appareceram á porta do +fundo; e depois d'uma troça, de risadas, foram levando +um moço livido, que cambaleava,—e o lado +esquerdo do seu jaquetão de pellucia estava todo vomitado! <br /> <br /> Mas fez-se logo silencio: o pano de fundo oscillava um pouco, acotovellado pela sahida festiva dos -reitres e dos populares; e no palco deserto, tendo +reitres e dos populares; e no palco deserto, tendo á <span class="pagenum">[527]</span> -direita um portico oscillante de cathedral e esquerda +direita um portico oscillante de cathedral e á esquerda a portinha triste d'uma casa burgueza, Valentim, -com uma longa pera, beira da rampa, beijava -sofregamente uma medalha:—mas Luiza no -o escutava. Pensava com o corao confrangido: que -far a esta hora Sebastio? <br /> +com uma longa pera, á beira da rampa, beijava +sofregamente uma medalha:—mas Luiza não +o escutava. Pensava com o coração confrangido: que +fará a esta hora Sebastião? <br /> <br /> <br /> <br /> -Sebastio, s nove horas, por um nordeste agudo +Sebastião, ás nove horas, por um nordeste agudo que torcia as luzes do gaz dentro dos candieiros, dirigia-se devagar a casa d'um commissario de policia, seu primo afastado, o Vicente Azurara. Uma -velha servente, engelhada como uma ma raineta, -levou-o ao quarto escolastico, onde o snr. commissario -estava a cozer uma grande constipao: encontrou-o -com um gabo pelos hombros, os ps embrulhados +velha servente, engelhada como uma maçã raineta, +levou-o ao quarto escolastico, «onde o snr. commissario +estava a cozer uma grande constipação»: encontrou-o +com um gabão pelos hombros, os pés embrulhados n'um cobertor, tomando <em>grogs</em> quentes, e -lendo o <em>Homem dos tres cales</em>. Apenas Sebastio +lendo o <em>Homem dos tres calções</em>. Apenas Sebastião entrou tirou do nariz adunco as grandes lunetas, e erguendo para elle os olhos pequeninos, chorosos do defluxo, exclamou: <br /> <br /> -—Estou com um diabo d'uma constipao ha -tres dias, que me no quer largar...—E rosnou -algumas pragas, passando a mo magra e nodosa +—Estou com um diabo d'uma constipação ha +tres dias, que me não quer largar...—E rosnou +algumas pragas, passando a mão magra e nodosa sobre uma face trigueira, de linhas duras, a que um espesso bigode grisalho dava ferocidade. <br /> <br /> -Sebastio lamentou-o muito: no admirava com -a estao que ia!... Aconselhou-lhe agua sulfurica +Sebastião lamentou-o muito: não admirava com +a estação que ia!... Aconselhou-lhe agua sulfurica com leite fervido. <br /> <br /><span class="pagenum">[528]</span> -—Eu, se isto no despega—disse o commissario -rancorosamente—atiro-lhe manh p'ra dentro -com meia garrafa de genebra; e se no fr por bem, -ha-de ir fora... E que ha de novo? <br /> -<br /> -Sebastio tossiu, queixou-se d'andar tambem -adoentado, e chegando a cadeira para ao p do primo -Vicente, pondo-lhe a mo sobre o joelho: <br /> -<br /> -— Vicente, tu, se eu te pedisse um policia p'ra -me acompanhar c p'ra uma cousa, s p'ra metter -medo, s p'ra fazer que uma pessoa restitua o +—Eu, se isto não despega—disse o commissario +rancorosamente—atiro-lhe ámanhã p'ra dentro +com meia garrafa de genebra; e se não fôr por bem, +ha-de ir á força... E que ha de novo? <br /> +<br /> +Sebastião tossiu, queixou-se d'andar tambem +adoentado, e chegando a cadeira para ao pé do primo +Vicente, pondo-lhe a mão sobre o joelho: <br /> +<br /> +—Ó Vicente, tu, se eu te pedisse um policia p'ra +me acompanhar cá p'ra uma cousa, só p'ra metter +medo, só p'ra fazer que uma pessoa restitua o que tirou, tu davas ordem, hein? <br /> <br /> -—Ordem p'ra qu?—perguntou lentamente o -Vicente com a cabea baixa, os olhinhos avermelhados -em Sebastio. <br /> +—Ordem p'ra quê?—perguntou lentamente o +Vicente com a cabeça baixa, os olhinhos avermelhados +em Sebastião. <br /> <br /> —Ordem p'ra me acompanhar, p'ra se mostrar. - s p'ra se mostrar. um caso exquisito... P'ra -metter medo... Tu sabes que eu no sou capaz... - p'ra que uma pessoa restitua o que tirou. Sem +É só p'ra se mostrar. É um caso exquisito... P'ra +metter medo... Tu sabes que eu não sou capaz... +É p'ra que uma pessoa restitua o que tirou. Sem fazer escandalo... <br /> <br /> —Roupas? Dinheiro? <br /> @@ -20420,9 +20380,9 @@ E o commissario cofiava reflectidamente o bigode com os seus longos dedos magros, muito queimados do cigarro. <br /> <br /> -Sebastio hesitou: <br /> +Sebastião hesitou: <br /> <br /> -—Sim. Roupas, cousas... p'ra no haver escandalo... +—Sim. Roupas, cousas... É p'ra não haver escandalo... Tu percebes... <br /> <br /> O Vicente murmurou com um ar profundo, fixando-o: <br /> @@ -20432,11 +20392,11 @@ O Vicente murmurou com um ar profundo, fixando-o: <br /> Escarrou ruidosamente. E franzindo a testa: <br /> <br /><span class="pagenum">[529]</span> -—No cousa de politica? <br /> +—Não é cousa de politica? <br /> <br /> -—No!—fez Sebastio. <br /> +—Não!—fez Sebastião. <br /> <br /> -O commissario embrulhou mais os ps no cobertor, +O commissario embrulhou mais os pés no cobertor, rolou em redor os olhos, ferozmente: <br /> <br /> —Nem toca com gente grauda? <br /> @@ -20444,48 +20404,48 @@ rolou em redor os olhos, ferozmente: <br /> —Qual! <br /> <br /> —Um policia p'ra se mostrar...—ruminava o -Vicente.—Tu s um homem de bem... D c aquella +Vicente.—Tu és um homem de bem... Dá cá aquella pasta de cima da commoda. <br /> <br /> Tirou um papel pautado, examinou-o, acavallando -a luneta no nariz, meditou com a mo em garra sobre +a luneta no nariz, meditou com a mão em garra sobre a testa: <br /> <br /> —O Mendes... Serve-te o Mendes? <br /> <br /> -Sebastio, que no conhecia o Mendes, acudiu +Sebastião, que não conhecia o Mendes, acudiu logo: <br /> <br /> -—Sim, quem quizeres. s p'ra se mostrar... <br /> +—Sim, quem quizeres. É só p'ra se mostrar... <br /> <br /> -—O Mendes. um homemzarro. serio, foi da +—O Mendes. É um homemzarrão. É serio, foi da Guarda. <br /> <br /> Fez-lhe aproximar o tinteiro; escreveu devagar a ordem; releu-a duas vezes; cortou os <em>tt</em>, seccou-a - chamin do candieiro; e dobrando-a com solemnidade: <br /> +á chaminé do candieiro; e dobrando-a com solemnidade: <br /> <br /> -— segunda diviso! <br /> +—Á segunda divisão! <br /> <br /> -—Obrigado, Vicente. um grande favor... Obrigado. -E agasalha-te, homem! E no te esquea: +—Obrigado, Vicente. É um grande favor... Obrigado. +E agasalha-te, homem! E não te esqueça: agua sulfurica da pharmacia Azevedo na rua de S. Roque: meia chavena de leite fervido... E obrigado. -No queres nada, hein? <br /> +Não queres nada, hein? <br /> <br /> -—No. D uma placa ao Mendes. serio, foi da +—Não. Dá uma placa ao Mendes. É serio, foi da Guarda! <br /> <br /><span class="pagenum">[530]</span> E acavallando as lunetas retomou o <em>Homem dos -tres cales</em>. <br /> +tres calções</em>. <br /> <br /> -Sebastio d'ahi a meia hora, seguido do robusto -Mendes, que marchava militarmente, com os braos +Sebastião d'ahi a meia hora, seguido do robusto +Mendes, que marchava militarmente, com os braços um pouco arqueados, encaminhava-se para casa de -Jorge. No tinha ainda um plano definido. Calculava -naturalmente que Juliana vendo, quella hora da noite, -o policia com o seu terado, se aterraria, imaginaria +Jorge. Não tinha ainda um plano definido. Calculava +naturalmente que Juliana vendo, áquella hora da noite, +o policia com o seu terçado, se aterraria, imaginaria logo a Boa Hora, o Limoeiro, a costa d'Africa, entregaria as cartas, pediria misericordia! E depois? Pensava vagamente em lhe pagar a passagem para @@ -20496,57 +20456,57 @@ era aterral-a! <br /> <br /> <br /> Juliana, com effeito, depois d'abrir a porta, apenas -viu subir, atraz de Sebastio, o policia, fez-se +viu subir, atraz de Sebastião, o policia, fez-se muito amarella, exclamou: <br /> <br /> -—Credo! Que temos ns? <br /> +—Credo! Que temos nós? <br /> <br /> Estava embrulhada n'um chale preto, e o candieiro de petroleo, que ella erguia, prolongava na parede a sombra disforme da cuia. <br /> <br /> -— snr.<sup>a</sup> Juliana, faa favor d'accender luz na -sala—disse Sebastio, tranquillamente. <br /> +—Ó snr.<sup>a</sup> Juliana, faça favor d'accender luz na +sala—disse Sebastião, tranquillamente. <br /> <br /> Ella fixava no policia um olhar faiscante e inquieto. <br /> <br /> -— senhor, que aconteceu? Credo! Os senhores +—Ó senhor, que aconteceu? Credo! Os senhores <span class="pagenum">[531]</span> -no esto em casa. Eu se soubesse nem tinha aberto... +não estão em casa. Eu se soubesse nem tinha aberto... Ha alguma novidade? Olha o proposito! <br /> <br /> -—No nada—disse Sebastio, abrindo a porta +—Não é nada—disse Sebastião, abrindo a porta da sala—tudo em paz! <br /> <br /> Elle mesmo accendeu com um phosphoro uma vela na serpentina—que fez sahir vagamente da sombra os dourados dos caixilhos das gravuras, a -pallida face do retrato da mi de Jorge, um reflexo +pallida face do retrato da mãi de Jorge, um reflexo de espelho. <br /> <br /> -— snr. Mendes, sente-se, sente-se! <br /> +—Ó snr. Mendes, sente-se, sente-se! <br /> <br /> -O Mendes collocou-se beira da cadeira com a -mo na cinta, o terado entre os joelhos, muito soturno. <br /> +O Mendes collocou-se á beira da cadeira com a +mão na cinta, o terçado entre os joelhos, muito soturno. <br /> <br /> -—Esta que a pessoa—disse Sebastio, indicando -Juliana, que ficra porta da sala, attonita. <br /> +—Esta é que é a pessoa—disse Sebastião, indicando +Juliana, que ficára á porta da sala, attonita. <br /> <br /> A mulher recuou, livida: <br /> <br /> -— snr. Sebastio, que brincadeira esta? <br /> +—Ó snr. Sebastião, que brincadeira é esta? <br /> <br /> -—No nada, no nada... <br /> +—Não é nada, não é nada... <br /> <br /> -Tomou-lhe o candieiro da mo, e tocando-lhe no -brao: <br /> +Tomou-lhe o candieiro da mão, e tocando-lhe no +braço: <br /> <br /> -—Vamos l dentro sala de jantar. <br /> +—Vamos lá dentro á sala de jantar. <br /> <br /> -—Mas que ? alguma cousa commigo? Credo! +—Mas que é? É alguma cousa commigo? Credo! E esta! Olha que desconchavo! <br /> <br /> -Sebastio fechou a porta da sala de jantar, pousou +Sebastião fechou a porta da sala de jantar, pousou o candieiro sobre a mesa, onde havia ainda um prato com codeas de queijo, e um fundo de vinho n'um copo, deu alguns passos, fazendo estalar nervosamente @@ -20554,16 +20514,16 @@ os dedos, e parando bruscamente diante de Juliana: <br /> <br /><span class="pagenum">[532]</span> -—D c umas cartas que roubou senhora... <br /> +—Dê cá umas cartas que roubou á senhora... <br /> <br /> -Juliana teve um movimento para correr janella, +Juliana teve um movimento para correr á janella, gritar. <br /> <br /> -Sebastio agarrou-lhe o brao, e fazendo-a sentar -com fora sobre uma cadeira: <br /> +Sebastião agarrou-lhe o braço, e fazendo-a sentar +com força sobre uma cadeira: <br /> <br /> -—Escusa d'ir janella gritar, a policia j est -dentro de casa. D c as cartas, ou p'ra a enxovia! <br /> +—Escusa d'ir á janella gritar, a policia já está +dentro de casa. Dê cá as cartas, ou p'ra a enxovia! <br /> <br /> Juliana entreviu n'um relance um quarto tenebroso no Limoeiro, o caldo do rancho, a enxerga nas @@ -20571,222 +20531,222 @@ lages frias... <br /> <br /> —Mas que fiz eu?—balbuciava—que fiz eu? <br /> <br /> -—Roubou as cartas. D-as p'ra c, avie-se. <br /> +—Roubou as cartas. Dê-as p'ra cá, avie-se. <br /> <br /> -Juliana sentada beira da cadeira, apertando -desesperadamente as mos, rosnava por entre os +Juliana sentada á beira da cadeira, apertando +desesperadamente as mãos, rosnava por entre os dentes cerrados: <br /> <br /> —A bebeda! A bebeda! <br /> <br /> -Sebastio, impaciente, pz a mo no fecho da +Sebastião, impaciente, pôz a mão no fecho da porta. <br /> <br /> —Espere, seu diabo!—gritou ella, erguendo-se com um salto. Fixou-o rancorosamente, desabotoou -o corpete, enterrou a mo no peito, tirou uma carteirinha. -Mas de repente batendo com o p, n'um +o corpete, enterrou a mão no peito, tirou uma carteirinha. +Mas de repente batendo com o pé, n'um phrenesi: <br /> <br /> -—No! no! no! <br /> +—Não! não! não! <br /> <br /> -—Diabos me levem se voss no fr dormir -enxovia!—Entre-abriu a porta.— snr. Mendes! <br /> +—Diabos me levem se vossê não fôr dormir á +enxovia!—Entre-abriu a porta.—Ó snr. Mendes! <br /> <br /> —Ahi tem!—gritou ella atirando-lhe a carteira. E brandindo para elle os punhos:—Raios te partam, malvado! <br /> <br /><span class="pagenum">[533]</span> -Sebastio apanhou a carteira. Havia tres cartas: +Sebastião apanhou a carteira. Havia tres cartas: uma muito dobrada era de Luiza; leu a primeira linha: <em>Meu adorado Bazilio</em>; e muito pallido guardou -logo tudo na algibeira interior do casaco. Abriu ento +logo tudo na algibeira interior do casaco. Abriu então a porta: a possante figura do Mendes estava na sombra. <br /> <br /> -—Est tudo arranjado, snr. Mendes,—a voz -tremia-lhe um pouco—no lhe quero tomar mais +—Está tudo arranjado, snr. Mendes,—a voz +tremia-lhe um pouco—não lhe quero tomar mais tempo. <br /> <br /> O homem fez uma continencia, calado: quando -Sebastio, no patamar, lhe resvalou na mo uma libra, +Sebastião, no patamar, lhe resvalou na mão uma libra, o Mendes curvou-se respeitosamente e disse, com uma voz pegajosa: <br /> <br /> —E para o que quizer, o sessenta e quatro, o -Mendes, que foi da Guarda. No se incommode v. s.<sup>a</sup> -s ordens de v. s.<sup>a</sup> Minha mulher e filhos agradecem. -No se incommode v. s.<sup>a</sup> O sessenta e quatro, o Mendes, +Mendes, que foi da Guarda. Não se incommode v. s.<sup>a</sup> +Ás ordens de v. s.<sup>a</sup> Minha mulher e filhos agradecem. +Não se incommode v. s.<sup>a</sup> O sessenta e quatro, o Mendes, que foi da Guarda! <br /> <br /> -Sebastio fechou a cancella, voltou sala de jantar. -Juliana ficra n'uma cadeira, aniquilada; mas +Sebastião fechou a cancella, voltou á sala de jantar. +Juliana ficára n'uma cadeira, aniquilada; mas apenas o viu, erguendo-se furiosamente: <br /> <br /> -—A bebeda foi-lhe contar tudo! Foi voss que -arranjou a armadilha! Tambem voss dormiu com +—A bebeda foi-lhe contar tudo! Foi vossê que +arranjou a armadilha! Tambem vossê dormiu com ella!... <br /> <br /> -Sebastio, muito branco, dominava-se. <br /> +Sebastião, muito branco, dominava-se. <br /> <br /> -—V pr o chapo, mulher. O snr. Jorge despediu-a. -manh mandar buscar os bahus... <br /> +—Vá pôr o chapéo, mulher. O snr. Jorge despediu-a. +Ámanhã mandará buscar os bahus... <br /> <br /> —Mas o homem ha-de saber tudo!—berrou ella.—Este -tecto me rache se eu no lhe disser tudo +tecto me rache se eu não lhe disser tudo tim-tim por tim-tim. Tudo! As cartas que recebia, <span class="pagenum">[534]</span> -onde ia vr o homem. Deitava-se com ella na sala, -at os pentes lhe cahiam na balburdia. At a cozinheira +onde ia vêr o homem. Deitava-se com ella na sala, +até os pentes lhe cahiam na balburdia. Até a cozinheira lhes sentia o alarido! <br /> <br /> -—Cale-se!—bradou Sebastio com uma punhada -na mesa, que fez tremer toda a loua no aparador, -e esvoaar os canarios. E com a voz toda tremula, -os beios brancos:—A policia tem o seu nome, -sua ladra! menor palavra que voss diga vai -para o Limoeiro, e pela barra fra. Voss no roubou -s as cartas; roubou roupas, camisas, lenoes, +—Cale-se!—bradou Sebastião com uma punhada +na mesa, que fez tremer toda a louça no aparador, +e esvoaçar os canarios. E com a voz toda tremula, +os beiços brancos:—A policia tem o seu nome, +sua ladra! Á menor palavra que vossê diga vai +para o Limoeiro, e pela barra fóra. Vossê não roubou +só as cartas; roubou roupas, camisas, lençoes, vestidos...—Juliana ia fallar, gritar.—Bem sei—continuou elle violentamente—deu-lh'os ella, mas - fora, porque voss a ameaava. Voss arrancou-lhe -tudo. roubo. d'Africa!—E o que dizer -ao snr. Jorge, pde ir dizer. V. Veja se elle a -acredita. Diga! So algumas bengaladas que leva +á força, porque vossê a ameaçava. Vossê arrancou-lhe +tudo. É roubo. É d'Africa!—E o que é dizer +ao snr. Jorge, póde ir dizer. Vá. Veja se elle a +acredita. Diga! São algumas bengaladas que leva por esses hombros, ladra! <br /> <br /> Ella rangia os dentes. Estava apanhada! <em>Elles</em> tinham -tudo por si, a policia, a Boa-Hora, a cada, a +tudo por si, a policia, a Boa-Hora, a cadêa, a Africa!... E ella—nada! <br /> <br /> -Todo o seu odio contra a <em>Piorrinha</em> fez exploso. +Todo o seu odio contra a <em>Piorrinha</em> fez explosão. Chamou-lhe os nomes mais obscenos. Inventou infamias. <br /> <br /> -— que nem as do Bairro-Alto! E eu—gritava—sou +—É que nem as do Bairro-Alto! E eu—gritava—sou uma mulher de bem, nunca um homem -se pde gabar de tocar n'este corpo. Nunca houve -raio nenhum que me visse a cr da pelle. E a bebeda!...—Tinha +se pôde gabar de tocar n'este corpo. Nunca houve +raio nenhum que me visse a côr da pelle. E a bebeda!...—Tinha arremessado o chale, alargou anciosamente o collar do vestido.—Era um desaforo por essa casa! E o que eu passei com a bruxa da <span class="pagenum">[535]</span> -tia! o pago que me do! Os diabos me levem se -eu no fr para os jornaes. Vi-a eu abraada ao janota, +tia! É o pago que me dão! Os diabos me levem se +eu não fôr para os jornaes. Vi-a eu abraçada ao janota, como uma cabra! <br /> <br /> -Sebastio a seu pezar escutava-a, com uma curiosidade +Sebastião a seu pezar escutava-a, com uma curiosidade dolorosa por aquelles pormenores; sentia desejos agudos de a esganar, e os seus olhos devoravam-lhe as palavras. Quando ella se calou arquejante: <br /> <br /> -—V, ponha o chapo, e p'ra a rua! <br /> +—Vá, ponha o chapéo, e p'ra a rua! <br /> <br /> -Juliana ento allucinada de raiva, com os olhos sahidos +Juliana então allucinada de raiva, com os olhos sahidos das orbitas, veio para elle, e cuspiu-lhe na cara! <br /> <br /> Mas de repente a bocca abriu-se-lhe desmedidamente, arqueou-se para traz, levou com ancia as -mos ambas ao corao, e cahiu para o lado, com +mãos ambas ao coração, e cahiu para o lado, com um som molle, como um fardo de roupa. <br /> <br /> -Sebastio abaixou-se, sacudiu-a; estava hirta, uma -escuma rxa apparecia-lhe aos cantos da bocca. <br /> +Sebastião abaixou-se, sacudiu-a; estava hirta, uma +escuma rôxa apparecia-lhe aos cantos da bocca. <br /> <br /> -Agarrou no chapo, desceu as escadas, correu -at Patriarchal. Um <em>coup</em> vazio passava; atirou-se -para dentro, mandou a todo o que dr, para casa -de Julio; e obrigou-o a vir immediatamente, mesmo +Agarrou no chapéo, desceu as escadas, correu +até á Patriarchal. Um <em>coupé</em> vazio passava; atirou-se +para dentro, mandou a «todo o que dér», para casa +de Julião; e obrigou-o a vir immediatamente, mesmo em chinellas, sem collarinho. <br /> <br /> -— caso de morte, a Juliana—balbuciava +—É caso de morte, é a Juliana—balbuciava muito pallido. <br /> <br /> E pelo caminho, entre o ruido das rodas e o tilintar -dos caixilhos, contava confusamente que entrra -em casa de Luiza, que achra Juliana muito despeitada +dos caixilhos, contava confusamente que entrára +em casa de Luiza, que achára Juliana muito despeitada por ter sido despedida, e que a fallar, a esbracejar, -de repente, tombra p'ra o lado! <br /> +de repente, tombára p'ra o lado! <br /> <br /> -—Foi o corao. Estava p'ra dias—disse Julio, +—Foi o coração. Estava p'ra dias—disse Julião, chupando a ponta do cigarro. <br /> <br /><span class="pagenum">[536]</span> -Pararam. Mas Sebastio desorientado, ao sahir, -fechra a porta! E dentro s a morta! O cocheiro +Pararam. Mas Sebastião desorientado, ao sahir, +fechára a porta! E dentro só a morta! O cocheiro offereceu a sua gazua, que serviu. <br /> <br /> -—Ento nem se vai a uma passeadinha ao Dfundo, +—Então nem se vai a uma passeadinha ao Dáfundo, meus fidalgos?—disse o homem, mettendo a gorgeta na algibeira. <br /> <br /> Mas vendo-os atirar com a porta: <br /> <br /> -—Tambem no gente d'isso—rosnou com +—Tambem não é gente d'isso—rosnou com desprezo, batendo a parelha. <br /> <br /> Entraram. <br /> <br /> No pequeno pateo o silencio da casa pareceu a -Sebastio pavoroso. Subia, aterrado, os degraus, que +Sebastião pavoroso. Subia, aterrado, os degraus, que se afiguravam infindaveis; e, com fortes pancadas do -corao, esperava ainda que ella estivesse apenas -adormecida n'um desmaio simples, ou j de p, pallida +coração, esperava ainda que ella estivesse apenas +adormecida n'um desmaio simples, ou já de pé, pallida e respirando! <br /> <br /> -No. L estava como a deixra, estendida na esteira, -com os braos abertos, os dedos retorcidos como -garras. A convulso das pernas arregara-lhe as +Não. Lá estava como a deixára, estendida na esteira, +com os braços abertos, os dedos retorcidos como +garras. A convulsão das pernas arregaçára-lhe as saias, viam-se as suas canellas magras com meias -de riscadinho cr de rosa e as chinellas de tapete; -o candieiro de petroleo, que Sebastio esquecera ao -p sobre uma cadeira, punha tons lividos na testa, +de riscadinho côr de rosa e as chinellas de tapete; +o candieiro de petroleo, que Sebastião esquecera ao +pé sobre uma cadeira, punha tons lividos na testa, nas faces rigidas; a bocca torcida fazia um sombra; e os olhos medonhamente abertos, immobilisados na agonia repentina, tinham uma vaga nevoa, -como cobertos d'uma ta d'aranha diaphana. Em redor +como cobertos d'uma têa d'aranha diaphana. Em redor tudo parecia mais immovel, d'um hirto morto. Vagos reflexos de prata reluziam no aparador; e o tic-tac do <em>cuco</em> palpitava sem descontinuar. <br /> <br /><span class="pagenum">[537]</span> -—Julio apalpou-a, ergueu-se sacudindo as mos, +—Julião apalpou-a, ergueu-se sacudindo as mãos, disse: <br /> <br /> -—Est morta com todas as regras. necessario -tiral-a d'aqui. Onde o quarto? <br /> +—Está morta com todas as regras. É necessario +tiral-a d'aqui. Onde é o quarto? <br /> <br /> -Sebastio, pallido, fez signal com o dedo que era +Sebastião, pallido, fez signal com o dedo que era por cima. <br /> <br /> —Bem. Arrasta-a tu, que eu levo o candieiro.—E -como Sebastio no se movia:—Tens medo?—perguntou +como Sebastião não se movia:—Tens medo?—perguntou rindo. <br /> <br /> Escarneceu-o: que diabo, era materia inerte, era -como quem agarrava uma boneca! Sebastio, com -um suor raiz dos cabellos, levantou o cadaver por -debaixo dos braos, comeou a arrastal-o, devagar. -Julio adiante erguia o candieiro; e por fanfarronada +como quem agarrava uma boneca! Sebastião, com +um suor á raiz dos cabellos, levantou o cadaver por +debaixo dos braços, começou a arrastal-o, devagar. +Julião adiante erguia o candieiro; e por fanfarronada cantou os primeiros compassos da marcha do <em>Fausto</em>. -Mas Sebastio escandalisou-se, e com uma voz +Mas Sebastião escandalisou-se, e com uma voz que tremia: <br /> <br /> —Largo tudo, e vou-me... <br /> <br /> -—Respeitarei os nervos da menina!—disse Julio +—Respeitarei os nervos da menina!—disse Julião curvando-se. <br /> <br /> Continuaram calados. Aquelle corpo magro parecia -a Sebastio d'um peso de chumbo. Arquejava. +a Sebastião d'um peso de chumbo. Arquejava. Nas escadas uma das chinellas do cadaver soltou-se, -rolou. E Sebastio sentia aterrado alguma cousa que +rolou. E Sebastião sentia aterrado alguma cousa que lhe batia contra os joelhos; era a cuia cahida, suspensa por um atilho. <br /> <br /> -Estenderam-na na cama; Julio, dizendo que se -deviam seguir as tradies,—pz-lhe os braos +Estenderam-na na cama; Julião, dizendo que se +deviam seguir as tradições,—pôz-lhe os braços em cruz e fechou-lhe os olhos. <br /> <br /> Esteve um momento a olhal-a: @@ -20799,122 +20759,122 @@ Ao sahir examinou, admirado, o quarto: <br /> <br /> —Estava mais bem alojada que eu, o estafermo! <br /> <br /> -Fechou a porta, deu volta chave: <br /> +Fechou a porta, deu volta á chave: <br /> <br /> —<em>Requiescat in pace</em>—disse. <br /> <br /> E desceram, calados. <br /> <br /> -Ao entrar na sala, Sebastio, muito pallido, pz -a mo no hombro de Julio: <br /> +Ao entrar na sala, Sebastião, muito pallido, pôz +a mão no hombro de Julião: <br /> <br /> -—Ento achas que foi o aneurisma? <br /> +—Então achas que foi o aneurisma? <br /> <br /> -—Foi. Enfureceu-se, estourou. dos livros... <br /> +—Foi. Enfureceu-se, estourou. É dos livros... <br /> <br /> -—Se no se tivesse zangado hoje... <br /> +—Se não se tivesse zangado hoje... <br /> <br /> -—Estourava manh. Estava nas ultimas... Deixa -em paz a creatura. Est comeando a esta hora -a apodrecer, no a perturbemos. <br /> +—Estourava ámanhã. Estava nas ultimas... Deixa +em paz a creatura. Está começando a esta hora +a apodrecer, não a perturbemos. <br /> <br /> -Declarou ento, esfregando as mos com frio, -que comia alguma cousa. Achou no armario um -pedao de vitella fria, uma garrafa meia de Collares. +Declarou então, esfregando as mãos com frio, +que «comia alguma cousa». Achou no armario um +pedaço de vitella fria, uma garrafa meia de Collares. Installou-se e, com a bocca cheia, deitando o vinho d'alto: <br /> <br /> -—Ento sabes a novidade, Sebastio? <br /> +—Então sabes a novidade, Sebastião? <br /> <br /> -—No. <br /> +—Não. <br /> <br /> —O meu concorrente foi despachado! <br /> <br /> -Sebastio murmurou: <br /> +Sebastião murmurou: <br /> <br /> —Que ferro! <br /> <br /> -—Era previsto—disse Julio com um grande +—Era previsto—disse Julião com um grande gesto.—Eu ia fazer um escandalo, mas...—e teve um risinho—amansaram-me! Estou n'um posto medico, deram-me um posto medico! Atiraram-me um osso! <br /> <br /><span class="pagenum">[539]</span> -—Sim?—fez Sebastio.—Homem, ainda bem, +—Sim?—fez Sebastião.—Homem, ainda bem, parabens. E agora? <br /> <br /> —Agora, roel-o! <br /> <br /> De resto, tinham-lhe promettido a primeira vagatura. -O posto medico no era mau... Em definitiva, -a situao melhorra... <br /> +O posto medico não era mau... Em definitiva, +a situação melhorára... <br /> <br /> -—Mas mesquinha, mesquinha! No sio do atoleiro... <br /> +—Mas mesquinha, mesquinha! Não sáio do atoleiro... <br /> <br /> Estava farto de medicina, disse depois d'um silencio. -Era um bco sem sahida. Devia-se ter feito +Era um bêco sem sahida. Devia-se ter feito advogado, politico, intrigante. Tinha nascido p'ra isso! <br /> <br /> Ergueu-se, e com grandes passadas pela sala, o -cigarro na mo, a voz cortante, expoz um plano de -ambio:—O paiz est a preceito para um intrigante -com vontade! Esta gente toda est velha, cheia -de doenas, de catarrhos de bexiga, de antigas syphilis! -tudo isto est pdre por dentro e por fra! -o velho mundo constitucional vai a cahir aos pedaos... +cigarro na mão, a voz cortante, expoz um plano de +ambição:—O paiz está a preceito para um intrigante +com vontade! Esta gente toda está velha, cheia +de doenças, de catarrhos de bexiga, de antigas syphilis! +tudo isto está pôdre por dentro e por fóra! +o velho mundo constitucional vai a cahir aos pedaços... Necessitam-se homens! <br /> <br /> -E plantando-se diante de Sebastio: <br /> +E plantando-se diante de Sebastião: <br /> <br /> —Este paiz, meu caro amigo, tem-se governado -at aqui com <em>expedientes</em>. Quando vier a revoluo +até aqui com <em>expedientes</em>. Quando vier a revolução contra os <em>expedientes</em>, o paiz ha-de procurar quem tenha os <em>principios</em>. Mas quem tem ahi principios? Quem tem ahi quatro principios? Ninguem; teem dividas, -vicios secretos, dentes postios; mas principios, +vicios secretos, dentes postiços; mas principios, nem meio! Por consequencia se houver tres -patuscos que se dem ao trabalho de estabelecer -meia duzia de principios srios, racionaes, modernos, +patuscos que se dêem ao trabalho de estabelecer +meia duzia de principios sérios, racionaes, modernos, <span class="pagenum">[540]</span> positivos, o paiz tem se atirar de joelhos, e supplicar-lhes: Senhores, fazei-me a honra insigne -de me pr o freio nos dentes! Ora eu devia ser um -d'estes. Nasci p'ra isso! E secca-me a ida de que +de me pôr o freio nos dentes! Ora eu devia ser um +d'estes. Nasci p'ra isso! E secca-me a idéa de que em quanto outros idiotas, mais astutos e mais previdentes, -ho-de estar no poleiro a reluzir ao sol, <em>al -hermoso sol portugus</em>, como se diz nas zarzuelas, +hão-de estar no poleiro a reluzir ao sol, <em>al +hermoso sol português</em>, como se diz nas zarzuelas, eu hei-de estar a receitar cataplasmas a velhas devotas, ou a ligar as rupturas d'algum desembargador caduco. <br /> <br /> -Sebastio calado pensava na outra, morta em +Sebastião calado pensava na outra, morta em cima. <br /> <br /> -—Estupido paiz, estupida vida!—rosnou Julio. <br /> +—Estupido paiz, estupida vida!—rosnou Julião. <br /> <br /> -Mas uma carruagem entrou na rua, parou porta. <br /> +Mas uma carruagem entrou na rua, parou á porta. <br /> <br /> -—Chegam os principes!—disse Julio. Desceram +—Chegam os principes!—disse Julião. Desceram logo. <br /> <br /> -Jorge ajudava Luiza a sahir do trem, quando Sebastio, +Jorge ajudava Luiza a sahir do trem, quando Sebastião, abrindo a porta, bruscamente: <br /> <br /> -—Houve c grande novidade! <br /> +—Houve cá grande novidade! <br /> <br /> —Fogo?—gritou Jorge voltando-se aterrado. <br /> <br /> —A Juliana, que lhe rebentou o aneurisma—disse -a voz de Julio da sombra da porta. <br /> +a voz de Julião da sombra da porta. <br /> <br /> —Oh c'os diabos!—E Jorge atarantado procurava - pressa na algibeira troco para o cocheiro. <br /> +á pressa na algibeira troco para o cocheiro. <br /> <br /> -—Ai, eu j no entro!—exclamou logo D. Felicidade, -mostrando portinhola a sua larga face envolvida -n'uma manta branca.—Eu j no entro! <br /> +—Ai, eu já não entro!—exclamou logo D. Felicidade, +mostrando á portinhola a sua larga face envolvida +n'uma manta branca.—Eu já não entro! <br /> <br /> —Nem eu!—fez Luiza, toda tremula. <br /> <br /> @@ -20922,15 +20882,15 @@ n'uma manta branca.—Eu j no entro! <br /> Jorge. <br /> <br /><span class="pagenum">[541]</span> -Sebastio lembrou que podiam ir para casa d'elle. -Tinha o quarto da mam, era s pr lenoes na +Sebastião lembrou que podiam ir para casa d'elle. +Tinha o quarto da mamã, era só pôr lençoes na cama. <br /> <br /> -—Vamos, sim! Vamos, Jorge! o melhor!—supplicou +—Vamos, sim! Vamos, Jorge! É o melhor!—supplicou Luiza. <br /> <br /> Jorge hesitava. A patrulha que ia passando ao -alto da rua, ao vr aquelle grupo junto lanterna +alto da rua, ao vêr aquelle grupo junto á lanterna do trem, parou. E Jorge emfim, instado, muito contrariado, consentiu. <br /> <br /> @@ -20938,26 +20898,26 @@ consentiu. <br /> A carruagem vai-a levar, D. Felicidade... <br /> <br /> —E a mim, que estou em chinellas!—acudiu -Julio. <br /> +Julião. <br /> <br /> -D. Felicidade lembrou ento, como christ, que +D. Felicidade lembrou então, como christã, que era necessario alguem, para velar a morta... <br /> <br /> —Ora, pelo amor de Deus, D. Felicidade!—exclamou -Julio, entrando logo para a carruagem, batendo +Julião, entrando logo para a carruagem, batendo com a portinhola. <br /> <br /> -Mas D. Felicidade insistia: era uma falta de religio! -ao menos pr duas velas, mandar chamar um +Mas D. Felicidade insistia: era uma falta de religião! +ao menos pôr duas velas, mandar chamar um padre!... <br /> <br /> -—Largue, cocheiro!—berrou Julio, impaciente. <br /> +—Largue, cocheiro!—berrou Julião, impaciente. <br /> <br /> -A carruagem deu a volta. E D. Felicidade portinhola, -apesar de Julio que a puxava pelos vestidos, +A carruagem deu a volta. E D. Felicidade á portinhola, +apesar de Julião que a puxava pelos vestidos, gritava: <br /> <br /> -— um peccado mortal! uma irreverencia! +—É um peccado mortal! É uma irreverencia! Ao menos duas velas! <br /> <br /> O trem partiu a trote. <br /> @@ -20966,84 +20926,84 @@ Luiza agora tinha escrupulos: realmente podia-se mandar chamar alguem... <br /> <br /><span class="pagenum">[542]</span> -Mas Jorge enfureceu-se. Chamar quem, quella +Mas Jorge enfureceu-se. Chamar quem, áquella hora? Que beatice! Estava morta, acabou-se! Enterrava-se... Velar o estafermo! Fazer-lhe talvez camara ardente tambem? Queria ella ir velal-a?... <br /> <br /> -—Ento, Jorge, ento!...—murmurava Sebastio. <br /> +—Então, Jorge, então!...—murmurava Sebastião. <br /> <br /> -—No, de mais! vontade de crear embaraos, +—Não, é de mais! É vontade de crear embaraços, que diabo! <br /> <br /> -Luiza baixava a cabea: e, em quanto Jorge, praguejando, +Luiza baixava a cabeça: e, em quanto Jorge, praguejando, ficou atraz a fechar a porta da casa, ella -foi descendo a rua pelo brao de Sebastio. <br /> +foi descendo a rua pelo braço de Sebastião. <br /> <br /> —Estourou de raiva—disse-lhe elle baixinho. <br /> <br /> -Toda a rua Jorge resmungou. Que ida, irem dormir -agora fra de casa! Realmente era levar muito +Toda a rua Jorge resmungou. Que idéa, irem dormir +agora fóra de casa! Realmente era levar muito longe as mariquices...! <br /> <br /> -At que Luiza lhe disse, quasi chorando: <br /> +Até que Luiza lhe disse, quasi chorando: <br /> <br /> -—V se me queres torturar mais, e fazer-me +—Vê se me queres torturar mais, e fazer-me mais doente, Jorge! <br /> <br /> -Elle calou-se, mordendo furioso o charuto. E Sebastio, +Elle calou-se, mordendo furioso o charuto. E Sebastião, para a socegar, propoz que viesse a tia Vicencia, a preta, velar a Juliana. <br /> <br /> —Era talvez melhor—murmurou Luiza. <br /> <br /> -Chegaram porta de Sebastio. O <em>frou-frou</em> do -vestido de sda de Luiza, quella hora, na sua casa, -dava uma commoo a Sebastio: a mo tremia-lhe +Chegaram á porta de Sebastião. O <em>frou-frou</em> do +vestido de sêda de Luiza, áquella hora, na sua casa, +dava uma commoção a Sebastião: a mão tremia-lhe ao accender as velas da sala. Foi acordar a tia Vicencia -para fazer ch; tirou elle mesmo os lenoes -dos bahs, apressado, feliz d'aquella hospitalidade. -Quando voltou sala, Luiza estava s, muito pallida, -ao canto do soph. +para fazer chá; tirou elle mesmo os lençoes +dos bahús, apressado, feliz d'aquella hospitalidade. +Quando voltou á sala, Luiza estava só, muito pallida, +ao canto do sophá. <br /> <br /><span class="pagenum">[543]</span> —Jorge?—perguntou elle. <br /> <br /> -—Foi ao seu escriptorio, Sebastio, escrever ao +—Foi ao seu escriptorio, Sebastião, escrever ao parocho para o enterro...—E com os olhos brilhantes, -n'uma voz sumida e assustada:—Ento? <br /> +n'uma voz sumida e assustada:—Então? <br /> <br /> -Sebastio tirou da algibeira a carteirinha de Juliana. +Sebastião tirou da algibeira a carteirinha de Juliana. Ella agarrou-a sofregamente—e com um movimento -brusco, tomou-lhe a mo, e beijou-lh'a. <br /> +brusco, tomou-lhe a mão, e beijou-lh'a. <br /> <br /> Mas Jorge entrava, sorrindo. <br /> <br /> -—Ento agora est mais descanada, a menina? <br /> +—Então agora está mais descançada, a menina? <br /> <br /> —Inteiramente—disse ella, com um suspiro de allivio. <br /> <br /> -Foram tomar ch. Sebastio contou a Jorge, corando -um pouco, a maneira como entrra em casa, -a Juliana lhe estivera a dizer que fra despedida, e -fallando, exaltando-se, zs, de repente, cahira para +Foram tomar chá. Sebastião contou a Jorge, corando +um pouco, a maneira como entrára em casa, +a Juliana lhe estivera a dizer que fôra despedida, e +fallando, exaltando-se, zás, de repente, cahira para o lado morta... <br /> <br /> E acrescentou: <br /> <br /> —Coitada! <br /> <br /> -Luiza via-o mentir, olhando-o com adorao. <br /> +Luiza via-o mentir, olhando-o com adoração. <br /> <br /> —E a Joanna?—perguntou Jorge, de repente. <br /> <br /> Luiza, sem se perturbar, respondeu: <br /> <br /> -—Ah, esqueci-me dizer-te... Tinha pedido licena -p'ra ir vr uma tia que est muito mal, p'ra os -lados de Bellas... Diz que volta manh... Mais uma -gota de ch, Sebastio... <br /> +—Ah, esqueci-me dizer-te... Tinha pedido licença +p'ra ir vêr uma tia que está muito mal, p'ra os +lados de Bellas... Diz que volta ámanhã... Mais uma +gota de chá, Sebastião... <br /> <br /> Esqueceram-se depois de mandar a Vicencia—e ninguem velou a morta. @@ -21055,50 +21015,50 @@ ninguem velou a morta. </h3> <br /> <br /> -Luiza passou a noite s voltas, com febre. Jorge +Luiza passou a noite ás voltas, com febre. Jorge de madrugada ficou assustado da frequencia do seu pulso e do calor secco da pelle. <br /> <br /> -Elle mesmo, muito nervoso, no pudera dormir. <br /> +Elle mesmo, muito nervoso, não pudera dormir. <br /> <br /> -O quarto, onde se no accendera luz havia muito, +O quarto, onde se não accendera luz havia muito, tinha uma frialdade deshabitada: na parede, junto ao tecto, havia manchas de humidade: e a cama antiga de columnas torneadas sem cortinados, o velho -trem do seculo passado com o seu espelho embaciado -davam, luz bruxuleante da lamparina, um +tremó do seculo passado com o seu espelho embaciado +davam, á luz bruxuleante da lamparina, um sentimento triste de convivencias extinctas. O achar-se alli com sua mulher, n'uma cama alheia, trazia-lhe, sem saber porque, uma vaga saudade; parecia-lhe -que se dera na sua vida uma alterao brusca—e +que se dera na sua vida uma alteração brusca—e que, semelhante a um rio a que se muda o leito, <span class="pagenum">[546]</span> -a sua existencia, desde essa noite, comearia a correr +a sua existencia, desde essa noite, começaria a correr entre aspectos differentes. O nordeste fazia bater -os caixilhos da vidraa, e uivava encanado na rua. <br /> +os caixilhos da vidraça, e uivava encanado na rua. <br /> <br /> -Pela manh, Luiza no se pde levantar. <br /> +Pela manhã, Luiza não se pôde levantar. <br /> <br /> -Julio, chamado pressa, tranquillisou-os: <br /> +Julião, chamado á pressa, tranquillisou-os: <br /> <br /> -— uma febresita nervosa. Quer socego, no vale +—É uma febresita nervosa. Quer socego, não vale nada. Foi o medosinho d'hontem, hein? <br /> <br /> —Sonhei toda a noite com ella—disse Luiza.—Que tinha resuscitado... Que horror! <br /> <br /> -—Ah! pde estar socegada... E j a aviaram, +—Ah! póde estar socegada... E já a aviaram, a mulher? <br /> <br /> -—O Sebastio l anda com a massada—disse +—O Sebastião lá anda com a massada—disse Jorge.—E eu vou dar uma vista d'olhos. <br /> <br /> -Na rua j se sabia a morte da <em>tripa-velha</em>. <br /> +Na rua já se sabia a morte da <em>tripa-velha</em>. <br /> <br /> A mulher que a veio amortalhar, uma matrona muito picada das bexigas, com os olhos avermelhados -da paixo da aguardente, era conhecida da snr.<sup>a</sup> -Helena. Estiveram um momento a palrar ao sol, +da paixão da aguardente, era conhecida da snr.<sup>a</sup> +Helena. Estiveram um momento a palrar ao sol, á porta do estanque: <br /> <br /> —Muito que fazer agora, snr.<sup>a</sup> Margarida, hein? <br /> @@ -21108,44 +21068,44 @@ amortalhadeira com a voz um pouco rouca.—No inverno sempre ha mais obra. Mas tudo gente velha, com os frios. Nem um corpinho bonito p'ra vestir... <br /> <br /> -A snr.<sup>a</sup> Margarida tinha predileces artisticas. +A snr.<sup>a</sup> Margarida tinha predilecções artisticas. Gostava d'um bonito corpo de dezoito annos, uma mocinha fresca para lavar, escarolar, enfeitar... Entrouxava - m cara a gente velha. Mas com as raparigas +á má cara a gente velha. Mas com as raparigas novas esmerava-se: acatitava as pregas da -mortalha; calculava o <em>chic</em> d'uma flr, d'um lao; +mortalha; calculava o <em>chic</em> d'uma flôr, d'um laço; <span class="pagenum">[547]</span> trabalhava com os requintes ajanotados d'uma modista do sepulchro. <br /> <br /> A estanqueira contou-lhe muitas particularidades -sobre a Juliana, os favores dos patres, as tafularias +sobre a Juliana, os favores dos patrões, as tafularias d'ella, os luxos do quarto tapetado... A snr.<sup>a</sup> Margarida -dizia-se banzada. E para quem iria agora tudo -aquillo?—perguntavam.—A <em>tripa-velha</em> no tinha +dizia-se «banzada». E para quem iria agora tudo +aquillo?—perguntavam.—A <em>tripa-velha</em> não tinha parentes... <br /> <br /> —Era uma riqueza p'ra a minha Antoninha!—disse -a amortalhadeira, traando o chale com tristeza. <br /> +a amortalhadeira, traçando o chale com tristeza. <br /> <br /> —Como vai ella, a pequena?... <br /> <br /> -—Aquillo vai mal, snr.<sup>a</sup> Helena. Aquella cabea -douda!—E exhalando a sua dr com loquacidade:—Deixar +—Aquillo vai mal, snr.<sup>a</sup> Helena. Aquella cabeça +douda!—E exhalando a sua dôr com loquacidade:—Deixar o brazileiro que a trazia nas palminhas... E por quem? Por aquelle desalmado, que lhe come -tudo, que j lhe arranjou um filho, e que a derra -com pau... Mas ento, as raparigas so assim... Vo -atraz do palmo de cara... Que elle bonito rapaz! +tudo, que já lhe arranjou um filho, e que a derrêa +com pau... Mas então, as raparigas são assim... Vão +atraz do palmo de cara... Que elle é bonito rapaz! Mas um bebedo!... Coitada!... Pois vou vestir a boneca, snr.<sup>a</sup> Helena.—E entrou na casa compungidamente. <br /> <br /> -O padre j chegra tambem. Estava na sala com -Sebastio, que conhecia d'Almada, e fallava de lavoura, +O padre já chegára tambem. Estava na sala com +Sebastião, que conhecia d'Almada, e fallava de lavoura, d'enxertos, das regas, n'uma voz grossa—passando, -com um gesto lento da sua mo cabelluda, -o leno enrolado por debaixo do nariz. As janellas -em toda a casa estavam abertas ao sol muito dce. +com um gesto lento da sua mão cabelluda, +o lenço enrolado por debaixo do nariz. As janellas +em toda a casa estavam abertas ao sol muito dôce. Os canarios chilreavam. <br /> <br /> —E estava ha muito tempo na casa, a defunta?—perguntou @@ -21155,57 +21115,57 @@ fumando. <br /> <br /> —Ha quasi um anno. <br /> <br /> -O padre desdobrou lentamente o leno, e sacudindo-o, +O padre desdobrou lentamente o lenço, e sacudindo-o, antes de se assoar: <br /> <br /> -—A sua senhora ha-de sentir muito... um tributo +—A sua senhora ha-de sentir muito... É um tributo universal!... <br /> <br /> E assoou-se, com estrondo. <br /> <br /> -A Joanna, ento, de chale e leno, appareceu, -em bicos de ps. Soubera pelos visinhos que a Juliana -arrebentra, que os senhores estavam em -casa do snr. Sebastio. Vinha de l. Luiz mandra-a +A Joanna, então, de chale e lenço, appareceu, +em bicos de pés. Soubera pelos visinhos que a Juliana +«arrebentára», que os senhores estavam em +casa do snr. Sebastião. Vinha de lá. Luiz mandára-a entrar no quarto. Quando a viu doente, a sua rica -senhora, lagrimejou muito. Luiza disse-lhe—que -agora estava tudo como d'antes, podia voltar... <br /> +senhora, lagrimejou muito. Luiza disse-lhe—«que +agora estava tudo como d'antes, podia voltar...» <br /> <br /> -—E oua, Joanna, se o snr. Jorge lhe perguntar... +—E ouça, Joanna, se o snr. Jorge lhe perguntar... que esteve em Bellas, com a tia... <br /> <br /> -A rapariga fra logo buscar a trouxa e vinha installar-se—um +A rapariga fôra logo buscar a trouxa e vinha installar-se—um pouco assustada da morte em casa. <br /> <br /> -D'ahi a pouco o Paula bateu discretamente +D'ahi a pouco o Paula bateu discretamente á porta. <br /> <br /> Alli vinha offerecer-se para o que fosse necessario n'aquelle transe! E tirando e pondo rapidamente -o bon, raspando o p, dizia com a sua voz catarrhosa: <br /> +o boné, raspando o pé, dizia com a sua voz catarrhosa: <br /> <br /> -—Lamento a desgraa, lamento a desgraa! Todos +—Lamento a desgraça, lamento a desgraça! Todos somos mortaes... <br /> <br /> -—Bem, bem, snr. Paula, no necessario nada—disse +—Bem, bem, snr. Paula, não é necessario nada—disse Jorge.—Obrigado! <br /> <br /> E fechou bruscamente a cancella. <br /> <br /><span class="pagenum">[549]</span> -Estava impaciente por se desembaraar d'aquella -estopada: e mesmo como o enfastiavam as martelladas -espaadas dos homens pregando o caixo, +Estava impaciente por se desembaraçar «d'aquella +estopada»: e mesmo como o enfastiavam as martelladas +espaçadas dos homens pregando o caixão, em cima, chamou a Joanna: <br /> <br /> -—Diga a essa gente que se avie. No vamos ficar +—Diga a essa gente que se avie. Não vamos ficar aqui toda a vida! <br /> <br /> A Joanna foi logo dizer que o senhor estava -n'um phrenesi! Tinha-se feito j intima da snr.<sup>a</sup> Margarida. -A amortalhadeira fra mesmo com ella cozinha -para tomar uma sustanciasinha. Como o lume -estava apagado, contentou-se com sopas de po +n'um phrenesi! Tinha-se feito já intima da snr.<sup>a</sup> Margarida. +A amortalhadeira fôra mesmo com ella á cozinha +para tomar uma «sustanciasinha». Como o lume +estava apagado, contentou-se com sopas de pão em vinho. <br /> <br /> —Sopinha de burro—dizia, fazendo estalar a @@ -21213,26 +21173,26 @@ lingua. <br /> <br /> Mas estava enojada com a defunta! Nunca vira bicho mais feio. Um corpo de sardinha secca! E pondo -um olhar complacente nas bellas frmas de Joanna:—A -menina, no. A menina tem-me o ar de +um olhar complacente nas bellas fórmas de Joanna:—A +menina, não. A menina tem-me o ar de ter muito bom corpo...—E parecia calcular como talharia a mortalha para aquellas linhas robustas. <br /> <br /> Joanna disse escandalisada: <br /> <br /> -—Longe v o agouro, cruzes! <br /> +—Longe vá o agouro, cruzes! <br /> <br /> A outra sorriu; faltavam-lhe dous dentes: e aflautando a voz: <br /> <br /> -—Tem-me passado pela mo muita gente fina, +—Tem-me passado pela mão muita gente fina, minha menina. Mais uma gotinha de vinho, faz favor? - do Cartaxo, no? muito avelludado! rica +É do Cartaxo, não? é muito avelludado! rica gota! <br /> <br /> -Emfim, com grande satisfao de Jorge, s quatro +Emfim, com grande satisfação de Jorge, ás quatro <span class="pagenum">[550]</span> -horas os homens desceram o caixo. A visinhana +horas os homens desceram o caixão. A visinhança estava pelas portas. O Paula mesmo, por fanfarronada, disse com dous dedos adeus ao esquife, murmurando: <br /> <br /> @@ -21240,90 +21200,90 @@ disse com dous dedos adeus ao esquife, murmurando: <br /> <br /> Jorge em cima, ao sahir, perguntou a Joanna: <br /> <br /> -—E voss no tem medo de ficar aqui s? <br /> +—E vossê não tem medo de ficar aqui só? <br /> <br /> -—Eu no, meu senhor. Quem vai no volta! <br /> +—Eu não, meu senhor. Quem vai não volta! <br /> <br /> Tinha medo, com effeito; mas preparava-se a -passar a noite com o Pedro, e batia-lhe o corao -de alegria de terem a casa por sua at de manh, +passar a noite com o Pedro, e batia-lhe o coração +de alegria de «terem a casa por sua» até de manhã, e de se poderem rolar amorosamente, como fidalgos, por cima do divan da sala. <br /> <br /> -Jorge voltou com Sebastio para casa, e apenas +Jorge voltou com Sebastião para casa, e apenas entrou no quarto, onde Luiza estava deitada: <br /> <br /> -—Tudo prompto—disse, esfregando as mos.—L -vai para o Alto de S. Joo, devidamente acondicionada. +—Tudo prompto—disse, esfregando as mãos.—Lá +vai para o Alto de S. João, devidamente acondicionada. <em>Per omnia sæcula sæculorum!</em> <br /> <br /> -A tia Joanna, que estava cabeceira de Luiza, +A tia Joanna, que estava á cabeceira de Luiza, acudiu: <br /> <br /> -—Ai, quem l vai, l vai... Mas boa mulher, no +—Ai, quem lá vai, lá vai... Mas boa mulher, não era ella! <br /> <br /> —Era um bom estafermo—disse Jorge.—Esperemos que a esta hora esteja a ferver na caldeira -de Pero Botelho. No verdade, tia Joanna? <br /> +de Pero Botelho. Não é verdade, tia Joanna? <br /> <br /> —Jorge!—fez Luiza reprehensivamente. E julgou dever rezar-lhe baixo dous padre-nossos por alma. <br /> <br /> -Foi tudo o que a terra deu na sua morte quella +Foi tudo o que a terra deu na sua morte áquella que ia rolando a essa hora, ao trote de duas velhas <span class="pagenum">[551]</span> -eguas, para a valla dos pobres, e que fra na vida +eguas, para a valla dos pobres, e que fôra na vida Juliana Couceiro Tavira! <br /> <br /> <br /> <br /> No dia seguinte Luiza estava melhor: fallaram -mesmo, com grande desconsolao da tia Joanna, em -voltar para casa. Sebastio no dizia nada, mas quasi -desejava secretamente que uma convalescena a -retivesse alli semanas indefinidas. Ella parecia to -agradecida! Tinha olhares to reconhecidos, que s -elle comprehendia! E era to feliz tendo-a alli e a +mesmo, com grande desconsolação da tia Joanna, em +voltar para casa. Sebastião não dizia nada, mas quasi +desejava secretamente que uma convalescença a +retivesse alli semanas indefinidas. Ella parecia tão +agradecida! Tinha olhares tão reconhecidos, que só +elle comprehendia! E era tão feliz tendo-a alli e a Jorge na sua casa! Conferenciava com a tia Vicencia sobre o jantar; andava pelos corredores e pela sala, -com respeito, quasi em bicos de ps, como se a presena +com respeito, quasi em bicos de pés, como se a presença d'ella santificasse a casa; enchia os vasos de -camelias e de violetas; sorria beatamente ao vr -Jorge, sobremesa, saborear e gabar o seu velho +camelias e de violetas; sorria beatamente ao vêr +Jorge, á sobremesa, saborear e gabar o seu velho cognac; sentia alguma cousa de bom acalental-o como -um manto acolchoado e macio; e j pensava que +um manto acolchoado e macio; e já pensava que quando ella partisse tudo lhe pareceria mais frio, e com uma tristeza de ruina! <br /> <br /> Mas d'ahi a dous dias voltaram para casa. <br /> <br /> Luiza ficou muito agradada com a criada nova. -Fra Sebastio que a arranjra. Era uma rapariguita +Fôra Sebastião que a arranjára. Era uma rapariguita aceadinha e branca, com grandes olhos bonitos e pasmados, um ar amoravel: chamava-se Marianna; -e foi logo correndo dizer a Joanna que morria pela +e foi logo correndo dizer a Joanna «que morria pela senhora! tinha uma carinha d'anjo! que linda que -era! +era!» <br /> <br /><span class="pagenum">[552]</span> -Jorge logo n'essa manh mandou os dous bahus -de Juliana tia Victoria. <br /> +Jorge logo n'essa manhã mandou os dous bahus +de Juliana á tia Victoria. <br /> <br /> -Luiza, quando elle sahiu tardinha, fechou-se no +Luiza, quando elle sahiu á tardinha, fechou-se no quarto, com a carteirinha de Juliana, correu os transparentes -por precauo, accendeu uma vela, e queimou -as cartas. As mos tremiam-lhe; e via, com os +por precaução, accendeu uma vela, e queimou +as cartas. As mãos tremiam-lhe; e via, com os olhos marejados de lagrimas, a sua vergonha, a sua -escravido irem-se, dissiparem-se n'um fumo alvadio! -Respirou completamente! Emfim! E fra Sebastio, -aquelle querido Sebastio! <br /> +escravidão irem-se, dissiparem-se n'um fumo alvadio! +Respirou completamente! Emfim! E fôra Sebastião, +aquelle querido Sebastião! <br /> <br /> -Foi ento sala, cozinha, vr a casa: tudo lhe -pareceu novo, a sua vida cheia de doura: abriu todas +Foi então á sala, á cozinha, vêr a casa: tudo lhe +pareceu novo, a sua vida cheia de doçura: abriu todas as janellas; experimentou o piano; rasgou mesmo -em pedaos, por superstio, a musica da <em>Mdj</em>, +em pedaços, por superstição, a musica da <em>Médjé</em>, que lhe dera Bazilio; conversou muito com a Marianna; e saboreando o seu caldo de gallinha de convalescente, com a face alumiada da felicidade: <br /> @@ -21331,51 +21291,51 @@ com a face alumiada da felicidade: <br /> —Que bem que vou passar agora!—pensava. <br /> <br /> Quando sentiu no corredor os passos de Jorge -que entrava, correu, deitou-lhe os braos ao pescoo, -e com a cabea no hombro d'elle: <br /> +que entrava, correu, deitou-lhe os braços ao pescoço, +e com a cabeça no hombro d'elle: <br /> <br /> -—Estou to contente hoje! E se tu soubesses, - to boa rapariga a Marianna! <br /> +—Estou tão contente hoje! E se tu soubesses, +é tão boa rapariga a Marianna! <br /> <br /> <br /> <br /> -Mas n'essa noite a febre voltou. Julio, de manh, +Mas n'essa noite a febre voltou. Julião, de manhã, achou-a peor. <br /> <br /> —Crescimentos...—disse descontente. <br /> <br /><span class="pagenum">[553]</span> Estava receitando, quando D. Felicidade entrou, -muito excitada. Ficou toda surprehendida de vr -Luiza doente; e debruando-se sobre ella, disse-lhe +muito excitada. Ficou toda surprehendida de vêr +Luiza doente; e debruçando-se sobre ella, disse-lhe logo ao ouvido: <br /> <br /> —Tenho que te contar! <br /> <br /> -Apenas Jorge e Julio sahiram, desabafou, sentada -aos ps da cama,—com uma voz ora baixa +Apenas Jorge e Julião sahiram, desabafou, sentada +aos pés da cama,—com uma voz ora baixa pela gravidade da confidencia, ora aguda pelo impeto -da indignao: <br /> +da indignação: <br /> <br /> Tinha sido roubada! Indignamente roubada! O -homem que mandra a Tuy, o grande ladro, tinha -escripto Gertrudes, criada, que no estava resolvido +homem que mandára a Tuy, o grande ladrão, tinha +escripto á Gertrudes, á criada, que não estava resolvido a voltar a Lisboa; que a mulher de virtude -mudra de povoao; que elle no queria saber mais -d'esse negocio e que at o achava exquisito; que +mudára de povoação; que elle não queria saber mais +d'esse negocio e que até o achava exquisito; que offerecia o seu prestimo em Tuy,—tudo isto n'uma boa letra d'escrevente publico, n'um portuguez horrivel,—e do dinheiro nem palavra! <br /> <br /> —Que te parece o mariola? Oito moedas! Eu -se no fosse pela vergonha, ia direita policia... +se não fosse pela vergonha, ia direita á policia... Ai! os gallegos p'ra mim acabaram! Por isso o Conselheiro -no se chegava ao rego! Pudera! A mulher -nunca lanou a sorte!...—Porque se j no acreditava -na honestidade dos gallegos, no perdera a f +não se chegava ao rego! Pudera! A mulher +nunca lançou a sorte!...—Porque se já não acreditava +na honestidade dos gallegos, não perdera a fé no poder das bruxas. <br /> <br /> -Que ella no era pelas oito moedas! Era pelo +Que ella não era pelas oito moedas! Era pelo ferro! E depois, quem sabe onde estaria agora a mulher! Ai, era d'endoudecer!... Que te parece, hein? <br /> @@ -21384,13 +21344,13 @@ Luiza encolheu os hombros: muito abafada na <span class="pagenum">[554]</span> roupa, as faces escarlates, cerravam-se-lhe os olhos n'uma somnolencia pesada: D. Felicidade aconselhou-lhe -vagamente um suadouro, suspirando; e -como Luiza no lhe podia dar consolaes, sahiu para -ir Encarnao desabafar com a Silveira. <br /> +vagamente um «suadouro», suspirando; e +como Luiza não lhe podia dar consolações, sahiu para +ir á Encarnação desabafar com a Silveira. <br /> <br /> N'essa madrugada Luiza peorou. A febre recrudecera. -Jorge, inquieto, vestiu-se pressa, s nove -horas da manh, foi buscar Julio. Descia a escada +Jorge, inquieto, vestiu-se á pressa, ás nove +horas da manhã, foi buscar Julião. Descia a escada rapidamente, abotoando ainda o paletot, quando o carteiro subia, tossindo o seu catarrho. <br /> <br /> @@ -21400,20 +21360,20 @@ carteiro subia, tossindo o seu catarrho. <br /> ser p'ra a senhora... <br /> <br /> Jorge olhou o enveloppe: tinha o nome de Luiza, -vinha de Frana. <br /> +vinha de França. <br /> <br /> -—De quem diabo isto?—pensou. Metteu-a +—De quem diabo é isto?—pensou. Metteu-a no bolso do paletot, e sahiu. <br /> <br /> -D'ahi a meia hora voltava com Julio, n'um trem. <br /> +D'ahi a meia hora voltava com Julião, n'um trem. <br /> <br /> Luiza dormitava, amodorrada. <br /> <br /> -— preciso cautela... Vamos a vr...—murmurou -Julio, coando devagar a cabea, em quanto +—É preciso cautela... Vamos a vêr...—murmurou +Julião, coçando devagar a cabeça, em quanto do outro lado do leito Jorge o olhava anciosamente. <br /> <br /> -Receitou e ficou para almoar com Jorge. Estava +Receitou e ficou para almoçar com Jorge. Estava um dia frio e pardo. A Marianna, abafada n'um casabeque, servia, com os dedos vermelhos, inchados de frieiras. E Jorge sentia-se entristecer, como se @@ -21422,139 +21382,139 @@ e condensando n'alma. <br /> <br /> A que se podia attribuir semelhante febre? dizia, <span class="pagenum">[555]</span> -muito desconsolado. To extraordinario! Havia +muito desconsolado. Tão extraordinario! Havia seis dias, ora melhor, ora peor... <br /> <br /> -—Estas febres veem por tudo—replicou Julio, -partindo tranquillamente uma torrada.—s vezes -por uma corrente d'ar s vezes por um desgosto. +—Estas febres veem por tudo—replicou Julião, +partindo tranquillamente uma torrada.—Ás vezes +por uma corrente d'ar ás vezes por um desgosto. Tenho eu, por exemplo, um caso curioso: um sujeito, um Alves, que esteve p'ra fallir, e que viveu, coitado, durante dous mezes em torturas. Ha duas -semanas, por um golpe de fortuna,—a velhaca s +semanas, por um golpe de fortuna,—a velhaca ás vezes tem d'estes caprichos,—arranjou todos os -seus negocios, viu-se livre. Pois senhor, desde ento +seus negocios, viu-se livre. Pois senhor, desde então tem uma febre assim, tortuosa, complexa, com -symptomas disparatados... O que ? que a excitao +symptomas disparatados... O que é? É que a excitação nervosa abateu, e a felicidade trouxe-lhe uma -revoluo no sangue. Pde muito bem dar casca. -Faz ento a fallencia geral, a grande, aquella em -que o crdor implacavel, saca vista, e... <em>per +revolução no sangue. Póde muito bem dar á casca. +Faz então a fallencia geral, a grande, aquella em +que o crédor é implacavel, saca á vista, e... <em>per omnia sæcula!</em> <br /> <br /> Ergueu-se, e accendendo o cigarro: <br /> <br /> -—Em todo o caso um repouso absoluto. necessario -ter-lhe o espirito em algodo em rama. Nada -de palestra, nada de phrases, e se tiver sde, limonada. -At logo! <br /> +—Em todo o caso um repouso absoluto. É necessario +ter-lhe o espirito em algodão em rama. Nada +de palestra, nada de phrases, e se tiver sêde, limonada. +Até logo! <br /> <br /> -E sahiu, calando as luvas pretas que usava agora +E sahiu, calçando as luvas pretas que usava agora desde que pertencia ao Posto Medico. <br /> <br /> -Jorge voltou alcova: Luiza ainda dormitava. -Marianna sentada ao p n'uma cadeirinha baixa, com -o rostinho muito triste, no tirava de Luiza os seus +Jorge voltou á alcova: Luiza ainda dormitava. +Marianna sentada ao pé n'uma cadeirinha baixa, com +o rostinho muito triste, não tirava de Luiza os seus grandes olhos vagamente espantados. <br /> <br /> —Tem estado muito inquieta—murmurou. <br /> <br /><span class="pagenum">[556]</span> -Jorge apalpou a mo de Luiza que ardia, conchegou-lhe +Jorge apalpou a mão de Luiza que ardia, conchegou-lhe a roupa. Beijou-a devagarinho na testa, foi cerrar as portas da janella, defronte da alcova.—E passeando no escriptorio, voltavam-lhe as palavras -de Julio: so febres que veem por um desgosto! +de Julião: são febres que veem por um desgosto! Pensava na historia do negociante, recordava aquelle estado de abatimento e de fraqueza de Luiza que -o preoccupra tanto, ultimamente, to inexplicavel! -Ora, tolices! Desgosto de qu? Em casa de Sebastio -estivera to animada! Nem a morte da outra lhe fizera +o preoccupára tanto, ultimamente, tão inexplicavel! +Ora, tolices! Desgosto de quê? Em casa de Sebastião +estivera tão animada! Nem a morte da outra lhe fizera abalo!—De resto acreditava pouco nas <em>febres -de desgosto</em>! Julio tinha uma medicina litteraria. Pensou +de desgosto</em>! Julião tinha uma medicina litteraria. Pensou mesmo que seria mais prudente chamar o velho dr. Caminha... <br /> <br /> -Ao metter a mo no bolso, ento, os seus dedos +Ao metter a mão no bolso, então, os seus dedos encontraram uma carta; era a que o carteiro lhe dera, -de manh, para Luiza. Tornou a examinal-a com +de manhã, para Luiza. Tornou a examinal-a com curiosidade; o sobrescripto era banal, como os que -ha nos cafs ou nos restaurantes; no conhecia a -letra; era d'homem, vinha de Frana... Atravessou-o +ha nos cafés ou nos restaurantes; não conhecia a +letra; era d'homem, vinha de França... Atravessou-o um desejo rapido de a abrir. Mas conteve-se, atirou-a para cima da mesa, embrulhou devagar um cigarro. <br /> <br /> -Voltou alcova. Luiza permanecia na sua modorra: -a manga do chambre arregaada descobria o -brao mimoso, com a sua pennugem loura; a face +Voltou á alcova. Luiza permanecia na sua modorra: +a manga do chambre arregaçada descobria o +braço mimoso, com a sua pennugem loura; a face escarlate reluzia; as pestanas longas pousavam pesadamente, no adormecimento das palpebras finas; um annel do cabello cahira-lhe sobre a testa, e pareceu -a Jorge adoravel e tocante com aquella cr, a +a Jorge adoravel e tocante com aquella côr, a <span class="pagenum">[557]</span> -expresso da febre. Pensou, sem saber porque, que +expressão da febre. Pensou, sem saber porque, que outros a deveriam achar linda, desejal-a, dizer-lh'o, -se podessem... Para que lhe escreviam de Frana, +se podessem... Para que lhe escreviam de França, quem? <br /> <br /> Voltou ao escriptorio, mas aquella carta sobre -a mesa irritava-o: quiz lr um livro, atirou-o logo +a mesa irritava-o: quiz lêr um livro, atirou-o logo impaciente; e poz-se a passear, torcendo muito nervoso o forro das algibeiras. <br /> <br /> -Agarrou ento a carta, quiz vr, atravs do papel +Agarrou então a carta, quiz vêr, através do papel delgado do enveloppe; os seus dedos, mesmo -irresistivelmente, comearam a rasgar um angulo -do sobrescripto. Ah! No era delicado aquillo!... +irresistivelmente, começaram a rasgar um angulo +do sobrescripto. Ah! Não era delicado aquillo!... Mas a curiosidade, que governava o seu cerebro, suggeriu-lhe toda a sorte de raciocinios, com uma -tentao persuasiva:—Ella estava doente, e podia -ter alguma cousa urgente; se fosse uma herana? -depois ella no tinha segredos, e ento em Frana! +tentação persuasiva:—Ella estava doente, e podia +ter alguma cousa urgente; se fosse uma herança? +depois ella não tinha segredos, e então em França! Os seus escrupulos eram pueris! Dir-lhe-hia que a abrira por engano. E se a carta contivesse o segredo d'aquelle desgosto, do <em>desgosto</em> das theorias -de Julio!... Devia abril-a ento para a curar +de Julião!... Devia abril-a então para a curar melhor! <br /> <br /> Sem querer achou-se com a carta desdobrada -na mo. N'um relano avido devorou-a. Mas no +na mão. N'um relanço avido devorou-a. Mas não comprehendeu bem; as letras embrulhavam-se; -chegou-se janella, releu devagar: <br /> +chegou-se á janella, releu devagar: <br /> <br /> <br /> <div class="signature"> -Minha querida Luiza.</div> +«Minha querida Luiza.</div> <br /> <br /> -Seria longo explicar-te, como s antes d'hontem +«Seria longo explicar-te, como só antes d'hontem <span class="pagenum"><a name="p558" id="p558">[558]</a></span> em Nice—d'onde cheguei esta madrugada a Paris—recebi a tua carta, que pelos carimbos vejo que percorreu toda a Europa atraz de mim. Como -j l vo dous mezes e meio que a escreveste, +já lá vão dous mezes e meio que a escreveste, imagino que te arranjaste com a mulher, e que -no precisas do dinheiro. De resto se por acaso o +não precisas do dinheiro. De resto se por acaso o queres, manda um telegramma e tens-l'o ahi em -dous dias. Vejo pela tua carta que no acreditaste +dous dias. Vejo pela tua carta que não acreditaste nunca que a minha partida fosse motivada por negocios. -s bem injusta. A minha partida no te -devia ter tirado, como tu dizes, <em>todas as <a href="#e29">illuses</a> +És bem injusta. A minha partida não te +devia ter tirado, como tu dizes, <em>todas as <a href="#e29">illusões</a> sobre o amor</em>, porque foi realmente quando sahi -de Lisboa que percebi quanto te amava, e no ha -dia, acredita, em que me no lembre do <em>Paraiso</em>. -Que boas manhs! Passaste por l por acaso alguma -outra vez? Lembras-te do nosso <em>lunch</em>? No tenho +de Lisboa que percebi quanto te amava, e não ha +dia, acredita, em que me não lembre do <em>Paraiso</em>. +Que boas manhãs! Passaste por lá por acaso alguma +outra vez? Lembras-te do nosso <em>lunch</em>? Não tenho tempo para mais. Talvez em breve volte a -Lisboa. Espero vr-te, porque sem ti Lisboa para +Lisboa. Espero vêr-te, porque sem ti Lisboa é para mim um desterro. <br /> <br /> -Um longo beijo do <br /> +«Um longo beijo do <br /> <div class="signature"> -<br />Teu do C. <br /> +<br />«Teu do C. <br /> <br /> -<em>Bazilio</em>. +«<em>Bazilio</em>». </div><br /> <br /> Jorge dobrou o papel, lentamente, em duas, em @@ -21565,61 +21525,61 @@ alto: <br /> <br /> Encheu o cachimbo de tabaco machinalmente, <span class="pagenum">[559]</span> -com os olhos vagos, os beios a tremer: deu alguns +com os olhos vagos, os beiços a tremer: deu alguns passos incertos pelo escriptorio:—de repente arremessou -o cachimbo que despedaou um vidro da janella, -bateu com as mos desvairado, e atirando-se -de bruos para cima da mesa, rompeu a chorar, rolando -a cabea entre os braos, mordendo as mangas, -batendo com os ps, louco! <br /> +o cachimbo que despedaçou um vidro da janella, +bateu com as mãos desvairado, e atirando-se +de bruços para cima da mesa, rompeu a chorar, rolando +a cabeça entre os braços, mordendo as mangas, +batendo com os pés, louco! <br /> <br /> Ergueu-se subitamente, agarrou a carta, ia com -ella alcova de Luiza. Mas a lembrana das palavras -de Julio immobilisou-o: que esteja socegada, nada -de phrases, nenhuma excitao! Fechou a carta n'uma -gaveta, metteu a chave na algibeira. E de p, a -tremer, com os olhos raiados de sangue, sentia idas +ella á alcova de Luiza. Mas a lembrança das palavras +de Julião immobilisou-o: que esteja socegada, nada +de phrases, nenhuma excitação! Fechou a carta n'uma +gaveta, metteu a chave na algibeira. E de pé, a +tremer, com os olhos raiados de sangue, sentia idéas insensatas alumiarem-lhe bruscamente o cerebro, como relampagos n'uma tormenta—matal-a, sahir de casa, abandonal-a, fazer saltar os miolos... <br /> <br /> -A Marianna bateu ligeiramente porta, disse-lhe +A Marianna bateu ligeiramente á porta, disse-lhe que a senhora o chamava. <br /> <br /> -Uma onda de sangue subiu-lhe cabea; fitava +Uma onda de sangue subiu-lhe á cabeça; fitava Marianna, estupido, batendo as palpebras: <br /> <br /> -—J vou—disse com a voz rouca. <br /> +—Já vou—disse com a voz rouca. <br /> <br /> Ao passar na sala, diante do espelho oval, ficou pasmado do seu rosto manchado, envelhecido. Foi correr uma toalha molhada pela face, alisou o cabello: -e ao entrar na alcova, ao vl-a, com os seus +e ao entrar na alcova, ao vêl-a, com os seus grandes olhos dilatados onde a febre reluzia, teve -de se agarrar barra do leito, porque sentiu, em +de se agarrar á barra do leito, porque sentiu, em redor, as paredes oscillarem como lonas ao vento. <br /> <br /> Mas sorriu-lhe: <br /> <br /> -—Como ests? +—Como estás? <br /> <br /><span class="pagenum">[560]</span> —Mal—murmurou ella debilmente. <br /> <br /> -Chamou-o para ao p de si com um gesto muito +Chamou-o para ao pé de si com um gesto muito fatigado. <br /> <br /> Elle veio, sentou-se sem a olhar. <br /> <br /> —Que tens?—disse ella chegando o rosto para -elle.—No te afflijas.—E tomou a mo que elle -pousra beira do leito. <br /> +elle.—Não te afflijas.—E tomou a mão que elle +pousára á beira do leito. <br /> <br /> -Jorge, com um repello secco, sacudiu a mo +Jorge, com um repellão secco, sacudiu a mão d'ella, ergueu-se bruscamente com os dentes cerrados; sentia uma colera brutal; ia-se, com medo de si, de um crime, quando ouviu a voz de Luiza, arrastando-se, -n'uma lamentao: <br /> +n'uma lamentação: <br /> <br /> —Porque, Jorge? Que tens?... <br /> <br /> @@ -21627,43 +21587,43 @@ Voltou-se; viu-a meia erguida com os olhos abertos para elle, uma angustia no rosto; e duas lagrimas cahiam-lhe, silenciosamente. <br /> <br /> -Atirou-se de joelhos, agarrou-lhe as mos, aos -soluos. <br /> +Atirou-se de joelhos, agarrou-lhe as mãos, aos +soluços. <br /> <br /> -—Que isto?—exclamou a voz de Julio +—Que é isto?—exclamou a voz de Julião á porta da alcova. <br /> <br /> Jorge, muito pallido, ergueu-se devagar. <br /> <br /> -Julio levou-o para a sala, e cruzando terrivelmente -os braos diante d'elle: <br /> +Julião levou-o para a sala, e cruzando terrivelmente +os braços diante d'elle: <br /> <br /> -—Tu ests doudo? Pois tu sabes que ella est -n'um estado d'aquelles, e vaes-te pr a fazer-lhe +—Tu estás doudo? Pois tu sabes que ella está +n'um estado d'aquelles, e vaes-te pôr a fazer-lhe scenas de lagrimas? <br /> <br /> -—No me pude conter... <br /> +—Não me pude conter... <br /> <br /> —Estoura. Eu estou a cortar-lhe a febre por um -lado, e tu a dar-lh'a por outro? Ests doudo! <br /> +lado, e tu a dar-lh'a por outro? Estás doudo! <br /> <br /> Estava realmente indignado. Interessava-se por <span class="pagenum">[561]</span> Luiza como doente. Desejava muito cural-a; e sentia -uma satisfao em exercer o dominio de pessoa +uma satisfação em exercer o dominio de pessoa necessaria n'aquella casa, onde as suas visitas tinham tido sempre uma attitude dependente; mesmo -agora ao sahir, no se esquecia de offerecer negligentemente +agora ao sahir, não se esquecia de offerecer negligentemente um charuto a Jorge. <br /> <br /> <br /> <br /> -Jorge foi heroico durante toda essa tarde. No -podia estar muito tempo na alcova de Luiza, a desesperao +Jorge foi heroico durante toda essa tarde. Não +podia estar muito tempo na alcova de Luiza, a desesperação trazia-o n'um movimento contradictorio; -mas ia l a cada momento, sorria-lhe, conchegava-lhe -a roupa com as mos tremulas; e como ella dormitava, -ficava immovel a olhal-a feio por feio, +mas ia lá a cada momento, sorria-lhe, conchegava-lhe +a roupa com as mãos tremulas; e como ella dormitava, +ficava immovel a olhal-a feição por feição, com uma curiosidade dolorosa e immoral, com para lhe surprehender no rosto vestigios de beijos alheios, esperando ouvir-lhe n'algum sonho da febre murmurar @@ -21677,26 +21637,26 @@ sem cessar: Como tinha sido? Onde era o <em>Paraiso</em>? Havia uma cama? Que vestido levava ella? O que lhe dizia? Que beijos lhe dava? <br /> <br /> -Foi relr todas as cartas que ella lhe escrevra +Foi relêr todas as cartas que ella lhe escrevêra para o Alemtejo, procurando descobrir nas palavras -symptomas de frieza, a data da traio! Tinha-lhe +symptomas de frieza, a data da traição! Tinha-lhe <span class="pagenum">[562]</span> -odio ento, voltavam-lhe ao cerebro idas homicidas—esganal-a, +odio então, voltavam-lhe ao cerebro idéas homicidas—esganal-a, dar-lhe chloroformio, fazer-lhe beber -laudano! E depois immovel, encostado janella, +laudano! E depois immovel, encostado á janella, ficava esquecido n'um scismar espesso, revendo o passado, o dia do seu casamento, certos passeios que -dra com ella, palavras que ella dissera... <br /> +déra com ella, palavras que ella dissera... <br /> <br /> -s vezes pensava—seria a carta uma <em>mistificao</em>? +Ás vezes pensava—seria a carta uma <em>mistificação</em>? Algum inimigo d'elle podia tel-a escripto, remettido -para Frana. Ou talvez Bazilio tivesse <em>outra</em> +para França. Ou talvez Bazilio tivesse <em>outra</em> Luiza em Lisboa, e por engano ao sobrescriptar o enveloppe tivesse escripto o nome da prima; e a alegria momentanea que lhe davam aquellas phantasias fazia-lhe parecer a realidade mais cruel. Mas como -fra? como fra? Se podesse saber a verdade! Tinha -a certeza que socegaria, ento! Arrancaria de certo +fôra? como fôra? Se podesse saber a verdade! Tinha +a certeza que socegaria, então! Arrancaria de certo do seu peito aquelle amor como um parasita immundo; apenas ella melhorasse, leval-a-hia a um convento, e elle iria morrer longe, n'Africa, ou algures... @@ -21709,91 +21669,91 @@ Era a sua confidente! Levava as cartas, sabia tudo. E estava na valla, morta, sem poder fallar, a maldita! <br /> <br /> -Sebastio, como costumava, veio noitinha. No +Sebastião, como costumava, veio á noitinha. Não havia ainda luzes, e, apenas elle entrou, Jorge chamou-o ao escriptorio, calado, accendeu uma vela, tirou a carta da gaveta. <br /> <br /> -—L isto. +—Lê isto. <br /> <br /><span class="pagenum">[563]</span> -Sebastio ficra assombrado ao vr o rosto de Jorge. +Sebastião ficára assombrado ao vêr o rosto de Jorge. Olhava a carta fechada, e tremia. Apenas viu a assignatura, uma pallidez d'agonia cobriu-lhe o rosto. -Parecia-lhe que o soalho tinha uma vibrao onde +Parecia-lhe que o soalho tinha uma vibração onde elle se firmava mal. Mas dominou-se, leu devagar, pousou a carta sobre a mesa, sem uma palavra. <br /> <br /> -Jorge disse ento: <br /> +Jorge disse então: <br /> <br /> -—Sebastio, isto p'ra mim a morte. Sebastio, +—Sebastião, isto p'ra mim é a morte. Sebastião, tu sabes alguma cousa. Tu vinhas aqui. Tu sabes. Dize-me a verdade! <br /> <br /> -Sebastio abriu devagar os braos e respondeu: <br /> +Sebastião abriu devagar os braços e respondeu: <br /> <br /> -—Que te hei-de eu dizer? No sei nada! <br /> +—Que te hei-de eu dizer? Não sei nada! <br /> <br /> -Jorge agarrou-lhe as mos, sacudiu-lh'as, e procurando +Jorge agarrou-lhe as mãos, sacudiu-lh'as, e procurando o seu olhar anciosamente: <br /> <br /> -—Sebastio, pela nossa amizade, pela alma de -tua mi, por tantos annos que temos passado juntos, -Sebastio, dize-me a verdade!... <br /> +—Sebastião, pela nossa amizade, pela alma de +tua mãi, por tantos annos que temos passado juntos, +Sebastião, dize-me a verdade!... <br /> <br /> -—No sei nada. Que hei-de eu saber? <br /> +—Não sei nada. Que hei-de eu saber? <br /> <br /> —Mentes! <br /> <br /> -Sebastio disse apenas: <br /> +Sebastião disse apenas: <br /> <br /> —Podem-te ouvir, homem! <br /> <br /> Houve um silencio: Jorge apertava as fontes nas -mos, com passadas pelo escriptorio, que faziam vibrar -o soalho; e de repente pondo-se diante de Sebastio, +mãos, com passadas pelo escriptorio, que faziam vibrar +o soalho; e de repente pondo-se diante de Sebastião, quasi supplicante: <br /> <br /> —Mas dize-me ao menos o que fazia ella! Sahia? Vinha aqui alguem? <br /> <br /> -Sebastio respondeu devagar, os olhos fixos na +Sebastião respondeu devagar, os olhos fixos na luz: <br /> <br /><span class="pagenum">[564]</span> -—Vinha o primo s vezes, ao principio. Quando -a D. Felicidade esteve doente, ella ia vl-a... O primo -depois partiu... No sei mais nada. <br /> +—Vinha o primo ás vezes, ao principio. Quando +a D. Felicidade esteve doente, ella ia vêl-a... O primo +depois partiu... Não sei mais nada. <br /> <br /> -Jorge esteve um momento a olhar Sebastio, +Jorge esteve um momento a olhar Sebastião, com uma fixidez abstracta. <br /> <br /> -—Mas que lhe fiz eu, Sebastio? Que lhe fiz eu? +—Mas que lhe fiz eu, Sebastião? Que lhe fiz eu? Adorava-a! Que lhe fiz eu p'ra isto? Eu, que a adorava, -quella mulher! <br /> +áquella mulher! <br /> <br /> Rompeu a chorar. <br /> <br /> -Sebastio ficra de p junto mesa, estupido, +Sebastião ficára de pé junto á mesa, estupido, aniquilado. <br /> <br /> —Foi talvez uma brincadeira, apenas...—murmurou. <br /> <br /> —E o que diz a carta?—gritou Jorge, voltando-se n'uma colera, sacudindo o papel.—Este <em>Paraiso</em>! -<em>As boas manhs</em> l passadas! uma infame!... <br /> +<em>As boas manhãs</em> lá passadas! É uma infame!... <br /> <br /> -—Est doente, Jorge—disse apenas Sebastio. <br /> +—Está doente, Jorge—disse apenas Sebastião. <br /> <br /> -Jorge no respondeu. Passeou calado algum tempo. -Sebastio, immovel, fatigava a vista contra a -chamma da luz. Jorge ento fechou a carta na gaveta, -e tomando o castial com um tom de lassido +Jorge não respondeu. Passeou calado algum tempo. +Sebastião, immovel, fatigava a vista contra a +chamma da luz. Jorge então fechou a carta na gaveta, +e tomando o castiçal com um tom de lassidão lugubre e resignado: <br /> <br /> -—Queres vir tomar ch, Sebastio? <br /> +—Queres vir tomar chá, Sebastião? <br /> <br /> -E no tornaram mais a fallar na carta. <br /> +E não tornaram mais a fallar na carta. <br /> <br /> <br /> <br /> @@ -21804,171 +21764,171 @@ livida. <br /><span class="pagenum">[565]</span> Foi d'ahi por diante o enfermeiro de Luiza. <br /> <br /> -A doena, depois d'uma marcha incerta durante +A doença, depois d'uma marcha incerta durante tres dias, definiu-se: eram crescimentos; enfraquecia -muito, mas Julio estava tranquillo. <br /> +muito, mas Julião estava tranquillo. <br /> <br /> -Jorge passava os seus dias ao p d'ella. D. Felicidade -vinha ordinariamente pelas manhs: sentava-se -aos ps da cama, e ficava calada, com uma face -envelhecida; aquella esperana na mulher de Tuy -to subitamente destruida abalra-a como um velho +Jorge passava os seus dias ao pé d'ella. D. Felicidade +vinha ordinariamente pelas manhãs: sentava-se +aos pés da cama, e ficava calada, com uma face +envelhecida; aquella esperança na mulher de Tuy +tão subitamente destruida abalára-a como um velho edificio a que se tira subitamente um pilar; ia-se -tornando ruina; e s se animava quando o Conselheiro -apparecia pelas tres horas a saber da nossa -formosa enferma. Trazia sempre alguma palavra +tornando ruina; e só se animava quando o Conselheiro +apparecia pelas tres horas a saber da «nossa +formosa enferma». Trazia sempre alguma palavra grave que dizia com um tom profundo, conservando -o chapo na mo, sem querer entrar na alcova, +o chapéo na mão, sem querer entrar na alcova, por pudor: <br /> <br /> -—A saude um bem que s apreciamos quando +—A saude é um bem que só apreciamos quando nos foge! <br /> <br /> Ou: <br /> <br /> -—A doena serve para aquilatarmos os amigos. <br /> +—A doença serve para aquilatarmos os amigos. <br /> <br /> E terminava sempre: <br /> <br /> -—Meu Jorge, as rosas da saude bem cedo refloriro +—Meu Jorge, as rosas da saude bem cedo reflorirão nas faces de sua virtuosa esposa!... <br /> <br /> -De noite Jorge dormia vestido, n'um enxergo -sobre o cho; mas apenas cerrava os olhos uma ou -duas horas. O resto da noite procurava lr: comeava -um romance, mas nunca ia alm das primeiras -linhas; esquecia o livro, e com a cabea entre as -mos punha-se a pensar: era sempre a mesma ida—<em>como</em> +De noite Jorge dormia vestido, n'um enxergão +sobre o chão; mas apenas cerrava os olhos uma ou +duas horas. O resto da noite procurava lêr: começava +um romance, mas nunca ia além das primeiras +linhas; esquecia o livro, e com a cabeça entre as +mãos punha-se a pensar: era sempre a mesma idéa—<em>como</em> tinha sido? Conseguira reconstruir aproximadamente, <span class="pagenum">[566]</span> com logica, certos factos; via bem Bazilio chegando, vindo visital-a, desejando-a, mandando-lhe -ramos, perseguindo-a, indo-a vr aqui e -alm, escrevendo-lhe; mas depois? Viera j a comprehender +ramos, perseguindo-a, indo-a vêr aqui e +além, escrevendo-lhe; mas depois? Viera já a comprehender que o dinheiro era para Juliana. A creatura tivera alguma exigencia: tinha-os surprehendido? -possuia cartas?... E encontrava, n'aquella reconstruco +possuia cartas?... E encontrava, n'aquella reconstrucção dolorosa, falhas, vazios, como buracos escuros, onde a sua alma se arremessava sofregamente. -Ento comeava a recordar os ultimos mezes -desde a sua volta do Alemtejo, e como ella se mostrra +Então começava a recordar os ultimos mezes +desde a sua volta do Alemtejo, e como ella se mostrára amante, e que ardor punha nas suas caricias... -Para que o enganra ento? <br /> +Para que o enganára então? <br /> <br /> -Uma noite, com precaues de ladro, rebuscou +Uma noite, com precauções de ladrão, rebuscou todas as gavetas d'ella, esquadrinhou os vestidos, -at as dobras da roupa branca, as caixas de collares, +até as dobras da roupa branca, as caixas de collares, de rendas; viu bem o cofre de sandalo; estava -vazio; nem o p d'uma flr secca! s vezes punha-se +vazio; nem o pó d'uma flôr secca! Ás vezes punha-se a fitar os moveis no quarto, na sala, a sondal-os como se quizesse descobrir n'elles os vestigios do adulterio. Ter-se-hiam sentado alli? Elle teria ajoelhado -aos ps d'ella, acol, sobre o tapete? Sobretudo -o divan to largo, to commodo, desesperava-o; +aos pés d'ella, acolá, sobre o tapete? Sobretudo +o divan tão largo, tão commodo, desesperava-o; tomou-lhe odio. Veio a detestar mesmo a casa, como se os tectos que os tinham coberto, os soalhos que os tinham sustentado tivessem uma cumplicidade consciente. Mas o que o torturava sobretudo eram -aquellas palavras—o <em>Paraiso</em>, <em>as boas manhs</em>... <br /> +aquellas palavras—o <em>Paraiso</em>, <em>as boas manhãs</em>... <br /> <br /> -Luiza ento j dormia tranquillamente. Ao fim de +Luiza então já dormia tranquillamente. Ao fim de uma semana os crescimentos desappareceram. Mas <span class="pagenum">[567]</span> estava muito fraca: no dia em que pela primeira vez se levantou, desmaiou duas vezes: era necessario vestil-a, trazel-a amparada para a <em>chaise-longue</em>: e -no dispensava Jorge, queria-o alli, ao p, com exigencias -de criana! Parecia receber a vida dos seus -olhos, a saude do contacto das suas mos. Fazia-lhe -lr o jornal pela manh, e vir escrever para ao p +não dispensava Jorge, queria-o alli, ao pé, com exigencias +de criança! Parecia receber a vida dos seus +olhos, a saude do contacto das suas mãos. Fazia-lhe +lêr o jornal pela manhã, e vir escrever para ao pé d'ella. Elle obedecia, e mesmo aquellas instancias -eram para a sua dr como caricias consoladoras. +eram para a sua dôr como caricias consoladoras. É porque o amava de certo! <br /> <br /> -Sentia ento, machinalmente, abertas de felicidade. +Sentia então, machinalmente, abertas de felicidade. Surprehendia-se a dizer-lhe ternuras, a rir com ella, esquecido, como d'antes! E, estendida na <em>chaise-longue</em>, Luiza, contente, percorria antigos volumes -da <em>Illustrao franceza</em>, que lhe mandra o Conselheiro,—onde, -segundo elle lhe dissera, podia, +da <em>Illustração franceza</em>, que lhe mandára o Conselheiro,—«onde», +segundo elle lhe dissera, «podia, ao mesmo tempo que se divertia com os desenhos, -adquirir noes uteis sobre importantes acontecimentos -historicos; ou, com a cabea reclinada, saboreava +adquirir noções uteis sobre importantes acontecimentos +historicos»; ou, com a cabeça reclinada, saboreava a felicidade de melhorar, de estar livre das tyrannias da <em>outra</em>, das amarguras do <em>passado</em>. <br /> <br /> -Uma das suas alegrias era vr entrar a Marianna +Uma das suas alegrias era vêr entrar a Marianna com o seu jantarzinho disposto n'um guardanapo sobre o taboleiro; tinha appetite, saboreava muito o -calix de vinho do Porto, que Julio recommendra; -quando Jorge no estava, fazia longas conversaes +calix de vinho do Porto, que Julião recommendára; +quando Jorge não estava, fazia longas conversações com Marianna, palrando baixo, consolada, e lambendo colherinhas de gelatina. <br /> <br /> -s vezes, calada, com os olhos no tecto, fazia +Ás vezes, calada, com os olhos no tecto, fazia planos. Dizia-os depois a Jorge: iria estar duas semanas <span class="pagenum">[568]</span> -no campo, para ganhar foras; volta comearia +no campo, para ganhar forças; á volta começaria a bordar tiras de casimira para cobrir as cadeiras da sala; porque queria occupar-se muito da casa, -viver recolhida; elle no voltaria ao Alemtejo, -no sahiria de Lisboa, no verdade? E a sua vida -seria d'ahi por diante d'uma doura continua e facil. <br /> +viver recolhida; elle não voltaria ao Alemtejo, +não sahiria de Lisboa, não é verdade? E a sua vida +seria d'ahi por diante d'uma doçura continua e facil. <br /> <br /> -Mas Luiza s vezes achava-o macambusio. Que +Mas Luiza ás vezes achava-o «macambusio». Que tinha? Elle explicava pela fadiga, pelas noites mal dormidas... Se adoecesse, ao menos, dizia ella, que fosse quando ella estivesse forte para o tratar, para -o velar!... Mas no adoeceria, no? E fazia-o sentar -ao p de si, passava-lhe a mo pelos cabellos, com -o olhar quebrado, porque com as foras que renasciam +o velar!... Mas não adoeceria, não? E fazia-o sentar +ao pé de si, passava-lhe a mão pelos cabellos, com +o olhar quebrado, porque com as forças que renasciam vinham os impulsos do seu temperamento amoroso. -Jorge sentia que a adorava, e era mais desgraado! <br /> +Jorge sentia que a adorava, e era mais desgraçado! <br /> <br /> -Luiza, s comsigo, tinha outras resolues. No -tornaria a vr Leopoldina, e frequentaria as igrejas. -Sahia da doena com uma vaga sentimentalidade devota. -Durante a febre, em certos pesadlos de que -lhe ficra uma indistincta ida aterrada, vira-se s +Luiza, só comsigo, tinha outras resoluções. Não +tornaria a vêr Leopoldina, e frequentaria as igrejas. +Sahia da doença com uma vaga sentimentalidade devota. +Durante a febre, em certos pesadêlos de que +lhe ficára uma indistincta idéa aterrada, vira-se ás vezes n'um lugar pavoroso, onde corpos se erguiam, -torcendo os braos, do meio de chammas escarlates: -frmas negras giravam com espetos em braza, um -rugido d'agonia subia para a mudez do co: e j lhe +torcendo os braços, do meio de chammas escarlates: +fórmas negras giravam com espetos em braza, um +rugido d'agonia subia para a mudez do céo: e já lhe tocavam o peito linguas de fogueiras, quando alguma -cousa de dce e d'ineffavel de repente a refrescava; +cousa de dôce e d'ineffavel de repente a refrescava; eram as azas d'um anjo luminoso e sereno, -que a tomava nos braos; e ella sentia-se elevar, -apoiando a cabea contra o seio divino, que a penetrava +que a tomava nos braços; e ella sentia-se elevar, +apoiando a cabeça contra o seio divino, que a penetrava <span class="pagenum">[569]</span> d'uma felicidade sobrenatural; via as estrellas -de perto, ouvia fremitos d'azas. Aquella sensao -deixra-lhe como uma recordao saudosa do co. E -aspirava a ella, nas debilidades da convalescena, -esperando ganhal-a pela pontualidade missa, e pela -repetio de coras Virgem. <br /> -<br /> -Emfim uma manh veio sala, e abriu pela primeira -vez o piano; Jorge, janella, olhava para a +de perto, ouvia fremitos d'azas. Aquella sensação +deixára-lhe como uma recordação saudosa do céo. E +aspirava a ella, nas debilidades da convalescença, +esperando ganhal-a pela pontualidade á missa, e pela +repetição de corôas á Virgem. <br /> +<br /> +Emfim uma manhã veio á sala, e abriu pela primeira +vez o piano; Jorge, á janella, olhava para a rua—quando ella o chamou, e sorrindo: <br /> <br /> —Estou a detestar, ha tempos, aquelle divan—disse.—Podia-se -tirar, no te parece? <br /> +tirar, não te parece? <br /> <br /> -Jorge sentiu uma pancada no corao: no pde -responder logo; disse, emfim, com esforo: <br /> +Jorge sentiu uma pancada no coração: não pôde +responder logo; disse, emfim, com esforço: <br /> <br /> —Sim, parece... <br /> <br /> —Estou com vontade de o tirar—disse ella sahindo da sala, arrastando tranquillamente a longa -cauda do seu roupo. <br /> +cauda do seu roupão. <br /> <br /> -Jorge no pde destacar os olhos do divan. Veio -mesmo sentar-se n'elle; passava a mo sobre o estofo -s listras; e sentia um prazer doloroso em verificar -<em>que fra alli</em>! <br /> +Jorge não pôde destacar os olhos do divan. Veio +mesmo sentar-se n'elle; passava a mão sobre o estofo +ás listras; e sentia um prazer doloroso em verificar +<em>que fôra alli</em>! <br /> <br /> -Principira a vir-lhe agora uma especie de resignao +Principiára a vir-lhe agora uma especie de resignação sombria; quando a ouvia gozar tanto as melhoras, fallar com felicidade de futuros tranquillos, decidia-se a aniquilar a carta, esquecer tudo. Ella @@ -21978,56 +21938,56 @@ Mas quando a via com os seus movimentos languidos estender-se na <em>chaise-longue</em>, ou ao despir-se mostrar a brancura do seu collo—e pensava <span class="pagenum">[570]</span> -que aquelles braos tinham enlaado outro homem, +que aquelles braços tinham enlaçado outro homem, aquella bocca gemido de amor n'uma cama alheia—vinha-lhe -uma onda de clera bruta, precisava -sahir para a no esganar! <br /> +uma onda de cólera bruta, precisava +sahir para a não esganar! <br /> <br /> Para explicar os seus maus humores, os seus silencios, -comeou a queixar-se, a dizer-se doente. E -as solicitudes d'ella, ento, as interrogaes mudas +começou a queixar-se, a dizer-se doente. E +as solicitudes d'ella, então, as interrogações mudas do seu olhar inquieto faziam-o mais infeliz—por se sentir amado, agora que se sabia trahido! <br /> <br /> -Um domingo emfim Julio deu licena a Luiza -para se deitar mais tarde, e fazer noite as honras +Um domingo emfim Julião deu licença a Luiza +para se deitar mais tarde, e fazer á noite as honras da casa. Foi uma alegria para todos vel-a na sala, ainda um pouco pallida e fraca,—mas, como disse o Conselheiro, restituida aos deveres domesticos e aos prazeres da sociedade! <br /> <br /> -Julio que veio s nove horas achou-a <em>como nova</em>. -E abrindo os braos, no meio da sala: <br /> +Julião que veio ás nove horas achou-a <em>como nova</em>. +E abrindo os braços, no meio da sala: <br /> <br /> -—E que me dizem novidade?—exclamou—A -pea do Ernesto teve um triumpho!... <br /> +—E que me dizem á novidade?—exclamou—A +peça do Ernesto teve um triumpho!... <br /> <br /> Assim tinham lido nos jornaes. O <em>Diario de Noticias</em> -dizia mesmo que o author chamado ao proscenio, +dizia mesmo que o «author chamado ao proscenio, no meio do mais vivo enthusiasmo, recebera uma -formosa cora de louros. Luiza declarou logo que -queria ir vr! <br /> +formosa corôa de louros». Luiza declarou logo que +queria ir vêr! <br /> <br /> —Mais tarde, D. Luiza, mais tarde—acudiu -com prudencia o Conselheiro.—Por ora conveniente -evitar toda a commoo forte. As lagrimas que -no deixaria de derramar, conheo o seu bom corao, -podiam produzir uma recahida. No verdade, -amigo Julio? +com prudencia o Conselheiro.—Por ora é conveniente +evitar toda a commoção forte. As lagrimas que +não deixaria de derramar, conheço o seu bom coração, +podiam produzir uma recahida. Não é verdade, +amigo Julião? <br /> <br /><span class="pagenum">[571]</span> —De certo, Conselheiro, de certo. Eu tambem quero ir. Quero convencer-me por meus olhos... <br /> <br /> -Mas o ruido d'uma carruagem, lanada a trote -largo, que parou porta, interrompeu-o. A campainha +Mas o ruido d'uma carruagem, lançada a trote +largo, que parou á porta, interrompeu-o. A campainha retiniu fortemente. <br /> <br /> -—Aposto que o author!—exclamou elle. <br /> +—Aposto que é o author!—exclamou elle. <br /> <br /> E quasi immediatamente a figura radiante de Ernestinho, de casaca, precipitou-se na sala: ergueram-se -com ruido, abraaram-no: mil parabens! mil +com ruido, abraçaram-no: mil parabens! mil parabens! E a voz do Conselheiro, dominando as outras: <br /> <br /> —Bem vindo o festejado author! Bem vindo! <br /> @@ -22035,135 +21995,135 @@ parabens! E a voz do Conselheiro, dominando as outras: <br /> Ernesto suffocava de jubilo. Tinha um sorriso immobilisado; as azas do nariz dilatavam-se-lhe, como para respirar os incensos; trazia o peito alto, -enfunado d'orgulho; e movia a cabea, sem cessar, -como n'um agradecimento instinctivo a multides applaudidoras. <br /> +enfunado d'orgulho; e movia a cabeça, sem cessar, +como n'um agradecimento instinctivo a multidões applaudidoras. <br /> <br /> —Aqui estou! aqui estou!—disse. <br /> <br /> Sentou-se offegante; e, com um modo amavel de Deus-bom-rapaz, declarou que os ultimos ensaios de -apuro no lhe tinham deixado um momento para vir -vr a prima Luiza. Tinha tido n'aquella noite um instante -de seu, mas devia voltar s dez horas para -o theatro: at nem mandra a tipoia embora... <br /> +apuro não lhe tinham deixado um momento para vir +vêr a prima Luiza. Tinha tido n'aquella noite um instante +de seu, mas devia voltar ás dez horas para +o theatro: até nem mandára a tipoia embora... <br /> <br /> -Contou ento largamente o triumpho. Ao principio -tivera grandes colicas. Todos as tinham, os +Contou então largamente o triumpho. Ao principio +tivera «grandes colicas». Todos as tinham, os mais acostumados, os mais illustres! Mas apenas o Campos disse o monologo do primeiro acto—e como -o disse! haviam de vr, uma cousa sublime!—os +o disse! haviam de vêr, uma cousa sublime!—os <span class="pagenum">[572]</span> applausos romperam. Tinha agradado tudo. No fim era um barulho, gritos pelo author, salvas de palmas... -Elle viera ao palco, arrastado; no queria, +Elle viera ao palco, arrastado; não queria, mas obrigaram-no, a Jesuina por um lado, a Maria Adelaide por outro! Um delirio! O Savedra do <em>Seculo</em> -tinha-lhe dito: o amigo o nosso Shakspeare! O -Bastos da <em>Verdade</em> tinha affirmado: s o nosso Scribe! -Houve uma ca. E tinham-lhe dado uma cora. <br /> +tinha-lhe dito: o amigo é o nosso Shakspeare! O +Bastos da <em>Verdade</em> tinha affirmado: és o nosso Scribe! +Houve uma cêa. E tinham-lhe dado uma corôa. <br /> <br /> -—E serve-lhe?—acudiu Julio. <br /> +—E serve-lhe?—acudiu Julião. <br /> <br /> —Perfeitamente; um bocadinho larga... <br /> <br /> O Conselheiro disse com authoridade: <br /> <br /> —Os grandes authores, o famigerado Tasso, o -nosso Cames so sempre representados com as suas -respectivas coras. <br /> +nosso Camões são sempre representados com as suas +respectivas corôas. <br /> <br /> -— o que eu lhe aconselho, snr. Ledesma—acudiu -Julio, erguendo-se e batendo-lhe no hombro— -que se faa retratar de cora!... <br /> +—É o que eu lhe aconselho, snr. Ledesma—acudiu +Julião, erguendo-se e batendo-lhe no hombro—é +que se faça retratar de corôa!... <br /> <br /> Riram. <br /> <br /> E Ernestinho, um pouco despeitado, desdobrando -o seu leno perfumado: <br /> +o seu lenço perfumado: <br /> <br /> -—O snr. Zuzarte no dispensa o seu epigrammasinho... <br /> +—O snr. Zuzarte não dispensa o seu epigrammasinho... <br /> <br /> -— a prova da gloria, meu amigo. Nos triumphos +—É a prova da gloria, meu amigo. Nos triumphos dos generaes victoriosos, em Roma, havia um bobo no prestito! <br /> <br /> -—Eu no sei!—disse Luiza muito risonha— +—Eu não sei!—disse Luiza muito risonha—É uma honra p'ra a familia!... <br /> <br /> Jorge concordou. Passeava pela sala fumando; e -disse que gozava tanto a cora, como se tivesse direito +disse que gozava tanto a corôa, como se tivesse direito a usal-a... <br /> <br /><span class="pagenum">[573]</span> E Ernestinho voltando-se logo para elle: <br /> <br /> —Sabes que lhe perdoei, primo Jorge? Perdoei - esposa... <br /> +á esposa... <br /> <br /> —Como Christo... <br /> <br /> -—Como Christo—confirmou Ernestinho, com satisfao. <br /> +—Como Christo—confirmou Ernestinho, com satisfação. <br /> <br /> D. Felicidade approvou logo: <br /> <br /> -—Fez muito bem! At mais moral! <br /> +—Fez muito bem! Até é mais moral! <br /> <br /> -—O Jorge que queria que eu dsse cabo d'ella—disse -Ernestinho, rindo tolamente.—No se lembra, +—O Jorge é que queria que eu désse cabo d'ella—disse +Ernestinho, rindo tolamente.—Não se lembra, n'aquella noite... <br /> <br /> —Sim, sim—fez Jorge, rindo tambem, nervosamente. <br /> <br /> —O nosso Jorge—disse com solemnidade o -Conselheiro—no podia conservar idas to extremas. -E de certo a reflexo, a experiencia da vida... <br /> +Conselheiro—não podia conservar idéas tão extremas. +E de certo a reflexão, a experiencia da vida... <br /> <br /> —Mudei, Conselheiro, mudei—interrompeu Jorge. <br /> <br /> E entrou bruscamente no escriptorio. <br /> <br /> -Sebastio, inquieto, foi devagar ter com elle. Estava -s escuras. <br /> +Sebastião, inquieto, foi devagar ter com elle. Estava +ás escuras. <br /> <br /> -—Aquelles idiotas no se calaro? No se iro?—disse -elle abafadamente, agarrando o brao de Sebastio. <br /> +—Aquelles idiotas não se calarão? Não se irão?—disse +elle abafadamente, agarrando o braço de Sebastião. <br /> <br /> —Socega! <br /> <br /> -—Oh Sebastio! Sebastio!—E sua voz tremia, +—Oh Sebastião! Sebastião!—E sua voz tremia, com lagrimas. <br /> <br /> Mas Luiza, da sala, gritou: <br /> <br /> -—Que conspirao essa ahi dentro s escuras? <br /> +—Que conspiração é essa ahi dentro ás escuras? <br /> <br /> -Sebastio appareceu logo, dizendo: +Sebastião appareceu logo, dizendo: <br /> <br /><span class="pagenum">[574]</span> -—Nada, nada. Estavamos l dentro...—E acrescentou -baixo:—O Jorge est fatigado. Est adoentado, +—Nada, nada. Estavamos lá dentro...—E acrescentou +baixo:—O Jorge está fatigado. Está adoentado, coitado! <br /> <br /> Notaram, quando elle voltou—que tinha com effeito o ar exquisito. <br /> <br /> -—No, realmente no me sinto bom, estou incommodado! <br /> +—Não, realmente não me sinto bom, estou incommodado! <br /> <br /> —E a debil D. Luiza precisa o repouso do seu leito—disse o Conselheiro erguendo-se. <br /> <br /> -Ernestinho que no se podia demorar, offereceu -logo ao Conselheiro e a Julio—a sua carruagem, -que era um caleche, se iam para a baixa... <br /> +Ernestinho que não se podia demorar, offereceu +logo ao Conselheiro e a Julião—«a sua carruagem, +que era um caleche, se iam para a baixa...» <br /> <br /> -—Que honra—exclamou Julio olhando Accacio—irmos +—Que honra—exclamou Julião olhando Accacio—irmos na tipoia do Grande Homem! <br /> <br /> E em quanto D. Felicidade se agasalhava, os tres desceram. <br /> <br /> -No meio da escada Julio parou, e cruzando os -braos: <br /> +No meio da escada Julião parou, e cruzando os +braços: <br /> <br /> —Ora aqui vou eu entre os representantes dos dous grandes movimentos de Portugal desde 1820. @@ -22174,10 +22134,10 @@ Os dous riram, lisongeados. <br /> <br /> —E o amigo Zuzarte? <br /> <br /> -—Eu?—E baixando a voz:—At ha dias um +—Eu?—E baixando a voz:—Até ha dias um revolucionario terrivel. Mas agora... <br /> <br /> -—O qu? <br /> +—O quê? <br /> <br /> —Um amigo da ordem—gritou com jubilo. <br /> <br /> @@ -22191,13 +22151,13 @@ se metterem na tipoia do Grande Homem! </h3> <br /> <br /> -Ao outro dia Jorge foi ao ministerio, onde no +Ao outro dia Jorge foi ao ministerio, onde não tinha apparecido nos ultimos tempos. Mas demorou-se -pouco. A rua, a presena dos conhecidos ou dos +pouco. A rua, a presença dos conhecidos ou dos estranhos torturava-o; parecia-lhe que <em>todo o mundo -sabia</em>; nos olhares mais naturaes via uma inteno -maligna, e nos apertos de mo mais sinceros uma -ironica presso de pezames; as carruagens mesmo +sabia</em>; nos olhares mais naturaes via uma intenção +maligna, e nos apertos de mão mais sinceros uma +ironica pressão de pezames; as carruagens mesmo que passavam davam-lhe a suspeita de a terem conduzido ao <em>rendez-vous</em>, e todas as casas lhe pareciam a fachada infame do <em>Paraiso</em>. Voltou mais sombrio, @@ -22207,7 +22167,7 @@ ao entrar ouviu Luiza cantarolando, como outr'ora, a <br /> Estava-se a vestir. <br /> <br /> -—Como ests tu?—perguntou, pondo a um +—Como estás tu?—perguntou, pondo a um canto a sua bengala. <br /> <br /><span class="pagenum">[576]</span> @@ -22218,39 +22178,39 @@ Jorge deu alguns passos pelo quarto, taciturno. <br /> <br /> —E tu?—perguntou-lhe ella. <br /> <br /> -—P'ra aqui ando—disse to desconsoladamente +—P'ra aqui ando—disse tão desconsoladamente que Luiza pousou o pente, e com os cabellos soltos -veio pr-lhe as mos nos hombros, muito carinhosa: <br /> +veio pôr-lhe as mãos nos hombros, muito carinhosa: <br /> <br /> —Que tens tu? Tu tens alguma cousa. Estranho-te -tanto ha dias! No s o mesmo! s vezes ests -com uma cara de ro... Que ? Dize. <br /> +tanto ha dias! Não és o mesmo! Ás vezes estás +com uma cara de réo... Que é? Dize. <br /> <br /> E os seus olhos procuravam os d'elle, que se desviavam perturbados. <br /> <br /> -Abraou-o. Insistia, queria que dissesse tudo -sua mulherzinha. <br /> +Abraçou-o. Insistia, queria que dissesse tudo á +«sua mulherzinha». <br /> <br /> —Dize. Que tens? <br /> <br /> -Elle olhou-a muito, e de repente, com uma resoluo +Elle olhou-a muito, e de repente, com uma resolução violenta: <br /> <br /> -—Pois bem, digo-te. Tu agora ests boa, pdes +—Pois bem, digo-te. Tu agora estás boa, pódes ouvir... Luiza! vivo n'um inferno ha duas semanas. -No posso mais... Tu ests boa, no verdade? Pois +Não posso mais... Tu estás boa, não é verdade? Pois bem, que quer dizer isto? Dize a verdade! <br /> <br /> E estendeu-lhe a carta de Bazilio. <br /> <br /> -—O que ?—fez ella muito branca. E o papel -dobrado tremia-lhe na mo. <br /> +—O que é?—fez ella muito branca. E o papel +dobrado tremia-lhe na mão. <br /> <br /> Abriu-a devagar, viu a letra de Bazilio, n'um relance adivinhou-a. Fixou Jorge um momento d'um -modo desvairado, estendeu os braos sem poder fallar, -levou as mos cabea com um gesto ancioso +modo desvairado, estendeu os braços sem poder fallar, +levou as mãos á cabeça com um gesto ancioso como se se sentisse ferida, e oscillando, com um <span class="pagenum">[577]</span> grito rouco, cahiu sobre os joelhos, ficou estirada no @@ -22258,53 +22218,53 @@ tapete. <br /> <br /> Jorge gritou. As criadas acudiram. Estenderam-na na cama. Elle quiz que Joanna corresse a chamar -Sebastio; e ficou, como petrificado, junto ao leito, +Sebastião; e ficou, como petrificado, junto ao leito, olhando-a, em quanto Marianna toda tremula desatacava os espartilhos da senhora. <br /> <br /> -Sebastio veio logo. Felizmente havia ether, fizeram-lh'o +Sebastião veio logo. Felizmente havia ether, fizeram-lh'o respirar; apenas abriu lentamente os olhos, Jorge precipitou-se sobre ella: <br /> <br /> -—Luiza, ouve, falla! No, no tem duvida. Mas +—Luiza, ouve, falla! Não, não tem duvida. Mas falla. Dize, que tens? <br /> <br /> Ao ouvir a voz d'elle desmaiou outra vez. Movimentos -convulsivos sacudiam-lhe o corpo. Sebastio -correu a buscar Julio. <br /> +convulsivos sacudiam-lhe o corpo. Sebastião +correu a buscar Julião. <br /> <br /> Luiza parecia adormecida agora, immovel, branca -como cera, as mos pousadas sobre a colcha; e +como cera, as mãos pousadas sobre a colcha; e duas lagrimas corriam-lhe devagar pelas faces. <br /> <br /> -Um trem parou. Julio appareceu esbaforido. <br /> +Um trem parou. Julião appareceu esbaforido. <br /> <br /> -—Achou-se mal de repente... V, Julio. Est +—Achou-se mal de repente... Vê, Julião. Está muito mal!—disse Jorge. <br /> <br /> Fizeram-lhe respirar mais ether; despertou outra -vez. Julio fallou-lhe, tomando-lhe o pulso. <br /> +vez. Julião fallou-lhe, tomando-lhe o pulso. <br /> <br /> -—No, no, ninguem!—murmurou ella, retirando -a mo. Repetiu com impaciencia:—No, vo-se, -no quero...—As suas lagrimas redobravam. E -como elles sahiam da alcova para a no excitar contrariando-a, +—Não, não, ninguem!—murmurou ella, retirando +a mão. Repetiu com impaciencia:—Não, vão-se, +não quero...—As suas lagrimas redobravam. E +como elles sahiam da alcova para a não excitar contrariando-a, ouviram-na chamar:—Jorge! <br /> <br /> -Elle ajoelhou-se ao p da cama, e fallando-lhe +Elle ajoelhou-se ao pé da cama, e fallando-lhe junto do rosto: <br /> <br /><span class="pagenum">[578]</span> -—Que tens tu? No se falla mais em tal. Acabou-se. -No estejas doente. Juro-te, amo-te... Fosse -o que fosse, no me importa. No quero saber, no. <br /> +—Que tens tu? Não se falla mais em tal. Acabou-se. +Não estejas doente. Juro-te, amo-te... Fosse +o que fosse, não me importa. Não quero saber, não. <br /> <br /> -E como ella ia fallar, elle pousou-lhe a mo na +E como ella ia fallar, elle pousou-lhe a mão na bocca: <br /> <br /> -—No, no quero ouvir. Quero que estejas boa, -que no soffras! Dize que ests boa! Que tens? Vamos -manh para o campo, e esquece-se tudo. Foi +—Não, não quero ouvir. Quero que estejas boa, +que não soffras! Dize que estás boa! Que tens? Vamos +ámanhã para o campo, e esquece-se tudo. Foi uma cousa que passou... <br /> <br /> Ella disse apenas com a voz sumida: <br /> @@ -22314,478 +22274,478 @@ Ella disse apenas com a voz sumida: <br /> —Bem sei... Mas agora vaes ser feliz outra vez... Dize, que sentes? <br /> <br /> -—Aqui—disse ella, e levava as mos cabea.—De-me! <br /> +—Aqui—disse ella, e levava as mãos á cabeça.—Dóe-me! <br /> <br /> -Elle ergueu-se para chamar Julio, mas ella reteve-o, +Elle ergueu-se para chamar Julião, mas ella reteve-o, attrahiu-o; e devorando-o com olhos onde a febre se accendia, adiantando o rosto, estendia-lhe os labios. Elle deu-lhe um beijo inteiro, sincero, cheio -de perdo. <br /> +de perdão. <br /> <br /> -—Oh! minha pobre cabea!—gritou ella. <br /> +—Oh! minha pobre cabeça!—gritou ella. <br /> <br /> -As fontes latejavam-lhe, e uma cr ardente, scca, +As fontes latejavam-lhe, e uma côr ardente, sêcca, esbrazeava-lhe o rosto. <br /> <br /> -Como era habituada a enxaquecas, Julio traquillisou-os; +Como era habituada a enxaquecas, Julião traquillisou-os; recommendou um socego immovel e -sinapismos de mostarda aos ps,—at que elle voltasse. <br /> +sinapismos de mostarda aos pés,—até que elle voltasse. <br /> <br /> Jorge ficou junto do leito, taciturno, cortado de -presentimentos, de sustos, suspirando s vezes. <br /> +presentimentos, de sustos, suspirando ás vezes. <br /> <br /> -Eram ento quatro horas; cahia uma chuva miudinha, +Eram então quatro horas; cahia uma chuva miudinha, <span class="pagenum">[579]</span> ennevoada; a alcova tinha uma luz lugubre. <br /> <br /> -—No ha-de ser nada...—dizia Sebastio. <br /> +—Não ha-de ser nada...—dizia Sebastião. <br /> <br /> -Luiza agitava-se no leito, apertando as mos na -cabea, torturada pela dr crescente, cheia de sde. <br /> +Luiza agitava-se no leito, apertando as mãos na +cabeça, torturada pela dôr crescente, cheia de sêde. <br /> <br /> -Marianna acabava d'arrumar em pontas de ps, -vagamente assombrada d'aquella casa, onde s vira -desgosto e doena: mas s o pousar subtil dos seus +Marianna acabava d'arrumar em pontas de pés, +vagamente assombrada d'aquella casa, onde só vira +desgosto e doença: mas só o pousar subtil dos seus passos fazia soffrer Luiza, como se fossem martelladas sobre o craneo. <br /> <br /> -Julio no tardou; logo da porta do quarto, o +Julião não tardou; logo da porta do quarto, o aspecto d'ella inquietou-o. Accendeu um phosphoro, aproximou-lh'o do rosto; e aquella luz fez-lhe dar um grito como se um ferro frio lhe trespassasse a -cabea. <br /> +cabeça. <br /> <br /> Os olhos dilatados tinham um reluzir metallico. Conservava-se muito quieta, porque o gesto mais -lento lhe dava na nuca dres penetrantes que a dilaceravam. -S de vez em quando sorria para Jorge -com uma expresso d'afflico serena e muda. <br /> +lento lhe dava na nuca dôres penetrantes que a dilaceravam. +Só de vez em quando sorria para Jorge +com uma expressão d'afflicção serena e muda. <br /> <br /> -Julio fez logo pr tres travesseiros, para lhe -conservar a cabea alta. Fra cahia o crepusculo humido. -Andavam em bicos de ps, com cuidado; e +Julião fez logo pôr tres travesseiros, para lhe +conservar a cabeça alta. Fóra cahia o crepusculo humido. +Andavam em bicos de pés, com cuidado; e mesmo tiraram o relogio da parede para afastar o -<em>tic-tac</em> monotono. Ella comeava agora a murmurar -sons canados, e a voltar-se com movimentos bruscos +<em>tic-tac</em> monotono. Ella começava agora a murmurar +sons cançados, e a voltar-se com movimentos bruscos que lhe arrancavam gritos; ou immovel gemia d'um modo continuo e angustioso. Tinham-lhe envolvido -as pernas n'um longo sinapismo; mas no o -sentia. Pelas nove horas comeou a delirar; a lingua -tornra-se-lhe branca e dura, como de gesso sujo. +as pernas n'um longo sinapismo; mas não o +sentia. Pelas nove horas começou a delirar; a lingua +tornára-se-lhe branca e dura, como de gesso sujo. <br /> <br /><span class="pagenum">[580]</span> -Julio fez logo applicar na cabea compressas +Julião fez logo applicar na cabeça compressas d'agua fria. Mas o delirio exacerbava-se. <br /> <br /> Ora tinha um murmurio espesso, um vago rosnar modorrento—onde os nomes de Leopoldina, de Jorge, de Bazilio voltavam incessantemente: depois -debatia-se, esgaava a camisa com as mos; e, arqueando-se, +debatia-se, esgaçava a camisa com as mãos; e, arqueando-se, os seus olhos rolavam, como largos bugalhos prateados onde a pupilla se sumia. <br /> <br /> -Socegava mais; dava risadinhas d'uma doura -idiota; tinha gestos lentos sobre o lenol, que aconchegavam +Socegava mais; dava risadinhas d'uma doçura +idiota; tinha gestos lentos sobre o lençol, que aconchegavam e acariciavam, como n'um gozo tepido: -depois comeava a respirar anciosamente, vinham-lhe -expresses torturadas de terror, queria enterrar-se -nos travesseiros e nos colxes, fugindo a aspectos -pavorosos: punha-se ento a apertar a cabea phreneticamente, +depois começava a respirar anciosamente, vinham-lhe +expressões torturadas de terror, queria enterrar-se +nos travesseiros e nos colxões, fugindo a aspectos +pavorosos: punha-se então a apertar a cabeça phreneticamente, pedia que lh'a abrissem, que a tinha cheia de pedras, que tivessem piedade d'ella!—e -fios de lagrimas corriam-lhe pelo rosto. No sentia -os sinapismos; expunham-lhe agora os ps ns ao +fios de lagrimas corriam-lhe pelo rosto. Não sentia +os sinapismos; expunham-lhe agora os pés nús ao vapor d'agua a ferver, carregada de mostarda; um cheiro acre adstringia o ar do quarto. Jorge fallava-lhe com toda a sorte de palavras consoladoras e supplicantes: pedia-lhe que socegasse, que o conhecesse; mas de repente ella desesperava-se, gritava -pela carta, maldizia Juliana—ou ento dizia palavras +pela carta, maldizia Juliana—ou então dizia palavras d'amor, enumerava sommas de dinheiro... Jorge -temia que aquelle delirio revelasse tudo a Julio, -s criadas: tinha um suor raiz dos cabellos—e +temia que aquelle delirio revelasse tudo a Julião, +ás criadas: tinha um suor á raiz dos cabellos—e quando ella, um momento, julgando-se no <em>Paraiso</em> e -nas exaltaes do adulterio, chamou Bazilio, pediu +nas exaltações do adulterio, chamou Bazilio, pediu <span class="pagenum">[581]</span> <em>champagne</em>, teve palavras libertinas, Jorge fugiu da -alcova allucinado, foi para a sala s escuras, atirou-se -para o divan a soluar, arrepellou-se, blasphemou. <br /> +alcova allucinado, foi para a sala ás escuras, atirou-se +para o divan a soluçar, arrepellou-se, blasphemou. <br /> <br /> -—Est em perigo?—perguntou Sebastio. <br /> +—Está em perigo?—perguntou Sebastião. <br /> <br /> -—Est—disse Julio.—Se sentisse os sinapismos, +—Está—disse Julião.—Se sentisse os sinapismos, ao menos! Mas estas malditas febres cerebraes... <br /> <br /> Calaram-se vendo Jorge entrar na alcova, com o rosto manchado, esguedelhado. <br /> <br /> -E Julio tomando-o pelo brao, levando-o para -fra: <br /> +E Julião tomando-o pelo braço, levando-o para +fóra: <br /> <br /> -—Ouve l, necessario cortar-lhe o cabello, e -rapar-lhe a cabea. <br /> +—Ouve lá, é necessario cortar-lhe o cabello, e +rapar-lhe a cabeça. <br /> <br /> Jorge olhou-o com um ar estupido: <br /> <br /> -—O cabello?—E agarrando-lhe os braos:—No, -Julio, no, hein? Pde-se fazer outra cousa. -Tu deves saber. O cabello no! No! Isso no, pelo -amor de Deus! Ella no est em perigo. P'ra qu? <br /> +—O cabello?—E agarrando-lhe os braços:—Não, +Julião, não, hein? Póde-se fazer outra cousa. +Tu deves saber. O cabello não! Não! Isso não, pelo +amor de Deus! Ella não está em perigo. P'ra quê? <br /> <br /> Mas aquella massa de cabello era o diabo, impedia -a aco da agua! <br /> +a acção da agua! <br /> <br /> -—manh, se fr necessario. manh! Espera -at manh... Obrigado, Julio, obrigado! <br /> +—Ámanhã, se fôr necessario. Ámanhã! Espera +até ámanhã... Obrigado, Julião, obrigado! <br /> <br /> -Julio consentiu, contrariado. Fazia ento humedecer -constantemente as compressas da cabea, e como +Julião consentiu, contrariado. Fazia então humedecer +constantemente as compressas da cabeça, e como Marianna tremula, desgeitosa, molhava muito o -travesseiro, foi Sebastio que se collocou cabeceira +travesseiro, foi Sebastião que se collocou á cabeceira da cama, toda a noite, espremendo sem cessar uma esponja, d'onde a agua gotejava lentamente; tinham -jarros fra da varanda, na sala, para dar +jarros fóra da varanda, na sala, para dar á <span class="pagenum">[582]</span> -agua uma frialdade gelada. O delirio alta noite acalmra +agua uma frialdade gelada. O delirio alta noite acalmára um pouco. Mas o seu olhar injectado tinha um aspecto selvagem: as pupillas pareciam apenas um ponto negro. <br /> <br /> -Jorge, sentado aos ps da cama, com a cabea -entre as mos, olhava para ella: lembravam-lhe vagamente -outras noites de doena assim, quando ella -tivera a pneumonia: e melhorra! At ficra mais -linda, com tons de pallidez que lhe adoavam a expresso! +Jorge, sentado aos pés da cama, com a cabeça +entre as mãos, olhava para ella: lembravam-lhe vagamente +outras noites de doença assim, quando ella +tivera a pneumonia: e melhorára! Até ficára mais +linda, com tons de pallidez que lhe adoçavam a expressão! Iriam para o campo quando ella convalescesse: -alugaria uma casinha: voltaria noite no -omnibus, e vl-a-hia de longe na estrada vindo ao +alugaria uma casinha: voltaria á noite no +omnibus, e vêl-a-hia de longe na estrada vindo ao seu encontro, com um vestido claro, na tarde suave!... Mas ella gemia, elle erguia os olhos sobresaltado: -e no lhe parecia a mesma: afigurava-se-lhe +e não lhe parecia a mesma: afigurava-se-lhe que se ia dissipando, desapparecendo n'aquelle ar de febre que enchia a alcova, no silencio morbido -da noite, e no cheiro da mostarda. Um soluo sacudia-o, +da noite, e no cheiro da mostarda. Um soluço sacudia-o, e recahia na sua immobilidade. <br /> <br /> Joanna, em cima, rezava. As velas, com uma chamma alta e direita, extinguiam-se. <br /> <br /> Emfim uma vaga claridade desenhou nos transparentes -brancos os caixilhos da vidraa. Amanhecia. -Jorge ergueu-se, foi olhar para a rua. No chovia; -a calada seccava. O ar tinha uma vaga cr d'ao. -Tudo dormia: e uma toalha, esquecida janella das +brancos os caixilhos da vidraça. Amanhecia. +Jorge ergueu-se, foi olhar para a rua. Não chovia; +a calçada seccava. O ar tinha uma vaga côr d'aço. +Tudo dormia: e uma toalha, esquecida á janella das Azevedos, agitava-se ao vento frio, silenciosamente. <br /> <br /> Quando entrou na alcova Luiza fallava com uma voz extincta: sentia muito vagamente os sinapismos, -mas a dr de cabea no cessava. Comeou a agitar-se—e +mas a dôr de cabeça não cessava. Começou a agitar-se—e <span class="pagenum">[583]</span> -o delirio d'ahi a pouco voltou. Julio, ento, +o delirio d'ahi a pouco voltou. Julião, então, determinou que se lhe rapasse o cabello. <br /> <br /> -Sebastio foi acordar um barbeiro na rua da Escla—que +Sebastião foi acordar um barbeiro na rua da Escóla—que veio logo, com um ar transido, a gola -do casaco levantada; e batendo o queixo comeou +do casaco levantada; e batendo o queixo começou a tirar immediatamente d'um sacco de couro as navalhas, -as tesouras, devagar, com as mos molles da +as tesouras, devagar, com as mãos molles da gordura das pomadas. <br /> <br /> Jorge foi refugiar-se na sala: parecia-lhe que -grandes pedaos mutilados da sua felicidade cahiam -com aquellas lindas tranas, destruidas s tesouradas; -e com a cabea nas mos recordava certos penteados +grandes pedaços mutilados da sua felicidade cahiam +com aquellas lindas tranças, destruidas ás tesouradas; +e com a cabeça nas mãos recordava certos penteados que ella usava, noites em que os seus cabellos -se tinham desmanchado nas alegrias da paixo, -tons com que brilhavam luz... Voltou ao quarto, +se tinham desmanchado nas alegrias da paixão, +tons com que brilhavam á luz... Voltou ao quarto, attrahido irresistivelmente; sentiu na alcova o ruido secco e metallico das tesouras; sobre a mesa, n'uma -caixa de sabo, estava um velho pincel de barba, -entre flocos d'espuma... Chamou Sebastio baixo: <br /> +caixa de sabão, estava um velho pincel de barba, +entre flocos d'espuma... Chamou Sebastião baixo: <br /> <br /> -—Dize-lhe que se avie! Esto-me a matar a fogo -lento! de mais. Que ande depressa! <br /> +—Dize-lhe que se avie! Estão-me a matar a fogo +lento! É de mais. Que ande depressa! <br /> <br /> -Foi sala de jantar, errou pela casa: a manh +Foi á sala de jantar, errou pela casa: a manhã fria clareava; erguera-se vento, que ia levando, aos -pedaos, nuvens d'um tom alvadio. <br /> +pedaços, nuvens d'um tom alvadio. <br /> <br /> Quando tornou a entrar no quarto, o barbeiro -guardava as navalhas com a mesma lentido molle; -e tomando o seu chapo desabado, sahiu em bicos -de ps, murmurando n'um tom funerario: <br /> +guardava as navalhas com a mesma lentidão molle; +e tomando o seu chapéo desabado, sahiu em bicos +de pés, murmurando n'um tom funerario: <br /> <br /> —Estimo as melhoras. Deus ha-de permittir que -no seja nada... +não seja nada... <br /> <br /><span class="pagenum">[584]</span> O delirio com effeito d'ahi a uma hora acalmou:—e Luiza cahiu n'uma somnolencia prostrada com gemidos fracos, que sahiam de seus labios como a -lamentao interior da vida vencida. <br /> +lamentação interior da vida vencida. <br /> <br /> -Jorge tinha ento dito a Sebastio que desejava +Jorge tinha então dito a Sebastião que desejava chamar o doutor Caminha. Era um medico velho que -tratra sua mi, e que curra Luiza da pneumonia, -no segundo anno de casada. Jorge conservra -uma admirao agradecida por aquella reputao antiquada; -e agora a sua esperana voltava-se sofregamente -para elle, anciando pela sua presena como -pela appario d'um santo. <br /> -<br /> -Julio condescendeu logo. At estimava! E Sebastio +tratára sua mãi, e que curára Luiza da pneumonia, +no segundo anno de casada. Jorge conservára +uma admiração agradecida por aquella reputação antiquada; +e agora a sua esperança voltava-se sofregamente +para elle, anciando pela sua presença como +pela apparição d'um santo. <br /> +<br /> +Julião condescendeu logo. Até estimava! E Sebastião desceu correndo, para ir a casa do dr. Caminha. <br /> <br /> -Luiza, que sahira um momento do seu torpr, +Luiza, que sahira um momento do seu torpôr, sentiu-os fallar baixo. A sua voz extincta chamou Jorge: <br /> <br /> —Cortaram-me o cabello...—murmurou tristemente. <br /> <br /> -— para te fazer bem—disse-lhe Jorge, quasi -to agonisante como ella.—Cresce logo. At te vem +—É para te fazer bem—disse-lhe Jorge, quasi +tão agonisante como ella.—Cresce logo. Até te vem melhor... <br /> <br /> -Ella no respondeu; duas lagrimas silenciosas +Ella não respondeu; duas lagrimas silenciosas correram-lhe pelos cantos dos olhos. <br /> <br /> -Devia ser a sua ultima sensao: a prostrao comatosa -ia-a immobilisando, apenas a sua cabea rolava -n'um movimento dce e vagaroso sobre o travesseiro, -gemendo sempre com um cansao triste; a +Devia ser a sua ultima sensação: a prostração comatosa +ia-a immobilisando, apenas a sua cabeça rolava +n'um movimento dôce e vagaroso sobre o travesseiro, +gemendo sempre com um cansaço triste; a pelle empallidecia como um vidro de janella, por <span class="pagenum">[585]</span> traz do qual lentamente uma luz se apaga; e mesmo -os ruidos da rua que comeavam no a impressionavam, +os ruidos da rua que começavam não a impressionavam, como se fossem muito distantes e abafados em -algodo. <br /> +algodão. <br /> <br /> Ao meio dia D. Felicidade appareceu. Ficou petrificada -quando a viu to mal: e ella que a vinha -buscar para irem Encarnao, talvez s lojas! Tirou -logo o chapo, installou-se; fez arranjar a alcova, +quando a viu tão mal: e ella que a vinha +buscar para irem á Encarnação, talvez ás lojas! Tirou +logo o chapéo, installou-se; fez arranjar a alcova, tirar as bacias, os velhos sinapismos que arrastavam, -compr a cama—porque no havia peor -p'ra um doente que desarranjo no quarto: e muito +compôr a cama—«porque não havia peor +p'ra um doente que desarranjo no quarto»: e muito corajosamente animava Jorge. <br /> <br /> -Uma carruagem parou porta. Era o doutor Caminha, +Uma carruagem parou á porta. Era o doutor Caminha, emfim!... Entrou atabafado no seu cachenez de quadrados verdes e pretos, queixando-se muito do frio;—e tirando devagar as grossas luvas de casimira, -que pz dentro do chapo methodicamente, +que pôz dentro do chapéo methodicamente, adiantou-se para a alcova com um passo cadenciado, -acamando com a mo as suas repas grisalhas j muito +acamando com a mão as suas repas grisalhas já muito colladas ao craneo pela escova. <br /> <br /> -Julio e elle ficaram ss na alcova. <br /> +Julião e elle ficaram sós na alcova. <br /> <br /> -No quarto os outros esperavam calados, ao p de -Jorge, pallido como cra, com os olhos vermelhos -como carves. <br /> +No quarto os outros esperavam calados, ao pé de +Jorge, pallido como cêra, com os olhos vermelhos +como carvões. <br /> <br /> -—Vai-se-lhe pr um caustico na nuca—veio dizer -Julio. <br /> +—Vai-se-lhe pôr um caustico na nuca—veio dizer +Julião. <br /> <br /> Jorge devorava com o olhar ancioso o doutor Caminha, -que se pozera a calar tranquillamente as +que se pozera a calçar tranquillamente as suas luvas de casimira, dizendo: <br /> <br /> -—Vamos a vr com o caustico. No est bem... +—Vamos a vêr com o caustico. Não está bem... <span class="pagenum">[586]</span> Mas ha ainda peor. E eu volto, meu amigo, eu volto. <br /> <br /> -O caustico foi inutil. No o sentia, immovel e -branca, com as feies crispadas; e tremuras passaram-lhe -de repente nos nervos da face como vibraes +O caustico foi inutil. Não o sentia, immovel e +branca, com as feições crispadas; e tremuras passaram-lhe +de repente nos nervos da face como vibrações fugitivas. <br /> <br /> -—Est perdida—disse Julio baixo a Sebastio. <br /> +—Está perdida—disse Julião baixo a Sebastião. <br /> <br /> D. Felicidade ficou muito aterrada, fallou logo nos sacramentos. <br /> <br /> -—P'ra qu?—resmungou Julio impaciente. <br /> +—P'ra quê?—resmungou Julião impaciente. <br /> <br /> Mas D. Felicidade declarou que tinha escrupulos, que era um peccado mortal; e chamando Jorge para -o vo da janella, toda tremula: <br /> +o vão da janella, toda tremula: <br /> <br /> -—Jorge, no se assuste, mas seria bom pensar +—Jorge, não se assuste, mas seria bom pensar nos sacramentos... <br /> <br /> Elle murmurava como assombrado: <br /> <br /> —Os sacramentos! <br /> <br /> -Julio chegou-se bruscamente, e quasi zangado: <br /> +Julião chegou-se bruscamente, e quasi zangado: <br /> <br /> -—Nada de tolices! Qual sacramentos! P'ra qu? -Ella nem ouve, nem comprehende, nem sente. necessario +—Nada de tolices! Qual sacramentos! P'ra quê? +Ella nem ouve, nem comprehende, nem sente. É necessario deitar-lhe outro caustico, talvez ventosas, e - o que ! Isso que so os sacramentos! <br /> +é o que é! Isso é que são os sacramentos! <br /> <br /> Mas D. Felicidade escandalisada, muito abalada, -comeou a chorar. Esqueciam Deus, e em Deus -que est o remedio!—dizia, assoando-se com estrondo. <br /> +começou a chorar. Esqueciam Deus, e em Deus é +que está o remedio!—dizia, assoando-se com estrondo. <br /> <br /> —Pelo que Deus faz por mim...—exclamou -Jorge, sahindo do seu torpr. E batendo as mos, -como revoltado por uma injustia:—Porque realmente, +Jorge, sahindo do seu torpôr. E batendo as mãos, +como revoltado por uma injustiça:—Porque realmente, que fiz eu p'ra isto? Que fiz eu!... <br /> <br /><span class="pagenum">[587]</span> -Julio ordenra outro caustico. Havia agora na +Julião ordenára outro caustico. Havia agora na casa um movimento allucinado. Joanna entrava de repente com um caldo inutil que ninguem pedira, -os olhos muito vermelhos de chorar. Marianna soluava +os olhos muito vermelhos de chorar. Marianna soluçava pelos cantos. D. Felicidade ia, vinha pelo quarto, refugiando-se na sala para rezar, fazendo promessas, lembrando que se chamasse o doutor Barbosa, o doutor Barral. <br /> <br /> -E Luiza no entanto estava immovel; uma cr macilenta -ia-lhe dando s faces tons cavados e rigidos. <br /> +E Luiza no entanto estava immovel; uma côr macilenta +ia-lhe dando ás faces tons cavados e rigidos. <br /> <br /> -Julio extenuado pediu um calix de vinho, uma -fatia de po. Lembraram-se ento que desde a vespera -no tinham comido, e foram sala de jantar +Julião extenuado pediu um calix de vinho, uma +fatia de pão. Lembraram-se então que desde a vespera +não tinham comido, e foram á sala de jantar onde Joanna, sempre lavada em lagrimas, serviu -uma sopa, e ovos. Mas no achava os colheres, +uma sopa, e ovos. Mas não achava os colheres, nem os guardanapos; murmurava rezas, pedia desculpa; em quanto Jorge, com os olhos inchados, fitos na borda da mesa, a face contrahida, fazia dobras na toalha. <br /> <br /> Depois d'um momento pousou devagarinho a -colhr, desceu ao quarto. Marianna estava sentada -aos ps do leito: Jorge disse-lhe que fosse servir os +colhér, desceu ao quarto. Marianna estava sentada +aos pés do leito: Jorge disse-lhe que fosse servir os senhores: e apenas ella sahiu, deixou-se cahir de -joelhos, tomou uma das mos de Luiza, chamou-a +joelhos, tomou uma das mãos de Luiza, chamou-a baixo; depois mais forte: <br /> <br /> -—Escuta-me. Ouve, pelo amor de Deus. No estejas -assim, faze por melhorar. No me deixes n'este -mundo, no tenho mais ninguem! Perda-me. Dize -que sim. Faze signal que sim ao menos. No me +—Escuta-me. Ouve, pelo amor de Deus. Não estejas +assim, faze por melhorar. Não me deixes n'este +mundo, não tenho mais ninguem! Perdôa-me. Dize +que sim. Faze signal que sim ao menos. Não me ouve, meu Deus! <br /> <br /><span class="pagenum">[588]</span> -E olhava-a anciosamente. Ella no se movia. <br /> +E olhava-a anciosamente. Ella não se movia. <br /> <br /> -Ergueu ento os braos ao ar n'uma desesperao +Ergueu então os braços ao ar n'uma desesperação allucinada. <br /> <br /> —Sabes que creio em ti, meu Deus. Salva-a! Salva-a!—E arremessava a sua alma para as alturas:—Ouve, -meu Deus! Escuta-me! S bom! <br /> +meu Deus! Escuta-me! Sê bom! <br /> <br /> Olhava em roda, esperando um movimento, uma voz, um acaso, um milagre! Mas tudo lhe pareceu -mais immovel. A face livida cavava-se; o leno que -lhe envolvia a cabea desarranjra-se, via-se o craneo -rapado, d'uma cr ligeiramente amarellada. -Pz-lhe ento a mo na testa, hesitando, com medo; +mais immovel. A face livida cavava-se; o lenço que +lhe envolvia a cabeça desarranjára-se, via-se o craneo +rapado, d'uma côr ligeiramente amarellada. +Pôz-lhe então a mão na testa, hesitando, com medo; pareceu-lhe que estava fria! Abafou um grito, correu -para fra do quarto, e deu com o doutor Caminha +para fóra do quarto, e deu com o doutor Caminha que entrava, tirando pausadamente as luvas. <br /> <br /> -—Doutor! Est morta! Veja. No falla, est +—Doutor! Está morta! Veja. Não falla, está fria... <br /> <br /> -—Ento! Ento!—disse elle—Nada de barulho, +—Então! Então!—disse elle—Nada de barulho, nada de barulho! <br /> <br /> Tomou o pulso de Luiza, sentiu-o fugir sob os -dedos, como a vibrao expirante d'uma corda. <br /> +dedos, como a vibração expirante d'uma corda. <br /> <br /> -Julio veio logo. E concordou com o doutor Caminha +Julião veio logo. E concordou com o doutor Caminha que as ventosas eram inuteis. <br /> <br /> -—J as no sente—disse o doutor, sacudindo +—Já as não sente—disse o doutor, sacudindo o tabaco dos dedos. <br /> <br /> -—Se se lhe dsse um copo de cognac?...—lembrou -de repente Julio. E vendo o olhar espantado -do doutor:—s vezes estes symptomas de coma -no querem dizer que o cerebro esteja desorganisado: -podem ser apenas a inaco da fora nervosa +—Se se lhe désse um copo de cognac?...—lembrou +de repente Julião. E vendo o olhar espantado +do doutor:—Ás vezes estes symptomas de coma +não querem dizer que o cerebro esteja desorganisado: +podem ser apenas a inacção da força nervosa <span class="pagenum">[589]</span> -exhausta. Se a morte irremediavel no se -perde nada; se apenas uma depresso do systema -nervoso, pde-se salvar... <br /> +exhausta. Se a morte é irremediavel não se +perde nada; se é apenas uma depressão do systema +nervoso, póde-se salvar... <br /> <br /> -O doutor Caminha, com o beio descahido, oscillava -incredulamente a cabea: <br /> +O doutor Caminha, com o beiço descahido, oscillava +incredulamente a cabeça: <br /> <br /> —Theorias!—murmurou. <br /> <br /> -—Nos hospitaes inglezes...—comeou Julio. <br /> +—Nos hospitaes inglezes...—começou Julião. <br /> <br /> O doutor Caminha encolheu os hombros com desprezo. <br /> <br /> -—Mas se o doutor lsse...—insistiu Julio. <br /> +—Mas se o doutor lêsse...—insistiu Julião. <br /> <br /> -—No leio nada!—disse o doutor Caminha com -fora—tenho lido de mais! Os livros so os doentes...—E +—Não leio nada!—disse o doutor Caminha com +força—tenho lido de mais! Os livros são os doentes...—E curvando-se, com ironia:—Mas se o meu talentoso collega quer fazer a experiencia... <br /> <br /> —Um copo de cognac ou d'aguardente!—pediu -Julio porta. <br /> +Julião á porta. <br /> <br /> E o doutor Caminha sentou-se commodamente -para gozar o fracasso do talentoso collega. <br /> +«para gozar o fracasso do talentoso collega». <br /> <br /> -Levantaram Luiza; Julio fez-lhe engulir o cognac; +Levantaram Luiza; Julião fez-lhe engulir o cognac; quando a deitaram ficou na mesma immobilidade comatosa: o doutor Caminha tirou o relogio, viu as horas, esperou: havia um silencio ancioso: emfim o doutor ergueu-se, tomou-lhe o pulso, apalpou a frialdade crescente das extremidades; e indo buscar -silenciosamente o chapo comeou a calar as luvas. <br /> +silenciosamente o chapéo começou a calçar as luvas. <br /> <br /> -Jorge foi com elle at porta: <br /> +Jorge foi com elle até á porta: <br /> <br /> -—Ento, doutor?—disse, agarrando com uma -fora desvairada o brao. <br /> +—Então, doutor?—disse, agarrando com uma +força desvairada o braço. <br /> <br /> -—Fez-se o que se pde—disse o velho, encolhendo +—Fez-se o que se pôde—disse o velho, encolhendo os hombros. <br /> <br /><span class="pagenum">[590]</span> Jorge ficou estupido no patamar, vendo-o descer. As suas passadas vagarosas nos degraus cahiam-lhe -com uma percusso medonha no corao. Debruou-se -no corrimo, chamou-o baixo. O doutor parou, -levantou os olhos; Jorge pz as mos para elle, +com uma percussão medonha no coração. Debruçou-se +no corrimão, chamou-o baixo. O doutor parou, +levantou os olhos; Jorge pôz as mãos para elle, com uma anciedade humilde: <br /> <br /> -—Ento no possivel mais nada? <br /> +—Então não é possivel mais nada? <br /> <br /> -O doutor fez um gesto vago, indicou o co. <br /> +O doutor fez um gesto vago, indicou o céo. <br /> <br /> -Jorge voltou para o quarto, encostando-se s paredes. +Jorge voltou para o quarto, encostando-se ás paredes. Entrou na alcova, atirou-se de joelhos aos -ps da cama, e alli ficou com a cabea entre as -mos n'um soluar baixo e continuo. <br /> +pés da cama, e alli ficou com a cabeça entre as +mãos n'um soluçar baixo e continuo. <br /> <br /> -Luiza morria: os seus braos to bonitos, que +Luiza morria: os seus braços tão bonitos, que ella costumava acariciar diante do espelho, estavam -j paralysados; os seus olhos, a que a paixo dera +já paralysados; os seus olhos, a que a paixão dera chammas e a voluptuosidade lagrimas, embaciavam-se -como sob a camada ligeira d'uma pulverisao +como sob a camada ligeira d'uma pulverisação muito fina. <br /> <br /> D. Felicidade e Marianna tinham accendido uma -lamparina a uma gravura de Nossa Senhora das Dres, +lamparina a uma gravura de Nossa Senhora das Dôres, e de joelhos rezavam. <br /> <br /> O crepusculo triste descia, parecia trazer um silencio funerario. <br /> <br /> -A campainha, ento, tocou discretamente; e d'ahi +A campainha, então, tocou discretamente; e d'ahi a momentos appareceu a figura do Conselheiro Accacio. D. Felicidade ergueu-se logo; e vendo as suas lagrimas, o Conselheiro disse lugubremente: <br /> @@ -22793,39 +22753,39 @@ lagrimas, o Conselheiro disse lugubremente: <br /> —Venho cumprir o meu dever, ajudar-lhes a passar este transe! <br /> <br /> -Explicou que encontrra por acaso o bom doutor +Explicou «que encontrára por acaso o bom doutor <span class="pagenum">[591]</span> -Caminha, que lhe contra a fatal occorrencia! Mas -muito discretamente no quiz entrar na alcova. Sentou-se +Caminha, que lhe contára a fatal occorrencia»! Mas +muito discretamente não quiz entrar na alcova. Sentou-se n'uma cadeira, collocou melancolicamente o -cotovlo sobre o joelho, a testa sobre a mo, dizendo +cotovêlo sobre o joelho, a testa sobre a mão, dizendo baixo a D. Felicidade: <br /> <br /> -—Continue as suas oraes. Deus imperscrutavel +—Continue as suas orações. Deus é imperscrutavel em seus decretos. <br /> <br /> -Na alcova, Julio estivera tomando o pulso de -Luiza; olhou ento Sebastio, fez-lhe o gesto d'alguma -cousa que va e desapparece... Aproximaram-se -de Jorge, que no se movia, de joelhos, com a face +Na alcova, Julião estivera tomando o pulso de +Luiza; olhou então Sebastião, fez-lhe o gesto d'alguma +cousa que vôa e desapparece... Aproximaram-se +de Jorge, que não se movia, de joelhos, com a face enterrada no leito: <br /> <br /> -—Jorge—disse baixinho Sebastio. <br /> +—Jorge—disse baixinho Sebastião. <br /> <br /> Elle levantou o rosto desfigurado, envelhecido, os cabellos nos olhos, as olheiras escuras. <br /> <br /> -—V, vem—disse Julio. E vendo o espanto -do seu olhar:—No, no est morta, est n'aquella +—Vá, vem—disse Julião. E vendo o espanto +do seu olhar:—Não, não está morta, está n'aquella somnolencia... Mas vem. <br /> <br /> -Elle ergueu-se, dizendo com mansido: <br /> +Elle ergueu-se, dizendo com mansidão: <br /> <br /> —Pois sim, eu vou. Estou bem... Obrigado. <br /> <br /> Sahiu da alcova. <br /> <br /> -O Conselheiro levantou-se, foi abraal-o com solemnidade: <br /> +O Conselheiro levantou-se, foi abraçal-o com solemnidade: <br /> <br /> —Aqui estou, meu Jorge! <br /> <br /> @@ -22836,38 +22796,38 @@ preoccupar-se com um embrulho que estava sobre a mesa; foi apalpal-o; desapertou as pontas, e viu os cabellos de Luiza. Ficou a olhal-os, erguendo-os, <span class="pagenum">[592]</span> -passando-os d'uma das mos para outra, e -disse com os beios a tremer: <br /> +passando-os d'uma das mãos para outra, e +disse com os beiços a tremer: <br /> <br /> —Fazia tanto gosto n'elles, coitadinha! <br /> <br /> -Tornou a entrar na alcova. Mas Julio tomou-lhe -o brao, queria-o afastar do leito. Elle debatia-se dcemente; +Tornou a entrar na alcova. Mas Julião tomou-lhe +o braço, queria-o afastar do leito. Elle debatia-se dôcemente; e, como uma vela ardia sobre a mesinha -ao p da cabeceira, disse, mostrando-a: <br /> +ao pé da cabeceira, disse, mostrando-a: <br /> <br /> —Talvez a incommode a luz... <br /> <br /> -Julio respondeu commovido: <br /> +Julião respondeu commovido: <br /> <br /> -—J no a v, Jorge! <br /> +—Já não a vê, Jorge! <br /> <br /> -Elle soltou-se da mo de Julio, foi debruar-se -sobre ella; tomou-lhe a cabea entre as mos com -cuidado para a no magoar, esteve a olhal-a um momento; +Elle soltou-se da mão de Julião, foi debruçar-se +sobre ella; tomou-lhe a cabeça entre as mãos com +cuidado para a não magoar, esteve a olhal-a um momento; depois pousou-lhe sobre os labios frios um beijo, outro, outro, e murmurava: <br /> <br /> —Adeus! Adeus! <br /> <br /> -Endireitou-se, abriu os braos, cahiu no cho. <br /> +Endireitou-se, abriu os braços, cahiu no chão. <br /> <br /> Todos correram. Levaram-no para a <em>chaise-longue</em>. <br /> <br /> E em quanto D. Felicidade n'um pranto afflicto -fechava os olhos de Luiza, o Conselheiro, com o chapo -sempre na mo, cruzava os braos, e oscillando -a sua calva respeitavel, dizia a Sebastio: <br /> +fechava os olhos de Luiza, o Conselheiro, com o chapéo +sempre na mão, cruzava os braços, e oscillando +a sua calva respeitavel, dizia a Sebastião: <br /> <br /> —Que profundo desgosto de familia! <br /> @@ -22879,22 +22839,22 @@ a sua calva respeitavel, dizia a Sebastio: <br /> <br /> <br /> Depois do enterro de Luiza, Jorge despediu as -criadas, foi para casa de Sebastio. <br /> +criadas, foi para casa de Sebastião. <br /> <br /> N'essa noite pelas nove horas o Conselheiro Accacio, muito abafado, descia o Moinho de Vento, quando -encontrou Julio, que vinha de vr um doente +encontrou Julião, que vinha de vêr um doente na rua da Rosa. Foram andando juntos, conversando -de Luiza, do enterro, da afflico de Jorge. <br /> +de Luiza, do enterro, da afflicção de Jorge. <br /> <br /> -—Pobre rapaz! Aquillo que soffrer!—disse -Julio compadecido. <br /> +—Pobre rapaz! Aquillo é que é soffrer!—disse +Julião compadecido. <br /> <br /> -—Era uma esposa modlo!...—murmurou o +—Era uma esposa modêlo!...—murmurou o Conselheiro. <br /> <br /> De resto, disse, vinha justamente de casa do bom -Sebastio, mas no podra vr o seu Jorge; tinha-se +Sebastião, mas não podéra vêr o seu Jorge; tinha-se estirado sobre a cama, e dormia profundamente. <br /> <br /> E acrescentou: @@ -22902,51 +22862,51 @@ E acrescentou: <br /><span class="pagenum">[594]</span> —Ultimamente lia eu que aos grandes golpes succedem sempre somnos prolongados. Assim, por -exemplo, Napoleo depois de Waterloo, depois do +exemplo, Napoleão depois de Waterloo, depois do grande desastre de Waterloo! <br /> <br /> E passado um momento, continuou: <br /> <br /> -— verdade. Fui vr o nosso Sebastio... Fui +—É verdade. Fui vêr o nosso Sebastião... Fui mostrar-lhe...—E interrompendo-se, parando:—Porque eu entendi que era o meu dever dedicar um -tributo memoria da infeliz senhora. Era o meu dever, -e no me eximi a elle! E estimo tel-o encontrado, -porque quero saber a sua opinio conscienciosa +tributo á memoria da infeliz senhora. Era o meu dever, +e não me eximi a elle! E estimo tel-o encontrado, +porque quero saber a sua opinião conscienciosa e desassombrada. <br /> <br /> -Julio tossiu, e perguntou: <br /> +Julião tossiu, e perguntou: <br /> <br /> -— um necrologio? <br /> +—É um necrologio? <br /> <br /> -— um necrologio. <br /> +—É um necrologio. <br /> <br /> -E o Conselheiro, apesar de no achar proprio, -na sua posio, o entrar em cafs publicos, lembrou -a Julio que poderiam descanar um momento -no Tavares, se no estivesse muita gente, e elle poderia -lr-lhe a produco. <br /> +E o Conselheiro, apesar de «não achar proprio, +na sua posição, o entrar em cafés publicos», lembrou +a Julião que poderiam descançar um momento +no Tavares, se não estivesse muita gente, e elle poderia +lêr-lhe «a producção». <br /> <br /> Espreitaram. <br /> <br /> Estavam apenas, a uma mesa, dous velhos calados -defronte dos seus cafs, com os chapos na cabea, -apoiados a bengalas de cana da India. O moo +defronte dos seus cafés, com os chapéos na cabeça, +apoiados a bengalas de cana da India. O moço dormitava ao fundo. Uma luz crua e intensa enchia a sala estreita. <br /> <br /> —Ha um silencio propicio—disse o Conselheiro. <br /> <br /> -Offereceu um caf a Julio; e tirando ento do +Offereceu um café a Julião; e tirando então do bolso uma folha de papel pautado, murmurou:—Infeliz -senhora!—Inclinou-se para Julio, e leu: +senhora!—Inclinou-se para Julião, e leu: <br /> <br /> <br /><span class="pagenum">[595]</span> <div style="text-align: center;"> NECROLOGIO<br /> <br /> - MEMORIA DA SNR.<sup>a</sup> D. LUIZA MENDONA DE BRITO +Á MEMORIA DA SNR.<sup>a</sup> D. LUIZA MENDONÇA DE BRITO CARVALHO</div> <br /> <br /> @@ -22955,316 +22915,316 @@ Rosa d'amor, rosa purpurea e bella,</div> <div class="poetry1">Quem entre os goivos te esfolhou na campa?</div> <br /> <br /> -— do immortal Garrett!—E continuou com +—É do immortal Garrett!—E continuou com uma voz lenta e lugubre: <br /> <br /> -... Mais um anjo que subiu ao co! Mais uma -flr pendida na tenra haste que o vendaval da morte, +«... Mais um anjo que subiu ao céo! Mais uma +flôr pendida na tenra haste que o vendaval da morte, em sua inclemente furia, arremessou mal desabrochada -para as trevas do tumulo... <br /> +para as trevas do tumulo...» <br /> <br /> -Olhou Julio para solicitar a sua admirao, e -vendo-o curvado a remexer o seu caf, proseguiu -com entonaes mais funerarias: <br /> +Olhou Julião para solicitar a sua admiração, e +vendo-o curvado a remexer o seu café, proseguiu +com entonações mais funerarias: <br /> <br /> -—Detende-vos, e olhai a terra fria! Alli jaz a -casta esposa to cedo arrancada s caricias do seu -talentoso conjuge. Alli sossobrou, como baixel no escarco -da costa, a virtuosa senhora, que em sua folgaz +—«Detende-vos, e olhai a terra fria! Alli jaz a +casta esposa tão cedo arrancada ás caricias do seu +talentoso conjuge. Alli sossobrou, como baixel no escarcéo +da costa, a virtuosa senhora, que em sua folgazã natureza era o encanto de quantos tinham a -honra de se aproximar do seu lar! Por que soluaes? <br /> +honra de se aproximar do seu lar! Por que soluçaes?» <br /> <br /> -—Um caf, Antonio!—bradou a voz rouca de -um sujeito grosso, de jaqueto, que se sentou ao p, +—Um café, ó Antonio!—bradou a voz rouca de +um sujeito grosso, de jaquetão, que se sentou ao pé, pondo com ruido a bengala sobre a mesa e deitando -o chapo para o cachao. <br /> +o chapéo para o cachaço. <br /> <br /> O Conselheiro olhou-o de lado, com rancor. E baixando a voz: <br /> <br /><span class="pagenum">[596]</span> -—...No soluceis! Que o anjo se no pertence - terra pertence ao co!... <br /> +—«...Não soluceis! Que o anjo se não pertence +á terra pertence ao céo!...» <br /> <br /> -—O s Guedes esteve j por ahi?—perguntou +—O sô Guedes esteve já por ahi?—perguntou a voz rouca. <br /> <br /> -O criado disse de traz do balco, limpando com +O criado disse de traz do balcão, limpando com uma rodilha as travessas de metal: <br /> <br /> -—Ainda no, snr. D. Jos! <br /> +—Ainda não, snr. D. José! <br /> <br /> -—...Alli—continuou o Conselheiro—seu -espirito, librando-se nas candidas azas, enta louvores -ao Eterno! E no cessa de pedir ao Omnipotente -mercs e favores para derramar sobre a cabea do -dilecto esposo, que um dia, no duvideis, a encontrar -nas regies celestes, patria das almas de to -subido quilate...—E a voz do Conselheiro aflautava-se -para indicar aquella ascenso paradisiaca. <br /> +—«...Alli—continuou o Conselheiro—seu +espirito, librando-se nas candidas azas, entôa louvores +ao Eterno! E não cessa de pedir ao Omnipotente +mercês e favores para derramar sobre a cabeça do +dilecto esposo, que um dia, não duvideis, a encontrará +nas regiões celestes, patria das almas de tão +subido quilate...»—E a voz do Conselheiro aflautava-se +para indicar aquella ascensão paradisiaca. <br /> <br /> -—E hontem noite esteve c, o s Guedes?—insistiu -o sujeito de jaqueto com os cotovlos sobre -a mesa, fumando como uma chamin. <br /> +—E hontem á noite esteve cá, o sô Guedes?—insistiu +o sujeito de jaquetão com os cotovêlos sobre +a mesa, fumando como uma chaminé. <br /> <br /> -—Esteve tarde. L pelas duas horas. <br /> +—Esteve tarde. Lá pelas duas horas. <br /> <br /> O Conselheiro sacudiu o papel com um desespero mudo: por traz dos vidros da luneta escura fusilavam-lhe nos olhos os despeitos homicidas de author interrompido. Mas proseguiu: <br /> <br /> -—...E vs, almas sensiveis, vertei as lagrimas, -mas vertendo-as, no percaes de vista que o homem -deve curvar-se aos decretos da Providencia... <br /> +—«...E vós, ó almas sensiveis, vertei as lagrimas, +mas vertendo-as, não percaes de vista que o homem +deve curvar-se aos decretos da Providencia...» <br /> <br /> E interrompendo-se: <br /> <br /> -—Isto para dar coragem ao nosso pobre Jorge!—Continuou:—...da +—Isto é para dar coragem ao nosso pobre Jorge!—Continuou:—«...da Providencia. Deus conta -mais um anjo, e a sua alma brilha pura... +mais um anjo, e a sua alma brilha pura...» <br /> <br /><span class="pagenum">[597]</span> -—Esteve com a pequena, o s Guedes?—fez o +—Esteve com a pequena, o sô Guedes?—fez o sujeito, quebrando no marmore da mesa a cinza do charuto. <br /> <br /> O Conselheiro suspendeu-se pallido de raiva: <br /> <br /> -—Deve ser pessoa da mais baixa extraco—rosnou +—Deve ser pessoa da mais baixa extracção—rosnou com odio. <br /> <br /> E o criado erguendo a vozinha fina detraz do -balco: <br /> +balcão: <br /> <br /> -—Nada, no; tem vindo agora com uma hespanhola +—Nada, não; tem vindo agora com uma hespanhola d'ahi de cima da rua. Uma magrinha, com o -cabello riado, uma capa vermelha... <br /> +cabello riçado, uma capa vermelha... <br /> <br /> -—A Lola!—acudiu o outro com satisfao. E espreguiou-se -com voluptuosidade recordao da Lola. <br /> +—A Lola!—acudiu o outro com satisfação. E espreguiçou-se +com voluptuosidade á recordação da Lola. <br /> <br /> O Conselheiro agora apressava-se: <br /> <br /> -... E de resto, o que a vida? Uma rapida -passagem sobre o orbe, e um vo sonho de que +«... E de resto, o que é a vida? Uma rapida +passagem sobre o orbe, e um vão sonho de que acordamos no seio do Deus dos Exercitos, de que todos -somos indignos vassallos. <br /> +somos indignos vassallos». <br /> <br /> E com esta phrase monarchica o Conselheiro terminou. <br /> <br /> —Que lhe parece, com franqueza? <br /> <br /> -Julio sorveu o fundo da chavena, e collocando-a -devagar no pires, lambendo os beios: <br /> +Julião sorveu o fundo da chavena, e collocando-a +devagar no pires, lambendo os beiços: <br /> <br /> -— para imprimir? <br /> +—É para imprimir? <br /> <br /> —Na <em>Voz Popular</em>, com tarjeta preta. <br /> <br /> -Julio coou convulsivamente a caspa, e erguendo-se: <br /> +Julião coçou convulsivamente a caspa, e erguendo-se: <br /> <br /> -—Est muito bom. Muito bom, Conselheiro! <br /> +—Está muito bom. Muito bom, Conselheiro! <br /> <br /> -E Accacio procurando o troco para o moo: <br /> +E Accacio procurando o troco para o moço: <br /> <br /> -—Creio que est digno d'ella, e de mim! +—Creio que está digno d'ella, e de mim! <br /> <br /><span class="pagenum">[598]</span> E sahiram calados. <br /> <br /> A noite estava muito escura: erguera-se um nordeste frio: gotas de chuva tinham cahido. Ao Loreto, -Julio parou subitamente; e exclamou: <br /> +Julião parou subitamente; e exclamou: <br /> <br /> —Ai esquecia-me! Sabe a novidade, Conselheiro? -A D. Felicidade recolhe-se Encarnao. <br /> +A D. Felicidade recolhe-se á Encarnação. <br /> <br /> —Ah! <br /> <br /> -—Disse-m'o agora. Eu fui justamente vl-a antes -de ir vr um doente rua da Rosa. Estava com -uma febresita. Cousa de nada... A commoo; o susto! -E deu-me parte: recolhe-se manh Encarnao. <br /> +—Disse-m'o agora. Eu fui justamente vêl-a antes +de ir vêr um doente á rua da Rosa. Estava com +uma febresita. Cousa de nada... A commoção; o susto! +E deu-me parte: recolhe-se ámanhã á Encarnação. <br /> <br /> O Conselheiro disse: <br /> <br /> -—Sempre conheci n'aquella senhora idas retrogradas. - o resultado das manobras jesuiticas, meu +—Sempre conheci n'aquella senhora idéas retrogradas. +É o resultado das manobras jesuiticas, meu amigo!—E ajuntou com a melancolia do liberal descontente:—A -reaco levanta a cabea! <br /> +reacção levanta a cabeça! <br /> <br /> -Julio tomou familiarmente o brao do Conselheiro, +Julião tomou familiarmente o braço do Conselheiro, e sorrindo: <br /> <br /> -—Qual reaco! por sua causa, ingrato... <br /> +—Qual reacção! É por sua causa, ingrato... <br /> <br /> O Conselheiro estacou: <br /> <br /> —Que quer o meu nobre amigo insinuar? <br /> <br /> -—Sim, homem! No sei como diabo descobriu +—Sim, homem! Não sei como diabo descobriu uma cousa grave... <br /> <br /> —O que? Acredite... <br /> <br /> -—O que eu tambem descobri, seu magano! +—O que eu tambem descobri, seu maganão! Que o Conselheiro tem duas travesseirinhas na cama, -tendo s uma cabea... Disse-m'o ella!—E rindo +tendo só uma cabeça... Disse-m'o ella!—E rindo muito, dizendo-lhe <em>adeus</em>! <em>adeus!</em> desceu rapidamente a rua do Alecrim. O Conselheiro ficou immovel, no -largo, de braos cruzados, como petrificado.—Que +largo, de braços cruzados, como petrificado.—Que <span class="pagenum">[599]</span> -infeliz senhora! Que funesta paixo!—murmurou -emfim. E acariciou o bigode, com satisfao. <br /> +infeliz senhora! Que funesta paixão!—murmurou +emfim. E acariciou o bigode, com satisfação. <br /> <br /> Como tinha de passar a limpo o <em>Necrologio</em> apressou-se a entrar em casa. Abancou com uma manta sobre os joelhos; bem depressa as responsabilidades -de prosador distrahiram-no das preoccupaes d'homem; -e at s onze horas a sua bella letra cursiva +de prosador distrahiram-no das preoccupações d'homem; +e até às onze horas a sua bella letra cursiva e burocratica desenrolou-se nobremente sobre uma larga folha de papel inglez, no silencio do seu <em>Sanctus Sanctorum</em>. Terminava quando a porta rangeu, e a Adelaide, com um chale forte pelos hombros, veio dizer, n'uma voz constipada: <br /> <br /> -—Ento hoje no se faz nn? <br /> +—Então hoje não se faz néné? <br /> <br /> -—No tardo, minha Adelaide, no tardo! <br /> +—Não tardo, minha Adelaide, não tardo! <br /> <br /> -E releu baixo, enlevado. Pareceu-lhe ento que o -final no era commovente: queria terminar por uma -exclamao dolorosa, prolongada como um <em>ai!</em> Meditou, -com os cotovlos sobre a mesa, a cabea entre -os dedos muito abertos: Adelaide ento, chegando-se -devagar, passou-lhe a mo pela calva: aquelle -dce roar amoroso fez de certo saltar a ida como +E releu baixo, enlevado. Pareceu-lhe então que o +final não era commovente: queria terminar por uma +exclamação dolorosa, prolongada como um <em>ai!</em> Meditou, +com os cotovêlos sobre a mesa, a cabeça entre +os dedos muito abertos: Adelaide então, chegando-se +devagar, passou-lhe a mão pela calva: aquelle +dôce roçar amoroso fez de certo saltar a idéa como uma faisca, porque tomou rapidamente a penna, e acrescentou: <br /> <br /> -—Chorai! Chorai! Em quanto a mim, a dr suffoca-me! <br /> +—«Chorai! Chorai! Em quanto a mim, a dôr suffoca-me!» <br /> <br /> -Esfregou as mos com orgulho. Repetiu alto n'um +Esfregou as mãos com orgulho. Repetiu alto n'um tom plangente: <br /> <br /> -—Chorai, Chorai, em quanto a mim, a dr suffoca-me!—E -passando o brao concupiscente pela +—«Chorai, Chorai, em quanto a mim, a dôr suffoca-me!»—E +passando o braço concupiscente pela cinta da Adelaide, exclamou: <br /> <br /><span class="pagenum">[600]</span> -—Est de fazer sensao, minha Adelaide! <br /> +—Está de fazer sensação, minha Adelaide! <br /> <br /> -Ergueu-se. Tinha terminado o seu dia. Fra bem -preenchido e digno: da manh certificra-se com regosijo -no <em>Diario do Governo</em>, que a familia real passava -sem novidade; cumprira o dever d'amigo, +Ergueu-se. Tinha terminado o seu dia. Fôra bem +preenchido e digno: da manhã certificára-se com regosijo +no <em>Diario do Governo</em>, que a familia real «passava +sem novidade»; cumprira o dever d'amigo, acompanhando Luiza aos Prazeres n'uma carruagem -da Companhia; a alta das inscripes assegurava-lhe +da Companhia; a alta das inscripções assegurava-lhe a paz da sua patria; compozera uma prosa notavel; a sua Adelaide amava-o! E de certo se deliciou na certeza d'estas felicidades, que contrastavam tanto com as imagens sepulchraes que a sua penna revolvera, porque Adelaide ouviu-o murmurar: <br /> <br /> -—A vida um bem inestimavel!—E acrescentar -como bom cidado:—Sobretudo n'esta era de +—A vida é um bem inestimavel!—E acrescentar +como bom cidadão:—Sobretudo n'esta era de grande prosperidade publica! <br /> <br /> -E entrou no quarto com a cabea erecta, o peito -cheio, os passos firmes, erguendo alto o castial. <br /> +E entrou no quarto com a cabeça erecta, o peito +cheio, os passos firmes, erguendo alto o castiçal. <br /> <br /> -A sua Adelaide seguia-o, bocejando; estava canada -da constipao e—de uma hora de ternuras, -que tivera tardinha, com o louro e meigo Arnaldo, +A sua Adelaide seguia-o, bocejando; estava cançada +da constipação e—de uma hora de ternuras, +que tivera á tardinha, com o louro e meigo Arnaldo, caixeiro da <em>Loja da America</em>. <br /> <br /> <br /> <br /> -quella hora dous homens desciam d'uma carruagem - porta do Hotel Central: um trazia uma <em>ulster</em> -de xadrez, o outro uma longa pellia. Um omnibus +Áquella hora dous homens desciam d'uma carruagem +á porta do Hotel Central: um trazia uma <em>ulster</em> +de xadrez, o outro uma longa pelliça. Um omnibus quasi ao mesmo tempo parou, carregado de bagagens. <br /> <br /> -Um criado allemo, que conversava em baixo -com o porteiro, reconheceu-os logo, e tirando o cco: +Um criado allemão, que conversava em baixo +com o porteiro, reconheceu-os logo, e tirando o côco: <br /> <br /><span class="pagenum">[601]</span> —Oh snr. D. Bazilio! Oh snr. visconde! <br /> <br /> -O visconde Reynaldo, que batia os ps nas lages, -rosnou de dentro da sua pellia: <br /> +O visconde Reynaldo, que batia os pés nas lages, +rosnou de dentro da sua pelliça: <br /> <br /> -— verdade, aqui estamos outra vez na possilga! <br /> +—É verdade, aqui estamos outra vez na possilga! <br /> <br /> -Mas quella hora? <br /> +Mas áquella hora? <br /> <br /> -—A que horas queria voss que chegassemos? -s horas da tabella, talvez! Doze horas d'atrazo, essa -bagatella! Em Portugal quasi nada... <br /> +—A que horas queria vossê que chegassemos? +Ás horas da tabella, talvez! Doze horas d'atrazo, essa +bagatella! Em Portugal é quasi nada... <br /> <br /> —Houve algum transtorno?—perguntava o criado com solicitude, seguindo-os pela escada. <br /> <br /> -E Reynaldo, pisando com um p nervoso o esparto +E Reynaldo, pisando com um pé nervoso o esparto do corredor: <br /> <br /> —O transtorno nacional! Descarrilou tudo! Estamos aqui por milagre! Abjecto paiz!...—E desabafava -a sua clera com o criado: tel-a-hia desabafado +a sua cólera com o criado: tel-a-hia desabafado com as pedras da rua, tanto era o excesso da -bilis:—Ha um anno que a minha orao esta: +bilis:—Ha um anno que a minha oração é esta: Meu Deus, manda-lhe outra vez o terromoto! Pois -todos os dias leio os telegrammas a vr se o terromoto +todos os dias leio os telegrammas a vêr se o terromoto chegou... e nada! Algum ministro que cahe, -ou algum baro que surge. E de terremoto nada! -O Omnipotente faz ouvidos de mercador s minhas -preces... Protege o paiz! To bom um como outro!—E -sorria, vagamente reconhecido a uma nao, +ou algum barão que surge. E de terremoto nada! +O Omnipotente faz ouvidos de mercador ás minhas +preces... Protege o paiz! Tão bom é um como outro!—E +sorria, vagamente reconhecido a uma nação, cujos defeitos lhe forneciam tantas pilherias. <br /> <br /> Mas quando o criado, muito consternado, lhe declarou—que -no havia seno um salo e uma alcova -com duas camas, no terceiro andar—a clera de -Reynaldo no conheceu restrices: <br /> +não havia senão um salão e uma alcova +com duas camas, no terceiro andar—a cólera de +Reynaldo não conheceu restricções: <br /> <br /> -—Ento havemos de dormir no mesmo quarto? +—Então havemos de dormir no mesmo quarto? <span class="pagenum">[602]</span> -Voss pensa que o snr. D. Bazilio meu amante, seu -devasso? Est tudo cheio? Mas quem diabo se lembra -de vir a Portugal? Estrangeiros? justamente o +Vossê pensa que o snr. D. Bazilio é meu amante, seu +devasso? Está tudo cheio? Mas quem diabo se lembra +de vir a Portugal? Estrangeiros? É justamente o que me espanta!—E encolhendo os hombros com -rancr.— o clima, o clima que os attrahe! O +rancôr.—É o clima, é o clima que os attrahe! O clima, este prodigioso engodo nacional! Um clima -pestifero. No ha nada mais reles de que um bom +pestifero. Não ha nada mais reles de que um bom clima!... <br /> <br /> -E no cessou d'invectivar o seu paiz, em quanto -o criado pressa, sorrindo servilmente, punha sobre +E não cessou d'invectivar o seu paiz, em quanto +o criado á pressa, sorrindo servilmente, punha sobre a jardineira pratos, fiambre, um frango frio e Bourgogne. <br /> <br /> Reynaldo vinha vender a ultima propriedade, e -acompanhra Bazilio que voltava a terminar o seccante -negocio da borracha. E no cessava de rosnar -soturnamente de dentro da pellia: <br /> +acompanhára Bazilio que voltava a terminar «o seccante +negocio da borracha». E não cessava de rosnar +soturnamente de dentro da pelliça: <br /> <br /> —Aqui estamos! Aqui estamos no chiqueiro! <br /> <br /> -Bazilio no respondia. Desde que chegra a Santa -Apolonia, recordaes do <em>Paraiso</em>, da casa de Luiza, -de todo aquelle romance do vero passado, comeavam +Bazilio não respondia. Desde que chegára a Santa +Apolonia, recordações do <em>Paraiso</em>, da casa de Luiza, +de todo aquelle romance do verão passado, começavam a voltar, a attrahil-o, com um encanto picante. -Fra encostar-se vidraa. Uma lua fria, livida, corria -agora entre grossas nuvens cr de chumbo: s +Fôra encostar-se á vidraça. Uma lua fria, livida, corria +agora entre grossas nuvens côr de chumbo: ás vezes uma grande malha luminosa cahia sobre a -agua, faiscava: depois tudo escurecia: vagas mastreaes +agua, faiscava: depois tudo escurecia: vagas mastreações desenhavam-se na obscuridade diffusa: e algum fanal de navio tremeluzia friamente. <br /> <br /> -—Que far ella a esta hora?—pensava Bazilio.—Naturalmente, +—Que fará ella a esta hora?—pensava Bazilio.—Naturalmente, deitava-se... Mal sabia que elle estava alli, n'um quarto do Hotel Central... <br /> @@ -23272,58 +23232,58 @@ alli, n'um quarto do Hotel Central... Cearam. <br /> <br /> Bazilio levou a garrafinha de cognac para a cabeceira -da cama: e com a cara coberta de p d'arroz, +da cama: e com a cara coberta de pó d'arroz, os folhos da sua camisa de dormir abertos sobre o peito, muito estendido, soprando o fumo do charuto, -gozava uma lassido confortavel. <br /> +gozava uma lassidão confortavel. <br /> <br /> -—E manh estou-te d'aqui a vr—disse Reynaldo.—Vaes-te +—E ámanhã estou-te d'aqui a vêr—disse Reynaldo.—Vaes-te logo metter com a prima! <br /> <br /> Bazilio sorriu, o seu olhar errou um pouco pelo -tecto; certas recordaes das bellezas d'ella, do seu +tecto; certas recordações das bellezas d'ella, do seu temperamento amoroso, trouxeram-lhe uma vaga voluptuosidade: -espreguiou-se.—Que diabo!—disse— +espreguiçou-se.—Que diabo!—disse—é uma linda rapariga! Vale immenso a pena!—Bebeu mais um calice de cognac, e d'ahi a pouco dormia profundamente. Era meia noite. <br /> <br /> -quella hora Jorge acordava, e sentado n'uma -cadeira, immovel, com soluos canados que ainda o -sacudiam, pensava n'ella. Sebastio, no seu quarto, -chorava baixo. Julio, no Posto Medico, estendido -n'um soph, lia a <em>Revista dos Dous Mundos</em>. Leopoldina -danava n'uma <em>soire</em> da Cunha. Os outros dormiam. +Áquella hora Jorge acordava, e sentado n'uma +cadeira, immovel, com soluços cançados que ainda o +sacudiam, pensava n'ella. Sebastião, no seu quarto, +chorava baixo. Julião, no Posto Medico, estendido +n'um sophá, lia a <em>Revista dos Dous Mundos</em>. Leopoldina +dançava n'uma <em>soirée</em> da Cunha. Os outros dormiam. E o vento frio que varria as nuvens e agitava o gaz dos candieiros ia fazer ramalhar tristemente uma arvore sobre a sepultura de Luiza. <br /> <br /> <br /> <br /> -D'ahi a dous dias pela manh Bazilio, no Rocio, -procurava, com o olhar em redor, um <em>coup</em> decente. -Mas o Pintos, avistando-o de longe, lanou logo +D'ahi a dous dias pela manhã Bazilio, no Rocio, +procurava, com o olhar em redor, um <em>coupé</em> decente. +Mas o Pintéos, avistando-o de longe, lançou logo <span class="pagenum">[604]</span> -a parelha. C est o Pintos, meu amo! Parecia encantado -de tornar a vr o snr. D. Bazilinho, e apenas +a parelha. Cá está o Pintéos, meu amo! Parecia encantado +de tornar a vêr o snr. D. Bazilinho, e apenas elle lhe disse: <br /> <br /> -—L acima, Patriarchal, Pintos! <br /> +—Lá acima, á Patriarchal, ó Pintéos! <br /> <br /> —A casa da senhora? Prompto, meu amo.—E endireitando-se na almofada, bateu. <br /> <br /> -Quando a tipoia parou porta de Jorge—o Paula +Quando a tipoia parou á porta de Jorge—o Paula sahiu para a rua, a estanqueira correu de dentro -do balco, a criada do doutor debruou-se logo na +do balcão, a criada do doutor debruçou-se logo na janella. E immoveis arregalavam os olhos. <br /> <br /> -Bazilio tocra a campainha, um pouco nervoso: +Bazilio tocára a campainha, um pouco nervoso: esperou, arremessou o charuto, tornou a puxar o -cordo com fora. <br /> +cordão com força. <br /> <br /> -—As janellas esto trancadas, meu amo—disse -o Pintos. <br /> +—As janellas estão trancadas, meu amo—disse +o Pintéos. <br /> <br /> Bazilio recuou ao meio da rua: as portadas verdes estavam fechadas, a casa tinha um aspecto @@ -23331,31 +23291,31 @@ mudo. <br /> <br /> Bazilio dirigiu-se ao Paula: <br /> <br /> -—Os senhores que alli moram, esto p'ra fra? <br /> +—Os senhores que alli moram, estão p'ra fóra? <br /> <br /> -—J no moram—disse o Paula soturnamente, -passando a mo sobre o bigode. <br /> +—Já não moram—disse o Paula soturnamente, +passando a mão sobre o bigode. <br /> <br /> -Bazilio fixou-o, surprehendido d'aquella entonao +Bazilio fixou-o, surprehendido d'aquella entonação funebre. <br /> <br /> -—Onde vivem agora ento? <br /> +—Onde vivem agora então? <br /> <br /> O Paula escarrou, e cravando em Bazilio um olhar desolado: <br /> <br /> -—V. s.<sup>a</sup> o parente? <br /> +—V. s.<sup>a</sup> é o parente? <br /> <br /> Bazilio disse sorrindo: <br /> <br /> —Sou o parente, sou. <br /> <br /><span class="pagenum">[605]</span> -—Ento no sabe? <br /> +—Então não sabe? <br /> <br /> -—O qu, homem de Deus? <br /> +—O quê, homem de Deus? <br /> <br /> -O Paula esfregou o queixo, e bamboleando a cabea: <br /> +O Paula esfregou o queixo, e bamboleando a cabeça: <br /> <br /> —Pois sinto dizer-lh'o. A senhora morreu. <br /> <br /> @@ -23363,27 +23323,27 @@ O Paula esfregou o queixo, e bamboleando a cabea: <br /> muito branco. <br /> <br /> —A senhora! A senhora D. Luiza, a mulher do -snr. Carvalho, o Engenheiro... E o snr. Jorge est -em casa do snr. Sebastio. Alli ao fim da rua. Se -v. s.<sup>a</sup> l quer ir... <br /> +snr. Carvalho, o Engenheiro... E o snr. Jorge está +em casa do snr. Sebastião. Alli ao fim da rua. Se +v. s.<sup>a</sup> lá quer ir... <br /> <br /> -—No!—fez Bazilio com um gesto rapido da -mo. Os beios tremiam-lhe um pouco.—Mas que +—Não!—fez Bazilio com um gesto rapido da +mão. Os beiços tremiam-lhe um pouco.—Mas que foi? <br /> <br /> —Uma febre! Rapou-a em dous dias! <br /> <br /> -Bazilio dirigiu-se ao <em>coup</em> devagar, com a cabea +Bazilio dirigiu-se ao <em>coupé</em> devagar, com a cabeça baixa. Olhou mais uma vez para a casa; fechou com -fora a portinhola. O Pintos <em>bateu</em> p'ra a Baixa. <br /> +força a portinhola. O Pintéos <em>bateu</em> p'ra a Baixa. <br /> <br /> -O Paula ento aproximou-se do estanque: <br /> +O Paula então aproximou-se do estanque: <br /> <br /> -—No lhe fez muita mssa! Fidalgos! Canalha!—murmurou. <br /> +—Não lhe fez muita móssa! Fidalgos! Canalha!—murmurou. <br /> <br /> A estanqueira disse lamentosamente: <br /> <br /> -—Pois eu no sou parenta, e todas as noites lhe +—Pois eu não sou parenta, e todas as noites lhe rezo dous padre-nossos por alma... <br /> <br /> —E eu!—suspirou a carvoeira. <br /> @@ -23395,18 +23355,18 @@ Estava ultimamente mais amargo. Vendia pouco. Aquellas mortes na rua traziam-no desconfiado da vida. Cada dia detestava mais os padres! e todas <span class="pagenum">[606]</span> -as noites lia a <em>Nao</em> que lhe emprestava o Azevedo, +as noites lia a <em>Nação</em> que lhe emprestava o Azevedo, repastando-se com rancor d'artigos devotos, que o exasperavam, o impelliam para o atheismo; e o descontentamento das cousas publicas inclinava-o para a communa. Como elle dizia, achava tudo uma <em>porcaria</em>. <br /> <br /> -Foi de certo sob este sentimento que, voltando -porta do estanque, disse s visinhas com um ar lugubre: <br /> +Foi de certo sob este sentimento que, voltando á +porta do estanque, disse ás visinhas com um ar lugubre: <br /> <br /> -—Sabem o que isto ? Sabem o que tudo isto -?—Fazia um gesto que abrangia o universo. Fitou-as +—Sabem o que isto é? Sabem o que tudo isto +é?—Fazia um gesto que abrangia o universo. Fitou-as d'um modo irado, e rosnou esta palavra suprema: <br /> <br /> —Um monte d'estrume! <br /> @@ -23414,12 +23374,12 @@ d'um modo irado, e rosnou esta palavra suprema: <br /> <br /> <br /> Ao descer a rua do Alecrim, Bazilio viu o visconde -Reynaldo porta do hotel <em>Street</em>. Mandou parar -o Pintos, e saltando do <em>coup</em>: <br /> +Reynaldo á porta do hotel <em>Street</em>. Mandou parar +o Pintéos, e saltando do <em>coupé</em>: <br /> <br /> —Sabes? <br /> <br /> -—O qu? <br /> +—O quê? <br /> <br /> —Minha prima morreu. <br /> <br /> @@ -23427,17 +23387,17 @@ O visconde Reynaldo murmurou polidamente: <br /> <br /> —Coitada!... <br /> <br /> -E foram descendo a rua, de brao dado, at ao +E foram descendo a rua, de braço dado, até ao Aterro. O dia estava glorioso; um friosinho subtil errava; no ar luminoso, leve, trespassado de sol, as casas, os galhos das arvores, os mastros das faluas, -as mastreaes dos navios tinham uma nitidez muito +as mastreações dos navios tinham uma nitidez muito <span class="pagenum">[607]</span> desenhada; os sons sobresahiam com uma tonalidade cantada e alegre; o rio reluzia como um metal azul; o vapor de Cacilhas ia soltando rolos de fumo que -tomavam a cr do leite; e ao fundo as collinas faziam -na pulverisao da luz uma sombra azulada, +tomavam a côr do leite; e ao fundo as collinas faziam +na pulverisação da luz uma sombra azulada, onde as casarias caiadas rebrilhavam. <br /> <br /> E os dous passeando devagar, iam fallando de @@ -23445,23 +23405,23 @@ Luiza. <br /> <br /> O visconde Reynaldo, delicado, lamentava a pobre senhora, coitada, que se tinha deixado morrer -por um tempo to lindo!—Mas em resumo, sempre -achra aquella ligao absurda... <br /> +por um tempo tão lindo!—Mas em resumo, sempre +achára aquella ligação absurda... <br /> <br /> Porque emfim fossem francos: que tinha ella? -No queria dizer mal da pobre senhora que estava -n'aquelle horror dos Prazeres, mas a verdade -que no era uma amante <em>chic</em>; andava em tipoias -de praa; usava meias de tear; casra com um reles +Não queria dizer mal «da pobre senhora que estava +n'aquelle horror dos Prazeres», mas a verdade é +que não era uma amante <em>chic</em>; andava em tipoias +de praça; usava meias de tear; casára com um reles individuo de secretaria; vivia numa casinhola, -no possuia relaes decentes; jogava naturalmente +não possuia relações decentes; jogava naturalmente o quino, e andava por casa de sepatos d'ourello; -no -tinha espirito, no tinha <em>toilette</em>... que diabo! Era +não +tinha espirito, não tinha <em>toilette</em>... que diabo! Era um trambolho! <br /> <br /> —Para um ou dous meses que eu estivesse em -Lisboa...—resmungou Bazilio com a cabea baixa. <br /> +Lisboa...—resmungou Bazilio com a cabeça baixa. <br /> <br /> —Sim, p'ra isso talvez. Como hygiene!—disse Reynaldo com desdem. <br /> @@ -23469,20 +23429,20 @@ Reynaldo com desdem. <br /> E continuaram calados, devagar. Riram-se muito d'um sujeito que passava governando atarantadamente dous cavallos pretos:—Que phaeton! Que -arreios! Que estylo! S em Lisboa!... +arreios! Que estylo! Só em Lisboa!... <br /> <br /><span class="pagenum">[608]</span> Ao fundo do Aterro voltaram; e o visconde Reynaldo -passando os dedos pelas suias: <br /> +passando os dedos pelas suiças: <br /> <br /> -—De modo que ests sem mulher... <br /> +—De modo que estás sem mulher... <br /> <br /> Bazilio teve um sorriso resignado. E, depois d'um -silencio, dando um forte raspo no cho com a bengala: <br /> +silencio, dando um forte raspão no chão com a bengala: <br /> <br /> —Que ferro! Podia ter trazido a Alphonsine! <br /> <br /> -E foram tomar Xerez <em>Taverna Ingleza</em>. <br /> +E foram tomar Xerez á <em>Taverna Ingleza</em>. <br /> <br /> <br /> <div class="quote"> @@ -23512,13 +23472,13 @@ listados todos os erros encontrados e corrigidos:</div> <td style="text-align: center; width: 5px;"></td> - <td style="font-weight: bold; text-align: center; width: 135px;">Correco</td> + <td style="font-weight: bold; text-align: center; width: 135px;">Correcção</td> </tr> <tr> - <td style="text-align: right;"><a name="e1" id="e1"></a><a href="#p84">#pg. + <td style="text-align: right;"><a name="e1" id="e1"></a><a href="#p84">#pág. 84</a></td> <td style="text-align: center;">Luzia</td> @@ -23530,7 +23490,7 @@ listados todos os erros encontrados e corrigidos:</div> </tr> <tr> - <td style="text-align: right;"><a name="e2" id="e2"></a><a href="#p130">#pg. + <td style="text-align: right;"><a name="e2" id="e2"></a><a href="#p130">#pág. 130</a></td> <td style="text-align: center;">arrebitanto</td> @@ -23543,7 +23503,7 @@ listados todos os erros encontrados e corrigidos:</div> <tr> - <td style="text-align: right;"><a name="e3" id="e3"></a><a href="#p155">#pg. + <td style="text-align: right;"><a name="e3" id="e3"></a><a href="#p155">#pág. 155</a></td> <td style="text-align: center;">com ha-de d'estar?</td> @@ -23555,19 +23515,19 @@ listados todos os erros encontrados e corrigidos:</div> </tr> <tr> - <td style="text-align: right;"><a name="e4" id="e4"></a><a href="#p190">#pg. + <td style="text-align: right;"><a name="e4" id="e4"></a><a href="#p190">#pág. 190</a></td> - <td style="text-align: center;">p dos portas</td> + <td style="text-align: center;">pé dos portas</td> <td style="text-align: center;">...</td> - <td style="text-align: center;">p das portas</td> + <td style="text-align: center;">pé das portas</td> </tr> <tr> - <td style="text-align: right;"><a name="e5" id="e5"></a><a href="#p194">#pg. + <td style="text-align: right;"><a name="e5" id="e5"></a><a href="#p194">#pág. 194</a></td> <td style="text-align: center;">enternciam-no</td> @@ -23579,7 +23539,7 @@ listados todos os erros encontrados e corrigidos:</div> </tr> <tr> - <td style="text-align: right;"><a name="e6" id="e6"></a><a href="#p209">#pg. + <td style="text-align: right;"><a name="e6" id="e6"></a><a href="#p209">#pág. 209</a></td> <td style="text-align: center;">Lepoldina</td> @@ -23591,7 +23551,7 @@ listados todos os erros encontrados e corrigidos:</div> </tr> <tr> - <td style="text-align: right;"><a name="e7" id="e7"></a><a href="#p215">#pg. + <td style="text-align: right;"><a name="e7" id="e7"></a><a href="#p215">#pág. 215</a></td> <td style="text-align: center;">lacas</td> @@ -23603,7 +23563,7 @@ listados todos os erros encontrados e corrigidos:</div> </tr> <tr> - <td style="text-align: right;"><a name="e8" id="e8"></a><a href="#p263">#pg. + <td style="text-align: right;"><a name="e8" id="e8"></a><a href="#p263">#pág. 263</a></td> <td style="text-align: center;">concialibulo</td> @@ -23615,7 +23575,7 @@ listados todos os erros encontrados e corrigidos:</div> </tr> <tr> - <td style="text-align: right;"><a name="e9" id="e9"></a><a href="#p267">#pg. + <td style="text-align: right;"><a name="e9" id="e9"></a><a href="#p267">#pág. 267</a></td> <td style="text-align: center;">Luzinha</td> @@ -23627,7 +23587,7 @@ listados todos os erros encontrados e corrigidos:</div> </tr> <tr> - <td style="text-align: right;"><a name="e10" id="e10"></a><a href="#p316">#pg. + <td style="text-align: right;"><a name="e10" id="e10"></a><a href="#p316">#pág. 316</a></td> <td style="text-align: center;">dsesperadamente</td> @@ -23639,19 +23599,19 @@ listados todos os erros encontrados e corrigidos:</div> </tr> <tr> - <td style="text-align: right;"><a name="e11" id="e11"></a><a href="#p328">#pg. + <td style="text-align: right;"><a name="e11" id="e11"></a><a href="#p328">#pág. 328</a></td> - <td style="text-align: center;">eperana</td> + <td style="text-align: center;">eperança</td> <td style="text-align: center;">...</td> - <td style="text-align: center;">esperana</td> + <td style="text-align: center;">esperança</td> </tr> <tr> - <td style="text-align: right;"><a name="e12" id="e12"></a><a href="#p333">#pg. + <td style="text-align: right;"><a name="e12" id="e12"></a><a href="#p333">#pág. 333</a></td> <td style="text-align: center;">batendo-lho</td> @@ -23663,19 +23623,19 @@ listados todos os erros encontrados e corrigidos:</div> </tr> <tr> - <td style="text-align: right;"><a name="e13" id="e13"></a><a href="#p337">#pg. + <td style="text-align: right;"><a name="e13" id="e13"></a><a href="#p337">#pág. 337</a></td> - <td style="text-align: center;">de de p</td> + <td style="text-align: center;">de de pé</td> <td style="text-align: center;">...</td> - <td style="text-align: center;">de p</td> + <td style="text-align: center;">de pé</td> </tr> <tr> - <td style="text-align: right;"><a name="e14" id="e14"></a><a href="#p404">#pg. + <td style="text-align: right;"><a name="e14" id="e14"></a><a href="#p404">#pág. 404</a></td> <td style="text-align: center;">Leolpodina</td> @@ -23687,7 +23647,7 @@ listados todos os erros encontrados e corrigidos:</div> </tr> <tr> - <td style="text-align: right;"><a name="e15" id="e15"></a><a href="#p404">#pg. + <td style="text-align: right;"><a name="e15" id="e15"></a><a href="#p404">#pág. 404</a></td> <td style="text-align: center;">prodigiosomente</td> @@ -23699,19 +23659,19 @@ listados todos os erros encontrados e corrigidos:</div> </tr> <tr> - <td style="text-align: right;"><a name="e16" id="e16"></a><a href="#p425">#pg. + <td style="text-align: right;"><a name="e16" id="e16"></a><a href="#p425">#pág. 425</a></td> - <td style="text-align: center;">Sabastio</td> + <td style="text-align: center;">Sabastião</td> <td style="text-align: center;">...</td> - <td style="text-align: center;">Sebastio</td> + <td style="text-align: center;">Sebastião</td> </tr> <tr> - <td style="text-align: right;"><a name="e17" id="e17"></a><a href="#p427">#pg. + <td style="text-align: right;"><a name="e17" id="e17"></a><a href="#p427">#pág. 427</a></td> <td style="text-align: center;">engmomados</td> @@ -23723,7 +23683,7 @@ listados todos os erros encontrados e corrigidos:</div> </tr> <tr> - <td style="text-align: right;"><a name="e18" id="e18"></a><a href="#p430">#pg. + <td style="text-align: right;"><a name="e18" id="e18"></a><a href="#p430">#pág. 430</a></td> <td style="text-align: center;">Leolpodina</td> @@ -23735,7 +23695,7 @@ listados todos os erros encontrados e corrigidos:</div> </tr> <tr> - <td style="text-align: right;"><a name="e19" id="e19"></a><a href="#p456">#pg. + <td style="text-align: right;"><a name="e19" id="e19"></a><a href="#p456">#pág. 456</a></td> <td style="text-align: center;">apparer</td> @@ -23747,19 +23707,19 @@ listados todos os erros encontrados e corrigidos:</div> </tr> <tr> - <td style="text-align: right;"><a name="e20" id="e20"></a><a href="#p457">#pg. + <td style="text-align: right;"><a name="e20" id="e20"></a><a href="#p457">#pág. 457</a></td> - <td style="text-align: center;">Julo</td> + <td style="text-align: center;">Julão</td> <td style="text-align: center;">...</td> - <td style="text-align: center;">Julio</td> + <td style="text-align: center;">Julião</td> </tr> <tr> - <td style="text-align: right;"><a name="e21" id="e21"></a><a href="#p457">#pg. + <td style="text-align: right;"><a name="e21" id="e21"></a><a href="#p457">#pág. 457</a></td> <td style="text-align: center;">ao ouvindo</td> @@ -23771,10 +23731,10 @@ listados todos os erros encontrados e corrigidos:</div> </tr> <tr> - <td style="text-align: right;"><a name="e22" id="e22"></a><a href="#p472">#pg. + <td style="text-align: right;"><a name="e22" id="e22"></a><a href="#p472">#pág. 472</a></td> - <td style="text-align: center;">cous</td> + <td style="text-align: center;">cousá</td> <td style="text-align: center;">...</td> @@ -23783,7 +23743,7 @@ listados todos os erros encontrados e corrigidos:</div> </tr> <tr> - <td style="text-align: right;"><a name="e23" id="e23"></a><a href="#p477">#pg. + <td style="text-align: right;"><a name="e23" id="e23"></a><a href="#p477">#pág. 477</a></td> <td style="text-align: center;">as palavra</td> @@ -23796,7 +23756,7 @@ listados todos os erros encontrados e corrigidos:</div> <tr> - <td style="text-align: right;"><a name="e24" id="e24"></a><a href="#p482">#pg. + <td style="text-align: right;"><a name="e24" id="e24"></a><a href="#p482">#pág. 482</a></td> <td style="text-align: center;"><em>quizessse</em></td> @@ -23808,7 +23768,7 @@ listados todos os erros encontrados e corrigidos:</div> </tr> <tr> - <td style="text-align: right;"><a name="e25" id="e25"></a><a href="#p494">#pg. + <td style="text-align: right;"><a name="e25" id="e25"></a><a href="#p494">#pág. 494</a></td> <td style="text-align: center;">voltou dizer</td> @@ -23820,7 +23780,7 @@ listados todos os erros encontrados e corrigidos:</div> </tr> <tr> - <td style="text-align: right;"><a name="e26" id="e26"></a><a href="#p507">#pg. + <td style="text-align: right;"><a name="e26" id="e26"></a><a href="#p507">#pág. 507</a></td> <td style="text-align: center;">apaixonado</td> @@ -23832,7 +23792,7 @@ listados todos os erros encontrados e corrigidos:</div> </tr> <tr> - <td style="text-align: right;"><a name="e27" id="e27"></a><a href="#p512">#pg. + <td style="text-align: right;"><a name="e27" id="e27"></a><a href="#p512">#pág. 512</a></td> <td style="text-align: center;">d'aqulla</td> @@ -23844,7 +23804,7 @@ listados todos os erros encontrados e corrigidos:</div> </tr> <tr> - <td style="text-align: right;"><a name="e28" id="e28"></a><a href="#p521">#pg. + <td style="text-align: right;"><a name="e28" id="e28"></a><a href="#p521">#pág. 521</a></td> <td style="text-align: center;">susurrro</td> @@ -23856,402 +23816,26 @@ listados todos os erros encontrados e corrigidos:</div> </tr> <tr> - <td style="text-align: right;"><a name="e29" id="e29"></a><a href="#p558">#pg. + <td style="text-align: right;"><a name="e29" id="e29"></a><a href="#p558">#pág. 558</a></td> - <td style="text-align: center;">illsues</td> + <td style="text-align: center;">illsuões</td> <td style="text-align: center;">...</td> - <td style="text-align: center;">illuses</td> + <td style="text-align: center;">illusões</td> </tr> </tbody> </table> <br /> -<div style="text-align: center;">No existem os captulo XI e XIV nesta obra:<br /> -No havendo interrupo na paginao respeitmos a ordem da obra original.<br /><br /> -A <a href="#p525">pgina 525</a> surge no original como 425. Corrigimos para 525 para manter a ordem<br /> -(aps verificao que no se tratava de uma pgina fora de stio).</div> +<div style="text-align: center;">Não existem os capítulo XI e XIV nesta obra:<br /> +Não havendo interrupção na paginação respeitámos a ordem da obra original.<br /><br /> +A <a href="#p525">página 525</a> surge no original como 425. Corrigimos para 525 para manter a ordem<br /> +(após verificação que não se tratava de uma página fora de sítio).</div> <br /></div> </div> - - - - - - -<pre> - - - - - -End of Project Gutenberg's O Primo Bazilio, by Jos Maria Ea de Queirs - -*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O PRIMO BAZILIO *** - -***** This file should be named 42942-h.htm or 42942-h.zip ***** -This and all associated files of various formats will be found in: - http://www.gutenberg.org/4/2/9/4/42942/ - -Produced by Rita Farinha, Alberto Manuel Brando Simes -and the Online Distributed Proofreading Team at -http://www.pgdp.net (This file was produced from images -generously made available by National Library of Portugal -(Biblioteca Nacional de Portugal).) - - -Updated editions will replace the previous one--the old editions -will be renamed. - -Creating the works from public domain print editions means that no -one owns a United States copyright in these works, so the Foundation -(and you!) can copy and distribute it in the United States without -permission and without paying copyright royalties. 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Redistribution is -subject to the trademark license, especially commercial -redistribution. - - - -*** START: FULL LICENSE *** - -THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE -PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK - -To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free -distribution of electronic works, by using or distributing this work -(or any other work associated in any way with the phrase "Project -Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full Project -Gutenberg-tm License available with this file or online at - www.gutenberg.org/license. - - -Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg-tm -electronic works - -1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm -electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to -and accept all the terms of this license and intellectual property -(trademark/copyright) agreement. 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Information about the Project Gutenberg Literary Archive -Foundation - -The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit -501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the -state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal -Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification -number is 64-6221541. Contributions to the Project Gutenberg -Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent -permitted by U.S. federal laws and your state's laws. - -The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. -Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered -throughout numerous locations. Its business office is located at 809 -North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887. Email -contact links and up to date contact information can be found at the -Foundation's web site and official page at www.gutenberg.org/contact - -For additional contact information: - Dr. Gregory B. Newby - Chief Executive and Director - gbnewby@pglaf.org - -Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg -Literary Archive Foundation - -Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide -spread public support and donations to carry out its mission of -increasing the number of public domain and licensed works that can be -freely distributed in machine readable form accessible by the widest -array of equipment including outdated equipment. Many small donations -($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt -status with the IRS. - -The Foundation is committed to complying with the laws regulating -charities and charitable donations in all 50 states of the United -States. Compliance requirements are not uniform and it takes a -considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up -with these requirements. We do not solicit donations in locations -where we have not received written confirmation of compliance. 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Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm -concept of a library of electronic works that could be freely shared -with anyone. For forty years, he produced and distributed Project -Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support. - -Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed -editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S. -unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily -keep eBooks in compliance with any particular paper edition. - -Most people start at our Web site which has the main PG search facility: - - www.gutenberg.org - -This Web site includes information about Project Gutenberg-tm, -including how to make donations to the Project Gutenberg Literary -Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to -subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. - - -</pre> - +<div>*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK 42942 ***</div> </body> </html> |
